Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SANTUÁRIO / Raymond Khoury
O SANTUÁRIO / Raymond Khoury

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

O SANTUÁRIO

 

 

Nápoles - novembro de 1749

O rangido parecia bem distante, mas ainda assim foi o suficiente para despertá-lo. Não era tão forte a ponto de acordar alguém que dormisse profundamente, mas, a bem da verdade, há anos ele não dormia bem.

Era como se fosse um ruído de metal roçando contra uma pedra.

Podia não ser nada. Um ruído insignificante. Um dos servos levantando-se mais cedo para começar o dia antes dos outros.

Talvez.

Por outro lado, podia ser algo ruim. Como uma espada. Arranhando acidentalmente uma parede.

"Tem alguém aqui."

Ele se sentou, ouvidos atentos. Tudo ficou absolutamente quieto por um instante. Então, ouviu outra coisa.

Passos.

Subindo sorrateiramente os frios degraus de pedra.

No limiar de sua consciência, mas sem dúvida estavam lá.

E se aproximavam.

Ele pulou da cama e foi até a porta que conduzia à pequena varanda do outro lado da lareira. Puxou a cortina para o lado, abriu silenciosamen­te a porta e saiu, se esgueirando, para o ar cortante da noite. O inverno estava se aproximando rapidamente, e seus pés descalços se enregelaram ao tocar o chão frio de pedras. Inclinando-se sobre o parapeito, olhou para baixo. O pátio do palácio estava uma escuridão total. Fixou o olhar, buscando um reflexo, o vislumbre de um movimento, mas não conseguiu perceber qualquer sinal de vida lá embaixo. Não havia cavalos, carruagens, camareiros ou servos. Do outro lado da rua e mais além, percebia-se com dificuldade o esboço das outras casas, realçadas pelos primeiros clarões da alvorada que despontava por trás do Vesúvio. Ele já havia assistido várias vezes a outros nasceres do sol atrás do vulcão, acompanhados pelo sinistro rastro de fumaça. Era uma vista inspiradora e majestosa, que quase sempre lhe trazia consolo quando nada mais o fazia.

Mas essa noite era diferente. Podia sentir algo estranho no ar.

Voltou correndo para dentro e vestiu-se, sem perder tempo em abotoar a camisa. Havia coisas mais urgentes. Precipitou-se para a cômoda, abrindo a primeira gaveta. Seus dedos tinham acabado de se fechar em volta do cabo do punhal quando a porta do quarto se abriu violentamente e três homens entraram. Suas espadas estavam desembainhadas. À luz oscilante das brasas morrendo na lareira, pôde ver também que o homem do meio empunhava uma pistola.

A luz foi suficiente para que o reconhecesse. E soube instantaneamente do que se tratava.

- Não faça nada de que possa se arrepender, Montferrat - disse o homem que chefiava o ataque.

O homem que atendia pelo nome de marquês de Montferrat ergueu os braços com calma e afastou-se cuidadosamente da cômoda. Os intrusos o cer­caram, agitando ameaçadoramente as lâminas diante de seu rosto.

- O que estão fazendo aqui? - perguntou cautelosamente.

Raimondo di Sangro embainhou a espada e colocou a pistola na mesa. Apa­nhou uma cadeira e a lançou em direção ao marquês. Ao atingir uma ranhura do chão, ela caiu ruidosamente.

- Sente-se - grunhiu. - Creio que isso vai levar algum tempo.

Com os olhos fixos em Di Sangro, Montferrat endireitou a cadeira e sentou-se de maneira hesitante.

- O que o senhor deseja?

Di Sangro curvou-se em direção à lareira e, com uma tocha, acendeu uma lanterna de querosene. Colocou-a sobre a mesa e pegou de novo a pistola, com a qual acenou para que os homens saíssem. Eles assentiram e deixaram o quarto, fechando a porta. Di Sangro puxou outra cadeira e sentou-se em frente à sua presa.

- O senhor sabe muito bem o que quero, Montferrat - respondeu, miran­do-o ameaçadoramente com a pistola de cano duplo enquanto o estudava. - E pode começar por seu verdadeiro nome - acrescentou acidamente.

- Meu verdadeiro nome?

- Vamos deixar de brincadeiras, marquese. - Pronunciou a última pala­vra de forma debochada, o rosto cheio de condescendência. - Conferi suas cartas de nobreza. São falsas. Na verdade, nenhum dos vagos fragmentos que o senhor forneceu sobre seu passado desde que chegou aqui parece ser verdadeiro.

Montferrat sabia que seu acusador detinha todos os recursos necessários para fazer essas investigações. Raimondo di Sangro herdara o título de principe di San Severo ao completar 16 anos, após a morte de seus dois irmãos, e contava com o jovem rei espanhol de Nápoles e da Sicília, Carlos VII, entre seus muitos amigos e admiradores.

"Como pude interpretar esse homem tão mal assim?”, pensou Montferrat com um horror crescente. "Como pude interpretar tão mal este lugar?"

Depois de anos de tormento e dúvidas, ele finalmente abandonara sua busca no Oriente e retornara à Europa menos de um ano antes, chegando a Nápoles por Constantinopla e Veneza. Não quisera se estabelecer na cidade. Seu plano era prosseguir até Messina, tomar um navio para a Espanha e, talvez, voltar para casa em Portugal.

Parou ao pensar nisso.

Casa.

Uma palavra destinada aos outros, não a ele. Uma palavra oca, vazia, que o passar do tempo destituíra inteiramente de qualquer significado.

Nápoles lhe permitira esquecer os pensamentos de rendição. Sob os vice-reis espanhóis, tinha chegado a ser a segunda cidade da Europa, depois de Paris. Fazia também parte de uma Europa que ele estava descobrindo, uma Europa diferente da que deixara para trás. Era uma terra onde as idéias do Ilu­minismo conduziam os povos a um novo futuro, idéias que Carlos VII conhe­cera e alimentara em Nápoles, concepções que tinham patrocinado o discurso, o aprendizado e o debate cultural. O rei criara uma Biblioteca Nacional, assim como um Museu Arqueológico, para conservar as relíquias escavadas nas cidades soterradas recentemente descobertas, Herculano e Pompéia. O que o fascinava ainda mais era o fato de o rei ser hostil à Inquisição, que fora a mal­dição da vida pregressa de Montferrat. Cansado da influência dos jesuítas, o rei os neutralizara com cautela, para não suscitar a ira do papa.

Desse modo, ele voltou ao nome que tinha usado em Veneza alguns anos antes, marquês de Montferrat. Fora bastante fácil perder-se dentro daquela cidade cosmopolita, entre seus inúmeros turistas. Muitas cidades tinham fun­dado academias para abrigar o fluxo contínuo de viajantes que vinham escavar as cidades romanas recentemente descobertas. Em pouco tempo, estava se reunindo com intelectuais locais ou oriundos de toda a Europa, homens que partilhavam sua mente inquisitiva.

Homens como Raimondo di Sangro.

Sem dúvida, uma mente inquisitiva.

- Todas essas mentiras... - continuou Di Sangro, verificando sua pistola, observando Montferrat com uma faísca de cobiça mal disfarçada no olhar. ­E, no entanto, de maneira intrigante e bastante estranha, essa querida velha dama, a Condessa di Czergy, afirma que o conhecia pelo mesmo nome quando estava em Veneza, Montferrat... Há quantos anos mesmo? Trinta? Mais?

O nome atravessou o falso marquês como uma lâmina. "Ele sabe. Não, não pode saber. Mas desconfia”.

- Claro que a cabeça da pobre senhora não é mais o que costumava ser. Os desgastes do tempo alcançarão a nós todos, no final, não é mesmo? - insistiu Di Sangro. - Mas, no que diz respeito ao senhor, ela foi tão insistente, tão clara, tão resoluta e inflexível ao dizer que não estava enganada... que era difícil atribuir suas palavras aos desvarios desiludidos de uma pessoa ido­sa. Daí, descobri que o senhor falava árabe como um nativo. Que conhecia Constantinopla como a palma de sua mão e que viajara por todo o Oriente, disfarçando-se, impecavelmente, foi o que me disseram, de xeque árabe. Mistérios demais para um só homem, marquese. Isso desafia a lógica. Ou a crença.

Montferrat estremeceu, censurando-se por ter considerado aquele homem um espírito irmão, um aliado potencial. Por testá-lo, sondá-lo, ainda que dis­farçadamente.

Sim, tinha julgado muito mal aquele homem. Mas, pensou, talvez fosse o destino. Talvez fosse mesmo a hora de desvendar seus segredos, hora de deixar que o mundo os conhecesse. Talvez aquele homem pudesse encontrar um jeito nobre, magnânimo, de lidar com tudo aquilo.

Os olhos de Di Sangro se fixaram nele, estudando cada expressão de seu rosto.

- Ora, vamos. Tive que sair da cama a esta hora apenas para ouvir sua história, marquese - disse, altivamente. - E, para ser franco, não dou a mínima para quem o senhor é ou de onde vem. Só quero saber seu segredo.

Montferrat encarou seu inquisidor diretamente.

- O senhor não quer saber isso, príncipe. Confie em mim. Isso não é uma dádiva para homem nenhum. É uma maldição pura e simples. Uma maldição sem trégua.

Di Sangro não pareceu se comover.

- Por que não deixa que eu mesmo julgue isso?

Montferrat se inclinou.

- O senhor tem uma família - disse, com voz vazia e distante. – Uma esposa. Filhos. O rei é seu amigo. O que mais um homem pode desejar?

A resposta veio rapidamente.

- Mais. Do mesmo.

Montferrat sacudiu a cabeça.

- O senhor devia deixar as coisas como estão.

Di Sangro aproximou-se do prisioneiro. Seus olhos brilhavam com fervor messiânico.

- Ouça-me bem, marquese. Esta cidade, este desprezível menino-rei... isso não é nada. Se o que suspeito que o senhor sabe for verdade, podemos ser imperadores. Não entende isso? As pessoas venderiam suas almas por isso.

O falso marquês não duvidou disso nem por um segundo.

- É justamente o que me dá medo.

A respiração de Di Sangro tornou-se pesada de frustração, enquanto ele tentava avaliar a determinação daquele homem. Baixou os olhos quando pen­sou distinguir algo no peito de Montferrat que chamou sua atenção. Inclinou-­se ameaçadoramente para mais perto e estendeu-se sobre a mesa, puxando um medalhão que pendia de uma corrente no peito do falso marquês. A mão de Montferrat se ergueu e agarrou o pulso de Di Sangro, imobilizando-o, mas o príncipe rapidamente engatilhou sua pistola. Lentamente, Montferrat soltou o braço de Di Sangro. O príncipe segurou o medalhão entre os dedos por alguns momentos e, de repente, arrancou-o do pescoço de Montferrat, arrebentando a corrente. Aproximou o medalhão dos olhos, examinando-o de perto.

Era uma peça simples, redonda, fundida em bronze, como uma grande moeda, com um pouco mais de dois dedos de diâmetro. A face ostentava um único desenho, uma cobra enrolada como um anel, cuja cabeça ficava em cima do círculo formado por seu próprio corpo.

A serpente devorava o próprio rabo.

O príncipe olhou para Montferrat com expressão interrogativa. Os olhos endurecidos do falso marquês nada deixavam transparecer.

- Estou cansado de esperar, marquese - sussurrou Di Sangro, ameaçadoramente. - Estou cansado de tentar dar sentido a tudo isso - disse ele com a voz seca, enquanto seus dedos se fechavam em torno do medalhão e o sacudiam em direção a Montferrat -, cansado de suas observações enigmá­ticas, de tentar ler através de suas referências esotéricas. Estou farto de ouvir relatórios sobre as perguntas que o senhor faz a certos intelectuais e viajantes e de juntar o que agora sei ser verdade sobre o senhor. Quero saber. Exijo saber. Então, deixo-lhe uma escolha. Ou me conta agora o que desejo saber ou leva seu segredo para o túmulo. - Ele aproximou ainda mais a pistola. O cano duplo pairava agora a centímetros do rosto do prisioneiro. Di Sangro deixou a ameaça pairar no ar por alguns segundos. Depois acrescentou: - Mas, se sua decisão for morrer aqui esta noite e levar seu conhecimento junto, peço que considere uma questão: o que lhe dá o direito de nos privar disso, de deixar o mundo no desprezo e na ignorância? O que fez o senhor para merecer o direito de fazer essa escolha em nome de todos nós?

A pergunta que o homem fizera muitas vezes a si mesmo, que assombrara toda sua existência.

Num passado longínquo, outro homem, um homem idoso que ele vira morrer, um amigo cuja morte - a seus olhos - ele chegara até a apressar, tinha feito essa escolha por ele. Com a respiração ofegante de uma pessoa à beira da morte, seu amigo o espantara ao lhe dizer que, apesar das ações odiosas e deploráveis de Montferrat, podia ver dúvidas e reticências em seu olhar. De algum modo, o velho homem tinha certeza de que a coragem, a nobreza e a honestidade daquele jovem estavam lá, profundamente enterradas, sufocadas por um senso de dever mal orientado. Em sua hora mais sombria, aquele amigo conseguira ver comprometimento e propósito na vida daquele jovem, algo a que o falso marquês há muito renunciara. E, com isso, vieram a aceitação, a revela­ção e a missão que iriam consumir o resto da vida de Montferrat.

        Alguém fizera aquela escolha por ele. O direito de decidir lhe fora legado por alguém com muito mais méritos do que ele jamais imaginara ter.

Mas ficara surpreso consigo mesmo.

Tinha dado o melhor de si, tentara o máximo para descobrir o que continham as páginas que faltavam ao códice, para arrancar os segredos perdidos daquele antigo livro.

Conseguira escapar de seus acusadores em Portugal. Procurara na Espanha e em Roma. Viajara a Constantinopla e mais além, até o Oriente. Mas não acha­ra coisa alguma que fizesse sua busca progredir.

Ele falhara.

Pensou que a volta à terra natal o ajudaria a saber qual seria o próximo passo. A intervenção de Di Sangro contribuíra para interromper tudo isso. Na neblina que envolvia sua mente, uma coisa brilhava com certeza: tratar com desprezo o homem sentado diante dele e mantê-lo na ignorância era uma escolha que ele faria alegremente.

Quanto ao resto do mundo... bem, isso era outra coisa.

- Então? - cortou Di Sangro, com a mão vacilando um pouco pelo peso da pistola.

O homem que chamava a si mesmo de Montferrat pulou da cadeira e jogou-se sobre o adversário, agarrando e empurrando a pistola para trás ao mesmo tempo que Di Sangro puxava o gatilho. O tiro explodiu com um barulho ensurdecedor, enquanto ambos lutavam pela posse da pistola. A bala de chumbo saíra do cano superior e, zunindo no ouvido de Montferrat, se cravara no revestimento de madeira que cobria a parede atrás dele. Os dois homens caí­ram sobre a mesa ao lado da lareira, ainda lutando pela posse da arma, quando a porta do quarto se abriu com um estrondo. Os capangas de Di Sangro avan­çaram com as espadas levantadas. Montferrat aproveitou a distração momen­tânea que viu nos olhos do adversário, atingindo o príncipe com uma violenta cotovelada, que o pegou na altura da garganta. Este recuou com o golpe, afrou­xando a pressão sobre a arma o bastante para que Montferrat pudesse arrancá-la de suas mãos. Montferrat empurrou o príncipe para longe, levantou a pistola, engatilhou a arma ao se afastar do primeiro capanga, que já vinha para cima dele, e disparou. A bala atingiu o homem no peito, fazendo-o virar-se de lado e cair aos pés de Montferrat.

Montferrat jogou a pistola vazia sobre o segundo atacante e rapidamente agarrou a espada do homem caído. O príncipe tinha se recomposto um pouco e, apesar de ainda vacilar sobre os pés, desembainhou a própria espada.

- Não o matem - sussurrou, aproximando-se de seu capanga. - Preciso dele vivo... por enquanto.

Montferrat empunhou a espada com ambas as mãos, segurando-a defensivamente, manejando-a para os lados a fim de manter seus adversários a distância. Os dois homens a sua frente estavam impacientes e, pela sua experiência, o equilíbrio era uma arma tão eficaz quanto a espada. Esperaria que eles cometessem um erro. O capanga estava louco para provar seu valor e avançou, descuidado. Montferrat bloqueou o golpe com a espada e seu pé atingiu a coxa do homem com toda a força. Ele uivou de dor e, de canto de olho, Montferrat notou que o príncipe recuara, atento. Decidiu concentrar a atenção no capanga e girou a espada, fazendo-a chocar-se em cheio contra a lâmina do homem vacilante e arrancando-a de sua mão. O príncipe gritou de raiva e avançou, interrompendo Montferrat, cuja espada precisava se voltar para o outro lado. Montferrat conseguiu chutar o primeiro atacante antes de se virar para enfrentar Di Sangro. O homem camba­leou para trás, batendo na mesa e caindo dentro da grande lareira. Fagulhas e brasas se levantaram do fogo e ele gritou de dor por ter usado a mão para evi­tar a queda. Montferrat viu a manga do homem pegar fogo, ao mesmo tempo que a lanterna, que caíra da mesa, incendiava o tapete.

As chamas do tapete lamberam com fúria as pesadas cortinas de veludo, incendiando-as inteiramente, enquanto o falso marquês lutava para defender os novos golpes de Di Sangro. O calor e a fumaça no quarto eram infernais. O príncipe lutava impiedosamente e surpreendeu Montferrat com um golpe feroz, que tirou a espada de suas mãos. Montferrat recuou, tentando evitar o gume da espada de Di Sangro, muito próxima a seu pescoço. Através da fumaça que invadia o quarto, percebeu que o facínora com a mão queimada conseguira apagar as chamas de seu casaco e tentava voltar ao combate. O homem moveu­-se para o lado, posicionando-se junto à porta do quarto, impedindo qualquer tentativa de fuga por parte de Montferrat.

Montferrat sabia perfeitamente que estava vencido pelo número de inimigos e pela quantidade de armas.

Olhando nervosamente para os lados, decidiu aproveitar a única possibilidade de retirada. Levantou as mãos e moveu-se em direção à cortina incendia­da, os olhos cravados nos de Di Sangro.

- Precisamos apagar esse incêndio antes que se espalhe pelos outros andares - gritou Montferrat, com os pés girando cautelosamente em direção às cortinas.

- Que se danem os outros andares - respondeu Di Sangro -, desde que as chamas não devorem o que o senhor sabe.

Montferrat conseguiu abrir caminho até as cortinas em chamas. O casaco do capanga jazia ali, fumegante. Montferrat entrou em ação. Agarrou o casaco e usou-o para proteger as mãos ao atravessar as chamas e arrancou as cortinas dos trilhos, jogando-as sobre Di Sangro e seu lacaio. O casaco caiu pe­sadamente sobre o homem do príncipe, que gritou de terror, tentando apagar as chamas que lhe queimavam o corpo. As chamas o envolveram até que conseguiu jogar o casaco no chão, criando uma barreira de fogo entre eles e o inimigo. Montferrat não esperou. Abriu a porta da varanda e desapareceu na noite.

Depois do intenso calor, o ar gelado vindo da baía atingiu o quarto como uma bofetada. Olhando rapidamente para dentro, viu Di Sangro e o lacaio pisando febrilmente nas chamas e virando-se para segui-lo. Di Sangro olhou para Montferrat, que acenou com a cabeça, e, com o coração na boca, subiu pelas grades da varanda, e atirou-se de lá.

Aterrissou na varanda do quarto do andar de baixo. A queda enviou um choque de dor através da boca e dos dentes até a cabeça. Sacudindo-a, ele ficou de pé e voltou a subir pelas grades de ferro, antes de se atirar sobre o telhado dois andares abaixo, exatamente no mesmo momento em que Di Sangro con­seguiu chegar à varanda.

- Peguem-no - gritou ele na escuridão, enquanto ficava ali, de costas para as chamas, como um demônio no inferno. Montferrat olhou para a entrada do pala­zzo e viu dois homens correndo no escuro, cujas silhuetas transparecia à luz da lanterna que um deles carregava. Escalou um dos telhados e pulou no teto de uma estrutura ao lado, derrubando algumas telhas no chão. Olhou para os telhados e chaminés à sua frente, planejando sua rota de fuga. Sabia que poderia despistar seus perseguidores e desaparecer na escuridão da cidade densamente construída.

O que mais o preocupava era o que ele sabia que estava por vir.

Quando encontrasse o precioso tesouro que mantinha oculto num lugar secreto, longe de seu palazzo - precaução que ele sempre tomava -, teria que ir embora.

Teria que encontrar um novo nome e um novo lar.

Reinventar-se. Mais uma vez.

Ele já tinha feito isso antes.

E faria de novo.

Ouviu Di Sangro berrando "Montferrat!" dentro da noite, como se estivesse possuído. Sabia que ainda não o tinha visto pela última vez. Um homem como Di Sangro não renunciaria assim facilmente. Fora contagiado pela ganância febril que, quando se apossa de um homem, nunca o abandona.

Esse pensamento fez com que ele congelasse até os ossos, enquanto se perdia na noite.

 

Bagdá - abril de 2003

- Senhor, acabamos de ultrapassar a marca dos dez minutos.

O capitão Eric Rucker, do Primeiro Batalhão, Sétimo Regimento de Cavala­ria, conferiu o relógio e concordou com a cabeça. Olhou os rostos a sua volta, implacáveis e tensos, escorrendo suor. Ainda não eram dez da manhã e o sol já os castigava. O pesado equipamento que os protegia tampouco ajudava, não quando fazia 43 graus à sombra, mas não podiam dispensá-lo.

O prazo se esgotara.

Era tempo de avançar.

Com misteriosa sincronia, um chamado à prece vindo de um minarete próximo cortou o ar poeirento, sufocante. Rucker ouviu um ruído atrás de si e, erguendo os olhos, viu uma mulher idosa com cabelos meio brancos, meio pin­tados de hena, debruçar-se da janela de uma casa apenas uma rua além do alvo. Ela o examinou com olhos amargos, sem vida, antes de fechar as persianas.

Concedeu a ela alguns instantes para que encontrasse abrigo nos fun­dos da casa, e então com um breve aceno ao subcomandante, deu início ao ataque.

Uma granada Mark 19 lançada do Humvee que vinha na frente assoviou através da larga rua e destruiu o portão principal do complexo residencial. Os líderes de esquadrão avançaram seguidos de uns vinte soldados e logo esta­vam sob o fogo de armas leves. As balas zuniam enquanto eles se espalhavam pelo pátio, tentando proteger-se atrás da primeira coisa que encontrassem. Dois homens caíram antes que os outros pudessem achar posições seguras dos dois lados da entrada da casa. Logo, eles desfecharam uma torrente de balas em direção à casa, como cobertura, enquanto homens com grandes bíceps e corações ainda maiores carregavam rapidamente os feridos para a relativa segurança da rua.

A porta da frente da casa tinha uma barricada, e as janelas estavam bloquea­das. Durante os 22 minutos seguintes, centenas de tiros foram trocados, mas o avanço foi reduzido. Outro soldado foi atingido quando balas atiradas da casa atravessaram o carro atrás do qual se escondia.

Rucker deu ordem de retirada. A casa estava cercada. Os homens dentro dela não poderiam ir a lugar nenhum.

O tempo corria a seu favor.

 

Como muitas das outras que se seguiram, esta batalha tinha começado com uma vitória fácil.

Nessa tarde quente de primavera, um homem de meia-idade vestido com um terno esfarrapado e um trapo sujo amarrado em volta da cabeça se aproxi­mara dos soldados que guardavam o portão da Base Avançada de Operações do Campo Headhunter. Cansado de ser identificado como aliado do inimigo, ele falou baixo e depressa. Os soldados o mantiveram afastado e foram chamar um habitante local que usavam como intérprete, que ouviu as alegações do homem e disse que deviam permitir sua entrada, depois que o examinassem para ver se carregava explosivos. O intérprete, então, correu para alertar o co­mandante do campo.

Aquele homem detinha informações sobre uma "pessoa que lhes interessava”.

A caçada começara.

Perseguir a gangue de Saddam, formada por um núcleo irredutível de militantes do partido Ba’ath, era a prioridade número um dos militares no Iraque. A invasão-relâmpago tinha sido eficaz e a cidade fora tomada mais rápida e facilmente do que esperavam, mas a maior parte dos bandidos tinha fugido. Poucos dos que figuravam no baralho do Pentágono, composto pelos 55 iraquianos mais procurados, tinham sido capturados ou mortos - nem o próprio Ás de Espadas ou seus dois filhos.

Mantido em segurança numa sala de interrogatórios da base, o homem de turbante estava agitado quando começou a falar. Mais do que agitado, ele estava absolutamente aterrorizado. O intérprete salientou isso para o comandante da base, que não tinha percebido. Para ele, isso era de se esperar. Aquelas pessoas tinham vivido durante décadas sob uma ditadura monstruosa e impiedosa. Delatar um de seus algozes não era exatamente uma ação simples.

Já o intérprete não tinha tanta certeza assim.

O comandante da base ficou desapontado ao perceber que o homem do regime denunciado pelo velho não estava na lista dos mais procurados pelo Pentágono. Na verdade, ninguém tinha ouvido falar dele. Ninguém parecia saber absolutamente nada sobre ele.

O homem do turbante sequer sabia seu nome. Referia-se a ele apenas como o hakim.

O doutor.

Mesmo em segurança, dentro da Base Avançada de Operações, ele só ousava pronunciar aquela palavra num tom velado, intimidado.

Ele não podia lhes fornecer sequer um nome. Os detalhes que tinha eram su­mários, exceto que, antes da invasão, homens em carros escuros, com aparência oficial, tinham sido vistos com freqüência, no meio da noite, dentro do comple­xo residencial. O próprio líder destemido viera visitá-lo em algumas ocasiões.

Ele foi incapaz de descrevê-lo, a não ser por um único detalhe alarmante, que deixou intrigados todos os que o escutavam na sala: o hakim não era iraquiano, ou sequer árabe.

Era um ocidental.

E certamente o baralho do Pentágono não incluía nenhum ocidental.

Quanto a isso, apenas uma pessoa da lista não fazia parte do Exército ou do governo. Curiosamente, era a única rainha do baralho - biologicamente falan­do, pelo menos. A carta mais baixa do baralho era uma mulher, uma cientista chamada Huda Ammash, conhecida pelo apelido de sra. Antrax, filha de um antigo ministro da Defesa, apontada como a cabeça do programa iraquiano de armas biológicas.

Todos os elementos estavam reunidos. Um médico. Próximo de Saddam. Ocidental. Denunciado por um cidadão local aterrorizado. Era o bastante para o pontapé inicial.

Solicitaram informações da Inteligência, que lhes foram passadas naquela mesma noite. Planos foram feitos.

Nas primeiras horas da madrugada, Rucker e seus homens tinham reforçado o cordão exterior de segurança com forças terrestres e veículos blindados. A localização do alvo, tal como fora indicado pelo homem de turbante, era uma casa de três andares, no centro do distrito de Saddamiya, em Bagdá. O lugar nem sempre se chamara assim. Fora, no passado, uma área bastante violenta. Saddam crescera em suas ruas cruéis, freqüentara a escola local e moldara ali seu estilo de vida. Depois de conquistar o país, trouxera escava­deiras e destruíra toda aquela área, construindo em seguida uma comunidade fechada, composta de modernas e imponentes casas de alvenaria, cercadas por ruas com galerias e praticamente separadas do resto da cidade. A comunidade recebeu seu nome e se tornou o lar daqueles que ele considerava merecedores. O batalhão ficara encarregado daquela área desde que as tropas tinham ocu­pado Bagdá, e a tratava cautelosamente, dada a aversão que as pessoas leais ao regime que ainda viviam ali sentiam pelas forças invasoras.

Os esquadrões armados assumiram suas respectivas posições; os franco-atiradores estavam a postos. O ataque estava pronto para começar.

Segundo os mais novos moldes de procedimento para esses casos, Rucker adotara uma abordagem de "cerco e busca”. Como o perímetro estava seguro, as tropas avançaram em direção à casa, deixando evidente sua presença. Pelo auto-falante, um intérprete informava aos habitantes que tinham dez minutos para sair da casa com as mãos para o alto.

Dez minutos mais tarde, o inferno entrara em erupção.

 

Enquanto os feridos eram transportados para locais em que pudessem receber tratamento adequado, Rucker deu ordem de "preparar o objetivo" para minimizar os acidentes durante a inevitável tentativa de entrar de novo na casa. Dois helicópteros OH-58D Kiowa se aproximaram e despejaram na construção mísseis de 7 centímetros de diâmetro e rajadas de metralhadora, enquanto as tropas terrestres a bombardeavam com mais granadas Mark 19 e alguns mísseis antitanque AT-4 mais potentes, levados sobre os ombros.

A casa ficou finalmente silenciosa.

Rucker enviou seus homens de volta, mas, dessa vez, dois Humvees atacaram antes deles, com fumegantes metralhadoras calibre .50. Ele logo se deu conta de que o objetivo fora mais do que bem preparado. Seus homens avan­çaram sem problemas, encontrando muitos cadáveres e apenas três solitários guardas republicanos, ainda traumatizados pelos morteiros, que foram rapida­mente carregados para fora.

Uma onda de alívio o percorreu quando ouviu o grito de "Tudo limpo" pelo rádio. Suas tropas avançadas confirmaram o controle do local.

Rucker entrou na casa do hakim, enquanto os cadáveres eram alinhados para identificação. Ao olhar nos rostos sujos e manchados de sangue, ele fran­ziu a testa. Todos eram cidadãos locais, iraquianos, soldados de infantaria há muito abandonados por seus oficiais comandantes. Pediu que lhe trouxessem de novo o homem de turbante, que fora mantido sob guarda pesada, e lhe permitiram examinar os corpos. Diante de cada um, ele sacudia a cabeça. Seu medo parecia aumentar com cada identificação negativa.

O hakim não estava ali.

Rucker fez cara feia. Aquela operação custara recursos consideráveis: três homens tinham sido feridos, um deles seriamente, e pelo visto nada daquilo servira. Estava a ponto de ordenar outra limpeza quando uma voz, que reco­nheceu como a do sargento Jess Eddison, irrompeu pelo rádio.

- Senhor - a voz de Eddison estava apreensiva, de uma maneira que Rucker nunca ouvira antes -, acho que precisa ver isto.

Rucker e seu subcomandante seguiram um líder de esquadrão até o vestíbulo interior da casa, de onde partiam grandes escadarias revestidas de mármore que conduziam aos quartos. Uma porta arrancada de suas dobradiças levava ao porão. Com lanternas iluminando a passagem sem janelas, os três homens avançaram cuidadosamente pelas escadas e se encontraram com Eddison e dois soldados de primeira classe do Segundo Pelotão. Eddison dirigiu a luz da lanterna para a escuridão, conduzindo-os até o salão.

O que eles encontraram não foi exatamente uma sala comum de recreação.

A menos que você se chamasse Josef Mengele.

O porão ocupava as fundações da casa e do pátio externo. As primeiras salas que percorreram não eram particularmente inquietantes. A primeira era um escritório, cujo conteúdo parecia ter sido retirado às pressas. Papéis ras­gados cobriam o solo e alguns livros queimados jaziam numa pilha de cinzas negras e encadernações deformadas. O cômodo seguinte era um banheiro, seguido de outro, com sofás e um grande aparelho de televisão.

A sala que visitaram depois era muito mais ampla. Era uma sala de cirurgia muito bem equipada. A mobília e o equipamento cirúrgico eram os mais mo­dernos. Sua relativa limpeza acentuava o estado sórdido do resto da casa. Com certeza, os guardas que vigiavam a construção não tinham se aventurado até ali. Possivelmente por escolha própria. Ou talvez por medo.

O assoalho estava molhado com um líquido azulado. Rucker e sua equipe seguiram Eddison, as botas rangendo contra as frias lajes de pedra. A passagem levava a um laboratório no qual, sobre o balcão de fórmica branca com gavetas que percorria toda a longa parede, tinha sido colocada uma fileira de tonéis transparentes cheios de uma solução verde-azulada. Alguns deles tinham sido quebrados no que parecia ser uma tentativa apressada de encobrimento. Outros estavam intactos.

Rucker e o líder do esquadrão se aproximaram para ver melhor. Tubos mergulhavam no líquido e, em suspensão nos tonéis intactos, havia órgãos humanos: cérebros, olhos, corações e outras partes menores do corpo, que Rucker não conseguiu identificar. Uma mesa de trabalho estava coberta de placas de Petri, pequenos recipientes redondos para cultura de microrganismos, cujos rótulos meticulosamente identificados eram indecifráveis a seus olhos de leigos. Ao lado das placas, havia um par de potentes microscópios. Fios e cabos, provavelmente de computadores, jaziam sem função. Todos os computadores tinham sido levados.

No canto do aposento havia um outro quarto, longo e estreito, onde Rucker descobriu várias geladeiras grandes de aço inoxidável, alinhadas. Pensou se devia examinar pessoalmente seu conteúdo ou esperar pela equipe especializada em substâncias tóxicas. Por fim, decidiu que não havia nenhum risco, devido à ausência de cadeados ou marcações, e abriu a primeira delas. Estava cheia de tonéis contendo um espesso líquido vermelho. Antes mesmo de ver os rótulos escritos com datas e nomes, Rucker soube que aqueles reci­pientes continham sangue.

Sangue humano.

Não pequenas bolsas plásticas usadas pelos médicos, às quais ele estava acostumado.

Mas barris de sangue.

Eddison os conduziu à parte do porão à qual se referira inicialmente. Um estreito corredor levava a outra área, provavelmente escavada sob o pátio, em­bora Rucker não pudesse ter certeza, já que aquele labirinto sombrio confundia qualquer sentido de direção que pudesse ter ao ar livre. Era visivelmente uma prisão. Celas ladeavam a passagem, seus interiores decentemente mobiliados com camas, privadas e pias. Rucker tinha visto piores. Parecia mais uma enfer­maria de hospital sem janelas.

Não fosse pelos cadáveres.

Havia dois em cada aposento.

Tinham recebido um tiro na cabeça, num ato de insanidade final, desesperado. Havia homens e mulheres. Jovens e velhos. Pelo menos uma dezena de crianças, meninos e meninas. Todos vestidos com macacões brancos idênticos. A última cela marcaria Rucker até o fim de seus dias.

Em seu solo branco, estavam deitados os corpos inertes de dois meninos, cujas cabeças tinham sido inteiramente raspadas fazia pouco tempo. Eles o en­caravam com olhos fixos, imóveis; suas testas ostentavam pequenas perfurações redondas, e pequenas poças de sangue, espessas e brilhantes, como se fossem de acrílico, rodeavam seus crânios. Na parede da cela, havia um desenho grosseiro, como se tivesse sido gravado com um garfo ou outro instrumento duro.

Gravura feita por uma alma em desespero, grito silencioso de uma criança apavorada dirigido a um mundo que não se importava com ela.

A imagem circular de uma serpente, curvada sobre si mesma e devorando o próprio rabo.

 

Zabqine, sul do Líbano - outubro de 2006

Virando-se para olhar uma vez mais as ruínas da mesquita, Evelyn Bishop descobriu-o de pé, sozinho, escondido atrás do muro cravejado de estilhaços, o habitual cigarro entre o polegar e o indicador. A visão transportou-a para um passado distante.

- Farouk?

Mesmo depois de tanto tempo, era ele, sem dúvida nenhuma. Seus olhos sorriram-lhe, confirmando.

Ramez - seu minúsculo e hiperativo ex-aluno xiita, agora professor-assistente no departamento, com livre trânsito naquela parte do país - olhou-a do outro lado de um buraco na parede exterior da mesquita. Evelyn disse a ele que voltaria logo e dirigiu-se para onde o homem estava.

Ela não via Farouk desde que tinham trabalhado juntos nas escavações no Iraque, vinte e tantos anos atrás. Ela era então a incansável Sitt Evelyn, lady Evelyn, jovem, vibrante, apaixonada pelo trabalho, uma força da natureza, dirigindo as escavações arqueológicas no palácio Sennacherib em Nínive e na Babilônia, a 100 quilômetros de Bagdá. Ele era simplesmente Farouk, parte da equipe, baixo, barrigudinho, meio careca, fumante inveterado, nego­ciante de antigüidades e um "atravessador”, do tipo que todos precisavam na­quela parte do mundo. Era sempre cortês, honesto e eficiente; um homem calado, que não chamava atenção, cumpria sempre o prometido com um aceno humilde e nunca negava um pedido mais complicado. Mas as costas curvadas, as rugas na testa e os poucos tufos de cabelos grisalhos no lugar dos que tinham sido negros denunciavam que os anos não tinham sido muito generosos com ele. Na verdade, o próprio Iraque não atravessava uma fase de ouro ultimamente.

- Farouk - disse ela, radiante. - Como vai? Meu Deus, há quanto tempo...

        - Muito tempo, Sitt Evelyn.

Não que ele alguma vez tivesse sido um poço de entusiasmo, mas sua voz es­tava evidentemente submissa, ela pensou. Ela não conseguia entender sua expres­são. Será que o constrangimento era devido aos anos passados, ou outra coisa?

Inquietou-se.

- O que está fazendo aqui? Você agora mora aqui?

- Não, deixei o Iraque há duas semanas - respondeu ele sombriamente, antes de acrescentar: - Vim à sua procura.

Ela se surpreendeu.

        - À minha procura...? - Agora ela tinha certeza de que alguma coisa estava errada. O fato de ele olhar continuamente a seu redor, entre tragadas do cigarro, a preocupou ainda mais. - Está tudo bem?

- Por favor. Será que podemos...? - Ele fez um gesto para que se afastas­sem da mesquita, levando-a para um local mais discreto, mais protegido.

Ela o seguiu, olhando cautelosamente para o chão, sempre atenta às pequenas bombas espalhadas na região. Ao perceber os olhares furtivos de Farouk em dire­ção à estrada principal que ia para a vila, ficou óbvio que ele estava preocupado com outro tipo de ameaça. Nas ruelas, Evelyn notou grande atividade - cami­nhões descarregando mantimentos, tendas sendo erguidas, carros avançando com a velocidade de lesmas através do caos, tudo isso pontuado por ocasionais explo­sões distantes, um aviso constante de que, embora a guerra dos trinta e quatro dias estivesse encerrada oficialmente, e o cessar-fogo, declarado, o conflito estava longe de ter sido resolvido -, mas ela não conseguia descobrir o que o preocupava.

- O que está acontecendo? - perguntou. - Você está bem?

Farouk tornou a olhar ao redor para ter certeza de que não estavam sendo observados, depois jogou fora o cigarro e tirou um pequeno envelope marrom, amassado, do bolso do casaco.

Entregou-o a ela e disse:

- Trouxe isto para você.

Ela abriu o envelope e tirou de dentro dele um pequeno maço de fotografias. Eram polaróides, e estavam ligeiramente vincadas e gastas.

Evelyn levantou os olhos interrogativos para Farouk, embora seu instinto já previsse o que havia nas fotos. Bastou passar os olhos pelas primeiras para que seus piores pressentimentos fossem confirmados.

 

Ela se mudara para o Líbano em 1992, quando o país emergia de uma guerra civil longa e sem sentido. Fora para o Oriente Médio logo após ter se formado, em Berkeley, no final da década de 1960. Trabalhara numa série de esscavações na Jordânia, no Iraque e no Egito, quando o posto de professora no Departamento de Arqueologia da Universidade Americana de Beirute ficou disponível. Ela não podia perder aquela oportunidade, ainda mais com a possi­bilidade de participar ativamente das escavações do centro histórico da cidade, que recentemente havia se tornado acessível, com sua história fenícia, grega e romana. Ela se candidatara e conseguira o emprego.

Agora, 15 anos depois, não havia dúvida de que se sentia em casa em Beiru­te. Sabia que ia viver o resto de sua vida naquela cidade, e o pensamento não a desagradava. O país tinha sido bom para ela, e ela fizera mais do que retribuir o favor. Um grupo de estudantes apaixonados e entusiastas comprovava isso, bem como o reformado museu da cidade. Durante a reconstrução do centro histórico, ela entrara em conflito com os construtores e suas escavadeiras e de­fendera incansavelmente seu ponto de vista junto ao governo e aos monitores internacionais da Unesco. Ganhara algumas batalhas e perdera outras, mas o saldo tinha sido positivo. Ela desempenhou um papel importante na recons­trução da cidade e do país. Conhecera o otimismo e o cinismo, a abnegação e a corrupção, a generosidade e a cobiça, a esperança e o desespero, uma mistura crua de emoções e instintos humanos, desvendada e exposta sem qualquer consideração pelo pudor ou pela vergonha.

E depois, o desastre.

Tanto o Hezbollah como os israelenses tinham se enganado completa e previsivelmente, fazendo civis inocentes pagarem o preço. Naquele verão, pou­cas semanas antes, Evelyn tinha visto, com um nó na garganta, os helicópteros Chinooks e os navios de guerra evacuarem os estrangeiros. Mas nunca pensara em se juntar a eles. Ela se sentia em casa.

Por enquanto, havia muito trabalho a fazer. As aulas começariam em uma semana, um mês depois do habitual. Os horários dos cursos de verão tinham de ser revistos. Alguns membros do corpo docente não voltariam. Os próximos meses seriam um desafio organizacional, com uma ou outra distração, como a que a trouxera aqui, hoje, a Zabqine, uma cidade adormecida nas serras do sul do Líbano, a menos de oito quilômetros da fronteira israelense.

A cidade só existia no mapa. A maior parte das casas tinha sido reduzida a montes de entulho, ferro retorcido e vidro derretido. Outras tinham desaparecido, engolidas pelos buracos negros abertos por bombas teleguiadas. As escavadeiras e os caminhões tinham removido os destroços - formando um macabro aterro sanitário para algum empreendimento hoteleiro à beira-mar. Os corpos dos que haviam morrido sob os escombros tinham sido enterrados, e desafiadoramente a cidade começava a se reerguer. Os sobreviventes, aqueles que tinham conseguido sair antes do massacre, estavam voltando, vivendo em tendas improvisadas enquanto pensavam na reconstrução. A energia elétrica não deveria voltar tão cedo, mas pelo menos um tanque tinha sido trazido para fornecer água potável. Uma pequena fila de moradores munidos de vasilhames plásticos e garrafas esperava pacientemente sua vez, enquanto outros esvazia­vam os suprimentos de dois caminhões da ONU. Crianças corriam em volta, brincando. .. de guerra.

Ramez a tinha trazido de carro naquela manhã. Ele era de uma cidade próxima. Um homem idoso, o único habitante que permanecera em Zabqine durante os bombardeios - e que ficara meio surdo -, os guiara, através de um tapete de alvenaria quebrada, até as ruínas da pequena mesquita. Apesar de Ramez tê-la descrito, a cena que encontrou ao chegarem no topo da colina era perturbadora.

 

A cúpula verde da mesquita sobrevivera de alguma forma às bombas que tinham destruído o restante da pequena estrutura de pedra. Estava ali, estranhamente em cima dos destroços, uma instalação surreal que somente a guerra podia construir. As tiras rasgadas do que fora o tapete vermelho da mesquita balançavam nos galhos nus das árvores próximas.

Ao derrubarem as paredes da mesquita, as bombas tinham aberto crateras, revelando uma fenda nos fundos e expondo uma câmara até então escondida. Os afrescos bíblicos dessas paredes, embora esmaecidos e gastos pelo tempo, não deixavam dúvidas. Tratava-se de uma igreja pré-islâmica, enterrada sob a mesquita. Segundo a Bíblia, a costa tinha sido bem explorada por Jesus e seus discípulos e estava salpicada de relíquias dos tempos bíblicos. A igreja de São Tomás, nos arredores de Tiro, fora construída sobre o que se pensava ser a mais antiga igreja de todos os tempos, um edifício do século I erguido por São Tomás após seu regresso de Chipre. Mas o Islã tinha varrido a região no final do século VII, e muitos locais de oração tinham sido tomados pelos novos crentes.

Remexer num altar xiita à procura de vestígios de uma fé anterior não seria fácil, especialmente agora, com a guerra ainda fresca na memória, feridas aber­tas e emoções correndo soltas.

Evelyn tinha imaginado que o dia seria um desafio.

Mas não dessa forma.

 

Um sopro de desapontamento a percorreu. Ela olhou para Farouk com indisfarçável tristeza nos olhos.

- O que você está fazendo, Farouk? - perguntou baixinho. - Você me conhece muito bem.

As polaróides nas mãos de Evelyn mostravam registros feitos às pressas de artefatos, tesouros de tempos idos, relíquias do berço da civilização, tabuletas cuneiformes, selos cilíndricos, figuras de terracota e alabastro, vasos de cerâ­mica. Ela vira muitas fotos semelhantes desde que as tropas americanas tinham entrado em Bagdá, em 2003, e a indignação internacional se fizera ouvir diante da incapacidade de se manter a segurança do museu da cidade e de outros lugares de importância cultural. Saqueadores andavam à solta, acusações de maquinações políticas eram feitas, retiradas e refeitas, um inventário oscilante do número de objetos roubados tinha sido apresentado sem a menor credibi­lidade. Uma coisa era certa: tesouros datados de milhares de anos tinham sido roubados, alguns recuperados, mas perdidos em sua maior parte.

- Por favor, Sitt Evelyn - pediu Farouk.

- Não - ela cortou duramente, devolvendo as fotos para ele. - Ora, va­mos. O que você está me trazendo? Você espera realmente que eu as compre ou que ajude você a vendê-las?

- Por favor - repetiu ele baixinho. - Você tem que me ajudar. Não posso voltar para lá. Aqui - ele procurou freneticamente por alguma fotografia em particular. - Veja isto.

Evelyn notou que seus dedos amarelados tremiam. Estudou seu rosto, sua linguagem corporal - ele estava nitidamente amedrontado, como era de se esperar. Contrabandear antigüidades para fora do Iraque tinha um preço alto, castigos que podiam ser fatais dependendo de que lado e em qual fronteira se era apanhado. Mas alguma coisa a incomodava. Ela não conhecia aquele homem intimamente e não o via há anos, mas se gabava de conhecer as pes­soas e do que eram feitas, e para ele descer tão baixo a ponto de participar da pilhagem de seu país, um país pelo qual ela sabia que ele tinha muito apreço... Ela não tinha passado incólume por vários golpes sangrentos e três grandes guerras, e todos os horrores desse meio-tempo. Confiava em seu instinto e tinha que admitir que não fazia idéia do que fora a vida dele desde que o vira pela última vez. E nem das medidas desesperadas a que se tinha de recorrer para sobreviver.

Ele tirou umas duas fotos do maço e tornou a olhá-las.

- Veja.

Ela o observou enquanto tentava se acalmar, assentiu com a cabeça e se concentrou nas fotos que ele lhe entregara.

A primeira mostrava vários códices antigos em cima do que parecia ser uma mesa. Evelyn examinou-a mais de perto. Sem poder olhar o interior dos livros, era difícil avaliar quão antigos eles eram. A região tinha uma rica história, praticamente um desfile contínuo de civilizações ao longo de milhares de anos. Alguns detalhes reveladores, no entanto, apontavam para a idade dos livros: as rachaduras no couro, as legendas gravadas em ouro e outros dese­nhos geométricos, medalhões ovais e pendentes. Os sulcos nas lombadas também eram visíveis, sugerindo serem anteriores ao século XIV. O que os tornava potencialmente muito, muito atraentes para os museus e colecionadores.

Ela passou para a segunda foto e teve um arrepio ao reconhecer a imagem. Examinou-a atentamente, passando os dedos, numa inútil tentativa de torná-la mais nítida, sua mente procurando atravessar a enxurrada de lembranças que a imagem provocava. Ela mostrava um códice antigo, displicentemente colocado entre dois outros livros também antigos. A capa de couro estava rachada e empoeirada. A orelha da contra-capa estava aberta. Um traço distintivo dos livros islâmicos medievais era que, quando o livro estivesse fechado, essa orelha ficasse enfiada sob a capa da frente, servindo também de marcador e protegen­do as folhas.

Em princípio, não havia nada de extraordinário no velho livro, exceto pelo símbolo talhado em forma de anel: uma serpente devorando o próprio rabo.

O olhar de Evelyn cruzou com o de Farouk. Ela não conseguia pronunciar as palavras com rapidez suficiente:

        - Onde você encontrou isso?

- Não fui eu, foi Abu Barzan, um velho amigo que também lida com antigüidades. Ele tem uma pequena loja em Mosul - explicou Farouk, usando o nome árabe da cidade de Mossul, a cerca de 230 quilômetros de Bagdá. - Nada ilegal, sabe, somente o que podíamos vender sob o regime de Saddam... Antes da invasão, apenas os dirigentes do Partido Ba’ath podiam exportar as antigüidades mais valiosas. A turba, o restante da população, brigava pelas migalhas... Saddam tinha informantes por toda parte, como você bem sabe. Mas agora é diferente. De qualquer forma, meu amigo veio me ver, há cerca de um mês, em Bagdá. Ele anda pelo norte, em visita às velhas cidades, à procura de peças. Ele é meio curdo, e quando está lá convenientemente esquece seu lado sunita e é muito bem recebido. De todo modo, ele encontrou essas peças - você sabe como vai ser agora. Uma gran­de confusão. Caos total. Bombas, matanças, esquadrões da morte... Pessoas amedrontadas fazendo o impossível para se manter fora de perigo e pôr comida na mesa. Vendem o que é possível, especialmente agora que podem vender legalmente. Mas não há muitos compradores, pelo menos no Iraque. De qualquer forma, Abu Barzan estava tentando vender esta coleção. Queria sair do país, estabelecer-se em algum lugar seguro - todos queremos -, mas é preciso dinheiro. Então, ele estava sondando, discretamente, à procura de um comprador. Ele sabia que eu tinha bons contatos fora do país. Ofereceu­-se para dividir o lucro comigo.

Farouk acendeu outro cigarro, olhando furtivamente a seu redor.

- Então, pensei em você quando vi o uróboro - acrescentou ele, estendendo a mão e indicando a fotografia do códice. - Dei uns telefonemas para descobrir se alguém sabia de você. Mahfouz Zacharia...

- É claro - disse Evelyn. Ela mantivera contato com o curador do Museu Nacional de Antigüidades de Bagdá. Principalmente depois da invasão, quan­do o escândalo dos saqueadores eclodira. - Farouk, você sabe que não posso fazer isto. Nem deveríamos estar tendo esta conversa.

- Você tem que me ajudar, Sitt Evelyn. Por favor. Não posso voltar para o Iraque. É pior do que você imagina. Quer este livro, não quer? Vou consegui-lo para você. Apenas me ajude a ficar aqui, por favor. Precisa de um motorista, não precisa? De um assistente? Faço qualquer coisa. Posso ser útil, você sabe disso. Por favor, não posso voltar.

Ela se assustou.

- Farouk, não é tão fácil.

Ela balançou levemente a cabeça e olhou para as colinas abandonadas que se estendiam desde a mesquita. Ao longo de um pequeno muro de pedra, fileiras de folhas de tabaco marrom, há meses entrelaçadas aos ara­mes para secar ao sol, apodreciam e ficavam cinzentas sob a mesma grossa poeira que cobria toda a região. No alto, o distante zumbido de um avião israelense teleguiado nasceu e morreu com a brisa, um constante aviso da tensão existente.

O rosto de Farouk se tornou sombrio. Sua respiração ficou mais curta e rápida, as mãos agitadas.

- Lembra-se de Hajj Ali Salloum?

Mais um nome do passado. Outro comerciante de antigüidades, se a memória de Evelyn não a traía. Estabelecido em Bagdá. Sua loja ficava a três portas da de Farouk. Ela se lembrava de que eles eram amigos, embora con­correntes quando se tratava de clientes e vendas.

- Ele está morto. - A voz de Farouk tremia. - E acho que foi por causa deste livro.

Evelyn ficou perturbada e falou com dificuldade.

- O que aconteceu com ele?

Um medo mais agudo apareceu nos olhos de Farouk.

- Do que trata este livro, Sitt Evelyn? Quem mais está atrás dele?

- Não sei - ela respondeu, consternada.

- E o sr. Tom? Ele trabalhava com você. Talvez saiba. Precisa perguntar a ele, Sitt Evelyn. Alguma coisa muito ruim está acontecendo. Você não pode me mandar de volta.

A menção tocou o coração de Evelyn. Antes que ela pudesse responder, a voz de Ramez ecoou através dos montes de destroços ao redor deles.

- Evelyn?

Farouk lançou-lhe um olhar ansioso. Ela esticou o pescoço para ver Ramez

chegar da mesquita. Olhou de volta para Farouk, que perscrutava as ruelas que davam na rua principal. Quando se voltou para olhá-la, o sangue parecia ter-lhe fugido do rosto. O olhar de Farouk estava de tal forma aterrorizado que ela sentiu seu coração se apertar. Ele empurrou o pequeno maço de fotos e o envelope na mão dela e disse apenas:

- Nove horas, na cidade, perto do relógio da torre. Por favor, não deixe de ir. Ramez alcançou-os, imaginando o que poderia estar acontecendo.

Evelyn procurou as palavras, sem saber o que dizer.

- Farouk é um antigo colega meu. Dos velhos tempos, no Iraque. – Ramez pareceu perceber o mal-estar entre eles. Evelyn sentiu que Farouk ia fugir e fez um gesto, acalmando-o. - Está tudo bem. Ramez e eu trabalhamos juntos na universidade.

Estava fazendo o que podia para lhe comunicar rapidamente que seu co­lega não era uma ameaça, mas alguma coisa assustara visivelmente Farouk, que apenas acenou rapidamente para Ramez antes de dizer a Evelyn, com voz suplicante e insistente:

- Por favor, esteja lá.

Antes que ela pudesse responder, ele já estava seguindo para longe do centro da cidade, em direção à mesquita.

        - Espere, Farouk! - Evelyn se afastou um pouco de Ramez e chamou-o em vão. Ele já tinha desaparecido.

Voltou-se para Ramez, que parecia estupefato. Finalmente, lembrou-se de que as fotos estavam em sua mão, à vista, e que ele reparara nisso. Ele lançou-­lhe um olhar interrogativo. Ela voltou a guardá-las no envelope, colocando-o no bolso enquanto sorria ingenuamente.

- Desculpe. Ele apenas... É uma longa história. Vamos voltar para a câmara?

Ramez assentiu educadamente e conduziu-a de volta pelo caminho.

Ela o seguiu, os olhos distantes, um nó no estômago pelas palavras perturbadoras de Farouk, a mente atordoada demais para registrar uma cena que se passava logo adiante: dois homens, à beira da estrada, dirigindo a ela expres­sões duras como pedra, expressões que não eram raras, devido ao lugar e ao contexto, expressões às quais ela se habituara desde a guerra - mas, no en­tanto, de algum modo elas ali destoavam. Um deles entrou num carro e partiu abruptamente, enquanto o outro olhou por um instante em sua direção antes de desaparecer por trás de uma casa em ruínas.

 

- Você já o pegou?

Ele partira de Bagdá havia mais de quatro anos, e, apesar de sua aptidão para línguas estrangeiras e de sua boa vontade, o vocabulário e o sotaque ára­bes ainda sofriam influência dos anos passados no Iraque. Por isso, os homens designados para trabalhar com ele - chefiados por Omar, para o qual havia feito a pergunta - vinham do leste de sua pátria recentemente adotada, perto da fronteira com o Iraque, onde tinham facilitado o contrabando de armas e de guerrilheiros. As duas línguas eram parecidas, mas as diferenças eram suficien­tes para causar enganos e mal-entendidos.

O que não servia.

Ele se orgulhava da sua exatidão. Não tolerava imprecisões nem tinha muita paciência para irresponsabilidade, e podia perceber pelo tom pouco à vontade do homem, desde o momento em que tinha sido interrompido e atendera ao chamado, que sua paciência estava prestes a ser duramente testada.

Houve uma pausa hesitante antes de a voz responder friamente.

- Não.

- O que quer dizer com "não"? - disse o hakim com voz estridente, arrancando irritado as luvas cirúrgicas. - Por que não? Onde ele está?

Omar não se amedrontava facilmente, mas agora seu tom era de submissão.

- Ele tomou muito cuidado, mu'allimna.

Em ambos os lados da fronteira, os homens que lhe eram designados chamavam-no assim. "Nosso professor”. Um tratamento humilde usado por em­pregados submissos. Não que lhes tivesse ensinado muito. Apenas o suficiente para ter certeza de que faziam o que lhes era pedido, sem muitas perguntas. Mais do que o ensino, valia o treino, no qual o medo era a principal fonte de motivação.

- Não tivemos a oportunidade adequada - continuou Omar. - Nós o seguimos até a Universidade Americana, onde visitou o Departamento de Arqueologia. Esperamos por ele do lado de fora do prédio, mas deve ter usado outra saída. Um de meus homens que estava vigiando o portão o viu entrar discretamente num táxi.

O hakim franziu a testa.

- Portanto, ele sabe que está sendo seguido - disse, de mau humor.

- Sabe. - Omar confirmou relutantemente, antes de acrescentar: - Mas isso não é problema. Vamos pegá-lo até amanhã à noite.

- Espero que sim - replicou acidamente o hakim. - Para o seu bem - disse, tentando se controlar. Omar nunca falhara antes. Sabia o que estava em jogo, e era bom no que fazia. Tinha sido colocado sob as ordens do hakim para olhar por ele e servi-lo. E Omar sabia que não podia falhar. O hakim con­solou-se com isso. - Onde ele está agora?

- Nós o seguimos até Zabqine, uma pequena cidade ao sul, perto da fronteira. Foi se encontrar com alguém.

O interesse do hakim se aguçou.

- Quem?

- Uma mulher. Uma americana chamada Evelyn Bishop. É professora de arqueologia na universidade. Uma mulher mais velha. Deve ter uns 60 anos. Ele lhe mostrou alguns documentos. Não pudemos nos aproximar o suficiente para ver, mas pareciam fotografias da coleção.

"Interessante”, pensou o hakim. "O comerciante iraquiano está na cidade apenas há algumas horas e a primeira coisa que faz é ir se encontrar com uma mulher que é arqueóloga?" Guardou a informação para analisá-la depois.

- E...?

Outra pausa hesitante, depois Omar abaixou a voz.

- Nós o perdemos. Ele nos viu e fugiu. Procuramos por toda a cidade, mas ele desapareceu. Mas estamos vigiando a mulher. Estou agora mesmo em frente a seu apartamento. Eles foram interrompidos, não conseguiram acabar a conversa.

- O que significa que ela vai levá-los até ele. - O hakim balançou lentamente a cabeça. Levantou a mão e esfregou o rosto, massageando a fronte con­traída e a boca seca. O fracasso certamente não seria tolerado. Esperara tempo demais. - Não tirem os olhos dela - insistiu friamente -, e, quando eles se encontrarem, tragam os dois para mim. Quero-a também. Entendeu?

- Sim, um’allimna. - A resposta veio rapidamente. Sem hesitação. Exatamente como o hakim gostava.

Ele desligou e repassou a conversa mentalmente por um instante antes de guardar o telefone no bolso e retomar o que estava fazendo.

Lavou as mãos e colocou um novo par de luvas cirúrgicas, depois se dirigiu para a maca em que um rapazinho estava deitado e amarrado, semi-consciente, os olhos entreabertos, semicírculos brancos como cerâmica sob as pestanas, com tubos em vários lugares de seu corpo retirando pequenas quantidades de líquido e sugando sua própria vida.

 

Passava das seis da tarde quando Evelyn voltou para a cidade e para seu apartamento no terceiro andar da Rue Commodore.

Estava exausta depois de um dia tão cheio de acontecimentos. Após a fuga de Farouk, Ramez - que num gesto de consideração não fizera perguntas sobre ele nem tentara levar a conversa por esse caminho - conseguira um encontro com o prefeito de Zabqine, que, compreensivelmente, tinha assuntos mais importantes a tratar do que a escavação de um templo cristão primitivo qualquer. Ainda assim, Evelyn e seu jovem protegido tinham impressionado o prefeito, e a porta permanecera aberta para futuras visitas exploratórias.

Isso fora um verdadeiro feito, uma vez que sua cabeça estava em outro lugar durante toda a entrevista.

Desde o momento em que Farouk lhe mostrara o envelope gasto com as fotografias, somente as memórias ocuparam seu pensamento. Em casa, tomara um demorado banho e agora estava sentada à escrivaninha, olhando para uma grossa pasta que sempre a acompanhava. Com o coração pesado, puxou os elásticos e começou a passar os olhos por seu conteúdo. As velhas fotografias, os blocos amarelados pelo tempo e as fotocópias acenderam nela alguma coisa que permanecera apagada por muito tempo. As páginas voaram, uma depois da outra, provocando uma mistura de emoções que tomou conta de Evelyn, levando-a de volta a um tempo e lugar que nunca conseguira esquecer.

Al-Hillah, Iraque, outono de 1977.

Estava no Oriente Médio fazia uns sete anos, a maior parte deles em escavações em Petra, na Jordânia, e no norte do Egito. Aprendera muito nessas escavações - foi quando se apaixonou pela região -, que, no entanto, não eram comandadas por ela. Em pouco tempo, estava louca para se envolver em algo que pudesse considerar seu. E depois de muitas pesquisas e captação de recursos, conseguiu atingir seu objetivo. A escavação em questão tratava da cidade que sempre a fascinara, mas que tinha sido desmerecida pela arqueo­logia recente: a Babilônia.

A história da cidade fantástica tinha mais de quatro mil anos, mas como foi construída com tijolos de barro secos ao sol, não com pedra, pouco resistiu ao tempo. Esse pouco foi dispersado pelas várias potências coloniais que gover­naram a problemática região na segunda metade do século XIX. Com a Mãe Natureza e com os otomanos, os franceses e os alemães se comportando como verdadeiras aves de rapina, o antigo berço da civilização não teve a menor chance.

Evelyn tinha esperança de conseguir reparar essas injustiças, ainda que minimamente.

As escavações começaram com entusiasmo. As condições de trabalho não eram muito ruins, e ela se habituara ao calor e aos insetos. Surpreendera-se com a boa vontade das autoridades. Os membros do Ba’ath tinham tomado o controle do país cinco anos antes, após uma década de golpes de Estado, e ela os achava pragmáticos e corteses. O Exorcista estava sendo filmado perto dali quando ela chegara, e o sangrento golpe de Saddam ainda demoraria muito para acontecer. A área nas redondezas da escavação era pobre, mas as pessoas eram gentis e cordiais. Bagdá ficava a duas horas dali, o que facilitava as possibilidades de comprar comida, tomar um banho decente e ter alguma vida social.

A descoberta acontecera por acaso. Ao cavar para obter água, um pastor de ovelhas encontrara um pequeno tesouro de tabuletas cuneiformes que estava, entre os mais antigos exemplos de escrita, numa câmara subterrânea perto de uma velha mesquita em Al-Hillah. Evelyn, que estava por perto, fora a primeira a chegar e decidira que a área merecia uma exploração mais profunda.

Algumas semanas depois, enquanto investigava uma velha garagem junto à mesquita, encontrou algo mais. O que achou não era nem tão antigo nem tão valioso quanto a primeira descoberta. Nem tão espetacular: tratava-se de uma série de pequenas câmaras abobadadas, soterradas há séculos. As primeiras que encontrou estavam vazias, a não ser por alguma mobília austera de ma­deira e algumas urnas, jarras e utensílios de cozinha. Interessante, mas não excepcional. No entanto, alguma coisa na câmara mais subterrânea chamou sua atenção: um grande entalhe circular de uma cobra devorando o próprio rabo fora gravado na parede principal do aposento.

O uróboro.

Era um dos mais antigos símbolos místicos do mundo. Suas origens podiam ser retraçadas por milhares de anos desde os dragões-porcos da cultura Hongshan, na China, até o antigo Egito, os fenícios e os gregos, que lhe deram o nome, uróboro, que significa a "devoradora de rabo”. A partir daí, a imagem foi encontrada na mitologia escandinava, na tradição hindu e no simbolismo asteca, para mencionar apenas alguns exemplos. Teve seu lugar também no enigmático simbolismo dos alquimistas ao longo dos séculos. A serpente auto-devoradora era um poderoso arquétipo que tinha diferentes significados para povos distintos - um símbolo positivo para alguns, porta­dor de males para outros.

Uma exploração mais profunda da câmara levou a curiosas descobertas. O que se pensara ser utensílios de cozinha era, na verdade, algo mais esotérico: equipamento de um laboratório primitivo. Um exame mais detalhado mostrou que os cacos de vidro eram, na realidade, fragmentos de frascos e recipientes. Vestígios de rolhas e provetas também foram encontrados, juntamente com outros jarros e bolsas feitas de pele de animais.

Alguma coisa agourenta naquelas câmaras despertou a curiosidade de Evelyn. Ela sentia como se tivesse tropeçado no local de um misterioso grupo clan­destino, uma cabala desconhecida que queria se reunir longe de olhos curio­sos, protegida pela sinistra devoradora de rabo. Passou as semanas seguintes explorando mais detalhadamente as câmaras subterrâneas e foi premiada com mais uma descoberta: uma grande jarra de cerâmica, coberta com pele de ani­mal, enterrada no canto de uma das câmaras escuras. Um uróboro semelhante ao da parede estava gravado nela. Dentro, Evelyn encontrou folhas de papel - material que substituíra o pergaminho e o velino naquela região, desde o século VIII, muito antes de chegar à Europa - ricamente grifadas e elaborada­mente decoradas com incríveis padrões geométricos, reproduções da natureza e estranhos e coloridos estudos anatômicos.

Enquanto Evelyn folheava as várias imagens desse símbolo em sua pasta - esboços, gravuras e outras técnicas de impressão -, encontrou um maço de fotografias velhas e desbotadas. Pôs a pasta de lado e as examinou. Havia várias fotos das câmaras e outras dela mesma com a equipe na escavação, uma das quais com Faronk. "Como ele mudou”, pensou. "Como todos mudamos”. Enrijeceu-se quando seus dedos pegaram uma foto, e um tremor lhe percorreu o corpo todo. Era bem mais nova, uma mulher ambiciosa de 30 anos, de olhos brilhantes, ao lado de um homem da mesma idade. Os dois estavam no sítio de uma escavação no deserto, aventureiros de um passado remoto. As fotos não estavam propriamente boas - eram pequenas cópias que ela mandara revelar na época e que tinham amarelado com o tempo, depois de trinta anos naquela pasta. O sol estava escaldante naquele dia, e os rostos estavam protegidos por óculos escuros e por chapéus de safári. Ainda assim, seus olhos percorreram os detalhes do rosto dele e, mesmo depois de todos aqueles anos, a visão fez seu coração disparar.

Tom.

Ela olhou mais atentamente a foto, e o barulho caótico da cidade transformou-se em silêncio. A imagem trouxe um sorriso meio amargurado a seu rosto, enquanto emoções conflitantes tomavam conta dela.

Nunca entendeu o que realmente acontecera.

Tom Webster aparecera sem se fazer anunciar em Al-Hillah, algumas sema­nas depois da descoberta. Apresentara-se como arqueólogo historiador junto ao Instituto Haldane, um centro de pesquisas ligado à Universidade Brown. Dissera-lhe que estava na Jordânia quando um colega mencionou as pesquisas de Evelyn sobre o uróboro. Pesquisas na idade das trevas, antes da internet, precisavam de visitas a bibliotecas e conversas com especialistas. Disse que viera de longe para vê-la e saber mais sobre sua descoberta.

Tinham passado quatro semanas juntos.

Nunca mais sentira o mesmo por outro homem.

Passavam os dias examinando a câmara, estudando os escritos e os fólios ilustrados, e seguindo pistas nas bibliotecas e museus de Bagdá e em outros lugares do Iraque, entrando em contato com estudiosos e historiadores.

A caligrafia dos textos remetia-os à era dos abássidas, por volta do século X. As tiras de couro de um dos fólios, submetidas a datação em carbono-14, confir­maram isso. Os textos eram lindamente escritos e ilustrados, e tratavam de uma variedade de temas: filosofia, lógica, matemática, química, astrologia, astrono­mia, música e espiritualidade. Mas nada informava quem os teria escrito, nem havia qualquer menção sobre o significado simbólico da devoradora de rabo.

Evelyn e Webster trabalhavam movidos pela mesma paixão; suas pesquisas

mostraram uma promessa inicial quando descobriram informações sobre um obscuro grupo da mesma época, a Irmandade da Pureza. A identidade da ir­mandade era motivo de especulação. Pouco se sabia sobre ela, exceto o fato de ser constituída por filósofos neoplatônicos que se reuniam secretamente de 12 em 12 dias, e cuja herança oculta incluía um impressionante compêndio de ensinamentos científicos, espirituais e esotéricos - provenientes de diferentes tradições -, considerado como a mais antiga enciclopédia conhecida.

Alguns aspectos dos escritos descobertos na câmara, no entanto, se assemelhavam aos escritos deixados pela Irmandade tanto no estilo como no conteúdo. Mas, nenhum dos escritos da câmara, tratava da espiritualidade de seus ocupantes. Embora originários do Islã, os escritos dos Irmãos também incluíam ensinamentos dos Evangelhos e da Torá. Os Irmãos eram vistos como livres-pensadores não filiados a nenhum credo, procurando a verdade em to­das as religiões e valorizando a sabedoria como o autêntico alimento da alma. Lutavam pela reconciliação, pela fusão das divisões sectárias que invadiam a região, na esperança de criar um amplo santuário espiritual para todos.

Evelyn e Webster tinham especulado se a cabala da câmara subterrânea podia ter sido um ramo da Irmandade, mas não havia o que comprovasse essa suposição, embora um dos aspectos dessa teoria se encaixasse muito bem: acreditava-se que os Irmãos tivessem bases em Basra e em Bagdá. Al-Hillah ficava entre as duas cidades.

Durante o tempo que passaram juntos, Evelyn se surpreendera pelo constante interesse de Webster e se espantara com sua ilimitada energia e vontade de elucidar o pequeno mistério que ela desenterrara. Apesar de ser uma pessoa de quem ela nunca ouvira falar, ele parecia saber muito sobre o uróboro e a his­tória da região.

Também tinha quase certeza de que ele se apaixonara por ela, como ela por ele. Isso tornara sua súbita partida ainda mais difícil de suportar, especialmente levando-se em conta o que ele lhe deixara. E tivera, desde então, que viver com essa mentira.

Seu rosto entristecia à medida que ela se lembrava daquela sofrida sepa­ração. A aceitação passiva que ela alimentara ao longo dos anos a dominou, afastando o sentimento de melancolia, trazendo-a de volta ao problema atual.

Umas poucas páginas ilustradas da câmara da cabala, fascinantes por sua beleza e mistério, encaravam-na das molduras expostas na parede em frente à sua mesa. Afastou os olhos delas e pegou o maço de fotos que Farouk lhe dei­xara. Tirou a que mostrava o antigo códice e sentiu um arrepio ao se lembrar das perturbadoras notícias que ele trouxera.

Alguém que ela conhecia estava morto. Por causa daquilo.

Onde o amigo de Farouk teria encontrado o livro? O que continha? Tantos anos antes, as pesquisas dela e de Tom nada tinham revelado. Por que o livro teria tanta importância?

Lembrou-se da última pergunta de Farouk: "Quem mais está atrás deste livro?"

Com tantos problemas à sua volta, aquela era a última coisa de que precisava. Mas não havia como escapar. Ela não queria ir ao encontro de Farouk, mas sabia que não podia decepcioná-lo. Ele contava com ela. Precisava de sua ajuda. Estava com medo. Quanto mais se lembrava do medo que tomara conta de si, mais apreensiva ficava em relação ao encontro.

Um outro pensamento lhe veio à mente.

Ela tinha de contar a Tom.

Quer dizer, se conseguisse encontrá-lo. Não tinham mantido contato. Na verdade, ela não falou ou esteve com ele desde que ele saiu do Iraque.

Nem mesmo quando descobriu que estava grávida.

Colocou a foto sobre a mesa e pegou sua agenda. Era uma grande Filofax de couro que possuía havia décadas e quase não podia fechar, devido aos cartões de visita, anotações e papéis que guardara entre suas capas gastas ao longo dos anos. Remexeu nos compartimentos e bolsos até encontrar o velho cartão. Seu nome, Tom Webster, estava impresso em letra cursiva, junto ao nome e o logo­tipo do Instituto Haldane. Resistira à tentação de usá-lo e, com o tempo, ele foi relegado a um canto remoto da Filofax e de sua mente.

Trinta anos. Era uma tentativa inútil.

O pedido de Farouk ecoou-lhe nos ouvidos. "Você tem que perguntar a ele,

Sitt Evelyn”. Alguma coisa dentro dela cedeu, e ela resolveu tentar.

Levou algum tempo até que o sinal passasse pelos vários satélites antes do som familiar do toque dos Estados Unidos se fazer ouvir, seguido da voz excessivamente amigável de uma mulher.

Evelyn hesitou.

- Estou tentando encontrar um velho amigo - ela disse finalmente, com voz insegura. - O nome dele é Tom Webster. Ele me deixou este contato, mas... Bem, isso faz tempo.

- Um momento, por favor. - O coração de Evelyn apertou-se, enquanto a telefonista verificava seus registros. - Sinto muito - a telefonista voltou a falar com uma voz inapropriadamente alegre. - Não temos ninguém com esse nome.

Evelyn encolheu-se na cadeira.

- Tem certeza? Poderia verificar outra vez?

A telefonista pediu a Evelyn que confirmasse o sobrenome, mas não encon­trou nada. Evelyn suspirou. A telefonista deve ter ouvido e acrescentou:

- Se quiser, posso verificar os registros pessoais e voltar a contatá-la. Talvez seu amigo tenha deixado algum endereço para reenvio de correspondência.

Evelyn lhe deu o nome e o número do celular de Beirute, agradeceu e desligou. Não tinha grandes expectativas de encontrá-lo, pois já tinha se passado muito tempo. Mas a ansiedade continuava a deixá-la inquieta e tensa.

Consultou o relógio. Eram quase sete horas. Franziu a testa. Tinha combinado encontrar Mia para um drinque em seu hotel. O horário não podia ter sido pior. Pensou em telefonar e cancelar, mas não conseguia suportar a idéia de ficar sentada sozinha mais duas horas, refém das memórias que brotavam em sua mente, esperando por um encontro que a cada momento temia mais.

Decidiu que um drinque com sua filha, boa música e alguns rostos agradáveis, era uma boa forma de passar o tempo. Tinha apenas que evitar esse assunto particularmente perturbador. Ao menos até compreender o que estava acontecendo.

Fechou a agenda e a colocou sobre a escrivaninha, enfiou as fotos e seu celular na bolsa e dirigiu-se para o hotel, do outro lado da rua.

 

Os aparelhos de telex tinham sido relegados ao passado. O medíocre restaurante chinês tinha fechado, cedendo lugar a um novo e luxuoso estabelecimento, pertencente à cadeia Benihana. O News Bar, também desaparecera - substituído pelo bar de nome igualmente imaginativo chamado Lounge, revestido de painéis de madeira escura, com música ambiente do Café del Mar e mojitos de maracujá -, assim como Coco, o papagaio do hotel, cujas perfeitas imitações de granadas tinham feito com que muitos dos freqüentadores ocasio­nais corressem em busca de abrigo.

Os 15 minutos de fama do hotel datavam da década de 1980, quando fora o local favorito dos "eleitos" de Beirute. Dan Rather, Peter Jennings - todos eles tinham se hospedado lá. Numa época em que as milícias rivais transformavam Beirute ocidental no modelo moderno de caos urbano, antes de essa honra ser usurpada por Mogadíscio e depois por Bagdá, o Commodore era um santuário de filés mignons, eletricidade, máquinas de telex e um bar sempre bem abaste­cido, graças ao destemido gerente e a alguns vultuosos pagamentos de prote­ção. Verdade seja dita, o gerente provavelmente fazia um trabalho muito bom. A maioria dos repórteres que cobria os acontecimentos raramente se aventu­rava além da segurança almofadada do hotel, enchendo seus relatórios com testemunhos escritos atrás de uma escrivaninha, e não das linhas inimigas.

Aqueles dias tinham acabado havia muito tempo, felizmente - pelo menos para a maioria. As reformas profundas que trouxeram a cidade de volta à vida não afetaram a fama do hotel, agora conhecido como Meridien Commodore. Apesar da caprichada maquiagem, continuava sendo o local preferido da im­prensa, mesmo sem Coco. O grupo era fiel, uma fidelidade muito evidente des­de a súbita erupção da rápida, mas brutal guerra que dominara as manchetes do mundo inteiro durante aquele verão. O Commodore estava de novo por cima, sustentado a álcool, adrenalina e a melhor conexão banda larga da cidade, além da facilidade de fazer com que os hóspedes se sentissem parte de uma grande família siciliana - situação confortável para Mia Bishop, já que sua experiên­cia em cenários de guerra era nula.

Não que isso fosse algo que estivesse louca para mudar.

Ela não tinha exatamente escolhido a genética como uma passagem para a aventura.

 

- Sei que não é da minha conta, mas... você tem certeza de que está bem? Depois de conversar com Evelyn sobre o andamento de seu próprio trabalho e trocar anedotas e observações sobre os incontáveis efeitos da guerra que iriam marcar suas vidas num futuro próximo, Mia finalmente fez a pergunta. Alguma coisa a incomodava desde que se sentaram, e, embora fosse desagradá­vel perguntar, sentia-se ainda mais desconfortável por não oferecer à mãe uma abertura, caso ela precisasse.

Evelyn mudou ligeiramente de posição ao ouvir a pergunta, acomodando­-se no sofá, depois tomou um gole de vinho.

- Estou bem - ela disse, com uma espécie de sorriso forçado, antes que seus olhos ficassem vagando e se perdessem no reflexo do vinho. - Não é nada.

- Tem certeza?

Evelyn hesitou.

- É só que... vi alguém hoje. Alguém que não via há muito tempo. Quinze anos ou mais.

Mia sorriu de maneira significativa.

- Entendi.

Evelyn percebeu a insinuação.

- Não é nada disso, acredite - protestou ela. - É apenas um atravessador local que ajudava nas escavações. No Iraque. Antes de Saddam. Eu estava no sul com Ramez. Você já o conheceu, não?

Mia fez que sim com a cabeça.

- Acho que sim. Na semana passada, em seu escritório? Um cara baixinho, não é?

Era o único colega de Evelyn que tinha conhecido. Mia estava em Beirute havia apenas três semanas. Tinha voado num dos primeiros aviões que ater­rissara depois da reabertura do aeroporto cujas pistas haviam sido danificadas pelos ataques israelenses nos primeiros dias de guerra.

Sua apresentação ao estranho mundo da Beirute pós-guerra tinha sido rápida: o enorme airbus tinha parado abruptamente segundos depois de ter tocado o solo e girado para fora da pista, evitando com destreza uma escavadeira e um caminhão de cimento que tapavam uma grande cratera aberta por uma bomba no meio da pista. Mia ainda podia visualizar o aceno casual que os operários deram aos passageiros em choque.

Beirute estava de novo em ordem, com ou sem cratera na pista. E Mia pude­ra, então, dar prosseguimento ao importante projeto fenício em que trabalhava havia cerca de um ano, embora alguns meses além do previsto.

Ela fora abordada enquanto trabalhava com uma pequena equipe de geneticistas, em Boston, responsável pela prodigiosa tarefa de mapear a difusão da es­pécie humana no mundo. Esse projeto, que envolvia a coleta e análise de amostras de DNA de milhares de homens que viviam em tribos isoladas em todos os con­tinentes, confirmara, sem sombra de dúvida, que somos todos descendentes de uma pequena tribo de caçadores que existiu na África há cerca de sessenta mil anos, uma descoberta que não tinha sido muito bem aceita nos círculos mais "sensíveis”. Mia tinha se incorporado à equipe logo depois de sua pós-graduação e pouco antes de as descobertas centrais terem sido divulgadas. Desde então, o trabalho fora repetitivo, uma espécie de anticlímax, consistindo quase somente na coleta de um número cada vez maior de amostras. Ela pensou em se trans­ferir para outra área, mas os trabalhos mais interessantes no campo da genética eram, naquele momento, prejudicados pela aversão presidencial em relação às células-tronco. Portanto, agüentara firme - até que surgiu a nova oferta.

O homem que a contratara era um representante da Fundação Hariri, uma instituição beneficente que havia sido constituída pelo antigo e bilionário primeiro ministro do Líbano, antes de ser assassinado em 2005. A proposta era vaga mas tentadora: queriam que ela ajudasse a descobrir quem haviam sido os fenícios.

E isso a interessava.

Surpreendentemente, apesar de serem mencionados em muitos textos antigos escritos por aqueles com quem interagiam, pouco se sabia em primeira mão sobre os fenícios. O povo ao qual se atribuía a invenção do primeiro alfabeto e cujo papel de "intermediários culturais" fizera com que a Grécia fosse revita­lizada, conduzindo ao nascimento da civilização ocidental, não tinha deixado muitos legados. Nada de seus escritos ou literatura tinha sobrevivido, e tudo o que se sabia sobre eles fora por meio de terceiros. Até o nome tinha sido atribuí­do a eles por outros - os gregos antigos, que os chamavam de phoinikes, o povo vermelho, devido às roupagens vermelho-arroxeadas que fabricavam usando um corante extremamente apreciado, extraído das glândulas dos moluscos. Não havia bibliotecas fenícias, tesouros de sabedoria, ou rolos de papiro dentro de jarras de alabastro. Nada sobrara dos dois mil anos da enigmática história, que conheceu um fim brutal quando suas cidades-Estado caíram nas mãos de uma série de invasores. Sendo os últimos os romanos, que, em 146 a.C., quei­maram Cartago, espalharam sal em suas ruínas, proibiram o estabelecimento de novas colônias durante 25 anos e destruíram o último grande centro da cultura fenícia. Era como se todos os seus traços tivessem sido apagados da Terra.

Mas o nome era motivo de grande paixão no Líbano.

Depois da guerra civil das décadas de 1970 e 1980, algumas facções cristãs do Líbano tinham efetivamente seqüestrado o nome, usando-o para criar uma sutil distinção entre elas e os seus compatriotas muçulmanos, que consideravam migrantes tardios da península arábica depois da ascensão do Islã, e com menos direito à terra. Cada argumento na região acabava por se resumir a quatro pa­lavras: "Nós chegamos aqui primeiro”. As tensões tinham se intensificado a tal ponto que a palavra "fenício" se tornou tabu nos círculos oficiais. Não era men­cionada nem uma única vez no Museu Nacional de Beirute, onde as legendas das exposições agora ostentavam uma terminologia mais politicamente correta, ou seja, “Antiga Idade do Bronze”.

O que era uma vergonha - assim como uma provável distorção da história. Daí o projeto.

Mia sabia que estava pisando num campo minado. As metas do projeto eram bastante altruístas: se fosse possível utilizar amostras de DNA para estabelecer que todos os habitantes do país, cristãos e muçulmanos, eram des­cendentes de uma mesma cultura, um mesmo povo, uma mesma tribo, isso ajudaria a reduzir os preconceitos de longa data e inspiraria um sentimento de unidade. Dois especialistas locais tinham sido contratados para trabalhar com Mia: um respeitado historiador que lecionava na universidade e um geneticis­ta como seu assistente. O primeiro era cristão, o segundo, muçulmano. Mas como Mia logo descobriu, a fidelidade tribal era da maior importância para as pessoas da região, e redefinir a história não era uma tarefa necessariamente bem-vinda.

Ainda assim, ao se aproximar dos 30 anos, sem marido ou filhos com os quais se preocupar, uma agenda social tão vazia quanto uma loja de bebidas alcoólicas no centro de Cabul e um projeto interessante e generosamente finan­ciado, tomar essa decisão não fora difícil, sobretudo se acrescentamos a isso a oportunidade de conhecer melhor sua mãe.

Poder realmente conhecê-la.

Assinara, então, na linha pontilhada, e fizera as malas - desfazendo-as em seguida para ficar vendo a CNN durante dois meses, até que a luta terminasse, o cessar-fogo fosse finalmente garantido e o embargo, estabelecido.

- Está literalmente sob a mesquita - Evelyn estava dizendo a Mia. – Pode ser uma das mais antigas capelas existentes. É incrível. Levo você lá, se quiser. Ramez é de uma cidadezinha próxima, por isso ouviu a respeito.

- E esse cara apareceu assim, do nada?

Evelyn assentiu.

Mia examinou a mãe. Alguma coisa na firme honestidade de sua voz assegurou Mia de que Evelyn não estava apenas sendo discreta - o estremecimento ainda estava lá.

- Não consigo imaginar o que devem estar passando - comentou Mia.

- Ele estava procurando trabalho?

Evelyn estremeceu, sentindo-se desconfortável.

- Sim. De certa forma. É... complicado.

Ela parecia não querer aprofundar o assunto. Mia decidiu interromper ali. Registrou a resposta de Evelyn com um pequeno aceno e um sorriso e deu mais um gole. O silêncio se instalou durante um curto momento, até que um garçom se aproximou, voltou a encher o copo de Mia com a garrafa quase vazia que estava dentro do balde de gelo e perguntou se queriam outra.

Evelyn endireitou-se, voltando à realidade.

- Que horas são?

Consultou o relógio, enquanto Mia balançava a cabeça negativamente para o garçom. Quando ele se afastou, Mia reparou num homem com cabelos negros cortados bem rentes, olhos profundos e rosto cheio de marcas, no bar, fumando e olhando para elas de canto de olho - um olhar frio, por um instante excessiva­mente direcionado. Mia estava em Beirute havia pouco tempo, mas o suficiente para perceber que, naquela cidade, os homens a olhavam mais do que estava habituada, não apenas por causa de sua aparência, mas também pela palidez da sua pele levemente sardenta e por seus cabelos castanhos. Estaria mentindo se dissesse não gostar dos olhares galanteadores, e nesse caso teria encarado o olhar do homem como um elogio, especialmente se ele fosse charmoso; mas nem mes­mo a mãe dele poderia achá-lo charmoso, e não havia nada de galanteador em seu olhar. Na realidade, aquele olhar a assustara. O que, mais uma vez, não era novidade naquela cidade - o lado desagradável de sua exótica aparência estran­geira era que, desde o inesperado início da guerra, muitas pessoas olhavam com raiva ou desconfiadas, especialmente para os de fora. Mas de alguma maneira ele não se enquadrava, não parecia estar ali para se divertir, a expressão de seu rosto era demasiado dura e fria, distante demais, como a de um andróide, e. ..

Evelyn interrompeu a pequena paranóia de Mia, levantando-se subitamente.

- Tenho que ir. Não sei onde ando com a cabeça - ela se censurou, pegando o casaco e a bolsa do sofá. Voltou-se para Mia. - Desculpe, mas realmente não posso me atrasar para... Tenho um encontro. Podemos pedir a conta?

Mia podia ver a urgência estampada no rosto da mãe.

- Vá. Eu pago.

Evelyn remexeu na bolsa.

- Ao menos deixe-me...

Mia colocou a mão sobre a da mãe, num gesto confortador.

- Não se preocupe. Vá. Você paga a próxima.

Evelyn sorriu para ela com um olhar de gratidão, cuidado, inquietação e talvez até, pensou Mia, medo - e saiu apressada.

Mia a viu passar pelos clientes mais próximos e desaparecer no meio de um grupo. O bar estava animado com a habitual clientela de boêmios e fumantes inveterados. Ela se recostou, sem saber o que pensar, mas quando passou os olhos pelo salão, viu o andróide deixando o bar.

Parecia apressado.

Apressado demais.

Uma luz se acendeu na já inquieta mente de Mia. Tentou segui-lo com os olhos e chegou a se levantar, esticando o pescoço, mas ele já se perdera no mar de gente que enchia o bar e bloqueava sua visão da entrada.

Pensamentos ruins jorraram dos cantos escuros de sua imaginação, e o salão parecem se distanciar e ficar fora de foco. Os dois - ou seriam três? - co­pos de vinho que tomara não a ajudaram. Ela sentou-se novamente, confusa e aturdida, tentando se acalmar. Foi então que ela viu.

O celular de Evelyn.

Enfiado na reentrância do sofá, quase invisível.

Reviu mentalmente os últimos acontecimentos - e se lembrou de ver a mãe tirar o celular da bolsa ao chegar e colocá-lo no sofá a seu lado, como se esperasse uma ligação.

Mia não hesitou.

Pegou o celular e saiu atrás dela.

 

Mia chegou ao saguão do hotel, depois à rua, a tempo de ver um táxi Mercedes cinza desaparecer pela Rue Commodore. Pelo vidro traseiro, pôde vislumbrar a parte de trás da cabeça de Evelyn. Vários taxistas que ficavam nas imediações do hotel esperando uma corrida vieram oferecer-lhe seus serviços; na confusão, outro carro passou por ela, um BMW preto, com quatro ho­mens - e através do pára-brisa Mia pôde ver o andróide do bar falando num celular, enquanto olhava fixamente para a frente, os olhos negros como granito grudados no táxi de Evelyn.

Agora não tinha mais dúvidas em sua mente confusa: Evelyn estava sendo seguida.

        "Isso não pode ser bom”.

        Um pensamento atravessou sua mente nublada pelo Sauvignon por um décimo de segundo - ligue para o celular, avise-a - antes que ela se lembrasse de que o celular da mãe estava em sua mão.

        "Ótimo”.

        Ela olhou para a esquerda, para a direita, uma forte descarga de adrenalina percorrendo e clareando sua mente, fazendo-a lutar para recuperar o controle de seus pensamentos rápidos e absurdos, as ofertas abundantes e confusas dos taxistas que a perturbavam. Em seguida, agarrou o motorista mais próximo e gritou-lhe:

- Onde está seu carro?

Num inglês macarrônico, ele disse que seu táxi estava logo ali e apontou para um outro Mercedes - devia haver mais Mercedes ali do que em Frankfurt, pen­sou Mia ao alcançar o carro estacionado em frente ao hotel, do outro lado da rua.

Apontou para o BMW que se afastava. Dois outros carros já tinham se        interposto.

- Está vendo aquele carro? Temos que segui-lo. Temos que alcançá-lo. OK?

O taxista pareceu não compreender e deu de ombros, lançando um olhar divertido para seus colegas...

Mas Mia já estava empurrando-o para o carro.

- Anda, vamos, yalla - insistiu. - Temos que seguir aquele carro, en­tende? Seguir? O carro? - Ela gesticulava loucamente, enunciando as sílabas devagar, como se, num passe de mágica, isso tornasse compreensíveis suas palavras estrangeiras.

Alguma coisa, no entanto, fez sentido, e o taxista pareceu entender que ela tentava dizer algo muito urgente. Levou-a para o carro, conduziu-a ao banco traseiro e sentou-se ao volante; em segundos, o táxi deixou o estacionamento e entrou no caótico trânsito noturno.

 

Mia estava debruçada, quase sentada em cima do taxista, enquanto o carro parava e andava pelas ruas estreitas e congestionadas da Beirute ocidental. Desceram toda a Rue Commodore, Mia olhando cada cruzamento para ter certeza de que o táxi de Evelyn não tomara outra direção; finalmente viu o Mercedes entrar à direita e seguir em direção à praça Sanayeh.

O BMW preto, uns dois carros adiante, continuava a seguir o Mercedes cinza.

A cabeça de Mia girava. Estava lutando para conseguir ser entendida pelo taxista, tentando fazê-lo manter um delicado equilíbrio entre não perder de vista o carro de Evelyn e não deixar o andróide e seus amigos perceberem que estavam sendo seguidos - coisa nada fácil de transmitir quando se está basi­camente gesticulando as instruções pelo espelho retrovisor.

Ao mesmo tempo, uma enxurrada de perguntas lhe veio à mente. Por que sua mãe estava sendo seguida? Quem a estava seguindo? Estavam apenas de olho nela? Afinal, aquele era um típico lugar para a existência de uma "polícia secreta” e, com a guerra recente, os estrangeiros eram sempre suspeitos, não eram? Embora não entendesse que ameaça uma senhora de 60 anos podia representar. Ou queriam machucá-la? Seqüestrá-la? Não havia seqüestros de estrangeiros em Beirute desde os dias de faroeste da década de 1980. Mia estudou sobre a cidade depois que o representante da fundação a contatara - mas toda a região estava fora de controle; extremistas por todos os lados da grande fronteira sonhavam com novas formas de infligir dor ou provocar indignação, e nada, na verdade, era inimaginável.

"Está bem. Agora você está sendo ridícula. Acalme-se. Ela é uma professora arqueóloga, pelo amor de Deus. Mora aqui há muitos anos. Deve ser alguma formalidade rotineira. Você vai lhe devolver o celular, ela seguirá para seu en­contro e você voltará ao hotel a tempo de ver o programa de Jon Stewart”.

Mas não se convenceu.

Tudo parecia muito, muito errado.

Passando a noite em retrospecto na cabeça, e apesar de não conhecer sua mãe tão bem assim, Mia notara o desconforto e a falsa segurança em sua voz desde em que se sentaram para conversar naquela noite.

Era um pequeno milagre, na verdade, que o vínculo entre elas ainda fosse forte.

Na realidade, Mia tinha sido criada desde os 3 anos pela irmã de sua mãe, Adelaide, e por seu marido, Aubrey, em Nahant, uma pequena ilha ao norte de Boston, ligada ao continente por uma ponte. Mia via a mãe apenas quando ela vinha no Natal, ou durante os verões, quando Mia ia até a escavação em andamento.

Logo após ter dado à luz em Bagdá, ficara claro para Evelyn que criar Mia no Iraque estava longe de ser o ideal. Ser mãe solteira naquele tempo no Oriente Médio era um convite ao desprezo velado. A situação política também não era boa. Um ano depois que Mia nascera, Saddam Hussein tomara o poder num golpe sangrento, mergulhando o país no medo e na paranóia. O Iraque tinha cortado relações diplomáticas com a Síria, e conflitos ao longo da fronteira com o Irã tinham levado à guerra de 1980, que durara dez anos. As escavações de Evelyn eram razão de orgulho para o novo regime, portanto ela estava em segurança. Mas as condições a seu redor se tornavam cada vez mais difíceis e, pouco depois, ela fora obrigada a tomar um avião em direção ao Cairo.

O Egito a acolheu, e o trabalho era extremamente compensador. As escolas e os cuidados com a saúde eram outra questão. Evelyn lutou durante seu pri­meiro ano lá, tentando equilibrar a maternidade com as escavações, buscando dar a Mia uma vida decente, embora sabendo que, mais cedo ou mais tarde, teria que escolher. A epidemia de cólera que se abateu sobre o país quando Mia tinha 3 anos a convenceu de que não podia mantê-la ali. A medicina era precária, crianças morriam, e Evelyn teve que levar Mia para um lugar melhor e mais seguro.

A simples idéia de deixar a região lhe causava aflição. Sua irmã, Adelaide, lhe possibilitou fazer a difícil escolha. Ela e o marido tinham uma filha cinco anos mais velha do que Mia. Complicações no parto impediram Adelaide de ter mais filhos, apesar de ela e o marido desejarem muito. Estavam pensando em adotar uma criança quando Evelyn veio passar o Natal. E, numa noite, quando a neve branqueava a praia lá fora, Adelaide fez a sugestão. Eles for­mavam um casal estável e amoroso - ambos professores universitários -, e Evelyn sabia que podiam dar a Mia um lar cheio de amor e uma irmã.

Tinham cumprido a palavra. Mia tivera um ótimo lar. Fora para a faculdade e, como costuma acontecer, afastara-se de Evelyn.

Foi quando este projeto apareceu.

A investigação de Mia sobre o DNA estava intimamente ligada à pesquisa mais tradicional e à caça de pedras e ossos por historiadores e arqueólogos. O projeto contava com dois especialistas locais sobre a Fenícia, mas muitas das informações de que ela necessitava faziam parte do cotidiano de Evelyn. E, assim, deram início a uma relação logo que Mia chegara a Beirute, mais como amigas do que como mãe e filha.

Mia teria gostado de uma relação mais calorosa, mas com Evelyn isso era difícil. Embora tivesse uma curiosidade instintiva sobre a vida das pessoas, ela raramente expunha a sua própria. Mia dividia esse fascínio, mas era muito mais aberta - aberta demais, de acordo com sua mãe. Portanto, ela encontrara uma Evelyn distante e reservada, e seu sentimento inicial foi o de que iriam colaborar uma com a outra cordialmente no trabalho e nada mais. Mas depois de várias idas a distantes sítios arqueológicos e uns dois jantares regados a arak em tradicionais tekhshibis na montanha, Mia descobrira com agradável surpresa que a escavadora Evelyn Bishop, eficiente e racional, era comandada por um grande coração.

Um grande coração que agora estava sendo perseguido por homens com intenções misteriosas.

 

Controlando sua inquietação, Mia se concentrou na estrada. Por um momento perdeu de vista o Mercedes, mas ele reapareceu meia dúzia de carros à frente, seguido de sua sombra.

O táxi de Evelyn deixou a rua principal e desceu em direção ao centro da cidade. Destruído durante a guerra civil, o coração da velha cidade fora recons­truído sem economia de recursos, e agora fervilhava com shopping centers e restaurantes. O Mercedes e o BMW conseguiram passar antes que o trânsito se fechasse em torno do táxi de Mia, com carros vindos de três direções que se encontravam no cruzamento à frente, num salve-se quem puder.

Mia incitava o taxista com gestos frenéticos e pedidos absurdos, brigando e atiçando-o enquanto ele tentava ultrapassar o labirinto de pára-lamas e pára-­choques que os envolvia. Depois de muitos insultos e alguns gestos ameaçado­res, finalmente chegaram à estrada.

O trânsito tornou-se mais engarrafado ao se aproximarem das zonas de pedestres e, uns 100 metros à frente, Mia viu Evelyn saindo do táxi e desapare­cendo no alvoroço do centro comercial.

- Lá está ela - exclamou, apontando para a figura distante. Sua adrenalina baixou ao se dar conta de que seu táxi estava parado novamente. Entre ela e Evelyn havia um sólido congestionamento, controlado por um único guarda de trânsito, que, como Moisés, tentava fazer os carros da rua transversal passarem.

Mia olhou para a esquerda e para a direita, querendo avaliar a melhor opção, quando avistou o andróide e um outro homem descendo do BMW - também parado no trânsito -, esgueirando-se em direção a Evelyn. A área estava atulhada de pessoas - nunca se jantava em Beirute antes das nove, e numa amena noite de outubro como aquela os restaurantes e as praças reserva­das aos pedestres daquela área se tornavam muito populares, ficando abertos até bem depois da meia-noite. A escolha de Mia deixou de ser teórica: seguir Evelyn dentro de um carro em relativa segurança, com um motorista ligeira­mente corpulento, era uma coisa; chegar até ela possivelmente evitando seus perseguidores era outra completamente diferente.

Ela não tinha opção.

Tirou uma nota de 10 dólares do bolso e entregou-a ao motorista - o dólar americano era a moeda preferida no Líbano - e, com o coração na boca, saiu do carro e avançou pelo meio do trânsito, esperando que seus instintos esti­vessem errados e perguntando-se o que faria se não estivessem.

 

A cabeça de Evelyn zunia com as perguntas que ela própria se fazia desde que Farouk aparecera em Zabqine. Cumprindo a palavra, lá estava ele, fumando ner­vosamente, esperando por ela sob o relógio da torre, no meio da Place de l'Étoile.

Com pouco mais de cem anos, foi por um milagre que a torre sobrevi­veu ao pior da guerra civil, apesar de estar localizada na conhecida Linha Verde, que dividia a Beirute ocidental da oriental. Quase 15 anos depois da meticulosa restauração do sofisticado trabalho otomano em suas partes altas, mantinha-se vigilante sobre a cidade novamente tomada pela raiva e pela in­dignação. Bandeiras libanesas e cartazes contra a guerra balançavam em suas laterais, enquanto imagens dos horrores das recentes batalhas foram coloca­das em sua base.

Farouk tinha escolhido bem. A praça estava cheia de gente, alguns observando em silêncio, outros carregando sacolas de compras ou conversando nos celulares. Era fácil passar despercebido na multidão, e era isso o que pretendia. A localização do edifício do Parlamento no outro extremo da praça, guardado por soldados armados, era outro ponto positivo.

Com a aproximação de Evelyn, Farouk apagou o cigarro e, depois de olhar apreensivamente para trás, conduziu-a para longe da torre, em direção a uma galeria.

Evelyn dispensou as formalidades e foi direto ao assunto.

- Farouk, o que está acontecendo? O que você quis dizer ao falar que Hajj Ali morreu por causa disso? O que aconteceu com ele?

        Farouk parou num canto sossegado, ao lado de uma galeria de arte já fecha­da. Virou-se para ela, puxando um cigarro com dedos trêmulos. Uma sombra passou-lhe pelo rosto, dando a idéia de que ele lutava com lembranças eviden­temente dolorosas.

- Quando Abu Barzan, meu amigo de Mossul, mostrou-me pela primei­ra vez o que tinha para vender, pensei imediatamente em você para o livro com o uróboro. O restante... sem dúvida eram boas peças, porém eu sabia que você não gostaria de se envolver com nada daquilo. Mas você tem que entender, as outras peças são as mais valiosas, e, como eu tinha dito, precisa­va de dinheiro, o máximo que conseguisse, para me manter longe para sem­pre daquele lugar amaldiçoado. Tentei entrar em contato com alguns de meus clientes menos, digamos, conscienciosos, mas eles não são muitos. Então, contei a Ali. Ele tinha alguns bons contatos, uma clientela diferente da mi­nha, que fazia poucas perguntas - e eu tinha pressa, tinha que encontrar um comprador antes que Abu Barzan o fizesse, mesmo que fosse necessário divi­dir minha parte com um terceiro, como Ali. Metade era melhor que nada, e, se Abu Barzan conseguisse vendê-las antes de mim, eu ficaria sem nada. Quan­do contei a Ali, dei-lhe cópias das fotografias que Abu Barzan tinha me dado - Farouk balançou a cabeça como para se repreender por um grande erro. ­Cópias de todas as fotos.

Farouk deu uma longa tragada no cigarro, como se estivesse se preparando para a parte mais difícil da história.

- Não sei a quem ele as mostrou, mas voltou em menos de uma semana, dizendo que arranjara um comprador para todo o lote, pelo preço combinado. Todo o lote. Eu queria deixar o livro fora do pacote... Sabia como naquela época você estava interessada por tudo que se relacionasse com aquele sím­bolo, e pensei que você poderia me ajudar a vender o resto, ou ao menos me arranjar um emprego em Beirute. Então, disse a Ali que o comprador dele podia levar tudo, menos o livro, mas que faríamos um pequeno desconto para compensá-lo. Ali concordou que era uma contraproposta razoável; só as duas estatuetas de alabastro valiam mais do que estávamos pedindo por tudo, e o comprador certamente não sentiria falta do livro. - Ele engoliu com dificul­dade. - Eu estava redondamente enganado.

“Durante uma semana não tive mais notícias. então, numa manhã, a mulher dele me telefonou alucinada. Disse que alguns homens tinham ido buscá-lo na loja. Não eram iraquianos. Pensou que fossem sírios e que podiam até ser", ele esfregou as narinas, como se a própria palavra fosse suficiente para causar dor, "mukhabarat."

Mukhabarat.

Um termo conhecido na região, normalmente pronunciado com cautela, em voz baixa, uma das primeiras palavras que Evelyn aprendera quando chegara a Bagdá, há tantos anos. Literalmente queria dizer "informação" ou

"comunicação, mas ninguém o usava nesse contexto. Não mais. Não desde que se tornara a abreviação para o nome da polícia secreta, os implacáveis "fornecedores de informação", sem os quais nenhum tirano podia governar. Não que essas agências de segurança interna fossem limitadas ao Oriente Médio. Na perturbadora nova ordem mundial do século XXI, quase todos os países ­com exceção, talvez, de Liechtenstein - dependiam delas, e todos pareciam tratar suas vítimas com tal crueldade que faziam com que as práticas enlouque­cidas do viking Ivar, o Sem Ossos, parecessem bobas.

- Mantiveram-na do lado de fora da casa enquanto dois homens falavam com ele - acrescentou Farouk, aflito -, depois ela ouviu gritos. Queriam saber onde estavam as peças. Bateram nele algumas vezes e arrastaram-no para fora da loja, enfiaram-no em um carro e partiram. Levaram-no, simples assim. É uma prática comum hoje em dia no Iraque, mas esta não tinha natureza política. An­tes de partirem, a mulher de Ali ouviu-os falando das fotografias, das cópias que eu lhe dera. Eram os compradores, Sitt Evelyn, ou, mais precisamente, represen­tantes do possível comprador. E um deles disse ao outro: "Ele só quer o livro. Podemos vender o resto nós mesmos”. "Só o livro”, Sitt Evelyn, está entendendo?

Evelyn sentiu uma náusea subir-lhe à garganta.

- E o mataram?

Farouk teve dificuldade de pronunciar as palavras.

- Seu corpo foi encontrado naquela noite, jogado na vala de uma estrada. Estava... - ele balançou a cabeça, claramente atormentado pelo pensamento, e deixou escapar um suspiro dolorido. - Tinha sido torturado com uma fura­deira elétrica.

- E o que você fez?

- O que podia fazer? Ali não conhecia Abu Barzan. Não tinha lhe dito de onde vinham as peças. Embora o conhecesse bem, os tempos agora são deses­peradores, vivemos constantemente amedrontados e paranóicos, e tenho ver­gonha de admitir que não tinha confiança suficiente nele para lhe contar sobre Abu Barzan, com medo de que resolvesse negociar pelas minhas costas.

Evelyn percebeu aonde iam chegar.

- O que quer dizer que Ali só podia lhes contar sobre você.

- Exatamente. Por isso fugi. Joguei algumas coisas na mala logo que desliguei o telefone, e saí. Tinha algum dinheiro em casa; é onde todos guardamos o que temos, porque os bancos não são mais seguros. Não muito dinheiro, mas o suficiente para sair de Bagdá, o suficiente para subornar os homens na fron­teira. Então, peguei-o e fugi. Escondi-me na casa de um amigo e, nessa noite, depois que o corpo de Ali foi encontrado, tive certeza de que viriam atrás de mim. Saí do país. Tomei um ônibus, peguei caronas em caminhões, tudo o que encontrava. Primeiro Damasco. Era um percurso menos óbvio do que por Amman. E mais perto de Beirute, aonde eu queria chegar. Para vê-la. Perguntei na universidade e me disseram que você passaria o dia em Zabqine. Não podia esperar. Tinha de vê-la.

Evelyn odiou a pergunta que seria obrigada a fazer. Apesar do mal-estar que sentia pelo horrível fim de Ali e sua sincera piedade por Farouk - não apenas por sua situação atual, mas pelo pesadelo que devia ter vivido nos últimos anos -, não conseguia deixar de pensar na fotografia.

Controlou as emoções.

- E o livro? Você o viu? Sabe onde está?

Farouk pareceu não se importar.

- Quando Abu Barzan me procurou, pedi-lhe para ver a coleção, mas ele não a tinha no momento. Era perigoso levá-la na viagem. Muito controle nas estradas e milícias. Acho que a mantinha em sua loja, ou em casa, num lugar seguro. Só iria transferi-la quando tivesse um comprador... atravessaria a fronteira, num lugar seguro, para fechar o negócio na Turquia ou na Síria, mais provavelmente na Turquia, que não fica longe de Mosul, sem arriscar passar por Bagdá.

Muitas outras perguntas atormentavam Evelyn.

- Mas como ele a conseguiu? Não disse onde a encontrou?

Farouk não respondeu. Estava olhando para além de Evelyn e, subitamente, seus olhos brilharam de medo. Pegou na mão dela.

- Temos que ir. Já.

Por alguns segundos, ela não registrou as palavras dele. Era como se estivessem penduradas no ar, numa conversa paralela que ela testemunhava de longe. Depois sentiu sua cabeça se virar, praticamente por reflexo, fora de seu controle, seguindo o olhar alarmado dele e vendo dois homens atarracados, os mesmos que achava já ter visto antes, suas bocas formando um fino traço debaixo dos grossos bigodes, os olhos como fendas escuras, sem vida, numa máscara marcada por cicatrizes, forçando o caminho entre a multidão, em direção a eles.

Farouk quase arrancou seu braço, e começaram a se mover rapidamente no meio da multidão inconsciente do perigo.

 

A adrenalina percorria as veias de Mia enquanto ela avançava com cuidado pela rua movimentada, tentando desesperadamente descobrir algum sinal da mãe sem chamar a atenção. Perdera preciosos segundos ao atravessar o fluxo do tráfego e contornar o BMW: Quando finalmente alcançou a zona de pedes­tres, o andróide e seu amigo tinham desaparecido.

Ao chegar ao final da passagem coberta, não teve outra escolha senão aban­donar a precária proteção das colunas e entrar na praça, que descia suavemente em direção ao relógio da torre. O ar a seu redor estava carregado com um misto de festividade e nostalgia. Torcendo para não ser descoberta, passou pelas filas de mesas dos restaurantes, as mãos suadas de nervoso, os olhos à procura de qualquer sinal de Evelyn ou de seus perseguidores.

Abriu-se uma clareira momentânea na multidão, e seu coração gelou quando avistou a mãe, a uns 100 metros, falando com um homem que ela não re­conheceu. O alivio a invadiu por um instante - Evelyn estava ali, falando com alguém que certamente conhecia, tudo ia dar certo -, antes de ver o homem reagir a alguma coisa, agarrar o braço de Evelyn e fugirem juntos.

A urgência da reação atingiu Mia. Olhando ao redor da praça, avistou o andróide e seu parceiro entre ela e Evelyn, não propriamente correndo, mas andando tão rápido quanto possível para não despertar atenção.

Um medo que nunca havia sentido em sua protegida vida acadêmica a percorreu e ela ficou paralisada. Queria gritar por socorro, mas não havia rostos familiares, nenhum policial, nenhum tempo para pensar.

Pôs o medo de lado, obrigou as pernas a se moverem e correu no encalço deles.

Farouk e Evelyn apressaram-se pela área de pedestres, esgueirando-se no meio da multidão, movendo-se sem um plano de fuga preconcebido, ambos lançando olhares de pavor a seus incansáveis perseguidores enquanto tentavam manter distância.

- Farouk, pare - gritou Evelyn, com uma voz cheia de irritação e pânico. - Há pessoas à nossa volta. Eles não podem fazer nada aqui.

- Eles não parecem se incomodar com isso - disse ele, sem diminuir o passo.

Farouk teria corrido o risco - talvez - se os soldados do Parlamento estivessem a seu alcance, mas quando os avistou, seus dois perseguidores já estavam entre eles e os soldados e não havia como dar a volta.

Alguma coisa subitamente chamou sua atenção na multidão diante deles. Outro homem, a mesma boca apertada, o mesmo olhar gélido, vinha calmamente em direção a eles, a mão dentro do paletó, onde Farouk tinha a certeza de ter visto uma arma.

Ao ver uma rua secundária à sua esquerda, Farouk mergulhou nela. A rua subia uns 100 metros e dava numa mesquita, no limite da zona de pedestres.

Evelyn tropeçou ao fazer a curva e endireitou-se rapidamente. Respirava com dificuldade, suas pernas estavam começando a doer, e era claro que não podia ir muito mais longe. Ela estava em boa forma para a idade, mas só havia corrido assim... bem, nunca.

Continuaram, deixando para trás o alvoroço e as luzes brilhantes da praça, seus passos ecoando na escuridão que agora os envolvia. Um pensa­mento ocorreu subitamente a Evelyn. Farouk não sabia aonde estava indo. Não conhecia bem Beirute, se é que algum dia já estivera na cidade, e não fazia sentido ser ele a guiá-la. Evelyn conhecia o centro muito bem, mas não reconhecia aquela rua, e certamente parecia mais sensato ficar perto da multidão. Além disso, a ladeira que subiam, mesmo que pouco inclinada, não ajudava muito.

- Farouk, ouça-me - disse ela, sem fôlego. - Precisamos encontrar poli­ciais, alguém que possa protegê-lo...

- Ninguém pode nos proteger - retrucou Farouk, com voz desesperada. ­Não deles, será que não vê? Temos que encontrar um táxi, um carro, alguma coisa...

Calou-se ao ouvir o ruído de passos apressados que atravessavam a noite e ecoavam nos muros à sua volta. O homem da arma tinha se juntado aos parceiros, e os três iam diminuindo a distância, agora que não precisavam se preocupar em não chamar atenção.

Ficava cada vez mais difícil para Evelyn manter o passo e ela estava quase desistindo, quando surgiu à direita uma ruela transversal, paralela ao muro da mesquita. Ia dar na Rue Weygand, uma grande avenida sempre movimentada pelo trânsito noturno - e táxis.

A visão a revigorou e teve o mesmo efeito sobre Farouk.

- Vamos - gritou ele. Viraram à direita e apressaram-se pela ruela de­serta, tentando recuperar o fôlego enquanto corriam em direção às luzes e à possível salvação.

        Estavam na metade da viela quando Evelyn viu um carro entrar na rua em direção a eles.

        Um BMW preto.

        Farouk correu em direção ao carro gesticulando freneticamente, gritando por socorro, mas Evelyn diminuiu o passo subitamente, temerosa. Ela podia vislumbrar a silhueta de um homem dentro do carro, recortada à luz da rua atrás dele. Parecia estar segurando um celular junto ao ouvido.

Alguma coisa lhe disse que ele não estava ali por acaso.

- Farouk - gritou ela. - Espere.

Farouk parou e virou-se para ela, sem fôlego e confuso. Evelyn continuava a olhar para o carro com desconfiança, quando ele de repente parou no meio da rua, com o motor ainda ligado. O motorista acendeu os faróis, inundando a rua com uma luz fria.

Evelyn deu dois passos para trás, protegendo os olhos da luz ofuscante, quando ouviu um ruído atrás dela. Virou-se para ver os três homens que os perseguiam entrar na rua, iluminados pelas luzes do carro. Pararam ao vê-la. Um deles segurava um telefone, que fechou e guardou no bolso. Olhou ao redor para ver se estava tudo em ordem e acenou para os amigos. Evelyn ouviu as portas do carro se abrirem. Ela se virou e viu o motorista sair do carro.

Olhou para Farouk. Ele estava de pé, tão apavorado quanto ela, enquanto os quatro perseguidores se aproximavam deles, o BMW preto com as portas abertas roncando a distância como um espectro faminto esperando para ser alimentado.

Ela começou a gritar.

 

Mia ouviu os gritos da mãe ao chegar ao muro da mesquita. Olhou para a viela e viu dois homens lutando contra Evelyn. Estavam na metade da rua, a cerca de 60 metros de Mia. Ela apertou os olhos, devido às luzes do carro, e pensou reconhecer o BMW.

Evelyn estava dando pontapés e gritando, enquanto o parceiro do andróide tentava tapar sua boca com a mão. Ela o mordeu, depois atacou-o com a bolsa, o que o tornou ainda mais agressivo. Ele arrancou a bolsa da mão dela e atirou-a no chão, antes de lhe dar um forte bofetão, que a jogou longe.

Mais perto de Mia, Farouk estava de costas para o muro externo da mesqui­ta que corria ao longo da rua. Ele parecia uma corça acuada, iluminada pelos faróis. Os dois outros homens - o andróide e outro que ela ainda não tinha visto - vinham na direção dele. A mão do andróide estava na frente do rosto, dedo em riste, num gesto ameaçador.

Todo o corpo de Mia enrijeceu. Seu instinto de fuga lhe dizia para se manter em segurança atrás do muro e não se meter. O bom senso transformara seu instinto de luta em submissão. Não havia nada a seu favor e, já que ela não era a Mulher Maravilha, não conseguia nem pensar no que fazer.

Bom, talvez uma coisa.

Básica. Primitiva. Nem criativa nem aventureira.

Talvez perigosa.

Definitivamente perigosa, pensando bem, mas ela tinha que fazer alguma coisa.

Começou a gritar.

Primeiro "Mãe”, depois "Socorro”.

A parte agitada da ruela subitamente se congelou, como se alguém no céu tivesse pressionado um botão de pausa. Todos se viraram para ela, os seqües­tradores a olharam com expressões espantadas de raiva. O homem que estava com Evelyn ficou boquiaberto, e os olhos dela cruzaram-se com os de sua filha, num breve momento de desespero e gratidão que Mia jamais esqueceria.

A pausa não durou muito e, voltando à vida, os dois homens duplicaram os esforços para enfiá-la no banco traseiro do carro. O andróide deixou Farouk nas mãos do amigo e correu em direção a Mia.

Ela deu alguns passos hesitantes para trás antes que o instinto de fuga se mostrasse urgente. Correu para a mesquita, exigindo cada átomo de energia de suas pernas, e gritando furiosamente. Lançando um rápido olhar sobre o ombro, ela viu o amigo de Evelyn livrar-se do brutamontes que se preparava para atacá-lo, fugindo na direção oposta, pelo lado momentaneamente livre do carona.

O andróide gritou furiosamente alguma coisa em árabe que gelou o sangue de Mia; seus passos se aproximavam à medida que ela contornava o muro da mesquita, quase colidindo com dois soldados libaneses que vinham entrando na curva. Parecia que estavam vindo da entrada principal da mesquita, onde Mia podia ver a pequena guarita da sentinela. Ela agarrou um deles e, esfor­çando-se por recuperar o fôlego, apontou para o andróide, que repentinamente desembocou da ruela.

O andróide parou, espantado, ao ver os soldados.

- Minha mãe! Eles estão tentando raptá-la! Por favor, ajudem-na – falou Mia, olhando para o soldado a fim de identificar algum sinal de compreensão. Ele olhou para ela com desconfiança, indicou-lhe friamente que saísse da frente, puxou o revólver e gritou para o andróide algo que parecia uma ordem. O andróide levantou a mão firme, mas calma, e gritou de volta num tom que deixou Mia confusa. Ele estava praticamente repreendendo o soldado como se fosse seu superior. Mais alarmante ainda era a outra mão, que mantinha nas costas. Mia virou-se em pânico para o soldado, mas percebeu que ele este não se deixara intimidar. Ele gritou com o andróide ao mesmo tempo que empunhou o revólver. O peito do soldado explodiu em sangue, e ele foi atirado contra o muro da mesquita enquanto os estampidos de dois tiros ecoavam nos ouvidos de Mia.

Mia afastou os olhos do soldado caído e virou-se a tempo de ver o andróide mirando, quando o outro soldado a agarrou, obrigando-a a se abaixar contra o muro, enquanto mirava com a outra mão. Vários tiros foram disparados da arma do andróide e se enterraram com estrondo no muro ao lado de Mia, fazendo voar pedaços de pedra. O soldado a seu lado disparou alguns tiros, aparentemente sem sucesso, já que o andróide atirou mais umas duas vezes, deu meia-volta e desapareceu ruela abaixo.

O soldado ergueu-se e correu até o colega caído. Mia fez um esforço para levantar e cambaleou até ele. A visão fez com que seu estômago se revirasse. O soldado ferido parecia morto. O rosto coberto de sangue, os olhos vazios. O soldado sobrevivente disse algumas palavras com raiva, antes de ordenar, com um gesto, que Mia ficasse onde estava, e correu atrás do andróide. Mia olhou para ele sem compreender e novamente observou o cadáver ensangüentado. Mesmo estupefata e em choque, ela não ficaria sozinha ali. Saiu cambaleando atrás dele.

Ela ouviu o guinchar de pneus quando entrou na ruela. O soldado estava uns dez metros à sua frente, revólver em punho, mas não tinha a menor chance. O BMW já avançava em sua direção. Ele disparou uns dois tiros a esmo antes de ser atingido pelo carro, seu corpo batendo no capô como um boneco de pano. Deu uma volta no ar e caiu contra o pára-brisa, estilhaçando-o, antes de saltar do teto do carro para o porta-malas e se estatelar no chão, produzindo um som oco.

Ela era a próxima.

Pulou para trás do muro no minuto em que o BMW saiu da ruela. O pára­choque raspou a esquina a centímetros de Mia, num estrondo de aço e pedra, virou para a direita e foi em direção à mesquita. Ao passar em alta velocidade, Mia vislumbrou os homens no carro, o andróide e o motorista na frente, sua mãe espremida entre dois brutamontes atrás.

Não havia sinal do companheiro de Evelyn.

Mia saiu de trás do muro aos tropeções. A rua estava num silêncio sepulcral de novo, como se nada tivesse acontecido. Ela não sabia para onde se virar. Avistou o segundo soldado, deitado na ruela. Atrás dele, viu a bolsa da mãe, suas coisas esparramadas no chão e, um pouco mais longe, um de seus sapatos. Tremendo muito, Mia foi até o soldado. Ele estava deitado no chão, contorcido de forma pouco natural, um fio de sangue escorrendo do canto da boca. Olhou para ela com olhos cheios de dor e piscou.

As pernas dela cederam, ela se ajoelhou a seu lado e chorou.

 

As horas seguintes foram nebulosas.

Sentada numa sala de interrogatórios na delegacia de polícia de Hobeish, na Rue Bliss, Mia se sentia enjoada. O fato de as paredes nuas de concreto serem úmidas e frias não ajudava. Ela tremia intensamente, provavelmente mais de choque e medo do que de frio.

Tentou se concentrar apenas naquilo que tinha importância agora: trazer sua mãe de volta. Mas não tinha certeza se os dois detetives sentados do outro lado da mesa ou os guardas que entravam e saíam do quarto freneticamente estavam captando a mensagem.

Ela deixara o soldado ensangüentado e andara quase caindo até a rua principal, no final da ruela, onde ficara parada, com lágrimas escorrendo pelo rosto, braços levantados, diante dos carros. Alguma coisa em seu olhar assombrado deve ter chamado a atenção dos motoristas, porque vários carros pararam para ajudar. Pouco depois, chegou a cavalaria. Eram vários carros cheios de policiais armados do Fuhud, um tipo de superforça paramilitar. A pacata ruela rapidamente se transformou num zoológico barulhento e caóti­co. O soldado que fora atingido já estava morto. O que tinha sido atropelado pelo carro ainda dava sinais de vida e foi logo levado por uma ambulância. A bolsa e o sapato de Evelyn foram recolhidos. Mia foi interrogada e passada de um policial a outro - ela tentou explicar que a mãe esquecera o celular, e teve de entregar a eles tanto o dela como o seu próprio, o que a deixou insegura - antes de ser colocada num jipe e levada para a delegacia, sob escolta.

Mudou de posição na fria cadeira metálica e tomou um pequeno gole de água de uma garrafa que alguém lhe trouxera.

- Por favor - murmurou. Sua garganta parecia ter sido lixada. Seus gritos desesperados ainda ecoavam em seus ouvidos. Engoliu e tentou de novo. ­Escutem-me. Vocês têm que encontrá-la. Eles a levaram. Vocês têm que fazer alguma coisa antes que seja tarde.

Um dos detetives à sua frente assentiu com a cabeça e respondeu alguma coisa num inglês truncado, mas não era o que ela queria ouvir, apenas mais um dos chavões evasivos e condescendentes. Mais preocupado, seu colega Investigador, um homem que parecia um furão peludo, que silenciosamen­te espalhara o conteúdo da bolsa de sua mãe na mesa, parecia agora muito Interessado nas fotografias que encontrara dentro de um envelope marrom. Enquanto as estudava, olhava para Mia com um olhar do qual ela não gostou. Ele cutucou o colega mais alto e as mostrou. Mia não entendia o que diziam - não podia sequer ver o que havia nas fotos -, mas eles agora lhe dirigiam olhares desconfiados.

Ela tremia ainda mais do que antes.

Os dois detetives discutiram entre si e pareciam estar de acordo quanto ao passo seguinte. O furão juntou as coisas de Evelyn e as recolocou na bolsa, enquanto o outro disse a Mia para permanecer onde estava, explicando, da melhor maneira possível, que estariam de volta em breve. Os reflexos de Mia ainda estavam lentos, e antes que pudesse discordar ou questioná-los, eles já estavam saindo porta afora. Depois de fecharem a porta, ela ouviu a chave girando na fechadura.

"Ótimo”.

Ela se afundou na cadeira e fechou os olhos, desejando poder se livrar do pesadelo com um piscar de olhos e recomeçar o dia.

 

Uma hora mais tarde, os dois detetives voltaram a se sentar no lado oposto da mesa, agora acompanhados por um homem de terno cinza, sem gravata, com uma expressão aborrecida no rosto rosado, dando a entender que fora arrancado do conforto de seu lar. A mente de Mia estava agora um pouco mais clara - tinham lhe oferecido um café turco, uma especialidade local adocicada e espessa, que demorara a apreciar, mas à qual tinha se habituado nas últimas semanas - e despertara totalmente depois que ele lhe foi apresentado como John Baumhoff, credenciado junto à embaixada americana.

A conversa que se seguiu foi bem menos promissora.

Baumhoff bateu os dedos nas fotografias, que espalhara na mesa para ela poder ver.

- Você está dizendo que não sabe nada a respeito delas? – perguntou novamente, numa voz mais aguda que o normal.

Mia suspirou e fez um esforço para se acalmar.

- Não sei nada sobre isso, essas relíquias, o que quer que sejam. Estávamos tomando um drinque. Ela esqueceu o celular. Achei que estava sendo seguida. Tentei avisá-la. Aqueles homens a enfiaram num carro e a levaram...

- Matando um soldado e deixando outro seriamente ferido - interrom­peu Baumhoff, lançando um olhar de quem sabia das coisas para os detetives em pé atrás dele, que assentiram solenemente.

- Sim, isso mesmo - retrucou ela. - É por isso que precisam encon­trá-la, droga. Ela provavelmente já está trancafiada em algum lugar horrível, enquanto vocês estão aqui sentados jogando buraco com essas fotos.

Ele a examinou com olhos cansados, depois recolheu as fotos, pegando uma de cada vez com os letárgicos dedos gorduchos.

- Senhorita, hmm... - parecia já ter esquecido o nome que escrevera no bloco à sua frente. - ... Bishop - continuou, com seu sotaque anasalado -, se sua mãe foi realmente seqüestrada, não poderíamos ter feito muita coisa.

- Podiam ter bloqueado as ruas - protestou Mia. - Podiam ter avisado o Exército, que está por toda parte. Podiam ter feito alguma coisa.

Baumhoff olhou-a de esguelha.

- Não estamos em casa, srta. Bishop. Não é assim que funciona aqui. Se eles querem alguém, pode ter certeza de que vão pegá-lo. Ou pegá-la, como neste caso. Eles conhecem todos os atalhos. Sabem onde estarão em segurança. Têm tudo planejado com antecedência. O negócio é o seguinte: - deu de ombros - aqui não é o Iraque. Não há seqüestro de estrangeiros aqui há pelo menos 15 anos, se não mais. Isso simplesmente já não acontece. Com exceção de um assassinato político ocasional, esta cidade é surpreendente­mente segura para um estrangeiro. Razão pela qual - acrescentou, fazendo lima pausa para reexaminar as fotos em suas mãos - tenho que concordar rum estes caras que se trata de outra coisa. Algum problema em que sua mãe esteja envolvida. - Ele ergueu as sobrancelhas, mordeu os lábios e espalmou as mãos num gesto questionador, esperando que ela preenchesse as lacunas ou dissesse a verdade.

Mia olhou para ele, estupefata.

- Do que está falando?

Ele a examinou por um minuto - seus gestos cínicos estavam começando a irritá-la -, depois mostrou o maço de fotos.

- Estas fotos - repetiu Baumhoff - são de peças roubadas, srta. Bishop. O queixo de Mia caiu.

- O quê?

- Roubadas - repetiu Baumhoff. - Do Iraque. A senhorita deve ter lido sobre a pequena guerra que está acontecendo lá.

- Sim, mas... - Mia voltou a se sentir entorpecida.

- Milhares de tesouros de todos os tipos foram roubados de museus de lá. Ainda estão sendo escoados, abrindo caminho até as mãos de colecionadores que não se importam muito com a origem. Valem muito dinheiro... se conseguir contrabandeá-los e - disse acusatoriamente - se conseguir encontrar o comprador certo. - E ele lhe lançou um olhar de quem sabia das coisas.

O rosto de Mia ficou sombrio, enquanto ela procurava encontrar as palavras. - Acha que minha mãe tem alguma coisa a ver com isso?

Ele apontou para as fotos.

- Estavam na bolsa dela, não estavam?

- Como sabe que eram roubados? - retrucou Mia. - Poderiam ser legais, não?

Baumhoff balançou a cabeça.

- A exportação de tesouros da Mesopotâmia está proibida desde que essa confusão começou. Não posso assegurar que esses sejam roubados, não tive tempo de verificar. Só vou ter certeza amanhã, depois de falar com nosso pes­soal, mas tudo indica que sejam. Isso pode explicar o que ocorreu esta noite.

Não é uma gente com quem queira se meter.

Mia lembrou-se de sua conversa com Evelyn no Lounge.

- Espere um instante - disse entusiasmada. - Ela me disse que alguém a procurou. Um cara que trabalhou com ela há muitos anos. No Iraque.

Isto suscitou o interesse dos detetives, que pediram maiores detalhes a Baumhoff. Mia lhes contou o que Evelyn lhe dissera, e eles anotaram tudo com interesse. Baumhoff encolheu os ombros e enfiou as fotografias em sua pasta.

- Muito bem. Já é tarde, e não há nada mais que se possa fazer. Eles precisam que fique aqui até que um funcionário da administração possa tomar seu depoi­mento pela manhã - disse a ela informalmente, ao se levantar da cadeira.

Mia entrou em parafuso.

- Acabei de ver minha mãe ser seqüestrada e vão me deixar aqui?

- Não vão liberá-la antes de seu depoimento - respondeu Baumhoff sombriamente. - Faz parte da burocracia francesa que herdaram, e não pode ser feito tão tarde. Você vai ficar bem. Vão deixá-la ficar nesta sala, será mais confortável do que uma cela, acredite. Vão trazer-lhe comida, um travesseiro e alguns cobertores. Voltarei pela manhã.

- Você não pode me deixar aqui - gritou ela, pondo-se de pé. O furão estendeu os braços como para acalmá-la e detê-la. - Não podem fazer isso ­ela insistiu.

- Sinto muito - disse Baumhoff, despreocupado -, mas um homem foi morto e outro está lutando pela vida, e, queira ou não, você faz parte disso. Amanhã resolveremos, não se preocupe, e tente dormir um pouco.

Enquanto ele fazia um gesto de despedida com um sorriso sem jeito, um celular tocou em algum lugar na sala.

Baumhoff e os detetives instintivamente pegaram seus telefones, mas logo se deram conta de que não era o deles. O furão foi o primeiro a perceber. Alcançou a bolsa de Evelyn e retirou dois celulares, o dela e o de Mia. Mia não reconheceu o toque, era o da mãe que tocava.

O furão instintivamente pressionou o botão "atender" e levou o aparelho ao ouvido. Estava prestes a dizer algo quando parou. Olhou o aparelho por um instante e voltou-se para Baumhoff. O homem da embaixada lhe disse rapida­mente e com a voz baixa:

- Passa pra cá.

O furão virou-se para o colega, em busca de instruções. O detetive mais alto assentiu, dizendo alguma coisa que expressava concordância antes que Baumhoff, ansioso para não perder a chamada, agarrasse o telefone e o pusesse no ouvido.

- Alô - disse em tom casual.

Mia observava o rosto de Baumhoff se contrair enquanto ele se concentrava no telefonema. Ela podia ouvir os fracos ecos da voz do outro lado da linha ­era definitivamente uma voz masculina, parecendo americana. Baumhoff escu­tou por um momento e disse:

- Não, a sra. Bishop não está no momento. Quem fala?

Mia ouviu uma resposta rápida, que não agradou a Baumhoff, que respondeu irritado:

- Sou um colega da sra. Bishop. Quem fala, por favor?

O homem ao telefone disse mais algumas palavras que provocaram uma expressão de espanto no rosto de Baumhoff.

- Sim, claro que ela está bem. Por que pensaria o contrário? Quem fala? ­Sua paciência se esgotou rapidamente e sua voz se elevou, mal-humorada. ­Preciso que me diga quem está falando, senhor.

A sala ficou em silêncio por alguns poucos segundos; Mia viu Baumhoff franzir o cenho e afastar o telefone do ouvido. Baumhoff olhou para o aparelho com uma expressão aborrecida, depois para os detetives.

- Não sei quem era, desligou, e o número não ficou registrado. - Acompanhou a explicação com gestos.

Olhou para Mia. Ela retribuiu o olhar para dizer que não tinha nenhuma pista. O investigador pediu o telefone, que Baumhoff devolveu. Acenou e vi­rou-se para Mia.

- Estarei de volta pela manhã. E, dizendo isso, foi-se embora.

Mia ficou olhando para ele, mas foi inútil. Os detetives saíram, trancando a

porta. Ela deu alguns passos, olhando para as paredes nuas. A raiva que se apos­sara dela, livrando-a do desconforto físico, estava diminuindo e, com isso, a fadiga e a náusea voltaram com toda força.

Deixou-se cair no chão e encostou-se à parede, segurando o rosto entre as mãos.

Aquele problema estava se tornando um Expresso da meia-noite.

 

A cabeça de Evelyn doía a cada solavanco da estrada.

O porta-malas do carro tinha sido forrado com cobertores, que não ajudavam muito. Não só a estrada era cheia de buracos, que às vezes pareciam verda­deiras crateras - mais uma trilha na montanha do que uma estrada asfaltada, supôs Evelyn em um de seus raros momentos de lucidez -como a viagem em si parecia uma infindável série de curvas fechadas para a esquerda e para a direita, subindo e descendo colinas e montanhas, fazendo com que seu corpo parecesse uma garrafa à deriva num mar tempestuoso, jogando-a contra as paredes do porta-malas a cada mudança de direção.

Seu sofrimento era intensificado pela fita adesiva que cobria sua boca e o saco de pano em que sua cabeça estava enfiada. A sensação de isolamento já teria sido suficiente sem a longa e curvilínea estrada infernal. Mal podia respi­rar, lutando para inspirar um pouco do ar abafado e estagnado. Se vomitasse, sufocaria em seu próprio vômito, e eles nem a ouviriam. A consciência disso fez com que a ansiedade tomasse conta dela. Seus ossos doíam pelos constan­tes solavancos, e as tiras de náilon em seus pulsos e tornozelos dilaceravam-­lhe a pele fina e enrugada.

Ela gostaria de perder a consciência e assim obter algum alívio. Podia sentir-se caindo na escuridão, mas a cada vez que estava prestes a ficar inconsciente, outro solavanco provocava-lhe dor e a mantinha acordada.

O carro não tinha se afastado do centro quando parou num terreno baldio, atrás de um edifício em ruínas na parte sul da cidade. Evelyn foi ar­rancada de dentro dele, amarrada, amordaçada, encapuzada e enfiada na mala de outro carro que os aguardava. Ouviu os seqüestradores trocarem rapidamente algumas palavras, pouco claras para seu estado entorpecido e confuso; a seguir, as portas se fecharam e o carro iniciou sua viagem. Ela não conseguia imaginar há quanto tempo estava ali, mas sabia que tinham se passado horas.

E não tinha como saber quanto tempo mais levaria.

Sua mente estava tomada por imagens pouco nítidas. Via-se correndo sem objetivo por galerias, sem fôlego, os músculos das pernas queimando pelo es­forço. Seguindo Farouk. Vendo seu rosto aterrorizado.

Farouk. O que teria acontecido a ele? Teria fugido? Não estava no carro com ela. Ela pensava tê-lo visto fugir dos seqüestradores e correr viela abaixo, afastando-se do carro. Logo depois que alguém gritara o nome dela.

Mia. Será que tinha sonhado? Sua filha estava mesmo lá? Ela viu uma imagem surreal de Mia, de pé, em estado de choque, gritando do canto mais afastado da rua. Tinha quase certeza de que isso tinha mesmo acontecido. Mas como? O que ela estaria fazendo ali? Como chegara tão depressa? Lembrava-­se de ter tomado um drinque com ela. Tê-la deixado no hotel. Por que estaria naquela viela? E, o mais importante de tudo, estaria em segurança?

O sofrimento a atingiu, apertando seu coração. Pessoas morreram. Tinha certeza. Os tiros ecoavam em seus ouvidos. O soldado atropelado pelo carro. Os ruídos horríveis, ensurdecedores, o corpo batendo contra o pára-brisa como um boneco de pano, se estilhaçando. Tentou pensar, mas cada solavanco a sacudia até a alma, dispersando seus pensamentos.

Tentou relaxar, forçar a inconsciência, mas não obteve resultado. O des­conforto e a dor eram implacáveis. Com crescente horror, tentou se concentrar na viagem. Horas. Tinha levado horas. Isso não soava bem, num país tão pe­queno. Para onde a estavam levando? Ela recorreu a memórias dissonantes, aos relatos jornalísticos de anos atrás, dos "dias sombrios" do Líbano. Os seqüestros. Os jornalistas, os reféns apanhados ao acaso nas ruas. Ela se lembrou das des­crições que faziam - enrolados em fita adesiva como múmias, enfiados em caixotes, escondidos em caminhões. Um grande pavor a invadiu ao visualizar as celas em que ficavam presos. Vazias. Frias. Amarrados a aquecedores que não funcionavam. Sobrevivendo com restos de comida. E então o mais aterra­dor dos pensamentos emergiu com velocidade ofuscante na escuridão.

Ninguém jamais soube onde ficavam escondidos.

Anos de cativeiro. Os mais eficientes serviços de inteligência do mundo. Nenhuma pista. Nenhuma informação. Nenhuma tentativa de resgate. Nada. Era como se tivessem sido apagados da face da terra, para reaparecer apenas anos depois - se tivessem sorte.

O carro devia ter passado por um buraco mais fundo, porque sua cabeça foi jogada para trás e bateu contra o metal do porta-malas. A dor foi suficiente para finalmente torná-la inconsciente e mergulhá-la na abençoada paz de um sono sem sonhos.

 

Farouk olhou sem enxergar a caótica mistura de abrigos e tendas provisórias. Podia sentir o desespero e o sofrimento na calmaria a seu redor, mesmo na opressiva escuridão, quebrada, aqui e ali, pelo brilho pálido de um lampião a gás. Tudo estava sinistramente silencioso, exceto pelos sons abafados dos rádios, que ecoavam através das árvores. A maior parte dos refugiados tinha finalmente sucumbido ao sono.

A praça arborizada de Sanayi era um dos poucos locais verdes no labirinto de concreto de Beirute - "verde" era uma palavra generosa, dado o pouco cuidado atribuído ao solo, mesmo em circunstâncias normais. Com o início da guerra no sul do país, centenas de refugiados a tinham transformado em moradia. Tal como Farouk o fizera ao chegar àquela cidade, onde não tinha ninguém a quem recorrer. Quer dizer, ninguém mais.

Deu uma última tragada no cigarro antes de apagá-lo no chão. Apalpou os bolsos. O maço que encontrou estava vazio. Amassou-o, jogou-o fora e deu de ombros. Ergueu as lapelas do paletó junto ao pescoço e encolheu-se contra o muro baixo que corria ao longo da praça.

Sua vida tinha se reduzido a isso. Sozinho em outro país devastado pela guerra. Sem casa. Ocupando indevidamente um espaço de lama ressecada. Sua manhã parecia ainda menos promissora que a das pobres criaturas empilhadas na terra-de-ninguém diante dele.

Tapou os ouvidos com as mãos trêmulas e tentou silenciar o mundo, mas a agitação das últimas 24 horas não desapareceria com facilidade. Esfregou o rosto, amaldiçoando-se por ter se lembrado do interesse de Evelyn, por ter interferido numa venda que estava decidida, por ter dado início a todo aquele desastre... depois deixou seu olhar vagar nas sombras, interrogando-se sobre o que faria a seguir.

Ir embora? Voltar para o Iraque? Voltar... para onde? Um país destruído, devastado por uma brutal guerra civil. Uma terra de seqüestros em massa, es­quadrões da morte, carros-bomba, um lugar de caos e sofrimento. Balançou a cabeça. Não havia para onde voltar, nem para onde ir. Seu país se acabara. E ele agora estava ali, estrangeiro numa terra desconhecida, onde seu único contato, e única amiga, tinha sido levado embora.

Por sua causa.

Ele a metera nisso e agora eles a detinham.

O pensamento era como um punhal cravado em seu coração. Balançou novamente a cabeça. Como deixara isso acontecer? Era culpa sua, não havia como escapar. Ele os tinha visto, sabia que viriam atrás dele, e ainda assim os conduzira a ela, permitira que fosse levada em seu lugar. Estremeceu ao se lem­brar do corpo torturado de Hajj Ali - sua velha amiga, Sitt Evelyn, nas mãos daqueles monstros. O pensamento era horrível demais.

Tinha que tentar ajudá-la. De alguma forma. Fazer com que as pessoas soubessem em que confusão ele a metera. Ajudá-las a encontrá-la, indi­car-lhes a direção certa. Alertá-los sobre aquilo com que estavam lidando. Mas como? Com quem poderia falar? Não podia ir à polícia. Estava no país ilegalmente, tentando vender material roubado. Mesmo com as melhores intenções, a polícia não seria muito condescendente com um contrabandista

iraquiano.

Pensou na jovem na viela. Se não fosse por ela, ele teria sido levado com Evelyn. E estaria... imaginou a furadeira elétrica, a ponta penetrando em sua carne. Afastou a idéia e voltou a pensar na mulher. No início, achou que era pura sorte. Apenas uma desconhecida que passava pela viela errada na hora errada. Mas depois se lembrou de que a mulher gritara. Ele achou que ela tinha gritado "mãe: o que o deixara espantado. Seria sua filha? De qualquer maneira, o que estava fazendo ali? Será que Evelyn tinha marcado um encontro com ela ali ou tinha sido pura coincidência?

Em todo caso, era uma discussão inútil. Não sabia quem ela era ou onde encontrá-la. Ele não ficara por perto depois que conseguira escapar. Nem sabia o que tinha acontecido a ela. Podia até ser que a tivessem levado também.

Um rosto emergiu no emaranhado de sua mente. O homem com quem Evelyn estava, em Zabqine. Ramez - era esse seu nome, não? O que Evelyn dissera? Que trabalhavam juntos na universidade.

Poderia encontrá-lo. Já estivera no Departamento de Arqueologia - ficava em Post Hall, dentro do campus. Ramez o vira com Evelyn. Podia dizer-lhe o que sabia. Talvez ela até lhe tivesse contado o que Farouk dissera. Estaria preo­cupado com ela. Ele o ouviria.

Era isso. Era o melhor que podia fazer. Examinando-a mais profundamente, a idéia lhe pareceu boa. Precisava de dinheiro. Não tinha quase nenhum, e sua missão agora era muito mais desesperadora. Não se tratava de criar uma vida melhor num lugar mais calmo do que sua terra natal. Era pura e simplesmente uma questão de sobrevivência. Teria que desaparecer, e para isso precisava de dinheiro. Tinha que encontrar um comprador para a coleção de Abu Barzan. Não voltara a falar com ele desde que saíra do Iraque. O filho-da-mãe podia já ter encontrado um comprador, e, se tivesse realmente, Farouk seria deixado sem nada para vender. O colega de Evelyn devia ter contatos nessa área. Ricos colecionadores libaneses. Talvez Farouk conseguisse interessá-lo pela venda das peças. Dar-lhe uma parte. A fronteira entre ricos e pobres era um verdadei­ro precipício, uma garganta estreita e profunda, na qual a maioria das pessoas não era abastada. O dinheiro era pouco. Mesmo os virtuosos e os moralistas tinham de comer e pagar o aluguel.

A fadiga caiu sobre ele. Deslizou para o chão e encolheu-se sobre si mes­mo, esperando que o sono chegasse. Iria à universidade pela manhã. Acharia Ramez. Falaria com ele. E talvez - apenas talvez - isso pudesse acabar de uma forma melhor do que para seu amigo Ali.

Mas ele não acreditou nisso nem por um segundo.

 

Tom Webster colocou o celular sobre a mesa e olhou pela janela que ia do chão ao teto em seu escritório, no Quai des Bergues. Era um fim de tarde fres­co em Genebra. O sol se punha a oeste, atrás dos Alpes, refletindo no lago e colorindo-lhe as águas calmas com um brilho rosa dourado. A neve ainda não chegara, mas não tardaria muito.

A ligação o deixara com um sentimento de profunda inquietação. Rememorou mentalmente a rápida conversa, examinando cada nuance, analisando cada segundo do que ouvira. Primeiro viera a pausa, logo que a chamada fora atendida, uma nítida hesitação. Depois, ao longe, palavras incompreensíveis numa língua que tinha quase certeza ser o árabe. E, a seguir, o homem que finalmente falara e se apresentara como um colega dela. Havia al­guma coisa de muito formal em seu tom. Sua insistência em saber quem estava ligando para Evelyn era um sinal definitivo de que não se tratava de um amigo que atendera casualmente o telefone.

Ela mesma se metera nisso. Depois, um pensamento mais perturbador: "Será que ela está bem?"

O recado que recebera da telefonista do instituto o surpreendera. Tinha sido... há quanto tempo?

Trinta anos.

Perguntou-se o que teria levado Evelyn a telefonar depois de tanto tempo.

Tinha suas suspeitas.

Os dois acontecimentos - o repentino telefonema de um de seus espiões no Iraque há cerca de uma semana e a chamada de Evelyn para a telefonista do Haldane - deviam estar relacionados. Isso era óbvio. Mas ele não tinha previs­to qualquer problema em decorrência disso. Ele e seus sócios sempre agiam na surdina. Tinham de ser cautelosos, é claro - a discrição era de suprema importância em seu trabalho -, mas não havia motivo para esperar qualquer complicação.

Tentou encontrar uma explicação lógica para a chamada e diminuir sua preocupação, mas não conseguiu. Parecia ser mais que uma simples ligação. Há muito tempo tinha aprendido a confiar em seu instinto, e, nesse momento, ele exigia atenção. Precisava saber o que estava realmente acontecendo. Depois, tinha que telefonar para os outros, pondo-os a par do que estava se passando, para que chegassem a um consenso - como os três sempre fizeram - sobre como lidar com a situação.

Consultou o relógio. Em Beirute eram duas horas a mais. A diferença de fuso horário significava que não conseguiria respostas nas próximas horas. Precisaria ficar acordado e dar alguns telefonemas antes do amanhecer, mas não se importou com isso.

Do mesmo modo que outros antes dele, fora a isso que dedicara toda sua vida.

E, se seu instinto estava certo, agora Evelyn estava envolvida.

De novo.

Expirou profundamente e virou-se para a escrivaninha. O códice estava ali. Ele o tirara mais cedo do cofre. Estava ali, inocentemente. Olhou para ele, pegou-o e balançou a cabeça levemente.

Inocente.

Dificilmente.

O livro o enredara em sua teia como a tantos outros, durante séculos. Era irresistível, e com razão. Valia a pena.

Encolheu os ombros, abriu o livro na primeira página e pensou em como tudo tinha começado.

 

Tomar, Portugal- agosto de 1705

Sebastião sentiu o frio úmido que emanava dos muros envolver seus ossos em um abraço mortífero, enquanto seguia o guarda pelas estreitas e tortuosas escadas.

Mantinha os olhos baixos, longe da chama da tocha do guarda. A oscilante luz dourada fez com que reparasse numa cavidade que se formara no chão. Pri­meiro se surpreendeu, depois percebeu que a cavidade fora gravada na pedra pela repetida passagem dos grilhões.

Muitos prisioneiros tinham definhado ali, em Tomar. E muitos mais ainda definhariam.

Seguiu o guarda pela longa e estreita passagem. De cada lado, havia pesadas portas de madeira com ameaçadoras fechaduras de metal. O guarda finalmente parou diante de uma delas. Manuseou desajeitadamente a grande argola cheia de chaves e destrancou-a. Suas dobradiças rangeram ao se abrir. A abertura era como a boca de uma caverna, a entrada para um tenebroso abismo. Sebastião olhou para o guarda. O homem suarento assentiu com um movimento de ca­beça, demonstrando um desinteresse inquietante. Sebastião retesou-se, pegou uma tocha do nicho na parede, acendeu-a na do guarda e entrou.

Apesar do ambiente tenebroso, a silhueta da pessoa, encolhida num canto escuro, pareceu-lhe imediatamente familiar. Sebastião gelou diante dessa visão e uma infinita tristeza se abateu sobre ele.

- Está tudo bem - disse o velho senhor. - Venha cá.

Sebastião não conseguiu se mover. Seus pés pareciam pregados ao chão de pedras.

- Por favor - sussurrou novamente o velho senhor, com voz áspera e seca.-Venha. Sente-se aqui comigo.

Sebastião deu um passo hesitante à frente, depois outro, seus olhos se recusando a aceitar aquela visão que lhe cortava o coração.

O homem destruído e exaurido ergueu o braço torcido, agrilhoado, fazendo um gesto para que ele se aproximasse. Sebastião notou que dois de seus dedos não se moviam e que ele não tinha o polegar.

Isaac Montalto era um bom homem. Fora amigo íntimo do pai de Sebastião. Ambos eram eruditos, professores e tutores da elite, e passaram anos trabalhando juntos na grande cidade de Lisboa, estudando e traduzindo textos árabes e gregos há muito esquecidos. Um pequeno invasor pusera fim àquilo. O vírus, uma gripe sem importância nos dias atuais, arrasara impiedosamente a cidade naquele inverno, matando a família de Sebastião. O bebê tinha sobre­vivido - o pai agira rapidamente, deixando-o aos cuidados de Isaac, em sua casa na cidade vizinha de Tomar, desde que os primeiros sinais da doença apa­receram na família. Isaac e sua mulher tomaram conta do bebê da melhor for­ma possível naquelas primeiras semanas, antes que a própria mulher de Isaac adoecesse. O velho senhor não teve outra opção senão deixar Sebastião aos cuidados dos frades, no mosteiro de Tomar. Sua esposa também não resistira ao inverno, mas Isaac e Sebastião sobreviveram.

Viúvo, Isaac não pudera ficar com o bebê. Os frades do mosteiro cuidariam dele, juntamente com outros órfãos. Mas Isaac estava sempre por perto. Era um amigo e mentor, sempre atento a seu crescimento, da infância até a juventude. Dissera-lhe adeus com o coração pesado quando o jovem fora escolhido para seguir seu dever para com Deus nos claustros da catedral de Lisboa. Mas isso fora há três longos anos. E agora, ali estava ele, vítima da Inquisição, uma páli­da e exaurida amostra do homem que fora um dia.

- Isaac - disse Sebastião, com a voz cheia de pena e remorso. - Meu Deus...

- Sim - murmurou Isaac, com um riso dolorido, os olhos se estrei­tando devido à dor no peito. - Seu Deus... - engoliu com dificuldade e balançou a cabeça. - Seu Deus deve estar muito orgulhoso ao ver até que ponto seus servidores estão dispostos a ir para ter a certeza de que sua pa­lavra é seguida.

- Tenho certeza de que essa nunca foi sua intenção - disse Sebastião.

De algum modo, um arremedo de sorriso conseguiu aparecer nos olhos do velho senhor.

- Cuidado, meu menino querido - advertiu Isaac. - Essas palavras podem jogá-lo na cela ao lado.

A loucura da Inquisição infestara a península Ibérica por mais de duzentos anos. Tal como aconteceu com sua análoga mais famosa, na Espanha, sua principal meta em Portugal era descobrir os convertidos de outros credos - mu­çulmanos e judeus - que, apesar de declarar que tinham abraçado a fé católica, seguiam secretamente suas crenças originais.

Mas não fora sempre assim. A Reconquista - a retomada da Espanha e de Portugal das mãos dos mouros, que começara no século XI - resultara numa sociedade tolerante, multirracial e que acolhia várias religiões. Cristãos, judeus e muçulmanos viviam, trabalhavam e progrediam lado a lado. Em cidades como Toledo, tinham colaborado na tradução de textos guardados durante sé­culos em igrejas e mesquitas. O ensino da língua grega, há muito abandonado pelo Ocidente, foi recrudescido, e as universidades de Paris, Bolonha e Oxford tinham por base seus esforços. Foi ali que a Renascença e a revolução científica realmente tiveram início.

Mas essa tolerância religiosa desagradara Roma. O questionamento da fé cega do homem em Deus e em um único conjunto de preceitos tinha que acabar. Os monarcas da Espanha usaram essa intolerância para agir. A Inquisição começou em 1478, seguida da de Portugal, cinqüenta anos depois. Como aconteceu em todos os conflitos baseados em diferenças religiosas, a verdadeira motivação por trás de tudo tinha mais a ver com cobiça do que com fé. A Reconquista e a Inqui­sição não eram diferentes. Eram essencialmente apropriações de terras.

Os batismos forçados começaram imediatamente. A península tinha de ser expurgada - e espoliada. Os judeus e os muçulmanos que permaneceram na Espanha e em Portugal tiveram que escolher entre a conversão e a expulsão. Os convertidos passaram a ser conhecidos como cristãos-novos. Muitos dos que preferiram ficar eram donos de terras e comerciantes bem-sucedi­dos. Tinham muito a perder. Então, aceitaram a cruz, alguns abraçando a nova fé com relutância; outros, que se recusaram a abdicar da religião de nascença ou de seus ritos, seguindo os rituais de suas crenças dentro de casa. Os marranos mais determinados freqüentavam sinagogas secretas.

As prisões da Inquisição logo passaram a ocupar também outros prédios oficiais. Os que eram levados para interrogatório eram postos na roda e tinham os braços e pernas arrancados. Os inquisidores também pareciam ter uma preferência pelas solas dos pés de suas vítimas - que espancavam com porretes ou retalhavam, untando os cortes com manteiga e colocando os pés, em seguida, no fogo. Decisões falsificadas do tribunal e denúncias forjadas culminavam em confissões forçadas. Os que confessavam voluntariamente podiam pagar uma multa e arrepender-se em um auto-de-fé, cerimônia públi­ca de penitência. Aqueles que confessavam na roda tinham suas propriedades confiscadas e eram encarcerados, muitas vezes para sempre, ou queimados na fogueira.

Os cristãos-novos enviaram emissários a Roma para implorar - e subor­nar - ao papa e seus amigos que refreassem os inquisidores. O rei gastava mais ainda para ter Roma a seu lado. E enquanto o dinheiro corria para o Vaticano, os marranos continuavam a viver apavorados, obrigados a decidir se deixariam o país e perderiam tudo, ou se correriam o risco de enfrentar as câmaras de tortura.

Isaac decidira ficar. E a câmara de tortura à qual fora submetido durante anos seria sua última morada.

- Eu não sabia, Isaac - disse-lhe o jovem. - Não sabia que estavam atrás de você.

- Tudo bem, Sebastião.

- Não - ele se enfureceu, a voz entrecortada de emoção. - Dizem que acharam livros com você. Dizem ter provas escritas, confirmação das acusações por pessoas que o conhecem - lamentou. - O que posso fazer, Isaac? Por favor. Diga alguma coisa. Qualquer coisa que eu possa usar para acabar com essa terrível injustiça.

Sebastião Guerreiro tinha seguido o caminho do Senhor com o coração aberto. Não esperava que fosse acabar assim. Estivera a serviço da Inquisição há pouco mais de um ano. O inquisidor-mor, Francisco Pedroso, um homem carismático e vigoroso, o escolhera pessoalmente. Mas, a cada dia, a cada hor­ror testemunhado, as perguntas na cabeça do jovem tinham-se multiplicado até que ele começasse a achar impossível conciliar os ensinamentos que abra­çara com as ações de seus mentores.

- Shhh - respondeu o velho senhor. - Sabe que não há nada a fazer. Além disso, as acusações são verdadeiras. Minha fé me foi transmitida por meu pai, como foi feito com ele. E, mesmo que não fossem, 30 hectares de terra em Tomar as tornariam verdadeiras. - Isaac pigarreou e olhou para Sebastião. Seus olhos, cheios de vida, contrastavam com o corpo devastado. - Não foi por isso que pedi para que fosse trazido aqui. Por favor. Sente-se comigo. - Ele apontou para o chão forrado de palha a seu lado. - Preciso lhe contar uma coisa.

Sebastião assentiu fracamente e juntou-se a ele.

- Tinha esperança de não precisar pedir isso a você ainda por muitos anos, Sebastião. É uma coisa que estava sempre planejando fazer, mas... - suspirou profundamente - acho que não posso mais esperar.

Surpresa e inquietação estamparam -se no rosto de Sebastião.

- O que é, Isaac?

- Preciso confiar-lhe uma coisa. Pode ser um fardo gigantesco para se carregar. Pode até vir a causar sua morte ou fazer com que acabe num lugar como este. - Isaac fez uma pausa, aparentemente estudando a resposta do jovem, antes de acrescentar: - Devo continuar, ou estou enganado e você não é mais o Sebastião de sempre?

Sebastião percebeu o olhar esquadrinhador e olhou para o chão, com vergonha.

- Sou como se lembra de mim, mas não tenho certeza de ser merecedor de sua confiança - disse, pesaroso. - Vi coisas, Isaac. Coisas que nenhum homem podia permitir que acontecessem, e, no entanto, afastei-me e nada disse. - Levantou os olhos para Isaac, com medo de encontrar um olhar de repreensão. Do prisioneiro, irradiavam-se apenas calor e preocupação. ­Envergonhei a memória do meu pai. Envergonhei você.

Isaac estendeu a mão mutilada, que tremia ao tocar o braço do rapaz.

- Vivemos tempos perversos. Não se culpe pelas pérfidas ações daqueles que detêm o poder de agir de outra maneira.

Sebastião concordou, o coração ainda cheio de arrependimento.

- Nenhum fardo seria pesado demais, Isaac. Não depois daquilo de que participei.

Isaac pareceu pesar uma última vez a decisão de contar a Sebastião.

- Seu pai queria que soubesse - disse ele finalmente. - Prometi que lhe contaria na hora certa. E temo que, se não lhe contar agora, talvez nunca mais venha a ter outra oportunidade. E então, tudo estaria... perdido.

Os olhos de Sebastião se iluminaram.

- Meu pai?

O velho senhor piscou em sinal de assentimento.

- Ele e eu encontramos uma coisa há muitos anos, aqui em Tomar. Nas criptas do mosteiro. - Fixou em Sebastião um olhar ardente. - Um livro, Sebastião. Um livro extraordinário. Um livro que, num dado momento, pode ter contido uma grande dádiva.

A testa de Sebastião se contraiu:

- Num dado momento?

- Como sabe, o mosteiro possui um verdadeiro tesouro de sabedoria nos antigos códices e pergaminhos conservados em suas criptas, arcas e caixas, remanescentes de desventuras no estrangeiro ou das Cruzadas, todos à espera de tradução e catalogação. É uma tarefa árdua e sem fim. Seu pai e eu tivemos a sorte de ser convidados para trabalhar com os monges nessas traduções, mas há muitas, e várias são apenas relatos mundanos de disputas, correspondência pessoal sem importância... banalidades.

"Num caixote empoeirado, um livro chamou nossa atenção no instante em que o vimos. Estava perdido entre outros pergaminhos, mais velhos e mais valiosos, e parcialmente danificado pela água. Faltavam-lhe as últimas páginas ,- II lombada, mas a capa estava relativamente conservada. Nela havia um símbolo que nunca tínhamos visto antes, uma cobra enrolada em circulo, comendo o próprio rabo.

"O livro estava escrito em árabe antigo, bastante difícil de traduzir. O título, no entanto, era claro”: Ele parou para aliviar a garganta seca e lançou um olhar cauteloso à porta, para ter certeza de que não estavam sendo ouvidos.

- Seu título era Kitab al Wasifa, o livro das normas. - O velho senhor debruçou-se conspiradoramente. - Seu pai e eu decidimos manter secreta a existência desse livro. E, uma noite, nós o tiramos clandestinamente do mosteiro. Levamos meses para traduzi-lo de forma adequada. A caligrafia Naskhi em que estava escrito era muito antiga. E, embora fosse árabe, estava cheia de expressões e palavras persas, o que não era incomum, tratando-se de documentos científicos, mas dificultava a leitura. Mas acabamos lendo-­o até o fim. E nós quatro, seus pais, minha querida Sarah e eu, fizemos um pacto. Testaríamos aqueles ensinamentos em nós mesmos, para ver se fun­cionava. Em caso positivo, revelaríamos nossa descoberta ao mundo.

"No começo, parecia promissor. Tínhamos encontrado algo maravilhoso, Sebastião. Depois, gradualmente, descobrimos a falha. Uma falha que, se não fosse sanada, significaria que ninguém jamais poderia saber de nossa desco­berta, porque ela levaria a um tipo diferente de revolta, que deixaria o mundo de cabeça para baixo, de uma forma que nenhum homem sensato gostaria. E, portanto, deveria permanecer como nosso segredo”.

Seu rosto se contraiu de tristeza.

- Foi quando o destino interveio, de forma cruel.

Os pensamentos do velho senhor pareceram recuar até aqueles tempos dolorosos, o inverno em que perdera esposa e amigos. Os anos desde então lhe pareceram sombrios.

- O que continha o livro? - perguntou Sebastião.

O velho senhor olhou demoradamente para ele. Depois, com brilho nos olhos, sussurrou simplesmente:

- A vida.

 

A revelação de Isaac provocou uma confusão na cabeça de Sebastião. Não conseguia pensar em mais nada. Não conseguia dormir. Trabalhava sem atenção. A comida e a bebida tinham perdido o sabor.

Sabia que sua vida nunca mais seria a mesma.

Finalmente, conseguiu encontrar uma brecha em sua jornada de trabalho, quando sua ausência não levantaria suspeitas, e viajou para as colinas nos arredores de Tomar. Conhecia bem as terras de Isaac. Tinham-lhe sido toma­das desde que o velho senhor fora preso, as vinhas apodrecendo por falta de cuidado enquanto o tribunal da Inquisição tramava o inevitável veredicto.

Sebastião foi para o monte que Isaac descrevera detalhadamente. Chegou quando os últimos raios de sol agarravam-se obstinadamente ao céu. Encon­trou facilmente a oliveira em flor, "a árvore da tristeza”, como Isaac a chamara. Em outro lugar, em outro momento, teria sido o contrário, pensou Sebastião.

Desceu do cavalo e deu vinte passos em direção ao sol que se punha. A pedra aflorada estava ali, exatamente onde Isaac dissera. Os nervos de Sebastião pulsavam em expectativa quando se ajoelhou e, usando um pequeno punhal, começou a escavar o solo ressecado.

        Rapidamente, a lâmina atingiu a caixa.

        Enfiou as mãos no solo, limpando ansiosamente a terra ao redor da pequena arca antes de levantá-la com cuidado, como se fosse se desfazer entre suas mãos. Era uma simples caixa de metal, talvez com três palmos de com­primento e dois de profundidade. Um bando de corvos levantou vôo subita­mente, grasnando e voando em círculos antes de desaparecer por trás do vale. Sebastião olhou em volta, certificando-se de que estava sozinho, e então, an­sioso, abriu a caixa.

Como dissera Isaac, havia duas coisas dentro dela. Uma bolsa, envolta em pele de couro oleada para protegê-la, e uma pequena caixa de madeira. Sebastião deixou a caixa e desembrulhou a pele, expondo o livro com sua capa gravada.

Olhou para ele fixamente, os olhos hipnoticamente fixos no símbolo incrustado na capa. Abriu-o. As primeiras páginas eram de um papel lustroso, liso e forte. Eram ricamente ilustradas com imagens do corpo humano e seus órgãos internos, acompanhadas de numerosas legendas. Outras páginas esta­vam cobertas de caligrafia Naskhi, escritas com tinta preta de forma precisa e cuidadosa, acompanhadas por rubricas elaboradas. Ele conseguiu afastar sua atenção dessas páginas e, virando-as, percebeu o que Isaac lhe dissera. Faltava a parte de trás da capa do livro. A encadernação rasgada deixava ver que também as últimas páginas tinham se perdido. As páginas finais remanescentes estavam enrugadas e ásperas, a tinta deslavada há muito tempo, deixando nada mais do que um borrão azulado, ainda inteligível.

Com o coração em chamas, Sebastião compreendeu.

Faltava uma parte essencial do livro. Ao menos, era essa a esperança de Isaac e dos pais de Sebastião, uma vez revelada a falha: as páginas perdidas conteriam o segredo, a chave do enigma. Mas não tinham certeza. Talvez a falha fosse intransponível. Talvez não houvesse remédio. Nesse caso, o livro representava um grande perigo, e toda a arriscada empreitada estaria fadada ao fracasso.

Largou o livro e pegou a pequena caixa de madeira. Ela também ostentava o mesmo símbolo gravado na tampa. Hesitantemente, puxou o fecho de cobre, abrindo-a.

O conteúdo da caixa ainda estava lá.

E, naquela colina isolada, Sebastião soube qual seria seu destino. Daria continuidade ao trabalho deles.

Tentaria superar a falha.

Mesmo sabendo que, ao fazer isso, colocaria sua vida em grande perigo.

Descobrir a origem do livro não era fácil. Isaac e o pai de Sebastião tinham trabalhado nele durante anos. O máximo que conseguiram garantir foi que o livro fazia parte de várias caixas de códices e pergaminhos que tinham chegado a Tomar depois da queda de Acre, na Galiléia Ocidental, em 1291.

Os textos tinham sido recolhidos pelos Templários durante suas incursões na Terra Santa, quando era sabido que os cavaleiros tinham estudado o misti­cismo e a sabedoria de seus inimigos muçulmanos muito antes de a ordem ter sido suspensa pelo papa Clemente V, em 1312. Depois da prisão dos Templá­rios, na França, ordenou-se a transferência de seus bens na Europa aos Cava­leiros da Ordem do Hospital- os Hospitalários. Conselhos provinciais foram, no entanto, autorizados a julgar localmente os Templários; na Espanha, o Conselho de Tarragona, liderado pelo arcebispo Rocaberti, amigo dos monges guerreiros, ao ser convocado, decretou a inocência dos Templários catalães e aragoneses, bem como a dos de Maiorca e do Reino de Valência. A Ordem seria dissolvida, mas os irmãos poderiam permanecer em seus mosteiros, recebendo uma pensão vitalícia.

Jaime II, rei de Aragão, não queria que as riquezas dos Templários acabassem nos cofres dos Hospitalários, cada vez mais fortes. Por isso, criou um novo grupo, a Ordem de Montesa, com a qual os Templários se fundiram. Seus membros, agora conhecidos como montesinos, obedeceriam às regras da esta­belecida Ordem de Cister, ou cisterciense, que seguia rituais semelhantes aos dos Templários. Guardariam seus pertences e protegeriam o reino contra os muçulmanos de Granada, últimos remanescentes do Islã na península Ibérica.

Em Portugal, o rei, dom Diniz, não esquecera a grande contribuição dos Templários para a vitória contra os mouros e soube defender astuciosamente a herança da Ordem. Depois de confiscar calmamente todos os seus bens, esperou que o sucessor de Clemente V fosse escolhido para, em seguida, convencê-lo a permitir a criação de uma nova ordem, que ele chamaria simplesmente de Ordem de Cristo. A Ordem dos Templários apenas mudou de nome. Os Templários castelhanos e portugueses não foram sequer interro­gados, muito menos julgados. Simplesmente tornaram-se membros da nova ordem, aceitando também seguir as regras da Ordem de Cister, e permane­ceram incólumes.

O castelo de Tomar fora o quartel-general dos Templários em Portugal e assim continuou sob a nova ordem. Esse edifício imponente, de surpreendente beleza arquitetônica, que não perdeu seu esplendor, era famoso em toda a península, por seus entalhes de motivos góticos, românicos e manuelinos e por sua igreja redonda, tão característica, onde muitos dos mestres Templários estavam sepultados. Ao longo dos anos, acrescentou-se a ele um convento e um claustro, e passou a ser conhecido como Convento de Cristo.

Isaac dissera a Sebastião que os registros dos Templários mostravam que a arca que abrigara os códices danificados tinha vindo do Levante. Era difícil obter mais detalhes sobre sua origem, já que a documentação dos Templários portugueses era de difícil acesso. Fizera-se um esforço concentrado para en­terrar qualquer evidência de que os Templários tinham-se metamorfoseado na Ordem de Cristo. Os Templários portugueses e, eventualmente, a Ordem de Cristo tinham também absorvido muitos de seus irmãos franceses que conseguiram escapar da perseguição do rei Felipe, o Belo. Seus sobrenomes caracteristicamente franceses tiveram que ser disfarçados para evitar poten­ciais investidas do Vaticano.

Ainda assim, havia criptas e bibliotecas às quais o pai de Sebastião e Isaac não puderam ter acesso. Sebastião, por outro lado, como membro da Inquisição, poderia. O rapaz começou, com muito cuidado e discrição, a explorar os ar­quivos secretos da Igreja, na esperança de descobrir mais informações sobre a nebulosa origem do códice.

Passou horas nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa. Visitou anti­gos castelos e igrejas dos Templários em Longroiva e Pombal, pesquisando velhos registros de doações, concessões, disputas e códigos de lei, buscando pistas que elucidassem o conteúdo das páginas perdidas ou mostrassem onde encontrar outra cópia do livro. Foi ao castelo de Almourol, construído pelos Templários numa pequena ilha no meio do rio Tejo, que diziam ser assombra­do pelo fantasma de uma princesa que ansiava pela volta do seu amante, um escravo mouro.

Nada encontrou.

Manteve Isaac informado de seus movimentos, mas o velho senhor estava piorando a olhos vistos. Tinha uma infecção nos pulmões, e Sebastião sabia que não sobreviveria ao inverno. Mas suas investigações chamaram a atenção de seus superiores.

Logo foi chamado para comparecer ante o inquisidor-mor. Francisco Pedroso soubera das visitas do rapaz ao marrano moribundo e ouvira falar de suas pesquisas. Sebastião justificou suas viagens pela procura zelosa de textos heréticos, certificando-se de que suas ações não manchariam a honra de nin­guém. Também minimizou suas visitas a Isaac como uma vã tentativa de salvar a alma do homem.

Os lábios pálidos e velhos daquele padre sinistro se abriram para dizer a Sebastião que Deus estava atento a todos os seus súditos, lembrando ao jovem que falar em favor das vítimas era visto como um ato mais criminoso do que os do acusado.

Sebastião sabia que seus esforços em Portugal tinham chegado ao fim. Dali em diante, seria observado. Qualquer passo em falso poderia levá-lo às mas­morras. E com a morte de Isaac, naquele inverno, deu-se conta de que nada mais havia a fazer em sua terra natal.

O legado de seus pais e de Isaac tinha que ser salvo. Mais do que isso, seu trabalho tinha de ser completado, e suas promessas, cumpridas.

Numa fresca manhã de primavera, Sebastião conduziu seu cavalo pela Ponte Velha, adentrando as florestas de eucaliptos dos montes circundantes. Ia em direção à Espanha, para os condados de Tortosa, Miravet, Monzón, Gardeny e Pensacola, que se encontravam sob a jurisdição dos Templários. Se preciso fosse, continuaria a busca no próprio centro de ensino e tradução, em Toledo.

E caso essas indagações dessem em nada, seguiria a pista da cobra devoradora até sua fonte, através do Mediterrâneo, via Constantinopla, até o âmago do Velho Mundo e os segredos que escondia.

 

O chamado à prece da tarde, vindo de uma mesquita próxima, penetrou cada poro do muro de concreto da sala de interrogatórios, arrancando Mia de sono.

Consultou o relógio, ainda grogue, e franziu a testa. Mal conseguira superar o desconforto da cama - dois cobertores ásperos que ela dobrara e colocara no chão de ladrilho - e manter-se afastada do barulho das vociferações e ocor­rências que agitaram a delegacia durante toda a noite.

As coisas melhoraram um pouco duas horas mais tarde, quando um poli­cial de boa aparência entrou na sala levando uma garrafa de água e um escaldante man'oushi - uma massa fina semelhante à de uma pizza, coberta com uma rica mistura de sementes de sésamo, tomilho e azeite de oliva. Num ato de suprema coragem, pediu para usar de novo o banheiro, sabendo perfeita­mente que uma segunda visita às instalações da delegacia e sua sujeira me­dieval poderia obrigá-la a anos de terapia para superá-la - e, possivelmente, a tomar alguns antibióticos. Ela foi levada de volta para a cela improvisada, onde ficou por várias horas de tormento, andando de um lado para o outro e tentando refrear seus pensamentos mais sombrios. Perto da hora do almoço, no entanto, a porta foi entreaberta, fazendo entrar a esperança, na pessoa de Jim Corben.

Ele se apresentou como um dos conselheiros econômicos da embaixada e perguntou se ela estava bem. O furão e o Inspetor Comum o acompanhavam, mas ela logo percebeu que ali estava em jogo uma dinâmica totalmente dife­rente. Corben era importante, e os detetives sabiam disso. Sua postura, seu aperto de mão, o tom firme de sua voz, o confiante contato visual – homens totalmente diferentes, pensou, ao compará-lo com Baumhoff —, sem falar na diferença física que separava os dois homens da embaixada. Baumhoff — por­cino, calvo, com a pele baça, por volta dos 50 anos — não podia se comparar ao homem enxuto, de cabelo cortado rente, ligeiramente queimado de sol, na casa dos 30 anos. Suas impressões foram sem dúvida influenciadas pelo fato de logo depois ter perguntado se ela estava bem, Corben ter pronunciado as palavras mágicas que atravessaram seu desespero e quase a fizeram chorar, quatro pequenas palavras que ela nunca esqueceria.

—    Estou aqui para libertá-la.

Demorou alguns segundos para que a felicidade fosse compreendida. Então, ele assumiu o comando e a conduziu porta afora, sem que os detetives ousassem fazer a menor objeção ou pronunciar qualquer palavra, mesmo que ela ainda não tivesse prestado depoimento. Corben tinha obviamente citado uma lei mais alta, e eles se limitaram a ficar de lado, vendo-a sair. Entorpecida, seguiu Corben para os fundos da delegacia e saiu pela porta dos fundos em direção à claridade do mundo banhado de sol, sem ter sequer preenchido um formulário ou assinado um comunicado de soltura.

Ele a levou rapidamente para o carro, um Grand Cherokee cinza chumbo com vidros escuros e placa diplomática, estacionado entre os carros de patru­lha Fuhud e outros utilitários, e ajudou-a a entrar, antes de se sentar ao volante. Saiu do estacionamento da delegacia com um ligeiro aceno ao guarda da can­cela e entrou no tráfego do meio-dia.

Corben olhou pelo retrovisor.

Há jornalistas na porta da delegacia. Não queria ver você metida nisso.

Eles sabem de mim?

Corben assentiu.

— Havia muitas testemunhas na noite passada. Mas não se preocupe. Até agora, conseguimos manter o nome de sua mãe fora disso, e o seu também não foi mencionado. Gostaria que as coisas se mantivessem assim, pelo menos no que diz respeito a você. Os caras na delegacia receberam ordens. Sabem o que devem dizer e o que omitir.

Mia se sentiu como saindo de uma hibernação.

- Mencionado, quer dizer, nos noticiários?

— O seqüestro de sua mãe saiu nos jornais da manhã. Por enquanto, estão falando apenas em uma americana desconhecida, mas vão descobrir o nome dela ainda hoje; a embaixada vai ter que fazer uma declaração. Estamos tentan­do minimizar o caso, mas já começa a assumir proporções maiores. O governo também não está muito interessado em tornar isso público. É má publicidade para o país, e as coisas estão um pouco sensíveis agora, como imagino que saiba. Vão falar disso como de um negócio de peças roubadas que não deu certo, contrabandistas brigando pelos espólios, esse tipo de coisa.

—    Isso é bobagem — protestou Mia. — Minha mãe não era contrabandista. Corben encolheu os ombros em sinal de simpatia, mas não pareceu convencido.

—    Você a conhecia bem?

Talvez por estar exausta e faminta, ou talvez por existir alguma remota pos­sibilidade nas insinuações dele, Mia ficou sem saber o que pensar.

—    É minha mãe — rebateu ela, apesar disso.

—    Isso não responde à minha pergunta.

Mia franziu o cenho.

—    Só estou aqui há três semanas, está bem? Antes disso, estava em Boston. Portanto, não posso dizer que éramos unha e carne, mas ela continua sendo minha mãe e sei como ela é. Quero dizer, convenhamos. Você a conhece? Ela é messiânica quando se trata de arqueologia. — Deu um suspiro cansado e acrescentou: — É uma boa pessoa.

"Uma boa pessoa." Ela sabia que soava meio vago, mas o principal é que acreditava naquilo.

—    E seu pai? Onde está?

A tristeza invadiu o rosto dela.

—    Nunca o conheci. Morreu logo depois que eu nasci. Num acidente de carro. Na estrada para a Jordânia.

Corben lançou-lhe um olhar, parecendo processar as palavras.

Sinto muito.

Tudo bem — disse ela, dando de ombros. — Foi há muito tempo.

Olhou silenciosamente pela janela. As pessoas andavam pelas ruas cuidando de seus afazeres. Sentiu uma ponta de inveja. Invejava a descontração delas — antes de se lembrar que possivelmente não eram tão despreocupadas como pareciam, depois de tudo o que haviam passado e da fragilidade do país. Não sabia o que se passava por trás de suas afáveis fachadas e pensou que, no fundo, em tempos de crise, quando se tratava de definir o que as pessoas realmente eram, talvez não soubéssemos tanto assim. Com uma pontada de culpa, per­guntou-se se haveria uma possibilidade de Baumhoff e Corben estarem certos. Ela, na realidade, não conhecia a mãe tão bem assim. Não sabia o que realmen­te estava acontecendo em sua vida. E era nesse ponto que sentimentos viscerais e duras verdades podiam facilmente divergir.

O carro diminuiu a marcha e parou, preso no tráfego da estreita rua de mão única. Ela se virou para Corben.

—    Você acredita realmente que ela estivesse negociando mercadoria roubada?

Ele sustentou seu olhar.

—    Até onde entendi, eles estavam especificamente atrás dela, e a não ser que ela seja o primeiro alvo de uma campanha contra os estrangeiros, o que nosso serviço de informações diz ser altamente improvável, é o único ângulo de que dispomos para trabalhar nesse momento.

O ânimo de Mia se abateu visivelmente enquanto digeria as palavras dele. Corben a examinou pensativo.

—    Ouça, não importa por que a levaram. O fato é que alguém está com ela, alguém pegou uma mulher, uma mulher americana, no meio da rua, e a razão disso só nos interessa se nos ajudar a encontrá-la. É atrás disso que estamos, essa é a meta. Trazê-la de volta. Podemos tratar do resto depois. — Um tom tranqüilizador transparecera em sua voz.

Mia conseguiu dar um pálido sorriso. As palavras dele fizeram com que seus olhos brilhassem e ela assentiu com gratidão.

— Sei que está cansada — acrescentou ele. — Sei que deve estar louca para chegar em casa, tomar um banho e se livrar de toda essa experiência, mas real­mente preciso falar com você sobre o que aconteceu ontem à noite. Você estava lá, O que me disser pode ser crucial para que a encontremos. O tempo joga sempre contra nós nessas situações. Acha que pode agüentar isso agora?

— Com certeza — concordou ela.

 

Um cheiro acre fez com que Evelyn recuperasse a consciência.

Aprumou-se com um salto, tentando afastar a aflição. Seus olhos se abriram, apenas para serem agredidos pela forte luz neon do aposento. Parecia vir de todos os lados. Apertou os olhos e tornou a fechá-los.

Aos poucos, sinais de consciência a tiraram de seu estado de prostração. Por um lado, não estava mais metida no porta-malas do carro. Estava sentada numa dura cadeira de metal. Tentou mudar de posição e sentiu uma dor aguda nos pulsos e tornozelos. Tentou mexê-los, mas não conseguiu. Deu-se conta de que estava algemada à cadeira.

Sentiu que havia movimento ao seu redor e abriu os olhos cautelosamente. A poucos centímetros de seu rosto, uma mão sem contornos se afastava. Tinha alguma coisa entre os dedos, um pequeno cilindro. Ao recuperar a visão, viu que era uma cápsula. Achou que talvez fossem os sais de cheiro. Sentiu uma última baforada ao seguir a mão diante dela. Um homem estava ali, de pé.

A primeira coisa em que Evelyn reparou foram seus olhos. Eram de um azul pouco comum, totalmente desprovidos de emoção. A palavra "ártico" lhe veio à mente. Estavam cravados nela, examinando-a com curiosidade, atentos a cada movimento de seu corpo.

Não piscavam nunca.

Imaginou que ele tivesse uns 50 anos. Tinha um rosto bonito e distinto. Suas feições — sobrancelhas, maçãs do rosto, queixo e nariz — eram proemi­nentes, aquilinas e, ainda assim, lindamente esculpidas. Sua pele tinha um tom dourado, ligeiramente queimada de sol. Seus cabelos, salpicados de branco, eram ondulados e mantidos para trás com gel. Era alto, com mais de um metro e oitenta. Mas o que mais a impressionou foi sua magreza. Não do tipo que sugere bulimia ou desnutrição. Sua magreza era acentuada pela altura. Ele cer­tamente se cuidava e mantinha o apetite sob controle sem que, por causa disso, parecesse fraco. Sua postura transmitia confiança e prestígio, e seus olhos frios denunciavam uma inflexível tempera de aço, o que a inquietou.

Por alguma razão, seu instinto lhe dizia que ele não era árabe. Isso foi confirmado por seu sotaque, quando finalmente falou, não com ela, mas com alguém que não tinha visto, às suas costas.

— Dê-lhe água — ordenou calmamente num árabe que com certeza não era nativo, mas que tinha, estranhamente, um ligeiro toque iraquiano.

Outro homem apareceu a seu lado e levou-lhe à boca uma garrafa de água mineral gelada. Suas feições eram escuras e mal-encaradas, os olhos sem vida como os dos homens que a tinham seqüestrado em Beirute. Seu raptor parecia ter um verdadeiro esquadrão de brutamontes à disposição. Ela afastou esse pensamento enquanto dava alguns goles, antes que o homem escuro desapare­cesse de sua vista, como um fantasma.

O homem à sua frente foi até um armário baixo e abriu uma gaveta. Ela não podia ver o que ele estava fazendo, mas ouviu um barulho de plástico sendo rasgado. Com emoção crescente, olhou ao redor. O quarto não tinha janelas e estava pintado de branco gelo. O brilhante móvel branco de gavetas ocupava toda uma parede. A peça parecia impecavelmente cuidada e meticulosamente eficiente — desagradavelmente eficiente, pensou Evelyn de repente. Um refle­xo, como pôde perceber, de seu dono.

Vários outros pensamentos preocupantes se abateram sobre sua mente.

Primeiro, e principalmente, que não tinha os olhos vendados. Seus raptores em Beirute não passeariam pelas ruas tumultuadas da cidade usando balaclavas. Mas ali... Era diferente. Aquele homem não era um subalterno. Ele estava claramente no controle. E o fato de não se importar em mostrar o rosto não era um bom sinal.

Em seguida vinha sua roupa. Ele usava uma camisa esporte, uma calça de algodão caqui e um blazer azul-marinho. Até aí, nenhum problema. O problema era o jaleco branco de médico que ele usava por cima. No quarto branco. Com o comprido móvel de gavetas branco. E, reparando agora, luzes fortes como as usadas nas salas de cirurgia.

Evelyn engoliu com dificuldade.

Não ousou olhar para trás, para o resto do aposento, mas mentalmente visualizou o equipamento cirúrgico que supunha estar ali, à espreita.

—    Por que ele veio vê-la? — perguntou o homem, dando-lhe as costas. Seu inglês tinha um sotaque europeu. Se tivesse de adivinhar, diria italiano, ou pro­vavelmente grego. Mas tinha outras coisas mais urgentes com que se preocupar naquele momento.

Seu instinto lhe dizia para perguntar quem era ele, por que raios mandara um bando de capangas assassinos pegá-la na rua, enfiá-la num carro e levá-la até ali, mas conteve sua indignação. Sua mente processou rapidamente os úl­timos acontecimentos. Sabia que estavam relacionados a Farouk, a seu amigo assassinado. Às peças do Iraque. E, se lembrava bem, muito possivelmente ao uróboro. Isso significava que o homem de jaleco sabia exatamente o que pro­curava. Irritá-lo não seria uma boa jogada.

—    Por que estou aqui?

Ele se virou para encará-la. Sua mão segurava uma seringa e um garrote. Fez um sinal para o homem atrás dela, que pegou uma cadeira e uma pequena mesa, colocando-as à frente de Evelyn. O homem de jaleco sentou-se calmamente, colocando a seringa e o garrote sobre a mesa. Virou-se para ela e, casualmente, segurou-lhe o maxilar, apertando-o dolorosamente, sem que sua voz se alterasse.

—    Se queremos nos dar bem — disse-lhe —, temos que estabelecer algumas regras básicas. Regra número um: nunca responder a uma pergunta com outra pergunta. Compreendido?

Manteve o olhar fixo nela até que fizesse um gesto de assentimento. Retirou a mão de seu queixo, com um pálido sorriso nos lábios finos.

—    Portanto — continuou —, gostaria muito de não ter de repetir, por que exatamente ele veio à sua procura?

Evelyn sentiu um arrepio ao vê-lo levantar sua manga. Pôde sentir o cheiro sutil, almiscarado, de sua loção de barba, que, irritantemente, não era de todo ruim.

—    Suponho que esteja falando de Farouk — respondeu ela, dizendo isso de uma forma que não soasse como uma pergunta.

Um sorriso aflorou aos lábios do homem. Para um rosto tão bonito, era desconcertadamente ameaçador.

—    Vou lhe conceder esta — voltou a abaixar a manga. — Sim, estou falando de Farouk.

Ela o examinou, sem saber por onde começar.

—    Ele precisava de dinheiro. Estava tentando vender algumas peças do Iraque. Artefatos da Mesopotâmia. — Interrompeu-se hesitantemente, depois se aventurou: — Posso fazer perguntas também?

Ele contraiu os lábios pensativamente.

—    Primeiro, vamos ver como nos damos — respondeu, os olhos fixos, enquanto batia com dois dedos em seu antebraço, tentando encontrar a veia.

 

Como o hotel não ficava longe da delegacia, fazia sentido conversarem lá.

O bar — ou melhor, o Lounge — estava praticamente vazio àquela hora. Mia conscientemente evitou o canto em que estivera com Evelyn na noite anterior, conduzindo Corben para o terraço. Outubro era um mês aprazível em Beirute — não tão quente como os meses de verão e ainda livre das chuvas do inverno. Perfeito para uma conversa num café ao ar livre. Mas não tão perfeito assim quando a conversa significava relembrar a noite mais traumática de sua vida, ocorrida apenas algumas horas antes.

Ela narrou a Corben os acontecimentos que precederam o seqüestro, co­meçando com o estado de espírito preocupado de Evelyn e a menção de que se encontraria com alguém "do passado", um atravessador iraquiano que ela conhecera há muitos anos, que aparecera do nada, de como se tratava de uma situação "complicada", e — tremeu, inquieta — o andróide com o rosto cheio de marcas no bar. Aos poucos recobrando a calma, ela contou do homem que seria raptado com Evelyn e se perguntou, em voz alta, se não seria o tal atra­vessador do Iraque.

Enquanto ela falava, Corben ouvia com concentração total, atento a to­dos os pormenores. Tomou algumas notas numa pequena caderneta preta e interrompeu-a várias vezes, fazendo perguntas sobre detalhes que ela ficou surpresa de lembrar. Não que os achasse úteis. As imagens esmaeceram em sua memória — o rosto do andróide, o pára-choque do carro, o homem com quem Evelyn se encontrara —, nenhuma parecia suficientemente nítida. Podia ser que um dos capangas tivesse uma cicatriz no rosto ou um gancho no lugar da mão. Mas nada fazia com que eles se destacassem na multidão, não naquela cidade. Não fazia idéia de como aquilo poderia ser útil a Corben, e foi desani­mando à medida que as chances de que ele pudesse trazer sua mãe de volta em segurança pareciam recuar para os cantos escuros de sua mente.

Ao mencionar que Evelyn esquecera o celular, deu-se conta de que o seu não tinha sido devolvido. Também se lembrou da estranha chamada no celular de Evelyn que Baumhoff atendera enquanto estava na delegacia. O incidente intrigou Corben, que lhe pediu para ser o mais específica possível, lambem fez uma anotação no sentido de recuperar o celular dela e o de Evelyn, e checar aquela chamada com Baumhoff. Isso parecia relevante, o que a ani­mou um pouco.

Corben lhe perguntou sobre as fotografias, e ela repetiu o que já tinha dito a Baumhoff e aos detetives: que nunca as tinha visto antes, que Evelyn não com­partilhara esse assunto com ela. Foi mais difícil falar sobre a última parte da história — o aparecimento dos soldados, o tiroteio e o carro. Corben mostrou-se paciente e compreensivo. Seus olhos lhe transmitiam apoio e preocupação, o que a ajudou a chegar até o fim.

O que ouviu não pareceu deixá-lo muito otimista. Ela o viu olhar em torno da sala e para a parte de trás do hotel sobre o pátio, como que os avaliando.

Mia pôde perceber sua preocupação.

—    O que foi?

Corben pesou as palavras cuidadosamente.

Quero que mude de hotel.

Por quê?

Acho que devemos tomar algumas precauções. Por via das dúvidas.

Como assim?

Ele franziu a testa, como se preferisse não precisar responder, mas era necessário. Falou devagar e calmamente.

—    O cara do bar a viu sentada aqui com ela, numa longa conversa. Depois você aparece na viela e interfere nos planos deles. Tenho a impressão de que há uma boa probabilidade de que também estivessem atrás do contato de Evelyn, de outra forma não se dariam o trabalho de pegá-lo, e, pelo que você me disse, parece que ele conseguiu se livrar deles e fugir. Se foi esse o caso, não conseguiram tudo o que queriam por causa, ou melhor, graças a você. Mas não vão ficar satisfeitos, vão querer saber por que você estava lá. Qual é sua relação com Evelyn. E se está participando ou não seja lá do que for em que ela esteja metida.

Mia sentiu um arrepio na nuca.

Está dizendo que eles podem vir atrás de mim?

Eles não saberão o que você sabe até falarem com você — especulou Corben. — Isso não vai acontecer, portanto, não se preocupe — assegurou-lhe rapidamente. — Mas vamos ter que tomar cuidado.

Cuidado? O que quer dizer com "cuidado"? Essa gente parece não ver problema em agarrar pessoas na rua. — Mia sentiu como se as paredes do ter­raço se fechassem sobre ela.

Olhe, sinto muito, não quero amedrontá-la, mas você tem razão. Esses caras não estão de brincadeira — confirmou em tom grave. — Vou designar dois homens para protegê-la, mas aqui não temos controle. Dependendo de como as coisas corram nos próximos dois dias, pode pensar em suspender temporariamente sua pesquisa e sair do país até esclarecermos a situação.

Mia olhou para ele desanimada e balançou a cabeça em sinal de descrença, aturdida com o rumo dos acontecimentos.

—    Não vou a lugar nenhum. Pelo amor de Deus, minha mãe foi raptada. — Buscou em seu rosto um sorriso, um aceno, alguma coisa, qualquer coisa que a assegurasse de que a torrente de imagens violentas que invadiam sua imaginação era apenas uma reação paranóica exagerada. Não viu nada disso. Tudo era real.

Teve vontade de vomitar.

A voz dele a tirou de seu torpor.

Você disse que ela mora do outro lado desta rua?

Sim — assentiu. — Foi por isso que escolhi este hotel.

Certo. Preciso que me mostre onde fica. Vamos até lá agora. Dou uma rápida espiada, depois voltamos para cá e você faz as malas.

Corben ficou em pé e estendeu a mão para ajudá-la. Mia levantou-se, sentindo as pernas bambas. Apoiou-se no braço dele até se recuperar. Ele deu-lhe um sorriso tranqüilizador.

Você vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. Vamos trazê-la de volta.

Vou confiar no que você está dizendo — murmurou ela, pensando que não ia deixá-lo sair de sua vista até que tudo estivesse bem e totalmente aca­bado, com ela e sua mãe em segurança noutro continente.

 

O homem do jaleco recostou-se e seus olhos de águia examinaram Evelyn atentamente. Ele parecia confuso com alguma coisa.

—    E assim, este homem — falou acidamente —, desesperado para vender al­gumas antigüidades, cruza duas fronteiras perigosas à sua procura, apesar de, e foi você quem deu essas informações, não vê-la há mais de vinte anos, você não ser uma de suas clientes, nem nunca ter servido de intermediária para ele antes. Está vendo aonde quero chegar? — Ele parou, pensativo. — Tudo se resume à minha primeira pergunta, ou seja, por que veio procurá-la?

Evelyn sentiu um frio na espinha. "Não adiantava mentir ou evitar o assun­to", pensou. "Ele sabe." Sem saber se estava se ajudando ou cavando a própria cova, disse com voz entrecortada.

—    Ele sabia que eu estaria interessada numa das peças.

A expressão dele se amenizou como se um difícil obstáculo na conversa tivesse sido ultrapassado. Suas sobrancelhas se levantaram interrogativamente.

—    Que peça seria essa?

—    Um livro — respondeu sombriamente.

- Ah.

Ele assentiu lentamente e recostou-se, parecendo satisfeito. Colocou os dedos em frente à boca.

—    E por que ele achou que você estaria interessada?

Evelyn pigarreou. Contou-lhe o que se passara em Al-Hillah em 1977. O fato de ter sido chamada para a descoberta acidental. As câmaras subterrâneas. Os vestígios do que ela pensava ser uma sociedade secreta. Contou-lhe também sobre o uróboro, gravado tanto na câmara como no livro que Farouk estava vendendo.

Enquanto falava, examinava o rosto do inquisidor. Embora estivesse nitidamente intrigado com a história, ela percebeu que ele já conhecia o símbolo. Perguntou se ela já tinha feito pesquisas sobre essa cabala e o que descobrira sobre isso. Ela lhe contou sobre a Irmandade, sobre as semelhanças no docu­mento e as discrepâncias nos lugares. A verdade era que não havia muito mais o que contar. Sua pesquisa se chocara contra um muro. Era como se a cabala da c amara subterrânea tivesse simplesmente desaparecido.

Evelyn calou-se. Tinha-lhe dito tudo o que sabia, menos uma coisa. Mantivera Tom fora daquilo. Não sabia bem por que não quis mencioná-lo. Tom não tinha lhe pedido especificamente para não falar de seu interesse. Mas ela sabia. Ela sabia que ele não tinha sido sincero. Sabia que não tinha lhe contado por que estava ali, o que o trouxera, o que realmente sabia sobre essa cabala há muito desaparecida. E agora, sentada com os pulsos e os tornozelos algemados a uma cadeira de metal num aposento sem janelas, ela sabia que o homem à sua frente estava procurando o que quer que fosse que Tom buscava há tantos anos. E, portanto, se aquele homem por acaso viesse a saber de Tom, ficaria mais do que interessado em estender a ele o mesmo tratamento dispensado a ela.

Pensando nisso, ela sentiu uma pontada de raiva. Ou de traição. O que Tom realmente sabia? E, mais importante, será que sabia que outras pessoas também estavam interessadas na cabala? Pessoas que eram, poderíamos dizer, menos gentis? Se Tom tivesse lhe contado tudo o que sabia, será que ela estaria mais segura? Teria procedido de maneira diferente? Não tinha certeza se teria feito muita diferença. Tudo tinha acontecido há tanto tempo...

Apesar de suas dúvidas, e depois de tanto tempo, ela ainda se sentia compelida a protegê-lo, uma coisa que não sabia explicar. Apenas... era assim. Um sentimento que desafiava seu instinto de auto-preservação.

Estranhamente, saber que estava escondendo alguma coisa de seu inquisidor fez com que se sentisse melhor. Saber que, de alguma forma, estava lhe opondo resistência não deixava de ser uma pequena vitória.

Infelizmente, ele pareceu pressenti-lo. Alguma coisa apareceu em seu rosto, e ele perguntou.

Então você abandonou essa pesquisa e dedicou-se a novas áreas?

Sim — confirmou ela, secamente.

Ele a examinou. Ela sustentou seu olhar com a expressão mais cândida que pôde, esperando que a ansiedade que a atravessava não ficasse evidente, antes de baixar os olhos e direcioná-los para outro lado.

—    Quem mais sabe de sua descoberta?

A pergunta, embora esperada, perturbou-a. Tentou abafar sua inquietação.

—    Ninguém. — "Falei isso de forma muito defensiva", pensou subitamente. Ainda mais que não era verdade e ele saberia, com certeza. — Fora, é claro, as pessoas que trabalhavam comigo nas escavações, outros arqueólogos e os voluntários — acrescentou ela desajeitadamente. — E andei sondando na Uni­versidade de Bagdá, e junto a outros contatos. —Não sabia ao certo se aquele primeiro "ninguém" saíra depressa demais.

O homem do jaleco fixou nela um olhar penetrante e perturbador. Era como se estivesse dentro da cabeça dela, podia senti-lo vasculhando tudo, e queria que saísse. Ele finalmente assentiu com a cabeça e se inclinou.

Posso? — E pegou no garrote. Evelyn vacilou.

O que está fazendo?

Ele levantou as mãos num gesto apaziguador.

Vou apenas tirar um pouco de sangue. Nada com que deva se preocupar. Ela moveu o braço para a esquerda e para a direita, tentando impedi-lo.

Não, por favor, não...

Ele fez um movimento brusco e tornou a segurar-lhe o queixo, só que dessa vez o apertou com a força de um torniquete. Seu olhar tornou-se inexpressivo ao se inclinar ameaçadoramente até ficar a centímetros dela.

—    Não torne as coisas mais difíceis para você — sibilou lentamente. Segurou-a durante alguns segundos, deixando que a ameaça penetrasse, então a soltou e começou a amarrar o garrote em torno do braço dela.

Evelyn ficou sentada, num silêncio provocado pelo choque, vendo-o fazer aquilo.

Ele deixou o braço dela distendido e deu-lhe uns tapinhas com os dedos longos e finos. Uma veia apareceu, convidativa. Ele estendeu a mão e pegou a seringa. Sem mesmo olhar para Evelyn, enfiou a agulha cuidadosamente na veia. Com um toque eficiente, soltou o garrote do braço, permitindo que o san­gue voltasse a fluir. Esperou um momento e começou a puxar vagarosamente o embolo, retirando o sangue.

Evelyn sentiu a náusea subir-lhe à garganta. Olhou para a parede oposta, tentando bloquear a desagradável sensação.

— Não foi um mau começo — ele falou casualmente. — Infelizmente, vou precisar lhe fazer algumas perguntas mais específicas. Para começar, tenho de saber quem mais conhece seu interesse por esse grupo perdido. Preciso também saber exatamente o que o nosso pequeno amigo negociante lhe disse, como, por exemplo, como e de quem conseguiu essas peças, e, mais importan­te, onde elas estão. E, finalmente, preciso saber onde achá-lo. Agora, antes de responder a minhas perguntas, gostaria de lhe pedir que seja o mais honesta e minuciosa que puder. As opções de que disponho para lhe infligir dor são numerosas demais para que possa mencioná-las, e prefiro que você não tenha que experimentá-las. Além disso, não quero realmente machucá-la. Parece ter uma saúde razoável. Uma vida de trabalho físico que não seja intenso demais, como o seu, provavelmente é o melhor regime a se seguir. Você poderia ser muito útil no meu trabalho. Mas preciso de algumas respostas, e, se tiver de lhe arrancar a verdade à força, suponho que algum dano localizado não chegue a afetar a utilidade do que sobrar de você.

Evelyn não sabia como entender essas palavras, que soavam ameaçadoras a seus ouvidos. "A utilidade do que sobrar de mim? Que raios isso quer dizer?" Sua mente lutou contra uma rápida investida de horríveis implicações antes de começar a se sentir atordoada à medida que o sangue era sugado. Os minutos se estenderam até ela finalmente sentir a agulha sair de seu braço.

O homem de jaleco levantou-se, colocou a seringa contra a luz, deu-lhe uma pequena sacudida e pareceu satisfeito com seu trabalho. Tapou a seringa e colocou-a na mesa. Pegou outra coisa e tornou a se sentar. Evelyn viu que trouxera uma seringa menor, juntamente com uma ampola que continha um líquido claro, cor de palha. Tinha também um pequeno chumaço de algodão embebido em álcool, que passou no pequeno orifício de seu braço. Depois pe­gou a pequena seringa e transferiu o líquido da ampola para ela.

—    Já sei que não foi inteiramente sincera no que diz respeito às pessoas com quem partilhou sua pequena fascinação. Nossos olhos e vozes traem muito mais do que imaginamos, se soubermos o que procurar. — Ele retirou as bolhas de ar da agulha e virou-se para ela. Seus olhos tinham agora uma ex­pressão cruel. — Eu sei — avisou-a, antes de prender seu braço e esvaziar nele a seringa, acrescentando: — Esta é uma pequena amostra do que pode esperar, se eu sentir que não está sendo totalmente honesta comigo novamente.

O medo apertou o coração de Evelyn como se fosse um punho de ferro enquanto ela via o líquido desaparecer em seu corpo. Olhou para seu carcereiro com a mente em pânico, os olhos procurando pistas no seu rosto impassível, sua respiração cada vez mais curta e rápida. Abriu a boca para fazer uma per­gunta, mas foi impedida por uma estranha sensação de queimação no lugar em que a agulha penetrara. A sensação concentrou-se ali por um momento antes de se estender em todas as direções, da ponta dos dedos até o peito, e, enquanto viajava no sangue, rapidamente aumentava de intensidade, crescendo de uma picada até um causticante e atroz tormento, até parecer que cada veia em seu corpo estava pegando fogo, como se todo seu sistema cardiovascular fosse um oleoduto em chamas.

Toda ela estremecia agora, seu corpo rígido de dor, a visão nublada, os lábios trêmulos, gotas de suor despontando em sua testa e escorrendo pelo rosto.

Sentia-se como se estivesse sendo frita de dentro para fora.

O homem de jaleco continuava sentado, olhando. Levantou a ampola à altura do rosto dela e pareceu genuinamente impressionado com seu conteúdo.

—    Substância interessante, esta. Chama-se capsaicina. É extraída da pimen­ta malagueta, embora comer uma enchilada mexicana não seja a mesma coisa do que ter este concentrado injetado nas veias, não é mesmo? — Seu sorrisinho malicioso e distorcido ficou nublado, à medida que ela tentava secar as lágri­mas e estremecia de dor.

"A pimenta-malagueta é um fruto notável", continuou ele, muito à vontade, "Diz-nos muito sobre a natureza humana. Pense nisso. A razão por que queima tanto quando é mordida é, em termos evolutivos, um mecanismo de defesa. É assim que a planta se livra dos animais e evita ser comida. Isso funciona bem com todos os outros animais, mas não com o ser humano. Não, nós somos diferentes; pegamos essa pimenta vermelha e não nos afastamos. Cuidamos dela, a cultivamos para obter prazer. Um prazer perverso. Para início de conversa, nós a colocamos na comida por gosto, por escolha. Gostamos da dor que ela causa. Mas isso não é nada comparado ao prazer que sentimos Ao usá-la para causar dor nos outros. Sabia que os maias a usavam para casti­gar meninas teimosas, esfregando-a em seus olhos? E, quando a castidade das meninas estava em jogo, em seus genitais? Os incas, antes das batalhas, ficavam fora da direção do vento e acendiam grandes fogueiras de pimenta malagueta contra seus inimigos. Mesmo hoje em dia, os chineses a usam para torturar os monges tibetanos. Eles os amarram em fogueiras e jogam pimenta nas chamas, intensificando o poder das queimaduras, para não falar no que faz a seus olhos. Spray de pimenta ou chili? É o baiacu das frutas. E sabe o que é mais surpreen­dente? Estamos agora descobrindo seu grande potencial como analgésico. Um analgésico. Isso diz muito sobre a engenhosidade humana."

Suas palavras foram desperdiçadas com Evelyn. Ela podia ver sua boca mexendo, ouvia partes das frases, mas seu cérebro estava paralisado e perdera a capacidade de processá-las. A onda de dor penetrava cada neurônio de seu corpo, arrasando-a até o âmago. Tentou agarrar-se a alguma esperança, alguma imagem ou pensamento que, de alguma forma, agisse contra a dor. Sua mente fixou-se no rosto de Mia; não no rosto que gritara na viela, mas no rosto alegre e sorridente ao qual estava mais acostumada. Estava prestes a desmaiar quando, tão subitamente como chegara, a dor retrocedeu. Ela respirou profundamente, preparando-se para uma nova onda de dor, esperando por ela, amedrontada, mas ela não veio. Apenas apagou-se, como uma chama.

O homem de jaleco olhava-a com interesse, como se ela fosse uma cobaia enjaulada. Seus olhos frios não registraram a menor preocupação. Ao contrário, ele consultou casualmente o relógio e fez um gesto quase imperceptível para si mesmo, como para anotar mentalmente a reação dela e o quanto durara.

As últimas palavras pronunciadas por ele antes de lhe aplicar a injeção vieram à mente de Evelyn. Chamara aquilo de uma pequena amostra do que podia esperar.

Esse pensamento a fez estremecer.

Não apenas uma amostra.

Uma pequena amostra.

Ela não podia sequer imaginar como seria a dose completa.

Ele a viu recuperar os sentidos e acenou para o fantasma atrás dela que, sem uma palavra, ofereceu-lhe mais um gole de água e voltou para as sombras. O homem de jaleco inclinou a cabeça e debruçou-se para vê-la mais de perto.

— Acredito que tenha coisas para me contar, não? — perguntou sucintamente.

 

Mia sentiu-se estranhamente vulnerável quando ela e Corben saíram do hotel e atravessaram a Rue Commodore. Era uma sensação estranha. Todas as partes de seu corpo formigavam desconfortavelmente, e ela examinava des­confiada cada rosto na rua movimentada, procurando ameaças escondidas nas imediações, olhando com inquietação até mesmo o grupo de taxistas à espera de passageiros.

Manteve-se junto a Corben quando ele foi até o carro para pegar no porta-luvas uma pequena bolsa de couro. Ao olhar para ele, viu que também estava concentrado nas pessoas e movimentos à sua volta. Não sabia se isso a deixava tranqüila ou ainda mais preocupada. Instintivamente, aproximou-se mais dele enquanto se dirigiam para o prédio de Evelyn.

Quando Evelyn chegara a Beirute, a cidade ainda estava se livrando de seus anos "problemáticos", como diziam resignadamente os locais. O governo central não passava de um nome, e serviços básicos como eletricidade e linhas telefô­nicas eram escassos. Morar em frente ao Commodore era uma bênção. O ser­viço ininterrupto que o hotel prestava a seus hóspedes estendia-se aos vizinhos acampados. A universidade conseguira para ela um apartamento decente no terceiro andar de um prédio cinza bem em frente ao hotel, que desde então ela chamava de lar. Não tinha a melhor vista da cidade — não via o mar com seus ocasos flamejantes, nem a cadeia de montanhas monumentais mais a leste —, mas pelo menos não precisava ficar encolhida junto a um lampião a gás para ler depois que aqueles mesmos crepúsculos desapareciam no horizonte. Além disso, os barmen do hotel conseguiam preparar um martini bem razoável e a carta de vinhos era decente, com preços acessíveis.


Mia tinha visitado a mãe várias vezes ao longo dos anos. O apartamento se tornara uma casa de férias até ela entrar na faculdade. Estivera lá umas duas vezes desde que assumira seu cargo em Beirute, mas, de alguma forma, não parecia o mesmo. Ela sabia que também dessa vez não pareceria.

Quando chegaram ao prédio, Mia o mostrou a Corben. Ele lançou um olhar casual para cima e para baixo da rua antes de conduzi-la através da porta de ferro e vidro, que estava aberta, para o saguão térreo. O prédio era caracterís­tico da década de 1950, uma estrutura de seis andares com sólidas sacadas ao longo da fachada. Lembrava o estilo modernista Bauhaus, o que significava que não tinha interfones elétricos nem outros aparelhos de segurança encontrados nas construções mais recentes. As portas que davam para o saguão eram fecha­das à noite, mas permaneciam abertas durante o dia. Um zelador deveria nor­malmente ficar sentado do lado de fora, jogando gamão ou fumando narguilé enquanto discutia política, mas ele não estava por ali.

Entraram no elevador, um modelo antigo com porta de metal que rangia e tinha de ser fechada manualmente. Subiram para o terceiro andar. O pequeno patamar era escuro, com uma janela alta que dava para o poço interno. Mia apertou o interruptor com temporizador. Eram dois apartamentos por andar, e ela indicou a Corben o da esquerda. Ele parou em frente à porta e examinou a fechadura por um momento. Olhou para a porta do outro apartamento, depois pediu a Mia que fosse até lá.

Faça-me um favor. Fique aqui. — Ele a posicionou de forma que ela ficasse de costas para a porta.

Assim?

Perfeito. — Não detectou nenhum ruído, deu-se por satisfeito ao ver que estavam sozinhos e voltou para a porta do apartamento de Evelyn.

Mia não compreendeu o pedido. Ficou olhando enquanto ele abria o zíper da pequena bolsa de couro, de onde tirou alguns instrumentos finos, com os quais começou a futucar a fechadura.

Mia virou-se e viu que ele a tinha posicionado de tal forma que sua cabeça bloqueava o olho mágico da porta atrás dela. Tornou a olhar para Corben com espanto e curiosidade.


Pensei que tivesse dito que era conselheiro econômico — sussurrou finalmente.

Ele a olhou de soslaio e fez um gesto de indiferença.

É o que está escrito no meu cartão de visita.

Certo. E arrombar portas e invadir apartamentos faz parte mesmo de que diploma comercial?

Ele contorceu o rosto numa última tentativa de concentração, e a fechadu­ra se abriu no momento em que a luz do teto apagou. Ele lhe deu um sorriso satisfeito.

—    Era matéria eletiva.

Ela sorriu, livrando-se momentaneamente da inquietação. Qualquer alívio era bem-vindo.

—    E eu achava que ninguém se lembrava do que tinha estudado na faculdade.

Você tem que escolher as disciplinas certas, só isso. Ela olhou para ele, insegura, até a ficha cair.

Você é da CIA, não é?

Corben não se apressou em responder.

Ela estudou seu silêncio, depois acrescentou.

—    Por que de repente tenho a sensação de que as coisas estão ficando bem mais sérias?

A expressão dele tornou-se sombria.

—    Você já sabe que é sério. — As palavras e o jeito como ele as disse penetraram em sua mente. Ele pareceu sentir o medo dela, e acrescentou tranqüilo: — Você está em boas mãos. Vamos tentar resolver uma coisa de cada vez. — Ele esperou um gesto de assentimento, que ela finalmente conseguiu fazer.

Abriu a porta devagar. Conduzia a um pequeno saguão, que dava para a sala de estar. Ele olhou para dentro atentamente. O apartamento não era muito claro, porque estava localizado numa rua estreita e circundado por edifícios mais altos, e estava morbidamente silencioso.

Ele deu um passo à frente e fez um gesto para que Mia o seguisse.

A sala era espaçosa, tinha uma janela e duas portas de correr que davam para uma varanda sobre a rua. Estava exatamente como ela se lembrava, confortavelmente mobiliada com sofás macios e tapetes persas. Exibia a mistura de toda uma vida de viagens e explorações: manuscritos emoldurados, gravuras nas paredes, relíquias e artefatos montados sobre pequenos pedestais e coloca­dos em estantes e aparadores, e pilhas de livros por toda parte. Ela examinou a sala. Tudo nela lembrava a rica vida que Evelyn levara, sua devoção pelo cami­nho que escolhera. Tinha aquela atmosfera aconchegante, protetora, de casa fechada, fruto de uma longa história pessoal. Tudo fazia com que a última casa de Mia, seu apartamento alugado em Boston, parecesse frio. Suas acomodações atuais, então — o quarto no Commodore —, era melhor nem pensar.

Ela vagou pela grande sala em meio a um torpor causado pelas lembranças que inundavam sua mente. Parou diante dos manuscritos emoldurados, sen­tindo-se atraída pela maneira fora do comum como era representada a figura humana e as letras trançadas que a rodeavam. Depois viu Corben entrando no resto do apartamento. Viu-o sair do quarto de Evelyn, investigar o quarto de hóspedes e o banheiro e, passando por ela, voltar à sala de estar.

Mia hesitou, mas entrou no quarto da mãe. A luz da tarde penetrava através das cortinas, mergulhando o cômodo numa convidativa maciez. Havia anos que ela não ia lá. Assim que entrou, sentiu um inconfundível aroma, vivido e quente. Sentiu-se novamente com 10 anos, entrando no quarto tarde da noite, enroscando-se na cama ao lado da mãe. Deu alguns passos incertos em direção à penteadeira. Fotografias suas em todas as idades emolduravam o espelho. Seus olhos pousaram sobre uma delas, tirada quando ainda era adolescente, junto com Evelyn, sorrindo entre as ruínas de Baalbek. Lembrava-se bem da­quele dia. Teve uma imensa vontade de levá-la, mas se sentiu mal com a idéia e desistiu.

Subitamente entristeceu-se por ser uma hóspede não convidada no santuá­rio de sua mãe. Um espasmo de preocupação a percorreu. Com um peso no co­ração, saiu do quarto e voltou à sala. Corben estava lá, verificando as estantes. Estreitando-se nos próprios braços em busca de conforto, Mia foi até a janela ao lado da varanda e olhou para a movimentada rua, observando as pessoas passearem, desejando que Hvelyn reaparecesse bem e inteira.

O que ela viu, no entanto, foi um Mercedes seda azul-marinho, série E, que passou discretamente pelo prédio e estacionou um pouco depois do hotel.

 

Corben analisou o quarto atentamente e chegou à conclusão de que seria necessária outra visita, mais minuciosa, logo que tivesse instalado Mia em lugar seguro.

Tinha também que checar o escritório de Evelyn no campus logo que possí­vel. Os detetives locais começariam a examinar esses lugares em breve — eram mais lentos ali do que em sua própria pátria —, o que nessa ocasião lhe convinha perfeitamente. Sabia que tinha de aproveitar a oportunidade.

Tudo começara de maneira tão inesperada que, ironicamente, ele poderia ter perdido aquela chance. Fora sorte ele ter percebido a tempo. Normal­mente não se envolveria numa situação como a do seqüestro de Evelyn, pelo menos não sem a certeza de que havia um ângulo político — que neste caso estava óbvio desde o início. O fato de estar ali, agora, no apartamento dela se devia a algo completamente diferente. Ele tinha se firmado, na embaixada e entre os colegas da CIA, como o especialista em Iraque. Então, tudo o que estivesse ligado àquele país fatalmente caía em suas mãos. Ele fizera com que todos soubessem disso. Por isso, naquela manhã, Baumhoff o tinha posto — inicialmente de forma dissuasiva — a par do seqüestro de Evelyn e mostrado as fotografias.

A pista começara naquele laboratório subterrâneo no Iraque, há mais de três anos. Depois esfriara. Ele mudara de país e trabalhara em várias outras tarefas desde então, mas se mantivera cuidadosamente atento, esperando não deixar passar pista, palpite, qualquer coisa que aparecesse. Agora, sua dili­gência e compromisso tinham sido recompensados. Com um pouco de sorte, talvez, apenas talvez, a pista voltasse a esquentar.

As coisas podiam mudar de repente. Participava do jogo há tempo suficiente para saber que isso era verdade.

Viu Mia parada ao lado da janela e foi até a escrivaninha que ficava no canto mais distante da sala. Nela estavam pilhas de pastas, livros e material referente aos cursos. Corben estava mais interessado no laptop. Quando o desligou, reparou na grossa e gasta agenda pessoal de Evelyn, aberta na página dupla correspondente àquela semana. Pegou um cartão de visita antiquado, bastante manuseado, que estava sobre ela. Era o cartão de algum arqueólogo de Rhode Island. Ele o usou para marcar as páginas em que a agenda estava aberta, fechou-a e colocou-a em cima do laptop. Checaria ambos.

Reparou numa velha pasta sob a agenda. Algo chamou sua atenção e ele a puxou.

Sua posição na escrivaninha sugeria que Evelyn a consultara logo antes de sair, na noite anterior. A primeira imagem, a gravação da cobra devoradora, fez com que a adrenalina percorresse suas veias.

A pista esquentara consideravelmente. Naquele momento, uma súbita explosão de Mia arrefeceu sua excitação com eficiência.

—    São eles — ela deixou escapar, voltando os olhos amedrontados para Corben. — Estão aqui.

Corben correu para a janela e olhou para fora. Mia apontava para os três homens andando na calçada em direção à entrada do hotel. O sangue sumira de seu rosto.

Já estão vindo atrás de mim! — exclamou.

São os caras que você viu ontem à noite?

Mia assentiu.

—    Aquele que está no meio é o esquisito do bar do hotel. Acho que o que está à sua esquerda estava com ele quando perseguiram mamãe em plena cida­de. Não tenho certeza quanto ao terceiro.

Corben avaliou os três homens. Seus olhos experientes apreenderam pequenas sugestões na linguagem corporal que apontavam para o do meio, o do cabelo negro, como sendo o chefe do grupo. Eles se moviam à vontade pela calçada estreita, um após o outro, olhando discretamente para a rua, atentos ao ambiente que os rodeava. Procurou sinais de armas e, mesmo da janela do terceiro andar, conseguiu ver uma saliência sob o paletó do chefe. Os olhos de Mia estavam pregados neles.

Eles vão simplesmente entrar no hotel à minha procura? Podem fazer isso? Em pleno dia?

Podem, se tiverem credenciais da Segurança Interna. Pode ser o caso. A cada milícia é atribuída uma cota de agentes. Podem estar ligados a qualquer uma delas. — Um cenário mais preocupante se desenvolveu em sua mente e ele discou um número em seu celular.

Ele tinha cerca de uma dúzia de "contatos" locais, em sua maioria ex-membros das milícias, que tinham seus próprios "círculos de confiança", bem como alguns oficiais dos serviços secretos militares do Líbano, passados e presentes, que poderiam ser usados como reforço, caso fosse necessário. Cada contato tinha sua própria esfera de influência e era útil numa área específica.

Depois de dois toques, uma voz de homem atendeu.

—    Aqui é Corben — anunciou secamente. — Preciso de retaguarda no Commodore. Tenho três caras entrando, talvez mais. Estão armados. — Olhou para fora e disse: — Fique na linha.

Corben e Mia ficaram juntos em silêncio, olhando os assassinos se aproximarem do hotel. Os músculos de Corben se retesaram. O momento da verdade estava a poucos segundos.

Lá embaixo, os três homens chegaram à entrada do hotel.

Não entraram. Sequer olharam para ela.

Continuaram andando, ultrapassaram dois carros estacionados, o Grand Cherokee de Corben, e atravessaram a rua.

Seu cenário alternativo estava corretíssimo.

Estavam vindo em direção a eles.

 

Mia viu os assassinos atravessarem a rua e, horrorizada, percebeu que estavam vindo em direção ao prédio de Evelyn. Seu corpo se enrijeceu quando desa­pareceram de sua vista, debaixo da sacada. Ela não pretendia inclinar seu corpo para fora a fim de monitorar a movimentação deles. Virou-se para Corben.

Como souberam que estamos aqui? — perguntou.

Não acho que tenham vindo atrás de você. É cedo demais para isso. Estão aqui para vasculhar o apartamento. — Tornou a pôr o fone no ouvido. - Precisam mandar alguém aqui rápido. Estamos no prédio residencial bem em frente ao hotel. Terceiro andar. Casa de Evelyn Bishop. Venham depressa, estão entrando neste momento — disse e desligou. Enfiou firmemente a pasta de Evelyn às costas, por baixo do paletó, e pegou Mia pelo braço. — Vamos - disse, enquanto a conduzia para a porta da frente.

Correram para o patamar, mas encontraram uma mulher que saía do apartamento ao lado. Ela parou ao ver dois desconhecidos saindo às pressas do apartamento de Evelyn. Hesitou, depois começou a dizer alguma coisa em árabe, mas Corben cortou-a rispidamente, fazendo-a se calar.

—    Volte para dentro, tranque a porta e fique longe dela. Entendeu? Os olhos alarmados da mulher moveram-se dele para Mia.

—    Faça isso agora — ordenou Corben novamente, dando um passo à frente e empurrando-a para dentro do apartamento. A mulher assentiu rapidamente, de­sapareceu por trás da porta e passou o ferrolho, como lhe tinha sido ordenado.

A luz de "em uso" do elevador ficou vermelha, seguida de um clique e do ruído do motor em funcionamento. A cabine estava descendo do último andar para o térreo. Os assassinos logo estariam ali.

Corben foi para a beirada da escada, ao lado do poço do elevador, e ficou atento por um segundo. Deu um passo atrás, olhou para o alto da escada e fez uma careta. Não gostou dessa possibilidade. O acesso ao telhado podia estar fechado. Os vizinhos podiam aparecer. Dúvidas demais.

O quê? — perguntou Mia. — O que vamos fazer?

Para dentro. — Apressou-a de volta ao apartamento de Evelyn. Corben fechou cuidadosamente a porta e passou o ferrolho. Viu que Evelyn tinha também uma corrente e ergueu a mão para colocá-la no lugar, mas de­pois pensou melhor e desistiu. Sabia que isso denunciaria a presença deles no apartamento, o que era a última coisa que queria.

Sabia também que tinha apenas alguns segundos para elaborar um plano.

Olhou bem para as portas de correr que se abriam para a sacada, olhou a janela, tomou uma decisão e virou-se para Mia.

—    Feche as cortinas o melhor que puder. Não quero nenhuma luz entrando. E feche as portas dos quartos também.

Ela o obedeceu, mergulhando a sala de estar numa escuridão sufocante. Enquanto fazia isso, Corben pegou o pano que protegia o braço do sofá e saiu quebrando com eficiência todas as lâmpadas existentes. Fez o mesmo com a lâmpada do saguão de entrada.

Mia fechou as portas dos quartos e voltou depressa, encontrando Corben na cozinha, vasculhando as gavetas. Ele pegou duas facas de cozinha, verificou a lâmina, escolheu a que lhe pareceu mais afiada e guardou-a na cintura, por baixo do cinto.

Mia olhava para ele, espantada.

—    Por favor, diga-me que tem uma arma escondida num coldre no tornozelo ou coisa parecida — falou em tom de brincadeira.

—    As armas estão no carro — respondeu, de cara fechada. Os americanos eram vistos com crescente desconfiança naquela cidade tensa, e "conselheiro econômico" começava a se equiparar a "adido cultural" como abreviatura da CIA. A saliência reveladora de uma arma debaixo do casaco — que os habitantes de Beirute reconheciam mais prontamente do que, digamos, os de Corleone - era definitivamente algo arriscado. Por essa razão, a Glock e a Ruger ficavam num compartimento fechado do jipe, a não ser que a situação realmente exigisse uma delas, ou mesmo as duas. Não parecia ser o caso.

Mais um ponto para a falta de previsão.

Corben examinou a cozinha. Ficava enfiada num canto, longe da sala de estar, e tinha uma porta de vidro que dava para uma pequena varanda. Uma geladeira alta, de um modelo antigo, mais pesado, ficava ao lado da porta, e havia armários e balcões de fórmica ao longo da parede. Atravessou a cozinha e olhou para fora: a porta da varanda não tinha cortinas ou persianas, o que não importava. Ele já havia decidido que fugiriam por ali. Tirou a pasta de Evelyn e entregou-a a Mia, que olhou para a pasta com curiosidade e depois para ele, interrogativamente.

—    Fique aqui e tome conta disso para mim — disse ele. — Feche a porta quando eu sair e a mantenha fechada até eu voltar. — Apontando para a porta da varanda, disse: — E deixe aquela aberta.

Mia tentou responder, mas as palavras sumiram de sua boca.

Corben percebeu como ela estava abalada e parou.

—    Nós vamos sair dessa — acrescentou com firmeza, os olhos cheios de con­vicção. Ela conseguiu fazer um relutante e quase imperceptível aceno de cabeça antes que ele saísse do aposento.

Mia fechou a porta, as batidas do coração ecoando em seus ouvidos. Virou-se, olhou para a cozinha, para a varanda atrás dela, e depois baixou os olhos para a pasta que tinha nas mãos.

Fixou-a por um momento com nervosa curiosidade, depois a abriu.

Do lado de fora, Corben moveu-se rapidamente na escuridão até a porta da frente. Olhou pelo olho mágico no momento em que o elevador fez um ruído quase imperceptível, liberando o mecanismo de abertura das portas. Sabia não haver risco de que vissem qualquer movimento atrás do olho mágico ou por baixo da porta, já que o apartamento estava às escuras.

Ouviu a grade de metal do elevador se abrir, e dois dos homens que vira na rua saíram. O terceiro devia ter permanecido embaixo, vigiando. Aqueles homens eram profissionais. Sabiam o que estavam fazendo, Esse pensamento o deixou ainda mais tenso.

Ele os observou; o do rosto marcado, que Mia tinha descrito como sendo o do bar, apertou o interruptor de luz e olhou em volta.

Satisfeitos porque não seriam interrompidos, voltaram-se para a porta do apartamento de Evelyn. Corben flexionou os dedos e sentiu os músculos se retraírem quando os assassinos puxaram as automáticas 9 mm e acoplaram os silenciadores, deixando-as prontas para o uso. O cara do rosto marcado fez um sinal para que seu subordinado seguisse.

Corben respirou fundo e colocou-se de um dos lados da porta. Ficaria escondido atrás dela quando se abrisse. Encostou-se à parede. Fechou os olhos por um segundo para torná-los mais habituados à escuridão.

A porta rangeu levemente com a tentativa de abri-la. Não houve ruídos de chave na fechadura. Os assassinos evidentemente não a tinham. Corben cerrou os dentes e esperou. Um segundo depois, uma das automáticas com silenciador cuspiu meia dúzia de balas que perfuraram a madeira da porta, destruindo a fechadura. Corben protegeu o rosto enquanto farpas e estilhaços de ferro ricocheteavam no pequeno saguão. Um leve cheiro de madeira queimada e pólvora chegou-lhe ao nariz.

Ele enrijeceu quando a porta se abriu vagarosamente em sua direção e observou com atenção um silenciador aparecer e pairar no ar, seguido do resto da pistola e do braço do primeiro assassino.

Corben lançou-se para ele e, de repente, tudo aconteceu numa incrível rapidez.

 

Com a agilidade de um esgrimista, Corben atirou-se sobre o homem, agarrando-o pelo pulso e puxando-o para dentro do apartamento, enquanto usava as costas para fechar a porta atrás de si.

Cirando sobre si mesmo, usou a própria força do homem para jogá-lo contra a porta, bloqueando-a. Uma saraivada de balas saiu da arma, as faíscas iluminando o rosto contorcido do intruso, ensangüentado por conta do encontrão com a porta. Corben sabia que não dispunha de mais do que um ou dois segundos até que o homem da cara cheia de marcas reagisse e tentasse entrar. Manteve uma das mãos agarrada ao pulso do assassino, pressionando a arma contra a porta, e usou a outra para lhe dar um violento soco nas costas, atingindo-o nos rins.

O golpe deixou o homem ofegante. Sua mão soltou a arma, que caiu no chão com um estrondo. Corben sentiu os músculos do homem relaxarem e aprovei­tou a oportunidade, afastando-se da porta e colocando o assassino diante dela no momento em que vários tiros atravessaram a madeira e penetraram o corpo tio intruso. Ele continuou segurando o braço do homem e sentiu-o estremecer e retorcer-se devido às balas, depois o soltou. O corpo caiu no chão com um baque surdo e ali ficou, inerte, gorgolejando, bloqueando a porta.

Corben retomou fôlego e espreitou junto à porta, tentando ouvir alguma coisa no silêncio mortal. O homem lá fora chamou:

Fawwaz?

Ele está morto, imbecil — Corben gritou de volta —, e você é o próximo. Estou com a arma dele.

O que não era inteiramente verdade. Ainda não.

Corben franziu a testa e aguardou, tenso, a resposta, que não veio. Feixes de luz do patamar entravam pelos buracos feitos pelas balas, projetando um brilho etéreo no saguão de entrada e sobre o homem morto. Corben olhou em volta, procurando a pistola, sua mente examinando as opções. Nenhuma era particularmente promissora. Abruptamente, a luz se apagou. O timer no pata­mar desligara, e o assassino lá fora não tentou ligá-lo novamente. Em vez disso, Corben ouviu-o gritar outro nome, seguido de uma ordem irada que ecoou sinistramente pelas escadas.

— Wasseem.

Provavelmente estava chamando o terceiro homem.

Quanto mais, melhor.

Não.

Corben explorou desesperadamente a escuridão à procura da arma do homem morto. Primeiro não conseguiu encontrá-la, depois viu-a do outro lado do saguão, de frente para a porta e para quem entrasse. Pegá-la seria arriscado, Corben ficaria completamente exposto.

Enquanto decidia se deveria arriscar, ouviu passos rápidos nas escadas e soube que em poucos segundos estaria novamente enfrentando os assassinos, com a desvantagem de dois para um, além das duas automáticas contra sua precária faca de cozinha. Sabia que tinha de agir. Mergulhou em direção à pistola no instante em que o assassino lá fora forçava a porta com um pontapé. O cadáver estava bloqueando a entrada. O assassino a empurrou, afastando o cadáver do parceiro para o interior da sala. Os dedos de Corben agarraram a pistola no momento em que vários tiros ricochetearam no chão a seu lado. Conseguiu agarrar a arma e fugir do saguão, enquanto mais balas atingiam o batente da porta, a centímetros dele.

Correu pela sala de estar escura e protegeu-se atrás da escrivaninha de Evelyn, enquanto várias balas penetravam a carcaça de carvalho. Espreitou e apertou o gatilho várias vezes, forçando os assassinos a se protegerem atrás da porta. Não havia mais que cinco metros entre eles. A sala de estar estava imersa na escuridão, dificultando a visão de todos. Corben, ao menos, tinha a vantagem de já conhecer o apartamento. Ganharia com isso alguns preciosos segundos, que lhe permitiriam chegar até Mia.

Ele deu uma olhada na arma que pegara. Mesmo com a pálida luz que entrava pelas beiradas da cortina pôde ver que se tratava de uma SIG-Sauer, mais especificamente de uma P226. Seu design não era dos mais elegantes, mas era precisa e confiável. Corben avaliou as armas: não eram Makarovs comuns, que podiam ser compradas a preço de banana na região. Aqueles homens — e quem quer que os enviara — tinham acesso a armas poderosas e os recur­sos necessários para adquiri-las. Fez um cálculo rápido de quantos tiros lhe restavam. Dado que a coluna dupla do carregador continha 15 cartuchos — fora o que estava na câmara —, se estivesse realmente empenhado em fazer o maior estrago numa só investida, e supondo ainda que a arma estivesse carre­gada antes que o cadáver bloqueasse a porta, suposição razoavelmente segura, Corben achou que talvez ainda pudesse dispor de uma meia dúzia de tiros.

Na melhor das hipóteses.

Ouviu alguns cliques — o assassino estava tentando ligar os interruptores. A porta se escancarou e ele ouviu mais passos entrando no apartamento. O terceiro assassino tinha chegado. Corben ouviu uma breve e acalorada conversa entre os dois homens — trocando informações e planejando a próxima ação, sem dúvida — e decidiu aproveitar a distração momentânea. Com cuidado para não desperdiçar preciosas balas, atirou duas vezes e apressou-se em sair de detrás da escrivaninha, correndo pela sala escura até o grande sofá, de costas para a va­randa. Vários tiros abafados espatifaram a mesa à sua direita e destruíram duas molduras que estavam sobre ela. Ele não atirou de volta. Pelo contrário, esperou, tentando perceber se algum dos intrusos entraria em sua zona de ataque. Expe­rientes demais para isso, eles permaneceram atrás da parede da porta de entra­da. Pôde ouvir um deles recarregando a arma. Sem se intimidar, esgueirou-se passo a passo até o pequeno corredor que dava para a cozinha. Respirou fundo e correu até lá sem cobertura. Vários disparos cortaram o ar a sua volta, mas ele continuou até se abaixar atrás de uma parede, sob fogo contínuo. Atirou de volta e correu para a cozinha, escancarando a porta e fechando-a atrás de si.

Mia estava encostada ao balcão, dominada pelo medo, a paste apertada contra o peito. Seu rosto iluminou-se ao vê-lo inteiro e aparentemente sem ferimentos. Ela parecia ter uma montanha de perguntas para ele, mas sabia que não era hora para isso.

Corben enfiou a pistola no cinto e aproximou-se da imensa geladeira. Com o rosto contorcido e o peito arfando, conseguiu arrastá-la pelo chão de ladrilhos até bloquear a porta da cozinha. Já havia percorrido meio caminho quan­do as balas atravessaram a porta, atingindo a parte de trás da geladeira ou ex­plodindo contra a parede dos fundos da cozinha. Mia gritou quando uma delas atingiu a porta da varanda e estilhaçou o vidro, desenhando uma espécie de teia de aranha. Corben gritou-lhe:

—    Fique longe da porta — e, com um último esforço, empurrou a geladeira para onde queria. Novos disparos a atingiram, mas ela resistiu, protegendo-os.

O tiroteio parou, e pesados golpes foram desferidos contra a porta do corredor. Os assassinos estavam tentando abri-la, e a pesada geladeira, embora difícil de deslocar, ia cedendo centímetro a centímetro. Corben pegou uma cadeira e a colocou entre um lado da geladeira e o amplo aquecedor, ganhando alguns segundos. Sem parar para respirar, pegou a pasta de Mia e enfiou-a sob o cinto nas costas, gritando:

—    Vamos.

Correram para a varanda. Era um retângulo estreito com varais estendidos ao comprido. Corben já verificara que havia uma varanda igual no apartamento ao lado. As duas varandas eram separadas por uma parede de grossos blocos de vidro que ia até o parapeito de estuque, sobre o qual havia uma grade metálica.

Ele levou Mia até a beira da varanda.

—    Suba — apressou-a. — Eu ajudo você.

Ela não pareceu exatamente animada com a perspectiva. Ele lançou um olhar para dentro da cozinha. A geladeira estava cedendo a cada empurrão, apesar da cadeira pressionada contra o aquecedor.

— Vamos — insistiu ele , suba, passe para o outro lado, não olhe para baixo — conselho que as pessoas sempre dão nessas circunstâncias, mas que obviamente ninguém segue.

Para não fugir à regra, Mia olhou pela amurada. O pátio nos fundos do prédio, uma terra-de-ninguém com engradados e sobras de material de cons­trução, três andares abaixo, pareceu-lhe ainda mais distante.

Mas o som de um forte empurrão vindo da cozinha acabou por convencê-la.

Cerrou os dentes e passou uma das pernas pelo parapeito.

 

Agarrando a parede divisória, Mia se ergueu e equilibrou o peso, de modo a ficar sentada no parapeito, sem que suas pernas tocassem o chão.

Corben segurava sua mão, enquanto ela cruzava, centímetro a centímetro, a grade metálica lisa, conseguindo efetivamente não olhar para baixo.

— Isso mesmo, continue — Corben incitou-a, movendo-se e avançando junto com ela, devagar e cuidadosamente, com os nós dos dedos brancos, agarrado à grade.

Um estrondo na cozinha a assustou — a cadeira não resistira à pressão. Mia soltou-se e escorregou. Gritou ao largar a grade e tentou se agarrar à parede em que estava montada, mas os blocos de vidro eram lisos demais.

Corben conseguiu segurá-la. Puxou-a para cima e lhe deu um último empurrão, fazendo com que caísse na varanda vizinha, onde ela aterrissou com um baque e sem fôlego.

Ele deu mais uma olhada para a cozinha antes de subir no parapeito. A porta da varanda oposta estava misericordiosamente aberta. Quando se juntou a Mia, ouviram a geladeira se arrastar furiosamente pelo chão da cozinha, em­purrada com violência pelos dois assassinos. Corben apressou Mia para dentro e correram pelo pequeno apartamento. Felizmente não havia sinal da mulher que tinham encontrado no corredor. Devia estar escondida no banheiro ou embaixo da cama, onde Corben esperava que ficasse até que eles estivessem longe do prédio.

Soltou a tranca da porta da frente e a abriu. O patamar estava calmo — os assassinos ainda estavam dentro do apartamento de Evelyn. Fez um sinal para Mia e desceram rapidamente pelas escadas. Tinham quase chegado ao primeiro andar quando ouviram gritos e passos atrás deles. A renovada ameaça foi acompanhada por vários tiros em direção às escadas, que se chocaram contra o corrimão e martelaram os degraus de pedra sob seus pés.

Corben e Mia voaram escada abaixo, passaram pelo saguão do prédio e saí­ram para a calçada. Um pouco mais adiante estava o jipe de Corben e o hotel. Mais além estava estacionado o Mercedes dos assassinos. Corben achou que ele e Mia não teriam tempo de entrar no carro antes que os assassinos chegassem à rua, mas tinham uma boa chance de chegar ao esconderijo de suas armas, o que faria uma enorme diferença. Com Mia à seu lado, correu até o jipe. Foi en­tão que viu um homem com a mesma expressão dura vindo em direção a eles e com a mão dentro do paletó. Os assassinos tinham deixado um quarto homem tomando conta do carro.

Mia também tinha reparado.

—    Jim — ela avisou.

Corben olhou para a rua, decidindo o que fazer.

—    Por aqui.

Pegou a mão dela e correram na direção oposta, rua abaixo, para longe do hotel e do jipe com o compartimento de armas trancado.

Correram pela calçada estreita, esbarrando nos pedestres surpresos, que os xingavam, irritados. Mia viu Corben virar a cabeça e seguiu seu olhar. Vislum­brou o andróide e o outro assassino, que saíram do prédio de Evelyn e se jun­taram ao outro homem. Os três agora corriam pela rua atrás deles. Os olhos de Mia se arregalaram quando viu o andróide olhando para ela. Seu olhar a atingiu como um soco no estômago.

Ele a reconhecera da noite anterior. Ela não tinha dúvida.

Sentiu as pernas tremerem, mas dominou-se e continuou correndo.

Corben conhecia a área razoavelmente bem e sabia que suas opções eram limitadas. Havia lojas e portarias de prédios residenciais dos dois lados da rua, mas nenhuma delas servia como proteção. Ele sabia que os três assassinos não desistiriam, nem teriam problemas em abatê-lo a tiros e agarrar Mia em plena luz do dia. Sabia também que tinha mais duas ou três balas no pente que pouco adiantariam contra eles. Seus olhos procuravam um milagre nas brechas e entradas quando percebeu uma inclinação na calçada, indicando o início de uma rampa. Um carro saiu da garagem subterrânea, dobrou e seguiu pela rua, passando por eles.

—    Para dentro — gritou ele, segurando a mão de Mia e conduzindo-a. Apressaram-se a descer a rampa curva, seus sapatos batendo com força na superfície de concreto e ecoando como trovões contra as paredes lisas que os rodeavam.

Chegaram à área de estacionamento principal. Não havia sinal de empregados, nenhum molho de chaves que pudessem roubar. Corben franziu a testa. Estavam cercados.

As luzes fluorescentes se apagaram, mergulhando a garagem subterrânea na escuridão. Corben virou-se para Mia e apontou para o outro lado.

—    Vá para aquele canto e se esconda debaixo de um carro. Não faça barulho, não importa o que ouça.

Ela prendeu a respiração.

- O que vai fazer?

Vou retê-los aqui. Estarão expostos quando descerem a rampa. Se eu conseguir atingir um, acho que os outros vão recuar. Agora vá.

Observou-a dirigir-se ao canto mais escuro da garagem. Então, posicionou-se atrás de um grande seda que estava bem em frente à rampa. Puxou a automática e segurou-a com ambas as mãos, mirando na entrada semi-iluminada pelas luzes da rua. Desejou, silenciosamente, não ter errado no cálculo das balas, e, caso tivesse, que o erro fosse a seu favor. Seu coração continuava a querer sair do peito. Inspirou profundamente várias vezes, blo­queando o cheiro de óleo e graxa a sua volta, acalmando-se, preparando-se para atirar.

Ouviu um barulho de passos descendo a rampa, mas que, de repente, parou. A garagem ficou imersa em silêncio. Sabia que os assassinos estavam vindo na direção deles. Flexionou os dedos, depois apertou-os na coronha da pistola e voltou a se posicionar.

Uma sombra alta e esguia apareceu na parede da rampa, seguida de outras duas formas fantasmagóricas que se fundiram. Pelo ângulo das sombras na parede, Corben sabia que os assassinos tinham se agachado. Seu corpo inteiro estava tenso quando ajustou a mira e colocou o dedo no gatilho, pronto para atirar. Cada dispa­ro tinha de ser preciso, e mesmo assim as probabilidades estavam contra ele.

Com o sangue latejando, viu a sombra distorcida descer pela parede e, subitamente, parar. Afrouxou um pouco a mão em torno da coronha e voltou a apertá-la, para manter a sensibilidade dos dedos no limite. Tentou captar os sons que chegavam da rua e se concentrar em qualquer ruído que o fizesse perceber o avanço dos assassinos, mas não havia nenhum. Imaginou o que fariam, depen­dendo do grau de desespero deles. Se corressem para dentro, havia grande pro­babilidade de que o capturassem, mas levariam um ou dois tiros. A não ser que a arma da qual ele se apropriara não estivesse totalmente carregada, possibilidade que nem valia a pena considerar. Afastou as dúvidas e se concentrou na sombra.

Ela não se moveu. Ficou onde estava, ameaçadora, à espreita, zombando dele.

Depois ouviu passos apressados e ficou imóvel, usando os olhos como um radar para examinar o espaço, movendo a pistola para a esquerda e para a di­reita no estreito campo de batalha. Sentiu uma brusca descarga de adrenalina antes de ver a sombra correr para cima, não para baixo. Os assassinos estavam batendo em retirada, e o faziam apressadamente. Manteve a posição, em esta­do de alerta, caso a intenção deles fosse fazer com que se denunciasse, e então ouviu o gemido longínquo de uma sirene que se aproximava.

O reforço. Estavam a salvo.

Saltou de onde estava e correu rampa acima. Chegou à rua a tempo de ver o Mercedes dos assassinos deixar o estacionamento e se distanciar. Atrás dele, dois carros do Fuhud chegaram velozmente e estacionaram em frente ao Commodore. Policiais armados com fuzis M16 saíram dos veículos e fecharam a rua, enquanto outros três subiram os degraus e desapareceram dentro do hotel.

Corben expirou profundamente, guardou a arma e voltou à garagem para avisar Mia que estavam em segurança.

Por enquanto.

 

Mia andava pelo quarto de hotel atordoada. Sentia-se oprimida, o medo e o cansaço prestes a dominá-la. Estava determinada a mantê-los à distância por mais algum tempo. Precisava fazer as malas e sumir dali. Definitivamente, o hotel já não era um lugar seguro.

Tinha dúvidas, aliás, de que algum lugar o fosse. Aqueles homens, com quem cruzara por duas vezes em menos de 24 horas, aqueles psicopatas, pare­ciam não ter problema em encontrar as pessoas que procuravam, nem tinham medo de se expor. Mostravam-se descaradamente, a céu aberto, e executavam suas tarefas sujas como se dispusessem de um salvo-conduto pela cidade. E ela estragara os planos deles. Duas vezes.

Não queria se preocupar com isso no momento.

Tentou se acalmar e se concentrar na tarefa atual. Corben lhe dissera para levar apenas o essencial, mas ela não tinha muito o que pôr nas malas — a maior parte de suas coisas só seria enviada quando ela se sentisse mais estabe­lecida na cidade, instalada num apartamento. Ele lhe dera 15 minutos para se aprontar, e já haviam se passado vinte.

Estava enfiando o laptop e a papelada numa mochila quando Corben voltou. Ele também estava carregando um laptop e uma grande agenda de couro, que ela sabia pertencer à sua mãe, e achou que se lembrava deles sobre a escrivaninha.

— Está pronta? — ele perguntou.

Ela assentiu.

Levou-a para fora. Ela olhou para o quarto uma última vez e o seguiu, indo até o saguão e saindo do hotel.

Policiais e oficiais do Fuhud ocupavam toda a rua. Os carros esgueiravam-se através do bloqueio improvisado, depois que os policiais lhes lançavam um olhar rápido e os mandavam passar. Cidadãos locais, curiosos, paravam diante das lojas ou se debruçavam nas sacadas, observando a confusão e — seguindo uma tradição local — trocando sombrias teorias conspiratórias que o tiroteio provocara.

Enquanto andavam em direção ao jipe de Corben, Mia lançou um olhar preocupado à entrada do prédio de Evelyn. Viu vários policiais afastando as pessoas, enquanto os funcionários do pronto-socorro traziam macas. O corpo do atirador morto — assim supôs — estava coberto com uma manta esfarra­pada que teria provocado um ataque cardíaco em Gil Grissom, da série CSI. A medicina legal decididamente não era prioridade naquele momento.

Mia instalou-se no assento do passageiro do carro de Corben, enquanto ele trocava algumas palavras com dois homens à paisana, com expressões duras, antes de se sentar ao volante. Reparou que eles entraram num empoeirado Range Rover preto, estacionado ali perto. Quando o que estava mais próximo dela entrou no carro, seu paletó se entreabriu e ela pôde ver que estava armado.

Corben arrancou, e o grande jipe ganhou a rua. Mia examinou cuidadosamente os arredores e viu que o Range Rover estava logo atrás deles. Seguiu-os pela rua de mão única durante dois quarteirões. Ela reparou que Corben ve­rificava a posição deles pelo espelho retrovisor, e olhou para trás, a tempo de ver o Range Rover diminuir a marcha e parar, bloqueando a rua atrás deles. Corben fez um pequeno gesto satisfeito de assentimento e seguiu em frente. Uma maneira simples e efetiva, supôs ela, de verificar se não estavam sendo seguidos.

Para onde vamos? — perguntou ela.

Para minha casa — ele respondeu secamente. — Até sabermos com quem estamos lidando, não confio em nenhum hotel.

O plano a desconcertou.

—    Tem certeza de que estaremos em segurança na sua casa?

Não havia hesitação na voz dele.

Encare desta maneira: ela está fora do alcance do radar. E para os que a têm no radar, é zona proibida, e eles sabem disso.

Proibida?

Ele pensou um momento antes de responder.

—    As únicas pessoas que sabem o que realmente faço são outros agentes secretos, e há um acordo entre os governos. Limites claramente definidos, que não se cruzam senão à custa de sérias repercussões. A ordem teria que vir de muito alto, e não é o caso. — Ele fez uma pausa e continuou. — Você vai ficar segura lá. Neste momento, não se trata de você. Estavam atrás de sua mãe, queriam examinar o apartamento dela. Não devem tê-la visto tão nitidamente a ponto de ligá-la à cena do seqüestro, mas temos que ser prudentes. Se têm informantes dentro das forças policiais, o que é provável, farão a conexão. Deixe-me tirá-la da linha de fogo enquanto verifico. De qualquer forma, você precisa descansar. Vou para meu escritório dar uns telefonemas, contatar pes­soas. Depois pensamos no próximo passo.

Mia estava grogue demais para questionar suas decisões. Apenas assentiu e olhou para a frente.

Permaneceu calada durante o resto do percurso. Ele obviamente tinha muito em que pensar, e ela não estava pronta para argumentar. Não ali, não no momento. Não no estado de espírito em que se achava. Precisava recuperar o fôlego, permitir que a descarga de adrenalina das últimas horas se esvaísse, clarear a cabeça. Então ia querer ter uma conversa com ele. E isso levaria tempo.

Farouk aguardava pacientemente na sombra, do lado de fora de Post Hall. Passavam por ele estudantes e funcionários, andando em ambas as direções pela rua estreita que corria ao longo do edifício de pedra da era otomana onde ficava o Departamento de Arqueologia da universidade.

Estava vigiando a entrada, encostado a um dos poucos carros que tinham a sorte de possuir um passe para estacionar no campus universitário, sob a escura proteção dos grandes ciprestes. O chão a seus pés estava coberto de guimbas de cigarro. Estava ali havia horas, como demonstravam os ruídos provocados por seu estômago.

Ele lera o relato do seqüestro de Evelyn nos jornais matutinos e tinha se aproximado do edifício com cautela. Para sua surpresa, a construção não apa­rentava qualquer diferença em relação à sua primeira visita, no dia anterior, quando fora procurá-la. Lembrou-se de que os jornais não tinham menciona­do o nome de Evelyn, o que explicava a falta de repórteres ou equipes de filma­gem, mas não a ausência de segurança adicional — pelo menos, nenhuma que ele pudesse perceber. Apesar de ter visto os dois detetives do Fuhud entrarem no edifício e saírem cerca de uma hora depois, não se dispunha a entrar no prédio, como tinha feito no dia anterior, para encontrar o professor-assistente. Preferiu esperar do lado de fora, onde podia verificar as chegadas e se prevenir contra mais surpresas desagradáveis.

Sua paciência foi finalmente recompensada quando Ramez, o colega duende de Evelyn, apareceu, na hora do almoço.

Farouk olhou a rua em ambas as direções. Não via nada de alarmante. Com o coração batendo forte, abandonou a proteção dos ciprestes e caminhou em direção a ele.

A menos de quatro quarteirões dali, Ornar desligou o celular e olhou pelo pára-brisa do Mercedes classe E azul-marinho. Para sua surpresa, o tráfego na Rue Bliss estava fluindo normalmente. Aquela rua, ainda com trilhos de bondes, era em geral um pesadelo. Tinha uns três quilômetros e bordejava toda a extensão da universidade. O muro do campus corria ao longo de uma calçada, cortada apenas por uns dois portões de acesso. Na outra calçada, situavam-se vários cafés populares, lanchonetes e sorveterias. Os carros dos clientes estavam estacionados em fila dupla, ou até mesmo tripla, com uma despreocupação inacreditável — comportamento habitual em Beirute —, que provocava engarrafamentos e brigas com regularidade impressionante.

Neste caso, o caos era útil. Proporcionava boa cobertura para uma conversa casual, razão pela qual Omar estava lá.

O acesso ao apartamento da velha senhora lhe fora negado. Perdera um homem no caos que se seguira. Pior do que tudo, o hakim não estava satisfeito.

Sabia que precisaria compensá-lo de alguma maneira.

Omar olhou pelo retrovisor lateral. Vários policiais estavam postados à entrada da delegacia de Hobeish.

Viu seu contato deixar o prédio.

O homem olhava para a rua, na direção dele, e viu o Mercedes. Omar fez-lhe um aceno discreto, quase imperceptível, pela janela. O furão percebeu e acenou casualmente para os colegas enquanto passava por eles a caminho do carro estacionado.

Mia aceitou as novas instalações com o coração pesado. Terminou de comer o shawarma de cordeiro, que tinham comprado às pressas a caminho do apar­tamento, e atravessou a cozinha em estado de sonambulismo, ainda tentando absorver o que havia acontecido.

O apartamento tinha dois quartos, um a mais do que Corben precisava, pois era solteiro e morava sozinho. Mas era difícil encontrar apartamentos pequenos em Beirute, e os aluguéis eram relativamente baratos. Mostrara-lhe rapidamente o lugar — cozinha, banheiro, quarto de hóspedes, toalhas limpas — antes de sair para a embaixada. Dissera-lhe que voltaria dentro de algumas horas.

Sentia-se estranha ali. Hospedada com um homem que mal conhecia. Não, um homem que não conhecia em absoluto. Normalmente — partindo do prin­cípio de que estaria ali porque saía com ele, ou estaria interessada nele de algu­ma forma —, teria matado o tempo examinando os livros, os CDs, as revistas na mesa de centro. Coisas de antigamente, de pessoas que não possuíam iPods ou páginas no Orkut, que diziam tudo o que era preciso saber, eliminando a ne­cessidade de bisbilhotice física. Teria até dado uma olhada dentro dos guarda-roupas do quarto dele, nas mesinhas-de-cabeceira ou no armário do banheiro.

Era vergonhoso, mas, de alguma forma, esperado. Curiosidade básica, que se punha em prática na esperança de descobrir as motivações do outro. Com sorte, essas coisas poderiam fazê-la sorrir, aproximá-la da pessoa em questão. Em ocasiões menos felizes, podia fazer com que fugisse para as montanhas.

Ela não estava em nenhuma dessas situações.

Ainda que esse cara fosse um agente da CIA, ela não sentiu nenhum impulso de explorar o lugar onde ele morava. Imagine as possibilidades. Sua mente lhe enviava o cenário de uma verdadeira caverna de Aladim, cheia de dispositivos e planos secretos, mas ela nem deu bola. Deu uma olhada rápida no apartamento, mal registrando o que viu. Não que houvesse muito para re­gistrar. A mobília era escassa, e as poucas que havia eram nitidamente de um homem solteiro — de couro escuro e cromo. Tudo ali parecia ter uma razão de ser. Nada era supérfluo ou fora acrescentado para causar efeito. O apartamento não era necessariamente um reflexo da sensibilidade dele. Ela imaginava que homens como Corben, que faziam o que ele fazia, viajavam e viviam com o mí­nimo. Não esperava que fosse guardar lembranças de suas mudanças de regime político preferidas em suas prateleiras ou álbuns de fotos de pessoas infiltradas e informantes na mesa de centro.

Jogou no lixo a embalagem do sanduíche, lavou as mãos e se encostou no balcão. Tinha matado sua fome, mas ainda se sentia péssima. A descarga de adrenalina estava diminuindo e a exaustão chegando. Sentiu uma fraqueza nas pernas e fechou os olhos por um momento para combatê-la. Serviu-se de um grande copo de água, bebeu-o de um gole só e foi para a sala de estar, onde se enroscou no sofá.

Em segundos, seu corpo apagou sem luta, e ela adormeceu um sono sem sonhos.

 

Manter uma embaixada em Beirute nos últimos trinta anos fora uma enorme dor de cabeça para o Departamento de Estado. Embora o sofrimento tivesse diminuído ultimamente, todos os que trabalhavam lá acreditavam que se tratava de uma trégua temporária.

O velho edifício, situado na movimentada avenida que ia em direção ao Mediterrâneo, deveria ter sido substituído em meados da década de 1970 por instalações construídas especialmente com esse objetivo. A guerra civil que começara em 1975 pusera fim a esse plano. O embaixador Francis E. Meloy fora raptado ao percorrer a Linha Verde e assassinado em 1976. Um ano de­pois, quando houve a primeira trégua, a cidade estava dividida entre facções rivais, e a área onde a nova embaixada estava sendo construída não era mais considerada segura para os americanos. O projeto foi arquivado, e as fundações abandonadas podem ser vistas até hoje.

A equipe da embaixada continuara obstinadamente no velho edifício até que um carro-bomba — o primeiro grande ato terrorista, precursor de outros ataques devastadores contra os interesses dos Estados Unidos no mundo — destruiu inteiramente sua fachada em abril de 1983. Morreram 49 funcioná­rios, entre os quais oito agentes da CIA, inclusive Robert Ames, diretor de operações. Essas mortes devastaram a capacidade da agência no país e abri­ram caminho para uma série de seqüestras de altos funcionários. Passaram-se anos até que a agência se recuperasse, mas cinco de seus agentes — a equipe que recentemente tinha começado a atuar no caos que era o Líbano na déca­da de 1980 — estavam no vôo 103 da Pan Am que explodiu, em 1988, sobre Lockerbie, na Escócia.

O que restou da missão diplomática agrupou-se na embaixada britânica, que ficava perto — um edifício de sete andares, estranhamente encoberto de alto a baixo por uma maciça rede antimíssil —, durante alguns meses tensos, alé se instalar em duas grandes casas em Awkar, nas magníficas verdes colinas ao norte da cidade. A área estava sob controle dos cristãos, mas nem por isso era mais segura. Outro carro-bomba arrasou o complexo no ano seguinte, matando 11 pessoas. O Departamento de Estado jogou a toalha e cancelou a missão por dois anos. Com a diminuição das lutas em 1990, a equipe voltou a Awkar, enquanto esperava a construção de um novo complexo, altamente fortificado, a leste da cidade, perto do Ministério da Defesa — projeto ainda não concretizado.

Ao deixar Mia em seu apartamento, Corben se dirigira diretamente a Awkar.

Deu uma checada rápida com seus colegas do segundo andar do anexo do consulado. O chefe do escritório da CIA, Len Hayfiick, e os quatro outros agen­tes lotados em Beirute tinham ali seus escritórios. Estavam sobrecarregados de trabalho. Além das atribuições cotidianas — como descobrir o paradeiro de Imad Mughniyah, o homem que se pensava estar por trás do ataque com caminhão-bomba que explodira o complexo dos fuzileiros navais em 1983, matando 241 militares, e vigiar grupos militantes como o Fatah al-Islam —, o Líbano tornara a entrar "no jogo". Uma guerra suja, não declarada, estava em pleno andamento no país. Era o pão com manteiga da agência, mas às grandes oportunidades equivaliam ainda riscos cada vez maiores. Apesar disso, o se­qüestro de Evelyn Bishop tinha caráter urgente, e Corben o tinha rapidamente reivindicado, tão logo vira as fotografias que Baumhoff lhe mostrara.

Corben passou a tarde em seu escritório, consultando o banco de dados e telefonando. Não havia nada de novo com relação ao seqüestro. Nenhum tele­fonema fora feito, ninguém assumira a responsabilidade, nenhum resgate fora pedido. Isso não era surpreendente, mas ele ainda esperava que algum grupo extremista assumisse o crime e tentasse usá-lo em troca de alguma vantagem. Os Estados Unidos mantinham a região sob rédea curta, mas podiam também distribuir favores se fossem merecidos ou, neste caso, exigidos. Nenhum favor desse tipo fora requerido.

Um telefonema de verificação aos escritórios do Fuhud lhe informara que o homem morto no apartamento não tinha nenhum papel ou documento que o identificasse. Divulgariam sua foto nos jornais, nos próximos dias, mas Corben não pensava que alguém fosse reclamá-lo tão cedo. Deu mais alguns telefonemas para seus contatos nos serviços secretos libaneses e sondou-os, sem dar grandes informações sobre seu envolvimento, além do fato de estar à procura de uma cidadã americana seqüestrada. Não havia novidades, nenhum indício apontava neste ou naquele sentido. Assegurou-se de que entrariam em contato com ele, caso acontecesse alguma coisa.

Recuperou o celular de Evelyn que estava com Baumhoff e examinou as chamadas recebidas, mas o número da pessoa que telefonara por último era restrito, confirmando o que Baumhoff dissera. Ninguém ligara desde então. Olhou as chamadas registradas. Ela ligara para uma série de números locais durante os últimos dias, porém o mais recente foi o que lhe chamou a atenção. Um número dos Estados Unidos. De Rhode Island, segundo o prefixo da área.

Lembrou-se do cartão de visita que encontrara em cima da agenda de Evelyn na escrivaninha e pegou-o. O número coincidia. Pertencia a um tal Tom Webster, do Instituto Haldane de Arqueologia do Mundo Antigo. Corben calculou rapidamente a diferença de horário e constatou que era ainda muito cedo na Costa Leste. Era pouco provável que alguém estivesse lá. Procurou o Instituto Haldane na internet. A informação era de que se tratava de um centro de pesquisa privado dedicado ao estudo e à divulgação da arte e arqueo­logia do Mediterrâneo antigo, Egito e Ásia ocidental, associado à Universidade Brown. Não havia menção a qualquer Webster em suas listas. Anotou "Tom Webster", "Haldane, U. Brown" e "privada" em sua caderneta, registrando men­talmente que deveria ligar para lá mais tarde.

Levou o telefone para o escritório de comunicações e entregou-o ao excên­trico chefe de operações, o nerd Jake Olshansky. Pediu-lhe que conseguisse, com sua mágica, descobrir quem tinha sido o tímido autor não identificado daquele telefonema para Evelyn. Pediu também uma lista de todas as chama­das que ela fizera ou recebera nas últimas duas semanas e perguntou ao jovem técnico se poderia fazer o mesmo com o número de casa. Recuperou o celular de Mia, que estava com Baumhoff, e o olhou rapidamente, mas não havia nada que lhe chamasse a atenção. Apesar disso, pediu a Olshansky que fizesse igualmente uma listagem do chip, anotando mentalmente que deveria pegá-lo na saída e devolvê-lo a ela. Entregou-lhe também o laptop de Evelyn — sua própria tentativa de ligá-lo esbarrara no acesso protegido por senha, mas sabia que Olshansky conseguiria fazer isso sem grande esforço.

De volta ao escritório, começou a examinar a agenda pessoal de Evelyn. Estava cheia de cartões e anotações, denunciando uma vida ativa e movimen­tada. Uma primeira olhada não revelou nada de interessante. As anotações da semana anterior, em particular dos dois últimos dias, não faziam menção ao homem do passado que ela tinha reencontrado. Pôs a agenda de lado, dei­xando-a para mais tarde. Sabia que precisava de mais tempo para estudá-la detalhadamente.

As pesquisas sobre Evelyn e Mia não trouxeram surpresas — mas não havia muita informação. Nada indicava que não fossem duas mulheres tranqüilas, sem problemas com a lei, nem mesmo um cartão de estacionamento não pago. Encontrou alguns comentários bastante expressivos que Evelyn fizera durante a briga entre empreiteiros e defensores do patrimônio, na época da reconstru­ção do centro histórico, mas nada de relevante.

Corben reclinou-se e repassou na cabeça os acontecimentos da última noite, desde o momento que Evelyn e Mia tinham tomado um drinque. Ficara admirado com a tranqüilidade e a confiança com que o grupo de brutamontes operara. Beirute evoluíra muito desde os negros dias sem lei, e um grupo de assassinos bem armado e bem treinado não podia simplesmente agir impu­nemente se não tivesse algum tipo de ligação "oficial" ou sanção de uma das muitas milícias locais — o que significava inevitavelmente uma conexão tipo "big brother" com um dos serviços secretos, libanês ou sírio. A identificação do atirador morto apontaria logo para que clã a quadrilha de brutamontes estava trabalhando, mas não parecia viável. Pistoleiros de aluguel eram baratos e fáceis de achar, e pistas eram facilmente apagadas. Cada milícia, cada agência dispunha de alguém infiltrado para fazer com que as coisas acontecessem, ou melhor, desaparecessem.

Precisava saber de onde vinha a ameaça. Um simples sotaque podia identificar a procedência do atirador e, possivelmente, conduzir até o alvo: quem tinha contratado os assassinos. Infelizmente, o atirador estava morto. Corben também sabia que aqueles caras já tinham cometido dois erros. Dificilmente errariam uma terceira vez. Tinha que ser mais cuidadoso dali para a frente.

Pegou a pasta que encontrara na mesa de Evelyn e a folheou. Possivelmente haveria mais informações em seu computador, mas levando em conta a anti­güidade dos papéis e das fotografias achava que devia se concentrar nelas. Leu as anotações de Evelyn com mais atenção, examinou novamente as fotografias. De seus dias no Iraque, sabia que Al-Hillah ficava perto do sul de Bagdá.

Imaginou a câmara subterrânea que ela havia descoberto e pensou no laboratório que ele tinha investigado.

Ambos no Iraque, a uma distância de uns 150 quilômetros um do outro. Ambos com imagens do uróboro.

Coincidências só existiam no mundo da fantasia, junto com políticos altruístas, almoços grátis e um Oriente Médio democrático.

Examinou as anotações da sua conversa com Mia. Concentrou-se nas palavras "atravessador iraquiano" e circulou-as. Refletiu a respeito, depois olhou novamente as fotografias que estavam na bolsa de Evelyn. Deixou a idéia que estava se formando em sua mente fluir. Tudo parecia se encaixar. Um homem saído do passado de Evelyn no Iraque, esse "atravessador': aparece sem aviso prévio. Pouco depois, ela desaparece. Dentro de sua bolsa foram encontra­das fotos de relíquias de grande valor provenientes da Mesopotâmia. Tinha quase certeza de que o atravessador a havia procurado para lhe oferecer esse material, um certo livro em particular. Ela possuía uma ligação anterior com a cobra devoradora - precisava saber mais sobre essa ligação. Mas sabia que seu alvo ainda estava vivo, agindo com o mesmo cruel abandono que havia demonstrado em Bagdá. Sabia que, movido por idêntica crueldade, ele tinha despachado homens para raptar Evelyn e vasculhar seu apartamento.

Estava chegando perto.

Podia sentir o hakim, lá fora, lutando por seu sonho indescritível. Precisava agora fazer com que aparecesse, e o caminho óbvio apontava no sentido do atravessador iraquiano, que claramente tinha o que o hakim procurava. O atravessador era a chave para encontrar as peças, e ainda estava por ali, provavelmente escondido. A questão era como encontrá-lo antes que o hakim o fizesse.

O atravessador tinha que sair do esconderijo - supondo que já não tivesse deixado a cidade, o que era uma séria possibilidade, devido à aparente preca­riedade de sua presença ali. Ao pensar no assunto, Corben voltou a examinar a pasta que trouxera do apartamento de Evelyn. Continha várias fotos antigas, recordações das escavações; algumas mostravam Evelyn de pé com homens que eram nitidamente trabalhadores árabes. Havia uma boa chance de que um deles fosse o atravessador desaparecido, cujo rosto Corben desconhecia.

Por outro lado, Mia o conhecia.

Ficou refletindo sobre o assunto. Tinha que falar com ela sobre isso. Preferia não envolvê-la - já passara por tanta coisa em menos de 24 horas... -, mas havia muito em jogo e ela já estava envolvida. Tinha apenas que agir com muita cautela. O que não seria fácil, tendo em vista com quem estava lidando.

O telefone de sua mesa tocou, interrompendo seus pensamentos. Ao pegar o aparelho, checou antes para ver quem o estava chamando. Era o embaixador.

 

O desespero tomou conta de Evelyn enquanto olhava as paredes da cela.

Aparentemente, o pequeno quarto era até melhor do que esperara. Não se assemelhava aos buracos decrépitos e escuros, infestados de ratos, que se lembrava de ter lido nos relatos das vítimas de seqüestro na década de 1980.

Parecia-se mais com um quarto de hospital do Oriente Médio. Bem, talvez não de qualquer hospital. Estava mais para um pavilhão psiquiátrico.

As paredes, o chão e o teto eram pintados de branco. A cama, embora estreita e pregada ao chão, tinha um colchão de verdade, somado ao verdadeiro luxo de um travesseiro, lençóis e um cobertor. Havia também um vaso sanitário e uma pequena pia, que funcionavam. A iluminação era barulhenta, graças às duas lâmpadas fluorescentes que zumbiam desagradavelmente em seus ouvidos. Duas coisas, porém, impediam qualquer alívio que pudesse obter da relativa civilidade da sua acomodação. A única abertura existente não se encontrava em nenhuma das paredes, mas na grossa porta metálica que, como ela reparara, não tinha maçaneta. Era uma pequena vigia de vidro espelhado, que permitia que seus captores a observassem sem que ela os visse. Além disso, o quarto era tão inquietante quanto qualquer buraco sobre o qual lera, mas de maneira diferente. Seu relativo conforto fazia prever uma estada longa, sua austeridade fria e clínica continha ameaças mais sutis do que as celas sobre as quais também tinha lido. Uma maldade emanava daquelas paredes e impregnava seu corpo.

A queimação que havia percorrido suas veias desaparecera. Esfregou lentamente os braços nus, sem querer acreditar que não sofrera efeitos colaterais da, como é que ele a chamara? Não se lembrava mais. No entanto se lembrou com raiva de que as palavras não saiam com a rapidez necessária quando co­meçara a lhe contar o que sabia. Sentiu-se fraca, desamparada e, pior do que tudo, humilhada. Enfrentara muitas vezes a adversidade e situações difíceis desde que se mudara para a região há tantos anos, e se orgulhava de sua força interior, de saber tomar as decisões impostas quando necessário. As últimas horas haviam arrasado qualquer percepção que tivesse de sua coragem. Seu algoz a tinha reduzido sem esforço a um destroço acovardado e aterrorizado, e esse pensamento ardia dentro dela tanto ou mais do que o líquido demoníaco que ele brutalmente lhe injetara.

A pior parte, a mais frustrante e enlouquecedora, era não saber em que havia se metido.

A descoberta de Al-Hillah, afinal, não levara a nada. A pista tinha acabado

abruptamente na própria câmara onde começara, o que pusera fim ao caso.

Depois da partida de Tom, depois que o ciclone que passara por sua cabeça amainara, tinha se recriminado por ter permitido que ele a destruísse, por não ter sabido ler os primeiros sinais. Mas ele fora muito difícil de decifrar. Durante seu breve caso, sentira uma inquietação enraizada, o profundo conflito em que ele se debatia. Não tinha dúvidas de que ele não lhe revelara tudo: sua presença naquela cela era prova disso. Mas, naquela época, sentira - ou pelo menos alimentara esperanças - que não era a mentira tradicional, uma mulher em alguma parte, uma vida mundana da qual escapara momentaneamente. Tudo indicava que se tratava de algo mais complicado. Mas quando ousara tocar no assunto, ele o evitara com charme - e mudara o rumo da conversa. Sabia que os sentimentos dele eram verdadeiros - ele mesmo o confessara. Sabia, é claro, que os homens mentem, mas em seu âmago tinha certeza de que não se enganara, seus instintos tinham se mostrado mais do que confiáveis ao longo dos anos. Ela se lembrava até hoje da honestidade que brilhara nos olhos dele quando lhe disse como se sentia em relação a ela, mas nunca pudera superar sua capacidade de se afastar dela com toda aquela impessoalidade.

Ainda podia ouvir as palavras de despedida como se ele estivesse a seu lado, sussurrando-as em seu ouvido.

"Não posso ficar com você. Não podemos ficar juntos.

"Não existe outra pessoa. Gostaria que fosse simples assim. Mas não posso falar sobre isso. Saiba que, se houvesse alguma coisa no mundo a fazer para ficarmos juntos, eu a faria."

E, com isso, foi embora.

Deixando-a com a pouco invejável missão de continuar sua vida e esquecê-lo, lidando com a separação ainda mais intolerável pelo simples fato de que era inexplicável e - a seus olhos - injustificada. Deixando-a com a tarefa de criar seu filho, de cuja existência ele sequer sabia. Uma criança a quem ela mentira durante anos. Uma pequena menina, a quem ela dissera que seu pai morrera.

Vivera com essa mentira durante trinta anos, e, mesmo após todo esse tempo, pensar no assunto lhe provocava um aperto no peito. Fora uma decisão difícil, mas ela sabia que Mia partiria à procura do pai se achasse que ele estava em algum lugar, e Evelyn não queria isso. Ele deixara as coisas muito claras. Não havia necessidade de expor Mia a uma decepção dolorosa.

Conseguira ao menos esconder isso do hakim. O mais importante de tudo era que não ficasse sabendo que Mia era filha de Tom. Ele ainda não tinha feito a conexão; ainda não tinha feito essa pergunta. Se tivesse, estremeceu, ela pro­vavelmente falaria. Isso faria com que ele fosse também atrás de Mia, coisa que sequer podia imaginar.

Pequenas vitórias. Era tudo em que podia se agarrar agora.

Alguma coisa fora da cela chamou sua atenção. Um barulho. Áspero, movi­mentos feitos com dificuldade, passos se arrastando no chão de pedra.

Foi até a porta, tentando espiar através do vidro espelhado, mas tudo o que viu foi o reflexo do próprio rosto. Colou o ouvido à porta e escutou atentamente. Ouviu uma porta ser destrancada, seguida de alguns movimentos e um grito que lhe provocou um arrepio na espinha, o grito de um menino, um brado atormentado, implorante. O terrível som foi seguido pelo grunhido de um homem enraivecido, ordenando que se calasse - Khrass, wlaa -, e o barulho de um tapa, rapidamente seguido de um uivo de dor do menino. Ela ainda ouviu um choramingo antes de a porta ser batida com violência e trancada.

 

Esperou um minuto até que o homem se afastasse, contando os segundos, com o coração na boca, se perguntando se devia tentar entrar em contato com o outro prisioneiro. Ocorreu-lhe um novo pensamento: e se houvesse mais prisioneiros? Não tinha como saber. O homem que a levara de volta à cela colocara um pano preto em sua cabeça, que só removera quando ela já estava lá dentro. E a idéia, a possibilidade, de que outros estivessem presos ali a deixou ainda mais amedrontada.

Decidiu arriscar.

- Ei! Há alguém aí? - Seu murmúrio ecoou no silêncio que a rodeava. Nenhuma resposta.

Ela repetiu, dessa vez um pouco mais alto, mais desesperada. Ainda assim ninguém respondeu.

Achou que tivesse ouvido um choramingo baixinho à distância, mas não tinha certeza. Seu coração batia descompassadamente, tornando as coisas ain­da mais difíceis.

Esperou alguns minutos e tentou de novo, mas só obteve como resposta um silêncio mortal. Tremendo, abatida, deixou-se cair no chão e apoiou o rosto nas mãos, tentando dar um sentido ao pesadelo a seu redor.

Seu pensamento retrocedeu rapidamente para o rosto do homem de jale­co no momento em que ouviu seu relato. Seu interesse redobrara quando ela mencionara Tom. Fizera-lhe todo tipo de perguntas sobre ele, querendo saber tudo a seu respeito. Estava fascinado e tomava notas, acenando com a cabeça enquanto ela falava. Seu instinto estava certo. Deveria ter mantido Tom fora daquilo, mas, na prática, havia muito pouco que poderia ter feito a esse respei­to. As chamas percorrendo seu corpo tinham-se encarregado disso.

Mia estava em segurança, por enquanto - pelo menos, esperava que sim -, mas Evelyn sabia que seu seqüestrador não pouparia esforços até achar Tom Webster. Junto com esse pensamento enervante, outro ainda mais perturbador veio à tona: perguntou-se se sua filha conseguiria encontrar alguém que a aju­dasse a procurar por ela com bastante empenho, e se um dia voltaria a vê-la.

 

O escritório do embaixador estava localizado nos fundos da casa principal, o mais longe possível da entrada do complexo residencial, e separado do mun­do exterior por portas à prova de bombas e espessos vidros espelhados à prova de balas. Fuzileiros navais e tropas do Exército libanês patrulhavam tanto a floresta de pinheiros que rodeava os fundos do complexo residencial quanto seu portão de entrada.

Aquelas precauções eram obviamente necessárias, mas ninguém se iludia quanto à sua real eficácia. Se em alguma capital regional decidisse atacar a embaixada como parte de um jogo político perverso, nenhuma barricada impediria que isso acontecesse. Todos os que trabalhavam ali sabiam disso, a começar pela pessoa no centro da mira, o próprio embaixador. Corben apreciava como diferentes homens lidavam com o fato de estar naquela po­sição fascinante. O atual embaixador, honra lhe seja feita, a vivia com um estoicismo admirável.

Ao entrar no escritório, Corben encontrou o embaixador com um homem que não conhecia, que se levantou rapidamente, apresentando-se como Bill Kirkwood. Seu aperto de mão era firme, o olhar direto, a atitude agradável. Ele era tão alto quanto o próprio Corben e parecia estar em boa forma. Corben imaginou que Kirkwood provavelmente era alguns anos mais velho do que ele, o que o situava na casa dos 40.

- Bill chegou de Amã esta tarde - informou-lhe o embaixador. – Veio saber a respeito do caso de Evelyn Bishop.

Isso surpreendeu Corben. Um pouco precipitado demais, para seu gosto.

- Qual é seu interesse nisso? - perguntou ele a Kirkwood.

Eu a conheci há alguns anos. Trabalho no Departamento de Patrimônios Culturais da Unesco e Evelyn ia muito lá, lutando por nós contra os empreendedores do centro da cidade. Ela é um redemoinho, alguém que não se esquece com facilidade - acrescentou Kirkwood, com um sorriso afável. - Financiamos parte de seu trabalho desde então.

Corben olhou para o embaixador com uma expressão interrogativa, querendo saber aonde aquilo levaria.

- Bill está preocupado - informou o embaixador -, tanto do ponto de vista pessoal quanto do profissional - e, virando-se para Kirkwood, deixou que ele terminasse de explicar.

- Bem, meu principal interesse é, evidentemente, o bem-estar de Evelyn. Isso é fundamental. Ela é alguém que respeitamos e queremos proteger. Preciso me certificar de que tudo está sendo feito de forma que ela nos seja devolvida rapidamente e em boas condições - esclareceu Kirkwood. - Além disso ­acrescentou com uma certa hesitação -, claro, há uma preocupação óbvia com o fato de que uma das nossas profissionais mais respeitadas e represen­tativas esteja sendo acusada de algo a que os jornais se referem como tráfico de relíquias, que, no meu entender, é como o governo libanês está querendo tratar esse assunto. - Ele se interrompeu por um momento e lançou um olhar questionador ao embaixador, antes de acrescentar: - E só posso admitir que nós também não estamos muito afastados desse pensamento.

- Precisamos pesar os prós e os contras de como isso vai aparecer - disse o embaixador, com a calma atitude defensiva de um profissional experiente. - O Líbano se encontra numa situação extremamente frágil neste momento. Uma americana, especialmente uma mulher de mais idade, sendo arrancada das ruas sem razão aparente. Isso seria sem dúvida percebido como um ato terrorista, anti-ocidental. E a época não podia ser pior. Esse povo está tentando desespe­radamente manter a imagem de paz e normalidade que mal acabou de recupe­rar após todos esses anos de violenta desordem. E com tudo o que aconteceu neste verão, o país precisa agora, desesperadamente e mais do que nunca, de investimentos externos. Tanto o primeiro-ministro quanto o ministro do Interior me lembraram disso. Eles estão em pânico. Não preciso lhe dizer quanto a imagem conta quando se trata de levantar fundos... Se isso repercutir será como uma bola de neve, inspirando novos atos...

- Já um contrabandista, pego em certo tipo de trato sujo, não seria um reflexo de instabilidade política e, assim, seria muito mais fácil de eliminar ­observou Kirkwood um pouco secamente, virando-se para Corben. – Você percebe a gravidade da situação com a qual estamos lidando.

- Não consigo acreditar que seja um bom negócio para sua organização apresentá-la como contrabandista - rebateu Corben.

Kirkwood considerou o comentário e, dando-se por vencido, concordou, sentindo-se culpado.

- Claro que não seria. Não vou negar que temos todo interesse em evitar qualquer respingo por associação. A organização não tem exatamente o apoio integral do Capitólio. Nossa nação mal acabou de voltar à organização, o que não foi fácil.

Os Estados Unidos tinham, de fato, sido um dos 37 membros fundadores da Unesco. A organização, que foi inaugurada em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, tinha sido criada para promover a paz e a segu­rança, encorajando a colaboração entre as nações por meio da educação, da ciência e da cultura. Durante as quatro décadas seguintes, ela cresceu e incluiu mais de 150 países entre seus membros. Mas sua política - sobretudo a ex­terna, acusada inquietantemente de "esquerdista" - divergiu dos programas americanos. A divergência atingiu seu ponto culminante quando os Estados Unidos finalmente se retiraram da organização, em 1984. Eles só regressaram em 2003, num gesto simbólico, bipartidário, do presidente Bush. Mas não era preciso ir muito além para perceber que, nos círculos oficiais de Washington, a organização ainda era tratada com o mesmo ceticismo e desprezo reservado a sua irmã mais velha, as Nações Unidas.

- É preciso tratar disso com o maior cuidado - afirmou o embaixador -, tanto em termos de resgatar Evelyn Bishop quanto do que se vai dizer ao público.

Corben examinou os dois homens por algum tempo.

- No que se refere a resgatá-la, vocês sabem que essa é também nossa prioridade. No que se refere à mídia, bem... esse incidente não é político. Esta­mos quase certos disso. - Ele se virou para Kirkwood. - Acho realmente que isso tem a ver com as relíquias iraquianas, mas o papel de Evelyn Bishop nesse contexto não está claro.

- Você sabe de que tratam essas relíquias? - perguntou Kirkwood.

Corben hesitou por um instante. Não queria falar mais do que pretendia, mas tinha que pisar com cuidado.

        - Estatuetas, tabuletas com inscrições, selos. Temos algumas fotografias delas - informou.

        - Posso vê-las?

        A pergunta pareceu surpreender Corben. Kirkwood estava mergulhando mais fundo do que esperara.

- Claro, estão no meu escritório.

Kirkwood balançou a cabeça.

- Então está bem. Achamos que ela se envolveu de alguma maneira com esses caras. Mas será que se envolveu voluntariamente na transação ou estava tentando impedi-la? Percebe o que quero dizer? É por esse ângulo que devemos investigar. Ela soube de alguma coisa, tentou impedi-los ou os denunciou, e eles se apoderaram dela. Conhecendo-a como eu a conheço, foi isso realmente o que aconteceu.

- Isso serviria provavelmente para todo mundo - observou o embaixador.

- O que acontece - notou Corben - é que ela não contatou ninguém sobre isso. Se realmente estava tentando interceptá-los, teria chamado alguém, e dado aos contrabandistas uma razão para silenciá-la. É isso que me preocupa. Se foi realmente o que aconteceu, eles farão tudo para silenciá-la... e não vão nos procurar com nenhum pedido de resgate. Precisaremos chegar até eles e oferecer-lhes algo que permita o retorno dela sã e a salvo. Presumindo que ainda não tenham ido longe demais. - Ele olhou para seus interlocutores de forma sinistra.

- Imagino que vocês vão fazer a notícia correr por seus canais, lançar a mensagem de que a queremos de volta sem perguntas, não? - perguntou o embaixador.

- Isso já foi feito - garantiu Corben. - Mas nossos contatos estão muito mais reduzidos desde o verão. O país está dividido ao meio. Um lado não fala conosco e o outro tem pouca utilidade neste caso.

- Tenho muitos contatos na área - disse Kirkwood a Corben. - Gostaria de trabalhar nisso com você. Pode ser que as pessoas que posso atingir sejam diferentes das que compõem sua rede. Temos muito contatos no que se refere a antigüidades iraquianas. E isso pode parecer uma tentativa partida de uma organização neutra, como as Nações Unidas, em vez de vir diretamente do Grande Satã - acrescentou, usando o epíteto preferido nessas regiões para se referir aos Estados Unidos.

 

Corben olhou para o embaixador, que parecia claramente aprovar o pedido. Já ele não se sentia assim tão à vontade na situação. Sempre tinha trabalhado sozinho. Isso fazia parte tanto das especificações de seu emprego quanto de sua escolha pessoal. Mas, embora detestasse ter alguém olhando sobre seu ombro, Corben não podia simplesmente recusar. Além disso, Kirkwood podia provar­-se útil. De fato, as Nações Unidas tinham muitos contatos na área. E, afinal, encontrar Evelyn poderia, sem dúvida, conduzir ao hakim. Isso seria o fim da partida, embora não se sentisse muito à vontade em partilhar essa informação com o homem diante dele.

- Isso não é um problema - concordou Corben.

A pergunta seguinte de Kirkwood o surpreendeu.

- Ouvi dizer que há outra mulher envolvida nesse caso. O que sabemos sobre ela?

- Mia Bishop - respondeu Corben. - É a filha dela.

 

A sala de estar estava mergulhada numa penumbra suave e Mia se espreguiçava no sofá de Corben. Ainda sonolenta, sentiu-se momentaneamente confusa pelo ambiente pouco familiar, mas logo tudo voltou a sua mente. Sentou-se devagar e esfregou o rosto com as mãos para se livrar daquele torpor. Esperou que seus sentidos se recuperassem. Pôs-se de pé, andou até a varanda.

Os prédios do outro lado da rua, uniformemente cinzentos, pareciam tão cansados e abatidos quanto ela. Os locatários tinham envidraçado muitas varandas ilegalmente, transformando terraços externos em espaços internos, e as fachadas ainda ostentavam cicatrizes dos estilhaços de granada e buracos de balas. Uma floresta de antenas de televisão brotava dos tetos planos, os fios de telefone e de eletricidade formavam uma teia sobre as ca­beças, constante lembrança da imagem provisória, remendada, do lugar. Do ponto de vista estritamente estético, a cidade não era atraente, de maneira alguma. No entanto, desafiando a lógica e as expectativas, seduzia todos que a visitavam, inclusive Mia.

Ela tomou um banho rápido e estava se secando quando ouviu um ruído na porta da frente. Todo seu corpo se enrijeceu. Prestou atenção cuidadosamente, embrulhou-se numa toalha, caminhou para a porta do banheiro, abrindo-a alguns centímetros, e olhou pela fresta. Dali, não conseguia ver a porta da frente. Sua mente começou a funcionar em alta velocidade. Deveria se esconder no banheiro? Não era uma boa idéia, pois não havia janelas. Deveria então ir para um dos quartos que davam para a varanda? Isso tampouco era útil, já que o apartamento ficava no sexto andar e ela não se via repetindo a façanha de andar na corda bamba. Suas opções estavam se reduzindo rapida­mente quando o ferrolho estalou ruidosamente e a porta se abriu. Cada pêlo de seu corpo se eriçou por um décimo de segundo, até que a voz de Corben ressoou pelo apartamento.

- Mia?

Fechou os olhos e respirou fundo, aliviada, censurando-se por ter deixado soltas as rédeas da imaginação.

- Estou indo - respondeu, esforçando-se para soar o mais tranqüila possível.

Vestiu-se e foi ao encontro de Corben, na cozinha. Ele tinha trazido seu celular de volta. Viu que tinha duas mensagens. Estava começando a vazar na imprensa que a mulher seqüestrada de quem falaram os jornais era Evelyn. A primeira mensagem era do chefe de projetos da fundação. A segunda, de Mike Boustany, o historiador local que trabalhava com ela no projeto e que ela chegara a conhecer muito bem. Precisava telefonar de volta para eles e contar o que acontecera, mas decidiu deixar isso para a manhã seguinte. Tinha certeza de que outros colegas e amigos ligariam tão logo a notícia se espalhasse; então, ela baixou o volume do toque do telefone, preferindo filtrar as ligações. O único chamado que atenderia, se viesse, seria de sua tia, de Boston. Primeiro, queria discutir as coisas direito com Corben. Ele trouxera comida e ela estava morta de fome.

Colocaram as embalagens de alumínio contendo kafta de carneiro, pasta de grão-de-bico e outros tipos de mezze sobre a pequena mesa da sala de estar e sentaram-se de pernas cruzadas em almofadas, tirando colheradas dos pratos e bebendo cerveja Almada. Em Beirute, como no resto do Mediterrâneo, comer era um festim elaborado de pratos delicadamente preparados, mas também um importante ritual social. Mia sucumbiu aos charmes terapêuticos da co­mida e da cerveja e, por um instante, a conversa informal entre ela e Corben - principalmente sobre a refeição - fluiu suavemente. Ela aproveitou a trégua da recente insanidade frenética e também, segundo percebeu, a companhia de Corben, ainda que existisse uma superficialidade discreta nos assuntos que abordavam. Não se importava. Naquele exato momento, conversas infor­mais eram uma pausa bem-vinda. E enquanto os pratos se esvaziavam e a luz dourada do crepúsculo se transformava em sombras, assim também se esvaía o pretenso festim da divina refeição. O gorila de quase quinhentos quilos, que os observara dos cantos sombrios de sua jaula, conseguira escapar e solicitava atenção agora.

Tinha utilizado o tempo que passara sozinha para recapitular o que acontecera, tudo o que vira ou ouvira. Parecia que ainda não sabia muita coisa.

- Jim - perguntou finalmente, depois de uma pausa significativa -, de que se trata, realmente, tudo isso?

Pôde perceber uma pequena reticência evasiva em seus olhos antes que voltassem a encontrar os dela.

- O que você quer dizer? - perguntou.

- Não me sinto nem um pouco capaz de entender o que está realmente se passando.

O rosto de Corben se contraiu.

- Acho que não sei muito mais do que você. Fomos mais ou menos atirados às feras sem aviso prévio e, até agora, tudo o que fizemos foi reagir aos acontecimentos à medida que foram surgindo.

- Mas você tem uma idéia - persistiu ela, sentindo seu rosto enrubescer. Não fora habituada a pressionar os outros dessa maneira, nem nunca estivera numa situação como essa. Não conseguia sequer imaginar que outras pessoas já tivessem passado por isso.

- O que a faz dizer isso?

- Ora, Jim, por favor.

- O quê? - protestou ele, abrindo as mãos de maneira interrogativa.

- Bem, primeiro, a pasta.

- Que pasta?

Ela lançou-lhe um olhar claramente incrédulo.

- A que você tirou do apartamento de minha mãe. Eu dei uma olhada nela quando estive na cozinha.

- E...?

- De todas as coisas que havia no apartamento dela, foi a única que interes­sou você. Havia aquele símbolo por toda parte, a serpente enrolada em círculo, como se estivesse devorando o próprio corpo. Vi este mesmo símbolo nas foto­grafias que me mostraram na delegacia, aquelas que estavam na bolsa de minha mãe. - Mia se interrompeu, examinando o rosto dele, como que o avaliando. Sua reação, ou melhor, sua falta de reação nada lhe disse. Mas ela não esperava menos do que isso de um agente do serviço secreto. Porém, estava agitada e sentia uma energia nervosa atravessando seu corpo. Continuou a insistir. ­Então, houve aquela violência digna de uma gangue. Quer dizer, claro que sei que contrabandear peças de museu não é exatamente um crime de colarinho-branco e que não sou uma especialista nos submundos ou no que é considerado normal hoje em dia nas ruas de Beirute, mas tudo isso me parece bastante violento: pegar gente nas ruas, matar pessoas, atirar nos apartamentos... - Sua voz baixou, en­quanto tomava coragem para prosseguir. - Daí, houve seu envolvimento.

Corben franziu a testa.

- Meu envolvimento?

Mia lhe dirigiu um meio sorriso envergonhado e nervoso.

- Não acho que a CIA estivesse realmente investindo na recuperação de objetos roubados dos museus.

- Uma cidadã americana foi raptada - lembrou Corben. - Isso é da competência da agência. - Deu um último gole na cerveja e a colocou na mesa com frieza, antes que seus olhos se encontrassem de novo.

"Tão inescrutável quanto a Esfinge”, pensou ela, sua mente vagando, pensando como deveria ser enlouquecedor tê-lo como parceiro de pôquer ou, ainda pior, viver junto com alguém tão fechado.

- Se você diz..., mas... - ela deu de ombros sem parecer convencida, sem ao menos tentar parecê-lo. - Sem essa, Jim. - Tentou estabelecer contato vi­sual, para ver se ele se abria. - Ela é minha mãe. Sei que vocês têm essa coisa de "querer saber" o que está se passando, tudo bem, mas a vida da minha mãe está em jogo, e talvez a minha também.

Sustentou seu olhar enquanto ele claramente refletia sobre até onde podia ceder. Ela conseguia até mesmo ouvir seu cérebro funcionando, repassando os detalhes preocupantes da situação na qual estavam ambos envolvidos, selecio­nando o que podiam partilhar e o que devia ser mantido em segredo. Depois de um breve silêncio, ele apertou os lábios, balançou afirmativamente a cabeça de maneira quase imperceptível, levantou-se e começou a andar pela sala. Apanhou sua pasta e voltou a se sentar. Abriu a fechadura com segredo, pegou a pasta de Evelyn e colocou-a sobre a pequena mesa à sua frente, pousando as mãos sobre ela.

- Também não tenho uma visão completa do que está acontecendo, certo?

Mas vou contar-lhe o que sei. - Deu um tapinha na pasta. - Isso estava na escrivaninha de sua mãe, uma pasta velha que visivelmente não tinha nenhuma relação com seu trabalho atual. Estava na mesa dela no mesmo dia em que se encontrou com alguém com quem tinha trabalhado numa antiga escavação, no Iraque. Creio que foi essa pessoa que deu a ela as fotografias que estavam em sua bolsa. É possível que tenha ido vê-la para vender aqueles objetos, ou talvez esperasse que ela pudesse dar a ele o contato de alguns compradores. Pode até ser que ela mesma estivesse interessada neles. Por causa disso. - Abriu a pasta e tirou uma fotocópia, uma das imagens do uróboro, que passou para Mia. ­Como você observou bem, a escavação da qual se trata nesta pasta tem a ver com o símbolo da serpente, o mesmo que está gravado nesse livro.

Era uma velha imagem em preto-e-branco da cobra enrolada sobre si mesma, tirada de uma escultura em madeira velha de séculos de idade. Mia a examinou mais atentamente do que antes. O animal representado na imagem era mais do que uma serpente. Tinha escamas e caninos exagerados. Parecia-se mais com um dragão do que com uma serpente. Seus olhos frios olhavam para a frente sem ver, como se o ato de devorar o próprio corpo fosse a coisa mais na­tural do mundo, e não acarretasse nenhuma dor. Era uma imagem sinistra que despertava medos primais, uma cópia velha, amarelada, que emanava o mal.

Ela ergueu os olhos para Corben.

- O que é isso?

Isso se chama uróboro. É extremamente antigo e foi usado em épocas diferentes por diferentes culturas.

        - O que significa?

- Não parece ter um sentido específico. É mais um símbolo arquetípico, místico, que pode significar coisas diferentes para povos diferentes, dependen­do de qual seja seu uso. Encontrei-o em vários contextos, desde mitos egípcios antigos até lendas hindus e, mais tarde, com os alquimistas e os gnósticos. Isso sem ter feito uma pesquisa completa.

Mia estava achando difícil tirar os olhos daquela imagem.

- As relíquias não são importantes. A pessoa que seqüestrou minha mãe está atrás desse livro.

- É possível. Isso pode nos dizer algo mais. - Bateu com o dedo na pas­ta de Evelyn. - Ainda não tive tempo de examiná-la nos mínimos detalhes. De qualquer forma, o problema não é esse. Só tem importância porque foi a causa de seu seqüestro. E agora, a melhor pista que temos para encontrá-la é o cara que lhe trouxe essas fotografias, esse homem saído de seu passado, esse atravessador iraquiano que você disse que ela mencionou. Ele sabe mais sobre o que está acontecendo, quem são as outras pessoas envolvidas. Não sabemos nada sobre ele, mas... - Corben fez uma pausa, hesitando. Mia podia ver que alguma coisa o impedia de continuar, mas depois de alguns momentos ele disse: - Provavelmente você tem razão ao dizer que é o mesmo homem que estava com ela no dia em que foi seqüestrada. Se era ele, bem, você o viu, pode iden­tificá-lo. Espero que, se for o mesmo cara, talvez então - ele virou a pasta de modo a colocá-la de frente para ela -, apenas talvez, exista uma fotografia dele aqui, em algum lugar. Isso nos ajudaria muito.

Ela olhou para ele, insegura, sentindo que ele não tinha lhe dito tudo. Depois concordou e abriu de novo a pasta. Por mais que se sentisse atraída pelo seu conteúdo - anotações feitas à mão, com um estilo clássico, gracioso, que conhecia bem das cartas que sua mãe lhe enviara quando era adolescente; fotocópias de documentos e de páginas de livros em inglês, árabe, algumas até mesmo em francês, com frases sublinhadas e anotações escritas nas margens; mapas do Iraque e de todo o Levante, com marcas, setas indicadoras e anota­ções rodeadas por um círculo; tudo com muitos pontos de interrogação -, olhou tudo superficialmente, mais interessada em procurar as fotografias que precisava examinar.

Descobriu um lote de velhos instantâneos dispersos entre as páginas e os examinou de perto. Reconheceu em alguns deles uma Evelyn mais magra e mais jovem, vestindo calças cáqui, chapéu de tela e enormes óculos de sol de armação de tartaruga. Começou a imaginar o tipo de vida excitante, pouco convencional, que sua mãe tinha levado naquela época: uma mulher ocidental, solteira, viajando para países exóticos e ensolarados, encontrando diferentes povos, mergulhando em suas culturas, trabalhando com eles para explorar os tesouros ocultos de seu passado. Uma vida ambiciosa, certamente cheia de realizações, mas cujo preço fora alto. No caso de Evelyn, parecia ter sido uma solidão melancólica e prudente.

Deteve-se numa foto de Evelyn sozinha ao lado de um homem, cujos traços estavam ocultos por óculos de sol, pela sombra de seu chapéu e pelo ângulo do rosto, ligeiramente inclinado para baixo. Sentiu um arrepio na base do pescoço: já tinha visto aquela fotografia. Recebera uma cópia quando tinha 7 anos e a mantinha escondida em sua carteira. O homem da fotografia era seu pai. Evelyn lhe dissera que era a única fotografia que possuía dele. Só tinham passado algumas semanas juntos. Mia ficava triste ao pensar que nem mesmo sabia como ele era realmente.

Ficou contemplando a fotografia e, de repente, uma idéia confusa lhe veio à cabeça. Seu pai estivera lá. Ele estava com Evelyn quando ela encontrara as câmaras subterrâneas.

E morrera um mês depois, num acidente de carro.

Uma pontada de dor lhe percorreu o coração. Por um segundo, parecia que

ele ia parar de bater, e o sangue fugiu de seu rosto.

Corben pareceu perceber isso.

- O que houve?

Ela lhe estendeu a foto.

- O homem nesta foto. - Suas palavras pareciam emergir de um nevoeiro – É meu pai. Ele estava lá.

Corben a examinou, esperando mais.

- Ele morreu um mês depois, num acidente de carro. - Seus olhos estavam cheios de perguntas. - Será que ele foi morto? Assassinado. Por causa disso.

Um olhar incerto cruzou as feições de Corben. Ele balançou a cabeça.

- Acho que não. Não há nada aqui que indique que Evelyn tenha tido algum problema antes. Se a morte dele está relacionada a tudo isso, ela também estaria ameaçada, o que não parece ter sido o caso. Quer dizer, parece que ela sempre levou uma vida bastante tranqüila.

Ele lhe devolveu a fotografia. Ela a observou novamente e concordou.

- Acho que você tem razão - disse.

- De qualquer forma, vou dar uma olhada, só para checar todas as hipóteses. Qual era o nome dele?

        - Webster - disse Mia. - Tom Webster.

 

O nome atingiu Corben como um tiro.

Tom Webster.

Evelyn tentara contatar Tom Webster na noite anterior. E os médiuns, em geral, não precisam passar pelas mesas telefônicas das instituições acadêmicas para encontrar os mortos...

Ele não tinha morrido. Pelo menos, Evelyn não pensava isso. Estava vivo, e ela mentira para sua filha durante todos aqueles anos.

Uma descarga de adrenalina percorreu o corpo de Corben. Isso era importante. Aquele nome tinha alta prioridade. Precisava que Mia lhe desse mais informações sobre onde ele teria morrido, o que mais Evelyn lhe dissera sobre ele - embora, como a mãe mentira para ela durante tanto tempo, Corben não pudesse atribuir qualquer veracidade às informações de Mia sobre seu pai desaparecido.

Isso poderia esperar.

Observou Mia enquanto ela deixava a fotografia de lado e prosseguia, examinando outras, até que seus olhos avistaram algo que pareceu despertar seu interesse.

- O homem da ruela. Acho que é ele - disse ela.

 

O hakim ajustou a lâmina de vidro sob o microscópio e digitou algumas teclas. Outra imagem aumentada apareceu na tela plana. Ele a examinou cuida­dosamente, como fizera com todos os dados que os testes tinham revelado.

"Está limpa”, pensou. Os exames de sangue de Evelyn não tinham apontado nada fora do normal. Nenhuma substância estranha, nenhuma adulteração. Seus dados eram compatíveis com o que ele poderia esperar de uma mulher razoavelmente saudável da idade dela.

Olhou bem para as células na tela e voltou a pensar no que ela dissera. Não havia dúvida de que ela lhe dissera tudo o que sabia. Ele estava trabalhando a partir de uma base sólida.

Tom Webster. Esse nome não lhe saía da cabeça. "Poderia ser um deles?"

Essa possibilidade o eletrizou. Pensou e repensou nela várias vezes. Mas a idéia parecia muito forçada. Tantos anos haviam passado... Mas que outra ex­plicação poderia haver? Cada vez que tentava abandonar aquele pensamento, dar-lhe outra forma, a suspeita inicial voltava, eliminando suas dúvidas como uma navalha de Occam cravando-se firmemente em sua consciência. Senão, por que ele apareceria dessa maneira, sem se fazer anunciar, desde os primeiros sinais da descoberta, e depois desapareceria, quando o rastro parecia sumir? Não, não havia outra explicação racional.

Ele tinha que ser um deles.

Encarregado de proteger o segredo deles.

Vigiar as escavações geológicas da região, certificando-se de que ninguém

tropeçasse em alguma coisa que tinham se esforçado tanto para esconder. Alguma coisa que eles tinham guardado - algo que tinham acumulado avidamente, pensou ele, zangado - para si mesmos durante séculos.

Seu pulso acelerou.

Voltou a pensar em seu conto patético de amor perdido e repassou a história dela na cabeça. O homem - Tom Webster, cujo nome estava gravado em sua consciência, embora não acreditasse que fosse esse seu verdadeiro nome ­tinha entrado e saído de sua vida com uma eficiência clínica. A descoberta não levara a nada, ou pelo menos ele a fizera acreditar nisso. O que ele teria real­mente descoberto, o que não teria partilhado com ela? Então, ele desaparecera, deixando-a grávida e de posse de um discurso convincente para aliviar a dor por ele não poder ficar com ela, por razões que não podia revelar.

Déjà-vu.

Ele ouvira - ou lera, na verdade - algo parecido com isso antes. Há muitos anos. Em seu país natal, a Itália.

Em Nápoles.

Era parte do que tinha motivado sua viagem.

Claro, ele sabia que os homens costumam dizer isso quando perdem o interesse, quando querem passar a novas conquistas. Era o primeiro capítulo do guia de namoro para iniciantes. Uma espécie de "ele-simplesmente-não-está­-a-fim-de-você". Normalmente, sua visão cínica e exausta da humanidade teria tolerado aquela interpretação.

Mas não desta vez. Era diferente.

Tudo se encaixava.

E a própria idéia de que esse tal Tom Webster poderia, na verdade, fazer parte de algo que ele nem tinha certeza que existia, algo em que ele queria obstinadamente acreditar contra qualquer argumento, essa idéia estava lá, pre­sente... Sorriu para si mesmo.

"Isto é real. Como sempre suspeitei.

“Il principe estava certo”.

Uma onda de excitação o percorreu, junto com a raiva pela maneira como o destino jogava suas cartas. Evelyn tinha descoberto a câmara em 1977 e dei­xado o país três anos depois. Ele chegara ao Iraque uns dois anos depois.

Maldisse sua falta de sorte.

Se estivesse lá na época da descoberta das câmaras, talvez pudesse ter ouvido algo. Poderia ter encontrado Tom Webster. E talvez já estivesse de posse do que buscava.

Destino. Cálculo do tempo. O lugar certo na hora errada. Mas talvez essa fosse a oportunidade para tentar recuperar.

Precisava encontrar esse tal de Webster. O número de telefone que Evelyn tinha estava anotado em sua agenda, no apartamento. Ornar e seus homens de­veriam ter pego isso, mas foram impedidos - teria que conversar seriamente com algum deles. Ele poderia facilmente encontrar aquele número na internet, mas não esperava que esse tipo de ação surtisse muito efeito. Webster provavel­mente não queria ser encontrado. Estava escondendo seu rastro.

O hakim precisava também pôr as mãos naquele atravessador escorregadio. Tinha que conseguir o livro, que sabia ser a chave de tudo. Mas aquela mulher e sua história... ela fora, sem dúvida, enviada pelos deuses. Não que ele acredi­tasse nessas baboseiras...

No entanto, havia complicações que precisava compreender melhor.

De um lado, a filha da mulher. Ela tinha arriscado sua vida ao interromper seus homens e permitir que o atravessador escapasse. E havia ainda a ques­tão do homem que estava com ela no apartamento da arqueóloga. O hakim enviara Ornar e seus homens para revistá-lo e trazer tudo o que achassem de interessante - e qualquer coisa com o símbolo da serpente. E não somente a filha da mulher estava lá, como aquele homem que a acompanhava e era claramente um profissional. Um jogador bem treinado que derrotara Omar ­que não era exatamente um inepto naquele tipo de serviço - e matara um de seus homens. Pelo que Ornar lhe dissera, tratava-se de um americano. Quem era ele e o que estava fazendo com ela? Seria um novo jogador - mais um? Ou estava ali por razões mais comuns, sem saber o que significava exatamen­te o jogo?

O hakim tentou controlar seu entusiasmo. Esperara por tanto tempo, tentara tão arduamente... Devotara sua vida àquela perseguição. E agora sentia, com crescente certeza, que tudo estava entrando nos eixos.

“Até que enfim”.

Precisava saber quem eram esses novos participantes do jogo.

Mas, até que conseguisse, tinha que agir com cautela.

Usaria seus contatos para descobrir quem é Webster, embora suspeitasse que ele fosse difícil de rastrear. Omar poderia alertar seus contatos na polícia e nos serviços secretos libaneses. Descobrir tudo que fosse possível sobre aquele americano. Para o hakim, o mais urgente, no entanto, era encontrar o atravessador. Não podia perder isso de vista. Deu-se conta, abatido, de que nada lhe garantia que pudesse ser encontrado. Omar realmente estragara tudo, embora o hakim soubesse que faria tudo para reparar o erro.

Animou-se quando uma idéia brotou entre as questões que invadiam sua mente. Se a arqueóloga não fosse apenas mais uma vítima iludida, se aquele Webster realmente tivesse fortes sentimentos por ela... O hakim bem que poderia utilizá-la para fazê-lo aparecer.

A isca da donzela em perigo.

Isso sempre dava certo nos filmes.

Ele tinha apenas que garantir que seu grito por socorro fosse suficientemente alto.

 

Mia olhou a fotografia mais de perto.

O rosto pertencia a um homem que estava de pé, altivo, ligeiramente afastado do grupo de trabalhadores suados e sorridentes. Ela se concentrou, tentando compará-lo com o homem apavorado que quase fora jogado para dentro de um carro e carregado - junto com sua mãe - para um destino desconhecido.

Ela levantou a foto.

- Esse cara aqui. - Ela a passou para Corben e apontou o homem que pensou reconhecer.

Corben examinou a fotografia, depois a virou. Havia nomes escritos atrás com a mesma caligrafia elegante das demais anotações da pasta. Ele tornou a virá-la, atribuindo nomes aos rostos.

- Parece que o nome dele é Farouk.

- Só Farouk?

- É. - Corben puxou o caderninho e anotou. - Sem sobrenome.

Mia olhou para ele, desapontada.

- Isso basta?

Corben guardou o caderninho.

- Já é alguma coisa. - Ele examinou o rosto da fotografia. como se qui­sesse gravá-lo na memória. - Continue a examiná-las, por favor. Talvez haja outra foto dele aí.

Ela obedeceu, sem sucesso. Mas, ainda assim, tinham pelo menos um rosto e um nome, nos quais o pessoal de Corben poderia trabalhar.

Mia colocou as fotos na mesa. Seus pensamentos continuavam a voltar para Evelyn, seqüestrada há quase 24 horas. Mia ouvira falar do clichê de que as 48 primeiras horas eram fundamentais para a investigação de qualquer pessoa desaparecida - não por parte de alguém que trabalhasse no meio, mas por inúmeros filmes e seriados de televisão. No entanto, isso não lhe parecia nada absurdo - afinal de contas, os clichês se tornam clichês por alguma razão -, e, se fosse verdade, metade do tempo no qual Evelyn poderia ser encontrada já se esgotara.

- Como você pretende encontrá-lo?

- Não sei. Não há muito para pesquisar. Há a agenda dela, mas não há nada anotado nesta semana. Agora temos um nome e preciso verificar isso de novo, ver se há algum detalhe que permita contatá-lo. Temos o celular dela. Vamos verificar se algum dos números gravados na memória pertence a ele. A mesma coisa com seu laptop, mas ele está protegido por uma senha, pode demorar um certo tempo para descobri-la.

Ela assentiu com a cabeça, e voltou a olhar a foto de Farouk. Passou os olhos nela, frustrada, sentindo-se impotente, até que uma idéia desesperada emergiu em sua mente.

- Ele me viu, tenho certeza disso - disse, numa voz hesitante, sempre olhando para a fotografia, lembrando-se daquela noite. - Ele me viu quando cheguei àquela viela.

Corben olhou para ela, incerto. Ele já sabia disso.

- Ele vai me reconhecer. O que significa que, se me vir de novo, confiará em mim. Talvez possamos usar isso. Talvez exista um meio de fazer com que ele apareça.

- O quê? Com você servindo de isca? - perguntou Corben, meio incrédulo. - Estamos tentando manter você fora do foco das atenções, está lembrada?

Mia concordou, mas queria explorar um pouco mais essa idéia. Ele a tinha visto e poderia confiar nela. Isso tinha que ser útil, de alguma maneira. Sua mente voltou à conversa que tivera com Evelyn. O que ela dissera? Seu colega. Ele estava com ela.

- Há um professor de arqueologia. Ramez, que trabalha com minha mãe. Um cara jovem. Foi ele quem a levou ontem para o sul, para examinar aquela cripta. Ela disse que ele estava com ela quando esse homem, Farouk, apareceu.

- Você não falou dele lá no hotel- observou Corben.

Ela franziu o rosto, se desculpando.

- Desculpe, deveria ter falado. Mas estou pensando que talvez ele saiba de algo. Talvez Evelyn tenha lhe dito alguma coisa sobre o que estava acontecendo. Corben pensou naquilo por um instante.

- Você conhece ele?

- Eu o encontrei uma vez, quando fui ao escritório dela, no campus.

- Certo, muito bem. - Corben anotou o nome em seu caderninho. Olhan­do para o relógio, franziu a testa. Já passava das nove horas da noite. - Ele não estará na universidade agora. - Pegou sua pasta e a agenda de Evelyn, mas teve outra idéia, apanhou seu celular e apertou a tecla de discagem direta. Levantou-­se e atravessou as portas de vidro que conduziam à varanda. Mia o ouviu falar com alguém e pedir-lhe para conferir se havia o nome "Ramez" no celular de Evelyn. Esperou alguns instantes, disse - Fique na linha - e voltou à mesa. Rabiscou um número em seu caderninho, agradeceu e discou um outro número.

Mia podia ouvir o telefone tocando sem ninguém atender. Corben deixou­-o tocar mais algumas vezes - a maioria dos telefones celulares de Beirute não possuía caixa-postal, o que era um inconveniente - e acabou desligando, frustrado.

- Ele não está atendendo - disse a Mia.

- Você não está pensando que ele também...? - Ela hesitou em formular o resto da pergunta, sentindo de repente que estava de novo deixando correr solta a imaginação.

No entanto, de maneira inquietante, o olhar de Corben não refutou inteiramente essa sugestão.

- Não, acho que eu teria ficado sabendo. Ele provavelmente só está cansado de receber ligações de gente que ouviu falar do seqüestro de sua mãe e sabe que ele trabalha no mesmo departamento que ela.

Ela franziu a testa, preocupada.

- Você pode conseguir o endereço da casa dele? - perguntou, surpreendendo-se com sua perseverança antes de perguntar a si mesma se sua sugestão não tinha um quê irritante de quem quer ensinar o padre a rezar a missa.

Corben pareceu não se importar e conferiu de novo as horas.

- Não quero chamar a atenção da polícia local para ele, não a essa hora. E não há razão para que ele conste de nosso banco de dados, de modo que não posso obter essa informação sem ter que recorrer a outras fontes. Vou tentar telefonar outra vez para ele daqui a pouco.

Mia observou-o enquanto ele processava a informação. Seu rosto ainda era quase inacessível, e era impossível saber o que ele estava pensando, mas ela podia, sem dúvida, sentir sua preocupação. Sua mente voltou ao momento em que estavam juntos diante da porta de sua mãe, e ela ergueu os olhos para ele. Com a voz um pouco mais dura, ela ousou fazer outra pergunta.

- Quando estávamos do lado de fora do apartamento de minha mãe... Você disse que eu já sabia que a situação era grave. E era mesmo, eu sei, mas a maneira como você disse aquilo... - Fez uma pausa. Sabia que tinha razão, e sua convicção interior surgiu com clareza. - Você ainda não me contou tudo. Ainda há mais coisas a dizer, não é mesmo?

Ele tornou a se sentar e passou os dedos pelos cabelos, esfregando levemente a nuca. Só então olhou para ela, parecendo ter chegado a uma decisão. Inclinou-se sobre sua pasta, retirou o laptop, abriu-o e ligou-o, colocando o dedo no pequeno scanner de impressões digitais antes de pressionar algumas teclas. A tela se iluminou e ele navegou em silêncio até encontrar o arquivo que estava buscando. Voltou-se então para ela.

- Isso é altamente sigiloso - disse-lhe com o dedo em riste, parando para tomar fôlego, como se ainda estivesse ponderando se estava ou não cometendo um erro ao partilhar isso com ela.

Ele virou a tela para ela. Apareceu uma fotografia do que parecia ser a parede de uma sala estreita como uma cela. Algo circular, do tamanho de um guarda-chuva aberto, a se julgar pela escala do lustre no teto, estava gravado na parede. Mia reconheceu instantaneamente a imagem.

- Eu estava servindo no Iraque durante os primeiros anos da guerra - explicou ele. - Uma de nossas unidades recebeu informações sobre um médico íntimo de Saddam, mas quando atacaram seu complexo residencial ele já havia fugido.

Uma avalanche de perguntas surgiu dentro de Mia, mas Corben ainda não havia terminado.

- O que eles encontraram em seu complexo residencial era horripilante. Havia um grande laboratório no porão, uma sala de cirurgia com tudo que se possa imaginar de mais moderno, coisas inacreditáveis. Ele fazia experiências ali, experiências que... - Sua voz diminuiu enquanto ele escolhia as palavras, e uma breve expressão de dor atravessou sua fisionomia, uma dor que ela pôde sentir em sua voz. - Ele fazia experiências com seres humanos. Jovens e ve­lhos. Homens, mulheres, crianças...

Mia sentiu seu sangue congelar, enquanto o horror e a preocupação com sua mãe cresciam dentro dela.

- Estavam presos em celas nesse complexo residencial, mas todos os que estavam ali tinham sido executados pouco antes de o invadirmos. Encontra­mos também dezenas de cadáveres enterrados num campo não muito longe da casa - prosseguiu ele -, jogados nus em covas coletivas. Muitos deles tinham sido operados, em outros faltavam pedaços do corpo. Havia montes de órgãos e galões de sangue estocados em geladeiras. Algumas das feridas, nos locais onde ele tinha cortado, sequer estavam suturadas. Ele nem se preo­cupou em fechá-las depois de ter tirado o que lhe interessava. Vou poupá-la das outras... descobertas ainda mais macabras desse laboratório. Ele apenas os utilizava como cobaias e jogava fora o que não precisava. Parece que Saddam lhe fornecia os prisioneiros, junto com tudo mais de que ele necessitasse. - Corben fez uma pausa, como para livrar sua mente daquelas imagens e recuperar a com­postura. - Isto - ele mostrou a imagem do uróboro na tela do laptop - estava gravado na parede de uma das celas.

Mia sentiu algo no interior da boca e se deu conta de que tinha cravado os dentes no lábio inferior até tirar sangue. Afrouxou a pressão e secou o lábio com o dedo, eliminando uma gotícula de sangue.

- Que tipo de experiências ele estava fazendo?

- Não sabemos muito sobre isso. Mas, pelo interesse de Saddam em encontrar maneiras eficientes de realizar assassinatos em massa...

Os olhos de Mia se arregalaram.

- Você acha que ele estava trabalhando numa arma biológica?

Corben deu de ombros.

- O sigilo que rodeava seu trabalho, os cadáveres, o patrocínio de Saddam...

Digamos que não creio que estivesse pesquisando a cura do câncer.

Mia voltou a olhar para a foto da cela.

- Mas por que gravar essa imagem na parede?

- Não sabemos. Conseguimos seguir algumas pessoas em Bagdá que encontraram com ele. Falei com um comerciante de antigüidades e também com um cara que trabalhava como curador no Museu Nacional. Parece que o tal homem, o hakim, como era chamado, tinha uma fascinação especial pela história do Iraque, especialmente na virada do primeiro milênio. Disseram que sabia bastante sobre aquela época e que tinha viajado por toda a região. Quando viram que podiam confiar em mim, eles me disseram, extra-oficialmente, que ele lhes tinha pedido para dar uma olhada em qualquer referência local ao uróboro, dentro de livros e manuscritos antigos.

- O que, provavelmente, fizeram.

- Com certeza - confirmou Corben -, mas não encontraram nada. Então, ele lhes pediu que insistissem, que ampliassem a pesquisa até mesmo para além das fronteiras do Iraque. E que continuassem procurando, o que eles fizeram. Disseram-me que ele estava inteiramente obcecado por isso e que ambos o temiam muito.

- Nenhum deles encontrou nada?

Corben balançou a cabeça.

- E agora ele quer esse livro... - Mia juntou as peças em sua cabeça. - Então, esse... esse médico ainda está solto por aí.

Corben concordou.

Um senso devastador de medo apertou o coração de Mia.

- E você acha que é ele que está com a minha mãe? - As palavras quase secaram em sua garganta ao pronunciá-las, tamanho era o desejo de que a resposta fosse negativa.

O olhar sombrio de Corben lhe indicou que não era, mas ela já sabia disso. - Perdemos a pista dele ao norte de Tikrit, algumas semanas depois de termos descoberto o laboratório, e não tivemos mais informações. Como Evelyn tem uma ligação com o uróboro por causa da câmara que descobriu, e consi­derando a crueldade da pessoa que está atrás das relíquias - respondeu ele gravemente -, acho que é mais do que provável que ele a tenha em seu poder, ou que ela esteja com alguém de algum modo ligado a ele.

Mia sentiu seus pulmões se esvaziarem. A situação de sua mãe já lhe parecia terrível quando ela ainda pensava que estavam apenas - apenas - lidando com um bando de contrabandistas. Aquilo... aquilo era horrível demais para ser imaginado.

Seus olhos se perderam ao longe, a mente em curto-circuito depois da revelação de Corben. O quarto pareceu se tornar escuro em volta dela, e tudo dentro dele pareceu ligeiramente fora de foco. No limiar de sua consciência, ela percebeu Corben pegar o telefone e ouviu sons de discagem, seguidos pelos mesmos toques de chamada não atendida de antes, e o ruído de seu telefone sendo desligado. Ela levou um certo tempo para sair daquele torpor e refletir que ele tentara ligar para Ramez novamente.

Uma pergunta emergiu de sua cabeça e ela se virou para ele.

        - Considerando todo esse estardalhaço sobre armas de destruição em massa e pelo que você sabe sobre esse homem, suponho que deva ter uma enorme equipe de homens trabalhando junto com você nesse caso. Certamen­te, capturá-lo é uma prioridade, não?

- Era - respondeu Corben, abatido. - Não é mais. Alertamos tantas vezes sobre as armas de destruição em massa que o feitiço virou contra o feiticeiro. E foi bem merecido, eu acho. Ninguém mais quer ouvir falar delas. A prioridade é, sobretudo, nos livrarmos do compromisso que assumimos com o Iraque e não investir mais recursos nesse país.

- Mas ele é um monstro - protestou Mia, pondo-se de pé, zangada.

- Você acha que é o único que anda solto por aí? - rebateu Corben, com frustração controlada. - Há vários outros genocidas por aí, de Ruanda, da Sérvia, de muitos outros lugares, vivendo tranqüilamente nos subúrbios arbo­rizados de Londres ou Bruxelas, com nomes falsos, sem que ninguém os inco­mode. As únicas pessoas que os perseguem são os jornalistas investigativos. É isso aí. São os novos Simon Wiesenthal (Engenheiro judeu austríaco sobrevivente do Holocausto, conhecido por seu trabalho após a Segunda Guerra Mundial como caçador de nazistas criminosos de guerra), e não existem muitos deles, ape­nas um punhado, que ainda se preocupa o bastante para dedicar seu tempo e arriscar a vida perseguindo esses açougueiros. São os únicos que fazem a diferença. De vez em quando eles conseguem denunciar um deles numa re­portagem que pode conseguir algumas colunas não muito longe da primeira página, nas quais talvez algum promotor público preste atenção e pesquise sobre o assunto, se a coisa feder muito, mas, de um modo geral, esses caras se safam.

O que era verdade. Saddam e o cunhado que fora decapitado tinham sido raras exceções. A norma era que os ditadores depostos freqüentem ente desfru­tassem de um exílio feliz e sem arrependimentos, enquanto os executores, seus subordinados, que supervisionaram ou mesmo participaram dos assassinatos, sumiam e levavam vidas de plácido anonimato.

- Não existe um esforço oficial coordenado para capturar essas pessoas - acrescentou Corben. - A vida segue em frente, os políticos caem, outros assumem seus cargos, e os crimes de um passado não tão distante assim são rapidamente esquecidos. Ninguém no Departamento de Estado quer mais ouvir falar sobre isso agora. Os próprios iraquianos não estão em condições de persegui-lo, pois estão às voltas com problemas maiores. E não consigo ver o governo libanês envolvido nessas questões, dada a confusão na qual seu país está mergulhado.

Mia não podia acreditar no que estava ouvindo.

- Quer dizer que você está trabalhando nisso sozinho?

- Mais ou menos. Posso utilizar recursos da agência, se precisar, mas até que eu tenha um posicionamento seguro, definitivo, mas definitivo mesmo, desse cara, não tenho poder de recrutar mais gente.

Mia o encarou, estupefata. As notícias se tornavam mais desoladoras a cada minuto, e as imagens que ele introduzira em sua cabeça se recusavam a desaparecer.

- Ele fazia experiências com crianças?

Corben balançou a cabeça.

A constatação disso foi como um soco no estômago.

- Temos que resgatá-la. Mas também temos que impedi-lo de continuar o que está fazendo, certo? - Ela sentiu as lágrimas lhe subirem aos olhos, mas tratou de controlá-las.

Ele a encarou com uma expressão calorosa. Balançou a cabeça pensativamente, concordando com cada uma de suas palavras.

- Claro.

- Precisamos encontrar Farouk. Se pudermos chegar até ele antes que esse - ela se interrompeu, sem saber como se referir ao hakim, mas em seguida escolheu bem a palavra -, esse monstro o faça, e se esse livro estiver com ele, talvez possamos trocá-lo por minha mãe.

A expressão de Corben se iluminou.

- É o que espero.

Ele tornou a pegar o telefone e apertou a tecla de rediscagem.

 

Ramez olhou com inquietação para o telefone que vibrava com um ruído, fazendo-o saltitar sobre a mesa de centro em pequenos arrancos breves e tortuosos.

A cada ruído, a tela se iluminava, lançando um brilho efêmero, azul-esverdeado, na sala de estar do pequeno apartamento. Seus olhos ficavam atentos cada vez que o indicador se acendia. As palavras "número restrito" tornaram a surgir, zombando dele, antes que o indicador se apagasse. Seu corpo se en­rijecia cada vez que o telefone voltava a tocar, como se o aparelho estivesse diretamente ligado à seu cérebro.

Felizmente, após oito toques, acabou parando. A sala voltou a mergulhar na escuridão, um negror solitário, desolado, ocasionalmente interrompido pelos reflexos dos faróis dos carros que passavam na rua abaixo, salpicando de pontos de luz as paredes em sua maioria nuas. Era a terceira vez que o autor anônimo da chamada tentava entrar em contato com ele nas últimas horas, e o professor-assistente não tinha vontade de atender. Como ele raramente recebia esse tipo de ligação - números restritos no Líbano eram, estranha­mente, uma gafe socialmente malvista -, ele sabia o que devia ser. E isso o aterrorizava.

Seu dia tinha começado como qualquer outro. Ele se levantara às sete da manhã, tomara um café-da-manhã frugal e uma chuveirada, fizera a barba e andara rapidamente por vinte minutos até o campus. Lera os jornais matutinos antes de sair de casa e vira a reportagem sobre a mulher seqüestrada no centro da cidade, ainda sem saber que se tratava de Evelyn. Só veio a saber disso quando os policiais apareceram em Post Hall.

Ele foi a primeira pessoa do departamento a ser contatada, e as notícias tinham tirado o ar de seus pulmões. A cada palavra pronunciada, sentia que estava sendo dragado para um poço negro de problemas que ele queria evitar, mas sabia ser impossível. Eles estavam tentando encontrar Evelyn, e ele tinha que ajudar. Não havia saída.

Perguntaram se ele sabia alguma coisa sobre o interesse dela por relíquias iraquianas e o homem que tinham encontrado em Zabqine veio imediatamen­te à sua mente. Eles se alegraram à menção de Farouk e ele lhes dera seu nome - o primeiro nome, pois desconhecia o sobrenome - e sua descrição. A partir de seus comentários discretos, soube que sua descrição correspondia à do ho­mem que tinha sido visto com Evelyn no dia em que fora seqüestrada.

O encontro com os detetives já o deixara bastante assustado. Ver Farouk emer­gir de trás de uns carros estacionados e se aproximar dele do lado de fora de Post Hall, algumas horas mais tarde, provocou-lhe um sobressalto. No início, não sabia o que pensar. Será que Farouk estava trabalhando para os seqüestradores? Será que estava ali para seqüestrá-lo também? O professor-assistente recuara defensi­vamente diante de sua aproximação, mas o jeito suplicante e magoado do atraves­sador iraquiano rapidamente o convenceu de que ele não era uma ameaça.

Naquele momento, sentado na escuridão de sua sala de estar, repassou na cabeça aquela conversa inquietante, cada palavra dela ainda ressoando com clareza ameaçadora. Encontraram um lugar tranqüilo para conversar, atrás do prédio. Farouk começara por dizer que precisava comunicar à polícia o que sa­bia sobre o seqüestro, para ajudar Evelyn, mas que não podia fazer isso pessoal­mente. Era clandestino naquele país e, pelo que vira nos jornais, as relíquias roubadas já eram um motivo de disputa. Ramez o interrompeu dizendo que a polícia já tinha vindo vê-lo e informou Farouk que fora ele mesmo quem lhes dera sua descrição - com a finalidade, claro, de ajudar a encontrar Evelyn.

Essa notícia fez Farouk entrar em pânico. Tinham seu nome, sua descrição, e parecia que, cada vez mais, iriam atrás dele como se fosse um contrabandista de relíquias. Seus olhos ganharam um brilho amedrontado, acuado, ao pedir que Ramez o ajudasse. Precisava desesperadamente de dinheiro e, claro, estava mesmo tentando vender as valiosas relíquias - tinha inicialmente pensado que Ramez poderia ajudá-lo a fazer isso, o que estava fora de questão. Só o que im­portava agora era sobreviver. Contou a Ramez tudo o que sabia e o que tinha visto - os homens que o perseguiram no Iraque, o livro, as marcas de perfura­ção em seu amigo Hajj Ali Salloum - e, a cada uma das revelações, o sangue do professor-assistente congelava de pavor.

Farouk pediu que Ramez agisse como intermediário. Queria que fosse à polícia falar com os detetives e fizesse um trato com eles: ele os ajudaria da me­lhor maneira possível a encontrar Evelyn, mas não queria acabar numa prisão libanesa nem ser mandado de volta para o Iraque. Mais do que isso, queria a proteção deles. Sabia que os homens que seqüestraram Evelyn estavam efetiva­mente atrás dele e sabia também que não sobreviveria muito tempo sozinho.

Ramez se retraiu, não querendo se envolver naquilo, mas Farouk estava desesperado. Ele suplicou ao professor-assistente que considerasse a situação de Evelyn, que fizesse aquilo por ela. Ramez finalmente disse que pensaria no assunto. Deu a Farouk seu número de celular e disse-lhe que ligasse para ele no dia seguinte, ao meio-dia.

Isso seria ao meio-dia de amanhã.

Não às dez da noite de hoje.

Não esta noite.

Os olhos de Ramez ainda estavam pregados no celular, e sua mente cansada tentava adivinhar quem estaria lhe telefonando. Se fosse Farouk, não atenderia, pois ainda não decidira se ia ajudá-lo ou não. De um lado, sentia que devia isso a Evelyn. Além do que, ia ter mesmo que fazer isso, pois não podia esconder informações tão importantes dos policiais. De outro lado, Beirute não tinha exatamente a reputação de ser uma cidade onde se cumpria a lei, e Ramez, mais do que tudo, desejava continuar vivo.

Se o chamado não vinha de Farouk, Ramez não queria nem mesmo começar a pensar em quem seria. Uma onda de paranóia correu seu corpo quando imaginou homens com poderosas furadeiras invadindo sua casa para raptá-lo. Encolheu-se no sofá, com os braços em volta dos joelhos, o peito arfando pesa­damente, as paredes da pequena sala se fechando em torno dele.

Seria uma noite extremamente longa.

 

Mia viu Corben fechar o celular. Ele se virou para ela e sacudiu a cabeça. Olhou para o relógio e franziu a testa, pensativo.

- Não gostaria de deixar isso para amanhã de manhã - disse ele -, mas acho que não temos escolha. Se estiverem atrás dele, então já chegamos tarde. Se não estiverem, prefiro não alertá-los sobre ele a essa hora da noite. Vou telefonar para os homens de Hobeish logo de manhã cedo - acrescentou, referindo-se à delegacia de polícia em que Mia estivera detida - e começarei a partir daí.

- Podemos ir bem cedo até a universidade - sugeriu Mia - e encontrá-lo antes de qualquer outra coisa.

Corben custou a acreditar no que ouviu.

- Nós?

- Você não sabe como ele é. Posso mostrá-lo para você - ela argumentou. - Posso simplesmente perguntar por ele no departamento.

- Eu já o conheço. Ele se sentirá mais à vontade com alguém que conhece - ­ela insistiu, sua voz carregada de nervosismo. - Além disso, não quero ficar sozinha aqui, como um alvo fácil. - Ela se interrompeu, retomando fôlego. ­Eu quero ajudar, está bem?

Corben olhou para longe, visivelmente pesando as opções: aparentemen­te nenhuma o satisfazia. Depois de alguns minutos, voltou-se para ela sem entusiasmo.

- Tudo bem - disse, adotando uma posição mais flexível. - Vamos ver o que ele tem a dizer e partiremos daí.

Foi até a geladeira, pegou mais duas cervejas e ofereceu uma a Mia.

Ela a aceitou e dirigiu-se para a varanda, onde ficou bebericando-a, olhando pensativamente para a rua. As luzes dos prédios brilhavam, coroando a cidade com uma aura pálida, esbranquiçada. Ela se perguntou onde estaria Evelyn naquele momento e pensou em Farouk e Ramez. Onde teriam se escondido para passar a noite? Beirute era uma cidade densamente povoada, que sabia guardar seus segredos. Ninguém sabia realmente o que se passava por trás das portas fechadas, mas Mia suspeitava que naquela cidade a maldade à espreita era uma categoria à parte.

- Não entendo. - Ela voltou-se para Corben. - Esse símbolo, a serpente enrolada. O que ele está procurando, afinal? Se está mesmo atrás desse livro, para que ele o quer? Não pode ser apenas um colecionador maníaco.

- Por que não?

- Ele parece decidido a chegar a extremos para se apossar dele – notou Mia. - Isso tem que ter um enorme significado para ele, não acha?

- Ele é um cientista de armas biológicas. Esses caras trabalham com vírus, não com relíquias velhas de cento e tantos anos - relembrou-lhe Corben. - Não posso imaginar que importância isso poderia ter para seu trabalho.

- A menos que esteja procurando pistas para desenvolver alguma praga antiga - disse ela, meio brincando.

Mas Corben não a desmentiu imediatamente. Em vez disso, seu rosto se fechou, até que um finíssimo sorriso se desenhou em seus lábios.

- Eis um pensamento agradável para se levar para a cama.

Ela sentiu um calafrio de preocupação. Uma negação direta teria sido melhor.

Eles pararam aí, terminaram suas cervejas e guardaram a comida em silêncio. Ela observou Corben, que se ocupava da rotina noturna, girando a tranca de segurança da porta da frente e apagando as luzes. Indagou-se o que levaria certas pessoas a adotar esse estilo de vida: solitária, perigosa, envolta em segredos, trei­nada para a manipulação e predisposta à desconfiança. Pelo que ela percebera, ele parecia um cara pragmático, inteligente, que não sofria da ilusão da integri­dade a qualquer preço, do tipo que pensa que vai salvar o mundo. Não podia negar que o seu lado de herói aventureiro e homem de ação era fascinante - ela raramente encontrava homens como ele nas calmas águas acadêmicas onde normalmente navegava. Mas havia nele, igualmente, algo obscuro, impossível de conhecer, reservado, que, por mais que fosse atraente, era também um pouco assustador.

- Posso lhe fazer uma pergunta?

Ele se virou, curioso.

- Claro.

Ela sorriu, meio sem jeito.

- Jim é mesmo seu nome de verdade? Quero dizer, li em algum lugar que caras como você sempre usam nomes como Mike, Jim ou Joe como disfarce.

Ele deu um risinho e franziu a testa. ..

- Na verdade, eu me chamo Humphrey, mas... não combina com o perfil do cargo.

Ela hesitou por um segundo, mas ele logo lhe deu um sorriso.

- É Jim mesmo. Quer ver meu passaporte?

- Claro, todos eles - brincou ela. Depois, retomou fôlego e seu rosto ficou sério. - Obrigada. Por tudo que você fez hoje.

Ele franziu a testa, meio sem jeito.

- Desculpe-me por ter levado você lá. Ao apartamento de sua mãe.

Mia deu de ombros.

- Conseguimos pegar o material antes deles. Talvez isso venha a servir para alguma coisa.

Eram cerca de onze horas quando finalmente ela repousou a cabeça no travesseiro, no quarto de hóspedes. Teve dificuldade em pegar no sono e ficou ali estendida, contemplando o ambiente pouco familiar, impessoal, perguntando­-se como tudo se complicara tão depressa. Quando recebera a oferta de vir para Beirute, várias pessoas a tinham prevenido para não aceitar. Basicamen­te pessoas que se lembravam da cidade apenas por relatórios intermináveis sobre a guerra civil, bombardeios e seqüestros, pessoas que não tinham nenhuma familiaridade com o fato ainda recente de a cidade estar renas­cendo das cinzas, como uma fênix - pelo menos, daquele renascer que fora interrompido uns dois meses antes. Podia ter recusado o cargo oferecido ­não precisava nem mesmo ter um motivo; a guerra já era uma razão bastante convincente para evitar um país -, mas teve vontade de explorar novas dire­ções e experimentar uma vida mais excitante do que a que seus companheiros pareciam satisfeitos em levar.

Tentou dominar sua mente agitada, virando-se na cama, afofando o travesseiro, mudando-o de lugar, mas foi uma batalha perdida. Estava inteiramente desperta.

Sentou-se e prestou atenção. Não havia nenhum barulho fora de seu quarto. Corben devia estar dormindo. Pensou em tentar dominar mais uma vez a insônia, mas decidiu que não e se levantou da cama.

Foi até à sala de estar. O clarão pálido de um poste de luz lançava longas sombras nas paredes. Andou silenciosamente até a cozinha e bebeu um copo d'água. No caminho de volta a seu quarto, seus olhos caíram na pasta de Evelyn, que Corben deixara sobre a mesa.

Uma tentação.

Recordou-se de que dera uma olhada rápida em seu conteúdo na cozinha de sua mãe e decidiu que valia a pena examiná-lo melhor.

Andou até a mesa e o abriu.

As imagens do uróboro atraíram imediatamente sua atenção.

Sentou-se no sofá e examinou as fotografias das escavações e fotocópias das imagens tiradas de livros, olhando bem para elas, separando as anotações manuscritas.

Ao examiná-las, percebeu as várias encarnações do animal que sua mãe compilara e as colocou sobre a mesa de centro. Eram nitidamente diferentes. Algumas eram bastante rudimentares, e Mia supôs que fossem as mais antigas. Uma parecia asteca; outras duas tinham claramente uma aura do Extremo Oriente, com a serpente mais parecendo um dragão; outras eram mais elaboradas e figurativas, combinando com imagens do Jardim do Éden ou de deuses gregos.

Decidiu observar melhor a versão que tinha maior interesse, a que fora ilus­trada no livro a partir das fotografias e gravada na parede da cela subterrânea. Aquela imagem a perturbou, como já tinha acontecido antes. Deixou-a de lado e começou a rever as anotações de sua mãe.

Era evidente que Evelyn pesquisara aquele assunto durante muitas horas, mas que, a um dado momento, obviamente desistira. Confirmando isso, Mia notou que muitos dos folhetos eram datados, o primeiro de 1977, o último de 1980. Percebeu logo que a câmara subterrânea que Evelyn encontrara ficava numa cidade chamada Al-Hillah, no Iraque. Cheia de curiosidade, Mia se levantou, tirou o laptop de dentro da bolsa e o ligou. Encontrou uma conexão wi-fi não protegida nas imediações, acomodou-se e abriu seu navegador. Fez uma busca rápida, achando depressa no mapa a localização da cidade, ao sul de Bagdá. Guardou-a na memória e seguiu adiante.

Leu sobre os manuscritos que Evelyn encontrara escondidos na câmara. Suas anotações diziam que o estilo daqueles escritos lembrava o das socieda­des secretas da mesma época, um grupo de sofisticados gnósticos, chamado Irmandade da Pureza, também baseado no sul do Iraque. Havia diversas páginas de anotações sobre essa pesquisa, com observações, marcas adicionais e setas apontando frases rabiscadas sobre elas. Mia anotou o nome da socieda­de secreta, registrando mentalmente que devia dar uma olhada melhor naqui­lo. Seus olhos caíram sobre a observação "Ramificação da Irmandade?" com um grande ponto de interrogação.

Ao virar a página, um texto circulado chamou sua atenção. Dizia "Compatível com outros escritos, mas aqui não há menção a rituais ou a uma liturgia. Por quê?" Na margem da página oposta, perto de outras anotações e datas ra­biscadas, Evelyn escrevera "Crenças?" e "Heréticos? É por isso que estavam se escondendo?" com vários grandes pontos de interrogação, enfáticos.

Mia leu melhor essa página. Evelyn encontrara afinidades entre os escritos da Irmandade e os provenientes da câmara. Uma diferença evidente, no entanto, era que nada deixado para trás na câmara se referia às crenças espirituais de seus ocupantes.

As páginas seguintes mostravam a pesquisa de Evelyn sobre o uróboro. Mia voltou a olhar as fotografias das diversas imagens, todas com anotações rabiscadas sobre elas.

Parecia haver tantas interpretações para aquele símbolo quantas eram as culturas que o adotaram. Algumas o viam como uma representação do mal, enquanto outras - mais numerosas, observou Mia - o viam como um símbo­lo benigno, de esperança. Mia achou isso meio desconcertante, em desacordo com o mal-estar que sentira ao ver a serpente.

Evelyn coletara dúzias de referências àquele símbolo através da história, desde o antigo Egito e Platão até o químico alemão do século XIX Friedrich Kekulé, que, como ele mesmo contara, descobrira a estrutura circular da molé­cula de benzeno depois de ter sonhado com uma serpente que mordia o pró­prio rabo; e, mais recentemente, Carl Jung, que estudara sua força arquetípica na psique humana e sua significação particular para os alquimistas. Havia até - notara Mia com um nó na garganta - uma versão fenícia, um dragão devo­rando o próprio rabo esculpido num de seus templos.

Através da pesquisa, Mia constatara a recorrência de um tema que ia contra seus instintos. Tratava-se do tema da continuidade: falava dos ciclos da natureza, do círculo sem fim da vida, morte e renascimento, da unidade primordial de todas as coisas. Voltou a consultar um folheto que mostrava a capitulação quase bucólica de um uróboro alado num jardim, em cujo centro havia um querubim.

Mia observou aquilo, pensando no que estava lendo. Alguma coisa não soava bem. Recordou a conversa com Corben sobre as possíveis motivações do hakim. Aquele símbolo não estava associado a nada que fosse ameaçador, mas, na verdade, não precisava estar, não é? Afinal de contas, a suástica sempre fora um símbolo de boa sorte no Extremo Oriente desde a Idade da Pedra. Hitler pensara de outra maneira e o transformara numa coisa monstruosamente diferente. Poderia estar acontecendo a mesma coisa? Corben vivia dizendo que o homem era louco. E se ele estivesse realmente pesquisando um vírus perdido, um veneno, uma praga? De alguma maneira, a relevância das peças parecia sinistra, de uma importância perversa. E, no entanto, a maior parte do que lera sobre aquele símbolo devorador do próprio rabo parecia despertar a sensação oposta. Não conseguia ver nada amedrontador no que era encarado, em geral, como um símbolo da continuidade. Interrogou-se se sua primeira reação não teria sido mais primal, se não teria a ver com a apreensão instintiva que aquele arquétipo inspirava na maior parte das pessoas, independentemente de seu simbolismo intencional. Talvez isso - junto com o contexto no qual ela o tinha vivenciado, fugindo, escondendo-se de assassinos, com balas zunindo em sua volta - ajudasse a explicar o que sentia. Mas deixava várias perguntas sem resposta. O devorador de rabo seria algo a ser temido? Qual era sua signi­ficação para o hakim, se não algo sinistro? Será que os membros da cabala que se reuniam naquela câmara subterrânea possuíam alguma coisa que o hakim cobiçava desesperadamente?

Refletiu de novo sobre a data, século X, e voltou a seu laptop, fazendo uma busca sobre os cientistas da época. Alguns dos grandes nomes de que se lem­brava - Avicena, Jabir ibn Hayyan - se destacaram imediatamente. Navegou de um site a outro, coletando retalhos interessantes, conectando-se à Enciclo­pédia Britânica.

A mente de Mia estava tranqüila, ao qual estava habituada, enquanto trabalhava o material de pesquisa na tela à sua frente. Entretanto, quanto mais lia, mais essa sensação de conforto se desfazia. Nada do que estava encontrando parecia lançar alguma luz sobre o que o hakim poderia estar buscando.

E não foi por falta de grandes intelectuais empenhados no estudo daquele tema na época da Irmandade. Deixou-se conduzir através de algumas biografias de Al-Farabi, que, segundo a opinião geral, só perdia para Aristóteles em matéria de ciência e de filosofia, o que lhe valera o epíteto de Segundo Professor. Leu sobre Al-Razi, conhecido pelos europeus muitos anos depois como Rhazes, pai do que agora chamamos de gesso, utilizado já no século X para consolidar ossos quebrados; e sobre Al-Biruni, que viajara por quase todos os países do Extremo Oriente e escrevera extensivos tratados sobre ir­mãos siameses. No entanto, o mais importante, segundo Mia, era Ibn Sina, ou Avicena, como era conhecido no Ocidente. Sendo o médico mais influente de seu tempo, Avicena tornou-se igualmente um filósofo e um poeta competente aos 18 anos. Aos 21, já escrevera longos tratados especializados sobre todas as ciências conhecidas na época. A diferença entre ele e seus predecessores é que Avicena se interessava pelo potencial dos produtos químicos no tratamento das doenças. Ainda nesse assunto, fez estudos extremamente detalhados sobre doenças como a tuberculose e o diabetes. Sua obra-prima, o Cânon da Me­dicina, de 14 volumes, era tão respeitada e avançada que permaneceu como texto de referência da medicina na Europa até aproximadamente 1600 - bem mais de quinhentos anos após ter sido escrita.

Todos esses homens realizaram grandes progressos em inúmeras disciplinas. Estudaram o corpo humano, identificaram doenças e propuseram curas. Mas nada ligava nenhum deles ao uróboro, e ela tampouco conseguiu encontrar em seus trabalhos algo que tivesse um lado perverso. Eles estavam simplesmente interessados em dominar as forças da natureza.

Esses cientistas- filósofos estavam interessados no progresso da humanidade, não em sua destruição.

Voltou a examinar as fotografias da câmara subterrânea. Tentou imaginar o que poderia estar sendo feito ali, considerou-as sob um novo ângulo. Aquilo não tinha nada de sinistro. Seguindo essa linha de pensamento, pegou dentro da pasta um folheto, no qual Evelyn traçara um mapa das câmaras, marcando o que tinham encontrado ali. Nada de ossos, nem sangue seco, nem nenhum instrumento cortante ou altares de sacrifício. Evelyn parecia ter chegado à mesma conclusão. No fim do esboço, rabiscado em sua caligrafia reconhecível, ela tinha escrito e sublinhado a palavra "Santuário", seguida de mais um ponto de interrogação.

Um santuário para quê? De quem ou de quê eles estariam se escondendo? A bateria do seu laptop descarregou ao mesmo tempo que ela se sentiu invadida por um cansaço profundo. Guardou a pasta e foi se deitar.

Dessa vez, não levou muito tempo para pegar no sono; mas quando estava

quase adormecida, um pensamento insistente, confuso, pareceu cruelmente determinado a impedir-lhe qualquer esperança de repouso tranqüilo: a idéia de um terror muito antigo, ressuscitado para iniciar devastação no mundo, pressagiado pela inquietante imagem de uma serpente devorando o próprio rabo, que se insinuara de forma implacável nos mais profundos cantos de sua mente.

 

Paris - outubro de 1756

O falso conde avançava, cansado, no meio da sala de baile sufocante e quente, sua cabeça latejando com a tagarelice arrogante, os risos altos e a música inces­sante, impiedosa, os olhos agredidos pelos lampejos faiscantes em movimento e pelas estranhas e esplêndidas fantasias de girafas, pavões e outros animais exóti­cos que desfilavam diante dele.

Era em noites como essa que ele mais sentia falta do Oriente. Mas sabia que esses dias já tinham se passado há muito, muito tempo.

Seus olhos cansados percorreram o salão, cada centímetro de seu corpo denunciando o impostor que ele era. Cabeças de animais em papier mâché, apoiadas precariamente sobre perucas salpicadas de branco, o encaravam, enquanto compridas penas faziam cócegas em suas narinas. Em torno dele, os convidados do Palácio das Tulherias se misturavam e dançavam despreo­cupadamente. Pérolas e diamantes retinham seu olhar, qualquer que fosse a direção para a qual se virasse, brilhando sob a luz de centenas de velas, que sujavam os tapetes com montes de cera derretida. Esse não era seu primeiro baile nem seria o último. Sabia que teria que tolerar muitos outros seme­lhantes, o bal de la jungle, ou seja, o "baile da selva” - mais demonstrações terríveis de pompa sem limites, mais conversas jogadas fora, mais flertes desinibidos. Tudo aquilo fazia parte da nova vida que tinha criado para si, e todos aguardavam sua presença - a tinham como certa, mesmo em ocasiões como essa. Sabia também que o sofrimento não terminaria ali: nos dias e noites seguintes, nos inúmeros salões que seria obrigado a freqüentar, teria que suportar relatos intermináveis e vertiginosos dos feitos públicos daquela noite e de seus outros tantos mais lascivos e, conseqüentemente, mais secretos.

Era o preço a pagar pelo sucesso, embora, com o passar do tempo, esse sucesso lhe parecesse cada vez mais remoto.

        Era, sem dúvida, uma tarefa impossível.

Freqüentemente, como nessa noite, ele vagava, perdido em seus pensamentos, tentando relembrar quem era na verdade, o que estava fazendo ali, que sentido tinha realmente sua vida.

        E nem sempre isso era fácil.

Ele achava cada vez mais difícil manter-se separado de sua criação e não se perder inteiramente em sua falsa persona. A tentação rondava a cada passo. Encontrava todos os dias nas ruas um grande número de pessoas pobres, ho­mens e mulheres, que dariam a alma para ter a vida de que desfrutava - ou da qual acreditavam que estivesse desfrutando. Indagou-se se já não tinha lutado o bastante, se já não se escondera ou ficara sozinho tempo suficiente. Sentiu-se tentado a abandonar sua busca, a deixar vir à tona o segredo que lhe tinham con­fiado, alguns anos atrás, naquele calabouço em Tomar, e a assumir sua posição ex­ternamente afortunada, estabelecer-se e passar o resto de seus dias sendo mimado, no conforto e - o que era bem mais importante - normalmente.

Ficava cada vez mais difícil resistir àquela tentação.

 

Ele não viajara diretamente a Paris.

Conseguira escapar de Nápoles, mas sabia que não estaria a salvo em nenhum lugar, muito menos na Itália, pois Di Sangro não descansaria enquanto não o encontrasse de novo. Vira isso nos olhos do príncipe: sabia que ele tinha muito dinheiro e dispunha de homens para colocar em seu encalço. Então, preocupou-se em ocultar seu rastro, estabelecendo novas identidades em cada lugar por onde passava, antes de se mudar e deixar atrás de si confusas inven­ções quanto a seus antecedentes e a seus movimentos.

Estabelecera cuidadosamente essas mentiras em Pisa, Milão e Orleans, a caminho da grande cidade, adotando novos nomes durante a viagem: Conde Bellamare, Marquês d'Aymar, Cavalheiro Schoening. Outros nomes - alguns com razão, outros não - se associariam a ele nos anos seguintes. Por enquanto, estava confortavelmente instalado em seu apartamento em Paris e em sua nova persona, o Conde de St. Germain.

O conde apreciava Paris. Essa cidade grande, movimentada - o maior agrupamento humano da Europa - atraía inúmeros viajantes e aventureiros, impetuosos ou discretos. Sua presença ali seria diluída pela de vários outros. Onde também podia encontrar outros viajantes, homens que, como ele, ti­nham percorrido o Oriente e teriam encontrado em suas viagens o símbolo da serpente devorando o próprio rabo. Era ainda uma cidade de sabedoria e oratória, repositório de um grande saber, com ricas bibliotecas e incontáveis coleções de manuscritos, livros e relíquias, incluindo as que o interessavam pessoalmente: aquelas que tinham sido roubadas do Oriente durante as Cru­zadas, as que tinham sido confiscadas aos Templários quase quinhentos anos antes. Aquelas que poderiam conter a peça que faltava ao quebra-cabeça que o impedira de viver sua vida durante todos aqueles anos.

Ele chegara a Paris quando a grande cidade passava por uma transição. A dupla tirania da monarquia e da Igreja estava sendo desafiada pelos pensadores radicais. A cidade pululava de contradições e revoltas, de iluminismo e intrigas - que St. Germain soube colocar a seu serviço.

Apenas algumas semanas após sua chegada, conseguiu fazer amizade com o ministro da Guerra do rei e, com sua ajuda, insinuou-se no círculo do monar­ca. Não era difícil impressionar os aristocratas. Seu conhecimento de química e física, obtido durante o tempo que vivera no Oriente, bastava para regalar e enganar aqueles bufões devassos. Sua familiaridade com as terras estrangeiras e seu domínio de inúmeras línguas - em Paris, seu francês era tão impecável quanto fora seu italiano em Nápoles, aos quais se acrescentava sua mestria fluente do inglês, do espanhol, do árabe e de sua língua materna, o português - eram cautelosamente usados cada vez que sua notabilidade necessitava de um empurrãozinho adicional. Logo ele estava confortavelmente integrado ao círculo dos acólitos mimados do rei.

 

Uma vez estabelecidas suas credenciais, pôde retomar sua busca. A fala macia lhe permitiu ingressar nas grandes casas da nobreza e nas coleções mais privadas. Fez-se simpático ao clero para poder penetrar nas bibliotecas e criptas dos monastérios. Também leu muito, mergulhando nos relatos de Tavernier, nos estudos sobre patologias de Morgagni, nos tratados médicos de Boerhave, e em outras grandes obras da época. Estudou minuciosamente a Pharmacopceia Extemporanea de Thomas Fuller e o intrigante Tratado sobre a vida sóbria de Luigi Cornaro - esse último autor vivera de maneira vibrante até os 98 anos. Embora aprendesse muito com essas leituras, não ficou mais perto da solução de sua busca impossível.

O símbolo da serpente devorando o próprio rabo não fora encontrado em lugar algum, assim não parecia haver pistas científicas ou médicas que compro­vassem a existência de tal substância.

Oscilou entre o entusiasmo e o desespero. A cada novo indício, sentia-se dominado pela excitação, mas logo depois, a cada novo impasse, emergiam as dúvidas sobre sua missão, minando ainda mais sua determinação. Gostaria de poder partilhar seu fardo, de recrutar alguém que pudesse ajudá-lo e tal­vez mesmo ocupar seu lugar, mas, ao ver como o mais ínfimo odor daquela substância transformara Di Sangro num predador obsessivo, não conseguiu se decidir a correr o risco de abordar outra pessoa.

Durante muitas noites, indagou-se se o fato de se livrar daquela substância e de sua fórmula demoníaca o livraria daquela escravidão. Conseguiu passar sem ela algumas vezes, nunca mais do que uma ou duas semanas. Então, um senso renovado de destino se apossava dele, fazendo com que se resignasse à única vida que conhecia.

 

- Perdão, caro senhor.

A voz feminina o tirou daquele torpor torturante.

Ao virar-se, viu um estranho grupo de jovens convidados à sua frente, cujas expressões variavam da frivolidade à confusão. Uma senhora mais velha, de cer­ca de 60 anos, fantasiada de ovelha, com uma saia balonê, destacou-se entre eles, aproximando-se cautelosamente. Alguma coisa nela deflagrou nele pontadas dolorosas. Ela o examinou com uma expressão perplexa e curiosa no rosto re­dondo, antes de lhe estender a mão e se apresentar como madame de Fontenay. O nome fez com que sua dor aumentasse. Disfarçou seu mal-estar, inclinando-­se ligeiramente diante dela e tomando a mão dela nas suas.

- Caro conde - indagou ela, ansiosa -, o senhor teria a bondade de me dizer se um parente seu viveu em Roma há uns quarenta anos? Talvez um tio, ou mesmo - ela hesitou - seu pai?

O falso conde sorriu efusivamente com treinada dissimulação.

- É bem possível, madame. Minha família parece condenada a uma vontade insaciável de viajar. Quanto a meu pai, não posso afirmar-lhe com certeza.

Quando eu era criança já era extremamente difícil, para mim, manter-me a par de suas viagens, e receio que seja impossível prestar-lhe contas de seus movimentos antes de meu nascimento. - O pequeno grupo riu ruidosamente e de maneira mais generosa do que aquela observação de St. Germain merecia.

- Mas, se me permite uma pergunta, qual é a razão de seu interesse?

A curiosidade em seus olhos não se desvanecera.

- Naquela época, um homem me cortejou, veja o senhor. Ainda recordo nosso primeiro encontro - relembrou ela. - Cantamos juntos algumas barca­rolas que ele compusera... - Um brilho sereno surgiu em seus olhos, e sua mente pareceu regressar àquele tempo. - Suas feições, seu cabelo, sua pele... até mes­mo sua postura. Ele tinha a marca e a nobreza que só se encontram nos grandes homens. - Ela parecia genuinamente espantada. - Vejo tudo isso no senhor.

St. Germain inclinou-se com falsa modéstia.

- É generosa demais, madame.

A mulher minimizou aquelas palavras com um aceno da mão.

- Por favor, conde. Suplico-lhe que pense sobre isso e faça-me saber se estava realmente em presença de um parente seu. A semelhança é tão extraor­dinária que me é impossível não levá-la em conta.

St. Germain tentou dar um fim àquela situação desconfortável. Sorriu largamente para sua inquisidora.

- Madame, bondade sua fazer-me tal elogio - disse efusivamente. - Não ficarei descansado até saber a identidade de meu ilustre parente que lhe causou tanta impressão. - Inclinou-se numa meia mesura, como para pôr fim à situa­ção, sua linguagem corporal incitando-a a partir, mas ela permaneceu firme. Ficou simplesmente ali, diante dele, paralisada.

- Extremamente intrigante - murmurou para si mesma, antes de formu­lar a pergunta. - Ouvi dizer que o senhor também toca piano divinamente, conde. Talvez tenha aprendido com o mesmo homem de quem me lembro.

Ele voltou a sorrir para ela, mas o sorriso não lhe chegava até os olhos. Ia começar a responder quando notou um rosto familiar observando-o por trás do pequeno grupo. A mulher - Thérésia de Condillac - parecia estar se di­vertindo com aquela situação.

- Ah, aí está o senhor - exclamou ela finalmente, avançando em direção a ele com um brilho perspicaz nos olhos. - Estive procurando o senhor por toda parte.

Trocaram-se inclinações e reverências corteses, apresentações apressadas, antes que a mulher passasse seu braço pelo de St. Germain e - com uma rápida desculpa - o levasse audaciosamente para longe de sua torturadora determinada.

- Espero que não se incomode por eu tê-lo afastado de uma admiradora tão ardente, monsieur - comentou ela, quando eles se perderam no meio da multidão.

- Não sei se usaria exatamente a palavra "ardente”. "Senil”, talvez?

- Não seja impiedoso, conde - riu ela. - A julgar por seu semblante ruborizado, ela bem poderia apresentar-lhe alguns meios-irmãos que o senhor desconhece.

Eles se dirigiram para os jardins, iluminados por tochas e outras girândolas. Pequenas nuvens de fumaça obscureciam a margem vizinha do rio. Elefantes, zebras e uma variedade de macacos, trazidos da coleção real de animais de Versalhes, estavam em exibição nos vastos jardins, símbolos da onipotência de seus reais proprietários, felizmente distantes das metáforas de escravidão e opressão que os menos afortunados associavam aos animais enjaulados.

Encontraram um banco isolado, que se abrigava sob um castanheiro, com vista para o cais, nas margens do rio. Eles tinham se conhecido algumas se­manas antes, na casa do tio de Thérésia, que St. Germain procurara devido à sua reputação de orientalista experiente, dono de uma substancial coleção de manuscritos da região. Tinham se encontrado de novo no salão de Madame Geoffrin - por acaso, pensara ele no início, embora no correr da noite, quando suas perguntas se fizeram mais íntimas, tivesse menos certeza disso. Mas não se importara. Thérésia de Condillac era uma mulher extremamente desejável, abençoada com uma feminilidade radiante. Viúva rica e sem filhos, não carecia de pretendentes e não se esquivava de seus avanços.

Eles ficaram olhando de longe o exército de festeiros e trocaram gracejos ocasionalmente sobre um ou outro convidado fantasiado de maneira mais extravagante. Tanto a fantasia de Thérésia quanto a de St. Germain eram extre­mamente discretas: a dela consistia apenas num xale de plumas atirado sobre o vestido de baile branco que lhe dava a aparência etérea de uma pomba - e por isso mesmo, bem distante do clima de selva. St. Germain, inteiramente vestido de negro e sem peruca, não chegava nem perto da pantera que reivindicava ser.

- Meu tio me disse que o senhor se tornou um visitante habitual da casa dele - mencionou ela num dado momento. - Ficou muito impressionado pela extensão de seus conhecimentos sobre o Oriente. Ele deseja ardentemente voltar a Constantinopla, sabe?

Ele se virou para ela, que parecia examinar seu rosto, esperando uma resposta.

- Posso entender que sinta falta daquela cidade. Sua simplicidade pode ser bastante acolhedora. - Ele se interrompeu, observando o cenário surrealista a distância. E de repente, como para desacreditar suas próprias palavras, uma imagem passageira, ao longe, o fez estremecer.

Através da neblina provocada pelos fogos de artifício, no meio da multidão de fantasias de gorilas e avestruzes, dois olhos se materializaram, encarando-o: os olhos de um jovem, cujo rosto estava coberto de listras douradas e marrons, cuja cabeça ostentava uma peruca loura anelada, da qual saíam duas orelhas de animal, uma espessa juba de pele enrolada em volta do pescoço. Ele o perscrutava do meio da multidão, como um tigre vigiando sua presa entre a espessa vegetação da savana africana.

O predador ficou ali apenas alguns instantes, até que um pequeno grupo de convidados o ocultou. Logo em seguida, quando eles passaram, ele já tinha ido embora.

St. Germain estreitou os olhos e esquadrinhou a distância, mas não havia mais sinais do tigre. Com o barulho da multidão e o ruído ensurdecedor da orquestra, perguntou-se se o vira realmente. Sacudindo a cabeça, dissipou a imagem e voltou a se concentrar em sua companheira.

Thérésia pareceu notar a evasão de seus olhos, mas não reagiu.

- Pode ser - respondeu. - Mas, em vez disso, suspeito que a atração dele se deva mais a qualquer mariage à la cabine - brincou, referindo-se a uma forma de casamento temporário praticado nesse local, o kabin, onde se podiam alugar mulheres cristãs por mês. - Algo que - acrescentou, com um tom sé­rio -, imagino, deva atraí-lo também, se não me engano.

Sua franqueza o pegou de surpresa.

- Imagino que deva atrair a maioria dos homens.

- Claro, mas algo de sua natureza impessoal, descompromissada, me parece bem apropriado ao senhor.

O comentário dela foi direto ao seu coração. Não que fosse inesperado. Ele tinha cultivado a reputação de ser alguém que dava valor à independência e à privacidade e que, embora gostasse de um flerte ocasional, não se interessava por compromissos. Mas a maneira como ela o dissera, como se soubesse de al­guma coisa, aquela ponta de sarcasmo em sua voz e em seus olhos - era como se pudesse ver através dele. Isso o inquietou.

- Não sei se devo tomar isso como um elogio ou como uma censura ­respondeu cautelosamente.

- Nem um nem outro disse ela em tom de brincadeira. - Apenas como o comentário passageiro de uma observadora intrigada.

- Uma observadora? Devo entender que estou sendo estudado, como um desses pobres animais? - perguntou ele, acenando para a jaula mais próxima. Contrariando o bom senso, ele se pegou procurando de novo na multidão para ver se percebia algum sinal do tigre rondando. Sem sucesso.

- Dificilmente, querido conde - ela tranqüilizou-o. - Embora imagi­ne que alguém que ficasse intrigado pelo senhor acharia isso extremamente frustrante, considerando sua inclinação a dar respostas evasivas às perguntas mais simples. Fico pensando se alguém realmente o conhece, no sentido exato da palavra.

Ele sorriu ao ouvir aquela pergunta. Queria responder que ele mesmo não se conhecia, pelo menos não mais, e - estranhamente - sentiu-se impelido a pronunciar aquelas mesmas palavras. Mas o mero pensamento ativou suas defesas instintivas.

- Onde ficaria meu charme se eu fosse um livro aberto? - disse ele.

- Ora, acho que seu charme pode resistir a uma abertura comedida. Fico apenas me perguntando se é realmente medo de espantar seus admiradores ou medo de deixar que alguém se aproxime.

Ele não respondeu logo. Em vez disso, sustentou o olhar dela, expondo-se a ele, sem saber como reagir.

Depois daquele jantar nos salões de madame Geoffrin, ele se informara discretamente sobre Thérésia. Ela tinha a reputação de apreciar a companhia masculina - dos homens que ela escolhesse -, mas isso mudara recente­mente. Durante meses, ela não se ligou romanticamente a nenhum de seus admiradores. St. Germain não era tão vaidoso a ponto de pensar que fosse por causa dele. Ela havia se afastado da promiscuidade bem antes que os dois se en­contrassem pela primeira vez. Embora ele também tivesse sido objeto de tantas tentativas de sedução que já nem se lembrava mais - a aristocracia parisiense era particularmente libertina -, aquilo era diferente. Era, de certa maneira, menos frívolo. Mais substancial.

O que não deixava de ser um problema.

St. Germain queria desesperadamente estar com ela. Havia algo inegavelmente desejável em relação a Thérésia de Condillac, mas os motivos que o atraíam para ela eram os mesmos que tornavam muito perigoso que ele a convidasse a entrar em sua vida.

- Acho que a senhora está pintando minha vida com mais floreios do que ela realmente merece - ele respondeu, finalmente.

Thérésia chegou ainda mais perto.

- Por que não me conta os segredos que rondam essa sua fortaleza impenetrável e deixa que eu mesma julgue?

St. Germain deu de ombros.

- Receio entediá-la com as banalidades de minha cansativa existência.

Mas... - Sua voz parou. Por mais que o rosto dela fosse tentador, não podia im­pedir que seus olhos vigiassem a distância, onde, por entre o desfile das alegres fantasias, percebera outra vez o tigre. Como antes, o homem estava lá, imóvel, atrás da cortina de convidados em movimento, observando-o fixamente. E, como antes, desaparecera de vista quase instantaneamente.

Uma onda de mal-estar correu dentro dele. Sentiu-se exposto em perigo.

Naquele momento, Thérésia reagiu.

- Está tudo bem, conde?

A voz de St. Germain não vacilou.

- Claro. Mas é tarde, senhora, receio que deva lhe pedir que me desculpe.

- Ele tomou sua mão e a beijou.

Ela pareceu ligeiramente decepcionada por sua partida e deu-lhe um sorrisinho meio sem jeito.

- Suspendendo novamente sua ponte levadiça, conde?

- Até que o cerco termine - respondeu ele, inclinando-se ligeiramente e partindo, sentindo o olhar dela o acompanhar enquanto se confundia com a multidão.

Ele se moveu apressadamente em meio aos convidados, os olhos indo da esquerda para a direita, sua mente se esgueirando das fantasias surrealistas, animalescas, que o rodeavam. Dirigiu-se diretamente para o portão central. Podia sentir o sangue gelar quando saiu do palácio e fez sinal a seu cocheiro, que esquentava as mãos junto com os outros num pequeno braseiro. O homem correu para buscar sua carruagem e, momentos depois, estavam se encami­nhando para o leste, descendo a Rue St. Honoré em direção ao apartamento de St. Germain, na Île de la Cité.

Deixou-se envolver pelo conforto do assento de veludo da carruagem e fechou os olhos. O ruído rítmico dos cascos do cavalo o acalmou. Voltou a pensar sobre o que se passara e se censurou pelo acesso de pânico que pare­cia não ter justificação. Questionou-se se a presença de Thérésia perturbara seus sentidos e, de alguma maneira, pensar nela repeliu seu mal-estar e apa­ziguou sua mente cansada. Deu-se conta de que precisava vê-la outra vez, era inevitável. Virou-se para a janela e deixou o ar frio da noite refrescar-lhe o rosto.

A carruagem virou à direita na Rue de l'Arbre Sec, e logo estavam atravessando a Pont Neuf. St. Germain escolhera o velho distrito da Cité em vez das vizinhanças recém-construídas da cidade, e alugara ali elegantes dependências que davam para o rio e para os cais da margem direita. Apesar da camada de detritos que poluíam a superfície, o fluxo da água lhe parecia repousante. A brisa que descia o Sena durante a maior parte dos dias e das noites também ajudava a diminuir o odor de lixo doméstico e detritos humanos que habitual­mente eram jogados no meio das ruas.

St. Germain olhou para a esquerda enquanto cruzavam a ponte. Era uma fresca noite de outono, e a lua, quase cheia, inundava a cidade com um frio brilho prateado. Ele adorava a vista da ponte, especialmente depois do cair da noite, quando os negociantes e vendedores ambulantes já tinham empa­cotado as mercadorias, e os pedestres vinham passear. O cais do norte, que se prolongava rio acima, pontilhado por fogueiras aqui e ali, estava cheio de canoas indolentes e barcos a vela. Mais além, os telhados de ardósia dos prédios que davam para a Pont Notre Dame brilhavam sob a luz do luar, a débil luz de velas finas cintilando nas janelas. A sublime Notre Dame paira­va sobre a ilha, suas torres gêmeas quadradas esticando-se numa tentativa impossível de alcançar o dossel de estrelas; um edifício construído para a grandeza de Deus que, a cada dia que passava, era considerado mais uma prova do gênio do homem.

Eles conseguiram chegar até a ponta ocidental da ilha e viraram em direção ao Quai de l'Horloge, uma ruela estreita com uma fileira de casas de um lado e um muro baixo que dava para o rio do outro. Os aposentos de St. Germain ficavam num prédio caiado em uma extremidade do terraço. Faltavam ainda uns 45 metros até sua entrada quando ele ouviu o cocheiro acalmar o cavalo e puxar o freio. A carruagem parou antes de chegar.

St. Germain debruçou-se pela janela, chamando o cocheiro.

- Roger, por que paramos aqui?

Ele hesitou antes de responder.

- À frente, monsieur le comte. Nosso caminho está bloqueado. - Sua voz tinha um tremor pouco usual.

St. Germain ouviu um cavalo relinchar e olhou para a estrada. As ruas de Paris estavam iluminadas durante aquele mês e, ao brilho suave de um lampião a óleo suspenso, talvez a uns trinta metros adiante da carruagem parada, blo­queando a avenida, havia três homens a cavalo. Estavam apenas parados ali, imóveis, lado a lado.

Ele ouviu mais barulho de cascos vindo da ponte e se virou para ver o que era. Um outro cavaleiro estava descendo o cais e, quando ele passou sob outro lampião, St. Germain vislumbrou as listras douradas e escuras do tigre pintadas no rosto do cavaleiro, mais ameaçadoras agora sob a negra capa flutuante.

St. Germain se alarmou diante daqueles cavaleiros que bloqueavam seu caminho. Seus olhos perscrutaram a escuridão, e notou que as feições do ca­valeiro do meio não lhe eram desconhecidas. Mal formara a imagem quando a voz familiar rompeu a noite.

- Buona sera, marquese - A voz de Di Sangro, exatamente como St. Germain se lembrava: seca, sardônica, rouca. - Ou será que o senhor prefere que o chame de gentile conte?

St. Germain lançou um olhar ao cavaleiro que se aproximava para impedir sua fuga, e seu rosto mascarado voltou nitidamente à memória. Compreendeu por que aquele jovem o tinha inquietado e lembrou-se de tê-lo visto anterior­mente, num café de Paris, poucas semanas atrás, mas também quando eles se encontraram pela primeira vez, em Nápoles, alguns anos antes. Logo após a visita ao palácio de Di Sangro.

Era o filho de Di Sangro. O adolescente cheio de educação, no entanto, fora substituído por um jovem bastante ameaçador.

St. Germain deu uma olhada para o cocheiro, que retribuía nervosamente seu olhar.

        - Vamos, Roger - ordenou furiosamente -, passe entre eles.

        O cocheiro gritou e chicoteou o cavalo, que saiu a galope e avançou rapidamente. Olhando pela janela, St. Germain viu os cavalos que bloqueavam o caminho se afastarem ligeiramente; mas um dos cavaleiros surgiu com alguma coisa que brilhava ameaçadoramente à luz do luar. St. Germain levou algum tempo até identificar o objeto, uma besta. Antes mesmo que pudesse dar um grito, o cavaleiro armou, mirou e atirou. A pequena flecha cortou o ar com um sibilo sinistro e atingiu o cocheiro diretamente no peito. Ele emitiu um gemido de dor antes de se virar para o lado e cair da carruagem em movimento.

Os cavaleiros atacaram, gritando e agitando os braços em direção ao cavalo confuso, que avançava em ziguezague. A carruagem atravessou o pavimento desnivelado, St. Germain agarrando-se às bordas de sua janela, buscando men­talmente possíveis saídas, quando o cavaleiro que estava no outro flanco de Di Sangro ergueu outra besta e atirou no cavalo.

Pelo relincho agudo e dolorido do animal, St. Germain soube que a flecha se cravara fundo em sua carne. O cavalo empinou, fazendo com que a carruagem se inclinasse perigosamente para o lado. Com certeza, uma das rodas se enganchara em alguma pedra, porque St. Germain se viu pendurado nas bordas da janela enquanto a leve carruagem sacolejou e virou pesadamente para o lado, percorrendo alguns metros antes de parar.

St. Germain recobrou a consciência e se esticou, seus sentidos alertas a qualquer movimento do lado de fora. A rua se tornara silenciosa. O único ruído que perturbava a tranqüilidade mortal vinha dos cascos dos cavalos de seus atacantes, que se aproximavam vagarosamente. Dando as costas para a porta fechada atrás de si, flexionou as pernas e deu um chute na porta oposta, conseguindo abri-la, deixando-se cair do lado de fora, dolorido e cheio de contusões. Atirou-se por terra e descobriu o corpo de seu cocheiro ali, imóvel. St. Germain encheu-se de raiva, enquanto esticava o corpo contundido até ficar de pé.

Um pouco mais acima, os três cavaleiros tinham agora se juntado ao filho de Di Sangro.

- Bravo, ragazzo mio - felicitou-o o pai. - Sei stato grande. - "Você agiu muito bem”. Então, virou-se para enfrentar St. Germain.

Os quatro ficaram diante dele com uma atitude ameaçadora, as silhuetas marcadas pelo lampião que oscilava sobre suas cabeças.

Di Sangro fez seu cavalo avançar alguns passos, os olhos cravados em sua presa.

- Vida boa essa que o senhor criou para si mesmo, marquese. Paris vai lamentar perdê-lo.

- E se Paris perde alguma coisa, Nápoles ganha, é isso? - devolveu St. Germain.

Di Sangro sorriu e desmontou.

- Nápoles toda, talvez não, mas minha Nápoles, com certeza. – Seu filho o acompanhou, enquanto os outros permaneceram montados. O prín­cipe se aproximou de St. Germain, estudando-o como se fosse a primeira vez que o via. - O senhor está com boa aparência, marquese. Muito boa, na verdade. Quem sabe, talvez, esse ar poluído de Paris simplesmente lhe seja conveniente.

St. Germain não respondeu. Tensos, seus olhos alternavam de Di Sangro para seu filho. Eles se pareciam muito, especialmente os olhos, ainda mais agora que o rapaz virara um homem. O próprio Di Sangro havia envelhecido bastante com os anos: estava mais pesado, mais pálido, a pele do rosto enru­gada e flácida. Ele se maldisse por não ter feito a associação antes, por não ter se dado conta de quem era aquele rapaz na hora em que lhe deitara os olhos, no café. Sempre soubera que Di Sangro acabaria encontrando-o em algum momento, e desfrutara de vários anos de anonimato tranqüilo, feliz, embora reservado. Sabia que sua vida em Paris se acabara, mas, naquele instante, precisava fazer alguma coisa, se pretendia ter a oportunidade de criar uma outra existência.

Sua mente percorreu suas alternativas, que não eram muitas. No entanto, um pensamento brilhou naquele cenário desolador, uma constatação simples que sempre colorira suas reações durante as várias confrontações mentais que tivera com Di Sangro ao longo de todos aqueles anos: Di Sangro precisava dele vivo. As ameaças de revelação ou morte eram blefes: sabia que aquele homem faria o possível para mantê-lo com vida e usaria de todos os métodos a seu dispor, por mais terríveis que pudessem parecer e durante o tempo que fosse necessário, para arrancar dele a verdade.

Aquilo era, no entanto, uma faca de dois gumes. Permanecer vivo só valeria a pena se pudesse ficar livre. O cativeiro e a tortura eram bem menos desejáveis. Especialmente porque tinha dúvidas sobre quanto tempo duraria sua determinação.

Ele estava cercado. Os dois cavaleiros tinham se colocado um de cada lado de seu mestre, fechando as duas rotas de fuga. Atrás dele, havia a parede do prédio, cuja porta de entrada era fechada ao entardecer. E à sua frente, atrás de Di Sangro e de seu filho, havia o muro baixo e o rio.

St. Germain inspirou profundamente e desembainhou a espada.

- O senhor sabe que não posso acompanhá-lo - disse a Di Sangro. – Não há nada aqui para o senhor.

        Di Sangro sorriu friamente e acenou para seus capangas.

- Não creio que tenha muita escolha, marquese. - Ele também desembainhou a espada e a ergueu em direção a St. Germain, assim como o filho. Com o canto do olho, o conde notou que os cavaleiros haviam armado de novo suas bestas.

St. Germain foi andando de lado, mantendo o príncipe e seu filho a distância com a ponta da espada. Por mais fatigado e exausto que se sentisse por ter carregado aquele fardo por tantos continentes, não era essa a libertação que buscava. Não podia aceitar a idéia de ser capturado, não por esse homem. Estava pronto a resistir até seu último suspiro, embora, até onde sabia, se morresse, o segredo morreria com ele. Refletiu que isso poderia, afinal, ser uma boa coisa - ou será que era seu dever para com o mundo manter aquele conhecimento vivo, ainda que caísse nas mãos de um homem tão maníaco e egoísta como Di Sangro?

Não, tinha que ficar livre. Tinha que permanecer vivo. Não estava pronto para morrer. E, de repente, se deu conta também de que não poderia mais guardar aquele segredo apenas para si. Era perigoso demais. Se conseguisse fugir mais essa vez e continuar sua busca, teria que recrutar outras pessoas, apesar dos perigos que isso acarretava. Deveria apenas escolhê-las muito bem.

Uma feroz determinação correu em suas veias e ele mergulhou furiosamente em direção aos dois homens. Quando suas espadas se cruzaram na rua deserta, notou que Di Sangro estava mais lento desde seu último encontro, mas que o filho compensava a lentidão do pai. O rapaz era um exímio espadachim. Rebateu os movimentos de St. Germain com eficiência cirúrgica e parecia prever, infalivelmente, os ataques do conde. O príncipe se limitou a recuar, satisfeito em ser apenas uma barreira à fuga de St. Germain, enquanto o filho se adiantou, cruzando espadas com o conde. O capuz que escondia seu rosto havia escorregado e, sob o pálido clarão do lampião suspenso, as listras de tigre em seu rosto pareciam definitivamente demoníacas, aumentando a expressão predatória de seus olhos e irritando St. Germain.

A lâmina do jovem cortava o ar cada vez mais rápida e ferozmente, e St. Germain teve que bloquear e rebater o violento ataque. Ao pisarem na sarjeta e sua lama imunda, St. Germain desviou-se para o lado de forma a rebater outro ataque e seu sapato ficou preso numa pedra saliente, desequilibrando-o. O filho de Di Sangro aproveitou a oportunidade e pulou para a frente, atacando St. Germain. O conde recuperou o equilíbrio e desviou-se para a direita, sem conseguir evitar inteiramente a lâmina, que feriu seu ombro esquerdo, fazendo uma dor aguda percorrer-lhe o corpo. Ergueu a espada a tempo de des­viar de mais um ataque de seu adversário e recuou para se recuperar.

Eles andavam em círculo como gatos selvagens, os olhos cravados um no outro, o cruzar das espadas agora substituído por suas respirações ofegantes. Um sorriso sibilino levantou os cantos dos finos lábios do rapaz; ele olhou para o pai, que lhe deu aprovação com um curto aceno satisfeito da cabeça. St. Germain sentiu uma arrogância irrefletida no jovem, e um orgulho idêntico no pai, enquanto o sangue escorria de seu braço. O ferimento estava esfriando e, em breve, a dor se tornaria mais intensa, os músculos se enrijeceriam. Tinha que se mover rapidamente, ainda que soubesse que lhe era impossível derrotar todos os quatro oponentes.

Ele sabia onde tinha que atacar.

Reuniu toda a energia que conseguiu e pulou sobre o filho do conde com vigor renovado, girando sua espada em volta dele em todos os sentidos, for­çando-o a recuar alguns passos até estar de novo dentro da lama, escorregando naquela lama imunda. O ataque determinado de St. Germain surpreendeu o jovem, que, sempre tentando rebater a enxurrada de golpes que caía sobre si, lançou um olhar duvidoso ao pai, como em busca de confirmação tranqüili­zadora. St. Germain aproveitou aquele instante de fraqueza para atacar. Sua lâmina enterrou-se no flanco do jovem, arrancando-lhe um grito de dor.

O filho do príncipe cambaleou para trás com um olhar chocado, quase descrente, ao tocar a ferida e retirar a mão cheia de sangue. Di Sangro viu o filho vacilar na lama e avançou em sua direção, gritando seu nome.

- Arturo!

O filho reagiu à dor e, com um gesto da mão, o manteve afastado, voltando-se para St. Germain. Ergueu a espada, mas sua perna vacilou quando deu um passo à frente.

Di Sangro gritou para seus homens:

- Prendetelo! - e correu em socorro do filho. St. Germain observou os dois cavaleiros, que desmontaram e avançaram em sua direção, bloquean­do os dois lados da rua. Suas bestas brilhavam na escuridão. Ele olhou para trás. O pequeno muro que beirava a avenida estava próximo. Deu um salto e, chegando até ele, jogou primeiro sua espada, depois subiu, sem prestar atenção às fortes dores que percorriam seu ombro. Endireitou o corpo e ficou de pé.

Embaixo dele corria o Sena, frio e carregado de detritos. Mas dessa vez a água que corria vagarosamente, brilhando sob o luar, não era tranqüilizadora. Ele sentiu uma vertigem, aspirou o ar da noite e voltou-se para a rua. Di Sangro o viu ali de pé. Seus olhos se cruzaram por um curto instante, e St. Germain viu o sofrimento, a raiva e o completo desespero que emanavam de seu inimigo, que então gritou:

- Não seja tolo, marquese...

Mas antes que o príncipe pudesse fazer ou dizer qualquer coisa mais, St. Germain lhe deu as costas, fechou os olhos, saltou do muro e deixou-se cair no rio.

A queda atingiu duramente seu corpo e ele afundou nas águas sujas do rio. Dando voltas sobre si mesmo, ficou momentaneamente desorientado, sem saber onde era a superfície. Seus braços se agitavam enquanto girava sem direção, os ouvidos latejando com a mudança de pressão, os pulmões lutando por um pouco de ar. Tentou se acalmar, mas o frio era muito intenso e podia sentir sua cabeça ficar enuviada. Enquanto descia em espiral, percebeu de relance o que lhe pareceu ser um reflexo da superfície e decidiu dirigir-se para esse ponto, mas o peso de suas roupas o puxou para baixo. Conseguiu retirar os sapatos encharcados, mas as roupas estavam presas por várias fileiras de botões, diferentes camadas de tecidos finos, calça, camisa, gravata, colete e justaucorps, que aderiam estreitamente à pele, inibindo seus movimentos.

Sentiu-se como se o próprio diabo o estivesse puxando para a morte e, por um breve instante, sentiu um alívio perverso por tudo aquilo estar terminando. Mas alguma coisa o fez lutar para permanecer vivo: deu um impulso violento com as pernas, cortando a água desesperadamente até conseguir atingir a superfície.

Ele irrompeu das águas e viu-se flutuando Sena abaixo, no meio de pedaços esparsos de madeira e frutas podres. Tinha se afastado da Île de la Cité e estava agora no meio do rio, dirigindo-se lentamente para as Tulherias. Lutou contra a corrente, engolindo aquela água imunda e tossindo para cuspi-la, as roupas encharcadas ainda puxando-o para baixo, os braços colidindo com o lixo e os restos flutuantes. Lutou como nunca para permanecer vivo, boiando, tentando aproximar-se cada vez mais da margem direita, para chegar à terra. Centímetro por centímetro, as fogueiras dos mendigos, espalhadas pelo cais da margem direita, pareciam se aproximar. Quando finalmente conseguiu agarrar um anel de ferro enferrujado cravado na pedra às margens do rio, ele tinha perdido totalmente a noção do tempo.

Arrastou-se para fora da água e ficou deitado de costas, aspirando o ar, agradecido, deixando seu corpo exaurido retomar uma aparência de vida. Ele não soube se foram horas ou minutos depois, mas ainda estava escuro quando ouviu uma voz que pensou reconhecer chamando seu nome. Pensou que estava sonhando quando, alguns momentos mais tarde, o rosto angelical de Thérésia lhe apareceu sorrindo entre as estrelas, murmurando palavras que não chegou a compreender.

Sentiu seu corpo castigado ser erguido nos ombros de um homem e, com a ajuda de Thérésia, logo se viu enrolado num espesso cobertor, dentro do conforto acolchoado de uma grande carruagem que o conduziu para longe dos ratos e dos bandidos, pelas ruas escuras da cidade-luz.

 

Enquanto se dirigiam ao apartamento de Thérésia, muitas perguntas atormentavam St. Germain, e sua mente confusa lutou para processar as respostas que ela lhe deu.

Ela lhe disse que notara que alguma coisa parecia tê-lo aborrecido durante o baile e que, quando ele se retirou do palácio, ela percebera que um homem vestido de tigre o seguia. Ela deixara o baile logo depois deles, pois perdera o interesse, e seu cocheiro a informara de que aquele homem tinha realmente seguido o conde e sua carruagem. Ela partiu atrás deles, antevendo problemas, e presenciara a luta da ponte, com medo demais para interferir. Depois que St. Germain se jogara no rio, ela pensou que ele tivesse se afogado, mas seu co­cheiro o localizou pouco depois, flutuando no meio das águas, conduzindo-a, enfim, até onde ele estava.

St. Germain não registrou inteiramente aquela história, mas pouco lhe importava. Por enquanto, estava feliz de estar vivo, feliz de estar com ela. No mais íntimo de si, sabia que tudo aquilo era apenas temporário, mas não queria pensar sobre isso naquele momento. Deixou-se apenas embalar no conforto de seus braços, e tentou deixar o mundo do lado de fora enquanto lhe fosse possível.

Ela o levou para seu apartamento, no novo bairro chique de Marais, e pediu à empregada que lhe preparasse um banho quente. Ajudou-o a despir as roupas molhadas e a entrar na banheira. Mais tarde, depois de cuidar de sua ferida e dar-lhe de comer, eles apagaram todas as velas, deixando apenas uma sobre a mesinha-de-cabeceira, e fizeram amor com uma desinibição voraz.

Ele despertou aos primeiros raios do sol e ficou contemplando a mulher adormecida a seu lado. O ombro ainda doía, mas a ferida não sangrava mais. Acariciou suavemente as costas dela, sentindo a delicadeza da pele sob os dedos, temendo a próxima mentira, que, mais cedo ou mais tarde, teria que inventar.

Ao vê-la respirando pacificamente a seu lado, imaginou uma vida mais alegre, na qual ele não teria que viver uma mentira, na qual poderia ter prazer durante o tempo que lhe restava. Fez-se a mesma pergunta que o atormentava ultimamente, sobre a validade da busca à qual devotara a vida, sobre se já era finalmente tempo de desistir daquilo tudo e retirar-se para uma existência mundana e ditosa.

Enquanto ponderava o itinerário de sua vida, pegou-se ainda duvidando do que realmente conseguiria, mesmo que encontrasse o que estava buscando.

Encontrar era uma coisa.

Anunciar, revelar ao mundo, assegurar-se de que a imortalidade estaria disponível para todos em condições de igualdade... era um desafio quase imensurável.

O mundo não estava preparado para isso, com certeza. Poderosas forças se ergueriam para sufocar a revelação, para impedir que alterasse - e fortalecesse - a humanidade. A imortalidade - espiritual, ou seja, a imortalidade individual - era uma dádiva que apenas a religião estava autorizada a conferir. Nada mais podia ter a permissão de aliviar o medo do espectro do inevitável e irresistível convite da morte. A dádiva que estava buscando era impensável, era um sacrilégio. A Igreja jamais a permitiria. Quem era ele para vencer tal hostilidade venenosa?

A confusão inundou sua mente. Para combater o cansaço e o sentimento de desespero, havia a observação de que, apesar de tudo, o futuro guardava ainda muitas promessas. Com o passar do tempo, sentia que os ventos da mudança sopravam em várias cidades à sua volta. Salões e cafés transbordavam de no­vas idéias que combatiam a ignorância, a tirania e a superstição. O dogma e a perseguição religiosos estavam sendo minados. Rousseau, Voltaire, Diderot e muitos outros trabalhavam com fervor, tentando sempre se opor à supres­são de suas obras pelos jesuítas, que continuavam sempre presentes. O povo se sentia enobrecido e inspirado pelas palavras dos grandes pensadores, que acreditavam que o homem era bom em sua essência, e que a felicidade nesta vida terrena podia ser obtida pela fraternidade e pelos progressos da ciência e da arte, sendo uma aspiração mais nobre e mais sensata do que esperar atingir o paraíso pela penitência.

Estavam começando a ousar dar mais valor às suas vidas presentes do que à vida após a morte.

Mas ainda havia muita coisa a superar. Pobreza e doença, sobretudo. A morte prematura estava emboscada em cada esquina, e os mais brilhantes intelectos ainda tentavam entender de que era feito o corpo humano e como funcionava. Isso seria um grande desvio em suas pesquisas e poderia ter efeitos desastrosos. E, além de tudo, ainda existia a questão aparentemente sem solu­ção da cobiça humana, da propensão inata do homem a ambicionar, a acumu­lar, como St. Germain muito bem testemunhara pelo exemplo de Di Sangro.

St. Germain observou a silhueta que dormia a seu lado. Esticou a mão e tocou seus ombros nus. Examinou seu rosto, radiante mesmo enquanto dor­mia, viu promessa e inspiração naquelas linhas finamente esculpidas. Isso o atormentou, algo em seu íntimo se dilacerou.

Estava exausto.

Talvez tudo aquilo fosse inalcançável. Talvez estivesse na hora de ser egoísta.

Talvez estivesse na hora de desistir.

Aquele pensamento o confortou. Mas havia problemas mais urgentes a resolver.

Seria obrigado a deixá-la, de qualquer maneira, Ele tinha a capacidade de viajar e de se reinventar. Havia realizado algumas missões delicadas para o rei, que, em mais uma tentativa desastrada de se afirmar, instituíra le Secret du Roi, o "segredo do rei": um grupo de agentes secretos que podiam ser mandados para o exterior em busca de objetivos contrários às políticas que o rei anun­ciava publicamente, como restabelecer a paz com os ingleses. St. Germain podia aproveitar esse sistema para sair dali e reinstalar-se secretamente em outro lugar.

Com um aperto no coração, reconheceu que era sua única opção: Como se estivesse lendo sua mente, Thérésia se agitou ao lado dele e es­preguiçou-se, acordando. Um sorriso luminoso inundou seu rosto, enquanto trançava seu corpo no dele.

        Ela pareceu ler a expressão de seu rosto e ficou calada por alguns segundos, sua própria fisionomia tornando-se mais séria, quando perguntou.

        - Você vai ter que deixar Paris, não vai!

        Ele não conseguiu mentir, não para ela. Simplesmente balançou a cabeça, sem desviar os olhos.

Ela sustentou seu olhar e inclinou-se, dando-lhe um beijo lânguido. Quando finalmente se afastou, disse simplesmente.

- Quero ir com você.

Ele olhou para ela e sorriu.

 

O campus estava apenas voltando à vida quando Ramez percorreu. cautelo­samente, a tranqüila aléia bordejada de árvores que conduzia a Post Hall.

Dormira muito pouco. Vira o relógio marcar horas intermináveis, minuto a minuto, e quando finalmente o sol se dignou a aparecer já não agüentava mais o confinamento. Hesitante, saiu de seu apartamento e andou até a universi­dade, olhando por cima do ombro, perscrutando a rua ao ritmo de seu andar apressado, alerta a qualquer coisa que parecesse, ainda que remotamente, fora do comum.

O próprio prédio estava deserto àquela hora da manhã. O funcionário mais responsável não chegava antes das sete e meia, apenas dali a meia hora. Ficou andando pelo escritório, olhando os ciprestes do lado de fora, vigiando o celu­lar em sua mesa, atormentado pela indecisão - e pelo medo.

Quando escutou o primeiro de seus colegas entrar no departamento, decidiu terminar com aquele sofrimento terrível que lhe oprimia o peito e agarrou o telefone.

 

O furão observou com atenção o detetive mais alto, que falava ao telefone. Lendo nas entrelinhas, percebeu o que estava se passando. Suas suspeitas se confirmaram assim que seu colega desligou. O homem que havia telefonado trabalhava na universidade com a professora americana seqüestrada. Fora contatado pelo contrabandista de antigüidades iraquiano que eles estavam pro­curando, que desejava fazer um trato antes de se entregar. Estava com medo.

O detetive mais alto lhe dissera para ficar onde estava; ele e seu colega chegariam em alguns minutos.

Ordenou ao furão que se preparasse para ir à universidade com ele e apanhou o celular para fazer uma ligação. As notícias não o obrigaram exatamente a sair às pressas, o que era muito bom.

O furão achou que ele fosse telefonar para o agente americano, para lhe dar as notícias. Tinha que andar depressa, não estava sendo pago para ficar sem fazer nada.

Precisava contar a eles. Depois, teria que atrasar os trâmites no escritório, de maneira que chegassem lá antes.

Disse a seu colega que precisava ir ao banheiro e saiu da sala. Encontrou um canto tranqüilo numa sala de interrogatórios, certificou-se de que ninguém poderia ouvi-lo e discou rapidamente o número de Omar.

 

O breve toque da campainha do telefone ecoou no apartamento, arrancando Mia de um sono profundo. Ela se sentou na cama e esfregou os olhos, sentindo-se meio grogue. Nem sabia que horas eram. O quarto estava intei­ramente mergulhado na escuridão, o mundo exterior fora impiedosamente excluído pelas persianas. Ao perceber alguns raios de sol sob a porta do quarto, ela se deu conta de que já era de manhã.

Surpreendeu-se por ter dormido tão profundamente, dadas as circunstâncias. Passou as mãos nos cabelos, vestiu as calças e saiu do quarto, indo encontrar Corben na cozinha. Ele já estava vestido, falando ao telefone e, ao mesmo tempo, guardando alguns documentos - inclusive o que trouxera do apartamento de Evelyn - em sua pasta.

Sua linguagem corporal, urgente e concentrada, fez com que um espasmo de medo percorresse a espinha de Mia.

        Ele a viu e, afastando o telefone da boca, disse com voz firme e baixa.

        - Temos que ir. - Sua expressão dura complementou o que ele queria dizer. Tinham que sair dali agora mesmo. As perguntas dela teriam que esperar.

Ela mal conseguira enfiar os sapatos antes que tomassem o elevador para a garagem subterrânea. Corben lhe transmitiu as últimas informações, enquanto corriam para o Cherokee e, em poucos minutos, estavam se dirigindo a toda velocidade para a universidade.

- Eles estão mandado uns homens para cá - concluiu Corben -, mas é melhor que Ramez esteja conosco, e não com eles, quando receber o tal telefonema.

Ele olhou para o relógio e Mia conferiu o dela.

- Então, o tal Farouk deve telefonar para ele ao meio-dia?

Corben assentiu.

- Temos cerca de quatro horas.

A mente de Mia estava disparada, questionando, uma descarga de adrenalina percorrendo seu corpo.

- E por que ele não estava atendendo o celular ontem à noite, quando você tentou ligar para ele? E se tivesse sido Farouk? E se ele tiver mudado de idéia ou se tiver acontecido alguma coisa com ele?

Corben deu de ombros.

- Acho que vamos saber tudo isso daqui a quatro horas.

- Ele devia ter atendido o celular - insistiu ela.

Corben virou-se para ela.

- Isso é bom. Pelo menos, ele entrou em contato.

Mia inspirou profundamente e ficou quieta no banco do carro, tentando refrear a cientista metódica, analítica, que existia dentro dela, mas havia muitas incógnitas, muitas variáveis possíveis para que ela conseguisse se desligar.

- E se Farouk o estiver vigiando? Você não vai querer assustá-lo.

- Se ele estiver à espreita, vai ver você - disse Corben, para tranqüilizá-la. - E isso lhe dará um certo alívio, talvez até o encoraje a aparecer.

Mia assentiu e virou-se, olhando para a rua que ia desfilando do lado de fora. Ela detestava ficar em silêncio. Isso lhe permitia pensar no que estava, de fato, fazendo, o que lhe deixava apreensiva. Pensou de novo na mãe, no que ela devia estar sentindo. Tentou se acalmar, imaginando o que poderia aconte­cer, construindo na mente um cenário favorável, sem eventos negativos - eles apanhariam Ramez, Farouk telefonaria, se apresentaria, e eles agiriam em fun­ção de suas informações para perseguir o hakim e libertar Evelyn, ou pegariam as peças contrabandeadas, trocando-as por sua liberdade, e todos seriam felizes para sempre. Mas sua cabeça recusou-se a cooperar, insistindo em delinear finais bem menos cor-de-rosa e que, apesar de seus esforços para bloqueá-los, envolviam muito sofrimento e um número espantoso de mortes.

Corben virou à direita no fim da Rue Abdel Aziz, em direção ao final da Rue Bliss, e virou no acesso circular da principal entrada da universidade. O Portão Médico, como era conhecido, estava sempre envolto na escuridão, a qualquer hora do dia, devido ao majestoso dossel de folhagem de uma antiga e colossal figueira. Ele subiu até o portão de ferro forjado. O acesso dos veícu­los ao campus era estritamente controlado, devido à tendência local em usar carros-bombas, mas o jipe de Corben tinha placas diplomáticas com o número 104, o que indicava sua filiação à embaixada americana e o fazia desfrutar de prerrogativas especiais. Sem dúvida, o guarda que tomava conta do portão de entrada viu as placas e, depois de dar uma geral no interior do carro, acenou para que passassem.

Eles estacionaram numa vaga sob uma fila de impressionantes ciprestes, na estrada de Post Hall. Os nervos de Mia vibraram ao seguir Corben para fora do carro. Notou que ele olhava em volta, como para se certificar de que ninguém estava olhando, antes de abrir o porta-malas do automóvel. Não havia nada ali, exceto uma trava no solo acarpetado, que Corben destrancou. Olhando de novo rapidamente em volta, abriu um compartimento secreto. Dentro dele, cuidado­samente amarrado, havia um pequeno armário, onde estavam arrumados uma espingarda de cano duplo, uma submetralhadora, duas pistolas automáticas e várias caixas de munição. A vibração de seus nervos ficou mais intensa quando Corben puxou uma das pistolas, carregou-a e a colocou na cintura.

Ao fechar o compartimento secreto, notou que ela estava apreensiva.

- Só por precaução - tranqüilizou-a.

- Boa idéia - ela murmurou, sem saber se estava ou não mais aliviada por ele estar armado dessa vez.

Eles passaram por dois estudantes que estavam passeando antes das aulas e entraram no antigo prédio de pedras. Não havia recepcionista na entrada – o Departamento de Arqueologia era pequeno, não contava com mais de uma dúzia de pessoas em tempo integral. Mia sabia que o escritório de Evelyn ficava no andar de cima e conduziu Corben, através do salão de conferências e da entrada do museu do campus, até o primeiro andar.

Eles verificaram as salas ao passar pelo corredor, até chegarem ao escritório de Ramez. A porta estava aberta. O rosto do professor-assistente manifestou um certo alarme quando os viu, mas depois sua expressão denotou certa con­fusão, ao reconhecer Mia.

- Sou a filha de Evelyn - disse ela com um sorriso, tentando deixá-lo à vontade. - Já nos encontramos antes, lembra-se? No escritório dela?

- Claro. - Seus olhos, ainda cheios de medo, passavam dela para Gorben e vice-versa. Ele quis dizer alguma coisa, mas Corben não lhe deu chance e falou antes dele.

- Estou trabalhando com a embaixada americana - informou. - Esta­mos tentando encontrar Evelyn, e esperamos que o senhor possa nos ajudar. Os detetives do Fuhud para quem o senhor telefonou nos informaram que um homem chamado Farouk o procurou ontem. Precisamos realmente falar com ele para descobrir se ele pode nos ajudar a garantir o resgate dela.

- Ele vai me telefonar daqui a pouco, ao meio-dia - disse Ramez, com voz desconfortável.

Corben acenou para o celular.

- Para este telefone?

Ramez balançou a cabeça.

- Eles disseram que estavam vindo para cá e que me diriam o que eu deveria falar.

- Prefiro que o senhor venha conosco para a embaixada - disse Corben. - Estará mais seguro lá. Apenas até encontrarmos Farouk.

Os olhos de Ramez se arregalaram ao ouvir isso e, instintivamente, deu um passo para trás.

- Mais seguro?

- É apenas uma precaução - tranqüilizou-o Corben. - Não sabemos quão bem relacionados são esses tipos, mas eles parecem saber o que estão fazendo. Também estão procurando por Farouk. É o único lugar em que posso garantir sua segurança. - Calou-se, deixando que ele compreendesse clara­mente a advertência.

A expressão carrancuda de Ramez dizia que ele a tinha compreendido até bem demais.

- Temos que ir - disse Corben sobriamente, ao se aproximar da mesa e apanhar o celular. Ele o estendeu para Ramez, que o pegou, olhou para ele por um instante e o colocou no bolso da frente do jeans. - Vou avisar os detetives que o senhor está conosco. - E para rebater a ansiedade que ainda se podia ver nos olhos de Ramez, acrescentou: - O senhor vai ficar bem. Vamos embora.

Ramez olhou para Mia, que lhe fez um leve aceno com a cabeça e deu um meio sorriso de apoio. Ele deu de ombros e assentiu de volta, resignado.

Corben foi na frente quando eles saíram do prédio e se encaminharam para o carro. Esquadrinhou as imediações - o campus da universidade era um oásis de tranqüilidade mesmo nas piores épocas - ao mesmo tempo em que fazia Ramez se sentar no banco traseiro. Momentos mais tarde, os grandes portões se abriram outra vez e o grande Cherokee cinza voltou às barulhentas ruas de Beirute.

Corben esperou que alguns carros passassem antes de cortar pela Rue Bliss na direção oposta, dirigindo-se para o grande cruzamento que ficava em frente à entrada da universidade. Olhou para Ramez pelo retrovisor e pegou o celular para ligar para os detetives do Fuhud.

O professor-assistente estava olhando nervosamente para a frente, seu rosto marcado pela inquietação - e, justo naquele momento, outra coisa apareceu no espelho, uma sombra escura, acompanhada pelo rugido de um motor a toda potência e de um rangido de pneus que lhes feriu os ouvidos. Um segundo de­pois, algo bateu com incrível violência na traseira do Cherokee.

 

As mãos de Corben se apertaram ao volante, quando o jipe deu um salto para a frente devido à colisão. O poder do impacto jogou Mia e Ramez, que gritavam de terror, contra seus cintos de segurança.

Corben olhou de relance pelo retrovisor e viu o carro, um grande Mercedes escuro, que ele reconheceu por tê-lo visto perto do apartamento de Evelyn, re­cuar um pouco quando o Cherokee se livrou do agressor e a força do impacto o empurrou para a frente. Mas, antes que pudesse pisar no acelerador para ul­trapassá-los, o carro agressor investiu e bateu de novo na traseira do Cherokee, num ângulo mais fechado, fazendo-o girar fora de controle. Os carros estacio­nados do lado direito passaram como um borrão antes que o pára-choque do Cherokee se enganchasse num deles e girasse sobre si mesmo, encaixando-se no pequeno espaço entre dois carros, os air bags abrindo-se diante de Corben e Mia, quando o grande automóvel investiu por entre os carros, numa orgia de aço lacerado e borracha queimada, antes de derrapar até parar, com um tranco de arrebentar os pulmões.

Menos de cinco segundos tinham se passado desde o primeiro impacto. Atordoado, com a visão embaçada e os ouvidos tinindo, Corben ouviu o carro agressor frear bruscamente perto deles, à esquerda. Sabia que suas vidas só durariam mais alguns segundos se não se movesse com a rapidez de um raio. Não conseguiu ver nada pelo pára-brisa dianteiro, estilhaçado como uma teia de aranha, mas por sua própria janela aberta pôde ver as portas do carro dos agressores se abrirem e homens armados emergirem, um dos quais, o cara com o rosto cheio de marcas que reconhecera da perseguição ao lado do aparta­mento de Evelyn, vociferava ordens em árabe. Corben olhou para Mia, que parecia em estado de choque, mas não ferida, contida no assento do carro pelo air bag, e sacou sua pistola. Sem hesitar, atirou em seu próprio air bag, depois no dela, e ambos desinflaram com um ruído de balão esvaziando. Abaixando-­se, ele passou o braço pela janela e deu alguns tiros nos capangas, fazendo-os correr em busca de cobertura, enquanto gritava para Mia:

- Saia, por esse lado, ande! - apontando para a porta ao lado dela.

Mia desafivelou o cinto de segurança e tentou desesperadamente destravar

a porta a seu lado, que se recusava a abrir devido à colisão.

- Está emperrada - gritou, empurrando-a, colocando todo seu peso sobre ela. - Não vai abrir!

- Dê um jeito de abri-la ou estamos ferrados - gritou Corben, atirando de novo pela janela para ganhar alguns segundos. - Ramez, saia do carro, mas fique longe da rua - ordenou. Deu uma olhada para trás, sobre o apoio de cabeça, e viu as pontas dos dedos de Ramez agarradas nele, tremendo nervosa­mente. - Ramez! - gritou outra vez, mas o professor-assistente não respon­deu, murmurando zangado, em vez disso, alguma coisa em árabe que Corben não conseguiu entender.

Mia forçou a porta com o ombro e conseguiu abri-la alguns centímetros. Ela chutou e empurrou até que a abertura fosse alargada o suficiente para que pudessem sair.

- Tudo bem - gritou.

Corben empurrou-a para fora, gritando freneticamente:

- Saia daqui e fique abaixada - enquanto atirava de novo. Ele rastejou pelo assento atrás dela, de cabeça baixa, esgueirando-se para fora do carro e caindo de cabeça na calçada. - Ramez! - gritou, batendo na porta traseira. Arriscou-se a dar uma olhada para dentro do carro, mas teve que se abaixar outra vez diante de uma nova saraivada de balas, que se cravaram na carroceria e se espalharam pela parede às suas costas.

Ouviu o chefe dos perseguidores gritar em árabe:

- Não matem o professor, precisamos dele vivo - e, um segundo mais tarde, Ramez gritou de volta, em árabe:

- Estou saindo, não atirem! Corben gritou:

- Não! - ao ouvir a porta do passageiro do lado oposto se abrir. Virou-se para Mia e ordenou: - Fique abaixada - segurou a arma entre as duas mãos e respirou fundo, antes de pular para a frente, com o dedo no gatilho, quando viu Ramez, com as mãos para cima, afastando-se do Cherokee e indo em direção a dois dos assassinos que tinham deixado sua cobertura. Corben acertou um deles e disparou alguns tiros. O homem recuou, gritando de dor, ao ver uma nuvem de sangue vermelho espirrar de seu ombro. Corben se virou para atirar no outro homem, mas hesitou alguns segundos, pois Ramez estava na linha de fogo, e, antes que pudesse mirar, o líder de rosto marcado da equipe de agressores dei­xou a cobertura e atirou na sua direção. Corben mergulhou, enquanto algumas balas se cravavam na lataria amassada do carro e outras passavam zunindo em suas orelhas, arrancando pedaços do teto do automóvel e atingindo a parede.

Mia e Corben se protegeram atrás do Cherokee, abaixados, com as costas apoiadas no carro. Corben olhou à esquerda e à direita, sua mente funcionando velozmente. Mia o observava com o coração na garganta.

Ele ouviu mais algumas ordens apressadas em árabe:

- Acabem com eles, depressa, temos que dar o fora - e ficou mais tenso quando viu, por cima da porta, dois dos assassinos convergirem, um de cada lado, em direção ao Cherokee, enquanto o chefe deles metia Ramez no grande sedã. Corben respirou fundo, ergueu um dedo para que Mia ficasse calada, es­perou uma fração de segundo, escutando os passos que se aproximavam, antes de rolar para o lado, em direção à traseira do automóvel. Ele ergueu a pistola para atirar, por baixo do carro, nos pés de um dos assassinos, que estava apenas a alguns metros de distância. Mirando, atirou rapidamente três vezes e viu o sangue saltar dos tornozelos do homem, que caiu, gritando de dor.

Esse movimento pegou o outro homem de surpresa. Ele perdeu a calma e lançou uma feroz rajada de balas em direção ao automóvel, praguejando aos berros enquanto as balas rasgavam o metal e os assentos e explodiam os poucos vidros das janelas que ainda estavam inteiros, até que o chefe o mandou voltar para o carro com um grito irritado. O atirador enlouquecido continuou praguejando alto e atirando, enquanto se retirava em direção ao sedã.

Corben sentiu os músculos do queixo se contraírem, enquanto esperava que ele se virasse para subir no carro, achando que isso lhe daria a oportuni­dade de matá-lo. Conforme previra, a selvagem troca de tiros parou alguns segundos depois. Corben o viu entrar no carro e, exatamente no momento em que o considerou mais vulnerável, com metade do corpo dentro do carro, abandonou a proteção do automóvel e atirou. Mas a porta do carro já estava se fechando e, o que era pior, o homem cujos tornozelos ele tinha arrebentado estava apontando a submetralhadora em sua direção. Corben voltou a se pro­teger, caindo para o lado e dando quatro tiros no peito e na cabeça do homem que se contorcia de dor, antes de ver o Mercedes partir a toda velocidade e desaparecer na esquina.

Corben se levantou, com o coração batendo tão alto que lhe ensurdecia os ouvidos. Foi ver o que tinha acontecido com o assassino. Não havia dúvida de que estava morto. Olhou em torno, dando-se conta do silêncio fantasmagórico, mortal, que se seguira à troca de tiros, segundos atrás, e perguntou a Mia:

- Você está bem?

Ela surgiu de detrás do automóvel, coberta de poeira e com olhos sem vida, mas ilesa.

- Sim - disse, acenando com a cabeça, enquanto vinha se juntar a ele ao lado do carro destruído.

A experiência toda, breve e intensa, não durara mais do que alguns minutos, e ela se sentia ainda em choque, mas estranhamente insensível. A colisão, as balas - ela se sentia dissociada daquilo, como se tivesse acontecido com outra pessoa. Tudo tinha sido uma tempestade confusa, borrada, frenética, à qual, de algum modo, conseguira sobreviver.

Ao ver o assassino morto no meio da rua, ela quis recuar, mas não pôde, não imediatamente. Algo fez com que se aproximasse dele. Deu uma olhada longa e fria para seu corpo - um dos pés tinha sido rasgado na altura do tornozelo, e sangue sujava o asfalto em volta - e para o rosto duro, sem vida, antes de erguer os olhos para Corben.

Ele também olhou para ela, como que tentando descobrir como ela estava se sentindo. De alguma maneira, ela não estava nem arrasada, nem amedron­tada, nem com vontade de chorar. Estava apenas diferente.

Estava zangada.

E naquele lugar, naquele exato momento, parada no meio daquela estrada poeirenta, com sangue escorrendo embaixo do cadáver do assassino e vapor subindo do motor do automóvel, com civis assustados surgindo de todos os lados e vindo em direção a eles num silêncio chocado, o que ela mais queria no mundo era ter a certeza de que os canalhas que tinham feito tudo aquilo, os canalhas que tinham seqüestrado sua mãe e eliminado aqueles soldados, e que agora tinham levado também Ramez, os psicopatas que destruíam vidas e enchiam brutalmente a cidade de violência, como se fosse seu próprio feudo, espalhando medo e sofrimento com absurda indiferença, fossem impedidos de continuar a fazer aquilo com - para usar uma expressão a que ela, agora, atribuía um novo sentido - graves danos.

 

Corben acabara de revistar o cadáver do assassino em busca de algo que pudesse conduzir ao hakim ou, pelo menos, de um celular - sem achar nem um nem outro -, quando os detetives do Fuhud apareceram.

Já que eles tinham como se ocupar do cadáver e dos restos do Cherokee, podia ir embora. Não queria ficar por ali mais do que era necessário, e na prática não havia porquê. Dizer aos detetives o que acontecera era uma forma de cortesia, para poder contar com a colaboração deles, mas o tempo estava passando. Farouk ia telefonar para Ramez em menos de quatro horas e, com Ramez nas mãos do inimigo, Corben tinha que ser rápido.

Recuperou sua pasta e, sem muita esperança, vasculhou o assento traseiro do Cherokee em busca do celular de Ramez, pensando que talvez tivesse caído de seu bolso naquela confusão. Não foi o caso. Ele se ajoelhou e olhou também sob os bancos do carro, mas tampouco estava lá. Assegurou-se de que o esconderijo das armas estava solidamente trancado e, depois de explicar rapidamente aos dois de­tetives o que acontecera, pedindo-lhes para limpar a área o mais rápido possível e não divulgar nada à imprensa por enquanto, recusou a oferta de uma carona e fez sinal a um táxi que passava, para levá-los, Mia e ele, até a embaixada em Awkar.

 

Mia olhou para trás e viu o cenário do tiroteio pela janela traseira do táxi, que se dirigia para o leste de Beirute e as montanhas além.

Ela ainda estava meio atônita pelo que ocorrera em torno dela minutos antes, e uma confusão de imagens frenéticas, ruidosas, inundou sua mente. Recostou-se na normalidade calma do carro confortável - o motorista, que apenas arranhava o inglês, estava com o rádio ligado, deixando fluir músicas árabes animadas e inócuas, e Corben falava ao telefone com alguém da em­baixada -, deixando a mente descansar, até começar a processar com maior clareza o que acontecera. Enquanto os prédios residenciais de estuque meio deteriorados desfilavam, ela se perguntou para onde eles teriam levado Ramez.

Imaginou-o em alguma triste cela sem janelas, perdida em algum lugar - tal­vez no mesmo local onde Evelyn também estava detida -, e pensou no imi­nente telefonema de Farouk. Sentiu a preocupação ressurgir subitamente ao considerar todas as implicações disso.

Ouviu quando Corben terminou o telefonema. Tendo em vista que aquele táxi fora apanhado no meio da rua ao acaso, e que as tentativas fracassadas do motorista de estabelecer uma conversa mostravam que ele não sabia nada de inglês, ela achou que poderia falar livremente. Virou-se para Corben.

- Precisamos encontrar uma maneira de prevenir Farouk - apressou-o. ­

Se ele telefonar para Ramez, vai cair numa armadilha.

- Você está partindo do princípio de que eles sabem que ele vai telefonar.

Ela não tinha refletido muito a esse respeito, mas parecia fazer sentido para ela.

- Por que outra razão iam querer capturá-lo? O timing é perfeito demais para que seja só uma coincidência, você não acha? Quer dizer, Ramez telefona para informar que ia entrar em contato com ele e pronto, eles vêm aqui e o pe­gam? - A idéia fincou-se em sua mente com maior inquietação. Baixou a voz, ficando mais consciente da presença do motorista. - Ontem à noite, você disse que não queria denunciar Ramez para os policiais locais. Você deve achar que os seqüestradores têm alguém infiltrado na delegacia de polícia, não é?

Corben olhou para o motorista, e Mia acompanhou seu olhar. Ele parecia continuar desinteressado.

- Ficaria espantado se não tivessem - disse Corben, num tom discreto, um pouco perturbado.

- O que quer dizer que sabem que Farouk vai telefonar para ele – insistiu ela, agora já em tom conspiratório. - Você tem que fazer alguma coisa para preveni-lo. Que tal divulgar alguma coisa na imprensa? Faça com que as principais estações locais digam que Ramez foi seqüestrado, talvez até mandem um sinal para que Farouk se manifeste, entre em contato com a polícia ou... não disse ela, corrigindo-se rapidamente -, telefone para você, ligue diretamente para a embaixada.

- Se ele descobrir que Ramez foi seqüestrado - rebateu Corben -, vai fugir. Vai ficar tão assustado que duvido que confie em outra pessoa. Vai simplesmente desaparecer. E, se fizer isso, vamos perder o único elo com sua mãe.

- Mas ele vai cair numa armadilha.

A expressão de Corben parecia dizer que já tinha pensado naquilo.

- Talvez possamos usar isso a nosso favor.

Isso a surpreendeu muito.

- O que quer dizer com isso?

Corben hesitou.

- Quero dizer que há uma chance de que possamos pegar Farouk e esses caras ao mesmo tempo. - Ele olhou outra vez para o motorista. - Não vamos falar sobre isso agora.

Ela percebeu a intenção dele. Ainda pensava que não havia nenhum risco em discutir ali, mas parou, sentando-se e olhando pela janela, sentindo-se pou­co confortável com a idéia de usar Farouk como isca.

O táxi percorreu a beira-mar, passando pela nova marina, onde lustrosos iates de mais de trinta metros misturavam-se desconfortavelmente com raquíticos barcos de pesca de madeira, até o viaduto que levava a Beirute Leste. A cidade se mantinha em efervescência, lançando apenas um olhar cansado aos não tão raros atos de violência que, em qualquer outro país, provocariam enorme indignação. Ao ver os vendedores de frutas e legumes passarem, alguma coisa a incomodou, uma pergunta que não queria calar e que, uma vez passada a prioridade de resga­tar Evelyn, estava realmente no centro de tudo o que estava acontecendo.

Ela se voltou de novo para Corben.

- O que ele está procurando? O que diabos pode querer com um velho livro bolorento?

- Não sei - ele respondeu simplesmente.

- Mas você deve ter pesquisado sobre isso. Deve ter alguma teoria sobre o que está acontecendo, o que ele está procurando, não?

Corben lançou outro olhar em direção ao motorista e a encarou.

- Como eu disse. Isso não é necessariamente relevante.

- Não é relevante?

- Você está tentando aplicar sua lógica, sua maneira de pensar, a maníacos como esse cara - esclareceu ele. - Mas as coisas não funcionam assim. Esta­mos nos referindo a gente muito doente, pessoas com atestado de insanidade. Saddam, seus filhos, seus primos... essa gente vivia em seu próprio mundo de fantasia. A vida das pessoas não tinha nenhum valor para eles. Sabe essas crianças que se divertem arrancando asas de borboletas ou explodindo sapos com bombinhas? Esses caras são assim, mas, para eles, seres humanos são bem mais divertidos do que sapos.

- Tudo bem, posso compreender isso, mas ainda não consigo entender seu interesse por relíquias antigas.

- Pode ser qualquer coisa - respondeu Corben. - Lembra as experiên­cias de Mengele? A obsessão de Hitler com tudo o que era oculto? Vai ver que ele se sente ligado a algum culto histórico. A palavra-chave aqui é “insano”. Se você levar esse fator em conta, tudo se torna possível. Há alguns anos, havia um cientista trabalhando num programa de armas biológicas na África do Sul, na época do apartheid. Sabe qual era seu projeto prioritário? Uma arma biológica etno-específica. Ele estava desenvolvendo um vírus que só ia matar gente negra. E isso foi depois que eles começaram a colocar produtos na água para esterilizar a população. E isso é factível, tudo é factível quando se trata de matar gente. Então me diga. Nosso cara está procurando uma antiga receita de alguma coisa, de algum vírus, de alguma antiga praga ou veneno, pela qual tem uma atração poética? Ou é apenas um doido de pedra que vai acabar se desgraçando devido à sua própria obsessão? Eu aposto na última hipótese.

Mia ficou pensativa por um momento. Vai ver que não era mesmo relevante. O objetivo era libertar Evelyn e, como um bônus, destruir o hakim. No entanto, aquilo continuava a incomodá-la.

- O Iraque, a Pérsia, toda esta região tem uma história muito rica do ponto de vista médico - observou ela -, mas isso foi há milhares de anos. - Seu cérebro estava funcionando melhor agora. Pensar sobre história e medicina a colocava em terreno mais familiar, mais confortável, um terreno onde havia problemas teóricos a resolver, o que a ajudava a esquecer a dura realidade para dentro da qual fora tragada. Também encontrou consolo na idéia de que talvez      fosse aí que ela poderia ser útil.

- Você sabe quão antigo é esse livro? - perguntou.

- Não.

Ela franziu a testa, imersa em seus pensamentos. Teve uma idéia.

- Eu estava trabalhando com um historiador em meu projeto aqui. Esse cara, Mike Boustany, é uma enciclopédia ambulante no que se refere a esta região. Se eu lhe mostrasse as fotografias, talvez ele pudesse nos dar uma idéia sobre a idade desses livros.

Corben fez uma careta.

- Não sei se estamos preparados para mostrá-las por aí. Não enquanto isso tudo estiver acontecendo.

- Tenho certeza de que ele pode ser discreto, se lhe pedirmos. - Mia estava vendo que Corben não se convencera. - Precisamos explorar todos os ângulos, não? Acho que Evelyn gostaria disso.

Corben sustentou seu olhar por um instante.

- Certo, por que não? - ele concedeu. - Divirta-se. Mas gostaria que pensasse sobre outra coisa. Quero que reconsidere a possibilidade de sair do país. - Ela abriu a boca para objetar, mas ele ergueu a mão para impedi-la.

- Sei que sente que precisa estar aqui, isso é normal. Eu também gostaria que ficasse, você poderia se lembrar de alguma coisa importante. Mas isso é uma bola de neve que está fora de controle. Sei que quer fazer o máximo para garantir que terá sua mãe de volta, mas, realisticamente falando, acho que não há mais nada que possa fazer. Esses caras estavam preparados para matar você hoje. Você tem que pensar na sua segurança. Podemos mantê-la a salvo, mas... isso não é garantido. Não estou dizendo que vá para longe, mas até mesmo Chipre seria melhor do que ficar aqui. S6 quero que pense sobre isso, está bem?

Mia sentiu um aperto no peito. Sabia que já esgotara a dose de boa vontade cármica que a rodeara nos últimos dias. Ficar era simplesmente desafiar o des­tino, e, pensando bem, a sugestão dele, ainda que decepcionante, fazia sentido para ela. Mas não se tratava de pensar racionalmente. Ela não podia partir, isso estava bem claro. Sabia que não estava segura ali; não sabia sequer como poderia contribuir para que sua mãe fosse encontrada. Mas fazia parte daquilo. Sentia-se ligada não apenas a Evelyn, mas também a Ramez e a Farouk e à sua luta pela sobrevivência. Estava ligada àquela cidade, àquele povo e - não havia como negar - à satisfação perversa e perigosamente visceral que percorria suas veias enquanto as balas voavam e ela tinha que correr para salvar a vida.

Perturbada pela mistura confusa de desânimo e alívio, sem saber que instinto seguir, ela levantou os olhos para Corben.

- Faça o melhor que puder, então - murmurou finalmente, não querendo debater aquele assunto naquela hora. - Não posso pedir mais do que isso.

- Pode contar com isso. - Ele se interrompeu e acenou, tranqüilizador.

- Vamos resgatá-la.

Ela sabia que não era uma certeza. Longe disso.

As probabilidades estavam contra eles.

Uma profunda sensação de perda se abateu sobre ela, e ficou olhando pela ja­nela, enquanto a cidade desfilava como um borrão de concreto banhado de sol.

 

Corben encontrou um lugar onde Mia poderia trabalhar, uma sala desocupada junto ao setor de imprensa, na qual ela podia usar o telefone e a internet.

Disse-lhe que, dada a urgência do esperado telefonema de Farouk e o estado em que as coisas se encontravam, providenciaria para que ela ficasse num hotel ou num refúgio da embaixada, e providenciaria também alguém que a vigiasse em qualquer um dos lugares. Traria as coisas dela que tinham ficado em seu apartamento assim que pudesse voltar lá, mas que, enquanto isso, falasse com ele se estivesse precisando de algo.

Ele a deixou no anexo e atravessou o pátio que conduzia à casa principal e ao escritório do embaixador.

A idéia de Mia de examinar as fotografias com seu colega historiador passou-lhe pela cabeça. Aquilo o preocupava um pouco, mas era inevitável. Preferia que ela concordasse em deixar o país. O hakim e seus capangas não hesitariam em usar todos os recursos, fossem quais fossem as conseqüências. E, além de poder identificar Farouk, Corben não via em que mais ela poderia ajudar. No entanto, sabia que ela ficaria, o que despertou nele sentimentos contraditórios.

Apesar da situação, tinha apreciado sua companhia. Era bonita e inteligente e, ainda por cima, americana. Era uma mudança em relação às ocasionais companhias locais que tivera desde que o tinham enviado para aquele canto isolado do planeta. Não que faltassem mulheres em Beirute longe disso, na verdade, graças ao grande número de homens que deixara o país em busca de um salário decente e de um menor risco de morte por estilhaços de explosivos; além disso, Corben era um homem atraente e disponível. Acrescentando a esses fatores a tensão sexual que parecia emanar das paredes devido à constante ameaça de guerra - que se tornara uma realidade no último verão -, sua agenda estava sempre cheia. Mas seu trabalho condicionava sua vida pessoal. Os encontros ocasionais nunca iam além disso, e ele sabia que estar com Mia também não daria em nada, mesmo que toda essa situação não estivesse em erupção em volta deles. Isso lhe convinha perfeitamente.

Ele não era exatamente um cara do tipo família.

Subiu as escadas que conduziam ao escritório do embaixador. Embora preferisse não perder tempo agora com essa reunião, tinha que manter seu chefe informado sobre o que acontecera de manhã. Não queria falar com mais ninguém na embaixada, mas não podia evitar aquela reunião. O tiroteio fora público demais, escandaloso demais para ser ocultado. Por isso, ficou aborreci­do ao ver que, além do chefe do escritório, o embaixador e Kirkwood também iriam participar do encontro. Sabia que as próximas horas seriam críticas, e a última coisa que lhe faltava era qualquer interferência injustificada.

Deixaram-no entrar imediatamente. Ele cumprimentou as pessoas presentes e se sentou em frente à mesa do embaixador.

Pesou cuidadosamente as palavras - o que não era um problema para ele. Era, na verdade, sua segunda natureza.

Contou a eles sobre o seqüestro de Ramez, descrevendo Farouk como um comerciante que virara contrabandista, que conhecia Evelyn e procurara sua ajuda para vender as relíquias. Evitou qualquer menção ao livro e às suas conexões com o hakim e deu a entender que alguns contrabandistas rivais, que estavam atrás das mesmas peças, mantinham Evelyn em cativeiro e es­tavam também atrás de Farouk. Falou-lhes do telefonema ao meio-dia e do que estava planejando fazer para localizar Farouk antes deles, na esperança de encontrar quem detinha Evelyn e conseguir alguma vantagem no sentido de resgatá-la.

Nada daquilo era o ideal. Ele realmente não queria nenhuma interferência. Era ainda menos ideal porque não tinha certeza de que Kirkwood fosse confiá­vel. A chegada abrupta daquele homem e seu vivo interesse tinham alertado o instinto de segurança de Corben, no qual ele aprendera a confiar. Tinha o pressentimento de que Kirkwood estava escondendo alguma coisa deles.

Lamentavelmente, não tinha tempo de pensar nisso agora.

 

De uma janela do primeiro andar, Kirkwood viu Corben voltar para o anexo.

Ele já estava na embaixada quando veio o telefonema informando o embai­xador sobre o ataque armado fora da universidade.

Outro atentado público, à luz do dia e, desta vez, numa parte altamente povoada da cidade.

As coisas estavam escapando ao controle.

Tinha que agir com cuidado.

Corben o levara a seu escritório depois da reunião inicial com o embaixador, no dia anterior. Ele pressentia que o agente não seria particularmente aberto ou afável, o que era relativamente normal, considerando-se sua profis­são. Omissão e mentira eram o que ele devia esperar. Esses caras não costuma­vam partilhar informações nem mesmo com as outras agências legais. No en­tanto, Corben lhe permitira examinar as fotografias, e ele, ao ver a imagem do códice, confirmou suas suspeitas. Os dois acontecimentos - o telefonema do observador no Iraque, inteiramente inesperado, há pouco mais de uma semana, falando-lhe do livro; e o telefonema de Evelyn ao painel de comando de Haldane, cinco dias antes - estavam interligados.

Ele repassou as coisas em sua mente e não teve a menor dúvida de que quem quer que tivesse seqüestrado Evelyn Bishop estava procurando o mesmo que ele. De algum modo, alguém mais ficara sabendo do que se tratava, e estava obviamente fazendo o necessário para botar as mãos em cima.

Isso complicava as coisas para Kirkwood.

Ele tinha algumas cartas importantes para jogar. Mas elas envolviam trocas e, além disso, ele não estava certo de que teria oportunidade de usá-las.

Pegou o celular e, depois de verificar que não havia ninguém escutando por perto, apertou o botão de discagem direta. O sinal levou uns instantes para atravessar alguns satélites até que o toque estrangeiro, com um leve chiado, chegasse a seus ouvidos. Tocou duas vezes e um homem com uma voz forte, gutural, atendeu.

- Como estão indo as coisas? - perguntou Kirkwood.

- Bem, muito bem. Levou mais tempo do que eu esperava para passar a fronteira. Muita gente querendo sair de lá. Mas agora está tudo bem. Estou a caminho.

- Então ainda estamos dentro do prazo?

- Claro. Devo estar aí daqui a algumas horas. Vamos nos encontrar amanhã à noite, como combinado?

Kirkwood perguntou-se se convinha mudar os planos, mas decidiu manter tudo como já tinham combinado. O cálculo do tempo estava provavelmente correto e, além disso, não via nenhum atalho que não fosse lhes trazer compli­cações.

- Sim, vejo você lá. Se houver qualquer problema, ligue para mim imediatamente.

- Não haverá problema algum - respondeu o homem, com arrogância. Kirkwood desligou, pensando se tinha tomado a decisão certa.

Olhou pela janela e pensou em Mia Bishop. Tinha-a visto pouco antes, quando ela seguira Corben ao anexo.

A firmeza de seus passos o surpreendera, dado o que ela acabara de passar. Perguntou-se o que estaria se passando por sua cabeça, como é que ela estava se sentindo ao ser tragada para essa situação. Mais importante ainda, ele sabia que ela fora a última pessoa a ver a mãe. Qual era o grau de intimidade delas? Evelyn confiava nela? Será que a jovem geneticista contara a Corben tudo o que sabia?

Precisava falar com ela.

De preferência, sem que Corben estivesse presente.

 

Corben subiu correndo as escadas até o escritório de comunicações, no terceiro andar. Já passava das nove e meia, e o telefonema de Parouk estava previsto para dali a menos de três horas.

Do carro, ele já telefonara a Olshansky, dizendo-lhe para começar a trabalhar no esquema de escuta.

A reunião com o relato dos acontecimentos não tinha corrido mal. Tinham-lhe permitido continuar a operação, que, por ora, era tudo o que que­ria. Kirkwood tinha ficado sentado, quieto, sem levantar objeções.

Encontrou Olshansky diante de três painéis de telas planas, de onde emanavam sons abafados e, de vez em quando, uma voz truncada, vinda dos alto-­falantes dos computadores. A tela do meio tinha um certo número de janelas abertas. Uma delas mostrava um indicador gráfico que desenrolava uma onda para medir o barulho. Embaixo dela, havia o que se poderia chamar de sinteti­zador na tela, que Olshansky manipulava pelo teclado.

- Como está indo? - perguntou Corben.

Sem olhar para cima nem desviar os olhos das telas, Olshansky respondeu. - Consegui capturar o áudio do celular dele, mas até agora acho que ainda está enfiado no bolso de alguém. Estou captando apenas uma confusão sonora.

O cara que trabalhara ali antes de Olshansky tinha invadido os computadores das duas operadoras de celular do Líbano sem muita dificuldade, pro­vavelmente com a ajuda de alguns dos empregados, a quem pagara. Corben esperava usar esse acesso para ouvir o que estava se passando a volta do celular de Ramez, usando essa "escuta móvel”, uma armadilha oculta ativada a distân­cia. A tecnologia era incrivelmente simples.

A maior parte de usuários de celular não se dá conta de que seu aparelho não fica completamente desativado, ainda que esteja desligado. Para provar isso, basta programar o despertador do celular para uma hora em que ele es­teja desligado e ele irá tocar no momento certo. O FBI e a NSA (Agência de Segurança Nacional), trabalhando em conjunto, criaram uma técnica de vigi­lância - embora negassem sua existência - que permitia baixar, à distância, softwares de escuta na maioria dos celulares. Esse programa permitia que o microfone do celular fosse ligado e desligado a distância, a qualquer momen­to, discretamente - o que transformava qualquer telefone num microfone espião, estivesse ele ligado ou não. Não era preciso nem mesmo ter acesso direto ao celular para instalá-lo. Esse aparelho era a versão evoluída de uma velha e simples técnica usada pela KGB, que envolvia uma ligeira elevação da voltagem numa linha telefônica, de forma a ativar o microfone do aparelho mesmo quando este estivesse no gancho.

Corben escutou o barulho que saía do celular de Ramez. Parecia que um tecido estava se esfregando no microfone do celular, como se o aparelho esti­vesse no bolso de alguém. Como pano de fundo, escutava-se debilmente um ruído de vozes.

- Você pode aumentar as vozes?

- Já tentei. Mas a distorção é muito grande, não dá para isolá-las. – Ele levantou os ombros em direção a Corben. - Isso é o máximo que consegui até agora.

 

Ramez não conseguia parar de tremer. Seus pulsos, ardendo pela fricção com as tiras de plástico, latejavam, gerando uma sensação irritante, de quei­madura. Pelo menos, era o que ele imaginava que estava acontecendo, pois não podia ver nada além do saco de estopa que lhe cobria a cabeça.

Eles o tinham colocado segundos depois de metê-lo no carro, e então ­sem que ele resistisse -, por puro sadismo, deram-lhe alguns socos brutais na cara sem a menor necessidade. Em seguida, o colocaram no chão do banco de trás do carro, pisando em cima dele para mantê-lo no lugar.

A viagem não tinha sido muito longa, e, embora estar naquele carro - com ti cabeça coberta por um saco fedorento, pisadas ocasionais em suas costelas e os sons abafados da cidade que passava - já fosse suficientemente horrível, prefe­ria continuar ali, pois estar no carro significava atrasar sua situação futura.

Eles o puxaram para fora do carro, entraram num prédio cheio de ecos, su­biram alguns lances de escada e jogaram-no sobre uma cadeira, amarrando-o nela. O maníaco cujas articulações pareciam de concreto não resistiu e desfe­riu-lhe outro soco, ainda mais aterrorizador porque veio sem ser anunciado e explodiu em seu rosto através da escuridão sufocante do saco.

Ele podia ouvir movimentos ocasionais, pés se arrastando em volta dele e, um pouco mais longe, vozes de homens cujo sotaque era, sem sombra de dúvi­da, sírio, o que não prenunciava boas coisas - mas nada ali prenunciava. Sua boca tremeu quando sentiu o suor que descia por seu rosto ferido, misturando­-se ao sangue dos lábios. O saco, que fedia a uma estranha combinação de fruta podre e graxa de máquina, não era inteiramente opaco. Mas as réstias de luz que passavam não o deixavam ver nada, servindo apenas para escarnecer dele com uma sugestão do mundo exterior, não lhe permitindo prever os possíveis golpes que seus captores desferiam ao acaso, parecendo se divertir com isso.

Seu corpo se enrijeceu ao ouvir passos se aproximarem. Podia sentir a presença de alguém muito perto de seu corpo, examinando-o. A sombra silenciosa bloqueava toda a luz externa, fazendo com que o mundo de Ramez se tornasse ainda mais escuro.

Durante alguns segundos, o homem não disse nada. Ramez fechou os olhos e contraiu o corpo, esperando outro golpe. Não conseguia dominar o tremor, que aumentava, provocando uma sensação maior de queimadura em seus pulsos.

Mas desta vez não veio nenhum soco.

Em vez disso, o homem finalmente falou:

- Alguém deve telefonar para você dentro de umas duas horas. Um iraquiano que o procurou ontem, correto?

O terror invadiu seus sentidos. "Como é que eles sabem disso? Eu não con­tei a ninguém. Apenas à polícia”.

De repente a verdade o atingiu, como se uma bigorna caísse em sua cabeça. "Eles têm contatos dentro da delegacia de polícia. Isso significa que ninguém virá me socorrer”. De qualquer forma, aquilo era uma falsa esperança. Em toda a história daquela cidade medonha, nenhuma vítima de seqüestro jamais fora socorrida. Ou elas eram libertadas ou - na maioria dos casos - não.

Ele não teve muito tempo para repassar aquela possibilidade sombria. O homem agarrou sua mão esquerda e a manteve firmemente no lugar. Seu pu­nho era sólido como uma rocha. Ramez ficou gelado.

- Quero que você diga a ele exatamente o que eu vou mandar - falou o homem, numa voz ameaçadora, apesar de seu tom calmo. - Quero que você o convença de que está tudo bem. Ele precisa acreditar em você, precisa acredi­tar que está tudo bem. Se fizer isso para nós, poderá voltar para casa. Não temos nada contra você. Mas isso é muito, muito importante para nós. Quero que você entenda quanto isso é importante. Para isso, quero que você saiba que, se não for extremamente convincente, isto...

Com uma rapidez espantosa, o homem dobrou o dedo médio de Ramez, forçando sua articulação até que o dedo encostasse nas costas de sua mão.

Lágrimas saltaram dos olhos de Ramez quando se encolheu entre as cordas e uivou de dor, quase desmaiando, apesar da liberação de endorfina. O homem foi implacável, manteve o dedo ali, pressionado para trás, enquanto continuou a falar.

- ... é o que você pode esperar, e coisa pior ainda, antes que o deixemos morrer.

 

Olshansky quase pulou da cadeira quando o grito ecoou pelo sistema de alto- falantes.

Durou alguns segundos agonizantes, até virar um gemido e ser interrompido. Até Corben ficou assustado, embora estivesse esperando algo assim. Sabia o que eles queriam de Ramez, e sabia que tinham que garantir que ele estivesse amedrontado o bastante para que seu desempenho fosse convincente.

- Meu Deus - murmurou Olshansky -, o que será que fizeram com ele?

- É melhor você não saber - respondeu Corben, franzindo a testa. Ele soltou um suspiro frustrado, imaginando a cena que se desenrolava em algum buraco obscuro.

O grito e o gemido foram substituídos pelo mesmo esfregar irritante. Olshansky passou a mão no rosto, balançando a cabeça. Parecia claramente perturbado.

Corben o deixou em paz por alguns minutos.

- Sabemos algo sobre o local? - perguntou, apontando para a tela à sua direita, que mostrava um mapa de Beirute com os limites das zonas de cobertura das operadoras de celular que serviam a cidade marcados.

Olshansky recuperou o controle.

- Eles estão nesta célula aqui - disse, indicando no mapa. O uso de celulares em Beirute é bastante intenso, e cada célula na cidade populosa cobre apenas uma área de menos de um quilômetro quadrado e meio. Mesmo com o potente sistema de triangulação colocado à disposição de Olshansky, os cem metros de diâmetro da zona visada ainda eram um palheiro muito grande no qual encontrar o professor-assistente.

Corben franziu o cenho. Ramez estava nos subúrbios ao sul de Beirute. Território do Hezbollah. Definitivamente, uma área proibida para muitos libaneses. Praticamente outro planeta para um americano, principalmente para um com o título duvidoso de "conselheiro econômico". Era a única área em que ele não tinha um contato.

- Pelo menos saberemos de onde virão quando o telefonema for dado - observou Corben. Consultou o relógio de novo. Ele precisaria voltar para a cidade logo. Levantou-se para sair. - Mantenha-me informado se conseguir uma transmissão melhor, por favor.

- Pode apostar que sim - confirmou Olshansky, sem tirar os olhos da tela.

- A que horas deve ser a tal ligação?

- Meio-dia. Pedi a Leila que suba - acrescentou Corben, referindo-se a uma das tradutoras pagas pela embaixada - quando você obtiver alguma mensagem clara.

- Tudo bem - disse Olshansky com voz inexpressiva.

        Corben estava se dirigindo para a porta quando Olshansky se lembrou de alguma coisa.

        - A propósito. Sabe aquele cara com medo de se expor que ligou para você? É suíço.

Corben parou.

- O quê?

Olshansky ainda parecia assombrado.

- A chamada no celular de Evelyn Bishop que apareceu não identificada sobre a qual você me perguntou.

Corben tinha se esquecido do telefonema que pedira a Olshansky para rastrear, aquele que Baumhoff atendera no telefone de Evelyn naquela noite, na delegacia.

- Veio de Genebra - continuou Olshansky.

Corben ficou surpreso.

- E atenção a isto - acrescentou Olshansky. - Quem quer que estivesse ligando realmente valoriza sua privacidade. A chamada foi reenviada por meio de nove provedores internacionais, cada um deles oculto por um pode­roso firewall.

- Mas nada que conseguisse resistir a seus meios sutis, não é mesmo? - Massagear o ego de superhacker de Olshansky nunca era má idéia.

- Não este aqui - disse Olshansky sombriamente. - Consegui rastreá-lo até o provedor de Genebra, mas foi só. Estamos falando de um código da pesada. Não consegui entrar. O que significa que isso é o máximo de precisão que posso obter.

- Genebra.

- É isso aí. - Olshansky deu de ombros.

        - Bem, avise-me se conseguir reduzir as possibilidades até algo um pouco mais funcional - respondeu Corben friamente. - Vai ser difícil colocar a cidade inteira sob vigilância.

E dizendo isso saiu, o uivo do professor-assistente ainda soando em seus ouvidos.

 

O supervisor do projeto na fundação pareceu mortificado quando Mia relatou o ocorrido. Pediu mil desculpas, como se sua própria família fosse responsável pelos ataques, e assegurou-lhe que compreendia perfeitamente sua posição e aceitaria qualquer que fosse a decisão que ela viesse a tomar.

Ela desligou, voltando os olhos para a tela de computador que tinha diante de si. Percebeu que estava exilada de e-mails desde que tomara uns drinques com Evelyn. Corben pedira a uma secretária que a registrasse no sistema de imprensa do escritório, mas, quando ia acessar o teclado, Mia decidiu prolon­gar um pouco mais esse exílio.

Estava, simplesmente, desarmada. Olhou pela janela na direção das monta­nhas cobertas de florestas magníficas atrás da embaixada, organizando as cenas confusas e frenéticas que se desenrolavam no fundo de sua mente, e pedindo que um pouco da tranqüilidade externa penetrasse nela. Em vez disso, tudo que conseguiu foi uma rememoração do uróboro, e logo se viu rabiscando-o em seu bloco de anotações.

Desistiu de tentar escapar. Pegou um número de seu celular e ligou para ele. Mike Boustany, o historiador com quem vinha trabalhando no projeto, atendeu após o quarto toque, sua entonação suave sendo substituída por uma preocupação urgente e sincera. Ainda não tinha sabido do seqüestro de Ramez, e a notícia o pegou de surpresa. Ficou ainda mais apavorado ao saber que Mia estivera presente em ambos.

Perguntou o que estava acontecendo. Mia não se sentia obrigada a esconder dele o que quer que fosse. Mike permaneceu em silêncio durante a maior parte do tempo, claramente espantado pelo que ela passara.

- Talvez você possa me ajudar em uma coisa, Mike - concluiu. - O que você sabe sobre o uróboro?

- O devorador de rabo? Temos esculturas dele em alguns templos fenícios.

É disso que você está falando?

- Não. Aquele em que estou interessada é muito mais recente. Talvez do século X. - Colocou-o a par de seu aparecimento nas câmaras subterrâneas e no livro.

Ele sabia bastante sobre a Irmandade da Pureza, mas não conseguia perceber como isso se vinculava ao uróboro. Ela teve vontade de aprofundar, mas sentiu que deveria evitar mencionar o hakim e seu circo de horrores. Em vez disso, contou a Boustany que estava um pouco confusa em relação ao signifi­cado do símbolo e o que tinha lido sobre os cientistas árabes e persas daquela época.

Assunto sobre o qual ele sabia muito.

- O que eu não consigo entender é o seguinte - concluiu ela. – Alguém está disposto a derramar muito sangue para pôr as mãos nesse livro, mas não há nada de sinistro no que esses cientistas estavam tentando conseguir. Então, o que existe no livro?

Boustany deu uma risadinha abafada.

- Deve ser o ikseer.

- Deve ser o quê? Do que você está falando?

- Da escultura humana mais antiga. Entende? Você está olhando para isso de um ponto de vista racional.

Ela franziu a testa.

- É o que me dizem.

- Você vem lendo sobre as conclusões desses cientistas-filósofos que são facilmente demonstráveis. Mas, como você sabe, eles não se limitavam a uma única disciplina. Estavam interessados em todo o conhecimento humano; que­riam dominar as misteriosas forças da natureza e tornarem-se as lideranças ilu­minadas em todas as ciências. Então, estudaram medicina, física, astronomia, geologia... Suas mentes eram ávidas, e havia muito a ser descoberto. Disseca­ram cadáveres, postularam um modo de funcionamento do sistema solar... E, mais cedo ou mais tarde, o que monopolizou a atenção deles foi a alquimia.

- Alquimia? Esses caras eram cientistas, não charlatães.

A voz de Boustany voltou, tranqüila como um lago.

- A alquimia era uma ciência. Ainda estaríamos esfregando gravetos para fazer fogo se não fosse por ela.

A partir daí, levou-a aos mais antigos dias das difíceis relações entre a ciên­cia e a religião e às origens da alquimia.

Boustany explicou como os antigos gregos tinham separado a ciência - que, naquele tempo, consistia basicamente de estudos de astronomia e explorações da khemeia, que significava "a mistura” de substâncias - da religião, com grandes conseqüências.

- A ciência floresceu como uma vocação racional de acadêmicos e pensado­res - disse Boustany. - Tudo isso mudou quando Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, o Grande, estabeleceu seu reino no Egito. Alexandria, a cidade fundada pelo grande conquistador, que a ele deve seu nome, se tornou um cen­tro de estudos avançados, como demonstra sua lendária biblioteca. Os invasores ficaram impressionados pelo domínio egípcio da khemeia, ainda que estivesse fundida com sua religião e sua obsessão pela vida após a morte. E, assim, os gregos absorveram tanto a ciência quanto a religião. A khemeia se misturou ao misticismo, e seus praticantes eram vistos como sombrios adeptos de segredos ocultos. Os praticantes da khemeia e os astrólogos passaram a ser tão temidos quanto os sacerdotes. Logo assumiram essa postura, regozijando-se com seu novo status de feiticeiros e mágicos, e categorias afins, refugiando-se por trás de um véu de segredo. Num esforço para alimentar seu próprio mito, encobriram seus escritos com um simbolismo que só os iniciados podiam compreender.

Ciência e magia se tornaram indistintas.

E, como resultado disso, a ciência - a ciência séria - floresceu. Essa atitude levou os cientistas a trabalhar isoladamente, sem partilhar suas descobertas ­ou seus fracassos. Pior que isso, atraiu charlatães e impostores que arrastaram a ciência cada vez mais para o descrédito. A fascinação pelo desafio último da química - a transmutação de metais básicos em ouro - prevaleceu. Tudo isso cresceu em espiral, fugindo ao controle, até que duas forças sufocaram tudo, menos a ciência, na Europa: o medo do imperador romano Diocleciano de que o ouro barato minasse seu governo, o que o levou a ordenar a queima de todos os escritos conhecidos da khemeia; e o surgimento do cristianismo, que, impiedosamente, exterminou o conhecimento herético pagão. O império ro­mano cristão limpou-se, assim, do conhecimento grego. O Oriente, no entanto, retomou essa bandeira e a levou adiante.

No século VII, exércitos de tribos árabes se uniram e, impulsionados por uma nova religião, emergiram da península Árabe e se espalharam pela Ásia, Europa e África. Ao conquistarem a Pérsia, descobriram os restos subsistentes da ciência grega. Os escritos os intrigaram. Khemeia virou al-kheemia, o prefixo árabe ai sendo o artigo definido. O destino confiou aos cientistas árabes a alqui­mia Greco-Egípcia. Ela ficaria à seus cuidados pelos quinhentos anos seguintes.

E eles lhe prestariam bons serviços, acolhendo o conhecimento que lhes fora dado e contribuindo muito para seu desenvolvimento.

Essa idade de ouro se enfraqueceria sob as invasões dos bárbaros mongóis e turcos. Finalmente, os Cruzados trariam os remanescentes do conhecimento científico árabe de volta para a Europa. Os cristãos da península Ibérica, par­ticularmente, liderariam o retorno do conhecimento grego perdido para sua morada européia ao recuperarem dos mouros a posse das terras da Espanha e de Portugal. Graças aos esforços de tradutores que trabalhavam em Toledo e em outros centros de conhecimento por lá, os avanços científicos do Oriente encontrariam uma vida nova no Ocidente.

Al-kheemia se tornaria alquimia e, séculos mais tarde, assumiria o nome mais respeitável de química.

- Esses filósofos-cientistas obtiveram grandes conquistas no campo que hoje chamamos de química - informou Boustany. - Criaram ácidos, misturaram metais e sintetizaram novas substâncias. Mas uma substância, em particular, foi a mais buscada durante séculos.

- Ouro - disse Mia friamente.

- É claro. A possibilidade encantadora de fabricar ouro nunca deixou de seduzir até o mais sensato desses cientistas. Em algum ponto de suas carreiras, todos eles se tornaram obcecados com o único objetivo que seus patronos, os califas e os imames, estavam mais interessados em realizar: transmutar metais básicos em ouro.

Mia pensou sobre suas palavras. Tinha esboçado uma biografia resumida de Jabir ibn Hayyan - a quem os europeus, mais tarde, se refeririam como Geber - no apartamento de Corben. Achava-se que seus escritos, ocultos num código ininteligível, estavam na raiz do termo gibberish. Ele conseguira pre­parar alguns ácidos fortes, mas também trabalhara extensamente, e com êxito, na transmutação de metais. Mia não dera muita atenção ao fato, porque ­ ainda que fosse remotamente possível, embora ela não acreditasse nisso – não achou que fosse, para usar o adjetivo favorito de Corben, "relevante”, conside­rando-se as descobertas do laboratório do hakim.

- Não creio que se trate disso - falou.

- Por que não?

- Há algo que não mencionei - acrescentou com certa hesitação. – Há um sujeito por aí que parece estar por trás de tudo isso. Ele... estava fazendo umas experiências médicas esquisitas.

A voz de Boustany falhou.

- Em humanos?

- É.

Boustany ficou quieto, ponderando a resposta dela.

- Então esse cara talvez esteja mesmo atrás do ikseer.

- De novo essa história de ikseer. De que diabos você está falando?

- De uma obsessão tão antiga quanto o próprio tempo. A Epopéia de Gilgamesh, uma das mais antigas histórias escritas de que se tem registro, é sobre isso.

No curto tempo em que se conheciam, o historiador tinha desenvolvido esse hábito de provocá-la. Freqüentemente a cativava. Neste exato momento, ela precisava saber.

Boustany explicou como, para Avicena e os outros filósofos-cientistas, a peça do quebra-cabeça que faltava era o gatilho, o catalisador que estimularia a mistura correta dos metais básicos. Antigas tradições levaram-nos a acreditar que o catalisador fosse um pó seco. Os gregos o tinham chamado de xerion, que significa "seco”. A palavra se tornou al-ikseer em árabe. Centenas de anos de­pois, os europeus se refeririam ao não descoberto al-ikseer como o elixir. E, como os cientistas da época eram chamados de filósofos, e porque se acreditava que essa substância viesse da terra, ele também passou a ser conhecido como a pedra filosofal.

- Esta substância mítica era tida como tão maravilhosa que esses alqui­mistas logo lhe atribuíram outros poderes também - acrescentou Boustany. - Além de ser o catalisador que ajudaria a criar uma riqueza inédita, também teria o poder de curar todas as doenças. No final, acreditava-se até que, entre seus poderes, estava também o de conferir a imortalidade. E, assim, a idéia de um potencial al-ikseer da vida, um elixir de longa vida, vigorou, e al-kheemia se tornou uma busca dividida em duas metas intimamente relacionadas: ouro e vida eterna.

As duas se tornaram intimamente associadas nas mentes dos alquimistas. O ouro, em si mesmo, era incorruptível: não envelhecia. Alguns cientistas chega­ram a encontrar formas de ingeri-lo como um elixir - geralmente sob a forma de pó -, e o metal se tornou mais procurado por seus conhecidos agentes an­tienvelhecimento do que por sua beleza intemporal ou seu valor monetário.

A idéia de um elixir de longa vida, prosseguiu Boustany, abarcava a teoria arquetípica do envelhecimento, que o atribuía à perda de algum tipo de subs­tância vital. Era por essa razão que nossos corpos decaíam e encolhiam antes de seu funcionamento parar por completo. Os taoístas chamavam essa substância de ching e a descreviam como o sopro vital da existência. Aristóteles, Avicena e inúmeros outros desde então também pensaram que o corpo, ao envelhecer, perdia sua "umidade inata”. O médico vienense Eugen Steinach preconizava o coitus reservatus para rejuvenescer os pacientes - um método de preserva­ção do fluido vital que hoje chamamos de vasectomia. Outro cirurgião, Serge Voronoff, acreditava que, como as células reprodutoras não envelheciam tanto quanto as demais células do corpo, deviam conter algum tipo de hormônio antienvelhecimento. Numa tentativa equivocada de transferir mais desse elixir mágico para o corpo, implantou testículos de macaco em seus próprios pacien­tes, testes com previsíveis péssimos resultados. Nem mesmo a crença ardente em uma promissora vida após a morte parecia deter a busca desesperada por longevidade: na década de 1950, o papa Pio XII manteve seis médicos pessoais o tempo todo. Um cirurgião suíço chamado Paul Niehans injetou-lhe as glân­dulas de fetos de carneiro. A impressionante lista de clientes de Niehans em sua clínica de Montreux, na Suíça, incluía reis e astros de Hollywood.

- E assim - concluiu Boustany -, ao longo dos tempos, alquimistas e charlatães prepararam todos os tipos de poções e elixires, fontes da juventude que poderiam repor ou substituir essa "essência” perdida da vida. As carroças dos mascates, desde então, foram substituídas pelas prateleiras de suplementos nos supermercados e pela internet, os vendedores de ervas, por pseudocien­tistas recomendando hormônios, minerais e outras curas milagrosas, prome­tendo restituir a nossos corpos o vigor da juventude com pouco ou nenhum esforço, apoiados por provas científicas, ou por uma interpretação bastante conveniente dos dados científicos. Mas a busca é a mesma. É a última fronteira, a única que ainda nos restou para conquistar.

Mia suspirou com tristeza.

- Suponho, então, que estamos lidando neste caso com um louco.

- Parece que sim.

Mia desligou o telefone, brigando com a idéia de que o rótulo de "cientista louco" que ela vinha mantendo em suspenso ao pensar no homem que pegara sua mãe provavelmente não estava longe da verdade.

 

O hakim afundou-se na poltrona de seu escritório, sentindo-se alegremente revigorado.

O tratamento matinal, um regime semanal que vinha seguindo religiosamente havia anos, levantara-lhe o ânimo como de costume. Deliciou-se com o ar fresco do outono à medida que o coquetel de hormônios e esteróides corria-lhe pelas veias, fazendo com que sua pele se sentisse eletrificada. O efeito disso lhe clareara a mente e os olhos e aguçara-lhe os sentidos, quase desacelerando tudo a sua volta. Era a melhor forma de euforia que poderia imaginar, sobretudo porque não implicava perda de controle, coisa que, para ele, seria inconcebível.

Se as pessoas ao menos soubessem o que estavam perdendo...

Além disso, as notícias de Beirute eram promissoras. Ornar e seus homens tinham capturado o professor-assistente. Um deles tinha morrido, outro ficara gravemente ferido - era preciso se livrar dele, já que uma ida ao hospital, mesmo a um que ficasse numa parte amigável da cidade, estava fora de questão, e ele, aparentemente, estava ferido demais para escapar pela fronteira -, mas, de modo geral, a operação tinha sido um sucesso.

Pena que o americano não tinha sido morto. O hakim sentia que o interesse do homem estava se transformando num problema. Estava por demais na situação, por demais... comprometido. Omar informara ao hakim que o americano tinha levado do apartamento o laptop de Bishop, assim como uma pasta. Uma pasta. Procedimento padrão numa investigação dessa natureza, ou havia mais coisa ali? É bem verdade que uma americana tinha sido seqüestra­da, e os americanos levavam essas coisas mais a sério do que os outros, mas a determinação obstinada do sujeito indicava que havia alguma coisa de mais pessoal em jogo.

Será que ele sabia o que realmente estava em jogo?

Ele dera ordens a Ornar para tomar precauções extras daqui em diante. O telefonema do comerciante iraquiano era iminente. O livro logo pertenceria a ele.

As coisas pareciam estar correndo bem.

Mais do que bem.

De algum modo, com a clareza concedida pela recente dose que corria den­tro dele, sabia que, dessa vez, enfim, estava realmente perto.

Fechou os olhos e respirou profundamente, saboreando a perspectiva do sucesso iminente. Com o pensamento correndo livre, sua mente foi bombar­deada por imagens de casa.

Recordações.

Da primeira vez que tomou conhecimento das oferendas pouco usuais da capela.

Da primeira vez que se tornou consciente de sua herança singular.

 

É claro que ele já tinha entrado na capela antes. Crescera lá, em Nápoles, uma cidade em que, até hoje, o nome de seu ancestral ainda era sussurrado. Mas essa visita, quando tinha nove anos, despertara-o para os mistérios de seu passado.

Fora levado à capela, naquele dia, pelo avô.

Gostava de passar algum tempo com o velho senhor. Havia algo de sólido e reconfortante nele. Mesmo naquela tenra idade, o garoto - seu nome então era Ludovico - podia perceber o respeito que impunha àqueles a sua volta. Ele mesmo ansiava por essa força interior, sobretudo no pátio da escola, onde garotos maiores e mais fortes zombavam dele por causa de seus antepassados.

Em Nápoles, o sobrenome Di Sangro era uma cruz pesada de se carregar. O avô lhe ensinara a ter orgulho e a cuidar da herança familiar. Eles eram príncipes, pelo amor de Deus, e, além disso, gênios e visionários eram freqüentemente ridicularizados e perseguidos em seu tempo. O pai de Ludovico não se mostrara interessado em compreender o que havia em seu passado, optando por permanecer débil e embaraçosamente ignorante a respeito de sua linhagem. Com Ludovico fora diferente, e o avô percebeu e alimentou isso no menino. O ancestral deles tinha conseguido muitas realizações, ensinara-lhe o avô. Sim, fora chamado de tudo, de feiticeiro a alquimista diabólico. Havia inúmeros boatos de que ele fizera experiências abomináveis com pessoas inocentes. Alguns acre­ditavam que esses boatos se referiam à criação aperfeiçoada de ainda melhores castrati, os cantores ilegalmente castrados que atraíam platéias e conduziram a ópera italiana à posição de proeminência nos séculos XVII e XVIII. Outros iam ainda mais longe, alegando que o príncipe ordenara a morte de sete cardeais que desaprovaram seus interesses e mandou fazer cadeiras de seus ossos e peles.

No que se referia a seu avô, esse falatório era indicativo de imaginação e intelecto limitados, e, inevitavelmente, da inveja que tinham os depreciadores de Raimondo di Sangro. Afinal, o ancestral deles pertencera à prestigiosa Accademia della Crusca, o altamente conceituado clube da elite literária da Itália. Ele inventara novos tipos de armas de fogo, como a espingarda de carre­gar pela culatra, assim como revolucionários fogos de artifício. Criara tecidos à prova d'água e aperfeiçoara novas técnicas de colorir mármores e vidros. Muito mais do que isso, no entanto, criara um monumento de poder imortal: a Cappella San Severo, sua capela pessoal no coração de Nápoles.

O hakim relembrou a fatídica visita com o avô. Na parte de baixo das pare­des externas da capela, perto da entrada, ficavam as janelas gradeadas do porão do que um dia fora o laboratório do príncipe. Em seu interior, a pequena igreja barroca resplandecia com as mais raras pinturas e obras de arte. Estátuas de mármore, a mais famosa delas o Cristo velado, de Sammartino, fascinavam-no pelos detalhes, as feições nos rostos dos retratados claramente visíveis sob um fino véu de mármore. Mesmo hoje, o modo como esse efeito foi obtido ainda intriga os especialistas.

O avô guiara-o para, além disso, para a estátua Desilusão, de Queirolo. Outra maravilha velada mostrava o pai do príncipe tentando se libertar das malhas de uma rede, auxiliado por um Jovem alado. O avô do hakim explicara ao menino como a estátua representava o homem tentando se libertar da armadilha das falsas crenças, auxiliado por seu intelecto.

O porão abrigava mais maravilhas. Uma estreita escada em espiral descia até o laboratório do príncipe, onde dois compartimentos de vidro guardavam as infames "máquinas anatômicas”, corpos de um homem, de um lado, e de uma mulher em estado de avançada gravidez do outro, com as veias, artérias e órgãos de todo o sistema circulatório imaculadamente preservados por meio de uma técnica de embalsamamento desconhecida e que ainda causa perplexidade.

Ao longo dos anos, o avô ensinara mais ao jovem Ludovico sobre a misteriosa vida do ancestral. Segundo lhe contou, o príncipe tinha sido obce­cado pela idéia de atingir a perfeição humana. Os castrati eram cantores perfeitos. As máquinas anatômicas faziam parte de sua busca para criar o corpo humano perfeito. Em sua lápide estava escrito, apropriadamente:

"Um homem admirável, nascido para tudo desafiar”. Encimava um túmulo vazio, pois o corpo tinha sido roubado. Em algum momento de sua vida, essa obsessão sofreu uma dramática reviravolta. E quando Ludovico chegou aos 18 anos, o avô finalmente lhe contou o que tinha inflamado a obsessão de seu ancestral.

Ele também lhe entregou os diários de Raimondo di Sangro, bem como outra coisa que prezava acima de tudo: um talismã, um medalhão com o sím­bolo de uma cobra que devorava o próprio rabo, jóia que o jovem usaria para sempre, mesmo hoje.

A revelação inspirou Ludovico para além dos maiores sonhos de seu avô - ou piores pesadelos.

No começo, correu tudo bem. Ludovico se destacara nos estudos e fora para a Universidade de Pádua, onde obteve um doutorado - com honras - em medicina geriátrica e biologia celular. A essa altura um brilhante biogeneticista de sólida reputação, dirigia um laboratório de pesquisa bem financiado na universidade, explorando células-tronco, reações hormonais e decomposição celular. No entanto, com o passar do tempo, começou a sentir as restrições da ciência aceitável. Começou a desafiar os limites e a contestar as fronteiras aceitas da bioética. Seus experimentos foram ficando cada vez mais arriscados. Mais extremados.

Em uma amarga reviravolta do destino, o avô morreu mais ou menos nessa época. Os pais de Ludovico tinham tentado criá-lo como um bom católico, e ele aprendera, tanto em casa como na escola, que a morte era um desejo de Deus, e que só Ele podia nos conceder a imortalidade. O avô procurara atenuar os efeitos desses ensinamentos e, em sua morte, naquela ocorrência singular e momentânea, suas palavras se fariam presentes. Isso fez com que Ludovico percebesse que não estava em sua natureza aceitar a morte ou ser derrotado por ela. Não cairia sem lutar. A sepultura - a sua e a de seus entes queridos - podia esperar.

O amor não conquistaria a morte. A ciência, sim.

E assim, com essa atitude, seus experimentos se tornaram menos aceitáveis. Logo se tornaram ilegais.

Foi expulso da universidade, afugentado pela ameaça iminente de sofrer um processo.

Nenhum laboratório do Ocidente o teria procurado.

A Universidade de Bagdá, entretanto, ofereceu-lhe uma saída. E, finalmen­te, conduziu-o - pelo menos era o que esperava - à elusiva descoberta que provocara insultos contra seu ancestral.

 

Com a mente estimulada pelo turbilhão químico dentro dele, pegou-se relembrando os acontecimentos dos últimos dias, virando-os do avesso e examinando-os por novos ângulos. Apesar de sua quase arrebatadora euforia diante da perspectiva de se apossar do atravessador iraquiano e do livro, não conseguia deixar de voltar ao há muito desaparecido amante da arqueóloga americana. A idéia ficava rondando e minava sua serenidade, como se um sen­sor em algum lugar dentro dele tivesse sido acionado.

E, em seu estado de exaltação, outra peça do quebra-cabeça, uma deliciosa epifania, veio dos cantos mais longínquos de sua consciência.

"Como eu não vi isso antes?"

Fez mentalmente uns rápidos cálculos. Do que Omar lhe dissera sobre a idade de sua filha, a idéia se encaixava.

Mais do que isso. Era perfeita.

Aquela vaca dissimulada - refletiu. Tinha realmente guardado aquela pequena preciosidade para si mesma.

Pôs-se de pé num salto e atravessou o escritório, correndo pelo piso de azu­lejos enquanto gritava uma ordem para que o escoltassem até o porão.

 

Evelyn empertigou-se num pulo assim que ouviu o barulho metálico da chave na fechadura da porta.

Não sabia há quanto tempo estava ali, nem se era dia ou noite. Toda noção de tempo e lugar tinha se tornado irrelevante no brutal isolamento de sua cela. O único dado de que dispunha era que não estava ali há tanto tempo assim, e que, considerando-se os seqüestros anteriores em Beirute, ainda tinha um longo, longo caminho pela frente.

A porta se abriu e seu inquisidor entrou. Dessa vez, não estava usando um jaleco de médico, o que pareceu a Evelyn ligeiramente tranqüilizador. Passou rapidamente os olhos pela pequena cela, como um severo gerente de hotel vistoriando o quarto de um hóspede, e depois se sentou na beirada da cama.

Seus olhos brilhavam com uma energia maníaca muito inquietante.

- Acho que você se esqueceu de mencionar um pequeno detalhe durante nosso último bate-papo - disse-lhe em tom irônico.

        Ela não sabia ao certo a que ele estava se referindo, mas, o que quer que fosse, ele estava satisfeito demais por ter feito essa descoberta para que fosse boa coisa.

- Esse seu Casanova errante - disse ele franzindo a testa com irritante condescendência. - Tom Webster. Fico pasmo que você ainda nutra sentimen­tos tão fortes por ele, tão protetores, tendo em vista como a abandonou.

Inclinou-se, encarando-a com satisfação, como que saboreando a apreensão dela diante de seu joguinho psicológico, e, ao fazer isso, ela viu o meda­lhão por entre as dobras de sua camisa. O breve olhar foi o bastante para que reconhecesse o símbolo do uróboro nele e, nesse exato momento, soube que havia muita coisa que ele - e Tom - não tinha contado a ela sobre os ocu­pantes há muito desaparecidos daquela câmara em Al-Hillah.

- Grávida - falou com aspereza o hakim. - Não estou enganado, estou? Mia... é sua filha, não é?

 

A voz de um homem irrompeu por entre os pensamentos de Mia.

- Você deve ser Mia Bishop.

Ela se virou. O homem de pé diante dela lhe estendeu a mão.

- Bill Kirkwood. Estava procurando o Jim.

Enquanto lhe apertava a mão, ela estudou sua fisionomia. Era um rapaz atraente, mas havia um certo distanciamento em sua atitude, uma certa hesitação que a deixou desconfortável.

- Não sei onde ele está - disse. - Faz uma hora que me deixou aqui.

- Ah. - Pareceu hesitar por um instante antes de acrescentar: - Sinto muito o que aconteceu com sua mãe.

Mia não estava segura sobre a melhor maneira de responder a isso. Saiu-se com:

- Acho que faz parte desse país.

- Ultimamente não. Não no Líbano. Pegou-nos todos de surpresa. Ainda assim, tenho certeza de que ela ficará bem.

Mia assentiu com a cabeça e deixou que um silêncio pesado se instalasse entre eles.

- Soube que você passou por outra aventura ao estilo faroeste - arriscou ele.

Mia deu de ombros.

- Parece que tenho uma propensão a estar no lugar errado na hora errada.

- É uma maneira de ver as coisas, mas o fato de você ter estado lá naque­la noite e ter relatado o que aconteceu com sua mãe pode acabar salvando a vida dela.

O rosto dela se animou. A idéia lhe trouxe um pouco de consolo.

- Espero que sim. Você a conhecia?

Kirkwood fez um gesto de assentimento.

- Um pouco. Unesco. Andamos financiando algumas de suas escava­ções por aí. É uma mulher extraordinária, e temos o maior respeito por ela, como deve saber. E tudo isso é tão... horrível. Diga-me, Mia. Posso chamá-la de Mia?

- Claro.

- Como ela lhe pareceu?

- Como assim?

- Você foi a última pessoa a vê-la antes do seqüestro - lembrou-lhe Kirkwood. - Ela parecia estar nervosa por alguma coisa? Preocupada, talvez?

- Não especialmente. Estava um pouco nervosa por causa de Farouk, você sabe, o atravessador iraquiano. Ele ter aparecido do nada a pegou de surpresa. Fora isso... - Sua voz foi sumindo, ao notar que os olhos dele tinham se des­viado para a escrivaninha e pousado no bloco de anotações, coberto com papéis com observações que rascunhara durante seus telefonemas e ilustrados com desenhos do uróboro.

Kirkwood inclinou a cabeça para um lado, intrigado.

- O símbolo em um dos livros - meio que comentando, meio que perguntando. - Do Iraque.

Mia se sentiu ligeiramente perturbada.

- É - respondeu, um pouco surpresa por ele conhecer aquilo.

- Você sabe o que é?

- Chama-se uróboro. - Não sabia quanto deveria dizer e decidiu-se por um: - Não sei muita coisa a esse respeito. - Forçou um sorriso, consciente de que ele não se refletira em seus olhos. Ficou se perguntando se ele teria notado.

- Você acha que é realmente atrás desse livro que os seqüestradores estão? - perguntou ele.

Ela ficou dividida.

Kirkwood deve ler percebido, pois desfez seu mal-estar.

- Está tudo bem. Estou trabalhando com Jim para trazer Evelyn de volta. Ele me falou da conversa que tiveram. Disse que você o levou ao apartamento dela - acrescentou, com um leve sorriso ao se inclinar e analisar suas anotações.

Ela relaxou e concordou.

- É o único elo entre Evelyn, as câmaras da cabala, o livro e o hakim. Tem que significar alguma coisa.

Um olhar intrigado anuviou o rosto dele.

- O hakim?

Um nó se formou em sua garganta. Soube que tinha exagerado no instante em que disse isso. Procurou desajeitadamente encontrar as palavras certas para sair da enrascada, mas não as achou.

- Ele está... bem, em Bagdá - murmurou. - Talvez você devesse pergun­tar a Jim sobre isso.

Exatamente nesse momento, Corben, misericordiosamente, apareceu.

Um outro homem, mais jovem do que Corben, o acompanhava. Alguém que ela ainda não conhecia. Tinha cabelos castanhos bem curtos, um pescoço grosso, e usava um terno azul-marinho sem gravata. Corben pareceu surpreso ao ver Kirkwood ali e cumprimentou-o com um pequeno aceno de cabeça. Quando Kirkwood retribuiu o cumprimento, Mia captou um quase impercep­tível desconforto na expressão de Corben ao olhar para a escrivaninha onde os desenhos estavam à mostra.

Corben apontou para o homem que viera com ele.

- Este é Greg - disse a Mia. - Ele vai levá-la para o hotel quando estiver pronta e vai ficar com você. Vamos hospedá-la no Albergo, um pequeno hotel em Ashrafieh, o lado cristão da cidade, onde você ficará bem.

- Está certo - ela assentiu.

- É onde estou hospedado - acrescentou Kirkwood, antes de se virar para Corben. - Alguma coisa na escuta telefônica?

- Por enquanto, nada - disse Corben de forma objetiva.

- E o que pretende fazer? - perguntou o primeiro.

- Estou voltando para a cidade, para ficar dentro do mio de alcance. - Deu de ombros. - Pode ser que a gente tenha sorte. - Virou-se para Mia. - Telefono para você mais tarde para me certificar de que você está bem instalada.

- Vou ficar bem - disse ela.

Corben olhou para ela, e depois assentiu com a cabeça para o outro agente, como que dizendo "É toda sua”.

Quando Corben ia saindo, Kirkwood disse:

- Boa sorte. Mantenha-nos informados.

- Falarei com você assim que tiver notícias.

Por alguma razão, Mia achou que Corben não estava muito inclinado a cumprir a promessa. Mais do que isso, ele parecia um pouco cauteloso em relação a Kirkwood.

O que significava que ela provavelmente também deveria ficar.

 

Kirkwood levantou a tampa de plástico e tirou uma xícara de café da cafeteira do saguão do anexo. Arriscou um gole. Surpreendentemente, não estava de todo ruim.

Relembrou mentalmente a rápida conversa que tivera com Mia. Era óbvio que ela, e, portanto, Corben, sabia muito mais do que estava dizendo. Durante as reuniões de relato dos acontecimentos, Corben não dissera uma palavra sobre o interesse especial dos seqüestradores por qualquer das peças, tampou­co mencionara especificamente o livro, nem relatara a descoberta da câmara subterrânea feita por Evelyn. E, no entanto, ficou claro que Mia sabia sobre ambas.

E Corben, com certeza, não mencionara esse hakim. Mesmo que o homem fosse evidentemente uma parte intrínseca da equação.

Mais interessante ainda, Mia dissera que o hakim estava em Bagdá. Ele sabia que hakim queria dizer "médico”, e aquilo não desceu bem.

Sentiu um mal-estar profundo. Havia objetivos que ele desconhecia. E o negociante iraquiano estava longe de estar em segurança. Precisava saber o que estava de fato acontecendo, e o melhor lugar para começar era com Corben, o que não ia ser fácil. Os contatos de Kirkwood nas Nações Unidas eram só­ lidos como uma rocha. Já seus contatos dentro dos serviços de inteligência, nem tanto. As Nações Unidas, no entanto, desempenhavam - às vezes propositalmente, às vezes sem querer - um papel significativo na guerra do Iraque, em particular durante o fiasco da busca por armas de destruição em massa. Kirkwood podia usar seus contatos para explorar aquele filão enquanto procurava outros meios de penetrar nos trabalhos da Agência.

Também precisava obter mais informações sobre os antecedentes de Mia, mas isso teria que ser conseguido por outros métodos. Não achou que seria muito difícil.

Tomou outro gole de café, tirou o telefone do bolso e discou.

 

Corben verificou a hora. Faltavam 15 minutos para o meio-dia.

Faltavam 15 minutos para partir dali.

Ficara sentado no Nissan Pathfinder por meia hora, esperando. Não se incomodou. Gostou da tranqüilidade. Isso lhe deu tempo para examinar as coisas calma e metodicamente, e avaliar as várias opções que poderiam surgir. Ele precisava ter opções. No seu ramo de negócios, as coisas raramente corriam de acordo com o planejado.

Ele se esticou, estalando os ossos, tomou o último gole do espresso duplo e jogou o copo descartável para trás, no chão. A cafeína estava fazendo efeito com força total, e era uma sensação boa. Ou talvez fosse apenas a expectativa.

Deu uma olhada para o assento ao lado e tirou o Ruger MP9 do estojo.

Era uma pequena arma feia, mas altamente eficiente. Verificou o pente de balas e estava totalmente carregado. Sua capacidade era de 32 tiros. Pressionou o cartucho superior, sentindo as molas cederem, e rodou-o ligeiramente, certificando-se de que estava assentado corretamente antes de tornar a carregar a arma. Assegurou-se de que o seletor estava no automático. Nessa modalidade ele cuspiria sua munição inteira em pouco menos de três segundos. Nas mãos de um "atirador amador" avoado, a maior parte, talvez a totalidade desses tiros, provavelmente erraria o alvo. Corben, no entanto, era suficientemente experiente para torná-los certeiros.

O estojo ainda continha três pentes extras, todos completamente carregados. Ele também usava uma Glock 31 no coldre, no cinto. Esta só tinha capacidade para 17 tiros, mas eram balas .357, que poderiam atravessar a lataria de um carro como se fosse papel.

Precisaria desse poder de fogo.

Ele refletira e decidira que, apesar de os riscos serem maiores, precisava fazer aquilo sozinho. Conseguira convencer seu chefe, baseado no fato de que Farouk se assustava facilmente e precisaria ser abordado com a rapidez de um raio e com extremo cuidado. A visão de um exército de agentes estrangeiros o faria correr.

Por um instante - um breve instante - considerou a hipótese de levar Mia junto. Farouk - que estaria esperando um monte de policiais libaneses – não o conhecia. Não tinha motivos para acreditar ou confiar nele. Mas Mia e Farouk tinham se visto na noite do seqüestro de Evelyn. A presença dela no ponto de encontro certamente daria ao iraquiano algum conforto, mas isso não era uma opção, na verdade, considerando-se o grau de periculosidade da operação e o que ela já tinha passado naquela manhã. Sua presença seria inadequada e comprometeria gravemente o modo de agir de Corben num momento em que ele precisaria pensar rápido e se movimentar mais rápido ainda.

Corben também não pretendia envolver o Fuhud, não sem saber em quem podia confiar lá. Sabia que provavelmente teria de enfrentar urna penca de atiradores. Só esperava chegar a Farouk antes deles e evitar dobrar qualquer esquina de Beirute em que o iraquiano estivesse entocado, entrando em outra zona de tiroteio.

O que era a questão principal, na verdade. De onde Farouk estaria ligando? De acordo com o sinal do telefone de Ramez, os seqüestradores estavam na área de Malaab, na parte sudeste da cidade. Corben precisaria se posicionar em um lugar de onde tivesse a oportunidade de alcançar Farouk antes deles. Estudou o mapa da cidade e riscou algumas áreas corno pontos improváveis para um imigrante ilegal com forte sotaque iraquiano e, provavelmente, pouco dinheiro. O leste de Beirute era urna dessas áreas. O centro da cidade também. A parte sul era seu próprio feudo e proibida a estranhos.

Restava, então, o oeste de Beirute.

Corben escolhera esperar do lado de fora do multiplex Concorde. Localiza­va-se numa rua principal que cortava em duas, diagonalmente, a parte oeste de Beirute e ficava próxima de outras grandes ligações que ele poderia usar para atravessar a cidade, caso necessário. Se o telefonema viesse das proximidades da universidade, que foi o último lugar onde Farouk tinha sido visto, Corben estaria mais perto dele do que o bando de capangas c teria uma boa chance de achá-lo antes deles. Isso partindo-se do princípio de que eles não teriam um guarda avançado a postos.

Fizera uma incursão no depósito de armas, pegando também um colete Kevlar que, a julgar pela rigidez das costas, decididamente não fora desenhado para o conforto do usuário. Resolveu, ainda, usar um dos carros que não tivesse placas da embaixada. Se ia haver confusão, não queria que seu veículo fosse tão facilmente identificado.

A voz de Leila crepitou pelo fone de ouvido Bluetooth de seu celular:

- Estamos conseguindo alguma coisa.

- Parece que eles finalmente tiraram o telefone de Ramez seja lá de que buraco fosse em que eles o vinham guardando - acrescentou Olshansky.

Corben ouviu algumas vozes falando em árabe ao fundo, a voz dos seqües­tradores chegando a ele pelos alto-falantes na sala de Olshansky.

As palavras se tornaram mais claras. Imaginou o homem que as dizia, provavelmente o líder dos seqüestradores, aquele que vira do lado de fora do apartamento de Evelyn.

Leila trabalhou depressa, falando intermitentemente a cada pausa da voz do homem:

- Ele está dizendo a Ramez que está quase na hora... Está perguntando a ele se entende exatamente o que precisa conseguir que Farouk faça... Ramez está dizendo que entende. Não consigo ouvi-lo direito, na verdade, mas ele parece aterrorizado... Está lembrando ao homem que ele prometeu soltá-lo se ele fizer isso... Está dizendo a ele que pode ficar de boca fechada, que ninguém precisa ficar sabendo de nada, esse tipo de coisa. - Houve uma pausa e então a voz voltou. - O homem está lhe dizendo para não se preocupar, que tudo vai correr bem. Para ser cuidadoso. Para não cometer nenhum erro. Que a vida dele está em suas próprias mãos agora. Só depende dele. - O homem fez uma pequena pausa e tornou a falar.

- Ele agora está dizendo a seus homens para prepararem o carro - informou Leila.

Pela quarta vez na último meia hora, Farouk perguntou as horas ao homem sentado a seu lado.

Ele estava num pequeno café em Basta, uma parte decadente e super-povoada da cidade, longe dos arranha-céus revestidos de mármore e dos McDonald's com serviço de manobrista. Esse amontoado de ruas estreitas estava entupido por carros estacionados a esmo e velhas carroças caindo aos pedaços oscilando ao peso de comida, roupas baratas e DVDs piratas. O lugar também estava fervilhando com negociantes de antigüidades, passando im­prudentemente pelas calçadas estreitas, forçando os pedestres a ir para a rua. Farouk conhecia o lugar de anos antes, tendo vendido alguns artefatos meso­potâmicos para um casal de negociantes locais que ele não via desde então e que não queria correr o risco de contatar. Era também um bom lugar para se fundir com o ambiente, um bom lugar para passar despercebido.

Suas roupas estavam desconfortáveis e fedendo; não conseguia se lembrar da última vez que tomara banho. Não tinha voltado à praça arborizada de Sanayi após ter visto Ramez. Tinha ficado paranóico por voltar ao mesmo lugar uma segunda noite consecutiva. Em vez disso, tinha ficado em Basta, perambu­lando por velhos cafés e antigos bazares, subsistindo à base de ka'ik e sucos de ambulantes. Passara a noite, aconchegado a uma cripta num cemitério próximo, reclamando de sua pouca sorte. O que, segundo o homem ligeiramente irritado com o narguilé sabor mel, era o que acontecia agora.

Ele agradeceu ao homem, levantou-se da cadeira, desviou-se de alguns jogadores de gamão e dirigiu-se ao balcão com o coração na boca. Perguntou ao proprietário, um homem gordo com um bigode enorme, se podia usar o telefone - o que já tinha pedido com antecedência a ele -, novamente garan­tindo-lhe que era uma chamada local. O homem lhe lançou um olhar cauteloso antes de lhe passar o aparelho sem fio. Farouk virou de costas, meteu a mão num bolso e tirou um pedaço de papel amassado em que Ramez escrevera seu número de telefone. Colocou-o no bar, deu uma tragada reconfortante em seu cigarro e discou.

Ramez sentiu como se o mundo a sua volta estivesse se arrastando de forma surreal à medida que, mentalmente, contava cada segundo que passava.

Ainda estava amarrado à cadeira, ainda com o saco bolorento na cabeça. Estava insuportavelmente abafado, o que só aumentava sua dor de cabeça late­jante. Não conseguia suportar a tortura de ter de se sentar, esperar e rezar para que Farouk desse aquele telefonema conforme prometido.

Para aumentar seu desconforto, tomou consciência de uma dor aguda na virilha e percebeu que precisava desesperadamente esvaziar a bexiga, mas ago­ra não era hora de tocar nesse assunto.

Sabia que iam ter de tirar o saco de sua cabeça se e quando - não, apenas quando, nada de se. Não poderia haver se. Concentre-se apenas no quando - o telefonema viesse. Certamente não poderiam esperar que ele falasse com Farouk com a cabeça no saco. E talvez quisessem lhe passar instruções durante a chamada. Pensou em permanecer de olhos fechados, para o caso de estarem preocupados com a possibilidade de ele os identificar, ou pelo menos olhar para baixo, evitando o contato visual. Gostaria de lhes perguntar sobre isso, mas achou melhor ficar quieto, receoso de que pudesse alertá-los para algo com que não estivessem necessariamente preocupados. Tentou não pensar no que acon­teceria se - como teria esperado - eles estivessem preocupados com isso.

O toque do telefone sacudiu-o como uma corrente elétrica. Alguém, então, arrancou o saco de sua cabeça, duplicando o choque.

Seus olhos não estavam conseguindo focalizar direito, ainda tentando se ajustar ao frio neon do porão sem janelas. Achou ter reconhecido o homem, cujo vulto divisava, de quando fora empurrado para dentro do carro. O ho­mem estava examinando o telefone de Ramez, que tornou a tocar. Ramez imaginou que seu captor estava se certificando de que não era um número que constasse da memória do aparelho - o número de Farouk não seria reconhecido.

Ramez encontrou o olhar do homem. Não conseguiu desviar os olhos. Todas as idéias de evitar contato visual caíram por terra. O homem - cabelo escuro, bem cortado, mas com olhos mortos, aterradores - lançou-lhe um olhar de ferocidade muda que quase fez com que ele se engasgasse. Ergueu-lhe um dedo ameaçador de advertência, disparou-lhe um olhar que significava "Cuidado", sem deixar margem a dúvidas, e deu um clique no telefone antes de segurá-lo junto ao ouvido de Ramez.

- Ustaz Ramez?

Ramez soltou a respiração. Era Farouk - ele continuava a chamá-lo de ustaz, professor, durante sua conversa. Acenou esperançosamente para seu

captor. O homem devolveu um gesto de silencioso assentimento, orientando-o, por gestos, para que falasse, antes de se inclinar, e ficar com a cabeça próxima à de Ramez, virando o telefone para que também ele pudesse ouvir Farouk.

- Sim, Farouk. - A voz de Ramez soou um pouco aguda demais, e ele a ajustou, tentando não dar a impressão de nervoso. - Estou contente que você tenha ligado. Está tudo bem? - Sentiu a boca seca e balbuciou as palavras como se fossem bolas de algodão. Umedeceu os lábios.

- Você falou com eles? - perguntou Farouk com um evidente tom de desespero na voz.

- Sim. Falei com os detetives da delegacia de Hobeish, os que estão trabalhando no caso. Contei a eles o que você me pediu para dizer.

- E?

Ramez deu uma olhadela de esguelha para seu captor. O homem acenou-lhe de forma tranqüilizadora.

        - Estão dispostos a fazer como você pediu. Não estão preocupados com as peças e não têm interesse em mandá-lo de volta para o Iraque. Só estão desesperados por sua ajuda para resgatar Evelyn.

- Tem certeza? Falou com alguém que tenha autoridade?

- Falei com o chefe dos detetives - assegurou-lhe Ramez. - Ele me garantiu pessoalmente. Nenhuma acusação e proteção total até que tudo isso esteja terminado. Então, você estará livre para fazer o que quiser. Se tudo der certo, talvez até o ajudem a conseguir o visto de residência.

Ramez percebeu uma pausa na ligação e se perguntou se não teria exagera­do. O coração pulou uma batida e ele se apressou a acrescentar:

- Eles estão desesperados, Farouk. Querem encontrá-la, e você é sua única esperança. Precisam de você.

- Obrigado - finalmente murmurou Farouk do outro lado da linha. ­

Obrigado, ustaz Ramez. Como poderei retribuir-lhe? Você salvou minha vida.

- Não se preocupe com isso - limitou-se a responder Ramez, enquanto ondas sucessivas de culpa e alívio colidiam dentro dele. Reprimiu sua perturbação.

- O que eles querem que eu faça?

Os olhos de Ramez se voltaram imediatamente para seu captor. A hora da verdade.

O captor balançou a cabeça, assentindo. Hora de pôr a mão nesse patife.

- Apenas fique onde está. Não saia daí. Eles estão esperando meu telefonema - disse Ramez, tentando desesperadamente controlar o tremor da voz. - Eles irão buscá-lo. Só estão esperando que eu lhes diga aonde ir. – Fez uma pausa, com um nó na garganta antes de perguntar: - Onde você está, Farouk?

Os quatro segundos de silêncio que se seguiram foram, inquestionavelmente, os mais longos e petrificantes da vida instável do professor-assitente.

E então Farouk falou.

 

Corben já tinha ligado o motor quando ouviu as palavras assustadas de Farouk. A voz de Leila irrompeu estrondosamente sobre elas por meio dos fones de ouvido de Corben.

- Ele está num café em Basta. Você tem que pegar o Anel e sair antes do elevado.

Corben lançou um olhar por cima do ombro, calculou uma distância de cerca de 50 metros entre ele e um carro que se aproximava e decidiu arriscar. Girou o volante e pisou fundo. O Pathfinder saltou da vaga do estacionamento com os pneus cantando, fez uma curva de 180º e chispou na direção oposta.

Enquanto corria em alta velocidade para a velha emissora, Corben visualizou mentalmente o mapa da cidade e praguejou em voz baixa. Ele sabia onde ficava Basta, e, se estivesse certo, tanto ele quanto o bando de capangas estavam mais ou menos à mesma distância do lugar em que Farouk se entocara.

Cada segundo era importante.

- Leila, você tem a localização exata em Basta? - Corben sabia que navegar pelas ruas estreitas e congestionadas da área do mercado poderia ser um problema.

- Sim, ele estará esperando do lado de fora de uma grande mesquita. Avise-me quando pegar a rampa de saída que eu guio você até lá.

- O que está acontecendo com Ramez?

- Ele disse a Farouk para ficar quieto e esperar, pois eles devem chegar em breve. - Fez uma pausa de um segundo. - Acabaram de desligar.

Ramez observou o captor desligar o telefone e ordenar a seus homens que se pusessem a caminho. Havia dois deles, um mais velho e outro mais jovem que o chefe. Ambos exibiam o mesmo olhar duro e inexpressivo, com olhos com­pletamente destituídos de qualquer sinal, por menor que fosse, de humanidade. Saíram da sala rapidamente, deixando Ramez a sós com o captor.

- Foi tudo bem, não é? Fiz exatamente como pediu, não fiz? – perguntou Ramez, agora com a respiração rápida e curta.

        - Azeem - respondeu o homem sucintamente. Perfeito.

        Ramez sentiu os olhos marejados de lágrimas ao ver o captor assentir e, casualmente, desligar o telefone. Olhou para o aparelho e então ergueu os olhos para o homem, com um sorriso nervoso, o coração disparado, os nervos explodindo, procurando se convencer de que, ao contrário de toda a lógica do mais básico senso comum, ele seria libertado.

Essa débil ilusão foi cruelmente aniquilada quando o captor tirou uma pistola do cinto, virou-a diretamente para a testa de Ramez e atirou.

 

À medida que o Pathfinder ultrapassava um táxi que se arrastava, na altura da praça arborizada Sanayi, Corben ouviu dois rápidos tiros irrompendo através de seu fone de ouvido, seguido por um terceiro, poucos segundos depois.

O tiro de misericórdia. Para garantir.

Seus músculos enrijeceram.

"Canalhas”.

Sabia que tinha sido inevitável. Já visualisara a cena em sua mente e não ti­nha ilusões sobre o modo de agir desses caras. Não precisavam mais do profes­sor-assistente, sobretudo depois que ele lhes entregara Farouk de bandeja. Não que Corben acreditasse que o homem tinha muita escolha. Uma vez agarrado, era como se estivesse morto. Sua única opção era decidir quanta dor teria de sofrer antes de atender àquela ligação.

Ouviu um gemido em seu fone. Sabia que era Leila. A voz de Olshansky interrompeu:

- Jim, você ouviu isso?

- Ouvi - respondeu Corben friamente.

Sabia que era difícil para qualquer um ouvir uma coisa daquelas, mas não havia tempo para consolar Leila. Precisava dela - e de Olshansky - concentrados. - Leila. Vou precisar daquelas orientações.

Após alguns segundos, ouviu uma fungada e a voz dela voltou, abafada e trêmula.

- Onde você está agora?

- Quase chegando ao Anel. - A auto-estrada elevada que ligava a parte leste e a parte oeste de Beirute surgiu adiante.

- Você tem que pegar a primeira rampa de saída logo após o túnel. - A voz dela estava agora mais clara e, como ele notou, mais dura.

Ele estava alguns minutos à frente.

 

Omar olhava fixamente para a frente enquanto o carro disparava pela recém-aberta avenida que cortava a cidade.

Precisava disso para trabalhar.

Queria Farouk. Queria muito.

Os dois últimos dias tinham sido ruins. Orgulhava-se de sua eficiência fria, um estilete num mundo de machados embotados. Tarefas como aquelas para as quais fora designado desde que esse negócio começara eram seu ganha-pão. Mas já tinha perdido dois homens - três, na verdade, se contabilizasse o que ficou com o ombro destruído, embora fossem todos tão facilmente substituí­veis como os carros que ficaram avariados nos confrontos - e aquele bunda­mole ainda estava solto por aí.

O americano também tinha virado uma grande fonte de aborrecimento. Ele o fizera passar vergonha, e isso era imperdoável. Ornar teria que lidar com ele, em algum momento, independentemente das implicações. Ele acharia um jeito. Era tudo uma questão de tempo. Esperaria pelo momento oportuno, um desses colapsos políticos recorrentes no país. Então o ato passaria despercebi­do, exceto para aqueles cuja opinião ele valorizava, a verdade ficando enterrada sob preocupações mais urgentes.

Viu a curva que levava ao mercado de antigüidades e disse aos três homens que o acompanhavam para verificarem suas armas.

Ele não voltaria sem sua presa.

 

Corben pisou no freio ao sair do túnel no Anel. Uma parede de carros bloqueava a passagem.

A auto-estrada elevada de quatro pistas era uma artéria essencial que ligava as duas partes da cidade. Qualquer obstáculo nela - uma pequena batida envol­vendo dois motoristas, um caminhão velho enguiçado, um carro avariado pelo fogo de franco-atiradores - confinava o tráfego em uma só via. Congestiona­mentos ao acaso, inesperados, faziam parte da experiência de dirigir em Beirute. As pessoas, de um modo geral, lidavam com isso com criatividade. Invadir as vias na contramão era uma maneira de tornar o uso da rua mais flexível. O Anel, infelizmente, tinha uma grande e intransponível barreira, e a rampa de saída de que Corben precisava ainda estava a cerca de uns 100 metros.

Ele não conseguia ver o que estava causando o congestionamento. Olhou para trás. Uns dois carros estavam parando ao lado dele, mas nada estava di­retamente atrás. Com um violento golpe, engrenou a marcha a ré e pisou no acelerador.

O automóvel deu uma sacudida para trás e mergulhou no túnel. O túnel era curto demais para que alguém se preocupasse em acender os faróis, e a mudança da intensa luz do sol para a total escuridão tornava difícil dizer se havia algum carro atrás dele. Levou uma fração de segundo para que seus olhos se acostumassem ao escuro e, quando conseguiu, viu um carro bloqueando a passagem bem à sua frente.

Praguejou em voz baixa enquanto tirava o pé do acelerador e conduzia o carro para mais perto que podia da parede. O veículo que vinha em sentido contrário deu uma guinada para a esquerda, fazendo com que o motorista do automóvel atrás dele pisasse no freio para evitar bater e passou a toda, com a buzina ber­rando ao longo do túnel. Corben tornou a acelerar e levou o carro de volta, por pouco não atingindo um outro veículo que passava, e finalmente saiu do túnel.

Ele prosseguiu até atingir uma rampa de subida que levava à interseção que margeava o túnel, então pisou no freio, passou a marcha e voou rampa acima.

- Tive de voltar atrás no túnel - gritou ao telefone. - Estou indo para a praça principal por cima dele.

        A voz de Leila retomou rapidamente:

        - OK, você vai precisar pegar a primeira à direita e depois à esquerda. Basta seguir por essa rua abaixo e você verá o posto do corpo de bombeiros à sua direita.

Corben seguiu as instruções, mas o avanço era lento. O tráfego pesado das ruas estreitas, os carros mal estacionados e as carroças dos vendedores ambulantes transformavam o percurso numa corrida de obstáculos. Preciosos segundos viraram minutos à medida que ele conduzia o automóvel por aquela confusão, gritando, metendo a mão na buzina e fazendo sinal para que os car­ros se afastassem para o lado enquanto ele abria caminho até finalmente chegar ao corpo de bombeiros.

- Estou vendo o posto - exclamou.

- Vire à direita e siga adiante nessa rua - disse Leila. - O muro do cemitério está a sua esquerda. Dobre à esquerda assim que ele terminar e veráuma mesquita a cerca de uns 50 metros rua abaixo, à sua direita. É ali que ele vai estar.

Ele praticamente pulou por cima dos carros que estavam à sua frente e finalmente localizou a mesquita, que se escondia entre alguns antigos bazares. Diminuiu a velocidade à medida que se aproximava, evocando mentalmente a foto de Farouk que Mia lhe mostrara enquanto perscrutava a rua em busca de algum sinal de Farouk ou do grupo de capangas do hakim.

Ele o viu.

O atravessador iraquiano estava lá, de pé, esperando nervosamente, conforme instruído.

 

O iraquiano era inconfundível, mesmo num cenário em que ele não se destacava, exatamente. Sua postura - defensiva, lançando olhares furtivos para cima e para baixo da rua, tentando se fundir com o ambiente - deu a Corben a confirmação necessária.

Corben olhou para os carros que se aproximavam e tornou a checar pelo retrovisor, atento à iminente chegada do grupo de capangas enquanto estacio­nava do lado de fora da mesquita. Baixou a janela ao frear.

Farouk deu uma espiada. Corben notou que ele devia ter percebido seu interesse por ele, pois a apreensão imediatamente se instalou no rosto do negociante antes que desse uma olhada para o outro lado, como se estivesse procurando por socorro, e recuou alguns passos.

Corben deslizou para fora do carro. tentando se mover o mais rápido possí­vel sem alarmar Farouk. Ergueu as mãos num gesto apaziguador.

- Farouk. Sou amigo de Evelyn. Você precisa vir comigo.

Os olhos de Farouk percorreram rapidamente a rua e voltaram para Corben, ao mesmo tempo em que continuava a recuar para longe dele, a apreensão se transformando em pânico absoluto.

- Farouk, ouça-me. Ramez foi raptado esta manhã pelos mesmos homens que pegaram Evelyn. É uma cilada. Não são os policiais que estão vindo buscar você, e sim os seqüestradores. Estão a caminho neste exato momento.

- Não - murmurou Farouk, antes de se virar e fugir correndo rua abaixo.

Corben franziu a testa e saiu em disparada atrás dele, cortando caminho entre a multidão que bloqueava a passagem. Farouk não se movia depressa demais, e Corben ganhava terreno rapidamente. Farouk olhou por cima do ombro antes de se atirar, de repente, dentro de um bazar de antigüidades. Corben foi atrás dele.

As vielas estreitas desse centro comercial em miníatura eram cercadas por várias lojas às quais só se tinha acesso por dentro do bazar. As passagens es­tavam atravancadas por móveis e objetos de decoração, alguns deles antigos, em sua maioria falsificações de boa qualidade feitas na própria cidade. Corben vislumbrou Farouk recuando para a escuridão à sua esquerda. Correu atrás dele, esquivando-se de mesinhas-de-cabeceira em marchetaria e cadeiras Luís XVI, voando por entre negociantes estupefatos cujos gritos ecoavam atrás dele.

Chegou a um cruzamento e viu Farouk à sua direita, seguindo por um corredor que levava a outra entrada, que dava para uma rua lateral. Corben acelerou, su­gando toda a sua reserva de energia, e fechou a brecha, alcançando Farouk um pouco antes da saída. Deu um salto e agarrou-o, empurrando-o para o lado, contra a vitrine de um vendedor de tapete.

- O que está fazendo? - perguntou com raiva, segurando-o pelo colari­nho. - Não temos tempo para essa baboseira. Eles estarão aqui em segundos. Estou tentando salvar sua vida.

Farouk o fitou com os olhos petrificados. Seus lábios tremeram ao tentar encontrar palavras.

- Mas Ramez...

- Ramez está morto - disse Corben, com irritação. - Você quer ser o próximo?

Farouk, de pé, baixou os olhos entorpecidos e mal conseguiu balançar a cabeça.

- Vamos lá! - ordenou Corben apontando para a entrada principal.

Bem na hora em que viraram no corredor que dava para a rua, Corben reconheceu o assassino com o rosto marcado. Ele estava na calçada, do lado de fora do bazar, examinando a rua minuciosamente em busca de algum sinal de seu alvo.

Corben arrastou Farouk para detrás de um grande armário que ocupava boa parte do caminho e sacou a pistola. Fez um sinal para que Farouk ficasse quieto e espiou. O homem continuava lá, observando a rua de cara feia, uma enorme raiva irradiando dos olhos cavernosos.

Ele também estava bloqueando o acesso de Corben ao carro.

Corben olhou para trás, certificando-se de que o caminho estava livre, e empurrou Farouk para dentro do bazar. Passaram pelas vitrines de móveis e viraram na viela lateral usada antes.

- Vamos - insistiu Corben, enquanto o levava de volta ao caminho pelo qual tinham vindo, em direção à entrada lateral localizada anteriormente.

Corben pôs a cabeça para fora para se certificar de que a viela lateral estava livre, antes de emergir por entre as vitrines entulhadas. Com olhos semicerra­dos, enquanto se adaptava à luz do dia malcheiroso, Corben perambulou pelo calçamento quebrado, certificando-se de que Farouk vinha logo atrás, manten­do sua arma virada para baixo e junto à perna, para não chamar atenção.

Chegou à esquina e olhou disfarçadamente para a mesquita. A Pathfinder es­tava a meio quarteirão, tentadoramente perto. A cerca de 15 metros dali estava o chefe dos assassinos, ainda rondando a entrada principal do mercado. Do outro lado da rua, Corben também viu um Mercedes estacionado em fila dupla. Per­cebeu que o homem com marcas no rosto lançou olhares para o motorista do carro, que respondeu ao sinal balançando a cabeça. Tinha que haver pelo menos mais um homem em algum lugar por ali, mas não conseguia vê-lo.

Esperou o melhor momento e então disse para Farouk:

- Vamos, rápido - enquanto saía com ele do esconderijo. Andava bem rápido, mantendo Farouk perto dele, tentando ao máximo usar os pedestres como cobertura. Segurando a arma com firmeza, mantinha os olhos atentos examinando ambos os lados.

Estava quase chegando ao carro quando um homem mais jovem, com um olhar nervoso e uma boca parecendo uma fenda, saiu de um café à sua direita. Houve um reconhecimento mútuo e instantâneo. O homem sacou a pistola e se protegeu atrás de um velho que estava entrando no café. A mão de Corben hesitou por uma fração de segundo, buscando um melhor ângulo de tiro. O velho assustado gritou e se encostou na parede. Como a visão de Corben ainda estava parcialmente bloqueada, ele esperou com o dedo no gatilho, e fez uma outra coisa. Agarrou Farouk pelas costas e enfiou-lhe a arma no pescoço.

- É isso que você quer, não é? Você quer que eu o mate? - vociferou para o assassino.

Corben empurrava Farouk para a frente, colado atrás dele. Pelo canto do olho, viu o homem com marcas no rosto do outro lado da Pathfinder reagir àqueles movimentos e sacar a arma. A vantagem de Corben duraria apenas mais um ou dois segundos. Foi se esgueirando até perto do automóvel e viu o assassino que estava no café sair livremente entre os pedestres, enquanto ob­servava, perplexo. Corben apontou sua pistola para ele e deu-lhe dois tiros no peito. O disparo de balas .357 levantou-o do chão e o arremessou para trás por cima de mesas e cadeiras.

- Para o carro, agora! - gritou para Farouk, empurrando-o para a porta do passageiro. As pessoas em volta corriam e tentavam se proteger. Avistou o chefe do bando em disparada pela entrada do mercado e deu uns dois tiros em sua direção antes de abrir a porta do carro e pular para dentro.

Corben ligou rapidamente o carro meteu o pé no acelerador. Abaixou a cabeça de Farouk e gritou:

- Fique abaixado - enquanto a Pathfinder seguia em alta velocidade pela rua em direção ao Mercedes estacionado.

Pensando rápido, Corben decidiu que não poderia simplesmente ir embora. Estava em um labirinto de ruas estreitas e não tinha nenhuma idéia se o trânsito ficaria muito lento ou até parado. Logo eles os alcançariam. Ele precisava ter uma vantagem a mais.

Quando a Pathfinder passou ao lado do Mercedes, meteu o pé no freio, parando o carro pesado com uma cantada de pneus. Sacou a Glock, girando-a no ar. O motorista, surpreso, se jogou rapidamente para o lado quando Corben deu três rápidos disparos contra o pneu dianteiro do Mercedes, destruindo-o e fazendo com que o carro arriasse. Isso lhe daria algum tempo. Meteu o pé de novo no acelerador e saiu cantando pneus, mas enquanto o carro ganhava velo­cidade avistou um quarto assassino surgir de uma rua lateral do lado de Farouk. O bandido apontou a arma para a Pathfinder e atirou. Os tiros atingiram o lado direito do carro, bem na hora que, pelo retrovisor, o chefe do bando gritava com o atirador para alcançá-lo. Corben sabia que o atirador seria repreendido seve­ramente por colocar Farouk em perigo. O hakim precisava dele vivo, e foi por esse motivo que Corben o usara para distrair o primeiro atirador.

Olhou intensamente adiante, tentando se lembrar do modo mais rápido de sair daquela ratoeira onde estavam perdidos, quando ouviu um gemido de Farouk.

Virou-se e viu o negociante se contorcendo de dor, uma mancha rubra surgindo alarmantemente ao lado dele.

 

Corben avançou por cerca de um quilômetro e meio, passando com di­ficuldade com o Pathfinder pelo trânsito do início da tarde. No banco, a seu lado, Farouk se contorcia e gemia. O atravessador continuava examinando o ferimento sem acreditar no que via, suas mãos empapadas de sangue pressio­nando o local, como Corben lhe aconselhara, resmungando e lamentando sua sorte em árabe.

Corben tinha os olhos grudados no retrovisor, mas não havia sinal dos homens do hakim. Sabia que Farouk estava sentindo dor, mas precisava que agüentasse um pouco mais, até que ele tivesse certeza de que os dois estavam em segurança. Por fim, virou na rua principal perto do largo canal de concreto do rio Beirute, hoje completamente seco, rodou por uma viela poeirenta e en­costou no meio-fio, perto de umas velhas garagens fechadas.

- Deixe-me ver - disse ele para Farouk antes de se voltar, cuidadosamen­te, para examinar o ferimento mais uma vez. Foi um tiro no flanco direito que entrou pela região lombar e saiu acima do quadril. Farouk não estava sentindo muita dor, o que talvez significasse que estômago e fígado não tinham sido atingidos, e, como ele ainda estava vivo, era quase certo que sua aorta não se rompera. Mas Corben sabia que haveria danos internos, e ainda que a hemorragia não fosse grande, continuava existindo.

Escolhas tinham que ser feitas.

A respiração de Farouk era irregular e ofegante. Seus olhos, arregalados de medo, procuravam em Corben algum sinal de apoio.

        - Então, como está?

- Parece que as áreas vitais não foram atingidas. Você vai ficar bem. - Corben deu uma olhada pelo carro, mas não achou nada com que Farouk pudesse comprimir o ferimento.

Farouk pôs as duas mãos sobre o buraco e fez caretas de dor. O suor descia do rosto e seus lábios tremiam quando falou:

- Você sabe onde fica o hospital mais próximo?

Era exatamente nisso que Corben estava pensando.

- Não quero arriscar levando você para um hospital - disse ele para Farouk, sem rodeios. - Essa gente tem contatos em todos os lugares. Lá você não estará seguro. Vou levá-lo para a embaixada. Fica a apenas 20 minutos daqui.

A expressão de Farouk mudou da perplexidade para um certo alívio. A embaixada era uma escolha segura. Com certeza, chamariam os melhores médicos.

Farouk reclinou-se e fechou os olhos como se estivesse tentando se desligar do mundo.

Corben engrenou o carro e partiu.

- Preciso que você me conte algumas coisas. Quem está atrás de você?

- Não sei - respondeu Farouk, contraindo-se enquanto o carro dava solavancos no asfalto velho e esburacado.

- Bem, você deve ter alguma idéia. Como essas pessoas souberam das relíquias? Como encontraram você?

Afundando no banco do carro, Farouk explicou que Abu Barzan o convida­ra para servir de intermediário na venda de seu estoque, e que Hajj Ali Salloum encontrara um comprador, que Farouk havia dito que o livro com a devora­dora de rabo não fazia parte do negócio, mas que o cliente de Ali queria toda a coleção, que os assassinos apareceram na casa de Ali, e falou também sobre a furadeira elétrica.

- Por que você não queria incluir o livro na venda? - perguntou Corben.

A expressão de Farouk se encheu de remorso e arrependimento.

- Eu sabia que Sitt Evelyn ia querer o livro, ajudando-me em troca.

Corben assentiu com a cabeça.

        - Você estava com ela no Iraque quando ela encontrou a câmara subterrânea. - Disse isso mais como uma afirmação do que como uma pergunta.

        A princípio, Farouk ficou receoso por Corben saber de tanta coisa, mas, em seguida, relaxou.

- Estava. Ela demorou muito para entender o significado daquilo. E quando eles mataram Hajj Ali, tive que fugir, pois sabia que eles estavam atrás daquilo, mas não sabia o motivo.

Corben processou tudo isso rapidamente. Encaixava-se muito bem em sua idéia do que tinha acontecido, mas agora tinha o quadro completo. Mas ainda         havia uma pergunta crucial sem resposta.

- Então, onde está?

- O quê? - Farouk parecia confuso.

- O livro. Onde está ele?

Farouk se contraiu, e depois disse:

- Está no Iraque - como se esperasse que Corben já soubesse disso du­rante todo o tempo.

Corben voltou-se para ele surpreso.

- O quê?

        - Tudo ainda está com Abu Barzan, onde mais estaria? - As palavras se precipitavam rápida e desesperadamente. - Ele não ia simplesmente me en­tregar o que quer que fosse sem que eu tivesse dinheiro para lhe pagar. Nem trouxe as peças para Bagdá; era muito perigoso viajar com elas. Deixou-as guardadas em Mosul.

- Você disse a Ramez que estava com elas - Corben respondeu.

- Disse a ele que as estava vendendo - protestou Farouk. - Ele deve ter presumido que as tinha aqui comigo. Elas não são minhas.

Corben lançou um olhar meio bravo para a estrada à frente, pensando. Considerara aquela possibilidade, mas tinha achado mais provável que Farouk tivesse trazido o livro para o Líbano e o tivesse guardado em algum lugar seguro até encontrar Evelyn.

        - Esse Abu Barzan... Ele está no Iraque?

- Acho que sim - respondeu Farouk, sem muita convicção. - Provavelmente em Mosul.

Corben irritou-se em silêncio, com a mente a toda. A cadeia de opções que levara em consideração antes de pegar Farouk tinha se rompido e caducado.

- Você tem o telefone dele?

- Claro que tenho.

Corben pegou o celular.

- Qual é?

Farouk olhou para ele amedrontado.

- O que você quer dizer a ele?

- Não vou dizer nada. Você é quem vai falar com ele. Você vai lhe dizer que tem um comprador. Não foi isso que ele lhe pediu? - Corben fez um sinal com a mão pedindo a informação. - Qual é o número?

 

Enquanto Corben discava, Farouk sentiu-se, de repente, desconfortável em relação ao homem que o tinha - ou pelo menos alegava isso - salvado. O mesmo homem que, momentos antes, esfregara uma arma em sua cara e blefara arriscando sua vida.

Sua cabeça rodava, suas pálpebras estavam pesadas, e a sensação de queimação na região do abdome ficava mais intensa. Maldisse sua sorte, maldisse seu destino e até mesmo Deus, e desejou que pudesse voltar atrás, desejou que nunca tivesse pensado em Evelyn e em seu interesse pela devoradora de rabo, desejou que tivesse deixado as coisas como estavam, tivesse passado as mercadorias para os compradores de Ali, tivesse recebido um beijo na testa em sinal de gratidão e pegado o dinheiro.

Até mesmo Bagdá era melhor do que aquilo.

Corben ouviu por um instante, passando em seguida o telefone para ele. Farouk segurou-o com mãos trêmulas. O chiado distante e irregular soou em seu ouvido.

Depois de uns dois toques, Abu Barzan atendeu com sua voz pesada e rouca de fumante.

- Quem é?

- Farouk. - Ele percebeu que a voz de Abu Barzan parecia um pouco mais alta do que o normal, e pôde ouvir um rádio ao fundo. Achou que ele talvez estivesse em um carro.

- Farouk - Abu Barzan soltou a voz, jovial como sempre. - Em que diabo de lugar você se meteu? - Disse ainda um monte de obscenidades engraçadas para descrever o amigo. - Tentei ligar para você, mas seu telefone estava mudo.

- Estou com um comprador - disse Farouk abruptamente. - Ele quer as peças.

Corben lançou um olhar para ele. De algum modo, Farouk conseguiu esboçar um leve sorriso.

Corben seguiu adiante.

- Você chegou tarde - disse-lhe Abu Barzan com uma gargalhada desdenhosa, antes de lhe lançar outro insulto pitoresco. - Já vendi as peças.

A notícia atingiu Farouk em cheio.

- Como assim, você vendeu as peças? - disse ele enfurecido.

- Estou justamente indo entregá-las neste exato momento.

Farouk animou-se.

- Então ainda estão com você?

- Estão bem aqui na minha frente.

- Bem, estou lhe dizendo que tenho um comprador. - Farouk viu Corben se virar ao ouvir seu tom sobressaltado e foi tomado de inquietação pela reação dele. Tentou se recompor e tranqüilizá-lo com um movimento de cabeça.

- Bem, venda alguma outra coisa para ele - disse Abu Barzan. - Você tem um porão cheio de bugigangas naquela sua loja, não tem?

- Ouça-me - sibilou Farouk ao telefone, tentando não parecer pertur­bado ou derrotado. - Algumas pessoas estão atrás de um dos livros que você está vendendo. Pessoas perigosas. Mataram Hajj Ali, mataram outros também. Raptaram uma amiga minha por causa disso, e eu acabei de ser baleado, entendeu?

- Você foi baleado? - Mais insultos se seguiram, mas, dessa vez, não dirigidas a Farouk.

- Fui.

- Você está bem?

Farouk tossiu.

- Vou sobreviver.

- E quem foi seqüestrado?

- Uma mulher americana. Uma arqueóloga, aqui em Beirute.

- Você está em Beirute?

- Estou - respondeu Farouk, irritado. - Olha, esses caras não estão de brincadeira. Irão atrás de você.

Abu Barzan deu de ombros.

- Sinto muito você estar passando por tudo isso, mas não é problema meu. Vou me encontrar com meu comprador amanhã à noite, vou entregar as peças e receber o pagamento, e então isso passa a ser problema dele. Mas obrigado pelo alerta. Vou ficar de olho aberto.

Farouk franziu o rosto e deu um suspiro pesado. Sentiu-se como se estives­se se afogando por dentro. Não estava exatamente surpreso. Abu Barzan não era só um porco imundo, como também um mau-caráter, capaz de vender os próprios filhos se pudesse encontrar um comprador que não desanimasse por temer a baixa qualidade dos genes assim que o visse.

- Fique na linha - disse Farouk a Abu Barzan, em seguida virando-se para Corben, a boca contorcida de dor e frustração. - Ele está dizendo que já vendeu as peças e está indo entregá-las neste momento.

Corben pensou um pouco, enquanto seguia com o carro, e então disse:

- Ele ainda está com o livro?

Farouk balançou a cabeça e perguntou para Abu Barzan sobre o livro, descrevendo-o com detalhes. Abu Barzan disse que achava que sim. A negociação envolvia todos os objetos.

- Pergunte a ele quanto está recebendo pelo lote inteiro - disse Corben a Farouk.

Farouk percebeu rapidamente que esse era o jogo a ser feito, concordou com a cabeça e perguntou.

Abu Barzan riu.

- Seu comprador é cheio do dinheiro?

- É - Farouk insistiu pacientemente, já não sabendo mais o que fazer.

A resposta veio.

- Trezentos mil dólares. Em espécie.

Ele disse a Corben e mostrou-se surpreso e impressionado, como se pensasse "Isso é um bocado de dinheiro”.

Corben ponderou um pouco e disse:

- Dou quatrocentos mil.

Farouk arregalou os olhos e retransmitiu a oferta.

Abu Barzan debochou.

- Isso é que é rapidez. Esse cara é sério?

- Claro que é.

- É melhor que seja mesmo. - Abu Barzan falava agora com um tom mais sério. Quando se tratava de muito dinheiro, ele não costumava brincar. ­Então me diga. O que há de tão especial nesse livro?

- Não sei e não me interessa saber - disse bruscamente Farouk. – Estou apenas tentando salvar a vida daquela mulher.

- Poupe-me das técnicas de persuasão, por favor. - Abu Barzan respirou fundo e com dificuldade. - Tudo bem. Estou interessado. Mas preciso ligar para meu comprador. O mínimo que posso fazer é lhe dar uma chance de cobrir sua oferta.

Farouk passou essa informação a Corben. Ele lhe pediu para descobrir quanto tempo isso levaria.

- Ele me ligou hoje - disse Abu Barzan. - Vou telefonar para ele agora. Qual é o número de seu telefone?

Corben pediu a Farouk para lhe dizer que eles ligariam de volta em cin­co minutos. Ele obedeceu, desligando em seguida, enquanto a Pathfinder se afastava da rodovia costeira principal. A região montanhosa que abrigava a embaixada aparecia ao longe.

Farouk se encolheu no banco do carro e respirou profundamente, tentando se livrar da dor dilacerante nas entranhas, consolando-se com o fato de que ainda conseguia respirar e com a esperança de que - contrariando as expectativas - as coisas poderiam acabar melhor para ele do que para seu amigo Ali.

 

Kirkwood se apoiou num banco no pátio que ficava atrás do anexo e esperou. Estava tomado de frustração, incapaz de fazer a pergunta que precisava fazer, sentindo que preciosos minutos se escoavam enquanto só podia ficar de braços cruzados e observar, impotente. Verificava as horas, uma vez mais, quando o telefone tocou.

Olhou o identificador de chamadas e franziu a testa. Levantou-se, olhou ao redor para se certificar de que não seria ouvido e atendeu rapidamente.

- Acabei de receber um telefonema de um comprador interessado - vociferou Abu Barzan em seu ouvido. - Está me oferecendo mais do que você pela coleção, meu amigo.

        - Pensei que o negócio estivesse fechado - disse Kirkwood, irritado.

        - Estava e está. Mas essa é uma bela oferta e, você sabe, eu sou um comerciante.

Kirkwood se perguntou se haveria um comprador real ou se seria uma tentativa de extorsão. O que quer que fosse, ele teria que entrar no jogo.

- Quanto ele está oferecendo? - perguntou, fingindo paciência.

- Quatrocentos mil.

Kirkwood ponderou. Outro comprador, surgido do nada. Oferecendo muito mais do que a coleção vale. Se fosse o mesmo grupo que mantinha Evelyn prisioneira, conseguir as peças a tornaria descartável. Isso sem mencionar o fato de que ele não ia deixar ninguém ficar com as peças. Não tão facilmente.

- Dou quinhentos, mas com uma condição. Não vamos mais brincar desse joguinho. Você precisa ter cuidado. Sabe que isso é bom para você, que não terá problemas comigo. Mas há gente perigosa por aí.

- Foi o que ouvi dizer - concordou Abu Barzan de forma reservada. ­Vou lhe dizer uma coisa. Chegue a seiscentos e toda a coleção é sua. Incluindo o livro.

Kirkwood sentiu um aperto no peito. Abu Barzan não deveria saber sobre o livro. Kirkwood não queria morder a isca nem queria dar a impressão de que pagar mais era tão fácil assim. Cozinhou-o um pouco, e então disse:

- Ok. Seiscentos. Mas esse preço está muito alto e você sabe disso.

- Ah, sei sim, pode acreditar. Vejo você amanhã à noite.

- Esse novo comprador - perguntou rapidamente Kirkwood. - Pode me dizer alguma coisa sobre ele?

Abu Barzan deu uma risada gutural.

- Sinto muito, meu amigo. É mais um americano maluco, como você. Está tentando pôr a mão nesse livro. Talvez eu devesse insistir com ele. O que você acha?

Kirkwood mal podia esconder seu desagrado.

- Não lhe recomendaria isso - respondeu sucintamente.

Abu Barzan riu de novo, de forma zombeteira.

- Relaxe. Até onde eu sei, parece até que esse livro foi amaldiçoado. Vou ficar feliz em me livrar dele. Não esqueça do dinheiro extra.

E, com isso, desligou.

Kirkwood ficou olhando fixamente para o telefone antes de pô-lo de lado. Pensou no timing e alguma coisa lhe soou mal. Esse novo comprador estava particularmente interessado no livro. As únicas pessoas que ele conhecia que podiam ter entrado em contato com Abu Barzan eram os seqüestradores de Evelyn e o atravessador iraquiano que Corben estava tentando pegar. Será que ele tinha fracassado? Será que os seqüestradores tinham pegado o homem?

Ele entrou no prédio principal e subiu para o escritório do embaixador. A secretária o informou de que o embaixador estaria em reunião por mais ou menos uma hora. Kirkwood agradeceu. Saiu e atravessou para o prédio anexo, dirigindo-se para o setor de imprensa.

Mia ainda estava lá, onde ele a deixara mais cedo. Ela lia atentamente algu­ma coisa na internet, e parecia estar totalmente absorvida pela leitura. Ele não conseguiu ver o título, e o texto era pequeno demais para que conseguisse descobrir do que se tratava.

- Alguma notícia de Corben? - perguntou ele.

- Não. - A expressão de seu rosto era de preocupação. Olhou para o relógio. Kirkwood já havia verificado o seu. Sabia que já tinha passado do meio-dia.

Ergueu os olhos e encontrou sua ansiedade refletida no olhar de Mia.

O telefonema da tarde já teria sido dado.

Logo eles saberiam.

 

A Pathfinder emergiu da pista litorânea congestionada e começou a subir em direção a Awkar.

O motor do veículo roncava à medida que a estrada larga e plana se estreitava e se transformava em uma série de curvas sinuosas em ziguezague até a região do monte Líbano. Edificações desreguladas e irregulares dispunham-se ao longo da estrada, tornando-se mais raras à medida que a subida aumentava, o intervalo entre uma e outra permitindo uma visão mais ampla da magnífica floresta vislumbrada ao longe.

Corben ligou para Olshansky e lhe deu o número do celular de Abu Barzan. Disse-lhe que ele precisava localizar sua posição, que tudo indicava ser no norte do Iraque. Também lhe disse que o telefone provavelmente estava sendo usado naquele exato momento, e que Corben também queria saber quem esta­va do outro lado da linha.

Certificou-se de que Olshansky entendera que deveria concentrar todos os esforços nisso.

Estavam agora a apenas 10 minutos da embaixada, e Corben não tinha muito tempo para avaliar suas opções. Precisava telefonar de volta para Abu Barzan, embora já antecipasse o resultado. Apesar disso, não estava preparado para a interferência que inevitavelmente sofreria no minuto em que entrasse no complexo da embaixada.

Avistou uma estrada lateral que havia percorrido anteriormente, diminuiu a velocidade e seguiu por ela. Era uma estrada estreita com asfalto esburacado. Seguiu o caminho, passou por casas dispersas e prédios baixos que logo deram lugar a uma floresta de pinheiros. A estrada ficava plana antes de começar a descer montanha abaixo numa série de curvas fechadas. Ele estava a cerca de um quilômetro e meio da estrada principal quando parou numa pequena cla­reira e desligou o motor.

Era um lugar isolado, refrescado pela densa cobertura de árvores, por onde ocasionalmente penetravam etéreos raios de sol. Era também de uma quietude sepulcral, exceto pelo canto de acasalamento de inúmeras cigarras que ecoava ao redor.

Farouk olhou bem para as árvores e depois, confuso, virou-se para Corben. - Por que estamos parados aqui?

- Não quero telefonar da embaixada.

Farouk parecia meio desnorteado.

- Por que não?

- Prefiro acertar tudo isso antes de chegarmos lá - disse Corben com calma. - Não se preocupe com isso. Estamos a dois minutos de lá. Chegaremos antes do que você imagina.

Olhou para o relógio. Estava na hora. Pegou o telefone, procurou o penúltimo número discado e pressionou a tecla verde. Alguns segundos e começou a chamar.

Passou o telefone para Farouk ao ouvir a voz de Abu Barzan atender ao primeiro toque.

Farouk ouviu um pouco antes de se voltar para Corben, o rosto contorcido de dor e consternação.

- O comprador dele ofereceu seiscentos.

Era mais ou menos o que Corben esperava.

Sabia que seria inútil fazer uma contraproposta. Os objetos não valiam nem isso, o que significava que o comprador estava atrás da mesma coisa que ele, muito provavelmente preparado para pagar o que fosse necessário para conseguir as peças. Mesmo assim, pensou em fazer uma nova oferta. Se ele teria que comparecer com o dinheiro era um outro problema. Mas, antes mesmo que pudesse responder, notou que Farouk ainda parecia estar ouvindo atentamente o que Abu Barzan dizia.

A expressão no rosto do iraquiano ficou ainda mais pesarosa.

- Ele está dizendo que não adianta você oferecer mais dinheiro – repetiu Farouk, respirando com dificuldade. - Está dizendo que seu cliente sempre soube que iria conseguir as peças, o que significa que, se alguém está matando pessoas por causa delas, obviamente não é o comprador dele. E que ele está mais do que feliz com o preço. Ele nos agradece por termos aumentado a ofer­ta, mas diz que o negócio está fechado.

Corben franziu a testa. As coisas estavam fugindo ao controle. Ele precisava de uma vantagem, e a única carta que tinha na manga era ruim, podendo tanto funcionar como fazer o tiro sair pela culatra, dependendo da posição política de Abu Barzan, que ele não tinha tempo para verificar, e de sua propensão a se deixar intimidar.

Decidiu fazer uma tentativa.

- Ele fala inglês? Farouk assentiu.

- Passe-me o telefone.

Farouk murmurou uma breve apresentação, convenceu Abu Barzan a ficar na linha e então passou o telefone para Corben. Estava grudento de sangue.

- Não tenho como cobrir a proposta de seu cliente - disse-lhe Corben -, mas gostaria que você reconsiderasse minha oferta.

- Sinto muito, meu amigo - riu Abu Barzan. - Sei que meu comprador é real, sei que receberei meu dinheiro amanhã, e voltarei para Mosul como um homem rico, mas não sei nada sobre você. Aliás, vocês têm uma expressão para isso, não é? Algo como "conversa mole não enche barriga”.

- Só queria que você pensasse sobre algumas coisas - disse-lhe Corben calmamente. - Não se trata só de dinheiro. Trabalho para o governo americano, e posso imaginar coisas bem piores do que nos ter na posição de lhe dever um grande favor. Do jeito que as coisas estão se configurando no Iraque, devemos ficar aí por um bom tempo. E você pode achar que ter um amigo dentro do sistema poderá ser conveniente uma hora dessas. Sabe do que estou falando, não é?

Abu Barzan ficou em silêncio por um momento. Quando voltou a falar, o tom relaxado e gozador de sua voz havia desaparecido, tendo sido substituído por um frio desdém.

- Você acha que me dizer que trabalha para o governo americano vai fazer com que eu queira ajudá-lo? Você acha que pode fazer coisas para mim no

Iraque?

A tendência política era clara.

- Melhor nos ter em dívida com você do que irritados, isso é certo - retrucou Corben sem rodeios, sabendo que tampouco esse argumento funcionaria.

- Agora você está me ameaçando? - retrucou Abu Barzan, desandando a usar uma torrente de xingamentos. Estava no segundo "Foda-se" quando Corben desligou.

Farouk o fitava com os olhos arregalados e perplexos.

- O que ele disse?

Corben balançou a cabeça de leve.

- Ele não está interessado.

Farouk suspirou pesadamente.

- Então, você não tem o que trocar por Sitt Evelyn.

O que era verdade. Mas ele sabia quem tinha o livro. E agora tinha o telefone dessa pessoa.

Abu Barzan dissera a Farouk que estava indo entregar as mercadorias, e tam­bém que receberia o dinheiro "amanhã na parte da tarde”. Isso daria a Corben pouco mais de 24 horas para ir em seu encalço. Se Abu Barzan estava viajando e precisava ficar em contato com seu comprador, provavelmente não teria tempo e nem arriscaria mudar de telefone. Corben estava razoavelmente confiante de que Olshansky conseguiria localizar sua posição.

Fazendo uma avaliação, Corben chegou à conclusão de que as coisas não ti­nham saído tão mal assim. É certo que a descoberta de um outro comprador ha­via complicado tudo. Por outro lado, também trouxe à tona alguém que Corben estava muito interessado em encontrar, alguém que vinha se escondendo nas sombras com sucesso muito antes que ele tivesse efetivamente farejado alguma coisa. E tudo isso era, por si só, uma evolução muito bem-vinda.

Sobrava Farouk, sentado ali, respirando com muita dificuldade, gemendo e sujando de sangue todo o carro da embaixada que Corben pedira emprestado.

Corben conhecia esses tipos de ferimento. Sabia que na televisão as pessoas que levavam um tiro sempre ouviam que tinham tido sorte de ter sido "só" um ferimento e continuavam pulando por aí durante alguns dias apenas com uma grande atadura branca. A realidade era muito diferente. A maioria dos ferimentos por tiro necessitava de internação e tratamento intravenoso, As infecções se instalavam facilmente e eram muito freqüentes. E um ferimento como o de Farouk precisaria, na melhor das hipóteses, de pelo menos um mês de internação com sérios cuidados. Era também altamente provável que ele sentisse suas conseqüências, de um modo ou de outro, pelo resto da vida.

E isso era um problema.

Como ele havia dito a Farouk, um hospital não seria um lugar seguro, não em relação ao hakim, devido aos contatos dele na polícia libanesa. Além disso, a última coisa que queria era que o hakim soubesse que Farouk tinha sido baleado. E mesmo que o hakim não pegasse Farouk, ele acabaria desco­brindo o que Corben agora sabia, e qualquer vantagem que tivesse sobre ele estaria perdida.

Os detetives do Fuhud se envolveriam. O chefe do escritório. Provavelmen­te também a imprensa. Todos os movimentos, todas as escolhas que Corben fizesse ou quisesse fazer seriam examinados nos mínimos detalhes. O embai­xador e o governo libanês também seriam envolvidos. Se ficassem sabendo sobre as peças de Abu Barzan e conseguissem pegá-las, eles poderiam fazer um acordo com o hakim e trocá-las por Evelyn. O hakim teria o que estava procu­rando, sumiria nas sombras e Corben ficaria sem nada, a não ser frustração e toneladas de documentos. E se o hakim não conseguisse chegar a Farouk, ou se nenhuma transação fosse consumada, ele também desapareceria.

Isso tudo descartava o hospital.

Tampouco podia manter Farouk na embaixada. Lá não havia recursos médicos. Já seria muito ruim se Farouk morresse no hospital, mas se morres­se na embaixada... O embaixador era um sujeito honrado, de princípios, que não guardaria segredo da presença de Farouk, nem para o Departamento de Estado, nem para as autoridades locais. A morte do iraquiano em território americano criaria um problema que arruinaria tudo.

Ele não conseguiria o que estava procurando.

Examinando tudo racionalmente, percebeu que Farouk não tinha mais nenhum valor para ele. Ele entrara na história acidentalmente, e agora que Cor­ben sabia que Farouk conhecia Abu Barzan, o iraquiano perdera a utilidade.

Mais do que a utilidade.

Ele se tornara um peso morto.

Para onde quer que olhasse, tudo o que Corben via eram perguntas, obstáculos, complicações e sofrimento vindo em sua direção.

Não tinha realmente muita escolha.

Voltou-se para Farouk. O iraquiano ferido parecia um animal dilacerado, envolto e embebido em sangue. Seu rosto brilhava de suor e parecia ainda mais pálido na luz opaca e difusa da floresta. Todo seu corpo tiritava de frio e suas mãos trêmulas, já com uma capa grossa de sangue sobre elas, ainda tentavam fazer alguma pressão sobre o ferimento. Fitava Corben com os olhos assusta­dos e inertes, e mal conseguia mantê-los abertos.

Abriu a boca rachada e seca para dizer alguma coisa, mas Corben, calmamente, fez-lhe um sinal para que ficasse quieto e se inclinou sobre ele.

- Sinto muito - disse.

Farouk olhou para ele com uma leve perplexidade.

Corben partiu para cima dele. Com uma das mãos, segurou a cabeça dele para trás. Com a outra, bateu em seu rosto, pressionando com força, mantendo sua boca e seu nariz tampados.

Farouk, com os olhos esbugalhados, agitava os braços, mas já não havia vestígio de força neles. Corben deu um soco bem perto de seu ferimento, e ele soltou um grito abafado de dor, inclinando-se para a frente. Corben o em­purrou de volta para o banco, continuando a impedir sua respiração. Farouk começou a tossir e a resfolegar, emitindo um som pesado e gorgolejante, seus olhos quase saindo das órbitas enquanto olhava fixo para Corben num horror primal. Corben apertou ainda mais, sentindo as forças do iraquiano se esvaírem, sentindo os últimos fiapos de vida abandonarem seu corpo exaurido, até acabar com toda e qualquer inútil tentativa de resistência.

 

Pela janela de sua sala no setor de imprensa, Mia viu a Pathfinder passar pelo anexo, seguindo em direção aos fundos do complexo. A janela do lado do motorista estava aberta, permitindo que ela reconhecesse Corben enquanto ele passava com o carro pela entrada de um estacionamento numa parte coberta, mantida longe do prédio principal como uma medida adicional de segurança contra carros sabotados.

Ela se levantou de um salto e olhou para fora, seu pulso acelerando enquan­to concentrava o olhar no carro. O ângulo não lhe permitia ver se havia alguém no banco do carona. Segundos intermináveis se arrastaram até que Corben finalmente apareceu, vindo de detrás do abrigo similar a um bunker.

O coração de Mia quase parou. Ele estava sozinho.

E, o que era pior, estava coberto de alguma coisa que só poderia ser sangue. E como se tudo isso não bastasse, a carranca amarga que escurecia seu rosto dizia tudo.

Mia sentiu os joelhos falharem. Recostou-se na cadeira, sentindo uma gran­de laceração dentro do peito.

Nada de Farouk.

Não havia mais como conseguir o livro.

Nada para trocar por sua mãe.

 

Corben fechou os olhos e deixou a torrente de água quente lavar a exaustão de seu corpo dolorido. O ginásio da embaixada não tinha janelas e era um abrigo isolado enfiado no fundo do porão do anexo, e, nesse momento, o cubículo com chuveiro permitiu que Corben se livrasse do sangue e da sujeira resultantes do que se revelara seu dia mais intenso desde que fora mandado para aquela cidade conturbada.

A caminho da embaixada, pensara com cuidado no que diria a seus chefes - o chefe do escritório e o embaixador - antes de ligar para eles e dar o alerta. Farouk tinha sido baleado. Mortalmente. Morrera antes que ele tivesse con­seguido levá-lo a um hospital. E naquele momento só lhe restara uma opção: precisava garantir que os seqüestradores não ficassem sabendo que ele tinha sido morto. Se soubessem, poderiam pensar que a informação sobre a locali­zação das relíquias morrera com ele, e, dessa forma, não haveria nada com que negociar a libertação de Evelyn.

Não podia levar o corpo de Farouk para a embaixada, que era tecnicamente solo americano. Tampouco podia entregá-lo para a polícia. Esta parecia estar in­filtrada a tal ponto que logo os seqüestradores saberiam que Farouk estava morto, até mesmo antes do corpo esfriar. Tinha que sumir com ele. Pelo menos por um período, o tempo necessário para encontrar outra forma de libertar Evelyn.

Então, se embrenhou pela floresta de pinheiros, a leste da cidade, e jogou o corpo lá, às margens de uma pequena trilha pouco usada. Sem ninguém por perto. Se, e quando, o corpo fosse finalmente descoberto, Corben e a embaixa­da teriam como negar qualquer envolvimento com o caso. Sim, Corben tinha ido embora de carro com Farouk, mas ele fora ferido no tiroteio e abandonara o carro às pressas quando ficaram presos num engarrafamento. Uma teoria in­teiramente plausível seria que os homens que o perseguiam e tinham matado o professor-assistente o tinham alcançado. A essa altura, toda a história provavel­mente já estaria morta e enterrada, e ninguém se importaria com o destino de um estrangeiro ilegal, menos ainda sendo ele um iraquiano.

Corben, de fato, não tivera escolha. Foi uma decisão difícil de ser tomada naquelas circunstâncias. Era isso ou arriscar todo o esforço feito. O que ele não pretendia fazer. A oportunidade de ouro que ele buscava era importante demais para isso.

Livrou-se de toda aquela apreensão e seus pensamentos logo se dirigiram para coisas mais produtivas. Olshansky conseguira um primeiro contato com o celular de Abu Barzan. Ele não estava no norte do Iraque, como pensavam. O sinal do telefone estava percorrendo algum lugar no leste da Turquia, perto da fronteira com a Síria. Olshansky precisaria de um pouco mais de tempo para obter uma localização mais precisa do telefone. Ele dissera a Corben que estava confiante de poder rastrear o homem, mas que trabalhar retroativamente para descobrir quem tinha entrado em contato com ele ia ser mais difícil, envere­dando a seguir por um jargão tecnológico tão complicado sobre sistemas de rede incompatíveis que Corben desligou.

A localização não foi uma surpresa para Corben. Um comprador estrangeiro não se arriscaria a entrar no Iraque para receber as peças, e Mosul – de onde Abu Barzan estava vindo - não era longe da fronteira turca. Corben conhecia a área relativamente bem. Era predominantemente curda, em qual­quer lado da fronteira, assim como Mosul. Ele achou que o comprador teria tomado providências para que a transação fosse feita em Batman, Mardin ou Diyarbakir. Todas as três cidades tinham aeroportos com vôos regionais e vôos fretados, e as três ficavam a poucas horas de carro da fronteira da Turquia com o Iraque.

Corben não queria perder essa operação.

A revelação de Farouk de que havia um comprador pagando uma fortuna pelo pequeno tesouro de Abu Barzan colocou em dúvida todos os planos de Corben. Até aquele momento, o hakim fora seu principal alvo, o único homem em seu radar que ele sabia estar correndo atrás do sonho com implacável in­tensidade. Esse comprador misterioso era agora para Corben no mínimo tão interessante quanto o hakim. De alguma maneira ele ficara sabendo, antes do hakim, sobre a possibilidade de obtenção do livro. Ele o ultrapassara na luta para assegurar sua posse. Que diabo, ele podia muito bem saber mais sobre o livro e sua importância do que o hakim. A pergunta era: o que ele sabia era o bastante para fazer com que o hakim se tornasse irrelevante para os planos de Corben, ou seu trabalho estava incompleto? Será que ele já tinha solucionado como tratar a questão ou ainda precisaria dos últimos recursos e meios do hakim para transformar o sonho em realidade?

Dois alvos estavam agora na mira de Corben. Um iria, sem dúvida, entrar em contato com ele: o hakim presumiria que Corben estava com Farouk - e o livro - e iria querer negociar. O outro deveria estar a caminho de um encontro tranqüi­lo em algum lugar ao leste da Turquia. Corben tinha que estar presente a esse en­contro, mas tinha que encontrar uma forma de fazê-lo à sua maneira, sem envolver seus colegas da embaixada. A essa altura, com exceção do comprador misterioso e do próprio Abu Barzan, ninguém mais sabia da transação iminente. Queria manter as coisas assim, pelo menos até que conseguisse planejar sua viagem para a Turquia em seus próprios termos. Precisava escolher cuidadosamente as palavras se pretendesse ser bem-sucedido na operação sem atrair atenção indevida.

De um modo ou de outro, o final do jogo estava próximo.

 

Kirkwood analisou o rosto de Corben enquanto ouvia seu relato com crescente desconforto.

As coisas não haviam saído como planejadas. Tinha-se que reconhecer que Corben estava ganhando o jogo. Nunca houve garantias de que eles consegui­riam interceptar a chamada para Ramez, e muito menos levar a melhor, de fato, sobre os seqüestradores em relação a Farouk. Corben se saíra notavelmente bem ao pegar o iraquiano antes deles, e ele teria obtido êxito, não fosse o infeliz disparo que atingiu Farouk.

Ele examinou cuidadosamente os outros rostos na sala. O embaixador e Hayflick, o chefe do escritório, também ouviam atentamente à medida que Corben lhes apresentava seu raciocínio com uma clareza impressionante.

- Então, o que temos? - perguntou o embaixador. - Sabemos onde ele escondeu as peças procuradas pelos seqüestradores de Bishop?

        Corben balançou negativamente a cabeça.

        - Não tive tempo de obter essa informação dele. Ele estava em choque, dizendo coisas desconexas em árabe, antes que seu corpo perdesse as forças.

        O embaixador assentiu de modo taciturno.

        Kirkwood mantinha o olhar fixo em Corben. Perguntava-se se ele também sabia que não havia nenhum estoque valioso a ser descoberto. A ligação de Abu Barzan suscitara perguntas complicadas na cabeça de Kirkwood, e como Farouk não havia sido pego pelos seqüestradores, o outro interessado em arre­matar as peças não era um deles. O que significava que era uma outra pessoa. E o timing foi perfeito demais para que fosse descartada a possibilidade de que essa outra pessoa estivesse ligada a Corben, se é que não era ele mesmo.

O que levava a algumas conclusões perturbadoras.

Uma era a de que Corben, muito provavelmente, estava a par da transação turca prestes a acontecer. A outra era a de que, devido aos planos que ele pa­recia seguir, trazer Evelyn de volta em segurança talvez não fosse exatamente uma prioridade para ele.

- Você acha que os seqüestradores vão entrar em contato? – Kirkwood sondou.

- Eles têm que fazer isso - especulou Corben. - Neste exato momento, eles acham que nós temos Farouk em nosso poder, o que significa que devem pensar que também sabemos do esconderijo da mercadoria. E é atrás disso que eles estão. Tenho que achar que vão entrar em contato e oferecer para trocar Evelyn por essa informação. Pelo menos, é o que espero que façam. Agora, parece ser nossa única chance de trazê-la de volta.

Um silêncio sombrio pairou sobre a sala.

"Não é o bastante”, pensou Kirkwood. Ele não se sentia confortável com o uso da estratégia de rezar e esperar, nem com o perigo potencial de um blefe, caso eles ligassem. Ele precisava agitar as coisas.

- Precisamos mandar um sinal para eles - sugeriu ele. - Uma mensagem. Vamos fazer com que saibam que estamos prontos para negociar. - Virou-se para o embaixador. - Talvez você possa dar uma declaração à imprensa. Algo do tipo "estamos esperando um contato por parte dos seqüestradores para que possamos resolver o problema, dando-lhes aquilo de que necessitam para che­garmos a uma conclusão mutuamente satisfatória”. Esse tipo de coisa.

A expressão no rosto do embaixador anuviou-se.

- Você conhece bem nossa política para negociações com seqüestradores. Quer que eu apareça na televisão convidando-os a fazer um acordo?

- Eles não são terroristas - Kirkwood lembrou a ele. - São contrabandistas de antigüidades.

- Ah! Por favor, Bill. Isso é um detalhe que ninguém vai perceber. Para a maioria das pessoas que vão assistir, é tudo a mesma coisa.

Kirkwood franziu a testa em sinal de frustração.

- E a menina Bishop? Uma filha fazendo um apelo emocional para que sua mãe volte.

- Não vejo problema nisso - admitiu o embaixador. - Tudo bem, vou planejar alguma coisa. Mas vai ser complicado usar um blefe como esse não tendo as peças conosco.

- Se recebermos essa ligação e eles quiserem negociar, vamos conseguir trazê-la de qualquer maneira - Hayflick assegurou. - Podemos armar tudo de forma a ficarmos em vantagem.

Kirkwood virou-se para Corben. Achou que havia sinais de desagrado em sua fisionomia dura, mas o rosto do agente não mostrou grande coisa. Ele apenas agradeceu a sugestão de Kirkwood com um pequeno e pensativo aceno de cabeça.

No fundo da mente de Kirkwood, havia outra coisa que exigia atenção. Cada vez mais ele considerava que seria inevitável. Ele e seus companheiros estavam todos de acordo com isso. "Faça o possível para libertar Evelyn sem expor o projeto. Mas, se for inevitável, então use o livro”. Como ainda não vira o livro, não tinha certeza se desistir dele iria expor alguma coisa, mas isso po­deria pôr em risco o trabalho deles e comprometer todo um legado que levara anos para ser construído.

Ele não precisava tomar essa decisão imediatamente. Seria irrelevante, já que os seqüestradores não haviam feito contato.

Sentiu uma vibração no bolso e pegou o telefone. Olhou para o identificador de chamadas. Era seu principal contato nas Nações Unidas.

- Desculpem, mas tenho que atender essa ligação - desculpou-se com os outros ao se levantar e sair da mesa.

A voz brusca do outro lado da linha foi direto ao ponto.

- Sobre aquilo que você me perguntou - disse seu contato na ONU. - Esse tal hakim. Acho que tenho alguma coisa para você.

 

As palavras pesarosas pronunciadas por Omar inflamaram o hakim.

- Ele escapou, mu'allimna. O americano está com ele.

O hakim ferveu de raiva e incredulidade. Como Omar pôde falhar de novo?

O homem tinha todas as vantagens necessárias. Tinha os recursos, os contatos, o poder de fogo e, ainda assim, falhou.

Omar repetia as explicações e as desculpas, mas o hakim o calou com uma feroz repreensão. Não precisava ouvir os detalhes. Só lhe importavam os resultados. E precisava de pessoas capazes de produzir esses resultados. Quan­do tudo isso estivesse terminado, ele providenciaria a substituição de Ornar. Teriam de arranjar para ele alguém mais confiável. Mais capaz. Alguém que conseguisse realizar o trabalho.

Acalmou a respiração e se concentrou no passo seguinte. Sabia que ainda tinha um trunfo. Eles lhe dariam o que estava procurando em troca da mulher, não duvidava disso. Mas a negociação implicaria riscos, e, tendo em vista os últimos feitos de Ornar, não havia garantias de que pudessem levar o plano a cabo sem deixar rastro. O hakim detestava correr riscos desnecessários, mas a incompetência de Omar fizera com que um grande risco se tornasse inevi­tável. Trocas de reféns nunca eram perfeitamente seguras, para nenhuma das partes.

Uma outra coisa percorria suas veias, algo muito mais venenoso do que a ameaça intimidadora da troca: o americano humilhara seus homens outra vez, o que significava que também o humilhara. Tinha sido uma afronta pessoal, um insulto grave, algo que o hakim considerava intolerável e imperdoável. A transgressão precisava ser punida. A ordem tinha que ser restaurada.

- Ligue para seus contatos. Faça isso agora. Quero saber tudo que existe sobre esse americano - disse com voz estridente. - Tudo.

 

Abrigada em seu quarto de hotel, Mia se via na televisão com controlado distanciamento. Olhando para a tela, observou seu rosto aparecer, de forma bizarra, recitando o apelo cuidadosamente escrito que Corben lhe dera antes de entregá-la ao adido de imprensa da embaixada. Não conseguia registrar a imagem da tela. Parecia outra realidade, um universo paralelo surreal que ela observava por uma fenda em algum continuum tipo Matrix, só que não era isso. Era real. Total e inquestionavelmente real.

Com pesar no coração, ligou para a casa de sua tia em Nahant pouco antes da entrevista coletiva. A tia atendera e, pelo alegre tom de voz, ainda não tinha sido informada sobre o seqüestro. Mia reuniu coragem com uma breve troca de gracejos e então, com muito cuidado, contou-lhe o ocorrido. Foi uma conversa difícil, mas a tia era uma mulher forte que, embora imensamente preocupada, recebeu a notícia corajosamente. Mia avisou-a da coletiva de im­prensa e garantiu-lhe que todos os esforços estavam sendo feitos para encon­trar Evelyn e trazê-la de volta em segurança, acrescentando que, sim, também ela tomaria cuidado. Desligara, sentindo uma dor no peito.

Baixou o volume e ficou refletindo sobre o terrível relatório de Corben. Com a morte de Farouk e o sumiço de suas valiosas peças, não havia o que tro­car por Evelyn. Era uma péssima notícia. Ela pensara em voltar ao apartamento de Evelyn para procurar entre suas coisas e ver se achava algum outro livro, algum que induzisse os seqüestradores a querer fazer uma troca, mas Corben a dissuadira rapidamente. Já tinha estado lá e feito isso. Não encontrara nada no apartamento que pudesse substituir o livro.

Além do que, isso agora não importava. Os canalhas não tinham feito contato.

Esperava, ou melhor, rezava silenciosamente para que fizessem isso. Tinham que fazer. Que sentido teria levá-la se não fosse para trocá-la por alguma coisa?

O noticiário mudou para algum outro assunto emocionante. Ela desligou a TV e olhou em volta. Detestava a absoluta solidão em que se encontrava e relembrou a noite anterior, passada no apartamento de Corben. Embora mal o conhecesse, sua presença era reconfortante. Ela se deu conta de que vivenciara mais coisas com ele, nas poucas horas em que estiveram juntos, do que com a maior parte dos homens com quem se relacionara. Pensou em ligar para ele e perguntar se havia alguma novidade, mas descartou esse pensamento, certa de que não seria boa idéia.

Deu uma olhada para a cama e percebeu que, para que o sono viesse, seria necessário forçá-lo, atraí-lo, induzi-lo.

Pegou a chave e o celular e encaminhou-se para a porta.

 

Na sala escurecida, Corben desligou a TV e foi para o quarto. Tinha sido um dia tenebroso, talvez o mais desafiador de sua vida. Passara por ele graças a uma torrente de adrenalina, mas esse poço estava, no momento, completamen­te seco. Sentiu a exaustão da batalha em cada parte do corpo, que clamava por uma trégua. Não pretendia questionar isso.

Enfiou-se na cama e apagou a luz. O blecaute das cortinas bloqueou o mundo exterior, e deixou sua mente divagar. Resistiu durante algum tempo, revirando obstinadamente as tarefas por fazer.

Seus pensamentos se detiveram no telefonema de Evelyn Bishop para Tom Webster. Corben pedira a uma analista de mineração de dados de Langley que jogasse o nome no sistema. Apareceram muitos resultados - o nome era surpreendentemente comum. Corben fornecera à analista a idade aproximada e alguns antecedentes significativos para diminuir o campo de busca, mas asso­ciar o nome a uma identidade, se é que seria possível, levaria tempo.

Desviou sua atenção para um assunto mais urgente a seu alcance. O último relatório de Olshansky mostrara que o iraquiano tinha passado a noite em Diyarbakir, uma cidadezinha no sudeste da Turquia, a cerca de 80 quilômetros da fronteira síria. Corben achara que o homem iria para Mardin, que ficava umas duas horas mais perto da fronteira do Iraque. Ambas tinham aero­portos, mas o de Diyarbakir era melhor, a cidade, maior, e os visitantes não corriam o risco de chamar tanta atenção. Usando a triangulação, Olshansky localizara o negociante num raio de aproximadamente 50 metros, o que, num lugar distante como Diyarbakir, estava de bom tamanho.

Corben tinha que pensar num jeito de chegar lá sem prevenir os colegas do que poderia achar ali. A agência tinha gente trabalhando nas imediações, mas ele não queria delegar a tarefa. Queria estar lá pessoalmente e não desejava que Hayflick, ou qualquer outro, aliás, soubesse a verdadeira razão. Pensou em usar o rastreamento do telefone de Olshansky para justificar a viagem. Dizer que era alguém para quem Farouk telefonara do café. Alguém que interessa. Diyarbakir ficava apenas a uns 500 quilômetros de distância. Não levaria mais do que umas duas horas para voar até lá num avião de pequeno porte. Precisaria providenciar isso bem cedo na manhã seguinte, se quisesse chegar a tempo de surpreender o misterioso comprador.

A idéia desse encontro o agradou e o embalou no sono extremamente necessário.

 

Dois andares acima do quarto de Mia, Kirkwood ergueu os olhos de seu laptop e meio que observou seu depoimento na TV. Já o tinha visto em um dos outros canais locais. Os assessores de imprensa da embaixada tinham feito um bom trabalho, assim como Mia; não havia dúvida de que os seqüestradores de sua mãe receberiam o recado.

Sua atenção estava voltada para outra coisa, e seus olhos retornaram à tela do laptop e ao arquivo macabro enviado por seu contato nas Nações Unidas. Já o lera uma vez e o leria novamente.

Era o arquivo do hakim.

O documento continha informações sobre Corben como o agente encarregado de localizá-lo. Corben era íntegro. Suas missões tinham consistido em trabalho de campo rotineiro da agência no Oriente Médio, nada muito ruim ou muito tempestuoso. Foi a informação relativa ao hakim que abalou Kirkwood.

Seus contatos no Iraque tinham mencionado alguém que, algumas vezes, nos últimos anos, perguntava sobre o uróboro, mas nunca conseguira desco­brir quem estava por trás dessa averiguação. As pessoas tinham medo de falar durante o governo de Saddam.

Ainda mais nesse caso.

Com o peito contraído de repugnância, tornou a examinar o dossiê. O que fora descoberto no Iraque era mais que monstruoso. As autópsias feitas em alguns cadáveres encontrados após a revista no complexo do hakim confirmaram, com pavorosos detalhes, no quê o homem vinha trabalhando. Havia pouca dúvida quanto ao que ele estava tentando.

Muitas das técnicas que vinha testando tinham sido experimentadas em animais de laboratório, principalmente ratos, com vários graus de sucesso em rejuvenescimento dos animais ou prolongamento de suas vidas. A questão é que o hakim não estava usando ratos. Estava realizando as mesmas experiên­cias com seres humanos.

Uma dessas experiências, empreendida com grande repercussão por neurocientistas italianos e americanos no começo da década de 1990, era o trans­plante de tecido retirado da glândula pineal de ratos mais jovens para ratos mais velhos, e vice-versa. Simplificando, os ratos mais velhos ficaram mais novos e os ratos mais novos envelheceram. Os primeiros pareciam saudáveis, sendo capazes de correr em volta das gaiolas, fazer girar as rodas com espantoso vigor e viver mais do que animais da mesma idade no grupo de controle; o pêlo dos outros perdeu o brilho, eles ficaram lentos a ponto de não conseguir executar truques básicos, dominados com facilidade antes dos transplantes, e morre­ram mais cedo. As autópsias realizadas nos animais também mostraram que alguns dos órgãos internos dos ratos mais velhos que receberam os transplantes dos mais jovens mostravam impressionantes sinais de rejuvenescimento. Considerando-se que a glândula pineal é responsável pela produção do hormô­nio melatonina, o rejuvenescimento foi atribuído a um aumento dos níveis de recipientes de melatonina, o que desencadeou a fissura por suplementos dessa substância.

O quadro geral, no entanto, não era promissor: os cientistas que examinaram mais de perto os resultados descobriram que os ratos usados nos experi­mentos tinham um defeito genético que efetivamente os impedia de produzir melatonina. Atribuir seu aprimoramento fisiológico a ela, portanto, era clara­mente absurdo. Entretanto, provar que a melatonina não era responsável por suas vidas mais saudáveis e mais longas não negava que eles, de fato, pareciam mais novos e viviam mais tempo. Algo era responsável por isso. Só que não era a melatonina.

As autópsias indicaram que algumas das experiências do hakim tinham o objetivo de descobrir se os enxertos e transplantes da glândula pineal produziam os mesmos efeitos em seres humanos. Fazer essas experiências com seres humanos não era fácil. A glândula pineal, do tamanho de uma ervilha nos humanos, fica localizada no centro do cérebro. É mais ativa até a puberdade, depois se calcifica na vida adulta e, segundo se acredita, se torna obsoleta. Isso significa que as únicas glândulas pineais que valem a pena ser colhidas são as de crianças ou adolescentes, e a microcirurgia endoscópica necessária para se chegar a elas era complexa, delicada, envolvendo altos riscos para o doador.

O que não chegava a constituir um problema, se havia uma provisão infini­ta de crianças sacrificáveis.

O outro grande problema é que os experimentos de prolongamento da vida eram, na maioria das vezes, realizados em espécies que tinham vidas de curta duração, para que se pudesse efetivamente observar e documentar as mudanças dentro de um período razoável de tempo. Os insetos efemerídeos eram ideais, já que vivem apenas um dia. Os vermes nematódeos, que vivem por cerca de duas semanas, também eram comumente usados, assim como os ratos de laboratório, embora seu tempo de vida, de aproximadamente dois anos, os deixasse longe do ideal. Períodos muito mais longos de observação eram necessários para que se pudesse notar alguma mudança significativa em humanos. Isso quer dizer que, após serem submetidos aos tratamentos radicais do hakim, as cobaias de seus testes precisavam permanecer encarcerados por meses, ou anos, antes que os resultados de suas experiências aparecessem.

As autópsias mostraram que o hakim não estava apenas brincando com as glândulas pineais. Outras glândulas, como a pituitária e o timo, também faziam parte de seu repertório, assim como os testículos, nos homens, e os ovários, nas mulheres. Em algumas vítimas, limitara sua experimentação ao estudo dos efeitos de vários hormônios e enzimas nos corpos das cobaias. Seu trabalho estava notavelmente avançado, abrangendo tanto os elementos de prolonga­mento da vida como a telomerase - quanto as fixações mais recentes – como as da proteína PARP-l. O equipamento de que dispunha era de última geração, e não havia dúvida de que era um hábil cirurgião e biólogo molecular.

Invariavelmente, suas cobaias humanas sofriam mortes horríveis. Alguns dos homens, mulheres e crianças que passaram por suas dependências cirúrgicas eram mantidos para que ele pudesse retirar deles as partes que lhe interessavam e depois eram simplesmente descartados. Outros, os receptores, suportavam longos períodos de vida sofrendo os efeitos de seus procedimentos insanos, e quando seus corpos finalmente expiravam, ele não tinha qualquer escrúpulo em abri-los para verificar o que tinha dado errado antes de jogar seus restos numa vala comum.

Kirkwood ficou enjoado. Um gosto de fel provocado pela raiva queimou sua garganta. Ele tinha conhecimento de cientistas que fugiram na surdina para paí­ses em que pudessem levar adiante suas terríveis experiências sem se preocupar com ativistas ou comitês de ética. Mas isso era diferente. Isso ia muito além de qualquer coisa que ele pudesse considerar humanamente possível.

Era o verdadeiro mal.

A parte mais chocante era o fato de Corben, segundo o arquivo, ter sido incumbido de encontrar o hakim.

Não de acabar com ele.

De tirar proveito de seus talentos.

Não era a primeira vez. Os governos estavam sempre dispostos a perdoar transgressões passadas, por mais tenebrosas que fossem, e pactuar com o diabo, se isso significasse pôr as mãos em pesquisa inovadora e valiosa. O governo dos Estados Unidos foi um dos primeiros a adotar esse modelo. Fizeram isso com cientistas nazistas que desenvolviam foguetes. Fizeram isso com especialistas russos em guerra nuclear, química e biológica. E, ao que tudo indica, estavam dispostos a fazer o mesmo com esse hakim.

A missão de Corben era achar o hakim e trazê-Io para o covil. O seqüestro de Evelyn lhe permitira estabelecer contato com ele. Mas isso só podia significar que, aos olhos deles, ela era dispensável. Um meio para um fim. Apenas isso.

Lembrou-se subitamente do inesperado telefonema de Abu Barzan. A sur­presa de um novo comprador. Na mesma hora em que Farouk era mortalmente ferido.

Enquanto estava sob a custódia de Corben.

Antes que tivesse morrido.

Até onde estão dispostos a chegar?

Precisava rever seus planos.

Kirkwood se perguntou quem mais estaria no circuito. Estariam todos metidos nisso? Hayflick, o chefe do escritório - provavelmente. O embaixador - talvez não. Kirkwood não tivera essa impressão dele, mas, por outro lado, esse pessoal costumava mentir como meio de vida.

Precisaria chamar os outros, informá-los de suas descobertas. Sabia que concordariam. Tinha que abortar a missão de Corben, mesmo que isso significasse colocar o projeto em risco. A vida de Evelyn dependia disso, como dependiam as vidas de incontáveis inocentes que poderiam ir parar nas mesas cirúrgicas do monstro.

Imagens das vítimas do hakim emboscavam cada pensamento dele. Sabia que tão cedo não conseguiria pegar no sono.

Um barulho de pancadas abafadas fez com que Corben acordasse de um salto.

Levantou-se, os olhos mal registrando os fantasmagóricos números 2:54 do despertador em sua mesinha-de-cabeceira, o cérebro enevoado ainda en grenando e lutando para processar algum ruído no limiar de sua percepção auditiva: passos rápidos, correndo furtivamente pelo frio chão de cerâmica de seu apartamento, vindo diretamente em sua direção.

Ele se deu conta do que estava acontecendo e sua mão, instintivamente, mergulhou na gaveta da mesinha-de-cabeceira em busca da arma, mas, mal seus dedos conseguiram pegá-la, a porta se abriu com violência e três homens cujas feições não conseguiu distinguir no escuro precipitaram-se quarto adentro. O líder fechou a gaveta com um chute, batendo-a com força contra o punho de Corben, que cambaleou de dor, virando-se a tempo de vislumbrar o braço erguido do homem, descer sobre ele como um raio.

Pensou ter visto uma arma na mão dele uma fração de segundo antes que o golpe atingisse seu crânio e o fizesse desabar numa súbita e absoluta inconsciência.

 

O terraço da cobertura do hotel Albergo era muitíssimo relaxante, uma agradável mudança em comparação com o alvoroço caótico do bar do hotel em que Mia se hospedara anteriormente.

Nunca tinha estado ali antes. Perdidas entre pés de jasmim e de figueiras anãs, algumas pessoas se espalhavam pelos recessos escuros desse oásis sus­penso que se sobrepunha aos telhados da cidade e ao mar, mais adiante. Achou um cantinho calmo e, em pouco tempo, entregou-se a um reconfortante mar­tini. E. B. White tinha apelidado o drinque de seu "elixir da quietude': o que agora estava funcionando muito bem para ela.

Estava perdida demais em seus pensamentos para notar que era a única pessoa desacompanhada no lugar. Muita coisa tinha acontecido nas últimas 48 horas, e sua mente tinha muito o que analisar.

Procurava um garçom para pedir mais um martíni quando Kirkwood surgiu e se juntou a ela. Partilharam uma rodada e engrenaram num papo desconcertante, comentando brevemente sobre o charme do hotel e as contra­dições da cidade. Mia pôde perceber que o pensamento dele estava longe dali. Seus olhos irradiavam um mal-estar profundo. Alguma coisa obviamente o perturbava.

Ele foi o primeiro a desviar o assunto para a maré difícil que vinham atravessando.

- Vi a transmissão. Você estava ótima. Vai funcionar. O hakim certamente receberá o recado. Eles vão ligar.

- Mas e aí? - perguntou Mia. - Não temos nada para oferecer a eles, e tentar algum tipo de blefe... - Deixou as palavras no ar.

- Os rapazes da embaixada conhecem seu oficio assegurou-lhe Kirkwood. - Vão saber o que fazer. Conseguiram chegar até Farouk antes dos homens do hakim, não foi?

Ela notou que ele também não estava animado com as perspectivas, mas soube apreciar seu esforço.

- É... E veja no que deu.

Kirkwood conseguiu esboçar um meio sorriso.

- Estou com meus contatos no Iraque trabalhando nisso. Tenho certeza de que descobrirão alguma coisa.

- O quê? O que poderiam encontrar que fizesse alguma diferença?

Não tinha, na verdade, uma resposta para lhe dar. Um garçom, com movimentos discretos, repôs os palitos de cenoura e os pistaches, e então Kirkwood disse, numa surpreendente mudança de curso:

- Nunca soube que Evelyn tinha uma filha.

- Eu não estava por perto - disse Mia. - Morava com minha tia. Em Boston. Bem, perto de Boston.

- E seu pai?

- Ele morreu antes que eu nascesse.

Uma sombra cruzou o rosto dele.

- Sinto muito.

Ela deu de ombros.

- Eles estavam juntos. No Iraque. Naquela câmara. Um mês depois, ele morreu num acidente de carro. - Ergueu os olhos para Kirkwood, sem qual­quer traço de leveza na voz. - Essa devoradora de rabo está me saindo um belo de um talismã, não é mesmo?

Kirkwood permaneceu em silêncio, assentindo de modo sombrio.

- Isto é, que diabos este maluco está pensando? - deixou escapar, com raiva. - Está tentando reviver alguma praga bíblica, ou realmente espera en­contrar uma poção mágica que o fará viver para sempre? Quero dizer, como é que se pode sequer tentar argumentar com alguém assim?

Kirkwood ergueu uma sobrancelha.

- Você acha que o hakim está atrás de alguma fonte da juventude? De onde tirou isso? Eu vi o dossiê dele. Não há qualquer menção a algo desse tipo.

Mia ignorou a observação e, quase zombando de si mesma, mencionou sua conversa com Boustany sobre elixires.

Kirkwood tomou um gole de seu coquetel, como se pesasse suas próximas palavras. Descansou o copo e olhou para ela.

- Bem, é você a geneticista. Diga-me. É realmente tanta loucura assim?

- Faça-me o favor - zombou Mia.

Ele não debochou junto. Estava sério.

- Você está realmente me perguntando se é possível? - questionou ela.

- Estou dizendo apenas que transplantes de rosto eram considerados impossíveis alguns anos atrás. Agora estão sendo realizados. Se você pensar nos avanços obtidos pela medicina nos últimos anos... é espantoso. E tem sido uma sucessão de êxitos: mapeamos o genoma humano; clonamos uma ovelha; aca­bamos de ter sucesso na criação de tecido cardíaco a partir de células-tronco. Então, não sei. Talvez isso seja possível.

- É claro que não - respondeu Mia desdenhosamente.

- Vi um documentário uma vez sobre um cientista russo lá pela década de 1950. Acho que seu nome era Demikhov. Ele estava fazendo pesquisas sobre transplantes de cabeça. Para provar que era factível, ele enxertou a cabeça e a parte superior do corpo de um filhote de cachorro num cão maior e criou um cachorro de duas cabeças. A coisa andou de lá para cá alegremente e durou uns seis dias. - Encolheu os ombros. - E esse é apenas um dos casos que chegou a nosso conhecimento.

Mia se inclinou, com um olhar cheio de convicção.

- Transplantes têm a ver com o restabelecimento de conexão de nervos, veias e, talvez, até mesmo da medula espinhal, algum dia. Mas isso é diferente. Isso tem a ver com a interrupção dos danos sofridos por nossas células, por nosso DNA, por nossos tecidos e órgãos cada vez que respiramos. Tem a ver com erros na replicação do DNA, com moléculas no interior de nosso corpo sendo bombardeadas pelos radicais livres e fazendo mutações equivocadas, degradando-se com o passar do tempo. Tem a ver com deterioração pelo uso.

- Mas é o que estou dizendo. Não são os anos, mas a quilometragem - alegou ele enfaticamente. - Você está falando de células que ficam danifica­das e sucumbem, o que é muito diferente de dizer que estão programadas para viver um certo período de tempo e depois morrer. É como se você comprasse um novo par de tênis de corrida. Você os usa, corre com eles, as solas ficam gas­tas e o calçado cai aos pedaços. Se você não os usar, eles não vão simplesmente se desintegrar dentro da caixa após alguns anos. Deterioração pelo uso. É por isso que morremos, não é? Não há um relógio tiquetaqueando que diz a nosso corpo que o tempo acabou. Não estamos programados para morrer, estamos?

Mia se remexeu no assento.

- Esta é uma maneira de ver as coisas.

- Mas é a que predomina no momento, não é?

Mia sabia que sim. Era uma especialização pela qual chegara a se interessar, mas acabou mudando de direção, por perceber que a pesquisa contra o enve­lhecimento era o parente constrangedor de que ninguém gostava de falar. A biogerontologia - a ciência do envelhecimento - tinha enfrentado tempos difíceis desde, bem, desde a era jurássica.

Em círculos oficiais, não ficava muito longe do charlatanismo dos alquimistas e do curandeirismo por meio de ervas dos vendedores do passado. Os cientistas sérios, comprometidos com a crença tradicional de que envelhecer é inevitável, evitavam sair à procura de alguma coisa destinada ao fracasso, e evitavam ainda mais o ridículo a que se exporiam se tentassem explorá-la. Órgãos governamentais não a financiariam, por desqualificá-la como uma fantasia irrealizável e por não quererem ser vistos como financiadores de algo que seu eleitorado efetivamente não acreditava - devido ao que lhe disseram e ensinaram - ser executável. Mesmo diante de argumentos convincentes e avanços importantes, os gerentes de orçamento não chegariam nem perto de uma coisa assim por conta de crenças religiosas profundamente arraigadas: os seres humanos envelhecem e morrem. É assim que funciona. É a vontade de Deus. É inútil e imoral tentar superar isso. A morte é uma bênção, quer tenha­mos consciência disso ou não. A boa vontade se torna imortal, é claro, mas ape­nas no céu. E nem pense em discutir o assunto com o presidente do Conselho de Bioética. A prevenção do envelhecimento é, mais ainda do que a Al-Qaeda, uma ameaça maligna à dignidade de nosso futuro humano.

Caso encerrado.

E, no entanto, num contexto mais amplo, os cientistas foram espetacularmen­te bem-sucedidos no prolongamento da vida humana, até o presente momento. A expectativa de vida média - a média do número de anos que se espera que os humanos vivam - oscilou entre 20 e 30 anos durante a maior parte da história humana. Essa média era puxada para baixo devido a um fator principal: a mortalidade infantil. Três ou quatro crianças morriam para cada pessoa que conseguia escapar da peste, se desviar da lâmina de uma espada, e chegar aos 80 anos. Daí a média baixa. Os avanços médicos e higiênicos ­ água limpa, antibióticos e vacinas - permitiram que as crianças atingissem a idade adulta, fazendo com que essa média aumentasse drasticamente ao longo dos últimos cem anos, o que é conhecido como a primeira revolução da longevidade. A expectativa de vida atingiu os 40 anos no século XIX, 50 em 1900 e atualmente beira os 80 em países desenvolvidos. Enquanto o homem primitivo tinha uma chance em vinte milhões de viver até os 100 anos, o de agora tem uma em cinqüenta. Na verdade, desde 1840, a expectativa média de vida tem aumentado três meses a cada ano. Já foi indiscutivelmente provado que os demógrafos que fizeram previsões sobre um limite máximo para nossa expectativa de vida estavam errados.

A diferença crucial foi que a extensão do tempo de vida foi alcançada pelo desenvolvimento de vacinas e antibióticos que não foram concebidos para esse fim, mas para auxiliar no combate a doenças, um objetivo incontestavelmente nobre. A nuança foi um fator crítico. E só recentemente ocorreu uma mudan­ça de atitude na comunidade dos pesquisadores da área médica quanto ao envelhecimento - deixou-se de considerá-lo algo inevitável e predestinado e passou-se a vê-lo como algo bem menos drástico.

Uma doença.

Um simples exemplo foi que, até recentemente, o termo Alzheimer só era aplicado a quem sofria dessa forma de demência até uma certa idade - por volta dos 65 anos. Se fosse mais velha que isso, a pessoa não era considerada doente, apenas senil, e não havia nada a ser feito. Fazia parte do envelhecimen­to. Isso mudou na década de 1970, quando um portador de demência com 90 anos de idade foi tratado da mesma forma que um de 40 com Alzheimer ­ambos, então, considerados vítimas de uma doença que os pesquisadores médi­cos estavam empenhados em compreender e curar.

Do mesmo modo, a "velhice" agora está sendo encarada cada vez mais como uma doença. Uma altamente complexa, multifacetada, estarrecedora doença.

E doenças podem ser curadas.

A chave que detonou essa nova abordagem foi uma resposta enganadoramente simples para a pergunta fundamental: "Por que envelhecemos?" A resposta foi, em poucas palavras, que envelhecemos porque, na natureza, nada mais envelhece.

Ou, mais precisamente, quase nada.

Durante milhares de anos - praticamente ao longo de toda a evolução humana -, no estado selvagem e longe dos cuidados e avanços do mundo civilizado, os seres humanos e os animais raramente atingiam a velhice. Eram dizimados por predadores, doença, fome e intempéries.

Não tinham oportunidade de envelhecer.

E a preocupação da natureza sempre foi a de garantir que seus organismos se reproduzissem, a de perpetuar as espécies - nada mais. Tudo que se pediu a nossos corpos, tudo que fomos destinados a fazer, de um ponto de vista evolu­tivo, foi que atingíssemos a idade reprodutiva, tivéssemos filhos e os criássemos até que se tornassem adultos aptos a sobreviver por conta própria.

Só isso.

Era tudo que interessava à natureza.

Mais do que isso seria redundância - tanto dos seres humanos quanto dos animais. Todas as células que nos constituíram não tinham por que nos manter vivos para além disso.

Como não tínhamos qualquer chance de sobreviver muito além da idade reprodutiva, os esforços da natureza se concentravam - corretamente - em reunir as condições para que atingíssemos essa idade e reproduzíssemos. A seleção natural só se preocupava com que atingíssemos a idade reprodutiva, e - corretamente e, de novo, infelizmente para aqueles de nós que queriam fi­car por aqui um pouco mais - escolheu um período de tempo curto durante o qual poderíamos nos reproduzir por ser mais eficaz: diminuiu o tempo entre as gerações e misturou mais os genes, permitindo maior adaptabilidade às amea­ças ambientais. Tudo isso indicando que um processo - o envelhecimento - que, de fato, nunca se manifestou na natureza, fora da cultura, não poderia ter se desenvolvido geneticamente.

A natureza, enquanto nos evoluía, não sabia o que era envelhecimento. Em outras palavras, o envelhecimento não foi geneticamente programado para nós.

Isso levou a uma percepção radicalmente nova do envelhecimento.

Se não estávamos programados para morrer, se morríamos por conta da de­terioração pelo uso - prosseguia agora o argumento -, então, talvez, apenas talvez, pudéssemos ser consertados.

 

Uma pontada ardida dos sais aromáticos se apossou dos sentidos de Corben, sacudindo-o de volta à vida.

Ficou imediatamente consciente de uma dor aguda que latejava no fundo de sua cabeça e se sentiu estranhamente desconfortável. Percebeu que as mãos e os pés estavam amarrados uns aos outros atrás de suas costas, as pernas cur­vadas para trás numa posição fetal invertida. Ainda estava de cueca. A boca e o queixo estavam imprensados contra alguma coisa dura e áspera, que parecia uma lixa, e a garganta estava ressecada. Instintivamente, tentou umedecer os lábios, mas só encontrou secura. Cuspiu a areia e tossiu.

Seus olhos se moveram rapidamente, apressando-se em identificar o ambien­te, e ele se deu conta de que estava deitado no chão, de lado, em algum tipo de campo. Um lugar silencioso. Os faróis de um carro estacionado incidiam sobre ele; para além deles, pôde ver que ainda era noite, embora o brilho fraco de um sol matinal estivesse despontando por trás de uma cadeia de montanhas à direita.

Uma cadeia de montanhas. A leste. Registrou o pensamento, adivinhando que deveria estar em algum lugar do vale do Bekáa. E, se já era quase de manhã, isso significava que estivera desacordado por, pelo menos, duas horas. O que se encaixava com o tempo necessário para chegar de carro até ali vindo de Beiru­te, principalmente àquela hora da noite, em que as estradas estavam desertas.

À medida que seus nervos começavam a dar sinais de vida, mais dores e contusões se manifestavam por todo o corpo. Tentou mudar para uma posi­ção menos esquisita, mas seu esforço foi recompensado com um chute forte de uma bota em suas costelas que espalhou uma dor causticante por toda aquela região.

Dobrou-se para a frente, esticando os fios de náilon que lhe prendiam os membros, ainda de lado, o rosto e a lateral do corpo enfiados no solo árido. Virou-se para cima e viu o homem do rosto marcado olhando para ele de soslaio.

- Khalas - ouviu uma voz brusca. - Chega.

Com o canto do olho, percebeu algum movimento. O homem dono da voz vinha se aproximando por entre a luz ofuscante dos faróis. Da posição desfa­vorável em que estava, Corben pôde distinguir apenas os sapatos - mocassins de couro, de aspecto caro - e calças escuras. O rosto ficava bem acima de seu ângulo de visão.

O homem veio em direção a ele até que seus pés ficassem a apenas alguns centímetros do rosto de Corben. Corben tentou lenta, desajeitada e rapidamente se apoiar um pouco mais em suas costas, mas as pernas dobradas impediram o movimento. O homem apenas ficou ali, olhando fixamente para ele como se fosse um inseto. Corben não conseguiu efetivamente decifrar suas feições, mas pôde perceber que o homem era magro, bem barbeado, com lon­gos cabelos grisalhos.

O sentimento de vulnerabilidade e desamparo era desconcertante. Como para confirmar isso, o homem levantou o pé e o aproximou do rosto de Cor­ben, depois pressionou despreocupadamente, devagar, descansando a sola do sapato em seu nariz, a princípio sem colocar todo o seu peso em cima, mas depois, pouco a pouco, apertando com mais força, esmagando seu nariz e bo­chechas, provocando uma dor lancinante por todo o rosto à medida que sua cabeça era esmagada no chão.

        Corben tentou se libertar, mas o pé do homem o prendia. Soltou um grito torturado, meio abafado, pedindo a ele que parasse.

O homem não parou, prolongando a agonia dele por mais alguns segundos antes de finalmente tirar o pé. Baixou os olhos com expressão carrancuda, estudando-o.

        - Você tem uma coisa que eu quero - disse, com a voz carregada de desdém zombeteiro.

Corben, cuspindo areia, disse:

- E você tem algo - alguém - que nós queremos.

O homem ergueu novamente o pé, fazendo-o pairar bem acima do rosto de Corben, ameaçando-o. Ele não se mexeu. O homem limitou-se a manter o pé ali por algum tempo, como se estivesse prestes a esmagar um inseto, antes de retirá-lo.

- Não acho que esteja em condições de fazer jogo duro - respondeu calmamente. - Quero o livro. Onde está?

- Não está comigo. - Em meio a seu atordoamento, Corben notou o sotaque do homem. Europeu do sul, com certeza. Italiano, talvez. Armazenou o pensamento.

O homem fez um gesto com a cabeça para alguém atrás de Corben. Antes que pudese ver quem era, outro chute forte atingiu a lateral de seu corpo. Corben gritou de dor.

- Estou lhe dizendo que não está comigo, merda.

O homem pareceu surpreso.

- É claro que está. Você está com o iraquiano.

- Não está comigo ainda, certo? Vou tê-lo amanhã. - A voz de Corben denotava fúria. Tentou dar uma olhada melhor em seu rosto, mas sua visão ainda estava distorcida por conta da pressão do sapato dele, e as luzes dos faróis estavam cegando essa pouca visão que tinha. - Não estava com ele - acrescentou com raiva.

O homem o examinou de cima.

- Não quero mais saber de jogos. Consiga-me o livro ou transformarei sua vida num inferno, coisa que, como pode bem ver, sou perfeitamente capaz de fazer.

Corben olhou para ele com feroz determinação.

- Vou lhe conseguir o livro. Quero que você tenha o livro. Mas quero outra coisa.

Um tom intrigado impregnou a voz do homem.

- Ah, é?

Corben pôde sentir o pulso latejando nos ouvidos.

- Eu sei no que está trabalhando.

Os lábios do homem se retorceram em dúvida.

- E no que estou trabalhando?

- Vi seu laboratório. Em Saddamyia. As valas coletivas. As partes de corpos. O banco de sangue. -