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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SENHOR DO VENTO / Susan King
O SENHOR DO VENTO / Susan King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Escócia, as Lowlands (Terras baixas). Fevereiro de 1305.

Uma chama de luz, seguida de uma escuridão aveludada, acalmou-a totalmente no mesmo momento em que começou a visão. Isobel apertou com força os dedos sobre a cadeira que suportava seu peso e fechou os olhos.

Viu que um homem surgia das sombras e caminhava para diante. Alto e de ombros largos, vestido com uma capa com capuz ao modo dos peregrinos, movia-se com a elegância de um guerreiro e o porte de um líder. No punho protegido com uma luva levava um falcão. Sua silhueta foi envolta pela neblina, e por fim desapareceu.

Isobel franziu o cenho, desconcertada. Nenhuma palavra, nenhum nome, nenhuma revelação acompanharam à visão; tão somente a vívida e intrigante imagem de um homem, já esfumada de tudo.

-Isobel? -A voz profunda e autoritária de seu pai, que se correspondia com sua impressionante altura e sua corpulência, soou deliberadamente atenuada. John Seton falou como se estivesse no interior de uma igreja, mas se encontrava em seu dormitório olhando fixamente a sua única filha, a herdeira de sua propriedade do Aberlady, que profetizava de novo. - O que vê? - perguntou.

Ela moveu a cabeça negativamente e manteve os olhos fechados. Se os tivesse aberto, não teria visto a terrina de água pouco profunda que havia sobre a mesa nem a reluzente superfície em que se mostrou a primeira visão. Não teria visto as paredes de pedra do dormitório de seu pai, nem o resplendor do fogo na chaminé, nem os três homens que a observavam com tanta concentração.

Estava cega.

A escuridão de sua visão profética sempre lhe arrebatava a visão terrestre durante uma hora ou várias, às vezes durante mais de um dia.

Cada vez que lhe sobrevinha à cegueira, aguardava confiante até recuperar a visão; cada vez tratava de combater o medo de que um dia não voltasse a ver mais.

 

 

 

 

 

Deixou escapar um lento suspiro enquanto as imagens se formavam detrás de suas pálpebras. Contando-se por miríades e rapidamente cambiantes, diversas caras e situações passaram ante ela como se as visse através de um cristal cintilante de várias facetas. Então tomaram forma as palavras, insistindo-a a falar.

-Traição – disse. - Assassinato.

Isobel percebeu murmúrios entre os homens que tinha perto: seu pai, seu sacerdote, seu prometido. Observou como se desenvolvia a cena e aguardou que chegassem novos descobrimentos.

-Que classe de traição, Isobel? - perguntou-lhe seu pai.

-Sim, o que é o que vê, Isobel? - Sir Ralph Leslie, o homem que seu pai lhe tinha eleito para marido, e amigo deste, possuía uma voz suave e agradável. Ouviu seus passos aproximando-se dela com um ruído pesado, pois se tratava de um homem baixo e corpulento. E também ouviu como o azor que Ralph havia trazido consigo emitia um gorjeio desde seu cabide no outro extremo da habitação.

-Não te aproxime, Ralph - murmurou John Seton. - O padre Hugh está sentado junto a ela para ir escrevendo tudo o que diz. Não lhe faça perguntas. Deixe que nos ocupemos disso. E procure que seu azor guarde silêncio. Esse pássaro tem mal gênio.

Isobel ouviu sir Ralph lançar um grunhido a modo de resposta. Comprometeu-se com o Leslie no dia de Pentecostes, obedecendo os desejos de seu pai e de seu sacerdote. Esta era a primeira vez que sir Ralph a via pronunciar profecias, e ela compreendeu com tristeza, na zona periférica de sua mente, que ele não sabia como comportar-se durante a sessão.

Não tinha querido que Ralph estivesse presente, assim como tampouco tinha querido o compromisso, mas seu pai e o sacerdote tomaram a decisão, do mesmo modo que tinham tomado tantas outras que concerniam a ela. A sir Ralph lhe permitia observar, mas não podia distraí-la.

Isobel franziu o sobrecenho, deixando que seus olhos se movessem detrás das pálpebras em um intento de recuperar sua intensa concentração nas rápidas e vívidas imagens que se deslizavam através do escuro tecido de sua visão interior. O silêncio encheu a habitação, exceto pelo crepitar do fogo na chaminé.

-Vejo uma águia voando sobre colinas escocesas - disse.

Seguiu olhando enquanto as imagens passavam velozes, tal como acontecia sempre que se sentava para fazer uma predição a instâncias de seu pai.

-Uns falcões perseguem a águia - continuou. Suas visões com freqüência se desenvolviam em forma de uma mescla do real e o simbólico. Esta vez, seu dom parecia apresentar às aves de rapina como metáforas. Observou os pássaros, e sentiu que a alagava o entendimento.

-Há uns homens - disse com suavidade. - Um falcão da torre, um falcão do bosque, e outros. Escoceses e ingleses, que capturam um homem, a águia, de forma traiçoeira. É um líder ao que temem e desejam apanhar.

John Seton, Ralph Leslie e o sacerdote guardaram silêncio. Isobel ouviu o chiado de um falcão, mas não provinha da ave de caça de sir Ralph.

-Vejo um azor posado em uma mão enluvada - disse Isobel, contemplando a imagem que se formava em sua mente. - Seu amo levou ali a outros. O falcão da torre, o falcão do bosque, os dois estão ali. Apanham a águia, o líder, em meio da noite. Que resiste, pois é forte de corpo e também de coração.

Contemplou como aquele homem enorme lutava com violência enquanto os outros lhe levavam a rastros.

-Vão acusar lhe de vários delitos e a lhe matar. Mas é um sacrifício, um assassinato, que obedece a seus próprios fins - interrompeu-se, contemplando como se levavam o homem a cavalo, em meio de uma chuva de flechas adornadas com plumas brancas.

-O falcão do bosque soltará a pluma branca - disse. -Fugirá através do urze e das árvores.

-E a águia? - perguntou seu pai.

Isobel deu um coice ao presenciar nítidas cenas de crueldade.

-Arrancarão seu grande coração do peito - disse, e depois calou por uns instantes, fechando os punhos, angustiada, até que a inquietante imagem passou. - O leão inglês reclamará o triunfo. O falcão que traiu a águia, seu amigo, desaparecerá no bosque.

-O leão inglês deve ser o rei Eduardo - murmurou o padre Hugh, Isobel percebeu o roce da pluma ao escrever sobre o pergaminho. - Mas a águia, o falcão da torre, o falcão do bosque... Quais são? Que mais sabe, Isobel? - Sua voz era tranqüila e moderada pela idade.

Um grande número de visões passou rapidamente ante seus olhos, brilhante como pinturas sobre o vidro, tantas que não pôde descrever todas. O entendimento voava por sua mente, muito veloz para apanhá-lo. Sentiu que a embargava uma profunda tristeza e uma devastadora sensação de traição que ameaçaram fazê-la chorar. De repente compreendeu que o homem forte e valente, a águia, morreria antes do outono.

E compreendeu, com assombrosa claridade, de quem se tratava.

- Meu deus, pensou, me permita lhe avisar. Por uma vez, me deixe ajudar e não simplesmente predizer o que vai acontecer. Mas não recebeu resposta alguma a sua súplica.

- Me permita recordar, acrescentou desesperada. Rogo-lhe isso, me permita recordar esta vez.

Normalmente, suas visões se desvaneciam da memória. Se mais tarde se perguntasse por elas, tinha que recorrer a seu pai ou ao sacerdote para saber o que havia dito e o que significava. Do contrário, eles estranhamente nada lhe comentavam, e lhe diziam que não se preocupasse. Uma vez decifradas, as profecias já deixavam de ser assunto dela, diziam-lhe, e legitimamente passavam a pertencer a homens que as pudessem entender.

Mas Isobel queria participar daquilo. Tinha começado a predizer acontecimentos ainda menina, doze anos atrás. Durante vários anos, seu pai tinha se feito omisso de tudo relativo à sua vida e a seu notável dom. Mas agora já era uma mulher, e fazia perguntas pertinentes, a seu pai e ao padre, e as respostas que lhe davam nem sempre a satisfaziam.

Sabia que o sacerdote falava dessas profecias em sua paróquia, e que a partir de ali se estendia o rumor. Sabia que tinha enviado cópias de suas predições ao rei da Escócia no exílio, John Balliol, e aos homens que atuavam como Guardiões do Reino, o órgão de governo de Escócia em ausência do rei. Sabia que os ingleses também estavam a par de suas profecias.

Seu pai lhe disse que ela era uma bênção para a causa da Escócia, e isso a alegrava. A horrível tensão que sofria durante as visões parecia valer a pena se, com isso, se beneficiavam o povo de seu país.

Isobel agitou as pálpebras e moveu ligeiramente os olhos. As imagens seguiam passando, cintilantes, fascinantes, devastadoras.

-Quem é a águia, o homem que capturaram? -perguntou o padre Hugh.

-O chefe dos rebeldes, William Wallace. -Sua voz soou grave e áspera por um sentimento de pesar. Isobel não queria predizer o destino daquele homem, e, entretanto o fez. Não podia conter a força da verdade. -O rei inglês destroçará o lutador para aplacar sua própria ira - prosseguiu. -Chamarão de justiça. Wallace é a águia entre os falcões. Será traído por um falcão.

Ouviu que seu pai e Ralph lançavam suaves exclamações e depois murmuravam entre si.

-Continua, Isobel - insistiu seu pai. A mão esquerda e a terrível cena já tinham passado. Agora via outra muito mais agradável: um azor planando graciosamente no vento, por cima das taças das árvores de um denso bosque.

-O senhor do vento - disse em seguida quando as palavras foram a sua mente. Quase sorriu, pois por um instante se sentiu como se compartilhasse a liberdade da ave. -É o falcão do bosque.

-Quem é? -perguntaram ao uníssono seu pai e o padre.

-Não tem lar. Vive no bosque e voa em liberdade. -Contemplou o formoso vôo do azor no alto, e franziu o cenho ante o que veio depois: - Outros falcões, outros homens... lhe darão caça. Ele foge para salvar sua vida - Juntou as mãos e retorceu os dedos. - Ele traiu, mas não por decisão própria. Agora é ele o traído. OH, quanta dor, quanta traição! -Sacudiu a cabeça para frente e para trás, para se livrar da angústia que a invadiu.

-Que traição? Quem lhe traiu? A quem ele traiu? -quis saber o padre Hugh, cuja pluma não deixava de arranhar o pergaminho.

-Isobel, nos diga o que sabe - disse seu pai, ansioso. Os sentimentos que a alagavam agora eram devastadores. Logo que podia falar, e teve que lutar contra o pranto. Não era freqüente que as visões a arrastassem a um torvelinho como este. Experimentou uma amarga pena.

Um momento mais tarde, contemplou com alívio novas imagens que se formaram sobre o campo escuro de sua visão interior. Apareceu uma neblina. Do véu da névoa surgiu o homem da capa, sustentando um falcão na mão. O coração do Isobel deu um pequeno tombo.

-Vejo um peregrino. -Descreveu-lhe, e então teve outra revelação a respeito dele: - Leva uma penitência no coração, e deseja a paz.

-Quem é? -perguntou Ralph. Veio-lhe a resposta.

-É o senhor do vento.

-Isobel, se explique melhor - disse Ralph, impaciente.

Isobel quase não lhe ouviu. Contemplou ao homem vestido com a capa de peregrino, fascinada, extasiada. Era alto e forte, e estava sozinho sob a chuva nos degraus da entrada de uma igreja, sustentando em sua mão elevada um azor cinza. Sob seu amplo capuz, Isobel alcançou a ver um rosto arrumado e sombrio: profundos olhos azuis, uma mandíbula firme, uma boca quase branda, cabelo castanho com nervuras douradas. Em seus olhos parecia pesar uma tristeza, uma dor. E percebeu também algo mais..., raiva e amargura contidas. De algum modo lhe conhecia tão bem como conhecia a si mesmo. E, sem embargo, não sabia quem era.

O homem baixou os degraus e pôs-se a andar através do pátio empapado em direção a um arbusto de espinheiro. A chuva caía brandamente quando se deteve junto ao arbusto, soltou o azor e passou de comprimento. O azor foi batendo as asas até posar em um ramo do espinheiro.

-O azor guarda o segredo do arbusto de espinheiro - disse Isobel, impulsivamente. De algum jeito sabia que aquilo era verdade.

-Que segredo? -exigiu Ralph. - Quem é o homem? Onde está esse arbusto? John, do que está falando a moça?

-Ralph, cale-se - rugiu seu pai.

-Provavelmente é algo simbólico - disse o padre Hugh com calma. - Açores, arbustos, peregrinos... São símbolos de um significado mais amplo. Estudarei minhas notas atentamente. Note em como move os olhos para cima..., está vendo algo mais. Isobel, diga-nos o que está vendo agora.

Isobel não pôde responder. Pela primeira vez em doze anos de dizer profecias, viu sua própria imagem em uma visão.

Havia uma mulher que vinha andando brandamente sobre a erva empapada pela chuva. Alta e magra, com um vestido azul, e com seu cabelo negro derramando-se como a noite por suas costas. Isobel, aturdida, contemplou como ela se aproximava do arbusto de espinheiro ao qual se encontrava posado o azor. Os olhos de cor bronze da ave a olharam sem piscar.

O homem da capa de peregrino se voltou. Isobel sentiu como seu olhar perfurava o dela. O homem levantou a mão e lhe fez um gesto para que se aproximasse. Sentiu um entristecedor desejo de ir para ele, mas um sentimento igualmente forte a reteve no local. Enquanto vacilava, o pátio da igreja se desvaneceu.

Então viu altos muros de pedra, brilhantes à luz do sol. Reconheceu as muralhas do castelo do Aberlady, seu lar. As flechas assobiavam sobre sua cabeça, descrevendo parábolas sobre as muradas. Ouviu homens gritando, vociferando. Percebeu o aroma da fumaça e experimentou uma fria e pesada sensação de fome no estômago.

-Assédio – sussurrou. - Assédio.

Então proferiu um grito. A visão desapareceu, embora ela tratasse de aferrar-se às imagens cada vez mais esvaídas. Oxalá Deus lhe permitisse recordar.

Quando abriu os olhos, a escuridão persistia.

 

3 de agosto de 1305

Correu em silêncio através do bosque iluminado pela lua. O ritmo de sua respiração, de seu coração e de seus passos se mesclava com o som do vento. Correu em linha reta, sem deter-se, deslizando como uma sombra entre as árvores, saltando agilmente com suas largas pernas através da folhagem.

Deus quisesse que não fosse muito tarde.

Correu através do bosque e sobre os páramos, até que a respiração começou a lhe agitar o peito e o ar lhe queimou a garganta, até que suas poderosas pernas começaram a doer. Mas não se deteve.

Não podia, porque cada passo que dava lhe aproximava um pouco mais do seu objetivo. Tinha que impedir uma tragédia.

Por fim, divisou uma luz brilhando ao longe, entre os troncos das árvores. Sem deixar de correr, viu uma tocha que ardia com um resplendor amarelo e uma casa. Depois distinguiu cavalos e homens armados, e ouviu gritos confusos que pareciam de fúria e determinação.

Santo Deus. Tinham alcançado a casa antes dele.

Deteve-se atrás de um carvalho, respirando em largas inspirações, com o coração lhe retumbando no peito e a túnica empapada de suor. O pátio da casa, iluminado pela lua, estava cheio de homens vestidos com cota de malha, alguns deles a cavalo. Seriam uns vinte... quase trinta.

Havia um homem morto no chão. Alguém deu um chute no cadáver. Outros trouxeram um cavalo montado por um homem fortemente amarrado e amordaçado; um homem gigantesco, dobrado para frente. O sangue que emanava da ferida que tinha na cabeça se via negro à luz da lua. Um guarda lhe golpeou de novo, e o que observava a cena jurou em voz baixa, em tom desesperado. Sigilosamente e em silêncio, agarrou o arco que levava às costas e o esticou rapidamente. Tirou uma flecha da aljava pendurada em seu cinturão, colocou-a no arco e apontou.

O guarda, a ponto de descarregar outro selvagem golpe sobre o gigante, caiu de seus arreios com o peito atravessado por uma flecha. Das árvores surgiu em seguida um segundo dardo. Um soldado levantou seu estilingue e olhou ao redor, disposto a usá-lo, mas um instante depois caiu no chão como uma árvore destruída. Os homens que rodeavam o prisioneiro gritaram, giraram-se, desembainharam suas espadas, prepararam seus estilingues. À luz da lua, as plumas brancas das flechas ficavam visíveis para todos.

Era óbvio que tinham sido disparadas pelo arco do renegado dos bosques ao que chamavam o Falcão da Fronteira. Alguém gritou seu nome.

Observando de seu esconderijo atrás da árvore, ao renegado pareceu ver que o prisioneiro se voltava e fazia um gesto com a cabeça em direção às árvores, como se estivesse dando as graças a seu invisível aliado, um homem ao que sempre tinha chamado amigo.

O renegado distinguiu a forma branca de um objeto pequeno e plano que caiu no chão, arrojado disimuladamente pelo prisioneiro. Viu-o perfeitamente, e decidiu ir buscá-lo assim que o fora possível.

Um dardo se estrelou contra o tronco de uma árvore próxima aonde se encontrava o arqueiro. Em lugar de fugir, deslizou-se para diante como uma negra sombra e lançou outra flecha. Um grito cruzou a noite. Três guardas a menos. Colocar, esticar, apontar, disparar. Quatro. Ainda muitos para enfrentar sozinho. Mas ainda ficavam várias flechas na aljava, e cada uma delas contaria por uma vida antes que acabasse a noite. Inclusive assim, sem um cavalo para poder seguir a sua presa, sem homens que lhe apoiassem, não albergava nenhuma esperança de resgatar a seu amigo, que tinha sido capturado por traição. Uma traição a que ele tinha contribuído. Aquele pensamento lhe percorreu o corpo como uma folha afiada. Esticou de novo a corda do arco e disparou.

Já haviam cinco homens no chão, silenciosos ou gemendo. O resto se apressou a subir a suas montarias e, deixando para trás outros, formaram um círculo e tiraram o prisioneiro do pátio. Vários projéteis disparados por seus estilingues se perderam entre as árvores ou se chocaram contra o chão, enquanto se afastavam a todo galope.

Ele se equilibrou para frente como um gato selvagem, correndo atrás deles, saltando sobre a maleza com o arco na mão. Os cavalos eram ingleses, fortes e de largas patas, e logo tiraram vantagem ao homem a pé, que corria como louco entre as árvores juntas ao atalho de terra.

De repente se deteve, com as pernas separadas, para colocar, apontar e disparar outra flecha, e logo outra, e outra mais. Disparava tão rápido que não pensava no branco. Cada uma das flechas era uma prolongação de sua vontade e de sua raiva, e todas elas encontraram seu objetivo.

Ouviu gritar frente a ele e pôs-se a correr através da vegetação. Os cavalos estavam já quase fora de seu alcance. Subiu por uma ladeira a passos largos e rápidos para ver de cima o caminho de terra. Com as pálpebras entrecerradas, viu - com a antiga acuidade de visão que havia lhe valido o apelido de Falcão da Fronteira - o reluzir das cotas de malha sob a luz da lua. Ficavam duas flechas. Embora soubesse que a distância reduziria sua precisão, apontou, esticou e disparou. O dardo foi acertar no braço de um homem, mas este seguiu cavalgando com outros.

Sabia que aqueles homens tinham a intenção de escoltar seu amigo e lhe conduzir até uma morte horrível. O homem que tinham aprisionado aquela noite era um chefe e um rebelde, e tinha provocado ao rei inglês até lhe obcecar. Para ele não haveria justiça nem clemência.

Só ficava uma flecha. Colocou-a, esticou a corda e apontou para seu objetivo.

E então baixou o arco. Por um instante de ardor, desejou arrebatar a vida a seu amigo com uma flecha segura, rápida e honorável, antes que o fizessem os ingleses com tortura e humilhação.

Voltou a levantar o arco, com o olhar fixo e a mandíbula fortemente fechada. Embora sentisse que o coração lhe afundava como uma pedra, disparou.

Mas a flecha ficou curta.

 

Setembro de 1305.

A chuva repicava sobre o musgo e a pedra enquanto o peregrino subia os degraus de entrada da igreja da abadia. Empurrou a pesada porta de carvalho e penetrou sob o arco que formava a soleira. Vários feiches de luz, chapeados pela chuva, brocavam a penumbra que reinava na alta nave com teto de abóbada. Um cântico monótono chegou até ele, procedente dos monges que ocupavam o coro, mais à frente do altar.

O perigo se abatia sobre ele como um demônio, inclusive naquele lugar. Embora soubesse que não devia ficar muito tempo, deteve-se e fechou os olhos durante uns instantes. A paz lhe envolveu, tangível e maravilhosa, como a neblina do entardecer que velava as colinas próximas. Mas para ele, aquela serenidade era tão efêmera como a névoa.

Alegrou-se pelo singelo prazer de poder refugiar-se da chuva. Durante anos o bosque tinha sido seu lar. Não estava acostumado à densa imobilidade do ar em um recinto fechado nem à sensação que lhe produziam as lajes do chão, lisas sob os pés. Ateve um pouco mais a capa sobre seus largos ombros, molhou as pontas dos dedos em uma pequena pilha que havia na parede e se fez o sinal da cruz com o movimento rápido e rotineiro de um monge treinado. Depois de lançar um olhar de cautela, avançou pelo corredor da direita, sumido em sombras, que haviam detrás dos enormes pilares da nave.

Os ingleses e os escoceses lhe perseguiam diariamente para lhe dar caça.

A chamada de um amigo havia lhe trazido até aqui, à abadia de Dunfermline, mas logo retornaria ao sagrado refúgio do bosque. Se lhe descobrissem aqui, sua captura - ou sua fuga - perturbaria a paz duramente ganha da abadia.

Um ano antes, o rei inglês se alojou na abadia de Dunfermline e tinha convocado aos nobres escoceses para que lhe jurassem submissão e para administrar o que ele denominava justiça. Quando se foi, o rei Eduardo ordenou que se pusesse fogo naquele lugar sagrado, embora sua própria irmã estivesse enterrada sob as lajes da abadia. As ruínas enegrecidas do refeitório e do dormitório se encontravam a menos de um tiro de pedra da capela, a qual tinha sobrevivido.

O peregrino fez uma genuflexão a um lado do altar e o deixou atrás. Nos anos que levava vivendo como fugitivo, jamais se tinha submetido ao rei Eduardo como tinham feito a maioria dos nobres escoceses; ele tinha feito voto de liberdade, para si mesmo e para Escócia. Meses atrás, tinha sido ferido em batalha, capturado junto com dois primos e encerrado em uma masmorra inglesa. Inclusive, embora um de seus primos tivesse morrido a seu lado e o outro - uma mulher - tivesse sido levada à outra parte, não assinou nenhum documento de lealdade ao rei Eduardo.

O que assinou ao final resultou ser muito pior. Apertou os lábios com amargura e seguiu percorrendo o corredor.

Sua figura de guerreiro alto e forte atraía de forma natural os olhares em qualquer lugar que fosse, mas fez um esforço por inclinar a cabeça e passar despercebido. A concha marinha que levava junto ao ombro da capa e a medalha do santo que luzia junto lhe identificavam como um penitente. A abadia do Dunfermline era uma parada freqüente na rota de peregrinação que ia desde o Saint Andrews até o nordeste e chegava até a Compostela. Poucos olhares de curiosos se voltariam para ele enquanto levasse a capa e as insígnias.

Olhou ao redor, procurando o homem que tinha prometido reunir-se com ele depois do serviço de vésperas. Viu vários indivíduos ajoelhados ou sentados nos compridos e estreitos bancos, absortos na oração. No ar flutuava o aroma de incenso, e os cânticos enchiam a igreja. Recordava bem a melodia: tratava-se de um kyrie que ele mesmo tinha acompanhado incontáveis vezes, fazia muito tempo, no que agora lhe parecia outra vida. Nem sequer aquele som tranqüilizador conseguia suavizar as endurecidas curvas de sua alma. Tinha trocado de maneira irrevogável.

Suas botas de pele de cervo avançaram sem fazer ruído sobre as lajes do chão ao entrar na capela da Santa Margarida, situada no extremo leste do templo. Sob a luz dourada e tremeluzente das velas, dirigiu-se para a enorme tumba de mármore da Santa reina escocesa. O tamborilar da chuva e os cânticos se mesclavam entre si quando se ajoelhou junto ao quadrado pedestal. Agarrou um círio e acendeu uma vela como comemoração a Santa Margarida, que tinha sido amiga dos peregrinos e os necessitados. Depois juntou as mãos em atitude de oração e aguardou.

Após um momento ouviu o suave ruído de pegadas. Um monge, que vestia o hábito negro da ordem dos beneditinos, entrou na capela e se ajoelhou junto a ele murmurando uma prece em latim. Ao inclinar a cabeça, deixou ver uma poda tonsura em seu cabelo castanho e de seu rosto alargado.

-Peregrino, viajaste um comprido caminho em um dia tão mau como este - sussurrou o monge quando teve terminada sua prece.

-Bastante largo, de modo que espero receber boas notícias.

-Oxalá lhe pudesse dar isso James Lindsay.

James olhou fixamente a seu amigo. O coração pareceu afundar-se no oco do peito. Aguardou que falasse o monge, e soube exatamente o que este ia dizer.

-Está morto, Jamie - murmurou o monge. - Wallace está morto.

James assentiu devagar, embora se sentisse violentamente arrasado pela pena e a fúria. Apertou com força a mandíbula, os punhos, e até o mais fundo de sua vontade para combater seus efeitos.

-William Wallace, capturado por meio de uma suja traição. Deus tenha piedade de sua alma - disse o beneditino, sacudindo a cabeça em um gesto negativo. - Capturaram-lhe faz apenas um mês, Jamie.

-Sei - respondeu James em um tom sem inflexões. Sabia muito bem quando tinham capturado Wallace. Não podia apagar a lembrança.

-Não tivemos notícia de sua morte até uns dias. Levaram-lhe a julgamento em Londres, declararam-lhe culpado de traição e lhe executaram em vinte e três de agosto.

-Que traição? O jamais jurou obediência ao rei Eduardo - murmurou James. -Condenaram-lhe apoiando-se em provas falsas, John.

John Blair assentiu.

-Acusaram-lhe de ações que ele nunca executou. Fez algumas coisas, é certo, mas nada para merecer o que fizeram a ele. Arrastaram-lhe até a forca e lhe penduraram até que esteve meio morto. Quando lhe baixaram, ele pediu que lhe lessem os salmos enquanto o... cortavam... - Blair se interrompeu. - Não posso te contar o resto aqui, neste lugar sagrado.

-Conta-me o rugiu James. - Quero sabê-lo.

Blair baixou a cabeça e procedeu a descrever em voz baixa e rota um relato de crueldade, sofrimento insuportável e valor supremo. James escutou sem mostrar expressão alguma, mas sentindo como o sangue lhe fervia e golpeava nas veias, empurrado por uma onda de raiva e dor. Notou um estranho arder nos olhos e respirou fundo para combatê-lo.

Uma flecha certeira poderia ter evitado aquela agonia. Mas se tivesse tido êxito, naquela tentativa há semanas atrás, isso não teria feito outra coisa que incrementar sua dívida com o Wallace, e agora já nada poderia pagá-la.

O monge separou as mãos da posição de oração e fechou os punhos enquanto falava. James olhava suas próprias mãos, fechadas com tal força que os nódulos mostravam-se brancos. Seu espírito pareceu endurecer em seu interior, como se a última fibra branda de seu coração houvesse sido convertida em pedra, invadida por uma tristeza impossível de superar.

-Martirizaram-lhe - disse quando conseguiu falar.

-Assim é. Sua morte será a chama que reacenderá o fogo da causa escocesa, justo quando o rei Eduardo acreditava extinto para sempre.

-Sim. John, une-se a nós de novo, no bosque do Ettrick.

-Já não me convém levar a vida de um proscrito - disse John. - Abandonei-a para retornar à Dunfermline e escrever o relato da vida de Wallace. É necessário dar a conhecer a verdade de suas ações.

-Escreva essa crônica no bosque. Nunca gostou de muito da vida contemplativa.

-À vida contemplativa não gostamos nenhum dos dois, irmão James - recordou-lhe John com um olhar fugaz. - Você deixou a ordem faz anos para se unir à causa da Escócia. Foi armado cavalheiro em um campo de batalha escocês, enquanto eu tomava os votos sacerdotais.

-E, entretanto, nós dois terminamos sendo dois bandidos dos bosques. John, poderíamos nos valer de sua mão firme com uma arma e de seu bom julgamento.

-Tem outros contigo, nos bosques.

-Agora são poucos. Já terão chegado rumores.

-Sei que lhe buscam de novo, esta vez com ânimo de vingança. - John franziu o sobrecenho. - Por toda parte se diz que Wallace foi traído por escoceses. O senhor do Menteith enviou seus serventes para que pusessem Will sob custódia, mas o resto é desconhecido.

-Nem todo é desconhecido - repôs James com cuidado.

-Refere-te ao conde do Carrick? Duvido que ele tenha algo com essa traição. Embora renda vassalagem ao Eduardo da Inglaterra, acredito que Robert Bruce em seu coração está ao lado dos escoceses.

-Não me refiro a Robert Bruce - disse James. – Recentemente deu provas de que se inclina fortemente para o lado escocês.

-Graças sejam dadas a Deus - comentou Blair em voz baixa. - Roguei para que a Escócia encontre um dirigente forte. Bruce é o único que pode desempenhar esse papel, Jamie.

James assentiu, e deixou que o silêncio se estendesse durante uns momentos.

-John - murmurou por fim - existe o rumor de que William Wallace foi traído... por sir James Lindsay do Wildshaw.

-Por todos os Santos - murmurou John. - Não o tinha ouvido. Culpam a ti?

James afirmou gravemente com a cabeça.

-Escoceses que em outro tempo apoiavam ao Falcão da Fronteira agora me voltam as costas, ou me perseguem junto com os ingleses.

-Mas você não traiu ao Will. Jamais poderia fazer algo assim.

James contemplou com expressão vazia a tumba de mármore. Queria dizer a John – e, portanto, confessar ante um sacerdote - o que tinha feito enquanto esteve cativo dos ingleses, e a tragédia que sobreveio a conseqüência disso. Mas não se sentia capaz de dizê-lo em voz alta. Ainda não. O explicaria mais tarde, quando ele e John se recuperassem da impressão que lhes tinha causado a morte Will. Mas antes tinha uma coisa que cumprir. E se sobrevivesse, regressaria à Dunfermline para aliviar sua alma.

-Tem que haver alguma forma de te tirar a carga dessa culpa de ombros - disse o monge.

-Isso é meu assunto. Eu me encarregarei disso.

-O que vai fazer?

-Procurar o homem que organizou a captura de Wallace - respondeu James. - O mesmo homem que fez recair a culpa sobre mim e que agora tenta me apanhar por meio de minha família.

-Menteith?

-Ele é um dos traidores. Mas eu procuro outro homem, que estava com os que me capturaram há meses. Que causou a morte de um de meus primos e ainda retém minha outra prima em seu poder. Sir Ralph Leslie.

-Então sabe onde está.

-Ao mando da guarnição de um sólido castelo. Não posso chegar até ele nem liberar a sua prisioneira levando só quatro homens comigo.

-Quatro?

-Os que me seguem atualmente, quando houve um tempo em que eram cinqüenta ou mais. Só quatro homens acreditam que ainda tenho um pouco de honra.

-Eu também acredito - disse John em voz baixa.

Mas é que eu mesmo não acredito, disse James para si. Dirigiu a John um triste sorriso de agradecimento e não disse nada.

John lançou um suspiro.

-Embora unidos a você, Jamie, um punhado de proscritos dos bosques não pode vencer a toda uma guarnição. Onde está ele?

-O rei Eduardo acaba de lhe fazer guardião de um castelo que foi tomado, há anos, dos escoceses e que ainda está em poder da Inglaterra - disse James. - O castelo do Wildshaw.

-Jesus - exclamou John. - Realmente tem assuntos a resolver com esse homem.

-Assim é - resmungou James.

-Sugiro que espere com sua comitiva no bosque e que lhe apanhe quando abandonar sua guarida. Ponha-o uma faca na garganta e verá se ele estiver disposto a te oferecer desculpas e a devolver o que é teu.

-Calma, sacerdote - disse James com um sorriso aparecendo em seus lábios. John sorriu travessamente. - Poderia fazer isso, mas ele tem mais coisas que são minhas por direito, além desse castelo. Margaret Crawford se encontra sob sua custódia.

-Margaret! Sua prima?

-Exato. Estava conosco quando caímos na emboscada que nos aprisionaram os ingleses.

-Em outras ocasiões insistiria em te acompanhar. Sempre teve mão firme com o arco. Mas isto...

-Sim. Vinha-nos muito bem contar com sua ajuda, e eu nunca lhe impediria que fizesse o que quisesse. Mas agora Leslie a tem prisioneira no Wildshaw, e espera me atrair utilizando-a.

-Mas se tentar resgatá-la a força, porá em perigo sua vida e também a de outras pessoas.

-Assim é. Por isso decidi oferecer um trato. Uma vez que Margaret estiver livre graças à troca, cobrarei minha vingança.

John olhou-o fixamente à luz das velas votivas que emolduravam a tumba da Santa.

-O que pode ter você que seja o bastante importante para que esse homem faça o que você quer?

-A profetisa do Aberlady - respondeu James.

-Tem-na? -sussurrou John.

-Terei - repôs James.

-Pretende tomar como refém ao Isobel do Aberlady, a Negra? -perguntou John, baixando o tom de voz até convertê-lo em um cochicho de ansiedade.

-Se ele pode utilizar Margaret para me atrair, eu posso utilizar à profetisa – grunhiu James.

-Mas Isobel, a Negra! Tenho entendido que o rei inglês aprecia muito suas profecias. Ficará furioso se lhe acontecer algo.

-Já está furioso comigo, por ser um fiel camarada do Wallace. Ultimamente chegou aos meus ouvidos que o rei Eduardo deseja que a profetisa seja levada a sua presença para que faça adivinhações de forma exclusiva para o trono da Inglaterra.

-Ah, já compreendo. O preço dessa mulher é bastante alto.

-Exatamente. Trata-se de uma refém muito valiosa... por muitas razões.

-Certo - assinalou John amargamente. - Predisse a queda do Stirling, a captura de Wallace e a traição do Falcão da Fronteira. O rei Eduardo quer que continue a boa rajada.

-Esse pequeno pardal poderá cantar para o rei mais tarde - disse James em tom calmo. -Não me parece muito divertido que digamos, já que jogou um laço ao pescoço com seu bonito palavrório. Se Leslie pagar o preço que eu lhe peça, Margaret, poderá ter a sua profetisa e levá-la ao rei inglês como amostra de sua lealdade, se gostar.

-Mas por que ia querer Leslie essa profetisa?

-Porque é sua prometida. - A frase impregnou suave, mas nítida, no meio do silêncio.

John lhe olhou com uma expressão de assombro, e a seguir sacudiu a cabeça negativamente.

-Esse é um plano muito arriscado, e temerário também. Está deixando que o coração e as tripas governem sua cabeça. Seja prudente.

-Sendo temerário ou sensato, com o coração ou com as tripas, assim é como será feito. Prefere que me limite a me apresentar ante as portas do Wildshaw e solicitar que devolvam a minha prima a sua família?

John negou com a cabeça.

-Estaria morto antes que pudesse, sequer, abrir a boca.

-Hoje mesmo irei ao castelo do Aberlady a solicitar uma audiência com a profetisa. Suponho que um peregrino pode requerer sua sabedoria. - James sorriu apenas. - Embora duvide que a verdadeira sabedoria seja a dela.

-Talvez seja possível vê-la se pedir permissão a seu pai e a seu sacerdote - disse John, franzindo o cenho. - Mas lembro-me ter ouvido dizer que seu pai, sir John Seton, que é um cavalheiro rebelde, foi feito prisioneiro pelos ingleses depois de uma escaramuça.

-Sua filha é feita de outra madeira - replicou James. - Leslie, embora seja escocês, passou-se ao lado dos ingleses.

-Tome cuidado, Jamie - advertiu John. - Pode ser que hajam guardas a seu redor. Seu sacerdote é o padre Hugh, da paróquia do Stobo. Se for a ele, possivelmente conceda permissão a um humilde peregrino que suplica ver a profetisa.

-Necessito desesperadamente do conselho dessa mulher - disse James zombador, arrastando as palavras.

John deixou escapar um suspiro.

-Se não fora porque se trata de ti, me oporia a este plano. É desonroso tomar como refém uma mulher.

-Diga isso ao Leslie, que tem prisioneira Margaret. Isobel, a Negra, não sofrerá nenhum mau trato estando a meu cuidado. Só passará um tempo sob custodia.

-Se a custodiar só a metade de bem que os falcões que adestrou há tempo, a moça estará a salvo.

-Aprendi muito com a falcoaria - repôs James. - Com a paciência se chega a muitas partes. Margaret será liberada sem sofrer dano algum, e eu entregarei a vidente ao Leslie e aos ingleses para que a desfrutem.

-Então o que acontecerá com Leslie? Antes falaste de vingança.

-A profetisa logo necessitará um novo marido - disse James com veemência. - O rei Eduardo lhe buscará um bom partido.

-Mantê-la isolada - disse John - pode ser que não resulte tão simples como imagina -suspirou - tudo isto é desonroso.

-Nesse caso, Leslie e eu temos um pacto - resmungou John. - É a ironia da vida. Devo cometer um ato desonroso para levar alcançar algo honorável.

-O que quer dizer?

-Não pude fazer nada quando capturaram Wallace - disse James em voz baixa, inclinando a cabeça como se estivesse confessando. - Eu estive ali essa noite. Muito tarde, mas estive. Vi como o levavam.

-Já corre o rumor de que matou metade dos guardas que lhe acompanhavam.

-Mas não salvei a ele. - Apertou os punhos e voltou a abri-los. - E tampouco pude fazer nada por meus homens, alguns deles meus primos, quando morreram nas mãos dos ingleses. Já não posso limpar meu nome manchado, mas há uma coisa que posso fazer - elevou a vista. - Posso salvar Margaret da besta que contribuiu à captura do Wallace. E se vou ao diabo pelo resto, porque assim seja.

-A honra e a vingança, meu amigo - disse John - com freqüência não se entendem entre si. Seja precavido.

-Como sempre - disse James ficando de pé.

-E o que é isso das profecias do Isobel, a Negra? - John também se incorporou.

-Condenou-me muito tempo antes da morte do Will com essa bobagem dos falcões e as águias. Ela contribuiu a manchar o nome do Falcão da Fronteira. Eu gostaria de saber se forma parte de algum jogo perverso para envenenar a Escócia com rumores de fracasso. Desde aí suas profecias favorecem aos ingleses.

-Sim, não tem mais que te fixar no matrimônio que vai contrair - John franziu o cenho. - Mas e se for uma verdadeira vidente?

-Então possui um grande dom, e poderá adivinhar tudo o que eu queira saber - disse James amargamente. - De qualquer maneira tem valor como refém para mim. Será uma peça muito útil no jogo que quero jogar. - Deu um passo atrás. - Tenho que ir.

John assentiu com um gesto e riscou o signo da cruz no ar como bênção. James estreitou com força a mão de seu amigo e a seguir saiu da capela por uma pequena porta lateral. Subiu o capuz para proteger-se da chuva e passou pela frente das ruínas do refeitório, onde a névoa formava redemoinhos entre as pedras cobertas de mofo e enegrecidas pela fumaça. Levantou a vista e viu uma janela de tracería rota, recortada contra o céu, que emoldurava as distantes colinas azuladas. Recordou que Wallace tinha amado aquelas belas colinas. Esteve disposto a dar sua vida para protegê-las.

Deixou escapar um profundo suspiro. Devia muito a Wallace, e nem sequer poderia pagar sua dívida agora que seu camarada estava morto e que seu próprio nome tinha caído em desgraça. Ninguém seguiria o Falcão da Fronteira em seu empenho de lutar pela murcha causa de Escócia. A profecia de Isobel, a Negra, e a emaranhada rede que se cobriu a partir dela - e de suas próprias ações - ajudaram a fazer dele um traidor.

Inclinou a cabeça e deixou para trás a abadia, pensando naquela profetisa que tinha causado tanta destruição com suas malditas e reiteradas predições sobre os falcões. Quando a tivesse em seu poder, enquanto aguardava a resposta de Leslie à sua petição de resgate, aproveitaria a oportunidade para inteirar-se de quanto de verdade havia naquelas predições. Não lhe cabia nenhuma dúvida de que a profetisa atuava como cúmplice de alguma classe, ou talvez como uma marionete, de Ralph Leslie e de outros. Averiguaria a verdade, embora não lhe reportasse nenhum bem sabê-la. O dano já parecia.

Caminhou em meio da garoa em direção ao pequeno cemitério que havia junto à abadia. No centro havia um arbusto de espinheiro solitário. Deteve-se a olhá-lo.

Abaixo daquele arbusto jazia a mãe de Wallace. Recordava a manhã em que ele, John Blair e Wallace a enterraram ali, em uma tumba privada e sem marcar, para que ninguém soubesse onde descansava lady Wallace. Will tinha querido assim, temendo a destruição ou a veneração dos restos de sua mãe, dependendo do destino dele. James tinha a intenção de guardar aquele segredo para sempre. Depois de tudo, aquilo era o mínimo podia fazer pelo amigo.

Deixou a um lado o espinheiro e se encaminhou para o atalho que conduzia ao bosque que se estendia mais à frente do convento.

Por um instante teve o impulso de dar a volta e retornar à serenidade que reinava no interior da capela, absorver aquela paz e fazê-la penetrar em seu coração, em sua alma. Mas seguiu caminhando através da chuva sem deter-se. Por muito que ele a ansiasse, a verdadeira paz lhe evitava sempre. Resultava-lhe muito mais fácil procurar o perigo que o consolo.

Em poucos minutos alargou a passada e pôs-se a correr para a beirada exterior do bosque.

 

Os muros de arenito do castelo do Aberlady resplandeciam com uma cor rosada à luz do crepúsculo enquanto Isobel Seton ascendia os degraus que levavam às muradas. Caminhou de frente com passo firme e resolvido e a cabeça alta e orgulhosa, olhando fixamente o muro recortado que se estendia frente a ela.

Tirou com uma mão o véu de seda branca e o guardou na manga. Ato seguido, sem deixar de andar, desfez-se a grosa trança negra com dedos firmes. Abaixo das dobras de seu vestido cinza e de seu manto lhe tremiam os joelhos. A fome e a fadiga a tinham debilitado, disse-se a si mesmo. Não o medo. Em nenhum momento foi o medo. Não podia permitir que ninguém visse isso nela. Cada dia, ao ficar ao sol, ao longo das dez semanas que durava o cerco, passeava pelo mesmo local para demonstrar aos ingleses que ainda seguia ali e que estava ilesa. E ainda desafiante.

A brisa lhe levantou o arbusto de cabelo solto enquanto avançava pelo passeio de ronda do muro em direção às muradas construídas sobre a entrada principal. Apareceu por uma fresta e olhou para baixo. A vívida luz do entardecer se derramava sobre o único acesso ao Aberlady: uma ladeira rochosa cheia de sarjetas. Ao longo do traiçoeiro pendente, uma centena de soldados ingleses se apinhava ao redor das fogueiras e as lojas, ou permaneciam agachados detrás de toscas paliçadas de madeira que tinham construído a modo de amparo. Certamente tinham à mão as armas, embora a batalha desse dia já se acalmasse.

Os homens de seu pai - que agora eram os seus, já que sir John Seton tinha sido capturado meses atrás e estava nas mãos dos ingleses - vigiavam desde posições protegidas com o passar do muro. Só ficavam onze escoceses da guarnição do Aberlady, embora dez semanas antes haviam sessenta apostados nas muradas.

Olhou a suas costas por um instante. O pátio, com sua impressionante torre de pedra no centro, via-se deserto. As construções exteriores, baixas e com tetos de palha, estavam vazias de homens, materiais ou animais. Tinham deixado que os cavalos saíssem junto com o sacerdote no único dia de trégua que lhes tinha concedido, e também libertaram uns quantos falcões. O resto das aves tinha ido parar às cozinhas.

E um rincão do pátio se converteu em cemitério para os soldados e serventes que tinham morrido nas passadas semanas por causa de feridas, enfermidades ou inanição. Era muito provável que logo todos acabassem enterrados naquele sombrio rincão.

Os homens da guarnição lhe fizeram um gesto com a cabeça ao vê-la passar, com os arcos preparados e os rostos graves e gastos. Mas Isobel sabia que não poriam nenhuma objeção a que sua senhora passeasse pelas muradas; sabiam, igual à Isobel, que ela estaria segura em qualquer parte, enquanto permanecesse à vista dos ingleses acampados em frente. O inimigo não dispararia flechas nem projéteis em Isobel, a Negra, a profetisa do Aberlady.

Era seu valor, mais que seu mistério, o que a protegia. Mais de uma vez, o comandante do cerco lhe havia dito a vozes que o rei Eduardo queria levá-la a sua presença, ilesa e de uma peça. O rei inglês, disse o homem, apreciava muito as predições que ela tinha feito em relação à derrota dos escoceses no Falkirk, a recente queda do castelo do Stirling às mãos dos ingleses e a captura e execução do rebelde William Wallace. O rei Eduardo estava ansioso por ouvi-la profetizar mais triunfos para a Inglaterra.

A notícia da morte do Wallace, a qual ela tinha tentado evitar lhe enviando uma nota de advertência, tinha-lhe causado um profundo mal-estar. Mas seguiu de pé nas muradas e escutou sem revelar reação alguma. O comandante do assédio disse que seria bem recompensada por seus esforços por parte do rei inglês. Ela envolveu uma cortês nota de rechaço ao redor da haste de uma flecha, que foi entregue por um de seus homens disparando-a com grande precisão e fazendo branco na coxa do cavalheiro quando este se encontrava a lombos de seu cavalo.

Depois daquilo se intensificou o cerco. Os ingleses trouxeram máquinas de assalto para derrubar a porta e os muros, e seus arqueiros lançaram flechas ardendo por cima das muralhas do Aberlady.

Soprava uma brisa fresca enquanto Isobel permanecia de pé no alto das muradas que lhe revolveu a larga cabeleira solta, pulverizando-a como se fora um estandarte negro e brilhante. Tirou o véu precisamente para isto, para causar este efeito. Elevou o queixo, adotou uma postura orgulhosa e deixou que o vento lhe levantasse e exibisse o cabelo. Mas seu coração pulsava aterrorizado.

No acampamento, muitos dos soldados ingleses levantaram a vista para ela, enquanto que outros praticavam com as armas ou preenchiam as sarjetas, que levavam até as portas do castelo, com ramos e escombros. Havia uns quantos que reparavam a estrutura de madeira de uma das duas máquinas de assalto empregadas para golpear as grosas muralhas.

O delicioso aroma da carne assada que provinha das fogueiras dos ingleses fez que o estômago do Isobel se retorcesse penosamente. As cotas de malha lançavam brilhos ao sol enquanto os ingleses comiam e conversavam, preparando-se para a noite. Pela manhã começariam outra batalha, talvez a última, pensou Isobel. Os escassos defensores que ficavam no Aberlady estavam debilitados pela fome e não poderiam resistir a outro ataque da guarnição inglesa.

Isobel se girou para esquadrinhar as muralhas de amparo. O castelo se assentava sobre um alto penhasco que se elevava de uma planície. Rodeado por escarpados precipícios por três de seus lados e por uma levantada pendente pelo quarto, onde tinham acampado os ingleses, a fortaleza tinha fama de ser impenetrável. Nenhum inimigo tinha conseguido nunca transpassar seus muros.

Isobel exalou um suspiro e roçou a áspera pedra com os dedos. O castelo do Aberlady era resistente a tudo exceto à fome. Ali era onde tinha nascido, e ali pensava que morreria finalmente.

Mas não tão logo, por favor, Meu deus, não tão logo.

-Se afaste do muro, Isobel.

Ao levantar a vista viu o Eustace Gibson, o senescal do castelo, que saía das sombras. Quando estendeu a mão para ela, a manga da cota de malha lançou um brilho vermelho sob o sol.

-Não se aproxime, Eustace - advertiu-lhe. - Dispararão.

Um triste sorriso cruzou pelo curtido rosto do homem.

-Levam semanas me lançando calhaus e espinheiros, e aqui sigo. Vamos, deveria estar dentro da torre.

Acompanhou-a até os degraus que desciam ao pátio. Ao fazê-lo, Isobel percebeu o familiar assobio e depois o choque de uma flecha contra o muro exterior, perto de onde, momentos antes, se encontrava Eustace.

-Pela Santa cruz - murmurou o homem - não lhe deram muito tempo para abandonar as muradas antes de me disparar a mim.

Isobel se voltou com os lábios apertados pela fúria e ascendeu de novo os degraus até o passeio de ronda, apesar dos protestos do Eustace. Tirou o véu branco que se guardou na manga e apareceu pela abertura da murada. Com um movimento exagerado, limpou a recente cicatriz que tinha ficado no muro e depois sacudiu a poeira de pedra do véu e voltou a guardá-lo. A brisa lhe levantou a densa massa de sua cabeleira.

Entre as tropas inglesas estalou uma gritaria de vítores mesclados com várias sonoras vaias. Isobel inclinou a cabeça com um gesto régio e deu a volta para descer os degraus. Eustace a observou meneando a cabeça negativamente.

-Mudou muito nestas últimas semanas, Isobel - disse-lhe. - Em outro tempo haveria dito que foi uma moça muito gentil para demonstrar semelhante atitude. John Seton estaria orgulhoso de ver que sua filha defende o castelo com tanta inteligência.

-Meu pai, se estivesse aqui, não se renderia jamais. Nem eu tampouco.

Baixou os degraus com toda calma, mas o coração lhe pulsava com força e as mãos tremiam atrás daquela exibição de atitude desafiante. Talvez tivesse inteligência, mas as atitudes eram falsas. Tinha aprendido a ocultar seus medos e a mostrar um valor que não existia.

Uma nova flecha se estrelou contra as muradas, por cima deles, seguida de um estalo de risadas que se elevou do acampamento inimigo. Eustace elevou uma mão para dissuadir aos escoceses que montavam guarda nas muradas de responder ao ataque, e depois levantou uma sobrancelha para o Isobel a modo de advertência, para lhe impedir que fizesse outra aparição no alto do muro. Ela se limitou a suspirar com cansaço e a sacudir negativamente a cabeça.

-Oxalá tivesse terminado já tudo isto – disse. - Ontem à noite sonhei que recebíamos ajuda e que saíamos daqui, livres.

-É uma profecia? -perguntou Eustace.

-Só uma esperança - respondeu Isobel com voz abatida. - Só uma esperança.

Elevou os olhos ao céu. O resplendor vermelho do sol poente ia virando ao anil. Aquele sonho não tinha sido profético; ao fim, ainda podia contemplar aquele formoso céu. Não havia sentido o pesado tributo da cegueira que acompanhava a toda profecia, e levava muito tempo sem senti-lo. Enquanto olhava para cima, um leve calafrio lhe percorreu todo o corpo e sentiu calor no ombro, como se o houvesse pousado uma mão grande e suave. Olhou ao Eustace, mas este se deu a volta e estava examinando as muradas.

Isobel franziu o sobrecenho, pois tinha a sensação de um olhar penetrante fixado nela, e também percebia uma forte presença. Olhou nervosamente a seu redor, às sombras cada vez mais pronunciadas do pátio vazio. Era só o cansaço e o medo, disse-se a si mesmo severamente.

-Há sopa na cozinha - disse Eustace. - Vem jantar.

-Em seguida vou. - Tomaria uma pequena porção, tal como tinha feito nos últimos três dias. A ligeira sopa, que ela mesma tinha preparado com água do poço e cevada, tinha que alcançar a todos.

Quando se terminasse o último grão - coisa que aconteceria logo - enfrentariam um inimigo mais forte que nenhum exército. Já notava os efeitos da inanição no tremor que tinha em pés e mãos e na fome, o enjôo e a surda dor de cabeça que sofria há dias.

- Logo que fica cevada suficiente para fazer sopa amanhã - disse Eustace.

-Sei - respondeu ela em voz baixa.

-Isobel - sua voz levava uma nota de gravidade. - Você é a dama do Aberlady, e a herdeira de sir John. É você quem deve dar a ordem definitiva de rendição. Eu não posso fazê-lo.

-Meu pai não quereria que nos rendêssemos.

-Pequena - disse Eustace com carinho. - Ele não quereria que morrêssemos.

Isobel olhou-o. Eustace Gibson formava parte da guarnição do Aberlady desde que ela não era mais que uma menina. Sua destreza, sua experiência e sua sensatez tinham sido essenciais ao longo daquelas horríveis semanas de assédio. Ela se tinha apoiado em seu robusto caráter e tinha aprendido muito dele.

Lançou um suspiro, debatendo-se entre sua preocupação pela guarnição e sua lealdade com o Aberlady e seu pai ausente.

-Acreditei que poderíamos lhes derrotar por meio da resistência. Acreditei que nossos mantimentos durariam mais.

-Isobel, temos que nos render.

-Logo virá sir Ralph a ajudar-nos. Recorda que, antes que começasse o cerco, disse que sabia onde os ingleses tinham aprisionado meu pai. Foi lhe buscar. Quando retornar nos ajudará, e trará para meu pai com ele. - Percebeu a nota quebradiça em sua própria voz, mas não queria admitir que ela mesma tivesse começado a perder as esperanças.

-Duvido que vejamos sir Ralph - grunhiu Eustace. -Temos que render-nos. Sua segurança é de importância primitiva para mim. Os ingleses não lhe farão mal, porque seu rei quer ver-te.

-Mas farão mal a ti - replicou Isobel. – Nos farão prisioneiros ou nos matarão assim que pusermos um pé fora das portas. Aberlady se converterá em um baluarte da Inglaterra. Mas este castelo é um dos pontos fortes de Escócia. Meu pai esperaria que o mantivéssemos a salvo até sua volta.

Eustace lançou um suspiro.

-Poremos fogo ao Aberlady aos carimbos alfandegários. Pelo menos, assim os ingleses não poderão tomá-lo.

-Queimar Aberlady! -Isobel ficou lhe olhando.

-Prefere que o capturem?

-Não podemos destruí-lo! -A idéia de queimar Aberlady, seu lar, seu refúgio, seu amparo, aterrava-a-. E se seguíssemos resistindo?

-Nesse caso morreremos de fome.

-Sir Ralph virá por nós. Saberá o que está ocorrendo aqui.

Eustace a olhou durante compridos instantes.

-Não podemos seguir assim, Isobel.

Ela apartou o olhar em silêncio e contemplou a decrescente luminosidade do céu. A seu lado, Eustace guardou silêncio durante comprido momento. Mas então lhe ouviu exclamar:

-Talvez tenhamos outra alternativa, depois de tudo. -Isobel notou uma súbita tensão em sua voz. Olhou-lhe e viu que torcia o gesto e que aferrava o punho de sua espada.

-Qual é, Eustace?

-Olhe ali - murmurou ele - no rincão mais afastado do pátio, atrás dos estábulos.

Isobel fez como lhe dizia, e lançou uma leve exclamação. Um grupo de homens - quatro, cinco, contou a toda pressa - emergiu das sombras por detrás da parede traseira do recinto. Avançaram audazmente para o centro do pátio e se dirigiram aos degraus onde se encontravam Eustace e ela. Nas muradas, os homens da guarnição levantaram seus arcos e os sustentaram em posição.

Isobel olhou ao Eustace. Este levantou uma mão para ordenar em silêncio à guarnição que não atacasse. Isobel voltou a fixar sua atenção nos cinco homens, com o coração lhe retumbando no peito e ligeiramente enjoada, como se toda a tensão das passadas semanas fizesse presa nela de repente.

-Deus santo - sussurrou com voz rouca. - Quais são?

De aspecto selvagem e desalinhado, vestiam túnicas singelas, coletes de couro e capas gastas, embora levassem boas espadas e arcos e fortificações bem feitas, como se fossem cavalheiros. Um deles se adiantou e empurrou para trás o capuz de sua larga capa de cor marrom, sujeita com uma concha de peregrino. Era mais alto que seus companheiros, de ombros largos e pernas largas e esbeltas. Suas roupas e suas meias estavam gastas e descoloridas, seu emaranhado cabelo castanho dourado e sua escura barba necessitavam um corte. Isobel se fixou em que suas facções estavam belamente cinzeladas.

Aproximou-se até ela com passo ágil e forte. Sua presença pareceu encher o ar igual à descarga de um raio, deixando paralisados a quem observava. Contendo uma exclamação, Isobel se deu conta de que tinha percebido sua chegada momentos antes, como se seu olhar e inclusive sua mão a houvessem alcançado-a naquele momento.

O homem agarrou o arco sem esticar como se fora uma fortificação e se deteve muito perto do primeiro degrau. Cruzada sobre suas costas cintilou o punho de uma esplêndida espada. Depois de saudar Eustace com um gesto da cabeça, posou seu olhar direto no Isobel.

-Lady Isobel Seton? - perguntou. Sua voz era tranqüila, com um timbre grave que se fazia ouvir-. A profetisa do Aberlady?

Ela assentiu.

-Quem são vocês? - perguntou a sua vez, juntando as mãos trementes frente a sim. Ele inclinou a cabeça.

-Viemos lhe resgatar.

Isobel o observou, fascinada e atônita. Aquele desconhecido possuía uma beleza selvagem e uma surpreendente aura de poder, realçada por sua misteriosa chegada. Seus olhos refulgiam em um azul profundo, como a cor anil do crepúsculo, e suas mãos, que sustentavam o arco, eram fortes e elegantes. Parecia estar mais à frente do mundo ordinário, um homem saído da névoa, como se proviesse das lendas da antiga raça e do reino das fadas.

Ao princípio, Isobel não conseguiu encontrar uma resposta. Sentia-se quase enfeitiçada. O olhar firme e brilhante daquele homem parecia avaliá-la da cabeça até as raízes de sua alma. Em troca, ela viu a faísca de aguda inteligência e firme propósito que cintilava em seus intensos olhos azuis, e notou a forte corrente de perigo que lhe rodeava.

Respirou fundo e elevou o queixo.

-Vocês conhecem meu nome, mas eu não conheço o seu - disse calmosamente, apesar do medo que sentia. Percorreu-a uma estranha e primitiva emoção. - Como penetraste nossas muralhas?

-Através da poterna que há no muro norte - respondeu ele. Isobel lhe olhou fixamente.

-Mas essa pequena porta está escondida detrás de rochas e matagais, e dá a uma ravina de mais de trinta metros de altura. Como chegou até ali?

Ele se encolheu de ombros.

-Levou algum tempo.

-Quem é? -perguntou-lhe de novo.

-Sou James Lindsay - respondeu ele com sua voz grave e autoritária. Isobel ouviu a exclamação do Eustace, mas o nome não lhe dizia nada. - em ocasiões - prosseguiu o homem - chamam-me o Falcão da Fronteira.

-Jesus - ofegou Eustace. - Temia isso.

Isobel deixou escapar uma ligeira exclamação. Aquele nome sim o conhecia. O Falcão da Fronteira era um renegado escocês que se escondia tanto dos ingleses como dos escoceses nas vastas extensões do bosque do Ettrick. Sua chegada ao Aberlady podia significar a salvação... ou a completa derrota para todos eles. Todo mundo sabia que ultimamente só se guardava lealdade a si mesmo.

Isobel tinha ouvido rumores de que o Falcão da Fronteira tinha fugido para o norte, o oeste, o sul, inclusive por volta do mar; que era um mago que trocava sua aparência a vontade; que estava vivo, que estava morto, inclusive que era imortal, nascido da estirpe das fadas. Além disso, conforme recordou, também se dizia que tinha cometido alguma horrenda maldade contra Escócia. Sabia que ela mesma lhe tinha mencionado em uma de suas profecias, mas não recordava o que havia predito. O padre Hugh lhe havia dito que se tratava de um assunto pequeno e sem importância para ela. Agora desejou conhecer do todo aquele assunto, sendo pequeno ou grande.

-James Lindsay - disse Eustace. - Conheço bem esse nome, senhor. São bem-vindos aqui se seu propósito for bem intencionado. Em caso contrário... os superamos ligeiramente em número de homens - indicou o parapeito, onde os homens apontavam pela metade seus arcos por volta dos recém chegados.

-Que propósito lhes traz aqui? - perguntou Isobel. - É evidente que não terão subido até aqui só para nos resgatar. Não nos conhecem.

-Venho por um assunto privado - repôs Lindsay. - Não sabíamos nada do assédio até que nos aproximamos do castelo. Ocorreu-nos trazer um pouco de ajuda aos defensores do Aberlady... e um pouco de comida - fez um gesto a um de seus homens, que se aproximou e tirou três coelhos mortos de um saco. - Suponho que isto será de seu agrado.

-Assim é - disse Eustace. – Nossos agradecimentos. Nas cozinhas há alguns de nossos homens. Eles podem preparar a carne.

O jovem companheiro de Lindsay assentiu com um gesto e se deu a volta para pôr-se a correr para a torre de muros de pedra que se elevava no centro do pátio.

-Ouvi dizer que o Falcão da Fronteira conta com um exército de homens capazes escondido no bosque do Ettrick - disse Isobel. - Estão aí fora, preparados para atacar aos ingleses e lhes jogar daqui?

-Não somos mais que cinco - disse Lindsay.

-Frente às portas há mais de uma centena de ingleses! - explorou Isobel. - E vocês trazem só cinco homens!

Ele juntou suas sobrancelhas retas e escuras por cima de seus profundos olhos azuis.

- Os levaremos até um lugar seguro - disse em tom tranqüilo mas severo.

Olhou-o boquiaberta, e a seguir se voltou para o Eustace.

-Dizem que um cavalheiro escocês nunca se prova de verdade até que foge junto ao Falcão da Fronteira - disse-lhe Eustace. - Pode ser que estes homens sejam poucos em número, mas não há dúvida de que são preparados e muito destros.

-Ao menos, disseram isso de mim em outro tempo - assinalou Lindsay. - Podemos lhes tirar daqui pelo mesmo sítio pelo que entramos nós.

-Pelo precipício da face norte? -perguntou Isobel, estupefata.

Ele assentiu.

-Depois de que tenham comido, e quando escurecer um pouco mais, partiremos.

-Mas os ingleses tomarão o castelo se nós o abandonarmos! -exclamou Isobel.

-Não o abandonaremos. -A voz tranqüila do Lindsay sublinhava a força e a segurança que emanavam dele. - É um costume escocês fazer que os castelos fiquem inutilizáveis para os ingleses. Um castelo se protege com a força das armas ou se destrói.

-Destrói-se! -exclamou Isobel outra vez.

-Sim.

James Lindsay passou junto a ela e começou a subir os degraus em direção ao passeio de ronda. Eustace lhe dirigiu um olhar grave e se deu a volta para lhe seguir. Isobel se agarrou as saias e pôs-se a correr escada acima em atrás de ambos.

Eustace se voltou para ela.

-Vá à torre, Isobel!

-Mas ele pretende destruir Aberlady! -protestou.

-Sabe que é necessário.

-Não conhecemos esse homem! Não podemos confiar em que vá nos ajudar!

-Eu conheço seu nome e sua reputação.

-Então saberá o que dizem dele!

Eustace lançou um suspiro.

-Isobel, pensa. James Lindsay nos oferece a possibilidade de sobreviver. Oferece-nos esperança, onde já não ficava nenhuma.

-Aberlady será destruído por culpa dessa esperança!

-Com a última gota de minhas forças - rugiu Eustace - com minha própria mão, eu mesmo teria acendido o fogo a estes muros para impedir de entrar os ingleses. Esta é nossa única oportunidade. Aceita-a.

Isobel lhe olhou fixamente, aturdida e silenciada pela verdade. Eustace se voltou e se afastou para reunir-se com o Lindsay, que estava de pé detrás de um dos blocos de pedra das muradas, esquadrinhando com o olhar a guarnição inglesa. Isobel vacilou, e depois se pôs a correr pelo passeio de ronda atrás deles, detendo-se frente a uma murada totalmente à vista dos soldados ingleses.

Lindsay se equilibrou sobre ela e a agarrou por braço, arrastando-a para que se refugiasse depois do bloco de pedra. Isobel quis resistir, mas ele a sujeitou com força.

-Está mal da cabeça, para se colocar aí no meio?

-Os ingleses não me farão mal - replicou ela com certeza.

-Se crê nisso, então é tão boa profetisa - espetou-lhe ele sem soltá-la.

-Olhe - disse Eustace ao Lindsay desde sua posição, a escassa distância dele. - Todos os dias, os ingleses preenchem essas sarjetas de ramos e maleza para aplainar o terreno a suas máquinas de assalto. E cada uma dessas vezes nós lhes prendemos fogo.

Chamou dois homens da guarnição, que ficaram a preparar flechas ardendo com tecidos, resina de pinheiro e uma tocha, materiais que tinham perto precisamente para esse fim. Dispararam as flechas em chamas, que voaram cruzando a crescente escuridão e caíram nas sarjetas, as incendiando.

Sujeita pela garra de aço do braço do Lindsay, Isobel torceu o pescoço e viu como o fogo lançava faíscas e labaredas. Viu os homens do Lindsay, com os arcos preparados, subir os degraus e situar-se ao longo das muradas, junto à guarnição do Aberlady.

-Quando a soltar - murmurou-lhe Lindsay ao ouvido - quero que percorra engatinhando o passeio do parapeito até essa torre da esquina.

-Quando me soltar - disse Isobel entre dentes - irei aonde me agrade.

-Isobel, faz o que te disse - rogou-lhe Eustace ao tempo que carregava um estilingue. Agachou-se para esquivar uma flecha que passou voando por cima de sua cabeça e foi cravar-se em um barril, seguida de outras duas que se chocaram contra a pedra e caíram a um lado. Lindsay a soltou.

-Vá e se mantenha agachada.

Isobel se incorporou audazmente de frente à abertura da murada. Sabia que uma vez que os ingleses a vissem, deixariam de disparar. Mas ao ficar de pé uma flecha a alcançou no braço direito com tremenda força. O impacto do golpe a fez girar sobre si mesma, impotente, e lançou um grito. Lindsay a agarrou e a obrigou a agachar-se. Isobel se dobrou para diante presa de uma intensa dor, e Lindsay se tornou sobre ela, sustentando-a com um braço enquanto atirava do tecido destroçado da manga.

-Isobel! - exclamou Eustace. - Santo Deus, se a tivessem visto não teriam disparado. Pôs-se de pé muito às pressas. - Isobel!

-Não é grave.

Isobel ouviu a voz tranqüilizadora do Lindsay através de uma nebulosa, a causa da dor. Com grande habilidade, ele partiu a comprida haste que sobressaía de seu braço e deixou a ponta incrustada no músculo.

-Poderá agüentar um pouco, minha senhora? -perguntou-lhe.

Ela se mordeu o lábio inferior e afirmou com a cabeça. Ao redor deles seguiu precipitando uma cruel chuva de flechas que se estrelavam contra a madeira e a pedra. Em questão de poucos segundos, uma flecha passou assobiando pelo oco da murada e roçou levemente as costas do colete do Lindsay, que estava agachado sobre Isobel. Outro projétil alcançou a esta no tornozelo esquerdo e depois caiu a um lado. Isobel se estremeceu e gritou, agarrando perna. Lindsay amaldiçoou e a atraiu para ele com um gesto brusco, protegendo-a.

-Acabará morta se ficar aqui - rugiu ao tempo que a sujeitava pela boneca. Enquanto as flechas assobiavam e chocavam ao redor, segurou Isobel e arrastou-a pelo chão até uma pequena torre, abriu a porta de um chute e a empurrou ao interior.

Acomodou-a no chão de pedra do minúsculo e escuro recinto e se ajoelhou junto a ela. Agarrou-lhe o braço com uma mão e examinou a ferida a tênue luz que penetrava pela fresta. Sem lhe pedir permissão, levantou-lhe o bordo da saia e rasgou uma larga franja de tecido da anágua bordada, e utilizou parte dela para tampar a ferida que sangrava no braço direito, enquanto ela, com mão tremente, tirava o véu de seda que levava oculto na manga e o apertava contra o corte aberto do tornozelo.

-As feridas de flecha são muito dolorosas - disse Lindsay. - Eu mesmo sofri várias. Mas estas se curarão bastante bem. Agora não posso me ocupar delas, mas em seguida retornarei para ver como seguem. Enquanto estiver aqui, fica sentada por debaixo da abertura da fresta -sacudiu a cabeça. - Foi uma loucura ficar de pé atrás das muradas.

-Os ingleses nunca me disparam - disse Isobel. - Quando eu estou no muro, deixam de lançar flechas. Mas como está escuro, não me viram.

Lindsay lhe tirou o tecido da mão e a pôs ao redor do tornozelo.

-Custa-me acreditar que seja simplesmente por cavalheirismo – disse. - Têm algum acordo com eles? -perguntou olhando-a com intenção.

Isobel aspirou com força ao notar o tom.

-Não querem me fazer danos porque seu rei deseja entrevistar-se comigo. E isso nos ajudou, uma e outra vez, durante este cerco. Coloquei-me em pé porque com isso esperava deter a batalha.

Ele não disse nada, mas sim se incorporou e a olhou fixamente, com os olhos reluzentes de uma cor azul noite nas sombras. Isobel percebeu nele uma profunda raiva e uma firme determinação.

-James Lindsay - disse-lhe, levantando a vista para ele - por que viestes? Alguém o enviou?

-Vim - respondeu ele com suavidade - para procurar a Isobel, a Negra, a profetisa do Aberlady - em seu tom havia algo que provocou em Isobel um estremecimento ao longo da coluna vertebral. - Você e eu temos assuntos para discutir.

-Eu não lhes conheço - replicou ela - embora vocês sim parece me conhecer.

Lindsay se encolheu de ombros.

-A profetisa do Aberlady é muito famosa.

Isobel recordou que tinha feito uma predição que falava dele, e de novo desejou saber qual tinha sido. Limitou-se a olhar em silêncio.

-Deixe que faça uma predição, Isobel, a Negra - disse Lindsay com voz grave e ameaçadora: - Chegarão a me conhecer bem. E chegarão a lamentar o que você e os seus têm feito aos meus.

Isobel se espantou ao perceber a dureza de seu tom.

-Não... não compreendo.

-Eu acredito que sim - voltou-se para a porta. - Retornarei assim que possa para atender essas feridas. Aqui estará a salvo - E ato seguido saiu pela porta e emergiu sob uma chuva de granizo de flechas.

Isobel ficou olhando o lugar por onde tinha desaparecido, com o coração desbocado e perguntando-se verdadeiramente até que ponto estava a salvo.

 

Uma flecha acesa descreveu um arco entre as muradas, roçou o passeio do parapeito e foi cravar se na terra do pátio. James seguiu sua trajetória com a vista e depois olhou ao homem que estava a seu lado, protegido atrás do bloco de pedra da murada.

-Esses ingleses gostam muito das flechas ardendo - comentou Henry.

James observou como outro projétil em chamas voava por cima de suas cabeças.

-Sim. Mas se incendiarem o castelo, já não teremos que nos preocupar com isso. -Colocou uma flecha e esticou a corda. A ponta fez alvo a uma centena de metros de distância, em um arqueiro inglês que levou a mão ao ombro e desabou no chão.

-Essa - anunciou James, severo - é pela moça ferida.

-Esta manhã não se mostrava tão protetor com ela.

-Esta manhã não sabia que estava sofrendo um cerco nem morrendo de fome, nem que era tão jovem. -James extraiu outra flecha da aljava que pendia de seu cinturão e a colocou no arco.

-Nem tão gentil - disse Henry com um amplo sorriso. James franziu o cenho e disparou habilmente a flecha.

-Gentil ou desagradável, ao menos agora necessita nossa ajuda.

-Certo. Olhe! Apostaria que esse soldado gostaria de saber se a ferida da perna tivesse sido feita pelo Falcão da Fronteira!

-Com certeza que sim - disse James arrastando as palavras, antes de disparar de novo.

A lua cheia se elevava rapidamente no céu de cor anil, e as flechas de fogo inglesas voavam como um exército de cometas. James disparava constantemente, uma flecha atrás de outra, sem tempo para pensar e nem fazer uma pausa. A seu lado, Henry Wood fazia o mesmo. Um pouco mais longe, James viu parte da guarnição do Aberlady e seus próprios homens - Quentin Fraser, Patrick Boyd e o jovem Geordie Shaw - todos fazendo o possível por que não cessasse a chuva de flechas sobre as cabeças dos ingleses.

Sabia que não valeria muito a pena continuar aquela batalha, porque não poderiam ganhá-la. Mas queria que os soldados do Aberlady soubessem que o Falcão da Fronteira e seus homens estavam dispostos a arriscar suas vidas para defender a escoceses. Provar aquilo parecia agora mais importante que matar alguns ingleses a mais.

Durante um recesso no fogo cruzado, James viu que Henry se dava a volta. Seguiu seu olhar e divisou ao senescal, que vinha andando pelo passeio de ronda.

-É sir Eustace? -perguntou Henry.

-Sim, sir Eustace Gibson - respondeu o homem fornido. - Senescal e capitão do castelo do Aberlady.

-Eu sou Henry Wood - disse Henry lhe tendendo a mão. Eustace apoiou a mão com cautela no punho da espada que levava ao cinto.

-Esse é um nome inglês – grunhiu. - Além disso, usam o arco comprido com a destreza própria dos ingleses.

-Pois sim, sou inglês - replicou Henry. - Prefeririam que usasse o arco curto como um escocês? Os escoceses são uns arqueiros lamentáveis. Exceto Jamie, eu diria que nenhum deles vale nada com o arco. Agora bem, com uma espada a coisa é muito distinta.

Eustace torceu o gesto.

-Se for inglês por lealdade, então saia deste castelo pelo mesmo lugar por onde entrou, ou despeça-se do mundo.

-Tranqüilo, amigo. -James levantou uma mão-. Henry é inglês por nascimento, e um verdadeiro professor com o arco comprido. Mas emprega esse talento a favor da causa escocesa.

Eustace se mostrou surpreso.

- É certo isso?

-Minha mulher é escocesa - disse Henry. - Sua gente é agora a minha.

-Mas lutam contra seu próprio rei.

-Sim, e por isso sou um proscrito. Vi a crueldade do rei Eduardo com os escoceses, e não quero formar parte dela.

Eustace assentiu, retirou a mão da espada e voltou a vista para o James.

-Ultimamente também se duvida de sua lealdade, James Lindsay.

-Isso parece. - James lhe devolveu o olhar sem alterar-se.

-Devo duvidar de sua lealdade?

-Se assim o desejar.

Eustace franziu o sobrecenho.

-De momento teremos que confiar em você. Até agora demonstrou ser de ajuda. Apreciamos seu apoio nesta batalha. Mas se estão pensando em nos levar para as mãos inglesas por meios traiçoeiros... -Tocou de novo o punho de sua espada.

-Meu propósito é ajudar - disse James em tom plano, e voltou o rosto. Sabia por que aquele homem se mostrava precavido e suspicaz com ele, mas não pensava defender sua lealdade ante cada homem que se cruzasse em seu caminho.

-Julguem ao Falcão da Fronteira pelo que você mesmo sabe dele, e não pelos rumores que tenham ouvido - disse Henry.

James não disse nada, mas ouviu que Eustace emitia a contra gosto um ruído afirmativo.

Uma flecha inglesa passou assobiando por cima deles, e Henry tirou outro dardo de seu aljava e se preparou para disparar. Mas Eustace lhe pôs uma mão no ombro.

-Não merece a pena devolver cada disparo - disse-lhe. - Eles têm mais homens, mais flecha, mais comida... e muita mais força que nós.

James observou aos assaltantes. A uns trinta metros das portas do castelo, sob a luz das tochas, um grupo de homens empurrava uma imponente estrutura de madeira para aproximá-la às muralhas.

-Esse mandrón estará preparado para ser utilizado ao amanhecer – disse. - É bastante robusto para destroçar estas muralhas sem muitos problemas. Pretendem acabar com vós em questão de dias.

-A fome o conseguirá antes. Chegou no momento de maior necessidade, Falcão da Fronteira -disse Eustace. - Lady Isobel também agradece sua ajuda, podem estar seguro disso. Mas teme que destruam seu castelo.

-E o farei - disse James com brutalidade. - Mas antes liberarei à guarnição... e a ela.

-Descender por esse precipício é uma aventura arriscada. A maioria de meus homens está debilitado pela fome, e a moça está dolorosamente ferida.

-Esse precipício expõe menos risco que render-se ao inimigo - assinalou Henry Wood.

-Sairemos todos daqui, com sua ajuda - disse James.

-De acordo, então. -Eustace assentiu. -Mas temo que lady Isobel não lhes perdoe nunca se reduzirem as ruínas sua fortaleza.

-Preservá-la-ia para os ingleses? -perguntou James, agudo.

-Já lhe disse que é necessário lhe atear fogo, mas ela ama muito este lugar.

James olhou a outra parte. Anos atrás, os ingleses tinham queimado seu próprio castelo, de modo que conhecia bem o sofrimento que causava semelhante perda. Naquele terrível incêndio perdeu algo que era muito prezado para ele. Não tinha nenhum desejo de queimar Aberlady, mas não restava mais remédio.

-A guerra implica sacrifícios - disse com dureza. - Lady Isobel terá que aceitá-lo. -Lançou um olhar ao Eustace. - Quando todos estiverem comido e seja um pouco mais tarde, poderemos empreender a fuga. Baixem às cozinhas com a guarnição. Meus homens vigiarão as muralhas, e eu irei procurar à dama e a levarei a torre.

Eustace assentiu com um gesto.

-Temos cordas fortes no armazém, se as necessitarem para descer pelo precipício. Há alguma outra coisa que possamos fazer?

-Sim - respondeu James em voz baixa. - Rezem, senhor.

 

O resplendor da lua penetrava através da estreita seteira quando James abriu a porta da torre. Passou ao interior da estadia escura e nua, apoiou o arco e a espada contra a parede e cruzou o escasso espaço com grande rapidez.

Isobel estava sentada no chão, com a cabeça inclinada e o cabelo negro esparso sobre os ombros. A manga de seu vestido se via manchada de sangue. Permanecia dobrada para frente, o qual indicava claramente que sofria.

James pôs um joelho em terra.

-Como está?

-Bem.

Respondeu em tom suave e rouco. Quando levantou o rosto para olhá-lo, pálido à luz da lua, James distinguiu na tensão de suas feições os claros rastros da dor. Embargou-lhe um sentimento de compaixão, e estirou a mão para lhe tocar brandamente o braço esquerdo, que estava ileso.

-Ferida-las são dolorosas, sei, mas se recuperarão rapidamente - disse.

Isobel olhou-o com incerteza. Ele se deu conta de que seus olhos se viam grandes e extraordinariamente formosos à luz da lua. A pleno sol, talvez, adquirissem uma cor azul clara, mas agora pareciam opalescentes, como raios de lua apanhados por acaso. Quando ela baixou as pestanas, densas e escuras, pareceu extinguir uma luz.

-Cessou o ruído da chuva de flechas - disse Isobel.

-Sim, já quase é de noite.

-Durante a noite lançam algum outro disparo ao azar. -Deixou escapar um suspiro tremente-. Há algum homem ferido?

-Nenhum homem - repôs James. - Só uma mulher. Deixe-me examinar o braço. -Quando lhe tocou o braço direito, ela deu um sobressalto e fez uma careta de dor. - Sinto muito - murmurou ele.

Isobel franziu o cenho e lhe olhou fixamente com aqueles olhos grandes, claros, semelhantes a duas jóias. James abriu com uma faca a manga do vestido e da regata e lhe despiu o braço. Ao lhe apartar o sedoso arbusto de cabelo a um lado, todo o esplendor desta se derramou sobre sua mão. A pele do pescoço e o ombro do Isobel era como seda sob seus dedos endurecidos. Toda ela desprendia um aroma suave e quente, doce e feminino, com um pingo de aroma de rosas. James sentiu um tombo no estômago e notou que a parte baixa de seu corpo se contraía impulsivamente, presa de um súbito e intenso desejo. Centrou seu pensamento e seu olhar na ferida, esforçando-se por excluir todo o resto de sua concentração.

A haste quebrada da flecha se sobressaía violentamente da carne do braço. Agarrou a base da flecha com dois dedos e tirou-a com suavidade. Isobel aspirou profundamente e mordeu o lábio para reprimir um grito. James murmurou umas palavras tranqüilizadoras ao tempo que entreabria os olhos para estudar a posição da flecha. Depois de alguns movimentos mais e outro pequeno puxão, viu o que mais temia: resultaria difícil extrair a flecha, e insuportavelmente doloroso para Isobel. Suspirou e se sentou de cócoras.

-A ponta é larga e com lingüetas - disse. - Não posso tirá-la sem causar graves destroços no músculo. - Fez uma pausa e depois disse: - Terei que empurrá-la para que saia pelo outro lado.

Isobel tragou saliva. Seus olhos brilhantes e assustados impressionaram estranhamente a James.

-Fez isto antes?

-Não. Mas vi fazer, e me fizeram isso. Uma vez, um cirurgião de campanha me empurrou uma flecha através da perna. - Recordou que inclusive com a ajuda do aqua vitae a dor tinha sido considerável. - Devemos descer às cozinhas para fazê-lo. E necessitamos água e vinho, sobretudo vinho em quantidade abundante, se ficou algo nas despensas.

Isobel negou com a cabeça.

-Acabou-se o vinho, mas nosso poço de água segue limpo, embora escasso. Ao menos poderemos lavar a ferida.

-Têm ervas medicinais? - perguntou James. - Salgueiro ou valeriana? Fica sal? Poderia nos ser de ajuda preparar um cataplasma de água salgada, se não houver outra coisa.

-Depois de dez semanas de assédio, temos sorte de que ainda fique água e um pouco de cevada. -Tocou-lhe o dorso da mão, com olhar suplicante. - Tire agora. Aqui.

James franziu o sobrecenho, desconcertado.

-Será mais fácil na cozinha. Preciso cauterizar a ferida, já que não há remédios.

-Pode fazê-lo aqui? - Baixou a vista. - Não quero que vejam outros. Meus homens me consideram muito forte. Vocês será o único que verá a verdade... Não tenho suficiente valor para isto.

Ele deu volta à mão para lhe agarrar os dedos.

-Suspeito que é mais forte do que acredita - murmurou. - Mas está bem. Faremos aqui, se é isso o que quer.

Subiu-lhe um pouco mais a manga. Observou-o enquanto James seguia examinando a ferida.

-Está muito escuro. Vê bem?

-Chamam-me falcão - respondeu ele em tom ligeiro - não erro.

-Sem dúvida necessita mais luz para fazer isto.

-Vejo bem.

-Eu não gosto de muito de escuridão. Podemos nos sentar um pouco mais perto da luz da lua? - A vibração de sua voz fez que James levantasse a vista por volta dela de repente. Ao lhe tocar o braço sentiu o tremor que percorria o corpo do Isobel e notou uma fria e intensa onda de medo nela.

-Está bem - disse com suavidade, perguntando-se se a terrível perspectiva de tirar a flecha era o que a assustava tanto. Ajudou-a a situar-se mais diretamente sob a janela, pela que a lua arrojava uma luz fria e brilhante.

Com o cenho franzido, voltou a centrar a atenção na ferida. Preferia que a moça estivesse ébria no momento de lhe tirar a ponta da flecha, pois a tarefa ia ser seriamente dura. A ponta do dardo, que ele tinha apalpado através da carne, era mais larga que seu dedo polegar e tinha lingüetas como um espinho dobro. Não seria fácil extraí-la, fizesse-o como o fizesse.

Ao lhe rodear o braço com a mão percebeu a tensão retumbar em todo o corpo do Isobel como se esticasse uma corda de uma harpa. Murmurou umas palavras tranqüilizadoras e notou que ela começava a relaxar-se sob seu contato. Isobel lhe dirigiu um olhar fugaz de inocência e de súplica, e fechou os olhos, recostando-se contra a parede.

Ao tocá-la, ao observá-la, James viu o valor da moça, frágil, mas seguro. Ela não conhecia sua existência, mas ele sim. E também viu algo mais: Isobel estava depositando sua confiança nele. Isso lhe fez sentir-se aniquilado; eram muito poucos os que ainda confiavam nele. Que ironia, pensou. Tinha ido ao Aberlady com a intenção de utilizar à profetisa para recuperar a confiança que tinha perdido e, entretanto, a única coisa que via em seus olhos neste momento era fé. De repente se sentiu envergonhado do propósito que lhe tinha levado até ali.

Isobel lhe obsequiou um sorriso trêmulo que suscitou nele um sentimento mais vivo que a luz da lua, mas que se desvaneceu antes que pudesse absorver seu agradável calor.

-Faça m – sussurrou Isobel. - Adiante, James Lindsay.

James a observou fixamente, viu como seu peito subia e baixava com as rápidas inspirações, e olhou a haste partida da flecha que se sobressaía cruelmente de sua branda carne. Desatou a larga correia de couro que levava ao redor do antebraço esquerdo, como amparo contra o roce das flechas, e o tendeu ao Isobel.

-Talvez queiram morder isto - disse-lhe. Ela assentiu com movimentos rígidos e ficou a correia de couro entre os dentes. Inclinou o torso para prepará-la, e ao movê-la, ela gemeu e fechou os olhos com força.

James se ajoelhou e lhe aferrou o braço direito por cima do cotovelo, enquanto com a outra mão agarrava a haste da flecha.

-Agora, tranqüila, Isobel - murmurou.

Com os olhos fechados e os dentes mordendo o pedaço de couro, Isobel aguardou com sereno e radiante valor. James admirou sua valentia e se maravilhou de por que ela não a veria em si mesmo. Resplandecia em todo seu ser, igual a uma chama dentro de uma lanterna.

James respirou fundo e estudou atentamente o ângulo da flecha, preocupado pela possibilidade de se chocar com o osso. Então empurrou a haste com força, em um movimento brusco e rápido. A ponta de ferro atravessou a carne. Isobel lançou um grito, um som grave e gutural que a James chegou ao coração. Mordendo o lábio, e consciente de que tinha causado à moça uma dor terrível, empurrou o resto do dardo quebrado e ensangüentado e por fim o tirou de tudo.

Ela soltou o pedaço de couro que sujeitava ente os dentes e deixou que a cabeça lhe desabasse pesadamente para diante, contra o peito do James. A cabeça lhe oscilou durante uns instantes pela intensa dor e sua respiração se voltou agitada e ofegante. Mas não chiou nem se deprimiu.

-Tranqüila, pequena - sussurrou James. - Tranqüila, já terminou. O fez muito bem.

Tocou-lhe a cabeça, passando os dedos sobre a seda de seus cabelos, e apertou o tecido dobrado contra a recente ferida. Isobel emitiu um gemido áspero e depois guardou silêncio.

Não importava o que pensasse dela; não podia esquecer a forma em que a moça tinha suportado aquela terrível experiência. Rodeou-lhe as costas com um braço e sustentou o tecido contra a ferida.

Isobel estava tão inclinada sobre ele que temeu que tivesse perdido o conhecimento, mas então moveu a cabeça, lhe tranqüilizando. Seus leves e trêmulos soluços provocaram nele um sentimento de compaixão. Murmurou brandamente enquanto a abraçava, palavras carinhosas que tinha empregado alguma vez quando adestrava a seus falcões ou quando fazia o amor a uma mulher. Levava anos sem as pronunciar, pois levava muito tempo sem poder manter um falcão... e as poucas mulheres às que tinha amado fisicamente de um tempo para cá não o tinham ouvido dizer coisas tão ternas.

Quase esquecidas, imensamente suaves, essas palavras fluíram de seus lábios. Falou com Isobel como se tivesse em braços a sua amada, como se ela formasse parte de sua alma, e não para uma mulher que tinha conspirado contra ele. O quente abraço se ajustava a seu corpo como uma luva à mão, e lhe proporcionava tanto consolo a ele como o que pretendia lhe dar a ela.

Surpreso por sua própria conduta, deteve-se um momento para, a seguir, deixar de abraçar Isobel e ajudá-la a sentar-se.

-Obrigado - disse-lhe ela com voz débil e rouca. Recostou-se contra a parede e fechou os olhos.

James apertou o tecido contra a ferida e observou atentamente Isobel. Sua respiração foi acalmando gradualmente e a cor foi voltando para as bochechas e aos lábios. Inclusive desfigurada pela dor e a angústia, era uma jovem elegante e delicada, envolta em sombras e em uma luz fria. As sobrancelhas e as pestanas ressaltavam negras em contraste com a pele pálida e cremosa. A luz transparente da lua revelava a forma quadrada de seu rosto, largo nos maçãs do rosto e na mandíbula, curvo no queixo, com uma boca cheia e de expressão suave. Em seu semblante se combinavam a força e a fragilidade em delicioso equilíbrio, intensificadas por seus extraordinários olhos. O ombro nu e a garganta eram magros e revelavam ossos finos sob a pele. Os membros largos que se adivinhavam sob a queda do vestido e a estrutura bem definida dos ombros e os quadris indicavam que se tratava de uma mulher alta e forte.

De repente James recordou um azor fêmea que tinha capturado e adestrado anos atrás. De uma vontade de ferro, poderosa e muito bela, o rapaz conservou em parte seu caráter selvagem, e entretanto lhe ofereceu sua exclusiva lealdade. Ele chorou quando decidiu escapá-la. Franziu o cenho; fazia muito tempo que não se lembrava dela.

Rasgou uma segunda tira de tecido da primeira, enrolou-a ao redor do braço do Isobel e a fixou com um nó.

-Com isto bastará de momento - disse enquanto lhe subia um pouco mais o vestido. - Me deixem ver esse tornozelo.

Isobel se incorporou ligeiramente.

-Não é tão grave - disse.

Levantou um pouco a saia do vestido para deixar descoberto o pé esquerdo, enfaixado com o lenço branco de seda por cima da meia de lã ensangüentada. Torpemente, empregando a mão esquerda, soltou o lenço e baixou a meia, mordendo o lábio para conter um gemido de dor. James a substituiu na tarefa e começou a deslizar a meia com cuidado, despindo o tornozelo comprido e magro e empurrando para baixo o bordo da bota. Logo acima do tornozelo havia uma ferida que assinalava o ponto onde a flecha tinha arranhado profundamente a pele.

-Isto foi causado pelo dardo de um estilingue - disse. - Eu vi o disparo. Teve sorte de que haver quebrado o osso. - Enquanto falava, apertava a parte de tecido contra a ferida. Isobel aspirou bruscamente.

James atou o tecido no local e deslizou a meia para cima, colocando a ponta abaixo da liga de seda bordada, por cima do joelho. Notou que a perna e o tornozelo eram duros e magros como os de um moço, com ossos elegantemente formados. Ficou de pé e lhe estendeu as mãos para ajudá-la a levantar-se.

-Agora lhe levarei a torre. Cauterizarei as feridas, e quero que coma e descanse. Tudo isto lhe debilitou, e levou muito tempo jejuando.

-Não jejuei por decisão própria - grunhiu Isobel, rechaçando as mãos do James e ficando em pé lentamente, com uma mão apoiada na parede. Sentiu um leve enjôo ao levantar-se, mas quando deu um passo adiante deixou escapar um gemido de dor, que para James fosse como lhe rasgasse as vísceras. Grunhindo, este se apressou a tomá-la em seus braços, apesar dos protestos dela.

Levou-a escada abaixo e saiu ao pátio, pondo-se a andar através do recinto em sombras. Algumas flechas lançadas pelos ingleses voaram por cima do muro e foram bateram contra o chão, não longe de onde se encontravam eles. James se deteve para certificar-se de que o caminho estava espaçoso e deu uma olhada a seus homens, que montavam guarda nas muradas iluminadas pela lua.

Isobel também levantou a vista.

-Os ingleses nos disparam quase todas as noites - informou. - Não fazemos caso deles na medida do possível, já que carecemos de homens suficientes para lhes devolver o ataque.

-O comandante do cerco possui um implacável sentido do dever.

Isobel inclinou a cabeça e lhe olhou fixamente.

-James Lindsay - disse. – Foram enviaram pelos ingleses para nos capturar e nos tirar prisioneiros daqui?

Ele se deteve, sem deixar de sustentá-la nos braços, e ficou olhando.

-Eu não aceito ordens dos ingleses - respondeu bruscamente.

-Então foi enviado por sir Ralph Leslie?

-Não fui enviado por ninguém. Vim por vontade própria.

-E por que razão teria que fazer tal coisa o Falcão da Fronteira? -perguntou Isobel com suavidade.

-Para resgatar à profetisa - respondeu James, irritado. Olhou-lhe com cautela.

-Não lhes acredito. Têm algo mais na cabeça, além de um resgate. James seguiu cruzando o pátio sem responder. Sabia que a fé da jovem ia desaparecendo à medida que crescia sua desconfiança. Uma parte dele lamentava essa perda, mas não podia culpá-la. Deixando o resgate a um lado, ela não devia confiar absolutamente nele.

Levantou a vista quando chegou à torre que se elevava no centro do pátio. Igual em muitos castelos, a planta superior, onde estavam situados o grande salão e os dormitórios, não tinha acesso direto; a porta de acima estava trancada e a robusta escada de mão tinha sido tirada dali. De modo que se dirigiu para o muro posterior da torre, onde viu uma estreita porta oculta nas sombras.

Nesse momento a porta se abriu e por ela apareceu Eustace Gibson, que lhes fez gestos para que se aproximassem.

-Por aqui. Minha senhora? -inquiriu brandamente.

-Estou bem - respondeu ela.

James seguiu Eustace através de uma estadia ampla e escura que servia de armazém. Estava deserta exceto por uns quantos sacos de grão vazios, caixas de madeira derrubadas e um montão de grosa corda, além da tocha que iluminava uns degraus no interior de um nicho. Cruzou a habitação atrás de Eustace, sentindo a pressão do corpo quente do Isobel sobre seus braços. Ela se sujeitava brandamente de seu pescoço com uma mão, seu torso se curvava em estreito contato com ele, suas esbeltas pernas penduravam com naturalidade sobre o antebraço. Quando ele a trocou um pouco de postura para procurar um melhor equilíbrio, lhe apoiou a cabeça ligeiramente no ombro.

James respirou fundo, desejando que Isobel estivesse o bastante forte para caminhar. Percebia com muita intensidade suas formas suaves e acetinadas, seu aroma de mulher, seu profundo calor. Flutuava igual a um anjo em seus braços. Tivesse preferido que fora uma bruxa infernal. Quando se propôs procurar à profetisa do Aberlady, esperava encontrar uma mulher matreira e manipuladora, o cupincha perfeito de sir Ralph Leslie; mas em lugar disso se encontrou com uma jovem doce e valente e com sua guarnição, todos necessitados de ajuda. Mas não podia permitir que aquilo lhe distraísse de seu plano inicial. Devia reter Isobel Seton como refém o tempo suficiente para libertar a sua prima, e com isso se vingaria na pessoa do Leslie. Afirmava ser seu paladino, mas pretendia ser seu raptor. Sentiu uma aguda pontada de culpa. Embora tivesse sido por muito pouco tempo, Isobel lhe tinha entregado sua total confiança. Tinha sido uma sensação maravilhosa, doce e plena, muito diferente do sabor cru e amargo da vingança.

Apertou a mandíbula com força e endureceu o olhar, seguindo Eustace escada acima com o Isobel nos braços. Ao diabo a culpa. Tinha passado muito tempo da época em que permitia que seus pecados lhe incomodassem, e não ia começar de novo precisamente agora.

 

O fraco retumbar que o despertou não era o grave estrondo de um trovão, como pensou a princípio, e sim o rumor de vozes masculinas. Isobel abriu os olhos, piscando para limpar os dos últimos retalhos de sonho, e olhou ao redor.

Estava sozinha na imensa cozinha com abóbada de pedra, tombada em um jergón situado em uma esquina, junto à chaminé. Pelo oco da escada se ouviam flutuando vozes procedentes do armazém, e embora não conseguiu distinguir o que diziam, reconheceu o timbre de vários dos homens do Aberlady.

Deviam ter transcorrido uma hora ou duas, talvez mais, desde que adormeceu sobre o jergón de palha e mantas naquele rincão da cozinha. O fogo da chaminé ardia lentamente, mas a panela de ferro, suspensa do fogão em forma de arco, encontrava-se vazia. Os homens tinham devorado a sopa que eles mesmos prepararam com o caldo de cevada e a carne de coelho. James Lindsay e Eustace tinham insistido em que Isobel também tomasse um pouco. A sopa a fortaleceu, embora seu apetite tivesse desaparecido depois de que James lhe curou as feridas.

Fez um gesto de dor ao recordá-lo claramente. Havia aplicado a ponta de sua adaga ao vermelho vivo para queimar os maus humores e selar a carne. A aguda dor fez que perdesse o conhecimento durante uns segundos, e quando recuperou a consciência ele a rodeava com seus braços e lhe murmurava palavras tranqüilizadoras ao ouvido.

-Me perdoe - havia-lhe dito brandamente. E ela assim o tinha feito, em silêncio, porque sabia que, na falta de remédios, feridas graves tinham que ser cauterizadas.

Agora, ali tombada a sós, o quente abraço dele era como um sonho profundamente reconfortante, impossível de agarrar de novo.

Movendo-se muito devagar, sentou-se e recostou contra a parede, com uma careta de dor pelo braço e o pé doloridos. Largas tiras de tecido lhe sujeitavam o braço dobrado contra o flanco e a cintura; o tornozelo também o tinha firmemente enfaixado. James tinha acrescentado a vendagem exterior antes de ela adormecer. Agora descobriu que aquele apoio reduzia a sensação de desconforto ao mover-se.

Ao olhar ao redor, Isobel se fixou em algo amarelo brilhante que cruzou velozmente por diante da janela que havia ao outro extremo da estadia. Alguém estava disparando flechas, pensou deixando escapar um profundo suspiro. Com alguma dificuldade, ficou de joelhos e por fim se levantou com movimentos rígidos e torpes. Mordendo o lábio no momento de apoiar o pé ferido para dar um passo, aproximou-se coxeando à janela.

Ao mover-se sentiu um leve enjôo; provavelmente se devia à fome e a tensão de sua situação. Respirou devagar, e quando se sentiu mais estável, inclinou-se para diante para olhar pela janela.

O pátio era uma extensão ampla e escura, rodeada pelas vagas formas iluminadas pela lua da muralha e os edifícios exteriores. Isobel entreabriu as pálpebras e percorreu o pátio com o olhar. No extremo mais afastado da muralha, perto da porta que dava ao bordo do precipício, viu vários homens da guarnição do Aberlady em companhia de um ou dois dos renegados. Pareciam estar concentrados em sua tarefa com várias cordas, embora não pôde distinguir o que era o que estavam fazendo.

Outras duas flechas ardendo cruzaram a noite, deixando detrás de si uma esteira de chamas e fumaça, e aterrissaram na terra nua do pátio, consumindo-se rapidamente. Isobel lançou um olhar para as muradas, mas o ângulo de visão tornava difícil saber se a guarnição estava devolvendo o ataque. O pátio se via vazio exceto pelas fumegantes flechas.

-Minha senhora? Me desculpe, minha senhora.

Surpreendida, Isobel deu a volta. Um jovem tinha entrado na cozinha procedente da escada, e foi até ela a largas passadas. Sua túnica de cor avermelhada lhe pendurava flácida sobre sua fraca e desajeitada ossatura, e o resplendor do fogo formava um halo escuro com seu cabelo castanho encaracolado e emaranhado. Deteve-se frente a ela, com as bochechas acesas.

-James Lindsay me enviou para cuidar de seu bem-estar, minha senhora, e se encontrá-la doente terei que ir lhe buscar imediatamente - disse precipitadamente.

-Estou bem - repôs Isabel.

-Nesse caso devo vigiá-la de perto e esperar seu sinal - olhou-a fixamente. – É, na verdade, Isabel, a Negra, a profetisa?

-Sim. Não tem por que me olhar assim – disse ela, divertida. - Não vou desaparecer em uma nuvem de fumaça de enxofre.

As bochechas do moço, que logo começava a aparecer barba, ruborizaram-se mais intensamente.

-Peço-lhe perdão, minha senhora – limpou a garganta como se sentisse extremamente violento. - Não pretendia ofender...

-Não há necessidade de perdoar nada - disse Isobel amavelmente. - Como se chama?

-Geordie Shaw. Sou primo do herói Wallace - acrescentou com orgulho.

-Está com esses bandidos? Quantos anos tem?

-Quinze verões - respondeu ele. - Estou há mais de um ano com o Jamie. Meu pai também esteve com ele. Lutávamos com ele e com o Wallace. Meu pai morreu - disse baixando o tom e olhando ao chão. - Faz seis meses, nesse dia houve uma boa batalha. Teve uma boa morte, lutando contra os ingleses.

-Deve ter sido um homem muito valente, igual a seu filho - disse Isobel em voz fraca. - Meu pai foi feito prisioneiro em uma batalha na primavera passada, ainda se encontra em uma prisão inglesa.

Geordie parecia intrigado.

-Jamie esteve vários meses encarcerado pelos ingleses, mas conseguiu escapar por fim. Irá resgatar seu pai?

Isabel negou com a cabeça.

-Carecemos do dinheiro necessário para isso, e não temos nada que oferecer em troca. Nem sequer sei onde lhe deixam preso. Mas um amigo prometeu me buscar - acrescentou. - Se não fosse pelo cerco, a estas alturas teríamos notícias de meu pai.

-Irão encontrá-lo - disse Geordie, jogando para trás seus ombros largos e ossudos com orgulho. - Viemos resgatar você. E depois, se quiser, ajudaremos a procurar seu pai, minha senhora - adicionou com toda sinceridade.

-Obrigado, Geordie Shaw. Agradeço seriamente. - Isobel franziu o sobrecenho. - James Lindsay esteve na prisão?

-Sim, capturaram-lhe a primavera passada. Mas escapou faz umas semanas, pouco antes de capturarem Wallace. -Tragou saliva e voltou o olhar a outra parte. Isobel acreditou ver brilhar lágrimas em seus olhos. - Vocês não terão ouvido falar do Wallace, suponho.

-Pois sim, ouvimos falar dele - murmurou Isobel.

-Como podem ter sabido se levaram várias semanas sofrendo assédio?

-Os ingleses adoram nos informar a gritos. Em uma ocasião nos permitiram declarar uma trégua em um dia de festa religiosa, e deixaram entrar nosso sacerdote para que nos repartisse a comunhão. O padre Hugh nos informou de muitas coisas antes de partir. Esse foi o dia em que se levou consigo nossos cavalos - disse, recordando. - E foi o dia em que demos liberdade a vários dos falcões de meu pai. Assim então é certo – acrescentou - Wallace morreu.

-Sim - disse Geordie com voz rouca.

-Geordie, chegou-nos o rumor de que o Falcão da Fronteira traiu Wallace.

O jovem negou com a cabeça.

-São os perversos rumores dos ingleses. Eu não acredito. Jamie não fala disso. Nós ficamos com ele, mas o resto se foi porque ele é um homem a que perseguem. Jamie veio aqui para lhe buscar - disse Geordie de repente - mas não disse por que razão. Vai fazer-lhe uma profecia? Pode ajudá-lo?

Isobel piscou ante aquelas perguntas tão ávidas e diretas.

-Eu não... não sei.

Seguro, disse-se para si. Aquela devia ser a razão pela que tinha vindo Lindsay, a lhe pedir uma profecia. Possivelmente tivesse perguntas que lhe formular a respeito do que havia dito dele em outra ocasião. Mas ela não sabia o que havia dito, de modo que não podia lhe ajudar.

-Confia nele, lady Isobel? - perguntou-lhe Geordie com calma.

-Confiar? - voltou a vista para a janela. - Não o conheço - disse com cuidado. - Não posso saber. Por quê?

-Jamie lhe salvará deste assédio - disse o menino com segurança. - Depois disso depositará sua confiança nele igual temos feito. Se as pessoas voltassem a confiar nele, seria feliz.

Isobel percebeu que o moço adorava àquele bandoleiro dos bosques, seu herói, tanto que voluntariamente se fazia cego ante seus defeitos. James Lindsay era considerado um traidor para Wallace e para a Escócia, e se aquilo era certo, temia que Geordie Shaw se sentisse profundamente ferido.

-Tratarei de confiar nele - disse, olhando pela janela.

Tinha depositado plenamente sua confiança em James Lindsay quando ele extraiu a flecha de seu braço. Recordou a cálida sensação de seus braços depois, e sua voz suave e profunda tranqüilizando-a. Sentiu ser percorrida por leves calafrios ao recordá-lo, e de novo experimentou a mesma sensação cálida.

Se tivesse conhecido dele só aquele gesto de compaixão, em lugar de perversos rumores, teria acreditado em James Lindsay sem reservas; teria posto sua vida em suas mãos e teria se sentido segura... e amada, pensou rapidamente, com um sentimento estranho. Mas aquele era um tolo desejo, nascido da solidão, repreendeu-se a si mesma. Estava comprometida com um homem que não possuía precisamente muita compaixão. Entretanto, recordou-se a si mesmo que Lindsay só tinha-a confortado porque a tinha visto sofrer uma grande dor. Lançou um suspiro e se recostou contra o batente.

-Geordie, esses homens dali, naquele rincão. O que estão fazendo?

-Jamie lhes disse para que atem as cordas e que façam escadas para podermos descer pelo precipício. Jamie diz que a lua cheia nos proporcionará luz suficiente para descer. Diz que partiremos assim que... - de repente se interrompeu, intensamente ruborizado.

-Assim que o que? - perguntou Isobel.

O moço se encolheu de ombros.

-Quando ele dê a ordem.

Isobel entrecerrou os olhos.

-Assim que o castelo se incendiar? Sei o que pretende fazer, Geordie.

Geordie parecia incômodo. Inclinou-se para frente para espionar pela janela.

-Devo vigiar à espera de seu sinal.

-Que sinal? Nem sequer está aqui embaixo.

-Sim está, note, justo debaixo de nós - Geordie assinalou a zona próxima à base da torre. - Está falando com o senescal.

Isobel olhou para baixo e viu os largos ombros do Lindsay e o brilho de seu cabelo escuro com nervuras douradas. Ia andando ao lado de Eustace, junto à base da torre. A fria luz da lua se derramava sobre seu rosto e seu porte autoritário.

Os dois homens foram caminhando até o centro do pátio. Lindsay se deteve e permaneceu de pé, com uma atitude forte, audaz, relaxada, uma mão sustentando o arco em posição vertical, a outra assinalando para as muradas. Eustace assentiu com a cabeça a modo de resposta a algo que disse.

Isobel se apoiou no batente da janela, observando atentamente. Embora tremessem as pernas pelo cansaço, ficou ali, fascinada, como se o proscrito dos bosques que tinha penetrado em seu castelo exercesse alguma misteriosa influência sobre ela. Não podia apartar a vista.

Mas confiava nele? - perguntou-se a si mesma igual tinha feito Geordie. Não sabia. Nem sequer sua sensível faculdade de percepção interior lhe dava nenhuma pista. Quão único sabia era que a aparição daquele homem a tinha arrojado a um torvelinho de medo e esperança, de desconfiança e fé. Não estava segura se devia aceitar ou rechaçar o que ele oferecia. A que tinha vindo? Recordou a amargura que destilava sua voz quando lhe fez essa mesma pergunta. Você e eu temos assuntos que discutir, havia-lhe dito. Aquelas palavras ainda encontravam eco em sua mente. Mas não podia esquecer, com independência da missão que lhe tivesse levado ali, que Lindsay havia lhes trazido comida quando estavam desfalecendo de fome, que a tinha ajudado quando foi ferida, e que agora tinha a intenção de tirar todos do castelo.

Havia lhes trazido esperança, tal como havia dito Eustace, e ela se sentia agradecida por isso. Mas faria bem em mostrar-se precavida com ele.

Geordie, que estava junto a ela, agitou a mão e Lindsay voltou à vista para a janela que emoldurava a ambos. Isobel detectou o instante preciso em que seu olhar captou a dela, e a devolveu serenamente. James assinalou ao Geordie.

-Quer falar comigo - disse o moço. - Retornarei para buscá-la. - Deu a volta e pôs-se a correr escada abaixo a passos rápidos e ruidosos.

Isobel voltou a olhar pela janela. Em questão de poucos momentos, o menino apareceu ao lado do James. Unindo-se a outro dos proscritos, que levava um arco comprido na mão, e começaram a gesticular em direção às muralhas, o qual deu a entender a Isobel que falavam de destruir o castelo.

Por muito que o temesse, não podia impedi-lo. Compreendia que era necessário fazê-lo para evitar que os ingleses entrassem e tomassem. Não queria que o castelo passasse às mãos do inimigo, mas Aberlady tinha sido sempre seu lar e o refúgio que necessitava. Suspirou e contemplou aos homens reunidos no pátio sob a luz da lua. James estava a ponto de fazer desaparecer o refúgio que rodeava a profetisa do Aberlady. Seu pai se certificou de que estivesse bem protegida, por causa de seu dom especial.

Só uns poucos homens - entre eles Eustace, que conhecia só uma mínima parte da verdade - estavam à corrente da cegueira que a assaltava durante as visões. Agora já não tinha perto a nenhuma mulher; sua mãe tinha morrido no mesmo ano em que se revelou o dom da profecia, e sua ama e suas donzelas tinham desaparecido, umas levadas pela enfermidade ou pela morte e outra porque se mudou para viver com familiares longe do Aberlady. A última mulher que a tinha servido pessoalmente havia falecido no princípio do cerco, vítima da idade e de sua própria fragilidade.

O ninho protetor que seu pai tinha formado ao redor dela se foi fazendo cada vez mais cômodo e quente com os anos. Ele e o padre Hugh decidiram que sir Ralph Leslie lhe proporcionaria o amparo do matrimônio. A nenhum deles lhe ocorreu pensar que a estavam forçando a uma situação assim. Nesse momento James se voltou, dissipando seus pensamentos. Levantou a vista para a janela onde se encontrava ela, e isso provocou um ligeiro calafrio. Inclusive em meio da escuridão notou seu olhar fixo e penetrante. Retrocedeu até colocar-se atrás do marco da janela e apoiou a cabeça contra a pedra.

Ao longo de todos os anos que levava vivendo no Aberlady, jamais pensou em partir dali. O dom da profecia, que a maioria das vezes surgia a instâncias próprias, em ocasiões lhe apresentava sem avisar, trazendo visões maravilhosas ou perturbadoras do futuro. Tinha aprendido a depender das poucas pessoas que entendiam seu singular mundo. Tinham-na educado para que dependesse inteiramente de seu pai. Mas agora ele não estava, e ela não sabia quando lhe veria de novo.

Sabia que Eustace quereria levá-la com o padre Hugh assim que escapassem do castelo. O sacerdote lhe daria proteção em sua casa, próxima à igreja paroquial do Stobo, e o comunicaria imediatamente a sir Ralph Leslie, que tinha ido em busca de sir John Seton.

Ansiava saber que seu pai se encontrava a salvo, mas em seu foro interno resistia à idéia de casar-se com sir Ralph. Por debaixo de suas maneiras rudes, comuns a todos os homens, percebia uma verdadeira aspereza. Às vezes a assustava, embora nunca a tivesse ofendido abertamente. Mas seu pai e o padre pareciam admirar ao cavalheiro escocês e confiar nele, embora Ralph tivesse trocado sua lealdade. É um homem prático que observa como vai evoluindo a guerra, havia dito seu pai. Quer-te bem, e me prometeu velar por sua segurança com independência de quem ganhe esta luta.

Sua segurança. Quase se se pôs a rir. Levava semanas sofrendo um assédio, e sir Ralph não tinha ido a sua ajuda. A tarefa de procurar seu pai devia lhe haver levado até bem dentro da Inglaterra. Se fosse informado, certamente teria vindo em seguida ao castelo do Aberlady.

Durante essas semanas tinha aprendido importantes lições. Agora era capaz de levar a iniciativa quando antes se limitava a seguir a de outros; agora podia desafiar quando antes só obedecia. Era muito mais forte de vontade que antes. Contudo, a idéia de abandonar Aberlady a aterrorizava. Dentro dos muros de seu lar tinha aprendido o que era a independência; dentro de seu ninho podia ser valente, mas não era ainda uma mariposa com as asas desenvolvidas, não estava preparada para a verdadeira liberdade de abandonar o lar.

Apareceu de novo pela janela e viu como um foragido estudava o melhor método para atear fogo a sua casa e a maneira mais rápida de tirá-la a do amparo daqueles muros. Aberlady seria sacrificado, mas seus habitantes se salvariam. Podia-se construir um lar em qualquer parte. Lançou um profundo suspiro e procurou aceitar o que era inevitável.

Outra flecha inglesa ardendo atravessou a escuridão com um assobio, como um cometa, deixando detrás de si uma esteira brilhante. O projétil foi cair, como outros, no chão de terra, sem deixar de arder e fumegar. James Lindsay se aproximou e o recolheu do chão. Isobel viu como levantava o arco e colocava nele a flecha ainda ardendo, esticava a corda e a soltava de repente. A flecha saiu disparada para cima e descreveu um novo arco através da escuridão. Caiu sobre o teto de palha do estábulo vazio e estalou em uma viva labareda.

Isobel lançou uma exclamação. Outra flecha inglesa sulcou brilhante a escuridão. Lindsay a agarrou também do chão e a disparou para diante. Foi cair no teto de uma cabana de armazém, que se acendeu em poucos segundos.

Isobel levou uma mão tremente à boca, incapaz de mover-se, incapaz de apartar o olhar do pátio. Multidão de faíscas douradas flutuaram no frio ar da noite. Um por um, os edifícios de madeira e palha seca foram incendiando-se como se fossem lascas.

James Lindsay estava de pé no meio do crescente resplendor do fogo com o arco em posição vertical, contemplando como se estendiam as chamas. Outros homens se uniram a ele, e nenhum fez o menor esforço por impedir que avançasse o incêndio. Nesse momento Eustace pôs-se a correr para o estábulo em chamas. Agarrou rapidamente um pau comprido e lhe prendeu fogo, como se fora um círio, aproximando-o do baixo teto em chamas do edifício que servia de armazém. A seguir o lançou sobre outro teto de palha, do que se elevou uma nova labareda.

Isobel se sentia como se o coração lhe fizesse pedaços dentro do peito.

-É para impedir que os ingleses tomem Aberlady - disse Geordie em voz fica. Apareceu de improviso junto a ela; nem sequer lhe ouviu retornar. - A política de incendiar castelos se apóia em um antigo costume de guerra em Escócia.

-Sei - sussurrou Isobel sem poder desviar o olhar, embora não quisesse contemplar como seu lar ia queimando ante seus olhos.

-Pode voltar mais tarde - disse Geordie. - Poderá reparar o castelo. A pedra não arderá, só os tetos de palha e a madeira, o bastante para impedir aos ingleses tomar a fortaleza.

-Sei. -As lágrimas brilhavam em seus olhos.

Agressivas labaredas devoraram os tetos de palha dos edifícios menores. Uma macieira que havia na horta, perto da pequena capela de pedra, começou a arder, engalanando seus ramos com resplandecentes colares de chamas. Quando o fogo se estendeu por cima da cerca e invadiu o jardim, Isobel teve que reprimir um soluço.

-Temos que ir daqui - disse Geordie, ao tempo que lhe rodeava a cintura com um braço e a empurrava brandamente. - Vamos, lady Isobel, Jamie me disse para tirá-la daqui. Quer que fujamos do castelo agora mesmo.

Isobel permitiu que Geordie a conduzisse até as escadas. Uma aguda dor lhe estendeu pelo braço e o tornozelo, e se agarrou pela cintura do moço com seu braço livre enquanto ele a ajudava a descer.

Quando saíram da torre e chegaram ao pátio, Isobel se separou de Geordie. Sentia uma súbita necessidade de estar só, rodeada pela horrenda beleza do pavoroso incêndio. Densas nuvens de faíscas flutuavam ao redor como se fossem estrelas. O pátio estava alagado de uma luz quente e brilhante. Isobel avançou lentamente para o jardim e se deteve poucos metros da entrada, que estava em chamas.

Notou que uma mão segurava seu braço.

-Isobel, se afaste daí.

Aquela voz tranqüila se mostrou já profundamente familiar, como a de um amigo. Mas ele não podia ser um amigo, fazendo isto com tanta meticulosidade, lhe negando inclusive a oportunidade de recolher suas coisas e despedir-se de seu lar.

-Me deixe - disse-lhe em tom cortante, sacudindo sua mão.

James a contemplou fixamente, seu rosto magro e de rasgos endurecidos à cálida luz do fogo.

-Se afaste daí - repetiu com firmeza, voltando a tomá-la do braço.

-Não.

Isobel caminhou para diante coxeando a pesar da dor que sentia no pé, a pesar do perigo. O jardim tinha sido o coração do Aberlady; sua mãe tinha-o desenhado anos atrás. As lembranças e uma necessidade imperiosa a atraíam a esse lugar.

Sem duvidá-lo, avançou em direção à grade de entrada, que estava totalmente aberta e com as escoras envoltas em chamas.

 

Isobel se deslizou ao outro lado da porta em chamas como um anjo que cruzasse a soleira do inferno. James a contemplou um momento, e seguiu atrás dela.

-Está louca? - gritou. – Se afaste daí!

Isobel não lhe fez caso e avançou coxeando pelo atalho, com a cabeça e os ombros orgulhosamente erguidos. James sabia que devia lhe custar um tremendo esforço caminhar assim, e a seguiu. As chamas envolviam a porta de entrada, e havia algumas ardendo perto dela, mas de momento o fogo só tinha alcançado uma pequena parte do jardim. Ao caminhar pelo atalho atrás de Isobel, viu o esmerado desenho de atalhos e canteiros, mas também observou que o jardim estava já destroçado, e não por obra do fogo. Viam-se caules e sarmentos nus, e canteiros inteiros que tinham sido cavados, mas não plantados de novo.

Isobel se dirigiu para uma parede lateral, onde havia um engradado curvado contra a pedra, ao que se aferravam vários caules quase nus, exceto por umas poucas flores estragadas. James estava o bastante perto para apanhá-la em um par de passadas, mas em lugar disso se deteve, preparado para tirá-la rapidamente dali se era necessário. Às suas costas, a porta e alguns ramos secos crepitavam devoradas pelas chamas, e sobre sua cabeça se estendiam nuvens de fumaça e faíscas, mas o fogo ainda não tinha alcançado aquele espaço.

Havia uma rosa branca pendurando da parte mais alta da parreira, como um pequeno redemoinho de pétalas de cor clara sob a luz do fogo e da lua. Isobel estirou a mão para agarrá-la. Então James se aproximou e arrancou a flor para ela, depositando-a na palma de sua mão. A pesar do forte aroma de madeira queimada, percebeu um leve retalho da delicada fragrância da rosa.

Isobel se aproximou a flor à cara para inalar seu aroma.

-Minha mãe amava estas rosas - disse com voz suave e rouca e com lágrimas nos olhos. James aguardou, esperando alguma dura acusação por parte da jovem, mas esta parecia tranqüila ao acariciar os borde da flor com a gema de um dedo. - O jardim era o único que ficava dela.

-Sinto muito - murmurou James. - Não sabia.

Isobel deixou escapar uma risada oca e áspera, lhe surpreendendo.

-O assédio destroçou este jardim antes que você incendiasse isso, Falcão da Fronteira - passeou o olhar ao redor. - Arrancamos tudo o que era comestível, inclusive as flores. Esta rosa floresceu faz escassos dias. Eustace queria que eu a jogasse à sopa, mas me neguei - contemplou o pálido casulo, e começou a lhe tremer o lábio inferior.

Aquela jovem lhe confundia: tão doce e triste quando esperava vê-la enfurecida. Mas não tinham tempo para agarrar rosas, com um incêndio bramando perto deles e uma centena de soldados ingleses às portas do castelo.

-Isobel, temos que ir - disse em tom calmo, mas firme.

-Não me deste tempo de me despedir - murmurou ela - antes de lançar essa flecha ardendo. Dê-me agora essa oportunidade.

James suspirou e se passou os dedos pelo cabelo em um gesto de arrependimento. Deu-se muita pressa em levar a prática sua decisão de queimar o castelo; talvez se tivesse precipitado, mas não tinham tempo que perder. Não tinha sido sua intenção lhe causar a Isobel aquela pena. Recordou o jardim de sua própria mãe, um remanso de aromas e cores que lhe tinha proporcionado esconderijos a ele e a seu irmão maior, e que tinha criado agradáveis lembranças. Mas agora já não existia; queimou-se, igual ao que ocorreria logo a este jardim.

-Quando eu era pequena, meu pai trouxe a primeira destas roseiras de uma cruzada - disse Isobel. - Dizia que minha mãe possuía uma magia especial nas mãos para cultivar rosas - sorriu. - O jardim sempre esteve repleto de rosas brancas, rosadas, vermelhas, da primavera até o outono. Quando morreu, meu pai a enterrou em nossa capela para que pudesse estar sempre perto de suas rosas, e perto de nós - assinalou além da taipa do jardim, para um lugar de que sobressaía o telhado de uma pequena capela com suas telhas de argila reluzentes sob o resplendor do fogo. - Meu deus, se o fogo alcançar a capela...

-Já disse a meus homens que empapem de água o telhado da capela para protegê-la - disse James. - Eu não queimo Igrejas.

Isobel assentiu. Uma lágrima apareceu em um olho e permaneceu ali, tremendo.

James sentiu o irresistível impulso de tocá-la; uma mão no ombro, um dedo para enxugar aquela lágrima, algum gesto de consolo, mas se conteve e fechou com força o punho para reprimir aquele desejo.

E aguardou imóvel e silencioso, enquanto uma moça magra e de cabelo azeviche acariciava uma rosa em meio de toda aquela destruição.

Em algum lugar recôndito e filosófico de sua mente, adestrada por monges eruditos para ver o simbolismo em todas as coisas, deu-se conta de que o céu e o inferno existiam em perfeita dualidade ali, naquele jardim destroçado, naquela doce e encantadora jovem, na pureza da rosa, na escuridão e a devastação que lhes rodeava.

Uma devastação que ele tinha causado.

-Isobel - disse. Notava como a emoção lhe contraía a garganta, mas continuou. - Faz anos eu perdi meu castelo quando os ingleses lhe atearam fogo. Os... os que estavam dentro morreram. Minha família, meus homens, mi... - não pôde terminar a frase.

Isobel olhou-o.

-Vocês sabe como me sinto - disse-lhe brandamente. - Você sofreu algo inclusive pior, e mesmo assim incendiastes Aberlady.

-Sim - respondeu ele com voz rouca.

-Sei que não tinham mais remédio - sussurrou Isobel.

James assentiu em silêncio. Quando lançou aquela flecha ardendo para o teto de palha experimentou um profundo vazio interior. Naquele momento, ao surgir àquela labareda, reavivaram-se nele dolorosas lembranças de seis anos. Mas as bloqueou de novo; não tinha tempo nem força dentro de si para deixar que aflorassem outra vez.

Ao contemplar a Isobel, teria preferido que a jovem lhe gritasse e lhe lançasse insultos, que se ecoasse da raiva que ele sentia e sangrasse o pesar que levava em seu interior. Mas a profunda tristeza do Isobel lhe comoveu, desafiou-lhe, turvou-lhe. Ali estava ela, sustentando na mão aquela rosa branca, alhada e manchada de fuligem, e de repente quis... algo que não soube definir. Fazia anos que não sentia aquele ardor tão puro, tão abertamente.

Nesse momento Isobel lhe olhou de novo, e ele viu em seus olhos translúcidos que não lhe guardava nenhum rancor por ter ateado fogo ao Aberlady. Em seus olhos viu - Deus lhe assistisse - perdão.

Deu-se a volta. Por instantes de pânico, teve a sensação de que a dura couraça que rodeava seu coração começava a gretar-se. Com a seguinte inspiração, e com outra mais, conseguiu fechar de novo a fresta. Recordou-se a si mesmo a razão pela qual tinha ido procurar à profetisa do Aberlady, e pela que tinha decidido que era conveniente queimar o castelo. Pode que Isobel Seton fora uma jovem em desgraça, necessitada e impossivelmente encantadora, mas se recordou a si mesmo que ela era a única garantia que possuía, e que devia utilizá-la tal como tinha planejado.

-A prática de queimar castelos conta com a aprovação dos Guardiões do Reino de Escócia - disse friamente. - É uma ação necessária para evitar que os ingleses se façam com propriedades escocesas.

Voltou-se para ela. Isobel piscou. Aqueles olhos tristes e impressionantes quase conseguiram lhe desarmar de novo, mas não lhe foi fácil desviar o olhar.

-Sei - repôs ela-. Mas... esperava que meu castelo se salvasse.

-Não seja estúpida. Os ingleses estão preparando suas máquinas de assalto para derrubar as portas assim que amanheça. Durante semanas, estiveste disposta a defender estes muros para lhes impedir de entrar. Eu me encarreguei que lhes impedir a entrada, ao menos de momento, pelo bem de Escócia e por seu próprio bem-estar - seu tom de voz era duro.

Isobel franziu o cenho. James viu como seu gênio se inflamava de novo ao tempo que seus limpos olhos azuis relampejavam.

-Não acredito que o Falcão da Fronteira se preocupe com o bem da Escócia -resmungou.

Ele encaixou o duro golpe, surpreso de que ela pudesse feri-lo tão facilmente. Mas sentiu que pisava em terreno mais firme havendo-lhe com cólera e conflito que com a tristeza, a doçura daquela mulher. Eram muitos os que compartilhavam a opinião que tinha expressado sobre Isobel. Ao final, sua recente fama de traidor tinha começado como resultado da própria profecia da jovem, meses atrás. Então explorou de ira.

-Venha - disse bruscamente, agarrando-a do braço são com a intenção de levá-la para a porta de entrada.

Mas ela não se moveu do lugar.

-Por que o importa meu bem-estar? Dizem que o Falcão da Fronteira só é leal a si mesmo. Dizem...

-Já sei o que dizem - ladrou James. Lançou um olhar além da estrutura da porta em chamas. O fogo do pátio, que iluminava o céu, tinha devorado os edifícios exteriores e agora avançava para a torre. Nas sombras da parede posterior viu seus homens e à guarnição do Aberlady, esperando.

-Venham - disse firmemente, agarrando-a. - Temos que sair daqui. Vamos.

Ela resistiu. O resplendor do fogo brilhou em suas bochechas e em seu cabelo escuro ao levantar a vista para ele.

-Por que viestes aqui, James Lindsay? - perguntou-lhe.

-Vim resgatá-los, queiram ou não - repôs em tom impaciente.

-Não acredito - replicou Isobel. - Há algo mais, me diga o que é.

James se inclinou para diante.

-Está cega? Tudo está ardendo a seu redor! Não temos tempo para conversar.

Olhou-o boquiaberta, e as lágrimas que havia em seus olhos se fizeram mais abundantes. James não podia compreender porque a afetava tanto o que disse.

-Por agora, eu sou seu paladino - murmurou em tom acre. -Mais tarde poderá me chamar do que lhe agradar.

Agachou-se e tomou-a nos braços. Continuando, atravessou a porta, que chispava já convertida em uma brasa, e cruzou o pátio do castelo em meio a uma chuva de brilhantes faíscas.

 

A jovem podia ter tido a cortesia de deprimir-se, pensou James enquanto descia, pondo uma mão depois da outra, pela forte corda atada. Desse modo poderia ter descido pelo precipício levando-a como ele queria, arremessada sobre o ombro, de cabeça para baixo. Tanto ele como Henry Wood tinham discutido com ela para convencê-la a permitir que James a transportasse sobre o ombro; um rato nessa posição não lhe faria nenhum dano, disseram-lhe. Mas Isobel protestou obstinadamente contra aquela idéia, e James cedeu por fim: situou-a de cara a ele, atada ao seu torso.

Também se rendeu à sua insistência em que necessitava um pouco de roupa e outras coisas, de modo que a fuga se atrasou um pouco mais enquanto Isobel e Eustace foram colocar seus pertences em um saco de couro, que Eustace conduzia agora em sua descida.

Embora Isobel não se queixasse, James viu os rastros do cansaço e da fome em seu rosto. Quando a tomou nos braços percebeu com toda claridade sua debilidade física. Era uma jovem de boa constituição, mas a fome e as feridas tinham consumido suas forças. Além disso, ouviu cada um dos gemidos de dor que ela tratava de reprimir.

Olhou a um lado e a outro e viu os outros homens, descendendo com ajuda de largas cordas, movendo-se em silêncio e a ritmo regular sobre a escarpada superfície da rocha. Todos os que tinham saído do Aberlady estavam debilitados depois da tensão do cerco. James ordenou a seus próprios homens, que se encontravam em forma e descansados, que acompanhassem com cuidado aos sobreviventes do Aberlady na descida pela ravina.

Voltou o olhar à Isobel.

-Como está? - perguntou-lhe.

-Não invejo aos pássaros - repôs ela irônica, com seu pálido rosto a escassos centímetros do dele. Tinha-a frente a frente, as pernas de lhe rodeavam os quadris e seu braço são lhe rodeava o pescoço. James a tinha sujeitado a ele com um arnês de corda, como um filhote de urso a sua mãe, lhe deixando as mãos e os pés livres para dirigir a escalada de corda.

-Ah, nesse caso, prometo que não por-me-ei a voar - disse rindo pela metade. Isobel fez uma careta e olhou para baixo, e ao mesmo tempo seu braço se aferrou a ele com mais força. - Não olhe para baixo - disse-lhe rapidamente. - Tranqüila, está a salvo - ela afrouxou a mão que lhe rodeava o pescoço e escondeu o rosto em seu ombro.

A parede do precipício era muito alta, de rocha viva, e em alguns pontos caía atalho a pico. A face norte, por onde estavam descendo, era muito elevada e irregular. Estava salpicada de salientes talheres de musgo e gretas que proporcionavam apoio para pés e mãos, alguns bastante grandes para permanecer de pé sobre eles. Cada homem foi avançando com cuidado. À luz da lua, uma parte de erva ou de rocha solta poderia confundir-se com um lugar seguro a que agarrar-se. A névoa flutuava ao redor da parede de rocha formando um véu tênue e desigual, e fazendo a descida ainda mais perigosa.

James e seus homens o tinham escalado à luz do dia, servindo-se de cordas sujeitas a ganchos de escalada que foram lançando para cima à medida que avançavam. O caminho da descida se mostrou um desafio maior do que James tinha imaginado. Durante as horas que passaram no castelo, ele e os homens tinham confeccionado duas largas escadas de corda, e acrescentaram fortes nós ao longo das demais cordas para ajudar na descida. Mas era um processo lento e penoso, pois as cordas não eram o bastante largas para chegar até o chão, de modo que, depois de sujeitá-las bem aos ganchos de ferro, viam-se obrigados às soltar e voltar às atar a lugares distintos, enquanto os escaladores aguardavam em estreitos rebordos da parede.

James olhou para baixo e viu o chão escuro além da névoa. Voltou a vista para o castelo, que se elevava muito acima de suas cabeças, com seus muros em chamas iluminando de um resplendor avermelhado o céu da noite. A luz da lua lhes ajudava e lhes estorvava ao mesmo tempo; se pudessem ver por onde iam, também poderia lhes ver o inimigo. Tão somente a escuridão e a traiçoeira névoa lhes protegiam.

James sabia que os ingleses poderiam descobrir sua fuga em qualquer momento e atacá-los sobre a parede do precipício, onde seriam mais vulneráveis. Esperava que o incêndio lhes distraísse de forma que não lhes ocorresse enviar uma patrulha a percorrer a zona até que a ravina estivesse outra vez deserto.

Um vento frio lhe empurrou o cabelo sobre os olhos, e girou a cabeça para limpar a visão. Baixou outro degrau da escala, apoiando o peso no reforço de sujeição da corda. O peso da jovem não supunha uma carga, embora suas largas pernas e seu braço feridos, firmemente enfaixados, resultavam difíceis de equilibrar. Seu arco e sua aljava lhe ricocheteavam nas costas por causa do vento, e se deteve um momento sobre a escala, aferrando-se a ela fortemente com uma só mão ao redor dos quadris do Isobel, apoiando os outros, enquanto recuperava o fôlego.

Outra forte rajada de vento lhes açoitou, e ouviu que Isobel lançava uma leve exclamação. Sua cabeleira ondeou igual a uma bandeira, enredando-se em uma densa cortina escura com o cabelo dele. A seguinte rajada de vento lhes fez chocar violentamente contra a parede do precipício. Isobel lançou um grito ao golpear o braço contra a rocha e enterrou a cara no ombro dele com um áspero soluço.

James se voltou para protegê-la da força do vento e permaneceu imóvel para lhe dar uns instantes para recuperar-se. Ela respirou fundo e levantou a cabeça, e lhe indicou com um gesto que podiam continuar.

-Boa garota - disse ele em tom de aprovação. Olhou para baixo para procurar o seguinte degrau - Já não falta muito. Quase chegamos.

Assombrou-se ao ouvir que Isobel ria; era mais um duvidoso chiado assustado, do que uma risada afinal. Sorriu pela metade e reatou a descida.

 

Isobel sabia que devia estar aterrorizada, mas se sentia estranhamente segura, envolta em um manto protetor feito a base de corda e capas, bem sujeita ao corpo duro e sólido do proscrito. Apoiou a cabeça no oco de seu ombro e estudou seu nítido perfil, recortado contra a lua.

Já tinha descoberto que não podia olhar a escura superfície do chão que se estendia ao pé da ravina, e que tampouco podia levantar a vista para o castelo, onde um resplendor de uma viva cor vermelha iluminava o céu; o fato de ver seu lar ardendo a feria profundamente. E olhar a direita ou a esquerda, aos outros homens que desciam pelas cordas, fazia que a percorresse um calafrio de medo. Tampouco podia fechar os olhos de tudo, nem pensá-lo sequer, porque o mundo se convertia em um lugar incerto, aterrador, cheio de escuridão e de aguda e infinita dor.

De modo que olhou ao proscrito e descobriu uma estranha segurança no meio do perigo. Sua força física sustentava com facilidade o peso dos dois, e seus largos braços e seus potentes músculos faziam que aquela temível descida parecesse não requerer esforço algum. Dependia inteiramente de sua força, de sua capacidade e de sua boa vontade. Não tinha alternativa além de confiar nele... de momento. Apoiou a bochecha contra seu ombro e sentiu como se movia seu corpo musculoso, sólido e confiável, quente em contato com o seu.

James se deteve na corda respirando agitadamente, procurando forças para continuar. Isobel olhou-o.

-Como está? -perguntou-lhe, tal como lhe tinha perguntado a ela tão freqüentemente.

James assentiu com brutalidade.

-Bastante bem. Quase chegamos - aspirou profundamente e se deixou cair até o seguinte degrau.

Isobel experimentou uma intensa e maravilhosa emoção. Ambos penduravam entre o céu e a terra, entre a noite e o amanhecer. Atada a ele em uma estranha intimidade - com as bochechas tocando-se, as respirações mesclando-se, os ventres apertados um junto ao outro, os corações pulsando ao uníssono - Isobel se sentiu muito bem protegida. Lindsay literalmente tinha seu destino nas mãos e estava arriscando sua própria vida para ajudá-la. As pernas dele se moviam debaixo de seu corpo, as coxas empurravam brandamente, ritmicamente, contra seus quadris. Os braços se estendiam ao redor dela para agarrar a corda no ininterrupto movimento de descida.

Por fim ele apoiou os pés no chão. Soltou a escala e se separou da enorme parede de rocha que se elevava sobre eles. Sustentou Isobel nos braços e permaneceu assim durante uns momentos, sua bochecha contra a dela, sua respiração ofegante, recuperando as forças. Ela sorriu e apertou o braço são com que lhe rodeava o pescoço, em um impulsivo abraço mais que em um gesto de medo como tinha feito antes. James murmurou algo que se levou o vento.

Nesse momento, Geordie Shaw alcançou o chão de um salto e correu para eles para ajudar a desfazer os nós que atavam Isobel a James. Em instantes, Isobel se viu separada dele e depositada de pé no chão. James a sustentou com um braço pela cintura enquanto falava com o Geordie, mas Isobel se deu perfeita conta do frio vento que separou a ambos.

James baixou a vista para ela e lhe dirigiu um sorriso breve e íntimo ao tempo que lhe acariciava a bochecha.

-Foste muito valente - murmurou, e se afastou dela.

Isobel aguardou enquanto os homens foram chegando ao chão de um em um, mas seu olhar estava fixo a maior parte do tempo no James Lindsay, observando como ele e seus homens ajudavam a outros e logo recolhiam as cordas para enrolá-las e as ocultar detrás de uma grande rocha.

Retornou o seu lado e extraiu uma flecha de sua aljava, colocou-a no arco que levava e a disparou para o alto do precipício. A haste adornada com a pluma, branca à luz da lua, tremeu no vento.

-Isso - disse. - Assim saberão quem esteve aqui.

Voltou-se para Isobel e lhe estendeu os braços sem dizer nada. Ela foi para eles de bom grado, e James a levantou do chão. Sentindo como o esgotamento a impregnava até os ossos, deixou-se levar uma vez mais em seus braços e procurou não recordar que a levavam do Aberlady para sempre.

-Aonde vamos? - quis saber.

-Ao bosque - respondeu James.

Isobel assentiu com a cabeça, muito cansada para perguntar mais. Pela manhã se enfrentaria à verdade, formularia perguntas, mas agora por fim sentia a bênção de pisar em terra firme e o doce calor dos braços dele abraçando-a. Desejava confiar em James Lindsay um pouco mais, sem pensar no que lhe proporcionaria o futuro. Assim fechou os olhos enquanto ele a levava em direção às árvores.

 

A luz da manhã dissipou a névoa enquanto o grupo avançava através do bosque a pé e a cavalo. Isobel montava um semental branco de patas suaves cujo largo lombo estava coberto por uma manta. Geordie ia sentado atrás dela, lhe rodeando a cintura com os braços enquanto sustentava as rédeas. Enquanto cavalgavam, ela contemplou as altas árvores que se balançavam a seu passo e depois o grupo de homens e cavalos que avançava pelo atalho de terra.

Ao amanhecer, James lhes conduziu até o lugar onde tinham escondido os cavalos de guerra, assinalando que ele e seus homens os tinham «tomado emprestados» de soldados ingleses. À Isobel não importava, nem ao mínimo, que os cavalos pertencessem nem mesmo ao rei Eduardo; estava tão exausta que se sentia profundamente agradecida por ter a oportunidade de ir a cavalo.

Dado que vários homens da guarnição se separaram do grupo para ir em busca de familiares próximos, havia suficientes montarias para todos, embora alguns tivessem que compartilhar a sua. James ia no lombo de um enorme semental negro e Eustace montava um baio; Isobel lhes viu um ao lado do outro, à cabeceira do grupo, enrascados em uma conversação.

Para ela, a maior parte da manhã tinha transcorrido sumida em uma nebulosa de cansaço, dor e o tédio de cavalgar, mas o suportou tudo em silêncio. Os homens mostravam preocupação por ela, embora notasse que James Lindsay se manteve a distância desde que começou a viagem. Viu-lhe olhar a outros com freqüência, e ouviu suas enérgicas ordens cada vez que ela sentia sede ou queria descansar, como se ele soubesse o que necessitava. Sempre havia umas mãos voluntárias dispostas a ir lhe buscar comida ou água, a baixá-la do cavalo ou ajudá-la a montar de novo. Mas aquelas mãos nunca eram as de James.

Os homens se mantinham atentos e vigilantes enquanto avançavam, com as armas preparadas a todo o momento. Detiveram-se justo depois do amanhecer a pescar alguns peixes de um arroio e cozinhá-los. Entretanto, Isobel tinha tão pouco apetite que só comeu bagos e bebeu água fresca.

Fora cavalgando ou descansando, os homens conversavam amigavelmente a respeito da extensão do território e do confuso mapa da situação política. Isobel se deu conta de que os proscritos do Falcão da Fronteira e os sobreviventes do assédio logo se converteram em um bando de camaradas unidos por sua audaz fuga e seu comum ódio pelo inimigo. Mas o frágil vínculo que se estabeleceu entre o Isobel e James parecia dissolver-se à medida que entravam no bosque. Isobel, conforme avançava o dia, chegou a ter a certeza de que James a evitava deliberadamente. Apenas lhe dirigia a palavra, e seus rápidos e freqüentes olhares para ela eram inexplicáveis. Parecia distante e sombrio. Inclusive seus profundos olhos azuis se endureceram até adquirir a cor do aço. Cavalgava afastado do resto, ou ao lado de Eustace ou do proscrito Henry Wood, com o olhar grave e alerta.

Isobel se recordou que James era um foragido e um proscrito que se diziam ter cometido traição. Agora que tinha penetrado em seu mundo, provavelmente descobriria se aqueles rumores eram certos.

Mas sentia falta de sentir seus braços rodeando-a, e desejou escutar sua voz tranqüila junto ao ouvido. Necessitava desesperadamente o consolo que lhe tinha procurado antes. Sua atitude distante, depois da naturalidade que tinha existido entre eles, feria-a de maneira inesperada. No precipício, suspensa com ele entre o céu e a terra, tinha conhecido uma emocionante mescla de perigo e segurança. Agora, cada vez que ouvia sua voz ou captava um de seus olhares, notava que lhe acelerava o coração. Era um homem proscrito no que não se podia confiar, mas a tinha fascinado.

Suspirou, impaciente por seus próprios pensamentos, e voltou a cabeça para aliviar a rigidez que sentia no pescoço. O braço lhe doía muito, e também o tornozelo, e durante aproximadamente a última hora se recostou contra Geordie. Ainda mais incômoda era a fome, uma sensação cada vez mais intensa e difícil de ignorar agora que dispunham de comida. Antes, seu estômago não estava muito seguro, mas agora se sentia esfomeada.

O sol se elevou por cima das taças das árvores enquanto o grupo avançava, e finos fachos de luz se filtraram entre as folhas. Vários metros diante, James marcava um passo tranqüilo seguindo o caminho do bosque. Ao girar a cabeça o sol arrancou um brilho dourado a seu cabelo que provocou ao Isobel uma estranha sensação no centro do corpo. Ao cabo de um momento, James levantou uma mão e se deteve. Os outros fizeram um alto detrás dele, com um leve rangido de couro e um entrechocar metálico de armas. James fez dar à volta a seu semental negro e foi até o Eustace, que se tinha detido junto ao Isobel e Geordie.

-Graças a Deus não seguiram - disse James a Eustace com voz grave que se ouviu com facilidade no silêncio do bosque. - Podemos nos arriscar a tomar um pequeno descanso perto daqui se a dama assim o desejar - dirigiu a Isobel um fugaz olhar de um azul escuro e intenso.

-Estou cansada - disse ela, agradecida.

Ele assentiu com brutalidade.

-Recordem aos seus homens, sir Eustace, que se algum mais deles quer ir reunir-se com familiares ou amigos, este é o momento de fazê-lo. Daqui giraremos para o sul e cruzaremos o Tweed, e depois penetraremos no coração do bosque do Ettrick. Lhes diga que qualquer homem que cavalgue comigo se arriscará a ser chamado proscrito e traidor tanto pelos ingleses como pelos escoceses.

-Os que queriam lhes deixar já se foram - repôs Eustace. - O resto ficará.

James assentiu.

-Esse bosque dali, onde a vegetação é mais densa, proporcionar-nos-á um esconderijo seguro.

-Bem. Lady Isobel necessita uma pausa - disse Eustace.

James a olhou de novo, com um brilho azul sob as retas sobrancelhas castanhas. Sem pronunciar palavra, fez girar a seu cavalo e se dirigiu para o bosque.

Rapidamente e em silêncio, seguiram-lhe em direção ao esconderijo da vegetação, e uma vez ali desmontaram. Geordie ajudou Isobel a acomodar-se em um lugar sob as árvores onde havia sombra e logo se preparou a ajudar Henry Wood e a outro dos bandidos, um jovem montanhês vestido com tartán, a acender fogo. Continuando, James, Geordie e um fornido foragido chamado Patrick se afastaram para capturar alguma peça pequena de caça para comer, enquanto os homens do Aberlady estabeleciam uma guarda ao redor do bosque.

Eustace trouxe água fria de um arroio em seu elmo de aço e a aproximou do Isobel. Deu-a e bebeu, e foi montar guarda entre as árvores.

Tão somente o montanhês ficou no claro com ela, um jovem alto e magro que levava as pernas nuas exceto por umas botas baixas e gastas e que vestia um descolorido tartán marrom e arroxeado. Isobel se relaxou contra o tronco da árvore e observou-o, enquanto ele se inclinava sobre o fogo e cozia umas bolachas em cima de uma pequena placa de ferro que sustentou entre duas pedras.

O jovem a olhou e lhe dirigiu um sorriso tímido e efêmero, com covinhas, que transformou seu semblante sério e juvenil. Isobel sorriu a sua vez. O jovem se ruborizou e se apartou o cabelo loiro, que lhe caía constantemente sobre os olhos apesar das desajeitadas tranças que levava para sujeitá-lo. Utilizou sua adaga para retirar uma bolacha da prancha e foi até o Isobel sustentando a bolacha quente com um pico do tartán. Sentou-se a seu lado.

-Uma bolacha de aveia para você, Isobel Seton, se por acaso têm fome - disse-lhe. Empregou o nome completo ao estilo das Highlands, em lugar de seu título, como estavam acostumados a fazer os habitantes das terras baixas. Além disso, o inglês do norte que usava tinha o tom suave e ressonante próprio de alguém que fala o gaélico-. Tome cuidado, está muito quente - advertiu.

-Obrigado - disse Isobel, agarrando a bolacha grosa e quente com uma dobra de seu vestido para não queimar os dedos. - Surpreende-me ver um montanhês entre proscritos do bosque do Ettrick nestas terras.

O jovem se encolheu de ombros.

-Sou um Fraser – respondeu. - Quentin Fraser, de perto do Inverness. O chefe de meu clã é Simon Fraser, ao que talvez conheçam. Vim ao sul para lutar com ele pela Escócia.

Isobel assentiu.

-Ouvi dizer que Simon é um dos chefes rebeldes. Como é que agora estão com o James Lindsay?

-Conheci o Jamie quando fomos para o norte com alguns homens do Wallace para ajudar ao Simon no Stirling. Então foi quando me uni a ele. Simon me pediu que estudasse como eram as terras do sul e que aprendesse os movimentos dos exércitos ingleses. De vez em quando viajo até onde se encontra Simon e lhe informo - olhou-a fixamente com seus olhos de um azul intenso. - Eu confio em você, Isobel Seton do Aberlady, do contrário não lhes contaria isto - sorriu de novo e lhe piscou os olhos um olho de forma tão encantadora que Isobel sentiu imediatamente uma profunda amizade por ele.

-Obrigado. Mas como sabe que pode confiar em mim?

Quentin esboçou um sorriso fugaz, aberta, como se conhecesse um segredo.

-Ah, porque possuo a Visão - disse. - Sempre a possuí, e me diz que são uma boa mulher e uma verdadeira vidente.

Isobel sorriu. O menino cada vez gostava mais.

-Eu também a tenho.

Quentin assentiu com um gesto.

-Sei. As visões e profecias do Isobel, a Negra são muito famosas nas Highlands.

Isobel se ruborizou.

-Mas minhas visões só me falam de guerras e reis, de sucessos estranhos do futuro que eu não entendo de tudo. Seria agradável saber coisas sobre a gente normal, e ajudá-las. Você pode fazer isso?

O menino assentiu de novo.

-Às vezes. Simplesmente me vem, como uma revelação. Acredito que você poderia fazê-lo facilmente, posto que seu dom é grande, e o meu não é mais que um pobre talento ao lado do seu. Eu também tive visões, algumas. Vi a morte de seres queridos - disse, baixando a vista e varrendo as folhas secas de seu tartán. - E não quero vê-las mais.

Isobel suspirou.

-Eu também vi a morte - disse em voz fraca. - Mas normalmente esqueço-me do que vejo. Você está acostumado a recordá-lo?

-Sempre - respondeu Quentin com o semblante grave. - O que você gostaria de ver, se pudesse, Isobel Seton?

Ela partiu uma parte de bolacha e começou a mordiscá-lo.

-Se pudesse - disse, mastigando - usaria minha visão para saber por que James Lindsay foi me buscar ao Aberlady, e por que agora está tão descontente comigo - dirigiu-lhe um olhar irônico. - Confio em você, Quentin Fraser, do contrário não lhe contaria isto.

Ele sorriu tristemente.

-Ah. Bom, não sei lhe dizer por que Jamie leva uma carga dentro de si, tem boas razões para fazer o que faz. Mas é muito reservado, nenhum vidente pode penetrar em seus pensamentos. Para falar a verdade, não nos foi dito, a nenhum de nós, porque foi lhes buscar. Mas ficou furioso que os ingleses assediassem o castelo de uma mulher, e eu sei que estava decidido a tirá-la dali. Se existir alguma outra razão, eu não a conheço - elevou-se de ombros. - Quando ele quiser dizer o que pensa, dirá.

Isobel contemplou o perfil juvenil e delicado do moço enquanto saboreava o sabor de nozes da bolacha quente.

-Você segue-o quando tantos o abandonaram - disse ao final de um momento.

-Assim é - Quentin afirmou com energia. - Nunca acreditarei que traiu Wallace. É um homem distinto desde que retornou do cativeiro inglês, mas sempre terá minha lealdade.

-Diz-lhes sua Visão algo a respeito dessa traição?

Quentin negou com a cabeça.

-Eu acredito que ele não o fez. Jamie daria sua vida por um amigo. Já o fez por mim em uma ocasião, e por isso lhe devo lealdade, digam o que dele disserem - ficou de pé. - Outra bolacha de aveia, Isobel Seton?

Ela a rechaçou cortesmente. Quentin lhe obsequiou outro encantado sorriso e se apartou para perder-se entre as árvores e deixá-la só na pequena clareira. Viu-o partir, contente de ter encontrado um amigo entre os proscritos; sua maneira de sorrir e sua naturalidade lhe deixaram uma cálida sensação interior.

Exalou um suspiro e contemplou o fogo que crepitava dentro do círculo de pedras, pensando em James Lindsay e no que Quentin havia dito. Geordie também tinha insistido obstinadamente na inocência de seu herói, mas ela o tinha atribuído a sua juventude. Agora aquele montanhês, um homem de aproximadamente a mesma idade que ela, compartilhava também aquela opinião. Mas certamente todos os novos seguidores do Falcão da Fronteira lhe acreditavam inocente de traição. Fora daquele círculo persistiam os rumores preocupantes a respeito dele. Isobell lhes conhecia através do padre Hugh, escocês e sacerdote, um homem que não propagava mentiras.

Vendo que não conseguia compreender o assunto, e estando muito esgotada para tentá-lo, apoiou as costas contra o tronco da árvore, ficou uma mão sobre o ombro dolorido e fechou os olhos para descansar.

O tentador aroma a ave assada a tirou do sonho e a fez abrir os olhos. A menos de um passo dela viu as largas costas do James Lindsay sentado junto ao fogo, vestido com o colete de couro e a túnica verde. Estava escutando ao Henry Wood e ria brandamente por algo que dizia este.

James se voltou para olhar atrás e viu que Isobel estava acordada. Saudou-a com um leve gesto da cabeça e ato seguido se inclinou para diante para cortar uma porção de carne, que colocou sobre um pedaço de casca e entregou ao proscrito Patrick, sentado junto a ele.

Patrick se aproximou dela.

-Aqui têm, minha senhora - disse-lhe com voz grave e um tanto sobressaltado, ao tempo que se ajoelhava para lhe oferecer a carne fumegante. - Jamie diz que certamente terá fome.

-Obrigado - respondeu ela, olhando as costas do Lindsay, que não se girou. Patrick retornou a seu lugar junto ao fogo e Isobel começou a comer com apetite. A carne estava ligeiramente chamuscada por fora, mas por dentro estava suculenta e deliciosa. Chupou os dedos ao terminar. Patrick a olhou e se apressou a lhe trazer uma segunda porção.

-Obrigado - disse Isobel de novo. - Até agora só comi bagos e uma bolacha de aveia. Não me tinha dado conta de que tinha tanta fome.

Ele assentiu.

-Seu estômago ainda não estava preparado para comer a sério. Mas agora que lhes tornou o apetite, sabemos que se recuperarão bem.

-Quais? -perguntou, olhando-o sem deixar de comer.

-Jamie e nós - respondeu ele. Sorveu-se o nariz e a limpou com a manga imunda. - Jamie vigia-a igual a um falcão vigia a suas cria. Diz que não comestes muito nesta viagem.

-Parece que não lhe importa muito - murmurou ela, duvidando, enquanto mordia um bocado de carne. - Deixa que você e outros se preocupem comigo, e eu lhes agradeço por isso - acrescentou.

Patrick se inclinou para diante e baixou a voz:

-Bom, ele não quer admitir que a vigia e que vela por seu bem-estar. Não estava muito contente com você, sendo a profetisa, e demais.

Isobel lhe devolveu um olhar carrancudo. Ele não a viu, ao tirar o elmo para coçar a cabeça, afundando os dedos no sujo cabelo castanho. Cuspiu no elmo e o abrilhantou servindo-se da manga.

-Sei que as damas gostam da boa educação - disse. - Assim lhe trarei um pouco de água em um elmo limpo, vê - virou-o para mostrar-lhe.

-Obrigado, Patrick - disse Isobel com tato. - Mas acredito que vou eu mesma ao arroio para me lavar a sós.

-Ensinarei por onde vai - ofereceu-se Patrick. Ajudou-a a ficar de pé e a sustentou com sua enorme mão pela cintura enquanto ela punha-se a andar coxeando ligeiramente.

Isobel viu que James levantava a vista quando eles passaram por diante. Quentin lhes olhou também, e dirigiu a ela um sorriso deslumbrante. James o viu e franziu o cenho.

Isobel sorriu a Quentin, sorriu a Patrick e depois dirigiu ao James um olhar turvo. Este olhou para outro lado, como se não a tivesse visto e esfregou em silêncio a mandíbula coberta de barba incipiente.

 

Mais avançado o dia, enquanto cavalgava no lombo do semental branco sentada diante do Geordie, Isobel se sentia tão cansada, tão assediada por diversas dores e por um certo enjôo, que houve ocasiões que acreditou que não poderia seguir. Entretanto, não disse nada ao Geordie a respeito do incômodo que se encontrava, nem o mencionou a qualquer outro que perguntasse por sua saúde.

Encontrou um momento para dizer ao Eustace que queria separar-se dos proscritos quando se aproximassem do Stobo, onde o padre Hugh tinha uma igreja. Sir Eustace tinha acessado a contra gosto. Isobel chegou à conclusão que lhe gostava daquela liberdade de fugir com os proscritos depois de várias semanas preso em um castelo sitiado. Entretanto, ela desejava descanso e paz. O braço e o tornozelo lhe doíam sem piedade, e não sabia como ia curar-se se seguia mantendo aquele endiabrado ritmo.

Mas uma parte dela desejava ficar também com o Falcão da Fronteira no bosque. Embora fosse uma loucura, queria estar junto ao homem compassivo que tinha atendido suas feridas... mas aquele homem tinha desaparecido para sempre. Se tivesse mais força e a mente mais limpa, além de maior audácia, lhe teria desafiado a que lhe dissesse o que se propunha a respeito a ela, e por que mostrava agora tanta frieza. Mas, esgotada e exausta, não lhe disse nada, e deixou que o cavalo a levasse pouco a pouco para o profundo do bosque.

Recordou aquela contundente frase do Lindsay: que tinha ido ao Aberlady a procurá-la, como se ambos tivessem algum assunto que discutir. Sentia que suas intenções se abatiam sobre ela como nuvens de tormenta. A profetisa não podia distinguir se aquele homem era seu paladino ou seu inimigo; carecia do dom de Quentin para simplesmente «saber» algo, e desejou de coração poder tê-lo. Esgotada depois da penosa prova do Aberlady e sem poder pensar com clareza pela falta de descanso, não pôde responder a nenhuma das perguntas que a assediavam. O único desejo de verdade era um lugar onde tombar e dormir.

A densa abóbada do bosque deixava passar só um pouco de luz, de modo que o caminho se via verde e em penumbra. Isobel ouvia o constante caminhar dos cavalos, o gorjeio dos pássaros lá no alto e o vento assobiando entre os ramos. Eram sons tão suaves, pacíficos e monótonos que esteve a ponto de adormecer sobre o cavalo. Depois de sacudir-se um pouco, recostou-se contra Geordie e olhou ao redor. A um lado do atalho começava uma larga pendente coberta de árvores. A suas costas viu um brilho prateado entre os troncos. Enjoada e cansada como estava, e lenta de reflexos, não se deu conta até que foi muito tarde de que o que tinha visto era o reluzir de uma armadura.

Um instante depois ouviu o rápido zumbido de uma flecha e sentiu o forte impacto contra o corpo de Geordie. O jovem se inclinou bruscamente sobre ela, lançou um grito e caiu de improviso ao chão.

Isobel chiou e se voltou, estendendo as mãos instintivamente, mas Geordie tinha desaparecido sob os cascos do cavalo. Foi tudo tão rápido que apenas se deu conta do que estava ocorrendo: os homens que a rodeavam começaram a gritar e fizeram voltar suas montarias. Viu o sério semblante de Eustace passar a sua frente por um instante, viu Henry Wood esticar seu grande arco e viu James virar e voltar para galope, enfurecido, levando a mão às costas para agarrar sua espada.

Outra flecha assobiou entre as árvores e roçou seu cavalo no flanco. Tratou de agarrar as rédeas e fazê-lo voltar, mas o animal relinchou e empinou, o que quase a fez cair ao chão. Isobel se agarrou desesperadamente à crina com as duas mãos, a tempo do cavalo cair sobre suas patas dianteiras, sacudindo-a violentamente. Mas em um impulso de músculo e força, o grande cavalo de guerra saltou para frente.

 

Gritos furiosos, impactos das flechas ao se chocarem em seus objetivos e o ruído metálico do entrechocar do aço foram os sons que ouviu às suas costas, entre as árvores. Isobel encontrou as rédeas com a mão esquerda e as puxou com desespero. O cavalo desobedeceu a ordem e continuou galopando pelo atalho, levando-a para outra parte do bosque. Ela se dobrou para frente para evitar golpear-se contra os ramos baixos quando o semental virou bruscamente para a esquerda e se lançou através das árvores.

Por fim, o cavalo diminuiu o passo e se deteve em meio de um grupo de frondosos carvalhos. Suas patas ficaram escondidas entre as samambaias verdes, e seus flancos se agitavam úmidos de suor. Isobel se inclinou sobre o cangote do animal, tremendo de cima a baixo e com o coração lhe retumbando no peito. O braço ferido lhe produziu uma aguda dor ao tratar de fazer voltar o cavalo com um forte puxão. O semental se negou a mover-se, embora ela insistisse, enrolou-lhe, pressionou com os joelhos, inclusive suplicou lacrimosa. Frustrada, encurvou-se esgotada sobre ele. Em meio daquela quietude, ouviu o som do vento balançando os ramos e o trilar dos pássaros. Mas não captou som algum de uma escaramuça.

Dolorida e sem saber onde se encontrava, permaneceu sentada e confusa sobre um cavalo que possuía uma vontade mais forte que a sua. Incapaz de mandá-lo sentiu-se muito fraca para desmontar e atendê-lo devidamente. Acariciou o largo pescoço do animal, falou-lhe com calma e tentou fazer que desse a volta, mas o semental se moveu obstinadamente em círculo e começou a mordiscar a erva sob uma árvore.

Isobel lançou um suspiro e olhou ao redor. Encontrava-se em uma larga pendente coberta de árvores e maleza. O atalho que atravessava o bosque ficava fora da vista, e a luz tinha começado a diminuir. Cada vez mais alarmada, provou outra vez com as rédeas. O cavalo relinchou, inclinou a cabeça, e simplesmente se negou a mover-se. Ela atirou com força das rédeas, agitou-se sobre o lombo, cada vez mais perto de perder os nervos em seu intento de fazer girar ao animal.

-Calma, moça - disse uma voz tranqüila e profunda, tão familiar que Isobel experimentou uma súbita sensação de alívio. - Está tão cansado como você. Lhe dê tempo, e fará o que você queira.

Isobel se girou rapidamente e viu James Lindsay apoiado contra uma árvore, observando-a com uma expressão divertida no rosto. Nas sombras cada vez mais profundas, parecia confundir-se com o bosque que lhe rodeava, uma figura larga e magra vestida de cor verde apagada e couro, forte e reto como um carvalho.

-James! Oh, James! - exclamou Isobel impulsivamente. Era tal o alívio que sentia ao lhe ver ali, e ileso, que os olhos lhe encheram de lágrimas. Levou rapidamente uma mão à face quando ele pôs-se a andar para ela. - Onde estão outros? - perguntou-lhe. - O que aconteceu? Atacaram-nos os ingleses?

-Sim. Nossos homens lutaram bem e lhes afugentaram - elevou uma mão para acariciar o pescoço do corcel ao tempo que lhe murmurava algo brandamente. Depois se agachou para examinar o flanco, onde a ponta da flecha tinha feito um pequeno corte que sangrava ligeiramente. - Está ferida?

-Não. O cavalo se desbocou. Não podia detê-lo, e tampouco podia encontrar o atalho. Parece-me que não pude evitar me perder.

-Agora já está a salvo - retornou à cabeça do cavalo e lhe acariciou brandamente o focinho, lhe falando em voz baixa.

-Como se encontra Geordie? - perguntou Isobel. Ele fez uma pausa antes de responder.

-Está ferido gravemente. A flecha lhe alcançou as costas. Eustace se ofereceu para levá-lo ao Stobo, diz que o sacerdote ajudará o moço. Henry Wood se foi com eles.

Isobel assentiu.

-Bem. E onde estão os outros?

-Patrick e Quentin seguiram os ingleses para averiguar a que patrulha pertenciam. Não acredito que fossem ingleses vindos do Aberlady, mas cabe essa possibilidade. A maioria de seus homens lhes acompanhou - aproximou-se um pouco mais e apoiou uma mão no cangote do semental.

- Isobel - murmurou. - Dois homens da guarnição do Aberlady morreram. Sinto muito. Eustace disse que eram primos dele.

Isobel lançou uma exclamação.

-Thomas e Richard Gibson?

-Sim. - Sua mão acariciava brandamente ao cavalo, enquanto que seu olhar estava fixo nela. Isobel viu um profundo pesar em seus olhos. - Eustace e Henry vão levar seus cadáveres ao Stobo, junto com Geordie.

Isobel assentiu de novo. As lágrimas lhe queimavam os olhos e teve que apartar a vista, invadida por uma profunda tristeza.

-Thomas e Richard lutaram bem no Aberlady, só para perder a vida depois de... depois de escapar.

James passou seus largos dedos pelas crinas do cavalo.

-Em ocasiões, a vida é amarga – murmurou. - Temos que ter fé em que um dia volte a ser doce.

-Sim - sussurrou Isobel. Os dedos do James roçaram os seus, quentes, secos e fortes, e apertaram sua mão por um breve instante.

-Eustace há dito que conhecem o sacerdote do Stobo.

Isobel afirmou com a cabeça.

-O padre Hugh foi o sacerdote do Aberlady durante toda minha vida. O se ocupará de que Thomas e Richard recebam o devido respeito, e também se ocupará de Geordie.

-Bem.

Deu um passo para um lado e montou de um salto detrás do Isobel em um só movimento ágil e rápido. Sentiu seu torso quente contra as costas, seus braços a rodearam, e suas largas coxas se apertaram contra os dela. Quando estendeu as mãos por diante para tomar as rédeas, Isobel se permitiu recostar-se contra ele, apoiar-se em sua força.

James esticou as rédeas e ordenou ao cavalo que desse a volta. O animal reagiu facilmente à ordem e os levou ladeira abaixo, em direção ao atalho.

-Retornaremos ao lugar onde deixei meu cavalo - disse James. - Encontra-se bem o bastante para cavalgar? Logo se fará noite, e a viagem será dura a partir de então.

-Posso continuar - para falar a verdade, sentia-se enjoada e débil, e não sabia se poderia cavalgar outros três metros. A proximidade do James lhe infundia tranqüilidade, ao igual a sua atitude amável para ela. Naquele momento não poderia suportar que lhe mostrasse a frieza de antes. - Stobo não está longe.

-Stobo? Não nos dirigimos para lá - sua voz vibrou grave e melosa em seu ouvido, suscitando um estranho eco no mais fundo de seu corpo. - Você e eu vamos a outra parte.

-Mas... certamente haverá ficado de reunir-se com Eustace no Stobo - balbuciou Isobel, girando-se para olhá-lo.

Ele sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

-Poderia haver ingleses patrulhando toda essa zona. Já é bastante perigoso voltar a procurar meu cavalo. Não penso me arriscar a sofrer outro ataque indo ao Stobo. Dirigimos-nos para o sul, ao coração do bosque do Ettrick, seguindo o caminho que levávamos esta manhã antes da emboscada. Levá-la-ei a casa de minha tia; vive ao outro lado do rio, no bosque.

Isobel olhou-o alarmada.

-Mas eu tenho que ir ao Stobo. Eustace prometeu me levar ali. Agora devo pedir isso a você. Não tenho outro local aonde ir, nem lar, nem família próxima.

-Tem algum parente que queira acolhê-la? - James falou com dureza. Ela se voltou pela metade, desconcertada por sua pergunta, e chegou à conclusão de que ele também tinha tratado de procurar algum lugar adequado a que levá-la.

-Meu pai se encontra na prisão, e minha mãe está morta - disse em voz baixa. - Não tenho irmãos. Mas tenho vários tios da família Seton que vivem no Fife, e primos em Edimburgo. Minha mãe tem uma irmã no Jedburgh. Mas nem conheço toda essa gente, mesmo assim, suponho que vocês poderiam me levar junto a algum deles.

-Esses lugares estão muito longe - replicou ele asperamente.

Isobel piscou, surpreendida por seu inesperado rechaço. Sua atitude se endureceu de novo, e ela não sabia porquê. Franziu o cenho.

-Stobo é o que está mais perto - raciocinou. - O padre Hugh me acolherá.

-Não penso ir ao Stobo. - No espaço de algumas batidas do coração, James havia tornado a converter-se em pedra.

Isobel lançou um suspiro.

-Então me levem ao castelo do Wildshaw - disse-lhe. - O guardião dessa fortaleza me ajudará, embora vocês não queiram.

Sentiu como aumentava a tensão da forte mão que lhe rodeava a cintura.

-Esse lugar está para o oeste, mais à frente do bosque, várias horas a cavalo daqui.

-O guardião desse castelo é sir Ralph Leslie. Ele me ajudará. Se vocês não querem me levar ao Stobo, então vos rogo que me escoltem até o Wildshaw.

-Leslie - repetiu James em tom inexpressivo. - É seu prometido.

-Em efeito - admitiu Isobel. - Como é que você sabe disso?

-Ouvi dizer. Leslie é um cavalheiro escocês que trocou sua lealdade... Quantas já? Duas? Três?

Isobel notou o fio daquele tom e franziu o sobrecenho.

-Muitos escoceses juraram obediência ao rei Eduardo. Sir Ralph é um digno cavalheiro que está unido por laços de família tanto a Inglaterra como a Escócia. Ele diz que esta é uma guerra complexa, e procura manter-se neutro.

Lindsay se pôs a rir, uma risada breve e dura. Embora não amava de verdade ao Ralph Leslie, Isobel estalou de cólera.

-Conforme dizem, você mesmo trocastes sua... - começou.

-Você não sabe nada de minha lealdade - espetou-a. - Quando pensa em se casar com esse modelo de virtudes?

-Sir Ralph e meu pai queriam que as bodas se celebrassem na Festa da Colheita, faz umas semanas, mas...

-E você? Quando quer você?

Nunca, pensou Isobel intimamente.

-Não houve bodas porque meu pai se encontrava cativo dos ingleses, Aberlady já estava sofrendo o cerco e sir Ralph tinha ido em busca de meu pai.

-Boas razões para cancelar umas alegres bodas - disse James, arrastando as palavras.

Ao Isobel não gostou daquele lado frio e sinistro dele, nem tampouco a atitude que percebeu em sua voz.

-Não compreendo por que não quer me ajudar nisto - disse com cuidado. - Pode ser que tenha algo a ver com a tutela e com sua lealdade, qualquer que seja, mas devem recordar que eu também tenho lealdades e desejos.

-E quais são? - perguntou ele em tom calmo.

-Quero voltar a ver meu pai - respondeu Isobel. - Pode ser que nestes momentos se encontre no Wildshaw. Sir Ralph me prometeu, antes que começasse o assédio, que lhe resgataria das masmorras inglesas.

-E sua lealdade?

-Sou leal a meu pai.

James lançou um suspiro.

-Estão a favor da Inglaterra ou de Escócia?

-Eu sou escocesa - respondeu Isobel elevando o queixo, segura de que com essa frase responderia a qualquer pergunta sobre a lealdade.

- Está prometida a um escocês leal a Inglaterra.

Isobel apartou o olhar dele. O tema de seu compromisso levava meses confundindo-a e atormentando-a.

-Farei o que diga meu pai - disse em voz baixa. - E quero estar com ele, se for livre. Estou segura de que entende.

-Entendo-a - respondeu James. - E imagino que também deseja estar com seu prometido.

Isobel suspirou.

-Preciso ser acolhida em alguma parte, James Lindsay. A gente do Wildshaw me proporcionará proteção. Por favor, me levem ali.

-Antes lhes levaria a sua tumba - grunhiu ele.

Isobel sentiu que um calafrio lhe percorria as costas, e se voltou para lhe olhar. Seus olhos pareciam duros e frios como o aço.

-Por que fala de sir Ralph com tanta veemência? - perguntou-lhe.

-Porque Wildshaw - respondeu ele com calma. - Pertence-me. Isobel olhou-o, surpreendida.

-Mas o Rei inglês nomeou sir Ralph capitão dessa fortaleza... Ralph não lhe arrebatou isso.

-Em outro tempo pertenceu aos Lindsay. Eu a herdei à morte de meu irmão. Não apartou a vista de frente. Os ingleses tomaram.

-Entendo - disse Isobel. - De verdade. Não quero incomodá-lo obrigando-o a ir ali, mas não tenho outro refúgio. Se me levarem nessa direção, eu mesma poderei encontrá-lo.

-Nada disso - respondeu ele simplesmente. - Não penso fazer tal coisa.

Isobel girou a cabeça para ele, carrancuda, mas Lindsay seguiu olhando em frente. Suspirou, desconcertada, e se voltou outra vez.

Depois de alguns momentos viu o cavalo negro preso a uma aveleira. James desembarcou de um salto, montou o cavalo negro e se colocou ao lado de Isobel. Levava o pequeno saco com sua roupa, que tinha transportado Eustace todo o tempo, preso à parte posterior da sela. Sem pronunciar uma palavra, agarrou as rédeas do semental para guiá-lo junto com seu próprio cavalo.

De novo avançando pelo atalho, Isobel tratou outra vez de lhe persuadir de que a levasse ao Stobo.

-Eustace e o padre Hugh me ajudarão. Você se libertará de mim, e eu estarei segura com eles.

-Já está segura agora - replicou ele. - Comigo.

-Age como se fosse sua refém - um repentino medo fez que lhe tremesse a voz.

-Isso é exatamente o que é.

Audazes palavras, pronunciadas com serenidade. Seu olhar era duro e neutro, e sua mão sujeitava fortemente as rédeas do cavalo do Isobel. A moça sentiu que o coração lhe acelerava igual a uma criatura selvagem encerrada em uma jaula, mas levantou o queixo para dissimular seu pânico.

-O que quer dizer? Não está falando de pedir resgate por mim? Agora possuo escasso valor como herdeira, com o Aberlady destruído.

-O valor que têm para mim não tem nada que ver com o Aberlady.

-Então, o que...? - de repente conteve a respiração. - O rei Eduardo quer me levar a sua presença. Por isso vieram ao Aberlady! Propôs-se me escoltar até o rei, e tirar proveito você mesmo em forma de dinheiro, terras e privilégios!

-Se essa fosse minha intenção - replicou Lindsay – a teria tirado do Aberlady pela porta e a entregado aos ingleses, e assim me teria economizado a moléstia de descer por um precipício em plena noite.

-Então, o que é o que quer de mim? - quis saber Isobel. A fúria e o medo fizeram que reagisse. Deu um puxão às rédeas. - Não pode me levar aonde eu não quero ir!

Ele não soltou a rédea.

-Isobel - disse-lhe sem animosidade: - De momento, só quero levá-la aonde possam cuidar devidamente de suas feridas.

-E depois me trocará aos ingleses por dinheiro!

James elevou uma sobrancelha.

-Se resultar em ser uma hóspede pesada, a entregarei em troca de nada.

-Ah, de modo que sim, têm intenção de me trocar! - exclamou ela, atirando das rédeas para trás.

-É possível - repôs ele, agarrando as correias com força. Isobel se sentiu invadida pelo pânico.

-Por que? Eu não te fiz nada! Ao princípio me trataram com amabilidade. Não entendo-o!

-Tem que me entender, por acaso? - perguntou exasperado.

-Sim - respondeu Isobel. De repente desejou intensamente conhecê-lo; o que pensava, seu passado, seus sentimentos. O coração pulsava enlouquecido, em uma mescla de fascinação e medo. - Sim! Por que está fazendo isto? O que quer de mim?

Ele deixou escapar um suspiro.

-Não podemos ficamos aqui, Isobel. Vamos. – Puxou a rédea, mas ela a segurou obstinadamente.

-Quando estava ferida se mostrou muito amável comigo - disse-lhe em uma corrente de palavras que se ia acelerando conforme aumentava sua ira. – Deu-me tempo no jardim de minha mãe para me despedir. E estava segura de que lamentava atear fogo ao Aberlady.

-E assim foi. Solte a rédea.

Isobel não queria soltá-la, embora para segurá-la tivesse que fazer uso de todo seu peso e toda sua força.

-Isto vai contra as normas de cavalaria. Pensava que sentia certa amabilidade para mim!

-E eu pensava que fosse uma moça doce e bem educada - murmurou ele, irritado. Em silenciosa luta, puxou a tensa correia de couro que lhes unia. - Solte a rédea. Não quero fazê-la cair no chão; isso sim que seria pouco cavalheiresco.

Isobel seguiu segurando seu extremo da rédea embora lhe doesse o braço ao fazê-lo. O cavalo se moveu nervoso.

-Não será capaz.

-É claro que sim – puxou uma vez mais, provocando que ela se inclinasse para frente, mas relaxou a mão e lançou um suspiro. - Está bem, não o farei - admitiu, mas não soltou a rédea. – É mais teimosa que esse cavalo. Não sei se tem noção do perigo, para perder o tempo aqui conversando.

Ela continuou, acalorada, sem fazer caso de seu raciocínio; não via a necessidade de obedecer à lógica naquele preciso instante. Seu mau gênio, que estranhas vezes se inflamava até aquele ponto, estava em plena explosão.

-Quis pensar bem de você - disse com os dentes apertados ao tempo que puxava da rédea. - Embora se diga que o Falcão da Fronteira é um maldito traidor. Mas ao longo do dia me tratou muito friamente. E agora me trata como a uma refém, e não sei porquê. Quando descemos o precipício juntos, acreditei que os rumores a respeito de vocês estavam equivocados, mas agora penso que talvez tenham muita razão!

-Pensa muito você – comentou, lhe dirigindo um olhar grave. - Vamos.

-Não - olhou-o furiosa. O que ganhará me retendo? Diga-me porquê, ou do contrário não me moverei do lugar. Prefiro ir com os soldados ingleses antes que com você. Antes preferiria estar perdida neste bosque que ir com você!

Sabia que aquela explosão soava a menina irritável e malcriada, mas era o melhor que soube fazer. As confrontações não eram seu forte, e nunca tinha conhecido a um homem com semelhante força de presença. Tinha escassa experiência em resistir à vontade de outra pessoa mediante sua própria força de vontade... até o cerco.

Mas não lhe faltava determinação, e as semanas de cerco lhe tinham ensinado habilidades que até então não tinha, e às que recorreu agora. Compôs uma expressão de pétrea fúria e seguiu segurando a rédea por pura teimosia, embora lhe doesse o braço e lhe tremesse todo o corpo.

-O que irá ganhar com isto? - repetiu.

O olhar dele se voltou tormentosa, profunda e sinistra.

-Você, Isobel, a Negra - disse com toda intenção – é a única esperança que tenho para obter a liberdade de uma pessoa. Tenho a intenção de lhe trocar por uma vida.

-Me trocar? - Isobel lhe olhou boquiaberta, assimilando com muita dificuldade o que a estava dizendo. - A quem? Por quem?

-Ralph Leslie tem prisioneiro meu parente no Wildshaw - respondeu James.

Ela piscou, atônita.

-Ali não há prisioneiro, nenhum!

-Sim o tem. Quero que devolvam essa pessoa ilesa. Confio que Ralph aceite trocar uma mulher por outra.

-Uma mulher? - chiou Isobel. - Jamais teria aprisionado uma mulher. A diferença de você!

James a olhou longamente.

-Pois a tem. E dentro de pouco lhe farei saber que eu tenho a você. Então, lady Isobel - disse com suavidade - os dois obteremos o que procuramos neste assunto. Você quer ir com sir Ralph, mas será nas minhas condições.

-Carece de toda honra - espetou-lhe ela.

-Isso dizem de mim. Vamos. - Puxou as rédeas.

Isobel puxou para trás com tanta força que acreditou que a correia estirada se romperia e que o braço lhe sairia de sua articulação.

-Por que me faz isto? - perguntou ofegante. - Eu não te fiz nada! Se tem uma disputa com Ralph Leslie, não é por minha culpa. Solte-me! - explorou frustrada.

Mas ele não obedeceu.

-Não lhes guardo rancor - disse firmemente. - Mas sabe muito bem o que me têm feito.

-Acaso queimei seu castelo ou roubei sua liberdade, como você tem feito comigo? -elevou a voz até terminar gritando.

Ele elevou uma mão com a palma aberta, em um gesto para impor silêncio rapidamente.

-O que disse trouxe a mim a menor possibilidade de paz que tinha na vida. O que disse sujou meu nome e deu lugar a tudo isto.

Ela o olhou um instante.

-Refere-se a uma de minhas... minhas visões?

James assentiu com a cabeça.

-Sim. Sabe muito bem o que disse de mim.

Ela piscou, aturdida.

-Não sei nada.

-Sabe muito mais que nada - respondeu ele asperamente.

-Mas não recordo o que prevejo. Se tivesse ouvido a profecia, saberia melhor que eu quais foram minhas palavras.

Ele soltou um bufo.

-Quem ordenou que dissesse aquilo a respeito de mim e do Wallace?

-Wallace... -interrompeu-se com o coração desbocado. Durante muito tempo se esforçou por recordar uma só predição; agora sabia do que estava falando Lindsay. - Ninguém me ordenou que dissesse nada. Vieram-me as palavras sós à mente.

-Sabem o dano que causaram suas palavras? - rugiu ele. Isobel viu o retumbar do trovão em seus olhos.

-Jamais foi minha intenção causar dano com minhas profecias - disse-lhe. Aquela idéia a transpassou com uma aguda dor. - As esqueço imediatamente depois de dizê-las. Sinto muito que algo que proveio de mim tenha causado danos a você e aos seus. Eu quero que minhas predições ajudem às pessoas - olhou-o com verdadeiro arrependimento. Talvez isso lhe trague alguma sensação de paz.

-Duvido - murmurou ele. Puxou com tal força da correia de couro que Isobel, em um momento de distração, soltou-a. Seu cavalo pôs-se a andar seguindo o de James. Ela se deixou levar, como um bote amarrado com uma corda avançando através de uma tormenta.

-Se Ralph retiver efetivamente a sua amante no Wildshaw - disse após alguns minutos - então deixe que eu vá ali e lhe peça que a deixe em liberdade. Assim os dois teremos o que queremos, sem todo este alvoroço de resgates e discussões.

-Não voltaremos a falar disto no momento - replicou ele por cima do ombro. - Esperarei até que tenha descansado e esteja menos irritável.

-Irritável! Você é o que tem má vontade aqui.

Lindsay não disse nada e seguiu de costas a ela. O passo regular dos cavalos encheu o silêncio. Isobel lhe contemplou durante longo momento, vendo tão somente suas largas costas, a potência de seus braços e de suas coxas, as formosas nervuras douradas que se entrelaçavam em seu cabelo... e a invisível couraça de ferro que parecia dar forma ao mais profundo de seu ser. Recordou suas palavras amáveis, seu quente contato. Tudo aquilo estava irremediavelmente perdido entre eles. Embargou-a um sentimento de decepção que lhe doeu como se a tivessem traído.

-Acreditei que podia confiar em você - disse. - Estava equivocada.

-Não é a primeira pessoa que diz isso de mim - repôs ele. Apertou os joelhos para insistir ao cavalo a partir a um galope ligeiro, arrastando detrás Isobel. Ela se aferrou das crinas do cavalo e olhou furiosa às costas de James enquanto se concentrava em conservar o equilíbrio ao ritmo que marcava ele.

Um profundo cansaço, intensificado pelo medo e a raiva, foi caindo como o chumbo sobre seus ombros. Enquanto cavalgavam, sentiu-se cada vez mais esgotada para pensar sequer em discutir com o Lindsay. Deixou-se levar levemente em sonhos, com o corpo inteiro dolorido pela fadiga, feridas ardendo, as idéias e as emoções envoltas em uma espessa névoa. Quando James diminuiu a marcha para lhe passar em silêncio uma bolacha de aveia que tirou de uma bolsa que levava a cintura, não agradeceu; limitou-se a comê-la com expressão vazia, sem saboreá-la.

O céu já estava quase escuro de tudo quando chegaram a uma estreita ponte de madeira que cruzava um rio. A umidade do ar e o fervo alegre e encaracolado de espuma da corrente reanimaram seus sentidos, e atravessaram a ponte guiando seus própria arreios. Logo se afastaram do rio e enfiaram-se em um páramo, depois do qual penetraram a fundo no bosque. As árvores pareceram engoli-los com sua frondosa penumbra. James diminuiu o passo, pois só uns fachos chapeados de lua iluminavam o atalho de terra, mas se dirigiu de frente todo o tempo, como se fora capaz de ver na escuridão da noite, como se conhecesse aquele caminho com os olhos fechados.

Isobel franziu o cenho ao pensar nisso. Seu penoso estado - físico, mental e emocional - foi piorando à medida que os cascos dos cavalos avançavam lentamente. Não queria seguir cavalgando; não queria ser o refém daquele proscrito que a tirava do eixo; não queria seguir suportando a dor e a fadiga. Naquele momento, nem sequer lhe importava recuperar sua liberdade. O único desejo de verdade era descansar e, coisa estranha, que fosse abraçada e tranqüilizada como se fosse uma menina. Sua mente logo que alcançava a imaginar outra coisa que não fora o simples desejo de que alguém se ocupasse dela, como seu pai ou sua mãe, ambos desaparecidos por diferentes motivos. James Lindsay não parecia muito disposto a lhe oferecer consolo algum nunca mais.

As lágrimas acudiram uma e outra vez a seus olhos, e ela as enxugou. Por fim deixou que escorregassem em silencio por suas bochechas, muito esgotada para contê-las por mais tempo. Escapou-lhe um profundo e úmido soluço afogado, que fez que James voltasse à vista para ela. Abriu a boca como se fora a dizer algo, mas se voltou de novo com a mandíbula fortemente apertada.

Quando chegaram a uma bifurcação do caminho e giraram para a esquerda, Isobel proferiu um leve grito involuntário e se desabou para frente, rendida pelo cansaço. Apenas se deu conta, nem lhe importou, se caiu no chão ou se alguém a desceu do cavalo. Quão único queria era dormir.

O último som que captou foi a voz de James murmurando seu nome. A última sensação que experimentou, antes de fundir-se em um negro vazio, foi o calor de sua mão na bochecha.

 

Ki-ki-kir.

Uma luz perolada se filtrava entre as folhas das árvores quando James abriu os olhos. Seguro de ter ouvido perto o chiado de um falcão, esquadrinhou a clareira no que tinha acontecido a noite, mas não viu nada no alto nem entre os mastreie. Então olhou para baixo.

Isobel jazia junto a ele, no chão, envolta na capa que lhe tinha emprestado. Ele tinha cochilado com as costas apoiada no largo tronco de um carvalho. Uma robusta raiz, coberta com sua capa, serviu de travesseiro para ela e de apoiador para ele. A moça dormia profundamente, enroscada contra sua coxa, serena e encantadora. Mas seus suaves roncos criavam um contraste tão terrestre que James sorriu levemente.

Recordou com tristeza que seu irmão maior roncava do mesmo modo na cama que ambos compartilhavam de meninos. James lhe cutucava e empurrava para que fizesse silêncio, e seu irmão estava acostumado a lhe corresponder com um contundente tapa antes de virar para o outro lado.

Ao pensar em seu irmão, morto na sangrenta e trágica batalha do Falkirk sete anos atrás, perdeu o sorriso e apertou os lábios.

Ki-ki-kir.

Ouviu outra vez o inconfundível grito de um falcão. Mas era bem mais um chiado frenético que o grito nítido e prolongado de uma ave em pleno vôo. Para seus ouvidos bem treinados, o falcão parecia encontrar-se em apuros. James se ergueu, tomando cuidado de não despertar Isobel, e voltou a percorrer a clareira com o olhar, mas não viu nenhum falcão.

Isobel lançou um comprido e sonoro suspiro. James lhe tocou brandamente o ombro. Ela inalou e deixou escapar outro ronco. Tocou-lhe uma bochecha, suave como uma pétala de flor, mas firme sob a ponta de seus dedos, e ela girou a cabeça. O movimento tornou silenciosa sua respiração. Apoiou a mão no ombro dela e continuou esquadrinhando o claro, procurando o falcão.

Tinha cochilado sem dormir profundamente, mas se sentia acordado. Os anos que levava vivendo como um renegado no bosque lhe tinham ensinado a descansar permanecendo alerta, com as armas perto da mão. Nas semanas que tinham transcorrido da captura do Wallace e desde que seu nome se converteu em anátema, aquela habilidade lhe tinha servido de muito.

Inclinou a cabeça para trás para observar a densidade da folhagem das árvores, perfurado por brilhantes fachos de luz. Ao amanhecer, o bosque estava dormido e em silêncio, e os sons se transmitiam com grande clareza. Captou o murmúrio suave e regular de um arroio próximo, o rumor das samambaias ao agitar-se pelo passo de alguma pequena criatura, e um leve bater de asas entre as folhas.

Que estranho. Franziu o cenho e voltou a olhar ao redor. Seus olhos, mais agudos que os da maioria, estavam tão adaptados ao bosque como seu ouvido. Um punhado de cotovias sulcou o céu da manhã, um sinal seguro de que havia um falcão perto, inclusive sem o chiado que tinha percebido antes. Caso se tratasse de um falcão adestrado e não de uma ave selvagem, também haveria caçadores perto. Preocupado, olhou Isobel e a tocou no ombro para despertá-la, embora soubesse que precisava dormir. Ela gemeu e se virou. Sentiu o corpo firme e quente contra sua perna, e sua bochecha, suave como uma rosa ao sol, esfregou-se contra sua mão. Aquela sensação lhe estendeu por todo o corpo, lhe chegando até a virilha. Retirou a mão, mas transcorreram vários instantes de tensão antes que a sincera reação de seu corpo se acalmasse.

O falcão chiou de novo desde algum ponto próximo à clareira. James franziu outra vez o cenho e jogou o cabelo para trás em um gesto de exasperação. Isobel e ele tinham que montar de novo seus cavalos, e às pressas. Os caçadores podiam ser ingleses ou escoceses, e estariam desejosos de capturar a um proscrito dos bosques e a uma profetisa, como presas dessa jornada de caça.

Decidiu certificar-se antes de despertá-la. Quando começava a afastar-se dela, Isobel gemeu e se aproximou um pouco mais, lhe apoiando uma mão na coxa. Todo seu corpo se estremeceu com aquele súbito contato. Agarrou a mão da moça, delicada e de finos ossos em seus largos dedos, e a pôs a um lado. Ela se aconchegou contra ele. James lançou um pesado suspiro e ficou contemplando-a. O esgotamento total tinha feito que se desabasse a noite anterior, e ele sabia. Lamentava ter forçado tanto a vitalidade da moça, e também sua teimosia. Deveria ter acampado muito antes que ela caísse do cavalo. Felizmente, conseguiu apanhá-la antes que se fizesse mais dano, e descobriu a pequena clareira aonde eles e os cavalos puderam descansar seguros.

O tempo tinha discorrido de forma inexorável até o amanhecer. Agora teriam sorte se chegassem a casa de sua tia antes que o sol estivesse alto. Suspirou outra vez, consciente de que todos os planos que tinha feito a respeito de Isobel se alteraram inesperadamente, desde o primeiro momento em que avistou o castelo do Aberlady e se deparou com um cerco. Tinha esperado que a profetisa fosse uma mulher dura e malévola, mas para consternação dela, o valor e a atitude amável de Isobel fazia que lhe resultasse difícil recordar friamente quem era e o que tinha feito.

Sutil mas seguro, seu corpo se endurecia e seu coração se abrandava cada vez que estava perto dela. Não podia ignorar facilmente o encanto de seus olhos nem o elegante movimento de sua grácil figura.

Jamais tinha conhecido a uma mulher verdadeiramente irresistível. A única que, de jovem, tinha cativado seu coração era doce e boa, e tinha morrido de uma maneira horrível. Nos anos que seguiram, houveram várias moças que despertaram seu interesse, mas em seguida se saciava aquela fascinação, e seu coração permanecia seguro dentro de sua couraça.

A jovem profetisa lhe enfeitiçava, distraía-lhe, confundia-lhe, e incendiava seu temperamento como se fora uma faísca. E seus deslumbrantes sorrisos, que ofereceu ao Quentin e inclusive ao bruto do Patrick, mas não a ele, fizeram-lhe ferver com um ciúme ao qual não estava acostumado. E a noite anterior, seus soluços de solidão e esgotamento lhe atravessaram a alma. Não estava contente consigo mesmo por ter tornado as costas, pois pouco depois ela se desmoronou.

Sacudiu a cabeça levemente enquanto a contemplava, perguntando se teria conhecido uma mulher a qual não podia resistir. Possivelmente juntos formassem uma dessas estranhas combinações da alquimia das que tinha ouvido falar fazia tempo e que postulavam algumas teorias, essa especial união das duas naturezas, homem e mulher. Só Deus sabia o que outra coisa podia ser. Fez uma careta ao pensar de novo no irônico da situação: sentia uma atração extraordinária para a profetisa do Aberlady. Se sucumbisse ao efeito que ela exercia sobre ele, poria em perigo sua única possibilidade de salvar Margaret e de vingar-se do que tinham feito a seu camarada, a seu clã, a sua reputação; mas para fazer isso, precisava conservar a cabeça fria e os sentimentos mais frios ainda.

Isobel exalou um suspiro, e o cabelo lhe deslizou sobre a bochecha como um véu de seda negra. Ele o separou da cara, deixando que a mão se entretivera um pouco mais em sua cabeça. A moça estava belamente formada, era delicada e forte ao mesmo tempo. Por sua mente cruzaram pensamentos de prazer e de paz. Retirou a mão da cabeça cálida e acetinada da jovem e a apoiou contra a fria raiz da árvore.

Ki-ki-kir.

James levantou a vista. Esta vez tinha se revelado muito perto. Separou-se do Isobel com cuidado e ficou de pé. Continuando, escondeu-se entre a vegetação e entre as árvores para dar uma olhada.

De novo ouviu gritar o falcão. Por cima de sua cabeça viu balançar ramos mais altos de um enorme carvalho e ouviu um frenético bater de asas. Rodeou a nodosa base da árvore, sem deixar de olhar para cima, e então descobriu o rapaz através da frondosidade da taça. A ave se debatia em seu cabide, agitando as asas e gritando de maneira intermitente. James conseguiu distinguir correias de couro de cor marrom, as guarnições, enroladas ao redor do ramo.

Rapidamente se agarrou a um ramo da árvore e se içou, começou a subir com cautela sem tirar olho ao falcão, cujas plumas cinzas e esbranquiçadas, com finas raias, e as claras manchas brancas que mostrava por cima de cada um de seus brilhantes olhos roxo-dourados lhe indicaram que se tratava de um azor macho, ainda não completamente adulto.

-Tranqüilo, isso - disse-lhe em voz baixa à medida que se ia aproximando. - Calma, pequeno, calma - sabia que o som tranqüilo de uma voz masculina podia acalmar a um falcão domesticado. Enquanto falava se foi deslizando para cima pouco a pouco, devagar e com cuidado de não assustar ainda mais à ave.

As guarnições do azor - duas correias, cada uma de vários centímetros de comprimento, maçã e umas rodelas de couro com uma abertura que lhe rodeavam as patas – enrolaram-se em um ramo, provavelmente ao posar nela. James observou com surpresa que não levava cascavéis nas patas. Talvez o falcoeiro lhe tivesse tirado o costume das cascavéis para que o rapaz pudesse voar silenciosamente em busca de aves aquáticas, e tinha-se extraviado. Se levasse postas as campainhas, seu dono talvez já a tivesse encontrado.

Ao aproximar-se um pouco mais, o azor bateu as asas nervoso e se lançou para trás violentamente, e ficou pendurando de barriga para baixo, batendo as asas. Apanhado sem remédio por suas guarnições, o ave podia causar danos às asas, ferir-se ou inclusive morrer. James se sentou agarrado sobre um grosso ramo da árvore e tirou os cinturões, o normal e o que levava para a espada, e os deixou cair ao chão. A seguir tirou o colete de couro acolchoado, e se desprendeu também da túnica de lã. Ambos os objetos caíram ao chão. Esforçou-se em mover-se muito devagar enquanto tirava a camisa de linho e a jogava sobre um ombro nu. Não queria aproximar-se do azor com o torso nu, pois suas garras podiam ser muito danosas, mas a camisa lhe serviria para apanhá-lo.

Vestido com calças, meias e botas, subiu um pouco mais pela árvore, murmurando em voz baixa palavras tranqüilizadoras. Os anos que tinha passado adestrando rapazes como aquele lhe tinham ensinado a falar em um tom suave e paciente, típico dos falcoeiros, e tinha desenvolvido um modo de mover-se depravado e alerta, habilidade muito necessária tanto para a falcoaria como para os foragidos dos bosques. Quando já estava o bastante perto, estendeu com cuidado a mão para o azor.

A maneira mais rápida de apanhar a uma ave em uma árvore consistia em distraí-la e deslumbrá-la com uma luz brilhante. Mas a falta disso, teria que bastar com uma aproximação lenta. O azor estava enganchado e não podia voar, mas James sabia que poderia literalmente matá-lo de medo. Ao lhe ver tão perto, o azor chiou freneticamente, impotente na posição em que se encontrava, e agitou as asas com fúria. Umas quantas folhas verdes revoaram até o chão, e o ramo da árvore se sacudiu. James se deteve uns instantes e aguardou que o azor se esgotasse. Havia visto semelhantes arrebatamentos em muitas aves amestradas, e sabia que não lhe duraria muito, assim entrecerrou os olhos para examiná-la enquanto a rapaz se ia acalmando. Moveu uma asa de forma desigual; James esperou que aquilo indicasse uma torcedura e não uma ferida mais grave. Ou uma enfermidade.

-Tranqüilo, pequeno - disse quando o ave aquietou as asas. - Calma, precioso - deslizou-se um pouco mais perto.

Rápido e seguro, levou a mão atrás do azor, sob a cauda, e lhe agarrou com força o corpo ente as duas patas. A surpresa do contato fez que a ave ficasse aturdida e imóvel, tal como esperava James.

Os azores capturados em meio da natureza mostravam uma nervosa tendência a ficar inconscientes quando os capturava um ser humano. Os rapazes adestrados, que já não temiam aos humanos, não se desvaneciam tanto. Mas aquela, ao parecer, tinha passado em liberdade o tempo suficiente para retornar ao estado selvagem.

James se tirou a adaga do cinturão e cortou as correias das guarnições. O couro estava seco, gretado e sujo; o azor devia ter escapado de seu dono fazia várias semanas. Levantou com suavidade a cabeça da ave, disposto a dominá-la de novo em seguida, pois não queria lutar com um azor acordado, enfurecido e forte. Sustentou seu corpo inerte em uma mão e lhe deslizou uma manga da camisa sobre a cabeça delicadamente formada, sujeitando com habilidade as asas e o corpo dentro do tecido. Enrolou o resto da camisa ao redor e enfaixou as garras o melhor que pôde. Continuando, com o azor em um braço, olhou para o chão. Isobel se encontrava de pé junto à base da árvore, lhe olhando com a boca aberta e sustentando sua túnica em uma mão.

-O que está fazendo? - perguntou-lhe.

-Resgatando um falcão - respondeu James ao tempo que começava a descer da árvore com cuidado, valendo-se da força de seu braço livre. A metade da descida o ave se agitou, emitiu um chiado e começou a lutar torpemente. James apoiou o peso contra um robusto ramo e lhe murmurou algo para tranqüilizá-lo, lhe acariciando a cabeça e o peito como se fora um bebê o que levava em braços. Enquanto isso, procurou evitar as fortes e temíveis garras de suas patas. Quando a rapaz voltou a esgotar-se, James reatou a descida, alcançou por fim o chão e se ergueu.

Isobel tinha sua túnica obstinada contra o peito e olhava para James com os olhos muito abertos, e então se fixou no curioso vulto que sustentava. Ele não pôde evitar dar-se conta de que os olhos da moça eram igualmente limpos e do mesmo azul claro que o céu da manhã.

-Encontrastes um falcão? - piscou incrédula.

-É um azor. Tinha as guarnições enganchadas na árvore - respondeu James. Ela assentiu com um gesto e se agachou para agarrar o colete de couro, com uma careta de dor a causa do braço ferido, que ainda levava sujeito a um flanco. James tomou o objeto e os cinturões. - Que tal vai sua ferida?

-Dói-me um pouco - respondeu Isobel, baixando a vista.

-Então deve doer muito, para que admita isso - replicou ele. - Deveríamos trocar a bandagem antes de continuar nosso caminho.

-Está bem assim - disse Isobel.

James lhe dirigiu um olhar de dúvida e pôs-se a andar em direção ao claro.

-O que irá fazer com o azor? - perguntou-lhe seguindo-o.

-Não sei, mas não podia deixá-lo aqui para que se morresse.

Deixou a roupa no chão e se sentou no tronco de uma árvore cansado, com os pés ocultos entre as samambaias, sustentando o tremente rapaz sobre os joelhos, e ficou a examiná-lo.

Isobel se sentou no tronco com ele e se inclinou com curiosidade para olhar o azor.

-Meu pai tinha azores na falcoeira. Eram cinza como este, com a mesma banda branca em cima do olho, mas muito maiores.

-Então eram fêmeas - disse James.

-Deixamo-los em liberdade pouco depois de começar o assédio. Eustace queria que comêssemos isso, mas eu lhe roguei que os soltasse.

James a olhou.

-Nas falcoeiras de seu pai havia um azor macho? Porque, nesse caso, este poderia ser uma das aves do Aberlady.

Isobel negou com a cabeça.

-Não recordo um azor tão pequeno.

-Bom, tem que proceder das falcoeiras de alguém - disse James. - Tranqüilo, pequeno. Vamos te olhar bem - com cuidado de evitar as garras, começou a apalpar o corpo da ave com suavidade. - Tem o bucho cheio, porque lhe nota o osso do peito bem acolchoado, de modo que esteve caçando enquanto esteve em liberdade.

-Está seguro de que é macho? Sei pouca coisa a respeito dos falcões, embora meu pai os tivesse. Não estava acostumado a ir pelas falcoeiras, e nunca saí a caçar - inclinou-se um pouco mais.

-Cuidado com as garras - advertiu-lhe James, e ela retrocedeu levemente. - O tamanho é a melhor maneira de distinguir um macho de uma fêmea - explicou. - Este azor é muito menor do que seria a esta idade um que fosse fêmea. Por isso, aos machos os chama terzuelos, um terço menores. - Acariciou as delicadas plumas da cabeça, a única parte que se via do corpo da ave. - Começou a trocar a cor da plumagem do marrom dos jovens à cinza, mas ainda não é um azor adulto.

-É precioso - murmurou Isobel. - E tem os olhos brilhantes, como ouro vermelho. Pode tirá-lo daí?

-Ainda não. O pacote de tecido lhe ajuda a tranqüilizar-se - respondeu James. - Essa cor alaranjada dos olhos significa que ainda não tem dois anos de idade. A próxima primavera, as íris lhe voltarão de uma cor vermelha sangue. - Colocou o azor em posição erguida, e o terzuelo lhe correspondeu com um chiado. - Está bem, moço. Tem um caráter orgulhoso -acrescentou James com uma leve risada. - Não gosta de estar preso em minha camisa.

-Vai ficar com ele ou irá deixá-lo em liberdade?

-Ainda não posso lhe deixar voar. Move a asa esquerda de uma forma um pouco estranha, e me parece torcida na articulação. Espero que não seja mais que uma torcedura. Quando puder voar bem, talvez lhe deixe em liberdade. -Inclinou a cabeça e observou o rapaz. - Embora talvez me fique. Os Açores são muito bons caçando.

-Mas pertence a alguém - disse Isobel. James se encolheu de ombros.

-Possivelmente tenha vindo voando desde muito longe. Eu diria que leva muito tempo em liberdade. Seu dono deve havê-lo dado por morto ou extraviado.

-Vai contra a lei ficar com um falcão adestrado que alguém se encontra - disse Isobel, franzindo o cenho. - Lhe enforcaram por isso.

James a olhou sem alterar-se.

-Se me detiverem, me enforcarão por algo mais que este falcão, e você sabe.

Isobel baixou os olhos e não disse nada.

James acariciou o peito do azor, sem deixar de olhá-la.

-Além disso, essa é uma lei inglesa de falcoaria. Na Escócia não existe tal norma. Crê que as leis inglesas têm que prevalecer em Escócia? - perguntou-lhe brandamente. Ela negou com a cabeça, em um movimento gracioso e inconsciente. James desejou poder acreditá-la. Levantou-se e caminhou uns passos para depositar ao azor sobre o ninho que formava o tecido enrugado de sua capa.

-Bom, pouco importa que me fique - disse, agachando-se de cócoras junto ao rapaz e lhe coçando a cabeça enquanto a ave piava descontente. - Jamais encontraremos seu dono, e eu não tenho a intenção de buscá-lo. Tenho outras coisas em que pensar.

Recolheu seu arco enquanto falava e o levou até o centro da clareira. Uma vez ali, ajoelhou-se, curvou o arco e afundou ambos os extremos na terra do chão.

-O que está fazendo? - perguntou-lhe Isobel.

-Estou fabricando um cabide. Não posso deixar que esse pobre bichinho me olhe assim muito tempo. Não está gostando de ficar assim - retornou junto ao azor, que se agitava e lutava sobre a capa. - Isobel, me ajude caso não se importe - disse-lhe ao tempo que se ajoelhava.

-Sim - Isobel se agachou junto a ele e estirou a mão esquerda para tocar o tremente lombo do azor, enquanto sustentava seu próprio braço direito firmemente sujeito contra o flanco. - O que tenho que fazer?

-Podem mantê-lo quieto com uma só mão?

-Acredito que sim - disse Isobel, ao mesmo tempo em que segurava a ave.

James levou a mão a um tornozelo e começou a desatar uma das correias de couro que seguravam a grossa meia de lã à perna. Quando já havia soltado uma tira larga e reajustado a meia, cortou a correia com a adaga em duas partes, cada um deles de algo menos de trinta centímetros de comprimento.

-Segure com força – disse. - Vou atar-lhe estas correias como guarnições novas, e depois o tirarei da camisa.

Isobel manteve a mão sobre o corpo do azor enquanto James atava as tiras de couro às patas do rapaz. Mais de uma vez teve que apartar a toda pressa os dedos para evitar as agressivas garras.

-Tome cuidado - disse-lhe James enquanto trabalhava. - Pode arranhá-la muito rapidamente. E poderia romper seus dedos sem fazer esforço.

Isobel vigiou, nervosa, o animal, mas não moveu a mão. James apreciou sua valentia com silenciosa aprovação. Seguiu desenrolando a camisa, tomou a magra mão do Isobel e a guiou sob o tecido.

-Segure aqui, por trás dos ombros. Assim, com firmeza.

Enquanto ela fazia o que James lhe indicava, este se desatou a grosa banda de couro que levava no antebraço como amparo ao disparar o arco e a deslocou de modo que lhe cobrisse o dorso da mão. Depois agarrou um dos cinturões que se tirou e o enrolou na mão para proteger o polegar e outros dedos.

-Já que não tenho uma luva de couro – assinalou - isto é o mais que posso fazer. Solte já. Veremos se recorda como tem que voar até o punho. Enrolou as improvisadas guarnições ao redor dos dedos e a seguir começou a retirar a camisa que aprisionava ao azor.

Isobel deu um salto para trás. O azor, ao ver-se livre do tecido, estendeu as asas e se elevou no ar, chiando furioso.

 

-A primeira norma da falcoaria - disse James - é segurar com força.

Estendeu o braço, sentindo a tensão nos músculos do ombro e do peito resistindo a considerável força de ascensão do azor. Este se agitou e bateu as asas violentamente até onde lhe permitia a longitude das correias de couro. James inclinou a cabeça para evitar outro feroz golpe da ponta de uma asa.

-Isobel, em minha bolsa há um pouco de carne cozida. Pode trazê-la e parti-la em partes pequenas?

Ela fez o que lhe indicava, e depois se aproximou cautelosamente sem deixar de olhar ao furioso azor, que se debatia sem cessar. Entregou a carne ao James, e este a pegou com a mão que ficava livre enquanto ela se apressava a afastar-se. O olhar do Isobel, como o dele, estava fixo no frenético animal e em suas largas asas batentes, suas garras curvadas. James manteve o braço estendido pacientemente, embora lhe doessem os músculos pelo esforço de resistir à força do azor. Na outra mão sustentava a carne. Não pensava exercer nenhuma força sobre ele; sabia que a rapaz estava faminto e cansado, e esperava que a atração pela comida fácil e a disciplina do anterior adestramento acabassem impondo-se.

Por fim o azor começou a mover as asas mais devagar e posou sobre o punho de James com uma batida final das asas e arqueando um olho para o homem com uma faísca de ressentimento.

-Ah - disse James, sorrindo. - Aqui está, pássaro teimoso.

-Passou a parte de carne à mão protegida com a banda de couro. O azor a arrebatou imediatamente. - Está cozida, mas não há outra coisa. Agarre-a, isso, e o resto. -Observou como comia-. Ah, olhem, Isobel - disse em um impulso, sorrindo amplamente. - Agarra-se ao punho mais do que eu esperava.

-Deixou de chiar - disse Isobel. - Está domesticado?

-Apenas está cansado e ferido, e me aceita só a contra gosto.

-Ah - repôs Isobel. - Igual a mim.

Ele olhou fugazmente em sua direção e riu a contra gosto. Nesse momento o azor voltou a bater as asas e se lançou ao ar separando do punho, só para ficar pendurando cabeça abaixo movendo as asas.

-O que foi isso? - perguntou Isobel alarmada.

-Uma rabiada. Não é mais que mau gênio. Quer que saibamos que não gosta disto. Os falcões, e em particular os azores, podem ter rabiadas uma ou outra vez, como um menino malcriado. Um falcoeiro necessita uma boa dose de paciência para tratar com um azor -elevou uma sobrancelha em direção ao rapaz. - E este parece que vai necessitar também.

O terzuelo agitou as asas enfurecidamente, e depois ficou pendurado imóvel. James lhe pôs uma mão no peito e o levantou brandamente até voltá-lo para sua posição inicial sobre o punho. As patas de afiadas garras se fecharam como ganchos de ferro, pressionando através do magro amparo da mão do James, e este teve que reprimir um gesto de dor. A ave eriçou as plumas do peito e vaiou.

-Tranqüilo, pequeno - murmurou James. Foi até o arco que tinha prendido ao chão e baixou o braço. O terzuelo se aferrou ao cabide com escasso afã, e James atou rapidamente as correias ao arco.

-É muito temperamental - observou Isobel, contemplando a cena.

-Os falcões de asas curtas são de forte temperamento por natureza, e mais difíceis de adestrar que os de asas largas - James sacudiu a cabeça em um gesto negativo. - Pobrezinho. Estava domesticado, perdeu-se e se voltou selvagem outra vez, e agora sofre esta impressão de ser de novo apanhado e apressado. Sim, é muito temperamental, e é provável que siga sendo-o.

-Talvez devesse soltá-lo - disse Isobel. - Não deve manter cativa uma criatura que quer ser livre - ao lhe dizê-lo brilharam os olhos de maneira eloqüente. James lhe devolveu um olhar grave, embora o coração lhe pulsasse com força no peito até que ela olhou a outra parte.

Passou os dedos pelo cabelo emaranhado e de repente notou o ar frio em contato com o peito e as costas nuas. Recolheu sua túnica de lã do chão - sua camisa se sujou com o azor - e a pôs deslizando-a pela cabeça. Manteve o cenho franzido enquanto se atava o colete de couro sobre a túnica e voltava a colocar o cinturão. A inesperada responsabilidade do azor certamente terminaria reduzindo todos seus planos a um verdadeiro caos. Até agora, nada tinha saído conforme tinha planejado. O sol estaria alto antes que abandonassem aquela clareira, e cada hora de luz diurna com o passar do atalho do bosque aumentava o risco de que lhes vissem. Não dispunha de homens que lhe guardassem as costas se topassem com soldados. Lançou um suspiro de impaciência e olhou Isobel.

-Têm fome? -perguntou-lhe bruscamente. - Ela afirmou com a cabeça. - Logo teremos que ir - continuou dizendo - mas antes quero examinar suas feridas e buscar algo de comer. O azor comeu a carne que tinha reservado para tomar o café da manhã.

-Vi amoras um pouco além desse olmo.

James assentiu.

-Irei pegar algumas e levarei os cavalos até o rio - pôs-se a andar, mas então se voltou a olhá-la de novo. - Cuide do azor, se não se importar, até que eu retorne. Se tiver outra rabiada, coloque-o brandamente no cabide. E tome cuidado com as garras.

-Tentará escapar? -perguntou Isobel.

-Está bem atado, embora não goste nada - arqueou uma sobrancelha para ela. - E o que me diz de você, lady Isobel?

-Está perguntando se me têm bem atada? -perguntou ela em tom ácido e com a cabeça alta.

James esteve a ponto de rir pelo inconsciente encanto que havia naquela atitude sincera e desafiante, mas se limitou a sacudir a cabeça.

-Só me pergunto se devo partir e deixá-la aqui sem que ninguém a vigie.

-Não fugirei... no momento. Não conheço este bosque, e não consigo controlar esse antipático semental inglês. E tenho fome - apoiou o punho em seu magro quadril. - De momento, têm dois cativos.

James lhe devolveu um olhar franco.

-E conservarei os dois. Pode estar segura disso - e se foi.

 

Isobel saboreou as últimas amoras e lambeu o suco das pontas dos dedos. O sabor e a satisfação de comer algo fresco ainda a maravilhava, depois da prolongada privação sofrida durante o assédio. Suspirou e olhou ao James.

-Quer que vá procurar mais? - perguntou, sentado sobre o tronco, cansado. Umas minúsculas rugas de diversão se formaram ao redor de seus olhos. Isobel se fixou nelas e também nas pontas douradas de suas escuras e povoadas pestanas. Os olhos do James eram de uma cor azul profunda e vibrante à luz do sol, como lápis-lazúli com nervuras de ouro.

Isobel negou com a cabeça e sentiu que lhe ruborizavam as bochechas.

-Estou cheia - murmurou.

-Deixe-me ver o braço - disse ele.

-Meu braço está bem.

A ferida lhe doía ferozmente, mas odiava admiti-lo. Sua própria conduta lhe resultava um pouco vergonhosa; o esgotamento a tinha feito soluçar e desmoronar-se como um menino sobre o cavalo, e era provável que tivesse roncado igual a um soldado depois de um festim; sabia que aquilo era um defeito dele. E agora tinha comido com um apetite desmedido enquanto James a observava com expressão indulgente.

Não queria lhe parecer débil ou necessitada, e tampouco queria que James pensasse que confiava nele. No Aberlady tinha depositado sua fé nele, mas este resgate não era nada honroso. Sua ira se inflamava cada vez que pensava como a tinha convertido em uma cativa.

-Estou bem - repetiu com teima.

-O bastante bem para ter as bochechas mais pálidas do que devessem estar, e para morder o lábio e fazer uma careta de dor cada vez que os movem. Não seja tola, me deixe ver a ferida.

Isobel lançou um suspiro. Era certo que o braço necessitava cuidados. Começou a afrouxar as tiras de tecido que lhe sujeitavam o braço ao flanco. James se inclinou para diante, e o sol arrancou brilhos a seu cabelo. Baixou-lhe com suavidade a ombreira da capa cinza escura e enrolou para cima a manga rasgada do vestido cinza claro que Isobel levava debaixo. Quando abriu as bandagens do braço, ela fez um súbito gesto de dor.

James a olhou com preocupação e retirou a última parte de tecido. Ela olhou a ferida e lançou uma leve exclamação.

Os grandes orifícios da parte anterior e posterior do braço se coagularam, mas a carne que os rodeava se via torcida e rosada. A pele clara do braço se converteu em uma massa de hematomas azulados. James girou o braço, e a intensa dor esteve a ponto de cortar a respiração ao Isobel. Depois de alguns instantes, James assentiu com a cabeça.

-Tem bom aspecto - disse.

-Bom aspecto? - exclamou Isobel, consternada.

-Não há sinais de infecção. Têm sorte de que só esteja inchado e brando. Ficarão algumas cicatrizes profundas, mas existem azeites que podem lhes aplicar sobre a pele para atenuar. - Deixe-me ver o pé - agachou-se para lhe levantar o tornozelo e retirar a vendagem. Isobel sentiu uma forte ardência na ferida quando ele a pôs ao descoberto, e preferiu não olhar.

-Isto também está curando bem - disse James-. E pelo visto já pode andar melhor, embora ainda mancando. Limparei as feridas e as enfaixarei outra vez, e minha tia poderá aplicar os ungüentos de ervas apropriados para que sanem como é devido.

-Sua tia é uma curandeira? Onde vive?

-Sabe muito de remédios, mais em animais que em pessoas. Sua casa se encontra no meio do dia de caminho para o sul.

-Irá dizer a sua tia - perguntou Isobel devagar - que têm a intenção de me reter para pedir um resgate?

Ele recolheu o tecido que tinha empapado em água fria do arroio próximo e o dobrou. Seus olhos se posaram audazmente por um momento nos do Isobel.

-Em nenhum momento falei de resgate, moça - respondeu com suavidade. - É uma simples troca, uma mulher em troca de outra.

Por toda resposta, Isobel aspirou profundamente, pois lhe estava pressionando o tecido frio e molhado contra o braço.

-O frio ajudará a baixar o inchaço e a mitigar a dor - disse James. - Segure-o assim um momento. Retornou até onde estava o azor, o qual encolheu as asas com cautela ao ver que se aproximava o homem. James empurrou ligeiramente as garras do azor com o braço protegido pelas tiras de couro, e depois de uns instantes a rapaz subiu a seu punho com um leve bater de asas. James ficou de pé, falando com ave em tom baixo e tranqüilo, e lhe ofereceu uma parte de carne que deixou sobre o couro.

-Tinha entendido que havia acabado a carne de coelho - disse Isobel.

-E assim é. Isto é de um camundongo que apanhei quando fui pegar amoras e a água.

Isobel fez uma careta. Nos olhos do James brilhou uma faísca de diversão.

-Ele também precisa comer, e não gosta das amoras nem das nozes, igual a nós não gostamos do que come ele.

-Deu-lhe de comer não faz muito tempo.

-Sim - admitiu James. - Quero saciá-lo de momento, para que quando viajarmos esteja gordo e cheio, e menos desejoso de tentar caçar ele mesmo sua comida quando vir cotovias e outros pássaros no bosque.

O azor terminou de comer e apertou as garras, mas não se enfureceu. Ficou em seu cabide, como se tivesse começado a confiar no homem que o tinha resgatado, mas também o tinha capturado.

Isobel observava a cena, desejando poder confiar naquele homem de novo, mas também a tinha feito prisioneira a ela.

-Se eu fosse um falcão – disse - revolver-me-ia, lhe morderia e lhes arranharia até que me deixasse em liberdade.

-Nesse caso, que sorte tenho que seja uma mulher - repôs James arrastando as palavras e olhando-a. Ela se ruborizou.

O terzuelo alisou as plumas e chiou. James começou a mover a mão lentamente em círculo por cima da cabeça do azor, uma e outra vez, enquanto murmurava frases afetuosas em tom suave e tranqüilizador. A ave observava fascinada o movimento da mão, e pareceu relaxar-se.

-O que está fazendo? - quis saber Isobel.

-Olhando minha mão, cairá em uma espécie de torpor - explicou ele. - Assim, tranqüilo, pequeno - acrescentou em voz baixa. - Esquecerá que sou seu inimigo natural e se sentirá cada vez mais cômodo em minha mão, escutando minha voz. Com o tempo aprenderá que não quero lhe fazer dano. Aprenderá a confiar em mim.

-Isso - replicou Isobel - não é fácil.

-Isso tenho entendido - James a olhou fugazmente. Ela o deixou passar.

-Pensa em adestrá-lo?

-Sim. Vou domesticá-lo. Tranqüilo, pequeno. Isso.

Seguiu movendo a mão em lentos, largos círculos. O azor observava intrigado. Isobel também olhava, sentindo-se atraída por aqueles gestos aprazíveis e irresistíveis.

-Mas pertence a alguém - disse ao cabo de uns instantes.

-Pertencia - James fez insistência na forma de passado.

-Um azor está acostumado a ser propriedade de um pequeno latifundiário - disse Isobel. - Mas também o têm os cavalheiros e os barões, e até os condes e os reis. Esse terzuelo poderia pertencer a qualquer. Se seu dono for um homem de fila, você poderia ter problemas. Deve devolvê-lo.

-Eu sou um proscrito, faço o que me agrada.

Isobel contemplou o azor. Observou também a mão do James, ágil e forte, e belamente formada. O azor a olhava também.

Isobel deixou escapar um suspiro.

- Bom, poderia proceder das falcoeiras do Aberlady – admitiu. - Eustace saberia -aproximou-se um pouco mais, atraída pela mão, o azor e o homem. - Quer dizer, se é que alguma vez me permitirão ver Eustace de novo.

James lhe dirigiu um olhar que indicava que tinha captado a azeda observação.

-Venham aqui, a meu lado, onde o azor possa vê-la - disse-lhe. - Se ficar atrás dele, ficará nervoso. E não deve olhar fixamente a um falcão - adicionou. - Porque isso significa perigo para ele. Os gatos selvagens olham fixamente antes de atacar.

-Ah - Isobel trocou de lugar e ficou ao lado direito de James, ainda sujeitando o tecido frio e úmido contra o braço. - Meu pai teve uma vez um formoso azor fêmea, irmã da que o rei Alejandro chamava de seu falcão de caça favorito.

James arqueou uma sobrancelha.

-Meu tio foi falcoeiro real do rei Alejandro. Possivelmente criou o azor de seu pai -dirigiu-se a ela no mesmo tom que estava empregando com o terzuelo: baixo e meloso, quase musical - Isobel experimentou uma deliciosa série de calafrios pelas costas.

-Aprendeu falcoaria com seu tio? - perguntou-lhe.

-Sim. De menino me criei com meus tios do Dunfermline, antes de ir à escola do seminário do Dundee. Meu tio me ensinou muito sobre essa arte.

-Assim é um falcoeiro - Isobel lhe olhou surpreendida.

-Não sou mais que um foragido, ao que deram o apelido de falcão, e que conhece os falcões. Inclinou-se para frente e depositou o azor no cabide, e a seguir se voltou para Isobel. Tirou-lhe o tecido da mão para limpar os dedos com ele, introduziu-o em seu cinturão e se dispôs a ajustar de novo as vendagens do braço. Isobel sentiu que a dor cedia quando James a tocou. Um calafrio a percorreu da cabeça aos pés quando lhe subiu a manga até o ombro e começou a enrolar as vendagens que lhe manteriam o braço ao flanco. A simples sensação que lhe provocavam as mãos dele resultava relaxante, inclusive irresistível.

Não queria que parasse. Sentia-se igual ao azor, apanhada e extasiada. Talvez, inclusive levava na cara a mesma expressão de tola beatitude. Limpou a garganta.

-Deixe que o eu faça - disse quando James se ajoelhou para levantar o bordo do vestido e a capa.

-Não será mais que um momento - repôs ele ao tempo que deslizava os dedos sob o vestido e encontrava o tornozelo. Isobel experimentou uma súbita sensação de abrandamento, como se uma parte dela começasse a derreter-se. Trocou o peso à perna direita e levantou o pé ferido, apoiando uma mão na cabeça do James para conservar o equilíbrio. Seu cabelo esquentado pelo sol tinha uma textura suave e fina. De repente sentiu que lhe ardiam as bochechas.

-Por que lhes chamam de o Falcão da Fronteira? - perguntou-lhe, procurando desesperadamente algo que dizer. Sentia estranhamente que lhe faltava fôlego.

-Possivelmente seja porque no bosque ataco com rapidez e capturo presas inglesas - respondeu ele secamente. - Ou possivelmente seja porque posso ver ao longe com a clareza de um cristal. Ou talvez - levantou o olhar para ela - ganhei esse nome por meus desagradáveis ataques de mau gênio.

Isobel reprimiu um sorriso.

-Me diga a verdade.

James se encolheu de ombros e continuou enrolando o tecido com firmeza ao redor do tornozelo.

-Faz anos tive outro falcão, a primeira vez que vim ao bosque - disse. - Era uma azor fêmea, grande e muito formosa, uma feroz caçadora. Caçava galos selvagens com paixão, do mesmo modo que meus homens e eu caçávamos ingleses. Nunca nos escapava uma presa -depositou o pé do Isobel no chão, e ela retirou a mão de sua cabeça. - Era um azor magnífico.

-Tinha-a com você no bosque?

-Preparei-lhe uma falcoeira no interior de uma cova - respondeu James, girando-se para ir agachar-se junto ao terzuelo. - Saía comigo quase todos os dias. Se nos encontrávamos com alguma presa adequada para ele, Astolat punha-se a voar em detrás dela; se nos topávamos com presas para mim, ingleses, ele ficava esperando em uma árvore ou planando no céu. Às vezes desaparecia durante umas horas, mas sempre retornava - sorriu fracamente, mas Isobel captou uma faísca de tristeza em seus olhos.

James começou a mover de novo a mão em lânguidas passadas por cima da cabeça do azor. Isobel lhe observou por trás.

Flutuava uma tranqüila paz no pequeno claro do bosque, além dos conflitos de vontades e temperamentos do raptor e sua presa. Isobel desejou preservar aquilo, embora tivesse que permanecer ali, de pé e imóvel, simplesmente contemplando ao homem e o rapaz até que ficasse o sol.

-Astolat soa em nome de um ave notável - disse. - Deve ser um estupendo falcoeiro para havê-la adestrado tão bem.

-Os falcões são muito distintos em caráter e temperamento, igual às pessoas. Astolat era um azor perfeito, inteligente e com uma lealdade quase canina. Jamais conheci um falcão melhor - agitou a mão e o azor, com a vista fixa nela, pareceu extasiado e ligeiramente atordoado.

-O que lhe ocorreu? - Isobel contemplou como se moviam brandamente os dedos do James, e se sentiu tão cativada como o azor.

-Foi ferida por uma flecha inglesa que ia destinada a mim - respondeu James em voz baixa.

-Sinto muito - sussurrou Isobel. James assentiu com um gesto, enquanto sua mão se inclinava e riscava espirais imitando o vôo de um falcão.

Isobel manteve o olhar fixo naquela mão que se movia em infinitos e lentos círculos sobre a cabeça do terzuelo, e todo o resto começou a desvanecer-se de sua consciência. Em alguma parte trilou um pássaro e uma leve brisa agitou as árvores. A elegância e a força daquela mão a arrastaram em seu vôo. Escutou sua voz serena lhe falando com azor, as mesmas frases, uma e outra vez.

Em uma rajada de lucidez, compreendeu o que o azor sabia daquele homem: que era uma presença tranqüilizadora, segura, uma presença em que podia confiar. Desejou poder sentir ela isso mesmo por ele, mas não podia. Os pensamentos saíam de sua mente tão rapidamente como tinham entrado. Seguiu olhando a mão e escutando a voz.

De repente lhe sobreveio uma imagem que recordava, como um sonho revivido: um homem sustentando um azor em seu punho enluvado, de pé junto a um arbusto de espinheiro, sob a chuva.

James era aquele homem.

O coração começou a lhe pulsar com força. Meses atrás, em uma visão esquecida até agora, tinha visto o James Lindsay com um azor. Aspirou profundamente e quis dizer-lhe mas não pôde; quis apartar o olhar daquela mão que se movia lentamente, riscando círculos intermináveis no ar, mas não pôde.

A clareira iluminada pelo sol começou a esfumar-se. A mão do James era a única coisa a qual via. Umas luzes cintilaram e reluziram nos novos limites de seu campo de visão. Notava como a escuridão ia deixando cair, enchendo sua mente, substituindo ao mundo que viam seus olhos por um mundo distinto.

Quis gritar, mas não pôde; quis que ele a fizesse voltar, mas não pôde estender os braços. A escuridão e a luz se mesclaram e se apropriaram dela com a força do oceano, e sentiu vagamente que caía de joelhos. Então penetrou nela a luz, mais brilhante que o resplendor do fogo ou do sol, vibrando e dançando com sua mente, vívida, fascinante, amorosa, mágica.

E começaram as imagens.

 

Viu densos farrapos de névoa em redemoinhos. Aquele véu se dissipou e revelou um montículo verde e um arbusto de espinheiro, depois do qual se elevavam os imponentes muros de uma igreja de pedra obscurecida pela chuva.

Junto ao espinheiro estava James Lindsay, vestido com capa e capuz, e sustentando o azor em seu punho protegido por uma luva. Isobel se sentiu presente naquela cena também, avançando lentamente para ele sobre a erva molhada. James se voltou e a olhou, e ela sentiu sua pena, grave e profunda, infinita.

James deu um passo atrás. Isobel se moveu também, flutuando na neblina, mas viu que ele se dava a volta e desaparecia. Desejou lhe seguir, mas não pôde; havia algo que a retinha, como se estivesse presa. Voltou-se, e viu outro homem de pé junto ao espinheiro.

Era um homem corpulento, um cavalheiro com armadura, de audaz beleza, ossos e músculos grandes, mais alto que nenhum homem que tivesse visto jamais. Apreciava-se seu poderoso corpo sob a cota de malha e a capa verde que levava. Sustentava uma larga espada em posição vertical, com ambas as mãos apoiadas sobre o alto punho, e a olhava fixamente. Seus olhos eram cinza e neles se via brilhar uma estranha luz.

-Jamie procura a paz - disse-lhe o homem com sua voz grave e amável. - E também procura perdão. Mas deve conceder-lhe ele mesmo, embora resista a isso.

-Quem é? -perguntou Isobel.

-Um amigo - respondeu o homem. - Seja paciente com ele, Isobel. Encontrará o que está procurando.

Ela afirmou com a cabeça e olhou para o lugar por onde tinha desaparecido James, mas não viu mais que névoa flutuando, vazia e solitária. Voltou-se de novo. O arrumado e corpulento cavalheiro se esfumou.

A névoa deu lugar de novo à escuridão. Esta vez se tratava de uma penumbra parda, fria e corrupta, fedida. Através das úmidas sombras alcançou a ver uns muros de pedra e um homem agachado em um rincão.

Seu pai. Levava o cabelo comprido e desalinhado, sujo e cinzento; a barba lhe ocultava o rosto, sua carne flácida ressaltava os ossos de seu enorme corpo; mas Isobel lhe reconheceu. Reconheceu seus olhos azuis, que agora se mostravam apagados e de cor piçarra. Cobria-se a cabeça com mãos trementes e se achava curvado para diante.

Isobel lhe chamou, e ele levantou o rosto. A esperança iluminou suas feições... e nesse momento a imagem se desvaneceu.

-Pai! - chiou Isobel, estendendo as mãos. - Pai!

Mas a escuridão a alagou, com um manto de estrelas de cores, arrastando-a consigo. Tudo se fundiu em um profundo negrume aveludado, e então Isobel se desabou de bruço. Sentiu o chão duro e frio sob a bochecha. Também notou a erva úmida de rocio entre os dedos e aspirou seu aroma fresco junto com um forte aroma de cebolas selvagens não longe de ali. Experimentou a carícia o vento e do sol na cara e nas mãos. Ouviu o canto de uma cotovia no alto e o suave piar do azor, a escassos metros dela, e decidiu levantar-se se ajudando com mãos e joelhos.

-Isobel? - sua voz soou suave e com um toque de preocupação. Isobel se girou para ele. - Isobel, o que passou? Está doente?

James estava agachado junto a ela. Notou o calor que irradiava seu corpo. Tinha uma mão, forte e firme, apoiada no ombro dela.

-Estou bem - respondeu um pouco ofegante. - Estou bem.

Começou a ficar de pé lentamente. As mãos de James a sustentavam enquanto ela se levantava. A brisa lhe agitou a saia contra; as pernas e sentiu o agradável calor do sol no rosto.

-Pode andar? - perguntou-lhe James. Ela afirmou com a cabeça. -Venha aqui e sente-se.

A mão dele agarrou a sua, cálida, atenta, forte. Notou o peso de sua outra mão na cintura. Deu um passo adiante e tropeçou quando seu pé se chocou contra algo, uma raiz, uma pedra. Mas as mãos do James a sustentaram.

-Isobel, o que ocorre?

Ela duvidou antes de responder:

-Estou cega.

-Cega? - repetiu James em um sussurro.

-Sim. - Isobel assentiu tremente.

James a observou uns instantes. A brilhante luz do sol emprestava aos seus olhos uma muito pura delicadeza, mas seu olhar era inexpressivo e desfocado. Levantou uma mão e a moveu devagar, deixando que sua sombra lhe cruzasse a cara, mas Isobel não piscou.

-Isobel - disse-lhe em voz baixa por causa da impressão. - O que acontece? - perguntou com desassossego se teria feito mal quando o cavalo se disparou levando-a em cima; sabia que as feridas na cabeça podiam ter efeitos muito estranhos. - Golpearam-lhe na cabeça ontem?

Isobel inclinou ligeiramente a cabeça enquanto lhe escutava. Tinha o olhar fixo e vazio, orientada para algum ponto além de seu ombro.

-Não. Vem-me a cegueira cada vez que tenho uma visão. Passará.

-Quando caíra de joelhos e lhe pusera a falar e gritar, estava tendo uma visão? -perguntou James. Ela afirmou com um gesto.

-E depois sempre me sobrevém esta cegueira.

James passou os dedos pelo cabelo, olhou para o outro lado, voltou a olhá-la, tratando de encontrar alguma lógica naquele quebra-cabeças que lhe permitisse compreender, naquele estado de alarme e atordoamento.

-Cega? - repetiu.

-A cegueira passará - disse Isobel com calma. Estendeu uma mão e encontrou o braço dele, e apoiou ali a mão. James a agarrou por cotovelo. - Aprendi a contar com ela.

-Quanto dura?

Isobel se elevou de ombros.

-Uma hora, uma tarde, às vezes um dia inteiro. Ocorre sempre. E rogo para que sempre seja assim.

-Do contrário lhe acontece algo mal a sua vista?

-Só um pouco de visão imprecisa de longe, mas isso é bastante comum. Em certa ocasião, meu pai fez que me examinasse um médico, e disse que tinha os olhos sãos. Isto só ocorre durante as profecias e depois delas, logo desaparece por si só. O padre Hugh diz que é o preço que devo pagar por ter o dom da profecia.

-Mãe de Deus - disse James brandamente. - Não sabia.

-Poucas pessoas sabem - repôs Isobel.

James a olhou pensativo. Então se deu conta de que ela estava esperando que falasse.

-Que visão tiveste?

Isobel enrugou a frente.

-Vi você.

-A mim - repetiu ele, carrancudo e cauteloso de repente.

-Sim, e também ao azor - prosseguiu Isobel. - Junto a um arbusto de espinheiro. Estou tentado recordar... me esqueço rapidamente. Havia outro homem... um cavalheiro -interrompeu-se por uns instantes, se esforçando por recordar. - Falou-me. Eu estava ali também - sacudiu a cabeça, confundida. - O resto esqueci. É como quando a gente esquece um sonho ao despertar - mordeu o lábio e pareceu intensamente frustrada. - Sinto muito. Intento recordá-lo, mas... - encolheu-se de ombros e sacudiu a cabeça de novo, fazendo que o cabelo lhe caísse sobre os ombros. Seus vazios olhos azuis expressavam sincera inocência.

James experimentou uma curiosa sensação de abrandamento no coração. A lógica lhe dizia que duvidasse de tudo aquilo, mas ao olhar Isobel tornava impossível fazê-lo. Estava muito preocupado e profundamente impressionado.

-Isso é tudo o que recorda? - perguntou-lhe.

-Sim. Depois de uma visão, logo que recordo algo do que vi ou ouvi, quase sempre tenho comigo meu pai ou meu sacerdote para que vão escrevendo o que digo. Fazem-me perguntas sobre o que vejo e ouço durante a visão, e eu as posso responder. O padre Hugh toma nota de todas minhas profecias, e as entende melhor que eu mesma. Eu recordo muito pouca coisa delas, e parecem ser um mistério para mim, todas cheias de símbolos - suspirou e moveu os dedos sobre o braço do James. - Oxalá pudesse recordar. Uma vez tentei me esforçar por recordar... - interrompeu-se mordeu o lábio.

-Talvez seja a impressão da cegueira o que faz desaparecer tudo - disse James.

-Pode ser. Antes me assustava muito ao me encontrar cega, mas agora já me acostumei.

Não parecia estar acostumada, pensou James. Parecia vulnerável, como uma menina aterrorizada fazendo-a valente. Sentiu como seus dedos se fechavam com ansiedade sobre seu braço. Apertou outra vez seu cotovelo, tratando de tranqüilizá-la.

-Quanto tempo leva acontecendo isto? -quis saber.

-Desde que tinha treze invernos, algumas vezes ao ano - respondeu Isobel. - Aprendi a provocar as profecias olhando fixamente uma terrina de água ou o fogo. Mas agora me veio que forma tão estranha... tão repentina. Não me tinha acontecido desde que era jovem. - James... recorda você o que hei dito? Às vezes voltam para mim as imagens se alguém me repetir o que hei dito.

Ele se coçou, pensando.

-Disse «paz e perdão», e algo a respeito de um amigo.

-Ah! -exclamou ela-. Vi um cavalheiro que dizia que era um amigo.

-Quem era?

Isobel sacudiu a cabeça negativamente.

-Não sei. Já quase não me lembro... Era um homem grande e alto. Algo mais?

-Também gritou: «Pai!». Acreditei que estavam chamando um sacerdote.

Isobel conteve uma exclamação.

-Lembrança... Vi a meu pai! - fechou com força os dedos sobre o braço do James. -Estava em uma masmorra. Estava... doente, débil - inclinou a cabeça. - E se está ferido, ou morto?

-Está vivo - apressou-se a dizer James. Você viu isso, vivo. Recorde, Isobel.

Ela assentiu. Seu rosto se via de uma cor cremosa sob o forte sol, e seus olhos eram como cristais de um azul transparente, perfeitos mas incapazes de ver.

-Deus santo, Isobel - murmurou James. - Deus santo - sentia-se estupefato, enjoado, como se lhe tivessem dado várias voltas com os olhos enfaixados e lhe tivessem orientado em uma direção desconhecida... um pouco como devia sentir-se ela, pensou. - Me diga o que necessita de mim.

Isobel pensou durante uns instantes.

-Por agora, devo pedir que me proporcione segurança.

-Está bem - respondeu ele em tom áspero.

Algo, pensou para si, de repente diminuiu profundamente a comunicação entre os olhares de ambos, e, desejando um maior contato com o Isobel, roçou-lhe a curva da bochecha com os dedos. Ela inclinou o rosto para a palma de sua mão por um instante, e fechou brandamente os olhos.

-Prometo-o - disse James.

-Obrigado - respondeu Isobel. - Mas nesse caso, James Lindsay, deve me deixar partir -seu tom foi ligeiro, como uma reprimenda de brincadeira.

De repente, James teve a impressão de que jamais poderia deixá-la partir. Assombrou-se da força e a certeza daquele pensamento. Compreensão, disse-se; piedade, talvez. Só isso, e nada mais.

-Venham comigo, Isobel - disse-lhe brandamente, e a tirou do cotovelo para guiá-la pouco a pouco e com cuidado em direção aos cavalos.

 

Isobel inclinou a cabeça enquanto cavalgavam pelo atalho do bosque. Em sua cegueira, os sons lhe pareciam mais fortes, os aromas e sabores mais intensos, e os dedos mais sensíveis na hora de distinguir texturas e formas. O esforço necessário para captar ordenadamente tantas sensações de uma vez, sem poder ver o que estava ouvindo, tocando ou gostando, podia ser exaustivo e entristecedor; mas havia momentos nos que se sentia extremamente estimulada por reconhecer as coisas mais singelas.

Sabia que James levava o azor no punho forrado de couro, porque ouvia o rangido das correias e o roce das garras do ave. Com freqüência ouvia o James lhe murmurando com aquela sua voz de tom profundo e timbre agradável, semelhante ao calor da lã em uma noite fria. E sabia que ele levava as rédeas de seu cavalo com firmeza, porque notava a tensão na brida. A perna dele roçava ocasionalmente a sua, o qual lhe provocava um delicioso formigamento de prazer em todo o corpo.

James levava todo o caminho cavalgando ao seu lado, falando com amabilidade, lhe contando o que sabia do bosque do Ettrick. Disse-lhe que levava quase dez anos vivendo em covas do bosque, e ela percebeu o respeito e o amor que sentia para o que era seu lar adotivo. James era um narrador nato, debulhava emocionantes e entretidas histórias a respeito de sua vida como proscrito e rebelde escocês. Descreveu os anos que passou ao lado de Wallace e seus homens, lutando em guerrilhas e tecendo artimanhas, medindo riscos e estratégias. Falou de atos de crueldade, de coragem, de engenho. Com hábeis palavras e voz entoada, pintou retratos de homens inteligentes e fogosos que acreditavam que tinha que haver liberdade na Escócia e que tinham sacrificado muitas coisas por essa causa. Mas não lhe disse nada de como tinha chegado ele a levar essa vida, e ela não perguntou. Limitou-se a escutar, e se alegrou de que os anteriores conflitos entre eles parecessem ter entrado em uma trégua.

-Meu tio estava parcialmente cego - disse James ao cabo de um momento. - Já estava assim quando me criei com ele de menino.

Isobel inclinou a cabeça, interessada.

-Seu tio o falcoeiro?

-Sim. Uma águia amestrada lhe deixou cego do olho esquerdo.

-Uma águia! Não sabia que as podia amestrar.

-Se o falcoeiro possuir a habilidade suficiente, sim é possível. Faz anos, meu tio Nigel capturou uma nas montanhas, um pintinho que ainda estava no ninho, criou-a e a amestrou. Era uma ave magnífica, embora quase impossível de dirigir. Um dia estava comendo da mão do Nigel. As aves de rapina têm o costume de golpear fortemente com o pico para limpá-lo, e esta o golpeou contra a cabeça de Nigel e lhe arrancou o olho.

-Deus dos céus! E seguiu adestrando aves depois disso?

-Sim, continuou sendo falcoeiro real durante vários anos - respondeu James. Isobel captou uma nota de orgulho e um pingo de diversão em sua voz. - Luzia seu emplastro no olho como se fora uma coroa. Um falcoeiro ao que lhe falta o olho esquerdo é muito provável que tenha amestrado a uma águia - explicou. - Só por havê-lo tentado ganhou o respeito de outros.

-Ainda tem falcões?

-Morreu faz alguns anos -disse James baixando a voz. - Quando morreu o rei Alejandro, retirou-se ao Dunfermline e se dedicou a fabricar guarnições para falcões. Ficou com um velho falcão peregrino que tinha pertencido ao rei. Essa ave tinha mais de trinta anos quando morreu.

-Que velho – disse - Isobel em um impulso. Ouviu que James ria ligeiramente. - Para ser um falcão, quero dizer.

-Sim, bom, eu sou mais velho ainda - disse James, irônico. - Embora suponha que você logo que chegue aos vinte.

Isobel levantou a cara.

-No próximo inverno cumprirei os vinte e seis. A maioria das mulheres de minha idade estão casadas e têm meninos.

-E você não tem feito. Por quê?

Ela se encolheu de ombros.

-Sou um mal partido. Poucos homens quereriam por algema a uma profetisa cega.

James permaneceu tanto tempo em silêncio que Isobel girou a cabeça para ele, como se procurasse uma resposta.

-Eu acredito que seria muito boa partida - murmurou James por fim.

-Para conseguirem o que vocês desejam - replicou ela com agressivo.

Ele queria a uma determinada mulher; maravilhou-se por quão forte devia ser seu amor, e isso lhe provocou um leve comichão de ciúmes.

-O homem que fique com essa boa partida será um homem afortunado - disse James.

Isobel sentiu um tombo nas vísceras e notou que as bochechas lhe acendiam com um furioso rubor. A voz do James, uma agradável mescla de suavidade e aspereza, resultava tão íntima como se lhe estivesse tocando a pele nua.

-Sir Ralph é o que meu pai escolheu para mim - disse.

-Não lhe escolheu?

-Sente pouco interesse por mim, mas lhe interessa muito o que possuo.

-O quê?

-As profecias - Isobel inclinou a cabeça para ele, embora não podia dirigir o olhar direto que desejava lhe dirigir.

-Ah - repôs ele. - De modo que assim são as coisas.

Isobel esperou a que explicasse aquele seco comentário, mas James guardou silêncio. Cavalgando para seu lado, escutou o ritmo amortecido dos cascos dos cavalos, os débeis grasnidos do azor e o constante murmúrio do bosque formado pelo roçar das folhas, o vento e o canto dos pássaros.

Ao cabo de um momento desejou ouvir de novo a voz do James, como se à tapeçaria de sons que a rodeava lhe faltasse uma peça central, um ponto de referência.

-Disse se criou no Dunfermline, com seu tio.

-Sim, dos dez até os quinze anos - disse ele com naturalidade, como se lhe agradasse conversar com ela.

-Conheço esse lugar. Ali é onde está enterrada Santa Margarida, e também outros membros da realeza da Escócia - comentou Isobel. - Eu não estive na abadia, mas ouvi dizer que é muito formosa.

-É uma grande abadia, um lugar sagrado. A rota dos peregrinos passa por ali - disse James. - Mas o rei Eduardo a declarou cova de ladrões, pois era ali onde se reuniam os nobres escoceses para elaborar seus planos contra os ingleses. Assim que a queimou o ano passado. Foi uma ação atroz. Sua própria irmã foi enterrada ali.

Isobel lançou uma pequena exclamação.

-A abadia ficou em ruínas?

-A igreja se salvou, pela graça de Deus. Um dos monges é meu amigo. No ano passado a maioria dos monges não tinham onde viver, depois do incêndio.

-E a casa de seu tio? Salvou-se?

-Queimou-se - respondeu James. - Ele e sua esposa se retiraram a uma pequena casa no bosque. Ela ainda vive ali, desde que morreu meu tio.

-Sua tia Alice?

-Isso. Cuidado, agache para a esquerda, há um ramo baixo - James atirou de seu braço são, e ela baixou a cabeça deixando que os ramos lhe passassem por cima.

-Estou causando muita confusão. Sinto muito.

-Não importa - seu tom era amável.

Quando os cavalos começaram a descender um pendente, Isobel se inclinou para trás, obstinada às crinas do animal, até que se acostumou e voltou a nivelar-se. Sentiu o vento lhe açoitando o cabelo e o calor do sol na cara, e o gorjeio dos pássaros lhe chegou mais débil e longínquo.

-Saímos do bosque - disse.

-Só para cruzar um páramo. Logo entraremos outra vez a coberto e seguiremos outro caminho florestal. O bosque do Ettrick está formado por muito mais que zonas boscosas; também compreende páramos, colinas, lagos e arroios.

Nesse momento o azor chiou fortemente e Isobel percebeu o rápido bater de asas.

-O que acontece? - perguntou.

-Não é mais que outra rabiada - respondeu James. Isobel notou que os cavalos se detinham, enquanto que o frenético bater de asas do azor continuava, diminuía e por fim cessava. - Tranqüilo, moço - tranqüilizou-o James. -. Calma, volta para a mão - momentos depois os cavalos reataram a marcha. - Viu um par de cervos, e se surpreendeu - Isobel assentiu, e continuaram cavalgando.

-Seu azor necessita um nome - disse Isobel. - Existe alguma norma para pôr nome a uma ave de caça?

-Não, embora eu sempre pusesse em meus falcões e em meus cavalos nomes de heróis e heroínas dos contos do rei Arthur.

Isobel inclinou a cabeça com curiosidade.

-E por quê?

-Quando era um moço, meus pais me deram de presente um manuscrito pintado escrito em francês que continha muitos dos contos do Arthur. Eu os li uma e outra vez. Suponho que os nomes ficaram gravados.

-Eu também os li, e adorei. Minha mãe tinha uma cópia em inglês, com pinturas muito bonitas. O sacerdote me ensinou a ler quando era menor, e também a escrever um pouco. Eu adorava copiar meus contos favoritos daquele livro. -Sorriu levemente, recordando, e girou a cabeça em direção ao James.

- Ao outro falcão lhe pus o nome de Elaine, senhora do Astolat, que morreu de amor pelo Lancelote.

-Assim é. Era um nome profético.

Seu tom sombrio lhe recordou o comentário anterior: a ave tinha morrido ferida por uma flecha inglesa. Aguardou na escuridão que a rodeava, e se perguntou se lhe contaria algo mais, dado que aquilo claramente lhe entristecia. Mas James não disse nada.

Ouviu o murmúrio das folhas, percebeu o aroma da folhagem e sentiu o frescor e a quietude do ar: estavam entrando de novo no bosque. O passo dos cavalos se fez mais lento. O azor chiou outra vez.

-Certamente necessita um nome - disse James. - Qual pode ser?

-Mmmm. - Isobel franziu o cenho. - Arthur, Héctor, Gawain e Tristán, todos eles tinham falcões ou foram de caça... Ah! – sorriu. - Gawain!

-Gawain o azor? - perguntou James em tom dúbio.

-Significa falcão de maio, ou falcão da planície, em língua galesa. Vamos, Gawain -disse, lhe falando com azor. Ouviu um leve roce de asas. - Eu acredito que vai muito bem.

James riu divertido.

-Melhor do que imaginei. Minha tia Alice tem um falcão fêmea de cauda vermelha chamado Ragnell.

Isobel riu.

-Gawain e Ragnell eram casal em uma das lendas.

-Exato. Suponho que por isso a profetisa escolheu esse nome.

Isobel percebeu uma nota de humor em sua voz e imaginou uma faísca de luz em seus olhos azuis. Sorriu em sua direção e lhe disse:

-Sir Gawain prometeu desposar a lady Ragnell, embora ela fosse uma velha e odiosa bruxa. Como pode ir bem esse nome a um formoso falcão?

-Acredite, serviu estupendamente - disse James com irônica certeza. - Sempre quer sair-se com a sua, igual à mulher do conto. Além disso, tem... um aspecto pouco corrente.

Isobel sorriu.

-Soa muito interessante. Estou desejando conhecê-la.

-Oh, conhecerá.

Isobel ficou séria imediatamente. Repreendeu-se a si mesmo por rir tão abertamente com ele. Com independência de sua amabilidade ao ajudá-la e de sua paciência, aquele proscrito a deixava cativa.

É obvio que conheceria aquele falcão fêmea, disse-se amargamente. James tinha a intenção de levá-la à casa de sua tia e retê-la ali em qualidade de prisioneira.

Suspirou, contemplando a frustrante escuridão que a envolvia, e seguiu cavalgando para um incerto futuro.

 

A luz do sol se derramava sobre o atalho do bosque. Isobel sentia seu suave calor cada vez que os cavalos atravessavam zonas ensolaradas e voltavam a penetrar no frescor da sombra. Arqueou a parte baixa das costas com cansaço e passou uma mão pela cabeleira despenteada. Seu vestido de lã e sua capa lhe davam muito calor, e estava cada vez mais irritável por causa da dor, da fome e da fadiga.

E a escuridão persistia em seus olhos, fazendo que se sentisse como se oscilasse perigosamente sobre o bordo de uma cuchilla, entre o medo e a fé, aguardando recuperar a visão.

Ouviu de novo como o azor se enfurecia, uma de tantas vezes com o passar da viagem. Os cavalos se detiveram, e ouviu que James falava com o rapaz com palavras tranqüilizadoras. Estava segura de que ele também estava tão cansado e irritável como ela, porque ultimamente pouco tinha falado, embora cavalgasse ao lado dela.

O azor se acalmou por fim, e prosseguiram seu caminho. Cada vez que ouvia o murmúrio das asas do terzuelo, Isobel esperava o fastidioso estalo de outra rabiada.

-Arrependeu-se de ter capturado ao azor? - perguntou. - Tem um caráter difícil.

-Não podia deixá-lo onde estava - respondeu James. - Necessitava ajuda. E ainda não pode voar bem.

-Arrependem-lhes de me haver capturado? - perguntou Isobel após um momento. - Eu tampouco posso arrumar-me por mim mesma.

-Bom - começou ele - pelo menos você não têm rabiadas.

Ela riu brandamente e se deixou levar pelo cavalo.

-Está perto a casa de sua tia? - perguntou-lhe após uns momentos.

-Sim - repôs James. - Rodearemos a base de uma ladeira, e a casa se encontra justo ao outro lado.

Logo James lhes tirou do atalho de terra para internar-se entre as árvores. Isobel gritou alarmada quando se golpeou com um ramo, e levantou um braço para proteger-se. Então notou o contato da mão dele, firme e forte, no joelho.

-Irei pela frente para ir apartando os ramos do caminho - disse e se adiantou ao semental de Isobel, que lhe seguiu atrás.

Quando os cavalos se detiveram outra vez, Isobel se voltou para James.

-Já chegamos? - perguntou-lhe.

-Estamos justo no bordo do claro - respondeu ele. - Sempre me detenho aqui para olhar. É uma paisagem muito agradável.

-Oh - sentiu-se invadida por uma sensação de decepção, pois não podia ver como ele. - Deve ser precioso.

-É assim - James se inclinou para ela. Isobel notou a sólida pressão de seu ombro, sentiu o calor de seu rosto junto ao dele, ouviu sua suave respiração. - Temos a clareira justo diante de nós - Sua voz tranqüila possuía um timbre rico e profundo. - O bosque se abre de repente, como um marco de cor verde ao redor de um quadro. A clareira está iluminada totalmente pelo sol. A erva se vê salpicada de dentes de leão, e no centro há uma pequena casa de pedra.

Isobel inclinou a cabeça e escutou, fascinada, imaginando com facilidade a paisagem no densa negrume de sua mente.

-De um buraco no teto de palha se eleva a fumaça formando nuvens - continuou James. - Vê-se duas pequenas janelas abertas ao ar e à luz, e a porta também está aberta, como convidando, com um gato branco dormido no degrau. Há uma cabra perambulando pelo pátio, e entre suas patas brincam de correr algumas galinhas, mas ela não lhes faz caso e segue mordiscando as flores que cresceram no banco de erva apoiado contra um lado da casa. Há uma pequena horta no rincão, com ervas e hortaliças. A lavanda está de cor arroxeada brilhante, os caules das framboesas se vêem verdes e emaranhados, e a cerca está coberta de madressilvas densas e douradas.

-Ah - suspirou Isobel. - Que formoso. E que pacífico.

-Por isso venho aqui. Pela paz. E para ver Alice. Você gostará.

Seu ombro seguia pressionando contra o de Isobel de forma amistosa, sublinhando a agradável sensação de tranqüilidade e segurança, e se permitiu recostar-se sobre ele.

-Obrigado - disse-lhe.

-Meu tio tinha o costume de me pedir que lhe descrevesse coisas - disse James. - E pensei que talvez você também gostasse.

-Alice nos está esperando? - Naquele instante não lhe importava ser uma cativa; desfrutava da serenidade do momento, e desejava desesperadamente a comodidade que oferecia aquela casa. Aguardou que James esporeasse ao cavalo para continuar.

Mas ele ficou tenso e se separou dela. Ao Isobel pareceu ouvi-lo jurar baixo. Um familiar retumbar soou ao longe; Isobel reconheceu o ruído de cavalos.

-Quais são? -perguntou subitamente alarmada, recordando a escaramuça do dia anterior. - Vêm para cá?

-Isobel. - seu tom era duro. - Vou levar os cavalos até um grupo de abedules, e quero que se esconda entre a maleza. É bastante alta para lhes ocultar.

-Que...

-Silêncio! - vaiou James com rudeza. Agarrou com força as rédeas do cavalo dela e puxou.

Os ramos lhe arranharam a cara e um a golpeou totalmente no queixo. Soltou um chiado e agitou o braço esquerdo instintivamente, presa do pânico e sem saber bem onde se encontrava. Então sentiu as mãos do James fortes como o ferro ao redor da cintura, que a levantavam rapidamente do cavalo e a arrastavam através da densa vegetação formada por samambaias para por fim empurrá-la contra a maleza. James lhe baixou a cabeça com a mão.

-Não se mova, e não faça ruído - sussurrou com urgência, e imediatamente se foi.

Respirando agitadamente, Isobel permaneceu tombada entre a maleza e esperou, com a cara escondida na dobra do cotovelo. Notou ao seu redor o forte aroma de terra e vegetação. Doía-lhe intensamente o braço ferido, mas não deixou escapar som algum, mas sim se limitou a escutar com os cinco sentidos.

Ouviu relinchar brandamente aos cavalos a suas costas, sob as árvores. O azor grasnou perto; James devia havê-lo amarrado ao ramo de uma árvore. Já não se ouvia o galopar dos cavalos. Percebeu vozes masculinas entre as árvores, graves, mas amortecidas. Girou a cabeça sob a cobertura de samambaias e sentiu as suaves folhagens lhe roçando a pele e seu aroma nas fossas nasais.

Transcorreu o tempo lentamente. De repente, frenética, teve medo de que James a tivesse abandonado, cega e sozinha, no bosque. Mas nesse momento chegou até ela o ruído suave e sigiloso de umas pegadas, e sentiu que ele se deixava cair a seu lado entre as samambaias. Com grande alívio, voltou-se para ele e abriu a boca para falar.

-Cale-se! -sussurrou-lhe James, lhe pondo um dedo nos lábios. Isobel notou que ele estirou um braço e depois a apertou de costas contra seu peito, em tão estreito contato que os dois ficaram presos um ao outro com Isobel estendida sobre o flanco esquerdo. Todo o corpo do James se apertava contra o seu, da cabeça aos pés, e seus braços a seguravam firmemente pela cintura. Tampou-lhe a boca com a mão, e ela soltou uma leve exclamação de surpresa.

-Guarde silêncio - sussurrou-lhe. Isobel sentia a férrea força com que a apertava e o profundo batimento de seu coração contra as costas. Incapaz de ver, e apenas capaz de mover-se, sentiu-se invadida pelo pânico e lutou, esperneou e gemeu. James lhe bloqueou as pernas com uma das suas para impedir que desse patadas. Isobel tomou ar para gritar, mas lhe tampou a boca com mais força. Então ela mordeu o dedo que tinha sobre os lábios, e James respondeu com um leve juramento.

-Guarde silêncio e não se mova - rugiu. - Prometa, ou não a soltarei embora me arranque o dedo a dentadas.

Isobel assentiu desesperadamente com a cabeça. James lhe retirou a mão da boca, mas seguiu rodeando-a estreitamente com os braços. A jovem se sentiu como um animal selvagem capturado em uma armadilha. Como pôde equivocar-se assim com ele? Como pôde confiar nele? Retorceu-se de novo, e James a apertou mais contra si até que ela ficou quieta, respirando agitadamente.

-Tranqüila - sussurrou-lhe. - Não vou fazer-lhe dano - afrouxou um tanto a garra. - Mas não faça nenhum ruído.

Isobel lhe deu uma cotovelada no centro do peito, embora se fizesse mal a si mesmo no braço ferido. James grunhiu, lhe dando essa pequena satisfação. Pouco menos que um milagre poderia aplacar a fúria que sentia para ele naqueles momentos. Não podia confiar nele, e a julgar por suas ações, estava claro que ele tampouco confiava nela. Esse pensamento a tranqüilizou de repente, e adotou uma atitude passiva e inerte em seus braços. Ao cabo de um momento, notou que James levantava a cabeça para olhar ao redor. Ela fez o mesmo, tentando ouvir melhor, mas James lhe empurrou a cabeça para baixo.

-Aproximam-se uns cavaleiros a clareira - sussurrou. A cadência dos cascos dos cavalos fez vibrar o chão debaixo dela. Logo ouviu o ruído amortecido de um só cavalo avançando.

-Quantos são? -perguntou Isobel em voz baixa.

-Quatro - respondeu ele. - Um deles está cruzando o pátio.

-São escoceses?

-Levam armaduras muito boas. Poucos escoceses poderiam permitir o luxo de usar semelhantes ornamentos. Os escoceses tampouco têm muito boa opinião de mim nestes momentos, assim ficaremos escondidos. - Falava com um fio de voz, de modo que ninguém, exceto Isobel, podia lhe haver ouvido.

-Como é o chefe? - sussurrou Isobel.

-Acima de um magnífico cavalo pintalgado e com uma boa cota de malha. Cale-se.

Isobel ouviu uma voz masculina, tensa e grave, que saudava alguém, e depois uma voz de mulher que respondia em tom brusco e rápido. Tombada nos braços de James, tentou ouvir o que o cavalheiro dizia a Alice, mas a maior parte lhe resultou inaudível. Além disso, distraíam-na os braços do James segurando-a com força, seu corpo inteiro junto às costas do dele, o suave ritmo de sua respiração no ouvido. Franziu o cenho e tratou de concentrar-se.

-Quero saber onde está, madame - dizia o cavalheiro em voz alta, irado. Isobel franziu o sobrecenho; aquela voz lhe resultava familiar.

-Faz meses que não vejo esse moço - ouviu que respondia Alice. Tinha uma voz plena, terrestre e um tanto intrépida. - Eu vivo aqui sozinha, e ninguém me incomoda... exceto você. Parta daqui.

-Sei que recentemente foi a você em busca de ajuda - disse o homem. - Diga-me onde está! - elevou ainda mais o tom, já em atitude exigente.

Isobel emitiu uma leve exclamação, e James voltou a lhe tampar a boca com a mão. Ela, apanhada em seus braços, tratou de lutar para livrar-se daquele bandoleiro dos bosques que a tinha prisioneira e fugir para a segurança.

Aguardou a que sir Ralph Leslie falasse de novo.

 

James aproximou do Isobel ainda mais contra si e lhe apertou a boca com a palma da mão. Momentos antes, a jovem tinha arrojado uma exclamação como se algo a tivesse surpreso. Baixou a vista para olhá-la; seus olhos azuis, muito abertos, mostravam um olhar de assombro e, entretanto, não viam nada.

Nada. Sua cegueira ainda lhe alarmava. Tinha que mantê-la a salvo e oculta de Ralph Leslie. Sua expressão lhe disse que ela já tinha reconhecido a voz de seu prometido. Continuou segurando-a com firmeza, e observou como Alice, vestida com uma saia marrom, dava um passo para diante, apoiava os punhos fechados em seus largos quadris e olhava desafiante para Leslie. Mais alta que muitos homens, Alice Crawford não era uma mulher que se deixasse intimidar facilmente.

-O que querem de James Lindsay? - exigiu.

-O busco por crimes cometidos contra o rei Eduardo, e matou a vários ingleses.

-Já sei - replicou Alice, impaciente.

-Certamente saberá também que William Wallace foi capturado o mês passado, e executado em Londres acusado de traição.

-Isso ouvi. Os ingleses são uns canalhas sem coração - disse impulsivamente. - Deus tenha piedade de sua alma. William Wallace jamais cometeu traição em toda sua vida. E o que passa com o Jamie, então?

-James Lindsay traiu Wallace.

-Mentiroso! - chiou Alice.

-Tenho provas - disse Leslie.

-Não acreditarei alguma vez - disse Alice tenazmente. - Por que vão propagando por aí essa vil calunia? Você, um escocês?

-Se lhe encontrarem os escoceses, o despedaçarão como a um animal. E se lhe encontram os ingleses, o enforcarão... e lhe farão algo pior - Leslie se inclinou para ela. - Mas eu posso ajudar a seu sobrinho, madame Crawford. As acusações que pesam sobre ele podem ser revogadas pelo rei Eduardo. Lindsay sabe que o rei pode julgar oportuno lhe conceder uma recompensa pela captura de Wallace.

James notou como Isobel ia pouco a pouco ficando imóvel como uma pedra em seus braços. Estava seguro de que o tinha ouvido. Voltou sua atenção para a clareira.

-É um desses que trocam de lealdade segundo para onde sopre o vento? - perguntou Alice em tom suspicaz.

-Não sou mais que um homem prático, madame.

-Então demonstre esse sentido comum e saia do meu pátio!

-Haja paz, mulher. Vim por outra razão.

-Nesse caso, fale – espetou-o. O cavalheiro elevou o braço esquerdo para deixar ver o bracelete negro que levava sobre a manga da cota de malha. - Estou de luto.

-Me perdoe, não sabia.

-Perdi minha prometida. Faz dois dias houve um incêndio em um castelo do Midlothian. Minha amada lady Isobel Seton se encontrava dentro, com sua guarnição.

James ouviu que Isobel emitiu uma suave exclamação e se debateu contra ele, como se estivesse desesperada por escapar e ir junto a seu amante, de modo que a apertou contra seu corpo, com mais rudeza da que tivesse querido. O quadril lhe pressionou a virilha, seu brando peito se esmagou sob seu braço, e sentiu seus lábios úmidos e quentes sob a palma da mão.

De repente se viu sacudido pelo desejo, súbito e inesperado, e lançou um áspero suspiro, com o coração lhe retumbando no peito. Tinha passado vários anos em um monastério, e ainda levava mais anos vivendo como um proscrito, e acreditava que podia dominar seu corpo e suas emoções; mas o desejo continuou estendendo-se por todo seu ser como o fogo. Notou que Isobel tremia, e compreendeu que a tinha assustado. Aquilo atuou como um jarro de água fria, e afrouxou um pouco sua garra.

-Não quero lhes fazer dano - murmurou-lhe. - Mas não pense em chamar seu amante -aquela palavra lhe subiu amarga na boca. Manteve-a contra o chão e levantou a cabeça para seguir escutando a conversação que se desenvolvia na clareira.

-Tentei salvar lady Isobel do fogo, mas cheguei muito tarde - dizia Leslie. - Pus-me a correr para as chamas sem temer por minha própria vida, tão grande era minha necessidade de encontrá-la. O amor faz ao coração valente, madame.

James sentiu que lhe percorria um calafrio. Ralph Leslie mentia audazmente, mas suas palavras removiam antigos pesadelos. Fechou os olhos para conter o rancor e a funda sensação de dor e vazio. Quando voltou a olhar de novo, sua tia tinha as mãos entrelaçadas sobre seu amplo busto, absorta na história que narrava Leslie. James franziu o cenho; Alice, embora parecesse dura, tinha um coração sentimental que se derretia como a manteiga ao aproximar-se da lamúria mais minúscula.

-Isobel morreu naquele inferno - disse Leslie, baixando a cabeça.

-Pobrezinha! -exclamou Alice.

Isobel se agitou em seus braços. James sentiu o movimento de sua garganta ao tragar e ouviu um gemido apagado de dor... Ou era um sufocado grito de socorro?

-Era uma mulher muito formosa, e uma grande profetisa.

-Isobel, a Negra? - perguntou Alice, vacilante. - A profetisa?

-A mesma. Madame, alguém conseguiu escapar do fogo. Havia uma flecha cravada na parede do precipício, adornada com plumas brancas como as que usa o Falcão da Fronteira. Se foi ele quem matou a minha Isobel, eu lhe matarei com minhas próprias mãos.

-Uma flecha com plumas brancas não é uma prova de que Jamie estivesse ali. E pode ser que sua amada escapasse do fogo.

-Isso alegraria meu coração - repôs Leslie. - Se vir seu sobrinho, lhe dê uma mensagem de minha parte.

-Não vem nunca aqui.

-Nesse caso terá que lhe buscar e lhe dizer que eu tenho Margaret Crawford sob minha custódia.

-Margaret! -estalou Alice. -É minha sobrinha! Está bem? Se lhe fizerem mal...

-É minha hóspede, não lhes inquietem. Agora certamente procurarão o Lindsay para lhe dizer onde se encontra ela. Não me cabe dúvida de que estará preocupado.

-Jamie levará uma horda de homens até suas muralhas...

-Margaret se encontra a salvo, a meu cuidado. Mas diga ao Lindsay que se quer vê-la outra vez, deverá ir ao castelo do Wildshaw, do que eu sou oficial, para escoltá-la até sua casa.

James fechou com força o punho, com os nódulos brancos, contra a cintura do Isobel enquanto escutava as mansas palavras do Leslie, que ocultavam uma dura ameaça contra Margaret e o Falcão da Fronteira. Isobel se removeu em seus braços, de modo que apertou os braços ao redor de sua cintura e a mão na boca para acalmá-la.

-Vocês mandam no Wildshaw? - perguntou Alice em tom tenso.

-Assim é. O rei Eduardo o pôs sob meu mando recentemente - respondeu Leslie. - Entregue minha mensagem, madame Crawford. Estou seguro de que terá algum contato que saiba onde está esse proscrito. Eu retornarei dentro de uns dias, e espero que tenha alguma notícia a me dar - fez girar a seu cavalo. - Com Deus, madame.

Ele e seus homens abandonaram o pátio sob o olhar de Alice, que lhes contemplou com as mãos tampando-a boca e as bochechas intensamente ruborizadas. Então se deu a volta e pôs-se a correr ao interior da casa.

James sentiu que Isobel lutava em seus braços.

-Já se foi - grunhiu. Mas nesse instante notou um rápido tremor no chão. - Cavaleiros! -vaiou, tombando-se de novo de bruço entre a vegetação. Empurrou Isobel pelas costas para obrigá-la a tombar-se de barriga para baixo também e protegeu o corpo dela com o seu, apoiando pela metade seu torso sobre o dela e lhe tampando a boca com uma mão.

Altas e frondosas, as samambaias lhes rodeavam como em uma cova de verdor. James inalou o aroma de verde das folhagens e o aroma doce e quente de Isobel com o rosto muito perto do dele, meio escondido em seu cabelo. O firme e magro corpo da jovem era como um colchão para ele. Permaneceram assim por espaço de intermináveis minutos, com a respiração ofegante. James fechou os olhos e ficou a escutar com todo seu ser, sentindo os cascos dos cavalos na terra, ouvindo o entrechocar de armas e armaduras.

Os cavaleiros se aproximaram tanto a eles que as samambaias se balançaram ao passo dos cavalos. Um montão de terra solta caiu sobre as costas do James. Isobel tremeu debaixo dele.

De repente ela torceu a cabeça e escapou da mão que lhe tampava a boca, proferindo um leve grito. James, em um instante de desespero, agarrou-lhe o queixo e lhe girou a cabeça, e, seguidamente cobriu os lábios dela com os seus, silenciando-a de forma precisa, rápida e total.

Isobel ficou imóvel. Com sua boca apertada sobre a dela, James respirou ao mesmo ritmo, lento e úmido, enquanto o retumbar dos cascos dos cavalos lhes rodeava por toda parte. Os lábios dela se moveram sob os seus vacilantes, quase comovedores. James sentiu que lhe invadia um profundo formigamento de emoção e permaneceu quieto, sem mover os lábios, mas abrandando-se contra o corpo dela até que sentiu como lhe acelerava o sangue nas veias.

Então retirou a boca, surpreso pelo ímpeto que lhe tinha invadido. O coração lhe pulsava desbocado... de medo, de desejo, do intenso desejo de saboreá-la outra vez. Olhou-a e viu que seus olhos, impressionantes sob a luz esverdeada da cúpula de samambaias, estavam cheios de lágrimas.

-Isobel... -Com delicadeza, introduziu os dedos no sedoso arbusto de seus cabelos e voltou a beijá-la. Esta vez pretendia que fora um verdadeiro beijo, e não um ato desesperado.

Tenros e doces, seus lábios eram como mel morno pelo sol sob os seus. Aquele beijo lento e delicioso lhe voltou louco, roubou-lhe o fôlego e a razão, alterou o ritmo de seu coração. Um momento mais tarde se deu conta de que os cavaleiros se foram, embora não estivesse seguro de quando tinha ocorrido tal coisa. A contra gosto, separou os lábios dos de Isobel e elevou a cabeça para escutar.

Silêncio. Olhou ao Isobel e viu que lhe estava olhando fixamente, com os olhos brilhantes e cravados nos seus, cheios de percepção.

Cheios de visão. Tocou-lhe a bochecha com um dedo, e o coração voltou a acelerar-se em seu peito.

-Deus do céu. Pode ver - sussurrou.

-Sim - respondeu ela brandamente. - Foi agora mesmo - riu abertamente. – Voltou-me quando me beijastes.

James ficou olhando.

-Como...? - deixou escapar um suspiro de assombro. - Sempre faz falta um... um beijo? - pareceu-lhe que falava como um atrasado mental.

-Nunca provei os beijos como um padre - Isobel riu de novo, encantada. - Mas funcionou como um milagre.

James piscou incrédulo, e depois sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

- Não entendo nada. De verdade que não - murmurou, ao tempo que se elevava sobre seus joelhos entre as samambaias quase de repente, pois a importância do que lhe acabava de acontecer lhe causou o mesmo impacto que se lhe houvessem dado um murro.

Esquadrinhou os arredores com olhar carrancudo e não viu mais que o bosque deserto. Só em uma coleção de histórias de Santos ou em um romance de aventura podia um casto beijo obrar milagres. Mas aquele não tinha sido um beijo casto; ainda sentia todo o corpo inflamado, o sangue aceso. Pela Santa cruz, disse-se; aquilo não era nenhuma narração épica, e ele era um foragido, não um herói. Mas não podia sacudir os efeitos daquele beijo impulsivo e desconcertante, nem em seu corpo nem em seu coração. Desejava tomar Isobel em seus braços e experimentar de novo aquela força arrasadora.

O olhar do Isobel estava fixo nele, doce e sereno. Alegrou-se de ter de novo o contato de seus olhos, tinha-o sentido falta demais o olhar de adoração que agora lhe dirigia fazia sentir-se claramente incomodado. Preferia pisar em terreno mais seguro, como quando tinha que enfrentar-se a inimigos, à desconfiança ou a questões práticas como reféns e estratégias. Não sabia o que fazer com as visões, a magia nem os milagres. Não sabia o que fazer com o amor.

Nada disso, advertiu-se a si mesmo. Não, não, dentre todas as mulheres, precisamente a profetisa não. Passou-se uma mão pelo cabelo. Uma vez mais, Isobel, a Negra havia trazido algo inesperado a sua vida. Não sabia o que pensar dela; não sabia o que sentir por ela. Mas sim sabia que desejava tocá-la de novo, beijá-la, inundar seu endurecido coração na brandura de sua natureza. Inclusive desejava aquela adoração por parte da jovem, mas sabia que não a merecia.

Franziu o cenho e desviou o olhar.

-Já se foram os cavaleiros. É mais seguro partir.

-Sim, mais seguro que ficar aqui suspirando por uma moça, pensou amargamente. - Vou procurar o azor e os cavalos. Fique aqui. -e ficou em pé.

Isobel rodou para um flanco e se sentou.

-James Lindsay.

O aludido baixou a vista. Ela se elevava entre as samambaias como a rainha das fadas, com as verdes folhagens aderidas a seu vestido e a seu cabelo. James experimentou uma sensação estranha na zona do coração.

-Sim? - perguntou com suavidade.

-Obrigado - sussurrou Isobel. - Pelo beijo.

Ele deixou escapar um suspiro.

-Teria retornado a visão cedo ou tarde, como disse. Mas me alegro de... de ter sido de ajuda.

Isobel olhou-o fixamente. James pensou quão inocente era e, entretanto, quão misteriosa, com aquela sua estranha sabedoria, com aqueles belos olhos e aquela doce boca. Desejou ser livre para poder amá-la. Em ocasiões se perguntava como seria isso de levar uma vida tranqüila. Mas jamais saberia; sempre estava com o perigo à espreita. Não podia aspirar a ter paz, nem amor, nem nenhuma profetisa de cabelos negros.

Isobel começou a levantar-se. James duvidou um instante e em seguida lhe estendeu uma mão para ajudá-la, endurecendo-se para não sentir o prazer de tocá-la. Por fim a soltou e se afastou uns passos.

-James - disse ela. - Ralph realmente tem Margaret.

-Assim é - respondeu ele, asperamente. - E a retém com a intenção de apanhar-me.

-Mas disse que vocês tinham assassinado a vários homens, e que prometeram trair Wallace em troca de uma recompensa. Mas... -interrompeu-se por um momento. - Isso não pode ser verdade.

James a olhou por espaço de um batimento do coração, e de outro mais. Viu a fé em seus olhos, e soube o que ela queria ouvir, e também que o que ia dizer-lhe faria mal.

-Sim - disse. - É verdade.

E imediatamente virou-se para não ver como aquela recentemente nascida confiança se fazia pedaços em seus formosos olhos.

 

Isobel olhou ansiosa ao redor enquanto cavalgava ao lado de James. A clareira reluzia como uma jóia ao sol, com a pequena casa assentada no centro, tão acolhedora e caseira como a tinha imaginado pela descrição que fez James.

A cegueira, ao desaparecer, sempre lhe deixava uma espécie de fome visual. Passeou o olhar ao redor com avidez e fixou em James, que cavalgava frente a ela levando na mão as rédeas de seu cavalo. Sua postura era ágil e poderosa, sentado no lombo do semental negro. O azor permanecia tranqüilo posado em sua mão, com as asas delicadamente pregadas e o olho brilhando cada vez que girava a cabeça. James se voltou para trás um instante para olhá-la e a seguir olhou de novo à frente.

Isobel sentiu um calor que lhe alagava a garganta e as bochechas, e experimentou de novo o eco daquele beijo turbador que a deixou sem fôlego. Jamais esqueceria como se desvaneceu a escuridão à medida que o beijo se ia voltando mais tenro e profundo. Naquele momento se sentiu tão transbordante de alívio e de gratidão que desejou lhe beijar de novo. Simplesmente, sentiu-se embargada de adoração por James. Mas ele se deu a volta, mostrando-se distante uma vez mais, e depois admitiu ter cometido traição.

Isobel teve a mesma sensação que se lhe tivessem atravessado o coração. A flecha que lhe cravou no braço era tão somente um espinho insignificante comparado com aquelas palavras que a tinham ferido como uma adaga.

Observou-lhe agora, a cabeça orgulhosamente erguida, o porte dos largos ombros, e não pôde acreditar que fosse capaz de cometer um ato tão atroz. Sentiu que a invadia a confusão. Tinha comprovado que sir Ralph Leslie não era o leal cavalheiro que seu pai tinha acreditado; retinha prisioneira uma mulher, e mentiu a respeito de seu intento de resgatá-la para ganhar a simpatia da Alice. Se ele acreditava-a morta, sua aflição não parecia genuína. Franziu o cenho. Já não podia confiar em Ralph mais do que confiava em James... mas preferia o proscrito ao cavalheiro.

O azor agitou as asas de repente e lançou um chiado. James o fez calar e deteve os dois cavalos. Isobel olhou à frente e viu uma mulher que saía pela porta da casa. Vestida de cor marrom terra e com uma touca branca, agachou a cabeça ligeiramente para passar sob o beiral. Era alta e corpulenta, com certo ar guerreiro e um busto generoso. Apoiou os punhos nos quadris e lhes olhou.

-Saudações, tia - disse James, descendo do cavalo.

A mulher foi para ele e lhe deu um forte abraço, depois do qual se retirou para trás, com lágrimas nos olhos.

-Passa dentro! Estão-lhe procurando! - Dirigiu um olhar a Isobel. - O céu nos proteja! É esta a profetisa?

-Sim - respondeu James. - E está muito viva.

-Ouviu o que disse aquele cavalheiro? - Alice olhou-o fixamente.

-A maior parte. Estávamos escondidos entre as samambaias.

James acomodou ao azor sobre o improvisado amparo de couro que lhe cobria o punho e se voltou para ajudar Isobel a desembarcar do cavalo, depositando-a no chão e soltando-a em seguida. Ela se virou para olhar de frente à formidável mulher.

-Triste par de viajantes - comentou Alice, movendo a cabeça negativamente. - E onde encontraste esse azor?

-É uma longa história, Alice - respondeu James com cansaço.

-Pois gostaria de ouvi-la - repôs Alice energicamente. Estendeu uma mão a Isobel. - Oh, pobre pequena. Está pálida como uma pomba, e igualmente bonita - envolveu Isobel em seu quente abraço e a acompanhou para a porta. - Ah, é pelo braço ferido. E também coxeia um pouco - Alice se voltou para o James. - Como ocorreu isto?

-Uma flecha - respondeu James, caminhando atrás delas. - No braço e no pé - Isobel captou seu olhar sério e se deu conta de que James não queria mencionar a cegueira.

Alice lhe olhou com os olhos muito abertos.

-O céu nos guarde! Uma moça ferida por duas flechas, um azor andrajoso e escoceses e ingleses que buscam os dois - sacudiu outra vez a cabeça. - Esta moça está tão cansada que mal pode sustentar-se em pé.

-Por isso a trouxe aqui. Sabia que nos acolheria... sem nos fazer muitas perguntas.

-Pois lhe deveria fazer, descarado! - explorou Alice. - Como pode permitir que tratem assim uma dama? -voltou a vista para o terzuelo com cara de poucos amigos. - Está adestrado esse azor? Tem aspecto selvagem.

-É selvagem em parte - respondeu James.

-Nesse caso, tome cuidado com o Ragnell, se o colocar dentro da casa. Será melhor que o deixe nas cavalariças quando for atender esses cavalos roubados. Reconheço os animais ingleses assim que os vejo - acrescentou em tom seco.

James dissimulou um sorriso.

-Está bem, Alice.

-E não me sorria assim. Hoje menti por ti, moço, ao dizer que nunca te via e fingir que não sabia que Margaret se encontrava prisioneira. São meus únicos pecados, estas pequenas mentiras que digo por ti. Roga ao céu que me perdoe.

-Assim o farei - repôs ele.

Isobel viu um sorriso de carinho. Alice emitiu um grunhido a modo de resposta e acompanhou Isobel ao interior da modesta moradia. A penumbra as envolveu de repente, tão somente aliviada pelo resplendor do fogo que ardia no meio do chão. Alice conduziu Isobel até um arca de madeira de tampa plaina, onde tomou assento.

No momento em que James cruzou a soleira, Isobel ouviu um chiado e um rápido bater de asas. Em um rincão escuro da habitação, um falcão posado em um alto cabide se deixou cair para trás em uma sonora rabiada. O terzuelo que James levava sobre o punho fez o mesmo, como se o outro rapaz lhe tivesse deixado tolo. James estendeu o braço para lhe deixar espaço suficiente para sua manha de criança.

-Bendito - disse Alice. - Esse azor a sobressaltou, e isso que eu tinha conseguido acalmá-la depois da visita dos que vieram antes de vocês - apressou-se a aproximar-se do cabide e começou a falar com ave com palavras tranqüilizadoras. Isobel a observava desde seu assento, olhando atônita a um azor e ao outro, a um dono e ao outro. O azor da Alice era uma fêmea grande de cauda vermelha, com plumagem marrom e um toque de avermelhado brilhante na cauda. O terzuelo era menor, mas de caráter igualmente tempestuoso. Tanto Alice como James esperaram com infinita paciência até que as duas aves zangadas se foram acalmando.

Quando se tranqüilizou o terzuelo, James o levantou para colocá-lo de novo sobre o punho. Isobel dirigiu um olhar à fêmea, que continuava pendurando cabeça abaixo de suas guarnições e que gradualmente foi aquietando suas asas até não as mover mais que com alguma sacudida ocasional.

-Ragnell está convertendo isto em uma cerimônia - assinalou James.

-Deveria ter sido uma cômica, ela adora atuar. - Alice levantou a ave e a posou de novo no cabide. - É um pássaro malcriado - murmurou-lhe com afeto, lhe acariciando as plumas inchadas do peito. - Um pássaro precioso e inútil.

Ragnell respondeu a sua proprietária com um gorjeio e se aferrou ao cabide de madeira com suas garras... ou com o que ficava delas. Isobel se fixou com surpresa em que a parte inferior da pata esquerda da ave era de prata. Aquela pata de metal, atada com correias a de verdade, tinha a forma perfeita de um jogo de garras que se adaptava ao cabide.

-Falta-lhe uma pata? -perguntou surpreendida.

-Desde que vivia nos ramos das árvores - disse Alice. - Por isso está tão malcriada. Nós a mimamos, e agora é ela a que nos domina.

James penetrou com cuidado na casa, sustentando o azor.

-Tranqüila, lady Ragnell. Trouxe-te um amigo.

-Sim, seja educada, tola - disse Alice a sua ave. - Não quero te pôr o capuz, embora isso te acalmaria. Assim, tranqüila. – Seguiu-lhe falando com o Ragnell durante uns momentos, e depois se voltou e cravou seu olhar em James.

-Um momento - disse James, elevando a mão. - Sei o que significa esse olhar.

-Exato, quero a verdade - disse Alice. - Por que te busca sir Ralph Leslie? Tem prisioneira a Margaret com a intenção de pedir um resgate?

James se encolheu de ombros.

-Os ingleses querem me capturar, e Leslie se uniu a eles. De todos é sabido que eu ataquei ao grupo de homens que capturaram Wallace. E você sabe que Leslie estava entre os que nos levaram a Margaret e a mim ao Carlisle a primavera passada - dirigiu um olhar ao Isobel, como explicando em parte para ela. - Quando escapei do guarda inglês faz várias semanas, Leslie ficou com Margaret sob sua custódia.

-Já tenho bastante com que tenham matado a meu Tom - disse Alice em voz baixa. - Não posso suportar a idéia de perder também a minha sobrinha. Ela insistiu em unir-se a seus parentes varões no bosque e em lutar com eles, mas eu tinha a esperança de que a fizessem retornar ao descobrir que era uma mulher. Espero que tenha planejado ir por ela, Jamie. Nada eu gostaria mais - olhou-lhe com as pálpebras entreabertas. - Mas agora me diga como é que tem contigo à profetisa, quando Leslie a crê morta.

-Os ingleses puseram cerco a seu castelo, de modo que a tirei de lá - respondeu James. - Tivemos que descer pela parede do precipício.

-Depois de atear fogo ao castelo - atravessou Isobel. Alice lançou uma leve exclamação.

-Verdadeiramente, é uma triste historia!

-E vai ser pior a partir de agora - disse James. - Alice, necessitamos de sua ajuda. A moça necessita descanso e cuidados.

-Sir Ralph quererá saber que está viva.

-OH, descobrirá - repôs James com expressão grave.

-Ama muito a esta jovem. Ao menos, estou segura disso.

-Sim - disse James. - Eu também acredito que a quer.

Havia algo em seu tom grave e tranqüilo que produziu uma série de ligeiros calafrios em Isobel. De repente desejou que James fosse o único que a desejasse. Invadiu-a a súbita e intensa lembrança de uns beijos compartilhados sob a folhagens das samambaias. Aspirou profundamente e desviou o rosto.

-Mas Leslie não a terá - prosseguiu James, olhando para Isobel - até que recuperemos a Margaret.

-Pensa em trocá-la pela Margaret? - perguntou-lhe Alice.

-Isso é o que tinha pensado.

Alice franziu o cenho, com as mãos apoiadas nos quadris.

-Bom, se ele a quiser, e ela a ele, e se nós quisermos a Margaret, quem perde na troca?

-Em efeito, quem? -murmurou James com o olhar fixo em Isobel.

-Deixem que eu vá ao Wildshaw e lhe peça que libere a Margaret - ofereceu-se Isobel com voz cansada. - Tenho que ver meu pai, e pode ser que se encontre no Wildshaw. Devo averiguá-lo.

-Não - replicou James.

-Irei - insistiu ela, audaz.

-É isso uma predição? - inquiriu ele em tom brando. Alice se interpôs entre ambos.

-Deixemos isto de momento. Isobel levou muito tempo em mãos de rufiões, e está esgotada. Os dois estão cansados.

James assentiu com um gesto sem deixar de olhar ao Isobel. Esta suspirou e passou os dedos pelo cabelo emaranhado, inclinou-se para diante e enterrou o rosto na mão.

-Estou cansada - admitiu. James se virou para a porta.

-Vou levar o azor à cova e a atender os cavalos.

-Bem. Ragnell não tolerará a presença desse azor na casa - disse Alice. - Parece estar a ponto de ter outra rabiada - Como se a tivesse entendido, Ragnell lançou um chiado e elevou as asas. - O que lhe terá passado?

-Pusemos no azor o nome do Gawain - disse James. - Talvez saiba que encontrou a seu casal e não goste.

-Ha! Nunca encontrará a sua alma gêmea - comentou Alice.

-Todos a encontramos, Alice - replicou James. - Cedo ou tarde, topamo-nos com a pessoa que conquista nosso coração.

E depois de uma breve inclinação de cabeça para o Isobel, voltou-se e saiu da casa.

Isobel ficou olhando-o, com o coração lhe pulsando com força.

-Benedito - disse Alice com suavidade. - Note nisso.

-Sua profetisa ronca - observou Alice. - Quase tão forte como roncava Nigel, que era capaz de mover as cortinas com seus roncos.

James riu brandamente e tomou um sorvo de cerveja de uma taça de madeira. Olhou a sua tia, que estava sentada a seu lado sobre o banco que havia junto ao fogo. Seus gorduchos dedos dirigiam uma agulha com a que reparava um rasgo do vestido do Isobel. A luz vacilante do fogo lhe iluminava a cara, contraída em um gesto carrancudo.

-Você e Margaret são os únicos que ficaram neste mundo - disse. - Nigel me deixou faz quatro anos, e nossos dois filhos maiores morreram no Stirling faz já sete anos. E a primavera passada, o jovem Tom - interrompeu-se e se mordeu o lábio inferior.

-Sei que foi muito duro para você - disse James em voz fraca.

-Tem que recuperar Margaret, Jamie.

-Farei-o.

A agulha lançou um brilho.

-Tinha a esperança de que um dia se casasse com ela. Só são primos por matrimônio. Margaret é uma boa moça.

-Margaret -respondeu James - tem a vontade de um boi.

Alice riu brandamente.

-Isso disse Tom dela em uma ocasião. «Margaret tem a vontade de um boi, e também as ancas, e não quero jogar com ela.» Eu lhe dava um açoite em suas ancas com a vassoura para lhe ouvir dizer aquilo! - Riu de novo, e James riu com ela.

Continuou com seu trabalho, e James terminou a cerveja. Nesse momento ouviu um claro assôo de nariz e ao levantar a vista viu que sua tia tratava de conter as lágrimas. Lançou um suspiro.

-Alice...

-Estou bem, moço - disse ela. - Enquanto lhes tenha a ti e a Margaret, estou bem. - Mas uma sombra cruzou seus olhos.

James assentiu com um gesto, consciente de que sua tia lamentava profundamente a perda de seu marido e de seus três filhos pela causa de Escócia. Mas amava a ele, o filho de sua irmã, e a Margaret, a sobrinha de seu marido, como se fossem filhos deles.

James sentiu algo morno que se roçava contra sua perna, e baixou a mão para acariciar um grande gato branco.

-Olá, Cosmo - murmurou enquanto lhe passava a mão pelo lombo- Estiveste caçando ratos para lady Ragnell? Talvez encontrasse alguns há mais para o Gawain.

-Traz ratos ao Ragnell só porque ela o aterroriza, e trata assim de aplacá-la - disse Alice. - Terá que caçar você mesmo ratos para esse teu azor. E também pardais. Os azores adoram os pardais - levantou a vista. - Cosmo, saia da cama, vais despertar à moça. Vamos! - agitou a mão em direção ao gato, o qual se voltou e se acomodou junto às pedras do fogo.

James dirigiu um olhar à cama de Alice, escondida depois de uma cortina e colocada na parede norte da habitação principal, onde Isobel seguia dormindo e provavelmente continuaria até a manhã. Possivelmente então se encontrasse bastante descansada para que ele pudesse por fim lhe fazer algumas perguntas.

Quando ele retornou à casa depois de se ocupar do azor e dos cavalos, Isobel já estava dormindo. Alice lhe tinha curado as feridas com ungüentos de ervas, tinha-lhe preparado um banho e lhe tinha dado umas papas para jantar. Enquanto James comia, Alice renovou a água do banho com um cubo cheio para que James pudesse desfrutar também do mesmo prazer.

A água ainda conservava o aroma a lavanda e a espuma do sabão de ervas que tinha utilizado Isobel. James se esfregou o cabelo e se barbeou a descuidada barba, tratando de não pensar no corpo cremoso do Isobel, nu e reluzente, que tinha compartilhado a mesma água, e em lugar disso se obrigou a si mesmo a pensar em outros assuntos mais singelos. Estava acostumado a banhar-se em um lago de frias águas próxima a sua casa no bosque, mas o agradável calor e a fragrância deste serviram de bálsamo para seu corpo cansado melhor que nenhuma outra coisa.

Depois de colocar uma túnica e meias de sarja marrom, roupas que tinham pertencido a seu primo Tom, um jovem alto e de ossos grandes, sentou-se junto ao fogo para explicar a sua tia o que tinha acontecido desde que escapou dos ingleses várias semanas atrás. Alice lhe escutou em silêncio e lhe ofereceu calorosos elogios por seu intento de salvar Wallace, embora ele o considerasse um fracasso, e pelo resgate dos habitantes do assediado castelo do Aberlady. Repreendeu-lhe pelo estado do Isobel, mas James sabia que em realidade só estava expressando sua efêmera desaprovação; fizesse o que fizesse, sua tia acreditava em sua integridade.

Alegrava-lhe que houvesse alguém que acreditasse isso. Agora, conforme a noite se ia voltando mais escura, passavam um momento sentados juntos. James associava os momentos de paz com o quente fogo da Alice, já fora na casa do bosque ou anos atrás no lar dos Crawford no Dunfermline.

-Sim que ronca - comentou Alice, levantando a vista da costura. - Escute-a.

James ocultou um sorriso. A ele, os roncos que saíam de detrás da cortina lhe pareciam escassamente audíveis, mas Alice levava muito tempo vivendo quase isolada, com seus animais por toda companhia, e se tinha desacostumado aos sons que produziam os seres humanos.

-Se lhe inclinar a cabeça, se calará - disse. Alice lhe dirigiu um olhar suspicaz.

-E você como sabe isso?

-Ontem à noite dormimos no bosque. Assim o descobri.

-Ah, já me fixei em que lhe falou com muita doçura e se preocupou muito de que estivesse cômoda. - seus olhos castanhos faiscaram de repente. - E o que tem com nossa Margaret, né?

-Vamos, não é nada disso, com nenhuma das duas - respondeu James em tom austero. - Isobel está a meu cuidado.

-Sim, assim é como quer chamá-lo - Alice seguiu acontecendo a agulha pelo tecido. - Quanto tempo pensa tê-la contigo?

-Logo enviarei uma mensagem ao Leslie.

-Eu acredito que não quer deixá-la partir - acrescentou Alice em voz fraca.

James apertou os lábios.

-Causa-me mais problemas do que você possa imaginar. Não esperava que acabasse ferida. Necessita algum tempo para recuperar-se - terminou sem muita convicção. Não podia explicar a sua tia a confusão de sentimentos que experimentava pela profetisa; ele mesmo nem conseguia desembaraçar os fios.

-Isobel, a Negra, é mais jovem do que eu acreditava. Muito jovem e doce para pronunciar predições tão horrendas e precisas.

-Sim - James se inclinou para diante e estendeu as mãos para captar o calor do fogo. - Predisse a traição e a execução do Will, e sua predição me culpou. O falcão do bosque. O Falcão da Fronteira - por que, Alice? Quem lhe ordenou que dissesse o que disse a respeito do Will e de mim?

-Talvez seja uma vidente autêntica - sugeriu Alice.

-Talvez - repôs James com suavidade, recordando o que tinha presenciado no bosque. - Talvez. Mas há pessoas que teriam feito algo para deter Wallace... e por deter os que ainda seguem lutando pela independência de Escócia.

-E crê que Isobel, a Negra, sabe quem podem ser essas pessoas.

-Pergunto-me se conhecerá os nomes. Sir Ralph Leslie é um deles. Mas talvez saiba de outros que desejassem capturar Wallace.

-Sir Ralph leva um bracelete negro por Isobel. A ama.

-Duvido que seja sincero - replicou James. - Além disso, pode amar e seguir cometendo assassinatos. Eu fui culpado a propósito da morte do Will. Se existir algum plano concebido, descobrirei a verdade.

Alice assentiu.

-Deve limpar seu nome.

James negou com a cabeça.

-Já é muito tarde para isso. Isto devo ao Will - disse com um fio de voz. - Isso é tudo.

-Leslie disse que tinha provas de que traiu ao Will. A que se referia? Tem que ser falso.

James exalou um suspiro. Sabia que tinha que dizer a Alice a verdade, mas vacilou, temendo que ela deixasse de lhe venerar quando soubesse o que tinha feito, e não disse nada.

-Jamie - disse Alice em voz fraca. - Jamais acreditaria em uma traição que proviesse de ti. Quero que saiba isso.

James não confiava em si mesmo para falar. O silêncio encheu a habitação.

-É tarde - disse por fim. - Tenho que ir ver como está o azor, leva muito tempo nas falcoeiras sem mim. Tive que lhe pôr o capuz para que se acalmasse. Com sorte, terá dormido e não terá tido rabiadas.

-Espero que você também durma um pouco e não fique toda a noite em pé, observando esse azor para adestrá-lo.

-Dormirei - respondeu ele. - Começarei o adestramento pela manhã.

-Jurou que jamais teria outro falcão.

-A este o encontrei pendurado de uma árvore pelas correias, e não pude deixá-lo ali, mas o terei só até que se recupere.

-Está bem - disse Alice filosoficamente. - Talvez seja um pequeno presente de Deus.

-Ou uma pequena prova - replicou James, agarrando uma vela acesa de duas que ardiam sobre um suporte.

-Tiveste muitas provas, Jamie. Já é hora de que Deus te dê algum presente.

-Deus não parece estar de acordo nisso - repôs ele em tom acre, e abriu a porta para sair ao ar da noite.

 

O olhar do azor se viu atraído pela brilhante chama da vela quando James atravessou a escuridão da cova. Anos atrás, em ocasiões, tinha utilizado aquela cova diminuta e em forma de cunha de falcoeira para o Astolat e Ragnell. Deixou a vela em um nicho natural que havia na parede de rocha e a inclinou de maneira que o azor pudesse vê-la. A seguir se agachou para atender o fogo que ardia no pequeno braseiro de ferro do rincão; tinha deixado os carvões de turfa em chamas quando entrou na cova na vez anterior para levar o terzuelo, e o fogo já havia se estabilizado. Sabia que ao azor lhe viria melhor o calor e o ar seco que o frio e a umidade.

Abriu um arca de madeira que estava apoiada contra o extremo mais afastado da caverna e revolveu uma sortida variação de guarnições para rapazes: luvas de couro, zurrones, correias, grilhões de bronze, cascavéis para as patas e minúsculos capuzes de couro. Escolheu uma luva e a deslizou em sua mão esquerda. Ajustava-lhe perfeitamente, embora fazia anos que não usava uma. Flexionou os dedos dentro do cheio interior e se ajustou a comprida manopla sobre o antebraço. O couro precisava ser engordurado, mas pelo resto se encontrava em bom estado.

Nunca tinha tido a intenção de utilizar de novo aquela luva, e muito menos de levar seu falcão posado nele. A luva se mostrou pesada e rígida em princípio, mas logo o couro gasto se esquentou e se amoldou a sua mão.

Contemplou a velha mancha que obscurecia a palma da luva, apenas visível atrás dos repetidos esfregados, deixada pelo sangue do Astolat quando morreu em sua mão. A luva lhe trouxe para a memória outras lembranças daquele desgraçado dia em que a tragédia lhe golpeou uma e outra vez antes de que ficasse o sol, e acusou o grave peso daquela tristeza antiga, congelada, como uma carga da que nunca se livraria de tudo. Mas apartou a um lado aqueles pensamentos, agarrou umas quantas correias e um zurrón e se voltou para aproximar-se do azor, que piscou ao lhe ver passar junto a ele, ainda fascinado pela chama amarela. James esboçou um sorriso triste.

O terzuelo semi-selvajem era formoso, mas não muito inteligente; não era provável que cativasse seu amo do mesmo modo que o tinha feito Astolat. Aquela era uma magnífica jaqueta e uma criatura de estranha lealdade, e James tinha a certeza de que jamais conheceria outra igual.

Conservaria ao Gawain até que se recuperasse, e depois lhe deixaria partir sem lamentá-lo. Não queria ter um falcão; as criaturas formosas e difíceis complicavam muito a vida e requeriam um tempo e uma atenção que ele não podia dar.

-Tranqüilo, pequeno - disse-lhe brandamente. O azor agitou as pálpebras com velocidade vertiginosa sem deixar de olhar a chama, totalmente extasiado.

James estirou a mão enluvada enquanto lhe murmurava em voz baixa. Tirou as correias das patas e pôs em seu lugar um par de fatias que tinham pertencido a Astolat. Depois de enrolar ao redor das garras de unhas mais pequenas, empurrou brandamente com o punho enluvado a parte posterior das patas, magras e musculosas. Gawain devia ter sido bem adestrado, pensou. Sem logo que duvidá-lo, a ave deu um passo atrás e se posou sobre seu punho, com as garras fortemente obstinadas à luva justa e a base do polegar.

-Bom menino - disse-lhe James. Ofereceu-lhe um pouco de carne crua e atalho que tinha deixado ali antes, quando levou o azor àquele lugar. - Lembra-te de parte de seu adestramento. Ou talvez esteja muito cansado para ter outra manha de criança.

Lançou um suspiro, deu ao azor outro pouco de carne e deixou o resto no zurrón que levava no cinto. Gawain comeu às pressas e com avidez.

-Não necessito um falcão, pequeno - disse-lhe. - Mas te conservarei enquanto precise de cuidados. Embora tenha que ser adestrado, porque tem más maneiras - acariciou brandamente as plumas do terzuelo, sabedor de que o contato suave tranqüilizaria ao animal.

Entretanto, era consciente de que um excesso de contato humano lhe alisaria as asas e as voltaria pesadas.

Quando o azor terminou de comer, James se voltou e o levou para a vela, e a apagou de um sopro. O terzuelo se agitou sobre seu punho e depois se aquietou, serenado pela escuridão que encheu a estadia, tão somente aliviada pelo resplendor vermelho do braseiro. James sabia que o jovem azor estava cansado e possivelmente dolorido pelo que parecia ser uma asa torcida.

-Assim, sir Gawain, começa o adestramento - disse James, fazendo que sua voz flutuasse grave e tranqüila na escuridão. - Agora eu sou sua fonte de comida. Sou seu raptor, e também sua liberdade. Aprenderá a conhecer minha voz do mesmo modo que o batimento do coração. - Enquanto falava, acariciava-lhe as plumas do peito com as pontas dos dedos.

Isobel se filtrou em seus pensamentos igual a uma névoa de verão, abrandando seu ânimo. Ele também era o raptor da moça. Com o azor, tinha que trabalhar por conseguir um intercâmbio de prudente confiança entre amo e falcão; aquilo era tudo o que podia pedir de uma criatura tão selvagem e elementar. Mas a mulher já estava civilizada e possuía um caráter agradável e delicado e, entretanto, ele ansiava contar com sua confiança. Mesmo assim, pensou que jamais a obteria; a tensão que havia entre ambos era muito forte. Conservaria ao azor mais tempo que a Isobel.

Aspirou profundamente enquanto observava ao azor, e começou a cantar brandamente, repetindo as notas segundo uma melodia monótona:

-KY-rie E-lei-são. KY-rie E-lei-são.

Uns finos fachos de lua penetravam pela entrada, que estava protegida com novelo e ramos de árvores. Sob aquela tênue luz, James viu como o azor inclinava a cabeça com curiosidade para escutar, e voltou a cantar o verso:

-KY-rie E-lei-são. KY-rie E-lei-são.

Ao longo das horas que cavalgou ao lado do Isobel no bosque, tinha estado pensando na chamada que ia empregar para o azor, e de algum modo esta encaixava bem. Era uma melodia que possuía uma serenidade difícil de encontrar, com aquelas notas elevando-se e desvanecendo-se como o elegante vôo de um falcão.

Cantarolou-a de novo em tom grave e baixo. A constante repetição ensinaria ao azor a reconhecer a frase como a chamada de seu amo. Falou com ave em tom paciente e sereno. Cantou-lhe, murmurou-lhe e a passeou ao redor, obrigando-a a permanecer acordada e mantendo-se alerta ele mesmo, com o fim de domá-la-o mais rapidamente possível. Sabia que enquanto o terzuelo seguisse tendo rabiadas e ataques de fúria por causa de seu estado selvagem, a asa não se curaria devidamente e poderia produzir novas feridas. Embora tivesse a intenção de deixá-lo em liberdade, sabia que de momento devia domá-lo.

E durante todo esse tempo, enquanto passeava com o azor cantando para ele, refletiu sobre a fé. Desejava fé e confiança por parte do azor. Tinha a da Alice, sem reservas, fizesse o que fizesse. E também a sentia, fugazmente, em Isobel, e a tinha degustado como mel em seus lábios. Ansiava mais dela, mas sabia que a jovem tinha trocado sua opinião a respeito dele. Tinha visto que a confiança vacilava em seus olhos como a chama de uma vela: agora brilhante, ao momento seguinte mortiça.

Mas quando admitiu ante ela que em efeito tinha tomado parte na traição de Wallace, viu aquela faísca de fé desaparecer de tudo em seu olhar.

Não podia culpá-la. Até ele tinha deixado de acreditar em si mesmo.

 

Na escuridão da cama acortinada, Isobel despertou ouvindo sons suaves e agradáveis: Alice cantarolando ocupada em alguma tarefa, o crepitar do fogo, Ragnell piando e a chuva repicando no telhado. Subiu um pouco mais as mantas e espionou entre as cortinas.

-Já está acordada! - exclamou Alice de pé junto à mesa, sovando uma enorme bola de massa de pão.

-Bom dia, senhora Crawford - disse Isobel com a voz rouca.

-Me chame Alice - corrigiu a mulher, sorrindo amplamente. - Dormistes quase dois dias inteiros! Embora o descanso também cure.

Isobel piscou assombrada.

-Dois dias? Lembro que me despertei várias vezes para comer e me levantar.

-Mas nem podia falar, de cansada que estava - Alice sorriu outra vez. - Se quer levantar agora, temos que lhe dar algo de comer para que recupere as forças - Alice trabalhava ao mesmo tempo que falava, arregaçada amassando com mãos peritas. Isobel percorreu a habitação com o olhar.

-Onde está...

-Jamie está com seu azor. Gawain, diz que o chama. - rompeu a rir. - Pediu-me que assasse um pouco de pão para o terzuelo, de modo que levo a maior parte da tarde ocupada nisso.

-Pão para o azor? Não sabia que comiam pão.

-E não o comem. É para outra coisa. Jamie sabe que tenho boa mão para fazer pão, embora poucos escoceses a tenham. Mas é difícil encontrar trigo moído, com os ingleses acossando toda Escócia e nos negando seus produtos no mercado - seguiu golpeando e dobrando a massa enquanto falava. - É muito difícil comprar trigo, e a colheita escocesa é muito escassa. Jamie me traz trigo moído quando pode consegui-lo. Trouxe-me um pouco faz um par de semanas, por isso lhe disse hoje que sim, o homenagearia com um pouco de pão. Se lhes roubou esta farinha aos ingleses, isso não sei.

-Roubá-la?

-Oh, é um proscrito - Alice se encolheu de ombros. - E os ingleses não lhe importam o mínimo. Mais de uma vez ele e seus homens levaram provisões de cavalos de carga que atravessavam o bosque, e repartiram o trigo e outros mantimentos pelas aldeias. Viram -prosseguiu - muitos escoceses que têm vazios a despensa e os campos de cultivo, e que inclusive carecem de um lar, por culpa de ingleses que vêm através das Lowlands, roubando e queimando. Jamie diz que em troca devem nos compensar com provisões- deu forma a algumas fogaças plainas e redondas. - Eu faço um pão bom e esponjoso. Utilizo farinha de trigo, de aveia e de cevada, e um pouco de lúpulo para a subida da massa. Fariam bem em comer um pouco, moça. É toda ossos.

Isobel se ruborizou e se olhou os magros antebraços e as sombras das costelas que lhe saíam do esterno.

-Tenho fome - disse.

-Bem. Darei bem de comer. Suponho que antes quererá se vestir. Seu vestido e capa estão reparados e arejados, e os deixei dobrados ao pé da cama - Alice deixou as fogaças a um lado e as cobriu com um pano. - Deixe que a ajude, já que só pode usar um braço.

Em questão de poucos minutos Isobel estava banhada, vestida e sentada à mesa, com o braço direito recolhido em uma tipóia e a mão esquerda sustentando uma taça de vinho quente com especiarias. Alice depositou uma terrina de papa de aveia quente sobre a mesa e meteu nele uma colher de madeira.

-Quando estiver feito o pão, levaremos um pouco ao Jamie. Coma.

Isobel comeu. Alice levou as fogaças para fora e as introduziu em um forno de pão feito de pedra que havia atrás da casa. Ao retornar, encheu de novo a terrina de papa. Isobel comeu quase toda essa segunda porção.

-Boa garota - disse Alice. – É alta, mas está magra como um junco. Jamie me disse que passou semanas sem nada para comer, por causa do cerco.

Isobel afirmou com a cabeça e respondeu às perguntas que lhe fez Alice a respeito da dura prova sofrida no castelo do Aberlady. Nesse momento retumbou um trovão, e Isobel voltou a vista para as janelas, minúsculas aberturas cobertas com pergaminhos engordurados que deixavam acontecer uma débil claridade cinzenta. A chuva golpeava com força sobre a porta e o telhado.

-Não chove muito forte - comentou Alice - mas nos molharemos quando levarmos o pão ao Jamie.

-Onde está?

-Não está longe, terá que andar através do bosque e depois subir um largo pendente até chegar a uma cova - respondeu Alice. - Converteu-a em falcoeira faz muito tempo, e se levou ali o azor. Poderá andar com esse tornozelo?

Isobel estirou o pé.

-Já está muito melhor. Posso andar bastante bem - elevou a vista para ouvir um bater de asas.

Ragnell abandonou seu cabide e atravessou a estadia voando para ir posar-se no respaldar de uma cadeira. Sua pata de prata e seu pé em forma de garra golpearam contra a madeira até que encontrou o equilíbrio. A grande ave ficou olhando fixamente a Isobel com seu olho brilhante e de cor avermelhada.

-Não está atada ao cabide? -perguntou Isobel.

-Ragnell voa aonde gosta - respondeu Alice. - É livre de ir e vir, inclusive de sair da casa – sorriu. - Não irá muito longe, não pode viver fora daqui, com uma só pata, malcriada e acostumada à mão de um ser humano, e ela sabe.

-O que lhe ocorreu na pata?

-Quando a deram de presente a meu marido era um pintinho ferido, quer dizer, uma cria tirada do ninho para ser domesticada. Nigel era falcoeiro real - explicou Alice enquanto vertia vinho quente e especiado na taça do Isobel, e servia uma segunda taça para ela.

Isobel assentiu com um gesto.

-Sei. Jamie me falou dele.

Alice agarrou uma luva de couro e o pôs, e a seguir levantou a mão. Com um rápido bater de asas, Ragnell cruzou a habitação e foi aterrissar com precisão assombrosa no punho de sua proprietária.

-Ragnell tinha sido atacada por um falcão ciumento na falcoeira de outro homem. Nigel acreditou que ia morrer, mas era um passarinho muito feroz.

Tirou uma parte de carne crua de um prato que havia junto ao fogo e deu a Ragnell uma pequena porção. Depois limpou os dedos em um trapo.

-A pata ferida lhe pôs negra e lhe caiu. Nigell fez outra falsa, e mais tarde outras, à medida que ia crescendo. Aprendeu a voar e a posar-se levando a pata de prata. Inclusive aprendeu a voar perseguindo presas, embora não é o que mais gosta. Está muito acostumada ao punho, e só se alimenta desta forma. Ah, pássaro tolo e preguiçoso - arrulhou-a.

Ragnell cacarejou e se estirou para baixo para limpar o pico nos lados da luva. Abriu a cauda em leque, lançou uma deposição líquida ao chão e piscou olhando ao Isobel.

-Quer que saiba que aqui é ela a rainha. Não, deixe, eu limparei. Lady Ragnell me tem amestrada para que seja sua donzela. Esse é o preço que tenho que pagar por tão nobre companhia, suponho. Aqui estamos as duas sozinhas, exceto pelo gato, a cabra e as galinhas. Ragnell também converteu ao gato em seu criado, mas de momento a cabra não faz conta.

-Deve ser agradável viver sozinha, sem ninguém ante quem responder exceto você mesma - comentou Isobel.

-É muito solitário.

-Às vezes penso que viver sozinha seria como o paraíso. Sempre obedeci a alguém: meu pai, meu sacerdote. Agora meu prometido quererá a mesma obediência. Talvez devesse fugir ao bosque e viver como um eremita.

-Não têm aspecto de lhes conformar vivendo como uma ermitã religiosa.

-Você se conformou a isso, com sua solidão. Ao melhor eu também.

Alice se encolheu de ombros e acariciou ao falcão.

-Eu não escolhi estar sozinha, pequena. Meus filhos e meu marido estão mortos, todos desaparecidos lutando pela Escócia - Isobel viu como os olhos da mulher se enchiam de lágrimas. Deixou escapar um suspiro e sacudiu a cabeça. - Os únicos que ficaram foram Jamie, Margaret e este pássaro arrogante - arrulhou de novo a Ragnell. - Espero que algum dia James se case com Margaret. São primos, mas só por matrimônio.

-Jamie faria algo por você - disse Isobel brandamente, sentindo uma pontada por dentro ao compreender que James amava tanto a tal Margaret que ia arriscar tudo para recuperá-la.

Alice sorriu.

-É como se fosse meu filho, embora seja um foragido e um descarado.

-Alice, é um traidor? - perguntou-lhe Isobel. Aquela pergunta a tinha preocupada desde que James o tinha dado a entender de maneira implícita.

Alice negou com a cabeça.

-Não. Ele não é assim.

-Ralph afirma que há provas disso.

-Não pode haver - Franziu o sobrecenho. - Mas Jamie parece obcecado, como se guardasse um segredo em seu interior. É que leva sobre si uma pesada carga desde que os ingleses tomaram Wildshaw.

-O que quer dizer? - perguntou Isobel.

-Pesam muitas mortes sobre sua consciência.

Isobel franziu o cenho.

-Referem-lhes aos homens aos que matou em batalha?

-Essas ações lhe inquietam, mas é um guerreiro e não o sacerdote que seu pai queria que fosse. As mortes causadas em batalha são consideradas como lícitas pela Igreja, e estou segura de que ele se confessa delas e é absolvido. Mas o que pesa sobre seus ombros como um jugo são as mortes de... pessoas às que amava, embora ele não fosse o causador delas -Alice ficou de pé para depositar ao falcão em um cabide e depois tirou a luva de couro e se voltou. - O pão já deve estar pronto - disse em tom prático. - Venha comigo.

Agarrou uma capa de um gancho da parede e a jogou pelos ombros. A seguir tendeu ao Isobel a sua e aguardou que ela se aproximasse para tomá-la.

-Vamos levar o pão ao Jamie e a seu azor - disse Alice. - E esperemos que a chuva dissuada de momento sir Ralph de que nos faça uma visita.

Isobel seguiu à mulher ao exterior, onde chovia mais intensamente, com o coração lhe pulsando com força no peito ao pensar em ver o James de novo. Perguntou-se o que aconteceria depois daquilo. Insistiria em retê-la cativa... ou a deixaria em liberdade? Possivelmente devesse tentar fugir. De momento, pensou enquanto caminhava sobre a erva molhada, não tinha outra alternativa que ficar com Alice e James. Já quase não coxeava, e logo teria o pé o bastante forte de novo para a larga caminhada que a levaria através do bosque até o castelo do Wildshaw.

Ao passar entre as árvores, frescas gotas de chuva lhe salpicaram as bochechas e o cabelo, e a cada inspiração seus pulmões se encheram da umidade do ar. Aspirou profundamente e de algum modo sentiu o aroma de liberdade. Tinha passado a maior parte de sua vida depois dos muros de um castelo, efetivamente prisioneira por vontade daqueles que pretendiam protegê-la. Agora, pela primeira vez saboreava a liberdade e a independência, e ansiou mais.

E, entretanto, ironicamente, seguia sendo uma cativa.

 

Isobel tinha agarrada uma fogaça de pão quente, envolta em um trapo grosseiro, e desfrutava daquele calor enquanto seguia a Alice através da cortina de água que formava a chuva. Subiram por uma larga ladeira rochosa e se detiveram pouco antes de chegar ao topo. Uma imensa parede de rocha se elevava além da crista de terra que coroava a colina, uma sombria superfície pétrea coberta de moitas.

Alice se dirigiu para o penhasco. A primeira vista, Isobel viu várias gretas profundas. Alice continuou avançando de lado entre a parede de rocha e enormes matas de tojos bicudos.

Isobel viu que uma das profundas sombras era em realidade uma estreita abertura, dissimulada por densa vegetação. Quando se aproximaram um pouco mais, Alice levou um dedo aos lábios. Do interior da rocha surgiu um som inesperado, melífluo e grave: alguém que cantava uma melodia harmoniosa e ressonante, com o suave tamborilar da chuva. Isobel olhou a Alice com uma expressão de assombro.

-Jamie cantava com os beneditinos do Dunfermline, em um coro que até mesmo anjos terim invejado - murmurou Alice com orgulho. - Quando era pequeno, cantou em solitário para o rei Alejandro. Agora suponho que lhe está cantando ao azor.

Gritou seu nome, e o canto se interrompeu.

-Entre, Alice - respondeu James.

Alice ficou de lado para deslizar seu corpão através da pequena abertura. Isobel a seguiu e ambas se internaram na escuridão. A cova era estreita na entrada e logo se alargava um pouco.

Uma luz cinza se filtrava pela greta, e um braseiro aceso despedia um calor seco. Havia um cabide de madeira de pé no chão, que estava talher de areia e terra para absorver os excrementos do rapaz. James estava sentado em um comprido banco, com as costas apoiadas contra a escura parede de pedra e o azor posado em sua mão enluvada.

-Alice - disse James em voz baixa. Tanto ele como o azor cravaram seus brilhantes olhos em Isobel. - Lady Isobel - disse, e ela respondeu com uma inclinação de cabeça.

-Trazemos pão - disse Alice.

-Recém feito e ainda quente? - perguntou James, erguendo-se. Isobel observou que falava em tom baixo e suave pelo azor.

Também percebeu um calado cansaço em seus ombros encurvados e nas sombras que rodeavam seus olhos. O azor se agitou inquieto, e James o apaziguou.

-Assim é, quente, ou do contrário não lhe serviria de muito ao azor - disse Alice. - E aqui tem uma fogaça para ti - aproximou-se de James para deixar o pacote sobre o banco.

O azor se enfureceu, lançando-se fora do punho do James, agitando as asas e chiando. James estendeu o braço com um gesto de resignação enquanto a ave golpeava furiosa ao ar.

-Não agüentará muito - disse James. - Está esgotado.

-Igual a você - replicou Alice. - Dormiu algo nestes dois dias?

James se encolheu de ombros. O azor se acalmou, e ele voltou a levantá-lo até o punho.

-Um pouco.

-Mmm - grunhiu sua tia. - Vai se matar por esse pássaro. Eu pensava que Ragnell era a rainha dos pássaros desgraçados, mas esse terzuelo é quase pior.

-Não é tão mau como acredita.

Alice grunhiu, duvidando.

-Enfim, Nigel te ensinou bem. Se houver alguém que possa domar a esse azor que se tornou selvagem, é você.

Gawain bateu as asas, agitado, e abriu o pico repetidamente para protestar.

-O que é o que o molesta? - quis saber Isobel.

-Alice o põe nervoso - respondeu James.

-Sim, à lombriga se lembra do tremendo susto que lhe deu Ragnell ontem - comentou Alice. - Os azores aprendem rapidamente, mas igualmente podem ser muito tolos. - Assim, Gawain, tranqüilo, não veio comigo essa antipática senhorita de cauda vermelha - disse ao terzuelo. - Oh, já começa outra vez - Gawain agitou acaloradamente as asas, e James o sustentou com paciência. - Não quero ficar aqui e zangá-lo mais. Necessita alguma outra coisa, Jamie? Mais tarde voltaremos a te trazer algo mais de comida.

-Quero que lady Isobel fique aqui - respondeu James.

-Que fique? - repetiu a aludida. - Aqui?

-Necessito ajuda para atender ao azor, e Alice não pode aproximar-se dele - voltou sua atenção a rapaz. Isobel e Alice ficaram olhando até que a ave se tranqüilizou por fim. James a colocou de novo sobre o punho e lhe deu de comer uma tira de carne crua. - Assim, isto é por ter voltado para o punho, pequeno - disse-lhe, e a seguir olhou a Isobel. - Estão já mais forte? Viestes andando até aqui, de modo que deve se encontrar melhor. Pode me ajudar com o Gawain?

Sua voz tranqüila, tão irresistível como seu olhar, provocou-lhe um curioso formigamento em todo o corpo, e sentiu que ruborizava as bochechas. De repente o coração começou a lhe pulsar com força, como à espera de algo.

-Estou o bastante bem - disse.

-Dormiu todo este tempo, assim está descansada - informou Alice. - Se ficar um pouco de sentido comum, Jamie, o qual duvido depois de passar tanto tempo sem dormir, deixará que ela vigie a esse azor por ti enquanto você joga uma cabeçada. Em seguida volto - foi até a entrada da cova, deslizou-se ao exterior murmurando algo e grunhindo e desapareceu.

Isobel lhe tendeu a fogaça de pão quente e envolta no trapo que levava nas mãos.

-Vamos lhe dar de comer este pão?

-Não vai comê-lo. Venha aqui - tocou o banco. - Sente-se a meu lado. O azor terá outra rabiada se não lhe vir bem.

Ela tomou assento onde James lhe indicava, e ao fazê-lo seu ombro esquerdo roçou o braço dele. Com sua mão livre, James extraiu sua adaga da capa que levava ao cinto e a entregou.

-Corte a fogaça em duas partes - ordenou. Isobel obedeceu, um tanto torpemente, com a mão esquerda. Umas volutas de vapor quente se elevaram no ar entre ambos, e fechou os olhos por um instante, sorrindo enquanto inalava o agradável aroma do pão recém feito.

-Tem fome? - James parecia divertido. - Logo compartilharemos minha fogaça. Corte uma metade sem dividi-la de tudo. Assim, isso. Agora coloque a metade aberta sobre a asa esquerda.

Isobel vacilou.

-Querem que lhe ponha o pão sobre a asa? - perguntou incrédula.

-Sim. Tem uma asa torcida. Vê como se dobra na parte de acima? Quando estende as asas, esta não levanta tão alto. E as rabiadas não fazem mais que piorar a torcedura. O calor úmido do pão é um tratamento singelo e eficaz.

-Ah - Isobel levantou o pão aberto pela metade em direção ao terzuelo, que respondeu com um chiado e ameaçando com as garras. Isobel apartou rapidamente a mão e esteve a ponto de soltar o pão. - Eu também o ponho nervoso. Parto-me?

-Não foi você quem o assustou. Está acostumado a sua voz e sua cara, mas não sabe se o pão é amigo ou inimigo.

Isobel riu levemente. James sorriu, em um gesto rápido e deslumbrante que fez que o coração lhe galopasse no peito. James voltou a murmurar brandamente ao azor. Então ficou de pé, levando o rapaz, e agarrou um objeto dentre um matagal de utensílios de couro que havia em cima de uma pequena arca de madeira, e voltou a sentar-se junto a Isobel.

-Cale-te já - disse ao Gawain.

Com dedos rápidos e ágeis, colocou um capuz de couro sobre a cabeça do azor. Este agitou as asas, estirou o cangote como sinal de protesto e a seguir ficou imóvel e silencioso.

Isobel lançou uma leve exclamação.

-Não - sussurrou. - Tampaste-lhe com o capuz... - estendeu uma mão.

-Cuidado! - James lhe agarrou a mão e ela a baixou. James deixou escapar um suspiro. - Olhe, não está preocupado absolutamente.

O azor certamente parecia contente. Isobel disse a si mesmo que tinha sido uma parva ao reagir alarmada.

-Não luta - disse observando o terzuelo.

-Os falcões se tranqüilizam na escuridão, assim os capuzes ajudam a acalmá-los -explicou James. - É evidente que Gawain já levou antes um capuz. - Olhou-a. - Não é uma crueldade, Isobel.

-Sei - murmurou ela. - Às vezes é necessário.

-Assim é. Não podemos lhe curar o ombro a menos que esteja tranqüilo. Eu jamais trataria mal a um pássaro. Só aceitam o trato amável e paciente, não os pode forçar.

Isobel sentiu que lhe avermelhavam as bochechas sob o olhar do James. Perguntou-se se seu tom de voz tranqüilo e afetuoso ia dirigido ao azor ou a ela.

-É muito amável para ser um bandido - disse-lhe. Faiscaram-lhes os olhos.

-Aprendi muito dos falcões.

-Em efeito.

Isobel reprimiu um sorriso. James olhou ao azor e lhe arranhou o peito inchado com a ponta do dedo.

Muito certo, pensou Isobel. Sua atitude paciente e serena, sua voz grave e tranqüilizadora, inclusive a maneira ágil de mover-se; em tudo isso se via a influência de vários anos cuidando de falcões. Os falcoeiros de seu pai, e seu pai também, mostravam aquela mesma atitude de força deliberadamente suavizada. Observou como James ajustava a diminuta correia do capuz do azor com dedos largos e ágeis enquanto lhe murmurava frases tranqüilizadoras.

-Meu pai dizia às vezes que os falcoeiros poderiam ser excelentes mães - disse Isobel.

James riu brandamente.

-Sim. Em certo modo, isto se parece com fazer de mãe. Temos que cuidar de uma criatura pequena com infinita paciência, e freqüentemente pomos suas necessidades por diante das nossas.

Começou a cantarolar de novo a melodia, cujas notas se elevaram e descenderam em delicados matizes. Isobel apoiou a cabeça contra a rocha e escutou, sucumbindo a aquela magia. Em outra ocasião anterior lhe tinha visto movendo a mão languidamente, riscando círculos sobre a cabeça do azor, em um movimento que a seduziu também a ela, arrastando-a a esse mesmo estado de dormência. Agora era sua formosa voz a que ia tecendo o feitiço. O azor foi rendendo-se pouco a pouco, e ela também.

-Ah - sussurrou James ao cabo de um momento. - Já se acalmou. Ponha o pão em cima da asa.

Se lhe tivesse pedido que pusesse a fogaça sobre sua própria mão, talvez lhe tivesse obedecido sem pigarrear. Removeu-se um pouco para sacudir o torpor e levantou o pão para o terzuelo.

James elevou a mão que ficava livre para guiá-la, com dedos suaves ao tocar os seus. Os dois juntos deslizaram o pão morno sobre a articulação da asa e o ombro do pássaro, o qual se moveu ligeiramente ao sentir o contato.

-Tranqüilo, pequeno - disse James com suavidade. Isobel manteve a mão sobre a fogaça de pão e James pôs sua mão em cima. O calor começou a rodear os dedos de ambos.

James entoou de novo o kyrie. A melódica letanía fez vibrar todo o corpo do Isobel, calmante como o calor do pão e como a suave pressão dos dedos do James sobre os seus. Fechou os olhos.

Quando James deixou de cantar, ela elevou a vista e o olhou em silêncio. Ele se recostou contra a parede da cova e fechou os dedos sobre a mão do Isobel, e um instante depois os retirou. Isobel sentiu falta deles enquanto continuava sustentando o pão quente sobre a asa do azor.

-Têm uma voz maravilhosa - disse-lhe. - Como vinho especiado, cálida e acolhedora. Sua tia me disse que em certa ocasião cantou para um rei.

-Em efeito, de menino. Estava no coro do Dunfermline, e cantei uns hinos quando assisti a missa o rei Alejandro. Nenhum terror podia comparar-se com aquilo - disse com ironia. - Eu era um menino de dez anos, com os joelhos e as mãos tremendo, de pé e só diante de um rei e sua corte. Mais tarde, quando fui ao seminário do Dundee, cantei no coro dos monges. Minha voz sobreviveu ao passo à idade adulta, ao parecer - sorriu.

-Seminário? Estudou para ser sacerdote?

-Meu pai queria que fosse. Mas foi no Dundee onde conheci William Wallace e John Blair, que se fez monge beneditino embora seguisse lutando ao lado de Wallace e lhe servisse de confessor.

Quando Wallace se foi do Dundee e se converteu em um rebelde, eu fiquei na escola ouvindo cada vez mais relatos de suas façanhas. Uma noite escapei e fui unir-me a ele. Tinha dezesseis anos.

-Zangou-se seu pai?

-Meu pai - disse James - era também um rebelde que se escondia dos ingleses porque se negou a assinar um juramento de lealdade ao rei inglês. Mataram-lhe poucos anos depois. -Contemplou ao azor e lhe murmurou umas palavras. Logo voltou a vista para o Isobel. - Meu irmão maior, que tinha herdado o castelo de nosso pai, morreu no Falkirk. Pouco depois disso, os ingleses tomaram Wildshaw por meio do fogo e a traição.

-E após? - perguntou Isobel.

-Após.

-Não pode recuperá-lo?

-Não - respondeu James em voz tão baixa que ela nem pôde lhe ouvir-. Não pude.

Elevou uma mão para acomodar a fogaça de pão sobre a asa do azor, e seus dedos secos e quentes roçaram levemente os de Isobel. Ela viu que pretendia fazer-se responsável da tarefa de sustentar o pão em seu local, de modo que retirou a mão e a descansou sobre os joelhos.

Desejava saber mais de sua vida como rebelde e do modo que tinha perdido Wildshaw, mas notou que ele não queria falar mais disso.

-Passou a metade de sua vida lutando e ocultando-lhe - observou.

James sorriu com tristeza.

-Suponho que sim.

Começou a cantar outra vez o kyrie em tom grave e meloso, o qual a Isobel provocou um delicioso comichão em todo o corpo.

-Por que canta esse verso vez ou outra? - perguntou-lhe. - Recorda-lhes o passado?

-Estou ensinando ao Gawain a reconhecê-lo como a chamada que empregarei com ele. Mais adiante o assobiarei para que o conheça de diferentes maneiras. Logo introduzirei comida, dar-lhe-ei de comer cada vez que ouça o verso. Quando aprender a confiar em mim, virá rapidamente sem temer nada.

-Ah - disse Isobel. - Acreditei que cantava porque ainda tinha saudades da paz da vida monacal.

-Às vezes penso nessa paz - repôs ele em voz fraca.

Ambos contemplaram ao azor, e James entoou de novo a melodia. Gawain inclinou a cabeça encapuzada como se estivesse escutando com avidez e tratasse de desentranhar um enigma. Isobel experimentou um desejo incontável de romper a rir; o azor estava cômico com o pequeno capuz de couro sobre a cabeça, como um chapéu que lhe tivesse cansado diante dos olhos, e com a fogaça de pão absurdamente presa a sua asa. Soltou uma leve risada.

-Parece o bufão de um rei, ou um ator de máscaras em uma representação de Natal.

James sorriu.

-Realmente parece tolo - sacudiu a cabeça ligeiramente. - Jamais pensei que estaria outra vez aqui sentado, sem ter dormido e curando a um falcão.

-Permaneceu acordado estes dois dias?

-Joguei alguma cabeçada - bocejou e sacudiu um pouco o azor, que tinha começado a inclinar-se. - Mas cada vez que sir Gawain começa a dormir, eu procuro despertá-lo.

Isobel estudou o rosto do James a vacilante luz que despedia o braseiro. Tinha os olhos cansados, rodeados de profundas sombras, e a pele pálida pela fadiga. Fixou-se na forma de seu lábio inferior, ligeiramente carnudo e úmido, nas rugas de ambos os lados da boca, na escura e incipiente barba de um dia que suavizava o contorno de sua mandíbula.

-Por que se obriga a fazer isto? - perguntou-lhe brandamente.

-É a melhor maneira de domar um falcão.

-Mas a mais dura para o falcoeiro e para o pássaro - replicou ela. - Quando eu era pequena, meu pai levava consigo falcões novos com o passar do dia e os deixava na escuridão durante a noite, conservando-os perto dele durante uma semana ou duas. Minha mãe se opunha a que tivesse os falcões posados no punho às horas das comidas, e não gostava que dormissem em um cabide em seu dormitório. Mas ele insistia em que levava tempo a adestrar cada um como era devido.

-Tempo - disse James - é precisamente o que não tenho. Não tinha previsto amestrar a um falcão.

Isobel franziu o cenho.

-Só tinham previsto raptar a uma profetisa.

-Assim é - olhou-a com intenção. Depois levantou a fogaça de pão. - Ainda está temperado. Deixá-lo-emos assim até que se esfrie.

-Podemos comer a outra metade? - perguntou Isobel em tom lastimero.

James riu levemente.

-Sim, a compartilharemos.

Isobel partiu o resto do pão e entregou ao James a parte maior, e ambos comeram em silêncio.

-Me alegro de que estejam aqui - murmurou James após terem terminado.

-Sim? - perguntou Isobel, sentindo-se tímida.

-Sim. Você mantém-me acordado e eu mantenho acordado ao azor.

-Oh.

Quase tinha albergado a esperança de lhe ouvir dizer algo mais. Levantou a vista e viu a curvatura e a suave plenitude de seus lábios, o que lhe recordou vividamente a sensação daqueles lábios em contato com os seus. O recordar-se que tinha que ser prudente com aquele homem de repente se converteu em um problema.

-Me fale, Isobel - disse James, apoiando a cabeça contra a parede com um suspiro. - Tenho tanto sono como este falcão emperiquitado.

Isobel começou a falar das falcoeiras de seu pai e James formulou perguntas interessantes com voz rouca pelo cansaço. O azor inclinou a cabeça, e James moveu ligeiramente o punho para que não dormisse. Logo perguntou a Isobel por sua infância e sua vida no Aberlady. Ela falou em voz baixa enquanto James escutava, sustentando ao mesmo tempo a fogaça de pão sobre a asa do azor. James levantou um pé e o pôs no banco para apoiar o antebraço, com o azor, sobre o joelho.

-Assim desde que morreu sua mãe, seu pai e o padre foram quão únicos presenciaram suas profecias? - perguntou-lhe.

-E mais tarde sir Ralph - repôs Isobel. - Meu pai lhe convidou a contemplar as sessões uma vez que se lembrou que nos casaríamos. Queria que Ralph soubesse o que fazer.

-O que fazer quando lhes sobrevém a cegueira?

-O que fazer durante as visões. Meu pai e o sacerdote me falam e me fazem perguntas, e o padre Hugh, além disso, toma nota por escrito de tudo o que digo. Normalmente eu não me lembro.

James lhe dirigiu um olhar penetrante.

-Não recorda nada?

-Muito pouco - respondeu Isobel. - Como já comprovou você mesmo.

Ele juntou suas retas sobrancelhas.

-Quem estava com vocês quando pronunciaram a profecia a respeito do Wallace?

-Eles três.

-E o sacerdote tomou nota de tudo o que disseram?

-Sim - respondeu Isobel. - Depois repetiu parte disso em sua paróquia, e enviou uma cópia aos Guardiães do Reino. Mas não revelou em seguida tudo o que eu disse sobre o Wallace, ele e meu pai sabiam que isso causaria um grande perigo. Assim que o guardaram para si durante um tempo e por fim o deram há conhecer uma semana antes que acontecesse -sacudiu a cabeça negativamente e suspirou. - Como sabiam eles que tudo ocorreria tão logo?

-Sim, como. - Isobel franziu o cenho ao captar o tom de sarcasmo e levantou a vista. James a atravessou com um olhar de reojo. - Sabe o que disseram a respeito de mim, Isobel?

Ela desviou os olhos, incômoda.

-Sei algo que concerne esse dia. Esse pão já deve estar frio - disse com certa brutalidade. - Que mais podemos fazer pelo azor?

Não queria falar das profecias; gostava da paz que se respirava naquela cova cálida e escura, e gostava da voz sedativa de James e sua atitude amável. Falar das predições não fazia outra coisa que criar tensão entre eles. Já notava uma mudança no ambiente.

James retirou a fogaça de pão e varreu os miolos das plumas do azor.

-Tinha entendido que esquecia tudo o que via.

Era um homem inteligente e teimoso, e Isobel sabia que não seria fácil lhe distrair. Ficou de pé e foi até o braseiro para estender as mãos para o suave calor que desprendia.

-Essa única vez – disse - fiz tudo o que pude por recordar. Pedi ao padre Hugh que me lesse até a última palavra, embora ele estivesse acostumado a me dizer que é melhor que não saiba o que predigo. Ele e meu pai, e também sir Ralph, sentiram-se molestados pelo fato de lhes perguntar sobre a visão.

-Por quê? - quis saber James. Falou em tom áspero, e o azor reagiu esponjando as asas. - Por que querem impedir que saibam? - perguntou em tom mais suave.

Isobel se encolheu de ombros.

-Meu pai diz que é muita responsabilidade para mim. E o padre Hugh diz que a visões são muito eruditas para alguém de minha educação e com minha débil mente feminina.

James soltou um bufo, cético.

-Você tem uma forma muito feminina de ver a vida, é certo. Mas não absolutamente uma mente débil. Justamente o contrário, diria eu.

Isobel assentiu um pouco aturdida pelo comentário, e fixou a vista no resplendor do braseiro.

-O padre Hugh interpreta as visões cuidadosamente para compreender o simbolismo. Ele diz que nelas existem significados muito profundos. Acredita que as profecias provêm de Deus, faladas na linguagem dos patriarcas, e que têm que ser estudadas atentamente - elevou-se de ombros. - Está preparando um livro com as profecias, embora eu tenha pedido que não o faça. Mas ele diz que com elas ganhará o respeito de muitos.

-Espero que tenha a intenção de compartilhar as honras com a profetisa - murmurou James. - Me conte o resto.

-Depois desse dia, tentei recordar eu mesma as visões, mas só consegui ver parte delas. Supliquei meu pai que me repetisse o que havia dito, mas não confiava... - interrompeu-se bruscamente.

James se ergueu em seu assento.

-Não confiava em quem?

Ela baixou a cabeça.

-Não confiava que nenhum deles me dissesse a verdade - respondeu com um fio de voz. - E eu queria sabê-la.

-Por que teriam que lhe mentir? - sua voz era com muita amabilidade. Isobel desejou inundar-se nele, em seu ritmo, em seu calor.

-Meu pai e o sacerdote sempre me protegeram, por isso me ocultam segredos. Quando era menor, meu pai pensou que devia me proteger do mundo exterior, mas inclusive quando me fiz maior não afrouxou esse amparo.

-Sempre teve visões? - perguntou James.

-Começaram quando tinha treze anos - respondeu ela. - Sofri umas fortes febres durante vários dias e estive a ponto de morrer. Depois disso, perdi a visão durante um mês inteiro. No pior momento da febre, em uma espécie de delírio, descrevi uma batalha entre ingleses e escoceses que ainda não tinha tido lugar. Estavam comigo meus pais e o sacerdote, porque o padre Hugh tinha ido me administrar os últimos sacramentos.

James a olhou com expressão fixa.

-Deus santo - murmurou. - E houve tal batalha?

-Poucos dias depois da visão, ocorreu tal como eu disse. O padre Hugh disse a meus pais que minha profecia era um dom divino que me tinham concedido os anjos quando eu estava ao bordo da morte. Disse a meu pai que tinha que usar esse dom, e que os anjos podiam falar através de mim em favor de toda Escócia.

James deixou escapar um suspiro.

-E então o sacerdote e seu pai descobriram que contavam com um meio de predizer a guerra.

Isobel se encolheu de ombros.

-Não sei se pensavam isso. Diziam-me pouca coisa, e eu fazia o que eles me pediam.

-Naturalmente. Não era mais que uma menina - disse James.

-Meu pai e o sacerdote, e também minha mãe, pareceram me querer muito desde que me converti em profetisa. De repente passei a ser algo mais que simplesmente uma jovem alta, torpe e tímida para casar com alguma boa partida. De modo que fiz o que pude para agradá-los. As visões me vinham com bastante facilidade, mas a cegueira e o esquecimento eram muito difíceis de suportar - desviou o olhar e mordeu o lábio. - O padre Hugh diz que esse é o preço que devo pagar por ter o dom.

James permaneceu silencioso, olhando-a.

-Ah, pequena - disse em tom triste, como se sentisse a dor dela. - É uma rebelde e uma lutadora, e nem sequer sabe.

Ela inclinou a cabeça.

-O que quer dizer?

-Resiste muito - disse James brandamente - e luta a seu modo.

-Como?

-A cegueira e o esquecimento são como uma batalha que lidera em seu interior, um protesto por ser obrigada por outras pessoas a fazer profecias.

Isobel sentiu um tombo nas vísceras ao compreender a verdade que havia naquelas palavras, e ficou olhando-o.

-Meu deus - sussurrou, atônita. - Poderá estar certo?

James lançou um suspiro.

-Isobel - murmurou. - Venha aqui - tocou o banco. Ela não se moveu. – Me aproximaria de você, mas estou tão cansado que não acredito que os joelhos me sustentarão.

Isobel continuou imóvel, olhando-o fixamente, em parte enfeitiçada por seu olhar e sua voz, e em parte estupefata pela assombrosa verdade que lhe tinha revelado.

-Venha aqui - sussurrou James de novo, lhe estendendo a mão.

 

Isobel se sentou junto a ele, e James lhe tocou a mão. Ela sentiu o roçar suave e efêmero daqueles dedos como uma carícia em todo seu ser, e tremeu por dentro quando levantou os olhos e olhou-o.

-Então, crê que a cegueira e o esquecimento poderiam desaparecer? -perguntou-lhe.

-Possivelmente, se alguma vez chegar a sentir-se em paz com seu dom - respondeu James. - No seminário estudamos o intrincado simbolismo que existe na vida, como se refletem o reino do céu e o reino da terra nos objetos, nos pensamentos, em tudo. Sua cegueira é como um símbolo de alguma classe. Eu acredito que é reflexo de uma luta que está liderando dentro de ti.

-O padre Hugh viu isso também. Mas ele dizia que refletia que eu não era digna de conhecer a verdade completa de Deus.

James fez uma careta.

-Duvido-o. Pode que a cegueira não seja absolutamente obra de Deus, mas sim de seus próprios medos. Ouvi contar casos de cegueira como esta que desapareceu por si só, quando já haviam perdido a esperança. Meu tio, que estava cego de um olho, em certa ocasião sofreu um ataque de cegueira no outro. Uma curandeira muito sensata lhe administrou uma medicina de ervas e lhe disse que sua vista melhoraria só quando deixasse de ter medo à cegueira do olho que tinha perdido. Ele meditou sobre isso, e uma semana mais tarde tinha recuperado a visão, de forma bastante milagrosa.

Isobel franziu o cenho enquanto refletia.

-Mas eu não tenho medo das visões.

-Talvez te dê medo a insistência de outras pessoas quanto a que profetize uma e outra vez.- James se encolheu de ombros.

Isobel se esfregou os olhos.

-Deus santo, parece-me que é possível que esteja certo.

James apoiou a cabeça contra a parede de rocha.

-Às vezes necessitamos que outra pessoa nos mostre verdades a respeito de nós mesmos - repôs brandamente.

-Há muitas formas de cegueira - concordou Isobel.

-Certo. Me diga... por que tratou de recordar sua predição sobre Wallace?

Isobel deixou escapar um suspiro. O azor grasnou ligeiramente e se removeu sobre o punho do James.

-Sou capaz de entender minhas visões - começou. - Vejo seu significado claramente quando vêm para mim, mas logo as esqueço. Meu pai e o sacerdote acreditam que os significados simbólicos ultrapassam minha inteligência. Mas eu sei o que vejo. Esse dia soube que tinha que recordar o que tinha visto.

-Por quê? -perguntou James de novo.

-Queria avisar a Wallace - respondeu ela. - Jamais duvidei na verdade que há em minhas visões. Disso estou segura. O que me custa mais saber é o significado exato do que vejo.

James a observou fixamente.

-Avisou a Wallace?

-Escrevi-lhe uma nota de meu punho e letra, e roguei a meu pai que a entregasse - retorceu as mãos. - Ele me disse que assim o faria. Mas os três, meu pai, o sacerdote e sir Ralph, atuaram de forma estranha com aquela visão. As imagens que recordei me alarmaram. Soube que Wallace esperava um destino desonroso e um fim horrível - suspirou. - Mas minha nota foi enviada em vão; morreu, tal como eu predisse - notou rapidamente como as lágrimas iam a seus olhos.

-Se ele recebeu sua nota, certamente sentiu gratidão para ti. Respeitava as profecias, ele mesmo tinha sonhos nos que via acontecimentos futuros, e mencionou suas predições em uma ou duas ocasiões. Mas duvido que Will necessitasse de um aviso.

-Não pude suportar o fato de saber que ia ocorrer uma coisa assim a um homem e guardar silêncio a respeito - olhou-o carrancuda através de uma cortina de lágrimas. Uma delas lhe rodou pela bochecha.

James lhe acariciou a bochecha com o dedo polegar, e sua mão escorregou até o ombro. Isobel agradeceu o calor de seu contato, porque se sentia desamparada e arrependida.

-Os dois trataram de ajudá-lo.

-Os dois? - sussurrou Isobel, apoiando a cabeça contra a parede de rocha, igual a ele. Os olhos de James estavam tão somente a um palmo de distância dos seus.

-Deixando de lado o resto que eu tenha feito, tratei de ajudar Wallace na noite em que lhe capturaram. Mas meu intento não trouxe mais que complicações.

-Como? - quis saber Isobel.

-Escondi-me entre as árvores e disparei uma flecha atrás de outra aos que lhe estavam golpeando e seqüestrando. Matei vários guardas, não sei quantos. Meu plano era reduzir seu número para assim poder chegar até ele eu mesmo ou lhe dar a oportunidade de fugir. Estava meio louco pela raiva e culpa.

-Culpa?

James lançou um suspiro.

-O que fez você, o que fiz eu, não serviu de nada.

Isobel apoiou a mão em seu braço.

-Você sim lhe ajudou.

James a olhou de soslaio.

-Isobel, está morto.

-James, Wallace chegou a te ver lutando por ele?

-Acredito que sim - respondeu ele devagar.

-Então soube que tentou lhe salvar.

James entreabriu as pálpebras, pensativo. Por fim assentiu com um gesto.

-Sim, mas...

-Você lhe ajudou, James - disse Isobel com firmeza. - Soube que não estava sozinho. Isso deve ter sido uma bênção para ele.

-Não tinha pensado nisso.

Observou-a por espaço de uns instantes. Ela tinha a cabeça apoiada na parede, igual a ele, e lhe devolvia o mesmo olhar. Nesse momento James se inclinou para diante e a beijou brandamente nos lábios. Isobel jogou a cabeça para trás para beber daquele beijo doce e quente. O roçar da boca do James contra a sua lhe provocou uma deliciosa sensação que surgiu do mais fundo de si e se estendeu por todo o corpo. James se retirou e a olhou fixamente. O azor posado em seu punho fez uns leves ruídos com a garganta.

Isobel também olhou-o fixamente e lhe disse:

-Por... por que fez isso?

James esboçou um ligeiro sorriso.

-É para te agradecer. Esta vez foi você quem fez desaparecer a cegueira em mim.

- Que cegueira?

-A atadura que tinha nos olhos - sua boca se curvou em um sorriso triste e efêmero. - Talvez seja certo que ajudei Will de algum modo. Não imagina o quanto significa para mim pensar isso.

Isobel sentiu o coração pulsar com força.

-Eu também te devo um... um gesto de agradecimento, por ter interpretado o simbolismo de minha cegueira.

James a olhou, e seus olhos se enrugaram imperceptivelmente em um oculto sorriso.

Isobel se inclinou para ele, fechou os olhos e esperou, ansiando sentir outra vez nos lábios o maravilhoso contato da boca dele. James se aproximou até projetar seu fôlego sobre a bochecha dela, que aguardava com os olhos fechados e o coração agitado. Deixou escapar um suspiro, e a seguir pôs um dedo nos lábios por um breve instante antes de retirá-lo.

-Não - sussurrou.

Isobel lhe olhou com os olhos muito abertos, surpreendida.

-Não, pequena - murmurou James. - Não pode confiar em mim.

-Eu confio em você, Jamie - replicou ela lhe absorvendo com os olhos, bebendo de seu profundo olhar na penumbra, do brilho vermelho dourado de seu cabelo, da curva plena de seu lábio inferior.

-Mas te tocando - disse ele com voz que soava como uma carícia - serei culpado de algo mais que tomar uma mulher como refém.

A Isobel o coração já retumbava no peito. Estirou uma mão e a posou na bochecha de James. Notou sua pele morna e áspera.

-E se te toco eu a ti? - perguntou-lhe com suavidade.

James fechou os olhos.

-Não faça isso - sussurrou.

Antes se sentiu extasiada pela rítmica elegância do movimento de sua mão enfeitiçando ao azor e mais tarde pelo vibrante som de sua voz ao cantar. Agora foi pelo firme e profundo batimento de seu coração, que percebia no pulso contra sua própria mão, que a atraía para ele. E não pôde conter-se.

Fechou os olhos e acariciou o forte perfil do queixo, com sua textura áspera pela barba incipiente, deslizou as pontas dos dedos para baixo e apalpou o contorno de sua boca, o calor de sua respiração.

-Isobel - sussurrou James.

Ela notou que a boca se movia sob seus dedos e conteve o fôlego. James deixou escapar um suspiro, um grave gemido. De repente se inclinou para ela, cobriu-lhe os lábios com os seus, rudes e famintos, e a beijou como a tinha beijado sob as samambaias. Intenso e pleno, o beijo chegou a Isobel até o mais fundo, derrubando todo seu ser, igual uma onda arrastaria um pequeno bote. Sentiu-se perdida, à deriva, ancorada tão somente à boca do James, a seu fôlego, ao contato de sua mão na bochecha.

Os dedos dele se introduziram depois na cortina que formava sua cabeleira e a puxou brandamente, inclinando-lhe a cabeça, abrindo-lhe a boca, enquanto seus lábios se moviam seguindo um ritmo delicioso, subindo e baixando, abrindo e fechando.

Isobel inclinou a cabeça para trás e se entregou às sensações que surgiam e giravam dentro dela. Seguiu o ritmo que marcava ele, movendo os lábios em harmonia com os seus.

O azor se agitou e emitiu um chiado. James retirou a boca e se separou de Isobel. Murmurou algo em voz baixa - à Isobel soou como um juramento - e se voltou para o rapaz, apoiando o punho enluvado sobre o joelho e ao mesmo tempo passando os dedos pelo cabelo, em um gesto de exasperação.

Isobel dobrou seu braço são ao redor da cintura, com o coração ainda acelerado. Notando como o calor alagava suas bochechas, de repente se sentiu profundamente envergonhada por aquele inapropriado atrevimento, e baixou a cabeça.

-Fui uma parva - sussurrou sem olhar para James.

-Você? - ele negou com a cabeça. - O parvo fui eu, moça. Nada disto está acontecendo como eu o tinha planejado. Nada disto: o castelo cercado, o azor, você...

-Eu?

-Sobre tudo você - respondeu James com ironia. - Eu acreditava que a profetisa seria bastante fácil de dirigir, uma mulher a qual eu não me importaria nada, nem tampouco ela a mim. Tinha pensado levá-la metida em um saco, escondê-la em uma cova, enviar uma mensagem ao Ralph e recuperar Margaret.

Isobel baixou a cabeça de novo, e o cabelo lhe escorregou para diante. tampou-se os olhos com as mãos.

-Isso é a única coisa que quer de mim - disse com um fio de voz. – Vai me usar como um meio de resgatar Margaret.

James se se pôs a rir. Foi uma risada amarga, sem humor.

-A única coisa que quero de você? - lançou um suspiro e sacudiu a cabeça negativamente. - Quero muito mais que isso e Deus me proteja por pensá-lo.

Isobel levantou o rosto. Ele não a olhou. Sentiu surgir uma tormenta em seu interior, alimentada por aquele doloroso rechaço. James a tinha conquistado com aquele impressionante beijo, e agora pretendia encerrá-la a um lado.

-Se Ralph viesse aqui neste momento e oferecesse Margaret em troca de mim, você se alegraria. Isso é o que quer.

-Me sentiria tentado a te conservar e deixar que Margaret se arrumasse sozinha - murmurou James. - Parece-me que o faria bastante bem.

-Me conservar? - soprou Isobel com impaciência. - Me conservar? Acaso crê que sou um falcão que pode encerrar em suas falcoeiras como um troféu?

-Isso - replicou James - não é o que quis dizer.

-Isso - espetou-lhe - é o que eu entendi. Além disso, como pode ser tão desleal a Margaret? - ia elevando a voz.

O azor alisou as plumas e levantou as asas como reação ao tom agudo do Isobel. James lançou um suspiro, passou-se a mão pela cara e começou a murmurar ao terzuelo, lhe arranhando a densa plumagem do peito. Isobel permaneceu sentada, olhando-o carrancuda, enquanto a assaltava todo um tumulto de idéias e emoções. Seu inicial estalo de fúria foi seguido de uma mescla de ressentimento e confusão, ambos os sentimentos sublinhados pela forte atração que experimentava por ele.

-Calma, Gawain - disse James com voz suave. - Ah, esquecemo-nos de seu capuz -retirou o pequeno capuz da cabeça do azor. Gawain piscou com seus olhos avermelhados banhados pela tênue luz.

-Assim, já vemos outra vez - comentou James. Isobel dirigiu um olhar ao rapaz e assentiu em silêncio. James a olhou. - E nem sequer tivemos que beijá-lo - acrescentou.

Isobel riu a contra gosto. James, regozijado, recostou-se contra a parede e ficou contemplando-a fixamente.

-Devo-te uma desculpa - disse-lhe.

-Sim, mais de uma - replicou ela.

-Bom, pelo menos te peço perdão por uma coisa - murmurou James. - Duvidei de suas visões, Isobel. Duvidei da sinceridade de seus propósitos... Estava seguro de que formava parte de alguma conspiração dos ingleses. Mas agora sei que você não teve nada a ver com a traição de Will - olhou para outro lado. - E sei que não foi você quem me jogou a culpa e sujou meu nome com malévolas intenções.

Isobel piscou.

-Me acreditava tão malvada?

James se encolheu de ombros.

-Sim, mas então não te conhecia.

-Igual a mim, tampouco te conhecia quando te considerei um traidor.

-Ah, mas é que o sou - disse ele sucintamente. - Sou-o - foram palavras duras e amargas.

Isobel lhe tocou brandamente o dorso da mão, que ele tinha apoiada na coxa.

-Não posso acreditar isso.

James soltou uma breve gargalhada.

-Estiveste falando com Alice.

-Um pouco - respondeu ela. - Mas é o que penso de verdade. Diga-me por que te considera um traidor.

Ele sacudiu a cabeça e se recostou contra a parede.

-Não - sussurrou. - Não quero te contar, a você nem a ninguém, essa horrível história.

-Jamie, por favor - rogou Isobel.

Ele sacudiu a cabeça de novo em um gesto negativo.

-Você não gostaria de sabê-la.

-Sim, eu gostaria.

-Estou cansado e não quero falar disso - disse com brutalidade.

Isobel olhou-o fixamente, silenciosa e imóvel como a rocha que tinha ele às costas.

-Então me diga o que é que eu predisse a respeito de você.

James abriu os olhos e a olhou carrancudo.

-Já sabe.

Ela negou com a cabeça.

-O padre Hugh me contou o que se referisa a Wallace, e era um pouco diferente do que eu recordava - franziu o sobrecenho. - Ao melhor se equivocou ao escrevê-lo. Mas não me disse o que profetizei de ti. Mais tarde, só chegou a meus ouvidos que havia predito que o Falcão da Fronteira ia capturar Wallace. James, qual foi a profecia que tanto se estendeu?

James fechou os olhos.

-O falcão da torre e o falcão do bosque voam juntos para abater à águia - começou em tom baixo e calmo. Sua voz parecia reverberar em toda a pequena cova. - O falcão do bosque é o senhor do vento. Trairá a sua irmã, a águia, em seu ninho e de noite. Soltará a pluma branca e fugirá através da urze e das árvores. E a águia perderá o coração.

Isobel entreabriu as pálpebras, com a mão apoiada no antebraço dele.

-Sim, agora recordo essas palavras, ou outras parecidas - disse. - Wallace era a águia.

-Parecia-se muito a uma águia.

-Igual a você se parece muito a um falcão. Mas o que ocorreu para que aparecesse seu nome nisto? Eu não disse James Lindsay nem Falcão da Fronteira na profecia.

-Os ingleses levam anos me chamando Falcão da Fronteira. Vivo nos bosques. Lutei ao lado de Wallace. E adorno minhas flechas com plumas de ganso brancas.

-E o falcão da torre? - perguntou Isobel.

-Falcão da torre é um termo que empregam os falcoeiros para descrever o vôo alto de um falcão justo antes que se lance em picado para apanhar uma presa. Assim falcão da torre também poderia referir-se a mim, se a presa em questão era a águia.

Isobel assentiu.

-E o senhor do vento? - perguntou. James se elevou de ombros.

-Isso não entendi. Mas rapidamente se estendeu o rumor de que o Falcão da Fronteira tinha traído ao Wallace.

-Deus santo, Jamie - sussurrou Isobel, impressionada por todas aquelas revelações, surpreendida pelo papel que tinha desempenhado. - Não foi minha intenção te jogar a culpa. Nem sequer tinha ouvido seu nome até umas semanas. Sinto muito que a profecia encaixasse contigo - mordeu-se o lábio, invadida por um sentimento de culpa.

-Sei. Mas certamente tive algo haver ao que aconteceu a Will.

-Como? - sussurrou Isobel. - Você tentou lhe salvar.

Ele moveu negativamente a cabeça como se queria silenciá-la e voltou a mão para apertar os dedos do Isobel entre os seus.

-O fato está feito - murmurou. - Não se preocupe com isso, é assunto meu. Não guardo rancor por sua profecia. Lamento a perda de um amigo muito mais que a perda de minha honra.

Isobel suspirou comovida.

-Jamie...

O azor chiou de novo, e James agitou o punho com suavidade.

-Calma, moço - logo a olhou. - Isobel, sei que talvez esteja zangada comigo, mas de qualquer modo devo pedir que ajude-me a me manter acordado. Só durante esta noite e amanhã pela manhã, e por fim teremos nosso azor amestrado.

-Não estou zangada - olhou-lhe. Seus olhos se viam de uma cor azul noite à luz vacilante que banhava o interior da cova, e com profundas olheiras. Percebeu a lenta corrente de fadiga de James, fluindo entre ambos. - Mas... nosso azor, disse? É que vai deixar que o sustente, para que você possa descansar?

James refletiu por um instante.

-Suponho que poderia fazer isso. Os falcões são criaturas solitárias, mas com freqüência aceitam ao falcoeiro e ao dono ao mesmo tempo.

-Me deixe provar. Pelo visto, não o molesta minha voz nem minha presença. E bem, Gawain? - olhou o azor. - O que opina você, moço?

O terzuelo inclinou a cabeça para ela, seus olhos de cor bronze brilhando.

-Vamos averiguá-lo - disse James. - Nessa arca aí há luvas e outras coisas. Olhe nela, se te parecer bem, e busca uma luva que te sirva para a mão esquerda.

Isobel se levantou e foi até a pequena arca, e começou a revolver seu conteúdo até dar com uma luva de couro grosso e gasto. O pôs e estirou os dedos dentro do cheio. A luva era grande, quase lhe chegava até o cotovelo, e pesada, feita de couro forte e com um grosso acolchoado de tecido. Retornou ao banco e se sentou junto ao James.

-Sente-se assim - disse ele, lhe rodeando os ombros com o braço direito para aproximá-la, de modo que o ombro dela se apoiasse contra seu peito. Seguindo suas instruções, Isobel levantou o braço esquerdo a seguir do braço dele, e ofereceu o braço como um puleiro.

-Sir Gawain, aceitará por um tempo um dono e uma proprietária? - perguntou James em voz baixa. O timbre grave e próximo de sua voz esteve a ponto de fazer que Isobel se derretesse.

O rapaz piscou de forma inexpressiva. Isobel sustentou o braço esquerdo ao alto e conteve a respiração. O azor contemplou a ambos por espaço de uns instantes.

E então estendeu as asas e explodiu em um furioso ataque de ira.

 

Por fim o azor estava posado em silêncio sobre o punho do Isobel. Ela se moveu brandamente, com cuidado de não despertar James, que dormia a seu lado depois de longo momento tratando de convencer o azor de que se acalmasse e aceitasse a mão da mulher. Isobel apoiou o cotovelo esquerdo sobre o braço dobrado do James e contemplou ao Gawain.

O rapaz a olhava com seus olhos brilhantes iluminados pelo resplendor do braseiro. Baixou a cabeça para colocá-la sob o ombro, sonolento.

-Não, pequeno - disse Isobel em meio daquele silêncio. Gawain elevou a cabeça para olhá-la. - Não, Jamie me disse que tem que estar acordado. Mas logo dormiu, embora não acredito que tenha previsto. Pode dar rabiadas, sir Gawain. Estou impressionada. Que tal o ombro?

Aproximou a ponta de um dedo e lhe coçou as plumas do peito igual tinha visto fazer James. A plumagem branca e cinza era de uma suavidade incrível, e se notava morno. Gawain grasnou levemente, e ela sentiu a rápida vibração do coração pulsando no peito da ave.

Não muito antes, surpreendeu-se ao ver que, depois de uma série de rabiadas e um segundo tratamento com pão quente sobre a asa ferida, Gawain por fim posou sobre o punho que lhe oferecia Isobel. Comportou-se como se levasse toda a vida fazendo-o, esponjando as plumas e piscando tranqüilamente para ela. Entretanto, agora o terzuelo se tornou mais inquieto, levantando as asas e alisando a plumas. A força com que fechava as garras era maior, e lhe via mais ansioso. Isobel extraiu um pouco de carne crua do zurrón que levava James, a pôs sobre o dedo polegar e contemplou como o azor baixava a cabeça para agarrá-la. Enquanto isso esperou que não lhe fizesse outra manha de criança ou tratasse de arranhá-la.

Seguindo um impulso, tomou ar e começou a cantar o kyrie. Embora carecesse da facilidade de James para as notas bem afinadas, obteve que sua voz soasse agradável e serena, ecoando em toda a cova. O azor, que tinha terminado de comer a carne, inclinou a cabeça com curiosidade. Suas pálpebras se fecharam várias vezes, como fugazes relâmpagos de luz, e se tranqüilizou.

Isobel sorriu e olhou para James, mas este se limitou a mover-se um pouco e inclinou a cabeça para ela em sonhos. Isobel apoiou a frente na cabeça dele, utilizando seu cabelo como um fofo colchão, sentindo seu suave fôlego na bochecha.

-Oh, Jamie - sussurrou. - Note seu formoso azor. Decidiu confiar nos dois. E você aí, dormido, sem vê-lo sequer.

Gawain inchou as plumas e se fez uma bola, como se estivesse contente de estar posado no punho sem protestar.

Isobel seguiu sustentando ao azor e deixou que James dormisse enquanto esperava o amanhecer. Quando a claridade começou a filtrar-se através da entrada da cova, de repente se deu conta de que se encontrava a poucos passos da liberdade. Junto a ela, James dormia profundamente, com inspirações fundas e largas e o corpo totalmente relaxado. Não peceberia se ela se levantasse sem fazer ruído, deixasse o azor em um cabide e se deslizasse pela abertura. Antes que despertasse podia estar a caminho ao Wildshaw.

A mortiça luz da manhã começou a resplandecer como uma pérola. Se quisesse escapar do cativeiro, deveria fazê-lo agora.

Retirou com suavidade o braço que tinha apoiado em James. Gawain piscou olhando-a e permaneceu tranqüilo, apesar do movimento dela. A singela confiança que viu no olhar e na atitude do azor a detiveram por um instante. Olhou James e percebeu em seu rosto forte e formoso uma verdadeira vulnerabilidade, verdadeira fé. Ele confiava nela o bastante para dormir junto a ela; confiava nela o bastante para deixar a seu cuidado aquele frágil azor, tempestuoso e frustrado. E embora fosse um homem reservado e calado, tinha começado a compartilhar com ela uma parte do mais recôndito de seu ser.

Recordou o que lhe havia dito Geordie; que James necessitava alguém que confiasse nele, alguém que tivesse fé nele de novo. Ela tinha começado a fazer precisamente isso, ao igual ao azor. Se partisse agora, sigilosamente, se sentiria como se tivesse traído a James. O coração lhe dizia que ficasse, enquanto que a cabeça a empurrava a fugir e procurar algum amparo.

O amanhecer surgia em todo seu esplendor ali fora. Isobel permaneceu sentada em silencio em companhia do azor e do homem, atenta ao sussurro de seu coração.

 

Uma fresca brisa sussurrou ao acariciar seu cabelo. James, de pé junto à abertura da cova, com um ombro apoiado contra a parede de rocha, aspirou o refrescante ar das primeiras horas da manhã e depois murmurou umas palavras ao azor, que estava outra vez mais posado em sua mão, antes de voltar o olhar para as copas das árvores do bosque que se estendia a frente.

Lançou um olhar às suas costas. Isobel dormia, estirada sobre o banco e agasalhada com a capa. James a tinha acomodado ali quando viu que começava a dar cabeçadas depois de tomar o café da manhã à base de pão e cerveja. Voltou a fixar a vista na vasta extensão de suave cor verde que formavam as árvores. O pálido céu da manhã se mostrava cheio de nuvens que não demorariam muito em trazer mais chuva.

Ao longe, no bosque, distinguiu um fugaz movimento. Entrecerrou os olhos e avançou um passo para abranger melhor o panorama. O azor agitou as asas ao notar o vento que soprava através da abertura.

-Logo estará aí fora - murmurou James. - Prometo-lhe isso.

-Deseja ser livre - disse Isobel a suas costas.

James olhou para trás e a viu sentada.

-Logo poderá voar. Acreditava que estava dormindo.

Ela sorriu ligeiramente como resposta e se aproximou até a entrada da cova, como tinha feito ele. Levou uma mão ao braço ferido e o esfregou lentamente, para acalmar a dor. Ao olhar ao exterior, a luz deu a seu rosto uma delicada nitidez e emprestou luminosidade a seus olhos azuis. James conteve a respiração ao contemplá-la, maravilhado. Seu semblante era claro e encantador, e sua cabeleira flutuava brandamente caindo por suas costas, reluzente como uma pedra de azeviche. De repente ansiou tocar aquela textura de seda.

Desejava muito mais que isso, mas aqueles impulsos eram perigosos. Recordou a si mesmo que devia mostrar mais sensatez -ou pelo menos sentido comum- no referente à profetisa. Na noite anterior tinha sucumbido ao desejo entristecedor de tocá-la, e teria estado disposto a ir além de um simples beijo. Não tinha mostrado disciplina nem bom julgamento, mas não permitiria que acontecesse de novo.

-Lá embaixo, note -disse, assinalando para o bosque. - Dois homens correndo pelo atalho.

Isobel se inclinou para diante, e James olhou por cima do ombro dela, sustentando o azor no punho.

-Não os vejo - respondeu Isobel, piscando os olhos.

Sua acuidade visual com freqüência lhe permitia captar detalhes que outros não alcançavam.

-Aguarde - disse. Observou como as duas figuras corriam através do bosque, uma de cabelo loiro e outra morena, balançando-se à medida que se aproximavam.

-Ah - disse Isobel, por fim, quando os dois homens abandonaram o bosque e começaram a subir o pendente que conduzia à cova. Levantou a vista para o James, com os olhos muito abertos. - São Quentin e Patrick?

-Sim, retornam do Stobo. Alice deve lhes haver dito que estávamos aqui em cima.

-O que vai fazer, agora que retornaram?

-Tenho um assunto que resolver - repôs James.

Isobel lhe interrogou em silêncio com seus olhos grandes e tristes.

-É hora de enviar uma mensagem a Wildshaw, e trocar uma mulher pela outra - de repente James não pôde seguir olhando aqueles grandes olhos cheios de suave luz, e se voltou para fixar a vista no vazio.

Isobel exalou um suspiro, um mero sussurro. James sentiu seu eco em si mesmo. Ela contemplou o largo pendente pelo qual Quentin e Patrick tinham começado a subir.

-Sua Margaret é uma mulher com sorte, tão amada - murmurou.

-Minha Margaret? Uma mulher com sorte? - perguntou James, desconcertado.

-Ao contrário, eu - disse dando um passo adiante - não tenho essa sorte. Quentin! Patrick! - Fez-lhes gestos com a mão.

James não teve ocasião de lhe perguntar o que tinha querido dizer nem de explicar nada a respeito da Margaret. Quentin e Patrick já tinham deixado atrás o espesso arbusto de tojos e estavam penetrando na cova. Isabel recebeu-os com um sorriso. Quentin lhe piscou um olho e Patrick se ruborizou intensamente.

Gawain, sobre o punho do James, elevou as asas como se estivesse a ponto de ter uma manha de criança, mas James lhe murmurou umas palavras e lhe arranhou as patas brandamente, e o pássaro se acalmou.

-O que sabem de Geordie? - perguntou James. - Está se recuperando?

-Sim, ficará bem - respondeu Patrick, com a respiração ofegante depois de subir o pendente. Não era tão alto como James, mas seu fornido peito e seus fortes rasgos e membros lhe faziam parecer maior. Apoiou suas enormes mãos nos quadris e olhou ao azor. - Jamie, temos problemas... O que está fazendo com um azor? - perguntou-lhe, atônito.

-Estou adestrando-o. Que problemas são esses?

-Atravessamos o bosque logo depois de amanhecer - disse Quentin. - Veio-nos perseguindo uma patrulha inglesa de uns dez homens. Henry e Eustace estavam conosco, mas foram alcançados por flechas. Levamo-los a casa da Alice Crawford, e ela nos disse que estava aqui.

-Estão feridos gravemente?

Ele negou com a cabeça.

-Os dois ficarão bem. Alice te envia algo de comer, Patrick o leva em seu saco. E este outro saco - disse Quentin, entregando a James um volumoso pacote de tecido. - É para o azor. Alice disse que tinha aqui um azor que certamente estaria faminto, e nos deu comida para ele.

-Sim, obrigado - disse James, e se voltou para o Isobel. - Recolha sua capa e a comida, se não se importar. Temos que ir daqui.

-Ir? - repetiu ela.

-Sim. Depressa - James se voltou de novo para Quentin e Patrick. - Retornem à casa de Alice e guardem bem. Se forem homens de Ralph Leslie, voltarão. Alice e os outros necessitarão amparo.

Foi até a parte posterior da cova e retornou com seu arco e sua espada. Com ajuda de Patrick, pendurou a aljava ao cinturão, jogou o arco às costas e deslizou a larga espada na bainha que levava entre os ombros. A seguir recolheu alguns utensílios de falcoaria -um capuz, guarnições, a luva do Isobel- e os meteu no zurrón que levava ao cinto. Deu de comer a Gawain uma parte de carne fresca da bolsa que Alice tinha enviado e se voltou para ajudar Isobel a colocar a capa sobre os ombros. Ela agarrou o pacote de comida.

-Vamos retornar à casa de Alice? - perguntou.

James negou com a cabeça, segurou-a pelo cotovelo e se voltou para Quentin e Patrick.

-Moços, desçam outra vez e certifiquem-se de que Alice e os outros se encontram bem. Eu levarei Isobel ao Aird Craig.

Aturdida se girou para ele com olhar interrogante. James não a olhou, mas apertou a mão com que lhe segurava o braço.

-Aos homens do Leslie não será tão fácil te encontrar nesse lugar - disse Quentin, assentindo. Jamie, tem a intenção de esconder ali à moça?

-Assim é - respondeu James. Topou-se com o cenho franzido do Quentin.

-Ah - disse Quentin ao cabo de um momento. - Pensei isso mesmo. Tem previsto trocar Isobel pela Margaret.

-O quê? - exclamou Patrick. - Trocar Isobel pela Margaret? Não é um ato honorável, Jamie, reter uma mulher prisioneira deste modo.

-Dou isso ao Leslie, que tem prisioneira Margaret contra sua vontade - replicou James. - Mas acredito que quererá trocá-la por sua prometida.

-Estará impaciente - comentou Quentin, zombador. - É incrível que tenha retido Margaret todo este tempo. Essa moça pode ser um verdadeiro pesadelo.

-Não imagino ninguém retendo Margaret contra sua vontade - disse Patrick. - É uma jovem inteligente, e tem a força de dois ou três homens.

-Você deveria sabê-lo - assinalou Quentin. - Te perseguia bastante. E eu te vi se internar no bosque com ela uma ou duas vezes, moço - elevou uma sobrancelha em um gesto de diversão.

Patrick se ruborizou intensamente.

-Sim, mas Margaret não me perseguia; perseguia o Quentin.

-Gosta dos dois: Quentin por ser tão bonito, e Patrick por seu... er... - James parecia não encontrar palavras.

-Por minha cortesia - contribuiu Patrick. - E não lhe faria ascos a essa moça, não senhor - sorriu de orelha a orelha.

-Tome cuidado com o que diz de minha prima - advertiu-lhe James. - E se gosta de verdade, poderá me ajudar a resgatá-la.

-Sim, por mais valente que seja, necessita nossa ajuda - disse Quentin.

-Então os reúnam comigo esta noite no penhasco - James acompanhou Isobel para a saída da cova. - Prepararei uma mensagem para Ralph Leslie que quero que lhe entreguem - despediu-se deles com um gesto da cabeça e, com azor em mãos, deslizou-se pela estreita abertura.

-Aquilo - disse James, assinalando para o oeste - é o Craig. Olhou Isobel, que estava de pé a seu lado sobre o topo de uma colina que dava ao bosque. Já tinham percorrido um bom trecho da cova, em relativo silêncio. Agora se encontravam ali, de pé, um ao lado do outro, com o vento agitando suas capas e seu cabelo. Por cima de suas cabeças passaram voando dois galos selvagens, e o rapaz que segurava James se arrojou de repente do punho em uma frenética manha de criança.

James suspirou e estendeu o braço.

-Pode ser que tenhamos que recomeçar com este pequeno - murmurou. Não queria permanecer muito tempo ao ar livre e, enquanto o azor se agitava, assinalou para o enorme penhasco que se elevava por cima do bosque, dominando seu lado oeste. - Chama-se Aird Craig, o alto penhasco - explicou.

Sobressaindo-se de uma montanha cujas elevadas ladeiras se mostravam de cor azul clara sob a luz da manhã, as paredes ásperas e escarpadas do penhasco e seu topo plano estavam estofas de uma grosa capa de árvores, como se alguém tivesse arrojado sobre elas um grande manto verde e enrugado. Ao longo de uma das faces se apreciava uma imensa extensão de rocha cinza dividida em dois por uma cascata branca e espumosa. A alta queda de água terminava formando um largo rio que discorria à base do penhasco.

Isobel inclinou a cabeça para trás para olhar acima.

-Aqui é onde vive? - perguntou.

-Sim, perto do topo - respondeu James. Gawain se acalmou, e seu dono voltou a levantá-lo brandamente até o punho. - Há covas que percorrem todo o interior, como uma colméia. Na cúpula, note lá em cima, entre as árvores, há umas ruínas de uma antiga torre de pedra.

-Ah. De modo que o Falcão da Fronteira tem uma fortaleza.

Ele se encolheu de ombros.

-Por assim dizê-lo. É um bom local. O Craig é quase impossível de escalar sem cordas e ganchos de ferro. A outra maneira de chegar é escalando a montanha que tem atrás, mas é um acesso muito íngreme e perigoso - olhou Isobel. - Mas meus homens e eu encontramos um modo mais fácil de chegar ao topo, de modo que levamos anos utilizando essa rocha como refúgio.

Isobel franziu o cenho com expressão dúbia.

-Temos que subir até essa sua fortaleza?

-Bom, não temos asas para voar - repôs James em tom seco. - Espero que tenha o pé bastante bem para uma boa caminhada. Vamos.

Agarrou-a pelo cotovelo e insistiu a avançar. Caminharam seguindo o espinhaço da colina, e ao passar ao outro lado de uma cortina de abedules e vegetação, James ouviu o rumor surdo e amortecido da cascata. Baixou a vista e viu que Isabel lhe acompanhava e olhava-o carrancuda.

-Levamos dias escalando e caminhando - grunhiu. - Por bosques, colinas, precipícios. E agora quer que suba por esse monstruoso penhasco.

James dissimulou um sorriso.

-Não é tão mau como parece.

-Não quero subir uma montanha - replicou ela, deixando de andar. - Não tenho por que subir aí contigo.

James se deteve também.

-Não?

-Não - Isobel fechou em um punho a mão que ficava livre e a apoiou no quadril, olhando-o. - Poderia retornar andando até a casa da Alice. Inclusive poderia ir andando até Wildshaw, se quisesse.

-E quer? - perguntou James com cautela. Ela jogou a cabeça atrás.

-Me deteria se tentasse?

James notou como surgia a tensão e começava a formar redemoinhos ao seu redor, e também percebeu que ela estava esperando algo. Não estava seguro de por que Isabel lhe tinha plantado aquele desafio de uma forma tão descarada que não parecia própria dela; nem tampouco sabia o que esperava ouvir dele. De modo que se virou e contemplou o bosque.

-Deve estar me perguntando se tenho a intenção de te obrigar a ficar comigo.

Isobel se aproximou e olhou também para o bosque. O vento açoitou sua maravilhosa cabeleira.

-Sabe que não quero ser uma refém, James Lindsay - respondeu, e se voltou para lhe olhar. - Deveria partir neste momento e agarrar a liberdade por mim mesma. O que faria você se eu pretendesse tal coisa?

Fez-se o silêncio entre ambos, denso como as nuvens que viam no céu. O coração de James pulsava com a mesma rapidez que seus pensamentos. Sem uma refém, não tinha nenhuma possibilidade de resgatar Margaret, e menos ainda de cobrar vingança a Leslie pelas ações que o tinham levado -e também a Wallace e à causa de Escócia- até aquele penoso estado.

Se continuasse obrigando Isobel a permanecer cativa, perderia a confiança que ela estava começando a lhe demonstrar; e também perderia o escasso respeito que ficava para si mesmo. Mas se deixasse que Isobel se fosse, como ela queria, perdê-la-ia por completo. Essa inesperada idéia lhe impactou como se lhe tivessem dado um golpe. Franziu o cenho e contemplou fixamente o bosque sem dizer nada. Compreendia o desejo do Isobel de ser livre. Ele mesmo tinha sido íntimo camarada do maior líder rebelde de Escócia; tinha passado um tempo em uma masmorra; e tinha perdido sua herança e sua liberdade legal de maneira injusta. Entendia melhor que muitos a necessidade intrínseca de liberdade que tinham os seres humanos.

Apesar disso, tinha tomado Isobel como refém em sua paixão por vingar os atropelos sofridos por ele e pelos seus. Mas não podia ignorar o azor que levava sujeito ao braço; tinha obrigado uma ave selvagem o cativeiro, e tinha denegado a liberdade a Isobel. Não deveria lhe surpreender a resistência da jovem.

Lançou um suspiro. O vento lhe agitou o cabelo e a capa e revolveu as plumas do azor. Aquela suave força era bastante grande para inocular um pouco de sentido comum em seu ferido e cego coração.

-Está bem - concordou. - Merece ser livre.

Isobel assentiu com um gesto.

-Não pode me reter.

-Não posso - disse ele em tom tenso.

-Quando estava cega - disse ela com voz tranqüila. Prometeu me proteger, e estou agradecida por isso. Mas também me fez outra promessa: afirmou que me deixaria livre quando recuperasse a visão.

James fechou os olhos durante uns instantes.

-Assim é - respondeu. Idiota, disse-se a si mesmo; tinha sido um idiota ao falar com tanta sinceridade aquele dia. Se agora dissesse a Isobel que não, perderia toda sua honra ante ela; a jovem jamais voltaria a confiar nele. Jamais.

-Parte, então.

Nesse momento começaram a cair umas minúsculas gotas de chuva. James aguardou, mas Isobel não se foi.

-Vai, pois? - perguntou-lhe.

-Talvez. - o vento açoitou as roupas de ambos. Isobel continuava sem se mover. Voltou a vista para ele. - Wildshaw se encontra ao leste ou ao oeste daqui? - perguntou com um fio de voz.

James quase se pôs a rir.

-Ao oeste - respondeu. - Ao outro lado do Craig.

-Pedirei a Ralph que liberte Margaret.

-Não o fará.

-Nesse caso a liberarei eu mesma - elevou o queixo.

-Ah - disse James, ocultando outro sorriso. O que tinha aquela moça que podia lhe provocar tão inocentemente um sorriso e lhe ferir o mesmo tempo? - Ah, eu gostaria de ver o casal que formariam as duas. Olhe, se fosse tão fácil, Margaret já teria saído dali por si só.

-Tem muito boa opinião dela.

James se encolheu de ombros.

-É uma boa moça, e quero vê-la a salvo.

-A amas - disse-o em voz tão baixa que se perdeu no vento.

-A amo a meu modo - replicou ele. De repente o coração começou a lhe retumbar no peito. - Mas não a amo como você ama ao Ralph Leslie. Você prometeu a ele matrimônio.

O vento agitava a escura e brilhante cabeleira de Isobel, mas ela continuava imóvel.

-Meu pai quis este casamento, e eu aceitei. Um compromisso nem sempre significa uma promessa de amor.

-Mas você está desejosa de chegar ao Wildshaw e de se afastar de mim.

-No Wildshaw possivelmente estará meu pai. E não me agrada muito permanecer cativa até que alguém pague por mim um resgate - repôs Isobel. - Mas não estou desejosa de escapar de você, se for isso o que pensa - acrescentou com suavidade.

-Ah - James calou por um instante, escutando o uivo do vento e o rumor da cascata ao longe. - Margaret - disse ao passar uns momentos - não é minha prometida, se isso for o que pensa.

-Entretanto, está disposto a arriscar muito para recuperá-la. Está claro que a amas. Eu acredito que isso é... é admirável.

James sorriu apenas.

-Margaret Crawford me ama a sua maneira, suponho, igual eu a ela. Mas essa moça não se casaria comigo embora o pedisse de joelhos, o qual não faria jamais.

Naquele momento os olhos do Isobel eram de um azul prateado, como se tivesse copiado o tom cinzento do céu nublado.

-Acreditava que era seu amante.

James fez uma careta irônica.

-Por todos os Santos, não. É como uma irmã para mim - refletiu um momento. - Às vezes, inclusive, como um irmão.

-Ah, sim? - os olhos do Isobel pareceram iluminar-se. - Eu gostaria de conhecê-la algum dia.

-É possível que a conheça.

Gawain se agitou sobre seu punho, piando e chiando, ameaçando ter outra rabiada.

-O que é o que o molesta? - perguntou Isobel.

-É uma criatura selvagem - respondeu James. - Com todo este movimento pode ser que tenhamos perdido o terreno ganho no processo de amestrá-lo - suspirou, extraiu de seu cinturão o pequeno capuz e o colocou habilmente sobre a cabeça do azor. Isobel começou a protestar. - Poderia enfurecer-se todo o tempo enquanto subimos, e fazer-se dano, ou nos dificultar a ascensão - disse-lhe James. - Pelo menos, o capuz o tranqüilizará. Mas pode ser que tenhamos que começar outra vez do zero seu adestramento.

Tenhamos. Tinham trabalhado os dois juntos para domesticar o azor. Uma idéia assaltou James com súbita força. Era um risco, mas devia assumi-lo.

-Isobel, me faça um favor.

Ela calou um momento.

-Fale - disse com cautela.

-Você não quer ser o refém de um proscrito do bosque, você quer se reunir com seu pai e permanecer a salvo com o capitão do Wildshaw - olhou-a. - Embora não ame esse homem, sente-se mais a salvo com ele que em companhia de um foragido.

-Acredito... Acredito que sim - disse ela, duvidando.

-E eu quero ver Margaret a salvo. Talvez possamos nos ajudar um ao outro.

-Como? - sua voz não foi mais que um leve sussurro.

-Prometo que terá o que deseja. A única coisa que peço é um pouco de seu tempo.

-Meu tempo? - perguntou Isobel cautelosa.

-Sim. Me dê uns dias para enviar uma mensagem a Leslie para pedi-lo que troque Margaret por ti. Aguarda comigo no Craig até que ela retorne sã e salva.

-Quer que siga sendo sua refém? - disse olhando-o fixamente.

-Minha convidada - respondeu ele em voz baixa. - Mi... minha amiga. Estou pedindo que me ajude. E isso é tudo o que vou pedir-te.

Isobel não respondeu nada. O vento lhe agitava furiosamente o cabelo, o mesmo vento que afastava o cabelo dele dos ombros. James afastou o olhar, pois de repente se sentiu horrivelmente vulnerável. Isobel podia muito facilmente rechaçar e dar a volta, e ele teria que deixá-la partir e ver destroçadas suas esperanças. Obrigá-la agora a ser sua refém lhe condenaria como o pior dos canalhas aos olhos dela.

Seu silêncio persistia, lhe roendo as vísceras. Então a olhou.

-Quero resgatar Margaret sem que se percam mais vidas - disse-lhe. - Mas se não quiser ficar, não te obrigarei.

Isobel deixou escapar um suspiro e voltou a vista para o bosque, e a seguir para o enorme penhasco que se elevava ao outro lado.

-Quer que atue como cúmplice de seu plano - disse por fim.

-Sim, suponho que sim - James sorriu com amargura. - Leslie não tem por que inteirar-se da verdade. Sempre acreditará que você estava prisioneira e temendo por sua vida.

-Te mataria por isso - disse ela em voz baixa.

-De qualquer modo deseja matar-me.

Isobel lhe olhou fixamente. O vento continuava lhe revolvendo o cabelo, açoitando seus ombros e seu rosto. James elevou uma mão e afastou para trás as mechas soltas.

-O que diz, Isobel, a Negra? - perguntou-lhe.

-Por que decidiu me deixar em liberdade, se quero ir ?

James se elevou de ombros.

-Não é cavalheiresco reter uma mulher em troca de um resgate - disse em tom ligeiro. - Quando ouço uma lição repetidas vezes, acabo aprendendo-a.

-Em certa ocasião disse que eu era sua única esperança de obter o que procurava, resgatar Margaret.

-Minha única esperança - murmurou ele. - Assim é. Mas tenho descoberto que depois de tudo não posso te atar igual ao Gawain, assim devo te suplicar humildemente este favor e confiar em sua boa vontade - manteve o tom ligeiro, embora por dentro não sentisse outra coisa que tensão, à espera de sua resposta. Impulsivamente, tinha arriscado tudo nos últimos momentos, tinha apostado tudo à sua confiança e consideração para ele.

Isabel inclinou a cabeça como se lhe estivesse avaliando.

-Vi muito pouca humildade em ti. O que te tem feito trocar de idéia?

-Você - respondeu ele em voz baixa.

Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar.

-Não quero te reter contra sua vontade - calou durante uns momentos. - Mas se sua idéia é que não pode confiar no Falcão da Fronteira... - encolheu-se de ombros. - Nesse caso entenderei. O castelo do Wildshaw está nessa direção. - O indicou com a mão.

Isobel se voltou de costas para a direção que ele tinha mostrado.

-Mostre-me esse teu penhasco - disse. - Te darei uns dias.

James sentiu que o coração lhe dava um tombo, mas inclinou calmosamente a cabeça em um gesto de agradecimento.

-Uns dias, então.

-Se me tratar bem - adicionou Isobel.

-Bom - disse ele, girando-se para pôr-se a andar - suponho que isso sim posso fazê-lo. Aprendi muito dos falcões.

-Já sei - replicou ela, lhe seguindo.

 

-Tire as botas - disse James, elevando a voz para que Isobel pudesse lhe ouvir por cima do estrondo da cascata.

Olhou-o e piscou.

-As botas? Temos que escalar a parede com os pés descalços?

O penhasco se elevava imponente frente a eles, surgindo da borda mais afastada de um largo rio. Isobel estava de pé ao lado de James na outra borda. A escassa distância deles, a comprida e estreita queda de água se estrelava contra o rio com uma força considerável, formando redemoinhos e derramando-se sobre as rochas.

-Tire as botas, e também as meias - disse James.

Deixou o azor sobre um ramo para poder tirar ele mesmo as botas e as meias. Depois voltou a tomar o azor e se meteu no rio, sentindo a força e o fervo da corrente nas panturrilhas nuas e musculosas. Estendeu uma mão a Isobel.

-Tenha pressa, Isobel - disse.

Olhou-o carrancuda e a seguir se sentou torpemente para tirar meias e as brandas botas de baixo cano com a mão esquerda. As introduziu no cinturão e ficou de pé, e depois se levantou o bordo do vestido e o prendeu sob o braço direito.

A água estava tão fria que lançou uma exclamação em voz alta ao tempo que penetrava com cautela no turbulento riacho, que logo lhe cobriu os joelhos. James lhe agarrou a mão com firmeza e a guiou com cuidado sobre as pedras escorregadias que salpicavam o leito do rio. Quando chegaram à margem oposta, ajudou-a a sair e depois alcançou ele mesmo a borda com um salto.

Isobel levantou a vista para contemplar o impressionante penhasco.

-Tem uma corda? - perguntou-lhe, temendo a escalada.

-Não. Vamos - respondeu ele, e a conduziu em direção à cascata. Duvidosa e com o cenho franzido, Isobel lhe seguiu, olhando atentamente onde punha os pés descalços entre as pedras cobertas de musgo e os emplastros de erva, passando com cuidado por entre um arbusto de sarças bicudas.

James a levou tão perto da cascata que a nuvem de água lhe molhou a cara e a roupa e colou seu cabelo ao rosto. Secou-se com a manga do vestido e seguiu caminhando atrás dele. James, levando a azor, introduziu-se detrás da densa cortina de água tão velozmente que Isobel ficou olhando boquiaberta o lugar por onde tinha desaparecido. Nesse momento surgiu um braço que lhe agarrou a mão e a puxou fazendo-a passar através da rugente cascata até o espaço que havia atrás.

Ali a luz era quase inexistente de tudo, e o ruído era ensurdecedor. Isobel viu o contorno da cabeça e os ombros do James e a escura profundidade de seus olhos. Ele limpou a água que lhe jorrava pelo rosto, colocou para trás o cabelo molhado e se virou, com um rápido gesto para que o seguisse. E outra vez desapareceu, deslizando-se nas sombras com a rapidez e a elegância de um gato. Isobel avançou insegura para a escuridão e viu a forma pálida de sua mão insistindo-a a continuar. James se tinha introduzido por uma greta. Ela fez o mesmo, e se encontrou rodeada por trevas, sentindo o chão de rocha fria e escorregadia sob os pés descalços. Estendeu uma mão, presa ao pânico de repente. A escuridão era muito profunda, muito parecida com a cegueira. O estrondo da cascata a suas costas soava um pouco mais amortecido no interior daquele diminuto espaço, e gritou, golpeando a cabeça contra o baixo teto:

-Jamie!

Frente a ela surgiu uma débil luz dourada que iluminou um estreito passadiço. O chão se inclinava para cima em forte ângulo, e teve que apoiar a mão direita na rocha desigual para guardar o equilíbrio. Abaixou a cabeça e os ombros para não se chocar contra o teto do túnel.

-Jamie! - repetiu, e o som ricocheteou ecoando.

-Aqui - respondeu ele. A luz se agitou e se fez mais brilhante à medida que Isobel avançava pelo tortuoso túnel.

James aguardava um pouco mais adiante, sustentando um grosso ramo de pinheiro que ardia e chispava em uma mão, e o azor encapuzado na outra. Tornou a pôr as meias e as botas, e permanecia com a cabeça e os ombros agachados devido ao baixo teto do túnel.

-Sempre temos aqui um pederneira e algumas tochas - disse. - Volta a pôr as botas. Há muito que andar, mas é melhor que subir pela parede do precipício.

Isobel se sentou, colocou rapidamente as meias, sujeitou-as com as ligas, e a seguir se embutiu as botas. Depois seguiu James, que tinha começado a subir com passos largos e rápidos. O túnel era comprido e estreito, perfurado em redondo na rocha arenosa de cor rosácea, como se um dragão devorador de pedras tivesse cavado uma entrada a sua profunda guarida.

-É um passadiço secreto ao interior do penhasco? - quis saber Isobel.

-Espero que seja secreto - resmungou James. - Levamos anos usando-o. O túnel parece ser tão antigo como a torre que há no topo. Wallace e eu, e também Patrick, descobrimos a cova e o túnel faz anos, quando fugíamos de uma patrulha inglesa e saltamos atrás da cascata para nos esconder. Até esse dia, a única maneira de chegar ao alto deste penhasco era escalando a parede ou tomando a rota larga e difícil que rodeia a montanha.

-Quem conhece isto? - perguntou Isobel sem deixar de caminhar.

-Só quem se tem ficado junto a mim - respondeu James. - Quentin, Patrick, Geordie, Margaret e alguns mais. A maioria dos que o conheciam estão já mortos - continuou andando durante uns momentos antes de falar outra vez. - Quanto ao resto, Deus queira que jamais o contem aos ingleses.

-O resto?

-Houve um tempo em que me seguiam quase uma centena de homens - disse James. - Embora fossem menos de vinte os que conheciam este lugar.

-Os ingleses sabem que vive aqui? - perguntou Isobel.

-Sabem que o Falcão da Fronteira se esconde no penhasco, mas não sabem como entro e saio daqui. Agora que lhe mostrei... - interrompeu-se e virou para ela. O fogo se refletia vivamente em seu rosto, lhe dando um aspecto rude, forte e inflexível. - Me prometa solenemente que jamais revelará a ninguém à existência deste passadiço.

-Pro... prometo - balbuciou ela. - Prometo-o de todo coração.

-Ah, de modo que - disse, olhando-a fixamente - está disposta a arriscar seu coração? -sua voz soava tranqüila, mas forte, no estreito espaço.

Isobel assentiu com um gesto.

-Assim é.

O olhar do James não se alterou.

-Nesse caso te farei cumprir sua palavra - disse. - Contra seu coração.

Deu a volta para seguir caminhando. A luz da tocha arrojava um resplendor dourado sobre seu cabelo e seus fortes ombros e costas, de onde penduravam a espada e o arco. Isobel contemplou-o e sentiu um intenso desejo, uma sensação que não se parecia com nada que houvesse sentido antes, como se naquelas breves palavras que tinham trocado ela tivesse feito uma promessa mais profunda do que lhe tinha pedido, como se certamente tivesse devotado seu coração em objeto, não por guardar o segredo do túnel, mas sim pelo homem que se escondia ali.

Diminuiu o passo e se deteve, olhando as costas de James à frente. Foi uma sensação violenta, tão rica que quase a fez cair de joelhos. Recostou-se contra a rocha fria e áspera do túnel e levou uma mão à boca.

A súbita e desconcertante lembrança de uma visão alagou sua mente. Rememorou a imagem envolta em névoa de uma igreja, um pátio empapado pela chuva e um arbusto de espinheiro. Viu um homem ali de pé, vestido com capa e capuz como um peregrino, sustentando um falcão em sua mão enluvada. O homem se voltou, e lhe viu o rosto. James. E também se viu si mesmo, estendendo uma mão.

Com uma sacudida quase física, recordou que tinha visto outras imagens em outra ocasião, meses atrás, o dia em que viu a morte de Wallace. Mas o que significavam o espinheiro, o peregrino, o falcão? Por que tinha visto James e a si mesmo juntos ao lado do arbusto? Não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas, mas a imagem permanecia vívida em sua mente.

James se girou para ela.

-O que ocorre? - perguntou-lhe.

-Nada - respondeu Isobel, afastando-se da parede. - Nada - e seguiu avançando.

-Está mais pálida que a lua - disse James, indo para ela.

Isobel sacudiu a cabeça.

-Estou bem. Falta muito?

Entregou-lhe a tocha, pois tinha uma mão ocupada com o azor silencioso e encapuzado, e agarrou-a pelo cotovelo para guiá-la para cima.

-É uma ascensão larga e constante - disse. - Uma vez calculamos que teria meia milha de distância, serpenteando pelo interior do penhasco.

-Foi feita por mãos humanas? - contemplou o estreito túnel, com seu teto baixo, seu chão irregular, suas ásperas paredes de rocha avermelhada resplandecente à luz da tocha. Enquanto percorria com a vista a rocha nua e brilhante, a lembrança da estranha visão começou a desvanecer-se.

-Grande parte disto foi escavada por homens na antigüidade, acredito, porque há marcas de cinzel muito velhas e profundas. Mas foi iniciado pela mão de Deus - disse James. - Através do interior deste penhasco temos descoberto numerosas covas, conectadas por gretas bastante grandes para serem utilizadas como túneis. Em alguns lugares é tão aberto como um pombal. Inclusive há poços e um manancial.

-Tanta água? Como pode ser, em um lugar tão alto?

-O manancial procede do degelo da montanha, suponho. Ensinarei-lhe isso quando chegarmos um pouco mais acima.

Agarrou de novo a tocha e reataram a ascensão. O caminho não apresentava um ângulo de ascensão igual todo o tempo, nem tampouco o túnel tinha dimensões uniformes, mas era sim um passadiço estreito e serpenteado que torcia, ascendia, baixava e se aplainava ao tempo que foram trocando também a largura e a altura, de tal modo que às vezes tinham que agachar-se. À medida que foram ganhando altura pelo interior do penhasco, Isobel viu várias covas pequenas que partiam do túnel, apenas o bastante grande para permitir a um homem manter-se de pé dentro delas. James as deixou atrás sem fazer comentários. Um pouco mais adiante, viu a abertura de outra cova, algo maior.

-Você vive nestas covas? - perguntou.

-Empregamos como esconderijos - respondeu James - mas vivemos no topo.

A chama da tocha chispou quando torceram em uma aguda curva que formava o túnel. Ambos tiveram que agachar a cabeça para não se chocar contra o teto, que havia tornado a descer.

A seguir o túnel se bifurcou em dois caminhos. Isobel ouviu o ruído de uma correnteza, cujo eco soava amplificado pela rocha.

-À direita há um manancial - disse James. - De momento iremos por aqui - girou à esquerda e continuou por uma forte ladeira a passos largos. Por fim, quando Isobel começava a ansiar um descanso, dobrou uma curva, agachou a cabeça para passar sob um batente e lhe fez um gesto.

Isobel se aproximou e viu um íngreme lance de escadas formado por lajes de pedra uma em cima de outra. Ao final se via a débil claridade do dia. James começou a subir os degraus de dois em dois. Isobel os subiu devagar, levantando as saias, preocupada com a altura e a desigualdade dos degraus. Embora tivesse pernas longas, aquela escada parecia ter sido construída à medida de um gigante.

Saíram a uma superfície coberta de erva, banhada por uma luz cinza e açoitada por um fresco vento. Isobel olhou ao redor e James foi à frente, desaparecendo atrás de uma parede de pedra enorme e curvada que rodeava a zona de erva. Estava construída a base de blocos de pedra e lajes, ao parecer cortados da mesma rocha arenosa que formava o coração do penhasco, dispostos cuidadosamente em fileiras sem morteiro que alcançavam uma considerável altura. Isobel viu várias aberturas minúsculas para as janelas e, na base, uma porta retangular. Passeou pelo recinto interior, um espaço circular definido pelos muros. Uma parte da parede se desmoronou revelando a construção de dupla parede da torre circular. Dentro, o espaço entre os muros estava dividido em pisos e celas.

James retornou onde estava ela, ainda sustentando o azor, mas sem a tocha.

-Isto é um broch - disse. - Uma antiga fortaleza, abandonada faz muito tempo, construída por um povo que, conforme dizem, desapareceu da Escócia.

-Devia ser uma raça de gigantes, a julgar por este local - comentou Isobel.

James sorriu ligeiramente.

-Ninguém sabe. Em outras ocasiões estas torres formaram os alicerces de castelos, mas o topo do Aird Craig era muito difícil de alcançar, de modo que foi abandonada.

-Ninguém sabia da existência do passadiço - disse Isobel.

-Assim parece - respondeu ele.

-O segredo deve ter morrido com alguém, para haver-se perdido desse modo - disse ela, e James assentiu com um gesto. Por cima de ambos, o céu se obscureceu até adquirir uma cor similar ao estanho, e Isobel notou na cara as primeiras gotas de chuva. James a agarrou da mão.

-Por aqui - disse, e pôs-se a andar rodeando a base curva da parede, levando Isobel consigo.

Girou no ponto onde a parede se derrubou e convertera-se em um montão de escombros, e passou por cima de alguns blocos quebrados. Entrou no oco formado pela parede interior e a exterior, com o Isobel atrás. Com o passar do muro interior ascendia uma escada, construída com a mesma pedra que as outras. Subiram por ela e saíram a uma galeria provida de várias janelas praticadas no muro e que davam ao pátio. Isobel se fixou em umas pequenas câmaras fabricadas no espaço existente entre as duas paredes.

James entrou em uma daquelas celas. A luz procedente da entrada enchia o recinto, diminuto e sem janelas. Havia um banco de pedra contra uma parede e três cabides de madeira no chão. Depositou Gawain sobre um dos cabides.

-Isto foi uma falcoeira para meu outro azor - disse.

-Astolat? - perguntou Isobel.

James afirmou com a cabeça ao tempo que acariciava as costas do Gawain, que seguia com o capuz posto.

-O deixaremos descansar - disse. - Mas não muito tempo, ou se voltará selvagem outra vez. Venha comigo.

Isobel lhe seguiu ao exterior da minúscula cela e subiram outro lance de escadas que conduzia a uma galeria superior. Cruzaram a soleira de outra câmara que estava situada contra o muro interior. Havia uma janela pequena e quadrada pela que entrava um pouco de luz para iluminar um banco de pedra, uma mesa e uma cama sobre a qual descansavam um colchão e umas peles. A habitação era austera; os cobertores da cama e uma pequena lareira de pedra em um rincão eram os únicos detalhes de comodidade.

-É esta a câmara que usa? - quis saber Isobel.

-Sim.

-Resulta grandiosa para um foragido - assinalou ela, passeando pelo interior, tocando as paredes e o bastidor de pedra maciça que formava a cama. - Eu acreditava que os proscritos só viviam em covas, nos ocos das árvores ou ao ar livre.

-Alguns de nós vivemos no meio do luxo e rodeados de comodidades, no interior de fortalezas abandonadas - respondeu James. - Mas nenhum de nós possui um verdadeiro lar -Isobel captou a nota triste em seu tom de voz. - Há uma câmara contígua nesta parte -prosseguiu, assinalando uma pequena porta e uma parede divisória. - Pode usá-la, se quiser.

Pisadas de Isobel ecoaram no chão de pedra ao cruzar a estadia para olhar pela porta. A câmara contígua era gêmea da primeira, com um panorama do pátio e móveis de pedra, embora carecesse de cobertores para a cama. O espaço, tão sério como o outro, resultava aprazível em sua simplicidade. Isobel se sentou no banco que havia debaixo da janela e olhou ao pátio. A chuva repicava contra as pedras e a erva. Estremeceu, agradecida por encontrar-se em um lugar seco.

-Vou fazer fogo. Em minha câmara há uma lareira, e temos grande quantidade de mantimentos e equipamentos escondidos, de modo que estará cômoda - disse James. - Enquanto estiver aqui.

Isobel assentiu em silêncio. A fadiga e a fome por fim tinham minado suas forças. Quando James partiu, apoiou a cabeça junto à janela e contemplou como aumentava a chuva até converter-se em um aguaceiro. Suspirou e fechou os olhos, e se perguntou por que tinha resolvido fazer aquilo. Encerrada em uma robusta torre encarrapitada no alto de um penhasco inacessível, agora era mais prisioneira do que tinha sido nunca.

Sua única possibilidade de recuperar a liberdade estava no proscrito. E sua única esperança radicava na confiança que tinha depositado nele.

 

-Parou de chover -disse Isobel.

James afirmou com a cabeça sem levantar a vista do azor, que estava encetado em outra rabiada. Isobel e ele estavam sentados na câmara deste último, a refúgio da chuva que não tinha deixado de cair enquanto tomavam uma comida a base de pão e queijo que lhes tinha enviado Alice, acompanhada de um garrafão de vinho tinto das reservas de James. Na lareira ardia um pequeno fogo que preenchia a estadia de um agradável calor.

James lançou um suspiro e observou o azor enquanto este agitava com força as asas. Nada além de lhe tirar o capuz, Gawain havia se arrojado uma vez ou outra do punho, como se estivesse desafogando sua fúria por ser transportado de novo. James tinha começado a perder as esperanças de poder domesticá-lo.

-Este azor não tem remédio - comentou. - Quem quer que fosse seu anterior dono, malcriou-o totalmente.

-Então não pode ter saído das falcoeiras de meu pai - assinalou Isobel, aproximando-se. - Meu pai criava falcões como é devido.

Quando cessou o bater de asas, James voltou a colocar à ave ofegante sobre o punho.

-Não posso reparar o dano causado por um mau falcoeiro. Não há bastante paciência no mundo para isso.

-Se houver alguém que tenha paciência, é você - murmurou Isobel.

Ele soltou uma risada sem humor.

-Sei muito bem quando não há esperanças.

-Não é este o caso - estendeu uma mão para passar o dedo pelas costas do rapaz. - Não, sir Gawain, lhe diga que pode ser amestrado. Vamos, diga-lhe.

James a olhou com uma expressão de surpresa.

-Pensava que queria que o deixasse em liberdade - disse.

-E assim é, mas quando chegar o momento. Você mesmo disse que deve curar a asa antes de voar em liberdade.

-Em efeito.

Levou a mão ao zurrón que levava na cintura e extraiu dele uma pluma cinza que Gawain tinha perdido em suas manhas de criança. Utilizou-a para lhe acariciar o peito e as patas. Gawain olhou furioso para ambos, com um brilho de ressentimento em seus olhos cor bronze, e se manteve posado com as asas encurvadas para frente de modo que as pontas roçavam o punho de James, e flexionando inquieto as garras.

-Tem fome - disse James. - Note como fecha as garras. E, além disso, está esgotado, entretanto não quer ficar tranqüilo no punho - sacudiu a cabeça negativamente e voltou a introduzir a mão no zurrón para tirar um pedaço de carne crua que levava em um pacote e dar-lhe ao Gawain. - Nega-se a ficar crédulo no punho. E olhe, está tão desalinhado como quando o resgatei da árvore. Torceu as plumas da cauda com todas essas rabiadas. Agora será necessário as endireitar, e essa não é uma tarefa divertida, asseguro-lhe isso - disse de mau humor.

-Deixa-o para mais adiante - disse Isobel em voz baixa, olhando-o. - Você está tão cansado quanto ele. Só lhe dê de comer e deixe que durma um pouco, e você também. Depois poderá começar outra vez com o adestramento.

James lançou um suspiro.

-Sim, estou cansado. Mas tenho que amestrar o azor. Não posso deixar que se comporte como um pássaro silvestre, e tampouco posso deixá-lo em liberdade com uma asa débil. Tem que ser capaz de caçar, ou morrerá.

-É muito honroso por sua parte resgatá-lo e tratar de amestrá-lo para seu próprio bem.

James elevou uma sobrancelha, surpreso e agradado interiormente pela completa e inconfundível simpatia que percebeu na voz do Isobel. Mas lhe dirigiu um olhar irônico, pois duvidava em revelar o quanto que seu calado apoio significava para ele.

-Honroso? E isso o diz uma moça que me considera um malvado traidor?

-Acredito que te parece muito a esse azor, James Lindsay - repôs ela com suavidade. Seus olhos reluziram nas sombras, que para James, naquele momento, eram de uma cor muito similar a da chuva.

- De mau gênio e desalinhado? - disse, zombador.

Um sorriso brincou na comissura dos lábios do Isobel.

-Sim, isso também.

A pesar do desânimo e do intenso cansaço, James sentiu que seu abatimento se aliviava um pouco ante o tom amável dela. Alegrava-lhe saber que a agradava, que Isobel tinha certa fé e respeito por ele. E gostava do humor que faiscava entre ambos.

Isobel se sentou no banco, a seu lado.

-Mas há mais. Os dois são selvagens, fortes e teimosos. E nenhum dos dois se rende jamais. Vejo perfeitamente.

Ele a olhou um bom momento.

-Raramente desisto de uma tarefa, mas este azor está a ponto de me derrotar.

-Nunca - disse Isobel brandamente. - Nunca nada te derrotará.

James enrugou a frente. Havia uma suave luz que resplandecia nos incríveis olhos de Isobel, como um brilho de admiração. Já o tinha visto antes, quando compartilharam um doce e lento beijo entre as samambaias. Estava agradecido por ter recuperado sua confiança, mas ao mesmo tempo se sentiu desconcertado; na realidade não a merecia.

-Oh, tentam me derrotar com freqüência - comentou. - Simplesmente, não mostro meu desgosto por isso. Ao contrário deste pássaro mal educado.

Isobel inclinou a cabeça para olhá-lo. Seu olhar foi afetuoso, gentil. E lhe perfurou até o mais fundo.

James sentiu que lhe acendia o sangue e desejou tocá-la, beber um pouco dessa doçura que notava em seus lábios, em seus olhos. A fadiga rabiscou seus pensamentos, se tornaram imprecisos todos os anos de auto-disciplina. Se seguisse ali com ela, sem dúvida faria algo que lamentaria mais tarde.

-Vamos lá fora - disse-lhe, ficando em pé. - Vou ensinar-te o Craig.

 

O vento lhe açoitava o cabelo. Isobel o prendeu com uma mão, retorcendo-o para domar o grosso arbusto de cabelo. Desejou poder utilizar as duas mãos para trançar-lhe porque o vento que soprava no alto do penhasco era muito forte e lhe revolvia toda a cabeleira ao redor da cabeça e lhe pegava as saias contra as pernas.

De pé no topo, contemplou a paisagem mais magnífica que jamais tinha visto. Quando parou de chover o céu se clareou, mas as nuvens, grandes e cinzas, seguiam passando por cima deles. O bosque que havia a seus pés era de um verde profundo, atenuado por transparentes véus de névoa. Ao redor se estendia uma rica paisagem composta por colinas e bosques, lagos que brilhavam como pedras de prata, rios que reluziam como cintas ao sol.

Isobel se voltou e olhou Jamie, que estava de pé a seu lado, sustentando ao azor no punho.

-Vê uma paisagem preciosa daqui - disse, maravilhada. - Nunca estive em um lugar tão alto.

-Quando está mais limpo, a vista alcança várias milhas - elevou a mão para assinalar um ponto. - Naquela direção estão as colinas baixas da fronteira, verdes e arredondadas. E aquele - moveu o braço para indicar um rio tranqüilo e com meandros - é o rio Yarrow, que vai confluir com o Ettrick. E ao redor de nós se encontra o bosque em si. Lá ao longe, detrás daquela colina larga e rochosa, está a clareira e a casa de Alice. Em dias luminosos se pode ver os três picos das colinas Eildon.

Isobel voltou a vista para o oeste.

-Pode-se ver daqui o castelo do Wildshaw?

James guardou silêncio. O azor piou e elevou as asas, e ele o tranqüilizou com uma frase rápida e em tom grave.

-Não podemos ver o castelo - disse em voz baixa. - Está mais à frente do bosque, depois daquela colina arredondada dali. Wildshaw dá para o vale de um rio que há do outro lado da colina.

-Deve ser um lugar muito formoso.

-Em efeito, é - um músculo se agitou brevemente em sua bochecha.

-De modo que daqui pode ver uma boa parte do que acontece no bosque - disse Isobel. - Isso deve se mostrar muito útil para um bandido dos bosques.

-Certamente - respondeu James. - Vemos os soldados ingleses a cavalo pelo bosque e nas colinas. Vemos patrulhas que foram e vinham do Wildshaw e também de outros castelos próximos. Sabemos quando soldou no bosque, e lhes vemos facilmente quando cavalgam seguindo a linha do rio.

-Então conhece seus inimigos antes de ter que enfrentá-los - disse Isobel. - Os ingleses devem odiar o fato de que você esteja a salvo aqui acima e eles não possam chegar a ti.

-Dariam muito para tirar o Falcão da Fronteira de seu ninho - lançou um olhar a Isobel. - Em certo modo, observar dessa altura é como ver o futuro. Daqui de cima podemos predizer a quem encontraremos no bosque, quantos, vindo de que direção. Podemos escolher as batalhas. A única coisa que não podemos saber é o resultado.

-É um modo de conhecer o futuro mais prático do que o que eu posso te oferecer -murmurou Isobel. - O fato de poder observar daqui ajudou a te proteger ao longo de todos estes anos.

James se encolheu de ombros e assentiu com um gesto.

-Suponho que tive sorte. Há vários meses, quando fui capturado pela primeira vez pelos ingleses, foi em outro lugar. Não teria acontecido nesta parte do bosque de Ettrick.

Isobel observou seu forte perfil e a bela imagem do azor posado em seu punho.

-Onde lhe capturaram?

-Encontrávamos a oeste daqui, logo depois de Wildshaw, a caminho de nos reunir com outra banda de homens leais a Wallace. Caímos em uma emboscada que nos armou uma patrulha inglesa - exalou um comprido suspiro. - Morreram vários de meus homens. Meu primo Tom Crawford, o filho pequeno de Alice, morreu lutando a meu lado. Margaret foi feita prisioneira conosco.

-Estava com vocês esse dia?

-Sim. Acompanhava-nos com freqüência. É uma jovem forte e decidida, e não tem medo de nada. Eu não queria desperdiçar uma boa mão com o arco só porque pertencesse a uma mulher. Mas foi um dia desgraçado. Os que sobreviveram à emboscada foram levados ao Carlisle. Eu permaneci encarcerado ali até o verão, e Margaret foi levada à custódia do Leslie. Ele estava ali e era simpatizante dos ingleses.

-Foi então que perdeu a posse do Wildshaw, quando lhe fizeram prisioneiro os ingleses?

James negou com a cabeça.

-Tomaram o castelo faz sete anos, depois de que meu irmão, o senhor, morrera no campo do Falkirk. Wildshaw é meu por direito. Mas o rei inglês acrescentou meu nome à lista de barões despossuídos e me declarou proscrito por me negar a assinar um juramento de obediência.

-Como se Eduardo Longshanks tivesse direito a exigir obediência ou a tirar as terras dos escoceses e fornecê-las a outros - comentou Isobel.

James elevou uma sobrancelha.

-Que estranho que diga isso uma moça que pensa em desposar com um escocês que acaba de passar-se aos ingleses.

-Essa moça sabe o que é justo e o que não é - replicou ela. - O matrimônio não trocará isso.

James assentiu brevemente, em um gesto de aprovação.

-Os capitães do rei Eduardo instalaram no Wildshaw uma guarnição de mais de cem homens. Têm o castelo abarrotado de mantimentos e máquinas de guerra para lutar na fronteira.

-Não pode recuperá-lo, como senhor do Wildshaw? - perguntou-lhe Isobel.

-Tentei-o - respondeu ele. - E não consegui outra coisa a não ser dor.

Isobel se lembrou daquele momento no jardim sombrio e ameaçado do Aberlady, acariciando uma rosa branca enquanto James lhe dizia que ele também tinha perdido um castelo e entes queridos em um incêndio provocado pelos ingleses. E recordou o comentário de Alice no sentido de que James levava uma carga dentro de si desde que perdeu Wildshaw.

-O que aconteceu, Jamie? - perguntou-lhe com suavidade.

Ele manteve a vista fixa no bosque velado pela névoa e suspirou. Acariciou brandamente com um nódulo do dedo as plumas do peito do Gawain e lhe murmurou umas palavras.

Isobel aguardou pacientemente. Sabia que ele tinha ouvido a pergunta e estava pensando a resposta, mas se perguntou se quereria responder.

-Astolat e eu estávamos acostumados a vir aqui - disse James por fim. - Eu procurava ingleses e ela procurava galos selvagens, cotovias ou perdizes. Se eu a soltasse para que voasse em busca de uma presa, ela sempre retornava e me trazia. Se eu não a lançava ao vôo, ficava tranqüilamente estalada em seu cabide, embora passasse adiante um pássaro tentador.

-Era um falcão notável, conforme disse.

-Assim é - passeou o olhar ao redor, entrecerrando os olhos ao esquadrinhar o bosque. O vento lhe apartou o cabelo dos ombros. - Daqui de cima eu sempre via quem estava cruzando o bosque em direção ao Wildshaw. Naquela época já passava a maior parte do tempo com Wallace e outros, enquanto meu irmão tinha Wildshaw. Mas esse dia fazia pouco que tinha ocorrido o do Falkirk. Meu irmão tinha resultado morto, junto com dois de meus primos, filhos de Alice. Depois da batalha, eu fui ao meu lar no Wildshaw e depois passei um ou dois dias com Alice. Saí da casa e subi aqui para me ocupar de... questões da rebelião. Levava vários dias fora de casa.

Essa manhã – prosseguiu - vi ingleses cavalgando através do bosque em um grupo grande, equipado para o combate, e baixei com uma patrulha. Dividimo-nos para explorar a situação e nos demos conta de que se dirigiam ao Wildshaw. Astolat estava comigo.

Gawain se agitou inquieto sobre o punho e bateu asas. James fez uma pausa para lhe sussurrar umas palavras, e Isobel observou que o tom paciente do James servia para evitar uma rabiada. Esperou que falasse de novo.

-Astolat viu meu atacante antes de mim - continuou James. - Elevou as asas enquanto estava estalada em meu punho, e recebeu a flecha que ia destinada a mim - calou por uns instantes. - Direta ao peito.

Isobel conteve a respiração, em atitude solidária.

-Fez de propósito? - perguntou, assombrada.

-Duvido. Os falcões são muito selvagens para isso. Mas ela era um azor diferente em tudo. Meus homens estavam convencidos de que ela se sacrificou para proteger minha vida.

-É uma perda difícil de agüentar - disse Isobel. - Você a amava.

-Sim, em certo modo. Possuía mais lealdade e maior força de vontade que muitas pessoas que conheci. Exceto um homem - murmurou - e uma mulher, faz muito tempo.

Isobel estava segura de que se referia a William Wallace, mas se perguntou quem seria a mulher. A voz calma de James se abrandou ao mencioná-la. Isobel sentiu uma pontada de dor vazia dentro de si; compreendeu com leve surpresa que se sentia ciumenta... para o azor a que James tinha amado tanto e para aquela mulher desconhecida.

-A lealdade é muito importante para você - murmurou.

-É essencial para mim - replicou ele, áspero.

Isobel assentiu com a cabeça.

-Amava a essa mulher?

-Sim - respondeu James. - De certo modo. Ambos éramos jovens e não sabíamos muito do amor nem de nós mesmos. Mas eu a queria. Admirava sua doçura. E tinha uma risada muito formosa - sorriu fugazmente e com tristeza. - Estávamos comprometidos fazia vários anos, por desejo de meu pai. Quando eu abandonei o seminário, decidiu que precisava contrair matrimônio para me estabelecer. Mas as guerras e minha devoção pelo Wallace atrasaram as bodas.

Fez-se de novo silêncio. O azor piou levemente.

-Elizabeth era tão leal como Astolat - disse James. - Era uma moça doce que teve uma morte injusta, pouco depois de Astolat - agora falava em um tom distinto. O ar que lhes rodeava parecia mais pesado, como se estivesse prenhe de aflição ou rancor. Além da severa beleza de suas feições, Isobel viu brilhar uma funda pena em seus olhos. - Ela estava em Wildshaw com sua velha aia.

Elizabeth atuava em ocasiões como anfitriã, já que meus pais tinham morrido e meu irmão e eu estávamos acostumados a encontrar-nos ausentes.

-Estava no Wildshaw quando foi atacado? - perguntou Isobel atônita, com um fio de voz.

-Sim - James olhava fixamente para o bosque, com o queixo alto e o semblante duro. - Nessa manhã uma flecha inglesa levou Astolat. Ao cair da tarde Elizabeth também tinha desaparecido, em um incêndio que provocaram os ingleses com flechas ardendo. Transpassaram as portas em chamas do castelo e mataram os que não tomaram como prisioneiros. Um só homem sobreviveu e conseguiu escapar, e nos encontrou. Disse-me como tinha morrido Elizabeth - fechou os olhos e voltou o rosto.

-Jamie, santo Deus - a revelação do que ele tinha suportado aquele dia lhe causou um forte impacto. - Você viu o fogo? - olhou-lhe, horrorizada e compassiva.

-Sim, e também ouvi os gritos dos que estavam dentro. Mas não nos limitamos a ficarmos sentados. Tomamos tantas vidas de ingleses como foi possível, embora fossem perto de duzentos homens armados e a cavalo contra setenta a pé. Acabávamos de sofrer uma grande perda no Falkirk, e nos faltava espírito para ganhar.

-Sabe quem foi o responsável pelo ataque?

-Só em parte - respondeu James. - Mas sei que Ralph Leslie estava com o comandante inglês.

-Não pensava que então fora simpatizante dos ingleses.

-Trocou de bando com freqüência. Estou seguro de que se encontrava ali. Estava na partida que capturou Margaret e a mim na primavera passada, e lhe reconheci do Wildshaw. Algumas das caras que vi esse dia ficaram gravadas a fogo na memória - disse com voz rouca.

-Tem uma amarga luta contra os ingleses - disse Isobel. - Contra Ralph.

-Assim é - concordou James, e fechou os olhos. - Tentei atravessar as portas para salvá-la, teria caminhado no meio do fogo por ela, por qualquer dos que estavam no castelo, juro -disse com veemência. - Mas estava ferido, e meus homens me afastaram dali à força.

Isabel deu uma leve exclamação.

-Isso é o que Ralph disse a Alice que tinha feito por mim! Jamie... Ele devia estar ali, no Wildshaw. Deve ter te visto fazer isso, para ter inventado algo semelhante para si mesmo.

-Exato - resmungou James.

Isobel percebeu a raiva e a dor em sua voz.

-Ralph mentiu, mas você sim teve verdadeiramente coragem esse dia para tratar de salvar a sua amada.

James manteve a vista fixa no bosque e não disse nada. Ela viu um músculo contrair-se em sua mandíbula e um rubor que lhe estendia pela bochecha. Experimentou uma quebra de onda de compaixão e se aproximou dele para apertar a mão sobre seu antebraço duro como o aço.

-James - disse-lhe. - O que aconteceu no Wildshaw foi inevitável. Não teria podido salvá-la, teria morrido também - esfregou-lhe o braço com os dedos. - Sinto muito que tenha ocorrido, mas... mas me alegro de que você não tenha morrido nesse dia.

Algo vibrou por um instante em suas feições. Dirigiu-lhe um muito breve olhar e voltou a desviar os olhos.

-Vinguei sua morte - disse James com força contida. - Sem piedade. Ao longo de semanas. De meses - lançou um profundo suspiro. - Pode ser que, inclusive agora, continue vingando-a. Mas nem todo esse sangue conseguiu apagar o que senti então. Cada um dos ingleses aos que dei morte não tem feito nada, a não ser afundar o... o vazio que sinto dentro de mim.

Isobel baixou a mão até encontrar a sua. Ele aferrou seus dedos rapidamente, quase com desespero, e os apertou.

-Jamie, é impossível aliviar esse sofrimento - disse-lhe. - A vingança não pode aplacar tanta dor e tanta raiva.

-Nem tampouco as orações - repôs ele amargamente. Seus dedos apertaram de novo os dela. - Não há nada que cure esse tipo de rasgão na alma. Pode ser que jamais encontre a paz. Mas não me derrubei em minha dor; fiz-me mais forte, mais frio por dentro, e arremeti contra os ingleses com uma ferocidade que não tinha antes. O Falcão da Fronteira se converteu em um nome que todo soldado inglês conhecia, e temia. Juraram me capturar, e durante anos não puderam.

Isobel esfregou seu dedo polegar contra o dele.

-E ainda querem te capturar.

-Capturaram-me uma vez, na primavera, no Carlisle - disse. Seu tom se pareceu tanto a um rugido que Isobel levantou a vista. - E estiveram a ponto de vencer também minha alma. Mas penso em recuperar o perdido.

-A que se refere? - perguntou ela em um sussurro.

James sacudiu a cabeça e soltou a mão para acariciar com o dedo as patas do azor.

-Jurei que não voltaria a ter outro falcão - murmurou. - Acreditava que isso só serviria para me recordar a perda sofrida.

-Mas este tolo azor te necessita - disse Isobel.

Ele sorriu com tristeza. Isabel observou-o, contente de que lhe tivesse revelado algo de sua vida. Mas James mantinha fechada a porta do mais profundo de si, ocultando o que ela temia que fosse a parte mais sinistra: o tempo transcorrido desde que foi capturado pelos ingleses até o momento atual. Por seu estado de ânimo, sabia que ele não ia responder perguntas relativas aos acontecimentos que tinham feito que se considerasse um traidor. Mas quanto mais conhecia dele, mais profunda se fazia sua compaixão. James nunca poderia convencê-la que de verdade era um traidor.

-Assim depois da retirada de Wildshaw, ocultou-te no Craig e seguiu lutando ao lado de Wallace? - perguntou-lhe.

James afirmou com um gesto.

-Uniram-se para mim vários homens no bosque, arrendatários do Wildshaw e outros cujos lares foram destruídos por ataques ingleses. Lutamos junto a Wallace, mas também atuamos por nossa conta. Will e eu nos juntávamos para criar planos. A nossa era uma banda muito singela, a maioria dos homens não possuía nada mais que a roupa que vestia e as armas que empunhavam. Carecíamos da força dos ingleses, mas tínhamos astúcia. Atacávamos quando os ingleses cruzavam o bosque, mas sempre havia mais para substituir os soldados que eliminávamos.

Isobel contemplava a vista do bosque enquanto escutava a James. Houve um movimento que atraiu seu olhar: um falcão voando em círculos sobre as árvores, cada vez mais alto, cavalgando no vento com elegante facilidade. Nesse momento se lançou para baixo em picado e desapareceu no bosque, em detrás de uma presa.

-Algum dia poderá recuperar seu lar e tudo o que te pertence - murmurou.

-Espero que isso não seja uma profecia.

Isobel franziu o sobrecenho.

-Por que diz isso?

-Se recuperasse Wildshaw, teria que destruí-lo.

Ela ficou olhando-o.

-Tão amargurado está, James Lindsay?

-Me endureceu o coração - disse ele. - Escócia carece dos exércitos e fornecimentos necessários para manter guarnições em seus castelos para se defender do ataque dos ingleses. Só podemos defender as fortalezas mais importantes, os pontos fortes de Escócia. De modo que devemos deixar o resto inútil para o inimigo. Aberlady não era um castelo importante, e tampouco o é Wildshaw.

-Mas os dois eram lares - replicou Isobel. - Lares para seus donos. E Wildshaw poderia sê-lo de novo.

-Do que sou dono eu? - James fez um amplo gesto com sua mão livre para abranger o bosque, as colinas, o céu. - De um castelo que não pus o pé em vários anos? De um bosque cheio de cervos escoceses que um rei inglês reclama como deles? De arrendatários que foram jogados de suas casas? - deixou escapar um suspiro de fúria contida. - Não sou dono de nada. Sou um bandoleiro, um proscrito, um homem sem honra.

-É muito mais - disse Isobel. - Aqui lhe respeitam. É uma lenda neste bosque.

Ele sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

-Perdi todo direito a reclamar isso. Não sou dono nem senhor de nada, exceto de um nome que inspira desconfiança e de uma causa que se debilita. Nada que possa conservar-se, nem medir-se, nem proteger-se. Como o vento - agitou a mão com impaciência. - Impossível de agarrar.

Isabel lhe olhou, atônita.

-O senhor do vento.

Um cenho franzido enrugou a frente do James.

-O que?

-O senhor do vento - assinalou com a mão o penhasco, como continuação do gesto que tinha feito ele. - Possui o domínio deste lugar elevado e ventoso. Além disso, você manda em sua própria liberdade. Os ingleses não podem te apanhar aqui, não podem te obrigar a te render nem a prestar um falso juramento. Você desfruta de uma liberdade que eles nunca poderão ter, atados como estão a suas armas e suas armaduras, seus castelos e sua cobiça, a cólera de seu rei. Você luta pela liberdade, e sacrificaste muito por essa causa, mas ganhou a liberdade por ti mesmo e contribuiu para ganhá-la também outros.

James a olhou fixamente.

-Senhor do vento. Sua profecia.

Ela assentiu.

-Assim é. Acabo de compreender a que se referia. O falcão do bosque, o senhor do vento, um homem livre, um homem que não baixa a cabeça, que se eleva por cima do resto, igual a esse azor que leva na mão, ou igual a esse outro ali, que voa sobre as copas das árvores.

Viu que os olhos de James se enrugavam ligeiramente e que um ponto de tensão vibrava em sua bochecha, como se refletisse profundamente que não queria revelar seus segredos.

-De modo que, depois de tudo, fui eu quem apareceu em sua profecia.

-Acredito que sim. Mas se te chamei traidor, equivocava-me. Agora te conheço. Você é um homem de honra.

James a olhou fixamente sem pestanejar.

-Não, pequena. Você me crê um herói, um paladino que salva donzelas, que salva a liberdade de Escócia, que... cura-te a cegueira com um beijo.

-E o é - insistiu Isobel. - Os que dizem que é um traidor não lhe conhecem. Possui nobreza de coração, que é onde radica a honra.

Ele franziu o cenho.

-Não. Sou o homem que você chamou de miserável traidor. Sou o homem que te tirou de seu castelo, que te converteu em refém, e que agora te pede que engane a seu prometido como parte de um plano de resgate.

Você é o homem que conquistou meu coração, pensou Isobel em um impulso, mas mordeu a língua antes de ser tão parva para dizê-lo em voz alta.

-Sim - disse. - Você é esse homem. E sigo pensando que é um homem de honra - levantou o queixo com teimosia.

-Tão segura está, Isabel, a Negra? - Seu tom tranqüilo era bastante potente para ser ouvido por cima do vento que lhes açoitava,

-Estou - repôs ela. - Fiquei contigo porque acredito que não cometeu traição alguma, porque tenho fé em você.

Ele a olhou com seus olhos de uma cor azul escura e penetrante.

-Tem fé em mim - repetiu devagar, como se estivesse tratando de entender aquelas palavras. O vento lhe açoitava o rosto, mas ele permanecia imóvel. O azor piou e piscou olhando-os, mas James não afastou a vista de Isobel.

-Assim é - inclinou-se para ele. - Tenho fé em ti - disse, murmurando com tanta intensidade como foi possível. - Alice também. E seus homens. Tão cego está ante sua própria honra que não é capaz de vê-lo? Nenhum de nós te crê um traidor. Nenhum, embora você insista que deveríamos fazê-lo.

Ele voltou a olhá-la com seus olhos escuros como safiras.

-Nenhum de vocês sabe a verdade - disse simplesmente.

-Então me diga - replicou ela, lhe pondo uma mão no braço.

James a contemplou em silêncio. O vento lhe revolvia o cabelo contra a cara como se fosse uma bandeira de cor dourada escuro. Ele sacudiu a cabeça para apartá-lo, e Isobel viu que na realidade estava fazendo um gesto negativo.

-Confiou em mim o suficiente para me contar parte do que te obceca - disse Isobel. - Confie em mim para contar o resto.

James sorriu lentamente com um ar de tristeza e elevou uma mão para desenhar a curva de sua bochecha com as pontas dos dedos. Ela fechou os olhos por um instante, deixando que a sensação lhe percorresse todo o corpo. James se aproximou um pouco mais, sua mão cálida na bochecha dela, seu rosto quase tocando o de Isobel. Ela sentiu como seus dedos davam forma a sua bochecha, escorregavam por seu pescoço, posavam-se em sua nuca.

-Confio plenamente em ti pequena, e isso não é algo que me resulte fácil - murmurou. - Mas se lhe contasse isso, sua fé desapareceria. E eu quero sua confiança. Necessito-a - tinha a boca tão perto da de Isobel que ela inclinou a cabeça para trás. - Deus, quanto a necessito - sussurrou.

Seus lábios se fecharam sobre os do Isobel em um beijo mais apaixonado, mais faminto que nenhum outro que tivessem compartilhado antes. Com um só braço, James a atraiu para si, afundando os dedos na massa de sua cabeleira agitada pelo vento enquanto sua boca se acoplava a dela.

Isobel se arqueou para trás naquele abraço e lhe rodeou a cintura com as mãos, inclinando a cabeça para abrir-se a um beijo mais profundo. O vento ameaçava fazendo-a perder o equilíbrio, mas o braço de James a sustentou firme enquanto seus lábios acariciavam os seus, suavizando, endurecendo, mimando. Sentiu-se como se o mundo que a rodeava perdesse pé e o vento a elevasse do chão.

Nesse momento Gawain se arrojou fora do braço estendido de James igual a uma rã saltando de uma pedra iluminada pelo sol, mas suas ataduras o frearam, como sempre, e se limitou a debater-se freneticamente contra o vento. As pontas de suas asas roçaram repetidamente o braço de Isobel, que se separou com um gesto brusco de James e proferiu um grito de surpresa.

James dirigiu um olhar severo ao azor. Com um hábil movimento do punho enluvado, girou o braço para acomodar o terzuelo, que aferrou as correias com as garras e se agarrou de novo ao punho, chiando. James sacudiu a cabeça com desgosto, mas falou com o rapaz com carinho e lhe cantou umas quantas notas do kyrie até que se apaziguou, piscando, com as garras firmemente plantadas sobre a luva.

James sorriu a Isobel com gesto irônico.

-Este bobo azor tem mais juízo que eu, parece-me. Devo te pedir perdão mais uma vez.

Sem fôlego e ainda sob os efeitos da força abrasadora do que tinha acontecido entre eles, Isobel lhe tocou o braço.

-Não me peça perdão. Eu também tive parte nisso - murmurou.

-Puseste-se sob meu cuidado, e está a ponto de ser enviada para seu prometido. Este beijo foi uma falta de honra. Não quero dar a Ralph Leslie mais motivos para querer minha cabeça. Nem tampouco quero dar a você motivos para lamentar... o que acontece entre nós.

Ela inclinou a cabeça para trás para olhá-lo.

-Ah, nesse caso - ofegou - vê? É um homem de honra.

Agarrou-lhe a mão com força, como se não quisesse soltá-la nunca, e a seguir virou-se para observar o bosque e o céu com seus agudos e brilhantes olhos azuis.

-Vê esse falcão aí? - perguntou-lhe.

-Sim... ali está, a oeste.

-É um falcão de cauda vermelha - disse James. - E grande. Eu diria que é uma fêmea. Não é selvagem, a não ser uma ave de falcoaria. Lá abaixo deve haver uma partida de caça.

-Note nela. Que formosa é! - o falcão planou sobre as árvores, descreveu um círculo, inclinou-se ligeiramente e se precipitou ao interior do bosque. - Logo sir Gawain voará igual a ela.

James arqueou uma sobrancelha em um gesto dúbio enquanto contemplava o azor posado em seu punho. O rapaz agitou levemente as asas e esponjou as plumas do peito.

-Pode ser que este triste azor nunca voe para nós nem para nenhum outro dono. Pode ser que tenhamos que render-nos a seu caráter obstinado e deixá-lo em liberdade quando lhe tiver curado a asa - entreabriu as pálpebras. - Olhe ali, entre as árvores. Vê os cavaleiros?

Isobel pôs uma mão sobre os olhos a modo de viseira.

-Onde? Oh... vejo um brilho luminoso. O que é?

-Armaduras - respondeu James. - Soldados vindo pelo caminho do Wildshaw - James lhe apertou a mão. - Vamos. Não podemos arriscar que nos vejam aqui. Se nós podemos vê-los, eles poderiam nos ver. Além disso, quero te ensinar uma coisa.

Isabel lhe seguiu, sua mão apanhada na dele, o coração lhe pulsando enlouquecido, e se deu conta de que não queria ir-se nunca daquele penhasco nem soltar a mão do proscrito que vivia ali.

Soube com toda certeza que não desejava que a jogassem nos frios braços de outro homem.

 

James conduziu Isobel ao longo de todo o promontório, longe do extremo mais exterior com suas construções de pedra. Seguiu em direção à montanha que se elevava, sólida e escura, neste lado. Suas largas passadas a obrigaram quase a correr enquanto ele a levava atrás de uma ladeira formada por um desprendimento de rochas que deveria ter caído da montanha tempos atrás.

-Por aqui - disse James. - Venha com cuidado agora.

Precedeu-a por um estreito atalho que descia em pendente, rodeado de sarças e matagais. Havia um pequeno planalto que sobressaía abaixo do nível superior do penhasco, apoiado no ponto de união entre o penhasco e a saia da montanha. Alguns trilhos arranhavam a ladeira, cheios de água procedente da chuva desse mesmo dia, que discorriam em direção ao planalto e desapareciam atrás de um denso arbusto de tojos.

-Olhe isto - disse James, agachando-se de cócoras junto à massa de verde vegetação. Isobel se inclinou para frente.

As rochas que haviam atrás do arbusto de tojos apareciam desordenadas e gretadas, um montão de escombros feito pela mão da natureza. Havia um largo buraco que se abria diretamente ao interior do penhasco, e os trilhos de água penetravam pelo bordo arredondado formando uma fina cascata.

Isobel ouviu o eco que fazia a água ao golpear a pedra. Espionou no interior do buraco e viu reflexos tremeluzentes de luz diurna.

-O que há lá abaixo? - perguntou.

-Uma gruta e um manancial - respondeu James. - Poderá descer por essa escada com uma só mão? - assinalou a escada de madeira que descansava apoiada contra a abertura e descia ao interior do buraco.

Isobel afirmou com a cabeça. James se sentou no bordo do buraco, agarrou um lado da escala e começou a descer por ela com cuidado, já que levava na outra mão as correias do azor. Gawain agitou as asas e chiou, mas conservou a compostura o bastante para permitir James chegar ao chão da gruta sem problemas. Olhou Isobel e lhe estendeu a mão.

A escada media perto de três metros. Isobel se sentou no bordo do buraco, apoiou os pés em um degrau e segurou com força a escala. Empregou o braço ferido para equilibrar-se à medida que descia. Então sentiu a mão do James na cintura, e em questão de uns instantes pôs pé no chão de pedra.

-Agora tome cuidado ao pisar, está molhado - disse James. Sua voz encontrou um eco amortecido. Isobel se voltou e conteve a respiração, assombrada.

A suave luz do dia, o ar úmido e o murmúrio da água encheram seus sentidos. A água cintilava ao precipitar-se pelo bordo do buraco e formava brilhantes atoleiros no chão desigual, para finalmente terminar sua trajetória em um lago largo e profundo. Ao longo de uma parede se via a água surgir da própria rocha, em forma de babas e trilhos que nasciam das gretas, correndo para baixo para ir cair no mesmo lago. Em outra parede havia uma porta que dava ao túnel subterrâneo.

Isobel se girou, estupefata. James lhe sorriu, inclinando a cabeça para observá-la enquanto ela olhava ao redor.

-O extremo menos profundo desse lago - explicou - está temperado como a água de uma banheira os dias em que lhe dá diretamente o sol. Esta gruta está situada no lado sul da pedra, por isso em ocasiões o sol pode esquentar com força. O outro extremo do lago é mais profundo e está em sombra, e pode resultar bastante frio. Mas às vezes utilizamos pedras quentes para esquentar a água.

-Este é um lugar milagroso - disse Isobel. - Incrível. Não sabia que existissem coisas assim, quebradas e estanque subterrâneos!

-Pois sim, embora sejam pouco correntes. Está acostumado a dizer que mananciais e lagos como este têm poderes curativos. Embora não conheço nenhuma lenda sobre o Craig. Claro que só meus homens e eu sabemos que existe este lugar, os segredos desta rocha se perderam faz muito tempo.

Isobel assentiu com um gesto e contemplou a queda de água.

-A água corre assim por causa da chuva?

-A chuva aumenta o caudal desde fora, mas sempre há uma pequena corrente que vem da montanha. E o manancial da parede da gruta procede do interior da montanha. Sobre tudo no verão e em dias quentes, estar aqui é desfrutar de uma parte do paraíso.

-Oh, sim - concordou Isobel, ao mesmo tempo que levantava as saias para rodear o bordo do imenso lago, que se assemelhava a uma luxuosa banheira para um gigante, escavada na arenito. - Realmente é o paraíso.

James se ajoelhou junto a um dos atoleiros e estendeu o braço para que Gawain pudesse aproximar-se da água.

-Quererá bebê-la? - perguntou Isobel.

-Não - respondeu James. - Os falcões não bebem a menos que estejam doentes. Mas dar um banho lhes vem muito bem para a plumagem e para sua saúde. Sim, moço, prove-a -insistiu brandamente à ave, que se inclinou e bicou a água com gesto suspicaz.

O terzuelo introduziu uma pata, tocou outra vez com o bico a brilhante superfície e a seguir desceu do punho. Deixou-se cair na água, estirando as asas e abrindo as plumas da cauda.

Isobel riu, e sua risada ressonou ecoando em toda a concha da gruta.

-Gosta.

James a olhou e sorriu.

-Pode que resulte ser um azor inútil, mas pelo menos estará limpo.

Isobel riu de novo. Gawain chapinhou e gorjeou como se fora um pintinho no ninho. Isobel e James riram juntos, e o eco repetiu suas vozes em tons suaves e harmônicos. Isobel desviou a vista do azor para posá-la no homem, e sentiu que seu coração se abria como o casulo de uma rosa ao sol.

James não a olhou, e ela se alegrou; ele não podia ver a explosão de sentimentos que ela logo podia ocultar. Se James sentia o mesmo sentimento que a embargava, nascida da risada momentânea e de sentimentos mais profundos e menos singelos de definir, estava segura de que faria todo o possível por resistir.

James contemplava como o azor chapinhava como um menino no atoleiro.

-Você também pode se banhar aqui - disse.

-No atoleiro, com o azor? - perguntou Isobel, piscando. Ele sorriu.

-No lago. Precisa fortalecer e relaxar o braço, e esta água te ajudará a fazê-lo.

Ninguém tinha mostrado nunca com ela semelhante consideração e amabilidade, nem sequer em sua casa durante os ataques de cegueira.

-Eu gosto da água - admitiu. - Mas esse lago parece muito frio.

-Sim. Temperaremos a água com pedras esquentadas ao fogo para que possa tomar um longo banho.

-Seria maravilhoso - disse Isobel. - Estava-me perguntando se me recomendaria uma fogaça de pão quente para o braço.

James mostrou um largo sorriso.

-Que tal está agora?

Ela flexionou ligeiramente o braço e fez uma careta ao notar uma aguda dor.

-Já não me dói tanto, a menos que tente movê-lo. Alice me sugeriu cataplasmas quentes para eliminar a rigidez. Ia começar a me preparar, mas não ouve oportunidade.

-Quando Quentin e Patrick retornarem, pedirei a um deles que vá procurar o cataplasma - franziu o cenho com a vista fixa no braço do Isobel. – Cuidou da ferida alguma vez ao longo de hoje?

Ela negou com a cabeça.

-Não tive a oportunidade.

-Ajudarei a limpá-la e enfaixá-la antes que se deite, se quiser - acrescentou.

Isabel lhe olhou fixamente, compreendendo que estaria a sós com ele quando se fizesse de noite, dormindo em uma habitação contígua à sua. A idéia de que ele a tocasse, mesmo que só retirasse um lado da roupa para ver a ferida, a fez conter a respiração ao lhe olhar.

Assentiu lentamente, sem pronunciar uma palavra, aturdida pelo quanto ele parecia preocupar-se com seu bem-estar. O homem que a tinha convertido em sua refém era, no fundo de seu coração, um ser compassivo, tal como ela tinha pensado ao princípio, quando deixou que lhe curasse as feridas no castelo de Aberlady.

Enquanto o azor chapinhava no atoleiro, James tirou a pesada luva com lânguida lentidão e se aproximou de Isobel. Agarrou-lhe o antebraço, fechando seus largos dedos sobre o braço e levantando a tipóia. Isobel contemplou, com os olhos muito abertos e a respiração cada vez mais rápida, como lhe sustentava o braço com ambas as mãos e o girava brandamente.

-Empurre contra minha mão - disse-lhe. Ela obedeceu vacilante. -Agora para cima -continuou James, apoiando o peso de sua mão no antebraço de Isobel. Esta vez ela fez um gesto de dor. - Bem. Acredito que os músculos ainda conservam sua força. Preocupava-me que a ponta da flecha tivesse ocasionado danos permanentes. À medida que vá usando o braço ficará mais forte. Mas de momento é melhor que o deixe descansar - e voltou a pôr o tipóia em seu lugar.

Ao retirar a mão, seus dedos roçaram ligeiramente os dela, fazendo que contivesse a respiração. James puxou sua mão para obrigá-la a dar um passo adiante. Apartou-lhe uma mecha de cabelo escuro que lhe tinha caído sobre o ombro.

-Por isso lhe chamam Isobel, a Negra? - murmurou.

-Sim. Acreditava que era por meu mau gênio? - brincou ela, recordando a ocasião em que lhe tinha perguntado pela origem de seu apelido. James esboçou um fugaz sorriso.

O cabelo voltou a cair sobre o ombro.

-Eu gosto de usar o cabelo trançado às costas e preso com um véu - continuou Isobel, procurando algo que dizer. O olhar fixo de James e a pressão dos dedos dele sobre os seus fazia que o coração lhe pulsasse desbocado. - Mas não tenho nem véu nem pente. Alice me fez uma trança, mas eu não posso fazê-la com uma só mão - girou a cabeça para sacudir o arbusto de cabelo para trás. - O vento me embaraçou isso tudo.

James lhe tocou brandamente o cocuruto.

-Eu posso trançar se não se importar que o faça um desastrado. Vamos, dê a volta - insistiu empurrando-a ligeiramente.

Introduziu os dedos brandamente em seu cabelo, levantando, puxando, roçando levemente seu pescoço e seus ombros enquanto ia formando uma grosa trança. Isobel se sentiu percorrida da cabeça aos pés por profundos estremecimentos que se detinham e giravam ao redor de seus seios e seu ventre. O calor do corpo de James a abrangeu por inteiro no espaço daquela cova íntima e úmida. O coração lhe retumbava no peito, convertido no eco do forte som que produzia a água ao cair. Não se moveu, temerosa de turvar a delicada rede de sensações que a rodeava, formada pelo contato e a presença de James.

As mãos de James seguiram trabalhando, alisando, puxando, criando cascatas de deliciosas sensações.

-É uma trança um tanto pobre, mas servirá -disse James por fim. Isobel voltou pela metade a cabeça.

-Não é nenhum desastrado - murmurou - Tem mãos hábeis e suaves.

-Aprendi muito dos falcões - disse James.

-Certamente - admitiu, fechando os olhos por um instante.

James lhe alisou o cabelo por trás da orelha e seu dedo polegar deslizou, acariciando a curva de seu pescoço, provocando maravilhosos estremecimentos. Isobel desejou voltar-se em seus braços e sentir de novo o contato de seus lábios. Sentiu todo seu corpo inflamar-se de uma necessidade urgente e surpreendente. Mas permaneceu imóvel, tremendo, aguardando.

-Ah, pequena - murmurou James docemente, e apartou as mãos. - Acredito que vou lamentar te enviar para seu prometido.

-Seriamente? - perguntou Isobel sem fôlego.

Ele deixou escapar um suspiro.

-Mas deve retornar, por seu pai, pela Margaret - fez uma pausa. - E Ralph Leslie quererá ver-te de novo.

Ela baixou a cabeça, sentindo-se igual tivessem depositado uma pesada carga sobre seus ombros.

-Não retorno só por sir Ralph - ouviu como James continha a respiração, e continuou dizendo impulsivamente. - Acredito que só pretende me usar... para as profecias.

-Os outros também lhe usaram. Mantiveram-lhe separada do mundo e se interessaram mais pela profetisa que pela mulher.

-Agora sei - murmurou Isobel. Voltou a visão para trás para olhá-lo. - Acredito que você seja o único que se interessa por... por mim. Demonstra-me amabilidade e paciência.

Ele suspirou de novo.

-Eu também queria te usar em uma troca pela Margaret, e ainda pretendo fazê-lo. Não tenha tanta pressa em me considerar um paladino ou um santo. Sou um foragido, e isso é o que serei sempre.

-Mas... - Isobel franziu o sobrecenho, tratando de encontrar a melhor forma de expressar-se. - Mas você em nenhum momento me forçou a fazer sua vontade, como teria feito um foragido autêntico. E quando eu insisti em minha liberdade, você esteve disposto a me conceder isso embora isso te privasse do que você queria. E você... você...

-O quê? - Seu tom de voz foi tão suave que Isobel acreditou que poderia derreter-se em seu calor.

Desejou virar, entretanto, permaneceu de costas para ele, com a cabeça encurvada e as mãos escondidas na cintura em um gesto de amparo. Em troca, demonstrou tudo o que pensava e sentia, igual à água que se precipitava pelo bordo da gruta.

-Pediu-me que te ajude como amiga - disse - e eu valorizo muito isso, Jamie. Não sabe o quanto - adicionou em um mero sussurro - tive poucos amigos.

-Ah - repôs ele. - Por isso não quer ir com o Ralph. Quer ficar aqui comigo.

Isobel afirmou com a cabeça em uma leve e tremente sacudida. Aguardou pendente de seu silêncio, com o coração lhe retumbando no peito. O que ela queria em sua vida, o que necessitava, cristalizou-se de repente em sua mente, como se tivesse estado cega em seu interior durante muito tempo e agora visse um prometedor raio de luz. Mas não tinha valor para lhe dizer o que sentia; não queria lhe deixar, mas não podia expressar semelhante coisa em voz alta. Além disso, duvidava em dizer qual era a verdadeira razão daquele sentimento, inclusive para si. Fechou os olhos.

James lhe tocou o cabelo que nascia na nuca limpa, e acariciou com os dedos os suaves fios.

-Isobel - disse.

Ela saboreou a deliciosa maneira em que pronunciou seu nome, como se formasse parte de sua respiração.

-Sim? - respondeu.

-Fui um idiota - disse James, tocando-a no ombro e fazendo-a girar lentamente.

Isobel sentiu que o coração lhe acelerava ao levantar os olhos para lhe olhar.

-Um idiota?

Ele assentiu e cruzou os braços sobre o peito ao tempo que inclinava a cabeça e a contemplava.

-Deveria te haver retido como refém.

Sentiu que a invadia uma aguda desilusão.

-Oh.

James lhe elevou o queixo com dois dedos da mão.

-Não deveria ter permitido que se convertesse em uma amiga - Isobel lhe olhava fixamente, extasiada. - Agora não me vai ser fácil renunciar a você.

-Não tem por que renunciar a mim - murmurou ela.

Acariciou o bordo do queixo com o polegar.

-Tenho que fazê-lo - sussurrou.

Isobel exalou um suspiro e se inclinou para ele.

-Jamie...

-Oh! - exclamou uma voz por cima deles. - Note nisto, Quentin. A Margaret não vai gostar de nada.

Isobel saltou como se a tivessem cravado. James deslizou rapidamente a mão a seu ombro ao tempo que ambos olhavam para cima. Ali estavam Quentin e Patrick, lhes observando do buraco, mostrando largos sorrisos de diversão na cara.

-Sim - disse Quentin ao Patrick. - Não vai gostar de nada absolutamente.

-Oh, então não contaremos - disse Patrick, serviçal. - Podemos baixar aí, ou querem estar sozinhos?

Isobel notou um intenso calor que lhe estendia pelas bochechas e a garganta. Elevou a vista e viu que Quentin lhe piscava um olho. Patrick seguia sorrindo amplamente. James olhava aos dois com o cenho franzido.

-Subiremos nós - disse James. - Espero que tenham trazido algo para jantar, bandidos.

Patrick mostrou um molho de coelhos.

-Dois para nós, e um para esse azor mal-humorado que tem.

James dirigiu um olhar a Isobel e franziu o sobrecenho enquanto colocava a luva de couro. Sem dizer uma palavra, agachou-se junto ao azor e o convenceu brandamente e com paciência para que saísse do atoleiro. Isobel esperou-o, e não lhe escapou o vivo e eloqüente rubor que tingia as bochechas do proscrito.

 

-Seria mais que insensato ir andando até as portas do castelo do Wildshaw e uma vez ali gritar que trazemos uma mensagem do Falcão da Fronteira - grunhiu Patrick com a boca cheia de carne assada. Limpou o queixo na manga e trocou de postura as pernas, que tinha cruzadas sobre o chão de pedra da pequena câmara de James, dentro da parede do broch. - Tomar-nos-iam como reféns... ou nos matariam no ato.

-Não vamos apresentar-nos às portas do castelo - disse James, sentado no chão com eles, com as costas apoiada na cama. - Podemos fazer tudo isto de Stobo.

-Sim - disse Quentin. - O sacerdote dali, o padre Hugh, diz que conhece tanto Ralph Leslie como Isobel, a Negra.

-Exatamente - disse James. - Quero que retornem ali e lhe peçam que transmita a sir Ralph Leslie a feliz notícia de que Isobel está viva, porque Leslie acredita que morreu no Aberlady. E que também lhe peçam que executem nossas demandas.

-E quais são exatamente suas demandas? - perguntou Isobel.

James voltou o olhar para ela. Estava sentada sobre o banco de pedra que havia junto à janela, a escassa distância deles. A débil claridade da lua penetrava pela estreita abertura e se derramava sobre seu rosto. As linhas largas e fluídas de seu corpo se viam ressaltadas pelo resplendor do fogo que ardia na pequena lareira de pedra.

-Solicitaremos que Leslie se reúna conosco na igreja do povo, no Stobo, depois da missa do próximo domingo - disse. - Parece-me que é a festividade da Santa Úrsula.

-Oh, que adequado - murmurou Isobel.

-Adequado? Por quê? - quis saber Patrick.

-Santa Úrsula, padroeira das virgens - disse Isobel - fugiu de umas bodas iminente, a que ela se opunha, e levou consigo suas companheiras. Eram onze mil.

-Oh - grunhiu Patrick. - Pelo menos, nós só temos que cuidar de duas moças.

-Digam ao padre Hugh - continuou James - que nos reuniremos com Leslie depois da missa do domingo, em presença de outras muitas pessoas, já que haverão muitos aldeãos congregados ali depois da missa. Isobel lhe esperará dentro da igreja. Deve trazer uma escolta de só três homens, e deve enviar Margaret só ao interior da igreja. Permitiremos que saia Isobel quando tivermos Margaret segura em nossas mãos.

-De modo que pensa te acolher no sagrado - disse Isobel. - À segurança e amparo de um lugar santo.

-Assim é - respondeu James. - Não podemos confiar em Leslie. Poderia escoltar Margaret até Stobo com uma centena de homens.

-Se ele tomou parte no que fizeram a Wallace, não deixará que a porta de uma igreja lhe impeça de te apanhar - disse Quentin. - Quererá cobrar a cabeça do Falcão da Fronteira por isso.

-Mas se quer ter Isobel, terá que acessar a um intercâmbio pacífico e sem complicações. E certamente quer ter Isobel, podem estar seguros disso - adicionou em voz baixa, olhando-a, aturdido. As palavras pareciam presas à garganta.

Isobel não disse nada e voltou a cabeça para olhar pela janela. Ao contemplá-la, James experimentou uma espécie de pontada à altura do coração. Lançou um suspiro e puxou o lóbulo da orelha, sentindo-se desinteressado e confuso. Tratou de convencer-se de que Isobel estava encantada com ele, porque lhe tinha equivocadamente idealizado como uma espécie de cavalheiro andante. O melhor, disse-se, era afastá-la dele rapidamente.

Mas o que sentia por ela era muito mais profundo que uma simples teimosia. Aqueles sentimentos amofinavam seu interior, sufocados e silenciados, inflamando-se até converter-se em paixão cada vez que estava perto de Isobel.

Com muita dificuldade suportava a idéia de devolver-lhe a Leslie, mas seu plano inicial tinha sido elaborado muito antes de conhecê-la. Isobel tinha alterado seus propósitos a cada passo, de um modo inconsciente, frustrante e totalmente encantador. Tinha que apelar à sua determinação para levar adiante seu projeto; não havia outra maneira de resgatar Margaret. Além disso, recordou-se amargamente, Isobel tinha sido prometida em matrimônio fazia muito tempo. A jovem merecia um lar, e devia estar com um homem que pudesse verdadeiramente protegê-la, inclusive um simpatizante dos ingleses a que ele aborrecia. Mas não com um bandido dos bosques.

-No Wildshaw estará a salvo, Isobel - disse sua figura impassível, inseguro se tratava com isso de convencer a ela ou a si mesmo de que devia partir.

Isobel encolheu um ombro e não lhe olhou.

-Se reunirá com seu pai - acrescentou James - se Ralph tiver cumprido sua palavra.

-Sim - disse Isobel, e seguiu contemplando o céu iluminado pela lua.

-A moça está cansada - murmurou Quentin de seu lugar junto a James. - Isobel, Jamie me pediu que fosse procurar uma manta para sua cama. Coloquei uma antes do jantar, e pendurei uma cortina. E Alice nos deu sua bolsa de roupa.

-E eu trouxe bom vinho francês que tirei da despensa - disse Patrick. - Se por acaso gostar de beber um gole ou dois.

Isobel se levantou de seu assento.

-Obrigado - disse em voz fraca. - Não quero vinho, mas preciso descansar. Boa noite.

Deslizou-se flutuando através da habitação em sombras como se fora um fantasma, afastou para um lado a capa que fazia às vezes de cortina e desapareceu na escuridão detrás da estreita porta da câmara contígua.

James a observou partir e sentiu que ia afundando o coração pouco a pouco a cada passo que dava. Agora que o processo de troca com Leslie tinha começado, sentia-se mais infame e traidor que nunca. Tinha-lhe dado sua confiança, e ele a estava afastando de si.

Patrick serviu um pouco de vinho de uma jarra nas taças de argila que já tinham sido esvaziadas uma vez essa noite e entregou uma a James, outra a Quentin, e agarrou a última ele mesmo para sorver dela ruidosamente. James apurou sua taça com mais pressa do que pretendia e se inclinou para diante para voltar a enchê-la.

-Se partirem pelo amanhecer, estarão no Stobo ao meio da amanhã.

-Sim - disse Quentin, olhando-o com seriedade. - E o que vais fazer você? Levar a moça à casa de Alice?

James negou com a cabeça.

-Não quero me arriscar que alguém a rapte antes que termine tudo isto. Alice tem ao Eustace e Henry para que a protejam. Reterei Isobel aqui, no Craig.

-Ah - disse Quentin. A nota sábia que James percebeu em sua voz lhe fez franzir o cenho. - Enquanto tiver a oportunidade, também poderia tratar de solucionar o que houver entre essa moça e você.

-Não há nada entre nós - grunhiu James, e bebeu um sorvo de sua taça, notando o forte picor do vinho tinto ao tragá-lo. - E está fazendo afirmações muito arriscadas - dirigiu a Quentin um olhar severo.

-Jamie, crê que somos idiotas? - perguntou Quentin. - Não acredito que possa entregá-la a Leslie.

-Sim, posso - replicou ele.

-Partirá? - quis saber Patrick.

-Sim - James ficou de pé. - Vou ver o azor.

-O azor está dormido no cabide das falcoeiras, com a cabeça colocada debaixo da asa - disse Patrick. - Joguei-lhe uma olhada quando trouxe o vinho.

-Deixe-o em paz - disse Quentin. - Está preso e cansado. Dormirá e não lhe acontecerá nada.

James assentiu. Esfregou-se a cara com a mão e passou os dedos pelo cabelo, incômodo, como se houvesse algo que tivesse que fazer e não recordasse o que era.

-Tenho que trabalhar um pouco mais com ele. A asa não curará a menos que deixe de ter rabiadas e manhas de criança. Tem que aprender a estar tranqüilo.

-Aprenderá, embora esteja malcriado - disse Quentin. - Jamais vi a um homem que tivesse tanta paciência com um falcão como você. Mas tem aspecto de levar uma semana sem dormir como Deus manda.

-E assim é - repôs James. - Já sabem que mensagem têm que entregar ao padre Hugh.

-Sabemos - disse Quentin. - E se fará. Jamie, este é um plano perigoso. O padre Hugh conhece bastante bem a Leslie, parece-me. Acredito que podemos confiar nesse padre só com precauções.

-Estou de acordo - respondeu James. - Deixaremos que entregue a mensagem, mas não podemos lhe dizer nada mais a respeito do que trazemos entre mãos. E quero que tirem o Geordie de seu poder antes que tenha lugar à troca; o padre Hugh não permitirá que Isobel sofra nenhum dano, mas não devemos confiar Geordie a um amigo de Leslie muito tempo.

-O menino já estará em condições de viajar quando nós chegarmos ao Stobo - disse Patrick.

-Bem. Necessito que me façam mais um favor - disse James. - Quero que vão à abadia do Dunfermline para ver o irmão John Blair. Averigúem se está inteirado de algo mais a respeito de quem traiu Wallace, e que outras notícias tem. Se Geordie precisar descansar mais, podem deixá-lo com John. Não quero correr o risco de que o menino sofra dano por lhe trazer aqui de volta a menos que esteja o bastante forte para empunhar outra vez uma espada e um arco.

Quentin assentiu com um gesto.

-Tem alguma mensagem para o Blair?

James girou a cabeça para olhar pela minúscula janela, pela qual se via a lua branca e envolta em neblina. A melancolia daquela imagem parecia expressar à perfeição do que sentia dentro de si.

-Lhe digam que tenho à profetisa - disse. – Digam-lhe que está disposta a me servir de... pagamento por minha prima.

-Acredito - disse Quentin devagar. - Que vais pagar por essa tua prima um preço mais caro do que tinha imaginado.

James aspirou profundamente.

-É isso uma predição?

Quentin lhe contemplou fixamente através das sombras.

-Sim - disse em tom brusco, e bebeu um comprido gole de vinho.

 

James estava sentado no bordo mais afastado da parede do broch, observando Isobel, que se encontrava mais longe, no plano coberto de erva do topo do penhasco. O vento, sempre forte e constante naquele lugar, levantava-lhe a trança e lhe esmagava a roupa contra o corpo comprido e esbelto. As singelas linhas de seu vestido verde escuro, que tinha tirado da bolsa que lhe levaram Quentin e Patrick, davam-lhe um aspecto formoso e algo mágico. Quando elevou o rosto com orgulho, o sol refletiu-se no cocuruto de sua cabeça e arrancou suaves brilhos de seu cabelo.

James recordou o peso semelhante à seda daquela cabeleira em suas mãos quando lhe fez a trança aquela manhã. Após nem terem trocado algumas palavras, nem tampouco mais tarde, quando compartilharam o café da manhã a base de papa de aveia e água. Não sabia o que dizer, em vista daquele humor taciturno. Inclusive quando a levou a um longo passeio para lhe mostrar o promontório rochoso, com o azor posado no punho enquanto exploravam o broch, os túneis e as grutas, falaram tão somente das características do lugar: a rocha, a torre, a água, o tempo, e pouco sobre o homem que levava anos vivendo ali. Não lhe tinha perguntado nada mais de sua vida de proscrito no Craig, e ele sentia falta de suas perguntas ávidas e curiosas, suas sagazes observações. Descobriu que desejava muito conversar com ela, mas também compreendia que era mais sensato guardar silêncio.

Mais ainda: via verdadeiro mérito em observar com prudência. Tinha meio doido apenas quando lhe oferecia a mão para subir ou descer, embora a quebra de onda de desejo que lhe percorria com aquele simples contato o fazia conter a respiração. Não tinha se permitido permanecer muito perto dela nem olhar muito fixamente seus luminosos olhos. Isobel partiria logo, de modo que não considerava que tivesse muito sentido reforçar o vínculo que já se forjara entre eles.

Ela se tinha mantido distante também, notou-o, baixando os olhos de povoadas pestanas, falando em voz baixa, compartilhando sorrisos frite e esvaídos. Refugiou-se em uma atitude reservada, e ele suspeitava que isso talvez se devesse a estar zangada, ressentida e possivelmente decepcionada com ele. Sabia que Isobel temia a troca que ia ter lugar dentro de poucos dias. Também a temia ele. Mas sabia muito bem que tinha que seguir adiante por muitas razões. Queria que Margaret estivesse a salvo... e que também o estivesse Isobel.

O terzuelo piou do punho com as patas firmemente plantadas, olhos atentos e movimentos serenos. James lhe dirigiu um olhar. O humor do Gawain tinha melhorado, pois esse dia só tinha tido uma rabiada ou duas, quando algo o sobressaltava ou quando sentia fome. Talvez uma noite de descanso o tivesse ajudado; talvez, por fim tinha começado a aceitar o punho de seu novo amo. Fora o que fosse, James se sentia agradecido e tinha mais confiança em poder amestrar ao azor.

Cantou o kyrie uma vez mais, como tinha feito freqüentemente esse dia, cantarolando-o baixo enquanto acariciava as plumas do peito da ave. Gawain observou o espaço que rodeava a pedra, o céu e o bosque. Viu que passava voando um bando de cotovias, mas apenas se moveu. James se sentiu agradado por aquele sinal de progresso, e pensou que talvez faltasse pouco para poder adestrar o azor para que saltasse de uma corda ao punho e depois voasse sujeito a um fiador, uma corda o bastante larga para lhe permitir chegar até uma certa distância e retornar de novo. Antes de soltá-lo para que voasse livre, tinha que estar seguro de que Gawain podia voar bem.

Mas primeiro queria seguir lhe curando a asa torcida, esquentando de novo a fogaça de pão recém feito que Alice lhe tinha enviado por meio de Quentin e Patrick. Além disso, se fosse voar, também teria que lhe endireitar as plumas dobradas da cauda. Para essas duas coisas necessitaria da ajuda de Isobel.

Voltou a fixar-se nela, de pé sobre o promontório. Se não retornasse logo ao broch, chamaria-a, porque queria atender Gawain enquanto estivesse tranqüilo. Mas ao olhar Isobel só desejou passear pela rocha junto a ela, conversar e rir... e tocá-la e abraçá-la. Esse último impulso fez que o sangue lhe acelerasse nas veias. Contemplou sua figura solitária açoitada pelo vento e não se moveu.

Sabia que tinha começado a considerá-la como um prezado bem. Deus lhe ajudasse, talvez inclusive tivesse começado a amá-la. Não podia definir os tumultuosos sentimentos que buliam em seu interior, tinha medo de nomeá-los. Jamais tinha imaginado este giro dos acontecimentos quando planejou ir procurar à profetisa do Aberlady.

Só existia um fato certo: com independência do que ele sentisse, logo teria que deixar partir Isobel.

 

Isobel saboreou o açoite do vento e a tibieza do sol, e estendeu os braços por um instante apesar da dor na ferida. Era muito agradável sentir o calor do sol em seus músculos intumescidos. Contemplou a montanha que se elevava junto ao penhasco, e depois voltou a vista para a verde e densa refloresta. Desde aquela altura, tão alta que podia distinguir véus de neblina flutuando sobre as copas das árvores, pela primeira vez em sua vida se sentiu verdadeiramente livre e sem ataduras.

Até pouco tempo não havia se dado conta de quão estreitamente a tinha protegido seu pai no Aberlady. Da morte de sua mãe, tinha permanecido dentro daqueles muros e só tinha saído para assistir a missa nos dias de festa no Stobo, para montar a cavalo com seu pai uma ou outra vez pelas colinas e para ir ao mercado uma ou duas vezes ao ano em companhia de sua aia. Jamais tinha questionado seu estilo de vida. Tinha vivido confinada e estreitamente vigiada, sem verdadeiros amigos e com escassos serventes e familiares. No Aberlady leu a poetas e patriarcas, confeccionou belos bordados e praticou as habilidades necessárias para governar um castelo. E pronunciava profecias cada vez que seu pai considerava que era conveniente que o fizesse.

Quando seu pai foi capturado em combate, as semanas de cerco que seguiram supuseram uma nova lição para ela, uma lição que continuou James Lindsay. Então descobriu não só recursos sem explorar, mas também um profundo gosto pela liberdade. Ironicamente, só quando foi capturada compreendeu o grau de reclusão no que tinha vivido.

Agora James esperava dela que retornasse a uma vida protegida em companhia de um marido não desejado como guardião em vez de um pai. Mas já não podia aceitar por mais tempo ser uma profetisa obediente que deixava que suas capacidades fossem aproveitadas por homens que a consideravam uma débil mulher a quem teriam que dirigir, e mais, como uma vantagem política.

Suas visões eram, para ela, um prezado dom. Se suportava a cegueira cada vez era pelo privilégio de ter esse dom, e não queria que fosse comprometida a integridade das visões. Seu dom para profetizar tinha que fluir da vontade de Deus, e não através da vontade de outros.

Se o cerco não tivesse tido lugar, e se James Lindsay não a tivesse levado do Aberlady, possivelmente nunca se daria conta de sua própria independência. Seguiria ainda no Aberlady, como peão do padre Hugh e de Ralph Leslie, em ausência de seu pai. Lançou um suspiro. Tinha que saber se seu pai estava bem. A última visão que tinha experimentado - e que se surpreendia de recordar tão facilmente - foi uma imagem de seu pai em uma masmorra. Não duvidada da veracidade da visão, mas não sabia se representava o passado, o presente, o futuro, ou se tinha algum significado simbólico. A única maneira de averiguar o que tinha ocorrido a seu pai em realidade era ir a sir Ralph.

Enquanto pensava tudo isto se rodeou a cintura com os braços e contemplou a vista a seus pés. A paisagem se estendia ao longo de várias milhas, larga e nítida como o cristal à luz do sol, como se a estivesse observando do vantajoso ponto de vista de um pássaro. A beleza e o alcance do panorama resultavam assombrosos, tão maravilhosos como qualquer visão profética. Não desejava ir-se nunca daquele lugar, nem tampouco desejava deixar o homem que a tinha levado até ali. Mas sabia que tinha que ir, por seu pai, e pelo James, que queria recuperar a sua amada prima mais do que queria conservá-la a seu lado.

Lançou um olhar por cima do ombro em direção às ruínas e viu James sentado em um alto bordo da parede, com o azor posado em seu punho enluvado. O proscrito era uma figura solitária em cor escura, com o sol brilhando com um reflexo dourado em sua cabeça. Parecia uma lenda que tivesse cobrado vida, um personagem dotado de uma força e uma beleza selvagens, indomadas. E, entretanto, em seu interior estava fortemente ligado ao passado.

Isobel lhe adorava, mas ele não percebia. Mostrou-se atento e amável com ela, tinha-a respeitado, inclusive tinha apagado sua cegueira com um delicioso beijo. A maravilha daquele ato ainda seguia assombrando-a. Sabia que podia lhe amar profundamente, se ele o permitisse. Se tivesse alguma ferida, ela queria curá-la; se guardasse segredos, ela desejava ocultá-los também como se fossem dela.

Ali, no alto da parede do broch, James ficou de pé e agitou lentamente a mão, lhe fazendo um gesto para que se aproximasse.

Isobel sentiu que o coração lhe dava um tombo. Levantou as saias com uma mão e se encaminhou para as ruínas, desejosa de estar a seu lado. Aceitaria de bom grado inclusive seus frios silêncios, se isso fosse a única coisa que quisesse oferecê-la. Mas queria muito mais. Com aquele homem, sabia que jamais perderia sua liberdade; com ele poderia encontrar segurança e também felicidade. Mas o proscrito do bosque não tinha previsto incluir uma profetisa em sua vida, de modo que teria que aceitar viver confinada outra vez. Embora, de momento, estivesse resolvida a desfrutar intensamente da última fresta de liberdade que ficava.

-Segure as correias com força - disse James a Isobel. - Enrole isso nos dedos.

Ela juntou as correias de couro e as enrolou ao redor dos dois dedos menores, perdidos no interior da grossa luva que lhe cobria a mão, e depois olhou James, que assentiu em um gesto de aprovação.

Gawain plantou totalmente os pés na luva e piscou lhes, olhando aos dois com seus olhos de cor bronze, de olhar selvagem e torcendo a cabeça. Isobel agitou a mão enquanto escondia o extremo da larga correia. Nesse momento, o terzuelo elevou suas asas cinzas e esbranquiçadas e chiou, batendo-as rapidamente em uma ameaça de ataque de fúria. Isobel abaixou a cabeça, surpreendida, ao tempo que uma asa a golpeava na bochecha com mais força que teria podido imaginar. James estendeu uma mão para ajudá-la, mas retirou-a ao ver que o rapaz se acalmava.

-Já está - assegurou-lhe Isobel, erguendo a postura. James a olhou, dúbio, e assentiu com um gesto.

-Muito bem. Vou esquentar o pão para colocar na asa - e se virou para procurar no saco de comida que Quentin e Patrick lhes tinham deixado na noite anterior.

Tinha acompanhado Isobel até uma pequena cela situada no nível inferior das câmaras encostadas ao muro da construção. Aquele espaço quadrado, cujas paredes rotas se abriam em parte ao ar livre, criando assim uma ampla zona como uma janela, contava com uma lareira formada por um montão de pedras que servia, conforme explicou James, de cozinha. Isobel sabia que Patrick e Quentin tinham preparado ali o jantar da noite anterior. Parte do recinto se notava agradavelmente quente, e pelo oco da parede penetrava uma refrescante brisa. O fogo que James tinha acendido essa manhã ainda seguia ardendo e desprendia um forte aroma.

James foi até a lareira e pendurou uma panela de ferro vazia de um gancho que pendia sobre os brilhantes tijolos de turfa, e dentro colocou o pão envolto em tecido. Após uns instantes o tirou, partiu-o pela metade e entregou uma parte, quente e fumegante, a Isobel.

-Pode pôr isto sobre a asa? - pediu-lhe. - Quero ir pegar água para lhe endireitar as plumas da cauda.

-Se encher outra panela, eu posso preparar algo para comer - disse ela. - Alice nos enviou comida, sei que ainda restam cebolas, aveia e um pouco de frango.

James assentiu e saiu da câmara levando duas panelas. Isobel se sentou sobre uma grande laje de pedra que se fazia de banco e de mesa baixa, e torceu o pescoço para observar como cruzava o pátio coberto de erva com largas passadas em direção ao poço, onde encheu as panelas de água que tirou com ajuda de um cubo amarrado a uma corda.

Voltou sua atenção ao azor e lhe aplicou o pão quente à articulação da asa, tal como tinha feito James na vez anterior. Quando o terzuelo começou a ficar nervoso sobre o punho, movendo o cangote e levantando as asas, perguntou-se por que James não teria posto o capuz para acalmá-lo antes de deixá-la só com a tarefa. Franziu o cenho e se repreendeu por pensar sequer em tampar os olhos do rapaz. Aspirou profundamente e começou a cantar o kyrie em tom baixo, repetindo-o uma e outra vez.

Gawain tinha aprendido a responder àquela melodia. Pouco a pouco se foi aquietando, e observou audazmente Isobel. Ela recordou que falcões não gostavam que os olhassem fixamente - embora eles pudessem olhar todo o fixamente que gostasse - e apartou a vista sem deixar de cantar. Então viu James na entrada, apoiado contra o marco de pedra e escutando. Isobel se calou, ruborizada, e ele passou à habitação, deixando as panelas junto ao fogo.

-Era muito bonito - disse. - Não o interrompa. O azor se tranqüiliza.

Notou o calor que lhe subia pelas bochechas quando reatou a canção. James colocou uma panela cheia de água sobre o fogo e depois se voltou para colocar a luva de couro que tinha deixado a um lado.

-Dê-me, deixe que eu o segure - disse. - Disse que iria preparar-nos o jantar.

Sorriu.

O coração do Isobel deu um curioso tombo ao ver aquele sorriso. Assentiu com a cabeça e ficou de pé no momento que James se aproximou dela. Agarrou o pão e lhe estendeu o punho.

Gawain, possivelmente sobressaltado pelo movimento do pão, chiou e fechou uma de suas garras com força. Isabel lançou uma leve exclamação e conteve o fôlego, em reação a intensa dor, e ao mesmo tempo apertou o punho com intento de proteger-se da garra que lhe cravava com uma dor insuportável na luva. Presa no pânico, tratou de empregar a mão direita para liberar as garras do dedo.

James a golpeou na mão e a afastou.

-Abre a mão - ordenou. - Isobel, abre a mão e solte-o! - tirou as correias que Isobel tinha enroladas nos dedos e depois a empurrou no braço.

Em meio de uma nebulosa de medo e dor, Isobel compreendeu o que pretendia James. Tirou o braço e abriu os dedos para deixar livre o azor. Este estendeu as asas e se elevou, chiando, mas James o freou puxando as correias.

-Venha aqui, pequeno - disse James, e começou a entoar o kyrie. O azor baixou batendo as asas até o punho e posou nele, observando fixamente a ambos com olhar áspero. - Menino travesso - murmurou James, e se sentou no banco de pedra. - Isobel, me deixe ver isso.

Ela tomou assento a seu lado e tirou a luva com um gesto de dor. Tinha o dedo inchado e avermelhado, e ao voltá-lo para mostrá-lo a James mordeu o lábio. James tomou a mão com infinita delicadeza.

-Pode movê-lo? - ela agitou o dedo e assentiu. - Bem. Um falcão é capaz de te romper um osso como se fosse uma lasca, inclusive através de uma luva, se apertar o suficiente. Nem sequer a um homem forte resulta fácil abrir uma garra fechada. A única maneira de afrouxá-la é soltando o falcão e fazendo-o acreditar que é livre - examinou atentamente o dedo ferido. - Teve sorte.

-Por que o fez? - perguntou Isobel. - Acreditava que estava domesticado.

-Nunca se domesticará - disse James, ainda sustentando sua mão. - É selvagem, e o adestramento jamais poderá trocar isso. Essa é a razão pela qual é necessário tratar os falcões com respeito e paciência. Já sei que lhe tratou assim - apressou-se a acrescentar -, mas os azores são criaturas com muito mau gênio. Sempre se corre um certo perigo ao ter um falcão de asas curtas, embora seja o melhor.

Isobel assentiu com um gesto e olhou a Gawain.

-Menino travesso - disse em tom sério. James riu levemente. Ainda não lhe tinha soltado a mão, e Isobel se inclinou ligeiramente para ele, soltando-a.

-Este azor será sempre um pouco bandido - comentou James, e seguidamente ficou de pé e se aproximou do fogo. Agarrou uma terrina e uma concha de sopa de um suporte, tirou água da segunda panela que estava no chão e retornou com a terrina ao lado de Isobel. - Coloque aqui a mão, a água ainda está fria do poço.

Ela afundou os dedos na água fria com um suspiro de alívio. Enquanto permanecia ali sentada, James se moveu pela cozinha com o azor, foi procurar o saco de comida de Alice e colocou a panela de água sobre o fogo. Jogou nela um pouco de aveia, uma cebola inteira e todo o frango que ficava.

-Ia ser eu a fazer o jantar - disse Isobel.

-Bom, neste momento não pode fazê-lo, e eu estou morrendo de fome - repôs James. - Levo anos fazendo eu mesmo a comida. Se não se importar comer coisas singelas, em seguida jantaremos.

-E tanto que singelas - comentou Isobel, rindo. - Nem sequer as cortou.

-Me parece que fiz muito bem, para levar um azor no punho - tomou um pau comprido do suporte e mexeu a sopa, derramando um pouco pelas bordas do recipiente. A seguir foi até uma pilha de pedras arredondadas que havia em um rincão e levou algumas, duas ou três cada vez com sua mão livre, até o fogo.

-O que está fazendo? - perguntou Isobel com curiosidade, olhando-o com os dedos ainda afundados na água.

-Quando as pedras estiverem quentes, as levarei ao manancial. Te prometi um banho quente. Depois de ter suportado outra ferida com tanto valor, acredito que ao menos devesse desfrutar de um banho - olhou-a e sorriu.

A sensação de calor que invadiu Isobel não tinha nada a ver com o fogo da lareira.

-Obrigada - murmurou.

James fez um gesto com a cabeça e examinou o conteúdo da outra panela.

-Bom, pode me ajudar? A água está fervendo.

Ela deixou a terrina de lado.

-O que vai fazer?

-Cozinhar um azor revoltado - respondeu ele, e sorriu de orelha a orelha quando lhe olhou com a boca aberta pela surpresa. - Não, pequena. Agora te ensinarei isso. Temos que endireitar essas plumas da cauda que estão torcidas.

Verteu um pouco de água com a concha de sopa em uma terrina funda de madeira que pegou em um montão de duas ou três que haviam no suporte ao lado de umas taças, e a levou até a laje onde estava sentada Isobel. Esta chegou para o lado para lhe deixar lugar. James depositou a terrina entre ambos e aproximou do peito o punho enluvado, com o teimoso azor posado em cima, para lhe acariciar as costas com a mão. Seus largos dedos, fortes e de grandes nódulos, alisaram a plumagem da ave, ao mesmo tempo que falava em voz baixa e tranqüilizadora.

-Note na cauda - disse James. - As plumas mais superficiais, essas do centro, estão retorcidas. Só as mergulhando um momento em água fervendo se endireitarão.

-Isso soa arriscado, conhecendo-o - comentou Isobel em tom cético.

-E o é - repôs ele - mas podemos fazer, os dois juntos. Eu o aproximo da água, e você agarra a cauda e a afunda.

Isobel fez uma careta. James sorriu fugazmente, corno se reconhecesse o risco e se desfrutasse com ele. Ela agitou um pouco o dedo ferido e dolorido e assentiu com a cabeça, com as mãos estendidas. O braço direito, ainda um pouco intumescido, estava muito melhor, por isso poderia usar essa mão se movesse o braço com cuidado.

James baixou o braço que sustentava o azor e murmurou em voz baixa, ao tempo que lhe passava a mão pelas costas, convencendo-o para que estendesse a cauda em um amplo leque.

-Seis raias - disse. - Vê as barras de cor cinza que lhe atravessam as plumas da cauda? Isso nos diz sua idade. Quando for completamente adulto, terá sete raias à vista. Sim, moço, ainda é um jovenzinho, e se comporta como tal.

-Comporta-se igual a um menino que não consegue o que quer - grunhiu Isobel enquanto James baixava o rapaz para a água apoiando a mão estendida firmemente sobre as costas e as asas.

Isobel agarrou as suaves plumas da cauda. Alguns chiados, uma ou outra patada, um frenético bater de asas e a operação logo terminou. James levantou o braço, murmurando ao azor, e levou uma mão ao zurrón que levava ao cinto para extrair um pedaço de carne crua para dar ao terzuelo. Isobel reparou que procedia do coelho que Quentin e Patrick haviam trazido para ele.

-Que cauda tão bonita tem agora - murmurou James. - E logo poderá voar aí fora, onde deve estar. Ky-rie e-li-são - entoou, repetindo a melodia enquanto Gawain devorava o pedaço de carne preso entre suas garras. - Ky-rie e-li-são - cantou outra vez, e outra, debulhando as notas da canção com uma cadência lenta e sedativa.

Isobel se recostou contra a parede de pedra que tinha atrás e escutou, sustentando o dedo ferido e com os olhos fechados. A voz de James era uma mescla de doce serenidade e grande força. Respirou aquele som, deixando que atuasse nela como um bálsamo, apagando todas suas dúvidas, seus medos, sua tristeza.

Então elevou o rosto, tomou ar e começou a cantar com ele. Sua voz, mais fraca que a de James e menos afinada nos tons, foi ganhando potência em uma mescla de harmonias e se elevou segura no ar.

Ao cabo de uns instantes, a voz de James ficou flutuando em uma nota prolongada e evanescente. Isobel também pôs fim à canção, escutando o maravilhoso timbre grave da voz de James vibrando em todo seu corpo.

-Isobel - disse James com suavidade no meio do súbito silêncio. - Parece que a sopa está queimando.

 

Isobel provou a água cautelosamente com o pé descalço. Naquele extremo pouco profundo do lago, a água estava realmente morna. Depois de comer a sopa de frango e aveia pouco queimada, mas com bom sabor, James tinha levado as pedras quentes até o lago e as tinha metido na água.

Tirou o vestido e a regata e deixou ambos ao lado das botas. O sol das últimas horas da tarde penetrava em finos fachos de luz no interior da gruta, criando um quente arco íris que brilhava sobre o jorro de água.

Meteu-se lentamente na água e se sentou com um suspiro de prazer.

No topo do penhasco, ouviu que James assobiava ao azor. Havia-lhe dito que tinha a intenção de trabalhar com o terzuelo, animá-lo a que saltasse uma curta distância sujeito a uma correia, de um cabide até seu punho. Enquanto ele se preparava para essa tarefa, ela se dirigiu com impaciência à gruta levando presa ao cinturão uma peça de tecido que pensava utilizar como toalha.

Afundou-se um pouco mais dentro da água e se recostou contra a borda. Aquele lago natural de pedra estava suave em alguns pontos devido à erosão produzida pela água. Isobel se estirou e se deixou cobrir quase até o queixo quando encontrou um nicho confortável. A água lambia a pedra em uma suave cadência e fervia musicalmente ao passar pelas ladeiras e depressões da parede de rocha. Relaxou à medida que a tensão ia abandonando-a pouco a pouco. A água morna lhe aliviou a dor do braço, mesclando-se com uma correnteza mais fria, procedente do extremo profundo do lago.

Ocorreu-lhe, vagamente, que poderia ficar assim durante toda uma eternidade. A água sempre lhe tinha provocado uma sensação de tranqüilidade. Quando menina ela adorava ir com sua mãe, e com vários outros meninos, filhos de arrendatários do Aberlady, a banhar-se em um pequeno lago que havia frente ao castelo.

Reclinou a cabeça para molhar o cabelo e o escorreu com a mão. Fechou os olhos e se abandonou à sensação da água circulando ao redor dela. Confundido com a miríade de sons daquele lugar, chegou-lhe de alguma parte, o canto de James entoando uma melodia para o azor, e sorriu enquanto a escutava. Chapinhou brandamente na água e sorriu de novo ao pensar quanto se parecia o Craig ao paraíso. Não lhe custaria nada passar o resto de sua vida naquele formoso e solitário lugar sem arrepender-se nunca, enquanto James estivesse com ela.

Então exalou um suspiro de tristeza. Escutou as notas puras e longínquas da monótona melodia, mescladas com o som da água. O morno calor, a água em movimento e o harmônico murmúrio da primavera a relaxaram profundamente. Parte de sua consciência foram dissolvendo-se naquela harmonia, e começou a ver delicadas luzes que dançavam frente a seus olhos.

Em questão de poucos instantes, ergueu-se sentada na água e se agarrou o bordo de pedra, mas não pôde afastar de si as resplandecentes imagens que já tinham começado a tomar forma.

 

Um homem sentado no rincão mais escuro de uma câmara úmida e insalubre, com as costas apoiadas na parede e os tornozelos atados. Seu enorme corpo estava tão enfraquecido que parecia esquelético, e seu comprido cabelo cinza tinha perdido seu tom prateado sob várias capas de imundície. Quando levantou a vista, seus surpreendentes olhos azuis, tão parecidos com os dela, mostravam uma expressão vazia provocada pela perda de toda a esperança. Então as sombras se fecharam ao redor da imagem de seu pai.

Depois viu vários cavaleiros no bosque, cavalgando em casais ao longo de um atalho, com sir Ralph Leslie à frente. Mostrava uma constituição forte e corpulenta, sorria com complacência e mantinha uma postura de mando ao lombo de seu cavalo pintalgado. Voltou-se para olhar à mulher que cavalgava ao seu lado, que exibia uma brilhante cabeleira negra recolhida em uma trança e coberta por um véu de gaze, e levava um vestido de custosa seda bordada de cor azul.

-Esposa - disse ele, sorrindo. A mulher não lhe olhou.

Isobel soube que aquela mulher era ela, e conteve apenas uma exclamação, agarrada à borda do lago. Abriu os olhos, mas a única coisa que viu foi escuridão, um amplo fundo para as confusas imagens.

Viu de novo o peregrino, como na ocasião anterior, vestido com capa e capuz, caminhando junto a uma igreja sob a chuva. Dsta vez jogou o capuz para trás enquanto se aproximava do arbusto de espinheiro, se ajoelhou junto ao montículo verde que havia ao pé do espinheiro e juntou as mãos em atitude de oração, enquanto o azor passava voando junto a ele para ir posar-se no arbusto.

Viu a si mesma aproximando-se, seu vestido roçando em um leve sussurro a erva molhada ao andar. Ele elevou o olhar e sorriu. Quando chegou até ele, sua figura se desvaneceu na neblina e na chuva.

A seguir viu uma série de cenas de batalha, homens que lutavam entre si, brandindo tochas e espadas, lanças e maças, atirando pesados golpes, com a armadura ensangüentada e reluzente à luz de um amanhecer envolto em névoa, no interior de um bosque umbroso, junto às águas de um tranqüilo riacho. O ruído e as imagens da batalha se esfumaram e foram substituídas por um leão que observava as colinas escocesas.

Respirou fundo e se agarrou com força a borda do lago, e então viu uma última e vívida cena de uma escaramuça no bosque entre homens a cavalo e homens a pé. James se encontrava entre eles, rodeado de cavaleiros, cortando o ar com sua espada enquanto eles encurralavam-no. O sangue obscureceu seu rosto quando caiu.

 

-James! - chiou Isobel. - Jamie!

Saiu a toda pressa do lago, salpicando a pedra de água. A escuridão a envolvia, e soluçou tremendo, menos alarmada por sua cegueira que pelo súbito medo que, de repente, sentiu por James, ferido e derrotado em sua visão. Rogou em silêncio que aquela não fosse a visão de sua morte.

Caiu de mãos e joelhos sobre a pedra escorregadia e apalpou a peças, procurando sua roupa. Quando por fim a encontrou, procurou nervosa tratando de dar a peça de tecido e se esfregou com ela rapidamente para secar o corpo gelado a escorrer água. Com mãos trementes e torpes, encontrou a regata e a deslizou pela cabeça, torcendo o braço dolorosamente em sua pressa por vestir-se.

O murmúrio do manancial e dos trilhos de água se mostrou muito mais sonoro agora que não podia ver. O eco era constante e mascarava o som do próprio manancial, lhe dificultando a orientação. Ficou de pé, com o vestido na mão, e se girou com gesto vacilante para o que acreditou ser o lugar onde se encontrava a escada, a maneira mais rápida de subir à superfície. Sabia que havia uma porta que conduzia ao túnel, mas temia perder-se em um labirinto de grutas e ramais.

-James! - gritou. - Jamie!

O eco distorcido de sua voz pareceu perder-se no rugido da água, que se mostrava muito como o ruído apagado de um trovão em seus ouvidos. Deu alguns passos inseguros para frente e seu pé escorregou em um atoleiro do chão. Recuperou o equilíbrio, lançou uma leve exclamação e se voltou outra vez. Ao estender a mão à frente, encontrou uma parede. Moveu torpemente os dedos pela superfície úmida e nodosa e avançou uns passos, seguindo-a. O estrondo do manancial era agora mais intenso e a confundia. Outro passo, e outro mais, e então se desequilibrou e caiu totalmente no lago.

A impressão da água fria fez que se levantasse, cuspindo meio afogada, com a água caindo sobre a cabeça. Afundou e desapareceu sob a superfície, agitando freneticamente os braços. Imediatamente voltou a sair, com a regata retorcida ao redor do corpo, e uma vez mais afundou. Empregou a força de seus braços para impulsionar-se para a superfície, pois seus membros recordavam-se, da época de sua infância, como manter-se a flutuação.

Meio nadando, meio afundando, tossindo e ofegando quase presa ao pânico, impulsionou-se para diante nas geladas águas, sem saber muito bem onde estava a borda do lago em meio à escuridão que a rodeava.

 

James tirou rapidamente as botas e a túnica ao mesmo tempo que gritava seu nome, mas Isobel tinha desaparecido sob a superfície pela segunda vez. Lançou-se de pé à parte profunda do lago e nadou em direção a Isobel, que se debatia, cuspindo e com o cabelo estendido ao redor como se fosse uma capa negra. Avançou para ela a braçadas largas e rápidas e a agarrou rodeando-a pelo tórax, apertando-a contra si enquanto nadava, impulsionando-se com as pernas, para a borda do lago. Conseguiu tirá-la da água e a seguir içou-se, com a respiração ofegante. Isobel se dobrou para frente, gemendo, com a respiração tão agitada e forçada como a dele. O olhar assustado e exagerado de seus olhos alarmou a James.

-Isobel - conseguiu dizer com voz rota, ao tempo que lhe afastava para trás a massa de cabelo empapado que lhe tinha caído sobre o rosto. - Isobel, está a salvo. Estou aqui -levantou-lhe a cara e lhe limpou a água da bochecha.

- Jamie - disse ela, estendendo uma mão. O movimento foi tão torpe que golpeou com o braço o ombro do James, e depois o baixou procurando seu antebraço. James ficou olhando-a com o cenho franzido. Tinha Isobel sentada quase nua frente a ele, e, entretanto, ela não parecia dar-se conta: olhava para cima e seus olhos eram de uma cor azul como o cristal.

Por debaixo da seda diáfana e molhada de sua regata, agitavam-se seus peitos plenos e redondos; o tecido aderia aos quadris e descansava enrugado sobre suas coxas nuas. Sentiu o desejo de percorrer todo seu corpo, mas em troca o coração caiu aos pés.

Elevou uma mão e a moveu lentamente frente à Isobel; ela não piscou nem se moveu.

-Oh, Deus, Isobel - sussurrou James.

Com um soluço de horror, Isobel caiu para ele. James a rodeou com os braços e a estreitou contra si, enquanto ela escondia as lágrimas contra seu peito nu. Estava tremendo e jorrando água, igual a ele.

-Tranqüila - disse-lhe James, segurando-a firmemente com um braço enquanto estirava o outro para agarrar sua túnica seca e envolvê-la ao redor do corpo estremecido. - Se acalme, pequena.

-Tive uma visão... V... várias - balbuciou ela, tiritando violentamente. Caía sobre eles a luz dourada das últimas horas da tarde, mas aqueles raios de sol já não eram capazes de rebater a úmida frieza do ar.

-Conte-me tudo na torre, onde nós dois possamos estar quentes e secos - disse James. E ficou de pé, ajudando-a a levantar-se sem deixar de agasalhá-la com a túnica. Logo recolheu as botas de ambos e recuperou o vestido empapado de água para torcê-lo. Segurando-a firmemente com um braço, guiou-a com cuidado até sair da cova e a levou pelo interior do túnel ao comprido lance de escadas que havia sob as ruínas.

Em seu dormitório do outro lado dos muros do broch, deu a Isobel uma manta de sua cama, um tartán de lã que era ao mesmo tempo grosso e abrigado. Enquanto ela tirava a regata, ele se virou prudentemente e acrescentou um pouco de lenha ao débil fogo. A seguir se livrou das empapadas meias e se cobriu com sua ampla capa de peregrino para se proteger do intenso frio, incrementado pela pele e o cabelo molhados.

-Venha sentar junto ao fogo - disse a Isobel, voltando-se para guiá-la.

Ela se acomodou no chão, ao lado do fogo, com as costas apoiadas na parede e os joelhos levantados sob a manta. James ouvia como lhe tocavam castanholas os dentes. Sentou-se junto a ela aproximou-a de si para rodeá-la com os braços.

-D... onde está o azor? - perguntou Isobel, tremendo.

-Deixei-o em seu aposento - respondeu James. - Pensei que já tinha trabalhado bastante por hoje.

-V... veio voando até o punho, amarrado à corda? - perguntou ela.

-Está gelada - esfregou-lhe as costas com a mão para fazê-la aquecer. - Veio voando como em um sonho, Isobel, a todo o comprimento da corda, uns poucos metros, embora fossem necessários incontáveis intentos para conseguir que o fizesse - adicionou com desgosto. - Mas o fez. Assim, lhe dei de comer e o deixei em um cabide. Passará a noite dormindo.

-Não vai permanecer acordado com ele?

-Por esta noite lhe deixarei dormir, e começarei de novo com ele pela manhã. Caso se comporte bem, provarei com um fiador, uma corda mais larga que lhe permitirá percorrer voando todo um campo. Acredito que já está preparado para isso, parece que tem a asa mais forte.

-Por fim se está domesticando - disse Isobel.

-Até onde lhe é possível - James a olhou. - Me conte o que aconteceu, Isobel. Já se aqueceu um pouco?

-A... algo - respondeu ela, ainda com batendo levemente os dentes. - Não sei o que provocou as visões - disse. - O lago estava tão maravilhoso, tão cômodo. Estava relaxando, enquanto escutava o murmúrio da água e como cantava você, e nesse momento apareceram sem mais as visões. Quando saí do lago, estava cega e... me entrou o pânico.

-O que viu? Recorda-o?

Isobel guardou silêncio durante um instante e a seguir sacudiu a cabeça ligeiramente.

-Sei que vi outra vez meu pai, e você... você corria um grande perigo, Jamie. Recordo-me bem - inclinou a cabeça para os joelhos levantados e escondeu o rosto na manta. - Meu pai se encontrava em uma masmorra. Tenho que encontrá-lo, Jamie.

-Ralph Leslie te ajudará a fazê-lo - repôs ele em tom sério.

-Sim - sussurrou ela, com a cabeça inclinada. Depois de um momento deixou escapar um suspiro. - O vi em uma emboscada, acredito. Sei com segurança que corria um grande perigo - fez um leve ruído de frustração. - Haviam outras muitas imagens, de batalhas, e também dos dois, você e eu, em um jardim. Não o entendi.

James a observava com olhar fixo enquanto idéia ia tomando forma em sua mente.

-Isabel - começou devagar -, disse que seu pai e o sacerdote estavam acostumados a te fazer perguntas, e que você descrevia o que estava vendo.

-Sim, durante uma visão. Mas agora a visão passou.

-Traga-a de novo - disse ele em voz fraca. - E me diga o que é o que vê. Deixa que te ajude a recordá-la.

Isobell levantou a cabeça, pensando, e assentiu com um gesto. A seguir reclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, privados da visão, e aspirou profundamente. Por vários minutos, quão único ouviu James foi o crepitar do fogo e o lento ritmo da respiração do Isobel, mas então viu que a moça movia as pálpebras.

-Vejo um peregrino à entrada de uma igreja, sob a chuva - disse, e depois descreveu a igreja. - Dirige-se para um arbusto de espinheiro. O peregrino é o senhor do vento, e o arbusto guarda um segredo... - prosseguiu com voz tranqüila.

James se sentiu profundamente impressionado enquanto a escutava. Tinha ouvido algo similar na predição que o padre Hugh fazia circular pela fronteira da Escócia; mas o fato de ouvi-la completamente, de lábios da própria profetisa, deixou-lhe estupefato.

Isobel descreveu a abadia de Dunfermline com todo detalhe, inclusive o arbusto de espinheiro que crescia no pátio, e, entretanto, James sabia que ela nunca tinha pisado naquele lugar. Não fazia muito que ele tinha caminhado junto àquele arbusto vestido com a capa de peregrino. Franziu o cenho; o único segredo que protegia o espinheiro era a tumba da querida mãe de seu amigo.

Isobel jogou a cabeça para trás e continuou.

-Vejo um campo de batalha ao lado de um rio largo e tranqüilo... - falava com fluidez, rapidamente e em voz baixa, e James escutou com atenção. Isobel criava vívidas imagens em sua mente, como se ele fosse o cego e ela a vidente.

-Há um leão que domina em atitude protetora as colinas da Escócia - repetiu James brandamente. - Quem é esse leão, Isobel?

Ela inclinou a cabeça, refletindo.

-Robert Bruce, conde do Carrick. Na primavera tomará para si a coroa da Escócia, mas terá que esperar muitos anos antes que triunfe sobre os ingleses. Inclusive então, sua independência não durará para sempre. Passarão mais de quinhentos anos antes que Escócia e Inglaterra possam viver verdadeiramente em paz, quando houver caminhos de aço e vagões que se movam velozmente sobre eles sem cavalos.

James a olhou boquiaberto e atônito.

-O senhor do vento será capturado - disse Isobel. James se inclinou para diante.

-Quem lhe capturará?

-Não se pode confiar no falcão da torre.

-Quando capturarão ao senhor do vento? - insistiu James com suavidade.

Isobel sacudiu negativamente a cabeça como protesto.

-Logo... logo - respondeu. Acalmou-se como se estivesse vendo algo novo. - Um pergaminho dobrado que cai da mão, fortemente atada, que o sustenta. O senhor do vento guarda o segredo do leão e o protege com sua vida. Vejo outro pergaminho - franziu o cenho - mas a tinta está desaparecendo.

James experimentou uma gélida sensação de frio que lhe percorreu os braços. Ninguém sabia nada do pergaminho dobrado que Wallace tinha deixado cair na noite em que foi raptado, e que ele mesmo recolheu mais tarde.

Isobel permaneceu sentada em silêncio durante uns instantes, e a seguir lançou um suspiro e abriu os olhos, inclinando a cabeça como se procurasse ouvir a voz do James. O fogo punha luzes cálidas em seus olhos cegos.

-Estou aqui, Isobel - disse ele em voz fraca. Ela estendeu uma mão, e ele tomou. - Meu deus - disse. - É uma vidente, possui um estranho dom. Não me surpreende que seu pai te proteja tanto nem que o sacerdote tomasse nota de tudo o que dizia. Recorda o que acaba de dizer agora?

Isobel negou com a cabeça.

-Só algo a respeito de você, de batalhas e da Escócia - estremeceu e se agasalhou um pouco mais com a manta.

James aproximou-a de si para lhe dar calor e lhe contou tudo o que ela havia dito, mas não permitiu que sua voz grave e tranqüila delatasse seu assombro ante aquela capacidade de profetizar.

-Jamie, pode ser que corra um grande perigo se seguir adiante com esta troca - disse-lhe Isobel. - O senhor do vento será capturado...

Ele sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

-O perigo existe sempre - murmurou. - Os que lutamos como rebeldes devemos aceitar essa verdade, de modo que a ameaça de perigo não me preocupa. E sua visão não revelou nada a respeito de quando poderia acontecer algo. Poderia estar envolto em uma briga dentro de uma semana, um mês ou vários anos - calou por uns momentos e a olhou. - E é possível que o que viu seja um símbolo referido a mim. Há outras formas de capturar a um homem, pequena.

Isobel inclinou a cabeça para trás, perplexa.

-Como?

-Pode ser que nunca tenha deslocado perigo, e, entretanto, tenha perdido o coração -James a observou fixamente enquanto o silêncio flutuava entre ambos.

-Não era um símbolo - sussurrou ela. - O perigo é real.

-Talvez o seja - murmurou James sem afastar os olhos dela. - Isobel - disse ao final de um momento - esse pergaminho que mencionou... o tenho.

Isobel abriu muito os olhos, mas sem expressão alguma.

-A que se refere?

-Na noite em que capturaram Wallace, caiu um pequeno objeto que tinha escondido na mão, e tinha as mãos atadas, tal como você disse. Tratava-se de um pergaminho dobrado, justo como você descreveu - fez uma pausa. - Você não tinha como saber.

Isobel se ergueu, interessada.

-Ainda o tem?

-Sim. É uma carta do bispo Lamberton de Saint Andrews a William Wallace, em que menciona um pacto entre esse bispo e Robert Bruce para apoiar o um ao outro contra os ingleses. O bispo convidou Wallace, com a aprovação do Bruce, a unir-se a esse pacto secreto. É bem sabido que a Igreja da Escócia tem se oposto a resistência à força da Inglaterra, mas a carta revela que Bruce do Carrick forma parte dessa rebelião também, e que estava disposto a apoiar Wallace.

-Deus santo! - Isobel parecia vivamente impressionada. - Se os ingleses possuíssem uma prova tão clara das intenções de Bruce, para ele isso seria o fim de suas esperanças... e de sua vida. O futuro da Escócia estaria perdido.

James assentiu.

-Guardei-a por medo de que se a fizesse chegar a Bruce, ou de volta ao bispo Lamberton, talvez fosse interceptada. Já tinha decidido guardar o segredo do leão, tal como disse a profetisa.

Isabel inclinou a cabeça e uma ruga - começou a formar-se entre suas delicadas sobrancelhas negras.

-Acredito que guarda muitos segredos.

-Confio em poucas pessoas - repôs James. - E há poucas pessoas que confiem em um traidor.

-Eu tenho fé em você e, entretanto, você não confia em mim.

James observou seu rosto iluminado pela luz alaranjada entre as densas sombras. O que sentia naquele momento era uma mescla de respeito e admiração... e compreendeu que também de amor. Mas ao mesmo tempo experimentou uma sensação de tristeza: teria que renunciar a Isobel.

-Sim confio em você - sussurrou.

Isobel apoiou a mão em seu peito, a palma nua contra a pele dele. James se perguntou se ela notaria nos dedos como lhe palpitava enlouquecidamente o coração.

-Então me diga por que considera a você mesmo um traidor, quando eu não vejo outra coisa além de honra em você - inclinou a cabeça como se aguardasse uma resposta.

James suspirou e coçou a face, pensativo. Levava muito tempo guardando àquelas sinistras lembranças para si. Sentiu uma pontada de medo nas vísceras; ninguém conhecia a história completa, e, entretanto, desejava contar-lhe a Isobel. Era uma necessidade que nascia de muito, mais que a simples confiança.

Suspirou outra vez.

-Os ingleses me fizeram prisioneiro primavera passada, e me encerraram no Carlisle.

-Sei, e escapou no verão - disse Isobel.

-Encerraram-me junto com outros nobres escoceses, mas quando vários de nós fomos transladados ao norte no verão, eu escapei da escolta. Margaret não conseguiu fugir comigo. Então foi quando Ralph Leslie a levou ao Wildshaw.

-E por isso deve recuperá-la - disse Isobel. - Entendo. Mas isso não te converte em traidor.

-Enquanto estive encarcerado no Carlisle, o rei Eduardo enviou a ordem para que vários de nós assinássemos um documento. Se não obedecesse-mos, seríamos executados. Um dia, quatro de nós o assinamos, com falsas intenções; nenhum tinha a intenção de cumprir o assinado. Alguns fomos liberados mais tarde, e eu fui entregue à custódia de Leslie. Ordenaram-lhe que me deixasse livre, pois esperavam que eu cumprisse a promessa, mas a ele lhe ocorreu me reter um pouco mais de tempo - encolheu-se de ombros. - Eu não estava de acordo com isso, de modo que escapei de sua patrulha quando estávamos no bosque.

-O que era o documento que assinou? - perguntou Isobel rapidamente.

James vacilou, temendo o que tinha que dizer.

-Um acordo para apanhar Wallace e lhe entregar aos ingleses.

Isobel guardou silêncio por espaço de uns instantes.

-Não quero acreditar que você prometeu tal coisa.

-Acredite-o - disse James com brutalidade.

-Outros o assinaram também, mas nenhum cumpriu o prometido.

James deixou escapar um comprido suspiro e cravou a vista no fogo.

-Eu sim o cumpri - disse em voz fraca. - Conduzi-os até o Will.

-Jamie, não! - ofegou Isobel.

-Quando escapei, vim aqui e me inteirei de onde se encontrava Wallace, muito ao norte deste lugar. Parti disfarçado de peregrino, mas me seguiram. Leslie deve ter enviado um homem atrás de mim. Se eu tivesse sabido - disse enfaticamente - teria tomado uma rota diferente ou levado outro disfarce. Mas lhes conduzi até o Wallace, como um idiota. Quando descobri que haviam vários soldados concentrados frente à casa em que me tinha reunido com ele. Acudi ali o mais depressa que pude - sacudiu a cabeça - mas foi muito tarde.

Isobel se inclinou para ele. Seus dedos encontraram sua cara, deslizaram-se ao longo de sua mandíbula, roçaram-lhe os lábios, frios e magros contra a bochecha dele.

-Você não lhe traiu.

-Sim o fiz - fechou os olhos, angustiado, sentindo os dedos do Isobel suaves como asas de mariposa sobre sua pele. - Levei àqueles bastardos até ele. Se não tivesse ido ali, agora Will estaria vivo.

-Jamie - murmurou Isobel em tom sincero. - Nós dois tratamos de lhe advertir, de lhe ajudar. Você não lhe traiu. Aquilo tinha que acontecer.

James permaneceu silencioso, com o cenho franzido e os lábios apertados. Levou muito tempo convencido de que tinha traído seu amigo, por um disparate, por um descuido, por egoísmo... Não sabia como o tinha feito, mas ocorreu. Queria afastar de si aquela dor e aquela raiva, mas não podia.

-Jamie... disse que mencionei outro pergaminho, um de que desaparecia a tinta. Esse deve ser o que você assinou.

-Não o entendo. Assinamo-lo com tinta negra.

-As palavras que se desvanecem são um símbolo - disse Isobel. - A promessa não era real. A culpa não existe. Você não desempenhou nenhum papel na traição de Wallace.

James escutou sua doce voz, sentiu o suave roçar de seu contato e notou como se rompia a dura couraça que rodeava seu coração. Tratou de responder, mas tinha um nó na garganta.

-Teriam capturado de todos os modos. Tinha que ser assim. Ninguém poderia havê-lo trocado - disse ela com suavidade.

-Há outra coisa mais - seguiu ele em voz tão baixa que soou áspera no ar imóvel.

Isobel voltou o rosto para ele, aguardando. James compreendeu que sua paciência era uma bênção. Confiava nela. Muito. Deixou escapar um pesado suspiro antes de dizer:

-Quando levavam Wallace... eu tentei, com minha última flecha, lhe tirar a vida.

Ouviu como ela aspirava profundamente.

-Sabia o que lhe esperava - disse Isobel. - Sabia que sua morte seria inevitável, e cruel.

Ele assentiu com a cabeça, incapaz de falar por causa do nó na garganta.

A mão do Isobel encontrou a sua.

-Esse foi verdadeiramente um grande ato de amor - sussurrou.

Desde que era menino não havia tornado a sentir a ardência das lágrimas. Piscou para dominá-las, contente de que ela não pudesse as ver.

Isobel apoiou o rosto na bochecha dele, lhe roçando com seu cabelo suave como seda tecida por mãos celestiais.

-Jamie, você jamais poderia ter traído Wallace. Os que lhe amam sabem bem. Temos fé em ti. Quando vai compreender isso?

James conteve a respiração. Os que lhe amam... temos fé em ti. Eram palavras singelas, formosas, comovedoras.

Baixou o rosto, deslizando a bochecha junto à de Isobel, e a atraiu para si, estreitando-a, balançando-a brandamente em seus braços. Vários momentos mais tarde, várias inspirações mais tarde, conseguiu por fim recuperar o controle de sua voz.

-Você viu tudo isto faz meses - murmurou. - Oxalá te tivesse conhecido então. Ah, Isobel - disse, suspirando. - Se me houvesse predito isto, poderíamos ter mudado as coisas.

-Não podemos mudar o que Deus dispôs. E com gosto profetizaria para ti - insistiu ela, com voz que era um quente fôlego contra a bochecha dele. - Faria algo por ti.

James sentiu que o coração lhe dava um salto. Estreitou-a com mais força, afundando os dedos em seu cabelo úmido, sentindo seu calor, seu peso, todo seu ser nos braços. Apenas capaz de pensar no que estava fazendo ou dizendo, deslizou lentamente a boca por sua bochecha.

-De verdade o faria? - murmurou contra sua pele.

-Sim - lhe rodeou o pescoço com o braço. - Mas um proscrito não quererá carregar a moléstia que supõe uma profetisa.

-Se se tomou a moléstia de carregar um tolo azor - murmurou ele, aproximando a boca à sua -, uma pequena profetisa poderia lhe resultar toda uma bênção.

Passou os dedos através de sua cabeleira, inclinou-lhe a cabeça para trás e tomou sua boca com uma rapidez e uma ânsia que logo que chegaria a expressar a sede que sentia. Apertou os lábios contra os seus, em um afã por beber algo de sua doçura e inoculá-la em seu próprio coração.

 

O coração lhe retumbava no interior do peito. Suspirou sob a suave carícia de seus lábios e se rendeu de bom grado à força do beijo. Ele se inclinou para frente, e ela se dobrou para trás, um movimento fluido de ambos em um jogo de rendição e entrega.

Por um instante, Isobel viu umas diminutas luzes que giravam na escuridão frente a si, em uma deliciosa mescla de cores. As luzes se incrementaram pouco a pouco, rodando em sua visão interior até que encheram por completo seus olhos com um intenso resplendor dourado.

O resplendor do fogo. Contemplou, mais à frente do ombro de James, as chamas douradas. Contendo uma exclamação, afastou-se um pouco para olhá-lo, com a mão apoiada em sua bochecha de barba incipiente, piscando para clarear a vista, para certificar-se de que se encontrava ali. Olhou ao fundo de seus olhos de cor anil, bordeados por densas pestanas. A silenciosa pergunta se lia em sua cara. Seus dedos percorreram a curva de sua bochecha. Ela sorriu e deixou escapar uma leve risada.

-Sim - sussurrou. - Já posso ver-te outra vez. Não sei que magia há em sua forma de beijar, mas é algo maravilhoso.

-Essa magia não é minha - replicou James, inclinando-se para ela. Isobel lhe aceitou gostosa, acoplando sua boca a dele.

-Não é minha tampouco - murmurou Isobel contra seus lábios.

-Ah, então - murmurou James ao tempo que a fazia escorregar até o chão, sobre um ninho de cálidas mantas. - Devemos havê-la criado entre os dois.

-Sim - ofegou ela. - Assim é.

James se recostou junto a ela. A manta deslizou quando ela se aproximou dele; sentia o calor do fogo que ardia na lareira na perna nua e no ombro.

Ele tomou-a em seus braços e se inclinou para beijá-la brandamente, e quando afastou os lábios o fez tão lentamente que Isobel se moveu para ele pedindo mais James lhe acariciou o cabelo e a olhou fixamente.

-Ninguém mais poderia fazer desaparecer minha cegueira com um beijo - disse Isobel, lhe olhando também. - Estou segura disso.

-Acredito que seria capaz de matar o homem que o tentasse - murmurou James. A veemência que havia em seu tom calmo provocou um formigamento de emoção nela. - E o que me diz de sir...?

-Cala - pôs-lhe um dedo nos lábios. - Nenhum homem me beijará nunca como você, nem me tocará como você me toca - sussurrou. - Juro-o.

James fechou os olhos.

-Isobel, se me jurar isso, a farei cumprir isso.

-Faça, então - olhou-o fixamente. - E me jure isso você também.

-Juro-o, ninguém mais que você - disse ele em um ofego, e voltou a apoderar-se de sua boca. Ela deixou escapar um suspiro quando James introduziu entre seus dentes a ponta úmida de sua língua, que tocou a dela. Jazia serena em seus braços, entretanto tinha a sensação de que todo seu corpo vibrava e girava em torvelinho.

A rápida e fervente promessa que ambos acabavam de fazer um ao outro a alagou por inteiro, lhe dando a profunda certeza de que ali, com ele, tinha encontrado amor e refúgio perfeitos. Queria dar-se totalmente, entregar-se a ele em corpo e alma, sem arrepender-se; queria, desesperadamente, ficar com ele, embora soubesse que isso talvez nunca fosse possível.

Negando-se a fechar os olhos e ver de novo só a escuridão, tornou-se um pouco para trás para lhe olhar. Seus olhos percorreram os cabelos ondulados que lançavam brilhos à luz dourada do fogo, os ombros largos e brandamente musculosos, seu forte pescoço onde pulsava apressadamente o pulso.

Mas a visão não podia lhe proporcionar o suficiente dele. A cegueira lhe tinha ensinado o valor e o poder do contato. Passou as pontas dos dedos seguindo a forma de sua mandíbula quadrada sob a orelha, firmemente curvada no queixo, coberta de uma fina barba que parecia areia fina. Ele fechou os olhos quando Isobel lhe tocou as pálpebras, as pestanas densas e suaves. Seu nariz era largo e reto, seu fôlego uma cálida carícia, sua boca carnuda, firme e úmida. James lhe agarrou o dedo e o introduziu na boca, fazendo que ela deixasse de respirar, surpreendida pela sensação.

Isobel deixou escorregar a mão por seu pescoço até seu peito, firme e belamente esculpido, detendo-se sobre o coração. Ele a aproximou mais a si, pressionando com uma mão na parte baixa de suas costas. Embora a manta e a capa estivessem enrugadas entre ambos, Isobel notou o intenso calor do corpo do James, e, como reação, experimentou um estremecimento no mais fundo de si mesmo, surpreendente e excitante.

As mãos de James se detiveram em suas costas, semelhantes a dois remansos de calor.

-Deseja que aconteça isto? - murmurou-lhe em voz baixa junto ao ouvido.

-Sim - respondeu ela fervorosamente. - Não tenho nenhuma dúvida.

James a atraiu em seu quente abraço, com a manta entre ambos a modo de colchão. Ela escondeu o rosto em seu ombro. O perigo que havia predito e o compromisso que a aguardava eram certos. Experimentou um desesperado pressentimento que a forçou a procurar consolo em seus braços; aquela podia seria última vez que estava com ele.

Levantou a cabeça e lhe beijou na comissura da boca, no lábio inferior, amou-lhe com a boca, com as mãos, com o oferecimento de seu corpo. Abriu a boca sob a sua e suspirou, afastando de si todo pensamento, toda lógica, inundando-se em suas sensações, tomando como único guia o tato e o coração.

James deslizou os dedos ao longo de sua garganta e deixou que escorregassem mais abaixo. Isobel sentiu que o coração lhe pulsava com mais força, retumbando com urgência, ao tempo que a mão de James percorria o contorno redondo de seus peitos nus. O calor de sua palma resultava tão irresistível que se arqueou para esse contato. James introduziu a ponta da língua em sua boca, enquanto sua mão lhe moldava o peito. O coração de Isobel se acelerou, sua respiração se fez mais agitada. Logo sentiu a outra mão de James através de seus cabelos, entrelaçando-os, lhe inclinando a cabeça para trás para poder deslizar os lábios facilmente por sua garganta, enquanto seus dedos se curvavam sobre seu seio, lhe provocando um estremecimento que se estendeu por todo seu corpo.

Ela acariciou brandamente a sólida extensão de seu peito, a pele morna que cobria sua dura musculatura, e encontrou o mamilo plano e suave. Tocou-o com curiosidade, levemente, notando como se endurecia igual aos seus ao contato dele. Ouviu sua rápida inspiração e sentiu sua mão escorregar por seu abdômen e baixar ainda mais, brandamente, até que ela se moveu para ele com um leve gemido.

James apartou a manta e a aproximou por fim, seu corpo sólido e ardente junto ao dele, suas mãos cálidas acariciando suas costas, seu cabelo, seus quadris. Baixou a cabeça e encontrou um peito, e começou a banhá-lo com seus lábios úmidos. O profundo e intenso prazer arrancou outro gemido de Isobel. Seus dedos, imóveis, que a tentavam com aquela quietude, afundaram-se brandamente na oculta fenda de seu corpo.

Aquele contato se traduziu em deliciosas carícias que a alagaram até que por fim se incorporou para ele, sentindo como se um fogo líquido percorresse seus membros, uma sensação vibrante e maravilhosa que a deixou ofegante, como se oscilasse sobre o tentador bordo da perfeição. Abraçou-se a James com mais força, desejosa de obter o que seu corpo prometia e seu coração ansiava.

Isobel deslizou as mãos pelo abdômen dele, seguindo a linha de pêlo que conduzia para baixo. Seu membro rígido e quente lhe encheu as mãos. James emitiu um gemido grave, trocou de postura e a colocou sobre ele, acomodando-a de maneira tal que suas pernas lhe abraçavam os quadris e seu corpo se acoplava intimamente ao dele. Ela se inclinou para abraçá-lo, sentindo como seu coração pulsava perto do dele e as bocas de ambos se uniam em um prolongado beijo. O ritmo cada vez mais rápido da respiração dele se uniu com o dela, ao tempo que guiava seus quadris com dedos suaves, mas apaixonados. Isobel escorregou sobre ele como uma luva, emitindo um leve gemido que se perdeu contra a garganta do James.

Quando se ergueu outra vez, arqueando as costas, agarrou-lhe as mãos, palma sobre palma. Aquele singelo contato, de algum modo foi tão tenro como a doce e cálida fusão de seus corpos, como se o que prometesse com seu corpo fosse selado com suas mãos.

Sentiu que era invadida por uma força irresistível, uma forte corrente de alegria que trouxe consigo uma revelação: o lar que ansiava, o refúgio que precisava existia no amor que tinham criado entre os dois. Ela pertencia ao lugar onde se encontrasse ele; o melhor castelo e o bosque mais frondoso ofereciam tão somente um pobre refúgio em comparação com o que tinha encontrado em companhia de James.

Voltou a inclinar-se sobre ele e deixou escapar um suspiro. James aspirou profundamente e a atraiu para seus braços, que a aguardavam, enquanto sua cabeleira se estendia em leque e cobria a ambos como se tratasse de um par de asas.

 

O frio que acompanhou o amanhecer penetrou pela janela e despertou-o. James, com um calafrio, subiu um pouco mais as mantas e apertou Isobel dentro do círculo de seus braços, sentindo seu corpo nu quente e suave em contato com o seu. Seus roncos lhe fizeram sorrir, e lhe inclinou um pouco a cabeça inerte para sossegá-los.

Estavam tombados juntos na cama dele, sobre um ninho formado por mantas e peles. Oxalá lhe tivesse ocorrido engrossar seu colchão de palha e pôr uma cortina ao redor da velha e aberta cama de pedra para protegê-los das correntes. Estava acostumado ao seu duro leito, e a jogar um sonho rápido e profundo cada vez que se deitava nele.

Mas na noite anterior, a austera comodidade de sua câmara tinha servido de apoio para um ato de amor jubiloso e sensual. Do chão, quando as brasas do fogo começaram a apagar-se e a fria brisa se fez sentir mais, procuraram o refúgio dos cobertores da cama. Nenhum dos dois estava cansado, de modo que ambos começaram a explorar-se e entregar-se com entusiasmo um ao outro, profundamente e sem reservas. James sentiu que seu sangue e seu corpo se aceleravam ao recordá-lo, e apertou os lábios contra o rosto de Isobel, que seguia dormindo.

Lançou um suspiro e embalou a cabeça de Isobel contra seu peito, penteando sua suave cabeleira com os dedos em gesto lento, carinhoso. Esse dia, ou o seguinte, retornariam seus amigos com a mensagem do sacerdote. Logo, muito logo, Isobel entraria na igreja de Stobo e desapareceria de sua vida.

Perguntou-se se poderia suportar o sacrifício que impôs a si mesmo; perguntou-se se poderia ficar atrás e vê-la partir.

Isobel se aconchegou em seus braços em sonhos. Ele a beijou no rosto e na curva da orelha, e acariciou o belo contorno de seu quadril. Deslizou os dedos por seu braço, sobre o delicado osso do ombro, seguindo a inclinação de seu peito. Isobel se agitou levemente e levantou o rosto para ele. Quando ele se inclinou para beijá-la na boca, lhe rodeou o pescoço com os braços e atraiu-o para si, lhe devolvendo o beijo com paixão. Com um leve gemido, passou os dedos entre seu cabelo, aproximando-o de novo. Não era necessário dizer nada: ele entendia o que sentia.

James experimentou a mesma sensação de desespero, como se o tempo lhe escapasse das mãos. Temia perdê-la para sempre. Mas de momento, dá-la-ia toda a felicidade possível, todo seu amor, e tomaria o que lhe oferecesse. Dentro de uns dias, as obrigações que cada um deles tinha destruiriam o que tinham encontrado juntos.

Rodeou-a com os braços e baixou a cabeça para beijá-la, sussurrando seu nome. Desejava lhe dizer tantas coisas... Entretanto, não disse nada e deixou que suas mãos e seu corpo falassem com eloqüência por ele.

 

-Mas o fiador é uma corda muito comprida - disse Isobel, de pé junto a James enquanto este enrolava uma larga corda no braço. - Só retornou ao punho de uma distância muito curta. O fiador mede trinta metros, já disse.

-O problema não é a distância - respondeu James, caminhando com ela na parte plana e coberta de erva do topo do penhasco. Gawain permanecia posado no punho, piando, enquanto Isobel avançava a grandes passadas para manter-se ao passo de James. - O problema consiste em fazer com que o azor retorne ao punho rapidamente e por sua própria vontade. Quando fizer isso, o fará de um metro, trinta metros ou meia légua, sem corda. A distância não significa nada para os falcões, a confiança é tudo.

Isobel assentiu, compreendendo, e ficou de pé onde ele indicou.

-Agora, observe, e veremos o que faz - disse James.

Verificou os nós que prendiam o fiador às guarnições de couro e depois segurou o outro extremo da corda, prendendo-o a um gancho de madeira, na erva. Murmurou umas palavras ao azor durante alguns momentos, e seguidamente cruzou a esplanada de erva desenrolando o fiador conforme andava, e deixou o terzuelo sobre um suporte na rocha. Retornou até onde estava Isobel e chamou o rapaz.

Gawain não se moveu do lugar, ocupado em arrumar as plumas das asas. James o chamou de novo, cantando as notas do kyrie e puxando ligeiramente a corda. O azor agitou as asas, elevou-se e desceu outra vez para posar no chão. James lançou um suspiro e foi até ele para recolhê-lo, murmurando em voz baixa. Voltou com ele aonde aguardava Isobel, enrolando o fiador. Então lançou o braço para cima e animou o azor a sair voando do punho.

De repente, Gawain se elevou no ar com as asas totalmente estendidas, afastando-se para o alto, desenrolando o fiador atrás dele. Suas asas cinzas e novas remaram no vento, planaram, remaram outra vez, levando-o até o outro extremo da esplanada.

Isabel lançou uma exclamação ao vê-lo, e James riu em voz alta a seu lado. O azor era formoso e elegante, e, entretanto, possuía uma força afiada e temível, como o amo do ar, como um arcanjo passeando-se por seu reino, com o sol arrancando brilhos chapeados a seu lombo ao avançar.

Ganhou altura. O fiador se agitou e se elevou com ele, e então começou a esticar-se. O azor ascendeu e planou até posar sobre um alto saliente da rocha situado ao longo da ladeira da montanha.

Isobel contemplou o rapaz.

-Vai retornar?

-Veremos - murmurou James, e levantou a mão. As notas claras e profundas do kyrie se pulverizaram pelo penhasco.

Isobel conteve a respiração e aguardou. Gawain inclinou a cabeça e se voltou. James entoou a melodia outra vez, com o braço estirado em alto.

Então, como se já tivesse pensado o bastante, Gawain remontou o vôo com a graça de um bailarino e retornou para ele, cortando o ar com as asas estendidas como se flutuasse em meio de uma corrente. Isobel viu a grande velocidade a qual se aproximava e deu um passo atrás apreensivamente. James permaneceu imóvel como uma pedra e esperou, com o braço levantado, enquanto o azor enfiava diretamente para ele.

No último instante, justo quando Isobel levava uma mão à boca para segurar um grito de aviso, temerosa que o azor golpeasse James com suas poderosas garras, o terzuelo se inclinou, freou e posou no punho, batendo as asas com total desenvoltura.

James lhe ofereceu um pedaço de carne. Depois sorriu abertamente e olhou Isobel.

-Aí o tem - disse-lhe. - Isto é um azor.

Ela sorriu e se aproximou dele, levantando saias e meio correndo ao subir os escassos degraus.

-Foi precioso - disse. - Sir Gawain, que pássaro tão formoso é.

-Muito formoso, na verdade - disse James, olhando-a. - Agora vamos ver se quer fazê-lo uma vez mais, e outra, e outra. Pode ser que termine sendo uma tarde muito longa.

-Bom - disse ela, suspirando. - Que outra coisa temos para fazer?

-Isso, e que outra coisa? - elevou uma sobrancelha e lhe dirigiu um olhar travesso.

Olhou-o e reprimiu um sorriso, notando como lhe acendiam as bochechas. Sentiu que a invadia uma leve sensação de sorte ao pensar em estar de novo em seus braços.

-Crê que o azor irá querer vir a posar em meu punho? - perguntou-lhe.

-Talvez. Se quiser, podemos averiguá-lo.

-Eu gostaria de provar - observou como James enrolava rapidamente a corda, murmurava algo em voz baixa a Gawain e lhe lançava de novo ao ar.

Assim foi transcorrendo a tarde, em uma mescla de desilusão e também de prazer. Isobel permaneceu ao lado de James contemplando o azor, e junto com ele o mimou e tranqüilizou. Gawain voou ou não voou, enfureceu-se ou posou em seu cabide, comeu ou não comeu, segundo seu capricho. Mas quando as sombras começaram a alargar-se sobre o penhasco, já obedecia mais e se zangava menos. E independente de seu estado de ânimo, Isobel se deu conta de que o rapaz sempre parecia responder de algum modo, evidente ou sutilmente, às notas graves e serenas do kyrie.

Quando se aproximava o crepúsculo e nuvens bordeadas de rosa se estenderam pelo céu, Isobel voltou a vista para o bosque. Lançou um suspiro, percebendo uma curiosa sensação, uma mescla de segurança e poder, no alto daquele penhasco. James recolheu o fiador e o prendeu ao cinturão, e a seguir se virou para ir até onde estava ela, com Gawain posado tranqüilamente em seu punho.

-É maravilhoso estar aqui - disse ela quando James chegou a seu lado. - Tão protegidos, tão por cima do resto do mundo.

-É isso o que mais gosta? O amparo que oferece este lugar?

Ela se encolheu de ombros.

-Eu gosto quão isolado está, e a sensação de que ninguém pode ameaçar-nos aqui em cima, de que ninguém pode subir aqui a menos que conheça o caminho secreto.

-Em efeito. Este lugar oferece refúgio... e também uma espécie de liberdade - disse James.

-Passei minha vida dentro de um castelo, vendo muito pouco do mundo exterior - disse Isobel. - Acreditava que estava protegida, mas agora sei que era falso. Estava encerrada, como em uma prisão, minha vida estava regida pelas normas de outras pessoas. Aqui me sinto verdadeiramente segura, e verdadeiramente livre - estendeu-lhe uma mão, e ele a agarrou. - Quero ficar aqui para sempre, contigo - disse impulsivamente.

James guardou silêncio, sem lhe soltar a mão. Ela esperou, com o coração palpitando de esperança, que ele expressasse o mesmo sentimento.

-Possui um grande dom, Isabel - disse James por fim. - Suas predições devem ser escutadas por muitos. Mas por esse mesmo motivo precisa contar com o melhor amparo. Há pessoas que desejariam utilizá-la, se pudessem, para que lhes dissesse o que proporciona o futuro.

-Meu próprio pai... e o rei da Inglaterra entre eles - comentou Isobel com certa amargura.

-Assim é - disse James, e depois deixou escapar um suspiro. - Isobel, não quero culpar seu pai de todo por te encerrar como fez. Ele queria te proteger daqueles que não podiam entender o que você é capaz de fazer, e queria assegurar sua capacidade de profetizar. O casamento que preparou para você obedece a esse propósito.

Isabel lhe contemplou fixamente, apertando seus dedos.

-O que está dizendo? - sussurrou incrédula.

Ele desviou o olhar para o bosque.

-Que eu não posso te dar o que necessita, nem o que deseja.

-Como sabe na verdade o que desejo? - replicou ela, um tanto desafiante.

-Sei que a segurança é importante para ti - respondeu James. - Sei que também o é um lar. Você deve viver em um lugar agradável, um castelo amuralhado, com um jardim e... e rosas para cuidar - calou durante uns instantes e lhe apertou a mão com mais força. - Um lar onde possa criar meninos, onde conheça a paz e a abundância, onde compartilhe suas profecias com quem possa beneficiar-se delas.

-O importante para mim é o amor - disse ela. - A liberdade. Você é importante para mim - acrescentou com paixão.

-Seu dom é algo muito importante - disse James. - É significativo e pouco comum. Se encerrar a ti mesma com um homem que deve se esconder do mundo, ninguém ouvirá suas profecias - suspirou. - Um proscrito sem lar não pode proteger a uma valiosa profetisa. Mas um homem que governa um castelo forte e uma guarnição, e que tem o poder da Inglaterra ao seu lado, pode fazê-lo muito bem.

-Pensava que lamentava me enviar outra vez para Ralph Leslie - disse Isobel, apenas capaz de controlar o tremor na voz. Fechou nervosamente o punho na mão do James.

-E o lamento - repôs ele com calma. - Mas quero que vá.

Ela franziu o cenho.

-Quer Margaret.

-Oh - murmurou baixo. - Já sabe a verdade desse assunto - não a olhou, embora ela não apartasse os olhos de seu perfil. - Isobel, se ficasse comigo, Leslie nos perseguiria, e também as tropas que o rei Eduardo enviaria atrás de nós. Nunca teria paz, nem abundância, nem um lar.

-Isto é um lar - disse ela. - Se for com Ralph, serei... terei que me converter em sua esposa... e não suporto essa idéia - agarrou-lhe com força a mão e se girou para ele. - E o rei Eduardo me obrigará a dizer profecias para os ingleses.

-Se as disser bem - disse James - terá tudo o que deseja.

-Tudo o que desejo? - o medo e a ira instalaram em seu interior. - Você é tudo o que desejo!

-Tudo o que desejo eu - insistiu ele com gravidade - é que você esteja a salvo. Refleti muito sobre isto. Seu dom é notável e tem que ser compartilhado. Você merece honras e luxos, e eu não lhe posso dar isso, esta é a única maneira - contemplou o céu que ia trocando a uma cor lavanda. O azor chiou, agitou-se um pouco e moveu as asas.

A Isobel o coração retumbava no peito, e sua respiração se acelerou.

-Existe uma dificuldade em me trocar pela Margaret.

-Qual é?

-Não penso em ir.

James arqueou uma sobrancelha e a olhou.

-Irá.

Ela franziu o cenho.

-Quando formos a Stobo, poderá deixar Margaret dentro da igreja quando Ralph a enviar ali, e eu sairei e lhe direi que não desejo ir com ele.

-Isso - disse James - provocaria um banho de sangue.

-Não me obrigue a ir - rogou ela.

James exalou um suspiro de angústia e levantou uma mão para aproximar Isobel para si, lhe rodeando o pescoço com o braço. Ela se abraçou a sua cintura e deixou escapar um breve soluço de alívio, contente de estar em seus braços.

-Tenho que te deixar partir - disse James. - Tem que compreendê-lo. É a profetisa do Aberlady, muito valiosa para que fique com um proscrito. E o que me diz de seu pai?

-Não quero ser propriedade de um homem que controle minhas profecias como se fossem sacos de lã para levar ao mercado - disse Isobel. - E tem que haver outro modo de encontrar meu pai. O padre Hugh pode nos ajudar, ou seu amigo da abadia do Dunfermline -mordeu o lábio e fechou os olhos com força. - Podemos lhe encontrar, estou convencida.

-Não - murmurou James contra seu cabelo. - Encontra-se no Wildshaw.

-Esperemos. Jamie - disse, ao ocorrer uma idéia nova -, irei com Ralph tal como planejaste, para que você possa recuperar Margaret. Se Ralph tiver meu pai a salvo, irei do Wildshaw com meu pai. Logo retornarei aqui contigo.

Guardou silêncio um instante, estreitando-a contra si.

-Não pode fazer tal coisa.

-Posso voltar - disse Isobel. - Me deixe voltar.

-Isobel - disse James, sombrio. - Não.

-Farei-o - insistiu ela.

James lançou um profundo suspiro e contemplou de novo o bosque à luz cada vez mais apagada. Isobel contemplou a ele, com os olhos subitamente cheios de lágrimas.

-Compreendo - sussurrou. - Você quer sua liberdade, e crê que comigo não poderá tê-la.

Ele fechou os olhos por um momento.

-Quero a ti, mas não posso te ter. Irá com Ralph, e com o tempo terminará me esquecendo.

Isobel sentiu uma pontada de dor nas vísceras.

-Não diga isso. Precisamos estar juntos.

-Você e eu seguimos caminhos diferentes - disse James.

-Seguimos o mesmo caminho! Temos as mesmas necessidades... paz, refúgio, amor -terminou com um fio de voz.

-Sim, se nossas vidas tivessem sido distintas - disse ele. - Se eu fosse simplesmente o senhor do Wildshaw e você a dama do Aberlady... Mas as coisas não são assim.

-Jamie - disse Isobel, escondendo o rosto em sua túnica. - Jamie, não faça isto - fechou os olhos com força para afastar as lágrimas.

-Se acalme - disse-lhe com doçura, abraçando-a sem mover-se. - Isobel, minha pequena - disse após uns momentos. - Olhe aí abaixo.

Ela olhou, entreabrindo as pálpebras.

-Só vejo árvores. Você tem a vista tão aguda como a de um falcão. O que viu?

-Quentin e Patrick. Retornam muito antes do que pensei.

Isobel se aferrou a ele e olhou. Transcorreram largos minutos até que viu as diminutas figuras dos dois homens correndo em direção ao penhasco. Temia sua chegada, temia sua mensagem, e também o que ia acontecer nos próximos dias.

-Jamie - disse. - Tenho medo.

Lhe acariciou o cabelo lentamente e apartou o braço com que lhe rodeava os ombros.

-Não te passará nada.

Isobel continuou observando aos dois homens por espaço de uns instantes enquanto o vento lhe açoitava o vestido e o cabelo, e depois se virou.

James se afastou, com o azor posado em seu punho, e se internou nas crescentes sombras.

 

-O padre Hugh insiste em reunir-se em privado com o Isobel em troca de entregar nossa mensagem a Ralph Leslie - disse Quentin. - Não quer aceitar nossa garantia de que a tenhamos a salvo conosco, quer vê-la ele mesmo. Do contrário, diz que não podemos utilizar sua igreja para nossos propósitos.

James franziu o cenho e olhou Isobel enquanto refletia sobre aquela informação. Junto com Quentin e Patrick, ambos se encontravam reunidos na zona da cozinha do broch e acabavam de terminar uma comida preparada por Isobel à base de cebolas e cevada, acompanhada de pão recém feito e queijo, enviados por Alice.

-O padre Hugh sempre foi protetor comigo - disse Isobel, preenchendo a taça de cada um dos pressente com vinho francês. - E eu gostaria de falar com ele - acrescentou em voz fraca. Não olhou James enquanto falava, mas seus olhos baixos e o rubor que tingia suas bochechas disseram a ele que Isobel era consciente de que a estava olhando fixamente.

-Podemos confiar nele? - perguntou James aos recém chegados.

Patrick afirmou com a cabeça.

-Sim, se formos com ela.

-Quer ter-me a sós - disse Isobel. - Onde está agora?

-Foi ao Wildshaw entregar a mensagem - respondeu Quentin. - Voltamos de Stobo com o padre e com Geordie, que insistiu que se encontrava o bastante bem para retornar aqui. Da casa da Alice, o padre Hugh partiu em direção ao Wildshaw. Disse que ao voltar passaria por aqui para entrevistar-se com o Isobel às primeiras horas da manhã. Nós sugerimo-los o velho carvalho que há não longe da casa da Alice.

-Boa idéia - assinalou James. - Assim poderemos defendê-la mais facilmente, caso o padre chegue com uma patrulha de soldados.

-Jurou que virá sozinho - disse Patrick. - É sacerdote e amigo da moça, de modo que neste caso poderemos confiar nele.

-Eu não gosto - disse James. - Quentin?

-Tampouco eu gosto muito - respondeu o montanhês. - Há muitas coisas que poderiam sair mal.

-Devo ir, do contrário não liberarão Margaret - disse Isobel. - E acredito que já é hora de sair deste penhasco - limpou os miolos da mesa de pedra com a mão enquanto falava, como se não tivesse muita coragem de lhes olhar. - Além disso, quero ver Alice, sir Eustace e ao resto. Partirei pelo amanhecer.

James a contemplou com olhar tranqüilo enquanto fazia girar o vinho em sua taça. Sentia desejos de estender um braço e agarrá-la, abraçá-la, lhe pedir que ficasse, mas fez um enorme esforço mental para permanecer imóvel. Se tivesse conservado o controle de suas emoções desde o começo, disse a si mesmo, não teria complicado o assunto, afetando a Isobel - e a si mesmo - na troca.

-Temo que nos tenham uma armadilha - disse. - Leslie poderia te seqüestrar.

Lhe dirigiu um olhar direto por fim.

-Você queria que retornasse com assinalou. -Confio no padre Hugh. Irei.

-A escoltaremos - disse James. - Não deve ir sozinha.

Isobel sacudiu a cabeça negativamente.

-Não venham comigo, rogo-lhes isso. Devem permanecer afastados do bosque.

-A escoltaremos - repetiu ele. Sabia que Isobel estava pensando na profecia que anunciava que lhe sobreviria um perigo, mas não tinha medo disso; temia só por ela.

Isobel abriu a boca para falar, mas em lugar disso mordeu o lábio inferior e saiu a toda pressa da habitação. James esfregou os olhos um momento e deixou escapar um suspiro. Sabia que Isobel não queria partir dali nem seguir adiante com a troca de reféns. Além disso, ainda estava claramente chateada por sua insistência em que devia separar-se dele para sua própria segurança.

-Se formos com ela a essa entrevista, a moça contará com uma forte guarda - disse Patrick. - Nada poderá lhe fazer dano.

-Isso - disse Quentin, olhando de soslaio a James - pode ser que já tenha acontecido.

-Isobel não está de acordo com nossos planos - disse James.

-É isso o que a molesta? - perguntou Quentin com intenção. James franziu o cenho.

-Suponho que não terão ido à abadia de Dunfermline. Retornaram antes do que eu esperava.

-Ao chegar a Stobo encontramos com dois monges que tinham vindo da abadia com uma carta para o padre Hugh, que mantém correspondência com o abade - explicou Quentin. - Eu falei com um dos monges, que conhecia bem John Blair. Disse que John está avançando muito em sua crônica da vida de Wallace.

James assentiu.

-Tinha esse monge alguma informação de quem traiu Wallace?

-O senhor do Menteith é o único cuja participação se dá por segura, e dizem que enviou seus criados e guardas para fazer o trabalho por ele. Há escasso interesse em averiguar a identidade de outros.

-Tenho a intenção de investigar ao menos a um deles - disse James - Leslie.

-Está seguro de que Leslie tomou parte na traição? - perguntou Patrick.

-Estou-o - respondeu James. Leslie conhecia a existência do documento que ele e os outros nobres rebeldes cativos tinham assinado, e James estava seguro de que tinha enviado alguém atrás dele no dia em que escapou da patrulha e foi ver Wallace.

-Não vão realizar nenhuma investigação oficial para encontrar os traidores de Wallace. Os Guardiões do Reino da Escócia têm outros assuntos que atender, incluindo seu intento de convencer ao rei Eduardo de que nomeie um bispo escocês como guardião também.

-O que sabem do conde do Carrick? - perguntou James, recordando a predição do Isobel no sentido de que Bruce conseguiria o trono dentro de uns meses.

-Robert Bruce renovou seu juramento de obediência ao rei Eduardo o verão passado, mas circula o rumor de que ajuda em segredo aos escoceses. Ao parecer, nunca se capturam rebeldes quando Bruce sai a lhes perseguir. Eduardo não confia no conde de Carrick como confiava antes. Nomeou um comandante inglês para o castelo do Kildrummy, e disse a Bruce que estivesse disposto a responder ante esse homem. Sim, o rei suspeita que Bruce é secretamente leal aos escoceses.

-Pode ser que, depois de tudo, a causa da Escócia encontre um forte aliado em Bruce -James pensou na carta que guardava segura em seu poder.

Quentin foi dizer algo, mas vacilou e olhou Patrick como se algo lhe preocupasse.

-Há outra coisa mais que deve saber, Jamie - disse. - Os ingleses têm expostos os restos de Wallace.

-Já esperava - disse James em tom inexpressivo. - Onde?

-Sua cabeça está no alto de uma lança sobre a Ponte de Londres, adornada com flores. E seus braços e pernas foram enviados ao norte, ao Newcastle, Tyne, Berwick, Stirling e Perth - respondeu Quentin. - Dizem que em Newcastle... - interrompeu-se e olhou ao Patrick.

-Os ingleses cravaram seu braço direito em cima dos esgotos de Newcastle como um insulto final - explicou Patrick. - Dizem que um dedo assinala o norte, a Escócia, por vontade própria.

James fechou o punho com força, lutando por conter uma onda de cólera e dor.

-Merece descansar em paz - rugiu. - Merece respeito.

-Deveriam pendurar ao rei Eduardo por pulverizar assim seus restos - disse Patrick. - Will merece um enterro como é devido.

-Então lhes ocupe disso - espetou-lhes James amargamente enquanto ficava de pé, sem dar-se conta do que havia dito. A dor e a raiva surgiram outra vez em seu interior, como uma ferida aberta, nublando sua razão e seu julgamento. Sem esperar resposta, abandonou a estadia com passo irado.

Depois de fazer-se noite, sentou-se nas falcoeiras com Gawain posado no punho e começou a lhe murmurar à luz avermelhada que despedia o braseiro. Havia tornado a entrar depois de um longo passeio pelo topo do penhasco, como se o vento tivesse conseguido varrer o que lhe atormentava. Sua cólera se acalmou, mas seu estado de ânimo seguia sendo solitário e taciturno.

Ouviu o Quentin e Patrick descendo da galeria que havia entre as paredes da torre, rindo por alguma brincadeira, e depois passando por diante da porta das falcoeiras para ir procurar seus pertences em outras celas. Não percebeu som algum procedente da pequena câmara de Isobel; a moça devia ter deitado mais cedo, pois não a tinha visto desde que se foi da cozinha.

Gawain permanecia tranqüilamente posado no punho, olhando fixamente a James com os olhos muito abertos e brilhantes. Esponjou as plumas e se sustentou sobre uma só pata. Parecia parvo, mas contente.

Por sua parte, James estava muito longe de sentir-se contente. Passou a mão pelo cabelo em um gesto rude e deixou escapar um profundo suspiro, sobressaltando ao terzuelo, que chiou e plantou a pata direita. As notícias da nova humilhação à memória de Wallace lhe tinham transtornado profundamente.

Durante toda a tarde, sua mente não cessou em dar voltas em um torvelinho de raiva e remorso; contra os ingleses por sua brutalidade e falta de respeito; contra Will por sua teimosia e sua implacável perseguição aos ingleses apesar do ódio cada vez maior que o rei Eduardo sentia por ele. Mas por cima de tudo, James estava furioso consigo mesmo. Sentia-se em parte responsável por cada um dos aspectos daquela tragédia. Isobel tinha ajudado a suavizar um pouco aquele sentimento de culpa, mas lamentava profundamente ter conduzido os ingleses até Will. Tinha uma dívida com Wallace que jamais poderia pagar.

Havia outra pena que lhe rasgava as vísceras sem piedade, igual ao azor rasgava os pedaços de carne que comia: Tinha atirado um duro golpe a Isobel, fazendo dano a si mesmo também, ao rechaçá-la tão abertamente esse mesmo dia. Mas é que queria protegê-la; queria que tivesse um lar e uma oportunidade de ter paz em sua vida. Por muito que desprezasse Leslie, aquele cavalheiro poderia proporcionar a Isobel o que a um proscrito dos bosques lhe resultaria impossível. E estava seguro de que Leslie jamais lhe faria mal, porque valorizava muito seu dom da profecia.

Mas Isobel estaria sozinha. E ele também.

Ergueu-se e ficou em pé de repente, não podendo evitar a verdade: queria Isobel para si. Depositou o azor em um cabide próximo, tirou a luva e deu a volta.

Seu plano original era o mais sensato, mas não o tinha seguido. Deveria ter raptado à profetisa sem revelar uma palavra de quais eram suas intenções; deveria havê-la retido em silêncio, e havê-la trocado em silêncio, e haver-se saído com a sua. Mas não tinha feito nada daquilo, e agora tinha perdido o coração no trato.

Saiu das falcoeiras e se dirigiu a sua câmara. Ao aproximar-se da cama, a lembrança de ter amado ali Isobel com tanta ternura, tão recentemente, o fez dar a volta. Isobel dormia na cela contígua, percebia uns roncos suaves e regulares. Seguro que tinha a cabeça inclinada para o lado contrário, pensou. Assim não poderia dormir tranquilamente, nem ele tampouco, com aquele constante aviso de sua presença a poucos passos dali.

A cortina que separava as duas câmaras não era mais que uma capa pendurada torcida. Apartou-a a um lado e foi até a cama. Ajoelhou-se e tomou com suavidade a cara de Isobel para lhe mover a cabeça e assim apagar os roncos. Sentiu a bochecha cálida e suave sob seus dedos. E seu rosto, inclinado para o resplendor da lua, era bastante formoso para lhe romper o coração.

O intenso desejo que surgiu no mais fundo de si nesse momento nasceu de seu coração, que despertava à vida, mais que de seu corpo. Aquela forte sensação lhe turvou; não estava acostumado a necessitar a ninguém.

A profetisa havia dito que o senhor do vento seria capturado. Isso já tinha acontecido, pensou, durante o assédio do Aberlady. Tinha sido capturado pela mão suave de uma moça de grande talento, e acabava de dar-se conta de até que ponto tinha sido derrotado.

Incapaz de conter-se, apoiou ligeiramente os lábios em sua boca, branda e dolorosamente doce sob a sua. Temeroso de despertá-la, e temeroso também de ficar com ela, apressou-se em levantar. Em seguida cruzou as sombras em silêncio e apartou a um lado a cortina.

Sua cama estava dura e fria quando se estendeu sobre ela, e não se esquentou quando ficou dormido.

 

A pálida luz da alvorada perfurava o frio e a escuridão enquanto Isobel e os outros avançavam por um atalho de terra que serpenteava entre as árvores. O percurso do penhasco até internar-se no bosque tinha transcorrido em silêncio e sem interrupção, com o James à cabeça do grupo, seguido de Isobel e depois Quentin e Patrick. Ninguém pronunciou uma palavra, e nenhum deles se deteve nem freou a marcha enquanto desciam da pedra, cruzavam o rio e se encaminhavam pelas colinas em direção ao bosque.

Por fim, à Isobel falhou o passo quando se aproximavam de seu destino. Sentiu a imperiosa necessidade de retornar correndo à segurança e o refúgio daquele penhasco alto e sinistro que se erguia a suas costas, mas continuou andando sem protestar, sabendo que sua entrevista com o padre Hugh era um elo essencial da cadeia que permitiria James recuperar Margaret.

O azor viajava em silencio sobre o punho de Isobel, seguindo a James. No broch, quando se juntaram todos para irem, James tinha mencionado que Gawain talvez voltasse para um estado semi-selvajem se passasse um dia inteiro a sós nas falcoeiras. Quando ela pediu levar o terzuelo em seu punho James acessou a contra gosto. O agudo olhar do azor girava a um lado e a outro. Isobel se alegrou de que James o houvesse abarrotado bem de comida antes de partir, com o fim de estimular a complacência naquele mal-humorado pássaro. Murmurou-lhe umas palavras em voz baixa, e ele a olhou sem piscar. Seus penetrantes olhos redondos pareciam luminosos na penumbra.

James se voltou para ela, com um olhar tão penetrante e receoso como o do azor, e a seguir se virou de novo, seguindo o caminho com largas passadas. O punho de sua espada reluzia, sua folha escondida na capa que tinha atada às costas. Na mão levava o arco, no cinturão uma aljava cheia de flechas, e sobre sua túnica vestia um colete de couro. Cobria a cabeça com um estreito capuz de cota de malha que refletia a pálida claridade do amanhecer. Estava preparado para a batalha, igual à Quentin e Patrick. Isobel ouvia ranger o couro e o metal que também levavam eles. Agradecida por contar com um guarda tão forte e leal, sentiu medo ao pensar que talvez tivessem que lutar por ela. Não sabia o que lhe proporcionaria o futuro.

Lamentou que seu dom só lhe proporcionasse visões concretas, em lugar de lhe revelar o que queria saber de sua vida. Mas James tinha concedido escasso crédito à predição de que lhe aguardava um perigo. Lançou um suspiro, contemplando suas poderosas costas e o temível brilho das armas que levava. O sigilo de seu avanço não fez nada a não ser aumentar sua inquietação.

Ao final de um momento apareceu uma clareira entre as árvores, frente a eles. James levantou o braço como sinal para que os outros se detivessem.

-Não vejo nenhum padre - disse, depois de esquadrinhar atentamente a clareira. - Mas outros nos estão esperando.

Isobel estirou o pescoço para ver por cima dele, e Quentin e Patrick foram para seu lado. Em meio da fria luz do amanhecer, viram várias pessoas de pé como sombras junto à casa de Alice.

-Vamos - disse James.

-Mas o padre Hugh disse que devíamos reunirmos a sós - disse Isobel, apressando-se a lhe seguir.

-Provavelmente, Alice decidiu que seis homens te rodeando e o sacerdote é como estar a sós. E eu estou de acordo com ela - acrescentou asperamente.

Quando Isobel penetrou na clareira, viu que Alice estava de pé no pátio frente à casa, com o Eustace, Henry Wood e Geordie Shaw a seu redor. Alice voltou a vista para o grupo que penetrava na clareira, e pôs-se a correr para frente. Logo Isobel se viu apanhada em um abraço tão quente e forte que fez que lhe saltassem as lágrimas de improviso. Alice cruzou umas palavras com ela carinhosamente e logo se voltou para abraçar James. Em meio a tudo isso, Gawain se enfureceu de novo, molesto por aquele barulho de pessoas, caras e vozes. James ajudou Isobel a acalmar o rapaz enquanto outros se saudavam entre si e falavam em voz baixa. Isobel se voltou para Eustace, que estava junto a ela. Lançou uma leve exclamação de alegria e lhe apertou a mão, sorrindo ao ver seus escuros olhos castanhos, tão agradavelmente familiares. Não lhe tinha visto desde dia da escaramuça no bosque, quando seu cavalo se disparou levando-a em cima.

-Eustace, tem bom aspecto - disse-lhe, e lhe deu um beijo na áspera bochecha. -Estou muito contente de ver-te.

-Isobel, pequena - disse ele sorrindo. - A vida de bandido dos bosques te sentou bem. Não vi essas rosas em suas bochechas nem esse intenso brilho em seus olhos desde que era uma preciosa garotinha.

Isobel sentiu que se ruborizava, e ao olhar para tr&