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O Segredo Mortal / Robert Ludlum
O Segredo Mortal / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Segredo Mortal

                      

Loring saiu pela porta lateral do Ministério da Justiça à procura de um táxi. Eram quase cinco e meia, de uma sexta-feira de primavera, e havia uma tremenda congestão nas ruas de Washington. Loring ficou de pé na beira da calçada com o braço levantado na esperança de ter sorte. Estava quase desistindo quando um carro, que tinha apa­nhado um passageiro um pouco acima, parou na sua frente.

—  Vai na nossa direção, senhor? O cavalheiro aqui diz que não se importa...

Loring sempre ficava embaraçado quando acontecia aquilo. Inconscientemente encolheu o braço direito para que a manga do casaco lhe ocultasse o mais possível a fina corrente negra que estava presa ao seu pulso e à sua pasta de papéis.

—  Agradeço muito, mas vou para outra direção. Esperou até que o táxi desaparecesse no meio do tráfego e recomeçou sua odisséia.

Geralmente, quando acontecia aquilo, ele mantinha-se extremamente alerta com todos os sentidos, olhando em todas as direções para ver se descobria um carro desem­barcando passageiros para então precipitar-se em sua direção.

Naquele dia, no entanto, Ralph Loring não estava disposto a correr já que naquela sexta-feira estava bem preocupado com uma terrível realidade. Tinha acabado de presenciar a sentença de morte de um homem. Um homem que não conhecia mas de quem já ouvira falar muito. Era um desconhecido com trinta e três anos que morava e trabalhava numa pequena cidade de New England a uns seiscentos quilômetros de distância e que não tinha a menor idéia da existência de Loring e, muito menos ainda, do interesse do Ministério da Justiça pela sua pessoa.

A lembrança de Loring continuava a voltar para a ampla sala de conferências com a imensa mesa retangular em torno da qual sentavam-se os homens que tinham pronunciado a sentença fatídica.

Ele se opusera violentamente. Era o mais que podia fazer por um homem que nunca vira, um homem que estava sendo manobrado com muita precisão para uma posição insustentável.

— Devo lembrar-lhe, Sr. Loring, que em qualquer situação de combate existem riscos básicos que não podem ser evitados. Sempre se espera uma certa porcen­tagem de vítimas. — Quem falava assim era um assistente do procurador-geral que antes fora advogado na marinha.

—  Mas as circunstâncias são diferentes. Este homem não foi treinado.  Ele não sabe quem é o inimigo nem tampouco onde ele está.  E como poderia saber isso se nós mesmos não sabemos?

—  Pois é justamente esse o ponto. O nosso alvo é extremamente móvel. Olhem o seu perfil psicológico que o classifica dessa forma.  O nosso homem é a escolha lógica. — Agora já a observação vinha de um outro advo­gado que Loring reconheceu como homem de muito pouca experiência em tais assuntos e apenas acostumado às decisões burocráticas.

—  Não  posso  absolutamente   compreender  o   que significa essa expressão de mobilidade.  Devo lembrar à esta comissão que tenho quinze anos de prática de ação de verdade.  Os perfis psicológicos são apenas orienta­ções para escolhas, são julgamentos que tanto podem acertar como falhar. Eu nunca enviaria um homem numa missão de infiltração sem conhecê-lo completamente, da mesma forma que também não assumiria a responsabili­dade pelos cálculos matemáticos da NASA.

Quem respondeu a Loring foi o presidente do comitê, um profissional da carreira.

— Eu compreendo as suas objeções, e normalmente concordaria com efas. Acontece porém que não estamos em situação normal. Mal temos três semanas. O fator tempo tem prioridade sobre as precauções de costume...

— Trata-se do risco que temos que assumir, — disse, pontificando o antigo advogado.

— O senhor  não  está assumindo  risco algum,  — respondeu Loring.

— O senhor deseja ser destituído do cargo do contato? — O presidente do comitê fez a pergunta com toda a sinceridade.

—  Não, senhor. Eu cuidarei disso, mas a contragosto. Quero que isto fique bem claro na ata.

—  Mais uma coisa antes de levantarmos a sessão, — disse o outro advogado inclinando-se na mesa, — e isso vem bem de cima. Nós todos já concordamos que o nosso homem é motivado. O perfil mostra isso claramente. Mas o que também precisa ficar bem claro é que toda ajuda prestada a este comitê pela pessoa em causa seja ofere­cida voluntariamente.  Neste ponto nós estamos vulnerá­veis. Não podemos ser responsáveis. Não podemos mes­mo,  repito. Se  for  possível,   gostaríamos   que   ficasse consignado que foi ele quem veio a nós.

E com isso Ralph Loring afastara-se do homem com nojo.

O tráfego agora estava bem pior. Loring já estava decidido a caminhar as vinte e tantas quadras até o seu apartamento quando um Volvo branco parou na sua frente.

—  Vá entrando.  Você está fazendo papel de bobo com o braço levantado dessa forma.

—  Ah! É você? Muito obrigado. — Loring abriu a porta e sentou-se no carrinho com a sua pasta no colo. Já não tinha que esconder a corrente em torno de seu pulso. Cranston era também um homem do seu ramo, só que especializado em caminhos estrangeiros.   Fora ele quem preparara todo o terreno para a missão que agora pertencia a Loring.

— Foi uma reunião demorada.  Chegaram a alguma conclusão?

—  A luz verde. O sinal está aberto.

—  Já era tempo.

—  Dois assistentes do procurador e uma mensagem da Casa Branca foram os responsáveis.

—  Muito bem. A divisão do Geo recebeu os últimos relatórios da Força Mediterrânea esta manhã. É uma con­versão em massa de rotas originais. Está confirmado. Os campos em Ankara e Konya no norte, os projetos em Sidi Barrani e Rashid e até mesmo os contingentes da Argélia estão sistematicamente reduzindo a produção. Vai tornar as corsas muito difíceis.

— Mas que diabo quer você? Eu pensei que o objetivo era desbaratá-los. Vocês nunca estão satisfeitos.

—  Você tampouco estaria.   Nós podemos controlar as rotas que conhecemos, mas, pelo amor de Deus, como é que vamos saber a respeito de lugares como Porto Belocruz, Pilcomayo e mais outros tantos nomes impronunciáveis no Paraguai, no Brasil ou na Guiana? É um diabo dum jogo inteiramente novo, Ralph.

—  Então traga os especialistas da América do Sul. A CIA está cheia deles.

—  Negativo. Não podemos nem mesmo pedir mapas.

—  É uma besteira.

—  Assim é a espionagem. Temos que continuar lim­pos.   Estamos estritamente com a Interpol-Hoyle.   Nada de brincadeiras. Pensei que você soubesse disso...

—  Eu sei sim, mas continuo a dizer que é uma bes­teira, — retrucou Loring com ar desanimado.

—  Você cuide de  New  England  aqui  nos Estados Unidos e nós cuidaremos dos pampas, seja iá onde isso for. Estou vendo que você está meio desanimado...

—  É que não há tempo...

—  O tempo é sempre curto, Ralph. Pelo menos você teve a ordem de seguir em frente, o sinal abriu para você, mas não abre para nós aqui nesta porcaria de tráfego congestionado.

—  Só que terei que trabalhar com as pessoas erradas.

—  Sim, sim.   Já estou começando a compreender. É ele que está aí dentro desta pasta?

— É ele mesmo.  Desde o dia em que nasceu.

—  E como se chama?

—  Matlock. James B. Matlock.  O B. é de Barbour, família muito antiga... duas famílias muito antigas. James Matlock, B.A., M.A., Ph.D. Autoridade no campo de in­fluências políticas e sociais sobre a literatura do tempo de Elizabeth.  Que tal?

—  Virgem Maria! Então são essas as suas qualifica­ções? Onde é que ele começa a fazer as perguntas? Nos chás da faculdade para os professores aposentados?

— Não. Nessa parte ele está certo. É muito moço. Suas qualificações incluem o que a Segurança chama de “com falhas, mas com grande mobilidade”. Não acha que é uma frase bacana?

—  É inspiradora, sim. O que significa?

—  Acho que descreve um cara que não é cem por cento.  Provavelmente por causa de sua ficha horrorosa no exército ou então algum divórcio... mas acho que é o negócio do exército, sim.   O caso é que apesar dessa tremenda desvantagem todos gostam muito dele.

—  Até eu já estou começando a gostar dele, Ralph.

—  Pois aí é que está o meu problema. Eu também gosto.

Os dois homens ficaram em silêncio. Era claro que Cranston já estava naquele ramo desde muito para chegar a perceber quando um colega começava a pensar assim. Chegava a certas conclusões ou racionalizações sozinho. Quase sempre isso era fácil.

Ralph Loring estava pensando naquele homem cuja vida estava ali completamente esmiuçada naquela pasta, com os dados fornecidos pelos computadores.  O nome era James Barbour Matlock, mas a pessoa que se escon­dia atrás dele não estava ainda bem nítida. E era aquilo que chateava Loring. A vida de Matlock tinha sido moldada por inconsistências estranhas e até mesmo violentas.

Ele era o filho sobrevivente de um casal velho e extre­mamente rico que vivia com todo o conforto e despreo­cupação em Scardale, NewYork. Sua educação tinha sido a mesma de todos os moços filhos de pais ricos e famílias tradicionais, freqüentando as escolas certas com um lugar a sua espera em Manhattan como banqueiro, corretor ou publicitário.   Nos seus  registros anteriores à formatura pela universidade, nada havia que pudesse justificar qual­quer desvio de padrão conhecido.   E,  na verdade,  isso parecia ser confirmado por um casamento certo com uma moça da alta sociedade de Greenwich.

Foi então que começaram a acontecer as coisas com James Barbour Matlock que Loring não conseguia com­preender.   Primeiro foi o exército.

Era o princípio da década de 60, e com o simples expediente de concordar com uma extensão de seis meses no serviço, Matlock poderia ter ficado confortavelmente sentado em algum escritório, o mais certo em Washington ou New York, em vista das ligações de sua família. Em lugar disso, seu prontuário parecia ser o de um desclas­sificado qualquer com uma série de infrações e insu­bordinações que lhe garantiram a menos desejável desig­nação. Foi escalado para o Vietnam. Quando estava estacionado no Delta do Mekong, o seu comportamento militar garantiu-lhe duas sumárias cortes marciais.

Só que não parecia haver qualquer motivação ideoló­gica por trás de suas estripulias. Parecia tratar-se sim­plesmente de uma falta de ajustamento psicológico.

A sua volta à vida civil foi marcada por outro contra­tempo, primeiro com os pais e depois com a mulher. Inex­plicavelmente, James Barbour Matlock, cujo prontuário acadêmico parecia o de um cavalheiro, embora insignifi­cante, alugou um pequeno apartamento em Morningside Heights e começou á freqüentar a Universidade de Colúmbia.

A mulher agüentou ainda três meses e meio e depois escolheu um divórcio discreto saindo assim da vida de Matlock.

Os anos seguintes foram de monotonia para as infor­mações de sua ficha. Matlock, o incorrigível, estava em vias de se transformar em Matlock, o acadêmico. Traba­lhou duro conquistando em quatorze meses o seu grau de master e o doutorado dois anos mais tarde. Houve com os pais uma espécie de reconciliação e depois veio aconquista de sua posição como catedrático de inglês na Universidade de Carlyle em Cònnecticut. Desde então Matlock já tinha publicado alguns livros e muitos artigos, e tinha também conquistado uma invejável reputação na comunidade acadêmica. Era muito querido e “de extrema mobilidade”, uma expressão tola e estranha. Levava uma vida moderada e, aparentemente, já não possuía mais aquelas características antagônicas quehaviam marcado os anos atribulados. Claro que havia muito poucas razões para que fosse um descontente, pensava Loring.  James Barbour Matlock II tinha uma vida tranqüilamente rotineira, estava a coberto em todos os flancos, sim senhor, e tinha até mesmo uma garota.   Era um caso conhecido,  mas muito discreto, com uma moça diplomada chamada Pa­trícia Ballantyne.   Não moravam juntos,  mas,  pelo que diziam os computadores,  eram amantes.  Até onde era possível prever, no entanto, não pensavam em casamento. Ela  estava terminando o  doutorado  em  Arqueologia  e tinha â sua espera uma dúzia de colocações e bolsas. Bolsas que a levariam a lugares distantes e a costumes desconhecidos. Patrícia Ballantyne não estava atrás de casamento, pelo que diziam os computadores.

Mas o que haveria com Matlock? O que mostravam os fatos a seu respeito? Como se poderia justificar aquela escolha? Era o que Loring pensava.

Os fatos não diziam nada e não havia justificativas. Somente um profissional altamente treinado poderia se desincumbir naquela missão espinhosa. Os problemas eram por demais complexos e cheios de perigos para um simples amador.

A terrível ironia, no entanto, era que se esse Matlock cometesse erros ou se metesse em situações perigosas, ele poderia talvez conseguir muito mais do que qualquer profissional.

E com isso também poderia perder a vida.

Já estavam chegando perto do apartamento de Loring e Cranston estava curioso. — O que faz você pensar que ele vai aceitar?

—  O quê? Desculpe, não estava prestando atenção. O que foi que você disse?

—  Qual é o motivo que possa levar à sua aceitação? Por que cargas d’água vai ele aceitar uma coisa dessas?

—  Há um  seu  irmão  mais moço.   Dez anos  mais moço, aliás. Os pais são bem velhos. Muito ricos e muito desligados.  Esse Matlock julga-se responsável. . .

—  Por quê?

—  Pelo irmão. Matou-se a três anos atrás com uma boadose de heroína.

 

Ralph Loring ia guiando devagar o seu carro alugado por uma rua larga e coberta de árvores, com grandes casas antigas cercadas de gramados bem tratados. Algu­mas eram de fraternidades, mas havia muito menos do que uns dez anos antes. A exclusividade social dos idos de 50 e do início dos 60 estava sendo substituída. Algu­mas das imensas estruturas ostentavam novas identifi­cações. A Casa, Aquário (nem podia deixar de ser), Afro-Centro, Warwick, Lumumba Hall.

A Universidade de Carlyle era como muitas outras de prestígio médio que marcam a paisagem de New England. Uma administração, sob a orientação de seu brilhante pre­sidente, o Dr. Adrian Sealfont, estava reestruturando a universidade e procurando atualizá-la com a segunda me­tade do Século XX. Havia os inevitáveis protestos, a pro­liferação de barbudos, estudos africanos em contraposição com a riqueza discreta, clubes e regatas promovidas pelos alunos. Os costumes antigos e os chás dançantes da faculdade faziam tudo para conseguir sobreviver coexis­tindo.

Olhando aquele campus tão tranqüilo à luz clara da primavera, Loring refletia como parecia inconcebível que uma tal comunidade tivesse tais problemas tão reais. Só que não era o problema que o trouxera até ali. E, no entanto, eles existiam.

Carlyle era uma bomba de tempo que, quando deto­nada, faria muitas vítimas com os seus resíduos. E Loring sabia também que a explosão era inevitável. Seria impos­sível prever o que aconteceria antes. Cabia a ele arqui­tetar as melhores probabilidades. E a chave de tudo era James Barbour Matlock, B.A., M.A., Ph.D.

Loring ia passando pelas bonitas residências de dois andares com quatro apartamentos, todos eles com entrada independente, destinados aos membros da faculdade. Eram geralmente ocupados pelos casais jovens antes que as famílias aumentassem e exigissem uma casa maior. O apartamento de Matlock era no primeiro andar na parte do lado direito.

Ele fez a volta no quarteirão e veio estacionar do outro lado da rua, em frente da porta de Matlock. Não podia ficar ali muito tempo e só queria observar os carros e pedestres que passavam e que não lhe davam atenção. O que, aliás, era de importância capital. Aos domingos, pelo que diziam as informações conseguidas, o jovem professor geralmente lia os jornais até a parte da tarde e depois ia de carro até o outro lado da cidade onde Patrícia Ballantyne morava num dos edifícios de aparta­mentos reservados para os estudantes. Isto é, ele ia até lá no caso dela não ter passado a noite com ele. Sendo assim geralmente iam dar uma volta pelo campo para almoçarem e depois voltavam para o apartamento de Ma­tlock ou então iam até Hartford ou New Haven. Claro que havia variações. Muitas vezes os dois saíam juntos para fins de semana e registravam-se como casados nos hotéis. Mas não era o que tinha acontecido naquele fim de sema­na, no entanto, o que fora, aliás, confirmado pela vigilân­cia mantida pelo serviço de Loring,

Ele consultou o relógio e viu que já eram doze e quarenta mas Matlock ainda estava em casa.

O tempo estava ficando apertado. Em poucos minutos Loring deveria estar em Crescent Street. Era lá que teria de ser feito o contato de cobertura para sua segunda trans­ferência de veículo.

Sabia que não era preciso ele mesmo exercer a vigi­lância sobre Matlock. Afinal já tinha lido todo o arquivo com atenção, tinha examinado bem uma boa quantidade de fotografias e havia, até mesmo, conversado brevemente com o Dr. Sealfont, Presidente de Carlyle. Não obstante, cada agente tinha seus próprios métodos de trabalho e o seu era de observar a pessoa em causa durante horas antes do primeiro contato. Diversos colegas seus no Mi­nistério diziam que aquilo lhe dava uma certa sensação de força. Loring achava apenas que lhe dava uma certa sensação de confiança.

A porta da frente de Matlock abriu-se e um homem alto saiu. Vestia calças caqui, sandálias e um suéter de gola. Loring observou que sua aparência era modesta, que tinha traços firmes e cabelos louros bem longos. Ele verificou para ver se a porta estava fechada, colocou óculos escuros e encaminhou-se para o que Loring supôs fosse um pequeno estacionamento. Alguns minutos depois Matlock saiu guiando um Triumph esporte.

O funcionário do governo pensou consigo mesmo que afinal o seu homem parecia levar uma vida bem folgada e agradável. Tinha renda suficiente, não tinha responsabilidades, gostava de seu trabalho e tinha uma relação conveniente com uma garota bonita.

Ficou então pensando se dentro de três semanas tudo estaria correndo bem da mesma forma para James Barbour Matlock. Afinal, o mundo dele estava em vias de se despencar num abismo.

 

Matlock meteu o pé na tábua e o Triumph vibrou quando o velocímetro marcou cem quilômetros por hora. Aquilo não queria dizer que ele estivesse com pressa, já que Patrícia não ia a lugar nenhum, e sim apenas que estava zangado. Geralmente ficava irritado depois de um telefonema de sua casa. O tempo jamais conseguiria acabar com aquilo. Nem mesmo o dinheiro, se ele jamais conseguisse ganhar uma importância que seu pai considerasse respeitável. A causa de toda a irritação era a condescendência paternal que chegava a enfurecê-lo. Ia ficando cada vez pior à medida que seus pais envelhe­ciam. Em lugar de aceitarem a situação eles queriam se prevalecer dela. Insistiam para que fosse passar as férias de primavera em Scarsdale para que pudesse ir com o pai à cidade diariamente em visitas aos bancos e advogados. Para tratarem do inevitável quando e se ele acontecesse.

Uma certa vez o pai lhe dissera com voz sepulcral. — Há muita coisa que você precisa aprender, meu filho. Você ainda não está bem preparado, sabe?.

E a mãe acrescentava como se sofresse: — Você é tudo que nos resta.

Matlock sabia que eles gozavam por antecipação o martírio do abandono deste mundo. Já tinham deixado a sua marca, principalmente o pai. O mais divertido, porém, era que os dois gozavam de uma saúde de ferro e eram ainda fortes como mulas. Não tinha dúvidas que eles o sobreviveriam por algumas décadas.

A verdade era que eles o desejavam lá ao passo que ele não sentia por aquilo o menor prazer. Tinha sido assim durante os últimos três anos depois da morte de Davis em Cape Cod. Ao estacionar o carro em frente do aparta­mento de Pat, Matlock sentia que as raízes de sua irritação estavam no seu sentimento de culpa. Nunca se confor­mara consigo mesmo no que dizia respeito a Davis. E isso jamais iria acontecer.

Não queria estar em Scarsdale durante as férias. Não queria sentir as saudades. Tinha agora quem podia aju­dá-lo a esquecer aqueles anos horrorosos, anos de morte, de falta de amor e de indecisão. Ele havia prometido levar Pat a St. Thomas.

O nome da taverna no campo era Cheshire Cat, e, como implicava o título, era o que havia de mais inglês. A comida era boa e as bebidas generosas, e aquilo fazia o lugar ser preferido pelos habitantes das redondezas. Tinham acabado com o segundo coquetel e encomenda­ram o almoço. Havia alguns casais e diversas famílias na sala de jantar muito espaçosa. Num dos cantos estava sentado um homem sozinho que lia o New York Times dobrado como se estivesse num trem.

— Acho que ele é provavelmente algum pai muito zangado esperando por um filho. Conheço esse tipo. Eles chegam todas as manhãs pelo trem de Scarsdale.

—  Mas ele está muito descontraído.. .

—  É que aprendem a esconder a tensão. Só quem sabe são os seus farmacêuticos.   Estão cheios de tranqüilizantes,

—  Mas sempre sobram alguns vestígios, e não vejo nenhum nele. Parece satisfeito consigo mesmo. Acho que você não acertou.

—  É porque você não conhece Scarsdale.  A auto-satisfação é marca registrada. Ninguém compra uma casa sem ela.

—  E por falar nisso, o que vai você fazer? Eu real­mente acho que devemos cancelar St. Thomas...

— Pois  eu  não  acho.   Foi  um   inverno  duro  e  nós precisamos de um pouco de sol. De qualquer forma, eles não estão sendo razoáveis Eu não quero saber nada das manipulações Matlock. É simples perda de tempo. No caso pouco provável deles morrerem algum dia, outros se encarregarão disso

— Eu pensei que já tínhamos chegado a um acordo que isso é apenas uma desculpa da parte deles. Só querem ter você lá por algum tempo. Acho tocante a maneira como o fazem

—  Não há nada de tocante. Percebe-se claramente a intenção de suborno de parte de meu pai. . .  Olhe lá, o nosso homem parece que desistiu. Aposto com você que ele pensou nos cabelos do filho, na jaqueta de couro e talvez nos pés descalços e entrou em pânico. . .

O homem que estava sozinho com o jornal tinha acabado de beber e estava explicando ao garção que não ia almoçar.

—  Eu acho que você está imaginando coisas para o pobre homem . . .

—  Não estou não. Estou até simpatizando com ele. Não posso suportar a agravação que pertence à rebelião. Fico pensando em mim mesmo.

— Você é um cara gozado, soldado Matlock, — falou Pat querendo referir-se à inglória carreira militar de seu companheiro. — Quando acabarmos de almoçar vamos a Hartford onde há um bom filme. . .

—  Sinto  muito,   querida.   Esqueci-me  de  lhe  dizer. Não podemos hoje. . .  Sealfont telefonou-me esta manhã convidando-me para uma conferência.  Disse que era im­portante.

—  A respeito de quê?

—   Não tenho muita certeza. Quem sabe está haven­do encrencas com os estudos africanos. Aquele cara que eu trouxe de Howard está saindo uma beleza.  Acho que está um pouco para a direita de Luís XIV.

Ela sorriu. — Você é realmente terrível.

Matlock segurou-lhe a mão.

 

A residência do Dr. Adrian Sealfont era de uma impo­nência   apropriada.   Uma   ampla   mansão   colonial   com degraus de mármore que levavam a maciças portas duplas e trabalhadas em relevo. Na frente havia colunas iônicas em toda a extensão da fachada. Quando escurecia os holo­fotes iluminavam a fachada.

Matlock subiu a escada e tocou a campainha. Logo em seguida foi atendido por uma empregada que o acom­panhou para a parte de trás da casa onde estava a imensa biblioteca do Dr. Sealfont.

Ele estava no centro da sala junto com dois outros homens. Matlock, como sempre, aliás, ficou impressiona­do pela presença do homem. Tinha quase um metro e noventa, era magro e com traços aquilinos, e irradiava um calor que atingia a todos que se aproximavam dele. Havia em torno dele uma verdadeira humildade que escondia o seu brilho daqueles que não o conheciam bem. Matlock gostava imensamente dele.

Sealfont estendeu a mão a Matlock. — Alô James. Sr. Loring, quero apresentar-lhe o Dr. Matlock.

—  Muito prazer, senhor. Alô, Sam, — disse Matlock dirigindo-se por último ao terceiro homem que era Samuel Kressel, o decano de Carlyle.

—  Alô, Jim.

Matlock encarou Loring. — Nós já nos vimos antes, não foi? Estou procurando lembrar-me...

—  E eu vou ficar bem embaraçado se lembrar-se. ..

—  E aposto que vai mesmo! — Falou Kresse! com uma risada sardônica. Matlock também gostava de Kres­sel principalmente porque sabia como era triste o seu trabalho e o que ele tinha que aturar.

—  O que você quer dizer com isto, Sam?

—  Eu vou lhe responder, — interrompeu Adrian Seal­font. — O Sr. Loring é do governo federal, do Ministério da Justiça.   Eu  concordei  em  promover este  encontro entre vocês três, mas não concordei com o que Sam e o Sr. Loring estão se referindo. Aparentemente, o Sr. Loring achou conveniente manter você sob observação. Eu apre­sentei fortes objeções... — E Sealfont olhou diretamente para Loring.

—  O senhor achou conveniente o quê? — Pergun­tou Matlock tranqüilo.

—  Eu devo pedir-lhe desculpas. . .  trata-se de uma idiossincrasia pessoal que nada tem a ver com o nosso assunto.

— O senhor é o homem do jornal no Cheshíre Cat...

— Como é mesmo? — Quis saber Kressel.

—  Ele estava lá lendo um jornal.

— E estava mesmo. Eu vi que o senhor tinha repa­rado em mim e imaginei que me reconheceria logo que nos encontrássemos outra vez. Não sabia que tinham me classificado. . .

— Foi por causa do jornal. Nós o classificamos como um pai zangado...

—  E às vezes sou mesmo, mas não é sempre. Minha filha só tem sete anos.

—  Acho melhor começarmos, senhores.  Por falar nisso, James, fico satisfeito que sua reação tenha sido tão compreensiva.

—  A minha reação foi somente curiosidade. E muito medo.  Para lhes falar a verdade, estou verdadeiramente apavorado.  Do que é que se trata? — E Matlock sorria um tanto indeciso.

— Mas enquanto conversamos, vamos tomar drin­ques, — disse Sealfont dirigindo-se sorrindo para o pe­queno bar no canto da sala.

—  Eu sei que você gosta de bourbon e água, não é James? E Sam quer um duplo scotch com gelo, certo? E qual vai ser o seu Sr. Loring?

—  Scotch também, obrigado. Só com água.

—  Venha cá James, e ajude-me um pouco.

—  Eu sempre fico admirado com você, Adrian, — Disse Kressel sentando-se numa poltrona de couro. — Como é que você sempre consegue lembrar-se da prefe­rência dos seus subordinados em  matéria de bebidas?

Sealfont deu uma risada. — A razão mais lógica de todas. E que certamente não se restringe aos meus... colegas. Já levantei mais fundos para esta instituição por meio do álcool do que pelas centenas de relatórios pre­parados pelas melhores mentalidades analíticas nos cír­culos que se especializam no levantamento de recursos. — Nesse ponto Adrian Sealfont fez uma pausa e teve uma nsadinha. — Eu certa vez fiz um discurso perante a Orga­nização dos Presidentes de Universidades. Quando che­gou a hora das perguntas e respostas, perguntaram-me a que eu atribuía oS donativos feitos a Carlyle e eu só tive uma respc-Sid.   “Àqueles povos da antiguidade que desenvolveram a arte da fermentação dos vinhedos...” Minha falecida esposa deu  estrepitosas gargalhadas...

Os outros três riram enquanto Matlock distribuía os copos.

O Presidente da universidade levantou o seu copo com modéstia. A saudação foi curta, no entanto. — À saúde de todos. Sinto-me um tanto constrangido, Ja­mes... Sam. Algumas semanas atrás eu fui procurado pelos superiores do Sr. Loring. Um deles me pediu que fosse a Washington para tratar de um assunto da máxima importância para Carlyle. Fiz a viagem e fui surpreendido com a informação de uma situação que ainda não consegui aceitar. Algumas informações que o Sr. Loring vai lhes transmitir parecerão superficialmente incontroversas. Rumores e boatos, escritos e verbais, sem provas con­cretas e que podem não fazer sentido. Por outro lado, pode ser que haja mesmo qualquer substância e foi por isso que concordei em realizar esta reunião. Devo tomar bem claro, no entanto, que não faço parte disso. Que Carlyle não fará parte disso. Tudo que acontecer aqui nesta sala tem a minha aprovação mais ou menos forçada, mas não tem a minha sanção oficial. Os senhores agirão como indivíduos e não como membros da faculdade ou dos funcionários de Carlyle. Se resolverem finalmente agir... Bem, James, se isso não o apavorar, não sei mais o que o conseguirá. — Seaífont tornou a sorrir, mas sua mensagem tinha sido clara.

—  E realmente me amedronta, — disse Matlock na­turalmente.

Kressel largou seu copo e recostou-se na poltrona. — Será que devemos entender, pelo que você disse, que a presença de Loring aqui não conta com a sua aprovação? Nem tampouco o que ele deseja, seja íá o que for?

—  Trata-se de uma área nebulosa. Se houver subs­tância nas suas acusações, eu certamente não poderei ignorá-las. Por outro lado, nenhum presidente de universidade  atualmente estará disposto a colaborar aberta­mente com algum órgão de governo por simples descon­fiança.  Peço-lhe desculpas, Sr. Loring, mas muita gente em Washington vem  se aproveitando das comunidades acadêmicas.  Quero me referir especificamente a Michigan,  Colúmbia,  Berkeley. . .   entre  outras.   Assuntos de simples polícia são uma coisa, mas a infiltração... bem, isso é coisa completamente diferente.

—  Infiltração? É uma expressão bem forte, — disse Matlock.

—  Talvez seja mesmo forte demais.  Deixo a desig­nação aos cuidados do Sr. Loring.

Kressel  apanhou  o  copo.   —  Posso perguntar  por que fomos nós os escolhidos, Matlock e eu?

—  Isso também será respondido na explicação do Sr.  Loring.   No entanto, já que sou o responsável pela sua presença aqui, Sam, vou lhe dizer as minhas razões. Como decano e reitor você está mais a par do que acon­tece no campus do que qualquer outro... Você também logo perceberá se o Sr.  Loring ou seus companheiros passarem dos limites... Acho que é tudo o que tenho a dizer.  Vou até a assembléia.  Aquele homem do cinema vai falar esta noite e eu preciso estar presente. — Seal­font voltou ao bar e largou o copo. Os outros três levan­taram-se.

Kressel tinha a testa franzida. — Mais uma coisa antes de você sair, Adrian. Suponhamos que um de nós não queira tomar conhecimento do que vai propor o Sr. Loring?

Adrian Sealfont tinha chegado à porta e voltou-se. — Se for assim, recusem. Vocês não estão obrigados de forma alguma. Quero que isto fique perfeitamente claro. O Sr. Loring compreenderá. Boa noite, meus senhores. — Saiu e fechou a porta.

 

Os três ficaram de pé e em silêncio. Dali ouviram a porta de entrada abrir e fechar. Kressel voltou-se e olhou para Loring.

—  Quer me parecer que o senhor está enrascado.

— Eu já estou acostumado com tais situações. Que­ro esclarecer a minha posição que, em parte, explicará esta reunião. A primeira coisa que precisam saber é que sou funcionário do Ministério da Justiça, do departamento de narcóticos.

Kressel sentou-se e bebeu um gole. — O senhor não fez toda esta viagem para vir aqui nos dizer que quarenta por cento dos alunos fumam maconha ou usam outras coisas, hejn? Porque se esse é o caso, não está nos con­tando nenhuma novidade.

—  Não.  Não foi para isso.  Eu sei que os senhores sabem tudo isso. Só não tenho certeza quanto à porcentagem.  Talvez seja uma estimativa baixa.

Matlock esvaziou o seu copo e foi encher outra vez. Enquanto caminhava para o bar disse que não era uma questão de porcentagem, mas que, em comparação com outras universidades, eles ainda não estavam em pânico.

—  Nem há razão para isso, pelo menos a esse res­peito.

—  Então há mais alguma coisa?

—  E muito.

Loring foi até à mesa de Sealfont e abaixou-se para apanhar no chão a sua pasta. Via-se que o funcionário do governo e o presidente de Cariyle tinham conversado antes dos outros chegarem. Loring colocou a pasta em cima da mesa e abriu-a. Matlock voltou ao seu lugar e sentou-se.

—  Eu vou lhes mostrar uma coisa. — Loring enfiou a mão na pasta e tirou de lá uma folha de papel grosso e prateado cortado em diagonal.  A superfície prateada já estava suja devido ao manuseio constante e mostrava manchas de óleo.   Chegou junto da cadeira de Matlock a quem entregou o pedaço de papel e Kressel levantou-se para ir ver também.

—  Vê-se que é uma espécie de carta.  Ou circular. Com números. Está em francês, creio eu, ou talvez italia­no.  Não consigo saber, — disse Matlock.

—  Muito bem, professor.   É bastante parecido com os dois mas não há predominância de nenhum.  Na ver­dade, trata-se de um dialeto da Córsega que é chamado de oitremontan e que é usado nas montanhas do sul. Da mesma forma que o etrusco, não se pode traduzir com­pletamente.  Mas os códigos usados são simples e nem mesmo chegam a ser códigos.  Tampouco acredito que a intenção tenha sido essa.  Existem muitos iguais.  Mas aqui há o bastante para nos contar o que desejamos saber.

—  E que é?.. . — Perguntou Kressel tirando o es­tranho papel das mãos de Matlock.

—  Primeiro eu quero lhes contar como veio ter às nossas mãos.   Sem  essa explicação, a  informação  não tem sentido.

—  Vamos ouvir, então, — disse Kressel devolvendo o papel sujo ao funcionário que cuidadosamente tornou a guardá-lo em sua pasta.

—  Um correio de narcóticos, isto é, um homem que vai a territórios específicos levando instruções, dinheiro ou mensagens, saiu do país seis semanas atrás.  Era na verdade mais do que um simples correio, já que se tratava de pessoa com um grande poder na hierarquia da dis­tribuição. Talvez fosse o caso de dizer que ele ia numa viagem  combinando  os  negócios com  o prazer.   Estilo Mediterrâneo.  Ou então ia fazer uma verificação nos investimentos... De qualquer forma, ele foi morto por montanheses em Toros Daglari, na Turquia. Dizem que tomou certas providências lá que tiveram como conseqüência a violência. Acreditamos nisso já que os negócios do Medi­terrâneo estão acabando a torto e a direito e estão se mudando para a América do Sul... O papel foi encontra­do em seu corpo, numa cinta junto à pele. Como podem ver, já andou em muitas mãos. Já foi oferecido por muitos preços desde Ankara até Marrakesh. Um agente da Interpol finalmente conseguiu comprá-lo e nós ficamos com ele.

—  Desde Toros Não-sei-que até Washington, ele já fez uma viagem bem comprida, — disse Matlock,

—  E muito cara também. Só que agora não está mais em Washington e sim aqui conosco. Veio de Toros Daglari até Carlyle, Connecticut.

—  Devo compreender que isso significa alguma coisa, — disse Kressel sentando-se apreensivo e olhando para o agente.

—  Significa que a informação aí nesse papel se rela­ciona com Carlyle.

Loring encostou-se na mesa e falou com muita calma sem mostrar qualquer indício de urgência. Era como se ele fosse um professor em frente de uma classe explicando um complicado teorema de matemática.

—  O papel diz que haverá uma conferência no dia dez de maio, isto é, daqui a três semanas a contar de amanhã. Os números do mapa são coordenadas da área de Carlyie em unidades de Greenwich com precisão de decimais em latitude e longitude. O papel identifica o seu possuidor como um dos convidados à reunião. Cada um dos papéis representa a outra metade ou é cortado de tal forma que possa ser comparado. Simples precaução adi­cional. Só o que falta é a localização precisa.

Kressel levantou-se, Tinha a voz controlada e incisiva e via-se que estava perturbado. — Espere um minuto, Loring. Não acha que está se adiantando muito? Está nos dando a informação, obviamente restrita, antes de nos dizer o que quer. A administração desta universidade não está interessada em se tornar um órgão de investigações do governo. Antes de passar aos fatos, seria melhor dizer o que deseja.

—  Desculpe Sr. Kressel. O senhor disse que eu es­tava encrencado e estou mesmo. Não estou agindo bem.

—  Não me venha com essa. Você é um especialista.

—  Espere aí, Sam. — Matlock levantou a mão que­rendo conter a explosão repentina de Kressel. — Sealfont disse-nos que teríamos a opção de recusar o que ele nos pedir, seja lá o que for.   Se nós nos valermos de tal opção, o que certamente faremos, eu gostaria de imagi­nar-nos agindo como juizes e não por uma cega reação.

— Não seja ingênuo, Jim. Você recebe informações restritas ou secretas e no mesmo instante, post facto, você já está envolvido. Não pode recusar-se já que não pode dizer que isso não aconteceu.

Matlock olhou para Loring. — É assim mesmo?

—  Até um certo ponto é.  Não vou mentir-lhes.

—  Então por que temos que ficar aqui ouvindo-o?

—  Porque a Universidade de Carlyle está em jogo, e isso desde alguns anos.  E a situação agora é crítica. Tão crítica que só dispomos de três semanas para agir com as informações que temos.

Kressel levantou-se da cadeira e respirou fundo. — Cria-se a crise, sem provas, e força-se a participação. A crise se resolve mas ficará consignado que a universidade tomou parte passiva numa investigação federal. Foi o que aconteceu na Universidade de Wisconsin. Você não se lembra disso, Jim? Seis dias de tumultos no campus. Meio semestre perdido...

—  Aquilo foi orientado pelo Pentágono. As circuns­tâncias agora são inteiramente diferentes, — disse Lo­ring.

—  Acha que é mais fácil de engolir por se tratar do Ministério da Justiça?  Leia  alguns jornais do campus.

—  Pelo amor de Deus, Sam, deixe o homem falar. Se não quiser ouvir pode ir embora.   Eu quero ouvir o que ele tem a dizer.

Kressel olhou para Matlock. — Muito bem. Acho que compreendo. Continue, Loring, mas lembre-se que não há obrigações. Nem estaremos obrigados a respeitar condições de segredo.

—  Eu me arrisco contando com o bom senso dos dois.

—  Talvez esteja se enganando. — Kressel foi até o bar e tornou a encher seu copo.

Loring sentou-se na beirada da mesa. — Eu come­çarei perguntando aos dois se já ouviram por aqui a pa­lavra nimrod?

—  Nimrod é um nome hebraico.  É do Velho Testa­mento. Descendente de Noé, senhor da Babilônia e Nínive.  Proezas lendárias como caçador e que obscurecem os fatos mais importantes de haver ele fundado, ou cons­truído, as grandes cidades da Assíria e da Mesopotâmia.

Loring sorriu. — Muito bem, outra vez, professor. Um caçador e um construtor. Só que estou falando em termos mais contemporâneos.

—  Então a resposta é não.   E você, Sam?

Kressel voltou à sua poltrona com o copo na mão. — Eu nem mesmo sabia o que você acaba de dizer. Pensei que fosse alguma isca de pesca boa para trutas.

—  Então eu vou lhes contar um pouco do passado.... Não pretendo chateá-los com as estatísticas de narcóti­cos. Estou certo que já estão cheios delas também.

—  Constantemente, — disse Kressel.

—  Mas há uma singular estatística geográfica que talvez não conheçam. A concentração do tráfico de dro­gas nos Estados de New England está crescendo num índice que excede qualquer outra seção do país.   É um padrão de meter medo.   Desde 1968 vem havendo uma erosão sistemática  nas formas de sua contenção.   Vou mostrar-lhes em  perspectiva  geográfica.   Na  Califórnia, Illinois e Louisiana, o controle dos narcóticos melhorou até conseguir deter a tendência crescente.  É   realmente o que mais podemos esperar até que os acordos interna­cionais possam funcionar. Mas isso já não acontece aqui nesta área de New England.   Em todo este território a expansão corre a rédeas soltas. Já atingiu fortemente as universidades.

—  E como é que sabe disso?

—  Dezenas de maneiras, mas sempre tarde demais para impedir a distribuição.  Conhecemos os que infor­mam; os estoques do Mediterrâneo, da Ásia e da América Latina; os depósitos na Suíça, mas são apenas dados res­tritos. — Loring olhou para Kressel e sorriu.

—  Agora é que eu estou vendo que vocês são malu­cos mesmo. Quer me parecer que se pudessem compro­var tudo isso, deveriam fazê-lo de público.   E bem alto.

— Temos nossas razões...

—  Que também suponho sejam confidenciais, — dis­se Kressel com uma expressão irônica.

Loring não lhe respondeu e continuou. — Isso é pro­blema secundário. As universidades de prestígio do lado do Atlântico, grandes e pequenas como Princeton, Amherst, Harvard, Vassar, Williams, Carlyle contam com uma alta porcentagem de alunos filhos de gente importante, dos que chamamos VIP. São filhos e filhas de gente graúda especialmente no governo e na indústria. Há um grande potencial de chantagem que nós achamos que vem sendo usado. Gente assim não gosta muito de escândalos liga­dos às drogras...

Kressel interrompeu. — Concedendo que tudo isso seja verdade, e eu não acho, nós temos tido menos pro­blemas aqui do que na maioria das outras universidades de outras áreas.

—  Nós sabemos disso e até mesmo desconfiamos por quê.

—  Isso é esotérico, Sr. Loring. Diga logo o que quer.

Matlock não era muito dado a brincadeiras daquela espécie.

—  Qualquer rede de distribuição que seja capaz de sistematicamente atender, expandir e controlar todo um setor do país, precisa de contar com uma base de ope­rações. Digamos uma espécie de câmara de compensa­ção ou um posto de comando. Quero que me acreditem quando eu disser que essa base de operações, esse posto de comando para o tráfico de narcóticos em todos os Estados de  New England,  encontra-se aqui  mesmo  na Universidade de Carlyle.

Samuel Kressel, o reitor e decano da universidade deixou cair seu copo no assoalho encerado de Adrian Sealfont.

 

Ralph Loring continuou a contar a sua incrível estória. Matlock e Kressel estavam pregados em suas poltronas. Diversas vezes, durante a sua culta e metódica exposição, Kressel tentou interrompê-lo mas ele continuou indiferente. Não havia o que argumentar.

A investigação na Universidade de Carlyle tinha co­meçado dezoito meses antes. Havia sido deflagrada pela descoberta feita pela Sureté da França, de um livro de contabilidade encontrado numa das freqüentes investi­gações feitas no porto de Marselha. Logo que foi consta­tada a procedência norte-americana de tal livro, ele foi enviado a Washington por intermédio da Interpol. Em todo o livro os lançamentos se referiam a C-22.° - 59.° sempre acompanhado do nome Nimrod. Verificou-se que os números de graus eram as coordenadas geográficas da parte norte de Connecticut, mas sem uma decimal de­finitiva. Depois de pesquisar centenas de possíveis rotas para caminhões partindo de portos do Atlântico ou de aeroportos relativos à operação de Marselha, foi organi­zada uma cerrada vigilância nas vizinhanças de Carlyle.

Como parte dessa vigilância foram censurados os telefones de pessoas conhecidas como envolvidas na dis­tribuição de narcóticos em pontos como New York, Hart­ford, Boston e New Haven. Foram gravadas fitas de con­versas dos chefões do submundo. Verificou-se que todas as chamadas referentes a narcóticos de e para a área de Carlyle eram feitas de telefones públicos, isso tornava difícil, mas não impossívei, interceptá-las. Eram ainda métodos duvidosos.

À medida que aumentavam as informações, um fato impressionante tornava-se aparente. O grupo de Carlyle era independente. Não tinha laços formais com a estru­tura do crime organizado. Não prestava contas a ninguém. Usava os elementos criminosos conhecidos mas não era usado por eles. Era uma unidade hermeticamente orga­nizada que se estendia à maioria das universidades de New England. E, aparentemente, não se limitava às drogas.

Havia provas da infiltração da unidade de Carlyle no jogo, na prostituição e até mesmo nos empregos para os que se formavam. O mais importante era que parecia haver um propósito, um objetivo, além dos lucros inerentes às atividades ilícitas. A unidade de Carlyle poderia conseguir maiores lucros com menos complicações se traficasse diretamente com os criminosos conhecidos como fornece­dores em todas as áreas. Em lugar disso gastava seu di­nheiro formando uma organização. Era dona de si mesma, controlava suas próprias fontes de abastecimento e a sua distribuição. Mas o que não estava claro era o seu ver­dadeiro objetivo final.

Tinha-se tornado tão poderosa que já ameaçava a liderança do crime organizado em outras áreas. Por essa razão, os figurões do submundo tinham solicitado uma conferência com os que estavam à testa da organização de Carlyle. A chave, no caso, era um grupo, ou um indi­víduo, a que se referiam como Nimrod,

O fim da conferência, tanto quanto se podia deter­minar, era uma acomodação a ser alcançada entre Nimrod e os senhores do crime que sentiam-se ameaçados pelo crescimento extraordinário de Nimrod. Compareceriam à conferência dezenas de criminosos conhecidos e desco­nhecidos em todos os Estados de New England.

Loring voltou-se então para o reitor de Carlyle e pareceu hesitar. — Sr. Kressel, eu suponho que o senhor tenha listas de estudantes, professores, funcionários, gente que o senhor saiba ou tenha razões para suspeitar de es­tarem envolvidos com drogas. Sei que a maior parte das universidades tem isso.

—  Não vou responder a tal pergunta.

—  E isso, naturalmente, corresponde a uma resposta, — disse Loring tranqüilo e até mesmo mostrando certa simpatia.

—  De forma alguma!  Vocês estão acostumados a presumir exatamente o que desejam...

—  Muito bem, eu aceito a sua repreensão. Mas mes­mo que me houvesse respondido pela afirmativa, eu não ia lhe pedir a lista.  Era simplesmente uma forma de lhe dizer que  nós já a temos e queríamos apenas  que o senhor soubesse.

Sam Kressel verificou que caíra na armadilha e a sinceridade de Loring ainda mais o enfureceu.

—  Não preciso lhe dizer que não teríamos objeção alguma a lhe fornecer tal lista...

—  Não será necessário...

—  Você é bem teimoso, Sam. Está enterrando a ca­beça na areia?

Antes que Kressel pudesse responder, Loring acres­centou: — O reitor sabe que pode mudar de idéia. E já concordamos que não existe uma crise aqui. É de admi­rar o número de pessoas que prefere esperar até que o teto lhes caia em cima antes de pedir socorro. . . ou de aceitá-lo.

— Mas não há muitas surpresas na tendência de sua organização para transformar as situações difíceis em desastres, hein?

—  Nós já cometemos enganos.

—  Uma vez que já conhecem os nomes, por que não correm atrás deles? Deixem-nos de fora.   Façam o seu trabalho sujo.   Prendam e processem.   Não tentem transferir para nós um tal encargo.

—  Não é o que estamos querendo fazer. . .   Além disso, a maior parte das provas que temos são inadmissíveis.

—  Foi o que pensei.

Loring  inclinou-se para frente e  enfrentou  o  olhar de Kressel. — E o que ganhamos com isso? O que ga­nham vocês? Pegamos uma centena de maconheiros e outros viciados além dos vendedores. Toda a arraia miúda.  Mas então não percebe que isso nada resolve?

—  E então voltamos ao que o senhor deseja de nós, não é? Matlock mergulhou na poltrona e ficou olhando para o agente tão cheio de persuasão.

—  É isso mesmo. Queremos Nimrod. Queremos sa­ber o lugar da conferência de maio.  Pode ser em qual­quer lugar dentro de um raio de cem a duzentos quilô­metros. Queremos estar preparados para ela. Queremos quebrar a espinha dorsal da operação Nimrod por moti­vos que ultrapassam a Universidade de Carlyle, E também os narcóticos,

—  E como? — Perguntou Matlock.

—  Como disse o  Dr.  Sealfont.   Pela  infiltração... Professor Matlock, o senhor é conhecido como uma inte­ligência e considerado em seu círculo como pessoa de alta mobilidade. O senhor é amplamente bem recebido por diversas facções, algumas mesmo antagônicas tanto no corpo docente como no discente.  Nós temos os nomes e o senhor tem a mobilidade. — Loring esticou o braço e apanhou o papel prateado e sujo. — Em alguma parte aí deve estar a informação que precisamos.  Em algum lugar deve existir alguém que tem a outra metade deste papel, alguém que sabe o que nós queremos saber.

James Barbour Matlock ficou estarrecido na sua pol­trona com os olhos fitos no funcionário de governo. Tanto Loring como Kressel não tinham meios de saber o que estaria ele pensando,  mas ambos faziam alguma idéia.

Se os pensamentos pudessem ser ouvidos teria havido um perfeito acordo ali na sala naquele momento. O pen­samento de James Matlock tinha-se transferido para quase cinco anos antes. Estava se lembrando de um rapazinho louro com dezenove anos. Imaturo ainda para a sua idade, mas um bom rapaz.  Um menino com problemas.

Tinha sido encontrado, como eram encontrados mi­lhares deles em milhares de cidades pequenas e grandes em todo o país.  Outros tempos, outros Nimrods.

David, o irmão de James Matlock, tinha enfiado a agulha no seu braço direito com uma dose cavalar de um fluido branco. Tinha feito aquilo num barquinho nas calmas águas de Cap Cod. O barco deslizara e se pren­dera nas algas junto à praia. Quando o encontraram, o irmão de James já estava morto.

Matlock chegou a uma decisão.

—  Pode me dar os nomes?

—  Tenho-os aqui  comigo. . .

—  Mas espere um pouco aí. — Kressel levantou-se, e quando falou já não era como alguém zangado.  Era alguém apavorado. — O senhor percebe o que vai fazer com ele? O que está lhe pedindo? Ele não tem a menor experiência dessa espécie de trabalho. Não está treinado. Por que não usa um de seus homens?

—  Porque não temos tempo. Não temos tempo para preparar um dos nossos.  Ele será protegido e o senhor pode ajudar.

—  Eu posso é fazê-lo desistir!

—  Não, Sam. Você não pode. . .

—  Mas Jim, pelo amor de Deus! Sabe bem o que ele está lhe pedindo? Se há alguma verdade em tudo que nos disse, ele está colocando você na pior posição que pode existir para alguém.   Você vai ser um informante. 

— Você não precisa ficar aqui, Sam. A minha deci­são não tem nada que ver com você.  Por que não vai para casa?

Matlock levantou-se e caminhou lentamente para o bar levando consigo o copo.

—  Isto já é impossível agora, e ele sabe muito bem, — disse Kressel olhando para o agente.

Loring sentiu-se tomado de tristeza. Esse Matlock era um homem bom. Estava fazendo aquilo porque sentia que tinha uma dívida a pagar. E tudo estava fria e profissionalmente projetado de modo que com a aceitação daquela incumbência, James Matlock estava possivelmente caminhando para sua morte. Era um preço terrível uma tal possibilidade. Mas o objetivo valia o preço. A confe­rência valia aquilo.

Nimrod valia aquilo.

Era a conclusão de Loring.

Tornava a sua obrigação mais aceitável.

 

Nada podia ser escrito. As instruções eram lentas e a repetição constante. Mas Loring era um bom profis­sional e sabia como aliviar a pressão com intervalos nos momentos certos. Durante esses períodos ele procurava fazer com que Matlock se revelasse para que ficasse sa­bendo como era aquele homem cuja vida era considerada como sacrificável com tanta facilidade. Já era quase meia noite. Sam Kresse! tinha ido embora às oito já que a sua presença não era necessária nem mesmo aconse­lhável. Ele teria apenas que agir como ligação sem qual­quer parte ativa, uma decisão que foi bem de seu agrado.

Ralph Loring percebeu logo que Matlock era um homem reservado. As suas respostas a perguntas inócuas eram breves e rápidas. Depois de tentar um pouco Loring desistiu. Matlock tinha concordado em desempenhar uma missão e não em tornar públicos os seus sentimentos ou motivos. Ele aliás preferiu mesmo não ficar conhecendo o seu homem muito a fundo.

Matlock, por sua vez, enquanto memorizava as com­plicadas instruções, estava com o pensamento em um outro nível que refletia a sua vida, tentando descobrir por que tinha sido ele o escolhido. Estava bem intrigado com aquela avaliação a seu respeito que o classificava como possuindo grande mobilidade. Achava tão estranha aquela expressão!

Mesmo assim, sabia perfeitamente que ela estava muito bem aplicada. Ele tinha mobilidade. Os pesquisadores, psicólogos ou lá o que fosse, tinham acertado em cheio. Só que ele duvidava se eles compreendiam bem as razões existentes por trás de sua. . . “mobilidade”.

O mundo acadêmico tinha-lhe servido de refúgio e de asilo. Não era um objetivo para uma ambição dura­doura. Tinha-se refugiado ali para ganhar tempo, para reorganizar sua vida que estava se desintegrando, para compreender. Para firmar a cuca como dizem os garotos de hoje.

Tinha tentado explicar aquilo à sua mulher encanta­dora, viva, inteligente, mas afinal vazia, e ela tinha-o considerado como tendo perdido o juízo. O que poderia haver de melhor do que um emprego bacana, uma casa bacana, um clube bacana e uma vida mansa dentro de um mundo social e financeiro que também era bacana? Para ela não havia mais nada além daquilo e ele com­preendeu-a bem.

Para ele, o mundo dela tinha perdido o seu sentido. Ele tinha começado a fugir daquilo aos seus vinte e poucos anos, durante o último ano em Amherst. A sepa­ração tornou-se completa quando ingressou no exército.

Não tinha sido uma qualquer coisa singular a res­ponsável pelo deflagramento de sua rejeição. A própria rejeição não tinha sido um ato violento embora a violên­cia tivesse desempenhado o seu papel nos primeiros dias da trapalhada de Saigon. Ela tinha começado em casa, onde a maior parte dos estilos de vida são aceitos ou re­jeitados, durante uma série de discussões desagradáveis com o pai. O velho cavalheiro, velho demais e cavalheiro demais, sentia-se no direito de exigir do filho uma outra linha de conduta. Queria uma orientação, um sentimento de propósito, que não via nele. O velho pertencia a uma outra era, talvez mesmo a um outro século, e acreditava que era bom haver uma certa separação entre pai e filho, até que o elemento inferior mostrasse o que valia no mercado. Era inferior mas tinha que ser maleável. De certa forma, o pai era um senhor benevolente que, depois de ocupar o poder durante gerações, ainda não sentia vontade de entregá-lo a quem de direito.  O velho Matlock considerava inconcebível que o filho não assumisse a liderança dos negócios da família.

Mas para o jovem Matlock aquilo era por demais concebíyel. E preferível. Ele não apenas sentia-se inquieto quando imaginava seu futuro no mercado de seu pai, como também tinha medo. Não sentia alegria alguma nas pres­sões arregimentadas do mundo das finanças. Ao contrá­rio, tinha medo de demonstrar a sua incompetência em comparação com a forte e dominadora competência de seu pai. Quanto mais perto chegava daquele estranho mundo, maior era o seu medo. E também lhe ocorria que, junto aos prazeres da segurança extravagante e dos des­necessários confortos materiais, tinha que existir a justi­ficação para fazer o que se esperava dele para que pos­suísse tudo aquilo. E ele não encontrava a justificação. Achava melhor que a segurança do abrigo fosse menos extravagante, que os confortos materiais fossem mais li­mitados, do que ter de enfrentar a perspectiva da conti­nuação do medo e da inquietação.

Tinha tentado explicar aquilo ao pai. Ao passo que a sua mulher achava haver ele perdido o juízo, o velho pai era de opinião que ele era um incapaz.

O que, aliás, não estava muito em desacordo com o que o exército veio a pensar dele.

O exército.

Um desastre. Pior ainda por saber que era só sua a culpa. Verificou que a cega disciplina física e a autoridade indiscutível eram para ele coisas detestáveis. E ele tinha tudo que era preciso para tornar isso trans­parente, para o seu próprio prejuízo.

As discretas manipulações de um tio conseguiram uma baixa antes de haver completado o seu tempo de serviço e aí ele mostrou-se grato à influência da família.

Nessa altura de sua vida, James Barbour Matlock II estava destroçado. Separado do serviço militar com muito pouca glória, divorciado da mulher, simbolicamen­te repudiado pela família, embora não de fato, ele sentiu o pânico de não pertencer a coisa alguma, de não pos­suir um motivo ou propósito.

Assim, refugiara-se na segurança de uma escola su­perior esperando encontrar ali a resposta. E então, como se fosse um caso de amor começado numa base sexual mas degenerando cada vez mais em dependência psicológica, ele casou-se com aquele mundo. Encontrou ali aquilo que lhe fugira durante quase cinco anos. Foi o primeiro compromisso sério que até então tinha expe­rimentado.

E estava livre.

Estava livre para gozar o prazer de uma luta com sentido. Livre para se valer da confiança que sentia em si. Mergulhou naquele mundo novo com o entusiasmo de um convertido mas sem a sua cegueira. Escolheu um período de História e Literatura que estava cheio de energia e conflito e de avaliações contraditórias. Os anos de aprendizagem passaram rápidos. Estava espantado e agradavelmente surpreendido com os seus próprios ta­lentos. Quando surgiu no nível profissional, trouxe com ele uma rajada de ar fresco para os arquivos bolorentos. Promoveu inovações revolucionárias nos velhos métodos de pesquisa. Sua tese doutoral sobre a interferência da corte na literatura da Renascença Inglesa foi um sopro de vida nova no depósito das cinzas históricas aniqui­lando diversas teorias consagradas acerca de uma benfeitora chamada Elizabeth.

Ele representava a nova raça do acadêmico estu­dioso. Era inquieto, cético, insatisfeito e sempre à pro­cura de alguma coisa ao mesmo tempo que transmitia aos outros tudo que aprendia. Dois anos e meio depois de haver conquistado seu doutorado ele era elevado à posição de professor associado e era o mais jovem de todos, contratado por Cariyle.

James Barbour Matlock li recuperou os anos perdi­dos, aqueles anos horríveis. Talvez o melhor que lhe aconteceu foi descobrir que podia comunicar aos outros as suas alegrias. Era jovem bastante para gostar de par­tilhar seus entusiasmos, e tinha idade bastante para di­rigir pesquisas.

E no entanto, tinha mobilidade. E como tinha, meu Deus! Não repudiava ninguém, não tinha desavenças com ninguém nem mesmo tinha antipatias. A profundidade de sua gratidão e de seu alívio era tanta que ele inconscien­temente prometia a si mesmo nunca ignorar as preocu­pações de um outro ser humano.

— Algumas surpresas ? — Perguntou Loring que ti­nha acabado de explicar como era a rede de narcóticos.

—  Diria antes um esclarecimento.  As fraternidades ou clubes da velha guarda, a maioria de brancos e de gente rica, recebe a muamba de Hartford. As unidades negras como Lumumba Hall suprem-se em New Haven. São fontes diferentes.

—  Exatamente.   É a orientação dos estudantes.   O ponto é que nenhum compra aos fornecedores de Cariyle. A Nimrod.

—  É como você diz. O pessoal de Nimrod não quer fazer propaganda.

—  Mas estão aqui e são usados.

—  Por quem ?

—  Pela faculdade e pelos funcionários, — respon­deu Loring calmamente virando uma página. — Isto agora pode ser uma surpresa. O casal Archer Beeson. ..

Matlock logo imaginou o jovem instrutor de História e sua mulher. Representavam a própria conformidade tradicional, falsamente arrogantes, esteticamente precio­sos. Archer Beeson era um moço apressadamente acadê­mico. Sua mulher era a perfeita ingênua da faculdade, descuidadamente sexual e eternamente espantada.

—  Eles são do LSD e outras drogas. Ácido e...

—  Deus do céu! Esses me enganaram mesmo! Como foi que soube ?

—  É muito complicado e também secreto.  Ele cos­tumava se suprir comprando grandes quantidades de um distribuidor em Bridgeport.  Esse contato terminou e ele não apareceu mais em qualquer das outras listas.  Mas não abandonou o vício.   Nós achamos que estabeleceu o contato em Cariyle.  Não temos provas, no entanto... Aqui está um outro.

Era o treinador de futebol da universidade e que tam­bém trabalhava na educação física. Especializava-se em maconha e benzedrina. Abastecia-se antes em Hartford. Era considerado como vendedor no campus e não como viciado. Embora não usasse mais a fonte de Hartford, as suas várias contas bancárias sob falsos nomes conti­nuavam a crescer.  Dedução: Nimrod.

E mais outro ainda. E esse apavorou Matlock. Era o assistente do reitor de admissões. Antigo aluno de Carlyle que tinha voltado para o campus depois de uma breve carreira lá fora como vendedor.   Era um  homem espalhafatoso, um mão aberta sempre defendendo a causa de Carlyle. Um entusiasta muito conhecido nes­ses dias de cinismo. Também esse era considerado dis­tribuidor sem ser viciado. Cobria-se bem servindo-se de vendedores avulsos.

— Nós achamos que ele voltou para cá por intermé­dio da organização Nimrod. Foi um bom lance de parte de Nimrod.

—  É de apavorar.  Esse filho da puta faz com que os pais pensem ser ele uma combinação de astronauta e capelão.

—  Foi um bom lance, como já disse.  Lembra-se do que eu disse a você e a Kressel que o pessoal de Nimrod tem outros interesses além das drogas ?

—  Mas você não sabe quais são. ..

—  Teremos que descobrir... Aqui está a lista dos garotos.

Os nomes pareciam não ter fim para Matlock. Havia 563 num total de mais de 1.200 matriculados. Loring con­fessou que muitos estavam na lista sem terem sido con­firmados como viciados e sim apenas por causa de suas ligações no campus. Sabia-se que os clubes e fraterni­dades juntavam seus recursos para a compra de narcó­ticos.

—  Nós não temos tempo para conferir a validez de todos os nomes.  Estamos procurando ligações por mais remotas que sejam. Temos que investigar tudo.  Não po­demos escolher... e há ainda um outro aspecto nesta lis­ta. Não sei se já reparou ou não.

—  Claro que já.  Pelo menos penso que sim.  Vinte ou trinta dos nomes fazem lembrar gente bem. Pais muito influentes. Na indústria e no governo. Aqui está um que faz parte do Ministério.  E não estou enganado.

—  Pois é como vê...

—  E alguma coisa aqui já resultou em algum efeito?

—  Não sabemos.  Pode ser que sim.  Os tentáculos de Nimrod estão se estendendo rapidamente. Daí vem o alarme.   Falando sem ser oficialmente, as repercussões poderão  ser maiores do  que  qualquer especulação... Podem afetar a defesa do país, os contratos sindicais, o diabo, em suma. Diga uma coisa e ela também pode estar relacionada.

— Virgem Maria!. . .

—  É isso mesmo.

Os dois homens ouviram a porta da frente da mansão de Sealfont abrir e fechar. Como se fosse um reflexo, Loring calmamente tirou os papéis da mão de Matlock e tornou a colocá-los na pasta. Fechou-a e fez uma coisa inesperada. Em silêncio e quase disfarçadamente ele afastou as abas do casaco e segurou um revolver que es­tava num coldre em torno de seu peito. Aquilo assustou Matlock que ficou de olhos arregalados para a mão escondida.

Abriu-se a porta da biblioteca e Adrian Sealfont en­trou. Loring tirou a mão e ouviram Sealfont falar com bondade.

—  Eu faço tudo. Faço tudo mesmo com sinceridade. Compreendo as palavras e os quadros e não me ofendo com  os cabelos.   O que me confunde é a hostilidade. Qualquer pessoa com mais de trinta anos é o inimigo na­tural desses caras.

—  Está falando de Strauss, não é ?

—  Isso mesmo.  Alguém fez uma pergunta sobre a influência da Nova Onda.  Ele respondeu que ela já era história antiga. Já era pré-histórica, foi o que ele disse. . . Não quero interrompê-los, senhores, mas gostaria que o Sr. Loring me dissesse qual é a posição de Kressel. Pelo que vejo James aceitou. . .

—  E o Sr. Kressel também. Agirá como elemento de ligação entre nós dois.

Sealfront olhou para Matlock e havia nos seus olhos uma expressão de alívio. — James, já agora posso lhe dizer. Estou muito agradecido por você haver decidido ajudar.

— Não creio que haja outra alternativa. . .

—  E não há mesmo. O que me apavora é a possibi­lidade  de  um  envolvimento  tão  completo.   Sr.   Loring, quero que me avise logo que tenha alguma coisa con­creta.  Quando chegar nesse ponto eu farei tudo que o senhor quiser.   Seguirei todas as  instruções.   Tudo que peço é que me apresente as provas, e o senhor terá mi­nha completa cooperação oficial.

—  Eu   compreendo,   senhor.   Tem   sido   de   grande ajuda. Mais do que tínhamos o direito de esperar. E nós apreciamos isso. . .

— Como disse o James, não há alternativa. Só que devo impor limites. O meu primeiro dever está com a ins­tituição. Os campus atualmente podem parecer adorme­cidos, mas eu acho que isso é só na superfície... Os se­nhores precisam trabalhar e eu ainda preciso ler alguma coisa.  Boa noite Sr.  Loring... James...

Os dois retribuíram a saudação e Adrian Sealfont fe­chou a porta da biblioteca.

Quando chegaram a uma hora Matlock já não con­seguia absorver mais. Os principais elementos como os nomes, fontes e conjeturas já estavam armazenados e ele nunca mais esqueceria. Claro que ele não poderia recitar tudo de cor, nem isso era esperado dele, mas a simples vista de qualquer daqueles nomes seria o bas­tante para íhe despertar a memória. Sabia que Loring estava certo a tal respeito. Por isso ele insistira com ele para pronunciar os nomes em voz alta repetindo-os por diversas vezes. Era o bastante.

O que ele precisava agora era uma boa noite de sono se conseguisse dormir. Então tudo entraria na perspectiva certa. Então, quando chegasse de manhã, ele começaria a tomar as primeiras decisões escolhendo os primeiros contatos. Teria então que ficar conhecendo novos ami­gos, professores ou estudantes, e outros fragmentos iso­lados de informações além das que lhe tinham sido dadas por Loring. A lista que Kressel tinha e que não havia con­fessado ia servir de muito.

Quando começasse a conversar teria que agir com cautela sempre alerta para quaisquer sinais reveladores.

Em algum lugar, com alguém, aquilo iria acontecer.

—  Eu queria ainda lhe falar de mais alguma coisa...

—  Nós já falamos  muito.   Talvez fosse  melhor eu tentar digerir o que já tenho...

—  Levará menos de um minuto e é muito importante. Ele meteu a mão na pasta e tirou o papel sujo e pra­teado cortado pelo meio. — Aqui está, é seu.

—  Muito obrigado pelo que não sei o que é, — disse Matlock segurando o estranho documento.

—  Eu já lhe disse que está escrito em oltremontan da Córsega com a exceção de duas palavras.   No fim, numa só linha, você vê a expressão Venerare Omerta. Isto não é corso. É o dialeto siciliano, ou antes, para ser preciso, uma contração siciliana.

—  Já ví isso antes.

—  Claro que já viu. Foi muito difundido nos jornais, no cinema, nos romances de ficção, mas isso não diminui o seu impacto nas pessoas em causa. É muito real.

—  E o que significa ?

—  Numa tradução grosseira seria: Respeite a lei de Omerta. A palavra Omerta é um juramento de fidelidade e silêncio. Traí-lo é o mesmo que invocar a morte.

—  Máfia ?

—  Tem alguma coisa com ela. Tenha em mente que esta convocação foi feita em conjunto por duas facções que estão tentando encontrar uma acomodação,  Omerta é conhecido das duas.

—  Vou me lembrar disto, mas não sei o que deva fazer com isto.

—  É só para ficar sabendo.

—  O.  K.

—  Uma última coisa ainda. Tudo que tratamos aqui esta noite relaciona-se aos narcóticos, mas se a nossa informação estiver certa, o pessoal do Nimrod está envol­vido em outras linhas.  Agiotagem, prostituição, jogo... talvez, e somente talvez, também com os governos muni­cipais e estaduais e até mesmo o federal... A experiên­cia nos diz que os narcóticos são o elo mais fraco e o mais fácil de entrar em colapso., e é por isso que nos concentramos neles. Em outras paiavras, precisamos dar toda a atenção aos narcóticos sem nos esquecermos que existem os outros ramos. Vamos ficar por aqui hoje.

—  Não seria melhor você me dar um número onde eu possa encontrá-lo ?

—  Negativo.   Use  Kressel.   Vamos  nos  comunicar com ele várias vezes por dia. Logo que você comece a fazer perguntas vão colocá-lo sob um microscópio.  Não telefone para Washington. E não perca o nosso convite corso. Trate de encontrar o outro pedaço.

—  É o que vou tentar.

Matlock viu Loring fechar a sua pasta e prendê-la pela corrente no seu pulso.

—  Parece muito coisa de capa e espada, não acha? —  A mim impressiona.

—  Não se deixe impressionar.  Este costume come­çou com os coreios diplomáticos que iam para o inferno levando as pastas com eles. Hoje é uma simples precau­ção contra o roubo de bolsas. . .

—  Não  acredito  no  que está dizendo.   Esta pasta deve ser daquelas que soltam cortinas de fumaça, que enviam sinais de rádio e deflagram bombas.

—  E você está certo. Faz isso e muitas coisas mais. Tem compartimentos secretos para sanduíches e roupa suja e mais uma infinidade de coisas que só Deus sabe. Acho que seria boa idéia sairmos separados.   Um pela frente e outro pelos fundos com dez minutos de diferença.

—  Acha que isto é necessário ?

—  Francamente, não, mas é assim que os meus su­periores querem.

—  Está bem. Eu conheço a casa. Sairei dez minutos depois de você, pela cozinha.

Loring estendeu o braço segurando a pasta com a mão esquerda. — Muito bem. Não preciso lhe dizer o quanto apreciamos o que está fazendo.

—  Creio que você sabe a razão. . .

—  Claro  que sabemos.   Para falar com  franqueza, já contávamos com isso.

Loring saiu da biblioteca e Matlock esperou até ouvir a porta da frente abrir e fechar. Olhou para o relógio. Ia tomar mais um drinque antes de sair.

A uma hora e vinte Matlock estava a diversos quartei­rões de distância de casa. Caminhou em direção ao seu apartamento, andando devagar e pensando se deveria dar uma volta pelo campus. Quando tinha problemas, ele cos­tumava sair andando para procurar a solução, e sabia que depois dormiria bem. Passou por alguns estudantes e diversos professores trocando cumprimentos em voz baixa com os que conhecia. Já tinha resolvido caminhar em direção oposta ao seu apartamento quando ouviu pas­sos que o acompanhavam. Primeiro os passos e depois a voz muito baixinha e urgente.

— Matlock! Não se vire. Sou o Loring. Continue an­dando e ouvindo,

—  O que é ?

—  Alguém sabe que estou aqui.  Meu carro foi todo examinado. . .

—  Virgem Maria! Como sabe ?

— Nós sempre nos preparamos para isso. Coloca­mos fios e marcas. Foi todo revistado. Serviço de profis­sional.

—  Tem certeza ?

— Tenho tanta certeza que nem vou ligar o arranco!

Matlock quase parou com o susto. — Meu Deus!

—  Continue andando.  Se alguém estava me vigian­do, e tenho toda a.certeza que estava mesmo, eu fiz como se  houvesse  perdido  as  chaves.   Perguntei  a  diversas pessoas que passavam onde havia um telefone público e fiquei esperando até você estar bem longe.

—  E o que quer que eu faça? Há um telefone na próxima esquina...

—  Eu sei.  Não acho que você possa fazer alguma coisa.  Eu vou lhe dar um encontrão quando passar, um bem forte.  Caia no chão e eu me desculparei gritando. Faça de conta que torceu o tornozelo ou o pulso, mas ganhe tempo! Não me perca de vista até que um carro venha me buscar e eu lhe faça sinal que tudo está bem. Compreendeu bem? Eu vou correr ao telefone. . .

—  Qual é o problema ?

—  É esta pasta. É o que eles querem. E só há uma coisa que Nimrod deseja mais do que esta pasta, se é que trata-se mesmo dele.   É aquele papel que está no bolso do seu casaco. Tenha muito cuidado!

Sem mais aviso ele passou apressado por Matlock e com um tranco atirou-o fora da calçada.

—  Desculpe meu chapa.   Estou com muita pressa!

Ele soltou um palavrão e levantou-se a custo. De­pois foi andando devagar e capengando até o telefone que ficava a algumas centenas de metros adiante. Gastou quase um minuto acendendo um cigarro. Loring já estava dentro da cabine sentado na cadeira de plástico e incli­nado sobre o telefone.

A qualquer momento Matlock esperava ver chegar o carro de Loring.

Mas não apareceu carro algum.

Em lugar disso ele ouviu um barulhinho como se fosse um sopro agitando as folhas. Ou seria uma pedrinha esmagada por um pé, um pequeno ramo que partia-se ? Ou seria pura imaginação? Matlock não podia ter certeza.

Estava chegando perto da cabine e lembrava-se das ordens de Loring. Continue andando sem me dar atenção. Loring estava ainda inclinado sobre o aparelho com a pasta no chão e a corrente bem visível. Mas Matlock não ouvia a conversa nem qualquer movimento dele. Em lu­gar disso ouvia agora o som característico do ruído de discar.

Apesar das instruções, Matlock aproximou-se e abriu a porta da cabine. Achou que devia fazê-lo. Loring não tinha nem mesmo feito a chamada.

E ele logo compreendeu por que.

Loring estava caído em cima do aparelho. Estava morto. Os olhos estavam abertos e um fio de sangue escorria-lhe da testa. Um furinho do tamanho de um bo­tão de camisa com vestígios de vidro moído em torno, era prova bastante do que tinha acontecido.

Matlock ficou ali olhando para aquele homem que algumas horas antes tinha-lhe dado todas as instruções. O homem que lhe agradecera, que brincara com ele e finalmente o alertara, e que agora estava morto. Estava petrificado sem saber o que fazer, o que poderia fazer.

Afastou-se da cabine caminhando para a entrada da casa mais próxima. O instinto lhe dizia para manter-se afastado mas para não correr. Alguém ainda estava por ali. Alguém com um rifle.

Quando as palavras vieram ele percebeu que eram dele, mas não sabia quando se havia resolvido a gritar. Elas apenas saiam involuntariamente.

— Socorro...  socorro! Há um homem morto aqui!

Foi até a casa da esquina e começou a martelar a porta. Nas outras casas acenderam-se luzes e ele con­tinuava a gritar.

De repente, do meio da sombra das árvores no meio do quarteirão, Matlock ouviu o barulho de um motor de automóvel seguido do gemer dos pneus quando dobrou a esquina em alta velocidade seguindo pelo meio da rua. Matlock abrigou-se na entrada da casa e tentou ver o número do carro. De repente foi ofuscado por um jato de luz que se focalizava nele. Levou a mão aos olhos e ouviu o mesmo barulho que tinha ouvido antes.

Estavam atirando nele com um rifle. Um rifle com silenciador.

Atirou-se no chão escondendo-se nas plantas en­quanto o carro preto fugia a toda velocidade.

 

Ficou esperando sozinho. A sala era pequena e os vidros reforçados com arames. A Delegacia de Polícia de Carlyle estava cheia de gente que tinha sido chamada às pressas. Ninguém sabia o que poderia significar aquele crime.  E todos sabiam da possibilidade de haver outros.

Alerta. Aquilo era a síndrome característica dos Es­tados Unidos da atualidade, pensava Matlock.

A arma de fogo.

Ele não tinha tido a presença de espírito de telefonar para Sam Kressel depois de haver chegado na polícia. Kressel, nervoso, dissera-lhe que iria entrar em contato com as pessoas certas em Washington e que depois se­guiria para a delegacia.

Concordaram os dois que, até outras instruções, Matlock se restringiria a afirmar que tinha encontrado o corpo e visto o automóvel que fugia. Tinha saído para dar uma volta.

E nada mais.

O seu depoimento foi registrado. As perguntas gi­ravam em torno de sua razão para estar por ali; na des­crição do carro e na direção que tomara; na velocidade estimada. Eram todas perguntas de rotina que foram aceitas sem discussão.

Matlock ainda estava preocupado com a negativa que fora obrigado a responder.

—  Já tinha visto o morto antes alguma vez ?

—  Não.

Não se conformava. Loring merecia mais do que uma simples e deliberada mentira. Lembrou-se que o agente lhe falara de uma filha com sete anos. A mulher e a filha. O pai morto e ele não podia dizer que sabia o seu nome.

Não compreendia bem por que se sentia assim. Tal­vez porque visse que aquilo era apenas o princípio de muitas outras mentiras.

Assinou o depoimento muito curto e iam dispensá-lo quando ouviu um telefone tocando em outra sala. Logo depois saiu um soldado que chamou o seu nome em voz alta.

Disse-lhe que teria que esperar e pediu-lhe que o acompanhasse até a outra sala.

Matlock já estava ali na delegacia durante quase uma hora. Eram duas e quarenta e cinco e ele não tinha mais cigarros. Aquilo não era hora de ficar sem cigarros.

A porta abriu-se e entrou um homem magro e alto com olhos grandes e muito sérios. Tinha na mão a pasta de Loring. — Desculpe havermos detido o senhor, Dr. Matlock. O senhor é doutor, não é ?

—  Para mim basta “senhor”.

—  Eu sou Greenberg.  Jason Greenberg.   FBI.  Tive que  confirmar o  seu  depoimento. . .   È  uma trapalhada dos diabos,  não é ?

—  Uma trapalhada dos diabos ?  É tudo que o se­nhor acha ?

O agente olhou para Matlock. — Que mais posso dizer? Se Loring tivesse conseguido completar a sua li­gação ele teria falado comigo.

—  Desculpe-me.

— Não pense nisso. Eu sei de alguma coisa, mas não de tudo a respeito da situação Nimrod. Vou me atualizar em seguida. Kressel está a caminho. Ele sabe que eu estou aqui.

— E isso muda alguma coisa ? Isso parece estúpido, não é ? Um homem é assassinado e eu pergunto se isso muda alguma coisa.  Desculpe-me outra vez.

—  Não precisa desculpar-se.   O senhor passou por uma terrível experiência...  Qualquer mudança depende do senhor. Nós aceitamos o fato de que a morte de Ralph possa alterar a decisão desta noite. Só lhe pedimos que guarde para si tudo que ficou sabendo hoje.

—  O senhor está me oferecendo a possibilidade de me arrepender e desistir ?

—  Mas claro.   O senhor não tem qualquer obriga­ção. . .

Matlock caminhou até a pequena janela envidraçada da sala. A delegacia estava do outro lado da cidade, cer­ca de um quilômetro do campus, na parte da cidade que era considerada industrializada. Mesmo assim ainda ha­via árvores nas ruas. Carlyle era uma cidade muito lim­pa. As árvores em volta da delegacia estavam todas bem tratadas.

E Carlyle era ainda alguma coisa mais.

—  Quero lhe fazer uma pergunta, Greenberg.  Será que o fato de ter eu encontrado o corpo de Loring signi­fica que eu tinha alguma relação com ele? Será que eu poderia ser considerado como fazendo parte daquilo que ele estava fazendo?

—  Nós acreditamos que não.   A maneira como se comportou só pode servir para eliminar qualquer asso­ciação. ..

—  Como assim ?

—  Francamente, o senhor entrou em pânico,  O se­nhor não fugiu correndo. Começou a gritar como um de­sesperado. Qualquer um que estivesse ligado teria agido de outra maneira. Teria tido uma outra reação.

—  Eu não tinha sido preparado para isto. . .

—  Os resultados são os mesmos.  O senhor encon­trou-o e perdeu a cabeça. Se esse Nimrod jamais suspei­tar que estamos envolvidos. . .

—  Suspeitar! ? Mas eles o mataram !

—  Alguém matou-o.  Não parece que seja coisa do Nimrod.   Talvez outras facções.   Nenhuma  cobertura é absolutamente segura, nem mesmo a de Loring.   Mas a sua era a melhor. . .

— Não estou compreendendo

Greenberg encostou-se na parede e cruzou os braços. Seus olhos grandes estavam pensativos e tristes. — A cobertura de Ralph era a melhor que havia no FBI. Durante mais de quinze anos. — O agente olho para o chão.  Sua voz era profunda e muito amarga. — É oraio de cobertura que funciona melhor quando já não se precisa mais. É um insulto para a sua família.

Greenberg levantou os olhos e tentou esboçar um sorriso, mas ele não apareceu.

— Mesmo assim, eu ainda não compreendo. .

— E não é necessário. O ponto principal é que o senhor simplesmente aconteceu estar presente e que se apavorou entrando em pânico. O senhor pode ser dispensado. Sr. Matlock. . .

Antes que ele pudesse responder a porta abriu-se e Kressel precipitou-se na sala nervoso e apavorado.

— Meu Deus! Tudo isto é terrível! Simplesmente terrível. O senhor é Greenberg?

—  E o senhor é Kressel.

— Isso mesmo. O que vai acontecer agora? E você está bem, Jim?

—  Estou sim

 — Muito bem, Greenberg, o que está acontecendo? Lá de Washington me disseram que você me contaria.

— Eu estava falando com o Sr. Matlock e. . .

Mas Kressel interrompeu-o. — Escute aqui. Eu já telefonei para Sealfont e nós temos a mesma opinião. O que aconteceu foi terrível. . . trágico. Apresentamos as nossas condolências à família do morto, mas fazemos questão de não envolver nisto o nome de Carlyle. Achamos que isto muda completamente o panorama e insistimos para ficarmos de fora. Creio que compreenderão.

O rosto de Greenberg mostrou seu desagrado. — O senhor entra aqui correndo, pergunta-me o que está acontecendo, e antes que eu possa responder já está me dizendo como tem que ser. Diga-me então o que quer. Quer que eu telefone para Washington e diga-lhes o que o senhor acha, ou quer primeiro ouvir-me? Para mim não faz a menor diferença.

— Não vejo razões para antagonismos. Nós nunca pedimos para nos metermos nisto.

— Ninguém pede, — disse Greenberg sorrindo. — Por favor deixe-me acabar. Já disse a Matlock que ele está desobrigado. Ele ainda não me deu sua resposta e portanto eu não posso lhe dar a minha. No entanto, se ele vai dizer o que eu estou pensando, então a cobertura de Loring vai entrar em função novamente. Aliás, será de qualquer maneira, mas se o professor ficar de dentro ela será aumentada.

— Que diabo está você para aí a falar ?

— Durante anos Ralph foi sócio de uma das mais desacreditadas firmas de advogados em Washington.  A lista de seus clientes  parecia um  resumo da Máfia. . . Hoje de manhã bem cedo foi feita a primeira transferên­cia de veículos em um subúrbio de Hartford.  O carro de Loring, com as placas de Washington, foi deixado perto da casa de um conhecido chefão. Um automóvel de alu­guel estava esperando por ele algumas quadras adiante. Ele usou esse carro para vir até Carlyle e estacionou em frente do número 217 em Crescent St. a cinco quadras da casa de Sealfont. Nesse endereço mora o Dr, Ralston.

—  Eu o conheço. Já me disseram que é. . .

—  Especialista  em  abortos, — completou  Greeenberg.

—  Ele nada tem a ver com a universidade! — Disse Kressel.

—  Ralph largou seu carro e entrou na cidade a pé para a segunda transferência. Eu fiz a cobertura dele por causa desta pasta que contém material importante. Ele foi apanhado por uma caminhonete da companhia telefô­nica que faz paradas de rotina, uma das quais é um res­taurante chamado o Cheshire Cat, e finalmente levou-o para a casa de Sealfont.   Ninguém podia saber que ele teria sido interceptado do lado de fora. Estavam vigiando o seu carro estacionado em Crescent.

—  Foi o que ele me contou, — disse Matlock.

— Ele sabia que era possível.  A pista de Crescent foi  intencionalmente deixada a descoberto. Quando ele verificou o que tinha havido tomou logo as providências. Não sei o que ele fez até encontrar-se consigo.

—  Foi exatamente o que fez.

—  Mas não foi bastante rápido.

— Mas, pelo amor de Deus, o que tem isso a ver conosco? Qual é a possível ligação? — Kressel estava quase gritando.

— Se o   Dr. Matlock   quiser continuar,   a morte   de Loring vai ser anunciada como um crime entre gente do submundo. Um advogado de má fama. . . clientes indese­jáveis. O chefão e o doutor serão presos. A cortina de fumaça será tão densa que todos ficarão desarticula­dos. Até mesmo os criminosos. Matlock será esquecido. Vai  funcionar.   Já funcionou antes.

Kressel parecia assombrado com a segurança e o desembaraço de Greenberg, com seu calmo profissiona­lismo. — Você fala muito depressa, não é?

—  Eu  sou  muito  inteligente.

Matlock não conseguiu esconder um sorriso. Estava gostando de Greenberg a despeito das circunstâncias tristes. Era rápido na resposta e sabia o que dizia, Era mesmo inteligente.

—  E se o Jim disser que vai lavar as mãos?

Greenberg deu de ombros. — Eu não gosto de gastar palavras.  Vamos primeiro ver o que ele diz. Os dois olharam para Matlock.

—  Acho  que  não vou,   não,  Sam.   Ainda  estou  de dentro.

—  Você não pode estar falando sério! Aquele homem foi assassinado!

—  Eu sei.   Eu vi.

Kressel colocou a mão no braço de Matlock num gesto de amizade. — Eu não sou nenhum pastor histé­rico tomando conta de seu rebanho. Estou preocupado. Estou apavorado. Estou vendo um homem sendo mani­pulado para uma situação para a qual não está pre­parado.

—  Isto é subjetivo.  Nós também estamos preocupa­dos. Se não o julgássemos capaz nunca o teríamos pro­curado.

—  Acho que teriam sim. Não acredito que pudessem ser detidos por uma tal consideração. Vocês usam a ex­pressão  “sacrificável”  com  muita facilidade,  Sr.  Green­berg .

—  Sinto  muito  que o  senhor pense  assim,  porque eu não faço isso. Nós não fazemos. . .  Eu não sei ainda dos detalhes, Kressel, mas não era você que devia agir como elemento de ligação? Porque se era assim, acho que é melhor você afastar-se. Nós designaremos alguma outra pessoa para isso.

—  E   dar-lhe   inteira   liberdade?   Deixar   você   ficar dono do campus? Jamais faria isso.

—  Então vamos trabalhar juntos, por mais desagra­dável que isso possa ser para nós. . .  Você tem hostili­dade, mas talvez isso seja bom.  Você me controlará já que está sempre protestando.

Matlock ficou espantado com a declaração de Greenberg. Uma coisa era formar uma coalisão antagônica, mas coisa muito diferente eram acusações veladas. . . talvez insultuosas.

—  Esta  sua  observação  exige  uma  explicação, — disse Kressel vermelho de raiva.

Quando Greenberg respondeu, sua voz era suave e razoável, desmentindo as palavras que dissera. — Deixe para lá, meu senhor. Eu perdi hoje um amigo muito que­rido. Vinte minutos atrás falei com sua mulher. Não dou explicações sob condições. É aí que eu me separo dos patrões. Agora ca.e-se e eu vou escrever as horas para o contato e dar-lhe os números de telefones de emer­gência. Se não quiser assim pode ir para o diabo.

Greenberg colocou a pasta em cima de uma mesinha e abriu-a. Sam Kressel, ainda estarrecido, chegou-se para ele sem falar.

Matlock ficou olhando para aquela pasta já usada que algumas horas antes tinha visto presa ao pulso do homem que agora estava morto. Sabia que a pavana mortal tinha começado. Os primeiros passos da dança tinham sido violentos.

Havia decisões que precisavam ser tomadas. Havia gente para ser confrontada.

 

O nome que estava marcado na porta da casa da faculdade onde moravam duas famílias era Archer Beeson. Tinha sido relativamente fácil para Matlock conseguir o convite para jantar. O instrutor de História tinha ficado lisonjeado pelo seu interesse na coordenação de um se­minário entre os dois cursos. Beeson certamente ter-se-ia sentido lisonjeado se um membro da faculdade da estatura de Matlock lhe houvesse perguntado como sua mulher se portava na cama, o que, aliás, era o que uma grande maioria desejaria também saber. E como Matlock era certamente másculo, Archer Beeson achava que “drinques e jantar” com sua mulher saracoteando em volta com uma míni-saia só poderiam ajudar a cimentar as relações com o conceituado professor de  Literatura inglesa.

Matlock ouviu o gritinho nervoso no alto da escada quando tocou a campainha. — Espere um segundo só!

Era a mulher de Beeson que ficava ridícula com seu sotaque carregado cultivado em aulas de locução. Mat­lock ficou imaginando a garota afobada arrumando tudo às pressas enquanto seu marido dava um jeito nos livros das estantes, e colocava alguns bem em destaque sobre as mesas para serem percebidos pela visita.

Matlock ficou pensando se os dois não estariam também escondendo comprimidos ou cápsulas de drogas.

A porta abriu-se e a mulher de Beeson, pequenina, vestida com a mini-saia que era de esperar e com uma blusa de seda transparente que mal ocultava seus fartos seios, recebeu-o com um sorriso ingênuo.

—  Ôi!  Eu sou Ginny.   Nós já nos encontramos em alguns  coquetéis  bárbaros.   Estou   tão  satisfeita  com  a sua visita! Archie está terminando um trabalho.   Vamos subir. —Foi logo subindo antes mesmo de Matlock dizer alguma coisa.   — Estas escadas são horrorosas...   Pa­ciência! É o preço que se paga para começar bem em baixo. . .

—  Tenho a certeza que não será por muito tempo. . .

—  É isso mesmo que o Archie está sempre dizendo. É melhor que seja assim mesmo porque já não me agüen­to mais.

— Claro que vai ser assim mesmo, — disse Matlock olhando para as bonitas pernas que iam na sua frente.

Lá em cima já estava tudo arranjadinho numa mesa de café e o livro que estava em cima da outra mesa era justamente um de Matlock intitulado Interpolações em Richard II. Estava bem embaixo de um abajur e seria im­possível não notá-lo.

No instante em que Ginny fechou a porta, Archie saiu da pequena sala que Matlock presumia ser o seu estúdio. Trazia na mão esquerda alguns papéis e estendia a direita.

—  Mas que prazer.   Como foi bom você ter vindo, meu caro. . .  Sente-se, sente-se.  Agora mesmo teremos os drinques que já vêm atrasados.   Puxa vida! Estou ar­rebentado. . .( Acabo  de  passar três  horas  lendo vinte versões da Guerra dos Trinta Anos.

—  Isso  acontece,  às vezes.   Ainda  ontem  tive  um tema de Volpone com o final mais estranho que já vi. O caso foi que o garoto nunca tinha lido a obra, mas tinha visto o filme em Hartford.

—  Com um novo final?

—  Completamente!

—  Mas que barato! — Interferiu Ginny histericamente. — O que é que prefere, Jim? Eu posso chamar você de Jim, não posso, doutor?

—  Para mim bourbon e água.   Claro que pode sim, Ginny. Eu nunca me acostumei com o “doutor”. Meu pai sempre diz que é uma fraude. Os doutores andam com estetoscópios no pescoço. Não com livros nas mãos. — E Matlock sentou-se numa das poltronas.

— Por falar em doutor, eu estou agora trabalhando na dissertação. Acho que em mais dois verões bem fortes terei terminado.

Beeson apanhou o balde de gelo das mãos da mulher e foi até uma mesa comprida em baixo da janela onde estavam as garrafas e copos um tanto desarrumados.

— Mas vale a pena, — disse Ginny com convicção. Pois então você não acha que vale a pena, Jim?

—  É quase essencial.  Sempre compensa.

—  Isso e as publicações...   — Ginny  apanhou  o queijo e as bolachas para oferecer a Matlock.  — Aqui está um ótimo fromage irlandês.  É muito bom.  Encontrei numa lojinha em New York no outro dia.

—  Parece ótimo.  Nunca tinha ouvido falar.

—  Por falar em  publicações. . .   Eu comprei  o seu livro Interpolações um dia desses.  É terrivelmente fasci­nante. É mesmo!

—  Puxa vida! Eu já quase me havia esquecido dele. Já lá vão uns quatro anos que o escrevi.

—  Pois devia ser de uso obrigatório. Foi isso que o Archie disse, não foi, bem?

—  Mas claro que foi! Aqui tem o seu veneno, meu velho. Você trabalha  por  intermédio  de  algum  agente, Jim? Não quero ser bisbilhoteiro.  Levarei anos antes de escrever algumas coisas.

—  Isto não é verdade, e você sabe que não é, bem!

—  Eu tenho um agente, sim.   É o Irving Block em Boston. Se estiver escrevendo alguma coisa eu talvez po­derei mostrar a ele.

—  Ora essa. . .   Não. . .   Seria  muita presunção mi­nha. . . — E Beeson voltou para o sofá com o seu copo mostrando  uma  humildade fingida.   Sentou-se  perto  da mulher e trocaram olhares satisfeitos que Matlock julgou involuntários.

—  Ora deixe disso, Archie.   Você é um cara inteli­gente.  Tem um grande futuro aqui no campus.   Por que então acha que iria convidá-lo para o seminário? Você poderia estar me fazendo um favor.  Eu poderia estar le­vando alguma coisa boa mesmo  para o Block    E  isso me ajudaria.

A expressão de Beeson tinha a sinceridade da grati­dão. Ele sentia-se embaraçado para retribuir o olhar do instrutor até que percebeu alguma coisa estranha em seus olhos. Não conseguia definir o que era, mas estava lá. Parecia ser medo.

Era o olhar de um homem com a mente e o corpo acostumado às drogas.

— Puxa vida, Jim! Isso é um barato de sua parte. Estou até comovido. . .

Afinal acabaram com o queijo, com os drinques e com o jantar. Havia momentos em que Matlock julgava-se o espectador de algum filme antigo onde figuravam aque­les três personagens. Também poderia ter sido a bordo ou então em algum apartamento muito elegante de New York com os três em trajes de rigor. Ficou imaginando a razão de estar ali visualizando a cena de uma tal forma, mas de repente, compreendeu. Os Beeson possuíam as qualidades da década dos 30. Da década que ele vira nos filmes da televisão a noite. Constituíam um anacro­nismo na época mas não dentro do tempo. Ele não tinha bem a certeza como era. Eles não eram propriamente artificiais, mas havia qualquer coisa de falso na forma como falavam e nas suas expressões. A verdade era que ali estava o agora da atual geração.

LSD e outras drogas.

Comprimidos e pílulas.

O casal, de certa forma, estava se esforçando para se apresentar como parte de um passado, de uma era sem cuidados. Talvez quisessem assim negar os tempos e condições em que viviam.

Archie Beeson e sua mulher metiam medo.

Por volta das onze, depois de muito vinho e de “uma boa vitela tirada de uma receita de um livro italiano”, os três sentaram-se na sala de estar. Resolveram os últimos problemas do tal seminário. Matlock sabia que era a hora de começar. Tinha chegado o momento desagradável. Não, sabia como ia fazer e teria que confiar nos seus ins­tintos de amador.

— Olhem aqui, vocês dois. . . Espero que não seja um choque muito grande. . .  mas já faz muito tempo que não dou uma puxada. . . — Tirou do bolso uma cigarreira e abriu-a. Sentia-se um palhaço desajeitado. Mas sabia que podia deixar transparecer. — Antes que vocês fa­çam qualquer julgamento, quero lhes dizer que não con­cordo com as restrições legais nem nunca concordei.

Tirou um cigarro, da dúzia que estava na cigarreira que deixou em cima da mesinha. Seria assim mesmo que se fazia? Não tinha certeza. Não sabia mesmo. Archie e a mulher olharam um para o outro. Através da chama em frente de seu rosto, Matlock estava observando a rea­ção deles. Era cautelosa, mas positiva. Talvez fosse o álcool em Ginny, mas ela sorriu hesitante e via-se que estava aliviada por haver encontrado um amigo. O marido já não demonstrava tanto.

—  Siga em frente, meu caro, — disse o jovem ins­trutor com um ar de condescendência. — Afinal de con­tas nós não somos da polícia.

A mulher confirmou com uma risadínha.

Matlock tragou fundo. — As leis são arcaicas. Em todas as áreas. Nós só precisamos de um certo controle e um sentimento de discrição. É só o que importa. O verdadeiro crime é impedir a experiência. É proibir que qualquer indivíduo inteligente tenha o direito de fazer o que quiser. Ora que porra! É uma repressão!

—  Bem,  Jim,  eu  acho que a palavra  verdadeira é inteligência. O uso indiscriminado entre os não inteligen­tes leva ao caos.

—  Socraticamente você está certo apenas pela me­tade. A outra metade é o controle. O controle eficaz entre o “ferro” e o “bronze”, libera o “ouro”, citando A Repú­blica.  Se  as  mentalidades superiores  fossem  continua­mente impedidas de pensar, de experimentar, porque os seus  processos  mentais  escapavam  à  compreensão  de seus concidadãos,  então não haveria as grandes obras artísticas, técnicas e políticas. Ainda estaríamos na Idade das Trevas.

Matlock fumava com os olhos fechados. Teria sido muito forte, muito positivo? Teria demonstrado a sua falsidade? Esperou, mas não foi preciso muito tempo. Archie falou  com  tranqüilidade  mas com  convicção

O progresso é constante, meu velho.   Ninguém pode detê-lo.  Pode acreditar.  Essa é a verdade.

Matlock entreabriu os olhos e ficou encarando Beeson através da fumaça passando depois para a mulher. Disse somente três palavras.

—  Vocês são crianças.

—  Isto é uma suposição relativa, dadas as circuns­tâncias, — respondeu Beeson ainda em voz baixa e com nitidez.

—  E isso é conversa. . .

—  Ora, ora! Não tenha tanta certeza assim! — Ginny já estava com a cara cheia e falava descuidada. O marido segurou-a pelo braço. Aquilo era um aviso.  Falou outra vez com o olhar perdido sem fitar ninguém.

—  Não tenho bem a certeza se estamos bem afina­dos. . .

—  Não. Provavelmente não. Esqueçam. . . Vou aca­bar este e dou o fora. Falarei com você sobre o seminá­rio. — Matlock caprichou para que a referência ao se­minário fosse quase desinteressada.

Archie Beeson, o acadêmico jovem e apressado, não podia tolerar desinteresse.

— Quer me dar um dos seus?

—  Se for a primeira vez para você, claro que dou. . . Não tente fingir só para me impressionar.   Não vem ao caso realmente.

—  Primeira vez?. ..  De quê? — Beeson levantou-se e foi até à mesa onde estava a cigarreira aberta.  Apa­nhou-a e levou-a ao nariz. — Não é má, não. É passável, apenas  passável.   Vamos experimentar  um  só  para. . . começo de conversa.

— Para começo?

— Você parece bem sincero, mas, se me perdoa, está um pouco por fora...

— Por fora de quê?

— Do que é bom. — Beeson acendeu os dois cigar­ros bancando o desprendido.   Chupou um com força e sacudiu a cabeça em aprovação. Entregou o outro à mu­lher. — Vamos dizer que isto seja só um “hors d'oeuvre”. Só para abrir o apetite.

Foi ao seu estúdio e voltou de lá com uma caixinha chinesa de laça mostrando a Matlock como se fazia para abrir seu fundo falso. Lá dentro estavam umas duas dúzias de comprimidos brancos envoltos em plástico transparente.

—  Este aqui é o prato principal. . . desde que você queira.

Matlock sentiu-se satisfeito com os conhecimentos que adquirira nas últimas quarenta e oito horas. Sorriu, mas sua voz era firme.

—  Eu só tomo  isso dentro de duas condições.   A primeira é que seja na minha casa junto com velhos e bons amigos. A segunda é que seja com velhos e bons amigos na casa deles. Eu ainda não conheço bem você, Archie. Discrição, sabe. . . Mas aceitaria uma das verme­lhas. . . só que não vim preparado.

—  Não precisa dizer mais.  Assim será.

Beeson levou a caixinha chinesa de volta para o estúdio e voltou com um saquinho de couro como aqueles que são usados para fumo de cachimbo. Ginny arregalou os olhos. Soltou mais um botão de sua blusa e esticou as pernas.

—  É o que há de melhor de Dunhill.

Beeson abriu o saquinho para que Matlock visse o que estava lá dentro. Eram também comprimidos envoltos em plástico, mas dessa vez eram vermelhos e um pouco maiores. Havia ali, pelo menos, umas 50 ou 60 doses de seconal.

Ginny deu um salto da cadeira com um gritinho. — Eu adoro isso! São as vermelhinhas!

— É uma beleza junto com conhaque, — disse Mat­lock.

—  Vamos a isso.   Não muito, meu velho.   O limite é cinco. Ê o regulamento da casa para os novos velhos amigos.

As próximas duas horas foram muito confusas para Matlock, mas foram muito mais para o casal. Os dois tinham logo ficado “altos” com as cinco pílulas, o que também teria acontecido com Matlock se ele não tivesse guardado as últimas três enquanto fingia engoli-las. Uma vez atingido aquele estágio não foi difícil para Matlock fingir que também estava alto e induzir os outros para uma outra dose.

—  Por que se mostra tão discreto, doutor? — Per­guntou Beeson com uma risadinha enquanto afagava as pernas da mulher.

—  Vocês são mais amigos do que eu pensava que fossem. . .

—  Isto  é apenas  o  princípio  de  uma  bela  amiza­de. . . — E a moça reclinou-se no sofá dando risadinhas nervosas.  Parecia vibrar e com a mão direita puxava os cabelos do marido.

Beeson riu-se já mais descontrolado do que antes e levantou-se. — Eu vou agora buscar a mágica. . .

Quando Beeson entrou no estúdio, Matlock ficou ob­servando a mulher. Não podia ter dúvidas quanto ao seu estado. Ela olhou para ele, abriu devagar a boca e botou a ponta da lingua de fora. Matlock ficou sabendo que um dos efeitos marginais do seconal era a exibição. Era também o que estava acontecendo com Virgínia Beeson.

Ficou combinado que a segunda dose seria de três e Matlock facilmente escamoteou-as. Beeson foi ligar o estéreo e tocou o disco “Carmina Burana”. Dentro em pouco Ginny estava sentada no colo de Matlock esfregando-se lascivamente contra ele. O marido estava estendido em frente dos alto-falantes que ficavam ao lado do toca-discos. Matlock falou como se estivesse apreciando, e alto bastante para ser ouvido apesar da música.

—  Estes foram os melhores que já tomei, Archie. . . Onde? Onde é que você consegue?

—  Provavelmente  no  mesmo  lugar  que você,   meu velho. — Beeson voltou-se e olhou para Matlock e sua mulher, dando uma risada. — Não sei a que você está se referindo. À mágica ou à garota no seu colo. Cuidado com ela, doutor.  É perigosa.

—  Não  estou  brincando,  Archie.   Suas  pílulas são muito melhores que as minhas e a minha erva não foi muito apreciada.   Seja camarada.   Conte-me onde é. . .

—  Você é um cara engraçado. Está sempre pergun­tando. Não vê que eu não lhe pergunto nada? Isto não é delicado. . .   Por que não brinca  com  Ginny.   Deixe-me ouvir a música. — E rolou no chão ficando com o rosto virado para baixo.

A garota, de repente, colocou os braços em torno do pescoço de Matlock apertando-o bem sobre seus seios descobertos. Começou a lhe mordiscar as orelhas. Matlock começou a imaginar o que aconteceria se ele a peqasse no colo e fossem os dois para o quarto. Pensou mas não quis verificar. Ainda não. Ralph Loríng não tinha morrido só para lhe proporcionar prazeres sexuais. . .

— Eu quero experimentar outra coisa sua, Archie. Quero ver até onde você já chegou. . . Você bem pode estar fingindo. . .

Beeson sentou-se de repente e encarou Matlock. Não estava preocupado com a mulher. Alguma coisa na voz de Matlock teria talvez despertado alguma dúvida instinti­va. Ou seria o vocabulário? Seria a forma ortodoxa das palavras de Matlock? Isso tudo passou pela cabeça de Matlock quando ele encarou Beeson por cima do ombro de Ginny. Archie Beeson era um homem alerta e Matlock não descobrira por que Beeson falou titubeante.

—  Mas claro, meu velho. . . Ginny, não chateie o Jim, — e começou a levantar-se.

—  As vermelhinhas. . .

—  Eu tenho algumas na cozinha. . .   Não sei  bem onde, mas vou procurar.  Ginny, eu já te disse para não chatear o Jim. . . Seja boazinha com ele, seja boazinha, sim?

Beeson continuava fitando Matlock com os olhos ar­regalados pelo seconal, os lábios entreabertos e os mús­culos do rosto muito tensos. Caminhou em direção à porta da cozinha que estava aberta, e uma vez lá dentro, ele fez uma coisa que intrigou Matlock.

Fechou devagar a porta e manteve-a fechada.

Matlock logo largou a garota que escorregou tranqüi­lamente para o chão, drogada como estava, e ficou ali com um olhar angélico e os braços estendidos para ele. Matlock sorriu enquanto passava por cima dela.

Segredou-lhe baixinho que voltaria logo. — Só quero perguntar uma coisa ao Archie. Ela rolou ficando de bar­riga para baixo e Matlock foi até a porta da cozinha. Desgrenhou os cabelos e ficou agarrado a mesa de jantar de propósito. Se Beeson viesse surpreendê-lo ele pare­ceria estar bem drogado também. O estéreo ainda estava alto, mas mesmo assim, ele ainda conseguia ouvir a voz de Archie ao telefone falando baixinho mas muito nervoso.

Encostou-se à parede e tentou analisar o que teria assustado Beeson para fazê-lo correr assim ao telefone.

Por quê? Como? O quê?

Teria exagerado a mascarada? Teria falhado logo no primeiro encontro?

Se fosse esse o caso, o que teria a fazer agora era tentar descobrir para quem Beeson correra quando ficara assustado.

Quem quer que fosse teria que ser muito mais impor­tante do que Archie Beeson. Ninguém, nem mesmo um drogado, iria recorrer a alguém menos importante em caso de alarme.

Talvez a noite ainda não fosse um fracasso. Talvez a sua falha até fosse boa. Em desespero, Beeson poderia deixar escapar qualquer informação, o que nunca faria em seu juízo normal. Não era assim um disparate tão grande forçar a mão com o instrutor já drogado. Por outro lado, aquele era o método menos desejável. Se falhasse, ele estaria liquidado antes de haver começado. Todas as me­ticulosas instruções de Loring teriam sido em vão. Sua morte teria se tornado inútil. Seria uma brincadeira ma­cabra feita por um bisonho amador.

Mas não havia outra maneira a não ser tentar. Tentar descobrir a quem Beeson estava recorrendo e depois tentar recompor tudo para que o outro voltasse a aceitá-lo. Por uma estranha ligação ele lembrou-se da pasta de Loring presa pela corrente e, ainda mais estranho, sentiu que aquilo lhe aumentava a confiança, mas não muito.

Ele procurou fingir-se próximo a um colapso e foi-se aproximando lentamente da porta abrindo-a somente numa fresta. Esperava quase certo dar de cara com os olhos congestionados de Beeson, mas ele estava de costas para a porta, todo encolhido como uma criança quando quer conter, a bexiga e com o fone no ouvido e a cabeça incli­nada. Era óbvio que Beeson imaginava a sua voz bastante abafada pelo disco que tocava, mas o seconal tinha-lhe pregado uma de suas peças. O seu ouvido e palavra já não estavam mais sincronizados. As palavras não eram apenas claras. Eram também destacadas, espaçadas e repetidas.

— . . . mas o senhor não me compreende. Quero que me compreenda. Por favor, compreenda-me. Ele continua a fazer perguntas. Ele ainda não está drogado. Não está drogado. Juro por Deus que está fingindo. Fale com Herron. Fale com Herron para falar com ele, pelo amor de Deus. Fale com ele, por favor! Eu posso sair perdendo tudo!. . . Não, não posso. Eu estou vendo mesmo, homem. Quando aquela cadela fica excitada eu tenho problemas. Quero dizer que são as aparências, meu velho. . . Fale com o Lucas. . . Pelo amor de Deus, fale com ele. Eu estou encrencado e não posso. ..

Matlock largou a porta de mansinho. O choque era tão grande que já não sentia mais nada. O que acabava de ouvir não era menos horrível do que a visão do corpo sem vida de Loring na cabine.

Herron.  Lucas Herron.

Era uma lenda de setenta anos. Era um acadêmico tranqüilo que era adorado pelo seu brilho e pela maneira como encarava as condições humanas. Era um homem encantador, um homem que infundia o mais alto respeito. Devia ser um engano. Tinha que haver uma explicação,

Mas não havia tempo para fazer consideração sobre o inexplicável.

Archier Beeson julgava que ele fosse um espião, e agora havia mais alguém que pensava a mesma coisa. Não podia permitir tal coisa. Teria que descobrir uma saída.

De repente compreendeu. O próprio Beeson havia-lhe ensinado o que fazer.

Nenhum espião, ninguém em seu próprio juízo, ten­taria tal coisa.

Matlock olhou para a moça ali estendida no chão. Foi rapidamente até onde ela estava e já ia desabotoando as calças. Em movimentos rápidos tirou-as fora e abaixou-se para virá-la de barriga para cima. Deitou-se ao lado dela e arrancou-lhe o soutien. Ela gemia e ria, e quando ele lhe tocou os seios, gemeu ainda mais forte e passou a perna por cima dele.

— Vermelhinhas... vermelhinhas.. . — Começou a respirar pela boca enquanto alçava o pélvis de encontro as virilhas de Matlock. Seus olhos estavam semicerrados e seus braços esticados acariciavam as pernas dele com os dedos crispados.

Matlock estava de olhos pregados na porta da cozinha rezando para que ela se abrisse.

E quando ela abriu-se ele fechou os olhos.

Archie ficou ali de pé olhando para a mulher e o convidado estendidos no chão. Matlock então levantou de repente a cabeça e fingiu estar muito encabulado. Le­vantou-se mas logo tornou a desabar no chão. Agarrou as calças e tentou cobrir-se com elas. Tentou levantar-se outra vez e caiu em cima do sofá.

—  Ai meu Deus! Ai minha Virgem Maria! Archie, meu amigo, não pensei que estava ruim assim...  O que vou fazer agora, Archie? Estou fora de mim! Sinto muito, meu amigo! Puxa vida! Sinto muito mesmo!

Beeson aproximou-se do sofá com sua mulher semi­nua aos seus pés. Pela expressão de seu rosto seria im­possível dizer o que estava pensando. Ou a extensão de seu ódio.

Ou seria mesmo ódio?

A sua reação audível foi inteiramente inesperada. Começou a rir. Primeiro baixinho, mas depois foi aumen­tando até gargalhadas quase histéricas.

—  Puxa vida, meu velho! Eu bem que te avisei! Eu disse que ela era perigosa!...  Deixa para lá.   Ninguém vai contar. Não houve violência nem estupro com o velho camarada da faculdade.Mas vamos ter o nosso seminá­rio. Mas claro que vamos ter. Vai ser um barato. E você vai dizer a todo mundo que me escolheu, não vai? Claro que vai, sim. É isso mesmo que você vai dizer...

Matlock fitou os olhos congestionados do viciado que lhe falava.

—  Claro. Claro, Archie. O que você mandar...

—  Será melhor não esquecer, meu velho! E nada de desculpas.   Não precisa desculpar-se.   Quem  lhe pede desculpas sou eu!. . . — E Archie desabou no chão numa gargalhada convulsa. Esticou o braço e cobriu com a mão o seio da mulher que continuava a gemer e a rir, a rir sem parar, um riso muito esganiçado.

E Matlock percebeu que tinha vencido a parada.

 

Ele estava exausto não só pela hora como pelas tensões da noite. Faltavam dez minutos para as três e a música de “Carmina Burana” ainda martelava seus ouvidos.

A imagem da mulher seminua e do marido contorcendo-se ali no chão diante dele aumentava o nojo que sentia na boca.

Mas o que mais o perturbava era saber que o nome de Lucas Herron tinha-se misturado nos acontecimentos da noite.

Era inconcebível.

Lucas Herron. Era conhecido como “a velha águia”. Era uma figura reticente mas óbvia do campus de Carlyle. Era o presidente do departamento de Línguas Românicas e era o protótipo do mestre tranqüilo e sempre cheio de compaixão pelos sofrimentos alheios. Tinha sempre um brilho estranho nos olhos, uma expressão divertida mistu­rada com muita tolerância.

A sua associação com o mundo dos narcóticos, por mais remota que fosse, era coisa inconcebível.  Ouvir o seu nome mencionado por um viciado histérico, pois outra coisa não era Beeson, como se fosse alguém muito poderoso, ultrapassava as raias da simples compreensão.

A explicação só poderia ser encontrada na imensa capacidade de Herron para partilhar dos sofrimentos alheios. Era o amigo certo de muitos, o refúgio seguro dos que tinham problemas, até mesmo dos mais sérios problemas. E por baixo de sua placidez e velhice imper­turbável, Herron era um homem forte, um líder. Um quarto de século antes, ele passara meses sem conta no inferno das ilhas Salomão como oficial de infantaria maduro. Lucas Herron tinha sido então um autêntico herói nos momentos mais terríveis da selvagem guerra no Pacífico. Agora, com mais de setenta anos, Herron era uma instituição.

Matlock fez a volta ao quarteirão e viu o apartamento ali perto. O campus estava escuro. Fora das luzes na rua só havia uma de suas janelas iluminadas. Teria esque­cido ela acesa? Não podia lembrar-se.

Caminhou até a porta e enfiou a chave. Junto com o clic da fechadura ouviu-se um grande barulho lá dentro. Embora assustado, a sua primeira reação foi achar aquilo divertido. Devia ter sido o seu gato que derrubara alguma das cerâmicas das criações de Patrícia Ballantyne. Depois pensou que não podia ser. Era o resultado de seu espírito exausto. O barulho tinha sido grande demais. Parecia vidro quebrado com muita violência.

Precipitou-se para dentro do apartamento, e o que viu pôs um fim ao seu cansaço. Ficou imóvel sem acre­ditar nos seus olhos.

A sala inteira estava completamente destruída. As mesas estavam viradas, os livros tirados das estantes com as folhas arrancadas e espalhadas pelo chão, o estéreo despedaçado. As almofadas estavam cortadas com o miolo saindo e espalhado por toda parte. Os tapetes estavam em frangalhos e as cortinas arrancadas e atiradas em cima dos destroços.

Viu então a razão para o barulho que ouvira. Era da grande janela que dava para a rua. Lembrava-se que as havia deixado abertas antes de sair para a casa de Beeson. Portanto não havia razão para aquilo que via. Também seria difícil que alguém fugisse por ali.  Era alto demais.

Então aquilo fora feito apenas de propósito. Como se fosse um aviso.

Ele tinha sido seguido e alguém tinha feito um sinal.

Era um aviso.

E Matlock sabia que não podia passar recibo. Se o fizesse estaria reconhecendo que aquilo era mais do que um simples assalto para roubar.   E  não queria que tal acontecesse.

Foi até a porta do quarto de dormir e olhou para dentro. Estava talvez ainda pior do que a sala. O colchão estava todo cortado de encontro à parede. Todas as ga­vetas arrancadas e tudo espalhado pelo chão. A mesma coisa com o guarda-roupas.

Mesmo antes de olhar já sabia que a cozinha estaria nas mesmas condições. Ele já ouvia movimentos nos outros apartamentos de gente que fora despertada pelo barulho da vidraça quebrada.

O aviso estava claro, mas o objetivo tinha sido uma busca.

Ele sabia bem qual era o objetivo e o que estavam procurando, mas não podia dizer que sabia. Era preciso deixar as conclusões no ar como tinha feito no aparta­mento de Beeson. Tinha que inventar coisas plausíveis. Era o que o instinto lhe dizia.

Mas antes de mais nada era preciso verificar se tinham achado o que tinham vindo procurar.

Procurou sacudir fora de si a letargia do corpo e do espírito. Olhou mais uma vez para a sala e examinou-a bem. Todas as janelas estavam escancaradas e a luz era suficiente para alguém com binóculos poderosos situado nas vizinhanças observar todos os seus movimentos. Se apagasse as luzes isso talvez despertasse suspeitas e con­trariasse o que ele queria que se acreditasse.

Era fora de dúvida. Ninguém que entrasse em sua casa completamente destruída iria começar por apagar as luzes.

Mas ele precisava chegar ao banheiro que era, na­quele momento, a mais importante dependência para ele. Tinha que ficar lá um só instante para constatar se todo aquele vandalismo tinha sido recompensado. Mas só po­deria ir lá de forma a não despertar suspeitas se alguém estivesse observando.

Tinha que salvar as aparências. Viu que o toca-discos do estéreo era a peça mais próxima da porta do banheiro. Foi até lá e inclinou-se apanhando algumas peças inclu­sive o braço com a agulha. Ficou olhando para ele e de repente deixou-o cair e levou um dedo à boca como se tivesse sido espetado pela agulha e caminhou rápido para o banheiro.

Uma vez lá dentro ele foi ao armário de remédios e apanhou um band-aid. Depois abaixou-se do lado es­querdo do vaso onde estava a caixa de plástico amarela com areia para o gato e levantou uma das pontas do jor­nal que forrava a caixa. Por baixo dele sentiu os dois pedaços de lona e levantou uma das pontas.

O papel cortado ainda estava lá. O papel prateado com os dizeres em corso e que terminava com a terrível frase Venerare Omerta não tinha sido encontrado pelos vândalos.

Arrumou tudo direitinho como estava e levantou-se. Praguejou quando viu que um pedaço do basculhante estava aberto.

Não tinha tempo agora para pensar naquilo.

Voltou à sala e colocou o band-aid no dedo.

A busca tinha sido infrutífera. Agora tinha que igno­rar o aviso e não dar atenção às conclusões. Foi ao tele­fone e chamou a polícia.

—  O senhor pode dar-nos uma lista do que está fal­tando?

No meio da sala estava um policial de uniforme e um outro andava nas outras dependências tomando notas.

—  Não tenho certeza ainda.   Não tive tempo para verificar.

—  Compreendo bem. Está mesmo uma bagunça ter­rível. Será melhor o senhor verificar, no entanto. Quanto mais depressa nos der a lista melhor será para o senhor.

—  Não creio que possa estar faltando alguma coisa. O que quero dizer é que não tenho coisa alguma que possa ter valor para os outros. A única coisa seria o esté­reo que foi destruído.   Há uma televisão no quarto que ficou inteira. Alguns livros podem ter um certo valor, mas olhe para eles. . .

—  Não tinha dinheiro, jóias ou relógios?

—  O dinheiro está no banco e na minha carteira. O relógio está no meu pulso e não tenho jóias.

—  E provas de exames? Temos tido muitos casos. . .

—  Estão no meu gabinete na universidade.

O soldado tomou nota de tudo e depois perguntou ao companheiro se já tinha chamado o pessoal das im­pressões.

—  Já estão vindo para cá.  Vão chegar em alguns minutos.

— O senhor tocou em alguma coisa, Sr. Matlock?

— Não  sei  bem.   É  possível.   Foi  um  choque  tão grande.

— Especialmente coisas quebradas como o tocador de discos. Seria bom se pudéssemos mostrar alguma coisa que não tivesse sido tocada...

—  Eu só peguei no braço...

—  Muito bem, então vamos começar por aí.

A polícia demorou-se uma hora e meia. O pessoal das impressões terminou o trabalho e saiu. Matlock pen­sou em telefonar para Sam Kressel, mas depois imaginou que ele nada podia fazer àquela hora. E caso houvesse alguém lá fora de observação, o melhor mesmo seria não ver Kressel. As pessoas dos outros apartamentos ti­nham descido e ofereciam alguma ajuda.

Quando a policia já ia saindo, um patrulheiro muito corpulento chegou até a porta. — Desculpe se lhe to­marmos muito tempo, Sr. Matlock. Nós geralmente não fazemos isso tudo para os casos simples de arrombamento a não ser que haja gente ferida ou roubo, mas tem havido coisas assim com muita freqüência ultimamente. Pessoalmente, eu acho que são esses cabeludos que andam por aí. Ou então os negros. Nunca tivemos isso antes deles chegarem por aqui.

Matlock olhou bem para o policial tão seguro em sua análise. Não adiantava contradizer. E Matlock estava muito cansado. — Muito obrigado pela ajuda. . .

—  Não há de quê. — O policial ia saindo quando voltou-se, de repente.  — Mais uma coisa, Sr. Matlock. Nos ficamos desconfiados de que estavam procurando alguma coisa. Da maneira como cortaram tudo, como abri­ram livros. .    Sabe o que quero dizer, não é?

—  Sim.   Claro que sei

—  Se fosse o caso o senhor nos teria dito, não é?

—  Mas naturalmente.

—  Sim, sim. Seria estúpido esconder uma informação assim.

—  Eu não sou estúpido. . .

—  Bem, não leve a mal. Só que algumas vezes as pessoas esquecem das coisas.

—  Eu não sou desses de esquecer.  Poucos dentre nós são.

O homem teve um riso irônico. — Eu só queria lem­brar.  Sabe como é, nós temos que saber tudo, não é?

—  Eu compreendo bem. . .   Boa noite. . .

—  Boa noite, doutor.

Matlock fechou a porta e entrou na sala. Estava pen­sando se o seguro cobriria os valores duvidosos como de seus livros raros e gravuras. Sentou-se no sofá arreben­tado e ficou olhando os estragos. Tinha sido um trabalho bem feito. Tinha sido um aviso claro e violento.

O que espantava era a própria existência do aviso.

Por quê? De parte de quem?

Teria sido o histérico telefonema de Beeson? Era possível e até mesmo preferível. Poderia ser um motivo não relacionado com Nimrod. Podia ser que o círculo de viciados e vendedores quisesse amedrontá-lo para deixar Beeson em paz. E Loring deixara bem claro que não havia provas de Beeson estar envolvido com Nimrod.

Tampouco havia provas em outro sentido.

No entanto, se fosse Beeson, o alarma seria cance­lado de manhã. Não poderia haver engano depois dos acontecimentos da noite anterior. A quase violação pra­ticada por um velho sujo e drogado. Ele era apenas a escada para Beeson subir na sua carreira acadêmica.

Por outro lado, e muito menos desejável, havia a pos­sibilidade do aviso e da busca estarem centralizados no documento corso. Era o que Loring lhe segredara na calçada.

—   . . .Só há uma coisa que eles desejam mais do que esta pasta aqui, e isso é o papel que você tem no bolso.

Era então razoável presumir que eles o haviam ligado a Ralph Loring.

Washington estava errado quando pensava que o pâ­nico que ele demonstrara ao encontrar Loring tinha-o afastado das suspeitas. Jason Greenberg também não estava certo.

Mas ainda assim, como Greenberg tinha imaginado, eles poderiam estar apenas experimentando antes de isen­tá-lo por completo.

Mas tudo eram especulações. Tudo eram possibili­dades.

Conjeturas.

Teria que pensar bem. Não podia exagerar. Para que seu auxílio tivesse algum valor, ele teria que bancar o inocente.

Tudo conjeturas. Tudo na base do talvez.

Seu corpo doía. Seus olhos estavam inchados e a boca ainda tinha aquele gosto terrível da combinação de seconal com vinho e maconha. Estava exausto. Suas lem­branças voltavam aos dias do Vietnam e ele lembrava-se do conselho que recebera naqueles tempos de combates inesperados. Devia descansar sempre que pudesse, dor­mir sempre que fosse possível. O conselho fora dada por um sargento que havia, até então, conseguido sobreviver a mais assaltos no Delta do Mekong do que qualquer outro homem. Diziam que ele havia dormido durante uma em­boscada que aniquilara a sua companhia.

Matlock esticou-se no sofá todo rasgado. Não adian­tava ir para o quarto pois o colchão estava inutilizado. Desapertou o cinto e sacudiu fora os sapatos. Iria dormir algumas horas e depois falaria com Kressel. Pediria a ele e Greenberg que inventassem uma estória para a in­vasão do apartamento. Uma estória que fosse aprovada por Washington e, talvez, pela polícia de Carlyle.

A polícia.

De repente sentou-se. Na ocasião não tinha ligado importância, mas agora lembrava-se. Aquele patrulheiro grosseiro que só pensava em cabeludos e negros tinha-o tratado durante o tempo todo como “senhor”, mas na hora de sair, quando aventara a possibilidade insultuosa dele estar escondendo  informações,   ele  o chamara de doutor. O tratamento de “senhor” era normal, mas o  de “doutor” era muito estranho. Ninguém, fora da comunidade do campus, o chamava assim, e mesmo lá também era raro. Os que tinham o título pouco estavam li­gando. Somente os muito enfatuados.

Por que então teria o soldado dito aquilo? Ele não o conhecia nem nunca o tinha visto. Como iria ele saber que ele era “doutor”?

Ficou sentado ali imaginando se os esforços e pres­sões das últimas horas estavam cobrando o seu preço. Estaria ele agora imaginando coisas que não existiam? Então não seria possível que a polícia de Carlyle tivesse uma lista dos membros da faculdade? Não estaria, talvez, imaginando tudo aquilo só porque detestara o policial que tinha preconceitos racistas?

Havia muita coisa possível.

E perturbadoras.

Matlock deixou-se cair no sofá e fechou os olhos.

De princípio o ruído lhe chegava como se fosse um simples eco lá no fundo de um túnel muito longo e es­treito. Depois ele foi ficando mais nítido como se alguém estivesse batendo em alguma coisa, batendo sem parar e cada vez mais forte.

Matlock abriu os olhos e viu uma luz difusa que vinha do abajur em cima da mesa do outro lado do sofá. Estava suado apesar da brisa fresca que entrava pela janela que­brada.

As batidas continuavam e eram na porta da frente. Levantou-se e sentiu que os pés e as pernas estavam cheios de alfinetes ou espinhos e fez força para ficar de pé.

As batidas eram mais urgentes e alguém chamava.

—  Jamie! Jamie!

Ele caminhou a custo até a porta que abriu depressa. Patrícia Ballantyne entrou rápida, vestida apenas com pijama e uma capa de chuva por cima.

— Jamie,  pelo amor de Deus.  Tentei telefonar. . .

—  Pois eu estava aqui. O telefone não tocou.

—  Eu sei que não tocou. Afinal consegui uma tele­fonista que disse que ele estava desligado.  Arranjei um carro e vim aqui o mais depressa que me foi possível e. . .

—  Não está desligado, Pat. Foi a polícia que esteve aqui usando-o o tempo todo. Se você olhar em volta logo perceberá a razão.

—  Virgem Maria!

A moça atravessou a sala e foi até o quarto. Matlock foi ao telefone e verificou que estava em ordem.

Em cima de sua cama e do colchão dilacerado a estava extensão do telefone com o fone fora do gancho e escondido embaixo  do travesseiro.   Alguém  tinha  feito aquilo para que ele não ouvisse o telefone, para que este não tocasse.

Matlock tentou lembrar-se quem estivera ali. De um modo geral mais de uma dúzia de pessoas entre policiais e as pessoas dos outros apartamentos. Não podia lem­brar-se de todos.

— Alguém deve tê-lo desligado.   Foi  uma maçada você ter que tomar um carro emprestado. . . Mas por que fez isso?

Ela não respondeu. Apenas voltou-se para a sala e perguntou o que tinha acontecido.

Matlock lembrou-se da frase do policial. — Eles dis­seram que foi assalto e arrombamento. É uma grande ex­periência. Creio que os coitados ficaram zangados por não encontrar nada de valor e então vingaram-se destruin­do tudo. .. Por que você veio até aqui?

Ela falou baixinho, mas pela intensidade da voz Mat­lock percebeu que estava quase em pânico. Como sem­pre, ela sabia impor-se um controle sempre que estava nervosa.  Era uma parte essencial sua.

—  Algumas horas atrás, faltavam quinze para as qua­tro, para ser exata, o meu telefone tocou. Era um homem perguntando por você.  Eu estava dormindo e acho que não dei muita importância, mas fingi-me zangada... Não sabia o que fazer. Estava muito confusa.

—  Compreendo bem que estivesse. E então?

—  Ele disse que não me acreditava. Chamou-me de mentirosa... Eu fiquei tão assustada de alguém me tele­fonar àquela hora para me chamar de mentirosa. . . fiquei tão confusa. . .

—  E o que disse?

— O caso não é o que eu disse. É o que ele disse. Ele falou para eu dizer a você para. . . não ficar “por trás do globo ou “iluminar o outro lado do mundo”. Disse duas vezes. Disse que era uma piada triste mas que você compreenderia.  Foi terrível. . .  E você compreende?

Matlock atravessou a sala e apanhou os cigarros. Procurava mostrar-se calmo. Ela acompanhou-o. — O que ele queria dizer?

—  Não tenho bem certeza. ..

—  Teria alguma coisa a ver com isto aqui?

—  Não acredito. — Acendeu o cigarro e ficou pen­sando no que lhe diria. A turma do Nimrod não tinha per­dido tempo para encontrar as suas ligações.  Mas seria Nimrod?

—  O que queria ele dizer com “ficar por trás do glo­bo”? Parece uma charada.

—  Eu acredito que seja uma citação...

Mas Matlock não tinha que pensar. Ele sabia. Lem­brava-se bem das palavras de Shakespeare: Pois então não sabeis que quando o olho atento dos céus se esconde por trás do globo e ilumina o outro lado do mundo. . . então os ladrões e assaltantes se espalham sem serem vistos. . . em crimes e mortes sangrentas por aqui.

—  E o que quer dizer?

—  Eu não sei bem. Não me lembro. . . Alguém está me confundindo com outra pessoa.  É só o que posso imaginar. . . Como era a voz dele?

—  Era normal. Estava com raiva mas não gritava. . .

—  Ninguém que você pudesse reconhecer? Não es­pecificamente, mas talvez tenha ouvido a voz antes?

—  Não tenho certeza. Acho que não.  Não era ninguém que eu pudesse reconhecer, mas. . .

—  Mas o quê?

—  Bem, era uma voz de gente culta... Um tanto. . .

—  Um homem acostumado a dar aulas. — Matlock fez uma afirmação e não uma pergunta. O cigarro estava amargo e ele jogou-o fora.

—  É sim.  Acho que era isso mesmo. . .

—  E  provavelmente  não  num  laboratório de  Ciên­cias. . . Isso reduz a possibilidade à umas oitenta pessoas no campus.

—  Você  está  pensando  coisas  que  eu não com­preendo! O telefonema tinha alguma coisa que ver com o que aconteceu aqui.

Ele viu que tinha falado demais. Não queria envolver Pat. Não podia envolvê-la. Mas, ainda assim, uma outra pessoa tinha feito isso e o fato era uma profunda compli­cação.

—  É  bem  possível  que tenha.   De acordo com as melhores informações, e a gente está vendo isso todos os dias na TV, os ladrões sempre se certificam se as pessoas estão em casa antes de assaltá-la. Talvez estivessem fa­zendo isso comigo.

A moça olhou firme para ele. — Então você não es­tava em casa àquela hora? Às quatro da madrugada?. . . A pergunta não tem outro fim, querido, senão como sim­ples ponto de informação.

Ele praguejou contra si mesmo. Aquilo era a exaus­tão, o episódio com Beeson, o choque do apartamento. . . Claro que a questão era pertinente. Mas o caso era que ele estava em casa àquela hora.

—  Eu não tenho certeza. Não estava prestando aten­ção ao tempo. Foi uma noite muito longa. Estive em casa de Beeson para lhe propor um seminário e começamos a beber. . . — Deu uma risadinha.

Ela sorriu. — Acho que você não está me compreen­dendo. Eu realmente não quero saber o que o papai esta­va fazendo. . . Bem, claro que me importo, mas o que não compreendo é por que você está mentindo. . . Você estava aqui duas horas atrás, e aquele telefonema não era de nenhum ladrão querendo saber onde você estava. E você sabe muito bem disso. . .

—  A mamãe está querendo me apertar e eu não gosto disso.

Matlock estava sendo grosseiro, mas sabia que aquilo também era falso da mesma forma que a mentira. Ele sempre fora extremamente delicado e ela sabia disso.

—  Está bem. . .  Peço desculpas.  Só pergunto mais uma coisa e depois vou-me embora. . . O que quer dizer Omerta?

Matlock ficou gelado. — O que foi que você disse?

—  Foi o homem do telefone. Ele falou Omerta.

—  Como foi?

—  Foi bem descuidado.  Assim como se fosse um lembrete. Foi o que ele disse.

 

O agente Jason Greenberg entrou na quadra fechadade “squash”. — O senhor está dando um duro danado aqui, Dr. Matlock.

—  É bem contra a minha vontade. . . De qualquer for­ma, a idéia foi sua.  Para mim também teria servido o gabinete de Kressel ou algum lugar na cidade.

—  Aqui é melhor. . . Nós temos que falar rápido. Estou registrado aqui no ginásio como inspetor do seguro. Estou verificando os extintores. . .

—  Eles provavelmente precisam. — Matlock foi até um canto e apanhou um suéter que vestiu. — O que foi que descobriu? A noite passada foi bastante maluca.

—  Ainda não descobrimos  nada.   Nada específico pelo menos.  Algumas teorias e mais nada. . .  Achamos que o senhor saiu-se muito bem.

—  Obrigado. Eu estava confuso.  Quais são as teo­rias? Você fala como um acadêmico e isso não me agrada.

Greenberg virou a cabeça de repente. Da parede do lado direito ouvia-se o barulho da bola no outro lado. — Há uma outra quadra ali?

—  Temos seis delas deste lado. São quadras de trei­no sem arquibancadas.  Você sabe como é.

Greenberg pegou a bola e atirou-a com força contra a parede. Matlock compreendeu e pegou-a no rebote devolvendo-a a Greenberg que tornou a jogá-la. Mantiveram um ritmo lento enquanto Greenberg falava baixo e monótono.

—  Nós achamos que o senhor esta sendo experi­mentado.   É  a  explicação mais lógica.   Afinal  foi quem encontrou Ralph. Declarou que viu o carro. Suas razões para estar ali na área eram fracas. Eles querem ter cer­teza e foi por isso que envolveram a moça. Estão capri­chando bem.

—  Muito bem.  Esta é a teoria número um.  Qual é a número dois?

—  Eu disse que era a mais lógica. Aliás é realmente a única.

—  E o que há com Beeson?

— Ora essa.  Foi o senhor quem esteve lá. . .

Matlock   segurou   a   bola  durante  alguns  segundos antes de atirá-la contra a parede lateral.

—  Será possível  que  Beeson foi  mais esperto do que eu pensava e soltou o alarma?

—  Pode ser que sim, mas temos nossas dúvidas. . . A maneira como o senhor contou o que se passou. . .

Mas Matlock não tinha contado tudo. Não tinha con­tado a ninguém a respeito do telefonema. Suas razões não eram racionais. Eram emocionais. Lucas Herron era um velho, um homem fino e delicado. Todos sabiam como se interessava pelos estudantes em apuros. A sua atitude para com os novos instrutores, muitas vezes arrogantes, era sempre um sedativo bem recebido nas crises na fa­culdade. Matlock tinha-se convencido que “a velha águia'' tinha tomado sob sua proteção um jovem desesperado ajudando-o a vencer alguma situação premente. Ele não tinha o direito de divulgar o nome de Herron tomando por base um telefonema feito por um viciado em pânico. Havia muitas explicações possíveis. Ele teria que falar com Herron em algum lugar. Teria que lhe dizer para se afastar de Beeson.

Matlock não tinha ouvido o que Greenberg dissera.

—  Eu   perguntei   se   tinha   dúvidas   a   respeito   de Beeson. . .

— Não. Não tenho. Ele não é importante. Acho até que ele poderá abandonar o vício se pensa que pode se aproveitar de mim.

—  É coisa que não acredito.

— Está bem. Foi só uma dúvida de momento. . . Só não posso acreditar que tenha chegado somente a uma teoria. Vamos lá, o que mais há?

—  Está bem.  As outras duas são pouco plausíveis. A primeira é que possa haver uma falha em Washington. . . A segunda é aqui mesmo em Carlyle. . .

—  E por que não é plausível?

—  Primeiro Washington.  Menos de doze pessoas lá sabem desta operação. São todos da cúpula. São os ho­mens que tratam direto com o Kremlin.  Impossível.

—  E Carlyle?

—  Temos o senhor, Adrian  Sealfont e o chato do Samuel Kressel. . .   Eu até que gostaria de apontar para Kressel, mas é impossível. Teria também um certo prazer étnico em derrubar de seu pedestal um cara como Seal­font, mas também aí não faz sentido. E então resta o se­nhor. Será mesmo o senhor?

—  Você é muito engraçadinho. Eu gosto do Sam, ou pelo menos penso que gosto, mas por que ele é impos­sível?

—  Da mesma forma que Sealfont. . . Numa operação como esta nós começamos pelo princípio.  Pelo princípio mesmo. Não ligamos a mínima a posições ou reputação, boa ou má. Usamos de todos os meios para provar quem é o culpado e não o inocente. Procuramos a menor des­culpa para desconfiar. Kressel está tão limpo como São João Batista.  É um chato, mas está limpo.  Com o Seal­font ainda é pior. Ele é tudo que dizem.  É um raio dum santo. . .  da Igreja da Inglaterra, naturalmente.  E então, mais uma vez, só nos resta o senhor mesmo. E por falar nisso, onde está a moça?

—  No meu apartamento. Fiz com que me prometesse não sair até que eu voltasse. Sem contar com a segurança, foi o melhor meio que encontrei para arrumar bem o apar­tamento.

—  Vou  designar  um  homem  para protegê-la.   Não creio que seja necessário, mas o senhor ficará mais tran­qüilo.

—  Ficarei mesmo.  Obrigado.

—  É melhor andarmos depressa. . . Nós estamos dei­xando tudo correr normalmente. A polícia, os jornais, tudo. Nada de mistérios. Alguém arrombou o seu apartamento destruiu tudo. E há mais uma coisa. Talvez não vá gostar, mas acho o melhor e mais seguro. . .

 — O que é?

— Achamos que será melhor a moça contar à polícia a respeito do telefonema.

— Nada  disso!   Ora  essa!  Quem  chamou  esperava encontrar-me lá às quatro da madrugada. A gente não conta essas coisas. Não quando se está esperando uma bolsa para depois trabalhar para as fundações. . . Ainda são muito quadrados.

—  Mas é o ponto de vista do espectador, Dr. Matlock...   Ela  recebeu   um  telefonema.   Alguém   procurou pelo senhor, citou Shakespeare com algumas referências incompreensíveis. Ela estava furiosa. Não mereceria nem cinco linhas no jornal.  Seu apartamento foi assaltado, é lógico que ela informe à polícia.

Matlock ficou calado. Foi até o canto da quadra e apanhou a bola. — Nós somos apenas dois números que estão sendo manobrados. Não sabemos o que está acon­tecendo e não estamos gostando.

—  Pois é isso mesmo. Nada é tão convincente como alguém que foi prejudicado e que bota o apito na boca. Reclame do seguro o  pagamento  de seus livros. . .   Eu preciso ir andando.   Não são tantos assim os extintores no prédio. Há mais alguma coisa? O que vai fazer agora?

Matlock jogou a bola fora. — Apareceu um convite que recebi por acaso enquanto tomávamos cerveja no Centro Afro. Estou convidado para assistir à uma repre­sentação simulada dos ritos de puberdade originais das tribos Mau Mau. Hoje às dez nas adegas de Lumumba Hall. . . Antigamente ali era a fraternidade Alpha Delta. Os velhos religiosos devem estar tremendo no inferno por causa disso. . .

—  Mais   uma   vez,   eu   não   estou   compreendendo, doutor.

— É porque não estudou a sua lição... Lumumba Hall deve estar na sua lista.

—  Desculpe.   Pode telefonar-me de manhã?

—  Certo.

—  Eu vou chamá-lo Jim e você me chama Jason. . .

—  Certo também.

Greenberg saiu. Olhou bem nas duas direções do corredor estreito para ver se não vinha ninguém, pois também ninguém o vira entrar. Ouvia as bolas batendo em todas as quadras. Ficou pensando como poderia ser que o ginásio de Carlyle tivesse tal freqüência àquela hora da manhã. No seu tempo, quinze anos antes, em Brandeis, as coisas não eram assim. Às onze da manhã todo mundo estava em aula.

Ouviu um barulho estranho que não era de bola e voltou-se rápido.

Ninguém.

Entrou no salão.  Ninguém. Saiu rapidamente.

O barulho que ouvira tinha sido de uma fechadura emperrada da porta da quadra junto à de Matlock. Abriu-se e saiu um homem. Da mesma forma que Greenberg fi­zera antes, também ele olhou para os dois lados do cor­redor. Só que em lugar de ficar satisfeito de não haver ninguém ali, ele ficou aborrecido. A fechadura emperrada impedira-o de ver quem era a pessoa que estava conver­sando com James Matlock.

A outra porta abriu-se e Matlock saiu. O homem es­pantou-se, puxou a toalha para lhe esconder o rosto e foi-se embora fingindo uma tosse.

Só que ele não tinha sido bastante rápido. Matlock conhecia aquela cara.

Era do patrulheiro da polícia que estivera no seu apartamento às quatro horas.

Era daquele que tinha-lhe chamado de “doutor”. O soldado que sabia muito bem que todos os problemas do campus eram causados pelos cabeludos e pelos negros.

Matlock ficou olhando para o vulto que se distanciava.

 

Por cima das grandes portas góticas, quem olhasse com bastante atenção, poderia ver as letras já apagadas do alfabeto grego Alfa Delta Fi que já estavam ali em baixo-relevo havia algumas décadas e que nem o tempo nem os estudantes tinham conseguido apagar completa­mente. O edifício daquela fraternidade tinha tido a mes­ma sorte dos outros de Carlyle. Os diretores não tinham conseguido nada e haviam afinal concordado em aceitar o inevitável. O edifício tinha sido todo vendido aos negros.

E eles tinham feito muito bem. Muito bem mesmo. A casa decrépita fora totalmente reformada por dentro e por fora. Todas as ligações do passado com os antigos donos tinham sido apagadas dentro do possível.

As velhas fotografias de antigos alunos famosos ti­nham sido substituídas por loucos retratos teatrais dos revolucionários africanos, latino-americanos, panteras ne­gras. Em toda parte dos veneráveis salões estavam os novos comandos, em posters e arte psicodélica: Morte aos Porcos! Fora com os brancos! Malcolm está vivo! Lumumba,  o  Cristo  Negro

No meio de tudo aquilo havia réplicas do primitivo artesanato africano como as máscaras de fertilidade, lanças, escudos, peles de animais mergulhadas em tinta vermelha, cabeças reduzidas suspensas pelos cabelos e in­discutivelmente  brancas.

Lumumba Hall não estava procurando enganar a ninguém.   Refletia ódio.   Refletia fúria.

Matlock não precisou usar a aldrava de bronze que estava ao lado de uma grotesca máscara de ferro no por­tai. A porta grande abriu-se quando ele chegou e um estudante recebeu-o com  um sorriso alegre.

—  Estava mesmo esperando que o senhor viesse. Vai ser um barato!

—  Obrigado, Johnny. Eu não faltaria nunca. — Matlock foi  entrando e ficou espantado com  o número de velas acesas por toda parte. — Parece um velório. Onde está o caixão?

—   Isso vem depois.   Espere e verá.

Um preto que Matlock conhecia como um dos extre­mistas do campus chegou até eles. Era Adam Williams com cabelos grandes no estilo africano formando um per­feito semicírculo em torno de sua cabeça. Tinha traços fortes e Matlock ficou a imaginar que se o encontrasse nas selvas ele logo o reconheceria como chefe de tribo.

Williams recebeu-o com um sorriso aberto. — Boa noite. Seja bem-vindo à sede da revolução.

—  Muito obrigado. Isto aqui parece mais fúnebre do que revolucionário.   Estava perguntando ao Johnny onde estava o caixão.

Williams deu uma risada. Seus olhos eram inteligen­tes e seu sorriso era sincero, sem malícia ou arrogância. Visto assim de perto, o radical negro tinha pouca seme­lhança com o incendiário que aparecia nos comícios di­ante dos seus adeptos entusiasmados. Aquilo não sur­preendia Matlock. Os professores das aulas que ele fre­qüentava notavam a diferença flagrante de quando apa­recia nos comícios com a sua projeção tornando-se rapi­damente de âmbito nacional.

—  Puxa vida! Então atrapalhamos tudo.  Esta é uma ocasião para alegria. É um tanto chocante, creio eu, mas é essencialmente alegre.

—   Não estou compreendendo. . .

—  Um jovem da tribo chega à  idade em que já é um homem.   Está entrando numa vida ativa e responsá­vel,   é uma espécie de Bar Mitzvah das selvas.   É uma ocasião para alegria.  Não há caixões nem mortalhas.

— É isso mesmo! É isso mesmo, — disse o rapazi­nho chamado Johnny entusiasmado.

— Por que não vai buscar um drinque para o senhor Matlock, irmão? É só a mesma bebida até depois da ce­rimônia.   Chama-se ponche Swahili.  Quer um?

— Mas claro. . .

Johnny saiu correndo e desapareceu na multidão que havia em torno da poncheira na sala de jantar. Adam sorriu.

—  É uma bebida fraca de rum com limonada e suco de amoras.   Não é má, realmente. . .   Muito obrigado por ter vindo.   Falo com sinceridade.

—  O convite foi uma surpresa. Eu pensava que isto aqui  era  muito  exclusivo. Só  para  a  tribo. . .   Não  era isso bem o que eu queria dizer. . .

Williams deu uma gargalhada. — Não há ofensa nis­so. Eu mesmo usei a palavra. É bom pensar em termo de tribos.   É bom para os irmãos.

—  É sim. . .   Imagino que seja realmente.

—  Um grupo social  coletivo e protetor.   Possuindo identidade própria.

—  Se for esse o propósito, um propósito construtivo, eu também penso assim.

—  Mas claro que é.  As tribos nas selvas não estão sempre em guerra. Não cuidam somente de roubar, sa­quear e carregar as mulheres.   Isso é um quadro falso. Elas fazem o comércio, caçam e lavram a terra juntas, coexistem, em suma, talvez melhor do que as nações ou mesmo as subdivisões políticas.

Foi a vez de Matlock rir. — Está bem, professor. Vou tomar minhas notas depois da aula.

— Desculpe. O tempo dirá, não acha? Uma coisa eu devo fazer claro, no entanto. Não precisamos de sua aprovação.

Johnny voltou trazendo o ponche — Sabem de uma coisa? O Irmão Davis, o Bíll Davis, disse que você lhe dissera que ia reprová-lo e depois deu-lhe uma nota alta

— Foi porque o Irmão Davis deixou de besteiras e estudou. Que tal acha você dessa espécie de aprovação? — disse Matlock olhando para Adam Williams.

Ele sorriu e colocou a mão no braço de Matlock. — Não, senhor, bwana. . . Nessa área é o senhor quem manda.   — O  Irmão  Davis está aqui  para dar o duro. Não vamos discutir isso.  Aperte o irmão.

—  Você é  positivamente apavorante,  — e Matlock falava com um desprendimento que não sentia.

—  Nada  disso.   Apenas   pragmático. . .   Tenho   que atender a uns preparativos.  Ainda nos veremos.  — Wil­liams chamou um estudante que passava e caminhou em direção da escada.

— Vamos,   Sr.   Matlock.   Vou  mostrar-lhe as  novas alterações.

No meio daquele mar de rostos pretos, Matlock via um mínimo de olhares de reserva ou hostis. Claro que as saudações não eram tão efusivas como lá fora no campus, mas, de um modo geral, aceitavam a sua presença. Pensou por um momento que se os irmãos soubessem por que ele estava ali, certamente o expulsariam, indig­nados, de Lumumba Hall. Ele era o único branco pre­sente.

As alterações feitas tinham sido drásticas. Já não existiam mais as molduras de madeira antiga, os bancos de carvalho embaixo das imensas janelas góticas, o mo­biliário sólido e pesado forrado em couro vermelho bem escuro. O salão tinha sido transformado em alguma coisa completamente diferente. As janelas já não eram mais em arco e havia em torno delas uma moldura de madeira negra. Partindo das janelas até as paredes, ha­via uma divisão feita de bambu entrelaçado pintado a laca extremamente brilhante. A mesma coisa acontecia com o teto, mas ali os bambus convergiam para o centro onde havia um grande círculo onde estavam as lâmpadas cobertas por um vidro grosso e martelado, que difundiam uma luz difusa em todo o salão. Tanto quanto ele podia ver, não havia mobília propriamente dita. Havia alguns troncos toscos serrados que serviam de mesas e as ca­deiras eram dezenas de almofadas de cores vistosas es­palhadas pelo chão.

Não foi preciso muito para Matlock compreender o efeito desejado.

Aquele salão da antiga Alfa Delta Fi tinha sido trans­formado brilhantemente numa réplica de maloca africana. Havia até mesmo frestas por onde se filtravam os raios de um sol tropical.

— Isto é notável! Realmente notável! Deve ter leva­do meses.

— Quase ano e  meio.   Mas é  muito confortável  e relaxante. O senhor sabia que muitos dos mais importan­tes decoradores estão copiando isso agora? É a linha da volta à natureza.  É muito funcional e fácil de conservar.

—  Isto está se parecendo muito com uma desculpa. Vocês não precisam desculpar-se.   Está formidável.

—  Não, não.  Não   estou querendo desculpar-me. Adams diz que há uma certa majestade no primitivo.   É uma herança de valor e de que devemos nos orgulhar.

—  E Adams está certo. Só que ele não é a primeira pessoa que faz essa observação. . .

—  Por favor, Sr.  Matlock, não pense mal de nós. . .

James olhou  para Johnny por  cima da  beirada do copo de ponche.  Meu Deus! Quanto mais as coisas mu­dam mais elas se tornam as mesmas.

O salão do capítulo de Alfa Delta Fi, com o seu teto muito alto, tinha sido cavado das adegas na parte dos fundos da sede da fraternidade. Tinha sido construído no começo do século quando antigos alunos importantes ti­nham derramado ali somas de dinheiro ainda mais im­portantes bem como as manias como as sociedades se­cretas e os cotilhões de debutantes. Eram atividades que promulgavam e propagavam uma forma de vida ao mes­mo tempo que asseguravam a sua seletividade.

Milhares de jovens de peitos engomados tinham sido iniciados naquele salão parecido com capela, tinham se­gredado juras que durariam até a morte. Depois, embria­gavam-se e iam vomitar pelos cantos.

Era naquilo que Matlock pensava enquanto presen­ciava o ritual Mau-Mau que se desenrolava ali na sua frente. Não era menos infantil nem menos absurdo do que as cenas de antigamente. Talvez os aspectos físicos, que aliás eram simulados, fossem mais brutais na sua  significação, mas o caso era que as raízes da cerimônia não eram baseadas nos delicados passos da pavana de um cotilhão e sim nas súplicas selvagens e animais feitas aos deuses primitivos. Súplicas que visavam a força bruta e a sobrevivência.   Não eram  nunca súplicas para a continuação da exclusividade.

O rito tribal em si era uma série de cantos ininteli­gíveis, sempre crescendo em intensidade, sobre o corpo de um estudante negro que, sem dúvida, era o mais jo­vem irmão em Lumumba Hall, e que ali estava estendido no chão de cimento, inteiramente nu com exceção ape­nas de um pano vermelho que lhe cobria os órgãos genitais atado em torno da cintura. No final de cada canto que significava o princípio de um outro, o corpo do rapaz era levantado acima da multidão por quatro es­tudantes muito altos, também nus da cintura para cima, que usavam cintas de dança pintadas em negro forte e tinham as pernas envoltas em espirais de tiras de couro cru. O salão estava iluminado por dezenas de velas gros­sas montadas em castiçais projetando sombras que dan­çavam nas paredes e no teto. Além desse efeito teatral havia ainda o fato de cinco dos participantes ativos do ritual estarem com a pele coberta de óleo e o rosto ris­cado em padrões diabólicos. Na medida em que a can­toria aumentava em diapasão e loucura, o corpo rígido do jovem era atirado cada vez mais alto para o ar vol­tando depois aos braços estendidos. Cada vez que o corpo negro era atirado ao ar, a multidão respondia com gritos guturais cada vez mais fortes.

E foi então que Matlock, de repente, levou um grande susto. Assustou-se com medo pelo corpo negro e rígido que estava sendo atirado para o ar com tanta displicên­cia, e isso porque mais dois negros, vestidos como os outros, tinham-se juntado aos quatro no centro do salão. Mas, em lugar de ajudar a atirar o corpo para o ar, os dois recém-chegados agacharam-se no meio dos quatro, bem por baixo do corpo, e sacaram longas facas, uma em cada mão. Esticaram então os braços mantendo as facas de pé de forma que o corpo rígido do jovem, ao cair, cada vez se chegava mais para perto das pontas. Um pequeno engano, um escorregão dos quatro negros, e o ritual terminaria em morte para o pequeno estudante. Se­ria um assassinato.

Matlock, sentindo que o ritual já tinha chegado ao máximo permissível, começou a procurar Williams no meio da multidão. Viu-o ali bem na frente no círculo em volta, e começou a tentar para chegar até ele Foi detido com firmeza pelos negros que estavam em torno dele e que não deram atenção ao seu olhar zangado. Estavam todos agora hipnotizados pelo que se passava no centro do salão.

E Matlock logo viu a razão. Agora, o corpo do rapaz estava sendo virado, com o rosto ora para cima e ora para baixo cada vez que era atirado ao ar. O perigo de um erro tinha aumentado dez vezes. Matlock conseguiu livrar-se do braço que o segurava, mas quando olhou na direção de Williams, verificou que ele não estava mais lá.

Não conseguia ver onde estava! Ficou ali parado sem saber o que fazer. Se levantasse a voz no meio daquela gritaria cada vez maior, era perfeitamente possível que isso pudesse perturbar aqueles que estavam com o cor­po. Não podia arriscar ao mesmo tempo que também não podia concordar com o absurdo daquela demonstração.

Foi então que sentiu alguém colocar a mão em seu ombro e, ao voltar-se, deu de cara com Williams por trás dele. Teria Williams recebido algum sinal tribal primitivo? O radical negro fez sinal a Matlock para acompanhá-lo e sair do meio daquela multidão ruidosa ao mesmo tempo que ia lhe falando nos intervalos das explosões da gritaria.

—  O senhor parece preocupado.  Não é preciso.

—  Mas essa brincadeira já foi muito longe.   Podem matar o garoto!

—  Não há perigo.  Os irmãos treinaram isso durante meses. . .   É realmente o  mais simplista dos ritos. Mau-Mau. O simbolismo é fundamental. . . Pois então não vê? O garoto está de olhos abertos.  Primeiro vê o céu e de­pois as facas. Sabe todo o tempo que sua vida está nas mãos  dos  irmãos  guerreiros.   Não  pode  nem  deve  de­monstrar medo.  Se fizesse isso estaria traindo seus pa­res.   Estaria traindo a confiança que deve ter neles   Da mesma forma que eles, algum dia, poderão ter suas vidas nas mãos dele.

— É infantil e estupidamente perigoso, e você sabe muito bem que é mesmo. Estou-lhe dizendo, Williams, você faz isto parar, ou então faço eu!

O outro continuou como se nem mesmo tivesse ouvido Matlock falar. — Claro que há alguns antropólogos que insistem na idéia da cerimônia ser essencialmente de fertilidade. As facas desembainhadas representam as ereções e os quatro protetores guardam a criança através de seus anos de formação. Francamente, eu acho que é um pouco de exagero. Também acho que seja contraditório até mesmo para o espírito primitivo. . .

Matlock soltou um palavrão e segurou Williams pela camisa.  Logo outros se juntaram em torno deles.

De repente houve um silêncio total no salão. Durou apenas um instante. Foi logo seguido por uma série de gritos estridentes, de arrepiar os cabelos, soltados pelos quatro negros do centro em cujas mãos estava a vida do rapaz. Matlock virou-se e viu o corpo brilhante caindo de uma altura incrível acima dos braços esticados.

Não podia acreditar no que via! E no entanto, era a verdade.   Estava  acontecendo!

Os quatro negros, de repente, ao mesmo tempo, ajoelharam-se fugindo do centro com os braços grudados ao corpo. O jovem estudante vinha caindo lá de cima, com o rosto virado para as lâminas. Seguiram-se dois ou­tros gritos. Numa fração de segundo, os estudantes que seguravam as imensas facas esticaram as armas apon­tando para o que estava em frente e numa incrível de­monstração de força nos pulsos, apararam o corpo de chapa em cima das lâminas.

A multidão delirava.

Tinha terminado a cerimônia.

—  Está  me acreditando agora? — Williams estava num dos cantos da sala com Matlock.

—  Quer eu creia ou não, continua de pé o que eu disse.  Vocês não podem fazer uma coisa dessas.   É um perigo dos diabos!

—  O senhor  está  exagerando. . .   Olhe  aqui,   quero apresentar-lhe  um  outro  convidado.

Williams levantou o braço e um outro rapaz preto, alto e magro, com cabelos curtos e óculos, vestido numa roupa de couro muito cara veio juntar-se a eles. — Este aqui é Julian Dunois, Sr. Matlock. O irmão Julian é o nos­so especialista.   Nosso coreógrafo, se prefere assim.

—  É um prazer, — disse Dunois estendendo a mão. Sua voz  mostrava  um  ligeiro sotaque.

— O   Irmão  Dunois  é  do  Haiti. . .   Harvard,   Direito, na Universidade de Haiti. Acho que concorda comigo que é um progresso  notável.

—  Claro que é. . .

—  Muita gente de lá,  até mesmo os Ton Ton  Macoute, ainda se assustam quando ouvem o seu nome.

— Você está exagerando, Adam,  — respondeu  ele sorrindo.

—  Pois foi exatamente o que acabei de dizer ao Dr. Matlock. Disse-lhe que estava exagerando. A respeito do perigo da cerimônia. . .

—  Mas claro que há perigo,  da mesma forma que há quando alguém atravessa  a rua principal de  Boston de  olhos  vendados.   O  segredo  da  segurança  está  na atenção daqueles que seguram as facas.   São bem trei­nados para isso.

—  Pode ser que seja assim, mas a margem de risco é o que me mete medo.

—  Não é assim tão grande como pensa.   Aliás, eu sou um grande admirador seu.  Gostei muito do seu tra­balho sobre a gente do tempo de Elizabeth.   Devo ainda acrescentar que o senhor não é exatamente como eu es­perava.  Quero dizer que é muito mais moço do que eu imaginava.  Muito mais mesmo.

— Sinto-me lisonjeado.   Não sabia que era conhe­cido nas escolas de Direito.

—  Eu também me formei em Literatura inglesa.

Adam pediu licença para interromper. — Divirtam-se os dois. Em alguns minutos haverá bebidas lá em cima. É acompanhar o pessoal. Tenho coisas para fazer. . . Estou satisfeito que tenham se conhecido. Os dois são estrangeiros, de uma certa forma. É bom quando se en­contram em terreno desconhecido. Sempre é um con­forto.                                                               

Olhou para Dunois de forma enigmática e perdeu-se no  meio da  multidão.

— Por que será que o Adam acha que deve falar sempre em  charadas  profundas?

— É muito moço ainda. Faz o possível para se fazer notar. Muito inteligente, mas muito moço ainda.

— Peço-lhe desculpas,   mas  não  acredito  que  seja assim tão mais velho do que Adam.   Talvez apenas um ou dois anos.

Julian encarou Matlock e teve uma risada delicada.

— Agora sou eu que me sinto lisonjeado. Se falás­semos a verdade, o que sempre é o certo, e se a minha cor dos trópicos não disfarçasse tão bem os meus anos, o senhor talvez veria que eu sou exatamente um ano, quatro meses e dezesseis dias mais velho que o senhor,

Matlock ficou estarrecido olhando para o rapaz sem saber o que dizer. O outro enfrentou o seu olhar sem pestanejar e finalmente foi Matlock quem falou.

—  Não sei se estou gostando desta brincadeira...

—  Ora  deixe-se  disso.   Nós  estamos  os  dois  aqui pela mesma razão, não estamos? Cada qual olhando as coisas de seu ponto de vista. . . Vamos lá em cima tomar alguma coisa. . .  O seu é bourbon com soda, não é? Di­zem que é uma mistura amarga.

Dunois saiu na frente abrindo caminho, e Matlock não teve outro remédio senão acompanhá-lo.

Dunois encostou-se à parede.

—  Muito bem, Julian. Já acabamos com a conversa fiada.   Todo mundo gostou do seu show lá em baixo e não há mais ninguém que eu possa impressionar por ser branco.   Acho  que  chegou  a  hora  de você  começar  a explicar.

Os dois estavam sós, do lado de fora, cada qual com o seu copo.

—  Puxa vida!   Estamos  agindo  como  profissionais, não acha? Quer um charuto? Posso lhe garantir que é Havana.

—   Charuto não, obrigado. Vamos conversar. Eu vim aqui hoje porque eles são meus amigos e eu me senti hon­rado com o convite. . .  Agora você acrescentou mais al­guma coisa e eu não estou gostando.

—  Bravos, bravos! Você diz isso muito bem.  Não se preocupe,  eles  não  sabem  de  nada.   Talvez  suspeitem, mas pode acreditar-me que será muito pouco. . .

—  Mas que diabo está você para aí a falar?

— Termine o seu drinque e vamos lá fora no gra­mado.

Dunois bebeu seu rum como se fosse um reflexo, e Matlock virou o seu resto de bourbon. Os dois desceram a escadaria de Lumumba Hall e Matlock foi acompanhan­do o outro até a base de um imenso olmo. Dunois virou-se, de repente, e segurou Matlock pelos ombros.

— Tire suas mãos sujas de cima de mim!

— Escute-me só. Eu quero aquele papel! Eu preciso muito dele! Você tem que me dizer onde está.

Matlock levantou as mãos para livrar-se de Dunois, mas seus braços não reagiram. Ficarem, de repente, pe­sados. Terrivelmente pesados. Ouviu uma espécie de assobio que cada vez ia aumentando mais na cabeça. . .

—  O quê? O quê?. . . Que papel? Eu não tenho pa­pel nenhum. . .

— Não torne as coisas difíceis! Você sabe que vamos acabar achando. . .   Diga-nos então onde está.

Matlock sentiu que estava sendo deitado no chão. Começou a ver a árvore lá em cima e o assobio aumentava cada vez mais já se tornando intolerável. Tudo lá em cima parecia girar. Era intolerável. Lutou para recuperar os sentidos.

—  O que é que você está fazendo comigo? O que é que quer?

—  O papel, Matlock. Onde está o papel corso?

Matlock tentou gritar mas o som não saía. Não con­seguia.

—  O papel prateado, seu sacana do inferno!

— Não tenho. . . papel. Não tenho mesmo. . . Não. . .

—  Escute uma coisa, agora. Você acabou de beber. Lembra-se que bebeu? Acabou de beber, não foi?. . . Vo­cê não pode ficar só agora. Você não tem coragem para ficar só agora!

—  O quê? Como é? Saia de cima de mim. Está me esmagando.

—  Eu nem mesmo estou tocando em você,  É a be­bida que esta fazendo isso.  Você acabou de tomar uma dose de ácido, de LSD! Você está encrencado, doutor. . . Agora vai me dizer onde está aquele papel!

Dentro do mais profundo de seu ser ele sentiu um instante de claridade. No meio de todo o turbilhão na sua cabeça ele conseguiu focalizar a forma de um homem ali por cima dele e conseguiu segurar sua camisa puxando-o então para baixo com todas as forças que en­controu. Levantou o punho e deixou-o cair com toda a sua força em cima de seu rosto e quando viu o rosto fe­rido começou a castigar-lhe a garganta com tudo que tinha. Sentiu os vidros dos óculos quebrarem e viu que tinha-lhe atingido os olhos. Começou a castigar a cabeça com os vidros quebrados.

Não poderia nunca dizer quanto tempo levou para aquilo terminar. O corpo de Dunois estava ali ao seu lado inconsciente.

E agora sabia que tinha de correr. De fugir furiosa­mente. O que dissera mesmo Dunois?. . . Não se atreva a ficar só. Não se atreva. Tinha que encontrar Pat. Ela saberia o que fazer. Tinha que encontrá-la! Sabia que a droga em seu corpo começaria a fazer efeito logo, e sa­bia como era! Tinha que correr, pelo amor de Deus!

Mas para onde? Por que caminho? Não sabia por onde! Não sabia da porra do caminho! A rua estava ali e ele saiu disparado.  Mas seria aquela a rua certa?

Foi então que ouviu um carro. Era um carro que vinha junto ao meio fio e o motorista estava olhando para ele. Estava olhando para ele e por isso correu ainda mais, tropeçando e caindo, levantando-se e tornando a correr. Correr, Deus do Céu! Correr com todas as suas forças até onde os pés o levassem. Sentiu que cambaleava e viu que ia desabar na rua que, de repente, se transfor­mara num rio, um rio pútrido e negro onde ele ia se afogar.

Lembrou-se vagamente do ranger dos freios, da luz que o ofuscava e de um homem agachado cutucando seus olhos. Já não ligava mais. Em lugar disso riu. Riu com o sangue saindo-lhe da boca e escorrendo pelo rosto.

Ainda ria histericamente quando Jason Greenberg carregou-o para o carro.

E aí então achou que a terra, o mundo, o planeta, a galáxia e todo o sistema solar, tudo aquilo estava louco.

 

A noite foi uma agonia.

A manhã trouxe com ela uma certa realidade, menos um pouco para Matlock do que para as duas pessoas que estavam ali cada qual num lado da cama. Jason Gre­enberg, com seus olhos grandes e tristes, com as mãos calmamente cruzadas no colo e com o corpo inclinado; e Patrícia com o braço estendido passando-lhe uma toalha na testa.

—  Os crioulos ofereceram a você uma festa e tanto, meu chapa.

—  Shhii! Deixe-o descansar.

Os olhos de Matlock percorreram o quarto e viu então que estava no apartamento dela. No seu quarto de dor­mir e na sua cama.

—  Eles me deram ácido. . .

—  Que   grande   novidade!. . .   O   médico   já   esteve aqui. Um médico de verdade que trouxemos de Litchfield. Era aquele cara legal que você estava querendo arrancar os olhos. . .   Não se preocupe.   Ele é dos nossos.  Não precisamos citar nomes.

—  E Pat? Como foi. . .

—  Você fica um amor com o LSD, Jamie. Não paroude gritar meu nome.

—  E assim foi muito melhor. Nada de hospitais. Nada de registros.  Tudo bem íntimo e sossegado.  Você também é bem persuasivo quando está violento.  E é muito mais forte do que eu pensava.

—  Você não devia ter-me trazido para aqui, Green­bérg.      Com todos os demônios, por que foi me trazer para aqui?

—  Você está esquecendo que foi sua própria idéia. . .

—  Mas eu estava drogado. . .

—  E foi uma boa idéia.  Você teria preferido talvez a.clínica de emergência?. . .   Imagine só! “Ora quem é aquele que está gritando ali, doutor?. . .” “É só o pro­fessor Matlock, enfermeira.  Está cheio de LSD. . .”

—  Você bem sabe o que quero dizer.  Poderia ter-me levado para minha casa.  Poderia me amarrar...

—  Folgo  muito em ficar sabendo que você pouco entende de ácido. . .

—  O que ele quer dizer, Jamie. . .   é preciso ficar com alguém que se conheça bem.  É importante.

Matlock olhou para Greenbérg e depois para a moça. — O que foi que você disse a ela?

—  Contei-lhe que você se ofereceu para ajudar-nos e que estamos muito agradecidos. . . Com sua ajuda po­demos   evitar   que   uma   situação   séria   torne-se   muito pior. . .

Pat interrompeu-o. — Foi uma explicação muito obs­cura. Só me deu mesmo porque eu ameacei. . .

—  Ela queria chamar a polícia.  Queria mandar me prender por haver drogado você.   Não tive outro remédio. — E os seus olhos estavam mais tristes do que nunca.

Matlock sorriu.

Pat não estava achando graça nenhuma. — Por que é que você está fazendo isto, Jamie?

—  Foi como ele disse. A situação está séria.

—  Mas por que você?

—  Porque eu posso. . .

—  O quê? Mandar prender os garotos?

—  Mas eu já lhe disse, dona, que não estamos inte­ressados nos garotos. . . — Interrompeu Jason.

—  E o que é o Lumumba Hall então? Uma sucursal da General Motors?

— é um dos pontos de contato. Há outros. Franca­mente, eu preferia não me envolver com aquela gente. É um perigo.  Infelizmente, não podemos escolher.

—  Isto é ofensivo.

— Acho que tudo que eu disser a senhora vai achar ofensivo, dona.

— Talvez não.  Só que eu pensava que o FBI tinha coisas mais importantes para fazer em lugar de estar cor­rendo atrás de crioulinhos.  Está se vendo que não tem mesmo.

Matlock  procurou  acalmá-la segurando-lhe  a  mão, mas nada conseguiu.

—  Nada disso, Jamie.  Estou falando sério.  Há dro­gas em toda a parte.  Em alguns lugares a coisa é feia, mas em outros já é até rotina.  Nós dois sabemos disso. Por que então caem em cima dos garotos de Lumumba Hall de repente?

—  Nós nem queremos tocar nos garotos.  Só que­remos ajudar os meninos... — Via-se que Greenbérg es­tava cansado da noite que passara.  Percebia-se sua ir­ritação.

— Não me agrada a forma como vocês querem aju­dar os outros e tampouco o que aconteceu com Jamie! Por que mandou-o lá?

— Não foi ele quem me mandou. Fui eu mesmo que arranjei.

—  Por quê?

—  É muito complicado e não estou em condições de explicar.

—  Sim, eu sei. O Sr. Greenberg já me explicou tudo. Já me explicou direitinho. Deram a você um distintivo da polícia, não foi? Como não podem fazer isso sozinhos, então apanham um cara que se submeta a fazer tudo por eles. Você corre todos os riscos, e quando tudo estiver acabado você nunca mais poderá dar as caras por aqui neste campus, Jamie! Pelo amor de Deus, você sabe que isto aqui é a sua casa, é o seu trabalho!

Matlock procurava acalmá-la por todos os meios. — Eu sei de tudo isso melhor do que você, querida. Só que minha casa está precisando de ajuda e não é de brinca­deira. Acho que os riscos compensam. . .

— Eu não vou dizer que estou de acordo com isso. . .

—  A senhora não pode compreender, dona, porque nós não podemos lhe contar tudo como é. A senhora tem que aceitar tudo.

—  Será que tenho mesmo?

—  Eu estou lhe pedindo, Pat. Ele me salvou a vida.

—  Eu não diria tanto, professor, — e Greenberg deu de ombros.

Pat levantou-se. — Eu acho que ele jogou você ao mar e depois então atirou-lhe uma corda. . . Você já está bem agora?

—  Estou sim, querida.

—  Eu preciso ir, mas não irei se você não quiser. . .

—  Não, não. Pode ir. Eu telefono mais tarde. Muito obrigado pela enfermagem.

A moça olhou para Greenberg sem muita cordialidade e foi até a penteadeira onde apanhou uma escova que passou nos cabelos. Olhou Greenberg pelo espelho e ele olhou também para ela.

—  Aquele homem  que anda me  acompanhando  é mandado pelo senhor?

—  Sim, senhora.

—  Pois não gosto disso.

—  Sinto muito.

Ela voltou-se e encarou-o. — Pare com isso então, por favor, sim?

—  Não posso fazer isso. Só posso mandar que ele não se mostre muito.

—  Está bem. — Apanhou a bolsa e abaixou-se para apanhar a pasta que estava no chão. Sem mais uma pa­lavra saiu do quarto e logo depois eles ouviram quando a porta bateu.

—  A mocinha é bem brava. . .

—  E tem boas razões. . .

—  O que quer dizer com isto?

—  Pensei que vocês conhecessem bem as pessoas com quem tinham contatos. . .

—  Eu ainda estou aprendendo. Sou apenas o reser­va, lembra-se?

—  Pois então eu vou poupar-lhe o trabalho. Em fins da década de 50 o pai dela foi demitido do Ministério das Relações Exteriores na onda de McCarthy. Claro que era muito perigoso.  Era consultor de idiomas. Deram-lhe li­cença para traduzir para os jornais.

—  Merda.

—  É a palavra certa, irmão. Ela nunca se recuperou. Ela teve bolsas a vida toda.  Passou necessidades.   Não gosta muito de gente como você.

— Puxa vida! Você sabe escolher suas garotas, hein?

—  Foram vocês que me escolheram, lembra-se?

Matlock abriu a porta do apartamento e entrou. Pat tinha feito um bom trabalho de limpeza como ele, aliás, sabia que faria. Até mesmo as cortinas estavam de volta nos lugares. Passava um pouco das três horas. Já tinha perdido a maior parte do dia. Greenberg tinha insistido para irem fazer um novo exame com o médico em Litchfield. O veredicto tinha sido abalado mas ainda em con­dições de funcionar.

Pararam para almoçar no Cheshire Cat e durante a refeição Matlock não conseguia tirar os olhos da cadeira onde quatro dias antes sentara-se Ralph Loring com o seu jornal dobrado. O almoço foi silencioso. Não havia tensão já que os dois davam-se bem juntos. Foi silencioso porque não tinham muito assunto, e cada qual estava preocupado com seus pensamentos.

Na viagem de volta a Carlyle, Greenberg disse-lhe que ficasse no apartamento até novo contato com ele. Washington ainda não tinha dado instruções. Estavam avaliando as novas informações e até chegarem a uma conclusão Matlock deveria ficar fora de circulação.

Para ele tanto fazia, já que tinha lá seus planos pró­prios. Lucas Herron. A “velha águia”. O velho estadista do campus. Já era tempo de falar com ele para preveni-lo. O velho estava fora de seu elemento, e quanto mais de­pressa batesse em retirada melhor seria para todos, in­clusive para Carlyle. Não queria telefonar-lhe nem que­ria combinar um encontro formal. Tinha que ser mais sutil do que isso. Não queria alarmar o velho Lucas nem queria que ele fosse procurar quem não devesse

Matlock chegou a pensar que estava agindo como uma espécie de protetor para Herron. O que presumía-o inocente de qualquer envolvimento sério. Chegou a pen­sar se tinha o direrto de pensar assim,  mas por outro lado, pelos padrões civilizados, ele não podia fazer outra coisa.

O telefone tocou. Não podia ser Greenberg. Ele tinha acabado de ficar lá na calçada. Esperava que não fosse Pat. Ainda não estava pronto para falar com ela. Foi a contragosto que pegou no telefone.

—  Jim! Por onde andou você? Estou telefonando des­de as oito horas.  Estava tão preocupado que fui até aí duas vezes. Apanhei a sua chave na manutenção. . .  — Era Sam Kressel. Parecia perturbado de verdade.

—  É  muito  complicado  para explicar agora,  Sam. Vamos nos ver mais tarde.   Irei  à sua casa depois do jantar.

—  Não sei se posso esperar tanto. Que diabo acon­teceu com você?

—  Não estou compreendendo. . .

— Em Lumumba Hall ontem à noite!

—  De que é que está falando? O que foi que lhe disseram?

—  Aquele negro sacana, o Adam Williams, entregou um  relatório  no meu escritório acusando você de tudo que há de ruim! Diz que a única razão para não dar parte à polícia é porque você estava completamente bêbedo! Diz que o álcool desmascarou você, mostrando claramente como é racista!

—  Como é?!

—  Diz que você quebrou a mobília, bateu nos garo­tos, quebrou janelas...

—  Você sabe muito bem que isso é mentira desla­vada!

Kressel abaixou a voz e já estava mais calmo. — Foi o que eu pensei. Mas só eu pensar não adianta. Pois então não vê? É exatamente isso que precisamos evitar. Polarização! Quando o governo entra num campus logo em seguida vem a polarização!

—  Escute aqui, Sam. O relatório de Williams é uma isca.  É uma camuflagem. Eles me drogaram lá na noite passada. Se não fosse o Greenberg não sei onde estaria agora.

—  Deus do Céu!. . .  Lumumba está na sua lista, não está? Era só o que nos faltava.   Os pretos vão começar a gritar perseguição. Só Deus sabe o que pode acontecer.

Matlock tentou falar calmo. — Eu darei um pulo aí por volta das sete. Não faça nada e não diga nada. Pre­ciso liberar o telefone porque o Greenberg vai me chamar.

— Espere um pouco, Jim! Ainda há uma coisa. Esse Greenberg. . . Não confio nele. Não confio em nenhum deles. Lembre-se disso, hein? Você deve ser leal a Carlyle — Kressel  parou, mas ainda não tinha acabado. Matlock sabia que ele não encontrava palavras.

—  É estranho o que você está dizendo. . .  

— Você deve saber o que eu quero dizer. . .

— Não tenho bem  certeza. . .   Pensei  que a  idéia fosse de trabalharmos juntos. . .

—  Mas não ao preço de destruir completamente este campus! O homem parecia quase histérico.

—  Não se preocupe, Sam.   Isso não vai acontecer. Falo com você depois.

Matlock desligou antes que Kressel dissesse mais alguma coisa. Precisava descansar o espírito e Kressel nunca lhe permitiria isso naquelas condições. Sam Kres­sel, lá ao seu jeito, era tão militante como qualquer ex­tremista e talvez até mesmo um pouco mais disposto a gritar “sujo”.

Esses pensamentos levaram Matlock a duas outras considerações. Quatro dias antes tinha dito a Pat que não queria mudar os planos que tinham para as férias em St. Thomas. Elas iam começar dentro de três dias. Na­quelas circunstâncias, nem podia pensar em St. Thomas a não ser que Washington resolvesse retirá-lo da jogada, o que duvidava muito. Ele tinha usado os pais como des­culpa. Pat compreenderia e até mesmo aprovaria. A outra consideração eram as suas aulas. Já estava atrasado. Estava entupido de trabalho. Já tinha faltado a duas aulas. Sabia como falavam dos professores que faltavam. Teria que organizar tudo depois. Até às sete horas, no entanto, ele tinha que ir ver Lucas Herron. Se o Greenberg tele­fonasse enquanto ele estava fora, diria que tinha esque­cido de uma conferência.

Resolveu tomar um banho, fazer a barba e mudar de roupa. Logo que entrou no banheiro foi verificar o papel prateado.  Estava lá direitinho.

Quando terminou tudo pensou então como iria fazer. Nao sabia dos horários de Herron, mas sabia onde era sua casa e poderia estar lá em quinze minutos de automóvel. A casa onde morava tinha sido a cocheira das carruagens dos antigos donos e ficava bastante isolada. Lucas sempre dizia que depois de estar em casa é que ele via como era bom.

A batida rápida na porta veio interromper seus pen­samentos mas também serviu para amedrontá-lo. Sen­tiu-se sem fôlego e aquilo era ruim.

Deu um grito dizendo que já ia abrir enquanto enfia­va pela cabeça uma camisa esporte. Foi descalço até a porta e abriu-a. Não conseguiu esconder o choque. Na sua frente estava Adam Williams. . .  sozinho.

— Boa tarde.

— Deus do Céu! Não sei se lhe dou um soco na cara ou se chamo a polícia! Que diabo quer comigo? O Kressel já me telefonou, se é isso o que quer saber.

— Por favor, deixe-me falar. Serei rápido. — Ele falava nervoso e Matlock sentia que estava com medo.

—  Entre então, mas seja rápido. — O outro entrou e tentou um sorriso.

— Sinto muito a respeito daquele relatório. Sinto muito mesmo. Foi uma necessidade desagradável.

— Eu não aceito isto e é escusado insistir,  O que queria você que o Kressel fizesse? Fazer-me comparecer perante a congregação para ser expulso? Você acha que eu não ia reagir? Você não passa dum maníaco sem ver­gonha.

— Nós já sabíamos que nada ia acontecer. Foi jus­tamente por isso que fizemos. . . Nós não tínhamos certeza onde o senhor estava. Tinha desaparecido. Seria como dizer que tomamos a ofensiva para mais tarde reconhecer que tinha sido lamentável engano. . . Não é uma tática nova. Mandarei outro relatório para Kressel, recuando um pouco mas não completamente. Em algumas semanas tudo estará esquecido.

Matlock estava furioso, mas quando falou nem le­vantou a voz. — Saia daqui. Você me causa nojo.

—  Ora,  deixe-se disso,  homem!  Pois  então  não  é verdade que você sempre teve nojo de nós? — Matlock tinha atingido um nervo e o outro pagava-lhe na mesma moeda.   Mas,  de  repente,  ele conteve-se. — Ora, não vale a pena discutirmos sobre práticas teóricas.   Deixe-me dizer ao que vim e irei embora.

— Pois então diga logo.

— Muito bem. Ouça. Seja lá o que for que o Dunois está querendo de si o melhor é dar-lhe logo. . . isto é, dar a mim e eu entregarei a ele. Não devemos perder tempo.  Estamos falando claro.

— Não adianta. Por que cargas d’água teria eu algu­ma coisa que o Irmão Julian deseja? Ele disse o que era? Por que não veio ele em pessoa?

— O Irmão Julian não fica muito tempo num mes­mo lugar.  Seus talentos são muito procurados.

—  Montando ritos de puberdade Mau-Mau?

—  Mas ele realmente faz isso, sabe? É uma mania sua.

—  Mande ele falar comigo.  Nós podemos comparar notas sobre os movimentos do corpo.  Tenho uma boa coleção de danças folclóricas do século XVI.

—  Vamos falar sério! Não temos tempo!

Matlock foi até a mesa e apanhou os cigarros acen­dendo um. — Pois eu tenho todo o tempo deste mundo. Só desejo encontrar outra vez o Irmão Julian para meter ele na cadeia.

—  Não há chance! Não há chance.  Eu estou aqui em seu benefício. Se sair sem o que ele quer tudo pode acontecer.

—  Pois então vamos ver o que acontece.

—  Oh, mas o senhor é demais! É realmente demais! Sabe, por acaso, quem é Julian Dunois?

—  Será que faz parte da família dos Borgia? Do ramo etíope?

—- Pare com isso, Matlock! Faça o que ele diz! Pode haver gente ferida e ninguém deseja isso.

—  Eu não sei nem quero saber quem é Dunois e ele que se dane. Eu só sei que ele me drogou e me assaltou e que está exercendo uma influência nociva sobre uma porção de garotos.  Além disso ainda suspeito que ele mandou assaltar meu apartamento e destruiu coisas mi­nhas.   Quero vê-lo na prisão.   Quero-o longe de você e de mim.

—  Seja razoável! Por favor!

Matlock foi até onde estavam as cortinas e com um só  golpe  arrancou-as  mostrando  os  vidros  quebrados.

—  Será isto um dos cartões de visita do Irmão Julian?

Adam  Williams ficou  de  olhos arregalados,  obvia­mente chocado com os estragos que via.

—  Não, homem.  Absolutamente não! Este não é o estilo de Julian. . . Este não é nem mesmo o meu estilo. Foi uma outra pessoa qualquer. . .

 

O caminho para a casa de Lucas Herron ainda estava cheio de buracos do inverno. Matlock duvidava que a prefeitura de Carlyle os reparasse pois havia muitas outras ruas mais importantes que mostravam ainda os efeitos do inverno. Quando foi se aproximando da velha cocheira reduziu a marcha do carro para quase quinze qui­lômetros. Queria chegar à casa de Herron sem fazer muito barulho.

Pensando que Greenberg tivesse mandado alguém se­gui-lo, Matlock escolheu o caminho mais longo e verificou que não havia ninguém atrás dele. As casas mais próximas à de Herron ficavam a uns cem metros de distância dos dois lados e não havia nenhuma na frente. Tinham falado em fazer ali um loteamento para aumentar a universidade, mas o projeto não fora adiante. Na realidade, uma coisa dependia da outra e havia forte oposição de parte dos antigos alunos para qualquer modificação na velha uni­versidade. Eles eram uma cruz pessoal que Adrian Sealfont carregava.

Matlock ficou impressionado com a serenidade na ca­sa de Herron. Ele, realmente, nunca tinha reparado naquilo antes: Algumas vezes tinha-o levado em casa depois de reuniões da faculdade, mas nunca aceitara o convite de Lucas para entrar um pouco e por isso não conhecia a casa por dentro.

Saltou do carro e aproximou-se da velha estrutura de tijolos. Era alta e estreita com as pedras antigas cobertas aqui e ali de hera e aquilo aumentava ainda mais a sensa­ção de isolamento. Na frente do amplo gramado havia dois enormes chorões japoneses cobertos de flores que eram como uma cascata vermelha derramando-se no chão. A grama estava bem cuidada, como, aliás, todo o resto do jardim. Via-se no entanto que não era uma casa de família e sim apenas de uma só pessoa. Matlock lembrou-se então que Lucas nunca tinha-se casado. Havia as inevitáveis estórias de um amor contrariado e até mesmo de uma noiva que fugira, mas sempre que ele ouvia aquilo a sua resposta era apenas uma risada e uma declaração de muito egoísmo de sua parte.

Matlock subiu os poucos degraus até a porta e tocou a campainha. Tentou ensaiar um sorriso mas não conse­guiu.  Estava com medo.

A porta abriu-se e surgiu a figura alta, de cabeça branca, de Lucas Herron vestindo umas calças bem amarfanhadas e uma camisa desabotoada.

Logo que deu de cara com ele Matlock percebeu que Lucas sabia por que ele tinha vindo.

—  Ora viva, Jim! Vá entrando, meu filho.  Que sur­presa agradável!

—  Muito  obrigado,   Lucas.   Espero  que  não  esteja atrapalhando. . .

—  Nada disso. . .   Você chegou  bem a tempo.   Eu estava preparando uma alquimia e já não vou beber so­zinho.

O interior da casa era justamente o que Matlock es­perara, e o que a sua seria dentro de trinta anos se ele continuasse a viver só. Era uma mistura generalizada de coisas acumuladas durante meio século provenientes das mais diferentes origens. O único denominador comum era o conforto, sem preocupação alguma com estilos ou coor­denação Algumas paredes estavam cheias de livros e as outras tinham ampliações fotográficas de lugares por onde ele andara. As poltronas eram confortáveis e as mesinhas estavam todas ao alcance do braço como convinha a um solteirão.

— Acho que você nunca entrou aqui. . .

— Nunca mesmo. Estou achando bonito e confortável.

— É isso mesmo. Confortável. Sente-se enquanto eu termino aqui a manipulação da fórmula para lhe entregar seu drinque. Herron fez menção de se dirigir para o outro lado onde Matlock supunha que fosse a cozinha, mas antes parou e voltou-se. — Sei perfeitamente que você não fez esta caminhada toda só para fazer companhia a um velho na hora de seu drinque, mas eu tenho um principio. Pelo menos um drinque antes de qualquer discussão séria, a não ser que haja motivos que impeçam. Além disso, você está com um ar muito sério, mas lhe prometo que a minha fórmula vai dar um jeito nisso.

Antes que Matlock pudesse responder ele já tinha saído. Em lugar de sentar-se, Matlock foi até a parede mais próxima onde havia diversas fotografias penduradas sem qualquer simetria. Muitas eram de Stonehenge tira­das de um mesmo ponto em diferentes ângulos de um magnífico pôr do sol. Havia ainda outras de vistas que pareciam algum ponto do Mediterrâneo, até que finalmen­te encontrou uma surpresa. Num dos cantos havia uma de um oficial do exército,, alto e jovem, encostado a uma árvore. O fundo era de mato e aos lados via-se algumas figuras difusas. O oficial estava sem seu capacete, tinha a camisa suada e segurava uma metralhadora. Na mão esquerda tinha um papel que parecia um mapa e via-se que o homem acabara de tomar uma decisão. Ali estava Lucas Herron de meia idade e ainda de cabelos pretos.

—  Eu guardo este retrato para me lembrar que o tempo nem sempre foi tão devastador. . .

Matlock levou um susto. Lucas tinha voltado apanhando-o desprevenido. — É um bom retrato. Agora eu sei quem realmente ganhou a guerra.

—  Não há dúvida alguma a tal respeito. Infelizmente eu  nunca tinha ouvido falar dessa tal  ilha.   Dizem  que era uma das Solomão.  Tome aqui. . .

— Muito obrigado. Você é modesto. Eu já ouvi as estórias.

— E eu também. Fiquei muito impressionado. Vão melhorando com o tempo. . . enquanto eu vou ficando mais velho. . . Que tal se fôssemos sentar lá fora no quin­tal dos fundos? Está um dia muito bonito para se ficar dentro de casa. — Sem esperar resposta ele encaminhou-se para fora e Matlock seguiu-o.

Os fundos da casa estavam tão bem tratados quanto a frente. Havia cadeiras confortáveis cada qual com a sua mesinha. No centro de uma mesa de ferro havia um grande guarda-sol. O gramado estava bem cuidado e havia flores, a maior parte rosas, espalhadas por toda parte até o fim do gramado a uns trinta metros de distância. Mas ali, o cenário mudava de repente. Viam-se árvores enormes num mato cerrado. Era quase uma floresta selvagem.

Lucas Herron vivia cercado por uma muralha verde. Depois de trocarem algumas palavras triviais a res­peito dos drinques, Herron foi direto ao assunto.

—  Muito bem, moço, agora que já obedecemos às regras da hospitalidade, vamos ver a que você veio.

—  Creio que você faz alguma idéia...

—  Será que faço mesmo?

—  Archie Beeson. — Matlock ficou olhando para o velho, mas Herron estava concentrado em seu copo sem mostrar qualquer reação.

—  O moço que ensina História?

—  Ele mesmo.

—  Vai ser um bom professor algum dia. É bem bo­nita a sua mulher...

—  É bonita sim, mas também é promíscua, penso eu.

Herron  deu uma risadinha.   — São as aparências, Jim. Nunca pensei que você fosse assim tão vitoriano. A gente vai ficando mais tolerante quanto aos apetites na medida em que se vai envelhecendo. . . Você chegará lá. . .

—  Então o caso é esse? A tolerância dos apetites?

—  Como assim?

—  Vamos deixar disso. Ele procurou falar com você na outra noite. . .

—  Foi sim. Você estava lá. . . E já me disseram que o seu comportamento deixou a desejar.

—  Meu comportamento foi calculado para aquilo.

Pela  primeira  vez   Herron   deixou   transparecer  um vestígio de preocupação.  Foi apenas um nervoso piscar de olhos.

—  Aquilo foi repreensível. — Herron falava baixinho e olhava para a floresta imponente. O sol já tinha se escondido atrás das árvores projetando a sombra no gra­mado e no pátio.

— Era necessário. — Matlock percebeu que o velho fazia uma careta de dor. Lembrou-se então de sua reação quando Adam Williams lhe falara na “necessidade desagradável” de enviar o relatório falso a Kressel sobre o que acontecera em Lumumba Hall. Não gostou do para­lelo.

— O rapaz está encrencado.   Está doente.   É uma doença e ele está tentando curar-se. Mas é preciso cora­gem. . . Não estamos em tempo para táticas de Gestapo no campus. . . — Herron sorveu um largo trago enquanto a outra mão apertava o braço da cadeira.

—  Como veio a saber disso?

—  Não posso contar. Vamos dizer que eu fiquei sa­bendo por intermédio de um colega, um médico que ficou alarmado com os sintomas.  Que diferença pode fazer? Tentei ajudar o rapaz e tornarei a fazê-lo se for preciso.

—  Eu gostaria de acreditar nisso.   É exatamente o que queria acreditar.

—  E qual é a dificuldade?

—  Eu não sei. . . Alguma coisa lá na porta de en­trada uns minutos atrás.  Talvez esta casa.   Não posso precisar. . .   Estou sendo perfeitamente sincero consigo.

Herron riu-se mas sempre evitando os olhos de Matlock. — Você está ainda pensando no tempo de Elizabeth. Nos golpes e contragolpes de A Tragédia Espa­nhola. . . Vocês, os jovens cruzados da faculdade, de­vem deixar de bancar os amadores da Scotland Yard. Não faz muito andávamos caçando os cães vermelhos por aqui. Você está apenas exagerando a situação.

—  Mas isto não é verdade. Eu não sou um cruzado da faculdade.  Não faço parte dessa gente.  Você deve saber disso.

— Então o que foi? Um interesse pessoal pelo rapaz? ou foi a sua mulher?. . . Desculpe-me, não devia ter dito isso.

—  Mas eu estou satisfeito que tenha dito. Não tenho o menor interesse por Virgínia Beeson, sexual ou qualquer outro. . .

—  Mas então você fez uma exibição. . .

—  Claro que fiz.  Tomei todas as precauções para que o Beeson não descobrisse por que eu tinha ido lá. Era muito importante.

—  Para quem? — Herron largou devagar o copo e com a mão esquerda continuava a apertar o braço da cadeira.

—  Para  gente  que   não  é  do  campus.   Gente  de Washington.  Autoridades federais. . .

Herron respirou fundo como se tivesse levado um susto. Seu rosto começou a ficar pálido e quando falou foi quase um sussurro.

—  O que está me dizendo?

—  Estou  dizendo  que fui  procurado  por gente do Ministério da Justiça. A informação que vi foi aterradora. Era tudo verdadeiro e sem nenhum exagero.  Dados se­guros.   Pediram-me que colaborasse. . . mas sem  obri­gação.

—  E você aceitou? — Herron falou baixinho como se não acreditasse.

—  Eu sentia-me sem outra alternativa.   Meu  irmão mais moço. . .

—  Então você achou que não tinha alternativa? — Herron levantou-se, suas mãos começaram a tremer e a voz aumentou de intensidade.   — Você achou que não tinha alternativa?

—  Foi isso mesmo.  E por isso eu vim até aqui.  Eu vim aqui para avisar um velho amigo. . . A coisa é muito mais séria e perigosa. . .

—  E você veio aqui para me avisar? Mas veja bem o que fez.  Em nome de tudo que é sagrado eu lhe per­gunto se sabe o que fez?. . . Agora escute aqui.  Escute o que lhe vou dizer! — Herron recuou e com isso derru­bou a mesinha e os copos. — Você vai deixar ficar como está, está me ouvindo? Você vai voltar e dizer a eles que não  há  nada.   Absolutamente  nada.   Que tudo  está  na imaginação deles! Não se meta com isso. Afaste-se!

Matlock falou com muita delicadeza pois já estava com medo que o velho tivesse alguma coisa. — Eu não posso fazer isso. Até mesmo Sealfont terá que concor­dar. Ele não pode lutar mais, Lucas. . .

—  Adrian!  Adrian ?!   Contaram  então a  ele ?  Mas meu Deus, você sabe o que está fazendo? Vai destruir muita coisa. Muita gente, muita gente. . . Saia daqui! Fora daqui! Eu não o conheço! Oh meu Deus! Meu Deus!

Matlock levantou-se e caminhou para o velho, mas ele continuou a afastar-se. — Mas Lucas, o que é que há?

— Não chegue perto de mim! Não me toque!

Herron voltou-se e começou a correr tanto quanto lhe permitiam as velhas pernas. Caiu em cima do grama­do e tornou a levantar-se. Não olhou mais para trás. Em lugar disso saiu correndo em direção à floresta e em­brenhou-se nela.

— Lucas! Pelo amor de Deus! — Matlock saiu cor­rendo atrás dele mas não conseguiu mais encontrá-lo. Ele tinha desaparecido.

Tornou a gritar diversas vezes mas não houve res­posta. Não havia sinal dele em parte alguma. Foi como se tivesse se diluído no espaço. Não encontrava uma trilha que pudesse seguir.

E foi então que ouviu. Indistinto, vindo de todos os lados como um eco. Era üm gemido rouco, uma súplica. Perto, mas longe por causa da densidade do mato. E depois o gemido foi diminuindo e restou dele um soluço de dor. Um soluço só pontuado por uma única palavra, clara, mas pronunciada com ódio.

E a palavra era. . .

Nimrod. . .

 

—  Mas que diabo, Matlock! Eu disse a você para ficar em casa até eu me comunicar com você!

—  Mas que diabo, Greenberg! Como foi que entrou no meu apartamento?

— Você não mandou consertar a janela.

—  Você não se ofereceu para pagar.

—  Então estamos empates.  Onde esteve?

Matlock atirou as chaves do carro em cima da mesa do café e olhou para o estéreo quebrado. — É uma es­tória complicada e creia que. . . patética. Vou lhe contar tudo depois que beber um drinque. A minha última foi interrompida.

—  Eu  também  quero  um.   Eu  também  tenho  uma estória e a minha é patética mesmo!

Matlock olhou pela janela. As cortinas estavam da mesma forma que deixara quando da conversa com Adam Williams. O sol tinha quase desaparecido. Tinha-se pas­sado mais um dia.

Greenberg acompanhou Matlock até a cozinha para ver o que ia beber.

— Aqui está o seu. Agora quem é que vai contar primeiro a sua estória patética?

— Eu vou querer ouvir a sua, naturalmente, Jim, mas em vista das circunstâncias, acho que a minha tem prio­ridade.

— Parece que e coisa seria. . .

— Não.   Apenas  patética. . .   Começo  perguntando-Ihe  se   quer  saber   onde   tenho   estado   desde   que   lhe deixei...

— Não me interessa muito, mas você vai me contar de qualquer maneira.

— É isso mesmo.   Faz parte do enredo.  Estive no aeroporto local esperando um jato que foi enviado para aqui pelo escritório central. Veio um homem trazendo dois envelopes que eu recebi e que aqui estão.

Greenberg enfiou a mão no bolso e tirou os dois en­velopes comerciais. Colocou um em cima do bar e come­çou a abrir o outro.

—  Parecem coisa oficial. . .

—  E são mesmo. O que há de mais oficial. . . Este aqui contém o resumo de nossas conclusões baseadas nas informações que você me deu. . . Posso simplesmente lhe dizer o que contém contanto que não omita coisa al­guma. Mas o conteúdo do segundo envelope deve lhe ser entregue na íntegra. Você tem que ler com atenção e se aceitar deverá confirmar com a sua assinatura.

—  Cada vez fica  melhor.   Será  que vou  concorrer ao Senado ?

—  O homem de Lumumba Hall chamado Julian Dunois, conhecido também como Jacques Devereux, Jesus Dambert, e provavelmente muitos outros nomes, é o es­trategista legal dos militantes negros de esquerda. A de­signação de estrategista legal cobre tudo desde assun­tos  de  tribunal   até  agente   provocador. , Funciona   nos lugares mais desencontrados.  Argélia, Marselha, no Ca­ribe e até mesmo suspeitamos que em  Cuba.   Trabalha junto com Moscou e provavelmente até mesmo Pequim. Nos Estados Unidos ele tem um escritório de advocacia regularizado no Harlem com uma filial em San Francisco. . . Trabalha   geralmente   nos   bastidores,   mas   sempre   que aparece surgem os problemas. Não é preciso dizer que está na lista dos indesejáveis e portanto já não pode mais ser respeitável.

— Aliás, essa lista é muito grande, hoje em dia. . .

— Isso mesmo.   Mas vamos continuar.   O  apareci­mento  de  Dunois nesta operação acrescenta uma  nova dimensão com a qual não havíamos contado.  Ultrapassa os  limites  dos  criminosos  nacionais  e  entra  no  âmbito internacional. Crime e subversão ou mesmo os dois.  Em vista de tudo que aconteceu até aqui, as recomendações são as seguintes: Você deixará de participar da investiga­ção já que seu envolvimento nela ultrapassa o limite dos riscos razoáveis.

Greenberg largou o papel e bebeu alguns goles, Matlock ficou ali balançando as pernas. — E o que diz o acusado?

—  Eu ainda não sei porque você ainda não acabou. . .

—  Sei que ainda não acabei. O que dizem está certo e eu acho que você deve aceitar o conselho.  Caia fora, Jim.

—  Vamos pela ordem.  Qual é a outra carta que eu devo ler integralmente?

—  Só será necessária se você rejeitar a recomen­dação.   Não faça  isso, Jim.   Não fui  instruído para lhe dizer isso.  Falo como amigo.

—  Você sabe muito bem que eu vou rejeitar.  Então por que está gastando tempo ?

—  Eu não sei de nada.   Não quero acreditar nisso.

—  Não tenho outro jeito. Agora não tenho mais.

—  Mas por quê? O que houve?

—  Aí é que está a minha estória patética.   Portanto será melhor você continuar.

Greenberg olhou atentamente para Matlock pro­curando alguma explicação mas não encontrou nenhuma e então abriu o outro envelope.

—  No caso pouco provável de você rejeitar a reco­mendação de desistir, deve então ficar sabendo que faz isso contra o desejo expresso do Ministério da Justiça. Mesmo se nós lhe dermos toda a proteção que for possí­vel,   como,   aliás,  fazemos  com   qualquer cidadão,   você estará agindo  por sua exclusiva  responsabilidade.   Não seremos responsáveis pelo que lhe acontecer.

—  É isso o que está aí ?

—  Não, não é isso, mas é o que significa.  É muito mais simples.   Aqui  está.   — E Greenberg entregou-lhe a carta.

Era declaração assinada por um assistente do ocurador   e   com   uma   linha   para   a   assinatura   de Matlock.

 

Um agente investigador do Ministério da Justiça aceitou a oferta de James B. Matlock para fazer cer­tas investigações de menor natureza com referência a certos atos ilegais supostamente acontecendo nas vizinhanças da Universidade de Carlyle. Acontece, no entanto que as autoridades agora consideram a situação como um caso profissional e qualquer outra participação de parte do Professor Matlock passa a ser injustificável e contra as normas oficiais. Sendo assim, o Ministério da Justiça serve-se desta para in­formar que aprecia o que já foi feito por ele ao mes­mo tempo que pede-lhe para abster-se de qualquer novo envolvimento no interesse da segurança e do progresso da investigação. È a opinião das autori­dades que qualquer ação de parte do Professor Mat­lock poderá interferir com os objetivos da investiga­ção que está sendo feita na área de Carlyle. O Sr. Matlock tem o original desta carta como prova a sua assinatura  abaixo.

 

—  Mas que diabo estão vocês dizendo aqui?  Isto diz que eu concordei em cair fora.

— Você seria um péssimo advogado. Não compre nem uma bicicleta sem primeiro falar comigo. Em parte alguma deste documento se diz que você concordou em cair fora. Só diz que o Ministério lhe pediu isso.

—  Então por que cargas d’água vou eu assinar isto ?

—  Agora já é uma excelente pergunta. Já pode com­prar a bicicleta. . . Você assina se, como diz, não aceita a recomendação para cair fora.

—  Ora pelo amor de Deus!  Eu talvez não conheça as leis,  mas conheço bem a língua.   Você está falando contradições!

—  Somente superficialmente. . . Quero lhe perguntar uma  coisa.   Vamos  dizer que  você  queira  continuar  a bancar o agente clandestino. Haverá possibilidade de vir a precisar de ajuda? Talvez em alguma emergência?

—  Mas claro.   Inevitavelmente.

—  Pois não terá ajuda de espécie alguma se esta carta não voltar assinada. . . Não fique olhando assim para mim.  Eu vou ser substituído em poucos dias.  Já passei muito tempo aqui nesta área.

—  É tudo muito fingido, não é? A única maneira para eu  poder contar com  qualquer ajuda ou  proteção será assinar um  documento dizendo  que  não preciso disso. Quer dizer que se não assinar estarei saltando sem o pára-quedas ?

—  Eu já lhe disse.  Aceite o meu conselho.  Eu sou um bom advogado. Caia fora. Caia mesmo!

—  E eu também já lhe disse que não posso.

Greenberg estendeu a mão para o copo e falou bai­xinho. — Você pode fazer o que quiser que isso não vai trazer seu irmão de volta.

—  Eu sei disso. . .

—  Você   poderá  talvez   impedir  que   outros   irmãos mais moços façam o mesmo, mas isso será difícil.   De qualquer forma, sempre se pode arranjar os profissionais para isso. Não gosto de confessar, mas o Kressel estava com a razão.

—  Eu concordo com tudo que você diz. . .

—  Então por que hesita? Dê o fora!

—  Por quê?. . .   Eu  ainda  não  lhe  contei  a  minha estória.  É só por isso, sabe? Você tinha prioridade.  Mas eu ainda vou contar.

E Matlock contou-lhe então tudo que tinha acontecido com Lucas Herron e quem era aquela figura respeitável e lendária. Terminou contando do gemido com a palavra Nimrod. Greenberg ia ouvindo tudo e cada vez seus olhos ficavam mais tristes. Quando Matlock acabou ele bebeu o resto do copo e sacudiu a cabeça lentamente.

—  Você foi e contou tudo a ele, hein? Não podia vir falar comigo.  Tinha que ir falar com ele.   O seu santo do campus com um balde de sangue nas mãos. . .  Loring estava certo.  Nós arranjamos um amador cheio de cons­ciência. . .   Amadores  pela  frente  e  amadores  por  trás. Você,   pelo   menos,  tem   consciência.   Já  não  acontece isso com o flanco traseiro. . .

—  E agora o que faço ?

—  Assine esta porcaria. Você vai precisar muito de ajuda.

Patrícia caminhou na frente de Matlock até a peque­na mesa no canto dos fundos do Cheshire Cat. A viagem tinha sido tensa. A moça tinha martelado sem parar, com amargura contra o fato de Matlock estar cooperando com o qovernò, e muito especialmente com o FBI. Ela achava que organizações como aquela já tinham trazido o país para muito perto do estado policial.

Ela sabia em causa própria. Tinha presenciado as angústias que se seguiam às investigações do FBI. . .

Matlock segurou a cadeira para ela sentar-se. A mesa era pequena, perto de uma janela e de um terraço que logo seria usado para o jantar ao ar livre, pois já era fins de maio. Ele sentou-se em frente dela e segurou-lhe a mão.

—  Eu não vou desculpar-me pelo que estou fazendo. Acho que precisa ser feito.   Não sou herói nem sou de­lator.  Não me pediram para ser herói, e as informações que eles querem vão ajudar a muita gente. A gente que precisa ser ajudada. . .   desesperadamente.

—  Mas será que essa gente vai receber ajuda ou vai apenas ser processada?  Em lugar de hospitais e clíni­cas. . . será que não irão parar na cadeia ?

—  Ninguém está interessado em garotos doentes. Eles querem aqueles que são responsáveis,  aqueles que os tornam doentes. E é o que eu também quero.

—  Mas com isso são os garotos que sofrem tam­bém. . .

—  Alguns sim, mas serão poucos. . .

A moça retirou sua mão. — Isto é uma vergonha. É muita condescendência. . . Quem toma as decisões? Você ?

—  Você está parecendo um relógio de repetição. . .

—  Eu passei por isso. Não é nada agradável, sabe ?

—  Mas isto aqui é inteiramente diferente. Eu acabei de conhecer dois homens. Um deles. . .   foi embora.   O outro é Greenberg. Não são iguais aos seus pesadelos do passado. Pode me acreditar.

—  Eu bem que gostaria.

O gerente do restaurante chegou à mesa deles. — O telefone está chamando o Sr.  Matlock. . .

Ele sentiu um aperto na barriga. Eram os nervos do medo.   Só Jason sabia que ele estava ali.

Matlock levantou-se da cadeira e olhou para Pat. Nos meses e meses que tinham saído juntos para restaurantes ou festas, nunca Matlock tinha sido chamado ao telefone. Nunca tinha sido interrompido assim. Ele percebeu aqui­lo em seus olhos e saiu logo para ir atender ao chamado.

Claro que era Greenberg. — Desculpe-me se inter­rompi.   Não o faria se pudesse evitar.

—  Vá dizendo logo o que foi, pelo amor de Deus. . .

— Lucas Herron está morto.   Suicidou-se cerca de uma hora atrás.

Matlock ficou estarrecido e mal podia respirar. A única coisa que via era a figura cambaleante do velho correndo através do gramado bem cuidado e desapare­cendo na floresta. E depois o gemido e o nome de Nimrod sussurrado com ódio.

—  Você está bem, Jim ?

—  Sim, sim. Estou bem.

Por motivos que não chegava a compreender, a lem­brança de Matlock focalizou-se naquela fotografia antiga de um homem de meia idade, cabelos escuros, com uma arma em uma das mãos e um mapa na outra. Aquele rosto magro e forte olhando para longe.

Um quarto de século antes. . .

—  Seria melhor você voltar ao seu apartamento. . . — Greenberg estava dando uma ordem com muita deli­cadeza.

—  Quem foi que encontrou Lucas ?

—  Foi um dos meus. Ninguém mais sabe ainda.

—  Um dos seus ?

—  Depois de nossa conversa eu mandei vigiar o ve­lho. Ele entrou na casa e descobriu-o.

—  Como ?

—  Cortou os pulsos no banheiro.

—  Oh meu Deus! O que fiz eu ! ?

— Deixe-se disso e venha já para cá. Precisamos falar com outras pessoas. . .  Coragem, Jim. . .

—  E o que vou eu dizer a Pat ? — Matlock não sa­bia o que pensar. Só via na sua frente o velho amigo.

— Diga-lhe o menos possível, mas ande depressa. . .

Matlock desligou e respirou fundo algumas vezes, procurou os cigarros no bolso e lembrou-se que tinham ficado em cima da mesa.

Ele teria que voltar lá e precisava pensar em alguma coisa para contar a Pat.

A verdade, com todos os demônios. A verdade.

Foi até lá já meio aliviado com a decisão de contar a verdade. Só Deus sabia o quanto ele precisava de al­guém com quem pudesse falar além de Greenberg e Kressel.

Kressel! Ele tinha combinado ir lá às sete. Esque­cera-se. Mas num instante esqueceu-se também de Kressel quando olhou para a mesinha lá no canto.

Pat tinha ido embora.

 

—  E ninguém viu quando ela saiu? — Greenberg ia seguindo Matlock muito desanimado e já na porta ele ou­via a voz de Kressel gritando no telefone, mas Matlock não prestou muita atenção àquilo pois estava meio des­ligado.

—  É o Sam que está lá dentro, não é? Ele já sabe do Herron ?

—  Sabe sim.  Eu falei com ele depois de haver fa­lado com você. . .  E você perguntou ao pessoal do res­taurante? Ninguém viu?

—  Claro que perguntei.   Ninguém tinha a certeza. Havia muita gente. Alguém disse que ela poderia ter saído com um casal que estava em outra mesa. . .

—  E ela não teria que passar por você na saída ?

—  Não seria obrigada. Nós estávamos nos fundos e há umas portas laterais.

—  Você foi no seu carro ?

—  Naturalmente.

—  E não a viu lá fora, na estrada ?

—  Não.

—  Você conhecia alguém dos que estavam lá ?

—  Eu realmente não prestei atenção.   Estava preo­cupado. . .

Matlock acendeu um cigarro com a mão que tremia.

—  Se  quer a minha opinião,  eu  acho  que ela viu alguém conhecido e pediu uma carona. Uma moça como aquela não iria contra a vontade sem fazer barulho. . .

— Eu sei. Também pensei nisso.

— Vocês brigaram ?

— Mais  ou   menos,   mas já tinha  passado  quando você me chamou. Acho que foi isso que ela não gostou. Os velhos professores de inglês não recebem chamados em restaurantes. . .

— Desculpe-me.

— Não foi culpa sua. Ela anda nervosa, como já lhe disse. Vive pensando no pai. Vou ver se chegou em casa quando o Sam deixar o telefone.

—  Ele é um cara engraçado.  Eu contei-lhe sobre o Herron e ele,  naturalmente, ficou por conta.   Disse que precisava falar com Sealfont em particular e vai lá para o seu quarto onde começa a berrar para poder ser ou­vido em Washington.

Matlock logo pensou novamente em Herron. — A sua morte. . . seu suicídio, vai ser o maior choque no campus nos últimos vinte anos. Homens como Lucas não mor­rem. . . Pelo menos não morrem dessa maneira. . . Será que o Sam sabe que eu falei com ele?

—  Sabe sim.  Eu não podia deixar de dizer.   Disse-lhe mais ou menos o que você me contou, naturalmente resumindo.  Ele não quer acreditar. . .

—  E pode estar com a razão.  É difícil mesmo acre­ditar. O que fazemos agora ?

—  Temos que esperar.  Já dei a notícia e temos lá agora gente do laboratório de Hartford. Já chamaram a polícia.

Quando ele falou em polícia, Matlock de repente lembrou-se do policial à paisana que estava na quadra de “squash” e que tinha procurado não ser reconhecido. Contara a Greenberg que não lhe dera uma explicação. Tornou então a perguntar.

—  E aquele policial lá no ginásio ?

— A estória é razoável. A polícia  de Carlyle  usa  o ginásio três vezes por semana para o seu pessoal. Pode ter sido uma coincidência. Mas nós ainda estamos continuando a investigar...

Sam Kressel entrou com cara de poucos amigos. Matlock percebeu que ele estava com medo. Havia uma semelhança bem desagradável entre ele ali e o Lucas Herron antes de correr para a floresta.

—  Eu ouvi quando você chegou. O que vamos fazer agora? Que diabo vamos nós fazer agora?. . . Adrian não acredita   naquela   estória   absurda,   nem   eu   tampouco! Lucas Herron! É uma loucura.

— Pode ser que seja, mas é verdade.

—  Porque você diz que é? Como pode ter a certeza? Você não é um profissional do assunto. Pelo que me dis­seram, ele confessou que estava ajudando um estudante que tinha problemas de drogas. . .

—  Não eram estudantes.

Kressel parou e olhou para Mattock e Greenberg. — Em vista das circunstâncias, eu exijo que me digam quem era.

—  Nós   vamos   lhe   dizer,   mas   primeiro   continue. Quero saber por que acha absurda a estória e por que acha que Matlock está errado.

—  Porque Lucas Herron não é. . .  não era o único membro da faculdade que se ocupava com esses proble­mas.  Há dezenas de outros que também ajudam sempre que é possível.

—  Eu não estou compreendendo, Sr. Kressel. O se­nhor ajuda mas não se mata quando um outro membro da faculdade descobre o caso.

Kressel retirou os óculos e pensou um pouco antes de continuar. — Há alguma coisa que nenhum de vocês sabe. Eu já sabia desde algum tempo, mas não tanto como Sealfont. . . Lucas estava muito doente. Tiraram-lhe um rim no verão passado. O outro também estava can­ceroso. Ele sabia. Devia sentir dores insuportáveis. . . Não lhe restava muito tempo. . .

Greenberg ficou olhando sério enquanto Kresse! tornava a colocar os óculos. Matlock amassou a ponta do cigarro no cinzeiro em cima da mesa. Finalmente Greenberg falou.

—  O senhor está querendo dizer que não há nenhu­ma relação entre o suicídio e o fato de Matlock ter estado com Herron ?

— Eu não estou querendo dizer coisa nenhuma. Te­nho certeza que existe alguma relação. Mas o senhor não o conheceu. Toda a sua vida de quase meio século, com exceção dos anos da guerra, foi dedicada à Universidade de Carlyle. Ele amava esse lugar mais do que um homem poderia amar uma mulher. Mais do que um pai ao filho. Estou certo que Jim lhe contou. Se ele imaginasse por um momento que o seu mundo aqui iria ser mutilado, des­pedaçado, isso teria sido uma tortura ainda maior do que aquela que sofria com a doença. — Que melhor ocasião poderia encontrar para acabar com a vida ?

—  Maldito seja você!  Está querendo dizer que eu matei  Lucas ? !

—  Talvez esteja mesmo.   Ainda não tinha pensado nisso sob esse ponto de vista. Estou certo que Adrian também não.

—  Mas é isso que você está dizendo.  Está dizendo que eu fui lá como um bobo e que matei-o como se ti­vesse sido eu mesmo a lhe cortar os pulsos !. . . É porque você não estava lá, mas eu estava!

— Eu não disse que você foi como um bobo. Eu disse que você era um amador. Um amador cheio de boas intenções. Estou certo que o Greenberg sabe o que quero dizer.

Greenberg ficou olhando para Matlock. — Há um velho provérbio eslovaco que diz: “Quando os velhos se matam, as cidades estão morrendo”.

O telefone tocou assustando os três. Matlock res­pondeu e entregou o fone a Greensberg.

—  Aqui  Greenberg. . .   O.K.,  compreendo.   Quando vai saber? Talvez já não esteja mais aqui. Eu lhe telefo­narei.  Fale mais tarde.

Desligou o telefone e ficou ali encostado na mesa de costas para Kressel e Matlock. O primeiro não se con­teve e perguntou o que tinha havido.

Greenberg voltou-se para eles e Matlock imaginou que seus olhos estavam ainda mais tristes.

—  Vamos requerer uma autópsia

Kressel deu um salto e gritou. — Por quê? Pelo amor de Deus, por que isso? O homem suicidou-se. Estava sofrendo. . . Deus do céu, vocês não podem fazer isso! Se vierem a saber...

—  Nós vamos ser discretos.

—  Isso não é possível e você sabe muito bem.  Vai transpirar e vai haver o diabo! Eu não permitirei!

—  O senhor não pode impedir.  Nem mesmo eu po­deria.   Há provas suficientes que  indicam  não tratar-se de suicídio. Ele foi assassinado e não foi com simples pa­lavras. — E ele disse aquilo olhando para Matlock.

 

Kressel esbravejou, tornou a telefonar para Sealfont, e finalmente, quando viu mesmo que não adiantava, saiu do apartamento de Matlock furioso.

Logo depois de Kressel bater a porta o telefone to­cou outra vez. Greenberg percebeu que aquilo já estava enervando Matlock e procurou desculpar-se.

— Eu sinto muito. . . Acho que temos que ficar aqui como se fosse uma espécie de base de operações. Será por pouco. . . Talvez seja a moça. . .

Matlock atendeu e não disse uma palavra. Entregou o fone a Greenberg.

O agente ficou ouvindo com o olhar perdido. Matlock foi até a cozinha. Não queria ser indiscreto.

A voz do outro lado havia-se identificado dizendo que era Washington chamando.

Ali em cima da mesa estava o envelope vazio em que viera a tal declaração fingida de Washington. Tinha sido uma prova que suas piores fantasias estavam, aos poucos, se tornando realidades. Matlock já estava começando a pensar que a terra onde nascera estava se transformando em algo feio e destruidor. Era algo mais do que uma sim­ples manifestação política. Era uma corrupção de in­tenções. Os sentimentos profundos estavam sendo subs­tituídos por um ódio aparente, convicções e obrigações. A terra estava diferente.  Era de apavorar.

— Eu já não preciso do telefone. Veja se consegue falar com a moça, sim ?

Matlock olhou para Greenberg de pé, ali na porta da cozinha. Ele era uma contradição viva, era o agente que citava provérbios sempre desconfiando muito do sis­tema para o qual estava trabalhando.

Matlock caminhou para a sala para pegar o telefone e de repente parou. — Que citação mais esquisita que você falou! Como foi mesmo? “Quando os velhos se ma­tam as cidades estão morrendo.” Acho que é o provérbio mais triste que já ouvi até hoje.

— É porque nós dois não somos verdadeiros filó­sofos. .

— Mas é triste mesmo...

— É a verdade. A verdade nunca é alegre nem triste. Nunca é boa nem má. É simplesmente a verdade.

— Qualquer  dia   desses   nós   vamos   debater   isso, Jason.

Matlock pegou no telefone e discou o número de Pat. Ouviu o ruído da chamada do outro lado mais de uma dúzia de vezes sem que ninguém respondesse: Mat­lock lembrou-se de algumas amigas dela e pensou se de­veria procurá-la em outros endereços. Quando ficava muito zangada ou quando tinha problemas, Pat geralmente fazia duas coisas. Ou saía sozinha durante uma ou duas horas, ou então procurava uma amiga para irem ao cine­ma ou a algum bar em Hartford. Já tinha passado uma hora. Ele ia esperar ainda uns quinze minutos antes de procurar. Claro que logo tinha pensado que ela saíra sem ser por sua vontade, mas aquilo não fazia sentido. O restaurante estava cheio de gente. As mesas eram jun­tas. Greenberg estava com a razão. Ela tinha saído por vontade própria.

Greenberg continuava de pé na porta da cozinha sem tirar os olhos de Matlock.

—  Eu vou esperar ainda uns quinze minutos. Depois vou começar a procurá-la em outros endereços de ami­gas. Você mesmo disse que ela é teimosa.

—  Espero que você também não seja...

—  O que pretende dizer com isso ?

Greenberg chegou mais para perto antes de falar. Olhou bem dentro dos olhos de Matlock.

—  Você vai  cair fora.   Está  liquidado    Esqueça a carta   Esqueça Loring. . . até mesmo de mim.  É assim que tem de ser.  Nós sabemos que você tem reservas na Pan Am para St. Thomas no próximo sábado. É para lá que vocês vão. Será muito melhor.

Matlock olhou firme para o outro.— Qualquer decisão nesse sentido só será tomada por mim. Tenho um velho simpático na minha consciência e você tem aquela porcaria assinada no seu bolso. Assinada por mim, lem­bra-se ?

—  A porcaria já não conta mais.   Washington quer que você caia fora. Então você cai fora.

—  Por quê ?

—  Por causa do velho simpático.  Se ele foi assas­sinado então você também poderá ser.  Se isso aconte­cesse poderia haver o diabo.  A  imprensa ia fazer um carnaval.  Não preciso lhe dizer como seria.

— E daí ?

—  O pessoal do FBI não quer ser chamado de car­rasco .

—  É assim, é? E se eu recusar?

—  Aí então eu terei que tirá-lo de cena. . .

—  Como ?

—  Prendendo-o por suspeita de assassinato. . .

—  O quê?

—  Você foi a última pessoa que viu Lucas ainda com vida.   Você mesmo confessou que foi à casa dele para ameaçá-lo. . .

— Para prevenir. . .

—  Isso será sujeito a interpretações, não acha?

Quando o estrondo chegou, foi tão forte que os dois se atiraram no chão. Parecia que todo o lado do prédio tinha desabado. A poeira era muita no meio dos estragos e era sufocante o cheiro de enxofre. Matlock conhecia o cheiro de tais bombas e sabia como funcionavam. Agar­rou-se aos pés da cama esperando pela segunda explo­são. Sabia que ela viria. Viu que Greenberg tentava le­vantar-se e segurou-o pelos pés.

—  Abaixe! Fique quieto!. . .

A segunda explosão veio mas Matlock sabia que aquilo não era para matar. Não podia compreender para que era, mas sabia. Era uma camuflagem. Era um imen­so foguete de festim.

De todos os lados do prédio vinham gritos de pânico e gente que corria.

Então ouvia-se um grito de terror lá fora da porta de entrada, um grito que não parava. Matlock e Green­berg correram para lá e quando Matlock abriu a porta ele deu de cara com uma coisa que jamais em sua vida tinha pensado que veria.

No degrau da entrada estava Patrícia Ballantyne enrolada num lençol ensopado de sangue. Nos seios ha­via buracos e o sangue escorria de talhos feitos em­baixo dos bicos. A parte da frente de sua cabeça estava raspada e o sangue escorria de onde antes havia seus cabelos castanhos. Da boca e dos lábios também corria sangue. Os olhos eram duas postas de sangue mas, ainda assim, moviam-se. Ainda se moviam!

Nos cantos da boca começava a aparecer a saliva e ela apesar de meio morta estava tentando falar.

— Jamie... — Não conseguiu falar mais e a ca­beça caiu para o lado.

Greenberg começou a gritar dando ordens e uma porção de gente saiu para cumpri-las. Mandou chamar a polícia e ambulância. Depois colocou sua boca na da moça para a respiração artificial, mas logo viu que não seria necessário. Patrícia não estava morta. Tinha sido torturada por especialistas que conheciam bem o seu tra­balho. Sabiam causar a dor sem que houvesse morte.

Greenberg ia levantar a moça mas Matlock não dei­xou. Ele estava com os olhos inchados de lágrimas de ódio e levantou Pat com carinho. Levou-a para dentro estendendo-a em cima do sofá dilacerado. Greenberg foi ao quarto e voltou com um cobertor. Depois foi buscar uma vasilha com água quente na cozinha e algumas toa­lhas. Levantou o cobertor e colocou a toalha por baixo dos seios que sangravam. Matlock olhava horrorizado para o rosto brutalmente contundido, mas depois tomou outra toalha e começou a limpar o sangue da cabeça raspada e da boca.

— Ela vai ficar boa, Jim. Eu já vi isto antes. Ela vai ficar boa, sim.

Mas quando ouviu as sirenes lá fora ele ainda não sabia ao certo se ela iria ficar boa mesmo.

Matlock,  desesperado,  continuava  a limpar o  rosto da moça com as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Conseguiu falar enquanto controlava o pranto.

— Você agora sabe o que isto quer dizer, não sabe? Ninguém mais vai me tirar para fora. Se eles tentarem, vou matá-los. . .

— Eu não permitirei que tentem, Jim. . .

Lá fora ouvia-se o barulho dos carros que chega­vam junto com a ambulância.

Matlock deixou-se cair na almofada ao lado da moça inconsciente e chorou desabaladamente.

 

Matlock despertou na brancura antisséptica de um quarto de hospital. Aos seus pés uma enfermeira eficiente escrevia muito séria alguma coisa na sua ficha pendu­rada aos pés da cama. Ele esticou os braços mas logo encolheu o esquerdo ao sentir uma dor aguda no braço.

—  Isto   sempre  acontece  quando  se   desperta,   Sr. Matlock.  É por causa da injeção do sedativo.  Eu nunca tomei mas tenho visto muitas nos outros.

—  E a Pat também está aqui ?

—  Não no mesmo quarto. Ora essa! Vocês do campus são engraçados. . .

—  Mas está no hospital ?

—  Claro. No quarto ao lado. E que vai ficar fechado à chave.  Pronto. Estou terminada com o senhor.  Como tem regalias especiais, o senhor pode tomar o seu café agora, se quiser, embora já tenha passado da hora. Vai poder sair a qualquer hora depois do meio dia.

—  E que horas são? Tiraram o meu relógio. . .

— Faltam oito para as nove.  E ninguém tirou o seu relógio. Está guardado com as outras coisas suas que tinha quando deu entrada. . .

—  E como está a moça ?

— Nós não podemos falar de nossos pacientes, Sr. Matlock.

—  Onde está o seu médico ?

—  Acho que ele é o mesmo do senhor.  Mas não é dos nossos. Pelo que diz aqui a sua ficha, ele virá às nove e trinta a não ser que haja uma emergência. . .

—  Pois  chame-o.   Quero-o   aqui   o   mais  depressa possível.

—  Ora essa! Não vejo nenhuma  necessidade  para isso. . .

—  Não estou pedindo a sua opinião! Estou lhe man­dando chamar o médico já.

Quando Matlock levantou a voz a porta abriu-se e Jason entrou. — Ouvi você lá do corredor. Isto já é um bom sinal.

—  Como está Pat ?

—  Espere  um   pouco,   senhor.   Nós  temos   regula­mentos. . .

Greenberg tirou sua identificação do bolso e mos­trou-a.

—  Este homem está sob meus cuidados.  Se quiser pode certificar-se na portaria. Quero ficar só com ele.

A enfermeira olhou bem a identificação como boa profissional que era, e então saiu.

—  Como está Pat ?

—  Está um pouco arrebentada mas é só. Passou a noite mal e vai sentir-se pior de dia quando pedir um es­pelho.

—  Vá você para o inferno com suas gracinhas. Que­ro saber se está bem.

—  Vinte e sete pontos no corpo, na cabeça, na boca e para variar um pouco, um também no pé esquerdo. Mas vai ficar boa. O raio X mostrou que são somente contu­sões.  Não há rupturas,  não há  hemorragia interna.  Os miseráveis fizeram um trabalho de profissional.

—  E ela conseguiu falar ?

—  Ainda não.   E o médico também não quer.   Ela precisa de dormir mais do que qualquer outra coisa. . . Você também precisa descansar um pouco.  Foi por isso que veio para aqui.

—  Alguém ferido no apartamento?

—  Ninguém. Foi uma bomba maluca. Acho que não era para matar ninguém. A primeira era pequena amarra­da em baixo da parte de fora da janela, e a segunda era para ser ativada pela primeira, mas também era só um foguete de festim. Você sabia que ia ter a segunda, hein?

— É sim. Sabia mesmo. . . Tática de terror, não é ?

— É o que pensamos.

— Eu posso ver Pat ?

— É melhor esperar. O médico acha que ela vai dormir toda a tarde. Deixe-a descansar. Tem uma en­fermeira lá de plantão com tudo que é preciso para ela não sentir mais dores.

Matlock sentou-se com cuidado na beira da cama. Começou a flexionar as pernas e braços, pescoço e mãos, e viu que estava tudo bem. — Sinto como se fosse uma ressaca, mas não tenho dor de cabeça.

— O médico deu-lhe uma boa dose. Você estava. . . um tanto nervoso, o que é fácil de compreender.

—  Eu me lembro de tudo. Agora estou mais calmo. . . Mas não retiro nada do que disse. . .  Tenho duas aulas hoje. Uma às dez e outra às duas e não quero faltar.

—  E não precisa faltar.  O Sealfont quer falar com você.

—  Falo com ele depois das aulas. . .  E então quero ver a Pat.

Matlock saltou da cama e caminhou devagar até o janelão do quarto. Era uma manhã clara e ensolarada. Tinha havido uma série de dias lindos. Ao olhar lá para fora, Matlock lembrou-se que cinco dias antes também tinha olhado por uma outra janela quando vira Greenberg pela primeira vez. Tinha tomado uma decisão naquela ocasião, e estava tomando outra ali agora.

—  Na noite passada você me disse que não ia deixá-los me afastarem. Espero que não tenha mudado de idéia. Eu não vou sair naquele avião de amanhã.

— Nem tampouco será preso. Prometo-lhe isso.

— Mas será que você pode evitar? Pois não me disse que vai  ser substituído?

— Eu posso evitar. . . Posso dar um jeito, sem dúvida. Mas nao quero iludi-lo.   Se começar a criar problemas poderá ser preso temporariamente.

— Só poderão prender-me se conseguirem encontrar-me.

—  Aí está uma condição que não é de meu agrado.

— Esqueça que ouviu. Onde estão as minhas roupas?

Matlock foi até o armário que abriu e ali estava tudo que era dele. Os sapatos estavam no chão com as meias enfiadas.

—  Você quer ir lá embaixo e providenciar a minha alta? Pegue também tudo que é meu que está na porta­ria.  Por favor, sim?

Greenberg não fez movimento algum para sair. — o que você quer dizer com essa estória de se conseguirem encontrá-lo? O que pretende fazer?

—  Nada de calamitoso.   Simplesmente continuar a procurar alguma coisa. . . de menor importância. É como está escrito naquele documento que você tem, não ? A outra metade daquele papel corso está em algum lugar e eu vou encontrá-la.

—  Mas você tem que ouvir-me primeiro! Eu não nego que você tenha o direito. . .

—  Você não nega! — Matlock voltou-se para Green­berg sem poder esconder a raiva que sentia. — Isso não serve para mim.  Não passa de uma aprovação negativa! Eu tenho alguns direitos bem grandes! Eles são um irmão num barco, um filho da puta negro chamado Dunois ou seja lá o que for, um homem chamado Lucas Herron e aquela moça ali! Estou desconfiado que você e o médico sabem do resto que aconteceu com ela ontem à noite, mas eu também faço uma idéia! Não venha me falar de direitos!

—  Em princípio, nós estamos de acordo. Só que não desejo que os seus direitos o levem para junto de seu irmão.  Isto é um trabalho para profissionais e não para um amador! Se você quer mesmo trabalhar, eu quero que você trabalhe com quem vai tomar o meu lugar.  É muito importante.  Quero que me dê sua palavra.

Matlock começou a despir o pijama e olhou para Greenberg com um sorriso embaraçado. — Pois você tem minha palavra. Não consigo me ver como um herói soli­tário. Já sabe quem vai ficar em seu lugar?

— Ainda não. Provavelmente virá de Washington. Não vão arriscar-se com alguém de Hartford ou New Haven. . . A verdade é que. . . não sabem quem já foi com­prado. Eu terei que instruí-lo. Ninguém mais pode fazer isso. Eu darei a ele uma senha de reconhecimento. . . qual seria a melhor?

—  Diga-lhe para usar o seu provérbio: “Quando os velhos se matam, as cidades morrem.”

— Você gostou dele, hein?

—  Não gosto nem desgosto.   É apenas a verdade, pois não é assim que deveria ser?

—  E também é aplicável.  Já vejo o que quer dizer. Agora olhe aqui, Jim. Antes de me ir embora eu vou dar-lhe um telefone. É da casa de meus pais. Eles não saberão onde eu estou,  mas eu manterei contato com eles.   Se precisar de mim chame esse número.

—  Muito obrigado.   Chamarei  sim.   Dou-lhe  minha palavra.

—  Claro que é bem possível que eu mesmo atenda.

—  Vai voltar ao trabalho particular?

—  É bem possível que seja isso mesmo.

 

Entre as duas aulas, Matlock foi à cidade visitar a firma de corretores que tratava de seus negócios e vol­tou de lá com um cheque de 7.312 dólares que represen­tava todas as suas posses no mercado de valores. O cor­retor tentou dissuadi-lo pois a ocasião não era boa para vender, mas Matlock já tinha decidido e foi com relutân­cia que lhe entregaram o seu cheque.

De lá Matlock foi ao banco onde depositou o cheque para a sua conta que ficou então com um total de...... 10.501,72 dólares.

Durante algum tempo ficou ali contemplando aquele número. Se, por um lado, mostrava a sua solvência, por outro não era lá um resultado muito brilhante depois de trinta e três anos de trabalho. Não tinha casa, terras ou quaisquer outros investimentos ocultos. Somente o auto­móvel e algumas coisas de pouco valor além dos direitos autorais dos livros publicados e que representavam muito pouco.

Mesmo assim, dentro de alguns padrões, aquilo era muito dinheiro.

Só que não era o bastante. Sabia que não era. E então ele teria que fazer uma viagem a Scarsdale.

O encontro com Sealfont tinha sido enervante e ele não sabia o quanto ainda poderia suportar.  A fria fúria do presidente só podia ser comparada com a profundidade de sua angústia.

Ele jamais conseguiria compreender aquele incrível mundo de corrupção e violência. Ele tinha ficado surpreendido com o que lhe dissera Sealfont quando os dois discutiam o assunto sentados no seu gabinete e contem­plando o belo gramado de Carlyle.

— Se toda essa sórdida e incrível estória é verdade, o que já é difícil deixar de acreditar, então eu já não tenho mais direito de sentar-me aqui nesta cadeira.

— Não é bem assim, senhor. Se isso for verdade, nós então vamos precisar de si mais do que nunca.

—  Mas um cego? Ninguém precisa de um cego. Não num cargo como este.

E foi então que Sealfont fez girar sua poltrona e deu um soco na mesa com uma força fora do comum.

—  Mas por que aqui? Por que aqui?

Matlock ficou olhando para o rosto sofrido do presi­dente de Carlyle e chegou a pensar que ele iria chorar.

Voltou da universidade desenvolvendo grande veloci­dade na estrada. Sentia necessidade daquilo. Ajudava a aliviar o seu espírito para esquecer a visão da Pat que ele contemplara pouco antes de sair. Voltara direto ao hospital mas não conseguira falar com ela. Ainda não tinha falado com  ninguém.

Disseram-lhe que havia despertado e tivera um ata­que histérico. O médico administrara-lhe fortes sedativos. Ele estava preocupado e Matlock sabia que era com a sua mente. O pesadelo do terror porque passara seu corpo não poderia ter deixado de atingir o cérebro.

Foram bem embaraçosos os primeiros minutos com seus pais na imensa mansão de Scarsdale. Seu pai, Jonathan Munro Matlock, tinha passado a sua vida nas altas esferas das finanças e sabia instintivamente quando al­guém vinha a ele no fim de suas forças.

Sem forças mas precisando de alguma coisa.

Matlock disse ao pai com a maior simplicidade que conseguiu mostrar que precisava de uma grande importância em dinheiro, mas que não podia garantir o reembolso. Seria usado para ajudar jovens como o irmão que morrera.

O filho que morrera.

—  Como? — Perguntou o velho, baixinho.

— Não lhe posso dizer. — Encarou firme o pai e a sua palavra foi aceita como a verdade indiscutível.

—  Muito bem. E você está em condições para fazer isso?

—  Sim senhor.  Estou.

—  Há outras pessoas envolvidas?

— Há sim.  Por força das circunstâncias.

—  Tem confiança nelas?

—  Tenho.

—  Foram elas que pediram o dinheiro?

—  Não.   Nem sabem que estou pedindo.

—  Poderão usá-lo?

—  Não. Acho que não. . . Mas direi ainda mais. Não seria bom se soubessem.

—  Não estou fazendo restrições.  Estou apenas per­guntando.

—  E eu estou respondendo.

—  E você acredita que o que vai fazer poderá, de alguma forma, ajudar rapazes como o David? Uma ajuda prática e não teórica. Nada de sonhos ou de caridade.

—  Acredito sim.  Vai dar certo.

—  E quanto você quer?

Matlock respirou fundo. — Quinze mil dólares.

—  Espere aqui.

Alguns minutos depois o pai saiu do gabinete e en­tregou ao filho um envelope.

Ele sabia que não devia abri-lo.

Dez minutos depois daquela troca, pois Matlock sabia que era uma troca, ele partiu sentindo os olhos dos pais acompanhando-o lá de cima do imenso pórtico enquanto ele atravessava os portões.

Matlock subiu na passagem que levava ao seu apar­tamento e desligou o carro, apagou as luzes e saiu muito cansado. Ao aproximar-se de casa viu que todas as luzes estava acesas. Jason Greenberg não estava querendo correr riscos e Matlock sabia que seus homens estavam por ali escondidos e atentos.

Abriu a porta e viu que não havia ninguém lá. Nem mesmo o gato.

—  Ó de casa!. . . Jason? Sou eu, Matlock.. .

Ninguém respondeu e ele ficou mais aliviado. Só queria atirar-se na cama e dormir. Tinha passado pelo hospital mas não conseguira ver Pat. Tinha sabido que estava dormindo e que as condições eram satisfatórias, ia vê-la de manhã.

Agora teria que dormir. Em paz se fosse possível. Mas dormir a qualquer preço. Tinha muito que fazer de manhã.

Foi para o quarto atravessando todos os estragos que ainda não tinham sido reparados. Havia material e fer­ramentas pelos cantos. Tirou o casaco e a camisa e então pensou, sentindo-se um tanto ridículo, que estava ficando por demais confiante. Fechou-se no banheiro e foi direto ao esconderijo.  O papel ainda estava lá.

Voltou ao quarto e tirou do bolso a carteira, o dinhei­ro e as chaves do carro, colocando tudo em cima da mesa de trabalho. Ao fazer isso lembrou-se do envelope.

Não se havia enganado. Conhecia o pai talvez melhor do que o velho imaginava. Sabia que haveria um bilhetinho junto com o cheque dizendo claramente que o di­nheiro era dado e não emprestado.

O bilhete estava lá mas não era como ele tinha es­perado.

 

Eu acredito em você.

Sempre acreditei.

Com amor

Papai

Junto ao bilhete, preso por um clipe, estava o cheque.

Era um cheque de cinqüenta mil dólares.

 

O seu rosto já estava bastante desinchado. Ele se­gurou-lhe as mãos e apertou-as chegando seu rosto junto ao dela.

—  Você vai ficar boazinha! — Foram as únicas pa­lavras que encontrou.  Precisava conter-se para não gri­tar a sua raiva e a sua culpa. Não podia conceber como era possível fazer uma coisa assim com um ser humano. E sentia-se responsável.

Quando ela falou a voz mal podia ser ouvida. Era como uma criancinha com as palavras apenas parcial­mente formadas através dos lábios imóveis.

—  Jamie... Jamie?

—  Shhi. ..  Não fale se estiver doendo.

—  Mas por quê?

—  Eu não sei, mas vamos descobrir.

—  Não. . .   Não faça isso! Eles são. . .   Eles são. . .

Ela estava com a garganta seca sem conseguir engo­lir. Apontou para o copo d’água e Matlock levou-o à sua boca levantando-a pelos ombros.

—  Como foi que aconteceu? Você pode me contar?

—  Já   contei. . .   Greenberg.   Homem   e   mulher. . . vieram à nossa mesa. Disseram que você. . . esperava lá fora. . .

— Deixa ficar. Eu falo com o Jason.

—  Eu estou melhor.   Dói  muito,  mas estou melhor. Estou. sim.  Eu vou ficar boa, não vou?

—  Mas claro que vai.  Já falei com o médico.  São só contusões, nada sério. Não há fraturas.  Disse que em poucos dias você poderá sair da cama.

Os olhos dela brilharam e Matlock percebeu a tremenda tentativa que fazia para sorrir com os lábios suturados.

— Eu  lutei. . .   lutei  e  lutei. . .   até. . .   não  posso  mais lembrar.

Matlock precisou conter-se para não chorar. — Eu sei sim. Não fale mais. Descanse. Eu vou ficar sentado aqui e nós conversaremos com os olhos. Você lembra? Você sempre dizia que podíamos falar com os olhos quan­do havia mais gente em volta. . . Eu vou contar uma piada suja.

E foi com os olhos que ela lhe sorriu.

Ele foi ficando até a enfermeira vir lhe pedir para sair. Beijou-a nos lábios e saiu. Sentia-se mais tranqüilo mas também sentia muita raiva.

Quando chegou ao corredor um interno muito alinha­do veio ter com ele junto do elevador.

—  Há um telefonema para o senhor. Venha comigo que pode falar no segundo andar.

A voz de quem falava era desconhecida para ele. — Sr. Matlock, meu nome é Houston. Sou amigo de Jason Greenberg. Devo entrar em contato com o senhor. . .

—  E como vai o Jason?

—  Vai muito bem.  Gostaria de me encontrar com o senhor o mais cedo possível.

Matlock já ia dizer o lugar e a hora, mas parou de repente. — E o Jason não me mandou um recado?. . .

—  Não, senhor.   Só disse que devíamos entrar em contato logo.

—  Sim,  sim.   O  Greenberg  me disse  positivamente que me diria onde estava. . . Tenho certeza que me disse isso. . . — Mas o homem não se identificava com a senha que tinham escolhido.

—  É contra os regulamentos, senhor.  Ele não podia fazer isso. . .

—  Então ele não me mandou nenhum recado?

A voz do outro lado mostrou uma ligeira hesitação.

— Ele talvez esqueceu. . . Aliás, eu não falei com ele pessoalmente. Recebi minhas ordens diretamente de Washington. Onde podemos nos ver?

Matlock sentiu a ansiedade na voz do homem. Quan­do se referiu a Washington ele já parecia bem nervoso. — Eu lhe telefonarei mais tarde. Qual é o seu número?

—  Escute aqui, Matlock. Estou num telefone público e nós precisamos nos ver.  Eu tenho as minhas ordens.

—  Sim, eu sei que tem. . .

—  Como é?

—  Não é nada.  Onde está você agora? Na cidade?

O homem tornou a hesitar. — Eu estou aqui. . .

—  Diga-me uma coisa, Sr. Houston.  A cidade está morrendo?

— Como é? O que quer dizer com isto?

—  Eu já estou atrasado para a minha aula. Procure-me outra vez.  Sempre saberá onde encontrar-me: — E Matlock desligou.  Estava suado e a mão tremia-lhe.

O tal de Houston era o inimigo.

Era o inimigo que se aproximava.

 

Sua primeira aula de sábado era às onze. Isso dava-lhe justamente o tempo para fazer os arranjos mais lógi­cos a respeito do dinheiro. Não gostava de pensar que seria obrigado a ir em pessoa ao banco na segunda-feira de manhã. Nem tinha certeza se seria possível. Não podia prever onde estaria na segunda-feira.

Numa pequena cidade universitária como Carlyie, as pessoas geralmente se conheciam numa base de intimi­dade. O mecânico da garage era o Joe ou Mac; o den­tista era John ou Warren e a moça da lavandaria era Edith. No caso de Matlock, o banqueiro era Alex. Alex Anderson com quarenta anos, formado por Carlyie. Mat­lock telefonou-lhe explicando o seu problema. Tinha no bolso um cheque do pai numa importância de vulto. Ia fazer alguns investimentos particulares para a família e tudo era em seu nome e confidencial. Desde o roubo em seu apartamento ele andava meio assustado e queria se ver livre do cheque imediatamente. O que podia Alex aconselhar? Devia mandá-lo pelo correio? Como seria melhor para tê-lo creditado em sua conta já que ele não estaria em Carlyie na segunda-feira e ia precisar de di­nheiro vivo? Anderson aconselhou-lhe que endossasse o cheque e depois colocasse-o dentro de um envelope en­dereçado para a atenção de Anderson e que enfiasse o envelope na caixa de depósitos noturnos que havia no banco. Alex cuidaria do resto logo de manhã cedo.

Só então Alex perguntou de quanto era o cheque e Matlock respondeu.

Tendo resolvido aquele problema, Matlock concentrou-se no que começava a ver como seu ponto de partida. Não havia outra frase que conseguisse descobrir e ele precisava de uma frase. Precisava da disciplina de uma definição. Tinha que começar precisamente certo, pois sabia que aquilo que viria a acontecer poderia ser total­mente indisciplinado, completamente sem plano ou orto­doxia.   Ele já tinha resolvido.

Iria penetrar no mundo de Nímrod. O construtor de Babilônia e de Nínive, o caçador de animais selvagens, o matador de crianças e velhos, o espancador de mulheres.

Ele ia encontrar Nrmrod.

 

Da mesma forma que todos os adultos que não julgam imorais as coisas boas, Matlock sabia que o Estado de Connecticut, da mesma forma, que os seus irmãos do norte., do sul e do oeste, era habitado por homens sempre dispostos a oferecer os divertimentos que não merecem a aprovação do púlpito ou dos tribunais. Qual o exe­cutivo de Hartford que ainda não tinha ouvido acerca da cadeia de estabelecimentos onde os corpos de moças bonitas podiam ser conseguidos com dinheiro? Qual o habitante de Old Greenwích que desconhecia os lugares onde se jogava como se fosse Las Vegas? Quantas seriam as esposas dos negociantes cansados de New Haven ou Hartford que realmente ignoravam os serviços de “acom­panhantes” que funcionavam em Hamden e Fairfield? E em Norfolk então? Lá onde as velhas e imensas mansões eram apoteoses em declínio do dinheiro de verdade, das famílias patrícias que tinham fugido para longe dos novos ricos que chegavam. Corria à voz pequena que havia ali as mais estranhas diversões. Casas sombrias, iluminadas a velas onde os esgotados podiam se recuperar pela observação. Os viciados das mais sórdidas cenas de mulhe­res, homens e animais. De todos os tipos e todas as combinações.

Matlock sabia que iria encontrar Nimrod naquele mun­do. Não podia deixar de ser. Não eram só os narcóticos que podiam ser encontrados dentro de seus domínios. Havia, todo o resto.

E no meio de tudo aquilo, nada era mais cheio de magnetismo do que os antros do jogo. Para todos os milhares que não encontravam tempo para irem a San Juan, Londres ou Las Vegas, havia as excursões aos lu­gares onde as contrariedades e aborrecimentos diários podiam ser facilmente esquecidos. As reputações eram rapidamente estabelecidas diante do pano verde com o rolar dos dados ou o virar de uma carta. Era ali que Matlock iria encontrar o seu ponto de partida. Era nesses lugares que homens moços podiam perder milhões antes que alguém indagasse o seu nome.

Era meio dia e trinta quando Matlock atravessou a rua caminhando para o seu apartamento. Tinha chegado a hora para fazer o primeiro movimento. O plano vaga­mente delineado já se tornara mais nítido.

Devia ter ouvido os passos, mas não ouviu. Só ouviu uma tosse, uma tosse de fumante e de um homem cansado de correr.

—  Sr. Matlock?

Ele voltou-se e deu de cara com um homem de uns trinta e poucos anos e ainda ofegante.

—  Sim?

—  Desculpe. Estou sempre chegando atrasado. Che­guei ao hospital quando o senhor tinha acabado de sair. Esperei no diabo do prédio quando acabasse sua aula, mas era o prédio errado.  Houve uma confusão com um professor de biologia com um nome parecido com o seu. . . Também parecido em altura, corpo e cabelos. . .

—  É o Murdock. Mas o que há?

—  Eu fiquei insistindo com ele que quando “os ve­lhos se matam as cidades estão morrendo”!

—  Você veio de parte do Greenberg?

—   Isso mesmo. Achei o código bem mórbido. Con­tinue andando.   Vamos nos separar no fim do caminho. Venha encontrar-me dentro de vinte minutos no Bill’s Bar & Grill. A seis quadras da estação.  O.K.?

—  Nunca ouvi falar.

—  Aconselho-o a tirar a gravata. Eu vou de casaco de couro.

—  Você sabe escolher coisa boa.

—  É  um velho hábito.   Aproveito-me na conta das despesas.

—  Greenberg me disse que devia trabalhar com você

—  Mas claro que vamos. Ele está muito preocupado com a sua saúde. Acho que mandaram-no fazer um tra­balho no Cairo. . .  É um cara formidável. Nós todos gostamos de gente como ele.

—  Eu só quero saber o seu nome.  Não preciso do sermão.

—  É Houston. Fred Houston. Até já. Vinte minutos. Tire essa gravata.

 

O Bill's Bar & Grill ficava numa parte de Carlyle onde Matlock jamais estivera antes. Era freqüentado pelos tra­balhadores da estrada de ferro e por desocupados. Olhou lá dentro do sórdido salão e viu Houston sentado numa das cabines do fundo.

—  É a hora do coquetel, Matlock. É um pouco cedo ainda pelos padrões do campus, mas os efeitos são os mesmos. São como as roupas hoje em dia.

—  É um lugar e tanto. . .

—  Mas serve ao  que  queremos.   Vá até  o  bar  e pegue um drinque.  Aqui só há garções depois que es­curece.

Matlock fez o que Houston aconselhava e voltou com o melhor que tinha conseguido encontrar, uma marca que bebia desde os tempos em que o dinheiro era muito curto.

—  Devo começar dizendo-lhe que há alguém usando o seu nome e que me telefonou no hospital. — Contou-lhe então tudo que acontecera.

Houston parecia ter levado um soco na barriga. — Meu Deus! Como pode ser isso?

—  Eu fiquei esperando que ele se identificasse. . . com o provérbio de Greenberg. Dei-lhe duas oportunida­des mas ele não. . .  Então eu lhe disse que telefonasse depois e desliguei.

— E ele usou o meu nome? Houston? Tem a certeza?

—  Absoluta.

—  Mas isso não faz sentido.  Não pode ser!

—  Pode acreditar-me que foi assim mesmo.

—  Mas ninguém sabia que eu era o substituto. . . Eu mesmo só fiquei sabendo hoje de manhã. . .

—  Mas alguém descobriu.

Houston bebeu alguns goles de sua cerveja. — Se o que você me disse é verdade, eu estarei fora daqui em algumas horas. Você agiu bem, no entanto. Quero porém dar-lhe um conselho. Nunca aceite um contato feito pelo telefone. . .

—  E por que não?

—  Se fosse eu mesmo falando, como poderia saber que era você que estava do outro lado?

—  Compreendo. . .

—  É o simples bom senso.  Aliás, quase tudo que fazemos é na base do bom senso. . . Vamos continuar mantendo o mesmo código dos “velhos” e das “cidades”. O seu próximo contato será feito esta noite.

—  Você tem certeza que vai ser substituído?

—  Claro.   Já sou  um homem  marcado.   Não posso continuar.  Talvez você já tenha esquecido o Ralph Loring. . . Fez uma grande falta.

— Muito bem. Você falou com o Jason? Ele lhe con­tou tudo?

—  Durante duas  horas.   Das  quatro  às  seis  desta manhã.  Minha mulher disse que bebemos treze xícaras de café.

— E o que pode você dizer-me a respeito de Pat. . . de Patrícia Ballantyne? O que foi que aconteceu?

—  Você conhece a parte médica. . .

—  Não toda. . .

—  Mas eu também não a conheço toda.

—  Você está mentindo.

Houston olhou para Matlock sem sentir-se ofendido. Ao responder sua voz era de compaixão. — Muito bem, havia vestígios de estupro. Era isso que você queria sa­ber, não era?

Matlock apertou o copo. — Era sim. . .

—   No entanto é preciso que saiba.de outra coisa também. A moça não sabe.  Não neste ponto de sua re­cuperação. Já me disseram que as mentes são estranhas. Rejeitam coisas até que desperte o pensamento ou que a recordação possa ser controlada.

—  Muito obrigado pela lição de psicologia. . .  Ani­mais! Animais sujos. . . — Matlock empurrou o copo.  A bebida lhe era intolerável.  Detestava a simples idéia de embrutecer os sentidos.

—  Eu ainda não sei bem como as coisas se pas­saram. Se disse alguma coisa errada, só me resta pedir desculpas. . .  Não a abandone.  Quando tudo começar a ficar bem claro ela vai precisar de seu apoio.

Matlock levantou os olhos e falou muito baixinho. — Então foi tão ruim assim?

—  Os testes preliminares de unhas, cabelos e o resto mostraram que o assalto foi efetuado por mais de uma pessoa.

O ódio de Matlock só conseguiu manifestar-se de uma forma. Fechou os olhos e varreu a mesa com a mão estilhaçando o copo no chão. O homem do bar fez men­ção de vir até eles mas depois parou. Houston logo ace­nou com uma nota pedindo-lhe que não se chegasse.

—  Você precisa de calma. Contenha-se. Assim não vai conseguir coisa alguma. Só vai chamar a atenção de todo mundo. . . Agora escute aqui. Você tem licença para continuar a indagar, mas com duas condições. A primeira é entrar em contato com nosso homem. A segunda é só investigar os estudantes, somente os estudantes. . .  Faça os seus relatórios todas as noites entre dez e onze.   O seu contato lhe falará todos os dias. Compreendeu bem?

Matlock ficou olhando para o agente sem poder acre­ditar. Compreendia bem o que ele estava dizendo, e até mesmo porque dizia aquilo, mas não podia acreditar que alguém que tivesse sido instruído por Greenberg pen­sasse em transmitir tais instruções. —Você está falando sério?

—  As ordens são explícitas.   Não pode desviar-se delas. São sagradas.

E ali estava Matlock outra vez. Mais um sinal e mais mais uma obrigação. Mais uma ordem plástica dos líderes plásticos invisíveis.

— Eu estou Ia mas não estou lá. É esta a idéia? Eu estou consignado aos limites externos e isso é o cumprimento do acordo?

O agente não compreendia Matlock — Você está maluco e eu até estou gostando de cair fora disso. . . Olhe aqui, nós só queremos o que for melhor. Posso lhe garantir. E mais uma coisa ainda. E é outra que não pode ser nem discutida. Eu tenho que levar de volta o papel que o Loring lhe deu. É uma ordem positiva.

Matlock levantou-se. — Será mesmo? Já eu não penso assim. Você volte para Washington e diga a eles que para mim ela não vale.

—  Você está brincando com uma ordem de prisão

—  Nos vamos ver quem está brincando, — disse Matlock encammhando-se para a porta.  Ouviu o barulho da mesa arranhando o chão e ouviu Houston chamando-o baixinho, querendo que ele voltasse mas com medo de falar o seu nome em voz alta. Matlock chegou à porta e virou para a direita correndo o mais que podia    Encon­trou um beco estreito e viu que estava na direção certa Entrou por ele e parou escondendo-se num portal   Lá na saída do beco viu Houston andando rápido como se estivesse em pânico. Matlock sabia que não poderia voltar ao seu apartamento.

 

Fez uma coisa engraçada e voltou para o mesmo bar de onde estava tão ansioso para sair vinte minutos antes. Achava que aquilo estava certo e queria ficar só para pensar. Não podia arriscar-se em sair pelas ruas para ser descoberto pelos homens de Greenberg e Houston. Era uma ironia, mas aquele bar era para ele o lugar mais seguro.

Apresentou desculpas ao homem do bar e ofere­ceu-se para pagar os estragos. Contou uma estória que não só convenceu o homem como ainda o elevou no seu conceito.

Precisava concatenar seus pensamentos.  Havia pontos de verificação que ele tinha  mentalmente estabele­cido e por onde teria  que passar antes de começar a sua jornada em busca de Nimrod.  Havia agora mais um desses pontos que lhe fora fornecido por. Houston sem que o soubesse. Era preciso que Pat ficasse em com­pleta segurança. Não podia ficar com uma tal preocupa­ção no espírito. Tudo mais na sua lista dependia disso. As roupas, o dinheiro vivo, o carro desconhecido, tudo isso teria que esperar. Teria talvez que alterar toda a sua estratégia. Os associados a Nimrod seriam vigiados, o seu apartamento seria vigiado e todos os nomes e en­dereços na lista do FBI estariam sendo vigiados.

Mas em primeiro lugar estava Pat. Ela teria que ser guardada noite e dia, ostensivamente, sem qualquer preo­cupação de disfarçar. Guardada de uma tal maneira que fosse um aviso para os dois lados mostrando que ela estava fora da jogada. O dinheiro já não era mais pro­blema. E havia gente em Hartford cuja profissão era aquilo mesmo que ele queria. As grandes companhias de seguro estavam sempre usando essas organizações. Lembrou-se de um antigo professor de Matemática que tinha abandonado Carlyle para se dedicar a esse ramo e que trabalhava para a Etna. Procurou o telefone den­tro do bar.

Onze minutos depois voltou ao seu lugar depois de haver concluído o negócio com Blackstone Securíty Inc., de Hartford. Haveria três homens diariamente em rodí­zio de oito horas a trezentos dólares por período de vinte e quatro horas de cobertura. Claro que haveria despe­sas adicionais e também uma taxa para o uso do “Telelectronic” se isso fosse preciso. Tratava-se de um pe­queno aparelho que alertava o portador com um bip bip bip se fosse chamado o número de um certo telefone. Blackstone sugeriu um novo número de telefone que foi logo conseguido, e aquilo correspondia a mais uma despesa.

Matlock concordou com tudo, agradeceu por tudo e disse que estaria em Hartford para assinar os papéis na tarde daquele mesmo dia. Já agora havia uma outra ra­zão para ele querer conhecer Blackstone, embora fosse informado que não haveria pressa para a formalidade já que seu nome merecia todo o crédito. Ele iria man­dar o pessoal para o hospital imediatamente. Natural­mente, isso tudo depois de saber que Matlock era o filho único do Sr. Jonathan Munro Matlock.

Matlock já estava mais aliviado. Blackstone poderia ser de muito valor. Tinha recebido referências dele como o melhor de todos embora o mais caro. Todo o pessoal dele era composto de antigos oficiais combatentes de diversas armas. Tinham licença para funcionar e eram respeitados pelas polícias do Estado e as locais.

O próximo item na lista era as roupas. Tinha plane­jado voltar ao apartamento para apanhar alguma coisa, mas isso agora estava fora de cogitações. Pelo menos por algum tempo. Compraria as roupas e tudo mais que precisasse quando chegasse a hora. O dinheiro vivo já seria talvez um problema mais sério pois ele queria uma importância considerável. Era sábado e ele não queria perder a noite. Os bancos estavam fechados e não havia onde obter quantias grandes.

Alex Anderson teria que resolver o problema. Iria mentir para Alex dizendo-lhe que estava fazendo um fa­vor a Jonathan Munro Matlock se conseguisse o dinheiro naquela tarde de sábado. Claro que tudo seria confiden­cial dos dois lados. O favor seria certamente recompen­sado.  E também confidencial.

Matlock levantou-se e foi outra vez ao telefone.

Anderson logo se mostrou disposto a acomodar o filho de um homem tão importante. Aquilo fazia parte da tradição do banco de acomodar as necessidades de emergência de um bom cliente. Se o cliente quisesse mostrar-se grato. . .  bem, isso era problema seu.

Alex Anderson ia arranjar cinco mil dólares em di­nheiro para James Matlock num sábado de tarde. Iria entregar-me a soma pessoalmente na frente do Plaza Movie onde estavam passando de novo A Faca na Água. . .

O automóvel não chegava a ser problema. Havia na cidade duas firmas de alugar carros. Uma mais modesta e outra de luxo. Uma para os filhos estudantes e a outra para os pais ricos. Ele ia alugar um Cadillac de Luxo ou um Lincoln e iria até Hartford onde trocaria de carro na filial da firma. De Hartford iria até New Haven onde faria a mesma coisa. Com as gorjetas adequadas ele não ia ter problemas.

Já tinha chegado ao seu ponto de partida.

— O senhor aí! Seu nome é Matlock? — O homem do bar estava debruçado em cima do balcão com o pano sujo na mão.

Matlock levou um susto e mal conseguiu forças para responder que era ele mesmo.

— Um cara acabou de falar comigo.  Pediu-me para, lhe dizer que o senhor esqueceu alguma coisa lá fora na calçada. Disse para ir lá depressa.

Matlock ficou olhando para o homem. Sentiu outra vez aquele nó do medo no estômago. Estava em pânico. Meteu a mão no bolso e tirou algumas notas. Separou uma de cinco que mostrou ao homem do bar. — Venha comigo até a porta. Só até a vitrine. Diga-me se ele ainda está lá fora.

O homem passou o pano sujo para a outra mão e apanhou o dinheiro. Matlock saiu de seu lugar e cami­nhou ao lado dele até a vitrine que dava para a rua, com o vidro muito sujo. O homem do bar olhou para fora. — Não, ele não está mais aqui. Não tem mais ninguém ali. Só vejo uma coisa morta. . .

Matlock interrompeu o homem. Já não precisava mais ir lá fora.

Deitado em cima da calçada, bem no meio fio e in­clinado para a valeta, estava o gato de Matlock.

A cabeça fora decepada e ficara segura apenas por uma pequena parte de carne. O sangue ainda escorria na calçada.

 

Enquanto caminhava, Matlock não cessava de pen­sar naquela morte. Seria mais um aviso ou teriam final­mente encontrado o papel? Se tivessem mesmo encon­trado o papel aquilo ainda vinha reforçar o aviso. Ficou pensando se valeria a pena pedir ao pessoal do Blackstone para dar uma olhada no seu apartamento e ver se o papel ainda estava lá. Nem mesmo sabia por que não mandar alguém lá. Pelo preço que estava pagando não seria pedir demais. É verdade que ainda ia pedir muito mais a eles, mas continuava a hesitar.

Já tinha quase decidido a arriscar quando reparou no carro cor de couro pelo espelho retrovisor. Estava outra vez lá. Sempre estívera, aliás, desde que ele en­trara naquela rodovia, embora de quando em quando de­saparecesse. Conseguia sempre manter-se uns três ou quatro carros atrás dele. Sabia como verificar se era simples coincidência. Logo ali adiante havia uma ruela que só era usada para entregas e nem mesmo era asfal­tada. Ele já tinha passado ali com Pat numa tarde de tráfego intenso e ficara engarrafado.

Saiu da estrada e enveredou pela ruela fazendo uma curva rápida. Era uma tarde de sábado e havia pouco trânsito. Meteu-se rápido  numa outra estrada paralela onde estacionou, desligou o motor e abaixou-se no as­sento do carro arranjando o espelho lateral de modo a poder ver quem entrasse na ruela. Logo a seguir chegou o carro cor de couro.

O motorista estava evidentemente confuso. Parou o carro e ficou olhando para todos os outros que ali esta­vam estacionados. De repente surgiu um outro carro atrás dele querendo passagem e começou a buzinar im­paciente. O motorista do carro cor de couro saiu com relutância, mas voltou-se para trás e Matlock conseguiu reconhecê-lo.

Era o tal policial. O mesmo que estivera em seu apartamento quando ele fora destroçado depois do epi­sódio com Beeson, o mesmo homem que cobrira o rosto com uma toalha e saíra correndo do ginásio dois dias antes.

Era a “coincidência” de que falara Greenberg.

Matlock estava perplexo.   E também apavorado.

O policial que estava em trajes civis continuou na ruela devagar e hesitante como se estivesse procurando alguma coisa.  Depois saiu e foi-se embora.

 

Os escritórios de Blackstone Security, Inc. mais pa­reciam ser de uma tranqüila companhia de seguros do que de uma agência de investigações. A mobília era um colonial pesado e o papel de parede muito sóbrio e mas­culino. Gravuras de caçadas de alto preço e abajures de bronze davam à sala uma aparência de força, virilidade e solidez financeira. E por que não? Era o que pensava Matlock sentado na sala de espera também mobiliada em colonial de muito gosto. A trezentos dólares por dia a agência devia ganhar mais do que uma importante com­panhia de seguros.

Quando, afinal, ele foi introduzido no escritório, Michael Blackstone levantou-se da cadeira por trás de uma bela mesa de cerejeira e veio cumprimentá-lo. Ele era um homem retaco, muito bem vestido e devia ter uns cin­qüenta anos. Via-se logo que era pessoa de preparo físico e muito ativa, provavelmente um durão.

— Boa tarde. Espero que não tenha vindo até aqui só para assinar a papelada.   Isso não tinha pressa.  Só porque nós trabalhamos sete dias na semana, isso não é razão para os outros fazerem o mesmo.

—  Eu tinha que vir por aqui, de qualquer forma. Não foi problema.

—  Sente-se,   sente-se.   Quer tomar  alguma  coisa? Café?

— Não, obrigado. — Matlock deixou-se cair numa ampla poltrona como aquelas que se viam nos clubes mais importantes e Blackstone voltou à sua mesa. — Aliás, eu estou com alguma pressa. Gostaria de assinar os papéis, pagar e ir andando.

— Muito bem. A pasta está aqui na minha mesa. Como já lhe disse no telefone, há algumas perguntas para as quais gostaria de ter uma resposta. Além das instruções que nos deu. Ajudaria muito para o nosso trabalho.  Somente uns minutos.

Matlock esperava aquele pedido que fazia parte dos seus planos. Só por isso viera falar com Blackstone. Imaginava que ele pudesse oferecer-lhe sugestões logo que ficasse sabendo ao certo do que se tratava. Talvez só fizesse mediante pagamento extra e era por isso que fizera questão de falar pessoalmente com ele. Se o di­nheiro funcionasse poderia poupar muito tempo.

—  Responderei o que me for possível.  Estou certo que vocês já investigaram. A moça foi muito maltratada.

—  Eu sei disso.   O que não consigo compreender é por que ninguém quer explicar direitinho.  Ninguém faz uma coisa daquelas sem razão. E geralmente esses casos são tratados pela polícia com grande eficiência e rapidez. Não precisariam de nós. . . Está claro que o senhor sabe de alguma coisa que a polícia ignora.

—  E isso é verdade.  Sei mesmo.

—  E posso saber por que não contou a eles? Por que preferiu contratar-nos? A polícia local pode e deve oferecer proteção desde que haja causa suficiente e por preço muito mais barato.

—  Pelo jeito que fala, parece que está desprezando negócios.

— Nós  costumamos fazer isso  também.  E  não é com muito prazer, sabe? — E Blackstone sorriu.

—  Então por que. . .

—  O senhor é um cliente altamente recomendado. Filho de um homem  muito  importante.   Quero  que co­nheça as suas alternativas.  É este o nosso raciocínio, e qual é o seu?

—  Gosto de sua sinceridade. Vejo que não gosta de arriscar a sua reputação. . .

—  É isso mesmo. . .

—  Muito bem. Comigo é o mesmo, só que não é a minha reputação.  É a da moça.   Ela. . .  A mais simples maneira de dizer é que ela não soube escolher seus ami­gos.   É uma moça brilhante com um grande futuro, mas infelizmente, sua inteligência não se estendeu a outras áreas.   — Matlock  parou  propositadamente e tirou  um maço de cigarros do bolso.  Sem a menor pressa, tirou e acendeu  um.  Aquilo fez efeito e  Blackstone acabou falando.

—  E ela aproveitou-se  financeiramente  com  essas amizades ?

—  De forma alguma. Pelo que posso ver, aproveita­ram-se dela.  Mas também compreendo por que me per­guntou.  Hoje em dia pode-se ganhar muito dinheiro nos campus, não acha?

—  Eu não sei  bem, porque esse terreno está fora de nossas atividades. — Blackstone sorriu outra vez e Matlock sabia que ele estava mentindo. Profissionalmen­te, claro.

—  Acho que não.

—  Muito bem, Sr. Matlock.   Por que espancaram a moça? E o que pretende o senhor fazer?

—  A minha opinião é que ela foi espancada quando tentavam   arrancar  dela   pela  força  certas   informações que ela não possuía.  E eu quero encontrar essa gente para lhes dizer isso. Para lhes dizer que deixem a moça em paz.

—  E se o senhor for à polícia, as amizades dela vão ficar sendo conhecidas e vão prejudicar o seu brilhante futuro.  É isso ?

—  Exatamente.

—  É uma estória bem complicada. . . E quais são as tais amizades ?

—  Eu não as conheço por nomes. . . Mas sei o que fazem. A coisa principal parece ser o jogo.  Pensei que vocês aqui poderiam ajudar.  Naturalmente estou pronto a pagar qualquer despesa adicional.

—  Sim, sim. — Blackstone levantou-se e sem qual­quer razão aparente foi até o aparelho de ar condicio­nado e começou a mexer nos controles. — Acho que o senhor está presumindo demais.

—  Eu não esperaria nomes.  Claro que gostaria de tê-los e pagaria bem por eles. . . Mas seria o bastante se me desse endereços.  Eu mesmo descobrirei depois, e o senhor   sabe   disso.   Eu   só   queria   não   perder   muito tempo. . .

—  Pelo que vejo, o senhor deve estar interessado em. . .   clubes  particulares.   Organizações particulares e sociais onde os sócios se reúnem para fazer as coisas que gostam. . .

—  Fora do olho da lei.  Onde os cidadãos podem seguir suas inclinações para arriscar apostas. . .   É por aí que eu queria começar.

—  Será que eu poderia convencê-lo para que fosse diretamente à polícia ?

—  Não.

Blackstone foi até um arquivo de aço e tirando uma chave do bolso abriu-o. — Como disse, é uma estória bem complicada que eu não acredito mesmo. . . No en­tanto estou vendo que o senhor está decidido e isso já cai na minha alçada. — Apanhou uma caixinha de metal do arquivo e voltou para a mesa. Com uma outra chave de sua corrente abriu-a e tirou de lá uma única folha de papel.

—  Ali no canto tem uma máquina Xerox. Creio que sabe como usá-la.  Ela registra o número de cópias que faz, mas creio que só vai precisar de uma. . .   Peço-lhe que  me desculpe alguns minutos, Sr.   Matlock,  preciso falar no telefone na outra sala.

Blackstone pegou no papel e colocou-o em cima da pasta de Matlock. Levantou-se, sorriu e dirigiu-se para a porta que abriu, saindo então da sala. Antes porém voltou-se.

—  Pode  ser que  seja  o  que  o senhor  quer,   mas também pode ser que não seja.  Isso não é comigo.  Eu simplesmente   deixei   um   memorando   confidencial   em cima de minha mesa. Isso aparecerá na sua conta como serviços extra.

Saiu então e fechou a porta.  Matlock levantou-se e foi até a mesa. Apanhou o papel e leu o título.

 

PARA OBSERVAÇÃO: EIXO HARTFORD-NEW HAVEN ENDEREÇOS DE CLUBES PARTICULARES E CON­TATOS (GERENTES) ATÉ 3-15. NÃO DEVE SAIR DO ESCRITÓRIO.

 

Embaixo havia uma lista de vinte e tantos nomes e endereços.

Ele estava mais perto de Nimrod.

 

A agência de carros de aluguel de Hartford pareceu compreender bem. Matlock tinha agora um Cadilac con­versível. O gerente aceitara a explicação que o Lincoln parecia carro de enterro e como os papéis estavam em ordem a troca fez-se sem qualquer complicação.

Claro que houve uma gorjeta de vinte dólares.

Matlock tinha examinado com cuidado a lista de Blackstone e decidiu concentrar-se nos clubes que esta­vam na área de Hartford mais próxima de Carlyle. Não eram, porém, os mais próximos de todos, mas Matlock resolveu deixá-los de lado por um ou dois dias. Quando chegasse lá queria que a sua fama de bom perdedor já se houvesse espalhado pela região. Sabia que a rede dos boatos funcionava bem. Era questão dele saber como agir.

Viu o primeiro endereço. Era de um clube particular de natação perto de Avon. O nome do homem era Jacopo Bartolozzi.

Eram nove e meia quando Matlock parou o carro na porta de entrada protegida por um toldo do Clube de Natação de Avon. O porteiro uniformizado chamou uma pessoa no estacionamento para levar o carro e veio aten­der Matlock.

Enquanto caminhava para a entrada ele examinava a fachada. O prédio principal era uma ampla estrutura branca de um só andar com uma cerca alta que se per­dia na escuridão. No lado direito, bem longe por trás da cerca estava uma piscina iluminada e do lado esquerdo via-se um imenso toldo bem iluminado. Ouvia-se uma mú­sica  discreta.

O Clube de Natação de Avon parecia ser coisa de alto luxo.

O interior ainda mais confirmou a observação. O salão era bem atapetado e a mobília era toda antiga de verdade. Do lado esquerdo havia o lugar amplo para guardar chapéus e capas e mais adiante à direita estava um balcão de mármore parecido com portaria de hotel. No fim do salão estreito havia uma estranha estrutura. Era um grande portão de ferro trabalhado que, evidente­mente, estava fechado. Por trás da grade via-se uma pas­sagem ao ar livre difusamente iluminada com uma ex­tensa cobertura sustentada por uma série de finas pilastras jônicas. Por trás do portão, em posição de sentido, estava um homem grande e forte vestindo smoking.

Matlock caminhou até ele.

—  O seu cartão de sócio, senhor ?

—  Mas eu não sou sócio. . .

—  Desculpe, senhor. Aqui é um clube particular só para os sócios.

—  Disseram-me que falasse com o Sr.   Bartolozzi.

O homem por trás da grade olhou Matlock dos pés à cabeça como se quisesse apalpá-lo com os olhos.

—  Será melhor falar ali na portaria, senhor.

Matlock voltou até o balcão onde foi  recebido por um homenzinho barrigudo e de meia idade que não es­tava ali quando ele passara antes.

—  O Sr. deseja? Será que posso ajudá-lo?

—  Acho que pode sim.  Sou novo por aqui.   Gosta­ria de entrar para sócio.

—  Nós sentimos muito, mas não há vagas. No entan­to, se o senhor quiser preencher sua proposta nós teremos muito prazer em avisá-lo logo que houver uma. É só para o senhor, ou também para a família? — Enquanto falava ele ia tirando do balcão dois formulários para serem pre­enchidos.

—  Individual. Não sou casado. . .  Disseram-me para procurar o Sr.   Bartolozzi.   Disseram-me para falar pes­soalmente com ele, Jacopo Bartolozzi.

O empregado não deu o menor sinal de se impres­sionar com o nome. — Aqui está. Encha esta proposta que eu vou colocá-la na mesa do Sr. Bartolozzi. Ele a verá amanhã de manhã. Não sei o que ele vai poder fa­zer. Não temos vagas e há uma grande fila na espera.

—  E ele não está aqui hoje? Numa noite tão movi­mentada? — Matlock deu à pergunta uma entonação de incredulidade.

—  Duvido muito, senhor.

—  E por .que não vai verificar? Diga-lhe que temos amigos comuns em San Juan. — Meteu a mão no bolso e tirou o dinheiro escolhendo uma nota de cinqüenta dóla­res que colocou em cima do balcão. O homem olhou para ele e apanhou o dinheiro devagar.

—  San Juan ?

—  San Juan, sim.

Matlock encostou-se no balcão e ficou olhando o outro homem por trás do portão de ferro que não tirava os olhos dele. Se a estória de San Juan pegasse e ele conseguisse passar pelo portão, teria que se despedir de uma outra nota alta.Mas tinha que pegar, pensava Mat­lock. Era perfeitamente lógico. Dois anos antes ele tinha passado umas férias em Puerto Rico e embora não fosse jogador, tinha viajado em companhia de uma turma, e de uma garota, que gostavam de jogar. Tinha então visto muita gente de Hartford e redondezas, mas não conseguia lembrar um só nome.

Dois casais saíram lá de trás das grades e as moças vinham rindo enquanto os homens sorriam com ar resig­nado. Elas deviam ter ganho vinte ou trinta dólares en­quanto os homens tinham perdido alto. Uma noite bem passada. O portão fechou-se quando eles passaram e Matlock ouviu distintamente o clic da fechadura elétrica. Era um portão bem guardado.

—  Por favor, senhor...  — Era o barrigudinho que falava.

—  Sim ?

—  Entre,  por favor,  que  o Sr.  Bartolozzi  vai  falar com o senhor.

—  Onde? Como? — Não havia porta alguma além do portão de ferro.

—  Por aqui, senhor. . .

De repente um painel bem disfarçado abriu-se à direita do balcão. Depois de fechada ninguém notava que era porta. Matlock entrou e o empregado levou-o ao es­critório de Jacopo Bartolozzi.

—  Então temos amigos comuns? — O italiano gordo falava com voz rouca recostando-se na poltrona por trás da mesa.  Não fez menção de levantar-se nem mostrou qualquer sinal de boas vindas. Jacopo Bartolozzi era uma gorducha caricatura dele mesmo.   Matlock não  poderia dizer se seus pés alcançavam o chão por trás da mesa.

—  Mas é a mesma coisa, Sr. Bartolozzi.

—  Como  a  mesma  coisa?  Quem   estava  em   San Juan?

—  Muita gente.   Um dentista de Hartford,  um cara que  tem   uma  firma  de  contabilidade  em   Constitution Plaza. . .

—  É mesmo? É. . .? Como se chamam? São sócios aqui ?

—  Acho que são pois me deram o seu nome. . .

—  Isto aqui é um clube de natação. Só de sócios. . . Quem são eles?

—  Olhe aqui, Sr.   Bartolozzi.   Foi  uma  noite louca no cassino de Condado.  Todos tinham bebido muito. . .

—  Ninguém bebe nos cassinos de Puerto Rico.  É a lei! — O italiano falava incisivo e apontava o dedo gordo para Matlock.

—  Só   tem   graça   quando   é   desrespeitada,   pode crer. . .

—  O quê ?

—  Estou dizendo que bebemos,  Pode acreditar-me. Só que não consigo lembrar dos nomes. . . Olhe aqui, eu posso ir lá na segunda-feira para procurar todos eles. Que diferença faz isso? Eu gosto de jogar e tenho dinheiro para perder.

Bartolozzi sorriu. — Isto aqui é um clube de nata­ção. Não sei do que está falando. . .

—  O.K.  Eu simpatizei com este lugar aqui, mas se você não me compreende, eu tenho outros. Meus amigos de San Juan também falaram de Jimmy Lacata em Middletown, de Sammy Sharpe em Windsor Shoals. . . Guarde suas fichas, seu chato.  Voltou-se fazendo menção para sair.

—  Espere aí! Espere mais um pouco!

Matlock viu o gordo italiano ficar de pé e verificou que sua dúvida estava certa. Ele não alcançava o chão com os pés quando estava na cadeira.

—  Esperar para quê ? Vai ver que o seu limite aqui é uma micharia. . .

—  O senhor conhece Lacata? Sharpe?

—  Já me falaram deles, como lhe disse. . . Olha aqui, deixe pra lá. Claro que você tem que ser cuidadoso. Eu talvez volte outro dia. . . Só que eu hoje estava querendo jogar. . .

—  O.K.  O.K.  É como você disse.  Temos que ter cuidado. — Bartolozzi abriu a gaveta e tirou uns papéis. — Venha cá. Assine aqui. Você está com palpite.  Pode ser que eu tome seu dinheiro, pode ser que você tome o meu. . .

Matlock aproximou-se da mesa. — Assinar o quê?

—  Só uma proposta. Jóia quinhentos.  Em dinheiro. Não aceitamos cheques nem damos crédito.

—  Muito bem. O que vou assinar?

—  Primeiro uma declaração que sabe ser esta uma organização sem fins lucrativos e que os jogos são para fins de caridade. . .   Por que está rindo? Eu construí a Igreja da Virgem Imaculada em Hamden.

—  E esta outra tão comprida?

—  É para os nossos arquivos.  É um título de sócio. Só em caso. . .

—  Em caso de que?

—  Caso aconteça alguma coisa boa conosco tam­bém acontecerá consigo. Principalmente nos jornais.

 

O Clube de Natação Avon era sem dúvida um lugar para se nadar.   Havia uma piscina enorme cercada de elegantes cabanas, cadeiras e mesinhas, tudo isso à di­reita do corredor, a céu aberto. No lado esquerdo Matlock via bem o que só dava para desconfiar do lado de fora. Uma imensa tenda levantava-se sobre dezenas de mesas cada uma delas com uma lâmpada. Lá no fundo uma longa mesa cheia de assados, saladas e outras iguarias. Ao lado um bar e gente andando em todas as direções.

O Clube de Natação Avon era certamente um ótimo lugar para se trazer a família.

O corredor levava ao fim do complexo onde havia uma outra imensa estrutura parecida com a do edifício principal. Por cima da grande porta dupla pintada em esmalte preto havia uma tabuleta de madeira com um letreiro em letras góticas

 

THE AVON SPA

 

Já essa parte do Clube não era um bom lugar para se trazer a família.

Matlock julgou-se de volta no cassino de San Juan que era a única casa de jogo em que entrara. O tapete que cobria todo o chão, de uma parede à outra, era tão espesso que encobria qualquer som. Só se ouvia o tinir das fichas e o murmúrio abafado e nervoso dos jogadores e empregados. Havia ali mesas de dados de encontro à parede e outras de “blackjack” no centro. No meio esta­vam as mesas da roleta e bem no centro do salão, numa plataforma elevada, estava o guichê do caixa. Todos os empregados vestiam smokings e pareciam muito educa­dos. Os jogadores já eram menos formais.

O homem do portão, satisfeito com os cinqüenta dó­lares que recebera de Matlock, levou-o até a plataforma do caixa.

—  Este aqui é o Sr. Matlock. Um amigo. Trate bem dele.

—  É só o que fazemos, — disse o outro sorrindo.

—  Desculpe,  Sr.  Matlock,  mas não pode ficar pe­ruando na primeira vez que vem. . .

—  Naturalmente. . .   Eu vou só dar uma olhada. . .

—  Sim, eu sei como é.  Quer sentir um palpite. . . Claro que aqui não é Las Vegas.  Cá entre nós é quase sempre micharia. Quero dizer. . . para uma pessoa como o senhor, sabe?

Claro que Matlock sabia exatamente onde ele queria chegar. Uma gorjeta de cinqüenta dólares não era coisa comum ali no Avon.

Levou três horas e doze minutos para perder ...... $4.175,00. Só entrou em pânico quando teve uma onda de sorte nos dados e chegou a ganhar quase $ 5.000. Co­meçava bem a noite para o que estava querendo. Tinha reparado qué a maior parte das pessoas comprava 200 a 300 dólares de fichas, mas ele comprou $ 1.000 da pri­meira vez, $1.000 da segunda e $2.000 na última.

A uma hora da madrugada ele estava rindo com Jacopo no bar embaixo da tenda verde e branca.

—  Você é um cara legal.   Muita gente teria aberto num berreiro se tivesse perdido o que você perdeu.   A esta hora eu estaria com eles no escritório mostrando-Ihes papéis.

—  Não se preocupe.  Eu vou buscar tudo de volta. Eu sempre vou. . . Eu estava com bastante palpite. . . Acho que vou voltar amanhã.

—  Venha segunda. Amanhã é só para nadar.

—  Mas como assim?

—  Domingo.  Dia santo.

—  Que merda! Tenho um amigo que vem de Londres. Não vai estar aqui na segunda.  Joga forte.

—  Vou fazer uma coisa para você. Vou telefonar para o Sharpe em Windsor Shoals. Ele é judeu. Não tem dias santos.

—  E eu lhe fico agradecido. . .

—  Eu até talvez apareça por lá.   Minha mulher vai para uma reunião de mães da Virgem...

Matlock olhou para o relógio. A noite tinha sido boa. Uma boa partida. Ficou imaginando se seria bom apro­veitar a sorte. — O único problema verdadeiro quando a gente chega num território novo é o tempo que se perde para ficar sabendo das coisas.  Sabendo onde comprar.

—  Qual é o problema?

—  Estou com uma garota lá no motel. Está dormindo porque viajamos o dia inteiro.  Ficou sem a erva.  É só o que ela usa. Eu disse que levaria alguma. . .

—  Não posso fazer nada por você, Matlock.  Não te­nho isso aqui. Há muita criança, sabe? Não faz bem para a fama. . .  Tenho algumas pílulas, se quiser.   Nada de agulha. Quer as pílulas?

—  Não, não. Só a erva. Não a deixo usar mais nada.

—  E faz você muito bem. . .  Para onde vai agora?

—  Vou voltar para Hartford.

Bartolozzi estalou os dedos e o homem do bar veio correndo.  Ele pediu papel e lápis.

—  Aqui está.  Aqui tem um endereço.   Eu vou tele­fonar.  É um lugar que fica aberto a noite inteira.   Fica bem   no caminho.   Pergunte   pelo   Rocco.   Ele   tem   de tudo. . .

—  Você é um príncipe, — disse Matlock com toda a sinceridade recebendo o papel.

—  Pelos quatro grandes que você perdeu na primeira noite fica com certos direitos. . .  Mas escute aqui, você esqueceu de assinar o formulário. . .

—  Você não precisa de referências. Eu só jogo com dinheiro vivo...

—  Onde diabo você consegue tanto? Onde guarda?

— Em trinta e sete bancos daqui até Los Angeles. Gostei muito, sabe? Até amanhã.  — Matlock largou o copo e estendeu a mão a Bartolozzi.

—  Claro, claro.  Eu vou levar você à porta.  Não se esqueça de nós, hein? Não vá dar só ao Sammy.  Volte por aqui.

—  Dou-lhe minha palavra.

Os dois saíram andando pelo corredor e o italiano colocou sua mão gorda nas costas de Matlock em sinal de amizade. O que nenhum dos dois percebera, no en­tanto, fora um homem bem vestido numa mesa próxima que olhava para eles ao mesmo tempo em que tentava fazer funcionar um isqueiro. Quando os dois passaram por sua mesa ele guardou o isqueiro no bolso enquanto a mulher que estava com ele se inclinava por cima da mesa para lhe acender o cigarro com um fósforo, com um sor­riso nos lábios.

—  Conseguiu pegá-los?

O homem deu uma risadinha. — Karsh não teria feito melhor. Tirei alguns bem de perto.

 

Se o Clube de Natação de Avon tinha sido um bom ponto de partida, o Clube de Caça de Hartford, sob a cuidadosa administração de Roçco Aiello, ainda era me­lhor para a primeira arrancada. Matlock via agora a sua jornada para Nimrod como um corrida que deveria estar terminada dentro de duas semanas e um dia. Ela termi­naria com a convocação das forças de Nimrod e dos mafiosos em algum lugar nas vizinhanças de Carlyle. Para ele, estaria terminada quando alguém lhe mostrasse o outro pedaço do papel corso prateado.

O telefonema de Bartolozzi tinha surtido um bom efeito. Matlock entrou no velho edifício de pedras aver­melhadas e logo de saída pensou que estava no lugar errado pois tudo parecia vazio, mas afinal, no fundo de um corredor, encontrou um elevador de carga com um preto solitário sentado na porta, mas que logo levantou-se quando viu Matlock e mostrou-lhe o elevador.

Num salão lá em cima um homem veio ao seu en­contro. — Um grande prazer em conhecê-lo. Meu nome é Rocco. Aiello Rocco, — e estendeu a mão para Matlock.

—  Muito obrigado.  Pensei que estava enganado. . . não ouvia barulho algum. . .

—  Se ouvisse eu daria uma bronca com o pessoal da construção. Paguei para me fazerem paredes grossas e à prova de som dos dois lados.As janelas são cegas. Tudo muito seguro.

—  Parece bom mesmo...

Rocco meteu a mão no bolso e tirou um maço de ci­garros. — Estes são para você. Não cobro nada. Gosta­ria de lhe mostrar a casa, mas o Jock disse que estava com pressa. . .

—  O  Jock estava errado.   Até aceito uma bebida.

—  Ótimo! Então vamos entrando. . . Tem uma coisa, Sr. Matlock.  Eu tenho uma boa clientela, sabe como é? Tudo gente rica e muito sossegada. Alguns conhecem a casa do Jock mas outros não.  Sabe o-que quero dizer, não é?

— Claro que sei.  Aliás, eu nunca gostei muito de nadar.

— Muito bem, muito bem.  Seja bem-vindo ao que Hartford tem de melhor.  Já soube que o senhor entrou bem hoje. . .

Matlock riu-se e foi entrando com o outro no com­plexo de salões difusamente iluminados e cheios de mesas e clientes.

—  Está vendo como é. Tenho dois andares como se fosse um duplex. Cada andar tem cinco salões grandes, cada qual com seu bar.  Muito sossegado, todos muito comportados.  É um bom lugar para trazer a patroa, ou então mais alguém. . . sabe o que é, não?

—  Acho que sei.  É mesmo formidável.

—  Os garções em sua maioria são rapazes da uni­versidade e eu gosto que eles ganhem uns dólares comi­go para ajudar nos estudos. Tenho negros, bichas. . . não faço discriminação. Só no negócio de cabelos. Não vou com os cabelos compridos. . .

—  Mas garotos da universidade?  Não acha que é perigoso? Que podem falar?

—  Não  há  perigo.   Isto  aqui   é   muito   respeitável. Todos são sócios que pagam como se fosse uma orga­nização particular.

—  Sim, sim.  Mas e o outro lado?

—  Que outro lado?

—  O que eu vim buscar.

—  Só uma ervinha? Mas também pode conseguir no jornaleiro da esquina. . .

Matlock riu. Não queria exagerar. — Você ganhou dois pontos, Rocco. . . Ainda assim, se eu conhecesse você melhor, quem sabe eu poderia comprar alguma coi­sa? O Bartolozzi me disse que você tinha tudo que eu quisesse. . . Mas esqueça. Deixe pra lá. Vou só beber um gole e me mandar. A garota já deve estar assustada.

—  Aquele Bartolozzi às vezes fala demais. . .

—  Você tem razão.  Por falar nisso, ele amanhã vai me encontrar de noite no Sharpe. Tenho um amigo che­gando de Londres.   Quer vir também?

Aiello ficou impressionado. Os jogadores de Londres já estavam começando a gozar de mais fama do que os de Las Vegas ou do Caribe. . .

—  Pode ser que eu vá sim. . . Olhe aqui, se precisar de alguma coisa é só pedir, hein?

—  Já sei.   Mas não me incomodo de dizer a você que os garotos me fazem ficar nervoso.

Aiello segurou Matlock pelo cotovelo e foi andando com ele até o bar. — Pois você está errado. Esses ga­rotos. . . não são mais garotos, sabe como é?

—  Não.   Não sei.   Garotos são sempre garotos.  Eu gosto de coisas mais discretas. . .  

Matlock olhou para o homem do bar, tirou do bolso o resto do dinheiro e separou uma nota de vinte.

—  Guarde seu dinheiro. . .

— Sr. Aiello. . . — Um rapaz de jaleco branco de garção aproximou-se. Devia ter uns vinte dois ou vinte e três anos.

—  Sim?

—  O senhor quer assinar esta nota? É da mesa onze. Os Johnson de Canton. São O.K.

Aiello apanhou a nota e assinou. O rapaz saiu.

—  Está vendo este rapaz? Pois é o que eu estava dizendo. Está èm Yale. Voltou do Vietnan há seis meses.

—  E então?

—  Era tenente. Agora está estudando administração de empresas. . .  Trabalha aqui duas vezes por semana. Principalmente para fazer contatos.  Quando sair já terá um  bom pé de meia.   Aí vai se estabelecer por conta própria.

—  Mas como?

—  Vai ser fornecedor. . . Esses garotos. . . é aí que está.  Você precisava ouvir as estórias deles.  Já anda­ram por Saigon, Da Nang e até mesmo Hong Kong. São bons para vender. Puxa vida! Esses garotos de hoje são fogo! Sabem o que querem. São vivos. . . Pode me acre­ditar.

—  E acredito mesmo. — Matlock virou a bebida de um trago, não porque estivesse com sede e sim porque queria esconder o espanto que sentira com a revelação de Aiello. Os rapazes que vinham da Indochina não eram os  mesmos  sinceros  veteranos  jovens  de  Armentières, Anzio  ou   mesmo  Panmunjom.   Eram   muito  diferentes. Muito mais tristes. Sabiam muito mais. O herói da Indo­china era o soldado que tinha contatos nas docas e nos armazéns.   Era o gigante entre seus pares.   E a maior parte deles estava agora de volta.

Matlock bebeu o resto do copo e foi com Rocco ver o resto da casa. Mostrou a admiração que Aiello espe­rava dele e prometeu voltar. Não falou mais nada sobre Sammy Sharpe. Sabia que já não era mais preciso. Aiello já estava aceso.

Ao afastar-se, ele ia pensando em duas coisas. Tinha que alcançar dois objetivos antes que chegasse a noite de domingo. O primeiro era descobrir um inglês e o se­gundo era conseguir uma grande importância em dinheiro. Era indispensável que tivesse as duas coisas. Na noite seguinte teria que estar no Sharpe.

O inglês que ele tinha em vista morava em Webster e era professor adjunto de matemática na Universidade de Madison. Estava no país não fazia ainda dois anos e Matlock travara conhecimento com ele numa festa em Saybrook. Era um inglês que vivera no Cornwall quase toda a sua vida e era fanático pelo iatismo. Tinha logo conquistado as simpatias de Matlock e Pat. Agora Matlock só pedia a Deus que John Holden soubesse alguma coisa a respeito de jogos de azar.

Já o dinheiro era um problema mais sério. Teria que consegui-lo outra vez com Alex Anderson e era bem pos­sível que ele inventasse qualquer desculpa para não aten­dê-lo. Alex era um cara cauteloso e que tinha medo de tudo. Por outro lado estava sempre com o olho em pos­síveis lucros e era por ali que iria pegá-lo.

 

Holden pareceu surpreso, mas não contrariado, com o telefonema de Matlock. Além de atencioso ele era tam­bém curioso. Repetiu duas vezes o endereço de seu apartamento e Matlock agradeceu dizendo que sabia bem onde era.

Foi logo dizendo que estava morrendo de curiosidade e quis saber se havia alguma coisa com Patrícia.

—  Eu  já lhe contarei  tudo como é.   Aliás  não é muito. Quero lhe pedir dois favores e o primeiro é saber se posso passar a noite aqui. . .

— Mas claro. Você nem precisava perguntar. Entre e sente-se. Você parece perturbado. Quer tomar alguma coisa?

—  Não,  não,  obrigado.   — Sentou-se  no sofá de Holden e logo lembrou-se que era um sofá-cama onde ele e Pat tinham passado uma noite alegre alguns meses antes.  Agora ali já pareciam séculos.

—  O primeiro é um prazer para mim. Qual é o se­gundo? Se for dinheiro, eu tenho aqui uns mil que estão às suas ordens.

—  Não,   não   é   dinheiro,   mas   agradeço   mesmo assim. . .   Eu estou querendo que você banque o inglês para mim. . .

Holden soltou uma risada gostosa. Ele era um cara pequeno de uns quarenta anos, mas ria-se como um velho gordo.

—  Acho que não vai haver muita dificuldade nisso. Ainda tenho um bom sotaque de Cornwall de reserva. . .

—  Eu sei. Se praticar um pouco você logo perderá o anasalado ianque. . .   Mas ainda há mais uma coisa. Você já jogou alguma vez em sua vida?

—  Jogar? Você quer dizer nos cavalos ou futebol?

—  Cartas, dados, roleta. . .

—  Não.  Acho que não.   Isto é, sem contar aquela fase como todo matemático que pensa vencer a roleta aplicando princípios aritméticos, médias logarítmicas. . .

—  E funcionou?

—  Eu só disse que passei pela fase, mas não me agarrei a ela. Se é que há algum princípio matemático, eu ainda não consegui descobri-lo.

—  Mas você já jogou? Sabe como é?

—  Mais ou menos bem, aliás. Sabe como é. . . Uma espécie de pesquisa de laboratório.  Por quê?

Matlock repetiu a estória que tinha contado a Blackstone mas não entrou em muitos detalhes no assalto à Pat. Quando acabou o inglês tirou o cachimbo que tinha acendido e sacudiu fora as cinzas.

— Parece coisa de cinema, hein?. . . Mas a Pat não está muito ferida, não é? Está mais apavorada do que ferida. . .

—  Isso mesmo.  Se eu desse queixa à polícia isso iria prejudicar o dinheiro de sua bolsa de estudos.

—  Sim,   sim.   Estou  compreendendo.   E  você  quer que eu perca amanhã de noite?

—  Não precisa perder.   Só quero que aposte forte.

—  Mas você está preparado para agüentar um pre­juízo sério?

—  Claro que estou.

Holden levantou-se. — Eu estou plenamente disposto a fazer o que você pede. Acho que vai ser um barato. No entanto, você está escondendo muita coisa de mim, e embora eu gostasse de saber toda a verdade, não vou insistir. Só que a sua estória está cheia de inconsistên­cias matemáticas. ..

—  Como assim?

—  Pelo que vejo, o dinheiro que você está prepa­rando para perder amanhã é muito mais do que o valor da bolsa que a Pat perderia. A presunção lógica, então, é que você não quer ir à polícia.  Ou talvez mesmo não possa. . .

Matlock olhou para o inglês e ficou pensando em sua estupidez. Sentiu-se embaraçado e incapaz. — Eu sinto muito. Não menti conscientemente. . . Você não precisa fazer isso. Talvez eu não devesse ter pedido.

—  Eu nunca disse que você estava mentindo, se é que isso faz alguma diferença.   Só disse que você não me tinha contado tudo.   Claro que vou fazer o que me pede. Só quero que saiba que estarei pronto para ouvi-lo a qualquer hora que queira se abrir comigo. . .   Bem, já é tarde e você deve estar cansado.  Por que não usa o meu quarto?

—  Não, obrigado. Eu fico aqui mesmo. Traz-me re­cordações  agradáveis.   Só  quero  um  cobertor.   E  tam­bém preciso falar no telefone.

—  É você quem manda.   Vou buscar o cobertor, e o telefone é ali onde você sabe.

Quando Holden saiu ele foi ao telefone. O aparelho que ele ia alugar só estaria pronto na segunda-feira.

—  Blackstone. . .

— Aqui  é James  Matlock.   Deram-me este  número para  qualquer recado. . .

—  Sim, senhor Matlock.  Há um recado aqui.  Espe­re um pouco que vou apanhar o cartão. . .  Aqui está. É do pessoal de Carlyle. Tudo está seguro. A pessoa está reagindo bem ao tratamento médico.   Recebeu três visi­tas.   Um Sr. Samuel  Kressel,  um Sr. Adrian Sealfont e uma Srta. Lois Meyer. Recebeu também dois telefonemas mas os médicos não permitiram que falasse.  Foram ano­tados pelo mesmo indivíduo Jason Greenberg.   Os cha­mados vinham de Wheeling, West Virgínia.  O pessoal de Carlyle não a perdeu de vista. . .  Pode ficar descansado.

—  Muito obrigado. Bom serviço. Boa noite. — Mat­lock suspirou  aliviado  e exausto.   Lois  Meyer era  uma amiga de Pat. Era confortante saber que Greenberg tinha telefonado. Já estava com saudades dele.

Esticou o braço e apagou a lâmpada ao lado do sofá. Pelas janelas entrava o luar de uma noite de abril. O homem do serviço de Blackstone tinha razão. Já podia ficar descansado.

Só não conseguia ficar descansado quanto ao que tinha a fazer no dia seguinte e no outro. Tudo tinha que continuar em ritmo acelerado durante dias a fio. Não podia afrouxar de forma alguma.

E o depois de amanhã. Depois de estar com Sharpe. Se tudo corresse de acordo com seus cálculos, seria já então a hora de entrar na área de Carlyle. Matlock fe­chou os olhos e viu na sua frente a folha de papel de Blackstone.

 

Clube de Campo Carmount — Contato Howard Stockton

Clube de  latismo e Esquiação de Carlyle — Contato Alan Cantor.

 

Carmount era em Carlyle perto dos limites de Mount Holly. O outro era no lado oposto, no Lago Derron, uma área de férias de verão e inverno.

Ele encontraria um jeito de fazer com que Bartolozzi ou Aiello fizesse as apresentações.   E logo que se encontrasse na área de Carlyle começaria a dar algumas deixas. Talvez até mesmo mais que deixas. Poderia mandar, exigir. Tinha que ser corajoso. Era assim que Nimrod agia.

Com os olhos fechados o seu corpo começou a re­laxar e o sono foi chegando. Antes de adormecer, po­rém, lembrou-se do papel. Daquele papel corso. Tinha que ir buscá-lo. Precisava daquele convite para Nimrod.

O papel prateado de Matlock.

 

Se os superiores da Igreja Congregacional de Windsor Shoals jamais desconfiassem que Samuel Sharpe, advogado brilhante e judeu que cuidava da parte finan­ceira da igreja, era conhecido como Sammy o Jogador em toda parte de North Hartford e no sul de Springfield, eles certamente mandariam suspender as ladainhas du­rante um mês. Felizmente aquilo nunca acontecera e ele continuava a gozar da melhor reputação perante sua igre­ja. Já tinha feito obras notáveis para a igreja e sempre contribuía generosamente quando havia necessidade. A igreja e toda a cidade tinham Samuel Sharpe no melhor conceito.

Matlock ficou sabendo de tudo isso dentro do escri­tório de Sharpe. Os quadros com diplomas e agradeci­mentos enchiam as paredes e Jacopo Bartolozzi contou o resto. Jacopo estava fazendo questão de mostrar a Matlock e ao seu amigo inglês que o clube de Sharpe não era comparável com as belas tradições do Clube de Nata­ção de Avon.

Holden tinha excedido as expectativas de Matlock. Diversas vezes quase dera gargalhadas vendo Holden atirar displicentemente notas de cem dólares para o “croupier” sem mesmo se dar ao trabalho de conferir as fichas que recebia. Holden jogava com cuidado e inteligência e houve uma ocasião em que estava ganhando cerca de nove mil dólares. No fim da noite seus lucros já tinham diminuído, para grande alívio do dono da casa. Afinal, depois de alguma hesitação e muito nervoso, Alex Anderson tinha mandado o dinheiro de Matlock para Webster.

James Matlock maldizia a sua segunda noite de falta de sorte e agüentou firme com mais um prejuízo de mil e duzentos dólares.

As quatro da manhã, Matlock e Holden, junto com Aiello, Bartolozzi, e Sharpe, e mais dois outros caras, es­tavam instalados numa grande mesa de carvalho na sala de jantar colonial.   Estavam sozinhos.   Os empregados faziam a limpeza e as salas de jogo já estavam fechadas. Aiello e Bartolozzi faziam comentários sobre as suas clientelas, cada qual procurando puxar a brasa para a sua sardinha, e os dois achando que seria bom se eles ficassem  conhecendo o  casal  Johnson,  de  Canton,  ou um certo Dr. Wadsworth. Sharpe, por outro lado, parecia mais interessado em Holden e nas coisas da Inglaterra. Contou diversas estórias de sua estadia em Londres e das insuperáveis dificuldades que encontrava com o di­nheiro inglês durante o nervosismo das apostas.

Matlock achava que Sharpe era realmente um homem encantador. Não era difícil compreender a posição que mantinha em sua comunidade. Não podia deixar de com­parar Sharpe com Greenberg, mas nessa comparação ha­via uma diferença essencial. Era nos olhos. Os olhos de Greenberg eram doces e cheios de compaixão, mesmo quando zangado, ao passo que os de Sharpe eram frios, duros e irrequietos, num estranho conflito com a placidez de seu rosto.

Ouviu quando Bartolozzi perguntou a Holden onde ele ia a seguir e a resposta despreocupada do inglês deu-lhe a oportunidade que ele esperava.

—  Eu sinto muito, mas não posso discutir acerca de meu itinerário. . .

—  Ele   quer   dizer   para   onde   irá. . .   —   interferiu Aiello.

Bartolozzi fulminou Aiello com os olhos. — Eu só estava pensando se o senhor não estaria disposto a dar um pulinho em Avon. Acho que iria gostar de nossa casa lá.

— Tenho a certeza que vou mesmo. Talvez em outra ocasião.

Matlock interveio. — Jonnny estará em contato co­migo na próxima semana. . . Eu preciso dar um pulo em. . . Carlyle. Acho que é esse o nome do lugar.

Houve uma pequena pausa na conversa. Os outros trocaram olhares, mas só Bartolozzi parecia não estar vendo nada.

—  Aquele lugar da universidade?

— É esse mesmo.   Eu talvez vá ao Carmount ou ao Iate e Esquis. . . Acho que vocês sabem onde é.

Aiello deu uma risadinha. — Acho que sabemos mesmo.

—  E o que vão vocês fazer em Carlyle? — A per­gunta foi feita por um dos caras que não se havia dignado dar seu nome.  Falava puxando fumaça de seu charuto.

—  Isso é comigo. . . — Respondeu Matlock com de­licadeza.

—  Estava só perguntando.  Não fiz por mal.

—  Claro que não. . . Puxa vidal Quase quatro e meia! Vocês são todos muito agradáveis. — E Matlock afastou a cadeira como se quisesse levantar-se.

O   homem  do charuto  ainda  tinha  outra   pergunta.

—  E o seu companheiro também vai para Carlyle?

Holden levantou o braço com ar de galhofa. — Des­culpem, nada de itinerários. Sou um simples visitante à estas agradáveis plagas e estou cheio de planos de tu­rismo. . .  Precisamos ir andando. . .

Os dois levantaram-se e Sharpe também. Antes que os outros fizessem qualquer movimento Sharpe falou.

—  Eu vou acompanhar os rapazes até o carro para mostrar-lhes o caminho.  Vocês esperem aqui que temos contas para acertar.   Eu devo dinheiro ao Rocco.   Frank deve a mim.  Pode ser que eu empate.

O homem do charuto, que evidentemente chamava-se Frank, deu uma risada. Aiello olhou momentaneamente perplexo, mas logo compreendeu. Ficaram todos onde estavam.

Matlock ainda não tinha certeza se tinha agido bem. Ele tinha querido prolongar a conversa sobre Carlyle para ver se alguém se oferecia para fazer as apresenta­ções lá, mas a recusa de Holden de falar sobre itinerário tinha impedido e Matlock ficara com receio que aquilo significasse serem eles tão importantes que dispensassem apresentações. Além disso, Matlock percebia que com o desenrolar dos acontecimentos ele estava cada vez mais contando com a garantia do falecido Loring que nenhum dos convidados à conferência de Carlyle iria discutir a respeito dos delegados. O significado de “Omerta” era tão supostamente poderoso que tornava o silêncio invio­lável. Mas o Sharpe tinha dado ordem aos outros para ficarem na mesa.

Ele sentia que talvez tivesse ido muito longe com a pouca experiência que tinha. Talvez já fosse tempo de procurar o Greenberg embora ele preferisse esperar até que tivesse informações mais concretas. Se entrasse em contato com Greenberg, poderia obrigá-lo a cair fora. Ainda não estava preparado para pensar naquilo.

Sharpe acompanhou-os até o estacionamento já ago­ra quase deserto. O Windsor Valley Inn não tinha mais ninguém.

—  Nós não gostamos de dar dormida. Somos apenas conhecidos como um dos melhores restaurantes. . .

—  Sim eu sei como é. . .

—  Meus caros. . . Será que poderia fazer um pedido sem parecer indelicado?

—  Vá fazendo.

—  Posso ter uma palavra consigo, Sr. Matlock?

—  Não se preocupem comigo. Sei como é. Vou an­dando. . . — E Holden encaminhou-se para o carro.

—  Parece  um  belo  rapaz,  o  seu  amigo  inglês. . .

—  É o que há de melhor, realmente.  O que é que há, Sammy?

—   Só algumas informações. . .

—  Quais são?

—  Eu sou um homem muito cauteloso, mas também sou curioso. Sou dono de uma ótima organização, como pôde ver. . .

—  Eu vi mesmo. . .

—  Eu estou crescendo bem. Devagar, mas bem.

—  Acho que está sim.

—  Eu não cometo enganos.  Na minha qualidade de advogado eu me orgulho em dizer que não cometo en­ganos.

—  Aonde quer você chegar?

— A mim quer parecer que vocês foram enviados a este território para fazer algumas observações, e para ser inteiramente franco, devo dizer que meus companhei­ros também pensam como eu.

—  E por que você pensa isso?

—  Por  quê?   Porque   nunca  vi   um   jogador  como você.  Conta com amigos poderosos em San Juan.  Co­nhece nossas casas como a palma de suas mãos. Depois aparece com um ótimo companheiro que vem de Londres. Tudo isso significa alguma coisa. Mas o mais importante, e eu acho que você sabe disso, é a sua estória de negó­cios em Carlyle. Vamos ser sinceros. Tudo isso fala bem claro, hein?

—  Fala mesmo?

—  Eu não sou tolo, como já lhe disse. Sou homem cauteloso. Compreendo os regulamentos e não faço per­guntas que não devo sobre coisas que não são de minha conta. . . Mesmo assim, quero que os generais compreen­dam que podem contar com alguns tenentes inteligentes e até mesmo ambiciosos na organização.  Qualquer um pode lhe dizer. Eu não escondo. Sou franco.

—  Está me pedindo para fazer um relatório favorável a seu respeito?

—  É mais ou menos isso.  Eu tenho valor.  Sou um advogado respeitado.  Meu sócio é um corretor catego­rizado.  Nós somos naturais. . .

—  E o Aiello? Parece-me que você é seu amigo. . .

—  Rocco é um bom rapaz.  Talvez não seja muito esperto, mas é sólido.  É uma boa pessoa também.  Mas no entanto não acho que seja de nossa classe.

—  E o Bartolozzi?

—  Nada tenho contra ele. Terá que chegar às suas próprias conclusões.

—  Mas  não  dizendo  nada,  você  está  me  dizendo muita coisa, não acha?

—  Na minha opinião, ele fala demais.  Mas isso tal­vez seja a sua personalidade. Para mim há alguma coisa nele. Mas não há no Rocco.

Matlock ficou olhando o metódico Sharpe ao ama­nhecer ali naquele estacionamento, e começou a com­preender o que tinha acontecido. Era lógico. Tinha sido planejado por ele mesmo, mas agora que estava acontecendo, ele sentia-se curiosamente objetivo. Observando a si mesmo e vendo a reação daqueles fantoches.

Havia penetrado no mundo de Nimrod como estra­nho; possivelmente suspeito e certamente por atalhos escusos.

No entanto, de repente, tudo se desfazia e ele não era perseguido e sim tratado com honrarias.

Era o suspeito tratado com honrarias por causa de seus caminhos escusos. . . porque aquilo tinha que vir de escalões mais altos. Ele era agora um emissário desses escalões.  Já tinham medo dele.

Como fora mesmo que dissera Greenberg? Era o mundo das sombras. Exércitos invisíveis colocando suas tropas em posição nas trevas, constantemente alertas às patrulhas inimigas.

Sua posição era muito precária, mas ele estava de cima.

—  Você é bom mesmo, Sharpe. Vivo como o diabo, também. . .  O que sabe você de Carlyle?

—  Nada! Absolutamente nada!

—- Agora você já está mentindo, e isso não é bonito.

—  Não sei nada.  É verdade.  Ouvi uns boatos, mas boatos não servem como provas.

—  Mas que boatos? Diga logo em seu próprio be­nefício.

—  Só boatos. Talvez uma reunião do clã. Uma reu­nião dos chefões. Para chegarem a um acordo com certas pessoas.

—  Nimrod?

Sammy Sharpe fechou os olhos durante três segun­dos.  E falou com eles fechados.

— Agora você está começando a falar de coisas que eu não quero ouvir.

— Então você não ouviu nada, não foi?

— Não ouvi mesmo. Já foi riscado fora.  Posso ga­rantir.

—  Muito bem. Você está indo muito bem. Mas quan­do voltar lá para dentro, será melhor não começar a falar desses boatos que ouviu, hein? Isso o faria um tenente estúpido, não acha?

—  Não somente estúpido, mas louco.

—  Então por que você mandou eles esperarem? Já é tarde.

— Eu só queria saber o que eles pensavam de você e de seu amigo inglês. Mas agora que me falou num certo nome, acho que não se vai mais falar de nada. Como já disse, eu sei respeitar os regulamentos.

— Muito bem. Acredito em você. Acho que tem pos­sibilidades. É melhor voltar. . . Sim, sim. Mais uma coisa. Eu quero que você telefone para o Stockton em Carmount e para o Cantor no late. Diga só que sou seu amigo pes­soal e que vou aparecer por lá. Nada mais. Não quero ninguém na defensiva.  Isso é importante, Sammy.  Nada mais.

—  Será um prazer. E você não vai esquecer de apre­sentar meus cumprimentos aos outros, hein?

—  Claro que não vou. Você é dos bons.

—  Eu faço o que posso. . .

Naquele momento exato a tranqüilidade daquela ma­drugada foi interrompida por cinco tiros muitos altos. Vi­dros estilhaçados. Gente correndo e gritando, móveis quebrados, tudo vindo de dentro do restaurante. Matlock atirou-se no chão.

—  John! John!

—  Estou aqui! Perto do carro. Você está bem?

—  Estou sim.   Fique aí quieto.

Sharpe tinha corrido para a parte escura do prédio e agachara-se junto da parede. Matlock mal conseguia vê-lo, mas viu o bastante para perceber quando sacou um revólver.

Mais uma vez houve uma rajada lá atrás do prédio seguida de gritos de terror. Um garoto atravessou uma das portas e saiu de gatinhas até o estacionamento. Sol­tava gritos histéricos numa língua que Matlock não com­preendia.

Alguns segundos depois, um empregado do restau­rante, com jaqueta branca, saiu pela porta arrastando um outro ensangüentado que parecia bem ferido.

Ouviu-se outro tiro e o empregado que gritara caiu por terra. O homem ferido por trás dele continuava debatendo-se com o rosto no cascalho. Dentro do prédio havia uma gritaria.

—  Vamos sair. Saia. Vá até o carro!

Ele esperava ver muita gente saindo pela porta late­ral mas ninguém apareceu. Em lugar disso, de um outro lado do prédio, ele ouvia um motor acelerado ao máximo e momentos depois os pneus cantando de um carro que fazia uma curva fechada. E então, à sua esquerda, a uns cinqüenta metros de distância, um carro preto saiu como louco na direção da estrada. Ele tinha que passar por baixo de uma lâmpada da rua e Matlock viu-o claramente.

Era o mesmo carro que tinha saído da escuridão momentos depois do assassinato de Loring.

Tudo ficou novamente silencioso. A luz indecisa da madrugada tornava-se mais forte.

—  Jim! Jim, venha aqui. Acho que já foram.

Era Holden. Tinha deixado o refúgio do carro e esta­va debruçado sobre o homem da jaqueta branca.

—  Já vou! — Gritou Matlock precipitando-se.

—  Este homem está morto. Levou um tiro no peito. . . Este outro ainda está respirando. É melhor chamar uma ambulância.

—  Eu não ouço mais nada.  Onde está o Sharpe?

—  Ele foi lá dentro.  Por ali. Tinha um revólver na mão.

Os dois saíram caminhando com cuidado até a porta da entrada do restaurante. Matlock abriu a porta com cuidado e Sharpe levou muito tempo antes de responder baixinho.,

—  Estou aqui. Na sala de jantar.

Matlock e Holden atravessaram a porta larga de car­valho. Nada na vida dos dois tinha-os preparado para aquilo que viam.

O mais horroroso era a vista dos corpos literalmente cobertos de sangue. Aquilo que restava de Rocco Aiello estava espalhado em cima da toalha empapada de san­gue com seu rosto destroçado. O sócio de Sharpe, o tal Frank, estava de joelhos com o torso virado para trás e o sangue escorrendo-lhe do pescoço, com os olhos mortos e abertos. Jacopo estava no chão com seu corpo obeso arqueado em torno da perna de uma mesa com a frente da camisa aberta mostrando a barriga furada por balas com o sangue ainda escorrendo sobre os pêlos escuros. Tinha ainda na mão um pedaço da camisa que arrancara nos estertores da dor. O outro homem estava caído por trás de Bartolozzi com a cabeça encostada no seu pé di­reito e os braços e pernas abertos também todo coberto de sangue com parte dos intestinos de fora.

—  Meu Deus! Meu Deus! — Matlock não podia acre­ditar no que via. Holden parecia que ia vomitar. Sharpe falou baixo e desanimado.

—  É melhor vocês irem.   Saiam depressa os dois.

— Você vai ter que chamar a polícia. . .

Holden gaguejava sem poder se conter. — Ainda há um rapaz lá fora. Ainda está vivo.

Sharpe olhou para os dois ainda com o revólver na mão. — Não tenho dúvida que as linhas foram cortadas. As casas mais próximas são a uns dois quilômetros da­qui. . . Eu cuidarei de tudo. É melhor vocês irem em­bora. . .

—  Acha que devemos ir? — Perguntou Holden olhan­do para Matlock.

Foi Sharpe quem lhe respondeu. — Olhe aqui, seu inglês, pessoalmente eu não ligo a mínima ao que vocês fizerem. Eu já tenho o bastante para me chatear. . . No seu próprio interesse acho que devem cair fora. São me­nos complicações e menos riscos. Não estou certo?

—  Acho que está certo, sim.

—  Caso vocês sejam apanhados, digam que saíram daqui cerca de meia hora atrás e que são amigos de Bartolozzi. É também tudo que eu sei...

— Está bem.

Sharpe voltou-se para não ver o quadro daqueles ho­mens mortos. Por um momento, Matlock pensou que o advogado ia abrir em pranto. Ele controlou-se, respirou fundo e tornou a falar.

—  Eu tenho valor, Sr. Matlock. Sou advogado expe­rimentado.  Diga-lhes isso.

—  Pode deixar.

—  Diga-lhes também que eu  preciso de proteção. Que eu mereço proteção.  Não se esqueça de lhes dizer isso tudo.  Agora saiam.

De repente, Sharpe atirou sua arma no chão com nojo. Depois começou a gritar com os olhos cheios de lágrimas.

—  Saiam! Saiam, pelo amor de Deus! Saiam!

 

Matlock e Holden concordaram em separar-se ime­diatamente. O professor de inglês largou o matemático no seu apartamento e seguiu para Fairfield. Queria en­contrar um motel na estrada bem distante de Windsor Shoals para ficar mais tranqüilo e queria também estar bastante perto de Hartford para poder ir ver Blackstone às duas horas da tarde.

Estava por demais exausto e apavorado para poder pensar. Encontrou um motel de terceira classe perto de Stratford e o atendente ficou espantado quando o viu so­zinho.

Enquanto enchia o livro do registro ele começou a resmungar queixando-se de sua mulher ciumenta e afinal uma gorjeta de dez dólares conseguiu convencer o ho­mem a registrar a sua entrada às duas horas da madru­gada, sozinho. Pensou que se dormisse umas cinco horas as coisas ficariam mais claras.

Dormiu cinco horas e vinte minutos mas nada tinha mudado. Muito pouco tinha ficado esclarecido. Até que o massacre de Windsor Shoais agora lhe parecia ainda mais extraordinário do que antes. Seria possível que o tinham querido ver entre as vítimas? Ou estariam os as­sassinos esperando lá fora até ele sair para só então co­meçarem as execuções?

Teria sido um engano ou um aviso?

A uma e quinze ele estava na estrada Merritt. À uma trinta tinha entrado na Berlin Turnpike e tinha tomado as estradas secundárias para entrar em Hartford e chegou no escritório de Blackstone quando eram duas e cinco.

Michael Blackstone inclinou-se logo sobre a mesa e olhou de frente para Matlock. — Olhe aqui, nós pergun­tamos o mínimo possível, mas não pense com isso que nossos clientes p.odem fazer o que quiserem!

— Quer me parecer que você gosta do processo ao contrário.

— Pois então pegue o seu dinheiro e vá procurar outro.  Nós nos arranjaremos.

— Espere um pouco! Vocês foram pagos para prote­gerem uma moça e nada mais! E para isso eu estou pa­gando trezentos dólares por dia! Tudo mais é marginal e também vou ter que pagar.

—  Não há extra nenhum e nem sei do que você está falando.  — De repente, Blackstone fincou os cotovelos na mesa e inclinou-se para a frente falando com voz rouca. — Deus do céu!  Matlock.   Dois homens.   Dois homens naquela maldita lista que lhe dei foram trucidados na noite passada! Se você é um maníaco eu nada mais quero con­sigo. Isso não faz parte do trato. Não quero saber quem é seu pai nem quanto dinheiro ele tem!

—  Agora sou  eu  que  não sabe do  que você está falando. Só sei o que li nos jornais.  Passei a noite num motel de Fairfield. Entrei lá às duas horas da madrugada. Pelo que dizem os jornais a matança foi por volta das cinco.

Blackstone levantou-se e olhou desconfiado para Mat­lock.   — E você pode provar isso?

—   Quer o  número e o nome  do  motel?  Dê-me a lista telefônica que eu já lhe digo.

—  Não!. . . Não. Eu não quero saber de nada. Você estava em Fairfield?

—  Onde está a lista do telefone?

—  Está bem, está bem. Deixa pra lá. Acho que você está  mentindo  e  que  conseguiu  uma  cobertura.    Como disse, nós só estamos sendo pagos para proteger a moça.

—  Há qualquer mudança desde a tarde de dominao? Esta tudo bem?

Blackstone parecia preocupado. — Sim... Sim, está tudo bem. Já tenho o seu Tel-eletronic. Está funcionando. Vai custar mais vinte dólares por dia.

—  Está bem. Preço de atacado. . .

—  Nós nunca dissemos que era barato.

—  Nem podia.

Blackstone ainda de pé falou no telefone interno man­dando trazer o aparelho de Matlock.

Logo depois uma moça muito bonita entrou trazendo um aparelho de metal do tamanho de um maço de ci­garros e colocou-o na mesa com um cartão ao lado. Saiu da mesma maneira que entrara.

—  Aqui está ele. Seu código é “Charger Três zero”. Quer dizer área de Carlyle, um grupo de três homens. O telefone que você deve chamar é cinco, cinco, cinco, seis, oito, seis, oito. Temos sempre números fáceis de guardar. O aparelho funciona com “bips” curtos. Você pode des­ligá-lo apertando este botão aqui. Quando ouvir o sinal você deve chamar o telefone. Ali haverá uma registradora que lhe transmitirá os recados do grupo. Muitas vezes é para chamar um outro número para entrar em contato di­reto. Compreendeu bem? É tudo muito simples.

Matlock tomou a caixinha de metal e guardou-a. — Compreendo sim. O que me confunde é porque você sim­plesmente não manda os homens telefonarem para aqui e você então entra em contato comigo. Não seria mais fácil?

—  Não, não. Poderia haver enganos. Temos muitos clientes e queremos que todos mantenham contato com os homens que estão pagando. Além disso também res­peitamos os segredos de nossos clientes. Por falar nisso, você pode entrar em contato com os homens da mesma maneira. Cada um deles tem um aparelho. Telefone e o recado ficará registrado.

—  Muito bem imaginado.

—  Somos profissionais. — Pela primeira vez, desde que Matlock entrara, Blackstone recostou-se na poltrona. — Agora eu vou lhe dizer uma coisa, e se você quiser considerar como ameaça não deixará de ter razão. Tam­bém poderá dispensar nossos serviços se quiser. . .  Sa­bemos que está sendo muito procurado por agentes fede­rais.  Não há acusações  nem  ordem  de  prisão contra você. Você goza de certos direitos aos quais os federais costumam não dar muita atenção. É uma das razões por­que existimos. No entanto, mais uma vez, quero que saiba de uma coisa. Se a sua condição mudar e se houver uma ordem de prisão ou acusação contra você, nossos serviços estarão imediatamente terminados, e nós não hesitaremos em colaborar com as autoridades para a sua captura. As informações que tivermos serão para o seu advogado.  Capiche ?

— Claro que sim.  Acho justo.

— Nós somos mais do que justos.  É por isso que vou lhe pedir um pagamento adiantado de dez dias. Se houver saldo ele será devolvido. . . Se houver mudança na situação e se os federais tiverem ordem de prisão contra você, nós lhe daremos um recado, um só, só com estas palavras: “Charger três zero está cancelado.”

Quando saiu para a rua, Matlock teve a sensação que não desistiria até terminar sua missão. Pensou que as pessoas estavam olhando para ele. Começou a olhar para trás imaginando estar sendo seguido. Mas não havia ninguém.

Pelo menos ninguém que ele pudesse descobrir.

Agora tinha que ir buscar o papel em seu aparta­mento. E pelo que dizia Blackstone, não poderia ir em pessoa. Seu apartamento estaria sendo vigiado pelos dois campos. Pelos caçadores e pela caça.

Teria que usar um dos homens de Blakstone. Iria experimentar para ver se funcionava. Mas primeiro pre­cisava fazer uma chamada. Uma chamada que esclare­ceria a situação. Iria telefonar para Samuel Sharpe, ad­vogado, em Windsor Shoals.

Matlock estava decidido a mostrar a Sharpe um lado mais compreensivo de sua recém-adquirida personalidade. O próprio Sharpe tinha-se descontrolado um pouco. Matlock achava que tinha chegado a hora de mostrar que até mesmo homens como ele sabiam ter compaixão.

Entrou no Americana Hotel  e fez a chamada. Atendeu a secretária de Sharpe.

— O senhor está em algum lugar para onde o Sr. Sharpe possa ligar?

— Não.   Estou  numa  cabine e também  estou  com muita pressa.

Houve um silêncio. — O senhor pode me dar o número de onde está chamando? O Sr. Sharpe ligará dentro de cinco minutos.

Matlock deu o número e desligou.

Sentou-se no banquinho de plástico e começou a lembrar de uma outra cabine e de um outro banquinho de plástico. E de um carro preto disparado passando na frente do homem encolhido no banco com uma bala na testa.

A campainha tocou e Matlock atendeu.

—  Matlock ?

—  Sharpe ?

—  Você  não  devia  me telefonar  para  o  escritório. Você devia saber disso. Eu tive que descer para usar um telefone público,

—  Não pensei que um respeitável advogado corresse qualquer risco com seu telefone. Desculpe.

Houve uma pausa do outro lado. Claro que Sharpe nunca podia ter esperado por desculpas. — Eu sou ho­mem muito cauteloso. Já lhe disse isso. O que é que há?

—  Só queria saber como você está.   Como correu tudo. Foi terrível a noite passada. . .

—  Ainda não tive tempo para uma reação.  Tenho muito que fazer. Polícia, enterros, repórteres. . .

—  E o que está alegando? Como está se saindo?

—  Não haverá nada sério. Sou uma vítima inocente. Frank também foi, só que está morto,  Vou sentir falta dele. Era um cara legal. Terei que fechar a parte de cima, naturalmente. A polícia do Estado já foi paga. Creio que foram vocês. Vai ser o que os jornais estão dizendo. Uns mafiosos   italianos   assassinados   num   tranqüilo   restau­rante. . .

—  Você é um cara bem calmo. . .

—  Eu já lhe disse que sou cauteloso. Estou sempre preparado para contingências.

—  Quem foi o autor ?

Sharpe não respondeu. Não disse nada.

—  Estou perguntando.  Quem acha que foi?

—  Espero que vocês descubram primeiro que eu. . . O  Bartolozzi  tinha  inimigos  e  o  Rocco  também,  creio eu. . . Mas por que o Frank? Pode me dizer?

— Eu não sei. Ainda não falei com ninguém.

— Descubra para mim, sim? Acho que não foi justo.

— Vou tentar. Prometo. . . E olhe aqui Sammy, ligue para Cantor e Stockton, não esqueça, hein?

— Pode deixar.  Já tomei nota para esta tarde.  Já lhe disse que sou homem metódico.

— Muito  obrigado.   Meus  sentimentos  pelo  Frank. Ele parecia um cara legal.

— Ele era um príncipe,

— Eu sei que era. . .  Eu falo depois, Sammy.  Não me esqueci do que lhe prometi. Você realmente me im­pressionou. . .

Tinha acabado o tempo e a ligação foi interrompida. Aliás, Matlock não tinha mais nada para dizer. Já sabia o que queria. Precisava do papel logo. O horror do mas­sacre não fizera Sharpe esquecer a promessa dos telefo­nemas. Matlock achava aquilo um milagre. O homem era realmente cauteloso e  não entrara em  pânico.   Era de gelo.

Estava abafado ali dentro da cabine cheia de fu­maça. Abriu a porta e saiu rapidamente atravessando o saguão do hotel em direção à porta de saída.

Foi até a esquina procurando um bom restaurante. Algum onde pudesse almoçar enquanto esperava a cha­mada de volta do “Charger três-zero” . Blackstone dissera que tinha de dar um número e o melhor seria um restau­rante .

Viu a placa e entrou. A Casa da Lagosta. Um lugar freqüentado por homens de negócios.

Procurou uma cabine em lugar de mesa. Eram quase três horas e havia pouca gente. Sentou-se e pediu à garçonete um uísque com gelo perguntando onde ficava o telefone. Ia levantar-se para chamar o 555-6868 quando ouviu o som abafado e terrível do aparelho no seu bolso. Logo de saída ficou paralisado. Era como se parte de sua pessoa, algum órgão histérico talvez, tivesse enlou­quecido e estivesse pedindo socorro. Sua mão tremia ao enfiar no bolso onde estava o aparelho. Encontrou o bo­tão que abertou com toda a força. Olhou em torno para ver se tinha chamado a atenção de alguém.

Não   tinha. Ninguém   olhava   para   ele.  Ninguém ouvira.                                                                    

Levantou-se e correu ao telefone. Só pensava em Pat. Em alguma coisa que pudesse ter acontecido, grave bastante para fazer funcionar aquela terrível máquina insidiosa que o deixara em pânico.

Fechou a porta da cabine e discou 555-6868.

A voz tinha a qualidade remota de uma gravação de fita. — Charger três zero falando. Favor telefonar cinco, cinco, cinco, um, nove, cinco, um. Não precisa assustar-se. Não há emergência, senhor. Estaremos nesse número durante a próxima hora. Repito o número é cinco, cinco, cinco, um, nove, cinco, um. Desligo.

Matlock percebeu que o pessoal não queria alarmá-lo talvez por ser sua primeira experiência com o apare­lho. Sentia que mesmo no caso da cidade de Carlyle ter sido destruída por uma bomba atômica, o Charger três zero sempre teria aquela qualidade paliativa. Uma outra razão era que as pessoas raciocinam melhor quando não estão apavoradas. Matlock viu que o negócio funcionava mesmo e já estava mais calmo. Meteu a mão no bolso ti­rando algumas moedas e tomou nota mentalmente para ter sempre trocado no bolso, no futuro. O telefone públi­co já era agora uma parte importante em sua vida.

—  É 555-1951 ?

Respondeu a mesma voz da gravação. — Sim, se­nhor.  É o senhor Matlock ?

—  Sou eu. A senhorita Ballantyne está bem ?

—  Está muito bem, senhor.  Tem um ótimo médico. Já sentou-se esta manhã.  Está muito melhor e o doutor está muito satisfeito... Perguntou muito pelo senhor.

—  O que estão lhe dizendo ?

—  A verdade.  Que fomos contratados para garan­ti-la.

—  Quero dizer, quanto aonde estou. . .

—  Só dissemos que o senhor  precisava  estar au­sente durante alguns dias. Acho que seria boa idéia se lhe telefonasse.  Ela já pode falar. Claro que nós verifi­caremos todos os chamados.

—  Naturalmente, Foi só por isso que me chamaram?

—  Foi em parte. A outra razão é Greenberg. Jason Greenberg está sempre à sua procura. Insiste em querer lhe falar.

—  E o que disse ele? Quem falou com ele?

—  Fui eu. Aliás, meu nome é Cliff.

—  Muito bem, Cliff, o que foi que ele disse?

—  Disse-me para telefonar para ele logo que falasse consigo.  Diz que é muito urgente.  Urgentíssimo. Tenho o número aqui. É em Wheeling. . .

—  Pode dizer. — Matlock anotou o número

—  Sr.  Matlock?. . .

—  Sim?

—  Greenberg também  me pediu  para lhe dizer... que “as cidades não estavam morrendo, já estavam mor­tas”.  Foram estas as suas palavras.   “As cidades estão mortas”.

 

Cliff concordou logo, sem comentários, em ir bus­car o papel corso no apartamento de Matlock. Depois combinariam um encontro pelo telefone. Se o papel não fosse encontrado ele seria avisado imediatamente.

Matlock tomou só um drinque, almoçou e saiu do restaurante às três e trinta. Já era hora para reagrupar suas forças e renovar sua munição. Tinha estacionado o Cadillac a algumas quadras de distância dos escritórios de Blackstone. Era um estacionamento municipal com parquímetros. Lembrou-se então que não tinha colocado as moedas adicionais desde que fora a Blackstone. O pagamento inicial era para uma hora e ele já tinha duas de estacionamento. Imaginou o que fariam as agências de aluguel de carros com as notificações de multas. Viu o Cadillac ao longe e caminhou na sua direção, mas de repente parou.

Entre os carros estacionados estava o da radiopatrulha de Hartford bem por trás do Cadillac. Um dos guar­das estava experimentando para abrir a porta enquanto o outro estava encostado falando pelo rádio.

Tinham   encontrado  o  carro.   Teve  medo   mas  não ficou surpreendido.

Foi saindo com cuidado, preparado para correr se fosse descoberto. Seu pensamento estava agora ocupado com aquela nova complicação que surgira. Então tinham descoberto que ele estava ali em Hartford. E ele não po­dia ficar sem carro. Os outros meios de transporte não serviam.  Teria que encontrar um outro carro.

Mas ainda assim ele não compreendia. Blackstone tinha deixado claro que não havia acusações contra ele. Se houvesse já lhe teriam avisado pelo aparelho.

Não tinha recebido aviso algum. Por um momento ele pensou em ir até lá e aceitar tranqüilamente o talão da multa por excesso de tempo de estacionamento.

Logo, porém, desistiu disso. Aquela polícia ali não estava tomando conta de parquimetros. Não conseguiu compreender o que estava havendo.

Voltou atrás andando rápido e entrou numa das ruas laterais. Viu que estava quase correndo e diminuiu o passo. Nada chama mais a atenção numa rua de movi­mento do que um homem correndo. Só se for mulher. Continuou a andar acompanhando o movimento da rua. Até mesmo parou diante de algumas vitrines. Começou então a pensar no que estava acontecendo com ele. Já começava a funcionar no seu cérebro o primitivo instinto do acusado. As suas antenas protetoras já estavam aler­tas procurando disfarçar como o camaleão indentifican-do-se com o meio.

Mas afinal ele não era o caçado! Ele era o caçador! Com todos os demônios, ele era o caçador!

—  Olá, Jim!  Como está você?  Que diabo está fa­zendo na cidade grande?

O choque de encontro fez Matlock perder o equilí­brio. E chegou mesmo a cair quando o outro o segurou pelo braço.

—  Ah! É você Jeff? Puxa vida, que susto você me pregou! Obrigado. Eu vinha tão distraído. . .

Matlock sacudiu a roupa e olhou em torno para ver quem mais além de Jeff Kramer, estava olhando para ele.

—  Foi algum almoço pesado, meu chapa ?

Kramer  deu  uma   risada.   Era  um  antigo  aluno  de Carlyle que depois de formar-se em psicologia tinha con­seguido um ótimo emprego com uma grande firma.

—  Nada disso.   Estava mesmo distraído.   Coisa de velho mestre.

E então Matlock olhou bem para Jeff Kramer que tresandava a prosperidade por todos os poros. Achou que devia insistir no seu ponto de sobriedade.   — Aliás eu nem acabei de beber o meu primeiro uísque.

—   Então vamos já retificar isto   Já fazem meses que não vejo você    Li no jornal sobre o assalto à sua casa. Olhe, ali está a Hogshead Tavern. Vamos até lá.

—  Puxa  vida!  Você  nem  pode  imaginar    Ainda  o roubo eu poderia compreender, mas você nem  imagina o que fizeram com o apartamento! E o carro então! Foi por isso que vim à cidade   Trouxe o carro para uma garage aqui e estou com um problema.

O caçado não somente tinha antenas que serviam para alertá-lo contra seus inimigos, mas também uma es­tranha vantagem de transformar as desvantagens em vantagens. Um possível passivo num ativo positivo.

Matlock ia bebericando o seu uísque com água en­quanto Kramer virava o seu em goles grandes — ima­gine só eu ter que voltar de ônibus. . .

—  Mas alugue um carro, ora essa!

—  Já tentei em dois lugares.   Não consegui em ne­nhum   Acho que é por causa de uma convenção ou coisa parecida.

—  Então espere até a noite.

—  Não  posso.    Negócio- de família.   Meu  pai  con­vocou o conselho de assessoria econômica. Para jantar. Você pode imaginar eu indo lá sem minhas rodas? Nunca na vida!

Matlock deu uma risada e pediu mais uma rodada. Meteu a mão no bolso e tirou uma nota de cinqüenta, que colocou em cima do bar. Aquela nota devia chamar a atenção de Kramer com toda a sua prosperidade.

—  Nunca  imaginei  que você conseguisse estar em dia com o seu saldo no banco e muito menos que fosse assessor econômico.

—  Sim,   mas   não  esqueça  que  eu  sou  o  príncipe herdeiro. . .

—  Você é um sacana de sorte, e disso eu não posso esquecer mesmo.

—  Puxa! Tive uma idéia! Você está com seu carro?

—  Ora  essa!   Espere aí  meu  camaradinha. . .

—  Nada disso.   Escute  aqui.   —  Matlock tirou  do bolso a bolada   — O velho vai pagar. Você me aluga o seu carro. Por quatro ou cinco dias. . . Olhe aqui, eu lhe pago duzentos. . . trezentos. . .

—  Você está louco!

— Não, não estou.  Ele me quer lá e então tem que pagar.

Matlock sentia que o outro estava fazendo cálculos. Estava imaginando que poderia alugar um carro por muito menos e ganhar a diferença. Poderia ganhar uns duzen­tos por uma semana. . . Afinal Kramer tinha mulher e fi­lhos, todos gastando do bom e do melhor.

— Mas eu não quero abusar de você. . .

—  De mim nada.  É dele que você vai abusar.

—  Bem. . .

— Espere aí, vou escrever um documento. — Apa­nhou o guardanapo de papel e começou a escrever do lado em branco — Um simples contrato. . . “Eu, Jamer, B. Matlock, concordo em pagar a Jeffrey Kramer. . . qua­trocentos dólares pelo aluguel de seu. . .” qual é a mar­ca? Afinal é a erva do velho!

—  É  uma caminhonete  Ford,   branca,  do  ano  pas­sado. . .

Kramer não tirava os olhos do bolo de dinheiro ali em cima do balcão e do que Matlock escrevia.

—  Vamos dizer uma semana, O.K. ?

—  Ótimo. — E Kramer virou o resto do copo.

—  Uma semana. Assinado James B. Matlock. Pron­to, aí tem você.   Pode assinar também.   Aqui  estão os quatrocentos.   Cortesia do velho Jnnathan Munro.   Onde está o carro ?

Matlock estava pensando como eram infalíveis os instintos do caçado, enquanto Warner guardava o dinheiro e enxugava o rosto que começava a suar, tirando do bolso as chaves do carro com o talão do estacionamento. Como Matlock já esperava, ele estava aflito para ir em­bora com os quatrocentos no bolso.

Matlock disse que telefonaria em menos de uma se­mana para devolver o carro. Kramer insistiu para pagar a conta e logo saiu rapidamente. Matlock ficou só, bebeu o resto com calma e ficou pensando no que tinha que fazer.

Agora já o caçado e o caçador eram uma só pessoa.

 

Ele saiu pela rodovia 72 em direção a Mount Holly na caminhonete branca de Kramer. Sabia que dentro de uma hora iria encontrar uma outra cabine de telefone de onde iria fazer outra chamada. Iria falar com um certo Howard Stockton, dono do Clube de Campo Carmount. Olhou para o relógio. Quase oito e trinta. Samuel Sharpe já devia ter telefonado para Stockton algumas horas antes.

Ficou imaginando como teria reagido Stockton. Fi­cou imaginando como seria Howard Stockton.

Os faróis do carro iluminaram a tabuleta que havia na margem da estrada.

 

MOUNT HOLLY INCORPORATED 1896

 

E logo adiante uma segunda.

 

MOUNT HOLLY ROTARY

REPOUSO HARPER

TERÇA-FEIRA À TARDE

DOIS QUILÔMETROS

 

E por que não? Não tinha nada a perder. Só po­deria ganhar.  Ou até mesmo aprender.

O caçador.

Os letreiros em neon e a frente pintada de branco diziam tudo que havia para dizer sobre a cozinha de Harper. Matlock estacionou junto a um caminhão, saiu e fechou o carro. No banco de trás estava a mala nova com a roupa toda também nova. Tinha gasto algumas centenas   de   dólares   em   Hartford.   Não   queria   correr riscos.

Atravessou a entrada mal cuidada e entrou no bar do restaurante.

Pagou a sua bebida com uma nota de vinte. — Estou a caminho de Carmount. Será que você poderia me dizer onde diabo fica isso ?

—  Uns três quilômetros na primeira saída à direita. O senhor não tem nada menor de vinte? Eu só tenho duas de cinco e duas de um.  Preciso das de um. . .

—  Dê-me as duas de cinco e vamos jogar o resto. Cara você fica com tudo, coroa eu bebo mais um e você guarda o resto.

Matlock tirou a moeda do bolso, jogou-a para o ar em cima do balcão de fórmica e cobriu-a com a mão. Olhou por baixo da mão e apanhou a moeda sem que o homem do bar a visse. — Você está de azar. Deve-me outro drinque.  Os dez são seus.

A conversa não passou despercebida dos outros fre­gueses, três homens que bebiam cerveja. Matlock gostou que tivessem ouvido e olhou em torno procurando o telefone.

—  O banheiro é lá atrás, — disse um deles.

—  Obrigado. Tem telefone aqui ?

—  É lá mesmo ao lado, dobrando à esquerda.

—  Muito obrigado outra vez.

Matlock tirou do bolso um pedaço de papel onde tinha escrito: Howard Stockton, Carmount, C. C, 203 - 421 - 1100 e fez um sinal para o homem do bar que veio correndo. — Olhe aqui. Tenho que telefonar para este cara, mas acho que, peguei o nome errado. Não tenho a certeza se é Astackton ou Stockton.   Será que você conhece ele ?

O homem olhou para o papel e Matlock viu logo que ele sabia quem era.  — Claro.   Está certo.   É Stockton mesmo. Ele é o vice-presidente do Rotary   Antes foi pre­sidente. Não é mesmo rapazes ?

—  Certo. Stockton.  Um cara legal.

Um deles fez questão de dar mais detalhes — É o dono do clube.  Lugar bacana.

—  Clube? — Matlock fez a pergunta com um traço de ironia.

—  Isso  mesmo.   Piscina,  golfe,  dança  nos fins  de semana.   Lugar bacana  mesmo.

—  Pelo menos eu tenho as melhores referências. . . Desse Stockton, quero dizer.  O telefone é lá nos fundos, hein ?

— Sim senhor. Ali mesmo.

Matlock tirou uma moeda do bolso e seguiu pelo corredor. Logo que dobrou no canto ele parou e encos­tou-se na parede.  Queria ouvir o que o pessoal ia falar.

— Mão aberta,  hein ?

—  Todos eles são.   Pois eu não contei para vocês? Meu garoto foi carregar a saca do golfe para um cara na  semana  passada.   Um  deles  acertou   no  buraco   na primeira tacada e deu a ele uma nota de cinqüenta.    Sim senhores! De cinqüenta dólares!

—  A minha patroa diz que aquelas mulheres baca­nas de lá são todas putas.   Putas mesmo.   Minha patroa ajuda lá nas festas. . . tudo putas. . .  

—  Puxa vida! Que bacana se eu pegasse uma delas, hein?  Ia ser um  barato!  Posso  apostar que  nem  usam calcinhas!

—  Tudo putas. . .

—  E quem  está ligando? Aquele Stockton  é  tegal. É legal mesmo pelo que sei. Sabem o que ele fez? Com o King? O Artie King caiu morto quando cuidava do gra­mado. Coração. Pois o velho Stockton deu uma boa gra­na para a família e mandou abrir uma conta para eles no supermercado.   Ele é legal mesmo.

—  São putas mesmo. . .  Trepam por dinheiro. . .  

—  Não  se  esqueça  que o  Stockton  pagou   para  a construção da extensão na escola primária.   Não esque­ça isso. Você tem razão.  Ele é um sacana legal. Tenho meus dois filhos naquela escola. . .

—  E tem mais ainda, sabem? Deu um dinheirão para a festa do Dia das Mães.

— São todas putas mesmo. .Putas de verdade. . . putas. . .

Matlock alcançou a cabine sem fazer barulho e fe­chou a porta. Os homens no bar continuavam com os elo­gios rasgados a Howard Stockton, dono do Clube de Campo de Carmount. Ele já não se preocupava com o que os caras falavam lá.

Estava preocupado com ele mesmo. Se o caçado tinha instinto para se proteger, o caçador também tinha para agredir. Compreendia agora a necessidade de se­guir a trilha. O caçador contava com instrumentos abs­tratos para completar suas armas. Instrumentos que po­deriam construir uma armadilha onde a caça viesse cair.

Começou a enumerá-los de cabeça.

Howard Stockton: antigo presidente e atual vice-presidente do Mount Holly Rotary, homem caridoso e bom. Homem que cuidava da família de um empregado morto chamado Artie King: que financiava a construção de escolas. Proprietário de um clube de luxo onde os homens davam gorjetas de cinqüenta dólares aos garo­tos do golfe e onde havia garotas para os sócios. Tam­bém um cidadão legal que contribuía para o Dia das Mães.

Aquilo chegava para começo de conversa. Era o bastante para sacudir Howard Stockton se tal fosse pre­ciso, como tinha dito Sharpe. Stockton já não era um in­divíduo sem forma de minutos antes. Ainda não conhecia a cara do homem mas já sabia de outros aspecfos que o definiam bem. Howard Stockton já era alguém em Mount Holly.                             

Matlock enfiou a moeda e discou o número do Clube de Campo de Carmount.      

 

Howard Stockton veio recebê-lo nos degraus de már­more do Clube de Campo de Carmount — Mas que pra­zer, Sr. Matlock! Pode deixar que o rapaz leva o seu carro.

O preto encarregado do estacionamento veio logo correndo e rindo e Stockton atirou-lhe um meio dólar que ele apanhou no ar com os dentes arreganhados.

—  Muito obrigado, patrão.

—  A gente trata eles bem e eles tratam a gente bem. Não é assim, garoto? Não acha que eu trato vocês bem?

—  Bem mesmo, senhor Howard!

Matlock chegou a pensar que estava assistindo a um daqueles horrendos comerciais da TV quando percebeu que Howard Stockton era de verdade, em carne e osso. Até o cabelo louro já grisalho, o rosto queimado de sol que fazia sobressair o bigode branco e os olhos muito azuis empapuçados de um homem que sabe levar a vida.

—  Seja  bem-vindo  a  Carmount,   Sr.   Matlock.   Isto aqui não é Richmond, mas também não é o fim do mundo.

—   Muito obrigado.  Meu nome é Jim.

—  Jim, hein? Pois gosto deste nome.   É um  nome que soa bem.   Meus amigos chamam-me Howard.   Cha­me-me aesim também.

O que ele conseguia ver do clube fazia Matlock lem­brar-se da arquitetura de antes da guerra. E por que não sendo o dono aquele ali? Ali estavam as palmeiras em vasos, os delicados candelabros e o papel de parede azul claro mostrando cenas com figurinhas de cabeleiras empoadas. Howard Stockton gostava da vida como ela era antes de 1865 e não queria convencer-se que aquilo já tinha acabado Até mesmo os empregados, a maioria pretos, vestiam libres com calções curtos! Dos amplos salões de jantar lá ao fundo vinha a música suave de uma orquestra de cordas com uns oito instrumentos, música que, desde muito, não se ouvia mais. No centro do sa­guão principal havia uma escada em caracol que teria feito honra a Jefferson Davis ou a qualquer produtor de cinema. Mulheres lindas andavam por ali com homens que não eram assim tão lindos.

Matlock ia pensando como aquilo era incrível en­quanto caminhava ao lado do dono da casa em direção ao que ele modestamente chamava de sua biblioteca particular.

Ele fechou a porta grossa, caminhou para um bem provido bar de mogno trabalhado e foi logo servindo sem perguntar a preferência.

—  O  Sam  Sharpe já  me disse do  que você  gosta. Tem bom gosto, sabe? É o que eu bebo também.   Aqui sstão os dois copos.  Escola o seu.  Nós aqui na Virgínia temos que desarmar o pessoal do norte com a completa falta de preconceitos dos dias de hoje.

Matlock agradeceu e sentou-se na poltrona que Sto­ckton   lhe   indicava,   e   este   sentou-se   na   outra   à   sua, frente.

—  Eu agora vou agir como se não fosse da Virgínia e vou direto ao ponto, o que não é um  hábito comum aqui no sul. . .  Nem mesmo sei se é prudente para você estar aqui no meu clube. Quero ser sincero. Foi por isso que trouxe você direto para aqui. . .

—  Mas eu não compreendo. . . Por que não me disse para não vir quando telefonei? Conte-me o que há.

—  Talvez   você   possa   contar   melhor   que   eu.    O Sammy diz que você é dos grandes.  Que você é aquilo a que eles chamam de. . .  internacional.   Para mim está muito bem.   Gosto de ver a moçada subir. Gosto mes­mo. . . Mas eu pago minhas contas. Pago direitinho todos os  meses.   Tenho a melhor organização da área e não quero encrencas.

—  E não vai ter encrencas comigo.   Eu sou apenas um fatigado homem de negócios que está dando umas voltas.   É só o que eu sou.

—  Mas o que foi que aconteceu lá no Sharpe? Os jornais estão fazendo um carnaval. Não quero nada disso aqui!

Matlock ficou olhando o homem que tinha ali na sua frente. As veias capilares de seu rosto queimado pelo sol estavam vermelhas de sangue e era talvez por isso que ele se queimava ao sol o ano inteiro. Aquilo servia para  disfarçar  muitas  marcas  no  rosto.

—  Eu creio que você não está me compreendendo. — Matlock media bem as palavras ao mesmo tempo que ia bebendo aos goles. — Eu venho de muito longe porque preciso estar aqui. Eu não quero estar aqui. Razões pes­soais trouxeram-me cedo demais aqui para a área e en­tão eu estou dando umas voltas como se fosse turista. Mas é só isso. Estou só olhando as coisas. . . Até a hora do encontro.

—  Que encontro ?

—  Um encontro em Carlyle. . .

Stockton apertou os olhos e cofiou os bigodes bran­cos    — Você tem que estar em Carlyle?

—   Isso   mesmo.   Sei   que   é   confidencial,   mas   não preciso lhe dizer isso,  não é?

—  Você não me disse nada.

Stockton continuava a observar Matlock e ele sabia que o outro esperava apenas um deslize, uma palavra er­rada, uma simples hesitação que contradissesse a sua informação.

—  Muito bem. . . Será que você também, por acaso, tem um encontro em Carlyle? Dentro de uns dez dias?

Stockton continuava a beber estalando os beiços e colocando o copo no canto da mesa como se ele fosse algum precioso objeto de arte. — Eu sou apenas um pobre coitado tentando ganhar dinheiro. É só isso. Não sei de nenhum encontro em Carlyle.

—  Desculpe se falei nisso.  Foi. . .  um grande enga­no de minha parte    Para o bem de nós dois espero que você não fale mais nisso.   E eu também não.

—  Eu nunca faria isso.  Pelo que sei você é apenas um amigo de Sammy que procura divertir-se. . . que quer ser bem recebido.

De repente, Stockton inclinou-se para a frente com os cotovelos nos joelhos e as mãos cruzadas. Parecia um sincero padre examinando os pecados de um paroquiano. — Mas que diabo foi que aconteceu em Windsor Shoals? Que diabo foi aquilo?

—  Até onde posso ver. deve ter sido uma vendetta local.   Bartolozzi  tinha  inimigos.   Alguns diziam que ele era um linguarudo. O Aiello também, creio eu. Gostavam de exibição. . .   O  Frank deu azar de estar lá,  eu acho.

—  Carcamanos   sacanas!   Estragam   tudo!   Naquele nivel, naturalmente   Você sabe o que quero dizer, não é?

E ali estava outra vez a interrogação. Só que na­quela versão sulina já não era realmente uma interrogação. Era mais uma afirmativa.

—  Eu sei o que você quer dizer. . . — Matlock falava com ar muito desanimado.

—  Acho que tenho más noticias para você, Jim. Sus­pendi as mesas só por uns dias. Estou mesmo apavorado com o que aconteceu lá.

—   Isso  para  mim   não  é  má  notícia    Tenho  dado muito azar ultimamente.

— Foi o que ouvi. O Sammy me contou. Mas eu tenho uns outros divertimentos para você Não vai fazer mau juízo da hospitalidade de Carmount. Posso lhe ga­rantir.

Os dois acabaram de beber e Stockton acompanhou seu convidado ao elegante salão de |antar de Carmount já bem cheio A comida era extraordinária e servida da acordo com as mais refinadas tradições do Sul de antes da Guerra.

Embora estivesse muito bom e até mesmo servisse para relaxar os nervos, aquele jantar nada significava para Matlock. Howard Stockton não entrava em deta­lhes quanto às suas atividades e só dizia que seus fregue­ses eram a nata dos ianques. Falava cheio de anacronismos. Era uma contradição viva do tempo. Iam no meio da refeição quando ele desculpou-se e levantou-se para despedir-se de um freguês  importante que saia.

Era a primeira oportunidade que Matlock tinha para observar bem a clientela de Stockton, a nata dos ianques.

O termo estaria bem aplicado se nata significasse dinheiro, e ele sabia que não significava. O dinheiro era um berro estridente em todas as mesas. O prtmeiro sinal era o queimado de sol da maioria no começo de maio em Connecticut. Era gente que podia ficar deitada ao sol o dia inteiro. Um outro eram as risadas de papo que se ouviam em toda a sala e as jóias cintilantes. As roupas elegantes, seda pura, gravatas de Dior. . . As garrafas das melhores safras brilhando majestosamente em seus ber­ços de prata em cima de tripeças de cerejeiras.

Mas Matlock sentia que havia algo errado em tudo aquilo. Alguma coisa que não combinava. . . E de repen­te descobriu.

Os bronzeados, as gargalhadas, as jóias, as roupas. as gravatas Dior, o dinheiro, a elegância. . . tudo tinha uma   auréola   predominantemente   masculina.

A contradição estava nas mulheres. . . nas garotas. Muito poucas combinavam com seus companheiros mas nao a maioria. Eram todas jovens. Jovens demais mesmo. E eram diferentes.

De  princípio  ele  não  conseguia  descobrir  onde  es­tava a diferença.   Depois foi descobrindo abstratamente Na sua maior parte as moças tinham aquele olhar e aquela aparência  que ele conhecia  muito  bem.   Já conhecia desde muito   Era a aparência das moças do campus, mui­to diferente da aparência das secretárias ou das moças que trabalhavam em escritórios.  Havia nelas uma expres­são  nos  olhos,   uma  atitude  muito  mais  descuidada  na conversação.  Eram moças que ainda não estavam escra­vizadas às rotinas dos arquivos ou das máquinas de es­crever.   Via-se que era real.   Matlock vinha conhecendo aquilo desde muito, desde mais de dez anos.  Não podia se enganar.

Depois verificou que dentro daquela contradição ha­via uma outra discrepância bem menor. Eram as roupas das moças. Não eram as roupas que usavam as moças do campus. Eram por demais finas e caprichadas. Nessa era do unisex eram simplesmente por demais femininas. Algumas vestiam costumes!

De repente,   só  numa frase   histericamente   gritada numa mesa ao longe, ele viu que estava certo.

Viu  que  conhecia  aquela  expressão e  aquela  voz. Por Deus que conhecia aquela voz!

Ficou pensando se seria de propósito. Levou a mão ao  rosto e voltou-se devagar para a dona da risada.  Ela ria e bebia champanha enquanto seu companheiro, um homem bem mais velho, tinha os olhos arregalados para seus enormes seios.

A moça era Virgínia Beeson. Era a mulher de Archer Beeson, o instrutor de História da Universidade de Carlyle.

O homem  academicamente apressado.

 

Matlock deu uma gorjeta ao crioulo que lhe levou a mala pela escada de caracol  até o quarto magnífico que Stockton tinha  reservado para  ele.   O chão estava coberto por um grosso tapete de vinho e a cama era de dossel.   As  paredes brancas tinham  molduras caneladas. Viu que em cima da mesa estavam duas garrafas de Jack Daniel’s e alguns copos.  Abriu a mala, apanhou suas  coisas  e colocou-as  na  mesa  de  cabeceira.   De­pois tirou a roupa que colocou no armário.  Voltou, tirou a mala de cima da cama e colocou-a em cima da cadeira.

Bateram discretamente na porta. Pensou que fosse Stockton,  mas logo viu  que não era.

Uma moça, com um provocador vestido longo vermelho-escuro, estava sorrindo para ele ali da porta. Não parecia  ter ainda vinte anos  e  era  terrivelmente  linda.

Mas o sorriso era falso.

—  Sim?

—  Cumprimentos do Sr.   Stockton.   — Ia entrando no quarto ao mesmo tempo que falava.

Matlock fechou a porta e ficou olhando espantado para a  moça,  como se não compreendesse.

—  É   muita   bondade   do   Sr.   Stockton,   não   acha?

—  Estou satisfeita que me aprove.  Ali em cima da mesa há uísque,  gelo e água.   Gostaria de beber algu­ma coisa a não ser que você esteja com pressa.

Matlock foi  até a mesa.   — Não tenho  pressa  ne nhuma.   O que prefere?

— Qualquer coisa. O que houver com muito gelo. por favor.

Matlock preparou a bebida que levou para ela. — Não quer sentar-se?

—  Na cama?

A outra cadeira, além da que estava com a mala, ficava  lá do  outro  lado  do  quarto,   embaixo da  janela.

— Desculpe. — Retirou a mala e a moça sentou-se. Não havia dúvida que Howard Stockton tinha bom gosto. A garota era um amor.   — Qual é o seu nome?

— Jeannie.

Ela bebeu logo em largos tragos. E bebia bem. Foi então que ele   reparou num anel em seu terceiro dedo.

Conhecia bem aquele anel. Era vendido na livraria do campus, perto do apartamento de John Holden. Era o anel  da Universidade de Madison.

—  E o que pensaria você se eu  lhe dissesse que não estou  interessado?

E Matlock encostou-se num dos grossos e anacrônicos postes do dossel.

—   Ficaria   bem   espantada.  Você   não   me   parece bicha.

—  E não sou mesmo.

A moça ficou olhando para ele. Seus olhos de um azul-pálido tinham um calor puramente profissional. Sem sentimento   algum.   Tinha   os   lábios   jovens,   cheios   e carnudos

—  Quem  sabe se  precisa  ser  encorajado?

—  E você sabe fazer isso?

—  E sou muito boa, sabe? — Falava com uma tran­qüila  arrogância.

Era tão jovem, pensou Matlock, mas assim mesmo, mostrava ter idade. E ódio. O ódio estava escondido mas a maquilagem era inadequada. Estava representan­do. As roupas, os olhos, os lábios. Devia detestar o que fazia,  mas simplesmente aceitava.

Profissionalmente.

—  E se eu quiser apenas conversar?

—  Conversar  já  é coisa  diferente.   Não  há  regras que proíbam.  Tenho direitos iguais nesse departamento. Quid pro, senhor sem-nome.

—  Você tem  a palavra fácil.   Será  que  isso  devia me dizer alguma coisa?

—  Não sei  por que.

—  Quid pro quo não é a linguagem que se espera aqui.

—  E  isto aqui, caso não tenha compreendido,  não é a Avenida de las Putas, tampouco.

—  Tennessee Williams?

—  Quem sabe?

—  Acho que você sabe.

— Muito bem. Magnífico. Podemos discutir Proust na cama. Quero dizer que é isso que você espera de mim, não é?

—  Talvez pudéssemos apenas conversar, hein? 

A  moça assustou-se  e  perguntou  com  voz   rouca.

—  Você é da polícia?

— Eu sou inteiramente diferente de um tira. Pode­ria até mesmo dizer que os mais importantes policiais desta área gostariam de me encontrar, embora eu não seja um criminoso...  Nem maluco, aliás.

—  Agora já não  me  interesso  mais.   Quer me dar outra dose?

—  Claro.   É um prazer.

Nenhum dos dois falou até ele voltar com o copo.

—  Será que você se importa de eu ficar por aqui um pouco? O tempo suficiente para parecer que demos uma trepada.

—  Você  quer  dizer  que  não   quer  perder  o  paga­mento.

—  São cinqüenta dólares.

—  E depois você vai ter que usar uma parte disso para subornar a vigia do dormitório.  A  Universidade de Madison é um pouco quadrada    Algumas casas  mistas ainda  fazem  uma  inspeção  num  dia da  semana    Você vai chegar atrasada.

O susto no rosto da moça foi completo. — Você é um tira. Um tira muito sem vergonha! — Ela fez men­ção de levantar-se mas Matlock postou-se na sua frente segurando-a pelos ombros e obrigou-a a sentar-se.

—   Não sou tira nenhum. Já lhe disse.  E você disse que  não  estava   interessada,   lembra-se?   Pois  eu   estou interessado.  Estou mesmo muito interessado, e você vai me contar o que eu quero saber.

A garota quis levantar-se mas Matlock segurou-a. Ela ofereceu resistência e ele empurrou-a com força. — Você sempre trepa com esse anel no dedo? É para mostrar, a quem trepa em você, que tem alguma classe?

—  Meu  Deus! Oh, Jesus!

—  Muito  bem,  agora  escute.   Responda  às  minhas perguntas se não quiser que eu apareça lá em Webster amanhã para saber as  respostas.   Ou  prefere  isso?

—  Por favor, por favor! — Ela estava com os olhos cheios   de   lágrimas.   As  mãos  tremiam   e  parecia  sem fôlego.

—  Como foi que chegou aqui?

—  Não,  não!. . .

— Como foi?

—  Fui aliciada. . .

—  Por quem?

—  Por   outra. . .    Por   outras.    Nós   nos   aliciamos mutuamente.

—  Quantas são?

—  Não são muitas. Não são tantas assim. . . É muito tranqüilo.   Nós   temos   que   manter   tudo   escondido. . . Deixe-me ir, por favor. Eu quero ir-me embora.

— Não.  Isso é que não.  Ainda quero saber quan­tas são.  Quero saber por quê?

— Eu já lhe disse. São poucas   Apenas umas sete ou oito.

—  Mas  lá emlaixo  há umas trinta...

—  Mas eu  não conheço nenhuma delas.   Vieram de outros  lugares.   Nunca  perguntamos nomes a  nenhuma delas.

—  Mas sabe de onde elas vêm,  não sabe?

—  Algumas. . .   sei sim.

—  De outras escolas?

—  Sim. . .

—  Mas  por  que  Jeannie?  Por  que,   pelo  amor  de Deus?

—  E por que pensa você que pode ser? Dinheiro!

O vestido dela era de mangas compridas. Ele agar­rou-lhe o braço direito e rasgou a fazenda até o coto­velo.   Ela lutou mas ele dominou-a.

Não havia marcas.   Nem  sinais.

Ela esperneou dando-lhe pontapés e ele deu-lhe uma bofetada com força bastante para imobilizá-la com o susto .  Olhou no braço esquerdo.

Lá estavam elas. Apagadas. Antigas. Mas estavam lá.

As pintinhas escuras da agulha.

—   Eu    não    estou    mais   tomando   agora.   Já   faz meses que não tomo. . .

—  Mas   precisa  de  dinheiro!   Precisa   de  cinqüenta dólares  todas   as  vezes   que  vem   aqui.   Talvez   mesmo cem. . . O que é agora? São as amarelas? As vermelhas? Que diabo é agora? A erva não custa tanto assim.

A moça soluçava. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto.   Cobriu-o  com  as  mãos  e  gemeu  entre  soluços.

—  Há   tantos   problemas. . .   Tantos. . .    problemas! Deixe-me sair,  por favor

Matlock ajoelhou-se e agasalhou o rosto da moça de encontro a seu peito.

—  Quais   são  os   problemas?  Conte-me,   por favor. Quais são eles?

—  Eles obrigam a gente a fazer. . . Nós somos obri­gadas. . .   São  tantos  os  que  precisam   de  ajuda.   Não ajudarão a ninguém se nós não concordarmos.   Por fa­vor, seja qual for o seu nome, deixe-me ir embora.  Não diga nada.   Deixe-me  ir embora. . .   por favor!

— Eu vou deixar, mas primeiro quero que você me esclareça alguma coisa.   Depois eu deixo você ir e não vou dizer nada. . . Você está aqui porque foi ameaçada por eles? Por que ameaçaram as outras meninas?

Ela sacudiu a cabeça,, soluçando baixinho. Matlock continuou. — Ameaçaram como? Com que? Com uma denúncia do vício? Não pode ser isso.   Não atualmente. . .

— Você está por fora! Eles podem arruinar a gente para a vida. Arruinar a família, a escola. . . Depois. . . alguma prisão suja. Em algum outro lugar. O vício, as vendas, o fornecimento. . . um rapaz conhecido está en­crencado e eles podem soltá-lo. . . Uma moça está no terceiro mês e precisa de um médico. . . eles podem conseguir um.   Bem na moita.

—  Mas você  não  precisa deles.. .   Por onde  tem andado? Há órgãos de orientação. . .

—  Puxa vida, meu senhor.   Por onde tem andado? Os tribunais para os viciados, os médicos, os juizes! Eles mandam em todo mundo. . .   Ninguém pode fazer nada. Eu não posso fazer nada.   Deixe-me em paz.   Deixe-nos em paz.   Isso pode fazer mal a  muita gente!

—  E você vai continuar a fazer o que eles mandam! São uns porcariazinhas que só sabem gemer! Têm medo de lavar as mãos, a boca ou os braços! — Deu-lhe um puxão violento no braço esquerdo.

A moça olhou para ele com metade de medo e metade de desprezo. Falava agora numa voz estranha­mente calma.

—   É  isso mesmo.   Acho que você não pode com­preender.  Você não sabe como é. . . Não tem a menor noção. . . Nós somos diferentes de vocês. Eu só tenho meus amigos. É tudo o que temos. Uns ajudam aos outros. . . Não quero ser heroína. Só me interesso por meus amigos. Não tenho emblemas no meu carro nem ligo para artistas do cinema.   Acho que são todos uns merdas. Todos são. Só há merda mesmo.

—  E quanto tempo você pensa que isso pode durar?

—  Eu sou uma das que têm sorte.   Dentro de um mês vou ter o tal pergaminho que meus pais tanto querem e caio fora. Eles  nunca mais  procuram  a gente. Dizem que vão procurar mas nunca procuram. . .  A qente vai viver pensando na possibilidade.

Ele compreendeu as implicações de seu testemunho mudo e afastou-se. — Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. . .

— Não precisa. Eu sou uma das que têm mais sorte. Duas semanas depois de apanhar aquele pedaço de merda que meus pais tanto desejam, eu estarei num avião. Estarei saindo deste país maldito. E nunca mais vou voltar.

 

Ele não conseguira dormir e, aliás, nunca tinha es­perado que conseguiria. Tinha mandado a moça em­bora com dinheiro, que era a única coisa que lhe podia dar. Não lhe poderia dar esperança nem coragem. O que ele queria fora rejeitado porque iria resultar no risco de perigo e dor para um sem número de crianças empe­nhadas em salvarem-se mutuamente. Não podia exigir, já que não havia confiança ou ameaça que equivalesse ao peso que carregavam. Afinal a luta se resolveria lá entre elas.   Não queriam ajuda alguma.

Lembrou-se do aviso de Bagdhivi: Olhai as crianças; olhai e atentai. Elas crescem fortes e grandes e caçam o tigre com tais inteligências e com nervos mais fortes que os vossos. Elas salvarão o rebanho melhor que vós. Sois velho e enfermo. Olhai as crianças. Cuidado com as crianças.

Estariam as crianças caçando o tigre de melhor for­ma? E mesmo que estivessem, quais eram os rebanhos que estavam salvando? E quem era o tigre?

Seria ele o país maldito?

Já teria chegado a esse ponto?

As perguntas queimavam o seu cérebro. Quantas seriam as Jeannies? Até onde iria o aliciamento de Nimrod?

Ele tinha que descobrir.

A moça tinha dito que Carmount era apenas um dentre muitos lugares de perdição. Havia outros que ela não sabia onde eram. Amigas suas haviam sido enviadas para muitas outras cidades.

Yale.   Harvard.   Dartmouth.

O aspecto mais apavorante era a ameaça de Nimrod a um milhar de futuros. O que havia dito ela?

“Eles raramente fazem contatos. . . Dizem que farão...  A gente vive com a possibilidade”.

Se a coisa fosse assim, Bagdhivi estava errado. As crianças eram muito menos inteligentes e espertas; ti­nham nervos muito mais fracos; não havia necessidade de ter medo das crianças.   Elas só mereciam piedade.

A não ser que elas fossem subdivididas., Que fossem orientadas por outras mais fortes.

Matlock resolveu ir a New Haven. Talvez estivesse lá a resposta. Tinha muitos amigos na Universidade de Yale. Seria uma excursão marginal que, intrinsecamente, fazia parte da jornada.   Parte da odisséia Nimrod.

A concentração de Matlock foi interrompida pelos bips. Ficou rígido, com os olhos congestionados e o corpo tenso em cima da cama. Levou alguns segundos para descobrir de onde vinha o som que o apavorava. Era o aparelho que ainda estava no bolso do casaco. Mas onde estava o casaco? Não o via junto da cama.

Acendeu a lâmpada da cabeceira e olhou em torno ofegante e suando com o aparelho que não parava de tocar. Foi então que viu o casaco na cadeira lá perto da janela. Olhou o relógio. Eram 4:35. Correu para o casaco e tirou o terrível instrumento desligando-o.

Sentia voltar o pânico do caçado. Apanhou o tele­fone na mesa de cabeceira.   Era uma linha direta.

O ruído de discar era o mesmo que em toda par­te por ali. Se estivesse censurado ele não saberia re­conhecer.   Discou  555-6868 e esperou.

— Charger três zero falando. Desculpe perturbá-lo. Não há novidades com a pessoa. Tudo corre satisfató­rio. No entanto seu amigo de Wheeling está insistindo. Telefonou às 4:15 e disse que tem necessidade absoluta de falar consigo. Pede para lhe telefonar imediatamente. Estamos preocupados.  Desligo.

Matlock desligou e forçou seu espírito para nao pensar naquilo enquanto procurava um cigarro. Precisava de alguns minutos para se acalmar. Ainda estava assustado.

Como odiava aquela máquina maldita! Como odiava aqueles bips que lhe arrebentavam os nervos.

Deu algumas tragadas e viu que não tinha alterna­tiva Tinha que sair dali do clube para encontrar uma cabine. Greenberg não telefonaria às 4 da madrugada se não fosse uma emergência. Não podia se arriscar falan­do com ele dali.

Jogou as roupas na mala e vestiu-se rapidamente.

Imaginava que deveria haver algum vigia noturno e que conseguiria retirar seu carro. Se não houvesse, teria que acordar alguém, nem que fosse o próprio Stockton. Ele não tentaria detê-lo pois ainda estava apavorado com os acontecimentos em Windsor Shoals. Inventaria uma estória para ele, para aquele mercador de carne humana e adorável. Aquela flor do vale de Connecticut. A catinga de Nimrod.

Matlock fechou a porta sem fazer barulho e cami­nhou pelo longo corredor para chegar à escada. Luzes amortecidas iluminavam tudo como se fossem velas. O interior do Clube de Campo de Carmount parecia-se mais que nunca com uma grande mansão sulina adormecida.

Caminhou para a entrada mas logo percebeu que não passaria dali.   Pelo menos no momento.

Howard Stockton, embrulhado num magnífico robe de veludo do século XIX saiu da porta de vidro junto à entrada. Estava acompando por um cara enorme, com jeito de italiano, cujos olhos negros falavam silen­ciosamente de gerações da Mão Negra. O companheiro de Stockton era um pistoleiro.

—  Ora essa! Está querendo deixar-nos, Sr. Matlock?

Ele decidiu assumir a ofensiva.

—  Já  que  censurou   meu  telefone,  acho que você já sabe que tenho problemas! Mas são problemas meus e nao seus! Se quer saber mesmo,  não admito a intromissão!

A  artimanha  funcionou.   Stockton   ficou   assustado com a hostilidade de Matlock.

—  Não há razão para ficar zangado. . .   Eu sou um homem  de  negócio como você.   Essa  invasão de  suas coisas particulares foi para a sua proteção.   Com todos os demônios! Estou falando a verdade, meu filho.

— Está bem. Aceito a sua explicação esfarrapada. Onde estão minhas chaves?

—  O nosso amigo Mário está com elas.   Ele é um bom  italiano,  posso garantir.

— Já estou vendo o escudo da família no seu bol­so.   Quero as minhas chaves.

Mário olhou para Stockton, obviamente confuso.

—  Bem, espere um pouco. Espere um pouco, Mário. Não devemos ser impulsivos. . .  Eu sou homem razoável. Sou uma pessoa até bem  razoável e bem intencionada. Sou apenas um simples negociante da Virgínia. . .

— Tentando ganhar dinheiro. Já sei disso. Agora saia do meu caminho, com todos os demônios, e dê-me as minhas chaves!

—  Deus do céu!  Você está mesmo zangado.   Está safado comigo, hein? Mas coloque-se no meu lugar!. . . Esse tal  código maluco de  “zero três”  e um chamado urgente de Wheeling. . .   Puxa vida! E em lugar de usar o meu telefone tão bom como qualquer outro, você tem que sair por aí correndo. . . Pense bem, Jim. O que faria você no meu lugar?

Matlock manteve a sua voz cortante e fria. — Eu ten­taria compreender com quem estava tratando. . . Nós fi­zemos algumas investigações, Howard. Meus superiores estão bem preocupados com você. . .

— O-que-quer-dizer-com-isso? — A pergunta de Stockton foi feita com tal rapidez que as palavras saíram todas juntas.

—  Eles acham. . .  nós achamos que você está cha­mando  muita atenção  para  a sua pessoa.   Imagine só! Presidente e vice-presidente de um Rotary. Virgem Maria! Um  homem  que constrói  escolas com  dinheiro  de  seu bolso!  Um cara que sustenta viúvas e órfãos, que abre contas em supermercados! Que custeia o Dia das Mães! E  que  paga  a  pessoal   do  lugar  para  espalhar  boatos sobre as moças! Com as garotas andando por aí quase nuas.   Acha  que o  pessoal  do lugar não  repara?  Meu Deus,   Howard!. . .

— Quem é você então? De que inferno saiu?

— Sou apenas um fatigado homem de negócio que fica safado quando vê um outro homem de negócio fazendo besteiras! Quem diabo você pensa que é? Papai Noel? Faz alguma idéia como isso chama a atenção?

— Mas que diabo você andou descobrindo! Eu tenho melhor negócio desta área. Não sei com quem vocês andaram falando, mas posso lhe garantir que todo mundo aqui em Mount Holly iria para o inferno só para me agradar! Essas coisas que vocês andaram descobrin­do são coisas boas! Boas mesmo. . . Vocês estão tor­cendo tudo para parecer mal! Isto não está certo!

Stockton tirou um lenço de seda do bolso e enxugou o suor que lhe escorria pelo rosto. Estava tão nervoso que suas palavras saíam todas embrulhadas. Estava quase gritando. Matlock tentou pensar, rápido e cauteloso. Tal­vez tivesse chegado a hora ali agora com Stockton. Ti­nha que começar a fazer seus convites particulares. Es­tava na última etapa de sua jornada para Nimrod.

— Acalme-se Stockton! Mas que diabo! Você pode estar certo. . . Não tenho tempo agora para pensar nisso. Temos uma crise. Todos nós. Aquele chamado foi coisa muito séria.

Matlock fez uma pausa e olhou duro para o nervoso Stockton. Depois largou a mala no chão e falou devagar escolhendo bem as palavras. — Howard, eu vou lhe con­fiar um segredo e espero que você esteja à altura para isso. Se você der conta do recado ninguém mais vai interferir no seu negócio.   Nunca mais.

—  E o que é?        

—  Mande este cara dar um passeio. . .   pode ficar por perto, ss quiser.

— Você ouviu.  Vá fumar um charuto!

Mário amarrou a cara, hostil e desconfiado, e cami­nhou lentamente para a escada. Só então Stockton falou.

—  O que quer que eu faça? Eu já lhe disse que não quero encrencas.

—  Nós todos vamos ter encrencas a não ser que eu me comunique com alguns delegados. Era o que Wheel­ing estava querendo me dizer.

— O que quer você dizer com. . .  delegados?

— A reunião em Carlyle.   A conferência de nossa gente com a organização Nimrod.

— Isso não é comigo.  Não sei nada a tal respeito!

— Claro que não sabe.   Não era para saber.   Mas agora estamos todos enrascados. . . Teremos que deso­bedecer algumas regras. . .  Nimrod já foi longe demais. É só o que posso lhe dizer.

—  E é a mim que você está dizendo? Eu vivo com esses pregadores] Eu falo com eles, e quando reclamo sabe o que diz a nossa gente mesmo? Eles dizem que eu tenho que ir aturando, que é preciso ir agüentando! Que raio de conversa é essa? Por que é que eu tenho que aturá-los e fazer negócio com eles?

— Talvez isso não dure muito tempo. É por isso que eu preciso falar com os outros delegados.

—  Mas eles não me  incluem  nessas reuniões.   Eu não conheço ninguém.

—  Claro que não conhece.  E não deve mesmo co­nhecer. A conferência é coisa muito séria. Muito séria e escondida.  É tão escondida que nós todos ficamos em­brulhados. Não sabemos quem é quem nesta área. Qual a  organização,   qual   a  família.   Mas  eu  tenho  minhas ordens. Preciso entrar em contato com um ou dois.

—  Eu nada posso fazer. . .

Matlock olhou duro para o outro. — Eu acho que pode, sim. Escute bem. Logo de manhã pegue no tele­fone e vá falando. Mas muito cuidado! Não quero nin­guém em pânico. Não fale com quem não conheça bem e não use o meu nome! Apenas diga que encontrou um cara que tem o papel corso. O papel corso prateado. Ele terá que encontrar outro que também tenha, mas com muito cuidado. Se for preciso, começaremos só com uma pessoa.  Compreendeu bem?

—  Eu  compreendi  sim,   mas  não  estou  gostando. Não tenho nada com isso!

— Prefere então fechar? Prefere perder esta mag­nífica propriedade e ficar olhando o céu através das gra­des de uma cela durante dez ou vinte anos?

—  Está bem!. . . Está bem!. . . Eu vou telefonar. Vou dizer que não sei de nada e apenas estou transmitindo um recado.

—   Isso  mesmo.   Se fizer algum  contato,  diga que eu estarei no Iate esta noite ou amanhã.  Diga para levar o  papel.   Eu  não  falarei  com   ninguém  se  não tiver o papel.

—  Se não tiver o papel. . .

—  Agora dê-me ao chaves.

Stockton chamou o Mário e entregou as chaves a Matlock.

 

Ele saiu pela rodovia 72. Não sabia bem onde era mas sabia que tinha passado por algumas cabines quan­do viera de Hartford. Era engraçado como ele prestava atenção aos telefones públicos. Eram a sua única forma de comunicação com algo sólido. Tudo mais era transi­tório, desconhecido e aterrador. Ia telefonar para Greenberg conforme lhe fora pedido, mas antes ia procurar comunicar-se com um dos homens de Blackstone.

Precisava combinar um encontro imediatamente. Pre­cisava ter na mão o papel prateado. Já tinha soltado a deixa. Agora teria que cumprir a sua parte se quisesse descobrir alguma coisa. Se o recado de Stockton fosse recebido e se alguém fizesse o contato, esse alguém ma­taria ou seria morto antes de quebrar o juramento de “Omerta” a não ser que Matlock apresentasse o papel

Ou teria sido tudo em vão? Seria ele, então, o amador de que haviam falado Kressel e Greenberg? Não sabia. Tentava o quanto podia para pensar em tudo, para con­siderar todos os lados de todos os movimentos, para usar os instrumentos de sua mentalidade acadêmica Mas seria o bastante? Ou seria possível que seu sentimento de compromisso, seus violentos sentimentos de vinqanca e nojo estivessem apenas fazendo dele um novo D. Quixote?

Mesmo que fosse assim não desistiria Faria tudo que pudesse.   E tinha boas razões.  Um irmão chamado David e  uma  namorada  chamada Pat; um homem bom e generoso chamado Lucas; um cara leqal chamado Loring; uma garota confusa, aterrorizada chamada Jeannie... Toda aquela cena revoltante.

Encontrou afinal a cabine num pedaço deserto da rodovia 72 e telefonou para 555-6868. Deu o número do telefone da cabine e ficou esperando que o Charger três zero ligasse de volta.

Passou um carro-tanque de leite. O motorista estava cantando e acenou para Matlock. Depois um imenso ca­minhão e logo atrás um outro menor com verduras para o mercado. Já eram quase cinco e meia, e o dia estava clareando.  Ia ser um dia nublado e escuro com chuvas.

O telefone tocou.

—  Qual é o problema, senhor? Falou com seu amigo em Wheeling? Ele disse que não está mais brincando.

—  Vou falar agora mesmo. Você é o cara chamado Cliff?

Matlock sabia que não porque a voz era diferente.

—   Não senhor, sou Jim. Um nome igual ao seu.

— Muito bem, Jim. Diga-me se o Cliff fez o que mandei.   Quero saber se encontrou o papel  que falei.

—  Sim senhor. Se é um papel prateado, escrito em italiano.  Acho que é italiano.

— É esse mesmo...

Matlock combinou para ir buscá-lo em duas horas. Ficou combinado que um dos homens de Blackstone, o chamado Cliff, iria encontrá-lo num restaurante em Scofield Avenue na saída de Hartford. Era importante que a entrega fosse feita rapidamente na área do estaciona­mento. Matlock disse como era o carro que estava usan­do e desligou.

A próxima chamada tinha que ser para Jason Greenberg em Wheeling. E ele estava furioso.

—  Schmuckl — Já não bastou você faltar à sua pa­lavra e agora já tem um exército seu! Que diabo podem esses palhaços fazer que o Governo dos Estados Unidos também não possa?

— Os palhaços estão me custando trezentos dólares por dia, Jason.  Eles têm que ser bons.

— Você caiu fora! Por que foi fazer uma coisa dessas? Depois de haver dado sua palavra que não faria.  Você prometeu que trabalharia com o nosso homem!

—  O seu homem deu-me um ultimato que eu não podia aceitar. E se a idéia foi sua eu lhe digo o mesmo que disse a ele.

— Que estória é essa? Que ultimato foi esse?

—  Você sabe muito bem! Não me venha com isso! E escute aqui. — E Matlock respirou fundo antes de mergulhar na mentira, dando-lhe toda a autoridade que podia conseguir.  — Há um advogado em Hartford que tem uma carta muito precisa assinada por mim. Mais ou menos parecida com a que assinei para você. So que a informação é um pouco diferente.   É a verdade.   Conta direitinho como vocês me pegaram, como vocês, saca­nas, me puxaram para dentro e agora estão me largando pendurado. Como você me obrigou a assinar uma men­tira. . . Se vocês tentarem alguma coisa ele vai soltar a carta e vai haver muita gente dando saltos no Ministério da Justiça. . . Foi você quem me deu a idéia, Jason. Aliás, uma idéia bem boa. Até mesmo pode fazer com que alguns militantes virem o campus de Carlyie de per­nas para o ar. Com alguma sorte poderá ainda haver uma série de tumultos de ponta a ponta do país. O ce­nário acadêmico está prontinho para se despertar de seu torpor. Não foi isso o que disse o Sealfont? Só que desta vez não será a guerra, o serviço militar ou as drogas. Vão encontrar um rótulo melhor. Infiltração do governo, es­tado policial. . . Táticas de Gestapo. Estarão vocês pre­parados para tanto?

—  Chega, pelo amor de Deus! Você não vai ganhar nada com isso. Não é tão importante assim. Agora diga-me que diabo está querendo dizer.  Fui eu quem deu a ele as instruções. Não havia instrução alguma a não ser que você o mantivesse a par de tudo que fizesse.

—  Uma merda! Eu não podia sair do campus.  Não podia falar com  ninguém,  professsores ou  empregados. Ficava   restringido   a   cuidar  dos  alunos   mas   antes eles tinham que ser investigados também!  Fora dessas coisinhas sem importância eu era livre como um passa­rinho!  Ora deixe  disso!  Você   viu Pat! Você viu o que fizeram com ela. E sabe também do resto que fizeram. . . a palavra é violência, Greenberg. Vocês queriam que eu agradecesse ao Houston por ser tão compreensivo?

Greenberg  parecia  furioso  também. — Acredite me que todas essas condições foram feitas depois de minhas instruções. Deveriam ter-me avisado, mas só estavam fazendo aquilo para a sua própria proteção. Então não compreende isso?

—  Não fazia parte de nosso trato.

—  Não,  não fazia.   Deviam ter-me dito...

—  Eu também estou imaginando qual era a proteção que os preocupava. A deles ou a minha?

—  Você está certo.  Deviam ter-me dito. . .  Não po­dem delegar responsabilidade e depois retirar a autori­dade.   Não é lógico.

—   Não é moral.   E quero lhe dizer mais.  Esta pe­quena odisséia minha está me trazendo cada vez mais para perto da sublime questão de moralidade.

— Fico satisfeito por você, mas acho que a sua odisséia está chegando ao fim.

—  Tente então.

— E vão mesmo tentar. Essa estória de carta com advogado não vale nada. Eu disse a eles que ia tentar primeiro. . . Se você não se entregar dentro de quarenta e oito horas para ficar sob a nossa proteção, vai sair um mandado de prisão.

— Com  base em  quê?

—  Você representa uma ameaça.  Está mentalmente perturbado.  Está maluco. Trarão à baile a sua ficha no exército.  Duas cortes marciais, prisão, contínua instabi­lidade na linha de combate. Uso de drogas. E de álcool. Têm boas provas.   Também é racista.   Eles têm aquele documento de Lumumba confirmado pelo Kressel. E pelo que me dizem agora, embora não tenha os fatos, você anda envolvido com criminosos conhecidos.   Estão com uma fotografia sua em um lugar de Avon. . . Entregue-se Jim, eles arruinarão a sua vida.

 

Quarenta e oito horas! Por que quarenta e oito horas? Por que não vinte e quatro, ou doze ou mesmo imedia­tamente? Aquilo não fazia sentido! Foi então que com­preendeu, e ali sozinho dentro da cabine, começou a rir. Começou a dar gargalhadas ali dentro de uma ca­bine na beira da estrada às cinco e trinta da madrugada.

Os homens práticos estavam apenas dando-lhe tempo suficiente para fazer alguma coisa, desde que fosse possível. Se não fosse, e se acontecesse alguma desgraça, eles estavam limpos. Já estava consignado que ele era considerado ân desequilibrado mental, um viciado com tendências racistas e que estava envolvido com criminosos conhecidos. E tinha sido avisado. Agiam com delicadeza por se tratar de um louco, mas tam­bém lhe davam tempo para reduzir o perigo. Deus do céu! Que manipuladores!

 

Chegou no restaurante de Hartford às 6:45 e tomou um café reforçado acreditando que a comida poderia substituir o sono e dar-lhe a energia que tanto preci­sava. Não tirava os olhos do relógio sabendo que teria de estar no estacionamento às 7:30.

Estava pensando como seria o homem que vinha se encontrar com ele.

O homem era enorme, e Matlock nunca se consi­derara pequeno. Cliff fazia Matlock lembrar-se dos ve­lhos retratos de Primo Carnera, com exceção do rosto. Tinha ar de inteligente e um sorriso franco.

—  Não  se  levante,  Sr.   Matlock.   Aqui  está o  seu papel.   Coloquei-o em  um  envelope.   Saiba que ontem a moça já deu boas risadas.  Está muito melhor.  Tudo está voltando aos seus lugares.  Pensei que gostaria de saber.

—  Acho que deve ser um bom sinal.

—  E é mesmo.   Fizemos camaradagem com o mé­dico.  Ele é legal.

—  E como o hospital encara a vigilância de vocês?

—  O Sr.  Blackstone cuida de tudo isso. Temos quar­tos dos dois lados dela.

—  E eu terei que pagar tudo. . .

—  O sr.  sabe como ele é. . .  Eu preciso ir andan­do.   Foi  um  prazer conhecê-lo.

O homem de Blackstone saiu e pegou um carro velho que estava ali perto.

Já era hora de Matlock tocar para New Haven.

Ele não tinha nenhum plano preconcebido nem sa­bia com quem ia falar. Já não estava dirigindo. Es­tava sendo levado. As informações que tinha eram mui­to imprecisas e nebulosas. Mas talvez fossem o bas­tante para alguém estabelecer um contato. Mas quem fizesse isso, ou fosse capaz de fazê-lo, teria que ser possuidor de um conhecimento geral da universidade. Teria que ser alguém que sentisse o pulso do campus como,   por  exemplo,  Sam   Kressel.

No entanto, Yale era cinco vezes o tamanho de Carlyle e era infinitamente mais difusa, era uma parte da cidade de New Haven e não estava isolada como Car­lyle. Havia um ponto focal chamado Escritório de As­suntos de Estudantes, mas ele não conhecia ninguém lá. Seria um desastre se tentasse chegar com uma es­tória improvável de universitárias que estavam sendo forçadas à prostituição naquelas redondezas. Nunca o levariam a sério, e nesse caso, ele não iria descobrir nada.

Havia uma possibilidade que era um fraco substituto para o E.A.E. mas que também tinha alguma vislão geral do campus. Era o Departamento de Admissões, ele conhecia alguém que trabalhava ali. Chamava-se Peter Daniel. Os dois já haviam trabalhado juntos preparando conferências e programas. Conhecia Daniel o bastante para falar-lhe com clareza, e sabia que ele não iria duvidar nem tampouco entrar em pânico. Ele con­taria só a estória da moça.

Estacionou em Chappel Street perto da esquina de York. Num dos lados estava um arco que levava ao qua­drilátero do Silliman College e do outro havia um gra­mado com uma passagem calçada que levava ao edi­fício da administração. O escritório de Daniel era no segundo andar. Matlock fechou o carro e caminhou para a velha estrutura de tijolos com a bandeira dos Estados Unidos flutuando ao lado do estandarte de Yale.

 

— Mas isso é um absurdo! Estamos na era de Aquá­rio. Ninguém mais paga para trepar.  É tudo grátis.

—  Eu sei o que vi.  Sei o que a moça me disse, e ela não estava mentindo.

—  E eu repito.  Você não pode ter certeza.

—  Mas está ligado à uma porção de outras coisas que eu também vi.

—  Será que posso lhe fazer a pergunta óbvia? Por que não vai à polícia?

—  E a resposta é óbvia, também. As universidades já andam bem encrencadas. Os fatos que tenho são isolados.  Preciso  de  mais   informações.   Não  quero  ser responsável por escândalos ou pânico. Acho que já ti­vemos bastante.

— Está certo. Acredito. Mas nada posso fazer.

— Dê-me só alguns nomes. Estudantes ou profes­sores. Gente que você conheça. . . como estando mes­mo encrencada de verdade. Perto do centro. Sei que você tem esses nomes. Nós também temos. Posso lhe jurar que ninguém jamais saberá quem  me informou.

Daniel levantou-se acendendo o cachimbo. — Vo­cê está generalizando muito. Encrencado como? Aca­demicamente, política... narcóticos, álcool? Você está cobrindo um território muito vasto.

—  Espere   um   pouco.  —   Aquela   observação   de Daniel  tinha despertado uma lembrança.   Matlock  lem­brava-se do salão no Clube de  Caça de Rosso Aiello, em Hartford.  De um rapaz alto com um casaco de gar­çom que tinha trazido uma nota para Aiello assinar. O veterano de Vietnan e Da Nang.   O que era de Yale e estava fazendo contatos,  formando  um  pé de meia. . . estudando Administração de Empresas.  — Já sei com quem quero falar.

—  Como se chama?

— Não sei. . . É veterano de guerra. Da Indochina, vinte e dois ou três anos, bem alto, cabelos claros, es­tudando Administração de Empresas. . . Forma-se este ano.

—  Essa sua  descrição  pode  servir  para  uns  qui­nhentos estudantes.  Com exceção de pré-Medicina, Di­reito  e  Engenharia,  tudo   mais  está  classificado  como artes liberais. Teríamos que vasculhar os arquivos.

—   E não há fotografias quando se candidatam?

—  Você sabe que isso não é mais permitido.

Matlock ficou olhando lá para fora com a testa fran­zida. Tornou a olhar para Daniel. — Pete, nós estamos em maio. . .

— E daí? Poderia ser novembro. Qual a diferença?

—  A formatura será dentro de um  mês. . .   Deverá haver fotografias dos que se formam para os álbuns de lembranças.

Daniel compreendeu togo. Tirou o cachimbo da boca e dirigiu-se para a porta. — Venha comigo.

O nome dele era Alan Pace. Além de Administração de Empresas estudava também Governo. Morava perto do campus em Church Street. Pelo que dizia sua ficha, Alan Pace era um excelente estudante sempre com as melhores notas. Tinha passado vinte e oito meses no exército, quatro mais do que o exigido.  Como acontecia com quase todos os veteranos, as atividades sociais dele eram mínimas.

Durante seu tempo no exercito fora oficial encarrega­do de fornecimentos. Apresentara-se como voluntário para mais quatro meses no corpo de Saigon e isso era um destaque de importância em sua ficha. Alan Pace tinha dado mais quatro meses de sua vida para o país do que o necessário. Era sem dúvida um homem de valor num tempo de tanto cinismo.

Matlock ia pensando que ele era um vencedor.

A viagem até Church Street deu a Matlock o tempo necessário para esclarecer as idéias. Tinha que cuidar de uma coisa atrás, um orgulhoso símbolo de uma classe média que começava a subir. Ainda estava em boas con­dições. O mais chocante aspecto do prédio, no entanto, para Matlock, era que aquilo não parecia um lugar certo para a residência de um estudante.

Mas sabia que ele estava em casa porque Daniel ti­nha verificado.

 

Pace não queria abrir a porta. Só consentiu depois que Matlock falou em duas coisas. Primeiro que não era da polícia e segundo foi o nome de Rocco Aiello.

—  Diga  o que  quer.  Tenho  muito  que fazer.  Não tenho tempo para conversar.   Amanhã tenho  provas. . .

—  Posso sentar um pouco?

—  Para que? Eu já he disse. Estou muito ocupado.

O estudante alto, de cabelo castanho claro, voltou à sua mesa cheia de papéis e livros. O apartamento estava bem arrumado e era grande. Era a espécie de aparta­mento onde geralmente moravam quatro ou cinco estu­dantes juntos.   Mas Alan Pace morava sozinho.

— Eu  vou  sentar,  de  qualquer forma.   Você  deve pelo menos isso ao Rocco.

—  O que quer dizer?

— Só que ele era meu amigo. Eu estava com ele na outra noite quando você levou uma nota para ele assinar. Lembra-se? E ele era bom para você. . .  Mas está morto.

— Eu sei   Vi no jornal. Foi triste, mas eu não devia nada a ele.

— Mas você comprava dele.

— Não sei do que está falando.

— Ora, vamos lá, Pace. Você não tem tempo e eu também não. Sei que não teve nada a ver com a morte dele.  Mas preciso de uma informação que você vai me dar.

— Está falando com a pessoa errada. Não o conhe­ço e não sei de nada.

— Mas eu conheço você. Tenho toda a sua ficha. Aiello e eu íamos ser sócios. Sei que você não tem nada com isso, mas nós trocamos. . . certas informações con­fidenciais.  Eu vim a você porque, francamente, com a morte de Rocco, temos áreas que precisam ser cobertas. Estou  realmente pedindo um favor e estou pronto para pagar por ele.

—  Eu já lhe disse que não sou quem procura.  Co­nhecia Aiello  muito pouco.   Ganhava  mais  uns cobres com ele como garção. Claro que ouvia coisas, mas nada mais do que isso.  Não sei do que está falando nem o que quer.  Será melhor procurar outra pessoa.

Matlock viu logo que ele era duro. Estava tirando o corpo fora mas não estava bancando o inocente com­pleto. Por outro lado, talvez estivesse dizendo a verdade. Só tinha um jeito para saber.

—  Vou tentar outra vez. . .  Quinze meses no Vietnan. Saigon, Da Nang, excursões a Hong-Kong e Japão. Oficial dos fornecimentos.  O lugar mais chato e o tra­balho mais exasperante para um moço com o potencial que torna possível  conquistar as melhores notas numa universidade muito dura.

—  Era um lugar bom. Não havia os riscos de com­bate. . . Todo mundo fazia o turismo. . . é só verificar as folhas de serviço.

Matlock pareceu não perceber a interrupção. — De­pois o oficial dedicado volta à vida civil. Depois de qua­tro meses de voluntariado em Saigon, e estou admirado que não tivesse sido apanhado nessa, ele volta com di­nheiro bastante para investir por conta própria, mas não era certamente economias do soldo. É um dos grandes fornecedores na área de New Haven. Quer que eu con­tinue?

Pace ficou ali parado junto à mesa e parecia ter a respiração suspensa.   Olhou Matlock e seu rosto estava branco. Quando falou foi com a voz de um rapaz apavorado.

— O senhor não pode provar nada. Não fiz coisa alguma. A minha ficha no exército e aqui. . . são boas. São muito boas.

—  São  ótimas.   Sem   uma  só  mancha.   Só  podem servir de orgulho.  Digo isto sinceramente. E não dese­jaria fazer nada que pudesse afetá-las.  Estou sendo sin­cero.

— Nem poderia.   Minha ficha é limpa.

— Não é não. Não é tanto assim. Você está mer­gulhado até o pescoço. Aiello cuidou bem disso. E por escrito.

—  É mentira!

—  Você é estúpido.   Então  pensa  que o Aiello  ia fazer negócio com alguém sem primeiro verificar bem? Pensa que ele teria licença para isso? Ele tomava nota de tudo,  Pace, e eu estou com seus livros.   Eu já lhe disse que íamos ser sócios. Ninguém faz sociedade sem primeiro examinar bem os livros. Você devia saber disso.

Pace falou tão baixinho que mal podia ser ouvido: — Não há livros dessa espécie. Nunca há. São sempre cidades, lugares, códigos. Sem nomes. Nunca há nomes.

—  E então como é que eu estou aqui?

—  O senhor me viu em Hartford e está procurando uma ligação.                         

—  Você sabe que não é assim.  Não seja tolo.

As insinuações de Matlock eram demais para o ra­paz. — Mas então por que veio falar comigo? Eu não sou assim tão importante. Você diz que conhece tudo a meu respeito, então sabe que eu não sou assim tão impor­tante .

—  Eu já lhe disse que preciso de informações. Não quero ir procurar o pessoal  graúdo  porque estaria em desvantagem.  É por isso que estou disposto a pagar e  rasgarei tudo que tenho a seu respeito.

No espírito de Pace, àquela hora, só existia a possibilidade de livrar-se das garras daquele estranho, e ele respondeu logo.

—  E se eu não responder às suas perguntas? Vai pensar que estou mentindo.

—  Não pode ficar pior do que está,  O melhor quetem a fazer ainda é experimentar minha proposta.

—  Pode dizer.

—  Encontrei uma moça. . . de uma universidade por aqui.   Encontrei-a em circunstâncias que só podem ser consideradas como prostituição profissional.  Profissional no pleno sentido da palavra.  Encontros, preço estipula­do, nenhum conhecimento anterior do cliente. . .  O que sabe você disso?

Pace aproximou-se de Matlock. — O que quer dizer com isso? O que eu sei? Só sei que está aí. O que mais há para saber?

—  Até onde vai isso?

—  Em toda parte.  Isso não é novidade.

—  É para mim.

—  É porque não está habituado.  Dê uma volta por qualquer uma das cidades universitárias...

Matlock engoliu em seco. Estaria assim tão por fora? — E se eu lhe disser que conheço bem algumas dessas. . . cidades?

—  Eu lhe diria que está cego.  Também digo que estou por fora disso. O que mais?

—  Vamos ficar por aqui ainda um pouco. . . Por quê?

—  Por que o quê?

—  Por que as moças fazem isso?

—  É o pão, homem. E por que alguém faz alguma coisa?

—  Você é muito inteligente para acreditar nisso. . . Está organizado?

—  Acho que está. Já lhe disse, estou por fora.

—  Veja bem. Tenho alguns papéis seus. . .

—  Muito bem.  Está organizado, sim. Tudo está or­ganizado. Senão não funciona.

—  E  onde  funciona,  especificamente?

—  Já lhe disse.  Em toda parte.

—  Dentro das universidades?

—  Não.   Dentro  não.   Nas  imediações.   Sempre aalguns quilômetros de distância.   Em velhas casas dis­tantes dos subúrbios.   Hotéis, clubes particulares, apar­tamentos, mas nunca aqui.

— Estamos falando de...  Colúmbia, Harvard, Radcliffe, Smith, Hollyoke e outras ao sul?

— Todos sempre esquecem de Princeton.  De antigas mansões   nas   estradas   secundárias. . . É dessas mesmo que estamos falando.

— Eu nunca poderia ter acreditado. . . Mas por quê? Não me venha com essa velha estória de pão. . .

— Pão significa a liberdade, homem.  Para essa garotada isso é a liberdade. Não são débeis mentais. Mui­to poucos são. Já aprendemos. Bote a mão no dinheiro, meu chapa, e todo mundo fica tarado com você. . . Aliás, não sei se já notou, o dinheiro anda escasso. Não é mais como antigamente. a maior parte da garotada precisa muito dele.                                                     .

— A moça que falei antes.  .  Achei que tinha sido forçada. . .

— Puxa vida! Ninguém mais é forçado a isso.

— Ela foi. Falou de certas coisas. . . Falou de con­troles exercidos sobre os tribunais, médicos, até mesmo empregos. . .

— Não sei de nada disso.

— E depois. Sendo procurada depois, talvez alguns anos. Pura chantagem. Igual à que estou fazendo com você.

—  Então é porque ela já estava encrencada antes. Ninguém força a coisa nenhuma. Só se ela devia alguma coisa que não podia pagar.

—  Quem é Nimrod?      

Matlock fez a pergunta dl passagem, em voz baixa, mas o outro deu as costas.

—  Não sei. Não tenho essa informação.

Matlock levantou-se da cadeira e ficou ali parado. — Vou perguntar mais uma vez.  Se não tiver resposta vou sair por aquela porta e você estará liquidado.  Uma vida bem  promissora terá sido aiterada  drasticamente, se e que você tem uma vida. . . Quem é Nimrod?

O rapaz virou-se  de  repente  e  Matlock viu  ali  o mesmo medo que tinha visto no rosto de Lucas Herron. . .

— Juro por Deus que não posso responder isso.

— Não pode ou não quer?

—  Não posso. Não sei.

—  Acho que sabe sim.  Mas disse que não perguntaria mais. Muito bem. — E Matlock encaminhou-se paraa porta sem olhar para trás.

—  Não!. . .  Com os demônios, eu não sei!. . .  Corno posso saber? Ninguém pode. — E Pace correu para o lado de Matlock.

—  Pode o quê?

—  Seja lá o que for que vai fazer, escute aqui pri­meiro. Não sei quem eles são. Eu não tenho. . .

—  Eles?

Pace estava atônito. — Sim, sim... Acho que são eles. Mas não sei. Nunca tive contato. Os outros têm, mas eu não.   Nunca me procuraram.

—  Mas você sabe que existem.

—  Claro que sei.   Mas não sei quem é.   Juro que não sei.

—  Está bem.   Eu faço  um  acordo  com você,  por enquanto.  Diga-me o que sabe.

E o rapaz apavorado foi contando. À medida que contava o medo ia invadindo Matlock também.

Nimrod era uma assombração invisível. Não tinha rosto nem forma, mas tinha uma autoridade terrível. Pelo que dizia Pace, não era ele ou eles. . . era uma força. Uma abstração complexa que tinha seus insidiosos tentá­culos em todas as principais universidades daquela área, todas as municipalidades que serviam ao panorama aca­dêmico, as pirâmides financeiras que serviam às com­plicadas estruturas da educação superior em New England. E talvez além pelos boatos que corriam.

Os narcóticos eram apenas um aspecto, uma pedra no sapato das legiões do crime, e a razão imediata para a conferência de maio de que falava a carta vinda da Córsega.

Além  das  drogas  e  seus  lucros,  o  imprimatur de Nimrod estava estampado numa quantidade de administrações de universidades.   Pace estava convencido queaté mesmo os currículos eram estabelecidos, o pessoa das universidades era contratado e despedido, tudo, em suma, era feito seguindo as instruções recebidas das organizações de Nimrod. Matlock lembrou-se então de Carlyle.Do assistente  que controlava as admissões e que, de acordo com  Loring, fora nomeado no departamento de história e muitos outros que estavam na lista de Lo­ring.

Quantos haveria ao todo? Até onde iria a infiltração?

E por quê?

A prostituição era  coisa subsidiária.   O  aliciamento era feito entre as próprias moças que forneciam os endereços e estabeleciam  os preços.   Desde que fossem bonitas e espertas  podiam  contar com Nimrod.   E  no pacto com Nimrod havia então a “liberdade”,  havia o pão.

E ninguém saía ferido.  Era um crime sem vítimas.

— Não há crime nenhum, homem. Só há liberdade. Não há pressão nem compulsão.

Alan Pace chegava a achar boa e prática a organiza­ção Nimrod.

—  Então você pensa que é um mundo diferente do mundo cá de fora? Mais correto? Está enganado, meu senhor.  É a mini-América: organizada, com computado­res, sustentada pelas grandes empresas. Que diabo, seu padrão é a síndrome norte-americana,  é a  norma das grandes companhias, homem. Como a General Motors, a ITT ou a velha Bell, só que houve alguém bem esperto que cuidou do lado acadêmico.  E está crescendo muito depressa.  Não combata.  É melhor afiliar-se.

—  E é isso que você vai fazer?

—  É a saída, homem.  É a fé.  Pelo que vejo você também está por dentro.  É bem possível que esteja re­crutando gente. Vocês estão em toda a parte. Aliás, eu estava mesmo à sua espera.

— E se eu não for?     

— Então é porque perdeu ajcabeça.

 

Quem visse aquela caminhoneta branca correndo para o centro de New Haven logo imaginaria que ela per­tencia a algum homem rico que ia até a cidade cuidar de seus negócios.

Só que o observador não perceberia como o moto­rista estava alheio ao que se passava em torno dele, es­tarrecido como ainda estava com as revelações que aca­bara: de ouvir, e esgotado como se sentia por estar quase sem dormir nas últimas quarenta e oito horas, imaginando-se suspenso sobre um abismo por uma corda muito fi­na que poderia a qualquer hora arrebentar-se.

Matlock fazia o que  podia  para  suspender o seu processo de pensamento.  Os anos que levara na sua corrida acadêmica, sempre às voltas com tabelas e ho­rários, tinham-lhe ensinado que a mente, pelo menos a sua, não podia funcionar direito quando se encontrasse em estado de quase completa exaustão. Mas era preciso que funcionasse. Ele estava navegando em  mares estranhos.   Mares em que pequeninas ilhas eram povoadas por grotesco habitantes. Julian Dunois, Lucas Herron, Bartolozzi, Aiello, Stockton e Pace.  Os envenenados e os envenenadores.

Nimrod.

Mares estranhos?

Não, não eram assim tão estranhos. . .

Havia muitos navegantes. E eles eram os cínicos do planeta.

Foi para o Hotel Sheraton e tomou um quarto.

Sentou se na beira da cama e telefonou para Carmount. Stockton tinha saído.

Numa voz brusca e autoritária ele disse à telefonista do clube que avisasse a Stockton para telefonar-lhe dentro de duas horas. Às seis horas. Deu o número do hotel e desligou.

Precisava de quatro horas de sono, pelo menos. Nao sabia quando iria poder dormir outra vez.

Pegou o telefone e falou com a portaria para cha­má-lo às 5:45.                                                         

Quando deixou cair a cabeça no travesseiro depois de tirar o casaco, levou o braço aos olhos e sentiu a barba crescida. Teria que ir ao barbeiro. Esquecera a mala dentro do carro. Estava cansado demais. . .

 

Os três toques curtos do telefone mostraram que as suas ordens estavam sendo cumpridas. Estava em cima da hora. Quinze minutos mais tarde o telefone tocou novamente. Eram exatamente seis horas. Era Stockton quem chamava.

— Vou ser breve, Matlock. Você tem um contato. Só que ele não quer encontrá-lo dentro do Iate. Quer que você vá ao East Slope, que funciona na primavera e verão para os turistas apreciarem o panorama, e tome o elevador que o levará lá em cima. Você deve estar lá às 8:30 esta noite. Ele terá uma pessoa lá. É tudo que tenho a dizer.  Não tenho nada com isso.

Dizendo isso bateu com o fone no gancho como se estivesse zangado.

Mas ele tinha conseguido! Tinha conseguido! Tinha estabelecido o contato com Nimrod! Com a conferência!

 

Seguiu pelo caminho escuro até o elevador que levava os esquiadores. Dez dólares tinham convencido o encarregado para levá-lo lá.  Era um cara alinhado que tinha um encontro lá em cima. Era tudo o que ele precisava saber.

Quando ele chegou lá, a chuva que vinha ameaçado o dia inteiro  começou a cair.  Ali em Connecticut, as chuvas de abril eram tempestades de maio e Matlock estava chateado por não ter comprado uma capa.

Olhou para o elevador vazio cujos dois cabos se projetavam contra a chuva cada vez mais forte. Havia uma luz quase invisível na casinha onde estavam as má­quinas do elevador. Matlock chegou até a porta e bateu Um homem baixo e forte veio abrir e ficou olhando para ele.

—  Você é o cara que vai subir?

—  Acho que sou, sim.

—  Qual é o seu nome?

—  Matlock.

—  Acho que é você mesmo.  Sabe entrar no car­rinho?

—  Eu já esquiei. Sei como é. . .

—  Então não precisa que eu ajude. Vou fazer fun­cionar e você pega ele.  Vai ficar todo molhado.

—  Eu sei.

Matlock ficou em posição para pegar o carrinho que já se aproximava. Entrou, sentou-se e prendeu a barra que lhe atravessava o peito. Sentiu que o carrinho come­çava a andar.

Estava a caminho para o cume da East Gorge, ia afinal encontrar-se com o contato de Nimrod.  Quando já estava a uns três metros de altura do chão a chuva aumentou de intensidade,  mas já não significava nada para ele na sua exaltação.  Estava chegando ao fim da jornada.  A pessoa que ia encontrar lá em cima certa­mente se mostraria confusa e ele contava com aquilo.Estava dentro de seus planos.  Se tudo que o falecido Loring lhe contara e que muito vivo Greenberg confirmara fosse verdade, não poderia ser de outra maneira. O completo segredo da conferência; os delegados que não se conheciam; o juramento “Omerta” e a violenta insistência da subcultura com códigos para proteger  seus habitantes, tudo aquilo então era verdade. Ele tinha visto em funcionamento.  E toda aquela complicada logística, quando interrompida de repente, inevitavelmente levaria à desconfiança, ao medo e afinal a uma completa confusão. E Matlock contava com aquela confusão.

Lucas Herron tinha-o acusado de se deixar influenciar, mas ele não estava influenciado.   Ele apenas compreendia. Era diferente. E fora isso que o levara a um passo de Nimrod.

A chuva agora estava mais forte ali a céu aberto. O carrinho balançava com a tração da máquina que o levava para cima. Via ao longe a luzinha da casa das máquinas.  Devia estar na metade do caminho.

Sentiu uma sacudidela e o carrinho parou de repente Matlock agarrou-se à barra e apertou os olhos para procurar descobrir a razão da parada. Não havia nenhuma.

Conseguiu virar-se para olhar lá embaixo e percebeu que não havia mais luz na casinha das máquinas. Pen­sou que era a chuva que atrapalhava, mas não era. Não havia mais luz nenhuma lá embaixo.

Talvez os fusíveis tivessem queimado. Também podia ser um curto. Estava chovendo muito e aquilo não costumava funcionar com um tempo assim.

Olhou para baixo. O chão estava a uns quatro me­tros. Se ele se agarrasse ao carrinho a queda seria pou­co mais de dois metros. Podia conseguir. Depois iria a pé o resto da subida. Teria que andar depressa. Não queria que o homem desistisse e fosse embora antes dele chegar.

— Fique aí onde está! Não saia do  carrinho!

A voz vinha lá da escuridão atravessando a chuva e o vento. O seu tom de comando paralisou Matlock pela surpresa e pelo medo. O homem estava ali embaixo dele. Estava com capa e uma espécie  de  gorro.   Era impossível distinguir o seu rosto ou saber o seu tamanho.

— Quem é você? O que quer?

— Sou a pessoa que veio para encontrá-lo.  Quero ver o tal papel que tem no bolso.  Jogue-o cá embaixo.

— Eu lhe mostrarei o meu  quando você me  mostrar o seu.  Foi esse o trato que fizemos.

— Você está por fora, Matlock. Jogue o papel aqui, e já.

— Que diabo você quer dizer?

Um forte facho de luz cegou-o completamente. Es­ticou o braço para abrir o carrinho.

—  Tire a mão daí, senão está morto.

A luz ofuscava-o completamente. Quando conseguiu olhar percebeu que o homem lá embaixo estava se apro­ximando e viu em sua mão uma arma ameaçadora, a luz que o cegava voltou e já estava bem embaixo dele.

Matlock lembrou-se como as ameaças tinham sur­tido efeito com Stockton e resolveu experimentar a mes­ma tática.

Mas o efeito não foi o mesmo. O homem lá embaixo deu uma gargalhada. Uma gargalhada de verdade. Via-se que estava achando muita graça.

—  Você é muito engraçadinho.   Sabe com que se parece?  Parece um daqueles macaquinhos que servem de alvo nas galerias de tiro! Sabe o que estou falando, não  é? Agora vamos deixar de sacanagem e jogue o papel cá embaixo.

Ele tornou a soltar uma gargalhada e só então Ma­tlock percebeu claramente a sua situação.

Ele não tinha feito contato. Não tinha acuado nin­guém. Tinham sido em vão todo o seu planejamento, todos os seus cálculos. Não estava agora mais perto de Nimrod.

Tinha caído numa armadilha.

Mas ainda tinha que tentar.   Era tudo que restava.

—  Você está cometendo o erro mais sério de sua vida!

—  Ora vamos deixar disso! Não chateie mais.  Dê-me o tal papel. Estamos correndo atrás dele já faz uma semana.   Agora tenho  ordens  de  pegá-lo de  qualquer maneira. . .

—  Mas eu não posso dá-lo. . .

—  Vou arrebentar seus miolos!

—  Eu  disse  que  não  posso.   Não  disse  que  não quero!

—  Não me aporrinhe mais! Sei que está com você. Não teria vindo até aqui sem ele.

—  Mas está amarrado nas minhas costas.

—  Pois tire-o de lá!

—  Já  disse  que  não  posso,   na  posição  em  queestou, aqui suspenso no ar.

Suas palavras quase foram abafadas pela chuva fustigante. O homem lá embaixo já estava perdendo a paciência.

— Eu já lhe disse para me dar. . .

— Eu só posso dar se saltar.   Não consigo mexer­-me aqui em cima.   Não tenha  medo que estou  desarmado.

O homem lá embaixo apontava a arma e a luz para Matlock.

— Está bem.   Pode saltar.  Se fizer um movimento arrebento-lhe os miolos!

Matlock desamarrou e soltou a barra. Segurou-se no carrinho e ficou ali pendurado no ar com a chuva ensopando-o e a luz na sua cara. Tinha que pensar. Tinha que inventar alguma coisa. Para um cara como aquele ali embaixo, a sua vida valia ainda menos do que aqueles lá em Windsor Shoals.

—  Bote essa luz para baixo. Está me cegando!

— Não  me aporrinhe,  já disse!  Salte  logo!

Ele saltou.

Logo que tocou no chão deu um grito estridente de dor e agarrou sua perna.

—  Ui, ui, ui; minha perna! Meu pé! Quebrei a porra do pé. . . — E torcia-se todo de dor estirado ali na lama.

—  Cale-se! Me dê o papel! Ande daí!

—  Puxa vida! O que é que você quer que eu faça? Estou com o tornozelo torcido,  meu  pé está quebrado!

—  Azar o seu! Passe para cá o papel!

Matlock continuava estirado no chão contorcendo-se de dor.  Conseguiu falar  a muito custo.

—  Está aqui amarrado, desamarre aqui. . . — Abriu a camisa mostrando o cinto de lona.

—  Desamarre você mesmo.   Vamos,  depressa!

E o homem chegava cada vez mais perto. A luz agora estava ali bem em cima de sua cabeça e Matlock via o cano da pistola.

Era o instante exato que ele tinha esperado.

Esticou o braço direito para a arma ao mesmo tempo que atirava o seu corpo com toda a sua força contras as pernas do homem. Segurava a pistola pelo cano forçando-a em direção ao chão. Ouviu dois tiros e o impacto das explosões quase arrebentou a sua mão.

O homem estava agora por baixo dele lutando para desvencilhar-se de Matlock que era o mais pesado. Matlock segurou-lhe o braço e meteu os dentes na mão queainda tinha a arma. Sentiu quando o sangue espirrou misturando-se com a chuva.

O outro largou a pistola com um grito de dor. Ma­tlock apanhou a arma e com ela massacrou-lhe o rosto A poderosa lanterna estava agora atirada na grama com o seu foco apontando para as folhas molhadas.

Matlock inclinou-se sobre o homem quase incons­ciente com o rosto todo ensangüentado. Estava sem fô­lego e ainda tinha na boca o gosto enjoativo do sangue Cuspiu tentando limpar a boca e a garganta.

Agarrou o homem pela gola e sacudiu-o. — Muito bem. Agora quero saber o que aconteceu. Foi uma ar­madilha, não foi?

—  O papel, o papel! Eu tenho que levar o papel. . . — Quase não conseguia ouvi-lo.

— Eu caí numa armadilha, não foi? Toda a semana passada foi uma armadilha!

— Foi sim.   Isso mesmo.   O papel. . .

— Esse tal papel é muito importante, não é?

— Eles matam você. . . Vão matar você para ficar com ele. Você não vai conseguir nada. . . nada. . .

— Quem são eles?

— Eu não sei.   Não sei mesmo.

— E quem é Nimrod?

—  Eu não sei. . .   Omerta!. . .  Omerta!

O homem arregalou os olhos e Matlock viu, à luz fraca da lanterna, que alguma coisa tinha acontecido com a sua vítima. Havia alguma coisa que o estava ator­mentando. Era triste ver aquilo. Era muito parecido com o olhar de horror e pânico de Lucas Herron e de Alan Pace.

—  Vamos lá. . .  vou ajudar você a descer. . .

Foi só o que conseguiu dizer. Lá do mais profundo de seu controle perdido o homem com a cara ensan­güentada atirou-se sobre Matlock numa tentativa deses­perada para se apoderar da arma. Matlock recuou e instintivamente, atirou. O homem estava com a metade do pescoço esfacelada. Havia sangue e carne em toda parte.

Matlock levantou-se lentamente.   A fumaça da pistola ainda flutuava por cima do morto mas a chuva es­tava acabando com ele.

Ele abaixou-se para apanhar a lanterna, mas não se conteve mais.  Começou a vomitar.

 

Dez minutos depois ainda estava encostado ao tron­co de uma imensa árvore protegendo-se da chuva e ven­do lá embaixo a área do estacionamento. A chuva con­tinuava forte e suas roupas estavam sujas de lama e sangue. Via lá embaixo o seu carro branco perto do portão de entrada do clube. Não havia muita atividade por ali. Não chegavam carros novos e os que estavam lá dentro iam esperar que a chuva parasse para poderem sair para a estrada. O guarda do estacionamento a quem tinha dado os dez dólares estava conversando com o porteiro uniformizado na entrada do restaurante. Matlock queria correr até o carro e sair por ali o mais rá­pido possível, mas sabia que sujo como estava iria alar­mar os dois homens. Tinha que esperar até que viesse alguém que distraísse os dois caras ou então esperar que entrassem.

Detestava aquela espera e, mais do que isso, estava apavorado. Não tinha visto ninguém perto da casa das máquinas, mas isso não queria dizer que o homem do contato não tivesse um companheiro escondido esperan­do por ele. Se encontrassem o homem morto iam matá-lo também, senão como vingança, pelo menos para con­seguir o tal papel.

Agora já não tinha escolha.  Tinha ultrapassado as possibilidades.  Havia sido manipulado por Nimrod e tinha sido manobrado pelos homens do governo. Teria que telefonar para Jason Greenberg e fazer tudo que ele mandasse.

De uma certa forma, ele estava satisfeito que sua parte estivesse terminada, ou que pouco faltasse para isso. Ainda achava que devia fazer alguma coisa, mas não sabia o que era. Tinha fracassado.

Lá embaixo, abriu-se a entrada do restaurante e uma garçonete fez sinal ao porteiro. Os dois homens foram falar com ela.

Matlock abaixou-se e saiu correndo escondendo-se entre os carros, sempre olhando para a porta do res­taurante. A moça tinha trazido café e estavam os três fumando e rindo.

Chegou agachado até onde estava o seu carro e viu que as chaves estavam no lugar. Abriu a porta de­vagar e entrou. Fechou sem fazer barulho e via lá ao longe os três que ainda estavam conversando e rindo bem despreocupados.

Acomodou-se no assento e deu a partida engrenan­do e saindo disparado.

Lá na entrada, os três empregados olharam espan­tados, e o espanto ainda aumentou mais quando viram um outro carro escuro sair também de trás do estacio­namento numa corrida desabalada em  perseguição do outro.

 

Não havia muito tráfego na estrada, mas ainda assim ele achou melhor tomar a estrada secundária para levá-lo a Carlyle. Tinha decidido direto para a casa de Sam Kressel mesmo que tivesse de enfrentar o seu histerismo. Juntos poderiam ligar para Greenberg. Ele tinha acabado de matar um homem de maneira estúpida, um outro ser humano, e justificado ou não, ainda sentia toda a brutalidade da tragédia. Achava que aquilo iria acompanhá-lo todo os resto de3 sua vida. Não sabia bem se Kressel seria a pessoa certa para procurar.

Só que não tinha mais ninguém. A não ser que voltasse ao seu apartamento para esperar que um agente federal fosse buscá-lo.  Aliás, também poderia acon­tecer que lá aparecesse um emissário de Nimrod.

Havia uma curva em S que vinha antes de uma reta e ele poderia ganhar tempo ali. Aquelas estradas secun­dárias eram atalhos que encurtavam o caminho desde que não houvesse muito movimento. Foi quando verifi­cou que estava segurando o volante com tanta força que os braços já estavam doendo. Eram os músculos do cor­po que estavam reagindo.

Afinal apareceu a reta e a chuva já tinha amainado. Apertou mais o acelerador e o carro deu um salto.

Não tirava os olhos do espelho retrovisor esperando ver algum carro da patrulha rodoviária. Viu uns faróis que vinham ganhando distância sobre ele. Olhou o velocímetro que marcava 140 mas o outro continuava a ganhar distância.

O seu instinto de conservação logo despertou. Sabia que aquele carro não era da polícia. Não ouvia a si­rene com toda a sua autoridade.

Levou o pé até o fundo e o velocimetro já marcava 150, e era o máximo que o carro dava.

Os faróis estavam agora bem junto dele. O per­seguidor desconhecido estava quase colado ao seu pára-choque. De repente ele entrou pela esquerda e empa­relhou seu carro com o outro.

Era o mesmo carro preto que ele tinha visto depois do assassinato de Loring. O mesmo que tinha saído da escuridão depois do massacre de Windsor Shoals! Matlock procurava manter sua atenção na estrada ao mes­mo tempo que olhava também para aquele carro ali ao seu lado.

Foi então que viu o cano da pistola apontada contra ele. Viu o olhar de desespero que estava por trás do braço estendido e que procurava firmeza para atirar. Ouviu os tiros e sentiu o vidro estilhaçado em seu rosto e espalhado em cima do assento. Meteu o pé no freio e deu uma guinada para a direita passando pelo acostamento e arrombando uma cerca de arame. O carro ainda andou um pouco até esbarrar com umas pe­dras. Os faróis quebraram e apagaram e a frente ficou toda amassada. Ele foi projetado contra o pára-brisa mas protegeu-se com os braços.

Estava porém consciente e os  instintos do caçado ainda estavam presentes.

Ouviu quando uma porta do outro carro abriu-se e fechar e sabia que o caçador estava atrás de sua presa. Estava atrás do papel prateado. Sentiu que um sangue lhe escorria pela testa e não sabia se era da bala ou dos vidros quebrados, mas gostava que estivesse ali. Agora já tinha necessidade de ver sangue.   Conti­nuou deitado em cima do volante como se tivesse desmaiado.

Mas por baixo do casaco estava segurando aquela feia pistola que pertencera ao homem que morrera lá em cima.  Por baixo do braço ela estava apontada para a porta.

Já ouvia o ruído dos passos do lado de fora do carro. Sentia literalmente, da mesma forma que um cego, que havia um rosto lá fora que olhava para ele através do vidro estilhaçado. Ouviu o clic da fechadura e a porta que se abria.

Sentiu a mão que o segurava pelo ombro e fez fogo.

O estrondo foi tremendo. O berro do homem ferido atravessou a escuridão molhada. Matlock saltou do carro e descarregou todo seu peso contra o outro que segu­rava o braço ferido. Com a pistola, Matlock castigou o rosto e o pescoço dele em golpes selvagens até que seu corpo desabou no chão. Não via onde estava a arma dele, pois as mãos estavam vazias. Meteu o pé no pes­coço e apertou.

—  Só vou parar quando você me fizer sinal que está disposto a falar, seu filho da puta.  Senão vou continuar até o fim.

O homem estava engasgado e tinha os olhos esbugalhados.  Afinai levantou o braço pedindo misericórdia.

Matlock tirou o pé e ajoelhou-se em cima dele. O nomem era forte e cabeludo com as. feições brutais de um matador.

—  Quem  mandou  você  atrás  de  mim?  Como  co­nhecia este carro?

O homem levantou  um  pocuo a cabeça como se fosse responder, mas em vez disso meteu a mão direita na cintura e sacou uma faca ao mesmo tempo que rolava o corpo e metia o joelho na barriga de Matlock.  A faca rasgou a camisa de Matlock e ele sentiu a ponta penetrar-lhe na carne.

Desabou a arma pesada com toda sua força no crâ­nio do assassino e a sua cabeça pendeu para o lado com o sangue escorrendo entre o cabelo. Matlock le­vantou-se e meteu o pé na mão que tinha a faca. Logo depois o outro abria os olhos. E durante os próximos  minutos,  Matlock fez uma coisa que jamais se julgara capaz de fazer. Torturou um outro homem.  Torturou-o com a ponta da sua própria faca espetando-a embaixo dos olhos, nos lábios, e quan­do ele gritava Matlock castigava-lhe a boca com a coronha da pistola que arrebentava os dentes dele. Não demorou muito.

—  O papel!

—  E o que mais?

O infeliz cuspia sangue mas não falava. Matlock falou então com convicção e sinceridade.

—  Ou você me responde, ou eu vou enfiar-lhe esta faca nos dois olhos.  Já não estou ligando mais.  Pode crer.

Ele respondeu numa voz gutural que vinha lá do fundo da garganta. — O velho! Ele disse que escre­veu. . .  Ninguém sabe. . . Você falou com ele.

—  Mas  que  velho. . .   Lucas  Herron?  É  dele  que você está falando? — Matlock estava assombrado.

—  Ele disse que escreveu.   Eles acham que você sabe.   Pode ser que ele tenha mentido. . .   Pelo amor de Deus, ele podia ter mentido. . .

O homem desmaiou.

Matlock levantou-se devagar. Tremiam-lhe as mãos e todo o corpo. Olhou para a estrada e para o carro preto grande que estava ali na chuva que já tinha dimi­nuído.  Ia ser a sua última jogada. O seu esforço final.

Havia ainda alguma coisa vibrando no seu cérebro, alguma coisa insidiosa mas palpável. Teria que confiar naquele sentimento da mesma forma que confiara nos instintos de caçador e de caçado.

O velho!

A resposta estava lá pela casa de Lucas Herron.

 

Estacionou o carro preto ali perto e caminhou para a casa na beira da estrada, preparado para se meter no mato se algum outro carro aparecesse.

Não apareceu nenhum.

Chegou perto da propriedade de Herron e agachou-se. Devagar e silenciosamente ele chegou até a calçada da entrada. A casa estava às escuras. Não havia carros nem gente, nem qualquer sinal  de vida.   Só de morte.

Caminhou até a porta e viu um documento que pa­recia oficial, mas que mal se via ali na escuridão, e que estava pregado na porta. Era o selo do xerife.

Mais um crime, pensou Matlock.

Fez a volta para os fundos da casa e lembrou-se nitidamente de Herron correndo pelo gramado bem cui­dado e entrando pelo mato onde desapareceu comple­tamente.

Havia um outro selo do xerife na porta de trás, gru­dado no vidro.

Matlock tirou a pistola da cintura e com o menor barulho possível quebrou o vidra. Depois abriu a porta por dentro e entrou.            

A primeira coisa que o chocou foi a escuridão.  A luz e a escuridão eram relativas,  como ele tinha acabado por perceber naquela semana que passara   A noite tinha luz que podia ser adaptada aos olhos ao passo que a luz do dia era enganadora, era cheia de sombras e pontos cegos cheios de névoa. Mas ali dentro da casa de Herron a escuridão era completa. Ele riscou um fós­foro e compreendeu a razão.

As janelas da cozinha muito pequena estavam co­bertas com cortinas, mas eram umas cortinas muito es­peciais que tinham sido feitas sob medida para não dei­xar entrar nem sair luz.

Herron tinha tomado precauções extraordinárias para que ninguém viesse perturbá-lo.

Riscou um outro fósforo e entrou na sala de estar. O que viu deixou-o estarrecido.

A sala estava toda destroçada. Livros atirados ao chão, mobília quebrada, almofadas rasgadas, tapetes vi­rados e até mesmo a parede fora atacada. Parecia uma repetição do que havia sido feito no seu apartamento na noite do jantar com os Beeson. Aquela sala de estar tinha sido submetida a uma busca completa e deses­perada.

Voltou à cozinha e viu  lá a  mesma coisa.   Dentro de  um  armário  aberto  viu  uma  lanterna  e  apanhou-a.

Caminhou  rápido  até a sala de  estar outra vez e tornou a verificar. Também ali todas as janelas estavam tapadas com cortinas iguais às da cozinha.

Atravessou a sala e viu uma porta aberta que le­vava ao gabinete de Herron. Ali havia a mesma con­fusão, ou talvez mesmo pior se fosse possível. Dois ar­quivos de aço estavam atirados no chão. A mesa gran­de de trabalho estava afastada e quebrada. Havia bu­racos na parede.

Lá em cima nos dois quartos pequenos e no ba­nheiro a confusão era a mesma.

Desceu e viu que até mesmo os degraus da escada tinham  sido arrancados.

Aquela casa tinha sido revistada por profissionais. Como poderia ele ainda encontrar ali alguma coisa que houvesse escapado aos outros? Voltou para a sala esentou-se numa poltrona toda arrebentada. Acendeu um cigarro e procurou concatenar as idéias. Sentia que iriafracassar mais uma vez.

Teriam   eles   encontrado   o   que   procuravam?   Não podia saber. Só sabia o que aquele assassino tinha gritado lá em cima dizendo que “o velho tinha escrito tudo”.  Também tinha dito  que ele  poderia ter mentido.

Não. . . Não, eles não tinham encontrado o que procuravam, e como não tinham encontrado depois de tan­ta luta, então aquilo ainda deveria estar por ali.  Sabia que estava.

Herron talvez houvesse sido envolvido pelo mundo de Nimrod, mas não nascera nele. As relações não ti­nham sido confortáveis, tinham sido torturantes. Em algum lugar dele tinha deixado o seu libelo acusatório. Era bom demais para não ter feito aquilo. Era um ho­mem digno e decente. Tinha que estar por ali. . . em algum lugar.

Mas onde?

Levantou-se e andou de um lado para outro naquela sala em ruínas, ligando e desligando a lanterna mais como um gesto nervoso do que para iluminar.

Tornou a examinar minuciosamente todas as pala­vras, todas as expressões que Lucas usara naquela noite quatro dias atrás. Já era outra vez o caçador seguindo uma pista. E sabia que estava perto, estava bem per­to. . . No mesmo instante que abrira a porta da frente, Herron já sabia o que Matlock procurava. Tinha visto isso nos seus olhos. Não podia haver engano. Tinha falado com o velho que achara graça dizendo que ele estava sendo influenciado...

Mas tinha havido alguma coisa antes. . . Alguma coisa ali mesmo, dentro daquela sala. Antes de Herron convidá-lo para sentar-se lá fora. Só que não fora bem um convite.  Fora uma imposição, fora uma ordem.

E antes de dar a ordem para irem lá para o quintal, ele tinha entrado tão silencioso que assustara Matlock. Tinha aberto a porta de vaivém com dois copos na mão e Matlock não ouvira nada. Matlock acendeu a lanterna e iluminou a entrada da cozinha. Não havia tapete. Nada que pudesse abafar os passos. Examinou bem a porta mas nada conseguia encontrar.

Lucas tinha preparado as duas  bebidas  e depoistinha voltado à sala sem fazer barulho.  Queria observar Matlock sem que ele percebesse.  E aí então tinha dado a ordem para irem lá para fora.

Matlock fazia um esforço para lembrar precisamente o que Lucas tinha dito e feito naquela hora exata.

“...vamos lá para fora. Está um dia muito bonito para nós ficarmos aqui dentro. Vamos.”

Depois, sem esperar por qualquer resposta, ele tinha atravessado rapidamente saindo pela porta da cozinha. Não havia nele a sua costumeira cortesia e boas manei­ras. Tinha dado uma ordem. Um comando firme de ofi­cial e cavalheiro.

Uma Lei do Congresso.

Era aquilo mesmo! Matlock dirigiu o foco de luz para cima da mesa.

A fotografia! A fotografia de um oficial de marinha segurando um mapa e uma metralhadora numa ilha per­dida do Pacífico.

“Guardo esta velha fotografia para recordar-me que o tempo não foi sempre tão devastador.”

No momento preciso em que Herron entrara, Matlock estava olhando de perto aquela fotografia. Aquilo perturbara o velho o suficiente para que ele insistisse na saída lá para fora. E isso de uma forma muito brusca que não era o seu feitio natural.

Matlock foi até a mesa. A fotografia coberta de celofane ainda estava ali no mesmo lugar. Outras maiores tinham sido destruídas, mas aquela estava intacta. Era pequena e não chamava a atenção.

Ele apanhou-a para examinar com mais cuidado. A luz forte da lanterna mostrava uns arranhões no canto do cartão. Seriam marcas de unhas? Era possível. Pro­curou com a lanterna e acabou encontrando uma tesou­ra. Enfiou-a e conseguiu tirar fora a fotografia. E foi assim que encontrou o que procurava. Nas costas da fotografia havia um diagrama traçado com uma pena grossa. Era em feitio de retângulo com as linhas de baixo e de cima pontilhadas. Em cima havia duas pequenas linhas com flechas apontando e por cima de cada uma estava o número 30. Dois números 30.

Trinta.

Dos lados, acompanhando as linhas estavam  umas árvores como se forem desenhadas por criança.

Na parte de cima, por cima dos números, havia um outro desenho simplificado. Eram meios círculos ligados uns aos outros por uma linha sinuosa. Uma nuvem. Por baixo mais árvores.

Era um mapa, e o que ele representava estava mes­mo na cara.   Era o quintal de Herron.

Os números 30 eram medidas mas também eram mais alguma coisa. Eram símbolos contemporâneos.

Porque Lucas Herron, durante décadas presidente da Linguagem de Romance, gostava demais de palavras e de seus usos mais antigos? O que poderia haver de mais apropriado do que o símbolo “30” para indicar fi­nalidade?

Como sabe qualquer aluno de primeiro ano de Jor­nalismo, o 30 no fim de qualquer notícia significa que ela terminou.

Que não havia mais nada para dizer.

Matlock segurou a fotografia de cabeça para baixo na sua mão esquerda e com a direita levava a lanterna. Entrou no mato no lugar indicado pelo diagrama   O nú­mero 30 poderia ser pés, metros ou passos.  Claro que nao seria polegadas.

Marcou trinta espaços de doze polegadas. Trinta pés em frente, trinta pés para a direita.

Nada.

Apenas o mato molhado que se agarrava aos seus sapatos.

Voltou para a entrada do mato e resolveu combinar metros e passos, sabendo que os passos naquele mato fechado poderiam variar muito.

Marcou o ponto trinta passos na frente e continuou até completar os 30 metros. Depois voltou para onde tinha marcado os 30 passos e começou o caminho lateral.

Outra vez nada. Um velho tronco apodrecido estava perto dolugar onde ele calculava os 30 passos. Nada mais ali que chamasse a atenção.

Voltou para o outro lado. Trinta metros em frente. Noventa pés, mais ou menos. Depois mais noventa pés pelo mato molhado. Mais noventa pés. Total de 180 pés. Quase dois terços de um campo de futebol.

Já agora andava mais devagar pois o mato era mais denso. Se ele ao menos tivesse um facão para abrir caminho.

Chegou ao ponto que era vinte e oito ou trinta. Apontou a lanterna para o chão, de um lado para outro. Nada. Só a terra molhada e o mato rasteiro. Cada vez aumentava mais a possibilidade de um fracasso. Tinha que começar tudo de novo. Talvez os 30 quisessem dizer alguma coisa mais. E os pontilhados? Teria que contá-los? Qual a razão para estarem ali?

Tornou a pensar nos pontos e tirou a fotografia do bolso.  Quando levantou-se, com os músculos ainda tolhidos pela posição de cócoras, o seu pé esbarrou numa superfície dura.  Primeiro pensou que fosse uma pedra.

Mas logo viu que não era.

Não podia ver o que era. O mato cobria tudo. Mas sentia com o pé a forma do objeto.

Iluminou o mato e viu que não era mato. Era uma espécie de flor que não precisava de sol.

Ali  não era o seu  lugar.   Tinha sido plantada ali.

Afastou-se e abaixou-se. Por baixo estava uma tá­bua bem envernizada de mais ou menos meio metro por meio metro. Estava bem enterrada. Tinha sido tão en­vernizada que refletia a luz como se fosse vidro.

Matlock arrancou a tábua com as mãos e por baixo dela encontrou uma placa de metal que parecia bronze.

 

Para o Major Lucas N. Herron, USMCR Como prova de gratidão dos oficiais e soldados da Companhia Bravo, 14.° Batalhão, Primeira Divisão de Fuzileiros.

Ilhas Salomão — Pacífico Sul

Maio 1943

 

Vendo aquilo ali enterrado no chão, Matlock teve a impressão que estava olhando para um túmulo.

Retirou a placa com cuidado e viu então que tinha encontrado o que queria.

Enterrado ali estava uma caixa de metal do tipo que se usa para guardar documentos de valor, à prova de água, para uma duração eterna.

Parecia um  sarcófago,  pensou  Matlock.

A muito custo conseguiu abri-la. Lá dentro Matlock viu um embrulho em papel oleado na forma de um livro.

Sabia que tinha encontrado o libelo acusatório.

 

O livro de notas era grosso, com mais de trezentas páginas, e estava todo escrito à tinta. Era em forma de diário mas as anotações extensas variavam muito. Não havia consistência quanto às datas. Muitas vezes os dias seguiam-se ao passo que de outras havia intervalos de semanas ou até mesmo meses. O que estava escrito também variava. Havia trechos de narrativa lúcida se­guidos de coisas incoerentes. A mão devia estar tre­mendo e as palavras eram ininteligíveis.

O diário de Lucas Herron era um grito de angústia, eram exclamações de dor. Era a confissão de um ho­mem que não tinha mais esperança.

Sentado ali naquele chão molhado, estarrecido pe­las palavras de Herron, Matlock afinal descobriu a razão para o seu refúgio, para as cortinas da casa e para o isolamento total .

Lucas Herron vinha sendo viciado em drogas du­rante os últimos vinte e cinco anos. Sem elas, seu so­frimento era inominável. E não havia absolutamente nada que pudesse ser feito com ele senão interná-lo num hos­pital para o resto de seus dias.

E era a rejeição daquela morte viva que tinha mer­gulhado Herron numa outra.

O Major Lucas Nathaniel Herron, USMCR, adido às tropas anfíbias de assalto e aos fuzileiros, no Pacífico, tinha levado numerosas companhias do 14.° Batalhão da primeira Divisão dos Fuzileiros, a assaltos em várias ilhas ainda nas mãos dos japoneses.

E  o  Major  Lucas  Herron  tinha  sido  evacuado  da  Ihota de Peleliu, nas Carolinas, numa maca, depois de ter trazido duas companhias de volta, a salvo, atraves­sando toda a selva debaixo de fogo. Ninguém imaginava que ele pudesse sobreviver.

Tinha uma bala na base do pescoço, numa seção do sistema nervoso e não esperavam que vivesse. Todos os médicos consideravam impossível mais operações. Os riscos eram terríveis, e ninguém queria se responsabi­lizar.

O doente foi submetido a medicação muito forte para atenuar seus sofrimentos. Ficou no hospital de Maryland durante dois anos.

Os estágios da cura parcial eram lentos e penosos. Aparelhos ortopédicos e pílulas. Depois muletas e sem­pre as pílulas. Lucas Herron voltou ao mundo dos vivos, mas não podia passar sem as pílulas. E nos momentos de maiores tormentos, a agulha com morfina.

Havia centenas, talvez milhares, de outros como Lu­cas, mas poucos eram os que tinham as suas qualifi­cações extraordinárias. . . para aqueles que queriam os seus serviços. Um autêntico herói da guerra do Pací­fico, um brilhante acadêmico, um homem acima de qual­quer suspeita.

Era perfeito.   Poderiam usá-lo com  proveito.

Por um lado, ele não poderia viver, não poderia re­sistir, sem o alívio que lhe proporcionavam os narcóti­cos, as pílulas e, cada vez mais, a agulha. Por outro, se descobrissem aquela sua dependência, ele teria que voltar ao hospital.

Essas alternativas eram insidiosamente levadas ao seu conhecimento. Aos poucos ele foi-se enredando e pedindo favores sempre disfarçados por toda sorte de desculpas.

Com o decorrer dos anos ele foi-se tornando extremamente valioso para os homens de quem dependia. Os contatos a serem feitos em Boston, o dinheiro a ser pago em New York, tudo isso ia aumentando ao mesmo tempo que aumentava também a sua necessidade. Aí começaram a mandar Lucas viajar cada vez mais lon­ge. Férias no Canadá, no México, na França. . . no Me­diterrâneo.

Tornou-se um correio.

E sempre estava presente aquela possibilidade de sua volta ao hospital, torturando-lhe a mente e o corpo.

Tinha sido manipulado brilhantemente. Nunca o ex­puseram aos resultados de seu trabalho. Ele nunca es­pecificamente chegou a perceber a rede de destruição que estava ajudando a construir. E finalmente, quando chegou a perceber, já era tarde demais. A rede já estava construída.

Nimrod estava com o poder.

 

22 abril de 1951. Nas férias eles vão mandar-me de volta para o México. Vou parar na U. de M. como sempre, na volta. Uma nota irônica. O tesoureiro aqui chamou-me di­zendo que Carlyle teria prazer em ajudar nas despesas de minhas “pesquisas”. Recusei di­zendo que a minha pensão de veterano era suficiente. Talvez devesse ter aceitado. . .

13 junho 1956. Passei três semanas em Lisboa. Deram-me um roteiro. Passei em Aço­res, Cuba e finalmente Panamá. Estive na Sorbonne, na U. de Toledo e na U. de Madrid. Estou virando uma mariposa acadêmica! Não gosto dos métodos, e quem poderia gostar, mas tampouco sou responsável pelas leis ar­caicas, São tantos os que podem ser ajuda­dos. Entrei em contato com muitos pelo tele­fone. . . homens como eu que não dispensam a ajuda. . . Mas, mesmo assim, eu fico pre­ocupado. . . Mas o que posso fazer? Se eu não fizer outros farão. . .

24 fevereiro 1957. Sinto-me alarmado, mas calmo e razoável. Disseram-me que quan­do sair para estabelecer contatos eu serei um mensageiro de Nimrod! O nome é um código. Um artifício sem significação. Mas será respei­tado. Tudo parece tão tolo. . . como as infor­mações que recebíamos no QG de MacArthur no Pacífico. Tinham todos os códigos mas não tinham fatos. . . As dores aumentam. Os mé­dicos dizem que só podem piorar. Mas. . .  Nimrod é muito atencioso. . . Assim como eu.

10 março 1957. Eles ficaram zangados comi­go e suspenderam minhas doses durante dois dias. Pensei que era melhor matar-me. Saí no meu carro para o hospital em Hartford mas eles me pegaram na estrada. Estavam num carro da polícia de Carlyle! Eu devia saber que eles estão com a polícia daqui. . . Eu tinha que escolher entre aceitar ou então voltar pa­ra o hospital! Eles estavam certos. Agora vou para o Canadá para trazer um homem que vem do norte da África. . . tenho que obede­cer. Estão sempre apelando para mim. Esta noite um oficial do Exército veio me dizer que ele e mais seis outros também vítimas da guerra dependiam de mim. São tantos nessas condições! Por que? Por que, pelo amor de Deus? Por que somos desprezados? Nós pre­cisamos de ajuda e tudo que nos oferecem são hospitais!. . .

19  agosto 1960.    Já tornei clara a minha posição.   Estão  indo  muito  longe!. . . Nimrod não é apenas um nome de código de um lu­gar, é o nome de um homem. A geografia não muda, mas o homem muda. Já não estão mais ajudando  homens como eu. . .   Mas agora já estão atraindo gente nova, e estão cobrando muito caro!. . .

20   agosto  1960.    Agora começaram  com ameaças.   Estão dizendo  que  não  me darão mais nada depois que acabar o eu tenho. . . Não estou ligando! Ainda tenho para uma se­mana, talvez mesmo mais. . . Seria bom se eu gostasse de álcool, mas fico enjoado.

28 agosto  1960.    Tomei coragem e fui à Chefatura da Polícia de Carlyle.  Não sabia o que estava fazendo. Pedi para falar com o chefe e eles me disseram que ele já tinha saído. Já passava das cinco horas. Então eu disse que queria fazer uma denúncia sobre narcóticos e ele logo apareceu. . . Mas já en­tão eu não conseguia controlar-me mais e uri­nei nas calças. O chefe de polícia levou-me a um gabinete e deu-me uma picada. Ele era de Nimrod!

7 outubro 1965. O tal Nimrod está abor­recido comigo. Eu sempre me dei bem com os outros Nimrods que encontrei, mas este agora é mais exigente. Eu me recuso a falar com estudantes e ele aceita isso, mas diz que não estou andando bem nas minhas aulas. É estranho. Seu nome é Mattew Orton e ele é um insignificante ajudante de ordens do go­vernador em Hartford. Mas também é Nimrod. Eu vou ter que obedecer. . .

14 novembro 1967. A dor nas costas é into­lerável. Só posso agüentar quarenta minutos de aula e tenho que pedir licença e sair. . . Será que vale a pena? Deve valer, pois senão eu não continuaria. . . Ou será que sou apenas egoísta? Ou covarde demais para acabar com tudo!. . . Nimrod quer ver-me esta noite. Onde será que vão me mandar?. . .

27  janeiro  1970.    Isto agora deve ser o fim, como nas belas palavras de C. Fry. Não há mais nada para mim e Nimrod já conta­minou muita gente. . .   Vou  suicidar-me  com um mínimo de sofrimento que for possível. Já sofri demais. . .

28  janeiro 1970.     Tentei  matar-me, mas não consegui.  Nem com o revólver nem com a faca. Estarei realmente tão infeccionado que já   não   posso  fazer  o   que   mais desejo. . . Nimrod vai matar-me. Eu sei disso e ele tam­bém. . .

29  janeiro 1970.    Nimrod agora é Arthur Latona! Incrível! O mesmo Arthur Latona que construiu o conjunto habitacional de Mount Holly. De qualquer forma, ele deu-me uma or­dem inaceitável. Eu lhe disse que era inaceitá­vel. Eu tenho valor demais para ser posto de lado, e foi o que lhe disse. . . Ele quer que eu leve uma grande soma de dinheiro para Toros Daglari na Turquia!. . . Por que? Por que não se acaba a minha vida?. . .

18 abril 1971. O mundo é coisa muito es­tranha. Para sobreviver, para existir e respi­rar, a gente faz as coisas mais repugnantes. É tudo apavorante. As desculpas e raciocínios ainda são piores. . . De repente acontece algu­ma coisa que suspende, ou pelo menos adia, qualquer necessidade de julgamento. . . A dor mudou das costas e do pescoço e desceu. . . Eu sabia que tinha que ser alguma coisa. Fui ao médico de Nimrod, como sempre. Perdi pe­so e meus reflexos são patéticos. Ele está preocupado e amanhã eu vou me internar num hospital. Ele diz que é para uma exploração. . . Sei que farão o melhor. Eles têm outras viagens muito importantes para mim. É o que me disse Nimrod. Disse que terei de viajar todo o verão. Se não for eu mandarão um outro. As dores estão terríveis.

22  maio 1971.    O velho e cansado guer­reiro está de volta ao lar. É a minha salvação. Tiraram-me um rim.   Os médicos não sabem ainda o que acontecerá com o outro. Mas eu sei bem. Estou morrendo. . . Oh Deus! Que feli­cidade! Acabaram-se as viagens.   Não haverá mais ameaças. Nimrod já não pode fazer nada. Vão me conservar vivo o máximo que possam. São obrigados. . . Eu disse por alto ao médico que vinha mantendo um  diário desde muitos anos. Ele olhou para mim estarrecido. Nunca vi um homem tão apavorado. . .

23   maio  1971.  Latona-Nimrod   apareceu aqui hoje de manhã. Antes de discutirmos qual­quer coisa eu disse que sabia estar morrendo. Já nada mais tinha importância para mim. Cheguei a dizer-lhe que estava preparado e aliviado, que tentara eu mesmo mas não tive­ra coragem. Ele me perguntou “aquilo que você disse ao médico”. Não teve a coragem de di­zer as palavras! O seu medo caiu sobre a sala como se fosse uma névoa pesada. . . Eu res­pondi com toda a calma e com grande autori­dade, acho. Disse-lhe que qualquer coisa es­crita que eu tinha lhe seria entregue se meus últimos dias ou meses tossem aliviados. Ele fi­cou furioso mas sabia que não podia fazer na­da. O que pode alguém fazer contra um velho que sabe que vai morrer!? Que argumentos po­de ter?

14 agosto 1971. Nimrod morreu! Latona morreu de um ataque nas coronárias. Foi antes de mim e há uma certa ironia nisso!. . . Mas os negócios continuam como sempre. Continuam a me trazer o suprimento todas as semanas e de cada vez o portador pergunta sempre onde está o que eu escrevi. Chegam quase a amea­çar mas eu lhes digo que Nimrod tinha tido a palavra de um velho que estava morrendo. Por que iria eu mudar de atitude?. . . Eles saem apavorados. . . Vão escolher um outro Nimrod. . . Eu disse que não me interessava, e não me in­teresso mesmo.

20 setembro 1971. Começa um novo ano em Carlyle. Será o meu último ano. Sei que responsabilidades posso assumir. . . A morte de Nimrod deu-me coragem. Ou será que é a apro­ximação da minha? Só Deus sabe que não pos­so desfazer muito, mas sempre tento! Estou en­contrando alguns que foram muito atingidos e ofereço-lhes ajuda, que é tudo o que posso dar. Podem ser só palavras e conselhos, mas só o fato de minha presença parece confortá-los. É sempre um choque tão grande para aqueles que procuro! Imaginem só! O “grande velho bacana.” As dores já são intoleráveis. Acho que não vou poder esperar. . .

23 dezembro 1971. Faltam dois dias para o meu último Natal. Já disse a muitos que me convidam para suas casas que irei para New York. Mas é claro que não vou. Ficarei aqui mesmo em minha casa. . . Uma notícia má. Os portadores estão me dizendo que o novo Nim­rod é o mais duro de todos. Dizem que é im­piedoso. Ordena execuções com a mesma fa­cilidade com que seus antecessores faziam simples pedidos. Ou será que estão dizendo isso só para me amedrontar? Mas eles não po­dem mais!

18 fevereiro 1972. O médico disse-me que ia receitar remédios mais fortes, mas que eu não devia abusar. Também me falou do novo Nimrod. Até ele está preocupado. Deu a en­tender que o homem é louco. Eu disse que não queria saber de nada. Já não estava interes­sado.

26 fevereiro 1972. Não posso acreditar. Nimrod é um monstro! Deve ser louco! Deu ordens para mandar para fora do país todos os que estão trabalhando aqui nos últimos três anos. Se recusarem serão mortos. O médico vai partir na semana que vem. Mulher, família, clientes. . . A viúva de Latona foi assassinada em um “acidente” de automóvel! Um dos por­tadores, Pollizzi, foi assassinado a tiros em New Haven. Um outro, Capalbo, tomou uma dose muito grande, mas dizem que foi-lhe apli­cada à força.

5 abril 1972. Recebi ordens de Nimrod para entregar ao portador o meu diário senão vai cortar o meu suprimento. Vão vigiar minha casa dia e noite. Serei seguido onde quer que vá. Não permitirão que procure um médico. Os efeitos combinados do câncer e da suspen­são serão uma agonia inominável. Mas Nimrod não sabe que o outro médico me deixou um suprimento de alguns meses antes de partir. Ele parecia acreditar que eu não durasse tan­to. . .   Pela primeira vez nesta minha vida terrível, eu estou por cima. Minha vida está mais garantida por causa da morte.

10 abril 1972. Nimrod chegou a um ponto de histeria comigo. Está ameaçando denun­ciar-me, o que é uma tolice. Já mandei dizer-lhe isso. Já disse que vai destruir todo o cam-pus de Carlyle, mas se fizer isso será a sua própria destruição. Há uns boatos que ele está convocando uma conferência. Uma reunião de gente importante. . . A minha casa está sempre vigiada. Pela polícia de Carlyle, claro! O exér­cito particular de Nimrod!

22 abril 1972.    Nimrod venceu! É horroro­so, mas venceu. Mandou-me duas notícias que saíram nos jornais. De dois estudantes que mor­reram por causa de doses muito grandes. Uma moça de Cambridge e um rapaz de Trinity. Diz que vai ser assim todas as semanas enquanto eu não entregar o diário. . .  Execução de re­féns. É preciso detê-lo! Mas como? O que pos­so eu fazer?. . . Tenho um plano, mas não sei se vai funcionar. Vou tentar fabricar outro diá­rio. Vai ser difícil porque minhas mãos tremem muito. Será que conseguirei?  É preciso que consiga.  Direi que vou entregar aos poucos. Para me proteger. Será que ele vai concordar?

24 abril   1972.    Nimrod   é   incrivelmente mau, mas é realista.  Ele sabe que não pode fazer outra coisa.   Estamos os dois correndo contra a minha morte. Estamos empates.  Es­tou usando a máquina de escrever e canetas diferentes com papéis também diferentes. Sus­penderam as execuções mas ameaçaram que serão recomeçadas se eu falhar em uma única entrega. As vidas dos reféns de Nimrod estão em minhas mãos. Só eu posso evitar as exe­cuções!

27 abril 1972. Aconteceu alguma coisa estranha! O Beeson telefonou para o nosso con­tato na universidade. Jim Matlock esteve lá e está desconfiado dele. Fez perguntas. Fez um papel triste com a mulher de Beeson. . . Matlock não está em lista alguma. Não faz parte de Nimrod. Nunca comprou nem vendeu nada. . . A radiopatrulha de Carlyle está sempre lá fora. O exército de Nimrod está alerta. O que será?

27 abril 1972. Mais tarde. Os portadores vieram. Eram dois, e o que me disseram é tão incrível que não posso acreditar. . . nem escre­ver aqui. . . Eu nunca perguntei quem é Nimrod. Nunca quis saber. Mas estão todos em pânico agora. Está acontecendo alguma coisa que es­capa até mesmo ao controle de Nimrod. E eles me contaram quem é Nimrod. . . Estão mentindo! Não posso e não quero acreditar. Se for mesmo verdade, então estamos no in­ferno!

 

Matlock ficou olhando para a última coisa escrita sem poder acreditar. Era quase impossível entender o que ele escrevera. As palavras estavam todas engata­das como se ele já não conseguisse dominar o lápis dis­parado.

 

28 abril. Matlock esteve aqui. Ele já sabe. Outras pessoas também sabem. Ele disse que o pessoal do governo tomou conta. . . É o fim. Mas eles não podem compreender o que vai acontecer. Vai ser um banho de sangue. . . uma matança! Nimrod não fará por menos. Vai haver muita dor. Uma execução em massa pro­vocada por um simples professor de inglês. . . Veio um mensageiro. Nimrod em pessoa vem falar comigo. Agora vou saber quem ele é. . . Se ele é mesmo aquele que querem que eu pense que é. . . então eu vou procisar tomar providências sobre o meu diário. É tudo o que resta. Vai ser a minha vez de ameaçar. . . Vai acabar. Em pouco já não sentirei mais dor. . . Tenho sofrido tanto! Vou fazer uma anotação final quando tiver mrteza...

 

Matlock fechou o livro. Era como a moça Jeannie tinha dito. Eles estavam com os tribunais, com a polí­cia, com os médicos. E Alan Pace. Tinham absorvido as administrações das principais universidades daque­la área.   Podiam fazer tudo. . .

Mas Matlock tinha o libelo acusador.

Era o bastante. O bastante para deter Nimrod, quem quer que ele fosse. Era o bastante para deter o banho de sangue, as execuções.

Agora precisava falar com Jason Greenberg .

Só com ele.

 

Levando o diário, ele começou a caminhar de volta para a cidade. Ia pelas estradas secundárias onde não havia movimento de noite. Sabia que seria perigoso ir de carro. O cara que ficara estendido lá no campo já teria talvez tomado providências. Chegado a Nimrod Os exércitos invisíveis deveriam estar atrás dele agora. Sua única saída seria falar com Greenberg. Ele lhe diria o que tinha a fazer.

Tinha sangue na camisa e lama nas calças e casaco A sua aparência ficaria bem entre a escória do Bill's Bar & Grill lá perto da estrada de ferro. Eram quase duas horas da madrugada mas aqueles lugares ficavam abertos a noite inteira. Não ligavam muito às leis. Caminhou para lá.

Sacudiu um pouco a roupa e cobriu as manchas de sangue com o casaco. Entrou no bar imundo onde um aparelho automático tocava alguma música estrangeira enquanto os fregueses gritavam. Matlock sabia que ficaria bem diluído ali naquela atmosfera. Ia ter alguns preciosos momentos de descanso.

Sentou-se numa cabine dos fundos.

— Que diabo aconteceu com você?

Era aquele mesmo desconfiado homem do bar que ele conseguira acalmar alguns dias antes. Anos. . . sé­culos atrás.

—  A tempestade me pegou.   Caí na estrada.   Um uísque envenenado. . . Tem alguma coisa que se coma?

—  Sanduíches de queijo. A carne não está boa. O pão também não é muito fresco.

—  Não faz mal. Traga-me uns sanduíches. . . E um copo de cerveja. . . por favor.

—  Claro, claro, senhor. . .  Está certo que quer co­mer aqui mesmo? Isto aqui não é um lugar para o se­nhor, sabe como é. . .

—  Sim, eu sei sim. . . mas quero comer assim mesmo.

Matlock  encontrou  o  número  de  Greenberg  e foi para a imunda cabine lá no fundo.  Enfiou a moeda e discou.

A telefonista entrou na linha. — Desculpe senhor, este telefone foi desligado. Tem outro número que pos­sa chamar?

—  Tente outra vez.   Deve estar enganada.

A telefonista de Wheeling finalmente informou à de Carlyle que os telefonemas para o Sr. Greenberg deve­riam ser encaminhados via Washington e que a pessoa que chamava deveria saber onde em Washington. Aliás o Sr. Greenberg só estaria naquele número de Wash­ington de manhã cedo.

Ele procurou pensar. Poderia ter confiança e cha­mar Washington,. Departamento de Narcóticos? Talvez Washington pudesse mandar alguém ali de perto ir ter com ele. Greenberg tinha deixado claro que não con­fiava no escritório nem nos agentes de Hartford.

Agora já compreendia bem a desconfiança de Green­berg. Era só pensar na polícia de Carlyle, no exército particular de Nimrod.

Não chamaria Washington. Ia chamar Sealfont. Era a sua última esperança.  O presidente da universidade.

Discou para ele.

—  James!  Deus do céu,  James! Você está bem. Onde tem andado, pelo amor de Deus?

— Em lugares que nem mesmo sabia que existiam. . .

—  Mas você está bem? É só o que conta.  Você está bem?

— Sim senhor.  Tenho tudo.  Tudo mesmo.  Herron escreveu tudo. É um diário de vinte e três anos. 

— Então ele fazia parte?

— Se fazia!

— Pobre homem. . . doente! Não compreendo. Mas  isso não tem importância agora. Isto já é com as autoridades Onde está você? Vou mandar um carro. . . Não, não. Vou eu mesmo. Andávamos tão preocupados. Te­nho estado em contato constante com o pessoal de Washington.

—  Fique onde está, — interrompeu Matlock. — Eu irei aí   Todo mundo conhece o seu carro. Será perigoso. Sei que estão me procurando.  Vou mandar chamar um taxi.  Só queria ter a certeza que o senhor estava em casa.

— Está bem então.  Estou bem mais tranqüilo. Vou chamar o Kressel. Ele deve ouvir o que você tem a dizer. Tem que ser assim.

—  É isso mesmo, senhor. Até já.

Voltou para seu lugar e começou a comer os san­duíches que nada tinham de apetecíveis. Já tinha virado a metade da cerveja quando dentro do bolso do casaco o aparelho começou a lançar os seus bips histéricos. Desligou o aparelho e sem pensar em mais nada correu para o telefone e discou 555-6868. Suas mãos tremiam enquanto discava.

A mensagem gravada foi como se tivesse recebido uma chicotada no rosto.

—  Charger três zero está cancelado.

Depois silêncio. Como Blackstone tinha prometido nao havia mais nada. Só o recado. Não tinha para quem apelar.

Mas tinha que haver alguém! Ele não podia ser aban­donado assim. Tinha o direito de saber por que. Tinha o direito de saber se Pat estava em segurança.

Precjsou de alguns minutos e algumas ameaças até conseguir falar com Blackstone.

Estava com voz de sono e bem zangado. — Não tenho nada que falar com você. Expliquei bem claro. . . Mas não me incomodo porque posso descobrir de onde você está telefonando.

— Não me venha com ameaças. Você já recebeu bastante dinheiro meu. . . Por que me cancelaram? Te­nho o direito de saber.

—  Porque você está sujo.  Sujo mesmo.  Mais sujo que um porco.

—  Mas isso não é suficiente.  Preciso saber o que há.

—   Pois então vou lhe contar.  Há um mandado de prisão contra você. . .

—  Para que, com todos os demônios? Para me pro­tegerem?

—  Por  assassinato,   Matlock.  Por  distribuição  de narcóticos.   Por  ajudar  distribuidores  de  narcóticos. . . Você se passou. . .

Matlock estava assombrado. Assassinato? Narcóti­cos? De que estaria ele falando?

— Não sei o que lhe contaram, mas não é verdade. Nada disso é verdade. Arrisquei a minha vida, a minha vida, está ouvindo? Para conseguir o que tenho agora. . .

— Você é bom de conversa, mas é também descui­dado. E ainda um bom tarado. Há um cara degolado lá em Carlyle e a polícia logo descobriu quem era o dono do Ford branco.

— Eu não matei aquele cara! Juro por Deus que não matei . . .

—  Claro que não. Também nem viu o outro com a cabeça explodida com um tiro lá em East Gorge, não foi? Só que havia testemunhas lá que viram você. E também é estúpido.  Deixou o talão do estabelecimento preso no pára-brisa. . .

—  Não, espere aí um pouco. Espere um pouco. O homem de East George marcou um encontro comigo lá. Quis me matar!

— Conte  isso para o seu advogado.   Sabemos de toda a estória.   Eu exigi.  Tenho uma boa reputação. . . Você se vendeu por bom dinheiro! Mais de sessenta mil na sua conta do banco. Você me dá nojo, Matlock.

Ele estava tão chocado que nem podia gritar. Esta­va sem fôlego. — Escute aqui. Você tem que me escutar. Eu tenho explicações para tudo o que disse. Só não com­preendo o homem degolado. Mas não me importo se você me acredita ou não. Tenho aqui na minha mão todas as provas. . . Só quero que você continue a vigiar a moça. . . Continue a vigiá-la!

— Parece que você nao compreende a língua que estou falando.   Você está cancelado.

— E a moça?

— Nós não somos irresponsáveis.  Ela está em segurança   Está sob a proteção da polícia de Carlyle.

 

O bar estava agora mais movimentado. Era a hora de fechar e os fregueses não se conformavam. Gritavam palavrões mas afinal iam saindo.

Matlock estava paralisado ao lado do telefone. Nem dava atenção à confusão no bar. Sentiu-se enjoado e apertou a barriga. O diário de Herron estava ali enfiado no cinto. Pensou que ia vomitar outra vez como já fize­ra lá em cima da montanha.

Mas não havia mais tempo. Pat estava agora nas mãos do exército particular de Nimrod. Tinha que agir já e depois não poderia dar atrás.

Mas a verdade terrível era que não sabia por onde começar.

—  O que está havendo, senhor? Foram os sanduí­ches? O senhor está com cara de doente.

—  Não. . .  não.   Não é nada.

Só então percebeu que o bar estava vazio. O diário! Ele iria usar o diário como garantia. Não haveria tortu­ras.  Nimrod podia ficar com o diário! Desistia do libelo.

Mas e depois? Iria Nimrod deixar ela viver? Iriam deixar ele viver? Herron tinha escrito que o novo Nimrod era um monstro sem piedade. Era quem ordenava as execuções.

E ele já tinha mandado matar por muito menos do que o conhecimento do diário de Herron.

— Olhe aqui, senhor. . . desculpe,  mas preciso fechar.

— Quer me chamar um táxi, por favor?

— Um táxi? Às três da madrugada? Ninguém virá aqui a esta hora.

— Você tem um carro?

— Ora, espere um pouco, senhor. Eu preciso limpar tudo. Ainda vou demorar um pouco.

Matlock tirou do bolso o dinheiro que tinha. A nota menor era de cem. — Eu preciso de um carro agora mesmo. Quanto você quer? Trago-o de volta em uma hora. . .  ou menos.

O homem olhou para aquele dinheirão a que não estava acostumado. — É um calhambeque muito velho. Talvez nem consiga fazê-lo andar.

—  Eu sei guiar qualquer coisa.  Aqui tem cem dó­lares. Se arrebentar seu carro eu pago tudo. Aqui tem o dinheiro.  Aceite, pelo amor de Deus.

—  Está bem, senhor. Está bem. Aqui estão as cha­ves. Esta aqui é do motor. Está estacionado lá nos fun­dos. É um Chevrolet 62. Saia pela porta dos fundos.

Matlock dirigiu-se para a porta dos fundos.

—  Escute aqui, senhor! Como é mesmo o seu nome? Puxa vida! Esqueci-me.  Entreguei-lhe o carro sem saber o seu nome.

Matlock pensou um instante. — É Rod. Nimrod. Meu nome é Nimrod.

—  Isso não é nome, senhor.  Isso é o nome de uma isca para pegar trutas. Qual é o seu nome certo? Você leva meu carro, eu preciso saber.

Matlock ainda tinha na mão o resto do dinheiro. Ti­rou mais três notas de cem e jogou-as no chão. Assim ficava certo. Também tinha dado quatrocentos ao Kramer.  Era preciso haver uma certa simetria.

— São quatrocentos dólares. Você nunca iria con­seguir isso pelo seu carro. Vou trazê-lo de volta. Correu para a porta mas ainda ouviu as últimas palavras do ho­mem lá atrás.

—  Nimrod...  Que sacana gaiato!

 

O carro era mesmo o fim como tinha dito o dono, mas andava e era só o que importava. Sealfont iria ajudá-lo a analisar os fatos. . . as alternativas. Duas opiniões sempre eram melhores que uma. Não queria assumir toda a responsabilidade. Já não estava em condições. E Sealfont devia conhecer gente do alto para entrar em contato. Sam Kressel ia espernear e ficar apavorado. Não tinha importância. A segurança de Pat vinha em primeiro lugar. Sealfont tomaria as providências.

Talvez fosse a hora de ameaçar como Herron tinha finalmente ameaçado.   Nimrod  tinha  Pat  e  ele tnha o diário. A vida de um serhumano pela proteção de centenas, talvez milhares. Até mesmo Nimrod teria que se dar conta da posição.

Quando chegou perto da estação percebeu que já estava raciocinando como se também fosse um manipulador. Pat tinha sido reduzida a uma Quantidade X e o diário à uma quantidade Y. Formariam a equação e os observadores matemáticos tomariam as decisões pelos dados fornecidos. Era a mais fria lógica da sobrevivên­cia Não levava em conta os fatores emocionais. Eram conscientemente desprezados.

Era de meter medo!

Tomou o caminho que levava à residência de Seal­font. O carro ia penando na subida. As ruas estavam desertas, lavadas  pela chuva.   Tudo  estava silencioso.

Lembrou-se que a casa de Kressel também era ali bem perto. Ia passar por lá. Valia a pena mesmo que perdesse uns minutos. Iria conversando no caminho. Ele tinha que começar a falar. Já não agüentava mais o iso­lamento.

Entrou na rua e viu que havia luz na casa de Kressel. Talvez ele ainda estivesse lá. Havia dois carros na en­trada.  Matlock diminuiu a marcha.

Seus olhos foram atraídos para uma luz lá no fim da entrada. Era a luz da cozinha de Kressel. Estava re­fletindo num terceiro carro. Os Kressel tinham dois carros.

Olhou novamente para o carro na frente da casa. Era da  radiopatrulha de Carlyle.   A polícia de Carlyle estava na casa de Kressel.

O exército particular   de   Nimrod   estava  ali   com Kressel.

Ou estaria com o próprio Nimrod?

Virou nervosamente a direção quase pegando o carro da polícia e correu até a próxima esquina. Dobrou para a direita e meteu o pé no acelerador. Estava confuso, apavorado e sem saber o que fazer. Se Sealfont tinha chamado Kressel, o que sem dúvida mesmo tinha feito, e se Kressel fosse Nimrod ou se trabalhasse para ele,  então outros carros da polícia estariam esperando por Matlock.

Lembrou-se da delegacia de polícia de Carlyle, sé­culos atrás, na noite da morte de Loríng. Kressel mos­trara-se estranho. E mesmo antes disso, com Loring eGreenberg, ele sempre mostrara hostilidade para os agen­tes federais, Uma estranha e intensa hostilidade.

Deus do céu! Como estava tudo claro agora! Seus instintos tinham sido certos. Ele tinha sido sempre vi­giado, Kressel, o encarregado da ligação, era de fato o encarregado das matanças.

As coisas nunca eram como pareciam. Era preciso confiar nos sentidos.

Era preciso que, de qualquer forma, ele encontrasse Sealfont para avisar que o Judas era Kressel. Agora os dois teriam que se proteger mutuamente. Estabelecer uma base para o ataque.

Do contrário estaria morta a moça que ele amava.

Não podia perder um segundo. Sealfont certamente teria dito a Kressel que ele, Matlock, tinha o diário de Lucas, e Kressel não precisava saber de mais nada. Era tudo o que Nimrod precisava saber.

Nimrod precisava se apoderar do papel prateado e do diário, e agora já sabia onde os dois estavam. Seu exército particular entraria em ação. Estariam esperan­do por ele na casa de Sealfont.

Matlock tornou a dobrar a outra esquina. Tinha no bolso as suas chaves e entre elas estava uma do apar­tamento de Pat. Tanto quanto sabia, ninguém poderia imaginar que ele tivesse aquela chave nem tampouco iria alguém imaginar que ele fosse para lá. Teria que ar­riscar. Não poderia se expor numa cabine telefônica nem ser visto nas ruas iluminadas. Os carros da polícia es­tavam atrás dele.

Ouviu o ronco de um motor atrás dele e sentiu um vazio na barriga. Estava sendo seguido por um carro e o velho Chevrolet nada podia fazer.

Sua perna já estava doendo da força que aplicava no acelerador. Virou de repente em outra esquina e depois  mais outra.   Mas  o  carro  atrás  dele continuava segui-lo na mesma distância.   Os faróis refletiam-se e seu espelho.

O seu perseguidor ainda não ia pegá-lo. Já poderia ter pegado antes.  Estava esperando alguma coisa.  Mas o que seria?

Havia tanta coisa que ele não compreendia! Tantos enganos que cometera! Tinham sempre levado a me­lhor sobre ele. Estavam certos quando diziam que ele era um simples amador. Desde o princípio estivera se excedendo. Agora, afinal, tinha cometido a última man­cada. Iam matá-lo. Iam tomar o papel e o diário. Iriam matar a moça inocente cuja vida ele tinha comprometido tão brutalmente. Seria o fim de Sealfont também, agora que ele já sabia demais. Só Deus poderia saber quantos ainda seriam destruídos.

Então que fosse assim.

Se tivesse que ser assim, se já não podia mais ter esperança, então acabaria afinal com um gesto digno. Procurou a pistola que trazia ao cinto.

A rua por onde passavam agora o perseguido e o perseguidor atravessava os limites extremos do campus onde quase não havia casas. Apenas muitos estaciona­mentos.

Deu uma guinada para a direita, o mais possível, passou o braço para fora da janela e apontou a pispistola para o carro que o perseguia.

Deu dois tiros. O outro carro acelerou e ele sentiu o impacto quando ele pegou-o por trás com toda a força. Puxou outra vez o gatilho, mas não ouviu o estrondo que esperava. Apenas o clic de uma arma sem balas.

Até mesmo seu último gesto tinha sido fútil.

O perseguidor tornou a pegar pela traseira com mais força e ele perdeu o controle. Entrou em pânico e procurou abrir a porta.

Parou de pensar e já não tinha mais o instinto de sobreviência. O outro carro estava emparelhado com ele e já via o rosto do perseguidor.

Tinha curativos no rosto em torno dos olhos por trás dos óculos que não conseguiam ocultar o rosto do revolucionário negro. Julian Dubois.

Era a última coisa que se lembrava antes que o seu carro despencasse no barranco.

Depois a completa escuridão.

 

Acordou com a dor. Parecia tomar todo o seu lado esquerdo. Rolou a cabeça e sentiu um travesseiro por baixo.

O quarto estava mal iluminado pois só havia um aba­jur no outro lado. Moveu a cabeça e tentou levantar-se.

De repente parou.

No outro lado do quarto, bem nos pés de sua cama estava sentado um homem. Não conseguiu logo reconhe­cer quem era. Havia pouca luz e ainda estava atordoado pela dor.

Depois o homem ficou mais nítido. Era preto e olha­va para Matlock por trás de uma cabeleira africana muito bem aparada. Era Adam Williams. Era um dos mais ace­sos da Esquerda Negra de Carlyle.

Quando falou baixinho Matlock julgou ver na sua voz um certo tom de compaixão. Também poderia estar enganado.

—  Vou dizer ao irmão Julian que você acordou. Ele vem falar com você. Não tente sair da cama. Você esta bem machucado.  O quarto não tem janelas e há guar­das lá fora.  Você precisa descansar.

—  Eu  não tenho  tempo  para descansar, seu  bes­talhão!

Matlock  tentou   levantar-se  mas   não  conseguiu.   A dor era muita.

— Você não tem escolha.

Williams saiu e tornou a fechar a porta.

Matlock deixou cair a cabeça no travesseiro. . . Irmão Julian. . . Lembrava-se agora. Tinha visto o rosto de Juiian Dunois ali bem pertinho dele e chegara a ouvir a sua voz dando ordens a quem estava dirigindo o seu carro para bater nele, para atirá-lo fora da estrada.

Depois tudo ficara reduzido a trevas, barulho de me­tal contra metal e seu corpo caindo. . .

Deus do céu! Quanto tempo decorrido? Tentou le­vantar o braço para olhar o relógio mas não conseguiu. A dor era muito forte. Depois verificou que não tinha mais relógio.                                   _

Lutou para sentar-se e a muito custo conseguiu ficar na beira da cama com as pernas balançando. Estava satisfeito por poder sentar-se. . . Tinha que reconstr-uir tudo que havia acontecido. Tinha que saber para onde ia.

Estivera a caminho do apartamento de Pat. Para achar um telefone de onde pudesse falar com Sealfont. Queria avisá-lo que Kressel era o inimigo. Kressel era Nimrod. Tinha resolvido resgatar a vida de Pat com o diário de Herron. Depois a caçada começara, mas não fora uma caçada. O carro por trás dele, comandado por Julian Dunois, estava querendo aterrorizá-lo. Tinham conseguido o que queriam.

Sabia que precisava escapar. Mas de onde e para quem?

A porta abriu-se e Dunois entrou seguido por Williams.

— Bom dia. Vejo que conseguiu sentar-se.   Isso é bom.   É um bom augúrio para o seu corpo tão maltratado.

— Que horas são? Onde estou eu?

— São quase quatro e meia.  Você está num quarto de Lumumba Hall.   Está vendo?  Não escondo nada de você. . . Agora você deve retribuir.   Não deve esconder nada de mim.

Matlock tentava manter a voz firme. — Escute aqui. Eu não tenha nada contra vocês. Contra nenhum de vocês.   Eu preciso. . .

— Com isto eu não concordo. Olhe para o meu rosto. Foi muita sorte minha não ter ficado cego. Você queria enfiar as lentes quebradas. . . Já imaginou o queeu iria sofrer? — Mas apesar do que dizia, Dunois sorria.

—  Ora essa! Você me encheu de ácido!

—  Foi  você  quem  provocou!  Você  estava  se  me­tendo em  uma perseguição contra nossos irmãos, sem qualquer direito a tal. . .   Mas isso já não adianta mais discutir. . .   Temos  que  agradecer  pelo  que  nos trouxe e que excedeu às nossas mais otimistas ambições.

— Vocês estão com o diário. . .

—  E com o papel prateado.  O convite italiano que sabíamos existir. Tínhamos ouvido falar muito do diário, mas pensávamos que fosse pura ficção. . . Até esta ma­drugada. . .   Você deve sentir-se orgulhoso.   Conseguiu aquilo que muita gente, bem melhor do que você, não tinha conseguido.   Encontrou o tesouro.   Um verdadeiro tesouro.

—  Que eu preciso ter de volta!

—  Não vai poder ser — disse Williams encostado na cama.

—  Mas  se  eu  não  tiver  ele  de volta a  moça vai morrer! Façam o que quiserem comigo, mas deixem-me usá-lo para resgatar a moça.   Por Deus! Por favor! Por favor!

—  Você está bem sentido, hein? Vejo lágrimas em seus olhos. . .

—  Oh meu Deus! Você é um homem educado. Não pode fazer isso!. . .  Escute aqui.  Tire todas as informa­ções que precisarem mas depois devolvam-me o livro e soltem-me. . .   Eu  juro  que voltarei.   Só quero salvá-!a!

Dunois caminhou devagar até a cadeira onde Williams estava sentado quando ele acordara. Chegou-a para mais perto da cama e cruzou as pernas. — Você sente-se desamparado, não é? Talvez mesmo já não te­nha mais esperanças. . .

— Eu passei por muita coisa!. . .

— Sei   que   passou   mesmo.  E   você  apelou   para mim como homem educado.  Você sabe que estou em posição de poder ajudá-lo,  e portanto estou  em    posição superior.   Não faria esse apelo se não visse que é assim.

— Meu Deus! Pare com  isso!

V Agora você está vendo como é. Você está desamparado e não tem esperanças. Não sabe se atenderei ao seu apelo. . . Será que você pensa mesmo, por um só momento, que eu estou ligando o mínimo à vida da moça? Será que  acredita sinceramente  que  lhe posso conceder a menor prioridade? Mais do que  às vidas de nossos filhos, de nossos entes queridos que nada significam para vocês?

Matlock sabia que precisava responder a Dunois. Ele nada concederia se não tivesse uma resposta. Aqui­lo iá era um outro jogo em que ele teria de meter-se, mesmo que fosse por pouco tempo.

— Eu não mereço ser tratado assim, e você sabe disso. Eu desprezo aqueles que nada querem fazer por eles. Você deve saber disso já que me conhece tão bem.

—  Ahhh! Mas aí é que está! Eu não sei.   Foi você quem  escolheu,   quem  tomou  a  decisão  para trabalhar com os homens superiores.  Os homens de Washington! Durante décadas,  dois séculos,   minha  gente vem  ape­lando  para  os  homens  superiores   de  Washington,   gri­tando e pedindo socorro. Mas ninguém os escutou. Ago­ra você espera que eu o escute?

—  Claro que  espero!   Porque  eu  não sou  seu   ini­migo.   Posso não ser tudo  que vocês  queiram  que eu seja, mas não sou inimigo de vocês.   Se vocês fizerem de mim e outros como eu objetos de seu ódio,  então vocês   estarão   liquidados.  Não   se   esqueçam   que   são minoria,    Dunois.     Nós    queremos    ajudar.    Queremos mesmo.

Dunois olhou   friamente   para   Matlock.   —   Prove, então.

Matlock enfrentou o seu olhar. — Podem usar-me como isca. Como refém. Podem matar-me se for preciso, mas liberem a moça.

— Nós podemos fazer isso sem o seu consentimento. É um ato de bravura mas não é uma prova.

Matlock continuava a enfrentar os olhos de Dunois sem baixar os seus. Depois falou  baixinho.  — Eu lhe darei um documento. Escrito, verbal, gravado, livre, sem coação.  Como fui usado.  Tudo que fiz. Tudo. Vocês terão os seus homens de Washington junto com Nimrod.

Dunois cruzou os braços e também falou no mesmo tom.

—  Você percebe que isso será o fim de sua carrei­ra,  de sua vida profissional.   Essa vida que você tanto ama.   Não haverá mais uma só universidade que lhe dê um   emprego.   Ninguém   mais  terá  confiança  em   você. Dos dois  lados.   Passará a ser um  pária.

—  Você pediu-me provas.   É tudo que  posso ofe­recer-lhe.

Dunois ficou imóvel na cadeira. Williams estava encostado na parede. Durante algum tempo ninguém falou. Finalmente Dunois sorriu. Os seus olhos, cerca­dos pelo curativo,  demonstravam  compaixão.

—  Você é um homem bom.  Inepto, talvez, mas per­severante.  Vai ter a ajuda que pede.  Não vamos deixá-lo sem esperanças.  Você concorda, Adam?

—  Concordo.

Dunois levantou-se da cadeira e veio até perto de Matlock.

— Você já conhece o velho chavão. A política for­ma estranhos casais. Na recíproca, os objetivos práticos muitas vezes levam a estranhas alianças, A história está cheia disso. . . Nós queremos pegar esse Nimrod tanto quanto você. Tanto quanto aos mafiosos com quem eles querem aliar-se. São eles e os da sua espécie que ameaçam nossos filhos. Devemos fazer deles um exem­plo que encha de terror os outros Nimrods e mafiosos. . . Você terá nossa ajuda, mas há uma condição que impomos.

—  O que querem vocês?

— Queremos que o fim de Nimrod e dos outros fique ao nosso critério. Não temos confiança nos seus juizes nem nos seus júris. Seus tribunais estão cor­rompidos. A sua legalidade nada mais é senão uma ma­nipulação financeira. . . O pobre viciado é atirado naw cadeia. Os gangsters ricos apelam. . . Não, senhor. A decisão terá que ficar conosco.

— Para mim tanto faz. Poderão fazer o que bem entenderem.

— Mas isso para nós ainda não chega.  Precisamos de mais. Precisamos ter uma garantia. 

— E como posso eu dar uma garantia?

— Com o seu silêncio.   Não denunciando a nossa presença  Nós vamos ficar com o papel corso prateado e acharemos os   meios   de   ser   admitidos   na   conferência. Tiraremos o que for preciso dos diários, e aliás já estamos fazendo isso. . .   Mas o seu silêncio é de impor­tância capital.   Vamos ajudá-lo agora em tudo que es­tiver ao  nosso  alcance,   mas   você   não   deve  falar  de nossa  interferência.   Seja  lá  o  que  for  que  acontecer, você não deve, de forma alguma, falar de nossa parti­cipação.  Se fizer isso nós mataremos você e a moça. Está compreendido?

—  Está.

—  Então estamos de acordo?

—  Estamos.

—  Muito obrigado, — disse Dunois com um sorriso.

 

À medida que Dunois formulava as alternativas e começava a formular a estratégia, Matlock começava a perceber por que os negros tinham feito tanto para con­seguir a sua cooperação, e por que Dunois estava pron­to a ajudar. Ele, Matlock, tinha as informações básicas que os outros precisavam. Quem eram os contatos tanto dentro como fora da universidade. Como se processavam as comunicações?

Em outras palavras, quem Julian Dunois teria que evitar para poder chegar a Nimrod?

—  Devo dizer que você estava muito mal preparado para o que acontecesse.   Foi  muito descuidado. . .

—  Eu também cheguei a essa conclusão, mas acho que a culpa não foi toda minha. Só tive uma parte dela.

—  E   teve   mesmo.   —   Os   dois   riram   e   Williams também.  Logo depois trouxeram uma mesinha com blo­cos de papel.   Dunois começou a escrever as informa­ções que Matlock ia dando.   Conferia bem os nomes e endereços.   Via-se  que  era  um  profissional.   Mais  umavez  Matlock  sentiu  a  mesma  falta  de  propósito com quando falara com Greenberg.

Dunois grampeou umas páginas e pegou um outro bloco.

— O que está fazendo? — quis saber Matlock.

— Estas vão  ser  duplicadas  lá  embaixo.   A   informação será enviada para meu escritório em New York. . . E também fotostáticas de todas as páginas do diário.

— Você  pensa  em  tudo,   hein?  Já  lhe  disse  tudo que sabia Agora o que vamos fazer? O que querem que eu faça? Não preciso lhes dizer que estou apavorado. Não quero  nem  pensar no  que  possa acontecer com ela.

— Nada vai  acontecer.   Pode acreditar no que eu digo. Neste momento, ela está tão garantida como se estivesse nos braços de sua mãe. Ou nos seus. Ela é isca e não você. A isca tem que ser conservada intac­ta porque você tem aquilo que eles querem. Não po­derão sobreviver sem isso.

—  Então vamos propor a troca.  Quanto mais cedo melhor.

—  Não se preocupe.  Isso será feito.  Mas devemos pensar com cuidado na melhor maneira para fazer. Temos até aqui as duas alternativas de que já falamos.  A pri­meira é o próprio Kressel.   O  confronto  direto.   A  se­gunda é a polícia.   Mandar por ela o recado a Nimrod.

—  Mas por que fazer isso?  Usar a polícia?

—  Estou  apenas  mostrando  as  alternativas. . .   Por que a polícia?  Não tenho certeza, mas pelo diário de Herron vê-se claramente que  Nimrod  já foi  substituído antes. Este de agora é o terceiro, não é?

—  Isso  mesmo.   O  primeiro   era  um  tal   Orton  do gabinete do governador.   O segundo foi Ângelo Latona, construtor. O terceiro é obviamente Kressel. O que acha você?

— Estou apenas especulando. Todo aquele que assume a posição de Nimrod tem poderes absolutos, portanto é a posição e não o homem. O homem pode fazer o que entender no cargo.

— Mas o cargo é dado e também tirado.   Nimrod não é a última voz.

— Exatamente. Portanto seria vantagem para Matlock deixar circular a notícia que é ele quem está com a arma. E que Kressel — Nimrod — precisa agir com  para o bem de todos.

—  Isso não significaria que haveria mais gente atrás de mim?

— Possivelmente. Mas também poderia ser que uma legião de criminosos ansiosos quisesse protegê-lo.   Até que a ameaça em suas mãos tenha desaparecido.   Nin­guém   cometerá  qualquer   imprudência   enquanto   existir a ameaça.  Ninguém vai querer que Nimrod se precipite.

Matlock acendeu um cigarro. — Então o que vocês estão tentando fazer é separar Nimrod de sua organi­zação.

Dunois estalou os dedos como castanholas em sinal de aplauso.   Depois falou sorrindo.

—  Você aprende depressa.   Foi a primeira lição de insubordinação. Um dos primeiros objetivos da infiltração. Dividir.   Dividir!

Abriu-se uma porta e entrou um preto muito agitado. Sem dizer uma palavra entregou a Dunois um bilhete. Ele leu e fechou os olhos. Era a sua forma de mostrar es­panto. Agradeceu ao mensageiro e dispensou-o. Olhou para Matlock mas entregou a nota a Williams.

— Nossos estratagemas podem ter precedência his­tórica, mas acho que são palavras vazias. Kressel e sua mulher estão mortos. O Dr. Sealfont foi levado à força de sua casa pela polícia de Carlyle.

—  O  que?  Kressel?  Não  acredito.   Não  pode ser verdade.

—  Acho que é sim.  Nossos homens dizem que le­varam os dois corpos há menos de quinze minutos. Dizem que é assassinato e suicídio.   Claro.   Enquadra-se per­feitamente.

—  Meu Deus! Meu Deus! Foi minha culpa. Eu obri­guei-os a isso! Sealfont! Para onde o levaram?

—  Não sabemos. Os irmãos que estavam lá de guar­da não tiveram coragem  de seguir o carro da polícia.

Ele não encontrava palavras. A paralisia, o medo,tudo tinha voltado. Deixou-se cair na cama e ficou com o olhar perdido. Estava agora dominado por um senti­mento de futilidade e impotência. Já tinha causado mui­ta morte e muita dor.

—  É uma complicação muito séria, — disse Dunois com  os cotovelos fincados  na  mesinha.  — Nimrod re­moveu seus dois únicos contatos. Ao fazer isso, ele respondeu a pergunta crucial e evitou que cometêssemos um enorme engano. Refiro-me a Kressel, naturalmente. Olhando de um outro ponto de vista, no entanto,  Nimrod reduziu nossas alternativas. Não temos mais escolha. Você deve tratar com seu exército particular, com a polícia de Carlyle.

Matlock olhou para Julian como se não compreendesse. — É só isso que você pode fazer? Ficar aqui sentado tranqüilamente decidindo sobre a próxima merda? Kressel está morto. Sua mulher está morta. Adrian Sealfont provavelmente já foi morto a esta hora. Todos eram meus amigos.

— E   eu   apresento-lhe   minhas   condolências,   mas quero ser sincero. Não posso lamentar a morte de três pessoas. Francamente, Adrian Sealfont é a única ver­dadeira vítima, já que poderíamos ter trabalhado com ele que era um homem brilhante, mas a sua morte não me despedaça o coração. Perdemos milhares nos bair­ros todos os meses. Sinto mais por eles. . . Mas temos um caso em mão. Você, realmente, não tem escolha. Terá que fazer seu  contato  por intermédio da  polícia.

Matlock já sentia-se mais forte. — Mas acho que aí você está errado. Eu tenho outra escolha. . . Greenberg saiu da Virgínia esta manhã. Já deve estar em Washing­ton. Tenho um número em New York para entrar em contato com ele.  Vou falar com ele.

Já tinha feito muito. Já tinha causado muita angús­tia. Não podia mais arriscar a vida de Pat.

Dunois recostou-se na cadeira e olhou para Matlock. — Disse antes que você era um bom aluno, mas vou modificar a observação. Você é rápido, mas superficial. . . você não vai procurar Greenberg. Ele não fez parte de nossa combinação, e você não vai violar o nosso acordo, você vai fazer como combinamos, ou sofrerá as penalidades que já mostrei.

— Não me venha com ameaças. Já  estou  cheio delas.

Matlock levantou-se. Dunois meteu a mão embaixo do casaco e tirou uma pistola. Matlock viu que era aquela que tinha tomado do homem lá na montanha. Dunois também levantou-se.

—  O médico legista vai achar que sua morte foi de madrugada

—  Mas pelo amor de Deus! A moça está na mão dos assassinos.

—  E você também está. Então não percebe? Nossos motivos são diferentes mas não se engane quanto a eles. Nós também somos assassinos.  Temos que ser.

—  Você não chegaria a isso!

— Mas claro que chegaríamos. Somos obrigados. E ainda muito mais longe. Nós jogaríamos o seu corpo na porta da delegacia com uma nota exigindo a morte da moça antes de qualquer negociação. E eles concor­dariam de bom grado já que não podemos correr o risco de deixar ela viver. Depois de sua morte seria a luta dos gigantes.

—  Você é um monstro.

—  Eu sou o que me obrigam.

Ninguém falou durante instantes. Matlock fechou os olhos e perguntou baixinho. — O que faço agora?

—  Assim está melhor.

Dunois sentou-se olhando para o nervoso Williams. Matlock chegou a sentir uma certa afinidade com o ra­dicai do campus. Ele também estava apavorado e inseguro. Da mesma forma que Matlock, ele também não estava preparado para viver no mundo de Dunois ou Nimrod. Dunois pareceu ler os pensamentos de Matlock.

—  Você deve ter confiança em si próprio.  Lembre-se que já fez mais que qualquer outro. Com muito menos recursos.   E  tem  também  uma  coragem  extraordinária.

—  Não me sinto assim tão corajoso.

—  O  homem  bravo  raramente sente-se.   Venha cá e sente-se.   Você sabe  que  nós dois não somos dife­rentes. Em outros tempos poderíamos até ter sido aliados. Só que, como muitos dos irmãos já verificaram, eu estou procurando santos.

— Não há mais isso.

— Talvez não. Mas também pode ser. . . vamos de­bater  isso em  outra ocasião.   Agora precisamos planejar.   Nimrod deve estar  à sua espera.   Você  não pode desapontá-lo.   Mas,  ainda  assim,  devemos  nos  garantir em todos os flancos.

Chegou-se  mais para perto da mesa com um sorriso nos lábios e os olhos brilhantes.

 

A  estratégia  do   revolucionário  era  uma  complexa série de movimentos destinados a proteger Matlock e a moça.  Matlock tinha que reconhecer isso apesar de sua má vontade.

— Eu tenho um duplo motivo, e o segundo, franca­mente mais importante para mim. Nimrod não se apre­sentará em pessoa a não ser que não tenha outra alter­nativa, e eu  quero ele.   Não aceito  nenhum  substituto.

A essência do plano era o diário de Herron, as últi­mas anotações.

A identidade de Nimrod.

— Herron  diz explicitamente que  não vai  escrever o nome que lhe deram os mensageiros.   Não que  não pudesse. O  seu  sentimento  era,   obviamente,   que   não toleraria uma  culpa  por  insinuação.,  Da  mesma  forma que você, Matlock.   Você recusou-se a entregar Herron com base num telefonema histérico.   Ele sabia que po­deria  morrer  a  qualquer  instante.   Seu   corpo  já  tinha agüentado tudo que podia. . .  Ele tinha que ser positivo.

Dizendo isso, Dunois estava desenhando no papel figuras geométricas.

—  E então resolveram matá-lo fingindo suicídio.

—  Isso mesmo. Pelo menos é o que o diário con­firma.   Logo que Herron estivesse convencido de quem era Nimrod,  ele teria movido céus e terra  para  incluir seu nome no livro.  E nosso inimigo não pode saber que ele não incluiu.  Essa é a  nossa espada de  Dâmocles.

A primeira linha de proteção de Matlock seria convencer a polícia de Carlyle que ele sabia quem era Nimrod.  Só entraria em  acordo com   Nimrod.  Isso  representava o menor de dois males. Ele era um homem perseguido. Havia um mandado de prisão contra ele que certamente seria  do  conhecimento  da  polícia de  Carlyle. Ele talvez escapasse  às  acusações menos sérias, mas dificilmente escaparia à de assassinato. Talvez dois assassinatos. Havia provas claras que ele havia assassi­nado e não havia álibis a seu favor. Não conhecia as vítimas. Não havia testemunhas que corroborassem a defesa própria. As mortes tinham sido em condições tão terríveis que o melhor a esperar seria muitos anos de prisão.

E então ele apresentaria os seus termos de um acor­do com Nimrod. O diário de Lucas Herron contra a vida dele e da moça. Claro que o diário valia uma importância em dinheiro que permitisse a eles começarem a vida em outro lugar.

Nimrod podia fazer isso.   Ele teria que fazer.

—  A chave para esta primeira fase será a convic­ção que você demonstrar.   Lembre-se que está em pâ­nico.  Já matou gente.   Não é um homem violento mas foi forçado a matar, a cometer crimes horríveis.

—  E é a verdade.  Você nem sabe como é.

—  Muito bem.   Pois então mostre bem esse senti­mento.  Tudo que alguém em pânico deseja é cair fora do lugar onde está esse pânico.   É preciso que Nimrod se  convença  disso.   Isso  garantirá a  sua  imediata se­gurança.

Depois Matlock daria outro telefonema para confir­mar a aceitação do encontro, de parte de Nimrod. O local poderia ficar à sua discrição. Matlock tornaria a telefonar para saber onde seria. Mas o encontro teria que ser antes das dez da manhã.

— Já então, você, o fugitivo, tendo a liberdade à vista, deixa-se possuir de dúvidas. Na sua histeria você precisa de uma garantia.

—  Que será?

—  Uma terceira pessoa.   Uma terceira pessoa fic­tícia.

Matlock deveria informar ao seu contato com a po­lícia de Carlyle que havia escrito um relatório completo de toda a operação Nimrod. O diário de Herron, nomes, tudo enfim. Esse relatório tinha sido entregue num en­velope selado a um amigo que o enviaria para o Minis­tério da Justiça às dez da manhã a não ser que Matlock o avisasse em contrário.

—  Aqui, a segunda fase depende também de con­vicção, mas já de outra espécie.  Observem um animalenjaulado cujas grades se abram de repente.   Ele olha desconfiado  e  aproxima-se  com   cuidado.   Assim  também deve fazer o nosso fugitivo. É o que será esperado. Você demonstrou muitos recursos na semana que passou. Pela lógica, você já deveria estar morto.  Mas não está.  Deve continuar assim. . .

 — Compreendo.

A última fase seria criada por Julian Dunois para garantir dentro do possível a recuperação da moça e a segurança de Matlock. Seria o resultado de um terceiro e último telefonema para o contato de Nimrod. O obje­tivo do chamado seria ficar sabendo o lugar certo do encontro e a hora exata.

Desde que soubesse das duas, Matlock deveria acei­tar sem hesitação. Isso primeiro.

Depois então, sem qualquer outra razão aparente senão um resto de pânico e suspeita, ele rejeitaria a proposta de Nimrod.

Não da hora.  Só do lugar.

Ele deveria gaguejar, hesitar, demonstrar um má­ximo de irracionalidade que pudesse conseguir. E aí então, de repente, exclamaria um segundo lugar de sua escolha. Como se aquilo lhe tivesse ocorrido de estalo. Ele teria então que tornar a falar no tal documento fic­tício e no amigo que iria enviá-lo para Washington às dez da manhã. Aí desligaria sem dizer mais nada.

—  O fator mais importante nessa terceira fase é a reconhecida consistência de seu pânico.   É preciso que Nimrod veja que a sua reação já é primitiva.  O ato em si está para acontecer. Você avança e recua, ergue bar­reiras para evitar a sua rede,  caso ela exista.   Na sua histeria você é tão perigoso para ele como uma cobra ferida é para o tigre. Já não existe a racionalidade. Só existe a sobrevivência. Ele precisa então vir encontrar-se em pessoa com você e precisa trazer a moça. Claro que vai chegar com toda a sua guarda. Suas intenções serão sempre as mesmas. Ficará com o diário e talvez discuta planos para sua acomodação, e quando souber que não há um relatório escrito nem o amigo para levá-lo ele vai querer matar os dois. . . Mas nada disso irá acontecer porque  nós  estaremos  à  sua  espera.

—  Como? Como poderão fazer isso?

—  Com   os  meus  guardas  também. . .   Vamos  nós dois discutir agora sobre o segundo lugar depois de seu ataque de histerismo.  Terá que ser numa área bem co­nhecida sua, que você tenha sempre freqüentado.   Não poderá ser muito longe pois presume-se que você não tem  carro.   Terá  que ser  escondido porque você está sendo perseguido pela lei.   Mas terá que ser acessível pois terá que caminhar rápido, e de preferência por es­tradas secundárias.

—  Você está dizendo que é na casa de Herron.

—  Poderia ser, mas nós não podemos usá-la. Seria psicologicamente   inconsistente.    Seria   uma   falha   no nosso padrão de comportamento de um fugitivo. A casa dele é a raiz do seu medo.  Ele não voltaria lá. . . Tem que ser outro lugar.

Williams tentou falar. Ainda estava inseguro e ainda estava indeciso. — Eu acho, talvez. . .

—  O que, irmão Williams? O que você acha?

—  O Professor Matlock costuma jantar num restau­rante chamado o Cheshire Cat. . .

Matlock voltou  o  rosto  de  repente  para  o  radical.

—  Você também? Também andou me seguindo?

—  Muitas vezes.  Mas nós não entramos nesses lu­gares.  Seríamos logo notados.

—  Continue,  irmão.

— Esse restaurante fica uns seis quilômetros fora de Carlyle. Fica afastado da estrada principal. Pode-se chegar lá por estradas secundárias. . . Por trás e dos lados existem terraços com jardins para jantares nos do­mingos de verão.   Lá nos fundos  está o  mato.

—  E fica alguém lá?

— Só tem um vigia da noite, creio eu. Só abre a uma hora. Não creio que o pessoal da limpeza ou da cozinha chegue antes de nove e meia ou dez.

—  Excelente. — Dunois olhou para o relógio. Ago­ra são cinco e dez. Vamos dar uns quinze minutos entre as fases uma, duas e três.   E  mais vinte minutos para viagem. Isso levaria às seis e quinze. Vamos dizer seis trinta  para alguma contingência.   Vamos  marcar o en­contro para as sete.   Por trás do  Cheshire Cat.   Tome nota, irmão. Vou avisar aos outros.

Williams levantou-se e foi até a  porta.   Daí voltou e dirigiu-se a Dunois. — Você não vai mudar de idéia? Não vai me deixar ir com vocês?

Dunois nem mesmo olhou para ele. Respondeu meio ríspido: — Não me amole.  Tenho muito mais em que pensar.

Wiiliams saiu abrupto.

Matlock estava olhando Dunois. Continuava a fazer desenhos, só que agora fazia mais força no lápis marcando muito o papel.  Matlock percebeu o diagrama que surgia.   Era   uma  série   de   linhas   quebradas   que   con­vergiam.

Eram os raios de relâmpagos.

— Escute aqui, ainda está em tempo. Chame as au­toridades. Pelo amor de Deus. Você não pode arriscar a vida dessas crianças.

Por trás de seus óculos cercados de curativos os olhos de Dunois fuzilaram Matlock. Depois falou com desprezo.

— Será que você pensa mesmo que eu iria per­mitir que essas crianças corressem riscos? Nós não so­mos os Generais do Estado Maior, Matlock. Nós temos muito amor por nossos jovens.

Matlock lembrou-se do protesto de Williams que queria ir também. — Era isso o que o Williams estava dizendo, então?

— Venha comigo.

Dunois saiu do quarto com Matlock e seguiu pelo corredor até uma escada. Havia poucos estudantes por ali agora. O resto de Lumumba Hall estava dorm