Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SERVO DOS OSSOS / Anne Rice
O SERVO DOS OSSOS / Anne Rice

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SERVO DOS OSSOS

 

Assassinada. Seus cabelos eram negros assim como seus olhos.

Aconteceu na Quinta Avenida, o assassinato, dentro de uma elegante loja de roupas, no meio do burburinho. Histeria quando ela caiu... talvez.

Eu vi tudo sem som na tela da televisão. Esther. Eu a conhecia. Sim, Esther Belkin. Ela fora minha colega de classe. Esther. Rica e linda de se ver.

Seu pai. Ele era o chefe de uma igreja universal. Chavões da Nova Era e camisetas. E os Belkin tinham todo o dinheiro que um ser humano poderia desejar ou sonhar, e agora Esther, a doce Esther, aquela flor de moça que sempre fazia as suas perguntas tão timidamente — estava morta.

No noticiário, “ao vivo”, acho que a vi morrer. Eu estava lendo um livro, sem prestar muita atenção. O noticiário prosseguiu em silêncio, misturando estrelas de cinema e cenas de guerra. Ele formava reflexos extravagantes nas paredes do aposento. Os movimentos e brilhos de uma televisão que não está sendo assistida por ninguém. Eu continuei a ler depois que ela morreu “ao vivo”.

De vez em quando, nos dias que se seguiram, eu pensei nela. Alguns horrores seguiram-se à sua morte, relacionados ao pai dela e sua igreja eletrônica. Mais sangue derramado.

Eu jamais conheci o pai. Seus seguidores tinham sido detritos jogados nas esquinas.

Mas eu me lembrava muito bem de Esther. Ela queria saber tudo, uma dessas pessoas agradáveis, humildes, sempre escutando, e doce, sim, muito doce. Eu me lembrava dela. Claro. Que ironia, aquela garota que parecia uma corça, assassinada, e depois a tragédia das loucuras do seu pai.

Eu nunca tentei compreender a história toda.

Eu me esqueci dela. Esqueci que ela foi assassinada. Esqueci do pai dela. Acho que esqueci que algum dia ela estivera viva.

Houve notícias atrás de notícias.

Estava na hora de parar de dar aulas por algum tempo.

Eu parti para escrever o meu livro. Fui para as montanhas. Fui para a neve. Eu não tinha nem mesmo feito uma oração em memória de Esther, mas eu sou um historiador e não um rezador.

Nas montanhas, eu soube de tudo. A morte dela veio atrás de mim, vívida e carregada de sentido, através das palavras de outro.

 

 

OS OSSOS DA DOR

 

Dourados são os ossos da dor.

Seu brilho não tem para onde ir.

Ele submerge,

Perfura a neve.

 

As lágrimas dos pais que bebemos

O leite materno e o corpo putrefato afinal

Podemos sonhar mas não pensar.

Dourados ossos enfeitam as bordas.

 

Prata cobre seda dourada.

A dor é água ferida por leite.

Ataque cardíaco, assassino, câncer.

Quem iria imaginar que esses ossos fossem tão bons dançarinos.

 

Dourados são os ossos da dor.

Esqueleto sustenta esqueleto.

Palavras de fantasmas não são para entender.

Ignorância é o que há para aprender.

 

Esta é a história de Azriel do modo como ele me contou, como me pediu para dar testemunho dela e registrar suas palavras. Podem me chamar de Jonathan como ele. Foi este o nome que ele escolheu na noite em que apareceu na minha porta e salvou a minha vida.

Com toda a certeza, se ele não tivesse vindo atrás de um escriba, eu estaria morto antes do amanhecer.

Permitam-me explicar que eu sou bem conhecido nos campos da história, da arqueologia, da cultura suméria. E Jonathan é realmente um dos nomes que me foram dados ao nascer, mas vocês não o encontrarão na lombada dos meus livros, que os alunos lêem porque são obrigados ou porque amam os mistérios da antigüidade tanto quanto eu.

Azriel sabia disto — o estudioso, o professor que eu era — quando veio me procurar.

Jonathan era um nome especial para mim com o qual nós concordamos. Ele o escolheu de uma série de três nomes nas páginas de direitos autorais dos meus livros. E eu tinha reagido a ele. Passou a ser o meu nome para ele durante todas aquelas horas em que ele contou a sua história — uma história que eu jamais publicaria com o meu nome profissional, sabendo muito bem, assim como ele, que esta história jamais seria aceita ao lado das minhas.

Então eu sou Jonathan; eu sou o escriba; eu conto a história da forma que Azriel a contou. Não importa realmente para ele que nome eu uso com vocês. A única coisa que importava era que alguém escrevesse o que ele tinha a dizer. O Livro de Azriel foi ditado para Jonathan.

Ele não sabia quem eu era; conhecia as minhas obras e as havia lido atentamente antes de vir me procurar. Conhecia a minha reputação acadêmica, e algo no meu estilo e visão o havia atraído. Talvez ele aprovasse o fato de que, apesar de ter atingido a venerável idade de sessenta e cinco anos, eu ainda escrevesse e trabalhasse noite e dia como um jovem, sem a menor intenção de me aposentar da escola onde ensinava, embora de vez em quando tivesse que me afastar completamente dela.

Então não foi por acaso que ele escalou a íngreme encosta da montanha, sob a neve, a pé, carregando apenas uma revista torcida na mão, sua figura alta protegida por uma massa espessa de cabelos negros e crespos que desciam bem abaixo dos seus ombros — um manto verdadeiramente protetor para a cabeça e o pescoço de um homem — e um desses casacos de inverno grossos e vistosos que só os muito altos e os de coração romântico sabem usar com naturalidade ou com uma indiferença charmosa.

Sob a luz do fogo, ele deu a impressão de ser um jovem simpático, com grandes olhos negros e sobrancelhas grossas, um nariz pequeno e grosso, e uma boca larga e querúbica, o cabelo salpicado de neve, o vento sacudindo loucamente seu casaco quando ele entrou de supetão, fazendo os meus preciosos papéis voarem em todas as direções.

De vez em quando o casaco ficava grande demais para ele. Sua aparência mudava completamente para se parecer com o homem na capa da revista que ele tinha trazido com ele.

Foi este milagre que eu vi logo no início, antes de saber quem ele era, ou que eu iria sobreviver, que a febre tinha cedido.

Compreendam que eu não sou nem louco nem excêntrico por natureza, e nunca fui autodestrutivo. Eu não fui para as montanhas para morrer. Parecera-me uma ótima idéia buscar a solidão absoluta da minha casa no norte, sem ligação alguma com o mundo, fosse por telefone, fax, televisão ou eletricidade. Eu tinha um livro para terminar que me tomara quase dez anos e era neste exílio auto-imposto que eu pretendia terminá-lo.

A casa é minha, e estava, como sempre, bem abastecida, com bastante água mineral para beber, e óleo e querosene para os lampiões, caixotes de velas e pilhas de todos os tamanhos possíveis para o pequeno gravador que eu uso e para os computadores laptop em que trabalho, e um enorme depósito cheio de madeira seca para acender o fogo durante toda a minha estada.

Eu tinha os poucos recursos médicos que um homem pode carregar numa caixa de metal. Tinha a comida simples que costumo comer e que posso cozinhar no fogo: arroz, angu de milho, latas e latas de caldo de galinha sem sal, e também algumas caixas de maçãs que dariam para passar o inverno. Eu tinha comprado também um ou dois sacos de inhames, ao descobrir que podia enrolá-los em papel laminado e assá-los na lareira.

Eu gostava da cor laranja brilhante dos inhames. E por favor, saibam que eu não tinha orgulho desta dieta, nem estava tentando escrever um artigo de revista sobre ela. Estou simplesmente cansado de comida temperada; cansado dos restaurantes chiques e lotados de Nova York e de bufês enfeitados e até das refeições maravilhosas que meus colegas geralmente me oferecem todas as semanas em suas próprias casas. Estou simplesmente tentando explicar. Eu queria combustível para o corpo e para a mente.

Comprei o que precisava para poder escrever em paz. Não havia nada de tão estranho assim nisso.

O lugar já estava cheio de livros, suas velhas paredes de madeira isoladas e depois cobertas de estantes até o teto. Havia lá uma duplicata de cada texto importante que eu costumava consultar em casa, e os poucos livros de poesia que costumo ler para me deliciar.

Meus computadores de reserva, todos pequenos e muito potentes, além de toda compreensão que eu jamais espero ter acerca de drives, bytes, megabytes de memória, ou chips 486, tinham sido entregues com antecedência, junto com uma quantidade absurda de disquetes para fazer o “backup”, ou cópia, do meu trabalho. A verdade é que eu escrevo a maior parte do tempo à mão, em blocos amarelos. Eu tinha caixas de canetas, do tipo ponta bem fina e tinta preta.

Estava tudo perfeito.

E devo acrescentar aqui que o mundo que eu tinha deixado para trás parecia só um pouco mais louco do que habitualmente.

O noticiário só falava de um lúgubre julgamento na Costa Leste que tinha a ver com um famoso atleta acusado de cortar a garganta da mulher, um divertimento por excelência que tomara conta dos programas de entrevistas, dos noticiários e até daquela ligação com o mundo, monótona, ingênua e infantil, que se autodenomina E! Entretenimento.

Em Oklahoma City, um prédio pertencente ao governo federal tinha sido destruído por uma bomba — não por terroristas estrangeiros, ao que parecia, mas pelos próprios americanos, membros da milícia como eram chamados, que tinham decidido, do mesmo modo que os hippies anos antes, que o nosso governo era um perigoso inimigo. Enquanto os hippies e os que protestavam contra a guerra do Vietnã tinham simplesmente deitado nos trilhos das estradas de ferro e cantado em fileiras, esses novos militantes — cheios de fantasias de desgraça iminente — matavam o seu próprio povo. Às centenas.

E havia os conflitos no exterior, que tinham se transformado em verdadeiros circos. Não se passava um dia em que não fôssemos lembrados das atrocidades cometidas entre os bósnios e os sérvios nos Bálcãs — uma região que vivia em guerra por um motivo ou por outro há séculos. Eu tinha perdido a pista de quem era muçulmano, cristão, aliado russo ou amigo. A cidade de Sarajevo se tornara há anos uma palavra familiar para todos os americanos que assistiam à televisão. Nas ruas de Sarajevo as pessoas morriam diariamente, inclusive homens que eles chamavam de forças de paz das Nações Unidas.

Nos países africanos, as pessoas morriam de inanição em conseqüência da guerra civil e da fome. Novas levas de bebês africanos desnutridos, com as barrigas inchadas e os rostos cobertos de moscas, eram uma visão noturna tão comum quanto um comercial de cerveja na televisão.

Judeus e árabes lutavam nas ruas de Jerusalém. Bombas explodiam; os exércitos atiravam nos manifestantes; e terroristas trucidavam pessoas inocentes para reforçar suas reivindicações.

Na Ucrânia, remanescentes de uma União Soviética derrotada lutavam contra o pessoal que morava nas montanhas, que jamais se havia rendido a nenhuma potência estrangeira. Pessoas morriam na neve e no frio por razões quase inexplicáveis.

Em suma, havia dezenas de lugares devastados pela dor onde lutar, morrer, filmar, enquanto os parlamentos do mundo tentavam em vão encontrar respostas sem balas. A década era um festival de guerras.

Depois houve a morte de Esther Belkin seguida do escândalo do Templo da Mente. Foram encontrados esconderijos de armas nos prédios do Templo desde New Jersey até a Líbia. Explosivos e gases venenosos tinham sido estocados nos hospitais pertencentes ao Templo. O grande mentor desta popular igreja internacional — Gregory Belkin — estava louco.

Antes de Gregory Belkin, tinha havido outros loucos com sonhos grandiosos, talvez, mas com menos recursos. Jim Jones e seu Templo do Povo cometendo suicídio em massa nas florestas da Guiana; David Koresh, que acreditava ser o Cristo, morrendo debaixo de um tiroteio no Texas.

Um líder religioso japonês tinha sido recentemente acusado de matar gente inocente no metrô do seu país.

Uma igreja com o lindo nome de Templo Solar tinha, há pouco tempo, encenado um suicídio em massa coordenado em três lugares diferentes na Suíça e no Canadá.

Um popular animador de programa de auditório ensinou aos seus espectadores como eles poderiam assassinar o presidente dos Estados Unidos.

Um vírus fatal tinha surgido recentemente com uma fúria espantosa em um país africano, e depois desaparecido, deixando todos os seres pensantes com um interesse renovado na velha obsessão: que o fim do mundo poderia estar próximo. Aparentemente, havia mais de três espécies deste vírus, e numerosos outros igualmente mortais espreitando nas florestas tropicais do mundo.

Uma centena de outras histórias surreais compunham o noticiário de cada dia, e a inevitável conversa civilizada de cada dia.

Então eu fugi disto também, como de todo o resto. Fugi em busca da solidão, da brancura da neve, da brutal indiferença das árvores gigantescas e das pequeninas estrelas de inverno.

O meu próprio jipe tinha me levado através das “florestas de meias de couro”, como às vezes ainda são chamadas, em homenagem a James Fenimore Cooper, para preparar minhas barricadas contra o inverno. Havia um telefone no jipe com o qual se podia, com bastante perseverança, falar com o resto do mundo. Eu quis arrancá-lo, mas a verdade é que não sou muito jeitoso e não consegui soltar o aparelho sem risco de danificar o carro.

Então, como podem ver, eu não sou um idiota, sou só um pesquisador. Eu tinha um plano. Estava preparado para a neve que viria, e para os ventos assoviando na chaminé de metal sobre a lareira redonda. O cheiro dos meus livros, da madeira queimando, da própria neve girando, às vezes, em partículas mínimas, sobre as chamas, essas coisas que eu amava e precisava de vez em quando. E durante muitos invernos antes deste a casa já havia me dado exatamente o que eu queria dela.

A noite começou como qualquer outra. A febre me pegou inteiramente de surpresa, e eu me lembro de ter preparado o fogo bem alto na lareira porque não queria ser obrigado a cuidar dele. Não sei quando foi que bebi toda a água que havia ao lado da cama. Eu não devia estar totalmente consciente então. Eu sei que fui até a porta, que eu mesmo a destranquei e que depois não consegui fechá-la; até aí eu me lembro. Eu devia estar tentando chegar até o jipe.

Fechar a porta foi simplesmente impossível. Eu fiquei um longo tempo deitado na neve antes de me arrastar de volta para dentro, e para longe da boca do inverno, ou assim eu pensei. Eu me lembro destas coisas porque me lembro de saber naquela hora que eu estava correndo um grave perigo. A longa viagem de volta até a cama, a longa viagem de volta para o calor do fogo, me deixou exausto. Sob a pilha de colchas e cobertores de lã, eu me escondi do furacão que invadia a minha casa. E eu sabia que se não clareasse a cabeça, se não me recuperasse de alguma forma, o inverno simplesmente entraria e poria o fogo para dormir para sempre e me levaria também.

Deitado de costas, as cobertas puxadas até o queixo, eu suava e tremia. Vi os flocos de neve voarem sob as vigas do teto. Vi a pirâmide de lenha pegando fogo. Senti o cheiro de panela queimada quando a sopa ferveu até secar. Vi a neve cobrindo a minha escrivaninha.

Planejei me levantar, depois adormeci. Sonhei aqueles sonhos sem pé nem cabeça que a febre provoca, depois acordei assustado, sentei na cama, caí deitado e tornei a sonhar. As velas tinham apagado, mas o fogo ainda queimava, e a neve agora enchia o quarto, cobrindo minha escrivaninha, minha cadeira, talvez a própria cama. Eu lambi neve dos meus lábios uma vez, disto eu me recordo, e o gosto era bom, e de vez em quando eu lambia a neve derretida que conseguia juntar com as mãos. Minha sede era terrível. Melhor sonhar do que senti-la.

Devia ser meia-noite quando Azriel chegou.

Será que ele escolheu esta hora por seu sentido dramático? Ao contrário. Bem longe dali, caminhando no meio da neve e do vento, ele tinha visto o fogo bem no alto da montanha, centelhas saindo da chaminé e uma luz que piscava pela porta aberta. Ele tinha apertado o passo em direção a esses sinais luminosos.

A minha era a única casa que havia por ali e ele sabia disto. Ele ficara sabendo pelas observações cuidadosas daqueles que haviam dito oficial e delicadamente a ele que eu não poderia ser contactado nos próximos meses, que eu tinha ido para o meu esconderijo.

Eu o vi assim que ele surgiu na porta. Vi o brilho da massa de cabelos negros e o fogo em seus olhos. Vi a força e a rapidez com que ele fechou e trancou a porta e se dirigiu para onde eu estava.

Acho que eu disse: — Eu vou morrer.

— Não vai não, Jonathan — ele respondeu. Ele trouxe imediatamente a garrafa de água e ergueu minha cabeça. Eu bebi sem parar e minha febre bebeu e eu o abençoei.

— É apenas uma gentileza, Jonathan — ele disse com simplicidade.

Eu cochilei enquanto ele tornava a acender o fogo, limpava a neve, e eu me lembro muito bem de vê-lo juntando meus papéis por toda parte, com muito cuidado, e se ajoelhando ao lado da lareira para estendê-los para secar e assim salvar parte do que estava escrito.

— Este é o seu trabalho, o seu precioso trabalho — ele disse ao ver que eu o estava observando.

Ele tinha tirado o enorme casaco de inverno. Estava em mangas de camisa, o que significava que estávamos a salvo. Senti o cheiro da sopa cozinhando de novo, o caldo de galinha borbulhando. Ele me trouxe a sopa numa tigela de cerâmica — o tipo de coisa rústica que eu escolhi para este lugar — e disse para eu tomar a sopa, e eu tomei.

Realmente, foi por meio de água e sopa que ele me trouxe lentamente de volta. Nem uma vez eu tive a presença de espírito de mencionar os poucos remédios que estavam na caixa branca de primeiros-socorros. Ele banhou meu rosto com água fria.

Ele me banhou todo, devagar e pacientemente, virando-me delicadamente e colocando lençóis limpos sob mim. — A sopa — ele disse — não, a sopa, você precisa. — E a água. A água que ele me dava constantemente.

Ele tinha perguntado se havia o suficiente para ele. Eu quase ri.

— É claro, meu amigo, pelo amor de Deus, pegue o que quiser.

E ele bebeu a água em grandes goles, dizendo que era tudo o que precisava agora, que mais uma vez a Escadaria do Céu tinha desaparecido e o deixara encalhado.

— Meu nome é Azriel — ele disse, sentando ao lado da cama. — Chamam-me de o Servo dos Ossos, mas eu me tornei um fantasma rebelde, um espírito amargo e sem-vergonha.

Ele desenrolou a revista para que eu visse. Minha cabeça estava lúcida. Eu me ergui na cama, apoiado no luxo divino de travesseiros limpos. Ele não se parecia nada com um fantasma, forte, cheio de vida, a penugem negra nas costas de suas mãos e nos seus braços fazendo com que ele parecesse ainda mais forte e vital.

O rosto de Gregory Belkin olhava fixamente da famosa moldura da capa da revista Time. Gregory Belkin — o pai de Esther — fundador do Templo da Mente. O homem que faria mal a milhões de pessoas.

— Eu matei este homem — ele disse.

Eu me virei para olhar para ele e foi então que vi o milagre pela primeira vez.

Ele quis que eu o visse. Ele o fez para mim.

Ele havia diminuído de tamanho, embora só ligeiramente; sua cabeleira de cachos negros tinha desaparecido; ele usava o corte de cabelo de um homem de negócios moderno; até sua camisa larga se transformara no terno preto mais impecável e adequado, e ele tinha se tornado... diante dos meus próprios olhos... a figura de Gregory Belkin.

— Sim — ele disse. — Esta era a minha aparência no dia em que fiz a minha escolha, abrir mão dos meus poderes para sempre; assumir uma verdadeira carne e um verdadeiro sofrimento. Eu estava igual a Gregory quando atirei nele.

Antes que eu pudesse responder, ele começou a mudar outra vez, a cabeça ficou maior, as feições mais largas, a testa mais forte e mais imponente, a boca de querubim substituiu a linha fina da boca de Belkin. Seus olhos ferozes cresceram sob as sobrancelhas grossas que tendiam a curvar-se quando ele sorria, fazendo com que o sorriso e a imensidão dos olhos parecessem misteriosos e sedutores.

Não era um sorriso feliz. Não havia nem humor nem doçura nele.

— Eu achei que ia ficar com esta aparência para sempre — ele disse, erguendo a revista para que eu pudesse ver. — Achei que ia morrer com esta cara. — Ele suspirou. — O Templo da Mente está em ruínas. As pessoas não vão morrer. As mulheres e crianças não vão tombar na estrada ao cheirar o gás venenoso. Mas eu não morri. Eu sou Azriel de novo.

Eu peguei a mão dele. — Você é um homem vivo — eu disse. — Não sei como você conseguiu ficar igual a Gregory Belkin.

— Não, um homem não, um fantasma — ele disse. — Um fantasma tão forte que pode tomar a forma que tinha quando era vivo; e agora ele não consegue fazê-lo ir embora. Por que Deus fez isto comigo? Eu não sou um ser inocente; eu pequei. Mas por que não posso morrer?

De repente seu rosto abriu-se num sorriso. Ele parecia quase um menino, os cachos escuros emoldurando o seu rosto e sua boca de querubim, bela e larga.

— Talvez Deus tenha me deixado viver para salvá-lo, Jonathan. Talvez tenha sido simplesmente isto. Ele me devolveu o meu velho corpo para que eu pudesse subir esta montanha e contar tudo isto a você, e você teria morrido se eu não tivesse vindo aqui.

— Talvez, Azriel — eu disse.

— Descanse agora — ele disse. — A sua testa já esfriou. Eu vou esperar e vou vigiar, e se de vez em quando você vir eu me transformar naquele homem de novo, é só porque estou tentando medir a dificuldade disto. Nunca foi tão difícil para mim mudar de forma — para o feiticeiro que me invocou dos ossos. Nunca foi tão difícil para mim fazer um truque para enganar os inimigos do meu Mestre ou aqueles a quem ele ia roubar ou enganar.

— Mas agora é difícil ser outra coisa exceto o jovem que eu era quando isto começou. Quando eu acreditei nas mentiras deles. Quando me tornei um fantasma e não o mártir que eles prometeram. Deite-se quieto agora, Jonathan, durma. Seus olhos estão límpidos e seu rosto tem cor.

— Dê-me um pouco mais de sopa — eu disse.

Ele o fez.

— Azriel, eu estaria mesmo morto sem você.

— Sim, esta parte é verdade, não é? Mas eu estava com um pé na Escadaria do Céu, desta vez eu estava lá, estou lhe dizendo, quando fiz esta escolha, e pensei quando tudo terminou, quando o Templo estava destruído, que a Escadaria viria me buscar de novo. Os hassidim são puros e inocentes. Eles são bons. Mas as batalhas eles têm que deixar para monstros como eu.

— Meu Deus — eu disse. — Gregory Belkin. Um plano maluco. Eu me lembro de fragmentos... E havia aquela linda moça — eu disse.

Ele largou a xícara com o caldo de galinha e enxugou o meu rosto e as minhas mãos.

— O nome dela era Esther.

— Sim.

Ele abriu a revista amassada e úmida para eu ver. Ela agora estava bem enrugada porque estava secando no quarto aquecido. Eu vi a famosa fotografia de Esther Belkin, na Quinta Avenida. Eu a vi deitada na maca pouco antes de a colocarem na ambulância, e segundos antes de morrer.

Só que desta vez eu dirigi minha atenção para uma figura que havia na fotografia e que eu já tinha notado antes, sim, na televisão, e nas fotos maiores, de capa, desta mesma cena. Mas até agora eu não tinha prestado atenção direito na figura. Eu vi um jovem ao lado da maca de Esther, com a mão na cabeça, como se estivesse chorando de desespero por ela, um jovem vago e indistinto como todas as outras figuras da famosa fotografia que faziam parte da multidão, exceto por suas lindas sobrancelhas e sua crespa cabeleira negra.

— Esse é você — eu disse. — Azriel, é você aí na fotografia.

Ele estava distraído. Não respondeu. Pôs o dedo na figura de Esther. — Ela morreu ali, Esther, a filha dele.

Eu expliquei que a havia conhecido. O Templo era novo então, e controvertido em vez de sólido e imenso e incansável. Ela tinha sido uma boa aluna, séria e modesta e alerta.

Ele me contemplou por um longo tempo. — Ela era uma moça gentil e doce, não era?

— Sim, muito. Muito diferente do padrasto.

Ele apontou para si mesmo na fotografia.

— Sim, o fantasma, o Servo dos Ossos — ele disse. — Eu estava visível então na minha dor. Nunca saberei quem me chamou. Talvez tenha sido apenas a morte dela, sua beleza sombria e terrível. Eu nunca saberei. Mas você está vendo agora, está sentindo agora, que eu tenho a forma sólida do que antes não passava de vapor. Deus me colocou no meu velho corpo; ele está tornando cada vez mais difícil para mim desaparecer e voltar; tornar-me ar e nada e depois tomar forma. O que vai ser de mim, Jonathan? À medida que vou ficando cada vez mais forte nesta forma aparentemente humana, temo que não consiga morrer. Jamais.

— Azriel, você precisa me contar tudo.

— Tudo? Oh, eu quero contar, Jonathan. Eu quero.

Uma hora depois eu já era capaz de caminhar pela casa sem me sentir tonto. Ele tinha apanhado o meu roupão grosso e os meus chinelos de couro. Algumas horas depois eu senti fome.

Já devia ser de manhã quando adormeci. E quando acordei, no meio da tarde, eu já estava normal, a mente clara, aguçada, e a casa não só estava aquecida pela lareira como ele tinha ainda acendido algumas velas, das grossas, de modo que os cantos tinham uma luz suave, difusa, não invasiva.

— Está bem assim? — ele me perguntou delicadamente.

Eu disse a ele para acender mais algumas. E para acender o lampião de querosene sobre a escrivaninha. Ele fez tudo isso sem problemas. Fósforos não eram nenhum mistério para ele, e nem isqueiros. Ele ergueu o pavio do lampião. Pôs mais duas velas sobre o tampo de pedra da mesa que ficava ao lado da cama.

O quarto, com suas janelas de madeira tão bem fechadas quanto a porta, estava suavemente visível, todo por igual. O vento uivava na chaminé. Mais uma vez um punhado de flocos de neve se dissolveu no calor. A tempestade tinha amainado, mas a neve ainda caía. O inverno nos rodeava.

E ninguém irá aparecer, ninguém irá nos atrapalhar, ninguém irá nos distrair. Eu olhei para ele com um vivo interesse. Eu estava contente. Incomumente contente.

Ensinei a ele como fazer um café cowboy simplesmente jogando os grãos dentro do bule, e bebi um bocado de café, adorando o seu cheiro.

Embora ele quisesse fazê-lo, eu misturei a aveia, mostrando de novo a ele que ela vinha em pacotinhos e que só era preciso ferver água e depois misturar a farinha para se conseguir um mingau grosso e delicioso.

Ele ficou me vendo comer. Disse que não queria nada.

— Por que você não prova um pouco? — eu disse, quase implorando.

— Porque o meu corpo não vai aceitar — ele disse. — Ele não é humano, eu já lhe disse.

Ele se levantou e caminhou devagar até a porta. Eu achei que fosse abri-la para a tempestade e curvei os ombros, pronto para a ventania. Eu nem pensei em pedir a ele para mantê-la fechada. Depois de tudo o que ele fizera, se ele quisesse ver a neve eu não iria impedi-lo.

Mas ele ergueu os braços. E sem que a porta fosse aberta, uma rajada de vento entrou e sua figura empalideceu, pareceu girar por um momento, suas cores e texturas misturadas no meio de um redemoinho, e então desapareceu.

Estarrecido, eu me ergui de onde estava, junto ao fogo. Apertei a tigela de encontro ao peito num gesto infantil de desespero. A ventania passou. Ele não estava em lugar nenhum, e depois, quando o vento voltou a soprar, era quente: como se soprasse de uma fornalha.

Azriel estava em frente à lareira, olhando para mim. A mesma camisa branca, a mesma calça preta. O mesmo peito cabeludo sob o colarinho aberto da camisa.

— Será que eu nunca ficarei nefesh? — ele perguntou. — Isto é, com o corpo e a alma juntos.

Eu conhecia a palavra hebraica. Eu o fiz sentar-se. Ele disse que podia beber água. Disse que todos os fantasmas e espíritos podiam beber água e que eles bebiam as essências de sacrifício e esta era a razão pela qual todos os antigos falavam em libações e incenso, em queimar oferendas e em fumaça subindo dos altares. Ele bebeu a água e esta pareceu relaxá-lo de novo.

Ele se recostou numa das minhas muitas cadeiras de couro, gastas e rachadas, sem notar suas rachaduras e rasgos. Colocou os pés sobre a pedra da lareira e eu vi que seus sapatos ainda estavam úmidos.

Eu terminei minha refeição, lavei a louça e voltei com a fotografia de Esther. Ali naquela lareira redonda, seis pessoas poderiam sentar-se em círculo. Nós estávamos perto um do outro, perto o suficiente, ele de costas para a escrivaninha e, mais atrás, para a porta, e eu de costas para o canto menor, mais quente e mais escuro do quarto, sentado na minha cadeira predileta, de molas quebradas e braços gordos, manchada de vinho e café.

Eu contemplei a foto de Esther. Ela tomava metade da página, e nesta estava a história de sua morte que só tinha sido recontada por causa da queda de Gregory.

— Ele a matou, não foi? — eu disse. — Foi o primeiro assassinato.

— Sim — Azriel respondeu. Eu me admirei por suas sobrancelhas serem tão grossas, bonitas e preocupadas e entretanto sua boca ser tão suave quando ele sorria. — Não havia nenhum duble para morrer no lugar dela. Ele matou sua própria enteada.

— Foi então que eu apareci, sabe — ele continuou. — Foi então que eu saí da escuridão como se tivesse sido chamado pelo mestre feiticeiro, só que não havia nenhum. Eu apareci totalmente formado e caminhando apressadamente por uma rua de Nova York, apenas para testemunhar a morte dela, sua morte cruel, e para matar aqueles que a mataram.

— Os três homens? Os homens que esfaquearam Esther Belkin?

Ele não respondeu. Eu me lembrei. Os homens tinham sido esfaqueados com seus próprios furadores de gelo a um quarteirão e meio da cena do crime. A multidão que havia na Quinta Avenida era tão densa naquele dia que ninguém ligou a morte de três vagabundos com o assassinato daquela linda moça no interior da elegante loja de Henri Bendel. Só no dia seguinte é que os furadores de gelo tinham contado a história sangrenta, o sangue dela nos três, o deles naquele escolhido por alguém para acabar com eles.

— Acho que na época eu achei que era parte do plano dele — eu disse. — Ele disse que ela havia sido morta por terroristas e ele matou aqueles comparsas para poder aumentar ainda mais a mentira.

— Não, aqueles comparsas deveriam fugir, para que ele pudesse aumentar ainda mais a mentira sobre os terroristas. Mas eu fui lá e matei-os. — Ele olhou para mim. — Ela me viu pela janela antes de morrer, pela janela da ambulância que veio para levá-la, e disse meu nome: “Azriel.”

— Então ela invocou você.

— Não, ela não era uma feiticeira; ela não conhecia as palavras. Ela não tinha os Ossos. Eu era o Servo dos Ossos. — Ele tornou a se encostar na cadeira. Calado, contemplando o fogo, os olhos selvagens, as pestanas grossas, os ossos da testa fortes como a linha do queixo.

Após um longo tempo, ele me lançou o sorriso mais alegre e inocente. — Você está bem agora, Jonathan. Está curado da sua febre. — Ele riu.

— Sim — eu disse. Eu me recostei, desfrutando do calor seco do quarto, do cheiro de madeira queimando. Bebi o café até sentir o gosto dos grãos nos dentes, depois coloquei a xícara sobre a pedra redonda da lareira. — Você permite que eu grave o que vai me contar? — eu perguntei.

Seu rosto tornou a brilhar na luz. Com um entusiasmo juvenil, ele se inclinou para a frente na cadeira, as mãos grandes sobre os joelhos. — Você o faria? Você escreveria o que eu vou lhe contar?

— Eu tenho uma máquina — eu disse — que vai se lembrar de cada palavra para nós.

— Oh, sim, eu sei — ele disse. Ele sorriu satisfeito e encostou a cabeça na cadeira. — Você não deve pensar que eu sou um espírito estúpido, Jonathan. O Servo dos Ossos nunca foi isso. Fizeram-me um espírito forte, eu fui criado como o que os caldeus teriam chamado de gênio. Quando apareci, eu sabia tudo o que precisava saber — sobre os tempos, as línguas, as coisas do mundo próximo e distante —, tudo o que preciso saber para servir o meu Mestre.

Eu pedi a ele que esperasse. — Deixe-me ligar o gravador — eu disse.

Foi bom ficar em pé sem que minha cabeça rodasse, sem que meu peito doesse, e vendo que restava muito pouco da perturbação causada pela febre.

Eu preparei dois gravadores, como todo mundo que já perdeu uma história usando um só costuma fazer. Verifiquei as pilhas e se as pedras não estavam quentes demais para elas, coloquei as fitas dentro e depois disse: — Conte-me. — Pressionei os botões de modo que os dois pequenos receptores ficassem bem alertas. — E deixe-me dizer primeiro — eu disse, falando para os microfones agora — que você me parece um homem jovem, de não mais de vinte anos. Você tem o peito cabeludo e cabelo nos braços, escuro e saudável, e sua pele é cor de azeitona, e o cabelo da sua cabeça é brilhante e, segundo creio, deve causar inveja às mulheres.

— Elas gostam de tocar nele — ele disse com um sorriso doce e gentil.

— E eu confio em você — eu disse para ficar registrado. — Eu confio em você. Você salvou minha vida e eu confio em você. E não sei por que deveria confiar. Eu mesmo o vi transformar-se em outro homem. Mais tarde vou achar que foi um sonho. Eu vi você desaparecer e depois voltar. Mais tarde não vou acreditar nisto. Quero que isto fique também registrado, pelo escriba. Jonathan. Agora podemos começar a sua história, Azriel.

— Esqueça este quarto, esqueça este tempo. Comece do início, está bem? Conte-me o que um fantasma sabe, como um fantasma começa, o que um fantasma lembra dos vivos mas não... — Eu parei, deixando as fitas girando. — Já cometi o meu maior erro.

— E qual foi, Jonathan? — ele perguntou.

— Você tem uma história para contar e é você quem deve contá-la.

Ele concordou com a cabeça. — Amável professor — ele disse —, vamos ficar mais próximos. Vamos juntar nossas cadeiras. Vamos aproximar nossos gravadores para podermos falar baixinho. Mas não me importo de começar como você pediu. Eu quero começar assim. Quero que tudo seja conhecido, pelo menos por nós dois.

Fizemos o que ele pediu, juntando os braços de nossas cadeiras. Eu fiz um movimento para apertar-lhe a mão e ele não a retirou; seu aperto de mão foi firme e caloroso. E quando ele tornou a sorrir, a inclinação de suas sobrancelhas deu-lhe um ar quase brincalhão. Mas aquele era simplesmente o feitio do seu rosto — sobrancelhas que se franzem no meio e depois fazem uma curva delicada para cima a partir do nariz. Elas conferem ao rosto um ar de quem espia de uma posição vantajosa, secreta, e tornam o sorriso mais radiante. Ele tomou um gole de água, um longo gole.

— O fogo está bom para você também? — eu perguntei.

Ele balançou a cabeça afirmativamente. — Mas é muito melhor ainda de ver.

Então ele olhou para mim. — Haverá ocasiões em que eu vou me distrair. Vou falar com você em aramaico ou em hebraico. Às vezes em persa. Posso falar em grego ou em latim. Você deve me trazer de volta para o inglês, deve me trazer de volta rapidamente para o seu idioma.

— Está bem — eu disse. — Mas nunca lamentei tanto como agora a minha falta de conhecimento em línguas. O hebraico eu entenderia, o latim também, mas o persa nunca.

— Não lamente — ele disse. — Talvez você tenha passado esse tempo olhando para as estrelas ou para a neve caindo, ou fazendo amor. Minha língua devia ser a de um fantasma — a língua de você e do seu povo. Um gênio fala o idioma do Mestre a quem ele deve servir e o daqueles no meio dos quais tem que se movimentar para cumprir as ordens do seu Mestre. Eu sou o Mestre aqui. Sei disso agora. Escolhi o seu idioma para nós. Isso é o bastante.

Nós estávamos prontos. Se alguma vez a casa tinha sido mais quente e mais agradável, ou se alguma vez eu tinha apreciado mais a companhia de alguém do que então, não me recordava. Eu só queria estar com ele e falar com ele e sentia uma dor no coração por temer que quando ele terminasse de contar sua história, que quando aquela intimidade entre nós chegasse ao fim, nada seria como antes para mim.

Nada nunca mais foi igual desde então.

Ele começou.

 

Eu não me lembrava de Jerusalém — ele disse. — Eu não nasci lá. Minha mãe foi levada quando era criança por Nabucodonosor, junto com nossa família inteira, e nossa tribo, e eu nasci um hebreu na Babilônia, numa casa rica — cheia de tios e tias e primos — ricos comerciantes, escribas, profetas esporádicos e alguns dançarinos, cantores e pajens da corte.

— É claro. — Ele sorriu. — Todos os dias da minha vida eu chorava por Jerusalém. — Ele sorriu. — Eu cantava a canção: “Se eu a esquecer, oh Jerusalém, que a minha mão direita seque.” E nas orações noturnas nós pedíamos a Deus para levar-nos de volta à nossa terra, assim como nas orações matinais.

— Mas o que estou tentando dizer é que a Babilônia foi toda a minha vida. Aos vinte anos, quando a minha vida sofreu — digamos — a sua primeira grande tragédia, eu conhecia as canções e os deuses da Babilônia tão bem quanto conhecia o hebraico e os salmos de Davi que eu copiava diariamente, ou o livro de Samuel, ou qualquer outro texto que estávamos estudando constantemente em família.

— Era uma vida fantástica. Mas antes de falar mais de mim mesmo, sobre as minhas circunstâncias, por assim dizer, deixe-me falar da Babilônia.

— Deixe-me cantar a canção da Babilônia numa terra estrangeira. Eu não sou agradável aos olhos de Deus ou não estaria aqui, portanto acho que agora posso cantar as canções que quiser, você não acha?

— Eu quero ouvi-la — eu disse solenemente. — Dê-lhe a forma que quiser. Deixe as palavras jorrarem. Você não quer ser cuidadoso com a linguagem, quer? Você está falando com Deus ou está simplesmente contando a sua história?

— Boa pergunta. Estou falando com você para que você conte a história por mim nas minhas palavras. Sim. Eu vou me entusiasmar e gritar e blasfemar quanto quiser. Vou deixar as palavras saírem numa torrente. Elas sempre o fizeram, sabe? Manter Azriel calado era uma obsessão familiar.

Esta era a primeira vez que eu o via rir de verdade, e foi uma risada leve que saiu tão espontaneamente quanto uma respiração, sem nada de forçado ou autoconsciente.

Ele me analisou.

— Minha risada o surpreende, Jonathan? — ele perguntou. — Acho que a risada é um dos traços comuns entre fantasmas, espíritos e mesmo espíritos poderosos como eu. Você já leu os textos dos especialistas? Os fantasmas são famosos pela gargalhada. Os santos riem. Os anjos riem. A risada é um som do paraíso, eu acho. Não sei.

— Talvez você se sinta perto do paraíso quando ri — eu disse.

— Talvez — ele disse. Sua boca de querubim era realmente bonita. Se ela fosse pequena, ele teria cara de bebê. Mas ela não era pequena, e somada às sobrancelhas grossas e negras e aos olhos grandes e vivos, ele tinha uma aparência notável.

Ele parecia estar também me examinando de novo, como se pudesse ler meus pensamentos. — Meu sábio — ele disse —, eu li todos os seus livros. Seus alunos o adoram, não é? Mas suponho que os velhos hassidim estejam chocados com os seus estudos bíblicos.

— Eles me ignoram. Eu não existo para os hassidim — eu disse. — Mas se é que isso tem alguma importância, minha mãe era um hassid, então talvez eu possa compreender um pouco coisas que irão ajudar-nos.

Eu sabia agora que gostava dele, não importa o que tivesse feito, gostava dele por ele mesmo, de certa forma — um jovem de vinte anos, como ele disse, e embora eu estivesse um tanto chumbado por causa da febre, do aparecimento dele, dos seus truques, na verdade eu estava me acostumando com ele.

Ele esperou alguns minutos, obviamente matutando, depois começou a falar:

— Babilônia — ele disse. — Babilônia! Diga o nome de uma cidade que ecoe tão alto e tão longamente quanto Babilônia. Nem mesmo Roma, eu lhe digo. E naquela época não havia Roma. O centro do mundo era a Babilônia. A Babilônia tinha sido construída pelos deuses no seu portão. Babilônia tinha sido a grande cidade de Hamurabi. Os navios do Egito, os Povos do Mar, a população de Dilmun, visitavam as docas da Babilônia. Eu fui um filho feliz da Babilônia.

— Eu vi o que existe hoje no Iraque, fui lá eu mesmo para ver os muros restaurados pelo tirano Saddam Hussein. Eu vi os montes de areia que pontilham o deserto, todos eles cobrindo velhas cidades assírias, babilônias, judaicas.

— E eu entrei no museu de Berlim para chorar à vista do que o seu arqueólogo, Koldeway, recriou da fantástica Porta de Ishtar e do Caminho da Procissão.

— Ah, meu amigo, você não sabe o que era andar naquela rua! O que era olhar para aquelas paredes de tijolos azuis faiscantes, o que era passar pelos dragões dourados de Marduc.

— Mas mesmo que você percorresse todo o comprimento e a largura do velho Caminho da Procissão, teria apenas uma pequena amostra do que era a Babilônia. Todas as nossas ruas eram retas, muitas pavimentadas em pedras calcárias e brecha vermelha. Nós vivíamos num lugar que parecia feito de pedras semipreciosas. Pense numa cidade toda pintada e envernizada nas cores mais bonitas, pense em jardins por toda parte.

— O deus Marduc construiu a Babilônia com suas próprias mãos, conforme nos disseram, e nós acreditamos. Muito cedo eu adquiri os costumes babilônios e você sabe que todo mundo tinha um deus, um deus pessoal para orar, para pedir uma coisa ou outra, e eu escolhi Marduc. O próprio Marduc era o meu deus pessoal.

— Você pode imaginar a confusão quando eu entrei em casa com uma pequena estátua de ouro maciço de Marduc, falando com ela, do jeito que os babilônios faziam. Mas o meu pai apenas riu. Típico do meu pai, do meu lindo e inocente pai.

— E atirando a cabeça para trás, meu pai cantou com sua bela voz “Jeová é o seu Deus, o Deus do seu Pai, do Pai do seu Pai, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó”.

— E na mesma hora um dos meus tios mal-humorados exclamou “E que ídolo é esse na mão dele?”

“Um brinquedo” — meu pai disse. “Deixe-o brincar com ele. Azriel, quando você enjoar de toda essa bobagem supersticiosa dos babilônios, quebre a estátua. Ou então venda-a. Você não pode quebrar o nosso deus, pois o nosso deus não é de ouro e nem de nenhum outro metal precioso. Ele não possui templo. Ele está acima dessas coisas.”

Eu concordei, entrei no meu quarto, que era grande e cheio de almofadas e cortinas de seda, por motivos que explicarei depois, deitei-me e comecei a invocar Marduc para ser meu guardião.

Hoje em dia os americanos fazem isto com o anjo da guarda. Também não sei quantos babilônios levavam isto a sério, esta questão de deus pessoal. Você conhece o velho ditado “Se você planejar com antecedência, um deus o acompanhará”. Bem, o que quer dizer isto?

— Os babilônios — eu disse — eram um povo mais prático do que supersticioso, não eram?

— Jonathan, eles eram exatamente como os americanos são hoje. Eu nunca vi um povo tão parecido com os velhos sumerianos e babilônios do que os americanos de hoje em dia.

— O comércio era tudo, mas todo mundo consultava astrólogos, falava sobre magia e tentava afastar os maus espíritos. As pessoas tinham família, comiam, bebiam, tentavam alcançar o sucesso de qualquer maneira, e no entanto falavam o tempo todo na sorte. Agora os americanos não falam em demônios, não, mas se referem o tempo todo a “pensamento negativo” e “idéias autodestrutivas” e “auto-imagem negativa”. Eram muito parecidas, Babilônia e América, muito parecidas.

— Eu diria que aqui na América encontrei o que há de mais parecido, no bom sentido, com a Babilônia. Nós não éramos escravos dos nossos deuses! Nós não éramos escravos uns dos outros.

O que eu estava dizendo? Marduc, meu deus pessoal. Eu rezava para ele o tempo todo. Fazia oferendas, você sabe, pedacinhos de incenso quando ninguém estava olhando. Colocava um pouquinho de mel e vinho para ele no pequeno santuário que fiz na parede grossa do meu quarto. Ninguém prestava muita atenção.

Mas então Marduc começou a me responder. Não sei ao certo quando Marduc me respondeu pela primeira vez. Acho que eu ainda era bem pequeno. Eu disse algo como “Olha, meus irmãos menores estão impossíveis e meu pai apenas ri como se fosse um deles e eu tenho que fazer tudo por aqui!” E Marduc riu. Como eu disse que os espíritos riem. Depois ele disse algo delicado como “Você conhece o seu pai. Ele fará o que você disser a ele, Grande Irmão”. A voz dele era macia, uma voz de homem. Na verdade, ele só começou a cochichar perguntas no meu ouvido quando eu estava com quase nove anos, e algumas delas não passavam de charadas simples e brincadeiras e gozações sobre Jeová...

Ele nunca se cansava de implicar comigo a respeito de Jeová, o deus que preferia morar numa tenda, e por mais de quarenta anos não conseguiu retirar o seu povo de um pedacinho do deserto. Ele me fazia rir. E embora eu tentasse ser mais respeitoso, tornei-me cada vez mais íntimo dele, e até um tanto atrevido e levado.

— “Por que você não diz essas bobagens para o próprio Jeová, uma vez que você é um deus, eu perguntei a ele. Convide-o para ir ao seu fabuloso templo, cheio de cedros do Líbano e de ouro.” E Marduc respondeu, “O quê? Falar com o seu deus? Ninguém pode contemplar a face do seu deus e continuar vivo! O que você está querendo que aconteça comigo? E se ele me transformar numa coluna de fogo como fez quando tirou vocês do Egito... ho, ho, ho... e destruir o meu templo e eu terminar andando por aí numa tenda?”

Eu nunca pensei realmente nisso até estar com uns onze anos. Foi quando eu soube que nem todo mundo ouvia a voz do seu deus pessoal, e eu também tinha aprendido o seguinte: eu não precisava falar com Marduc para ele começar a falar comigo. Ele podia iniciar a conversa e às vezes nos momentos mais inconvenientes. Ele também tinha idéias brilhantes. “Vamos até o bairro dos oleiros, ou vamos até o mercado”, e nós íamos.

Azriel, permita que eu o interrompa — eu disse. — Quando isso tudo aconteceu, você falava com a pequena estátua de Marduc ou a carregava com você?

— Não, de jeito nenhum, o seu deus pessoal estava sempre com você. O ídolo que você tinha em casa, bem, ele recebia o incenso, sim, acho que se pode dizer que o deus entrava nele para cheirar o incenso. Mas não, Marduc estava simplesmente lá.

— Estupidamente, eu imitei o hábito de outros babilônios de ameaçá-lo às vezes... você sabe, dizendo “Olha, que tipo de deus é você que não consegue me ajudar a encontrar o colar da minha irmã? Assim eu não vou te dar incenso nenhum!” Era assim que os babilônios faziam, sabe, eles brigavam ferozmente com os deuses quando as coisas não davam certo. Eles berravam com seus deuses pessoais: “Quem venera você mais do que eu? Por que você não atende aos meus pedidos? Quem mais oferece tantas libações para você?”

Azriel tornou a rir. Naturalmente, eu estava analisando tudo isso, que não era novidade para mim, como historiador. Mas eu ri também.

Acho que os tempos não mudaram tanto assim — eu disse. — Os católicos são capazes de ficar muito zangados com seus santos quando eles não conseguem resultados. E eu acho que uma vez, em Nápoles, quando um santo local se recusou a realizar um milagre anual, o povo se reuniu na igreja e gritou: “Seu santo porco!” Mas até onde vão essas crenças?

Existe uma aliança aí — Azriel respondeu. — Você sabe, há vários aspectos nesta aliança. Ou melhor dizendo, a aliança é um novelo de muitas linhas. E a verdade é: os deuses precisam de nós! Marduc precisava... — Ele parou de novo. De repente, pareceu totalmente desconsolado. Ele contemplou o fogo.

— Ele precisava de você?

Bem, ele queria a minha companhia — disse Azriel. — Não posso dizer que precisasse de mim. Ele tinha a Babilônia inteira. Mas esses sentimentos, eles são incrivelmente complexos. — Ele olhou para mim. — Onde estão os ossos do seu pai? — ele perguntou.

— Onde quer que os nazistas os tenham enterrado na Polônia — eu disse — ou no vento, caso tenham sido queimados.

Ele pareceu pesaroso ao ouvir isto.

Você sabe que eu estou me referindo à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto, à perseguição aos judeus, não sabe?

Sim, sim, eu sei bastante sobre isso, só que meu coração dói e minha pergunta perde o sentido ao saber que seu pai e sua mãe foram vítimas disso. Eu só queria chamar sua atenção para o fato de que provavelmente você teria superstições acerca dos seus pais, só isso, que você não gostaria de perturbar os ossos deles.

Eu tenho estas superstições — eu disse. — Eu as tenho com relação aos retratos dos meus pais. Não permito que nada aconteça a eles, e quando perco um deles, sinto-me um grande pecador, como se tivesse insultado o meu ancestral e a minha tribo.

Ah — disse Azriel —, era disso que eu estava falando. E quero mostrar-lhe uma coisa. Onde está o meu casaco?

Ele se levantou, pegou o casaco de forro duplo e tirou um pequeno embrulho de plástico de dentro de um bolso interno. — Este plástico, você sabe, eu o amo.

Sim — eu disse, observando-o voltar para perto do fogo, sentar-se na cadeira e abrir o pacote. — Eu diria que o mundo inteiro ama plástico, mas por que você?

Porque ele mantém as coisas limpas e puras — ele disse, olhando para mim, e então me estendeu um retrato que pareceu ser de Gregory Belkin. Mas não era. Este homem tinha a barba comprida, os cachinhos e o chapéu preto de seda dos hassidim. Eu fiquei intrigado.

Ele não explicou o retrato.

— Eu fui feito para destruir — ele disse — e você se lembra, não é, da bela palavra hebraica que vem na frente de tantos dos antigos Salmos, dizendo para a entoarmos de acordo com certa melodia: “Não destrua.”

Eu tive que pensar.

Vamos, Jonathan, você sabe — ele disse.

Altashheth! — eu disse. — Não destrua.

Ele sorriu e seus olhos encheram-se de lágrimas. Com as mãos trêmulas, ele tornou a guardar o retrato e pôs o pacote de plástico sobre o banquinho entre nossas cadeiras, longe o suficiente do fogo para não estragar, e então tornou a contemplar as chamas.

Eu senti uma emoção súbita e avassaladora. Não conseguia falar. Não era só pelo fato de ele ter mencionado meu pai e minha mãe, mortos na Polônia pelos nazistas. Não era só por ele ter-me feito lembrar da louca conspiração de Gregory Belkin, que tinha chegado perigosamente próximo do sucesso; não era só a sua beleza ou o fato de estarmos juntos, ou o fato de eu estar falando com um espírito. Não sei o que era.

Lembrei de Ivan nos Irmãos Karamazov e pensei, Será que este é o meu sonho? Na verdade eu estou morrendo, o quarto está se enchendo de neve, e eu estou morrendo, imaginando que estou falando com este belo jovem de cabelos crespos e negros, como as gravuras nas pedras da Mesopotâmia expostas no Museu Britânico, aqueles reis majestosos, nunca felinos como os faraós, mas com pêlos quase sexuais em seu rosto, pêlo escuro, tão grosso quanto deveria ser o pêlo ao redor dos seus testículos. Eu não sei o que estava acontecendo comigo.

Eu olhei para ele. Ele se virou devagar, e por um instante eu conheci o medo. Foi a primeira vez. Foi o modo como ele moveu a cabeça. Ele se virou para mim, obviamente ouvindo os meus pensamentos, ou lendo minha emoção, ou como quer que se queira dizer, e então eu percebi que ele tinha feito um truque.

Ele estava vestido de forma diferente. Usava uma túnica macia de veludo vermelho, amarrada na cintura, e calças de veludo vermelho largas e chinelos.

— Você não está sonhando, Jonathan Ben Isaac, eu estou aqui.

O fogo soltou uma incrível quantidade de faíscas. Soltou faíscas como se algo tivesse sido atirado nele.

Eu percebi que mais uma coisa tinha mudado nele. Agora o seu bigode e a sua barba encrespavam-se exatamente como as barbas dos reis e dos soldados naquelas velhas talhas, e eu vi por que Deus lhe havia dado a boca larga de querubim, porque era uma boca que você conseguia enxergar apesar de todo aquele cabelo, uma boca que falava com você, uma boca desenvolvida pela natureza para competir com o cabelo.

Ele estremeceu. Ergueu a mão. Tocou no pêlo e então fechou a cara. — Eu não tive a intenção de fazer isto. Acho que vou desistir. O cabelo quer voltar.

O Senhor Deus quer que você o use assim? — eu perguntei.

Acho que não. Eu não sei!

Como você fez as roupas mudarem? Como você consegue desaparecer?

Não tem nada demais. Um dia a ciência vai ser capaz de controlar isso. Hoje, a ciência sabe tudo sobre átomos e nêutrons. Tudo o que fiz foi jogar fora todas as pequenas partículas, menores que átomos, que havia atraído para mim mesmo, através de uma força magnética se poderia dizer, para formar minhas antigas roupas. Elas não eram roupas de verdade. Eram apenas roupas feitas por um fantasma. E então, para me livrar delas, eu disse, como um feiticeiro diria, “Voltem até que eu torne a chamá-las”. E então eu invoquei novas roupas. Eu disse no meu coração, com a convicção de um feiticeiro:

“Dos vivos e dos mortos, da terra crua e daquilo que é forjado e refinado, tecido e guardado, venha a mim, menor do que grãos de areia, e sem fazer barulho, sem chamar atenção, sem ferir ninguém, o mais rápido possível, ultrapassando qualquer barreira à minha volta, e vista-me de veludo vermelho, roupas macias da cor do rubi. Veja as roupas em minha mente, venha.”

Ele suspirou. — E assim foi feito.

Ele se sentou ficou em silêncio por um momento. Eu estava tão hipnotizado por aquela roupa vermelha e pelo modo como parecia mudá-lo de algum modo, dar-lhe um ar de realeza, que não disse nada. Empurrei outra grossa tora de madeira para a pirâmide de fogo e joguei mais carvão para dentro, tudo isso sem sair do santuário da minha poltrona velha e puída.

Então e só então eu olhei para ele. E nesse instante, quando os olhos dele estavam distantes, eu percebi que ele estava cantando baixinho, tão baixinho que eu tive que me esforçar para ouvir acima do crepitar do fogo.

Ele estava entoando versos em hebraico, mas não no hebraico que eu conhecia. Mas eu conhecia o suficiente para saber o que era: era o Salmo “Os rios da Babilônia”. Quando ele terminou, eu estava maravilhado e mais perturbado do que antes.

Eu imaginei se estaria nevando na Polônia. Imaginei se meus pais teriam sido enterrados ou cremados. Imaginei se ele poderia juntar as cinzas dos meus pais, mas isto pareceu uma terrível blasfêmia.

Era isso que eu queria dizer, que temos superstições — ele disse. — Quando, impensadamente, eu perguntei sobre seus pais, eu queria dizer que você acredita em certas coisas mas não acredita nelas. Você vive numa dupla disposição de ânimo.

Eu refleti.

Ele olhou para mim com deliberação, curvando as sobrancelhas, embora a boca de querubim sorrisse. Era uma expressão respeitosa, sincera. — E eu não posso trazê-los de volta à vida. Não posso fazer isso! — ele disse.

Ele voltou a contemplar as chamas.

Os pais de Gregory Belkin morreram no Holocausto na Europa — ele disse. — E Gregory enlouqueceu. E o irmão dele é um homem santo, um tzadik. E você se tornou um pesquisador, e um professor, com o dom de fazer os alunos compreenderem.

Você me honra — eu disse baixinho. Havia milhares de perguntas zumbindo ao meu redor como abelhas. Eu não ia baratear as coisas.

Continue, Azriel, por favor — eu disse. — Diga-me o que quer dizer. Diga-me o que quer que eu saiba.

Ah, bem, como eu disse, nós éramos os exilados ricos. Você conhece a história. Nabucodonosor entrou em Jerusalém e matou os soldados e encheu as ruas de cadáveres, e deixou para trás um governador babilônio para governar os camponeses que podiam cuidar das nossas propriedades e vinhas e mandar o produto para a Corte. O habitual.

Mas e os homens ricos, os comerciantes, os escribas como os homens da minha família? Nós não fomos mortos. Ele não afiou a sua espada nos nossos pescoços. Nós fomos deportados para a Babilônia com tudo o que pudemos carregar, devo acrescentar, carroças carregadas com nossa bela mobília, que ele permitiu que levássemos embora tivesse saqueado totalmente o nosso templo, e recebemos belas casas para morar, de modo que pudéssemos montar nossas lojas e suprir os mercados da Babilônia e servir ao templo e à Corte.

Isto aconteceu milhares de vezes naqueles séculos. Mesmo os cruéis assírios fariam a mesma coisa. Eles matariam os soldados e depois arrastariam o homem que soubesse escrever em três línguas, e o menino que soubesse esculpir em marfim e foi assim conosco. Os babilônios, eles não foram tão maus quanto outros inimigos teriam sido. Imagine ser arrastado de volta para o Egito. Imagine. Egito, onde as pessoas vivem apenas para morrer, e cantam dia e noite sobre morrer, sobre estar morto, e onde não havia nada além de uma cidade depois da outra e uma plantação depois da outra.

Não, nós não tivemos tanto azar assim.

Aos onze anos, eu já estivera no templo, um pajem, como muitos meninos hebreus ricos, e tinha visto a enorme estátua do próprio Marduc, o deus, no seu santuário no alto do grande zigurate Etemenanki. Eu tinha entrado no santuário interno com os sacerdotes e uma idéia estranha me ocorreu. Aquela estátua grande se parecia mais comigo do que a pequena que eu tinha e que sempre achara bem parecida comigo.

É claro que eu não disse isto alto. Mas quando olhei para o poderoso Marduc, o enorme Marduc de ouro, a estátua em que o deus morava e governava, e que era carregada todo ano na Procissão do Ano-Novo, a estátua sorriu.

Eu era esperto demais para dizer alguma coisa para os sacerdotes. Nós estávamos no processo de preparar o santuário interno para a mulher que viria passar a noite com o deus. Mas os sacerdotes notaram alguma coisa. E eles me viram olhar para Marduc e um deles perguntou, “O que foi que você disse?” e é claro que eu não tinha dito nada. Mas Marduc tinha dito, “Bem, o que você acha da minha casa, Azriel? Eu já estive tantas vezes na sua”.

Daquele momento em diante, os sacerdotes perceberam tudo. No entanto, as coisas poderiam ter sido diferentes. Eu poderia ter tido uma longa vida humana. Eu poderia ter tido um destino diferente. Filhos, filhas. Não sei.

Na hora, eu achei engraçado e maravilhoso, e adorei Marduc por aquele truque. Mas nós continuamos a arrumar o aposento, que era realmente magnífico, coberto de ouro, com o sofá de seda onde a mulher se deitaria para ser possuída pelo deus naquela noite, e então nós saímos, e um dos sacerdotes disse: “O Deus sorriu para você!”

Eu fiquei duro de medo. Não pude responder.

Hebreus ricos, reféns ou deportados como nós, eram tratados muito bem, como eu disse, mas eu não conversava realmente com os sacerdotes, você sabe, como se eles fossem hebreus. Eles eram os sacerdotes dos deuses que éramos proibidos de adorar. Além disso, eu não confiava neles, alguns eram muito estúpidos e outros muito ladinos e espertos. Eu disse simplesmente que também tinha visto o sorriso e que tinha achado que era a luz do sol.

O sacerdote estava tremendo.

Eu me esqueci disto durante anos. Não sei por que me lembrei agora, exceto para dizer que talvez o meu destino tenha sido selado naquele exato momento.

Marduc passou a falar comigo o tempo todo. Eu tinha estado na casa das placas, trabalhando duro, sabe, aprendendo cada texto que possuíamos em sumério de modo a poder copiá-lo, lê-lo, até falá-lo, embora na época ninguém falasse sumério. Ah, preciso contar-lhe uma coisa engraçada que ouvi recentemente aqui neste século vinte. Ouvi em Nova York, logo depois que estava tudo terminado, liquidado, isto é, Gregory Belkin, e eu estava vagando por ali, tentando fazer o meu corpo tomar a forma de outros homens — e ele teimava em voltar à forma original. Eu ouvi essa coisa engraçada...

O quê? — eu perguntei imediatamente.

Que até hoje ninguém sabe de onde vieram os sumérios! Até hoje! Que os sumérios saíram do nada, com sua língua que era diferente de todas as outras, e que eles construíram as primeiras cidades em nossos belos vales. Ninguém sabe mais nada sobre eles, até hoje.

É verdade. Você sabia, na época?

Não — ele disse. — Nós sabíamos o que estava escrito nas placas, que Marduc tinha criado as pessoas do barro e dado vida a elas. Era só o que sabíamos. Mas descobrir dois mil anos depois que não existe mais um registro histórico ou arqueológico da origem dos sumérios — de como sua língua evoluiu e como eles migraram para o vale e tudo isso — é engraçado para mim.

Bem, você não notou que ninguém aqui sabe de onde os judeus vieram também? — eu perguntei. — Ou você vai me dizer que naquela época você sabia com certeza, quando era um garoto babilônio, que Deus chamou Abraão na cidade de Ur e que Jacó lutou mesmo com o anjo?

Ele riu e deu de ombros. — Havia tantas versões dessa história! Se você soubesse. É claro que as pessoas brigavam com os anjos o tempo todo. Isto estava fora de discussão. Mas o que existe hoje nos Livros Sagrados? Vestígios! A história toda de Jeová derrotando o Leviatã sumiu, sumiu! E eu costumava copiar essa história o tempo todo! Mas eu estou me adiantando. Eu quero descrever as coisas em uma certa ordem. Não, eu não estou surpreso em saber que ninguém sabe de onde vieram os judeus. Porque mesmo então havia histórias demais...

Deixe-me contar-lhe sobre a minha casa. Ficava no rico bairro hebreu. Eu já expliquei o que o exílio significava.

Era para sermos cidadãos de qualidade em uma cidade cheia de pessoas de todas as nações. Nós éramos prisioneiros de guerra, postos em liberdade para crescer e multiplicar e produzir riqueza. Na minha época, como você deve saber, Nabucodonosor tinha morrido e nós éramos governados por Nabonide, e ele não se encontrava na cidade e todo mundo o odiava. Simplesmente odiava.

— Ele era considerado louco ou obcecado. Isto é contado no Livro de Daniel, embora ele apareça com o nome errado. E é verdade, nossos profetas tentaram mesmo enlouquecê-lo com suas profecias sobre como ele deveria nos deixar ir para casa. Mas não acho que tenham conseguido muita coisa com ele.

Nabonide tinha idéias secretas próprias. Para começar, ele era um estudioso, um cavador de túmulos, e ele estava determinado a manter a Babilônia em toda a sua glória, sim, mas ele tinha um amor louco pelo deus Sin. Bem. Babilônia era a cidade de Marduc. É claro que havia muitos outros templos e capelas mesmo no templo de Marduc, mas ainda assim, o rei se apaixonar loucamente por outro deus?

E então partir por dez anos, dez anos no deserto, deixando Baltazar como regente, bem, isso fez com que o povo odiasse Nabonide mais ainda. Durante todo o tempo em que Nabonide esteve ausente, o Festival do Ano-Novo não pôde acontecer, e este era o maior festival da Babilônia, em que Marduc toma a mão do rei e caminha pelas ruas com ele! Isso não podia acontecer sem o rei. E os sacerdotes de Marduc, na época em que eu comecei a trabalhar seriamente no templo e no palácio, desprezavam realmente Nabonide. E muitas outras pessoas também.

Para dizer a verdade, eu nunca soube todo o segredo de Nabonide. Se pudéssemos invocá-lo, você sabe, como a Feiticeira de Endor invocou o falecido profeta Samuel, perturbando o sono dele, lembre-se, para que o rei Saul pudesse falar com ele... se pudéssemos invocar Nabonide, talvez ele nos contasse coisas fantásticas. Mas essa não é a minha missão neste momento, tornar-me um necromante ou um feiticeiro, e sim encontrar a Escadaria do Céu, e eu não quero mais saber da névoa e da bruma em que as almas perdidas se arrastam implorando para que alguém invoque um nome.

Além disso, talvez Nabonide tenha ido para a luz. Talvez ele tenha subido as escadas. Ele não dedicou sua vida à crueldade nem ao deboche, mas sim à devoção a um deus que não era o deus da sua cidade, só isso.

Eu só o vi uma vez, e isso foi durante os últimos dias da minha vida, e ele estava completamente envolvido na conspiração, é claro, e me pareceu um homem já morto, um rei cujo tempo tinha passado, e ele parecia também abençoado com uma indiferença em relação à vida. Tudo o que ele queria, naquele último dia em que nos encontramos, ou naquela noite, era que a Babilônia não fosse saqueada. Isso era o que todo mundo queria. Foi assim que eu perdi a minha alma.

Mas muito em breve eu vou chegar a essa parte terrível.

Eu estava falando sobre estar vivo. Eu não ligava a mínima para Nabonide. Nós morávamos no rico bairro hebreu. Ele estava cheio de lindas casas; na época, nós construíamos as paredes com cerca de um metro e oitenta de espessura, o que eu sei que parece maluquice para vocês hoje; mas você não pode imaginar como isto mantinha as nossas casas arejadas; eram casas amplas, com muitas ante-salas e enormes salas de jantar, e todos os cômodos ao redor de um grande pátio central. A casa do meu pai tinha quatro andares de altura e os quartos de madeira que ficavam no alto eram cheios de primos e de tias idosas, e normalmente elas não desciam até o quintal, simplesmente sentavam-se nas janelas que davam para o pátio, tomando ar fresco.

O pátio era o Éden. Era como uma pequena parte dos próprios jardins suspensos, e dos outros jardins públicos que havia por toda a cidade. Ele era grande. Nós tínhamos uma figueira, um salgueiro, duas tamareiras e flores de todos os tipos, parreiras cobriam o caramanchão onde podíamos cear à noite e as fontes inesgotáveis jogavam rios de água cintilante em bacias onde os peixes saltavam como jóias vivas.

Os tijolos eram esmaltados e lindos, e tinham muitas figuras estampadas, sendo que a casa foi construída por alguns sumérios antes que nós, antes que os caldeus chegassem, e era cheia de flores azuis, vermelhas e amarelas, mas havia também um bocado de grama no pátio, e logo adiante o local onde os antepassados estavam enterrados.

Eu cresci brincando no meio das tamareiras e das flores, e eu as amei até... até o dia da minha morte. Eu adorava ficar ali deitado no final da tarde, ouvindo o barulho das fontes e ignorando todos os que viviam me dizendo que eu devia estar no escritório copiando salmos ou algo assim. Eu não era preguiçoso por natureza. Apenas, de certa forma, fazia o que queria. Eu costumava me dar bem. Mas não era mau de forma alguma; de fato, eu era, longe, o mais estudioso da família, pelo menos na minha opinião, e muitas vezes os meus tios, embora não gostassem de admitir isto, me traziam três versões de um Salmo do rei Davi e me perguntavam qual eu julgava mais correta, e então seguiam a minha opinião.

— Nós não tínhamos lugares oficiais para nos reunir para rezar, é claro, porque tínhamos nossos planos grandiosos de ir para casa e construir outra vez o Templo de Salomão; eu quero dizer que ninguém estava interessado em construir um templozinho de segunda classe na Babilônia. O templo teria que ser construído de acordo com as dimensões sagradas, e depois que eu já estava morto e amaldiçoado e que tinha me tornado o Servo dos Ossos, os judeus foram mesmo para casa e construíram esse templo. De fato, eu sei que eles o fizeram porque eu o vi uma vez... uma vez, como numa névoa, mas eu o vi.

Enquanto vivemos na Babilônia, nós nos reuníamos em casas particulares para rezar, e também para os mais velhos lerem as cartas que recebíamos dos rebeldes que ainda estavam escondidos no monte Sião, além das cartas que vinham dos nossos profetas no Egito. Jeremias esteve preso lá durante um longo tempo. Eu não me lembro de ninguém lendo uma carta dele. Mas eu me lembro de uma porção de loucuras escritas por Ezequiel. Ele não as escreveu com o próprio punho. Ele vagava falando e fazendo profecias e então outras pessoas as anotavam.

Mas então nós rezávamos, nas nossas casas, para o nosso invisível e todo-poderoso Jeová — sendo sempre lembrados de que antes de Davi prometer-lhe um templo, Jeová e a Arca da Aliança tinham sido abrigados numa simples tenda, e que isto tinha o seu significado e o seu valor. Muitos dos mais velhos achavam que a idéia do templo era babilônia, você sabe. Voltem para a tenda.

Por outro lado, nossa família, havia nove gerações, era constituída de ricos negociantes, homens da cidade, morando em Nínive antes de Jerusalém, eu acho, e nós não fazíamos idéia direito do que era ser nômade ou carregar santuários em tendas. A história de Moisés não fazia muito sentido para nós. Por exemplo, como o povo pôde ficar tão perdido no deserto durante quarenta anos? Mas, eu estou me repetindo, não estou?... O que é que eu estou dizendo...

Uma tenda para mim era a seda que ficava sobre a minha cama, a luz avermelhada na qual eu me deitava com as mãos sob a cabeça, conversando com Marduc sobre os encontros para orar e ouvindo suas brincadeiras.

Em alguns desses encontros para orar nós tínhamos nossos próprios profetas, cujos livros estão perdidos agora, que faziam um bocado de confusão e gritaria. Freqüentemente apontavam para mim e diziam que eu tinha obtido as graças de Jeová, embora ninguém soubesse ao certo o que isto significava.

Eu acho que de certa forma todos sabiam que eu podia enxergar mais longe do que os outros, contemplar a alma das pessoas, você sabe, ver como um tzadik, um santo, mas eu não era nenhum santo, apenas um jovem barulhento.

Ele parou. A força da lembrança pareceu interrompê-lo e segurá-lo.

— Você era feliz — eu disse. — Por natureza, você era feliz, feliz de verdade.

Oh, sim, eu sabia disso, assim como os meus amigos. De fato, eles sempre implicavam comigo por eu ser tão feliz. As coisas nunca pareciam ser realmente difíceis, sabe? As coisas nunca pareciam ser obscuras! A escuridão veio com a morte, e a pior escuridão para mim foi exatamente antes dela, e talvez... talvez mesmo agora. Mas escuridão. Oh, assumir o mundo da escuridão é como tentar mapear as estrelas do céu.

O que é que eu estava dizendo? As coisas eram fáceis para mim. Eu as apreciava. Por exemplo, para ser educado eu tinha que trabalhar na casa das placas. Eu tinha que receber uma educação babilônia de verdade. Isto era sábio, era para o futuro, para o negócio, para ser um homem ilustrado. E eles nos arrancavam os olhos se chegássemos atrasados ou não aprendêssemos as lições, mas geralmente era fácil para mim.

Eu adorava os antigos sumérios. Adorava escrever as histórias completas de Gilgamesh e “No início...” e copiar todo tipo de registro de modo que placas frescas pudessem ser enviadas a outras cidades na Babilônia. Eu praticamente falava sumério. Eu poderia sentar aqui e escrever a história da minha vida em sumério para você. — Ele parou. — Não, eu não poderia fazer isso. Não poderia porque se eu pudesse ter escrito a história da minha vida, não teria escalado esta montanha cheia de neve para encarregá-lo disto... Eu não posso... Eu não posso... escrever em língua nenhuma. Falar faz a dor fluir...

Eu entendo isso perfeitamente, e estou aqui para ouvir. A questão é, você sabe sumério, consegue ler e consegue traduzir.

Sim, sim, sim, e acádico, a língua que foi usada depois, e o persa que estava se infiltrando entre nós na época, e o grego — eu sabia ler bem e o aramaico que estava tomando o lugar do nosso hebraico na vida diária, mas eu escrevia em hebraico também.

Eu aprendia minhas lições. Eu escrevia depressa. Tinha um jeito de enfiar o buril na argila que fazia todo mundo rir, mas a minha letra era boa. Boa mesmo. E eu também gostava de ficar em pé e ler em voz alta, por isso, sempre que um professor ficava doente, ou era chamado a algum outro lugar, ou precisava de repente tomar um remédio, também conhecido como cerveja, eu me levantava e começava a ler Gilgamesh para todo mundo com uma voz exagerada, fazendo-os rir.

Você conhece o velho mito, sem dúvida. E é importante para a nossa história, por mais estúpido e louco que seja. Aqui está o rei Gilgamesh e ele está correndo como um louco ao redor da sua cidade — em algumas placas ele é um gigante, em outras ele tem o tamanho de um homem. Ele se comporta como um touro. Ele faz os tambores tocarem o tempo todo, o que deixa todo mundo infeliz. Não se deve tocar os tambores a não ser por certas razões — para assustar os espíritos, para chamar para núpcias, você sabe.

— Tudo bem, então temos Gilgamesh destruindo a cidade de Erec. E o que os deuses fazem, sendo deuses sumérios, sendo tão espertos quanto um bando de búfalos — eles criam alguém semelhante a Gilgamesh na forma de um homem selvagem chamado Enkidu, que é coberto de pêlos, mora na floresta e gosta de beber com os animais — oh, é tão importante neste mundo com quem se come e bebe e o quê! — Bem, aqui temos o selvagem Enkidu vindo para o riacho para beber com os animais e ele é domesticado passando sete dias com uma prostituta do templo!

Estúpido, não? Os animais não quiseram mais saber dele depois que ele conheceu a prostituta. Por quê? Será que os animais ficaram com ciúme porque não puderam se deitar com a prostituta? Os animais não copulam com animais? Existem prostitutas animais? Por que copular com uma mulher torna o homem menos que um animal? Bem, a história de Gilgamesh nunca fez nenhum sentido mesmo, exceto como um código bizarro. Tudo é código, não é?

Acho que você tem razão, é código — eu disse — mas código de quê? Continue a me contar a história de Gilgamesh. Conte-me como terminava a sua versão — eu pedi. Eu simplesmente não pude resistir à pergunta. — Você sabe que agora nós só temos fragmentos e não temos o velho manuscrito que você tinha.

Ela terminava da mesma forma que as suas versões modernas. Gilgamesh não conseguiu conformar-se com o fato de que Enkidu podia morrer. Enkidu morreu mesmo, embora eu não me lembre bem por quê. Gilgamesh agiu como se nunca tivesse visto ninguém morrer antes, e ele foi até o imortal que havia sobrevivido à grande inundação. A grande inundação. Sua inundação. Nossa inundação. Inundação de todo mundo. Conosco era Noé e seus filhos. Com eles era um imortal que vivia na terra de Dilmun, no mar. Ele era o grande sobrevivente da inundação. E esse gênio, Gilgamesh, sai atrás dele, em busca da imortalidade. E aquele velho — que seria o hebreu Noé para o nosso povo — diz o quê? “Gilgamesh, se você puder ficar acordado durante sete dias e sete noites, poderá ser imortal.”

E o que acontece? Gilgamesh cai dormindo na mesma hora. Na mesma hora! Não espera nem um dia! Nem uma noite. Ele desabou! Pimba. Caiu dormindo. Então este foi o fim daquele plano, exceto que a viúva imortal do homem imortal que tinha sobrevivido à inundação teve pena dele, então disseram a Gilgamesh que se ele amarrasse algumas pedras nos pés e afundasse no mar, poderia achar uma planta que, depois de comida, proporciona eterna juventude. Bem, eu acho que eles estavam tentando afogar o homem!

Mas a nossa versão, assim como a sua, acompanhou Gilgamesh nesta expedição. Lá se vai ele para o fundo do mar à procura da planta. Depois torna a subir. Aí adormece. Parece que o pior hábito que ele tinha era dormir... e uma cobra chega e leva a planta. Ah, que tristeza para Gilgamesh e então vem o velho conselho para todo mundo:

“Aproveita a vida, enche a barriga de vinho e comida, e aceita a morte. Os deuses guardam a imortalidade para si, a morte é o que cabe ao homem.” Sabe como é, revelações filosóficas profundas.

Eu ri. — Eu gosto do jeito de você contar a história. Quando você ficava em pé na casa das placas, você lia com o mesmo entusiasmo?

Oh, sempre! — ele disse. — Mas mesmo então, o que é que nós tínhamos? Fragmentos de algo antigo. Erec tinha sido construída milhares de anos antes. Talvez houvesse mesmo um rei como aquele. Talvez.

Deixe-me dar logo a minha opinião quanto a isso. A insanidade dos reis é algo comum. De fato, acho que a sanidade nos reis deve ser algo muito raro. Gilgamesh enlouqueceu. Nabonide era maluco. Se você quiser saber, por todas as histórias que já ouvi sobre ele, acho que o faraó era maluco.

E eu compreendo. Compreendo porque vi o rosto de Ciro da Pérsia e o de Nabonide e sei que os reis são solitários, totalmente solitários. Vi o rosto de Gregory Belkin, um rei de direito, e vi o mesmo isolamento e uma terrível fraqueza; não há mãe. não há pai, não há limite para o poder, e a desgraça é a sina dos reis. Vi o rosto de outros reis, mas isto veremos rapidamente mais adiante, porque o que fiz como o diabólico Servo dos Ossos não importa agora, exceto que cada vez que ceifava uma vida humana, eu destruía um universo, não é verdade?

Talvez, ou então você enviava de volta para casa a chama diabólica para ser purificada no grande fogo de Deus.

Ah, isso é lindo — ele me disse. Fiquei envaidecido. Mas será que eu acreditava mesmo nisso?

Bem, vamos continuar com a minha vida — ele disse. — Eu trabalhei na Corte assim que saí da casa das placas, e então o fato de saber ler e escrever foi de importância crucial. Eu conhecia todas as línguas. Examinei muitos documentos estranhos e velhas cartas em sumério e fui útil ao regente, Baltazar. Ninguém ligava muito para Baltazar, como eu disse. Ele não podia promover o Festival de Ano-Novo, ou então os sacerdotes não queriam que ele o fizesse, ou então Marduc se recusava a participar, quem sabe, mas ele não estava destinado a ser amado.

No entanto, não posso dizer que isto tenha criado uma atmosfera ruim no palácio. Era bastante apropriada e é claro que a correspondência era interminável. Choviam cartas dos territórios distantes reclamando de persas estarem na fronteira, ou de egípcios estarem na fronteira, ou das estrelas como eram vistas por vários astrólogos, que previam coisas muito ruins ou muito boas para o rei.

No palácio, eu fiz amizade com os sábios que aconselhavam o rei a respeito de tudo, e gostava de ouvi-los, e compreendi que quando Marduc falava comigo, às vezes os sábios conseguiam ouvi-lo. E também vim a saber que a história do sorriso nunca tinha sido esquecida. Marduc tinha sorrido para Azriel.

Bem, que segredos eu tinha!

Então veja. Estou caminhando para casa. Tenho dezenove anos. Resta-me muito pouco tempo de vida, mas eu não sei disso. Eu disse para Marduc, Como é que os sábios conseguem ouvir o que o senhor diz para mim? Ele disse que aqueles homens, aqueles sábios, eram videntes e feiticeiros assim como alguns dos nossos hebreus, nossos profetas, nossos sábios, embora ninguém quisesse muito admitir isto, e eles tinham o mesmo poder que eu tinha de ouvir os espíritos.

Ele suspirou e me disse em sumério que eu precisava ter muita cautela. “Esses homens conhecem os seus poderes.”

Eu nunca tinha visto Marduc desanimado. Há muito tempo nós tínhamos ultrapassado a fase de eu pedir favores a ele ou pedir que ele pregasse peças nas pessoas, e agora nós conversávamos mais o tempo todo, e ele dizia sempre que via com mais clareza através dos meus olhos. Eu não sabia o que aquilo significava, mas nesse dia, quando ele pareceu desanimado, eu fiquei preocupado.

“Meus poderes!” eu disse sarcasticamente. “Que poderes? Foi o senhor quem sorriu. O senhor é que é o deus!”

Silêncio, mas eu sabia que ele ainda estava lá. Eu sempre podia senti-lo, sentir o seu calor. Eu o ouvia respirar. Você sabe, do jeito que uma pessoa cega sabe que tem alguém perto dela.

Eu cheguei na porta da minha casa e estava me preparando para entrar quando me virei e pela primeira vez pus os olhos nele. Eu vi Marduc. Não a estatueta de ouro que eu tinha no quarto. Não as grandes estátuas do templo. Mas o próprio Marduc.

Ele estava encostado no muro, com os braços cruzados, um dos joelhos dobrado, olhando para mim. Era Marduc. Estava todo coberto de ouro como no santuário, mas vivo, e seu cabelo cacheado e sua barba não pareciam feitos de ouro sólido, como na estátua, mas de ouro vivo. Seus olhos eram mais castanhos do que os meus, isto é, mais claros, com mais amarelo na íris. Ele sorriu para mim.

“Ah, Azriel”, ele disse. “Eu sabia que isto iria acontecer. Eu sabia.” E então ele se aproximou e me beijou nas duas faces. As mãos dele eram extremamente macias. Ele era da minha altura, e eu estava certo, havia uma grande semelhança entre nós, embora suas sobrancelhas fossem um pouco mais altas do que as minhas e sua testa mais lisa, de modo que ele não parecia tão travesso ou feroz por natureza quanto eu.

Eu tive vontade de abraçá-lo. Ele não esperou que eu expressasse este desejo. Ele disse, “Faça isso, mas nesse momento talvez outras pessoas consigam ver-me também”.

Eu o abracei como o meu amigo mais antigo, e o mais querido no mundo junto com meu pai, e foi naquela noite que eu cometi o erro de contar ao meu pai que conversava com o meu deus o tempo todo. Eu jamais deveria ter feito isso. Eu hoje me pergunto o que teria acontecido se não tivesse feito isso.

Eu o interrompi. — Alguém mais o viu, que você saiba?

Sim, na verdade viram. O guardião da nossa casa o viu e quase caiu desmaiado ao ver um homem todo pintado de ouro, e uma das minhas irmãs olhando lá de cima o viu também, e um dos anciãos hebreus o viu de relance e foi correndo me procurar de noite com seu grupo, afirmando ter-me visto com um demônio ou um anjo, não sabia qual dos dois.

Foi aí que o meu pai, meu bem-amado, doce, bondoso pai, disse: “Foi Marduc, deus da Babilônia, que você viu.” E talvez seja por isso que... seja por isso que estejamos aqui agora. Meu pai nunca teve a intenção de me prejudicar. Nunca. Ele nunca quis cometer nenhuma crueldade contra ninguém na vida dele! Nunca teve essa intenção! Ele era... ele era meu irmãozinho.

Deixe-me explicar. Eu pensei muito sobre isso. Eu era o filho mais velho, nascido quando meu pai era jovem, porque a deportação de Jerusalém tinha sido muito dura para o nosso povo e eles se casaram rapidamente para ter filhos.

— Mas meu pai era o bebê da sua família, o pequeno Benjamim amado por todos, e de uma forma ou de outra, na nossa família, eu acabei sendo o irmão mais velho dele, e tratando-o como tal. Como filho mais velho, eu mandava um pouco nele. Ou melhor, nós nos tornamos... nós nos tornamos dois bons amigos.

Meu pai trabalhava duro. Mas nós éramos muito chegados. Bebíamos juntos, íamos juntos às tavernas. Partilhávamos mulheres. E eu contei a ele, bêbado naquela noite, que Marduc falava comigo há anos, e que agora eu o havia visto, e o meu deus pessoal era o grande deus da Babilônia em pessoa.

Foi uma grande bobagem! Que benefício aquilo podia trazer! A princípio ele riu, depois ficou preocupado, depois ficou interessado. Oh, eu jamais deveria ter feito isso. E Marduc soube disso. Ele estava na taverna, mas tão longe de mim que não tinha visibilidade, era nebuloso e dourado como a luz, e só eu podia vê-lo, e ele sacudiu a cabeça negativamente e virou de costas quando eu contei ao meu pai. Mas você sabe, eu amava o meu pai, e estava tão feliz! E queria que ele soubesse. Queria que ele soubesse que eu tinha abraçado o deus!

Idiota!

Deixe-me voltar para o pano de fundo. O primeiro plano de repente ficou quente demais para mim, e me machuca e faz meus olhos arderem.

A família. Eu estava contando a você como éramos. Éramos ricos negociantes e éramos escribas dos nossos Livros Sagrados. Todas as tribos de hebreus na Babilônia eram de uma forma ou de outra escribas dos Livros Sagrados e se ocupavam fazendo cópias deles para suas próprias famílias, mas conosco este era um negócio muito grande porque éramos conhecidos pela rapidez e fidelidade das nossas cópias. E tínhamos uma enorme biblioteca de textos antigos. Acho que eu contei a você que nós tínhamos cerca de vinte e cinco histórias diferentes sobre José e Egito e Moisés e assim por diante, e era sempre motivo de briga definir o que incluir e o que não incluir. Tínhamos tantas histórias de José no Egito que decidimos não dar crédito a todas elas. Eu me pergunto que fim levaram todas essas placas, todos esses pergaminhos. Nós simplesmente não achávamos que todas aquelas histórias fossem verdadeiras. Mas talvez estivéssemos errados. Quem sabe?

Voltando à história da minha vida, sempre que eu deixava o palácio ou a casa das placas ou o mercado, eu ia direto para casa trabalhar a noite inteira nas Escrituras Sagradas, com minhas irmãs e meus primos e tios nos escritórios que tínhamos em casa, que eram grandes aposentos.

Como lhe disse, eu não conseguia ficar calado e entoava os salmos em voz alta enquanto os escrevia, e isso irritava ao meu tio surdo mais do que a qualquer outra pessoa. Não sei por quê. Ele era surdo! E além disso, eu tenho uma boa voz.

Sim, você tem mesmo.

Por que um tio surdo ficaria tão aborrecido? Mas ele sabia que eu estava cantando os salmos não do jeito que cantei aquele para você, mas como se deve cantá-los, com címbalos, dançando, você sabe, com um pouco de exibição, digamos, e ele não ficava satisfeito com isso.

Ele dizia que quando fosse para escrever, nós devíamos escrever, deixando para cantar as canções do Senhor no momento adequado. Eu sacudia os ombros e obedecia, mas costumava criticar o tempo todo. Mas estou dando uma impressão errada. Eu não era realmente mau...

Eu sei o tipo de homem que você é, e que então...

Sim, acho que agora você já sabe, e talvez, se me achasse mau, você teria me atirado na neve.

Ele olhou para mim. Seus olhos não eram ferozes. As sobrancelhas eram baixas e grossas, mas os olhos eram suficientemente grandes para dar-lhe uma aparência bonita. E eu tive a impressão de que ele estava mais caloroso e mais relaxado agora do que antes e me senti atraído por ele e com vontade de ouvir tudo o que dizia.

Mas pensei: Será que eu seria capaz de atirá-lo na neve?

Eu tirei muitas vidas — ele disse, lendo o meu pensamento — mas não faria mal a você, Jonathan Ben Isaac, você sabe disso. Eu não faria mal a um homem como você. Eu matei assassinos. Pelo menos quando voltei a ser eu mesmo, esse foi o meu código de honra. Esse é o meu código de honra agora.

Nos meus primeiros dias como Servo dos Ossos, como o fantasma amargo e zangado a serviço do poderoso feiticeiro, eu matei inocentes porque foi a vontade do meu Mestre e eu achei que tinha que fazê-lo, achei que o homem que tinha me invocado podia controlar-me, e fiz o que ele ordenou, até o momento em que percebi que não precisava ser um escravo para sempre, que talvez, embora a minha alma tivesse sido tirada do meu espírito, e o meu espírito e a minha alma do meu corpo, que talvez eu ainda pudesse agradar a Deus. Que de alguma forma tudo pudesse voltar a se juntar numa única pessoa! Ah!

Ele sacudiu a cabeça.

Mas Azriel, talvez isso tenha acontecido!

Oh, Senhor Deus, Jonathan, não me ofereça consolo. Não posso suportar isso. Apenas me escute. Certifique-se de que suas fitas gravem as minhas palavras. Lembre-se de mim. Lembre-se do que eu digo...

De repente ele perdeu a confiança. Tornou a olhar para o fogo.

Minha família, meu pai — ele disse. — Meu pai! Como doeu o que ele finalmente fez, e o modo como ele olhou para mim. Você sabe o que ele disse sobre ter-me feito mal? Ele disse “Azriel, qual dos meus filhos me ama tanto quanto você? Nenhum outro seria capaz de me perdoar por isto, exceto você!” E ele estava sendo sincero, o meu pai, o meu irmãozinho, olhando para mim coberto de lágrimas, com sinceridade e absoluta convicção!

Desculpe. Eu estou me adiantando. Logo logo eu vou morrer. Não vou gastar muito mais páginas, acho que não. — Ele estremeceu todo. E mais uma vez seus olhos encheram-se de lágrimas. — Perdoe-me e lembre-se de novo que por milhares de anos eu não me lembrei destas coisas. Eu era o fantasma amargo, sem memória. E agora voltou tudo na minha cabeça e eu estou despejando em você. Estou despejando em você sob a forma de lágrimas.

Continue. Dê-me suas lágrimas, sua confiança e sua dor. Eu não irei desapontá-lo.

Ah, você é uma pessoa rara, Jonathan Ben Isaac — ele disse.

Não é bem assim, eu sou um professor e um homem feliz. Tenho uma esposa e filhos que me amam. Não sou muito especial.

Ah, mas você é um homem bom que fala com alguém que é mau! Isso é que é raro. O rabino dos hassidim me deu as costas! — Ele riu de repente, uma gargalhada amarga. — Ele era bom demais para falar com o Servo dos Ossos.

Eu sorri. — Nós somos todos judeus, e há judeus e judeus.

Sim, e agora israelenses, que seriam macabeus! E há os hassidim.

E outros ortodoxos, e alguns “reformistas”, e assim por diante. Vamos voltar ao seu tempo. Vocês eram uma família grande e feliz.

Sim, é verdade, e era normal — eu estava explicando —, era normal que os hebreus ricos trabalhassem no palácio, como eu disse, meu pai também trabalhava lá e muitos dos meus primos. Nós éramos escribas, mas também negociantes, negociantes de jóias, sedas, prata e livros. O talento do meu pai era para escolher os mais finos recipientes para a mesa do rei e para a Mesa dos Deuses no templo de Marduc e para o próprio Marduc.

Na época, o templo era cheio de capelas e todo dia era servida uma refeição para cada divindade, inclusive Marduc, portanto o templo tinha um enorme estoque de recipientes de ouro e prata para isto. E meu pai era o encarregado de pôr de lado os recipientes que não serviam.

Eu ia sempre com ele até o cais para receber os navios que chegavam, com as novidades mais bonitas da Grécia ou do Egito, e aprendi com ele como avaliar o entalhe de uma taça e como identificar as misturas mais pesadas e mais elegantes do ouro. Eu aprendi a reconhecer um rubi ou um diamante ou pérolas verdadeiras — pérolas, eu amava pérolas, nós lidávamos com pérolas de todos os tipos, nós não chamávamos de pérolas, você sabe, chamávamos de olhos do mar.

Era assim que ganhávamos a vida — no comércio e no templo e no palácio.

Minha família tinha barracas no mercado onde negociava com todo tipo de pedras preciosas, com mel e com tecido tingido de roxo e azul, as mais finas sedas e linhos, e também vendia incenso, embora o vendesse para idólatras que iam queimar o incenso em honra de Nabu e Ishtar e, é claro, de Marduc.

Mas era o nosso modo de vida, a nossa fonte de poder, era a forma de ficarmos juntos, de sermos fortes, para, um dia, podermos voltar para casa. Era tão importante quanto copiar os Livros Sagrados.

É uma velha história — eu disse.

Todo esse comércio, aliás, deu à minha casa uma suntuosidade que ela poderia não ter se fôssemos criadores de camelos. E você precisa entender isto porque a riqueza a nossa volta coloria os valores de meu pai tanto quanto os meus.

O que quero dizer é que não só ganhávamos dinheiro, como a casa vivia sempre cheia de mercadorias. Podia haver uma magnífica estátua de cedro da deusa Ishtar, acabada de chegar de Dilmun, e o meu tio a mantinha em casa por uma ou duas semanas, enfeitando a sala, antes de vendê-la. O lugar estava cheio de lindos banquinhos, móveis delicados do Egito, as belas urnas pretas e vermelhas e os jarros gregos, e tudo o que fosse portátil, ornamental e bonito.

Você cresceu em meio à beleza, não foi?

Sim — Azriel disse. — Cresci. Realmente. E apesar de toda essa conversa e esse namoro com Marduc, eu cresci cercado de amor. O amor do meu pai. O amor dos meus irmãos. Das minhas irmãs. Até mesmo o amor dos meus tios. Até do meu tio surdo. Uma vez o profeta Azarel me disse “Jeová olha para você com amor”. Da mesma forma, a velha bruxa Asenath. Ah, tanto amor.

Ele fez uma pausa natural. Ficou lá sentado, resplandecente em veludo vermelho, o cabelo brilhante e a pele do seu rosto jovem tão macia quanto a de uma moça. Devo estar ficando velho. Porque os rapazes agora me parecem tão belos quanto as moças. Não que eu os deseje. E só que a vida em si mesma é luxuriante.

Ele estava confuso. Sofrendo. Eu hesitei em pressioná-lo. Então ele entreabriu os lábios, mas permaneceu calado.

 

Com o é que era andar pelo templo? Pelo palácio? — eu perguntei. — A bela casa, eu consigo visualizar. Mas o palácio, era forrado de ouro? E o templo?

Ele não respondeu.

Dê-me uma idéia, Azriel. Demore o quanto quiser usando imagens. O templo, pode me dizer como ele era?

Sim — ele disse. — Era uma casa feita de pedras preciosas e ouro. Era um mundo que vibrava com o brilho das preciosidades, dos perfumes deliciosos e o som de harpas e flautas; era um mundo para pés descalços caminharem sobre ladrilhos bem lisos, cortados na forma de flores. — Ele sorriu.

E — ele disse — era muito mais divertido do que você pode imaginar. Não era assim tão solene. Os dois prédios eram enormes, é claro, você sabe que Nabucodonosor construiu o palácio em toda a glória do passado, conforme achou, e expandiu muito seus jardins particulares; e o templo era o imenso prédio conhecido como Esagila, e atrás do prédio propriamente dito ficava o grande zigurate, Etemenanki, com sua escadaria para o céu e suas rampas que iam dar no templo mais elevado do meu grande e favorito deus sorridente.

O templo e o palácio eram cheios de cômodos trancados e selados. Alguns desses selos não eram quebrados havia cem anos. E é claro, como você deve saber, nós tínhamos contratos feitos dessa maneira também... um contrato podia ser escrito em uma placa de argila, colocado para secar e depois fechado num envelope de argila com as mesmas palavras escritas, que era então posto para secar, de modo que não se tivesse acesso à placa original que estava lá dentro sem quebrar o envelope. Então, se algum indivíduo corrupto tivesse feito alguma mudança no envelope, a placa fechada lá dentro diria a verdade.

Havia muito disso no tribunal, pessoas que levavam contratos, quebravam os envelopes e descobriam que algum sem-vergonha tinha feito uma mudança no contrato, e o rei e seus conselheiros e sábios dando a sentença. Eu nunca fui atrás de nenhum condenado para vê-lo executado. Como você disse, eu cresci em meio à beleza.

Eu nunca vi famintos nas ruas da Babilônia. Nunca vi um escravo miserável. A Babilônia era a cidade ideal para se morar; na Babilônia todos eram felizes e estavam sob a proteção do rei.

Mas voltando à sua pergunta. Podia-se passear pelo templo. Simplesmente passear. Eu podia me esgueirar com meus chinelos enfeitados de pedras preciosas para dentro das capelas onde os outros deuses estavam — Nabu e Ishtar e qualquer deus ou deusa que tivesse sido trazido de outra cidade para o santuário.

Você sabe, isso estava acontecendo. Ciro, o Persa, estava definitivamente avançando, tomando as cidades gregas ao longo da costa, uma após a outra. Então, de toda a Babilônia, sacerdotes amedrontados estavam mandando seus deuses para serem protegidos, para o grande portão, e nós tínhamos instalado essas divindades visitantes em capelas cheias de luz.

Este temor pelo deus, de que o inimigo se apoderasse dele, era bem real. O próprio Marduc tinha ficado prisioneiro em outra cidade por duzentos anos, fora roubado e levado para lá, e foi um grande dia para a Babilônia, muito antes de eu nascer, quando Marduc foi recuperado e levado para casa.

Alguma vez ele lhe falou sobre isso? — perguntei.

Não — ele disse. — Mas eu nunca perguntei. Nós vamos chegar a esses assuntos...

Como eu estava dizendo, eu gostava de andar pelo templo. Levava recados para os sacerdotes; servia a mesa quando Baltazar jantava e fiquei amigo de todo o pessoal do palácio, por assim dizer, dos eunucos, dos escravos, dos outros pajens e de algumas das prostitutas do templo que, evidentemente, eram mulheres lindas.

Mas todo esse trabalho que eu fazia no templo e no palácio tinha uma razão de ser na lógica babilônia. O governo tinha uma política sensata. Quando reféns ricos como nós, deportados ricos, eram trazidos, e não apenas para intensificar a cultura, jovens como eu eram sempre escolhidos para serem treinados do jeito babilônio. De tal forma que, se ou quando fôssemos mandados de volta para nossas próprias cidades ou para alguma província distante, nos mostrássemos bons babilônios, isto é, servidores leais e capazes do rei.

Havia montes de hebreus no tribunal.

No entanto, eu tinha tios que ficaram furiosos pelo fato de meu pai e eu trabalharmos no templo, mas meu pai e eu, nós sacudíamos os ombros e dizíamos “Nós não adoramos Marduc! Nós não comemos junto com os babilônios. Nós não comemos a comida que os deuses comeram”. E boa parte da comunidade pensava como nós.

Deixe-me chamar atenção aqui para esta questão da comida. Ela ainda é importante para os hebreus. Não? Vocês não comem com os gentios. Não comiam na época. E não comiam nada que tivesse sido colocado diante de um ídolo. Era uma coisa importante.

Como bons hebreus, nós só partíamos o pão uns com os outros, e nossas mãos eram sempre cuidadosamente lavadas com uma oração ritual antes de tocarmos na comida, e depois não havia uma só coisa em nossas vidas que não fosse permeada pelo nosso desejo de louvar Jeová, nosso Senhor Deus dos Exércitos.

Mas nós tínhamos que sobreviver na Babilônia. Tínhamos toda a intenção de voltar ricos para a nossa terra. Tínhamos que ser fortes. E isso significava o que sempre significou para os hebreus. Você tem que ser suficientemente forte para se dispersar sem ser destruído.

Mais uma vez houve uma das pausas inevitáveis. Ele se inclinou para a frente e atiçou o fogo, como as pessoas costumam fazer quando querem pensar e ter a sensação de que estão fazendo alguma coisa. Atiçar o fogo pode dar esta sensação, especialmente quando você não está bebendo nada, agarrado ao seu café como se ele fosse um emprego de horário integral, do jeito que eu estava fazendo.

Você era igualzinho como é hoje, não é? — eu disse, embora esta fosse uma pergunta repetitiva. Era um desses sinais verbais delicados: Deus deu-lhe todos os dons certos, meu jovem.

Sim — ele disse. — Eu queria agora ter o rosto liso. Já disse isso a você. Mas parece não ser o meu destino.

Eu vim como eu mesmo desta vez e até agora não sei quem me chamou. Por que agora? Por que meu corpo voltou a me envolver? Por quê? Eu não sei.

No passado, quando eu era invocado por feiticeiros, eles me faziam ter a aparência que queriam, e isso podia ser horrível. Raramente eles esperaram ou respiraram fundo para ver que aparência eu teria, se é que alguma vez o fizeram. Eu já era invocado de uma forma específica: “Azriel, Servo dos Ossos Dourados que tenho em minhas mãos, venha num clarão de fogo e consuma os meus inimigos. Transforme-os em cinzas.” Esse tipo de coisa.

De qualquer maneira, em resposta à sua pergunta, eu tinha exatamente esta aparência quando morri, exceto por uma característica marcante que me foi dada pouco antes do meu assassinato, que irei contar mais tarde. Eu estou do jeito que morri.

O seu pai, por que foi um erro contar a ele sobre Marduc? Por quê? O que significou tudo isso? O que foi que ele lhe fez, Azriel?

Ele sacudiu a cabeça.— Esta é a parte mais difícil de contar, Jonathan Ben Isaac, e eu nunca contei a ninguém, você sabe. Nunca contei a nenhum mestre. Será que Deus nunca esquece? Será que Deus me negará para sempre a Escadaria do Céu?

Azriel, deixe-me avisá-lo, simplesmente como uma pessoa mais velha, embora a minha alma possa ser recém-nascida. Não tenha certeza do céu. Não tenha mais certeza do rosto do nosso deus do que Marduc tinha.

Isto quer dizer que você acredita em um e não no outro?

Isto quer dizer que eu quero amenizar a sua dor ao contar o que houve. Eu quero amenizar o seu senso de fatalidade, e de que você está destinado a algo terrível em virtude do que outros fizeram.

Sábio de sua parte — ele disse. — E generoso. Eu ainda sou ingênuo em muitos aspectos.

Sei. Compreendo. Vamos voltar para a Babilônia, está bem? Você pode explicar a conspiração? O que foi que seu pai teve a ver com ela, afinal?

Oh, meu pai e eu, que grandes amigos nós éramos! Ele nunca teve um amigo melhor do que eu, e o meu melhor amigo era Marduc.

Eu era o líder nas nossas bebedeiras e só ele... só ele poderia ter-me feito fazer o que eu fiz... o que me tornou Servo dos Ossos.

Estranho como tudo se encaixa. — Ele começou a cochichar. Estava distraído. — Eles escolhem os ingredientes e os misturam, porque a poção só funciona se você tiver tudo. Só os sacerdotes, eles jamais o levariam a fazer isso. Ciro, o Persa? Eu confiava nele tanto quanto em qualquer tirano. E o velho Nabonide, qual era a opinião dele? Ele só estava ali por uma certa gentileza de Ciro, e inteligência. Tudo com o império persa era uma questão de inteligência. Talvez seja assim com todos os impérios.

Não se apresse — eu disse. — Recupere o fôlego.

Sim... deixe-me dar-lhe uma idéia da minha família. Minha mãe morreu quando eu era pequeno. Ela era muito doente e chorava, dizendo que não iria viver para ver Jeová erguer o rosto para nós outra vez e nos levar de volta a Sião. Ela era de um povo de escribas e também era uma escriba, e ouvi dizer que em sua época ela fora uma espécie de profetisa, mas que isto tinha terminado quando ela teve filhos.

Meu pai teve saudades terríveis dela até o último dia em que o vi. Ele tinha duas mulheres gentias e eu também; de fato, nós partilhávamos as mesmas duas mulheres a maior parte do tempo, mas não para casar ou ter filhos, apenas como divertimento.

E em casa, com a família, meu pai trabalhava arduamente escrevendo os salmos e tentando recordar as palavras exatas que ouvíramos da boca de Jeremias e que eram motivo de discussão dia e noite. Meu pai raramente conduzia as orações. Mas tinha uma bela voz e eu ainda me lembro dele cantando em louvor a Deus.

Quando trabalhávamos no templo, era segredo entre nós que achávamos que todos os idólatras eram completamente malucos, e portanto por que não trabalhar para eles e distraí-los?

Como eu estava explicando, nós servíamos a refeição para o deus Marduc, de vez em quando, junto com os sacerdotes. Eu tinha muitos amigos entre os sacerdotes e era como qualquer grupo de padres, alguns acreditavam em tudo e outros não acreditavam em nada. Mas nós púnhamos os véus ao redor da mesa do deus e depois retirávamos a comida, que evidentemente, a seu modo, o deus Marduc havia saboreado — através do perfume e da umidade que ele podia sentir — e ajudávamos a servir aquela refeição aos membros da família real, aos reféns reais e aos sacerdotes e eunucos que comiam a comida do deus, ou co-miam na mesa do rei.

Mas mais uma vez, como bons hebreus, nós não comíamos aquela comida. Não, jamais faríamos isso.

Nós obedecíamos às leis de Moisés da melhor maneira possível. E há alguns dias, quando me vi em Nova York e comecei minha viagem em busca dos assassinos de Esther Belkin, quando encontrei por acaso o avô de Gregory Belkin, o rabi do Brooklyn, percebi que muitos desses judeus, apesar de ortodoxos, tinham feito a vida na grande cidade de Nova York em handel como diríamos, exatamente como fizemos na Babilônia.

E eu também percebi que havia judeus de todos os níveis de devoção, como você mesmo disse.

Ele tornou a parar. Não estava ansioso pelo sofrimento.

— Mas deixe-me voltar à Babilônia. Veja, eu estou dançando na taverna com meu pai. Todos os homens estão dançando juntos lá. Não há nenhuma prostituta lá esta noite. É um lugar só de homens. E eu digo a ele “Eu vi o meu deus com os meus próprios olhos. Eu o vi e o estreitei de encontro ao coração. Pai, eu sou um idólatra, mas juro a você, eu vi Marduc e Marduc anda comigo”.

E lá no canto, veja, Marduc vira de costas para mim propositadamente e sacode a cabeça.

E horas depois eu e meu pai ainda estávamos discutindo. “Você é um homem sábio, você é um vidente e usou mal os seus poderes”, ele disse. “Você deveria tê-los usado para nós.”

“Eu vou fazer isso, pai, vou usá-los para nós, mas diga-me, o que você quer que eu faça? Marduc não me pede nada. O que você quer que eu faça?”

No dia seguinte, Marduc apareceu a poucos quarteirões da casa, vaporoso, dourado, mas visível. Ele me avisou: “Não toque em mim senão teremos um espetáculo religioso em nossas mãos.”

“Olha, o senhor está zangado comigo por eu ter contado ao meu pai?”, eu perguntei a ele imediatamente. Nós estávamos conversando como amigos e tê-lo visível era um consolo extraordinário para mim.

— “Não, eu não estou zangado com você, Azriel, é só que eu não confio nos sacerdotes do templo. Existem muitos sacerdotes velhos e coniventes e nunca se sabe o que eles vão querer de você. Agora ouça. Tenho algumas coisas para dizer a você antes de nos aprofundarmos nisto, antes que você o faça, porque eu já estou totalmente mergulhado nisto. Vamos até os jardins públicos. Eu gosto de vê-lo comer e beber.”

Nós fomos ao lugar favorito dele, um enorme jardim público à beira do Eufrates, longe das docas, dos estivadores e do barulho. Na verdade, ficava na entrada de um dos muitos canais e não no próprio rio, que estava sempre movimentado. O jardim era repleto de salgueiros, exatamente como no salmo, você sabe, e havia alguns músicos lá, tocando suas flautas e dançando para ganhar uns trocados.

Marduc sentou-se defronte de mim e cruzou os braços. Nós realmente éramos tão parecidos que podíamos ser irmãos. Ocorreu-me que eu o conhecia melhor do que a qualquer dos meus irmãos. E aliás, eu não odiava os meus irmãos do jeito que os hebreus estão sempre odiando os irmãos nas histórias. Esqueça isso. Eu amava os meus irmãos. Eles eram um tanto tímidos para beber e dançar. Eu me divertia mais com o meu pai. Mas os amava.

Ele parou. Pareceu-me que em sinal de respeito pelos irmãos mortos. Ele agora estava além da beleza naquele veludo vermelho, e essas pausas me levavam visualmente de volta a ele de uma forma sedutora. Mas então ele recomeçou a falar:

— Marduc me disse logo: “Olha, eu vou contar-lhe a verdade e você preste atenção. Eu não me lembro das minhas origens. Não tenho lembrança de matar Tiamat, o grande dragão, e criar o mundo da sua barriga e o céu do resto do seu corpo. Mas isto não quer dizer que não tenha acontecido. A maior parte do tempo eu caminho no meio de uma névoa. Eu vejo os espíritos dos deuses e os espíritos errantes dos mortos e ouço orações e tento responder a elas. Mas é um lugar terrível esse onde vivo. Quando vou banquetear-me no templo é um alívio, porque a névoa clareia. Você sabe o que significa clareia?”

— “Não, mas posso adivinhar... é que os sacerdotes o vêem, os videntes poderosos o vêem.”

— “É isso, Azriel, eu posso tornar-me sólido e visível para bruxas, para feiticeiros, para aqueles que têm olhos para ver, e depois eu bebo as libações líquidas, inalo-as e inalo as fragrâncias de comida e isto me coloca no humor da vida. Depois eu entro na estátua e descanso na escuridão e o tempo não significa nada para mim, e eu escuto a Babilônia. Eu escuto. Escuto. Mas dos mitos do começo, eu não me lembro, entende o que estou dizendo?

“Não inteiramente”, eu confessei. “O senhor está me dizendo que não é um deus?”

— “Não, eu sou um deus, e bem poderoso. Se eu quisesse, poderia provocar uma ventania que varresse este jardim, este mercado. Mas o que estou dizendo é que esses deuses não conhecem tudo, e esta história de como Marduc se tornou o líder dos deuses, como ele matou Tiamat, como construiu a abóbada do céu... bem, ou esqueci ou estou ficando fraco e não consigo lembrar. Os deuses podem morrer. Eles podem desaparecer. Assim como os reis. Eles podem dormir e é muito difícil despertá-los. E quando eu acordo e fico inteiramente alerta, eu amo a Babilônia e a Babilônia retribui este amor.”

— “Olhe, meu Senhor”, eu disse, “o senhor está desanimado porque o Festival do Ano-Novo não acontece há dez anos, porque o nosso rei Nabonide negligenciou-o e aos seus sacerdotes. É só isso. Se conseguíssemos obrigar o velho idiota a voltar para casa e promover o festival, o senhor iria se animar; reviveria com a vida de todas as pessoas da Babilônia que iriam vê-lo no Caminho da Procissão.”

“Essa é uma boa idéia, Azriel, e há uma certa verdade nisso, mas não me agrada o Festival do Ano-Novo, nem morar na estátua e ficar de mãos dadas com o rei. Eu fico tentado a atirar o rei nas valas do Caminho da Procissão. Você não percebe? Não é como eles lhe dizem! Não é!”

Então ele ficou calado e fez um gesto para eu refletir sobre o que ele dissera, e depois disse que queria experimentar uma coisa. Os momentos seguintes iriam ter uma influência crucial no meu destino como espírito, mas naquela hora eu não sabia disto.

“Azriel”, ele disse. “Eu quero que você faça o seguinte. Olhe para mim e, na sua mente, dispa-me deste ouro e me veja cor-de-rosa e vivo como você, com minha barba preta e meus olhos castanhos, depois estenda as mãos e toque em mim com as duas mãos. Deixe o deus sair do ouro. Vamos tentar isso.”

Eu estava tremendo.

— “Por que você está tão assustado! Ninguém verá uma pessoa em frente a você, exceto um nobre bem vestido, só isso.”

“Eu estou assustado porque pode funcionar, meu senhor”, eu disse a ele, “e eu tive um pensamento muito perturbador. O senhor quer escapar, Marduc. Quer ir embora. E se isto funcionar, se meus olhos e meu toque puderem torná-lo um corpo visível, o senhor poderá fugir, não é?”

— “E por que diabos isto assustaria um filho de Jeová?” Ele suspirou. “Sinto muito por ter-me zangado com você. Eu o amo acima de todos os meus adoradores e de todos os meus súditos. Eu não vou abandonar a Babilônia. Estarei aqui enquanto a Babilônia precisar de mim. Estarei aqui quando as areias vierem nos enterrar a todos. E então talvez eu fuja. Mas sim, isto me daria a liberdade. Isto me ensinaria que como deus eu posso entrar num corpo humano visível e andar por aí. Isto me ensinaria algo sobre o que posso fazer, entende? Posso fazer tempestades, posso curar às vezes, embora seja muito difícil, e posso realizar desejos porque sei coisas e sei que os demônios que as pessoas temem são apenas os mortos sem descanso.”

— “Isso é verdade?”, eu perguntei a ele. Mas deixe-me dizer aqui que, na Babilônia, expulsar os demônios era um grande negócio. Homens fizeram fortunas expulsando demônios de casas, de pessoas doentes, e assim por diante. Havia rituais e encantamentos para isso, qualquer um podia procurar um exorcista e ele fazia o que se mandava. Então eu quis saber se não havia demônios. Mas ele não respondeu logo.

Depois ele disse, “Azriel, a maioria dos demônios são mortos sem descanso. Mas existem espíritos fortes, espíritos tão fortes quanto deuses e alguns estão cheios de ódio e gostam de ferir. Mas a maior parte do tempo eles não se dão ao trabalho de fazer uma ordenhadora de vacas adormecer ou de assombrar uma pequena casa. Quem faz essas maldades são os mortos sem descanso! E eles precisam fazer essas maldades para que a névoa e a fumaça em que se movimentam sejam erguidas.”

Eu não esperei mais. Estava impressionado com sua generosidade e paciência para comigo — e você pode imaginar como ele estava esplêndido ali sentado, coberto de ouro, aquela criatura linda e nobre — e o amei com o coração batendo. Amei-o com lágrimas. Amei-o com risos.

Estendi a mão e, quando toquei nele, pedi que todo o ouro que o cobria desaparecesse e que ele tivesse a liberdade de andar no meio de nós como se fosse um homem comum. Você pode adivinhar o que aconteceu?

Ele se tornou visível como se fosse real — eu disse.

Sim, e eu aprendi algo sobre os espíritos que mais tarde iria usar em proveito próprio, e usei até pouco tempo atrás. Sim, ele se tornou visível, um nobre cavalheiro com roupas festivas, sentado defronte de mim à mesa de mármore, com a taça de vinho à sua frente, sorrindo. Houve uma certa agitação em volta quando as pessoas o viram e prestaram atenção nele. Eu não acho que elas o tenham visto materializar-se, como diríamos hoje em dia. Elas simplesmente o notaram. Porque ele era lindo.

Ficou claro que se tratava de Marduc? — perguntei.

Não. Sem o ouro ele poderia ser um rei, um embaixador. A estátua era mais estilizada, lembre-se. Mas todo mundo o viu. Até mesmo os músicos pararam de tocar até ele virar a cabeça e fazer um gesto mandando que prosseguissem. E eles viram! E prosseguiram.

Eu estava gelado de ansiedade. “Vamos, amigo”, ele disse. “Estou vendo com mais clareza do que nunca, e embora este corpo seja leve, eu gosto da forma dele e ele atrai olhares que me dão poder, como me dá a própria Procissão do Ano-Novo. Eles me vêem! Não sabem quem eu sou mas me vêem. Venha, amigo, vamos andar, eu quero subir nas muralhas e andar no templo com você, quero ver as coisas claramente com você. Você não precisa me levar à sua casa. Os seus tios ficariam doidos. Infelizmente, eu posso ouvir com meus ouvidos de deus que eles já estão reunindo os homens sábios da Judéia para conversar sobre você, sobre você ser capaz de ver e ouvir os deuses pagãos. Venha, vamos embora, eu quero andar.”

Ele se levantou, pôs o braço em volta de mim e nós começamos a passe-ar. Caminhamos a tarde inteira. Eu perguntei a ele, “O que vai acontecer se o senhor não retornar ao templo para a ceia matinal?”

— “Idiota”, ele disse rindo. “Você sabe perfeitamente o que vai acontecer. Eu apenas cheiro a comida. Não a como. Eles irão colocá-la diante da estátua e depois retirá-la e servi-la ao pessoal do templo que pode comer da mesa do deus. Nada vai acontecer!”

Nós caminhamos por toda a Babilônia, ao longo dos canais, do rio, sobre as pontes, pelos diversos bairros, pelo mercado, pelos vários jardins e parques. Ele olhava tudo com os olhos arregalados, e agora, é claro, por ser um espírito, eu sei o que representou para ele ver aquelas cores fortes. Entendo melhor o que ele tinha suportado.

De repente, perto da Porta de Ishtar, ele parou. “Você está vendo isso?” E eu vi; era a deusa em pessoa. Ela olhava fixamente para nós. Ela estava coberta de ouro e jóias e invisível. De fato, eu via através de seu rosto zangado.

— “Ah, ela não está gostando disto, do que estou fazendo, do fato de eu ter escapado!” Ele parou e começou a ficar preocupado. Então, pela primeira vez, fez um ar amedrontado. Não, não era medo. Era apreensão. Ele ficou na defensiva. E eu vi por quê. Havia muitos espíritos em volta de nós, olhando para ele, invejando-o e desafiando-o com suas sobrancelhas peludas, e deuses também. O deus Nabu estava lá! Eu o vi. E de repente eu vi o deus Shamash. Todos eles eram deuses babilônios e tinham seus próprios templos e sacerdotes. Mas eu pude ver que eles estavam zangados conosco.

— “Por que você não está com medo deles, Azriel?”, Marduc me perguntou num sussurro.

— “Eu deveria estar, meu senhor? Em primeiro lugar eu estou com você, e em segundo lugar, eu sou hebreu. Eles não são meus deuses.”

Ele achou isso engraçadíssimo e desatou a rir sem parar. Eu não o via rir desde que tinha ficado visível. “Essa é uma resposta típica de um hebreu”, ele disse.

“É, eu também acho”, eu disse. “Meu Senhor, eu os ofenderia se tentasse não os ver. O senhor os ofenderia se os banisse!”

“Não, eu sou o grande deus aqui.” E ele fez um gesto decisivo, zangado e audacioso, e os espíritos empalideceram e viraram fumaça, até mesmo o zangado Shamash, e desapareceram. Mas quem ficou por ali foram os mortos, os mortos sem descanso estavam por toda a parte. Ele abriu os braços e distribuiu bênçãos a eles. Começou a falar em sumério e deu bênção atrás de bênção. “Voltem ao seu sono, voltem ao descanso na Mãe Terra, voltem à paz dos seus túmulos e à segurança das lembranças que os corações e as mentes dos seus filhos guardam de vocês.”

E graças a Deus todos aqueles mortos foram embora. É claro que nós dois estávamos ali parados, totalmente visíveis, e atraindo muita atenção, com aquele nobre senhor fazendo gestos extravagantes na direção de pessoas que ninguém podia ver, e um rico hebreu cheio de jóias, ali em pé como se fosse seu pajem, companheiro ou outra coisa qualquer.

Mas os mortos desapareceram. Meu coração ficou apreensivo. Eu me lembrei do fantasma de Samuel quando ele foi invocado pela Feiticeira de Endor para o rei Saul. Ele disse: “Por que perturbam o meu descanso?” Oh, a tristeza daquele descanso. Eu não queria ser um morto. Não queria. Eu não queria ser um morto. Estendi o braço e agarrei a mão dele. Marduc estava mais forte agora, é claro, pelo fato de ter sido visto por tanto tempo por tantas pessoas. Eu não preciso ensinar-lhe a cosmologia, é tão simples, quanto mais ele aparecesse, mais forte ficaria.

— No entanto, eu estava confuso a respeito de todo o resto. Por exemplo. Por que ele não deixou que os sacerdotes o trouxessem à vida coberto de ouro e não andou pela cidade como o próprio deus? E claro que eu nunca ouvira falar em nenhum deus que tivesse feito isso, mas também eu nunca tinha conhecido nenhum deus antes de Marduc. Ele leu os meus pensamentos. Ele ainda parecia apreensivo.

— “Azriel, em primeiro lugar, os sacerdotes não são poderosos o bastante para me tornar sólido e visível em ouro. Eles não podem mover a estátua! Eles não podem fazer uma imagem em ouro de mim como você pode e então fazê-la andar. Eles não têm o poder. Eles não têm o seu dom. E mesmo que tivessem, como seria a minha vida? Um Festival de Ano-Novo interminável, cercado de adoradores? Eu já vi deuses caírem nessa! E no fim eles não têm nada, pertencem a quem quer que possa tocar em suas roupas ou em sua pele ou em seu cabelo, e acabam fugindo para a névoa, gritando como os mortos insanos. Não, eu só faria isso se a Babilônia precisasse, e ela não precisa. Mas a Babilônia precisa de uma coisa e logo você vai saber por quê.”

— “Ciro, o Persa”, eu disse. “Ele se aproxima a cada dia. Ele vai saquear a Babilônia. E... e...”, eu disse. “Ou ele vai assassinar o meu povo junto com os outros habitantes ou talvez nos deixe ficar.”

Marduc me abraçou e nós caminhamos valentemente no meio da multidão que tinha se juntado para olhar para nós e nossas estranhas atividades, e fomos para outro grande jardim, um dos meus favoritos, onde havia sempre músicos tocando harpa. De fato, era ali que os hebreus tocavam a sua música e se reuniam para dançar. Eu não tivera a intenção de me dirigir para o meu povo, mas no fim isso não teve importância. Ele disse rapidamente:

— “Azriel, eu acho que tomamos o caminho errado.”

— “Ora, eles não vão prestar mais atenção em nós do que qualquer outra pessoa. Eles me vêem com um homem rico. Eu sou um negociante, vou dizer que lhe vendi esse cinto de ouro e essas jóias.”

— Ele riu, mas nos fez sentar juntos e nós voltamos a cochichar. “O que você sabe dos persas?”, ele me perguntou. “O que você sabe sobre as cidades que Ciro conquista! O que o você sabe?”

— “Bem, eu conheço as mentiras que os persas espalham, que Ciro traz paz e prosperidade e deixa o povo em paz, mas eu não acredito. Ele é um rei assassino como qualquer outro. Ele está progredindo como Assurbanipal. Não acredito que os persas irão aceitar pacificamente a rendição desta cidade. Quem acreditaria neles? O senhor acredita?”

Eu percebi que ele não estava mais prestando atenção em mim. Ele apontou à frente. “Foi isso que eu quis dizer quando disse que tomamos o caminho errado. Mas eles nos teriam achado de qualquer jeito. Fique calmo. Não diga nada. Não confesse nada.”

Eu vi o que ele estava vendo, uma grande massa de anciãos hebreus vindo em nossa direção, fazendo a multidão recuar e inchando-a de todos os lados. E na frente da multidão estava o profeta Enoch, furioso, com o cabelo branco voando em todas as direções, e ele olhou para Marduc e eu compreendi que ele via Marduc, enquanto todos os outros em volta dele, sem graça e inseguros, sem querer provocar um tumulto, só viam um Nobre e o doido do Azriel, que eles já sabiam ser um agitador do tipo moderado, poderoso e obediente.

Marduc encarou o profeta! E eu também. Ele parou perto de nós. Estava semidespido, como geralmente acontece com os profetas. Estava coberto de cinzas e poeira e carregava um cajado, e eu soube pela primeira vez desde que ouvira falar nele — ele não era um dos meus favoritos — que ele era um profeta de verdade por causa do modo como se dirigiu a Marduc com indignação flamejante e violenta fé.

— “Você!” — ele declarou, erguendo o cajado e empurrando-o na direção de Marduc. A multidão recuou amedrontada. Quer dizer, aquela figura parecia mesmo ser um homem rico! Mas então aconteceu a coisa mais terrível do mundo. O profeta arregalou os olhos e disse “Cubra-se com o que você roubou, com o ouro que os seus soldados tiraram do nosso templo em Jerusalém, vista-se com ele, seu estúpido, seu ídolo inútil, anda, você foi feito para ser metal!”

E antes que eu pudesse pensar em agir, o ouro desceu sobre Marduc e cobriu-o, mas ele resistiu, e eu tentei retirá-lo, e nós dois conseguimos que ele se tornasse apenas uma cobertura leve, sem a força das visões que eu tive por tanto tempo. Mas o ouro estava cobrindo Marduc e as ruas encheram-se com o som das pessoas correndo. Eu olhei para as casas que rodeavam o jardim e os telhados estavam cheios de curiosos.

De repente, meu pai abriu caminho e ergueu os braços diante de Enoch. “Você nos prejudica com isso, não está vendo?”, ele disse e então ele também viu Marduc ali em pé, salpicado de ouro, e Enoch bateu no meu pai com seu cajado.

Eu fiquei enraivecido, mas meus irmãos cercaram o profeta e Marduc segurou o meu braço. “Fique comigo”, ele implorou. “Eu estou todo de ouro?” Eu expliquei que ele estava coberto de ouro e que este estava ficando mais espesso, mas que ele não era o ídolo ambulante que tinha parecido a princípio. Ele apenas sorriu e olhou para as pessoas nos telhados e rodopiou e as pessoas começaram a gritar.

“Silêncio”, Enoch gritou, batendo nos tijolos com seu cajado, a barba tremendo. Você precisava ver. Ele se mostrava em toda a sua glória. Vou dizer-lhe uma coisa, os profetas são sanguinários, são uma raça sanguinária. “Você, Marduc, Deus da Babilônia, não passa de um impostor enviado do templo!”, ele urrou.

Marduc riu baixinho. “Bem, ele está nos oferecendo uma saída, Azriel, que alívio!”

— “O senhor quer que eles acreditem no senhor? Tudo o que precisa fazer é sumir e tornar a aparecer. Eu vou ajudá-lo.”

Ele me lançou um olhar devastador.

— “Eu sei”, eu disse. “Eu o desaponto. O senhor não quer ser o deus.”

— “E quem diabos iria querer, Azriel? Não, eu não devia dizer isto. O que quero dizer é: quem desistiria da vida para isto? Mas não há tempo. O seu profeta aqui diante de nós está prestes a berrar como um touro.”

E foi o que Enoch fez. Ele ergueu sua voz poderosa, embora seja difícil imaginar como uma trovoada daquelas podia sair de uma caixa de ossos, e declarou:

— “Babilônia, chegou a sua hora. Você será humilhada. Neste momento mesmo em que falo, o ungido está chegando, Ciro, o Persa, o flagelo que o Senhor Deus Jeová mandou para puni-la pelo que fez ao seu povo escolhido e levar-nos de volta à nossa terra!”

Os hebreus começaram a berrar, a berrar, a cantar e a rezar e a fazer reverências ao Senhor Deus dos Exércitos, e os babilônios ficaram assistindo espantados, alguns até rindo, e então Enoch fez outra profecia:

— “Jeová envia um salvador na pessoa de Ciro para salvar esta cidade... sim, até mesmo você, Babilônia, você mesma será libertada das mãos do louco Nabonide e entregue a um libertador.”

Houve um segundo de silêncio. Só um segundo. E então o rugido subiu de todos — hebreus, babilônios, gregos, persas. A multidão toda gritava de alegria. “Sim, sim, o ungido, Ciro, o Persa, que ele possa livrar-nos de um rei louco que abandonou a cidade.”

A multidão começou a se inclinar diante de Marduc, inclinar-se a seus pés e estender os braços e depois recuar...

— “Está bem, impostor, saboreie o momento!”, gritou Enoch. “É a vontade de Jeová que a sua cidade seja rendida sem derramamento de sangue. Mas você não é um deus de verdade. Você é um impostor e nos templos não há nada exceto estátuas. Estátuas, eu lhe digo. Você e seus sacerdotes irão nos ver partir em triunfo e irão nos agradecer por termos salvo a Babilônia!”

Eu fiquei realmente sem fala, de verdade. Não conseguia imaginar isto! Mas Marduc simplesmente balançou a cabeça e aceitou os insultos do profeta, depois virou-se e ergueu os braços. “Vou deixá-lo agora, Azriel, mas tome cuidado e não faça nada antes de ouvir o meu conselho! Cuide-se contra aqueles que você ama, Azriel. Eu tenho medo, não pela Babilônia, a Babilônia vai vencer, mas sim por você. Agora chegou o meu momento de orgulho.”

Então ele começou a brilhar com uma luz dourada, e eu pude ver pelos seus olhos enlouquecidos que a luz vinha dele, e enquanto os judeus e os babilônios assistiam, ele tirou deles a força para ficar mais e mais brilhante e então disse numa voz imensa, mais poderosa que a de um homem, que sacudiu as construções e ecoou nos prédios:

— “Afastem-se de mim — Enoch e toda a sua tribo. Eu perdôo suas palavras ásperas. O seu Deus é sem rosto e sem piedade. Mas eu invoco o vento para espalhar vocês todos!”

E o vento veio. O vento veio com grande ferocidade por cima dos telhados, da direção do deserto e cheio de areia. A figura dourada de Marduc cresceu de repente e ficou imensa diante de mim, mas eu já sabia que era só ilusão, porque estava empalidecendo, e enquanto eu olhava para ele, explodiu numa chuva de ouro, e as pessoas ficaram inteiramente fora de si.

Todo mundo entrou em pânico e saiu correndo. As pessoas foram afugentadas pelo que tinham visto, pelo que tinham ouvido e, além do mais, o vento carregado de areia as fez fugir.

Só eu fiquei lá, meus irmãos correndo para perto de mim e o profeta Enoch, rindo, apenas rindo e erguendo os braços! Então ele se dirigiu a mim, afastando o meu pai para um lado com o seu cajado. Ele me lançou uma maldição! Ele olhou para mim e disse, “Você vai pagar por ter comido a comida dos falsos deuses. Você vai pagar! Você vai pagar!” E cuspiu em mim, e pegou um punhado de areia no chão e atirou em cima de mim. Meus irmãos pediram a ele para parar, mas ele riu e disse, “Você vai pagar”.

Eu fiquei furioso, realmente furioso. Minha natureza alegre abandonou-me. Eu senti a primeira raiva que em breve se tornaria comum depois da minha morte. Eu me inclinei para a frente e disse:

— “Diga a Jeová para parar com esta tempestade de areia, seu idiota!” E então meus irmãos me arrastaram literalmente dali.

Um bando de anciãos devotados correu para proteger Enoch e eles o pegaram e levaram embora, como um doido, esperneando e gritando e aos poucos, aos poucos... enquanto corríamos para o abrigo da nossa casa, o vento foi parando.

 

Eu estava me sentindo doente quando alcançamos a casa. Meus irmãos me carregavam. E do lado de fora do portão, o que foi que eu vi?

Primeiro, estavam dois dos outros profetas, os mais tranquilos, que apenas repetiam as velhas palavras que Jeremias enviou do Egito, e com eles uma velha que todo mundo temia e desprezava. O nome dela era Asenath e ela pertencia à nossa tribo, mas era uma necromante, todo mundo sabia, e essas coisas eram proibidas, quer o grande rei Saul tivesse ou não invocado Samuel com a Feiticeira de Endor.

Também, de vez em quando, todo mundo pedia ajuda a ela. Então, você sabe, não foi muito bom vê-la no nosso portão, mas ela havia conhecido minha mãe e meus avós, e não era o inimigo, apenas alguém com uma reputação ruim, capaz de misturar venenos para matar pessoas e poções para fazer as pessoas se apaixonarem.

Tinha um cabelo desgrenhado, muito branco, e olhos que com a idade tinham ficado azuis bem brilhantes e não pálidos, e um rosto comprido e murcho com uma expressão triunfante, e estava toda vestida de vermelho, um vermelho desafiador, coberta de sedas como se fosse uma prostituta egípcia ou algo assim, e carregava um bastão torto, com uma cobra na ponta, não muito diferente dos cajados dos profetas, e ela me disse:

— “Azriel, venha até mim. Ou então deixe-me entrar.”

Nessa altura, a casa inteira estava no pátio, berrando para ela se afastar dali, a velha bruxa, e meus irmãos disseram para ela ir embora, mas para minha surpresa, meu pai disse, “Entre, Asenath, entre”.

A próxima coisa de que me lembro é de estar deitado na minha cama, ouvindo as pessoas falarem. Meus irmãos queriam saber como eu tinha me metido naquela confusão e como podia acreditar que aquele demônio fosse Marduc, quando era obviamente um demônio, e por que eu não havia contado a eles que conversava com outros deuses! Minhas irmãs ficavam repetindo, “Oh, deixem-no em paz”, e por um momento pensei ter visto o fantasma de minha mãe, mas isto pode ter sido um sonho.

Todos os tios e os anciãos estavam reunidos nos longos aposentos dos escritórios, que ladeavam o pátio até a metade do seu comprimento... eram bem grandes, como eu lhe disse. E eu não sabia onde estava o meu pai.

Finalmente, ele mandou me chamar, meu irmão me ajudou a ficar em pé e me levou até ele. Eu não gostei da porta que atravessamos. Aquela era uma pequena ante-sala que dava para a câmara dos antepassados, isto é, o aposento onde os antigos assírios e sumérios daquela casa tinham enterrado os seus mortos. Aquele aposento fazia parte dos seus rituais pagãos e nós nunca havíamos tirado das paredes as pinturas dos sacerdotes e sacerdotisas e antepassados de outras pessoas. A superstição nos impediu, e afinal de contas, apesar de pagãos, seus ossos estavam enterrados ali.

Havia três cadeiras no aposento, cadeiras simples, você conhece o tipo, de couro com pernas cruzadas e pintadas, mas eram as melhores que tínhamos, e havia também três lampiões, e em cada um deles o pavio estava bem aceso, queimando óleo de oliva, portanto o lugar tinha uma aparência esplêndida mas assustadora.

A velha Asenath estava sentada numa cadeira e meu pai na outra, e eles estavam cochichando, e pararam quando eu entrei. Eu me sentei na cadeira vaga e meus irmãos saíram, e lá estávamos nós no meio dos assírios pintados, à luz dos lampiões, num lugar pouco arejado. Eu fechei os olhos. Tornei a abri-los. Tentei ver os mortos. Tentei vê-los como os tinha visto quando Marduc estava comigo. E por um momento eu os vi. Eu os vi como almas penadas por todo o aposento, arrastando os pés e resmungando e apontando, e então eu sacudi a cabeça e disse, “Vão embora”.

Asenath, que tinha uma voz muito jovem para uma bruxa tão velha, riu de mim.

“Você aprendeu esses modos arrogantes com o grande deus Marduc, não foi?”

Eu fiquei calado.

Então ela disse, “O quê? Você não vai confessar sua lealdade ao seu deus na presença do seu pai? Isso não causa surpresa. Você pensa que é o primeiro hebreu que cultua os deuses babilônios? As colinas ao redor de Jerusalém estão cheias de altares onde hebreus ainda cultuam deuses pagãos”.

“O que significa isso, velha?”, eu perguntei, surpreso com minha própria raiva e impaciência. “Vá direto ao assunto. O que você tem a me dizer?”

— “Nada. Já foi tudo dito ao seu pai. Você pode fazer a sua escolha. Pode fazer. Faz dez anos que o Festival foi celebrado pela última vez, mas muitos anos mais desde que o verdadeiro milagre do festival aconteceu. E os velhos sacerdotes, eles sabem como fazê-lo; mas não sabem tudo; e por isso, o que tenho aqui comigo”, e ela tirou de dentro da roupa um pacote pesado, “eles me dariam tudo para ter, e darão.”

Eu olhei para o pacote. Era um antigo envelope de argila sumeriano, o que significava que a antiga placa sumeriana estava lá dentro, intacta. Nunca tinha sido tocada. Pude ver isso.

“Que interesse isso tem para mim? Que me importa o verdadeiro milagre do Festival?” — eu disse.

Meu pai fez sinal para eu ficar calado.

Ela colocou o envelope de argila com sua placa secreta escondida lá dentro nas mãos do meu pai. “Esconda-o aqui junto com os ossos dos assírios”, ela disse. Riu. “E lembre-se do que eu disse, eles lhe darão Jerusalém em troca disto! Faça o que eu disse! Eles já mandaram me chamar. Não sabem nem misturar o ouro direito sem mim. Eu vou ajudá-los, mas quando eles pedirem a placa, ela estará a salvo com você.”

“Quem lhe deu esta placa tão preciosa, Asenath?” — eu perguntei sarcasticamente, ficando cada vez mais ansioso e impaciente com aquilo tudo. Eu nunca tinha visto meu pai tão sério! Não estava gostando daquilo.

“Olhe para ele, escriba, culto, esperto!”, ela disse. “Quanto tempo você acha que ela tem?”

“Mil reis já reinaram desde então”, eu disse. “Ela é tão velha quanto Erec.” — E, realmente, isto era o mesmo que dizer para você em inglês, esta coisa tem dois mil anos.

Ela concordou com a cabeça. “Quem me deu foi o sacerdote que eles mataram, só para se vingar deles”, ela disse.

— “Eu quero ler o que está escrito do lado de fora”, eu disse.

— “Não!” ela disse. “Não!” Então ela se ergueu e se apoiou no bastão com a cobra na ponta ou seja lá o que fosse, e disse para o meu pai, “Lembre-se, há duas maneiras de fazer isto. Duas maneiras. Eu lhe dou o meu conselho. Se ele fosse meu filho, eu daria esta placa a eles. Eu a poria nas mãos do mais ambicioso. Eu a poria nas mãos do mais insatisfeito e ansioso por sair daqui, e esse é o jovem sacerdote, Remath. Seja esperto. Você tem o seu povo nas mãos.”

Então ela se virou e ergueu o bastão e as portas se abriram sozinhas e ela se virou para mim e disse, “Você é muito privilegiado, pois eu estou lhe dando a minha única chance de imortalidade. Se eu a guardasse, se me agarrasse a ela, poderia erguer-me acima deste mundo e acima dos mortos, com a força de um grande espírito.”

“E por que não faz isso?”, eu perguntei.

— “Porque você pode salvar o seu povo. Você pode salvar a nós todos. Você pode levar-nos de volta a Jerusalém e por causa disso você merece alguma coisa, sim, você merece alguma coisa por isso... tornar-se um anjo ou um deus.”

Eu estava em pé, tentando interrompê-la e perguntar mais coisas a ela, mas ela não parou, fazendo a família espalhar-se com suas ameaças, atravessou as ante-salas e o portão abriu-se para o seu bastão, e ela foi andando pela rua, um clarão de seda vermelha, e desapareceu.

Eu olhei para o meu pai. Ele estava sentado com o envelope na mão e olhando para mim com os olhos cheios de lágrimas. Eu nunca tinha visto o rosto dele tão imóvel. Era como se os músculos do seu rosto não conhecessem tristeza, dor ou medo o suficiente para formar uma expressão para isso. Ele estava perdido.

— “Do que é que ela está falando, pai?”, eu perguntei.

— “Sente-se aqui perto de mim”, ele disse, com as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto como se ele fosse uma mulher, e segurou minha mão.

— “Você vai deixar que eu leia essa maldita coisa?”, eu perguntei.

Ele não respondeu. Segurou o envelope apertado de encontro ao peito. E estava pensando. A porta estava aberta e eu vi os meus irmãos lá fora, todos espiando para dentro e então minha irmã se aproximou e disse, “Pai, irmão, vocês querem um pouco de vinho?”

— “Não há vinho suficiente no mundo agora para me embriagar”, meu pai disse. “Feche a porta.” Minha irmã obedeceu.

Ele se virou subitamente para mim, os lábios apertados, e então engoliu em seco e disse, “Era Marduc que estava com você, não era? Ou então um espírito que dizia ser Marduc. Era verdade.”

— “Sim, eu diria que é exatamente a verdade, pai. Eu converso com ele desde criança. Vou ser castigado por isso agora? O que vai acontecer? Que história é essa sobre Remath, o sacerdote? Você o conhece? Eu não sei se o conheço.”

“Você o conhece”, ele disse. “Apenas não se lembra dele. No dia em que Marduc sorriu para você, quando você era um menino, Remath estava em pé no canto da sala de banquete. Ele é jovem, ambicioso, cheio de ódio por Nabonide e com ódio suficiente da Babilônia para querer partir.”

“E que importância isso tem para mim?”

“Não sei, meu filho, meu lindo e amado filho. Não sei. Só sei que Israel inteira está pedindo que você faça o que os sacerdotes de Marduc querem que faça. Quanto a esta placa aqui? Eu não sei. Simplesmente não sei.”

Ele chorou por um longo tempo. Eu fiquei tentado a arrancar o envelope da mão dele e de repente o fiz. Li o que estava escrito em sumério.

— “Para fazer o Servo dos Ossos.”

— “O que é isso, pai?”, eu disse. Ele se virou, as lágrimas desfigurando-lhe o rosto, e enxugou a barba e os lábios e pegou a placa de volta. “Deixe que eu julgue isso”, ele disse em voz baixa, e então ergueu-se e caminhou ao longo da parede, procurando pedras soltas, tijolos que pudessem ser retirados, e encontrou o que queria, um esconderijo, e colocou a placa lá dentro.

“Para fazer o Servo dos Ossos”, eu repeti. “O que isso pode querer dizer?”

— “Nós temos que ir até o templo, meu filho, até o palácio. Reis estão nos aguardando. Acordos foram feitos. Promessas foram trocadas.” Então ele me abraçou e beijou lentamente todo o meu rosto, beijou a minha boca, a minha testa e os meus olhos.

— “Quando Jeová disse a Abraão para sacrificar Isaac”, ele disse, “você sabe que o nosso grande pai Abraão obedeceu.”

— “É o que as placas e os pergaminhos dizem, pai, mas Jeová disse a você que eu tenho que ser sacrificado? Jeová o procurou, junto com Enoch e Asenath e todos os outros? E nisso que você espera que eu acredite? Pai, você está chorando por mim. Eu já estou morto na sua cabeça. O que é isto? O quê, por que eu tenho que morrer? Em nome de quê? O que estão querendo, que eu renuncie pessoalmente ao deus, que diga ao rei que o deus desejou-lhe tudo de bom, o quê? Se for um teatro, eu vou fazê-lo! Mas, pai, não chore por mim como se eu estivesse morto!”

— “É um teatro”, ele disse, “mas exige alguém muito forte para representar, alguém com resignação e convicção, e alguém com um grande coração cheio de amor. Amor por seu povo, amor por sua tribo, amor por nossa Jerusalém perdida e amor pelo Templo a ser construído ali para honrar o Senhor. Se eu achasse que podia fazer isso, que podia ver a representação até o fim, eu o faria. E você pode se revoltar, dizer que não, fugir.”

“Mas os sacerdotes de Marduc querem você, meu filho, eles querem você. Assim como outros ainda mais poderosos do que eles. Eles querem você. E eles sabem que você é mais forte que os seus irmãos.” A voz dele ficou embargada.

— “Entendo”, eu disse.

— “E você é o único que me perdoaria por condená-lo a tal destino.”

Eu fiquei estarrecido. Simplesmente olhei para ele, para seus olhos rasos d’água, e disse “Sabe, pai, talvez você tenha razão, pelo menos quanto a isto. Eu lhe perdoaria qualquer coisa. Porque eu o conheço, e você não me faria mal, você não faria isso.”

— “Não, eu não faria. Azriel, você sabe o que significa para mim você me ser tirado, você, sua futura mulher, seus futuros filhos e filhas? Oh, não tem importância. Perdoe-me, filho, pelo que estou fazendo. Perdoe-me. Eu lhe suplico. Antes que comece, antes de irmos para o palácio e ouvirmos as mentiras e olharmos o mapa, perdoe-me.”

Ele era meu pai. Era doce e bondoso e estava tomado pela tristeza, por uma terrível tristeza e dor. Foi fácil para mim abraçá-lo como se ele fosse meu irmãozinho e dizer “Pai, eu o perdôo.”

— “Nunca se esqueça disso, Azriel”, ele disse. “Quando você estiver sofrendo, quando as horas parecerem intermináveis, quando estiver infeliz, perdoe-me... não apenas por mim, filho, mas por você!”

Alguém bateu na porta. Sacerdotes do palácio estavam lá.

Nós nos erguemos imediatamente, enxugamos o rosto e saímos para o pátio.

Remath estava lá, e assim que o vi, me lembrei dele, como meu pai tinha dito. Eu nunca tinha falado muito com ele porque ele era um verdadeiro revoltado; quer dizer, ele odiava Nabonide por não dar ao templo de Marduc o que este merecia, mas também odiava todo mundo. Normalmente, ele ficava perambulando pelo templo e pelo palácio sem fazer nada. Mas ele era esperto. Eu sabia disso. E era muito inquieto. Era jovem e esperto.

Ele estava nos analisando agora, os olhos fundos e aparentemente bem esculpidos na sua pele branca, e seu longo e fino nariz davam-lhe uma aparência desdenhosa. Todo o resto era a massa costumeira de cabelo crespo e negro... e vestes sacerdotais muito finas, até as sandálias enfeitadas de jóias, e então ele se aproximou de meu pai e disse, “Asenath me entregou aquilo?”

— “Sim”, meu pai disse. “Mas isto não quer dizer que eu vá dar para você.”

“Você será um estúpido se não der. Seu filho irá para debaixo da terra. Qual a vantagem disso?”

“Não me xingue, seu pagão”, meu pai disse. “Vamos resolver isso logo. Vamos.”

Na ante-sala havia outros sacerdotes esperando por nós e, quando saímos, vimos que havia liteiras enfeitadas esperando por nós e fomos levados ao palácio, cada um sozinho em sua liteira, e eu me recostei tentando entender o que estava acontecendo.

— “Marduc, você vai me ajudar?”, eu murmurei.

Marduc respondeu, "Não sei o que dizer a você, Azriel, não sei. Estou vendo o que vai acontecer. Eu não sei! O que sei é que quando estiver tudo acabado, de um jeito ou de outro, eu ainda estarei aqui. Estarei andando pelas ruas da Babilônia atrás de olhos que possam ver-me, de orações e incenso que possam estimular-me. Mas onde estará você, Azriel?”

“Eles vão me matar. Por quê?”

— “Eles vão explicar. Você vai entender tudo. Mas posso assegurá-lo de uma coisa. Se você se recusar a fazer o que eles querem, eles o matarão de qualquer maneira. E provavelmente matarão seu pai porque ele está a par da conspiração.”

— “Compreendo. Eu devia ter imaginado isso. Eles precisam da minha cooperação, e se eu não concordar, bem, teria sido melhor para mim que nunca me tivessem pedido.”

Só veio silêncio da parte dele, mas eu podia sentir seu hálito e sabia que ele estava perto. Ele não era matéria, mas isso não tinha importância; nós estávamos ainda mais próximos na escuridão da liteira, sendo carregados com as cortinas fechadas pelas ruas não pavimentadas da Babilônia.

— “Marduc, você pode me ajudar a sair disto?”, eu perguntei.

— “Pensei nisto durante muitas horas depois que o seu profeta cuspiu toda aquela sujeira em cima de mim. Perguntei a mim mesmo, Marduc, o que você pode fazer? Mas sabe de uma coisa, Azriel, sem a sua força, eu não posso fazer o que quero. Não consigo. Posso ser o deus de ouro em seu trono e só. Posso ser a estátua carregada na procissão. Aqueles objetos que eles já possuem. Mas se eu fugisse com você... se nós escapássemos, para onde iríamos?”

Um som estranho encheu o pequeno compartimento fechado. Ele estava chorando. Então, subitamente, “Azriel, diga não a eles! Recuse-se a tomar parte nos seus esquemas sujos. Recuse-se. Não o faça, nem por Israel, nem por Abraão, nem por Jeová. Recuse-se.”

“E morra.”

Ele não respondeu.

— “Bem, eu vou morrer de qualquer maneira, não vou?”

— “Existe uma terceira alternativa”, ele disse.

— “Você está se referindo a Asenath e a placa.”

— “Sim, mas é terrível, Azriel. É terrível. E eu não sei se existe verdade nela. Ela é mais velha do que eu. É mais velha que Marduc e mais velha que a Babilônia, aquela placa; ela veio da cidade de Erec. Talvez de antes disso. Ela é muito velha. O que posso dizer-lhe? Consulte a sua mente. Arrisque-se!”

— “Marduc, não me abandone”, eu disse. “Por favor.”

“Não vou abandoná-lo, Azriel, você é o meu amigo mais querido. Eu não o abandonarei. Faça-me aparecer se precisar de mim para assustá-los ou interrompê-los. Faça-me aparecer e eu vou tentar. Mas eu não o abandonarei, eu sou o seu deus, o seu deus pessoal, o seu deus, e estarei com você.”

Nós tínhamos chegado no palácio. Estávamos entrando por um portão particular e então nos convidaram a sair dos nossos pequenos compartimentos para podermos caminhar pela imponente escadaria de ouro e tijolo esmaltado, atravessar as suntuosas cortinas que separavam um aposento gigante de outro, e nós o fizemos, caminhamos em silêncio, meu pai e eu, nós caminhamos atrás do sacerdote e fomos levados ao aposento real, onde Baltazar escutava as queixas e fazia um arremedo de justiça todo dia, e onde seus homens sábios diziam a ele, a cada hora, o que as estrelas estavam dizendo, e nós fomos para um pequeno e elegante conjunto de aposentos que ficava mais adiante e que eu jamais tinha visto.

Eu vi que um selo tinha sido quebrado, um selo antigo, ao se abrirem as portas. Mas os criados tinham chegado. Havia luxo por toda a parte, lindos tapetes, almofadas, as cortinas costumeiras, e lampiões pendiam das vigas do teto e o óleo era doce e a luz brilhante.

No meio do aposento havia uma mesa. Homens estavam sentados em volta dela. E atrás deles estavam meus tios, dois deles, inclusive o que era surdo, que ele continue anônimo, e os Anciãos de Israel no Cativeiro, e Asenath e Enoch, o profeta, também.

— Só aos poucos é que eu me permiti olhar para os que estavam sentados à mesa, embora estivéssemos sendo colocados em frente, os criados se apressando para puxar as cadeiras douradas. Eu vi o nosso regente miserável, Baltazar, e ele pareceu abestalhado pela bebida e aterrorizado, e resmungava para si mesmo alguma coisa sobre Marduc, e então eu percebi que estava olhando para Nabonide, o velho Nabonide, o nosso verdadeiro rei que tinha estado ausente quase a metade da minha vida. O nosso verdadeiro rei estava sentado ali com seus trajes completos, embora não num trono, apenas numa mesa, e seus grandes olhos aquosos já estavam mortos e vazios, e ele apenas sorriu para mim e disse, “Bonito, bonito... você escolheu um que é tão bonito... bonito como o deus”.

— “Bonito o bastante para ser um deus!”, disse uma voz, e eu olhei direta-mente para um homem bonito e elegante, mais alto que todos que estavam ali, mais magro que qualquer um de nós, com cabelo preto e cacheado, mas um cabelo cortado mais curto que o nosso, e um bigode aparado e uma barba aparada mais curta.

Tratava-se de um persa! Os homens ao lado dele eram persas. Eles usavam roupas persas, muito parecidas com as nossas, mas na cor azulão e bordadas de pedras preciosas e ouro, e os dedos deles eram cobertos de anéis, e as taças defronte deles eram as nossas taças do templo!

Aqueles eram os homens do império persa que estava nos conquistando, que estava nos matando. Todas as estranhas profecias de Enoch voltaram à minha cabeça e eu o vi olhando fixamente para mim, com um sorriso quase maligno, e Asenath parecia maravilhada.

— “Sente-se, meu jovem”, disse o homem alto e robusto, de grandes olhos risonhos, o homem mais bonito de todos, o homem que emanava poder. “Eu sou Ciro e quero que fique à vontade.”

“Ciro!”, eu disse. Ciro era o conquistador.

E vieram à minha mente todos os detalhes dos feitos do homem. Aquele era Ciro, o rei persa que já dominava metade do mundo. Ele tinha juntado os medas e os persas, o homem que tencionava conquistar a Babilônia. O homem que tinha amedrontado todas as cidades à nossa volta. Aquilo não era mais conversa de taverna sobre a guerra. Aquele era o próprio Ciro sentado diante de nós.

Eu deveria ter-me prostrado diante dele, mas ninguém estava fazendo nada parecido com isto diante de ninguém, e ele tinha dito numa voz clara, com um excelente domínio do aramaico, que eu ficasse à vontade.

Muito bem. Eu olhei diretamente para ele. Afinal de contas, pensei, eu vou morrer. E daí? Por que não? Meu pai sentou-se na cadeira vazia ao meu lado.

— “Azriel, meu menino, meu lindo menino”, disse Ciro. A voz era incisiva, cheia de bom humor. “Já estou na Babilônia há vários dias. Há milhares de soldados meus espalhados pela Babilônia. Eles vêm entrando há muito tempo pelos diversos portões. Os sacerdotes sabem. O seu amado rei Nabonide — que os deuses o guardem — também sabe.” Ele fez um cumprimento generoso para o velho rei desconfiado e moribundo. “Todos os regentes do rei e seus assessores sabem que eu estou aqui. E os seus Anciãos, como pode ver. Não sinta medo. Sinta alegria. A sua tribo será rica e viverá para sempre, e irá para casa.”

— “Ah, e isto depende do que eu fizer?”, eu perguntei.

Eu não soube então e ainda não sei bem hoje por que fui tão frio e arrogante com ele. Ele era dominador mas era humano, e jovem. E também, não importa o que tivesse feito até então, ele era um pagão para mim, e não era nem mesmo babilônio. Então, eu fui frio com ele.

Ele deu um sorriso silencioso e avaliativo.

— “Então isto depende do que eu fizer?”, eu repeti a pergunta. “Ou a sua decisão, senhor, a sua decisão já foi tomada?”

Ciro riu, apertando os olhos alegres. Ele tinha o vigor dos reis, sim, e ainda não tinha a completa loucura deles. Era jovem demais e andara bebendo o sangue da Ásia. Estava cheio de força. Cheio de vitórias. “Você fala com coragem”, ele me disse generosamente. “Você olha com olhos corajosos. Você é o filho mais velho do seu pai, não é?”

— “Durante os três dias exigidos”, disse um dos sacerdotes, “ele terá que ser muito forte. Ser corajoso faz parte.”

— “Ponham outra cadeira nesta mesa”, eu disse, “com sua permissão, Meu Senhor Rei Ciro, e Meus Senhores, Rei Nabonide e Senhor Baltazar. Coloquem ali na ponta.”

— “Por quê, para quem?”, Ciro perguntou educadamente.

— “Para Marduc”, eu disse. “Para o meu deus que está aqui comigo.”

“O nosso deus não está à sua disposição!”, berrou o Sumo Sacerdote. “Ele não vai descer do altar por sua causa! Você nunca viu o nosso deus, não de verdade, você é um judeu mentiroso, você é...”

— “Cala a boca, Mestre", Remath disse num fio de voz. "Ele viu o deus e falou com ele e o deus sorriu para ele e se ele convidar o deus para se sentar nessa cadeira, é bem possível que o deus venha.”

Ciro sorriu e sacudiu a cabeça. “Sabe”, ele disse, “esta é uma cidade realmente maravilhosa. Eu vou amar a Babilônia. Eu não estragaria uma única pedra deste lugar. Ah, Babilônia!”

Eu poderia ter rido daquilo, de sua malícia, de seu desrespeito Para com os anciãos e os velhos sacerdotes, sua crueldade e seu humor. Mas eu já não podia mais rir. Olhei para a luz dos lampiões e pensei, Eu v ou morrer.

Uma mão tocou a minha. Era como um vapor. Ninguém podia vê-la. Mas era Marduc. Ele tinha ocupado a cadeira à minha esquerda; invisível, transparente, dourado e vital. Meu pai estava sentado à minha direita e meu pai simplesmente cobriu o rosto com as mãos e chorou.

Ele chorou como uma criança. E chorou.

Ciro contemplou o meu pai com paciência e compaixão.

— “Vamos prosseguir com isso”, o Sumo Sacerdote disse.

— “Sim”, Enoch disse, “vamos prosseguir logo com isso.”

— “Para estes homens, estes anciãos, estes sacerdotes, esta profetisa, tragam bancos para que eles fiquem mais confortáveis”, Ciro disse com amabilidade e animação. Ele sorriu para mim. “Nós todos estamos nisto juntos.”

Eu me virei para olhar para Marduc. “Estamos?”

Todos ficaram em silêncio, vendo-me falar com meu deus invisível.

— “Não posso dizer-lhe o que fazer”, Marduc disse. “Eu o amo demais para cometer um erro, e não tenho as respostas certas.”

— “Fique, então.”

— “Até o fim”, ele disse.

Os banquinhos e cadeiras foram rapidamente trazidos e os Anciãos concordaram com naturalidade em sentar-se ao redor de nós e desse rei persa conquistador, esse monarca que tinha enlouquecido os gregos no mundo inteiro e que agora queria a nossa cidade e que tinha tudo que tínhamos, exceto a cidade.

Apenas o sacerdote Remath permaneceu em pé, a uma certa distância, encostado numa coluna. O Sumo Sacerdote tinha dito a ele para sair, mas ele tinha ignorado a ordem e aparentemente tinha sido esquecido. Ele estava observando a mim e a meu pai, e então eu percebi que ele podia ver Marduc. Não com tanta clareza. Mas podia vê-lo. Remath mudou ligeiramente de posição de modo a enxergar a nós três, indo para uma coluna mais adiante, atrás de Ciro, onde os soldados de Ciro, aliás, estavam posicionados para a carnificina. E de lá Remath olhou para a cadeira aparentemente vazia com olhos frios e coniventes, e olhou para mim.

 

“Bem , meu senhor, o que quer de mim?”, eu perguntei. “Por que eu, um escriba hebreu, me tornei de repente tão importante?”

— “Ouça, criança”, disse Ciro. “Eu quero a Babilônia sem precisar sitiá-la, eu a quero sem mortes. Eu a quero do modo como tomei as cidades gregas onde as pessoas foram espertas o suficiente para permitir. Eu não desejo cinzas atrás de mim e ruínas por toda parte! Eu não venho com uma tocha e um saco para pilhagem, como um ladrão. Eu não vou violentar a sua cidade e deportar a população. Pelo contrário, mandarei todos vocês de volta a Jerusalém, com minhas bênçãos para a construção do templo.”

Enoch ergueu-se e estendeu um pergaminho diante de nós. Eu o peguei e li. Era uma proclamação autorizando todos os hebreus a voltarem para casa. Jerusalém ficaria sob a proteção benevolente de Ciro.

— “Ele é o Messias”, Enoch disse para mim. E como o tom de voz do velho tinha mudado. Agora que Ciro, o Grande, estava falando comigo, meu próprio profeta também estava. Mas por Messias ele queria dizer “o ungido”. Mais tarde, os cristãos deram grande importância a esta palavra, mas naquela época ela só significava isso. Ainda assim, era uma palavra forte.

“Acrescente a esta proclamação”, disse Ciro, “ouro, mais ouro do que podem imaginar”, ele disse, “e permissão para levar tudo o que possuem, para reclamar os seus vinhedos, as suas terras, e para serem leais a um poderoso império que permitirá que vocês construam o seu Templo para Jeová.”

Eu olhei para Marduc. Marduc suspirou. “Ele está dizendo a verdade, isto é tudo o que posso dizer. Ele vai conquistar a cidade de uma forma ou de outra.”

— “Então eu posso confiar nele?”, eu perguntei ao meu deus.

Todos ficaram chocados. “Sim”, disse Marduc, “mas até certo ponto... continue ouvindo. Você tem alguma coisa que eles querem, a sua vida, quem sabe não haverá um jeito de você ainda conseguir salvá-la.”

— “Ah, não”, Asenath exclamou, “você está enganado, deus Marduc. Só há um caminho para ele escapar, e ele deveria tomá-lo porque é melhor que a própria vida.”

Eu compreendi que ela podia vê-lo, pelo menos parcialmente, e ouvir o que dizia.

Ele se virou para ela. “Deixe que ele seja o juiz. A morte pode ser melhor do que o que vocês estão reservando para ele.”

Ciro assistiu a tudo isso espantado. Então ele olhou para os sacerdotes espalhados por toda parte, para o Sumo Sacerdote de Marduc e para o astuto Remath em pé ao lado da coluna.

— “Eu preciso da bênção do seu deus”, disse Ciro, “você tem toda a razão”, ele disse com humildade, mas também com esperteza, uma vez que era isso que aqueles sacerdotes queriam ouvir.

— “Está vendo, Azriel”, disse Ciro, “é muito simples. O clero é poderoso. O templo é poderoso. O seu deus, se está sentado aqui conosco, e eu devo confessar que estou preparado para cultuá-lo, é poderoso. E eles podem virar a cidade da Babilônia contra mim. Eu já domino todo o resto da Babilônia, mas esta é a jóia, este é o Portão do Paraíso.”

— “Mas como você pode dominar todo o resto?”, eu disse. “Nossas cidades estão a salvo e seguras. Nós sabíamos que você estava chegando, mas alguém está sempre chegando.”

— “Ele está dizendo a verdade”, disse Nabonide, e quando ele falou, todos os olhos voltaram-se para ele. Ele não era nem tolo nem estúpido. Apenas muito velho e cansado. “As cidades foram tomadas, todo mundo caiu nos braços de Ciro. As torres de sinalização caíram todas nas mãos dele, e os sinais que estão sendo mandados vêm dos homens de Ciro, para aquietar a Babilônia, mas as cidades foram tomadas e os sinais são falsos.”

— “Ouça”, disse Ciro, “eu vou mandar de volta para essas cidades todos os deuses que vocês mandaram refugiarem-se aqui. Eu quero que seus templos prosperem. Vocês não compreendem? Eu quero adotá-los! Eu não destruí nem Éfeso e nem Mileto! Elas ainda são cidades gregas e seus filósofos estão discutindo lá agora. Eu quero a Babilônia sob a minha proteção, e não sua destruição.”

Então ele se virou rapidamente e olhou para a cadeira “vazia”. “Mas o deus Marduc tem que aceitar o meu aperto de mão”, ele disse, para que eu conquiste esta cidade sem fogo. E então eu mandarei para casa todos os deuses da Babilônia conforme prometi.”

Marduc, invisível para ele, apenas ouviu sem dizer nada. Mas o Sumo Sacerdote perdeu a paciência. “Não há nenhum deus nessa cadeira! O nosso deus é negligenciado pelo nosso rei e caiu num sono profundo do qual ninguém consegue acordá-lo.”

— “Olha”, eu disse, “por que me envolver nisto? O que eu tenho a ver com isto? Aqui mesmo em Esagila está a estátua de Marduc que você precisa para a procissão. Vá junto com ela na grande carruagem e segure a mão dela, e ela segura a sua e você será o Rei da Babilônia. Se os sacerdotes estão dispostos a deixá-lo tomar a estátua, o que isso tem a ver comigo? Existe algum boato, Majestade, de que eu posso controlar o deus ou voltá-lo contra você? Você precisa de um ídolo de ouro para o seu trabalho! Ele está ali, bem ali, na capela.”

— “Não, meu filho”, disse Ciro, “tudo isso poderia funcionar muito bem se tivesse havido uma procissão com o deus todos os anos, e se o povo tivesse visto o ídolo de ouro, como você o chama, e tivesse dado vivas a ele e ao rei Nabonide, mas essas procissões não aconteceram, e a preciosa estátua não vai participar de nenhuma procissão comigo agora, mesmo que eu queira. O que eu preciso é da cerimônia como ela era realizada antigamente.”

Eu senti um calafrio. Marduc olhou para mim e disse, “Eu sei pouco do que ele está falando, mas todos os espíritos enxergam longe e eu vejo horror para você. Não fale. Espere.”

Enquanto isso, os sacerdotes estavam em grande comoção. Eles tinham trazido num esquife alguma coisa amontoada, envolta em panos e, aproximando-a de nossa mesa, com diversos portadores de archotes, retiraram os panos e nós todos ficamos boquiabertos com o que vimos.

Era a estátua da procissão e estava quebrada, e de suas entranhas apodrecidas saíam ossos que pareciam ser de um homem, também putrefato, e metade do crânio mostrava onde o grosso adorno dourado tinha virado pó e aquilo tudo era uma desgraça e um insulto.

O Sumo Sacerdote me contemplou triunfante. Ele cruzou os braços. “Você fez isto, hebreu?”, ele perguntou. “Você fez Marduc deixar a estátua! Deixar esta cidade? É você e não o nosso rei que devemos acusar?”

Eu compreendi muita coisa naquele momento. Olhei para o meu deus, que olhava friamente para o monte de ruínas.

— “Estes são os seus ossos, meu senhor?”, eu perguntei a Marduc.

— “Não”, ele disse, “e eu só me lembro vagamente de quando eles foram colocados aí. O espírito daquele jovem era fraco, e eu o dominei e continuei a reinar. Quem sabe tenha me revigorado a idéia de que ia ser substituído? Eu não sei, Azriel! Lembre-se, estas são as palavras mais sábias que tenho para você. Eu não sei. Agora eles querem pôr você no meu lugar, isto nós dois sabemos.”

— “O que quer, senhor?”, eu perguntei a Marduc.

— “Que você não se machuque, Azriel”, ele disse. “Mas você quer se tornar o que eu sou? Você quer que os seus ossos fiquem trezentos anos presos dentro disto? Até eles se esfarelarem e outro jovem ser sacrificado? Mas deixe-me chegar aonde você quer.” Ele se inclinou para mim.

— “Eu esqueço o quanto é grande o seu coração, Azriel. Você faz esta pergunta por minha causa. Eu posso dizer-lhe o seguinte, eu posso ir e vir à vontade. Eu bani o último substituto com um aceno e ele voltou para a névoa. O fato de um homem mortal ser assassinado deste jeito teatral não faz dele necessariamente um deus ou um espírito poderoso.” Ele deu de ombros. “Pense em si mesmo, e só em si mesmo. O que eu sou é... é o que você sabe.” Então a tristeza do rosto dele me chocou. “Eu não quero que você morra!”, ele murmurou.

O Sumo Sacerdote não pôde mais tolerar este diálogo. Ele não podia ver nem ouvir Marduc. Ele estava espumando de raiva. Mas Asenath estava ouvindo tudo e olhando para mim e para o deus com grande curiosidade, e Remath, o astuto, não ia se entregar, mas ele sabia que havia alguém sentado na cadeira vazia. Ele sabia. E também conseguiu entender parte do que foi dito.

“Vocês estão falando de uma estátua de ouro”, meu pai disse. “Vocês não podem fazer uma estátua de ouro sem o meu filho?”, ele perguntou.

“Os ossos são os ossos do deus!”, declarou o Sumo Sacerdote. “É por isso que a nossa cidade está como está, é por isso que precisamos do libertador persa. O deus é velho, os ossos estão podres, a estátua não fica em pé, e tem que haver um novo deus.”

— “Mas e a estátua que está no Santuário?”, meu pai perguntou, o que era uma pergunta infantil.

— “Essa não pode ser carregada pelas ruas”, disseram os sacerdotes. “Essa não passa de um pedaço de...”

— “Metal!”, disse o profeta Enoch com um sorriso cruel.

“Vocês estão perdendo tempo”, disse Ciro. “A cerimônia tem que ser feita do modo antigo”, ele disse, olhando para mim. “Expliquem a ele, Sacerdotes, não fiquem aí parados. Expliquem. E você, meu bravo Azriel, o que Marduc está dizendo para você?”

Foi a velha Asenath, de cabelos brancos, quem respondeu, batendo primeiro no chão com o bordão com a serpente na ponta para que todos soubessem que era aconselhável calar a boca e ouvi-la. “O deus está dizendo que vem e vai livremente, que os ossos dentro da estátua não importam para ele, que não são os ossos dele, é isso que ele está dizendo!” Então ela olhou diretamente para Marduc. “Bem, não foi isso que você disse, seu deusinho miserável que treme sob a luz de Jeová?”

Os sacerdotes ficaram totalmente confusos. Será que deviam defender a honra de Marduc, que nem deveria estar ali?

— “Olhe, meu filho”, disse Ciro, “torne-se o deus. Caminhe na procissão. Você será delicadamente coberto de ouro, embora a velha fórmula pareça estar... desaparecida?” Ele lançou um olhar ao Sumo Sacerdote. “Você permanecerá vivo sob a camada de ouro. Terá que ficar vivo tempo suficiente para segurar minha mão, e para erguer a outra mão para seus súditos. E viverá os três dias necessários para enfrentar as forças do caos, e então voltará comigo para cá, para o Pátio de Esagila, onde me proclamará rei. Faremos isto mais depressa se pensarmos num meio de tornar isto aceitável.”

— “Vivo, coberto de ouro.” Eu estava perplexo. “E depois?”

Asenath respondeu. “Nessa altura o ouro terá endurecido e você estará morto. Você verá e ouvirá por algum tempo, mas morrerá por dentro, e quando eles virem que seus olhos estão apodrecendo, eles os retirarão e os substituirão por jóias e a estátua de Marduc será a sua mortalha.”

Meu pai cobriu o rosto com as mãos e depois ergueu os olhos. “Eu nunca vi isto ser feito à maneira antiga”, ele disse baixinho. “Mas o pai do meu pai viu uma vez, ou disse que viu. E o veneno do ouro é o que irá matá-lo. Você morrerá lentamente à medida que o ouro penetre, que alcance seu coração e seus pulmões, e então... como dizem, você encontrará finalmente a paz.”

— “Isto”, disse Asenath, “depois de você ter sido carregado por toda a extensão do Caminho da Procissão, dourado e brilhando, erguendo a mão, até mesmo virando a cabeça, bem de leve, enquanto a grossa camada vai endurecendo.”

— “E com isto”, disse Enoch “nós voltaremos para Jerusalém, todos nós, inclusive os que estão na prisão, e teremos meios para construir o Templo do Senhor, outra vez, de acordo com as medidas do rei Salomão.”

— “Compreendo”, eu disse. “Então, nos velhos tempos, era um homem de verdade! E quando a estátua finalmente se desmancha...”

“Você está blasfemando!”, disse o Sumo Sacerdote. Aqueles são os ossos de Marduc.

Isto foi demais para Marduc. Invisível ou não, ele se levantou, derrubando a cadeira, e com um golpe da mão esquerda, mandou os ossos voando em todas as direções. Eles chacoalharam e se partiram de encontro às paredes. Todo mundo recuou. Até eu baixei a cabeça. Ciro não, mas ficou olhando com olhos curiosos, infantis, e o velho Nabonide deitou a cabeça nos braços como se fosse dormir. O profeta Enoch sorriu ironicamente.

Então Marduc virou-se para mim. Ele olhou com seriedade para mim e depois para Asenath. “Eu conheço seus truques, velha. Mas diga-lhe tudo! Conte-lhe toda a verdade. Você conhece os mortos. O que eles lhe dizem quando você os invoca? Azriel, faça o que quiser fazer pelo seu povo e pela sua tribo. Eu estarei aqui depois como estou agora, e se você vai poder ver-me depois e dar-me força, e se eu vou poder vê-lo depois e dar-lhe força, ninguém sabe. Se vou poder falar com você, ninguém pode dizer. Sua alma será testada por esta grandiosa procissão, por esta luta contra o caos, por esta coroação no pátio, por este tormento! Mas este tormento não lhe dará necessariamente uma vida espiritual. E você poderá desaparecer na bruma junto com todos os outros mortos cansados e errantes. Os mortos do mundo inteiro, não importam os deuses, anjos, demônios ou Jeová. Faça o que tiver que fazer como um homem honrado, Azriel. Pois depois que estiver terminado, eu não sei se até mesmo eu, poderoso como sou, serei capaz de encontrá-lo ou de ajudá-lo.”

Asenath estava tomada de excitação. “Eu o veneraria, Marduc, se você não fosse um deus malvado e inútil. Você é esperto.”

— “O que diz o deus!”, Ciro quis saber.

Enoch olhou para Asenath. “Nós temos que dizer a ele agora o que vai acontecer com ele, só isso. Azriel, você se parece com a estátua de Marduc. Coberto de ouro, você enganará a todos os seus amigos. Ninguém saberá que você não é um deus, você parecerá um homem de ouro vivo, e sentirá algumas dormências e dores, sim, a dor lenta da vida que se esvai, mas não é nada terrível. E enquanto você estiver andando pelo Caminho da Procissão, o seu povo já estará se preparando para sair da Babilônia!”

— “Bem, é bastante simples”, eu disse. “Deixe todo o povo hebreu partir agora que eu o farei.” Eu senti um aperto na garganta. Sabia que se tratava de uma loucura da juventude e que em breve eu seria tomado por um terror insuportável.

— “Isso não pode ser feito, meu filho”, disse Ciro. “Precisamos do seu povo e dos seus profetas. Precisamos deles para proclamarem que Ciro, o Persa, é o ungido do seu deus. Precisamos que toda a cidade grite em uma só voz, e eu não o enganarei, eu não acredito no seu deus, Marduc, e não acredito que você se tornará um deus se fizer isto.”

“Conte-lhe tudo!”, disse Marduc.

Agora não, e essa parte não importa”, disse Asenath. “Ele pode dizer não a ela, você sabe disso tão bem quanto eu.”

— “Azriel”, Marduc disse, virando-se para mim e me abraçando. “Eu o amo. Estarei com você durante a procissão. Eles estão dizendo a verdade. Deixarão o seu povo partir. Não posso mais suportar esta companhia mortal. Asenath, seja bondosa com os mortos que você invoca com tanta freqüência, pois eles estão desesperados para ficar perto da vida, você sabe. Desesperados.”

— “Eu sei, deus dos pagãos”, ela disse. “Venha aqui agora e fale comigo!”

— “Nunca”, exclamou o Sumo Sacerdote. Então ele se acalmou. Olhou para os outros dois sacerdotes, homens que eu mal me lembro. Foi Remath, o astuto, quem falou. “Lembre-se que ela é a única que sabe misturar o ouro.”

Eu ri. Não consegui me controlar. Eu ri.

— “Ah, estou entendendo”, disse Ciro. “Então vocês recorrem à feiticeira de Canaã porque seus sábios não conhecem mais o segredo.”

A minha gargalhada — não compartilhada — finalmente me deixou em paz.

Eu precisei de muita coragem para me virar para o meu pai. Ele estava sentado como uma pessoa alquebrada e derrotada, os olhos úmidos e o rosto parado. Dava a impressão de que eu já estava enterrado.

— “Você deve ir também, pai, você e os meus irmãos.”

— “Oh, Azriel...”

— “Não, esta é a última coisa que eu lhe peço, pai. Venha. Quando formos conduzidos pelo Caminho da Procissão, deixe-me ver o seu rosto e os rostos da minha família. Isso, é claro, se você acredita nestes homens e nesta proclamação.”

— “O dinheiro já trocou de mãos”, disse Ciro. “Os mensageiros já estão a caminho de Jerusalém. A sua família será muito importante na tribo, e você será lembrado por seu sacrifício.”

— “Coisa nenhuma, grande rei”, eu disse. “Os hebreus não se lembram daqueles que fingem ser deuses babilônios. Mas eu o farei. Farei porque meu pai quer que eu faça... e eu... e eu o perdôo.”

Meu pai olhou para mim. Seus olhos disseram tudo, o seu amor, o seu coração partido. Então ele olhou para Enoch e Asenath e os Anciãos da nossa tribo, que tinham ficado sentados em silêncio esse tempo todo, e então ele disse da forma mais simples, “Eu o amo, meu filho”.

— “Pai, eu quero que você saiba disto”, eu disse. “Há outro motivo para eu fazer isto... Eu faço por você, pelo nosso povo, por Jerusalém, e porque eu falei com um deus. Mas faço por mais uma razão, que é muito simples. Eu não permitiria que ninguém mais passasse por isto. Não desejaria isto a mais ninguém.”

É claro que havia uma certa vaidade nas minhas palavras, mas ninguém pareceu pensar assim. Ou então eles a relevaram. Os Anciãos se ergueram, eles tinham sua Proclamação nas mãos. Todos estavam satisfeitos. Estava feito. Ciro, o Persa, era o Messias.

— “Amanhã de manhã as cornetas vão soar”, disse o Sumo Sacerdote. “Será anunciado que Marduc trouxe Ciro para nos livrar de Nabonide! O Caminho da Procissão já está sendo preparado. Quando o sol estiver alto, todo mundo estará na rua. O barco espera no rio para levar-nos ao local onde você matará o dragão Tiamat, e isso, aliás, não será nada para você. Nós voltaremos no dia seguinte com você. Nós o ampararemos e faremos tudo o que pudermos para aliviar a sua dor.”

— “Na terceira manhã, no pátio, você precisará estar vivo para erguer-se e colocar a coroa na cabeça de Ciro. Isso é tudo. Depois disso, você pode ficar em pé, mantido ereto pelo ouro que o mata, aquecido por ele, entorpecido por ele, e pode morrer dentro dele. Todo o resto, a leitura dos poemas, as Três Parcas, só o que você precisa fazer é manter os olhos abertos e fixos.”

— “E se eu não conseguir me manter vivo por três dias?”

— “Você vai conseguir. Os outros sempre conseguiram. É depois disso que talvez tenhamos que facilitar a sua morte com um pouco mais de ouro, talvez, na sua boca. Mas será indolor.”

— “Estou certo que sim”, eu disse. “Você sabe o quanto eu o desprezo?”

— “Eu não me importo”, disse o Sumo Sacerdote. “Você é um hebreu. Você nunca me amou. Você nunca amou o nosso deus.”

— “Oh, mas ele o ama!”, disse Asenath. “Isso é que dá pena! Mas não tenha medo, Azriel, o seu sacrifício é tão importante para Israel que o Senhor Deus dos Exércitos irá perdoá-lo, e a sua chama se juntará na morte com o grande fogo que Ele é.”

— “Eu juro”, disse Enoch.

Eu ri sarcasticamente. Ergui os olhos, querendo apenas mostrar o meu desprezo, mas pude ver que a sala estava cheia de espíritos. Como fumaça, eles pairavam por lá, fantasmas. Eu não soube o que eles eram ou tinham sido, suas roupas tinham alcançado extrema simplicidade. Não restava nada, exceto uma túnica aqui ou uma veste ali, às vezes nem havia um corpo, apenas um rosto me contemplando.

— “O que foi, filho?”, Ciro perguntou bondosamente.

“Nada. Só que estou vendo as almas penadas e espero conseguir descanso no fogo do meu deus. Mas... é bobagem até mesmo pensar nisso.”

— “Deixem-nos agora, todos vocês, deixem o rapaz conosco”, disse Remath. “Precisamos prepará-lo e vesti-lo para ser o mais belo Marduc já carregado em uma procissão, e você, velha, vai manter a sua promessa, e vai nos ensinar como misturar o ouro e como passar o ouro nele, na sua pele, seu cabelo, suas roupas.”

“Vá, pai”, eu disse. “Mas permita que eu o veja amanhã. Saiba que eu o amo. Saiba que eu o perdôo. Faça de nós uma casa poderosa, pai, faça de nós uma nação poderosa.” Eu me inclinei e beijei-o com força na boca e dos dois lados do rosto e então olhei para o rei Ciro.

Afinal, ele não tinha me dispensado. Mas meu pai saiu, e os sacerdotes retiraram o velho Nabonide, que tinha de fato adormecido, e o infeliz Baltazar, que estava bêbado e confuso e parecia prestes a ser assassinado. Eu não estava ligando para o que pudesse acontecer com nenhum dos dois. Fiquei ouvindo os passos do meu pai enquanto pude.

Enoch saiu com os Anciãos, fazendo algum belo discurso, do qual não me lembro uma só palavra, exceto que parecia uma imitação medíocre de Samuel.

Ciro ficou olhando para mim. Os olhos dele falavam, falavam de respeito, falavam de perdão pela minha grosseria, minha falta de respeito, minha falta de cortesia.

— “Há formas piores de morrer!”, disse o Sumo Sacerdote. “Você estará cercado por aqueles que o veneram; à medida que sua visão for ficando fraca, você verá pétalas de rosa caindo diante de você, você verá um rei ajoelhar-se aos seus pés.”

— “Precisamos levá-lo agora”, disse Remath.

Ciro fez sinal para eu me aproximar dele. Eu me levantei, rodeei a mesa e me inclinei para receber o seu abraço, e ele se levantou junto comigo, abraçando-me de homem para homem. “Segure minha mão por três dias, meu filho, segure firme, e eu prometo, Israel viverá em paz, enquanto houver Ciro e Pérsia, e Jeová terá o seu templo. Você é mais corajoso do que eu, filho, e eu me considero o homem mais corajoso do mundo, você sabe. Mas você é mais corajoso. Agora vá, e amanhã nós começaremos a nossa jornada juntos. Você tem o meu amor, o meu amor incondicional, o amor de um rei que era um rei antes de procurá-lo e que será um rei mais poderoso por sua causa.”

— “Obrigado, meu senhor”, eu disse. “Seja bom para o meu povo. Eu sou um fraco porta-voz do meu Deus, mas ele é poderoso.”

— “Eu o respeito”, disse Ciro, “e todas as crenças e todos os deuses daqueles que tomo sob minha proteção. Boa noite, criança. Boa noite.”

Ele se virou e seus soldados o rodearam e ele saiu da sala muito ereto e calmo. Só ficaram os sacerdotes, Asenath e eu.

Eu olhei em volta. Os mortos tinham sumido. Mas Marduc tinha voltado e estava observando de braços cruzados. Marduc talvez os tivesse enxotado.

— “Palavras de despedida para mim?”, eu disse.

— “Eu estarei com você,” ele disse. “Usarei todo o meu poder para estar com você e aplacar sua dor e ajudá-lo. Como eu lhe disse, não me lembro desta procissão, nem de nascimento, nem de morte. E talvez quando a sua chama tiver ido para o grande fogo do seu deus, eu ainda estarei aqui para servir à Babilônia. Se você ama o seu povo tanto assim, talvez eu possa amar o meu povo um pouco mais.”

— “Oh, você não precisa duvidar dele, ele é um ótimo demônio”, disse Asenath.

Marduc olhou fixamente para ela e desapareceu.

O velho sacerdote ergueu a mão como se fosse acertá-la, e ela riu na cara dele.

— “Você não pode fazer isso comigo, seu tolo”, ela disse. “E é melhor anotar tudo o que eu disser. Vocês são uma piada, todos vocês, sacerdotes piedosos de Marduc. É um espanto que algum de vocês saiba ler as orações.”

Remath se aproximou dela.

“Lembre-se do que me prometeu”, Remath disse baixinho.

— “Quando chegar a hora certa”, disse Asenath, “o pai escondeu a placa num lugar que você jamais achará, e quando os três dias se passarem, quando o exército tiver entrado por todos os portões, e quando os hebreus estiverem a caminho, eu providenciarei para que receba a placa.”

— “O que é essa outra placa de que você fala?”, eu perguntei. “Que papel ela tem nisto?” É claro que eu sabia onde ela estava, onde meu pai a havia escondido na nossa casa.

— “Uma oração pela sua alma, filho”, ela disse, “para que você possa ver deus, e é claro que você sabe que eu estou mentindo para você.” Ela sacudiu a cabeça. A alegria a abandonou, até mesmo o ódio. “É um antigo encantamento. Você poderá escolher então. Você estará morrendo. Não é nada com o que deva se preocupar agora. É só um encantamento, como os antigos acreditavam, só isso. O resto que fazemos aqui é medicina, não mágica.”

Eles me conduziram pelo palácio e nós rompemos outro selo e entramos juntos num aposento espaçoso. Criados passaram rapidamente por nós para arrumar as mesas e os lampiões. Eu vi um grande caldeirão ser trazido. Vi um braseiro para o fogo que iria ser aceso no chão, sob o caldeirão. Pela primeira vez eu fiquei totalmente amedrontado. Medo da dor, do sofrimento, do fogo.

— “Se vocês mentiram para mim acerca da dor, contem-me a verdade, será mais fácil para mim.”

— “Nós não mentimos acerca de nada!”, disse o Sumo Sacerdote. “Você vai permanecer no templo de Esagila durante séculos e receberá as nossas libações. Seja o nosso deus! Se você alguma vez o viu, então seja ele! Como ele se tornaria o que era se não fosse por nós?”

Eles trouxeram um sofá para mim, e eu me deitei e fechei os olhos. Quem sabe? Talvez eu estivesse em casa, sonhando. Mas não estava. Eles começaram a me preparar. Eu fiquei ali deitado, com os olhos fechados, virado para a parede, ou para eles, e senti as mãos deles sobre mim, aparando o meu cabelo e a minha barba, cortando minhas unhas do tamanho perfeito, e quando foi preciso, eu ergui os braços e as pernas para que eles pudessem me despir e me banhar. E então escureceu. Só o fogo sob o caldeirão ardia.

Eu pude ouvir a velha recitando as palavras em sumério. Era uma fórmula, uma mistura de ouro e chumbo e outras ervas e poções, algumas que eu conhecia e muitas que só uma feiticeira poderia conhecer, mas eu conhecia o suficiente para saber que aquilo mataria qualquer um.

Eu percebi também que aquela mistura tinha as sementes que as pessoas mastigam para ter visões, e muitas das poções que elas bebem para fazê-las ter sonhos desvairados, e eu sabia que essas drogas poderiam diminuir a minha dor e embaçar minhas idéias. Quem sabe? Talvez eu perdesse a minha própria morte, eu pensei.

Remath se aproximou de mim. A fisionomia dele era muito simples e não havia nenhuma maldade nele. Ele falou com um ar quase triste.

— “Nós não o vestiremos com o traje completo antes do amanhecer”, ele disse. “Ele está pronto no outro quarto. O ouro ferve mas vai esfriar, não precisa ter medo, ele estará frio e grosso quando o aplicarmos em sua pele. Bom, o que podemos fazer, senhor deus, Marduc, para torná-lo feliz esta noite?”

— “Acho que vou dormir”, eu disse. “Estou com medo desse ouro fervendo.”

— “Não, ele será esfriado”, disse Asenath. “Lembre-se de que precisa viver longos dias enquanto o ouro penetra em você. Ele será esfriado. Você terá que ser um deus sorridente enquanto puder, e um deus com a mão erguida enquanto puder, e depois um deus que vê enquanto puder.”

— “Sim, está bem, deixem-me sozinho.”

— “Você não quer rezar para o nosso próprio deus?”, Asenath perguntou.

— “Eu não ousaria”, eu murmurei.

Virei-me de costas e fechei os olhos. E, por mais estranho que pareça, adormeci.

Eles me cobriram com o mais macio dos cobertores. Isso foi gentil.

Eu dormi de pura exaustão, como se a provação tivesse ficado para trás em vez estar à frente. Eu dormi. E não sei o que sonhei. O que importa? Eu me lembro de ficar intrigado com o fato de não querer mais ver Marduc; eu me lembro de pensar, Por que será, por que será que não estou chorando no ombro dele? Mas a verdade era essa, eu não estava com vontade de chorar no ombro de ninguém. Eu tinha sofrido um golpe mortal. Não sabia o que me esperava. A fumaça, a névoa, a chama, ou um poder como o dele. Eu não podia saber. E nem ele.

Acho que comecei a recitar o salmo de que tanto gostava e então pensei, Que diabo, Jerusalém vai ser deles, não minha.

Eu tive uma visão. Acho que foi de Ezequiel, que estávamos sempre copiando em casa, sempre discutindo sobre ele, sempre brigando... foi uma visão de um vale de ossos, os ossos de todos os mortos, os ossos de todos os homens, mulheres e crianças. E eu não pensei nos ossos se erguendo, não pensei neles ganhando vida. Simplesmente os vi, e pensei, Eu faço isso por esse vale, por todos nós que somos apenas humanos.

Será que eu era orgulhoso demais? Não sei. Eu era jovem. Não queria nada. Eu dormi. E em pouco tempo, muito pouco mesmo, vieram os lampiões e a luz e o brilho distante do sol sobre chãos de mármore longe da porta do quarto.

 

Eu estava tonto. Acho que era a fumaça. A noite inteira o caldeirão tinha cozinhado aquela mistura de ouro, uma quantidade enorme de ouro e chumbo e o que mais houvesse ali. O perfume era forte e delicioso e eu cambaleei.

Eles me seguraram.

Eu me sacudi todo para acordar melhor, para fazer com que os lampiões parassem de ferir os meus olhos. Aquela luz era do sol, não era? Asenath estava lá, e então os sacerdotes começaram a aplicar o ouro. Começaram pelos meus pés, mandando-me ficar reto e firme, e cobriram as minhas pernas com o ouro, cuidadosamente, com movimentos quase confortantes. Estava quente, mas não doeu. Também não causou nenhuma ardência. Eles pintaram o meu rosto lentamente. Fizeram a tinta entrar em minhas narinas e cobriram meus cílios, um por um, e depois pintaram de dourado cada um dos cachos do meu cabelo e da minha barba.

A essa altura eu já estava totalmente desperto.

— “Fique com os olhos bem abertos”, disse Asenath.

Depois eles trouxeram todas as belas roupas de Marduc. Eram roupas de verdade com que vestiam a estátua todos os dias, mas eu percebi então o que eles iam fazer, não enfeitá-las simplesmente de ouro e sim cobri-las, de modo que eu ficasse mesmo parecendo uma estátua viva.

Eles me vestiram e começaram a pintar cada dobra da longa veste, as mangas compridas e largas, pedindo-me a cada momento para levantar os braços e para caminhar enquanto faziam o trabalho.

Eu fiquei parado diante do espelho. Olhei para mim mesmo e vi que estava parecido com o deus. Eu vi o deus.

— “Você é o deus!”, disse um jovem sacerdote. “Você é o nosso deus e nós o serviremos para sempre. Sorria para mim, Senhor Deus Marduc, Por favor.”

“Faça isso”, disse Asenath. “Entenda, a tinta não deve endurecer depressa demais. Ela não pode ficar quebradiça. E sempre que ela ficar dura demais em algum lugar, os sacerdotes irão acrescentar mais tinta naquele lugar para que você possa mover o músculo. Sorria, abra e feche os olhos, assim mesmo, meu belo rapaz. Assim mesmo. Você está ouvindo esse barulho?”

— “Parece a cidade inteira gritando”, eu disse. Eu ouvi também as cornetas, mas não as mencionei.

— “Eu estou tonto!”, eu disse.

— “Nós vamos segurá-lo”, disse o jovem sacerdote. “O próprio Ciro o segurará, bem como os acompanhantes que irão assisti-lo. Lembre-se, dê a mão a ele, segure a mão dele. Vire-se de vez em quando para ele e beije-o. O ouro que você tem nos lábios não irá irritar-lhe a pele. Você tem que fazer isso.”

Segundos depois nós já estávamos no alto do carroção, e em toda a minha volta havia camadas de flores — todas as flores bonitas que eram cultivadas dentro ou fora da Babilônia, e flores trazidas de lugares distantes, flores do Egito e das ilhas do sul.

Nós estávamos numa biga colocada sobre o carroção, mas as rodas da biga estavam presas e os assistentes estavam posicionados mais abaixo e atrás de nós, segurando-me firmemente pela cintura. E havia um do meu lado, também, me segurando pela cintura. E então Ciro subiu na biga.

Vinham gritos e urros de toda parte. Os portões tinham sido abertos completamente. As pessoas não paravam de entrar. A Procissão tinha começado. Eu pisquei os olhos. Tentei enxergar. Vi as pétalas flutuando no ar, cor-de-rosa e vermelhas e brancas, e senti o cheiro do incenso subindo. Olhei para baixo, sentindo o pescoço enrijecido e vi todos os sacerdotes e todas as mulheres do templo prostrados no amplo chão ladrilhado do pátio. As mulas brancas iniciaram sua lenta caminhada.

Atordoado, eu me virei e olhei para o rei! Como ele estava esplêndido e belo.

Quando atravessamos os portões, ouvimos os gritos e berros mais altos. Os hebreus estavam nos telhados. Eu olhei. Vi tudo embaçado. Mas pude ouvi-los cantando os salmos de Sião. Os rostos eram pequenos e distantes.

A carroça ganhou velocidade, tanta velocidade quanto uma carroça gigante é capaz de tomar, o que não é muito, mas nós prosseguíamos firmes, pode-se dizer, e eu me segurava na beirada da biga com uma das mãos, apertando-a com meus dedos dourados, e então, como por instinto, pois ninguém me disse para fazê-lo, eu segurei a mão de Ciro e dei-lhe o primeiro beijo.

— A multidão ficou extasiada. Cada casa ao longo do Caminho da procissão parecia uma coisa viva, com a vida gritando de suas janelas e seu telhado, e apertada de encontro à sua porta, e em cada rua lateral as pessoas cantavam e batiam palmas e eu ouvi o tempo todo a música dos hebreus. A música dos hebreus nos acompanhou.

Eu não me lembro quando foi que cruzamos o grande canal, embora eu tenha a impressão de ter visto o reflexo da água. Os assistentes me seguravam com firmeza e me diziam asperamente para ser forte.

— “Você é o meu deus, Marduc”, Ciro disse. “Seja tolerante com eles, eles são uns tolos. Segure a minha mão, meu deus. Pois agora somos rei e deus, e ninguém pode negá-lo.”

Eu sorri e outra vez me inclinei para beijá-lo no rosto, e mais uma vez a multidão deu gritos de alegria. Estávamos nos aproximando do rio. Agora seríamos colocados no barco e levados para a Casa da Provação com Tiamat, a grande batalha do deus contra o caos. E o que seria isso?

Eu me sentia como se estivesse totalmente bêbado, portanto isso não tinha nenhuma importância. Eu podia sentir o ouro endurecendo sobre o meu corpo. E podia senti-lo acariciando-me, como tinham dito que iria acontecer. Eu finalmente ancorara bem os meus pés, e os assistentes me seguravam com firmeza e a mão de Ciro apertava a minha, viva e morna, e ele acenava e cumprimentava e gritava saudações para os impetuosos cidadãos da Babilônia.

Ocorreu-me um pensamento engraçado quando o barco começou a se mover pelo rio. Havia multidões por todo lado. E eu pensei, ele, Ciro, pensa que isto tudo é só para ele. E na verdade isto é simplesmente a Babilônia. A Babilônia celebrando uma grande festa ou festival, como costuma fazer, mas ele nunca viu antes a cidade enlouquecida, dançando e bebendo, e por isso é que está tão impressionado. Bem, deixe que ele se divirta. Eu só percebi vagamente que não tinha visto a minha família. Eles tinham estado lá, eu tinha certeza, mas eu não os vira.

A Casa da Provação era toda coberta de prata, esmeraldas e rubis. As colunas eram de ouro e construídas no feitio de grandes flores de lótus no topo. O meio do telhado era aberto, e em toda a nossa volta, centenas e centenas de nobres da Babilônia, os ricos, os altos funcionários de outras cidades, os sacerdotes que tinham acompanhado os seus deuses para guardá-los a salvo na Babilônia, e também centenas e centenas de membros da corte de Ciro, tão parecidos conosco e no entanto tão diferentes. Mais altos, mais magros, mais elegantes e com um olhar mais penetrante.

De repente, eu estava sozinho no meio do pátio. Todos haviam recuado. Remath estava ao meu lado, e do outro lado estava o jovem e compassivo sacerdote.

— “Erga seus braços”, disse o sacerdote. “Tire a espada da bainha.”

— “Espada, eu não sabia que tinha uma.”

— “Você tem”, disse o jovem sacerdote ansiosamente. “Ah, sim, erga-a bem alto.”

Eu mal sabia se estava ou não obedecendo. O mundo oscilava diante de mim. Os nobres estavam cantando e harpas soavam, e então eu ouvi um som que conhecia, de muitos espetáculos do passado, e das caçadas com meu pai e meu irmão. Ouvi o rugir de leões, leões enjaulados.

— “Não tenha medo”, disse Remath. “Esses animais são alimentados e tomam poções que os deixam sonolentos, virão um por um à medida que forem soltos e foram treinados para lamber o mel dos seus lábios, que eu colocarei agora, mel e sangue, e quando eles o fizerem, você os atravessará com sua espada.”

Eu ri. “E você, onde você vai estar?”, eu perguntei.

— “Bem aqui, ao seu lado”, disse o jovem sacerdote. “Isto não é nada, Senhor Deus Marduc, estes leões querem morrer por você.”

Ele ergueu um cálice até meus lábios. “Beba o mel e o sangue”, ele disse.

Eu obedeci, mal sentindo que estava engolindo. Percebi de repente que minha pele tinha perdido quase toda a sensação, era como se eu estivesse à noite, sob o vento gelado do deserto. Mas eu engoli e ele me deu mais um pouco, até que minha língua e meus lábios estivessem cobertos de mel e sangue.

Uma terrível excitação tomou conta da multidão. Eu podia ver o medo. O primeiro leão tinha sido solto e veio na minha direção. Os persas estavam com as costas coladas nos muros, eu acho. Eu podia sentir o medo, cheirá-lo. E eu tornei a rir. “Isto é tão engraçado”, eu disse. “Eu estou semimorto e este leão está cambaleando na minha direção.”

De repente o leão ergueu as patas dianteiras e os dois sacerdotes tiveram que me segurar para que o leão não me atirasse para trás. Eu levantei a espada. Pedi que o ouro me desse forças e enfiei a espada no coração do leão. Seu hálito fétido e quente entrou pelas minhas narinas e sua língua tocou os meus lábios, e então ele caiu, desajeitado, morto, e a multidão cantou e louvou a coragem.

Então o rei veio para o meu lado, e ele também estava com a espada na mão, e quando eles soltaram o segundo e o terceiro leões, eu vi que nós iríamos matá-los ao mesmo tempo. O rosto do rei estava tão rígido quanto o meu, e ele olhou para o animal com os olhos apertados. “Eles me parecem cheios de vida”, ele disse.

Ah, mas você é um rei e eu sou um deus, portanto vamos matá-los.

Atrás deles, o sacerdote estalou o chicote, o que fez com que um dos leões pulasse primeiro sobre Ciro e ele cambaleou para trás enquanto enfiava a espada e depois afastou o animal para longe com um chute. O leão rolou de costas, rugindo, morrendo. O segundo animal estava na minha cara. Eu senti o sacerdote erguer o meu pulso. “Enfie agora!” Eu o fiz. Enfiei a espada mais de uma vez, querendo que o animal morresse logo e saísse de cima de mim.

E mais uma vez todos cantaram e deram vivas e eu podia ouvir a multidão do lado de fora cantando e aplaudindo. Eu vi os leões serem erguidos e carregados para fora. Ouvi a canção do sacerdote celebrando a morte do perverso Tiamat pelas mãos de Marduc.

— “E de sua pele ele fez o céu e a terra e os mares...” as palavras soaram em sumério. E depois na língua do norte da Babilônia e depois em hebraico, e eram como ondas sonoras e eu naveguei nelas.

Eu estava sozinho no pátio. Os sacerdotes estavam me pintando de sangue e mel. “Eles não podem feri-lo”, disse Remath.

— “O quê?”, eu perguntei. Mas eu sabia. Eu podia ouvi-las tão distintamente quanto os animais. Eram as abelhas. E então, quando um enorme dragão de seda se aproximou de mim, armado com finas varetas de ouro e controlado por pessoas que o manejavam com varas, eu vi que ele estava cheio de abelhas. O dragão foi enrolado em volta de mim e eu fiquei preso numa tenda de seda. Seu rabo me cobria a cabeça. Eu ouvi o som de pano sendo rasgado. As abelhas foram soltas e cobriram todo o meu corpo. Eu fui tomado de aversão. Mas meus pés estavam grudados no chão. E as picadas das abelhas não penetraram o ouro, e quando elas se aproximaram dos meus olhos, eu apenas os fechei, e aos poucos percebi que as abelhas estavam morrendo. Elas estavam morrendo de suas próprias picadas e talvez do veneno que havia no ouro. Eu dei um grande suspiro.

— “Mantenha os olhos abertos”, Remath gritou.

E depois que todas as abelhas tinham caído, e o grande dragão de seda, agora murcho, tinha sido oferecido a mim para que o rasgasse com minha espada, soaram de novo os gritos.

Eu estava sendo carregado pelas escadas até o telhado. Eu podia ver os campos lá embaixo. Podia ver a multidão que se estendia até onde a vista podia alcançar. Eu ergui o braço empunhando a espada, eu o ergui diversas vezes, virando-me para leste, oeste, norte e sul, erguendo-o e sorrindo, e a multidão me respondeu cantando. Toda a terra me respondeu cantando.

— “É tão lindo”, eu disse, “tão indescritivelmente lindo.” Mas não havia ninguém para me ouvir. O ar fresco me despertou um pouco, tocando minhas narinas e minha garganta e refrescando os meus olhos. As sacerdotisas do templo me cercaram, atirando flores no ar, e então eu percebi que estava sendo levado para a carruagem real.

— “Você pode ter quantas quiser, mas eu o aconselho a dormir”, disse Remath.

— “Sim, boa idéia. E como é que você vai evitar que eu morra?”

— “Eu posso ouvir o seu coração. Você vai viver o suficiente para fazer a viagem de volta para casa. Você é mais forte do que imagina.”

— “Então me dê uma prostituta”, eu disse.

Todos ficaram perturbados. “Então?”, eu disse.

As prostitutas gritaram de prazer. Eu fiz sinal para que elas viessem. Mas não consegui fazer nada com elas. Só consegui tomar cada uma delas em meus braços e plantar um beijo envenenado nos doces lábios erguidos para mim e mandá-las embora, quase desfalecidas, para limparem o beijo assim que pudessem, esperava eu. Eu ri por dentro, com os lábios cerrados.

Outras coisas foram feitas naquela noite, mas eu dormi. Fogo, poesia, danças, coisas que eu nunca vi.

Eu dormi. Em pé, encostado de tal jeito que eu parecia estar me apoiando, e com os olhos abertos, pintados com uma camada fresca de ouro de modo que eu não podia fechá-los, mas dormi.

O mundo parecia um poço de loucura. De vez em quando eu acordava e via as chamas e as pessoas dançando. De vez em quando eu ouvia algum murmúrio ou som. Ou então ouvia alguém correndo e sentia mãos humanas me agarrarem.

Uma vez eu achei ter visto o rei dançando lá embaixo. Eu vi o rei dançando com as mulheres uma dança lenta e estranha, figuras se virando cerimoniosamente, e então o rei ergueu os braços e me fez uma reverência. Mas não se exigiu nada de mim. O sorriso agora estava fixo em meu rosto pelo ouro endurecido. E só quando eu ria é que sentia a pele repuxar.

Ao meio-dia, no dia seguinte, quando iniciamos a procissão de volta à corte de Esagila, eu tive certeza de estar morrendo. Eu mal podia mover-me. Os assistentes, disfarçados sob xales e vestes de seda, passavam furiosamente ouro líquido nos meus joelhos para mantê-los flexíveis, mas não queriam que o povo visse. E eu estava mais atordoado do que cansado, olhando fixamente para as pessoas à minha frente.

Então chegamos nos portões... entramos no pátio, onde o grande poema “No início” ia ser lido e os atores iam começar sua representação. De repente eu senti uma tristeza, uma terrível tristeza e confusão. Algo estava errado.

Mas de repente, como que em resposta a uma prece, as coisas entraram nos eixos. Eu ouvi meu pai cantando. Eu ouvi a ele e meus irmãos:

 

Eu vou fazer um homem mais precioso do que o puro

ouro; um homem mais justo do que a cunha dourada de Ofir.

 

— Eu me esforcei para ouvir mais claramente suas abençoadas vozes:

 

Assim falou o Senhor para o seu ungido, para Ciro, cuja mão direita eu segurei, para subjugar nações a seus pés...

 

— “Vire a cabeça na direção deles, Senhor Deus Marduc”, disse Ciro. “E o seu pai, cantando com todo o fervor.”

Eu me virei. Não vi nada além de um borrão de braços acenando, de guirlandas atiradas no ar, de flores caindo, mas ouvi meu pai:

 

Eu irei diante de ti e endireitarei os lugares tortos...

E te darei os tesouros da escuridão, e as riquezas ocultas de lugares secretos, para que saibas que eu, o Senhor, que te chamo pelo teu nome, sou o Deus de Israel.

Os cantos continuaram, acompanhando-nos até os portões do templo. E então vieram os gritos, “Messias, Messias, Messias!” E Ciro acenou e atirou beijos e finalmente chegou a hora da coroação.

Nós fomos tirados da biga e da carroça e subimos, caminhando sobre um canteiro de flores, a escada aparentemente interminável do grande zigurate Etemenanki, de modo que as pessoas pudessem enxergar de longe os amplos portões. Eu achei que ia morrer antes de chegar ao topo; eu não conseguia olhar para cima, só para a escada dourada diante de mim e pensei na escadaria do céu que Jacó tinha visto em seu sonho, com os anjos indo e vindo.

Finalmente chegamos ao topo da montanha feita por e para o deus e me entregaram a coroa. Aquela altura eu já não conseguia controlar os braços e as pernas. Não sentia nada. Eu sorria porque era mais fácil sorrir, e meus braços de repente doeram de cansaço quando eu ergui a pesada coroa persa de ouro e coloquei-a na cabeça do Rei Vivo.

— “Agora eu posso morrer”, eu murmurei. Fui tomado pela exaustão. Meus joelhos doíam, meus pés, meu corpo inteiro não conseguia mais se mover nem se manter em pé.

Eu vi distintamente os olhos amorosos de Ciro, vi a solenidade do seu rosto, eu vi... a dedicação dele à sua condição de rei. Eu vi talvez um pouco da loucura de um rei.

Esperta e inteligentemente, os sacerdotes me rodearam e ficaram me pintando de modo que eu pudesse mover meus membros, e eu recuperei um pouco da vitalidade. “Mantenha os olhos abertos”, Remath disse. “Mantenha os olhos abertos.”

Eu o fiz. Nós fomos levados para o pátio. O banquete durou horas. Eu sei que poetas chegaram e cantaram, e sei que o rei e todos os nobres jantaram. Mas eu fiquei sentado, rígido, de olhos arregalados. Meus olhos recusavam-se a fechar não importando o que eu fizesse. Eles tinham sido burros de colocar mais tinta. Eles apenas amoleceram as pálpebras ao fazê-lo, eu pensei para mim mesmo, e olhei para as minhas mãos pousadas sobre a mesa, e pensei, Marduc, eu não o chamei nem uma vez.

Ouvi a voz dele em meu ouvido. “Você não precisou de mim, Azriel. Mas eu estou com você.”

Finalmente chegou ao fim. A escuridão tinha caído. Estava terminado. O rei foi coroado, a Babilônia era Pérsia, a cidade estava bêbada do outro lado dos muros do palácio e do templo, e no interior desses dois edifícios outros bebiam e cantavam.

— “Agora”, o jovem sacerdote disse, "nós vamos carregá-lo até o santuário. Você não precisa mais caminhar. Só precisa tomar o seu lugar na mesa do banquete, e se você não morrer nas próximas horas, nós colocaremos um pouco de ouro em sua boca.”

— “Ainda não”, Remath disse. “Siga-me, e depressa, porque ainda temos um ritual a cumprir e é preciso cumpri-lo direito.”

O jovem sacerdote ficou confuso. Eu também, mas não liguei. Não liguei a mínima. Eu já estava quase dormindo e quando vi as formas vagas dos mortos pairando por ali, fitando-me amedrontadas, fiquei satisfeito. Eu achava que eles iriam cair em cima de mim como um exército e me arrancar de dentro da minha roupa de ouro e dizer “Venha vagar conosco por toda a eternidade!”, mas não foi o que fizeram.

De repente eu senti um calor insuportável. Avistei uma enorme fogueira. Pensei ter ouvido a voz do meu pai, mas não tive certeza, e então ouvi Asenath dizer:

— “É uma mágica muito poderosa! Você quer que ele morra! Dê-me isso!”

Por um breve segundo eu vi meu pai e, confuso, ele entregou a ela a placa antiga, no seu envelope de argila. “Azriel!”, ele gritou. E estendeu os braços na minha direção.

Eu quis falar, mas não consegui. Não conseguia mais fazer nada.

Bateram as portas na cara do meu pai e do mundo.

Nós estávamos num aposento em que havia um fogo muito quente, um caldeirão cheio de ouro fervendo e o ar insuportavelmente quente. Então Asenath quebrou o envelope de argila da velha placa. Ela simplesmente esmigalhou a argila como se não fosse nada e depois ergueu a placa secreta à luz da tocha.

Eu estava em pé sozinho, duro demais para me mexer, duro demais para cair, olhando fixamente para eles. Eu nem estava com tanto medo assim do fogo. O que será que eles estavam fazendo, Remath e a velha? Onde estava o Sumo Sacerdote? Eu não o avistara de vez em quando?

E então Asenath começou a ler, mas aquilo não era sumério, era hebraico, hebraico cananeu, muito muito antigo.

“... e que ele possa ver sua própria morte e que ele possa ver sua alma, seu tzelem e seu espírito e sua carne, tudo fervendo junto com os ossos, para viver nos ossos, para sempre, só podendo ser invocado pelo Mestre que sabe o seu nome e chama o seu nome...

— “Não!”, eu gritei. “Isso não é um encantamento! Isso é hebraico. Isso é uma maldição. Sua bruxa mentirosa.”

O ouro que me cobria rachou e eu saltei sobre ela com toda a minha força ébria, mas ela recuou como uma dançarina e Remath me agarrou pela garganta. Eu estava tão entorpecido e fraco quanto aqueles leões que havíamos enfrentado.

— “Sua bruxa, isso é uma maldição”, eu disse.

— “Que ele veja nele tudo o que é visível e invisível, que todos os fluidos do seu corpo cozinhem até os ossos e ele fique preso a esses ossos e a quem quer que seja o Mestre desses ossos, e que ele não seja levado para a escuridão dos Infernos nem para a vida eterna de Deus para todo o sempre.”

— “Marduc!”, eu gritei.

Eu me senti erguido e impulsionado para trás, e atirado no ouro fervente. Gritei e gritei. Foi algo inimaginável. Não era possível que eu pudesse conhecer tanta dor. Não era possível que uma coisa dessas pudesse acontecer comigo, que ouro fervente pudesse encher minha boca e cobrir os meus olhos!

E quando eu pensei que ia enlouquecer, enlouquecer de horror e de dor, não restando em mim mais nada de humano, eu me projetei para fora do caldeirão, flutuando livre sobre o corpo que fervia lá dentro, que tinha apenas um olho aberto acima do ouro borbulhante. O corpo que havia sido meu! E eu não estava nele.

Eu estava ali em cima, com os braços estendidos, olhando para baixo. E vi o rosto de Asenath virado para cima.

— “Sim, Azriel”, ela exclamou, “observe com atenção o ouro ferver, a carne se desprender dos seus ossos, observe os ossos se transformarem em ouro, não tire os olhos deles, senão você será atraído de volta lá para dentro, para a agonia e a morte.

“Marduc”, eu gritei.

— “A escolha é sua”, ele disse. “Volte para dentro daquele caldeirão de dor e você morrerá.” A voz dele estava fraca ou triste. Eu percebi que ele estava abaixo de mim, olhando para cima.

E pela primeira vez ele me pareceu pequeno e simples. Não grandioso ou divino. E Asenath não passava de uma velha tola. E Remath, olhando para o corpo que afundava no caldeirão borbulhante, pulava sem parar com os punhos fechados, praguejando e gritando.

Não houve tempo. Não houve decisão. Ou talvez tenha sido pura covardia. Eu não podia voltar para aquela dor. Eu não podia ser cozinhado vivo. Eu não podia suportar que uma coisa daquelas pudesse acontecer a um ser humano. Eu fiquei observando e vi a carne flutuar solta naquele caldo de ouro, e o crânio flutuar na superfície e o caldeirão continuar a ferver e o quarto encher-se cada vez mais de vapor.

Asenath estava sufocando. Ela não conseguia respirar e caiu de cara no chão. Remath continuou olhando fixamente para o caldeirão. E Marduc apenas me olhou, intrigado.

Por fim, o caldeirão ficou vazio, exceto pelo que restou de mim. Remath remexeu no fogo para apagá-lo. Ele se aproximou o mais que pôde do metal quente e contemplou o monte de ossos dourados que havia no fundo do caldeirão. O pano tinha sumido, tinha se dissolvido, a carne tinha sumido, tinha se dissolvido, o líquido tinha sumido, tinha se dissolvido. Só os ossos restavam, e naquele quarto fechado todas as emanações e partículas daquilo que fora o meu corpo. E os ossos eram todos de ouro.

— “Chame-a para você, espírito”, disse Remath. “Chame a carne para você, chame-a agora do mundo todo, chame-a das profundezas dos ossos e do ar para onde ela tentou escapar, chame-a.”

Eu desci e firmei os pés no chão. No meio da fumaça espessa e enganadora, eu vi que tinha um corpo. Era feito de vapor. Mas era meu, e então foi ficando cada vez mais denso.

Marduc deu um passo para trás, sacudindo a cabeça.

— “O que foi? Por que você está fazendo isso?”, eu perguntei.

— “Oh antigos deuses, Remath”, Marduc disse, “o que foi que você e a bruxa tramaram?”

Remath urrou, “Você é meu, Servo dos Ossos, pois eu sou o Mestre dos Ossos. Você me obedecerá. Obedecerá.”

Marduc se encostou na parede, olhando-me amedrontado.

Remath agarrou um pedaço de pano grosso para proteger as mãos e assim conseguiu virar o caldeirão. Os ossos caíram para fora e os que não caíram ele tirou com a mão, sofrendo com o calor, até que todos os ossos estivessem no chão.

“Acorde velha!”, ele gritou. “Acorde! O que é que eu faço agora?”

Eu fiquei parado do lado dele. Meu corpo estava denso como se estivesse vivo. Era rosado e vívido como o dele, mas não era real. Não dava a sensação de ser real. Não tinha nem coração nem pulmões nem alma nem sangue; só tinha a forma que o meu espírito dava a ele, até o último detalhe.

— “Olha, idiota”, eu disse. “Asenath está morta. Se você quiser saber o que fazer, é melhor me mostrar essa placa, eu sou o único aqui que sabe ler a antiga escrita Cananéia.

 

Remath não se mexeu. Ele estava assustado demais para isso. Chegou até a largar os ossos. Estes ficaram brilhando no chão de ladrilhos. Espalhados, horríveis, os dentes e os ossinhos dos meus pés e das minhas mãos parecendo pedrinhas.

Marduc permaneceu imóvel.

Havia um rugido soando ao redor. Eu podia ouvi-lo como se um vento varresse vagarosamente o palácio e o templo, corredor por corredor, alcova por alcova, e então eu ergui os olhos e vi o denso mundo dos espíritos como nunca o havia visto antes.

As paredes e o teto do aposento desapareceram. O mundo era todo formado de almas penadas que olhavam e apontavam para mim e saltavam em minha direção com as mãos em garras, mas com medo.

— “Vão embora!”, eu gritei. E imediatamente a nuvem se dispersou, mas o rugido feriu os meus ouvidos e quando eu tornei a olhar, vi que o rosto de Marduc era estranho para mim, não mais amedrontado, mas também nem confiante nem doce como antes.

Eu me virei, caminhando com a desenvoltura e a leveza de um homem até onde estava caído o corpo de Asenath, tirando a placa de argila da mão dela. O texto não era fácil de ler. Era uma forma de hebraico, sim, mas um dialeto de uma época anterior à minha. Eu fiquei parado, lendo para mim mesmo.

Eu me virei. O sacerdote tinha se afastado para um canto e o deus simplesmente me olhava. Eu li as palavras o melhor que pude:

— “E tendo visto a sua morte, e tendo visto os fluidos do seu corpo e a carne e o espírito e a alma cozidos até só restarem os ossos, e presos aos ossos em ouro para sempre, deixe que ele seja chamado para dentro dos ossos, obrigado a entrar neles, e a permanecer neles, até que o seu Mestre o invoque.”

“Faça isso”, Remath exclamou. “Entre nos ossos.”

Eu olhei para a placa. “E depois que esses ossos forem reunidos, eles conterão o seu espírito para sempre, passando de uma geração para outra, para servir ao Mestre por posse e poder, para obedecer às ordens do Mestre, e só se deslocar de acordo com a vontade do Mestre. Quando o Mestre disser Venha, o Servo dos Ossos aparecerá. Quando o Mestre disser, Assuma um corpo, o Servo dos Ossos assumirá um corpo, e quando o Mestre disser, Volte para os ossos, o Servo dos Ossos irá obedecer-lhe, e quando o Mestre disser, Mate este homem para mim, o Servo dos Ossos irá matar o homem, e quando o Mestre disser, Fique quieto e vigie, meu escravo, o Servo dos Ossos assim o fará. Pois agora o Servo e os Ossos são um só. E nenhum espírito sob o céu pode se comparar em força ao Servo dos Ossos.”

— “Bem”, eu disse, “esta é uma história e tanto.”

— “Para dentro dos ossos”, ele ordenou. “Entre nos ossos.” Ele ficou parado, tremendo, os punhos apertados e os joelhos dobrados. “Volte para os ossos!” ele ordenou. “Fique quieto e vigie, meu escravo!”

Eu não fiz nada.

Estudei-o por um longo momento. Nada mudou em mim.

Eu vi o pano que ele tinha tirado do sofá. Havia um lençol limpo, trocado depois que eu dormi lá, e eu o apanhei e fiz um saco com ele, dentro do qual coloquei a placa de argila e depois os ossos. Eu peguei o osso da coxa, depois o osso da perna, os ossos do braço, e o crânio, meu próprio crânio, ainda quente e reluzindo em ouro, e juntei cada fragmento do que havia sido Azriel, o homem, o tolo, o idiota. Juntei os dentes, juntei os ossos dos dedos dos pés. E depois que tinha guardado tudo no saco, dei um nó nele e atirei-o nas costas, e então olhei para ele.

— “Maldito dos infernos, entre nos ossos!”, ele berrou.

Eu me aproximei dele, estendi a mão direita e quebrei-lhe o pescoço. Ele estava morto antes de dobrar os joelhos. Eu vi um espírito subir cambaleando, aterrorizado, diáfano e logo em seguida transparente, até sumir.

Eu olhei para Marduc.

— “Azriel, o que você vai fazer?”, ele perguntou. Parecia totalmente confuso.

— “O que posso fazer, Senhor? O que posso fazer exceto procurar o mago mais poderoso da Babilônia, aquele que seja forte o bastante para me ajudar a conhecer o meu destino e as minhas limitações, ou será que eu devo simplesmente vagar por aí deste jeito? Eu não sou nada, como está vendo, nada, apenas um simulacro dos vivos. Será que devo ficar vagando? Veja, eu sou sólido e visível, mas não sou nada, e tudo o que resta de mim está dentro deste saco.”

Eu não esperei pela resposta dele. Virei-me e saí. Dei as costas para ele de vez. Abandonei-o, tristemente, eu acho, e grosseira e negligentemente, e percebi que ele flutuava perto de mim, me observando, enquanto eu caminhava.

Eu atravessei o templo, na forma de homem, desafiado várias vezes por guardas que eu derrubei com a mão direita. Uma lança me atravessou as costas. Uma espada me atravessou o corpo. Eu não sentia nada, simplesmente olhava para o meu perplexo e infeliz agressor. Continuei andando.

Entrei no palácio e me dirigi aos aposentos do rei. Os guardas dele caíram em cima de mim e eu os atravessei sentindo apenas um leve estremecimento e os vi tropeçando atrás de mim, e então avistei Marduc me observando de longe.

Entrei no quarto do rei. Ciro estava na cama com uma linda prostituta, e quando me viu saltou da cama, nu.

— “Você me reconhece?”, eu disse. “O que é que está vendo?”

— “Azriel!”, ele exclamou, e então disse com uma alegria genuína, “Azriel, você enganou a morte, eles o salvaram, oh meu filho, meu filho.”

Suas palavras foram tão sinceras e honestas que eu fiquei espantado. Ele se aproximou de mim, mas quando me abraçou, percebeu que eu não era nada, apenas a aparência de algo sólido, de uma casca talvez, ou algo mais leve ainda, uma bolha na superfície da água, tão leve que podia arrebentar. Mas não o fez. Eu não arrebentei. Simplesmente senti os fortes braços dele em volta de mim e então ele recuou.

— ‘Sim, eu estou morto, Senhor Rei”, eu disse. “E tudo o que resta de mim está aqui neste saco, e coberto de ouro. Agora o senhor precisa me restituir.

— “Como, Azriel?”, ele perguntou.

— “Quem é o maior feiticeiro do mundo? Com certeza Ciro sabe. O mais poderoso e mais sábio dos homens sábios está na Pérsia? Na Jônia? Ou está na Lídia? Diga-me onde ele está. Eu sou um horror. Eu sou um horror! Até Marduc me teme agora! Quem é o homem mais sábio, Ciro, a quem você confiaria a sua própria alma se estivesse aqui no meu lugar!”

Ele se sentou na beirada da cama. A prostituta, enquanto isso, tinha se coberto com os lençóis e simplesmente assistia. Marduc entrou silenciosamente no quarto e embora seu rosto não mais mostrasse desconfiança, não estampava a amizade que sempre compartilhamos.

— “Eu sei quem ele é”, Ciro disse. “De todos os feiticeiros que desfilaram diante de mim, só esse homem tem verdadeiro poder e simplicidade de alma.”

— “Mande-me para ele. Eu pareço humano, não pareço? Eu pareço vivo? Mande-me para ele.”

— “Eu o farei”, ele disse. “Ele está em Mileto, onde percorre os mercados diariamente, comprando manuscritos do mundo todo, ele está na grande cidade portuária grega, acumulando conhecimento. Ele diz que o objetivo da vida é conhecer e amar.”

— “Você então está dizendo que ele é um homem bom?”

— “Você não quer um homem bom?”

— “Eu nem tinha pensado nisso”, eu disse.

— “E quanto ao seu próprio povo?”

A pergunta me deixou confuso. Por um instante me veio à memória uma lista de nomes e pude sentir o cheiro de pele e de cabelo, mas depois a identidade dessas pessoas se perdeu. “Meu próprio povo? Eu tenho um povo?” Tentei desesperadamente recuperar a minha memória. Como é que eu tinha chegado naquele aposento! Eu podia me lembrar do caldeirão. Podia me lembrar daquela mulher, mas como era o nome dela, e o do sacerdote que eu tinha matado, e o deus, o deus bom e gentil que estava ali, invisível para o rei, quem era ele?

— “Você é Ciro, Rei da Pérsia e da Babilônia, rei do mundo inteiro”, eu disse. Fiquei horrorizado por não saber os nomes daqueles a quem amava, pois, sem dúvida, eu sabia até poucos momentos antes. E aquela mulher que tinha morrido, eu a conhecera a vida inteira! Eu me virei e olhei em volta, confuso. O quarto estava cheio de oferendas, de presentes das famílias nobres de toda a Babilônia. Eu vi um baú, feito de cedro e ouro. Não era grande. Eu fui até onde ele estava e o abri.

O rei ficou olhando, mudo. Lá dentro havia pratos e taças.

— “Fique com isso, se quiser”, disse Ciro, disfarçando bem o medo. “Deixe-me chamar os meus Sete Sábios.”

— “Eu só quero o baú”, eu disse. Eu o esvaziei delicadamente para não estragar aquelas preciosidades e então ergui o baú de cedro e senti o cheiro do cedro sob a seda vermelha que o forrava. Abri o modesto saco de pano e coloquei dentro do baú primeiro a placa com tudo o que trazia escrito, inclusive palavras que eu ainda nem havia lido alto, e em seguida arrumei cuidadosamente os meus ossos.

— Eu ainda nem tinha terminado quando a linda prostituta me estendeu uma mantilha de seda dourada. “Tome, para embrulhá-los”, ela disse. “Para protegê-los.” Eu aceitei e enrolei os ossos, e ela me trouxe outra mantilha roxa que eu também aceitei e usei para envolver os ossos, deixando-os mais protegidos, de modo que quando o baú se movesse eles não fizessem nenhum barulho. Eu mal tinha olhado para eles.

— “Mande-me para dentro deles, Ciro”, eu disse. “Mande-me para dentro dos ossos!”

Ciro sacudiu a cabeça.

Marduc falou. “Azriel, vá você para dentro deles e depois torne a sair, faça isso agora senão nunca mais conseguirá fazê-lo, ou então nunca irá saber. Este é o conselho de um espírito, Azriel. Deixe de lado todas as partículas que dão forma ao seu corpo e busque a escuridão e se você não conseguir sair, eu o invocarei.”

O rei, que não podia nem ouvir nem ver Marduc, ficou confuso. Mais uma vez ele mencionou os Sete Sábios, e realmente eu podia ouvir o ruído de homens do lado de fora do quarto, eu podia ouvir os cochichos deles.

— “Não os deixe entrar, Senhor”, eu disse. “Os sábios são mentirosos; os sacerdotes são mentirosos; os deuses são mentirosos!”

— “Eu entendo você, Azriel”, disse Ciro. “Você é um anjo poderoso ou um demônio poderoso. Não sei qual dos dois, mas nenhum sábio comum poderá guiá-lo.”

Eu olhei para Marduc.

— “Entre nos ossos”, ele disse. “Eu prometo usar todo o meu poder para fazê-lo sair. Veja se pode encontrar refúgio lá assim como eu encontro na minha estátua. Você precisa ter um refúgio!”

Eu inclinei a cabeça. “Para dentro dos ossos, até que eu ordene a mim mesmo que volte; todos vocês que são parte de mim, fiquem próximos e esperem até que eu os chame.”

Uma ventania varreu os reposteiros da cama. A meretriz correu para os braços do rei que a abraçou tranquilamente. E eu me senti imenso e leve — realmente, eu toquei nas paredes e no teto e nos quatro cantos do quarto e então o ciclone estreitou-se em volta de mim e eu senti a pressão intolerável das almas penadas, gemendo. “Não, seus malditos!”, eu gritei. “Os ossos, eu tenho o refúgio dos meus próprios ossos. Eu vou para dentro dos meus ossos.”

Só havia escuridão. Escuridão total e silêncio. Eu me deixei levar. Era o descanso mais doce que eu já conhecera. Só que eu tinha que fazer alguma coisa agora, não tinha? Mas não conseguia. Não conseguia. E então ouvi a voz de Marduc.

— “Servo dos Ossos, levante-se e tome forma.”

É claro, era isso que eu tinha que fazer, e fiz. Foi como inspirar profundamente e depois dar um grito sem emitir som. E me vi de novo como uma réplica quase perfeita de Azriel, em pé ao lado do baú aberto e dos ossos de ouro. Meu corpo oscilou diante dos meus próprios olhos e depois ficou firme. Eu senti o ar fresco como se jamais o tivesse sentido antes.

Olhei para Ciro. Olhei para Marduc. Eu sabia agora que se entrasse nos ossos não teria poder para voltar. Mas que importância tinha isso? Lá havia um sono de veludo. O sono que a gente dorme quando é garoto e deita na grama morna de uma colina e é beijado pela brisa, e não tem nenhuma preocupação no mundo.

— “Senhor Rei”, eu disse, “eu imploro. Vou voltar agora para os ossos. Envie-os dentro deste baú, junto com a placa de argila, para o seu sábio em Mileto. Faça isto por mim, e se me trair, o que importa? Eu não vou saber. Uma outra pessoa... me traiu, mas eu não consigo me lembrar quem foi...”

Ele se adiantou para me dar um beijo. O beijo foi nos lábios, ao estilo persa de reis e análogos. Eu me virei e olhei para Marduc.

— “Marduc, venha comigo, eu não consigo me lembrar do que havia entre nós, exceto que sempre foi bom.”

“Eu não tenho poder para isso, Azriel”, ele disse calmamente. “E como o Senhor Rei Ciro diz. Você é o que os magos chamam de anjo poderoso ou de demônio poderoso. Eu não possuo tal poder. A leve chama dos meus pensamentos é alimentada pelo povo da Babilônia que acredita em mim e reza para mim. Mesmo em cativeiro, a devoção dos meus captores me sustentava. Eu não posso ir com você. Nem sei como.”

Ele franziu a testa. “Mas por que confiar num homem, mesmo sendo um rei?”, ele perguntou. “Leve você mesmo o baú e vá aonde quiser.”

— “Não. Veja, meu corpo ainda treme. Eu sou um recém-nascido e não muito forte. Não posso. Tenho que confiar em... Ciro, Rei dos Persas, e se ele resolver livrar-se de mim, resolver ser tão vil e cruel comigo quanto aqueles a quem amei, se ele fizer isso, eu encontrarei um jeito de me vingar, não é, grande Rei?”

— “Eu não lhe darei motivos para isso”, Ciro disse. “Afaste de mim seu ódio. Ele me fere. Eu posso senti-lo.”

“E eu também”, eu disse. “E é divino odiar! Ficar irado! Destruir!”

Eu dei um passo na direção dele.

Ele não se moveu nem um centímetro. Ficou me encarando e eu me senti docemente hipnotizado, incapaz de fazer nada além de olhar para os olhos dele. Eu não me esforcei muito para enfrentá-lo, mas senti o seu domínio, enraizado no destemor e na vitória, e fiquei parado.

— “Confie em mim, Azriel, pois hoje você me tornou rei do mundo, e eu providenciarei para que seja levado até o mago que lhe ensinará tudo o que se pode ensinar a um espírito.”

— “Rei do mundo? Eu fiz isso por você, belo homem?” eu perguntei. Eu estremeci dos pés à cabeça. É claro que eu o conhecia. Eu conhecia o drama. O hálito do leão.

Mas em seguida eu já não sabia de mais nada.

Marduc falou, mas àquela altura Marduc não passava de um espírito ali parado, bom e amigo.

— “Azriel, você sabe quem eu sou?”

— “Um amigo, um espírito amigo?”

— “O que mais?”

Eu fiquei angustiado. “Não me lembro”, eu disse. Contei a ele que me lembrava do caldeirão, de ter assassinado aquele sacerdote sem nome e da velha morta. Eu conhecia o rei. Eu o conhecia. Mas não conseguia me lembrar realmente. De repente eu senti cheiro de rosas. Olhei para baixo e vi que o chão estava coberto de pétalas.

— “Dê para ele”, Ciro disse, apontando para as pétalas e se dirigindo à meretriz.

E a doce e amável meretriz juntou as pétalas.

— “Coloque-as dentro do baú para mim”, eu disse. “Que cidade é esta? Onde nós estamos?”

— “Babilônia”, Ciro respondeu.

— “E você está me mandando para Mileto, para junto de um grande feiticeiro. Eu preciso saber e guardar o nome dele.”

— “Ele irá procurá-lo”, Ciro disse.

Eu os contemplei uma última vez. Fui até as janelas que davam para o rio, olhei para fora e pensei, Que bela cidade é esta, tão cheia de luzes esta noite, e de risos e alegria.

Sem erguer a voz, eu tornei a dissolver a minha forma, afastando as almas que mais uma vez me cercaram, e mergulhei de novo na escuridão de veludo, só que desta vez pude sentir o perfume das rosas, e com as rosas veio uma lembrança, a lembrança de uma procissão, de pessoas aplaudindo e chorando, e acenando, e de um belo homem cantando com uma linda voz, e pétalas atiradas tão alto que caíam sobre nós, sobre nossos ombros... mas a lembrança desapareceu.

Eu não iria lembrar-me desses momentos, dessas coisas, de tudo o que contei aqui, durante dois mil anos.

 

Azriel se recostou na cadeira.

Já era quase dia.

Ele fechou os olhos.

Você precisa descansar agora, Jonathan — ele disse —, ou ficará doente outra vez, e eu preciso dormir, e temo o que irá acontecer. Mas estou cansado, muito cansado!

— Onde estão os ossos, Azriel? — eu perguntei.

Isso eu contarei a você quando acordarmos. Contarei tudo o que aconteceu com Esther, com Gregory e o Templo da Mente. Eu lhe contarei...

Ele pareceu cansado demais para prosseguir. Levantou-se e então me ajudou com firmeza a me erguer da cadeira.

— Você precisa tomar mais um pouco de caldo, Jonathan.

Ele me deu o caldo, de uma xícara que estava sobre a lareira, e eu bebi, e então ele me ajudou a ir até o pequeno banheiro da cabana e virou educadamente de costas enquanto eu urinava, e então me ajudou a ir para a cama.

Eu estava tremendo muito. Minha garganta estava grossa, minha língua inchada.

Eu podia ver que ele estava extremamente ansioso. O relato da história havia sido uma provação.

Ele deve ter percebido a minha compaixão. — Nunca mais vou contar esta história a outra pessoa — ele disse. — Nunca mais quero repeti-la, nunca mais quero ver o caldeirão fervente. — Ele emudeceu.

Sacudiu a cabeça e os cabelos fartos como que para despertar e depois me ajudou a deitar-me. Obrigou-me a beber mais água fresca, o que me fez muito bem.

Não se preocupe comigo — eu disse. — Eu estou bem. Apenas um pouco cansado, um pouco fraco. — Tomei um último gole de água, depois ofereci a garrafa a ele, que bebeu com vontade. E depois sorriu.

O que posso fazer por você agora? — eu perguntei. — Você é meu hóspede e meu protetor.

Você me deixaria dormir ao seu lado? — ele disse. — Como se fôssemos dois garotos no campo, de modo que... que... de modo que... se o ciclone vier atrás de mim, se as almas vierem, eu possa estender a mão e tocar sua mão quente.

Eu concordei. Ele me cobriu e depois subiu na cama ao meu lado. Eu me virei para ele e ele se virou para o outro lado. Eu pus o braço sobre ele. O robe de veludo vermelho que ele usava era macio, grosso e quente. Eu o envolvi com o meu braço. Ele amoleceu na cama, a cabeça enfiada no travesseiro, a grande massa de cachos negros perto do meu rosto, e cheirando ao ar fresco lá de fora e à doce fumaça do fogo.

O sol estava se esgueirando por baixo da porta. E pelo brilho dele e pelo calor do quarto eu soube que a tempestade tinha passado. O fogo estava vivo. A manhã estava silenciosa.

 

Eu acordei uma vez ao meio-dia.

Eu estava quente e resmungando e tendo um pesadelo. Ele me ergueu e me deu água fresca para beber. Tinha posto neve lá dentro, e ela tinha um gosto puro. Eu bebi bastante, e depois tornei a me deitar.

Ele parecia oscilar, uma figura vestida de vermelho com olhos profundos e negros. Sua barba e seu cabelo pareciam sedosos, e eu pensei nos textos antigos que falam de unguentos e óleos e perfumes para cabelo; o cabelo dele merecia tudo aquilo, eu pensei. E me veio à mente um panorama das gravuras feitas em paredes que eu tinha visto no mundo todo.

Eu vi as grandes gravuras assírias do Museu Britânico. Eu vi as fotos nos livros. “O povo da cabeça preta”, era assim que os sumérios se referiam a si mesmos. E nós descendíamos deles, ou estávamos de algum modo misturados com eles, e eu sabia agora que aquelas estranhas gravuras de reis barbudos vestidos com robes eram-me mais próximas do que símbolos europeus que eu havia apreciado e que de fato importavam muito pouco.

Você dormiu bem? — eu perguntei, mas já estava quase cochilando.

Sim — ele disse. — Agora durma. Eu vou caminhar na neve. Durma, está ouvindo? Quando você acordar, seu jantar estará pronto.


 

No final da tarde, eu acordei. Mais uma vez, pela luz que entrava por baixo da porta, dava para ver que o céu devia estar azul e o pôr-do-sol resplandecente.

Ele não estava na casa, que tinha pouco mais de um cômodo. Eu me levantei, vestindo meu robe mais pesado, um robe de cashmere, e então fui procurá-lo — nos quartinhos dos fundos, no banheiro, na despensa. Ele não estava. Eu me lembrei do que ele dissera sobre caminhar na neve, mas sua ausência me deixou nervoso.

Então eu olhei para a lareira e vi o caldeirão de sopa cheio de batatas e cenouras que ele tinha preparado, o que significava que eu não tinha sonhado aquilo tudo. Alguém tinha estado ali. Eu ainda me sentia um pouco mal. Minha cabeça ainda não tinha clareado de todo, do jeito que ficaria quando a doença desaparecesse completamente.

Eu olhei para os meus pés. Estava usando meias grossas de lã com sola de couro. Ele devia ter calçado em mim aquelas meias. Fui até a porta. Eu tinha que encontrá-lo, descobrir onde ele estava. Repentinamente, eu fiquei aterrorizado ao pensar que ele tinha ido embora. Completamente aterrorizado.

Eu fiquei aterrorizado por uma série de razões, e não sei quais eram.

Calcei minhas botas, vesti meu sobretudo, que é uma vestimenta enorme, pesando uma tonelada, e feita para cobrir o mais grosso dos suéteres, e então abri a porta.

O sol ainda brilhava ao longe sobre a neve das montanhas, mas fora isso já estava escuro. O mundo estava cinzento e branco, metálico e cada vez mais escuro.

Eu não o vi em parte alguma. O ar estava parado e tolerável, como acontece às vezes no inverno mais rigoroso, quando, por um momento, o vento pára. Pingentes de gelo pendiam do telhado. A neve não tinha pegadas. Parecia fresca e não estava funda demais.

— Azriel! — eu gritei por ele. Por que eu estava tão desesperado? Será que eu temia por ele? Eu sabia que sim. Eu temia por ele, por mim, pela minha sanidade, pela minha razão, pela segurança e pela paz de toda a minha vida...

Eu fechei a porta e me afastei um pouco da casa. O frio começou a ferir o meu rosto e as minhas mãos. Aquilo era pura estupidez e eu sabia. A febre iria voltar. Eu não podia continuar lá fora.

Eu chamei por ele diversas vezes e não ouvi nada. Ao meu redor, havia uma linda paisagem de neve ao entardecer. Os pinheiros carregavam a neve com dignidade e as estrelas estavam começando a brilhar. O sol tinha ido embora. Mas ainda havia um resto de luz.

Eu notei o carro logo adiante; eu tinha estado olhando para ele o tempo todo, de certa forma, mas não o tinha notado porque ele estava todo coberto de neve. Uma idéia me ocorreu. Eu corri até o carro, percebendo que meus pés já estavam dormentes, e abri o porta-malas.

Havia um velho aparelho de televisão lá dentro, portátil, do tipo que fabricam para os pescadores levarem nos barcos. Tinha uma tela pequenina e era comprido, com uma alça, parecendo uma lanterna gigante. Funcionava a pilha. Eu não o usava há anos. Eu o apanhei, fechei o jipe e corri de volta para casa.

Assim que fechei a porta, me senti um traidor. Senti como se quisesse espionar o mundo a que ele se havia referido — o mundo de Belkin, o mundo horroroso do terrorismo e da violência repugnante gerado pelo Templo da Mente.

Eu não devia precisar disso, pensei. Bem, talvez ela nem funcione. Sentei-me ao lado do fogo, tirei as botas e aqueci as mãos e os pés. Seu estúpido, eu pensei, mas não estava tremendo. Então recorri ao meu estoque de pilhas e abasteci a pequena televisão, que segurava pela alça, e a levei de volta para poder sentar-me na minha poltrona.

Erguendo a antena, eu girei o botão. Eu nunca havia usado aquela coisa ali. Tinha sempre ficado dentro do carro. Se eu tivesse me lembrado dela antes de partir, não a teria tirado de lá.

Mas eu já a tinha usado em um barco, cinco verões antes, durante uma pescaria, e agora, como naquela época, ela funcionou. Ela trouxe clarões em preto e branco, linhas em ziguezague e depois, finalmente, a “voz da notícia”, bem distinta, com a autoridade de uma rede, resumindo os últimos acontecimentos.

Eu aumentei o volume. A imagem dançou, ondulou e depois tremeu, mas o som estava claro. A guerra nos Bálcãs tivera outros terríveis desdobramentos. Bombas atiradas em Sarajevo tinham matado pessoas num hospital. No Japão, o líder de um culto fora preso, acusado de conspiração para matar. Um assassinato tinha ocorrido numa cidade próxima. O noticiário continuou, os fatos narrados em frases curtas e rápidas... a imagem estava melhorando. Eu vi a locutora, o rosto da notícia não muito distinto, mas agora eu podia entender a voz com mais clareza.

“...os horrores do Templo da Mente continuam. Todos os membros do templo na Bolívia estão mortos, tendo eles próprios posto fogo nos prédios para não se renderem aos agentes internacionais. Enquanto isso, continuam as prisões dos seguidores de Gregory Belkin em Nova York.”

Eu estava excitado. Peguei o aparelhinho e o segurei perto do rosto para enxergar melhor. Vi uma cobertura rápida e fora de foco dos presos, algemados e acorrentados.

“... gás venenoso em quantidade suficiente, só na cidade de Nova York, para matar toda a população. Enquanto isso, autoridades iranianas confirmaram às Nações Unidas que todos os membros do Templo de Belkin estão sob custódia, entretanto a questão da extradição dos terroristas de Belkin para os Estados Unidos levará, segundo fontes oficiais, um tempo considerável. No Cairo, foi confirmado que todos os seguidores de Belkin renderam-se às autoridades. Todos os produtos químicos que estavam nas mãos deles foram apreendidos.”

Mais imagens, rostos, homens, tiroteio, fogo, um terrível incêndio reduzido a um clarão em preto e branco nas minhas mãos. Depois o rosto brilhante da locutora, e uma mudança de tom, enquanto ela olhava diretamente para os olhos da câmera e para os meus.

“Quem era Gregory Belkin? Havia, de fato, irmãos gêmeos, Nathan e Gregory, como aqueles mais próximos ao líder do culto mogol suspeitam? Restam dois corpos, um deles enterrado no cemitério israelita, o outro no necrotério de Manhattan. E embora os remanescentes da comunidade hassídica do Brooklyn, fundada pelo avô de Belkin, recusem-se a falar com as autoridades, o gabinete do promotor continua a investigar os dois homens.”

O rosto da mulher desapareceu. E apareceu Azriel. Um retrato dele, grosseiro e remoto, mas inconfundível. “Enquanto isso, o homem acusado do assassinato de Rachel Belkin, homem que poderia, de fato, estar profundamente envolvido em toda a conspiração, ainda está foragido.” Então veio uma série de fotos, obviamente tiradas por câmeras de circuito interno de tevê — Azriel sem barba e sem bigode, atravessando o saguão de um prédio; Azriel no meio da multidão, chorando sobre o corpo de Esther Belkin. Azriel em close, sem barba e sem bigode, olhando bem à frente enquanto atravessava uma porta. Houve uma série de fotos, desfocadas demais para se perceber alguma coisa, obviamente tiradas por outras câmeras de circuito interno de tevê, inclusive uma de Azriel sem barba, caminhando junto com a própria Rachel Belkin, mãe de Esther, mulher de Gregory, conforme o comentarista me informou. De Rachel, tudo o que vi foi um corpo esbelto, sapatos de saltos altíssimos e cabelos despenteados. Mas lá estava Azriel, sem dúvida.

Eu fiquei fascinado.

O rosto de um funcionário calvo, também sofrendo no frio do inverno, provavelmente em Washington, D. C, apareceu de repente com a seguinte afirmação tranquilizadora: “Não há nenhum motivo para temer o Templo ou seus esquemas espalhafatosos. Cada uma das suas instalações ou foi invadida pela polícia, incendiada durante a invasão por seus próprios fiéis, ou inteiramente evacuada, com todos os participantes presos. Quanto ao homem misterioso, não temos nenhuma testemunha ocular que o tenha visto após a noite em que Rachel Belkin morreu, e ele pode muito bem ter morrido no Templo de Nova York, junto com centenas de outros, durante o incêndio que durou vinte e quatro horas antes de ser controlado pela polícia.” Outro homem, ainda mais autoritário e talvez zangado, tomou o microfone. “O Templo está neutralizado; o Templo foi fechado; enquanto estamos aqui falando, conexões bancárias estão sendo investigadas e prisões já foram realizadas nas comunidades financeiras de Paris, Londres e Nova York.” Houve um ruído de estática, luzes brancas tremeram na pequena tela. Eu sacudi a televisão. A voz voltou, mas desta vez falava de um atentado terrorista a bomba na América do Sul, de chefões do narcotráfico, de sanções comerciais contra o Japão. Eu larguei o aparelhinho. Desliguei-o. Eu poderia ter procurado um outro canal, mas já estava farto. Tossi um pouco, assustado com o som profundo da tosse e pelo fato de doer tanto e então tentei lembrar: Rachel Belkin. Rachel Belkin assassinada. Isso tinha acontecido alguns dias depois do assassinato de Esther Belkin. Rachel Belkin em Miami. Assassinada. Gêmeos. Eu me lembrei do retrato que Azriel me mostrara — o hassid com a barba e os cachinhos e o chapéu de seda. De algum enorme arquivo em minha mente veio a informação de que Rachel Belkin fora a esposa grã-fina de Gregory, uma crítica notória do Templo, e a única vez que reparei no nome, na reputação ou na existência da mulher foi quando assisti a uma reportagem do enterro de Esther. E as câmeras haviam seguido a mãe dela até um carro preto, vozes clamando pelos comentários dela. Os inimigos de Belkin haviam matado sua filha? Seria uma conspiração de terroristas do Oriente Médio?

Fui acometido de uma tonteira que ameaçava piorar. Deixei a televisão e voltei para a cama. Deitei-me. Estava cansado e com sede. Eu me cobri, depois me sentei na cama para beber mais água. Bebi, bebi, bebi e depois tornei a me deitar e comecei a refletir.

O que parecia real não era o aparelho de televisão e suas reportagens enigmáticas. O que parecia real era este quarto e o modo como o fogo dançava e o fato de ele ter estado aqui. E o que parecia real era a imagem do caldeirão cheio de caldo fervente e a idéia inimaginável, indescritível, de ser atirado dentro de uma coisa daquelas. Ser atirado em líquido fervente. Eu fechei os olhos.

Então tornei a ouvi-lo entoar.

“Às margens dos rios da Babilônia, sentávamos e chorávamos ao nos lembrarmos de Sião.”

E me ouvi entoando também.

— Volte, Azriel, volte! Conte-me o que mais aconteceu! — eu disse, e em seguida adormeci.

O som da porta sendo aberta me acordou. Estava totalmente escuro lá fora agora, e deliciosamente quente dentro do quarto. Todo o frio tinha saído dos meus ossos.

Eu vi uma figura em pé ao lado da lareira, contemplando as chamas. Dei um grito involuntário. Não exatamente masculino ou corajoso.

Mas um vapor subia da figura, ou uma névoa, e a figura parecia ser Gregory Belkin, ter a cabeça e pelo menos o cabelo daquele homem, e depois transformar-se nos cachos abundantes de Azriel, e na testa franzida de Azriel. Foi feita outra tentativa. Um cheiro fétido encheu o quarto, tão horrível quanto o de um necrotério. Depois ele foi melhorando.

Azriel, de novo ele mesmo, estava lá, de costas para mim. Ele estendeu os braços e disse algo, provavelmente em sumério, mas não sei. Ele invocou alguma coisa, e esta coisa era um doce perfume.

Eu pisquei os olhos. Vi pétalas de rosa flutuando no ar. Senti-as cair no meu rosto. O cheiro de necrotério tinha passado.

Diante do fogo, ele tornou a estender os braços e a se transformar; tornou-se uma pálida imagem de Gregory Belkin; esta imagem oscilou e imediatamente a forma dele a engoliu. E ele deixou cair os braços com um suspiro.

Eu saí da cama e me dirigi até onde estava o gravador.

— Posso ligá-lo? — eu perguntei.

Olhei para cima e o vi sob a luz direta do fogo e percebi que ele estava usando uma roupa de veludo azul, enfeitada de dourado ao redor do colarinho, nos punhos e nas calças. Ele usava um cinto largo da mesma cor, bordado em ouro e seu rosto parecia um pouco mais velho do que antes.

Eu me levantei e me aproximei dele o mais educadamente possível. O que havia mudado, exatamente? Bem, sua pele estava um pouco mais escura, como a de um homem que vivesse ao sol, e seus olhos sem dúvida tinham sofrido algumas mudanças, as pálpebras estavam mais suaves, menos perfeitas e talvez mais bonitas. Eu podia ver os poros de sua pele e os pêlos finos e escuros na raiz do seu cabelo.

— O que você está vendo? — ele perguntou. Eu me sentei perto do gravador. — Está tudo um pouco mais escuro e detalhado — eu disse.

Ele concordou com a cabeça. — Eu não consigo mais tomar a forma de Gregory Belkin sempre que desejo. Quanto à semelhança com qualquer outra pessoa, não consigo mantê-la por muito tempo. Não entendo de ciência o bastante para entender isto. Algum dia será entendido. Deve ter a ver com partículas e vibrações. Deve ter a ver com coisas mundanas.

Eu estava ardendo de curiosidade.

— Você tentou tomar alguma outra forma, a forma de alguém que você goste talvez um pouco mais do que de Gregory Belkin?

Ele sacudiu negativamente a cabeça. — Eu posso me tornar feio se quiser assustá-lo, mas não quero ser feio. Não quero assustar ninguém. Não sinto mais ódio e imagino que isso tenha feito o meu poder diminuir. Posso fazer alguns truques. Veja isto.

Ele pôs as mãos no pescoço e, vagarosamente, arrastou-as pela frente bordada do casaco, revelando ao fazê-lo um colar de discos de ouro, como moedas antigas. A casa inteira vibrou. O fogo fulgurou por um instante e depois diminuiu.

Ele ergueu o colar para demonstrar sua solidez e seu peso e depois deixou-o cair.

Você tem medo de animais? — ele me perguntou. — Você não gosta de usar a pele deles? Não estou vendo nenhuma pele aqui, peles quentes, como de urso, por exemplo.

Não tenho medo nenhum — eu disse. — Nem isso me desgosta.

A temperatura do quarto subiu drasticamente e mais uma vez o fogo explodiu como se alguém o houvesse abanado, e eu me senti coberto por um amplo cobertor de pele de urso, forrado de seda. Eu passei a mão no pêlo. Era macio e grosso e me fez pensar nas florestas russas e nos homens dos romances russos que estão sempre vestidos com peles. Pensei nos judeus que costumavam usar chapéus de pele na Rússia e que talvez ainda usem.

Eu me sentei na cama, endireitando o cobertor mais confortavelmente em volta do corpo.

— É maravilhoso — eu disse. Eu estava tremendo. Tantos pensamentos percorriam a minha mente que eu não conseguia decidir o que dizer primeiro.

Ele deu um suspiro profundo e se deixou cair um tanto dramaticamente na cadeira.

Isto o deixou exausto — eu disse. — As transformações, os truques.

Sim, um pouco. Mas não estou cansado demais para conversar, Jonathan. É que eu só posso fazer isto e mais nada... mas... quem sabe? O que é que Deus irá fazer comigo?

Eu só achei que desta vez, depois de passar por esta provação, você sabe, que a escada apareceria... ou que haveria um sono profundo. Eu achei... tantas coisas.

E queria um final.

Ele parou. — Eu aprendi uma coisa — ele disse. — Aprendi nestes dois últimos dias que contar uma história não é o que eu pensava.

— Explique-me isso.

— Eu pensei que o fato de falar sobre o caldeirão fervente faria com que a dor fosse embora. Mas não foi. Incapaz de odiar, de sentir raiva, eu sinto desespero.

Ele parou.

— Eu quero que você me conte a história toda. Você acredita nela. Foi por isso que você veio, para contá-la toda.

— Bem, digamos que eu vou terminar porque... alguém deve saber. Alguém deve registrar. E por delicadeza para com você, porque você é gentil e presta atenção e eu acho que quer saber.

— Eu quero. Mas preciso dizer a você como foi difícil imaginar uma crueldade dessas, imaginar que o seu próprio pai o entregou para esse sacrifício. E imaginar uma morte tramada dessa forma. Você ainda perdoa o seu pai?

— Não no momento — ele disse. — Era disto que eu estava falando, que o fato de falar no assunto não traz o perdão. Contar a história, vê-lo, me aproximou mais dele.

— Ele não era tão forte quanto você, nisto ele tinha razão.

O silêncio caiu entre nós. Eu pensei em Rachel Belkin, no assassinato de Rachel Belkin, mas não disse nada.

— Você gostou de caminhar na neve? — eu perguntei.

Ele se virou para mim, surpreendido, e sorriu. Foi um sorriso muito franco e bondoso.

— Sim, gostei, mas você não comeu a ceia que eu preparei para você. Não, fique sentado aí, eu vou buscar o ensopado e uma das suas colheres de prata.

Ele fez o que disse. Eu comi um prato de ensopado enquanto ele me observava de braços cruzados.

Eu pus de lado o prato vazio e ele imediatamente retirou-o junto com a colher. Ouvi o barulho de água correndo enquanto ele os lavava. Ele me trouxe de volta uma tigelinha de água e uma toalha, como alguém faria em outro país. Eu não precisava daquilo. Mas molhei os dedos e usei o pano para limpar a boca, o que foi bem agradável, e depois ele levou embora todas aquelas coisas.

Foi então que ele viu o pequeno aparelho de televisão com sua alça e sua tela pequenina. Provavelmente eu o havia deixado muito perto do fogo. Eu fiquei um tanto sem jeito, como se estivesse espionado o mundo dele enquanto ele estava fora, como que para confirmar as coisas que ele havia contado.

Ele contemplou o aparelho por um longo momento e depois desviou os olhos.

Isso funciona? Falou com você? — ele perguntou sem entusiasmo.

Notícias de alguma cidade daqui, uma rede eu acho, entrando pelo canal local. Os Templos de Belkin foram invadidos, pessoas foram presas, estão tranquilizando o público.

Ele esperou um bom tempo antes de responder. Depois disse: — Sim, bem, há outros, talvez, que eles ainda não encontraram, mas as pessoas lá dentro estão mortas. Quando você encontra esses homens com seus revólveres e suas promessas de matar a si mesmos junto com toda a população de um país, é melhor simplesmente... matá-los imediatamente.

— Mostraram o seu rosto — eu disse. — Sem barba.

Ele riu. — O que significa que eles jamais me acharão debaixo de todo este cabelo.

— Principalmente se você cortar a parte comprida, mas seria uma pena.

— Não é preciso — ele disse. — Eu ainda posso fazer a coisa mais importante de todas.

— E qual é?

— Desaparecer.

— Ah! Fico contente em saber. Você sabe que estão procurando por você? Disseram qualquer coisa acerca do assassinato de Rachel Belkin. Eu mal conheço esse nome.

Ele não pareceu nem surpreso nem indignado nem aborrecido.

— Ela era a mãe de Esther. Ela não queria morrer na casa de Gregory. Mas vou contar-lhe a parte estranha. Quando ele contemplou o cadáver dela, acho que ficou desesperado. Acho que ele realmente a amava. Nós esquecemos que esses homens podem amar.

— Você quer me dizer... se a matou ou não? Ou isto é algo que eu não devo perguntar?

— Eu não a matei — ele disse com simplicidade. — Eles sabem disso. Eles estavam lá. Isso foi cedo. Por que eles iriam se dar ao trabalho de continuar me procurando?

— Tudo isso tem a ver com conspiração, bancos e esquemas engenhosos, e os longos tentáculos do Templo. Você é um homem misterioso.

— Ah, sim. E como eu disse, eu sou alguém que, se for necessário, pode desaparecer.

— Voltar para os ossos? — eu perguntei.

— Ah, os ossos, os ossos de ouro.

— Está pronto para me contar?

— Estou pensando em como fazê-lo. Há mais algumas coisas que preciso contar antes de chegar no momento da morte de Esther Belkin. Houve mestres que eu amei. Preciso explicar um pouco mais.

— Você não vai me contar sobre todos eles?

— É gente demais — ele disse — e alguns nem vale a pena lembrar, e outros eu nem me lembro mesmo. Há dois que eu quero descrever para você. O primeiro e o último mestre a quem obedeci. Eu parei de obedecer a mestres. Eu matava quem me invocasse — não só o homem ou a mulher que me havia chamado, mas todo mundo que havia presenciado o chamado. Fiz isso por muitos anos. E então os ossos foram guardados com avisos em hebraico, alemão e polonês e ninguém mais se arriscou a invocar o Servo dos Ossos.

— Mas quero contar-lhe acerca dos dois — o primeiro e o último mestre a quem obedeci. Os outros de que me recordo nós podemos descartar com poucas palavras.

— Você parece mais animado agora, mais descansado — eu disse.

— É mesmo? — Ele riu. — Por que será? Bem, eu dormi realmente e sou forte, muito forte, quanto a isso não há dúvida. E a história tem o dom de me chamar de volta.

Ele suspirou.

— Eu não conheço muita vida na morte sem dor — ele disse. — Mas isso eu mereço, imagino, sendo um demônio poderoso. O último Mestre a quem obedeci foi um judeu na cidade de Estrasburgo e queimaram todos os judeus de lá porque os acusaram pela Peste Negra.

— Ah — eu disse. — Isto deve ter sido no século catorze.

— No ano de 1349 desta era — ele disse com um sorriso. — Eu pesquisei. Eles mataram os judeus na Europa inteira, acusando-os pela Peste Negra.

— Eu sei. Sim, e houve muitos outros holocaustos depois disso.

— Você sabe o que foi que Gregory me contou? Nosso amado Gregory Belkin? Quando ele pensou que fosse meu mestre e que eu iria ajudá-lo?

— Posso adivinhar.

— Ele me contou que se a Peste Negra não tivesse assolado a Europa, a Europa hoje seria um deserto. Ele disse que a população tinha se tornado predatória; que as árvores estavam sendo derrubadas tão depressa que todas as florestas da Europa teriam desaparecido nesta altura. E as florestas da Europa nós sabemos agora que remontam ao século catorze.

— Isso é verdade — eu disse. — Eu acho. Foi assim que ele justificou o assassinato das pessoas?

Oh, esse foi apenas um dos diversos meios. Gregory era um homem extraordinário, na verdade, porque era um homem honesto.

Não era louco, para fundar esse templo universal e enchê-lo de terroristas?

Não. — Ele sacudiu a cabeça. — Apenas impiedoso e honesto. Ele me disse a certa altura que havia um homem que tinha mudado completamente a história do mundo. Eu pensei que ele fosse dizer que esse homem era Cristo ou Ciro, o Persa. Ou talvez Maomé. Mas ele disse que não. Que o homem que havia mudado o mundo todo fora Alexandre, o Grande. Esse era o seu modelo. Gregory era perfeitamente lúcido. Ele tencionava desfazer um gigantesco nó górdio. E quase conseguiu. Quase...

Como foi que você o impediu? Como foi que tudo aconteceu?

Um defeito fatal que ele tinha o impediu — ele disse. — Você conhece, na antiga religião persa, uma lenda que diz que o mal entrou no mundo não através do pecado, ou através de Deus, e sim através de um erro? Um erro ritual?

Já ouvi falar. Você está falando de mitos muito antigos, fragmentos do zoroastrismo.

Sim — ele disse —, mitos que os medas transmitiram aos persas e que os persas passaram para os judeus. Não desobediência. Mau julgamento. É quase assim no Gênesis, não acha? Eva comete um erro de julgamento. Uma regra ritual é quebrada. Isso deve ser diferente de pecado, você não acha?

Não sei. Se soubesse seria um homem mais feliz.

Ele riu.

O que impediu Gregory foi um erro de julgamento— ele disse.

Como assim?

Ele confiou que a minha vaidade era tão grande quanto a dele. Ou talvez tenha simplesmente avaliado mal o meu poder, a minha vontade de intervir... Não, ele achou que eu me deixaria levar pelas idéias dele; achou que eram irresistíveis. Foi um erro de julgamento. Se ele não tivesse me contado certas coisas, coisas importantes no momento apropriado, nem eu poderia ter impedido o plano dele. Mas ele precisou contar, gabar-se, ser admirado por mim, e ser amado... eu acho, até mesmo ser amado por mim.

Ele sabia o que você era? O Servo dos Ossos? Um espírito?

Oh, sim, nós nos aproximamos sem nenhum problema de credibilidade, como você diria hoje. Mas eu vou chegar lá.

Ele se encostou na cadeira. Eu verifiquei os gravadores. Removi as fitas e as substituí por outras, depois marquei as etiquetas para não me confundir. E coloquei as duas máquinas de volta na lareira.

Ele estava me observando com interesse e com um olhar agradável. No entanto, parecia relutante em começar, ou então parecia estar achando difícil começar, apesar de louco para isso.

— Ciro, o Persa, cumpriu a promessa que lhe fez? — eu perguntei. Eu vinha pensando nisso desde que havíamos interrompido a história. — Ele o mandou realmente para Mileto? Acho difícil de acreditar que Ciro, o Persa, tenha cumprido sua palavra...

— Você acha? — Ele olhou para mim e sorriu. — Mas ele manteve a promessa que fez a Israel, como você sabe. Os judeus tiveram permissão para sair da Babilônia e foram para casa, e tornaram a estabelecer o Reino da Judéia e construíram o Templo de Salomão. Você sabe disso tudo através da história. Ciro cumpriu as promessas que fez aos povos que conquistou, especialmente aos judeus. Lembre-se, a religião de Ciro não era assim tão diferente da nossa religião. No fundo, era uma religião de... ética, você não acha?

Sim, e eu sei que sob o reinado persa Jerusalém prosperou.

Oh, realmente, sempre, por centenas de anos, até o tempo dos romanos, na verdade, quando começaram as rebeliões, até a derrota final em Masada. Nós falamos destas coisas para lembrar a nós mesmos. Na época, eu não sabia nada do que estava por acontecer. Mas até eu sabia que Ciro manteria a sua palavra, que me mandaria para Mileto. Eu confiei nele desde a primeira vez em que o vi. Ele não era um mentiroso. Bem, não tanto quanto a maioria dos homens.

Mas se ele tinha os seus próprios sábios — eu disse —, por que ele deixaria algo tão poderoso... quer dizer, alguém tão poderoso... como você escapar das garras dele?

Ele estava louco para se livrar de mim! — Azriel disse. — E francamente, os sábios dele também! Ele não deixou que eu escapasse das garras dele. Na realidade, ele me enviou para Zurvan, o mago mais poderoso que ele conhecia. E Zurvan era leal a Ciro. Zurvan era rico e morava em Mileto, que tinha caído sob o domínio de Ciro e dos persas sem um único conflito, da mesma forma que a Babilônia. Mais tarde, é claro, os gregos daquelas cidades jónicas iriam rebelar-se contra os persas. Mas na época em que eu estive lá, olhando para o grande rei e implorando que ele me enviasse para um mágico poderoso, Mileto era uma próspera cidade grega, governada pelos persas.

Ele me analisou. Eu comecei a fazer outra pergunta, mas ele me interrompeu.

— Você saiu para o frio, não deveria ter feito isso. Você está quente agora, a febre subiu um pouco. Está precisando de água fria. Eu vou buscar. Depois que você beber um pouco, nós continuamos.

Ele se levantou e foi até a porta. Trouxe uma garrafa que estava perto da porta. Estava realmente muito fria, dava para ver, e eu estava com sede.

Baixei os olhos e vi que ele estava despejando a água num cálice de prata. Não era um cálice de prata antigo. Parecia até bem novo, feito à máquina, talvez, mas era muito bonito, e é claro que ele ficou totalmente frio por causa da água. Era como o Santo Graal, ou um cálice do tempo dos babilônios. Ou talvez de Salomão.

Havia outro cálice igual defronte da cadeira.

Como foi que você fez os cálices? — eu perguntei.

Do mesmo modo que faço minhas roupas. Chamo todas as partículas necessárias, mando que elas venham sem alarde e sem barulho. Eu não sou um artesão de cálices tão bom assim. Se meu pai tivesse desenhado estes cálices, eles seriam maravilhosos. Eu simplesmente disse às partículas que elas deveriam formar cálices trabalhados no estilo desta época... Há muito mais palavras nesta operação e muito mais energia, mas em resumo é isto.

Eu balancei a cabeça, concordando. Estava grato pela explicação.

Eu bebi toda a água. Ele tornou a encher o cálice. Eu bebi. O cálice era bastante sólido. De prata de lei. Eu o analisei. Ele tinha um desenho orgíaco comum, cachos de uvas gravados ao redor da borda, e uma base simples para a haste. Mas era realmente muito bonito.

Eu o estava segurando com as duas mãos, carinhosamente, eu acho, admirando sua forma alongada e o desenho das uvas, quando ouvi um leve ruído emergindo dele e senti um leve movimento de ar entre minhas narinas. Percebi que meu nome estava sendo escrito no cálice. Em hebreu. Jonathan Ben Isaac. O nome foi escrito em toda a volta, com uma letra miúda e perfeita.

Eu olhei para ele. Ele estava recostado na cadeira com os olhos fechados. Respirou fundo.

A memória é tudo — ele disse baixinho. — Você não acha que podemos conviver com a idéia de que Deus não é perfeito desde que tenhamos certeza de que Deus se lembra... se lembra de tudo...

Sabe tudo, acho que é isto que você quer dizer. Nós queremos que ele esqueça as nossas transgressões.

Suponho que sim.

Ele encheu o cálice dele de água, sem nome mas igual ao meu, e bebeu. Mais uma vez ele descansou, distraído, olhando para o fogo, o peito ofegante.

Eu imaginei como seria viver num mundo de vultos como o dele.

Seria assim Esagila? Homens barbudos, de longas vestes, cobertos de enfeites de ouro e cheios de decisão.

Você sabia — ele me perguntou, sorrindo — que os antigos persas, eles achavam que... durante o último milênio antes da Ressurreição final, os homens aos poucos iriam deixar de comer carne e tomar leite, e que se alimentariam apenas de água? Água pura.

E então ocorreria a Ressurreição.

Sim, o mundo dos ossos se ergueria... o vale dos ossos ganharia vida. — Ele sorriu. — Então, às vezes eu penso, quando quero me consolar, que os anjos poderosos, demônios poderosos, coisas assim como eu... que nós somos simplesmente o último estágio dos seres humanos... quando os seres humanos viverão apenas de água. Portanto... nós não somos terríveis. Somos simplesmente muito avançados.

Eu sorri. — Há quem acredite que os nossos corpos sejam apenas um estágio biológico, que os espíritos constituem outro estágio, que é tudo uma questão de átomos e partículas, como você disse.

Você leva em consideração essas pessoas?

É claro. Eu não temo a morte. Espero que minha luz se junte à luz de Deus, mas talvez isso não aconteça. Mas eu considero, considero muito tudo em que os outros acreditam. Esta não é uma era da indiferença, embora possa parecer.

Sim, eu concordo com você — ele disse. — É uma época prática, pragmática, em que a decência é a virtude primordial — você sabe, roupas decentes, casa decente, comida decente...

Sim — eu disse.

Mas também é uma época de grande espiritualidade, talvez a única época em que tais idéias não provoquem nenhum tipo de sanção, pois afinal de contas, pode-se pregar qualquer coisa sem ser preso e acorrentado. Não há uma Inquisição no coração de ninguém.

Não, existe uma Inquisição, viva no coração de todos os fundamentalistas de todas as seitas, mas eles não têm o poder, na maior parte do mundo, de prender o profeta ou o blasfemador. Foi isto que você observou.

Sim — ele disse.

Houve uma pausa.

Ele endireitou o corpo, obviamente refeito e com vontade de falar de novo. Virou-se ligeiramente para mim, o cotovelo esquerdo um pouco para trás, o braço esticado sobre o braço da cadeira. O ouro sobre o veludo azul formava laços e círculos, que sem dúvida possuíam uma história venerável enquanto padrão, talvez até um nome. Era um fio de ouro grosso. Brilhava à luz do fogo.

Ele olhou para os gravadores. Eu fiz um sinal de que estávamos prontos para escutar, tanto os gravadores quanto eu.

— Ciro manteve sua palavra — ele disse, com um muxoxo. — Com todo mundo. Cumpriu o que prometeu à família do meu pai, aos hebreus da Babilônia. Os hebreus que quiseram, e nem todos quiseram, aliás, mas os que quiseram, voltaram para Sião e reconstruíram o templo e os persas nunca foram cruéis com a Palestina. Os problemas só começariam séculos mais tarde, com os romanos, conforme dissemos. E você também sabe que muitos judeus permaneceram na Babilônia e estudaram lá, escreveram o Talmude lá, e a Babilônia foi um lugar de muito estudo até o dia terrível, séculos depois, em que foi queimada e destruída. Mas isto aconteceria muito mais tarde. Antes eu queria falar nos dois mestres que me ensinaram tudo que foi importante aprender.

Eu concordei. Ele fez silêncio e eu não o perturbei.

Olhei para o fogo e por um momento senti uma tonteira, como se o ritmo da vida, do meu coração, da minha respiração, do próprio mundo tivesse diminuído gradualmente. O fogo era feito de madeiras que eu não havia posto lá. O fogo estava cheio de cedro, além de carvalho e outras madeiras. Estava perfumado e crepitava, e por um momento eu tornei a pensar que talvez estivesse morto, que aquele era algum tipo de estágio mental. Eu podia sentir cheiro de incenso e uma sensação de inefável felicidade tomou conta de mim. Eu sabia que estava doente. Sentia dor no peito e na garganta, mas essas coisas não tinham nenhuma importância. Eu simplesmente estava feliz. Que importa se eu estiver morto, eu pensei.

— Você está vivo — ele disse com uma voz suave e calma. — Que o Senhor Deus o abençoe e guarde.

Ele estava me observando. Não disse nada.

O que foi, Azriel? — eu perguntei.

Eu gosto de você, só isso — ele disse. — Perdoe-me. Eu conhecia os seus livros, amava-os, mas não sabia... que iria gostar de você. Prevejo agora como vai ser a minha existência... Estou vendo algo do que Deus planejou, mas isso não importa. Nós estamos falando do passado e não de Deus e do futuro...

 

TEORIA ESTÉTICA

 

Faça um poema de ouvido.

Recite-o de modo que

suas pétalas se deschocolatem

como um cérebro em um vaso.

Cera de nogueira, derretendo de pensar.

Faça um poema quase

lascivamente compreensível

e faça a sua compreensão

escorrer, mel do tronco puncionado.

Faça-o serpentear até a prostituída molécula

e encostar sua boca

atômica na boca do seu núcleo.

Arranque sua haste

para expor seu feto. Faça-o

ter filhos com queixos lisos de gengibre,

faça os cachorros gemerem quando ele passar,

deixe-o sair de dentro do vaso,

faça-o deitar com nosso cadáver, nosso caos.

Faça-o faminto, mau, inimigo da Morte.

Coloque-o no papel. Leia-o. Arranque

suspiros dele, e com tal ferrão

que os escorpiões

o chamem de Jeová e Ninguém.

Faça-o agora antes que você desista.

Invente-o, ejacule-o, afague-o,

torne-o eficiente, harmônico,

faça-o mais poema do que

o Poema é capaz de sobreviver.

 

Agora vou começar a contar a história dos meus dois mestres e o que eles me ensinaram. E asseguro-lhe de que esta será a parte mais breve do meu relato. Eu estou ansioso para chegar no presente. Mas gostaria que você soubesse disto e fizesse a gentileza de anotar. Portanto...

Zurvan se apresentou de forma dramática. Como lhe disse, eu tinha ido para dentro dos ossos. Estava mergulhado em escuridão e sono. Havia uma certa consciência em mim, sempre há, mas não sei expressá-la em palavras, esta consciência. Talvez eu seja como uma placa de argila onde a história vai sendo escrita enquanto eu durmo. Mas esta imagem é concreta e imperfeita demais.

Eu dormia, não sentia nem medo nem dor. E não me sentia preso. Eu não sabia o que eu era nem onde estava. Então Zurvan me chamou:

“Azriel, Servo dos Ossos, venha a mim, invisível, apenas o seu tzelem, voe com toda a sua força.” Eu me senti sugado para o céu. Voei na direção da voz que me chamou e, como antes, vi o ar cheio de espíritos, espíritos em todas as direções, e espíritos através dos quais eu me movimentava com grande determinação, tentando não machucá-los, entretanto profundamente entristecido por seus gritos e pelo olhar de desespero em seus rostos.

Alguns desses espíritos chegaram a me agarrar e tentaram me fazer parar. Mas eu tinha recebido uma ordem e me livrei deles com uma força maravilhosa, que me fez dar gargalhadas.

Quando vi a cidade de Mileto lá embaixo, era meio-dia; o ar foi se livrando dos espíritos à medida que eu me aproximava da terra, ou pelo menos eu estava me movendo numa velocidade diferente e eles não estavam mais visíveis para mim. Mileto estava lá na sua península, a primeira cidade colonial grega ou jónica que eu já vira.

Ela era linda e ampla, possuía maravilhosas áreas abertas e colunatas e toda a perfeição da arte grega, mesmo então. A agora, a palestra, os templos, o anfiteatro... tudo isso parecia ser como uma mão aberta para agarrar a brisa do verão.

— E três lados dela eram banhados pelo mar profundo, cheio de navios de carga gregos, fenícios e egípcios, e o cais fervilhava de comerciantes e longas filas de escravos acorrentados.

Quanto mais eu descia, melhor contemplava a sua beleza, que evidente-mente não era inteiramente desconhecida para mim na Babilônia, mas ver uma cidade com todo aquele mármore maravilhoso, vê-la branca e brilhando e não protegida por barricadas contra o vento do deserto, era um espetáculo. Tratava-se de uma cidade onde as pessoas saíam ao ar livre para conversar e passear e se reunir e tratar de negócios, e o calor não era insuportável, e as areias do deserto não a alcançavam.

Entrei imediatamente na casa de Zurvan e o encontrei sentado na escrivaninha com uma carta na mão.

Ele era persa, talvez eu devesse dizer meda, tinha cabelos pretos, embora tanto os cabelos quanto a barba estivessem bem grisalhos. Mas não era muito velho, tinha olhos grandes e azuis que me contemplaram imediatamente, percebendo perfeitamente a minha forma invisível, e dizendo:

“Ah, assuma um corpo, você sabe como fazê-lo. Faça isso agora!”

Era isso exatamente o que tinha que ser feito, eu acho, porque fiquei muito orgulhoso em invocar um corpo. E na verdade eu não sabia outras palavras além das que estavam escritas na placa. Mas eu fiz o corpo, e bem-feito, em segundos, e ele se recostou na cadeira, rindo satisfeito, o joelho levantado, olhando para mim. Acho que eu tinha a mesma aparência que tenho agora.

Eu me lembro de ter ficado maravilhado com aquela linda casa grega, com seu pátio e portas abertas em toda parte, e pinturas nas paredes de pessoas gregas, esbeltas e com olhos grandes, usando roupas resistentes e ondeantes que me fizeram lembrar do Egito, mas que eram claramente jónicas.

Ele pôs o pé no chão, descruzou os braços e depois levantou-se. Estava vestido no estilo grego, mais solto e mais nu, sem as mangas que nós usávamos sempre, e calçava sandálias. Ele me analisou sem medo, do mesmo modo que o meu pai analisaria um artefato de prata.

— “Onde estão suas unhas, Espírito?”, ele perguntou. “Onde estão os pêlos do seu rosto? Onde estão os seus cílios? Rápido! Daqui em diante basta você dizer ‘Que venham todos os detalhes de que eu preciso neste momento’, e mais nada. Fixe uma imagem e seu trabalho estará terminado. Isso mesmo. Isso mesmo.”

Ele bateu palmas.

“Agora você está bastante completo para o que tem que fazer. Sente-se aí. Eu quero ver você se movimentar, andar, falar, erguer os braços. Anda, senta.”

Eu obedeci. Era uma cadeira grega, graciosa, com braços altos e sem encosto. A luz à minha volta parecia radiosa e diferente; do lado de fora, as nuvens eram altas. O ar mais puro.

“É porque você está à beira-mar”, ele disse. “Você sente a água no ar, Espírito? Isso irá sempre ajudá-lo. É por isso que os estúpidos fantasmas dos mortos e os demônios gostam de lugares úmidos, eles precisam da água, do som dela, do cheiro dela, de sua frescura penetrando neles, seja qual for a forma que eles possuam.”

Ele caminhou pelo aposento. Eu fiquei sentado lá, arrogantemente, sem demonstrar-lhe nenhum respeito. Ele não pareceu importar-se.

Uma roupa completa babilônia ou persa cairia melhor nele com suas pernas e pés magros e velhos. Mas estava quente demais.

Eu desviei os olhos dele. Estava admirando o chão de mosaico. O nosso chão, em casa, também era colorido e artístico, mas aquele chão não era cheio de rosetas duras nem de figuras de procissão, e sim de dançarinos travessos e cachos de uvas, e havia todo tipo de mármore enfeitando suas bordas. Os desenhos eram fluidos e alegres. Eu pensei em todos os vasos gregos que havia manipulado no mercado, e no quanto costumava apreciar seus desenhos graciosos. Os murais nas paredes também eram bonitos e cheios de vida, e tinham as mesmas tonalidades de cor que me deleitaram os olhos.

Ele parou no meio da sala. “Então nós admiramos a beleza, não é?” Eu não respondi. Então ele disse: “Fale, eu quero ouvir a sua voz.”

“E o que devo dizer?”, eu respondi sem me levantar. “O que eu quiser dizer? Ou o que você me mandar dizer? O que estiver realmente pensando ou alguma bobagem servil — que eu sou o seu escravo-espírito!”

Eu me calei de repente. Perdi toda a confiança em mim mesmo. Compreendi que não sabia por que estava dizendo aquelas coisas. Tentei lembrar. Eu tinha sido mandado para aquele homem. Aquele homem era um grande mágico. Aquele homem era um Mestre no seu ofício. Eu era um Servo. Quem tinha me transformado naquilo?

“Não vá se dissolver por causa dessas preocupações sem importância”, ele disse. “Você fala bem e com clareza, era isso que eu queria saber, e você pensa, e é muito poderoso. Você é, talvez, o anjo mais poderoso que eu já vi, e nada que eu invoquei até hoje tinha a sua força.”

“Quem me enviou? Foi um rei”, eu disse. “Mas minha mente está turva e é uma agonia não conseguir saber.”

“É a armadilha dos espíritos, é o que os mantém fracos, você poderia dizer que é a limitação imposta por Deus para evitar que eles tenham força suficiente para prejudicar demais os homens e as mulheres. Mas você sabe quem o enviou. Pense! Esforce-se para encontrar a resposta. Você vai começar a se lembrar de coisas agora, vai começar a prestar atenção. E em primeiro lugar, solte essa raiva que está dentro de você. Eu não tive nada a ver com aqueles que o feriram e mataram. E desconfio que a coisa toda foi muito mal feita, e que um espírito mais fraco que você jamais conseguiria superar. Mas você já superou. E o homem que o enviou? Ele fez o que você pediu, lembra? Ele fez o que você pediu.”

“Ah, sim, o Rei Ciro, ele me mandou para Mileto conforme eu pedi.” Aquilo ficou claro e ficou ainda mais claro quando eu tentei deixar que a raiva saísse de mim como se fosse excesso de ar nos meus pulmões. Eu cheguei até a sentir os meus pulmões. Eu senti minha respiração.

“Não perca tempo com isso”, ele disse. “Lembra das perguntas que eu lhe fiz? Das suas unhas? Dos seus cílios? Detalhes que são visíveis. Você não precisa de órgãos internos. O seu espírito preenche a concha perfeita que é você, que ninguém diferencia de um homem de verdade. Não desperdice a sua energia fazendo um coração para você, ou sangue ou pulmões, apenas para se sentir humano. Isso é besteira. Só de vez em quando você vai precisar fazer sair um pouco de sangue do seu corpo. Isso não é nada, mas não fique com saudade da sua forma humana. Você está melhor agora!”

“Estou?”, eu perguntei, ainda esparramado na cadeira, com a perna cruzada, enquanto aquele homem mais velho e mais sábio tolerava a minha arrogância. “Eu sou bom ou sou um instrumento do mal? Você falou em anjo poderoso. Eu ouvi o rei usar essas palavras. Mas ele também falou em demônio. Ou era outra pessoa?”

Ele ficou parado no meio da sala, balançando um pouco, controlado, estudando-me através dos olhos semicerrados.

“Eu desconfio que você vai ser o que quiser”, ele disse, “embora outros possam tentar transformá-lo no que quiserem. Você tem tanto ódio dentro de você, Azriel, tanto ódio.”

“Você tem razão. Eu sinto ódio. Eu vejo um caldeirão fervente e sinto terror e em seguida ódio.”

“Nunca mais alguém vai conseguir feri-lo desse jeito de novo. E lembre-se, você se ergueu acima do caldeirão, não foi? Você sentiu o ouro escaldante?”

Eu estremeci todo. Comecei a chorar. Não consigo nem falar sobre isso e não queria falar com ele. “Eu senti por um momento”, eu disse, “um momento eu senti e soube o que seria ficar lá dentro e morrer sofrendo daquele jeito. Eu senti... senti o ouro fervendo penetrando em algo que me cobria, como uma armadura grossa, mas onde ele me feriu... foi nos olhos.”

“Ah, compreendo. Bem, seus olhos estão ótimos agora. Eu preciso da placa cananéia que o criou. Preciso dos ossos.”

— “Você não os tem aqui?”

— “Que diabo, não”, ele disse. “Um bando de idiotas roubou-os. Bandidos do deserto. Eles atacaram os homens de Ciro, mataram-nos por cada pedacinho de ouro que usavam e fugiram com o baú. Eles pensam que os ossos são de ouro maciço. Só um dos persas sobreviveu e conseguiu chegar na aldeia mais próxima. Mensagens foram enviadas. Agora você tem que procurar os ossos e a placa, o baú todo, e trazê-lo para mim.”

— “Eu posso fazer isso?”

— “É claro que sim. Você veio quando eu o chamei. Volte para aquele lugar, ou para o lugar de onde veio. Olha, este é o segredo da magia, meu filho. Seja específico. Diga, eu quero voltar para o lugar de onde vim. Assim, se os bandidos tiverem se afastado dez milhas do lugar em que vocês estavam quando você ouviu o meu chamado, você irá pegá-los. Mas quando chegar nesse lugar, permaneça com o seu corpo e mate os ladrões, se puder. Se você não for forte o bastante para isso, se eles lutarem contra você com armas físicas que o façam titubear, se eles lançarem feitiços contra você que o deixem assustado — e eu lhe digo que não existe nenhum feitiço sobre a terra que deva assustar o Servo dos Ossos —, então torne-se incorpóreo, mas pegue os ossos, leve-os para dentro de você como se você fosse um funil de vento do deserto, junte-os e traga-os para mim. Eu tratarei desses ladrões mais tarde. Vá, traga os ossos para mim.”

“Mas você prefere que eu os mate?”

“Bandidos do deserto? Sim, mate todos eles. Mate-os facilmente, com as próprias armas deles. Não se importe com mágica. Seria um desperdício de energia. Agarre as espadas deles e corte-lhes as cabeças com elas. Você verá os espíritos deles por alguns momentos, grite com eles para assustá-los, e acredite em mim, não haverá nenhum problema. Talvez isso aplaque um pouco a sua dor. Anda, vai buscar os ossos e a placa para mim. Depressa."

Eu me levantei.

“Será que eu vou ter que lhe ensinar o que dizer?”, ele insistiu. “Peça para voltar ao lugar de onde veio e que todos os elementos que compõem o seu corpo neste momento esperem que você os chame para que eles o tornem visível e forte quando você chegar no local em que estão os ossos. Você vai adorar isto. Depressa. Calculo que isto irá ocupá-lo até a hora do jantar. Eu estarei jantando quando você voltar.”

“Alguma coisa pode me acontecer?”

“Pode ser que você deixe que eles o assustem de tal maneira que você fracasse e então eu vou rir de você”, ele disse, sacudindo os ombros.

“Eles não podem ter espíritos poderosos?”

“Bandidos do deserto, nunca! Olha, você vai se divertir! Oh, e eu esqueci de dizer, quando você iniciar a viagem de volta, fique invisível. Eles estarão todos mortos, você vai segurar com força o baú dentro do seu corpo espiritual, como se uma ventania o carregasse. Eu não quero você voltando para cá com um corpo carregando aquele baú. Você precisa aprender a mover coisas. Se alguém o vir, ignore a pessoa porque você desaparecerá da vista dela antes que ela compreenda o que acabou de ver. Depressa.”

Eu me levantei e, com um grande rugido nos ouvidos, reapareci com a concha inteira do corpo numa pequena casa no meio do deserto, onde um grupo de beduínos estava reunido ao redor de uma fogueira.

Eles se puseram imediatamente de pé e gritaram ao me ver, desembainhando as espadas.

“Vocês roubaram os ossos, não foi?”, eu disse. “Vocês mataram os homens do Rei.”

Eu jamais sentira tanto prazer em toda a minha vida humana; jamais sentira tanta coragem nem tanta liberdade. Acho que cheguei até a ranger os dentes de alegria. Tirei a espada da mão de um deles e cortei em pedaços cada um deles, cortando fora com facilidade as mãos que tentaram defendê-los e decepando algumas cabeças e chutando alguns braços e pernas. Eu olhei para o fogo. Larguei a espada e caminhei para dentro do fogo, e depois para fora outra vez. Ele não machucou este corpo ou sua aparência de humanidade. Eu dei um berro que deve ter sido ouvido no inferno. Eu estava histericamente contente.

O lugar fedia a sangue e suor. Um deles estrebuchou e depois ficou imóvel. A porta foi aberta, dois beduínos armados voaram em cima de mim e eu agarrei um deles e arranquei-lhe a cabeça. O outro estava agora de joelhos. Mas eu o matei também do mesmo jeito — facilmente, eu podia ouvir o barulho dos camelos gritando do lado de fora.

— Mas o cômodo agora não tinha mais nenhum ser humano e eu vi um volume num canto, coberto por grossos cobertores de lã. Tirei os cobertores e achei o baú com os meus ossos e olhei lá dentro. Isto, devo admitir, não foi um prazer. Quebrou o encanto da matança que eu realizara. Eu olhei e vi os ossos, e então suspirei e pensei, “Ah, bem, você sabia que estava morto. Então qual é o problema?” Havia muitos outros tesouros lá, ainda. Vários sacos.

Eu juntei tudo dentro de um cobertor, agarrei o volume com os dois braços e disse, “Deixem-me, partículas deste corpo. Permitam que eu fique invisível, rápido e forte como o vento, e mantenham estes preciosos artigos seguros nos meus braços, e levem-me para o meu Mestre em Mileto, que me mandou aqui.”

O grande tesouro era como uma âncora, uma pedra, que tornou a minha viagem vagarosa mas deliciosa. Eu senti um prazer delicioso ao alcançar as nuvens e depois desci sobre o mar com sua luz trêmula. Fiquei tão apalermado com toda aquela beleza que quase deixei cair tudo, mas então me recuperei e ordenei a mim mesmo, “Vá para Zurvan agora, idiota! Volte para onde está o homem que o enviou agora”.

Eu e o baú aterrissamos no pátio. Entardecia. A cor do céu estava gloriosa. As nuvens estavam tingidas com ela. Eu estava ali deitado, em forma de homem, aparentemente por uma simples questão de vontade, e o tesouro estava lá, o baú, quebrado por causa da minha queda, e outra caixa de cartas, aberta.

Meu novo mestre saiu para o jardim e começou imediatamente a catar as cartas. “Aqueles miseráveis filhos da mãe; tudo isto é de Ciro para mim! Espero que você os tenha matado!”

“Com grande alegria”, eu disse. Eu me levantei, ergui o baú meio quebrado e fiquei atento para ajudá-lo no que ele precisasse. Ele encheu os meus braços com alguns sacos que aparentemente continham jóias, eu não sabia ao certo, dava a impressão que sim, e aquilo era tudo o que eu tinha trazido comigo além do baú e das cartas, e atirou o cobertor fora.

Para minha completa surpresa, o cobertor saiu voando, como que levado por uma corrente de ar, e passou por cima do muro, deslizando na brisa, e desapareceu.

“Alguma pessoa pobre e faminta irá encontrá-lo e fazer algo com ele, ele disse. “Pense sempre nos pobres e nos famintos quando você jogar alguma coisa fora.”

“Você se importa realmente com os pobres e os famintos?”, eu perguntei. Eu fui atrás dele. Nós voltamos para dentro do grande salão, que agora estava iluminado por diversos lampiões a óleo. Eu notei pela primeira vez prateleiras cheias de placas de argila e estantes de madeira para os rolos de pergaminho que os gregos preferiam. Tudo aquilo estava atrás de mim quando eu estive lá, com meu comportamento mal-educado, da outra vez.

Eu coloquei o baú quebrado no chão e o abri. Os ossos estavam mesmo lá.

Ele levou as cartas e os sacos de jóias para a escrivaninha e começou imediatamente a ler as cartas, rapidamente, apoiado nos cotovelos, comendo de vez em quando uma uva, que apanhava num potinho de prata ao lado. Ele abriu os sacos, despejou montes de jóias na mesa, na maioria pareciam ser egípcias, e algumas gregas, é claro, e depois voltou a ler.

“Ah”, ele disse, “aqui está a placa de argila cananéia com o ritual que o criou. Está em quatro pedaços, mas eu posso juntá-los.” Ele juntou os quatro pedaços e refez a placa.

Acho que fiquei aliviado. Eu tinha esquecido completamente daquilo. A placa era pequena, grossa, coberta por uma escrita miúda, cuneiforme, e parecia perfeita, como se nunca tivesse sido quebrada.

Ele ergueu subitamente os olhos e disse, “Não fique aí parado. Nós temos que trabalhar. Arrume todos os ossos na forma de um homem.”

“Eu não vou fazer isso!”, eu disse. O meu ódio subiu com tanto ardor que eu o senti mesmo dentro desta concha. Ele não me fez derreter, mas fez subir um calor que eu quase podia ver. “Eu não vou tocar neles.”

“Está bem, como quiser, sente-se e fique quieto. Pense, tente pensar em tudo o que sabe. Use a sua mente, que está no seu espírito e nunca esteve em seu corpo.”

“Se destruirmos estes ossos, eu morrerei?”, eu perguntei.

“Eu disse para você pensar, não para você falar”, ele disse. “Não, você não vai morrer. Você não pode morrer. Você quer terminar como um idiota de um espírito, resmungando coisas sem sentido por aí? Você já viu esses espíritos, não viu? Ou como um anjo apalermado, vagando pelos campos, tentando recordar hinos sagrados? Você agora é desta terra, para sempre, e é melhor esquecer qualquer idéia brilhante de simplesmente despachar os ossos. Os ossos irão mantê-lo junto, literalmente. Os ossos irão dar-lhe um local de descanso, mais do que necessário. Os ossos irão manter o seu espírito organizado de maneira a poder utilizar toda a sua força. Ouça o que estou lhe dizendo. Não seja tolo.”

“Eu não estou discutindo com você”, eu disse. Você já terminou de ler a placa cananéia?

“Cale-se.”

Eu suspirei zangado e me encostei na cadeira. Olhei para as minhas unhas. Elas brilhavam. Senti o meu cabelo, grosso e igual. Como era isso? Estar vivo e em perfeita saúde, num momento perfeito de vigília e de energia, sem ser acometido de fome ou cansaço, do mais remoto desconforto... Uma forma física aparentemente perfeita. Eu alisei o chão com os pés calçados. Eu estava usando minhas roupas bordadas favoritas e chinelos de veludo. Os chinelos fizeram um bom ruído.

Finalmente, ele pôs de lado todas as placas e disse, “Está bem, já que você está tão relutante em tocar nos seus próprios ossos, espírito jovem, fiteiro e covarde, eu farei o trabalho para você.”

Ele foi até o meio da sala. Despejou todos os ossos no chão. Afastou-se, estendeu as mãos e então agachou-se devagar, flexionando os joelhos, e de sua boca saiu uma longa série de encantamentos persas e eu vi alguma coisa sair da mão dele, talvez como calor saindo do fogo, mas nada mais visível que isto.

Para meu espanto, os ossos se juntaram na forma de um homem preparado para ser enterrado, e ele continuou com seus feitiços e, fazendo um gesto circular com a mão, como se estivesse costurando, ele fez vir a ele um imenso carretel de arame, cobre ou ouro ou algo assim, e repetindo o mesmo gesto muitas e muitas vezes, ele fez com que a linha de arame juntasse o esqueleto todo, como se fossem contas. Ele juntou osso com osso com esse fio, sem tocar em nada, simplesmente fazendo gestos, e deixou a mão descansar sobre as mãos e os pés do corpo, que tinham tantos ossinhos. Depois subiu para as costelas e a pelve, e finalmente, com um gesto abrangente da mão direita, ele alinhou a espinha do esqueleto e conectou-a com o crânio. Agora estava tudo costurado. Ele poderia ter sido pendurado num gancho para chacoalhar ao vento.

Eu vi um esqueleto ali deitado como se estivesse dentro de um tumulo aberto. Abandonei todas as lembranças do caldeirão, da dor, e simplesmente olhei para ele.

Enquanto isso, Zurvan tinha ido até uma outra sala e estava voltando com dois meninos, com cerca de dez anos, que eu percebi logo que não eram reais e sim espíritos, quase incorpóreos. Eles traziam um outro baú, menor que o primeiro, retangular, cheirando a cedro, todo trabalhado em ouro e prata e incrustado de jóias. Ele abriu o baú. Eu vi um forro de seda. Ele disse aos meninos para arrumar o esqueleto como se fosse uma criança no útero da mãe, com os braços encolhidos para cima e a cabeça curvada para baixo, e os joelhos encostados no queixo.

Os meninos obedeceram. Ambos ficaram em pé e me fitaram como seus olhos negros. O esqueleto deu justinho no baú. Não ficou sobrando nem um pedacinho de espaço.

— “Vão!”, ele disse para os meninos, “e aguardem as minhas ordens.” Eles não queriam ir. “Vão!”, ele berrou.

Eles saíram correndo da sala e ficaram me espiando da porta.

Eu me levantei e me aproximei do baú. Parecia com as antigas arcas fúnebres, das montanhas, dos tempos em que os homens eram enterrados daquele jeito, no útero da Mãe Terra. Eu o contemplei.

Ele estava resmungando. “Cera”, ele disse. “Eu preciso de bastante cera derretida.” Ele se levantou e se virou. Na mesma hora eu senti um choque de medo. O que há de errado com você?”, ele perguntou.

Seus dois servos tornaram a aparecer, olhando-me cautelosamente e carregando um recipiente grande, cheio de cera derretida. Ele tirou a chaleira da mão deles, pois o recipiente era mais ou menos isso, e despejou a cera ao redor dos ossos, de modo que, à medida que foi endurecendo diante dos meus olhos, ela os fixou no lugar, numa substância branca e macia. E então ele tornou a mandar os garotos saírem e se livrarem da chaleira e disse que eles podiam brincar uma hora no jardim com seus corpos desde que não fizessem barulho. Eles ficaram radiantes.

— “Eles são fantasmas?”, eu perguntei.

— “Eles não sabem”, ele disse, ainda olhando para os ossos agora fixos na cera. Obviamente a questão não o interessava. Ele fechou o baú. Ele tinha ferrolhos e fechadura fortes. Ele experimentou a fechadura e tornou a abri-lo. “Daqui a algum tempo”, ele disse, “embora eu não vá esperar muito, sendo velho deste jeito, eu vou preparar uma placa de prata para acompanhar isto, contendo tudo o que é necessário da placa cananéia, mas por enquanto, os ossos estão como sempre deveriam estar. Vá para dentro deles e depois torne a sair.”

Naturalmente, eu não queria fazer isso. Eu odiava aqueles ossos, e tinha um temperamento rebelde. Mas ele me auxiliou como um professor sábio, e eu o fiz, me dissolvendo, sentindo a tranqüilidade da escuridão, e depois sendo sugado lá de dentro num furacão de calor e terminando em pé ao lado dele, outra vez incorporado.

— “Excelente”, ele disse. “Excelente. Agora conte-me tudo o que você lembra da sua vida.”

Aquele pedido dele iniciou uma das discussões mais desagradáveis de toda a minha existência imortal. Eu não conseguia me lembrar de nada da minha vida. Não importa o quanto ele insistisse. Eu sabia que tinha medo de um caldeirão. Eu sabia que tinha medo do calor. Eu sabia que tinha medo de abelhas e que a cera me havia feito pensar nelas. Eu sabia que tinha visto Ciro, Rei da Pérsia, e que o favor que eu havia pedido a ele não fora exagerado. Além disso? Eu só sabia de coisas genéricas.

Ele me pediu diversas vezes para tentar. E eu falhei todas as vezes. Eu chorei. Finalmente disse a ele para deixar-me em paz, que não sabia o que ele queria de mim, e ele tocou-me no ombro e disse, “Calma, calma, você não compreende, se você não se lembrar da sua vida, não poderá lembrar-se de suas lições morais”.

— “E se não tiver havido nenhuma!”, eu disse zangado. “E se eu só tiver presenciado traições e mentiras.”

— “Isso é simplesmente impossível”, ele disse. “Mas você se lembra de Ciro e se lembra do que fez hoje?”

Eu me lembrava de tudo — de ter ido até ele, de tudo o que ele tinha dito, de ter sido enviado para matar os beduínos e de ter gostado disto, e de ter voltado e de tudo o que acontecera depois disso. Ele me fez algumas perguntas ao acaso, sobre alguns detalhes... como de que era feito o fogo ao redor do qual os beduínos estavam reunidos: bosta de camelo era a resposta. Havia alguma mulher lá? Não. Onde ficava o lugar? Eu tive que pensar para dar a resposta, já que não tinha tomado notas, mas esta o satisfez, a cinquenta milhas de onde o deserto começa a leste de Mileto.

“Quem é o rei agora?”

“Ciro da Pérsia”, eu disse. Ele então iniciou uma nova série de perguntas. Eu respondi a todas. Quem eram os lídios, os medas, os jônios, onde ficava Atenas, quem era faraó, qual a cidade em que Ciro tinha sido declarado rei do mundo. Eu só fazia responder.

Ele fez perguntas práticas acerca de cores e alimentos e ar e calor. Eu sabia todas as respostas. Eu sabia tudo o que era geral, mas nada referente à minha própria vida. Eu sabia um bocado acerca de prata e ouro e pude contar a ele — que ficou impressionado. Eu olhei para as esmeraldas que o rei lhe havia enviado e disse que elas eram especialmente bonitas e preciosas e ensinei qual era melhor do que a outra. Disse a ele os nomes das flores do seu jardim. E então me senti cansado.

Uma coisa estranha aconteceu. Eu comecei a chorar. Comecei a chorar como uma criança. Não conseguia parar e não me importava de estar me humilhando diante dele. Finalmente, ergui os olhos e o vi esperando com seus olhos azuis brilhantes, curiosos e no entanto impiedosos.

— “Você estava mesmo sendo sincero quando disse, Pense sempre nos pobres e nos famintos?”, eu perguntei.

— “Sim”, ele disse. “Vou contar-lhe agora as coisas mais importantes que eu sei. Preste atenção. Quero que você seja capaz de repeti-las sempre que eu pedir. Está bem? Pode chamá-las de lições de Zurvan e depois que eu estiver morto há muito tempo, você peça a seus mestres para lhe contarem tudo o que sabem, e guarde na memória mesmo que seja algo estúpido, e você saberá quando for estúpido. Você é um espírito muito inteligente.”

“Está bem, Mestre de olhos azuis”, eu disse zangado. “Conte-me tudo o que sabe.”

Ele franziu a testa ao ouvir o meu sarcasmo e o meu insulto. Sentou-se mal-humorado. Cruzou uma perna sobre a outra. Parecia esquelético sob sua túnica. Seu cabelo grisalho ia até os ombros, mas seu rosto era bem alerta.

“Azriel”, ele disse, “eu poderia puni-lo por sua impertinência. Poderia fazê-lo sentir dor. Poderia atirá-lo no caldeirão que você teme tanto que não percebe que não é real! Posso fazer isso a qualquer momento.”

“Se você fizer isso, eu saio do caldeirão e arranco seus braços e suas pernas, poderoso mago.”

— “Sim, foi mais ou menos por isso que eu não o fiz”, ele disse. “Então eu vou explicar assim: eu quero e espero cortesia de sua parte, em troca de tudo o que vou ensinar-lhe. Eu sou o seu Mestre e estou à sua disposição.”

— “Parece justo”, eu disse.

— “Está bem. Agora, isto é o que eu sei. Nunca se esqueça. Enquanto você odiar, você arderá num inferno de raiva e haverá um limite para o que você poderá fazer. Você estará a mercê de outros espíritos e de outros magos de vez em quando. A raiva é uma força que confunde e o ódio cega. Você se torna aleijado assim, compreenda, e é por isso que eu gostaria de livrar você desses sentimentos, mas é impossível.”

— “Mas aqui estão as lições. Aceite o que o seu ódio e a sua raiva lhe permitirão aceitar. Em primeiro lugar, e mais importante que tudo, que existe um só Deus, e o nome dele não importa. Jeová, Ormuzde, Zeus, Rá, não importa nada. Como ele é adorado, como é servido, por qual ritual, não tem a mínima importância.”

— “Só existe um propósito na vida: dar testemunho de e compreender o máximo possível a complexidade do mundo — sua beleza, seus mistérios, seus enigmas. Quanto mais você compreende, quanto mais você olha, mais você aproveita a vida e mais você se sente em paz. É simples assim. Todo o resto são prazeres e jogos. Se uma atividade não tiver como base ‘amar’ ou ‘aprender’, ela não tem valor.”

“Em terceiro lugar, seja gentil. Sempre, se você puder, seja bondoso. Lembre-se dos pobres, dos famintos e dos miseráveis. Lembre-se sempre dos que sofrem e dos que necessitam. O maior poder criador que você tem na terra, seja você um anjo, um espírito, um homem, uma mulher ou uma criança, é ajudar os outros... os pobres, os famintos, os oprimidos. Minimizar a dor e proporcionar alegria são os seus poderes mais importantes. A bondade é um milagre humano, por assim dizer. É algo único a nós, humanos, e aos nossos anjos ou espíritos mais desenvolvidos, ser bondoso.”

— “Em quarto lugar, sobre a questão da magia. Toda a mágica de todas as terras e todas as escolas é a mesma coisa. A magia é uma tentativa de controlar os espíritos invisíveis, e o espírito dos vivos, ou trazer de volta os espíritos dos mortos que ainda estão ao redor da terra. Magia é só isso. Criar ilusões, fazer truques, trazer riqueza, tudo isso é feito através dos espíritos, isto é, seres sem corpo que podem mover-se rapidamente, sem serem vistos, roubar, espionar, transportar, etc. Tudo isso é magia. As palavras diferem de país para país, de Éfeso a Delfos, e às estepes do norte. Mas é tudo a mesma coisa. Eu sei todas as magias que existem e continuo procurando mais. Aprender um encantamento abre uma nova possibilidade. Agora preste atenção! Abre uma nova possibilidade mas não aumenta o meu poder, o meu poder aumenta com compreensão e vontade. Toda magia é a mesma coisa. O que estou dizendo é que você pode fazer quase tudo, sabendo ou não as palavras!”

— “Os magos normalmente já nascem magos, mas alguns homens se tornam magos... encantamentos os ensinam e guiam, mas em última análise as palavras não contam. Para Deus, todas as línguas são uma só. Para os espíritos, todas as línguas são uma só. Os encantamentos ajudam mais aos magos fracos do que aos fortes. Mas você percebe por quê, não percebe? Você é muito forte. Você pode fazer coisas sem encantamentos. Eu vi isso hoje. Você também viu. Não deixe ninguém convencê-lo de que pode ter poder sobre você por meio de encantamentos. Um mago pode ter poder sobre você, sim, mas não se deixe enganar por meras palavras. Enfrente o poder se puder resistir a ele. Erga-se e faça você também um encantamento. Encantamentos assustam tanto a espíritos quanto a seres humanos. Invente uma canção forte, uma canção poderosa, quando quiser as coisas do seu jeito. Portas se abrirão.”

Ele estalou os dedos. Esperou um instante, depois prosseguiu.

— “Finalmente, nenhum ser humano jamais sabe o que existe depois da morte verdadeira. Os espíritos se aproximam muito deste conhecimento; eles conseguem ver brilhantes escadarias para o céu, eles conseguem ver as árvores frutíferas do paraíso, eles conseguem conversar com os mortos de várias maneiras, eles conseguem vislumbrar a luz de Deus, oh, isso está sempre acontecendo, essas rápidas visões da luz, mas eles não conseguem saber realmente o que existe depois da morte verdadeira! Ninguém que escapa realmente da terra e dos espíritos que ficam presos à terra jamais retorna. Eles podem aparecer para você. Eles podem falar com você. Mas você não consegue fazê-los voltar de além da morte. Depois que estão mortos, depende deles ou de Deus que eles apareçam aqui ou não. Então jamais acredite em ninguém que diga que sabe sobre o céu. Todos os reinos dos espíritos e dos anjos que poderão ser conhecidos por você ou por mim pertencem à terra, não estão além da morte. Está entendendo?”

— “Sim, creio que sim”, eu disse. “Mas amar e aprender, por quê? Por que é este o propósito da vida? Quer dizer, como foi que isto ficou decidido, por que uma pessoa iria dedicar-se a fazer só isso?”

— “Você está fazendo uma pergunta estúpida”, ele disse. “Não importa por que é assim; é porque é: o propósito da vida é amar e aprender.” Ele suspirou. “Vamos imaginar que estamos respondendo à pergunta para os outros... por que é tão importante amar e aprender? Para um homem cruel e estúpido, eis uma resposta suficiente, É a maneira mais segura de viver a vida. Para uma pessoa egoísta e cega, eu poderia dizer, Você sentirá uma grande paz no fim da vida se você se lembrar dos pobres, dos famintos, dos oprimidos, se você se lembrar dos outros, se você amar, se você aprender.” Ele sacudiu os ombros. “Para os próprios oprimidos, a resposta é, Isto irá aliviar a sua dor, a sua dor terrível.”

— “Compreendo”, eu disse. Eu sorri. Senti uma onda de prazer. Uma onda doce de prazer.

— “Ah”, ele disse. “Você realmente compreendeu.”

Eu comecei de novo a chorar. “Não existe um simples lema?”, eu perguntei.

— “Como o quê?”

— “Não é sempre assim tão fácil amar e aprender; podem-se cometer erros terríveis, ferir os outros. Não há nenhum lema! Por exemplo... em hebraico a palavra Altashheth — Não destrua.” Eu mal podia falar. Estava sufocado de lágrimas. Comecei a repetir a palavra sem parar. Murmurei-a num último suspiro. “Altashheth.”

— Ele refletiu solenemente e então disse, “Não. Não existe um simples lema. Nós não podemos cantar ‘Altashheth’ até que, e a menos que, o mundo inteiro cante a mesma canção.”

— “E algum dia será que o mundo cantará a mesma canção?”

— “Ninguém sabe. Nem os medas, nem os hebreus, nem os egípcios, nem os gregos, nem os guerreiros dos países do norte, ninguém sabe. Lembre-se. Eu lhe disse tudo o que há para saber. O resto é canto e festa e risos. Agora dê-me a sua palavra de honra de que você me servirá e eu lhe darei a minha palavra de honra de que enquanto eu viver você jamais conhecerá a dor, se estiver em meu poder evitá-la.”

— “Eu dou a minha palavra”, eu disse. “Agradeço-lhe por sua paciência. Acho que fui bondoso uma vez na vida.”

— “Por que você está sempre chorando?”

— “Porque eu não gosto de odiar nem de ficar zangado”, eu disse. “Eu quero aprender e amar.”

— “Muito bem. Você irá amar e aprender. Agora está de noite, eu sou velho, estou cansado. Quero ler até meus olhos se fecharem, como é meu costume. Quero que você vá dormir nos ossos até eu o chamar. Não responda a nenhum outro chamado exceto o meu. Provavelmente não haverá nenhum, mas nunca se sabe o que os demônios estão tramando, o que anjos maus e invejosos podem tentar. Só responda à minha voz. E então nós iremos começar juntos. Se você for chamado, venha até mim, me acorde. Eu não estou preocupado com você na verdade... Com o seu poder, você pode conseguir tudo o que eu quero neste mundo.”

— “Tudo o que você quer? Mas o que é que você quer? Eu não...”

"Livros, na maioria das vezes, filho, não fique tão nervoso”, ele disse. “Eu não preciso de nenhuma riqueza além da beleza que me cerca, que realmente significa que sou rico, mas rico o suficiente. Eu quero livros de todas as terras, quero ser levado a diferentes lugares, às cavernas do norte e às cidades egípcias do sul. Você pode fazer isto. Vou contar-lhe tudo, e quando eu morrer, você será forte o bastante para resistir a mestres que não sejam dignos do seu poder. Agora vá para os ossos.”

— “Eu o amo, Mestre”, eu disse.

— “Oh, sim, sim”, ele disse com um gesto, “eu também o amarei e algum dia você terá que me ver morrer.”

— “Mas você me ama... isto é, particularmente... eu... você me ama?”

— “Sim, jovem espírito zangado. Eu o amo particularmente. Nenhuma outra pergunta antes de eu o mandar ir dormir?”

— “Que pergunta eu faria?”

— “A placa de argila cananéia que serviu para criá-lo. Você não me pediu nem uma vez para lê-la para você, ou para lê-la você mesmo, e é óbvio que você sabe ler.”

— “Eu sei ler muitas línguas”, eu disse. “Mas não quero vê-la. Nunca.”

— “Ah, bem, eu compreendo. Deixe-me abraçá-lo, beije-me, nos lábios, como os persas fazem, no rosto, como os gregos fazem, e depois vá até que eu o chame novamente.”

O calor do corpo dele me fez bem, tão bem que eu esfreguei minha testa no rosto dele, e depois, sem esperar por outra ordem, voltei para os ossos, para a escuridão. Eu estava quase feliz.

 

Como eu já disse para você, esta parte da minha história — a história referente aos meus dois mestres — será a mais curta.

Mas preciso dar uma explicação mais completa sobre Zurvan, sobre o que ele me explicou e o que ele era. Os mestres que tive depois de Zurvan, quer eu me lembre especialmente deles ou não, não possuíam a sua força, estou convencido disto, mas o que é mais significativo, não tinham o mesmo interesse que ele em aprender e ensinar, e foi esta paixão de Zurvan por me instruir, o fato de não ter medo de mim, da minha independência, que influenciou o resto da minha existência, mesmo durante períodos em que não conseguia lembrar-me de nada a respeito de Zurvan, seus sagazes olhos azuis ou sua áspera barba branca.

Em outras palavras, eu carreguei as lições de Zurvan para sempre, mesmo durante as épocas mais difíceis.

Zurvan era rico, graças a Ciro, e tinha tudo o que queria; e era sincero quando dizia que os manuscritos eram o seu principal tesouro e eu fui enviado por ele várias vezes para descobrir os esconderijos de diversos manuscritos, às vezes para roubá-los, ou simplesmente para retornar com informações que permitiram a Zurvan negociá-los. Sua biblioteca era imensa e sua curiosidade insaciável.

Mas desde o primeiro dia em que eu me ergui dos ossos, ele me ensinou coisas muito mais interessantes do que como viajar, invisível, a mando dele.

O meu primeiro despertar na casa dele, no dia seguinte, foi uma coisa espantosa. Eu apareci no escritório, inteiramente vestido na minha imitação de carne e osso, usando uma vestimenta babilônia de mangas compridas. O sol estava entrando pela janela e realçando a beleza do chão de mármore. Eu o olhei por algum tempo, e só aos poucos fiquei consciente de mim mesmo, de que eu era Azriel, e de que estava ali por alguma razão e que estava morto.

Eu caminhei pela casa, procurando outras criaturas vivas. Abri a porta de um quarto cheio de pinturas. Mas o que chamou minha atenção não foi a beleza dos murais nem as janelas em arco abertas para o jardim, e sim um bando de criaturas semivisíveis que fugiu de mim, gritando e pulando, e depois cercando a figura de Zurvan, que estava deitado na cama, aparentemente dormindo.

Essas figuras não eram fáceis de ver, às vezes vultos, às vezes clarões, fazendo caretas ameaçadoras e dando gritinhos tão rapidamente que era difícil para mim distinguir alguma figura ou mesmo guardar uma impressão de alguma forma. Pareciam figuras humanas, só que menores, mais leves, mais fracas, e se comportando como crianças enlouquecidas.

Finalmente elas se amontoaram ao redor da cama, obviamente para proteger Zurvan ou talvez para buscar a proteção dele. Zurvan abriu os olhos. Ele me contemplou por um longo momento, depois ergueu-se na cama, nervoso, e me encarou, como se não acreditasse no que estava vendo.

— “O senhor sem dúvida se lembra de ontem, Mestre, quando cheguei em sua casa. O senhor me disse que me chamaria esta manhã.”

Ele balançou a cabeça afirmativamente e, estendendo os braços, expulsou os outros até que o quarto ficou vazio e civilizado, um belo quarto grego com murais encantadores. Eu fiquei parado ao pé da cama.

— “Então o que foi que eu fiz de errado?”

— “Você me ouviu chamá-lo em sonhos e veio, foi isso que você fez, e isto quer dizer que o seu poder é ainda maior do que eu pensava. Eu estava aqui deitado, meio acordado, simplesmente pensando em você e em como começar, e isto foi suficiente para tirá-lo dos ossos. Por falar nisso, os ossos estão ali. Eu não toquei neles. Você acordou ao perceber que era objeto dos meus pensamentos.”

Então ele apontou para o baú, e eu vi que ele estava no chão, bem perto da cama dele.

Depois ele virou de lado, pôs os pés no chão e se levantou, cobrindo o corpo com o lençol, como se fosse uma longa toga.

— “Mas nós vamos usar essa força, não vamos tentar abafá-la por causa dos meus interesses ou dos interesses de outros.” Ele ponderou.

“Volte para os ossos”, ele disse, “e quando eu o chamar, torne-se carne e junte-se a mim na agora, ao meio-dia. Eu estarei na taverna. Quero que você se junte a mim inteiramente vestido, materializado, tendo andado daqui até lá, e me encontrado meramente pela repetição do meu nome.”

Eu obedeci. Voltei para a escuridão macia e plácida, mas dessa vez levei muitas dúvidas comigo, como por que eu havia acordado na outra sala, só se era porque eu sabia que aquele era o lugar onde ele estava a véspera, e então eu dormi. Eu fiquei medindo o sono, como a gente faz quando está meio acordado, mas isso não me atrapalhou o descanso.

— Quando soube que era meio-dia — por uma série de pequenos indícios que tinham a ver com luz e temperatura —, encontrei-me de novo em pé na sala, bem formado e vestido. Verifiquei todos os detalhes, as mãos, os pés e as roupas, e cuidei para que meu cabelo e minha barba estivessem bem-tratados, e fiz tudo isso simplesmente correndo as mãos pelo meu corpo e desejando que tudo estivesse correto.

Havia um amplo espelho na sala. Quando eu me vi nele, fiquei surpreso, já que tinha a crença supersticiosa de que os espíritos não podiam refletir-se em espelhos. Então uma idéia me ocorreu. Eu devia ir ao encontro do Mestre, sim, conforme ele havia ordenado, imediatamente, mas por que não chamar os outros primeiro? Ver se eles estavam lá?

— “Apareçam, seus monstrinhos!”, eu disse alto, e imediatamente vi a sala cheia de pequenos espíritos, todos me observando, amedrontados. Desta vez eles estavam imóveis, e tive a impressão de ver várias camadas deles, como se sua substância penetrasse facilmente a substância do outro, e percebi que havia formas humanas bem definidas entre eles, olhando-me com cautela, além dos diabinhos que pareciam não ter mais que rostos e membros. Eu continuei a olhar e a dizer “Apareçam”. E logo vi outros espíritos na sala, espíritos que pareciam cansados e tristes, como os recém-falecidos talvez, e um desses espíritos ergueu a mão bem lentamente e disse “Para que lado?”

— “Eu não sei, irmão”, eu respondi. Olhando na direção do jardim, eu vi o ar cheio de espíritos. Eu os vi claramente como se eles estivessem presos e não pudessem mover-se. Percebi que aquela era apenas uma das maneiras de vê-los. Lembrei-me do ataque deles no palácio, quando eu tinha acabado de ser transformado em espírito, e assim que este pensamento cruzou a minha mente, todo o espetáculo dos espíritos mudou.

Os mortos parados e pensativos foram invadidos de todas as direções pelos espíritos zangados, girando e gritando, espíritos que me lembravam dos meus primeiros momentos como espírito. “Afastem-se! Afastem-se de mim!” Eu fiquei espantado com o urro que saiu da minha boca. A maioria dos inimigos fugiu. Mas um deles se agarrou a mim, arranhando-me, embora não deixasse nenhuma marca, e eu me virei e atingi-o violentamente com um soco e gritei para ele voltar ao seu refúgio senão eu o destruiria. Em pânico, ele desapareceu.

A sala ficou vazia e parada. Eu apertei os olhos. Vi os pequenos espíritos esperando. Mas então escutei uma voz dizer bem claramente no meu ouvido: “Eu lhe disse para vir até a agora, até a taverna. Onde você está?”

Era a voz de Zurvan, é claro.

— “Será que vou ter que desenhar um mapa para você?”, a voz, perguntou. “Você lembra o que eu mandei você fazer? Comece a caminhar na minha direção. Você vai me encontrar, e não torne a se distrair nem com os vivos nem com os mortos.”

Eu senti uma ansiedade esmagadora por não ter obedecido a ele imediatamente, mas me lembrei realmente de sua ordem, me lembrei da manhã, fiz um esforço para lembrar-me, depois saí da casa e fui para a rua.

Esse foi o meu primeiro longo passeio por Mileto, que era uma cidade grega linda e aberta, coberta de mármore, com amplos espaços de reunião ao ar livre, com o ar fresco da costa e a luz brilhante do sol sobre as nuvens. Eu fui andando, contemplando muitas coisas, pequenas lojas e barraquinhas e casas particulares e fontes e pequenos santuários abertos nas paredes, e então cheguei no grande mercado ao ar livre, cercado por todos os lados pelo bazar, e vi a taverna com seu toldo branco balançando sob a brisa do mar, vi Zurvan lá dentro, entrei e parei diante dele.

— “Sente-se”, ele disse. “Diga-me por que você abriu a porta da frente da minha casa em vez de simplesmente passar através dela.”

“Eu não sabia que podia atravessá-la. Eu tinha um corpo. O senhor disse para eu vir em carne e osso. O senhor está zangado comigo? Eu fiquei nervoso por causa dos espíritos. Eu vi os espíritos em toda parte e nunca tinha visto um espetáculo desses...”

— “Cale-se, eu não perguntei o que você pensou, só perguntei por que você não atravessou a porta. Mesmo quando você estiver materializado, pode atravessar a porta. Pode passar através dela porque o que o torna sólido não é o que a torna sólida. Está entendendo? Agora desapareça e reapareça aqui. Ninguém vai notar. A taverna está quase vazia. Vá em frente.”

Eu obedeci. Foi fantástico, me espreguiçar, rir e depois voltar a matéria.

O rosto dele tinha uma expressão bem mais animada e agora ele queria ouvir o que eu tinha visto. Contei a ele. Então ele perguntou, “Quando você estava vivo, você via espíritos, não via? Responda sem pensar e sem tentar lembrar.”

— “Sim”, eu disse. Isso foi doloroso e eu não consegui me lembrar de nenhum detalhe. Eu não queria fazê-lo. Tive uma sensação de ódio e traição.

— “Eu sabia”, ele disse com um suspiro. “Ciro me contou isto, mas foi tão vago e diplomático no modo de falar que eu não consegui ter certeza. Ciro tem um afeto especial por você, além de um senso de obrigação. Olha, nós vamos entrar no reino dos espíritos. Assim é melhor, ir até lá para você ver como é. Mas primeiro preste atenção:

— “Todo mago que você conhecer terá um mapa diferente da terra dos espíritos. Terá uma noção diferente do que são os espíritos e da razão pela qual eles se comportam do jeito que se comportam. Mas, essencialmente, o que você vai ver em qualquer viagem ao mundo dos espíritos é o mesmo.”

— “Quer um pouco de vinho, Mestre?”, perguntei. “Sua taça está vazia.”

— “Mas por que você me interrompeu com essa pergunta?”, ele perguntou.

— “O senhor está com sede”, eu disse. “Eu sei que está.”

— “O que é que eu vou fazer com você? Como é que vou obrigá-lo a prestar atenção?”

Eu me virei e chamei o garoto do vinho, que veio imediatamente e encheu a taça do meu Mestre. Ele me perguntou se eu queria alguma coisa, tratando-me com grande deferência, mais deferência ainda do que havia demonstrado para com meu Mestre. Eu compreendi que o motivo disto eram minhas roupas enfeitadas, aquele grande espetáculo babilônio de jóias e bordados, e a formalidade do meu cabelo e da minha barba.

— “Não”, eu disse. Fiquei triste por não ter nenhum dinheiro para dar a ele, mas então vi diversas moedas de prata sobre a mesa. Dei as moedas para ele e ele se afastou.

Quando olhei para Zurvan, ele estava com os cotovelos apoiados na mesa, observando-me. “Acho que compreendo”, ele disse.

— “Compreende o quê?”, eu perguntei.

— “Você não foi feito para obedecer a ninguém. Todo o ritual cananeu definido na placa...”

— “Precisa falar nessa maldita placa?”

— “Cale-se! Você nunca teve alguém mais velho na vida, um professor, um pai, um rei? Pára de me interromper. E presta atenção. Pelos deuses, você não entende, Azriel, você não pode morrer agora! Eu posso ensinar-lhe coisas que irão ajudá-lo! Não seja tão impertinente nem divague tanto. Agora ouça!”

Eu balancei a cabeça. Senti os olhos molhados de lágrimas. Senti vergonha e raiva, tirei um lenço de seda do bolso e enxuguei os olhos. Acho que havia água lá. Água.

— “Ah, então é assim! Eu fiquei zangado e isso fez com que você me obedecesse.”

— “Eu poderia deixá-lo se quisesse?”

— “Provavelmente não, mas você seria um tolo se o fizesse! Agora presta atenção. O que é que eu estava dizendo para você antes de você resolver que eu devia tomar um pouco de vinho?”

— “O senhor disse que diferentes magos descreveriam o mundo dos espíritos de formas diferentes e que dariam aos espíritos diferentes nomes e atributos.”

Ele pareceu perplexo com a minha resposta! Eu não entendi por quê. Mas ele a considerou plenamente aceitável.

— “Sim, precisamente. Agora faça o que estou dizendo. Olhe à sua volta. Examine a taverna e a agora, olhe para o sol lá fora. Veja os espíritos. Não fale com eles nem aceite qualquer chamado ou gesto da parte deles. Apenas veja tudo o que puder ver. Examine o ar como se estivesse procurando coisas pequeninas e preciosas que lhe são necessárias, mas não movimente os lábios.”

Eu fiz como ele mandou. Acho que esperava ver os pequenos demônios pestilentos que infestavam a casa dele. Mas esses eu não vi, e sim os mortos que vagavam confusos. Eu vi seus vultos ou espíritos na taverna, debruçados sobre as mesas, tentando falar com os vivos, vagando de um lado para o outro como se procurassem alguma coisa...

— “Agora olhe além dos mortos presos na terra, os que morreram recentemente, e veja os espíritos mais velhos, os espíritos que possuem vitalidade como espíritos.”

Eu obedeci, e vi de novo aqueles seres altos, de olhos parados, totalmente transparentes, mas com formas humanas e expressões distintas, e vi não só aqueles que olhavam e apontavam para mim, e faziam gestos a meu respeito, mas muitos outros. A agora estava inteiramente lotada deles. Eu ergui os olhos para o céu e vi mais espíritos resplandecentes. Deixei escapar um grito. Esses espíritos resplandecentes não estavam perturbados nem zangados nem perdidos, nem em busca de algo, davam a impressão de ser guardiães dos vivos, deuses ou anjos, e eu os vi até a altura que minha vista conseguiu alcançar. Eles se movimentavam com rapidez. De fato, todo o mundo dos espíritos estava em constante movimento, e os espíritos podiam ser classificados pelo movimento, sendo que os vultos dos mortos eram lentos, os espíritos mais velhos eram vagarosos e mais humanos, e os espíritos angélicos, aqueles alegres, corriam a um velocidade que o olho humano não conseguia acompanhar.

Eu devo ter emitido muitos sons de prazer. Extasiava-me com a beleza de algumas dessas criaturas aéreas, erguendo-se na direção do próprio sol, e então via a sombra ameaçadora de uma pessoa morta vindo em minha direção, faminta e desesperada, e me encolhia e recuava. Um contingente de espíritos que havia notado a minha presença estava agora atraindo a atenção de outros para mim. Esses eram os espíritos intermediários, conforme eu os via, que ficavam entre os mortos e os anjos, mas ao olhar para eles, eu vi que estavam entremeados de espíritos selvagens, que corriam para a frente e para trás, fazendo caretas e gestos horríveis na minha direção, como se fossem atacar-me, sacudindo os punhos e tentando atrair-me para uma batalha.

A visão estava ficando densa demais. Eu não via mais o toldo da taverna, o chão da agora, os prédios em frente. Estava num terreno que pertencia àqueles seres. Senti algo tocar em mim, algo quente e vivo. Era a mão de Zurvan.

— “Fique invisível”, ele disse, “e me envolva, segure-se em mim com toda a força e me leve com você para fora daqui. Eu continuarei de carne e osso, tenho que continuar, mas você irá me cercar, me cobrir com a sua invisibilidade e me proteger.”

Eu me virei e o vi nas cores brilhantes de um corpo vivo, e fiz o que ele disse, envolvendo-o, simplesmente soltando e esticando os meus membros de modo a envolvê-lo completamente e então saí da taverna e subi com ele na direção do céu, atravessando a multidão de espíritos e os demônios espantados que rosnaram ameaçadoramente e tentaram agarrar-nos. Eu os afastei.

Nós subimos bem alto e eu pude ver a cidade lá embaixo como a tinha visto da primeira vez, a linda península projetando-se no mar azul e os navios ancorados com suas diferentes bandeiras, e os homens trabalhando febrilmente, fazendo coisas aparentemente sem sentido, mas sem dúvida rotineiras.

— “Leve-me para as montanhas”, disse o meu Mestre, “leve-me para a montanha mais distante e mais alta do mundo, a montanha para onde vem os deuses e ao redor da qual o sol gira, leve-me para a montanha chamada Meru. Leve-me até lá.”

— Nós passamos sobre o deserto, sobre a Babilônia, e eu vi suas cidades espalhadas como flores ou armadilhas. Armadilhas. Elas pareciam armadilhas. Elas pareciam armadilhas feitas para obrigar os deuses a descer até elas... do jeito que as flores são armadilhas de abelhas.

— “Vá para o norte”, ele disse, “para o extremo norte, envolva-me em cobertores para me manter aquecido e me segure firme. Vá mais depressa, até me ouvir gritar de dor.”

Eu obedeci, envolvendo-o na mais fina lã e cercando-o completamente, e voando para o norte, até que sob nós só havia montanhas, montanhas com os picos cobertos de neve, e alguns campos, cobertos de neve e vazios, onde rebanhos pastavam e homens andavam a cavalo, e depois só montanhas de novo.

— “Meru”, ele disse. “Encontre-a. Meru.”

Eu me concentrei inteiramente na tarefa e só aos poucos é que fui percebendo que não poderia cumpri-la. “Não consigo encontrar nenhuma Meru”, eu disse.

— “Foi o que pensei. Vamos descer, ali naquele vale onde os cavalos estão correndo, vamos descer ali.”

Nós o fizemos, e eu o mantive envolto em cobertores e cercado pela minha invisibilidade, e percebi que nesse estado eu podia encostar o rosto do lado do dele.

— “É uma velha história, um velho mito da grande montanha”, ele disse. “É a montanha que inspira os zigurates e as pirâmides nas tribos que possuem apenas uma lembrança apagada dela. Foi a montanha que inspirou os templos altos de todas as terras. Solte-me agora, Azriel, fique de carne e osso e arme-se bem contra os guerreiros das estepes. Não permita que eles me atinjam. Mate-os se tentarem.”

Eu obedeci e o deixei lá, parado, tremendo sob os cobertores. Apenas alguns pastores nos haviam visto, e eles correram imediatamente para os homens armados, montados a cavalo, que eram cerca de seis, espalhados ali em volta, como uma espécie de guarda. A neve em volta de nós era linda, mas eu sabia que era fria, podia sentir o frio que ele estava sentindo, então o envolvi em meus braços, ordenando a mim mesmo que me aquecesse e o aquecesse, e isto pareceu dar-lhe um conforto imediato.

Enquanto isso, os seis guerreiros, fedendo mais que seus cavalos, homens imundos das estepes, fizeram um círculo em volta de nós. Meu Mestre falou com eles numa língua que eu nunca tinha ouvido antes, mas que era compreensível para mim, e ele perguntou onde ficava a montanha que era o umbigo do mundo.

Eles se surpreenderam e começaram a discutir, e então apontaram mais ou menos na mesma direção, que era o norte, mas ninguém sabia ao certo e ninguém jamais a tinha visto.

— “Fique invisível, erga-me e me leve embora daqui. Deixe-os tontos. Eles não podem nos fazer mal, e o que vêem não nos interessa.”

Mais uma vez nos dirigimos para o norte. O vento agora era insuportavelmente frio para ele. Eu achei que não ia conseguir protegê-lo melhor, já tinha ordenado peles para envolvê-lo e aumentado ao máximo o meu calor, mas isso começou a machucá-lo. Eu tinha ido longe demais.

— “Meru”, ele disse. “Meru.”

Mas isso não nos ensinou o caminho, e de repente ele disse, “Leve-me para casa, Azriel, o mais rápido que puder”.

Houve um ronco alto quando eu acelerei e a paisagem virtualmente desapareceu numa explosão de brancura, dando a impressão de que os espíritos corriam para nós de todas as direções, caindo para trás como se fossem interrompidos no seu curso pela nossa força. Minha visão foi invadida pelo amarelo do deserto, e então, mais uma vez, a cidade de Mileto tornou-se visível para mim, e nós chegamos na sala e eu o carreguei, envolto em cobertores e peles, e o coloquei na cama.

O bando de pequenos espíritos ficou em volta da cama com um ar estupefato.

— “Comida e bebida”, ele ordenou. E eles correram para providenciar, trazendo-lhe uma tigela de sopa e um cálice de ouro com vinho. O cálice era grego e muito bonito, como eram na época todas as coisas gregas, com uma forma mais graciosa e menos rígida do que os objetos orientais.

Mas eu temia por Zurvan. Ele parecia congelado ali deitado na cama, e eu me deitei por cima dele, esquentando-o, girando em volta dele, abraçando-o e então, finalmente, quando ele recuperou uma cor normal e seus olhos estavam abertos e azuis, eu o soltei, ajeitando as cobertas.

Seu bando de pequenos espíritos ajudou-o a sentar-se na cama, e até levou a colher e o cálice aos lábios dele.

Eu me sentei nos pés da cama. Eu não precisava de sopa e tinha orgulho disso. Livre. Eu também era muito forte. Após um longo tempo, ele olhou para mim.

— “Você se comportou bem”, ele disse. “Você se comportou muito bem.”

— “Mas eu não encontrei a montanha.”

Ele riu. “E provavelmente jamais encontrará, e nem eu, e nem ninguém.” Ele mandou os outros embora e eles correram como escravos, e o quarto ficou livre deles. “Todo homem guarda dentro de si algum mito sagrado, alguma antiga história que lhe foi contada, que para ele soou verdadeira, ou talvez apenas encantadoramente bela. Foi assim comigo e a montanha sagrada. Então, com o seu poder, eu fui até o topo do mundo e vi por mim mesmo que Meru não é um lugar, como eu já imaginava, mas sim uma idéia, um conceito, um ideal.”

Ele descansou e a expressão curiosa voltou ao seu rosto. Toda decepção ou fadiga foi engolida por ela. Ele olhou para mim e seus olhos pareceram encher-se de satisfação.

— “O que foi que você aprendeu, Azriel, na sua viagem? O que foi que você viu?”

— “Antes de mais nada eu aprendi que uma coisa dessas pode ser feita”, eu disse. Então eu contei a ele tudo o que tinha visto e como as cidades pareciam armadilhas para atrair os deuses do paraíso para a terra.

— Isto o divertiu e interessou.

— “Elas pareciam ter sido construídas especialmente para atrair a atenção dos deuses, para obrigar os deuses a interromper seu vôo etéreo e descer, como para o templo de Marduc. A montanha, como o senhor disse. Elas pontilharam a terra como mãos abertas num convite, ou talvez não, talvez dessem a impressão de ser entradas variadas para a terra, portões, ah, esta é a palavra que o sacerdote gostaria, tenho certeza, que a Babilônia é o Portal dos Deuses.”

— “Toda cidade”, ele disse desdenhosamente, “é o portal de algum deus.”

— “Quem eram os espíritos elevados que eu vi, aqueles que pareciam alegres e corriam de um lado para o outro, aqueles que passavam através dos espíritos intermediários, os que os mortos não conseguiam ver?”

— “Como eu lhe disse”, ele respondeu, “cada mago tem uma explicação diferente, mas você viu o que existe para ver; você viu um bocado. Ao longo do tempo, você vai ver mais, mas você viu a sua própria força e como eles a respeitaram, você viu que os espíritos intermediários, como você os chama, não conseguiram machucá-lo, e que os espíritos demoníacos são idiotas, e que você consegue espantá-los com uma careta. Você viu.”

— “Mas o que é tudo isso, Mestre?”

— “É o que eu lhe disse ontem. É tudo o que podemos saber aqui na terra. Os felizes ascendem, os intermediários vêem, os mortos pálidos e tristes se tornam iguais aos intermediários, e quanto aos demoníacos? Quem sabe? Eles foram humanos? Não, acho que não. Será que eles podem possuir e confundir os homens? Oh, sim, podem. Mas você, o Servo dos Ossos, pode ver a fraqueza deles, e não precisa temê-los, lembra? Se eles bloquearem o seu caminho, simplesmente afaste-os. Se eles invadiam o corpo de um homem que esteja sob sua proteção, penetrarem a carne dele e o possuírem com más intenções, estenda a sua mão invisível e agarre o corpo invisível do invasor e você verá que é capaz de arrancá-lo de dentro do seu hospedeiro humano.”

Ele suspirou profundamente. “Preciso descansar agora, a viagem foi árdua para mim. Eu sou humano. Agora, vá caminhar pela cidade. Caminhe em carne e osso, caminhe como os homens e veja como os homens. Não atravesse portas nem paredes para não assustar ninguém, e se os espíritos descerem para atacá-lo, mande-os embora com sua raiva e seu punho. Se precisar de mim, me chame. Mas o mais importante agora é caminhar.”

Eu fiquei encantado com a idéia. Levantei-me e fui até a porta. Ele me chamou.

— “Você é o espírito mais forte que eu já vi ou conheci”, ele disse. “Olhe para você, com essas vestimentas esplêndidas azuis e douradas, com o cabelo brilhando, caído até os ombros. Olhe para você. Visível, invisível, uma ilusão, sólido, tudo é possível para você. Você poderia ser o instrumento perfeito do mal.”

— “Eu não quero ser isso!”, eu disse.

“Lembre-se disso, lembre-se disso sobre todas as coisas. Você foi feito de forma imperfeita por uns idiotas. E em conseqüência disto, é mais forte do que seria de desejar por qualquer mago, e tem o que os homens têm...”

Eu comecei a chorar. Aquele mesmo choro instantâneo e incontrolável que tinha me acometido antes. “Uma alma?”, eu perguntei. “Eu tenho uma alma?”

— “Não sei responder a esta pergunta”, ele disse. “Eu estava falando de outra coisa. Você tem livre-arbítrio.”

Ele se deitou e fechou os olhos. “Traga-me de volta alguma coisa que não prejudique a ninguém.”

— “Flores” — eu disse. Um belo buquê de flores, deste muro e daquele portão e deste jardim.

— Ele riu. “Sim, e seja gentil com os mortais! Não os machuque, mesmo que eles o insultem, pensando que você é mortal, não os machuque. Seja paciente e bondoso.”

— “Está bem, eu prometo”, eu disse.

E me pus a caminho.

 

O que Zurvan me ensinou nos quinze anos seguintes foi uma extensão e um aprofundamento do que eu aprendi nos nossos três primeiros dias juntos. O fato de ser capaz de me lembrar deles com clareza pela primeira vez em todos estes séculos me enche de alegria. Quero contar-lhe todos os detalhes. Ah, meu Deus, o fato de eu poder me lembrar de estar vivo e depois de não estar vivo, o fato de poder ligar uma lembrança à outra, é algo... é mais do que uma resposta às minhas preces.

Eu disse a ele que achava que conseguia entender, mas não disse mais nada porque estava ansioso para que ele continuasse.

Depois que Zurvan me deu permissão para passear em carne e osso, eu só voltei quando ele me chamou, depois da meia-noite. Aquela altura eu já tinha um enorme buquê de flores extremamente delicadas, todas diferentes, que coloquei dentro de um vaso para ele e arrumei na mesa do escritório.

Ele me fez contar tudo o que eu tinha visto e feito. Eu descrevi cada rua de Mileto por onde tinha passado, contei que tinha sido tentado a passar através de objetos sólidos mas que me lembrara de suas recomendações, que tinha contemplado os navios no cais por um longo tempo e escutado diversas línguas sendo faladas ao longo da praia. Contei a ele que senti sede em alguns momentos e que bebi água de uma fonte, sem saber ao certo o que iria acontecer, e que a água encheu o meu corpo, não através de órgãos internos que eu não possuía, mas cada fibra dele.

Ele prestou atenção em tudo e disse: “Como você avalia tudo o que viu, ou cada coisa, como preferir me contar?”

— “Achei esplêndido”, eu disse, sacudindo os ombros. “Templos de incrível beleza. Muito mármore. As pessoas aqui vêm de todas as nações. Eu nunca tinha visto tantos gregos antes; fiquei escutando um grupo de atenienses discutindo filosofia, o que foi muito engraçado porque eu gostei de assistir àquilo, e é claro que passeei por perto da corte persa e me deixaram entrar tanto no templo quanto no palácio, aparentemente por causa da minha roupa e dos meus modos, e andei também por aquelas cidadelas recém-construídas do meu velho mundo, depois voltei aos templos dos deuses gregos e gostei bastante da sua forma aberta e da sua brancura, e da resistência do povo grego, que é bem diferente dos babilônios, muito mais do que eu supunha.”

“Mas”, ele perguntou, “existe alguma coisa que você esteja louco para me contar, algo que o tenha deixado zangado ou triste?”

— “Não quero desapontá-lo, mas não consigo pensar em nada. Em toda parte eu vi beleza. Ah, as cores das flores, a aparência delas. De vez em quando eu via um espírito, mas bastava fechar os olhos para eles, por assim dizer, que tornava a ver o luminoso mundo dos vivos. Eu cobicei algumas jóias e sabia que poderia roubá-las. De fato, descobri um pequeno truque. Eu conseguia fazer as jóias virem até mim se me aproximasse o suficiente e acenasse para elas com toda a minha vontade. Mas devolvi o que roubei. E encontrei dinheiro nos meus bolsos. Encontrei ouro. Não sei como foram parar lá.”

— “Eu pus lá”, ele disse. “Mais alguma coisa? Você notou ou sentiu mais alguma coisa?”

— “Os gregos”, eu disse. “Eles são tão práticos quanto o nosso povo... qualquer que seja este povo... mas eles acreditam na ética de uma forma que não se associa ao aspecto religioso; não é simplesmente uma questão de não oprimir os pobres, de defender os fracos, pela glória dos deuses, mas uma confirmação de algo que é muito mais...”

— “Abstrato”, ele disse. “Invisível e separado da noção de propósito.”

— “Sim, precisamente. Eles falam de leis que tratam do comportamento de um modo que não é religioso, é isso. No entanto, eles não são dotados de mais consciência. Eles podem ser cruéis. Não acontece o mesmo com todos os povos?”

“Chega por ora. Você já me contou o que eu queria saber.”

— “E o que queria saber?”, eu perguntei.

— “Que você não tem inveja dos vivos.”

— “Céus, por que eu os invejaria? Eu andei o dia inteiro e não sinto cansaço, só um pouco de sede. Ninguém pode me fazer mal. Por que eu teria inveja dos que ainda estão vivos? Eu sinto pena deles se o que o futuro lhes reserva é tornarem-se almas penadas ou demônios. Eu gostaria que todos eles pudessem nascer de novo como eu, mas sei que só vejo, como senhor disse, o que é da terra. Além disso...”

— “Sim...”

— “Eu não me lembro de ter estado vivo. Sei que o senhor disse que estive, ou eu mesmo disse, ou então isto é algo que nós dois sabemos, e nós falamos daquela maldita placa, mas eu não me lembro de ter estado vivo. Não me lembro de sentir dor nem de me queimar nem de cair o sangrar. Aliás, o senhor tem razão. Eu não preciso de órgãos internos. E quando me corto, posso sangrar ou não, conforme preferir.

— “Você percebe, é claro, que muitos dos mortos que você vê odeiam os vivos! Eles os odeiam.”

— “Por quê?”

— “Porque a própria existência deles é enevoada e fraca e cheia de desejos por coisas que eles não podem ter. Eles não podem ser visíveis, eles não podem mover objetos, eles só podem zumbir como abelhas invisíveis pelo mundo.”

— “O que aconteceria se eu me tornasse invisível”, eu perguntei, “e subis-se junto com as criaturas mais alegres, aquelas que estão tão ocupadas e parecem alcançar uma altura tão grande?”

— “Faça isso e volte para mim, a menos que encontre o paraíso”, ele disse.

— “O senhor acha que eu poderia encontrar?”

— “Não, mas eu jamais negaria a você o direito de acesso ao paraíso; você negaria uma coisa destas a alguém?”

— Eu obedeci imediatamente, tirando pela primeira vez o peso do corpo e das roupas, mas ordenando que ficassem por perto.

— Saí para o pátio, procurei os espíritos e encontrei-os amontoados ao meu redor, e agora que meus olhos estavam focalizados neles, os demoníacos tornaram-se ferozes e eu tive que brigar um bocado. A cada instante os mortos errantes me detinham com perguntas patéticas, perguntas sobre aqueles que tinham deixado para trás no mundo dos vivos.

— E vi que aqueles mortos errantes estavam nos níveis mais altos bem como nos mais baixos, só que aparentemente eles tinham ficado mais leves e mais fortes, ou pelo menos estavam melhor do que os mortos cegos e angustiados que vagavam pela própria terra.

— Eu alcancei o patamar mais alto das criaturas alegres e imediatamente elas se voltaram para mim, os rostos cheios de espanto, e com gestos delicados ordenaram que eu descesse. Em instantes eu me vi cercado por elas, muitas com formas vagas mas brilhantes, algumas com asas, e outras com vestes longas e brancas, e todas ordenaram que eu descesse, apontaram, gesticularam e insistiram para que eu saísse como se eu fosse uma criança invadindo um santuário. Não havia raiva nem desprezo nelas, simplesmente apontaram para baixo e disseram que eu precisava partir.

— “Não, eu não vou”, eu disse, mas quando tentei ir mais alto, vi que o caminho estava tomado por elas e seus corpos, e por um instante eu vislumbrei, bem depois das diversas camadas formadas por elas, uma luz brilhando, mas ela feriu os meus olhos e eu caí, mergulhei de volta à terra.

Fiquei deitado em algum lugar escuro e os demônios me cercaram, puxando o meu cabelo e o meu corpo invisíveis, de modo que eu me dissolvi e os derrotei simplesmente me afastando e subindo, e então fiz um braço direito e um braço esquerdo e os atirei longe, xingando-os em sua própria língua até que eles fugiram.

Tentei situar-me; será que eu estava abaixo da superfície da terra? Eu não sabia. Eu tinha caído num lugar cinzento, enevoado, onde não conseguia ver nada material. Os espíritos que fugiam de mim ou pairavam perto de mim eram parte da poluição e da densidade daquele lugar.

Então surgiu no meio da névoa um espírito poderoso, com a forma de um homem, como eu, sorrindo para mim de um jeito astuto, e imediatamente eu senti o perigo. Ele me atacou com as duas mãos, segurando-me pelo pescoço, e então os demônios tornaram a aproximar-se. Eu lutei com ele furiosamente, xingando-o e declarando-o impotente, gritando um monte de feitiços para tirá-lo dali, e finalmente esganando-o e sacudindo-o até que ele implorasse misericórdia; ele perdeu a forma humana; depois fugiu, transformou-se num fiapo de pano e os demônios se foram.

— “Eu tenho que voltar para o meu Mestre”, eu disse. Fechei os olhos. Chamei o meu Mestre e o meu corpo e minhas roupas que estavam à espera, e então acordei, sentado na cadeira grega do escritório do meu Mestre, e ele estava na escrivaninha, com um dos joelhos levantados e o pé descansando num banquinho, tamborilando com os dedos e assistindo a tudo.

— “O senhor viu onde eu fui e o que eu fiz?”, eu perguntei.

— “Alguma coisa. Vi você subir, mas então você não conseguiu subir mais alto, os espíritos das regiões superiores não permitiram.”

— “Não, mas foram gentis. O senhor viu a luz, bem acima deles?”

— “Não, não vi”, ele disse.

— “Aquela deve ser a luz do paraíso”, eu disse, “e de lá deve vir uma escada, sim, até a terra, mas por que não para todos os mortos, por que não para todos os confusos e zangados?”

— “Ninguém sabe. Você não precisa que eu lhe dê uma resposta. Pode raciocinar sozinho. Mas o que o deixa tão seguro de que haverá urna escada para alguém? Essa é a promessa dos zigurates, das pirâmides? A lenda do monte Meru?”

Eu pensei muito antes de responder. “Não”, eu disse. “Embora essas sejam provas, é claro, não, não provas, mas indícios. Eu sei por causa dos rostos dos espíritos mais elevados... quando eles me mandaram descer. Não havia maldade neles; nenhuma maldade, nem ódio. Eles não gritaram como guardas de um palácio; simplesmente impediram a minha passagem, e ficaram indicando com gestos o caminho que eu devia seguir... de volta à terra.

— Ele ficou refletindo em silêncio. Eu estava nervoso demais para ficar calado.

— “O senhor viu aquele fortão que me atacou? Aquele que se aproximou de mim sorrindo, como se tivesse a minha altura e o meu peso, e que depois me atacou?”

— “Não. O que aconteceu?”

— “Eu o esganei e o sacudi e o venci e o joguei fora.”

Meu Mestre riu. “Pobre espírito tolo.”

— “Está se referindo a mim?”

— “Estou falando sarcasticamente dele”, ele disse.

— “Mas por que ele não falou comigo? Por que não me perguntou quem eu era? Por que ele não me recebeu como uma criatura de igual poder, com um outro tipo de abordagem que não uma briga?”

— “Azriel, a maioria dos espíritos não sabe o que está fazendo nem por quê”, ele disse. “Quanto mais tempo eles ficam vagando, menos eles sabem. O ódio é comum neles. Ele testou a força dele contra a sua. Se o tivesse vencido, talvez tentasse escravizá-lo dentre os invisíveis, mas não conseguiu. É bem provável que ele só entenda de luta, dominação e submissão. Muitos seres humanos vivem exatamente da mesma maneira.”

— “Oh, sim, eu sei”, eu disse.

— “Vá beber água”, ele disse. “Beba o quanto quiser. Você pode beber água sempre que sentir vontade. A água deixa o seu corpo espiritual mais forte. Isto é válido para todos os espíritos e fantasmas. Eles amam a água e anseiam pela umidade. Oh, mas eu já lhe disse isto. Anda logo. Tenho uma coisa para você fazer.”

— A água tinha um gosto maravilhoso e eu bebi uma quantidade que nenhum homem normal teria conseguido beber. Quando larguei a jarra, estava pronto para ouvir as ordens dele.

—- “Quero que você mantenha o seu corpo e atravesse o muro do jardim para fora e depois para dentro. Você vai sentir resistência. Ignore-a. Você é feito de partículas diferentes das do muro, e pode passar entre as partículas do muro sem prejudicá-lo. Faça isso, diversas vezes, até conseguir atravessar qualquer coisa sólida sem hesitação.”

— Eu achei aquilo muito fácil. Atravessei portas, atravessei paredes com um metro de largura, atravessei colunas. Atravessei móveis. Cada vez que eu fazia isso, sentia as partículas que compunham a barreira ou o objeto, mas a penetração não doía e a vontade era suficiente para vencer qualquer instinto natural de me abaixar ou recuar.

— “Você está cansado?”

— “Não”, eu disse.

— “Está bem, esta é a sua primeira missão real para mim”, ele disse. “Vá até a casa do mercador grego Lisandro, na rua dos escribas, roube todos os manuscritos da biblioteca dele e traga-os para mim. Você vai precisar fazer quatro viagens. Faça-as em carne e osso e ignore qualquer um que o veja, lembre-se que para fazer os rolos passarem através da parede, você tem que colocá-los dentro do seu corpo, que agora inclui sua roupa. Você tem que envolvê-los no seu espírito. Se for muito difícil, então passe pelas portas. Se alguém atacá-lo... não conseguirá atingi-lo.”

— “E eu devo atacá-los?”

— “Não. A não ser que eles consigam detê-lo. As espadas e punhais deles devem passar pelo seu corpo sem causar nenhum dano. Mas se eles agarrarem os rolos de manuscrito, que são materiais, talvez você tenha que derrubá-los. Faça isso... delicadamente, eu suponho. Ou... como quiser, dependendo do quanto a pessoa o ofendeu. Deixo a seu critério.”

— Ele pegou a pena e começou a escrever. Então percebeu que eu não tinha me mexido.

— “Sim?”, ele perguntou.

— “Eu devo roubar?”

— “Azriel, meu espírito recém-nascido, consciencioso, tudo o que existe na casa de Lisandro foi roubado! Ele conseguiu tudo quando os Persas passaram por Mileto. A maior parte da biblioteca era minha. Ele é um homem mau. Pode matá-lo se quiser. Para mim não importa. Mas vá logo e me traga de volta aqueles livros. Obedeça e nunca me questione com relação a esses assuntos.”

— “Então o senhor jamais me mandará roubar um homem pobre, ou ferir os aflitos ou assustar os humildes e os fracos.”

Ele ergueu os olhos. “Azriel, nós já falamos sobre isso. Suas palavras soam como variações daquelas inscrições pomposas que estão nos pés dos reis assírios.”

— “Eu não quis fazê-lo perder tempo com perguntas mais elaboradas”, eu disse.

— “A única coisa que me interessa é bom comportamento”, ele disse. “Tente lembrar-se das minhas lições. Eu gosto até dos pestinhas que mantenho aqui para me servir, mas Lisandro é mau e rouba e vende para lucrar e nem ao menos sabe ler.”

— A tarefa foi bastante fácil. Eu só tive que distribuir uns socos entre os criados para que eles fugissem correndo e com três viagens eu consegui transportar toda a biblioteca para o meu Mestre. Mas foi difícil, com aquele monte de rolos para passar pelas portas. Eu não conseguia envolvê-los com meu espírito e passar através das partículas. Mas fui ficando melhor com o passar do tempo. Na verdade, aprendi uma coisa que ele não me havia ensinado, que eu podia tornar o meu corpo grande e difuso ao passar por paredes sólidas e portas, envolvendo assim melhor os rolos e depois contrair o corpo de volta ao tamanho normal e continuar andando com o meu pacote de manuscritos.

Para ser bem franco e justo com ele, eu fiz isso na minha última viagem, atravessando a parede do escritório com uma grande quantidade do produto da minha pilhagem, ficando bem grande e depois me contraindo para depositar o pacote.

Ele me lançou um olhar firme e eu compreendi uma coisa. Desde a minha chegada, eu o surpreendia sem parar. E ele disfarçava isto com aquele olhar. Ele não demonstrava medo.

— “Você não me causa nenhum medo”, ele disse, respondendo aos meus pensamentos, “mas tem razão; como mago ou como estudioso, eu não tenho o hábito de ficar espantado e dar gritos.”

— “E agora, Mestre?”, eu perguntei.

— “Volte para os ossos e só saia quando eu mandar... quando você ouvir minha voz chamando-o. O fato de eu sonhar com você ou pensar em você não é o bastante.”

— “Vou tentar, Mestre”, eu disse.

— “Você irá desapontar-me se me desobedecer; você é jovem demais e forte demais para se tornar agressivo. Você irá ferir a minha alma se tentar sair quando eu pensar em você.”

— Mais uma vez eu senti as lágrimas prestes a cair. “Então eu não farei isto, meu Senhor”, eu disse.

Eu entrei nos ossos. Por um momento, diante dos meus olhos fechados eu vi o baú e que ele havia sido removido para um esconderijo, um nicho dentro da parede, mas então o sono de veludo chegou e o pensamento “Eu o amo e quero servi-lo”. E isto foi tudo.

— Na manhã seguinte eu acordei, mas não me movi. Fiquei um longo tempo deitado no escuro, sem sentir nada do mundo físico, esperando, e então, quando ouvi distintamente a voz dele, respondi ao chamado.

— O mundo brilhante tornou a se abrir diante de mim. Eu estava sentado no jardim, no meio das flores, e ele estava num sofá, lendo, desarrumado e bocejando como se tivesse passado a noite sob as estrelas.

— “Bem, eu esperei desta vez”, eu disse.

— “Ah, então você sentiu que estava acordado antes que eu o chamasse?”

— “Sim, mas esperei, para agradá-lo. Uns lampejos de memória retornaram, ou estão retornando agora, o suficiente para fazer uma pergunta.”

— “Faça. Se eu não souber responder, não vou inventar nada.”

— Eu ri ao ouvir isto. Eu tinha a firme convicção, dentro do meu esquecimento, de que sacerdotes e magos mentiam ferozmente. Ele sacudiu a cabeça, satisfeito ao ouvir isto.

— “Sua pergunta?”

— “Eu tenho um destino?”, perguntei.

— “Que pergunta estranha. O que o faz pensar que tem um destino? Nós fazemos o que temos que fazer e morremos. Eu já disse a você. Só existe um Deus Criador e o nome dele não importa. O nosso destino, de todos nós, é amar e conseguir maior apreciação e compreensão de todos ao nosso redor. Por que o seu seria diferente?”

— “Ah, mas é justamente isso. Eu devia ter um destino especial, não devia?”

— “A crença num destino especial é uma das ilusões mais nocivas da terra. Crianças inocentes são tiradas dos seios de rainhas e informadas de que possuem um destino especial — governar Atenas ou Esparta ou Mileto ou Egito ou Babilônia. Que estupidez. Mas eu sei o que está por trás da sua pergunta. E é melhor você prestar atenção agora. Vá buscar a Placa cananéia e não a deixe quebrar. Se você quebrá-la, serei obrigado a consertá-la e farei você chorar.”

— “Humm. É fácil para o senhor me fazer chorar, não é?”

— “Aparentemente”, ele disse. “Pegue a placa. Depressa. Nós temos uma viagem para fazer hoje. Se você consegue levar-me para as estepes ao norte, para as montanhas onde dizem que a grande montanha dos deuses ergue-se acima de tudo, então você pode me levar a outros lugares também. Eu quero ir para a minha cidade, Atenas. Quero caminhar em Atenas. Anda, espírito poderoso. Pega a placa. Depressa. A ignorância não é boa para ninguém. Não tenha medo.”

 

Eu peguei a placa de argila, embora aquilo me enchesse de ódio e revolta. Para falar a verdade, eu tremi de ódio. Eu estava tão cheio de ódio que por um momento fiquei paralisado. Ele tornou a me chamar, ordenando que eu não a quebrasse. A letra era muito miúda, ele me lembrou, e um pedacinho quebrado poderia prejudicar o conteúdo, e era preciso que eu conhecesse todo ele.

— “Mas para quê?”, eu perguntei. Apontei para as almofadas que havia na sala. Será que eu podia levar uma lá para fora para me sentar aos pés dele sem sujar a minha roupa? Ele concordou com a cabeça.

Eu cruzei as pernas. Ele estava no sofá, com um joelho levantado, o que parecia ser sua posição favorita, e segurava a placa de modo a poder lê-la à luz do sol. Esta imagem está tão vívida na minha memória, talvez porque a parede fosse branca e coberta de flores vermelhas, e a oliveira fosse velha e retorcida, e cheia de galhos, e a grama verde crescendo no meio dos quadrados de mármore do jardim fosse tão macia. Eu gostava de passar a palma da mão sobre ela. Gostava de descansar a palma da mão sobre o mármore e sentir o calor do sol.

E é claro que me lembro dele com amor, vestido com sua túnica grega, larga e comprida, debruada de dourado, muito magro, com um ar contente e eterno enquanto seus olhos azuis percorriam a placa e ele de vez em quando a aproximava do rosto e tornava a afastá-la. Eu acho que ele deve ter lido cada palavrinha gravada nela, nas longas e estreitas colunas de cuneiforme. Eu a odiava.

“Você entrou no mundo dos espíritos pelas mãos de idiotas”, ele disse. “Este é um velho feitiço cananeu para invocar um poderoso espírito maligno, um servo do mal tão poderoso quanto os espíritos do mal que podem ser enviados à terra por Deus. Ele serve para criar um mal’ak [1] para um mago, forte como o Mal’ak que Jeová mandou para matar o primogênito dos egípcios.”

Eu fiquei perplexo. Não respondi nada. Eu conhecia muitas traduções da história da fuga do Egito e conhecia uma imagem do Mal’ak, o anjo resplandecente da Ira do Senhor.

— “Esta informação foi considerada perigosa pelos cananeus e selada nesta placa, se a data está correta, há mil anos. Isto era magia negra, magia ruim, magia como a da Feiticeira de Endor, que invocou o espírito de Samuel para falar com o Rei Saul.”

— “Eu conheço essas histórias”, eu disse baixinho.

— “O mago aqui faria o seu próprio mal’ak, que poderia ser tão forte quanto Satã ou um anjo caído ou um espírito maligno que tivesse um dia participado do poder do próprio Jeová.”

— “Eu compreendo.”

— “As regras aqui são muito estritas. O candidato a mal’ak deve ser totalmente mau, contrário a Deus e todas as coisas boas, alguém que tenha perdido a fé em Deus em represália à crueldade de Deus para com o homem e à injustiça que ele permitiu que dominasse o mundo. O candidato a mal’ak tem que ser tão determinado e revoltado e mau que seja capaz de lutar contra o próprio Deus se puder ou se for chamado a fazê-lo. Deve ser capaz de ficar frente a frente com qualquer Anjo do Senhor e derrotá-lo.”

— “O senhor se refere a anjos bons?”

— “Sim, bons e maus; você deveria igualar-se a eles e é possível que isto seja verdade. Você é um mal’ak, não um espírito comum. Mas como eu disse, aquele que se tornaria isto teria que ter um coração maligno, não ter mais nenhuma paciência com Deus e querer servir ao espírito de revolta da humanidade, aquilo que se recusa a aceitar as regras de Deus. Este espírito não está sendo criado para servir a um Demônio, mas para ser um.”

Eu fiquei sem fala.

— “Você parece jovem demais para ter sido assim tão perverso... pelo menos na forma que você escolheu para aparecer, que parece ser a perfeita emanação do que você era quando estava vivo. Você era assim tão mau? Você odiava Deus tanto assim?”

— “Não, pelo menos eu acho que não. Se odiava, eu não sabia.”

— “Você escolheu tornar-se o Servo dos Ossos?”

— “Não. Eu sei que não.”

— “Mais trapalhada. Você não era mau, não estava disposto, e não prometeu servir quem quer que possuísse os ossos, prometeu?”

— “É claro que não!” — Eu tentei me lembrar. Foi tão difícil, o passado ficou nítido, depois sumiu, mas eu consegui voltar ao quarto de Ciro, consegui lembrar que Ciro tinha me enviado para Zurvan, e pude me lembrar de alguma coisa anterior a essa, um sacerdote morto no chão.

— “Eu matei aquele que seria Mestre”, eu disse. “Eu o matei e havia morte ao meu redor, eu estava morrendo quando fui feito. Só restou em mim uma pequena chama. Era para eu morrer. A escadaria do céu ia descer, talvez, ou então eu ia entrar na luz e me tornar parte dela. Eu não sei qual das duas coisas aconteceu. Mas de qualquer modo, eu não queria ser o Servo dos Ossos, eu tentei fugir... Eu me lembro de correr e gritar por socorro, dizendo que aquilo era uma maldição cananéia, mas não me lembro para quem apelei. Só depois é que levei meus ossos dentro de um saco para o quarto do rei.”

— “Foi o que ele me contou. Bem, de acordo com o que está escrito aqui, você deveria ser um especialista em maldade e crueldade antes de ser escolhido e deveria ter implorado pelo privilégio de ter uma vida eterna como os anjos de Deus, e deveria estar disposto a suportar uma morte terrível. No momento que a dor se tornasse por demais insuportável, o seu espírito deveria ter-se separado do corpo e visto o corpo ferver até só restarem os ossos. Mas só quando a dor se tornasse insuportável. Só então. Era para você suportar o caldeirão fervente de ouro o máximo que pudesse para aperfeiçoar o seu ódio a Deus por ele ter feito os homens seres sensíveis, e só então é que você deveria ter-se libertado, consciente do poder do seu triunfo sobre a morte e do seu ódio a Deus, que fez a morte, e do seu desejo de ser o mal’ak, que é tão forte quanto o coração cruel de Jeová quando ele o virou contra aqueles que Saul ou David ou Joshua deveriam matar.”

— “Você deve ser o vingador de Adão e Eva, por eles terem sido maldosamente enganados pelo seu Deus. O que você me diz disto?”

— “Foi tudo uma trapalhada, como o senhor disse. Eu não consigo me lembrar de ter estado dentro do caldeirão, só de sentir um medo terrível dele. Acho que escapei do meu corpo antes que a dor chegasse, acho que não consegui suportá-la, foi tudo muito confuso, eu estava cercado de indivíduos fracos e egoístas, não havia nenhuma grandeza. Não havia nenhuma majestade. Eu tinha feito algo, algo que outras pessoas quiseram que eu fizesse, mas tudo me pareceu corrompido, terrivelmente corrompido, e eu tinha sido enganado.”

— “E tinha havido majestade nesse ato corrompido?”

— “Bem, acho que sim. Eu me recordo de uma sensação de grande sacrifício, propósito. Recordo-me de pétalas de rosa e de uma morte lenta e sonolenta cuja maior dor era o conhecimento de que ela era irreversível e demorada, mas que não poderia ser mudada. Não sei por que falei em majestade. O que foi que Ciro contou-lhe a meu respeito?”

— “Pouca coisa, eu acho. Mas de acordo com esta placa, você não pode ser destruído. Se os ossos forem destruídos, você estará solto no mundo para se vingar de tudo que é vivo, como uma peste.”

Eu fiquei desesperado. Completamente desesperado, um desespero que teria sido impossível para o espírito que eu fora poucas horas antes. Quando subi na direção daqueles com rostos alegres, quando vi o clarão de luz, eu não tinha conhecido o desespero! Não mais do que uma criança impedida de comer um prato de doces. Agora eu conhecia.

— “Eu quero morrer”, eu murmurei. “Eu quero morrer de verdade, do jeito que ia morrer antes de me fazerem isto, aqueles loucos furiosos! Antes de experimentarem esta terrível magia. Ah, idiotas! Ah, Deus!”

— “Morrer?”, ele perguntou, “e ficar vagando no meio desses mortos estúpidos? Tornar-se um demônio rosnando no meio dos outros espíritos, tornar-se um terrível inimigo de tudo o que é bom, um causador de morte e tormento!”

— “Não, simplesmente morrer, morrer como nos braços de minha mãe, morrer para descansar na Mãe Terra, e se eu me tornar luz e se houver um Céu, que seja, mas se não, então simplesmente morrer, e continuar vivendo na lembrança de algo de bom que eu tiver feito para alguém, qualquer boa ação, qualquer ato de bondade ou de amor, e...”

— “... e o quê?”

— “Eu ia dizer que eu queria viver na memória pelos atos que eu tivesse praticado em honra de Deus, mas não estou mais ligando para isso agora. Quero apenas morrer. Preferiria que Deus me deixasse em paz.” Eu me levantei. Olhei para ele. “Ciro lhe contou quem eu fui? Como ele me conheceu?”

— “Não, você pode ler as cartas dele. Ele só diz que a sua força é grande demais para qualquer mago exceto eu e que ele lhe deve muito, que foi responsável pela sua morte.” Ele parou, pensando, puxando a barba. “É claro que o rei do mundo não vai dizer numa carta que ele esta pessoalmente amedrontado por um espírito e que deseja mandá-lo para o mais longe dele possível, mas havia, como direi, uma certa insinuação disto na carta. Você sabe, eu não consigo comandar esse espírito. Eu não ouso. E no entanto devo meu reino a ele.”

— “Não me lembro de ele me dever nada. Lembro-me de pedir para ser mandado... Lembro-me...”

— “Sim?”

De ter sido abandonado por todos.

— “Bem, esses idiotas não criaram um demônio. Criaram algo mais parecido com um anjo.”

“Anjo poderoso”, eu disse. “O senhor usou esta expressão. Ciro também usou. Marduc usou...” — Eu parei. Engasgado com o nome de Marduc e não vendo onde situar o nome ou torná-lo plausível em minha fala.

— “Marduc, o deus da Babilônia?”, ele perguntou.

— “Não faça pouco dele, ele sofre”, eu disse, espantando a mim mesmo.

— “Você quer se vingar daqueles que lhe fizeram isso?”

— “Eu já me vinguei. Não me lembro de ninguém que já não esteja morto. Foi obra do sacerdote, e ele... e a velha, ela morreu, a bruxa, a vidente. Não consigo me lembrar... Eu sabia que só Ciro poderia ajudar-me e sabia que eu tinha o direito de entrar nos aposentos dele, que ele me escutaria. Não, eu não desejo vingança. Não, eu não me lembro o suficiente do que se passou para querer vingança, assim como não anseio pela vida. Não. Existe algo que eu desejo... morrer... descansar, dormir, estar morto sob a terra de doce perfume... ou ver a luz na qual irei incorporar-me, uma pequena centelha da luz de Deus de volta à sua chama. O que eu mais desejo é a morte... mais até do que a luz. Simplesmente a tranquilidade da morte.”

— “Você quer isto agora”, ele disse. “Você não queria quando estava caminhando, ou passeando no reino dos espíritos, ou trazendo os rolos de manuscrito para mim. Ou quando se sentou pela primeira vez neste jardim e ficou tocando na grama com os dedos.”

— “Isso porque o senhor é um bom homem”, eu disse.

— “Não, isso porque você é um bom homem. Ou foi. E a bondade brilha em você agora como brilhava antes. Almas sem memória são perigosas. Você se lembra... mas só se lembra das coisas boas.”

“Não, eu já disse o quanto os odiava...”

— “Sim, mas eles se foram, estão se afastando de você muito depressa. Você não consegue recordar os nomes deles, nem seus rostos... você não os odeia. Mas você se lembra das coisas boas. Na noite passada, você me contou que encontrou ouro nos seus bolsos. O que foi que você fez com ele? Você não disse.”

— “Bem, eu o dei para os pobres e famintos, uma família, para que pudessem comer.” Eu estendi a mão e juntei a grama solta que crescia nas fendas entre os quadrados de mármore. Olhei para as folhinhas tenras. “O senhor tem razão. Eu me lembro da bondade, ou a conheço. Eu a conheço e vejo e sinto...”

— “Então vou ensinar-lhe tudo o que puder”, ele disse. “Nós vamos viajar. Iremos para Atenas e depois para o Egito. Eu nunca viajei pelo interior do Egito. Quero ir. Nós iremos viajar por meio de mágica. Ou então, algumas vezes, pelos meios naturais, porque você é um poderoso guardião, e precisa lembrar-se de tudo que eu lhe ensinar... sua tendência sua fraqueza, é fugir da dor esquecendo-a, e quando eu morrer, você sentirá uma certa dor.”

Ele ficou calado. Acho que as lições tinham terminado por ora. Ele fechou os olhos. Mas eu tinha uma coisa urgente para perguntar.

— “Então pergunte, antes que eu durma.”

— “Aqueles cananeus, que lançaram esta maldição. Eles eram hebreus?”

— “Não na verdade”, ele disse. “Não hebreu como você. O Jeová deles era um dentre muitos deuses, só que o mais forte, um deus da guerra, parece. Eles eram um povo antigo e acreditavam em outros deuses também. Você está contente em ouvir isto?”

Minha mente tinha divagado. “Acho que estou”, eu disse. “Sim estou. Mas eu agora não pertenço a nenhuma tribo. O meu destino é pertencer aos melhores Mestres, pois sem eles eu posso esquecer tudo, posso divagar... posso cessar de ver ou ouvir ou sentir... e não estarei morto estarei simplesmente esperando por aquele que me invocar.”

— “Eu não vou viver muito”, ele disse. “Vou ensinar-lhe todos os truques que conheço e que você seja capaz de fazer, e vou ensinar-lhe como enganar os homens com ilusões e como enfeitiçá-los com palavras e atitudes... isso é tudo que há... lembre-se... palavras, atitudes... é o abstrato... não o particular. Você poderia transformar uma lista de nomes de cereais em um feitiço se a pronunciasse da maneira certa, sabia? Mas e vou ensinar e você vai prestar atenção, e quando eu morrer...”

— “Sim...”

— “Vamos providenciar para que quando isso ocorrer, o mundo em geral possa ensiná-lo.”

— “Não espere demais de mim”, eu disse. Eu olhei diretamente para ele, o que fizera raramente até então. “O senhor quer saber do que eu me lembro. Eu me lembro de ter matado os beduínos e de ter gostado bem disso. Não tanto quanto das flores, de colhê-las, sabe, mas matar... o que se compara a isso na terra?

— “Você está certo”, ele disse. “Precisa aprender que amar é melhor... que ser bondoso é melhor ainda. Ao matar, você destrói um universo de crenças e sentimentos e gerações naquela única pessoa que você atou. Mas quando você faz um ato de bondade, é como atirar uma pedrinha no grande oceano e as ondulações se propagam para sempre, e nenhuma onda, nem mesmo aquelas que estão bem longe, na Itália ou no Egito, jamais será a mesma. A bondade tem muito mais poder do que o ato de matar. Mas você vai entender isso. Você sabia disto quando estava vivo.”

Ele pensou por um momento e então concluiu os conselhos do dia:

— “Sabe, é uma questão de saber medir estas coisas. Quando você abate um homem, você não percebe todas as implicações da morte dele. Não na hora. Você sente o sangue ferver nas suas veias, pois mesmo como espírito você tem a forma de um homem. Mas quando você faz algo bom, você percebe o que fez... você vê muitas vezes o que fez... e é isso que finalmente vence o desejo de matar. A bondade tem um brilho muito grande; ela é por demais... inegável. Quando você saiu para caminhar, você a viu no rosto de muitas pessoas, não foi? A bondade. Ninguém tentou feri-lo. Nem mesmo os guardas do palácio. Eles o deixaram passar. Foi por causa de suas roupas e de suas maneiras? Ou você sorriu para eles também? Suas boas intenções estavam estampadas no seu rosto? Cada vez que você volta para mim, você está feliz e o seu espírito, não importa o que o tenha criado, tem uma grande capacidade de amar.”

Eu não respondi.

— “No que você está pensando agora?”, ele perguntou. “Diga-me.”

— “Nos beduínos”, eu disse. “Em como foi divertido matá-los.”

— “Você é teimoso”, ele disse.

Ele fechou os olhos e adormeceu. Eu fiquei ali sentado, vigiando, e aos poucos adormeci também, adormeci no meu corpo, ouvindo as flores próximas aos meus ouvidos, e olhando para os galhos da oliveira de vez em quando para ver os pássaros lá, e o som distante da cidade tornou-se música para mim. E quando eu sonhei, foi com jardins, luz e árvores frutíferas e espíritos alegres com rostos cheios de amor.

Palavras foram tecidas nos meus sonhos.

— “E eu lhe darei os tesouros da escuridão e as riquezas ocultas em lugares secretos, para que você saiba que eu, o Senhor, que o chamo por Seu nome, sou o Deus de Israel... eu crio a luz e faço a escuridão; eu faço a paz e crio a maldade...” Meus olhos se abriram, mas então eu sabia versos mais doces, e voltei a um estado de semi-sonolência feito de música e de salgueiros balançando ao vento.

 

Eu viajei com Zurvan por quinze anos. Fiz tudo o que ele quis. Ele era rico, como eu disse, e muitas vezes ele desejou viajar simplesmente como qualquer homem, e nós fomos de navio para o Egito e depois voltamos para Atenas e outras cidades que ele tinha visitado na juventude e que tinha desistido de tornar a ver.

Quase nunca ele deixava escapar que era um mago, embora de vez em quando fosse reconhecido por alguém com o dom da vidência. E quando chamado para curar os enfermos, ele fazia o que podia. Em todos os lugares por onde viajamos, ele comprou ou me fez tomar emprestado para ele, ou até mesmo roubar, placas e rolos de magia, que ele estudou e leu para mim e me fez decorar, reforçando ainda mais sua convicção de que toda magia era mais ou menos a mesma.

O fato de eu conseguir lembrar-me claramente desses anos é uma bênção, porque do tempo entre a morte dele e o presente eu tenho pouquíssimas lembranças. Eu sei que houve ocasiões, depois da morte de Zurvan, em que acordei sem memória e servi meus mestres com tédio, e algumas vezes os vi arruinarem-se e me diverti com isso, e de vez em quando carreguei eu mesmo os meus ossos para outro mestre. Mas tudo isso está indistinto, enevoado. Sem sentido.

Zurvan tinha razão. Minha resposta à dor e ao sofrimento era esquecer. E a tendência dos espíritos é esquecer. Carne e osso, necessidades do corpo, é isso que inspira a memória no homem. E quando isso não existe, nada é doce de se recordar.

Durante a vida de Zurvan, ele fez um baú melhor para os ossos. Ele o fez de uma madeira muito resistente, forrado por dentro e por fora de ouro, e escavou um espaço para que os ossos descansassem numa posição encolhida, como a de uma criança adormecida. Ele contratou carpinteiros para fazê-lo porque o trabalho dos espíritos que o serviam não era exatamente satisfatório para ele. Aqueles que conhecem o mundo material trabalham com mais respeito por ele, ele disse.

— Por fora do baú, que era um retângulo do tamanho necessário para abrigar meu esqueleto, ele gravou o nome do que eu era e de como devia ser chamado, e gravou um aviso de que eu jamais deveria ser usado para o mal, a menos que o mal descesse sobre aquele que me invocasse. Ele alertou contra a destruição dos meus ossos, dizendo que todo poder sobre mim desapareceria com eles.

Ele escreveu tudo isso sob a forma de encantamentos e poesia sagrada, em muitas línguas, por todo o baú.

Ele pôs um símbolo hebreu ou letra que significa vida no baú.

Foi muito bom ele ter feito tudo isso logo, porque sua morte foi repentina. Ele morreu dormindo, e eu só fui chamado quando sua casa em Siracusa estava sendo atacada por ladrões e pessoas da aldeia que sabiam que ele não tinha parentes e que não tinham medo dele. E como ele não tinha deixado nenhum demônio velando o seu corpo, eles saquearam a casa, encontraram o baú, falaram sobre os ossos e eu acordei.

Matei todos que estavam lá, até a menor criança que vasculhava as roupas de Zurvan. Matei todos eles. Aquela noite, os aldeões chegaram para queimar a casa do Mago na esperança de desfazer o seu mal. Fiquei contente com isso porque sabia que Zurvan, sendo grego de nascimento, embora um homem sem pátria nem tribo por escolha, queria que seus restos fossem queimados, e eu os tinha arrumado dentro da casa para que queimassem primeiro e depressa.

Voltei para Mileto e prossegui minha viagem para a Babilônia embora não soubesse por quê. Eu lamentava por Zurvan. Só pensava em Zurvan. Sofria dia e noite, invisível, com um corpo físico, com medo de ir para os ossos e jamais conseguir sair deles, e arrastando meu esqueleto comigo através do deserto.

Finalmente cheguei a uma cidade da Babilônia, mas me vi odiando-a e rejeitando-a, e sentindo dor a cada passo. Não vi nada que provocasse uma lembrança, só um sentimento. Parti logo em seguida e voltei para Atenas, onde Zurvan tinha nascido. Encontrando uma pequena casa, eu preparei um esconderijo seguro para os ossos bem abaixo dela e então entrei neles. E fez-se a escuridão.

Muito tempo depois, eu acordei com lembranças vagas de Zurvan, mas me lembrando de todas as suas lições, só que já era outro século. E talvez eu me lembrasse sempre de suas lições. Acho que isto pode ser o motivo último da minha revolta, o fato de me lembrar de suas lições e de detestar a perversão delas.

De uma forma ou de outra, eu fui invocado em Atenas. Os soldados de Felipe II da Macedônia tinham invadido Atenas e vencido os gregos, e Felipe, o Bárbaro, como o chamavam, estava pilhando a cidade, e nesse processo os ossos foram desenterrados.

Quando eu apareci, foi na tenda de um mago macedônio e ele ficou quase tão espantado ao me ver quanto eu fiquei ao vê-lo.

Eu não me lembro quase nada dele. O que me lembro é da qualidade vibrante do mundo, do prazer de ser matéria de novo, de sentir o gosto da água, e de querer ser uma coisa viva, ainda que apenas uma imitação. Eu também conhecia a minha força descomunal, e guardei este segredo do meu Mestre, apenas obedecendo tranquilamente às suas ordens tolas. Ele era um mago de segunda categoria.

Eu passei dele para vários outros. Minha lembrança seguinte só ocorreu porque Gregory Belkin a despertou em mim... que eu estava na Babilônia quando Alexandre, o Grande, morreu. Como eu cheguei lá, a quem eu servia, eu não me lembro. Mas me lembro de me vestir, transformando o meu corpo no de um dos soldados de Alexandre, para poder passar na frente da cama dele e vê-lo fazer um sinal de que estava morrendo.

Eu me lembro de Alexandre deitado na cama, com uma aura tão brilhante quanto a de Ciro, o Persa. Mesmo morrendo ele era muito bonito e estava estranhamente lúcido. Ele estava observando-se morrer e não lutava para viver. Não estava louco para viver. Era como se ele soubesse que era para ser o fim da sua vida. Eu não me recordo se ele soube que um espírito tinha passado por ele, já que eu estava materializado e completo. Eu me recordo de ter voltado para o meu Mestre de então e dito a ele, Sim, o conquistador do mundo está morrendo, e parece que esse Mestre era velho e grego também e que chorou. Eu me recordo de ter colocado meu braço em volta dele para consolá-lo.

Eu não iria lembrar-me de tanta coisa se não fosse pelo fato de Gregory gritar o nome de Alexandre com tanta fúria em Nova York e declarar que Alexandre era o único homem que tinha realmente mudado a face do mundo.

Eu agora podia rememorar outros mestres... tirar do caldeirão da memória fragmentos de lembranças. Mas não existe dignidade nem magia nem grandeza que me atraia, que me dê vontade de contá-la. Eu era um garoto de recados, um espírito enviado para espionar, roubar, às vezes até para matar. Eu me lembro de matar. Mas não me lembro de sentir remorsos. Não me lembro de servir a ninguém que eu achasse incrivelmente mau. E me lembro de ter matado dois mestres em diferentes ocasiões, ao acordar, porque eles eram homens maus.

Mas isto é nebuloso, como eu disse, não está muito claro para mim. O que eu me lembro em seguida e com muita nitidez, o que me lembrei há poucas semanas atrás quando acordei nas ruas geladas de Nova York para testemunhar o assassinato de Esther Belkin, o que me lembrei imediatamente com toda a clareza foi do último Mestre, Samuel de Estrasburgo — assim chamado em homenagem ao profeta, é claro.

Samuel era um líder e um mago entre os judeus de Estrasburgo. Eu só me lembro de tê-lo amado e às suas cinco belas filhas, e não me lembro dos detalhes do começo nem do meio, mas apenas dos últimos dias, quando a Peste Negra chegou, quando a cidade tornou-se caótica e os poderosos gentios ordenaram que todos nós, judeus, partíssemos porque as autoridades locais talvez não pudessem proteger-nos da multidão.

A última noite brilha diante dos meus olhos. Samuel era o único que restava na casa. Suas cinco filhas tinham sido levadas em segredo para fora de Estrasburgo, e ele e eu estávamos sentados na sala principal da casa dele, uma casa muito luxuosa, devo acrescentar, e ele me disse que não fugiria da multidão enfurecida, não importava o que eu dissesse ou fizesse.

Muitos judeus pobres não puderam escapar do que estava por acontecer. E Samuel, para minha surpresa, estava convencido de que alguém da sua tribo ou clã poderia precisar dele no fim, e que ele tinha que ficar. Ele nunca se mostrara tão abnegado por natureza, e no entanto escolheu ficar.

Eu fiquei histérico, dei socos no ar, saí e voltei para dizer a ele que a vizinhança inteira estava cercada, que toda a população do bairro ia ser queimada em breve.

— A história do mundo não era mistério para mim, e nem Samuel; a essência do homem estava vívida na época e está agora; eu tinha conseguido ouro para ele em abundância; eu tinha espionado seus associados nos negócios; eu tinha sido a fonte de sua imensa e sempre crescente fortuna. Matar era algo que eu nunca havia feito por ele porque ele nunca Pensou em algo tão cru; ele era um comerciante judeu, um banqueiro judeu, inteligente, amado e respeitado pela comunidade gentia por causa de seus bons dividendos e por ser razoável no que se referia a pagamentos de dívidas. Um homem bondoso? Sim, mas um homem mundano, embora um tanto místico, e agora ele estava sentado nesta sala, enquanto a multidão e o fogo se aproximavam, enquanto a cidade de Estrasburgo se transformava num inferno ao nosso redor, e se recusava calmamente a partir.

— “Ainda há meios de se deixar a cidade, eu posso levá-lo!”, eu disse. Nós dois conhecíamos os túneis que havia sob as casas no bairro judeu e que conduziam ao mundo do outro lado dos muros. Eram velhos, é verdade, mas nós os conhecíamos. Eu poderia tê-lo levado através deles. Ou por cima, com grande força, invisível através do ar.

— “Mestre, o que irá fazer? Deixar que o matem? Que arranquem seus braços e suas pernas? Das duas uma, ou o fogo virá dos dois lados da rua atrás do senhor ou então virão eles, para arrancar seus anéis e suas roupas antes de matá-lo. Mestre, por que o senhor está escolhendo a morte?”

Ele me mandara calar a boca e voltar para os ossos uma dúzia de vezes. Eu me recusava a obedecer. Finalmente eu disse, “Não vou deixar que isto aconteça. Vou tirá-lo daqui, o senhor e os ossos!”

— “Azriel!”, ele gritou. “Há tempo e você vai ficar quieto!” Ele arrumou o último dos seus livros, um volume do seu amado Talmude, e seus livros da Cabala, de onde tinha vindo grande parte da sua mágica, e então esperou, com os olhos fixos na porta.

— “Mestre”, eu disse. Lembro-me disto perfeitamente. “Mestre, e quanto a mim? O que vai acontecer? Os ossos serão encontrados no seu baú? Para onde eu vou, Mestre?”

Com certeza eu jamais havia feito uma pergunta tão voltada para os meus interesses. Percebi isto pelo seu ar de espanto. Ele saiu do seu estado de meditação, com os olhos presos na porta, e olhou para mim.

— “Mestre, quando o senhor morrer, pode carregar o meu espírito junto?”, eu perguntei. “Pode levar o seu servo leal para a luz?”

— “Oh, Azriel”, ele disse, numa voz triste, “de onde você tirou esta idéia, seu espírito tolo. O que você pensa que é?”

O tom da voz dele me enfureceu. A expressão do rosto dele me enfureceu.

— “Mestre, o senhor está me deixando para virar cinzas! Deixando-me para os pilhadores!”, eu exclamei. “O senhor não pode agarrar minha mão quando o matarem, se é isso que tem que acontecer, o senhor não pode tomar-me pela mão e levar-me junto? Por trinta anos eu o servi, tornei-o rico, tornei suas filhas ricas. Mestre! O senhor está me abandonando aqui. O baú pode pegar fogo. Os ossos podem queimar. O que ira acontecer?”

Ele pareceu totalmente confuso. Ficou envergonhado. Nesse momento a porta da casa se abriu e dois banqueiros gentios elegantemente vestidos, a quem eu conhecia, entraram na sala. Ambos estavam nervosos.

— “Temos que correr, Samuel”, eles disseram. “Estão começando a acender fogueiras perto dos muros. Estão matando os judeus em toda a parte. Não podemos ajudá-lo a fugir.”

— “E eu pedi ajuda a vocês?”, Samuel disse, zangado. “Dêem-me uma prova de que minhas filhas estão longe daqui.”

Nervosamente, eles colocaram uma carta na mão dele. Eu vi que era de um dos muitos agiotas, em quem ele confiava muito, que estava na Itália, em lugar seguro, e confirmava que suas filhas tinham chegado e descrevia a cor do vestido de cada uma, o cabelo e a senha que o pai tinha exigido.

Os gentios estavam aterrorizados.

— “Nós temos que nos apressar, Samuel. Se você está resolvido a morrer aqui, cumpra a sua palavra! Onde está o baú?”

Ao ouvir estas palavras eu fiquei perplexo. E entendi logo! Eu tinha sido negociado em troca da salvação das cinco filhas! Nenhum daqueles homens podia ver-me, mas eles viram o baú dos meus ossos, que estava bem à vista junto com os livros da Cabala, e se aproximaram do baú, abriram-no e lá estavam os meus ossos!

— “Mestre.” Eu falei com ele com uma voz secreta. “O senhor não pode dar-me de presente para esses homens! Eles são gentios. Eles não são magos. Eles não são grandes homens.”

Samuel estava atônito, olhando para mim. ‘Grandes homens? Quando foi que eu disse a você que eu era grande ou mesmo bom, Azriel? E quando foi que você perguntou isto?”

— “Em nome do Senhor Deus dos Exércitos”, eu disse, “eu fiz o que era bom para o senhor e sua família e seus superiores e sua sinagoga. Samuel! O que o senhor faz por mim em troca?”

Os dois gentios fecharam o baú. “Adeus, Samuel”, eles disseram enquanto um deles apertava o baú de encontro ao peito e ambos corriam para a porta. Eu pude ver a luz do fogo. Pude sentir o cheiro dele. Pude ouvir as pessoas gritando.

— “Homem mau, perverso!” Eu o amaldiçoei. “Pensa que Deus irá perdoá-lo porque o fogo o purificará e me vendeu em troca de dinheiro, de ouro!”

— “Foi pelas minhas filhas, Azriel. Espírito, você encontrou uma voz poderosa perto do fim.”

— “Do fim de quê?” Mas eu sabia. Eu já podia sentir os outros chamando, aqueles que estavam com os ossos. Eles já estavam do lado de fora dos portões da cidade. E o meu ódio e o meu desprezo ferviam dentro de mim. O chamado deles era uma tentação.

Eu me aproximei de Samuel.

— “Não, Espírito!”, ele ordenou. “Obedeça-me, vá para os ossos. Obedeça-me como sempre fez. Deixe-me para enfrentar o meu martírio.”

O chamado veio de novo. Eu não conseguia manter a minha forma. Estava zangado demais. Meu corpo estava se dissolvendo. Na minha raiva, eu tinha ousado demais. As vozes que me chamavam eram fortes. Elas estavam cada vez mais longe, mas mesmo assim eram fortes.

Eu agarrei Samuel e atirei-o pela porta. A rua estava em fogo. “Aí está o seu martírio, rabi!”, eu gritei. “Eu o perdôo pelo que fez a mim, abandonando-me, enganando-me, levando-me a amá-lo e vendendo-me como ouro!”

De todos os lados pessoas aterrorizadas corriam para ele, pessoas que estavam sofrendo a angústia final. “Samuel, Samuel”, elas gritavam o nome dele.

Minha amargura diminuiu por um instante quando eu o vi abraçá-las. “Samuel”, eu gritei. Aproximei-me dele. Eu estava ficando fraco mas ainda era visível para ele. Pegue a minha mão. Segure a mão do meu espírito, por favor, Samuel, leve-me para a morte com você.”

Ele não disse nada. A multidão cercou-o, soluçando e agarrando-se a ele, mas eu ouvi seu último pensamento quando ele me rejeitou, quando desviou os olhos. Ele disse claramente, como se estivesse falando em voz alta:

— “Não, Espírito, porque se eu morrer de mãos dadas com você, talvez você me leve para o inferno.”

Eu o amaldiçoei.

— “Não há misericórdia e bondade suficiente para nós dois. Mestre. Mestre! Líder! Professor! Rabi!”

As chamas engoliram a multidão. Eu subi no meio das chamas e da fumaça e senti a noite fria passar através de mim e voei na direção do santuário dos ossos. Eu fugi da fumaça e do horror e da injustiça e dos gritos dos inocentes.

Eu atravessei florestas escuras, como uma feiticeira a caminho do Sabá, voando com os braços abertos, e então eu vi os dois gentios na porta de uma pequena igreja, a uma grande distância da cidade, o baú no chão entre eles, oferecendo morte e silêncio; eu relaxei dentro dos ossos.

— Só consegui saber que eles estavam chorando por Estrasburgo, pelos judeus, por Samuel, por toda a tragédia. E que planejavam vender-me no Egito. Eles não eram magos. Eu era um bem negociável.

Meu sono não foi longo. Eu fui chamado, fui levado a diversos lugares, matei os que me invocaram, de alguns eu me lembro, de outros não. A história do mundo foi escrita nas placas vazias e intermináveis da minha mente, coluna por coluna. Entretanto eu não pensava; dormia.

Uma vez, um mameluco, usando belas roupas de seda, me invocou. Foi no Cairo, e eu o fiz em pedaços com sua própria espada. Foram necessários todos os sábios do palácio para me conduzirem de volta aos ossos. Eu me lembro dos belos turbantes que eles usavam e dos seus gritos de terror. Eles eram tão corpulentos, aqueles soldados muçulmanos, aqueles homens estranhos que viviam a vida toda sem mulheres, apenas para lutar e matar. Por que eles não me destruíram? Por causa das inscrições que alertavam contra um espírito sem dono que poderia procurar vingança.

Eu me recordo, em Paris, de um esperto mago satânico num aposento todo iluminado a gás. O papel de parede me pareceu estranho. Um casaco preto esquisito estava pendurado num cabide. A vida quase me tentou. Iluminação a gás e máquinas; carruagens rodando sobre o calçamento das ruas. Mas eu matei o homem misterioso e me recolhi outra vez aos ossos.

Era sempre assim. Eu dormia. Acho que me lembro de um inverno na Polônia. Acho que me lembro de uma discussão entre dois homens cultos. Mas tudo isto é nebuloso e imperfeito. Eles falavam um dialeto hebraico e tinham me invocado, mas nenhum pareceu perceber que eu estava lá. Eles eram homens bons e delicados. Nós estávamos numa sinagoga simples, e eles discutiam. E então resolveram que os meus ossos deveriam ser escondidos dentro da parede. Homens bons. Eu dormi.

Quando tornei a acordar, foi há poucas semanas, em plena luz do sol, enquanto um trio de assassinos abria caminho no meio da imprensa, na Quinta Avenida, para matar Esther Belkin assim que ela saiu da sua limusine preta e entrou na loja — inocente, linda, sem perceber a morte que se aproximava.

E por que eu estava lá? Quem tinha me chamado? Eu só sabia que aqueles assassinos tencionavam matá-la, aqueles brutos malvados, drogados e cretinos, encantados com o prazer de matá-la, em toda a sua inocência. Eu tinha que impedir. Tinha.

Mas cheguei muito tarde. Você sabe o que os jornais disseram.

Quem era aquela criança inocente? Ela me viu, disse o meu nome. Como ela me conhecia? Ela jamais me invocara. Ela só me vira no espaço tênue entre a vida e a morte, onde as verdades normalmente encobertas tornam-se visíveis.

Vamos deter-nos neste assassinato. Uma morte como a de Esther merece mais algumas palavras. Ou talvez eu precise relatar a minha retomada de consciência. Talvez eu precise descrever a sensação de ver e respirar de novo nessa cidade poderosa, com torres mais altas do que a mística montanha de Meru, no meio de milhares de pessoas, boas e más, e sem brilho, enquanto Esther estava sendo marcada para morrer.

 

COMO MANTER A ESCURIDÃO

E O MODELO AFASTADOS

 

Como manter a escuridão

e o modelo que afetam todo homem

afastados — no muro, onde o chapéu

sai do tutano & boceja  

como manter a cabeça acima do grito

& acima do buraco onde o modelo nasce

como as ligas lavando seus corações

& espremendo-os apenas para vê-los

voltar à forma antiga — espelhos

amorosos dos homens — lâminas afiadas

língua & pestana de Coisa Doce

cambaleando ao lado da porta na sombra larga

como manter a escuridão afastada?

Ou uma única bala atirada, coberta ou nua

Deve penetrar cada ser — cada relógio

afiada por arte ou vinho

como enfiar a agulha, o pano

como tomar o modelo que afeta todo homem

e não perder nada quando arrancá-lo.

 

Agora siga-me, por favor, neste despertar.

Os Eval na luz clara do dia invernal. Veja como eles brilham. Foi assim que eu os conheci. Isto foi uma piada para eles porque a palavra que eles usavam para o mal era evil e o nome deles era Eval. Três irmãos nascidos no Texas, contratados para matar a moça rica.

Eles caminhavam pela avenida cheia de gente, banhados pelo sol do meio-dia, brincando, rindo, passando o cigarro entre eles, arrogantes e animados para a matança. Como eles gostavam de se ver refletidos nas vitrines das lojas, e ali era Nova York, a maior cidade do mundo, a única cidade de que os Eval gostavam, além de Las Vegas, para onde eles irão com seu dinheiro depois de “apagá-la”, o que na língua deles significava matá-la.

Eles nunca iriam voltar para o Texas. Quem podia saber quais os trabalhos que “o homem” poderia ter para eles? Mas primeiro eles tinham que matá-la.

Eu podia sentir a maldade natural deles, com quase a mesma pureza com que eles a sentiam — Billy Joel Eval no comando, com o revólver no bolso, além do furador longo e afiado, um furador tão cruel, com uma lâmina de aço arredondada. E Doby Eval bem atrás com Hayden Eval “chupando mamadeira”, eles caçoaram dele, e todos tinham aquelas armas afiadas, longos furadores de aço, ah, tão preparados para matá-la, mas quem era ela? Tinha que haver uma razão para eu estar vendo aquilo tudo, tinha que haver uma razão para eu estar ali no meio da cidade de Nova York, respirando os odores de Nova York como se estivesse vivo, e visível, quando não estava nem uma coisa nem outra, só sabendo o que um gênio sempre sabe... que ele foi de novo chamado à ação, que mais uma vez seus olhos e sua mente se abriram para um mundo vibrante e vital.

Você sabe o quanto eu era rebelde, eu contei para você, o quanto eu era indiferente, com que indiferença eu fazia um mestre desprezível em pedaços. Mas o que estava acontecendo ali?

Odiar aqueles monstros rústicos era muito fácil. Eu passei ao lado deles! Eu os vi de perto no seu disfarce de jaquetas acolchoadas de náilon e calças esfiapadas de algodão, sapatos cheios de pregos e ganchos para os cadarços. Billy Joel estava louco para vê-la, mal podia esperar para se aproximar dela, e só Hayden vacilava, com medo de dizer ao irmão que não estava gostando muito daquilo, de matar a garota. Se ao menos eles soubessem quem os estava pagando.

Quem havia pago a eles? — Um homem, através de um homem, através de um homem — Doby Eval disse —, como se vocês já não soubessem.

De repente, eu senti meus pés tocarem o chão. Mas eu estava transparente demais para que alguém me visse, tomando forma devagar, seguindo-os, me aproximando tanto deles que se eu estivesse visível eles me veriam, caso olhassem para trás, e eu não sabia ao certo se podia ou não ser visto por alguém.

— “Quem está me comandando?”, eu murmurei. Senti meus lábios moverem-se. A rua estava apinhada de gente e a riqueza apertava o cerco ao meu redor como se ali fosse o mercado da Babilônia no Ano-Novo ou os bazares de Bagdá ou Istambul.

Através do vidro, eu via as deusas sem rosto, de plástico branco, da moda, com suas magníficas peles e franjas, rubis verdadeiros, sapatilhas mágicas feitas de finas tiras de aço para prender o pé de forma agradável.

E tudo isso sem nenhuma explicação.

Bem, você já me conhece bem agora, o quanto eu me deixo levar pelos sentidos. Entregue-me o mundo numa taça que eu o beberei. Mas o assassinato da moça, isto tinha que ser impedido. Eu me acerquei deles, andei no meio deles, mas eles ainda não podiam ver-me, embora eu estivesse sentindo a forma do meu corpo, o calor dele, a densidade cada vez maior. Sim, eu estava mesmo ali, não se tratava de nenhum fantasma terrível ao sabor do vento.

Eu senti o calor da calçada e algo como o ruído dos meus passos com sapatos de couro, e só desejei que eles fossem comuns como os deles. Eu sabia que aquele cheiro ruim vinha das máquinas da rua e quando ergui os olhos, vi as torres alcançando as nuvens em pleno dia, e no entanto luzes brilhavam em toda a parte, nas janelas, atrás de avisos luminosos, tudo movido a eletricidade.

Que mundo moderno era aquele — apinhado de riquezas — que cidade era aquela, com o anão corcunda e o aleijado usando roupas finas e ouro, e a mulher berrando num canto, completamente louca, abrindo a blusa de seda pura para mostrar os seios? Alguém a tirou da esquina. Hordas de rapazes vestidos com ternos escuros e severos, gravatas no pescoço, caminhando apressadamente, embora obviamente desconectados, separados, sem trocar um único olhar.

Os Eval riram.

— Ouçam o que eu estou lhes dizendo, esta tal de Nova York é incrível, olhem só para ela, vocês viram isso? Agora, essa garota que nós vamos apagar, ela não é doida assim, de jeito nenhum, agora vocês fazem o que eu disse...

— Fazer o que você disse — o irmão Hayden praguejou.

Eu estava grudado neles, podia sentir o cheiro do suor e do sabonete barato que eles tinham usado para tentar tirá-lo, e podia sentir o cheiro dos revólveres deles, mas aquele não era o meio, o revólver, a bala, a explosão — eu tentei saber de tudo o mais rápido possível — eles iam usar os furadores de pontas afiadas que cada um carregava por baixo da roupa.

“Por que vocês vão fazer isso com ela?”

Eu devo ter falado alto, porque Billy Joel parou, erguendo o ombro direito, esticando os cantos da boca para baixo, enquanto encarava Hayden e depois dizia a ele, “Quer calar a boca, seu filho da puta, eu estou dizendo que nós não podíamos ter saído daqui de nenhuma outra maneira a não ser esta.”

— Claro, nós acabamos com ela e depois simplesmente saímos correndo, como criancinhas, apenas corremos! — Hayden disse, enfiando a mão esquerda no meio das costas do irmão e empurrando-o, de modo que o irmão Billy Joel disse, “Pára com isso, seu filho da puta, você está vendo, Doby, ela está naquele maldito carro, é o carro dela, olha aquele carro.”

Os três se juntaram e eu fiquei para trás, ainda invisível mas totalmente formado ou talvez eu devesse dizer conformado para o olhar dos homens ao meu redor.

Eu queria vê-la, aquela moça que eles iam matar com seus malditos furadores, enquanto eles andavam devagar, deixando a multidão passar Por eles, um fazendo sinal ao outro para parar, lá estava ela! Tinha chegado a hora.

Olha. Está vendo a limusine preta ali na esquina, e o motorista de cabelo branco abrindo a porta para ela?

Esther. O cabelo, um manto de cachos escuros, cabelo negro, tão negro quanto o meu, e os olhos maiores, e os brancos dos olhos tão brilhantes que pareciam feitos de pérolas, e o longo pescoço branco nu até a elevação dos sei-os sob um casaco pintado, um casaco pintado com as listras de um animal, não para se parecer com o próprio animal, mas para parecer com as listras pintadas de um animal.

Ela nem os notou, aqueles três horrores comuns e visíveis que iam “apagá-la”. A multidão moveu-se e se desviou, abrindo um caminho para ela.

— O que posso fazer? — resmunguei. — Parar todo mundo? Por que ela deve morrer, por que razão? — Eu não queria testemunhar isso.

Ela abriu as portas de vidro da loja e entrou com tanta gente em volta que umas cinco pessoas devem ter avançado atrás dela antes que os Eval conseguissem entrar, e agora eles sabiam que estavam em apuros.

“Jesus, nós vamos ter que fazer isto aqui dentro?”

Hayden queria dizer com isto que ali era um palácio de riquezas, um tesouro de peles e gazes, de couro pintado de todas as cores, e perfume erguendo-se das mesas de vidro como que de altares.

Eles não pareciam tão comuns ali dentro, aqueles homens rústicos, gabolas e escorregadios, que mais pareciam vagabundos de beira de rio, se arrastando para fora junto com os ratos para roubar o que os homens deixavam cair, mas estava tão cheio, mesmo lá dentro, ombro com ombro, um virando a cara para o outro, enquanto as pestanas subiam e desciam para dar privacidade ao olho. E o barulho era alto. Ninguém deu a devida importância — três maltrapilhos seguindo a linda mulher.

E ela, uma jovem rainha de cabelos negros e brilhantes, e casaco pintado, subindo os degraus da loja, o rosto inocente e alegre enquanto estendia a mão para pegar uma longa echarpe preta, uma echarpe bordada de contas, uma coisa bonita e brilhante, e a agarrou com os dedos, pendurada num gancho, uma echarpe cheia de flores escuras bordadas e desenhos cintilantes, linda, como se feita para ela.

“Boa tarde, Srta. Belkin.” Então a rainha tinha um nome, e os comerciantes desta época não eram menos espertos do que os de qualquer outra época.

Mas eu vi que Billy Joel tinha atacado! Naquele único segundo ele tinha apunhalado suas costas delicadas, Hayden a havia atacado pela esquerda, e Doby, tão nervoso quanto Billy Joel, enfiou seu furador pela direita, de forma que os três ferimentos foram feitos ao mesmo tempo, e a vida dentro dela murchou, e a linguagem nela morreu, mas não seu coração. Seus pulmões encheram-se de sangue.

Gênios do crime, esses assassinos baratos. Eles se afastaram imediatamente dela, antes mesmo que ela caísse, não se dando ao trabalho de correr, saindo pela porta antes mesmo que ela cambaleasse até o mostruário de vidro. A echarpe ainda na sua mão direita. A mulher se inclinou.

— Srta. Belkin?

Eu tinha que segui-los. Ela estava morrendo, apoiada no mostruário, como se fosse apenas uma dor passageira. Em poucos segundos ela estaria morta! E eu conhecia os assassinos, e a vendedora nem ao menos sabia que ela estava morrendo.

Eu saí correndo pela porta. Eu sabia que estava empurrando seres humanos para que saíssem da minha frente. Eu os senti. Eu não ia perder os Eval. Então subi.

Por sobre as cabeças da multidão, eu voei, com o corpo formado mas transparente, nada que alguém pudesse notar, e os alcancei rapidamente.

Os Eval tinham-se separado. Mas ninguém naquele novo bloco de centenas de passantes parecia notá-los; para que correr? Billy Joel tinha um sorriso nos lábios, um sorriso alegre.

Eles tinham colocado trezentas pessoas e dez segundos entre eles e o crime.

“Vou matá-los por isto!”, eu ouvi minha voz dizendo. Senti o ar girando dentro de mim como se eu estivesse sólido o bastante para me alimentar dos vapores que subiam da calçada, das máquinas fedorentas, das buzinas barulhentas, da multidão de carne humana.

Venham até mim, roupas iguais às dos meus inimigos, já que sou feito de carne! Eu desci bem na frente de Billy Joel. Agarre o furador. Mate-o. Vi meus dedos fecharem-se em volta do pulso dele. Ele não chegou a me ver direito, só sentiu o osso quebrar. Quando ele gritou, o irmão se virou. Eu enfiei o furador em Billy Joel, tirei-o da cintura dele pelo cabo de madeira e enterrei-o bem fundo por cima da camisa, do jeito que ele o havia enfiado nela, só que diversas vezes.

Atônito, ele cuspiu sangue.

“Morra, seu cão imundo, você matou aquela moça, agora você morre.”

Hayden veio na minha direção, direto no furador, sem nenhum problema, e eu dei três golpes rápidos nele, um deles no pescoço. Pessoas passaram por nós sem mesmo virar a cabeça. Outros estavam olhando para Billy Joel caído no chão.

Agora só faltava Doby e Doby tinha fugido, ele os tinha visto cair e estava correndo o mais rápido que um humano pode correr no meio de uma multidão. Eu estendi o braço e o agarrei pelo ombro...

“Espere aí, homem!”, ele disse para mim. Eu enfiei o furador no peito dele, as mesmas três vezes, para fazer bem feito, e empurrei-o de encontro à parede. As pessoas desviavam de nós, olhando para o outro lado. Ele caiu morto na calçada, e uma mulher praguejou quando pulou por cima da perna esquerda dele.

Agora eu entendia a genialidade do crime deles naquela cidade apinhada de gente. Mas não havia tempo para pensar nisso. Eu tinha que voltar para perto de Esther.

Meu corpo estava formado, eu estava correndo, e tive que ir abrindo caminho, como qualquer ser humano, sólido, de volta às portas de vidro do palácio.

O ar estava cheio de gritos. Homens corriam para dentro do empório de roupas. Eu empurrei para chegar mais perto. Podia sentir meu cabelo negro embaraçado. Podia sentir minha barba. Todos os olhos estavam fixos nela.

Ela saiu, deitada numa maca forrada de branco. Eu vi a cabeça dela caída para o meu lado, seus olhos grandes e vidrados, com aquele branco de pérola tão puro, a boca escorrendo sangue como uma velha fonte. Só um filete.

Homens gritavam com outros para recuarem. Um velho berrava a plenos pulmões, curvando-se ao vê-la. Era o motorista, o guarda-costas, talvez, o homem de cabelos brancos. O rosto dele estava contorcido, as costas curvadas. Ele se inclinou e gritou, ele gritou num dialeto hebraico. Ele a amava. Eu me aproximei dela cautelosamente.

Um carro branco chegou correndo, com cruzes vermelhas pintadas e luzes girando no teto. As sirenes eram indescritíveis. Parecia que os furadores estavam entrando pelos meus ouvidos, mas eu não tinha tempo para me preocupar com minha dor. Ela ainda estava viva, respirando. Eu tinha que contar a ela.

Eles a levaram para dentro daquele carro, erguendo-a bem alto, como uma oferenda para a multidão... Ela entrou pelas portas traseiras, seus olhos procurando alguém, alguma coisa.

Reunindo toda a minha força, eu afastei os outros do meu caminho. Minhas mãos — realmente minhas — bateram na longa janela de vidro do carro branco. Eu olhei pelo vidro. Senti o nariz apertado de encontro a ele. Eu a vi! Seus grandes olhos sonolentos cheios de uma morte sonhadora, eu a vi.

E ela disse alto, eu ouvi, um suspiro erguendo-se como um fio de fumaça.

— O Servo... Azriel, o Servo dos Ossos!

A porta estava aberta. Os homens que cuidavam dela estavam curvados sobre ela.

O que foi, querida? O que foi que você disse?

Não a faça falar.

Ela olhou para mim pelo vidro, e tornou a dizer, eu vi os lábios dela moverem-se. Ouvi a voz dela. Ouvi o pensamento dela. — Azriel — ela murmurou. — O Servo dos Ossos!

Eles estão mortos, minha querida!, eu gritei. Ninguém ao meu redor, espremendo-se tanto quanto eu para vê-la, se importou com o que eu disse.

Ela e eu, nós olhamos um para o outro. Então sua alma e seu espírito arderam por um instante, juntos e visíveis, a forma completa do seu corpo sobre ela, cabelos como asas, o rosto sem expressão ou afastado da terra para sempre, quem pode saber, e então ela partiu, subiu, numa luz ofuscante. Eu me protegi da luz, depois tentei vê-la de novo. Mas ela já tinha desaparecido.

O corpo era um saco vazio.

As portas foram fechadas.

A sirene tornou a ferir os meus ouvidos.

O carro saiu roncando, forçando os outros carros a sair da frente, pessoas se mexeram, suspiraram e resmungaram ao meu redor. Eu fiquei imóvel na calçada. A alma dela tinha partido.

Eu olhei para cima. Joelhos bateram na minha perna. Alguém me pisou com força. Eu estava usando o mesmo tipo de sapato que os meus inimigos. Eu fui quase derrubado do meio-fio.

O carro estava fora da minha vista e os Eval estavam mortos a menos de trinta metros dali, no entanto ninguém sabia disto naquela confusão, de tanta gente que havia, e eu pensei — sem contexto, sem razão — do que se dizia sobre a Babilônia depois que Ciro a conquistou, aquela observação engraçada que o historiador grego Xenofonte tinha feito, ou seria Heródoto, que a Babilônia era tão grande e tão cheia de gente que as pessoas que estavam no centro da cidade levaram dois dias para ficar sabendo que ela havia sido tomada.

Bem, não eu!

Um homem disse, “Você sabe quem era ela?” Isto era inglês, sotaque de Nova York, e eu me virei como se estivesse vivo e fosse responder, só que havia lágrimas nos meus olhos. Eu queria dizer:

“Eles a mataram.” Nada saiu da minha boca, mas eu tinha uma boca e o homem estava sacudindo a cabeça como se estivesse vendo as lágrimas. Meu Deus, me ajude. Aquele homem queria consolar-me. Uma outra pessoa disse:

Aquela era a filha de Gregory Belkin. Aquela era Esther Belkin.

A filha de Belkin...

— ...Templo da Mente.

Templo da Mente de Deus. Belkin.

O que essas palavras significam para mim?

Mestre! Onde está você? Diga seu nome ou apareça! Quem foi que me chamou? Por que eu fui obrigado a testemunhar isto?

— A filhinha de Gregory Belkin, os seguidores da Mente...

Para onde?

Eu comecei a desaparecer. Senti isto de forma terrível e rápida como sempre, tão inexoravelmente como se o Mestre tivesse ordenado a todas as partículas artificiais e reunidas em mim, Voltem agora para o seu lugar. Por um momento eu me agarrei ao turbilhão da matéria, ordenando-lhe que me cobrisse, mas meu grito foi um gemido. Eu olhei para minhas mãos, meus pés, aqueles sapatos imundos, pano, cadarços e sapatos de couro, sapatilhas mais que sapatos, sapatos na calçada:

“"Azriel, fique vivo!”, saiu a voz da minha boca.

— Calma, filho — disse o homem ao meu lado. E ele olhou para mim como se estivesse com pena de mim. Ele ergueu o braço para me abraçar. Eu levantei a mão. Eu vi as lágrimas.

Mas o vento tinha chegado, o vento que chega para todos os espíritos. Eu estava perdendo a sustentação.

O homem estava me procurando mas não conseguia me achar, e ele não sabia por quê, e achava que a confusão era dele.

Então ele e todos os outros — e a cidade enorme — desapareceram também.

Eu agora não era nada, nada.

Eu lutei para ver a multidão lá embaixo, mas não consegui localizar o lugar em que os Eval jaziam mortos sobre o próprio sangue ou então de onde haviam sido levados com o mesmo cuidado que a rainha, com seu cabelo preto, a deusa que tinha morrido olhando para mim. Ela disse, eu ouvi, ela disse, “Azriel, o Servo dos Ossos.” Eu tinha ouvido como um espírito ouve, embora o homem no carro com ela talvez não tivesse conseguido ouvir um murmúrio tão baixo e trágico.

O vento me levou. O vento estava cheio de gemidos das almas, rostos me contemplando, mãos tentando agarrar-me, e dando as costas a tudo isso, como sempre, eu me deixei levar. Eu vi por um breve instante o contorno de minhas mãos; senti a forma dos meus braços e pernas; senti as lágrimas no meu rosto. Sim. Senti isso. Depois sumi.

Para dentro dos ossos, Azriel. Eu estava a salvo.

Então agora você sabe como aconteceu! Sem mestre, levado para ver aquilo, para vingá-la? Por quê? A escuridão caiu sobre mim como uma droga. A salvo, sim, mas eu não queria ficar a salvo; eu queria encontrar o homem que tinha enviado aqueles homens para matá-la.

 

O tempo passou.

Meus sentidos estavam mais aguçados do que habitualmente. Eu sabia que estava prestando atenção. Eu estava lá.

Eu sabia como era o mundo agora, mais ou menos, como sempre. Tenha paciência comigo. Eu sabia o que homens e mulheres sabiam — aqueles que eu tinha visto e tocado nas ruas de Nova York.

Os detalhes causaram uma impressão moral. A emoção aos poucos acompanhou a síntese do conhecimento. Fantasmas não têm que interpretar. Fantasmas não têm que ficar espantados ou chocados.

Mas a mente do fantasma, não tolhida pela carne, pode agregar a si mesma, indiscriminadamente e talvez infinitamente, a soma do que é partilhado ou valorizado pelas mentes humanas mais próximas.

Acordando mais uma vez no escuro, eu percebi o geral e o espetacular — que estávamos chegando ao fim do século vinte, daquilo que os homens chamam de era comum, que combustível natural e eletricidade gerada eram indispensáveis aos métodos diários de comer, beber, dormir, comunicar-se, viajar, construir casas, brigar, que micromáquinas com circuitos fantásticos podiam armazenar informações em abundância, e que quadros em movimento em que as pessoas apareciam e falavam podiam ser transmitidos através de ondas ou de fibras delicadas, mais preciosas do que fibra de vidro.

Ondas. O ar estava cheio de ondas. Cheio de vozes falando tanto em particular quanto em público — por telefone, através de rádio e televisão. O mundo agora estava tão cercado de vozes quanto de ar.

E a terra era mesmo redonda. Nem uma só milha dela permanecia sem dono, sem nome ou não mapeada. Nenhuma parte dela ficava fora do alcance das comunicações porque as ondas misteriosas de telefone, rádio e televisão podiam ser lançadas no espaço por meio de satélites e voltar à terra em qualquer lugar. Às vezes as imagens e as vozes da televisão eram de pessoas e acontecimentos que estavam ocorrendo no momento mesmo da transmissão: algo conhecido como TV ao vivo.

A química tinha avançado como nunca, produzindo através de extração, purificação, análise e novas combinações todos os tipos de novas substâncias, materiais e drogas. O próprio processo de combinação havia sido transformado de modo que agora havia mudança física, mudança química, reação em cadeia, reação química e fusão, para citar apenas alguns. Materiais haviam sido decompostos e transformados em novos materiais e o processo não tinha limites.

A ciência tinha ultrapassado os sonhos dos alquimistas.

Os diamantes tinham aberto caminho até a ponta de brocas, no entanto as pessoas ainda os usavam como enfeites e eles valiam milhões de dólares, que eram, aparentemente, a moeda mais importante, dólares americanos, embora o mundo estivesse cheio de moedas e línguas, e pessoas em Hong Kong falassem com pessoas em Nova York simplesmente pressionando uns poucos botões. A lista de materiais sintéticos e produtos subseqüentes tinha evoluído para além da capacidade de memória ou compreensão do homem comum, de modo que quase ninguém podia definir para você os componentes da camisa de náilon que estava usando ou da calculadora de plástico em seu bolso.

É claro que algumas conclusões — até mesmo para mim — eram inevitáveis. Um carro ou um avião dependente da combustão de combustível natural é mais capaz de explodir do que de andar para a frente. Bombas podem ser enviadas sem piloto, de um país a outro, para destruir até as cidades maiores, com os mais altos edifícios. Quase que no mundo inteiro o mar tinha um gostinho de óleo.

Nova York ficava bem ao norte do equador, isso era óbvio, e poder-se-ia dizer que era a capital do mundo ocidental.

O mundo ocidental. Foi ali que eu me vi. E o que é o mundo ocidental? Aparentemente, o mundo ocidental era o legado cultural do helenismo de Alexandre, o Grande, seus conceitos de justiça e correção infinitamente ampliados e complicados, mas nunca realmente subvertidos pelo cristianismo de vários tipos — da mais crua e escandalosa aceitação mística de Jesus às mais densas seitas teológicas que ainda discutem acerca da natureza da Trindade, isto é, se há ou não três pessoas em um único Deus. Não havia quase nenhum pedaço do mundo ocidental que não tivesse sido enriquecido e revigorado por um judaísmo imensamente criativo e implacavelmente espiritual. Cientistas, filósofos, médicos, negociantes e músicos judeus estavam dentre os mais celebrados desta era.

A aspiração à excelência era o que se esperava, da mesma forma que na Babilônia. Mesmo por parte dos desesperados.

A lei natural e a lei criada pela razão tinham-se tornado valores comuns, a lei revelada e a lei herdada, por outro lado, tinham-se tornado suspeitas e sujeitas a discussão, e todos os homens agora eram "iguais". Isto é, a vida de um camponês era tão preciosa quanto a vida da rainha da Inglaterra e do seu primeiro-ministro.

Tecnicamente, legalmente, não havia escravos.

Poucos tinham certeza quanto ao sentido da vida, tão poucos quanto na época em que eu vivi.

Uma vez, quando era menino, eu li o seguinte lamento em sumério: “Quem algum dia soube dos desígnios do céu?” Qualquer homem ou mulher das ruas de Nova York poderia ter pronunciado as mesmas palavras.

Este mundo ocidental, este legado do helenismo, mesclado com o judaísmo e o cristianismo sempre em evolução, tinha florescido espetacularmente nas regiões setentrionais do planeta, tanto na Europa quanto na América, utilizando, de certa forma, a tenacidade e a ferocidade daqueles habitantes das matas e das estepes, mais altos, mais peludos e normalmente mais louros, que não aprenderam a ser humanos no Éden, e sim em terras onde depois do verão vinham o frio e a neve, ferozes.

Todo o mundo ocidental, inclusive seus recantos mais tropicais, vivia agora como se o inverno pudesse chegar a qualquer momento, e isolá-lo ou mesmo destruí-lo.

Das cidades próximas à calota polar ao norte, até as margens das florestas do Peru, as pessoas viviam em enclaves planejados e mantidos por máquinas, microchips e microbiologia, cercados por excedentes de energia, combustível, objetos de decoração, e vestuário, e comida.

Ninguém queria sofrer de escassez de alguma coisa, nunca mais, e isto incluía informação.

Armazenamento. Arquivos. Bancos de dados. Disco rígido, disco flexível, fita de backup, hard copy — tudo que valesse alguma coisa era de certa forma duplicado e guardado.

Era basicamente a mesma teoria que havia criado os arquivos de placas de argila na Babilônia, que eu havia estudado. Não era difícil de entender.

Mas apesar de todos esses incríveis avanços, no meio dos quais Esther Belkin tinha me atraído para ela como um ímã, e mesmo agora parecia atrair minha consciência para ela, ainda havia o “Velho Mundo”.

Siga a corrente em direção aos pântanos, às montanhas, aos desertos.

“O Oriente” era como o chamavam, ou o Terceiro Mundo, ou os países Subdesenvolvidos, ou os Países Atrasados, ou as Regiões Primitivas — e isto cobria continentes em que o beduíno, usando as eternas roupas brancas, conduzia o seu camelo através da tempestade de areia, feliz como sempre em viver no meio daquela desolação banhada pelo sol. Só que agora talvez ele levasse consigo uma televisão a bateria, e uma lata de um produto químico que produzia fogo, chamado Sterno, de modo que quando armasse sua tenda, ele pudesse ouvir o Corão lido na televisão, enquanto sua comida era aquecida sem o uso da madeira ou do carvão.

Nas plantações de arroz, nos campos da índia, nos pântanos do Iraque, em cidades em todos os lugares do mundo, homens e mulheres se curvavam para colher o grão como haviam feito desde o início dos tempos.

Enormes conjuntos urbanos modernos tinham surgido no meio dos milhões de habitantes da Ásia, no entanto a grande maioria de tribos, agricultores, artesãos, mercadores, mães, sacerdotes, mendigos e crianças permanecia fora do alcance dos avanços, da abundância, da medicina e do saneamento do mundo ocidental.

Saneamento era a palavra-chave.

Saneamento envolvia a purificação química dos dejetos humanos e industriais, a purificação da água de beber e de tomar banho — a destruição da sujeira em todas as suas formas e a manutenção de um meio ambiente em que se pudesse nascer, procriar, crescer e morrer — dentro da máxima segurança, contra qualquer tipo de contaminação humana, industrial ou química.

Nada era mais importante do que o saneamento. As pestes tinham desaparecido da terra graças à saúde pública.

No “Ocidente”, a saúde pública era aceita com toda a naturalidade; no “Oriente”, a saúde pública era encarada com desconfiança, ou as pessoas eram simplesmente numerosas demais para seguirem todos os hábitos de higiene exigidos por ela.

A doença imperava nas florestas; nos pântanos; nos bolsões das grandes cidades ou no campo, onde os camponeses, os operários, os fellaheen, ainda viviam como sempre haviam vivido.

Fome. Havia tanta abundância e no entanto havia fome. Havia comida jogada no lixo nas ruas de Nova York e havia gente morrendo de fome na Ásia, que os programas de televisão mostravam. Era uma questão de distribuição.

Realmente, este tipo de organização no meio de toda essa mudança era o mistério moderno — que tanta coisa pudesse acontecer e que tanta coisa pudesse permanecer igual.

Em toda parte havia dramáticos contrastes que podiam confundir e deleitar os olhos. Os homens santos da índia andavam nus ao lado dos automóveis, nas ruas apinhadas de Calcutá. As pessoas no Haiti deitavam no chão, morrendo de fome, enquanto viam os aviões passarem no céu.

O rio Nilo atravessava a metrópole do Cairo, onde os prédios de aço e vidro eram tão altos quanto os de Manhattan, entretanto as ruas estavam apinhadas de homens e mulheres vestindo camisolões de algodão, brancos ou pretos, tão simples quanto as roupas usadas pelos israelitas quando o faraó permitiu que o povo partisse.

As pirâmides de Gizé permaneciam como sempre, só o ar ao redor delas é que estava poluído pela fumaça dos automóveis e a cidade moderna estendia-se quase até os pés delas.

A pouca distância de prédios refrigerados havia bolsões de selva onde os homens não sabiam nada a respeito de Jeová, Alá, Jesus ou Shiva, ou de ferro, cobre, bronze ou ouro. Eles caçavam com lanças de madeira e veneno de répteis, espantando-se de vez em quando com a visão de grandes escavadoras mecânicas derrubando a floresta que era o mundo deles.

Um rebanho de cabras nas montanhas da Judéia ainda era exatamente igual a um rebanho de cabras na época de Ciro da Pérsia. Pastores cuidando de ovelhas do lado de fora da cidade de Belém ainda eram exatamente iguais aos dos tempos de Jeremias, o Profeta.

Embora Oriente e Ocidente se comunicassem e interagissem continuamente, de alguma forma cada um resistia ao outro. Os xeques do deserto, ricos por causa do petróleo descoberto sob suas areias, ainda usavam seus turbantes e vestes enquanto viajavam em seus automóveis. Uma grande quantidade de mulheres no mundo ainda vivia quase que inteiramente dentro de casa e só andava na rua com o rosto coberto.

Na cidade de Nova York, capital do Ocidente e cidade preferida pelos mais inteligentes e poderosos, a pessoa comum era ao mesmo tempo inteiramente confiante e inteiramente ignorante em relação à “ciência”.

Que pessoa, em qualquer parte do mundo, sabia o significado exato de código binário, semicondutor, tríodos, eletrólito ou raio laser?

Nos altos escalões, uma elite tecnológica com os poderes de um sacerdócio lidava com o invisível com a mais perfeita fé: íons, nêutrons, raios gama, luz ultravioleta e buracos negros no espaço.

Ícones brilhavam para mim quando despertei, brilhantes como os olhos de Esther quando ela morreu.

“Servo dos Ossos, ouça”, ela poderia ter dito. “Servo dos Ossos, venha, veja.”

Todo o mundo material era meu para explorar, conhecer, sem pressa e sem medo, enquanto eu dormia, lamentando por ela, e zangado, zangado com seus assassinos.

Na invisibilidade e no silêncio, eu vi um homem estacionado na esquina da Cinqüenta e Cinco com a Quinta, falando de um telefone pequeno dentro do carro, em alemão, com um funcionário dele na cidade de Viena.

Uma mulher dentro de um prédio na cidade de Atlanta falava vinte e quatro horas por dia diante de uma câmera, a respeito do tempo no mundo.

Esther Belkin, a quem eu havia perdido, era chorada por milhares de pessoas que jamais a haviam conhecido, sua história transmitida para todos os países que podiam receber a Cable News Network, ou, como era mais conhecida, CNN. Seguidores do internacional Templo da Mente de Deus, ao qual ela mesma não pertencera, choravam por ela.

Seu padrasto, Gregory Belkin, um homem robusto, de altura considerável, o fundador do Templo, chorou diante das câmeras e falou de cultos, terroristas e conspirações. “Por que querem nos ferir?”, ele disse. Seus olhos eram negros e brilhantes, seu cabelo cortado bem curto mas tão grosso quanto o dela tinha sido, e sua pele tinha quase a cor do mel sob o sol.

A mãe de Esther fugiu do público. Enfermeiras vestidas de branco levaram rapidamente a Sra. Belkin, enquanto os repórteres gritavam. Com o cabelo longo de uma garota, e mãos finas e suplicantes, ela parecia pouco mais velha que a filha. Membros do judiciário e funcionários eleitos condenaram a violência dos tempos.

E os tempos eram universalmente violentos. De fato, a violência agora vinha como qualquer outro bem de consumo, em todos os tamanhos e formas.

Assalto, estupro e agressão eram rotina, se não epidemia, sob uma capa de civilização e paz. Pequenas guerras organizadas estavam sempre em desenvolvimento. Pessoas lutavam até a morte na Somália, no Afeganistão, na Ucrânia. As almas dos mortos recentes cobriam a terra como fumaça.

O mercado de armas era negro, branco, caótico, interminável. Pequenos países em guerra competiam com nações maiores e mais poderosas para comprar legal ou ilegalmente os armamentos e explosivos de impérios que desmoronavam. Nações poderosas tentavam impedir a proliferação de mísseis, granadas, balas e latas de gás venenoso, enquanto elas próprias continuavam a desenvolver bombas nucleares que podiam destruir a terra.

As drogas eram algo crítico para as pessoas. Todo mundo falava de drogas.

Drogas curavam. Drogas matavam. Drogas ajudavam. Drogas prejudicavam.

Havia tantos tipos de drogas e para tantas finalidades que ninguém conseguia entender o significado da simples multiplicidade delas.

Em um único hospital de Nova York, o tamanho do estoque de drogas que salvavam vidas diariamente através de inoculação, injeção, alimentação parenteral, ou por ingestão oral estava quase que além da capacidade humana de contar. No entanto, um sistema informatizado mantinha um controle perfeito delas.

No mundo inteiro, os chefões do crime brigavam pelo tráfico de drogas — os meios para processar, distribuir e vender cocaína e heroína —, produtos químicos que tinham como único objetivo produzir nos viciados uma euforia ou uma calma artificiais.

Cultos. Os cultos eram motivo de obsessão e medo. Os cultos eram aparentemente organizações religiosas não autorizadas, isto é, organizações às quais as pessoas pertenciam, jurando obediência geralmente a um líder de cuja moral e propósitos outros não se sentiam seguros. Os cultos podiam surgir, aparentemente do nada, em torno da figura de um único homem — Gregory Belkin. Ou os cultos podiam surgir a partir de cisões dentro de grandes religiões organizadas, formando seitas fanáticas.

Os cultos existiam para a paz e para a guerra.

A morte de Esther Belkin trouxe à baila a discussão acerca dos cultos.

A toda hora o rosto dela aparecia na tela da televisão.

Ela própria, que não era membro de nada, foi associada a tudo — por aqueles que eram contra o governo, contra Deus, contra a riqueza.

Será que os membros do culto do pai tinham realmente matado Esther?

Uma vez ela própria tinha dito em particular que o Templo da Mente tinha dinheiro demais, poder demais, casas demais no mundo inteiro. Ou teriam sido os inimigos de Gregory Belkin e do templo dele que procuravam atingir o pai através da morte de Esther, para avisar a ele e seus poderosos asseclas que sua organização tinha se tornado grande demais e perigosa demais, mas para quem?

Os cultos podiam ser liberais, radicais, reacionários, conservadores.

Os cultos podiam fazer coisas terríveis.

Eu divaguei, observei, prestei atenção; eu sabia o que as pessoas sabiam.

Era um mundo de impérios, nações, países e gangues; e a menor das gangues podia dominar as telas de televisão do mundo inteiro com uma única explosão bem planejada. Os noticiários falariam o dia inteiro sobre o líder de cinquenta com a mesma facilidade com que falariam sobre o líder de milhões.

Os inimigos eram beneficiários da mesma investigação democrática e competitiva feita com as vítimas.

Os rostos dos Eval — Billy Joel, Doby e Hayden— ganharam destaque, brilhando com a mesma intensidade que o de Esther nas telas de televisão por alguns segundos. Esses homens que tinham assassinado Esther Belkin pertenceriam a algum movimento secreto? As pessoas falavam dos “ruralistas” caipiras, com suas cercas de arame farpado e seus cães ferozes, que suspeitavam de qualquer tipo de autoridade. Conspiração. Podia estar em qualquer lugar, sob qualquer forma.

E havia também os Cristãos Apocalípticos, que tinham mais motivos do que nunca para dizer que o Dia do Juízo Final estava próximo. Será que os irmãos Eval tinham vindo de alguma organização desse tipo?

Gregory Belkin, o padrasto de Esther, falava com voz macia e persuasiva de conspirações para prejudicar todas as pessoas que acreditavam em Deus. A inocência de Esther era significativa e clamava aos céus. Terroristas, fanáticos — estas palavras circulavam o breve piscar do rosto e do nome de Esther.

O noticiário sob todas as formas — impresso, transmitido por rádio ou televisão, informatizado via internet — era contínuo, alarmante, profético, fatalista, detalhado, ridículo, às vezes de propósito, às vezes sem querer.

Como eu disse, qualquer fantasma poderia ter percebido essas coisas.

A minha pergunta era por que eu estava pensando seja lá no que fosse? Por que acordar do meu sono profundo, uma quase-morte, sempre uma quase-morte, e me ver caminhando no meio de Billy Joel, Hayden e Doby Eval — uma testemunha súbita e horrorizada do crime deles?

Qualquer que fosse o caso, eu tinha perdido momentaneamente o gosto por simplesmente andar sem rumo, simplesmente existir, simplesmente odiar.

Eu queria prestar atenção. Eu queria fazer uso completo da minha mente não estorvada pela carne e jogada na eternidade, uma mente que vinha ganhando força a cada despertar, levando de volta para a escuridão não apenas experiência mas também emoção, e possivelmente uma certa determinação.

Inevitavelmente, tratava-se de um Mestre que poria em ordem tudo aquilo através de suas respostas, suas reações, a vitalidade da sua vontade.

Mas uma questão bem específica me atormentava. Sim, eu estava de volta e queria estar de volta. Mas eu não havia feito coisas para me certificar de que nunca mais seria trazido de volta?

Se eu quisesse, acho que conseguiria lembrar-me do que havia feito. Esquecer o mundo e toda a sua pompa e refletir por um momento. Eu era Azriel. Azriel podia lembrar-se do que tinha feito.

Eu tinha assassinado mestres.

Se eu quisesse, poderia lembrar-me de mais magos mortos do que os que já descrevi aqui. Poderia sentir de novo o cheiro do acampamento dos mongóis, couro, elefantes, óleo perfumado — luzes tremeluzindo sob a tenda de seda, o tabuleiro de xadrez virado e pequeninas figuras de ouro e prata rolando sobre um tapete estampado de flores.

Gritos de homens. Destruam-no! Ele é um demônio, levem-no de volta para os ossos!

Uma série de janelas em Bagdá dando para uma batalha. De volta para os ossos! Demônio do inferno. Um castelo perto de Praga. Um aposento gelado no alto dos Alpes. E talvez até mais — mesmo depois da iluminação a gás encantadora refletindo no papel de parede florido do quarto do feiticeiro em Paris.

Este servo não serve mais!

Sim, eu tinha provado a mim mesmo e a eles que podia matar qualquer mago. Então onde estava a consciência astuta e dissimulada que tinha me trazido aqui para esta manifestação de poder? Oh, eu gostaria de poder afirmar que odiava estar consciente de novo e renegar a vida e tudo o que ela implicava, mas não podia fazer isso. Não podia esquecer os olhos de Esther, nem a linda vitrine da Quinta Avenida, nem o momento em que o calor subiu pela sola dos meus sapatos e quando o homem, o homem amável e alheio ao que estava acontecendo, me abraçou!

Eu estava cheio de curiosidade e livre! Apesar de estar ligado a esses estranhos acontecimentos, nenhum Senhor me dava ordens.

Esther me conhecia, mas não tinha me chamado. Teria sido alguém a mando de Esther, alguém com quem eu tinha falhado de forma trágica?

Passaram-se duas noites em tempo real antes que eu compreendesse que estava de novo acordado, e movendo-me através do ar: o anjo poderoso, o anjo mau, quem sabe?

Eis o que vi:

 

Esta era uma cidade próxima, considerando-se a outra. O carro que se movia no meio da chuva era o mesmo que tinha levado Esther para o lugar em que os Eval a cercaram com seus furadores. Outros carros o acompanhavam, cheios de guardas cujos olhos vasculhavam prédios escuros e desertos.

A procissão era furtiva, no entanto cheia de autoridade.

Através da chuva, eu podia ver as torres cintilantes da rua onde ela havia morrido. Imponente como Alexandria ou Constantinopla, esta dura capital do mundo ocidental, Nova York — em todo o seu ávido esplendor nuclear. No entanto, os seus altos edifícios me faziam lembrar das armas que os Eval levavam. Duras e muito afiadas.

O homem no carro estava muito orgulhoso do carro, orgulhoso dos guardas que viajavam com ele, orgulhoso do seu elegante paletó de lã e do corte do seu cabelo grosso e cacheado.

Eu me aproximei para vê-lo através do vidro fume: Gregory Belkin, padrasto dela, fundador do Templo da Mente de Deus, um homem rico. De uma riqueza que suplantava os sonhos dos reis de antigamente, porque eles não podiam voar em tapetes mágicos.

O carro? Mercedes-Benz, e do tipo mais fora do comum, feito a partir de um pequeno sedã e alongado por três partes perfeitamente soldadas e estofadas, de modo que tinha duas vezes o tamanho dos outros carros, brilhante e negro, deliberadamente glamouroso, como se fosse feito de obsidiana e polido a mão.

Ele passou por vários quarteirões antes de parar, o motorista atento a um erguer da mão de Belkin.

Então este orgulhoso sumo sacerdote ou profeta ou o que quer que ele se intitulasse saltou para a iluminação brilhante do poste de luz corno se quisesse que ela realçasse seu rosto jovem e bem barbeado, seu cabelo bem aparado na nuca como o de um soldado romano, e no entanto suavemente cacheado apesar do comprimento.

Ele caminhou por toda a extensão do quarteirão sujo e miserável, sozinho, passando por lojas sinistras, tapadas com tábuas, por placas escritas em hebraico e em inglês, até chegar no lugar que pretendia visitar, seus guardas vasculhando a noite com os olhos na frente e atrás dele, as gotas de chuva caindo como jóias nos ombros do seu sobretudo.

Tudo bem. Era ele o Mestre? Se era, como eu podia não saber? Eu não gostava dele. Quando estava semi-adormecido, eu o tinha visto chorar por Esther e falar em conspirações, e não tinha gostado dele.

Por que eu estava tão perto que podia tocar no rosto dele? Ele era bonito, isso ninguém podia negar, e jovem, ombros quadrados, alto como um norueguês, embora mais moreno e com olhos negros.

Você é o Mestre?

A Mente das Mentes, era assim que os repórteres cínicos se referiam a ele, àquele bilionário Gregory Belkin. Agora ele revia em sua mente os discursos mais recentes que havia feito diante das portas de bronze do seu Templo de Manhattan, “O que mais temo é que eles não sejam ladrões e que o colar não signifique nada para eles. E a nossa igreja que eles querem prejudicar. Eles são o mal.”

Colar, eu pensei, eu não tinha visto nenhum colar.

Os guardas que vigiavam Gregory de carros próximos eram seus “seguidores”. Que igreja de bondade e paz era esta? Eles usavam revólveres, carregavam facas, e ele próprio, o profeta, carregava um pequeno revólver, muito brilhante, como o seu carro, bem no fundo do bolso esquerdo do casaco.

Ele era como um rei que está acostumado a encenar cada gesto diante de uma platéia grandiosa, mas não me viu observando-o. Ele não tinha nenhuma percepção de um fantasma colado nele como um deus pessoal.

Bem, eu não era o deus desse homem. Não era o servo desse homem. Mas era seu observador, e precisava saber por quê.

Ele parou defronte da casa de tijolos. Ela era cheia de janelas de vidro, todas cobertas. Tinha telhados pontudos por causa da neve. Era como milhares, possivelmente milhões, de outras casas nesta mesma parte da cidade. As proporções deste tempo e lugar estavam mesmo muito além da minha medida.

Eu estava fascinado. Seus sapatos perfeitos de couro negro estavam salpicados de chuva. Por que ele estava nos trazendo aqui?

Ele desceu um degrau e atravessou uma passagem. Uma luz brilhava à frente dele. Ele tinha a chave do portão. E depois a chave da porta que ficava entre duas janelas iluminadas no andar térreo da casa.

Nós entramos, ele e eu. Eu senti o calor me cercar.

O teto sobre a cabeça. A noite ficara lá fora. Um velho estava sentado defronte a uma escrivaninha

. Cheiro de seres humanos, doce e bom. E tantas outras fragrâncias preciosas, tantas que eu não podia saborear e nem identificar.

Todos os fantasmas e deuses e espíritos adoram cheiros, como eu já lhe disse. Eu estava faminto, e quase me embriaguei com os cheiros daquele lugar.

Eu sabia que estava ali.

Eu estava tomando forma lentamente. Mas por ordem de quem? Decisão de quem? Eu estava adorando.

Nenhuma das velhas palavras saiu dos meus lábios; eu estava virando matéria. Isto estava acontecendo, como tinha acontecido em Nova York quando eu cacei os assassinos dela. Eu senti. Senti-me envolvido pelo corpo bom, o corpo de que eu gostava, embora não soubesse ao certo o que aquilo queria dizer.

Agora eu sei: eu me tornei visível e sólido no meu próprio corpo, ou o corpo que você está vendo agora, a forma que eu tinha quando estava vivo. Ninguém mais sabia disso ali. Eu fiquei atrás da estante, observando.

Gregory Belkin tinha escolhido para si mesmo o meio do aposento, debaixo de uma lâmpada presa num fio esfarrapado. E o velho na escrivaninha, ele não podia ver-me de forma alguma.

A cabeça do velho estava abaixada. Ele usava o solidéu de seda preta dos judeus ortodoxos. Havia uma luminária verde sobre a escrivaninha, que lançava uma luz suave e dourada.

Sua barba e seu cabelo eram brancos como a neve e muito puros e lindos, e dois cachos longos emolduravam-lhe o rosto. Seu couro cabeludo era cor-de-rosa sob o cabelo que rareava, mas a barba era cheia e bonita.

Os livros nas paredes eram em hebraico, árabe, aramaico, latim, grego, alemão. Eu podia sentir o cheiro de pergaminho e de couro. Eu inspirei esses perfumes e por um momento pareceu que minha memória ia ganhar vida, ou que tudo o que eu tinha tentado matar ia sair vivo da memória.

Mas esse velho também não era o Mestre. Eu soube disso imediatamente.

O velho não percebeu a minha presença, de forma alguma, ficou simplesmente olhando para o homem mais jovem que tinha acabado de entrar, o homem forte que se colocou um tanto formalmente diante do mais velho, e tirou as luvas cinzentas e macias, tendo o cuidado de colocá-las no bolso direito do casaco. Ele deu um tapinha no bolso esquerdo. O revólver estava no bolso esquerdo. O pequeno revólver mortal. Eu tive o desejo de ouvi-lo disparar. Mas ele não estava ali para atirar.

O aposento tinha fileiras e fileiras de prateleiras que me separavam do velho, mas eu conseguia enxergar por cima dos livros. Senti cheiro de incenso e experimentei uma onda de prazer. Senti cheiro de ferro, ouro, tinta. Será que os ossos estariam ali?

O velho tirou os óculos, que eram do tipo mais simples, redondos, de aro prateado, flexíveis e frágeis, e olhou de modo bem direto para o seu visitante, sem se levantar da cadeira.

Os olhos do velho eram muito claros, o que chamou minha atenção, como sempre acontece, e eu os achei muito bonitos — olhos que se pareciam mais com água do que com pedra. Mas eles eram pequenos, e fracos por causa da idade, e acusavam, antes de mais nada, das profundezas do rosto coberto de rugas.

Mais forte, você está ficando mais forte a cada momento. Já está quase totalmente visível.

Eu não conseguia ver todo o rosto do homem mais jovem. Eu deslizei ainda mais para a esquerda para me esconder, e fiquei inteiro enquanto permanecia atrás da estante, calculando a minha altura como mais ou menos a mesma que a dele.

O casaco preto dele estava quase todo molhado de chuva, tinha uma costura reta que descia pelas costas e, perto do pescoço, encostada nos cachos ne-gros do cabelo, havia uma echarpe de seda branca, tão fina quanto a echarpe que Esther agarrara ao morrer, uma echarpe que provavelmente ainda estava na loja onde ocorreu o crime. Eu tentei me lembrar da echarpe que ela fez questão de agarrar antes de morrer, sem entender o significado daquele último gesto, se é que havia algum significado nele. A echarpe que ela desejara era preta, mas brilhava, coberta de contas. Acho que já lhe contei isto. Mas agora eu estou de novo com eles. Tenha paciência comigo.

O velho falou em iídiche:

— Você matou sua filha.

Eu fiquei perplexo. Então nós fomos direto ao assunto?

O amor que eu sentia por ela me atormentava, como se ela própria tivesse chegado e enterrado as unhas nas minhas costas e dito, Não se esqueça de mim, Azriel, só que ela jamais, jamais teria feito uma coisa dessas. Ela havia morrido com sua humildade característica; ao dizer o meu nome, foi com admiração.

Aquilo era terrível demais para ver de novo, a morte dela.

Anda, voa, espírito. Dê as costas a todos eles — à morte dela e às acusações do velho, a esta sala fascinante com suas cores e aromas atraentes. Solte-se, espírito. Deixe-os lutar para alcançar a Escadaria do Céu sem a sua intervenção.

Afinal de contas, será que as almas precisam mesmo do Servo dos Ossos para arrastá-las para o purgatório?

Eu não ia a parte alguma. Eu queria saber o que o velho estava querendo dizer.

O homem mais jovem simplesmente riu.

Uma gargalhada sem graça, aborrecida, que não demonstrava desrespeito mas que vinha de alguém que não queria ser obrigado a responder imediatamente àquelas palavras. O aceno impaciente não causou surpresa. Ele sacudiu a cabeça.

Eu queria andar em volta dele, olhar para ele, mas era tarde demais para isso, eu sabia que estava com o corpo formado, que estava em pé, que minhas mãos tocavam nos livros que estavam na prateleira diante de mim, e deslizei bem devagar para a esquerda, de modo que a parede de livros me ocultasse, evitando que o velho me visse, embora ele não desse nenhum sinal de que havia percebido a minha presença.

O homem mais moço suspirou.

— Rabi, por que eu mataria a filha de Rachel? — O homem mais jovem perguntou em iídiche. — Por que eu mataria a única filha que tive? — A língua não era fácil para ele. — Esther, minha linda Esther — ele disse, com uma voz forte e cheia de sofrimento. Ele não gostava de falar iídiche. Queria a familiaridade do inglês.

— Mas você a matou — o velho respondeu. Aquilo saiu dos lábios ressecados dele com ódio. Ele agora falava em hebraico: — Você é um idólatra, um assassino, você matou sua filha. Mandou que a matassem. Você carrega a maldade em você. Você fede a maldade!

Eu fiquei um tanto abalado. Senti fisicamente o espanto pelo ódio do velho.

O mais jovem fez de novo o jogo da paciência, mexendo de leve com os pés, sacudindo a cabeça como se estivesse lidando com um profeta seminu que não parava de berrar na sua porta.

— Meu mestre — Gregory Belkin murmurou em inglês —, meu modelo. Meu avô. E você culpa a mim pela morte dela?

Isto deixou o velho furioso.

Ele também falou em inglês:

— O que você quer de mim, Gregory? Você nunca veio a esta casa sem um motivo. — A fúria dele era calma. Este velho não tomaria nenhuma providência com relação à morte da moça. Ele estava sentado na sua escrivaninha, agarrado a um livro aberto. Letras pequeninas em hebraico.

Eu tornei a sentir a perda dela, como se tivesse levado um chute e quisesse dizer em voz alta, “Velho, eu vinguei a morte dela, matei os três assassinos com o furador do líder. Matei todos eles. Eles morreram na calçada”.

Senti como se só eu naquela sala cultuasse a memória dela. Nenhum deles lamentava a sua morte, apenas trocavam acusações.

Por que você está deixando isto acontecer, Azriel? Chorar por quem você não conhece é fácil. Talvez seja até excitante. Mas estar sozinho? Isso é estar vivo. E você está, sem a menor dúvida, sozinho aqui e em segredo.

— Você me parte o coração, rabi — Gregory disse em inglês. Obviamente, a língua usada na América era muito mais fácil para ele. O corpo todo dele arriou com seu suspiro de desespero. Ele tinha as mãos enterradas nos bolsos. Seu corpo ainda estava gelado por causa do frio lá fora, e a sala em si estava abafada. Eu achei que ele estava mentindo, e dizendo a verdade.

Eu me nutri do cheiro deles, deixando de lado a cera, o pergaminho, todos os velhos e confiáveis cheiros, eu cheirei os homens — a pele viva e quente do velho, tão clara e fina, tão livre de doenças que tinha ficado sedosa na velhice, pura como os ossos do seu corpo vivo sob ela, que sem dúvida estavam tão quebradiços agora que se partiriam ao menor golpe.

O homem jovem estava imaculadamente limpo e usava os perfumes mais finos e sutis. O perfume subia dos poros de sua pele, dos cachos de seu cabelo, das roupas que usava, uma mistura sutil de diversos aromas. A fragrância de um monarca moderno.

Eu cheguei mais perto do mais jovem. Eu estava agora a meio metro dele, atrás e à sua esquerda. Eu vi seu perfil. Sobrancelhas grossas, macias e escovadas e bem-feitas, feições bonitas, bem proporcionadas; nós diríamos que ele era abençoado. Não tinha nenhuma cicatriz ou marca. Algo que eu não sabia definir o tornava mais magnífico e poderoso. Quando ele sorria, o que fazia agora de modo triste e suplicante, seus dentes eram de um branco perfeito.

Seus olhos eram grandes, como os dela tinham sido, mas não tão lindos. Ele ergueu as mãos, outra forma de implorar, discreta, calma. Os dedos dele eram finos e a pele macia; ele tinha sido alimentado do mesmo modo que ela, como se o mundo inteiro, durante toda a sua vida, tivesse sido o seio de sua mãe. O que faltava a ele? Não consegui encontrar nele uma fratura ou marca, apenas o indefinível realce.

Então eu compreendi o que era. Ele tinha a beleza dos jovens, mas já passava dos cinqüenta anos! Que coisa incrível aquela. Que coisa fantástica o modo como a idade havia realçado suas virtudes físicas e tornado o brilho do seu olhar mais forte.

— Fale comigo, Gregory Belkin — disse o velho com desprezo — e diga-me por que você veio, ou então saia já da minha casa.

Mais uma vez eu fiquei atônito com o ódio do velho.

— Está bem, rabi — o homem mais jovem respondeu, como se o tom e a maneira de falar não fossem novidade para ele.

O velho esperou.

— Eu tenho um cheque no bolso, rabi — Gregory disse. — Vim aqui para dá-lo a você para o bem de toda a congregação.

Eu compreendi que ele se referia aos hebreus do velho, dos quais ele era o rabino, o tzadik, o líder.

Flashes cruzaram a minha memória, como pedaços recortados de vidro — lembranças do meu Mestre Samuel, morto há muito tempo. Mas elas não fizeram nenhum sentido e eu as abandonei. Lembre-se de que àquela altura eu não me lembrava de nada do meu passado. Nada. Mas eu sabia o que aquele homem era — venerável, poderoso no terreno sagrado, talvez um mago, mas se ele era um mago, por que não havia percebido a minha presença?

— Você tem sempre um cheque para nós, Gregory — o velho disse. — Os seus cheques chegam ao banco sem você. Nós aceitamos o seu dinheiro em homenagem à sua falecida mãe e ao seu falecido pai, que era meu amado filho. Nós aceitamos o seu dinheiro pelo que ele pode fazer por aqueles que eles amaram um dia, o seu pai e a sua mãe. Volte para o seu Templo. Volte para os seus computadores. Volte para a sua igreja universal. Vá para casa, Gregory! Segure a mão de sua mulher. A filha dela foi assassinada. Chore junto com Rachel Belkin. Será que ela não tem direito a isto?

O homem mais jovem fez um gesto com a cabeça como que para dizer que as coisas ali não iam melhorar mesmo, e então inclinou a cabeça para a direita e ergueu os ombros respeitosamente e tornou a falar:

— Eu preciso de um favor seu, rabi — ele disse. Apesar de direto, o pedido foi feito com jeito.

O velho levantou as mãos e sacudiu os ombros. Ele mudou de posição sob a luz da lâmpada elétrica e suspirou. Seus lábios eram cheios para os lábios de um velho. Um fio de suor apareceu no alto de sua cabeça.

Atrás dele havia mais estantes de livros. A sala estava tão cheia de livros que parecia feita de livros. As cadeiras eram grandes, todas forradas de couro e cercadas de livros. Havia rolos de pergaminho e rolos em sacos e rolos de couro.

Afinal de contas, não se pode queimar ou jogar fora velhos rolos da Torá. Eles devem ser enterrados, e adequadamente, ou mantidos em um lugar como este.

Quem poderia saber o que aquele velho tinha carregado pelo mundo com ele? Seu inglês não era puro e afiado como o de Gregory, mas carregava o modo de falar de outras línguas. Polonês. Eu vi a Polônia e vi neve.

Gregory enfiou a mão esquerda no bolso. O cheque estava lá, o pedaço de papel, a nota do banco, o presente que ele tanto queria dar. Eu ouvi o barulho do papel quando seus dedos tocaram nele. Ele estava dobrado bem ao lado do revólver.

O velho não disse nada.

— Rabi, quando eu era bem pequeno — disse Gregory — eu ouvi você contar uma determinada história. Só ouvi essa história uma vez. Mas me lembro dela. Eu me lembro das palavras.

O velho não respondeu. As dobras de sua pele brilhavam sob a luz, mas quando ele ergueu as sobrancelhas brancas, também ergueu as dobras da testa.

— Rabi — disse Gregory —, uma vez você falou com minha tia sobre uma lenda, um segredo... um tesouro de família. Eu vim aqui para perguntar a você sobre o que eu ouvi.

O velho estava surpreso. Não. Não era isso. O velho só estava surpreso com o fato de as palavras do jovem terem despertado algum interesse nele. O velho ficou um instante em silêncio e depois falou em iídiche como antes:

— Um tesouro? Você e seu irmão — vocês eram os tesouros de sua mãe e de seu pai. O que o fez vir até o Brooklyn para me perguntar sobre histórias de tesouro? O seu tesouro é maior do que qualquer homem poderia sonhar.

— Sim, rabi — disse Gregory pacientemente.

— Ouvi dizer que a sua igreja está nadando em dinheiro, que as suas missões no estrangeiro são hotéis luxuosos para os ricos que se hospedam lá e dão dinheiro para os pobres. Realmente. Ouvi dizer que a sua fortuna é bem maior do que a da sua mulher, ou que a da filha dela. Ouvi dizer que nenhum homem pode calcular de cabeça o tamanho da sua fortuna nem a fortuna que você controla.

— Sim, rabi — Gregory tornou a dizer, pacientemente, em inglês. — Eu sou tão rico quanto você imagina, e sei que você prefere não imaginar, não lidar com isso, não se aproveitar disso...

— Bem, então, vá direto ao assunto — disse o velho em iídiche. — Você está me fazendo perder tempo. Está desperdiçando os momentos preciosos que me restam, que eu preferiria gastar com caridade do que com condenação. O que é que você quer?

— Você falou num segredo de família — Gregory disse. — Rabi, fale comigo em inglês, por favor.

O velho deu um sorriso irônico.

— E como foi que eu falei então, quando você era um menino? — o velho perguntou em iídiche. — Eu falei em iídiche ou polonês, ou foi em inglês?

— Eu não me lembro — disse o homem mais jovem. — Mas gostaria que você falasse em inglês agora. — Ele tornou a sacudir os ombros, e então disse muito depressa: — Rabi, eu estou sofrendo por Esther! Não foi a minha riqueza que comprou os diamantes. Não foi por minha causa que ela os estava usando descuidadamente. Eu não tenho culpa se os ladrões a surpreenderam.

Diamantes? Isto era uma mentira. Esther não estava usando diamantes. Os Eval não tinham tirado nenhum diamante dela. Mas Gregory usou sua lábia aqui como tinha usado antes.

Como ele desempenhou o seu papel! Como o velho o observou!

O velho recuou um pouco, como se a força das palavras o tivesse empurrado, talvez até perturbado. Ele examinou o homem mais jovem.

— Você não está me entendendo, Gregory — ele disse em inglês. — Eu não estou me referindo à sua riqueza ou ao que ela estava usando em volta do pescoço quando a mataram. Eu estou dizendo que você matou a sua filha, Esther. Você mandou matá-la.

Silêncio.

Na semi-obscuridade, eu vi minhas mãos visíveis contra os livros; eu vi as marquinhas na pele das minhas juntas, e no lugar onde um homem teria o coração, eu senti dor.

O homem cheio de lábia não deu sinal de culpa ou vergonha ou mesmo de choque. Ou ele estava coberto de inocência ou de uma maldade infinita, que o manteve calmo.

Vovô, isto é loucura. Por que eu faria uma coisa dessas? Eu sou um homem de Deus assim como você, vovô!

— Pare! — disse o rabi. Ele ergueu a mão.

— Os meus seguidores jamais fariam mal a Esther, eles...

— Pare! — o rabi repetiu. — Anda logo com isso, o que você quer realmente?

Embaraçado e sorrindo sem jeito, Gregory sacudiu a cabeça. Ele se preparou para recomeçar. Seu lábio tremeu, mas acho que o velho não podia ver isto tão bem quanto eu.

Gregory ainda estava segurando o cheque, uma oferenda, estendida, na mão esquerda.

— É uma coisa que eu me lembro de ter ouvido você dizer uma vez. — disse Gregory, o inglês rápido e natural agora. — Nathan e eu estávamos na sala. Não acho que Nathan tenha ouvido. Ele estava com... outra pessoa. Eu nem me lembro de quem mais estava lá, exceto a irmã da minha mãe, Rivka, e acho que havia umas mulheres velhas. Mas foi aqui no Brooklyn, e nós tínhamos acabado de chegar. Eu podia perguntar a Nathan...

— Deixe o seu irmão em paz! — disse o velho, e desta vez ele falou em inglês, confiante, baixo, tão naturalmente quanto o iídiche. A raiva consegue fazer isso, fazer a voz sair da melhor forma possível. — Não se aproxime do seu irmão Nathan. Deixe o seu irmão Nathan em paz! Você mesmo disse que o seu irmão não tinha ouvido.

— Sim, eu sabia que você ia preferir assim, rabi. Eu sabia que você não ia querer que eu contaminasse Nathan.

— Anda logo com isso.

— Foi por isso que vim perguntar a você. Explique-me e eu não incomodarei o meu amado irmão, mas eu preciso saber. — Ele continuou. — Aquele dia, quando eu era criança, você falou sobre uma coisa secreta. Uma coisa que você chamou de Servo dos Ossos.

Eu levei um choque. As palavras me pegaram totalmente desprevenido. O choque fortaleceu ainda mais a minha forma. Eu não teria ficado mais atônito se ele tivesse virado a cabeça e me visto. Eu chamei as roupas para me cobrir, chamei as roupas para me cobrir como ele, o tzadik, estava coberto. E me senti imediatamente coberto de seda preta como ele, quente e bem ajustada ao corpo, e o ar ficou morno e a pequena lâmpada balançou na ponta do fio esfarrapado.

O rabi contemplou a lâmpada por um longo momento e depois tornou a olhar para o neto.

— Ah, fique quieto, Azriel — eu ordenei a mim mesmo. — E ouça. As respostas estão chegando agora.

— Você se lembra? — o mais moço perguntou. — Um segredo de família? Um tesouro chamado Servo dos Ossos?

O velho se lembrava, mas não disse nada.

— Você disse — Gregory continuou — que uma vez um homem tinha trazido essa coisa para o seu pai em Praga. O homem era um muçulmano, das montanhas. Você disse que esse homem tinha dado essa coisa para o seu pai em pagamento de uma dívida.

Ah, este tzadik possuía os ossos! Mas ele não era o mestre, não, nem nunca seria. Ele olhou para o neto de forma dura e misteriosa.

— Você estava falando com a velha Rivka — Gregory insistiu — e disse a ela o que o muçulmano havia dito. Você disse que o seu pai não devia ter aceitado uma coisa dessas, mas o seu pai tinha ficado confuso porque as palavras gravadas no baú de madeira eram em hebraico. Você disse que aquilo era uma abominação; você disse que deveria ser destruído.

Eu sorri. Será que eu sentia alívio ou raiva? Uma abominação. Eu sou uma abominação. E esta abominação pode destruir você e sua sala cheia de livros; pode destruir a sua casa! Mas quem foi que me chamou?

Eu cobri a boca com a mão. Na presença de um tzadik, eu não podia arriscar nenhum soluço ou som incidental. Não podia me arriscar a chorar.

O tzadik ainda estava se controlando, deixando o mais jovem se revelar mais e mais.

— Rivka perguntou por que você não o destruiu — Gregory disse pacientemente, vagarosamente — e você disse que não era algo fácil de se fazer. Você disse que era como os velhos rolos de pergaminho, esta coisa. Não podia ser destruída irreverentemente. Você tornou a falar de algo escrito, de um documento. Você se lembra disto, vovô? Ou eu estou sonhando?

Os olhos do velho eram frios.

— Você ouviu isto sentado no meu colo? — ele resmungou. — Por que está me perguntando sobre isso agora?

De repente o velho ergueu a mão, fechou o punho e deu um soco na escrivaninha. Nada se moveu, exceto a poeira.

Gregory nem piscou.

— Por que você vem aqui no dia do enterro da sua filha — o velho disse, furioso — e me interroga sobre essa velha história! Essa história, esse segredo ou tesouro, como você o chama, que você ouviu quando era meu eloi, a minha luz, o meu discípulo, o meu orgulho! Por que vem falar sobre isso agora!

O velho tremia perigosamente.

Gregory calculou silenciosamente, depois respirou fundo.

— Rabi, o cheque vai comprar tanta coisa — disse Gregory.

— Responda à minha pergunta! Dinheiro nós temos. Nós aqui somos ricos. Éramos ricos quando deixamos a Polônia. Éramos ricos quando deixamos Israel. Responda à minha pergunta. Por que você quer saber sobre isso agora?

Eu não pude ver nenhuma riqueza naquela sala, mas acreditei nele.

Eu conhecia gente como ele. Ele vivia apenas para estudar a Torá e cumprir a lei e rezar e aconselhar aqueles que o procuravam diariamente, aqueles que acreditavam que ele pudesse enxergar dentro das almas e fazer milagres, aqueles para quem ele era o instrumento de Deus. Riqueza não faria nenhuma diferença na vida de um homem desses, exceto que ele poderia estudar dia e noite se quisesse.

Eu senti o meu pulso, muito forte. Senti o ar em mim. Minha força vinha crescendo sem parar desde que as palavras tinham sido pronunciadas. Os ossos tinham que estar ali. Sim, ele os tinha, e de alguma forma ele me havia invocado. Ele tinha posto as mãos neles, ou lido as palavras, ou recitado a oração... tinha que ser esse velho, mas como a coisa tinha sido feita e por que eu não o havia simplesmente destruído imediatamente?

Da minha memória, como um cometa, surgiu um rosto que eu conhecia e amava. Centenas de anos foram atravessados em um instante.

Era o rosto de Samuel, sobre quem lhe falei. Samuel de Estrasburgo. Esse era o Mestre que me havia vendido em troca da vida das filhas, como um dia eu havia vendido a mim mesmo talvez pela vida dos filhos de Deus. Na minha lembrança eu vi o baú.

Onde estaria ele agora?

A lembrança era amarga, um fragmento; eu não iria suportá-la. As acusações iriam confundir-me e nada com relação a esse passado, mesmo com Samuel, jamais poderia ser modificado.

Eu estava nessa sala quente no Brooklyn, com outro velho sábio cercado por livros empoeirados, encantamentos, feitiços, bruxarias, e eu o odiava. Eu o desprezava. No entanto, ele era muito mais virtuoso do que Samuel, especialmente nos últimos momentos quando Samuel me disse para seguir o meu caminho até o inferno.

Eu odiava esse rabi quase tanto quanto o neto o odiava.

E o neto?

O que era ele para mim, esse Gregory Belkin cheio de lábia, com sua igreja universal? Mas se ele tinha matado Esther...

Eu me contive. Deixei que a raiva e a dor se dissolvessem dentro de mim; disse a mim mesmo para ficar vivo apenas, e bem quieto.

O mais jovem, elegante como um príncipe, esperava pacientemente que a raiva do tzadik esfriasse.

— Por que me perguntar essas coisas agora? — insistiu o velho.

Eu pensei na moça, tão doce, com o rosto virado na maca. Como o seu murmúrio havia sido gentil e maravilhado. Servo dos Ossos.

De repente o velho ficou descontrolado. Não deu tempo a Gregory de responder. Disparou uma série de perguntas.

— O que você está querendo, Gregory? — ele perguntou em inglês. O tom de voz dele ficou íntimo de repente, como se ele quisesse realmente saber. Ele se levantou da cadeira e ficou em pé diante do neto.

— Você me fez uma pergunta — ele disse. — Agora deixe que eu lhe faça uma. O que é que você gostaria de ter neste mundo? Você possui uma riqueza inimaginável, tão grande que a nossa não passa de uma gota d’água no oceano, no entanto você constrói uma igreja para enganar a milhares de pessoas, você cria leis que não são leis de forma alguma. Você vende livros e programas de televisão que não dizem nada. Você pretende ser Maomé ou Cristo! E depois mata a sua filha. Sim, foi você. Eu vejo isto em você. Eu sei que você a matou. Você mandou aqueles homens. O sangue dela estava na mesma arma que os matou. Você acabou com eles também? Foram os seus seguidores que usaram aqueles assassinos e depois os despacharam? O que você está querendo, Gregory, trazer para todos nós tanta maldade e vergonha que o Messias não possa demorar nem mais um momento para vir! Você não lhe dá escolha!

Eu sorri. Foi um belo discurso. Apesar de não me lembrar de nada a respeito de Zurvan então, nem de alguém sábio ou eloqüente, aquele discurso me entusiasmou pela convicção com que havia sido feito. Eu passei a gostar um pouco mais do velho.

Gregory adotou uma postura de tristeza, mas permaneceu calado. Deixando que o velho extravasasse a sua raiva.

— Você pensa que eu não sei que foi você? — o rabi disse. Ele se deixou cair outra vez na cadeira. Foi obrigado. A raiva o deixara cansado. — Eu sei. Eu conheço você, eu o conheço melhor do que ninguém desde o dia em que você nasceu. Nathan, o seu próprio irmão gêmeo, não o conhece. Nathan reza por você, Gregory.

— Mas você não reza, não é, vovô? Você já rezou todas as preces que tinha para rezar por mim, não foi?

— Sim, eu rezei o Kadish quando você abandonou esta casa, e se eu recebesse pelo menos um sinal do Céu, eu terminaria com a sua vida e o seu Templo da Mente e suas mentiras e seus esquemas com minhas próprias mãos.

Será mesmo?

— Isto é fácil de dizer, vovô — Gregory disse, imperturbável. — Qualquer um pode fazer coisas quando recebe um sinal do Céu! Eu ensino os meus seguidores a amar em um mundo em que não há sinais do Céu.

— Você ensina os seus seguidores a lhe dar dinheiro. Você ensina os seus seguidores a vender os seus livros. Se você tornar a erguer a voz para mim, vai sair da minha casa sem suas respostas. O seu irmão não sabe nada do que você está falando — desta velha lembrança da sua infância. Ele não estava lá. A minha lembrança desse dia é muito clara. Não há mais ninguém vivo que saiba.

Gregory ergueu a mão. Paz, tolerância.

Eu estava fascinado e atormentado. Esperei pelas palavras seguintes.

— Vovô, diga-me apenas o que significa “Servo dos Ossos”. Será que eu sou assim tão baixo que se você me responder estará cometendo um sacrilégio?

O velho tremeu. Seus ombros se estreitaram e ergueram sob o casaco preto sem colarinho. Ele estremeceu e as articulações dos seus dedos eram rosadas e inchadas sob a luminária. A luz se derramou sobre sua barba branca e sobre o bigode que cobria seu lábio superior, e sobre suas pálpebras transparentes enquanto ele sacudia a cabeça e se balançava para a frente e para trás, como se estivesse rezando.

A voz de Gregory saiu bem macia.

— Vovô, a minha única filha está morta, e eu venho procurá-lo com uma pergunta simples. Por que eu mataria Esther, minha filha? Você sabe que não existe nenhum motivo para eu ter ferido Esther. O que posso dar-lhe em troca da resposta à minha pergunta? Você se lembra dessa história, dessa coisa, desse Servo dos Ossos? Ele tinha um nome, o nome dele era Azriel?

O velho ficou atônito.

Eu também.

— Eu nunca pronunciei esse nome — o velho disse.

— Não, você não — Gregory disse —, mas uma outra pessoa sim.

— Quem lhe falou sobre isso? — perguntou o velho. — Quem pode ter feito uma coisa dessas?

Gregory ficou confuso.

Eu me recostei na estante, observando, meus dedos segurando as tiras soltas do couro das capas. Não os machuque. Não os livros. A voz do velho era severa e cheia de desprezo.

— Alguém apareceu com a história? — perguntou o velho. — Alguém contou-lhe uma bela fábula de magia e poder? Foi algum muçulmano? Foi um gentio? Foi um judeu? Foi um dos seus fanáticos seguidores da Nova Era, que leu suas fantasias acerca da Cabala?

Gregory sacudiu a cabeça.

— Rabi, você entendeu mal — ele disse com solene sinceridade. — Foi apenas o que você falou sobre isso que eu ouvi quando era criança. Então, há dois dias, uma outra pessoa pronunciou essas palavras diante de testemunhas: Azriel, Servo dos Ossos.

Eu fiquei com medo de arriscar um palpite.

— E quem foi essa pessoa? — o velho perguntou.

— Ela disse isso, rabi — Gregory disse a ele. — Esther disse isso quando estava morrendo. O homem da ambulância ouviu isso dos lábios dela quando ela estava morrendo. Esther disse isso, rabi. Esther disse, “O Servo dos Ossos”. E o nome “Azriel”. Esther disse isso duas vezes em voz alta, e dois homens escutaram. Esses homens me contaram.

Eu sorri. O mistério era bem maior do que eu havia imaginado.

Eu os observei atentamente. Meu rosto queimava de calor. E eu sabia que estava tremendo igual ao velho, como se o meu corpo fosse real. O velho recuou. Ele não estava querendo acreditar. Sua raiva desapareceu. Ele examinou o rosto do homem mais jovem. Então veio a voz de Gregory, intencional e espertamente terna.

— Quem é ele, rabi? Quem é o Servo dos Ossos? O que é essa coisa à qual Esther se referiu? A que você se referiu? Quando eu era criança e brincava no chão perto dos seus pés? Esther disse esse nome, “Azriel” Esse é o nome do Servo dos Ossos?

Meu pulso batia tão alto que eu podia ouvi-lo com meus próprios ouvidos. Eu senti os dedos da minha mão esquerda tocarem ligeiramente nos livros. Senti a prateleira de encontro ao peito. Senti o chão de cimento sob os meus sapatos, e não ousei afastar os olhos de nenhum dos dois.

Meu Deus, eu pensei, faça com que o velho diga, faça com que ele diga para que eu possa saber, meu Deus, se você ainda estiver aí, faça-o dizer Quem e O Que É o Servo dos Ossos. Faça-o contar para mim!

O velho estava atônito demais para responder.

— A polícia tem esta informação — disse Gregory. — Eles a estão guardando com todo o cuidado. Eles acham que ela estava se referindo ao assassino.

Eu quase gritei em protesto.

O velho fez um muxoxo e seus olhos ficaram úmidos.

— Rabi, você não compreende? Eles querem encontrar quem a matou, não aquele lixo com os furadores, os que roubaram o colar dela, e sim aqueles que os contrataram, aqueles que sabiam o valor da jóia!

Mais uma vez o colar. Eu não vi nenhum colar na hora do crime e não estava vendo nenhum agora com os olhos da imaginação. Não havia nenhum colar em volta do pescoço dela. Eles não tinham tirado nada dela. Que história de colar era esta?

Se ao menos eu conhecesse melhor esses homens. Eu não sabia dizer ao certo quando Gregory estava mentindo. A voz de Gregory ficou mais alta, mais fria, menos conciliadora. Ele endireitou os ombros.

— Agora deixe que eu fale claramente, rabi — ele disse. — Eu sempre guardei, a seu pedido, o nosso segredo, meu segredo, nosso segredo que o fundador do Templo da Mente era o neto do rabi desta Congregação dos Hassidim! — A voz dele subiu como se ele não pudesse mais aquietá-la. — Eu guardei este segredo pelo seu bem — ele disse. — Pelo bem de Nathan. Pelo bem da Congregação. Pelo bem daqueles que amavam minha mãe e meu pai e se lembravam deles. Eu guardei este segredo por você e por eles.

Ele parou, deixando um tom de acusação pesando no ar, o velho esperando, esperto demais para quebrar o silêncio.

— Porque você me pediu — Gregory disse — eu guardei o segredo. Porque meu irmão me pediu. E porque eu amo o meu irmão. E do meu jeito, rabi, eu o amo. Eu guardei o segredo para que vocês não se sentissem desonrados, e para que as câmeras não viessem bisbilhotar a sua casa, para que os repórteres não viessem em bando perguntar como era possível que de sua Torá e do seu Talmude e da sua Cabala saísse Gregory Belkin, o Messias do Templo da Mente, cuja voz é ouvida da cidade de Lima às cidades da Nova Escócia, de Edimburgo ao Zaire. Como foi que dos seus rituais, das suas orações, da sua roupa preta, dos seus chapéus pretos, da sua dança maluca, dos seus maneirismos — como foi que de tudo isso saiu para o mundo o famoso e ultra bem-sucedido Gregory Belkin e o Templo da Mente? Pelo seu bem, eu fiquei calado.

Silêncio. O velho estava mergulhado no silêncio, cheio de rancor e desprezo.

Eu fiquei mais confuso ainda. Nada me atraía para nenhum dos dois homens, nem amor nem ódio, nada me atraía exceto a lembrança dos olhos e da voz da moça morta.

Mais uma vez, foi o mais jovem que falou.

— Uma única vez em toda a sua vida você me procurou por sua livre e espontânea vontade — Gregory disse. — Você cruzou a grande ponte que divide o meu mundo do seu, como você diz. Você me procurou no meu escritório para implorar que eu não revelasse a minha origem. Para guardá-la em segredo, não importando quanto os repórteres me interrogassem, não importando quanto eles se intrometessem.

O velho não respondeu.

— Teria sido vantajoso para mim deixar que o mundo soubesse, rabi. Como poderia deixar de ser vantajoso dizer que eu tinha raízes tão fortes e piedosas! Mas muito antes de você fazer o seu pedido, eu enterrei o meu passado. Eu o cobri de mentiras e histórias fabricadas para proteger você! Para que você não caísse em desgraça. Você e o meu amado Nathan, por quem rezo todos os dias da minha vida. Eu fiz isso, e continuo a fazer... por vocês.

Ele parou como que dominado pela raiva. Eu estava hipnotizado pelos dois e pela história que estava sendo revelada.

— Mas Deus é minha testemunha, rabi — Gregory disse —, e eu ouso, sim, falar dele no meu Templo como você faz na sua Yeshivá, fique sabendo. Ela disse essas palavras ao morrer! Agora você sabe que não foi nenhum dos seus santos vestidos de preto, batendo palmas e rezando nos Sabás que matou Esther! Não foi o meu irmão com olhos de corça que matou Esther. Não foi um hassid que matou Esther. Quando os nazistas mataram minha mãe e meu pai, nenhum deles ergueu a mão para imobilizar o braço ou a arma, não é verdade?

O velho, perplexo e dividido, balançou a cabeça afirmativamente, como se eles estivessem muito além do ódio mútuo agora.

— Mas — disse Gregory, e ele ergueu o cheque com a mão esquerda — se você não me disser o que significam essas palavras, rabi, e eu me lembro muito bem delas, então eu direi à polícia onde as ouvi pela primeira vez. Que foi aqui nesta casa, no meio dos hassidim, onde Gregory Belkin, o homem misterioso, o fundador do Templo da Mente, nasceu!

Eu fiquei estupefato. Esperei. Não ousei tirar os olhos do velho.

Ainda assim ele se conteve.

Gregory suspirou. Deu de ombros. Deu alguns passos, virou-se e revirou os olhos para cima e depois deixou cair a mão. — Eu vou contar a eles, “Sim senhor, eu já ouvi essas palavras antes. Sim, eu as ouvi uma vez. Sentado no colo do meu avô, e sim, ele está vivo e vocês devem procurá-lo para descobrir o que elas significam.” Eu vou contar a eles — vou mandá-los aqui e você poderá explicar o significado dessas palavras para eles.

— Chega — o velho disse. — Você é um tolo, sempre foi! — Ele suspirou profundamente, e depois, mais pensativa do que conscientemente, disse: — Esther disse essas palavras? Os homens ouviram?

— Os paramédicos acharam que ela estava olhando para um homem do lado de fora da janela, um homem de longos cabelos negros! Esse é um segredo que a polícia está guardando, mas os outros o viram e a viram olhar para ele, e este homem, rabi, ele estava chorando por ela! Ele estava chorando!

Foi a minha vez de tremer!

“Cale-se. Pare. Não...”

Gregory deu uma risadinha debochada. Deu um passo para trás, virando outra vez para um lado e para o outro, sem levantar os olhos para me ver, embora os olhos dele, se a luz fosse melhor, pudessem ter visto os meus sapatos. Ele tornou a se virar para o rabi.

— Eu nunca pensei em acusar vocês, nenhum de vocês, de tê-la matado! — disse Gregory. — Esta idéia nunca me passou pela cabeça, embora eu só tenha ouvido essas palavras antes pronunciadas por você! E eu cruzo a sua porta e você me acusa de matar a minha enteada! Por que eu faria uma coisa dessas? Eu vim aqui em respeito às últimas palavras dela!

O velho disse calmamente: — Eu acredito em você. A pobre menina disse essas palavras. Os jornais falam de palavras estranhas. Eu acredito em você. Mas eu também sei que você matou a sua filha. Você mandou matá-la.

Os braços de Gregory ficaram tensos como ficam os braços dos homens quando eles estão a ponto de atacar alguém, mas ele não podia e nem ia atacar o rabi. Isso jamais aconteceria com aqueles dois homens, eu sabia. Mas Gregory estava no limite da sua paciência, e o tzadik tinha certeza da culpa de Gregory.

E eu também. Mas que motivos eu tinha para isto? Talvez os mesmos que o tzadik.

Eu tentei contemplar as almas deles, pois sem dúvida eles podiam vangloriar-se de possuir almas, todos os dois, pois eram de carne e osso. Eu tentei olhar, como qualquer ser humano olharia, como qualquer fantasma examinaria as profundezas da alma dos vivos. Eu inclinei a cabeça um pouquinho para a frente, como se o ritmo da respiração deles fosse dizer-me, como se as batidas do coração pudessem revelar o segredo. Gregory, você a matou?

Será que o velho perguntou a mesma coisa ao homem mais jovem? Ele se inclinou para a frente sob a luz da lâmpada empoeirada; os olhos dele estavam apertados e brilhantes.

Ele tornou a olhar para Gregory, e ao fazer isso, inteiramente por acaso e com toda a certeza, ele me viu.

Os olhos dele passaram lenta e naturalmente do neto para mim.

Ele viu um homem em pé no lugar em que eu estava. Ele viu um homem jovem, de cabelos pretos cacheados e olhos escuros. Ele viu um homem forte e de boa estatura, muito jovem, de fato, tão jovem que se podia achar que se tratava ainda de um garoto. Ele me viu. Ele viu Azriel.

Eu sorri ligeiramente, como um homem que está prestes a falar, não a debochar. Eu deixei que ele visse a brancura dos meus dentes. Eu confiei ao seu olhar secreto que não tinha medo dele. Como ele, eu tinha barba e usava um cafetã ou casaco comprido de seda preta. Como se fosse um deles.

E embora eu não soubesse por que ou como sabia, eu realmente sabia que era um deles, tinha mais certeza disto do que de ser parente do Profeta Mercenário diante dele.

Uma onda de força me atravessou, como se o velho tivesse posto as mãos nos ossos e me chamado! Isso acontece com freqüência, quando me vêem, eu fico mais forte. Naquela hora, eu estava quase tão forte quanto agora.

O velho não deu nenhum sinal a Gregory do que tinha visto. Também não me deu nenhum sinal. Continuou sentado, imóvel. Seus olhos pareciam percorrer a sala naturalmente, sem se deter em nada em particular, sem nenhuma outra emoção a não ser o sombrio véu de tristeza.

Ele tornou a olhar para mim, de uma forma velada para que Gregory não percebesse. Ele ficou atento a mim com toda a calma.

O meu pulso bateu com mais força, a concha perfeita do meu corpo fechou mais os seus poros. Eu podia sentir que ele estava me olhando e me achando bonito! Jovem e bonito! Eu senti na pele a seda que estava vestindo, o peso do meu cabelo.

Ah, você me vê e me ouve, rabi. Eu falei sem mover os lábios.

Ele não me respondeu. Olhou para mim como um homem olha quando está pensativo. Mas ele tinha ouvido. Ele não era um falso pregador, e sim um verdadeiro tzadik e tinha ouvido a minha pequena oração.

Mas o homem mais jovem, inteiramente iludido e de costas para mim, tornou a falar em inglês:

— Rabi, você contou essa velha história para mais alguém? Esther por acaso esteve aqui algum dia para saber quem você era e talvez você...

— Não seja tão bobo, Gregory — o velho disse. Ele desviou os olhos de mim por um momento. Depois tornou a olhar para mim e continuou: — Eu não conheci a sua enteada — ele disse. — Ela nunca esteve aqui. Nem a sua mulher. Você sabe disto. — Ele suspirou, olhando fixamente para mim como se temesse tirar os olhos de mim.

— Trata-se de uma história dos hassidim ou dos lubavitch?[1] — Gregory perguntou. — Algo que um dos misnagdim poderia ter contado a Esther...

— Não.

Nós olhamos fixamente um para o outro. O velho, vivo, e o jovem espírito, robusto, ficando cada vez mais nítido e forte.

— Rabi, quem mais...?

— Ninguém — o velho disse, olhando fixamente para mim enquanto eu olhava para ele. — O que você lembra é verdade e o seu irmão não escutou nada e a sua tia Rivka está morta. Ninguém poderia ter contado a Esther.

Só então ele desviou os olhos de mim e olhou para Gregory.

— Você está falando de uma coisa amaldiçoada — ele disse. — Trata-se de um demônio, uma coisa que pode ser invocada por meio de uma magia poderosa e fazer coisas más.

E os olhos dele voltaram-se de novo para mim, embora o jovem olhasse atentamente para ele.

— Então outros judeus conhecem estas histórias. Nathan conhece...

— Não, ninguém. Olha, não me tome por um idiota. Você pensa que eu não sei que você já andou perguntando isto para outros judeus? Você ligou para várias outras congregações e para professores das universidades. Eu conheço você. Você é muito esperto. Você tem telefones em todos os compartimentos da sua vida. Você veio aqui em última instância.

O homem mais jovem concordou com a cabeça.

— Você tem razão. Eu achei que seria do conhecimento de todos. Fiz minhas pesquisas. Assim como as autoridades. Mas não é assim. E por isso estou aqui. Gregory inclinou a cabeça de lado e estendeu o cheque dobrado para o rabi.

Isto deu um segundo ao velho para fazer um gesto na minha direção, um segundo, só para fazer um pequeno movimento com o indicador da mão direita, de Esconda-se ou Fique Quieto. Junto com um rápido não feito com o olhar e um ligeiro movimento com a cabeça. No entanto, não era uma ordem, nem uma ameaça. Era algo mais próximo a uma prece.

Então eu o escutei. Não se revele, espírito!

Muito bem, velho, por ora, a seu pedido.

Gregory — ainda de costas para mim — abriu o cheque. — Explique-me o que é essa coisa, rabi. Diga-me do que se trata e se você ainda a tem. O que você disse a Rivka, você disse que não era uma coisa fácil de destruir.

O velho tornou a olhar para Gregory, aparentemente confiante de que eu não me mostraria.

— Talvez eu lhe conte tudo o que você quer saber — disse o velho. — Talvez eu coloque nas suas mãos essa coisa a que você se refere. Mas não por esta quantia. Nós temos mais do que o suficiente. Você tem que nos dar o que nos interessa.

Gregory ficou muito excitado. — Quanto, rabi! — ele disse. — Você fala como se ainda tivesse essa coisa.

— Eu tenho — o velho disse. — Eu tenho.

Eu fiquei atônito, mas não surpreso.

— Eu a quero! — Gregory disse impetuosamente, tão impetuosamente que eu temi que ele tivesse forçado demais a mão. — Diga qual é o seu preço!

O velho refletiu. Seus olhos tornaram a fitar-me e depois desviaram-se, e eu pude ver a cor animar o seu rosto gasto, e pude ver suas mãos agitarem-se. Vagarosamente, ele fixou os olhos em mim, unicamente em mim.

Por um momento precioso, enquanto fitávamos um ao outro, todo o passado ameaçou revelar-se. Eu vi séculos além de Samuel. Acho que vislumbrei Zurvan. Acho que vi a própria procissão. Vi de relance a figura de um deus dourado sorrindo para mim, e senti terror, terror de saber e de ser como os homens, possuidores de memória e sentindo dor.

Se isto não parasse dentro de mim, eu conheceria uma tal agonia que iria uivar como um cachorro, uivar como o motorista tinha uivado ao ver o corpo caído de Esther, eu iria uivar para sempre. O vento viria. O vento levaria embora junto com todas as suas outras almas perdidas e uivantes. Quando eu abati o malvado mestre mameluco no Cairo, o vento foi me buscar, e eu o tinha atravessado em busca do esquecimento.

Fique vivo, Azriel. O passado irá esperar. A dor pode esperar. O vento irá esperar. O vento pode esperar para sempre. Fique vivo neste lugar. Tome conhecimento disto.

Eu estou aqui, velho.

Calmamente, ele olhou para mim, sem que o neto percebesse. Ele falou sem tirar os olhos de mim, embora Gregory se inclinasse para a frente para ouvir suas palavras:

— Vá ali, atrás de mim, atrás dessas estantes — ele disse em inglês — e abra aquele armário que você está vendo. Lá dentro você vai ver um pano. Erga-o. E traga o que está sob ele. E pesado, mas você consegue carregar. Você tem força suficiente para isso.

Eu levei um susto. O que ouvi fez o meu coração chorar. Os ossos estavam ali! Bem ali!

Gregory hesitou por um momento, talvez por não estar acostumado a receber ordens, ou mesmo a realizar sozinho as tarefas mais simples. Não sei. Mas logo ele se pôs em ação. Correu para trás da estante que estava atrás do velho.

Eu ouvi o rangido da madeira e tornei a sentir o cheiro do cedro e do in-censo. Ouvi o estalar da fechadura de metal. Senti-me subir nas pontas dos pés e depois tornar a me firmar no chão.

O velho e eu não desviamos os olhos um do outro. Eu saí inteiramente de trás da estante para que ele pudesse ver-me com meu longo casaco que era igual ao dele, e ele mostrou apenas um leve temor por um breve instante, depois fez um sinal com a cabeça indicando que eu deveria voltar para o meu esconderijo.

Eu o fiz.

Atrás dele, fora da vista, Gregory procurava e praguejava.

— Afaste os livros — disse o rabi. — Afaste todos eles — disse o velho enquanto olhava para mim, como se me mantivesse em xeque com os olhos. — Está vendo agora?

O cheiro de poeira subiu pelas minhas narinas. Eu podia ver a poeira subindo sob a luz. Ouvi os livros caírem. Oh, era doce ouvir com ouvidos e ver com olhos. Não chore, Azriel, não na presença deste homem que o despreza.

Eu ergui os dedos aos lábios sem querer. Fiz aquilo naturalmente, como se estivesse preparado para rezar no caso de um desastre. Senti o cabelo sobre a minha boca e a massa espessa da minha barba. Gostei daquilo. Como a sua, rabi, quando você era jovem?

O velho estava rígido, indestrutível, superior e cansado.

Gregory saiu de trás da estante e voltou para a luz.

Ele estava carregando o baú!

Eu vi a camada de ouro ainda grossa no cedro. E o vi amarrado negligentemente com correntes de ferro.

Ferro! Então eles acharam que podiam deter-me? Azriel! O ferro podia deter algo como eu? Tive vontade de rir. Mas olhei para ele, para o baú que Gregory carregava como se fosse um bebê, o baú ainda coberto de ouro.

Uma vaga lembrança de ele sendo feito me assaltou, mas não vi ninguém com clareza em minha memória. Só recordei da luz do sol batendo no mármore e palavras bondosas. Amor, um mundo de amor, e o amor me fez pensar de novo em Esther.

Como Gregory estava orgulhoso e fascinado. Ele não estava ligando que o seu casaco de lã estivesse cheio de poeira. Havia poeira no cabelo dele. Ele contemplou essa coisa, esse tesouro, e se virou para depositá-la diante do velho, como um bebê.

— Não! — O velho ergueu as duas mãos. — Coloque-o ali no chão e afaste-se dele.

Eu sorri com amargura. Não se deixe macular com isto.

Ele não me deu atenção, mas olhou para o baú que Gregory colocou no chão.

— Por Deus, você acha que ele vai pegar fogo? — Gregory perguntou. Ele colocou o baú cuidadosamente diante da escrivaninha do velho. — É muito antiga esta inscrição, não é hebraico, é sumério! — Ele esfregou as mãos. Estava encantado e arrebatado.

— Rabi, isto aqui não tem preço.

— Eu sei o que é isso — disse o velho, olhando de mim para o baú e vice-versa. Eu não mudei minha expressão. Nem mesmo sorri.

Gregory contemplava o baú com tal encantamento que parecia tratar-se do Cristo na Manjedoura, e ele um daqueles pastores que tinham ido ver o Filho de Deus vivo.

— O que é que está escrito aqui, vovô? — Ele tocou nas correntes de ferro, lentamente, como se estivesse preparado para ouvir o velho mandá-lo parar. Tocou nos elos, que eram grossos e feios, e tocou num rolo de pergaminho que estava enfiado debaixo das correntes de ferro, onde os elos se cruzavam.

Isto eu nunca tinha visto, este rolo, até que os dedos de Gregory experimentaram suavemente suas pontas. O ouro do baú me cegou e deixou meus olhos úmidos. Eu senti o cheiro do cedro e das especiarias e da fumaça que saturavam a madeira por baixo de seu chapeamento. Eu senti o cheiro da carne de outros seres humanos e senti o perfume das oferendas.

De repente, eu senti uma tonteira.

Senti o cheiro dos ossos.

Oh, meu deus pessoal, quem me chamou? Se ao menos eu pudesse ver seu rosto sorridente por um minuto, meu deus, meu deus pessoal. Meu deus pessoal que costumava andar comigo, o deus que cada homem tem dentro de si mesmo, seu deus particular, como eu tinha visto o meu, e se ao menos ele aparecesse agora!

Isso não foi exatamente uma lembrança, você compreende, foi uma súbita saudade, sem explicação, que me deixou gelado e confuso.

Mas eu continuei a pensar nessa pessoa, “meu deus”. Será que ele riria, será que ele diria “Então o seu deus não o ajudou, Azriel, e mesmo estando no meio dos Escolhidos, você torna a me chamar? Eu não lhe avisei? Eu não disse para você fugir enquanto era tempo, Azriel?”

Mas ele não estava lá, o meu deus, quem quer que ele fosse, e não estava sorrindo. Não estava ao meu lado, como um amigo que tivesse passeado comigo pelas margens do rio no ar fresco da noite. E não disse essas coisas. Mas um dia ele tinha estado comigo, e eu sabia disso. O passado era como um dilúvio que queria me afogar.

De repente eu senti uma esperança louca, uma esperança que me fez respirar mais depressa, e os cheiros da sala me sufocaram na minha paixão.

Talvez ninguém o tenha chamado, Azriel! Talvez você tenha vindo por si mesmo, e seja o seu próprio mestre! E você pode odiar e ignorar à vontade esses dois homens!

Foi tão doce esta força, este sorriso, esta aparente piada de que eu final-mente tivesse conseguido aquele poder. Eu quase pude escutar minha própria risada. Segurei minha barba com a mão direita e puxei-a de leve.

— Este pergaminho está intacto, rabi — Gregory disse ansiosamente. — Veja, eu posso retirá-lo de baixo destas correntes. Você pode lê-lo?

O velho olhou para mim como se eu tivesse falado.

Você me acha bonito, velho? Eu sei o que você está vendo. Não é preciso que eu veja. E Azriel, não feito sob medida por um Mestre; não tomando esta ou aquela forma para agradar a um Mestre; mas Azriel da forma como Deus me fez um dia, quando Azriel era alma e espírito e corpo ao mesmo tempo.

O velho arregalou os olhos. Eu ordeno! Não se deixe ver, espírito.

É mesmo, velho, e eu odeio o seu coração gelado! Algum elo nos une um ao outro; mas você está tão cheio de ódio e eu também, como vamos saber se Deus teve alguma participação nisso, por ela, por Esther?

Atônito, ele ficou me olhando, incapaz de responder.

Gregory se agachou ao lado do seu troféu e tocou no pergaminho com cuidado e receio.

— Rabi, só isto já vale uma fortuna — ele disse. — Diga qual é o seu preço. Deixe-me abrir o pergaminho. — De repente ele pôs a mão sobre a madeira e abriu os dedos, apaixonado por aquela coisa.

— Não! — disse o velho. — Não sob o meu teto.

Eu olhei bem dentro dos olhos claros e transparentes do velho. Eu o odeio. Você pensa que eu pedi para ser esta coisa que eu sou? Algum dia você foi jovem? O seu cabelo algum dia foi assim tão negro e seus lábios tão corados?

Ele não respondeu, mas tinha ouvido.

— Sente-se ali — ele disse para o neto, apontando para uma cadeira de couro ali perto. — Sente-se ali e preencha os cheques que eu lhe disser para preencher. E então esta coisa — e tudo o que sei sobre ela — será sua.

Eu quase dei uma gargalhada. Então era isto! Era isto! Ele sabia que eu estava ali e ia vender-me para o neto a quem desprezava. Esse seria o seu terrível preço por tudo o que o neto havia feito de mal para ele e seu Deus. Ele me poria nas mãos do neto, que não suspeitava de nada. Acho que eu ri mesmo, mas sem fazer ruído, só que ele pôde ver, pôde ver os meus lábios se contorcendo e os meus olhos brilhando quando ri com desprezo para ele, e balancei a cabeça em homenagem à esperteza dele, à sua frieza, ao seu coração sem amor.

Gregory recuou, achou a cadeira e sentou-se devagar, o couro velho descascado. Ele estava tomado de excitação.

— Diga qual é o seu preço.

O meu sorriso deve ter sido amargo, sábio. Mas eu estava calmo. Meu velho deus teria ficado orgulhoso. Muito bem, meu jovem corajoso, enfrente-os! O que você tem a perder? Você pensa que o seu Deus é misericordioso? Ouça só o que eles pretendem fazer com você! Mas quem foi que pronunciou estas palavras em todos estes anos? Quem as pronunciou? O que estava perto de mim e cheio de amor e que tentou me avisar. Eu olhei para Gregory. Eu não ia me desesperar, não ia ser arrastado pelo sofrimento, primeiro eu ia chegar no fundo daquele mistério. O meu próprio mistério podia esperar.

Enfiei as unhas de leve nas palmas das mãos. Sim, aqui. Você está aqui, Azriel, quer o velho o despreze ou não, independente do fato de o jovem ser um assassino e um tolo, e de você estar sendo vendido mais uma vez como se não possuísse uma alma, nunca tivesse possuído e nunca fosse possuir. Você está aqui. E não nos ossos que estão dentro do baú!

Eu fingi que o meu deus estava lá. Nós estávamos juntos. Eu não tinha feito isto com outros mestres, sem nunca dizer a eles, simplesmente trazendo o deus para perto de mim, mas será que alguma vez ele tinha vindo realmente?

No meio de uma nuvem de fumaça, eu vi o meu deus se virando, chorando por mim. Foi num quarto e o calor subia de um caldeirão fervente! Meu deus, ajude-me! Mas era uma imagem sem moldura. Era algo impronunciável que jamais deveria ser revivido! Eu precisava ver as coisas que estavam acontecendo agora.

Gregory tirou do bolso uma comprida carteira de couro. Abriu-a sobre os joelhos e a mão direita segurou uma caneta de ouro.

O velho disse a quantia em dólares americanos. Quantias enormes. Disse para quem esses cheques deveriam ser feitos. Hospitais, instituições de ensino, uma empresa que repassaria o dinheiro para a Yeshivá onde os jovens da congregação estudavam a Torá. Ia ser enviado dinheiro para a congregação em Israel. Também para a nova comunidade dos hassidim que estava tentando criar sua própria aldeia nas colinas, não muito longe daquela cidade. O rabi indicou tudo isto com o mínimo de explicações.

Sem fazer uma única pergunta, Gregory começou a escrever, desenhando as letras nos cheques com sua caneta de ouro e em seguida virando o cheque para cima para poder preencher outro, e mais outro, assinando o seu nome do jeito que os homens poderosos costumam fazer.

Gregory finalmente colocou os cheques na escrivaninha defronte do rabi. O rabi examinou-os cuidadosamente. Ele os arrumou numa longa fila e analisou-os com uma certa surpresa.

— Você me daria tudo isto — o rabi perguntou — por algo a respeito do que você não conhece nem compreende nada?

— O nome dele foi a última coisa que minha filha disse.

— Não, você quer esta coisa! Você quer o poder dela!

— Por que eu deveria acreditar neste poder? Sim, sim, eu a desejo, para vê-la, para tentar entender como é que ela sabia a respeito desta coisa, e sim, eu lhe dou estas quantias.

— Tire o pergaminho das correntes e entregue para mim.

Como um menino, Gregory obedeceu, ansioso. O pergaminho não era velho, não tanto quanto o baú dos ossos. Gregory pôs o pergaminho nas mãos do velho.

Você vai lavar as mãos depois?

O rabi não me deu atenção. Ele desenrolou o manuscrito cuidadosamente, movendo as mãos para a direita e para a esquerda, de modo a ter todo o manuscrito diante dele, e então começou a falar, traduzindo as palavras cuidadosamente para o neto ouvir:

“Devolva isto aos hebreus pois se trata de uma mágica deles e só eles podem colocá-la nas profundezas do inferno, que é o lugar dela. O Servo dos Ossos não atende mais ao seu Mestre. Velhas promessas não mais o prendem. Velhos encantamentos não mais o afastam. Uma vez chamado, ele destrói tudo o que vê. Só os hebreus conhecem o significado desta coisa. Só os hebreus podem dominar a sua fúria. Dê isto de graça para eles.”

Mais uma vez eu sorri. Não consegui evitar. Acho que fechei os olhos de alívio e depois tornei a abri-los, olhando para o velho, que olhava apenas para o manuscrito.

Mas será que eu sou realmente dono de mim mesmo? Eu ainda não ousava acreditar nisto. Não. Podia haver algum segredo para me pegar, alguma armadilha para a qual a morte de Esther era apenas uma isca.

O velho ficou sentado com o rolo esticado, olhando fixamente para ele. Não disse mais nada. Gregory quebrou o silêncio.

— Então por que você não o destruiu? — Ele estava tão excitado que mal podia se conter. — O que diz mais aí? Em que língua está escrito?

O velho olhou para ele e depois para mim e então tornou a olhar para o pergaminho.

— Ouça o que vou ler agora — disse o velho — porque vou traduzir para você apenas uma vez:

“Maldito seja aquele que destruir estes ossos, pois se isto puder ser feito, o que nem mesmo os mais sábios sabem dizer, este alguém irá soltar no mundo um espírito de poder incalculável, sem dono e ingovernável, condenado a permanecer no ar para sempre, incapaz de subir a Escadaria do Céu, ou de abrir os portões da Perdição. E quem sabe quais serão as crueldades que este espírito irá cometer contra os filhos de Deus? Já não existem demônios demais no mundo?”

Ele olhou dramaticamente para o neto, que só demonstrava no rosto a sua fascinação.

Gregory só faltou esfregar as mãos gulosamente. O velho tornou a falar, lentamente.

— Meu pai aceitou-o porque achou que era o seu dever fazê-lo. E agora você vem me pedir esta coisa. Pois bem, ela já é quase sua.

O homem mais jovem pareceu delirar ou estar possuído por uma alegria divina.

— Oh, rabi, isto é maravilhoso, fantástico — disse Gregory. — Mas como ela poderia saber disto, a minha pobre Esther?

— Cabe a você descobrir isto — o velho disse friamente. — Pois eu não faço a mínima idéia. Eu jamais o invoquei, este espírito, e nem o meu pai. E nem o muçulmano que o pôs nas mãos do meu pai.

— Dê-me o pergaminho. Vou levá-lo agora.

— Não.

— Vovô, eu o quero! Olhe, os cheques estão aí!

— E amanhã o dinheiro estará no banco, não é? Amanhã, quando as quantias forem transferidas, quando a transação estiver terminada...

— Vovô, deixe-me levá-lo agora!

— Amanhã, você vem até aqui e poderá levá-lo, será seu. E você será o Mestre do Servo dos Ossos.

— Seu velho teimoso. Você sabe que estes cheques são bons. Dê-me o pergaminho!

— Oh, como você está ansioso! — disse o mais velho.

Ele olhou para mim. Eu poderia jurar que ele teria partilhado um sorriso comigo se eu o convidasse a fazer isto, mas não o fiz.

Então ele tornou a fitar o neto, que estava frustradíssimo, contemplando o baú dourado a seus pés, sem ousar tocar nele, mas desejando-o tanto que chegava a gemer.

— Por que você a matou? — perguntou o velho.

— O quê?

— Por que você mandou matar a sua filha? Eu quero saber. Eu deveria ter dito que este era o meu preço.

— Oh, você é um tolo, vocês são todos uns tolos, agressivos e supersticiosos, os idiotas do seu deus!

O velho ficou indignado.

— Os seus templos, Gregory, são as casas dos enganados e dos amaldiçoados — ele disse. — Mas não vamos mais discutir. Nós conhecemos um ao outro. Amanhã à noite, depois que os meus banqueiros me disserem que o seu dinheiro está em nossas mãos, você pode vir buscar esta coisa. E guarde o segredo. Cumpra a promessa. Não diga a ninguém que você é... que você foi... meu neto.

Gregory sorriu, sacudiu os ombros, abriu as mãos num gesto de aquiescência. Virou-se para sair, sem lançar um único olhar na minha direção.

Ele parou na porta e tornou a olhar para o avô.

— Diga ao meu irmão Nathan que eu sou grato a ele por ter telefonado para me dar os pêsames.

— Ele não fez isto! — gritou o rabi.

— Oh, fez sim. Ele me telefonou e falou comigo e tentou consolar-me pela minha perda e consolar a minha mulher.

— Ele não se mistura com gente da sua espécie!

— E eu não estou lhe contando isto, rabi, para atrair a sua raiva para ele, não, não é por isto, é só para você saber que o meu irmão Nathan me amou o bastante para me ligar e dizer que sentia muito pela morte da garota.

Gregory abriu a porta. O frio da noite esperava inquieto.

— Fique longe do seu irmão! — O velho ergueu-se, apoiando os punhos na mesa.

— Poupe suas palavras! — disse Gregory. — Poupe-as para o seu rebanho. A minha igreja prega o amor.

— O seu irmão caminha com Deus — o velho disse, mas sua voz estava fraca agora. Ele estava cansado. Estava esgotado.

Ele arriscou lançar-me um olhar. Eu o encarei.

— Não tente enganar-me, rabi — disse Gregory, enquanto o ar frio da noite invadia a sala. — Se eu não encontrar isso aqui amanhã à noite conforme o prometido, vou me postar na sua porta com as câmeras. Vou publicar a história da minha infância entre os hassidim no meu próximo livro.

— Pode debochar de mim se quiser, Gregory — disse o velho, erguendo-se. — Mas o trato está feito e o Servo dos Ossos estará esperando por você aqui amanhã. E você me livrará desta coisa. Você que é mau. Você que faz maldades. Você que anda com o Demônio. A sua igreja anda com o Demônio. Os seguidores do Templo da Mente são do Demônio. Faça bom proveito deste demônio e de sua laia. Saia da minha casa.

— Está bem, meu mestre — disse Gregory —, meu Abraão. — Ele abriu a porta e saiu, debruçando-se para dentro da sala para que a luz revelasse claramente o seu rosto sorridente.

— Meu Patriarca, meu Moisés! Diga ao meu irmão que eu o amo. Devo dizer à minha mulher que você envia suas condolências a ela? — Ele saiu, batendo a porta.

Houve uma leve vibração de vidro e coisas de metal balançando.

Eu fiquei onde estava.

Nós nos encaramos, eu e o velho, um de cada lado da salinha empoeirada, eu saí de trás da estante e o velho permaneceu imóvel atrás da escrivaninha.

O velho tremia.

Volte para os ossos, espírito. Eu nunca o invoquei. Eu não falo com você, exceto para mandá-lo para longe de mim.

— Por quê? — eu perguntei. Falei em hebraico antigo, sabendo que ele entenderia. — Por que você me despreza tanto, velho? O que foi que eu fiz? Não me refiro agora ao espírito que destrói os magos, refiro-me a mim mesmo, Azriel! O que foi que eu fiz?

Ele ficou perplexo e abalado. Eu parei diante da escrivaninha; eu usava roupas iguais às dele, e olhei para baixo e vi que meus pés tinham quase encostado no baú, que parecia muito pequeno, e o cheiro da água fervendo subiu às minhas narinas.

— Marduc, meu deus — eu exclamei em caldeu antigo. Ele entendeu as palavras, o tzadik! Deixei que me olhasse horrorizado.

— Oh, meu deus, eles não vão me ajudar! — Eu pronunciei as palavras em caldeu. — Estou aqui de novo e não há caminho justo!

O velho permaneceu enfeitiçado e enojado. Ele estava cheio de horror e ódio. Ele estendeu as mãos:

— Desapareça, Espírito, saia daqui, saia do ar e volte para os ossos de onde veio! Eu senti um estremecimento nas pernas. Mas aguentei firme.

— Rabi, você disse que ele a matou. Diga-me se isto é verdade. Eu matei os homens que a esfaquearam.

— Desapareça, Espírito. — Ele cobriu o rosto com as mãos e virou a cabeça. Sua voz ficou mais forte. Ele saiu de trás da escrivaninha e caminhou em volta de mim fazendo um círculo, gritando as palavras de novo, mais alto, com mais clareza, sacudindo as mãos diante de mim. Eu me senti enfraquecer. Senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

— Por que foi que você disse, rabi, que ele tinha matado Esther? Conte-me e eu a vingarei! Eu matei os mercenários! Oh, Senhor Deus dos Exércitos, quando Jeová falou com Saul e Davi, ele ordenou que matassem até o último homem, mulher e criança! E Saul e Davi obedeceram. Não foi certo matar aqueles três desgraçados que assassinaram uma moça inocente?

— Desapareça, Espírito! — ele gritou. — Desapareça! Desapareça. Não quero ter nada a ver com você. Volte para os ossos!

— Eu o amaldiçoo, eu o odeio! — eu disse a ele, mas não saiu nenhum som.

Eu estava me dissolvendo. Tudo o que eu tinha reunido em volta de mim estava se dispersando, como se o vento tivesse achado o caminho por baixo da porta e me agarrado.

— Desapareça, Espírito, saia daqui, saia da minha casa e da minha frente!

Escuridão.

No entanto, eu não conseguia parar de pensar.

Não conseguia parar de ser.

Eu o verei de novo, velho.

Os sonhos me assaltaram como se eu fosse humano e estivesse dormindo e a minha mente tivesse aberto suas portas para mestres vivos. Não, Azriel, não, morra, mas não sonhe.

No entanto, o rosto de Samuel surgiu; Estrasburgo; outro santuário de pergaminhos e livros e que estava em chamas. Eu ouvi a minha voz. “Pegue minha mão, Mestre, leve-me para a morte com você.” Maldito seja, Samuel! Maldito seja, velho.

Malditos sejam todos vocês, Mestres!

Do alto de uma colina, eu contemplei a cidadezinha de Estrasburgo. Oh, na época as coisas não estavam tão claras como quando eu as descrevi para você.

Mas estava lá, eu vi. Eu soube que todos os judeus estavam sofrendo. Eu soube que era um deles. E no entanto eu não podia ser um deles. E os sinos tocaram. Os sinos arrogantes dos assassinos soaram em suas igrejas. E o céu era o céu pesado e silencioso dos velhos tempos — seiscentos anos atrás — talvez quando o ar não falava e eu ouvia os sinos com tanta clareza.

— Azriel. — Conversas. Vento. Os invisíveis estavam chegando, estavam vindo na minha direção no meio de uma neblina esfumaçada, cercando-me, rodeando-me, farejando a fraqueza, o medo e o sofrimento. — Azriel! — Os lamentos dos espíritos invejosos, presos na terra, me cercaram. Os mortos presos na terra, ávidos, desesperados.

Afastem-se de mim. Deixem-me recordar.

Por um instante, eu brilhei, encarando o rabi, mas o rabi era enorme, e sua voz era mais alta que o vento.

Desapareça, Espírito! Eu ordeno! O rosto do velho estava vermelho de raiva.

Desapareça. Espírito!

Suas palavras me atingiram. Elas me feriram. Elas me chicotearam. Dêem-me o silêncio por enquanto. Se não pode haver paz, pode haver silêncio e pode haver escuridão. Poderia ser pior, Azriel.

Poderia ser pior.

É ruim ser ferido, mas não tão ruim quanto matar inocentes e sorrir cheio de ódio.

 

Eu poderia ter tentado várias coisas. Poderia ter tentado deixar a sala, intacto, e seguir Gregory. Eu tinha um corpo visível! Eu o havia vestido na perfeição. Eu devia ter-me agarrado a ele. Eu devia ter tentado andar livremente nas ruas do Brooklyn e descobrir mais coisas acerca do mundo, simplesmente fazendo perguntas mais específicas sobre ele.

Eu devia ter pesquisado detalhes acerca de Gregory Belkin e o Templo da Mente. As pessoas nas ruas teriam falado comigo sobre essas coisas. Eu parecia um homem. Eu poderia ter visto os noticiários da televisão em bares. Eu pode-ria ter passado uma noite aprendendo coisas importantes em vez de deixar o velho rabi me arrancar de novo do meu próprio eu e me fazer mergulhar no nada.

Eu não deveria de forma alguma ter perdido tempo chamando pelo “meu deus” quando o rabi tentou destruir-me.

Aquilo fora algo impensável para o Servo dos Ossos — invocar o meu deus —, pois o meu deus nunca havia estado comigo durante todos os meus anos de serviço como espírito. Eu não acho que o Servo dos Ossos, que amaldiçoou Samuel, algum dia tenha se lembrado do meu deus, porque ele não se lembrava de ter sido humano, como eu agora me lembro. O meu deus tinha sido meu quando eu era um homem, um jovem vivendo na cidade da Babilônia, onde eu havia morrido.

Realmente, embora eu odeie admiti-lo, quando penso em Samuel, só me lembro do quanto me sentia orgulhoso em ser seu gênio, um fantasma com incríveis poderes, poderes que meras almas mortas quase nunca conseguem adquirir. Eu era o auge da magia antiga e dos homens que sabiam como usá-la.

Da vida humana, eu não me recordava de nada. Não conseguia nem mesmo lembrar-me de um Mestre anterior a Samuel, embora sem dúvida eu tenha tido outros. Antes, na Babilônia, deve ter existido toda uma linhagem de tais magos, a quem eu havia servido e sobrevivido.

Tinha que ser assim. Foi assim. O Servo dos Ossos foi passado de mão em mão.

E em algum momento, como o rabi tinha tão graciosamente explicado a Gregory, o Servo dos Ossos se rebelara contra seu elevado propósito. Ele mudara de idéia no meio da mágica e atacara aquele que o tinha invocado, e o Servo dos Ossos tinha feito isto mais de uma vez.

Mas o que havia precedido a tudo isto? Eu não fora humano um dia?

O que queriam de mim as minhas lembranças? O que Esther queria de mim? Por que era tão sedutor possuir olhos e ouvidos, sentir dor, e tornar a odiar e querer matar? Sim, eu queria muito matar.

Eu quis matar o rabi, mas não pude. Eu acreditei que ele fosse um homem bom, talvez um homem sem pecados, exceto por uma falta de amabilidade, e não consegui matá-lo. Já existe tanta maldade com que se pode acusar os outros. Eu não pude matá-lo. Fiquei contente por não tê-lo feito.

Mas você pode imaginar que mistério eu era para mim mesmo, preso entre o Céu e o Inferno e sem saber por que tinha vindo.

Mas eu não era de Deus, não, eu não era de Deus e não tinha deus, e quando o rabi me baniu, quando usou seu poder considerável para dissolver minha forma e confundir minha mente, de modo a impedir que eu me opusesse a ele, ele o fez em nome de Deus e eu não ousei invocar esse mesmo Deus, o Deus do meu pai, o Senhor Deus dos Exércitos, o Deus que está acima de todos os Deuses.

Não, naquele momento de fraqueza, Azriel, homem e fantasma, invocou o seu antigo deus pagão, do tempo em que era humano, um deus que ele tinha amado.

Quando o rabi me amaldiçoou, eu deliberadamente chamei por Marduc em caldeu. Eu queria que o rabi ouvisse a língua pagã. O ódio me queimava, como já ocorrera tantas vezes. Eu sabia que o meu deus não ia me ajudar.

O meu caminho e o do meu deus tinham-se separado.

Será que agora eu precisava recordar tudo? Será que eu precisava conhecer a história desde o começo?

Bem, uma única razão me levaria a tentar compreendê-la, a saber quem eu fora e como tinha sido transformado no Servo dos Ossos: para que eu pudesse morrer.

Morrer de verdade.

Não apenas mergulhar de novo na escuridão, para ser chamado a aparecer no meio de outro drama, e muito menos para ser mantido preso à terra, junto com as almas penadas que gemiam e resmungavam e guinchavam enquanto se agarravam à mortalidade. Mas, sim, morrer. Conseguir obter finalmente o que me havia sido negado anos antes através de um estratagema que eu não conseguia lembrar.

— Azriel, estou-lhe avisando. — Quem tinha pronunciado estas palavras milhares de anos atrás? Um fantasma? Quem era o homem que eu vi fugazmente na mesa ricamente trabalhada e que chorava sem parar? Quem era o rei? Tinha havido um grande rei...

Mas minha raiva e minha revolta tinham-me enfraquecido tanto que eu fui dissolvido pelo rabi. Minha mente foi desfeita tanto quanto o meu corpo. Minha capacidade de raciocinar ficou abalada, e eu me ergui na noite, sem forma, sem propósito, mais uma vez vagando no meio das vozes elétricas, tropeçando sobre o ímã que nos mantém a todos — o mundo a girar.

Mas eu nunca desisti. Eu nunca desisti realmente.

Quando voltei a mim, quando criei forças de novo, quando fixei meus olhos num alvo, pensei em todos esses diferentes aspectos da minha situação — que eu poderia estar mesmo inteiramente sem dono, que eu não iria faltar a Esther, que eu estava mais forte do que nunca — e estava resolvido a lutar mais desta vez para livrar-me de um daqueles dois homens — o rabi ou o neto dele, Gregory. Eu tinha decidido que, se não pudesse morrer, iria ter uma vida separada da deles.

Quem sabe o que alimenta um espírito, dentro ou fora do corpo? Os homens e as mulheres deste tempo, que teriam rido dos nossos velhos costumes, acreditavam em coisas fantásticas — por exemplo, que o granizo surge de um grão de poeira na parte superior da atmosfera, caindo, depois subindo, agregando gelo a si mesmo, tornando a cair, depois tornando a subir, e se tornando cada vez maior, até que ocorre um momento perfeito em que o granizo rompe o circuito e cai na terra e então, depois de tudo isso, de todo esse processo maravilhoso, derrete e se transforma em nada. O pó retorna ao pó.

Algum dia, essas pessoas — essas inteligentes mentes da atualidade — saberão tudo sobre os espíritos. Elas aprenderão do mesmo modo que aprenderam sobre genes e nêutrons e outras coisas que não conseguem ver. Os médicos na cabeceira dos doentes verão o espírito elevar-se, o tzelem, como eu o vi elevar-se de Esther. Não será necessário um feiticeiro para levar um espírito para o céu. Haverá homens suficientemente inteligentes para exterminar ou extinguir até mesmo algo como eu.

Anote isto, Jonathan.

Os cientistas do seu tempo isolaram o gene da mosca da fruta que não tem olho. E quando eles pegam os genes dela e os injetam em outras moscas da fruta — que Deus tenha misericórdia desses pequenos seres — você sabia que elas produzem olhos por todo o corpo? Olhos nas pernas? E nas asas?

Isto não o faz amar os cientistas? Você não sente ternura e respeito por eles?

Acredite-me, ao voltar a mim na noite seguinte, tornando a tomar forma, diáfano mas otimista e irritantemente calmo, eu não pensei em buscar a ajuda dos cientistas e nem dos feiticeiros para conseguir finalmente morrer. Não. Eu já estava farto de todos os especialistas do invisível: eu já estava farto de tudo, exceto de procurar justiça para uma moça que eu jamais conhecera. E eu ia encontrar um jeito de morrer, mesmo que isto significasse ter que me lembrar de tudo, de cada momento terrível que havia passado quando a morte deveria ter-me apanhado, ter-me sido concedida, quando a Escadaria do Céu deveria ter sido arriada, ou pelo menos os Portões do Inferno abertos de par em par.

Fique vivo o tempo suficiente para compreender! Era excitante! Era talvez a única coisa excitante que eu podia imaginar ou recordar naquele momento.

Na calçada, na noite seguinte, no Brooklyn, eu tomei forma rápida e completamente, como se algum homem moderno tivesse apertado um interruptor de luz. Invisível aos olhos mortais, mas na mesma forma que logo se tornaria sólida.

Eu queria que fosse assim. Mas aparecer por vontade própria? Eu não conseguia confiar nisso. Mas nessa noite eu iniciaria a minha busca pela verdade.

Brooklyn de novo, a casa do rabi e sua família, e o carro de Gregory deslizando pelo meio-fio.

Invisível, eu flutuei pertinho de Gregory, envolvendo-me nele, embora sem nunca tocá-lo, acompanhando-o pelo corredor, quase tocando os dedos dele quando ele abriu o portão.

Quando a porta se abriu, eu entrei com ele, ao lado dele, animado e destemido, inalando o cheiro da sua pele, examinando-o como nunca tinha feito antes.

Acho que eu estava desfrutando por um momento da invisibilidade, que em geral eu odeio, e me aproximei para ver o quanto ele era elegante forte, e que tinha o brilho de um rei. Seus olhos negros eram incomumente brilhantes, num rosto sem nenhuma ruga que sugerisse cansaço ou preocupação, e sua boca era especialmente bonita, mais bonita do que eu havia notado. Ele usava roupas elegantes como antes, o vestuário simples desta época, um paletó comprido de lã macia e felpuda, roupas finas por baixo, e ao redor do pescoço a mesma echarpe.

Eu fui para a extremidade esquerda da sala, um lugar muito melhor do que o que eu tinha ocupado na noite anterior, desta vez bem para a esquerda dos dois homens e das lâmpadas ao lado e acima deles, e do pequeno círculo íntimo que eles compartilhavam com tanta má vontade.

Eu podia ver o perfil do velho assim como via o de Gregory, um de frente para o outro, e o baú cintilando sobre a escrivaninha, de onde todos os livros sagrados tinham sido retirados, e que sem dúvida seria purificada depois por meio de mil palavras, gestos e velas, mas que importância isso tinha para mim?

Eu estava fazendo o ar mover-se. O velho ficaria sabendo em poucos segundos. Eu tinha que ficar imóvel e resistir à sedução da minha força crescente. Permaneça transparente, mais preparado para mover-se do que para espalhar-se, pronto para passar intacto pela parede em vez de se deixar assustar de novo ou ser desintegrado como na noite anterior.

Eu estava perto da parede mais próxima à rua, encostado numa porta de madeira que parecia sem uso, sua maçaneta de latão coberta de poeira, e pude ver minha própria forma, meus braços cruzados, meus sapatos. Eu chamei a duplicata das roupas de Gregory para se formar ao meu redor, com todos os detalhes que eu conhecia.

O rabi estava apoiado nos cotovelos, olhando fixamente para o baú diante dele, e as correntes pretas eram feias em contraste com o ouro.

Eu não senti nada de diferente por ele estar tão perto dos ossos. Eu não senti nada por falarem sobre eles, ou se moverem ao redor deles, ou olharem para o baú que os continha, e notei isto.

Comporte-se como se estivesse vivo, e como se importasse continuar vivendo. Seja cuidadoso como os vivos. Não se apresse.

O meu conselho para mim mesmo me divertiu um pouco. Mas então eu me ajeitei mais para o canto, fora de onde a luz estava caindo, para evitar que ela tocasse no meu sapato semivisível ou nos meus olhos inevitavelmente brilhantes.

Velho, pode experimentar! Eu estava pronto para ele. Estava pronto para tudo e para todos.

Gregory se aproximou ansiosamente da luz. Olhou diretamente para o baú. O velho comportava-se como se Gregory não estivesse lá. Era como se Gregory fosse o espírito. O velho olhava fixamente para os enfeites dourados do baú; olhava para as correntes de ferro.

Gregory estendeu os braços e, sem pedir licença, pôs as mãos sobre o baú. Então eu senti uma vibração, apesar de odiar senti-la, e fiquei mais forte, fiquei instantaneamente mais forte.

O velho olhou diretamente para as mãos de Gregory. Então recostou-se na cadeira, suspirando profundamente como que para causar efeito ou pontuar alguma coisa, e apanhou uma pilha de papéis — papéis bem leves e ordinários, sem a qualidade de um pergaminho — e estendeu os papéis para Gregory, segurando-os por sobre o baú.

Gregory pegou os papéis.

— O que é isto?

— Tudo o que está escrito no baú — o velho respondeu em inglês. — Não está vendo as letras? — A voz dele era cheia de desespero. — As palavras estão escritas em três línguas. Chame a primeira de sumério, a segunda de aramaico e a última de hebraico, embora elas sejam línguas arcaicas.

— Ah! Isto foi muito gentil de sua parte. Eu nunca esperei este tipo de colaboração de você.

Eu fui da mesma opinião. O que tinha levado o velho a ser tão cooperativo?

Gregory mal podia segurar os papéis. Ele os embaralhou, depois tornou a colocá-los em ordem e começou a falar.

— Não! — disse o velho. — Aqui não. Ele é seu agora e você vai levá-lo. E vai dizer as palavras quando e onde quiser, mas não sob o meu teto, e em troca destes documentos que preparei para você, exijo que me faça uma última promessa. Você sabe o que eles são, não sabe? Eles permitem que você invoque o espírito. Ensinam-lhe como invocá-lo.

Gregory riu baixinho. — Mais uma vez a sua gentileza me comove — ele disse. — Eu sei o quanto lhe desagrada tocar em qualquer coisa que não seja limpa.

— Isto não é qualquer coisa — o velho disse.

— Ah, então, quando eu disser estas palavras o Servo dos Ossos irá surgir?

— Se você não acredita, por que quer o baú? — o velho perguntou.

O choque me atingiu. Eu fiquei totalmente visível.

Encolhi-me de encontro à parede, sem ousar olhar para as minhas próprias pernas. As roupas me envolveram sem um ruído. “Que os meus sapatos brilhem ainda mais, que o ouro cubra o meu pulso e que o meu rosto fique livre de pêlos, mas dê-me o cabelo da minha juventude”, eu pedi silenciosamente.

Senti todo o meu peso, mais denso até do que na noite anterior. Eu queria olhar para mim mesmo, mas temia que me vissem.

— Você não acha que eu acredito nisso — Gregory respondeu educadamente. Ele dobrou o maço de papéis e guardou-o cuidadosamente no bolso do paletó.

O velho não respondeu.

— Eu quero saber tudo a respeito disto, quero saber do que ela estava falando, quero muito. Anseio por isto. Porque é precioso e único e porque ela falou disto quando estava morrendo.

— Sim, isto aumenta o seu valor — disse o velho, com uma voz mais severa e mais clara do que antes.

Eu podia sentir os cabelos batendo nos meus ombros. Podia sentir a umidade da parede de concreto no meu pescoço. Apertei mais a echarpe ao redor do pescoço. Coloquei-a mais para cima. A lâmpada balançou, coisas rangeram na sala, mas nenhum dos homens pareceu notar, de tão atentos que estavam ao baú e um ao outro.

— As correntes estão enferrujadas, não estão? — Gregory disse, erguendo o dedo da mão direita. — Posso retirá-las?

— Aqui não.

— Está bem, então eu presumo que tenhamos concluído o nosso negócio. Mas você quer mais alguma coisa, não quer? Uma última promessa. Eu sei. Posso ver isto no seu rosto. Fale. Eu quero levar o meu tesouro para casa e abri-lo. Fale. O que mais você quer?

— Prometa-me que não tornará a voltar a esta casa. Que nunca mais irá procurar-me. Que nunca mais irá procurar o seu irmão. Que jamais dirá a ninguém que nasceu entre nós. Você manterá o seu mundo separado como sempre fez. Se o seu irmão telefonar, você não falará com ele, se ele o visitar, você não o receberá. Prometa-me tudo isto.

— Você me pede isso todas as vezes que nos encontramos — disse Gregory. Ele riu. — É sempre a última coisa que você pede, e eu sempre prometo.

Ele inclinou um pouco a cabeça e sorriu afetuosamente para o velho, com uma arrogância tremenda.

— Você não me verá de novo, vovô. Nunca, nunca mais. Quando você morrer, eu não cruzarei a ponte para visitar o seu túmulo. É isto que você quer ouvir? Eu não procurarei Nathan para chorar junto com ele. Eu não me arriscarei a expô-lo, nem a nenhum de vocês. Está bem?

O velho concordou com a cabeça.

— Mas eu tenho um último pedido a lhe fazer — disse Gregory —, se para eu nunca mais falar com Nathan nem tornar a vê-lo.

O velho fez um pequeno gesto interrogativo com as duas mãos.

— Diga a meu irmão que eu o amo. Eu insisto que você diga isto a ele.

— Eu direi a ele — o velho disse. Então Gregory moveu-se rapidamente, erguendo o baú, arranhando a mesa com as correntes enquanto ficava ali parado com o baú no colo.

Eu tornei a sentir os tremores, o esticamento, puxando meus braços e pernas para baixo. Senti meus dedos se movendo. Senti um formigamento, como se pequenas agulhas estivessem tocando todo o meu corpo. Não gostei disto, do fato de ser resultado do toque dele. Mas talvez viesse de todos nós, do nosso senso de finalidade, da nossa concentração.

— Adeus, vovô — disse Gregory. — Algum dia, você sabe, eles virão aqui para escrever sobre você — os meus biógrafos, aqueles que contam a história do Templo da Mente. — Ele apertou o baú com mais força. As correntes enferrujadas deixaram uma mancha vermelha em sua lapela, mas ele não se importou. — Eles irão escrever o seu epitáfio porque você é meu avô. E você merecerá este reconhecimento.

— Saia da minha casa.

— É claro que você não precisa preocupar-se por enquanto. Não existe nenhum registro do garoto por quem você chorou trinta anos atrás. No meu leito de morte eu contarei a eles.

O velho sacudiu a cabeça lentamente, mas se conteve.

— Mas diga-me, você não está nem um pouco curioso a respeito do baú, do que existe dentro dele, do que poderá acontecer quando eu ler as palavras mágicas?

— Não.

O sorriso de Gregory desapareceu. Ele estudou o velho e depois disse:

— Está bem, vovô. Então não temos nada o que conversar, temos? Absolutamente nada.

O velho balançou a cabeça, concordando.

A raiva atingiu o rosto de Gregory, úmida e vermelha. Mas ele não tinha tempo para isto. Ele olhou para aquela coisa em seus braços, virou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta, abrindo-a com o joelho e deixando-a bater atrás dele.

O velho continuou sentado, sem se mexer. Acho que ele contemplava a poeira sobre a escrivaninha. Acho que ele contemplava os pedacinhos de ferrugem que a corrente de ferro havia deixado sobre a madeira polida da sua escrivaninha. Mas não sei ao certo.

Eu não sentia nada. Nem me mexi nem me senti fortalecido quando Gregory e seu baú de ossos se afastaram de mim. Não, ele não era o Mestre, nunca, nunca, de jeito nenhum. Mas e esse velho? Eu precisava saber.

Os passos de Gregory desapareceram no corredor.

Eu me aproximei da escrivaninha do velho e fiquei parado diante dele.

O velho ficou horrorizado.

O momento do grito passou num silêncio rígido, ele apertou os olhos e quando falou foi num sussurro.

— Volte para os ossos, Espírito — ele disse.

Eu juntei toda a minha força para resistir a ele, não pensei no ódio dele, e não pensei em nenhum dos momentos da minha longa e miserável existência em que fui enganado ou amado. Olhei para ele e fiquei firme. Eu mal conseguia ouvi-lo.

— Por que você entregou os ossos a ele? — eu perguntei. — Qual é o seu objetivo? Se você me invocou para destruí-lo, diga-me!

Ele virou o rosto para não me ver.

— Vá embora, Espírito! — ordenou em hebraico.

Eu o vi erguer-se e tirar a cadeira do caminho, e vi suas mãos erguerem-se e soube que ele estava falando em hebraico e depois em caldeu, sim, ele sabia isso também, e falou com um ritmo perfeito, mas eu não ouvi as palavras. As palavras não tocaram em mim.

— Por que você disse que ele matou Esther? Por quê, rabi, diga-me!

Silêncio. Ele tinha parado de falar. Ele nem mesmo rezava em sua mente ou em seu coração. Ele estava ali, paralisado, a boca apertada por baixo do bigode branco, os cachos do cabelo tremendo ligeiramente, a luz expondo os pêlos amarelados de sua barba, bem como os que eram brancos como a neve.

Os olhos dele estavam fechados. Ele começou a murmurar suas orações em hebraico, inclinando a cabeça rapidamente, muitas e muitas vezes.

Seu medo e sua fúria se equivaliam; seu ódio ultrapassava a ambos.

— Você quer que ela seja vingada? — eu gritei para ele. Mas nada iria interromper suas orações e seus olhos fechados e suas inclinações de cabeça.

Eu passei a falar baixinho, em caldeu.

— Voem para longe de mim — eu disse num murmúrio — todos os pedacinhos de terra e ar e montanha e mar, e dos vivos e dos mortos, que vieram para dar-me esta forma, voem para longe de mim, mas não tão longe que eu não possa chamá-los quando quiser, e deixem-me com uma forma que este homem mortal possa ver e temer.

A lâmpada tornou a tremer na ponta do fio. Eu vi o ar agitar a barba do velho. E vi que ele o fez piscar os olhos.

Eu olhei através das minhas mãos translúcidas e vi o chão.

— Voem para longe de mim — eu murmurei — e fiquem perto para voltar quando eu chamar, de modo que nem o próprio Deus possa me distinguir de um homem que Ele tenha criado!

Eu desapareci.

Agitei as mãos para assustá-lo. Eu queria tanto feri-lo, só um pouco. Eu queria tanto desafiá-lo. Mas ele continuava a rezar com os olhos fechados.

Não havia tempo para brincar com ele. Eu não sabia se havia energia suficiente para fazer o que pretendia. Atravessando as paredes, eu subi, erguendo-me acima dos telhados, atravessando cabos elétricos e flutuando no ar frio da noite.

— Gregory — eu disse, com toda a segurança, como se o meu velho mestre Samuel tivesse ordenado que eu dissesse isto. — Gregory!

E lá embaixo, no meio do tráfego sobre a ponte, eu vi o carro, movendo-se no meio dos seus guardiães, pois havia muitos. Eu o vi, comprido e elegante, andando na mesma velocidade que os carros que iam na frente e atrás e do lado, como se fossem todos pássaros de um mesmo bando e voassem em linha reta, sem precisar usar as correntes de ar.

— Lá embaixo, ao lado dele e de modo que ele não possa ver.

Nenhum Mestre poderia dizer isto com mais determinação, apontando o dedo para a vítima que eu deveria assaltar ou matar ou expulsar.

— Venha agora, Azriel, obedeça ao meu comando — eu disse.

Eu desci suavemente, até o interior macio e quente do carro, um mundo de veludo sintético e vidro escurecido que deixava a noite lá fora um tanto apagada, como se uma forte neblina tivesse coberto todas as coisas.

Eu me sentei defronte dele, de costas para a repartição forrada de couro que nos separava do motorista, cruzando os braços enquanto o observava, meio curvado, com o baú nos braços. Ele tinha quebrado a corrente enferrujada e inútil, que jazia, suja e partida, no chão acarpetado.

Eu quase chorei de felicidade. Eu tinha tido tanto medo! Tinha certeza de que não ia conseguir! Toda a minha vontade tinha estado tão voltada para o esforço que eu mal tinha fôlego para entender que havia conseguido.

Nós viajávamos juntos, o fantasma vigiando-o, o homem agarrado ao seu tesouro, equilibrando-o cuidadosamente sobre os joelhos, e enfiando a mão no bolso para apanhar os papéis, e depois guardando-os de volta cheio de excitação e tornando a firmar o baú e alisando-o com as mãos, como se o próprio ouro o excitasse como havia excitado os antigos. Como o ouro um dia me havia excitado.

Ouro.

Uma onda de calor me percorreu, mas isto era lembrança.

Agüente firme. Comece. Da terra e do mar, dos vivos e dos mortos, de tudo o que Deus criou, venha a mim o que necessito para ser uma aparição, fina como o ar, para tornar-me apenas visível, mas muito forte.

Eu olhei para baixo e vi a forma das minhas pernas, vi que tinha mãos de novo, fiz com que minhas roupas fossem iguais às de Gregory. Eu quase podia sentir o assento acolchoado do carro. Quase podia senti-lo e tinha vontade de tocar nele, ansiava por roupas que me envolvessem.

Eu vi botões, algo brilhante que se assemelhava a botões, e unhas. E ergui minhas mãos invisíveis na altura do rosto para ter certeza de que este estava barbeado como o dele. Mas dê-me o meu cabelo, meu longo cabelo, como o de Sansão, grosso e forte. Enfiei os dedos nos meus cachos. Eu queria tanto terminá-lo, mas ainda não...

Eu tinha que dizer quando Azriel ia chegar, não tinha? Eu tinha que dizer, eu era o Mestre.

De repente, Gregory baixou o baú. Ele caiu de joelhos no próprio chão do carro e pôs o baú na frente dele, balançando com o movimento do carro, firmando-se no banco, a mão direita tão perto de mim que quase me tocava, e então ele arrancou a tampa do baú.

Ele a puxou para cima e ela se soltou, podre, ressecada, praticamente uma concha de ouro, e lá — lá na sua cama de pano podre, estavam os ossos.

Eu senti um choque como se tivessem infundido sangue dentro de mim. Meu coração tinha apenas que bater. Não, ainda não.

Eu olhei para os restos do meu corpo. Olhei para os ossos que continham meu tzelem, cobertos de ouro, presos um no outro, e arrumados na forma de uma criança adormecida no útero.

Fui ameaçado por uma fraqueza, uma dissolução. Qual era o motivo? Dor. Nós estávamos num salão. Eu conhecia aquele salão. Senti o calor do caldeirão fervente. Não. Não deixe que esta lembrança venha. Não deixe que ela o enfraqueça.

Olhe para o homem de joelhos bem defronte de você, e para os ossos que ele quase venera, que são os seus ossos.

— Corpo, seja meu — eu murmurei. — Seja sólido e forte o bastante para matar de inveja os anjos. Transforme-me no homem que eu seria no momento mais feliz da minha vida, caso eu estivesse olhando-me num espelho.

Ele parou. Tinha escutado o murmúrio. Mas no escuro enxergou apenas o baú. O que eram para ele rangidos e batidas e murmúrios? O carro seguia em frente. A cidade pulsava.

Os olhos dele estavam presos aos ossos.

— Senhor meu Deus — disse Gregory, e apoiando-se nos calcanhares para não cair, ele estendeu a mão para o crânio.

Eu o senti. Senti as mãos dele na minha cabeça. Mas foi só um puxão do cabelo negro e grosso que já estava lá, cabelo que eu tinha chamado para mim.

— Senhor Deus! — ele repetiu. — Servo dos Ossos? Você tem um novo Mestre. Trata-se de Gregory Belkin e todo o seu rebanho. É Gregory Belkin, do Templo da Mente, quem o está chamando. Venha a mim, Espírito! Venha a mim!

Eu disse:

— Talvez sim, talvez não a todas essas palavras. Eu já estou aqui.

Ele ergueu os olhos e me viu sentado em frente a ele, soltou um grito e caiu no chão do carro. E soltou completamente o baú.

Nada mudou em mim exceto que me tornei mais forte e brilhante.

Eu me abaixei na direção dele e, cuidadosamente, coloquei a tampa frágil sobre o esqueleto de ossos. Eu cobri os ossos com minhas próprias mãos, depois endireitei o corpo, cruzei os braços e suspirei.

Ele sentou no chão do carro, o assento atrás dele, a porta ao lado dele, os joelhos para cima, olhando para mim, simplesmente olhando, e depois maravilhado como todos os outros seres humanos de que me lembrava, sem medo e louco de alegria.

— Servo dos Ossos! — ele disse, mostrando-me os dentes num sorriso.

— Sim, Gregory — eu respondi com a língua em minha boca, minha voz falando o inglês dele. — Estou aqui, como pode ver.

Eu o analisei cuidadosamente. Minhas roupas haviam excedido as dele, meu paletó era de seda macia e meus botões eram de jaspe, e meu cabelo caía pelos ombros. Fantástico! E eu estava composto e ele no chão, todo desarrumado.

Devagar, bem devagar, ele se ergueu, apoiando-se na maçaneta da porta, sentou-se no assento de veludo e olhou primeiro para o baú que estava no chão e depois para mim.

Eu me virei rapidamente por um instante. Tinha que fazê-lo. Eu estava com medo. Mas tinha que fazê-lo. Precisava tentar ver-me refletido no vidro.

Do outro lado, a noite se movia numa esplêndida corrida, a cidade cheia de torres perto de nós, brilhantes luzes elétricas cor-de-laranja ardendo como tochas.

Mas havia também Azriel, olhando para si mesmo com penetrantes olhos escuros, a pele bem barbeada, uma espessa cabeleira cobrindo-lhe a cabeça, e suas sobrancelhas grossas inclinando-se como sempre faziam quando ele sorria.

Sem pressa, eu deixei meus olhos voltarem a contemplá-lo. Deixei que ele visse o meu sorriso.

Meu coração batia e eu podia mover facilmente a língua sobre os lábios. Recostei-me no banco e senti o conforto do assento estofado e senti o motor do carro vibrando através de mim, vibrando através do veludo macio e delicioso sob mim.

Ouvi a respiração dele subir e descer. Vi o peito dele arfar. Tornei a olhar dentro dos olhos dele.

Ele estava transportado. Seus braços não estavam tensos; os dedos estavam abertos sobre os joelhos. Ele nem mesmo encolheu os ombros como que para defender-se de um choque ou de um golpe. Os olhos dele estavam bem abertos e ele também estava quase sorrindo.

— Você é um homem corajoso, Gregory — eu disse. — Com truques como este eu deixei outros homens gaguejando de pavor.

— Oh, aposto que sim — ele respondeu.

— Mas não torne a chamar-me de Servo dos Ossos. Eu não gosto. Chame-me de Azriel. Esse é o meu nome.

— Por que ela o pronunciou? — ele perguntou imediatamente. — Por que ela o pronunciou na ambulância? Ela disse “Azriel”, exatamente como você o disse.

— Porque ela me viu — eu disse. — Eu a vi morrer. Ela me viu e falou o meu nome duas vezes, e foi só o que disse antes de morrer.

Ele se recostou no banco. Estava olhando para cima, para além de mim, resistindo ao inevitável balanço do carro, e a seus súbitos puxões enquanto diminuía a velocidade, talvez bloqueado pelo tráfego. Ele foi baixando os olhos na minha direção bem devagar, do modo mais destemido e natural que eu jamais vi em um homem.

Então, levantando a mão, ele começou a tremer. Mas não por covardia. Nem mesmo por choque. E sim de alegria, a louca alegria que sentiu quando olhou para o crânio.

Ele queria tocar em mim. Esfregou as mãos, estendeu-as e depois tornou a recolhê-las.

— Vá em frente — eu disse. — Eu não me importo. Pode tocar em mim. Eu quero que você faça isso.

Eu me inclinei para a frente e agarrei a mão direita dele antes que ele pudesse impedir-me e ergui-a enquanto ele me olhava atônito. Ele abriu a boca. Eu ergui a mão dele e coloquei-a sobre o meu cabelo, depois no meu rosto e em seguida contra o meu peito.

— Está sentindo alguma batida de coração? — eu perguntei. — Não há nenhuma. Apenas um pulsar como se eu fosse inteiro um coração, feito de um coração, quando o contrário é que é verdadeiro. Eu sinto o seu pulso, é verdade, e ele está disparado. Eu sinto a sua força e você tem muita.

Ele tentou soltar a mão, mas só por delicadeza, e eu não permiti; segurei a mão dele de modo a poder examinar-lhe a palma sob a luz que entrava pela janela.

O carro prosseguia muito devagar.

Eu vi as linhas da palma da mão dele, e depois abri minha mão direita, que estava livre, e examinei também as linhas da minha palma. Eu tinha agido bem. Nenhum Mestre jamais agira melhor. Mas eu não sabia ler aquelas linhas, só sabia que elas tinham vindo para mim até o mínimo detalhe.

Então tomei a decisão de fazer algo que não pude explicar a mim mesmo. Beijei a palma da mão dele. Beijei a carne tenra de sua mão; pressionei os lábios de encontro a ela e quando o senti estremecer, vangloriei-me disso, quase da mesma forma como ele estava se vangloriando da minha presença.

Olhei para dentro dos olhos dele e vi algo dos meus próprios olhos neles, no tamanho, na cor, até mesmo no comprimento das pestanas, das quais eu me orgulhava tanto quando estava vivo.

Quis beijar os lábios dele, prendê-los e beijá-los como os inimigos costumam beijar-se antes de um tentar matar o outro.

Não me lembrava de ter havido outro momento semelhante entre o Servo dos Ossos e um mortal. Não restava nenhum resquício de lembrança de algo parecido; realmente, o que eu sentia por ele era uma espécie de fascinação, que só foi perturbada pelo rosto de Esther, e pelos lábios dela e suas últimas palavras.

— E o que o faz pensar que eu não sou o Mestre? — ele murmurou. Ele abriu um sorriso radiante, quase em êxtase.

Eu soltei a mão dele e ele juntou as duas mãos como que para proteger-se de mim, mas isto foi feito com delicadeza e compostura.

— Eu sou o Mestre e você sabe disto — ele disse delicadamente. Mas a voz dele era ansiosa e amorosa. — Azriel! Você é meu.

Não havia uma única partícula de medo nele. Na verdade, o deslumbramento que ele sentia parecia ser o cerne de sua pessoa, a parte dele que sempre desafiara o rabi e que havia desafiado uma legião de outros, e que iria desafiar a mim. O deslumbramento nele era... o quê? A monstruosa arrogância de um imperador?

— Eu não sou o Mestre? — ele perguntou.

Eu o contemplei calmamente. Estava pensando nele de forma totalmente diferente, não com raiva, mas querendo saber: quem e o que era ele? Será que ele a tinha matado? E se não tivesse?

— Eu digo que não, Gregory — eu respondi à pergunta dele. — Você não é o Mestre. Mas eu não sei tudo. Os fantasmas devem ser perdoados por saberem ao mesmo tempo tanto e tão pouco.

— Da mesma forma que os mortais — ele disse, com um toque delicado de tristeza. — E você algum dia foi um mortal?

Um arrepio me pegou com a guarda abaixada, percorrendo minha nova pele. Obscuridade. Gritos de pessoas ecoando em paredes de tijolo. Eu estremeci todo.

Com certeza eu havia sido mortal um dia! E daí?

Eu estava ali no carro com ele. O processo de encarnação continuava em mim, com o espessamento dos tendões e o aumento dos sais minerais dentro dos novos ossos que se formavam sob a minha carne, e os pêlos que se formavam nos meus braços e nos meus dedos, e os remanescentes macios da barba no meu rosto.

E este processo tinha que estar sendo executado por mim. Ele não cantou nenhuma canção para fazê-lo acontecer; não recitou nenhum cântico. Nem mesmo sabia que estava ocorrendo. Se havia uma alquimia vinda dele, era a alquimia da sua expressão, do seu deslumbramento, do seu aparente amor.

Mais uma vez veio a obscuridade. Ela veio rápida e poderosa — uma procissão, uma rua enorme com paredes altas pintadas de azul, e o perfume de flores por toda parte, e pessoas acenando, e uma tremenda tristeza, tão amarga, tão completa, que por um instante eu senti que estava começando a dissolver-me.

O carro à minha volta pareceu-me insubstancial, o que significava que eu estava saindo dele.

Na lembrança que estava revivendo, eu erguia o braço e vozes me aclamavam.

Meu deus não quis olhar para mim. Meu deus deu-me as costas durante a procissão e chorou.

Eu sacudi a cabeça. Gregory Belkin estava observando tudo isto, sentindo tudo agudamente.

— Algo o perturba, Espírito — ele disse gentilmente. — Ou então é muito difícil tornar-se carne de novo?

Eu agarrei a maçaneta da porta. Olhei para o meu reflexo no vidro. Fui eu que me obriguei a ficar. O carro sacudiu ao passar por uma rua esburacada. Ele não percebeu. Mas novas luzes tinham entrado de ambos os lados, penetrando até mesmo o vidro escurecido das janelas, e a luz mostrou o quanto ele estava radiante, e o quanto parecia jovem e à vontade no seu deslumbramento e sua alegria.

— Muito bem — ele disse cheio de charme, erguendo as sobrancelhas —, então eu não sou o Mestre. Então me diga, belo espírito, sim, pois você é um belo espírito, por que veio a mim?

Mais uma vez seus belos dentes brilharam e houve um momento quase mágico em que os diversos enfeites que usava — pequenos e feitos de ouro, nos pulsos, na gravata — vibraram como se tivessem sido tocados por uma nota musical, e ele pareceu muito bem, tão bem talvez quanto achava que eu parecia.

Mestres... Quem eram mestres para mim? Velhos? Eu falei sem pensar.

— Nunca houve um Mestre tão corajoso quanto você, Gregory — eu disse. — Não que eu me lembre, embora tanta coisa esteja fora do meu alcance. Não, a sua coragem é diferente, e nova. E você não é o Mestre. Parece, quer lhe agrade ou não, que eu vim ter com você por minha própria vontade e por motivos pessoais.

Isto o agradou imensamente.

Meu corpo ficou mais quente e eu senti as fibras do tecido das minhas roupas de encontro à pele, tive a certeza de estar ali. Flexionei o pé dentro do sapato.

— Eu gosto do fato de você não ter medo de mim — eu disse. — Eu gosto do fato de você saber o que eu sou desde o princípio, como todo Mestre saberia, mas você não é o Mestre. Eu o estive observando. Estive aprendendo coisas com você.

— É mesmo? — ele disse. Ele nem piscou. Estava quase em êxtase. — Conte-me o que viu. — No momento ele parecia achar apenas uma coisa mais fascinante do que eu, ele mesmo.

Eu sorri para ele.

Ele não era um homem desacostumado à felicidade. Ele sabia muito bem como desfrutar das coisas, tanto pequenas quanto grandes. E embora nada disso jamais tivesse acontecido com ele, sua vida o havia preparado para desfrutar isso também.

— Sim — ele disse com um amplo sorriso. — Sim!

Eu não havia falado. Ambos sabíamos disto. No entanto ele tinha lido os meus pensamentos? O que mais havia para ler? — eu me perguntei.

O carro parou.

Eu fiquei satisfeito. Estava com medo do charme dele, assustado por me sentir atraído por ele, com medo pelo fato de ter ganhado forças ao conversar com ele. Ele não precisou desejar, apenas, talvez, testemunhar este processo. Mas eu não podia tolerar isto. Eu tinha estado lá quando Esther morreu e ele não. Ele não me vira lá, no entanto, eu tinha sido forte o bastante para matar os assassinos dela, um por um.

Ele olhou pelas janelas, à direita e à esquerda. Uma enorme multidão nos cercava, urrando, gritando, fazendo pressão no carro, de modo que ele começou a balançar como um barco dentro d’água.

Ele não se perturbou. Virou-se e olhou para mim. Eu senti que a obscuridade estava voltando, porque aquela multidão me lembrava aquela velha multidão, a multidão que seguia a procissão, e as pétalas de flores caindo, o incenso subindo, e pessoas sobre os telhados das casas, em pé bem na beirada, com os braços estendidos.

Jonathan, você sabe agora o que eu recordei, mas na hora eu não sabia. Era tudo confuso. Era como se algo estivesse me obrigando a ver a minha vida como um continuum. Mas eu não confiava naquilo. Eu devo ter estado muito perto dos ensinamentos de Zurvan mil vezes ao longo dos anos, mas sem me dar conta, sem me lembrar de Zurvan. Senão, por que eu iria querer vingar a morte daquela moça? Por que eu iria desprezar o rabi por sua falta de misericórdia com relação a mim? Por que a maldade daquele homem me fascinava tanto que eu ainda não o matara?

Ele interrompeu meus pensamentos com sua voz macia, sedutora.

— Então estamos aqui na minha casa, Azriel — ele disse.

Ele me puxou de volta bem depressa.

— Estamos bem na minha porta. — Ele fez um gesto sonhador, cansado, em direção às pessoas que nos cercavam. — Não deixe que elas o assustem. Gostaria de convidá-lo para entrar.

Eu vi uma fileira de janelas iluminadas no alto.

As portas do carro foram destravadas com um estalido. Alguém fez menção de abrir a porta à minha direita e à esquerda dele. Em um segundo, abriram caminho para ele passar, sob um toldo. Cordas presas em pedestais de bronze continham a multidão. Havia câmeras de televisão voltadas para nós. Eu vi homens uniformizados afastando aqueles que gritavam e aplaudiam.

— Eles podem vê-lo? — Gregory perguntou, confiante, como se nós partilhássemos um segredo.

Foi uma pausa numa cadeia quase perfeita de gestos. Por generosidade, eu fui tentado a ignorar. Mas não o fiz.

— Veja por si mesmo se eles podem ver-me ou não, Gregory — eu respondi. Ergui o baú e, segurando-o firmemente sob o braço esquerdo, abri a porta e saltei do carro, passando por cima dele, e fiquei em pé na calçada, sob a feérica luz elétrica.

Um prédio enorme erguia-se diante de mim. Apertei o baú dos ossos de encontro ao peito. Eu mal podia ver o alto daquele prédio.

Para qualquer lado que olhasse, havia pessoas gritando. Para qualquer lado que olhasse, eu olhava para aqueles que olhavam para mim. Era uma confusão de pessoas chamando por Gregory, e outras exigindo sangue para vingar a morte de Esther, e eu não conseguia distinguir os pedidos.

Câmeras e microfones desceram; uma mulher me gritava perguntas furiosamente, rápido demais para que eu pudesse entender. A multidão quase rompeu as cordas, mas mais homens uniformizados apareceram para restaurar a ordem. As pessoas eram tanto jovens quanto velhas.

As luzes da televisão irradiavam um calor tão forte que feria a pele do meu rosto. Eu ergui a mão para proteger os olhos.

A multidão começou a berrar quando Gregory apareceu, ajudado por seu motorista, limpando o casaco que estava coberto com a poeira do baú, e colocando-se ao meu lado.

Ele falou pertinho do meu ouvido.

— Realmente, eles podem mesmo vê-lo.

A escuridão me ameaçou, gritos em outras línguas me ensurdeceram, e eu tornei a sacudir o manto de tristeza e olhei diretamente para as luzes ofuscantes e para os rostos das pessoas que estavam ali.

— Gregory, Gregory, Gregory. — O povo repetia. — Um só Templo, um só Deus, uma só Mente.

Primeiro estava fora de sincronia, uma frase atropelando a outra, como que de propósito, chegando até nós em ondas, mas depois a multidão passou a gritar em uma só voz:

— Gregory, Gregory, Gregory. Um só Templo, um só Deus, uma só Mente.

Ele ergueu a mão e acenou, virando-se para a esquerda e para a direita, e depois dando uma volta completa, balançando a cabeça e sorrindo e acenando para aqueles que estavam atrás dele, e para os que estavam longe, e beijou a própria mão, a mão que eu tinha beijado, e atirou este beijo e milhares de outros beijos para o povo que berrava e gritava encantado o nome dele.

— Sangue, sangue, sangue por Esther! — alguém gritou.

— Sim, sangue por ela! O sangue de quem a matou!

O pedido veio rugindo por cima das outras palavras, mas outras vozes juntaram-se a esta: — Sangue por Esther — e as pessoas batiam com os pés no chão marcando o ritmo das palavras.

— Sangue, sangue, sangue por Esther.

Aqueles que tinham câmeras e microfones passaram pelo cordão de isolamento e nos cercaram.

— Gregory, quem foi que a matou?

— Gregory, quem é esse com você?

— Gregory, quem é o seu amigo?

— O senhor é membro do Templo?

Eles estavam falando comigo!

— Quem é o senhor?

— O que o senhor carrega nessa caixa?

— Gregory, diga-nos o que a Igreja vai fazer.

Ele se virou e encarou as câmeras.

Um esquadrão de homens vestindo roupas escuras e bem treinados correu para nos cercar e nos separar daqueles que nos interrogavam, e em massa foram nos empurrando para fora daquela confusão.

Mas Gregory falou em voz alta:

— Esther foi o cordeiro! O cordeiro foi morto pelos nossos inimigos. Esther foi o cordeiro!

A multidão aplaudiu delirantemente. Ao lado dele, eu olhava diretamente para as câmeras, para as luzes que brilhavam, para o pipocar de milhares de máquinas fotográficas.

Ele respirou fundo para falar, dominando a situação, como se fosse um governante diante do seu trono. Ele falou bem alto:

— O assassinato de Esther foi simplesmente um aviso; eles nos comunicaram que chegou a hora em que toda pessoa de bem será destruída!

Mais uma vez, a multidão berrou e aplaudiu, gritando palavras de ordem.

— Não lhes forneçam um pretexto! — Gregory declarou. — Nenhum pretexto para invadirem nossas igrejas ou nossas casas. Eles vêm usando muitos disfarces!

A multidão avançou perigosamente.

O braço de Gregory me envolveu carinhosamente.

Eu olhei para cima. O prédio tocava o céu.

— Azriel, venha para dentro — ele disse, mais uma vez falando ao meu ouvido.

Ouviu-se um ruído alto de vidro quebrado. Um alarme soou. A multidão tinha quebrado uma das janelas mais baixas da torre. Funcionários correram para o local. Apitos soaram. Eu vi policiais a cavalo na rua.

Nós fomos levados para dentro, e atravessamos um chão de mármore fosco. Outros contiveram a multidão. Mas outros ainda nos cercavam, obrigando-nos a ir para onde nos empurravam.

Eu estava meio enlouquecido, vivo no meio daquilo tudo. Atônito e estimulado. Algo me dizia que meus antigos mestres tinham sido homens sábios, astutos, que guardavam segredo do poder que tinham.

Ali nós estávamos na capital do mundo: Gregory brilhava com a certeza do seu poder, e eu caminhava ao lado dele, embriagado de vida, embriagado com todos os olhos voltados para nós.

Finalmente, surgiu na nossa frente um par de portas de bronze, com anjos esculpidos, e quando elas se abriram, nós fomos empurrados juntos para dentro de um compartimento coberto de espelhos e Gregory fez um gesto ordenando que os outros permanecessem do lado de fora.

As portas foram fechadas. Era um elevador. Ele começou a subir. Eu vi a mim mesmo no espelho e fiquei chocado com meu cabelo comprido e cheio e com a aparente ferocidade da minha expressão, e eu o vi, frio e dominador como sempre, observando a mim e a si mesmo. Eu parecia anos mais moço do que ele, e tão humano quanto — mas poderíamos passar por irmãos, ambos morenos, com a pele queimada de sol.

As feições dele eram mais finas, as sobrancelhas mais estreitas e penteadas; eu vi os ossos proeminentes da minha testa e do meu queixo. Mas ainda assim era como se pertencêssemos à mesma tribo.

Enquanto o elevador subia cada vez mais, eu percebi que estávamos completamente sozinhos, um olhando para o outro, numa cabine flutuante, coberta de espelhos.

Mas assim que eu absorvi este choque, um dentre tantos, e assim que me endireitei e apoiei o meu peso na parede do elevador, que oscilava ligeiramente, as portas tornaram a abrir-se para um grande santuário que pareceu ao mesmo tempo esplêndido e privado: um hall de entrada de mármore, em formato de meia-lua, com portas se abrindo para a direita e para a esquerda, e bem diante de nós um amplo corredor que ia dar numa sala cujas janelas estavam escancaradas para a noite estrelada.

Nós estávamos mais alto do que o mais poderoso zigurate, castelo ou floresta. Nós estávamos no reino dos espíritos etéreos.

— Minha humilde casa — Gregory murmurou. Ele teve que arrancar os olhos de mim. Mas se recuperou.

Pelas portas veio o som de vozes e passos. Uma mulher gritou em agonia em algum lugar. Portas foram fechadas. Ninguém apareceu.

— É a mãe chorando, não é? — eu disse. — A mãe de Esther.

O rosto de Gregory ficou inexpressivo e depois triste. Não, era algo mais doloroso do que tristeza, algo que ele jamais revelara na presença do rabi ao falar da filha morta. Ele hesitou, pareceu prestes a dizer alguma coisa e depois simplesmente concordou com a cabeça. A tristeza o consumia, rosto, corpo, até mesmo as mãos que pendiam dos lados.

Ele balançou a cabeça afirmativamente.

— Nós deveríamos acudi-la, não acha? — eu disse.

— E por que faríamos isso? — ele perguntou pacientemente.

— Porque ela está chorando. Ela está triste. Ouça essas vozes. Alguém está sendo grosseiro com ela...

— Não, só estão tentando dar-lhe o remédio de que ela precisa...

— Eu quero dizer a ela que Esther não sofreu, que eu estava lá, e que o espírito de Esther subiu com tanta leveza que foi como se o próprio ar estivesse caminhando para o Paraíso. Eu quero dizer isto a ela.

Ele refletiu. As vozes baixaram. Não pude mais ouvir a mulher chorando.

— Ouça o meu conselho — ele disse, agarrando o meu braço com firmeza. — Venha primeiro até meu gabinete e converse comigo. Suas palavras não farão mesmo nenhum sentido para ela.

Eu não gostei disso. Mas sabia que precisávamos conversar, eu e ele.

— Mesmo assim, mais tarde, eu quero vê-la e confortá-la. Eu quero...

Nenhuma palavra. Nenhuma astúcia humana, de repente, nada exceto a assustadora compreensão de que agora eu estava sozinho. Por quê, em nome dos céus, tinham-me permitido voltar com toda a força de um homem? Ou uma força ainda maior.

Gregory me examinava.

Em uma ante-sala mal iluminada, eu vi duas mulheres vestidas de branco. Uma voz de homem, rouca e zangada, se fez ouvir atrás de uma porta.

— O baú — Gregory disse, apontando para a caixa dourada que eu levava nos braços. — Não deixe que ela veja isso. Iria assustá-la. Venha comigo primeiro.

— Sim, isto é uma coisa estranha — eu disse, olhando para o baú, para o ouro que se descascava.

Escuridão. Dor. A luz mudou só um pouco.

Afaste-se de mim toda dúvida, preocupação, medo do fracasso, eu disse num murmúrio, numa língua que ele jamais poderia entender.

Senti o cheiro familiar do líquido em ebulição, de uma névoa dourada subindo. Você sabe por quê. Mas eu não sabia. Virei-me e fechei os olhos, e então tornei a olhar para o outro lado do hall, para a janela aberta para o céu noturno.

— Olhe para aquilo — eu disse. Eu tinha apenas uma vaga noção em mente, algo a ver com o fato de que o tecido que cobria o céu era tão bonito quanto o mármore que estava a nossa volta, os arcos sobre nós, as pilastras que ladeavam todas as portas. — As estrelas lá fora, veja — eu repeti — as estrelas.

A casa estava silenciosa. Ele me observava, analisando-me, atento até à minha respiração.

— Sim, as estrelas — ele disse sonhadoramente, com aparente respeito.

Seus olhos escuros e vivos alargaram-se e ele sorriu novamente, cheio de amor e ternura.

— Falaremos com ela mais tarde, eu prometo — ele disse. Ele agarrou firmemente o meu braço e apontou. — Mas agora venha até o meu gabinete, vamos conversar. Já é tempo, não acha?

— Eu gostaria de saber — eu disse baixinho. — Ela ainda está chorando, não está?

— Ela vai chorar até morrer — ele disse. Os ombros dele estavam caídos de dor. Toda a alma dele sofria. Eu o deixei conduzir-me pelo corredor. Eu queria que ele me contasse certas coisas. Eu queria saber de tudo.

Eu não respondi.

 

Nós caminhamos pelo corredor, Gregory na frente, com um passo atrevido, os pés batendo no mármore, e eu atrás, ofuscado pelos painéis de seda cor-de-pêssego afixados às paredes. O próprio chão tinha esta mesma bela cor.

Passamos por diversas portas, e uma delas, à nossa direita, estava aberta. Era o quarto dela. Ela estava lá dentro.

Eu parei e espiei para dentro, indelicadamente, mas o que vi me deixou perplexo.

Era um quarto luxuoso, todo decorado em vermelho, com festões de seda vermelha descendo do teto sobre os pilares da cama. O chão também era de mármore, só que branco como a neve.

Mas isto não era tão incrível quanto a visão de uma mulher — a mulher que estivera chorando — sentada num divã, usando uma camisola esvoaçante e transparente e tão vermelha quanto a decoração do quarto. Tinha cabelos negros, como os de Esther, como os meus, aliás, e os mesmos olhos imensos de Esther, cujo branco quase faiscava. Mas o cabelo dela estava todo entremeado de prateado; dava a impressão de estar enfeitado pela idade. Ele descia por suas costas. Enfermeiras de branco a cercavam. Uma delas adiantou-se rapidamente e fechou a porta.

Mas ela ergueu os olhos e me viu. O rosto dela estava desfeito e encovado e molhado de lágrimas. Mas não era velha. Quando Esther nasceu ela era muito jovem. Imediatamente, ela endireitou o corpo.

A porta foi fechada e trancada. Eu a ouvi chamar: — Gregory!

Ele continuou andando, puxando-me pela mão, a mão dele quente e macia, fazendo-me caminhar ao lado dele.

Outras pessoas cochichavam atrás de outras portas. Havia fios elétricos nas paredes que carregavam os cochichos. Eu não consegui ouvir a mulher chorando.

Nós entramos na sala principal, uma grande e fantástica meia-lua, com um imponente teto abobadado. Uma fileira de janelas até o chão, feitas de doze diferentes painéis de vidro, corria pelo lado liso, que dava para a rua, e atrás de nós, portas com molduras iguais pontuavam o semicírculo a intervalos regulares.

Era mais do que magnífico.

Mas a visão da noite atraiu a minha atenção com toda a sua infinita doçura. Do outro lado de um rio profundo e escuro, eu vi torres, enfeitadas de luzes organizadas em fileiras de incrível regularidade, mas então eu percebi que todos aqueles prédios tinham aquelas fileiras de janelas, que esta era possuía uma precisão matemática.

Minha cabeça estava flutuando. Era muita informação sendo despejada sobre mim.

Eu vi que a sala dava para um grande parque e não para um rio, como eu havia suposto. Eu senti o cheiro das árvores. Olhei para baixo e fiquei espantado ao ver como estávamos longe da terra, da multidão pequenininha que ainda obstruía a rua e da polícia montada que se movimentava com dificuldade, como soldados da cavalaria presos no meio de uma batalha. Um enxame de formigas.

Eu me virei.

As portas atrás de nós, na parede curva, estavam fechadas. Eu nem sabia dizer por qual delas havíamos entrado. De repente, senti-me perturbado e obcecado pela breve visão da mãe em prantos.

Mas tratei de ignorar isto momentaneamente.

Bem no centro do semicírculo ficava uma monstruosa lareira, feita de mármore branco e fria e grandiosa como um altar. Havia leões incrustados nessa lareira, e sobre ela havia uma prateleira e sobre a prateleira um enorme espelho que refletia a luz que vinha das janelas.

Na verdade, havia reflexos por toda a parte. As doze portas da parede do fundo eram espelhadas e não de vidro! O efeito que aquilo causava. Nós flutuávamos naquele palácio, confortados pela cidade, como se ela nos tivesse tomado nos braços.

Na lareira, um enorme monte de lenha aguardava em prontidão, como se estivéssemos no meio de um inverno rigoroso, o que não era o caso.