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O SÉTIMO PAPIRO / Wilbur Smith
O SÉTIMO PAPIRO / Wilbur Smith

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SÉTIMO PAPIRO

 

Mestre do romance de aventura, Wilbur Smith conquistou uma legião de fãs em todo o mundo graças à sua peculiar habilidade em combinar conhecimento histórico e emoção. Em O Sétimo Papiro ele retoma os personagens apresentados no best seller O Último Deus do Nilo sob um prisma surpreendente: a ação, aqui, passa-se nos dias atuais e gira em torno de arqueólogos que investigam a história do escravo Taita e da rainha Lostris, protagonistas do livro anterior. O romance, assim, pode ser lido independentemente ou usufruído como uma incomum – mas apaixonante - continuação. A história inicia-se quando um casal de egiptólogos encontra um conjunto de dez papiros que relatam a glória e a tragédia do reinado da rainha Lostris. O sétimo rolo revela a localização exata da riquíssima tumba do faraó Mamose. Mas um misterioso grupo invade o acampamento dos arqueólogos, atira em Duraid e toma-lhe o papiro. Antes de morrer, Duraid pede a Royan, sua esposa, que procure o único homem capaz de encontrar a tumba antes dos criminosos: o controvertido, cínico e erudito aventureiro inglês Nicholas Quentin-Harper. Viajando pelos desertos da Etiópia, Nicholas e Royan se vêem presos a uma irresistível paixão - que só poderá ser vivida plenamente se escaparem das tétricas ciladas que protegem o túmulo de Mamose e da cega violência de seus sanguinários e ávidos inimigos.

 

                      

 

O anoitecer avançava sobre o deserto, tingindo as dunas de púrpura. O manto de veludo emudecia todos os sons e a noite se anunciava tranqüila.

De onde eles estavam, no alto de uma duna, avistavam o oásis e o complexo de vilarejos ao redor. As construções eram brancas, de tetos baixos, e as folhas das palmeiras sobrepunham-se a todas, com exceção da mesquita muçulmana e da igreja cristã copta.

As águas do lago escureciam. Patos em revoada inclinavam-se com as asas fechadas para pousar, borrifando de espuma a vegetação das margens.

O homem e a mulher formavam um casal díspar. Ele era alto, levemente encurvado, e seus cabelos prateados brilhavam no que ainda restava da luz do sol. Ela era jovem, pouco mais de trinta anos, esguia, alerta e vibrante. Seus cabelos grossos e cacheados estavam presos por uma tira de couro na altura da nuca.

— É hora de descer. Alia está esperando.

Ele sorriu orgulhoso. Era sua segunda esposa. Quando perdera a primeira, fora como se a morte tivesse levado a própria luz do dia. Não esperava esse último período de felicidade em sua vida. Tinha, agora, a ela e a seu trabalho. Era um homem feliz e satisfeito.

Ela se afastou e soltou a tira de couro dos cabelos. Sacudiu-os de um lado e de outro, densos e escuros, e riu. Um riso sonoro. Então atirou-se na face íngreme e escorregadia da duna, enquanto a saia longa se enroscava nas pernas ligeiras, morenas e bem-feitas. Ela equilibrou-se até a metade do caminho, quando a força da gravidade a venceu e a fez cair.

Lá do alto ele sorriu complacente. Às vezes ela agia como criança. Outras, era uma mulher séria e nobre. Não sabia bem qual preferia, mas a amava de ambos os jeitos. Ela rolou para o pé da duna e se sentou, sempre rindo, espanando a areia dos cabelos.

— Sua vez! — gritou para o alto. Ele começou a descer tranqüilamente, com certa dificuldade por causa da idade, e manteve o equilíbrio até chegar embaixo. Ajudou-a a se erguer. Não a beijou, embora a tentação de fazê-lo fosse grande. Não era costume entre os árabes demonstrar afeto publicamente, mesmo à esposa amada.

Ela ajeitou a roupa, amarrou outra vez os cabelos, e os dois foram para o vilarejo. Contornaram as moitas de capim do oásis, cruzaram os troncos finos que serviam de ponte sobre os canais de irrigação. Os camponeses voltavam-se para saudá-lo com profundo respeito.

— Salaatn aleikum, Doktari! A paz esteja convosco, doutor.

Eles honravam todos os homens de sabedoria, mas esse especialmente, pela gentileza que há tantos anos dedicava a cada um e a suas respectivas famílias. Muitos tinham trabalhado para seu pai. Pouco importava que a maioria fosse de muçulmanos, ao passo que ele era cristão.

Quando chegaram ao vilarejo, Alia, a velha empregada, saudou-os com cara feia e resmungos:

— Estão atrasados. Estão sempre atrasados. Por que não mantêm horários normais, como gente decente? Temos uma posição a zelar.

— A velha mãe está sempre certa — ele provocou-a sutilmente. — O que faríamos sem você para cuidar de nós? — Mandou-a ir; ela ainda mantinha a cara fechada, tentando disfarçar seu amor e preocupação.

Fizeram uma refeição simples no terraço: tâmaras e azeitonas, pão sem lêvedo e queijo de cabra. Quando terminaram, já estava escuro e as estrelas do deserto brilhavam como velas acesas.

— Royan, minha flor — disse ele, estendendo o braço sobre a mesa e tocando a mão dela —, está na hora de trabalhar. — Saíram da mesa e foram para o escritório, cuja entrada também era pelo terraço.

Royan Al Simma foi até o cofre de aço na parede mais distante e digitou a combinação. O cofre parecia deslocado naquele lugar, em meio a velhos livros e papiros, estatuetas, artefatos e fragmentos de tumbas que compunham o acervo de toda uma vida.

A pesada porta de aço se abriu e Royan parou diante dela por um momento. Era comum sentir respeito e reverência diante de relíquias tão antigas, mesmo que as tivesse visto pela última vez somente há poucas horas.

— O sétimo papiro — ela sussurrou, estendendo a mão para tocá-lo. Tinha quase quatro mil anos de idade e fora escrito por um grande gênio, um homem que já se transformara em pó há milênios, mas a quem ela conhecia e respeitava como a seu próprio marido. Suas palavras eram eternas e lhe falavam com clareza de além-túmulo, dos campos do paraíso, na presença da grande trindade, Osíris, Isis e Hórus, pela qual seu marido tinha tanta devoção. Com a mesma devoção Royan acreditava agora na Trindade cristã.

Ela levou o papiro até a mesa onde Duraid, seu marido, estava trabalhando. Ele ergueu os olhos quando Royan se debruçou à sua frente, e nesse instante ela viu nele a mesma devoção. Queria ver o papiro sempre sobre a mesa, mesmo que não houvesse necessidade. Podiam estar trabalhando nos microfilmes e nas fotografias. Mas era como se precisassem da presença invisível do autor ancestral para estudar seus textos.

Duraid pôs de lado a emoção e voltou a ser o cientista desapaixonado. — Seus olhos são melhores que os meus, minha flor. O que acha deste caractere?

Ela debruçou-se por cima do ombro dele e estudou o hieroglifo na foto do papiro que ele apontava. Não conseguia entender nada, e tirou a lente de aumento da mão de Duraid para examinar melhor.

— Parece que Taita inseriu aqui este outro criptograma só para nos atormentar. — Ela referia-se ao velho autor como a um amigo querido, às vezes irritante, que ainda vivia, respirava e continuava pregando suas peças.

— Vamos ter de decifrá-lo, então — Duraid declarou com claro alívio. Ele amava esse velho jogo. Era o trabalho de sua vida.

Os dois puseram-se a trabalhar no frescor da noite. Era quando o faziam melhor. Às vezes conversavam em árabe, outras em inglês; para ambos, as duas línguas eram uma só. Com menos freqüência usavam o francês, que tinham como terceira língua. Tanto um como outro haviam sido educados em universidades da Inglaterra e dos Estados Unidos, tão distantes deste próprio Egito que lhes pertencia. Royan gostava da expressão "deste próprio Egito" que Taita usava com freqüência em seus papiros.

Ela tinha tantas afinidades com o velho egípcio! Afinal, era sua descendente direta. Era cristã copta, não da linhagem árabe que há tão pouco tempo conquistara o Egito — menos de catorze séculos. Os árabes eram recém-chegados a esse próprio Egito que lhe pertencia, ao passo que seu sangue retrocedia ao tempo dos faraós e das Grandes Pirâmides.

Às dez horas Royan fez café, aquecendo-o num fogão a carvão que Alia acendera antes de voltar para sua casa no vilarejo. Eles beberam a doce e forte infusão em xícaras grossas, cheias pela metade de pó grosso. Beberam e conversaram como bons amigos.

Para Royan, era esse o relacionamento deles: bons amigos. Conhecera Duraid quando voltara da Inglaterra com seu doutorado em arqueologia e conseguira um cargo no Departamento de Antigüidades, que ele dirigia. Era sua assistente quando ele abrira a tumba no Vale dos Nobres, o túmulo da Rainha Lostris, que datava de cerca de 1780 a.C.

Compartilharam a mesma decepção ao descobrir que o túmulo fora roubado em tempos distantes e todos os seus tesouros tinham sido levados. O que restara eram os maravilhosos afrescos que revestiam as paredes e os tetos da tumba.

Royan trabalhava na parede atrás dos plintos sobre os quais outrora estivera o sarcófago, fotografando os afrescos, quando uma parte do reboco caiu e revelou um nicho que escondia dez jarros de alabastro. Cada um deles continha rolos de papiro. Todos tinham sido escritos e colocados ali por Taita, o escravo da rainha.

Desde então, a vida de ambos, a de Duraid e a sua, passou a girar em torno desses fragmentos de papiros. Embora um pouco danificados e deteriorados, em sua maior parte haviam sobrevivido notavelmente intatos por quase 4 000 anos.

Que história fascinante eles continham! Uma nação atacada por um inimigo superior, armados com cavalos e carros de guerra ainda desconhecidos dos egípcios da época. O povo do Nilo, massacrado pelas hordas dos hicsos, foi obrigado a fugir. Conduzido pela Rainha Lostris, seguiu pelo grande rio em direção ao sul, quase até a nascente, nas cruéis montanhas da Etiópia. Foi nessas montanhas proibidas que Lostris enterrou o corpo mumificado de seu marido, o Faraó Mamose, morto numa batalha contra os hicsos.

Muito tempo depois a Rainha Lostris reconduziu seu povo para o norte, a esse próprio Egito. Armados então com carros de guerra e cavalos, forjados pela estepe africana em bravos guerreiros, os egípcios lançaram-se pelas cataratas do grande rio e novamente atacaram o invasor hicso até triunfar, arrancando de suas mãos a dupla coroa do Baixo e Alto Egito.

Era uma história que tocava as fibras de seu ser, e fascinava-a desvendar cada hieroglifo que o velho escravo havia desenhado nos papiros.

Há muitos anos trabalhavam durante a noite na vila do oásis, após terem concluído a rotina diária no Museu do Cairo, e já haviam decifrado os dez pergaminhos — todos, menos o sétimo. Esse era o grande enigma, aquele que o autor tinha ocultado há tanto tempo em níveis iconográficos e alusões obscuras e imperscrutáveis. Alguns dos símbolos usados jamais haviam aparecido nos milhares de textos estudados em sua vida conjunta de trabalho. Era óbvio para ambos que Taita não pretendia que os papiros fossem lidos por mais ninguém além de sua amada rainha. Era seu último presente para ela, para que o levasse para além-túmulo.

Exigira dos dois arqueólogos toda a habilidade, toda a imaginação e engenhosidade, mas ao menos eles estavam se aproximando da conclusão da tarefa. Havia ainda muitas falhas na tradução, e trechos cujo verdadeiro significado eles não sabiam se tinham captado ou não, mas o esqueleto do manuscrito estava destrinchado de tal forma que era possível discernir o perfil da criatura ali representada.

Duraid deu um gole de café e balançou a cabeça, como sempre fazia.

— Isso me assusta — disse. — A responsabilidade... O que fazer com esse conhecimento que recolhemos? Se ele cair em mãos erradas... — Outro gole, e ele suspirou. — Mesmo se o entregarmos à pessoa certa, ela iria acreditar que este material tem quase quatro mil anos?

— Por que temos de mostrá-lo a alguém? — Royan beirava a exasperação. — Por que nós dois não fazemos o que deve ser feito? — Nesses momentos a diferença entre eles ficava mais clara: ele era a própria cautela da velhice; ela, a impetuosidade da juventude.

— Você não entende.

Ela não gostava disso, ser tratada como os árabes tratam suas mulheres, num mundo totalmente masculino. Conhecia outro mundo onde elas exigiam e obtinham o direito de ser tratadas como iguais. Era uma criatura presa entre esses dois mundos, o ocidental e o árabe.

A mãe de Royan era inglesa, e trabalhara na Embaixada britânica do Cairo nos tempos conturbados após a Segunda Guerra Mundial. Conhecera e se casara com ele — o pai de Royan, um jovem oficial egípcio do staff do Coronel Nasser. Uma união improvável, que só persistiu até a adolescência de Royan.

A mãe insistira em voltar à Inglaterra, à sua cidade natal, York, para o nascimento da filha. Queria que tivesse cidadania britânica. Depois da separação dos pais, Royan, novamente por insistência da mãe, voltara à Inglaterra para estudar, mas todos os feriados eram passados com o pai no Cairo. Ele prosperou muito em sua carreira e acabou chegando ao nível ministerial no governo de Mubarak. Por amá-lo muito, Royan considerava-se mais egípcia do que inglesa.

O casamento com Duraid Al Simma fora arranjado por seu pai: a última coisa que ele fez pela filha antes de morrer. Por estar à beira da morte, ela não teve coragem de desafiá-lo. Por sua educação moderna, Royan resistia à tradição copta dos casamentos arranjados, mas tinha contra si suas raízes, a família e a Igreja. Por fim aquiesceu.

Estar casada com Duraid não era tão insuportável quanto ela havia temido. Seria mesmo muito bom e prazeroso se ela nunca tivesse se apaixonado. Entretanto, mantivera um romance com David quando estava na universidade. Ele a arrastara para uma confusão, um delírio mental e, por fim, a uma grande dor de cabeça, quando a abandonara para se casar com uma loira inglesa, bem mais ao gosto de seus pais.

Royan respeitava Duraid e gostava dele, mas às vezes ardia de vontade de ter um corpo firme e jovem sobre o seu.

Duraid falava, mas ela não estava ouvindo. Voltou a dar-lhe atenção.

— Falei outra vez com o ministro, mas não me parece que ele esteja acreditando. Acho que Nahoot o convenceu de que sou meio louco. — Ele sorriu com tristeza. Nahoot Guddabi era seu ambicioso e bem relacionado assessor. — Seja como for, o ministro diz que não há mais recursos do governo disponíveis e que eu deveria buscar outros financiamentos. Então, estou novamente com a lista de possíveis patrocinadores, que já reduzi a quatro. É claro que há o Museu Getty, mas nunca me agradou trabalhar com instituições grandes e impessoais. Prefiro prestar contas a um só homem. As decisões são sempre mais fáceis. — Nada disso era novo para ela; mesmo assim o ouvia.

— Há também Herr Von Schiller. Ele tem dinheiro e se interessa pelo assunto, mas não o conheço bem para confiar nele totalmente. — Ele fez uma pausa; Royan já ouvira suas queixas tantas vezes que podia até se antecipar:

— Por que não o americano? É um colecionador famoso.

— Peter Walsh é um homem difícil de se trabalhar. Sua mania de acumular bens faz dele um inescrupuloso. Isso me assusta um pouco.

— Quem sobra, então? — ela perguntou.

Ele não respondeu, pois ambos conheciam a resposta. Em vez disso, voltaram ao material aberto sobre a mesa.

— Parece tão inocente, tão banal. Um velho rolo de papiro, algumas fotos, anotações, páginas impressas de computador. É difícil acreditar que possa ser tão perigoso se cair em mãos erradas. — Ele suspirou. — Diria até mortalmente perigoso.

Ele riu de si mesmo.

— Já estou começando a fantasiar... Talvez porque já seja tão tarde. Vamos voltar ao trabalho? Podemos nos ocupar desses assuntos depois de decifrarmos os quebra-cabeças que nos foram colocados por esse velho patife, Taita, e concluirmos a tradução.

Ele pegou a primeira foto da pilha que estava à sua frente. Era um trecho da parte central do papiro.

— É muito azar que o fragmento danificado esteja exatamente nesse ponto. — Ele pôs os óculos de leitura e leu em voz alta: — "São muitos os degraus da escada que leva à moradia de Hapi. Com grande dificuldade e esforço alcançamos o segundo, e não fomos adiante, pois foi aí que o príncipe teve a revelação. Em sonho, seu pai, o Deus Faraó morto, visitou-o e ordenou: Venho de muito longe e estou exausto. Aqui descansarei por toda a eternidade'."

Duraid tirou os óculos e olhou para Royan.

— "O segundo degrau." É uma descrição precisa. Taita não está sendo sinuoso como de hábito.

— Voltemos às fotos do satélite — sugeriu Royan, puxando o papel brilhante. Duraid contornou a mesa e ficou atrás dela.

— A mim parece mais lógico que o acidente natural que os bloqueou no desfiladeiro seja uma série de corredeiras ou cachoeiras. Se houvesse uma segunda cachoeira, eles estariam aqui. — Royan pôs o dedo no ponto da foto em que um rio estreito serpenteava por entre maciços de montanhas.

Nesse instante algo chamou sua atenção e ela ergueu a cabeça.

— Ouça! — disse num tom alarmado.

— O que foi? — Duraid também olhou.

— O cachorro.

— Maldito vira-lata! Vive nos assustando com seus latidos. Prometo que ainda vou me livrar dele.

Nesse instante a luz se apagou.

Ele gelaram na escuridão. O barulho constante do velho gerador a diesel, que ficava no barracão atrás do bosque de palmeiras, tinha cessado. Era algo que eles só percebiam quando se fazia silêncio.

Seus olhos ajustaram-se à fraca luminosidade das estrelas que entrava pelo terraço. Duraid atravessou o estúdio e pegou o lampião a querosene na prateleira ao lado da porta, ali colocado exatamente para tais contingências. Acendeu-o e dirigiu-se a Royan com uma cômica expressão de comiseração.

— Vou ter de ir lá embaixo...

— Duraid! — ela o interrompeu. — O cachorro...

Ele parou para ouvir, agora mais interessado. O cachorro não latia mais.

— Tenho certeza de que não é nada sério. — Ele foi para a porta e, sem saber por quê, ela o chamou de volta.

— Duraid, tenha cuidado! — Ele deu de ombros e saiu para o terraço.

Por um momento, Royan achou que fosse a sombra da parreira balançando ao vento do deserto, mas não havia vento. Depois se deu conta de que um homem atravessava o pátio pavimentado sorrateiramente, aproximando-se de Duraid por trás enquanto ele contornava o pequeno tanque de peixes ao centro.

— Duraid! — Ele virou-se ao ouvir o grito e ergueu o lampião.

— Quem é você? O que quer aqui?

O intruso chegou bem perto dele, em silêncio. A tradicional túnica longa, a dishdasha, enrolava-se em suas pernas, e o turbante branco, o ghutrah, cobria-lhe a cabeça. À luz do lampião, Duraid viu que o rosto estava escondido sob o turbante.

Como o homem estava de costas para ela, Royan não viu a faca em sua mão direita, mas percebeu nitidamente o movimento rápido contra a barriga de Duraid. Ele gemeu e curvou-se de dor, enquanto o atacante erguia a lâmina e desferia outro golpe; dessa vez Duraid deixou cair o lampião e segurou a mão do outro.

A chama do lampião espalhou-se pelo chão. Os dois homens lutavam na penumbra, e Royan viu que uma mancha escura cobria a frente da camisa de seu marido.

— Corra! — ele gritou. — Vá procurar ajuda! Não posso dominá-lo. — Duraid era uma pessoa gentil, um homem pacífico, habituado a leituras e estudos. Podia ser vencido facilmente.

— Vá! Por favor! Salve-se, minha flor! — Ele estava perdendo as forças, mas continuava segurando desesperadamente o pulso do agressor.

Ela estivera paralisada pelo choque e pela indecisão durante alguns segundos fatais, mas então saiu do estupor e correu para a porta. Impelida pelo terror e pela necessidade de procurar ajuda para Duraid, atravessou o terraço com a agilidade de um gato, enquanto ele tentava impedir que o intruso lhe bloqueasse o caminho.

Ela saltou a mureta de pedra e praticamente caiu nos braços de um segundo homem. Aos gritos, contorceu-se para escapar, enquanto os dedos do estranho lhe arranhavam o rosto, e só não conseguiu porque eles se engancharam no fino tecido de sua blusa.

Desta vez ela viu a faca, a lâmina brilhante à luz das estrelas, e isso lhe deu novas forças. A blusa rasgou e deixou-a livre, mas não a tempo de escapar da lâmina. Royan sentiu a ferroada no braço e chutou o homem com toda a intensidade de seu pânico e de sua juventude. O pé atingiu-lhe a carne macia do baixo-ventre com uma força que ela sentiu repercutir até o tornozelo e os joelhos; o atacante deu um grito e caiu ajoelhado.

Ela saiu correndo pelo bosque de palmeiras. A princípio corria sem nenhuma direção, simplesmente para se afastar o mais rápido possível dali. Aos poucos o pânico foi sendo controlado. Royan olhou para trás e viu que ninguém a seguia. Ao se aproximar do lago, parou um pouco para recuperar as forças, e só então se deu conta de que o sangue escorria por seu braço e pingava das pontas dos dedos.

Apoiada no caule de uma palmeira, ela rasgou uma tira da própria roupa e tentou desajeitadamente enrolá-la no braço. Tremia tanto que mesmo a mão sadia mostrava-se impotente e canhestra. Conseguiu amarrar a tosca bandagem com a ajuda dos dentes e da mão esquerda, e o sangramento diminuiu.

Sem saber para onde correr, Royan avistou uma fraca luminosidade na janela da choupana de Alia, do outro lado de um canal de irrigação. Com muito esforço, ela desprendeu-se do tronco da palmeira e dirigiu-se para lá. Não tinha dado cem passos quando ouviu uma voz que saía do bosque atrás dela, falando em árabe:

— Yussuf, a mulher passou por você?

Nesse instante, o facho de um farolete iluminou a escuridão e outra voz respondeu:

— Não, não vi ninguém.

Mais alguns passos e Royan teria caído nas mãos dele. Ela abaixou-se e olhou em volta desesperada. A luz de outro farolete projetava-se do bosque atrás, seguindo o caminho que ela acabara de percorrer. Devia ser o homem que ela tinha chutado, mas pela firmeza do facho de luz via-se que estava recuperado e andava sem dificuldade.

Vendo-se cercada por ambos os lados, ela dirigiu-se para a margem do lago. A estrada passava por ali. Talvez encontrasse um carro no caminho. Tropeçou nas raízes, caiu e feriu o joelho, mas levantou-se e continuou correndo. Na segunda vez que tropeçou, sua mão esquerda bateu numa pedra redonda do tamanho de uma laranja. Ao continuar, ela levou a pedra, sentindo certo conforto: era quase uma arma.

O braço ferido doía, mas era Duraid que a preocupava. Pela direção e a força da facada, ele devia estar muito ferido. Ela precisava encontrar ajuda. Os homens que a perseguiam vasculhavam o bosque com faroletes, e não era fácil manter a dianteira. Estavam quase a alcançando — podia ouvi-los falar um com o outro.

Por fim Royan chegou à estrada, e com um gemido de alívio saltou a vala de drenagem para a pista de cascalho. Suas pernas estavam tão trêmulas que ela mal conseguia andar quando tomou a direção do vilarejo.

Não tinha chegado à primeira curva quando luzes de faróis se aproximaram lentamente, bruxuleando por entre as folhas de palmeira. Ela correu para o meio da estrada.

— Ajude-me! — gritou em árabe. — Por favor, ajude-me!

O carro saiu da curva, e antes que os faróis a cegassem deu para ver que era um pequeno Fiat escuro. Ela parou no meio da estrada com os braços levantados, iluminada pelos faróis como se estivesse num palco.

O Fiat parou; ela correu para o lado do motorista e segurou-se no trinco da porta.

— Por favor, o senhor precisa me ajudar...

A porta foi aberta e empurrada com tanta força que a fez perder o equilíbrio. O motorista saltou para a estrada, agarrou-a pelo pulso do braço ferido e tentou arrastá-la para dentro do carro.

— Yussuf! Bacheet! — ele gritou para o bosque. — Eu a peguei. — Royan escutou gritos e viu os fachos de luz mudarem de direção. O motorista forçava sua cabeça para baixo, tentando empurrá-la para o banco de trás, quando ela se lembrou da pedra que tinha na mão. Virou-se ligeiramente para tomar impulso, ergueu o braço e bateu a pedra com força no lado da cabeça do homem. Acertou-o bem na têmpora. Ele caiu sem nenhum ruído no cascalho da estrada e ficou imóvel.

Royan soltou a pedra no chão e começou a correr, mas percebeu que corria em direção aos faroletes e que todos os seus movimentos eram visíveis. Os dois outros homens aproximavam-se aos gritos.

Ao vê-los chegar rapidamente, ela pensou que sua única chance seria sair da estrada e esconder-se novamente na escuridão. Correu para o barranco do lago e saltou na água, que chegava à sua cintura.

Royan estava desorientada e não percebeu que naquele ponto a estrada passava ao lado do barranco. Sabia que não daria tempo para voltar à estrada, mas lembrou-se de que mais adiante havia grossas touceiras de papiro e mato que poderiam lhe dar proteção.

Andou pela água até que deixou de tocar o leito do lago com os pés e teve de nadar. O fôlego lhe faltava, e ainda tinha de lidar com o estorvo da saia e do braço ferido. Entretanto, seus movimentos lentos e ritmados na água mal perturbavam a superfície, e antes que os homens alcançassem o barranco de onde ela saltara, surgiu na sua frente uma densa moita de vegetação.

Royan enfiou-se dentro dela e deixou-se afundar. Seus pés tocaram a superfície lamacenta antes que a água cobrisse o nariz. Ela mergulhou e ficou imóvel, com apenas parte da cabeça fora da água e o rosto virado para o outro lado. Sabia que seu cabelo escuro não refletiria a luz dos faroletes.

Mesmo com as orelhas submersas, podia ouvir as vozes excitadas na estrada. Eles estavam iluminando o lago e dirigiam os faroletes para as touceiras. Por um momento um dos fachos passou sobre sua cabeça; ela inspirou para submergir, mas a luz se desviou e ninguém a viu.

Então criou coragem de erguer um pouco a cabeça, tirar as orelhas da água e tentar ouvir o que diziam.

Falavam em árabe; ela reconheceu a voz do que se chamava Bacheet. Devia ser o líder, pois era quem dava as ordens.

— Vá por ali, Yussuf, e pegue aquela cadela.

Ela ouviu Yussuf escorregar pelo barranco e cair na água.

— Mais adiante — gritou Bacheet. — Naquele mato ali, onde estou iluminando.

— É muito fundo, e não sei nadar. Ali não vai dar pé.

— Lá! Bem na sua frente. Estou vendo a cabeça dela. — Royan temeu que fosse verdade e afundou.

O homem vinha andando em direção à touceira, espirrando água para todos os lados, quando de repente uma ruidosa agitação assustou Yussuf, que gritou:

— Djinns! Deus me proteja! — Um bando de patos alçou vôo e desapareceu na escuridão do céu.

Yussuf voltou correndo para a margem, e nem as piores ameaças de Bacheet o convenceram a continuar a caçada.

— A mulher não é tão importante quanto o pergaminho — ele protestou, escalando o barranco para a estrada. — Sem pergaminho não tem dinheiro. A gente acaba pegando ela.

Royan virou a cabeça e viu os faroletes iluminando a estrada na direção do Fiat, que continuava de faróis acesos. Ouviu bater a porta do carro, o motor funcionar e o carro seguir em direção à casa.

Royan estava trêmula e aterrorizada demais para sair de seu esconderijo. Temia que houvessem deixado alguém do bando esperando que ela aparecesse. Na ponta dos pés, com a água tocando os lábios, que tremiam mais de susto que de frio, ela decidiu permanecer ali em segurança até o dia amanhecer.

Só muito depois, quando viu a luz de um incêndio iluminar o céu, esqueceu-se de sua própria segurança e voltou para a margem. Ajoelhou-se na lama à beira d'água, tremendo e soluçando, enfraquecida pela perda de sangue, pelo susto e pela reação ao medo. Olhou para as chamas através dos cabelos molhados e da água que escorria por seus olhos.

— A casa! — Royan sussurrou. — Duraid! Oh, não! Por favor, Deus, não!

Erguendo-se com dificuldade, ela começou a andar em direção à casa incendiada.

Bacheet desligou os faróis e o motor do Fiat antes de fazer a curva na entrada da vila, deixando que o carro parasse sozinho sob o terraço. Os três homens subiram os degraus de pedra até a casa. O corpo de Duraid permanecia caído ao lado do tanque de peixes, onde Bacheet o deixara. Eles passaram sem olhar e entraram no escritório às escuras. Bacheet depositou uma sacola de náilon fino sobre a mesa.

— Já perdemos tempo demais. Precisamos trabalhar rápido agora.

— É culpa de Yussuf, que deixou a mulher fugir — protestou o motorista do Fiat.

— Você teve sua chance na estrada — Yussuf rosnou de volta — e a desperdiçou.

— Basta — disse Bacheet para ambos. — Se quiserem ser pagos, é melhor não cometer mais erros.

Com o facho da lanterna, Bacheet iluminou o pergaminho que continuava sobre a mesa.

— É esse. — Ele o conhecia, pois havia visto fotos do pergaminho e não podia se enganar. — Eles querem tudo. Mapas e fotografias. Também livros e papéis, tudo o que estiver na mesa e que eles usavam para trabalhar. Não deixem nada.

Rapidamente, eles enfiaram tudo dentro da sacola e Bacheet fechou o zíper.

— Agora o Doktari. Tragam-no aqui.

Os dois saíram para o terraço e pararam ao lado do corpo de Duraid. Segurando-o pelos tornozelos, o arrastaram para dentro do estúdio. A cabeça bateu no degrau de pedra na soleira da porta e o sangue deixou uma longa trilha vermelha nas lajotas iluminadas pelo archote.

— Pegue o lampião! — ordenou Bacheet. Yussuf voltou ao terraço para pegar o lampião a querosene que Duraid tinha deixado cair. A chama se extinguira. Bacheet ergueu o lampião à altura dos olhos e balançou-o.

— Cheio — disse com satisfação, e desenroscou a tampa do tambor. — Muito bem — voltou-se para os outros —, levem a sacola para o carro.

Eles o fizeram, enquanto Bacheet espalhava o querosene sobre a camisa e a calça de Duraid, depois voltou ao estúdio, pegou o resto de combustível na prateleira e o espalhou sobre os livros e manuscritos.

Jogou fora o lampião vazio e procurou uma caixa de fósforos sob a saia de seu dishdasha. Acendeu um e aproximou-o de um fio de querosene que escorria pela prateleira. O fogo pegou instantaneamente e as chamas se espalharam, enrugando e escurecendo as bordas dos papéis. Bacheet voltou para onde estava Duraid. Acendeu outro fósforo e soltou-o sobre o sangue que manchava a camisa. Chamas azuis dançaram sobre o peito de Duraid, mudando de cor ao queimar o tecido da camisa e, por baixo, a carne. Uma fumaça espiralada ergueu-se dos pêlos tostados.

Bacheet saiu correndo, cruzou o terraço, desceu os degraus e entrou pela porta traseira do Fiat no instante em que o motorista ligou o motor e deu a partida.

A dor despertou Duraid. Tinha de ser muito intensa para trazê-lo de volta do limiar da morte, para onde havia flutuado.

Ele gemeu. A primeira coisa que percebeu ao recobrar a consciência foi o cheiro de sua própria carne queimada, e em seguida foi tomado por uma intensa dor. Sacudido por um tremor violento de todo o corpo, ele abriu os olhos e se examinou.

Suas roupas estavam em chamas, e a dor era a pior que já sentira na vida. Percebia vagamente que tudo queimava à sua volta. Sentia a fumaça e as ondas de calor, mas não sabia de onde vinham.

A dor era tanta que ele preferia morrer para não ter mais de suportá-la. Então lembrou-se de Royan. Tentou pronunciar seu nome com os lábios crestados e escurecidos, mas o som não saiu. Pensar nela renovou suas forças. Ele rolou pelo chão, e o fogo atingiu suas costas, que até então estavam protegidas. Gemendo, ele rolou para o outro lado, aproximando-se da porta.

Cada movimento exigia um esforço supremo e evocava novos paroxismos de agonia. Ele caiu de costas novamente e sentiu uma lufada de ar fresco, sugada através da porta atrás de sua cabeça, que alimentava as chamas. Aspirar profundamente o ar fresco do deserto deu-lhe forças para jogar-se nos degraus e alcançar as frias pedras do terraço.

As roupas e o corpo de Duraid ainda ardiam em chamas. Ele tentou bater as mãos no peito para apagá-las, mas elas já se haviam transformado em garras escuras e queimadas.

Então ele se lembrou do tanque de peixes. Tentar jogar o corpo torturado na água fria exigiu-lhe o supremo esforço de se arrastar sobre a laje, como uma cobra de espinha partida.

A densa fumaça que subia da carne cremada o intoxicava e provocava-lhe tosse, mas ele não desistiu. Pedaços de sua pele ficaram na pedra da qual ele rolou para o tanque. Uma nuvem clara de vapor obs-cureceu-lhe a visão e por um momento ele pensou que estivesse cego. A dor provocada pela água na carne em brasa foi tão intensa que mais uma vez ele beirou o limite da inconsciência.

Voltou a si através da fumaça que saía de seu próprio corpo e ergueu a cabeça ao perceber alguém parado nos degraus do outro lado do pátio, que em seguida entrou no jardim.

Por um momento pensou que fossem os fantasmas de sua agonia, mas à claridade do fogo reconheceu Royan. Seu rosto estava coberto pelos cabelos molhados, sua roupa rasgada, enlameada, cheia de mato grudado. O braço direito estava enrolado num trapo imundo e encharcado de sangue e água suja.

Ela não o viu. Parada no meio do pátio, olhava horrorizada para a casa em chamas. Duraid estaria lá? Quis entrar, mas o calor erguia uma barreira sólida e a paralisava de medo. Nesse instante houve um estrondo: o teto ruiu e uma coluna de fagulhas e chamas ergueu-se na escuridão do céu. Ela saltou para trás, protegendo o rosto com o braço.

Duraid tentou chamá-la, mas o som não saiu de sua garganta crestada pela fumaça. Royan voltou-se para descer os degraus. Talvez fosse buscar ajuda. Num esforço sobre-humano, ele emitiu um grasnido por entre os lábios doloridos.

Royan o viu e deu um grito. A cabeça dele não era mais humana. O cabelo desaparecera e a pele pendia de suas faces e do queixo. Pedaços de músculo saíam pelas rachaduras da máscara pavorosa em que se transformara seu rosto. Ela recuou como se tivesse visto um monstro.

— Royan — ele gemeu numa voz irreconhecível, erguendo a mão. Ela correu para segurá-la.

— Em nome da Virgem, o que fizeram com você? — Ela chorava, e ao tentar puxá-lo do tanque arrancou-lhe a pele da mão, inteira, como uma horripilante luva cirúrgica, expondo garras em carne viva.

Royan ajoelhou-se na mureta e abaixou-se para pegá-lo nos braços. Sabia que não teria forças para erguê-lo sem causar mais sofrimento. Só lhe restava segurá-lo nos braços e tentar lhe dar conforto. Ele estava morrendo — ninguém poderia sobreviver àquilo.

— Logo virão nos socorrer — ela sussurrou em árabe. — Devem ter visto o fogo. Seja corajoso, meu marido, a ajuda chegará logo.

Ele se contorcia convulsivamente em seus braços, torturado pelos ferimentos mortais e extenuado pelo esforço para falar.

— O papiro — a voz era pouco inteligível. Royan olhou para o holocausto que envolvia a casa e balançou negativamente a cabeça.

Desapareceu. Queimado ou roubado.

Não desista — ele murmurou. — Todo o trabalho que tivemos...

Desapareceu — ela repetiu. — Ninguém vai acreditar em nós

sem o...

— Não! — disse ele, numa voz débil porém decidida. — Faça-o por

mim, meu último...

— Não diga isso. Você vai ficar bom.

— Prometa — ele exigiu. — Prometa!

— Não temos patrocinador. Estou sozinha. Não posso fazer isso sozinha.

— Harper! — Royan inclinou-se para aproximar o ouvido de seus lábios queimados. — Harper — ele repetiu. — Forte... sério... esperto... — ela entendeu. Harper, é claro, era o quarto e último nome da lista de patrocinadores. Embora fosse a última alternativa, ela sempre soubera que a preferência de Duraid era por ele. Nicholas Quenton-Harper era sua primeira opção. Ele falava muito desse homem, sempre com respeito e admiração, até mesmo com afeto.

— Mas o que devo dizer a ele? Nem me conhece. Como vou convencê-lo? O sétimo papiro desapareceu.

— Confie nele — sussurrou Duraid. — É um bom homem. Confie nele. — Havia um profundo apelo em seu pedido.

Então ela se lembrou das anotações que estavam no apartamento em Giza, um subúrbio do Cairo, e o material de Taita registrado no disco rígido de seu computador.

— Sim — concordou. — Eu prometo, meu marido. Prometo. Mesmo que o rosto mutilado não tivesse mais nada de humano,

havia na voz um débil eco de satisfação quando ele disse:

— Minha flor!

A cabeça caiu para a frente e ele morreu nos braços dela.

Os habitantes do vilarejo ainda encontraram Royan ajoelhada à beira do tanque, com a cabeça de Duraid no colo e falando com ele. As chamas já tinham diminuído e a suave claridade do amanhecer se sobrepunha à luz evanescente do fogo.

Toda a diretoria do museu e do Departamento de Antigüidades compareceu ao serviço fúnebre na igreja do oásis. Até Atalan Abou Sin, o ministro da Cultura e do Turismo chefe de Duraid, veio do Cairo em seu Mercedes preto oficial, com ar-condicionado.

Ele ficou atrás de Royan, e apesar de ser muçulmano participou do ritual. Nahoot Guddabi estava ao lado do tio. A mãe de Nahoot era a irmã caçula do ministro, que, como dizia Duraid, sabia recompensar muito bem a desqualificação e a inexperiência do sobrinho em arqueologia e a sua inépcia como administrador.

O calor era sufocante. Lá fora a temperatura estava acima de trinta graus, e até o interior da nave sombria da igreja copta era opressivo. A densa fumaça dos incensos e o padre pronunciando em tom monótono a cerimônia ancestral faziam Royan sufocar. Sentia os pontos em seu braço repuxar e arder; olhou então para o grande caixão preto diante do altar florido e viu surgir na sua frente a cabeça queimada de Duraid. Teve uma vertigem e precisou segurar-se para não cair.

Por fim tudo terminou; já podia sair ao ar livre sob a claridade do deserto. Mas seus deveres ainda não tinham terminado. Como viúva seu papel era acompanhar o féretro até o cemitério sob um palmeiral onde os antepassados de Duraid o esperavam no mausoléu familiar.

Antes de retornar ao Cairo, Atalan Abou Sin foi cumprimentá-la e oferecer-lhe suas condolências.

— Que coisa terrível, Royan! Conversei pessoalmente com o ministro do Interior. Vão pegar os animais responsáveis por essa tragédia, acredite-me. Tire o tempo que precisar antes de voltar ao museu — disse-lhe.

— Estarei no meu escritório na segunda-feira — ela retrucou. Ele pegou uma agenda no bolso interno do paletó escuro, consultou-a e escreveu alguma coisa. Olhou de novo para Royan.

— Vá me encontrar no ministério à tarde. Às quatro horas.

Ele se despediu, e foi a vez de Nahoot Guddabi cumprimentá-la. Apesar da palidez e das escuras olheiras, era um homem alto e elegante, de cabelos negros e dentes muito brancos. Usava um terno de corte impecável e recendia a uma boa colônia.

— Duraid foi um bom homem. Eu o tinha na mais alta estima — ele disse a Royan, que assentiu sem responder à mentira deslavada. Não existia nenhuma afeição entre Duraid e seu assessor. Ele jamais permitira que Nahoot trabalhasse nos papiros de Taita; e principalmente nunca deixou que ele se aproximasse do sétimo, o que era motivo de um amargo antagonismo entre eles.

— Espero vê-la candidata ao cargo de diretora, Royan. É bastante qualificada para o trabalho.

— Obrigada, Nahoot. É muita gentileza sua. Ainda não tive chance de pensar no futuro. E você, vai se candidatar?

— É claro que sim — ele reforçou. — Mas isso não quer dizer que mais ninguém possa fazê-lo. Talvez você me tire o cargo das mãos. — Ele sorriu complacente. Ela era apenas uma mulher no mundo masculino árabe, e ele, o sobrinho do ministro. Nahoot sabia muito bem que as probabilidades estavam a seu favor. — Adversários amigáveis? — ele perguntou.

Royan sorriu com tristeza.

— Pelo menos amigáveis. Vou precisar de amigos no futuro.

— Sabe que pode contar comigo. Todo mundo no departamento gosta de você, Royan. — Pelo menos isso é verdade, pensou ela, e ele continuou: — Posso oferecer-lhe uma carona para o Cairo? Meu tio não se importará.

— Obrigada, Nahoot, mas estou com meu carro e preciso ficar esta noite no oásis para resolver alguns assuntos de Duraid. — Isso não era verdade. Royan planejava voltar ao apartamento de Giza naquela mesma tarde, mas, não sabia bem por quê, preferia que Nahoot não soubesse de seus planos.

— Então nos veremos no museu na segunda-feira.

Royan saiu do oásis logo que se livrou dos amigos e dos camponeses, muitos dos quais haviam trabalhado para a família de Duraid por quase toda a vida. Entorpecida e distante, ela ouviu condolências e piedosas exortações, todas vazias, que não lhe trouxeram nenhum conforto.

Ainda era cedo, e a estrada que atravessava o deserto já estava cheia, com os carros movendo-se lentamente em ambas as direções. O dia seguinte era sexta-feira — dia de sabá. Ela tirou o braço direito ferido da tipóia para dirigir, e ele não incomodou muito. Conseguiu fazer a viagem num tempo razoável. Eram 5 horas da tarde quando ela avistou a linha verde que demarcava a desolação amarela do deserto e o início da estreita faixa de terra cultivada e irrigada ao longo do Nilo, a grande artéria do Egito.

Como sempre, o tráfego tornou-se mais intenso ao se aproximar da capital, e era quase noite quando Royan chegou ao conjunto de apartamentos em Giza. Dali podiam-se ver o rio e os grandes monumentos de pedra, altos e maciços, erguendo-se no céu do poente; para ela, simbolizavam a alma e a história de sua terra.

Royan estacionou o velho Renault verde de Duraid no andar inferior da garagem e pegou o elevador para o último andar.

Parou estática ao abrir a porta. A sala havia sido invadida — os tapetes tinham sido arrancados, os quadros tirados das paredes. Atordoada, ela começou a andar entre os pedaços de mobília quebrada e ornamentos destruídos. Do corredor, olhou para o quarto e viu que nada tinha escapado. Suas roupas e as de Duraid estavam espalhadas pelo chão, as portas dos armários escancaradas. Uma delas fora arrebentada. A cama estava revirada, os lençóis e travesseiros, jogados pelo chão.

Sentiu o cheiro de cosméticos e perfumes que saía dos vidros quebrados no banheiro, mas não foi até lá. Sabia o que encontraria. Preferiu continuar até o quarto grande, que eles usavam como escritório e ateliê.

No meio do caos, a primeira coisa que viu e lamentou foi o jogo de xadrez antigo que Duraid lhe dera de presente de casamento. O tabuleiro de marfim e âmbar negro estava quebrado ao meio, e as peças, jogadas ao chão com uma violência vingativa e desnecessária. Ela pegou a rainha branca. Haviam-lhe arrancado a cabeça.

Com a rainha na mão, ela andou como sonâmbula até sua mesa, que ficava sob a janela. Seu computador estava destruído. Tinham destroçado o monitor e o gabinete do processador, talvez com um machado. Bastou-lhe ver aquilo para saber que não restara nenhuma informação no disco rígido; estava irrecuperável.

Ela procurou a gaveta em que guardava os disquetes. Essa e todas as outras estavam jogadas no chão, vazias, é claro; junto com os disquetes, todos os seus cadernos de anotações e fotografias haviam desaparecido. Suas últimas conexões com o sétimo papiro estavam perdidas. Depois de três anos de trabalho, desapareciam as provas de sua existência.

Ela caiu ao chão, abatida e exausta. Seu braço doía outra vez; sentia-se sozinha e vulnerável como nunca em sua vida. Jamais pensara que Duraid pudesse lhe fazer tanta falta. Seus ombros começaram a tremer e lágrimas brotaram das profundezas da alma. Tentou controlá-las, mas elas inundaram os olhos e escorreram pelo rosto. Sentada entre os destroços de sua vida, Royan chorou até a última lágrima; então encolheu-se no tapete e mergulhou num sono profundo, de cansaço e desespero.

Na segunda-feira pela manhã, sua vida já havia retomado certa ordem. A polícia estivera no apartamento para tomar seu depoimento, e a desordem já estava quase toda arrumada. A cabeça da rainha branca fora colada. Quando ela saiu do apartamento e entrou no Renault verde, sentiu que o braço estava melhor e que ela própria, se não estava feliz, ao menos sentia-se mais otimista e segura sobre o que tinha de fazer.

Chegando ao museu, foi primeiro ao escritório de Duraid e aborreceu-se ao ver que Nahoot chegara antes. Ele supervisionava dois seguranças que estavam retirando os objetos pessoais do ex-diretor.

— Poderia ter tido a delicadeza de me deixar fazer isso — ela disse com frieza, e recebeu de volta um sorriso vitorioso.

— Desculpe, Royan. Achei que estivesse ajudando. — Ele fumava um de seus charutos turcos. Ela odiou o odor pesado e enjoativo.

Foi para a mesa do marido e abriu a primeira gaveta do lado direito.

— O diário de meu marido estava aqui. Não está mais. Você o viu?

— Não, não havia nada nessa gaveta. — Nahoot olhou para os guardas, esperando a confirmação; eles moveram a cabeça afirmativamente. Não tem importância, ela pensou. O livro não continha nada de interesse vital. Duraid contava com ela para registrar e armazenar todos os dados importantes, a maioria deles em seu PC.

— Obrigada, Nahoot — ela o dispensou. — Eu mesma farei o que faltar. Não quero afastá-lo de seu trabalho.

— Se precisar de ajuda, Royan, por favor, fale comigo. — Ele fez uma ligeira reverência ao sair.

Pouco restava para fazer no escritório de Duraid. Royan pediu aos guardas que levassem as caixas para sua sala e as empilhou contra a parede. Aproveitou a hora do almoço para atualizar os compromissos e terminou uma hora antes de seu encontro com Atalan Abou Sin.

Segunda-feira era um dia movimentado, e as salas de exposição do museu estavam repletas de grupos de turistas. Eles seguiam os guias como carneiros atrás de seu pastor. Rodeavam as obras mais famosas para ouvir os guias recitar seus textos decorados em todas as línguas de Babel.

As salas do segundo andar, que guardavam os tesouros de Tutancâmon, estavam tão cheias que Royan não perdeu muito tempo nelas. Foi logo até o armário envidraçado onde era guardada a máscara mortuária de ouro do faraó-criança. Como sempre, seu esplendor e romantismo fizeram Royan respirar mais rápido e seu coração acelerar-se. Diante da máscara, e mesmo sendo empurrada por duas senhoras gordas e suadas, ela se perguntou mais uma vez: se um rei tão frágil e insignificante foi enterrado com uma criação tão fabulosa sobre suas feições mumificadas, como não estariam os grandes Ramsés em seus templos fúnebres? Ramsés II, o maior de todos eles, reinara 67 anos, e nesse período acumulara seus tesouros funerários, obtidos em todos os territórios conquistados.

Royan foi prestar reverência ao velho rei. Há trinta séculos Ramsés II dormia com uma expressão enlevada e serena nas feições emaciadas. A pele tinha o brilho e a luminosidade do mármore. Os esparsos fios de cabelo eram claros e tingidos com hena. As mãos, também tingidas com hena, eram longas, finas e elegantes. Entretanto, ele estava apenas coberto com um pedaço de linho. Os saqueadores de túmulos haviam desenrolado a sua múmia para chegar aos amuletos e escaravelhos por baixo das faixas de linho, de modo que o corpo estava quase nu. Quando esses despojos foram descobertos, em 1881, num esconderijo de múmias reais na gruta de Deir El Bahari, somente um fragmento de pergaminho preso ao seu peito proclamava sua linhagem.

Havia uma moral nisso, ela acreditava; e diante dos restos patéticos mais uma vez se perguntou o que tantas vezes perguntara a Duraid: se Taita, o escriba, havia dito a verdade, e se no topo das selvagens montanhas africanas outro faraó não dormiria um sono tranqüilo com todos os seus tesouros intactos. Esse pensamento a fez vibrar, arrepiou sua pele e eriçou a penugem do pescoço.

— Eu lhe fiz uma promessa, meu marido — ela sussurrou em árabe. — Vou cumpri-la em sua memória, pois foi quem indicou o caminho.

Ela olhou o relógio de pulso e desceu a escada principal. Tinha quinze minutos para se encontrar com o ministro, e sabia exatamente como ocupá-los. Foi para uma das salas menos freqüentadas. Ali raramente havia grupos de turistas, a não ser para uma rápida olhada na estátua de Amenotep.

Royan parou diante de um armário envidraçado que ia do piso ao teto de uma sala pequena. Continha pequenos artefatos, ferramentas e armas, amuletos, vasos e utensílios, os mais recentes datados da vigésima dinastia do Novo Reino, de 1100 a. C, enquanto os mais antigos vinham de eras indistintas do Velho Reino, quase 5 000 anos atrás. A catalogação desses objetos era bastante rudimentar. Muitos itens não estavam devidamente descritos.

Do outro lado da sala, numa prateleira baixa, estavam expostos jóias, anéis e sinetes. Ao lado de cada sinete havia sua impressão em cera.

Royan ajoelhou-se para se aproximar mais de um deles. Era um pequeno sinete de lápis-lazúli, ricamente trabalhado, colocado no centro da vitrine. O lápis-lazúli era um material raro e precioso para os antigos, pois não existia na natureza do Império Egípcio. A impressão em cera representava uma águia com uma asa quebrada, e a legenda simples era facilmente legível para Royan: "Taita, o escriba da Grande Rainha".

Ela sabia que era o mesmo homem que assinara todos os pergaminhos com a águia aleijada. Quem teria encontrado aquele selo e onde? Talvez um camponês tivesse encontrado o túmulo perdido do velho escravo e escriba, mas isso era impossível saber.

— Está me provocando, Taita? Tudo isso é uma brincadeira bem pensada? Você estará rindo de mim em sua tumba, esteja ela onde estiver? — Ela chegou mais perto, até a cabeça encostar no vidro. — Somos amigos, Taita, ou você é meu adversário implacável? — Ela se levantou e arrumou as roupas. — Isso nós veremos. Vou fazer o seu jogo e veremos quem será o vencedor — ela desafiou.

O ministro a fez esperar apenas alguns minutos antes de pedir ao secretário que a fizesse entrar. Atalan Abou Sin usava um terno de seda escura e estava sentado à sua mesa, mas Royan conhecia sua preferência por túnicas mais confortáveis e almofadas no tapete para sentar-se. Ele percebeu seu olhar e sorriu.

— Tenho uma reunião com americanos esta tarde.

Royan gostava dele. Sempre fora muito delicado, e ela lhe devia seu emprego no museu. A maioria dos homens na sua posição teria recusado o pedido de Duraid por uma assistente mulher, especialmente tratando-se da própria esposa.

Ele perguntou como ela estava, e Royan mostrou o curativo no braço.

— Vou tirar os pontos em dez dias.

Eles conversaram sobre assuntos variados. Somente os ocidentais cometem a indelicadeza de ir direto ao assunto a ser discutido. Entretanto, para evitar constrangimentos, Royan aproveitou a primeira oportunidade e disse:

— Sinto que preciso de um tempo para mim. Quero me recuperar da perda que sofri e decidir o que fazer da minha vida agora que sou viúva. Ficarei agradecida se o senhor aceitar meu pedido de licença não-remunerada de pelo menos seis meses. Quero visitar minha mãe na Inglaterra.

Atalan demonstrou preocupação, e insistiu:

— Por favor, não nos deixe por tanto tempo. O trabalho que tem feito é valioso. Precisamos de você para prossegui-lo do ponto em que Duraid o deixou. — Ele dissimulava muito bem o alívio que sentia. Pensara que ela fosse apresentar sua proposta de candidatura à diretoria.

Já havia conversado sobre isso com o sobrinho. Entretanto, era um homem muito delicado para dizer que ela não seria escolhida para o cargo. O Egito começava a mudar, as mulheres emergiam de seus papéis tradicionais, mas não tanto e nem tão rápido. Ambos sabiam que a diretoria pertencia a Nahoot Guddabi.

Atalan acompanhou-a até a porta do escritório e apertou-lhe a mão. Royan saiu do ministério sentindo-se livre e aliviada. O Renault ficara sob o sol no estacionamento; quando ela abriu a porta, o calor lá dentro era insuportável. Foi preciso abrir os vidros e a porta do lado esquerdo para ventilar, e ainda assim ela queimou as costas e as pernas no forro do banco enquanto manobrava.

Ao cruzar o portão, o carro foi engolido pelo trânsito do Cairo. Royan estava atrás de um ônibus superlotado que soltava uma nuvem azulada de fumaça de diesel. O problema do trânsito era um dos que pareciam insolúveis. Havia tão poucos lugares para estacionar que os carros paravam em filas duplas ou triplas, atrapalhando o fluxo dos demais.

O ônibus freou, obrigando Royan a parar. Ela sorriu ao lembrar-se de uma velha piada: quem estaciona junto ao meio-fio tem de abandonar o carro, porque jamais conseguirá tirá-lo. Tinha algo de verdade, porque se via claramente que alguns carros deviam estar parados há várias semanas: completamente cobertos de pó, muitos deles tinham os pneus vazios.

Ela olhou pelo espelho retrovisor. Havia um táxi parado a poucos centímetros de seu pára-choque traseiro, e mais atrás vinha um bloco compacto de carros. Só os motociclistas tinham liberdade para se mover. Um deles driblava o congestionamento com uma soltura suicida. Era uma Honda 200cc tão empoeirada que não se distinguia a cor. Havia um passageiro na garupa, e tanto ele como o da frente tinham a boca e o nariz cobertos com um lenço para proteger-se da fumaça e da poeira.

Aproximando-se pela direita, a Honda meteu-se no pequeno espaço entre o táxi e os carros estacionados, sem nenhuma proteção lateral. O taxista fez um gesto obsceno com o polegar e o indicador, e evocou Alá como testemunha da loucura e estupidez dos motociclistas.

A moto diminuiu a velocidade quando emparelhou com o Renault de Royan, e o homem da garupa inclinou-se para jogar alguma coisa pelo vidro aberto do outro lado. No mesmo instante o condutor acelerou bruscamente, erguendo a roda dianteira do chão. Fez uma curva fechada em alta velocidade para entrar numa ruela que dava em outra avenida e por pouco não atropelou uma velha que atravessava a rua.

Num momento em que o da garupa olhou para trás, o vento ergueu a ponta do lenço que lhe cobria o rosto e Royan reconheceu instantaneamente o homem que vira sob os faróis do Fiat, na estrada do oásis.

— Yussuf!

Quando a Honda desapareceu, ela olhou o objeto no banco. Era oval, com a superfície segmentada pintada de verde-oliva. Já vira tantos filmes de guerra que reconheceu no mesmo instante a granada; então se deu conta de que a alça tinha sido retirada e a arma explodiria em segundos.

Num ato impensado, Royan puxou o trinco, jogou o corpo contra a porta e caiu na rua. Seu pé escorregou da embreagem e o carro deu um salto para a frente, batendo na traseira do ônibus estacionado.

Caída no chão sob as rodas de um carro, Royan viu a granada explodir e pela porta do motorista sair uma labareda, seguida de fumaça e detritos. O vidro traseiro se estilhaçou, espalhando cacos em toda a volta. Seus ouvidos zuniam.

Seguiu-se um silêncio atordoante, que só era quebrado pelo tilintar dos cacos de vidro caindo no chão, mas logo em seguida começaram os gemidos e gritos. Royan sentou-se, segurando o braço ferido contra o peito. Caíra sobre ele, e os pontos doíam muito.

O Renault estava destruído, mas ela viu que sua bolsa a tiracolo tinha sido atirada para fora e estava caída na rua, não muito longe de seu alcance. Conseguiu levantar-se com dificuldade e foi apanhá-la. Tudo em volta era confusão. Alguns passageiros do ônibus estavam feridos e um estilhaço de granada havia atingido uma menina na calçada. A mãe gritava e enxugava com um lenço o sangue no rosto da filha, que chorava e tentava se soltar.

Ninguém notara Royan, mas ela sabia que a polícia chegaria em poucos minutos, treinada para agir rapidamente em atentados do terror fundamentalista. Sabia também que se a encontrassem ali seria detida para interrogatório. Pendurou a bolsa no ombro e andou o mais rápido que sua perna machucada lhe permitia, em direção ao beco pelo qual a Honda tinha desaparecido.

No fim da rua havia um banheiro público. Ela se trancou em um dos cubículos e encostou-se na porta com os olhos fechados, tentando recuperar-se do choque e ordenar os pensamentos.

Com o sofrimento e a desolação pelo assassinato de Duraid, ainda não pensara em sua própria segurança. A consciência do perigo impusera-se da maneira mais selvagem. Lembrou-se, então, do que dissera um dos assassinos naquela noite: "A gente acaba pegando ela!"

O atentado contra sua vida fracassara por um triz. Era preciso estar atenta, porque haveria outros.

"Não posso voltar ao apartamento", pensou Royan. "A vila foi destruída, e é lá que vão me procurar."

Apesar do cheiro desagradável, ela continuou trancada no cubículo durante uma hora, tentando pensar no que faria em seguida. Por fim, saiu e foi para a fileira de pias. Lavou o rosto, penteou o cabelo, retocou a maquiagem e ajeitou as roupas da melhor maneira possível.

Andou alguns quarteirões, refazendo caminhos que já percorrera e olhando para trás para ter certeza de que ninguém a seguia, e por fim fez sinal para um táxi.

Pediu ao motorista que a deixasse na rua atrás de seu banco e fez o resto do caminho a pé. Foi logo atendida pelo subgerente. Tinha cerca de 5 000 libras egípcias na conta. Não era muito, mas havia um pouco mais na conta do Lloyd's Bank, em York, além de seu Mastercard.

— Devia ter avisado com antecedência que ia retirar um item de seu cofre de segurança — disse-lhe severamente o subgerente. Ela se desculpou e representou tão bem a jovem desinformada que ele a perdoou. Entregou-lhe um envelope contendo seu passaporte britânico e os papéis bancários do Lloyd's.

Duraid tinha vários parentes e amigos que teriam muito prazer em hospedá-la, mas Royan queria ficar fora de vista, longe dos lugares habituais. Escolheu um dos hotéis duas estrelas que ficavam distante do rio, onde esperava não ser reconhecida entre a multidão de anônimos. Nesse tipo de hotel há uma rotatividade muito grande, pois a maioria dos turistas fica apenas algumas noites antes de se mudar para o Luxor ou o Assuã, com vista para os monumentos.

Quando ficou sozinha em seu quarto de solteiro, ligou para o serviço de reservas da British Airways. Havia um vôo para o Aeroporto de Heathrow na manhã seguinte, às 10 horas. Ela reservou um lugar na classe econômica e deu o número do Mastercard.

Já passava das 6 da tarde no Egito, mas no Reino Unido ainda era horário comercial. Royan procurou na agenda o número da Universidade de Leeds, onde completara seus estudos. A ligação foi atendida ao terceiro toque.

— Departamento de Arqueologia. Escritório do Professor Dixon — anunciou uma típica secretária inglesa.

— É a Senhora Higgins?

— Sim, sou eu. Com quem estou falando?

— Sou Royan. Royan Al Simma, Said quando era solteira.

— Royan! Há quanto tempo não ouvimos falar de você! Como vai? Elas conversaram um pouco, mas Royan estava atenta ao preço da ligação.

— O professor está? — interrompeu.

O Professor Percival Dixon tinha mais de setenta anos e já devia estar aposentado.

— Royan? É você mesmo? Minha aluna preferida! — Ela sorriu. Ele ainda não perdera a mania de conquistador. As mais bonitas eram sempre suas preferidas.

— Estou fazendo uma ligação internacional, professor. Quero saber se sua oferta continua de pé.

— Achei que você tinha dito que não podia nos atender.

— As circunstâncias mudaram. Eu lhe contarei pessoalmente, se pudermos nos ver.

— É claro que sim. Vamos adorar recebê-la para conversar um pouco. Quando pretende estar aqui?

— Chegarei à Inglaterra amanhã.

— É muito rápido. Não sei se poderemos recebê-la tão cedo.

— Ficarei na casa de minha mãe em York. Deixe-me falar com a Senhora Higgins para dar o número do telefone. — Ele era um dos homens mais brilhantes que Royan conhecia, mas duvidava de que pudesse anotar corretamente um número de telefone. — Telefonarei dentro alguns dias.

Desligou e deitou-se na cama. Estava exausta, e seu braço ainda doía, mas queria que seu plano previsse todas as eventualidades.

Dois meses atrás o Professor Dixon a havia convidado para dar uma palestra sobre a descoberta e as escavações da tumba da rainha Lostris e os pergaminhos que foram encontrados. É claro que havia sido o livro, e principalmente as notas ao final, que chamara a atenção dele. A publicação despertara muito interesse. Tinham recebido questionários de egiptólogos amadores e profissionais do mundo inteiro, alguns de lugares tão distantes como Tóquio ou Nairóbi, todos questionando a autenticidade da história e de suas bases factuais.

Nessa época, ela se opôs a que um escritor de ficção tivesse acesso às transcrições, principalmente porque ainda estavam incompletas. Temia correr o risco de reduzir o que poderia ser um importante e sério assunto acadêmico ao nível do entretenimento popular, um pouco como o que Spielberg fizera à paleontologia com seu parque cheio de dinossauros.

No final, seus argumentos foram derrotados. Até Duraid ficou contra ela. Por dinheiro, é claro. O departamento jamais dispunha de verbas para dar prosseguimento a seus trabalhos menos espetaculares. Quando se tratava de algum plano grandioso, como o de mudar todo o templo de Abu Simmel para um local que não fosse atingido pela inundação da represa do Alto Assuã, países do mundo todo despejavam milhões de dólares. Entretanto, as despesas operacionais do dia-a-dia do ministério não atraíam tanto apoio.

A metade que lhes coube dos direitos autorais de O Último Deus do Nilo — o título do livro — financiara quase um ano de pesquisas, mas não foi suficiente para diminuir os receios de Royan. O autor tomara muitas liberdades com os fatos contidos no pergaminho e havia acrescentado às personagens históricas personalidades e fraquezas das quais não havia nenhuma prova. Particularmente, ela achava que Taita, o velho escriba, fora retratado como um fanfarrão afetado e vaidoso. Isso a magoou.

Mas era obrigada a admitir que o objetivo do autor fora tornar os fatos mais atraentes e compreensíveis para o grande público, apesar de sua relutância em concordar com isso. Entretanto, sua formação científica revoltava-se contra a popularização de algo que era único e maravilhoso.

Ela suspirou para afastar esses pensamentos. O mal estava feito, e pensar nisso só servia para irritá-la.

Voltou a concentrar-se nos problemas mais prementes. Se fosse mesmo dar a palestra para a qual fora convidada, precisaria dos slides, que ainda estavam em sua sala no museu. Enquanto tentava pensar na melhor maneira de pegá-los sem ter de fazê-lo pessoalmente, o cansaço a venceu e Royan adormeceu totalmente vestida, ao pé da cama.

Afinal, a solução de seu problema foi muito simples. Bastou ligar para o escritório da administração, pedir que alguém pegasse as caixas de slides em sua sala e que um dos funcionários as levasse de táxi ao aeroporto.

Ele entregou-lhe as caixas no balcão da British Airways e disse: — A polícia esteve no museu esta manhã. Queriam falar com a senhora, doutora.

Obviamente haviam conseguido o registro do Renault destruído. Por sorte ela estava com seu passaporte inglês. Se tentasse sair do país com documentos egípcios, seria impedida — provavelmente a polícia já se comunicara com todos os pontos de controle de passaportes. O jornal El Arab trazia na primeira página uma foto dela com Duraid, tirada um mês antes, durante a recepção a um grupo de agentes de turismo franceses.

Ela sentiu uma profunda dor ao ver a foto de seu marido, tão bonito e tão nobre, e ela de braço dado com ele, sorrindo-lhe. Comprou vários jornais e embarcou.

Durante a viagem, passou a maior parte do tempo escrevendo tudo o que conseguia lembrar do que Duraid lhe dissera sobre o homem com quem ia encontrar-se. Escreveu no alto da página: "Sir Nicholas Quenton-Harper (Bart)". Duraid lhe contara que o avô de Nicholas tinha sido recompensado com o título de baronete por seu trabalho como oficial de carreira do serviço colonial britânico. Por três gerações sua família mantivera fortes laços com a África, especialmente com as colônias britânicas e os círculos influentes no norte do continente: Egito, Sudão, Uganda e Quênia.

Segundo Duraid, Sir Nicholas tinha servido na África e nos países do Golfo com o Exército britânico. Era fluente em árabe e suaíle, a língua dos bantos, e notável arqueólogo e zoólogo amador. Como o pai, o avô e o bisavô, também fizera expedições ao norte da África para coletar espécimes e explorar as regiões mais remotas. Escrevera inúmeros artigos para publicações científicas e dera uma palestra na Royal Geographical Society.

Seu irmão mais velho morrera na infância, por isso Sir Nicholas herdou o título e a propriedade da família em Quenton Park. Retirou-se do exército para cuidar de seus bens, mas principalmente para supervisionar o museu da família, que fora inaugurado em 1885 por seu bisavô, o primeiro baronete. Esse museu abrigava uma das maiores coleções particulares de fauna africana, tão famosa quanto seu acervo de artefatos do antigo Egito e do Oriente Médio.

Entretanto, pelo que Duraid contara, concluía-se que devia existir na personalidade de Sir Nicholas um lado selvagem, até mesmo marginal. Era sabido que ele não tinha medo de correr riscos extraordinários para aumentar sua coleção em Quenton Park.

Duraid o conhecera há alguns anos, quando Sir Nicholas o recrutara para agir como espião em uma expedição ilícita cuja finalidade era "liberar" várias peças púnicas da Líbia de Khadafi. Sir Nicholas vendera algumas delas para custear as despesas da expedição e mantivera as melhores em sua coleção particular.

Mais recentemente, participara de outra expedição, dessa vez envolvendo a travessia ilegal da fronteira do Iraque, para retirar um par de frisos de pedra em baixo-relevo, sob o nariz de Saddam Hussein.

Duraid contou a ela que Sir Nicholas vendera um deles por uma grande quantia; chegou a mencionar algo como 5 milhões de dólares. Contou também que ele usara o dinheiro na administração do museu, mas que o segundo friso, o melhor, continuava com ele.

Essas duas expedições aconteceram anos antes de Royan conhecer Duraid, e ela se perguntava por que seu marido se havia comprometido tanto com esse inglês. Sir Nicholas devia ter um fantástico poder de persuasão, pois se fossem apanhados em flagrante sem dúvida seriam executados sumariamente.

Mas Duraid lhe explicara que em ambas as ocasiões haviam contado com os inúmeros recursos de Nicholas e sua rede de amigos e admiradores em todo o Oriente Médio e norte da África, aos quais sempre recorria quando necessário.

— Ele é um demônio. — Duraid balançava a cabeça, demonstrando uma saudade evidente. — Mas o homem certo para empresas arriscadas. Por mais excitante que fosse naquele tempo, hoje, quando me lembro, tremo diante dos perigos que corremos.

Royan sabia muito bem dos riscos que um verdadeiro colecionador era capaz de correr pelo objeto de sua paixão. Quando conseguia acrescentá-lo aos outros que possuía, esses riscos pareciam insignificantes. A aventura em que ela esperava envolver Sir Nicholas não era exatamente segura, e Royan supunha que um grupo de advogados pudesse debater sua legalidade infinitamente.

Sorrindo diante desses pensamentos, ela adormeceu; a tensão dos últimos dias havia atingido seu ponto máximo. A comissária de bordo acordou-a para afivelar o cinto de segurança e preparar-se para a aterrissagem em Heathrow.

Royan ligou do aeroporto para a mãe. — Oi, mamãe, sou eu. — Sim, eu sei. Onde você está, meu amor? Está tudo bem?

— Estou em Heathrow. Vou ficar um tempo com você, pode ser?

— Pensão Lumley, às ordens! Já vou arrumar sua cama. Em que trem chegará?

— Dei uma olhada nos horários. Vem um de King's Cross que me deixará em York às sete da noite.

— Vou buscá-la na estação. O que aconteceu? Você e Duraid brigaram? Ele poderia ser seu pai... Eu disse que não daria certo.

Royan ficou em silêncio. Não era momento para explicações.

— Conversaremos sobre isso depois.

Georgina Lumley esperava na plataforma no final da tarde de novembro cinzenta e fria. Era uma mulher sólida e volumosa, vestida num velho casaco verde; a seu lado estava Magic, um cocker spaniel, sentado obedientemente a seus pés. Os dois formavam um par inseparável, mesmo quando não estavam vencendo competições caninas. Para Royan, os dois compunham a imagem reconfortante e familiar de sua ascendência inglesa.

Georgina deu um beijo superficial no rosto de Royan.

— Nunca fui dada a exageros sentimentais — ela sempre dizia. Pegou a mala de Royan e seguiu na frente para o estacionamento, onde estava o velho Land Rover respingado de lama.

Magic cheirou a mão de Royan e balançou o rabo, reconhecendo-a. Depois, concedeu que ela lhe afagasse a cabeça, mas, como sua dona, também não era dado a sentimentalismos.

Na estrada, depois de algum tempo de silêncio, Georgina acendeu um cigarro.

— O que aconteceu com Duraid?

Royan não conseguiu responder imediatamente; de repente, suas comportas interiores se romperam e tudo transbordou. Era uma viagem de vinte minutos de York ao vilarejo de Brandsbury, durante a qual ela não parou de falar. A mãe apenas emitia sons de encorajamento e conforto, e ao ouvir os detalhes da morte e do enterro de Duraid estendeu a mão e bateu de leve na da filha.

Tudo estava terminado quando chegaram ao chalé em que a mãe morava, no vilarejo. Royan havia chorado o suficiente, e já estava recomposta quando se sentaram para comer o jantar que ficara esperando no forno. Não se lembrava da última vez em que havia comido torta de rim e carne.

— E o que vai fazer agora? — Georgina perguntou, despejando o que restava da garrafa escura de cerveja Guinness em seu copo.

— Para falar a verdade, não sei. — No mesmo instante lhe ocorreu que as pessoas sempre utilizam essa frase para começar uma mentira. — Tenho seis meses de licença no museu, e o Professor Dixon quer que eu dê uma palestra na universidade. É só o que sei até agora.

— Bem — disse Georgina —, há uma bolsa de água quente na sua cama, e o quarto é seu pelo tempo que quiser. — Vindo dela, isso era tão bom quanto uma declaração apaixonada de amor materno.

Nos dias que se seguiram Royan organizou os slides e anotações para a palestra, e todas as tardes acompanhava Georgina e Magic em suas longas caminhadas pelos campos vizinhos.

— Conhece Quenton Park? — ela perguntou à mãe durante um dos passeios que faziam.

— E como! — respondeu a mãe entusiasmada. — Magic e eu vamos lá quatro ou cinco vezes na temporada. Tem caça de primeira. Os melhores faisões e perdizes de Yorkshire. Há uma trilha chamada High Larches, que é muito famosa. Os pássaros voam tão alto que frustram as melhores pontarias da Inglaterra.

— Conhece o proprietário, Sir Nicholas Quenton-Parker?

— Já o vi algumas vezes. Não o conheço. É um bom caçador, sem dúvida — respondeu Georgina. — Conheci o pai dele antes de conhecer seu pai. — Ela sorriu de um modo tão sugestivo que Royan se espantou. — Bom dançarino. Dançamos algumas vezes juntos, e não apenas danças de salão.

— Mamãe, você é terrível! — Royan riu.

— Fui — a mãe concordou prontamente. — Não tenho mais tantas oportunidades.

— Quando você e Magic irão de novo a Quenton Park?

— Daqui a duas semanas.

— Posso ir também?

— É claro, estão sempre querendo novos batedores para assustar a caça. Pagam vinte libras por dia, mais almoço com uma garrafa de cerveja. — Ela parou e olhou curiosa para a filha. — Afinal, por que tudo isso?

— Ouvi dizer que há um museu particular na propriedade. Possui uma coleção egípcia mundialmente famosa. Queria dar uma olhada.

— Não está mais aberto ao público. Somente para convidados. Sir Nicholas é um sujeito estranho e misterioso.

— Você conseguiria um convite para mim? Georgina balançou a cabeça negativamente.

— Por que não pede ao Professor Dixon? Ele também caça lá em Quenton Park, e é muito amigo de Quenton-Harper.

Demorou dez dias para que o Professor Dixon se dispusesse a recebê-la. Royan pegou emprestado o Land Rover da mãe e foi até Leeds. O professor deu-lhe um abraço afetuoso e levou-a para tomar chá em sua sala.

Voltar àquela sala repleta de livros, papéis e objetos antigos deu-lhe saudade dos bons tempos de estudante. Royan contou a Dixon sobre o assassinato de Duraid, o que o deixou triste e chocado, mas logo ela começou a falar dos slides que preparara para a palestra. Ele ficou fascinado com tudo o que ela tinha a mostrar.

Antes de sair, Royan aproveitou uma oportunidade para abordar o assunto da visita ao museu de Quenton Park, e ele reagiu imediatamente:

— Surpreende-me que nunca o tenha visitado quando estudava aqui. É uma coleção impressionante. Pertence à família há mais de cem anos. Acabo de me lembrar que vou caçar na propriedade na próxima quinta-feira. Posso falar com Nicholas. Só que meu pobre amigo não anda muito bem. Há um ano sofreu uma terrível tragédia pessoal. Perdeu a mulher e duas filhas num acidente de carro na rodovia Ml. — Ele balançou a cabeça. — Coisa terrível! Nicholas estava dirigindo. Acho que se culpa por isso. — O professor acompanhou-a até o carro.

— Então a veremos no dia 23 — ele disse ao se despedir. — Espero uma platéia de no mínimo cem pessoas, e um repórter do Yorkshire Post me procurou. Ouviram falar de suas palestras e querem entrevistá-la. É boa publicidade para o departamento. Você dará a entrevista, é claro. Poderia chegar um pouco mais cedo?

— Provavelmente nos veremos antes do dia 23 — disse-lhe Royan. — Mamãe e seu cão estão inscritos em Quenton Park na quinta-feira. Ela me escalou como batedor nesse dia.

— Ficarei de olho em você — ele prometeu, e acenou enquanto ela se distanciava atrás de uma nuvem de óleo queimado.

O vento norte soprava gélido. As nuvens esbarravam umas nas outras, pesadas, azuis e cinzentas, tão perto da terra que tocavam o cume das montanhas. Royan tinha três camadas de roupa por baixo do casaco verde que a mãe lhe emprestara, e mesmo assim tremia de frio quando chegou ao alto da montanha, compondo a linha de batedores. Seu sangue se tornara mais fino ao calor do Vale do Nilo. Dois pares de meias de pescador não eram suficientes para impedir que os dedos dos pés ficassem amortecidos.

Para essa rodada, a última do dia, Georgina fora deslocada de sua posição habitual para trás da linha de tiro, onde ela e Magic deviam recolher os pássaros feridos que viessem na direção deles, depois da linha de batedores.

Deixando o melhor para o fim, agora percorriam High Larches. O coordenador necessitava de muitos homens e mulheres para encontrar os faisões na grande área sobre as colinas e empurrá-los para o vale, onde os atiradores esperavam suas presas.

Royan considerava o exemplo supremo do comportamento ilógico criar e alimentar os faisões desde que nasciam e depois, quando estavam maduros, dar-se a tanto trabalho para matá-los de maneira tão difícil. Georgina lhe explicara que quanto mais alto voassem os pássaros e mais difícil fosse abatê-los, mais os esportistas apreciavam e pagavam por esse privilégio.

— Você não acredita o que eles conseguem arrecadar em um único dia — disse-lhe Georgina. — Só hoje vai render mais de catorze mil libras à propriedade. São vinte e um dias de caça nesta temporada. Basta fazer os cálculos para ver que a caça é a maior fonte de renda da propriedade. Além da diversão de treinar os cães e da perseguição, isso dá a nós, os vizinhos, um bom dinheiro extra.

A essa altura do dia Royan não tinha mais certeza se achava tão divertida a função de batedor. A caminhada era difícil no matagal, e ela já escorregara mais de uma vez. Seus joelhos e cotovelos estavam sujos de lama. Viu então à sua frente uma vala com água pela metade, coberta por uma fina camada de gelo. Ela se aproximou cautelosamente, equilibrando-se com a ajuda de uma bengala. Essa já era a quinta rodada, todas igualmente difíceis. Ela deu uma olhada para a mãe e perguntou-se como alguém conseguia apreciar aquela tortura. Georgina estava feliz da vida e comandava Magic com assobios e sinais.

Ela abriu um sorriso largo para Royan:

— Ultima etapa, querida. Está quase terminando.

Royan sentiu-se humilhada por sua exaustão ser tão óbvia, e apoiou-se na bengala para saltar a vala enlameada. Porém calculou mal a distância e desceu antes da outra margem. Caiu de joelhos e a água gelada escorreu para dentro das botas de cano alto.

Georgina riu e ofereceu-lhe a ponta de sua bengala para ajudá-la a sair da lama. Royan não podia interromper a fila, parando para esvaziar as botas encharcadas, então continuou como estava.

— Alinhar à esquerda! — a ordem foi transmitida pelo coordenador pelo walkie-talkie, e a fila parou imediatamente.

A arte e a habilidade de um batedor de caça consistia em espantar os pássaros que se escondiam no emaranhado de vegetação rasteira, não todo o bando, mas aos poucos, de modo que voassem sobre os atiradores sozinhos ou aos pares, e eles tivessem tempo, depois de dois tiros, de empunhar uma segunda arma carregada e preparar-se para o próximo pássaro que surgisse no céu. A reputação do batedor e sua gorjeta dependiam de como ele "levantava" as aves para os atiradores atentos.

Durante esse intervalo, Royan conseguiu recuperar o fôlego e olhar ao redor. Por uma abertura entre os pinheiros, ela enxergou o vale lá embaixo.

Havia uma clareira no sopé das montanhas, uma extensão de relva verde interrompida por manchas de neve cinzenta que caíra na semana anterior. Ao longo dessa campina o coordenador colocara uma fileira de estacas. No início do dia os atiradores haviam sorteado os números de estacas onde se posicionariam.

Agora cada homem estava junto à sua estaca, acompanhado de seu carregador de munição, que trazia a segunda arma carregada, pronta para ser usada quando a primeira se esvaziasse. Todos olhavam para cima, onde o faisão iria aparecer.

— Qual deles é Sir Nicholas? — Royan perguntou à mãe, e Georgina apontou para o lado mais distante da fila de atiradores.

— O mais alto — disse ela, e nesse momento o coordenador ordenou pelo rádio:

— Bem devagar à esquerda. Comecem a bater outra vez. — Os batedores começaram a bater as bengalas. Ninguém gritava ou fazia ruídos durante a operação delicada e rigidamente controlada.

— Devagar para a frente. Parem quando os pássaros voarem.

Passo a passo, a fila toda se movia; Royan ouvia no meio da vegetação e das samambaias o tumulto furtivo dos faisões fugindo, mas evitando voar até que fossem obrigados.

Havia outra vala no caminho, esta coberta por touceiras quase impenetráveis. Alguns dos cães maiores, como os labradores, não conseguiram atravessar. Georgina assobiou e as orelhas de Magic se ergueram. Ele estava ensopado, e sua capa se transformara num amontoado de lama, gravetos e espinhos. A língua rosada pendia do lado da boca aberta e o toco do rabo abanava freneticamente. Nesse instante ele era o cão mais feliz da Inglaterra. Ia fazer o trabalho para o qual nascera.

— Vá, Magic — ordenou Georgina. — Entre lá. Faça-os sair.

Magic mergulhou no emaranhado de galhos e espinhos e desapareceu totalmente de vista. Passou um minuto cavando e farejando, e em seguida ouviu-se um crocitar violento e um vigoroso bater de asas.

Um par de aves explodiu dos arbustos. A fêmea saiu na frente. Era uma espécie pardacenta e indefinida, do tamanho de uma ave doméstica, diferente do macho magnífico que a seguia de perto. Este tinha a cabeça verde-iridescente, os lados do bico e a papada escarlates. O rabo, em faixas cor de canela e pretas, tinha quase o tamanho do corpo, e sua plumagem era uma profusão de cores maravilhosas.

Ao alçar vôo ele brilhou contra o céu cinzento como uma jóia de valor incalculável atirada pela mão de um imperador. Royan ficou boquiaberta diante de tanta beleza.

— Veja que lindo! — Georgina não conteve a excitação. — Que casal de primeira! O melhor do dia. Aposto que nenhuma dessas armas acertará uma única pena deles.

Alto, cada vez mais alto, os dois pássaros subiam, com a fêmea conduzindo o macho, até que um vento quente no alto das montanhas os levou para o vale.

A fila de batedores desfrutou o momento. Haviam trabalhado duro para consegui-lo. Todos falavam alto para espantar os pássaros. Preferiam ver os faisões fora do alcance das armas.

— Para a frente — gritavam. — Para cima! — E dessa vez a fila parou espontaneamente para acompanhar o casal levado pelo vento.

No fundo do vale, olhando para cima, os atiradores eram pequenas manchas pálidas sobre o fundo verde. A tensão deles era quase palpável ao observar os faisões atingir a velocidade máxima, parar de bater as asas, mantendo-as fechadas, e iniciar a descida para o vale.

Esse era o tiro mais difícil para qualquer atirador. Um belo par de faisões com a ventania a empurrá-los por trás, entrando na linha de tiro na última fase do vôo e passando rente às armas de 12 milímetros. Os homens lá embaixo calculavam a velocidade e a direção nas três dimensões do espaço. O melhor deles podia esperar acertar um pássaro, mas ninguém ousaria cobiçar os dois.

— Aposto uma libra! — declarou Georgina. — Uma libra como eles não vão conseguir. — Mas nenhum dos batedores aceitou o desafio.

O vento empurrava os pássaros para o lado. Eles começaram voando para o centro da linha de atiradores, mas estavam sendo levados para a extremidade mais distante. Royan viu os homens se retesar em suas posições quando as aves pareciam voar na direção deles, e relaxar quando o vento as levou. Foi claro seu alívio quando, um após o outro, eles desistiram do desafio de dar um tiro impossível com tanta gente olhando.

No final, somente uma figura alta, na extremidade da fila, estava no trajeto dos pássaros.

— O pássaro é seu, senhor — um dos atiradores gritou, e Royan prendeu instintivamente a respiração.

Nicholas Quenton-Harper parecia não notar que os faisões se aproximavam. Estava totalmente descontraído, meio curvado para a frente, a arma sob o braço direito, com o cano apontado para baixo.

No momento em que a fêmea alcançou um ponto no céu a 60 graus de sua cabeça, ele finalmente se moveu. Com uma graça natural, desenhou um arco com o cano da arma, e no instante em que o cabo encostou no rosto e em seu ombro, ele completou o arco com um tiro.

Devido à distância, o som demorou a chegar até Royan. Ela só percebeu o coice da arma e uma fumaça azulada saindo do cano. Sir Nicholas baixou o rifle, a cabeça da fêmea dobrou-se para trás e as asas se fecharam. Não haveria falhas de penas em seu corpo, pois ele acertara a cabeça e o pássaro morrera instantaneamente. Só quando ele iniciou seu longo mergulho Royan ouviu o estampido.

O macho estava agora bem acima de Nicholas. Dessa vez, ao se preparar com a mesma naturalidade, ele curvou a cintura para trás e apontou para cima, formando um arco retesado com o corpo longilíneo. Mais uma vez, no ápice do giro a arma deu um coice para trás. Ele errou, pensou Royan, com um misto de satisfação e desapontamento, ao ver que o macho continuava planando, aparentemente intocado. Uma parte dela queria que o belo animal escapasse, enquanto a outra queria que o homem vencesse. Aos poucos o perfil do pássaro se alterou: as asas fecharam-se e ele começou a rolar no céu. Royan não sabia que o coração do pássaro fora atingido, até que segundo depois ele morreu em pleno ar e suas asas, antes bem fechadas, se abriram.

Quando ele caiu ao chão, um coro espontâneo de vivas percorreu a linha de batedores, fraco mas emocionado sob o gélido vento norte. Os atiradores engrossaram o coro com gritos de "Ótimo tiro, senhor!"

Royan não se juntou às comemorações, mas por um momento elas a fizeram esquecer o frio e a fadiga. Conseguia avaliar vagamente a habilidade demonstrada por aqueles dois tiros, mas não podia negar que estivesse impressionada, até mesmo admirada. A sua primeira visão daquele homem preenchera todas as expectativas que as histórias contadas por Duraid haviam suscitado nela.

A caçada terminou quase de noite. Um velho caminhão do Exército apareceu na trilha que atravessava a floresta e parou ao lado dos cansados batedores e seus cães. Todos saltaram para a carroceria. Georgina empurrou Royan por trás e subiu em seguida com Magic. Foi um prazer sentar no banco duro. Georgina acendeu um cigarro e aderiu à conversa animada dos coordenadores e batedores.

Royan ficou quieta em seu lugar, sentindo-se vitoriosa por ter conseguido chegar ao fim daquele dia extenuante. Estava cansada, descontraída e estranhamente feliz. Durante o dia inteiro conseguira não pensar no roubo do pergaminho, nem no assassinato de Duraid, nem no inimigo desconhecido e invisível que a ameaçava.

O caminhão desceu a montanha e no fim diminuiu a velocidade para dar passagem a um Range Rover verde. Quando os veículos ficaram emparelhados, ela se virou para ver quem estava dentro e deu de cara com Nicholas Quenton-Harper ao volante, também olhando para ela.

Pela primeira vez Royan o via suficientemente de perto para distinguir suas feições. Era muito mais jovem do que ela esperava. Pensou que tivesse a idade de Duraid, mas ele não devia ter mais de quarenta anos, pois os fios brancos mal começavam a aparecer nos lados da farta cabeleira. Suas feições eram bem marcadas, típicas de pessoas que se expõem muito ao sol. Grossas sobrancelhas contornavam os penetrantes olhos verdes. A boca era grande e expressiva, e ele estava rindo de alguma coisa que o motorista do caminhão falava num forte sotaque de Yorkshire. Mas havia em seu olhar uma trágica tristeza. Royan lembrou-se do que o professor lhe havia contado sobre a tragédia de sua família, e sentiu-se solidária. Ela não estava sozinha em sua perda e sua dor.

Quando ele a viu, sua expressão mudou. Royan era uma mulher atraente, e sabia quando um homem reconhecia isso. Ele também a impressionara, mas disso ela não gostou. A perda de Duraid era muito recente e ainda lhe doía muito. Royan desviou o olhar e o Range Rover seguiu em frente.

A palestra de Royan na universidade foi um sucesso. Boa oradora e íntima conhecedora do assunto, deixou a platéia fascinada ao relatar a abertura da tumba da rainha Lostris e a subseqüente descoberta dos pergaminhos. Muitos dos presentes haviam lido o livro, e depois da exposição ela foi questionada insistentemente sobre a veracidade da história. Foi preciso ter muito cuidado com as respostas para não ser indelicada com o autor.

Depois da palestra, o Professor Dixon convidou Royan e Georgina para jantar. Ele estava maravilhado com o sucesso, e quis celebrar com o mais caro clarete da carta de vinhos. Mas decepcionou-se quando Royan recusou a taça.

— Oh, esqueci que você é muçulmana — ele se desculpou.

— Copta — ela corrigiu —, e não se trata de princípio religioso. Realmente não gosto.

— Não se preocupe — Georgina avisou-lhe. — Não tenho a mesma tendência ao masoquismo que minha filha. Deve ter herdado isso do pai. Eu o ajudarei a cuidar da garrafa.

Sob a influência do vinho, o professor tornou-se mais expansivo e divertiu-as contando sobre as escavações arqueológicas de que participara. Somente depois do café ele disse a Royan:

— Quase ia me esquecendo. Você pode visitar o museu de Quenton Park em qualquer tarde desta semana. Basta telefonar à Senhora Street na véspera, que ela a deixará entrar. É a assistente de Nicholas.

Royan lembrava-se bem do caminho, e dessa vez foi sozinha a Quenton Park. Pesados portões de ferro ornamentado marcavam a entrada da propriedade. Mais adiante, o caminho se bifurcava, e um poste de sinalização apontava para vários destinos: "Quenton Hall: Particular"; "Administração da Propriedade"; "Museu".

A estrada para o museu passava por dentro do parque dos cervos, onde manadas pastavam sob os carvalhos desfolhados pelo inverno. Através da paisagem brumosa ela vislumbrou a casa grande. De acordo com o guia que o professor lhe dera, Sir Christopher Wren a havia desenhado em 1693, e o grande paisagista Capability Brown criara os jardins sessenta anos depois. O resultado era uma perfeição.

O museu ficava no meio de um bosque de faias acobreadas. Havia outros prédios interligados, que obviamente haviam sido acrescentados posteriormente. A Sra. Street estava esperando por ela na porta e apresentou-se enquanto a introduzia na casa. Era uma mulher de meia-idade, já grisalha e segura de si.

— Ouvi sua palestra na segunda-feira. Foi fascinante! Temos um guia, se precisar, mas as peças estão bem catalogadas e descritas. Passei vinte anos fazendo isso. Não temos outros visitantes hoje. O lugar é todo seu, passeie quanto quiser. Ficarei aqui até as cinco da tarde, portanto tem a tarde toda. Se eu puder ajudá-la em alguma coisa, meu escritório fica no final do corredor. Por favor, não hesite em fazê-lo.

No primeiro instante em que Royan pisou na exposição de mamíferos africanos ficou enfeitiçada. A sala dos primatas abrigava uma coleção completa de espécies de macacos de todo o continente: desde o grande gorila prateado ao delicado colobus, com seu longo manto de pêlos negros e brancos, todos estavam ali representados.

Embora algumas peças tivessem mais de cem anos de idade, estavam muito bem preservadas e lindamente expostas em dioramas que representavam seu habitat. Era óbvio que o museu tinha uma equipe de artistas e taxidermistas habilidosos. Imagine quanto isso não custaria!

Por fim Royan decidiu que os 5 milhões de dólares obtidos pelo friso de pedra tinham sido bem gastos.

Em seguida veio a sala dos antílopes, e ela ficou maravilhada diante dos magníficos animais ali preservados. Parou diante do diorama com uma família de gigantescos antílopes negros, a variedade angolana já extinta dos Hippotragus niger variani. Ao mesmo tempo que admirava o animal de dorso negro e peito alvo como a neve, de chifres longos retorcidos para trás, lamentava sua morte nas mãos de um Quenton-Harper. Então reconsiderou. Não fosse a estranha paixão e dedicação do caçador-colecionador que o matara, talvez as novas gerações não tivessem a oportunidade de ver sua figura régia.

Ela passou então à próxima sala, onde estavam expostos os elefantes africanos, mas parou no meio do aposento diante de um par de presas de marfim tão grandes que era difícil acreditar que pudessem ser carregadas por um animal. Lembravam colunas de mármore de um templo helênico de Diana, a deusa da caça. Ela leu a ficha impressa:

Presas do elefante africano, Loxodonta africana. Abatido no Enclave de Lado em 1899 por Sir Jonathan Quenton-Harper. Presa esquerda: 130 kg. Presa direita: 135 kg. Comprimento da presa maior: 3,40 m. Circunferência: 80 cm. O maior par de presas já obtido por um caçador europeu.

Eram duas vezes mais altas que ela e mais grossas que a circunferência de sua cintura. Enquanto Royan passava à sala egípcia, pensava com espanto no tamanho e na força do animal que as carregava.

Então estancou, quando seus olhos se depararam com a figura que se erguia no centro da sala. Era uma estátua de 5 metros de altura de Ramsés II, representado como o deus Osíris, em granito vermelho polido. O deus-imperador caminhava vigorosamente, de sandálias nos pés e saiote curto. Levava na mão esquerda os vestígios de um arco de guerra, cujas pontas estavam quebradas. Era o único dano que a estátua sofrera em milhares de anos. O resto estava perfeito — o pedestal ainda guardava as marcas do cinzel. Na mão esquerda, o faraó levava um sinete gravado com seu cartucho real. Sobre a majestosa cabeça usava a alta coroa dupla, do Alto e Baixo Reinos. Tinha uma expressão calma e enigmática.

Royan reconheceu a estátua instantaneamente, pois havia uma idêntica no grande átrio do Museu do Cairo, pela qual passava diariamente a caminho de sua sala.

Sentiu a raiva crescer por dentro. Era um dos maiores tesouros do seu Egito, roubada de um dos sítios sagrados do país. Não podia estar naquele lugar. Pertencia à margem do grande Rio Nilo. Ela tremeu de emoção ao se aproximar da estátua, para examiná-la mais de perto e ler a inscrição em hieroglifos na sua base.

O cartucho real destacava-se no centro da arrogante advertência: "Sou o divino Ramsés, mestre de 10 000 carros de guerra. Temei-me, ó inimigos do Egito".

Não foi Royan quem traduziu em voz alta, mas outra voz tranqüila e profunda, atrás dela, que a assustou. Não escutara ninguém se aproximar. Ela virou-se, e ele estava tão perto que podia tocá-la.

Estava com as mãos enfiadas nos bolsos de um cardigã azul, que tinha um buraco no cotovelo. Usava calça de jeans azul desbotado e surrado e sapatilhas com monograma — uma espécie de elegância despojada, cultivada por certos ingleses que pareciam nunca se preocupar com a aparência.

— Desculpe. Não quis assustá-la. — Ele exibiu um sorriso preguiçoso: tinha dentes muito brancos, mas ligeiramente desalinhados. Sua expressão mudou no instante em que a reconheceu.

— Ah, é você! — Ela deveria envaidecer-se por ter sido lembrada após um contato tão fugaz, mas tornou a ver nos olhos dele o mesmo brilho que antes a repelira. Mas não pôde recusar a mão que ele lhe oferecia. — Nick Quenton-Harper — apresentou-se. — Deve ser a ex-aluna de Percival Dixon. Acho que a vi na caçada quinta-feira. Não estava batendo para nós?

Diante de sua amabilidade e espontaneidade, ela sentiu as defesas ruírem.

— Sim, sou Royan Al Simma. O senhor conheceu meu marido, Duraid Al Simma.

— Duraid! E claro que o conheço. Grande e velho amigo. Passamos muito tempo juntos no deserto. É um dos melhores. Como está ele?

— Ele morreu. — Ela não pretendia ser tão fria e tão direta, mas não encontrou outra resposta para dar.

— Sinto muitíssimo! Não sabia disso. Quando e como isso aconteceu?

— Muito recentemente. Há três semanas. Ele foi assassinado.

— Oh, meu Deus! — Ele a olhou com simpatia, e Royan lembrou-se de que também sofria. — Telefonei para ele no Cairo menos de quatro meses atrás. Estava encantador como sempre. Encontraram a pessoa que fez isso?

Ela fez que não com a cabeça e virou-a para o outro lado para não revelar as lágrimas.

— O senhor tem uma bela coleção.

Ele aceitou imediatamente a mudança de assunto.

— Graças ao meu avô, principalmente. Ele fez parte da equipe de Evelyn Baring — chamado por seus muitos inimigos de "o despótico". Foi preposto inglês no Cairo durante...

Ela o interrompeu:

— Sim, ouvi falar de Evelyn Baring, o primeiro Duque de Cromer, cônsul-geral inglês no Egito de 1883 a 1907. Com seus poderes plenipo-tenciários, foi um ditador incontestável de meu país durante esse período. Fez inúmeros inimigos, como o senhor mesmo diz.

Os olhos de Nicholas se estreitaram.

— Percival me disse que você foi uma de suas melhores alunas. Não contou, entretanto, que tinha sentimentos nacionalistas tão fortes. É claro que eu não precisava traduzir Ramsés para você.

— E meu pai pertenceu à equipe de Gamai Abdel Nasser — ela murmurou. Nasser fora o homem que destronara o rei-fantoche Farouk e finalmente rompera com o poderio britânico no Egito. Como presidente, nacionalizou o Canal de Suez, enfrentando a reação dos ingleses.

— Ah! — ele riu. — Estamos em lados opostos do caminho. Mas as coisas mudaram. Espero não ser seu inimigo.

— Absolutamente — ela concordou. — Duraid o estimava muito.

— E eu a ele. — Nicholas mudou de assunto rapidamente: — Temos muito orgulho de nossa coleção de ushabti reais. Temos exemplares das tumbas de todos os faraós do Antigo Reino em diante, até o último dos Ptolomeus. Venha ver. — Ela o seguiu até uma grande vitrine que ocupava toda a extensão de uma das paredes do saguão. Os bonecos, que eram colocados nas tumbas para servir de criados e escravos aos reis mortos no mundo das sombras, estavam expostos em inúmeras prateleiras.

Com a própria chave Nicholas abriu as portas envidraçadas e estendeu o braço para pegar uma das peças mais interessantes.

— Este é o ushabti de Maya, que serviu a três faraós, Tutancâmon, Ay e Horemheb. Estava no túmulo de Ay, que morreu em 1343 a.C.

Ele lhe entregou o boneco, e ela leu em voz alta os hieroglifos de 3 000 anos de idade com a mesma facilidade com que lia as manchetes dos jornais:

— "Sou Maya, tesoureiro dos dois reinos. Responderei ao divino Faraó Ay. Que ele viva para sempre!" — Ela falou em árabe para testá-lo, e a resposta na mesma língua foi fluente e coloquial:

— Acho que Percival Dixon disse a verdade. Você deve ter sido uma discípula excepcional.

Unidos pelo interesse comum e falando alternadamente árabe e inglês, as primeiras fagulhas de antagonismo logo desapareceram. Eles percorreram a sala devagar, demorando-se diante de cada vitrine, examinando minuciosamente seu conteúdo.

Foram transportados há milênios atrás. Horas e dias pareciam insignificantes diante de tanta antigüidade, por isso os dois se assustaram quando a Sra. Street os interrompeu:

— Estou saindo agora, Sir Nicholas. O senhor mesmo trancará a porta e ligará o alarme? Os guardas de segurança já estão a postos.

— Que horas são? — Nicholas perguntou a si mesmo, olhando para o Rolex Submarine de aço em seu pulso. — Quatro e quarenta, já? O que foi que aconteceu com o dia? — Ele suspirou de forma teatral. — Sim, pode ir, Senhora Street. Desculpe mantê-la aqui até agora.

— Não se esqueça de ligar o alarme — ela o advertiu, e voltou-se para Royan: — Ele se esquece de tudo quando sai por aí a cavalo. — O orgulho que ela sentia do patrão era comparável ao de uma tia indul-gente.

— Já me deu ordens suficientes por hoje. Vá agora. — Nicholas estava rindo quando se virou para Royan. — Não pode ir embora sem conhecer o que Duraid e eu conseguimos juntos. Pode ficar mais um pouco? — Ela concordou. Nicholas estendeu a mão para pegar seu braço, mas se conteve. No mundo árabe é um insulto tocar uma mulher, mesmo que seja de maneira casual. Ela percebeu a cortesia.

Passaram por outras salas e chegaram diante de uma porta onde se lia: "Entrada Privativa". Atravessaram um longo corredor e entraram numa sala.

— O santuário. — Ele a fez entrar. — Desculpe a desordem. Estou precisando parar para arrumar tudo isso um dia desses. Minha mulher costumava... — Ele parou bruscamente e olhou para a fotografia da família num porta-retrato de prata sobre a mesa. Nicholas e uma bela morena estavam sentados numa esteira de piquenique sob um carvalho. Havia com eles duas meninas, muito parecidas com a mãe. A mais nova estava sentada no colo de Nicholas e a outra, atrás, segurava as rédeas de seu pônei Shetland. Royan olhou de relance e viu em Nicholas uma tristeza devastadora.

Para não embaraçá-lo, continuou andando pelo escritório e oficina. Era espaçoso e confortável, bastante sóbrio, mas ilustrava bem as contradições de seu caráter — o estudioso e o homem de ação. Em meio aos livros e espécimes de museu havia uma carretilha de pesca e uma vara de pescar. Pendurados em ganchos na parede, um blusão de caça, uma capa de lona para rifle e uma cartucheira de couro, gravada com as iniciais N.Q.-H.

Ela reconheceu alguns dos quadros nas paredes. Eram aquarelas originais do século XIX, do viajante escocês David Roberts, e outras de Vivant Denon, que acompanhara Varmée de VOrient de Napoleão ao Egito. Havia também fascinantes vistas dos monumentos, feitas antes das escavações e restaurações dos tempos modernos.

Nicholas foi até a lareira e depositou um tronco sobre os carvões incandescentes. Atiçou-os o fogo e então levou-a para junto de uma cortina que ocupava metade de uma das paredes, cobrindo-a do chão ao teto. Com o floreio de um mágico, ele puxou o cordão trançado e exclamou com satisfação:

— O que acha disto?

Ela examinou o magnífico baixo-relevo em pedra, fixado à parede. O detalhe era belo e a execução impecável, mas Royan não demonstrou sua admiração. Preferiu manifestar-se num tom informal.

— Hamurábi, sexto rei da dinastia Amorita, cerca de 1780 a.C. — disse ela, fingindo examinar as feições do velho monarca. — Provavelmente retirado de seu palácio a sudoeste do zigurate de Ashur. Deve existir outro friso igual a este. Valem por volta de cinco milhões de dólares cada um. Ouvi dizer que foram roubados do santo governante da moderna Mesopotâmia, Saddam Hussein, por dois trapaceiros sem princípios. E ouvi dizer também que o outro está, neste momento, na coleção de um certo Senhor Peter Walsh, do Texas.

Ele a olhava atônito, e então explodiu numa gargalhada.

— Droga! Pedi segredo a Duraid, mas ele lhe contou essa nossa travessura. — Era a primeira vez que ele ria: um riso natural, agradável, sincero e sem afetação.

— Você está diante do atual proprietário do segundo friso — ele continuava rindo. — Só que o valor é de seis milhões, e não cinco.

— Duraid também me contou que vocês andaram pela região do maciço do Tibesti, no Chade, e pelo sul da Líbia — ela observou, e Nicholas fez um ar zombeteiro.

— Parece que você conhece todos os meus segredos. — Foi então até um armário alto, encostado à parede oposta, uma magnífica peça marchetada, provavelmente francesa do século XVII. Ele abriu as portas duplas. — Foi isto que Duraid e eu trouxemos da Líbia sem o consentimento do Coronel Muamar Al-Khadaffi. — Ele pegou uma delicada estatueta de bronze e deu a ela. Era a figura de uma mãe amamentando o filho, coberta por uma camada de patina esverdeada.

— É Aníbal, filho de Amílcar Barca — disse ele —, cerca de 203 a.C. Estas peças foram encontradas por um grupo de tuaregues em um acampamento perto do Rio Bagradas, no norte da África. Aníbal deve tê-las escondido antes de ser derrotado pelo general romano Cipião. Havia mais de duzentas peças no tesouro, mas ainda tenho as cinqüenta melhores.

— Vendeu as outras? — Ela admirou a estatueta e perguntou num tom desaprovador: — Como conseguiu se separar de algo tão belo?

Ele suspirou.

— Foi preciso. E triste, mas essa expedição custou-me uma fortuna. Tive de vender algumas peças para cobrir as despesas.

Ele foi até um armário, apanhou na prateleira inferior uma garrafa de uísque maltado Laphroaig e colocou-a com dois copos sobre a mesa.

— Posso convidá-la? — ele perguntou, e ela fez que não com a cabeça.

— Não a culpo. Até os escoceses admitem que este destilado deve ser bebido somente em temperaturas abaixo de zero, nas montanhas e sob um vento de quarenta nós. Posso lhe oferecer algo mais fraco?

— Tem Coca-Cola? — ela sugeriu.

— Sim, mas isso realmente faz mal, muito mais que o Laphroaig. É puro açúcar. Um veneno.

Ela pegou o copo que ele lhe oferecia e retribuiu o brinde.

— À vida! — E confessou: — Você tem razão. Duraid me contou tudo. — Ela repôs o bronze púnico na vitrine e foi juntar-se a ele na mesa. — Também foi Duraid quem me mandou vir aqui. Foram suas últimas instruções antes de morrer.

— Ahá! Então nada disso é coincidência. Me parece que sou uma peça involuntária de um grande complô. — Ele apontou para a cadeira diante da mesa. — Sente-se! — ordenou. — E fale!

Nicholas sentou-se no canto da mesa com o copo de uísque na mão e a perna balançando preguiçosamente como a cauda de um leopardo em repouso. Sempre sorrindo, olhava-a de um modo penetrante. Royan achava difícil mentir para aquele homem, e tomou fôlego para começar.

— Já ouviu falar de uma antiga rainha egípcia chamada Lostris, do segundo período intermediário, contemporânea das primeiras invasões dos hicsos?

Ele sorriu derrisoriamente e levantou-se:

— Oh! Agora estamos falando do livro O Último Deus do Nilo, não estamos? — Ele foi até a estante e pegou um exemplar. Embora já manuseando, ainda estava com a sobrecapa transparente sobre a ilustração surrealista das pirâmides sobre a água, em suaves tons verde e púrpura. Ele o depositou na mesa.

— Já o leu? — ela perguntou.

— Sim. Li muita coisa de Wilbur Smith. Ele me diverte. Já caçou aqui em Quenton Park algumas vezes.

— Pelo visto, deve apreciar muito sexo e violência em suas leituras. E o que achou deste livro em particular?

— Devo admitir que me surpreendeu. Ao lê-lo, desejei muito que a história fosse baseada em fatos. Por isso telefonei a Duraid. — Nicholas pegou novamente o livro e folheou-o. — As notas do autor no final são convincentes, mas o que não me sai da cabeça é a última frase. — Ele leu em voz alta: — "Em algum lugar nas montanhas da Abissínia, próximo à nascente do Rio Nilo, a múmia de Tanus ainda repousa na tumba inviolada do Faraó Mamose".

Quase com raiva, Nicholas atirou o livro de volta sobre a mesa.

— Meu Deus! Você não imagina como eu gostaria que isso fosse verdade. Não imagina quanto eu desejava ver a tumba do Faraó Mamose. Senti necessidade de falar com Duraid. Quando ele me garantiu que tudo não passava de conversa fiada, senti-me ludibriado. Minhas expectativas eram tão grandes que a decepção foi terrível.

— Não é conversa fiada — ela o corrigiu. — Bem, pelo menos não tudo.

— Entendo. Duraid mentiu para mim, não foi?

— Não — ela defendeu o marido. — Apenas reteve um pouco a verdade. Ele ainda não estava preparado para contar nada. Não tinha resposta para todas as perguntas que sabia que iria ouvir. Pensava procurá-lo quando estivesse pronto. Seu nome era o primeiro de uma lista de possíveis patrocinadores que ele mesmo preparou.

— Duraid não tinha as respostas. E você, tem? — ele se mostrava cético. — Já me pegaram uma vez. Acho que não vou cair na mesma história duas vezes.

— Os papiros existem. Nove deles já estão no cofre do Museu do Cairo. Fui eu quem os encontrou na tumba da Rainha Lostris. — Royan abriu a bolsa e pegou um maço de fotografias de 18 x 24 centímetros. Escolheu uma e mostrou a ele. — Esta é da parede do fundo da tumba. Dá para ver os jarros de alabastro no nicho. A foto foi feita antes de eles serem removidos.

— Bonita foto, mas pode ter sido tirada em qualquer lugar. Ela ignorou o comentário e mostrou a segunda.

— Os dez papiros no escritório de Duraid no museu. Reconhece os homens que estão em pé atrás do banco?

Ele assentiu.

— Duraid e Wilbur Smith. — O ceticismo começava a dar lugar à dúvida e à confusão. — Afinal, o que está tentando me dizer?

— O que estou tentando lhe dizer é que, apesar da licença poética usada pelo autor, todo o livro tem um fundamento de verdade. Entretanto, o papiro que mais nos interessa é o sétimo, o que foi roubado pelos homens que mataram meu marido.

Nicholas levantou-se e foi até a lareira. Colocou outro tronco e empurrou-o raivosamente com o atiçador, como se isso aliviasse suas emoções. Falou sem se virar:

— Qual é a importância desse pergaminho, comparado aos demais?

— Ele continha o relato do enterro do Faraó Mamose, e, acreditamos, indícios que nos ajudariam a encontrar o local da tumba.

— Vocês acreditam, mas não têm certeza. — Ele virou-se para ela, segurando o atiçador como se fosse uma arma. Ficava assustador nesse estado. A boca se havia estreitado numa linha tensa e os olhos brilhavam.

— Grande parte do sétimo papiro está escrita numa espécie de código, uma série de versos enigmáticos. Duraid e eu estávamos em via de decifrá-los quando... — Ela deu um profundo suspiro — .. quando ele foi assassinado.

— Você deve ter uma cópia de algo tão valioso — ele a olhava de modo intimidante, e ela fez que não com a cabeça.

— Todos os microfilmes, todas as anotações, tudo foi roubado com o papiro original. Depois, a mesma pessoa que matou Duraid foi ao nosso apartamento no Cairo e destruiu meu computador, onde estava armazenada toda a pesquisa.

Ele atirou o atiçador no depósito de lenha e voltou para a mesa.

— Então não há qualquer evidência? Nada que prove que isso seja verdade?

— Nada — disse ela. — Mas está tudo aqui. — Ela bateu na testa com seu longo dedo indicador. — Tenho boa memória.

Nicholas cerrou as sobrancelhas e passou a mão pelos cabelos.

— Por que veio me procurar?

— Vim lhe conceder o prazer de ver a tumba do Faraó Mamose — ela disse simplesmente. — Quer?

Ele mudou subitamente de humor e sorriu como um garoto travesso.

— Neste momento não há nada que eu queira mais.

— Então vamos fazer uma espécie de acordo de trabalho. — Ela curvou-se para a frente, colocando-se na posição de quem vai negociar. — Primeiro, eu lhe digo o que quero e depois você pode fazer o mesmo.

Foi uma negociação difícil, e à 1 hora da manhã Royan admitiu estar cansada.

— Não consigo mais pensar direito. Podemos retomar amanhã de manhã? — Eles ainda não tinham chegado a nenhum acordo.

— Já é amanhã de manhã. Mas você tem razão. Me distraí. Você pode dormir aqui. Afinal, temos vinte e sete quartos.

— Não, obrigada. — Ela se levantou. — Vou para casa.

— A estrada está congelada — ele avisou, mas vendo que Royan estava mesmo determinada ergueu os braços em rendição. — Tudo bem. Não vou insistir. Amanhã, então? Tenho um encontro com meus advogados às dez horas, mas ao meio-dia estarei livre. Por que não fazemos aqui nosso almoço de negócios? Deveria caçar em Ganton à tarde, mas posso cancelar. Assim terei a tarde e a noite livres para você.

Na manhã seguinte, o encontro de Nicholas com os advogados foi na biblioteca de Quenton Park. Não foi uma reunião fácil nem agradável, mas ele não esperava que fosse. Naquele ano parecia que o mundo estava desabando sobre sua cabeça. Ele cerrou os dentes ao lembrar-se de que começara com aquele momento fatal de fadiga e desatenção, exatamente à meia-noite, numa estrada escorregadia e com os faróis do caminhão vindo para cima deles. Ainda não se havia recuperado do golpe quando veio o segundo. Foi o relatório financeiro do grupo de seguros Lloyd's, do qual Nicholas, como seu pai e o avô, era um "nome". Há meio século sua família fazia retiradas substanciais e regulares referentes aos dividendos nos lucros obtidos pelo grupo. Obviamente, Nicholas sabia que tinha responsabilidades ilimitadas em quaisquer perdas que o grupo viesse a sofrer. Essa imensa responsabilidade pouco lhe pesava, pois em cinqüenta anos nunca houvera grandes perdas; até agora.

Com os terremotos na Califórnia, mais os pedidos de indenização por causa da poluição provocada por uma empresa química multinacional, os prejuízos do grupo somavam mais de 26 milhões de libras esterlinas. A parte de Nicholas nesse prejuízo era de 2,5 milhões de libras — que já fora acertada, além do restante que deveria ser pago num prazo do oito meses —, além de outras surpresas desagradáveis que poderiam surgir durante o ano seguinte.

Quase simultaneamente, toda a plantação de beterraba de Quenton Park, num total de quase 400 hectares, foi atacada por uma doença das raízes e a maior parte se perdeu.

— Precisamos conseguir pelo menos os dois milhões e meio — disse um dos advogados. — Isso não vai ser problema, pois a mansão está repleta de peças valiosas, sem falar no museu. O que poderíamos levantar com a venda de algumas delas?

Nicholas franziu o cenho diante da idéia de vender a estátua de Ramsés, os bronzes, o friso de Hamurábi, ou qualquer outro item de suas coleções da mansão ou do museu. Reconhecia que sua venda cobriria os débitos, mas duvidava que pudesse viver sem eles. Qualquer coisa era preferível a separar-se das obras de arte.

— Isso não! — Nicholas o interrompeu, e o advogado olhou para ele com frieza.

— Bem, então vejamos o que mais temos — continuou sem nenhuma compaixão. — O gado leiteiro...

— Isso chegará a cem mil libras, se tivermos sorte — Nicholas resmungou. — Ainda faltam dois milhões e quatrocentos.

— E o plantei de cavalos de corrida — o contador entrou na conversa.

— Tenho apenas seis animais em treinamento. Dariam só duzentos mil. — Nicholas sorriu com amargura. — Faltam dois e duzentos. Estamos indo bem devagar.

— O iate — sugeriu um jovem advogado.

— É mais velho que eu — disse Nicholas, balançando a cabeça. — Pertenceu a meu pai, pelo amor de Deus! Provavelmente vocês não conseguiriam vendê-lo. Seu único valor é sentimental. Minhas armas valem mais que ele.

Os dois advogados mergulharam nas listas.

— Ah, sim. Temos isto: um par de ejetores Purdey em boas condições. Estimados em quarenta mil.

— Eu também tenho meias e cuecas usadas — sugeriu Nicholas. — Por que também não põem na lista?

Eles ignoraram a ironia.

— Há a casa de Londres — o advogado mais velho continuou, impassível, habituado ao sofrimento humano. — Boa localização. Vale um milhão e meio.

— Não neste clima financeiro — Nicholas contestou. — Um milhão é mais realista. — O advogado fez uma anotação.

— Só estamos querendo evitar, se possível, colocar toda a propriedade à venda.

Foi um encontro duro e difícil, que terminou sem qualquer decisão. Nicholas sentia-se mal e frustrado.

Ele despediu-se dos homens e subiu aos seus aposentos para tomar um banho rápido e trocar de camisa. Impensadamente, e sem motivo nenhum, barbeou-se e passou colônia no rosto.

Ele dirigiu até o outro lado do parque e deixou o Range Rover no estacionamento do museu. Royan o esperava na sala da Sra. Street. As duas pareciam se dar muito bem, pensou Nicholas, parado do lado de fora e ouvindo suas risadas. Estava se sentindo melhor agora.

A cozinheira mandara o almoço da casa principal. Para ela, só uma boa refeição era capaz de manter o mau tempo à distância. Havia uma sopeira com um rico minestrone e um cozido de Lancashire, além de meia garrafa de Borgonha tinto para ele e uma jarra de suco de laranja para Royan. Eles comeram diante da lareira, enquanto a chuva batia nas vidraças.

Nicholas pediu a Royan que lhe contasse os detalhes do assassinato de Duraid. Ela contou, inclusive sobre seu próprio ferimento, chegando a erguer a manga para mostrar-lhe o curativo. Ele ouviu atentamente quando ela narrou o segundo atentado contra sua vida em pleno trânsito do Cairo.

— Algum suspeito? Alguém que possa ser responsabilizado? — Ela fez que não com a cabeça.

— Não houve nenhum tipo de ameaça.

Terminaram de comer em silêncio, perdidos em seus pensamentos. Tomaram uma xícara de café, e ele sugeriu:

— Então? Vamos ao nosso acordo? Eles discutiram cerca de uma hora.

— É difícil concordar com sua parte no butim até eu saber qual será sua contribuição — Nicholas protestou enquanto recolhia as xícaras. — Afinal, fui convidado para financiar e chefiar a expedição...

— Tem de confiar que minha contribuição é valiosa, ou não haverá nenhum butim, como você diz. De qualquer forma, esteja certo de que não vou dizer mais nada até fecharmos um acordo e termos apertado as mãos.

— Só isso? — ele perguntou, e ela lhe devolveu um sorriso um tanto desafiador.

— Se não gosta dos meus termos, há mais três nomes de possíveis patrocinadores na lista de Duraid — ela ameaçou.

— Tudo bem — Nicholas concordou com um astuto ar de mártir. — Aceito a proposta. Mas como faremos a divisão em partes iguais?

— Eu escolho o primeiro item de quaisquer artefatos arqueológicos que conseguirmos retirar, você escolhe o seguinte, e assim por diante.

— Que tal eu escolher primeiro? — ele arqueou uma sobrancelha.

— Cara ou coroa? — ela sugeriu. Ele tirou do bolso uma moeda.

— Escolha! — Nicholas jogou a moeda para o alto.

— Cara.

— Droga! — ele exclamou, recolhendo a moeda e guardando-a no bolso. — Então você faz a primeira escolha do butim, se houver algum. — Ele cruzou as mãos sobre a mesa. — Será toda sua, para fazer o que quiser. Pode até doar o que escolher para o Museu do Cairo, se ainda for a sua principal aberração. Negócio fechado? — perguntou, e Royan estendeu-lhe a mão.

— Fechado, sócio!

— Então vamos em frente. Basta de segredos entre nós. Conte-me os detalhes que escondeu até agora.

— Traga o livro — Royan indicou o exemplar de O Último Deus do Nilo. Nicholas foi buscá-lo enquanto ela retirava os pratos da mesa. — A primeira coisa que devemos ver são as partes editadas por Duraid. — Ela folheou as últimas páginas. — Foi onde seu ofuscamento começou.

— Palavra interessante — Nicholas sorriu —, mas vamos simplificar. Você está começando a me ofuscar.

Ela não achou graça.

— Você conhece a história até aqui. A Rainha Lostris e seu povo foram expulsos do Egito pelos hicsos e seus possantes carros de guerra. Subiram o Nilo em direção ao sul, até a confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul. Ou seja, até a atual Cartum. Tudo isso é razoavelmente fiel aos pergaminhos.

— Eu me lembro. Continue.

— No porão de uma galé levavam o corpo mumificado do marido da Rainha Lostris, o Faraó Mamose VIII. Doze anos antes, ela jurara ao marido que o enterraria num local seguro, onde pudesse repousar com seu vasto tesouro. Ele morreu em combate com uma flecha no pulmão. Quando chegam a Cartum, ela determina que é hora de cumprir a promessa. Envia seu filho de catorze anos, o Príncipe Memnon, com um esquadrão de bigas, para encontrar o local do túmulo. Memnon vai acompanhado de seu mentor, que é o narrador da história: o infatigá-vel Taita.

— Certo, lembro-me dessa parte. Memnon e Taita consultam os escravos negros, shilluks capturados, e a conselho deles seguem pelo braço esquerdo do rio, o que chamamos de Nilo Azul.

Royan concordou e prosseguiu a história:

— Eles viajam para o leste e se confrontam com fantásticas montanhas, tão altas que são descritas como muralhas azuis. Até aqui, o que se lê no livro é uma interpretação bastante fiel dos pergaminhos, mas neste ponto — ela apontou a página aberta — começa a grande dúvida de Duraid. Na descrição dos contrafortes...

Nicholas interrompeu-a:

— Lembro que, quando li, achei que a região onde o Nilo Azul passa pelas montanhas etíopes não estava acuradamente descrita. Não há colinas. O que há são as escarpas íngremes do maciço ocidental. O rio emerge delas como uma cobra de seu covil. Quem escreveu isso não conhece o curso do Nilo Azul.

— E você, conhece a região? — ela perguntou, e Nicholas assentiu.

— Quando eu era jovem, e muito mais tolo do que hoje, concebi o plano grandioso de descer de bote a garganta do Abbay, desde o lago Tana até a represa de Roseires no Sudão. Abbay é o nome etíope do Nilo Azul.

— Por que queria fazer isso?

— Porque ninguém havia feito ainda. O Major Chessman, cônsul britânico, tentou pela primeira vez em 1932 e quase morreu. Achei que poderia fazer um filme e escrever um livro sobre a viagem, e ganhar uma fortuna. Pedi a meu pai que financiasse a expedição. Era o tipo de travessura que o atraía, e ele também quis ir. Estudei todo o curso do Rio Abbay, não só em mapas. Comprei um velho Cessna 180 e sobrevoei os oitocentos quilômetros de desfiladeiro, desde o lago Tana até a represa. Como se vê, eu tinha vinte e um anos e era louco.

— O que aconteceu? — Ela estava maravilhada. Duraid nunca lhe contara isso, mas de um homem como Nicholas era possível esperar esse tipo de aventura.

— Chamei oito amigos de Sandhurst e fomos para lá nas nossas férias de Natal. A tentativa foi um fiasco. Passamos dois dias em águas indômitas, e a garganta é a coisa mais infernal que já vi nesta terra. E duas vezes mais profunda e acidentada que o Grand Canyon do rio Colorado, no Arizona. Nossos caiaques foram destruídos antes de completarmos cinqüenta quilômetros dos oitocentos que pretendíamos. Tivemos de abandonar todo o equipamento e escalar os paredões do desfiladeiro para chegar novamente à civilização.

Nicholas ficou pensativo.

— Perdemos dois membros da equipe. Bobby Palmer afogou-se e Tim Marshall caiu do penhasco. Não conseguimos recuperar os corpos.

Ainda estão lá, em algum lugar. Tive de contar aos pais deles... — Nicholas não conseguiu dizer mais.

— Alguém já navegou pela garganta do Nilo Azul? — ela perguntou para afastar suas lembranças.

— Sim. Voltei lá anos depois. Dessa vez não era líder, mas membro de uma expedição das forças armadas britânicas. Foi preciso todo o Exército, a Marinha e a Aeronáutica juntos para vencer aquele rio.

Ela o olhava com admiração. Ele realmente navegara o Abbay. Que estranho destino a arrastara para aquele homem! Duraid estava certo. Provavelmente não havia outro no mundo mais bem qualificado para o trabalho.

— Então você conhece como ninguém a verdadeira natureza do Abbay. Tentarei dar uma indicação geral do que Taita descreveu no sétimo papiro. Infelizmente essa parte do pergaminho foi danificada, e tivemos de deduzir a partir de outros trechos do texto. Diga-me até que ponto corresponde ao que você conhece da região.

— Vá em frente — ele se animou.

— Taita descreve os penhascos de forma muito semelhante à sua, como muralhas íngremes de onde surge o rio. Por isso tiveram de abandonar os coches, que não passariam pelo terreno rochoso do cânion. Seguiram a pé, levando cavalos de carga. Então o desfiladeiro tornou-se mais íngreme e perigoso, e eles perderam os animais, que caíram no rio. Mas isso não os deteve, e eles seguiram em frente sob as ordens do Príncipe Memnon.

— É exatamente como ele descreve. É um trecho terrível.

— Taita diz então que eles encontram uma série de obstáculos, que ele descreve como "degraus". Duraid e eu não conseguimos chegar a uma conclusão do que seriam. Mas imaginamos que sejam cataratas.

— É o que não falta na garganta do Abbay — concordou Nicholas.

— Esta é a parte mais importante do depoimento. Taita nos diz que depois de vinte dias de viagem pelo desfiladeiro encontraram um "segundo degrau". Então o príncipe recebeu uma mensagem fortuita do pai, em forma de sonho, comunicando que aquele era o local escolhido para seu túmulo. Taita diz que a viagem pára aí. Se pudermos descobrir o que os fez parar, teremos uma idéia mais precisa de até onde eles avançaram pelo desfiladeiro.

— Antes de continuarmos, vamos ver os mapas e as fotos de satélite das montanhas, e vou dar uma olhada nas anotações e nos diários da expedição — decidiu Nicholas. — Como procuro manter minhas referências atualizadas, devo ter fotos de satélite e mapas recentes no arquivo do museu. Se existirem, a senhora Street irá encontrá-los. Ele se levantou e espreguiçou-se.

— Vou procurar meus diários e relê-los esta noite. Meu bisavô também caçou e viajou pela Etiópia no século passado. Sei que cruzou o Nilo Azul perto de Debra Markos, na década de 1890. Verei também as anotações dele, que estão no arquivo. O velho deve ter escrito alguma coisa que nos ajude.

Voltaram juntos para o Land Rover estacionado no pátio; quando Royan dava a partida, Nicholas falou pelo vidro aberto:

— Ainda acho que deveria ficar aqui. A viagem para Brandsbury leva uma hora e meia... são três horas por dia, para ir e voltar. Teremos muito trabalho pela frente antes de irmos para a África.

— O que as pessoas pensariam? — ela perguntou, soltando o pedal da embreagem.

— Não dou a mínima para o que pensem — disse Nicholas para o carro em movimento. — A que horas virá amanhã?

— Preciso ir ao médico em York para tirar os pontos do braço. Chegarei só depois das onze — ela disse com a cabeça para fora da janela, enquanto o vento espalhava seus cabelos negros.

Nicholas sempre fora atraído por mulheres morenas. Rosalind tinha essa mesma aparência misteriosa. Ele sentiu-se culpado e desleal com a comparação, mas era difícil não notar a presença de Royan.

Era a primeira mulher por quem sentia algum interesse desde que Rosalind partira. Era a mistura do sangue que o atraía. Royan possuía exotismo suficiente para atender seu gosto pelas orientais, mas era bastante inglesa para falar a mesma língua e entender seu senso de humor. Era culta e informada sobre coisas que ele apreciava, e tinha uma segurança admirável. Geralmente as orientais aprendiam desde cedo a ser recatadas e submissas. Royan era diferente.

Georgina havia ligado para o médico em York, marcando uma consulta para Royan. As duas deixaram o chalé em Brandsbury logo após o café da manhã. Georgina foi guiando, e Magic ia sentado entre as duas.

Ao cruzar a rua do vilarejo, Royan notou um grande caminhão MAN estacionado em frente ao correio, mas não deu atenção.

Na estrada para York a neblina estava tão cerrada em alguns trechos que a visibilidade ficava bastante reduzida; mas Georgina não fazia nenhuma concessão ao tempo, e mantinha uma velocidade no Land Rover que, para tranqüilidade de Royan, não ultrapassava os 90 quilômetros.

Virando-se para trás para olhar a estrada, viu que o caminhão MAN as seguia. Apenas a capota emergia da neblina, como a torre de um submarino. Viu-o, então, desaparecer por completo sob a névoa. Ela voltou-se para ouvir o que sua mãe dizia.

— Este governo é um bando de patetas incompetentes. — Ela espremeu os olhos sob a fumaça do cigarro pendurado de seus lábios. Dirigia com uma única mão e com a outra acariciava o pêlo macio da orelha de Magic. — Não me importo que os ministros se comportem como sonâmbulos, mas quando começam a brincar com minha aposentadoria fico enlouquecida. — A aposentadoria era sua única fonte de renda, e não era grande.

— Você não quer realmente um governo trabalhista, quer, mamãe? — Royan provocou a mãe, partidária dos conservadores.

Georgina fez um gesto para mudar de assunto e preferiu não responder.

— Só sei que deviam trazer Maggie de volta!

Royan virou-se ligeiramente no banco e espiou de novo pelo sujo vidro traseiro. O caminhão continuava atrás delas, agora mais visível mesmo sob neblina e a fumaça azulada expelida pelo Land Rover de Georgina, como o rastro de um jato. Até então mantivera-se a uma relativa distância, mas de repente acelerou.

— Acho que ele quer ultrapassar — Royan disse com tranqüilidade. A frente do caminhão estava a poucos metros do pára-choque do

Rover; via-se claramente o emblema "MAN" no radiador, mas não se divisava o rosto do motorista.

— Todo mundo quer me ultrapassar — lamentou Georgina. — Essa é a história da minha vida.

Royan olhou outra vez para o caminhão, que se aproximara ainda mais e ocupava totalmente o vidro traseiro. O motorista acelerava de forma ameaçadora.

— É melhor desistir. Acho que ele não está para brincadeiras.

— Que espere — resmungou Georgina com uma baforada, mantendo-se obstinadamente no meio da estrada. — A paciência é uma virtude. Seja como for, ele não pode nos ultrapassar aqui. Há uma ponte estreita logo à frente. Conheço esta estrada como se fosse meu banheiro.

Nesse instante o motorista acelerou, fazendo um barulho ensurdecedor. Magic saltou para o banco de trás e começou a latir.

— Cretino! — praguejou Georgina. — Com quem ele pensa que está lidando? Anote o número da placa. Vou comunicar à polícia de York.

— A placa está suja de lama. Não consigo enxergar, mas parece que é de outro país. Alemanha, talvez.

Como se tivesse ouvido o protesto, o motorista reduziu um pouco a velocidade. Royan o observava.

— Assim é melhor — disse a presunçosa Georgina. — O grosseirão aprendeu boas maneiras. — Lá está a ponte.

Só então Royan conseguiu ver o interior da cabine do caminhão. O motorista usava um capuz de lã azul que lhe cobria o rosto, com buracos para o nariz e os olhos. Tinha um aspecto sinistro e demoníaco.

— Cuidado! — ela gritou. — Ele está chegando muito perto!

O ronco do motor tragou-as como um mar tempestuoso. Nesse instante Royan viu o brilho das grades cromadas do radiador, e em seguida o caminhão bateu na traseira do carro.

O impacto jogou-a para a frente, mas ela se recompôs e viu o caminhão empurrar o Land Rover como uma raposa com um pássaro na boca. O carro foi arrastado para a frente pelas enormes barras protetoras do radiador.

Georgina lutava com o volante, tentando controlá-lo, mas era um esforço inútil.

— Não consigo dirigir. A ponte! Tente saltar!

Royan soltou o cinto de segurança e alcançou o trinco da porta. Um muro de pedras avançava na direção delas em uma velocidade assustadora, enquanto o Land Rover rodava na estrada, totalmente descontrolado.

A porta estava aberta, mas Royan só conseguiu saltar quando o carro foi atirado contra as sólidas colunas de pedra que protegiam o acesso à ponte.

As duas mulheres gritaram no momento da colisão e foram jogadas para a frente. O vidro do pára-brisa estilhaçou-se, o carro capotou pelo barranco do rio e rolou para baixo.

Royan foi jogada para fora. A queda foi suavizada pela inclinação do barranco, mas ela deu cambalhotas até cair na água gelada.

Antes de afundar, viu o caminhão seguir pela estrada. Estava puxando duas carretas de carga, mais altas que as colunas de proteção da ponte. Ambas estavam carregadas e cobertas por uma lona verde presa nos ganchos laterais. Royan ainda vislumbrou o logotipo da empresa impresso em vermelho na lateral da última carreta, mas antes que pudesse registrar o nome afundou na água, completamente sem fôlego.

Levada pela correnteza, Royan lutou para voltar à superfície. Era difícil nadar com as roupas encharcadas, mas ela conseguiu aproximar-se da margem e agarrar-se num galho para sair da água. Ajoelhada na lama, tossiu para expelir a água que engolira e verificou se havia quebrado alguma parte do corpo. Então ouviu os gritos terríveis da mãe.

Ergueu-se imediatamente e saiu tateando pela relva úmida em direção ao carro capotado na base do barranco. A carroceria estava totalmente destruída e o motor tinha parado de funcionar, mas as rodas ainda giravam quando Royan conseguiu chegar perto.

— Mamãe! Onde você está? — Ela não conseguia localizar de onde vinham os gritos. Apoiando-se no carro para andar, temia o que iria encontrar.

Georgina estava sentada no chão, encostada na lateral do carro, com as pernas abertas e esticadas para a frente. A esquerda estava torcida de um modo que a ponta da bota ficava enfiada na lama num ângulo impossível. A perna estava obviamente quebrada na altura do joelho ou muito próximo.

Mas esse não era o motivo dos gritos de Georgina. Ela segurava Magic no colo, debruçando-se sobre ele, inconsolável; os gritos vinham do fundo de sua alma. O cachorro ficara preso entre as ferragens. Sua língua pendia do canto da boca num último esgar, gotejando sangue, e Georgina usava o lenço para enxugá-lo.

Royan jogou-se ao lado da mãe e passou o braço sobre seus ombros. Era a primeira vez que a via chorar. Abraçou-a com força para confortá-la, mas nada diminuía seu sofrimento.

Ela nunca soube por quanto tempo ficou ali sentada. Por fim, o estado da perna da mãe e o medo de que o motorista do caminhão voltasse para terminar o serviço a fizeram levantar-se. Ela cambaleou até a estrada e parou o primeiro carro que apareceu.

Royan já estava atrasada duas horas para o encontro e Nicholas decidiu telefonar à polícia de York. Por sorte tinha reparado na placa do Land Rover, um número fácil de lembrar. As letras eram as iniciais de sua mãe, seguidas pelo agourento número 13.

Ele esperou a operadora procurar no computador e voltar ao telefone:

— Sinto muito, senhor, mas houve um acidente com o Land Rover esta manhã.

— O que aconteceu ao motorista? — Nicholas estava ansioso.

— O motorista e outro passageiro foram levados para o Hospital York Minster.

— Estão bem?

— Sinto muito, senhor, mas não temos essa informação. Nicholas levou 40 minutos para chegar ao hospital e outros tantos

para localizar Royan. Ela estava na enfermaria feminina da ala cirúrgica, sentada ao lado da cama da mãe, que ainda não voltara da anestesia. Ela levantou a cabeça quando Nicholas se aproximou.

— Você está bem? O que aconteceu?

— Minha mãe... a perna dela foi esmagada. Precisaram pôr um pino na coxa. O fêmur...

— E você?

— Tive apenas alguns arranhões. Nada sério.

— Como aconteceu?

— Um caminhão nos empurrou para fora da estrada.

— De propósito? — Nicholas sentiu uma coisa contrair-se dentro dele, lembrando-se de outro caminhão, em outra estrada...

— Acho que sim. O motorista estava mascarado, usava um capuz de lã que escondia seu rosto. Veio batendo atrás de nós. Só pode ter sido proposital.

— Já avisou a polícia? Ela assentiu.

— Parece que o caminhão foi roubado esta manhã, muito antes do acidente, quando o motorista parou para tomar um café na estrada. É alemão. Não fala inglês.

— Éa terceira vez que tentam matá-la — Nicholas falou por entre os dentes. — Deixe-me cuidar disso agora.

Ele foi para a sala de espera e procurou um telefone. O delegado do condado era seu amigo pessoal, assim como o administrador do hospital.

Quando Nicholas retornou ao quarto, Georgina já se havia recuperado da anestesia. Embora ainda estivesse atordoada, sentiu-se bem melhor quando foi transferida para um quarto particular, a pedido de Nicholas. O cirurgião ortopedista chegou em poucos minutos.

— Olá, Nick, o que faz aqui? — ele o cumprimentou, surpreendendo Royan. Voltou-se então para Georgina: — Está se sentindo melhor? Tivemos aí uma bela fratura. Conseguimos recolocar tudo no lugar, mas terá de ficar conosco pelo menos dez dias.

— Viu só no que deu, moça? — Nicholas disse a Royan, quando saíram do quarto. — O que mais será preciso para convencê-la? Minha governanta já preparou um quarto para você em minha casa. Não permitirei que continue a andar por aí sozinha. Pode ser que da próxima vez eles tenham mais sorte.

Royan ainda estava muito abalada e deprimida para discutir; entrou docemente no banco da frente do Range Rover e deixou-se levar ao médico para retirar os pontos, e depois para Quenton Park. Ao chegarem, ele imediatamente a mandou para o quarto.

— A cozinheira levará o jantar para você. Não se esqueça de tomar o comprimido para dormir que o médico mandou. Mandarei alguém pegar suas coisas em Brandsbury se você der a chave do chalé de sua mãe para a Senhora Street. Por enquanto, a governanta separou roupas de dormir e uma escova de dentes para você. Não quero vê-la por aqui até amanhã cedo.

Royan achou bom ter alguém controlando sua vida. Era a primeira vez, desde a terrível noite no oásis, que ela se sentia em segurança. Ainda assim, fez um último gesto de independência e auto-suficiência: jogou o comprimido de Mogadon na privada e apertou a descarga.

A camisola estendida em seu travesseiro era longa, de seda pura, com aplicações de fina renda de Cambraia nas mangas e na gola. Royan nunca havia vestido algo tão luxuoso e sensual. Imaginava que houvesse pertencido à mulher de Nicholas, e isso lhe provocou emoções confusas. Quando entrou na cama de baldaquim, nem a solidão do imenso acolchoado nem o ambiente desconhecido a impediram de dormir.

Pela manhã, uma jovem criada acordou-a com um exemplar do Times e um bule de chá Earl Grey; retornou minutos depois com sua sacola de viagem.

— Sir Nicholas gostaria que tomasse o desjejum com ele na sala de jantar, às oito e trinta.

Enquanto se banhava, Royan examinou o corpo no grande espelho que revestia uma parede do banheiro. Além do corte de faca no braço, que ainda era bem visível e só estava parcialmente cicatrizado, tinha uma mancha azulada na coxa e outra na altura do quadril e da nádega esquerdos, legadas pelo acidente de carro. O queixo tinha um profundo arranhão; com muito cuidado, ela retirou duas farpas da ferida. Mancava um pouco quando desceu a escadaria para dirigir-se à sala de jantar.

— Por favor, fique à vontade. — Nicholas viu-a hesitar na porta. Mostrou-lhe os pratos do desjejum sobre o aparador lateral. Quando se servia de ovos mexidos, Royan percebeu que a paisagem pendurada na parede era de Constable.

— Dormiu bem? — Ele não esperou a resposta e continuou: — Tenho informações da polícia. Encontraram o caminhão abandonado num acostamento perto de Harrogate. Vão até lá agora, mas não esperam encontrar muita coisa. Parece que essa gente sabe o que está fazendo.

— Preciso telefonar para o hospital — disse Royan.

— Já fiz isso. Sua mãe passou bem a noite. Deixei o recado de que você a visitaria esta tarde.

— À tarde? — ela virou-se para ele. — Por que só à tarde?

— Pretendo mantê-la ocupada até lá. Quero fazer meu dinheiro render o máximo.

Nicholas levantou-se quando ela se aproximou da mesa e afastou a cadeira para que sentasse. Royan sentiu-se ligeiramente incomodada com a cortesia, mas nada disse.

— O ataque a você e a Duraid na vila do oásis... não podemos concluir nada disso, a não ser que os assassinos saibam exatamente o que estão procurando e como fazê-lo. — A súbita mudança de assunto desconcertou-a. — Entretanto, pensemos um pouco mais no segundo ataque, no Cairo. A granada de mão... Quem mais sabia que você iria ver o ministro naquela tarde, além dele próprio?

Ela refletiu enquanto mastigava e engolia os ovos.

— Não tenho certeza. Acho que contei ao secretário de Duraid, e talvez a algum assistente de pesquisa.

Ele franziu a testa e balançou a cabeça.

— Então metade do museu sabia do seu compromisso?

— Mais ou menos isso. Sinto muito. Ele refletiu um pouco.

— Tudo bem. Quem sabe que você saiu do Cairo e está na casa de sua mãe?

— Um funcionário da administração levou os slides para mim, no aeroporto.

— Disse a ele para onde ia?

— Não, isso não.

— Contou a alguém?

— Não. Quer dizer... — ela hesitou.

— Contou?

— Contei ao ministro, durante a entrevista, quando lhe pedi uma licença. Ele não... certamente não... — Sua expressão de horror refletiu o que estava pensando.

Nicholas ergueu os ombros.

Acontecem coisas inesperadas. Certamente o ministro conhecia o trabalho que você e Duraid estavam fazendo sobre o sétimo papiro.

— Não conhecia em detalhes, mas... sim... em termos gerais, sabia o que estava acontecendo.

— Muito bem. Próxima pergunta: chá ou café? — Ele despejou café na xícara e continuou: — Você disse que Duraid tem uma relação de possíveis patrocinadores para a expedição. Será que não nos daria alguma idéia para nossa lista de suspeitos?

— O Museu Getty — disse Royan, e ele riu.

— Risque da lista. Eles não saem por aí atirando granadas em carros. Quem mais está na lista?

— Gotthold Ernst von Schiller.

— Hamburgo. Indústria pesada, refinarias de ligas metálicas, produção de minérios básicos. — Nicholas balançou a cabeça. — O terceiro nome?

— Peter Walsh — disse ela. — O texano.

— É esse. Mora em Fort Worth. Tem franquia de fast-food, catálogos de compras pelo correio.

Eram muito poucos os colecionadores com poder de fogo para competir com as grandes instituições na aquisição de antigüidades ou no financiamento de excursões arqueológicas. Nicholas conhecia a todos, pois pertenciam a um círculo mutuamente antagônico de algumas dezenas de pessoas. Já competira com todos eles em algum momento nas salas de leilão da Sotheby's ou da Christie's, sem mencionar outros foros menos saudáveis onde se vendiam antigüidades "frescas" — no sentido de recém-tiradas do solo.

— Esses dois são sujeitos gananciosos. Provavelmente comeriam os próprios filhos se estivessem famintos. Deus sabe o que fariam se soubessem que você está atrapalhando o caminho deles para o túmulo de Mamose. Sabe se entraram em contato com Duraid depois que o livro foi publicado, como eu fiz?

— Não sei. Pode ser que sim.

— Não consigo imaginar nenhum dos dois sendo tão ingênuos. Vamos partir do princípio de que eles sabem que Duraid estava pesquisando alguma coisa. Os dois vão para nossa lista de suspeitos. — Nicholas olhou para o prato dela. — Quer mais ovos? Não? Muito bem, vamos até o museu ver o que a senhora Street encontrou para nós.

Quando entraram no estúdio de Nicholas, Royan ficou impressionada com a quantidade de coisas que ele havia conseguido organizar em tão pouco tempo. Tudo fora feito na noite anterior: o lugar tinha virado uma espécie de quartel-general. No centro da sala havia um cavalete sobre o qual se assentava um quadro, e nele estavam pregadas as fotos tiradas por satélites. Ela aproximou-se e notou outro material ao lado.

Junto com um mapa em grande escala do sudoeste da Etiópia, a região coberta pelos satélites, havia listas de nomes e endereços, equipamentos e provisões que certamente já haviam sido usados em expedições anteriores pela África, tabelas de distâncias e o que parecia ser um orçamento preliminar. No alto do quadro havia um relatório com o título "Etiópia — Informações Gerais". Eram cinco páginas de papel compactamente datilografadas, quase impossíveis de se ler.

Royan ficou realmente impressionada com tanta meticulosidade. Decidiu que estudaria todo aquele material na primeira oportunidade; enquanto isso, sentou-se numa das duas cadeiras diante do quadro. Nicholas pegou um bastão com ponta de prata sobre a mesa e brandiu-o como um professor.

— Ordem na classe. — Deu pancadinhas no quadro. — Primeira coisa: você terá de me convencer de que conseguiremos encontrar o rastro de Taita depois de vários milhares de anos. Vamos considerar primeiro as características geográficas da garganta do Abbay.

Nicholas descrevia o curso do rio na foto do satélite, com a ajuda de uma ponteira.

— Ao longo deste trecho o rio interrompe seu curso e atravessa o platô basáltico. Em certos pontos os penhascos do desfiladeiro secundário são perpendiculares, com uma altura entre cento e vinte e cento e quarenta metros de cada lado. Onde há intrusão de xistos ígneos mais duros, o rio não consegue erodi-los. Eles formam uma série de degraus no curso do rio. Acho que está certa a sua premissa de que os "degraus" de Taita sejam cachoeiras.

Ele foi até a mesa e pegou uma foto no meio da papelada.

— Tirei esta no desfiladeiro, durante a Expedição das Forças Armadas, em 1976. Pode lhe dar uma idéia de como são essas cachoeiras.

Ele lhe passou uma foto preto-e-branco dos altos penhascos de cada lado do rio e uma cascata que parecia cair do céu; os homens seminus e seus botes, em primeiro plano, pareciam anões.

— Não imaginava que fosse assim! — Royan admirou-se.

— Não faz justiça à esplêndida imensidão do desfiladeiro — ele acrescentou. — Do ponto de vista do fotógrafo, não é possível colocar tudo em perspectiva. Mas ao menos dá para imaginar que a cachoeira deveria impedir a passagem de um grupo de egípcios que subisse o rio a pé, ou pelo menos com cavalos de carga. Em geral existem algumas trilhas acompanhando as cataratas, feitas por elefantes ou qualquer outro animal, em outras eras. Entretanto, é simplesmente impossível atravessar as cachoeiras e contornar esses penhascos. Ela concordou, e Nicholas continuou:

— Tivemos de descer com cordas os botes e todo o equipamento pelas cachoeiras. Não foi fácil.

— Digamos que tenha sido uma das cachoeiras que os impediu de seguir adiante... A segunda, aproximando-se pelo oeste — sugeriu ela.

Nicholas pegou a ponteira e traçou na foto do satélite o curso do rio a partir da escura forma de cunha da represa de Roseires, no centro do Sudão.

— O escarpamento aparece no lado etíope da fronteira; é onde começa a garganta propriamente dita. Não há estradas nem cidades aí, apenas duas pontes mais acima. Nada em oitocentos quilômetros a não ser a água do Nilo e rochas basálticas negras. — Ele fez uma pausa para que isso fosse digerido. — Esta é uma das últimas e verdadeiras regiões inóspitas da terra, com uma terrível reputação de abrigar animais e homens selvagens. Marquei as principais quedas que aparecem aqui no meio da garganta, na foto do satélite — Ele apontou os círculos feitos com caneta vermelha. — Esta é a cachoeira número dois, cerca de cento e noventa quilômetros acima da fronteira sudanesa. Entretanto, há vários fatores que devemos considerar, como o fato de que o rio pode ter alterado seu curso nos últimos quatro mil anos, desde que foi visitado por nosso amigo Taita.

— Certamente ele não poderia ter escapado de um cânion de mil e duzentos metros de profundidade — Royan protestou. — Até mesmo o Nilo ficaria preso num lugar desses.

— Sim, mas é bem possível que o leito original tenha se alterado. Na época da inundação, o volume e a força do rio excedem minha capacidade de descrevê-lo. As águas sobem vinte metros pelos paredões laterais e correm a uma velocidade de dez nós, talvez mais.

— Já navegou nele?

— Não durante a inundação. Nada sobreviveria a isso.

Eles ficaram olhando a foto por algum tempo, imaginando os terrores daquela poderosa extensão de água em toda a sua fúria. Então ela lembrou a Nicholas:

— E a segunda cachoeira?

— Aqui está ela, onde um rio tributário entra no fluxo do Abbay. O afluente é o Dandera, e nasce a três mil e seiscentos metros de altitude, no pico do Monte Saneai da cordilheira de Choke, mais ou menos cento e sessenta quilômetros ao norte do desfiladeiro.

— Você se lembra do ponto em que ele se junta com o Abbay?

— Isso foi há vinte anos, e ficamos menos de um mês naquele desfiladeiro; tudo parece se misturar, como num pesadelo. As lembranças se confundem com o ambiente monótono dos penhascos e a densa selva das laterais; os sentidos são entorpecidos pelo calor, os insetos, o barulho da água e o repetitivo e incessante trabalho com os remos. Mas lembro-me da confluência do Dandera com o Abbay por dois motivos.

— É mesmo? — ela inclinou-se para a frente, ansiosa para saber.

— Foi onde perdemos um homem. A única baixa da segunda expedição. A corda se rompeu e ele despencou trinta metros, de costas numa rocha.

— Sinto muito por isso. E qual é o outro motivo?

— Existe ali um mosteiro copta cristão, encravado na rocha a uma altura de cento e vinte metros do rio.

— No fundo do despenhadeiro? — Royan não podia acreditar. — Por que construiriam um mosteiro ali?

— A Etiópia é uma das nações cristãs mais antigas do mundo. Tem mais de nove mil igrejas e mosteiros, muitos deles em regiões similarmente remotas ou em montanhas quase inacessíveis. Esse no Rio Dandera é famoso porque lá está enterrado São Frumêncio, o santo que introduziu o cristianismo na Etiópia, vindo do Império Bizantino, em Constantinopla, no início do século III. Diz a lenda que ele foi resgatado por um barco numa praia do Mar Vermelho e levado a Aksum, onde converteu o Imperador Ezana.

— Você visitou o mosteiro?

— Claro que não! — Ele riu. — Estávamos ocupados demais cuidando da própria sobrevivência, loucos para escapar do inferno do desfiladeiro. Não tínhamos tempo para fazer turismo. Descemos as cachoeiras e continuamos pelo rio. Tudo de que me lembro desse mosteiro é que é construído na face do penhasco, voltado para o rio, e das distantes figuras de monges trogloditas com túnicas brancas debruçados sobre o parapeito de pedra, impassíveis, vendo-nos passar. Alguns dos nossos acenaram, mas nenhum deles respondeu.

— Como poderemos chegar até lá sem uma grande expedição? — Royan questionou em voz alta, olhando desconsolada para o quadro.

— Já desanimou? — Nicholas riu. — Espere só até ver os insetos que existem lá embaixo. Eles nos agarram e levam para sua toca antes de nos devorar.

— Não brinque! — ela implorou. — Como é que vamos descer?

— Os monges são alimentados pelos aldeões que vivem nas montanhas que circundam a garganta. Parece que existe uma trilha de cabras nos penhascos. Dizem que leva três dias para se chegar por essa trilha, desde a beirada até a margem.

— Você conseguiria encontrar o caminho?

— Não, mas tenho algumas idéias. Falaremos nisso depois. Primeiro temos de imaginar o que poderemos encontrar lá embaixo quatro mil anos depois. — Ele a olhava com expectativa. — Agora é sua vez. Convença-me. — Deu a ponteira para Royan, sentou-se na cadeira ao lado e cruzou os braços.

— Primeiro vamos ver o livro. — Ela mostrou o exemplar de O Último Deus do Nilo. — Lembra-se de Tanus, um personagem da história?

— Claro que sim. Era o comandante dos exércitos egípcios sob as ordens da Rainha Lostris, chamado de Grande Leão do Egito. Ele comandou o êxodo de seu povo na fuga dos invasores hicsos.

— Era também amante secreto da rainha, se pudermos acreditar em Taita, e pai do Príncipe Memnon, o primogênito — Royan completou.

— Tanus foi morto numa expedição punitiva contra um chefe etíope chamado Arkun, nas altas montanhas. Seu corpo foi mumificado e levado de volta à rainha por Taita — Nicholas continuou a história.

— Exatamente. Isso nos leva a outra pista que Duraid e eu encontramos.

— No sétimo papiro? — Ele descruzou os braços e ajeitou-se na cadeira.

— Não, não no pergaminho, mas nas inscrições da tumba da Rainha Lostris. — Royan pegou uma foto na bolsa. — Esta é uma ampliação de um trecho dos afrescos da câmara mortuária, a parte da parede que depois desmoronou e se perdeu quando encontramos os jarros de alabastro. Duraid e eu consideramos importante o fato de Taita ter feito essa inscrição num lugar de honra, sobre o local de esconderijo dos pergaminhos. — Ela passou a fotografia a Nicholas, que apanhou uma lupa na mesa para examiná-la.

Enquanto ele tentava decifrar os hieroglifos, Royan continuou:

— No livro, lembra que Taita gostava de enigmas e jogos de palavras, e que vivia se vangloriando de ser o melhor jogador de bao?

Nicholas afastou os olhos da lente.

— Lembro-me disso. Ainda acho que o bao foi o precursor do xadrez. Tenho uns doze tabuleiros na coleção do museu, alguns dos egípcios, outros do sul da África.

— Sim, eu também acho. Os dois jogos têm vários objetivos e regras semelhantes, embora o bao seja mais rudimentar. É jogado com pedras coloridas, em vez das figuras do xadrez. Bem, acredito que Taita não tenha resistido à tentação de registrar para a posteridade suas habilidades de charadista e sua esperteza. Devia ser tão convencido que, propositadamente, deixou pistas da localização da tumba do faraó tanto nos pergaminhos quanto nos afrescos que ele diz ter pintado na tumba de sua amada rainha.

— Acha que esta é uma das pistas? — Nicholas bateu com a lente na foto.

— Leia — ela o instruiu. — Está em hieroglifos clássicos, facilmente comparáveis aos seus criptogramas.

— "O pai do príncipe que não é pai, doador do azul que o matou"

— Nicholas traduziu com dificuldade —, "guarda eternamente de mãos dadas com Hapi a pedra-testamento do caminho para o pai do príncipe que não é pai, doador do sangue e das cinzas."

Nicholas balançou a cabeça.

— Isto não tem sentido. Deve haver um erro na minha tradução.

— Não se desespere. Você está fazendo seu primeiro contato com Taita, o campeão de bao e charadista notório. Duraid e eu passamos semanas tentando decifrar isso. Para entender, voltemos ao livro. Tanus não era o pai nominal do Príncipe Memnon, mas, por ser amante da rainha, era seu pai biológico. Em seu leito de morte, deu a Memnon a espada azul que causara seu ferimento mortal na batalha contra o chefe etíope. Há uma descrição completa dessa batalha no livro.

— Sim, quando li essa parte, lembro-me de ter pensado que a espada azul era provavelmente uma arma muito antiga, e, na idade do bronze, devia ser uma maravilha da arte da cutelaria. Presente digno de um príncipe. — Nicholas refletiu e continuou: — Então "o pai do príncipe que não é pai" é Tanus? Ele suspirou, resignado. — Por enquanto vou aceitar essa interpretação.

— Obrigada por acreditar e confiar em mim — ela disse com ironia.

— Mas, continuando com o enigma de Taita, o Faraó Mamose era o pai nominal de Memnon, mas não o pai de sangue. Novamente, o pai que não era pai. Mamose passou para o príncipe a coroa dupla do Egito, a branca e a vermelha, do Alto e do Baixo Reinos. O sangue e as cinzas.

— Isso é mais fácil de engolir. E o resto da inscrição? — Nicholas estava realmente intrigado.

— A expressão "de mãos dadas" é ambígua no antigo Egito. Pode significar muito perto de, ou à vista de, ou qualquer coisa assim.

— Continue. Pelo menos você está me deixando curioso — ele a encorajou.

— Hapi é o deus ou a deusa hermafrodita do Nilo, dependendo do gênero masculino ou feminino adotado num dado momento. Em todos os pergaminhos Taita usa "Hapi" como nome alternativo para o rio.

— E se juntarmos o sétimo papiro com a inscrição do túmulo da Rainha Lostris, qual é a sua interpretação? — ele insistiu.

— Simplesmente esta: Tanus é enterrado à vista do, ou muito perto do rio, talvez até dentro dele, e sua tumba indica o caminho para a tumba do faraó.

Nicholas assobiou por entre os dentes.

— Essas conclusões desconexas já estão me deixando exausto. Que pista está tentando esclarecer?

— Esta — disse Royan, e ele fez um ar de perplexidade.

— Esta? E nada mais?

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Suponhamos que você esteja certa até aqui. Suponhamos também que o rio permaneceu inalterado em seu curso e sua configuração em quatro mil anos. E suponhamos que Taita realmente esteja nos indicando a segunda cachoeira do Rio Dandera. O que é que vamos procurar quando chegarmos lá? Se for uma inscrição numa pedra, ela continuará intata ou terá sofrido a ação do tempo e do rio?

— Howard Carter tinha um indício igualmente vago da tumba de Tutancâmon — ela lembrou com tranqüilidade. — Um único fragmento de papiro, de autenticidade duvidosa.

— Howard Carter precisou procurar apenas na região do Vale dos Reis. E ainda levou dez anos para encontrar — Nicholas contestou. — Você está me dando a Etiópia, um país que tem o dobro do tamanho da França. Já pensou quanto tempo levaria?

Ela aprumou-se bruscamente.

— Desculpe. Preciso visitar minha mãe no hospital. E evidente que estou perdendo meu tempo aqui.

— Ainda não está no horário de visitas.

— Ela está num quarto particular. — Royan foi até a porta.

— Vou levá-la ao hospital — Nicholas ofereceu.

— Não se incomode. Chamarei um táxi — ela retrucou num tom gélido.

— O táxi levará uma hora para chegar aqui — ele contestou. Sem outra saída, Royan aceitou que a levasse no Land Rover. Viajaram em silêncio durante 15 minutos, até que por fim ele falou:

— Não sou bom para pedir desculpas. Acho que não tenho muita prática, mas sinto muito. Fui muito rude. Não tive a intenção. Fui levado pelo calor do momento.

Royan continuou em silêncio.

— Vai ter de falar comigo, senão vamos ter de nos comunicar por bilhetes. Será um pouco estranho lá na garganta do Abbay.

— Tive a nítida impressão de que você não está mais interessado. — Ela olhava fixamente para a estrada.

— Sou um grosso — ele repetiu, e Royan olhou de lado. Foi sua ruína. A expressão dele era irresistível, e ela começou a rir.

— Acho que ao menos nisso concordamos: você é um grosso.

— Continuamos sócios? — ele perguntou.

— No momento, você é o único grosso que tenho. Acho que não tenho saída.

Ele a deixou na porta do hospital.

— Voltarei para pegá-la às três horas — Nicholas disse, e seguiu em direção ao centro de York.

Em sua época de universidade, havia comprado um pequeno apartamento numa das estreitas alamedas atrás da abadia. O prédio todo estava registrado no nome de uma companhia das Ilhas Cayman, e o telefone não constava do catálogo nem era controlado pelo sistema de PBX. A propriedade não podia ser atribuída a ele pessoalmente. Antes de conhecer Rosalind, o apartamento tivera um papel importante em sua vida social. Mas agora era usado somente para tratar de assuntos confidenciais e negócios clandestinos. As expedições à Líbia e ao Iraque haviam sido planejadas e organizadas nele.

Havia vários meses que Nicholas não entrava no apartamento: estava frio, mofado e pouco convidativo. Ele acendeu a lareira a gás e encheu uma chaleira. Com uma xícara de chá fumegante na sua frente, telefonou para um banco de Jersey e imediatamente depois fez outra ligação para um banco das Ilhas Cayman.

"O rato esperto tem mais de uma saída em sua toca." Esse era o lema de sua família, passado de geração a geração. É preciso ter sempre um ás escondido na manga para o dia em que o céu desabar. A expedição exigia dinheiro, e os advogados já haviam bloqueado a maior parte dele.

Nicholas deu as senhas e os números de contas aos gerentes dos bancos e instruiu-os para fazer determinadas transferências. Sempre o surpreendia a facilidade com que tudo podia ser arranjado, desde que se tivesse dinheiro.

Ele olhou o relógio. Ainda era muito cedo na Flórida, mas Alison atendeu o telefone ao segundo toque. Ela era um dínamo loiro que dirigia a Global Safaris, uma empresa que organizava expedições de caça e pesca a regiões remotas do mundo.

— Alô, Nick, não temos notícias suas há mais de um ano. Será que não gosta mais de nós?

— Andei sumido por uns tempos — ele admitiu. Como dizer que sua mulher e as duas filhas haviam morrido?

— Etiópia? — Alison não se mostrou espantada com o pedido. — Quando quer ir?

— Pode ser na semana que vem?

— Deve estar brincando. Só trabalhamos com um caçador lá, o Nassous Roussos, e ele tem reservas para os próximos dois anos.

— Não há mais ninguém? — ele insistiu. — Preciso chegar lá e sair antes das grandes chuvas.

— De que troféu você está atrás? — ela tergiversou. — Dos nialas da montanha? Dos nêmures de Menelik?

— Estou planejando uma viagem pelo Rio Abbay. — Isso era o máximo que ele podia dizer.

Ela ficou relutante.

— Não é uma recomendação nossa, entenda bem, mas existe um caçador que poderá levá-lo assim, em cima da hora, e nem sei se ele tem acampamento no Nilo Azul. É um russo, e as informações sobre ele são confusas. Dizem que foi membro da KGB e um assassino do bando de Mengistu.

Mengistu era o "Stálin Negro" que depôs e matou o velho imperador Hailé Selassié e fez a Etiópia ajoelhar-se a seus pés em dezesseis anos de despótico governo marxista. Quando seu patrocinador, o império soviético, entrou em declínio, Mengistu foi destronado e fugiu do país.

— Estou decidido a ir e aceito qualquer coisa — disse Nicholas. — Prometo que não farei nenhuma queixa.

— Então, não aceito reclamações! — Alison deu o nome e um número de telefone em Adis Abeba.

— Adoro você, minha querida.

— Me agradaria muito se isso fosse verdade. — Ela desligou.

Nichulas não esperava que fosse fácil falar com Adis Abeba, e realmente não foi. Mas por fim conseguiu. Uma mulher atendeu com o leve ciciar etíope, mas logo mudou para inglês quando ele perguntou por Boris Brusilov.

— No momento ele está num safári — ela disse. — Sou Woizero Tessay, sua mulher. — As mulheres etíopes não usavam o nome do marido, e Nicholas conhecia bem a língua para saber que o nome dela significava Lady Sol. — Mas se for algum assunto ligado a safári, eu posso ajudar — disse Lady Sol.

Nicholas encontrou Royan esperando na porta do hospital. — Como está sua mãe? — A perna está melhorando, mas ela continua inconsolável por Magic.

— Vamos arrumar um filhote para ela. Um dos meus coordenadores de caça cria springers de primeira linha. Posso conseguir um. — Ele fez uma pausa para em seguida perguntar delicadamente: — Seria capaz de deixar sua mãe? Quero dizer, se formos para a África?

Royan virou-se no banco para olhá-lo.

— Você armou alguma coisa desde que nos separamos — acusou-o.

— Posso ver no seu rosto.

Ele fez um sinal árabe contra mau-olhado.

— Alá me salve das bruxas!

— Pare com isso! — Ele a fazia rir com tanta facilidade que Royan não sabia se isso era bom ou ruim. — Mostre-me o que tem guardado na manga.

— Espere até voltarmos ao museu. — Ele não seria demovido, e ela teve de conter a impaciência.

Quando chegaram, ele levou Royan pela sala egípcia em direção à exposição dos mamíferos africanos e a fez parar no diorama dos antílopes montanheses. Eram variedades de tamanhos pequeno e médio — impalas, gazelas de Thompson e de Grant, gerenuks e outros.

— O Madoqua harperii. — Ele mostrou o pequeno animal no canto.

— O "dik-dik de Harper", também conhecido como dik-dik listrado.

Era um animalzinho indefinido, não muito maior que uma lebre grande. A pelagem marrom era listrada nas cores chocolate e preto sobre as espáduas, e o focinho fazia uma curva para cima.

— Meio sem graça — ela deu sua opinião sincera, sem querer ofender Nicholas, que parecia descomedidamente orgulhoso de seu espécime. — É algo especial?

— Especial? — havia surpresa na voz dele. — Ela me pergunta se é especial! — Ele girou os olhos para o teto, e Royan riu de novo de sua histrionice. — É o único da espécie que existe. E uma das criaturas mais raras da terra. Não admira que tantos zoólogos acreditem ser apócrifo, que nunca tenha realmente existido. Eles acreditam que meu santo bisavô, de quem leva o nome, o inventou. Uma referência consagrada sugere que ele tirou a pele de um mangusto listrado e a esticou sobre o corpo de um dik-dik comum. Pode imaginar tão hedionda acusação?

— Estou realmente consternada com tal injustiça — Royan riu.

— E é para estar mesmo. Porque estamos indo para a África caçar outro espécime de Madoqua harperii e limpar a honra da família.

— Não entendi.

— Venha comigo e logo entenderá. — Ele a levou para o estúdio e pegou, entre os papéis espalhados sobre a mesa, um livrinho encadernado em couro marroquino.

A capa estava desbotada, manchada de água e de sol tropical, com os cantos e a lombada desgastados e puídos.

— A agenda pessoal do velho Sir Jonathan — ele explicou, abrin-do-a. Prensadas entre as páginas havia flores e folhas selvagens, já desbotadas, que deviam estar lá há quase um século. O texto era ilustrado em tinta amarela desbotada com desenhos de homens, animais e paisagens agrestes. Nicholas leu a data no alto de uma página:

"Dois de fevereiro de 1902. No acampamento do Rio Abbay. O dia todo seguindo o rastro de dois grandes elefantes. Não encontramos. Calor muito intenso. Meus homens debandaram. Abandonaram a caça e retornaram ao acampamento. No caminho de volta avistei um pequeno antílope pastando na margem do rio, que derrubei com um tiro do meu pequeno rifle Rigby. Um exame mais próximo provou pertencer ao gênero Madoqua. Entretanto, era de uma espécie que eu nunca vira antes, maior que o dik-dik comum, mas possuindo um corpo listrado. Acredito que esta espécie não seja conhecida da ciência".

Nicholas ergueu os olhos do diário.

— Meu bisavô Jonathan nos deu a desculpa perfeita para descermos a garganta do Rio Abbay. — Ele fechou o livro e continuou: — Como você disse, reunir as provisões para nossa expedição levaria meses de planejamento e organização, sem mencionar as despesas. Seria necessário obter a aprovação do governo etíope. Na África, isso pode levar meses, senão anos.

— Imagino que o governo etíope não seria muito cooperativo, se suspeitar de nossas verdadeiras intenções — ela concordou.

— Por outro lado, há inúmeras empresas legítimas de safári operando no país. Têm todas as permissões necessárias, contatos no governo, veículos, material de acampamento e respaldo logístico necessários para se viajar pelas regiões mais remotas. As autoridades estão bastante acostumadas com caçadores estrangeiros que chegam e saem por intermédio dessas empresas, enquanto um par de ferengi isolados atrairia todo o exército local e todo mundo, como uma manada de búfalos raivosos.

— Então vamos viajar como uma dupla de caçadores de dik-dik?

— Já fiz a reserva com um guia de safáris de Adis Abeba. Meu plano é dividir nosso projeto em três estágios distintos e separados. O primeiro é o de reconhecimento. Se encontrarmos a pista que estamos esperando, então voltaremos com nossos próprios homens e equipamentos. Esse será o estágio dois. O estágio três, é claro, é tirar o butim da Etiópia, e isso não será a parte mais fácil da operação, posso lhe garantir por experiência própria.

— Como vai fazer para... — Royan começou, mas ele ergueu as mãos. — Não me pergunte, porque não tenho a mais vaga idéia de como fazer. Um estágio por vez.

— Quando partiremos?

— Antes de responder, quero lhe fazer uma pergunta. Sua interpretação do enigma de Taita... está tudo explicado nas anotações que foram roubadas no oásis?

— Sim, nas anotações e nos microfilmes. Sinto muito.

— Então os malditos receberam tudo mastigadinho, como você as deu para mim.

— Temo que sim.

— Então, respondendo à sua pergunta, a resposta é tout de suite! Temos de chegar antes deles à garganta do Abbay. Os bandidos já estão com suas conclusões e suposições há quase um mês. Pelo que imagino, já estão a caminho.

— Quando partiremos? — ela insistiu, ansiosa.

— Fiz duas reservas no vôo da British Airways para Nairóbi para este sábado. Ou seja, daqui a dois dias. Lá faremos uma conexão com um vôo da Air Kenya para Adis, que nos deixará lá na segunda-feira por volta de meio-dia. Iremos para Londres hoje à noite e ficaremos lá no meu apartamento. Suas vacinas contra febre amarela e hepatite estão válidas?

— Sim, mas não tenho equipamento e trouxe pouca roupa comigo. Deixei tudo no Cairo.

— Veremos isso em Londres. O problema da Etiópia é que faz frio suficiente para emascular um macaco no alto das montanhas, e embaixo, na garganta, é uma verdadeira sauna.

Ele se aproximou do quadro e começou a examinar os itens da lista.

— Iniciaremos imediatamente uma profilaxia de malária. Entraremos numa região de mosquitos P. falciparum, resistentes à cloroquina, então quero que você tome Mefloquine. — Ele mudou rapidamente de item: — É claro que seus documentos de viagem estão em ordem, ou você não estaria aqui. Nós dois precisamos de visto para a Etiópia, mas tenho um contato que pode arranjar isso em vinte e quatro horas.

Tão logo terminou as listas, Nicholas mandou Royan a seu quarto, para arrumar os poucos objetos pessoais que trouxera do Cairo.

Saíram de Quenton Hall quase de noite, e Royan ainda ficou uma hora no York Minster Hospital para se despedir da mãe. Nicholas a esperou no pub Red Lion, do outro lado da rua, e estava recendendo a Theakston's Old Peculier quando ela entrou no Range Rover e sentou-se a seu lado. Era um aroma doce e agradável de bebida fermentada; Royan sentia-se tão à vontade em sua companhia que encostou a cabeça no banco e dormiu.

A casa de Nicholas em Londres ficava em Knightsbridge, mas apesar do endereço elegante era muito menor que Quenton Hall. Royan sentiu-se muito mais à vontade ali, mesmo que só por dois dias. Durante esse tempo viu Nicholas poucas vezes; ele se ocupou dos últimos preparativos para a viagem, visitando várias repartições oficiais em Whitehall. Voltou com um maço de cartas de apresentação a autoridades, embaixadas britânicas e altos comissariados de todo o leste da África.

— Pergunte a qualquer inglês — ela riu consigo mesma. — Não existem mais os privilégios de classe, nem a rede de camaradagem que dirige o país.

Royan ficou encarregada da lista de compras. Mesmo na cidade mais segura do mundo, andava olhando para trás, entrando e saindo de banheiros femininos e estações de metrô, para ter certeza de que ninguém a seguia.

— Você está agindo como uma criança apavorada que se perdeu do pai — ela se repreendia.

Entretanto, sentiu um imenso alívio quando, à noite, ouviu a chave girar na porta da casa vazia onde esperava por Nicholas, controlando-se para não descer correndo a seu encontro.

No sábado pela manhã, quando o táxi os deixou no setor de embarque do Terminal Quatro de Heathrow, Nicholas conferiu a bagagem. Royan levava apenas uma mala simples de lona, não maior que a dele, e a bolsa a tiracolo pendurada no ombro. O rifle de caça ia dentro de uma capa de couro própria para viagem, gravada com as iniciais dele. Cem cartuchos de munição estavam acondicionados numa cartucheira com reforço de cobre, e ele levava uma pasta de couro que lembrava uma antigüidade vitoriana.

— Viajar sem peso é uma grande virtude. Deus nos livre dessas mulheres que carregam pilhas de bagagem — comentou Nicholas, recusando o serviço de um carregador e jogando tudo no carrinho.

Royan precisou acelerar o passo para acompanhá-lo pelos corredores de embarque lotados. Milagrosamente, a multidão se abria diante dele; Nicholas ergueu o chapéu panamá acima da testa e abriu um sorriso luminoso para a moça no balcão de check in; ela o atendeu imediatamente, toda dengosa e agitada.

Foi a mesma coisa quando embarcaram no avião. As duas aeromoças divertiam-se com tudo o que ele dizia, ofereciam-lhe champanhe e o paqueravam descaradamente, para irritação dos demais passageiros e da própria Royan. Mas ela fingiu ignorar e tratou de se acomodar na confortável poltrona de primeira classe, para assistir ao filme que passava numa tela de vídeo em miniatura. Tentava se concentrar nas imagens de Richard Gere, mas sua atenção era atraída para outras imagens do desfiladeiro selvagem e de antigas esteias.

Tanto que, quando Nicholas cutucou seu braço, ela o olhou com certa arrogância. No apoio para braço entre as duas poltronas ele havia montado um pequeno tabuleiro de xadrez e agora a convidava para jogar, indicando o tabuleiro com a cabeça e uma sobrancelha arqueada.

Quando aterrissaram no Aeroporto Jomo Kenyatta, no Quênia, continuavam em acirrada disputa. Estavam empatados em duas partidas cada um, mas Royan tinha um bispo e dois peões à frente no jogo decisivo. Estava orgulhosa de si mesma.

— Esta noite jantaremos com o alto-comissário inglês. É um velho camarada. Traje informal. Pode estar pronta às oito?

"Não se deve passar dificuldades quando se viaja pelo mundo com um homem como esse", ela pensou.

Era um vôo relativamente curto de Nairóbi a Adis Abeba, e a paisagem embaixo descortinava-se em seqüências tão fascinantes que Royan não conseguia desgrudar da janela do avião. O cume esbranquiçado do Monte Quênia finalmente se livrou das nuvens, e os picos duplos cobertos de neves esparsas brilharam sob os raios do sol.

A monotonia marrom dos desertos do Distrito da Fronteira Norte foi quebrada pelo verde das montanhas que circundavam o oásis de Marsabit, e, mais adiante, para os lados do porto, via-se o brilho das águas do Lago Turkana, antigo Lago Rudolf. O deserto finalmente deu lugar às elevações do grande platô central do solo ancestral da Etiópia.

— Na África, somente os egípcios são mais antigos que essa civilização — observou Nicholas, examinando a paisagem junto com Royan. — Já eram uma raça culta quando nós, os povos do norte, ainda vestíamos peles curtidas e morávamos em cavernas. Eram cristãos quando os europeus ainda eram pagãos e cultuavam os antigos deuses Pã e Diana.

— Eram um povo civilizado quando Taita passou por aqui há quatro mil anos — ela concordou. — Ele os descreve como quase iguais em nível cultural, o que é raro fazer. Depreciava todas as demais nações do velho mundo como inferiores, em todos os sentidos.

Do alto, Adis Abeba era como tantas outras cidades africanas, uma mistura de antigo e novo, de estilos arquitetônicos tradicionais e exóticos, telhados de zinco ao lado de aço galvanizado e telhas de barro. As paredes redondas dos velhos tukuls, construções feitas de varas trançadas e barro, contrastavam com as formas retangulares e as linhas geométricas dos edifícios envidraçados, dos blocos de apartamentos, das vilas à margem do rio, dos prédios do governo e do grandioso e embandeirado quartel da Organização da Unidade Africana.

Os traços distintivos no campo ao redor eram as plantações de altos eucaliptos, que forneciam lenha. Era o único combustível disponível para muita gente naquela terra pobre e maltratada, que ao longo dos séculos vinha sendo devastada por exércitos saqueadores e, mais recentemente, por doutrinas políticas alienígenas.

Depois de Nairóbi, na altitude o ar parecia fresco e agradável quando Royan e Nicholas desembarcaram do avião e atravessaram a pista em direção ao terminal. Quando entraram, antes mesmo de chegar à fila para apresentar os passaportes, alguém chamou Nicholas.

— Sir Nicholas! — Ambos se voltaram para uma moça alta, de delicadas feições morenas iluminadas por um sorriso de boas-vindas, que acenava para eles com a graça de uma bailarina.

— Bem-vindos ao meu país. Sou Woizero Tessay. — Ela olhou com interesse para Royan. — Você deve ser Woizero Royan. — Ela estendeu-lhe a mão, e Nicholas percebeu que as duas simpatizavam instantaneamente uma com a outra.

— Se me derem os passaportes, cuidarei das formalidades enquanto descansam na sala VIP. Há alguém da Embaixada britânica esperando para recebê-lo, Sir Nicholas. Não sei como soube que o senhor estava vindo.

Havia uma única pessoa esperando na sala VIP. Usava um terno tropical de bom corte e uma velha gravata da escola militar de Sandhurst, com listras diagonais amarelas e azuis. Levantou-se e veio receber Nicholas no mesmo instante.

— Nicky, como vai? Que bom vê-lo de novo! Deve fazer uns doze anos, não?

— Olá, Geoffrey. Não tinha a menor idéia de que o houvessem mandado para cá.

— Sou o adido militar. Sua Excelência pediu-me para vir recebê-lo no momento em que soube que servimos juntos em Sandhurst. — Geoffrey olhou com nítido interesse para Royan e, com um ar de resignação, Nicholas os apresentou.

— Geoffrey Tennant. Cuidado com ele. É o maior conquistador ao norte do equador. Nenhuma mulher está segura a um quilômetro dele.

— Ora, pare com isso! — Geoffrey protestou, parecendo agradecido pela referência que Nicholas lhe fez. — Não acredite em uma palavra do que ele diz, Doutora Al Simma. É um prevaricador famoso.

Geoffrey puxou Nicholas para o lado e rapidamente fez um resumo das situação do país, particularmente nas áreas afastadas.

— Ele está um pouco preocupado. Não gosta da idéia de você andar por aí sozinho. Há muitos bandidos lá em Gojam. Eu disse a ele que você sabe se cuidar.

Num tempo incrivelmente curto Woizero Tessay voltou.

— Já liberei toda a bagagem, inclusive a arma de fogo e a munição. Esta é a permissão temporária de vocês. Devem mantê-la consigo durante todo o tempo em que ficarem na Etiópia. E aqui estão os passaportes — os vistos estão carimbados e em ordem. Nosso vôo para o Lago Tana sai em uma hora, então temos bastante tempo para o check in.

— Se precisar de trabalho, procure por mim — disse Nicholas, elogiando sua eficiência.

Geoffrey Tennant acompanhou-os até o portão de embarque e lá se despediu.

— Contem comigo para o que precisarem. "Servir para liderar", Nicky.

— Servir para liderar? — Royan perguntou, quando já seguiam para o avião que os esperava.

— É o lema de Sandhurst — ele explicou.

— Gostei, "Nicky" — Royan murmurou.

— Acho Nicholas muito mais digno e apropriado — disse ele.

— É, mas Nicky é mais simpático.

O pequeno avião Twin Otter que os levou para o norte jogava nas altas correntes de ar, formadas pelas montanhas abaixo. Embora estivessem 4 500 metros acima do nível do mar, o solo estava bastante perto para que se distinguissem os vilarejos e as esparsas áreas cultivadas ao redor. Sujeita há tantos séculos aos métodos agrícolas primitivos e ao crescimento descontrolado dos rebanhos domésticos, a terra tinha uma aparência desgastada e as pedras brotavam do chão avermelhado como ossos expostos.

De repente, no platô sobre o qual voavam, surgiu um abismo monstruoso, como se as entranhas da terra tivessem sido expostas por um poderoso golpe de espada.

— O Rio Abbay! — Tessay inclinou-se na poltrona e bateu no ombro de Royan.

O desfiladeiro começava abruptamente, com encostas que despencavam num ângulo de 30 graus ou pouco mais. As planícies áridas do platô deram lugar imediatamente a paredões compactamente cobertos de vegetação. Eles podiam ver a galharia das gigantescas euforbiáceas erguendo-se acima da selva densa. Em certos trechos os paredões tinham deslizado e formado rampas de pedra solta; em outros eram escarpas alcantiladas e agulhas que a erosão esculpira com uma arte monstruosa em forma de humanóides alongados e outras fantásticas figuras de pedra.

O desfiladeiro tornava-se cada vez mais fundo; o avião conduziu-os sobre o espaço vazio, até o ponto em que, quase 2 000 metros abaixo deles, puderam ver o rio refletindo seu brilho como o couro de uma cobra. O afunilamento dos penhascos criava agora uma segunda borda, outro desfiladeiro que se erguia 1 500 metros acima do Nilo. Lá embaixo, entre os terríveis penhascos, o rio formava um canal com poços escuros e violentas corredeiras que se infiltravam por entre o calcário vermelho. Em alguns pontos o desfiladeiro tinha mais de 60 quilômetros de largura, em outros estreitava-se para 10, mas em toda a extensão sua grandiosidade e desolação eram infinitas e eternas.

— Logo estaremos lá embaixo — disse Tessay com tanta admiração que sua voz era quase um sussurro. Ambos ficaram em silêncio. As palavras eram supérfluas diante da natureza bruta e selvagem.

Quase aliviados, viram surgir ao norte as altas montanhas do maciço de Choke erguendo-se contra o céu azul, mais altas que o frágil aparelho que os transportava.

A aeronave adernou para descer, e Tessay apontou para o leste.

— O Lago Tana.

Era uma vasta e bela extensão de água salpicada de ilhas, cada uma com um mosteiro ou uma igreja antigos. Quando baixaram sobre a água para a aproximação final, divisaram os monges de batina branca deslocando-se entre as ilhas em seus tradicionais barcos de papiro.

O Otter tocou a pista de areia paralela ao lago e foi erguendo uma longa trilha de poeira. Fez uma curva e desligou os motores ao lado de uma construção de pau-a-pique e teto de palha.

No alto da escada de desembarque, Nicholas pegou os óculos escuros no bolso da jaqueta caqui e colocou-os no rosto. Parou para olhar as paredes do terminal, com marcas de balas e de estilhaços de granada e um tanque russo T-35 estacionado ao lado da pista. O canhão de sua torre estava apontado para leste, e o mato crescia por entre as esteiras enferrujadas.

Os outros passageiros, ansiosos para descer, tentavam ultrapassá-lo sem muita delicadeza, apressados para encontrar amigos e parentes que os esperavam à sombra dos eucaliptos. Havia apenas um carro parado ali, um Toyota Land Cruiser bege. Na porta do motorista estava pintado um niala da montanha, com longos chifres retorcidos, e abaixo dele uma faixa com a inscrição "Safáris Selvagens". Um homem branco descansava atrás do volante.

Quando Nicholas desceu a escada atrás das duas mulheres, ele saiu do caminhão e foi a seu encontro. Alto e encurvado, ele vestia um conjunto de caça desbotado e caminhava vigorosamente.

"Quarentão", imaginou Nicholas, devido aos pêlos grisalhos que brotavam da barba curta. "É um homem valente", pensou. O cabelo avermelhado estava cortado rente à cabeça e seus olhos eram frios, de um azul pálido. Uma cicatriz repuxava uma das faces e lhe deformava o nariz.

Tessay apresentou-o primeiro a Royan, e ele se curvou levemente quando apertou sua mão.

— Enchanté— disse a ela num francês execrável, e então olhou para Nicholas.

— Este é meu marido, Alto Boris — Tessay apresentou. — Boris, este é Alto Nicholas.

— Meu inglês é ruim — disse Boris. — O francês é melhor. "Não há muito o que escolher", pensou Nicholas, exibindo um sorriso tranqüilo.

— Falemos francês então. Bonjour, Monsieur Brusilov. Encantado em conhecê-lo. — Ele estendeu a mão ao russo.

O aperto de Boris foi firme — firme demais. Ele estava fazendo do cumprimento uma disputa, mas Nicholas já esperava por isso. Conhecia esse tipo de gente, e apertou-lhe a mão com tanta força que Boris não conseguiu fechar os dedos. Nicholas segurou-a sem permitir que qualquer tensão ou esforço transparecesse em seu sorriso indolente. Boris desistiu primeiro, deixando transparecer um traço de respeito no olhar opaco.

— Veio atrás de um dik-dik? — ele perguntou, quase com sarcasmo. — A maioria de meus clientes quer elefantes, ou pelo menos um niala da montanha.

— Um pouco demais para mim — Nicholas riu mostrando os dentes —, são muito grandes. O dik-dik está de bom tamanho.

— Já esteve lá embaixo, na garganta? — Boris desafiou-o. O sotaque russo distorcia as palavras francesas, dificultando o entendimento.

— Sir Nicholas foi um dos líderes da expedição ao rio em 1976 — interveio Royan suavemente, e Nicholas surpreendeu-se com a súbita manifestação. Ela havia captado no mesmo instante o antagonismo entre os dois e viera resgatá-lo.

Boris grunhiu alguma coisa e virou-se para a esposa:

— Trouxe tudo o que pedi?

— Sim, Boris — a mulher respondeu submissa. — Está tudo no avião. — Nicholas logo viu que ela o temia, e, provavelmente, com razão.

— Vamos carregar, então. Temos um longo caminho pela frente.

Os dois homens sentaram-se no banco dianteiro do Toyota e as mulheres foram atrás, rodeadas de caixas e pacotes. O velho protocolo africano, disse Nicholas para si mesmo, os homens na frente e as mulheres que se virem.

— Não vão querer a rota turística, não é? — Boris perguntou, quase em tom de ameaça.

— Rota turística?

— O braço do lago e a hidrelétrica — explicou. — A ponte portuguesa sobre o desfiladeiro e o ponto onde começa o Nilo Azul — acrescentou. Mas, antes que aceitassem, avisou: — Se quiserem, só chegaremos ao acampamento à noite.

— Obrigado pela sugestão — Nicholas respondeu polidamente —, mas já conheço tudo.

— Melhor. Vamos cair fora daqui.

A estrada virava para o oeste e seguia pelo sopé das altas montanhas. Aquilo era Gojam, terra de montanheses arredios. Era uma região populosa, e eles viram muitos homens altos e esguios pela estrada, conduzindo rebanhos de cabras e carneiros, com suas longas varas atravessadas sobre os ombros. Homens e mulheres usavam mantos de lã, os shammas, calças-bombachas brancas e nos pés, sandálias.

Era um povo de feições altivas e belas, com os cabelos espessos formando halos hirsutos e olhos de águia. Algumas jovens que viram nas aldeias que atravessaram eram realmente lindas. A maioria dos homens estava armada, com espadas enfiadas em bainhas prateadas e rifles de assalto AK-47.

— Assim eles se sentem como gente grande — caçoou Boris. — Muito valentes, muito machos.

As cabanas da aldeia eram tukuls circulares, cercadas por plantações de eucalipto e agaves pontiagudos.

Nuvens carregadas encobriam os altos picos do Choke, que eram varridos por rajadas de chuva e vento. Grandes como moedas de prata, gotas grossas explodiam no pára-brisa do Land Cruiser e transformavam a estrada num rio de lama.

As condições da estrada eram assustadoras; em certos trechos se transformara em valas que nem o Toyota com tração nas quatro rodas conseguia superar, e Boris foi obrigado a traçar seu próprio caminho pelas encostas rochosas. Mesmo deslocando-se à velocidade média de um homem, eles sacolejavam de um lado para outro nos bancos quando as rodas saltavam pelo terreno irregular.

— Esses malditos pretos nunca se lembram de consertar a estrada

resmungou Boris. — Gostam de viver como animais. — Ninguém

disse nada, mas Nicholas espiou pelo retrovisor as duas mulheres atrás. Elas estavam impassíveis, contendo qualquer ressentimento provocado pelo comentário.

No meio do caminho a estrada tornou-se ainda pior. Daí para a frente a lama alta da superfície fora rasgada pelos pneus de tráfego pesado, formando sulcos profundos.

— Tráfego militar? — Nicholas ergueu a voz acima do barulho da chuva, e Boris grunhiu.

— Algum. Tem muita atividade shufta pelo desfiladeiro... bandidos e guerreiros dissidentes. Entretanto, o tráfego maior é da prospecção de minério. Uma grande companhia mineradora conseguiu a concessão em Gojam, e estão vindo para as escavações.

— Não cruzamos com nenhum veículo civil — observou Royan —, nem ônibus públicos.

— Acabamos de passar por um longo e conturbado período — Tessay explicou. — Tínhamos uma economia agrária. Já fomos o celeiro da África. Mas Mengistu conseguiu nos levar aos limites da miséria. Usou a fome como arma política. Ainda estamos sofrendo demais. Muito pouca gente pode se dar ao luxo de ter um veículo motorizado. A maioria está preocupada em conseguir comida para as crianças.

— Tessay fez economia na Universidade de Adis — Boris caçoou. — E muito esperta. Sabe de tudo. Basta perguntar que ela responde. História, religião, economia... é só perguntar. — Tessay tinha novamente mergulhado em silêncio.

No meio da tarde a chuva diminuiu e um sol tímido espiou através de blocos de nuvens. Boris parou o Toyota num trecho de campo deserto.

— Pausa para esticar as pernas — anunciou. — Hora do pipi.

As duas moças desceram do caminhão e procuraram um lugar atrás das pedras. Quando voltaram para o carro, tinham trocado de roupa. As duas usavam agora shammas e calças-bombachas, típicas do lugar.

— Tessay me presenteou com este traje tradicional — disse Royan, dando um giro para obter a aprovação de Nicholas.

— Também é muito bonito — ele opinou. — Vai se sentir melhor de calças.

O sol já estava baixo quando a estrada entrou por outro vale rochoso, atravessado por um rio de barrancos íngremes. Do outro lado aninhava-se uma igreja circular, de paredes brancas, com uma cruz copta de madeira acima do telhado de barro vermelho.

— Debra Maryam — Boris anunciou satisfeito —, o monte da Virgem Maria, e o rio é o Dandera. Mandei meus homens na frente de caminhão, para montar o acampamento e esperar por nós. Vamos dormir e amanhã desceremos o rio até a borda do despenhadeiro.

As tendas estavam armadas num bosque de eucaliptos adiante da aldeia.

— A segunda tenda é a de vocês — Boris apontou.

— Está ótima para Royan — concordou Nicholas. — Quero uma tenda só para mim.

— Dik-dik e tendas separadas... — Boris dirigiu-se a ele com um ar entediado. — Que diabo de homem! Você me impressiona.

Ele gritou para os criados armarem uma tenda ao lado da outra, com as paredes laterais quase encostadas.

— Vocês podem arrumar coragem durante a noite — ele olhou de esguelha para Nicholas. — Não quero que tenham de andar muito.

O chuveiro em que se banharam era um tambor pendurado dos galhos mais baixos de um eucalipto, a céu aberto e cercado em toda a volta por uma lona. Royan foi primeiro; voltou com uma aparência jovial e renovada, de toalha enrolada na cabeça.

— Sua vez, Nicky! — ela chamou quando passou pela tenda dele. — A água está uma delícia.

Já estava escuro quando Nicholas terminou o banho e trocou de roupa. Dirigiu-se à tenda de refeições, onde os outros estavam sentados em cadeiras de armar ao redor do fogo. As mulheres conversavam afastadas; Boris, com os pés sobre uma mesa baixa e a cadeira inclinada para trás, tinha um copo na mão.

Ele indicou a garrafa de vodca sobre a mesa quando Nicholas entrou no círculo iluminado pelo fogo.

— Sirva-se. O gelo está no balde.

— Prefiro cerveja — disse Nicholas. — Sede de deserto. — Boris deu de ombros e fez sinal a um dos criados para pegar uma garrafa num refrigerador portátil.

— Vou contar um segredinho. — Ele riu, mostrando os dentes para Nicholas, e pôs mais vodca no copo. — Não existe mais nenhum dik-dik listrado, se é que já existiu algum. Está perdendo seu tempo e seu dinheiro.

— Ótimo — concordou Nicholas tranqüilamente. — O dinheiro e o tempo são meus.

— Só porque um velho caduco atirou num deles, sei lá quando, não quer dizer que vamos encontrar outro agora. Podíamos ir para as plantações de chá atrás de elefantes. Vi três dos bons por lá, há uns dez dias. Presas de mais de cinqüenta quilos de cada lado.

A conversa prosseguia, e o nível da garrafa de vodca baixava como o Nilo depois da inundação. Quando Tessay veio dizer que a comida estava pronta, Boris levou a garrafa junto, já cambaleante no caminho até a mesa. Durante a refeição sua única participação na conversa foram grosserias dirigidas a Tessay.

— O carneiro está cru. Por que não supervisionou o cozinheiro? Você tem de olhar tudo o que eles fazem!

— O seu carneiro está malcozido, Alto Nicholas? — Tessay perguntou sem olhar para o marido. — Posso mandar cozinhar um pouco mais.

— Está perfeito — ele lhe assegurou. — Gosto assim, rosado.

No final do jantar a garrafa de vodca estava vazia e o rosto de Boris vermelho e inchado. Ele saiu da mesa sem dizer uma palavra e desapareceu na noite em direção a sua tenda, tropeçando, trançando as pernas, se desequilibrando.

— Peço desculpas — Tessay disse em voz baixa. — É só à noite. De dia ele fica bem. É uma tradição russa, a vodca. — Ela abriu um sorriso luminoso, mas os olhos continuaram tristes. — A noite está linda e é muito cedo para dormir. Gostariam de ir até a igreja? É muito antiga e famosa. Pedirei a um dos homens que leve lanternas para que possam ver os afrescos.

O criado foi na frente, iluminando o caminho, um velho padre esperava-os sob o pórtico da construção circular. Era magro e tão negro que só os dentes brilhavam ao luar. Ele usava uma magnífica cruz copta de prata maciça, ornamentada com cornalina e outras pedras semipreciosas.

Royan e Tessay ajoelharam-se para pedir-lhe a bênção. Ele tocou levemente o rosto delas com a cruz e fez uma genuflexão, murmurando palavras em amárico. Conduziu-os depois para o interior da igreja.

Nota: amárico, Língua semítica pertencente ao grupo etiópico, falada na parte central do planalto abissínio. (N. do E.)

As paredes eram cobertas com magníficas pinturas em cores primárias muito vivas, que refletiam a luz das lanternas como pedras preciosas. Via-se nelas a forte tendência bizantina; os santos tinham olhos grandes e brilhantes e auréolas douradas sobre a cabeça. Sobre o altar, em meio a ouropéis e ornamentos de prata, a Virgem embalava seu filho rodeada pelos três reis magos e uma hoste de anjos ajoelhados em adoração. Nicholas pegou sua câmera Polaroid no bolso e ligou o flash. Enquanto se preparava, Tessay e Royan ajoelharam-se lado a lado diante do altar.

Quando terminou de fotografar, Nicholas escolheu um lugar num banco de madeira e ficou observando a expressão pacífica das duas mulheres iluminadas pelas velas. A beleza e a tranqüilidade do lugar eram comoventes.

"Gostaria de ter mais fé", ele pensou, como fazia toda vez que entrava numa igreja. "Deve ser um conforto nos momentos difíceis. Gostaria de saber rezar assim por Rosalind e minhas filhas." Ele não conseguiu mais ficar ali e foi se sentar no pórtico da igreja, de onde podia ver o céu estrelado.

Quando finalmente as duas mulheres saíram da igreja, Nicholas deu ao padre uma nota de 100 birr e uma foto Polaroid dele, presente que o velho claramente valorizou mais que o dinheiro. Em seguida os três desceram o monte em silêncio.

Nicky! — Royan o sacudia. Ele se sentou na cama, acendeu a lanterna e viu que ela estava enrolada no xale, por cima do pijama masculino.

— O que foi? — Antes que ela respondesse, Nicholas ouviu uma voz rouca e raivosa berrando impropérios no meio da noite, e em seguida o inconfundível som seco de um punho fechado atingindo um corpo.

— Ele está batendo nela! — Royan estava indignada. — Tem de fazê-lo parar!

Ouviu-se um grito e em seguida choro.

Nicholas hesitou. Só os tolos interferem numa briga de marido e mulher, que em geral acabam se unindo violentamente contra o defensor.

— Precisa fazer alguma coisa, Nicky, por favor!

Relutante, ele tirou as pernas debaixo da coberta e se levantou. Estava de short e nem se lembrou de calçar os sapatos. Royan o seguiu, também descalça, até a tenda de Boris, que estava armada no final do bosque em frente à tenda de refeições.

A luz do lampião do lado de dentro formava sombras gigantescas nas paredes de lona. Deu para ver que ele agarrava a mulher pelos cabelos e a arrastava pelo chão, urrando palavras em russo.

— Boris! — Nicholas gritou o nome três vezes para chamar sua atenção; a sombra se virou, soltou Tessay, e Boris ergueu a lona que fechava a tenda.

Estava apenas de cueca. Seu tronco era esguio e musculoso, o peito largo coberto de pêlos acobreados. Atrás, Tessay estava caída ao chão e cobria o rosto com as mãos. Estava nua, e as curvas de seu corpo eram suaves como as de uma pantera.

— Que diabo está acontecendo aqui? — Nicholas gritou, e sua raiva cresceu ao ver a humilhação daquela meiga e graciosa mulher.

— Estou dando a essa cadela negra uma lição de boas maneiras — Boris vangloriou-se, com o rosto ainda inchado e vermelho de bebida. — Não é da sua conta, inglês, a menos que queira pagar para comer um pedaço do porco. — Ele ria despudoradamente.

— Você está bem, Woizero Tessay? — Nicholas continuou olhando para ele, para poupar a mulher de mais humilhação por outro homem a estar vendo nua.

Tessay sentou-se abraçada aos joelhos para esconder o corpo.

— Está tudo bem, Alto Nicholas. Por favor, voltem para a tenda antes que as coisas piorem. — O sangue escorria de uma das narinas para a boca e tingia-lhe os dentes brancos.

— Ouviu o que ela disse, inglês frouxo! Vá embora! Vá cuidar de seus assuntos, antes que eu também lhe dê uma lição de boas maneiras.

Boris avançou com a mão aberta para o peito de Nicholas, que se desviou com a facilidade e a rapidez de um toureiro que evita o primeiro ataque do touro. Saltou de lado e usou o próprio impulso de Boris para empurrá-lo na direção em que já se movia. Totalmente desequilibrado, o russo rodopiou no espaço entre as tendas, colidiu com uma cadeira e esparramou-se no chão.

— Royan, leve Tessay para a sua tenda! — Nicholas ordenou gentilmente. Royan entrou correndo na tenda e pegou um lençol na esteira mais próxima. Jogou-o sobre os ombros de Tessay e ajudou-a a se levantar.

— Por favor, não faça isso — Tessay soluçava. — Não o conhece quando ele está assim. Pode feri-lo.

Quando Royan tirou a mulher agredida da tenda, Boris já estava novamente em pé. Abaixou-se com raiva e ergueu do chão a cadeira que o havia derrubado. Com um chute, quebrou uma das pernas e segurou-a na mão.

— Quer brigar, inglês? Muito bem, então vamos brigar! — Ele avançou para Nicholas erguendo a perna da cadeira como um bastão Ninja, bem na frente da cabeça. Quando Nicholas se abaixou, Boris inverteu a direção e mirou o lado do peito sob o braço erguido. Teria quebrado algumas costelas de Nicholas, se este não conseguisse se desviar.

Eles se mediram desconfiados, e então Boris atacou outra vez. Se não fosse pelo efeito da vodca sobre os reflexos do russo, Nicholas jamais teria chance contra um adversário de tal calibre, mas Boris estava com os movimentos tão descontrolados que o inglês conseguiu abaixar-se e evitar novamente o golpe. Ao erguer-se, usou todo o seu peso para esmurrar a barriga de Boris logo abaixo do estômago. O ar saiu de dentro do russo num arroto tempestuoso.

A perna da cadeira caiu de sua mão, ele se dobrou e caiu ao chão. Segurando a barriga e respirando com dificuldade, Boris estava todo encolhido. Nicholas parou ao lado dele e disse calmamente em inglês:

— Esse tipo de comportamento não é bom, companheiro. Nós não batemos em mulheres. Por favor, que isso não se repita! — Dirigiu-se então a Royan: — Leve-a para sua tenda e a mantenha lá. — Nicholas afastou os cabelos do rosto e ajeitou-os para trás. — Agora, se ninguém tiver objeção, podemos dormir um pouco?

Voltou a chover nas primeiras horas da manhã. Gotas pesadas batiam na tela de lona, e na fraca claridade do amanhecer o interior da tenda ganhou uma luminosidade lúgubre. Mas quando Nicholas se dirigiu para a tenda de refeições, as nuvens haviam desaparecido e a luz do sol era brilhante e agradável. O ar da montanha recendia a terra úmida e cogumelos. Boris recebeu Nicholas de ótimo humor.

— Bom dia, inglês. A gente se divertiu muito ontem à noite, hem? Ainda dou risada quando me lembro do que aconteceu. Ótimas piadas. Um dia desses vamos beber mais vodca e contar mais piadas. — Ele foi para a tenda-cozinha e berrou: — Ei, Lady Sol, traga algo para seu novo namorado comer. Ele deve estar faminto depois de ontem à noite.

Tessay estava quieta e ensimesmada, supervisionando os criados que preparavam o café da manhã. Tinha um olho inchado e quase fechado, e o lábio cortado. Ela não olhou para Nicholas uma única vez durante a refeição.

— Vamos seguir viagem — Boris explicou jovialmente enquanto tomavam café. — Os criados vão desmontar o acampamento e nos seguir em meu caminhão maior. Com sorte acamparemos esta noite junto do desfiladeiro e amanhã começaremos a descer.

Quando se preparavam para entrar no caminhão, Tessay conseguiu falar baixo para Nicholas, para que Boris não ouvisse:

— Obrigada, Alto Nicholas. Mas não foi sensato. O senhor não o conhece. Agora tome cuidado. Ele não esquece nem perdoa.

Em Debra Maryam, Boris pegou um desvio da estrada que seguia paralelo ao Dandera, na direção sul. A estrada que haviam percorrido no dia anterior aparecia no mapa como a principal. Já era bastante ruim. A que seguiam agora aparecia como secundária, "intransitável com mau tempo". Para piorar a situação, grande parte do tráfego pesado havia sido desviado da estrada principal e seguia o mesmo caminho. Chegaram a um local em que um grande caminhão atolara na terra encharcada, e as tentativas de tirá-lo da lama deixaram buracos que lembravam crateras de bomba, como numa velha fotografia dos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.

Por duas vezes o Toyota também ficou preso no terreno enlameado. Em ambas, um grande caminhão que vinha atrás parou para ajudar e os trabalhadores que viajavam na carroceria desceram para empurrar. Nicholas juntou-se a eles para liberar o veículo.

No início da tarde pararam à beira de um rio para uma refeição ao ar livre. Nicholas desceu até a margem, ao lado da estrada, para limpar a lama e a sujeira provocada pelos esforços matinais. Estivera à frente dos trabalhos para manter o caminhão em movimento. Royan o seguiu; sentou-se numa pedra enquanto ele tirava a camisa e se ajoelhava à beira do poço para se lavar com a água fria da montanha. O rio estava amarelado e caudaloso por causa das fortes chuvas.

— Não acho que Boris esteja acreditando nessa história de dik-áík listrado — avisou. — Tessay disse que ele está desconfiado do que viemos fazer. — Ela o olhava com interesse enquanto ele esfregava o peito e os braços. Onde o sol não alcançava, a pele era muito clara e sem qualquer marca. Os pêlos do peito eram grossos e escuros. Ela decidiu que era um corpo bom de se olhar.

— Ele é do tipo que mexeria em nossa bagagem se tivesse chance — concordou Nicholas. — Você não trouxe nada que possa lhe dar alguma pista, não é? Papéis, anotações...?

— Somente a foto do satélite, e todos os meus cadernos de notas. Ele não conseguiria entender nada.

— Tenha muito cuidado com o que conversa com Tessay.

— Ela é diferente. Não há nada de errado com ela — Royan saiu em defesa da nova amiga.

— Pode ser ótima, mas é casada com meu amigo Boris. Sua lealdade é primeiro para com ele. Não importa o que você sinta por ela, não confie em nenhum dos dois. — Nicholas secou-se na própria camisa, vestiu-a e abotoou-a sobre o peito. — Vamos comer alguma coisa.

Quando voltaram para o caminhão estacionado, Boris estava tirando a rolha de uma garrafa de vinho branco sul-africano e enchendo o copo de Nicholas. Resfriado no rio, o vinho estava fresco e com acentuado sabor de fruta. Tessay ofereceu galinha assada fria e pão injera, típico do país, uma fina folha de massa sem levedo, assada em forno de chão. As provações da viagem tornaram-se insignificantes quando Royan se deitou ao lado de Nicholas na grama e os dois ficaram vendo um abutre planar bem alto no céu. O pássaro os viu e voou com curiosidade acima deles, a cabeça voltada para baixo. Uma máscara preta circundava-lhe os olhos, e o vento acariciava suas penas como os dedos de um pianista percorrendo o teclado de marfim.

Na hora de partir Nicholas estendeu a mão para ajudar Royan a levantar-se. Foi um dos raros momentos de contato físico entre eles, e ela segurou a mão um ou dois segundos a mais que o estritamente necessário.

O caminho não melhorou nada à medida que se aproximavam da margem do desfiladeiro; as horas se alongavam dentro do veículo sacolejante, que se arrastava nas subidas e escorregava descontrolado nas descidas. Boris praguejou em russo quando entrou numa curva fechada à beira de um barranco e surgiu na sua frente um caminhão enorme que bloqueou quase toda a estrada.

Embora estivessem na trilha desse comboio de caminhões desde o dia anterior, era a primeira vez que encontravam um deles, e isso pegou Boris de surpresa. Pisou no freio de repente e seus passageiros quase foram atirados dos bancos, mas por estarem numa descida íngreme e sobre a lama a freada não os fez dar um salto completo. Boris engatou a marcha mais lenta e desviou para o pequeno espaço entre o barranco e o caminhão.

Do banco de trás, Royan olhou pelo vidro a lateral direita do caminhão. O nome e a marca da empresa estavam pintados em vermelho sobre fundo verde.

Uma forte sensação de déjà vu prendeu sua atenção ao desenho. Vira aquela marca recentemente, mas sua memória falhava: não se lembrava quando nem onde. Sabia apenas que era de vital importância lembrar.

A lateral do Toyota raspou na lataria do caminhão, mas conseguiu passar. Boris inclinou-se pela janela e sacudiu o punho para o outro motorista.

Era um nativo, provavelmente recrutado pelo proprietário do caminhão. Rindo das caretas de Boris, ele inclinou-se para fora da própria cabine e retribuiu a saudação com um dedo erguido.

— Comedor de cabeças! — Boris rugiu, com ódio por ter levado a pior. — Não costumo falar com essa gente. O que é que eles sabem? Chimpanzés pretos!

Durante o resto da cansativa viagem Royan ficou em silêncio, abalada e preocupada pela convicção de já que vira aquela marca do cavalo alado vermelho encimada pelo nome da empresa: "Mineradora Pégaso".

Quando o dia de viagem já se aproximava do final, eles passaram por um poste de sinalização ao lado da estrada. A base do poste era solidamente fixada em concreto, e a placa era tão bem pintada que só podia ser trabalho de um profissional:

MINERADORA PÉGASO

BASE — 1 KM

ESTRADA PRIVATIVA

PROIBIDA A ENTRADA DE VEÍCULOS NÃO AUTORIZADOS

O cavalo vermelho destacava-se no centro da placa, com as asas abertas, pronto para levantar vôo.

De repente Royan quase sufocou, ao lembrar-se de tudo com uma clareza estonteante. Voltou imediatamente para as águas geladas de um riacho inglês, atirada de dentro do Land Rover, enquanto um caminhão imenso avançava pela ponte e, numa fração de tempo subliminar, o cavalo alado passava diante de seus olhos.

"É o mesmo!", ela quase gritou, mas controlou-se a tempo. O terror do momento voltou com toda a força, e ela se surpreendeu com a respiração entrecortada e o coração acelerado como se tivesse corrido muito.

"Não pode ser coincidência", tentava se certificar em silêncio, "e eu não estou enganada. É a mesma empresa. Mineradora Pégaso."

Ela permaneceu distante e retraída durante os quilômetros seguintes, até que a estrada terminou abruptamente à beira do penhasco. Então Boris puxou o freio de mão e desligou o motor.

— É o mais longe que podemos chegar. Acamparemos aqui esta noite. O caminhão grande deve estar chegando. Os homens vão montar o acampamento. Amanhã desceremos à garganta a pé.

Enquanto eles descarregavam, Royan segurou o braço de Nicholas.

— Preciso falar com você — ela cochichou, e ele levou-a para a margem do rio.

Sentaram-se lado a lado à beira do barranco, com as pernas balançando. O rio lamacento diante deles parecia pressentir o que encontraria pela frente. Suas águas ganhavam velocidade, separavam-se nas pedras, formando redemoinhos, e voltavam a juntar-se para despencar no vazio num giro estonteante. O penhasco era um paredão de pedra de quase 300 metros de altura. Era tão profundo que à luz do entardecer criava um abismo escuro e misterioso, oculto pelas sombras e pelo vapor das cachoeiras. Royan olhou para baixo e teve vertigem. Recuou o corpo instintivamente e apoiou-se ao ombro de Nicholas para recuperar o equilíbrio. Mas quando o tocou percebeu o que estava fazendo e afastou-se, envergonhada.

As águas barrentas do Rio Dandera despencavam no penhasco e milagrosamente se transformavam numa etérea e esvoaçante cortina da mais fina renda; um arco-íris brincava através dela, criando um bordado de pérolas. As colunas de espuma branca assumiam formas belíssimas, porém efêmeras, pois batiam nas saliências da pedra e explodiam em nuvens brancas, que pairavam como um véu opalescente sobre as trevas do abismo profundo.

Foi só com muita força de vontade que Royan se desligou da paisagem e voltou à questão que a perturbava:

— Nicky, lembra-se que lhe contei sobre o caminhão que empurrou nosso Land Rover em cima da ponte?

— É claro que sim. — Ele estudou a expressão dela. — Você está preocupada. O que foi, Royan?

— As carretas que ele estava puxando tinham uma marca nas laterais.

— Sim, você disse isso. Verde e vermelha. Disse que não conseguiu ver o que estava escrito.

— Era igual à do caminhão pelo qual passamos esta manhã. Vi a marca do mesmo ângulo e me lembrei. O Pégaso vermelho, o cavalo voador...

Nicholas ficou olhando para ela.

— Tem certeza?

— Absoluta — Royan concordou com veemência.

Nicholas virou-se para o magnífico panorama do desfiladeiro que se desdobrava à sua frente. Eram 64 quilômetros até o outro lado, mas no ar límpido, lavado pela chuva, parecia tão próximo que podia ser tocado. Uma coincidência? — ele se perguntou.

— Acha que é? Uma estranha e maravilhosa coincidência, então. O Pégaso, em Yorkshire e em Gojam? Você acredita nisso?

— Não tem sentido. O caminhão que bateu em você era roubado...

— Era? — ela insistiu. — Tem certeza?

— Se não era, diga o que está pensando.

— Se você estivesse planejando um assassinato, acharia boa idéia roubar um caminhão e deixá-lo convenientemente abandonado para ser encontrado pela polícia?

Ele fez que não com a cabeça.

— Continue.

— Suponha que alguém tenha deixado o próprio caminhão lá e instruído o motorista a dar queixa do roubo quando ele já estivesse bem longe da polícia.

— É possível. — Ele não parecia entusiasmado.

— Quem matou Duraid e tentou me matar duas vezes sem dúvida tem bons recursos à disposição. É capaz de planejar coisas no Egito e na Inglaterra. E principalmente está com o sétimo papiro. Tem nossas anotações e todo o nosso trabalho de tradução, que aponta claramente este lugar do Rio Abbay. Suponha que essa pessoa possua uma empresa como a Pégaso — não teria motivo suficiente para estar na Etiópia, como nós estamos agora?

Nicholas continuou em silêncio. Pegou uma pedra no chão e atirou-a longe; ela girou no ar e desapareceu nos véus de gotículas. Ele levantou-se e estendeu a mão para Royan.

— Vamos.

— Vamos aonde?

— A base da Pégaso. Vamos lá bater um papo com o encarregado do canteiro de obras.

Boris protestou enraivecido e correu para impedir quando Nicholas subiu no Toyota e ligou o motor.

— Aonde pensa que vai?

— Vou dar um passeio. — Nicholas engatou a marcha. — Volto daqui a uma hora.

— Ei, inglês, esse caminhão é meu! — Boris tentou abrir a porta para entrar, mas Nicholas acelerou.

— Cobre o aluguel! — gritou com a cabeça para fora do veículo. Os dois chegaram ao poste de sinalização e pegaram o caminho que seguia numa subida. O canteiro de obras da Pégaso ficava logo abaixo. Nicholas parou no alto do morro, puxou o freio de mão e os dois ficaram observando em silêncio.

Uma área de uns 4 hectares havia sido desmatada e nivelada. Era toda cercada de arame farpado e tinha um único portão. Três caminhões grandes com a mesma marca estavam parados dentro da cerca. Havia outros veículos menores e grandes máquinas de sondagem enfileirados. O resto eram provisões e muitos equipamentos de prospecção: pilhas de troncos roliços, caixotes de aço, engradados de madeira e centenas de tambores de diesel e gasolina. Tudo isso estava empilhado com uma ordem espantosa naquela paisagem selvagem e árida. Dentro do portão havia um pequeno acampamento de uma dúzia de barracões, feitos com placas de zinco corrugado. Também obedeciam a um alinhamento militar.

— Uma grande organização — Nicholas comentou. — Vamos lá embaixo ver quem é o encarregado.

Havia dois guardas armados no portão, com uniformes camuflados do exército etíope.

Ficaram claramente surpresos com a chegada de um Land Cruiser estranho; Nicholas tocou a buzina e um deles aproximou-se desconfiado, com o rifle AK-47 de prontidão.

— Quero falar com o responsável — Nicholas disse em árabe, com autoridade suficiente para deixar o sentinela inseguro e sem reação.

O soldado resmungou alguma coisa, voltou para consultar o colega, ergueu a antena do rádio e falou no bocal do aparelho. Passaram-se cinco minutos, e então a porta do barracão mais próximo se abriu e um homem branco saiu de dentro dele.

Era baixo e atarracado e usava macacão de brim grosso e boina de lã. Por trás dos óculos espelhados tinha a pele do rosto grossa e curtida pelo sol. Por baixo das mangas arregaçadas os braços eram peludos e musculosos. Ele trocou algumas palavras com os guardas e aproximou-se do Toyota.

— O que está havendo aqui? — perguntou com um sotaque texano, equilibrando um cigarro apagado entre os lábios.

— Meu nome é Quenton-Harper. — Nicholas desceu do caminhão e estendeu a mão para cumprimentá-lo. — Nicholas Quenton-Harper. Como vai?

O americano hesitou, e então apertou a mão como se apertasse uma enguia elétrica.

— Helm — disse ele. — Jake Helm, de Abilene, Texas. Sou o encarregado daqui. — Ele tinha mãos de trabalhador, com calosidades nas palmas, cicatrizes nas juntas e unhas sujas de graxa.

— Sinto muitíssimo termos vindo perturbá-lo. Tive um problema com meu caminhão. Quero saber se seu mecânico pode dar uma olhada. — Nicholas sorria, mas não recebia nenhum incentivo do homem.

96

— É contra a política da empresa... — Ele balançou a cabeça.

— Estou disposto a pagar.

— Olhe, meu amigo, eu disse não. — Jake tirou o cigarro da boca e ficou olhando para Nicholas.

— Sua empresa... a Pégaso. Pode me dizer onde fica a sede? Quem é o proprietário?

— Sou um homem ocupado. Você está me fazendo perder tempo. — Helm voltou o cigarro para a boca e virou-se para ir embora.

— Estaremos caçando nesta área nas próximas semanas. Eu não gostaria de ferir nenhum de seus funcionários com um tiro perdido. Pode me dar alguma idéia de onde estarão trabalhando?

— Sou o encarregado de uma empresa de prospecção, senhor. Não fico anunciando todos o meus movimentos. Se mande daqui!

Ele foi para o portão e deu ordens expressas aos guardas antes de voltar ao barracão que servia de escritório.

— Antena parabólica no telhado — observou Nicholas. — Gostaria de saber com quem nosso amigo Jake está falando agora.

— Alguém no Texas? — aventou Royan.

— Não necessariamente — ele ponderou. — Provavelmente a Pégaso é uma multinacional. Só porque Jake é texano não significa que seu patrão também seja. Não foi uma conversa muito esclarecedora. Sinto muito. — Ele ligou o motor e manobrou o Toyota. — Mas se alguém da Pégaso estiver metido em tudo isso e for um dos suspeitos, vai reconhecer meu nome. Já avisamos que estamos aqui. Vamos ver quanta fumaça vai sair desse fogo.

Quando voltaram à cachoeira do Rio Dandera, o caminhão de Boris havia chegado, as tendas estavam montadas e o cozinheiro os esperava com um chá. Boris foi bem menos receptivo que o cozinheiro e manteve um silêncio soturno quando Nicholas fez algumas tentativas de aplacar sua raiva. Só depois da primeira vodca, à noite, ele se abrandou e voltou a falar.

— As mulas já deviam estar aqui. O tempo não significa nada para essa gente. Não podemos começar a descida sem elas.

— Bem, pelo menos enquanto isso terei a chance de acertar a mira do meu rifle. — Nicholas observou com ar de resignação. — Na África não vale a pena ter pressa. É fatigante para os nervos.

Nicholas fez a refeição matinal tranqüilamente, e, como não havia sinal das mulas, foi buscar o rifle. Retirou a arma da capa de lona verde, e Boris pegou-a da mão dele para examiná-la de perto.

— É um rifle antigo?

— De 1926. Meu avô mandou fabricá-lo.

— Eles sabiam fazer rifles naquela época. Não são como essas porcarias em série que existem hoje. — Seus lábios se retorceram num esgar crítico. — Um Mauser Oberndorf... bonito! Mas o cano foi modificado, não foi?

— O cano original explodiu. Foi substituído por um cano Shillen. Posso acertar as asas de mosquitos a cem passos.

— Calibre 7 x 57, é? — perguntou Boris.

— É um 275 Rigby, na verdade — Nicholas corrigiu-o, mas Boris rebateu.

— É exatamente o mesmo calibre! Só um maldito inglês poderia chamá-lo de outra coisa. — Ele riu mostrando os dentes. — Empurra um cartucho de cento e cinqüenta gramas para fora numa velocidade de oitocentos e quarenta metros por segundo. É um bom rifle, um dos melhores!

— Nunca saberá, meu querido amigo, quanto sua aprovação é importante para mim — Nicholas murmurou em inglês, e Boris continuou rindo ao devolver-lhe o rifle.

— Piada inglesa. Adoro piadas inglesas!

Nicholas saiu do acampamento levando a arma dentro da capa. Royan seguiu-o pela margem do rio e o ajudou a encher de areia branca duas pequenas bolsas de lona. Estas foram colocadas sobre uma pedra, formando um apoio firme e maleável para o rifle.

Usando a encosta do morro como anteparo de fundo, Nicholas adiantou-se uns 200 metros e nessa distância fixou um papelão onde havia colado um alvo do tipo Bisley. Voltou para junto de Royan e posicionou-se atrás da pedra onde estava apoiado o rifle.

Ela não estava preparada para a primeira explosão daquela arma tão refinada, de aparência quase feminina. Deu um pulo para trás, sentindo os ouvidos zunir.

— Que coisa horrível, que violência! — exclamou. — Como consegue matar lindos animais com uma espingarda tão poderosa?

— Rifle — ele corrigiu, olhando o buraco do tiro pelo binóculo. — Você se sentiria melhor se eu usasse uma arma menos potente ou os espancasse até a morte?

O tiro acertou 7 centímetros à direita e 5 abaixo do alvo. Enquanto Nicholas ajustava a mira telescópica, tentou explicar:

— Um caçador ético faz tudo para matar da maneira mais rápida e limpa possível, e isso significa aproximar-se do alvo o máximo que puder, usar uma arma de calibre adequado e mirar com toda a precisão.

O segundo tiro acertou exatamente a linha, mas apenas 2 centímetros acima da mosca. Ele pretendia acertar 7 centímetros acima, àquela distância. Ajustou a mira outra vez.

— Espingarda, rifle... Só não entendo por que matar intencionalmente uma criatura de Deus — Royan protestou.

— Isso eu posso explicar. — Ele mirou e atirou outra vez. Mesmo através da pequena ampliação das lentes deu para ver que a bala acertara exatamente 7 centímetros acima.

— É algo que tem a ver com um impulso atávico que poucos homens conseguem negar totalmente, por mais cultos e civilizados que sejam. — Nicholas atirou outra vez. — Há os que costumam descarregar esse impulso numa sala de diretoria, outros, num campo de golfe, numa quadra de tênis, pescando no rio, no fundo do oceano ou caçando no campo.

Ele deu mais um tiro, só para confirmar os dois anteriores, e continuou falando:

— Quanto às criaturas de Deus, foi Ele quem as deu a nós. Você é a religiosa. Cite-me os Atos 10, versículos 12 e 13.

— Desculpe — ela balançou a cabeça. — Cite você.

— "... e todo tipo de besta de quatro patas sobre a terra, e besta selvagem, e tudo o que se arrasta ou voa pelo ar. Ele ouviu uma voz que disse: Levanta-te, Pedro; mata e come'."

— Você devia ser advogado — ela murmurou, zombando.

— Ou padre — ele sugeriu, andando em direção ao alvo. Descobriu que os últimos três tiros haviam feito uma pequena roseta simétrica 7 centímetros acima do olho: três buracos de bala encostados um ao outro.

Ele bateu na coronha do rifle.

— Esta é a minha bem-amada Lucrécia Bórgia. — O apelido devia-se à beleza e ao potencial mortífero do pequeno rifle.

Ele enfiou a arma na capa e ambos voltaram para o acampamento. Quando já estavam próximos, Nicholas parou.

— Visitas. — Levou o binóculo aos olhos. — Ah! Remexemos alguma coisa que estava enterrada. É o caminhão da Pégaso que está lá, e, a não ser que eu esteja muito enganado, uma das visitas é o nosso simpático rapaz de Abilene. Vamos lá ver o que está acontecendo.

Perceberam, então, que uma dúzia de soldados uniformizados e fortemente armados cercava o caminhão; o tal Jake Helm estava sentado ao lado de um oficial do Exército etíope, na tenda de refeições, ambos envolvidos em séria conversa com Boris.

Nicholas entrou na tenda e foi apresentado por Boris ao oficial, que usava óculos bifocais.

— Este é o Coronel Tuma Nogo, comandante da zona militar sul de Gojam.

— Como vai? — O coronel ignorou o cumprimento.

— Quero ver seu passaporte e seu porte de arma — ordenou com arrogância, enquanto Jake Helm mascava complacentemente um malcheiroso toco de cigarro apagado.

— Sim, claro. — Nicholas entrou em sua tenda para pegar a pasta. Abriu-a sobre a mesa e sorriu para o oficial. — Tenho certeza de que também quer ver minhas cartas de apresentação da Secretaria do Exterior britânica em Londres e da Embaixada britânica em Adis Abeba. Há outra do embaixador egípcio na Corte de St. James, e este salvo-conduto é do seu ministro da Defesa, General Siye Abraha.

O coronel ficou consternado diante da salada de timbres oficiais e carimbos vermelhos. Por trás dos óculos de aro de ouro, seus olhos não sabiam onde se fixar.

— Sir! — Ele se aprumou e bateu continência. — É amigo do General Abraha? Eu não sabia. Ninguém me informou. Peço perdão por minha intrusão.

Bateu continência novamente; seu embaraço tornava-o desagradável e deselegante.

— Só vim avisá-los de que a companhia Pégaso está realizando operações de explosão e perfuração. Pode ser perigoso. Por favor, fiquem alerta. Há também muitos bandidos e fora-da-lei shuftas agindo nesta área. — Ele estava claramente nervoso, e tomou fôlego, tentando se recompor. — Como vê, tenho ordens de dar proteção aos funcionários da Pégaso. Se tiver algum problema enquanto ficar por aqui, ou se precisar de minha assistência por algum motivo, basta me chamar, senhor.

— É extremamente gentil, coronel.

— Não vou incomodá-lo mais, senhor. — Ele bateu uma terceira continência e foi para o caminhão, levando junto o capataz texano. Jake Helm não pronunciou uma só palavra o tempo todo, e agora ia embora sem se despedir.

O coronel fez a quarta e última continência pela janela do caminhão em movimento.

— Ponto! — Nicholas disse a Royan, retribuindo a saudação com um aceno preguiçoso. — Acho que ganhamos essa. Agora já sabemos que, por alguma razão, o Senhor Pégaso definitivamente não nos quer por perto. Acho que devemos aguardar seu próximo ataque para muito breve.

Eles foram até junto de Boris, que continuava sentado, e Nicholas falou:

— Agora só faltam as suas mulas.

— Já mandei três homens ao vilarejo saber o que aconteceu. Deviam estar aqui desde ontem.

As mulas chegaram bem cedo na manhã seguinte. Eram seis animais fortes, montados por muladeiros vestidos e com mantos e culotes. Ao meio-dia já estavam carregadas e prontas para descer o desfiladeiro.

Boris parou antes de entrar na trilha e olhou sobre o vale. Pela primeira vez mostrava-se maravilhado com a imensidão da altura, pelo esplendor da paisagem rude.

— Vocês vão entrar em outro mundo, em outra época — declarou em tom filosófico. — Dizem que essa trilha tem dois mil anos, a idade de Cristo. — Fez um gesto de desprezo. — O velho padre negro da igreja de Debra Maryam diz que a Virgem passou por aqui quando fugiu de Israel depois da crucificação — e balançou a cabeça negativamente. — Essa gente é capaz de acreditar em qualquer coisa. — Então começou a caminhada.

A trilha pendurava-se no penhasco num tal ângulo que cada passo era um profundo degrau de pedra que lhes exigia toda a elasticidade dos tendões e nervos dos joelhos e da virilha. Tinham de usar as mãos para apoiar-se nas partes mais estreitas, de modo que pareciam estar descendo uma escada.

Parecia impossível que as mulas carregadas conseguissem segui-los. Os animais saltavam cada degrau e apoiavam-se com todo o peso sobre as patas traseiras. Na trilha estreita, a carga raspava no paredão de pedra de um lado e do outro ficava pendurada sobre o abismo. Numa curva mais fechada, os animais não conseguiram fazer a volta na primeira tentativa. Suavam, olhando aterrorizados para a borda da trilha, e tiveram de ser instigados pelos condutores aos gritos e chicotadas.

Num certo ponto a trilha entrava pela montanha, passando por trás de agulhas de pedra moldadas no penhasco pelo tempo e pela erosão. As passagens eram às vezes tão baixas e estreitas que as mulas tinham de ser descarregadas. Os muladeiros transportavam a carga nos braços e as recarregavam do outro lado.

— Olhe! — Royan gritou e apontou para a frente. Um abutre negro emergiu das profundezas com as asas abertas, passando quase ao alcance das mãos; virou a cabeça pelada, coberta apenas de pele rosada, e voou para longe.

— Ele está usando o ar quente do vale para subir — Nicholas explicou a ela, e apontou para um contraforte mais ou menos no nível deles. — Aquele é um dos ninhos. — Era um emaranhado de galhos e terra montado sobre uma saliência inacessível. Os excrementos dos pássaros que há anos punham ali seus ovos tingiam a face do penhasco com respingos de um branco brilhante; dava para sentir de longe o mau cheiro de carne decomposta.

Durante todo o dia eles desceram pela trilha íngreme em torno do terrível penhasco. Estavam no meio da tarde e na metade do caminho quando, numa curva, ouviram o barulho de uma cachoeira. O ruído aumentou e transformou-se num estrondo tempestuoso quando saíram da curva e tiveram uma visão total do espetáculo.

O vento provocado pela torrente empurrava-os e os obrigava a se segurar nas saliências. Os respingos de água os envolviam e lhes umedeciam o rosto, mas o guia etíope os conduzia sempre à frente, até parecer que a água os arrastaria para o vale centenas de metros abaixo.

Então, milagrosamente, as águas se dividiram e atrás da grande cortina translúcida surgiu uma caverna de pedras cobertas de musgo, escavada no penhasco ao longo de eras pela força da água. A luz que ali entrava era filtrada pela cachoeira, criando a mesma luminosidade esverdeada e misteriosa de uma gruta submarina.

— É aqui que vamos dormir esta noite — anunciou Boris, apreciando claramente o espanto dos visitantes. Mostrou os restos de fogueiras dentro da gruta e as paredes enegrecidas pela fumaça. — Os muladeiros que levam comida e suprimentos para os padres do mosteiro usam este lugar há muito tempo.

Mais para o fundo da caverna, o barulho da cachoeira era só um ruído distante, e o chão estava seco. Os criados acenderam o fogo e o lugar se transformou num abrigo acolhedor e confortável, para não dizer romântico.

Com a tarimba de um velho soldado ao escolher o melhor lugar, Nicholas estendeu seu saco de dormir num canto, e Royan, naturalmente, desenrolou o dela ao lado. Estavam ambos cansados pelo exercício incomum; depois de tomar sopa esticaram-se nos sacos de dormir, ambos em silêncio, olhando o fogo brincar no teto de pedra.

— Imagine! — sussurrou Royan. — Amanhã estaremos passando pelo mesmo lugar por onde passou Taita.

— Sem falar na Virgem Maria... — Nicholas sorriu

— Você é um cínico — ela se queixou. — E quer saber mais? Acho que você ronca.

— Você vai ficar sabendo da pior maneira possível. — Mas Royan já estava dormindo. Sua respiração era tranqüila e profunda, porém audível. Fazia muito tempo que ele não tinha uma linda mulher dormindo a seu lado. Quando teve certeza de que ela não acordaria, tocou de leve seu rosto.

— Tenha bons sonhos, menina — murmurou baixinho. — Teve um dia difícil. — Era o que sempre dizia às suas filhas.

Os muladeiros levantaram-se muito antes do amanhecer, mas o grupo só se pôs a caminho quando a luz era suficiente para enxergarem onde pisar. Os raios de sol batiam nas paredes do penhasco e revelavam uma vista panorâmica de todo o vale. Nicholas retardou Royan para que ficasse ao seu lado deixando a caravana seguir na frente.

Encontraram um lugar para se sentar e desenrolaram a foto de satélite entre eles. Identificando as maiores elevações e outras características do cenário, tentavam orientar-se e estabelecer certa ordem na paisagem cataclísmica que se estendia abaixo deles

— Daqui ainda não se vê o Rio Abbay — Nicholas notou. — Ainda está no desfiladeiro secundário. Provavelmente só o veremos quando estivermos quase em cima dele.

— Se estivermos certos quanto à nossa atual posição, aqui o rio deve formar dois cotovelos.

— Sim, e a confluência do Dandera com o Abbay fica aqui, neste desfiladeiro. — Ele usava a junta do polegar como medida. — A uns vinte e poucos quilômetros de onde estamos.

— Parece que o Dandera mudou seu curso muitas vezes. Estou vendo pelo menos dois canais que parecem ter sido leitos de rio. — Ela apontou para baixo. — Lá e lá. Estão encobertos pela selva agora. — Royan estava desanimada. — Oh, Nicholas, numa região tão grande e confusa, como vamos encontrar a entrada de um túmulo escondido?

— Túmulo? Que túmulo? — Boris perguntou interessado. Ele voltara para ver por que se haviam atrasado e ninguém o ouviu aproximar-se. — De que túmulo estão falando?

— Ora, do túmulo de São Frumêncio, é claro — Nicholas respondeu tranqüilamente, sem mostrar preocupação.

— O mosteiro não é dedicado ao santo? — Royan perguntou com a mesma tranqüilidade, enrolando a fotografia.

— Ah — ele concordou desapontado, esperando algo mais interessante. — E, São Frumêncio... Mas não vão deixar vocês visitarem o túmulo. E nem conhecer o interior do mosteiro. Só os padres entram lá.

Boris tirou o chapéu e coçou a cabeça. Os fios de cabelo curtos e grossos entravam sob as unhas e espetavam como arame.

— Esta semana tem a cerimônia de Timkat, a Bênção do Tabot. Fica bem animado lá embaixo. Vocês vão achar muito interessante, mas não poderão entrar no Sacrário dos Sacráríos nem ver a tumba. Eu nunca soube que um branco tenha conseguido vê-la.

Ele apertou os olhos na direção do sol.

— Temos de ir. Parece perto, mas só chegaremos ao Abbay daqui a dois dias. O terreno não é fácil lá embaixo. É uma dura caminhada, até para um famoso caçador de dik-dik. — Dando uma gargalhada de sua própria piada, Boris voltou para junto da caravana.

Chegando ao final do desfiladeiro, a inclinação da trilha era menor, e foi possível apressar o passo. A caminhada ficou mais fácil e o avanço mais rápido, mas o ar mudara de qualidade. Não era mais fresco e agradável como nas montanhas, e sim um enervante calor equatorial, com cheiro de selva.

— Que calor! — disse Royan, livrando-se do xale de lã.

— Pelo menos dez graus a mais — concordou Nicholas, tirando o blusão de náilon pela cabeça. — E vai ficar mais quente quando nos aproximarmos do Abbay. Ainda temos de descer uns novecentos metros.

Agora a trilha seguia pelo Dandera. Às vezes eles estavam 100 metros acima do rio e logo em seguida com água na altura do peito; tinham de segurar-se na carga das mulas para não serem arrastados pela correnteza.

Num trecho em que o Rio Dandera era ladeado por rochedos íngremes, tornou-se muito profundo e não foi possível avançar mais. Eles tomaram então um caminho que serpenteava entre barrancos erodidos e ribanceiras de pedra vermelha.

Cerca de 1 000 metros à frente encontraram o rio num humor diferente, penetrando tranqüilo por uma densa floresta. Os cipós dependurados tocavam a superfície da água e musgos das árvores roçavam suas cabeças, emaranhados como a barba do velho monge de Debra Maryam. Macacos guinchavam no alto das árvores, observando desconfiados a intrusão de humanos em seu santuário. De repente, um animal grande atravessou na frente deles, e Nicholas olhou para Boris. O russo meneou a cabeça e riu.

— Não, inglês, não é dik-dík. É só um kudu.

Na encosta, o kudu parou e olhou para trás. De grande porte e chifres retorcidos, era um animal magnífico, com papada peluda e orelhas em forma de trompetes. Boris assobiou e sua atitude mudou no mesmo instante.

— Esses chifres têm mais de um metro e vinte. Pegariam uma boa colocação no Rowland Ward. — Ele se referia ao livro de registro de grandes presas, que era a Bíblia do caçador de troféus. — Não quer pegá-lo, inglês? — Ele correu para a mula mais próxima, tirou o Rigby da capa e ofereceu-o a Nicholas.

— Deixe-o ir. Só quero o dik-dik.

Balançando o pompom branco do rabo, o animal desapareceu entre a vegetação. Boris balançou a cabeça desgostoso e resmungou.

— Por que ele insistiu para que você o matasse? —perguntou Royan.

— Uma foto desse belo par de chifres ficaria ótima num folheto de publicidade. Atrairia clientes.

Eles andaram durante todo o dia e no final da tarde acamparam numa clareira próxima ao rio, onde se via claramente que outras caravanas já haviam parado muitas vezes. Via-se também que o local dividia a viagem em duas etapas: todos os viajantes faziam três dias de caminhada, desde o topo das cachoeiras até o mosteiro, e todos acampavam nos mesmos locais.

— Sinto muito, mas não há chuveiros aqui — Boris disse a seus clientes. — Se quiserem se lavar, há um poço seguro logo depois daquela curva do rio.

Royan olhou para Nicholas.

— Estou suada e com muito calor. Por favor, você montaria guarda para mim a uma distância em que possa me ouvir se eu chamar?

Nicholas deitou-se na margem; não a enxergava de onde estava, mas podia ouvi-la movimentar-se na água. De repente a correnteza levou-a um pouco mais abaixo, e através dos galhos e arbustos ele vislumbrou suas costas nuas e a curva das nádegas brilhando sob a água. Não resistiu a olhar uma segunda vez, embora com certa culpa, e assustou-se com a intensidade da excitação provocada pela visão daquela pele molhada, iluminada pelo sol da tarde.

Royan voltou pela margem cantarolando e enxugando os cabelos molhados.

— Sua vez. Quer que eu fique de guarda?

— Já estou bem crescido. — Nicholas fez que não com a cabeça. Mas, quando ela passou, notou um brilho maroto em seus olhos: teria consciência de que havia descido o rio até onde pudesse ser vista? Nicholas achou essa idéia estimulante.

Ele se afastou pela margem e quando se despiu e olhou para baixo sentiu-se culpado ao ver a excitação que ela lhe provocara. Desde Rosalind nenhuma mulher tivera aquele efeito sobre ele.

— Um bom mergulho na água fria não vai lhe fazer mal, companheiro. — Ele atirou a calça para trás de uma moita e mergulhou na água.

Após a refeição da noite, estavam todos sentados junto ao fogo quando Nicholas inclinou de repente a cabeça. — Estou ouvindo coisas? — perguntou. Tessay riu.

— É um canto. Os padres do mosteiro estão vindo nos receber.

Tochas acesas subiam pela encosta e tremeluziam por entre a vegetação que circundava o acampamento. Os muladeiros e os criados saíram correndo, cantando e batendo palmas, ao encontro da comissão de boas-vindas.

Profundas vozes masculinas erguiam-se na noite e desapareciam num quase sussurro à medida que a procissão se aproximava; em seguida o canto melodioso voltava a ser ouvido, o próprio som da África no meio da noite. Nicholas sentiu um frio percorrer sua espinha e estremeceu.

As túnicas brancas adejavam à luz dos tocheiros na trilha sinuosa, e quando o primeiro religioso entrou no perímetro do acampamento os criados caíram de joelhos. Eram jovens acólitos, de cabeça descoberta e pés descalços. Atrás deles vinham os monges, com longas túnicas e turbantes altos; eles abriram alas e formaram uma guarda de honra para dar passagem às fileiras de diáconos e padres ordenados, que portavam vestimentas e túnicas ricamente bordadas.

Cada um deles carregava uma pesada cruz copta de prata cravejada de pedras, no alto de um cajado. Sempre cantando, dividiram-se novamente em duas fileiras para deixar passar o palanquim com dossel carregado por quatro jovens acólitos, que o depositaram no centro do acampamento. As cortinas de seda carmim e amarelas reluziram sob as lanternas dos viajantes e as tochas da procissão.

— Vamos recepcionar o abade — Boris sussurrou para Nicholas. — O nome dele é Jali Hora. — Quando eles se adiantaram até a liteira, as cortinas foram puxadas para os lados e uma figura esquálida desceu.

Tessay e Royan ajoelharam-se respeitosamente e cruzaram as mãos diante do peito. Nicholas, contudo, continuou ao lado de Boris, observando o abade com muito interesse.

Jali Hora era esqueleticamente magro. Sob as saias da túnica as pernas apareciam como talos de tabaco secos ao sol, negras e tortas, com os músculos e tendões saltando da pele. A túnica era verde e dourada bordada com fios de ouro, e refletia a luminosidade do fogo. O chapéu alto de copa achatada também era bordado, seguindo um padrão de cruzes e estrelas.

O rosto do abade era negro como fuligem, a pele enrugada e profundamente sulcada pelo tempo. Tinha poucos dentes atrás dos lábios franzidos, e mesmo esses eram amarelados e tortos. Uma barba esbranquiçada irrompia tempestuosamente para todos os lados do maxilar. Ele tinha um olho cego, de um azul opaco, devido a uma oftalmia tropical, mas o outro brilhava como o de um leopardo caçando.

Ele começou a falar em voz alta e trêmula:

— Uma bênção — Boris avisou Nicholas, e os dois inclinaram a cabeça respeitosamente. O restante da comitiva respondia a seus cânticos a cada pausa.

Por fim, quando a bênção terminou, Jali Hora fez lentos sinais da cruz na direção dos quatro pontos cardeais, enquanto dois jovens ajudantes balançavam vigorosamente os incensórios e espalhavam nuvens de fumaça perfumada.

As mulheres foram, então, se ajoelhar na frente do abade. Ele parou diante delas e tocou levemente com a cruz cada uma de suas faces entoando uma bênção em falsete.

— Dizem que ele tem mais de cem anos — Boris cochichou. Dois debteras com trajes vermelhos trouxeram um banquinho de ébano africano lindamente entalhado; os olhos de Nicholas brilharam. Imaginava que devia existir há séculos e que seria um belo acréscimo para sua coleção. Os debteras seguraram os cotovelos de Jali Hora e delicadamente o sentaram no banco. Os demais sentaram-se no chão, com o olhar atento nele.

Tessay sentou-se aos pés do abade e, em voz baixa, traduziu para o amárico o que seu marido dizia.

— É um grande prazer e uma grande honra recebê-lo, Santo Padre. — O velho assentiu. — Trouxe um nobre inglês de sangue azul para visitar o Mosteiro de São Frumêncio.

— Vá com calma, companheiro! — Nicholas protestou, mas toda a congregação já o olhava com expectativa. — O que faço agora? — perguntou com o canto da boca.

— Por que você acha que ele veio até aqui? — Boris riu maliciosamente. — Quer um presente. Dinheiro.

— Dólares Maria Theresa? — ele inquiriu, referindo-se à centenária moeda da Etiópia.

— Não necessariamente. Os tempos mudaram, Jali Hora ficará feliz de receber as verdinhas americanas.

— Quanto?

— Você é um nobre de sangue azul. Veio caçar neste vale. Quinhentos, pelo menos.

Nicholas estremeceu e foi pegar a bolsa na anca de uma das mulas. Quando voltou, curvou-se diante do abade e colocou um maço de notas na palma da mão estendida. O velho mostrou os raros dentes amarelos num sorriso e falou.

Tessay foi traduzindo:

— Bem-vindo ao Mosteiro de São Frumêncio e à Estação do Timkat. Ele lhe deseja boa caça nas margens do Rio Abbay.

Imediatamente o ar solene dos devotos transformou-se numa explosão de sorrisos e comentários; o abade olhava para Boris em expectativa.

— O sagrado abade diz que a viagem lhe deu sede — Tessay traduziu.

— Esse velho demônio não dispensa um conhaque. — Boris fez sinal para um criado. Uma garrafa foi trazida cerimoniosamente e deixada sobre a mesa na frente do abade, ao lado de outra garrafa de vodca, que foi posta diante de Boris. Eles brindaram, o abade entornou a dose na boca e seus olhos se encheram de lágrimas. Com a voz rouca, fez uma pergunta a Royan:

— De onde você vem, filha, para seguir o verdadeiro caminho de Cristo, o Salvador dos Homens? — Tessay traduziu.

— Sou egípcia, pertenço à velha religião — respondeu Royan. O abade e todos os padres aprovaram com movimentos de cabeça.

— Somos todos irmãos e irmãs em Cristo, os egípcios e os etíopes — disse-lhe o abade. — A própria palavra egípcia "copta" é derivada do grego. Durante mil e seiscentos anos o Abuna, bispo de Etiópia, foi designado pelo patriarca do Cairo. O Imperador Hailé Selassié alterou isso em 1959, mas ainda trilhamos o antigo caminho de Cristo. Seja bem-vinda, minha filha — Tessay terminou.

Seu debtera serviu mais conhaque, que também foi consumido de um só gole. Até Boris mostrava-se impressionado.

— Onde é que esse cagado preto enfia isso? — perguntou-se em voz alta. Tessay não traduziu; em vez disso, baixou os olhos, visivelmente magoada pelo insulto ao santo homem.

Jali Hora olhou para Nicholas.

— Ele quer saber que animal veio caçar neste vale — disse Tessay. Nicholas aprumou-se para responder. Por um momento pairou uma descrença generalizada, mas o abade deu uma gargalhada e toda a assembléia juntou-se a ele.

— Um dik-dik! Veio caçar um dik-dik! Mas um animal desse tamanho não tem carne.

Nicholas esperou que eles se recuperassem do choque, então pegou uma foto do espécime montanhês do Moquoda harperii que estava no museu e abriu-a na frente de Jali Hora.

— Este dik-dik não é comum; é um dik-dik sagrado — disse em tom solene, sinalizando para que Tessay traduzisse. — Vou contar a lenda. — Todos ficaram em silêncio, na expectativa de uma boa história com implicações religiosas. O abade pôs o copo na mesa e olhava ora para a foto ora para Nicholas.

— Quando João Batista passou fome no deserto — os padres fizeram o sinal-da-cruz ao ouvir o santo nome —, ficou trinta dias e trinta noites sem que nada de bom entrasse em sua boca... — Nicholas levou sua história aos extremos da fome suportada pelo santo, detalhes que eram degustados por uma platéia que valorizava o sofrimento de seus homens sagrados em nome do bem. — No fim, o Senhor compadeceu-se de seu servo e sobre os espinhos de uma moita de acácia colocou um pequeno antílope. E disse ao santo: "Eu trouxe comida para você não morrer de fome. Pegue esta carne e coma". Onde João Batista tocou a pequena criatura, as marcas de seus dedos ficaram gravadas no pêlo para sempre e por todas as gerações seguintes. — Estavam todos calados e impressionados.

Nicholas deu a fotografia ao abade.

— Veja as marcas dos dedos nas costas dele.

O velho abade examinou a foto avidamente, segurando-a diante de seu único olho, e por fim exclamou:

— É verdade. As marcas do dedo do santo são bem claras.

Ele passou a foto aos diáconos. Encorajados pelo endosso do abade, os homens soltavam exclamações maravilhadas diante da insignificante criatura de pêlo listrado.

— Algum dos irmãos não teria visto um desses animais? — perguntou Nicholas, e todos abanaram a cabeça negativamente. A fotografia completou o círculo e foi passada para a ala dos acólitos.

De repente um deles se levantou, brandindo no ar a fotografia, e gritou.

— Eu vi a criatura sagrada! Com meus próprios olhos! Eu vi! — Era um jovem mal saído da adolescência.

Houve risadas e manifestações de descrença. Um deles arrancou a foto da mão do rapaz e, para provocá-lo, desafiou-o a pegá-la.

— A criança não é boa da cabeça; está possuída por demônios e convulsões — fali Hora explicou. — Não dê atenção ao pobre Tamre!

O olhar selvagem de Tamre percorria os acólitos numa tentativa desesperada de não perder de vista a fotografia, que passava de mão em mão em meio a provocações e zombadas.

Nicholas levantou-se para intervir. Tinha achado ofensivo o comentário sobre o problema mental; nesse instante o garoto caiu ao chão como se fosse atingido por um porrete. Suas costas se arquearam, os membros enrijecidos se debatiam incontrolavelmente, os olhos rolaram para trás, expondo totalmente a córnea, e uma baba espumosa saía de sua boca contorcida num ricto.

Antes que Nicholas chegasse até ele, quatro companheiros o ergueram e o tiraram dali. O tumulto aquietou-se e Jali Hora fez sinal a seu debtera para encher o cálice.

Já era tarde quando Jali Hora se despediu e foi ajudado pelos diáconos a subir no palanquim. Levou consigo o resto do conhaque, segurando a garrafa semivazia numa das mãos e abençoando com a outra.

— Causou boa impressão, milorde — disse Boris a Nicholas. — Ele gostou da sua história de João Batista, mas gostou mais do seu dinheiro.

Na manhã seguinte, a caravana seguiu paralelamente ao rio durante um bom tempo. Cerca de 1 500 metros à frente as águas ganhavam velocidade e se espremiam entre dois altos rochedos formando mais uma cachoeira.

Nicholas afastou-se da trilha e se aproximou da beira de um dos rochedos. Uns 60 metros abaixo viu uma fenda profunda, de largura apenas suficiente para permitir a passagem do rio de águas revoltas. Seria possível atirar uma pedra ao outro lado. Não havia qualquer caminho ou local onde se apoiar os pés naquela brecha, e ele voltou a juntar-se ao resto da caravana, que já se distanciara do rio e seguia agora para uma planície arborizada.

— Provavelmente este já foi o curso do Rio Dandera, antes de ele abrir caminho entre os rochedos. — Royan apontou para as elevações de cada lado do terreno e para as pedras desgastadas pela água que se amontoavam pelo caminho.

— Você está certa — concordou Nicholas. — Esses rochedos parecem ser uma intrusão de calcário no basalto e no arenito. Toda a região tem sido severamente corroída pela erosão e a eterna mutabilidade do rio. Você tem razão: esses rochedos de calcário são crivados de grutas e nascentes.

Agora a trilha descia rapidamente para o Nilo Azul e desaparecia nos quilômetros finais. O vale era ladeado por densa vegetação; as muitas nascentes que brotavam do calcário escorriam para o velho leito do rio. O calor aumentava rapidamente, e a blusa grossa de Royan logo ficou manchada de suor nas costas.

Num certo ponto, uma corrente de água pura jorrava de uma área de densas ramagens, rodeava a encosta e engrossava-se num riacho. Ao mudar de direção no vale, tanto eles quanto o riacho retornaram ao fluxo principal do Dandera. Olhando para o alto do desfiladeiro, viram que o rio saía da fenda profunda através de um arco estreito cavado na rocha. Era uma pedra lisa, com um peculiar tom rosado, e dobrava-se sobre si mesma, fazendo lembrar a mucosa interna de lábios humanos.

— A cor e a textura incomuns atraíram ambos os viajantes. Eles afastaram-se dos demais para examiná-la melhor, deixando que as mulas seguissem em frente. O ruído dos cascos misturado às vozes ao longe ecoava e reverberava no espaço confinado e fantasmagórico.

— Parece uma gárgula monstruosa espirrando água pela boca — sussurrou Royan, olhando para o alto. — Posso imaginar o que os antigos egípcios, conduzidos por Taita e o Príncipe Memnon, sentiram ao chegar a este lugar. Quantas conotações místicas não terão dado a um fenômeno tão natural!

Nicholas ficou olhando para ela sem dizer nada. Seus olhos refletiam temor, e o rosto tinha uma expressão solene. Ela o fazia lembrar uma figura de sua coleção em Quenton Park, um fragmento de afresco do Vale dos Reis, que era atribuída a uma princesa egípcia.

— Por que tanta surpresa? — ele perguntou. — O mesmo sangue corre em suas veias.

Royan virou-se para ele.

— Oh, Nicky, diga que não estou sonhando tudo isto. Diga que vamos encontrar o que estamos procurando e que vamos vingar a morte de Duraid.

Seu rosto estava erguido para ele e brilhava sob a pele suada e com a força do juramento. Ele foi tomado por uma necessidade incontrolá-vel de tomá-la nos braços e beijar seus lábios úmidos e entreabertos, mas virou as costas e voltou para a trilha.

Nicholas não ousou olhar para Royan de novo até ter retomado totalmente o controle. Logo em seguida ouviu seus passos rápidos e leves logo atrás. Ele prosseguiu em silêncio, preocupado com que ela não estivesse preparada para a súbita e estonteante paisagem que se abriria diante deles.

Chegaram então a uma saliência sobre o desfiladeiro secundário do Nilo. Embaixo, a uma profundidade de 150 metros, havia um imenso caldeirão de pedra vermelha. O rio legendário despejava uma torrente de água verde dentro do abismo oculto pelas sombras. Era tão profundo que a luz do sol não o alcançava. As águas do Dandera davam o mesmo salto, rodopiavam no ar como as brancas penas de uma garça e então espirravam na ventania do desfiladeiro. Nas profundezas os rios se misturavam formando um rolo de espuma que girava sobre si mesmo como uma grande roda, pesada e viscosa como o óleo, até finalmente encontrar uma brecha no desfiladeiro e por ela jorrar com força e poder irresistíveis.

— Você passou por aí de barco? — Royan perguntou num tom de admiração.

— Éramos jovens e tolos naquela época — Nicholas respondeu com um sorriso nostálgico.

Ficaram em silêncio por um longo tempo, e então Royan falou:

— Posso imaginar que aqui Taita e seu príncipe tenham sido impedidos de prosseguir. — Ela apontou o desfiladeiro na direção oeste. — É impossível que tenham atravessado o desfiladeiro secundário. Certamente vieram por cima dos rochedos, aqui onde nós estamos. — Era uma possibilidade excitante.

— A não ser que tenham vindo pelo outro lado do rio — Nicholas sugeriu, e a expressão dela imediatamente mudou.

— Eu não tinha pensado nisso. É claro que é possível. Como vamos passar para o outro lado se não encontrarmos nada deste?

— Vamos pensar nisso se formos obrigados. Já temos muito para nos contentar, sem precisar de mais dificuldades.

Novamente ficaram em silêncio, ambos considerando a magnitude e a incerteza da tarefa que se haviam colocado. Então Royan se manifestou:

— Onde fica o mosteiro? Não vejo sinal dele.

— Está no penhasco, logo abaixo de onde estamos.

— Vamos acampar lá?

— Duvido. Vamos saber o que Boris pretende fazer.

Eles seguiram pela trilha que contornava o caldeirão e encontraram a caravana de mulas numa bifurcação. Um dos caminhos se afastava do rio e seguia para uma depressão arborizada, enquanto o outro continuava beirando a rocha.

Boris esperava por eles, e indicou a primeira direção.

— Há um bom terreno lá na frente sob as árvores, onde acampei em minha última caçada aqui.

Era uma clareira rodeada por altas figueiras e tinha uma nascente de água fresca. Para diminuir a carga, Boris não descera com as tendas. Depois que as mulas foram descarregadas, ele mandou os homens construir três pequenas cabanas de varas trançadas, para suas acomodações, e cavar uma latrina bem distante da nascente.

Enquanto esse trabalho era feito, Nicholas chamou Royan e Tessay para explorarem juntos o mosteiro. Na bifurcação da trilha Tessay tomou o caminho que contornava o penhasco e descia por uma larga escadaria de pedra.

Um grupo de monges de túnica branca subia a escada. Tessay parou para falar com eles e em seguida foi ter com Nicholas e Royan.

— Hoje é Katera, a véspera do festival do Timkat. Eles estão se preparando. É um dos maiores eventos do ano religioso.

— O que se celebra? — perguntou Royan. — Não faz parte do calendário religioso do Egito.

— É uma epifania etíope que celebra o batismo de Cristo — explicou Tessay. — Na cerimônia, o tabot é levado para o rio para ser novamente dedicado e revitalizado, e os acólitos recebem o batismo como Jesus o recebeu das mãos de João Batista.

Eles continuaram descendo a escada na face do penhasco, pisando nos degraus marcados por muitos séculos de passagem de pés descalços. Alguns metros abaixo, o grande caldeirão do Nilo borbulhava e espumava.

Chegaram a uma ampla sacada encravada na rocha por mãos humanas. A pedra vermelha formava um teto sustentado por arcos de pedras erguidos pelos ângulos construtores. Na parede interior dessa grande sacada ficavam as entradas das catacumbas. Ao longo dos anos a gruta fora escavada, formando salas e celas, vestíbulos, capelas e santuários da comunidade monástica que ali habitava há mais de mil anos. Os monges estavam reunidos em grupos nessa sacada. Alguns ouviam um diácono ler em voz alta uma cópia iluminada das Escrituras.

— Muitos deles são analfabetos — suspirou Tessay. — A Bíblia é lida e explicada até para os monges, pois a maioria não sabe ler.

— Era assim na Igreja de Constantino, a Igreja de Bizâncio — Nicholas observou em voz baixa. — Continua sendo a Igreja da cruz e do livro sagrado, dos rituais elaborados e suntuosos, num mundo predominantemente analfabeto.

Percorrendo lentamente o mosteiro, eles passaram por outros grupos sentados, que, sob a direção de um chantre, entoavam salmos e hinos em amárico. Do interior das celas vinha um rumor de preces e súplicas; a atmosfera densa revelava a ocupação humana de centenas de anos.

Havia um cheiro de madeira queimada e incenso, de comida velha e excrementos, de suor e piedade, de sofrimentos e doenças. Além dos monges, havia ali os peregrinos que tinham feito a mesma viagem e os doentes que foram transportados através do desfiladeiro por seus parentes; lá estavam para fazer pedidos ao santo ou obter a cura de seus males e sofrimentos.

Havia crianças cegas chorando nos braços das mães, leprosos com a carne se despregando dos ossos, pessoas em coma causado por terríveis males tropicais. Seus lamentos e gemidos misturavam-se ao cântico dos monges e ao distante clamor do Nilo caindo no caldeirão.

Por fim chegaram à porta da catedral de São Frumêncio. Era uma abertura circular na rocha, que lembrava a boca de um peixe e cujo portal era contornado por uma faixa de estrelas, cruzes e cabeças de santos. Os retratos eram primitivos, em ocre e tons terrosos, de uma simplicidade infantil. Os olhos dos santos eram grandes e delineados com carvão, sempre com a mesma expressão tranqüila e benigna.

Um diácono de túnica de veludo verde-escura guardava a porta, mas depois de ouvir Tessay, abriu um sorriso e deixou-os entrar. O beiral era baixo, e Nicholas inclinou-se para passar, mas logo depois, quando se ergueu, ficou pasmo.

O teto da caverna era tão alto que desaparecia na obscuridade. As paredes de pedra eram revestidas com pinturas de uma revoada de anjos e arcanjos celestiais, iluminados pelas velas e lamparinas. Estavam parcialmente escondidos por imensas tapeçarias e ofuscados pela fumaça do incenso. Num dos afrescos São Miguel montava um cavalo branco, noutro a Virgem ajoelhava-se aos pés da cruz, onde o corpo de Cristo ferido pelas lanças dos romanos sangrava.

Essa era a nave exterior da igreja. Na parede do fundo da câmara central via-se um par de portas de madeira maciça que se abriam para uma câmara intermediária. Os três cruzaram o chão de pedra, abrindo caminho por entre os suplicantes ajoelhados ou sentados em seus tapetes, em êxtase religioso. Na fraca luminosidade das lamparinas e em meio à fumaça azulada do incenso, pareciam almas penadas vagando eternamente na escuridão do purgatório.

Os visitantes chegaram aos três degraus de pedra diante das portas, mas o caminho estava bloqueado por dois diáconos de túnica e chapéu de copa achatada. Um deles dirigiu-se a Tessay:

— Não vão nos deixar entrar no qiddist, a câmara intermediária — Tessay comunicou. — Depois dela está o maqdas, o Sacrário dos Sacrários.

Eles espiaram atrás dos guardas: na obscuridade do qiddist divisaram a porta que dava para o interior santificado.

— Somente os padres ordenados podem entrar no maqdas, pois lá está o tabot e a entrada do túmulo do santo.

Desapontados, eles iniciaram o caminho de volta para o terraço.

O jantar dessa noite foi feito sob um céu salpicado de estrelas. Ainda fazia calor, e nuvens de mosquitos os sobrevoavam nos limites da ação do repelente que eles haviam espalhado sobre a pele.

— E então, inglês? Eu o trouxe aonde queria chegar. Agora, como vai encontrar esse animal que o trouxe de tão longe para caçá-lo? — A vodca novamente deixara Boris beligerante.

— Quando amanhecer, quero que mande seus mateiros abrir um caminho daqui para baixo. Os dik-diks são mais ativos pela manhã, e, depois, só no final da tarde.

— Você está ensinando seu avô a despelar um gato — disse Boris, deturpando a metáfora. Ele despejou mais vodca no copo.

— Diga a eles que procurem rastros — Nicholas insistiu deliberadamente. — Imagino que os rastros da variedade listrada sejam muito similares aos do dik-dik comum. Se eles encontrarem algum sinal, devem esperar em silêncio atrás da moita mais fechada e aguardar qualquer movimento dos animais. Os dik-diks são territoriais. Nunca se distanciam muito de suas turfas.

— Está bem. Direi a eles. Mas o que é que você vai fazer? Vai passar o dia no acampamento com as moças, inglês? — Boris dissimulou o riso. — Se tiver sorte, talvez não fique muito mais tempo sozinho na cabana. — Seu corpo todo se sacudiu numa gargalhada, e Tessay, envergonhada, pediu licença para ir supervisionar o cozinheiro.

Nicholas preferiu ignorar a grosseria.

— Royan e eu vamos fazer o mesmo na vegetação ribeirinha da margem do Dandera. Me parece um bom habitat para o dik-dik. Avise seu pessoal para ficar longe do rio. Não quero espantar os animais.

Eles saíram do acampamento no dia seguinte sob a luz fraca do amanhecer. Nicholas carregava o rifle Rigby e um pequeno farnel, e conduziu Royan pela margem do rio. Andavam devagar, parando de vez em quando para olhar e escutar. O mato começava a ganhar vida com os sons e movimentos de pequenos mamíferos e pássaros.

— Os etíopes não têm uma tradição de caça, e imagino que os monges jamais perturbem a vida selvagem aqui na garganta. — Ele mostrou as pegadas de um antílope de pequeno porte na superfície úmida do barranco. — É um bushbuck de Menelik. Só existe nesta parte do mundo. É um troféu muito disputado.

— Você espera mesmo encontrar o dik-dik do seu bisavô? — ela perguntou. — Me pareceu bastante determinado quando conversou com Boris.

— É claro que não — Nicholas riu. — Acho que o velho inventou tudo aquilo. Poderia se chamar a Quimera de Harper. Provavelmente ele acabou usando a pele de um mangusto listrado. Nós, os Harpers, não viemos ao mundo para nos atermos literalmente à verdade.

Ele parou para observar um pássaro tacazze tremulando as asas sobre um ramo de botões amarelos que pendia de uma trepadeira. A plumagem do pássaro cintilava como uma tiara de esmeraldas.

— Mesmo assim, é uma ótima desculpa para podermos vasculhar este mato. — Ele olhou para trás para ter certeza de que estavam bem longe do acampamento, e então fez um gesto para ela sentar ao seu lado, sobre um tronco caído. — Agora vamos esclarecer bem o que estamos procurando. Diga você.

— Estamos procurando vestígios de um templo funerário, ou as ruínas da necrópole em que viveram os trabalhadores que escavaram a tumba do Faraó Mamose.

— Algum tipo de alvenaria ou trabalho em pedra — ele concordou —, especialmente algum tipo de coluna ou monumento.

— O testamento de pedra de Taita — ela reforçou com um movimento de cabeça. — Deve estar gravado ou esculpido em hieroglifos. Provavelmente desgastado, quebrado, coberto pela vegetação... não sei. Qualquer coisa. Somos dois cegos pescando em água turva.

— Bem, e por que ainda estamos aqui sentados? Vamos começar a pescar.

No meio da manhã, Nicholas encontrou pegadas de um dik-dik na margem do rio.

Eles se sentaram sob uma grande árvore e esperaram à sombra da floresta, até serem recompensados com o vislumbre das pequenas criaturas. Elas passaram bem perto, retorcendo o focinho empinado, pisando com as pequeninas patas, arrancando folhas de ramagens baixas e mastigando-as ruidosamente. Entretanto, o pêlo era de um cinza uniforme, sem qualquer vestígio de listras.

Os animais desapareceram sob a vegetação, e Nicholas levantou-se.

— Falta de sorte. Variedade comum — ele suspirou. — Vamos em frente.

Pouco depois do meio-dia, chegaram ao lugar em que o rio despencava pelo abismo através dos rochedos rosados. Exploraram o local quanto puderam, até o caminho ser bloqueado pelos rochedos. A rocha descia verticalmente até a correnteza, e não havia apoio para os pés na beira da água que permitisse penetrar mais.

Eles retornaram corrente acima e cruzaram para a outra margem por uma primitiva ponte suspensa, de cipós amarrados com corda grossa, que Nicholas presumiu ter sido construída pelos monges do mosteiro. Novamente tentaram avançar mais pela fenda profunda. Nicholas chegou a rodear o primeiro contraforte de rocha que barrava o caminho, mas desistiu diante da forte correnteza que poderia arrastá-lo.

— Se não conseguimos passar por aí, é altamente improvável que Taita o tenha feito.

Voltaram para a ponte suspensa e procuraram um local sombreado próximo à água para comer o lanche preparado por Tessay. O calor do meio-dia era extenuante. Royan molhou seu lenço de pescoço na água do rio para umedecer o rosto, enquanto se estendia ao lado de Nicholas.

Ele estava deitado de costas, estudando cada centímetro dos rochedos cor-de-rosa através do binóculo. Procurava alguma fresta ou abertura na superfície lisa da pedra.

Ele falou sem baixar o binóculo:

— Em O Ultimo Deus do Nilo, parece que Taita realmente conseguiu trocar os corpos de Tanus, o Grande Leão do Egito, e do faraó. — Ele afastou o binóculo e olhou para Royan. — Isso me intriga, porque teria sido um ato ultrajante na época em que ele viveu e com as crenças que tinha. É uma tradução adequada do pergaminho? Taita realmente trocou os corpos?

Royan riu e virou o rosto para ele.

— Seu velho amigo Wilbur tem uma imaginação muito fértil. A única base para toda essa história é uma única linha dos pergaminhos: "Para mim ele era mais rei do que tinham sido todos os faraós". — Ela tornou a pousar a cabeça no chão. — Esse é um bom exemplo das objeções que faço ao livro. Ele mistura fato e fantasia no mesmo caldo. Até onde sei e acredito, Tanus descansa em sua própria tumba, e o faraó, na dele.

— Que pena! — Nicholas suspirou. — É um toque romântico que me agradou muito. — Ele olhou o relógio de pulso e se levantou. — Venha, quero dar uma espiada no outro lado do vale. Vi um lugar interessante por lá, quando passamos ontem.

Já era final de tarde quando retornaram ao acampamento, e Tessay saiu correndo da tenda-cozinha para recebê-los.

— Estava louca para que vocês chegassem. Recebemos um interessante convite de Jali Hora, o abade. Ele nos chamou para um banquete no mosteiro, em celebração ao Katera, a véspera do Timkat. Os criados já prepararam o banho de vocês, a água está quente. É o tempo de se vestirem.

O abade enviara um grupo de jovens acólitos para escoltá-los até o local do banquete. Eles chegaram durante o rápido crepúsculo africano, portando tochas acesas para iluminar o caminho.

Royan reconheceu um deles como Tamre, o garoto epiléptico. Ao sinalizar com um sorriso afetuoso, ele se adiantou timidamente e ofereceu-lhe um buquê de flores silvestres que colhera na beira do rio. Royan não estava preparada para a cortesia e, sem pensar, agradeceu em árabe.

— Shukran.

— Taffaldi — respondeu imediatamente o garoto, usando o gênero correto e com uma pronúncia que fez Royan reconhecer instantaneamente sua fluência nessa língua.

— Como fala árabe tão bem? — perguntou-lhe, intrigada. O garoto inclinou a cabeça envergonhado e murmurou:

— Minha mãe é de Wassawa, no Mar Vermelho. Foi minha primeira língua.

No caminho para o mosteiro, o pequeno monge seguia Royan como um cachorrinho.

Mais uma vez eles desceram a escadaria no penhasco e chegaram ao terraço iluminado por tochas. Os pequenos claustros estavam cheios de gente, e ao passarem pela multidão entre as duas alas de acólitos, rostos negros os cumprimentavam em amárico e mãos negras estendiam-se para tocá-los.

Eles pararam diante do beiral da nave exterior da catedral. A câmara estava iluminada por tochas e lamparinas, de modo que os anjos e santos agora dançavam sob a luz bruxuleante. O chão de pedra estava recoberto por um tapete de grama e folhas de junco recém-cortadas; o aroma adocicado suavizava o ambiente denso e enfumaçado. Parecia que toda a irmandade de monges estava sentada de pernas cruzadas sobre o tapete macio, e saudou a entrada do pequeno grupo de ferengi com gritos de boas-vindas e bênçãos. Ao lado de cada um havia um frasco de tej, o mel hidratado e fermentado típico do país. Era óbvio, pelas expressões felizes e suadas dos monges, que o conteúdo dos frascos já tinha feito um bom trabalho.

Os visitantes foram conduzidos à antecâmara que tinha sido preparada para eles, bem de frente para as portas de madeira do qiddis, a câmara intermediária. Seus anfitriões os fizeram sentar e espalharam-se pelo espaço. Depois de instalados, outro grupo de acólitos veio do terraço trazendo garrafas de tej; os jovens ajoelharam-se na frente de cada um para depositar os frascos.

Tessay aproximou-se de Royan e disse:

— Deixe-me experimentar este tej antes de você. Sua força, cor e sabor variam de acordo com o lugar em que é servido, e alguns são bastante fortes. — Ela ergueu o frasco e bebeu-o diretamente no pescoço alongado do frasco. Então sorriu. — Este é bom. Se tomar cuidado não terá problemas com ele.

Os monges em volta os incentivavam a beber, e Nicholas ergueu o frasco. Provou a bebida sob palmas e risadas: era leve, agradável, mas com forte buquê de mel selvagem.

— Não é mau! — ele deu sua opinião, mas Tessay avisou: — Mais tarde eles vão oferecer o katikala. Cuidado com ele! É um destilado de cereais fermentados que arranca a cabeça do pescoço.

Os monges estavam concentrados em oferecer hospitalidade a Royan. O fato de ela ser cristã copta, uma autêntica crente, os impressionava. Era óbvio também que sua beleza não tinha passado totalmente despercebida aos santos celibatários.

Nicholas inclinou-se para ela e sussurrou:

— Você vai ter de fingir que bebe. Segure na boca e finja engolir, ou não a deixarão em paz.

Quando ela levou o frasco à boca, os monges soltaram exclamações deliciadas e a brindaram com seus próprios frascos. Ela cochichou para Nicholas:

— É uma delícia. Tem gosto de mel.

— Você quebrou seu voto de abstinência! — Ele riu.

— Só uma gota — ela admitiu —, e além do mais não fiz nenhum voto.

Os acólitos ajoelharam-se na frente de cada convidado e ofereceram água quente para lavar a mão direita, em preparação para o banquete.

De repente ouviram-se uma melodia e o som de tambores: uma banda de músicos entrou pelas portas abertas do qiddist. Iam se posicionando ao longo das paredes da câmara enquanto a congregação olhava expectante para o interior sombrio.

Por fim, Jali Hora, o velho diácono, apareceu no alto dos degraus. Usava uma túnica longa de cetim amarelo e uma estola ricamente bordada sobre os ombros. Trazia na cabeça uma pesada coroa que tinha o brilho do ouro, mas logo se via que era de metal dourado e que as pedras multicoloridas que a adornavam não passavam de vidros e massa vítrea.

Jali Hora ergueu o báculo encimado por uma cruz de prata ornamentada, e um pesado silêncio caiu sobre a congregação.

— Agora ele dará a bênção — disse-lhes Tessay, inclinando a cabeça.

Foi uma bênção longa e inflamada, num falsete esganiçado pontuado pela devota resposta dos monges. Quando finalmente terminou, dois debáeras esplendidamente paramentados ajudaram-no a descer os degraus e sentar-se num trono entalhado, o fimmera, no círculo de diáconos e padres mais velhos.

O fervor religioso dos monges transformou-se em bonomia festiva quando uma procissão de acólitos veio do terraço trazendo na cabeça uma cesta achatada, do tamanho de uma roda de carroça. Colocaram uma na frente de cada círculo de convidados.

Então, a um sinal de Jali Hora, as cestas foram todas destampadas ao mesmo tempo. Uma alegria jovial se apossou dos monges, pois elas continham tigelas cheias até a borda de injera, folhas redondas de pão sem levedo.

Dois acólitos cambaleantes entraram, equilibrando juntos um grande pote fumegante de metal que continha vários litros de wat, um guisado muito temperado de carneiro gordo, que era despejado nas tigelas de injera: um caldo viscoso marrom-avermelhado em cuja superfície via-se o brilho da gordura quente.

A congregação atacou vorazmente a comida. Os monges arrancavam pedaços de injera e molhavam no wat, depois enfiavam a trouxa dentro da boca, que ficava estofada enquanto mastigavam. Lavavam tudo isso com longos goles de tej e faziam a próxima trouxa de wat. Não demorou para que todos ficassem com os braços engordurados até os cotovelos e com restos escorrendo pelo queixo enquanto mastigavam, bebiam, riam e falavam em voz alta.

Os acólitos puseram então grossas fatias de outro tipo de injera ao lado de cada convidado. Era um pão mais duro e menos fermentado, mas quebradiço e friável, diferente da consistência de borracha do injera em folhas.

Nicholas e Royan procuravam demonstrar que estavam apreciando a comida, mas sem lambuzar-se de gordura como os outros. Apesar da aparência, o wat era realmente saboroso, e a secura do injera ajudava a equilibrar a gordura.

As tigelas comunitárias eram esvaziadas com uma rapidez incrível. Restava apenas uma montanha de migalhas misturadas com gordura quando outros acólitos entraram cambaleando sob o peso de outro conjunto de potes transbordantes, estes com wat de galinha ao caril, que despejavam nas cumbucas com restos de carneiro; novamente os monges atacaram. Enquanto devoravam a galinha, os frascos de tej eram preenchidos e os comensais iam ficando mais alterados.

— Acho que não vou agüentar comer mais — Royan disse baixinho para Nicholas.

— Feche os olhos e pense que está na Inglaterra — ele aconselhou. — Você é a estrela da noite. Não vão deixá-la fugir.

Tão logo terminou a galinha, os acólitos entraram com novos potes cheios até a borda com wat de carne de boi, que também foi despejado sobre os restos do carneiro e da galinha.

O monge sentado na frente de Royan esvaziou seu frasco de tej e, quando um acólito ofereceu-se para enchê-lo, recusou e começou a gritar: "Katikala! Katikala!"

E a congregação repetiu aos gritos: "Katikala! Katikala!"

Os acólitos correram para fora e voltaram com dezenas de garrafas com um líquido claro e licoroso, e cuias de metal do tamanho de xícaras de chá.

— Tenham cuidado com esse — Tessay avisou. Nicholas e Royan conseguiram despejar disfarçadamente o conteúdo de suas cuias sob o manto de junco sobre o qual se sentavam, mas os monges não recusaram os seus.

— Boris arrumou companhia — Nicholas comentou com Royan. O russo tinha o rosto vermelho e suava, rindo como um idiota ao esvaziar mais uma cuia.

Revitalizados pelo katikala, os monges iniciaram um jogo. Um deles fazia uma trouxa gorda de wat de carne com injera, e então, segurando-a na mão direita, virava-se para o monge ao lado. A vítima abria a boca, esticando ao máximo o maxilar, e a trouxa era enfiada nela por seu atencioso vizinho. A trouxa era, é claro, maior do que uma boca humana pode suportar, e para que coubesse a vítima arriscava-se a morrer por asfixia.

Parecia ser uma regra do jogo que não se podiam usar as mãos para enfiar a trouxa na boca, nem deixar escorrer pela túnica ou espirrar molho nos que estavam perto. As contorções acompanhadas de engasgos, sufocos e arfagens eram motivo de uma hilaridade incontrolável. Quando finalmente o monge conseguia engolir, uma cuia de katikala era levada ao seus lábios como recompensa. O conteúdo tinha de ser engolido da mesma maneira que o injera.

Jali Hora, embalado por tej e katikala, levantou-se de um salto, segurando uma trouxa gotejante. Com a coroa inclinada sobre a cabeça, iniciou uma instável caminhada para o outro lado da câmara. A princípio, nem Nicholas nem Royan perceberam suas intenções, mas toda a congregação observava-o com interesse.

Então, subitamente, Royan enrijeceu-se e sussurrou horrorizada:

— Não, por favor, não! Nicholas, por favor, não deixe isso acontecer comigo.

— Esse é o preço que você paga por ser uma mulher independente. — Jali Hora prosseguiu em seu caminho errático até onde ela estava sentada. O molho que saía da trouxa escorria pelo seu braço e pingava do cotovelo.

A banda encostada às paredes laterais irrompeu a todo o volume. Quando o abade estava a um passo de Royan, trôpego como uma carruagem antiga, as cordas e as flautas estridularam e os tambores explodiram frenéticos.

O abade ofereceu-lhe o presente e, com um último olhar desesperado para Nicholas, Royan enfrentou o inevitável. Fechou os olhos e abriu a boca.

Sob os urros da assistência, o rufar dos tambores e os trinados das flautas, ela conseguiu enfiar tudo na boca. Seu rosto ficou vermelho e seus olhos encheram-se de lágrimas. Num certo momento, Nicholas achou que ela fosse admitir a derrota e cuspir tudo no chão. Mas, devagar e corajosamente, um bocado por vez, ela conseguiu engolir e caiu exausta.

A platéia, que aplaudia e ovacionava, estava adorando. O abade ajoelhou-se segurando-se nela, quase perdendo a coroa no processo. Ainda segurando-a, caiu sentado de lado e ali ficou.

Parece que você fez outra conquista — Nicholas disse secamente. — Daqui a pouco ele vai estar no seu colo, se não fizer alguma coisa.

Royan reagiu rapidamente. Correu até o outro lado da câmara, pegou uma garrafa de katikala e encheu uma cuia até a borda.

— Beba, Papa! — disse a ele, segurando a cuia em sua boca. Jali Hora aceitou o desafio, mas não a desobrigou de segurar a cuia.

De repente Royan teve um sobressalto tão violento que o conteúdo da cuia derramou-se na túnica do velho. Seu rosto ficou branco, ela começou a tremer febrilmente, olhando para a coroa de Jali Hora, que escorregara para cima dos olhos.

— O que foi? — Nicholas perguntou em voz baixa e preocupada, pondo a mão em seu ombro para acalmá-la. Ninguém mais notara sua comoção, pois só ele estava em plena sintonia com ela.

Olhando aturdida para a coroa, Royan soltou a cuia no chão e segurou o pulso de Nicholas. Ele se surpreendeu com a força. Chegou a doer, pois as unhas se enfiavam na pele a ponto de rompê-la.

— Olhe essa coroa! A jóia! A jóia azul! — ela arquejava.

Então ele a viu entre as contas de vidro, os seixos semipreciosos e os cristais de rocha. Era um selo de cerâmica azul vitrificada, perfeitamente redondo, do tamanho de um dólar de prata. No centro do círculo havia uma gravação de um carro de guerra egípcio e, acima dele, o contorno inconfundível do falcão com a asa quebrada. Ao redor da circunferência, uma legenda em hieroglifos. Nicholas leu em pouquíssimo tempo:

Eu Comando dez mil carros de guerra. Sou Taita, mestre da Cavalaria Real.

Royan queria desesperadamente sair do ambiente opressivo daquela caverna. A trouxa de wat que fora obrigada a comer misturada aos poucos goles de te que tinha tomado lhe provocou um mal-estar que se agravava com o cheiro das tigelas e cuias sujas, de gordura fria e evaporação de katikala, e o cheiro de vômito mesclado com o miasma da fumaça dos incensos.

Entretanto, ela ainda era o centro das atenções do abade. Ele sentou-se a seu lado e lhe tocava o braço, recitando trechos de escrituras amáricas; Tessay já desistira de traduzir há muito tempo. Royan olhava esperançosa para Nicholas, mas ele estava quieto e distante, alheio ao que se passava em volta. Ela sabia que estava pensando no selo de cerâmica da coroa do abade, pois olhava para ela a todo instante.

Royan sabia que não deviam chamar a atenção para o fragmento de cerâmica, mas olhou para Boris do outro lado do círculo e viu que ele estava longe de perceber qualquer coisa além da cuia de katikala que tinha na mão. No fim, foi o próprio Boris quem lhes deu a desculpa de que precisavam sair. Ao tentar ficar em pé, as pernas não o suportaram e ele tombou para a frente de um jeito engraçado, caindo de cara na tigela engordurada de injera, onde ficou roncando estrondosamente. Tessay teve de apelar para Nicholas:

— Alto Nicholas, o que devo fazer?

Nicholas considerou o triste espetáculo do caçador prostrado. Havia migalhas de pão e pedaços de carne espalhados como confetes pelos cabelos curtos.

— Desconfio que o Príncipe Encantado não agüenta mais por esta noite — ele murmurou.

Foi para junto de Boris e segurou-o pelo pulso. Colocou-o sentado e com um impulso ergueu-o sobre um ombro.

— Boa noite a todos! — disse aos monges, que já não conseguiam responder. Saiu com Boris desacordado, pendurado de seu ombro, com a cabeça e as pernas balançando. As mulheres tiveram de apressar o passo para acompanhar Nicholas pelo terraço e depois na escadaria.

— Eu não havia percebido que Alto Nicholas era tão forte — observou Tessay na subida íngreme e difícil.

— Nem eu — admitiu Royan, experimentando uma ridícula sensação de propriedade. Ela sorriu de si mesma na escuridão.

"Não seja tola", pensou. "Ele não é seu, para ficar tão orgulhosa." Quando Nicholas despejou o peso de Boris sobre a cama, o suor escorria de seu rosto.

— Essa é uma ótima receita para um ataque cardíaco — comentou, arfante.

Boris resmungou, virou de lado e vomitou no travesseiro e nos lençóis.

— Diante disso só posso lhe desejar uma boa-noite e bons sonhos — Nicholas disse a Tessay, saindo da cabana e respirando aliviado o perfume da floresta. Virou-se, então, para Royan, que segurava seu braço.

— Você viu — disse ela, excitada. Ele pôs os dedos em seus lábios para silenciá-la e, advertindo-a com um olhar, levou-a para a cabana.

— Você viu? — ela repetiu, sem se conter. — Conseguiu ler?

— "Eu comando dez mil carros de guerra" — Nicholas repetiu.

— "Sou Taita, o mestre da cavalaria real" — Royan completou. — Ele esteve aqui. Oh, Nicky, ele esteve aqui! Era a prova que procurávamos. Agora sabemos que não estamos perdendo tempo.

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Tenho outra opinião. A coroa é um dos tesouros do mosteiro. Acho que o abade não a daria nem a você, sua dama favorita. Seja como for, não é sensato demonstrarmos muito interesse. Jali Hora não tem idéia de sua importância. Além disso, não queremos chamar a atenção de Boris.

— Você está certo. — Ela se afastou um pouco na cama para dar lugar a ele. — Sente-se. De onde acha que veio o selo? Quem o encontrou? Onde? Como?

— Devagar, mocinha. São quatro perguntas numa só, e não sei responder a nenhuma delas.

— Vamos imaginar, então — ela propôs. — Vamos especular. Vamos dizer o que nos passar pela cabeça.

— Muito bem — ele concordou. — O selo foi fabricado em Hong Kong. Existe lá uma fabriqueta que o reproduz aos milhares. Jali Hora comprou-o numa loja de lembranças em Luxor, quando passou férias no Egito no mês passado.

Royan beliscou o braço dele e ordenou:

— Fale sério.

— Vamos ver se você faz melhor — Nicholas desafiou, esfregando o braço.

— Vamos lá. Taita deixou o selo aqui quando veio construir a tumba do faraó. Três mil anos depois, um velho monge, dos primeiros que viveram aqui no mosteiro, encontrou-o. É claro que não conseguiu ler os hieroglifos. Levou-o para o abade, que declarou ser uma relíquia de São Frumêncio e colocou-o numa coroa.

— E todos viveram felizes para sempre — Nicholas concordou. — É um bom palpite.

— Consegue ver alguma falha? — Ele fez que não com a cabeça. — Então concorda que Taita esteve aqui, e que isso prova a nossa teoria?

— "Prova" é uma palavra muito forte. Digamos que aponta nessa direção — ele corrigiu.

Royan virou-se para olhá-lo de frente.

— Oh, Nicky, estou tão excitada! Juro que não vou conseguir pregar o olho esta noite. Mal posso esperar que o dia amanheça para sairmos daqui e começarmos a procurar.

Os olhos dela brilhavam e as faces estavam coradas. A ponta da língua repousava atrás dos lábios entreabertos. Desta vez Nicholas não conseguiu se conter. Foi se inclinando para ela bem lentamente, convi-dando-a, dando-lhe oportunidade para se afastar, se quisesse. Ela não se mexeu, mas o brilho em seu rosto aos poucos foi se transformando em apreensão. Olhava dentro dos olhos de Nicholas como se buscasse alguma coisa, uma certeza. Quando os lábios estavam quase encostados, ele parou, e foi Royan quem fez o último movimento. A princípio foi muito suave, apenas uma respiração, e então tornou-se mais selvagem e faminto. Por longo tempo eles se devoraram mutuamente; os lábios dela tinham um sabor delicado e doce de fruta madura. Então, de repente, Royan soltou um gemido e com muito esforço conseguiu afastar-se dos braços dele.

— Não — murmurou. — Por favor, Nicky, ainda não. Eu não estou pronta.

Ele pegou-lhe as mãos e as colocou sobre as suas. E bem de leve beijou as pontas dos dedos, saboreando o perfume e o gosto de sua pele.

— Nos veremos amanhã cedo. — Ele se levantou. — Bem cedo. Esteja pronta — disse, saindo pela porta da cabana.

Na manhã seguinte, Nicholas vestiu-se ouvindo os movimentos de Royan em sua cabana; quando passou devagar por sua porta, encontrou-a já pronta e ansiosa para começar.

— Boris ainda não acordou — disse Tessay, servindo o café.

— Isso não é surpresa — retrucou Nicholas, sem erguer os olhos do prato. Ele e Royan ainda se sentiam ligeiramente constrangidos na presença de outras pessoas, lembrando-se das circunstâncias em que se haviam separado na noite anterior. Porém, quando Nicholas pendurou o rifle e a mochila no ombro e tomaram o caminho do vale, a excitação e a expectativa substituíram qualquer outro sentimento.

Já andavam havia cerca de uma hora quando Nicholas olhou para trás e avisou-a:

— Estamos sendo seguidos.

Pegou-a pelo braço e levou-a para trás de uma pedra. Encostado à pedra, fez sinal para que Royan fizesse o mesmo. Então preparou-se e, subitamente, deu um salto e bloqueou o caminho de uma figura magricela, vestida num shamma branco imundo, que se esgueirava pelo vale atrás deles. A criatura soltou um uivo e caiu de joelhos, trêmula e aterrorizada.

Nicholas ergueu-o pelo braço e indagou em árabe:

— Tamre! Por que está nos seguindo? O garoto girou os olhos para Royan.

— Não, efêndi, por favor, não me machuque. Eu não queria fazer mal.

— Solte o menino, Nicky. Vai provocar outra crise — Royan interveio. Tamre escondeu-se atrás dela e agarrou-lhe a mão, espiando Nicholas como se corresse perigo de vida.

— Calma, Tamre — Nicholas tranqüilizou-o. — Não vou lhe fazer mal, a menos que minta para mim — acrescentou em tom autoritário. — Se mentir, vou bater em você até arrancar sua pele. Quem o mandou vir atrás de nós?

— Vim porque quis. Ninguém mandou — gaguejou o garoto. — Vim mostrar onde vi o animal sagrado com as marcas dos dedos de São João Batista nas costas.

Nicholas ficou olhando para ele e começou a rir.

— Que me caia um raio na cabeça se esse garoto não acredita mesmo que viu o dik-dik do meu bisavô. — Nicholas fez novamente cara de bravo. — Lembre-se do que prometi se você mentir.

— É verdade, efêndi! — Tamre chorava, e Royan veio em sua defesa.

— Não o amedronte. Ele não faz mal a ninguém. Deixe o pobre garoto.

— Está bem, Tamre, vou lhe dar uma chance. Leve-nos aonde viu o animal.

Tamre resolveu não soltar mais a mão de Royan. Agarrado a ela, puxava-a e saltitava ao seu lado, e não demorou para que o medo desaparecesse, dando lugar a risos contidos.

Eles andaram durante uma hora, afastando-se do rio em direção a um terreno mais alto que o vale, uma região de densos espinheiros entremeados por pedras de calcário descoradas. Os galhos eram tão entrelaçados e cresciam tão perto do chão que parecia impossível atravessá-los.

Mas Tamre levou-os por uma trilha sinuosa, com largura suficiente para que os espinhos não os atingissem. O menino parou de repente, fazendo Royan estancar ao seu lado, e apontou para baixo, quase que para os próprios pés.

— O rio! — anunciou, com ares de importância. Nicholas aproximou-se deles e assobiou baixinho. Tamre fizera um amplo círculo para oeste e os levara de volta ao Rio Dandera, no ponto em que ainda corria numa profunda ravina.

Eles estavam agora no alto de um abismo. Nicholas percebeu imediatamente que, embora a parte superior da ravina rochosa não tivesse mais de 30 metros, o vão alargava-se abaixo da borda. Da superfície da água, lá embaixo, o paredão de pedra formava uma barriga com o formato das garrafas de tej. E estreitava-se novamente ao se aproximar do topo, onde eles estavam.

— Eu vi o bichinho sagrado ali. — Tamre apontou para o outro lado do penhasco, onde um fio de água saía dos arbustos espinhosos. Filetes de limo de um verde brilhante, nutridos pela nascente, penduravam-se do lábio da pedra côncava, e a água gotejava de suas pontas no rio, que corria 70 metros abaixo.

— Se o viu lá, por que estamos deste lado do rio? — Nicholas perguntou em tom autoritário.

Tamre parecia a ponto de chorar.

— Este lado é mais fácil. Não dá para atravessar o espinheiro do outro lado. Os espinhos machucariam Woizero Royan.

— Pare de ser tão malvado! — Royan disse a Nicholas, e passou o braço pelos ombros do menino.

— Agora parece que são dois contra mim. Bem, já que estamos aqui, podemos então nos sentar e esperar que apareça o dik-dik do meu bisavô.

Ele encontrou um lugar à sombra de duas árvores penduradas na beira do penhasco e varreu os espinhos do chão com o chapéu para que os dois se sentassem. Então encostou-se no tronco de uma das árvores e depositou o rifle Rigby no colo.

Já passava do meio-dia e o calor era muito forte. Nicholas ofereceu o cantil para Royan e, enquanto ela bebia, espiou Tamre com o canto do olho e sugeriu em inglês:

— Esta é uma boa hora para descobrir o que o garoto sabe sobre a cerâmica de Taita na coroa. Ele está encantado com você. Vai lhe dizer tudo o que quiser. Pergunte.

Ela começou gentilmente, falando devagar com o menino. De vez em quando passava a mão na cabeça dele, como se fosse um cachorrinho.

Falou do banquete na noite anterior, da beleza da igreja escavada na gruta, da antigüidade das pinturas e das tapeçarias e, por último, mencionou a coroa do abade.

— Sim, sim. É a pedra do santo — ele concordou prontamente. — A pedra azul de São Frumêncio.

— De onde ela veio? — Royan perguntou. — Você sabe? O jovem ficou embaraçado.

— Não sei. É muito velha, acho que mais velha que nosso Cristo, o Salvador. É o que os padres dizem.

— Sabe onde ela foi encontrada?

Ele moveu a cabeça em sinal negativo. Mas, a seguir, só para lhe agradar, sugeriu:

— Talvez tenha vindo do céu.

— Talvez — Royan olhou para Nicholas, que girou os olhos para o alto e puxou o chapéu para cima do rosto.

— Acho que foi São Frumêncio que deu a coroa para o primeiro abade, antes de morrer — Tamre estava ficando animado. — Ou então já estava no caixão com ele quando foi enterrado.

— Tudo isso é possível, Tamre — Royan concordou. — Você já viu o túmulo de São Frumêncio?

Ele olhou em volta com ar de culpa e murmurou de cabeça baixa:

— Só os padres ordenados podem entrar no maqãas, o Sacrário dos Sacrários.

— Você já o viu, Tamre — ela o acusou delicadamente, batendo de leve em sua cabeça. A culpa do garoto a intrigava. — Pode dizer, não vou contar aos padres.

— Foi só uma vez — Tamre confessou. — Os outros meninos me mandaram tocar na pedra tabot. Iam me bater se eu não fizesse. Todos os novatos são obrigados a fazer isso. — Ele começou a gaguejar de medo ao lembrar da sua iniciação. — Eu fui sozinho. Tive muito medo. Era mais de meia-noite e estavam todos dormindo. Escuro. O tnaqdas é assombrado pelo fantasma do santo. Eles disseram que se eu não tivesse coragem o santo ia me matar com luz.

Nicholas tirou o chapéu do rosto e foi se endireitando.

— Meu Deus, o menino está falando a verdade — ele disse baixinho. — Ele esteve no Sacrário dos Sacrários. — Então olhou para Royan. — Continue perguntando. Ele pode dizer alguma coisa que nos interesse. Pergunte sobre o túmulo de São Frumêncio.

— Você viu o túmulo do santo? — O garoto assentiu. — Entrou no túmulo?

— Não, tem grades na entrada. Só o abade pode entrar no túmulo, no aniversário do santo.

— Você olhou pela grade?

— Olhei, mas é muito escuro. Vi o caixão do santo. É de madeira e tem um desenho com o rosto dele.

— Ele é preto?

— Não, é branco e tem barba ruiva. A pintura é muito antiga, já está desbotando, e o caixão de madeira está apodrecendo.

— O túmulo está no chão?

Tamre fez uma careta para pensar e depois de algum tempo abanou a cabeça.

— Não. Está num degrau de pedra na parede.

— Você se lembra de mais alguma coisa desse túmulo? — Royan tentava estimular sua memória, mas ele meneou a cabeça mais uma vez.

— É muito escuro, e a grade é muito estreita — justificou.

— Não faz mal. O túmulo está na parede de trás do maqdas?

— Está, atrás do altar e da pedra tabot.

— Do que é feito o altar? De pedra?

— Não, é de madeira, de cedro. Tem velas e uma cruz grande, as coroas do abade e o cálice.

— É pintado?

— Não, é entalhado com figuras. Mas são diferentes das figuras do túmulo do santo.

— Diferentes como? Me conte, Tamre.

— Não sei. Têm umas caras engraçadas. Usam roupas diferentes. Têm cavalos... — ele parecia confuso. — São diferentes.

Royan ainda tentou fazê-lo dar uma descrição melhor, mas o garoto foi ficando tão confuso e contraditório que ela achou melhor mudar de tática.

— Fale sobre o tabot — sugeriu, mas Nicholas interveio:

— Não, fale-me você sobre o tabot. É semelhante a um tabernáculo judeu?

Royan virou-se para ele.

— Sim, pelo menos na igreja egípcia é. Geralmente fica dentro de uma caixa adornada com pedras preciosas e é coberto por um tecido bordado a ouro. A única diferença é que o tabernáculo judeu tem esculpidos os dez mandamentos, e na nossa igreja estão esculpidas palavras de dedicação da igreja que o abriga. É o coração da igreja.

— O que é a pedra tabot? — Nicholas franziu o cenho, concentrado.

— Não sei — disse ela. — Nossa igreja não tem pedra tabot.

— Pergunte a ele.

— Fale sobre a pedra tabot, Tamre.

— É assim alta e assim quadrada — ele indicou pouco acima de seu ombro e abriu os dois braços.

— E o tabot fica em cima da pedra? Tamre fez que sim.

— Por que eles mandaram você tocar a pedra e não o tabot? — Nicholas perguntou autoritariamente, mas Royan sacudiu a cabeça para silenciá-lo.

— Deixe que eu faça as perguntas. Você é muito rude com ele. — Ela voltou-se novamente para o menino. — Por que a pedra e não a Arca do tabot que está sobre ela?

Tamre encolheu os ombros.

— Não sei, foi o que eles mandaram.

— Como é essa pedra? Também tem pinturas?

— Não sei. — Ele estava triste por não poder satisfazê-la. Queria desesperadamente agradar-lhe. — Não sei. A pedra é embrulhada com um pano.

Nicholas e Royan trocaram olhares, e então ela voltou a perguntar:

— Embrulhada? — Ela inclinou-se mais para ele. — A pedra está embrulhada?

— Ela só é desembrulhada pelo abade no dia do aniversário de São Frumêncio.

Novamente os dois se entreolharam, e então Nicholas sorriu de modo pensativo.

— Eu adoraria poder dar uma olhada no túmulo do santo e na pedra do tabot... desembrulhada.

— Terá de esperar pelo aniversário do santo — disse ela — e ser ordenado. Só os padres... — Royan interrompeu o que dizia e olhou para ele. — Você não está pensando em... ah, não, você não o faria...

— Quem, eu? — Ele riu. — Nem pense nisso.

— Se o pegarem dentro do maqdas, eles o cortarão em pedacinhos.

— Então é melhor não deixar que me peguem.

— Se você for, eu também vou. Como vamos conseguir?

— Mais devagar, minha querida. A idéia só me ocorreu há alguns segundos. Mesmo na minha melhor fase precisaria de pelo menos dez minutos para bolar um brilhante plano de ação.

Os dois ficaram olhando para o penhasco em silêncio, até que Royan disse em voz baixa:

— A pedra embrulhada. Será o testamento de Taita?

— Não fale tão alto — ele rogou, e fez o sinal contra o olho do demônio. — Nem sequer pense alto. O demônio tem ouvidos.

Eles voltaram a ficar em silêncio, ambos pensativos. Então Royan começou:

— Nicky, e se... — mas parou. — Não, isso não daria certo. — Ficou novamente quieta.

Tamre quebrou o silêncio com um súbito chiado de excitação:

— Lá está! Veja!

Os dois levaram um susto.

— O que foi? — Royan virou-se para ele. Tamre batia no braço dela, tremendo de emoção.

— Ele está lá. Eu disse! — E apontava para o outro lado do rio. — Bem ali, naquele espinheiro. Não está vendo?

— O quê? O que é que você está vendo?

— O animal de São João Batista. A criatura da marca sagrada. Seguindo a direção do braço estendido, eles divisaram um leve tremor nas ramagens do espinheiro na margem oposta.

— Não sei, está muito longe...

Nicholas procurou o binóculo na mochila. Focalizou-o e começou a rir.

— Aleluia! Finalmente a reputação de meu bisavô está salva! — Ele passou o binóculo para Royan, que então viu a pequena criatura. Estava a uns 300 metros de distância, mas através das lentes potentes os detalhes ficavam claros.

Era pouco maior que o dik-dik comum que haviam visto no dia anterior, e, em vez de cinza, o pêlo era castanho-avermelhado. Sua característica mais marcante, contudo, eram as nítidas listras cor de chocolate nas omoplatas e nas costas — cinco faixas uniformemente espaçadas, que realmente pareciam as marcas de quatro dedos e um polegar.

— Nada menos que o Madoqua harperü — Nicholas cochichou. — Desculpe, bisavô, por ter duvidado do senhor.

O dik-dik vinha saindo do espinheiro, meneando o focinho e farejando o ar. Estava com a cabeça levantada, desconfiado e alerta. Soprava uma brisa suave, mas de vez em quando um vento mais forte levava até ele um cheiro de humanidade que o alarmava.

Royan ouviu o clique do rifle quando Nicholas abriu o cano para carregar a arma. Ela baixou o binóculo e olhou para ele.

— Você não vai atirar — ordenou.

— Não a essa distância. Mais de trezentos metros, é um alvo pequeno. Vou esperar que chegue mais perto.

— Como pode fazer uma coisa dessas?

— E por que não? Foi isso o que vim fazer aqui, entre outras coisas.

— Mas ele é tão bonito!

— Presumo, então, que se fosse feio seria perfeitamente correto matá-lo.

Ela não respondeu e ergueu novamente o binóculo. O vento devia ter parado, pois o dik-dik baixara a cabeça e esfregava o focinho num tufo de grama queimada. Então levantou-a novamente e começou a sair do espinheiro, pisando delicadamente, parando a cada passo para comer.

— Volte! — Royan implorou, mas ele foi se aproximando da beira do penhasco.

Nicholas deitou-se de bruços, posicionou-se atrás da raiz da árvore e amassou o chapéu para fazer um apoio para o rifle.

— Cento e sessenta metros — murmurou. — É uma boa distância. Não mais que isso. — Apoiando o rifle na raiz sobre o chapéu amassado, ele olhou pela mira telescópica. Então ergueu a cabeça, esperando que o animal entrasse num determinado ângulo de visão.

De repente o dik-dik ergueu a cabeça e parou, tenso e trêmulo.

— Ele não gostou de alguma coisa. Droga, o vento deve ter mudado outra vez — Nicholas resmungou. Nesse instante o pequeno antílope deu um salto, atravessou correndo a clareira e desapareceu dentro do espinheiro.

— Vá, dik-dik, vá! — disse Royan com alegria, e Nicholas, contrariado, voltou a sentar-se.

— Não sei o que o assustou. — Então Nicholas inclinou a cabeça e sua expressão mudou. Estava ouvindo um som estranho, que aumentava a cada segundo — um barulho alto e desagradável, e um assobio estridente.

— Um helicóptero! Que diabo! — Nicholas reconheceu imediatamente o som. Apanhou o binóculo das mãos de Royan e voltou-o para o céu, esquadrinhando a imensidão azul sobre os escarpamentos.

— Lá está ele! — E acrescentou: — É um Bell Jet Ranger. Vem vindo para cá, ao que parece. Não pode nos ver aqui. Vamos nos esconder.

Ele ajudou Royan e o menino a entrar sob os galhos espalhados do espinheiro.

— Fiquem abaixados — disse a ela. — Eles não devem nos ver. Nicholas observou pelo binóculo a aproximação do helicóptero.

— Deve ser da força aérea etíope — disse baixinho. — Patrulha anti-shuftas, para ser mais preciso. Tanto Boris como o Coronel Nogo disseram que há muitos rebeldes e bandidos operando aqui na garganta... — ele parou bruscamente. — Não! Espere! Não é militar. Fuselagem verde e vermelha e o emblema do cavalo vermelho. Nada menos que os seus velhos amigos da Mineradora Pégaso.

O barulho das hélices aumentou, e Royan, a olho nu, pôde ver o cavalo alado pintado na fuselagem, quando a aeronave passou diante deles, uns 800 metros adiante, voando em direção ao Nilo.

Ninguém estava prestando atenção em Tamre, que se agachara atrás de Royan e procurava esconder-se. Seus dentes batiam de medo e seus olhos começaram a virar para cima.

— Parece que nosso amigo Jake Helm tem bons meios de transporte. Se a Pégaso estiver ligada de alguma forma ao assassinato de Duraid e aos atentados contra a sua vida, vamos ter de aturá-los bafejando em nossa nuca daqui para a frente. Estão preparados para nos localizar quando quiserem. — Nicholas ainda vigiava o helicóptero pelo binóculo.

— Quando o inimigo vem pelo ar, a sensação é muito pior. — Royan aproximou-se de Nicholas instintivamente, de olhos grudados no céu.

O aparelho verde e vermelho desapareceu por trás das elevações do desfiladeiro secundário e desceu na direção do mosteiro.

— A menos que seja só um passeio, provavelmente estão procurando nosso acampamento — Nicholas supôs. — Com ordens do chefe de não nos perder de vista.

— Eles não terão dificuldade para nos encontrar. As cabanas estão bem visíveis. — Royan estava intranqüila. — Vamos sair daqui. — Ela se levantou.

— Boa idéia — Nicholas ia segui-la, mas segurou sua mão e puxou-a de volta. — Espere! Eles estão vindo por ali.

O aparelho ergueu-se no ar e avolumou-se por trás das folhas e dos ramos mais altos do espinheiro.

— Agora está seguindo o rio. Procurando alguma coisa, ao que parece.

— Nós? — Royan perguntou, nervosa.

— Se estiverem obedecendo ordens, talvez — Nicholas concordou. O aparelho estava muito próximo, e o barulho das hélices era ensurdecedor.

Foi então que os nervos de Tamre não suportaram.

— É o demônio, veio me buscar — o menino gritou, aterrorizado. — Salve-me, Jesus Cristo, Salvador, salve-me!

Nicholas tentou segurá-lo, mas não foi bastante rápido. Tamre escorregou por baixo de suas mãos e, com medo do fogo do inferno, correu para a trilha que atravessava os espinheiros, com a saia do shamma enro-lando-se nas pernas finas, e olhou apavorado para o monstro voador.

O piloto o viu no mesmo instante e embicou o nariz do helicóptero na direção do menino. Aproximou-se rápido e diminuiu a velocidade quando chegou perto do penhasco. Estava tão baixo que era possível ver os ocupantes da cabine. Sempre desacelerando, o helicóptero pairou sobre o rio; Royan e Nicholas agacharam-se atrás das moitas de espinheiro, procurando se esconder.

— Lá está o americano do campo de prospecção — Royan reconheceu Jake Helm, apesar de ele estar usando fones de ouvido e óculos escuros. Ele e o piloto negro olhavam de um lado para outro, vasculhando as margens do rio.

— Não nos viram... — Mas quando Nicholas disse isso Jake Helm olhou diretamente para eles. Sem que sua expressão se alterasse, bateu no ombro do piloto e apontou para baixo.

O piloto fez o helicóptero descer suavemente sobre o abismo e parar quase no nível deles. Somente 300 metros os separavam agora. Sem se preocupar em esconder-se, Nicholas encostou-se ao tronco de uma árvore, ergueu a aba do chapéu com a ponta do dedo e acenou laconicamente para Helm.

O capataz não respondeu ao cumprimento. Olhou para Nicholas com indiferença, acendeu um fósforo e aproximou a chama da ponta do cigarro entre os lábios. Jogou fora o palito apagado e soprou a fumaça na direção de Nicholas. Com a expressão imutável, disse alguma coisa ao piloto com o canto da boca.

Imediatamente o helicóptero ganhou altura e seguiu para o norte, em direção à encosta onde estava armado o acampamento.

— Missão cumprida. Ele encontrou o que estava procurando — Royan sentou-se. — Nós.

— E deve também ter visto o acampamento. Agora sabe onde nos encontrar — concordou Nicholas.

Royan estremeceu e abraçou a si mesma.

— Esse homem me faz mal. Parece um sapo.

— Ora, que exagero! — Nicholas brincou. — O que você tem contra os sapos? — Ele se levantou. — Acho que hoje não veremos mais o dik- ik do meu bisavô. Ficou bastante assustado com esse helicóptero. Amanhã tentaremos novamente.

— Vamos procurar Tamre. Deve ter tido outra crise, o pobre coitado. Royan estava enganada. O garoto os esperava à beira do caminho,

ainda trêmulo e choroso, mas não sofrera um ataque. Acalmou-se quando viu Royan, e os três voltaram para o acampamento. No bosque de figueiras, o menino seguiu para o mosteiro.

Ao entardecer, quando ainda havia luz, Nicholas levou Royan ao mosteiro. — Acredito que a fraternidade criminosa chamaria esse reconhecimento de "dar uma geral" — ele observou, quando cruzaram a entrada da catedral de pedra e se juntaram aos adoradores na câmara exterior.

— Pelo que disse Tamre, parece que os noviços esperam que os padres encarregados da guarda cochilem durante o turno — Royan disse em voz baixa, espiando pela porta da câmara intermediária.

— Mas isso é algo que não podemos saber — Nicholas lembrou. Eles observavam os padres entrando e saindo por essas portas.

— Parece que não há nenhum procedimento — notou Nicholas —, nenhuma senha ou ritual para entrar.

— Por outro lado, eles cumprimentam os guardas pelo nome. A comunidade é pequena. Devem se conhecer intimamente.

— Acho que não tenho nenhuma chance de me vestir de padre e me enfiar lá dentro — Nicholas concordou. — O que será que eles fazem com quem entra em suas áreas sagradas?

— Atiram o intruso do terraço aos crocodilos do caldeirão do Nilo? — ela sugeriu maliciosamente. — Seja como for, você não vai entrar lá sem mim.

Não é hora de discutir, decidiu Nicholas, procurando enxergar o máximo possível além das portas do qiddist. A câmara intermediária parecia muito menor que a nave exterior, onde eles estavam. E podiam-se ver os afrescos ensombreados que revestiam parte de algumas paredes internas. Na da frente havia outra passagem. Pela descrição de Tamre, devia ser a entrada do maqdas. A passagem era barrada por um pesado portão gradeado com troncos de madeira, cujos encaixes e interseções eram reforçados por barras de ferro forjado.

De cada lado desse portão havia duas tapeçarias, que iam do chão ao teto, representando cenas da vida de São Frumêncio. Numa delas ele pregava diante da congregação ajoelhada, com a Bíblia na mão esquerda e abençoando com a direita. Na outra, batizava o imperador. O soberano usava uma alta coroa de ouro, como a de Jali Hora, e a cabeça do santo era circundada por um halo. Seu rosto era branco, ao passo que o do imperador era negro.

— Politicamente correto? — Nicholas perguntou-se, sorrindo consigo mesmo.

— Do que está rindo? — perguntou Royan. — Encontrou um jeito de entrar?

— Não. Estava pensando no jantar. Vamos embora!

Durante a refeição, Boris não demonstrou sentir qualquer efeito da orgia da noite anterior. De dia, havia pegado sua arma e saíra a caçar pombos verdes. Tessay os colocara de molho no tempero e agora os assava na brasa.

— Diga-me, inglês, como foi a caça hoje? Foi atacado pelo feroz dik-dik listrado? Hem? — Ele explodiu numa gargalhada.

— Seus mateiros viram alguma coisa? — Nicholas perguntou com delicadeza.

— Sim, sim! Eles encontraram kudus, bushbucks e búfalos. Viram até dik-diks, mas não listrados. Sinto muito, não tinham listras.

Royan debruçou-se sobre a mesa e abriu a boca para interferir, mas Nicholas fez sinal para que não dissesse nada. Ela se calou, olhou para o prato e cortou uma fatia de peito de pombo.

— Não precisamos de companhia — Nicholas explicou-lhe em árabe. — Ele pode insistir em ir conosco amanhã.

— Sua mãe nunca lhe deu educação, inglês? É feio falar uma língua que os outros não entendem. Tome uma vodca.

— Pode beber minha parte — Nicholas convidou-o. — Reconheço que fui deselegante.

Durante a refeição, Tessay respondia somente com monossílabos quando Royan tentava iniciar uma conversa. Estava triste e abatida. Jamais olhava para o marido, nem quando ele baixava a voz e ficava menos arrogante. Quando terminaram de comer, os dois a deixaram com Boris, sentada perto do fogo. Havia uma nova garrafa de vodca ao lado dele.

— Do jeito que ele está bombeando essa bebida, acredito que esta noite serei chamado para uma missão de resgate — Nicholas observou quando se dirigiam para as cabanas.

— Tessay ficou com ele no acampamento o dia todo. Houve mais problemas. Ela me disse que quando voltarem para Adis Abeba vai deixá-lo. Não agüenta mais.

— O que acho mais surpreendente é que ela tenha se envolvido com um animal como Boris. É uma mulher adorável. Poderia ter o que quisesse.

— Algumas mulheres têm esse tipo de atração — Royan comentou.

— Deve ser pela emoção do perigo. Enfim, Tessay pediu-me para ir conosco amanhã. Não vai agüentar mais um dia sozinha com Boris no acampamento. Acho que realmente está com medo. Disse que é a primeira vez que o vê beber tanto.

— Diga-lhe que venha — Nicholas resignou-se. — Quantos mais formos, melhor. Com tanta gente, talvez consigamos matar o dik-dik de susto e me poupar munição.

Ainda estava escuro quando os três saíram do acampamento na manhã seguinte. Não havia sinal de Boris e Nicholas perguntou por ele.

— Depois que vocês foram se deitar, ele terminou a garrafa de vodca. Só vai sair daquela tenda à tarde. Não vai sentir minha falta — disse Tessay.

Levando seu Rigby, Nicholas ajudava as mulheres subir e descer as pedras úmidas de orvalho, refazendo o caminho pelo qual Tamre os havia levado. Nicholas as ouvia conversar atrás dele. Royan contava a Tessay que tinham visto o dik-dik e o que pretendiam fazer. O sol já estava alto quando chegaram à árvore de espinhos na beira do abismo e sentaram-se para esperar.

— Como vai buscar a carcaça do pobre animalzinho, se conseguir matá-lo? — Royan perguntou.

— Já resolvi isso antes de sairmos do acampamento — ele explicou.

— Combinei com o chefe dos mateiros: se eles ouvirem um tiro, devem trazer cordas e me ajudar a passar para o outro lado.

— Eu não gostaria de ir até lá — disse Tessay, olhando o penhasco.

— Aprendemos algumas coisas úteis no exército, além de muitas outras dispensáveis — Nicholas retrucou, acomodando-se no tronco da árvore com o rifle pronto no colo.

As mulheres deitaram-se no chão e conversavam em voz baixa. Nicholas permitiu que continuassem porque achou improvável que o tom de voz delas atravessasse a ravina.

Esperava que o dik-dik aparecesse logo, mas se enganou. Ao meio-dia ainda não vira sinal dele. O vale dilatava-se sob o sol a pino. O outro paredão escarpado estava envolto numa bruma azulada, a miragem dançava nas arestas das pedras e tremeluzia como um lago prateado sobre os espinheiros.

As mulheres haviam parado de conversar há muito tempo e adormeceram com o calor. O mundo todo estava em silêncio e modorrento. As pálpebras de Nicholas pesavam. A cabeça caía involuntariamente; ele despertava de um salto e cochilava outra vez. No limiar do sono, ouviu um ruído perto da moita de espinhos.

Era um ruído fraco, mas muito conhecido. Um ruído que açoitou seus nervos e o deixou alerta, com a circulação acelerada e um gosto ácido no fundo da garganta. Era o som metálico do gatilho de um rifle AK-47 sendo puxado para a posição de "fogo".

Num movimento rápido, ele ergueu o rifle do colo e rolou duas vezes, contorcendo-se para proteger as mulheres deitadas ao seu lado. Ao mesmo tempo, levou o rifle ao ombro e mirou o arbusto de onde viera o ruído.

— Deitem-se — sussurrou para as duas. — Mantenham a cabeça baixa!

Ele encostou o dedo no gatilho e preparou-se para atirar, mesmo reconhecendo a insignificância de sua arma diante de um Kalashnikov. Encontrou o alvo imediatamente e apontou o Rigby para ele.

Havia um homem agachado a vinte passos de onde eles estavam, com o rifle apontado para o rosto de Nicholas. Era negro, usava uma farda camuflada de tecido grosso e esfarrapado e um quepe nas mesmas condições. Trazia no cinto um facão para abrir trilhas, granadas, cantil e todo o equipamento de um guerrilheiro.

"Shufta" pensou Nicholas. "Um profissional. Não tenho nenhuma chance com ele."

Mas ao mesmo tempo sabia que, se tivesse a intenção de matá-los, já estariam mortos.

Ele apontou o Rigby três centímetros acima da mira do rifle de assalto, precisamente no olho direito do shufta. O homem reconheceu a intenção de Nicholas, acusando um leve movimento da pálpebra. Então deu uma ordem em árabe:

— Salim, cubra as mulheres. Atire se elas se mexerem. Nicholas ouviu alguma coisa se movimentar do lado e espiou nessa direção, mas sem perder o shufta de vista.

Outro guerrilheiro saiu do arbusto. Também estava fardado como o primeiro, mas sua arma era uma metralhadora leve russa RPD que ele trazia pendurada ao ombro. O cano estava serrado para tornar a arma mais maleável num confronto em matagais, e havia uma cartucheira de munição pendurada no pescoço do homem. Ele avançou devagar, apontando o RPD para as mulheres. Nicholas sabia que se ele tocasse de leve o gatilho elas seriam partidas em pedaços.

Então ouviu outros ruídos nos arbustos em volta. Eles não eram os únicos. Na verdade, era um grande grupo guerreiro. Nicholas poderia dar um único tiro com o Rigby, mas Royan e Tessay já estariam mortas. E não demoraria muito para que ele as acompanhasse.

Muito lentamente, foi baixando o cano do rifle, depositou-o no chão e ergueu os braços.

— Levantem os braços — disse às mulheres. — Façam exatamente o que eles disserem.

O líder reconheceu a rendição, erguendo-se do chão e falando rápido com seus homens, sempre em árabe.

— Peguem o rifle e a mochila.

— Somos ingleses — Nicholas disse em voz alta, e o guerrilheiro se surpreendeu ao ouvir árabe. — Somos apenas turistas. Não somos militares. Nem gente do governo.

— Quieto! Cale essa boca! — o outro ordenou, e a patrulha guerrilheira emergiu do matagal. Nicholas contou cinco ao todo, mas devia haver outros que não tinham se levantado. Eram bastante profissionais na forma de cercar os prisioneiros. Jamais bloqueavam a linha de tiro dos outros nem davam oportunidade a eles de escapar.

— Aonde vai nos levar? — indagou Nicholas.

— Sem perguntas! — A ponta de um AK-47 bateu no meio de suas costas e quase o derrubou.

— Devagar, companheiro — Nicholas murmurou em inglês. — Não há necessidade disso.

Eles foram obrigados a andar sob o calor da tarde. Nicholas mantinha-se atento à posição do sol e aos pontos em que podia ver os escarpamentos. Estavam indo para oeste, seguindo o curso do Nilo em direção à fronteira sudanesa. No meio da tarde e, pela estimativa de Nicholas, uns 15 quilômetros depois, avistaram um grande vale entre encostas densamente arborizadas; os três prisioneiros foram levados por uma trilha na floresta.

Só quando já estavam no perímetro do acampamento da guerrilha é que se deram conta de sua existência. Muito bem camuflado, consistia meramente em uns poucos abrigos rudimentares e um anel de armamentos. As sentinelas estavam bem posicionadas, e nas trincheiras havia atiradores junto às metralhadoras leves.

Eles foram levados a um dos abrigos no centro do acampamento, onde três homens discutiam em volta de um mapa aberto sobre uma mesa baixa. Eram obviamente oficiais, e um deles, sem dúvida, era o comandante. O líder da patrulha que os capturara dirigiu-se a esse homem, saudou-o com deferência e em seguida falou rápido, apontando para os prisioneiros.

O comandante guerrilheiro saiu do abrigo. Não era muito alto, mas estava imbuído de um ar de autoridade que o fazia parecer maior. Tinha ombros largos, o corpo parrudo e exibia o início de uma coleção de medalhas sobre o peito. Usava uma barba curta que já apresentava fios grisalhos, e suas feições eram finas e agradáveis. A pele tinha tonalidades de âmbar e cobre. Havia inteligência em seus olhos negros, rápidos e inquietos.

— Meus homens disseram que fala árabe — ele dirigiu-se a Nicholas.

— Melhor que você, Mek Nimmur — Nicholas respondeu. — Então agora é líder de um bando de bandidos e seqüestradores? Eu sempre disse que não iria para o céu, seu patife.

Mek Nimmur ficou atônito, olhando para ele, e foi abrindo um sorriso.

— Nicholas! Não o reconheci. Você envelheceu. Olhe só quanto cabelo branco!

Ele abriu os braços e envolveu Nicholas num forte abraço.

— Nicholas! Nicholas! — Ele beijou as duas faces do inglês. Quando se afastou para olhá-lo, viu as duas mulheres, que estavam completamente surpresas.

— Ele salvou minha vida — explicou a elas.

— Você está me deixando vermelho, Mek.

— Salvou minha vida duas vezes — disse o guerrilheiro, dando-lhe outro beijo.

— Uma vez — Nicholas o corrigiu. — A segunda foi um engano. Devia ter deixado que atirassem em você.

Mek riu deliciado.

— Há quanto tempo foi isso, Nicholas?

— Não posso nem imaginar.

— Quinze anos, pelo menos — disse Mek. — Ainda está no Exército britânico? Em que batalhão? Deve ser um general agora.

— Apenas reserva — Nicholas balançou a cabeça. — Estou na vida civil já faz bastante tempo.

Ainda abraçado a Nicholas, Mek Nimmur olhou interessado para as mulheres.

— Nicholas ensinou-me a maior parte do que sei hoje sobre a arte militar — disse a elas. Seu olhar saltou de Royan para Tessay e deteve-se no rosto adorável da morena etíope.

— Eu a conheço — disse. — Foi em Adis Abeba, alguns anos atrás. Você era bem mais jovem na época. É filha de Alto Zemen, um bom e grande homem. Foi assassinado pelo tirano Mengistu.

— Eu também o conheço, Alto Mek. Meu pai o estimava muito. Muitos de nós queríamos o senhor como presidente da nossa Etiópia, no lugar daquele outro. — Ela fez uma graciosa mesura e inclinou levemente a cabeça num tímido, porém claro, gesto de respeito.

— Fico orgulhoso com a sua opinião sobre mim. — Ele tomou a mão dela e ajudou-a a levantar-se. Então voltou-se para Nicholas: — Sinto muito pela recepção rude. Alguns de meus homens são exagerada-mente entusiásticos. Eu soube que havia ferengi fazendo perguntas no mosteiro. Mas basta; aqui vocês são meus amigos. Sejam bem-vindos.

Mek Nimmur levou-os para o abrigo; um dos homens pegou uma chaleira enegrecida no fogão e despejou café forte nas xícaras.

Mek e Nicholas mergulharam em reminiscências de uma época anterior à Guerra das Malvinas. Haviam lutado ombro a ombro, Nicholas como conselheiro militar secreto e Mek como jovem amante da liberdade que se opunha à tirania de Mengistu.

— Mas a guerra acabou, Mek — Nicholas por fim protestou. — E a batalha foi ganha. Por que ainda se mantém na clandestinidade com seus homens? Por que não estão ficando ricos e gordos em Adis Abeba, como os outros?

— No governo interino de Adis há inimigos meus, gente de Mengistu. Quando nos livrarmos deles, sairemos da clandestinidade.

Os dois embarcaram numa discussão acalorada sobre a política africana; era uma discussão tão profunda e complicada que Royan conhecia pouquíssimas das personalidades citadas. Mas não conseguia captar as nuances e sutilezas de preconceitos e intolerâncias religiosos e tribais que persistiam havia milhares de anos. Estava, contudo, impressionada com o conhecimento e a compreensão de Nicholas sobre a situação, e a forma como um homem como Mek Nimmur pedia sua opinião e ouvia seus conselhos.

No final, Nicholas perguntou-lhe:

— E agora, você está levando a guerra para além das fronteiras da Etiópia? Também está operando no Sudão?

— A guerra no Sudão já existe há vinte anos — Mek confirmou. — Os cristãos lutam no sul contra a perseguição do norte muçulmano...

— Sei disso, Mek. Mas lá não é a Etiópia. Não é a sua guerra.

— Eles são cristãos e sofrem injustiças. Eu sou soldado e sou cristão. É claro que é minha guerra.

Tessay bebia avidamente cada palavra que Mek dizia, e nesse momento assentiu com um movimento da cabeça e um olhar solene para seu herói.

— Alto Mek é um cruzado de Cristo e dos direitos do homem comum — Tessay falou para Nicholas em tom reverente.

— E adora uma boa briga — Nicholas riu, empurrando o ombro do outro com afeição. Era um gesto familiar que poderia facilmente ser ofensivo, mas Mek aceitou-o prontamente e também riu.

— E o que é que você está fazendo aqui, Nicholas, se já não é mais soldado? Houve um tempo em que também gostava de uma boa briga.

— Estou totalmente mudado. Chega de brigas. Vim para a garganta do Abbay caçar dik-dik.

— Dik-dik? — Mek Nimmur olhou-o com descrença e soltou uma sonora gargalhada. — Não acredito, não você. Não um dik-dik. Está atrás de alguma outra coisa.

— É verdade.

— Está mentindo, Nicholas. Nunca vai conseguir mentir para mim. Conheço-o muito bem. Está procurando outra coisa. Vai me contar quando precisar da minha ajuda.

— E você vai me ajudar mesmo assim?

— É claro. Você salvou minha vida duas vezes.

— Uma só — lembrou Nicholas.

— Já é suficiente — disse Mek Nimmur.

les ainda conversavam quando o sol se pôs no horizonte. — Vocês são meus hóspedes esta noite — Mek Nimmur declarou formalmente. — Pela manhã os escoltarei de volta ao acampamento, no Mosteiro de São Frumêncio. É também o meu destino. Meus homens e eu vamos ao mosteiro para celebrar a festa do Timkat. O Abade fali Hora é nosso amigo e aliado.

— E o mosteiro, provavelmente, é sua base secreta. Você o utiliza para reabastecer-se e planejar. Estou certo?

— Você me conhece muito bem, Nicholas. Se foi você quem me ensinou a maior parte do que sei, como não iria conhecer minha estratégia? O mosteiro é uma base de operações perfeita. E é bastante próximo à fronteira... — Ele parou e sorriu. — Não preciso lhe explicar nada; você sabe tudo.

Mek mandou seus homens construir um abrigo noturno para Nicholas e Royan, e fazer uma cama de grama onde pudessem dormir, eles se deitaram lado a lado sob o frágil teto. Era uma noite abafada, e ninguém sentia falta de cobertor. Nicholas tinha um tubo de repelente na mochila para manter os mosquitos à distância.

Acomodados no acolchoado de grama, estavam bastante próximos para conversar baixinho. Nicholas virou a cabeça para fora e viu as silhuetas de Mek Nimmur e Tessay ainda ao lado do fogo.

— As moças etíopes são diferentes das árabes e da maioria das africanas — disse Royan, que também observava o par. — Uma mulher árabe não ficaria sozinha com um homem desse jeito. Principalmente não sendo casada com ele.

— Seja como for, eles formam um belo par — Nicholas opinou. — Desejo-lhes boa sorte. Tessay não tem tido muita ultimamente... ela merece.

Ele virou a cabeça para Royan.

— E você, o que é? Uma árabe recatada e submissa, ou uma ocidental independente e decidida?

— É muito cedo e também bastante tarde para perguntas de natureza tão íntima — ela respondeu, sentindo-o às suas costas.

— Ah, estamos sendo cerimoniosos hoje! Boa noite, Woizero Royan.

— Boa noite, Alto Nicholas — ela respondeu, mantendo o rosto para que ele não a visse sorrir.

A coluna guerrilheira deslocou-se antes do amanhecer. Os homens marchavam em formação, com batedores à frente e os flancos bem vigiados de ambos os lados do caminho.

— O exército raramente vem até a garganta, mas estamos preparados — explicou Mek Nimmur. — Queremos oferecer aos soldados uma recepção calorosa.

Tessay olhava para ele enquanto o escutava; na verdade, quase não tirava os olhos dele.

— É mesmo um grande homem — sussurrou para Royan. — Somente ele seria capaz de unificar nosso país, talvez pela primeira vez em mil anos. Sinto-me humilde em sua presença e, ao mesmo tempo, volto a ser uma jovem cheia de alegria e esperança.

O retorno ao mosteiro levou quase toda a manhã. Quando avistaram o Rio Dandera, Mek Nimmur ordenou que seus homens se escondessem no mato fechado e enviou apenas um ao mosteiro. Uma hora depois, apareceu um grupo de acólitos, todos carregando grandes trouxas na cabeça.

As trouxas continham batinas, turbantes e sandálias. Os homens de Mek vestiram esses trajes, todos já bem usados para parecer autênticos.

Levavam somente armas brancas sob a túnica. Todas as outras armas e equipamentos ficaram dentro de grutas no penhasco, guardadas por um destacamento.

Agora, como um grupo de monges, eles cobririam os últimos quilômetros até o mosteiro e seriam recebidos com festa pela comunidade local. Na bifurcação do caminho, Nicholas e as mulheres tomaram a trilha para as grandes figueiras. Boris esperava por eles, andando pelo acampamento nervoso e impaciente.

— Onde é que você esteve, mulher? — ele berrou para Tessay. — Esteve dando por aí a noite toda?

— Nós nos perdemos ontem. — Nicholas contou a história combinada com Mek Nimmur. Boris não era uma pessoa confiável. — Fomos encontrados por um grupo de monges esta manhã. Eles nos trouxeram de volta.

— Que grande caçador você é, hem? — Boris riu com desprezo. — Não precisa de guia, não é? Para acabar se perdendo, inglês? Agora entendo por que só quer caçar dik-dik. — Ele deu uma gargalhada e olhou para Tessay com seus olhos pálidos. — Falo com você mais tarde, mulher. Vá cuidar da comida.

Apesar do calor, Nicholas e Royan estavam famintos. Rapidamente, Tessay serviu um saboroso lanche à sombra das figueiras. Nicholas recusou o vinho que Boris lhe oferecia.

— Quero sair para caçar esta tarde. Já perdi quase todo o dia.

— Quer que eu o leve pela mão, inglês? Para não se perder outra vez?

— Obrigado, amigão, mas acho que posso me virar sozinho. Enquanto comiam, Nicholas cutucou Royan:

— Seu admirador chegou.

Ele indicou com a cabeça a figura desengonçada de Tamre, que chegara sorrateiramente e agora estava sentado perto da cabana-cozinha. Quando Royan olhou, seu rosto se abriu num descorado esgar idiota, ele abaixou a cabeça e contorceu-se em estática timidez.

— Não irei com você esta tarde — Royan disse quando Boris não estava ouvindo. — Acho que vai haver problemas entre ele e Tessay. Quero ficar aqui com ela. Leve Tamre com você.

— Meu Deus, que alternativa atraente! Toda a minha vida esperei por este momento.

Mas quando pegou o rifle e a mochila, Nicholas fez sinal para o garoto segui-lo. Tamre procurou ansiosamente por Royan, mas ela já estava em sua cabana. Por fim, ele se decidiu a seguir com Nicholas para o vale.

— Leve-me para o outro lado do rio — ele disse ao menino. — Mostre-me como chegar até onde está a criatura sagrada. — Tamre animou-se com a idéia e partiu num passo trôpego, levando Nicholas para a ponte suspensa nos penhascos rosados.

Durante uma hora eles seguiram pela trilha até ela ir desaparecendo gradualmente e terminar num terreno difícil e acidentado entre os outeiros corroídos pela erosão. Sem se intimidar, Tamre saltou para dentro do espinheiro, e durante duas horas eles escalaram cumes rochosos e atravessaram vales espinhosos.

— Agora entendo por que você não quis trazer Royan aqui — Nicholas resmungou. Seus braços estavam riscados pelos espinhos e a calça rasgada em seis lugares. Mesmo assim, ele memorizava a rota e sabia que encontraria o caminho de volta sem dificuldade.

Por fim, no alto de um outeiro, Tamre parou e apontou para baixo. Nicholas viu então a fenda do abismo e a pequena clareira onde haviam visto o dik-dik. Pôde até reconhecer a árvore espinhosa na outra margem do Dandera, sob a qual os homens de Mek os tinham encontrado.

Ele parou para descansar e beber alguns goles de água do cantil, que em seguida passou para Tamre.

— Ele é um monge, meu Deus. O pequeno demônio não há de ter Aids. — Mesmo assim, limpou bem a boca do cantil quando Tamre o devolveu.

Antes de começar a descer, ele verificou novamente o Rigby e soprou a poeira das lentes do telescópio. Então mirou através dele uma pedra do tamanho de um dik-dik no sopé da encosta e girou o anel do telescópio para a ampliação mínima. Estava preparado para atirar a curta distância. Satisfeito, carregou a arma e levantou-se.

— Fique atrás de mim — disse ao menino. — E faça o que eu fizer. Nicholas descia devagar a encosta, parando de vez em quando para

checar as moitas de espinhos na frente e de ambos os lados. Próximo à nascente a terra estava molhada e lamacenta. Vários animais e pássaros vinham beber ali. Nicholas reconheceu as patas de kudu e bushbuck, mas no meio delas havia as pequeninas pegadas em forma de coração de sua presa.

Ele se deslocava silenciosamente; perto da moita de espinheiro encontrou um monturo com o qual o dik-dik marcava seu território. A pilha de estrumes do tamanho de uma bolinha de chumbo aumentava a cada vez que o pequeno antílope voltava para defecar.

Nicholas estava totalmente absorvido pela caçada. Seus fracassos anteriores só serviram para aumentar o fascínio. Concentrado como se perseguisse um leão assassino, avançava passo a passo, checava o chão antes de pisar nos galhos e folhas secas, os olhos mais rápidos que os pés, atento a tudo o que acontecia em volta.

Foi um movimento da orelha que acusou a presença do animal. Metade dele estava à sombra, e seu pêlo castanho confundia-se com os galhos secos, como se ele próprio fosse feito de mogno. Apenas esse ligeiro movimento o traía. Estava tão próximo que Nicholas podia ver um olho refletir a luz como ônix polido, e o focinho alongado tremendo no ar. Ele percebia o perigo, mas não sabia de onde vinha.

Muito lentamente, Nicholas ergueu o rifle no ombro. Pelas lentes podia divisar cada pêlo, um tufo entre as orelhas de onde saíam dois pequenos chifres pretos. Ele colocou a cruzeta do telescópio na junção entre o pescoço e a cabeça. Queria danificar a pele o mínimo possível para facilitar a montagem e a taxidermia.

— É a criatura sagrada. Salve Deus e São João Batista! — Tamre gritou atrás de Nicholas, e caiu de joelhos com as mãos entrelaçadas na altura dos olhos.

O dik-dik dissolveu-se nas lentes como um lufada de fumaça marrom, deixando apenas um leve farfalhar no espinheiro. Nicholas baixou o rifle e olhou para o menino. Ele continuava ajoelhado, proferindo glórias e preces.

— Bom trabalho. Woizero Royan vai lhe agradecer por isso — disse em inglês. Ele pegou o garoto, arrastou-o para seus pés e falou em árabe: — Fique aqui! Não saia daqui! Não abra a boca para falar. E respire baixo até eu voltar para pegá-lo. Se disser uma única oração, eu mesmo irei, pessoalmente, enviá-lo para encontrar São Pedro nos portões do paraíso. Você entendeu?

Ele avançou sozinho, mas o pequeno antílope estava totalmente alarmado. Nicholas viu-o mais duas vezes, mas ambas não passaram de um rápido vislumbre do movimento de uma mancha castanha quase completamente oculta pelo espinheiro. Ele lançava amargas impre-cações contra o menino-monge, enquanto ouvia o ruído das patinhas na terra seca entrando cada vez mais na vegetação. Viu-se obrigado a desistir mais uma vez de sua caça.

Já estava escuro quando ele e Tamre chegaram ao acampamento. Tão logo Nicholas entrou no círculo iluminado pelo fogo, Royan foi recebê-lo.

— O que aconteceu? Viu novamente o dik-dik?

— Não me pergunte. Pergunte ao seu cúmplice. Ele o assustou tanto que, provavelmente, ainda está correndo.

— Tamre, você é fantástico! Estou muito orgulhosa — Royan disse ao menino, que voltou para o mosteiro saltando e brincando como um cachorrinho, rindo e se abraçando de alegria por ter-lhe agradado.

Royan ficou tão satisfeita com o resultado da caçada que foi pessoalmente servir uma dose de uísque para Nicholas e a levou para ele que descansava ao lado do fogo.

Ele provou e sentiu um arrepio.

— Nunca deixe que uma abstêmia sirva você. Com mão tão pesada, é capaz de fazer a gente virar do avesso. — Mesmo assim, não resistiu a outro gole.

Royan sentou-se ao lado dele; estava irrequieta, mas Nicholas só percebeu depois sua agitação.

— O que foi? O que é que mordeu você?

Ela deu uma espiada na direção em que Boris estava sentado, do outro lado da fogueira, então inclinou-se para Nicholas e falou em árabe, em voz baixa:

— Tessay e eu fomos ao mosteiro esta tarde para ver Mek Minnur. Ela pediu que eu fosse junto, por causa de Boris... você sabe o que quero dizer.

— Tenho uma vaga idéia. Você foi "segurar vela". — Nicholas deu outro gole no uísque e engasgou. Recuperado, disse com a voz rouca: — Continue.

— Em certo momento, antes de eu os deixar sozinhos, conversamos sobre o festival do Timkat. No quinto dia o abade leva o tabot para o Rio Abbay. Mek disse que há um caminho que desce pelo penhasco até a água.

— Sim, nós sabemos disso.

— Esta é a parte mais interessante... É que você não sabe. Todo mundo vai à procissão até o rio. Todos. O abade, os padres, os acólitos, todos os crentes, até Mek e seus homens, todos descem para o rio e passam a noite lá. Durante um dia e uma noite inteiros o mosteiro fica deserto. Vazio. Não há ninguém lá.

Ele a olhou por cima do aro dos óculos e lentamente foi abrindo um sorriso.

— Isso é realmente interessante — admitiu.

— E não esqueça: eu vou com você. Não ouse sequer pensar em me deixar para trás.

Nickk Nicholas foi para a cabana de Royan depois do jantar. Era o único lugar no acampamento em que podiam ter privacidade e estar a salvo de bisbilhoteiros. Só que dessa vez ele não cometeu o erro de sentar ao lado dela na cama. Ela ficou na ponta do acolchoado e ele puxou um banquinho.

— Antes de começarmos a planejar, quero perguntar uma coisa: já considerou as possíveis conseqüências?

— Você quer dizer, o que vai acontecer se formos pegos pelos monges? — Royan perguntou.

— Na melhor das hipóteses podemos esperar que nos expulsem do vale. O abade tem um imenso poder. Na pior delas, podemos ser atacados fisicamente — disse-lhe Nicholas. — É um dos locais mais sagrados na religião deles, e é melhor não subestimar isso. Há muito perigo envolvido. Vai desde uma faca no meio das costelas até veneno na comida.

— Além disso, ficaríamos mal com Tessay. Ela é muito religiosa — acrescentou Royan.

— Mais que isso, poderíamos aborrecer também Mek Nimmur. — Nicholas ficou incomodado com essa idéia. — Não sei o que ele faria, mas não acho que nossa amizade sobreviveria ao teste.

Ambos ficaram quietos algum tempo, avaliando o preço que poderiam pagar. Nicholas falou primeiro:

— E então, já tomou uma posição? Afinal, é a sua igreja que nós vamos profanar. Você é uma cristã comprometida. Pode justificar isso para si mesma?

— Já pensei no assunto — ela admitiu. — Eu também não me sinto feliz, mas não é realmente minha igreja. É um ramo diferente da Igreja Copta. A Igreja Egípcia não nega a ninguém o acesso aos recintos mais sagrados de seus templos. Não me sinto impedida pela proibição do abade. Acredito que como cristã tenho o direito de entrar em qualquer parte da catedral.

Ele assobiou baixinho.

— E você disse que eu devia ser advogado.

— Por favor, Nicky, não brinque. Não faça piada disso. Tudo o que sei é que, não importa o motivo, tenho de entrar lá. Mesmo que ofenda Tessay, Mek e toda a irmandade. Preciso fazê-lo.

— Eu poderia fazê-lo por você — ele sugeriu. — Afinal, sou um velho pecador. Não iria diminuir minhas chances de salvação. Não tenho nenhuma.

— Não — ela sacudiu firmemente a cabeça. — Se houver alguma inscrição ou algo dessa natureza, eu preciso ver. Você lê bem hieróglifos, mas não tão bem quanto eu, e não conhece a escrita hierátíca. Sou especialista e você, só um amador bem-dotado. Precisa de mim. Vou entrar com você.

— Está bem. Então está decidido — ele concluiu. — Comecemos a planejar. É melhor fazer uma lista do equipamento de que vamos precisar. Lanterna, canivete, câmera Polaroid, filmes de reserva...

— Papel fino e lápis macio para decalcar as inscrições — ela acrescentou.

— Diabo! — ele estalou os dedos, envergonhado. — Eu não trouxe isso.

— Viu só? Amador. Eu trouxe.

Eles conversaram até tarde; de repente Nicholas olhou o relógio e levantou-se.

— Já passa da meia-noite. Posso virar abóbora a qualquer momento. Boa noite.

— Ainda faltam dois dias para o tabot ser levado para o rio. Nada a fazer até lá. Quais são seus planos?

— Amanhã irei atrás daquele maldito Bambi. Ele já me fez de bobo duas vezes.

— Vou com você — ela disse com firmeza, e essa simples declaração causou um prazer desproporcional em Nicholas.

— Desde que deixe Tamre em casa — ele avisou quando já saía da cabana.

O pequeno antílope saiu da sombra escura do espinheiro, e seu pêlo sedoso reluziu ao sol da manhã. Ele ia andando tranqüilamente pela estreita clareira. A respiração de Nicholas ficava mais rápida à medida que o seguia através da mira telescópica. Era ridículo seu interesse em caçar um animal tão pequeno, mas os fracassos anteriores incitavam sua ansiedade. Isso e mais a paixão peculiar que move o verdadeiro colecionador. Desde a morte de Rosalind e das meninas ele se dedicava de corpo e alma a aumentar a coleção em Quenton Park; agora, perseguir esse espécime transformara-se numa questão de suprema importância.

Com o dedo encostado ao gatilho, ele esperava o dik-dik ficar imóvel para detonar a arma. Era arriscado disparar com o animal em movimento. A bala tinha de ser precisa, matar rapidamente e, ao mesmo tempo, danificar o mínimo possível a pele.

Por isso ele carregara o Rigby com balas encapadas com metal — das que não explodem com o impacto, mas penetram fundo e não rasgam muito a pele do outro lado. Esse tipo de bala faria um pequeno buraco da espessura de um lápis, que o taxidermista do museu conseguiria deixar invisível.

Seus nervos se contraíram ao pressentir que o dik-dik não pararia na clareira, mas apenas a atravessava. Ia em direção a outra moita de espinhos, do outro lado da clareira. Essa era sua última chance. Mas Nicholas resistiu à tentação de atirar no alvo móvel, e com muito custo afastou mais uma vez o dedo do gatilho.

O antílope chegou ao espinheiro, mas, antes de entrar, parou, enfiou a cabeça numa moita rasteira e começou a farejar os tufos de folhas tenras. A cabeça estava protegida, por isso Nicholas desistiu de atirar. Entretanto, a omoplata estava exposta. Via-se claramente o contorno do osso sob o pêlo castanho. O dik-dik estava a uma boa distância e na posição perfeita para um tiro no coração, na parte inferior da omoplata.

Sem pressa, ele ajustou a retícula da objetiva no ponto exato e apertou o gatilho.

O tiro rasgou o ar quente e pesado; o pequeno antílope deu um salto para cima, pousou no chão e correu em disparada. Mais como um florete do que como um cutelo, o sólido projétil não o atingira com força suficiente para derrubá-lo. Com a cabeça caída, o animal corria numa típica reação frenética a uma bala atravessada no coração. Já estava morto, mas era movido pelos últimos resíduos de oxigênio em seu sangue.

— Oh, não! Assim não! — Nicholas lamentou. A criaturazinha corria em direção à beira do penhasco. Às cegas, lançou-se no vazio, deu um salto mortal no ar e caiu 60 metros no abismo do Rio Dandera.

— Que falta de sorte! — Nicholas saltou por cima da moita que os escondia e correu para a beira do penhasco. Royan foi atrás dele.

— Lá está! — Ela apontou para baixo, e ele concordou.

— E, estou vendo.

A carcaça do animal estava bem embaixo deles, presa numa ponta de pedra suspensa sobre a correnteza.

— O que vamos fazer? — ela perguntou.

— Vou ter de descer para apanhá-lo. — Nicholas afastou-se da borda. — Por sorte, ainda é cedo. Temos muito tempo para fazer o trabalho antes de anoitecer. Voltarei ao acampamento para trazer cordas e gente Para ajudar.

Ele só retornou à tarde, acompanhado de Boris, dois curtidores de peles e dois condutores de mula. Trouxeram também quatro rolos de corda de náilon. Nicholas espiou da beira do penhasco e suspirou aliviado.

— Bom, a carcaça ainda está lá. Temia que fosse arrastada pela água. Ele supervisionou os homens desenrolarem as cordas e esticá-las no chão da clareira.

— Vamos precisar de dois rolos para descer até o fundo. — Nicholas verificou os nós antes de a corda ser jogada no penhasco até a superfície da água e, em seguida, ser recolhida para que sua extensão fosse medida.

— Cinqüenta e quatro metros. Não vou conseguir subir tudo isso — Nicholas disse a Boris. — Vocês vão ter de me puxar para cima.

Ele próprio prendeu a ponta da corda numa saliência do tronco de uma das árvores espinhosas. Testou-a mais uma vez, meticulosamente, pedindo aos quatro homens que a puxassem com toda a força.

— Acho que vai agüentar — Nicholas opinou enquanto despia a camisa e o short de brim caqui e tirava as botas. Na beira do penhasco, virou-se de costas, com a corda enrolada no ombro e a ponta presa entre as pernas, como um alpinista.

— Abra as asas e reze! — ele disse, e saltou de costas no abismo. Controlava a queda, soltando a corda no ombro e freando-a no laço sobre a coxa. Mantinha-se afastado das pedras com as pernas esticadas. A descida foi rápida; seus pés tocaram a água e a correnteza fez seu corpo girar na ponta da corda. Caíra a poucos metros do afloramento sobre o qual estava o dik-dik, e foi obrigado a entrar no rio. Com a ponta da corda presa entre os dentes, ele nadou de volta a pequena distância que o separava da pedra, com braçadas vigorosas para vencer a força da correnteza.

Nicholas alcançou o afloramento e fez uma pausa para tomar fôlego, e só então pôde ver como era belo o animal que havia matado. Um misto de culpa e tristeza apossou-se dele quando se aproximou para examinar a cabeça perfeita, com duas extraordinárias protuberâncias. Entretanto, não era hora para dores de consciência.

Ele amarrou o dik-dik pelas quatro patas, afastou-se e olhou para cima. Boris estava lá.

— Pode puxar — gritou, dando três puxões na corda como tinham combinado. Os homens no alto começaram a içar a carcaça pelo paredão do rochedo. Nicholas assistia, ansioso. Num certo momento, a corda ficou presa em algum lugar, mas soltou-se e continuou a subir.

O dik-dik finalmente desapareceu de vista, mas só mais tarde a corda voltou a surgir. Boris tivera a sensibilidade de amarrar uma pedra na ponta, do tamanho da cabeça de um homem, e agora soltava-a devagar; Nicholas observava seu progresso e controlava a descida sinalizando para seus homens.

Mas a pedra caiu na água, fora do alcance de sua mão. Boris balançou a ponta da corda até Nicholas conseguir pegá-la. Deu nela uma laçada, fez um nó corrediço e passou a corda por baixo dos braços; então gritou para Boris:

— Suspenda! — Ele deu mais três puxões; a corda apertou-se em torno de seu peito e o puxou aos solavancos para cima, em direção à barriga que se formava no paredão. Nicholas mantinha-se longe das pedras com as pernas esticadas, tentando fazer o corpo parar de girar. Faltavam ainda 80 metros quando a corda apertou mais seu peito, ao mesmo tempo que ele sentiu um puxão e ficou pendurado na parede do rochedo.

— O que está havendo? — gritou para Boris.

— A maldita corda ficou presa — Boris gritou de volta. — Dá para ver onde foi?

Nicholas olhou para cima e viu a corda enfiada numa fenda da pedra, provavelmente no mesmo lugar em que se prendera com o dik-dik. Só que ele pesava cinco vezes mais que o pequeno antílope, e a corda entrara muito mais fundo.

Nicholas estava suspenso no ar a uma altura de quase 30 metros.

— Tente balançar para se soltar — Boris gritou para ele. Nicholas deu um impulso para trás e contorceu-se na corda para tentar soltá-la. Experimentou várias vezes; o suor escorria por todo o seu corpo, e a aspereza do náilon lhe feria a pele sob os braços.

— Não adianta — gritou para Boris. — Veja se conseguem puxá-la aí de cima.

Pouco depois ele viu a corda esticar-se acima da fenda como um cabo de aço, puxada pela força de cinco homens. Lá de baixo, Nicholas ouvia o canto de trabalho dos peleiros enquanto aplicavam todo o seu peso sobre a corda.

Mas ele não saiu do lugar, e sabia que não sairia. Olhou para baixo. A água parecia muito mais distante do que imaginara. Lembrou-se então de que a velocidade final do corpo humano em queda livre é de 240 quilômetros por hora. E a essa velocidade a água se transformaria em concreto. "Mas acho que não estarei tão rápido quando chegar lá", ele tentava se convencer.

Olhou outra vez para cima, e os homens continuavam puxando a corda. Nesse instante um dos cordões de náilon se cortou numa aresta da pedra e enrolou-se como um longo caracol esverdeado.

— Pare de puxar! — Nicholas gritou, mas Boris se juntara aos homens para ajudá-los.

O segundo cordão também se rompeu e se soltou. Somente um o prendia agora.

"Vai arrebentar a qualquer momento", Nicholas pensou.

— Boris, seu imbecil, pare de puxar! — Mas sua voz jamais chegou até o russo; o terceiro e último cordão espocou como uma rolha de champanhe.

Nicholas despencou no vazio com a corda partida serpenteando sobre sua cabeça. Com os braços esticados para cima e as pernas para baixo, ele tentava estabilizar o vôo, retesando o corpo para cair em pé.

Pensou no afloramento lá embaixo. Cairia longe dele ou espatifaria todos os seus ossos na pedra? Era melhor não olhar. Se caísse na água, esmagaria as costelas ou quebraria a espinha.

Com a velocidade da queda, as vísceras de Nicholas pareciam sair pela boca; ele respirou pela última vez quando bateu na água, primeiro os pés, com uma força estonteante. Sentiu o impacto subir pela espinha até a nuca, os dentes baterem uns contra os outros, a visão ser ofuscada por luzes brilhantes. O rio o tragou. Ele afundou com tanta força que as pernas pareceram se enterrar nos quadris quando os pés bateram no fundo de pedra. Os joelhos se dobraram, e ele achou que havia quebrado as duas pernas.

O impacto expulsou o ar de seus pulmões; quando deu um impulso para cima, buscando desesperadamente o ar, percebeu aliviado que suas pernas estavam inteiras. Emergiu à superfície, fungando e tossindo, e deu-se conta de que por muito pouco não caíra sobre o afloramento. Entretanto, a correnteza já o distanciara dele.

Movimentando as pernas para manter-se na superfície, Nicholas tirou a água dos olhos e olhou em volta. A correnteza o arrastava para dentro dos penhascos a uma velocidade aproximada de 10 nós — o suficiente para quebrar um osso se batesse numa pedra. No mesmo instante um afloramento passou quase ao alcance de sua mão. Ele virou-se de costas e esticou os pés para a frente, para proteger-se das pedras.

"Esta viagem vai ser completa", pensou. "O único jeito de eu me salvar é ir até o fim."

Nicholas tentava calcular a que distância estava do ponto em que o rio se livrava da ravina através do arco de pedra rosada, e quanto ainda teria de nadar.

"Quatro ou cinco quilômetros, no mínimo, e a queda do rio é de quase trezentos metros. É bem provável que haja cachoeiras à frente. Daqui em diante pode ser perigoso. Eu diria que minhas chances de sair desta são de três para um, sem deixar alguns pedaços presos nessas pedras."

Então olhou para cima. Os paredões eram altíssimos de ambos os lados, e em certos pontos pouco faltava para se encontrarem em cima. Do fundo do abismo úmido e escuro via-se apenas um fiapo de céu. Ao longo dos anos o rio havia limado as pedras e aberto seu caminho no meio delas.

"É uma sorte danada que não esteja chovendo. Como será isto durante as chuvas?", ele se perguntou, olhando a marca da água nas pedras uns 50 metros acima.

Sem pensar mais nisso, ele se concentrou no rio. Já retomara o fôlego e procurava alguma coisa quebrada no corpo. Aliviado, notou que sofrera apenas alguns arranhões, e o que parecia ser um joelho ralado estava inteiro. Todos os membros respondiam; quando deu algumas braçadas para o lado para evitar outro afloramento de rochas, até o joelho machucado parecia estar bastante bom para que pudesse contar com ele.

Aos poucos Nicholas foi percebendo um novo som no desfiladeiro. Era um ronco fraco, mas que foi aumentando à medida que ele avançava para a frente. Os paredões do abismo quase convergiam no alto, as pedras se juntavam embaixo e o fluxo da água se acelerava, espremendo-se entre delas. O ruído transformou-se rapidamente num trovão que reverberou no desfiladeiro.

Nicholas nadou com todas as forças para alcançar o paredão mais próximo. Tentava encontrar algo para se segurar, mas as pedras eram lisas. Escorregavam sob suas mãos onde procurava desesperadamente se agarrar, e o rio bramia sobre sua cabeça. De repente, a superfície da água ficou lisa e sólida como o vidro. Como o cavalo empina as orelhas na iminência do salto, o rio estava pressentindo o que o esperava à frente.

Nicholas tomou impulso numa pedra e ganhou espaço para virar os pés na direção da corrente. Então foi atirado ao espaço. Ao redor, o rio espumava, arrastando-o e jogando como uma folha de árvore. A queda parecia não ter fim, e seus órgãos pareciam soltos dentro do corpo. Mais uma vez ele despencou vertiginosamente e foi sugado para o fundo.

Nicholas subiu com esforço e irrompeu na superfície com um fiapo de fôlego. Através dos olhos molhados viu que caíra num redemoinho embaixo da cachoeira, onde a água se revolvia e ondulava, rodopiando num minueto elegante.

Olhou para cima e a primeira coisa que viu foi o lençol branco da cachoeira em que caíra, e depois a estreita abertura por onde o rio se atirava em sua louca corrida. Por enquanto ele estava a salvo e tranqüilo naquele torvelinho sob a cachoeira. A correnteza o arrastara para o lado da bacia, atrás da queda-d'água. Ele estendeu a mão e segurou-se num tufo de mato que brotava de um orifício na pedra.

Finalmente tinha a oportunidade de descansar e avaliar sua situação. Não levou muito tempo, contudo, para perceber que só havia uma maneira de sair daquele abismo: seguir pelo rio, arriscando-se ao que mais o aguardasse. Podia esperar outras corredeiras e até outras cachoeiras como aquela em que acabara de cair.

Se ao menos houvesse um meio de subir pelo paredão! Ele olhou para cima, mas logo desanimou ao avaliar os penhascos que formavam uma abóbada de catedral sobre sua cabeça.

Mas alguma coisa lhe chamou a atenção. Era algo por demais regular e organizado para ser natural. Havia duas fileiras de marcas escuras dispostas verticalmente no paredão de pedra, que começavam na superfície da água e subiam para a beira do abismo quase 60 metros.

Nicholas chegou mais perto e percebeu que eram pequenos nichos cavados na pedra. As fileiras ficavam distantes uma da outra à extensão de dois braços, e o nicho de uma fileira alinhava-se exatamente com o nicho da outra, na horizontal.

Enfiando a mão na abertura mais próxima, viu que era bastante profunda para acomodar o braço, até o cotovelo. Essa abertura, estando abaixo do fluxo da água, não tinha bordas cortantes, mas quando ele viu as de cima, além da marca da água, a forma era mais definida: eram quadradas e cortantes.

"Meu Deus, quanto tempo isso tem, para estar tão gasto?", perguntou-se maravilhado. "E como foi que alguém conseguiu vir até aqui para cavá-los?"

Apoiando-se no nicho mais próximo, examinou o padrão que eles seguiam.

"Por que alguém se daria a tanto trabalho?" Era difícil saber o motivo, e menos ainda com que propósito. "Quem terá feito tudo isso? O que veio fazer aqui embaixo?" Era um mistério intrigante.

Então outra coisa lhe chamou a atenção. Era uma saliência na pedra, precisamente no meio das duas fileiras e acima da marca da água. De longe pôde ver que era perfeitamente redonda — outra forma que não era natural.

Ele tateou um pouco mais longe, tentando alcançar uma posição de onde pudesse ver melhor. Parecia um tipo de escultura na pedra, uma placa que lhe lembrava muito as marcas nos penedos negros que flanqueavam o Nilo, abaixo das primeiras cataratas de Assuã, que desde a Antigüidade serviam para medir os níveis das águas do rio. Mas o sol já estava bastante baixo, e o ângulo era por demais estreito para lhe dar certeza de que fora feito pelo homem, e muito menos para que ele pudesse reconhecer ou ler qualquer escritura ou letra que tivessem sido incorporadas à forma.

Nicholas pensou num jeito de chegar mais perto, subindo pelos nichos. Foi com muito esforço que, pisando em um e segurando-se em outro, conseguiu erguer-se da água. Mas a distância para o próximo nicho era muito grande, e ele caiu de costas, engolindo mais água.

"Vamos com calma, amigo... você ainda vai ter de nadar muito para sair daqui. Não adianta nada se cansar. Volte outro dia para chegar mais perto e ver o que há ali."

Nesse momento, Nicholas se deu conta de que estava próximo do esgotamento total. As águas desciam geladas das montanhas do Choke, em memória da neve que tinham deixado para atrás. Ele tremia e batia os dentes.

"Não estou longe da hipotermia. Tenho de sair daqui agora, enquanto tenho forças."

Relutante, ele tomou impulso contra o paredão de pedra e nadou para a estreita passagem, onde o Rio Dandera recuperava toda a sua força para juntar-se à mãe Nilo. Quando sentiu que a correnteza o envolvia e atirava para a frente, parou de nadar e deixou-se levar.

"A montanha-russa do inferno!", disse consigo mesmo. "Descendo sempre, e onde termina ninguém sabe."

As primeiras corredeiras o golpearam. Elas pareciam infinitas, mas por fim ele foi jogado em águas mais calmas. Deitou-se de costas e boiou, tirando todo o proveito desse descanso, e olhou para cima. Havia pouquíssima luz, as pedras quase se encostavam no alto. A atmosfera era úmida e opressiva, recendia a morcegos.

Entretanto, houve pouco tempo para explorar os arredores, porque logo em seguida o rio voltou a trovejar. Ele preparou-se para o próximo assalto de águas turbulentas e despencou na encosta íngreme.

Depois de algum tempo Nicholas não sabia mais quanto já fora arrastado e a quantas corredeiras havia sobrevivido. Era uma batalha constante contra o frio e a dor nos pulmões exaustos, nos músculos sobrecarregados e nos nervos extenuados. O rio o espancava.

De repente, a luz se modificou. Depois do lusco-fusco dentro dos penhascos, foi como se uma lanterna se acendesse na frente de seus olhos, ao mesmo tempo que a força e a ferocidade do rio diminuíam. Ele semicerrou os olhos contra a luz, mas quando voltou a abri-los viu que passara pelo arco de pedra rosada; estava agora numa parte conhecida do rio, que já havia explorado com Royan. Viu aproximar-se a ponte suspensa de cipós trançados, mas só teve forças para dar fracas braçadas em direção a uma estreita faixa de areia branca que ficava abaixo dela.

Uma das trancas de cipó pendia na superfície da água; ele conseguiu segurá-la ao passar por baixo, e usou-a para sair da água. Nicholas queria arrastar-se mais para dentro da praia, mas caiu de rosto na areia e vomitou toda a água que havia engolido. Como era bom deitar-se para descansar sem ter de fazer nenhum esforço... As pernas e o quadril ainda estavam dentro do rio, mas suas forças só lhe permitiam ficar onde estava.

— Estou vivo — maravilhou-se, mergulhando num espaço entre o sono e a inconsciência.

Nicholas não soube por quanto tempo ficou ali, até sentir alguém sacudir seu ombro e chamar por ele; preferia não ter seu sono perturbado.

— Efêndi, acorde! Estão procurando o senhor. A bela Woizero procura o senhor.

Com esforço, Nicholas conseguiu soerguer-se e sentar devagar. Tamre estava ajoelhado ao seu lado, rindo e balançando a cabeça.

— Efêndi, venha comigo. Woizero está procurando do outro lado do rio. Ela está chorando e chamando pelo senhor.

Tamre era a única pessoa que Nicholas conhecia que conseguia mostrar-se preocupado e rir ao mesmo tempo. Foi então que ele se deu conta de que estava anoitecendo; o sol era um grande círculo vermelho na borda do escarpamento.

Nicholas sentou-se no chão e examinou o corpo para fazer um levantamento dos danos. Todos os músculos doíam, braços e pernas tinham hematomas e arranhões, mas não havia nenhum osso quebrado. Embora tivesse um galo no lado da cabeça, estava bastante lúcido.

— Ajude-me a levantar! — ordenou a Tamre. O menino passou o ombro sob o braço ferido de Nicholas e ajudou-o a ficar em pé. Os dois subiram o barranco cambaleantes, e ao longo da ponte instável equilibraram-se um no outro.

Mal chegaram do outro lado quando Nicholas ouviu um grito de alegria.

— Nicky! Oh, meu Deus! — Royan veio correndo pela trilha e atirou-se nos braços dele. — Eu já estava ficando maluca. Achei que... — Ela afastou-se para olhá-lo. — Você está bem? Esperava encontrá-lo todo quebrado...

— Você me conhece... — Ele riu, tentando não demonstrar as dores. — Um gigante à prova de bala. Você não vai se livrar tão cedo de mim. Só fiz isso para ganhar esse abraço.

Ela o soltou imediatamente.

— Não tire nenhuma conclusão. Eu sempre me preocupo com os animais abatidos e com quem os abateu. — Mas seu sorriso a traía. — Mesmo assim, que bom que esteja inteiro, Nicky!

— Onde está Boris? — ele perguntou.

— Ele e seus homens estão procurando rio abaixo. Devem estar atrás do seu cadáver.

— O que ele fez com o meu dik-dik?

— Realmente não há nada errado com você, para se preocupar com isso agora. Deve estar nas mãos dos coureiros no acampamento.

— Droga! Preciso estar lá para despelar o animal e eu mesmo preparar o couro. Eles vão estragar tudo! — Nicholas apoiou-se no ombro de Tamre. — Vamos, companheiro! Vamos ver se consigo correr.

A carcaça do pequeno antílope se decomporia rapidamente com o calor, e o pêlo poderia se desprender do couro se não fosse imediatamente tratado. Era imperativo despelar o animal imediatamente. Já passara muito tempo, e soltar o couro inteiro do corpo era um processo que exigia habilidade e paciência.

Já estava escuro quando Nicholas chegou ao acampamento, gritando em árabe para os coureiros:

— Ya, Kif! Ya, Salim! — Eles saíram correndo das cabanas, e ele perguntou ansioso: — Já começaram?

— Ainda não, efêndi. Estamos jantando primeiro.

— Pela primeira vez a gula é uma virtude. Não toquem no animal até eu chegar. Enquanto isso, peguem uns lampiões a gás. — Ele foi mancando para sua cabana o mais rápido que a dor lhe permitiu. Lá, desinfetou com mercurocromo todos os arranhões e cortes, vestiu roupas secas, procurou em sua mala o rolo de lona que continha suas facas e correu para a cabana onde estava a carcaça.

Sob a luz forte do lampião de butano, ele mal fizera as incisões iniciais sob as pernas e a barriga do dik-dik, quando Boris entrou.

— Foi bom o banho, inglês?

— Delicioso, obrigado — disse Nicholas, sorrindo. — Devo esperar que engula suas palavras sobre meu dik-dik listrado ou não? — perguntou delicadamente. — Acho que você disse que não existia esse animal dos infernos.

— Parece um rato. Um caçador de verdade não perde seu tempo com um lixo desses — Boris respondeu grosseiramente. — Agora que já tem seu rato, podemos voltar para Adis, inglês?

— Eu lhe paguei por três semanas. Este safári é meu. Voltaremos quando eu decidir — Nicholas avisou, e Boris saiu resmungando.

Nicholas trabalhou rápido. As facas tinham formatos especiais para facilitar o trabalho; eram afiadas a intervalos regulares em pedra de amolar, de modo que a lâmina cortasse os pêlos do braço a um leve toque.

As pernas tinham de ser despeladas ainda com as patas. Antes de terminar essa parte do trabalho, outra pessoa entrou na cabana. Usava um shamma de padre e turbante, e até ouvi-lo falar Nicholas não reconheceu Mek Nimmur.

— Soube que se meteu em confusão, Nicholas. Quis me certificar de que ainda estava vivo. Lá no mosteiro disseram que você tinha se afogado, mas eu sabia que era impossível. Você não morre tão fácil.

— Espero que tenha razão, Mek. — Nicholas riu. Mek agachou-se do outro lado.

— Empreste-me a faca para eu fazer as patas. Iremos mais depressa se eu o ajudar.

Nicholas não disse nada e deu-lhe uma das facas. Mek sabia fazer aquilo, porque há muitos anos ele próprio ensinara a arte ao outro. Com os dois trabalhando o couro, ia muito mais depressa. Quanto antes a pele fosse tirada, menos chance haveria de se deteriorar.

Nicholas concentrava-se na cabeça. Era a parte mais delicada do processo. A pele devia ser tirada como uma luva, e as pálpebras, os lábios e as narinas, cortados de dentro para fora. Eles trabalhavam em silêncio havia algum tempo quando Mek perguntou:

— Conhece bem esse russo, Boris Brusilov?

— Eu o vi pela primeira vez quando desci do avião. Foi recomendado por uma amiga.

— Que amiga! Vim preveni-lo sobre ele, Nicholas.

— Estou ouvindo.

— Em 1985 fui capturado pelos facínoras de Mengistu. Fiquei um ano no campo de prisioneiros Karl Marx, perto de Adis Abeba. Brusilov era um dos interrogadores do campo. Era da KGB na época. Sua maior diversão era enfiar o tubo de compressor no ânus do homem ou da mulher que interrogava e ligá-lo no máximo. Eles inchavam como balão, até explodir. — Mek parou para mudar de posição e ocupar-se da outra metade do animal. — Fugi antes de ser interrogado. Ele se aposentou quando Mengistu fugiu e virou caçador. Não entendo como convenceu Woizero Tessay a se casar com ele, mas, pelo que pude ver dela, só posso imaginar que não teve escolha.

— Certamente eu já desconfiava dele — admitiu Nicholas. Eles ficaram em silêncio, e Mek cochichou:

— Quero avisar que devo matá-lo.

Eles não conversaram mais até Mek terminar de trabalhar as quatro patas e levantar-se.

— Nos dias de hoje não se tem segurança, Nicholas. Se eu tiver de sair daqui às pressas e não puder me despedir de você, há alguém em Adis que me transmitirá suas mensagens, caso precise de mim. É um amigo meu. Seu nome é Coronel Maryam Kidane, do Ministério da Defesa. Meu codinome é Swallow. Ele vai saber de quem você está falando.

Eles se deram um rápido abraço.

— Vá com Deus! — disse Mek, saindo furtivamente da cabana. Nicholas ficou olhando sua figura negra ser engolida pela noite, e então voltou para continuar o trabalho.

Já era tarde quando terminou de esfregar todo o couro com uma mistura de sal grosso e pasta Kabra, para curá-lo e protegê-lo dos besouros, insetos e bactérias. Por fim, esticou-o no chão da cabana e jogou mais sal nas áreas ainda úmidas.

As paredes da cabana tinham sido rodeadas por armadilhas contra hienas, que poderiam engolir aquele couro em segundos. Nicholas viu se a porta estava bem fechada antes de seguir com o lampião para a cabana de refeição. Todos já haviam comido e dormiam há muito tempo,

mas Tessay deixara seu jantar a cargo do cozinheiro etíope. Nicholas não se deu conta da fome que sentia até sentir o cheiro da comida.

Na manhã seguinte Nicholas estava tão dolorido que se dirigiu curvado e mancando como um velho até a cabana onde deixara o couro. Examinou-o, despejou mais sal sobre ele, e depois ordenou a Kif e a Salim que enterrassem o crânio num formigueiro, para que as formigas retirassem o resto de carne e limpassem a cavidade. Ele preferia esse método a fervê-lo.

Satisfeito com a boa condição de seu troféu, foi para a cabana de refeições, onde Boris o recebeu jovialmente.

— E então, inglês? Vamos voltar para Adis agora? Não tem mais nada a fazer aqui.

— Quero fotografar a cerimônia do Timkat no mosteiro — Nicholas disse. — E depois quero caçar um bushbuck de Menelik. Por que não? E eu já lhe disse: só voltaremos quando eu quiser.

Boris não se mostrou nada satisfeito.

— Você é doido, inglês! Por que ficar neste calorão para ver essa gente?

— Hoje quero pescar, e amanhã vou assistir ao Timkat.

— Você não tem vara de pesca — Boris protestou, mas Nicholas abriu um pequeno rolo de lona, não maior que uma bolsa feminina, e mostrou uma vara Hardy Smugler de quatro seções acondicionada lá dentro.

Ele olhou para Royan, sentada na sua frente.

— Você vem comigo? — perguntou.

Eles subiram o rio até a ponte suspensa, onde Nicholas montou a vara e prendeu uma isca ao anzol.

— Royal Coachman. — Ele a ergueu à altura dos olhos. — Os peixes do mundo todo a adoram, da Patagônia ao Alasca. Vamos ver se também faz sucesso aqui na Etiópia.

Da margem do rio, Royan observou-o soltar a linha, chicoteá-la no ar e lançar o anzol ao meio do rio, onde a bóia flutuou nas ondulações da superfície. No mesmo instante a água se agitou sob a bóia. A vara se arqueou, o carretei girou e Nicholas deu um puxão para trás.

— Nossa, que beleza!

Royan continuava na margem, olhando o que lhe parecia um menino entusiasmado e excitado. Ela sorriu de satisfação, constatando que os ferimentos haviam cicatrizado rapidamente e que Nicholas não mais mancava enquanto corria de um lado para outro sobre a ponte, lutando com o peixe. Dez minutos depois, ele tirou o peixe da água, brilhante como uma barra de ouro e do tamanho de um braço, e soltou-o na areia, onde ele ficou saltando e se debatendo.

— Peixe amarelo — ele gritou triunfante. — Uma delícia! Já temos comida para amanhã.

Ele subiu o barranco e sentou-se na grama ao lado de Royan.

— Pescar foi só uma desculpa para nos afastarmos de Boris. Trouxe você aqui para lhe contar o que vi ontem. — Ele apontou para o arco de pedra além da ponte. Ela soergueu-se nos cotovelos e olhou atentamente para ele.

— Claro que não posso dizer se tem algo a ver com nossa busca, mas alguém andou trabalhando lá em cima. — Ele descreveu os nichos que encontrara nas paredes do penhasco. — Vêm da beira do abismo até a superfície da água. Os que ficam abaixo do nível da cheia estão bem desgastados. Não pude chegar mais alto, mas até onde pude ver os outros estão protegidos do vento e da chuva pela curvatura do rochedo. Parece que estão em estado puro, muito diferentes dos que ficam mais embaixo.

— E o que concluiu disso? — ela perguntou.

— Que são muito antigos — respondeu Nicholas. — Certamente é basalto muito rígido. Deve ter levado um tempo enorme para a água desgastá-los daquela forma.

— Para que você acha que servem os buracos?

— Não sei — ele admitiu.

— Poderiam servir de apoio para algum tipo de andaime? — Royan perguntou, e ele mostrou-se impressionado.

— Boa idéia! E, poderiam ser...

— O que mais lhe ocorre?

— Desenhos ritualísticos? — sugeriu. — Motivos religiosos? — Ele riu ao ver a expressão da companheira. — Está bem, não estou sendo muito convincente.

— Então vamos considerar o andaime. Por que alguém construiria um andaime num lugar daquele? — Royan deitou-se no chão, mordiscando um caule de grama.

Ele deu de ombros.

— Para apoiar uma escada ou um guindaste e ter acesso ao alto do penhasco?

— E por que mais?

— Não consigo pensar em mais nada. Pouco depois ela balançou a cabeça.

— Eu também não — disse, cuspindo o pedacinho de grama. — Se for esse o motivo, então fizeram um bom trabalho. Pelo que você descreveu, devia ser uma estrutura e tanto, planejada para sustentar o peso de muitos homens ou de material pesado.

— Na América do Norte, os peles-vermelhas também construíam plataformas de pesca sobre as cachoeiras.

— Será que se pescava nestas águas? — ela perguntou, e Nicholas novamente ergueu os ombros.

— Não sei dizer... Talvez há muito tempo... quem sabe?

— E o que mais você viu lá?

— No alto do paredão, alinhada com precisão matemática entre as duas fileiras de nichos, havia alguma coisa parecida com um baixo-relevo na pedra.

Ela sentou-se de um salto e olhou-o avidamente.

— Você pôde ver isso? Havia inscrições ou desenhos? Qual era o estilo da escultura?

— Não tive tanta sorte. Estava alto demais, e embaixo havia pouca luz. Não sei nem se era uma imperfeição natural da pedra.

Ela ficou claramente decepcionada, mas em seguida perguntou:

— Havia mais alguma coisa?

— Sim — ele riu. — água por todo lado, correndo numa velocidade louca.

— E o que vamos fazer com esse seu suposto baixo-relevo? — ela perguntou.

— Não gosto muito da idéia, mas terei de voltar para olhar melhor.

— Quando?

— Amanhã é o Timkat, nossa única chance de entrar no maqdas da catedral. Depois faremos um plano para explorar a garganta.

— Estamos correndo contra o tempo, Nicholas, justo agora que as coisas estão ficando interessantes.

— Diga isso de novo! — ele murmurou, e Royan sentiu a respiração dele em seus lábios. Seus rostos estavam próximos como os de conspiradores ou amantes. Então Royan percebeu o duplo sentido de suas palavras e imediatamente se levantou, tirando a areia e a grama de suas roupas.

— Só temos um peixe para alimentar toda aquela gente. Ou você é muito sabido, ou vai ter de pescar mais.

Os dois debteras que haviam sido escalados pelo abade para escoltá-los seguiam na frente, abrindo caminho por entre a multidão, mas foram engolidos por ela quando chegaram ao pé da escadaria. Nicholas e Royan ficaram separados das outras pessoas.

— Fique perto de mim — Nicholas falou, segurando-a pelo braço e usando o próprio ombro para abrir caminho, levando-a bem junto de si. Obviamente, ele se haviam separado propositadamente de Boris e Tessay, e até então tudo o que tinham planejado estava dando certo.

Nicholas conseguiu chegar a uma das colunas de onde tinha uma boa visão da entrada da catedral; teve de escorar-se nela para evitar que a multidão os arrastasse. Royan não tinha altura suficiente para enxergar acima das cabeças, de modo que Nicholas a ajudou a subir na balaustrada da escadaria e segurou-a com firmeza. Ela se apoiou em seus ombros, pois logo atrás a escada começava a descer para o Nilo.

Os religiosos entoavam um canto baixo e monótono, acompanhados por grupos de músicos que tocavam tambores e tangiam os sistros. Cada um desses conjuntos rodeava seu patrono, um líder esplendidamente trajado, que era levado sob uma ampla sombrinha.

Havia um clima de animação e expectativa quase tão forte quanto o calor e o mau cheiro. Logo tudo isso se intensificou, e, à medida que o canto aumentava em volume e estridência, a multidão começou a se balançar para um lado e para outro num movimento ondulante, como uma ameba viva e grotesca.

De repente, no interior da catedral soou um carrilhão de sinos de bronze, e imediatamente uma centena de cornetas e trompetes responderam. No alto da escada eclodiu uma fuzilaria: eram os guarda-costas dos líderes, que disparavam suas armas para o ar.

Alguns usavam rifles automáticos, e o tiroteio dos AK-47 se misturava ao estrondo de antigas armas carregadas pela boca. Nuvens de fumaça azulada erguiam-se no ar, as balas ricocheteavam nos rochedos e se perdiam na garganta. As mulheres gritavam agudamente e ululavam num tom lúgubre de fazer gelar o sangue. Com o rosto iluminado pelo fervor religioso, os homens caíam de joelhos e levantavam os braços em adoração, cantando e implorando as bênçãos divinas. As mães erguiam os filhos sobre a cabeça, com lágrimas de um frenesi religioso derramando-se por suas faces escuras.

Pela porta da catedral subterrânea emergiu uma procissão de monges e padres. Primeiro vinham os debteras com suas túnicas brancas, seguidos pelos acólitos que seriam batizados na margem do rio. Royan reconheceu Tamre, que se destacava em altura dos rapazes a seu redor. Ela acenou por cima da multidão; ele a viu, sorriu timidamente e acompanhou os debteras na descida para o rio.

A tarde caía. O fundo do caldeirão estava oculto pelas sombras, e acima dele já despontavam as primeiras estrelas num céu cor de púrpura. À beira do caminho ardia uma grande fogueira, e os padres que por ali passavam enfiavam uma tocha apagada nas chamas e erguiam-na acesa.

Como uma torrente de lava derretida, a procissão iluminada desenrolava-se pelo penhasco, fazendo ecoar no desfiladeiro o canto lastimoso dos adoradores e a batida dos tambores.

Atrás dos candidatos ao batismo vinham os padres já ordenados, com trajes espalhafatosos, erguendo acima da cabeça cruzes cerimoniais de prata e bronze, e estandartes de seda bordada com imagens de santos na agonia do martírio ou em adoração extática. Tocavam sinos e sopravam pífanos e entoavam um canto monótono, enquanto transpiravam e rolavam os olhos para cima.

Atrás deles, trazido por dois padres em trajes suntuosos, com altos toucados incrustados de pedras preciosas, vinha o tabot. A Arca do Tabernáculo estava coberta por um pano amarelo que chegava até o chão, pois era por demais sagrada para que o olhar profano a contaminasse.

Os crentes atiraram-se ao chão no mais pleno paroxismo da fé. Até os líderes prostravam-se sobre a pedra, alguns derramando lágrimas de fervor.

Por último vinha Jali Hora, não usando a coroa com a pedra azul, mas outra muito mais esplendorosa, a coroa da Epifania, um bloco de metal polido com falsas pedras cintilantes, que parecia muito pesada para seu velho e cansado pescoço. Dois debteras o levavam pelos braços e guiavam seus passos incertos pela escadaria.

A procissão já estava a caminho, de modo que os últimos adoradores paravam próximo à escada, diante de Nicholas e Royan, para acender suas tochas e seguir o abade. Houve uma movimentação geral das pessoas para juntar-se ao fluxo; quando começou a esvaziar, Nicholas ajudou Royan a descer da balaustrada.

— Precisamos entrar na igreja enquanto há gente aqui para nos encobrir — ele cochichou em seu ouvido. Puxando-a pela mão, e com a outra segurando a alça da bolsa onde estava a câmera, Nicholas meteu-se entre os que se dirigiam para a escada. Permitiu que a multidão os empurrasse para a frente, mas o tempo todo tentava cortar por entre a corrente humana em direção à entrada da catedral. Viu Boris e Tessay mais adiante, mas eles não o viram, pois Nicholas abaixou-se logo e conseguiu se esconder.

Na frente do portão da catedral, ele puxou Royan para longe da multidão e ajudou-a a passar pelo pórtico baixo e entrar na igreja deserta e sombria. Com um rápido olhar, conferiu se estavam realmente sozinhos e se não havia mais ninguém guardando as portas internas. Encostado à parede lateral da igreja, Nicholas alcançou rapidamente uma das tapeçarias que iam do teto ao chão. Ergueu as pontas de lã pesada e entrou com Royan atrás da tapeçaria; em seguida soltou as pontas no chão e ali ficaram escondidos.

Foi no momento certo, porque mal se haviam encostado à parede quando ouviram passos saindo do qiddist. Nicholas espiou pela fresta da tapeçaria e viu quatro padres atravessarem a nave externa, saírem pelo portão e fechá-lo em seguida. Eles ouviram o peso da tranca de metal sendo travada e, em seguida, fez-se um profundo silêncio na caverna.

— Não posso acreditar! — Nicholas cochichou. — Eles nos trancaram aqui!

— Pelo menos sabemos que não seremos perturbados — Royan respondeu rispidamente. — Podemos trabalhar agora mesmo.

Eles deixaram o esconderijo e atravessaram a câmara exterior em direção à entrada do qiddist. Aí Nicholas parou e segurou-lhe o braço.

— Daqui para a frente entramos em território proibido. É melhor eu ir sozinho para sondar o terreno.

Ela sacudiu a cabeça com firmeza.

— Você não vai me deixar aqui. Estou junto com você para tudo. — Ele viu que era melhor não discutir.

— Vamos, então. — Nicholas a ajudou a subir os degraus e deixoua entrar na frente.

A câmara intermediária era menor e mais baixa do que aquela em que estavam. As tapeçarias eram mais ricas e mais bem conservadas. Não havia nada no chão, a não ser uma estrutura piramidal de madeira, ornada com fileiras de lamparinas de bronze, cada uma delas com sua pequena chama flutuando numa poça de óleo. Essa fraca luminosidade era a única existente; o teto e o interior da câmara ficavam obscuros.

Quando atravessavam a câmara em direção aos portões do maqdas, Nicholas pegou duas lanternas na bolsa e deu uma para Royan.

— A bateria é nova — avisou —, mas não desperdice. Talvez fiquemos aqui a noite toda.

Eles pararam diante da porta do Sacrário dos Sacrários. Nicholas fez um rápido reconhecimento. As almofadas das portas eram esculpidas com imagens de São Frumêncio, com a cabeça envolta em radiância celestial e a mão direita erguida numa bênção.

— Tranca primitiva — ele murmurou —, deve ter centenas de anos. Seria possível passar um chapéu pelo vão entre o buraco da chave e a lingüeta. — Ele enfiou a mão na bolsa e pegou um canivete de utilidades.

— Coisinha esperta, essa aqui. Com isso se pode fazer qualquer coisa, desde arrancar pedras dos cascos de um cavalo até abrir o cadeado de um cinto de castidade.

Ele ajoelhou-se diante da fechadura de ferro maciço e abriu uma das múltiplas lâminas da ferramenta. Royan esperava ansiosamente, e levou um pequeno susto quando a lingüeta da fechadura cedeu.

— Não sabia que dentre todos os seus talentos você também era arrombador — ela comentou.

— Às vezes é necessário. — Nicholas levantou-se e forçou um lado do portão com o ombro. As dobradiças ressecadas rangeram. Nicholas empurrou o portão o suficiente para passar e fechou-o imediatamente depois.

Eles estavam lado a lado sob o umbral do maqdas, e o olharam num silêncio reverente.

O Sacrário dos Sacrários era uma pequena câmara, muito menor do que ambos imaginavam. Nicholas a atravessaria em dez passos. O teto abobadado era tão baixo que, se ficasse na ponta dos pés, poderia tocá-lo com as mãos esticadas.

Desde o piso até o topo das paredes havia prateleiras onde ficavam os presentes e as oferendas dos fiéis, ícones da Santíssima Trindade e da Virgem em estilo bizantino, emoldurados com prata trabalhada. Havia coleções de estatuetas de santos e imperadores, medalhões e braceletes de metal polido, potes e tigelas com velas votivas que ofereciam uma luminosidade incerta. Era uma extraordinária coleção de tesouros e quinquilharias, de objetos preciosos e bricabraque enfeitado, oferecidos como artigos de fé por imperadores e chefes etíopes ao longo dos séculos.

No meio da câmara havia um altar de cedro cujas laterais eram esculpidas com cenas delirantes da revelação e da criação, da tentação e expulsão do paraíso, e do Juízo Final. As toalhas eram de seda rústica trabalhada, e a cruz e o cálice, de prata maciça. A coroa do abade brilhava à chama das velas, ostentando em seu bojo o selo azul de Taita.

Royan atravessou a câmara e ajoelhou-se diante do altar, baixou a cabeça e rezou. Nicholas esperou respeitosamente na porta até que ela se levantasse e voltasse até ele.

— A pedra do tabot! — Ele apontou para além do altar, e ambos dirigiram-se para lá. Atrás do maqdas havia um volume coberto com um pesado tecido adamascado, bordado com fios de prata e de ouro. Pela forma podiam-se perceber as proporções elegantes e delicadas, da altura de um homem.

Eles rodearam o objeto, examinando atentamente sua forma, mas relutaram em tocar o tecido ou erguê-lo. Temiam que suas expectativas não fossem correspondidas e suas esperanças, arrastadas como as turbulentas águas do caldeirão do Nilo. Nicholas desfez a tensão: afastou-se da pedra do tabot e foi até o portão na parede posterior do santuário.

— O túmulo de São Frumêncio! — disse, segurando-se na grade de madeira. Ela foi para o lado dele e, juntos, ficaram espiando através das molduras escurecidas pelo tempo. Lá dentro estava escuro. Nicholas enfiou a lanterna num dos quadrados e ligou-a.

O túmulo foi iluminado por um arco-íris de cores tão claras ao redor do facho que levou algum tempo para seus olhos se adaptarem. Então Royan deu um grito:

— Oh, meu Deus! — Ela começou a tremer e seu rosto ficou branco. O caixão estava colocado numa prateleira de pedra na parede da

frente. Por fora havia uma pintura do homem que estava lá dentro. Embora estivesse bastante descorada, e parte da tinta descascada, o rosto claro e a barba ruiva ainda podiam ser discernidos.

Mas esse não era o único motivo do espanto de Royan. Seus olhos estavam fixos nas paredes laterais e superior da prateleira em que ficava o caixão. Havia uma profusão de cores, e cada centímetro era coberto por intricados desenhos, milagrosos sobreviventes de milênios.

Nicholas iluminava-os sem dizer palavra; Royan segurou-se nele para não cair. Suas unhas afiadas enfiaram-se na pele, mas ele nem se deu conta da dor.

Eram cenas de grandes batalhas: destemidas galés enfrentando-se em combates terríveis sobre as águas eternas do rio. E cenas de caça: a perseguição de hipopótamos e grandes elefantes com longas presas de marfim. Batalhões com armaduras emplumadas digladiavam-se com fúria e desejo sanguinário. Esquadrões de carros de guerra enfrentavam-se ao longo das paredes estreitas, obscurecidos pela própria poeira que levantavam.

O primeiro plano desses murais era dominado pela mesma figura alta e heróica. Numa das cenas, o homem esticava seu arco, em outra esquivava-se de uma lâmina de bronze. Seus inimigos derrotados ficavam para trás, ele os perseguia ou erguia nas mãos as cabeças arrancadas como um buquê de flores.

Nicholas correu o foco da lanterna sobre toda essa obra de arte e parou num painel central que revestia a parede principal da prateleira, onde a mesma divindade conduzia seu carro de guerra. Numa das mãos levava o arco e na outra um feixe de dardos. Não usava capacete, e seus cabelos esvoaçavam ao vento como a juba dourada de um leão. Tinha feições nobres e altivas, o olhar direto e indômito.

Atrás, uma legenda em hieroglifos clássicos. Num sussurro sepulcral Royan traduziu:

Grande Leão do Egito. O Melhor entre Cem Mil

Portador do Ouro da Bravura Companheiro Único do Faraó Guerreiro de Todos os Deuses Que viva para sempre!

A mão de Royan tremeu no braço de Nicholas e sua voz ficou embargada pela emoção. Ela gemeu baixinho e estremeceu enquanto tentava retomar o controle.

— Conheço o artista. Passei cinco anos estudando seu trabalho. Tenho certeza absoluta de que há quase quatro mil anos Taita, o escravo, decorou estas paredes e desenhou a tumba.

Ela apontou o nome do homem morto esculpido na pedra sobre a prateleira.

— Não é o túmulo de um santo cristão. Séculos atrás, um velho padre deve ter tropeçado nisto e, na sua ignorância, usurpou-o para sua própria religião. — Ela suspirou. — Veja ali! É o selo de Tanus, o Senhor Harrab, comandante de todos os exércitos do Egito, amante da Rainha Lostris e pai natural do Príncipe Memnon, que se tornou o Faraó Tamose.

Ficaram ambos em silêncio, maravilhados pela descoberta. Nicholas foi o primeiro a falar.

— É tudo verdade, então. Os segredos do sétimo papiro estão aqui, se conseguirmos encontrar a chave deles.

— Sim — ela disse baixinho. — A chave. O testamento em pedra de Taita. — Ela virou-se para a pedra do tabot e foi se aproximando devagar, temerosamente.

— Não estou agüentando de vontade de olhar, Nicky, mas morro de medo de que não seja o que esperamos. Faça-o você!

Ele dirigiu-se ao pedestal e, com um floreio de mágico, puxou o tecido adamascado que o revestia. Embaixo havia um bloco de granito cor-de-rosa. Tinha cerca de um 1,80 metro de altura e 30 centímetros quadrados na base, afunilando-se para metade dessa largura até o topo plano. O granito fora polido e depois gravado.

Royan deu um passo e tocou a pedra, correndo os dedos pelos hieroglifos como um cego lendo Braille.

— É a mensagem de Taita para nós — ela sussurrou, destacando o símbolo do falcão de asa quebrada do resto da inscrição e traçando seu contorno com o dedo longo, um pouco trêmulo. — Escrito há quatro mil anos e esperando todo esse tempo para que nós o leiamos e decifremos. Veja como ele o assinou. — Devagar, ela rodeou o pilar de granito, estudando cada um dos lados, sorrindo e balançando a cabeça, franzindo a testa e voltando a sorrir, como se lesse uma carta de amor.

— Leia para mim — ele pediu. — É muito complicado... eu entendo os caracteres, mas não compreendo o significado. Explique-me.

— E puro Taita. — Ela ria do próprio espanto e encantamento, que logo deram lugar à excitação. — Esse é seu típico jeito obscuro e caprichoso. — Ela parecia falar de um velho amigo que, apesar de adorável, sabia ser irritante. — Está todo em versos e, provavelmente, em algum código esotérico. — Royan escolheu uma linha de hieroglifos e seguiua com o dedo, traduzindo em voz alta: — "O abutre voa aos mais altos píncaros para saudar o sol. O chacal uiva e ergue a cauda. O rio corre para a terra. Acautela-te, violador de lugares sagrados, que a ira de todos os deuses se voltará contra ti!"

— Não tem sentido. É uma bobagem — ele protestou.

— Ah, tem sentido sim. Taita sempre tem sentido, se a gente conseguir acompanhar sua mente oblíqua. — Ela o olhou diretamente. — Não seja tão mal-humorado, Nicky. Não vai querer ler Taita como um editorial do Times. Ele nos deu um enigma que pode levar semanas ou meses para ser decifrado.

— Bem, de uma coisa tenho certeza: não vamos poder passar semanas ou meses aqui no maqdas para resolver essa charada. Vamos trabalhar.

— Primeiro as fotos. — Ela tornou-se direta e objetiva. — Depois poderemos decalcar as inscrições.

Nicholas pegou a câmera na bolsa.

— Antes vou tirar dois rolos de filme colorido, depois usarei a Polaroid. Teremos alguma coisa para trabalhar até que as fotos sejam reveladas.

Royan saiu do caminho para que ele rodeasse o pilar de joelhos, mantendo o ângulo certo para não distorcer a perspectiva. Tirou várias fotos de cada lado, com diferentes velocidades e exposições.

— Não gaste todos os filmes — ela avisou. — Precisaremos de algumas fotos do túmulo.

Obediente, ele foi para o portão gradeado e examinou a fechadura.

— É um pouco mais complicada que a das portas externas. Se eu tentar abrir, posso estragar. Não vale a pena arriscar que nos descubram.

— Está bem — ela concordou. — Fotografe através da grade do portão.

Nicholas fotografou o melhor que pôde, estendendo a câmera pelas aberturas o máximo que seus braços permitiam e calculando de longe o foco.

— Isso é o bastante — ele disse por fim. — Agora, as Polaroids. — Trocou de câmera e repetiu todo o processo, mas desta vez Royan segurou uma fita métrica contra o pilar para fornecer a escala.

Ele mostrava a ela cada foto para conferir a seqüência. Em uma ou duas vezes em que o flash automático deixou a foto estourada ou muito escura, ou por outro motivo qualquer Royan não havia ficado satisfeita a foto foi refeita.

Após quase duas horas de trabalho eles já tinham uma coleção de Polaroids; Nicholas guardou as câmeras na sacola e pegou o papel de desenho. Os dois trabalharam juntos, esticando o papel sobre o pilar e fixando-o no lugar com fita adesiva. Então ele começou de um lado e ela do outro. Cada um com um lápis preto, riscavam o papel por cima da forma e dos contornos exatos dos relevos.

— Aprendi como isto é importante quando se trata de Taita. Se a gente não puder trabalharam o original, é melhor ter uma cópia exata. Às vezes um entalhe mínimo no desenho pode alterar um fundo oculto. Você leu em O Último Deus do Nilo que ele se considera o charadista e trocadilhista perfeito, e o maior expoente do jogo de bao que jamais existiu. Bem, nesse aspecto o livro é acurado. Esteja ele onde estiver agora, sabe que o jogo começou e que está sendo revelado a cada movimento que fizermos. Posso imaginá-lo rindo e esfregando as mãos de satisfação.

— Quanta imaginação, mocinha! — Nicholas voltou a trabalhar. — Mas sei o que quer dizer.

A tarefa de transferir os contornos dos desenhos para as folhas de papel era monótona e cansativa; as horas se passaram enquanto eles trabalhavam de joelhos ou debruçados sobre o pilar de granito. Por fim, Nicholas endireitou-se e esfregou as costas doloridas.

— Está feito. Terminamos. Royan ergueu-se ao lado dele.

— Que horas são? — Ele olhou o relógio de pulso.

— Quatro da madrugada. É melhor arrumarmos isto aqui. Não podemos deixar nenhum sinal de nossa visita.

— Uma última coisa — disse Royan, rasgando um pedaço de papel e levando-o para o altar onde estava a coroa do abade. Rapidamente, fixou o papel sobre o selo de cerâmica no centro da coroa e decalcou o desenho do falcão de asa quebrada.

— Só para garantir — ela explicou, voltando para junto de Nicholas e ajudando-o a guardar os papéis dentro da bolsa. Em seguida, recolheram os retalhos de fita adesiva e as embalagens de filmes que haviam deixado pelo local.

Antes de cobrir novamente a peça de granito com o tecido adamascado, Royan acariciou as inscrições sobre a pedra, como se nunca mais fosse vê-las. Então fez sinal para Nicholas.

Ele estendeu o tecido sobre o pilar e os dois ajustaram as pontas como as haviam encontrado. Do umbral da porta, deram uma última olhada para o maqdas e saíram.

— Vamos! — Ela se espremeu na pequena passagem e Nicholas a seguiu para dentro do qiddist. Em poucos minutos ele recolocou no lugar a lingüeta da fechadura.

— Como vamos sair pela porta da frente? — Royan perguntou.

— Acho que não será necessário. Os padres certamente possuem outra entrada que dá diretamente para seus claustros. Raramente os vemos entrar pela porta principal. — Ele parou no meio da nave e olhou ao redor atentamente. — Os claustros devem ficar deste lado... — e exclamou com satisfação: — Ah! Veja como o piso ali está mais gasto. É por ali que eles passam, há muito tempo. — Nicholas apontou para uma área de pedra lisa e desgastada junto à parede. — E veja as marcas de dedos engordurados naquela tapeçaria. — Ele correu para a tapeçaria e afastou um dos lados. — Acertei! — Atrás dela havia uma porta estreita. — Siga-me.

Entraram num corredor escuro escavado na pedra. Nicholas apontava a lanterna para a frente, mas cobria o facho de luz com a mão para iluminar apenas o necessário.

— Por aqui.

O corredor dobrou num ângulo reto e logo à frente surgiu uma fraca luminosidade. Nicholas desligou a lanterna e levou Royan pela mão.

Sentiram cheiro de gente e de comida quando cruzaram o arco de uma cela. Nicholas acendeu a lanterna. Estava deserta e vazia. Havia uma cruz de madeira na parede sobre um catre e nenhum outro móvel. Passaram por dezenas de outros quartos quase idênticos.

Na virada seguinte do corredor, Nicholas parou e sentiu um leve sopro de ar puro no rosto e na língua.

— Por aqui — sussurrou.

Andavam depressa, mas subitamente Royan segurou o ombro dele e obrigou-o a parar.

— O que... — ela começou, mas Nicholas apertou sua mão para silenciá-la. Ele também ouvia uma voz humana ecoando pelo labirinto de corredores.

Logo em seguida, um choro estranho, como que de agonia, com soluços e gemidos. Eles avançaram com cuidado, para sair dali antes que fossem apanhados, mas o som aumentava à medida que prosseguiam.

— Está bem na frente — Nicholas avisou-a em voz baixa. — Vamos ter de passar por ele.

Viram então uma luzinha amarelada saindo de um dos claustros. Logo depois, um gemido feminino ecoou pelo corredor e os fez parar onde estavam.

— É voz de mulher. O que está havendo? — Royan cochichou, mas ele pediu que fizesse silêncio. Tinham de passar pela cela iluminada.

Nicholas avançou nessa direção com as costas coladas à parede, e Royan o seguiu, segurando seu braço.

Quando olharam para dentro da cela, a mulher gritou outra vez, mas agora seu grito se misturava a sons masculinos. Era um dueto sem palavras, torturado pela agonia da paixão.

Viram então um casal despido, sobre uma cama. A mulher estava deitada por baixo, prendendo o quadril do homem entre seus joelhos semi-erguidos. Ela abraçava suas costas, cujos músculos saltavam sob a pele suada. Ele a penetrava selvagemente, contraindo e abaixando as nádegas, arremetendo-se para a frente como um grande aríete negro.

Ela girava a cabeça de um lado para outro, e ao mesmo tempo emitia sons incoerentes. Quando parecia não suportar mais o peso, ele empinou o tronco como uma cobra fulgurante, as ancas ainda coladas às dela, as costas arqueadas para trás como um arco de guerra, e entrou numa série de espasmos. Os nervos de suas pernas se esticaram e os músculos das costas vibravam e saltavam para fora como criaturas independentes.

A mulher abriu os olhos e olhou diretamente para Nicholas e Royan, que estavam transfixados na porta, mas estava cega de paixão. Tinha um olhar esgazeado e ao mesmo tempo chorava para o homem em cima dela.

Nicholas e Royan conseguiram passar pelo claustro sem ser vistos e saíram para o terraço deserto. No alto da escada, aspiraram o ar fresco da madrugada, perfumado pelas águas do Nilo.

— Tessay o escolheu — Royan disse baixinho.

— Pelo menos por esta noite — concordou Nicholas.

— Não — ela protestou. — Eu vi a expressão dela, Nicky. Agora pertence a Mek Nimmur.

aurora coloria os cumes dentados do escarpamento com tonalidades de rosa e vermelho quando eles entraram no acampamento e separaram-se diante da cabana de Royan.

— Estou arrebentada — ela disse a Nicholas. — A emoção acabou comigo. Não me verá até a hora do almoço.

— Bem pensado! Durma quanto quiser. Quero que esteja cintilante e perceptiva quando começarmos a mexer nesse material todo.

Faltava muito ainda para a hora do almoço, contudo, quando Nicholas foi arrancado de um sono profundo pelo vozeirão intromissor de Boris em sua cabana.

— Inglês, acorde! Preciso falar com você. Acorde, homem, acorde! Nicholas virou-se na cama e tirou um braço para fora do lençol

para olhar o relógio.

— Que diabo, Brusilov! O que é que você quer?

— Minha mulher! Viu minha mulher?

— O que é que sua mulher tem a ver comigo?

— Ela se foi! Não a vejo desde ontem à noite.

— Da maneira como você a trata, isso não é nenhuma surpresa. Agora saia daqui e me deixe dormir.

— A cadela fugiu com aquele negro bastardo, o Mek Nimmur. Sei tudo sobre eles. Não tente protegê-la, inglês. Sei tudo o que está acontecendo aqui. Você está querendo encobri-la, admita!

— Saia daqui, Boris. Não queira me envolver em sua sórdida vida privada.

— Vi você e aquele shufta bastardo conversando na cabana, na outra noite. Não tente negar, inglês. Você também está metido nisso.

Nicholas ergueu o mosquiteiro e saltou da cama.

— Modere sua linguagem quando fala comigo, seu grande imbecil. Boris recuou para a porta.

— Sei que ela fugiu com ele. Procurei por eles a noite toda lá no rio. Eles se foram, com a maioria dos homens deles.

— Melhor para Tessay. Ela demonstrou que sabe escolher.

— Está achando que vou deixar a cadela ir embora assim? Pois está errado, muito errado. Vou atrás deles e matar os dois. Sei para que lado foram. Você pensa que sou bobo? Sei tudo sobre Mek Nimmur. Ele é o chefe do serviço secreto... — Boris parou ao perceber o que disse. — Vou atirar na barriga dele, e ela vai assistir à sua morte.

— Se for atrás de Mek Nimmur, meu palpite é que não voltará mais.

— Não me conhece, inglês. Você me derrubou na outra noite quando eu tinha uma garrafa de vodca na barriga, por isso pensa que é fácil, não é? Bem, o Mek Nimmur vai ver como sou bonzinho.

Boris saiu da cabana. Nicholas vestiu uma camisa em cima do short e foi atrás.

— Deixe-os ir, Boris — Nicholas aconselhou-o num tom mais razoável. — Mek é mais forte e tem homens muito bem treinados. Você já tem idade suficiente para saber que nunca se toma uma mulher pela força. Deixe-a ir!

— Não quero ficar com ela. Quero matá-la. O safári terminou, inglês. — Ele jogou aos pés de Nicholas um par de chaves presas a um chaveiro de couro. — São do Land Cruiser. Volte sozinho daqui. Mandarei quatro dos meus melhores homens para cuidar de você e levá-lo pela mão. Quando chegar a Adis, deixe as chaves do caminhão com Aly. Sei onde encontrá-lo. Mandarei o dinheiro que lhe devo pelo cancelamento. Não se preocupe. Sou um homem de princípios.

— Nunca duvidei disso. — Nicholas sorriu. — Adeus, companheiro. Desejo-lhe sorte. Vai precisar de muita quando encontrar Mek Nimmur.

Boris estava várias horas atrás de seu objetivo, e saiu do acampamento a passos rápidos pela trilha que dava no caminho principal para o oeste, na direção da fronteira sudanesa. Marchava como um escoteiro em ritmo constante e decidido.

— Parece que ele continua em forma, apesar da vodca — comentou Nicholas, impressionado. — Mas será que vai conseguir manter esse passo?

Ele voltou para a cabana para dormir mais um pouco, mas ao passar pela de Royan ela enfiou a cabeça pela porta.

— Que gritaria foi essa? Você e Boris tiveram outra discussão?

— Tessay armou uma confusão. Boris adivinhou que ela se foi com Mek e saiu atrás deles.

— Oh, Nicky, não podemos avisá-los?

— Não há nenhuma chance. Mas, se conheço bem Mek, ele sabe que Boris iria segui-los. Na verdade, pensando melhor, ele deve estar mesmo esperando por essa oportunidade. Não, Mek não precisa de nós. Volte para a cama!

— Não vou conseguir dormir. Estou excitada demais. Estive olhando as Polaroids que tiramos ontem à noite. Taita nos deu um prato cheio. Venha dar uma olhada nisso.

— Posso dormir mais uma hora? — implorou Nicholas.

— Venha imediatamente — ela disse rindo.

As Polaroids e os papéis com decalques estavam espalhados sobre uma mesa baixa; Royan convidou-o a sentar-se ao seu lado.

— Enquanto você roncava, fiz alguns progressos. — Ela dispôs quatro Polaroids lado a lado e segurou a lente de aumento sobre elas. Era um modelo profissional de lente, que revelava todos os detalhes da fotografia. — Taita colocou em cada canto do monólito o nome de uma estação do ano: primavera, verão, outono e inverno. O que acha que ele pretendia?

— Numerar as páginas?

— Exatamente o que pensei — ela concordou. — Os egípcios consideravam a primavera o início da nova vida. Ele está nos dizendo em que ordem ler os painéis. Este é a primavera — disse ela escolhendo uma das fotos. — Começa com as quatro citações-padrão do Livro dos mortos. — E citou em voz alta: — "Sou a primeira brisa que sopra suavemente no negro oceano da eternidade. Sou o primeiro raio de sol. O primeiro brilho de luz. Uma pena branca levada pela brisa da aurora. Sou Rá. Sou o início de todas as coisas. Viverei para sempre. Jamais perecerei". — Royan olhou para Nicholas. — Pelo que vejo, não diferem substancialmente do original. Poderemos retomar isso mais tarde.

— Vamos seguir sua intuição — ele sugeriu. — Leia a próxima seção.

Royan segurou a lente sobre a foto.

— Não vou olhar para você enquanto estiver lendo. Taita consegue ser mundano como Rabelais quando tem vontade. Enfim, vamos lá. "A filha da deusa anseia por sua feminilidade. Ruge como uma leoa e corre ao seu encontro. Salta montanhas, e suas presas são brancas. Ela é a meretriz do mundo. De sua vagina jorram fortes torrentes. Sua vagina engoliu um exército de homens. Seu sexo tragou pedreiros e talhadores de pedra. Sua vagina é um polvo que engoliu até um rei."

— Olhe só! — Nicholas zombou. — Bastante suculento, não acha? — Ele inclinou-se para olhar para Royan, que baixara o rosto. — Puxa, mocinha, suas faces estão coradas. Não ficou envergonhada, ficou?

— Este seu sotaque escocês não é nada convincente — ela disse friamente, ainda sem olhar para ele. — Quando terminar de se divertir à minha custa, pode me dizer o que acha do que acabei de ler?

— Além do óbvio, não tenho a menor idéia.

— Quero lhe mostrar uma coisa. — Ela levantou-se e guardou as fotos e os rolos de papel dentro da sacola de lona. — Vai ter de vestir botas. Vou levá-lo para um pequeno passeio.

Uma hora depois, estavam no meio da ponte suspensa, que balançava suavemente sobre as águas do Rio Dandera.

— Hapi é a deusa do Nilo. E este rio não é a filha dela, que anseia por encontrá-la, salta pelas montanhas, ruge como uma leoa, e suas águas não são espumas brancas como presas? — ela perguntou a Nicholas.

Os dois ficaram olhando em silêncio o arco de pedra rosada pelo qual o rio jorrava, e então Nicholas riu lascivamente.

— Acho que sei o que você vai dizer agora. Foi a primeira coisa que pensei quando olhei para aquele rochedo. Você disse que parecia a boca de uma gárgula, mas eu tive outra imagem.

— Só posso dizer que você deve ter amigas extraordinárias — ela disse, e cobriu a boca. — Desculpe, não falei a sério. Estou sendo tão desagradável quanto você e Taita.

— Foi lá que os operários foram engolidos! — Ele começou a se animar. — Os pedreiros e os quebradores de pedra.

— O Faraó Mamose era um deus. O rio também engoliu um deus... em seu arco de pedra. — Ela estava igualmente excitada. — Tenho de confessar que não teria feito essa associação se você não tivesse explorado o interior do abismo e encontrado aqueles nichos no paredão. — Ela sacudiu o braço dele. — Nicky, vamos ter de entrar lá outra vez. Vamos ver mais de perto aquele baixo-relevo que você encontrou na pedra.

— Isso vai exigir alguma preparação. Vou precisar emendar as cordas, fazer um sistema de roldanas para puxá-las e orientar Aly e os outros para que meu fiasco não se repita. Não estaremos prontos para fazer a tentativa até amanhã bem cedo.

— Então comece a se preparar. Tenho muito para me manter ocupada na tradução do monólito. — Royan parou de falar e olhou para o céu. — Ouça! — sussurrou.

Nicholas ergueu a cabeça e, acima do ronco do rio, ouviu um barulho de hélices.

— Droga! — desabafou. — Pensei que nos havíamos livrado da presença da Pégaso. Vamos! — Ele lhe segurou o braço e puxou-a pela ponte. Quando chegaram à margem, saltou para a praia e Royan o seguiu. Os dois esconderam-se embaixo da ponte.

Sentaram-se na areia e ficaram ouvindo o helicóptero se aproximar rapidamente, depois circundar as montanhas além dos rochedos rosados. Dessa vez o piloto não os viu, pois se afastou para patrulhar de um lado e de outro a linha do abismo. De repente o ritmo do motor se alterou drasticamente.

— Parece que vai aterrissar no alto das montanhas — Nicholas disse, engatinhando para fora do esconderijo. — Eu me sentiria muito mais à vontade sem tê-lo por aqui.

— Acho que não precisamos nos preocupar muito com isso — Royan discordou. — Mesmo que estejam ligados ao assassino de Duraid, já estamos muito à frente deles. Pelo jeito, nem imaginam a importância do mosteiro e do monólito.

— Tomara que esteja certa. Vamos voltar ao acampamento. Não podemos deixar que nos vejam na proximidade dos penhascos. Vão achar muita coincidência nos ver por aqui todas as vezes que passarem.

nquanto Royan ficava em sua cabana estudando as fotografias e os decalques, Nicholas trabalhava com os mateiros e os curtidores de pele. Emendaram a ponta de um rolo de corda de náilon a um segundo rolo, obtendo assim 150 metros de corda. Em seguida cortaram um pedaço da cobertura de lona da cabana de refeição e juntaram as pontas para criar uma espécie de funda. Nicholas fez uma proteção na frente, amarrando a corda às duas pontas dianteiras da lona.

Como não havia guindaste, Nicholas construiu um cavalete rústico que seria armado na borda do precipício para manter a corda afastada da pedra. A corda correria por um sulco aberto a ferro quente na ponta da viga central. O sulco foi lubrificado com banha de cozinha.

Já estavam no meio da tarde quando terminaram os preparativos. Nicholas deixou Royan no acampamento e levou seus homens, carregados com as cordas e as peças do cavalete, ao mesmo ponto em que descera na ravina para retirar a carcaça do dik-dik. De lá desceram o rio, beirando o precipício. Não era fácil atravessar os espinheiros à beira do penhasco, e em muitos lugares foi preciso abrir caminho com machados.

O barulho das cachoeiras os guiava. À medida que desciam o rio, o som tornava-se mais alto, até as pedras tremerem sob os pés com as águas trovejantes. Finalmente, inclinando-se sobre o precipício, Nicholas viu o brilho do vapor d'água.

— É aqui — ele murmurou satisfeito, e explicou em árabe a Aly o que queria fazer.

Para encontrar a posição exata do cavalete, Nicholas sentou-se na funda de lona e pediu que o baixassem 6 metros pela parede do rochedo, apenas até o início da saliência abaulada na pedra. Até esse ponto ele pôde manter a corda afastada das asperezas e obteve uma boa visão de sua superfície.

Pendurado sobre a cachoeira e o leito rochoso do rio, 50 metros abaixo, finalmente viu as duas fileiras de nichos na face do rochedo. Entretanto, a escultura em baixo-relevo permanecia oculta pela pedra abaulada. Ele fez um sinal para Aly e foi puxado para cima.

— Temos de armar o cavalete um pouco mais abaixo — disse, dirigindo os homens, que iam cortando o denso matagal à beira do abismo. De repente Nicholas exclamou: — Com mil demônios! — e ajoelhou-se para examinar uma pedra oculta pelos espinhos. — Há mais escavações aqui.

Expostas aos elementos, ao contrário das outras, protegidas pela pedra, estas tinham sofrido forte erosão. Permaneciam vagos traços na rocha, mas Nicholas teve certeza de que as reentrâncias eram pontos de apoio para a antiga plataforma. O cavalete deles tinha sido instalado naquela área plana, com a viga maior estendida sobre o precipício. Eles armaram o cavalete e o fixaram com um rústico sistema em balanço de cordas e vigas mais leves.

Quando terminaram a instalação, Nicholas foi engatinhando até a beira do precipício para testar a estrutura e passar a corda por dentro do sulco. Tudo parecia sólido e firme, mas foi com alívio que ele engatinhou de volta à terra firme.

Levantou-se e olhou por cima dos espinheiros, onde o sol desaparecia no horizonte por trás de uma névoa avermelhada.

— Por hoje basta — decidiu. — O resto pode ficar para amanhã.

No dia seguinte Nicholas e Royan tomaram café ao lado da fogueira quando ainda estava escuro. Aly e seus homens, agachados em volta de outra fogueira, conversavam e tossiam depois do primeiro cigarro do dia. O projeto os deixava intrigados. Não viam sentido em descer pela segunda vez àquele abismo, mas o entusiasmo dos dois ferengi era contagiante.

Quando houve luz suficiente para enxergar o caminho, Nicholas conduziu-os novamente às colinas. O sol já se erguia no lado ocidental do escarpamento quando os homens, conversando alegremente num dialeto próprio, atravessaram os espinheiros e alcançaram a borda do precipício. Nicholas já os instruíra no dia anterior, e à noite planejara com Royan o que fariam; portanto, ambos sabiam qual era seu papel, e perderam pouco tempo preparando-se para a descida.

Nicholas estava só de short e tênis, mas desta vez usava uma velha camiseta de rugby dos Barbarians para manter-se aquecido. Enquanto enfiava a camiseta pela cabeça mostrou de longe a Royan a plataforma que havia sido escavada na rocha sólida.

Ela examinou com atenção.

— É muito difícil ter certeza, mas acho que você tem razão. Provavelmente foi feita pelo homem.

— Quando você descer não terá mais dúvidas. A pedra sofreu pouca erosão abaixo da saliência, e os nichos estão perfeitamente preservados... isto é, os que ficam acima da marca da cheia — ele disse, sentando-se na funda e balançando-se sobre o precipício. Pendurado na viga do cavalete, ele fez sinal para que Aly e seus homens o descessem à garganta. A corda deslizava suavemente pelo sulco lubrificado.

Nicholas notou que seus cálculos estavam corretos, pois desceu paralelamente às duas fileiras de nichos. Quando ficou no mesmo nível do enigmático círculo na face do rochedo, estava a 5 metros de distância, e um líquen multicolorido manchara a pedra, obscurecendo os detalhes. Nicholas não podia garantir que não fosse uma saliência natural. Passou por ela e continuou descendo, enquanto Aly soltava a corda.

Quando alcançou a superfície da água, soltou-se da funda e mergulhou. A água estava fria. Ele movimentou as pernas para manter-se na superfície, meio sufocado, até o corpo se aclimatar. Então deu três puxões na corda. A funda de lona foi erguida ao mesmo tempo que ele nadava em direção ao poço e segurava-se em um dos nichos. Já havia esquecido como era escuro, frio e solitário no fundo do abismo.

Depois de algum tempo virou a cabeça para o alto e viu Royan aparecer por cima da saliência, pendurada na funda de lona, girando lentamente na ponta da corda. Ela olhou para baixo e acenou.

"Nota dez para essa garota", ele sorriu. "Não tem medo de nada." Queria gritar para encorajá-la, mas sabia que o barulho da cachoeira encobriria qualquer outro som. Contentou-se, então, em devolver o aceno.

No meio da descida, ele a viu dar três puxões na corda. Aly estava preparado para isso e parou imediatamente. Ela curvou-se para trás, segurando-se só com a mão esquerda para pegar o binóculo de Nicholas que levava pendurado ao pescoço. Para segurar o binóculo diante dos olhos e tentar, com a mesma mão, manipular o foco, ela se retorceu num ângulo forçado. Nicholas viu que estava com dificuldade para focar a marca redonda na parede e mantê-la no campo de visão das lentes com a funda balançando e girando ao mesmo tempo.

Para ele isso já durava muito, mas, provavelmente, foram só alguns minutos. Então Royan largou o binóculo, virou-se para trás e gritou alguma coisa que, apesar do barulho, chegou até Nicholas claramente. Muito excitada, ela balançava as pernas como uma criança e acenava com a mão, enquanto Aly baixava a corda. Royan não parava de gritar, e seu rosto parecia iluminar a escura garganta.

— Não consigo escutá-la — ele gritou de volta, mas o barulho das águas era maior que todo o esforço que faziam para se comunicar.

Royan remexia-se dentro da funda, gritando e gesticulando, e soltou a corda de proteção para curvar-se mais e enxergar Nicholas lá embaixo. Ela estava a 6 metros da superfície da água e quase perdeu o equilíbrio; por pouco não tombou para trás.

— Cuidado! — ele gritou. — Esse binóculo é um Zeiss. Duas mil pratas na free-shop de Zurique.

Desta vez Nicholas foi ouvido, porque Royan mostrou-lhe a língua como uma garotinha levada. Mas depois disso seus movimentos tornaram-se mais cuidadosos. Quando os pés quase tocavam a água, ela deu um sinal para a corda parar e ficou pendurada a poucos metros de Nicholas.

— O que você achou? — ele gritou.

— Você estava certo, homem maravilhoso!

— É feito à mão? É uma inscrição? Conseguiu lê-la?

— Sim, sim e sim a todas as perguntas. — Ela ria triunfante e provocativa.

— Não seja irritante. Diga logo.

— O ego de Taita deu-se bem mais uma vez. Ele não resistiria a assinar seu trabalho. — Ela ria. — Colocou seu autógrafo: o falcão de asa quebrada!

— Maravilhoso! Diabolicamente maravilhoso! — Nicholas exultava.

— É a prova de que Taita esteve aqui, Nicky. Para esculpir aquele cartucho ele deve ter usado um andaime. Nossa primeira hipótese estava certa. Esse nicho em que você está se segurando é um degrau de uma escada que vem até aqui.

— Sim, mas por quê, Royan? — ele gritou de volta. — Por que Taita desceria aqui? Não há sinais de escavações ou de construções.

Os dois olharam ao redor da caverna escura. Afora as fileiras de nichos, só havia o paredão liso e compacto que entrava dentro do rio.

— E atrás da cachoeira? — ela gritou. — Haveria algum corte na pedra? Você consegue ir até lá?

Ele afastou-se do rochedo e nadou em direção à trovejante queda d'água. Rasgando a superfície turbulenta com vigorosas braçadas e batendo as pernas com força, Nicholas encontrou um degrau de pedra lisa, coberta de algas, ao lado da cachoeira.

A água batia em sua cabeça, mas ele começou a contornar a pedra para o interior da cachoeira. No meio do caminho a torrente o engoliu. Arrancando-o de seu apoio precário, jogou-o de volta à bacia e o arrastou de um lado para outro. Nicholas emergiu no meio do poço e nadou com toda a sua força para livrar-se da correnteza e alcançar a água mais calma sob o paredão. Agarrou-se ao nicho de pedra, resfolegante e aos urros.

— Nada? — Royan perguntou.

Ele fez que não com a cabeça; só conseguiu dizer alguma coisa quando se recuperou um pouco.

— Nada. É rocha sólida atrás da cachoeira. — Ele tomou fôlego e perguntou sarcasticamente: — Mais alguma idéia, madame?

Ela ficou em silêncio e ele se alegrou pela pausa. Mas logo Royan tornou a chamá-lo:

— Nicky, até aonde chegam esses nichos?

— Você está vendo — ele respondeu —, até este em que estou me segurando.

— Será que não há outros sob a superfície?

— Que tolice, mulher. — Aquilo já começava a irritá-lo. — Quem poderia cavá-los embaixo da água?

— Verifique! — ela gritou de volta, igualmente irritada. Ele balançou a cabeça desanimado e inspirou profundamente. Ainda se segurando, esticou ao máximo os membros e o corpo e afundou a cabeça na água escura, com os pés para o fundo.

De repente, saltou resfolegante para fora, com os olhos arregalados.

— Por Júpiter! — gritou. — Você tem razão! Há outros nichos para baixo.

— Odeio dizer que já sabia. — Mesmo à distância, ele notou o ar presunçoso de Royan.

— Quem é você, alguma bruxa? — Ele ergueu os olhos em desespero. — Sei o que vai me pedir agora.

— Até aonde vão os nichos? — ela perguntou em tom sedutor. — Vai mergulhar por mim, meu querido Nicky?

— Eu sabia. Vou me queixar às autoridades. Isto é trabalho escravo! De agora em diante declaro greve.

— Por favor, Nicky!

Ele ficou na água, bombeando ar para os pulmões, hiperventilando-se, enchendo a corrente sangüínea de oxigênio para aumentar ao máximo sua resistência sob a água. Por fim soltou todo o ar dos pulmões, expirando com força uma última vez até senti-los doer, então voltou a inspirar para enchê-los completamente de ar puro. Com o peito expandido, ele mergulhou de cabeça, deixando que seu peso o levasse para baixo. Os nichos estavam a uma distância de 1,80 metro um do outro — uma braça náutica. Usando-os como referência, Nicholas era capaz de calcular precisamente seu avanço.

Afundando mais, encontrou um segundo nicho, depois outro. Quatro fileiras de nichos, 7 metros abaixo da superfície. Seus ouvidos estalavam e chiavam sob a pressão, na medida em que o ar saía de suas trompas de Eustáquio.

Ele continuou afundando e encontrou a quinta fileira de nichos. Agora o ar em seus pulmões estava reduzido à metade do volume inicial, e à medida que a capacidade de flutuação diminuía a descida tornava-se mais rápida e mais fácil.

Mantinha os olhos abertos na água turva e escura, mas só conseguia ver a superfície da pedra que ficava diretamente diante de seu rosto. Viu surgir o sexto conjunto de nichos e segurou-se neles, mas hesitou.

"Já desci 10 metros e não há sinal do fundo", pensou. Tempos atrás, quando ainda entrava em competições com a equipe do exército, Nicholas conseguia mergulhar 18 metros e ficar minuto inteiro sob a água. Mas então era mais jovem e estava no auge de sua capacidade física.

"Só mais um nicho e volto para cima", ele prometeu a si mesmo. Seu peito pulsava e já ardia com a falta de ar, mas ele impulsionou o corpo para baixo e afundou mais. Viu a vaga forma de um sétimo nicho aparecer na escuridão.

"Chegam até o fundo", concluiu, admirado. "Como é que Taita conseguiu fazer isso? Eles não conheciam equipamento de mergulho." Agarrado ao nicho, Nicholas ficou ali por um momento, indeciso se devia arriscar-se a descer mais. Sabia que estava quase em seu limite. Precisava respirar, pois já sentia no peito convulsões involuntárias.

Só mais um! Sua cabeça girava, e ele foi tomado por uma estranha euforia. Reconhecendo os sinais de perigo, olhou para seu corpo e viu que a pele se enrugava e dobrava sob a pressão da água. Eram mais de dois pesos atmosféricos empurrando-o para baixo e esmagando seu peito. O cérebro já faminto de oxigênio o fazia sentir-se afoito e invulnerável.

"Vá até o fundo, amigo", pensou como que embriagado, e continuou descendo.

"Número oito, e o médico está de olho." Ele sentiu o oitavo nicho com os dedos e já não pensava coisa com coisa. "Número oito, vou ganhar um biscoito."

Nicholas virou-se para subir e seus pés tocaram o fundo.

"Quinze metros de profundidade", calculou, apesar do estado de embriaguez. "Demorei muito. Preciso voltar. Preciso de ar."

Ele abraçou o peito para impelir-se para cima quando alguma coisa agarrou suas pernas e puxou-o com força para a pedra.

"Um polvo!", ele pensou, lembrando-se da frase de Taita: Sua vagina é um polvo que engoliu um rei.

Queria chutar, mas suas pernas pareciam presas nos braços de um monstro; um abraço gelado, traiçoeiro, que o mantinha cativo.

— O polvo de Taita! Meu Deus! — ele literalmente falava. — Estou perdido.

Nicholas estava prensado contra a pedra, esmagado, indefeso. O terror o paralisava, e senti-lo em suas veias disparava alucinações no cérebro já carente de oxigênio. Ele percebeu o que acontecia.

"Não é polvo. É a pressão da água." Ele experimentara esse mesmo fenômeno uma vez, durante- um exercício de treinamento no exército, quando mergulhavam perto das turbinas submarinas dos geradores em Loch Arran. Seu parceiro, a quem ele estava amarrado, foi arrastado pela terrível sucção. Ficou preso na boca da turbina com o corpo prensado na grade, e suas costelas rasgaram os músculos do peito e romperam a roupa de neoprene.

Nicholas escapou por pouco da mesma sorte. Por estar alguns centímetros afastado do amigo, ficou fora da violenta sucção da água na boca da turbina. Mesmo assim, quebrou uma perna e foram necessários dois mergulhadores fortes para arrancá-lo da corrente.

Desta vez ele estava no limite de suas forças, e não havia outro mergulhador por perto. Estava sendo sugado para uma estreita fenda na pedra, a boca de um túnel subterrâneo, um veio subaquático que penetrava pelo paredão.

A parte superior do corpo estava livre da maléfica influência da correnteza, mas as pernas estavam inexoravelmente presas nela. Nicholas tinha consciência de que as bordas dessa abertura eram agudamente demarcadas, retas e quadradas, como uma esquadria feita por um pedreiro. Ele estava sendo sugado por cima e em volta desse batente. Com os braços bem abertos sobre a pedra, Nicholas resistia com toda a sua capacidade, mas os dedos escorregavam na superfície lisa e limosa da pedra.

"Este é dos bons", pensou. "É uma armadilha difícil de sair." Seus dedos agarraram-se na pedra e as unhas se partiram. Então, de repente, os dedos se prenderam no nicho anterior ao ralo que o sugava para baixo.

Pelo menos agora tinha onde se apoiar. Agarrado ao nicho com ambas as mãos, ele tentou erguer o corpo. Usou o que lhe restara de forças, e o fazia do fundo da alma, mas suas reservas de ambas as coisas já estavam se esgotando. Ele se esticava a ponto de os músculos dos braços ficarem saltados e os nervos do pescoço retesados como cordas; parecia que algo em sua cabeça ia estourar. Mas conseguiu impedir que o corpo escorregasse traiçoeiramente pelo ralo.

Mais uma, pensou. Só mais uma tentativa. Era só isso o que lhe restava. O ar já havia se esgotado, bem como a coragem e o poder de decisão. Sua mente era um redemoinho e as sombras obnubilavam sua visão.

Em algum lugar no fundo de si mesmo Nicholas encontrou forças para erguer-se, até que na escuridão de sua mente explodiram ondas de luzes coloridas, uma profusão de estrelas e rodas luminosas que o deixaram deslumbrado. Mas ele continuava se debatendo. Sentiu que as pernas começavam a se livrar, que os grilhões de água se soltavam, e subiu mais um pouco com uma força que não sabia que tinha.

Quando conseguiu se livrar e saltar para cima, era tarde demais. Sua mente escurecera totalmente e seus ouvidos trovejavam como a cachoeira no fundo do abismo. Ele estava se afogando. Completamente esgotado. Não sabia mais quem era, nem a que distância estava da superfície, mas sabia que não voltaria mais. Estava liquidado.

Nem sequer percebeu que subira à tona, pois não tinha forças para tirar o rosto da água e respirar. Boiava como um tronco de árvore, de bruços, morrendo. Então sentiu que alguém segurava seus cabelos, e o ar puro tocou seu rosto quando Royan levantou sua cabeça.

— Nicky! — ela gritou. — Respire, Nicky, respire!

Ele abriu a boca, soltando um jato d'água misturado com saliva.

— Você está vivo! Oh, obrigada, Senhor! Ficou lá por tanto tempo! Achei que tivesse morrido.

Enquanto tossia e tentava respirar, Nicholas recobrou a consciência e percebeu vagamente que ela havia descido da funda para ajudá-lo.

— Você ficou lá embaixo muito tempo! Foi terrível! — Royan segurava a cabeça dele para cima e com a outra mão segurava-se ao nicho no paredão. — Você vai ficar bom. Eu o encontrei. Tente ficar calmo. Tudo vai ficar bem.

Era espantoso como a voz dela o encorajava. O ar.tinha um doce sabor, e aos poucos Nicholas sentia as forças retornarem.

— Vamos ter de içá-lo — ela disse. — Mais uns minutos para se recuperar, e vou ajudá-lo a se sentar na funda.

Royan nadou com ele em direção à funda pendurada e fez sinal aos homens para baixá-la até a água. Então segurou as pontas da lona abertas para que Nicholas montasse.

— Você está bem, Nicky? - ela perguntou, ansiosa. — Agüente até chegar lá em cima. — Colocou as mãos dele nas cordas laterais. — Segure-se firme!

— Não posso deixá-la aqui — ele balbuciou roucamente.

— Eu estou bem — Royan tranqüilizou-o. — Peça ao Aly para descer a funda para mim.

Quando estava no meio do caminho, ele olhou para baixo e viu a cabeça de Royan sobre as águas escuras, tão pequenina e indefesa.

— Fibra! — Sua voz estava tão fraca e rouca que ele próprio não a reconhecia. — Você realmente tem fibra... — Mas já estava muito alto para que suas palavras chegassem até ela.

Depois que Royan saiu sem problemas do fundo da garganta, Nicholas ordenou que Aly desmontasse o cavalete e escondesse suas partes no meio dos espinheiros. Do helicóptero seriam claramente visíveis, e ninguém pretendia despertar a curiosidade de Jake Helm.

Como não tinha condições de ajudar, ele deitou-se à sombra de uma árvore espinhosa sob os cuidados de Royan. Era espantoso como aquele quase afogamento o deixara extenuado. A dor de cabeça provocada pela falta de oxigenação era alucinante. O peito também doía terrivelmente a cada respiração: seus esforços deviam ter rompido ou distendido alguma coisa por dentro.

Também o impressionou a paciência de Royan. Em nenhum momento ela tentou questioná-lo sobre suas descobertas no fundo da ravina, e mostrara-se genuinamente mais preocupada com seu bem-estar do que com o progresso das explorações.

Quando ela o ajudou a ficar em pé e começaram a voltar ao acampamento, Nicholas andava como um velho, manco e retesado. Todos os músculos e nervos de seu corpo doíam. Ele sabia que o ácido lático e o nitrogênio que se haviam acumulado em seus tecidos levariam algum tempo para ser reabsorvidos e dispersados.

No acampamento, Royan levou-o para a cabana e, carinhosamente, ajudou-o a entrar sob o mosquiteiro. Nicholas já se sentia muito melhor, mas não quis informá-la disso. Era muito agradável ter uma mulher cuidando dele novamente. Ela lhe trouxe duas aspirinas e uma xícara de chá quente bem açucarado. Mal ele havia começado a beber, ela lhe perguntou se queria mais.

Sentada ao lado da cama, olhava-o beber com um olhar solícito.

— Está melhor? — perguntou.

— A probabilidade de sobrevivência é de dois para um. — Ele sorriu.

— Dá para ver que está melhor. Seu humor voltou. Você me deu um tremendo susto, sabia?

— Faço qualquer coisa para ganhar sua atenção.

— Agora que decidimos que vai sobreviver, conte-me o que aconteceu. Que tipo de problema você teve lá no fundo do poço?

— O que você quer mesmo saber é o que encontrei lá embaixo, certo?

— Isso também — ela admitiu.

Então ele contou o que havia descoberto e como fora apanhado pelo influxo do ralo submerso. Ela ouvia sem interrompê-lo; quando Nicholas terminou de falar, Royan permaneceu em silêncio por mais um tempo, mas com as sobrancelhas franzidas, em absoluta concentração.

Por fim olhou para ele.

— Você está dizendo que Taita conseguiu fazer aqueles nichos de pedra até o fundo do poço, a quinze metros de profundidade? — Nicholas assentiu, e Royan voltou a ficar em silêncio. — Como foi que ele conseguiu? — perguntou então. — O que você acha?

— Há quatro mil anos talvez o nível da água estivesse mais baixo. Pode ter havido um ano de seca, fazendo o rio baixar muito, permitindo que Taita chegasse até lá. Estou indo bem?

— É um bom palpite — ela admitiu. — Mas por que tanto trabalho para construir os andaimes? Por que não usou apenas o leito seco do rio como acesso? Não há dúvida de que, para Taita, a grande atração local fosse o rio. Se estivesse seco, seria como milhares de outros lugares nesta garganta. Não. Tenho um palpite de que o fato de ser tão inacessível é a principal, senão a única razão de ele ter escolhido esse lugar para trabalhar.

— Desconfio que você esteja certa — Nicholas concordou.

— Então, se o rio estava lá, mesmo com um nível tão baixo como agora, como foi que ele conseguiu escavar aqueles nichos sob a água?

— Você venceu. Não tenho a menor idéia — ele admitiu.

— Muito bem, vamos deixar isso de lado por enquanto. Vejamos agora como era esse sugadouro que quase o engoliu. Deu para ver de que tamanho era o buraco?

Ele fez que não com a cabeça.

— Estava muito escuro lá embaixo. Só dava para enxergar um ou dois palmos à frente.

— A fenda ficava bem no meio das duas fileiras de nichos?

— Não, não exatamente — Nicholas tentava se lembrar. — Ficava um pouco mais para um lado. Encostei os pés no fundo do poço e começava a subir quando fiquei preso.

— Então deve ser bem no fundo e um pouco à frente da plataforma. Você disse que o buraco era quadrado?

— Não tenho muita certeza, vi muito pouco. Mas tive essa impressão.

— Então deve ser outra estrutura feita pela mão do homem. Talvez alguma passagem estreita na parede do poço.

— É possível — ele concordou com relutância. — Mas, por outro lado, também pode ser uma falha natural no solo, pela qual o rio está escoando.

Ela levantou-se para sair, e ele perguntou:

— Aonde é que você vai?

— Não demoro. Vou até a cabana pegar minhas anotações e o material do monólito. Volto já.

Royan voltou e ajoelhou-se no chão ao lado da cama, sentando-se de maneira bem feminina sobre os joelhos dobrados. Enquanto espalhava os papéis à sua volta, Nicholas levantou a ponta do mosquiteiro para ver o que ela estava fazendo.

— Ontem, enquanto vocês construíam o cavalete, consegui decifrar a maior parte do que faltava do lado "primavera" do monólito. — Royan virou suas anotações de modo que ele pudesse vê-las.

"Estas são as notas preliminares. Veja que coloquei vários pontos de interrogação — aqui e aqui, por exemplo. É onde não tenho certeza da tradução, ou quando Taita usa um símbolo novo e desconhecido. Terei de rever isso em outro momento."

— Estou acompanhando — ele disse, e Royan continuou:

— Estas partes que sublinhei em verde são citações da versão oficial do Livro dos Mortos. Veja esta aqui: "O universo é desenhado em círculos, os discos do deus-sol, Rá. A vida do homem é um círculo que se inicia no útero e se encerra no túmulo. A roda do carro de guerra esconde em sua sombra a serpente que morre esmagada por ele".

— Sim, reconheço a citação — ele disse.

— Por outro lado, as partes que sublinhei em amarelo são textos originais de Taita, ou pelo menos não são citações do Livro dos Mortos ou de qualquer outra fonte que eu conheça. Quero lhe mostrar este parágrafo em particular.

Ela acompanhou com o dedo indicador enquanto lia em voz alta: "A filha da deusa foi concebida. Foi fecundada por aquele que não possui semente. E gerou sua própria irmã gêmea. O feto repousa eternamente enrolado em seu ventre. Sua irmã gêmea jamais nascerá. Jamais verá a luz de Rá. Viverá para sempre nas trevas. No ventre da irmã o noivo a pede em eterna união. As gêmeas não nascidas tornam-se noivas do deus que já foi homem. Seus destinos estão entrelaçados. Eles viverão para sempre. Jamais perecerão". Royan ergueu os olhos do papel.

— Quando li pela primeira vez, convenci-me de que a filha da deusa é o Rio Dandera, como já havíamos concordado. Também tenho certeza de que o deus que já foi homem é o Faraó Mamose. Ele só foi divinizado ao ascender ao trono do Egito. Antes era um homem.

Nicholas assentiu.

— O que não tem semente é, obviamente, o próprio Taita. Ele faz várias referências ao fato de ser um eunuco. Mas agora — Nicholas sugeriu —, se tiver alguma idéia sobre as misteriosas gêmeas, gostaria de ouvi-la.

— É bem provável que as gêmeas sejam um braço, uma bifurcação do rio, não acha?

— Ah, já sei aonde quer chegar. Está sugerindo que uma delas é o ralo? No fundo da garganta ele jamais vê a luz de Rá. Como Taita, o que não tem semente, reclama sua paternidade, ele está nos dizendo que é o arquiteto.

— Exatamente, e uma das gêmeas se casou com o Faraó Mamose por toda a eternidade. Juntando tudo isso, cheguei à conclusão de que jamais encontraremos o local do túmulo do Faraó Mamose se não explorarmos completamente o ralo que quase o engoliu.

— Tem alguma sugestão de como fazer isso? — ele perguntou, e Royan deu de ombros.

— Não sou engenheira, Nicky. Deixo isso para você. Sei que Taita pensou numa forma de fazê-lo... não só como chegar lá, mas como trabalhar lá embaixo. Se nossa interpretação do monólito estiver correta, ele desenvolveu grandes operações de mineração no fundo do poço. E se pôde fazer isso não há motivo para não conseguirmos.

— Ah! — ele objetou. — Taita era um gênio. Diz isso repetidamente. Eu sou apenas um velho vacilante.

— Apostei todas as minhas fichas em você, Nicky. Não vai me decepcionar, vai?

Não foi necessário procurar muito por pistas. Eles haviam tomado pouquíssimas precauções para ocultar suas pegadas. A maior parte do tempo seguiram a trilha principal até a garganta do Abbay, a oeste, em direção à fronteira sudanesa. Mek Nimmur estava regressando às suas bases.

Boris calculava que houvesse de quinze a vinte homens com ele. Era difícil ter certeza, pois as pegadas se sobrepunham e, certamente, havia batedores à frente, nos flancos e também na retaguarda.

Estavam andando rápido, mas um grupo tão grande não possuía a mesma agilidade de um perseguidor só. Boris tinha certeza de que os alcançaria. Pensou que tivesse saído umas quatro horas depois, mas a julgar pelas marcas recentes não estava a mais de duas atrás deles.

Sem diminuir o ritmo da caminhada, ele viu alguma coisa no caminho. Sempre andando, identificou o que era: um galho partido de kusagga-sagga que crescia ao lado da trilha. Um dos homens devia tê-lo arrancado ao passar. Apesar do calor que fazia no desfiladeiro, o talo quebrado ainda estava úmido. Estavam mais perto do que calculava.

Boris diminuiu um pouco o ritmo, pensando no que faria a seguir. Conhecia muito bem aquela parte do vale. No ano anterior caçara muito na região com um cliente americano que viera atrás da cabeça de um walia, um cabrito montês. Levaram quase um mês atravessando as mesmas valas e ravinas arborizadas para abater um velho e grande carneiro preto, com um belo par de chifres retorcidos, muito maiores que o recorde registrado no Royland Ward.

Boris lembrava-se de que 4 ou 5 quilômetros à frente o Nilo fazia um cotovelo para o sul e mais adiante voltava a se juntar. A trilha principal seguia pelo rio, porque íngremes e altos rochedos guardavam o planalto no centro desse anel. Porém, era possível cortar caminho. Boris já fizera isso quando perseguia o cabrito ferido.

O caçador americano não o matara de forma limpa — a bala atingira o cabrito muito atrás, desviando-se da cavidade do cardiopulmonar e perfurando os intestinos. O cabrito selvagem correu em disparada para o planalto, por um caminho escondido entre os rochedos. Boris e o americano perseguiram o animal pela montanha. Ele se lembrava de como eram perigosos e traiçoeiros esses caminhos, mas quando chegaram do outro lado da montanha haviam cortado uns 15 quilômetros.

Se pudesse encontrar novamente esse caminho, teria possibilidade de passar à frente de Mek Nimmur e esperá-lo adiante. Isso lhe daria uma enorme vantagem. O líder guerrilheiro esperava ser perseguido, e não uma emboscada. Estava protegido pela retaguarda, e era altamente improvável que Boris conseguisse passar pelos soldados sem alertálos. Se o fizesse, estaria cavando a própria sepultura.

Quando a trilha e o fluxo principal do Nilo começaram a virar para o sul, ele ficou olhando o terreno mais alto, procurando algum sinal familiar. Andou mais 800 metros e o encontrou. Havia uma interrupção na linha dos rochedos íngremes, uma reentrância densamente arborizada que atravessava o paredão de basalto.

Boris parou para enxugar o suor do rosto e do pescoço.

— E a vodca — resmungou. — Você está ficando frouxo. — Sua camisa estava molhada como se ele houvesse entrado no rio.

Mudando o rifle de ombro, ele ergueu o binóculo e inspecionou as paredes do sulco arborizado: pareciam íngremes e impossíveis de se escalar, mas encontrou uma pequena árvore que crescia numa estreita rachadura da pedra. Parecia um bonsai, com o tronco e os galhos retorcidos.

O cabrito montês estava numa saliência do rochedo logo acima da árvore quando o americano atirara. Boris ainda se lembrava do animal selvagem sendo impelido para a frente ao ser atingido pela bala, e correndo para o alto do rochedo. Ele examinou mais atentamente e percebeu uma inclinação do rochedo.

"Da, da. É aqui", pensou em sua língua materna. Era um alívio poder fazer isso, depois de tanto tempo falando francês e inglês.

Antes de começar a subir, ele desceu até o rio. Ajoelhou-se à beira do Nilo e jogou água na cabeça, no rosto e no pescoço. Esvaziou e encheu o cantil, bebendo até a barriga ficar cheia. Então lavou o cantil e encheu-o de novo. Não havia água nas montanhas. Por fim, afundou o chapéu no rio e colocou-o ensopado na cabeça, derramando água no pescoço e no rosto.

Seguiu mais uns cem passos pela trilha principal, andando devagar para estudar o terreno. Em certo ponto ela estava quase bloqueada por uma pedra. Os homens que avançavam na frente tinham sido obrigados a escalar essa barreira para retomar a trilha de areia fina. Haviam deixado marcas nítidas de suas pegadas.

A maioria dos homens usava botas pára-militares com solas em ziguezague, e os que iam na retaguarda pisavam nas pegadas dos líderes. Ele se ajoelhou para examinar os sinais atentamente, até encontrar pegadas menores, mais delicadas, sem dúvida alguma femininas. Estavam parcialmente obliteradas por outras masculinas, maiores, mas eram claros os contornos das solas de borracha de um tênis Bata. Ele as reconheceria em meio a milhares de outras.

Tessay continuava com o grupo; ela e seu amante não haviam tomado outro caminho. Mek Nimmur era astucioso e já havia escapado uma vez das garras de Boris. Mas agora não lhe escaparia! O russo balançou a cabeça veementemente: desta vez não.

Ele concentrou-se mais uma vez nas pegadas femininas. Vê-las o animava. Seu ódio voltou com força total. Não que estivesse considerando o que sentia pela mulher. Amor e desejo não entravam na equação. Ela era sua propriedade e lhe fora roubada. Apenas o insulto importava. Fora rejeitado e humilhado, e por isso ela devia morrer.

A idéia de matar causava nele um frêmito de gozo. Sempre fora essa sua tendência e vocação; por mais que exercitasse essa atividade, o impulso jamais arrefecia, o prazer nunca era atingido. Talvez fosse o único prazer verdadeiro que lhe restava, puro e intocado — nem mesmo a vodca conseguia enfraquecê-lo e diluí-lo como fizera com o ato físico da cópula. Teria mais prazer em matar Tessay do que jamais sentira em copular com ela.

Nos últimos anos só caçara animais, mas nunca se esquecia da sensação de perseguir e matar um ser humano, especialmente uma mulher. Ele queria Mek Nimmur, mas queria muito mais a mulher.

Na época do Presidente Mengistu, quando era chefe da contra-inteligência, seus homens conheciam suas preferências e lhe traziam as melhores jovens. Boris só lamentava agora que a satisfação teria de ser rápida. Não podia planejar e desfrutar de seu prazer. Não seria como outras experiências, que haviam durado horas e muitas vezes dias.

— Cadela — ele murmurou, chutando a areia sobre a pegada de Tessay, da maneira que faria com ela própria. — Sua cadela preta.

Com força e determinação renovadas, ele saiu da trilha principal para subir a montanha na altura da árvore deformada, onde o cabrito galgara o rochedo.

Exatamente onde imaginava encontrou a trilha e começou a subir. Quanto mais subia, mais íngreme ela se tornava. Muitas vezes teve de usar as mãos para se apoiar num trecho mais inclinado ou para atravessar uma passagem estreita.

Na primeira vez em que escalara aquelas montanhas seguira a trilha de sangue deixada pelo cabrito, mas como agora não tinha mais isso para guiá-lo, por duas vezes deu de cara com o vazio. Mais um passo e teria caído centenas de metros. Foi obrigado a voltar para reencontrar o caminho. Nas duas vezes em que isso aconteceu ele sabia que estava perdendo tempo e que Mek Nimmur podia ter-se adiantado.

Uma vez encontrou um rebanho de cabras selvagens deitadas numa saliência no alto do rochedo. Elas fugiram pelo paredão, mais parecendo pássaros que animais sujeitos à lei da gravidade. Seguiam um macho de barba comprida e longos chifres espiralados, que ao fugir mostrou a Boris uma rota direta para o alto do rochedo.

Suas mãos se feriram para subir ao último patamar e por fim alcançar o topo, onde ele rastejou pelo chão sem jamais erguer a cabeça. Lá em cima, uma silhueta humana poderia ser vista num raio de quilômetros. Ele procurou uma moita para esconder-se e observar o vale com o binóculo.

Daquela altura o Nilo era uma longa serpente brilhante que se enrolava na curva do cotovelo, com a superfície encrespada por fortes corredeiras e recifes rochosos. Nas partes mais altas formava ondulações permanentes nas elevações basálticas e tornava-se turbulento como o mar atingido por um furacão tropical. O mundo dançava e tremeluzia ao calor do sol, que esmagava o universo de pedras vermelhas a golpes de machado.

Apesar da miragem nas lentes do binóculo, Boris localizou a trilha ao lado do rio e seguiu-a até o vale, no ponto em que ele ficava oculto. Estava deserto, não havia sinal de presença humana; Boris sabia que perderia de vista suas presas. Não podia dizer quanto já teriam avançado, mas sabia que precisava se apressar se quisesse chegar ao outro lado da montanha antes delas.

Pela primeira vez desde que se afastara do rio, ele bebeu do cantil. Percebeu que o calor e o esforço o haviam desidratado. Nessas condições, um homem sem água morreria em poucas horas. Não era de surpreender que nenhum ser humano permanecesse por muito tempo na garganta do rio.

Sentindo-se renovado, começou a atravessar a depressão alongada da montanha. Depois de uma travessia de pouco mais de quilômetro, de repente ele se viu no outro lado da montanha. Se desse mais um passo, teria sido lançado no espaço, caindo centenas de metros abaixo. Novamente procurou um ponto seguro de onde pudesse observar o terreno embaixo.

O rio continuava igual — uma expansão de água turbulenta e selvagem. A trilha seguia paralela à margem mais próxima, exceto onde era obrigada a se desviar para dentro devido às escarpas e agulhas de pedra que emergiam na superfície.

Na grande desolação da garganta não havia qualquer outro movimento além das águas selvagens e da dança incessante da miragem. Sabia que Mek Nimmur não podia ter-se deslocado com rapidez suficiente para ultrapassá-lo; devia continuar contornando o cotovelo.

Boris bebeu mais água e descansou por quase uma hora. Por fim, sentindo-se totalmente recuperado, ainda não decidira se devia descer imediatamente e ficar de tocaia na trilha; preferiu ficar onde estava até localizar suas presas.

Checou cuidadosamente a arma, conferindo se a mira telescópica não havia saído do alinhamento durante a escalada; em seguida esvaziou o depósito de cartuchos e examinou as cinco balas. A capa de metal de uma delas estava amassada e descolorida, então a dispensou e pegou outra na cartucheira. Recarregou o rifle e soltou a trave de segurança.

Em seguida trocou as meias molhadas por outras secas que trazia na mochila e amarrou bem os cordões das botas. Somente um novato se arriscaria a ficar com os pés cheios de bolhas, pois em poucas horas estariam infeccionadas.

Bebeu mais água, levantou-se e pendurou o 30 06 no ombro. Estava pronto para qualquer coisa que a deusa da caça colocasse em seu caminho, seguindo sempre pelo alto da montanha.

Em cada ponto seguro ele parava para observar o vale, mas não havia nada para ver, e a tarde já avançava. Começava a se preocupar com que Mek Nimmur tivesse conseguido ultrapassá-lo, ou atravessado o rio em algum ponto desconhecido, tomando outro caminho pelo vale. Foi então que ouviu um grito melancólico e queixoso no ar. Olhou para cima. Um par de milhafres sobrevoava em círculos um trecho de árvores espinhosas na margem do rio.

O milhafre amarelo é uma ave de rapina muito comum na África. Vive em associação simbiótica com o homem, alimentando-se de seus dejetos, recolhendo seu lixo e sobrevoando as aldeias e os acampamentos temporários em busca de restos, esperando pacientemente que ele se afaste para então descer; é um esgoto sempre à disposição.

Boris observava pelo binóculo os pássaros sobrevoando o mesmo ponto do cerrado ribeirinho. Tinham uma maneira característica de manobrar com suas longas caudas bifurcadas, entortando-as de um lado para outro ao sabor da brisa. Seus bicos amarelos apareciam claramente quando viravam a cabeça para olhar alguma coisa que lhes interessasse.

Boris sorriu. Da! Nimmur apareceu mais cedo do que o esperado. Talvez o calor e a pressa tenham sido excessivos para sua nova mulher, ou talvez tenha parado para brincar um pouco com ela.

Ele seguiu pela borda do rochedo até ficar diretamente sobre o trecho de cerrado. Examinou-o através do binóculo, mas não percebeu qualquer sinal de presença humana. Depois de quase duas horas já começava a duvidar de sua hipótese inicial. A única coisa que chamava a atenção era o par de milhafres, que agora estava pousado num galho de árvore. Tinha de confiar que eles observavam os homens ocultos no cerrado.

Boris olhou ansioso para o sol que já se aproximava da linha do horizonte; o calor não era mais tão forte. Então olhou novamente para o vale.

Adiante do trecho de cerrado havia uma porção de água estagnada, quase um pequeno lago. Durante a cheia devia ficar inundado, mas agora uma faixa de cascalho ficava exposta na margem. Na praia, havia também inúmeras pedras redondas que haviam rolado do rochedo. Algumas pararam ali, mas outras tinham caído no rio e estavam quase submersas. As maiores eram grandes como uma cabana.

Enquanto observava, Boris viu um homem surgir inesperadamente. Sua pulsação se acelerou ao vê-lo subir numa das pedras e pular para a praia de cascalho. Ele ajoelhou-se à beira d'água, encheu uma bolsa e voltou novamente para o matagal.

"Ah! O calor é demais para eles. Estão se traindo pela sede. Não fossem os pássaros, eu jamais saberia onde estavam." Seu rosto contorceu-se num esgar de falsa admiração. "Nimmur é um sujeito cuidadoso. Não admira que esteja vivo até hoje. Mantém rígido controle. Mas até ele precisa de água."

Pelo binóculo, Boris tentava adivinhar o que Nimmur faria em seguida.

"Ele perde muito tempo protegendo-se do calor. Só vai retomar a marcha quando estiver mais fresco. Andará durante a noite", concluiu, olhando novamente para o sol. "Faltam três horas para anoitecer. Preciso me mexer antes deles. Depois que escurecer ficará mais difícil."

Sem se levantar, ele se arrastou pelo chão para manter-se longe de vista. Refez o caminho pela encosta da montanha até um ponto seguro, de onde não seria visto pelas sentinelas de Mek Nimmur. Aí começou a descer. Boris não tinha mais trilhas de cabras para guiar-se; após algumas tentativas frustradas, encontrou uma rocha inclinada que lhe permitia uma descida relativamente fácil pela face do rochedo. Quando chegou embaixo, fez um levantamento cuidadoso do declive e uma marca na pedra para encontrá-la com facilidade em caso de emergência. Era bom ter uma rota de fuga, pois sabia que logo estaria sendo perseguido.

A descida de quase uma hora era uma corrida contra o tempo. Quando alcançou a trilha, começou a voltar por ela em direção ao acampamento de Mek Nimmur. Estava com pressa, mas tomava cuidado para não deixar rastros. Andava por fora da trilha, pisando somente nas pedras, para não deixar sinais de sua passagem. Mas, apesar do cuidado, por pouco não esbarrou neles.

Não completara ainda 200 metros quando sua mente registrou um assobio baixo, quase inaudível, de um estorninho, e quase o ignorou, mas um sinal de alarme soou em sua mente. Não era o momento certo. O estorninho só piava daquela maneira na aurora, quando deixava seu ninho e voava para as montanhas. Mas era fim de tarde nas profundezas da garganta. Devia ser um sinal de que os batedores estavam vindo em sua direção. O grupo de Mek Nimmur se pusera a caminho.

Boris reagiu imediatamente. Voltou correndo pela lateral da trilha até a marca que fizera na pedra e subiu a encosta para olhar de cima a trilha principal. Entretanto, percebeu que perdera a dianteira que havia ganhado cruzando por cima da montanha. Não era a posição ideal para uma tocaia, e sua rota de fuga estava exposta ao fogo inimigo — só com muita sorte conseguiria chegar ao topo. Mas jamais lhe ocorreu desistir da vingança. Tão logo seus alvos ficassem à vista, atiraria de onde pudesse.

Entretanto, reconhecia que Mek Nimmur o surpreendera. Não previra que ele se deslocaria antes do pôr-do-sol. Sua intenção era posicionar-se acima do acampamento e dar dois tiros bem dados antes de fugir.

Também calculara que, com Mek Nimmur morto, seus homens não manteriam o mesmo ânimo. Seu plano era bater em retirada, parando em alguns pontos seguros para atirar em mais um ou dois, e manter uma perseguição circunspecta e cautelosa até que eles acabassem desistindo do jogo e o deixassem ir embora.

Entretanto, tudo isso mudara. Teria de aproveitar a primeira oportunidade que se apresentasse — certamente um alvo móvel —, e quando desse o primeiro tiro ficaria exposto em sua trilha para o alto do rochedo. A única vantagem que possuía agora era a precisão de seu rifle de caça, ao passo que os homens de Mek Nimmur usavam rifles de assalto AK-47, de disparo rápido, mas não muito precisos a longa distância, principalmente nas mãos daqueles shuftas. Bem treinados, os guerreiros africanos formavam as melhores tropas do mundo. Possuíam a habilidade necessária, com uma única exceção: eram maus atiradores notórios.

Ele deitou-se na saliência da pedra, sentindo o calor queimar sua pele através da roupa. Tirou a mochila das costas e colocou-a na frente para apoiar o cano do rifle. Pela lente telescópica, mirou uma pequena pedra na trilha principal e movimentou ligeiramente o cano da arma para garantir um bom raio de fogo.

Isso era o melhor que podia fazer no pouco tempo que lhe restava. Boris deixou o rifle e pegou um punhado de areia, que esfregou no rosto molhado de suor. A lama disfarçaria a pele clara, que podia ser vista de longe. Sua última preocupação foi checar o ângulo do sol e verificar que nem a lente do telescópio nem as partes metálicas do rifle causavam reflexos. Alcançou o galho de uma planta e arrancou-o para cobrir a arma.

Por fim, posicionou-se atrás do rifle e apoiou a coronha no ombro, controlando a respiração para diminuir a pulsação e firmar as mãos. Não esperou muito tempo. Novamente o pássaro piou, agora bem mais perto.

"Os homens que guardam os flancos estão tendo dificuldade de manter sua posição neste terreno. Eles se agrupam e se dispersam." Nesse instante viu um homem surgir na curva da trilha, cerca de 500 metros à frente.

Boris mirou-o pelo telescópio. Era um típico guerrilheiro africano, um shufta, com uma farda surrada e desbotada, carregando mochila, cantil, munição e granadas, e um AK apontado para a frente. Ele parou quando entrou na curva e agachou-se atrás de uma moita ao lado da trilha.

Por um longo tempo ficou inspecionando o terreno, virando a cabeça de um lado e de outro. Num determinado momento pareceu olhar diretamente para Boris, que prendeu a respiração e deitou-se na pedra, tão imóvel quanto ela mesma. Por fim o shufta ergueu-se e fez um sinal com a mão para os que vinham atrás. Em seguida retomou a trilha a passos rápidos. Depois que ele andou uns 50 metros, o restante do regimento apareceu, mantendo um espaçamento preciso como as contas de um colar. Não seria possível derrubar essa fileira mesmo com um RPD em posição privilegiada.

"Ótimo", aprovou Boris. "Uma tropa bem treinada. Mek deve têlos escolhido a dedo." Ele observou os homens pelo telescópio, examinando as feições de cada um em busca de Mek Nimmur. Havia sete deles espalhados em seu campo de visão, mas nenhum era o líder. O homem que estava mais distante ficou no mesmo nível de Boris e passou. Em seguida passou uma dupla de flanqueadores, roçando uma moita a poucos metros de distância. Ele ficou absolutamente imóvel e viu-os seguir em frente. O restante passou a distâncias regulares, sempre mantendo a marcha. Quando passou o último, a garganta ficou completamente deserta. Então vieram outros.

"A retaguarda", Boris resmungou. "Mek está mantendo a mulher atrás. Seu novo brinquedinho. Quer cuidar bem dela."

Ele puxou vagarosamente o gatilho do rifle.

"Que venham agora", suspirou. "Pegarei Mek primeiro. Nada muito divertido; nada de tiros na cabeça. É melhor no meio do peito. Ela vai congelar quando o vir cair. Não tem os reflexos de um guerreiro. Poderei dar o segundo tiro sem nenhuma pressa. Não há como errar a esta distância. Bem no meio daquelas lindas tetas." Ele ficou sexualmente excitado ao pensar no sangue e na morte violenta da graciosa e adorável Tessay. "Talvez eu tenha a chance de pegar mais alguns. Mas não posso garantir. Esses homens são bons. É bem provável que se protejam antes que eu possa matar a mulher."

Ele observou os que vinham na retaguarda. Cada um que passava era uma decepção. Por último vinham três, caminhando tranqüilamente. Mas nem sinal de Mek ou de Tessay. Esses últimos homens desapareceram na trilha, quebrando o silêncio apenas com os leves ruídos de seus passos. Boris sentiu na boca o amargo gosto da decepção.

"Onde estarão eles?", pensou. "Onde, diabos, estará Mek?" E a resposta óbvia para sua pergunta veio imediatamente. Haviam tomado outro caminho. Mek usara aquela patrulha apenas como isca.

Ele continuou imóvel por cinco minutos marcados no relógio, para o caso de haver mais alguns. Pensou rápido. Os últimos sinais de Tessay haviam sido suas pegadas na areia.

Mas desde que isso acontecera várias horas haviam passado, e se ela e Mek tivessem conseguido escapar poderiam estar agora em qualquer lugar. Mek poderia ganhar uma vantagem de um dia ou mais — e Boris teria muito mais trabalho para retomar a pista deles. Cheio de raiva, fechou os olhos, esforçando-se para manter o controle. Precisava pensar com clareza e não atirar-se de cabeça na questão, como um búfalo ferido. Essa era a sua fraqueza, e ele sabia que precisava controlar-se.

Quando abriu os olhos novamente, sua raiva estava mais fria e objetiva. Sabia exatamente o que tinha de fazer e de que maneira o faria. A primeira coisa era descer e examinar a trilha. Precisava encontrar o ponto em que Mek se havia separado do destacamento de shufta.

Desceu a encosta até a trilha principal. Voltando por ela a passos rápidos começou a subir o rio em direção ao trecho de cerrado onde a patrulha shufta tinha parado para descansar. A primeira coisa que notou é que não havia marcas de tênis. Mas não considerou isso uma prova de que a área estivesse deserta, e circundou-a cuidadosamente. Primeiro examinou a trilha que penetrava no lado mais distante do cerrado. Embora se tivesse passado muito tempo, os sinais continuavam claros.

Ele parou subitamente no meio da trilha e arrepiou-se ao ver as marcas na areia. Estava seguindo pelo mesmo caminho de Mek. Eram marcas de tênis Bata.

Mek e a mulher entraram no cerrado, mas não haviam saído. Ainda estavam lá dentro; Boris teve a forte sensação de que Mek o observava naquele momento por trás da mira de seu AK, e sentiu-se totalmente vulnerável.

Jogando-se ao chão, ele rolou como um felino pela grama com o rifle de prontidão. Quando o ritmo das batidas de seu coração voltou ao normal, ele se agachou e começou a circular com cuidado o trecho de cerrado. Seus nervos estavam tensos como as cordas de uma guitarra e seus olhos moviam-se de um lado para outro. Com o dedo no gatilho do 30 06, ele mantinha o cano da arma em movimento, como a cabeça de uma cobra pronta para atacar em qualquer direção.

Boris deslocou-se para a margem do rio, onde o barulho das corredeiras encobriria qualquer ruído que pudesse fazer. Mas quando já estava bem próximo de uma pedra que lhe serviria de abrigo, parou instantaneamente. Ouviu um ruído que suplantava o som das águas do Nilo — um ruído tão estranho àquele ambiente e àquela hora que, por um momento, chegou a duvidar de que estivesse mesmo ouvindo. Era a risada de uma mulher, nítida e clara como o tilintar de pingentes de cristal ao sabor da brisa.

O som vinha de baixo, da margem de cascalho que ficava perto da pedra. Ele esgueirou-se em direção à pedra, pois a usaria como proteção e um ponto do qual pudesse atingir toda a margem. Mas antes ouviu alguma coisa bater na superfície da água e um grito excitado de mulher, ao mesmo tempo divertido e provocante.

Quando alcançou a pedra, mantendo-se sempre colado a ela, moveu-se furtivamente para o lado para espiar a praia de cascalho. Então, cuidando para não ser visto, olhou assombrado. Era difícil acreditar no que via. Não era possível que alguém como Mek Nimmur cometesse uma besteira tão grande. Era um homem corajoso, um guerreiro maduro, um sobrevivente de vinte anos de guerras sanguinárias, e agia como um adolescente apaixonado.

Mek Nimmur mandara seus homens embora para se divertir com a amante. Boris esperou um pouco para ter certeza absoluta de que não era uma armadilha. Parecia por demais fortuito, muito fácil para ser verdade. Ele esquadrinhou cada centímetro da margem em ambas as direções, em busca de atiradores escondidos; então abriu um pequeno sorriso gelado.

Não havia dúvida de que estavam sozinhos. Mek jamais permitiria que seus homens vissem Tessay nua. O sorriso se ampliou quando ele reconheceu o tamanho de sua sorte. "Ele deve ter enlouquecido", pensou. "Não imaginou que eu viria atrás? Deve achar que está muito à frente para se distrair dessa maneira. Há no mundo coisa mais estúpida e mais míope que um pênis ereto?" Boris regozijou-se com a desgraça do outro.

O casal havia tirado as roupas e as deixara sobre um tronco de árvore na praia de cascalho, à sombra de uma grande pedra. Longe da correnteza, atiravam água um no outro. Decididamente estavam nus. Mek Nimmur tinha ombros largos, as costas musculosas e rijas, as nádegas firmes. Ao lado dele, Tessay era esguia como o junco, de cintura fina e quadris estreitos. Sua pele tinha a cor do mel selvagem. Estavam totalmente absorvidos na brincadeira e não viam mais nada ao redor.

"Ele deve ter deixado alguns homens na retaguarda." Boris deu a Mek o benefício da sensatez. "Não espera me ver pela frente. Acha que estão totalmente seguros. Como você é tolo", ele se regozijou, enquanto Mek perseguia a moça e ela se deixava apanhar. Eles caíram na água rasa presos nos braços um do outro, as bocas se procurando quando voltaram à tona, a epítome da beleza masculina e da adorável feminilidade, a imagem de Adão e Eva africanos capturados num momento de seu paraíso particular.

Boris desviou o olhar para onde estavam as roupas. O rifle de Mek repousava descuidadamente sobre a jaqueta camuflada, bem perto dali. Ele cruzou a praia de cascalho, pegou o AK, destravou o pente de munição e guardou-o no bolso, liberou o tambor e o jogou ao chão. Em seguida repôs o rifle descarregado no mesmo lugar e voltou rapidamente para seu esconderijo. Mek e Tessay nada perceberam.

Boris permaneceu à sombra da pedra, observando-os brincar no rio. Eram quase infantis em seu amor, num envolvimento mútuo e completo.

Finalmente, Tessay soltou-se do abraço de Mek e saiu da água. Correu para a praia de cascalho, com os seios sedosos e úmidos balançando e esbarrando um no outro a cada passo. Ela olhou para trás num convite explícito. Mek seguiu-a, com as gotas d'água brilhando nos densos pêlos de seu peito, o órgão genital pesado e poderoso.

Ele a alcançou antes que Tessay pegasse as roupas; brincando, ela tentou soltar-se de seus braços até que as bocas se encontraram. Então entregou-se a ele completamente. Enquanto Mek a beijava, suas mãos corriam pelas costas dela e sobre as nádegas úmidas. Pressionada contra o corpo dele, ela abriu ligeiramente as pernas, convidando-o a explorar os segredos de seu corpo. Gemeu de desejo quando ele lhe apalpou gentilmente o sexo.

A raiva de Boris misturou-se a um perverso ímpeto de voyeur enquanto olhava sua própria esposa ser tomada por outro homem. Emoções demoníacas borbulhavam dentro dele. Ele sentiu seu sexo ingurgitar-se e enrijecer quase dolorosamente, mas ao mesmo tempo a raiva o fazia tremer como os galhos de uma árvore ao vento.

Os amantes caíram de joelhos. Ainda abraçados, Tessay deitou-se de costas no cascalho e puxou Mek para cima de seu corpo.

Boris disse em voz alta:

— Por Deus, Mek Nimmur, você não imagina como fica ridículo com a bunda exposta desse jeito.

Mek reagiu como um leopardo surpreendido. Num movimento rápido, deu um salto e alcançou o AK-47. Embora Boris estivesse preparado, apontando seu 30 06 para a nuca de Mek, este foi tão rápido que conseguiu apanhar a arma e apontá-la para a barriga de Boris antes que ele conseguisse se mexer. Mek apertou o gatilho no mesmo instante em que erguia o cano da arma.

A agulha de disparo bateu no tambor vazio com um clique inútil, e os dois homens se encararam, ambos com as armas erguidas. Tessay estava encolhida onde Mek a deixara, com os límpidos olhos azuis, repletos de dor e pavor, voltados para o marido que estava prestes a matar Mek.

Boris deu uma risada rouquenha.

— Onde vai querer o tiro, Mek? Que tal eu arrancar a cabeça dessa sua ferramenta preta enquanto ela ainda está em pé?

Mek Nimmur desviou o olhar do adversário e dirigiu-o para a montanha; Boris se deu conta de que seu palpite estava certo. Os homens estavam lá em cima, mas não poderiam ver a praia onde seu comandante se distraía.

— Não se preocupe com eles. Vocês dois estarão mortos muito antes que seus chimpanzés desçam para socorrê-lo. — Boris riu de novo. — Estou adorando isto. Nós dois já marcamos um encontro antes, mas você não compareceu. Não importa... isto vai ser mais divertido. — Ele sabia que não devia se estender muito com um homem como aquele. Mek havia cometido um erro e era altamente improvável que cometesse outro. O melhor era estourar sua cabeça naquele momento, o que lhe daria mais alguns minutos para cuidar de Tessay. Mas a tentação de se divertir com a situação era forte demais.

— Tenho boas notícias, Mek. Você viverá mais alguns segundos. Primeiro vou matar a puta e deixar você assistir. Espero que se divirta tanto quanto eu. — Ele saiu de trás da pedra e dirigiu-se para Tessay, que continuava encolhida sobre o cascalho. Ela estava meio de costas, tentando cobrir os seios e a região púbica com suas mãos pequenas e delicadas. Boris aproximou-se da mulher, mas sem desviar os olhos de Mek. Esse foi seu erro. Ele a subestimou.

Enquanto fingia esconder-se dele humildemente, Tessay alcançou no chão, entre suas pernas, uma pedra redonda que cabia perfeitamente na mão pequena. De repente, ela desenrolou o corpo esguio e usou toda a força para atirar a pedra na cabeça de Boris. Ele percebeu o movimento com o canto dos olhos e ergueu o braço para se proteger. A pedra, atirada com uma força surpreendente a curta distância, não atingiu o alvo. Mas acertou o cotovelo erguido de Boris. As mangas da camisa estavam enroladas acima dos bíceps e não havia nada para amenizar o impacto; seu braço estava flexionado, a pele fina esticada sobre o osso do cotovelo. A cabeça do osso cúbito se partiu como vidro, e Boris gemeu numa agonia excruciante. A mão abriu-se involuntariamente e o dedo saltou para fora do gatilho, sem força para disparar o tiro cujo alvo era a barriga de Mek.

Este saltou para o lado, e antes que Boris pudesse mudar o rifle de mão desapareceu atrás da grande pedra redonda.

Com a mão esquerda, Boris apontou o cano do rifle para a cabeça de Tessay, jogando-a de costas na areia. Então encostou o cano em sua garganta, prendendo-a no chão enquanto gritava raivosamente.

— Vou natá-la, seu bastardo negro! Se quer sua cadela, é melhor vir buscá-la. — A dor do cotovelo quebrado deixava sua voz rouca e embrutecida.

De trás da pedra a voz de Mek Nimmur soou alta e clara, pronunciando uma única palavra em amárico que ecoou pelas montanhas. Então falou em inglês:

— Meus homens estarão aqui em alguns segundos. Deixe a mulher e o pouparei. Machuque-a e farei você implorar por sua morte.

Boris se aproximou de Tessay e a fez levantar-se, segurando-a pelo pescoço com seu braço bom. Segurava o rifle na mesma mão, apontando-o por cima do ombro dela. A mão do braço ferido havia-se recuperado o suficiente do primeiro choque para segurar o cano da pistola e manipular o gatilho.

— Ela estará morta muito antes que seus homens cheguem aqui — ele gritou, enquanto a arrastava para longe da pedra. — Venha pegá-la você mesmo, Mek. Ela está aqui, se você a quiser.

Apertou o braço em torno do pescoço de Tessay, estrangulando-a até ela começar a se debater e a engasgar, arranhando o braço de Boris e deixando longos riscos vermelhos na pele queimada.

— Ouça! Estou esmagando o pescocinho dela. Ouça o barulho. — Ele apertou mais o braço.

Boris olhava para o canto da pedra onde Mek se havia escondido. Ao mesmo tempo se afastava, ganhando espaço para trabalhar. Tinha de ser rápido, pois sabia que não poderia escapar. Seu braço direito era pouco útil, e Mek tinha muitos homens. Ele já tinha a mulher, mas também queria o homem. Era o melhor troféu que poderia conseguir — os dois; tinha de conseguir os dois.

Ouviu um grito, uma voz estranha no alto de uma elevação. Os homens de Mek estavam a caminho. Boris já se desesperava. Não conseguiria atrair Mek; fazia quase dois minutos que não o ouvia falar ou mover-se. Já o perdera — a essa hora poderia estar em qualquer lugar.

"Tarde demais", Boris se deu conta. "Não vou pegá-lo. Só a mulher. Mas tenho de fazer isso agora." Ele a obrigou a ficar de joelhos e inclinou-se sobre ela, apertando ainda mais o braço em torno do pescoço.

— Adeus, Tessay — sussurrou, iniciando a pressão final. Conhecia, por sua longa experiência, o som de vértebras quebradas, e preparou-se para ouvir o estalo e sentir o peso do cadáver em seu braço.

Então alguma coisa lhe atingiu as costas com uma força que pareceu estourar os ossos e esmagar as costelas. Tanto o impacto quanto a direção de onde veio foram totalmente inesperados. Era impossível que Mek Nimmur pudesse se deslocar com tamanha rapidez. Devia ter saído de trás da pedra e contornado o cerrado, atacando Boris pelas costas.

Seu golpe foi tão selvagem que o braço no pescoço de Tessay se soltou. Ofegante e respirando com dificuldade, ela se livrou dele. Boris tentou virar o rifle, mas Mek já estava de novo sobre ele, segurando a arma e tentando arrancá-la de suas mãos.

O dedo do russo ainda estava no gatilho e disparou um tiro quando o cano estava acima da cabeça de Mek. A detonação pegou-o de surpresa, fazendo-o soltar o rifle e cambalear para trás com os ouvidos zunindo.

Boris afastou-se, tentando soltar o ferrolho da arma para colocar outra bala no pente, mas seu braço ferido tornava os movimentos desajeitados e canhestros. Mek recuperou-se e saltou para a praia. Avançou sobre Boris com todo o seu peso, e o rifle voou das mãos dele. Lutando corpo a corpo, os dois rodopiaram numa dança macabra, tentando derrubar-se, buscando uma vantagem, quando tropeçaram e caíram de costas na água.

Voltaram à tona ainda atracados e rolando um sobre o outro alternadamente, numa terrível paródia do ato de amor a que Boris havia assistido pouco antes. Esmurrando, apertando e empurrando um ao outro, eles lutavam na parte rasa do poço. Mas toda vez que caíam o barranco sob seus pés os obrigava a entrar mais no rio, até que, com água pelo peito, a correnteza do Nilo subitamente os apanhou e arrastou rio abaixo. Eles ainda lutavam, com a cabeça submersa e os braços espalhando espuma ao redor, gritando com ódio primitivo.

Tessay ouviu os homens que Mek chamara atravessar o cerrado. Ela apanhou seu shamma e enfiou-o pela cabeça enquanto corria ao encontro deles. Quando o primeiro surgiu na praia de cascalho com seu AK apontado, ela gritou em amárico:

— Lá! Mek está na água. Está lutando com o russo. Ajude-o! — Ela correu com ele até a margem. Quando chegaram na altura em que eles lutavam no meio da correnteza, um dos homens parou e apontou o AK, mas Tessay correu para ele e desviou o cano da arma.

— Seu tolo! — gritou com raiva. — Vai matar Mek!

Saltando para cima de uma pedra junto ao rio, ela protegeu os olhos do reflexo do sol na água. Com uma terrível sensação no estômago, viu que Boris estava por trás de Mek e lhe empurrava a cabeça para dentro da água. Mek lutava como um salmão fisgado enquanto ambos eram arrastados para uma longa queda-d'água.

Tessay saltou de cima da pedra e correu pela margem até o ponto seguinte, de onde só podia olhar sem fazer nada.

Boris ainda segurava a cabeça de Mek sob a água. Pontas de pedras passavam ao lado deles enquanto ganhavam velocidade. Mek era um homem forte, e Boris tinha de usar toda a sua força para segurá-lo, mas sabia que não poderia continuar por muito tempo. De repente Mek empinou-se como um cavalo e, por um momento, tirou a cabeça da água. Inspirou rápido antes que Boris o afundasse novamente, mas o ar renovou suas forças.

Boris olhou em desespero a cachoeira para onde eram arrastados. Havia muitas pedras em volta. Viu uma grande lâmina de pedra preta sobre uma ondulação a metro de distância. Dirigiu-se para ela, chutando e empurrando o corpo de Mek com o que lhe restava de forças.

Eles entraram no declive, onde a lâmina de pedra os esperava como um monstro aquático. Boris continuou a lutar com Mek para colocar-se adiante dele. Seu plano era empurrá-lo para a pedra e usar o corpo do outro para amortecer o impacto.

No último instante antes de baterem, Mek tirou a cabeça da água e, ao mesmo tempo que sorvia o precioso ar, viu a pedra e percebeu o perigo. Com um esforço violento, impeliu-se para a frente sob a superfície e deu uma cambalhota, tão forte e inesperada que Boris não resistiu. Com o braço ainda preso no pescoço de Mek, ele foi jogado de costas e as posições se inverteram. Mek conseguiu colocar Boris entre si e a pedra, de modo que quando foram atirados de encontro a ela o russo recebeu todo o impacto. -

O ombro de Boris foi esmagado como uma noz nos mordentes de um quebrador de aço. Embora estivesse com a cabeça sob a superfície, gritou de dor e seus pulmões se encheram de água. Seu braço se soltou e ele foi arremessado para longe de Mek. Quando voltou à tona, debatia-se como um inseto, com os pulmões encharcados, o braço direito quebrado em dois lugares e o braço bom golpeando debilmente.

Mek emergiu de um salto alguns centímetros atrás. Olhando rapidamente ao redor enquanto respirava, viu a cabeça de Boris quase no mesmo instante, e com algumas braçadas se colocou atrás dele.

Boris já estava depauperado e só percebeu as intenções de Mek quando ele agarrou a gola de sua camisa por trás e torceu-a como o garrote de um estrangulador. Com a outra mão, por baixo da água, Mek segurou o cinto de Boris e usou-o como se fosse um leme para conduzi-lo na direção do próximo recife de pedras em volta do qual a água borbulhava.

Com os pulmões cheios de água, Boris tentava gritar impropérios contra ele.

— Canalha! Porco preto! Asqueroso! — Mas sua voz era quase inaudível por causa da correnteza do rio e do ronco do aguilhão rochoso que os aguardava em seu caminho. Mek empurrou-o de cabeça contra a pedra e sentiu o impacto no crânio de Boris percorrer os músculos tensos de seus braços. Instantaneamente, o russo o largou, sua cabeça tombou e os membros tornaram-se flácidos e inertes.

Quando caíram na corredeira seguinte, Mek, que ainda segurava o colarinho de Boris, ergueu a cabeça para fora da água. Por um momento ele próprio ficou chocado com o ferimento que havia provocado. A testa de Boris estava afundada. A pele não se rompera, mas havia uma profunda depressão no crânio na qual Mek podia enfiar o polegar. E os olhos esbugalhados haviam saltado das órbitas como os de uma boneca quebrada.

Mek arrastou o cadáver inerte e olhou a cabeça quebrada a poucos centímetros de distância. Estendeu a mão e tocou a região afundada do crânio com a ponta dos dedos, sentindo os fragmentos do osso quebrado sob a pele.

Mais uma vez mergulhou a cabeça na água e segurou-a, enquanto tentava nadar contra a correnteza em direção à margem. Boris não oferecia resistência, mas Mek manteve sua cabeça submersa durante a longa e tortuosa travessia.

"Como se mata um monstro?", Mek pensou. Enterrando-o numa encruzilhada com uma estaca enfiada no coração. Mas, em vez disso, ele o afundou mais quinze vezes, e na curva seguinte do rio foram atirados à margem.

Os homens de Mek o esperavam. Sustentaram-no quando suas pernas fraquejaram sob o próprio peso e ajudaram-no a sair do rio. Quando começaram a puxar o corpo de Boris da água, Mek os fez parar.

— Deixem-no para os crocodilos. Depois do que ele fez ao nosso povo e ao nosso país, é só isso que merece. — Mas, mesmo com todo o ódio que sentia, não quis que Tessay visse a cabeça mutilada. Ela não conseguira acompanhar os homens, mas já estava chegando pela margem.

Um dos homens empurrou o cadáver para a corrente a e, enquanto ele era levado, tirou o rifle do ombro e atirou. As balas ricochetearam na superfície em volta da cabeça de Boris e entraram em suas costas, abrindo buracos na camisa molhada. Os outros homens gritavam e riam na margem do rio, juntando-se ao primeiro numa fuzilaria, esvaziando as armas no corpo sem vida. Mek não tentou impedi-los. Alguns de seus parentes haviam morrido de forma terrível nas mãos do russo. O cadáver rolou no borrifo rosado de seu próprio sangue, e, por um momento, os olhos arregalados de Boris voltaram-se para o céu. Em seguida o corpo afundou.

Mek levantou-se devagar e foi ao encontro de Tessay. Tomou-a nos braços e, encostando-a ao peito, sussurrou em seu ouvido:

— Está tudo bem. Ele nunca mais vai magoá-la. Você é minha agora... para sempre.

Desde que Boris e Tessay haviam deixado o acampamento não havia razão para manter tanto sigilo; Nicholas e Royan não precisavam mais esconder-se quando queriam conversar sobre suas descobertas.

Nicholas transferiu suas coisas para a cabana de refeições e pediu aos homens que construíssem outra mesa grande sobre a qual pudesse espalhar as fotos de satélite e todos os outros mapas e materiais já acumulados. O cozinheiro serviu café enquanto eles se debruçavam sobre os papéis e discutiam as descobertas feitas no poço de Taita e todas as hipóteses formuladas, por mais descabidas que parecessem.

— Jamais saberemos com certeza se aquela abertura foi feita por Taita ou se é um buraco natural, se não voltarmos lá com o equipamento adequado.

— De que tipo de equipamento você está falando? — Royan perguntou, curioso.

— Tanques de mergulho, não galões de oxigênio. Embora esses galões sejam muito mais leves e compactos, não podem ser usados a uma profundidade maior que dez metros. O equivalente a uma atmosfera de água. Depois disso o oxigênio puro se torna letal. Você já usou equipamento de mergulho?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Quando Duraid e eu passamos nossa lua-de-mel no mar Vermelho. Tive algumas aulas e dei três ou quatro mergulhos em mar aberto, o suficiente para perceber que não sou boa nisso.

— Prometo não mandá-la lá para baixo — Nicholas sorriu —, mas acho que podemos dizer com segurança que encontramos evidências suficientes, tanto no túmulo de Tanus quanto no poço de Taita, que tornam imperativo o planejamento da segunda fase desta operação.

Ela concordou com um gesto de cabeça.

— Vamos ter de voltar com uma variedade muito maior de equipamentos e conseguir a ajuda de peritos. Mas não vamos poder passar por turistas da próxima vez. Que desculpa daremos para voltar aqui, que não dispare todos os alarmes na cabeça dos burocratas etíopes?

— Você está falando com quem já fez visitas não-oficiais e sem convite àquelas adoráveis criaturas, Saddam e Khadafi. Comparada a eles, a Etiópia é um piquenique de escola dominical.

— Quando começa a estação chuvosa nas montanhas? — ela perguntou inesperadamente.

— Exatamente! — Nicholas ficou sério. — Esse é o xis da questão. Teremos de ver as marcas das enchentes nas paredes do poço de Taita para termos uma idéia de como fica o rio nessa época. — Ele folheou as páginas de sua agenda de bolso. — Por sorte, ainda temos tempo... não muito, mas o suficiente. Vamos ter de andar rápido. Voltaremos para casa e começaremos a trabalhar no planejamento da segunda fase.

— Então deveríamos fazer logo as malas.

— Sim, deveríamos. Mas acho uma pena não aproveitarmos ao máximo cada momento que estamos aqui, depois de tanto trabalho para chegar. Acho que devemos esperar mais alguns dias para checar algumas idéias que tive sobre o poço de Taita e o ralo, e decidir o que precisaremos trazer.

— Você é quem manda.

— Meu Deus, como é bom ouvir isso de uma mulher! Royan sorriu com doçura.

— Aproveite; pode ser que nunca mais aconteça. — Então voltou a ficar séria. — Que idéias são essas que você teve?

— Tudo o que sobe tem de descer, e tudo o que entra tem de sair — ele disse, misteriosamente. — A água entra naquele ralo com tanta pressão que deve sair em algum lugar. A menos que se junte a algum veio subterrâneo e por ele chegue até o Nilo, deve voltar à superfície onde possamos encontrá-la.

— Continue — ela pediu.

— Uma coisa é certa: ninguém vai entrar naquele buraco no fundo do poço. A pressão será fatal. Mas se conseguirmos achar a saída talvez possamos explorar pelo outro lado.

— É uma possibilidade tentadora. — Ela estava impressionada, e voltou-se para a fotografia de satélite. Nicholas havia identificado o mosteiro na foto e o havia circulado. Marcara o curso aproximado do rio através do desfiladeiro, mas a garganta propriamente dita era muito estreita e coberta de vegetação para aparecer na foto pequena, mesmo sob lentes de aumento poderosas.

— Este é o ponto em que o rio entra no abismo — Royan apontou. — E aqui está o lado do vale onde a trilha se desvia para o interior. Certo?

— Certo — ele concordou. — Aonde pretende chegar?

— Quando passamos por lá, notamos que esse vale deve ter sido o curso original do Rio Dandera e que ele deve ter criado um novo leito ao longo do abismo.

— Concordo — disse Nicholas. — Continue.

— O declive do terreno até o Nilo é muito pronunciado neste ponto, não é? Bem, você lembra que nós atravessamos outro pequeno rio, mas ainda substancial, quando descíamos pelo vale seco? Ele parecia brotar em algum lugar no lado leste do vale.

— Certo, estou entendendo agora. Você está sugerindo que pode ser o escoamento do ralo. Você é esperta, hem?

— Estou apenas me aproveitando da sua genialidade — Royan baixou os olhos timidamente, depois os ergueu e olhou-o por trás dos cílios. Era uma brincadeira, mas seus cílios eram longos, densos e curvos, sobre os olhos caramelados com leves traços dourados no fundo. À distância em que estavam, Nicholas achou-os perturbadores.

Ele se levantou e sugeriu:

— Por que não vamos dar uma olhada?

Foi até a cabana pegar a sacola com a câmera e uma mochila leve, e quando voltou encontrou Royan pronta para sair. Mas ela não estava só.

— Vejo que vai levar sua dama de companhia — observou Nicholas, resignado.

— A menos que você seja grosseiro o suficiente para mandá-lo embora. — Royan deu um sorriso encorajador para Tamre, que estava a seu lado, mostrando os dentes numa risada, saltitando e abraçando os próprios ombros em êxtase, por estar na presença de seu ídolo.

— Ah, está bem — Nicholas cedeu sem resistir. — Vamos deixar que esse diabinho venha conosco.

Tamre dançava pelo caminho na frente deles, com o shamma encardido esvoaçando em volta das pernas; entoava o coro repetitivo de um salmo amárico, e a cada instante olhava para trás para certificarse de que Royan ainda estava lá. Era uma dura estirada até o alto do vale, e o calor do meio-dia era debilitante. Embora Tamre não parecesse afetado, os outros dois suavam tanto que tinham a camisa manchada sob os braços quando chegaram ao ponto em que o riacho desembocava no vale. Agradecidos, foram para a sombra de umas acácias e, enquanto descansavam, Nicholas perscrutou esse lado do vale pelo binóculo.

— Como está depois do banho que dei nele? — Royan perguntou.

— É à prova d'água — ele murmurou. — Nota dez para Herr Zeiss.

— O que está vendo lá em cima?

— Pouca coisa. O mato está muito alto. Vamos ter de marchar até lá. Sinto muito.

Eles deixaram a sombra e começaram a subir pelo lado do vale em direção ao sol ardente. O riacho descia numa série de pequenas cascatas, cada uma delas com um poço a seus pés. O mato invadia o barranco das margens, abundante e viçoso onde as raízes alcançavam a água. Nuvens de borboletas negras e amarelas dançavam sobre os poços, e uma libélula preta e branca patrulhava as pedras cobertas de musgo ao longo do barranco, com suas longas caudas vibrando como a agulha de um metrônomo.

No meio da subida eles pararam em um poço para descansar, e Nicholas usou o chapéu para espantar um pequeno grilo marrom e amarelo. Atirou o inseto na água e enquanto o via espernear debilmente e flutuar em direção à saída, uma grande sombra se ergueu do fundo. A água se agitou, um dorso prateado brilhou como um espelho e o grilo desapareceu.

— Quatro quilos e meio... — Nicholas lamentou. — Por que não trouxe minha vara?

Tamre estava agachado perto de Nicholas à beira do poço e, de repente, ergueu a mão. Quase ao mesmo tempo uma borboleta pousou em seu dedo. Ficou ali pousada abanando delicadamente as asas aveludadas pretas e amarelas. Eles ficaram admirados, pois era como se o inseto tivesse vindo a seu convite. Tamre deu um risinho contido e ofereceu a borboleta a Royan. Quando ela estendeu o braço, o rapaz transferiu gentilmente o belo inseto para a palma da mão dela

— Obrigada, Tamre. É um presente maravilhoso. Agora o meu presente para você é libertá-la de novo. — Ela fechou os lábios e soprou a borboleta. Eles a olharam voar para o alto, por cima do poço, enquanto Tamre juntava as mãos e ria deliciado.

— É estranho — Nicholas murmurou. — Parece que ele tem uma empatia especial por todos os animais selvagens. Acho que Jali Hora, em vez de controlá-lo, deixa-o fazer tudo o que dita a sua inocente fantasia. Um tratamento especial para uma alma ingênua que ouve uma melodia diferente e a dança. Devo admitir que, apesar de tudo, estou gostando do garoto.

Somente depois de subir mais uns 20 metros eles chegaram à nascente. Havia um rochedo baixo de arenito vermelho que formava uma gruta, em cuja base brotava o riacho. A entrada era recoberta por touceiras de samambaias, e Nicholas ajoelhou-se para afastá-las e espiar pela abertura baixa.

— O que está vendo? — Royan perguntou atrás dele.

— Pouco. É escuro aqui, mas parece continuar para algum lugar.

— Você é muito grande para entrar aí. É melhor eu tentar.

— É um bom lugar para cobras — ele lembrou. — Há muitos sapos para alimentá-las. Tem certeza de que quer entrar?

— Eu nunca disse que queria. — Ela sentou-se para desamarrar os sapatos, então desceu o barranco e entrou no riacho. A água batia no meio de suas coxas, e ela avançava com dificuldade contra a correnteza.

Teve de encolher-se para rastejar sob o teto da gruta. Quando estava lá dentro, sua voz chegou até Nicholas.

— O teto fica mais baixo.

— Tome cuidado, querida menina. Não se arrisque muito.

— Gostaria que não me chamasse de "querida menina" — a voz de Royan soava estranhamente pela boca da gruta.

— Bem, você é as duas coisas: querida e menina. Prefere que a chame de "jovem senhora"?

— Também não. Meu nome é Royan. — Fez-se silêncio por um tempo, então ela chamou-o outra vez: — Isto é o mais longe que posso ir. Tudo se estreita numa espécie de funil.

— Um funil?

— Bem, pelo menos não é nenhuma abertura claramente retangular.

— Acha que é feita pelo homem?

— Não dá para saber. A água jorra de dentro dela como de uma mangueira larga. É um jato forte.

— Algum sinal de escavação? Marcas de ferramenta na pedra?

— Nada. É lisa e gasta pela água, e está coberta de musgo e algas.

— Daria para entrar nessa abertura, apesar da pressão da água?

— Só se for um pigmeu ou um anão.

— Uma criança? — ele sugeriu.

— Ou uma criança — Royan concordou. — Mas quem mandaria uma criança lá dentro?

— Os antigos costumavam usar crianças escravas. Taita deve ter feito o mesmo.

— Não diga isso. Está destruindo o alto conceito que tenho dele — ela disse, já saindo pela boca da gruta. Havia folhas de samambaia e musgo em seus cabelos, e Royan estava molhada da cintura para baixo. Nicholas estendeu-lhe a mão e puxou-a para o barranco. As curvas de suas nádegas eram claramente visíveis através da calça molhada, e Nicholas obrigou-se a não se deter nessa visão.

— Então devemos concluir que a abertura é um acidente natural no calcário e não um túnel feito pelo homem?

— Eu não disse isso. Não, o que eu disse é que não tinha certeza. Você provavelmente tem razão. Eles podem ter usado crianças para escavá-lo. Afinal, elas foram usadas nas minas de carvão durante a Revolução Industrial.

— Mas não há jeito de explorar o túnel por este lado?

— Impossível — Royan foi veemente. — A água sai sob forte pressão. Tentei enfiar o braço pela abertura, mas não tive força.

— Que pena! Estava esperando uma evidência irrefutável, ou pelo menos outra pista. — Nicholas sentou-se ao lado dela no barranco e procurou alguma coisa na mochila. Royan fez um ar de curiosidade quando o viu tirar um pequeno instrumento de aço anodizado e abrir a tampa.

— É um barômetro aneróide — ele explicou. — Todo navegador devia ter um. — Estudou-o por um momento e anotou a leitura.

— Explique melhor — ela pediu.

— Quero saber se esta nascente está abaixo do nível da boca do ralo que encontrei no poço de Taita. Se não estiver, poderemos cortá-la de nossa lista de possibilidades.

Nicholas levantou-se.

— Quando estiver pronta, podemos ir.

— Aonde?

— Ora, para o poço de Taita, é claro. Preciso fazer uma leitura lá de cima para estabelecer a diferença de altitude entre os dois pontos.

Quando Tamre ficou sabendo para onde eles iam, mostrou-lhes um atalho, de modo que levaram apenas duas horas desde a nascente até o alto do penhasco que dominava o poço de Taita.

Enquanto descansavam, Royan observou:

— Tamre deve passar a maior parte do tempo andando pelo mato. Conhece todos os caminhos e atalhos. É um excelente guia.

— Pelo menos é melhor que Boris — Nicholas concordou, enquanto olhava o barômetro e fazia outra leitura.

— Você me parece particularmente satisfeito — notou Royan.

— Tenho todos os motivos para estar. Considerando os cinqüenta e quatro metros de altura do penhasco e mais quinze de profundidade do poço, a boca do ralo ainda está trinta metros acima da boca da gruta, do outro lado do vale.

— O que significa...?

— Significa que existe uma clara possibilidade de que os cursos sejam exatamente o mesmo. A entrada é aqui, no poço de Taita, e o escoamento lá na gruta.

— Como foi que Taita fez isso? — ela perguntou. — Como chegou ao fundo do poço? Você, que é bom em engenharia, diga-me como se faz isso.

Nicholas ergueu os ombros, mas Royan persistiu:

— O que estou querendo dizer é que deve haver alguma maneira de fazê-lo, de se trabalhar sob a água. Como foi que eles construíram as pilastras de uma ponte, as fundações da represa ou... como foi que Taita fez aquela abertura abaixo do nível do Nilo para medir o fluxo do rio? Lembra-se da descrição que ele faz de seu hidrógrafo em O Último Deus do Nilo?

— A técnica tradicional é construir câmaras de eclusa — Nicholas disse casualmente, então parou e olhou para ela. — Meu Deus, você é mesmo formidável! Uma represa! Acho que o velho rufião, Taita, represou todo este maldito rio!

— Será possível?

— Começo a acreditar que para Taita tudo é possível. Certamente ele possuía poderes ilimitados à disposição, e se conseguiu construir o hidrógrafo do Nilo em Assuã é porque conhecia muito bem os princípios da hidrodinâmica. Afinal, a vida dos antigos egípcios estava totalmente vinculada às inundações sazonais do rio e ao controle delas. Por tudo o que já vimos do velho Taita, não duvido.

— E como poderemos provar isso?

— Encontrando vestígios de sua represa. Deve ter sido um trabalho infernal conter o Rio Dandera. Há chances de que alguma evidência ainda permaneça.

— Onde ele teria construído a represa? — ela se animou. — Para ser mais clara, onde você colocaria a represa, se fosse construí-la?

— Existe um lugar ideal — Nicholas respondeu prontamente. — O ponto em que a trilha se desvia para entrar no vale e o rio despenca no abismo. — Os dois viraram a cabeça ao mesmo tempo e olharam rio acima.

— O que estamos esperando? — ela perguntou, já se levantando. — Vamos dar uma olhada!

O entusiasmo deles era contagiante, e Tamre saiu na frente, saltitando e dançando por todo o caminho através dos espinheiros, depois pelo vale, até o ponto em que este voltava a encontrar o rio. O sol já não era tão forte quando eles novamente se encontraram sobre as cachoeiras do Dandera, no ponto em que o rio despencava no abismo, dando seu último salto em direção ao Nilo.

— Se Taita construiu a represa do outro lado... — Nicholas descreveu uma curva com os braços na boca da garganta —, pode ter desviado o rio para este vale aqui.

— Não é impossível. — Royan riu. Tamre também deu um riso contido, sem entender uma única palavra do que diziam, mas divertindo-se imensamente.

— Eu precisaria de um nível de telescópio fixo para medir o declive real do terreno. Pode enganar muito, mas a olho nu não parece impossível, como você diz. — Nicholas protegeu os olhos com as mãos e olhou para o alto dos penhascos que ladeavam a cachoeira. Formavam dois portais alcantilados de calcário, entre os quais o rio bramia quando passava pela embocadura.

— Gostaria de subir lá para ter uma noção mais clara do terreno. Você tem coragem?

— Tente me impedir — ela o desafiou, e começou a subir. Era uma dura escalada; em alguns pontos o calcário estava gasto e se desmanchava perigosamente. Entretanto, quando chegaram ao topo do portal ocidental, foram recompensados com uma vista esplêndida do terreno abaixo.

Diretamente ao norte, o escarpamento erguia-se num paredão íngreme, com ameias dentadas e serrilhadas. Acima e além dele divisavam-se as montanhas, os altos picos do Choke, azuladas como a plumagem das garças contra o azul mais claro e distante do céu africano.

Tudo em volta eram as terras áridas da garganta, um vasto emaranhado de espinheiros e pedras de cinqüenta matizes diferentes, algumas cinza e brancas, outras negras como couro de búfalo ou vermelhas como sangue. A vegetação ribeirinha era verde, o mesmo verde-vivo e venenoso das cobras mamba na copa das árvores, enquanto os espinheiros distantes da água eram cinzentos e ressequidos, destacando-se no meio deles a silhueta rígida de velhas árvores secas, com seus galhos torturados.

— A imagem da devastação — Royan sussurrou. — Selvagem e indomável. Não admira que Taita tenha escolhido este lugar. Afasta qualquer intruso.

— Agora já podemos ter uma boa noção — observou Nicholas mostrando o vale embaixo. — Há uma clara linha divisória lá onde o vale se bifurca. Dá para notar a inclinação natural do terreno. É a parte mais estreita fica daquele lado da garganta até este ponto onde nós estamos. É o funil por onde passa o rio... um local natural para uma represa. — Ele apontou para baixo, à esquerda de onde estavam. — Não custaria muito desviar o rio para o vale. Quando ele terminasse de fazer o que pretendia no penhasco, seria muito mais fácil demolir a barragem e deixar que o rio retomasse seu curso natural.

Tamre não desviava os olhos deles, voltando-os ora para um ora para outro; não entendia nada do que escutava, mas reproduzia as expressões de Royan como um espelho. Se ela assentia com a cabeça, ele fazia o mesmo; se ela franzia as sobrancelhas, ele também franzia; e quando ela ria, ele a imitava.

— É um grande rio... — Royan balançou a cabeça, enquanto Tamre fazia o mesmo com ares de sábio. — Que método ele terá usado? Uma barragem de terra? Será?

— Os antigos egípcios abriam canais na terra e construíam represas para irrigação — Nicholas refletiu. — Por outro lado, quando tinham pedras, eles as usavam para tudo. Eram exímios pedreiros. Você já deve ter visto as pedreiras de Assuã.

— Não há muito solo arável aqui na garganta — ela observou. — Mas está cheio de pedras. É um museu geológico. Todo tipo de rochas que se queira.

— Concordo. É bem provável que Taita tenha usado pedras para construir a parede da represa. Os antigos egípcios fizeram isso há muito tempo. Se for esse o caso, é possível que restem alguns vestígios.

— Muito bem, vamos trabalhar com essa hipótese. Taita construiu uma represa com blocos de pedra e depois a destruiu. Onde poderíamos encontrar seus restos?

— Devemos começar a procurar no terreno mais adequado — ele respondeu. — Lá onde a garganta se afunila. Depois seguiremos procurando rio abaixo.

Eles desceram novamente; Tamre indicava o melhor caminho a Royan, parando para esperá-la sempre que ela fazia uma pausa para respirar. Saíram no afunilamento do vale e pararam no barranco rochoso do rio.

— Que altura deviam ter as paredes?

— Não eram muito altas. Não posso ter uma resposta precisa até verificar os níveis. — Nicholas subiu mais um pouco pela encosta da montanha. Lá ele se agachou e olhou para trás e para a frente, primeiro para o vale, depois para o lado da cachoeira, onde o rio saltava sobre o abismo.

Por três vezes Nicholas mudou de posição, cada uma delas subindo mais um pouco no rochedo, que a cada passo se tornava mais íngreme. No final, ele escalava com dificuldade a encosta, mas parecia satisfeito. Então chamou Royan.

— Eu diria que é mais ou menos aqui, onde eu estou. Esta devia ser a altura da parede da represa: uns cinco ou seis metros.

Ainda no barranco do rio, Royan olhou para a outra margem, calculando a que distância ficavam os rochedos de calcário.

— É mais ou menos uns trinta metros de largura — ela gritou para Nicholas.

— Mais ou menos — ele concordou. — Muito trabalho, mas não impossível.

— Taita nunca se intimidou com tamanhos e dificuldades. — Ela fechou as mãos em torno da boca para gritar: — Já que está aí em cima, consegue ver algum sinal de construção? Taita teria de fixar a barragem no rochedo.

Nicholas andou mais pela encosta, sempre no mesmo nível, até ficar diretamente sobre a cachoeira e não poder continuar. Então escorregou até onde Royan estava.

— Nada? — ela perguntou, e ele fez que não com a cabeça.

— Mas não se pode querer que reste alguma coisa, depois de quase quatro mil anos. Estas montanhas ficaram expostas ao vento e à intempérie por todo esse tempo. Acho melhor procurarmos pelos blocos das paredes da represa que possam ter sido arrastados quando Taita a destruiu para inundar novamente o abismo.

Eles andavam pelo vale, quando Royan encontrou um pedaço de pedra que parecia diferente das outras. Tinha o tamanho de um antigo baú. Embora estivesse encoberta pela vegetação, a parte superior estava exposta e tinha um canto com ângulo bem definido. Ela chamou Nicholas para ver.

— Olhe isto. — Royan batia na pedra orgulhosamente. — O que acha?

Ele aproximou-se e alisou a superfície da pedra.

— É possível — concordou. — Mas para ter certeza precisaríamos encontrar as marcas da talhadeira, onde os antigos pedreiros começavam a fraturar a pedra. Como você sabe, eles talhavam um buraco, depois o aprofundavam até a pedra se partir.

Os dois examinaram detalhadamente a superfície, e embora Royan tivesse encontrado alguns dentes que lhe pareceram marcas de talhadeira, Nicholas só aceitou em parte.

— Estamos correndo contra o tempo — ele disse, obrigando-a a se afastar de sua descoberta —, e ainda temos muito para olhar.

Procuraram pelo vale mais uns 500 metros à frente, e então Nicholas desistiu.

— Mesmo com a maior das inundações é improvável que os blocos tenham sido carregados até aqui. Vamos voltar e ver se alguma coisa teria rolado pelas cachoeiras para dentro do abismo.

Voltaram para a margem do Dandera e desceram o rio até as cachoeiras.

— Não parece tão profundo aqui como mais à frente — Nicholas calculou. — Acho que tem menos de trinta metros.

— Acha que poderia descer lá? — Royan perguntou, duvidosa. A água espirrava em seu rosto, e eles tinham de gritar para serem ouvidos.

— Só com uma corda forte e homens para me puxar de volta. — Ele inclinou-se na beirada da pedra e focalizou o binóculo lá embaixo. Era uma miscelânea de pedras soltas — pequenas, arredondadas, e uma ou duas bem maiores. Algumas eram angulosas, e outras, com um pouco de imaginação, poderiam ser consideradas retangulares. Entretanto, a superfície delas fora alisada pela ação da água. A maioria estava parcialmente submersa ou era escondida pelos borrifos da cachoeira.

— Não acredito que possamos chegar a uma conclusão daqui de cima, e, para dizer a verdade, não me imagino descendo lá embaixo... pelo menos não esta noite.

Royan sentou-se ao lado dele, abraçando os joelhos recolhidos contra o peito. Estava desanimada.

— Então não podemos ter certeza de nada. Taita represou o rio, ou não?

Com muita naturalidade, Nicholas passou o braço pelos ombros dela para consolá-la; logo em seguida Royan relaxou e descansou a cabeça em seu peito. Eles olhavam em silêncio para o abismo. Por fim, ela afastou-se delicadamente e se levantou.

— Acho que devemos voltar para o acampamento. Quanto tempo levaremos para chegar?

— Pelo menos três horas — ele disse, também se levantando. — Você tem razão. Estará escuro antes de chegarmos, e hoje não há lua.

— É estranho como a gente se sente cansada quando se decepciona — ela disse, espreguiçando-se. — Eu poderia me deitar e dormir aqui mesmo, num dos blocos de pedra de Taita. — Royan fez uma pausa e olhou para ele. — Nicky, onde foi que ele os conseguiu?

— Onde os conseguiu? — ele repetiu, confuso.

— Não percebe? Estamos indo pelo caminho errado. Até agora tentamos descobrir o que aconteceu com os blocos. Esta manhã você mencionou as pedreiras de Assuã. Não deveríamos considerar onde Taita encontrou os blocos de sua represa, em vez do que aconteceu com eles?

— A pedreira! — Nicholas exclamou. — Meu Deus, você está certa! Pelo início, não pelo fim. Deveríamos estar procurando a pedreira, não os restos da represa.

— Por onde começamos?

— Pensei que você soubesse. — Ele deu uma risada e imediatamente Tamre também riu. Os dois olharam para o garoto.

— Acho que devemos começar por Tamre, nosso fiel guia — ela disse, e pegou a mão dele. — Ouça, Tamre, ouça bem o que vou lhe dizer. — Obediente, ele inclinou a cabeça e olhou para ela, buscando sua errática concentração.

— Estamos procurando o lugar de onde vêm estas pedras quadradas. — Ele parecia aturdido, então Royan tentou novamente: — Há muito tempo existiam homens que cortavam pedras nas montanhas. Em algum lugar perto daqui eles fizeram um grande buraco. Será que ainda existem esses blocos quadrados de pedra no buraco?

De repente o rosto do menino se iluminou num sorriso beatífico.

— A pedra de Jesus! — ele gritou alegremente, e levantou-se sem soltar a mão dela. — Vou mostrar a pedra de Jesus — e começou a puxá-la, já descendo para o vale.

— Espere, Tamre! — Royan pediu. — Mais devagar. — Não adiantou. Tamre não diminuiu o passo e começou a cantar um hino em amárico. Nicholas seguiu-os e só os alcançou mais adiante.

Encontrou Tamre de joelhos, com a cabeça encostada no paredão de pedra do vale, de olhos fechados e orando. Royan estava ao lado dele.

— Que diabo vocês estão fazendo? — Nicholas inquiriu.

— Rezando — ela respondeu naturalmente. — Instruções de Tamre. Temos de rezar antes de irmos à pedra de Jesus.

Ela afastou-se de Nicholas, fechou os olhos, pousou as mãos sobre eles e começou a rezar em voz baixa.

De repente, Tamre se pôs em pé de um salto e executou uma dança, balançando os braços e girando até a poeira erguer-se do chão. Então parou e cantou.

— Pronto. Vamos entrar na pedra de Jesus.

Novamente, pegou a mão de Royan e levou-a até o paredão de pedra. Eles desapareceram diante dos olhos de Nicholas, deixando-o levemente alarmado.

— Royan! — ele chamou. — Onde está você? O que está havendo? Ele se aproximou do paredão e exclamou assombrado:

— Meu Deus! Jamais encontraríamos isto em um ano de busca!

A face do rochedo dobrava-se sobre si mesma, formando uma passagem oculta. Ele cruzou essa abertura olhando as paredes verticais, e trinta passos à frente saiu num grande anfiteatro, com pelo menos 100 metros de diâmetro, a céu aberto. As paredes eram rocha sólida, e Nicholas viu de relance que eram do mesmo xisto micáceo do bloco que Royan havia encontrado no chão do vale.

Era evidente que a cavidade tinha sido esculpida na pedra viva, em camadas que subiam até o alto do paredão. Os nichos de onde os blocos haviam sido arrancados ainda eram visíveis, como degraus profundos com bordas em ângulo reto. Um pouco de capim e de vegetação rasteira havia encontrado um apoio precário nas rachaduras, mas a pedreira não fora encoberta por essa vegetação, e Nicholas viu que um estoque de blocos de granito trabalhados permanecia espalhado no fundo da escavação. Estava tão assombrado pela descoberta que não encontrava palavras para se expressar. Ficou parado na entrada, girando lentamente a cabeça de um lado para outro, tentando assimilar tudo.

Tamre conduzira Royan para o centro da pedreira, onde repousava uma grande lousa isolada. Era óbvio que os antigos iriam removê-la e transportá-la para o vale, porque estava lavrada na forma de um retângulo perfeito.

— A pedra de Jesus! — entoou Tamre, ajoelhando-se diante da rocha e puxando Royan para seu lado. — Jesus me trouxe aqui. Na primeira vez, ele estava em pé nessa pedra. Tinha uma longa barba branca e olhos tristes e gentis. — Ele fez o sinal-da-cruz e começou a entoar um salmo, balançando o corpo no ritmo.

Enquanto Nicholas se aproximava silenciosamente, notou que Tamre visitava regularmente aquele lugar, para ele sagrado. A pedra de Jesus era seu altar privativo, e suas patéticas oferendas estavam onde ele as havia deixado. Eram velhos frascos de tej e potes de cerâmica, na maior parte rachados e quebrados. Dentro deles havia flores silvestres, colhidas há muito tempo. Havia outros tesouros que ele recolhera e levara para seu altar: cascos de tartaruga e espinhos de ouriço, uma cruz de madeira feita à mão, decorada com retalhos de tecidos coloridos, colares e contas, animais e pássaros moldados no barro azul do rio.

Nicholas parou e ficou olhando os dois ajoelhados e rezando juntos diante daquele altar primitivo. Emocionava-o profundamente a fé do menino e a confiança de levá-los àquele lugar.

Por fim, Royan se levantou e aproximou-se dele. Juntos, começaram a circular pela pedreira. Falavam pouco, e mesmo assim em sussurros, como se estivessem numa catedral ou num local sagrado. Ela tocou-lhe o braço e apontou. Inúmeros blocos quadrados permaneciam em sua posição original nas paredes da pedreira. Não haviam sido totalmente removidos da pedra-mãe, como um feto ligado pelo cordão umbilical que nunca fora cortado pelos antigos pedreiros.

Era uma ilustração perfeita dos métodos de escavação usado pelos antigos. Podia-se ver o progresso do trabalho em seus vários estágios, desde os contornos chanfrados do bloco, feitos pelo artesão-mestre, as perfurações da broca, até o produto final arrancado da parede e pronto para ser transportado ao local da obra.

O sol se punha e estava quase escuro quando terminaram a volta completa da pedreira. Sentaram-se lado a lado num dos blocos trabalhados, com Tamre a seus pés como um cachorrinho, olhando para o rosto de Royan.

— Se tivesse rabo, ele o estaria abanando — Nicholas sorriu.

— Jamais traia sua confiança ou desrespeite este lugar de alguma maneira. Ele fez daqui seu templo particular. Acho que nunca trouxe outra pessoa aqui. Promete que vai respeitá-lo sempre, aconteça o que acontecer?

— É o mínimo que posso fazer — Nicholas concordou, e voltou-se para Tamre: — Você fez uma coisa muito boa nos trazendo aqui. Estou muito agradecido. A moça também está muito agradecida a você.

— Devíamos voltar para o acampamento agora — Royan sugeriu, olhando para o céu. Já estava púrpura e anil, colorido pelos últimos raios do crepúsculo.

— Não acho que seria muito sábio — ele discordou. — Porque é uma noite sem lua e poderíamos facilmente quebrar uma perna no escuro. Isso não é recomendável aqui em cima. Poderia levar uma semana para receber atendimento médico adequado.

— Pretende dormir aqui? — Royan perguntou, surpresa.

— Por que não? Posso acender um fogo em um minuto, e trouxe um pacote de ração de sobrevivência para o jantar... Já fiz isso antes como você sabe. E está com seu protetor ao lado, portanto sua honra está salva. Por que não?

— É, por que não? — Ela riu. — Poderemos fazer uma inspeção mais detalhada da pedreira amanhã cedo.

Ela se levantou para começar a juntar os gravetos, mas parou e olhou para cima. Também tinha ouvido aquele silvo de hélices no ar.

— O helicóptero da Pégaso — Nicholas disse desnecessariamente. — O que é que estão procurando a uma hora dessas?

Ambos ficaram olhando para o céu escuro e viram as luzes de navegação do aparelho piscando 300 metros acima — vermelha, verde e branca — e seguir para o sul, na direção do mosteiro.

icholas fez uma pequena fogueira num canto da pedreira, perto da entrada; todos sentaram-se ao redor do fogo enquanto ele dividia um pacote de ração desidratada

em três porções. Os tabletes foram umedecidos e amaciados com a água dos cantis.

O fogo criava reflexos fantasmagóricos nos paredões de pedra e ampliava as sombras. Quando um bacurau gorjeou em um nicho no

alto do paredão, foi tão lúgubre e evocativo que Royan ficou arrepiada

e sentou-se mais perto de Nicholas.

— Será que Taita está assistindo ao nosso progresso em algum lugar do além? — ela perguntou. — Tenho a sensação de que agora o estamos deixando mais preocupado. Desenredamos a primeira parte do quebra-cabeça criado para nós, mas aposto que ele nunca imaginou que alguém conseguisse fazê-lo.

— O próximo passo será chegar ao fundo daquele poço. Isso sim vai ser um golpe para o velho demônio. O que acha que encontraremos lá embaixo?

— Reluto em falar — Royan respondeu. — Prefiro não dizer qualquer coisa que possa dar azar.

— Não sou supersticioso. Bem, pelo menos não a esse ponto. Posso dizer? — Nicholas sugeriu, e ela riu em assentimento. — Esperamos encontrar a entrada da tumba do Faraó Mamose. Nada de pistas, enigmas e arenques vermelhos. A verdadeira tumba.

Ela cruzou os dedos.

— Que Deus o ouça! — Então ficou mais séria. — Quais serão as nossas chances de encontrar o túmulo intato?

Nicholas ergueu os ombros.

— Responderei a essa pergunta quando chegarmos ao fundo do poço.

— E como faremos isso? Você falou em usar cilindros de oxigênio.

— Não sei — ele confessou. — A esta altura, simplesmente não sei. Talvez consigamos entrar lá com escafandros.

Royan ficou em silêncio enquanto considerava a aparente impossibilidade da tarefa que tinham pela frente.

— Ânimo! — ele passou o braço pelos ombros de Royan, que fez um movimento para se afastar. — Ao menos temos um consolo: se Taita dificultou tanto para nós, fez o mesmo para qualquer um que já tenha tentado. E acho que, se a tumba estiver mesmo lá embaixo, nenhum ladrão de túmulos chegou na nossa frente.

— Se a entrada for no fundo do poço, então as descrições de Taita nos pergaminhos são propositalmente confusas. As informações que nos chegaram foram deturpadas por Taita, depois por Duraid e, finalmente, por Wilbur Smith. Estamos diante da tarefa de encontrar nosso próprio caminho por esse labirinto de informações totalmente desencontradas.

Eles ficaram em silêncio novamente, então Royan sorriu e seu rosto iluminou-se à claridade da fogueira.

— Oh, Nicky, que desafio mais excitante! — Então seu tom de voz baixou uma oitava: — Mas haverá um meio? Será possível entrar lá?

— Nós vamos descobrir.

— Quando?

— Na devida hora. Ainda não pensei muito nisso. A única coisa que sei é que vai exigir muito planejamento e trabalho duro.

— Você ainda está disposto, então? — Royan queria sua garantia, pois sabia que jamais faria isso sozinha. — Não está desanimado com o projeto?

Nicholas riu.

— Confesso que não esperava que Taita nos levasse a uma caçada tão animada. Pensei que simplesmente fôssemos quebrar uma pedra e encontrar tudo lá, esperando por nós, como Howard Carter na tumba de Tutancâmon. Entretanto, a resposta à sua pergunta é sim, embora eu esteja muito apreensivo com tudo o que isso implica — mas nada me deteria agora! Sinto o cheiro de glória nas narinas, e vejo o ouro brilhando sob os olhos.

Enquanto conversavam, Tamre havia-se deitado na areia do outro lado da fogueira, com a cabeça coberta pelo shamma. Seu sono deve ter sido interrompido por sonhos e fantasias, porque ele murmurava, rangia os dentes e dava risadinhas sem parar.

— Gostaria de saber para onde vai essa pobre cabeça demente e o que será que ele vê — Royan sussurrou. — Ele disse que viu Jesus aqui na pedreira, e tenho certeza de que acredita nisso piamente.

As vozes tornavam-se sonolentas enquanto o fogo queimava, e Royan murmurou antes de adormecer no ombro de Nicholas:

— Se o túmulo do Faraó Mamose estiver abaixo do nível do rio, seu conteúdo não terá sido danificado pela água?

— Não acredito que Taita tenha construído uma represa e trabalhado quinze anos para fazer o túmulo, como ele diz nos pergaminhos, para deixar que a água estragasse a múmia de seu rei e arruinasse seu tesouro — murmurou Nicholas, sentindo o cabelo de Royan fazer cócegas em seu queixo. — Não, isso impossibilitaria a ressurreição do faraó no outro mundo, e seu trabalho seria totalmente inútil. Acho que Taita calculou muito bem tudo o que fez.

Ela aconchegou-se mais a ele e suspirou satisfeita. Pouco depois, Nicholas disse suavemente:

— Boa noite, Royan. — Mas ela não respondeu, e ele deu um suave beijo em sua cabeça.

Nicholas não teve certeza do que o acordou. Levou algum tempo para se localizar e ver que ainda estava na pedreira. Não havia lua, mas as estrelas brilhavam próximo da terra, gordas e inchadas como cachos de uva madura. Viu Royan dormindo no chão ao seu lado.

Levantou-se com cuidado para não perturbá-la e afastou-se das brasas da fogueira para esvaziar a bexiga. A noite estava mortalmente silenciosa. Não se ouviam pássaros noturnos ou o som de qualquer outro animal. As pedras em volta ainda irradiavam o calor do dia anterior.

De repente, o ruído se repetiu. Era um leve e distante sussurro que ecoou pelos paredões de pedra, de modo que ele não podia localizar de onde vinha. Mas conhecia muito bem aquele som. Já o ouvira muitas vezes. Eram disparos distantes de uma arma de fogo automática, provavelmente um rifle de assalto AK-47, não numa longa seqüência, mas em detonações curtas de três rodadas, uma arte que exigia prática e perícia. Ele tinha certeza de que o atirador era um profissional treinado.

Nicholas ficou ouvindo durante algum tempo, mas os tiros não se repetiram. Por fim, voltou para junto de Royan e acomodou-se novamente ao lado dela. Entretanto, seu sono era superficial e intermitente, pronto para ser interrompido a qualquer momento se ele ouvisse novos disparos.

Royan começou a se espreguiçar aos primeiros reflexos alaranjados da aurora no céu do oriente; enquanto comiam o resto da ração de sobrevivência na refeição matinal, Nicholas contou sobre os tiros que o despertaram durante a noite.

— Acha que foi Boris? — ela perguntou. — Deve ter encontrado Mek e Tessay.

— Duvido muito. Boris saiu atrás deles já faz alguns dias. A essa hora estará muito mais longe do que o local daqueles tiros, ou do alcance do som de armas mais pesadas.

— O que acha que foi, então?

— Nem imagino. Mas não gostei. Devemos voltar para o acampamento depois que dermos outra olhada na pedreira. Depois, não há mais nada que possamos fazer por aqui no momento. Vamos arrumar nossas coisas e voltar para casa e para a mamãe.

Tão logo a luz permitiu, Nicholas começou a tirar fotos da pedreira. Para comparar a escala, Royan posou diante do paredão no qual ainda havia blocos embrionários. Imbuída de seu papel de modelo, começou a brincar com Nicholas. Subiu numa laje e posou como se a golpeasse com um machado, ou com um braço atrás da cabeça, como Marilyn Monroe.

Quando, por fim, desciam o vale em direção ao mosteiro, estavam ambos exultantes e excitados com seus sucessos. Conversavam animadamente sobre idéias que iam e vinham, traçando planos para a futura exploração dessas maravilhosas descobertas. Quando chegaram aos rochedos rosados, no lado mais baixo do abismo, a manhã estava alta. Foi quando viram um pequeno grupo de monges subindo pela trilha. Mesmo de longe percebia-se que algo terrível acontecera na ausência deles: os lamentos ululantes dos religiosos deixaram Royan arrepiada. Era o som de lamentação habitual na África, anúncio de morte e de tragédia. Quando chegaram mais perto, viram os monges pegando punhados de areia da trilha e jogando sobre a cabeça, aos prantos e lamúrias.

— O que é isso, Tamre? — Royan perguntou. — Vá perguntar o que foi.

Tamre correu para seus irmãos. Parados no meio do caminho, eles conversavam em altos brados, chorando e gesticulando. Então ele voltou.

— As pessoas do seu acampamento. Uma coisa terrível aconteceu. Homens maus vieram durante a noite. Muitos criados morreram — ele gritou.

Nicholas agarrou a mão de Royan.

— Venha! — disse imediatamente. — Vamos ver o que aconteceu.

Correram os últimos 800 metros e encontraram mais um grupo de monges em volta de alguma coisa diante da tenda de refeições. Nicholas empurrou-os para poder passar. Parou diante do que viu, com uma expressão de horror e sentindo um profundo mal-estar. Sob o zumbido de um enxame de moscas azuis, os corpos do cozinheiro e de mais três criados estavam caídos ao chão. Tinham as mãos amarradas nas costas e haviam sido obrigados a ajoelhar-se para receber um tiro à queima-roupa atrás da cabeça.

— Não olhe! — Nicholas advertiu Royan, que estava chegando. — Não é nada bonito.

Mas ela ignorou o conselho e parou a seu lado.

— Oh, meu Deus! Foram chacinados como gado no abatedouro.

— Isso explica os tiros que ouvi ontem à noite — Nicholas respondeu amargamente. Ele adiantou-se para identificar os cadáveres. — Aly e Kif não estão aqui. Onde estarão? — Então gritou em árabe: — Aly, onde está você?

O mateiro adiantou-se entre o grupo de pessoas.

— Estou aqui, efêndi. - Sua voz estava trêmula e o rosto, pálido. Havia sangue em sua camisa.

— Como isso aconteceu? — Nicholas segurou o braço dele para acalmá-lo.

— Vieram uns homens armados de noite. Shufta. Atiraram nas cabanas onde vocês dormem. Não deram nenhum aviso. Já chegaram atirando.

— Quantos eram? Quem eram? — Nicholas exigiu.

— Não sei quantos eram. Estava escuro e eu dormia. Fugi quando começaram a atirar. Eram shuftas, bandidos, assassinos. São umas hienas, uns chacais... não tinham motivo para fazer isso. Eram meus irmãos, meus amigos — ele começou a soluçar, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

Royan virou-se, nauseada e horrorizada. Foi para a sua cabana e parou na porta. O lugar fora revirado. Suas malas estavam abertas no chão, os lençóis rasgados e o acolchoado de dormir jogado a um canto. Como uma sonâmbula, ela entrou na cabana e pegou o envelope de lona onde guardava seus papéis. Virou-o para baixo e o sacudiu. Estava vazio. As fotos de satélite e os mapas, todos os decalques do monólito e as Polaroids tiradas por Nicholas no túmulo de Tanus haviam desaparecido.

Royan ergueu a cama de campanha e colocou-a no lugar. Sentou-se para tentar ordenar os pensamentos, pois sentia-se perdida e abalada. A imagem daqueles cadáveres ensangüentados com buracos de balas no corpo, caídos no chão, não lhe saía da cabeça, embotando a concentração e o raciocínio.

Nicholas entrou na tenda e olhou ao redor.

— Fizeram a mesma coisa comigo. Revistaram minha cabana. Levaram meu rifle e todos os meus papéis. Ao menos o passaporte e os cheques de viagem ficaram na minha mochila. — Ele parou quando viu o envelope de lona caído aos pés de Royan. — Eles levaram os...

— Sim — ela se antecipou. — Levaram todo o nosso material de pesquisa, inclusive as Polaroids. Graças a Deus os rolos de filme ficaram com você. Aconteceu tudo de novo. Nunca vou me livrar deles, nem aqui nem nos lugares mais remotos do mundo. — Sua voz beirava a histeria. Royan levantou da cama e correu para ele.

— Oh, Nicky, o que teria acontecido se estivéssemos aqui ontem à noite? — Ela atirou-se ao pescoço dele. — Estaríamos deitados sob o sol, cobertos de sangue e de moscas.

— Calma, minha querida. Não vamos nos ater à primeira impressão. Podem muito bem ter sido bandidos.

— Por que roubariam nossos papéis? Que valor teriam para um shufta os decalques e fotos? Lembra-se de que escutamos o helicóptero da Pégaso pouco antes do ataque? Estavam atrás de nós, Nicky, eu tinha certeza disso. Querem nos matar como fizeram com Duraid. Podem voltar a qualquer momento, e agora estamos desarmados e desprotegidos.

Está bem, concordo que aqui estaremos muito vulneráveis. Temos de sair o mais rápido possível. Não temos mais nada a fazer por aqui no momento. — Ele a abraçava na tentativa de acalmá-la. — Anime-se!

Vamos salvar tudo o que pudermos dessa bagunça e pegar logo os caminhões.

— E os homens que morreram? — Ela se afastou e pôs-se a enxugar as lágrimas do rosto e recuperar o controle. — Quantos dos nossos sobreviveram?

— Aly, Salim e Kif escaparam. Conseguiram fugir da cabana e esconder-se no mato quando o tiroteio começou. Já disse para se aprontarem para paitirmos imediatamente. Conversei com os monges. Eles cuidarão do enterro dos homens e comunicarão às autoridades quando puderem. Mas concordam que o ataque era contra nós, que ainda corremos perigo e que devemos sair logo daqui.

Em uma hora eles estavam prontos para partir. Nicholas decidiu deixar todo o equipamento e o caminhão de Boris a cargo de Jali Hora. Como as mulas não tinham muita carga, o plano era subir a pé até o alto da garganta.

O abade lhes deu uma escolta de monges até o topo do escarpamento.

— Somente um verdadeiro ateu atacaria vocês sob a proteção da cruz — ele explicou.

Nicholas encontrou o couro seco do dik-dik ainda na cabana de despela. Enrolou-o e o amarrou ao cesto de uma mula; em seguida deu ordem para que a pequena caravana começasse a subida.

Tamre se insinuara no grupo de monges que os acompanhava. Manteve-se perto de Royan quando se puseram a caminho, seguidos durante um quilômetro pelos acenos e despedidas da comunidade monástica.

O calor do meio-dia era abrasador. O ar não se movimentava para aliviá-lo, e os paredões do vale sugavam o calor do sol inclemente, cuspindo-o de volta enquanto escalavam seus rochedos. O suor que brotava dos poros deixava manchas de cristais de sal na pele e nas roupas. Os muladeiros, apavorados, mantinham um passo desesperado, marchando atrás dos animais e cutucando-os por baixo das pernas com uma vara pontuda, para que não perdessem o trote.

No meio da tarde haviam refeito o mesmo caminho do dia anterior e novamente chegaram ao suposto local da represa de Taita. Nicholas e Royan pararam um pouco para molhar a cabeça no rio e tirar o sal e o suor do rosto e do pescoço. Então ficaram lado a lado no alto das cachoeiras e deram um breve adeus ao abismo no qual repousavam todos os seus sonhos e suas esperanças.

— Quando voltaremos? — ela perguntou.

— Não ficaremos longe por muito tempo. As grandes chuvas chegarão logo e as hienas já farejaram o cheiro e estão se aproximando. De agora em diante, cada dia será precioso e cada hora que perdermos poderá ser crucial.

Ela olhou para o fundo do abismo e disse baixinho:

— Você ainda não venceu, Taita. O jogo mal começou.

Eles voltaram juntos e seguiram as mulas pela trilha que levava ao desfiladeiro. Nessa noite não pararam no local tradicional de acampamento, mas continuaram por vários quilômetros até que a escuridão os obrigou a parar. Ninguém pensou em armar um acampamento confortável. Comeram bolos de pão injera molhados no pote de wat, que haviam sido levados pelos monges. Depois Nicholas e Royan estenderam seus sacos de dormir lado a lado e caíram num sono exausto e profundo.

Ia manhã seguinte, enquanto as mulas eram carregadas ao lusco-fusco do amanhecer, eles beberam uma xícara do café etíope, forte e amargo. Então puseram-se novamente a caminho.

Quando o sol nascente clareou os paredões íngremes do desfiladeiro, os penhascos pareciam bastante próximos. Nicholas comentou com Royan, que se apressou para alcançá-lo:

— Neste ritmo vamos chegar ao alto do desfiladeiro esta tarde, e é possível que tenhamos de dormir na gruta atrás da queda-d'água.

— Isso quer dizer que vamos economizar alguns dias de viagem e alcançaremos os caminhões amanhã.

— Possivelmente. Não vejo a hora de cair fora daqui.

— Parece uma armadilha — Royan concordou, olhando os paredões de pedras rachadas que se erguiam de ambos os lados, confinando-os numa estreita passagem ao lado do Rio Dandera.

"Andei pensando algumas coisas, Nicky."

— Vamos ouvir suas conclusões.

— Não são conclusões, apenas algumas idéias perturbadoras. Suponhamos que alguém da Pégaso esteja agora com nossos decalques e fotos, e que consiga entendê-los. Como irá reagir quando vir os progressos que já fizemos em nossa busca?

— Realmente, não são bons pensamentos — ele concordou. — Por outro lado, não há muito que possamos fazer até voltarmos à civilização, exceto manter os olhos bem abertos e nossa boa intuição. Diabo, não tenho nem mesmo meu pequeno Rigby. Somos um bando de patos sentados.

Aly, os muladeiros e os monges pareciam ter a mesma opinião, pois jamais diminuíam o passo. Somente ao meio-dia fizeram a primeira parada para esquentar o café e dar água às mulas. Enquanto os homens faziam fogo, Nicholas pegou o binóculo no cesto de uma mula e começou a subir uma encosta. Não havia andado muito quando olhou para trás e viu que Royan o seguira. Esperou que ela o alcançasse.

— Devia aproveitar para descansar — ele disse num tom sério. — Uma insolação pode ser muito perigosa.

— Não confio em você andando por aí sozinho. Quero saber o que está pretendendo.

— Vim dar uma espiada. Devíamos ter mandado alguém na frente, e não andar cegamente pela trilha como estamos fazendo. Se me lembro bem das marchas para o interior, os piores lugares estão bem à nossa frente. Só Deus sabe aonde é que estamos indo.

Eles continuaram subindo, mas não puderam chegar ao topo porque um rochedo vertical impossível de se escalar lhes barrou o caminho. Nicholas procurou o melhor ponto sob essa barreira para enxergar o vale à frente. O terreno era como ele lembrava. Estavam chegando aos paredões do desfiladeiro, e o terreno tornava-se mais acidentado e difícil, como um oceano se avoluma ao pressentir a terra e, assustado, enrola-se numa onda antes de quebrar na praia. A trilha seguia bem próximo ao rio. Os rochedos que se penduravam sobre o corredor entre os dois barrancos haviam sido esculpidos pela ação da intempérie nas formas mais estranhas e ameaçadoras, lembrando ameias de um terrível castelo de bruxa num velho desenho de Disney. Em certo ponto, um contraforte de arenito avançava sobre a trilha e obrigava o rio a desviar-se, reduzindo o caminho de tal forma que uma mula carregada dificilmente passaria sem derrubar o barranco na água.

Nicholas examinou atentamente o vale com o binóculo. Como não havia nada que parecesse suspeito ou deslocado, ele ergueu o instrumento para examinar o alto dos rochedos.

Nesse momento a voz de Aly se fez ouvir, ecoando pela encosta:

— Depressa, efêndi! As mulas estão prontas para seguir. Nicholas acenou para baixo, mas voltou a erguer o binóculo a fim de vasculhar uma última vez o terreno. De repente, viu um reflexo luminoso — um brilho efêmero, como um sinal de heliógrafo. Voltou toda a sua atenção para o ponto de onde viera o reflexo.

— O que é? O que está vendo? — Royan perguntou.

— Não tenho certeza. Provavelmente nada — ele respondeu, sem afastar o binóculo. Pensou que talvez fosse o reflexo de metal polido, de lentes de outro binóculo ou do cano de um rifle. Por outro lado, uma lâmina de mica ou um seixo de cristal rochoso refletiriam a luz do sol da mesma maneira, além de algumas babosas ou outras plantas suculentas com folhas luminescentes. Nicholas observou o ponto durante alguns minutos, até ouvir novamente a voz de Aly:

— Vamos, efêndi. Os condutores de mula não vão esperar. Nicholas baixou o binóculo.

— Tudo bem. Não é nada. Vamos.

Pegou o braço de Royan para ajudá-la a descer pelo terreno acidentado. Nesse instante, ouviu um ruído de pedras rolando no alto da encosta e apertou o braço dela para fazê-la parar. Esperaram, olhando para cima.

De repente, um par de longos chifres retorcidos apareceu sobre o rochedo — era um velho kudu, com orelhas de trompete empinadas e as franjas da papada brilhando ao sol. Estava parado à beira do rochedo, bem acima de onde eles estavam agachados, por isso não os vira. O kudu virou a cabeça e olhou para trás. Seu olho visível brilhava e a posição de sua cabeça, juntamente com a postura tensa e alerta, deixava claro que alguma coisa o perturbara.

Por um longo tempo ele ficou nessa posição, então resfolegou e, ainda sem perceber a presença de Nicholas e Royan, disparou numa corrida. Sumiu de vista, mas no silêncio do lugar ouvia-se de longe o som de suas patas.

— Alguma coisa o assustou.

— O quê? — perguntou Royan.

— Qualquer coisa... um leopardo, talvez — Nicholas respondeu hesitante, olhando para baixo. A caravana de mulas e de monges já tinha partido e subia pela trilha ao longo da margem do rio.

— O que vamos fazer? — Royan perguntou.

— Devíamos fazer um reconhecimento do terreno... se tivéssemos tempo, o que não temos. — A caravana se distanciava rapidamente. A menos que descessem logo, ficariam para trás, sozinhos e desarmados. Nicholas não tinha nenhum motivo concreto para agir, mas ao mesmo tempo precisava tomar uma decisão.

— Vamos! — Ele pegou a mão de Royan e os dois escorregaram pela encosta. Quando alcançaram a trilha, tiveram de correr para alcançar o final da caravana.

Agora que novamente faziam parte da coluna, Nicholas podia voltar sua atenção para os rochedos com mais cuidado. As pedras que se inclinavam sobre a cabeça bloqueavam a metade do céu. O rio à esquerda encobria qualquer outro som com sua correnteza ruidosa e borbulhante.

Nicholas não estava realmente alarmado. Orgulhava-se de sentir o perigo de longe, um sexto sentido que salvara sua vida mais de uma vez. Considerava-o um sistema de pré-alarme, mas que agora não enviava nenhuma mensagem. Havia inúmeras explicações para o reflexo que vira no alto do rochedo e para a reação do kudu.

Entretanto, nada disso o convencia, e ele permanecia atento aos terrenos elevados sob os quais passavam. Percebeu um movimento mínimo no alto de um penhasco, alguma coisa girando no ar e caindo — uma folha seca levada pela brisa. Era muito pequena e insignificante para oferecer algum perigo, mesmo assim ele a seguiu com o olhar, concentrado.

A folha marrom desceu em espiral e por fim tocou de leve seu rosto. Num ato reflexo, Nicholas ergueu a mão e pegou-a. Esfregou as faces marrons com os dedos, esperando que se quebrassem. Em vez disso, eram macias e tinham uma textura lisa.

Abriu a mão para examinar melhor. Não era uma folha, mas um pedaço de papel impermeável, marrom e translúcido. De repente todos os seus alarmes interiores soaram. Não se tratava apenas da incoerência daquele papel industrializado num local tão remoto. Ele reconhecia a qualidade e a textura daquele tipo particular de papel. Aproximou-o do nariz e cheirou. Um cheiro forte de ácido nitroso se concentrou no fundo de sua garganta.

— Gelatina! — ele exclamou em voz alta, reconhecendo imediatamente o odor.

A gelatina explosiva raramente era empregada com fins militares, agora que existiam o Semtex e os explosivos plásticos, mas ainda era amplamente usada na indústria de mineração. Em geral, bastões de nitroglicerina em polpa de madeira e uma base de nitrato de sódio eram embrulhados com esse papel impermeável. Antes de se colocar o detonador na ponta do bastão, era comum rasgar um pedaço do papel para expor o explosivo. Nicholas já usara muito esse material em outras épocas, e jamais esqueceria seu cheiro.

Ele pensou rápido. Se alguém que os espreitava houvesse minado o penhasco com explosivos, o reflexo que vira só podia ser dos fios de cobre ligados ao equipamento. Se fosse isso, então o operador devia estar agora escondido lá em cima, pronto para apertar o botão da caixa de circuito. O kudu tinha fugido ao perceber a presença humana.

— Aly! — ele gritou. — Faça-os parar! Mande-os voltar! Nicholas começou a correr em direção ao início da caravana, mas

sabia que era tarde demais. Se houvesse alguém no alto do penhasco, estaria observando todos os movimentos do grupo. Jamais chegaria ao início da coluna a tempo de fazer as mulas voltar pela estreita trilha e deixá-las em segurança, antes que... Nesse instante ele parou e olhou para Royan. A segurança dela era sua principal preocupação. Voltou correndo e puxou-a pelo braço.

— Venha! Vamos sair da trilha!

— O que é isso, Nicky? Você ficou louco? — Ela resistiu, tentando soltar-se.

— Explico depois — ele devolveu bruscamente. — Confie em mim agora.

Ele a arrastou alguns passos até que ela cedeu e o acompanhou. Não haviam corrido 50 metros quando a face do penhasco explodiu. Um forte deslocamento de ar quase os derrubou. Golpeou-lhes a cabeça dolorosamente, ameaçando implodir a delicada membrana de seus ouvidos. Então a principal força da explosão os envolveu, não apenas uma única explosão, mas uma detonação demorada como um trovão rolando pelos céus. Atordoados, eles se chocaram e perderam a orientação da fuga.

Apesar do horror, Nicholas pôde apreciar a perícia com que o explosivo fora colocado. Tratava-se de um especialista em bombas. As colunas de pedra fragmentada precipitavam-se sobre eles, erguendo uma nuvem fulva e espiralada de terra contra o céu azul; a princípio a destruição pareceu ser total. Então a silhueta do rochedo começou a se modificar.

Lentamente a princípio, o paredão de pedra se inclinou para fora e a superfície se abriu em rachaduras que lembravam bocas famintas. Camadas de pedra rolavam em câmara lenta. A rocha rugia, quebrava-se e estrondava ao rolar para dentro do rio.

Como que hipnotizado pela terrível visão, o cérebro de Nicholas parecia insensibilizado. Foi preciso muito esforço para pensar e agir. Ele viu que o centro da explosão havia ocorrido mais adiante, próximo ao início da caravana. Tamre estava lá, ao lado de Aly. Ele e Royan encontravam-se na outra extremidade. Quem detonara a bomba obviamente esperava que chegassem ao epicentro da armadilha explosiva, mas fora obrigado a acionar o detonador quando os vira correr de volta pela trilha, percebendo que tinham sido alertados e poderiam escapar.

Mesmo assim não estavam livres — poderiam ser alcançados pela força periférica do deslocamento de terra que deslizava acima deles. Sempre puxando Royan, Nicholas levantou a cabeça para o rochedo e fez um cálculo desesperado.

Olhou petrificado para a grande onda que rolava sobre a trilha, atingindo homens e mulas e arrastando-os para o rio. Engolia-os como a língua de um terrível monstro, para mastigá-los até os ossos com suas presas afiadas de pedra vermelha. Os gritos desesperados podiam ser ouvidos sobre os estrondos.

A onda de destruição espalhou-se até ele e Royan. Se estivessem no local da explosão, teriam as mesmas chances que os outros, mas a força destrutiva se dissipava à medida que descia o rochedo. Por outro lado, Nicholas viu que não havia como fugir, pois o que quer que os atingisse ainda seria devastador.

Não houve tempo para explicar a Royan o que fariam — tinha apenas alguns segundos para agir. Pegando-a nos braços, Nicholas saltou na ribanceira. Os dois afundaram na água, mas 10 metros abaixo da superfície havia uma imensa pedra que deteve seu mergulho.

Meio atordoado, Nicholas puxou Royan para a superfície e arrastou-a para uma saliência protegida do barranco. Havia ali uma reentrância; eles se enfiaram ali e ficaram agachados. Encostados ao paredão, ambos prenderam a respiração quando o primeiro pedaço resvalou e passou por cima deles como uma gigantesca bola de borracha, ganhou velocidade com a força da gravidade e estilhaçou-se com uma violência tal que a pedra sob a qual se protegiam ressoou como o sino de uma catedral. O projétil caiu no rio, erguendo uma onda na superfície que arrebentou em ambas as margens.

Isso foi apenas o começo. Era como se metade da montanha estivesse despencando. Quando cada pedaço caía sobre o abrigo, lascas e pedaços de pedra espirravam para dentro do buraco, enchendo o ar que eles respiravam com uma poeira fina e um odor sulfuroso.

Nicholas cobria Royan com seu corpo. Uma pedra atingiu o lado de sua cabeça, causando-lhe um zumbido no ouvido, mas ele cerrou os dentes e resistiu ao impulso de ver o que havia sofrido. Sentiu um líquido quente e grosso escorrer por trás de sua orelha direita, descendo pelo rosto como algo com vida própria. Só ao lhe atingir o canto da boca ele pôde reconhecer que era um filete de sangue.

A poeira fina causava irritação na garganta, provocando tosse e sufocação. Entrava também nos olhos, obrigando-os a cerrá-los com força.

Um bloco de pedra do tamanho de uma carroça voou pelo ar e caiu bem perto de onde eles estavam. O impacto foi tão violento que Royan, debaixo de Nicholas, sentiu-se esmagar contra o chão enquanto o ar era expulso de seus pulmões. Achou que havia quebrado as costelas.

Então, gradativamente, o desmoronamento de terra e pedras começou a diminuir. A queda de pedaços grandes dentro do abrigo era menos freqüente e a poeira fina começava a assentar. Os estrondos foram parando aos poucos, até restar apenas o som da terra deslizando e o burburinho do rio.

Cautelosamente, Nicholas ergueu a cabeça e tentou abrir os olhos empoeirados. Royan mexeu-se sob ele, que se afastou para ela poder sentar. Olharam um para o outro. Seus rostos estavam brancos como máscaras kabuki e os cabelos pareciam perucas de aristocratas franceses do século 18.

— Você está sangrando — Royan sussurrou com a voz rouca por causa da poeira e do pavor.

Nicholas pôs a mão no rosto e sentiu a pasta de pó e sangue.

— É só um corte — ele disse. — E você?

— Acho que torci o joelho. Senti alguma coisa quando caímos. Não acho que seja grave. Dói um pouco.

— Tivemos uma sorte incrível. Ninguém sobreviveria a isso. Ela tentou se levantar, mas ele a impediu.

— Espere! Este barranco está abalado e instável. Vamos esperar um pouco. Ainda há pedras soltas. — Ele desamarrou o lenço que tinha no pescoço e o deu a ela. — Além disso, não queremos...

Ela limpou o rosto e perguntou com voz trêmula:

— O que ia dizer?

— Além disso, não queremos que aqueles canalhas lá em cima saibam que sobrevivemos à sua festinha. Vão querer descer aqui para terminar o serviço e cortar nossa garganta. É melhor deixá-los pensar que desaparecemos, como pretendiam.

Ela olhou assustada.

— Você acha que eles continuam nos observando?

— Pode apostar — Nicholas respondeu ironicamente. — Devem estar satisfeitos por terem finalmente se livrado de você. Não vamos aparecer agora e acabar com a alegria deles.

— Como soube o que ia acontecer? — ela perguntou. — Se você não tivesse me puxado...

Rapidamente, ele contou sobre o pedaço de papel de gelatina.

— Muito simples: eles escolheram a parte mais estreita da trilha e minaram o rochedo... — Ele interrompeu a explicação quando, fraco mas inquestionável, chegou até eles o ruído de um motor de aeronave e de hélices girando.

— Rápido! Encoste-se o máximo que puder na pedra. — Ele a puxou para dentro. — Deite-se no chão! — Royan obedeceu sem questionar, e ele se deitou ao seu lado, cobrindo-se com o entulho.

— Fique quieta. Não se mexa de jeito nenhum.

Ouviram o helicóptero aproximar-se e circular o local. O aparelho subia e descia sobre o vale, voando a poucos metros da superfície do rio. Num momento ficou exatamente sobre a saliência do barranco que os escondia, tão próximo que o vento das hélices os fustigou.

— Procuram sobreviventes — disse Nicholas com ironia. — Não se mexa. Ainda não nos viram.

— Se estivessem nos vendo antes da explosão, teriam vindo diretamente para cá — ela sussurrou. — Acho que não sabem onde procurar.

— Devem ter-nos perdido na poeira erguida pela avalanche, por isso não sabem onde estamos. — O barulho do helicóptero se distanciou aos poucos. — Vou arriscar uma espiada para ter certeza de que foi serviço da Pégaso... apesar de ser o único helicóptero que há por aqui. Mantenha a cabeça abaixada.

Ele ergueu-se divagar e cuidadosamente, bastando uma única olhada para que suas especulações se confirmassem. Oitocentos metros à frente, o Jet Ranger da Pégaso sobrevoava o rio. Afastava-se devagar, mas num ângulo tal que lyicholas não conseguia ver quem estava na cabina. Nesse instante, o barulho do motor mudou e o piloto inclinou o aparelho.

A aeronave subiu verticalmente e rumou para o norte. Nicholas teve uma visão melhor dos passageiros. Jake Helm estava na frente, ao lado do piloto, e o Coronel Nogo, no banco de trás. Ambos olhavam para o rio, mas em seguida o helicóptero levou-os para longe e desapareceu no alto do rochedo, seguindo para o desfiladeiro. O ruído do motor foi tragado pelo silêncio. Nicholas engatinhou para fora da pedra e ajudou Royan a se levantar.

Não há mais dúvidas. Agora sabemos com quem estamos lidando. Helm e Nogo estavam no helicóptero. Tenho quase certeza de que Helm colocou a gelatina e que Nogo comandou o ataque de ontem à noite ao nosso acampamento. Cada um na sua especialidade — disse Nicholas.

— Então está confirmado: seja quem for o proprietário da Pégaso, é o vilão que está por trás de tudo. Helm e Nogo são meros paus-mandados.

— Mas Nogo é um oficial do Exército etíope — ela protestou.

— Bem-vinda à África! — Ele não riu ao dizer isso. — Aqui tudo está à venda, inclusive os membros do governo e oficiais do Exército.

— Ele esfregou o rosto, descolando a crosta de poeira que se desfazia num pó fino. — Contudo, ainda temos de cair fora daqui e voltar à civilização.

Ele olhou para o alto da ribanceira. A trilha estava totalmente obstruída.

— Não podemos voltar por ali — ele disse a Royan, pegando sua mão. Quando ela se levantou, deu um grito e apoiou-se imediatamente na perna direita.

— Meu joelho! — E em seguida sorriu corajosamente. — Vai ficar bom.

Eles desceram com muito cuidado até o rio, temendo que seus movimentos provocassem outro deslizamento. A água lhes chegava à cintura, junto do barranco.

Royan ficou atrás de Nicholas e lavou o sangue e a terra do ferimento em sua cabeça.

— É pouca coisa — comentou. — Não precisa levar pontos.

— Tenho um tubo de pomada anti-séptica na bolsa — ele disse. Royan espalhou o ungüento cor de mostarda sobre o corte e amarrou o lenço de pescoço em torno da cabeça.

— Isso vai resolver — ela concluiu, dando um tapinha no ombro dele.

— Graças a Deus ainda tenho minha bolsa — Nicholas observou, fechando o zíper da bolsa presa ao cinto. — Pelo menos temos o essencial. Nossa tarefa agora é ver se há sobreviventes.

— Tamre! — Royan exclamou.

Subiram para a margem patinhando na água. O chão estava escorregadio por causa das pedras e da terra que caíra da montanha. Nos lugares mais profundos a água chegava à metade de seu peito, e Nicholas teve de erguer a mochila acima da cabeça. As pedras soltas eram muito traiçoeiras e cediam sob os pés quando tentaram sair da água para procurar os membros da caravana.

Acharam os corpos de dois monges, ambos encolhidos e meio soterrados. Nem sequer tentaram desenterrá-los. Uma das mulas estava caída de pernas para cima, com o corpo totalmente recoberto de pedras. A carga que ela levava estava virada e o conteúdo espalhado pelo chão. A pele enrolada e os chifres do dik-dik estavam enfiados em suas fezes. Nicholas recuperou-os e os amarrou ao cinto.

— Mais coisa para carregar — Royan avisou.

— Um quilo, mais ou menos; vale a pena — ele respondeu. Seguiram em direção ao ponto em que haviam perdido de vista

Aly e Tamre. Procuraram durante uma hora, mas não viram sinal deles. O penhasco acima deles era pura devastação: o solo rasgado, grandes pedras despedaçadas, arbustos e árvores arrancados do chão.

Royan subiu o máximo que seu joelho machucado lhe permitiu, então fechou as mãos em torno da boca e gritou:

— Tamre! Tamre! Tamre! — Seus gritos ecoaram pelos paredões do vale.

— Acho que ele não escapou. O pequeno demônio foi soterrado — Nicholas respondeu. — Já estamos aqui há uma hora. Não podemos ficar mais, se quisermos nos salvar. Vamos ter de deixá-lo.

Royan o ignorou e continuou andando pelo declive, fazendo as pedras soltas rolar sob seus pés; os joelhos lhe doíam muito.

— Tamre! Responda! — ela chamou em árabe. — Tamre! Onde está você?

— Royan! Chega disso! Você vai piorar desse joelho. Está nos pondo em risco, agora. Desista!

Nesse instante ambos ouviram um gemido no alto do deslizamento. Royan andou como pôde em direção ao som, escorregando para baixo enquanto subia, e por fim deu um grito de pavor. Nicholas soltou a mochila no chão e a seguiu. Chegou ao seu lado e caiu de joelhos.

Tamre estava soterrado. Seu rosto estava irreconhecível, a pele fora quase toda arrancada. Royan havia colocado a cabeça dele no colo e usava a manga da blusa para enxugar a secreção que lhe escorria pelas narinas, para que pudesse respirar mais livremente. O sangue vazava pelo canto de sua boca, e quando ele gemeu novamente esguichou numa golfada. Royan o acariciou, espalhando o sangue pelo rosto.

A parte inferior do corpo de Tamre estava enterrada, mas Nicholas tentava remover a pedra de cima; logo percebeu que era inútil. Uma pedra do tamanho de uma mesa de bilhar estava atravessada sobre o rapaz. Pesava muitas toneladas e certamente devia ter esmagado sua espinha e seu quadril. Um homem sozinho seria incapaz de mover aquele peso. E, mesmo que conseguisse, qualquer movimento sem dúvida agravaria o terrível sofrimento que Tamre suportava.

— Faça alguma coisa, Nicky — Royan murmurou. — Temos de fazer algo por ele.

Nicholas olhou para ela e balançou a cabeça. Os olhos de Royan encheram-se de lágrimas, que rolaram de suas pálpebras e caíram como gotas de chuva no rosto do menino.

— Não podemos ficar aqui esperando que ele morra — Royan protestou. Ao ouvir sua voz, Tamre abriu os olhos e voltou-os para ela.

Ele sorriu, e o sorriso iluminou o rosto destruído.

— Ummeel Você é minha mãe. É tão boa! Eu amo você, mamãe. As palavras se calaram e o corpo enrijeceu-se num espasmo. Com uma expressão de agonia, ele soltou um grito baixo, sufocado, e então relaxou. A rigidez desapareceu de seus ombros e a cabeça rolou para o lado.

Royan ficou muito tempo segurando a cabeça de Tamre, chorando baixo, mas amargamente, até que Nicholas tocou sua mão.

— Ele está morto, Royan. Ela assentiu com a cabeça.

— Eu sei. Esperou para se despedir de mim. Nicholas deixou-a chorar mais um pouco, então disse:

— Precisamos ir, minha querida.

— Você tem razão. Mas é difícil deixá-lo aqui. Ele nunca teve ninguém. Era tão sozinho... Chamou-me de mãe. Acho que me amava de verdade.

— Tenho certeza disso — Nicholas assegurou-lhe, erguendo a cabeça de seu colo e ajudando-a a se levantar. — Vá descendo na frente. Vou enterrá-lo da melhor maneira possível.

Nicholas cruzou as mãos de Tamre sobre seu peito, em torno do crucifixo de prata que ele trazia pendurado no pescoço. Depois espalhou pedras sobre o corpo, cobrindo a cabeça de modo que os corvos e urubus não o encontrassem.

Escorregou pelo barranco onde Royan o esperava na água e ergueu a mochila sobre o ombro.

— Precisamos ir — disse a Royan.

Ela secou as lágrimas do rosto com as costas da mão.

— Estou pronta.

Avançaram com muita dificuldade contra a corrente. As pedras haviam bloqueado metade do leito do rio e a água se espremia nos espaços deixados livres. Quando finalmente alcançaram o ponto da ribanceira que sofrera a avalanche, saíram do rio e tomaram o caminho por cima do barranco até chegarem à parte da trilha que nada sofrera.

Pararam um tempo para se recuperar e olharam para trás. A água do rio estava avermelhada por causa da lama. Mesmo que a explosão não tivesse chegado ao mosteiro, os monges perceberiam a cor da água e viriam investigar. Encontrariam os corpos e providenciariam um enterro decente. Esse pensamento confortou Royan. Quando retomaram a trilha, ainda tinham dois dias de viagem pela frente.

Royan mancava muito agora, mas toda vez que Nicholas tentava ajudá-la, recusava sua mão.

— Estou bem. Só estou mancando um pouco. — Ela não o deixava ver seu joelho e caminhava teimosamente à frente dele.

Andaram em silêncio a maior parte do tempo. Nicholas respeitava o luto de Royan, que agradecia por sua reserva. A capacidade que ela tinha de se calar e ao mesmo tempo não dar a impressão de estar distante do que a rodeava era uma de suas qualidades que ele mais admirava. Pouco conversaram mais tarde quando pararam para descansar.

— O único consolo que nos resta é que agora a Pégaso acredita que estamos seguramente enterrados sob o deslizamento e não nos incomodará mais. Podemos seguir sem perder tempo para vigiar o caminho à frente — disse-lhe Nicholas.

Acamparam nessa noite sob o escarpamento, imediatamente antes de o caminho subir pelo paredão vertical. Nicholas conduziu-a para fora da trilha e entrou numa área arborizada; ali fez uma pequena fogueira, que não pudesse ser vista de longe.

Por fim Royan cedeu e permitiu que ele examinasse seu joelho. Estava machucado e inchado.

— Você não devia ter andado com esse joelho.

— Tive alguma opção? — ela perguntou, e não teve resposta. Nicholas umedeceu o lenço de pescoço com água do cantil e amarrou-o apertado em torno da perna de Royan. Então encontrou um envelope de antiinflamatórios na bolsa presa ao cinto e a fez tomar dois comprimidos.

— Já está melhor — ela disse.

Dividiram o último pacote de ração, sentados ao lado do fogo e conversando em voz baixa.

— O que acontecerá quando chegarmos lá em cima? — Royan perguntou. — Os caminhões ainda estarão onde os deixamos? Será que os homens de Boris continuam lá? O que acontecerá se cairmos nas mãos do pessoal da Pégaso outra vez?

— Não posso dar essas respostas. Vamos ter de enfrentar os problemas à medida que aparecerem.

— Uma coisa vou fazer quando chegarmos a Adis Abeba: darei queixa à polícia etíope do massacre de nossos amigos. Quero que Helm e seus comparsas paguem pelo que fizeram.

Ele não respondeu imediatamente.

— Não sei se você deve fazer isso — aconselhou.

— O que quer dizer? Nós testemunhamos o assassinato. Não podemos nos omitir.

— Lembre-se de que queremos voltar à Etiópia. Se fizermos muito barulho agora, o vale logo ficará repleto de soldados e policiais. Isso poderia prejudicar nossas futuras tentativas de resolver o enigma de Taita e procurar a tumba de Mamose.

— Não havia pensado nisso. Mas foi um assassinato, e Tamre...

— Eu sei, eu sei — ele a tranqüilizou. — Mas há outras maneiras mais seguras de nos vingarmos da Pégaso do que entregá-la à justiça etíope. Pense no fato de que Nogo está trabalhando com Helm. Nós o vimos no helicóptero. Se a Pégaso tem um coronel do Exército em sua folha de pagamento, quem mais não terá? Toda a polícia? Outros oficiais? Membros do ministério? Até agora não sabemos de nada.

— Também não havia pensado nisso — ela admitiu.

— Vamos pensar em africano de agora em diante e aprender alguma coisa com os pergaminhos de Taita. Como ele, devemos ser astutos e simulados. Não vamos sair por aí gritando acusações. Seria muito melhor que conseguíssemos sair despercebidos do país, deixando que todos acreditem que fomos enterrados por aquela avalanche. Infelizmente sabemos que não vai ser assim. Mas, de agora em diante, devemos ser o mais cuidadosos e atentos que as circunstâncias permitirem.

Ela ficou com o olhar perdido nas chamas da fogueira por um longo tempo, então deu um suspiro e perguntou:

— Você disse que há uma maneira melhor de nos vingarmos da Pégaso. O que quer dizer?

— Ora, simplesmente que vamos surrupiar o tesouro de Mamose bem debaixo das barbas deles.

Royan riu pela primeira vez naquele dia terrível.

— Você está certo, é claro. Seja quem for o dono da Pégaso, quer tanto o tesouro que é capaz de matar por ele. Sem dúvida, arrancá-lo de suas mãos vai machucá-lo tanto quanto ele nos machucou.

Ambos se encontravam tão cansados que o dia já estava claro quando acordaram na manhã seguinte. Royan tentou se levantar, mas soltou um gemido e caiu sentada. Nicholas atendeu-a imediatamente, e dessa vez ela não protestou quando ele pôs sua perna no colo.

Ele desamarrou o lenço e examinou o joelho; tinha quase o dobro do tamanho normal, e os arranhões estavam inchados e vermelhos. Nicholas lavou o lenço e amarrou-o novamente. Deu a ela mais dois antiinflamatórios e ajudou-a a ficar em pé.

— Como está se sentindo? — perguntou, ansioso. Royan ensaiou alguns movimentos e riu corajosamente.

— Vai ficar bom depois que eu andar um pouco, tenho certeza. Ele olhou para o escarpamento que se erguia sobre eles. Assim tão

perto, o paredão parecia mais baixo, mas Nicholas não se esquecera dos caminhos tortuosos. Haviam levado um dia inteiro para descê-lo.

— É claro que vai. — Nicholas deu-lhe um sorriso encorajador e pegou seu braço. — Apóie-se em mim. Vamos dar um passeio pelo parque.

Assim, eles subiram durante toda a manhã a trilha, que ficava mais íngreme a cada passo. Ela jamais se queixava, embora estivesse pálida e suasse de dor. Ao meio-dia ainda não haviam alcançado a cachoeira, e Nicholas fez uma parada para descanso. Como não havia nada para comer, Royan bebeu avidamente no cantil. Ele não a alertou para a dificuldade de encontrar mais água, mas limitou-se a um único gole.

Quando Royan tentou se levantar, seu rosto contorceu-se de dor, e teria caído ao chão se Nicholas não a segurasse.

— Droga, droga, droga! — ela praguejou. — Não consigo andar.

— Não importa — ele disse rapidamente, esvaziando a bolsa de todo o conteúdo supérfluo e deixando apenas os itens essenciais. A pele de dik-dik foi amassada numa bola e enfiada dentro dela. — Você é leve. Suba no meu ombro.

— Você não pode me carregar até o topo. — Ela olhou consternada para a trilha íngreme como uma escadaria.

— É o único trem que parte desta estação — ele disse, oferecendo-lhe as costas. Royan subiu.

— Não acha que devia se livrar da pele do dik-dik? — ela perguntou.

— Nem pense nisso! — Nicholas respondeu, começando a subir. Era uma caminhada penosa. Depois de algum tempo não tinham mais nada para falar, e a escalada seguiu num silêncio mortal. O suor ensopava a camisa de Nicholas, mas Royan não se incomodava com a umidade quente que sentia através da blusa nem com o forte odor masculino. Pelo contrário, achava reconfortante e tranqüilizador.

A cada meia hora ele parava, colocava-a no chão e deitava-se em silêncio, de olhos fechados, até a respiração se normalizar. Então os abria e dizia:

— Hi ho, Silver! — Punha-se de pé e se agachava para ela subir.

À medida que o dia avançava, suas piadas foram se tornando mais forçadas e menos engraçadas. No meio da tarde, a subida tornou-se muito mais exaustiva, e nos locais mais difíceis Nicholas tinha de parar para dar o próximo passo. Royan tentava ajudá-lo, descendo de suas costas e apoiando-se em seu ombro nos pontos mais árduos, mas sabia que ele estava no limite de suas forças.

Nem um nem outro conseguiam acreditar na própria façanha quando saíram de uma curva e viram-se diante da cachoeira, jorrando como uma cortina de renda ao lado da trilha. Nicholas enfiou-se na gruta atrás da queda-d'água e colocou Royan no chão. Em seguida, jogou-se ao chão e lá ficou como morto.

Já estava escuro quando ele sentiu condições de abrir os olhos e se sentar. Enquanto ele descansava, Royan havia juntado gravetos e acendera uma pequena fogueira.

— Muito bem! — ele disse. — Se quiser um emprego de governanta...

— Não me tente. — Ela aproximou-se dele para ver como estava o corte na cabeça. — Bonita cicatriz. — Inesperada e impulsivamente, abraçou a cabeça dele em seu peito e acariciou-lhe a testa suada.

— Oh, Nicky! Como poderei recompensá-lo pelo que está fazendo por mim?

A resposta óbvia quase lhe escapou dos lábios, mas diante de seu estado de fraqueza Nicholas preferiu se calar. Não tinha condições de outras intimidades. Queria relaxar nos braços de Royan, sentir seu corpo, e não correr o risco de assustá-la com um movimento mais afoito.

Por fim, ela o deixou e sentou ao seu lado.

— Sinto muito, senhor, mas sua governanta não pode lhe oferecer salmão defumado e champanha no jantar. Que tal uma caneca de água da montanha, pura e nutritiva?

— Acho que podemos ter mais que isso. — Ele pegou a lanterna dentro da mochila e procurou no ch