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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SENHOR DAS TERRAS ALTAS / Hannah Howell
O SENHOR DAS TERRAS ALTAS / Hannah Howell

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Para escapar de um pretendente indesejável, Fiona MacEnroy cavalga pelas campinas da Escócia, mas é capturada por um bando de homens armados e levada por um desconhecido para uma fortaleza longínqüa. Curiosamente, naquele lugar cercado de mistério e à mercê de um homem misterioso e ameaçador, Fiona se sente protegida e segura... e perdidamente apaixonada!

Determinado a proteger seu excêntrico clã de inimigos invasores, Ewan MacFingal não pode se permitir enfraquecer, cedendo aos encantos de uma mulher que é tudo que ele sempre desejou. Entretanto, um perigo ameaçador e segredos proibidos forçarão Ewan e Fiona a confiar um no outro e na inabalável força do amor eterno!

 

 

 

 

                                         Escócia, 1472

— Satã, volte aqui!

Com cuidado, Fiona levantou-se do chão, tentan­do em vão esquecer a dor nas costas enquanto observava seu cavalo desaparecer na colina. Seus irmãos iriam matá-la, vagarosamente. Gillyanne, sua irmã pelo casamento, prova­velmente não a ajudaria dessa vez.

Fiona pressentia que estava em grandes apuros. De fato, fora uma completa tola. Estava a milhas de casa, não tinha suprimentos e o sol se escondia rapidamente no horizonte. E pior ainda, ninguém em Deilcladach sabia para onde ela tinha ido.

— Droga, você certamente mostrou a Connor quem está no controle, não é? — ela resmungou enquanto tentava dis­cernir onde o maldito cavalo a tinha derrubado. — Se ao menos o irmão tivesse perguntado com gentileza em vez de tentar comandá-la daquele jeito irritante como costumava fazer.

Não, não é culpa dele. É sua culpa, Fiona MacEnroy, Você é culpada por esse desastre.

Ela olhou ao redor e percebeu que não era apenas o povo de Deilcladach que não sabia onde ela estava. Ela tampouco sabia. Fora derrubada por seu cavalo em um lugar onde nun­ca estivera antes e não sabia que direção tomar para voltar para casa. Além disso, não era muito boa em se orientar, mesmo nas melhores circunstâncias.

Esta era, sem dúvida nenhuma, a situação mais irrespon­sável em que se metera. Havia apenas uma coisa de bom em que ela podia pensar. O louco que havia precipitado seu longo confinamento em Deilcladach possivelmente também não poderia saber onde ela se encontrava. O homem tivera sucesso em fazê-la cometer essa tola imprudência, mas não ía se beneficiar com isso.

Fiona passou distraidamente o dedo pela cicatriz da sua face esquerda. Ele tinha feito isso na primeira vez em que a apertara para combinar com uma outra cicatriz na face direita. Ela podia quase sentir as outras que ele tinha infli­gido antes que sua família a tivesse prendido atrás das gros­sas paredes de Deilcladach até poderem caçar o louco e ma­tá-lo. Só de pensar no homem, sentia um calafrio de medo percorrer seu corpo, embora tivesse tolamente esquecido o perigo. Ela tinha sucumbido à necessidade de cavalgar li­vremente depois de tantos meses de confinamento.

Um som chamou sua atenção e ela ficou tensa. Eram ca­valos que se aproximavam rapidamente. Procurando um lu­gar para se esconder, ela viu os cavaleiros no alto de uma colina, vindo díretamente na sua direção. Fiona tirou a espada e o punhal e se posicionou firmemente no chão, com as pernas afastadas. Sabia que não tinha chance de defen­der-se de dez ou mais homens, mas decidiu que era melhor morrer lutando do que permitir que aqueles loucos Menzie a retalhassem.

Então, percebeu que os Menzie raramente andavam em grupos grandes. E ali vinham pelo menos doze cavaleiros. Uma boa olhada no enorme homem moreno na frente da tropa indicou que não eram os Menzie. Fiona permaneceu na mesma posição de luta, mas sem medo. Os Menzie podiam ser insanos, mas não iriam quere-la morta. Ela não podia ter certeza de que aqueles homens teriam as mesmas intenções.

— Cristo, olhe lá, Ewan!

Ewan MacFingal apenas resmungou em resposta ao grito do seu irmão Gregor. Estava olhando, mas não tinha certeza de estar vendo claramente. Não podia ser uma mulher pe­quena tentando enfrentá-los com uma espada em uma das mãos e um punhal na outra. Ela não saberia contar? Eles eram doze e ela apenas uma mulher pequena e delicada.

Dando sinal para que os homens parassem, Ewan devagar se dirigiu até a mulher. Ela estava vestida como um rapaz, com jaqueta e botas, mas não havia dúvida tratar-se de uma mulher. Não era apenas a trança longa, grossa e clara que chegava até os quadris esbeltos. A roupa masculina não con­seguia disfarçar suas formas femininas. Seu rosto era defini­tivamente um rosto feminino. De uma mulher muito bonita.

Quando se aproximou o suficiente para ver os olhos dela, Ewan sentiu sua respiração lhe chegar à garganta. Eram olhos grandes, cor de violeta, de cílios grossos e vastos que im­primiam sombras escuras a eles. Sombras mais escuras que os cabelos e as sobrancelhas. Eram olhos atordoantemente belos.

O rosto dela também era cativante. Maçãs do rosto deli­cadas e o queixo altivo e bem-feito. O nariz era pequeno e reto, a pele, clara e delicada, ligeiramente dourada, os lábios carnudos e tentadores. Ele se pôs a pensar onde ela havia conseguido as duas cicatrizes em cada uma das faces. Eram tênues embaixo das maçãs do rosto.

Ewan apeou do cavalo em silêncio desembainhando a espada. Se ele estava pensando que até as cicatrizes eram bonitas, eía era mais perigosa do que parecia.

Sabia o quanto ele parecia intimidante e ficou ainda mais surpreso quando a viu apenas piscar uma vez, vagarosamen­te, olhando-o de cima a baixo, posicionando-se à maneira de um guerreiro à espera de um ataque.

— Você não está pensando em lutar comigo, está? — Ewan perguntou, erguendo as sobrancelhas.

— E por que não deveria? — Fiona respondeu com outra pergunta.

— Porque sou um homem maior do que você em altura e largura.

— Não notei.

Era impossível não notar, pensou Fiona. Ele era muito mais alto do que ela, talvez ainda maior do que seus irmãos. Tinha ombros largos, quadris estreitos, longas e bem for­madas pernas. Suas roupas largas não conseguiam esconder a força do seu corpo. E sua espada também parecia im­pressionante.

Fiona sabia que deveria estar tremendo, mas não estava. Isso a surpreendia, pois não havia suavidade nas feições da­quele homem. Ele tinha o olhar de um predador e sua es­trutura óssea era perfeita. A dureza daquele rosto roubava a elegante beleza que ele poderia ter. Seu nariz deveria ter sido reto, mas uma ou duas fraturas imprimiam a ele uma aparência de águia. Apesar do aspecto rude, ela pôde ver que ele tinha lábios bem torneados e cheios. Tinha olhos azulados como um claro céu de verão quando as nuvens da noite que se aproxima começam a infiltrar-se. E tinha sorte de possuir os dois olhos, pois tinha uma cicatriz que ia da sobrancelha direita até o queixo.

Entretanto, podia-se perceber certa suavidade naqueles olhos, sombreados por cílios longos e vastas sobrancelhas arqueadas. Seus cabelos longos e escuros passavam da altura dos ombros e estavam trançados, o que lhe imprimia o as­pecto de um guerreiro feroz.

Era moreno, e Fiona podia jurar que não era devido ao sol. Era a barba cerrada que escurecia suas feições. Fiona tinha vontade de saber por que ela, que passara a vida cer­cada por homens claros e belos, achava esse homem moreno tão atraente.

—- Então você não lutará comigo — Ewan disse, dese­jando afastar-se daquela inspeção intensa.

— Dizem que quanto maior o homem, maior sua queda — Fiona murmurou.

— Então o velho Ewan terá que se jogar no chão — afirmou um jovem que segurava as rédeas do cavalo de Ewan enquanto o restante dos homens caíam na risada.

— Eu não lutaria com uma mulher jovem e pequena — Ewan declarou.

— Ah, isso é um alívio, já que eu não tinha a menor vontade de ficar suada e cansada. Aceito sua rendição.

— Eu não me rendi.

— Se não pretende lutar e nem se render, o que planeja fazer? Ficar aí o dia todo bloqueando o sol?

Se Ewan não tivesse suspeitado de que não seria seguro dar as costas a essa mulher, ele teria se virado para olhar para seus sorridentes homens.

— Agora que você já fez sua pequena brincadeira, sugiro que se renda.

Fiona sabia que tinha pouca escolha, o que a fez ficar contra ele. Mas ainda não sentia medo. O homem não fizera menção de atacá-la e nem de desarmá-la. Não tinha aspecto de crueldade e nem de ódio. Havia até um semblante con­fortante naquele guerreiro moreno. Era o mesmo olhar que seus irmãos lançavam a ela quando a julgavam excessiva­mente irritante, desejando que ela não fosse mulher para que eles pudessem lhe dar um soco no nariz. E Fiona soube, na­quele momento, que esse homem a sua frente lhe faria mal.

— Não estou zombando—ela disse, sorrindo docemente. — Estou pronta para aceitar sua rendição agora. Podem jo­gar suas armas a meus pés.

— E o que você planeja fazer com uma dúzia de prisio­neiros?

— Resgatá-los.

— Entendo. E nós devemos sentar-nos quietos como bons rapazes e deixar que você roube nossa tribo.

— Ah, eu não quero roubar sua tribo. Tudo que quero é um cavalo e alguns suprimentos.

— Perdeu os seus?

— Talvez nunca os tenha tido.

— Você está a milhas de lugar nenhum. Espera que eu acredite que apenas apareceu do nada, moça maluca?

— Moça? Você me chamou de moça?

Ewan nunca tinha visto o humor de uma mulher mudar tão rapidamente. Começava a entender o jogo dela. Ela o tinha testado para ver se ele seria capaz de alguma violência. E começara a relaxar. E agora, devido a uma palavra mal escolhida, voltava ao humor do início. Antes que pudesse negociar, seu irmão Gregor falou e piorou a situação:

—- Na realidade ele a chamou de moça maluca.

— Odeio ser chamada de moça — Fiona declarou.

Ela guardou o punhal, segurou a espada com ambas as mãos prontas para atacar, mas o fez com gestos tão graciosos que Ewan a admirou. Ficou tão admirado que se aproximou perigosamente da espada.

No entanto, percebeu que poderia ter sido apenas arra­nhado, que ela não pretendera feri-lo realmente. Também percebeu que ela tinha sido bem treinada. Podia não possuir força para enfrentar um homem, mas tinha habilidade e agi­lidade para tentar lutar. Com um pouco de sorte e um erro do adversário e ela poderia ganhar a luta. O que não entendia era por que ela o atacara. Tinha certeza de que não fora por tê-la chamado de moça. Ewan se pôs a pensar se não era outra artimanha dela para testá-lo e ver se não seria ferida por ele.

Fiona percebera em minutos que aquele homem não iria feri-la. Ele estava na defensiva e Fiona tinha certeza de que isso não era seu modo habitual. E gostaria de terminar com o confronto. Ele bloqueou o balanço da sua espada e ficou a alguns passos de distância dela. Fiona percebeu que ficara sem a espada, levou uma rasteira e caiu de costas no chão, chegando a ficar sem respiração.

Enquanto lutava para recuperar o fôlego, ela agarrou-lhe as pernas fazendo-o cair sobre ela.

— Agora vamos acabar com esse embate sem sentido? — Ewan perguntou, lutando para ignorar o corpo dela sob o seu, e afastando as imagens tentadoras que lhe povoaram a mente.

— Concordo — Fiona respondeu, quando voltou a respi­rar normalmente. — Aceito sua rendição agora,

— Já chega — ele respondeu irritado. — Você agora é minha prisioneira. Tem outras armas? — ele perguntou, ti­rando seu punhal da bainha e atirando-o ao irmão que o agarrou com presteza, aproximando-se para pegar a espada também.

— Não — Fiona respondeu, constatando pelo olhar dele que Ewan sabia que ela mentia.

— Entregue suas armas, mulher.

— Já lhe disse que não tenho mais nenhuma.

Fiona queria saber se o punhal que ela tinha nas costas e que a estava machucando era a causa de ela estar mentindo tão mal.

Fiona foi agarrada e o homem procurou as outras armas que ela possuía. Ela sentia certo prazer com os resmungos dele. Pelo menos conseguia irritá-lo. Infelizmente não o in­timidou e ele rapidamente começou a encontrar todas as outras facas. Seus xingamentos aumentaram quando ele pe­gou duas facas dentro das mangas da sua jaqueta, duas nas botas e uma nas costas. Pegou também duas facas amarradas às suas coxas e ela parou de lutar quando ele passou a mão de dedos longos pelo seu peito, tirando outra faca de meio dos seus seios. Enquanto jogava as facas para seus homens pegarem, ele a manteve de pé e Fiona ficou admirada por ter sentido o calor do toque daquele homem moreno.

Ewan olhou para a coleção de facas que o sorridente Gregor empilhava. E subitamente, percebeu que ela poderia ter pego qualquer daquelas facas escondidas e tê-la fincado en­tre suas costelas. E ele tinha certeza de que ela teria con­seguido. Mas não falhara em nenhum teste que ela lhe im­pusera.

Quando olhou para ela e ela sorriu docemente, Ewan ime­diatamente ficou desconfiado.

— Mais alguma? — ele perguntou.

— É claro que não. — Fiona olhou para ele durante alguns segundos e suspirou. — Apenas mais uma.

— Entregue-a.

Ewan arregalou os olhos quando Fiona tirou uma faca do meio dos cabelos trançados. Quando pegou a faca, ele ig­norou as risadas dos homens e examinou a faca com cuida­do. Era longa, com uma lâmina estreita em uma bainha de couro macio, e o cabo fora ajeitado de modo a parecer um enfeite para cabelo.

— Por que você estava tão armada?

— Não seria seguro andar por aí sem armas — Fiona respondeu enquanto tirava o cinto da espada e o jogava sobre as armas empilhadas, e tirava os invólucros dos lugares mais discretos onde escondera as facas.

— Também não é seguro cavalgar sozinha, mesmo ar­mada.

Ela olhou para ele muito séria e Ewan tentou prestar aten­ção apenas no humor dela. Mas era difícil. Seu olhar ia para as mãos de Fiona que tentava tirar as tiras que prendiam as facas às suas coxas. Precisou um grande esforço para não pensar na maciez da sua pele quando ele a desarmara e nos seus homens que se divertiam enquanto tudo acontecia.

Pior ainda, tinha um grande desejo de sentir a pele da­queles seios firmes e cheios. Percebera brevemente, mas com intensidade, como eles teriam se encaixado bem nas suas mãos, se ele continuasse à procura de mais armas. Ape­sar das roupas que ela usava e das armas que portava, ele não podia ignorar que era uma mulher suave, tentadora e bonita. Pior ainda, ele parecia incapaz de ignorar que a de­sejava.

— Qual é o seu nome? — Ewan perguntou, enquanto Gregor punha todas as facas em um saco.

— Fiona.

— Fiona de quê? De que clã? De que lugar?

— Você espera que eu dê todas as informações para que possam saquear a mim e aos meus?

Inteligência em uma mulher poderia ser extremamente irritante, pensou Ewan.

— Para onde estava indo?

— Nenhum lugar em particular. Eu estava apenas andan­do a cavalo, aproveitando o raro dia de sol.

— E como acabou aqui?

— Meu cavalo me derrubou. Eu devo ter batido.a cabeça ao cair, pois fiquei um pouco tonta. Quando voltei ao nor­mal, tentei montar novamente, mas ele empacou outra vez. E depois de cavalgar por alguns minutos, ele me derrubou e fugiu.

— É aquele cavalo ali?

Fiona olhou para onde ele apontava e praguejou. O grande animal estava calmamente pastando a alguns metros de dis­tância. Se soubesse que ele estava tão perto, teria tentado agar­rá-lo e poderia ter se safado de tão inconveniente situação.

Desalentada, suspirou, aceitando o destino. Aquele cava­lo não ía mesmo se deixar pegar.

— Sim, é ele — Fiona respondeu.

— Qual é o nome dele?

— Na realidade ele tem vários. Mas prefere ser chamado de Miserável.

— Miserável? Você chama seu cavalo de Miserável?

— Ele também é chamado de Maldição, de Satã e... — ela parou quando ele ergueu a mão.

— Talvez ele não fosse tão revoltado se tivessem lhe dado um nome mais apropriado — Ewan afirmou.

— Ele tem outro: Nuvem de Tempestade, mas não res­ponde e é merecedor dos outros.

— Se ele é tão arisco, por que o monta?

— Ele é grande, forte, rápido e pode cavalgar milhas sem descansar. É claro que não é apropriado para o momento — Fiona declarou, olhando para o cavalo que também olhava para ela, como se estivesse se divertindo a sua custa.

— Fique aqui — Ewan ordenou. — Tome conta dela, Gregor. — E foi em direção do cavalo.

Fiona cruzou os braços sobre o peito e o observou cami­nhar até Nuvem de Tempestade. Para sua surpresa e extrema irritação, o homem facilmente pegou o cavalo e o conduziu até ela, que no mesmo momento mostrou a língua para o animal. Os homens gargalharam e o homem grande e mo­reno que trazia o cavalo também riu.

— Talvez se você falasse com ele com mais carinho — Ewan sugeriu —, ele seria mais gentil.

— Eu falei gentilmente com ele, no começo, quando pen­sei que ele fosse um animal razoável. Nunca funcionou. Olhe. — Ela se aproximou do cavalo e começou a elogiá-lo com palavras carinhosas e com a voz suave.

Ewan logo perdeu o interesse do jogo dela com o animal. Fora pego pela mágica da voz dela. Era baixa, leve, rouca e perigosamente sedutora. E as palavras que dizia ao cavalo poderiam muito bem ser ditas a um homem. Olhou para seus homens, e percebeu que eles também estavam ficando se­duzidos. Ewan esperava que não a estivessem desejando co­mo ele a desejava, pois teriam muitos problemas.

Quando estava para acabar com o jogo, para tentar que­brar o encanto, ela pegou as rédeas e tentou montar. Mas novamente foi derrubada caindo de costas no chão. Satã relinchou e Ewan tentou não rir, mas a cena era hilariante e todos perderam o controle e caíram na risada.

Fiona xingou ao se pôr de pé e tirar a terra das roupas. Então olhou para os homens.

— Acho que vocês não teriam mesmo me deixado montar.

— Provavelmente não — Ewan declarou. —- Você é nos­sa refém.

— E posso saber se pretendem cobrar resgate e esvaziar os bolsos da minha gente?

— Somos os MacFingal. Sou sir Ewan, o fazendeiro de Scarglas, e o que está com o carregamento de suas armas é meu irmão Gregor. Poderá aprender o nome dos outros quando acamparmos, esta noite.

— Para onde vão me levar? — Fiona perguntou, enquanto tirava da sela mais uma espada e três outras facas, que en­tregou a Gregor.

— Você não achava que dez facas e uma espada seriam suficientes?

— Eu poderia perder uma ou duas armas em uma batalha. O que você está fazendo? — Fiona perguntou ao vê-lo mon­tar Satã.

Ewan a agarrou e a fez montar atrás dele e ficou agrade­cido por ela não reclamar.

— Vou cavalgar no seu cavalo que está mais descansado que o meu. Vou levá-la para Scarglas, que está a mais ou menos um dia daqui. Quando chegarmos lá, você me dirá quem é e de onde veio.

Antes que ela pudesse lhe dizer que suas chances de ter informações sobre ela eram mínimas, ele sacudiu as rédeas e o cavalo começou a galopar, restando a ela apenas o ato de se segurar nele. Ele poderia lhe perguntar outras coisas quando acampassem e ela daria algumas respostas. Tam­bém tinha perguntas. Quem afinal eram os MacFingal de Scarglas?

 

Ela está resmungando — Gregor comentou ao se juntar a Ewan que já estava observando Fiona. Ewan quase sorriu. No momento em que haviam acam­pado ele ordenara que Fiona preparasse uma refeição. Ela obedecera, mas não fez segredo de sua contrariedade. O fa­to de apenas Simon, o mais jovem dos homens e seu meio-irmão, a estar ajudando deixou-a ainda mais irritada. Ela resmungava e ensinava Simon com má vontade. Ewan ou­vira apenas algumas palavras e achara melhor permanecer afastado.

— Acho que ela pensa que é homem e acha essa tarefa humilhante — continuou Gregor.

— Oh, eu não acho que ela pense ser um homem — murmurou Ewan.

— Mas sua habilidade com armas...

— Ela foi propositalmente treinada. Não tenho dúvida disso. E foi bem treinada.

— Por que alguém treinaria uma moça para lutar?

— Posso pensar em muitas razões. Talvez uma escassez de homens lutadores, talvez ela venha de um lugar onde as batalhas sejam freqüentes, onde haja perigo ao redor, ou talvez tenha sido criada por homens que não sabiam como educar uma mulher. Na minha opinião, é a última hipótese. Ela se movimenta como homem e veste roupas masculinas como se estivesse acostumada com isso. Gregor a observou por alguns instantes.

— É verdade. Ela se move mais como um rapaz do que como uma moça.

— E também parece não temer ficar sozinha no meio de doze homens.

— Talvez ela não seja solteira e esteja acostumada a con­viver com homens.

— Não acho.

— Você parece ter certeza.

— Apenas julgo de acordo com o modo como ela age. — E com relutância, Ewan admitiu que não gostou da ideia de imaginar Fiona sendo tocada por outro homem. — Ela nos enfrentou com armas, atacou nossos ouvidos com insul­tos e tenta nos impedir de executar nosso plano de resgate simplesmente recusando-se a nos dar seu nome completo ou de onde vem. Não ouve nenhuma tentativa de flertar com nenhum de nós ou de usar qualquer artifício feminino. E observe como nosso Simon a obedece servilmente. E ela não usa de sedução.

— É. Ela parece tratá-lo como a um irmão mais novo — Gregor sorriu. — Por isso Simon está tão escravizado. Nosso Simon é tímido e virginal. Algumas solteiras de Scarglas tentaram conquistá-lo, mas ele ficou com medo. Estou pensando em levá-lo a um bordel para que as mulheres lhe en­sinem algumas coisas.

Ewan lembrou-se do tempo em que seu pai o pôs na cama de uma mulher, insistindo que era hora de ele se tornar um homem. Ele tinha quinze anos, era alto e magro, e tremen­damente tímido. Também se sentia intimidado pela aparente tentativa de seu pai de perpetuar sua própria raça, mantendo uma esposa em casa e muitas outras mulheres grávidas, ano após ano. Ewan estremeceu com a recordação da noite em que perdera a virgindade. Fora uma noite cheia de fracassos, embaraços e desencontros, tudo acontecendo nos braços de uma mulher de olhar duro que o atemorizava com seu ex­cesso de peso e a necessidade de tomar um banho.

— Não — ele murmurou, fingindo não ver o olhar sur­preso de Gregor. — Deixe-o sossegado. Ele fará isso quando se achar pronto.

-— Como queira — Gregor deu de ombros. — Só acho que ele é um pouco vagaroso para tomar uma atitude.

— Ele o fará quando decidir que é hora. É melhor dei­xarmos essa escolha para ele mesmo. — Ewan olhou para Simon, que o fazia lembrar-se de si próprio com a mesma idade. — Provavelmente, Simon apenas precisa se ver como um homem formado, com ossos duros e um par de pés gran­des demais.

— É assim que você se sente? — Gregor apenas sorriu quando Ewan olhou para ele, franzindo o cenho.

— Nem todos são abençoados com a sua confiança e seu rosto bonito.

— Obrigado por não dizer vaidade.

— De nada. É claro que você deve deixar suas partes descansarem de vez em quando antes que se gastem.

Ewan quase riu quando George olhou assustado para sua própria virilha e depois olhou para ele.

— Nem todos somos monges como você — Gregor res­mungou.

— Não sou um monge — Ewan retrucou.

— Dormir com uma mulher uma vez por ano é ser um monge. Não consigo entender como consegue.

— Isto se chama controle. É melhor que pôr no mundo uma legião de bastardos.

— Eu só tenho dois. Tentamos fazer como você pediu, mas um homem tem necessidades e nem todos têm a sua força. Alguns não conseguem e fico a pensar se esse não é o motivo de termos um humor tão negro.

Ewan suspirou e meneou a cabeça. A velha discussão. Era difícil ensinar controle quando o patriarca da tribo não dava o exemplo. O fato de Scarglas ter muitas mulheres dentro de casa que eram livres para fazerem o que quises­sem, não ajudava muito. Ele tinha tido sucesso desde que tomara o lugar do seu pai há cinco anos, mas não do modo como gostaria. Olhou para Fiona e pensou o que ela acharia de Scarglas e seu povo.

— Talvez essa moça dê ao rapaz a confiança que lhe falta — murmurou Gregor. — Se Simon puder aprender como ficar à vontade com essa moça, poderá ganhar confiança com as outras. Bem, isso se ela ficar conosco durante algum tempo.

— Oh, acho que ela será nossa hóspede durante muito tempo, a não ser que você tenha um modo de fazê-la nos dizer exatamente quem ela é.

— Você poderia tentar arrancar essa confissão dela. Aon­de nós vamos? — Gregor perguntou quando, depois de um olhar furioso, Ewan começou a penetrar no bosque.

— Vamos caçar — Ewan respondeu. — É melhor eu tentar matar algum animal e pôr came na nossa mesa do que enfiar minha espada em você. Eu poderia me arrepender disso daqui a um ou dois anos.

Ewan não ficou surpreso quando percebeu que o irmão o seguia. Os perigos que cercavam a ele e a sua família não permitiam que ele saísse sozinho. Ele também sabia que não devia caçar, e pegar apenas algum animal que cruzasse seu caminho. Não queria admitir, mas estava tentando escapar da tentação sugerida por Gregor.

Seduzir uma mulher tão linda como Fiona? Seria digno de risada se ele não pudesse controlar pensamentos e senti­mentos que tentava enterrar profundamente dentro de si mesmo. Ele era um homem adulto e escuro na aparência e na natureza. Fiona era clara como o sol, linda, viva e cheia de energia. Estava muito longe de suas mãos e era atordoante até olhar para ela. Apenas algumas horas na companhia da­quela mulher e ele já se pegava lutando para se convencer de que nunca poderia tê-la. Precisava descobrir quem era ela, pedir o resgate e afastá-la da sua vida antes que sucum­bisse aos desejos, tentasse chegar até ela e fazer papel de tolo.

— Onde uma moça bem-nascida como você aprendeu a cozinhar tão bem? — Simon perguntou, inalando o cheiro do coelho que Fiona estava preparando.

— O que o faz pensar que sou bem-nascida? — ela per­guntou, enquanto mexia o guisado, pensando se seria sufi­ciente para tantas pessoas.

Ela estava cozinhando dois grandes caldeirões em duas bocas de fogo que Simon acendera, mas doze homens de­vorariam tudo em poucos minutos.

— Você não se veste e nem age como uma lady, mas eu acho que é bem-nascida. Suas roupas, suas armas e seu ca­valo demonstram isso. E você fala bem e... — Simon corou. — E limpa e cheira bem.

—Sim, sou bem-nascida, mas os primeiros anos da minha vida foram passados como a mais pobre das camponesas.

Ela acrescentou no guisado uma cebola que um dos ho­mens havia trazido e sorriu para Simon, que obviamente esperava uma história.

— Durante muitos anos nossa tribo e duas outras se se­pararam. Finalmente veio um tempo em que nada sobrara a não ser pedregulhos, campos queimados, gado sacrificado, viúvas e órfãos. Os que sobreviveram da última batalha, que matara os proprietários das terras e a maioria dos homens, ergueram-se e juraram que tudo terminara naquele dia. Che­ga de feudos, matanças, invasões e todo o resto. E foi assim. Todos nós, dos mais pobres aos proprietários de terras, todos os sobreviventes, começamos a reconstruir o que havíamos perdido.

— E esse o motivo de você ter aprendido a lutar?

— Sim, mas graças a Deus, houve paz e precisamos lutar muito pouco. Além disso, estávamos tão fracos que qualquer um de nós teria sido derrotado com facilidade. Foi uma vida muito dura, mas conseguimos sobreviver. Todos tínhamos conseguido inúmeras habilidades e estávamos mais próxi­mos uns dos outros. Não tínhamos mais que lutar a cada dia para sobreviver, mas sabíamos como fazê-lo se houvesse necessidade, e todos, homens, mulheres e crianças da tribo podiam fazer o mesmo. Foi uma coisa boa.

— É verdade — concordou Simon. — Mas vocês devem ter um chefe, uma pessoa superior às outras.

— Sim, temos uma pessoa que lidera as outras. Mas, de­vido ao que sofremos, até os proprietários das terras, se for necessário, trabalham ao lado do povo, tanto na terra como no conserto de um telhado, por exemplo. O povo sabe tam­bém que o líder nunca comeria se tivesse alguém passando fome e nem se aqueceria na sua grande sala se alguém es­tivesse passando frio. Há também o conforto de saber que o líder jamais começaria uma guerra se houvesse a possibi­lidade de resolver tudo sem derramamento de sangue. Isso é muito reconfortante.

— Deve ser bom. Nosso velho líder briga com todos, ou brigava. Cinco anos atrás, Ewan assumiu a liderança e ele trabalha para fazer alianças. Mas não está conseguindo. Nos­so pai fez inimigos poderosos.

— Oh, você também é irmão de sir Ewan?

— Meio-irmão, Sou bastardo. Somos muitos. Perto de três dúzias, na última contagem.

O que poderia falar sobre isso?, pensou Fiona. Como seu irmão Diarmot tinha cinco crianças bastardas, seria hipocrisia condenar tal fato. Mesmo assim, o velho líder fora longe demais. A excessiva extravagância era provavelmente o mo­tivo de sir Ewan ter assumido a liderança. Isso e a menção de Simon de que o velho líder fazia inimigos com facilidade, deixando sua tribo cercada de adversários. Fiona teve von­tade de saber para onde estava sendo levada.

Por um breve momento, foi tentada a contar a sir Ewan exatamente quem ela era para que ele pudesse pedir o resgate e ela voltar a Deilcladach. Mas... meneou a cabeça. Sua tribo não era tão rica a ponto de esvaziar os cofres por ela ter sido tola o suficiente para pèrder-se e ser capturada. Sua família ficaria preocupada com ela, mas não havia como fazer com que eles soubessem que ela estava bem, sem expô-los a um resgate exorbitante.

Na verdade, havia uma pequena vantagem de estar ali, embora até se considerasse culpada por pensar nisso. Os Menzie não a encontrariam, nem poderiam imaginar onde ela estaria. Por enquanto, Fiona decidiu, seria egoísta e iria se aproveitar desse fato.

Declarando que a refeição estava pronta, ela pegou sua parte e forçou Simon a fazer o mesmo. Sir Ewan e Gregor estavam voltando ao acampamento quando ela disse aos ho­mens que eles poderiam comer. Saiu rapidamente do cami­nho e sentou-se, encostando-se a uma árvore. Sorriu para Simon quando ele apareceu oferecendo-lhe um pedaço de pão.

— Seu líder viaja com bons suprimentos — murmurou Fiona.

— Ah, sim, este pão nos foi dado por duas irmãs que foram pegas com nosso Gregor — disse Simon. — As moças gostam de nosso Gregor. — Simon meneou a cabeça. — Ele já tem dois bastardos. É coisa de homem, mas isso me preocupa. Marca um rapaz e é uma marca da qual nunca se livra. E marca também a moça que teve os filhos.

— É verdade — Fiona concordou. — Eu tenho um irmão que tem cinco bastardos, embora ele possa não ser o pai de todos eles. As mulheres disseram que ele era o pai quando deixaram as crianças na nossa porta e ele os aceitou. É um homem afortunado, pois sua nova esposa também aceitou as crianças.

— Oh, isso é bom. Minha mãe encontrou um marido e não me quis. Então Ewan me pegou. Eu tinha apenas três anos e não era útil aos homens. Era outra boca para alimen­tar. E isso foi bom, pois se eles tivessem ficado comigo eu seria usado na lavoura ou para tomar conta dos animais. Em vez disso, fui treinado para ser um guerreiro.

Não foi fácil, mas Fiona concordou com o rapaz. Nunca deixaria que ele percebesse que ela tinha pena dele. Nascera como um menino sem pai e abandonado pela própria mãe. Simon estava certo em dizer que tivera uma vida melhor do que poderia ter tido. Simon havia sobrevivido e estava pros­perando. Isso era, no final, o mais importante.

Fiona foi afastada dos pensamentos sobre o triste começo de Simon, quando foi distraída pelos outros homens. Um por um deixava o prato vazio aos seus pés. Fiona pensou que era um modo de agradecer pelo alimento, mas era para que ela lavasse as tigelas. Era um fato irritante, mas não inesperado.

O olhar divertido de sir Ewan, entretanto, a fez ficar com mais raiva, como se estivesse esfregando urtigas na sua pele. Apenas Simon se ofereceu para ajudá-la salvando os homens de terem as orelhas vigorosamente esbofeteadas. Resmun­gando, ela e Simon limparam tudo depois da refeição que fora obrigada a preparar.

— O que foi? — Ewan perguntou a Gregor, ao vê-lo observar Fiona e Simon, enquanto se afastavam.

— Estou procurando os punhais.

— Ainda bem que achei todos — Ewan disse, sorrindo. — E estou em dívida com Simon, por me salvar de uma prová­vel agressão.

— Você a viu olhando como se quisesse esganar você?

— Sim. Ela estava furiosa. Mais como um homem do que como uma mulher. Suspeito que logo seremos capazes de dizer o motivo.

Gregor concordou.

— Você poderá ser capaz de fazê-la cuspir algumas ver­dades se a deixarmos com raiva.

— Pode ser. Este plano é melhor do que o outro que você teve.

— Sedução é uma maneira comprovada de arrancar ver­dades de uma mulher — Gregor insistiu. — Se você tiver urgência, eu posso...

— Não. Não precisamos de mais inimigos e acho que lucraremos se a usarmos para o resgate.

Ewan achou que este era um bom argumento e não igno­rou o olhar divertido do irmão.

— Seja como quiser. Devo protegê-la durante a noite? Não sei como, mas acho necessário. Desconfio que essa mo­ça poderia nos causar um grande problema.

Ewan resmungou e olhou para Fiona. Não seria tão difícil alterar o horário da guarda que ele organizara para que ela fosse vigiada durante toda a noite. Para seu desânimo, ele não gostava da idéia de outros homens ficarem perto dela enquanto ela dormia, ou mesmo terem a oportunidade de ganhar o interesse dela.

Que loucura, pensou Ewan, era uma fraqueza que poderia lhe trazer muitos problemas. Se estivessem em Scarglas, ele teria lugares para ir e serviços para fazer na tentativa de tirar Fiona da sua mente. Mas ali não havia onde se esconder.

Ewan suspirou, aceitando a própria contrariedade. Não queria outro homem perto demais dela durante muito tempo, desse modo ele teria que ser um dos guardas da noite. Seria, sem dúvida, uma noite insone.

— Eu a vigiarei — ele declarou. — O horário da guarda já foi organizado e é melhor não alterá-lo. Eu ficarei de guarda. Preciso apenas de um pedaço de corda.

— Corda? — Gregor perguntou, enquanto acompanhava o irmão até o setor de suprimentos. — Pretende amarrá-la?

— Seria bom, mas não é possível. Não quero ter que explicar aos meus homens porque um homem do meu ta­manho precisa amarrar uma moça para que possa dormir. Apenas a amarrarei a mim, para que ela não tenha chance de fugir.

Sem mais nenhuma palavra, Ewan andou até Fiona, que estava terminando de lavar os utensílios usados na refeição.

Ela arregalou os belos olhos ao vê-lo empunhando um pe­daço de corda. Antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele pegou seus dois punhos com apenas uma das mãos. Ele a viu armar um chute e disse:

— Eu não gostarei nem um pouco se você me chutar, moça — declarou, enquanto a conduzia ao lugar onde Gre­gor estendia um cobertor no chão para eles dormirem.

— Bem, isso certamente me manteria lamentando pela noite toda — disse Fiona, tentando livrar os pulsos. A força dele não era dolorida, mas impossível de ser vencida. — O que pretende fazer com essa corda?

Ewan não respondeu. Passou uma extremidade da corda ao redor dos pulsos dela e a outra extremidade ao redor dos próprios pulsos. Depois de verificar se estavam bem amar­rados, seus olhares se encontraram. Ela parecia pronta para amarrar o pescoço dele com aquela corda. Ele, estranhamen­te, divertiu-se com aquilo e concluiu que a luxúria estava tirando seu juízo.

Em silêncio, Fiona o xingou de todos os nomes que ela conhecia, enquanto ele, gentil, mas com firmeza, a conduzia em direção do cobertor. Ewan deitou-se ao lado dela e es­ticou outro cobertor para cobri-los. Quando ele cruzou um dos braços sob a cabeça e esticou o outro que o mantinha preso a ela. Fiona teve que olhar para ele.

— Acho que você não acreditaria se eu dissesse que não tentarei escapar? — Fiona perguntou, girando o corpo para encontrar uma posição melhor.

— Não. Eu não sei quem você é e você não quer me contar. quer, Fiona-dos-dez-punhais?

Ela quase sorriu ao ser chamada daquela maneira. Fiona-dos-onze-punhais seria melhor, pois ela ainda tinha um es­condido e poderia se soltar daquela corda. Havia coisas pio­res que ele poderia ter feito para ter certeza de que ela não lhe causaria problema, mas isto tornaria difícil conciliar o sono.

Com a proximidade, Fiona percebeu de repente fatos desconcertantes. Tinha consciência da proximidade daquele corpo grande e viril. Ele era morno e cheirava bem, era limpo e perigosamente atraente. De repente, Fiona lembrou-se de como haviam ficado perto no momento em que ele a desar­mara. Sentiu-se corar e percebeu que tinha vontade de sentir aquelas mãos grandes sobre ela novamente; só que dessa vez para acariciá-la. Era loucura, mas Fiona sabia que difi­cilmente se livraria dessas sensações.

Fechando os olhos, tentou reviver o medo de estranhos e de homens, que a perversão dos Menzie havia criado nela, mas de nada adiantou. Por razões que ela ainda desconhecia, Fiona não sentia medo daquele homem grande e moreno. Sentimentos que nunca experimentara antes, por homem ne­nhum, haviam sido despertados nela. Uma parte dela queria deixar esses sentimentos crescerem e voarem. Outra, queria enterrá-los. Era uma péssima ocasião para perceber que po­dia se sentir atraída por um homem. Podia até sentir paixão, mas era um momento muito inoportuno.

Depois de xingar silenciosamente, Fiona lutou para livrar sua mente desses pensamentos. Talvez depois de algumas horas de sono pudesse encontrar força para ver tudo com mais clareza.

Ewan deu uma olhada na mulher à qual estava atado. Aproveitou para olhar melhor quando percebeu que ela es­tava dormindo. Seu rosto era suave e a claridade da lua a fazia ainda mais bela. Silenciosamente, se xingou ao cons­tatar que poderia ficar olhando durante horas para aquele rosto, sem se cansar. Ewan sabia que muitos homens a acha­riam defeituosa devido às duas cicatrizes nas faces, mas para ele, elas não diminuíam a beleza daquela mulher.

Ewan fechou os punhos e lutou contra o desejo de tocar Fiona. A lembrança da pele macia que sentira ao desarmá-la era difícil de ser esquecida. Era mesmo impossível, ele ad­mitiu. Ansiava por senti-la novamente, por acariciá-la da sola dos pequenos pés até as suaves sobrancelhas.

Esses pensamentos foram suficientes para provocar uma ereção que chegou a doer. Ewan queria sentir aqueles seios firmes na palma das suas mãos. Queria que aquelas pernas esguias e fortes estivessem ao redor da sua cintura. Queria ouvi-la gemer e gritar seu nome enquanto a possuía selvagemente.

Ele fechou os olhos e jurou acabar com aquela atração. Por muitas razões decidira ser um homem sozinho. Se não fosse cuidadoso, se não reprimisse seus sentimentos, temia que sua refém pudesse mudar sua mente e poderia fazê-lo tentar alcançar o que nunca poderia ter.

 

Fiona sonhara com seu cavalo a derrubando no chão e fugindo, deixando-a entregue ao próprio destino.

Fez uma careta, querendo saber por que se sentia como se o cavalo tivesse caído sobre ela. Ainda sonolenta, ela abriu os olhos, mas não viu nem grama e nem chão pedre­goso, apenas um cobertor. Aquilo não fazia sentido. Nin­guém estendia cobertores para aparar a queda de pessoas atiradas dos seus cavalos.

Tentando fixar o pensamento, Fiona ergueu a mão para esfregar os olhos. Seus pulsos estavam amarrados juntos. Seu coração bateu mais rápido e sua mente clareou. Não havia cavalo sobre ela, lhe tirando a respiração, mas sim seu seqíiestrador.

Tentou sair de debaixo dele, mas não conseguiu. Tudo que conseguiu foi fazê-lo mudar um pouco de posição. As­sustada, quase gritou ao perceber que não era apenas o homem grudado as suas costas, mas sua ereção a cutucando. E, embora tenha dito a si própria que seu coração disparara de medo, Fiona sabia estar mentindo. Além de tudo, o ho­mem era muito bem-dotado.

Entretanto, o que a deixou mais contrariada foi que ela teve vontade de movimentar os quadris para ser cutucada novamente. Era óbvio que uma noite de sono não havia res­taurado seu bom senso.

Quando o sentiu aninhar-se perto do seu pescoço e um estranho calor percorrer seu corpo, lembrou-se de ouvir a cunhada dizer, rindo, que os homens "acordavam" com o nascer do sol. Fiona sentiu-se gelar. Provavelmente, sir Ewan não estava de todo desperto. Tinha simplesmente "acordado" com o sol, sentira o calor do corpo de uma mu­lher e estava planejando fazer uso disso. Bem, se ele pre­tendia se aninhar e a cutucar, seria melhor saber com quem o fazia.

-— Saia de perto de mim, seu brutamontes — ela resmun­gou, tentando afastar-se. — Não consigo respirar.

Ewan abriu os olhos e olhou para ela. Estava cansado, dormira pouco, mas despertou rapidamente ao perceber sua situação. Céus, estava com uma poderosa ereção. Pior ainda, era óbvio que ele a tinha cutucado pelas costas. A posição em que eles estavam era deliciosamente sugestiva e ele tre­meu de desejo. Praguejou silenciosamente, e se afastou.

— Desculpe-me — ele murmurou, ouvindo seus homens acordando. — Vou desamarrá-la.

Fiona sentou-se devagar e respirou várias vezes tentando se acalmar. Tinha a forte desconfiança de que seria difícil esquecer que sentira a força e o poder daquele homem gran­de às suas costas, pressionando sua ereção contra ela. Aquilo ao mesmo tempo a assustava e a aborrecia. Nao sabia nada sobre ele e não era hora de sentir atração, entusiasmo ou o que quer que fosse que a estava acometendo. Já tinha ho­mens demais na sua vida, Fiona pensou com raiva, enquanto se levantava e caminhava em direção das árvores.

— Aonde pensa que vai? — Ewan perguntou, seguindo-a.

— Onde as pessoas costumam ir quando acordam, seu tolo? — Quando Fiona percebeu que ele continuava a se­gui-la, virou-se, enfrentou-o, e conseguiu que ele desse um passo para trás. — Não preciso da sua assistência.

— Mas precisa ser vigiada. — Ele segurou uma ponta da corda que ainda estava ao redor do pulso dela e o atou ao seu próprio punho. — Agora pode ir.

Ewan quase deu outro passo para trás quando ela olhou para ele com ódio.

Por um breve momento, Fiona pensou em voltar. Seria uma humilhação se aliviar com ele tão perto. Infelizmente, sua bexiga cheia deixou claro que a humilhação seria ainda maior se não se apressasse. Xingando todos os homens, Fio­na continuou seu caminho olhando para as costas largas do seu sequestrador.

Quando se encontrou perto de alguns arbustos, Fiona se pôs a pensar no motivo por estar tão perturbada. Fora criada ao lado de cinco irmãos, e havia pouco refinamento e deli­cadeza em Deilcladach durante os primeiros treze anos de sua vida. Quando Gillyanne chegara, um pouco de delica­deza fora introduzida, mas ela duvidava que alguém consi­deraria os MacEnroy refinados. O que acontecia naquele momento não deveria tê-la perturbado dessa maneira, a ponto de não conseguir fazer nada antes que ele próprio come­çasse a se aliviar.

Quando se tornara uma delicada flor da feminilidade? Fiona orou para que isso não fosse um sintoma de que ela desejava atrair aquele homem.

— Preciso me lavar — ela disse, quando eles voltavam ao acampamento.

Ewan olhou para ela querendo saber por que a achava tão tentadora.

— Você entende que é uma refém e não uma hóspede? Fiona olhou para a corda que os unia e em seguida para ele.

— Acredito que começo a perceber isso, mas ainda assim preciso me lavar.

— Acho que você foi criada com as rédeas soltas demais

— ele resmungou, e a conduziu a um pequeno riacho a al­guns metros dali.

— Acho que fui criada de maneira perfeita.

Ela ignorou seu resmungo e tentou ignorar a corda que os unia quando ambos se ajoelharam para lavar o rosto e as mãos. Tirando do bolso um pequeno pedaço de pano bor­dado que Gilly a fazia carregar toda vez que saía, Fiona o umedeceu na água fria. Estava esfregando os dentes quando sentiu uma súbita sensação de perigo se aproximando. Um segundo depois, ela olhou para o bosque tentando encontrar o que a alarmara e percebeu que Ewan estava tenso.

— Inimigos? — Fiona sussurrou enquanto se levantava ao mesmo tempo que ele. — Tão perto de suas terras?

— Temos inimigos por todos os lados — ele resmungou.

— Você pode correr rápido?

— Se eu não estivesse amarrada, poderia vencê-lo.

— Por ora é suficiente que me acompanhe. — Ele viu o brilho do sol se refletir em algum metal dentro do bosque, do outro lado do riacho. — Agora.

Ainda não havia corrido muito quando Fiona ficou um pouco a sua frente e Ewan percebeu que ela não estava querendo se mostrar. Era realmente ágil e evitava ou pulava todos os obstáculos que encontrava no caminho. No mo­mento em que chegaram ao acampamento, ele desatou a corda e avisou seus homens para se prepararem para atacar. Empurrou Fiona para o lado de Simon e encarregou o jovem de vigiá-la e protegê-la.

Fiona quis protestar quando Simon a levou para um lugar. perto dos cavalos, atrás de Ewan e dos seus homens. Mas não era hora de discutir seus direitos e suas habilidades para defender a si própria. Entretanto, queria muito ter uma es­pada. Era errado estar completamente desarmada, com um jovem de dezesseis anos tomando conta dela para defendê-la contra qualquer inimigo que pudesse chegar até eles.

Um momento depois os inimigos chegaram ao acampa­mento. Saíram do bosque em duas diferentes direções tão rápida e silenciosamente que Fiona ficou admirada de que os MacFingal não passassem por um momento de hesitação. Em vez disso, enfrentaram os inimigos com ferocidade e coragem. Embora Simon estivesse fazendo um serviço ad­mirável observando todos os homens que se aproximavam, Fiona ficou alerta, vigiando os cavalos para impedir algum roubo.

Os MacFingal eram eficientes em dizimar os inimigos que eram maioria, quase três por um, e Fiona sentiu-se mais confiante. Detestava lutas e derramamento de sangue, mas ficou feliz em constatar que seu seqiiestrador e seus homens tivessem tanta habilidade. Aqueles homens não tinham vin­do em paz e sim para matar.

O que a deixava perplexa era que os MacFingal pareciam sempre prontos a se defender, como se estivessem acostu­mados a ser atacados. Ficar com eles fornecia a ela um abri­go que os Menzie não poderiam encontrar. Mas esse abrigo não parecia muito seguro.

Quando os inimigos começaram a se retirar, Simon xin­gou e a colocou com mais firmeza atrás dele. Um homem enorme, imundo e cabeludo corria na direção deles, mas foi impedido pela espada de Simon. O homem riu, revelando dentes podres. Fiona ficou tensa ao perceber que nenhum dos MacFingal havia notado o inimigo se aproximando. Seu instinto lhe disse que Simon, apesar da pouca idade, era hábil com a espada, mas enfrentava um homem muito mais alto e forte.

— Desista, rapazinho, você não pode comigo — grunhiu o homem.

— Vencer você nem me fará suar — provocou Simon. Fiona teve que admitir que, para um rapaz tão doce, Si­mon pôde produzir um sorriso frio e impressionante.

— Você é orgulhoso, pequenino. Vou matá-lo e depois vou jogar a moça sobre sua carcaça ensanguentada.

Alguma coisa nos movimentos de Simon avisaram Fiona de que a luta estava prestes a começar.

Revoltada por estar desarmada, ela se afastou para não atrapalhar os movimentos de Simon. O primeiro estrondo das espadas a fez estremecer apesar dos outros sons da ba­talha chegarem aos seus ouvidos. Simon logo revelou sua grande habilidade, mas Fiona sabia que isso não seria sufi­ciente. Se seu grande e forte oponente pudesse aguentar por muito tempo, acabaria vencendo. Simon era muito jovem e. conseqiientemente, sua experiência era menor que a de seu adversário.

Fiona começou a procurar um modo de ajudar. Suas ar­mas estavam com os cavalos, mas ela resistiu ao desejo de ir buscá-las, pois não apenas ficaria perigosamente exposta e desarmada, como também se colocaria no meio do campo de batalha. Além disso, se ela se afastasse poderia distrair Simon.

Um grito do rapaz a fez voltar sua atenção para a luta. Ele estava sangrando com um ferimento no braço. Apesar de não ser o braço com o qual ele lutava, a perda de sangue o enfraqueceria rapidamente.

Fiona orou fervorosamente para encontrar alguma coisa que pudesse usar como arma e naquele momento ouviu um gemido e um baque a sua direita. Um dos inimigos havia sido atingido e caíra sangrando aos seus pés. Era uma hor­rível resposta às suas preces, mas ela não a iria desprezar. Fiona não hesitou em tirar do inimigo a espada e o punhal.

Virou-se para Simon e o viu hesitar. O jovem não con­seguira se defender da espada do seu inimigo e agora tinha um ferimento na barriga. Simon caiu de joelhos e o bruta­montes sorria. O modo como o homem se preparou para golpear Simon com a espada fez com que Fiona percebesse que ele pretendia arrancar a cabeça do rapaz. Ela não hesi­tou. Enfiou a espada na lateral do corpo do homem. Quando ele gritou e virou-se para olhar para ela, Fiona cravou o punhal no coração dele. O homem deu um passo para trás e caiu pesadamente no chão, olhando para o rosto de sua adversária.

Fiona estremeceu, intimidada pelo que acabara de fazer, apesar de ter sido necessário. Olhou os olhos sem vida do homem e teve vontade de vomitar. Esse fato assombraria seus sonhos durante um longo tempo.

Aos poucos, ela percebeu que a batalha tinha acabado e notou que ficara muito tempo olhando para o homem morto. Esforçou-se para voltar sua atenção a Simon, que ainda es­tava ajoelhado no chão. Ajoelhou-se ao lado dele, e Ewan e Gregor correram até eles. Fiona achou que, depois que ela se recobrasse do fato de ter matado um homem, apreciaria os olhares aturdidos e respeitosos com que Ewan e Gregor a fitavam.

— Embrulhe Simon em um cobertor e exponham seus ferimentos — ela disse ficando de pé. -— Precisarei daquela pequena tira de couro da minha sela, para estancar o sangue de seus ferimentos. Volto em um momento. — Correu até o bosque, sabendo que não ia conseguir controlar a náusea que a acometera.

— Devo segui-la? — Gregor quis saber, enquanto pegava Simon nos braços.

— Não. Ela voltará — respondeu Ewan olhando para Fiona, que corria até os cavalos para pegar o que necessitava a fim de socorrer Simon.

Ewan ficou admirado de como tinha certeza de que ela não fugiria.

— Se ela pretende cuidar dele, por que fugiria?

— Suspeito que ela foi vomitar no meio dos arbustos.

— Ah, eu costumava fazer isso quando era um rapaz. Quando Ewan e Gregor acabavam de ajeitar Simon sobre o cobertor e tiravam sua camisa, o rapaz pareceu um pouco mais reanimado.

— Ela movia-se como um raio, Ewan — Simon murmu­rou, enquanto Ewan lavava seus ferimentos.

— Sim, ela foi rápida — concordou Ewan, contente em ver que os ferimentos eram superficiais.

— Eu falhei com você. Se Fiona não tivesse pego aquela arma, ela teria morrido depoís que o homem acabasse comigo.

— Você não falhou. O homem era maior e mais forte, acostumado com batalhas. Você tem habilidade para vencer uma luta justa. Tem apenas que aprender a vencer uma luta injusta e desigual. Assim que se recuperar, começaremos as aulas.

Ewan viu Fiona voltando. Seu passo era firme, mas ela parecia pálida e quando se aproximou mais ele pôde ver que tinha chorado. Ewan ficou contente ao ver que o corpo do homem que ela havia matado já tinha sido retirado. Fiona precisava estar firme e calma para cuidar de Simon.

— Você salvou minha vida — Simon disse quando Fiona se ajoelhou perto dele e delicadamente o fez se calar pondo o dedo sobre os lábios do rapaz.

— Você se colocou entre uma espada e meu coração. Era meu dever impedir que não morresse por causa disso. Agora, vamos ver como estão esses ferimentos.

— Você sabe como tratá-los? —- Ewan perguntou.

— Sei. Fui ensinada por Gilly e sua família — ela res­pondeu, enquanto banhava com delicadeza as feridas de Si­mon, procurando por alguma sujeira ou pedaços de pano que pudessem ter ficado dentro dos cortes. — Os ferimentos não são profundos. Um pouco de pomada, curativos e re­pouso farão com que eles cicatrizem logo.

— Simon poderá ser removido depois que você fizer os curativos?

— Que distância terão que percorrer? A estrada é muito ruim?

Fiona sabia que seria melhor para Simon que ele ficasse em repouso, mas entendia que era mais seguro que partissem daquele lugar.

— Aproximadamente meio-dia, mas não é um caminho muito ruim.

— E é realmente necessário partir imediatamente? Segu­re-o firme, por favor. Isso vai queimar um pouco, Simon. Aguente firme. — Assim que Ewan e Gregor seguraram Simon, Fiona derramou uísque nos ferimentos. — Isso, as­sim está bom. Talvez ele desmaie, não se preocupem.

— Por que você pôs bebida nos ferimentos?

— Está provado que ajuda na cicatrização. Os ferimentos não infeccionam quando os banhamos com a bebida. Agora, continuem segurando-o com firmeza que eu vou costurar os cortes.

Ewan observava a presteza e habilidade com que Fiona costurava os ferimentos do rapaz. Simon ficaria com cica­trizes, mas certamente não seriam cicatrizes feias como as que ele tinha. A eficiência com que ela trabalhava provava que não mentira ao dizer que entendia de curar pessoas. Então Ewan lembrou-se da pergunta que ela fizera: se era realmente necessário locomover Simon.

— Os homens que nos atacaram eram os Gray — Ewan explicou, quando ela acabou de dar os pontos e passava pomada sobre eles. Alguns fugiram e poderão juntar mais ho­mens, e voltar dentro de algumas horas. Agora que sabem onde estamos, acho que será exatamente isso o que farão.

— Então não foi um ataque planejado? — Fiona prendeu as ataduras sobre o ferimento do braço e, ajudada por Ewan que ergueu Simon, passou outras ataduras em volta da bar­riga do jovem.

— Não. Creio que eles nos encontraram por acaso. Mas tenho certeza de que tentarão novamente.

— Então teremos que ir. Simon pode ser transportado em uma carroça sem atrasar demais a viagem?

— Sim, já planejei isso. Acho que chegaremos a Scarglas em meio dia de viagem.

Fiona concordou e levantou-se.

Faça uma cama macia com cobertores e amarre Simon a ela. Isso tornará os solavancos menos intensos. — Fiona pegou sua bagagem. — Vou ver se há mais feridos que pre­cisem dos meus cuidados.

— Há poucos. Tivemos muita sorte. Não perdemos ne­nhum homem.

Ewan a observou se afastando e mandou dois homens preparar a carroça para transportar Simon. Fiona sofria pelo que havia feito. Ewan podia perceber pela expressão dos olhos dela e pela sua voz. Ela fora treinada para lutar e muito bem treinada, mas Ewan tinha certeza de que nunca havia matado um homem antes.

Suspirou, sentindo arrependimento e raiva. Agora ela ti­nha sangue nas mãos por causa da sua família. Seu pai ga­rantira que eles vivessem cercados por inimigos, cuja grande maioria queria intensamente livrar o mundo de todos que dissessem viver em Scarglas. Ewan não podia se lembrar de ter passado um dia ou uma hora da sua vida sem esperar por um ataque.

Era errado fazer Fiona se imiscuir em todo esse problema, mas ele não tinha escolha. Não poderia deixá-la vagar so­zinha por lugares perigosos e não podia negar a sua tribo a chance de conseguir um bom resgate por ela. Apenas podia trabalhar para que a estada dela nas suas terras não fosse longa demais.

Não seria fácil uma vez que ela continuava se recusando a dizer quem era e de onde vinha. Ewan refletia enquanto ajudava os homens a preparar a carroça e a cama para Simon. Pensou em ameaçá-la ou assustá-la para arrancar dela as informações de que precisava, mas desistiu da idéia. Não acreditava na eficácia dessa atitude. Seu instinto lhe dizia que, se a forçasse, ela simplesmente ficaria ainda mais de­terminada a nada lhe dizer.

Preparados para partir, Ewan deparou com outro proble­ma. Deveria ser uma coisa fácil de resolver, mas suas con­traditórias emoções tornavam tudo mais difícil. Fiona teria que ir no cavalo de alguém, mas ele relutava em deixá-la dividir a sela com qualquer um dos seus homens. Contrariado, fez com que ela montasse no seu cavalo e montou atrás dela. Tê-la tão perto faria, indubitavelmente, a viagem se tornar longa e desconfortável. Infelizmente, vê-la caval­gar na companhia de outro homem seria ainda pior.

Depois de uma hora de viagem o contato com o corpo esguio e o cheiro de Fiona fizeram com que Ewan sentisse necessidade de distrair-se de alguma maneira.

— Foi a primeira vez que você participou de uma batalha?

— Não — Fiona respondeu, desejando recostar-se nele. — Estive em poucas lutas e feri um ou dois homens, mas nunca havia matado ninguém. — Ela estremeceu ao lembrar dos olhos abertos e vazios do homem que matara.

— Ele ia arrancar a cabeça de Simon com a espada.

— Sei disso.—Sentindo frio e dor nas costas pelo esforço de cavalgar sem encostar-se em Ewan, Fiona, com cuidado, relaxou um pouco. — Não havia escolha. Mesmo que ele tivesse atingido Simon, eu teria de matá-lo, pois depois que acabasse com o rapaz ele viria até mim. — Fiona suspirou e relaxou um pouco mais contra o peito de Ewan. — Eu sempre temi hesitar quando essa ocasião se apresentasse.

— Mas não hesitou.

— Não. Deus salve a minha alma. Meu irmão tinha razão. Ao me confrontar com alguém que quisesse me matar, eu preferiria manter-me viva. Ele dizia também que eu teria estômago para fazer o que fosse necessário. Eu apenas que­ria que ele estivesse certo em como eu me sentiria depois de fazer uma coisa dessas.

— Isso passará. Seu irmão parece ser um chefe sábio. Fiona riu suavemente ao sentir o cansaço fazer com que seus membros parecessem pesados.

— Nem sempre ele é sábio, mas sabe como nos manter a salvo.

Fiona teve a sensação de que dera uma informação a Ewan, mas estava cansada demais para se preocupar. Fora apenas uma pequena informação e ela seria mais cuidadosa dali em diante para não cair em nenhuma armadilha. Peque­nas informações somadas poderiam dar uma pista segura de quem ela era e de onde vinha. Depois de descansar, pensaria em tudo que dissera para não se comprometer com o que poderia dizer a esses homens.

Exausta, fechou os olhos e relaxou. Ewan sorriu e seu corpo respondeu imediatamente ao corpo da mulher que des­cansava, encostada nele. Fiona não era muito habilidosa em dissimulações. Não sabia esconder a verdade. Ele não pre­cisaria de ameaças para saber o que queria, apenas tempo. Quando calma, Fiona falava livremente, incapaz de contro­lar a língua. Ewan iria orientar a todos que prestassem bas­tante atenção nas palavras dela.

Levaria tempo, mas ele tinha certeza de que, juntando pequenos trechos de conversa, acabaria sabendo quem ela era e de onde vinha.

Quando passou os braços ao redor da delgada cintura de Fiona para mantê-la firme na sela, ele sentiu muito prazer. Disse a si mesmo que ficaria feliz ao vê-la partir, e ignorou a voz interior que o chamava de mentiroso.

 

Intimidante foi a primeira palavra que veio à mente de Fiona quando olhou para Scarglas pela primeira vez. Es­cura, tímida e solitária foram as primeiras impressões. O modo como a cidade assomava à frente deles, fria e amea­çadora, perturbou Fiona. Fazia com que pensasse em bru­xaria e assassinato, mas não pôde saber o motivo.

Scarglas ficava em uma pequena elevação no meio de uma área brutalmente desmatada. Seus muros externos eram grossos e altos. Um fosso largo circundava os muros e ela sabia que provavelmente era perigosamente profundo. Vá­rios metros depois do fosso havia um outro muro da altura de um homem.

Em linha direta com os quatro cantos do muro ela pôde ver os topos de quatro guaritas de madeira. Tudo em Scar­glas indicava uma constante preocupação com invasores e guerras.

Nenhum inimigo poderia se aproximar dos altos portões de ferro de Scarglas. O caminho estreito entre o fosso e os muros era pontilhado por pequenas cabanas. Mais um obs­táculo. Mesmo que os telhados pegassem fogo, isso preju­dicaria ainda mais os invasores e Fiona duvidava que o fogo ultrapassasse os muros da cidade.

Ela gostaria de saber há quanto tempo os MacFingal pos­suíam Scarglas. Construir um lugar daqueles levaria muito tempo e muito dinheiro, coisa que poucos escoceses tinham. Se a tribo possuía essas terras há muito tempo, como nunca ouvira falar deles? Fiona sabia que seu conhecimento a res­peito das várias tribos não era extenso, mas qualquer tribo assim poderosa e com tantos inimigos deveria ser muito co­nhecida. E ela nunca ouvira falar nada deles.

Fiona foi percorrida por um calafrio ao atravessarem os portões. Scarglas era certamente forte o suficiente para pro­tegê-la de Menzie se ele viesse a saber onde ela se encon­trava. Infelizmente, para esconder-se de um homem coloca­va-se no caminho de muitos outros que gostariam de acabar com aquele lugar.

Era hora de repensar no seu plano.

Ewan a estava ajudando a apear do cavalo quando um homem alto apareceu. Ele abriu as portas pesadas e decora­das com pregos de ferro como se não pesassem nada. Apesar dos cabelos brancos, o homem se parecia com Ewan. Fiona se preparou para conhecer o homem que, aparentemente, cuidava de crianças e dos inimigos com o mesmo abandono. E ficou admirada quando ele a ignorou por completo.

— Estiveram lutando, não é, rapaz? — o homem pergun­tou, olhando rapidamente para Simon. — Perderam o rapaz?

— Não. Simon está apenas ferido — respondeu Ewan. — Foram os Gray.

— Alguma armadilha?

— Não. Acredito que nos encontraram por acaso e pen­saram que tinham homens suficientes para nos vencer.

— Ora! Os Gray sempre foram uns tolos. Então trouxe­ram uma prisioneira? — O homem franziu o cenho ao olhar para Fiona. — Ela não se parece com um Gray.

— Não a pegamos dos Gray — Ewan esclareceu.

— Ah, então você finalmente arranjou uma noiva? Isso me agrada, lady. Eu estava começando a ficar preocupado.

Fiona notou que o rosto moreno de Ewan enrubesceu.

— Preocupado com o quê? — Fiona perguntou, mas foi ignorada por ambos.

— Ela não é minha noiva. Nós a encontramos perdida e a pé. Decidimos mantê-la até que nos diga a que tribo per­tence, para podermos pedir um resgate. — O olhar licencio­so que o pai endereçava a Fiona fez com que Ewan a pegasse por um braço e a puxasse para mais perto dele. — Pai, esta é Fiona. Fiona, este é meu pai. sir Fingal MacFingal.

— Fiona do quê? Ou de onde? — Fingal quis saber, olhando para ela.

— Apenas Fiona. E só isso o que direi.

— Ainda bem que ela não é sua noiva, Ewan — Fingal resmungou, olhando para ela de um modo que fez com que Fiona desejasse lhe dar um soco. — É muito pequena, ves­te-se como um rapaz e tem cicatrizes.

Não foi fácil, mas Fiona resistiu ao desejo de cobrir as cicatrizes com as mãos. O homem era arrogante e rude, mas esse não era o motivo para que começasse a odiá-lo. Fora o modo como se referia a Simon que fez com que Fiona dese­jasse chutá-lo. Não parecera nem um pouco preocupado ao pensar que seu próprio filho pudesse estar morto. Mal olhara para o rapaz e, quando soube que Simon estava apenas ferido, nem perguntara sobre a gravidade dos ferimentos.

— Precisamos pôr Simon numa cama — Fiona disse, olhando para Ewan. — Preciso examinar seus ferimentos.

— Mab verá o rapaz — sir Fingal declarou, olhando em direção dos muros.

Acompanhando seu olhar, Fiona avistou uma pequena e rechonchuda mulher que corria na direção deles. Seus ca­belos castanhos estavam embaraçados e caídos sobre o rosto redondo, e suas roupas pareciam tão em desordem como os cabelos. Ela parou a alguns passos para pegar alguma coisa que deixara cair e colocou em uma cesta que balouçava, pendurada no braço. Se seus curativos estavam naquela ces­ta, não deviam estar adequadamente limpos.

Fiona estava prestes a dizer para a mulher manter-se afas­tada quando olhou bem para o rosto dela. Havia uma deli­cadeza naqueles traços, uma doçura que Fiona adivinhou profunda. Mab olhou confusa quando viu os vários homens com ataduras. Fiona percebeu um toque de decepção e medo nos olhos da mulher, o que a fez sorrir internamente. Era óbvio que Mab era a curandeira de Scarglas e Fiona invadira seu território.

O fato de Mab parecer preocupada em vez de furiosa fez com que Fiona entendesse que ela não tinha muita segurança na posição que ocupava, posição essa que ela devia ter reivindicado por si própria. Mab não lutaria se lhe pedisse para se afastar, mas Fíona sabia que a mulher se sentiria excluída e desprezada se ela fizesse isso.

-— Eu cuidei das feridas, sra. Mab — Fiona disse, notando que os grandes olhos castanhos da mulher a fitavam com curiosidade. — Houve uma batalha que deixou alguns homens feridos e sangrando, então pensei que eles fariam o resto da viagem mais seguros se eu tratasse dos ferimentos.

— Você tem alguma habilidade em tratar feridos?—Mab perguntou.

— Um pouco. Tive algum treinamento. Tive aulas com alguns renomados curandeiros.

— Quem? Talvez eu conheça algum pelo nome. Fiona pensou algum tempo antes de responder.

— Passei algum tempo com lady Maldie Murray quando eu era mais jovem.

Fiona achou que dizer esse nome não daria nenhuma pista a Ewan.

Mab suspirou e pôs as duas pequenas e gordas mãos sobre os generosos seios o que fez com que vários objetos caíssem da cesta.

— Oh, feliz de você! Lady Maldie é uma curandeira renomada. Como eu gostaria de tê-la conhecido antes de vir para Scarglas.

Sem saber ao certo se Mab quisera dizer que nunca mais teria a oportunidade de conhecer a famosa curandeira, Fiona a ajudou a pegar o que tinha caído no chão para devolver à cesta. De algum modo teria de impedir que a mulher usasse aqueles itens imundos nos homens feridos. Não queria envergonhar a mulher nem fazê-la perder seu lugar na tribo, mas teria que ensinar algumas coisas a Mab antes de deixar Scarglas.

—- Talvez a senhora tenha que encontrar uma cesta com tampa ou usar uma sacola como a que eu uso — Fiona afir­mou. — Livraria a senhora do serviço extra de ter que limpar tudo o que cair no chão. — Fiona percebeu, pelo olhar de Mab, que ela não pretendia lavar e nem limpar nada antes de usar.

— Oh, é claro — Mab concordou. — Eu estava com tanta pressa de ver os rapazes que apenas joguei as coisas dentro da primeira coisa que encontrei.

Fiona suspirou, aliviada por ter conseguido falar o que queria sem magoar a mulher. Seria difícil ensinar o que sabia fingindo acreditar que Mab já tinha conhecimento dos pro­cedimentos, mas tentaria. Seu instinto lhe dizia que Mab não se ofendia com facilidade, mas só falaria diretamente quando as duas estivessem sozinhas ou quando Mab per­guntasse alguma coisa. De algum modo, sabia que Mab pre­cisava muito do lugar que ocupava na tribo e Fiona nunca seria tão cruel a ponto de dispensá-la, especialmente porque não ficaria em Scarglas durante muito tempo.

— Simon precisa de uma cama, senhora, para que nós possamos examinar seus ferimentos. A viagem pode tê-los aberto.

— Certamente, certamente... — Mab olhou para os dois homens que tiravam a cama de Simon de cima da carroça. — Vocês dois podem, por favor, trazer Simon para nós? — Mab pegou o braço de Fiona e a conduziu para perto de Simon. — Será maravilhoso conversar com alguém que foi treinada por lady Maldie Murray. Maravilhoso. Estou semprd tentando encontrar curas, você sabe. É meu dever manter os rapazes sadios. Recentemente, preparei um creme que faz com que as cicatrizes desapareçam. Vou lhe dar um pouco. Um olhar por sobre os ombros fez com que os olhos de Fiona encontrassem os olhos de Ewan e Gregor, que me­nearam a cabeça afirmativamente. Ela entendeu que os sen­timentos de Mab eram protegidos por muitas pessoas. Mas as curas de Mab obviamente deviam ser evitadas. De algum modo Fiona teria de convencê-las que as cicatrizes não atra­palhavam sua vida. Como era mentira, não seria fácil. Fiona afastou esses pensamentos e acompanhou Mab até a casa. Agora, o mais importante era cuidar de Simon.

— Pensei que você tinha dito que ela é uma refém — resmungou sir Fingal, olhando para Fiona e Mab.

— Ela é — respondeu Ewan, caminhando em direção da casa, com Gregor e o pai de cada lado dele.

— Ela não age como refém. Não é seguro deixar que uma refém trate dos nossos homens.

— Fiona é realmente muito habilidosa. E não usará seus conhecimentos contra os feridos.

— Como pode ter certeza disso? Você nem sabe quem ela é. Ela pode ter sido enviada para cá por um dos nossos inimigos, pode estar aqui para matar você ou eu, ou para nos espionar.

Ewan considerou essa possibilidade ao entrarem na grande sala, mas não ficou convencido. Isso não era comum, pois ele fora ensinado desde pequeno a não confiar nas mulheres. E não queria acreditar que deixara a luxúria e um par de olhos violeta acabarem com seu bom senso.

Quando ele, Gregor e seu pai sentaram-se à mesa, duas empregadas trouxeram cerveja, pão e queijo.

Ewan achou que podia confiar em Fiona para tratar dos enfermos. O modo como curara os ferimentos de Simon e dos demais homens revelou que ela era ótima curandeira. Nunca usaria seus conhecimentos e habilidades para causar o mal.

Em compensação, precisava prestar muita atenção em ca­da palavra que ela dizia. Embora não acreditasse que ela tivesse sido enviada para espioná-los, tinha que ser cuida­doso. Mulheres, especialmente as jovens e belas, eram ótimas espiãs. Nunca poderia se esquecer disso.

— Como você pegou a moça? — Fingal perguntou. Gregor respondeu e Ewan apenas escutou, enquanto bebia um pouco de cerveja e comia pão e queijo. Sabia que Gregor se divertiria contando o que ocorrera. Mais tarde, quando tivesse sufocado a atração que sentia por Fiona, tudo seria muito engraçado. Por enquanto, Ewan achava que a aparição de Fiona em sua vida era uma maldição. Mas seu pai ía achar engraçado o que Gregor acabara de narrar. Fingal via inimigos em cada canto e era extremamente cauteloso.

— Isso é muito suspeito — resmungou Fingal. — Acho que devemos mandá-la embora.

— Não — disse Ewan. — Não podemos deixar uma mu­lher como ela abandonada no meio do nada. Há muito perigo lá fora.

— Você pode ter trazido o perigo aqui para dentro da nossa tribo. Já disse que eía pode ser uma espiã enviada para saber das nossas fraquezas e descobrir um meio de trazer o inimigo para dentro dos nossos portões.

— Então a manteremos sob vigilância até descobrirmos quem ela é e podermos pedir o resgate.

— E por que ainda não descobriu quem ela é?

— Ela não me disse. Disse que não me ajudará a esvaziar os bolsos da sua família.

Fingal praguejou.

— Então faremos com que ela nos conte. Tenho várias maneiras de fazer uma pessoa confessar.

Ewan nem queria pensar nos métodos usados por seu pai. Quando Fingal sentia-se ameaçado, ele podia ser insensível e até cruel. Ele via ameaças e insultos em todos os lugares e freqüentemente agia sem pensar, uma das razões de estarem sempre cercados por inimigos. As únicas coisas que faziam com que Fingal parasse de ver traição e roubos eram dinheiro e mulheres. Ewan decidiu que para impedir que seu pai pusesse os olhos em Fiona devia convencê-lo de que ela poderia lhes render muito dinheiro, que ela poderia enriquecê-los.

— Não há nenhuma necessidade de nos expormos — afir­mou Ewan. — Teremos apenas que ser cautelosos e prestar atenção em tudo que ela fala. A verdade surgirá. Poderá ser aos poucos e em pedaços, mas aparecerá.

— Como pode ter tanta certeza?

— Já está acontecendo. Sei que o irmão dela é proprie­tário de terras, que há uma mulher chamada Gilly que lhe é muito próxima e ela tem o tipo de conexões que a lígam a lady Maldie Murray, uma legendária curandeira. Quando eu puder falar com Simon, suspeito que descobrirei mais coi­sas, pois eles conversaram muito.

— Bem, isso pode funcionar. Nenhuma mulher sabe guar­dar segredo. Mas você tem certeza de que ela poderá render um bom resgate? Ela não se veste como uma mulher fina e não tinha a escolta que uma lady deveria ter.

— Suas roupas são de muito boa qualidade e suas armas também. Seu cavalo é de raça, é um cavalo caro. Apesar de ser estranha e ter muita habilidade com armas, tem atitudes de pessoa de sangue bom. Sim, alguém pagará para tê-la de volta e é melhor que ela volte intacta e sem histórias de crueldade para contar.

Ewan suspirou aliviado quando seu pai concordou e dis­traiu-se observando Bonnie, uma empregada que era o atual objeto de seu desejo. Fingal abandonara o papel de guerreiro sem coração para tornar-se um devasso, famoso em toda a cidade.

A constante mudança de humor e a incapacidade do pai em fixar sua atenção em alguma coisa por muito tempo per­mitiram a Ewan tomar o seu lugar como líder. O fato de Fingal não ter se importado com isso deixou claro que ele na realidade não queria o fardo de liderar sua tribo. Algumas pessoas até duvidavam que Fingal estivesse em seu juízo perfeito.

Ewan observava o pai mudar de humor de um minuto para o outro e temia que ele estivesse realmente ficando louco. Era esse medo que fazia com que Ewan cuidasse de tudo com muita restrição e autocontrole. Quando ele sentia emoções mais fortes procurava expulsá-las da sua mente, pois temia ser igual ao seu pai. Fiona despertara essas emoções, dentro dele e por causa disso decidira ignorá-la.

— Você realmente acredita que limpeza é necessária? — Mab perguntou, olhando para o adormecido Símon.

— Sim — respondeu Fiona, sentada em uma cadeira ao pé da cama do rapaz. — Não sei lhe dizer o porquê, mas feridas mantidas limpas curam-se mais rápido e melhor. Elas não ficam pútridas arriscando a vida dos doentes. Há tam­bém menos risco de febre e de infecção, o que diminui o risco de morte. Eu gostaria de descobrir o motivo, mas ainda não sei.

Mab concordou.

— Confesso que tenho pouca prática. Quando cheguei aqui, não havia ninguém que quisesse ser curandeira e eu peguei o lugar para mim. Será muito útil aprender com você, que pelo que vejo possui muita habilidade e conhecimento. — Ela sorriu para Fiona. — Contudo, sou muito boa para fazer poções e pomadas e tenho certeza de que algum dia descobrirei a cura para alguma coisa.

Antes que Mab sugerisse novamente que Fiona podia tentar curar suas cicatrizes, Fiona perguntou:

— Como você veio parar aqui? Você não é de Scarglas. Você não é uma MacFjngal, é?

— Não. Eu vim para cá há dez anos, mais ou menos. Eu sou uma Drummond. Bem, eu era uma Drummond. Eles não me quiseram mais — Mab suspirou. — Ainda não en­tendi onde eu errei. Minha pomada deveria ter funcionado.

E tenho certeza de que misturei a poção certa. Eles deviam ter estômagos muito delicados para sofrerem um efeito tão rápido e feroz. Tentei explicar para o líder que a poção não era um veneno e que é bom expurgar o corpo de vez em quando, mas ele não quis escutar. Ele me mandou embora com todos os meus pertences.

Fiona tentou imaginar os resultados da poção e da pomada de Mab e não foi um quadro muito bonito.

— E então você veio para cá? Você conhecia os MacFingal?

— Oh, não! Eu nunca havia ouvido falar deles. O velho líder me encontrou fugindo da cidade. — Mab sorriu. — Estava apenas tentando ser útil e livrar aquela mulher vil dos piolhos que infestavam sua cabeça. Quando fugi, en­contrei o velho líder e... bem, ele era tão charmoso e tão ardente... Foi muito desconcertante chegar aqui e descobrir que ele tinha uma esposa, mas eu precisava de um lar. Então fiquei e assumi o lugar de curandeira. Meu filho agora tem nove anos e está procurando seu lugar na tribo. Esta semana ele está trabalhando com o homem que faz armaduras, para ver se aprende o ofício.

— Você tem um filho com o líder?

Sim. O meu Ned. Um menino adorável e a alegria da minha vida. Eu tinha medo de ser mandada embora pela esposa do líder, mas ela morreu antes de minha gravidez ser notada. Antes que Fiona pudesse perguntar mais alguma coi­sa, uma mulher gorda, de cabelos escuros, entrou no quarto, pôs uma grande bandeja com comida e vinho sobre a mesa perto da lareira e saiu sem dizer uma só palavra. Apenas olhou para Mab. Fiona senlou-se perto da mesa e acenou para que Mab fizesse o mesmo. Por um momento, tomou vinho e pegou um pedaço de pão.

— Quem era aquela mulher? — perguntou, pegando um pedaço de carne de carneiro.

— Gare — respondeu Mab. — Ela não gosta de ninguém.

Era uma Mackenzie, mas fugiu da sua tribo. Ela é viúva e quando seu terceiro marido morreu, muitos pensaram que ela os matava. Ela não gosta das mulheres que partilham a cama do velho líder, especialmente as que fizeram isso quando sua esposa ainda era viva. Suspeito que veio trazer a comida porque estava curiosa para ver você. Ela está aqui há uns doze anos. Casou-se com Angus, o chefe da estreba­ria, há dez anos, e ele ainda vive, portanto acho que os outros maridos morreram de doença mesmo.

— Então agora ela é também uma MacFingal. Mas quem são os MacFingal? Nunca ouvi falar neles e eles devem ter essas terras há muito tempo, já que foi um parente que as deu ao velho líder.

— Ele não era um MacFingal. Os MacFingal são uma tribo nova — Mab riu. — Muito nova. Foi o velho que a iniciou. Ele rompeu com esse parente e decidiu começar uma nova tribo com o nome dele. Fingal veio para cá alguns meses antes de seu primo morrer, um primo muito distante que o nomeou seu herdeiro. Fingal casou-se com a filha do homem e ficou com tudo, embora ela tivesse sido prometida a outro. Ela deu um filho a Fingal e morreu.

— E qual era o nome da tribo do parente dele? Mab ficou pálida e sussurrou:

— Não posso pronunciar o nome. É proibido.

— Ninguém vai nos ouvir, Mab. Mab meneou a cabeça.

— É proibido. Se o velho souber que alguém falou esse nome, ele ficará furioso e isso pode durar horas. Não. É melhor que você nos conheça a todos como MacFingal.

Fiona começou a pensar que todos que moravam ali eram um bando de lunáticos, sendo o velho líder o pior deles. Lunáticos, quebrados e rejeitados. Os banidos e os maltra­tados. Sua curiosidade foi ficando cada vez maior. Antes que deixasse Scarglas, Fiona estava determinada a descobrir quem exatamente eram os MacFingal e por que tinham dado as costas ao parente. Uma pequena voz lhe dizia que seu interesse fora despertado por causa de um homem moreno e alto. Um guerreiro de nome Ewan.

 

O som de uma porta sendo destrancada fez Fiona ficar de pé. Ela tinha ficado aborrecida e ao mesmo tempo aliviada ao ser trancada com Simon no quarto. Uma cama havia sido armada para ela perto do fogo e até seu pedido para tomar banho havia sido concedido, e um biombo de madeira pintada fora colocado no canto do quarto para lhe dar privacidade.

Fiona gostou do vestido de lã macia e azul que lhe havia sido entregue após o banho. Mab saíra para ficar com o filho, Simon passara uma noite calma e ela também havia dormido bem. Não havia razão para ficar irritada com o tratamento dado a uma refém.

Ela sabia, para seu desgosto, que o motivo de estar abor­recida era a falta de alguma palavra ou da visita do seu seqíiestrador. Sentia falta dele e odiava a própria fraqueza.

Gregor entrou no quarto seguido por Mab, que sorriu para Fiona.

— Você está com boa aparência, moça.

— Obrigada — Fiona agradeceu, contrariada pelo rubor que sentia subir-lhe ao rosto.

— Como está o rapaz? — Gregor perguntou, aproximan­do-se de Simon.

— Sem febre — respondeu Mab que, depois de colocar uma bandeja com uma tigela de sopa e uma garrafa de água, pusera a mão sobre a testa do rapaz.

— Ele passou bem a noite — Fiona acrescentou, ao pé da cama do doente, que ruborizou quando Mab retirou a coberta para olhar seus ferimentos. — As feridas estavam limpas quando eu troquei as ataduras esta manhã e passei um pouco de pomada nelas. Elas parecem limpas para você, Mab?

— Muito limpas — concordou Mab. — Você tem de me dizer que pomada usou para obter um resultado tão bom. — Ela tomou a cobrir o rapaz e, ajudada por Gregor, pôs Simon sentado recostado nos travesseiros. — Trouxe sopa, água e um pouco de sidra para você, rapaz. E não faça careta. Tem que se alimentar bem. — Mab olhou para Fiona — Mais um dia ou dois, não é?

— Sim. Sopa hoje e, se continuar sem febre, uma comida mais forte amanhã. Seus ferimentos não são muito profundos.

— São apenas arranhões — Simon reclamou. — Levan­tarei dessa cama logo.

— Não antes que Mab e eu dissermos que você está su­ficientemente forte para levantar-se. O ferimento da barriga pode abrir com facilidade. Você ficará na cama até que es­teja completamente fechado e depois disso terá que tomar cuidado. Não é um ferimento profundo, mas tampouco é um arranhão. Deixe de ser arrogante.

— Não sou arrogante — resmungou Simon, e suspirou quando todos riram dele.

— Trouxe uma poção para aliviar as dores — Mab falou e olhou ansiosa para Fiona.

Fiona quase riu ao ver a expressão assustada nos olhos de Simon e Gregor.

— Bem, ele dormiu bem a noite toda sem a poção, Mab. É verdade que devia estar exausto, mas... Por que não dei­xamos que Simon decida? — Fiona achou graça na expres­são de alívio nos olhos dos dois irmãos.

— Você quer tomar alguma coisa para dor, rapaz? —-Mab perguntou a Simon.

— Não, Mab — ele apressou-se a responder..— Não digo que os ferimentos não doam, mas não a ponto de precisar tomar algum remédio. Essas poções me dão dor de cabeça e dor de estômago quando eu acordo.

— Então, venha, Fiona-dos-dez-punhais — disse Gregor sorrindo, enquanto pegava o braço de Fiona e a levava em direção da porta. — É hora de um intervalo.

— Por que a chamou por esse nome esquisito? — Mab perguntou a Simon.

Fiona suspirou quando ela e Gregor atingiram o corredor e ele fechou a porta não escutando a resposta de Simon. E sentiu-se tola por ter esperado que os detalhes da sua captura não tivessem sido contados. Havia doze homens presentes, afinal de contas. O povo de Scarglas ia achá-la muito esqui­sita, pensou Fiona, achando graça também. Lembrando-se do que Mab tinha dito a ela, ser esquisito era até um ritual em Scarglas.

— Simon se recuperará logo, não é? — Gregor perguntou, ao entrarem na sala grande. — Ele me pareceu muito bem. Melhor do que eu esperava.

— Acredito que ele esteja muito bem — respondeu Fiona. — Mais um ou dois dias sem sinal de febre e de infecção, mantendo-o deitado, os ferimentos logo fecharão.

Fiona ficou admirada ao se ver diante da mesa do líder.

— Conseguirá manter o rapaz na cama? — Gregor per­guntou.

— Com facilidade — ela respondeu, ignorando sua risa­da. — Se fosse apenas o ferimento do braço, ele não preci­saria de repouso absoluto. Mas o ferimento da barriga re­quer imobilidade para que cicatrize bem. Toda vez que ele se move, força os pontos. Na verdade, serão necessárias duas semanas ou mais para que eu permita que ele possa vestir roupas. Desse modo, se ele tentar se levantar deverá fazê-lo nu.

Gregor riu novamente e a fez sentar-se perto de Ewan.

— Acho que ele permanecerá deitado.

Fiona simplesmente meneou a cabeça, nervosa demais, por estar perto de Ewan, para pensar em uma resposta coe­rente. Uma parte dela achava sua reação a Ewan fascinante, até encorajadora, porque achava que nunca sentiria interesse por homem nenhum. Nunca sentira antes de Menzie come­çar a atormentá-la e temia nunca sentir depois das ações que ele empreendera para forçá-la a se casar com ele. O que a irritava e a alarmava era que seu corpo, talvez até seu cora­ção, sentiam-se atraídos por um homem que tinha a intenção de "vendê-la" para sua família.

— Como está Simon?—Ewan perguntou depois de olhar para Gregor, que se sentara a sua direita.

Enquanto Fiona respondia, ele a observava. Vestida como ura homem, ela era bonita demais para sua paz de espírito. Vestida como mulher, ela lhe tirava a respiração. Era uma tentação. Apenas o som de sua voz rouca era suficiente para excitá-lo.

Ao olhar para seu pai, percebeu que ele também achava Fiona atraente. Ewan franziu as sobrancelhas. Será que o homem pensava em alguma possibilidade de relacionamen­to com uma jovem trinta anos mais jovem? Ewan não apenas achava isso de mau gosto, mas percebeu que uma parte dele temia que seu pai tivesse sucesso. Isso parecia ciúme e Ewan não pôde deixar de sorrir por dentro. Corria um perigo maior do que pensava.

— Por que você ainda está cuidando do rapaz? — sir Fingal perguntou.

— Eu estava presente quando ele foi ferido — Fiona respondeu. — Tenho que terminar o que comecei.

— Mab pode fazer isso.

— Ah, mas se nós duas cuidarmos do rapaz, teremos tempo para descansar.

— Onde conseguiu essas cicatrizes?

— Pai... — protestou Ewan. Mas foi ignorado.

Fiona calmamente terminou um pedaço de pão e olhou diretamente nos olhos de sir Fingal.

— Um homem achou que meu rosto precisava de alguma melhora.

— O que quer dizer com isso, moça maluca?

— Eu não a chamaria de moça se fosse você, pai — mur­murou Gregor.

Ewan segurou a mão de Fiona quando ela pegou a faca de cortar queijo. O contato da pequena mão dela enviou o calor do desejo para todo seu corpo, mas ele lutou para ig­norar a sensação. Estava interessado na resposta que ela da­ria a seu pai.

— Explique — Ewan ordenou, quase sorrindo diante dos olhos violeta de Fiona que brilhavam de raiva.

— Um homem pediu minha mão em casamento — ela começou a contar, tentando ignorar o que sentiu quando ele largou sua mão. — Eu recusei e embora o tenha feito com gentileza, ele se ofendeu. Agora ele me persegue e cada vez que consegue me encontrar deixa alguma marca em mim. Esta foi a primeira — ela apontou para a cicatriz na face direita. Já tivemos mais três desses "encontros". Ele diz que vai me marcar para que ninguém queira se casar comigo e eu acabe aceitando-o.

— Quem é ele?

— Isso não é do seu interesse.

— Então por que estava cavalgando sozinha? — Ewan perguntou.

— Ficar confinada para ter segurança faz com que se aja de maneira tola.

Ele meneou a cabeça, entendendo perfeitamente o que ela queria dizer. O fato de ele nunca poder ir a lugar nenhum sozinho por estar cercado de inimigos também o fazia se sentir confinado. Não eram necessários muros altos para sentir-se à parte do mundo. Talvez fosse por isso que ela era uma refém complacente. Percebera o perigo que correra. Agora estava a salvo e muito bem protegida.

— Creio que você terá de me dizer quem é esse inimigo. — Ewan falou, olhando-a firmemente. — Ele pode tê-la seguido até aqui.

— Como eu não sei onde estamos, acho que ele não será capaz de me encontrar.

— Ele segue e persegue você. Não é impossível que tente atravessar nossos portões.

Fiona calmamente terminou seu mingau de aveia enquan­to pensava no assunto. Apenas sua família sabia dos seus problemas com Menzie. Mesmo que Ewan encontrasse algum parente de Menzie para lhe fazer perguntas, ela duvi­dava que algum elemento da tribo de Ranald soubesse o que ele fazia a ela ou admitisse tal coisa.

Como Menzie a surpreendera algumas vezes quando ela pensava estar em segurança, era possível que ele a encontrasse em Scarglas. Os MacFingal não precisavam de outro problema perto dos seus portões. Poderia até ser vantagem para ela contar a Ewan, pois ela seria ainda mais bem guar­dada. Esperava, porém, que ele não estivesse fazendo isso apenas para proteger seu valor como refém.

— Ele se chama Ranald Menzie — Fiona respondeu, fínalmente. — Anda sempre com seis homens.

Ela quase riu quando ouviu Ewan resmungar, pois isso a fez lembrar-se dos seus irmãos.

— Então esse tolo quer fazer com que você perca o valor como noiva para outra pessoa? — Fingal perguntou, franzindo o cenho. — E ele já a levou para a cama?

— Pai! — Ewan e Gregor protestaram juntos.

__O que foi ? É uma pergunta razoável. É um meio seguro de fazer com que ninguém a queira para esposa. Os homens querem suas mulheres intocadas. Você, Ewan, deveria es­colher uma virgem para noiva.

— Ela não é minha noiva — Ewan quase gritou. — É uma refém.

Era tolice se ofender com a declaração de Fingal, Fiona pensou. Ele estava apenas dizendo a verdade. Ela não fora trazida a Scarglas como noiva, mas como refém. Ewan não deveria ter ficado tão contrariado com a sugestão.

Fiona mal ouvia a discussão entre Ewan e o pai. Depois de terminar o mingau, pegou uma maçã e deu uma olhada ao redor da grande sala. Muitos dos homens que lá estavam se pareciam com Fingal e eram quase da mesma idade de Ewan, ou mais jovens. O tolo estava tentando claramente formar seu próprio exército.

A saia era impressionantemente grande com uma lareira em cada extremidade. Tapeçarias e armas decoravam as pa­redes. A mesa do líder era de carvalho bem como as cadeiras, e os outros homens sentavam-se em pesados bancos. Fiona notou que a sala era surpreendentemente limpa. Quem quer que fosse que cuidava da casa era muito eficiente e a go­vernava com mão de ferro.

Mulheres e crianças moviam-se em silêncio por entre as mesas, enchendo canecas e pegando os pratos vazios. Ou sir Fingal tinha dinheiro ou o seu antecessor deixara fortuna. Apenas recentemente Deilcladach começara a ter os refina­mentos que ela via ali. Fiona concluiu que Scarglas não seria um mau lugar onde viver se não houvesse ameaça de constantes inimigos, quando seus pensamentos foram abruptamente interrompidos por uma discussão entre os MacFingal.

— Bem, se você não quer a moça — dizia sir Fingal — Gregor pode se casar com ela. Já está na hora de ele se casar e constituir uma família.

— Eu tenho dois filhos — gritava Gregor —, e eu escolherei minha própria esposa.

— E eu escolherei rneu próprio marido — acrescentou Fiona, encarando Fingal.

— Não seja louca — respondeu sir Fingal. — Este é um lugar onde os homens escolhem as companheiras para seus rapazes.

— Na minha terra não é assim. E o senhor não é meu parente, portanto isso não lhe diz respeito.

— Agora você está sob minhas regras, moça.

— Não concordo — Fiona retrucou. — Agora — ela se levantou —-, se me derem licença, acho que vou voltar para ver como Simon está.

Ewan fez um sinal ao seu irmão Nathan para que a acom­panhasse. Olhou para Gregor e ficou satisfeito ao perceber que seu irmão tinha a mesma opinião que ele. Fingal parecia surpreso.

Ewan suspeitava que Fiona era a primeira mulher que enfrentara seu pai e o contrariara. Até sua última esposa fora submissa e apavorada até a noite em que fugira. Apesar de toda a contrariedade que era manter Fiona ali, Ewan sentia prazer em vê-la enfrentar seu pai. Mas precisava ter certeza de não apreciar isso em demasia.

— Essa moça foi criada muito solta — declarou sir Fingal.

Ewan piscou duas vezes ao ouvir seu pai dizer a mesma coisa que ele próprio havia dito.

— Ela está certa — Ewan afirmou. — O senhor não é parente dela e não tem o direito de escolher um marido para ela. Além do mais, Fiona não está aqui para isso. Ela está aqui para ser resgatada e encher nossos cofres vazios de dinheiro.

— Ela deve ter um bom dote. Pode ser a mesma coisa.

— Não. Ela está aqui para ser resgatada.

— Não sei porque é tão obstinado. Você precisa de uma esposa e não dá sinal de estar procurando uma. Com o seu rosto não será fácil encontrar uma moça. Por que não pega a que caiu em suas mãos?

— Pai, deixe isso para lá — interveio Gregor. — Casá-la com um de nós pode enraivecer a tribo dela e nós não pre­cisamos de mais inimigos.

— E você acha que cobrar resgate pela moça não irritará sua tribo? — Fingal resmungou.

— Esta é uma prática aceita. Acho que eles devem saber que ela saiu sozinha e não vão culpar-nos por termos tirado antagem desse fato.

— Humm. Isto é um desperdício. Ela é bonita, apesar das cicatrizes, e eu acho que você tem razão em dizer que ela é bem-nascida. Isso não é comum nesta cidade. Você devia proveitar.

— Deixe isso para lá, pai — Ewan repetiu as palavras do irmão. — Deixe-a. Ela não iria concordar com seus planos e nenhum de nós quer uma noiva insatisfeita.

Fingal olhou para o filho e resmungou, mas não disse mais nada. Entretanto, Ewan teve a impressão de que ele não mudara de ideia. Agora, além de tudo que tinha para fazer teria que se preocupar com os planos do seu pai de casá-lo com Fiona. Ou pior ainda, casá-la com um dos seus irmãos. Imaginá-la com outro homem, saber que iriam partilhar da mesma cama despertou a besta que vivia nele. Não aguentava nem imaginar uma coisa dessas.

— Avisarei os outros a respeito das ideias do nosso pai — disse Gregor, assim que Fingal saiu da sala.

— Ótimo —- Ewan suspirou, e passou as mãos pelos ca­belos. — Uma mulher forte como Fiona deve vir de uma tribo forte. Como você disse, não precisamos de mais ini­migos.

— Você já ouviu falar em sir Ranald Menzíe?

— Não. Mas há uns Menzie não muito longe daqui.

— Está pensando em procurá-los?

— Se fosse possível e seguro, gostaria de mandar alguns dos nossos homens fazer algumas perguntas. Mas não quero pôr em risco a vida de nenhum. Esse sir Ranald parece louco e eu desconfio que seus parentes não irão admitir ser um deles. Vou pensar em alguma coisa. — Ewan terminou a cerveja e levantou-se. — Agora, jã que Simon não está so­frendo muito, acho que poderemos conversar um pouco com ele. Quanto mais cedo descobrirmos quem ela é, mais cedo podemos mandar o pedido de resgate.

Ignorando o jovem Nathan, que estava de guarda na porta do quarto, Fiona escutava Mab lhe contar tudo que tinha em mãos, o que havia juntado e como preparava suas poções. Enquanto Mab não quisesse descobrir a cura para alguma doença, ela não constituía perigo para ninguém. Conhecia algumas ervas como também alguns remédios. Fiona quis saber se havia algum meio de fazer com que a curandeira não fosse tão criativa.

Era difícil prestar atenção no que Mab estava contando porque Fiona queria saber o que Ewan conversava com Si­mon em particular. Não conseguia se lembrar de nada que falara ao rapaz e tinha esperança de que ele também não se lembrasse. Se Ewan procurava algumas pistas para descobrir quem ela era, esperava que não tivesse sucesso. Fiona queria ficar em Scarglas tempo suficiente para saber o que isso podia significar ou se, por algum milagre, ela seria devol­vida. Poderia vir a se magoar, mas estava começando a achar que seria tolice fugir de medo quando ficar poderia mostrar-lhe que suas dúvidas e medos eram injustificados.

Fiona estava quase resolvendo o quebra-cabeça quando sentiu a presença de alguém atrás dela. Antes mesmo de olhar, sabia se tratar de Ewan. O fato de que, mesmo co­nhecendo-o há pouco tempo, já conseguia conhecer o cheiro dele, a deixou entristecida. Era óbvio que estava ficando dependente dele, que não demonstrava sofrer da mesma afli­ção. Devagar, virou-se para olhá-lo.

— O que você está fazendo aqui? — Ewan perguntou, apoiando as mãos nas costas da cadeira para dominar o de­sejo de tocá-la.

— Tem medo de que eu prepare algum veneno para vo­cês? Não sou idiota. Estou apenas tentando adivinhar o que Mab pôs nessa poção que está fazendo. Ela saiu antes de me dizer.

Ewan aproximou-se para inalar o cheiro da mistura. Seu corpo ficou tenso diante da proximidade de Fiona. Quando ela também inalou o odor da poção, seus seios tocaram no braço de Ewan. Ele quase gemeu e não ficou surpreso ao apoiar os dois braços na mesa, ao redor do corpo dela.

— Você acha que é a poção para as cicatrizes? — Ewan perguntou baixinho.

— Não. -— Fiona fechou os punhos para dominar o desejo de envolvê-lo com seus braços.

— Elas não são muito feias.

Quando ele pousou os lábios sobre uma das cicatrizes, Fiona estremeceu. Ela virou a cabeça com a intenção de falar alguma coisa, mas ele a beijou. Ewan emitiu um es­tranho som e subitamente ela foi envolvida fortemente pelos braços dele. Fiona não hesitou em passar os braços ao redor do seu pescoço. O calor dos lábios dele fez com que seu corpo fosse percorrido por um estranho arrepio. A sensação deixou-a fraca e seus joelhos quase dobraram.

Então, de repente, ele a soltou. Fiona se agarrou à mesa para sustentar seu corpo trémulo e não cair no chão. O calor do desejo era evidente nos olhos de Ewan, mas ele parecia atemorizado.

— Eu não deveria ter feito isso — ele murmurou com a voz estrangulada. — Não vai acontecer novamente.

Fiona respirou profundamente para se acalmar, enquanto olhava para ele que se retirava. Agora tinha a prova de que ambos sentiam-se atraídos um pelo outro. Estava claro tam­bém que ele não queria estar e que lutaria para se dominar.

Fiona sorriu e alguma coisa lhe disse que Ewan Fingal era sua alma gémea. Se ele pensava poder fugir do destino, ela estava pronta para mostrar-lhe o contrário.

 

— Onde está sir Ewan?

Fiona ignorou o sorriso no lindo rosto de Gregor. Durante três dias ela conseguira ficar o mais tempo possível perto de Ewan. A cada dia ficava mais ardilosa. Mas, começava a recear ter se enganado e que o beijo que haviam trocado não o afetara tanto quanto a ela. Pior, ele poderia tê-la apenas elogiado ao dizer que as cicatrizes que ela tinha no rosto não eram tão feias. Homens podem van­gloriar-se das próprias cicatrizes, mas não gostam dessas marcas em uma mulher.

— Ele saiu há uma hora — respondeu Gregor. — Levou seis homens com ele. Pretende verificar se há sinais dos Gray.

Fiona franziu o cenho ao olhar na direção dos portões.

— A pergunta é: ele está fugindo de mim ou do pai dele? — ela resmungou.

— Ambos — Gregor respondeu, e riu quando a viu corar. - Ewan não serve para moças — disse o sorridente Nathan, os olhos azuis brilhantes e vivos. — Se pretende agar­rá-lo, prepare-se para lutar.

Por um momento ela quis responder para o garoto, mas depois de pensar um pouco desistiu e apenas suspirou. Ewan nunca acreditaria nela. Era constrangedor que os irmãos dele tivessem percebido seu jogo, mas eles poderiam ser úteis. Não haviam demonstrado contrariedade e isso lhe dava al­gum conforto.

— O que quis dizer com "Ewan não serve para moças?" — Fiona perguntou a Nathan. — Ele não gosta de mulheres?

— Opa... Ele gosta sim. Mas sua aparência faz com que as moças fujam dele e Ewan não tem habilidade para cor­tejá-las.

— Por causa da cicatriz?

Os irmãos menearam a cabeça afirmativamente. Fiona falou, contrariada:

— Meu irmão tem cicatriz e isto não faz com que minha cunhada Gilly deixe de gostar dele. E nossa Gilly veio de uma tribo de homens bonitos. Alguns são de tirar a respira­ção das mulheres. Ewan, sendo o líder, deveria fazer com que as mulheres mudassem de opinião.

— Bem, suponho que ele poderia levar uma mulher para a cama se pedisse — disse Nathan. — As mulheres aqui sabem seus lugares.

Gregor riu vendo a expressão de Fiona.

— Uau, rapaz! Estamos arriscando a vida falando desse jeito.

— Você está dizendo que as mulheres de Scarglas não podem dizer não a um homem? — ela perguntou, apoiando as mãos sobre os quadris e olhando fixamente para o jovem Nathan.

— Bem, algumas o fazem, mas o pai diz... — Nathan titubeou e deu um passo para trás.

Ela ergueu a mão para fazê-lo calar-se.

— Não repita essa besteira. Sei bem em que lugar que ele acha que uma mulher deveria estar. Não havia percebido que as mulheres aqui aceitam essa idiotice como se fosse uma verdade. Alguém devia ensiná-las a dizer não. Mas... Onde está Mab?

— Oh... Acho que está no herbário.

Fiona quase sorriu quando seu jovem guarda corou.

— Por que mencionar Mab faz você corar?

— Não estou corando — disse Nathan, empurrando Gre­gor que ria dele.

— Se não estiver corando, então devo pensar que está com febre. Isso significa que preciso mandá-lo para a cama, depois de um bom purgante — Fiona ameaçou, tendo que fazer um grande esforço para não rir do assustado rapaz.

— Mab está no herbário fazendo uma poção para mim.

— Você é um rapaz corajoso — Fiona murmurou. — Uma poção para quê?

— Bem, é uma pomada para a minha pele — ele corou novamente. — Para clarear as manchas.

Fiona examinou a pele bonita de Nathan.

— Não tem a pele ruim, Nathan. Quantos anos você tem?

— Faço dezenove no mês que vem.

— Bem, a melhor cura para manchas é ficar mais velho. Também deve manter a pele muito limpa. Esfregue-a com sabonete pelo menos uma vez por dia. Use água quente e enxágüe bem. Se as manchas piorarem depois disso tudo, ponha um pouco de ufsque nelas.

— Uísque? Como isso ajudará?

— Não sei — Fiona ergueu os ombros. — Acho que ajudam a secar. Não sei o porquê, mas sei que funciona.

— Mab disse que a poção dela ajudará.

— Mab é uma mulher doce e querida que conhece mal­dições, poções e pomadas. Mas eu previno que tome cuidado com as poções inventadas por ela. Sejam cautelosos.

Gregor concordou, mas Nathan fiou inseguro.

— Suas invenções às vezes causam reações: cabelos verdes, cabelos azuis, violentas diarreias... — Fiona continuou.

— Erupções cutâneas medonhas — acrescentou Gregor. Nathan manteve o olhar em Fiona, que se afastava em direção do herbário.

— Você sabia que as curas de Mab nem sempre são se­guras?

— Sim — respondeu Gregor. — Nunca percebeu que a maioria de nós recusa suas poções, pomadas e outros re­médios?

— Pensei que vocês recusassem por serem amargas e cheirarem mal.

— Isto também, mas houve resultados alarmantes em seus tratamentos nos primeiros anos depois que ela chegou aqui. Pode confiar nela para cuidar de uma ferida, imobilizar um osso ou tratar de febre, mas é melhor evitar o resto.

— Não esquecerei disso — Nathan sorriu. — Agradecerei Mab pela gentileza, mas seguirei os conselhos de Fiona. Mab ficaria magoada se recusarmos sua ajuda.

— Não se preocupe. Fiona sabe como agir. Ela convive com Mab desde que pôs os pés aqui e não vai magoá-la. Mab quer ser uma boa curandeira e Fiona a tem ensinado bastante, o que tem aumentado sua auto-estima. E faz tudo isso com muita gentileza.

— Você acha que Fiona fará isso com nosso irmão? — Nathan perguntou, rindo.

Gregor riu também e meneou a cabeça.

— Acho que ela precisará de um chicote e de uma corda grossa.

— Mas por que ele não quer uma moça tão boa?

— Oh, ele a quer. Mas não se acha suficientemente bom para ela.

— É óbvio que ela não pensa dessa maneira.

— Sim, mas ela também se irrita com suas próprias ci­catrizes. E a intromissão de nosso pai não ajuda em nada. Isso faz com que Ewan fuja, e Fiona se retraia. Será uma corte difícil e confusa e temo que não será fácil para nenhum dos dois.

— Talvez possamos fazer alguma coisa, embora eu ainda não saiba o quê. Será que devemos falar com Ewan?

— Não. Por enquanto não diremos nada. A não ser fazê-lo enxergar que está agindo como um completo idiota. Mas, se ele descobrir quem ela é e ainda quiser pedir resgate, nós interviremos. Eles se querem e ela seria uma ótima lady para Scarglas. Não deixarei que os medos e as dúvidas, dele ou dela, arruínem o que eu vejo como um casal perfeito.

— Estarei pronto para ajudar.

— E todos os nossos irmãos.

— Será que todos vêem o que está acontecendo?

— É claro. Você não acha esquisito que ela tenha anda­do livremente por aí e nenhum dos MacFingal se atreveu a cortejá-la?

E os dois irmãos riram à vontade.

Mudanças não eram aceitas com facilidade em Scarglas, concluiu Fiona ao olhar para Clare. Depois de se assegurar que o remédio preparado por Mab era inofensivo, Fiona se apressou em se juntar às mulheres que lavavam roupa, an­siosa para oferecer-lhes seu sabão.

Clare era teimosa e não aceitava sugestões, mesmo insig­nificantes, por achar que estavam invadindo seu território. Fiona gostaria de ter a habilidade de Gilíy diante dos senti­mentos dos outros. A cunhada sentia o que havia no coração das pessoas. Seria muito útil, no momento, saber até que ponto a recusa de Ctare era medo de perder seu lugar ou simplesmente obstinação.

— Isto faz com que a roupa de cama fique mais macia — disse, pondo, com cuidado, algumas barras de sabão que ela tinha preparado, sobre um banquinho. — Também ajuda a conservar as roupas e lava com eficiência. — Fiona espe­rava que as empregadas não parassem de esfregar as roupas para observar as duas, mas elas esperavam que fosse eclodir uma batalha. — E será melhor para suas mãos.

— Você não é a dona daqui — falou Clare. — É apenas uma refém.

— É verdade. Mas não vejo motivo para que vocês não usem um sabão melhor.

— Você não tem que dizer o que se deve fazer em Scar­glas. Vá ajudar aquela bruxa louca que é Mab.

— Mab não é louca e tampouco bruxa. Clare resmungou.

— Também não é a curandeira que proclama ser. Não sei porque o líder não a manda embora juntamente com seu bastardo, antes que ela mate alguém. Agora, saia daqui, moça.

O empurrão que Clare deu em Fiona a fez dar alguns passos para trás, mas ela logo recuperou o equilíbrio. Pelo canto do olho Fiona viu Nathan se aproximando, e ouviu as outras empregadas conversarem baixinho, mas nada disso a fez hesitar. Arremessou-se na direção de Clare, que lhe dera as costas. Um chute bem dado fez a mulher cair de joelhos. Fiona pegou o braço direito da mulher e o virou para trás, enquanto passava o braço ao redor do pescoço da mulher. Curvando-se um pouco, conseguiu falar no ouvido da em­pregada, mas não se esforçou em falar baixo.

— Agora, eu poderia ignorar o fato de você ter me cha­mado de moça e de ter posto as mãos em mim — ameaçou Fiona. — Mas não posso ignorar o que você disse a respeito de Mab.

— Ela... — começou Clare.

Fiona aumentou a pressão sobre o pescoço de Clare.

— Mab é uma mulher doce com um grande coração e que assumiu um serviço que ninguém quis. Ela foi vítima das palavras lascivas de um homem, que não lhe havia dito que era casado. Portanto, dirija suas ofensas a quem merece. E, se não quiser ter sua afiada língua arrancada, sugiro que não fale mal do filho dela. — Fiona empurrou Clare e con­tinuou: — E, se não aceita nem uma pequena mudança, eu mesma lavarei minhas roupas.

Clare tropeçou e tentou zombar de Fiona que manteve um espaço seguro da pequena mulher.

— E o que uma mulher fina como você entende de tra­balho honesto?

—Julgando sem saber, novamente? Você deve ser difícil de aprender. Eu sei esfregar roupas, consertar um telhado, arar um campo, remendar uma armadura e muito mais. E sei também como calar uma língua maligna.

Fiona pegou a faca com que cortara as barras de sabão e a arremessou contra Clare, prendendo a manga do seu ves­tido no tronco atrás dela.

— E saiba que essa faca pegou exatamente onde eu pre­tendia. — Fiona pegou um pedaço de sabão e se afastou. — Faça o que quiser com o sabão. Minha opinião é que você deveria lavar sua língua com ele.

Logo que Fiona se afastou, Nathan tirou a faca que pren­dia Clare ao poste e olhou fixamente para ela.

— Ela não gosta de ser chamada de moça.

— Quem é ela? — Cíare perguntou, com a voz trémula.

— Bem, nosso líder a chama de Fiona-dos-dez-punhais.

— Nathan sorriu ao ver Clare empalidecer. — Foi o número de punhais que ele encontrou com ela quando a sequestrou.

— Ele se aproximou mais um pouco e declarou em voz baixa e rouca: — Todos nós gostamos de Mab e o filho dela é meu irmão. Uma mulher inteligente deveria observar quantos bastardos há em Scarglas. Uma mulher inteligente também devia apurar os ouvidos, pois aquela mulher poderá vir a ser a próxima lady de Scarglas, a esposa do líder. — Ele se afastou de Clare que tremia, e foi atrás de Fiona. — Na verdade, eu e meus irmãos estamos decididos a fazer com que isso se torne realidade.

Nathan encontrou Fiona perto da muralha. Ela tinha as mãos sobre os quadris e olhava para o céu. Quando ele che­gou perto, viu que ela inspirava e expirava vagarosamente.

— Perdi o controle — Fiona desabafou, fixando o olhar nas nuvens escuras que prometiam chuva.

— É verdade, perdeu — concordou Nathan. — Fez Clare ficar morrendo de medo.

Fiona disse a si mesma que não encontrava prazer nisso.

— Uma lady não deve perder o controle. Nossa Gilly diz que, quando uma lady fica brava, ela não deve fazer as pes­soas ajoelharem aos seus pés e nem atirar facas nelas.

— O que uma lady deve fazer?

— Nossa Gilly diz que uma lady deve agir com educação e fazer as pessoas a entenderem falando com firmeza, mas com calma.

— Bem, você não gritou. Ela sorriu e suspirou.

— Eu gostaria de ter o dom de nossa Gilly. Ela sabe perceber os sentimentos de uma pessoa. E como se pudesse ler o coração dos outros.

— Parece ser um dom muito útil.

— É. Se eu tivesse esse dom, poderia saber por que Clare é tão brava e amarga. Terá bílis no lugar de sangue?

Os dois sorriram e Fiona retomou o caminho para casa.

— Na realidade, algumas pessoas já nascem mal-humoradas. Outras ficam assim enquanto estão crescendo. Se a pessoa sabe o motivo, pode se curar e tornar-se doce nova­mente, ou pelo menos saberá lidar com isso sem precisar ter sua língua cortada. Clare também foi para a cama com seu pai?

— Não. E seu marido diz que ela pouco vai para cama com ele. — Nathan corou. — Desculpe, eu não deveria estar falando disso com você.

— Não se importe. Fui criada com cinco irmãos até os treze anos. Então nossa Gilly chegou e fez algumas mudan­ças, suavizando o modo como vivíamos. Entretanto, ainda somos um pouco rudes. Duvido que você possa dizer alguma coisa que me choque ou que eu não tenha ouvido antes. — Fiona franziu o cenho. — Por que Clare chama Mab de bruxa?

Fiona notou que Nathan ficou desconfortável com a per­gunta.

— Ah, se você ficar aqui por algum tempo ouvirá essa palavra muitas vezes. Acho que os Gray alimentaram os rumores. O fato de sermos todos morenos e Scarglas ser proibida, não ajuda muito. Meu pai teve cinco esposas e quatro delas morreram. Isso causou muitos rumores. Dizem que ele encanta as mulheres. E ele vive amaldiçoando a todos.

De repente, Fiona parou e pegou no braço de Nathan.

— Agora sei quem vocês são. Ouvi as histórias, mas nunca dei muita atenção. Se forem os Gray que espalharam esses rumores, eles estão fazendo um trabalho muito bom. -— Ela meneou a cabeça e começou a andar novamente. — Acho que perdi a perspicácia. Eu deveria ter reconhecido esta casa, que as histórias descrevem muito bem. Quando a vi pela primeira vez, lembrei de uma ou duas coisas, mas não lhes dei atenção. Achei que fosse o aspecto da casa que me fizera pensar em coisas como bruxaria e assassinato.

— E agora, não tem medo?

— Não. Eu não vi nada. Vocês têm uma coleção de pes­soas esquisitas aqui, como o velho duende que dança nas noites de lua cheia no meio de um círculo de pedras. Oh, e Peter, que tem tanto medo de água que carrega sujeira de dez anos sobre o corpo.

— Acho que mais de vinte anos.

— Mas não vi nenhuma bruxaria. E, embora eu não goste muito do seu pai, acho que ele não mataria uma esposa. Ele as engravidava tantas vezes que isso as enfraquecia levan­do-as à morte, ou a fugirem. Quanto a mulheres encantadas, bem, ele obviamente tem uma verdadeira habilidade para galanteá-las e as levar para sua cama, e desconfio que ele escolhe as que são tolas o suficiente para acreditar nas men­tiras dele.

— Sim, ele é habilidoso nisso. Ele também usa sua po­sição aqui para levar as mulheres para a cama. Ele e Ewan freqüentemente discutem por causa disso. — Nathan parou de falar e olhou para os portões. — Falando em Ewan, lá vem ele.

Fiona tentou não parecer muito satisfeita com a chegada de Ewan. Não queria mostrar seu interesse por ele muito abertamente. O modo desajeitado como Ewan desmontou do cavalo, tremendo e mancando um pouco ao pisar no chão, acabou com a pose de Fiona, que correu para o lado dele.

— Você foi ferido — ela disse, olhando cuidadosamente para ele.

— Não é nada — ele afirmou, profundamente emociona­do pela preocupação dela, e praguejando contra a própria fraqueza.

Vendo a calça dele manchada de sangue, Fiona resmun­gou, parecendo contrariada.

— Você sangra como um porco. É melhor cuidarmos disso o mais rapidamente possível.

Antes que pudesse recusar a ajuda, Ewan viu-se levado ao seu quarto por Nathan e, vendo o rastro de sangue que deixava, decidiu que não tinha sentido discutir. Esperava apenas que a dor e a perda de sangue o deixassem suficien temente fraco para não desejar Fiona enquanto ela tratasse dos seus ferimentos.

Ewan concluiu que devia estar mesmo muito fraco quan­do apenas resmungou ao ser despido por Nathan. Gemeu ao ser deitado na cama e, enquanto Nathan ajeitava a coberta de modo a deixar expostos apenas a perna ferida e o peito, Ewan desejou desmaiar.

— O que aconteceu?—Nathan perguntou, enquanto Fio­na lavava o sangue da perna de Ewan.

— Pegamos alguns Gray roubando gado. Infelizmente, havia uns doze homens escondidos por perto. Fomos pegos de surpresa enquanto lutávamos com os ladrões. Outros ho­mens estão menos feridos.

Oh, céus, não tenho certeza onde Mab está — disse Fiona. — Ela precisa saber que necessitamos dela.

— Vou buscá-la — Nathan declarou saindo do quarto. Ewan queria dizer para Nathan ficar, mas era um homem adulto, um homem forte e decidido. Deveria ser capaz de ficar a sós com Fiona e não ceder aos seus desejos. Ela tocava na sua perna apenas para tratar do seu ferimento e esse toque inocente devia ser ignorado.

Essa decisão o deixou mais calmo e, por momentos, gos­tou de ter sido ferido para ter Fiona banhando seus ferimen­tos com uísque. Entretanto, esse alívio não durou muito tem­po. Bastou sentir o calor dos dedos de Fiona, que colocava delicadamente as ataduras na coxa ferida, para o desejo vol­tar com violência. Um rápido olhar revelou que as cobertas não permitiam que sua ereção ficasse exposta e ele respirou aliviado.

— Você tem sangue no rosto — Fiona disse ao endireitar as costas, depois de concluir o curativo.

— Não é nada. É apenas um arranhão.

— Mas deve ser limpo.

Quando ela se abaixou para lavar o corte acima da orelha, Ewan inalou o cheiro do corpo de Fiona e sua respiração ficou ofegante. Os seios dela estavam a poucos centímetros da sua boca e ele pegou-se tentando ver mais do que devia. Fiona tinha a pele clara e dourada. E, apesar de tentar du­ramente, ele não pôde evitar desejar saber se ela tinha o mesmo gosto suave e doce da sua aparência.

Quando Fiona se moveu, Ewan a enlaçou pela cintura, beijou cada um dos seus seios e inalou novamente seu cheiro de limpeza. Fiona estremeceu e sentiu a respiração presa na garganta.

Embora tivesse urgência de sentir aqueles seios, Ewan ergueu a cabeça e beijou o pescoço de Fiona, que olhou para ele com inegável brilho de desejo. Seus lábios grossos es­tavam entreabertos e ele aproveitou a vantagem para beijá-la profundamente e com toda a força do seu desejo.

A cada investida de sua língua, Fiona sentia seu desejo aumentar. Ele pôs a mão atrás das costas dela. Um gemido escapou da boca de Fiona quando ele desceu a mão até seus quadris, enquanto a outra mão acariciava seus seios. Nada do medo que Menzie incutira nela foi despertado pelo toque de Ewan. E ela queria mais, muito mais.

Fiona estava para subir na cama com ele, quando repen­tinamente Ewan a empurrou. Magoada e confusa, ela lutou para ficar firme ao olhar para ele. Havia um leve rubor nos rosto dele e sua respiração era ofegante, sinais de que ele a desejava intensamente. Então, Fiona ouviu Mab chamando-a e o tormento da rejeição de Ewan foi aplacado.

— Vá. Mab precisa de você — ele disse, cobrindo os olhos com uma das mãos.

Fiona hesitou apenas por um momento antes de correr para fora do quarto, encontrando Mab do lado de fora. Ape­sar de frustrada pelo final abrupto do envolvimento deles, ela concluiu que tinha sido melhor. Ewan estava ferido e não tinha condições para consumar a paixão que sentiam um pelo outro. Além disso, ele estava lutando contra essa atração. E ainda não era hora de tentar fazê-ío mudar de ideia.

Usando de todo seu autocontrole, Fiona voltou sua aten­ção para ajudar Mab a cuidar dos outros feridos. Ewan não teria condições de fugir nem de evitá-la por vários dias, até que seu ferimento começasse a cicatrizar. Haveria muito tempo para debelar sua resistência.

 

Eu sugiro que você fique deitado — Fiona disse, ao entrar no quarto de Ewan e surpreendê-lo ten­tando sentar-se na beirada da cama. — Você está em repouso há apenas dois dias. Seus ferimentos ainda não fecharam. Por um momento, Ewan pensou em não obedecê-la, mas achou que seria agir como um tolo. Estava atordoado e suan­do pelo esforço e ainda nem conseguira sentar-se. Resmun­gando, jogou-se contra os travesseiros que Mab tinha recen­temente colocado às suas costas. Franzindo as sobrancelhas, olhou para a bandeja que Fiona colocara na mesa, ao lado da cama.

— É melhor que isso não seja sopa de aveia e nem caldo.

— Nenhum dos dois. É guisado de carneiro.

Quando ela sentou-se na beirada da cama, segurando a tigela e a colher, ele reclamou:

— Posso me alimentar sozinho.

Fiona nada disse, apenas entregou-lhe a colher e conti­nuou segurando a tigela. Ela ficou observando-o e sabia que ele tentava com toda a sua força controlar o tremor das mãos.

Finalmente, Ewan largou a colher na tigela e se encostou novamente nos travesseiros.

— Estou fraco como uma criança. Isto porque faz dois dias que você só me alimenta com caldo.

Fiona fez uma careta, enquanto punha uma colherada de guisado na sua boca.

— É porque você perdeu muito sangue. E porque teima em esforçar-se para sair da cama. Suspeito que a batida na cabeça não lhe fez bem.

— Eu só desmaiei por alguns minutos — Ewan respondeu depressa, antes que ela lhe pusesse outra colherada de co­mida na boca.

— O que quer dizer que foi uma batida forte, apesar de não ter quebrado o osso.

Ele não disse mais nada, simplesmente permaneceu re­costado, sentindo-se ridículo por ser alimentado por ela. Se­ria muito melhor para sua paz de espírito se Mab estivesse cuidando dele. Mas Ewan sabia que, se recusasse os cuida­dos de Fiona, iria ofendê-la e insultá-la, especialmente por não ter motivo para agir desse modo. Também não podia dizer que só de vê-la sentia-se tremendamente excitado. E que a dor dos ferimentos era menor do que as pontadas de desejo que sentia no corpo.

Se tomasse cuidado, estaria curado por ocasião do seu aniversário, ele pensou. Assim poderia ir até a vila e levar uma das empregadas da taverna para a cama para fugir desse fogo que o consumia. O plano havia apenas se formado na sua mente quando teve de admitir que isso seria uma perda de tempo e de dinheiro. Como não dormia com uma mulher há um ano, achava que não seria difícil ter um bom desempenho, mas sabia que não ficaria satisfeito e não diminuiria o desejo que sentia por Fiona.

Fazia oito anos que não desejava uma mulher com tanta intensidade, e não estava conrente por sentir-se desse modo novamente. Desejos e emoções tomam um homem fraco e tolo. Ewan focou a cicatriz de seu rosto. Helena lhe tinha ensinado que, devido à paixão e ao amor que nutrira por ela, fora traído e entregue aos inimigos. Não podia se permitir a cair no mesmo erro novamente.

Uma voz interior lhe disse que Fiona não era Helena, mas ele lutou para ignorá-la. Fiona parecia ser honesta e amoro­sa, mas também se recusara a dizer quem ela era. Havia boas razões para tal recusa, mas ele não podia ignorar o fato de que poderia haver também alguma razão sinistra.

Quando estava para dizer que já tinha comido o suficien­te, a porta do quarto se abriu com tanta força que bateu na parede. Ewan ficou tenso quando viu seu pai entrando. O modo como Finga olhou para Fiona Jhe disse que seu pai estava em um dos seus ataques de fúria. Ninguém podia ter certeza do que sir Fingal era capaz de fazer quando estava irado. Ewan acreditava que ele não iria ferir Fiona, mas não tinha confiança nele.

— Você está se metendo em coisas que não são da sua conta, mulher — sir Fingal gritou, apontando para Fiona.

— E que coisas seriam essas? — Fiona perguntou, satis­feita pela calma com que conseguira falar ao velho líder.

— Você andou conversando com as mulheres.

— Eu não sabia que era proibido.

— Não seja insolente. Sabe muito bem do que estou falando. Eu disse a Bonnie que fosse para a minha cama e ela disse não. Disse não para mim!

Ewan olhou para o pai, mastigando um pedaço de carneiro que, na verdade, não queria comer. Seu pai parecia uma mistura de fúria e perplexidade e pelo canto do olho viu Fiona sorrir tenuemente. Parecia que ela tinha agido propositalmente para enfurecer o homem e isso deixou Ewan atur­dido. Mais aturdido ainda ele ficou ao notar que ela não parecia ter sido afetada pela fúria de Fingal.

— É direito dela, não é? — Fiona perguntou, com uma expressão inocente.

— Isso foi o que você disse a ela. Você disse que não há lei que a obrigue a partilhar a cama com homem nenhum.

— Não acho que eu esteja errada. Tenho certeza de que não existe tal lei.

— Há a minha lei! Esta casa é minha e quero tudo do meu jeito. Você pare de meter essas ideias nas cabeças das mulheres ou se arrependerá. — Ele se virou para sair, parou, cheirou a camisa e acrescentou:

— E eu sei que você é a culpada pelas minhas roupas, inclusive as de cama, estarem com esse maldito cheiro de lavanda. Pare com isso, também. — Ele bateu a porta ao sair.

Ewan meneou a cabeça quando ela tentou dar-lhe outra colher do guisado. Ele a observou pondo a tigela do lado e pegar uma caneca. Parecia sentir-se culpada. Não olhava para ele nos olhos e estava corada. Ewan pegou a caneca, mas ela não a largou nem quando ele a levou até a boca.

Ewan não tirava os olhos dela, mas quase terminara de beber quando ela suspirou e relutantemente o fitou.

— Eu nunca pensei em conversar com as mulheres — Ewan declarou.

Fiona suspirou novamente, ao constatar que ele não es­tava com raiva.

— Bem, eu não quis parecer desrespeitosa, mas achei que devia alertar as mulheres, para impedir que seu pai tenha relações consanguíneas.

— É exatamente o que eu penso — Ewan concordou, sorrindo, para logo em seguida se arrepender. — Confesso que nunca me ocorreu que as mulheres pudessem não querer partilhar a cama com ele. Meu pai sabe como dizer galan­teios e eu achei que todas elas queriam se deitar com ele, devido ao seu charme.

— Acho que algumas querem. Não falei com elas sobre pecado. Eu simplesmente lhes disse que não deviam se dei­xar usar pelo velho líder e nem por qualquer outro homem, que elas tinham o direito de dizer não. Afinal de contas, a igreja prega e louva a virtude e certamente a igreja é mais poderosa que o velho líder.

— Você está me dizendo que isso funciona de onde você vem? Esta prática é comum, os homens fazem uso das em­pregadas, dentro dos seus muros. Algumas delas são ofere­cidas aos hóspedes.

— Só porque é uma prática comum não quer dizer que seja certa. De onde eu venho as mulheres são tratadas com respeito e podem dizer sim ou não, dependendo delas. Um homem não usa sua posição ou poder para levar mulheres para a cama. As mulheres, ou a maioria delas, não ousam recusar o líder ou seu pai, ou seu irmão, ou qualquer homem que as governem. Mas as prostitutas fazem sexo por dinhei­ro. Os homens que as usem.

— Ou então devem galantear as mulheres, como faz meu pai? — Ewan percebeu que estava curioso para saber que opinião Fiona tinha sobre seu pai.

— Bem, talvez. — Vendo que ele terminara de beber, Fiona pegou a caneca e se virou para sentar-se com mais conforto na beirada da cama para poder olhar melhor para ele. — Uma parte de mim acha que uma mulher que tenha sua virtude roubada por nada mais que palavras bonitas e um sorriso cativante merece todos os problemas que advi­rão. E outra parte de mim acha que o homem que rouba a virtude de uma moça com mentiras, e foge deixando-a sofrer quaisquer que sejam as consequências, deveria ser castiga­do. — Ela deu de ombros. — Freqüentemente, esse homem rouba da mulher o único valor que ela pode ter. E isso me enraivece.

— As mulheres também mentem para conseguirem o que querem.

— Sim, e isso também está errado. — Fiona juntou as mãos no colo e se preparou para fazer uma pergunta que não podia mais segurar. — Por que seu pai está pintado de azul?

Ewan levou um momento para entender a súbita mudança de assunto e sorriu por dentro. Ele estranhara Fiona não ter feito essa pergunta antes e achou que ela simplesmente es­tava ignorando seu pai. Mas acabara ficando ansiosa demais para saber porque um homem pintava todas as partes visíveis do seu corpo. E provavelmente as que não eram visíveis também.

— Hoje teremos lua cheia — ele respondeu e praguejou internamente porque ela continuou olhando fixamente para ele à espera de uma resposta mais esclarecedora. — Meu pai e vários outros homens pintam o corpo de azul quando é noite de lua cheia e vão dançar no círculo de pedras. Nus.

— E o que o padre tem a dizer desses atos?

— Aquele velho tolo dança com eles.

Fiona achou que não seria gentil rir, pois Ewan estava claramente humilhado com a conduta do pai.

— Por que eles fazem isso?

— Meu pai ouviu uma história que diz que os velhos costumavam fazer isso para que os deuses lhes dessem força e ferocidade nas batalhas, e... — ele hesitou.

— E o quê?

— Mais virilidade.

Fiona cobriu a boca com uma das mãos e olhou para baixo. Sentia que não ia poder conter a risada por muito tempo e levou a outra mão à boca também. Seria rude e até cruel rir, mas como alguém podia evitar? A imagem de um grupo de homens idosos, pintados de azul. saltando nus sob a lua cheia, era simplesmente hilariante. Lutou para se con­trolar, mas acabou não conseguindo e rompeu em risos.

Pelo menos ela não ficara horrorizada ou com medo, pen­sou Ewan, que não sabia se devia sentir-se ofendido pelo pai, mas acabou dando de ombros. O que os homens plane­javam fazer naquela noite era ridículo. E seria engraçado também, se não alimentasse os rumores sobre bruxaria. De­pois de um momento, ele foi contagiado pela risada de Fiona e se juntou a ela.

Quando parou de rir, Fiona endireitou o corpo para des­cobrir que seus rostos estavam perigosamente próximos. Ele estava rindo e Fiona o achou tremendamente bonito. Ele teria consciência disso? Quando seu sorriso foi se apagando, ela ficou tensa. Ele a puxaria para mais perto ou a afastaria dele? Gostaria que ele decidisse o que queria dela. O modo como era caloroso em um momento e frio no outro era uma provação para Fiona.

Ewan gentilmente ergueu o queixo dela e com a outra mão limpou as lágrimas que a risada havia provocado. Olhou fixamente para a boca de Fiona e quando ela umedeceu os lábios, ele xingou sua própria fraqueza, e suavemente apro­ximou-a ainda mais dele, puxando-a pela nuca.

Apenas um beijo, ele disse para si mesmo. Ele tinha que roubar-lhe um beijo sem perder o controle. No momento em que seus lábios tocaram os dela, contudo, Ewan duvidou que teria tanta força de vontade. A doçura dos lábios de Fiona desencadeou um forte calor que atravessou todas as partes do seu corpo. Ele a abraçou e aceitou o convite silencioso.

Fiona sentiu-se derreter com o calor do próprio desejo. Retribuiu o beijo, sem fazer nenhuma tentativa de controlar a paixão que sentia. Quando terminaram, ela tentou manter o fôlego enquanto ele beijava seu pescoço, seu rosto e sua orelha. E estremeceu quando ele chegou aos seus seios.

Quanto Ewan se pôs a beijá-la novamente, Fiona mudou de posição até que ambos ficassem lado a lado.

De repente ele mandou que ela fosse embora e que Mab cuidaria dele. Ela saiu devagar, e pensou que depois poderia tirar suas próprias conclusões.

Fregor entrou e perguntou o que houve com Fiona que havia saído tão triste.

Ewan suspirou e decidiu que estava cansado demais para discutir ou mentir.

— Eu he disse para sair e que seria melhor Mab cuidar de mim de agora em diante _ Ewan respondeu, desviando o olhar.

— Por quê? Ela cuidou de você com muita eficiência.

— Porque não posso ficar sozinho com ela. Não consigo manter minhas mãos ionge dela.

— E você acha que isso é uma coisa ruim?

— É claro que sim. Ela é uma refém e embora não tenha admitido é um pessoa bem-nascida. E sem dúvida, é virgem também. Não precisa de um marmanjo pegando nela toda vez que se aproxima.

— Como você não está machucado e nem sangrando, devo pensar que ela não protestou.

Ewan contraiu a mandíbula. Sim, era verdade Fiona não resistia a seus beijos. Se pudesse confiar no próprio julga­mento, ela se aconchegava em seus braços e retribuía os beijos com paixão. Talvez fosse tolice mantê-ia afastada. Qualquer outro homem aproveitaria, por que não ele?

Logo em seguida Ewan franziu o cenho. Por que uma mulher tão adorável como Fiona sentia paixão por ele? Poderia ser uma dissimulação, um modo de disfarçar e enfra­quecer a guarda sobre ela? Nãopodia descartar essa hipótese. Dissera a verdade para Gregor e precisava manter-se fir­me. Se Fiona não fosse uma espiã, era uma refém. Muitos pensariam que isso lhe dava o direito de usá-la, mas ele não tinha essa opinião. Fiona devia ser devolvida a sua gente intocada. Sua honra exigia isso. O que ele menos queria era acrescentar mais inimigos a lista que já tinha contra eles e o povo de Scarglas.

— Ela é solteira — afirmou Ewan. — E inocente. Não é difícil enganar uma inocente. — Ignorou o olhar desgostoso do irmão. — E, se não for inocente, é um inimigo no meio de nós tentando fazer com que a luxúria embote meus pen­samentos. Já caí em uma armadilha antes e acho que aprendi.

— Fiona não é Helena.

— Não? Helena também parecia inocente e doce e me levou, como um cordeiro, à morte.

— Doce, talvez, mas eu desconfiei e descobri que ela não era inocente.

— Posso também estar enganado quanto à inocência de Fiona, Há uma só maneira de descobrir isso. Levá-la para minha cama. Se ela for virgem, eu roubarei sua castidade e deixarei seus parentes desejando vingança. Posso também levá-la a um padre, mas não quero uma esposa. O que quer que ela seja, uma inocente refém ou uma espiã inteligente, o mais sábio é deixá-la sozinha e longe de mim.

— Você pensa demais, Ewan — Gregor afirmou, me­neando a cabeça. — Às vezes as coisas são exatamente como parecem ser,

— Muitas vezes, não. Como vamos agir? Ficarei de cama por mais alguns dias. Você terá que ser meus olhos e meus ouvidos.

Ewan ficou satisfeito por Gregor aceitar a incumbência, embora fosse patente que ele queria falar mais sobre Fiona. Para seu alívio, o irmão não disse mais nada. E ele estava cansado demais para continuar a discussão.

Depois que Gregor saiu, Ewan deitou-se pesadamente sobre os travesseiros. Percebeu que Fiona estava certa. Estava fraco e não poderia sair da cama tão cedo. Isso o deixou contrariado.

Suspirou e fechou os olhos, tentando ignorar a dor na perna e na cabeça. Devagar, passou a língua pelos lábios. Ainda podia sentir o gosto dos lábios de Fiona. Seu cheiro de limpeza e de lavanda o tinham impregnado e ainda estava no ar. O calor e a suavidade da pequena mão eram uma potente recordação na sua pele. A febre que sentia por causa dela parecia ser incurável.

Então, por que não alimentar essa febre?, ele perguntou a si mesmo. Por que não aceitar o que ela estava ansiosa para lhe oferecer? Ele tinha força para suportar qualquer conseqüência. Como líder, deveria ser capaz de manter-se firme contra as investidas do seu pai para casá-lo com Fiona. A maioria das pessoas achava que levar uma refém para a cama não era crime, era até um direito, uma parte do res­gate. Se os parentes dela quisessem vingança, bem, o que era um inimigo a mais, acrescentado às grandes hordas que seu pai já conseguira? Talvez Gregor tivesse razão em con­siderá-lo um tolo por afastar Fiona.

Praguejando baixinho, Ewan lutou para tirar de sua mente a paixão e o desejo que sentia por Fiona. Se a levasse para a cama, acabaria levando-a para dentro do seu coração. E isso o deixava aterrorizado.

 

Fiona olhou distraidamente para os homens pulando no círculo de pedras sob a lua cheia. A janela no solário, um cômodo obviamente usado pela lady de Scarglas, dava para a estranha configuração de pedras. Era um lugar mar­cado pela idade e cercado de mistério.

Se os espíritos dos antigos ainda vagassem por ali, ela gostaria de saber o que eles pensavam dos doze homens nus pulando e rodopiando sob a lua cheia, e parando a estranha dança para beber.

Fiona subira até lá para ver se assistir àquele ritual a li­vraria um pouco da tristeza que a dominara. Mas o que real­mente queria era se lamentar e chorar alto sem se importar de ser vista.

Fazia apenas algumas horas que Ewan a tinha expulsado do quarto? Ela tinha se refugiado no quarto para curtir sua mágoa e tentar resgatar sua compostura. Havia chorado, mas não aliviara a dor e a humilhação que sentia.

Na verdade, o choro provocara dor de cabeça e seus olhos estavam inchados e vermelhos. E ela recusava-se a continuar chorando.

Quando Mab entrou no quarto com vários vestidos no braço, ela tratou de sorrir. O rápido e agudo olhar que ai mulher lhe lançou disse a Fiona que isso fora obviamente um esforço inútil. Mab parecia perdida no seu pequeno e felíz mundo, distraída pelos grandes planos de descobrir algum remédio miraculoso, mas Fiona sabia que, sob essa aparência, existia uma mente e uma alma atenta. Apenas esperava que Mab não fosse usar sua perspicácia naquele momento.

— A quais esposas do velho líder esses vestidos pertenciam? — Fiona perguntou enquanto Mab punha as roupas sobre uma grande cómoda de carvalho e couro.

— A sua segunda esposa — Mab declarou aproximando-se da janela perto da qual Fiona se sentara. — Ela deu à luz a Gregor, Adam, Brian, Ross e Nathan. Anne foi a que ficou casada por mais tempo. Nove anos. Morreu pouco depois de Nathan ter nascido. Acho que o velho Fingal gostava dela, a seu modo. Não era paixão, mas afeição. Alguns cul­pam sua infidelidade pela morte dela. Dizem que ela olhava pela janela do seu quarto, viu Fingal cortejando uma em­pregada de seios grandes e caiu da janela ao tentar atirar pela janela um objeto pesado. Morreu aos pés dele.

— Que vergonha — Fiona murmurou. — O homem pa­rece uma criança mimada. Alguém deveria tê-lo ensinado a ter um pouco mais de controle e responsabilidade. Ewan teve outra mãe?

— Sim, a mãe dele foi a primeira mulher de Fingal. Ela morreu quando Ewan nasceu. Fingal gostava de dizer que o menino era tão grande que nenhuma mulher podia ter mais de um igual a ele.

— Deus! O homem nunca pensa antes de falar? — Apesar da tristeza que sentia, Fiona teve pena do Ewan menino, uma criança que crescera pensando ser o causador da morte da mãe. — Acho que isso não me surpreende. Ele tampouco pensa antes de agir.

Olhando através da janela para os homens dançando sob a lua cheia, Mab disse:

— É verdade. Basta olhar para esse bando de homens dançando sob a lua completamente nus e bebendo até caírem e pintados de azul como pagãos. Não sei como pensam ta­manha bobagem. Aumentar a virilidade! Ora, veja... — Ela riu quando Fiona riu, para logo em seguida ficar sombria novamente. — Por que somente eu devo cuidar do ferimento de Ewan?

Surpresa pela pergunta repentina, Fiona respondeu com sinceridade:

— Porque ele ordenou. Obviamente não me quer perto dele. — Fiona praguejou baixinho ao sentir que ia chorar novamente.

— Você não pode estar acreditando nisso. — Mab entre­gou-lhe um pequeno pedaço de pano.

— Sim, posso. Ele deixou isso bem claro quando me dis­pensou. Sou uma tola — ela sussurrou.

— Por que pensa assim? — Mab perguntou, sentando-se perto dela.

Fiona olhou para o pano amassado e úmido que tinha nas mãos. Por um momento, pensou em mudar de assunto ou dizer alguma mentira. Então, deu de ombros. Mab não acre­ditaria em uma mentira e falar sobre Ewan, sobre o que sentia e como ele estava agindo poderia ajudar. Não conse­guiria superar isso sozinha.

— O homem me puxa para ele e depois me empurra — respondeu. — Me beija e depois me ignora. Esta tarde ele me beijou e depois me mandou embora. E está claro que ele quer que eu fique. Fiona suspirou e passou o pano no rosto para enxugar as lágrimas. Acho que ele me quer, mas seu senso de honra faz com que ele me rejeite. Mas hoje ele estava desgostoso comigo, desgostoso até de pensar que me deseja. Tenho certeza disso.

— Ah, é?! Bem, você é mesmo uma tola se pensa dessa maneira. Fiona, Ewan nunca toma o que ele precisa. Ele não se apossa de uma mulher apenas por desejo, Acho que ele teme ficar igual ao pai. Ele nem é igual aos irmãos, que adoram uma mulher, mas têm mais controle do que o pai, um controle ensinado por Ewan. Ouvi dizer que os rapazes o chamam de Irmão Ewan e o provocam devido às suas maneiras de monge.

— Ewan, monge? — Fiona achou difícil acreditar que um homem que beijava daquela maneira pudesse ser cha­mado de monge.

— Sim. Ele vai para a cama com uma mulher, uma vez por ano. No dia do aniversário, ele vai à vila e passa a noite com uma prostituta. Pelo que tenho ouvido, ele parece um pouco... bem, um pouco frio. Ele não segue os outros. Ape­nas escolhe a que lhe parece mais limpa e a leva para a cama. Sai ao amanhecer e não volta mais. É como se visi­tasse um médico para limpar seu corpo de algum mal.

Fiona sorriu diante do humor de Mab, mas logo ficou séria novamente.

— Uma vez por ano? Tem certeza, Mab?

Fiona sentia novamente a esperança encher seu coração e isso a assustou.

— Sim, tenho certeza. Houve uma vez, há uns oito anos, que ele mudou de hábito. Uma mulher chamada Helena veio para Scarglas e Ewan ficou doido por ela. Falou-se até em casamento.

A ideia de Ewan louco por outra mulher, mesmo há oito anos, fez Fiona sofrer. Então, ela disse a si mesma para deixar de tolice. O homem tinha quase trinta e nove anos. Seria estranho se não tivesse se entusiasmado por nenhuma mulher.

— E o que aconteceu? Ele não se casou com ela, casou?

— Não. Ela foi enviada aqui por inimigos de Scarglas. Ela criou uma armadilha para Ewan que quase lhe custou a vida. Por isso ele tem aquela cicatriz no rosto, Mab sus­pirou. Ewan sempre foi um homem sério, deve ter ficado revoltado. Mas depois voltou ao seu hábito de indulgência e de procurar por mulher uma vez por ano.

— Talvez seu ano de celibato esteja perto de acabar.

— Não brinque com isso. Eu lhe contei isso para que saiba e veja que Ewan é um homem decidido e controlado. Você acha que nenhuma das mulheres que aqui vivem já não tentou levá-lo para a cama? Ele pode não ser o mais bonito dos irmãos e nem o mais galanteador, mas é o líder. E, antes disso, já era o herdeiro escolhido. Um homem desses nunca age por impulso. Não, a não ser que seu desejo seja realmente muito forte.

Fiona perguntou a Mab se ela queria um pouco de sidra, então levantou-se e pegou bebida para as duas. Enquanto, enchia duas canecas, fícou pensando em tudo o que Mab lhe havia contado. Se acreditasse em tudo que ela lhe dissera, então podia novamente crer que Ewan a rejeitara devido ao senso de honra ou talvez até de um medo particular.

Antes de Menzie a ter marcado, Fiona nunca conhecera rejeição. Os homens a apreciavam e a elogiavam pela sua beleza. Ela não era volúvel, mas gostava dessa admiração. E, quando percebeu que as cicatrizes haviam mudado isso. ela fícou muito magoada. Finalmente, aceitara o que Gilíy e seus irmãos lhe diziam, que esses homens eram vazios e que não valiam uma lágrima e que logo ela encontraria um ho­mem que tivesse sabedoria para olhá-la de maneira mais profunda. Fiona tinha pensado que Ewan era esse homem. Uma parte dela ainda pensava, mas já não confiava nisso.

— Ah, Mab, eu sou uma covarde, ela disse quando entregou a bebida para a amiga e sentou-se novamente perto dela. Eu acreditei que nunca encontraria um homem que olhasse para além das minhas cicatrizes, mas ele me rejeitou.

— Você é uma criança tola. — Mab fomou um gole de sidra e murmurou: Ele não a rejeitou.

— Eu me senti rejeitada.

— Ele agiu desse modo, mas não é isso o que ele está sentindo. Não... Ele está tentando proteger você dos desejos dele. Talvez até esteja tentando proteger a ele mesmo.

— De mim? Eu não sou ameaça para ele.

— Oh, claro que é! Muitos homens vêem as mulheres como ameaças, principalmente as que os fazem sentir coisas que eles não querem sentir. Eu acho que esse é o seu caso.

— Luxúria.

— Também isso, mas acho que é algo mais. Afinal de contas, ele controla seus desejos há muito tempo. Na ver­dade, Ewan sempre mostrou um controle admirável sobre suas emoções. —- Mab franziu o cenho e tomou um gole da bebida. — De algum modo ele também resistia à Helena, mesmo quando se sentia atraído por ela.

— Então como sabe que ele sentia atração por ela?

— Ele a levou para a cama e não era aniversário dele. Foi diferente. Ele poderia ter se concentrado no serviço. Agora chego à conclusão de que não foi ele que a levou para a cama. Foi ela. Todos achavam que ele tinha sido atraído e seduzido pela beleza dela. E seus irmãos ficaram muito preocupados, pois não era do feitio dele.

— Entendo — Fiona sorriu. — Meu irmão foi muito con­trolado durante muitos anos. Eu me lembro da primeira vez que Gilly o fez rir. Ficamos todos muito chocados. Algumas mulheres até choraram. Connor carregou o peso de todos nós durante muitos anos, nossa sobrevivência era muito im­portante para ele e ele não se poupava. Era muita responsa­bilidade sobre os ombros de um rapaz de quinze anos. Ele enfrentou, mas perdeu a infância e enterrou sua suavidade. Nossa Gilly o ajudou a perceber que ele podia manter sua sensibilidade e continuar sendo o líder forte que necessitava ser e ainda ter o respeito e a obediência de sua tribo.

— E quem você pensa que carrega o peso de Scarglas e seu povo? — Mab perguntou, suavemente.

A revelação dada pela pergunta de Mab atingiu Fiona de imediato. Realmente, havia muitas semelhanças entre Ewan e Connor. É claro, Connor não continha suas paixões, mas ela suspeitava que ele poderia fazer o mesmo se tivesse tido um pai como sir Fingal. Apesar disso, eram os pecados e as loucuras dos pais que formavam cada homem. Fiona não sabia de que maneira essas informações podiam ajudá-la.

— Ewan era um homem formado quando se tornou o líder — ela afirmou, fixando sua atenção na primeira clara diferença entre seu irmão e Ewan.

— Na realidade, ele já era um líder muito antes disso. Você vai ficar aqui tempo suficiente para conhecer que tipo de homem sir Fingal é. O velho só fazia duas coisas: ou adquiria inimigos ou fazia filhos bastardos. Assuntos como comida para seu povo, ou ter certeza de que seu povo tinha abrigo, ou ganhar dinheiro, que ele gasta livremente, isso nunca foi do seu interesse. Ele gosta de intitular-se líder, mas ele nunca gostou do trabalho honrado.

— Então Ewan fazia esse trabalho. Como já lhe disse, sir Fingal é muito parecido com uma criança mimada.

— É exatamente o que ele é. Por isso está aqui e nos chama de MacFingal. Ele quis se casar com uma moça, mas seu pai e o dela não permitiram. Ela se casou com seu irmão mais velho, o herdeiro. Sir Fingal os amaldiçoou e abando­nou a família, formando sua própria tribo. De vez em quan­do, seus parentes vêm vê-lo para reatar, mas ele é teimoso e tolo. E, não. Eu não direi o nome.

Fiona riu.

— Oh, vamos Mab, eu não direi a ninguém. Mesmo que descubram que você me contou, o que pode acontecer?

— O velho ficaria furioso e nunca se sabe o que pode acontecer.

— Ah, está bem. Deixe pra lá. Talvez eu ainda descubra.

— Acho que você ficará aqui por muito tempo.

— Não. Ewan não me quer aqui. Começo a pensar em dizer quem eu sou para ele me mandar para casa.

— Mesmo que ele realmente queira que você vá, ainda assim pedirá resgate por você.

— Tenho que confiar na perspicácia e na malícia do meu irmão para tratar com ele.

-— Não pensei que você fosse desistir tão depressa, Mab declarou.

— É muito difícil lutar se ele não deixa que eu me apro­xime dele.

— Bem, acho que precisarei de você quando for remover as ataduras.

O olhar astuto de Mab fez com que Fiona sorrisse. Ela sabia que Mab estava sugerindo que ela fizesse mais do que ficar perto de Ewan. Fiona não sabia bem como fazer essas coisas, e a não ser pelo assédio de Menzie, sua experiência com os homens era limitada a alguns beijos roubados. Tam­bém não queria forçar Ewan a fazer o que ele não queria. As consequências podiam ser numerosas e nenhuma delas agradável. O pior é que ele poderia sucumbir à tentação e depois tornar a rejeitá-la. E Fiona não tinha certeza de so­breviver a isso...

— Se entendi direito e você está sugerindo que eu o seduza, não tenho certeza de que seria o certo — Fiona disse, finalmente.

— Por quê? Vocês se querem. É só fazê-lo perceber que o mundo não acabará se ele ceder e fizer o que quer.

— Ótimo. Aí ele me leva para a cama. E aí? Ele ficará arrasado por ter sido fraco e fugirá novamente, para mais longe. Ou poderá achar que terá de casar-se comigo por roubar minha inocência. Ou os outros poderão forçá-lo, pelo mesmo motivo.

— E você não quer ser levada ao altar?

— Sim, mas gostaria que fosse da vontade dele. Mab sorriu, compreensiva.

— Não conheço nenhum homem que queira, e quando o fazem é pensando em sangue bom, herança e terras. Exatamente por que você o quer? Porque ele faz seu sangue ferver?

Fíona corou.

— Ele faz isso, mas eu acho que ele é minha alma gémea. Soube na primeira vez que ele me beijou. E tolamente pensei que fosse conseguir que ele percebesse isso.

—- Se você tiver tempo, poderá conseguir. Considerando que ele é muito teimoso, isso poderá levar muito tempo e não sei se você terá. Se casar-se com ele, terá todo o tempo necessário.

— Mas ele será forçado a casar-se comigo, pelo seu pró­prio senso de honradez ou por exigência dos outros e desse modo não será gentil comigo. Todos os velhos problemas permanecerão e outros novos serão acrescentados.

— Verdade, mas você estará perto para tentar todo o tipo de ação. — Mab ergueu a mão quando Fiona preparou-se para responder. — Eu sei o que a preocupa, mas deve pensar bastante nisso. O que dissemos aqui não é uma boa maneira de arranjar marido, mas que opção você tem? Você tem poucos dias para decidir com a razão e com o coração. Mas lembre-se de uma coisa: o aniversário dele é daqui a dez dias e nessa ocasião ele já estará curado para ir à vila. Se ele ficar com alguma prostituta, terá mais força para resistir a você.

Apenas o pensamento de Ewan nos braços de outra mu­lher, mesmo uma prostituta, era doloroso demais para Fiona. Ficou até com raiva por Ewan partilhar com outra o que podia ser dos dois, e até pagar para isso. Isso fez com que ela considerasse o plano de Mab. O que poderia ser pior? Magoaria pensar que ele ía ser um noivo insatisfeito, mas pelo menos ele não iria para outra mulher.

Fiona olhou pela janela, pensativa.

—Céus, Mab, deve haver duas dúzias de homens lá agora.

Mab se aproximou.

— Alguns dos jovens se juntam para dançar. Isso acon­tece freqüentemente. Eles tomam algumas canecas de cer­veja e acham tudo divertido. Mas melhora a cena — Mab riu, maliciosa. — Oh, as mulheres vêm vindo.

— Elas também vão... — Fiona calou-se quando uma mão calejada cobriu seus olhos.

— As mulheres deviam ter vergonha delas mesmas — declarou Gregor chegando perto delas. — Saiam daí.

— Acho que vocês estão chamando as pessoas erradas.

— Não há nada que eu possa fazer. Só posso ficar admi­rado por nenhum deles pegar uma doença nos pulmões. Simon mandou que eu viesse procurá-la, Fiona. Ele quer jogar uma partida de xadrez com você.

Por um breve momento, Fiona hesitou. Não estava dis­posta a jogar xadrez. Simon não jogava bem, ela mais en­sinava do que se divertia. Mas suspirou e decidiu jogar com ele.

— Ela parece melhor — Gregor disse assim que ela saiu. — Ela disse alguma coisa sobre Ewan?

— Por que ela falaria comigo sobre ele? — Mab deu as costas a Gregor para ele não perceber que ela mentia. Exa­minou os vestidos que pegara para Fiona para decidir qual costuraria primeiro.

— Não me engane, Mab.

— O que está querendo dizer, rapaz?

Gregor riu da expressão inocente de Mab para logo depois ficar sério.

— O idiota do meu irmão foi indelicado com ela, Mab. Quando ela o deixou, estava nervosa. Mulheres gostam de conversar com outras mulheres quando estão com raiva. E, como você é a única mulher em Scarglas que passa muito tempo com ela, acho que ela pode ter falado alguma coisa para você.

— Sim, ela falou comigo, mas nada que seja da sua conta. Ela disse coisas pessoais e confidências, porque confia em mim. Pergunte a ele o que quer saber.

Vendo que Mab ficara nervosa, Gregor passou o braço ao redor do ombro dela e beijou sua testa.

— Tenho apenas uma pergunta: Fiona-dos-dez-punhais quer Ewan?

— Ah, bem, acho que não vou trair a confiança dela res­pondendo isso. Sim, ela quer, mas não tem certeza se ele a quer. Tentei explicar-lhe como as coisas são aqui em Scar­glas e porque ele é o homem que é. Creio que ela entendeu, porque me falou do seu irmão, Connor.

Vendo o interesse crescer no rosto de Gregor, Mab disse a ele tudo que Fiona lhe havia contado sobre o irmão dela.

— Em minha opinião, acho que ela conseguirá entender Ewan muito bem, pois ele é muito parecido com o irmão dela.

— E a minha opinião é que ela será uma boa lady para Scarglas, e meus irmãos concordam comigo. O problema é: como convencer Ewan? — Ele riu quando viu Mab corar.

— Aha! Já existe um plano, então? Pode partilhá-lo comigo?

Talvez eu possa ajudar.

— Sim, há um plano, mas Fiona não concordou ainda — Mab confessou, sabendo que encontrara um forte aliado em Gregor. — Tudo que posso dizer é que, no dia em que Ewan tiver que tirar as ataduras, eu precisarei de alguma ajuda e ficarei perdida.

Gregor deu boas risadas e concordou.

— Posso jurar que você desaparecerá como fumaça. —- Você acha que o líder ficará bravo com isso?

— Um pouco, mas confie em mim, daremos a ele o que ele realmente quer. Ele apenas levará um pouco de tempo para reconhecer sua sorte.

Deitada na cama, Fiona olhava para o teto. Estava can­sada, mas não conseguia dormir. Sua mente estava ocupada demais. Tudo que Mab lhe dissera martelava sua cabeça, exigindo que ela estudasse cada detalhe, para procurar en­tender. Até desejava não ter conversado com Mab, ter ficado com a sua dor. Era menos confuso.

Uma decisão precisava ser tomada e era óbvio que ela não descansaria enquanto não se decidisse. A parte dela que dizia que Ewan era sua alma gémea insistia que ela concor­dasse com os planos de Mab. A parte do orgulho dela, en­tretanto, não aceitava preparar uma armadilha para um ho­mem, usando sua inocência para fazê-lo se casar com ela. Ela queria que ele se casasse com ela, que a pedisse em casamento. Queria que ele a amasse e que soubesse que deviam pertencer um ao outro.

Percebendo que já tomara uma decisão, Fiona sentiu que o sono se aproximava. O que ela planejara prometia prazer mas também dor. Nenhum homem gostava de ser forçado e nem enganado. E, qualquer homem que apenas alimen­tava sua luxúria uma vez por ano, indubitavelmente prova­va ser teimoso, um homem que não mudava de ideia com facilidade.

E, seu último pensamento antes de adormecer foi: Oh, bem... Pelo menos posso ter certeza de que ele será fiel enquanto tentamos resolver nossos problemas.

 

Ewan achou que a surpresa que sentiu ao ver Fiona entrar em seu quarto tinha sido percebida por todos. Apesar de Gregor e Simon terem dito que não haviam encontrado Mab, ele a estava esperando. Ele estava ansioso para ter as ataduras removidas e decidiu que não iria esperar até en­contrarem Mab.

Fiona sorriu docemente para ele enquanto se aproximava da cama, e ele sentiu o desejo consumi-lo por dentro. Era óbvio que mantê-ia a distância não fora suficiente para curá-lo da paixão que sentia por ela. Afinal de contas, nos oito dias que passara sem vê-la não deixara de pensar nela nem por um minuto. O tempo não apagara da memória o gosto dos lábios de Fiona e nem a maciez de sua pele. Ele rapi­damente cobriu-se para esconder sua ereção.

— Onde está Mab? — Ewan perguntou.

— Não a encontramos — ela respondeu. — Achamos que ela foi a algum lugar procurar ervas para suas poções. Sinto muito, mas você terá que se contentar comigo, apesar de achar desagradável.

— Eu não acho desagradável — ele resmungou, e acres­centou: — É que estou acostumado com Mab.

— É claro.

Ewan ficou tenso quando Fiona descobriu sua perna. O toque leve dos seus dedos enquanto ela removia as ataduras o fez cerrar os dentes para aplacar o desejo que sentia. Para seu desânimo, a remoção dos curativos não causou nenhu­ma dor que pudesse diminuir sua paixão. Quando a trança que ela usava veio para a frente e roçou na sua perna, ele estremeceu.

Fiona removeu a última atadura e tentou se concentrar em estudar a cicatriz, mas falhou. Teve que fazer um grande esforço para não acariciar a longa e forte perna de Ewan. Era uma pema musculosa, coberta de pêlos escuros.

Fiona pensou que acariciar a perna dele seria uma maneira de seduzi-lo e Mab havia sido muito clara a esse respeito. Ela teria que usar de sedução, se necessário. Um empurrão-zínho na direção certa. Orando para não ficar constrangida, Fiona pôs a mão no começo da perna dele.

A respiração ofegante dele chamou sua atenção. E ela estava prestes a olhá-lo, quando Ewan a puxou para perto de si, pegando na sua trança. Ela estremeceu diante do olhar brilhante de desejo. Se ele podia olhar para ela daquele jeito e ainda assim mandá-la embora, Fiona temeu não ter espe­rança de sucesso.

— Eu disse a você que seria melhor Mab tratar dos meus ferimentos — Ewan resmungou.

— Mab não está aqui e não vejo diferença se é Mab ou eu a tirar seus curativos.

— Nao? Se Mab estivesse aqui, eu não teria sido com­pelido a fazer isso.

Fiona soluçou quando se sentiu puxada pelo braço de Ewan que a fez deitar-se sobre ele. Foi um movimento tão brusco que os sapatos grandes que Fiona usava caíram dos seus pés. Ela apoiou as mãos sobre seu peito largo e forte para equilibrar-se, Ewan gemeu e a beijou.

O beijo foi mais intenso e exigente que os outros que ele lhe dera. Fiona teve esperança de que ele finalmente perdesse seu controle e fosse capitular. Havia tanto desejo, tanta ur­gência naquele beijo, que ela achou que seria difícil não sucumbir ao seu próprio desejo.

Ela lutou para manter seu juízo intacto porque queria estar alerta o suficiente a tudo que pudesse suceder entre eles. Embora não tivesse certeza de poder fazê-lo parar se ele começasse a seduzi-la, ela queria manter sua presença de espírito para dar-lhe o melhor.

Fiona correu os dedos pelo peito musculoso e sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Queria acariciar todo o corpo dele, mas a posição em que ele a mantinha não permitia.

Como se fosse uma resposta às suas preces, ele se virou e os dois ficaram de lado, olhando um para o outro. Ela passou os braços ao redor dele para ficar ainda mais perto e um gemido lhe escapou quando ele passou a beijar-lhe o pescoço. Fiona perdeu todo o bom senso e entregou-se ao desejo e às carícias de Ewan.

— Você deveria correr, Fiona-dos-dez-punhais — Ewan disse ao desabotoar o vestido que ela usava, desesperado para vê-la, tocá-la e sentir sua pele macia.

— Por quê?

Fiona ficou um pouco ansiosa com o que ele poderia pen­sar quando visse suas cicatrizes. Dominou esse medo, er­guendo-se para que ele a despisse com mais facilidade. Se a visão de suas cicatrizes fizesse com que ele a repelisse era melhor que acontecesse agora. Ela saberia que ele não era o homem que ela imaginara e ela teria dado seu coração a uma ilusão.

Olhando para Fiona, que agora vestia apenas um cami-solão fino que revelava mais do que escondia, Ewan mal conseguia se conter.

— Oh, porque você despertou a besta que habita em mim.

— Oh, isso parece intrigante.

Ewan abriu a boca para tentar explicar-se melhor, mas Fiona puxou-o pelos quadris e ele apenas conseguiu emitir um longo gemido. Era tarde demais para ela salvar-se. O desejo dela o impedia de pensar direito. Ele tirou a fina peça de roupa, jogou-a para o lado e olhou para ela. Uma pequena olhada o fez ver que nada poderia impedi-lo de continuar. Apenas uma vez ia fazer o que queria, o que necessitava e ao diabo com as consequências.

A tensão que tomara conta do corpo de Fiona enquanto Ewan olhava para ela escapou rapidamente diante do seu olhar.

— A besta ainda está desperta? — Fiona perguntou em um sussurro.

— Oh, sim. Desperta e agitada.

Ela não entendeu muito bem o que ele queria dizer, mas um segundo depois isso não mais importava. Ele se pôs a acariciar-lhe os seios e Fiona ficou admirada com o calor intenso que dominava seu corpo todo. Certa de que ele não a rejeitaria novamente. Fiona soltou o último fio de seu con­trole e deixou a paixão falar mais alto.

Ewan seguia cada carícia de suas mãos com beijos e in­vestidas de língua.

Fiona estava de costas e houve um som de alguma coisa se rasgando quando ele empurrou as cobertas para os pés da cama. Ela olhou brevemente para o corpo dele. Ele era um homem muito grande e Fiona decidiu que era provavelmente para o melhor que ela não o tivesse visto até esse momento. Ewan se pôs a beijar e a sugar-lhe os seios.

Ele tentava desesperadamente controlar-se, mas era im­possível. O som dos gemidos de Fiona, o modo como seu pequeno corpo se movia sob ele, o deixava cego. Ele estava frenético, e Fiona o acompanhava. Apenas depois que ele a penetrou, quebrando sua virgindade e a ouvindo gritar é que ele recuperou um pouco de sanidade. E estava preparando-se para dizer-lhe as palavras apropriadas quando ela passou as esguias pemas ao redor dele. O modo como ela arqueou o corpo e o puxou para si fez com que ele a penetrasse mais profundamente. Ewan sentiu-se perdido e tudo que seu cor­po precisava era daquela mulher.

Fiona olhou para o teto sobre a cama de Ewan. Acariciava lentamente as costas dele aninhada nos seus braços. A sen­sação dos corpos unidos, saber que ela lhe dera prazer a deixavam muito feliz. Mesmo assim, havia uma sensação de insatisfação.

Ela arregalou os olhos quando percebeu o que a afligia. Ewan não a fizera gritar. Ela podia lembrar-se de Gilly lu­tando para explicar o que uma mulher podia sentir nos bra­ços do homem que ama, o tipo de sentimentos que faziam Gilly gritar ao fazer amor com Connor. Ewan não lhe dera isso.

Por um momento, Fiona temeu que alguma coisa estives­se errada com ela, mas decidiu parar de se preocupar. Sentira paixão e a necessidade que tinha dele era enorme, mesmo depois da dor da perda de sua inocência. Em cada investida de Ewan ela sentia que ia mergulhar em um precipício. Então, ele terminara, invadindo seu útero com suas sementes antes de desmaiar nos seus braços. Esse era o problema. Ele ter­minara, mas ela não. Ewan a tinha levado às portas do pa­raíso, e então a deixara para trás.

Ela abriu a boca para contar para ele sobre sua falha, mas desistiu. Seu instinto lhe disse que qualquer comentário, por menor que fosse, real ou imaginário, seria um sério erro. Pelas coisas que ouvira falar sobre ele e pelas coisas que ele mesmo lhe falara, Fiona sabia que Ewan tinha pouca auto-estima em relação ao seu apelo diante das mulheres. Um homem como Connor, veria qualquer crítica como um de­safio a ser vencido. Com Ewan, ao contrário, seria uma der­rota a mais na sua autoconfiança.

Não tinha importância que ele não a fizera gritar. Ela estava nos braços dele e havia os carinhos dele para lhe dar prazer. Devia ser assím, já que ele satisfazia suas necessi­dades apenas uma vez por ano. Ela era exigente demais, faminta demais para satisfazer suas próprias necessidades.

Isso passaria, ele acabaria por lhe dar aquela felicidade que Gilly tentara descrever. No momento, a maior preocupação deveria ser evitar que ele voltasse a se controlar em demasia.

Ewan sorriu e pareceu voltar à realidade. Ele perdera o controle. Pior, tinha quase certeza de que deixara Fiona in­satisfeita. Não sabia como consertar isso, pois a deixara lou­ca de desejo. A fúria com que ela o acariciara e o puxara para si acabara com seu autocontrole. Desse modo, tinha que achar uma maneira de controlar-se um pouco e propor­cionar-lhe prazer.

Sentando-se, ele pegou um pedaço quadrado de pano da mesa perto da cama, umedeceu-o na bacia de água e lavou os vestígios da inocência dela. Depois de fazer o mesmo com ele, Ewan procurou na mente as palavras certas para dizer.

Ele ficou de lado, apoiando a cabeça em uma das mãos e sorriu suavemente quando Fiona puxou o lençol para co­brir seus corpos. Estava admirado por ela não ter dito nada a respeito do seu pobre desempenho como amante. Helena sempre reclamava quando ele falhava em fazê-la sentir pra­zer. Claro, Helena não era virgem. Havia uma chance de Fiona não saber, devido sua inocência, que ele havia falhado.

— Não consegui me controlar — ele disse querendo saber porque ela estava tão séria.

— Não acredito que você ache que foi o único. Não há do que se sentir culpado.

Havia, mas ele não discutiria isso naquele momento, nem se arriscaria ferir os sentimentos dela com seus arrependi­mentos e medos.

— Eu não a satisfiz. Não tive um bom desempenho.

— Oh, não... Foi muito bom.

— Fiona, você não precisa mentir. Sei que não a satisfiz, que você não encontrou alivio.

— Você quer dizer que não me fez gritar.

Ciente de que a qualquer momento alguém poderia entrar no quarto, Fíona se apressou em sair da cama e vesrir-se.

Embora seu corpo ainda exigisse mais, Ewan não a im­pediu de vestir-se. Ele faria amor com ela novamente, ce­dendo ao calor do seu corpo perto dele mais uma vez. Era melhor ficar por aí dessa vez, para que ela pudesse se reco­brar do seu primeiro ato de amor.

— Fazer você gritar? — Ewan perguntou, observando-a se vestir.

— Sim. Nossa Gilly grita quando meu irmão faz amor com ela. As paredes tremem e ela diz que é a felicidade que a faz gritar. Ela até pôs portas mais grossas no quarto deles.

Fiona sorriu quando ouviu Ewan rir.

Ele pegou-lhe a mão e começou a sair da cama.

— Quando nos casarmos, eu farei você gritar.

Era o que ela queria, Fiona disse a si mesma. Era o que Mab e ela haviam planejado. Entretanto, Fiona não conse­guiu deixar de sentir-se culpada. Era errado enganá-lo, mes­mo se as intenções fossem boas. Ela tinha que dar-lhe uma escolha.

— Você não tem que casar-se comigo — ela disse.

— Sim, tenho. Eu rompi com sua virgindade.

— Eu gostei do que fiz.

—Talvez, mas era meu dever resistir à tentação. Eu posso não saber quem você é, mas não tenho dúvida de que você tem sangue bom. Seu irmão é um líder. Minha honra exige que eu repare o que fiz.

— Não quero um marido que não me ame, que me leve ao altar apenas por razões de honra.

Ele beijou a palma da mão dela.

— Não será apenas por honra. Você pode negar que não houve paixão?

— Não — ela respondeu, suavemente. — Mas você não quer se casar.

— Um homem pode mudar de idéiã. Sou uma escolha muito pobre para marido?

— Não seja bobo. Não é questão de escolha boa ou má. A questão é saber se você quer ser escolhido.

— Talvez não quisesse, mas agora quero. Você acha que seus parentes me aceitarão quando souberem que eu roubei sua inocência? Não preciso de mais inimigos.

O coração de Fiona lhe disse que não era razão para se casar, mas o bom senso a fez calar-se. Connor arrancaria a verdade dela assim que ela voltasse a Deilcladach e certa­mente não iria gostar. A última coísa que ela queria era seu irmão e Ewan duelando com espadas por causa dela. Rapi­damente sua mente ficou presa à ideia de como seria mara­vilhoso presentear Ewan com uma aliança entre os clãs.

— E eu deixei minha semente dentro de você — ele disse com voz grave, acrescentando: — Você pode nesse momen­to estar carregando meu bebé.

— Chega. Você não precisa me forçar. Na verdade, se ficar apresentando razões para se casar comigo, o efeito po­derá ser contrário.

Ewan sentou-se e estremeceu. Ele deveria ter dito pala­vras mais doces, mas não tinha o hábito de galantear mu­lheres. A única coisa clara na sua mente, naquele momento, era o desejo premente de deitá-la na sua cama novamente. Mas dizer apenas que desejava ardentemente possuí-la não era propriamente um elogio. Prometeu a si mesmo estudar algumas palavras gentis para dizer a ela na noite do seu casamento. Ela merecia, pelo prazer que tinha dado a ele e algumas palavras não iam fazer com que ele se sentisse mais fraco e nem mais louco por ela.

— Ótimo. Então, vamos marcar o casamento para daqui a dois dias.

— Dois dias?!

— Sim. Isso dará tempo para que eu me cure completamente para poder ficar de pé com firmeza. — Ele a segurou pela cintura e a puxou para si, beijando-a. — Eu serei fiel e farei você gritar.

Como Fiona saiu apressadamente do quarto, Ewan ficou pensando se as últimas palavras teriam parecido a ela como uma ameaça.

Encontrando Mab e Gregor no corredor, Fiona agarrou Mab pela mão e a levou para seu quarto e corou sob o olhar que Gregor lhe endereçou.

— Ele não a rejeitou dessa vez, não é mesmo? — Mab perguntou.

— Não. — Fiona suspirou e sentou-se na beirada da cama. — Casaremos em dois dias.

— Você não parece feliz como eu imaginei que fosse ficar.

— Oh, uma parte de mim está muito feliz realmente. O resto está surpreso pela falta de palavras carinhosas. Não houve nenhuma, nem mesmo uma pequenina.

Mab sentou-se do lado de Fiona e deu um tapinha nas costas dela.

— Elas virão. Para muitos homens isto não significa mui­ta coisa, mas significa para Ewan.

— Eu gostaria de pensar que sim,

— Pode pensar. Tenho certeza. Ele ainda não sabe o que está acontecendo com ele, mas esquecerá as próprias regras e seu legendário controle. Depende de você fazê-lo mais profundo e mais rico, naquilo que você necessita.

— Você tem razão. Tenho minha chance agora que ele não precisará mais fugir. Apenas gostaria de ter mais con­fiança na minha habilidade para fazer isso.

— Ouça os conselhos de alguém que tem mais experiên­cia que você. Sim, Fingal foi um erro de julgamento, mas eu fui casada. Não era minha alma gémea, poucos são, mas consegui.

— Há um segredo nisso, não é?

— Sim, embora um homem tenha que ter um coração para que você possa atingi-lo. Conheço Ewan há anos e con­fie em mim, ele tem um coração muito grande, embora tente enterrar seus bons sentimentos. No começo, você deve aprender não levar tudo muito a sério. Mesmo um homem que ama a mulher com quem se casou vai falar e agir de modo errado. Homens precisam de treinamento.

Fíona sorriu e concordou.

— Nossa Gilly teve que treinar meu irmão. Ele tinha ideias estranhas sobre mulheres e esposas.

— A maioria tem. Pelo que você tem me dito desses dois, acho que será bom você pensar em como sua Gílly age para fazer o casamento dela ser bom. Acho que verdade e con­fiança são essenciais. E por verdade quero dizer que tem de dizer tudo que sente e pensa. Dessa maneira o homem pre­cisará de você mais do que apenas um corpo na cama. Um homem não pode amar uma mulher que ele não conhece e nem entende.

— Não. Será mais fácil depois que Ewan e eu nos casar­mos, pois não terei que pesar todas as minhas palavras. — Ela sorriu. — Só espero que ele não tenha inimigos entre meus parentes, os parentes de sangue e por casamento.

— Afinal de contas, quem você é? — Mab pôs a mão sobre o coração. — Eu juro que não contarei a ninguém. Será você que contará a verdade.

— Sou Fiona MacEnroy de Deilcladach. Meu irmão é o líder. Ele casou-se com Gillyanne Murray, a filha de sir Eric Murray de Dubhlinn, a sobrinha de lady Maldie Murray de Donncoill e irmã adotiva de James Drummond, líder de Dunncraig. Meu irmão Diarmot é líder de Clachthrom e re­centemente casou-se com Usa Cameron, irmã única de S-gimor Cameron, líder de Dubheidland. E pela sua cara, Mab, acho que me meti era problemas.

— Não. Bem, talvez. Tantas alianças fortes pode facilitar ou suavizar as coisas. Sim, e esses Drummond são parentes do meu último marido da tribo. Ah, mas há os Cameron, niinha querida.

— Eles são inimigos dos MacFingal?

— Não... Parentes.

— Oh, não... Não me diga que são aqueles parentes que sir Fingal odeia.

— Bem, podem ser os mesmos. Há muitas famílias Ca­meron. Sigimor pode ser um nome comum.

— Não, não é e eu sei disso. Um Sigimor que é líder de Dubheidland é mais raro. É um homem grande, de cabelos vermelhos e humor estranho? Tem treze irmãos? Todos de cabelos vermelhos?

— Oh, querida! É ele. Sobrinho de Fingal. O filho da mulher que foi roubada de Fingal. Bem, isso não importa. Ewan não guarda rancor, ele apenas deixou nas mãos do pai. Na verdade, acho que os rapazes começaram a pensar que tudo isso é tolice, já que estão tão ansiosos para arrumar aliados. E a maioria dos que Fingal odiava estão agora mor­tos. Não terá que negociar com eles. Se Ewan estivesse aqui há três anos, quando Sigimor passou, acho que ele teria re­cebido bem o homem.

— Oro que você esteja certa, Mab. Mesmo que os Ca­meron sejam apenas parentes pelo casamento, ainda assim são parentes e eu não quero ficar entre eles e o meu marido. — Fiona suspirou e meneou a cabeça. — E eu que achei que Ewan ficaria contente e surpreso ao saber quem eu sou e todas as conexões que possuo.

— Bem, certamente surpreso ele ficará.

 

Eu não acredito que você não exigiu que Fiona lhe dissesse quem ela é — disse Gregor, enquanto ajudava Ewan a se vestir. — Você vai se casar com ela daqui a uma hora.

— Ela me contará quando estivermos casados. Acho que Fiona tem um pouco de medo de que eu possa mudar de ideia e tentar pedir o resgate se eu souber quem ela é antes de pronunciarmos os votos.

Não havia chance de que isso pudesse acontecer, pensou Ewan, e ele se casaria com ela de qualquer jeíto. Mas não dissera nada a ela. Para isso, teria que usar palavras gentis e delicadas às quais não fora acostumado e, apesar de ter se esforçado nos dois últimos dias, não conseguira dizer ne­nhuma palavra terna. Também temera que qualquer tentati­va de confessar-lhe seu amor pudesse incitá-lo a dizer coisas que não queria que ela soubesse.

Paixão era mais seguro. Paixão era uma coisa que ele poderia lhe dar em abundância, sabendo que ela veria isso como coisa natural de homem. Todos os outros sentimentos ele guardaria para si mesmo. Helena lhe ensinara o perigo de dar o coração e a alma a uma mulher.

Poderia ser injusto tratar Fiona como se ela fosse outra Helena, especialmente porque ela não parecia ser, mas não podia evitar de ser cauteloso. Desejava Fiona, mas não sabia quem realmente ela era. A traição de Helena o deixara muito magoado e desconfiado. Uma traição de Fiona teria um efei­to devastador. Ewan não tinha certeza de como sabia disso, mas tampouco queria aprender.

Ele não confiava plenamente na paixão que Fiona reve­lava quando estava em seus braços. As mulheres raramente sentiam paixão por ele, e a paixão de Helena fora uma farsa. As prostitutas da vila apenas faziam o que eram pagas para fazer. Algumas empregadas de Scarglas, que haviam flertado com ele, eram motivadas pela sua posição de líder e pelos benefícios que poderiam conseguir.

— Você não parece muito feliz — murmurou Gregor. — Está casando-se com uma jovem bonita e acho que poderia ao menos sorrir, sabendo que ela estará na sua cama todas as noites.

— Sim, eu deveria, e estou feliz. Sim, Fiona é muito bo­nita.

Gregor resmungou e meneou a cabeça, desanimado com a reação do irmão.

— Você deve estar pensando no motivo de ela o desejar. Você não é um homem feio, Ewan. Sim, tem uma cicatriz, mas acho que Fiona vem de um lugar onde há guerras e batalhas e ela não deve se importar com cicatrizes. Além disso, ela também as tem, não tem?

— Mal se notam. A minha é grande e bem visível. — Ele olhou para a roupa que vestia. — Você fala isso porque é meu irmão.

— Droga, Ewan, foi esse o legado que Helena deixou?

— Ela era bonita e se dizia apaixonada. E era tudo uma armadilha. Uma mentira. Helena deixou tudo muito claro ao me entregar a Hugh Gray. A verdade foi revelada em palavras e em ações,

— E você acreditou nela, acreditou em uma mulher que foi para a cama de um homem e no dia seguinte o entregou ao seu algoz? Ewan, você era muito jovem e pouco expe­riente com mulheres. Na verdade, nenhum de nós teria es­capado. Éramos ainda mais jovens do que você e embora tivéssemos mais experiência com mulheres, não saberíamos como nos relacionar com uma mulher do tipo de Helena.

— Sempre me pego pensando porque ela não seduziu papai que era o líder naquela época.

— Porque ela percebeu que papai era parecido com ela. Ele a teria levado para a cama, mas ela não iria conseguir nada dele. Nós todos éramos jovens demais. Nosso pai tinha o título, mas era você quem segurava as rédeas. — Gregor encheu duas taças de vinho e entregou uma ao irmão.

— Você não acha que Fiona é mais do que parece ser? Uma moça bonita que se perdeu?

— Não, eu não acho. Ela está aqui há quinze dias e ainda não fez nada que me faça pensar que não seja o que real­mente diz ser. Não faz perguntas suspeitas e nem fica va­gando pela casa tentando descobrir coisas. Nem flertou com nenhum de nós. Mas percebo que você tem dificuldade em acreditar.

Ewan pensou em tudo que Gregor havia dito, enquanto tomava o vinho. Havia muita verdade nas palavras do irmão. E também era verdade que ele levaria algum tempo para aceitá-las. Meneando a cabeça para tentar afastar os sentimentos de­sencontrados, Ewan terminou a bebida e disse a Gregor:

— É melhor descermos à sala grande. Espero que Nathan tenha ficado de olho no padre. Eu o quero sóbrio.

— Ele estará sóbrio — Gregor assegurou ao irmão, ao saírem do quarto. — Acho que até nosso pai está de olho nele.

— O velho ainda pensa que esse casamento é resultado de sua esperta manobra, não pensa?

— Oh, sim, ele pensa. Do jeito que fala, parece que foi ele quem pôs Fiona no seu caminho. — Gregor olhou para o irmão, cauteloso. — Mas ele diz, humildemente, que es­colheria uma moça com mais carne nos ossos e sem cica­trizes.

— Papai é tolo. Será melhor que não insulte Fiona.

— É verdade. Ela é perigosa e pode feri-lo — Gregor sorriu.

Ewan parou antes de entrar na sala grande, evitando a grande porta dupla que estava totalmente aberta.

— Posso não saber exatamente quem Fiona é, mas tenho certeza de que ela é melhor do que eu. Talvez...

Gregor o empurrou para a frente das portas abertas e di­versos homens o cumprimentaram em voz alta.

— Você pode ter suas dúvidas, mas não chegará a ponto de abandonar a noiva no altar.

Embora Ewan tivesse se surpreendido com a ferocidade do tom de voz do irmão, admitiu que ele tinha razão. Ele suspeitava que muitos sabiam ou desconfiavam que ele ti­rara a inocência de Fiona. E nem estava pretendendo esconder esse fato, pois as empregadas que trocaram a roupa de cama haviam visto a pequena mancha de sangue e facilmen-te suspeitaram do que havia acontecido. Suspeita que foi confirmada pelo anúncio do casamento em dois dias. Ceder a sua covardia agora, não seria apenas uma desonra, como também uma vergonha para Fíona na frente de todos. Me­neou a cabeça para espantar os pensamentos e entrou na sala para receber os cumprimentos que não sentia merecidos.

— Fiona, pare de andar de um lado para o outro ou Bonnie colocará as flores na sua orelha — reclamou Mab. Depois de uma risadinha, Fiona ficou imóvel.

— Você está ficando muito mandona, Mab,

— Estou mesmo. Daqui a pouco tempo você será a lady de Scarglas. Assim, tenho que falar tudo que eu quero agora. — Mab riu, acompanhada por Bonnie. — Será bom ter uma lady aqui em Scarglas novamente. Faz muito tempo. Na realidade, nem sei se alguma vez tivemos uma.

— Sir Fingal teve cinco esposas, Mab.

— Teve, mas você viu alguma marca delas na casa? Fiona não respondeu. Olhava o quarto que lhe fora des­tinado. Era confortável e simples. Limpo, como o resto da casa, mas Fiona sabia que era trabalho de Clare. Os jardins e o herbário eram de Mab. A sala grande também era bonita, mas tinha sido criada pelo proprietário anterior. Pensando nas coisas que Gilly e Usa haviam feito quando foram morar na sua casa com seus irmãos, Fiona concluiu que Mab tinha razão. As esposas de sir Fingal haviam deixado poucas mar­cas além dos filhos que tiveram.

— Que estranho — Fiona murmurou. — Nem mesmo Annie Logan?

— Não — respondeu Bonnie. — Minha mãe disse que ela passava o tempo todo tentando impedir que seu marido fosse atrás de outras mulheres. E as outras esposas não du­raram muito. Morreram, com exceção da última, que fugiu.

— Bem, pelo menos ela pôs um fim nos casamentos de sir Fingal. Se não for encontrada para anular o casamento, ele não poderá se casar outra vez.

— Não tenho certeza disso. Acho que ele não se casou novamente porque não sai de Scarglas e desse modo não pode encontrar uma mulher que não saiba a verdade sobre ele. O tolo tem onze filhos legítimos e vários bastardos, Mab ruborizou, mas riu ao perceber que as outras duas mu­lheres riam dela.

— Ah, milady está muito bonita — declarou Bonnie, ao se afastar para admirar Fiona. — Seus cabelos são lindos.

Fiona passou a mão pelos cabelos que haviam sido deixa­dos soltos e chegavam, ondulados, à altura dos seus quadris.

— Obrigada, embora eu não tenha certeza se deveria estar vestida como uma noiva virgem.

— Não pense nisso agora — disse Mab, dando uma úl­tima ajeitada nas várias saias do vestido de Fiona. — Otimo. Agora você está pronta.

— Vou avisar os outros — declarou Bonnie, saindo do quarto.

— Mab, eu realmente me preocupo com isso.

— Pare de se preocupar — ordenou Mab. — Você acha que os irmãos de Ewan estariam tão satisfeitos se vissem alguma coisa errada? Todos eles, legítimos ou bastardos, são leais e protetores em relação a Ewan, embora eu não tenha a certeza de que ele tenha consciência disso. Se qualquer um deles temesse que você pudesse magoar Ewan. no corpo ou no coração, eles tentariam impedir esse casamento.

E eles o fariam, mesmo se soubessem que houve um complô para levar Ewan ao altar.

— Oh... E você acha que eles não sabem? Gregor sabe. Como você acha que eu consegui ficar "perdida" naquele dia? Eu estava no herbário, mas nenhum deles, do mais jo­vem ao mais velho, conseguiu me ver. — Mab passou o   braço pelo ombro de Fiona e a conduziu para fora do quarto.   — Na verdade, os rapazes a escolheram para se casar com seu líder. Pare de se preocupar. Aproveite seu casamento.

— Tentarei, Mab. Será mais fácil depois que a revelação de quem eu sou for feita.

— Estará tudo bem — Mab concordou, embora não acre­ditasse muito.

— Fiona-dos-dez-punhais? — Ewan perguntou, inter­rompendo o padre para olhar para ela. — Não pode usar esse nome para pronunciar seus votos. Terá que usar seu nome verdadeiro.

— Não, não posso — respondeu Fiona, pensando em co­mo Ewan poderia continuar parecendo tão alto ajoelhado ao seu lado. — O padre disse que, se eu assinar meu nome verdadeiro, isso não tem importância.

— Bobagem. Use seu nome verdadeiro.

— Não antes de assinar os papéis. E você assinará pri­meiro.

— Você é minha esposa. É seu dever obedecer-me.

— Você está certo, filho. Diga a ela como deve ser — interveio Fingal, antes de recuar dois passos diante do olhar que Fiona e Ewan lhe lançaram.

— Agora, diga ao padre seu nome verdadeiro -— Ewan ordenou, e Fiona franziu o cenho.

— Você ainda não é meu marido e, se espera obediência cega depois que eu pronunciar os meus votos, talvez devês­semos fazer uma pausa para uma conversa.

— Oh, não! Considerando a sua teimosia, ainda estaría­mos discutindo quando o filho que eu provavelmente fiz em você estivesse nascendo. Discutiremos mais tarde. — Ele olhou para o padre e ergueu as sobrancelhas. — E então? Pode continuar.

Fiona pronunciou seus votos. O beijo que Ewan lhe deu foi de tirar a respiração. Todos aplaudiram e ovacionaram. Fiona logo se recuperou quando a pena foi colocada na sua mão. Todos se aproximaram dos noivos quando ela se pre­parou para assinar. Ewan já assinara o nome em letras fortes. Fiona respirou fundo e assinou.

— MacEnroy? — Ewan perguntou, ignorando o murmú­rio de sua família, atrás deles. — De Deilcladach?

—- Sim, sou a única irmã do líder, Connor MacEnroy.

— Não pode ser. Eles estão a quatro dias de cavalgada daqui. Você não pode ser uma MacEnroy.

— Quatro dias? — Fiona sussurrou, chocada. — Céus...

Para onde aquele cavalo me carregou? Eu pensei que tivesse tido apenas uma tontura, mas devo ter ficado inconsciente. Mas sou uma MacEnroy. — Ela tirou uma faca de prata da cintura e a entregou a Ewan. — Leia o que está escrito no cabo. Connor me deu no meu décimo sexto aniversário. Ele disse que eu merecia um presente bom por ser uma boa moça, que tivera a graça de sobreviver sob seus cuidados.

— Fiona sorriu, lembrando-se do irmão,

— Para Fiona, uma MacEnroy até os ossos, leu Ewan e olhou para Fiona ao lhe devolver a faca. — Quem é Gilly de quem você tanto fala. É a esposa dele?

— Sim. Gillyanne Murray, filha de sír Eric Murray, de Dubhlinn, sobrinha de lady Maldie Murray, de Donncoill e irmã adotiva de James Drummond, líder de Ounncraíg. Nós, MacEnroy, somos aliados dos Dalglish, clã de Dunspier, e dos Goudie, de Aberwellen. Meu irmão Antony vive em Ald-dab-hach, ao sul de nossa propriedade.

O murmúrio ao redor aumentou, mas Fiona não afastava os olhos de Ewan. Ele parecia incrivelmente aturdido.

— Meu outro irmão, Diarmot, é o líder de Clachthrom. Ele casou-se recentemente com... — Fiona respirou fundo, para tentar se acalmar — ...Usa Cameron, filha única de Sigimor Cameron, de Dubheidland.

O murmúrio foi substituído por um longo silêncio, o que fez Fiona pensar que as pessoas tinham se esquecido de respirar.

— Através dos parentes de Gilly, os Murray, há laços com os MacAIpín, de Caimmoor, os Armstrong, de Aigbal-la, os Macmillan, de Bealachan, os Drummond* de Dunnbea, os Kirkcaldy, de Kinloches, os Lucette, da França... — Fiona parou de falar quando Ewan colocou os dedos trémulos so­bre seus lábios.

— Uma maldita Cameron — grunhiu sir Fingal, que pas­sou por todos para se aproximar de Fiona e Ewan. — Eu sabia, ela nada mais é do que uma espiã enviada aqui por aquele tolo do Sigimor.

Tentando pensar com clareza, apesar do choque da reve­lação de Fiona, Ewan a puxou para si, passou o braço ao redor dos ombros dela e enfrentou o pai.

— Ela não é uma Cameron. O laço é pelo casamento do irmão dela.

— E próximo o suficiente. Devemos mandá-la de volta.

— O senhor não vai mandá-la de volta a lugar nenhum

— Ewan declarou, com voz fria e dura, tentando superar a raiva que sentia do pai pelas muitas inimizades que amea­lhara no decorrer da vida. — Agora ela é minha esposa. E pode estar carregando um filho meu.

— Eu desejaria que você não continuasse a dizer isso — resmungou Fiona, mas calou-se depois do aperto que Ewan lhe deu no braço.

— Os Cameron estão todos mortos — Ewan continuou.

— Sigimor não é ameaça para nós e, na verdade, não sei porque ele continua a vir aqui para ter os portões fechados na cara.

— Não negocio com os amaldiçoados Cameron!

— Não é necessário. Se houver necessidade, eu o farei. Temos dado as costas a quem não quer nos matar. São nosso sangue, pelo amor de Deus.

— Meu sangue não.

— Acalme-se — Ewan admoestou o pai, que olhou lon­gamente para Fiona, e se afastou pedindo cerveja.

— Você acha que ele desistiu? — Fiona perguntou.

— Suspeito que ele resmungará por algum tempo, e nada mais do que isso. E um velho rancor que ele guarda como se fosse uma relíquia, mas o máximo que poderá fazer será xingar Sigimor se ele aparecer novamente.

Fiona mal conteve um sorriso.

— Eu não me lamuriaria. Sigimor não o faria. — Fiona percebeu que todos ainda olhavam para ela com intensidade indisfarçável. — O que aflige todos vocês? Eu tenho duas cabeças?

— Não, apenas um exército — afirmou Gregor. — Nós suspeitávamos que finalmente teríamos algumas alianças, mas céus, garota, não esperávamos que você tivesse laços com metade da Escócia.

— Não são clãs muito grandes — Fiona esclareceu, e franziu as sobrancelhas quando Gregor sorriu.

— Venham, há uma festa esperando por nós. Vamos apro­veitar.

As palavras de Ewan quebraram o silêncio e todos foram para as mesas. Fiona observava o marido disfarçadamente, enquanto ele a conduzia à mesa e sentava-se ao seu lado. Para um homem que tentava há anos fazer algumas alianças, ele não parecia muito satisfeito com as que ela trouxera. Apesar de a maioria deles serem parentes de Gilly, Fiona sabia que era considerada como da família por eles.

Durante os anos em que fora aprender com lady Maldíe, conhecera muitos deles e sabia que eles consideravam todos os MacEnroy como parte da família. Mesmo se se levasse em consideração apenas sua família, era um bom presente o que dera a Ewan pelo casamento. Mesmo assim, ele sen­tou-se quieto e distraído.

— Você está bravo, Ewan? — ela finalmente perguntou baixinho, para que os outros à mesa não escutassem.

— Não. — Ewan segurou a mão que ela apoiara sobre a mesa. — Chocado apenas. Devido à habilidade de meu pai de fazer inimigos, estivemos sozinhos toda a vida. Depois de anos de trabalho, tentamos fazer algumas alianças, mas não conseguimos nada de definitivo. Mesmo assim, apenas os Gray constituem ameaça para nós agora. Os outros podem não ser aliados verdadeiros, mas tampouco são inimigos. De repente, depois de me ajoelhar diante do padre, me encontro no meio de muitas alianças. Mesmo que façamos aliança realmente apenas com a sua família, é muito mais do que eu esperava conseguir.

— Meu irmão também ficou chocado quando descobriu quem era Gilly. Nós passamos muito tempo sozinhos. Foi apenas depois de Gilly aparecer que descobrimos que os Goudie e os Dalglish eram aliados mais próximos do que todos havíamos imaginado, inclusive eles.

Ewan meneou a cabeça, ainda chocado com tanta novi­dade. Mas acabou sorrindo. Pelo bem do seu povo, estava satisfeito com as alianças que ela trouxera pelo casamento, mas um presente tão rico deveria ter sido dado a um líder mais rico e mais poderoso do que ele.

Entretanto, estava feito, ele pensou ao olhar para Fiona, que ria de alguma coisa dita por Simon. Ele a tinha tocado, tirado sua inocência e se casara com ela. Não havia retorno. Considerando as conexões dela, até imaginar que uma dissolu­ção era perigoso para ele e para seu clã.

Ewan não achava que Fiona fosse do tipo vingativo, mas não seria bom arriscar. Não se surpreenderia se ela enfren­tasse seus parentes por ele a ter sequestrado para pedir res­gate, a levado para a cama e se casado com ela. Poderia manter o resgate e a cama em segredo, mas não tinha muita esperança de que isso viesse a acontecer.

À medida que comiam e suportavam os ridículos brindes que seus irmãos faziam, Ewan perguntou a Fiona sobre sua família. Havia entusiasmo no que ela narrava e ele até ficou perturbado por Fíona conhecer os Cameron melhor do que ele. Mas era o começo de um laço entre os clãs. Esse laço poderia se estender a outros membros da família e Ewan queria muito que isso acontecesse.

Ewan sorriu, quando alguém começou a tocar. Incentiva­do pelos irmãos, Ewan se forçou a dançar com Fiona, pela primeira vez. Sentindo-se grande e desajeitado, ele logo a deixou sob os cuidados dos irmãos. Sentou-se para observar o balanço dos longos cabelos e do corpo esguio que aquecia seu sangue. Ela ria e dançava com cada um dos seus irmãos, até com um desajeitado e ruborizado Simon. Dançou até com as crianças, antes que as babás as levassem para dormir. Um sentimento de culpa o atingiu quando Ewan percebeu que não estava simplesmente admirado com sua noiva, mas com ele mesmo. Admitiu que procurava traços de traição e fingimento, mas não via nenhum. Ela não flertava e nem sorria para outro homem ou tratava algum com mais deferência. De fato, Fiona tratava a todos da mesma maneira, nem mais, nem menos.

Agia como uma mulher que havia sido criada por homens, tratada como outro irmão, exatamente como dissera. E não mostrava sinal de medo e nem de submissão. Ewan suspei­tava que ela respeitaria um homem se ele merecesse, mas nunca seria cegamente obediente. E era patente que, pelo casamento, ela considerava seus irmãos como irmãos dela também.

Ewan estava muito satisfeito ao ver que seus irmãos a aceitavam e gostavam dela. Se pelo menos seu pai agisse da mesma maneira.

Evitando esse pensamento, Ewan levantou-se e caminhou na direção da esposa. Ainda tinha receios e dúvidas, mas no momento decidiu bani-los da sua mente. O destino o aben­çoara com uma linda esposa, que o atraía muito. Era hora de parar de pensar e começar a aproveitar. Mas não pretendia sair dançando com ela pelo salão.

E, quando Fiona passou por ele dançando, agarrou seu braço e a puxou para si.

— Oh, Ewan, você... — ela parou de falar quando ele a colocou sobre seus ombros. — Ewan, ponha-me no chão! — Fiona ordenou corando, enquanto os cunhados e os outros ali presentes começaram a fazer sugestões sobre o que Ewan deveria fazer em seguida. — E a celebração. Ewan?

— A celebração pode continuar sem nossa presença — . ele respondeu, saindo da grande sala. — Chegou a hora.

—- Chegou a hora de quê?

— De fazer você gritar.

 

Era difícil para Fiona decidir o que a deixara mais rubo­rizada e com uma leve tontura. Se o fato de Ewan a ter carregado escada acima como se fosse um saco de batatas ou a promessa de fazê-ia gritar.

Ele a pôs no chão e Fiona tentou recobrar a respiração quando ele fechou a porta e virou-se para olhar para ela. Encheu os pulmões de ar rapidamente. Os olhos acinzenta­dos de Ewan estavam escuros de desejo.

— Estou contente por não termos que participar de toda a cerimónia do casamento — ela falou, querendo saber por que estava tão nervosa.

Ewan se aproximou e tirou as flores que enfeitavam seus cabelos.

— Eu disse a meus irmãos que eles nem precisavam es­perar por isso. — Ewan passou os dedos pelos cabelos finos e macios de sua noiva. — Por que está com medo?

— Não estou com medo, ela respondeu, tentando dis­farçar o tremor de sua voz. — Talvez um pouco nervosa.

— Por quê? Você nao é virgem. Dessa vez nao haverá dor. — Ele começou a desamarrar seu vestido.

— A primeira vez foi rápida. — Fiona estremeceu, quan­do ele lhe tirou o vestido, mas não fez nada para impedir e nem para se cobrir. — Não sei porque estou nervosa. Talvez porque dessa vez não tenha sido de repente e sim planejado. — Ela piscou ao se ver quase nua. — Foi muito rápido.

— Essa vez será ainda mais rápido — ele disse, ao tirar suas próprias roupas.

Fiona estava ansiosa. Ía ver Ewan completamente nu. Sua respiração se tornava ofegante enquanto olhava para ele. As olhadas que dera quando tratava dele e quando fizeram amor pela primeira vez não a haviam preparado para isso. Ewan era moreno e musculoso. Havia muitas cicatrizes em seu corpo, grandes e pequenas, desde a nova na perna até uma na barriga plana e dura.

Fiona arregalou os olhos ao notar uma cicatriz que pas­sava perigosamente perto da virilha.

— Céus, Ewan, você quase foi castrado.

— Sim. — Ele se abaixou para tirar os sapatos e as meias. — Oito anos atrás fui traído por uma mulher que me entre­gou ao meu pior inimigo, Hugh Gray. Não pareceu importar para eles que ela se enfiara na minha cama para me armar uma cilada. Ambos acharam que eu deveria pagar por ter profanado sua pele alva com meu toque. —Jogando a última meia para o lado, ele passou as mãos pelas pemas longas e a ouviu suspirar. — Esta cicatriz foi do corte que me fizeram para me insultar, para me atemorizar com o que estava por vir. Era um preâmbulo.

— E funcionou? — Fiona perguntou, quando ele a pegou no colo para levá-la para a cama.

— Oh, sim, muito, embora eu acredite que tenha dado, para disfarçar. — Ele saboreou a visão de Fiona na sua cama, nua e alva.

— Eo que os impediu?

— Gregor e muitos dos meus irmãos, bem como meus homens, infelizmente, Gray e Helena fugiram. Eu estava sangrando muito. Diversas outras pequenas cicatrizes como também a do meu rosto foram dessa época.

— Tortura — ela sussurrou, cobrindo sen corpo nu com o lençol. ~ Por prazer ou por alguma informação?

— Um pouco dos dois—ele respondeu, enquanto deitava e a tomava em seus braços.

Fiona tremeu ao sentir o corpo dele junto ao seu, o calor da pele morena invadindo seu sangue. Nunca tivera uma sensação tão boa. Pertencia a ele e aquele lugar. Mas quando Ewan segurou seu rosto e o ergueu para beijá-la, Fiona sen­tiu que daria muito trabalho fazer com que ele percebesse isso.

— Dessa vez, senhora, você sentirá tudo a que tem direito — Ewan sussurrou, antes de beijá-la novamente.

No momento em que parou de beijá-la. Fiona arquejou suavemente. Tremendo, ela acariciava suas costas e ele bei­java seus seios. Um gemido escapou enquanto Ewan sugava o bico túrgido de um dos seus seios e acariciava o outro com seus dedos longos e habilidosos. Fiona tentou colocar o cor­po em uma posição melhor, mas ele a manteve firmemente no lugar.

Sua virilidade a pressionava, mas a posição em que ele a mantinha não permitia que ela afastasse as pernas. Quando Fiona passou a mão pelos quadris dele, tentando acariciar-lhe a virilha, Ewan a impediu. Fiona não sabia o que pensar por aquele aparente desejo de não ser tocado. Quando tentou de novo, Ewan agarrou sua mão.

—- Não, garota... — ele disse com voz rouca. — Se você me tocar aí, não terá chance de gritar.

O pensamento de que apenas um toque seu seria suficien­te para que ele perdesse o controle fez o desejo de Fiona aumentar. Ewan passou os braços dela ao redor do seu corpo e beijou-a novamente, dessa vez com ferocidade. Fiona po­dia realmente se orgulhar por deixá-lo tão inflamado a ponto de perder seu legendário controle.

Quando Ewan pôs a mão entre as coxas dela, Fiona va­cilou levemente, por não estar acostumada a carícias desse tipo. Bastaram apenas algumas investidas para que ela per­desse o constrangimento. Fiona arqueou os quadris leve­mente para que ele tivesse mais espaço para continuar com as carícias.

Um delicado grito lhe escapou quando Ewan se pôs entre suas pernas e passou as pernas dela ao redor do seu corpo, aproximando seus corpos ainda mais. Ele se movia com muita delicadeza, como se temesse quebrá-la, e Fiona an­siava por mais, muito mais. Quando ela puxou as nádegas de Ewan, ele gemeu alto e fixou as mãos na cama. Então, mordiscou o bico de um dos seus seios e ela foi novamente levada às alturas.

No momento em que pensava que não poderia mais aguentar suas investidas, ele soltou as mãos. Com a boca ainda sugando seus seios, Ewan a penetrou e Fiona sentiu as delícias de ser possuída pelo homem que ela tanto dese­java. Quando ele investiu novamente e uma vez mais, Fiona gritou seu nome.

Mas, ao sentir que atingia o paraíso que apenas vislum­brara, ele a deixou. Fiona se agarrou ao marido enquanto ele gemia e pressionava o rosto contra seus seios, mas assim mesmo ao lado do prazer que percorria seu corpo, Fiona experimentou uma sensação de perda.

Foí apenas quando recobrou o controle é que ela percebeu o que tinha acontecido e um calafrio percorreu seu corpo, banindo o calor do desejo. Ele se afastara, negando deixar nela sua semente.

Fiona queria impedir que sua frustração e mágoa pudes­sem despertar julgamentos errados.

Quando Ewan se moveu e deitou-se ao seu lado, Fiona o fitou, mas não encontrou resposta no olhar dele.

— Por quê? — Fiona perguntou, esperando que a expli­cação pudesse minorar sua dor.

— Por que o quê?

— Por que me deixou?

Ewan resmungou interiormente, concluindo que fora um tolo em pensar que ela não tivesse percebido.

— Não quero filhos.

Ele praguejou alto ao ver a expressão de sofrimento no rosto de Fiona. Mas quando tentou abraçá-la, ela se esquivou.

— Por quê? — ela tornou a perguntar, lutando para se manter calma o suficiente para tentar entender.

— Fiona, você está aqui tempo suficiente para conhecer meu pai.

— O que seu pai tem a ver com o fato de você não querer filhos? Você não teve essa relutância dois dias atrás.

— Fui imprudente. Espero que você não tenha engravi­dado. Há loucura no meu sangue.

— Que loucura? Do que você está falando?

— Do meu pai. O modo como ele age, as coisas que ele faz, ele...

— Você acha que seu pai é louco?

— Sim, acho.

— Seu pai não é louco, Ewan. Ele nada mais é do que uma criança mimada.

— Você não entende...

— Você acha que não? — Fiona agarrou a mão de Ewan e a levou às suas cicatrizes enquanto falava. — Isto é lou­cura, Ewan. Conheço bem o que é loucura. Eu a vi. Fui marcada por ela aqui no meu rosto, no meu coração, e aqui nas minhas coxas. Eu vi a loucura nos olhos do homem que fez isso, um homem que pode falar de amor, mas causa dor. Senti o frio da loucura quando ouvia cada palavra, quando ele decidia onde iria me marcar na próxima vez que me raptasse. Tenho convivido com a loucura há quase dois anos e agora você me diz que eu não entendo o que é isso.

Fiona respirou fundo e continuou:

— Seu pai não é louco. Ele é mimado, egoísta e arrogante. De louco ele não tem nada. A única coisa errada com seu pai é que ele não se importa com ninguém e com nada, apenas com o que quer.

Fiona deitou-se de costas e cobriu os olhos com um dos braços, lutando para não chorar. Pelo menos era confortante saber que Ewan não rejeitara a ela, mas a si mesmo. Ele achava que seu sangue era contaminado pela loucura. E de­via sofrer demais.

Com cuidado, Ewan passou o braço ao redor da delgada cintura de Fiona e a puxou para si. As palavras dela tinham produzido calafrios por todo seu corpo. Ela tinha lhe contado sobre a perseguição de Menzie e como o homem a tinha capturado quatro vezes. Ewan nunca considerara o fato de como ela havia sofrido tendo a suave pele marcada. Sim, ela tinha razão. Era loucura pura e aterrorizante.

A dor que vira no rosto de Fiona quando ela percebeu que ele lhe negara sua semente o mortificara. Mas ao mesmo tempo ficara orgulhoso por saber que Fiona queria um filho dele e que ficara apavorada pela possibilidade de ele lhe negar essa alegria. Pensou em Fiona ficando com as formas arredondadas pela gravidez e a imagem superou o medo. Mas não estava seguro se Fiona tinha realmente razão.

— Fiona, não posso manchar seu útero com o sangue de um homem louco — ele insistiu.

Suspirando, ela afastou o braço dos olhos e olhou para ele.

— Ewan, seu pai não é louco.

— Ele vê inimigos em toda parte. Seus modos mudam de um instante para o outro. Está com raiva em um momen­to, e no momento seguinte só pensa em como tirar as saias de alguma mulher. Não são maneiras de um homem, de um líder, se comportar.

— Não, não são — ela concordou. — Mas tampouco é loucura. Se ele vê inimigos em cada canto, provavelmente é porque eles existem e ele sabe que os fez. — Fiona respirou fundo, lembrando-se do que se falava do pai dele, e que o medo de Ewan era real. — Tente, ao menos por um mo­mento, pensar em seu pai não como um homem adulto, mas apenas como uma criança grande.

Ewan pensou que isso seria fácil de fazer, pois ele mesmo já pensara em como seu pai era infantil.

— Devo confessar que ele age, com frequência, como se esquecesse de que é adulto e de que teria de aceitar as responsabilidades de um homem.

— É verdade. Tudo que tenho visto esse homem dizer ou fazer é... bem... como uma criança, uma criança muito mi­mada. Alguém se esqueceu de ensinar-lhe como se compor­tar, ou ele rejeitou essas lições. Ele quer o que quer e quando quer, exatamente como uma criança. Não pensa em conse­quências futuras, como uma criança, e fica enraivecido quando contrariado, corno uma criança. E muda de interesse, exatamente como uma criança. Na verdade, as diferenças que posso ver entre seu pai e uma criança mimada é a de que ele pode fazer filhos, e por causa do seu tamanho pode ferir ou matar alguém nos seus acessos de raiva. Ele já feriu ou matou alguém nesses acessos?

Ewan levou algum tempo para responder, pois teve que pensar no passado.

— Ele pode ser violento em uma batalha, mas não... não me lembro de ele ter ferido ou matado alguém em um acesso de raiva. Ele foi um lutador e pode ferir alguém que se interponha no seu caminho, mas geralmente apenas discursa, pragueja e, ocasionalmente, quebra coisas. Ele nos ordenava fazer coisas cruéis às pessoas que odiava, mas nunca o obe­decemos.

— E imagino que ele nunca os castigou por tê-lo deso­bedecido.

— Não. Ele parecia esquecer de ter dado semelhante ordem.

— Ele estuprou alguma mulher que lhe disse não?

— Não, embora tenha ficado com muita raiva por você ter instruído as mulheres a dizerem não — Ewan afirmou, sorrindo.

— Mas não me fez nada.

Ewan piscou e olhou para ela. Mesmo alertando a si pró­prio que não deveria permitir que suas próprias esperanças mexessem com suas crenças, ele não podia negar a verdade que Fiona lhe estava mostrando. Quanto mais pensava no pai como uma criança grande, mais via que Fiona estava certa. Seu pai podia não ser absolutamente equilibrado, mas não era louco.

— Sim, acho que você tem razão. Ele não é louco — Ewan sussurrou.

— Não — respondeu Fiona, sentindo pena de Ewan pelo sofrimento que havia sentido durante anos.

— Ele nada mais é do que uma criança levada, em um corpo de homem.

— É, acho que sim. Pense, Ewan, se seu pai fosse louco, se houvesse alguma coisa no sangue dele, essa loucura cer­tamente teria aparecido em pelo menos um dos doze filhos que ele pôs no mundo ou em uma das crianças dos seus irmãos. Há alguma com problemas mentais?

— Não. — Ewan passou a mão pelos cabelos. — Tive esse temor por tanto tempo que é difícil admitir que eu estou errado.

— Sim, é verdade.

— Não sou o único que teme isso.

— Oh, não, tenho certeza de que muitos outros pensam desse modo. Deve ser esse o motivo de dizerem que ele matou as esposas. Devido à dificuldade de aceitar que um homem adulto possa agir do modo como ele age. Ele é gran­de, forte e viril e ninguém vê a criança que ainda vive nele.

— Então ele não precisa ser trancado em uma torre. Papai precisa levar uma surra.

Fiona sorriu ante a imagem de Ewan dando uma surra noai.

— Acho que agora é tarde demais. Fique feliz por ele ter concordado que você tomasse as rédeas do clã.

— Suspeito que ele ficou cansado desse jogo. — Ewan suspirou. — Papai deve ter visto como seria difícil consertar tudo que ele estragou e não teve vontade de enfrentar. Sua vaidade foi ferida porque gostava de ser chamado de líder, mas como todos continuaram a chamá-lo desse modo, isso foi suficiente para ele. Nâo gostou muito da palavra "velho" que acrescentaram ao título, mas acabou aceitando.

Fiona acariciou-lhe as costas e o sentiu estremecer leve­mente.

— Ao menos, ele não dirige o clã e não arruma mais inimigos para você ter que enfrentar.

— Fiona viu os olhos dele brilharem.

— Ewan a beijou e sorriu. — E agora, vou fazê-la gritar novamente.

— Talvez seja eu a fazê-lo gritar.

— Você ainda não sabe o que é gritar de prazer.

Antes que Fíona pudesse responder a sua provocante arrrogância, ele a beijou novamente e ela logo se sentiu envol­vida pela paixão, e entregou-se completamente a cada beijo, a cada carícia. Fiona o ouviu sussurrar seu nome e seu prazer aumentou ainda mais ao se sentir penetrada por ele profun­damente, sua semente atirada dentro do seu útero.

— Acho que você gritou mais alto do que eu — ela mur­murou mais tarde, enquanto se aninhava nos braços dele e descansava a cabeça no seu peito.

— Acho que foi um sussurro se comparado ao barulho que você fez — Ewan retrucou.

E sorriu, quando a única resposta dela foi um suave ge­mido antes de adormecer nos seus braços. Ewan não pôde deixar de se orgulhar por tê-la feito gritar, exaurida. Era muito bom ouvir uma mulher gritar seu nome e ao mesmo tempo tremer e se contorcer de paixão.

O fato de Fiona sentir prazer nos braços dele o deixava pasmo, embora não duvidasse dela. Também não tinha dú­vidas sobre a paixão e a honestidade de sua esposa. Durante anos havia visto paixões nas camas das prostitutas da vila e sabia muito bem reconhecer as diferenças. Podia sentir a diferença até no modo como Fiona se mexia, no seu olhar, e no modo como seu corpo o recebia. Por alguma razão, o desejo de Fiona era exaltado pelo seu toque e ele era agra­decido por esse presente.

Ewan passou os dedos pelos finos cabelos de sua esposa, apreciando a maciez do seu corpo esguio e pequeno. Final­mente, ouvira uma mulher gritar seu nome ao ser levada ao ápice do prazer e sabia que ouviria isso muitas vezes. Era um homem grande, moreno e cheio de cicatrizes, e pôde fazer aquela pequena e bela mulher gritar. Era o suficiente para deixá-lo vaidoso.

Ewan sentia-se quase feliz, leve de mente e de coração. Parte dessa alegria era por ter eliminado o medo da loucura no seu sangue. Era constrangedor ter um pai mais criança do que homem, mas muito mais fácil de aceitar. Fiona dera-lhe esse presente também, e ele lhe seria eternamente grato. Não pretendia se casar, mas depois de apenas uma noite como seu marido, estava contente por ter se casado.

A única sombra no horizonte era ele saber que seria fácil amá-la. E uma parte dele queria amá-la, queria pôr seu co­ração e sua alma nas suas delicadas mãos, e queria também confiar nela. Ewan sabia que era covardia de sua parte e até injusto com Fiona, mas não estava preparado para amar nin­guém. Todos aqueles anos se proibindo de sentir emoções profundas e de confiar em alguém não eram fáceis de serem postos de lado. Era até engraçado, de um triste modo, que ele, que enfrentava batalhas e nunca tivera medo de se ferir, agora se acovardava diante da possibilidade de ter seu co­ração magoado.

Passando os braços ao redor de sua esposa, ele descansou o queixo sobre a cabeça dela e suspirou, fechando os olhos.

Ewan temia que Fion ajá fosse dona do seu coração, ape­sar dos esforços para impedir que isso acontecesse. Podia apenas esperar ter força para esconder isso dela.

 

Uma amaldiçoada Cameron em minha casa — resmungou sir Fingal. — Nunca pensei que um dia isso fosse acontecer.

Fiona girou os olhos ao sentar-se na frente dele à mesa. Celebrara a manhã com um sorriso, o corpo ainda quente pelo amor feito com Ewan e o apetite aguçado. Depois de um banho, chegou à sala grande para o caíé-da-manhã. Nem mesmo a presença do pai de Ewan à mesa estragaria seu bom humor. Infelizmente Fingal sempre tentava acabar com seu bom humor.

Nas duas semanas em que estava casada com Ewan, sir Fingal revelara uma verdadeira habilidade em deixá-la com raiva.

— Não sou uma Cameron -— ela disse, pela milésima vez. — Sou uma MacEnroy. Cameron apenas pelo casa­mento. — Fiona pegou uma tigela de mingau de aveia e pôs um pouco de mel.

— Pelo casamento você é uma MacFingal.

— Ótimo, sou uma MacFingal. Isso significa que não sou uma Cameron, não é?

— Você é uma mulher insolente.

— Sim, eu sou. — Fiona começou a comer o mingau, infeliz porque Fingal ainda não terminara a refeição e ela teria que suportar sua presença por mais algum tempo.

— Meu filho terá que ter uma mão firme com você. — Sir Fingal serviu-se também de mingau e mel. — Ele precisa ensiná-la a ter respeito e obediência.

— Gostaria de vê-lo tentar.

Contrariado, sir Fingal meneou a cabeça ao pôr um pe­daço de pão na boca.

— Bem, pelo menos você serve a um propósito. Ewan não age mais como se não soubesse para que serve certa parte do homem. Você deve ser capaz de lhe dar alguns filhos, embora pareça pequena e magra demais. Isto me lem­bra porque eu não quis mais arrumar esposa.

— O senhor não tem outra esposa porque ainda está ca­sado com a que fugiu daqui.

Fiona percebeu, pelo olhar do sogro, que ele havia se esquecido completamente da mulher.

— Oh, aquela... — ele resmungou. — Ela apenas me deu um filho e me traiu com um maldito Gray.

Discutir com Fingal que a traição era resultado da hipo­crisia seria completa perda de tempo. Fiona ignorou as pa­lavras do velho líder.

— Outro filho, não é? O senhor nunca teve filhas?

— Sim, tive três. Uma se casou com um Guthrie e uma com um Kinnaird. Pensei que fosse conseguir uma ou duas alianças, mas as moças logo ficaram ao lado dos maridos contra o próprio pai. Um pequeno engano e todo meu tra­balho foi inútil. A outra filha fiigiu com um Gray. As mu­lheres sempre traem o homem, mesmo quando o homem é o amado pai. — Ele fungou e pareceu prestes a derramar algumas lágrimas.

Fiona bufou ante o show falso de emoção e não ficou surpresa quando ele voltou a olhar para ela com atenção. Esperava que os maridos das três filhas tivessem provado ser homens melhores que o pai. E também duvidava muito que tivesse sido apenas um erro que acabara com a aliança selada pelo casamento.

Como duvidava que sir Fingal dissesse a verdade, achou inútil perguntar que erro fora cometido. Entretanto, tinha quase certeza de que aqueles casamentos não tivessem aju­dado Ewan a consertar os danos provocados pelo pai. Infe­lizmente, não havia tido nenhum casamento entre um Gray e um MacFingal. Apenas muita sedução ou furto das mu­lheres MacFingal.

— Por que os Gray continuam pegando suas mulheres?

— Eles não têm muitas mulheres — respondeu Mab, ao sentar-se perto de Fiona para se servir de mingau. — E têm muitos inimigos, também. Alguns desses inimigos entraram nas propriedades quando os homens estavam ausentes, mas isso foi há cerca de quinze anos. Eles eram brutais — Mab estremeceu. — Matavam homens e mulheres, jovens e ve­lhos, e crianças. Poucos escapavam. Algumas mulheres fo­ram pegas, mas não sei se alguma vez houve tentativa de resgatá-las.

— E os bastardos os ajudaram — acrescentou Fingal.

— É verdade — concordou Mab. — Ficaram famosospor isso.

Sir Fingal meneou a cabeça e olhou para Fiona.

— Desse modo, é melhor que você fique entre os muros de Scarglas. Ele se levantou e começou a caminhar. — Você é só osso e cicatrizes, mas um Gray não é muito exi­gente.

Fiona olhou para o sogro com muita vontade de aplicar-lhe um bom chute.

— Esse homem faz qualquer mulher ter vontade de gritar e de se descabelar — Fiona resmungou, notando que Mab olhava para ela de um modo estranho. — Estou com restos de mingau entre os dentes?

— Não. Mab sorriu, e balançou a cabeça. — Creio que o velho líder está começando a gostar de você, como nunca gostou de ninguém.

— Gostando de rnim? O homem nada faz além de olhar para mim, resmungar e me insultar. Isso é gostar?

— Ele conversa com você, Fiona, do mesmo modo como conversa com os rapazes. Fingal não conversa com as mu­lheres dessa maneira.

— Ele conversa com você do mesmo modo como con­versa comigo — retrucou Fiona, mas percebeu que Mab tinha razão. Fingal não conversava com as mulheres como fazia com os homens.

— Sim, ele fala comigo porque estou aqui há muito tempo e cuidei dele várias vezes quando foi ferido, embora com as outras mulheres ele fale de outro modo. Ele apenas fala o que elas devem fazer e as ignora, ou tenta seduzi-las para levâ-las para a cama. Acho que às vezes ele nem sabe o nome delas.

— Não tenho certeza de querer que você me convença de que Fingal é mais do que eu penso que ele é.

— Isso levará algum tempo. Até você se acostumar, mas eu começo a pensar que talvez ele tenha algum sentimento mais profundo. Não muito, mas Fingaí gosta dos filhos.

— Não acredito nisso. Vi como ele reagiu ao ver Simon ferido. Nem piscou ao pensamento de que o rapaz pudesse estar morto. E, ao saber que estava apenas ferido, tampouco quis saber a gravidade dos ferimentos.

— É claro que não. Você estava lá perto dos homens e ele não podia mostrar sentimentos perto dos rapazes. Mas ele visitou Simon todos os dias para contar-lhe velhas lendas ou ler para ele. Também visitou Ewan. Pensei a respeito e cheguei à conclusão de que ele sempre visita os rapazes quando eles se encontram feridos ou doentes. Descobri que visita os jovens e também os netos. Além disso, há o fato de que ele sustenta todas as crianças que gera. Duas de suas crianças morreram e ele visita suas covas regularmente.

Fiona ficou um pouco chocada. Esses fatos demonstra­vam que Fingal tinha alguma afeição pelas crianças que ele punha no mundo com tanta falta de responsabilidade. Por isso nenhum dos seus filhos deixava de gostar dele ou guar­dava algum ressentimento. Isso implicava também que, ape­sar de suas fraquezas e esquisitices, ele tinha desenvolvido algum tipo de afeição.

— Ele sabe o nome de todos os filhos? — Fiona perguntou.

— Todos os nomes e todas as idades. Mas não tem certeza dos nomes de cada mãe.

Isso era interessante, pensou Fiona, enquanto tomava um gole de sidra gelada. Sir Fingal poderia não ser muito bom pai, mas talvez não fosse tão mal como ela pensava. O fato de não se lembrar dos nomes das mães das crianças não era de se estranhar. O conceito que ele fazia das mulheres era muito baixo. Apesar disso, Fiona achou que deveria obser­vá-lo melhor e mais de perto. Um homem que recorda os nomes e idades de tantos filhos talvez não fosse tão ruim.

Quando ela e Mab terminaram a refeição, decidiram que o dia estava bom para trabalharem nos jardins. Fiona des­cobrira que o serviço de jardinagem era muito agradável. Tinha lidado com plantas anteriormente, mas eram as flores que mais a interessavam. Era um pouco estranho encontrar tanta variedade de flores em um lugar daqueles, povoado por homens grandes e morenos.

Eles tinham dado plena liberdade a Mab e ela criara um paraíso de beleza, pensou Fiona, enquanto trabalhava nos canteiros, enterrando as sementes.

Enquanto trabalhava, Fiona ficou pensando o que fazer com o marido. A paixão que eles partilhavam era quente e doce. Amavam-se todas as noites e freqüentemente, também de manhã. Seria fácil aproveitar simplesmente o que acon­tecia e deixar os problemas de lado. Fiona suspeitava que outras esposas agradeceriam de joelhos se recebessem do esposo o que Ewan lhe oferecia. Parecia egoísta desejar mais, mas ela desejava.

Fiona queria amor. Amava Ewan de todo o coração e queria ser amada também. Ingenuamente, pensara que, amando-o do jeito que ela o amava, ele simplesmente retri­buiria. Pensava também que tamanha paixão era um passo para o amor. Isso também era ingenuidade, pois era sabido que no homem paixão nada tinha a ver com amor. Levara duas semanas para perceber sua ingenuidade, mas agora ti­nha entendido.

O problema era ela não saber se havia alguma coisa que pudesse fazer. Ewan não era exatamente frio com ela du­rante o dia, mas parecia haver uma parede entre os dois, uma parede que ela não conseguia quebrar ou transpor. Ape­sar da paixão que partilhavam, quando Ewan deixava a cama ele se tornava o homem que tinha sido antes de se tornarem amantes. A única diferença era que ele não fugia mais dela, pelo menos não de maneira óbvia.

Ela parecia não fazer parte da vida dele durante o dia. Cada vez mais Fiona achava que era nada mais do que a mulher que esquentava a cama dele e que poderia lhe dar filhos legítimos, isso despertava em Fiona sentimentos maus. Sentia-se mais como uma amante do que como espo­sa. De algum modo tinha que mudar isso. pois sentia como se uma chaga tivesse sido aberta em seu coração.

A fome desvíou-a dos seus pensamentos e do jardim. Mab fora visitar uma mulher na vila que estava prestes a dar à luz. Sentindo-se estranhamente sozinha em uma casa cheia de pessoas, Fiona dirigiu-se até o quarto, parando para pedir que uma criada lhe preparasse o banho. Na realidade, sentia falta de Nathan a seguindo por toda parte. E isso, ela pensou, era uma triste indicação da realidade do seu casamento.

Quando o banho estava preparado, Fiona entrou na água quente e suspirou de prazer. Imersa nos pensamentos sobre o marido e sobre seu casamento, ela trabalhara mais do que o costume no jardim. Descansou a cabeça na borda da ba­nheira e deixou o calor da água cuidar das partes doloridas do seu corpo. Cerrando os olhos, desejou que o banho tam­bém lavasse as feridas do seu coração.

Ewan entrou no quarto e parou abruptamente, o olhar fixo em Fiona, que estava adormecida na banheira. Sem tirar os olhos dela, fechou a porta e trancou-a. Vinha do rio, onde tinha nadado rapidamente para tirar o suor e a poeira adqui­ridos no treinamento dos seus homens, e procurava por uma camisa limpa. Decidiu que a camisa poderia esperar e foi para o lado da banheira.

Céus, como ela era bonita, Ewan pensou, olhando para Fiona. Estavam casados há duas semanas e ele ainda ficava tremendamente excitado só de olhar para ela. Muitas vezes, durante o dia, tinha vontade de procurá-la, conversar com ela, se assegurar que ainda estava lá, mas sempre lutava contra esse desejo. Aquela não seria maneira de um homem agir. Não era digno. Se ele a caçasse para fazer amor com a frequência que queria, perderia seu autocontrole.

Tudo era muito novo, Ewan pensou ao ajoelhar-se ao lado da banheira. Nunca fora recebido com amor nos braços de uma mulher e nunca sentira tanto desejo por mulher nenhu­ma. Helena era bonita, mas tudo não passara de mentira, uma armadilha. Ele pegou a esponja e o sabonete e percebeu que nunca poderia duvidar da paixão de sua esposa.

Começou a banhá-la, começando pelos pequenos e lindos pés. E sorriu quando, ainda dormindo, ela franziu o cenho e resmungou alguma coisa. Terminara de lavar suas pemas e começara a lavar o braço esquerdo quando Fiona abriu os olhos. O rubor que coloriu seu rosto o fez sorrir.

— Ewan... — Fiona protestou. — Posso me lavar sozinha.

— Não. Estou gostando — ele declarou, ao passar a es­ponja nos seios dela. — Você não devia dormir no banho, Fiona. Pode se afogar. — Pondo a esponja de lado, ele en­saboou a mão para continuar a lavar seus seios.

— Acho que estão bem limpos, agora. — Fiona não es­tranhou ao perceber um ligeiro tremor na sua voz. O toque do seu marido a excitava demais. — Acho que você tem mais o que fazer além de me dar banho.

— Sim, eu tenho, mas seja gentil com seu marido e dei­xe-me terminar. Nunca assisti uma mulher se banhando.

Essa declaração silenciou os protestos de Fiona. A ideia de partilhar com Ewan uma coisa que ele nunca partilhara com outra mulher era irresistível. Banindo o constrangimen­to, o desejo correu solto. Então, Ewan passou a mão ensa­boada no meio das pemas dela e Fiona não teve mais con­dições de raciocinar. Entregou-se completamente ao prazer do toque do marido.

Fiona perscrutou o marido através dos olhos semicerra-dos. Ele tinha o mesmo olhar que Fiona via sempre: um olhar de desafio. Também parecia muito excitado, prova de que não podia ficar perto dela sem desejá-la. Isto era muito reconfortante e dava-lhe coragem para enfrentar qualquer problema. Lentamente, Fiona levantou-se e observou Ewan engolir em seco. Ela sorriu docemente e saiu da banheira.

Ewan logo a envolveu com uma toalha de banho. Por algum motivo, Ewan não estava agindo de acordo com o desejo que fazia seus olhos brilharem. Fiona não perguntou o porquê, suspeitando que não iria gostar da resposta ou que não a entenderia.

O instinto lhe sugeriu que ele estava guardando as ener­gias para a noite e talvez também para a manhã. Ele também poderia pensar que fazer amor com a esposa no meio da tarde poderia chocá-la. O interlúdío do banho fora excitante e satisfatório, mas não tanto quanto o que ela sentia nos fortes braços de Ewan e nem o êxtase que tomava conta dos dois.

Não fazendo nenhum esforço para esconder seu corpo, Fiona começou a enxugar-se. Enxugava-se e torcia para atrair Ewan. Se a respiração ofegante dele fosse sintoma de desejo, ela estava tendo sucesso, apesar de nada saber sobre a arte da sedução. Fiona estava admirada por expor-se, mas decidiu que quinze dias de paixão partilhada com Ewan a fizeram esquecer um pouco suas cicatrizes.

— Fiona — Ewan disse, tentando disfarçar a rouquidão da voz. — O que você está fazendo?

— Estou me enxugando, ela respondeu olhando para ele, satisfeita de que ele estivesse usando apenas culote. Era óbvio que viera para o quarto a fim de se trocar. — E pro­vocando você — ela acrescentou. — E parece que está fun­cionando.

—- Estamos no meio do dia.

Depois de olhar o brilho do sol através da pequena janela, Fíona sorriu para ele e desamarrou o cuíote.

— Como você é perspicaz, marido.

— Senhoras de respeito não fazem sexo no meio do dia. Como ele não fez nenhum movimento para impedi-la, apesar das palavras, Fiona tirou-lhe o culote.

— Nossa Gilly nunca me disse nada a respeito dessa regra.—Ela se ajoelhou na frente dele e terminou por tirar-lhe as botas.

Fiona aproximou a cabeça do membro do marido e bei­jou-lhe a cicatriz que quase o castrara.

— O que você está fazendo, Fiona? — Ewan perguntou, soltando um gemido.

— Nossa Gilly me ensinou várias coisas que podem ser feitas entre marido e mulher.

— Ela lhe contou essas coisas?

— Sim. Suas primas a ensinaram. Você não está gos­tando?

— É claro que estou gostando. Acho que mais do que você.

— Quero retribuir todo o prazer que você me propicia.

Apesar de todos seus esforços e de todos os anos de abs­tinência, Ewan sabia que não poderia gozar dessas delícias por muito tempo. Fiona sabia certas coisas teoricamente, mas não tinha nenhuma experiência. Desse modo, ele a ergueu pelos braços e a levou para a cama, e deitou-se sobre ela.

Com a mão tremula afastou-lhe as pernas e percebeu que a esposa estava pronta para ele. Penetrou-a, decidindo que ia se controlar o suficiente para lhe dar pleno prazer. Para seu alívio, Fiona não precisou de muito tempo. E, quando ele sentiu suas pernas ao redor do seu corpo, apressou os movimentos e ambos chegaram ao clímax ao mesmo tempo.

Fiona se agarrou a ele quando Ewan soltou o corpo exau­rido sobre ela. Todo o corpo de Fiona ainda tremia e ela se pôs a pensar como ele não percebia que haviam nascido um para o outro.

Na mentalidade dos homens, não havia relação entre pai­xão e amor, mas sem dúvida nenhuma, Ewan tinha que re­conhecer que os dois se encaixavam com perfeição. Talvez fosse necessário mais tempo, mas Fiona estava ficando im­paciente e temia que isso a fizesse agir de maneira que o afastasse em vez de aproximá-lo dela.

Ewan se ergueu, apoiando-se nos cotovelos e beijou-lhe a boca. Não tinha certeza do que devia fazer ou dizer. Olhou para Fiona, viu suas faces enrubescidas e se tranquilizou. Ela tampouco sabia se isso era certo ou não.

— Seu irmão sabia o tipo de coisa que sua esposa ensi­nava a você? — Ewan perguntou, suspirando aliviado ao vê-la sorrir para ele.

— Ela me ensinou muitas coisas, mas não sei se Connor tinha conhecimento. Pelo menos ele nunca demonstrou. Vo­cê não gosta que eu saiba de certas coisas?

— Se eu fizer objeções. você não fará mais nada e eu não sou tonto a esse ponto. — Ele beijou-a novamente e saiu da cama. — Talvez eu precise aprender certas lições. — Ewan sorriu enquanto se vestia. — Acho que eu tinha ideias erra­das sobre como uma senhora casada deve atuar na cama.

— Você não deve ter ideias mais estranhas do que as ideias que meu irmão tinha. Fiona saiu da cama e pegou o lençol para se cobrir, como se de repente tomasse cons­ciência de sua nudez. Toda a vida meu tio ensinou men­tiras a ele. Meu tio era um homem que urdiu a morte em toda a nossa família e que tentou até matar nossa Gilly. Vendo a curiosidade nos olhos do marido, Fiona continuou a contar a história enquanto se vestia. Falou da deslealdade e da perfídia do tio.

Ewan ficou tão chocado com o que acabara de ouvir, que em silêncio calçou as botas e foi abraçar a esposa. O pensa­mento do que o tio de Fiona havia feito, tentando matar toda a família e de como poderia ter obtido sucesso não fosse a coragem de Connor o apavorou. Ficara chocado só de pensar que poderia passar sua vida sem ter Fiona com ele. E ficou feliz por nunca ter dito a ela sobre sua desconfiança. Depois do que ela passara, suas dúvidas a ofenderiam.

— Agora ele está morto —- Ewan disse, para aplacar o medo que percebera na voz da mulher.

— Sim, assassinado por uma prostituta que dormia com meu irmão.

Fiona tentou não valorizar demais o forte abraço que ele lhe dava. Devia ser apenas para confortá-la pelas velhas me­mórias que haviam aflorado.

— Seu irmão manteve a prostituta por perto depois de casado?

O choque na expressão de Ewan agradou Fiona. Ela po­deria demorar a descobrir tudo sobre o homem com quem se casara, mas poderia contar com sua fidelidade.

— Sim e não. Ela ficou perto, mas nunca mais foi à cama dele. E foi enforcada depois que Gilly provou que fora ela, e não Connor, que matara nosso tio.

— Esse apoio da mulher é uma coisa boa — Ewan de­clarou, ao tornar-lhe a mão para conduzi-la para fora do quarto. — Era dever dela, mas é muito mais doce se dado espontaneamente.

Quando Ewan parou de falar e apertou-lhe a mão delica­damente, Fiona sentiu uma alegria muito grande. Seria difícil conduzir seu marido pelo caminho que ela queria. Infeliz­mente, não podia domar seu próprio coração e nem o desejo que sentia por ele. Seu objetivo de conquistar o coração de Ewan ia requerer muito mais planejamento e esforço.

 

Humm.

— Humm? — Fiona teve que sorrir ao ver Mab olhando para o musgo perto da árvore como se estivesse guardando um grande segredo. — Isto que acabei de ouvir significa desaprovação ou questionamento?

Mab pôs as mãos sobre os quadris arredondados e deu um falso sorriso de severidade a Fiona.

— É um "humm" que pergunta se eu quero este musgo que parece muito pisado e com muitas formigas.

— As formigas certamente me fariam hesitar.

— Você está de muito bom humor esta manhã — Mab disse, enquanto caminhava em direçâo de outro amontoado de musgo. — Presumo que ludo esteja índo muito bem entre você e seu marido. Ah, bom, aqui não há nenhuma formiga.

— Muito bem — Fiona respondeu, ao ajoelhar-se perto de Mab para pegar um pouco de musgo.

— Depois de três semanas tudo o que pode dizer é que está tudo bem? Era o que você queria, não era?

Fiona suspirou, sentindo que seu bom humor diminuía um pouquinho. A única diferença que houvera na última semana era que, depois da deliciosa interrupção do seu ba­nho, Ewan aparecera uma ou duas vezes para fazerem amor durante a tarde. Mas depois ela não o vira mais pelo resto do dia, como se nada tivesse acontecido. Conversavam du­rante alguns minutos enquanto se vestiam, mas apenas ela revelou alguns fatos, ele não.

— Era o que eu queria — Fiona respondeu. — Mas o problema é que não é tudo o que eu quero.

— Ah... — Mab meneou a cabeça. — Nenhuma palavra de amor, nenhuma confidência sussurrada. Vocês se encon­tram no quarto, fazem amor e nada mais. Presumo que isso esteja indo bem, não é?

— Oh, sim, muito bem. — Fiona manteve o olhar em direção do chão, procurando flores e escondendo o cons­trangimento. Mas o tom de voz de Mab a fez fazer algumas confissões. — Ele realmente me deseja. Sobre isso não tenho dúvidas. E me faz sentir uma mulher muito bonita.

-— Isso não é pouca coisa — Mab inspecionava cuidado­samente uma pequena planta. — Cedo demais para ser co­lhida. — Ela olhou para Fiona. — Muitas esposas ficariam satisfeitas com um marido desses, que logo depois dos votos as fazem sentir-se bonitas.

Fiona prestou atenção ao lugar onde as plantinhas cres­ciam para poder colhê-las quando estivessem prontas.

— Sei disso e me sinto egoísta e mal-agradecida quando me pego querendo mais. Mas isso não me impede de fazer alguma coisa a respeito. Amo Ewan e quero que ele também me ame... — Fiona franziu as sobrancelhas. — Embora haja dias em que me pergunto por quê. — Ela suspirou ao ver Mab sorrindo e fez o mesmo. — Quero ser mais para ele do que uma mulher que aquece sua cama e que possa lhe dar filhas.

Mab franziu o cenho e olhou fixamente para Fiona.

— Os MacFingal geram filhos.

— Pretendo quebrar essa tradição. Pelo menos uma vez.

— Entendo. Bem, seria muito bom ter uma menina, mas os MacFingal geram meninos. E você tem cinco irmãos. Bem, Fingal teve três filhas.

— É, e meus pais tiveram a mim. Nossa Gilly também deu a Connor uma menina e ela acha que o próximo também será uma garota. — Fiona sorriu quando viu a expressão admirada de Mab. — Gilly, às vezes, sabe coisas. Seu dom mais poderoso é saber como as pessoas se sentem, mas de vez em quando, é como se ela tivesse visões. E ela tem certeza de que seu próximo bebé será menina. Freqüentemente desejo que ela estivesse aqui para que pudesse co­nhecer Ewan. Ela poderia ser capaz de me dizer por que ele se mantém distante de mim.

— Ewan realmente guarda seus pensamentos e sentimen­tos para si próprio. É um homem quieto e retraído. Um bom líder. — Mab olhou em direçào do Leste. — Há uma pe­quena queimada naquela direção. Podemos encontrar algu­mas coisas úteis.

Fiona seguiu Mab em silêncio.

— Bem... bem, acho que Ewan perdeu muitas pessoas — continuou Mab.

Fiona levou um momento para perceber que Mab tinha miudado de assunto, trazendo Ewan e os problemas de Fiona à tona novamente.

— O que você quer dizer com "perdeu"?

— Perdeu a mãe e três outras mulheres do seu pai quando era jovem o suficiente para vê-las como mães. A última esposa de Fingal chegou quando ele já era adulto e endure­cido demais. Ele gostava das irmãs e elas se foram. E houve Helena. Ele abriu seu coração a ela e foi traído, o que o magoou profundamente.

— Não sou Helena e não tenho que sofrer pelos crimes dela.

— Não, não deveria, mas temo que vá sofrer. Pelo menos por algum tempo.

— Você acha que Ewan pensa que eu poderia traí-lo também?

— Não, não acho, mas talvez isso ainda o esteja pertur­bando. Não tenho certeza se ele acredita que você é mulher dele e que gosta de partilhar a cama com ele. Ewan nunca foi a primeira escolha de uma mulher, em Scarglas. E isso se tornou mais verdade quando ficou marcado pelas cica­trizes.

— Bem, não entendo. Ele é forte, tem corpo bonito e a cicatriz não prejudicou seus traços. São apenas marcas na pele. — Fiona percebeu que se ofendera por Ewan e quase sorriu. Estava satisfeita por ele ter conhecido várias mulhe­res, mas nenhuma que tivesse tido importância para ele. — Talvez seja porque ele não saiba dizer galanteios.

— E você gostaria que ele dissesse?

- Não, não me importo com isso. Suas palavras podem não ser doces como as que Gregor diz, mas Ewan fala coisas que me agradam. Por isso gostaria de fazer parte da vida dele. saber dos seus pensamentos, dos seus sentimentos. Ele partilha seu corpo e sua paixão comigo e nada mais. Quero que ele me ame como eu o amo, mas se ele mantiver dis­tância entre nós eu não conseguirei penetrar no seu coração. Não conseguirei.

— Dê-lhe tempo, Fiona. Ewan teve trinta e nove anos para construir o muro ao redor do seu coração, para ser o homem que é agora. Você não pode esperar que ele mude em um mês. Apenas pense que você é a primeira mulher a a quem ele não pôde resistir e a primeira que ele levou para sua cama. Nem mesmo Helena conseguiu isso. Ela teve que seduzi-io e levou tempo para conseguir.

Essa observação fez Fiona alegrar-se imensamente. Es­tava quase para agradecer a Mab quando pararam em uma pequena clareira. Um tapete de violetas se espalhava à frente delas e a beleza da visão tirou Ewan da mente de Fiona por um momento.

— Poderíamos fazer sabonetes deliciosos — murmurou Fiona.

— E perfumes — acrescentou Mab.

— Nossa cesta é pequena e precisaríamos de ajuda — Fiona percebeu que Mab não prestava mais atenção na con­versa e que ficara muito tensa. — Mab, o que houve?

— Vem vindo alguém — ela sussurrou.

Embora dissesse a si mesma que não havia motivo para preocupação, Fiona ficou um pouco alarmada. Não ouvira nada e, se alguém estivesse se aproximando, poderia ser um dos MacFingal. Quando se virou para olhar na direçào que Mab olhava, viu sete cavaleiros rodeando as sombras das árvores. Logo em seguida viu o homem que vinha um pouco à frente dos outros, e seu sangue gelou.

— Saudações, meu amor — disse o homem, um sorriso frio nos lábios sensuais.

— Menzie — Fiona murmurou, empalidecendo de medo. — Mab, quando eu der o aviso, corra para a direita — ela disse à amiga, sem tirar os olhos do belo e perverso Ranald Menzie. — Corra, agora.

Mab correu para a direita imediatamente. Com o coração na boca, Fiona também correu o mais rápido que pôde. Quando ouviu os Menzie gritarem iniciando a perseguição, Fiona tentou atingir a sombra das árvores. No meio da mata os homens a cavalo estariam em desvantagem. Entretanto, um dos cavaleiros bloqueou sua passagem.

Praguejando, Fiona tentou esquivar-se do homem que a perseguia e não deu ouvido a uma voz interior que lhe dizia que aquela era uma batalha perdida. De repente, viu uma abertura na mata e correu para lá. Os homens praguejaram, demonstrando que havia uma possibilidade de ela conseguir escapar.

— Fiona! É melhor que pare. Agora! — Menzie gritou. Alguma coisa na voz do homem fez Fiona parar e ela virou-se para olhar seu perseguidor. Seu coração quase pa­rou ao ver Mab na sela de Menzie.

— Solte-a, Menzie — Fiona disse —, ela não será útil para você.

— Não? — Menzie agarrou Mab pelos cabelos, e pôs um punhal do lado do pescoço dela. — Acho que a vagabunda servirá para alguma coisa.

— Ferir Mab trará os MacFingal atrás de vocês. Ela é muito importante para eles.

— Por isso eles deixaram você sair apenas com ela, sem uma escolta? E desarmada, como posso observar. Ameaçar-me com pessoas como os MacFingal, homens loucos e mu­lheres assassinas, não vai funcionar. Você acha que eles usa­rão essa bruxa para me atemorizar? — Menzie riu e seus homens o imitaram.

Fíona percebeu que não havia meio de escapar. Mab olha­va para ela e fazia pequenos movimentos com a cabeça in­citando-a a fugir. Mab era insana se pensava que ela a dei­xaria nas mãos daquele louco. Tão insana quanto MacFin­gal. Fiona sabia que ele poderia matar Mab apenas para magoá-la.

— Solte-a, Menzie — Fiona gritou novamente, num tom de voz gelado e determinado, tentando esconder o medo que sentia daquele homem.

— Só se você concordar em vir comigo.

— Eu concordo — Fiona respondeu, ignorando os pro­testos de Mab.

Então, para horror de Fiona, Menzie rasgou o pescoço de Mab com a faca e a atirou no chão. Fiona gritou e puxou um punhal da manga, mas um dos homens a agarrou antes que ela pudesse enterrá-lo no peito de Menzie. Fiona tentou, mas não conseguiu se soltar e quando se virou para olhar para o homem, viu-o fechar o punho e arremetê-lo no seu queixo. Sentiu uma dor lancinante e foi engolida pela escuridão.

Consciente, Fiona ouviu alguém rir suavemente. Sua ca­beça e seu queixo doíam. A dor nos braços a deixara um pouco confusa, mas logo em seguida ela se lembrou de Men­zie e de tudo que havia acontecido. Seu estômago doeu e ela lembrou-se do corpo de Mab no chão, o vestido ensopado de sangue. Alguém a cutucou e ela sentiu-se balançar. Men­zie a amarrara novamente pelos pulsos e a prendera a uma árvore. O contato do tecido nas suas coxas a fez deduzir que, pelo menos dessa vez, Menzie a deixara parcialmente vestida. Devagar, abriu os olhos e viu Menzie olhando para ela. Ele parecia estar se divertindo.

Todo o medo que ela sentia dele foi substituído por ódio, um ódio feroz, um ódio mortal.

— Você pagará por ter matado Mab, seu bastardo. Farei com que pague. Sangue por sangue.

— Com o quê? — Menzie apontou para o punhal que jazia a um canto.

— Se for preciso, com meus dentes — ela respondeu, em um tom de voz gélido. — Não havia necessidade de matar Mab, ela não oferecia perigo.

— Ela tentou ajudar você a fugir de mim. Isso foi muito grave — ele declarou, limpando com as mãos a poeira sobre sua elegante jaqueta. — Você é minha e qualquer pessoa que tentar afastá-la de mim deve morrer.

Menzie falava como se a vida de Mab tivesse menos im­portância do que a poeira que ele tirava da roupa. Isso era mais atemorizador do que as coisas que Menzie fizera a ela, pensou Fiona. Um pensamento desse tipo poderia ser aceitável em um campo de batalha, mas não em relação a uma pessoa que nada fizera a ele.

O simples pensamento daquele homem tocando seu corpo secou-lhe a boca, principalmente agora que sabia o gosto dos abraços de Ewan. Não podia nem considerar a possibi­lidade de Menzie dessa vez conseguir estuprá-la. E, ainda mais aterrorizante era pensar no que Ewan iria sentir. Dessa vez, Menzie tinha muita coisa para destruir e Fiona teve vontade de chorar. Mas recusou-se a mostrar fraqueza diante daquele homem cruel.

Fiona sabia devido a confrontos passados que Menzie adorava falar sobre si mesmo, sobre suas habilidades, sua esperteza e sua ousadia. Embora não soubesse como isso poderia fornecer alguma ajuda, decidiu fazê-lo falar. Ganha­ria algum tempo. Talvez servisse apenas para adiar o toque das suas mãos grosseiras, mas poderia, quem sabe, operar um milagre. Alguém de Scarglas talvez percebesse a demora dela e de Mab e sairia para procurá-las. Um dos homens das torres poderia ter visto alguma coisa apesar da distância em que se encontravam. Era uma pequena esperança, mas Fiona se agarrou a ela a fim de encontrar forças.

— Como me encontrou? — Fiona perguntou.

— Não foi fácil — Menzie respondeu, olhando-a irrita­do. — Ouvi dizer que você tinha desaparecido, que estava perdida.

Haveria algum espião em Deilcladach?, Fiona pensou. Os Menzie eram bonitos demais, com seus cabelos claros e olhos azuis. Podiam facilmente seduzir alguma mulher e obter informações sobre os segredos dos MacEnroy.

Poderia ser que a notícia do seu desaparecimento tivesse sido divulgada, mas ela duvidava disso. Desde que o pro­blema com Menzie começara, Connor mantivera seus as­suntos em Deilcladach em segredo. Fiona podia ver pelo olhar de Menzie que ele queria que ela perguntasse como descobrira seu desaparecimento. Dominou a teimosia que lhe impedia de dar esse pequeno prazer na tentativa de ga­nhar algum tempo precioso.

— Você encontrou algum tolo que lhe contou o que acon­tece em Deilcladach, não foi?

— Encontrei uma boa moça. Doce, amorosa, e ansiosa para me agradar com seu conhecimento de tudo que acon­tece no dia-a-dia de Deilcladach.

— Verdade? — Fiona sentiu pena dessa mulher, que des­conhecia com quem estava se aliando.

— Bem, eu não pude deixar viva uma pessoa que sabia quem eu era. Eu lhe disse que era perigoso saber demais e que segredos eram muito importantes. — Ele deu de ombros. — Eu não ia querer que seus irmãos soubessem que eu es­tava tão perto.

— E você não pensou que o assassinato de alguém pu­desse levantar suspeitas?

— Não. Eu não ia ser tolo de deixar o corpo à vista. Ela está no fundo de um rio, amarrada a um saco de pedras. Desse modo, não pense que seu irmão vai saber do meu rastro. Ele não conseguirá resgatar você dessa vez.

— Você ainda não respondeu como me encontrou.

— Várias pessoas recordaram ter visto seu cavalo. Então, encontrei um grupo de pessoas, os Gray, e eles me disseram que o líder de Scarglas tinha uma mulher ao lado dele há cerca de um mês. Essa mulher, que matou um dos homens dos Gray, tinha cabelos dourados e se vestia como um rapaz, e usava uma espada com a habilidade de um homem. Foi fácil saber de quem se tratava.

— Foi fácil, não é? Estou aqui há um mês, como você disse — Fiona olhou para ele com ódio.

— Sim, está — Ranald Menzie a cutucou com a ponta da espada. —- E os Gray me disseram coisas que me deixaram furioso.

— E por que acha que eles disseram tudo isso? Eles são inimigos dos MacFingal.

Fiona percebeu que ele se pôs a analisar o que ela acabara de dizer e usava as breves distrações dele para tentar afrou­xar a corda que lhe amarrava os pulsos. Depois da primeira vez que Menzie amarrara Fiona pelos pulsos, Connor e ela treinaram algumas maneiras de se livrar da corda, ou pelo menos de opor certa resistência.

— Não — Menzie disse, depois de algum tempo. — Não havia dissimulação atrás das palavras deles. Na verdade, os Gray ficaram curiosos quando souberam quem era a mulher que eu procurava. Mas o interesse deles não importa. O que importa é o que eles me disseram sobre você e o líder de Scarglas.

— Como não há nada a dizer sobre mim e o líder de Scarglas, não posso adivinhar o que eles lhe disseram.

Menzie suspirou e meneou a cabeça antes de olhar para Fiona com uma expressão de condescendente recriminação e ela teve vontade de chutar-lhe o rosto.

Fora um olhar desse tipo que a fizera recusar sua proposta de casamento. No início ficara surpresa e cega como outras mulheres diante do olhar angelical de Menzie, mas de re­pente percebera que era um olhar que dizia que essas tolas mulheres necessitavam de um homem que as guiasse, que tivesse pena das suas faltas, mas que deveriam ser perdoadas e cuidadas.

Fiona muitas vezes pensara se o fato de ela, uma simples mulher, o ter rejeitado o fizera teimar em querê-la. O homem era louco e sua recusa fizera com que seus defeitos se tor­nassem evidentes.

— Você está presa há mais de um mês — Menzie disse, em um tom de voz que demonstrava que ele tentava explicar um simples fato a uma pessoa que tinha a inteligência de uma pulga. — Apesar de todos os meus esforços, você ainda é uma mulher suficientemente adorável para atrair um ho­mem. — Ele franziu o cenho e olhou para seus homens, que eram espertos o suficiente para não demonstrar interesse por ela. — Também ouvi dizer que o líder de Scarglas é moreno e cheio de cicatrizes.

Fiona engoliu o desejo de defender Ewan. A expressão de Menzie demonstrava que ele preparara uma armadilha para ela. Seu instinto lhe avisou que poderia sofrer mais se ele soubesse que ela gostava de Ewan. Pior, Menzie iria querer que Ewan também sofresse. A última coisa que Ewan precisava era de mais um inimigo caçando-o e Menzie pa­recia ter o desejo e a habilidade que faltava aos Gray, apesar de sua loucura.

Olhou para ele com indiferença, como se meramente esj perasse que ele continuasse a falar.

— Aquelas mãos grossas nunca deveriam tocar você, Menzie afirmou, depois de observá-la durante um minuto! — Seria um crime, um pecado, e eu teria que puni-lo. Uma pergunta me vem à mente: quem merecia mais ser punido?! Ele ou você? Você deixou o homem tocá-la, Fiona? Voca lhe entregou sua inocência, marcou os lençóis com a pureza que negou a mim? Deixou que ele a transformasse em sua prostituta? Os Gray dizem que sim.

— Os Gray também dizem que têm direito a Scarglas, mesmo sabendo que o líder anterior era primo de Fingal, Fiona declarou. — Eu não daria ouvidos a um clã que acre dita que a reivindicação deles vale mais do que a força do sangue de família.

Fiona ficou tensa quando Menzie deu a volta ao redor dela, tocando-a como se tivesse esse direito. Mesmo saben­do ser impossível, ela começou a temer que pudesse ter al­guma marca que possibilitasse a Menzie descobrir que ela não era mais virgem. Silenciosamente, fitou-o diretamente nos olhos quando ele parou e ficou frente a frente a ela novamente. Havia um brilho no olhar daquele homem que dizia que nada que ela pudesse dizer ou fazer o convenceria de que os Gray tivessem mentido. Aquele homem louco se convencera da perda da sua inocência antes mesmo de vir atrás dela.

Um calafrio percorreu a espinha de Fiona quando ele pôs a ponta da espada no laço que fechava a roupa dela. Não havia mais tempo e nem mais conversa. Fiona estava sur­presa por ter conseguido distraí-lo por tanto tempo.

— Você entende que para cada marca que você fez na minha pele, meu irmão o fará pagar dez vezes mais? Ele conta cada ferimento, cada dor, como um débito que deverá ser pago em sangue e agonia. Cada vez que você me captura e me atormenta, acrescenta outra semana na duração do tem­po que ele fará você sofrer.

Apesar de Menzie parecer indiferente, seus homens es­boçaram alguma reação de insegurança.

— Connor tem estudado várias maneiras de fazer com que você sofra muito.

— Seu irmão não me pegou nenhuma vez. Não acho que ele seja grande ameaça.

— Não? Você acha que ele desistirá, mesmo que leve tempo? Talvez você devesse pensar no tipo de homem que meu irmão é, talvez deva lembrar-se que ele se tornou um líder aos quinze anos de idade e em tudo pelo que passou. Esperar alguns anos para pegá-lo não vai esmorecê-lo. Você nunca será capaz de correr para longe o suficiente, nunca será capaz de olhar sobre seus ombros para ver se ele está perto. Um dia Connor estará lá e você começará a sofrer longamente. Então... — ela acrescentou num sussurro — você começará a gritar.

O modo como Menzie olhou para Fiona a fez pensar que, talvez dessa vez, ele finalmente tivera medo. Então ele riu e Fiona sentiu sua coragem diminuir. Ganhara tempo para nada. Ameaças não fariam Menzie hesitar e ter medo. Ela cerrou os dentes para não gritar quando ele cortou o laço que prendia sua roupa. Ele nem estava suficientemente perto para que ela pudesse chutá-lo.

Fiona rezou para ter coragem de suportar o que Menzie pretendia fazer. Rezou por algum milagre e pela mão do des­tino para salvá-la. Também rezou para que, tendo sido res­gatada das mãos desse homem por quatro vezes, não esmo­recesse diante da dificuldade de isso acontecer novamente.

 

Onde está sua esposa?

Ewan embainhou sua espada, dispensou os ho­mens que estivera treinando e olhou para o pai.

— Não tenho certeza. Acho que com Mab, no herbário. Ou visitando algum doente. Por que espera que eu saiba onde ela está?

— Porque é sua esposa. — Fingal franziu o cenho para o filho mais velho. — Você a perdeu, então?

— Não. Não a perdi. Apenas não sei onde ela está. Eu não a mantenho amarrada a mim, certo? Para que o senhor a quer? Dessa vez foi ele que franziu o cenho ao observar o pai. O que o senhor tem? Está aflito?

— É claro que não estou aflito! Pareço estar?

— Então o que quer com ela?

— Está na hora do almoço.

— Hora do quê?

— Da refeição, você sabe.

— É claro — Ewan suspirou profundamente e tentou permanecer calmo e paciente. — E Fiona tem alguma coisa a ver com esse almoço, não tem?

— Sim, partilhamos uma refeição e temos uma pequena discussão. Bem... fui para a sala, sentei-me e ela não entrou na sala. Ela sempre entra. E, antes que pergunte, sua mulher não está no herbário e nem no jardim. Por que razão não pode ser encontrada?

Ewan olhou ao redor e depois encarou o pai novamente. Era estranho e um pouco desconcertante. Achava que seu pai não gostasse de Fiona e não quisesse nada com ela devido a sua ligação com os Cameron, mas era óbvio que eles partilha­vam as refeições. Era uma coisa que deveria ter observado. Mais estranho ainda era que seu pai sentia falta da nora, embora Ewan suspeitasse de que Fingal nunca admitiria is­so, mesmo sob tortura. Nas semanas em que Fiona estava em Scarglas, ela tinha encontrado o caminho para ganhar a afeição do seu pai.

Ewan sabia que seu pai tinha algumas afeições, mas nun­ca haviam sido endereçadas a uma mulher. Pelo menos não que ele soubesse. Se o cenho franzido de sir Fingal fosse uma indicação, o homem devia estar achando que Ewan era um pouco lento por não saber onde a mulher estava.

Então, abruptamente, a importância disso atingiu a mente de Ewan. Seu pai olhara em todos os lugares onde Fiona costumava estar e não a vira. Começou a ficar alarmado.

— O senhor olhou no solário?

-— Já lhe disse. Ela não está na casa. Posso estar velho, mas ainda enxergo. Também mandei as empregadas a procurarem, mas foi em vão. Falei com Ned e ele disse que tampouco viu Mab, desde que saíram juntas.

— Talvez Fiona e Mab tenham ido à vila.

Ewan ficou ainda mais preocupado quando seu pai me­neou a cabeça, negando.

— Um homem acabou de vir da vila à procura das duas. O filho está doente e ele quer que elas o vejam.

Antes que Ewan pudesse responder, um grito atravessou as paredes, seguido de outros, dos homens que guardavam os portões. Ewan correu, com o pai atrás dele. Mab estava diante deles caindo aos seus pés. Ewan vacilou até Fingal apertar fortemente seu braço.

Ewan levou alguns segundos para recuperar a calma. Era difícil, vendo a situação em que Mab se encontrava. Tudo que pôde pensar era que as duas haviam saído juntas e que Mab voltara a Scarglas ensanguentada e sozinha. Ele olhou o ferimento de Mab e sentiu um grande alívio ao perceber que era superficial. Mais tarde cuidariam dela, mas agora tinha que lhe fazer algumas perguntas. Esperou com impa­ciência que Mab recuperasse as forças para poder falar.

— Mab, onde está Fiona?

Menzie — Mab respondeu, meneando a cabeça ao ver Ewan empalidecer. — Estávamos procurando plantas me­dicinais e ele nos encontrou.

— Você e Fiona saíram do nosso território sem escolta?

— Calma, filho. — Sir Fingal ergueu Mab nos braços, ignorando seus protestos. — A mulher precisa de cuidados.

— Mamãe! — Ned gritou, tentando alcançar a mãe.

— Calma, garoto, sua mãe vai ficar bem.

— Sim, Ned. Você se lembra quando eu disse que alguém precisaria aprender a curar? — Diante da afirmação do ga­roto, Mab continuou: — Vai procurar o que eu preciso e traga para mim.

— Levem-na para a sala — sir Fingal ordenou, no momento em que o menino se afastou. Em seguida murmurou para Mab: — Esse garoto tem cabelos claros. Tem certeza de que é meu?

— É claro que é seu, velho tolo — Mab gemeu. — Aquele bastardo me jogou no chão depois de apunhalar-me.

— Pare de se lamuriar, mulher. Poderá dizer tudo para Ewan.

— Papai — Ewan protestou, andando atrás do pai. — Fiona está nas mãos do inimigo dela.

— Sim, e nós a resgataremos logo. Ela já esteve nas mãos daquele homem antes e conseguiu escapar. Assim que cui­darmos de Mab, iremos atrás de sua esposa e mataremos o bastardo. Mas antes precisamos de respostas, não é?

Ewan sabia que seu pai estava certo, mas não conseguia esperar. Caminhava pela sala enquanto Bonnie cuidava de Mab e Fingal olhava para os cabelos dourados de Ned, res­mungando.

— Venha aquí e faça algumas perguntas, filho—chamou sir Fingal.

— Oh, Ewan, murmurou Mab. — Estávamos olhando as violetas, pensando no que poderíamos fazer com elas e de repente ele apareceu. Fiona o chamou de Menzie.

— É o homem que a persegue, o que fez aquelas cicatrizes — declarou Ewan. — E o que aconteceu?

Tocando os cabelos do filho como se precisasse disso para manter-se calma, Mab contou a Ewan tudo que pôde se lembrar.

— Pobre Fiona. Ela deve pensar que eu estou morta, que se deu aos seus inimigos por nada.

— Logo ela saberá a verdade. Você viu para que direção eles foram?

— Não. Fiquei inconsciente por algum tempo. Mas é fácil ver onde estávamos, onde há marcas dos cavalos deles. — E Mab disse a Ewan onde tinham descoberto as violetas. — O solo é bem fofo e será fácil perceber as marcas e segui-los.

— Então temos que fazer isso logo — disse sir Fingal, já se dirigindo para a porta da sala. — Ajude sua mãe a ir para a cama, Ned — ele ordenou ao garoto.

Ewan pegou dez homens dos doze que se ofereceram para ir com ele. Apesar de estar surpreso com a companhia do pai, percebeu que essa atitude o deixou contente. Naquele momento, o velho líder estava calmo e controlado, mas Ewan não sabia até que ponto isso continuaria quando en­contrasse o inimigo de Fiona.

Enquanto liderava os homens ao lugar que Mab descre­vera, Ewan tentou banir o medo que lhe corroía as entranhas. Disse várias vezes a si mesmo que Menzie não queria Fiona morta. Ele a queria por esposa. E rezou para que Fiona man­tivesse o casamento deles em segredo, pois era impossível saber como um louco como Menzie reagiria. Então lembrou-se de que Fiona era uma mulher esperta, já provara isso em várias ocasiões, e sentiu-se um pouco mais calmo.

Foi fácil seguir Menzie e seus homens. E Ewan gostaria de saber o motivo. O homem era simplesmente descuidado ou achava que ninguém iria resgatar Fiona? Ou, pior ainda, seria uma armadilha? Por tudo que ouvira Fiona contar sobre seu irmão Connor, Ewan sabia que ele falhara em agarrar: Menzie durante doís anos. Isso poderia significar que o ho­mem era esperto demais para se deixar pegar. Essa consta­tação fez com que Ewan parasse para contar aos seus homens sobre suas preocupações.

— Vou seguir em frente e ver o que posso encontrar -disse Gregor, afastando-se, com a aquiescência de Ewan.

— Você realmente acha que esse Menzie é esperto o suficiente para esconder sua trilha? — Fingal perguntou.

— Sim — respondeu Ewan. — Essa trilha é boa e clara como um mapa. Ou é uma armadilha ou o homem tem con­fiança demais no sucesso dessa empreitada. Talvez sua lou­cura tenha crescido tanto que ele não esteja raciocinando direito — Ewan meneou a cabeça e passou a mão pelos cabelos. — É difícil saber como agir, quando o oponente é um louco.

Sir Fingal coçou o queixo.

— O homem quer sua mulher. Passou dois anos perseguindo-a e deixando-lhe cicatrizes. Sim, é completamente louco. Mas talvez esteja muito orgulhoso por ter encontrado Fiona quando ninguém mais sabia onde ela se encontrava. E talvez não tenha percebido que não matou Mab.

— Pode ser. Você tem certeza de que ele queria matar Mab?

— Sim. Ele a feriu e a jogou no chão, sem nenhuma preocupação com o ferimento dela. Tinha tanta certeza de que cortara a garganta dela que nem se dignou a olhar para trás. O fato de nossa Mab sangrar bastante a salvou. Menzie cortou-a, viu o sangue fluir e a jogou longe. — Sír Fingal olhava a trilha com atenção. — Para que um homem escon­deria sua trilha se acredita que ninguém sabe nada a respeito? Ewan achou as palavras do pai faziam sentido e tentou esconder a surpresa. Seu pai estava velho, arrumara mais problemas do que soluções e transara com quase todas as mulheres que quisera, mas não era burro. Também tinha habilidade para lutar e sabia estratégias de lutas. Sabia que podia confiar no pai, mas ficou tenso ao ver Gregor voltando na direção deles.

— Os homens estão logo abaixo daquela fileira de árvores — Gregor informou. — Há uma pequena clareira e eles armaram um acampamento. Menzie deve estar com no má­ximo seis homens e estão todos dentro do acampamento.

— E Fiona? — Ewan sentiu o coração disparar ao ver Gregor passar a rédea de uma mão para a outra.

— Está viva. Está usando apenas seu camisolão, os pu­nhos estão amarrados e ela está de pé presa ao tronco de uma árvore — Gregor esclareceu, observando o irmão.

— Então é melhor que os ataquemos. Devemos planejar uma emboscada, não uma batalha — declarou sir Fingal.

Ewan concordou. Um ataque direto poria Fiona em perigo, especialmente por estar incapacitada de reagir. Era preciso cautela, a mesma cautela que usavam quando privavam os outros de seu gado e de seus cavalos. Quando Fiona estivesse a salvo, porém, Ewan tinha a intenção de matar Menzie.

Olhando para Simon, Ewan estava agora satisfeito por ter permitido que o jovem os acompanhasse, apesar de sua inex­periência. Simon devia a vida a Fiona e queria desesperadamente pagar seu débito, de algum modo. Agora teria essa: chance, pois Simon era perito em andar pelas matas em si­lêncio e rapidamente. Olhando o jovem, Ewan concluiu que Simon era forte o suficiente para soltar Fiona, e lhe deu instruções.

Levaram mais alguns minutos para fazer os planos antes de cavalgarem em direção das árvores. Quando Ewan disse que precisariam distrair os homens, Gregor assegurou-lhe que eles já tinham bastante distração. E Ewan sabia do que se tratava. Qualquer homem com sangue nas veias seria in­capaz de não se distrair com Fiona apenas vestida com seu leve camisolão.

Deixaram os cavalos, Ewan deu a Simon alguns momen­tos para tomar posição e fez sinal para os outros homens os seguirem. Com seu pai ao lado, Ewan entrou no acampa­mento. No momento em que seus homens silenciaram os homens de Menzie, Ewan e seu pai foram atrás de Menzie, e ele não ficou surpreso quando seu pai apertou seu braço, assim que o campo ficou à vista. A visão de Fiona amarrada à árvore, com Menzie apontando sua espada contra ela, fez com que Ewan percebesse que tinha de agir com rapidez.

— Sua esposa tem uma maneira inteligente de ameaçar Menzie — sussurrou sir Fingal, ao ouvir Fiona falar do irmão.

Ewan ficou um pouco magoado por Fiona não ter amea­çado Menzie usando seu nome, mas logo em seguida per­cebeu que estava sendo tolo. Fiona sabia que seria perigoso Menzie saber que ela não era mais virgem. Ele sabia que o irmão de Fiona o caçava, portanto era dele que Fiona tinha que falar.

Um sorriso curvou os lábios de Ewan ao ver seus homens silenciarem os homens de Menzie. O fato de que cada ho­mem de Menzie precisasse apenas de uma faca apontada para a garganta a fim de permanecerem quietos fez com que Ewan percebesse que a lealdade deles com Menzie não de­via ser muito forte. No momento em que os homens de Men­zie foram desarmados, Ewan fez um sinal ao pai e começou a caminhar em direcão a Menzie, que estava de costas fa­lando com Fiona.

— Não tenho medo do seu irmão — ele dizia.

— Então você é um tolo — Fiona respondeu. — E não é apenas de Connor que você deveria ter medo, mas de todos os MacEnroy e seus aliados, e todos os parentes de Gillyanne. Você é um homem morto, Menzie. Nunca direi sim a você. Direi não até que você morra e espero que seja logo.

— Você é minha!

— Não, seu tolo, ela é minha — interveio Ewan. Fiona não podia acreditar no que estava vendo. Parecia impossível que Ewan estivesse perto de Menzie e que seus homens haviam sido rendidos. Fiona não vira e nem ouvira nada. E obviamente nem Menzie e seus homens. Então ela sentiu mãos poderosas e fortes agarrarem seus punhos. Olhou e viu Simon sorrindo para ela enquanto a desamarrava.

— Sua esposa é ágil — disse Fingal ao ver Fiona seguir Simon para longe da árvore.

— Esposa? —- Menzie olhou para Ewan, arregalando os olhos ao perceber que enfrentava os homens sozinho.

—- Sim, minha esposa — respondeu Evvan. — E um ho­mem fica muito irritado quando um desclassificado rapta sua mulher.

— Não! Fiona não é sua. Ela é minha! Eu a conheci pri­meiro.

— Ela não se importa com você.

— Vou ajudar sua mulher a se vestir — afirmou sir Fíngal. — Pare de falar e mate logo esse desgraçado.

Ewan apenas meneou a cabeça, uma vez que era isso o que ele pretendia fazer, fora o que prometera a Fiona. Pôs de lado o forte desejo de fazer esse homem sofrer pelo que havia feito a Fiona. Gostaria de atormentá-lo com pequenos cortes por todo o corpo durante alguns momentos. Isso era o que aquele homem merecia. Mas era melhor terminar logo com isso e levar Fiona de volta a Scarglas.

O súbito choque de espadas fez Fiona gritar. Ela vjrou-se para ver o que estava acontecendo, mas sir Fingai a agarrou pelos ombros e a fez olhar na direção da mata. Uma parte dela quis retrucar, mas decidiu nada dizer. Se visse Ewan lutar com Menzíe, poderia fazer alguma tolice, gritar e dis­traí-lo. Embora tivesse sido instruída de que um homem não podia se distrair em uma luta, Fiona poderia não aguentar se visse o homem que amava lutando com Menzie, uma luta que poderia acabar com a morte de um dos dois. Disse fir­memente a si própria que seria Menzie quem morreria e decidiu ficar pronta para ir embora quando Ewan terminasse a luta.

Fiona resmungou ao tentar amarrar a roupa. Suas mãos tremiam. Seus braços doíam pelo fato de ter ficado amarrada durante muito tempo, mas um pouco era devido à emoção de estar sendo resgatada por Ewan e pelo medo e pela raiva que sentia de Menzie.

— Pronto, moça — resmungou sir Fingal ao ajudá-la a amarrar o laço da roupa. — Não entendo porque é desajei­tada quando sabe subir em uma árvore com tanta rapidez quanto Simon e manejar facas com tanta habilidade.

— Estou apenas um pouco chocada com o que aconteceu aqui. Como souberam onde estávamos?

— Mab chegou a Scarglas toda ensanguentada, e nos contou.

— Mab está viva? — Fiona sentiu as lágrimas que havia conseguido conter até aquele momento descerem livremente pelas suas faces.

— Ora, não comece a chorar. Sim, Mab está viva. Aquele louco não a cortou com profundidade. Não sei se ela preci­sará de alguns pontos, mas você verá isso ao chegarmos a Scarglas. — Fingal olhou para a nora. — Ele lhe fez nova cicatriz? Parece que eu vi um ferimento em você. Ficará parecendo com seu marido se não tomar mais cuidado.

— Não, dessa vez ele não me feriu. Apenas pressionou minha pele uma vez com a ponta da espada.

Fiona percebeu que sir Fingal estava sendo muito amável com ela. O fato de ter vindo auxiliar os filhos no resgate já era um fato surpreendente. O homem era cheio de contra­dições e Fiona duvidava de que pudesse entendê-lo algum dia. Mesmo agora, ele resmungava, mas cuidava dela com gentileza surpreendente,

— Você se move como as névoas — ela comentou. Eu não tinha ouvido nada e nem visto nada até que chegou perto de mim.

— Sim, somos bons. Podemos roubar um pedaço de car­neiro da mesa de alguém sem sermos vistos. Ninguém tem a nossa habilidade.

Fíona estava para lhe dizer que habilidade em roubar não era propriamente uma coisa da qual devia orgulhar-se, mas um grito cortou o espaço. Por um breve momento, a dúvida sobre a habilidade de seu marido fez Fiona temer que Menzie acabara de matar Ewan. Então a realidade superou a emoção. Ela vira Ewan lutar e sabia que Menzie não tinha chance de vencê-lo. Embora sir Fingai não tivesse permitido que ela assistisse à luta, mantendo-a segura pelo braço, Fio­na não resistiu e olhou. Olhou e viu Menzie esparramado no chão e Ewan sem nenhum ferimento. Era tudo que ela queria naquele momento.

Ewan limpou a espada na roupa do seu antagonista e estudou o homem que acabara de matar. Sir Ranald Menzie era o tipo de homem que chamava a atenção das mulheres. Ewan gostaria de saber por que Fiona não tinha capitulado a ele, pois a loucura de Menzie não era perceptível nos contatos sociais.

Percebendo o tipo de homem que cortejara Fiona no passado, Ewan simplesmente não podia entender o que ela es­tava fazendo na sua cama. Meneou a cabeça e virou-se para encarar os homens de Menzie.

— Terei que pensar na possibilidade de vocês perturba­rem a mim e a meus homens novamente? — Ewan pergun­tou. Todos negaram. — Alguém de vocês é um Menzie? -

Dois menearam a cabeça. — Ótimo. Digam ao seu clã exatamente o que aconteceu. Eu não gostaria que os parentes dele ficassem com raiva e não devo pagar por ter matado este homem.

— Ninguém virá atrás do senhor — disse o maior dos seis homens. — Ele sempre foi uma dor de cabeça para sua família.

— A família dele sabia que ele perseguia minha esposa e não fazia nada?

— O que poderiam fazer? Prendê-lo ou matá-lo, mas sua mãe... — O homem suspirou e meneou a cabeça. — Está terminado e nada pode ser feito, pode?

— Não, talvez não. Levem-no com vocês. Não quero seu sangue contaminando minhas terras.

Deixando que os homens retirassem o corpo de Menzie e se afastassem, Ewan olhou para Fiona. Ela estava de pé e ele não viu nenhum ferimento. Ewan rezara para chegar a tempo, antes de Menzie ser capaz de feri-la ainda mais.

O que sentira ao pensar que Fiona poderia estar perdida para ele o perturbara profundamente, e Ewan sabia muito bem o que isso significava. Todos os seus esforços para manter distância dela, para proteger seu coração, haviam falhado. Quando vira uma ensanguentada Mab voltar da mata sem Fiona, a verdade o atingira como um raio.

Ewan praguejou interiormente. Gostava de Fiona. Não, na verdade ele a amava com todo seu coração e sua alma. O breve momento em que pensou tê-la perdido o jogara num abismo, numa completa escuridão. Seus ossos gelaram ante a possibilidade de ter que viver sem ela. Agora que Fiona estava salva e voltara para ele, Ewan precisava com urgência fazer amor com ela, conferir que ela era só dele. Acalman­do-se, caminhou até ela.

— Ele a feriu, garota? — Ewan perguntou, resistindo ao desejo de acariciar seu rosto.

— Não — Fiona respondeu e apesar da resistência de Ewan, se jogou nos seus braços. — Menzie estava se ga­bando da esperteza dele em me encontrar.

Quando Ewan a abraçou, Fiona acalmou-se e contou como Menzie a tinha ligado a Scarglas.

— Agradeço a Deus tê-la encontrado antes que ele pu­desse lhe fazer algum mal. Ele nunca mais perseguirá você, Fiona.

— É uma perda para a família dele, que o amava, mas a loucura o dominara e havia sangue nas mãos dele. — Fiona olhou na direção onde os homens carregavam o corpo de Menzie e em seguida olhou para Ewan. — Vamos para casa?

— Sim, garota, vamos — ele respondeu, fazendo-a mon­tar no seu cavalo.

Segurando-a com força enquanto cavalgavam, Ewan que­ria saber o que faria agora. Não era tolo de pensar que po­deria matar os sentimentos que já haviam se enraizado no seu coração. Aquela batalha estava perdida. Fiona era parte dele como o sangue que corria nas suas veias. Sentia-se tanto glorioso quanto aterrorizado.

O que o preocupava muito era que não sabia o que Fiona sentia por ele, além de paixão e desejo. Até ficar sabendo, não queria que ela soubesse, ou mesmo que adivinhasse, seus sentimentos. De algum modo, esses sentimentos, que agora corriam livres dentro dele, tinham de ser encobertos até que ele soubesse o que havia no coração de Fiona. Ewan escondera seu amor dele mesmo. Esconder de Fiona não seria tão difícil. Mas era uma luta para a qual não se sentia preparado.

 

Fiona quase jogou suas botas contra a porta do quarto no momento em que Ewan a fechou. Melhor ainda seria atirá-las contra a cabeça de Ewan. Passara-se uma semana desde o rapto dela por Menzie, e Ewan continuava tratan­do-a como se ela fosse feita de vidro. Todo o bloqueio que ela achara ter se tornado mais fraco nele havia voltado com força total.

Fiona suspirou ao sentar-se cuidadosamente na cama. Sua tentativa de sedução, naquela manhã, havia feito apenas com que Ewan fugisse do quarto. Por um lado fora melhor. Ela sentia um pouco de náusea e, se ele a visse adoentada, a trancaria no quarto e faria Mab lhe receitar suas poções. Fiona começou a suar frio e foi até a pia do quarto. Quando o vómito passou, ela enxaguou a boca e voltou para a cama. Respirou repetidas vezes, lenta e profundamente, até seu estômago se aquietar e a fraqueza causada pelo vómito passar. Tinha poucas dúvidas a respeito desses sintomas. Esperava um bebé.

Não menstruava desde o casamento e não se surpreende­ria se tivesse engravidado na primeira vez. Ninguém podia duvidar da potência de um MacFingal. Ou de um Cameron, ela pensou em todos os irmãos e primos de Sigimor.

Pondo a mão sobre o ventre, sentiu-se tanto enlevada quanto temerosa. Queria ter um bebé de Ewan, mas ao mes­mo tempo gostaria que não tivesse acontecido tão rapida­mente. O casamento deles ainda não se firmara e seu amor ainda não era retribuído. Que tipo de vida ela e Ewan leva­vam para trazer uma criança ao mundo?

Fiona sentou-se novamente, contente por seu estômago ter se apaziguado. Decidiu manter a gravidez em segredo por algum tempo. Queria ter certeza de que a criança estava bem enraizada no seu útero e também queria mais um tempo com Ewan sem que a notícia de uma gravidez o tornasse mais confuso ainda. Não queria ficar numa situação onde tudo que Ewan dissesse ou fizesse fosse por ela estar carre­gando seu filho.

Embora tivesse vontade de ficar na cama e dormir mais algumas horas, Fiona se vestiu. Ewan havia tido a ideia de enviar uma carta para Connor contando a respeito de onde ela se encontrava e sobre o casamento deles. Tinha sido difícil esperar tanto tempo para deixar Connor saber que ela estava a salvo, mas entendeu as razões do adiamento. Qual­quer MacFingal que deixasse Scarglas tinha de atravessar terras de inimigos e essas viagens precisavam de um plane­jamento preciso e pormenorizado. E Fiona, sem dúvida ne­nhuma, não queria que alguém morresse apenas para entre­gar uma carta para sua família. Antes de os homens partirem, entretanto, tinha uma mensagem própria para ser entregue a Connor.

Quando Fiona chegou à sala para o café-da-manhã, estava se sentindo muito melhor. Sabia estar comendo mais do que o habitual, mas ignorava o olhar surpreso e a curiosidade de sir Fingal. Mais difícil era ignorar o olhar agudo de Mab, que tinha condições de adivinhar o estado de Fiona. Decidiu conversar com ela mais tarde. Embora Mab não fosse a me­xeriqueira que muitos pensavam, Fiona sabia que ela podia pronunciar a palavra errada na hora errada, com facilidade.

— Mulher gulosa — resmungou sir Fingal, quando Fiona pegou um quarto pedaço de pão e o cobriu com uma grossa camada de manteiga. — Você ficará grande como Mab se continuar comendo desse jeito.

— Eu não sou grande — reagiu Mab.

— Não, não é — lhe assegurou Fiona, dando um tapinha no braço da amiga e franzindo o cenho para Finga!. — E por que está reclamando do que eu como, sir Fingal? Não é o senhor que diz que eu sou apenas ossos? Talvez eu esteja tentando acrescentar um pouco de carne aos ossos.

Sir Fingal resmungou.

— Você não ouviria meu palpite nem que eu pusesse uma faca no seu lindo pescoço. E quanto aos seus ossos, parece que meu filho gosta. Ele pode não querer que você ponha carne neles.

Logo ele não terá o que falar sobre esse assunto, Fíona pensou, e quase sorriu.

— Quando os homens partirão para levar a carta ao meu irmão? —- Fiona perguntou ao sogro.

— Logo. Em uma hora ou um pouco mais. Por quê?

— Acho que devo mandar uma mensagem de minhas próprias mãos.

— Para quê? Ewan não escreveu tudo que era necessário?

— Sim, mas meu irmão poderá ter algumas dúvidas de­pois de ler a carta de Ewan. Ele não conhece vocês, certo? Então, acho que algumas palavrinhas minhas poderão sanar suas dúvidas e fazê-lo receber bem os homens que levarão as cartas.

— Você é uma mulher esperta — Fingal murmurou, re­velando suas dúvidas sobre a veracidade do que ela dizia. — Bem... Faça como desejar. Você conhece seu irmão me­lhor do que qualquer um de nós. Você acha que ele virá até aqui?

— Oh, sim, mas não imediatamente. Essa é a época mais atribulada do ano para ele. Suspeito que Gilly insistirá em vir também e isso requer planejamento cuidadoso. E Connor precisará superar o fato de ter sido Ewan e não ele que matou Menzie.

Quando sir Fingal demonstrou que entendia seu ponto de vista, Fiona enfiou mais um pedaço de pão na boca, para esconder um sorriso.

Connor iria gostar de Scarglas, pensou Fiona, ao observar a velha Marta conversando com amigos invisíveis enquanto limpava o forno. Peter estava sentado em um canto afastado comendo mingau e seu mau cheiro mantinha todos afasta­dos. Todavia, Fiona notou que ele parecia um pouco mais limpo desde que os homens o haviam amarrado a um poste da muralha sob a chuva, durante dois dias.

Quanto mais Fiona conhecia as esquisitices das pessoas que sir Fingal acolhia em Scarglas, mais ela começava a pensar que, apesar de suas falhas, Fingal era, na realidade, um homem bom. Debaixo de todos aqueles resmungos havia um grande coração. Um dia descobriria porque ele não agira bem com as mulheres que levara para a cama.

Quando sentiu sua fome saciada, Fiona saiu da sala com Mab nos seus calcanhares. Mab a seguiu para o quarto, onde Fiona pegou a carta escrita para Connor e voltou em direção da escada. No momento em que saiu, Fiona vírou-se para encarar Mab, franzindo o cenho.

— Por que está me seguindo? — Fiona perguntou.

— Porque você está escondendo alguma coisa — Mab respondeu, com franqueza.

— Tem certeza de que Ewan não a encarregou de me vigiar?

— Por que ele faria isso?

— Porque parece que ele enfiou na cabeça que tenho de ser observada e protegida como se eu fosse uma inválida. Já lhe disse que nada aconteceu quando estive nas mãos de Menzie, mas começo a achar que ele não acreditou em mim. Ah!... Lá está Brian.

Mab seguiu Fiona enquanto ela corria na direção do irmão mais jovem de Ewan.

— O que você quer com Brian?

— Ele é um dos homens que vai levar as mensagens a Connor e eu quero lhe dar essa carta.

— Ele contará a Ewan.

— Não, não contará.

 

Fiona parou ao lado do cunhado de vinte e três anos de idade e sorriu para ele. Não parava de se admirar de como os irmãos eram parecidos. Todos morenos e grandes como o pai. Alguns eram mais delicados, de traços mais bonitos, outros tinham a cor dos olhos diferentes, mas a semelhança era impressionante. Brian tinha os olhos de um azul mais escuro que os olhos de Nathan e, embora seus traços fossem muito parecidos aos de Ewan, ele não tinha as feições tão endurecidas.

— Por que está sorrindo desse jeito? — Brian perguntou, parecendo divertido e desconfiado.

— Tenho uma carta minha para ser entregue ao meu ir­mão Connor — Fiona entregou a carta ao cunhado.

— Mas Ewan já escreveu uma — Brian disse, pegando a carta e a colocando em uma bolsa de couro presa ao cinto. — Você quer a de Ewan de volta?

— Não, entregue as duas a Connor, por favor.

— E suspeito que Ewan não sabe sobre esta carta. Estou certo?

— Eu contarei a ele depois que vocês partirem — Fiona virou os olhos ao ver a expressão desconfiada do cunhado. — Não há nenhuma conspiração, nada que possa enraivecer seu irmão. Na realidade, essa carta o deixará mais calmo.

— Eu acho que eu não deveria guardar segredos de Ewan, que, além de irmão, é meu líder.

— Não há segredos na carta, apenas algumas coisas que eu ainda não contei a Ewan. Coisas pessoais. Fiona olhou firme para Brian e suspirou aliviada quando ele concordou.

— Oh, e peça a Gillyanne a receita do tônico matinal. Ela entenderá.

Pelo olhar que Brían lhe deu, Fiona sentiu que ele ambétn havia entendido. E a exclamação entusiasmada de Mab, sem dúvida, confirmou a suspeita dele.

Todos olharam para a velha Marta que passava por eles discutindo sozinha e Fiona olhou para Mab pedindo uma explicação. Antes que Mab pudesse responder, Ewan che­gou e Fiona se preparou para o discurso que ele normalmente fazia quando a encontrava. Ewan parecia estar convencido de que o ataque de Menzie a tornara uma criatura frágil, que necessitava fícar na cama e beber poções que tornassem seu sangue mais forte.

— Você deveria estar repousando — Ewan disse.

— Eu estava apenas pedindo a Brian para mandar lem­branças a minha família, Fiona respondeu, dando o braço para Mab. Agora eu vou ajudar Mab a fazer sabão. Deus o acompanhe Brian, ela disse, afastando-se rapidamente.

----Por que ela deveria estar repousando? — Brian per­guntou a Ewan.

— Fiona precisa descansar depois do que passou durante o sequestro -— Ewan respondeu, franzindo o cenho.

— Ela me parece bem. Menzie não a feriu, não a estuprou e nem bateu nela. Não acho que Fiona deva permanece deitada. Já faz uma semana que tudo aconteceu.

O modo como Brian olhou para Ewan o deixou nervoso. Havia uma mistura desagradável de diversão e compreensão na expressão do seu irmão. Ewan sabia que talvez estivesse sendo cauteloso demais com a saúde da esposa, mas quando começou a pensar nisso lembrou-se vivamente de Fiona amarrada ao tronco da árvore, sangue no seu camisolão e um machucado na mandíbula. E lembrou-se também do pa­vor que sentira de perdê-la.

— Ela não é uma mulher grande, Ewan murmurou. É pequena e delicada.

Brian riu.

— Uma mulher delicada que usa uma espada como se fosse um homem, que fez Clare engolir a língua, matou um homem, sobe em árvores e caminha na mata tão silenciosa­mente quanto Simon, corre como um raio e...

— Chega, Ewan exclamou irritado, para logo depois se conter e passar a mão pela nuca. — É meu dever cuidar de minha mulher.

— É claro que é. Mas é preciso ver se esse dever não começa a sufocá-la — Brian olhou em direção do herbário —, ou a faça fugir.

— Você percebeu? — Ewan ergueu as sobrancelhas.

— Ewan, acho que a coisa pior que se pode fazer a uma mulher como Fiona é embrulhá-la em cobertores macios e fazê-la ficar sentada em um canto. Mesmo que ela aceite, acho que logo iria murchar como uma flor arrancada do seu galho. Brian deu de ombros. Ouvi alguns relatos de como Fiona passou os primeiros treze anos da vida dela. Tenho certeza de que você também ouviu, e talvez saiba ainda mais. Tente recordar-se de alguns relatos de vez em quando. E lembre-se de que sua pequena e delicada esposa sobreviveu. Brian deu um tapa nas costas do irmão e se dirigiu aos cavalos que já estavam preparados para a viagem.

— Hora de partir. Reze a Deus para que cheguemos aos MacEnroy sem encontrar nenhum problema no caminho. Começo a pensar que precisarei de todas as minhas forças para tratar com a família de Fiona.

Quando Brian e os seis companheiros partiram, Ewan tor­nou a olhar para o herbário. Não era agradável ter o irmão mais novo adivinhando seus receios, mas aquele momento de constrangimento lhe dera um bom aviso. Estava deixando seus medos o dominarem, Fiona podia parecer delicada co­mo uma flor, mas era muito forte debaixo daquela peíe sua­ve. Já vira sua força e não podia se esquecer disso.

O que Brian não adivinhara, e Ewan agradecia a Deus por isso, era que, em seu esforço de proteger Fiona, eie tinha negado a si mesmo a alegria da paixão. Fiona deixava essa paixão e aparentemente ele ignorara seus convites para fazerem amor ainda naquela manhã. Essa era uma punição que não mais pretendia sofrer.

Por um momento, sentiu-se tentado a ir atrás dela e carregá-la para o quarto para saciar o desejo que sentia por ela há uma semana. Mas afastou a tentação e voltou para os campos de treinamento. Logo seria noite e, se ela não esti­vesse ofendida pela sua rejeição daquela manhã, fariam amor.

— Eu deveria fazê-lo rastejar — Fiona murmurou, jogan­do algumas sementes na terra de qualquer jeito. — Eu de­veria deixá-lo de joelhos a implorar. Aí eu deveria chutá-lo.

— Fiona! — Mab gritou, tirando as sementes das mãos de Fiona. — Se está imaginando que isto é seu marido, devo entender que ele a deixou muito zangada. — Mab olhou para Fiona. — É por isso que não contou a ele que espera um bebé?

— Ainda é cedo para se ter certeza — Fiona protestou.

— Oh, então é verdade! Você está grávida. Saber disso é uma coisa que eu sei fazer desde mocinha. Posso ver até o momento em que a semente do homem se enraíza no útero da mulher — Mab franziu as sobrancelhas. — Parei de dizer isso às mulheres porque elas começaram a sussurrar que eu era uma bruxa. Mas eu "via", antes mesmo de elas saberem da gravidez.

Depois de lidar com Gillyanne e todos os seus parentes, Fiona havía se acostumado a pessoas com dons estranhos. Desse modo, apenas meneou a cabeça.

— Se você sabia que eu estava grávida, por que não me disse nada?

— É estranho, mas só tive a certeza esta manhã. A sen­sação que eu tinha quando uma mulher esperava criança estava lá, mas de uma maneira diferente. Então, esta manhã, quando caminhávamos para a sala, senti que era verdade e tudo ficou claro.

— E então eu comecei a comer uma quantidade de co­mida que deixaria Ewan orgulhoso — Fiona sorriu. — Sim, tenho certeza de que carrego comigo uma criança. Não menstruo desde que me casei e nessas duas últimas manhãs não me sinto muito bem. Ainda não contei a Ewan porque quero ter certeza de que a criança continuará comigo e, quanto mais tempo eu ficar sozinha com Ewan, melhor.

— O bebé não estará aqui por oito meses ou mais, Fiona.

— Sei disso, mas no momento em que contar a Ewan ele passará a me ver de maneira diferente. Não serei apenas Fiona, sua esposa, serei a mãe do seu filho. Bem, se Ewan mudar em relação a mim, quero ser capaz de saber que estará mudando por mim mesma e não devido ao filho.

— Ah, entendo. Eu não direi uma palavra. E por causa do bebe que você quer que Ewan rasteje para depois chutá-lo?

— Não. Estou brava pelo jeito que ele vem me tratando, como se eu fosse quebrar ao seu toque. Embora não tenha testado esta conclusão, pois não me toca há uma semana. Bem, mas já chega. Ele deverá parar com essa bobagem nem que esta noite eu tenha de amarrá-lo a nossa cama. — Subitamente, Fiona pensou em Ewan amarrado na cama, completamente nu, e a sua mercê. — Nossa, que pensamento atraente!

— Fiona! — Mab ralhou chocada, para logo em seguida se pôr a rir. — Tenha vergonha, garota. Ah! mas você é muito boa para o nosso Ewan.

— Você realmente pensa assim? — Fiona perguntou sor­rindo para logo em seguida ficar séria.

—- Oh, sim. Ewan é um líder sério, mas a tragédia e as grandes responsabilidades fizeram dele ainda mais circuns­pecto. Ele é um homem que pode acordar em uma manhã achando que deve esconder seus sentimentos, e com isso acabar só. Você não deve permitir que isso aconteça. Deve impedir que ele se negue a ser feliz. Apenas seja paciente. Se tivesse visto o semblante dele quando contei que você havia sido raptada por Menzie, não pensaria que ele ainda está afastado de você. Agora, quero sentir esse bebé.

Fiona ficou quieta e Mab pôs a mão sobre sua barriga. fechou os olhos, mas Fiona pôde ver, pela expressão do rosto, que ela tinha realmente sentido alguma coisa. Um leve franzir de sobrancelhas deixou Fiona inquieta. Quando, finalmente, Mab abriu os olhos, Fiona olhou para ela e ficou ansiosa.

— O pequenino não quer revelar seus segredos — disse Mab.

— Ah, então é um menino.

— Não tenho certeza. Foi isso o que eu quis dizer com segredos. Eu geralmente sinto se é menino ou menina desde o começo da gravidez, mas seu bebe obviamente acha que eu nada tenho a ver com isso. Mas ele não poderá esconder toda verdade. É um bebe saudável. Acho que nunca senti um bebé com tão forte senso de vida — Mab sorriu. — Escute o que eu lhe disse, garota. Agora você sabe porque me chamam de bruxa.

— São todos uns tolos. O que eu vejo é um dom muito mais precioso do que as poções que você prepara. — Fiona viu o brilho de esperança nos olhos de Mab.

— Isso assusta as pessoas, Fiona. Minha mãe dizia que isso era coisa do demónio.

— Não. É um dom de Deus. Suspeito que você tentou ignorá-lo quando deveria ter aprendido como usá-lo. E é isso que faremos. Aprenderemos o poder desse dom e como ele pode ser usado para o bem. Aprenderemos também como usá-lo de modo que não assuste as pessoas, nem provoque superstições. O clã da nossa Gilly, os Murray, tem muitas pessoas nascidas com esse dom e eu passei tempo suficiente com eles para aprender como podemos protegê-la de receios perigosos e para que você o use apenas em intenção de Deus. — Fiona sorriu e Mab a abraçou.

— Como poderei um dia agradecê-la?

— Bem, você pode me ajudar a encontrar alguma coisa forte, porém macia, para se amarrar os pulsos de um homem a sua cama.

Ewan piscou e olhou o teto sobre a cama. Não podia acre­ditar que havia adormecido esperando que Fiona viesse se deitar. Obviamente, todo o trabalho que tivera para andar atrás de sua mulher e para caçar uma corça o tinha deixado exausto. Se tivesse feito amor com Fiona como pretendia, não teria adormecido, mas ela tinha dito que precisavam dos seus cuidados e saíra do quarto, deixando-o sozinho.

Ficando mais alerta, uma dorzinha irritante chamou sua atenção. Tentou mover-se e percebeu que seu braço direito estava amarrado na coluna da cama. Olhando melhor, viu que o mesmo acontecera com seu braço esquerdo. As tiras que prendiam seus pulsos eram fortes, mas ao mesmo tempo macias, pois eram intercaladas com pedaços de lã azul.

Ewan se pôs a pensar em por que não ficara alarmado pensando se tratar de algum inimigo. Então sentiu um aroma de lavanda e Fiona apareceu do lado da cama. E ele soube que podia permanecer calmo. Uma parte dele tinha reconhe­cido que sua esposa estava no quarto e que ele não corria nenhum perigo.

Ewan suspeitou que as tiras amarradas cuidadosamente para não machucá-lo eram uma pista. Suspeitava também que, ao ser amarrado, despertara.

— Por que você me amarrou à cama? — Ewan perguntou, sentindo seu corpo ansiar pela presença de Fiona ao seu lado na cama.

— Para que, dessa vez, você não possa fugir de mim — Fiona respondeu, antes de tomar um último gole de vinho antes de se juntar ao marido. — Vou provar a você que estou muito bem de saúde e que não preciso de mais tempo para me refazer do ataque de Menzíe.

Ewan abriu a boca para contar a ela sobre a mudança do seu coração, mas rapidamente desistiu quando Fiona montou sobre ele. E não levou muito tempo para que ele adivinhasse o que ela pretendia fazer. Apenas um tolo se arriscaria a dizer qualquer coisa que pudesse fazê-la mudar de ideia.

— Foi duro para você — murmurou Ewan —, que é uma mulher delicada.

— Verdade, foi uma experiência desgastante, mas pre­tendo demonstrar que estou bem e já superei tudo, e que não preciso mais ser tratada como se fosse uma frágil virgem.

Ewan apenas ergueu uma das sobrancelhas, como se es­tivesse desafiando-a.

Fiona entendeu, e o modo como olhou para o marido fez com que Ewan quisesse soltar-se para agarrá-la. O modo como Fiona beijava e acariciava cada parte do seu corpo fez com que Ewan sentisse o sangue ferver.

— Fiona — ele gemeu quando achou que não iria aguen­tar por muito mais tempo. — Quero possuí-la. Agora.

Fiona sentou-se sobre ele para satisfazer seu pedido.

— Desamarre-me, garota — ele murmurou. — Quero tocar você.

No momento em que Fiona o desamarrou. Ewan a agarrou e a paixão dos dois fluiu de modo selvagem, poderoso. Fiona se entregou ao marido e ele segurou aquele corpo trémulo de encontro ao seu.

— Bem, talvez você não seja tão delicada — Ewan mur­murou.

-— Não, não sou.

— Nunca pensei que fosse ter tanto prazer ao me demons­trarem que estava agindo como um tolo. — Os dois sorriram e ele a beijou na testa. — Achei que tinha perdido você — Ewan sussurrou.

Fiona sentiu seu coração pular de prazer e esperança. Ha­via muito sentimento por detrás daquelas palavras. Ela teve vontade de fazê-lo falar mais, mas temeu que, se o pressio­nasse demais, ele fugisse,

— Não — ela também sussurrou —, você nunca me per­derá. Fui tirada de você por pouco tempo, mas eu acharia meu caminho de volta. — Fiona quase sorriu quando a res­posta do seu marido foi um abraço apertado, muito apertado. Por ora, era suficiente.

 

Eles estão aqui novamente.

Quem está aqui novamente? — Ewan ergueu os olhos do livro que estava lendo, franzindo o cenho para o irmão Gregor.

— Os Cameron.

— Céus, nosso pai os viu?

— Sim. É difícil não ver cerca de doze homens de cabelos vermelhos.

Resmungando baixinho, Ewan levantou-se para seguir Gregor. Estava no alto da escada quando viu Fiona e Mab saírem da sala.

A voz de Fingal se fez ouvir assim que as duas mulheres abriram a porta para saírem. Era tempo de acabar com aquela tolice, pensou Ewan, seguindo as mulheres. Quando chegou à muralha, entretanto descobriu que sua mulher já estava conversando com seu pai para tentar acabar com a intransi­gência deie.

Ewan hesitou, tentado a deixar que Fiona resolvesse o problema com seu pai.

Ele não parece tão radical como costumava ser -_ disse Gregor, próximo a Ewan.

Depois de ouvir durante alguns segundos, Ewan teve que concordar.

—- Talvez papai, finalmente, comece a enxergar a reali­dade. Abra os portões e convide nossos primos a entrar.

— E quanto ao nosso pai?

— Ele terá que aguentar ou poderá se fechar no quarto. O instinto me diz que essa visita é uma boa oportunidade. Nossos primos são unidos aos MacEnroy pelo casamento, e Gregor logo chegará às propriedades dos MacEnroy. Vá e os receba, que eu quero satisfazer minha curiosidade — Ewan disse indo ao encontro do pai e da esposa.

— O senhor é um cabeça-dura — Fiona dizia ao sogro, na tentativa de pôr um pouco de razão na cabeça do velho líder.

— Você não devia falar com os mais velhos dessa ma­neira —- Fingal ralhou com ela, parecendo um pouco ma­goado.

— Falarei desse jeito toda vez que for necessário.

— Eu...

— Estou mesmo sendo cego, Ewan terminou a frase ao chegar perto de Fiona e olhar para o pai. Se fosse alguém que o tivesse prejudicado, pai, eu até me ofereceria para matá-los. Mas não são. Não lhe peço para aceitar o filho daqueles que você julga que o traíram, mas a necessi­dade do clã me força a aceitá-los, pai. Precisamos de aliados. Quando eu for tratar com os nossos inimigos, poderei fazê-lo de uma posição mais forte se eles souberem que há outros atrás de mim. O melhor que posso fazer agora é conseguir que alguns dos nossos inimigos desistam da ideia de matar cada MacFingal que encontrarem pela frente.

Sir Fingal pôs as mãos nos quadris e olhou para o filho e em seguida para Fiona. Depois olhou para os homens que atravessavam os portões abertos. Ewan observou seu pai atentamente quando o homem chamado Sigimor desmonta­va e caminhava em direção a eles. Vendo que o homem era realmente bonito, Ewan passou o braço ao redor dos ombros de Fiona e ignorou o resmungo de Fingal.

— Você se parece com seu pai — disse sir Fingal a Si­gimor, depois de trocarem cumprimentos.

— A ideia me agrada — respondeu Sigimor. — Eu não gostaria de pensar que minha mãe o tivesse enganado.

— Ela me enganou.

— Verdade? Foi antes ou depois de você ter engravidado a prima dela?

Ewan e Fiona olharam para Fingal, que de cenho franzido esboçava um sorriso sem graça. Ele corou levemente e Ewan resmungou. Embora não quisesse acreditar em Sigimor, a reação do seu pai indicava culpa. Foi Mab quem quebrou o silêncio e a tensão do momento.

— Então você já era tolo quando jovem declarou Mab, meneando a cabeça, desanimada. E eu aqui imaginando que você se transformou no que é por causa de algumas grandes traições que seu coração sofreu. Este é apenas outro exemplo de que você foi incapaz de manter seus culotes no lugar.

- Mas foi realmente uma grande traição — protestou Fingal. —- Eu ia pronunciar os votos com a garota. Então meu irmão descobriu que ela me amava e mandou aquela mulher até mim. Ela me visitou no meu quarto enquanto eu dormia e como uma ave de rapina me agarrou. Eu ainda nem estava completamente acordado. Depois saiu do quarto gritando que eu a tinha seduzido. Ninguém acreditou quando eu tentei dizer a verdade. Por algum tempo achei que fosse ter uma segunda chance, mas aquela mulher disse que estava esperando um filho meu e todos me forçaram a casar com ela. Perdi a calma, xinguei todo mundo e fui embora. Como vê, Mab, foi sim, uma grande traição — Fingal finalizou, parecendo extenuado.

— Tenho que concordar, Fingal. Foi mesmo — Mab deu o braço a ele e o conduziu de volta à casa.

Fingal deu alguns passos e olhou para Sigimor.

— Tentei pegar meu filho, mas a desavergonhada disse que ele havia morrido. Afirmou que tinha sofrido muito por minha causa e que a criança não sobrevivera.

— Ela mentiu — Sigimor revelou. — O garoto foi criado pelos parentes dela. Herdou as terras e agora está casado, há seis anos. Sua mãe morreu há quase quinze anos nas mãos de uma esposa ciumenta.

Desanimado, Fingal meneou a cabeça e deixou que Mab o conduzisse. Fiona achou que ele parecia estar sofrendo muito com as recordações do passado.

Ela olhou para todos os homens reunidos perto da mura­lha e para todos os filhos bastardos que MacFingal acolhera e criara. Então, fitou Ewan, que parecia estar tão chocado como ela.

— Ewan, Fíona sussurrou, quando ele apertou seu braço.

— O que será que o magoou mais? — Ewan murmurou. — Acho que papai se culpou todos esses anos pela morte dessa criança. — Ewan encarou Sigimor. — Por que não lhe contaram a verdade?

— Quando eu soube da verdade, seu pai não falava co­migo. Os outros continuaram a esconder a verdade porque o avô do rapaz temia perdê-lo. Quando as narrativas da efi­ciência com que seu pai estava formando um exército che­garam aos nossos ouvidos, nenhum dos mais velhos pareceu se importar. Eles precisavam do rapaz.

— E você, Sigimor, o que pensa? — Fiona perguntou. — O que essas narrativas dizem a você?

— Que sir Fingal gostava muito de mulheres. Mas acho que ele não teria abandonado o filho. A mulher, sim, mas o menino nunca. Seu filho também sabe disso, Fingal, e espera que eu lhe diga que os portões de Scarglas estão finalmente abertos para ele.

— Sim, estarão, pode dizer isso a ele — respondeu Ewan.

— Entre. Vamos comer e beber alguma coisa. Apresenta­ções demoram muito.

— Primeiro quero dar a vocês uma mensagem de Connor. Seus homens chegaram bem e estarão aqui em poucos dias.

— Sigimor disse a Ewan, antes de sorrir para Fiona. — Aqui está a mensagem que seu irmão enviou para a senhora, madame.

Subitamente, Fiona se encontrou nos braços de Sigimor que a abraçava e beijava com entusiasmo. Naquele exato momento, ela ouviu o som de espadas sendo desembainhadas e se livrou do abraço. Os Cameron estavam todos juntos atrás de Sigimor com as espadas erguidas para o alto. Ao redor deles, os MacFíngal e todos os homens que ali se en­contravam apontavam as espadas para os visitantes.

— Céus, Sigimor! — Ouviu-se uma voz atrás deles. — Você planeja que sejamos todos mortos?

Vírando-se para a direita, Fiona sorriu para seu primo Liam.

— Alô, Liam.

— Alô, prima — ele respondeu.

Ewan, enciumado, puxou Fiona mais para perto dele.

— Não acredito que meu irmão tenha lhe pedido que fizesse isso, Sigimor, ela disse, esperando que essa atitude diminuísse um pouco da tensão que havia se estabelecido.

— Não — respondeu Sigimor. — Ele pediu que eu me assegurasse de que a senhora estava realmente protegida e cuidada. — Ele olhou para todos, as espadas apontadas para ele, prontos para matá-lo se desrespeitasse a esposa do seu líder. — Direi que a senhora está muito bem.

— Você fez isso apenas para ver como os homens de Fingal reagiriam? — Liam perguntou, postando-se ao lado de Sigimor.

— Atos dizem mais que palavras.

— Você é louco — Ewan sentenciou ao embainhar sua espada, sendo seguido por todos os seus homens. — Você esteve bem perto de ser morto.

Ewan entendia sua reação ao ver Fiona abraçada por outro homem, mas jamais esperava uma reação daquela dos seus homens.

— Obtive minha resposta, não obtive? — Sigimor per­guntou, observando o olhar que Ewan endereçou a Liam. — Fique sossegado, Liam, ele também é seu primo.

Ewan pensou na possibilidade de mandar aquele homem bonito se hospedar na vila e não na sua casa, perto de Fiona.

— Ewan está com aquele olhar, Liam. O mesmo olhar que Connor e Diarmot tinham.

— Aquele olhar que diz que ele gostaria que eu tivesse o nariz quebrado e algumas cicatrizes? — Liam perguntou, jocoso. — E que gostaria de assistir à mudança?

— Sim, Sigimor confirmou e olhou para Ewan. — Você disse alguma coisa a respeito de comida e bebida?

Gregor conduziu os Cameron e Ewan olhou para Fiona.

— Você não me disse que ele era um lunático.

Fiona riu e o abraçou, antes de caminharem em direção da casa.

— Pode ser que seja, mesmo. Meu irmão Diarmot diz que o homem vê tudo de maneira diferente das outras pes­soas e que a gente acaba se acostumando a ele.

— Entendo. E, devido à maneira como ele encara as coi­sas, a melhor maneira que ele encontrou para saber se você está sendo protegida e cuidada foi abraçando-a e beijando-a na frente de um marido armado e de todos os seus homens igualmente armados?

— Sim. E suspeito que tenham lhe dito outras coisas que ele vai querer comprovar.

— De como você é? — Ewan resmungou.

— Não. Eu lhe disse que vocês não atacarão ninguém cegamente. Todos estão prontos, mas não atacam a esmo.

— Ele colocou em risco a vida dele e a dos seus homens.

— Não tenho muita certeza disso. Acho que Sigimor gos­ta de você e dos seus. Se ele não fez com que você quisesse matá-lo, ele será um poderoso aliado.

Não levou muito tempo para que Ewan entendesse o que Fiona estava dizendo sobre seu primo. Ele pensou em várias coisas durante as festividades da noite. Pensou se não tinha sido precipitado em afastar a possibilidade de ele ter a lou­cura no sangue. Mas, era muito bom ter aliados, mesmo que fossem um tanto esquisitos.

Naquele momento, Ewan olhou para Fiona e Liam, sen­tados em um banco afastado. Conversavam, as cabeças pró­ximas e Ewan achou que seria melhor ter um parente a me­nos. Assim que começou a levantar-se, uma mão segurou-o pelo ombro e o fez sentar-se novamente. Ewan olhou para Sigimor e pensou no que aconteceria se ele tirasse aquela expressão jocosa do rosto dele com um belo murro.

— Liam não tentará seduzir sua esposa, Ewan — afirmou Sigimor. — Ela não se deixaria seduzir, tampouco. Você insulta sua mulher com esse tipo de preocupação. Sei que Liam é um homem muito bonito e que nenhum marido o quer perto de sua esposa. Pobre rapaz. É a sua sina.

— Esse pobre rapaz tem que afastar as moças à força — Ewan resmungou.

— É verdade e ele não faz isso com a frequência que deveria. Entretanto nunca passa dos limites. Não direi que Liam nunca tenha feito nada desde que saiu do mosteiro, três anos atrás, mas ele acredita na santidade do matrimónio. E claro, se tentar galantear Fiona, ela certamente lhe daria o nariz quebrado que todos acham que ele precisa. Sigimor sorriu fazendo Ewan sorrir também, e olhou para todo o pessoal que lotava a grande sala. Seu pai acolhe muitas pessoas. Surpreso, Ewan piscou, diante daquela observação.

— Sim, acho que é exatamente o que ele faz. Alguns dos homens e mulheres mais velhos que estão aqui são herdeiros de papai. Há todos os meus irmãos, meios-irmãos e sobri­nhos. E outros, como Mab, que foram expulsos de seus clãs. Mas ele os escolhe com cuidado. Quando costumava sair do nosso território, ele quase sempre trazia alguém para casa. Alguns perdidos, outros expulsos dos seus clãs.

— Como ele mesmo que foi afastado durante muitos anos. Como acreditou que seu filho fora eliminado. Esta mentira contada sobre o filho do seu pai atormentou o meu próprio pai, e o levou a confessar tudo para mim antes de morrer. Meu pai tinha a certeza de que esse fato havia per­turbado Fingal muito fortemente.

— Acho que sim, embora eu só tenha sabido disso hoje. Meu pai nunca me contou toda a história do que havia acon­tecido. — Olhando para onde seu pai se sentara, ao lado de Mab e vários Cameron, Ewan ficou satisfeito em ver que o pai estava discutindo novamente. — Observando como ape­nas comentar o fato o fez sofrer daquela maneira, posso entender o que ele passou. Acho que o fato de ter desabafado aliviou um pouco da amargura do seu coração.

— Sim, acho que tem razão — concordou Sigimor.

— Seu pai achou que o que ele fez valeu a pena?

— Alguns dias sim, alguns dias não. Ele amava minha mãe, mas ela nunca o amou. Não como havia amado seu pai. Quando ele estava para morrer, confessou que perdera um irmão e nunca tivera realmente uma esposa. Triste, mas eu entendo muito bem. Afinal de contas, se nada dísso tivesse acontecido, nós dois não estaríamos aqui.

— Verdade. Agora, diga-me, como os MacEnroy acaba­ram sendo seus parentes?

Ewan escutou com atenção tudo que Sigimor lhe contava sobre a família de sua esposa. Embora pudesse prever que teria momentos tensos com os irmãos de Fiona. tudo em Sigímor apontava na direção de uma forte e valiosa aliança. Agora, quando fosse discutir com seus inimigos, estaria em uma posição muito mais forte e vantajosa.

Ewan ficou tenso quando seu pai se juntou a eles, mas Fingal sentou-se quieto, escutando também as informações sobre os MacEnroy. Acostumado com as mudanças rápidas de humor do seu pai, Ewan não se iludiu e não deixou que suoas esperanças subissem alto demais, mas não pôde deixar de pensar que uma mudança para melhor havia acontecido com seu pai.

— Você não acha que os irmãos da minha nora irão querer afastá-la do meu filho, acha?

— Poderão até querer — respondeu Sigimor —, mas não o farão. A não ser, é claro, que Fiona seja influenciada por eles, o que não acredito. Ela tem uma personalidade muito forte. — Sigimor piscou para Ewan. — Em todo caso, quando vocês os virem se aproximar, será sábio, nesse momento, deixá-la calma e sem nenhum rancor contra você.

— Onde está sua esposa? — Fingal perguntou, antes de olhar ao redor e ver Fiona e Liam conversando. Você a dei­xou com aquele homem bonito? — Fingal olhou para o filho. Vá buscá-la.

— Não é necessário, pai — respondeu Ewan. — Ela não está fazendo nada errado. Está apenas conversando. Que mal pode haver nisso? — Ewan esboçou um sorriso ao ver o olhar chocado do pai.

— Que mal pode haver? Eu não ensinei nada a você no decorrer dos anos? Fingal levantou-se. Você confia demais, mas eu não tenho tempo de explicar onde está o seu erro. Vou tirar o rapaz de lá. Não posso acreditar que um filho meu seja tão ingênuo a ponto de deixar sua mulher conversando a sós com aquele rapaz, Fingal resmungou, indo em direção de Fiona.

— Ele tem razão — concordou Sigimor ao ver Fingal se dirigindo até a nora.

— Talvez — Ewan resmungou, não vendo razão para negar sua culpa e nem para impedir o pai de ir até Fiona.

— O rapaz poderia ter ficado aqui ouvindo a conversa e não seria necessário seu pai buscar a nora. — Sigimor er­gueu a mão em uma saudação silenciosa — Mas Liam é um bom rapaz, pode ter certeza.

— Não duvido disso, mas seria melhor se ele fosse um bom rapaz, porém feio. — Ewan sorriu e Sigimor o acom­panhou.

Fiona franziu o cenho para o sogro, depois que Liam se afastou.

— Eu estava apenas conversando com ele.

— Você é uma mulher casada — declarou sir Fingal, cruzando os braços sobre o peito. — Não deveria estar con­versando sozinha com um homem bonito e solteiro, garota. Por que não está perto do seu marido conversando com ele?

Porque Ewan nada sabe sobre os filhos do meu irmão Diarmot e Liam sabe. Ele esteve um tempo em Clachthrom antes de viajar para Deilcladach com Sigimor. Liam se instruiu muito enquanto esteve no mosteiro e estava ensinando os filhos de Diarmot.

— Se ele foi tão bem recebido e era tão útil em Clachth­rom, por que o deixaram partir?

— Fingal meneou a cabeça, ao ver Fiona corar. Seu irmão ficou cansado de olhar para a cara bonita do rapaz. Quis Liam longe da mulher dele.

— Isso é tolice. Usa e Gillyanne nunca trairiam seus ma­ridos. Pelo menos Ewan tem o bom senso de saber disso, já que ele não perturbou minha conversa com Liam. — Fiona admitiu que se sentia um pouco frustrada pela falta de ciúme de Ewan, ciúme que seus irmãos sentiam, apesar de confia­rem nas esposas.

—Bem, chega de Liam. O senhor conversou com Sigimor?

— Um pouco — Fingal resmungou. — É um bom rapaz, se bem que um tanto esquisito.

Fiona não quis discutir. Apenas meneou a cabeça.

— É necessário se acostumar. Mas ele será um bom aliado.

— Sim. Ewan tem razão em dizer que precisamos dele. Ele poderá enfrentar nossos inimigos com dois clãs ao lado dele. Agora será escutado e respeitado. Talvez na próxima vez que meus rapazes tenham que sair do nosso território não haja necessidade de que tantos homens armados os acompanhem.

Essa declaração fez Fiona perceber que o sogro se preo­cupava muito quando seus filhos e seus homens saíam em alguma expedição. Ele devia observar todos os preparativos quando os jovens partiam e devia saber que, em parte, isso se devia a ele, por ter amealhado tantos inimigos. Alguns homens, à medida que envelheciam, ficavam ainda mais du­ros e alguns mais sábios. Pelo bem de Ewan, Fiona rezava que seu sogro pertencesse à segunda categoria.

Uma hora depois, Fiona percebeu que estava cansada de­mais para continuar na sala. Informou a Ewan que ia se retirar e o beijou no rosto. Sorrindo ante a declaração de Sigimor de que estava sendo negligenciado, ela beijou seu rosto também. O modo como Ewan a observou quando ela deixava a sala fez Fiona constatar que não poderia esconder seu estado por muito mais tempo.

Ewan franzira o cenho, não por ela ter beijado Sigimor, mas sim pelo cansaço incomum que ela demonstrava. Mas havia mais uma razão para que Fiona não desejasse confes­sar a Ewan que ele ia ser pai. Considerando os cuidados com que ele a cercara depois do rapto de Menzie, quando sou­besse da gravidez não lhe daria paz.

— É melhor que pare de beijar minha mulher — declarou Ewan ao pôr mais cerveja no copo de Sigimor.

— Aquilo nem foi um beijo — respondeu Sigimor, sor­rindo. — E uma mulher precisa ser lisonjeada de vez em quando e necessita de um pouco mais de atenção de um homem.

— Não creio que ela sinta falta dessas coisas.

— Oh, sim, ela sente. Não antes das cicatrizes, mas de­pois. Muitos homens que cortejavam Fiona se afastaram de­pois que ela ficou com aquelas cicatrizes, e foram em busca de mulheres mais bonitas. Gillyanne me contou isso.

— Tolos, todos eles — Ewan resmungou, e Sigimor con­cordou.

Ewan sabia o que era ser passado para trás devido à apa­rência física. E devia ser ainda pior para uma mulher jovem e bonita. Na verdade, o fato de Fiona não ser uma mulher fútil talvez tivesse piorado a situação. Ela fora forçada a perceber que muitas pessoas não olhavam além da aparência física. Poderia não ter acreditado nos galanteios que fazíam a ela, mas devia ter se magoado ao perceber que eram pa­lavras vazias. Gostaria de saber até que ponto isso ainda a magoava e temeu não ter capacidade de compensá-la.

Ewan estava um pouco bêbado na hora em que foi para a cama. Foi muito bom Fiona já estar dormindo profunda­mente, ele pensou ao deitar-se ao lado dela. Abraçou-a e ficou muito feliz quando a ouviu murmurar seu nome.

Tudo transcorria muito bem. Seu pai parecia, finalmente, ter amadurecido ou talvez a revelação completa do que havia acontecido no passado o tivesse libertado da raiva e da dor que ele acalentara por tanto tempo. Ewan tinha certeza de que saber que o filho estava vivo o tinha livrado de uma grande culpa, uma culpa que Ewan nunca soubera que ele carregava. A mudança em Fingal começara depois que Fíona entrara na vida deles e finalmente parecia que seu pai enterrara o passado.

A união com os Cameron fora uma bênção, mesmo tendo que se acostumar com Sigimor e com aqueles homens gran­des, fortes e bonitos entrando e saindo de Scarglas. Era mui­to bom ter aliados. Pelo que Sigimor lhe dissera, tudo seria igual quando os MacEnroy chegassem. Eles e seus inúmeros parentes. Se Sigimor estivesse certo, no momento em que Gillyanne aceitou-o como parte da família, os Murray fa­riam o mesmo, o que incluía um grande número de outros nomes e alianças. Não seria o mesmo tipo de aliança que ele teria com os Cameron e os MacEnroy, mas poderia con­tar com a ajuda de todos, se realmente precisasse.

Essa mudança abria caminhos também para seus irmãos. A vida em Scarglas era boa e seria melhor uma vez que pudessem ter mais paz nas vidas deles. Seus irmãos pode­riam ir a outros lugares e, em consequência disso, ter mais oportunidades. Talvez até casamentos vantajosos, que pu­dessem trazer terras ou dinheiro para a família, e mais força em alianças ténues.

Era sorte demais para que ele pudesse aceitar com tanta facilidade. Nunca as coisas pareceram tão promissoras. Ewan encostou o rosto nos cabelos de Fiona e disse a si mesmo para não procurar problemas. Tinha uma esposa bela e apaixonada, seu pai estava mudando para melhor, as duas metades da família Cameron estavam juntas novamente e ele tinha aliados que jamais pensara conseguir. A vida era boa e ele deveria aproveitar. Fechou os olhos, aconchegou-se mais à Fiona e afastou todos os pensamentos negativos da sua mente.

 

Aturdido, Ewan achou que nao deveria ter ficado tão otimista ao ler novamente a mensagem que tinha nas mãos.

Fora apenas na noite anterior que pensara que tudo ia muito bem na sua vida? Agora, um fantasma do passado invadia sua vida novamente.

Helena tinha tido um filho seu. Pelo menos era isso que dizia o bilhete. A criança estava agora residindo com um velho casal, em uma pequena fazenda nas suas próprias ter­ras. Ewan não se surpreendeu em saber que Helena aban­donara o filho. A questão era por que demorara tanto tempo para fazê-lo?

Ewan saiu do escritório para procurar Gregor. A súbita aparição dessa criança levantou suspeitas. Helena era uma Gray e já o tinha traído antes. Era possível que isso fosse uma armadilha, uma outra mentira para pôr sua vida em perigo.

Encontrou Gregor no quarto, preparando-se para se deitar com uma das empregadas da casa. Depois de mandar a ga­rota embora, Ewan olhou para Gregor, meneando a cabeça em desaprovação. Era tempo de tentar evitar que os homens usassem as empregadas da casa. Se elas ficassem longe dos olhos e das mãos, Gregor e os outros ficariam mais atentos às suas obrigações.

— Você está ficando piedoso demais, Ewan — disse Gre­gor, esboçando um sorriso diante do olhar de desaprovação do irmão. — Ela também queria.

— Eu sei disso — respondeu Ewan. Por isso ela tem três filhos. Você quer mais um bastardo no mundo?

Ewan percebeu que sua voz demonstrava ódio e rancor quando viu o olhar surpreso do irmão.

— Acabei de receber uma mensagem que me deixou mui­to inquieto. — Ele entregou o bilhete ao irmão.

Um palavrão saiu da boca de Gregor quando terminou a leitura do bilhete.

— Você acredita nisso?

— Sim e não. Há uma chance de ser verdade. Ejacular fora nem sempre evita bebés.

— Então por que ela nunca lhe contou? Por que nunca trouxe o garoto aqui? Não posso acreditar que os Gray iriam querer uma criança sua na casa deles.

— Não. E se isso realmente aconteceu, se essa criança passou os últimos sete anos vivendo no meio dos Gray, faça ideia do que deve ter sofrido. Na verdade, não sei por que não foi morto ao nascer. Os Gray vêem os MacFingal como animais daninhos.

— Então, isso deve ser mentira, deve ser outra armadilha.

Ewan foi até a janela do quarto e olhou para fora.

— Temo que sim, mas não posso ter certeza, posso? E se a criança realmente existir? Como vou deixar de pensar nisso agora que tenho essa dúvida?

— Então envie alguns homens e traga o menino para cá — Gregor sugeriu.

— E o apresento a Fiona?

— Acho que ela entenderá, pois foi uma coisa que acon­teceu há oito anos.

— Será? É aí que reside o problema. Dúvidas demais. Ela ouviu falar de Helena e por isso não há necessidade de esconder o caso. Mas uma criança? Mulheres não gostam de saber que seu homem deu um filho a outra mulher. Para nós é apenas um erro, mas as mulheres não vêem dessa maneira. Talvez você não se lembre de todas as discussões entre papai e suas esposas, mas eu me lembro. Os filhos bastardos do marido são um grande insulto, muito mais do que a infidelidade.

— Já sei que você vai querer ir até o garoto pessoalmen­te, não é?

— Sim. Se for uma armadilha, não posso enviar alguém no meu lugar. Se for verdade e Helena deixou meu filho, preciso, vê-lo e resgatá-lo. Não poderei decidir nada antes de ver o garoto e saber se realmente é meu.

— E você será capaz de saber?

— Os MacFingal imprimem seus traços nos filhos. Até Ned, o filho de Mab, parece um MacFingal apesar dos ca­belos claros. Papai sabe disso apesar dos resmungos. Preciso decidir como farei isso, como chegar a ele sem cair em ne­nhuma armadilha que possa estar armada para mim.

— Eu irei com você — disse Gregor, enquanto calçava as botas. — Se formos apenas nós dois, poderemos chegar despercebidos e dar uma boa olhada antes de corrermos qualquer perigo. Eu conheço o lugar e podemos fazer isso. O único problema vai ser decidir a que distância deixaremos nossos cavalos.

— Sim, precisamos de um plano. Não poderei viver com isso na cabeça.

Ao saírem do quarto, Gregor deu um tapa amistoso nas costas do irmão.

— Nós resolveremos isso. É claro que, se for verdade, essa criança terá que vir para cá. Explicar para Fiona está nas suas mãos.

E isso, pensou Ewan, era o que mais o preocupava. Seu instinto lhe dizia que Fiona aceitaria a criança, cuidaria dela e não lhe daria muito trabalho, pois era um caso antigo. Mas essas considerações não foram suficientes para banir seus receios. Temia que isso pudesse separá-los e que tirasse o calor do seu matrimónio.

Afastando essas preocupações, Ewan se concentrou em sair de Scarglas sem escolta, apenas ele e Gregor. Se hou­vesse uma armadilha, os Gray estariam esperando um grupo de homens, já que os MacFingal não andavam sozinhos. Depois de dizer aos homens que iam apenas até a vila, ele e Gregor montaram em seus cavalos e partiram.

Ao chegarem na mata ficaram um pouco menos tensos, sabendo que não seriam vistos com facilidade.

Estavam a uma boa distância do casebre onde o bilhete dizia que seu filho estava, e fizeram o resto do percurso a pé. Ele e Gregor rastejaram pela mata com ma habilidade que teria deixado MacFingal orgulhoso. Finalmente para­ram, usando um grande muro de pedra como escudo para poderem observar a casa.

— Não vejo nada — disse Gregor.

— Nem eu, e os Gray nunca foram bons em se esconder.

— Se eles estivessem escondidos, a essa hora já teríamos sido capturados.

Ewan viu um homem de cabelos brancos sair da casa, deixando a porta aberta. Os dois irmãos não viram nada sus­peito no interior da casa. O casebre tinha apenas uma sala e um quarto. Não havia lugar para pessoas se esconderem.

— O velho Robbie não age como se tivesse alguma coisa para esconder e vi apenas a velha lá dentro. Acho que há uma criança sentada à mesa, mas está escuro demais para ter certeza — declarou Gregor. — Vamos esperar mais um pouco ou ir?

— Vamos agora. Não tem ninguém aqui além do velho Robbie e da esposa. — Ewan ergueu-se, mas hesitou.

—- Mudou de ideia?

— Não. Tenho que ir, não tenho? Estou me preparando. Eu preferia que não houvesse uma criança, mas acho que ficarei desapontado se não for verdade.

— Acho que entendo você. — Gregor deu um passo em direção do casebre. — Há apenas um modo de saber. Gregor saudou o velho Robbie ao se aproximar.

Ewan respirou fundo e seguiu o irmão. No momento em que cumprimentou o velho, Ewan sentiu o estômago doer de antecipação. O velho olhou para ele e meneou a cabeça, como se já tivesse ouvido a pergunta. Ewan endireitou as costas e seguiu o velho em direção da casa.

— Lá está ele. — O velho senhor apontou um dedo sujo para um garotinho que, sentado à mesa, comia um pedaço de bolo.

Um olhar foi tudo que Ewan precisou para saber o que queria. Caminhou até a mesa e sentou-se do lado oposto do menino. Olhou para ele e viu a beleza de Helena sob seus próprios traços fisionómicos. O garoto era muito bonito. Ca­belos pretos e finos lhe chegavam aos ombros. Sim, ele se parecia com um MacFingal.

Emocionado, Ewan aceitou um copo de cerveja que o velho Robbie lhe oferecia, e tomou um grande gole para tentar se acalmar. Helena deveria ter lhe contado a respeito da criança, deveria ter enviado o menino anos atrás. Agora a criança tinha quase sete anos e olhava para Ewan com suspeita e mágoa. Havia também uma certa suavidade no olhar do garoto.

Como contaria isso a Fiona? Como levaria a criança para casa?

Qual é seu nome, garoto? — Ewan perguntou, assim que Gregor moveu-se para guardar a porta.

— Garotinho.

— Tem certeza? É um nome estranho. Há algum outro nome pelo qual as pessoas chamavam você?

— Bastardo. — O menino olhou para o velho casal. — Eles me chamam de Garotinho. Gosto mais do que bastardo.

Ewan ficou tomado de tanta raiva que teve de respirar fundo para se acalmar. Pôde ouvir Gregor praguejar atrás dele. O modo como o menino olhou para Ewan o fez per­ceber que ele ainda tinha raiva no olhar e decidiu amenizar a situação.

— Temos que arranjar um outro nome. Você sabe se foi balizado?

— Não. Não fui. Ouvi as pessoas falarem. Eu não fui abençoado e irei para o inferno, não poderei ser enterrado em lugar santo e o demonio roubará minha alma se eu não estiver pronto e...

— Por favor, garoto, chega — Ewan murmurou. — Sou Ewan MacFingal, líder de Scarglas. Esse nome significa al­guma coisa para você?

— Você é o homem que minha mãe odeia. — O garoto franziu o cenho. — Acho que muitas pessoas o odeiam. Hugh odeia.

— Não me importo com isso. Garoto, sou seu pai. — Ewan sentou-se e o menino ficou olhando fixamente para ele.

— Acho que você parece comigo — disse o menino.

— Sim, pareço, embora você seja mais bonito. O homem à porta é seu tio Gregor.

— Minha mãe dizia que há muitos MacFingal amaldi­çoados.

— Sim, há. Sua mãe disse porque o mandou para mim? O menino começou a chorar e Ewan desejou pegá-lo no colo, mas Kate, a esposa de Robbie, chegou primeiro. Ewan achou melhor. Era um completo estranho para o garoto.

— Minha mãe disse que estava cheia de mim—o menino murmurou. — Eu disse que queria ficar com Mary, que gos­tava de mim, mas minha mãe disse que não queria mais me ver e ia me mandar para um lugar onde nunca mais tivesse que olhar na minha cara.

— Eu o encontrei na minha porta, disse o velho Robbie. Apenas ele, um cobertor fino e um bilhete. Kate e eu não sabemos ler e desse modo não sabíamos o que fazer com ele. Ele leu um pouco, nós o pusemos na cama e enviamos o recado para vocês.

— Então, você sabe ler um pouco, não é? — Ewan per­guntou.

— Um pouco. Mary estava me ensinando.

— Quem é Mary?

— A irmã mais nova de Hugh. Ele também não gosta dela. Ela manca, sabe, porque ele a jogou de uma escada e arruinou a perna dela. Eu lhe disse que estava triste por ela, mas ela disse que foi melhor, pois poderia ter quebrado o pescoço.

Céus, pensou Ewan. Aquele garoto passara sete anos em um inferno. Os Gray eram ainda piores do que ele pensava.

— Eu vou com vocês agora? — perguntou o menino.

— Não hoje — Ewan sorriu. — Você é uma surpresa para mim. Sua mãe não havia me contado. Agora que tenho certeza de que é meu filho preciso voltar a Scarglas e pre­parar a casa para sua chegada.

— E pensar em um nome para mim?

— Sim. Vamos providenciar um nome para você e pro­videnciar para que também seja batizado.

O menino arregalou os olhos, um brilho de esperança ilu­minando-o.

-— E isso será logo?

— Sim — Ewan murmurou, muito emocionado. — Logo, meu filho, eu prometo. Será logo.

Depois de assegurar ao velho casal que lhes mandaria suprimentos, Ewan tocou seu filho de leve, saiu do casebre e correu em direção da mata, com Gregor no seu encalço. Uma vez coberto pelas sombras, ele parou. Pôs as mãos nos quadris e tentou se controlar mais uma vez. Seu desejo era matar Helena e Hugh imediatamente.

— Você não pode matá-los ainda — afirmou Gregor, encostado ao tronco de uma árvore observando o irmão.

Ewan percebeu que Gregor adivinhara seus pensamentos mais uma vez.

— Ela não deu nem um nome ao menino. Como pode uma mãe fazer isso?

— Bem, sabemos que Helena é uma mulher fria, sem coração e traiçoeira. Você não pode se culpar por coisas que não fez, Ewan. O que pode fazer é melhorar a vida do garoto a partir de agora. E, é claro, encontrar um modo de matar Helena e Hugh mais tarde.

— Quem seria o líder se Hugh morresse?

— Acho que o próximo filho, chamado Wallace. Por quê? Preciso saber alguma coisa sobre ele. Hugh está morto.

É apenas questão de tempo. Fico pensando se isso realmente terminará com nossos problemas com os Gray, e se, depois deste bastardo morto, teríamos condições de fazer a paz com o novo líder. Hugh não tem filhos?

— Creio que nao. Nunca ouvi falar em filhos de Hugh. Você sabia que ele se casou com Helena?

Ewan confirmou e Gregor continuou:

— Pergunto-me se foi por isso que seu filho foi tão mal­tratado. Ela não deu um filho a Hugh, mas tem um filho seu.

Ewan começou a caminhar para o lado onde haviam dei­xado os cavalos.

— É hora de descobrirmos tudo que pudermos sobre nos­sos inimigos. Como sua irmã Mary parece ser uma boa pes­soa, fico pensando se todos eles são tão covardes e traiçoei­ros como Hugh, com quem lutamos todos esses anos. Sei que o pai dele ficou possesso com a perda de Scargías, mas não me recordo de haver muita guerra entre nós e os Gray antes de Hugh ser o líder.

— Você deve estar certo. É melhor conversarmos com nosso pai. Tudo que sei é que a guerra com os Gray começou com a liderança de Hugh. Eu ainda era um jovem sem barba quando isso aconteceu. Ouvi alguns rumores aqui e acolá, nada mais. Pensando nisso agora, muitas mulheres foram mortas depois que Hugh assumiu. O homem tem ódio e ran­cor no sangue.

— E verdade — Ewan concordou. — Temos lutado muito com ele em defesa de nossas terras e nossas vidas. Agora quero destruí-lo e o primeiro passo é descobrirmos tudo que pudermos a respeito dos Gray.

— Concordo com você. E o que vai fazer em relação ao seu filho? Prometemos a ele que o traríamos para Scargías.

— E manteremos nossa promessa, mas preciso tempo. Não é fácil confessar uma coisa dessas à esposa. Tenho que fazer do modo certo, pelo menos pelo bem do menino. Quan­do eu o trouxer para Scarglas, quero que ele seja bem rece­bido e quero que Fiona também o queira aqui, para tornar-se mãe dele. Sinto que ela o aceitará quando contarmos toda a história. Ewan deu de ombros, os sentimentos confusos demais para exprimi-los em palavras.

— Acho que você tem razão. É um assunto delicado. O velho Robbie e Kate o tratarão bem. E acho que sempre poderemos nos aproximar da casa com cuidado. Uma arma­dilha ainda não está totalmente descartada.

Ewan concordou. Os dois irmãos chegaram até onde es­tavam os cavalos e montaram.

— Isto deverá ser mantido em segredo, por agora, certo? Apenas você e eu.

— Sim, Gregor aquiesceu, enquanto montava no ca­valo. Não será bom Fiona ficar sabendo disso por outra pessoa, por isso não espere demais para contar, Ewan. O casebre não é tão perto de nossa casa, mas as palavras voam e podem chegar até nossos portões.

Essa possibilidade ainda atormentava Ewan quando, na­quela mesma noite, juntou-se a Fiona no quarto. Desde que voltara do casebre a havia evitado, ganhando tempo para preparar um plano. Ewan suspeitou que ela sentira a mu­dança de seu humor, mas ainda não arquitetara um plano.

Quando Fiona destrançou os cabelos, ele se aproximou para escová-los. Fiona tornara-se muito importante para ele e para todo seu futuro. Uma parte de Ewan gostaria de per­guntar a Fiona o que ela sentia por ele, mas não tinha cora­gem. Se ela não dissesse as palavras que ele queria ouvir, não suportaria tanta dor. E não tinha certeza de que os sen­timentos da esposa seriam suficientes para que ela aceitasse seu filho ou se ficaria magoada demais e fugiria dele.

— Você está com algum problema, Ewan? — Fiona per­guntou, quando ele pôs a escova de lado e se dirigiu à cama. — Parece perdido nos seus pensamentos.

-— Houve muitas mudanças aqui, garota, e eu realmente estou perdido nos meus pensamentos.

— Mudanças boas — Fiona afirmou, deitando-se e se aninhando nos braços do marido. — Todos ganharão com essas mudanças.

— E verdade. Meu pai também parece estar mudando para melhor. E agora meus irmãos terão boas chances de se realizarem em vez de ficarem somente aqui, como ajudante de armas. — Ewan começou a beijar o pescoço de Fiona e sentiu uma imensa alegria ao ouvir seus murmúrios de pra­zer. — É necessário tempo para aceitar as coisas boas tam­bém. Temos estado sozinhos durante décadas. Sempre de­sejei ter aliados e hesito em acreditar que finalmente meu desejo se tornou realidade.

Ele ergueu o rosto de Fiona e a beijou. O modo como ela aceitava seus beijos e seu toque foi o bastante para incen­diá-lo de paixão. Era isso que ele tinha medo de perder. O mero pensamento de que uma coisa dessas pudesse aconte­cer fez com que ele a desejasse ainda mais.

Ewan tirou-lhe a camisola e a deitou de costas. Fiona corou ao ver como ele a observava por inteiro, mas Ewan ignorou. A beleza dela fazia com que sua respiração ficasse presa na garganta e a ameaça de perdê-la fez com que Ewan desejasse deixar uma marca nela, uma recordação que fi­zesse com que fosse impossível para Fiona esquecer do seu toque.

Fiona estremeceu quando ele começou a beijar seus seios e a sugá-los. Havia alguma coisa diferente na maneira de Ewan fazer amor naquela noite. Ele parecia mais determi­nado, até mesmo desesperado. Mas Fiona achou que essa não era a hora certa para fazer perguntas. O que quer que fosse, o prazer que ele lhe estava proporcionando era deli­cioso demais para ser interrompido.

— Oh, garota, você tem gosto de mel, do mais doce mel que possa existir — Ewan murmurou ao beijar-lhe a barriga. — Um homem pode se embebedar com você.

— Deixe-me tocá-lo, Ewan — ela implorou.

— Dessa vez, não. Quando você me toca, eu perco completamente o controle.

Ewan continuou a beijar todo o corpo de Fiona, que cada vez mais se abandonava às suas carícias, gentis no início. Mas, depois de alguns minutos, os dois não puderam mais se controlar. Eles se queriam demais e não podiam esperar. Ewan penetrou-a com cuidado, mas logo seus movimentos tornaram-se vigorosos e Fiona gritava de prazer, movimen­tando-se cada vez mais energicamente.

Os dois estavam tomados por uma espécie de loucura, como se essa fosse a última vez que se amavam. Gemiam e se entregavam totalmente um ao outro, até não mais po­derem segurar o prazer e a felicidade que só o clímax poderia lhes dar.

Fortemente abraçados, os dois esperaram a respiração e os batimentos cardíacos se normalizarem para se separarem, ficando deitados um ao lado do outro, sem precisarem dizer uma só palavra.

Um sorriso se esboçou nos lábios de Fiona ao perceber que ia pegar no sono. Pensou mais uma vez no que poderia estar preocupando Ewan, mas nada perguntou. Gostaria muito que ele dividisse seus problemas com ela. mas Ewan arcara com problemas e responsabilidades por tanto tempo sozinho que devia encontrar alguma dificuldade em parti­lhá-los com a esposa.

Beijando-o no rosto, Fiona prometeu a si mesma ser pa­ciente e rezou para que, qualquer que fosse o problema, ele pudesse ser solucionado sem derramamento de sangue.

 

Ewan calçou as botas enquanto olhava para Fiona ador­mecida. Ela parecia exausta e ele sentiu culpa e satis­fação ao mesmo tempo. Nas últimas três noites haviam se amado muito e ele conseguira manter certo controle a fim de respeitar a ingenuidade de sua esposa.

Se os gritos de Fiona eram de prazer, não restava dúvida de que ela estava se transformando em uma verdadeira amante. Ewan apenas gostaria que a razão dos seus esforços e do seu sucesso não fosse devido ao segredo que-ele queria esconder até que pudesse ter mais certeza dos sentimentos de Fiona.

Mas isso era errado, pensou enquanto saía do quarto. De uma certa maneira, estava tentando escravizá-la usando o desejo e a paixão que ela sentia por ele. Isto não apenas estava errado, mas também poderia ser inútil.

Pelo que pudera ver ao longo dos anos, mulheres não eram facilmente escravizadas pela paixão e pelo sexo. Homens, sim. Mulheres eram conduzidas pelo coração. Fazer amor com Fiona até deixá-la exausta não era caminho para atingir seu coração. Mas Ewan não sabia como fazê-la amá-lo.

Ele parou no alto da escada e considerou a hipótese de voltar ao quarto e perguntar a Fiona o que ela sentia por ele. Já considerara essa hipótese várias vezes, mas sempre de­sistia. Sabia que sua esposa devia sentir alguma coisa por ele, pois a paixão que eles partilhavam era poderosa, mas nunca ouvira da sua boca palavras de afeição.

Meneando a cabeça diante de sua covardia, Ewan desceu rapidamente e foi até a sala. Ia comer e depois iria ver seu filho. Não podia continuar indo ao casebre todos os dias. As pessoas já começavam a olhar para ele com desconfiança. Ewan não era do tipo que guardava segredo e estava des­pertando a curiosidade de muitas pessoas.

Uma hora mais tarde, não conseguindo encontrar Gregor, Ewan decidiu ir ao casebre sozinho. Não havia nenhum sinal dos Gray e ele tinha ido e vindo sem nenhum contratempo. Parecia que Helena tinha feito exatamente o que dissera: deixara a criança para ele. Mesmo assim, seguiu o ritual que estabelecera com Gregor, deixando o cavalo no mesmo lu­gar de antes, e fazendo o resto do caminho a pé.

A cada passo dado Ewan pensava em um modo de revelar o segredo a Fiona. Seria melhor prepará-la para conhecer o garoto, mas cada vez que abria a boca para falar faltava-lhe coragem. E o tempo estava passando. O melhor seria falar de uma maneira simples e direta e torcer pelo melhor.

O velho Robbie atendeu a porta e Ewan entrou. Seu co­ração doeu quando viu o garoto erguer os olhos da tigela de mingau de aveia e sorrir para ele. O brilho de esperança que viu nos olhos do filho o fez decidir que levaria o menino para casa neste mesmo dia.

— O senhor pensou em um nome para mim?—perguntou o garoto, quando Ewan sentou-se na frente dele.

Ewan meneou a cabeça quando Kate silenciosamente ofe­receu-lhe um pouco de mingau, mas aceitou o refresco de sidra gelado que ela colocou na sua frente.

— Pensei em vários nomes, mas decidi esperar até che­garmos em Scarglas. Penso que Fiona me ajudará.

— O senhor está certo de que ela gostará de mim?

— Sim, não haverá problemas. Ela é muito boa.

— O senhor já lhe contou a meu respeito?

— Ainda não. Por isso, não se surpreenda se ela estranhar a sua presença. Ela poderá ficar brava, mas será comigo e não com você. Lembre-se disso.

— Talvez fosse melhor o senhor contar a ela primeiro.

— Eu tentei, garoto. Não é fácil e eu não sou muito bom com as palavras. Não é uma coisa simples para se dizer à esposa. Você entenderá quando ficar mais velho. — Ewan sorriu, quando ouviu o velho Robbie dar risada.

Naquele momento, Ewan ouviu um ruído que fez com que os pêlos da sua nuca eriçassem. Estava quase de pé quando a porta do casebre se abriu peio chute de alguém. Kate gritou e o velho Robbie a abraçou rapidamente levan­do-a para um canto da sala. Ewan desembainhou a espada e pôs-se entre a porta e o filho.

Era realmente uma armadilha. Os Gray usaram seu filho como isca e esperaram com uma paciência que nunca antes haviam demonstrado. Haviam deixado o garoto, conquistaram a confiança de Ewan e esperaram pelo momento opor­tuno. Ele baixara a guarda e agora estava sozinho para en­frentar os Gray.

Um homem abriu caminho entre as pessoas que haviam ficado à porta e Ewan sentiu uma dor de estômago quando ouviu o filho chorar. Hugh, o líder dos Gray, era mais baixo do que Ewan, mas mais encorpado e musculoso. Seu rosto era bonito, olhos e cabelos castanhos e alguma coisa especial nos seus traços não combinava com o que ele realmente era. Entretanto, havia um brilho nos olhos dele que devia deixar uma pessoa alerta. No momento, Hugh sorria triunfalmente.

— Não pôde resistir ao garoto, não é mesmo? — ele per­guntou com ironia.

— Ele é meu filho.

— Sim, qualquer imbecil pode ver que ele é um MacFingal.

— Estou curioso para saber por que o manteve ao seu lado por tanto tempo.

— Porque eu sabia que um dia o pequeno bastardo me seria útil. Acertei, não é?

O que mais deixava Ewan furioso era que, a não ser por um milagre, ele não teria condições de matar aquele homem.

— Sim, vou levá-lo comigo para Scarglas.

— Oh, não estrague minha diversão. Se der um passo em direção desta porta, eu o matarei rapidamente, e esse não é o meu plano. Agora, por que não guarda sua espada?

— E por que eu deveria fazer isso? — Ewan praguejou quando um dos homens de Hugh pôs a ponta da espada no pescoço de Kate.

— Você mataria essa pobre senhora que nada fez de errado?

— Sim, sem dúvida nenhuma.

Ewan sabia que não tinha escolha. Se continuasse discu­tindo, Hugh mataria Kate e o velho Robbie. E poderia até voltar sua atenção para o garoto. Não havia garantia que não fizesse essas coisas, mas Ewan não podia ignorar que o seu sacrifício poderia manter os três vivos. Jogou a espada aos pés de Hugh, que sorriu e sinalizou para que dois dos seus homens agarrassem Ewan. Ao ser levado para fora, Ewan ficou aliviado porque Hugh pareceu esquecer da presença do garoto e do casal de velhos.

Até o momento em que os homens de Hugh viraram as costas e os deixaram sozinhos na casa Ewan esperou que houvesse algum modo de tirar vantagem da situação para poder fugir. Ao chegarem a uma clareira atrás do casebre, Ewan olhou para um poste alto que havia sido fincado. Ao lado desse poste, sorrindo docemente, estava Helena.

Sigimor observou Ewan sendo despido e amarrado ao pos­te, os braços esticados e presos a um prego no alto do poste. Estivera observando o primo há três dias e tinha chegado à conclusão de que Ewan agia de modo estranho. Devido à fama dos seus primos, Sigimor chegara a pensar que Ewan tinha alguma amante. Isso seria um insulto a Fiona que ele , não poderia tolerar. Desse modo, seguira Ewan. Naquele mo­mento, até preferiu que fosse realmente outra mulher.

Um ruído atrás dele o deixou tenso e ele apoiou a mão na espada. Então ouviu alguém xingando e reconheceu voz. Quando Gregor se aproximou dele, Sigimor o agarrou e o jogou no chão e esperou que o rapaz se recuperasse do susto e olhasse para ele.

— Por que fez isso? — Gregor perguntou.

— Para que você fizesse uma pausa. Precisamos elaborar um plano a fim de não enfrentarmos dez homens sozinhos.

Gregor praguejou e ficou de pé.

— Não posso deixar Ewan nas mãos desse miserável. —-Gregor empalideceu, ao ver o irmão amarrado no poste. — O homem vai machucá-lo.

— Sim — Sigimor concordou. — Mas não pode lutar contra esses homens sozinho. Mesmo que eu lhe empreste minhas habilidades, eles são muitos. Precisamos voltar a Scarglas para buscarmos reforços.

— Então, vamos.

— Um momento. Quero ver quem está fugindo da casa.

— Céus! São o velho Robbie, sua esposa e o menino.

— O. menino?

Gregor explicou rapidamente.

— Pensamos que pudesse se tratar de uma armadilha, mas os dias foram passando e nada aconteceu.

Sigimor meneou a cabeça.

— Eles esperavam que vocês adquirissem confiança. No primeiro e talvez até no segundo dias, provavelmente não havia ninguém mesmo. Pelo que ouço falar a respeito dos Gray, eles sempre foram espertos.

— Sim — concordou Gregor. — Nós deveríamos ter sus­peitado de que eles ficariam espertos com o decorrer do tempo. Aquela mulher, Helena, está lá também. Ela é tão má quanto Hugh.

— Logo ela não mais oferecerá nenhum perigo, assim como ele. Vamos buscar reforços.

— Odeio ter que deixar Ewan sofrendo nas mãos deles.

— E preferível que ele sofra do que morra.

 

— Ele tem uma amante — gemeu Fiona.

Mab entregou um pedaço de pano quadrado para Fiona enxugar as lágrimas e voltou a fazer alguns saches de la­vanda para perfumar a roupa de cama.

— Por que acha que Ewan tem uma amante?

Fiona olhou para a amiga e assoou o nariz. Havia uma distinta falta de simpatia na voz de Mab.

— Há três dias ele sai e ninguém sabe aonde ele vai.

— Bem, se ninguém sabe aonde ele vai, por que você acha que se trata de outra mulher?

— Que outra razão há para que ele saía sem escolta?

— Talvez para fugir da escolta?

— Possivelmente — Fiona concordou, meneando a ca­beça. — Mas é mais do que isso. Não é apenas desejo de liberdade. Ele tem algum segredo.

Mab cruzou os braços sobre o peito e olhou para Fiona.

— Ele realmente age com estranheza e muitas pessoas já perceberam. Mas você ê a única que pensa se tratar de outra mulher.

— Geralmente esse é o motivo para que os homens saiam de casa furtivamente para algum lugar que ninguém sabe onde é. E fica horas fora.

— Não aqui em Scarglas. Os MacFingal não fazem se­gredo da sua luxúria.

— A maioria deles não é casada.

— Fiona, eu realmente não acredito que Ewan esteja sen­do infiel. Não entendo por que você pensa isso. Ele tem sido menos entusiasmado na cama ultimamente? — Mab ergueu as sobrancelhas e Fiona ruborizou. — Penso que não.

— Tenho certeza de que ele tem um segredo, Mab. Al­guma coisa o está perturbando. E ele, bem, ele tem estado entusiasmado demais.

— Acho que, se ele tivesse estado com outra mulher du­rante o dia, seu entusiasmo seria um pouco menor à noite. Até um MacFingal tem que descansar de vez em quando.

— Ele realmente me prometeu que seria fiel quando se casasse — Fiona sorriu.

— Então, ele não está visitando nenhuma mulher. Creio que você está sensível demais. É a gravidez. Às vezes acon­tece isso.

Fiona suspirou. Talvez estivesse vendo problemas onde nada havia. O fato de estar desesperadamente apaixonada por Ewan e ainda não ter certeza dos sentimentos que ele nutria por ela a deixava ansiosa.

— Tentei falar com Gregor a esse respeito, mas ele sabe muito bem como se esquivar.

— Por que Gregor deveria saber alguma coisa se ninguém sabe?

— Por que ele sai com Ewan.

— Então, garota, Gregor vai com Ewan. Você acha que um homem levaria o irmão junto se fosse visitar uma amante?

— Acho mesmo que estou sendo tola, Fiona sussurroudepois de alguns momentos. Estou tão apaixonada por ele, e gostaria que ele também estivesse. Isso me põe teme­rosa e insegura.

— Isso e o fato de estar carregando um bebe. Por que não fala a ele a respeito dos seus sentimentos?

— Orgulho, suponho. Penso em falar, mas tenho medo de não ser correspondida. Céus, eu ficaria arrasada... E se ele, por não me amar como eu o amo, ficar constrangido e começar a fugir de mim? Se bem que ele parece sempre estar longe. Oh, Deus, estou falando coisas sem sentido.

— Sim, está. Eu gostaria de ter algum conselho para dar a você, mas não tenho nenhum. Tudo que posso dizer é que Ewan é um bom homem e que você deve ser paciente. Ele é fiel, está apaixonado, protegerá você e lhe dará filhos. Acho que são coisas muito importantes. Além da paixão que vocês sentem um pelo outro.

— Eu sei disso, Fiona sorriu debilmente. É que eu percebo que ele está perturbado com alguma coisa, depois ele desaparece durante algumas horas todos os dias e eu fico imaginando que ele esteja se encontrando com alguma em­pregada de seios grandes. Mab riu e meneou a cabeça.

— Confie nele, Fiona. Apenas confie e o ame, e tudo dará certo.

Quando Mab deixou o herbário e voltou para casa, Fiona prometeu a si mesma que repetiria a frase de Mab diversas vezes por dia. Gillyanne tampouco conquistara o coração de Connor rapidamente. Ela suspeitava que seu irmão pusera seu coração nas mãos da esposa muito antes de ter admitido seu amor. Se não tivesse se deparado com a possibilidade real de perdê-la, Connor manteria silêncio por mais tempo.

E Ewan era igual a Connor em muitas maneiras, pensou ela.

Ewan era manso interiormente, mas escondia isso de to­dos. Fazia parte do seu papel de líder do clã. Provavelmente, nunca seria homem de dizer palavras doces e de mostrar sua afeição abertamente, e ela teria que se acostumar com isso. Mas gostaria muito que, ao menos uma só vez, ele lhe con­fessasse seu amor.

Fiona suspirava de prazer diante da imagem de um Ewan romântico lhe dizendo palavras de amor quando um grito se fez ouvir de uma das torres da muralha. Ela arregalou os olhos ao ver Sigimor e Gregor cavalgando velozmente e um garotinho montado junto com Gregor. Então, reconheceu um terceiro cavalo e seu coração quase parou.

Assim que Gregor desmontou, ela correu até ele.

— Ewan? Onde está Ewan?

— Ele está vivo, não tenha medo. — Sigimor apertou-lhe um dos braços.

— Então por que vocês trouxeram o cavalo dele?

— Porque ele caiu em uma armadilha armada pelos Gray — explicou Gregor. — Viemos buscar nossos homens.

— Expliquem isso — Fiona exigiu, olhando para o cunha­do e para Sigimor.

À medida que ouvia as explicações, Fiona arregalava os olhos. Ali estava o problema que ela pressentira todos esses dias. Helena, seu primeiro amor, havia voltado à vida dele.

Tinha um filho dele, nunca lhe dissera e agora jogava o garoto no seu colo. E tinha sido uma armadilha armada por Hugh e Helena, duas pessoas que odiavam Ewan. As mes­mas pessoas que já o haviam capturado, torturado e quase o haviam emasculado.

Fiona sentiu o medo lhe gelar os ossos.

— Conseguimos ajudar o casal de velhos e o menino — Sigimor disse, acrescentando em um sussurro: — O pobre­zinho não tem nome. Chamavam-no de Garotinho. Seu ma­rido explicará tudo mais tarde.

— Se ele sobreviver — murmurou Fiona.

— Oh, ele sobreviverá.

Havia tanta certeza na voz de Sigimor que Fiona acredi­tou. Devagar, virou-se para olhar o menino. Magoava saber que Ewan não lhe contara, mas pôs esse pensamento de lado. O menino parecia aterrorizado e precisava de conforto. Fio­na suspeitava que precisava também se sentir bem-vindo.

— Você se parece com seu pai — ela disse, suavemente, tocando os cabelos do garoto. — Seus olhos, seus cabelos.

— Ele ia me trazer para cá hoje — o menino murmurou, limpando as lágrimas com a mão suja.

— Estou contente por você estar aqui. Ele deveria tê-lo trazido no primeiro dia, mas eu ralharei com seu pai quando ele voltar.

— Hugh e minha mãe vão machucá-lo. Eles sempre ma­chucam as pessoas.

-— Eu curarei os machucados dele. Sou Fiona, sua esposa.

— Ele me disse que você é boa e que ia ser gentil comigo. Mas não precisa, se não quiser.

— Oh, mas eu quero. Quem não gostaria de um menino bonito como você?

— Minha mãe. E Hugh. Porque sou um MacFingal.

— Sim, você é — afirmou Gregor ao se aproximar, jun­tamente com seu pai. —- Garoto, esse é seu avô e ele vai mostrar-lhe seu novo lar.

O menino deu a mão para o avô com cautela e então olhou para Sigimor.

— Você vai trazer meu pai de volta?

— Sim, garoto — respondeu Sigimor.

— E minha mãe?

— Temo que nunca mais irá vê-la.

O menino meneou a cabeça e se afastou com o avô. Fiona suspeitou que aquele pobre garoto precisaria de muito cari­nho. Seu olhar, sua voz e o fato de não ter um nome eram provas de que devia ter sofrido muito em seu pouco tempo de vida, pelo fato de ser filho de Ewan.

Fiona ficou parada, observando Gregor e Sigimor juntan­do os homens e os cavalos para partirem no resgate de Ewan. Os planos pareciam bons, eles estavam confiantes no suces­so e isso a confortou e a encheu de coragem. Via apenas um pequeno problema. Havia um espaço que ela tinha que atra­vessar para chegar a Ewan e seus tormentos.

— Vocês vão precisar de alguma coisa para distrair a atenção deles quando chegarem perto dos homens de Hugh — Fiona afirmou.

— Espero que você não queira sugerir o que eu estou pensando — Sigimor olhou para ela, o cenho franzido.

— Acho que suas esperanças são vãs.

— Ewan não ficaria feliz se a usássemos e puséssemos sua vida em risco apenas para salvá-lo — afirmou Gregor.

— Um dos homens fará alguma coisa.

— Os Gray reconhecerão seus homens. A única alterna­tiva sou eu. Eles não me conhecem.

— Alguns deles a viram no dia em que Simon foi ferido.

— Eles viram uma pessoa vestida de homem, toda em­poeirada e isso, durante a luta,

— E o que os impedirá de matá-la?

— Simples curiosidade. Talvez luxúria. Isso não importa. Mesmo que eles me reconheçam, não me matarão, pois po­derão me usar para atormentar Ewan. Vocês não levarão muito tempo para chegar até eles, levarão?

— Acho que o que Fiona diz tem sentido, Gregor — Sigimor declarou. — Ela poderá nos dar os minutos de que precisamos para atravessar a clareira e executarmos nosso plano. Eles estão esperando por um MacFinga], e uma mu­lher certamente os deixará surpresos. Acho que a maioria dos homens olhará para Fiona e mesmo os mais conscientes poderão levar alguns minutos para pensarem que ela poderia ser uma ameaça.

— E esses minutos serão suficientes para nós apontarmos nossas espadas para eles.

— Ewan irá me comer vivo — Gregor disse, antes de expor seu plano para Fiona.

 

Isto não vai ser agradável, pensou Ewan ao ver uma sor­ridente Helena segurar um chicote nas mãos delicadas co­mo se o acariciasse. Entendia agora porque ela amava Hugh. Os dois eram feitos da mesma massa. O que Ewan não en­tendia e nunca conseguira entender era o motivo de ela sentir tanto ódio por ele. Ser o líder das terras que Hugh cobiçava não lhe parecia motivo suficiente.

— Você devia ter dado um nome ao menino — Ewan disse a Helena, e quase sorriu ao ver como suas palavras a tinham deixado admirada.

— Nunca pensei que o pequeno bastardo fosse sobreviver, ela declarou, dando de ombros. Mas, céus, que menino teimoso! Não pude me livrar dele enquanto ele estava dentro do meu útero e depois que ele me torturou com seu nasci­mento, pareceu ficar cada vez mais forte. Certa vez pensei que uma febre fosse levá-lo, mas a imbecil da irmã de Hugh o alimentou até que ele recuperasse a saúde.

— Nós, os MacFingal, somos duros na queda.

— Isso é muito bom, pois quero que você demore a morrer.

Era estranho ouvir esse tipo de palavras de uma boca tão tentadora. Ewan constatou que Helena continuava bela, mas essa beleza não o emocionava mais. Podia ver a podridão sob aquela pele clara e lisa. Era tanta maldade que Ewan não podia entender como ela continuava tão bela.

Agora Ewan conhecia a beleza verdadeira. Fiona tinha cicatrizes e não era tão sensual quanto Helena, mas era muito mais bonita do que Helena jamais poderia ser. Fiona tinha a suavidade, a delicadeza e a generosidade de espírito que faltava em Helena. Ewan ficou um pouco constrangido por ter se deixado iludir por uma mulher daquele tipo.

— Tenho apenas uma pergunta a fazer antes que você comece a agir — ele murmurou.

— E o que é? — Hugh perguntou, quando viu que Ewan nada dizia.

— Confesso que estou curioso em saber por que você e Helena têm tanto ódio de mim. Exceto pelas terras que vocês erroneamente acham que lhes foram roubadas, Hugh, não me lembro de nenhum pecado que eu tenha cometido contra vocês dois.

— Scarglas deveria ser minha! — Hugh gritou. — O lou­co do seu pai caiu nas graças do primo dele e a roubou de mim. Eu é que devia tê-la herdado, não você. Eu é que de-veria ser o líder de Scarglas, não você. A partir do momento em que você nasceu, o filho daquele tolo Fingai com a filha do velho líder, nós perdemos a chance de ficar com as terras. Você era o neto mais velho e não importava o que fizessemos, era o herdeiro verdadeiro aos olhos do rei, da igreja e da lei. Você não devia ter nascido.

— Mas você não precisa daquelas terras. É o líder das suas terras.

— Miserável, seus argumentos de nada adiantarão. Com aquelas terras acrescentadas às minhas, eu seria um líder muito poderoso. Hugh olhou na direção de Scarglas. Aquela casa é muito melhor, também. Valeria mais nas mãos de um homem como eu. Eu poderia ser um homem rico e respeitado se tivesse aquela casa.

Isso tudo ainda não fazia muito sentido para Ewan. Hugh parecia pensar que ele tinha se tornado herdeiro de Scarglas por pura malícia e que tinha roubado dele algum futuro glo­rioso que só existia na cabeça dele, pelo menos em parte. Ewan ainda sentia que devia haver mais motivos, que só faziam sentido na mente doentia de Hugh. Em algum ponto da vida, Hugh decidira que a perda de Scarglas era a razão de tudo o que dera errado para ele e, uma vez que Ewan era o herdeiro, ele tinha que sofrer. O fato de Ewan ter dado um filho a Helena e ele não, tinha indubitavelmente reforçado aquela estranha noção de vingança.

— E você, Helena? — Ewan perguntou.

— Você matou minha família minha mãe e minha irmã.

— Não, eu não as matei.

— Talvez não por suas próprias mãos, mas seu clã foi o responsável. Elas foram sacrificadas em uma das suas in­vestidas. Meu pai encontrou os corpos e se enforcou. Perdi todos por causa dos MacFingal. Ela sorriu malevolamente para Hugh. Fiquei perdida e sozinha até encontrar Hugh.

— Meus homens não matam mulheres.

— Vocês, MacFingal, entraram nas nossas terras. Seus homens foram vistos perto da minha casa. Você me insulta com suas negativas. Quem mais poderia ter feito aquilo?

Seu pai, Ewan pensou, mas nada disse, apenas olhou para ela. Seu instinto lhe dizia que uma parte de Helena sabia disso, mas em vez de enfrentar a terrível verdade preferia culpar seu clã e ele. Tinha sido sua má sorte esíar por perto naquele dia terrível.

A situação era até engraçada. Não fizera nada aquela gen­te. Seria torturado e assassinado por coisas que nunca havia feito, por crimes que nunca havia cometido. Ele era o de­monio para eles, aquele que o haviam escolhido para culpar pelos seus próprios erros, dores e perdas. Durante anos ten­tara discutir com pessoas que não tinham raciocínio normal.

— Chega de conversa, clamou Hugh, dando um passo em direção de Ewan, com o punhal na mão. Isto é perda de tempo.

— Matar-me não lhe dará Scarglas, disse Ewan.

— É verdade, mas me fará muito feliz,

— Você disse que começaria, Hugh declarou Helena, um leve lamento na voz. Por isso eu trouxe meu chicote. Se você começar a cortá-lo, ele ficará ensanguentado e eu poderei torturá-lo por ter ousado me tocar.

— Você é que me tocou, Ewan murmurou. Eu não revelei meus segredos e você se enfiou na minha cama, e tentou me seduzir para que eu os contasse. Pode parar de agir como se fosse uma mulher virtuosa, abusada por um MacFingal. Não foi bem assim.

E, naquele momento, ela não era mais uma mulher bonita, pois seus traços estavam deformados pelo ódio e pela fúria. Agora era possível ver o que Helena tinha dentro do coração. provavelmente não fora inteligente afirmar o que ele acabara de dizer, mas Ewan não queria ser chamado de vilão por aquela mulher.

— Deixe-me fazê-lo pagar por isso, Hugh — ela sibilou. Deixe-me fazê-lo sangrar.

-— Eu a interromperei se você for longe demais, meu amor —Hugh afirmou, dando um passo para trás. Eu a deixarei se vingar, mas eu também quero torturá-lo. Vire-o de costas ele ordenou a seus homens.

E esse será o começo, pensou Ewan, enquanto era virado para que Helena lhe açoitasse as costas. E ele rezou para ter força suficiente e não demonstrar sua dor. Quanto mais pu­desse aguentar, mais chance teria de ser resgatado. Alguém poderia notar sua falta, notar que ele saíra sozinho. Gregor sabia o lugar onde ele deveria estar, coisa que os Gray não tinham conhecimento.

Quando Helena começou a açoitá-lo, Ewan cerrou os den­tes e começou a rezar para que alguém chegasse.

— Eu quero que vocês matem os dois Fiona disse, ao ver seu marido nu e sangrando, e lutando para encarar Hugh quando os homens o viraram para que encarasse seu algoz de cima daquele estranho patíbulo.

— É o que pretendemos fazer declarou Gregor.

— Poderemos fazer isso devagar — murmurou Sigimor, olhando de perto para Fiona. Dê-lhes uma amostra da que estão fazendo com seu marido.

— Ah, não me tente, Sigimor Fiona sussurrou, e res­pirou fundo. Mas não, mesmo que eles mereçam, não agiremos da mesma maneira.

— Como quiser. Pronta?

Fiona ajustou o corpete e despenteou os cabelos com os dedos.

— Sim, estou pronta. Como pareço?

— Deliciosa.

Não dá para ver nenhum dos meus punhais?

— Nenhum.

— Então estou pronta.

— Tenha muito cuidado, Fiona disse Gregor. Se eles a forem agarrar e feri-la, corra. Eu já a vi correr e seí que você tem capacidade de vencê-los, pelo menos até que desviemos a atenção dele em nossa direção.

— De acordo.

Fiona pegou sua cesta e caminhou em direção dos Gray, satisfeita com o ódio que incendiava seu sangue, pois dimi­nuía seu medo. Embora todos houvessem achado seu plano bom, sempre havia a possibilidade de alguma coisa dar er­rado. Nenhum deles sabia com certeza o que os Gray haviam ouvido falar dela. Se soubessem demais, ela poderia ser re­conhecida e isso a poria em terrível perigo.

— Tio Robbie! Fiona gritou, enquanto se aproximava do casebre. Oh! Trouxe bolos. Ela parou e olhou para os Gray como se tivesse acabado de vê-los. Oh, céus, eu nião sabia que tio Robbie tinha convidados. Eu teria trazido mais bolos.

Ewan piscou. Não era possível. O que Fiona fazia ali? A dor que sentia devia estar fazendo com que ele delirasse.

Então olhou para Hugh e seus homens, para suas expres­sões de cobiça e percebeu que era realmente sua mulher que estava ali. Sua mulher, parecendo docemente confusa, os cabelos soltos, o corpo esguio e o corpete tão baixo a ponto de quase ser possível ver os bicos dos seus seios. Se ela respirasse fundo, seus seios saltariam fora do corpete na frente de todos. Quando estivesse livre, iria querer saber quem a deixara sair daquele jeito e o mataria aos poucos.

Então, Fiona olhou para ele e, por um breve momento, ele viu ódio nos olhos dela. Mas foi apenas um vislumbre antes de ela parecer apenas curiosa e sem dar sinal de tê-lo reconhecido. De fato, considerando-se que ela olhava para um homem ensanguentado, a expressão de Fiona era doce e calma demais, como se ela não tivesse sentimentos. Ewan se pôs a pensar quantas facas sua esposa teria escondido no corpo.

— Quem diabos é você? Hugh perguntou, irado.

O modo como Hugh olhava para os seios de Fiona fez com que Ewan desejasse que alguém o matasse imediata­mente. Depois de olhar rapidamente para as expressões dos homens de Hugh, Ewan teve vontade de mandar Fiona de volta para casa. Então ele viu o rosto de Helena. A mulher olhava de Hugh para Fiona várias vezes. A expressão dela e o modo como apertava o chicote ensanguentado com as mãos fizeram com que Ewan sentisse que ela devia ser ob­servada mais de perto.

Ewan manteve os olhos fixos em Helena enquanto Fiona representava seu papel. Pelo menos isso o manteria ocupado para não olhar para seus homens, que ele esperava estives­sem se aproximando. Fiona era impetuosa, mas não tentaria resgatá-lo sozinha. Era uma mulher inteligente e acostuma­da a lutar.

Ewan lutava para não ceder à dor, para continuar a ob­servar os Gray ao menor sinal de ameaça a Fiona se algum dos homens a reconhecesse.

— Sou sobrinha do velho Robbie Fiona respondeu, sorrindo para Hugh. Eu às vezes venho vê-lo e também a sua mulher.

— O velho não tem parentes interveio Helena.

— Bem, não sou parente de sangue, mas ele me considera da família.

— Isto está errado, Hugh Helena declarou, aproximan­do-se do marido, que mantinha o olhar fixo em Fiona. Mande essa mulher embora ou acabe com ela.

— Oh, que falta de gentileza Fiona falou firme. Ewan observou os olhares de todos os homens seguindo sua mão quando ela pressionou os seios. Se o resgate não chegasse logo, eles se atirariam sobre ela como lobos. Ou uma ciumenta Helena a atacaria. Ewan quase sorriu. Helena estaria cometendo o erro mais grave de sua vida, um erro que a levaria à morte.

— Mas eu a perdoo continuou Fiona, pois suspeito que essas manchas sejam muito desconfortáveis e a deixem de mau humor.

— Manchas?! Não tenho nenhuma mancha. Helena passou a mão pelo rosto.

— Oh, desculpe. Devo ter visto alguma sombra. Errei.

— Fiona olhou para Ewan. Vocês deveriam vestir esse pobre homem. Não é certo mulheres ficarem expostas a esse tipo de demonstração. Pode ferir nossa sensibilidade.

— Você é uma idiota vociferou Helena.

— Cale a boca. Helena disse Hugh. E você, moça ele se voltou à Fiona, o que faz aqui?

— Eu espero — ela respondeu.

— Espera o quê?

— Espero que você morra.

Hugh ficou surpreso pela mudança do tom de voz de Fio­na. Ewan achou que nunca ouvira uma voz de mulher tão dura, tão fria e tão ameaçadora. Fiona se aproximava lenta­mente dele e, pelo canto do olho, Ewan viu alguém de cabelo vermelho se aproximando, e quase sorriu. Tudo que tinha de fazer agora era observar sua pequena esposa e rezar para que ela não fosse ferida na batalha que estava na iminência de começar.

— Você é louca. Certamente não pensa que uma moça como você possa me causar algum mal.

— Eu penso que posso, mas deixarei esse serviço para outros.

— Para outros? Para quem?

— Para mim, disse Sigimor, que sorriu quando Hugh se virou para olhar para ele.

Fiona ficou perto de Ewan quando a batalha começou. Pôs a cesta no chão e se armou com um punhal em cada mão. Queria soltar Ewan, mas ele estava colocado alto de­mais para ela, e, além disso, não podia afastar os olhos dos Gray, não podia se distrair.

— Vou bater em você quando estiver livre e curado dos meus ferimento, Ewan ameaçou.

— Você pode até tentar, Fiona respondeu. Será uma batalha rápida.

— Muito rápida, Naquele momento, Ewan viu Helena olhando para Fiona como se apenas naquele momento tives­se percebido que se tratava de uma armadilha preparada para eles. Fique atenta, garota.

Fiona ficou tensa ao ver Helena se aproximar. Era óbvio que a mulher estivera no meio da batalha. Fiona lembrou-se de ter ouvido seu chicote estalar algumas vezes Como He lena não portava mais o chicote, Fiona deduziu que um dos homens de Ewan o tinha arrebatado e ficou chateada por ela não ter sido morta no processo. Mas Helena portava agora um grande e afiado punhal.

— Você é mulher que se casou com ele, não é? Helena perguntou a Fiona.

— Sim, tive essa honra.

— Honra? Por se casar com ele? Suponho que não tenha conseguido coisa melhor depois que foí marcada por essas cicatrizes.

— E eu suponho que você não tem cérebro.

— Vou matar você e depois cortar seu corpo em pedacinhos. Você deveria ter fugido, sua tola, porque fui eu quem marcou Ewan com a maioria das cicatrizes que ele possui.

— Sei disso, mas serei misericordiosa e não a farei sofrer quando a estiver matando.

Ewan praguejou ao ver Helena investir contra Fiona. Um instante depois ele se acalmou e observou sua esposa com admiração.

Era fácil perceber sua habilidade e sua graça ao lutar. Levou vários minutos para Helena perceber que Fiona es­tava brincando com ela, que aquela pequena mulher já po­deria tê-la matado se quisesse. Por um breve momento o medo tomou conta dela, que fixou os olhos em Fiona.

— Eu levarei você comigo, Helena sibilou, consciente de que perderia a luta.

— Não, não levará. Você irá sozinha.

Um momento depois Helena jazia no chão e Fiona cal­mamente limpava a lâmina do punhal nas saias da mulher morta. Estava se levantando para olhar Ewan quando o último dos Gray caía. Ewan sentiu uma ponta de decepção por não ter visto Hugh morrer.

— Sigimor o fez suar, Fiona afirmou.

— Você lê meus pensamentos, não lê?

— Depois do que ele fez você sofrer, não é um grande dom saber o que você estava pensando.

Gregor e Sigimor desamarraram Ewan. Ele caiu ajoelha­do, as pernas fracas demais para sustentá-lo e não se fez de rogado ao apoiar a cabeça no colo de Fiona. Ele fechou os olhos e respirou profundamente, inalando o cheiro de sua esposa que começara a limpar seus ferimentos. Ao redor deles podia-se ouvir os sons de seus homens removendo os corpos dos Gray.

— Oh, Ewan... — sussurrou Fiona, enquanto com deli­cadeza lavava as feridas das costas do marido. — Gostaria de poder matá-los novamente. Suas pobres costas.

— Ficarei bom. Helena não tinha a força de um homem, não me fez tanto mal.

— Não estou triste por tê-la matado.

— Ótimo. Não deve estar. Ah, garota, você se arriscou muito para me salvar.

— Não tive escolha.

Ele queria perguntar o que ela estava querendo dizer, mas Gregor chegou com um cobertor e uma calça para vesti-lo. Fiona o ajudou a sentar-se e Gregor, com cuidado, vestiu o irmão rapidamente.

Ewan teria que esperar para perguntar a Fiona o signifi­cado daquelas palavras. A emoção da sua voz poderia não ser natural para uma mulher depois da batalha que enfren­tara. Ou poderia significar que ela se importava muito com ele. Mais tarde, quando sua mente estivesse mais ciara, ele pensaria nisso com cuidado.

— Você pode montar? — Gregor perguntou ao irmão.

— Só amarrado ou se alguém me segurar. Como soube o que estava acontecendo?

— Percebi que você saíra sem mim e encontrei Sigimor aqui. Ele tinha seguido você, embora não tenha dito o motivo , Gregor explicou, franzindo o cenho para Sigimor. Por que você veio aqui?

— Achei que Ewan estava agindo de maneira estranha, respondeu Sigimor. Pensei que ele tivesse arranjado uma amante e decidi descobrir para pôr algum juízo na ca­beça dele.

Fiona riu, tanto pelas palavras de Sigimor como pelo alí­vio de não ser a única pessoa que achara que Ewan saía furtivamente para se encontrar com outra mulher.

— Ewan necessitará ser amarrado para se firmar sobre o cavalo e temos que tomar cuidado com suas costas.

— Eu farei isso. Ele poderá sentar-se atrás de mim, pôr seus braços ao redor da minha cintura e nós amarraremos seus pulsos juntos para que ele não caia, se desmaiar.

— Eu nunca desmaiei — resmungou Ewan, e Sigimor apenas esboçou um sorriso.

Sigimor estremeceu quando ajudou Ewan a ficar de pé e deu uma olhada nas costas dele.

— Aquela mulher amava seu chicote. O que você fez para ela o odiar tanto?

— Ela me culpa pela morte de sua mãe e de sua irmã, respondeu Ewan, apoiando-se em Sigimor quando os dois caminhavam até a clareira, onde havia deixado os cavalos. Pelo que ela me contou, acredito que foi seu pai que matou as duas mulheres e depois se suicidou. Pude perceber que Helena tinha essa suspeita, mas os MacFingal haviam inva­dido as terras dos Gray naquele dia e ela decidiu culpar-nos.

— E Hugh queria Scarglas.

— Sim, mas ele também tinha a mente confusa e eu me tomei o demónio que ele tinha de matar. Vendo que Fiona vinha atrás deles conversando com Simon, Ewan perguntou ao primo: E quanto às pessoas do casebre? Hugh se es­queceu delas?

— Você se refere ao casal de velhos e ao seu filho?

— É claro que sim. Fiona viu o garoto?

— Sim, ele e o casal estão em Scarglas. Você devia tê-la avisado.

— Faz apenas três dias que eu soube da existência dele. Eu estava tentando pensar na melhor maneira para contar a ela.

— Bem, enquanto você estiver se recuperando terá tempo de pensar no melhor modo para controlar o temperamento de sua esposa.

— Ela ficou brava?

Sigimor sorriu, mas não disse a Ewan que essa pergunta era estúpida demais.

— É claro que ficou. E duro para uma mulher aceitar o filho bastardo do marido. Mas ela não está brava por você ter um filho bastardo. O irmão dela, Diarmot, tem cinco. E Fiona tem o bom senso de entender que você nem sabia da existência desse filho. Ela ficou brava por você não ter con­tado a ela.

— Terei que tentar convencê-la, e sei que não será fácil — Ewan suspirou, e Sigimor apenas riu.

Quando foi colocado no cavalo e seus pulsos amarrados ao redor da cintura de Sigimor, Ewan soube que logo iria passar por mentiroso e desmaiaria. Olhou para Fiona quan­do ela parou ao lado dele e apertou a coxa dele com a mão trêmula. Ewan ficou emocionado com a expressão que viu no olhar de sua esposa. Havia muito mais do que apenas a preocupação de uma esposa obediente.

— Ficarei bem, Fiona — ele disse. — Monte no seu ca­valo e vamos embora. E suba seu corpete. Dá para ver os bicos dos seus seios.

Ele quase riu quando a viu ruborizar, puxar o corpete e olhar para ele antes de pôr o cavalo em movimento. Teria sido melhor ter ficado quieto ou ter arrancado algumas pa­lavras doces dela, mas Ewan sabia que esse não era o mo­mento indicado.

Confortou-se com a ideia de que ela se preocupava com ele. Vira isso nos seus olhos lacrimejantes. Mais tarde, quan­do estivesse curado, tentaria encontrar um modo de fazê-la dizer aquelas palavras. O olhar de Fiona lhe dera esperança, mas Ewan necessitava dessas palavras. Foi seu último pen­samento claro, pois Sigimor fez o cavalo andar e Ewan de­pois de um minuto de dor mergulhou na escuridão.

 

Olá papai.

Ewan abriu os olhos e olhou para o garotinho, parado ao lado de sua cama. Logo em seguida, tomou cons­ciência de que suas costas não eram mais a massa inflamável de agonia que fora antes. A memória de como fora parar naquela cama e de quem havia tratado de seus ferimentos era muito vaga. O instinto lhe dizia que ele devia estar preso ao leito há mais de algumas horas, desde o momento em que desmaiara durante a viagem de volta a Scarglas.

— Olá, meu filho — Ewan respondeu, a garganta seca como se tivesse comido areia.

— Meu nome não é mais Garotinho. Tenho um nome, agora.

Havia tanto orgulho e alegria na afirmação que Ewan teve de sorrir.

— E qual é o seu nome?

— Ciaran MacFingal ou Ciaran Cameron. Sigimor e o vovô ainda estão discutindo.

— Qualquer um dos dois é um bom nome. Quem o deu?

— Minha nova mae. Ela até pediu ao padre para batizar-me. Queríamos que o senhor estivesse presente, mas ainda está doente.

— Estou doente?

— Sim, há muitos dias — Ciaran confirmou. — Mamãe e Mab o fizeram tomar remédios e puseram esterco nas suas costas.

— Foi muita gentileza delas. Humm, Ciaran, você acha que pode me dar alguma coisa para beber?

— Posso tentar.

Ewan olhou para sua esposa que se aproximava da cama com uma caneca. Ela sentou-se na beirada da cama e parecia calma, talvez calma demais. E não havia sentimento no seu toque quando ela passou o braço para que ele apoiasse a cabeça e pudesse beber o chá de sidra gelado que ela lhe oferecia. Não havia dúvida de que Fiona estava brava.

— Há quanto tempo estou nesta cama? — Ewan pergun­tou, depois de terminar a bebida.

— Três dias — Fiona o informou, levantando-se da cama para ficar ao lado de Ciaran. — Pensei em esperar para que você pudesse ajudar a escolher um nome para seu filho e fazer com que fosse batizado, mas não pude aguentar mais do que um dia o fato de ele não ter um nome. Então fizemos uma reunião, regida por seu pai e quando você estiver bem daremos uma festa para festejar e apresentar oficialmente Ciaran aos seus tios e primos. E o nome dele entrará para o Livro.

— Ah, o Livro, — Ewan sorriu para o filho. — Isso é muito importante — ele murmurou, pensando no livro onde seu pai registrava todos os filhos, a data dos nascimentos, batizados, nome das mães e todas as informações que pu­desse ter. Também registrará as filhas, mas eram apenas três no meio da multidão de garotos. Estou muito feliz por você já estar instalado, Ciaran. Mas não precisa esperar a cerimónia para conhecer todos.

— Não, mas eu preciso encontrá-los um por vez, o menino afirmou, com muita seriedade. São muitos e eu não posso esquecer dos nomes. É muito importante saber o nome das pessoas.

— Certamente que é — Ewan sentiu que precisava ali­viar-se. — Algum dos meus irmãos está por aí? — ele per­guntou. — Preciso da assistência de um deles.

— Sim, vou chamar um deles — confirmou Ciaran, cor­rendo até a porta e abrindo-a. — Precisamos de um irmão aqui. Meu pai precisa urinar!

— Oh, meu Deus — resmungou Ewan, sem saber se fi­cava sério ou se ria como Fiona, embora ela tentasse disfar­çar. Acho que ele já está bem à vontade aqui.

— Oh, está mesmo — Fiona confirmou, um tanto cho­cada. Ah, um dos seus irmãos vem chegando. Vou pro­videnciar alguma coisa para você comer.

— Nada de sopa de aveia Ewan falou, pegando a mão de Ciaran.

Ewan ficou olhando para o filho enquanto Gregor o aju­dava a voltar para a cama. Estava feliz por não se sentir tão fraco. Logo não precisaria mais de assistência desse tipo. Ao sentar-se na beirada da cama, Ewan sentiu muita curiosidade para saber o que tinha acontecido que o deixara in­consciente durante três dias.

— Você teve febre — Gregor contou, ao ajudar o irmão a sentar-se em uma cadeira ao lado da cama. — Para evitar que as feridas das costas se agravassem, nós o amarramos à cama por dois dias. Fiona arrumou cordas bem macias.

Apesar dos esforços, Ewan não conseguiu deixar de corar, mas ignorou o olhar interrogativo de Gregor.

— Foi muita gentileza dela. E o terceiro dia?

— Você dormiu, graças às poções que Fiona e Mab o fizeram ingerir para que dormisse profundamente e se man­tivesse quieto. Você acordou uma vez na noite anterior, mas não disse nada coerente. Não está seriamente doente, mas precisava ficar deitado de bruços ou de lado para que as feridas das suas costas começassem a cicatrizar. Gregor olhou para as costas do irmão. Estão com bom aspecto. Acho que não precisará ficar deitado de bruços ou de lado por muito mais tempo. Os cortes não são profundos, embora Fiona tenha dito que vão ficar algumas cicatrizes.

— Pude perceber que meu filho já está ambientado, Ewan disse, sorrindo ao lembrar-se de como o menino se pusera à porta para chamar alguém para auxiliá-lo.

— Sim, está. Fiona e nosso pai não puderam esperar que você acordasse para ajudar na escolha do nome. Por uma vez ao menos, os dois não discutiram, ambos achando que o garoto não podia ficar nem mais um dia sem nome.

— Ele parece contente com a escolha.

— Sim, e se apresenta a todos que encontra. E, se o cha­mamos de Garoto ou Garotinho, ele rapidamente nos corrige. Acho que vai demorar até ele adotar o nome de maneira informal. Só por esse crime a mãe dele merecia morrer.

— É verdade, mas eu gostaria que não tivesse sido Fiona a matá-la. Ela tem sujado as mãos de sangue desde que veio para cá.

— Nas duas vezes era matar ou ser morta. Não percebi nenhum sinal de que ela esteja perturbada por ter tido de matar Helena. Na verdade, nem teve que correr para vomitar.

— É verdade, não teve.

— Ela quis aquela mulher morta desde o momento em que viu você pendurado naquele poste. Acho também que ela gostaria de matar Helena por mais de uma vez pelo que ela fez ao seu filho.

— Nosso filho, Ewan sussurrou, subitamente conscien­te das palavras ditas por Fiona.

— Ele a chama de mãe.

— Sim, você não precisa se preocupar se ela vai ou não aceitar o garoto. Mesmo na primeira vez que o viu, Fiona rapidamente escondeu sua surpresa e foi muito gentil com ele, além de dar-lhe as boas-vindas. Papai também é bom com o menino. E, olhando nosso pai junto de Ciaran, vejo que, apesar de tudo, ele tem sido um bom pai para nós.

— Você tinha dúvidas sobre isso?

— Nunca pensei muito a respeito, pois sempre achei pa­pai estranho. Ainda é, embora esteja mais calmo e, bem... Mais feliz.

Ewan concordou e olhou em direção da porta, o estômago dando sinais de fome.

— Você acha que vão me trazer mingau de aveia?

— Apenas se Fiona achar que essa seria uma forma de se vingar de você. É bom que arrume uma boa explicação por não ter lhe contado a verdade sobre o garoto. Ela ainda não decidiu se foi apenas um estúpido orgulho masculino, como ela diz, ou se você a insultou com a dúvida de que ela ficaria brava por você trazer o garoto para cá.

— Um estúpido orgulho masculino... — Ewan murmurou.

— Sim — Gregor sorriu. — Parece que a irmã de Sigimor diz isso e Fiona pegou esse mau hábito de Usa. Ela disse também que Gilly freqüentemente resmunga a mesma coisa. Parece que não apenas Usa é uma mulher inteligente.

— Fiona discute com Sigimor? — Ewan sorriu, ao ima­ginar a cena da pequena Fiona discutindo com o parente grandalhão.

— Sim, e nosso pai acha muito engraçado. Ele e Sigimor dão boas risadas. A aliança que você queria está firme, Ewan. Papai aceitou os Cameron, que amaldiçoou durante tanto tempo.

— Isto é bom, mas por que os Cameron ainda estão aqui?

— Sigimor diz que, depois de tantos anos tendo nossos portões fechados na cara deles, ele está determinado a co­nhecer todos nós. Diz que não são apenas os MacFingal que ganharam com a aliança. Ele não está brigando com todos os seus vizinhos, mas tampouco os tem como aliados. Sigi­mor e papai podem discutir, mas é porque gostam. Se todos os casos que Sigimor conta são verdade, aquele clã é tão esquisito quanto o nosso. Gregor olhou para a porta por onde Fiona entrava carregando uma bandeja. Ah, fique feliz, irmão. Parece que não é mingau, Gregor murmurou.

Gregor ajudou a cunhada com a bandeja e saiu do quarto.

Ela sentou-se na cadeira perto da cama e ficou esperando para se certificar se Ewan ia necessitar de sua ajuda. Agra­dou-a o fato de ele não parecer muito fraco. Apesar das afirmações de Mab de que nem a febre e nem as feridas eram muito sérias, ela estivera muito preocupada. Agora, podia apenas pensar em ficar brava com ele.

Logo que Ewan acabou de comer, Fiona o ajudou a dei­tar-se de lado, novamente. Quando ia se afastar, ele a agar­rou pelo pulso e a puxou para perto dele. Ela sentou-se na cama e olhou para o marido, sua raiva diminuindo ao ver o olhar pesaroso e preocupado que ele lhe dirigiu.

— Eu não estava preocupado que você não aceitasse o menino, Ewan afirmou. Eu estava preocupado que você não aceitasse o fato de eu ter um filho.

Fiona olhou para o marido fixamente e percebeu que, com essa simples frase, Ewan tinha conseguido fazer com que sua raiva diminuísse.

— Isso aconteceu oito anos atrás, Ewan. Eu tinha doze anos. Nossa Gilly ainda não chegara a Deilcladach e eu con­tinuava a ser criada como um rapaz.

— Sei disso agora, que penso com mais clareza. Eu nunca mais ouvira falar daquela mulher desde que ela me traiu com Hugh Gray e, de repente, recebo uma mensagem di­zendo que ela me entregava um filho e que ele se encontrava no casebre do velho Robbie. Tenho certeza de que Gregor lhe contou que pensávamos se tratar de uma armadilha, mas eu tinha que ter certeza. Um olhar foi o suficiente para eu me assegurar que ele era realmente meu filho.

— Isto é tudo o que eu necessito, Ewan.

— Bem, Fiona foi um choque e, por Deus, quando eu soube que o menino nem um nome tinha e nem fora batiza-do, quase enlouqueci. As pessoas o chamavam de bastardo...

— Ewan apertou a mão da esposa quando ela a levou aos lábios dele. Ele perguntou se viria para Scarglas e se poderia dormir dentro de casa. Ewan meneou a cabeça ao ouvir Fiona praguejar. Se aquela louca ao menos me tivesse contado sobre o garoto, eu o teria poupado de tanto sofrimento.

—- O que está feito, está feito. Ciaran é um menino bom e forte. Há feridas no seu coração que nunca cicatrizarão por completo, mas ele crescerá corajoso e atrevido como um ga­roto de sete anos deve ser, e será aceito por todos. Ele ficará bem. Helena tratava o filho como se ele fosse um cachorro sem dono. Como pode uma mãe agir dessa maneira?

— Não tenho uma resposta para isso, querida. E não sei porque não lhe contei sobre ele imediatamente. Tantos pen­samentos passaram pela minha mente. Eu até me lembrei das discussões que meu pai tinha com suas esposas a respeito dos filhos bastardos.

— Se você tivesse tido um filho com outra mulher casado comigo, haveria briga e talvez uma separação.

Ewan sorriu e a puxou para si a fim de beijá-la. A idéia de que ele pudesse ser infiel foi o bastante para deixar Fiona enraivecida e isso agradou a Ewan. Ciúme podia não ser o melhor dos sentimentos, mas geralmente era sinal de que o coração da mulher já tinha dono. Quando estivesse bom para poder fazer amor com Fiona novamente, eles teriam uma conversa muito séria sobre o que sentiam um pelo outro.

Enquanto convalescia, teria tempo para adquirir coragem e parar de temer certas respostas.

— Eu estava confuso, Fiona. Nem mais, nem menos. Eu ia trazê-lo para casa no dia em que fui pego por Hugh e Helena. Ewan franziu o cenho. Ciaran sabe o que aconteceu à mãe dele?

— Sim, eu contei, Fiona suspirou. Pensei em omitir certas partes, mas acabei falando tudo. Esse fato será con­tado por muitas pessoas e, fatalmente, ele iria acabar saben­do. Preferi que soubesse por mim. Ciaran sabe que ela tentou matar você e todo o resto que Helena fez contra você. Não mencionei o chicote e ele não sabe exatamente o que acon­teceu. Mas reconheceu as marcas que você tem nas costas.

— Oh, não... Ela não... — Ewan praguejou, ao ver Fiona meneando a cabeça.

— Ele não tem muitas cicatrizes, deve ter sido bom em fugir ou em se esconder, ou havia pessoas que a impediam de exagerar. Graças a Deus ele tinha Mary, que ele ama e pelo que conta, também é amado por ela. Contei a Ciaran que matei Helena porque ela estava tentando matar-me e ele não duvidou disso nem por um minuto. No final da conversa, ele pareceu simplesmente ter posto o assunto de lado. Não mencionou mais nada.

—Deve ter sido muito duro para ele, eu sei, mas a verdade é melhor. E, talvez, ele nem se importe com o que aconteceu com a mãe.

— Ela não foi realmente uma mãe para ele, não é?

— Não, não foi. Mas nós seremos. Ele até já a chama de mãe.

— Foi escolha dele. Eu disse que ele poderia me chamar de Fiona se quisesse, ou de mãe, apesar de eu não ser ver­dadeiramente mãe dele.

— Obrigado, Fiona.

— Obrigado pelo quê? Ele é apenas um garotinho, um garotinho ferido, e você e eu nem nos conhecíamos. E, oh! Ewan, Ciaran vê até a menor coisa que você faz para ele como um presente. Isso me toca o coração. Fiquei tão feliz em vê-lo parado na porta gritando por ajuda para você, como um menino normal, que nem ralhei com ele pelas palavras que usou. O que ele precisa é que o abracemos todas as vezes que virmos medo e insegurança no seu olhar. Acho que demorará algum tempo até que ele tenha certeza de que é bem-vindo. Fiona bocejou. Desculpe.

Ewan a puxou para deitar-se ao lado dele.

— Descanse aqui. Ele a abraçou, de modo que Fiona encostasse as costas no peito dele.

— Suas costas... — ela começou a protestar.

— Não estou sobre elas. Já dormimos desse modo antes e eu acordei só de manhã. Com as poções que você e Mab me fizeram beber acredito que logo estarei completamente curado.

Fiona fechou os olhos. Sabia o motivo de estar cansada e logo teria que contar a Ewan. Muitas pessoas haviam per­cebido que ela estava com muito apetite e que descansava todas as tardes. Logo começariam a comentar e ela não que­ria que Ewan ficasse sabendo por outros, que logo seria pai novamente.

— Helena era uma mulher muito bonita — Fiona mur­murou.

— Apenas por fora. Vendo-a novamente, fiquei até cons­trangido por tê-la tocado.

— Ah, mas se isso não tivesse acontecido, Ciaran não estaria aqui.

— Verdade, e isso seria uma pena. — Ewan beijou a cabeça da esposa. Houve um momento em que o ódio de Helena lhe transfigurava o rosto. Fico pensando porque Deus deu tanta beleza a uma mulher tão má. Acho que a luxúria me cegou, mas tenho a desculpa de, naquela época, ser jovem demais.

— Humm. Você não foi tão descuidado. Ela teve que seduzi-lo.

— Verdade. Talvez eu tivesse um pouco de inteligência.

— Sim, talvez Fiona murmurou, quase dormindo.

— Eu ainda não ralhei com você por ter se arriscado tanto, ele disse, esticando o braço para acariciar seus seios e sorrindo quando ela emitiu um som de contentamento.

— Bem, você poderá fazer isso daqui a pouco.

— Por que esperar?

— Porque eu estarei dormindo e não o escutarei.

— Que mulher impertinente. Você se arriscou muito, Fiona.

— Você teria feito o mesmo por mim. E não foi um gran­de perigo. Você sabe que eles hesitariam em apenas me matar. Mesmo que tivessem adivinhado quem eu realmente era, e as chances de isso acontecer eram poucas, eles não me matariam imediatamente. Só o que precisávamos era que eles desviassem a atenção por alguns minutos para que seus homens e os homens de Sigimor pudessem se aproximar sem serem vistos. Você pode não ter gostado, mas tem que admitir que eu era a escolha perfeita.

— Sim, era, mas realmente não goste, Ewan disse, sorrindo.

— Eu os enganei, não foi?

— Sim, você os enganou, mas nunca mais fará alguma coisa perigosa dessa maneira. Eu baterei em você.

— Pode até tentar.

Quando ele soubesse da gravidez, ficaria ainda mais bra­vo, da mesma maneira que Gregor e Sigimor. Teria que ouvir admoestações até se cansar. Fiona apoiou a mão sobre a mão que Ewan apoiara nos seus seios e pensou, antes de cair no sono, que fora um preço pequeno a pagar para tê-lo de volta a Scarglas vivo, e com seus piores inimigos mortos.

Ewan sorriu ao perceber o corpo da esposa relaxar, do­minado pelo sono. Agora não tinha dúvida. Poderia demorar um pouco para transformar em amor o que ela sentia por ele. Mas conseguiria.

Conversaria com Gregor a esse respeito. Seu irmão mais novo entendia de mulheres e ele não tinha experiência. Era chegada a hora de galantear sua mulher para transformar aquele carinho em amor. Queria Fiona de corpo, coração e mente e Gregor seria capaz de ajudá-lo nessa incapacidade de falar coisas bonitas e amorosas.

Pararia de mantê-la a distância. Ewan sabia que Fiona queria fazer parte de sua vida, de toda a sua vida. Ela tentara ser sutil, mas ele várias vezes sentira sua frustração pela maneira como ele hesitava em dizer-lhe coisas carinhosas, de revelar seus pensamentos e sentimentos, de partilhar seus planos para o futuro. Fiona nunca hesitava em dizer-lhe esse tipo de coisa e era tempo de retribuir a confiança dela.

O som da porta se abrindo o afastou dos seus pensamentos e ele olhou para Ciaran, parado ao lado da cama. O menino olhava para Fiona e Ewan pôde ver amor nos olhos dele. Ciaran queria uma mãe e Ewan tinha a certeza de que es­colhera a melhor mulher para exercer essa função. Ela seria firme, mas gentil e saberia como minorar o sofrimento e curar as feridas do pobre garoto. Devido ao modo como fora criada, ela teria mais paciência com os modos do menino do que outras mulheres.

— Ela está doente? — Ciaran perguntou baixinho, com a voz trémula.

— Não — Ewan sussurrou. — Está apenas descansando um pouco.

-— Ela trabalhou muito para que o senhor sarasse.

— Eu sei.

— Estou triste por minha antiga mãe ter tentado ferir você e a minha nova mãe.

— Não deve ficar triste. Você não fez nada e nem queria que isso acontecesse, não é verdade? Ciaran meneou a cabeça vigorosamente. Então, você não deve pensar que precisa se desculpar pelo que ela fez. Ela era sua mãe, mas era adulta e fez suas próprias escolhas, e tomou suas próprias decisões.

— Foi isso que mamãe e vovô me disseram.

—- E eles estão certos. Uma criança não é culpada pelos erros dos pais.

— Mas eu estou triste porque minha antiga mãe fez minha nova mãe ter de matá-la.

— Eu também, mas está feito e não há como mudar. Isto é passado e deveria ser esquecido.

Ciaran concordou e bocejou, esquecendo de cobrir a boca com a mão.

—- Acho que também estou um pouco cansado.

Ewan teve que conter um sorriso pela sutileza do garoto, e sentiu uma onda de carinho pelo filho invadir seu coração. O garoto olhava para Fiona com olhar de cobiça. Ewan du­vidava que o menino realmente quisesse descansar, mas com certeza queria estar perto da sua nova mãe por algum tempo. Era um sentimento que Ewan conhecia bem.

— Bem, se você tomar cuidado para não acordá-la, há um lugarzinho ao lado dela.

O garoto moveu-se rapidamente, mas deitou-se com cau­tela, o que fez Ewan pensar onde ele tinha conseguido tal habilidade. No momento em que Ciaran encostou-se a Fio­na, ela murmurou seu nome e o puxou para mais perto. Um suave murmúrio de pura alegria escapou da boca de Ciaran.

Ewan ergueu a cabeça para olhar os dois. Naqueles três dias, enquanto estivera dormindo, os dois haviam ficado jun­tos de um modo que ele talvez nunca fosse capaz de enten­der. Mesmo dormindo, Fiona reconhecera o menino perto dela, como uma verdadeira mãe sentiria por seu filho.

Aquele era seu futuro, Ewan pensou. Aquela mulher, aquela criança e as crianças que Fiona poderia lhe dar. Relaxou e enterrou a cabeça nos cabelos da esposa. Toda sua vida. desde o momento em que soubera que homem e mulher deviam ser companheiros, ele desejara e ansiara por uma mulher que fosse sua. Tolamente, imaginara que essa mulher fosse Helena. A chegada de Fiona na sua vida mostrou como fora tolo.

Ali estava tudo que ele queria para a sua vida e iria fazer o que fosse possível para conservar esse presente de Deus.

 

— Não posso acreditar. Casar? — Ewan olhou para o pai e para Mab, parados perto da cadeira onde ele se sentava, na sala. Em seguida olhou para a sorridente Fiona. — Ele ainda não está casado com a mulher que fugiu?

— Não — Fiona respondeu. — Parece que ela morreu há três anos. Eu mencionei o nome dela a Ciaran e ele me contou. Houve uma febre que atacou o clã e ela morreu. Ciaran se lembra bem claramente de que ela e a mãe dele se odiavam e brigavam freqüentemente. Parece que ambas disputavam Hugh. Seu pai conversou com o garoto e ele diz que é a mesma mulher. Portanto, Fingal é um homem livre.

— E vou me casar com Mab — declarou Fingal, fazendo uma carranca para o filho. — Sinto-me tolo vindo lhe dar satisfação, mas você é o líder e deve ser consultado. Desse modo, diga sim e deixe-nos preparar a cerimónia.

— Ah, papai — Ewan hesitou. — Eu gosto de Mab.

— Sim... e daí?

— Bem, você nunca provou ser um bom marido.

— Isso é verdade, mas eu não gostava muito das outras mulheres. Annie não era má, mas eu não gostava dela o suficiente para ser fiel e ela nunca quis me dar filhos... não gostava de ir para a cama, se é que você me entende. Mas Mab não. Mab gosta de ir para a cama...

— Fingal! — Mab protestou, corando e olhando para Fiona.

— E eu gosto dela — Fingal continuou, como se não tivesse sido interrompido. De repente percebi que ela e eu somos... bem, somos amigos. Não sou mais um jovem, mas sou viril e quero uma esposa. Prometi a Mab ser fiel e que deixarei que ela me bata se eu não cumprir meus votos.

— Se você pronunciar os votos, papai, duvido que se esqueça. Nunca ninguém duvidou de sua palavra.

— Sim. sim. Por isso serei cuidadoso antes de pronun­ciá-los. Tem-se que ser cuidadoso com isso.

— Isto faz sentido, Ewan murmurou, e evitou olhar para a esposa, sabendo que ela não poderia esconder um sorriso.

— E vocês planejam dar uma festa? Fiona quis saber.

— Você quer mesmo correr o risco de se casar com meu pai, Mab? Ewan perguntou.

— Oh, sim, eu sempre quis. Ned não existiria se eu não o quisesse. Mas não tinha intenção de ficar na fila. Agora serei a única. Mab sorriu timidamente, mas a expressão era travessa. Conheço algumas poções que acabariam com o desejo de um homem sair do sério.

Fingal franziu as sobrancelhas.

— Eu fiz uma promessa e isso basta.

— É claro, meu amor.

— Então teremos uma festa de casamento, concluiu Ewan. Quando vocês pretendem se casar?

— Daqui a dois dias.

—- Bem, acho que poderemos providenciar uma boa festa nesse tempo.

Fingal concordou e, ainda pegando Mab pela mão, saiu da sala. Ewan olhou para Fiona e os dois caíram na risada.

— Você sabia que isso estava acontecendo?

— Sim e não, respondeu Fiona. Achei que eles estavam mais unidos, mas isso não queria dizer nada con­siderando que era seu pai. Mab foi a única que o confortou quando o fizeram recordar os fatos passados, a dor que sen­tiu, e acho que foi isso que o fez perceber que Mab era algo mais do que uma simples amiga.

— Bem, suspeito que isso irá desencadear um pouco de alvoroço. Não uma coisa negativa, talvez um pouco de cho­que, assombro e uma certa dose de alegria. Espero que Mab não fique magoada.

— Não. Ela está aqui há muito tempo. Saberá exatamente o que significa. Todos os rapazes, como ela os chama, gos­tam dela. De modo que, se houver alguma preocupação a cer­ca do casamento, será por ela.

—- Você está certa, Fiona. Todos ficarão preocupados com a possibilidade de papai magoá-la ou não tratá-la bem.

Fiona tinha esperança de estar certa em julgar que Fingal havia mudado e que seria um bom marido para Mab. A preocupação com a amiga não evitou, porém, de achar graça em tudo o que estava acontecendo.

Quando terminaram a refeição, Fiona olhou para o marido. Era a primeira vez que Ewan saía da cama. Ele parecia ter recuperado as forças, mas ainda não sabia o quanto agüentaria. Depois de dez dias, Fiona não achava que as feridas fossem reabrir, mas ainda era cedo para facilitar. Dor enfraquece as pessoas com facilidade e Fiona ficava atenta a qualquer sintoma de cansaço no marido.

Depois de alguns momentos, os irmãos e sobrinhos de Ewan entravam e saíam da sala para mostrar satisfação pelo casamento de Fingal e Mab. Como Fiona suspeitara, a maio­ria mostrou preocupação pelos sentimentos de Mab. Depois de uma hora de confrontações. Ewan parecia um pouco pá­lido e Fiona não hesitou em usar sua recente doença para levá-lo para o quarto. Alguns dos seus irmãos o procurariam, mas nem todos.

Ewan deitou-se vagarosamente na cama e sorriu para a esposa.

— Você tem muita habilidade em dirigir minha família quando surge necessidade,

— Eles têm dois dias para dar suas opiniões, Fiona observou, enquanto lhe oferecia uma caneca de sidra. Seus irmãos não confiam que seu pai venha a ser um bom marido, mas isso é culpa dele.

— É verdade — concordou Ewan, aceitando a bebida. — Essa foi a primeira vez que ele usou de sinceridade a respeito de não se importar muito com suas esposas anteriores. Não se sabe, entretanto, porque continuou se casando.

— A primeira esposa foi por causa de Scarglas. O resto para ter filhos legítimos.

— E claro. De um certo modo isto é triste, Ewan bo­cejou. Eu não devia estar tão cansado.

— Você não está tão cansado como ontem e anteontem. Isto é normal. É preciso muita força para vencer a febre e curar os ferimentos. Você teve ambos. Fiona pegou a caneca vazia e a colocou na mesa ao lado da cama. Des­canse. Tenho a impressão de que nos próximos dias você precisará de toda a sua força.

— Você também vai descansar? Ewan sorriu e mos­trou o lugar na cama, ao seu lado. — Tem muito lugar aqui.

— Não, Acho que será melhor eu começar a fazer planos para organizar a festa.

Ewan sorriu e tornou a bocejar depois que Fiona saiu do quarto. Achava errado descansar no meio do dia, mas o faria enquanto sentisse necessidade. Queria fazer amor com Fiona novamente, e isso requeria força total. Se conseguisse des­cansar nos próximos dois dias a fim de estar forte no dia do casamento do seu pai, já seria muito bom.

Cerimonias de casamento pareciam fazer com que as mu­lheres ficassem sedentas de elogios e galanteios e ele pre­tendia galantear sua esposa. Ele lhe diria palavras doces an­tes, durante e depois de fazer amor com ela. Ia falar sobre seus sentimentos, e então dessa vez, com a graça de Deus, ela confessaria seu amor por ele.

Ewan usara esse tempo de convalescença para aprender a partilhar seus pensamentos com a esposa. Fiona ficara tão obviamente satisfeita que ele ficou um pouco envergonha­do por não ter tentado antes. Apenas pensar em falar aber­tamente com ela o deixou inquieto, mas o premio a ser ga­nho merecia a tentativa. Teria que se expor e faria isso. Só rezava para que suas próprias esperanças e desejos não estivessem errados, e que Fiona realmente sentisse aíguma coisa por ele.

— Você tem certeza disso, Mab? — Fiona perguntou à amiga, ao ajudá-la a se vestir para a cerimónia.

— Tenho — respondeu Mab. Fingal mudou. Talvez pela idade, ou talvez tenha libertado seu coração dos sofri­mentos passados. Não sei ao certo, mas ele realmente mu­dou. E a hora certa para eu me arriscar e me certificar de que ele cumprirá seus votos e parará de agir como um ado­lescente sem juízo, que não pode olhar para uma saia sem ter vontade de levantá-la.

— Sim, embora desde que eu cheguei aqui ele não esteja agindo desse modo, Fiona sorriu para a amiga.

— Eu já tinha percebido isso. Também percebi que ele parece mais calmo e em paz,

— Sim, é verdade. Ewan também tem apresentado algu­mas mudanças. Mais visíveis depois que você e Fingal anun­ciaram o casamento. Talvez eu, finalmente, tenha minado sua resistência. Paciência é um atributo difícil de conseguir, mas parece que funciona. Oh, Mab, ele tem falado comigo, depois que o resgatamos de Hugh, muito mais do que em todas as semanas antecedentes.

— Fico feliz por você, garota. Essa partilha, especialmen­te em um homem como Ewan, é um sinal muito bom.

— E se ele quiser apenas partilhar seus pensamentos?

— Paciência, garota. Um passo por vez. Casamento é para sempre. O que são alguns meses de incerteza e trabalho comparado, especialmente se esse trabalho trouxer a você o amor de um homem, a retribuição do seu amor?

Fiona meneou a cabeça, percebendo que Mab fora pa­ciente durante anos.

— Fico surpresa por você nunca ter desistido daquele velho tolo.

— Eu poderia ter desistido se algum homem bom me tivesse oferecido amor e casamento. Isso não aconteceu. Co­mo nenhuma tentação surgiu diante dos meus olhos... foi fácil esperar. Apenas deixei meu amor por ele guardado em um canto do meu coração e, devagar, tornei-me amiga dele, uma companheira que não pedia nada e que não o abando­nava quando ele precisava de mim.

— Você disse não a ele muitas vezes.

— A partir do momento em que descobri que ele era casado. E continuarei dizendo até que o padre nos case. Fiz isso mais pela minha própria paz de espírito, mas naquele dia em que você e eu descobrimos que ele falava com nós duas de maneira diferente da que falava com as outras mu­lheres, prestei mais atenção. É uma questão de respeito. Ele simplesmente não respeitava as outras mulheres. Fingal aprecia que nós o enfrentemos. Eu não havia percebido, mas todos esses anos eu tenho feito exatamente o que era neces­sário para vencer o homem. Se sua mulher Annie não tivesse sido fria na cama, aquele casamento teria dado certo porque ela também o enfrentava e ele tinha por ela alguma afeição.

— Que triste.

— Muito triste. Especialmente desde que concluí que nem todas as mulheres eram assim tão quentes. Elas apenas sabiam como fazer um homem pensar que fossem.

Fiona deu um passo para trás e olhou atentamente para a amiga.

— Você está muito bem, Mab. Terá que segurar Fingal com firmeza para que ele não queira levá-la diretamente para o quarto antes mesmo de o padre terminar as bênçãos. Fiona riu ao ver Mab corar como se fosse uma jovem noiva. Você não ia querer perder a celebração que pre­paramos com tanto cuidado e pela qual trabalhamos tanto.

— É claro que não. Outro motivo é que eu quero que os rapazes vejam o pai e eu como marido e mulher, antes de Fingal partilhar minha cama. Quero isso enraizado na mente deles.

— Sim, você está certa.

— Você também está muito bem, amiga. Por que des­confio que o motivo disso não é apenas meu casamento?

— Porque você tem olhos sábios. Você não "vê" apenas o que existe no útero de uma mulher. Estou vestida para seduzir Fiona confessou, ao alisar as saias do seu vestido vermelho. Esta noite pretendo confessar a Ewan todo o amor que sinto por ele.

— Este é um verdadeiro passo de coragem. É um grande passo.

— Tomara que não seja um passo grande demais, Fiona suspirou. Ele tem tentado fazer com que eu faça parte da vida dele, posso ver isso, posso sentir. Mas ainda há um pouco de hesitação. Talvez por ele não ter o costume de partilhar seus pensamentos e planos livremente. Pode ser também que Ewan ainda não esteja absolutamente seguro do que sente. Bem, esta noite eu deixarei que ele saiba o que sinto e vamos ver o que acontecerá. Pelo menos não terei mais que esconder meus sentimentos e omitir minhas palavras.

— É triste admitir, mas muitas vezes é a mulher que tem de vencer as barreiras.

— Isso é injusto, admitiu Fiona, dando o braço para a amiga a fim de conduzi-la até a grande sala. Mas alguém tem que dar o primeiro passo. Como também pretendo lhe contar a respeito da minha gravidez, acho que eu darei esse passo e porei para fora todos os meus segredos. Vê que romântica tola eu sou?

As duas amigas riram e começaram a caminhar em direção da sala, e Fiona rezou para logo adquirir a serenidade e a alegria que Mab sentia naquele momento,

— Por que está tão nervoso? Gregor perguntou, ao sentar-se perto do fogo e observar Ewan caminhando pelo quarto. Não é você que vai se casar.

Ewan parou perto da lareira e aqueceu as mãos.

— De certa forma, sou.

— Você ainda não disse a Fiona que a ama, Gregor franziu o cenho e meneou a cabeça.

— Não é coisa fácil para um homem fazer.

— Não? É só abrir a boca e deixar as palavras saírem.

— E é você quem fala isso? Um homem que nunca se apaixonou por mulher nenhuma. Sentiu apenas luxúria, mas amor... não.

— Um dia eu me apaixonarei.

— Sim, e quando esse dia chegar, aposto que você abrirá a boca e as palavras ficarão presas na sua garganta. Talvez, se a moça eventualmente tiver facilidade de confessar seu amor primeiro, seja mais fácil. Caso contrário, se você não tiver certeza dos sentimentos dela, sua garganta ficará blo­queada e você apenas conseguirá balbuciar bobagens. É puro medo. Não sei por que consigo dizer a você e a ela não.

— Talvez por sermos irmãos, termos o mesmo sangue e a mesma afeição um pelo outro isto seja mais fácil. Gregor tomou um gole de vinho da sua taça. Mas o medo é um sentimento muito estranho. Estar apaixonado não envolve medo.

Ewan cruzou os braços sobre o peito e recostou-se na moldura da lareira.

— Envolve muitas emoções desagradáveis: medo, incer­teza, dúvida...

— Chega, por favor, ou eu nunca terei coragem de me apaixonar por alguém. Os dois irmãos riram até que Gre­gor olhou bem para Ewan. Fiona ama você, Ewan. Tenho certeza disso.

— Eu gostaria muito de ter essa certeza também. Nem sei se acreditarei, pelo menos por certo tempo, se ela con­fessar que me ama. Sei que Fiona tem carinho por mim e quer continuar casada comigo. A ajuda dela no meu resgate e como cuidou dos meus ferimentos deu-me essa certeza, a certeza de que eu conquistei um lugar no seu coração. Mas talvez ela ainda não tenha certeza.

— Você a ama demais, não ama?

— Acho que a amei desde o início, embora eu achasse ser apenas luxúria, sentimento muito mais aceitável para um homem. Tentei manter distância entre nós porque sabia que ela acabaria me conquistando e devastando minha alma. Não funcionou. E sou um homem afortunado, pois ela não é o tipo de mulher que usaria contra mim o que eu sinto por ela, mesmo em pequenas coisas.

— Realmente, ela nunca faria isso, Gregor concordou, terminou a bebida e evantou-se. Acredito que ela o ama. E, se ela ainda não sabe, você deveria cortejá-la, dizer ga­lanteios. Você não sabe como ela agiu quando você foi cap­turado, como ela ficou ao vê-lo amarrado àquele poste todo ensanguentado, e como ela se magoava toda vez que você se afastava dela. Eu percebi. Quase todos os seus irmãos perceberam. E todos nós vimos isso desde o início, muito antes de saber que vocês acabariam se casando.

— Bem, não sei se devo acreditar nisso tudo, mas pelo menos me dá coragem.

— Oh, Ewan, ela é apenas uma mulher.

— Ela é meu coração, meu futuro, Ewan disse baixi­nho, ignorando o olhar atento do irmão. Bem, vamos assistir ao casamento daquele velho tolo. Novamente.

Fiona soluçou e enxugou uma lágrima quando Fingai bei­jou a ruborizada noiva. E ignorou o sorriso de Ewan, quando ele a conduziu à mesa. Homens nunca pareciam emocionar-se com um casamento como as mulheres.

A celebração terminou e Fiona ficou satisfeita de como tudo transcorrera bem. A comida era farta, boa e quente. A música era agradável e até Peter estava limpo, embora ti­vesse sido uma batalha que ele não gostaria de se lembrar. Como um homem tão pequeno pudera com tantos MacFingal de uma vez, ela nunca saberia.

Fiona viu Ciaran rir junto de outros garotos e sentiu seu coração se encher de alegria. Naquele momento, tudo pare­cia certo no mundo e ela pretendia saborear cada momento.

— O velho Fingal parece satisfeito com ele mesmo, observou Ewan ao pegar a mão de Fiona e beijar-lhe á palma.

— Sim, ele está, Fiona respondeu, depois de um rápido olhar para o sogro, que discutia alegremente com Sigímor. A mudança dele é maravilhosa, não é?

— Sim, maravilhosa. Mas ele parece ainda mais esquisito. Fiona riu.

— Mab será boa para seu pai. Na verdade, ela tem sido boa todos esses anos. uma verdadeira amiga e companheira.

— Concordo com você. Mab sempre esteve presente, per­to dele e perto de nós, desde o primeiro dia que veio para Scarglas. Na realidade, ela tem sido mais do que mãe para nós, muito mais do que todas as outras esposas. Acho que esse é o motivo de os meus irmãos se preocuparem tanto com ela. O fato de as mulheres do meu pai não serem boas fazia com que todos temessem o dia em que Mab fosse embora.

— Eu também sinto isso. Mas agora ela não vai a lugar nenhum. Desta vez seu pai encontrou uma companheira. Mab não é a pessoa confusa que muitos pensam que seja.

— Oh, não. Ela sempre encontra a raiz do problema. Acho que por ela se sentir em paz com ela mesma. Muitas coisas que as pessoas pensavam a respeito dela acabaram. Eu gos­taria de saber se ela não encontrou essa paz em você, alguém com quem ela pode conversar, além do. meu pai. Ela real­mente nunca teve isso antes.

— Pode ser, mas eu descobri o motivo de Mab parecer estranha e distraída.

Sabendo que Ewan ia perguntar o motivo, Fiona lhe con­tou tudo sobre o dom especial de Mab.

— Você não acha que ela é uma bruxa, acha?

— Não. Não se pode conviver com os Murray por muito tempo sem ver essas coisas. É um dom de Deus. Aquele clã tem muita gente com esse dom. Mab e eu estamos trabalhan­do em como ela deve usar isso sem amedrontar as pessoas.

Ewan concordou e sorriu para Ciaran que se aproximou deles para quase se sentar no colo de Fiona.

— Está gostando da festa, Ciaran?

— Sim, o menino respondeu, enquanto comia um gran­de pedaço de bolo. Vovô me deu uma avó.

— Deu mesmo.

— Você tem avó? Ciaran perguntou a Fiona.

— Não e não vou dar a você nem avó e nem avô. Tenho apenas irmãos. Você terá muitos tios. E suspeito que logo você os conhecerá.

— Eles gostarão de mim?

— Imediatamente. Fiona beijou o menino na testa, e ele sorriu.

— Eles gostarão do meu pai?

— É claro que gostarão.

— Imediatamente?

— Talvez, mas eu acho que eles não deixarão que se perceba por algum tempo. Seu pai se casou comigo sem pedir permissão e eles ficarão um pouco ressentidos. Coisa de homens. Fiona riu quando Ciaran franziu o cenho. Bem-feito.

— Acho que terei de prestar mais atenção às coisas que você ensina ao meu filho — Ewan declarou, fingindo estar bravo.

— Tenho aprendido muitas coisas, confirmou Ciaran.

— E disso que tenho medo. murmurou Ewan e sorriu para a esposa que também sorria, os olhos brilhando de ale­gria. Quando Ciaran se afastou em direção dos outros garo­tos, Ewan ficou sério. Você acha que haverá problemas com os seus irmãos?

— Acho que nada sério. Eu escolhi meu marido. O que pode acontecer é eles ficarem irritados por você ter demo­rado a comunicar que eu estava aqui.

— Irritados, é?

— Sim, irritados. Nada com que você deva se preocupar, Fiona ergueu as sobrancelhas quando percebeu que todos na sala haviam ficado quietos. O que foi?

— Suspeito que todos estão pensando o mesmo que eu.

— E o que é?

— A irritação não deve ser muito alarmante?

Fiona percebeu que todos, incluindo Ewan, olhavam para a porta da sala, e estavam tensos. Ela olhou primeiro para Sigimor e seu largo sorriso a fez ficar ainda mais inquieta. Devagar, Fiona olhou na direção em que todos olhavam.

Três dos seus irmãos estavam parados na soleira da porta e alguns MacFingal ao redor deles.

"Irritados" não era a palavra adequada para descrever a expressão de Connor quando ele fixou o olhar em Fiona e em Ewan. Fiona se pôs a imaginar qual deles Connor teria vontade de cortar em pedacinhos.

— Você disse irritados? Ewan perguntou mansamente. Eu diria que eles têm olhar assassino, que têm sede de sangue. Só desejaria saber qual de nós eles estão pensando em sacrificar.

 

Fiona!

— Meus irmãos! Fiona exclamou abandonan­do-se na cadeira enquanto Connor, Diarmot e Antony cami­nhavam em direção da mesa, acompanhados por Gillyanne e Usa.

Ewan se levantou enquanto a família de Fiona se aproxi­mava. Apesar do olhar de fúria de Connor, Ewan sentiu alguma coisa que o tranquilizou. Connor MacEnroy era grande, loiro e tinha cicatrizes. Era um homem duro, um homem que lutara para sobreviver e participara de muitas batalhas. Era um homem que poderia entender Ewan, se quisesse, pois de algum modo eram parecidos.

Ewan teve de lutar para não dizer a Connor que esperasse um pouco, pois ele precisava conversar com Fiona naquele exato momento. Todas as suas preocupações sobre cicatri­zes, sobre seu temperamento circunspecto, desapareceram. Ewan sabia, sem nenhuma dúvida, que tais coisas realmente não eram importantes para Fiona. Na verdade, ela provavel­mente sentia-se mais à vontade com esse tipo de homem do que qualquer outra mulher que ele conhecia. Fora criada por homens, no meio de homens.

Tão calmo quanto possível, considerando que enfrentaria um homem que tinha gana de bater nele, Ewan executou as apresentações e ofereceu cadeiras para a família de Fiona.

— Estamos celebrando o casamento do meu pai — ele declarou, sentando-se novamente e olhando de frente para Connor.

— Falando de casamento... — Connor começou.

— É tão bom ver você — Fiona murmurou, olhando e sorrindo para o irmão. Eu achava que ainda se passariam meses até vocês virem aqui.

— Moça, esse jogo não funcionará. Quero falar com seu marido. Depois falarei com você sobre moças que montam em um cavalo selvagem e se afastam de casa, sabendo da existência de um homem cruel que a persegue em todos os cantos que vá.

— Não vá fazer um sermão agora, Connor. Sou uma mu­lher casada. Apenas Ewan pode ralhar comigo.

—- Você não é uma mulher casada antes que eu confirme esse casamento.

Fiona vacilou diante de uma declaração que ela julgava tola. Então, desviou o olhar para Gilly, que olhava para Ewan. Fiona pensou em perguntar a opinião da cunhada, no momento em que Gilly lhe dirigiu o olhar e sorriu para ela. A piscada que Gilly deu fez com que o coração de Fiona se tranquilizasse.

— Agora, sente-se e fique quieta — Connor ordenou, ignorando o olhar severo que Gilly e Usa lhe endereçavam — enquanto eu tenho uma conversa com esse tolo.

Fiona foi tentada a discutir com o irmão, mas Ewan pegou sua mão e a apertou levemente. Por agora, deixaria tudo nas mãos do seu marido. Causara muita preocupação ao irmão com suas ações e por não tê-lo avisado há mais tempo de que estava bem. Connor tinha o direito de ficar bravo, mas não deixaria que ele desrespeitasse Ewan.

— Li a sua carta e admito que você é uma boa escolha para minha irmã — Connor afirmou, mantendo o olhar fixo em Ewan.

— Obrigado — Ewan murmurou. — Foi impossível avi­sá-lo mais cedo.

—Como você explicou, não tivemos problema em chegar aqui.

— As coisas mudaram um pouco desde que eu escrevi para você. O pior dos nossos inimigos está morto e seu clã já esboçou um pequeno gesto de paz. O novo líder dos Gray está tão cansado quanto nós de tantas brigas. Eram eles que faziam com que qualquer viagem para Deilcladach fosse muito traiçoeira e perigosa.

— Uma vez que minha irmã foi sua refém e aqui não havia nenhum parente para aprovar o casamento ou para protegê-la de ser forçada a se casar, eu posso terminar essa união.

Ewan sentiu o sangue lhe gelar nas veias, mas antes que pudesse falar, uma vozinha se fez ouvir ao seu lado.

— Você não vai tirar minha mãe daqui,

Ewan olhou para Ciaran. que enfrentava Connor com um olhar furioso, e teria rido não fosse o receio que as palavras de Connor haviam despertado nele.

— Calma, Ciaran, ninguém a levará.

— Isto ainda não foi decidido — Connor olhou para o menino. — Esse menino não é filho de Fiona, por que a trata como se ela fosse sua mãe?

— Porque ele é meu filho e ela é minha esposa.

— Sim, interveio Ciaran. E ela ficará aqui ou eu terei que ficar muito bravo.

—- Quieto. Ciaran, disse Fiona, puxando o menino para seu lado. Tudo acabará bem, mas deixe os homens con­versarem e, se eles disserem coisas estúpidas, mais tarde poderemos mandá-los embora.

— Que gentileza da sua parte, Fiona — murmurou Connor.

— Estou sendo paciente — ela respondeu, sem esconder a irritação que sentia. Sou uma mulher casada e mãe, e é importante aprender a ser paciente. E é também uma qua­lidade útil para conversar com os homens.

Um brilho de contentamento passou pelo olhar de Con­nor, mas ele ainda não foi capaz de relaxar.

— Paciência? Eu não sabia que essa palavra fazia parte do seu dicionário, Fiona. Connor voltou a olhar para Ewan. Isso tudo não me agradou. Eu não conhecia seu clã, mas as informações que colhi não me deixaram sosse­gado a respeito desse casamento. Histórias sobre assassinato e bruxaria, o fato de vocês terem guerreado com quase todos os clãs mais próximos e problemas com os Cameron, tudo isso me deixou muito apreensivo.

— Não vou considerar essa afirmação, disse Sigimor, mas foi ignorado por Connor.

— Ela é um rico prémio e eu quero saber se ela foi rou­bada ou forçada a se casar.

— Um pouco dos dois, Ewan respondeu, abruptamente.

— Um pouco de força é o suficiente para que eu anule o casamento.

— Sugiro que não tente.

— Chega, gritou Fiona. Esta é uma festa de casa­mento. Sir Fingal acabou de se casar com Mab.

— Pelo que tenho ouvido, Sir Fingal casa-se com muita facilidade, resmungou Connor.

Fiona o ignorou.

— Não deixarei que essa confrontação arruine a celebra­ção. Fiona olhou para as cunhadas e ficou feliz ao ver que elas meneavam a cabeça, apoiando-a. Meu casamen­to com Ewan não foi forçado. Quando Ewan ameaçou falar alguma coisa, ela pôs dois dedos sobre seus lábios. Não quero mais essa conversa de anular meu casamento. Você até pode fazer isso, mas eu não obedecerei.

— Não?

— Não. Ele é meu marido, eu o amo e nós vamos ter um bebé Fiona percebeu que Ewan ficou tenso. Acredito que isso resolva tudo. Portanto, vamos nos conhecer e... Fiona parou quando Ewan se levantou de repente, pegou-a nos braços e caminhou até as portas. Ewan ela come­çou a protestar, corando sob os risos e gritos de todos os convidados.

— Fique quieta, Ewan ordenou. Apenas por um momento.

Como seus irmãos não haviam desembainhado as espadas e não os seguiam, Fiona parou de falar. Um rápido olhar para a sala revelou que seus irmãos também estavam rindo e Fiona ficou desconfiada. Queria saber se Connor pressio­nara Ewan a se manifestar. Se tivesse, teria falhado, pois fora ela que se declarara dizendo a Connor coisas que ele já sabia. Confessara seu amor por Ewan na carta que escre­vera ao irmão. Naquele momento, olhou para o marido e ficou em dúvida se seu irmão tinha realmente falhado. Per­maneceu em silêncio, pois logo descobriria porque essa reação de Ewan tinha obviamente deliciado Connor.

— Agiu muito bem, disse Sigimor, sorrindo a Connor.

— Obrigado, Connor respondeu, quando começou a se servir da comida farta que cobria a mesa. Eu esperava algumas palavras do tolo do meu cunhado, mas está tudo bem.

— Meu filho gosta muito dessa mulher — afirmou sir Fingal.

— Parece que sim, concordou Connor. Mas o senhor deve perdoar um homem que tem sido mais um pai do que um irmão e que deseja ver a irmã feliz. Pelo que eu soube através da carta que ela me escreveu, ele não teve completo sucesso. Connor piscou para Gíllyanne. Às vezes um homem precisa ser pressionado contra a parede para que comece a perceber certos fatos.

— Isto quer dizer que o senhor não vai levar minha mãe embora? Ciaran perguntou, subindo na cadeira de Fiona.

— Não, respondeu Connor. Acredito que seu pai não permitiria.

— Sim, e nem eu. Então vocês também são meus tios?

— Somos, embora você já tenha vários tios.

— Gosto de família grande. Suspeito que vocês também vão querer ficar aqui durante algum tempo.

— Pelo menos até ter a chance de conversar com minha irmã declarou Connor, que sorriu e ergueu sua caneca para fazer um pequeno brinde. Acredito que vá demorar um pouco até isso acontecer. O modo como aquele tolo olhou ao carregar minha irmã para fora da sala me faz pensar que eles vão se ausentar por algum tempo.

— Já era tempo, disse Mab, que corou quando todos se puseram a rir.

Fíona se viu nua e deitada na cama de Ewan antes que pudesse pensar em alguma palavra para dizer.

Logo teve sua atenção desviada quando, já nu, Ewan dei­tou-se ao seu lado. Fizeram amor freneticamente e logo ela estava perdida de paixão e desejo. Ewan a fazia dizer pa­lavras desconexas e não deixou um só lugar do seu corpo sem ser acariciado e beijado. Fiona estava tremendamente alegre por ser tão desejada pelo marido. Os dois chegaram ao clímax juntos, com gritos e sussurros pronunciados em uníssono.

Ewan se aninhou nos seios de Fiona para se recobrar da loucura que o possuíra. No momento em que ela dissera que o amava diante de todos na grande sala, seu corpo todo cla­mou de necessidade de fazer amor com ela. Fiona era sua, toda sua, e carregava seu bebé. Com delicadeza, Ewan pôs a mão na barriga de Fiona.

— Você tem certeza? — Ewan perguntou.

— Sim — ela confirmou, passando os dedos pelos cabelos do marido, rezando para que ele não tivesse reagido dessa maneira por causa da criança. Eu sei há algum tempo, mas queria ter certeza de que o bebé estivesse firme no meu útero. Mab disse que está. E você... Está contente?

— Céus, claro que estou, mas também tenho medo. Você é tão pequena.

— Connor diz que eu sou exatamente como minha mãe e ela teve seis filhos saudáveis sem nenhum problema. Mab diz que eu tampouco terei problema.

— Eu quero a criança, mas quero mais a você.

— Verdade, Ewan?

Ewan olhou para Fiona embevecido, apoiou-se sobre um dos cotovelos e se achegou ainda mais a ela.

— Sim, moça. Ele a beijou e sussurrou: Diga no­vamente que me ama.

— Amo você.

Ewan encostou sua testa na testa dela e fechou os olhos para poder saborear completamente aquele momento de fe­licidade extrema.

— Eu tinha esperança de que isso acontecesse um dia se eu tentasse lhe dizer galanteios e fazê-la feliz.

— Você me faz feliz, Ewan.

— Não completamente, Fiona. — Ele a abraçou. — Pude perceber. Meus irmãos também perceberam. Tentei muito manter distância de você. Fui um covarde, com medo de sentir mais do que paixão. Tentei isso uma vez e não queria sentir aquela dor novamente.

— Eu não sou como Helena — Fiona disse, muito séria. Ele sorriu e beijou-lhe a testa.

— Não, você não é, mas perdoe um homem tolo por seus medos. Eu sabia que você não era como ela desde o início. E aí é que estava o problema.

— Mas por quê?

— Porque sou um idiota, Ewan sorriu. Eu sabia que queria você mais do que quis a ela. Também percebi rapi­damente que você poderia me magoar muito mais do que ela — ele acrescentou em voz baixa.

— Eu nunca o magoaria, Ewan. Não de propósito. Fíona o abraçou e beijou seu peito.

— Sei disso. Cheguei a essa conclusão semanas atrás. Aí comecei a fazer planos para começar a cortejá-la e a dizer galanteios, para conquistar seu coração.

— Você me teve em suas mãos desde o início.

— Mas eu não tinha certeza. Sou um homem moreno e cheio de cicatrizes.

— Você é um homem muito bonito.

— Bem, poderemos discutir seu ponto de vista mais tarde. Fiona deu uma gargalhada e Ewan percebeu o quanto adorava quando ela ria.

— Você é linda, meu amor. Fisicamente e no coração. E eu não entendo como pode me querer. Ainda fico atónito quando a tenho em meus braços. Depois, devagar, passo a acreditar que Deus me concedeu a graça de ter seu amor. Preciso deste amor, pois também amo você. Ele ergueu o queixo de Fiona para que ela o fitasse. Oh! isto a fez chorar.

Fiona o beijou e passou os braços ao redor dele.

— Estou chorando de felicidade, de alegria, de alívio. Quando você percebeu que me amava?

— Quando Menzie a levou. Eu não classificava de amor o que eu sentia, mas naquele momento percebi que sem você não existiria futuro para mim. Então, Ciaran apareceu e eu temi perdê-la novamente. Quando você foi ajudar no meu resgate, percebi que realmente devia me amar e comecei a criar coragem para confessar meu amor. Eu ia dizer esta noite, depois da festa.

— Eu também pretendia confessar meu amor por você esta noite. E contar-lhe sobre o bebe.

— Por que esperou tanto para me contar? Você tem mes­mo certeza?

— Sim, tenho, mas eu queria primeiro me certificar de que você não ia me querer apenas por eu estar carregando um filho seu. Fiona o beijou e sussurrou: Mas você ainda não disse as palavras que eu quero ouvir.

—Amo você, Fiona. — Ele a beijou com paixão. — Você é meu coração, meu futuro. Não sou bom para dizer palavras bonitas...

Fiona o fez calar-se com um beijo.

— Não preciso de palavras bonitas. Não preciso de elo­gios, poesias, canções ou presentes. Apenas preciso que vo­cê diga, de vez em quando, que me ama.

Isto não será difícil... se você fizer o mesmo. Eu achava que o amor me deixaria fraco, mas ao contrário, seu amor faz com que eu me sinta forte, muito forte.

— Como se uma parte de você finalmente está onde de­veria estar, ela disse. No momento em que vi você eu soube que alguma coisa especial ia acontecer. E não demo­rou muito para eu perceber que você era o homem da minha vida, o homem por quem eu sempre havia esperado. Depois que você me beijou, no herbário, eu soube que encontrara minha metade e estava determinada a fazer com que você também percebesse. Fiona suspirou fundo. Eu só não tinha notado que você demoraria tanto tempo para entender.

Ewan sorriu diante da provocação, mas estava profunda­mente comovido com as palavras de Fiona. Ele demoraria a aceitar que aquela mulher bonita o amava e o achava bo­nito. Tinha que se acostumar com tantas dádivas.

Com muita delicadeza, Ewan começou a fazer amor com ela novamente, beijando-a e dizendo-lhe palavras de amor e de carinho. Fiona retribuía suas carícias proclamando seu amor por ele em palavras e gestos.

— Amo você, Ewan repetiu, dessa vez achando bem mais fácil.

— E eu amo você. De repente, Fiona o puxou e sorriu. Mas amarei ainda mais se você se mexer.

Ewan também riu e começou a se mover. Tentou fazer o ato perdurar por mais tempo, mas depois de alguns minutos, os dois atingiram o ápice juntos. Ficaram um nos braços do outro até se acalmarem e a respiração voltar ao normal.

— Eu deveria ter sido mais inteligente para perceber que não poderíamos nos amar com tanta paixão se não houvesse amor e uma emoção profunda. Nunca senti tal paixão antes. Ele beijou-lhe a boca quando ela começou a falar. Não, nem por ela. Era pura luxúria e talvez um toque de vaidade e orgulho. Não estive com muitas mulheres, sempre temi ficar igual ao meu pai. Você era uma ameaça, pois despertava a besta que morava dentro de mim, desencadeava uma paixão que eu não podia controlar.

— Eu gosto dessa besta, Fiona afirmou, com malícia.

— Eu também comecei a gostar dela, pois era um modo de eu ter você para mim. Mas era uma parte escura da minha personalidade, uma coisa que devia ficar enjaulada, acor­rentada. Mas essa besta não me deu trégua. Toda vez que eu a via ela tomava conta de mim.

— Isso também acontece comigo, de vez em quando.

— Isso me intriga, Fiona. Ewan acariciou a barriga ainda plana da esposa. Tenho medo de ficar um homem descuidado como meu pai. Ele está mudando e cheguei à conclusão de que não era loucura e nem apenas luxúria. Percebi também que minha luxúria só é despertada por você, pelo que eu sinto por você.

— E é melhor mesmo que essa besta só seja despertada por mim, Fiona o avisou, tocando levemente o queixo dele com seu punho.

—Ninguém a não ser você, minha amada Fiona-dos-dez-punhais.

— E eu nunca vou querer ninguém, meu guerreiro mo­reno.

— Se você continuar a se mexer desse jeito, esse guerreiro moreno soltará a besta novamente.

— Meu plano era esse.

Ewan riu e apertou Fiona nos seus braços.

— Ame-me, minha doce Fiona.

— Sempre.

 

 

                                                                                                    Hannah Howell

 

 

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