Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O TALISMÃ / Peter Straub e Stephen-King
O TALISMÃ / Peter Straub e Stephen-King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O TALISMÃ

 

Jack Sawyer, um garoto de 12 anos está prestes a iniciar uma jornada fantástica: a empolgante e assustadora busca de um talismã. Jack sabe que correrá muitos riscos, que terá sua coragem e resistência física testadas a cada segundo, mas vai lutar até o fim: de seu sucesso depende a vida de sua mãe... Para atingir sua meta, Jack terá de lutar contra um inimigo furioso e cruel, que está disposto a fazer qualquer coisa para destruí-lo e atravessar não apenas os Estados Unidos de costa a costa, mas também os Territórios, uma região assombrosa e ameaçadora.  

Onde ficam os Territórios? Como chegar a esta região fantástica e mítica que não pode ser alcançada de modo comum? Em que plano da existência se situa esse mundo tão intrigante quanto a Atlântida? Jack vence estes mistérios ao atravessar para os Territórios. Aí, descobre a desconcertante existência dos “Duplos”, reflexos de pessoas que conhece na Terra como a Rainha Laura, o “Duplo” de sua mãe, que também está com a vida por um fio.       

Jack não tem muito tempo e é longa a viagem. A cada passo de sua jornada, precisa enfrentar inimigos perigosos que o perseguem nos dois mundos. No entanto, ele persiste, pois só terá sossego quando o valioso talismã estiver em suas mãos...

 

A POUSADA DOS JARDINS DO ALHAMBRA

A 15 de setembro de 1981, um menino chamado Jack Sawyer estava onde a terra e o mar se encontram, mãos nos bolsos do jeans, contemplando o impetuoso Atlântico. Tinha 12 anos e era alto para a sua idade. A brisa marinha lhe repuxava o cabelo castanho, provavelmente comprido demais, da testa lisa e delicada. Permanecia ali, a cabeça cheia das confusas e dolorosas emoções com que aprendera a conviver nos últimos três meses — desde o momento em que a mãe fechara a casa onde moravam na Rodeo Drive em Los Angeles e, numa balbúrdia de mobília, cheques e imobiliárias, alugara um apartamento no Central Park West. Foi desse apartamento que escaparam para aquele tranqüilo local de veraneio na pequena costa de New Hampshire. Ordem e rotina desapareceram do mundo de Jack. Sua vida parecia tão tumultuada, tão sem controle quanto a água agitada diante dele. Sua mãe levava-o pelo mundo, movendo-se daqui para lá, puxando-o de um lugar para outro; mas o que movia sua mãe?

A mãe estava fugindo, fugindo.

Jack olhou em volta, contemplou a praia deserta, primeiro à esquerda, depois à direita. À esquerda ficava o Arcadia Funworld, um parque de diversões que vivia sempre cheio de gente e barulho de fins de maio a inícios de setembro. Agora estava quieto e vazio, como um coração entre duas batidas. A monta­nha-russa era um conjunto de andaimes contra a monotonia nublada do céu; os pilares de sustentação, as cantoneiras de ferro pareciam pinceladas de carvão. Lá embaixo estava seu novo amigo, Speedy Parker, mas agora o menino não podia pensar em Speedy Parker. À direita ficava a Pousada dos Jardins do Alhambra, e foi lá que os pensamentos implacáveis tomaram conta dele. No dia da chegada, Jack pensou ter visto um arco-íris sobre as águas-furtadas do telhado holandês. Sinal de sorte, promessa de coisas boas. Mas não havia arco-íris. Um cata-vento, caído num vento cruzado, girava da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. Ele saltara do carro alugado, ignorando o desejo da mãe para que tomasse al­guma providência com relação à bagagem, e erguera os olhos. Acima do galo de latão do cata-vento havia apenas um céu esbranquiçado.

— Abra a mala e pegue a bagagem, filhinho — a mãe gritara. — Esta velha e cansada atriz quer en­trar logo no hotel e procurar alguma coisa para beber.

— Um martini seco — Jack dissera.

— “Você não é tão velha”, é isso que devia dizer, Jack.                                                  

Ela se ergueu com esforço do assento do carro.

— Você não é tão velha.

A mãe assumiu um ar luminoso — um lampejo da velha e arrogante Lily Cavanaugh (Sawyer), rai­nha, durante duas décadas, das produções classe B do cinema. Empinou as costas.

— Aqui vai ser muito bom, Jacky — ela dissera. — Tudo vai ser muito bom aqui. É um ótimo lugar. Uma gaivota esvoaçou pelo telhado do hotel e, por um segundo, Jack teve a inquietante sensação de que o cata-vento alçara vôo.

— Vamos ficar livres dos telefonemas por algum tempo, certo?

— Claro — Jack dissera. Ela queria se esconder do tio Morgan, não queria mais brigas com o sócio do falecido marido, queria se arrastar para a cama com um martini seco e cobrir a cabeça com o cobertor...

Mamãe, o que está havendo com você?

Havia muita morte, a morte ocupava metade do mundo. A gaivota gritou lá em cima.

— Vamos lá, rapaz, vamos lá — a mãe dissera. — Vamos entrar no Reino das Maravilhas.

Então, Jack pensou: Pelo menos, se as coisas ficarem realmente pretas, há sempre o tio Tommy para ajudar.

Mas o tio Tommy já tinha morrido; só que a notícia ainda estava na outra ponta de um monte de fios de telefone.

 

O alhambra se inclinava sobre as águas, uma grande massa vitoriana apoiada em gigantescos blocos de granito que, quase imperceptivelmente, pareciam fundir-se com um raso promontório — Clavicula saliente de granito nos poucos e parcos quilômetros da costa de New Hampshire. Os jardins simétricos naquele pedaço de terra mal eram visíveis do ponto da praia onde Jack se encontrava — uma ponta verde-escura de cerca de fícus, mais nada. O galo de latão continuava contra o céu, hesitando entre o vento do oeste e o do noroeste. No saguão, uma placa anunciava que fora lá, em 1838, que a Conferência Metodista do Norte realizara a primeira das grandes manifestações abolicionistas da Nova Inglaterra. Daniel Webster fizera um discurso inspirado, apaixonado. Segundo a placa, Webster disse: “De hoje em diante, saibam que a escravidão como instituição americana começou a definhar, e logo deve morrer em todos os nossos estados e territórios.”

 

Assim chegaram eles, naquele dia da última semana que dera fim ao tumulto dos meses que passaram em Nova York. Em Arcadia Beach não havia advogados empregados por Morgan Sloat pulando de automóveis e sacudindo papéis que tinham de ser assinados, tinham de ser encaminha­dos, Sra. Sawyer. Em Arcadia Beach, os telefones não tocavam sem. parar do meio-dia às três da manhã (o tio Morgan parecia esquecer que quem morava no Central Park West não partilhava do horário da Califór­nia). De fato, em Arcadia Beach os telefones jamais tocavam.

Entrando na pequena cidade de veraneio, a mãe dirigindo com dupla concentração, Jack vira ape­nas uma pessoa nas ruas — um velho louco empurrando aleatoriamente um carrinho de mercado vazio por uma calçada. Acima deles ficava aquele céu cinza e vazio, um céu incômodo. Em total contraste com Nova York, naquele lugar só havia o barulho contínuo do vento. O vento soprava por ruas desertas que, sem tráfego para ocupá-las, pareciam largas demais. E havia lojas vazias com tabuletas nas janelas: só abre nos fins de semana ou, pior ainda, volto em junho! Havia uma centena de lugares vazios para estacionar diante do Alhambra; havia mesas vazias no Arcadia Tea and Jam Shoppe, que ficava ao lado do hotel.

E pobres velhos loucos empurrando carrinhos de mercado por ruas desertas.

— Passei as três semanas mais felizes da minha vida neste lugarzinho engraçado — disse Lily, ul­trapassando o velho (o velho virou a cabeça, Jack notou, para olhá-los por trás com atemorizada desconfiança — ele estava falando alguma coisa, mas Jack não saberia dizer o quê). Sacolejando, o carro seguiu o caminho sinuoso que atravessava os jardins na frente do hotel.

Foi para chegar ali que tinham enfiado todas as coisas sem as quais não podiam viver em malas, valises e sacos de compras de plástico, depois virado a chave na fechadura da porta do apartamento (ig­norando o toque estridente do telefone, que pareceu atravessar o buraco da fechadura e persegui-los pelo corredor). Foi para chegar ali que tinham enchido o bagageiro e o banco traseiro do carro alugado com todas as sacolas e malas transbordando de coisas, que gastaram horas se arrastando para o norte pela Ro­dovia Henry Hudson, depois horas e mais horas avançando pela estrada 1-95 — porque, certa vez, Lily Cavanaugh Sawyer fora feliz ali. Em 1968, um ano antes do nascimento de Jack, Lily fora indicada para um prêmio da Academia por seu desempenho numa fita chamada Labareda. Labareda era melhor do que a maioria dos filmes em que Lily tinha trabalhado, e nele fora capaz de demonstrar um talento bem maior do que tinha revelado em seus habituais papéis de moça má. Ninguém esperava que Lily vencesse, muito menos ela; mas para Lily, o surrado clichê de que a verdadeira honra está na indicação, não na vitória, era mesmo verdade. Ela se sentia profunda e sinceramente orgulhosa, e para comemorar aquele momento de real reconhecimento profissional, Phil Sawyer tomara a sábia decisão de levá-la para três semanas de férias na Pousada dos Jardins do Alhambra, do outro lado do continente. Ali viram a festa do Oscar pela televi­são, tomando champanha na cama. (Se Jack fosse mais velho e já tivesse tido ocasião de pensar nisso, talvez fizesse as contas e descobrisse que o Alhambra era o lugar onde ele fora concebido.)

Segundo uma lenda de família, quando foram lidas as indicações para melhor atriz coadjuvante, Lily resmungara para Phil:

— Se eu ganhar esta coisa sem estar lá, vou enfiar aqueles saltinhos afiados do meu sapato no seu peito.

Mas quando Ruth venceu, Lily comentou:

— Certo, ela merece, é uma grande garota — e imediatamente cutucou o peito do marido, acres­centando: — Mas é melhor você me arranjar outra festa como essa! Afinal, é ou não é um mandachuva?

Não houve mais festas como aquela. O último papel de Lily, dois anos depois da morte de Phil, foi o de uma cínica ex-prostituta num filme chamado Maníacos de motocicleta.

 

Era essa ocasião que Lily estava comemorando agora, Jack sabia disso enquanto tirava a bagagem da mala e do banco traseiro. Uma sacola D’Agostino rasgara de cima a baixo depois do grande D’Ag e uma misturada de meias enroladas, fotos soltas, peças de xadrez e livros de histórias em quadrinhos se es­palhou por todo canto. Jack conseguiu enfiar a maior parte das coisas dentro de outras sacas. Lily ia subin­do devagar a escada do hotel, apoiando-se no corrimão como uma velha.

— Vou chamar um empregado do hotel — disse ela sem se virar para trás.

Jack se empinou entre as sacas e olhou de novo para o céu, onde tinha certeza de ter visto um ar­co-íris. Não havia arco-íris, só aquele céu incômodo e incerto.

Então:

— Venha até aqui! — disse alguém atrás dele numa voz baixa mas perfeitamente audível.

— O quê? — ele perguntou, olhando em volta. Os jardins vazios e a estrada estendiam-se na sua frente.

— Falou comigo? — a mãe perguntou. Parecia estar com cãibra nas costas, curvada sobre a maça­neta da grande porta de madeira.

— Não — disse ele. Não havia voz, nem arco-íris. Esqueceu as duas coisas e olhou para a mãe, que lutava com a enorme porta. — Espere, vou ajudar! — gritou e correu pelos degraus, carregando desajeita­damente uma grande maleta e uma sacola de papel abarrotada de suéteres.

 

Até o encontro com Speedy Parker, Jack atravessou os dias no hotel tão inconscien­te da passagem do tempo quanto um cachorro dormindo. Toda a sua vida lhe pareceu quase um sonho durante aqueles dias, um sonho cheio de sombras e inexplicáveis transições. Mesmo a terrível notícia sobre o tio Tommy que chegara pelos fios do telefone na noite anterior não conseguira despertá-lo inteiramen­te, por mais chocante que tivesse sido. Se Jack fosse um místico, podia ter achado que forças desconheci­das tinham se apoderado dele e estavam manipulando sua vida e a de sua mãe. Afinal, Jack Sawyer, um menino de 12 anos, precisava de coisas com que se ocupar, e a mansidão silenciosa desses dias, após o tumulto de Manhattan, tinha-o desconcertado e afetado de alguma maneira fundamental.

Jack se descobrira de pé na praia sem qualquer lembrança de ter ido até lá, absolutamente nenhu­ma idéia do que estava fazendo lá. Achava que estava sentindo a morte do tio Tommy, mas era como se sua mente tivesse ido dormir, deixando que o corpo se virasse sozinho. Não conseguia se concentrar o bastante para entender o enredo dos seriados que ele e Lily viam à noite na TV, muito menos guardar na cabeça as nuances das histórias.

— Você está cansado de todo este movimento — dizia a mãe, tragando profundamente o cigarro e espreitando-o através da fumaça. — O que você precisa, Jack, é descansar um pouco. Este é um bom lugar. Vamos desfrutá-lo o máximo que pudermos.

Bob Newhart, num tom ligeiramente vermelho na tela de TV, olhava estupidamente para o sapato que segurava na mão direita.

— É isso o que estou fazendo, Jacky — ela sorriu. — Relaxando e aproveitando.

Ele deu uma espiada no relógio. Já estavam sentados há duas horas diante da televisão e ele não conseguia se lembrar de nada que acontecera antes daquele programa.

Tinha se levantado para ir dormir quando o telefone tocou. Será que o velho tio Morgan Sloat ha­via descoberto onde estavam? As notícias do tio Morgan nunca eram muito boas, mas aquela sem dúvida devia ser uma bomba e tanto, mesmo pelos padrões do tio Morgan. Jack parou no meio do quarto, vendo o rosto da mãe ir ficando pálido, mais pálido, palidíssimo. Ela levou a mão à garganta, onde nos últimos meses tinham aparecido novas rugas, e fez uma leve pressão. Praticamente não falou nada até o fim da conversa, quando então sussurrou “Obrigada”, e desligou. Depois virou-se para Jack, parecendo mais ve­lha e angustiada que nunca.

— Você vai ter de ser forte, Jacky, tudo bem?

Ele não se sentia forte.

Ela pegou sua mão e contou:

— O tio Tommy morreu atropelado hoje à tarde, Jack.

Jack suspirou, como se o ar tivesse sido arrancado de dentro dele.

— Estava atravessando o Bulevar La Cienega quando foi atingido por um caminhão. O caminhão fugiu. Uma testemunha disse que era preto e tinha as palavras criança rebelde escritas do lado, mas foi só... só isso.

Lily começou a chorar. Pouco depois, Jack também começou a chorar.

O choro o pegara quase de surpresa. Tudo isso tinha acontecido três dias atrás, e para Jack parecia uma eternidade.

 

A 15 de setembro de 1981, um menino chamado Jack Sawyer estava contemplando o impetuoso mar numa praia desconhecida. Havia um hotel que parecia um castelo tirado de um romance de Sir Walter Scott. Queria chorar, mas não conseguia soltar as lágrimas. Estava cercado pela morte, a morte ocupava metade do mundo, e não existiam arco-íris. O caminhão criança rebelde tirara tio Tommy do mundo. Tio Tommy, morto em Los Angeles, longe demais da costa leste, onde mesmo um garoto como Jack sabia que era o lugar dele. Um homem que punha uma gravata para comer um sanduíche de rosbife no Arby’s não tinha nada de ir para a costa oeste.

O pai de Jack morrera, o tio Tommy morrera, a mãe podia estar morrendo. Jack sentia a morte tam­bém ali, em Arcadia Beach, onde ela falava pelos telefones com a voz do tio Morgan. Não era uma coisa tão corriqueira ou óbvia quanto a sensação de melancolia de um lugar de veraneio fora da estação, onde não se pára de tropeçar nos fantasmas de verões passados; não, a morte parecia estar na textura das coi­sas, um cheiro na brisa do oceano. Ele tinha medo... e já tinha medo há muito tempo. No meio da calma de Arcadia Beach, ele começara a perceber esse medo... E começara a achar que talvez a morte tivesse subido toda a estrada I-95 com eles, desde Nova York, espreitando através da fumaça de cigarro e pedin­do-lhe que achasse alguma música boa no rádio do carro.

Podia lembrar — vagamente — do pai dizendo que ele já era um homem feito, mas não era assim que se sentia agora. Agora Jack se sentia muito criança. Com medo, ele pensou. Estou com um medo terrível. Este lugar é o fim do mundo, certo?

Gaivotas cruzaram o ar cinzento. O silêncio era tão cinzento quanto o ar — tão sinistro quanto os círculos cada vez maiores embaixo dos seus olhos.

 

Quando, depois de não saber mais há quantos dias vagava entorpecido pelo tem­po, Jack caminhou até o parque de diversões Funworld e encontrou Lester Speedy Parker, aquela inerte sensação de estar em suspenso o abandonou um pouco. Lester era um homem preto com cabelo grisalho, crespo, e Sulcos profundos cortando-lhe o rosto. Não tinha absolutamente nada de notável apesar do que pudesse ter feito no passado, quando era músico de blues e não parava de viajar. Também não dissera qualquer coisa fora do comum. Contudo, assim que Jack entrou por acaso no pátio do Funworld e se de­parou com os olhos pálidos de Speedy, sentiu o entorpecimento abandoná-lo. Voltara a ser ele mesmo. Era como se uma energia mágica tivesse passado diretamente do velho para Jack. Speedy sorrira e dissera:

— Bem, parece que vou ter um pouco de companhia. O pequeno viajante acabou de chegar.

Era verdade, Jack não estava mais em suspenso: um segundo atrás, sentia-se envolvido numa nu­vem de algodão doce e penugem meio úmida, mas agora se libertara dela. Um halo prateado pareceu girar um instante em volta do velho, uma fina auréola de luz que desapareceu assim que Jack piscou. Pela primeira vez, Jack percebeu que o homem estava segurando o cabo de uma grande e pesada vassoura.

— Tudo bem com você, filho? — O homem pôs a mão nos rins e esticou as costas. — Acha que o mundo está ficando pior ou melhor?

— Hã, melhor — disse Jack.

— Então eu diria que você chegou ao lugar certo. Como se chama?

Pequeno viajante, fora assim que Speedy o chamara naquele primeiro dia, seja bem-vindo, peque­no viajante! Ele inclinara o corpo alto e anguloso contra a vassoura, os braços em volta do cabo como se pegasse uma moça para dançar. O sujeito que você está vendo se chama Lester Speedy Parker, que antiga­mente também viajava bastante, isso mesmo, filho... Oh, Speedy conhecia a estrada, conhecia todas as estradas... Mas isto foi nos bons tempos. Eu tinha uma banda, Jack Viajante, e tocava blues. Blues em gui­tarra. Também gravei alguns discos, rapaz, mas não vou deixá-lo encabulado perguntando se já ouviu al­gum. Cada sílaba de Speedy tinha sua própria cadência rítmica, cada frase uma melodia e sonoridade pró­prias; Speedy Parker carregava uma vassoura em vez da guitarra, mas ainda era músico. Nos primeiros cinco segundos da conversa, Jack percebeu que seu pai, amante do jazz, teria gostado muito da compa­nhia daquele homem.

Durante três ou quatro dias, andara quase todo o tempo atrás de Speedy, vendo-o trabalhar e aju­dando-o quando podia. Speedy deixava-o martelar um ou dois pregos, lixar alguma estaca que precisasse ser pintada; essas tarefas simples, feitas sob a supervisão de Speedy, eram a única coisa de que podia se ocupar, mas o faziam se sentir melhor. Agora Jack via seus primeiros dias em Arcadia Beach como um pe­ríodo de angústia contínua, da qual fora resgatado por aquele novo amigo. Pois Speedy Parker era um amigo infalível — assim como era infalível que havia nele uma certa dose de mistério. Desde que Jack se livrara do seu atordoamento (ou desde que Speedy o libertara, dispersando a nuvem sombria com um lampejo dos olhos coloridos de luz), Speedy Parker se tornara mais íntimo dele do que qualquer outro amigo, com a possível exceção de Richard Sloat, que Jack conhecia praticamente desde o berço. E agora, para contrabalançar o terror com a perda do tio Tommy e o medo de que a mãe também estivesse mor­rendo, Jack sentia a força da presença esperta e calorosa de Speedy. Isso o impedia de perder o equilíbrio.

Mas de novo, e incomodamente, Jack experimentava a velha sensação de estar sendo dirigido, de estar sendo manipulado: como se um fio invisível o tivesse puxado junto com a mãe para aquele lugar abandonado na beira do mar.

Eles, quem quer que eles fossem, o queriam ali.

Ou será que isso era apenas loucura? Em sua visão interior, ele via um velho curvado, evidente­mente meio maluco, falando sozinho e empurrando um carrinho de compras vazio pela calçada.

No ar, uma gaivota gritou, e Jack prometeu a si mesmo que se obrigaria a falar sobre algumas de suas sensações a Speedy Parker. Mesmo que Speedy ficasse achando que ele não estava regulando bem; mesmo que risse na sua cara. Mas, no fundo, Jack sabia que ele não ia rir. Eram amigos do peito e uma das coisas que Jack compreendia do velho zelador do parque era que podia contar a ele quase tudo o que lhe viesse à cabeça.

Só que ainda não estava preparado para uma conversa dessas. Tudo era muito doido, ele não en­tendia muito bem o que estava acontecendo. Quase com relutância, virou as costas para o parque Funworld e avançou penosamente pela areia em direção ao hotel.

 

O FUNIL SE ABRE

Mais um dia se passara, mas Jack Sawyer continuava na mesma. À noite, porém, ti­vera um dos maiores pesadelos de toda a sua vida. No sonho, uma criatura terrível vinha avançando para sua mãe, uma monstruosidade atarracada, com olhos no lugar errado e pele podre, furada como queijo. Sua mãe está quase morta, Jack! Não quer dizer aleluia?, rosnara o monstro, e Jack sabia — do modo como se sabe das coisas nos sonhos — que o monstro era radioativo, que se o tocasse também iria mor­rer. Acordara com o corpo encharcado de suor, à beira de um grito estridente. Foi pelas pancadas cons­tantes da rebentação das ondas que voltou a saber onde estava, mas levou horas para conseguir dormir de novo.

De manhã, teve vontade de contar o sonho à mãe, mas Lily tinha se levantado amarga e pouco co­municativa, escondida numa nuvem de fumaça de cigarro. Só quando saiu da cafeteria do hotel num pas­so enganosamente firme é que lhe dispensou um sorriso.

— Vá pensando no que quer comer esta noite.

— Qualquer coisa?

— É. Menos sanduíches. Não fiz toda essa caminhada de Los Angeles a New Hampshire para me envenenar com cachorros-quentes.

— Por que não vamos a um daqueles restaurantes de frutos do mar na Praia Hampton? — Jack per­guntou.

— Boa idéia. Agora vá brincar.

Agora vá brincar, Jack pensou com uma amargura que não lhe era habitual. Oh, sim, mamãe, já estou indo! Tudo bem! Estou indo brincar! Mas com quem? Mamãe, porque você está aqui? Por que nós estamos aqui? Você está doente? Por que não me fala mais do tio Tommy? O que o tio Morgan anda fazendo? O que...

Perguntas, perguntas. E nenhuma delas valia um caracol, pois não havia ninguém para respon­dê-las.

A não ser que Speedy...

Mas isso era ridículo; como podia um preto velho que ele acabara de conhecer resolver algum de seus problemas?

Contudo, a imagem de Speedy Parker dançava em sua mente quando ele trotava pela calçada da praia e descia para a areia deprimentemente vazia.

 

Aqui é o fim do mundo, certo?, Jack pensou outra vez.

Gaivotas cruzavam o ar cinzento. O calendário dizia que ainda era verão, mas em Arcadia Beach o verão terminava no início de setembro. O silêncio era cinzento como o ar.

Jack olhou para os sapatos de lona e viu que havia uma substância preta e pegajosa grudada neles. Lama da praia, pensou. Alguma espécie de poluição. Mas não tinha a menor idéia de onde sujara o sapato daquela maneira e, meio inquieto, saiu da beira d’água.

As gaivotas rodavam no ar, mergulhando e gritando. Uma delas piou em cima de sua cabeça e Jack ouviu um estalo sonoro, quase metálico. Virou-se a tempo de vê-la completar um vôo desajeitado e ater­rissar num monte de pedras. A ave virou a cabeça em movimentos rápidos, quase robóticos, como se qui­sesse certificar-se de que estava sozinha. Depois pulou para a areia lisa e um tanto úmida, onde jazia o marisco que havia pego. O marisco rachara como um ovo e Jack viu carne crua dentro dele, ainda se con­torcendo. Ou talvez fosse apenas sua imaginação.

Não quero ver isto.

Mas antes que pudesse dar meia-volta, o bico amarelo e curvo já estava puxando a carne, esticando-a como um elástico. Foi como se uma escorregadia mão lhe apertasse o estômago. Pôde ouvir na cabeça o grito do tecido sendo distendido — nada coerente, só um pedaço estúpido de carne gritando de dor.

Novamente tentou desviar os olhos da gaivota e não conseguiu. O bico se abriu, proporcionando uma breve visão da goela rosada e suja. O marisco se contraiu na concha rachada e de repente a gaivota virou-se para Jack, uma escuridão mortal nos olhos confirmando a horrível verdade: os pais morrem, as mães morrem, os tios também morrem, mesmo se estudaram em Yale, mesmo se parecem tão sólidos quanto paredes de banco e usam elegantes ternos e coletes Savile Row. As crianças também devem mor­rer. No final das contas, talvez só reste um estúpido grito irracional de tecido vivo.

— Ei! — disse Jack em voz alta, inconsciente de estar fazendo qualquer coisa além de pensar den­tro de sua cabeça. — Ei, me dê uma chance de escapar!

A gaivota subiu em cima da presa, contemplando Jack com os olhos negros e líquidos. Então co­meçou de novo a escavar a carne. Quer um pedaço, Jack? Ainda está se mexendo! Meu Deus, está tão fres­ca que é capaz de nem saber que morreu!

O forte bico amarelo curvou-se de novo sobre a carne e puxou. Esticaaaaaaaaando...

Depois a gaivota engoliu. Ergueu a cabeça para o nublado céu de setembro e pôs a garganta para funcionar. E de novo pareceu virar-se para Jack, do modo como os olhos de certas gravuras parecem sem­pre nos contemplar, por mais que nos desloquemos diante deles. E os olhos... Ele conhecia aqueles olhos.

De repente, Jack queria sua mãe, os profundos olhos azuis da mãe. Não se lembrava de ter ansiado tão desesperadamente por ela desde que era muito, muito pequeno. La-ra-lá, ele a ouvia cantar dentro da cabeça, e sua voz era a voz do vento, do vento que estava ali e que logo estaria também em outro lugar. Boi, boi, boi; boi da cara preta; leva esse menino que tem medo de careta. E toda essa coisa... Memórias de ser embalado, a mãe fumando um Herbert Tareyton atrás do outro, dando talvez uma olhada num script... Páginas melancólicas, ela dizia. Ele se lembrava disso: páginas melancólicas. La-ra-lá, tudo em paz, Jacky meu bem. Mamãe ama você, Jacky. Shhh... durma. La-ra-la-rá...

A gaivota estava olhando para ele.

Com um súbito horror, que lhe entupiu a garganta como água salgada e quente, Jack percebeu que a ave estava realmente olhando para ele. Aqueles olhos negros (olhos de quem?) o estavam vendo. E ele conhecia aquele olhar.

Um pedaço de carne crua ainda pendia do bico. A gaivota sorveu-o. O bico se abriu num estranho mas inequívoco sorriso.

Então Jack se virou, abaixou a cabeça e correu, olhos fechados contra as lágrimas de sal quente, sa­patos de lona cavando a areia. Se houvesse um jeito de subir, subir e subir para os olhos de alguma gaivo­ta, só Jack, só as pegadas de Jack quebrariam a sombra daquele dia; Speedy Parker esquecido, Jack Saw­yer, 12 anos e sozinho, voltando às pressas para a pousada, a voz quase perdida nas lágrimas e no vento gritando sem parar: não, não e não.

Sem fôlego, ele parou na ponta da praia. Uma pontada de dor, vinda do meio das costelas, subiu-lhe pelo lado esquerdo até o fundo do sovaco. Sentou-se num dos bancos que a Prefeitura instalara para gente velha e tirou o cabelo dos olhos.

Controle-se, homem. Se o Sargento Fúria entrar na Seção Oito, quem vai ser escolhido para chefiar os Comandos Relâmpagos?

Ele sorriu e de fato se sentiu um pouco melhor. De onde estava, a quase 20 metros da água, as coi­sas pareciam melhores. Talvez por causa da mudança de pressão barométrica, alguma coisa desse tipo. O que acontecera ao tio Tommy era horrível, mas tinha de superar aquilo, tinha de aceitar o fato. Pelo me­nos, fora o que a mãe dissera. Ultimamente as notícias trazidas pelo telefone eram as piores possíveis... Bem, o telefone sempre fora uma peste.

E quanto à mãe... Afinal, era uma grande mãe, não era?

Na realidade, ele pensou, sentado no banco e cavando com o dedo do pé a areia junto à calçada, na realidade podia estar tudo bem com a mãe. Podia estar tudo bem, sem dúvida era possível. Afinal, não tinha aparecido ninguém dizendo que era o grande C, certo? Não. Se ela estava com câncer, não o teria le­vado para Arcadia Beach, teria? Era muito mais provável que estivessem na Suíça, a mãe tomando banhos frios de água mineral, comendo coisas horríveis, algo do gênero. É o que ela faria, claro!

Então, talvez...

Um som murmurante, baixo e seco, introduziu-se em sua consciência. Ele baixou a cabeça e os olhos se arregalaram. A areia começara a se mover junto à ponta do sapato do pé esquerdo. Os grãos brancos e finos iam deslizando num pequeno círculo, com talvez um dedo de diâmetro. A areia ia sumin­do no meio do círculo, formando uma cavidade de uns cinco centímetros de profundidade. As paredes da cavidade continuavam em movimento: rodando, rodando, rodando com rapidez no sentido contrário aos ponteiros do relógio.

Não é real, ele disse imediatamente para si mesmo, mas o coração começou a disparar. A respira­ção também se acelerou. Não é real, é um daqueles sonhos de olhos abertos, só isso. Talvez seja um caran­guejo, um bicho qualquer...

Mas não era um caranguejo e não era um dos sonhos de olhos abertos — não era o outro lugar, o lugar que sua cabeça imaginava quando as coisas estavam chatas ou um tanto assustadoras. E, sem a me­nor sombra de dúvida, não era um caranguejo.

A areia começou a rodopiar mais depressa, fazendo um barulho árido, seco, fazendo Jack pensar em eletricidade estática, a eletricidade de uma experiência que fizera no ano anterior na escola com uma garrafa de Leyden. Mais que árido e seco, o som diminuto parecia um longo e profundo suspiro, a respira­ção final de um homem morrendo.

Mais areia desmoronava e começava a rodopiar. Agora já não era uma cova; era um funil na areia, uma espécie de redemoinho. O amarelo brilhante de uma embalagem de goma de mascar apareceu, sumiu, apareceu, sumiu, apareceu de novo... A cada vez que a goma aparecia (e o funil se alargava), Jack ia conseguindo ler a embalagem, fr, depois fru, depois fruto suc. O funil aumentava e a areia ia saindo de cima da goma. Era um movimento tão rápido e tão rude quanto o de um braço irritado atirando ao chão as cobertas de uma cama feita. fruto suculento era o que estava escrito. Então a goma veio vindo à tona.

A areia girava cada vez mais depressa, numa fúria sibilante. Hhhhhhaaaaahhhhhhhh era o som que a areia fazia. Jack não desviava os olhos, a princípio fascinado, depois apavorado. A areia ia se abrin­do como um grande olho negro: era o olho da gaivota que derrubara o marisco e depois puxara a carne viva de dentro dele como um elástico.

Hhhhhhhaaaaahhhhh, zombava o esguicho da areia numa voz seca, fria. Não era uma voz gentil. E por mais que Jack quisesse que ela só existisse na sua cabeça, era uma voz de verdade.

A dentadura dele voou, Jack, quando ele foi atropelado pela criança rebelde; a dentadura voou longe, foi chocalhando longe! Yale ou não Yale, quando o velho caminhão criança rebelde aparece e põe a nocaute seus dentes postiços, você tem de ir junto, Jacky. E sua mãe...

Então Jack estava correndo de novo, às cegas, sem olhar para trás, o cabelo pulando da testa, os olhos arregalados, aterrados.

Jack cruzou o mais rápido que pôde o escuro saguão do hotel. A atmosfera do lu­gar o impedia de correr; tudo era silencioso como uma biblioteca e a luz sombria que se filtrava pelos pai­néis das janelas altas suavizava e borrava os tapetes, por si só já desbotados. Mas Jack irrompeu num trote acelerado depois de ultrapassar o balcão da recepção, e o porteiro do dia, de ombros curvos e pele cinza, escolheu justamente aquele momento para emergir do arco de madeira de um corredor. O porteiro não disse nada, mas sua carranca permanente puxou os cantos da boca um pouco mais para baixo. Para Jack, fora como ser apanhado correndo dentro de uma igreja. O garoto limpou a testa com a manga da camisa e concluiu o resto do caminho para os elevadores, andando. Apertou um botão, sentindo a cara feia do por­teiro se abrasar entre os ombros. Durante toda a semana, a única vez que Jack vira o empregado sorrir foi quando ele reconheceu sua mãe. E mesmo assim o sorriso pareceu atender apenas às exigências mínimas de uma recepção amável.

— Imagino como uma pessoa tem de ser velha para se lembrar de Lily Cavanaugh — a mãe co­mentou assim que se viu sozinha com Jack.

Houve uma época, e não há muito tempo, em que ser identificada, reconhecida por algum espec­tador dos 50 filmes que fizera nos anos 50 e 60 (“Rainha das Produções B”, costumavam chamá-la; e ela mesma dizia: “Sou a pérola dos filmes de drive-in”), fosse um motorista de táxi, um garçom ou a mulher que vendia blusas no Wilshire Boulevard Saks, levantava-lhe horas a fio o moral. Agora, mesmo esse pe­queno prazer perdera toda a graça para Lily.

Jack andava de um lado para o outro diante da porta imóvel do elevador; ouvia uma voz fantástica e familiar sair de um funil rodopiante de areia. Por um instante, viu Thomas Woodbine, o solidamente ins­talado tio Tommy Woodbine (que devia ter sido um de seus guardiães, um sólido muro contra problemas e confusão) atropelado e morto no Bulevar Cienega, os dentes espalhados como pipoca sete metros à frente, na sarjeta. Apertou outra vez o botão.

Anda logo!

Então viu uma coisa pior: a mãe arrastada para um carro por dois homens de rosto impassível.

De repente, Jack teve vontade de urinar e achatou a palma da mão contra o botão. O homem cinza e torto atrás do balcão proferiu um catarrento som de desagrado. Jack apertou com a ponta da outra mão aquele lugar mágico logo abaixo do estômago que diminuía a pressão na bexiga. Agora podia ouvir o zumbido lento do elevador descendo. Fechou os olhos, apertou uma perna contra a outra. Sua mãe permanecia vacilante, perdida, confusa. E os homens a forçaram a entrar no carro tão facilmente quanto se ela fosse um frágil cachorrinho collie. Mas aquilo não estava realmente acontecendo, ele sabia; era uma lembrança — parte da coisa deve ter acontecido num dos sonhos de olhos abertos, e por certo acontecera não à mãe, mas a ele.

As portas de mogno do elevador deslizaram para revelar um interior sombrio e ele deparou com o próprio rosto num espelho manchado, descascado. Então uma imagem de quando tinha sete anos envol­veu-o brutalmente. Viu dois homens. Os olhos de um deles ficaram amarelos e a mão do outro se transfor­mou numa espécie de garra, feroz e inumana... Jack pulou no elevador como se tivesse sido espetado por um garfo.

Não era possível: os sonhos de olhos abertos eram impossíveis, ele não vira os olhos de um ho­mem passando de azul a amarelo e tudo sempre esteve bem, ótimo, com a mãe. Não havia nada a temer, ninguém estava morrendo e só havia perigo para a presa da gaivota. Fechou os olhos e o elevador subiu lentamente.

Aquela coisa na areia tinha rido para ele.

Jack se espremeu pela fresta assim que a porta começou a abrir. Passou correndo pelas bocas fe­chadas de outros elevadores, virou à direita para o corredor de madeira, atravessou em disparada os candelabros das paredes e os quadros. Correr ali não parecia um sacrilégio. Ocupavam o 407 e o 408, um conjunto formado por uma pequena cozinha, dois quartos e uma sala de estar que davam para o contorno longo e suave da praia e a vastidão do oceano. A mãe conseguira flores em algum lugar, arrumara as flo­res em jarros e colocara a pequena coleção de porta-retratos junto delas. Jack aos cinco anos, Jack aos 11 anos, Jack como um bebê nos braços do pai. O pai, Philip Sawyer, no volante do velho DeSoto em que ti­nha ido para a Califórnia junto com Morgan Sloat — naquela época (inimaginável) eram tão pobres que freqüentemente tiveram de dormir no carro durante a viagem.

Jack escancarou o 408, porta da sala de estar, e gritou:

— Mamãe! Mamãe!

As flores se depararam com ele, as fotografias sorriam; não houve resposta.

— Mamãe!

A porta bateu atrás dele. Jack sentiu um frio no estômago. Disparou pela sala de estar em direção ao grande quarto à direita.

— Mamãe!

Outro jarro de flores compridas e brilhantes. A cama estava vazia, a colcha parecia engomada, pas­sada a ferro, e alguém dobrara cuidadosamente o acolchoado. Na mesa-de-cabeceira havia um grande sortimento de vidros marrons com vitaminas e outros compridos. Jack recuou. A janela da mãe mostrava ondas negras rolando em sua direção.

Dois homens nebulosos, saltando de um carro nebuloso, avançavam para ela...

— Mamãe! — ele gritou.

— Já ouvi você, Jack! — veio a voz da mãe pela porta do banheiro. — Que diabo...?

— Oh — ele exclamou e sentiu todos os músculos relaxarem. — Desculpe. Eu não sabia onde você estava.

— Tomando banho — disse ela. — Estou me aprontando para o jantar. Não tenho esse direito?

Jack percebeu que não precisava mais ir ao banheiro. Deixou-se cair numa das poltronas e cerrou os olhos de alívio. Ela ainda estava bem...

Por ora ainda está bem, uma voz sombria sussurrou e ele viu se abrir de novo em sua mente o funil de areia. Rodopiando.

 

Subindo 12 ou 13 quilômetros a estrada da costa, logo na saída do município de Hampton, encontraram um restaurante chamado O Castelo da Lagosta. Jack fizera um relatório bastante incompleto de seu dia. Contudo, já estava dominando o que sentira na praia; o terror ia diminuindo em sua memória. Um garçom de paletó vermelho com uma lagosta amarela desenhada nas costas indicou uma mesa junto de uma janela comprida de veneziana.

— Gostaria de beber alguma coisa, madame?

O garçom tinha um rosto inexpressivo e indiferente, típico da Nova Inglaterra. Pressentindo atrás de seus lacrimosos olhos azuis uma indignação por não estar usando um bonito casaco esporte Ralph Lauren como o dele e por ter de servir uma mulher que trajava com negligência um surrado vestido esporte da Halston, Jack sentiu a alfinetada de um terror mais familiar: simples saudades de casa. Mamãe, se você não está realmente maluca, que diabo estamos fazendo aqui? O lugar está vazio! É de dar calafrios! Jesus!

— Pode me trazer um martini seco — disse ela. — Ou melhor, um martini elementar.

O garçom levantou as sobrancelhas.

— Como, madame?

— Gelo no copo — disse ela. — Azeitona no gelo. Gim Taqueray sobre a azeitona. Depois... Está anotando o que estou dizendo?

Mamãe, pelo amor de Deus, não está vendo os olhos dele? Você acha que está sendo encantadora; ele acha que está debochando dele! Não está vendo os olhos?

Não. Ela não estava. E aquela falta de percepção, quando fora sempre tão sensível aos sentimentos das outras pessoas, era uma pedra atirada no coração de Jack. A mãe estava definhando... em todos os sentidos.

— Sim, madame.

— Depois — ela continuou — pegue uma garrafa de vermute, qualquer marca, e vire uma dose no copo. Aí guarde o vermute na prateleira e me traga o copo. OK?

— Sim, madame.

Olhos frios e lacrimosos da Nova Inglaterra fitavam sua mãe sem qualquer simpatia. Nós dois esta­mos sozinhos aqui, Jack pensou, percebendo isso pela primeira vez. Jesus, SÓ nós dois!

— Alguma coisa, meu jovem?

— Eu queria uma Coca — disse Jack angustiado.

O garçom se afastou. Lily revirou a bolsa e pegou um maço de Herbert Tarrytoons (desde que Jack era bebê, era assim que Lily chamava os cigarros Herbert Tareyton; “Traga os meus Tarrytoons, Jacky!”, di­zia ela. “Estão aí na prateleira!” Jack não conseguiria imaginar cigarros com qualquer outro nome). Acen­deu um deles. Tossiu a fumaça em três ásperas explosões.

Era mais uma pedra contra o coração de Jack. Dois anos atrás, a mãe parara totalmente de fumar. Jack tinha esperado a recaída com aquele estranho fatalismo que é o lado irreverente da credulidade e inocência infantis. A mãe sempre fumara, logo, voltaria a fumar. Mas não tinha voltado... Não até três me­ses atrás, em Nova York. Carltons. Rodando pela sala de estar do apartamento no Central Park West, tirando baforadas como uma locomotiva, se acocorando diante do aparelho de som, remexendo seus velhos discos de rock ou os velhos discos de jazz do falecido marido.

— Está fumando cigarros de novo, mamãe? — ele perguntou.

— Não, estou fumando folhas de repolho — ela respondeu.

— Queria que não fumasse.

— Por que não liga a TV? — ela perguntou virando-se para o filho com uma aspereza que não lhe era própria, lábios contraídos. — Talvez veja Jimmy Swaggart ou o Reverendo Ike. Fique cantando aleluia com eles e dizendo amém com as beatas.

— Desculpe — ele murmurou.

Bem... era apenas Carlton, um cigarro suave. Mas não! Ali estava um Herbert Tarrytoons, o mesmo antiquado maço azul e branco, as ponteiras que pareciam filtros mas não eram. Lembrava-se vagamente de ter ouvido o pai comentar com alguém que ele fumava Winstons, mas a mulher fumava Pulmões Negros.

— Alguma coisa errada, Jack? — ela perguntou, os olhos muito brilhantes fixos nele, o cigarro na velha e ligeiramente excêntrica posição entre o segundo e o terceiro dedos da mão direita. Ai dele se dis­sesse alguma coisa! Que se atrevesse a dizer: “Mamãe, vejo que voltou a fumar Herbert Tarrytoons. Acha então que não tem mais nada a perder?”.

— Não — ele respondeu. Aquela angustiante, desnorteante saudade de casa envolveu-o de novo. Teve vontade de chorar. — O problema é este lugar. É um pouco estranho.

Ela olhou ao redor e sorriu. Dois outros garçons, um gordo e um magro, ambos de paletó verme­lho com uma lagosta dourada atrás, permaneciam ao lado da porta de vaivém que dava para a cozinha. Conversavam baixo. Uma corda de veludo, estendida desde a entrada, separava o saguão onde Jack e a mãe estavam de uma enorme sala de jantar. As cadeiras estavam viradas em formas piramidais sobre as mesas. O salão parecia uma gruta sombria. Lá no fundo, uma enorme janela envidraçada dava para uma sacada. E na sacada havia um arco gótico que fez Jack se lembrar da Noiva da morte, um filme em que a mãe trabalhara. Fazia o papel de uma jovem cheia de dinheiro que, contra a vontade dos pais, tinha se ca­sado com um bonito e sinistro estrangeiro. O bonito e sinistro estrangeiro levou-a para uma grande casa perto do oceano e tentou enlouquecê-la. Noiva da morte fora um filme mais ou menos típico da carreira de Lily Cavanaugh; Lily fizera um grande número de filmes em preto-e-branco onde atores bonitos, mas logo esquecidos, andavam de chapéu em Fords conversíveis.

A tabuleta pendurada na corda de veludo impedia o acesso à gruta sombria com uma ordem ridi­culamente atenuada: circulação restrita.

— É um tanto desagradável, não é? — disse ela.

— É como a região Além da Imaginação — ele respondeu, e Lily explodiu num riso estridente, contagiante, gostoso até certo ponto.

— Isso mesmo, Jacky, Jacky querido! — disse ela inclinando-se sorridente para alisar-lhe o cabelo comprido demais.

Jack empurrou-lhe a mão, também sorrindo (mas oh, os dedos dela pareciam ossos, não é? Ela está quase morta, Jack...).

— Não me despenteie.

— De jeito nenhum.

— Você ainda está muito em forma, mamãe!

— Oh, rapaz, já está querendo que eu lhe dê o dinheiro do cinema desta semana, não é?

— É.

Os dois sorriram e Jack não se lembrava de jamais ter tido uma necessidade tão forte de chorar. Também não se lembrava de ter sentido tanto amor pela mãe. Havia em Lily uma espécie de resistência desesperada... Voltar aos Pulmões Negros fazia parte disso.

As bebidas chegaram. Lily bateu seu copo contra o de Jack.

— À nossa.

— OK.

Beberam. O garçom trouxe o cardápio.

— Acha que dei trabalho demais com o martini, Jacky?

— Um pouco — disse ele.

Lily pensou um instante, depois deu de ombros.

— O que vai querer?

— Um linguado, eu acho.

— Peça para nós dois.

Ele chamou o garçom e fez o pedido, sem jeito, encabulado, mas sabendo que era isso que a mãe esperava. E quando o garçom foi embora, pôde ver nos olhos dela que não desempenhara mal o papel. Parte do êxito era obra do tio Tommy. Após uma ida ao Hardee’s, tio Tommy dissera:

— Acho que ainda podemos ter esperanças com você, Jack, mas precisamos curar essa sua revol­tante obsessão em fazer tudo direitinho.

 

A comida veio. Jack atacou vorazmente o linguado, que ainda estava bem quente, com bastante limão, e gostoso. Lily apenas mexeu os talheres, comeu algumas ervilhas, mudou as coisas de lugar no prato.

— As aulas já começaram há duas semanas — Jack anunciou no meio da refeição. Ver os grandes ônibus amarelos com escola do distrito de Arcadia escrito do lado fizera-o se sentir culpado; provavelmente qualquer culpa seria absurda naquelas circunstâncias, mas aconteceu. Estava matando aula.

Lily o contemplou com um ar interrogativo. Ela pedira e já acabara de tomar um segundo drinque; agora o garçom servia o terceiro. Jack sacudiu os ombros.

— Falei por falar.

— Quer voltar à escola?

— Eu? Não! Nada disso!

— Sorte minha — disse ela. — Não tenho seus malditos atestados de vacinação. Não vão deixá-lo entrar na escola sem esse pedigree, meu peixinho.

— Não me chame de peixe — Jack reclamou, mas Lily não abriu um sorriso nem prolongou o gracejo.

Rapaz, por que você não está na escola?

Ele piscou como se a voz tivesse falado alto e não apenas em sua mente.

— O que foi? — Lily perguntou.

— Nada... Bem... Há um sujeito no parque de diversões Funworld. É zelador, porteiro, qualquer coisa assim. Um preto velho. Me perguntou por que eu não estava na escola.

Ela inclinou a cabeça, o rosto sem humor, a expressão quase assustadoramente severa.

— O que você contou a ele?

Jack balançou os ombros.

— Eu disse que estava me recuperando de uma bronquite. Está lembrada de quando o Richard teve bronquite? O médico disse ao tio Morgan que o Richard tinha de ficar seis semanas sem ir à escola, mas que podia sair, passear e tudo. — Jack sorriu. — Fiquei com inveja da sorte dele.

Lily relaxou um pouco.

— Não gosto que fale com estranhos, Jack.

— Mamãe, ele é apenas um...

— Não me interessa quem ele é. Não quero que fale com estranhos.

Jack pensou no preto, os flocos duros de lã do cabelo grisalho, os sulcos profundos no rosto, o tom estranho do brilho dos olhos. Empurrava uma vassoura no grande pátio sobre o píer — o pátio era apenas uma parte do Arcadia Funworld, que ficava aberto grande parte do ano, mas que agora estava de­serto... Só havia Jack, o preto e dois outros velhos lá no fundo. Esses dois estavam sempre arrastando as vassouras num silêncio impassível.

Mas agora, sentado naquele restaurante um tanto horripilante com a mãe, não era o homem preto quem fazia a pergunta: era ele mesmo.

Por que eu não estou na escola?

Foi como ela explicou, filho? Você não foi vacinado e não tem pedigree? E será que ela trouxe sua certidão de nascimento? Será que ela trouxe? Ela está fugindo, rapaz, e você está fugindo junto com ela. Você...

— Soube alguma coisa do Richard? — ela o interrompeu, e sem dúvida as palavras não o atingiram com suavidade. Estalaram dentro dele. Suas mãos se contorceram e o copo caiu da mesa; se espatifou no chão.

Ela está quase morta, Jack.

A voz do funil de areia que rodopiava. A voz que ele escutara dentro da cabeça.

Fora a voz do tio Morgan. Não havia dúvida nem talvez, não fora apenas uma voz parecida. Fora uma voz real. A voz do pai de Richard.

 

No carro, a caminho do hotel, ela perguntou:

— O que houve com você no restaurante, Jack?

— Nada. Foi alguma coisa dentro do meu corpo, uma espécie de jazz. — Deu umas batidas no pai­nel do carro para demonstrar. — Umas pancadas desse tipo pelas minhas veias, como naquela cena do Hospital Geral.

— Não invente coisas, Jacky!

Ela parecia pálida e desfigurada no brilho que vinha do painel do carro. Um cigarro ardia lenta­mente entre o segundo e o terceiro dedos da mão direita. Dirigia muito devagar (jamais passando dos 60), como costumava fazer quando bebia demais. Pusera o banco na vertical e, na ponta do vestido levantado, os joelhos flutuavam, meio vacilantes, de ambos os lados da coluna de direção. O queixo estava caído so­bre o volante. Por um instante, pareceu uma bruxa, e Jack desviou rapidamente os olhos.

— Não estou — ele murmurou.

— O quê?

— Não estou inventando — disse ele. — Foi como se eu tivesse levado um safanão, foi isso. Sinto muito.

— Tudo bem — disse a mãe. — Pensei que fosse alguma coisa sobre Richard Sloat.

— Não.

O pai dele falou comigo de um buraco na areia da praia, foi só isso. Falou comigo dentro da minha cabeça, como num filme onde se ouve uma voz. Disse que você estava quase morta.

Tem saudades dele, Jack?

— De quem, de Richard?

— Não, de Spiro Agnew! De Richard, é claro!

— Às vezes.

Agora Richard Sloat estava indo para a escola em Illinois — uma daquelas escolas particulares onde era obrigatório rezar na capela e ninguém tinha acne.

— Você vai vê-lo de novo.

Ela passou a mão em seu cabelo.

— Tem certeza disso, mamãe?

As palavras tinham explodido de dentro de Jack. Ele podia sentir seus dedos agarrando e apertan­do as coxas.

— Sim — ela respondeu, acendendo outro cigarro (para fazê-lo, diminuiu a velocidade para me­nos de 40; um velho utilitário passou voando por eles, tocando a buzina). — Não se preocupe.

— Quantos quilos você emagreceu?

— Jacky, você nunca pode ser magro demais nem gordo demais.

Lily fez uma pausa e sorriu. Era um sorriso cansado e magoado que dizia toda a verdade que ele precisava saber.

— Mamãe...

— Não fale mais — disse ela. — Está tudo bem. Palavra de honra. Veja se consegue achar um be-bop no FM.

— Mas...

— Ache a música, Jacky, e fique de boca fechada.

Encontrou jazz numa estação de Boston — o solo de um saxofone repetindo All the Things You Are. Mas sob ele, num contraponto incessante e absurdo, ouvia-se o oceano. E daí a pouco Jack pôde ver o grande esqueleto da montanha-russa contra o céu. E os contornos vagos da Pousada dos Jardins do Alhambra. Se aquilo era um lar, já estavam em casa.

 

SPEEDY PARKER

No dia seguinte, o sol voltou — um sol forte e brilhante que se estendeu como tin­ta sobre a areia da praia e sobre as telhas vermelhas de uma faixa inclinada de telhado que Jack podia ver da janela do quarto. Uma onda fraca e comprida, lá longe no mar, pareceu crescer sob a luz e atirar uma flecha de brilho bem na direção de seus olhos. Para Jack, aquele sol era diferente do sol da Califórnia. Pa­recia um pouco mais débil, mais frio, menos capaz de agasalhar. A onda no oceano fundo se desman­chou, depois se elevou de novo e um ofuscante raio de luz dourado saltou sobre ela. Jack se afastou da ja­nela. Já tomara banho, já se vestira e o relógio o informava de que estava na hora de se pôr a caminho para pegar o ônibus escolar. Sete e quinze. Mas evidentemente não teria de ir à escola, nada era mais nor­mal, ele e a mãe apenas perambulariam como fantasmas por outras 12 horas de luz do sol. Nem horários, nem responsabilidades, nem deveres de casa, nem obrigações de qualquer espécie, exceto a obrigação de comer na hora das refeições.

Mas será mesmo que era um dia de escola? Jack parou ao lado da cama, sentindo um ligeiro início de pânico. Seu mundo se tornara demasiado vago... Achava que não era sábado. Contou para trás até o primeiro dia que a memória podia identificar com segurança, isto é, o domingo anterior. Contando depois para a frente dava quinta-feira. Às quintas-feiras ele tinha as aulas de computador do Sr. Balgo e uma hora de educação física. Pelo menos era o que acontecia quando sua vida era normal, uma época que agora, embora só tivesse chegado ao fim poucos meses atrás, parecia irremediavelmente perdida.

Passou do quarto para a sala de estar. Quando puxou o cordão das cortinas, o sol forte e brilhante inundou o aposento, esbranquiçou a mobília. Então apertou o botão da televisão e deixou-se cair num sofá um tanto duro. A mãe ia demorar pelo menos 15 minutos para acordar. Talvez mais, levando-se em conta que tomara três drinques no jantar da noite anterior.

Jack olhou para a porta do quarto.

Vinte minutos depois ele bateu devagar.

— Mamãe?

Um resmungo rouco foi a resposta. Jack abriu uma fresta da porta e deu uma espiada. Ela estava le­vantando a cabeça do travesseiro e espreitando por olhos semicerrados.

— Jacky. Já é de manhã? Que horas são?

— Umas oito.

— Deus. Está com fome?

Lily sentou-se na cama e apertou os olhos com as palmas das mãos.

— Mais ou menos. Mas estou cansado de ficar sentado aqui. Eu não sabia a que horas você ia acordar.

— De preferência o mais tarde possível, Jack. Se não se importa, desça até o salão e tome o seu café. Depois vá passear na praia, está bem? Sua mãe será muito mais agradável à tarde, se você deixá-la fi­car mais uma hora na cama.

— Tudo bem — disse ele. — Pode ficar. Vejo você mais tarde.

A cabeça de Lily já mergulhara no travesseiro.

Jack desligou a televisão e, após certificar-se de que sua chave estava no bolso do jeans, saiu do apartamento.

O elevador tinha cheiro de cânfora e amônia (uma empregada derramara uma garrafa de desinfetante de um carrinho de limpeza). A porta se abriu e o porteiro cinzento atrás do balcão da recepção fran­ziu a testa e virou ostensivamente as costas. Ser filho de uma estrela de cinema não o torna nada especial por aqui, rapaz... E por que não está na escola? Jack virou no corredor do arco de madeira e foi para uma sala de jantar chamada “Lombo do Cordeiro”. Viu filas e filas de mesas vazias numa vastidão sombria. Tal­vez houvesse seis mesas postas. Uma garçonete de blusa branca e saia vermelha e amarrotada viu-o che­gar e desviou os olhos. Dois velhos de aparência exausta sentavam-se frente a frente no fundo da sala. Não havia mais ninguém. Quando Jack levantou os olhos, o velho inclinou-se sobre a mesa e, sem qual­quer inibição, cortou o ovo estrelado da esposa em quatro partes.

— Café para um?

A mulher encarregada do Lombo do Cordeiro durante o dia se materializara a seu lado e já puxara um dos cardápios empilhados numa mesa de serviço.

— Desculpe, mudei de idéia.

Jack escapou.

A cafeteria do Alhambra, Arco da Rebentação, ficava no fim do vestíbulo e se prolongava pelo lon­go e triste corredor de um balcão de vidro. Jack perdeu a fome ao se imaginar sentado sozinho naquele balcão, contemplando uma pequena cozinha deserta através de fatias de bacon numa grelha chamuscada. Ia esperar a mãe acordar; ou melhor, ia sair e procurar uma rosquinha e um copo de leite numa das pada­rias da rua que ia dar na cidade.

Puxou a pesada porta da frente do hotel e saiu para o sol. Por um instante, o brilho repentino lhe ofuscou os olhos — o mundo era apenas um clarão indistinto. Jack contraiu as pupilas, pensando que não devia ter esquecido os óculos escuros. Atravessou o pequeno pátio de pedras vermelhas e desceu os qua­tro degraus redondos que levavam ao caminho central do jardim do Alhambra.

O que ia acontecer se a mãe morresse?

O que ia acontecer a ele? Para onde iria, quem ia tomar conta dele se a pior coisa do mundo acon­tecesse, se ela morresse, se morresse de todo lá em cima naquele quarto?

Jack sacudiu a cabeça tentando afastar o terrível pensamento antes que um pânico incontrolável pulasse dos bem-tratados jardins do Alhambra e o soterrasse. Não, não ia chorar, não ia deixar que aquilo acontecesse... E não ia mais pensar nos Tarrytoons, nos quilos que a mãe perdera, nem na sensação que ele às vezes tinha de que a mãe estava completamente desamparada e desnorteada. Já estava andando de­pressa e, com as mãos nos bolsos, percorreu num instante o caminho sinuoso que cortava o jardim do ho­tel e levava à rua. Ela está fugindo, filho, e você está fugindo com ela. Mas fugindo de quem? E para onde? Para cá? Para este lugar abandonado?

Alcançou a estrada que ia até a cidade acompanhando a costa e achou que a paisagem desolada que se abria diante dele não passava de um redemoinho capaz de sugá-lo e cuspi-lo num lugar muito es­curo, onde nunca havia paz ou segurança. Uma gaivota sobrevoou a estrada deserta, fazendo uma curva bem aberta e depois mergulhando em direção ao mar. Jack viu a ave se afastar, diminuindo cada vez mais, até se transformar num pontinho branco sobre o confuso contorno da montanha-russa.

Lester Speedy Parker, um homem preto com grandes rugas cortando-lhe o rosto e cabelo grisalho e crespo, estava lá embaixo, em algum lugar do Funworld. Speedy era a pessoa que ele tinha de ver. Para Jack, isto era tão claro quanto fora clara a lembrança repentina da voz do pai de seu amigo Richard.

Uma gaivota guinchou, uma onda atirou um raio dourado em sua direção e ele viu o tio Morgan e o novo amigo Speedy como figuras quase alegoricamente opostas, estátuas do dia e da noite espetadas em suas bases, estátuas do sol e da lua — a luz e a escuridão. O que Jack compreendeu assim que soube que o pai teria gostado de conhecer Speedy Parker foi que o ex-músico de blues não tinha nenhuma maldade dentro dele. O tio Morgan, porém... Bem, era um tipo de pessoa completamente diferente. O tio Morgan vivia para os negócios, para negociar e vencer todos os obstáculos; era tão ambicioso que tirava proveito de cada hesitação do adversário numa quadra de tênis, tão ambicioso que não admitia perder uma única vez no jogo de cartas, mesmo que jogasse com o filho. Por fim, Jack imaginava que o tio Morgan trapaceasse algumas vezes no jogo... Não era um homem que soubesse perder com esportividade.

noite e dia, lua e sol, escuridão e luz. O homem preto era a luz nessas polaridades. Quando a mente de Jack se convenceu disso, todo aquele pânico que conseguira afugentar no cuidado jardim do hotel avançou de novo para ele. Jack pôs os pés em movimento e correu.

 

Quando viu speedy ajoelhado do lado de fora da sombria e descascada fachada do parque (passando uma fita isolante em volta de um fio elétrico, os duros caracóis de lã do cabelo qua­se encostando no chão, as nádegas magras escapando do gasto pano verde das calças, as solas empoeiradas das botas como duas pranchas de surfe na vertical), Jack percebeu que ainda não tinha idéia do que tencionava lhe dizer, nem se pretendia mesmo dizer alguma coisa. Speedy passou mais uma vez o rolo de fita isolante em volta do fio, balançou a cabeça num gesto satisfeito, tirou um velho canivete Palmer do bolso da camisa e cortou a ponta da fita com uma precisão cirúrgica. Se pudesse, Jack também teria corri­do dali; afinal, estava atrapalhando o trabalho do homem e, sem dúvida, era maluquice achar que Speedy poderia ajudá-lo de alguma forma. Que espécie de ajuda poderia obter do velho zelador de um parque de diversões deserto?

Então Speedy virou a cabeça e registrou a presença do garoto com uma expressão de irrestritas e calorosas boas-vindas (não era bem um sorriso, antes um aprofundamento de todas as grandes rugas do rosto). Jack viu que pelo menos não estava atrapalhando.

— Jack Viajante! — disse Speedy. — Já estava com medo que nunca mais viesse conversar comigo. E justamente quando começávamos a fazer amizade! É uma satisfação vê-lo de novo, filho!

— Oi — disse Jack. — Para mim também é uma satisfação.

Speedy guardou o canivete no bolso da camisa e levantou os ossos do corpo com tanta facilidade, num gesto tão elástico, que pareceu uma pessoa sem peso aos olhos de Jack.

— Isto aqui está precisando de muitas reformas — disse ele. — Faço um pouquinho de cada vez, mas é o bastante para que tudo funcione mais ou menos como devia. — Fez uma pausa e deu uma boa olhada no rosto de Jack. — Parece que as coisas não estão andando muito bem aí por fora, não é? Jack Viajante parece curvado sob um fardo de preocupações. Acertei?

— É, acho que sim — Jack começou, mas ainda não tinha idéia de como ia expressar as coisas que o perturbavam. Elas não podiam ser colocadas em frases comuns, pois frases comuns fazem tudo parecer racional. Um... dois... um... dois...: o mundo de Jack não marchava mais numa linha tão reta. Mas tudo o que não conseguia dizer pesava em seu peito.

Jack olhou angustiado para o homem alto e magro à sua frente. Speedy enfiara as mãos nos bolsos; as sobrancelhas grossas e grisalhas voltaram-se para o profundo sulco vertical que havia entre elas. Os olhos de Speedy, tão luminosos que pareciam quase desprovidos de cor, deslocaram-se da tinta fina do píer e encontraram os de Jack. E de repente Jack voltou a se sentir melhor. Não entendia bem por quê, mas Speedy parecia capaz de lhe comunicar facilmente emoções: era como se já se conhecessem há anos, não apenas há uma semana; como se já tivessem trocado bem mais que algumas palavras na arcada de um parque de diversões.

— Bem, agora chega de trabalhar — disse Speedy, erguendo os olhos na direção do Alhambra. — Se insistir, vou estragar o que já fiz. Acho que ainda não viu meu escritório, não é?

Jack balançou a cabeça.

— É hora de refrescar a cabeça, rapaz! É a hora certa.

Ele se afastou da fachada do parque com seu passo largo e Jack correu atrás. Quando desceram os degraus do píer e começaram a atravessar o gramado ralo e o chão de barro marrom na direção das cons­truções do outro lado do pátio, Speedy surpreendeu Jack com uma canção:

 

Jack Viajante,

Jack sempre a viajar,

Ir é um longo caminho,

Mais longo ainda é voltar.

 

Ele não estava exatamente cantando, Jack pensou. Era algo a meio caminho entre cantar e falar. Se não fosse pelas palavras, Jack teria gostado de ouvir a voz rude e confiante de Speedy:

 

Longo, longo caminho vai o rapaz avançar.

Mais longo ainda é voltar.

 

Speedy lançou-lhe por cima do ombro um olhar quase cintilante.

— Por que você me chama desse jeito? — Jack perguntou. — Por que Jack Viajante? Porque sou da Califórnia?

Tinha atingido a barraca azul-clara no cercado de entrada da montanha-russa. Ali eram vendidos os ingressos. Speedy enfiou de novo as mãos nos bolsos da calça verde e folgada, girou nos calcanhares e entrou no cercado — a precisão e a rapidez de seus movimentos tinham uma característica quase teatral. E, como se soubesse de antemão que naquele momento a pergunta seria exatamente aquela, cantou:

 

Diz que vem da Califórnia,

Por certo ele sabe que tem de voltar...

 

O rosto compacto, de traços bem marcados, estava cheio de uma emoção que pareceu um tanto forçada a Jack.

 

Vejam o caminho por onde vem,

Pobre Jack Viajante,

De voltar ele tem...

 

— O quê? — disse Jack. — Voltar? Eu acho que minha mãe até já vendeu a casa... Ou alugou, sei lá... Não sei que diabo você está tentando dizer, Speedy!

Ele se sentiu aliviado quando Speedy não lhe respondeu com sua cantilena monótona e ritmada, mas disse numa voz normal:

— Aposto que você não se lembra de ter me encontrado antes, Jack. Estou certo ou não?

— Já ter encontrado você? Onde foi isso?

— Na Califórnia... pelo menos. Acho que nos encontramos lã. Não é de admirar que não se lembre, Jack Viajante. Foram apenas alguns minutos agitados e você tinha... deixe-me ver... você tinha cerca de quatro ou cinco anos. Foi em 76.

Jack o fitou com uma expressão atordoada. Setenta e seis? Teria então sete anos.

— Vamos dar uma olhada no meu escritório — disse Speedy e puxou-o do cercado da bilheteria com a mesma agilidade sem peso.

Jack foi atrás dele, serpenteando entre os altos suportes da montanha-russa — sombras negras, re­des de um estranho diagrama estendido no chão empoeirado, onde velhas latas de cerveja e embalagens de doce ainda salpicavam aqui e ali. Os trilhos da montanha-russa pendiam sobre eles como um edifício inacabado. Speedy se movia, Jack percebeu, com a flexibilidade de um jogador de basquete, a cabeça empinada, os braços balançando. A curva de seu corpo, sua postura na escuridão axadrezada sob as longarinas eram as de um jovem — Speedy tinha a aparência de um rapaz de 20 anos.

Então o zelador despontou de novo na áspera luz do sol e 50 anos extras tingiram-lhe o cabelo, mancharam-lhe a nuca. Jack parou ao atingir a última fileira de pilastras. Teve a sensação de que o ilusó­rio rejuvenescimento de Speedy Parker podia indicar que não estava longe de um sonho de olhos abertos. Talvez alguma coisa já estivesse flutuando à sua volta.

Mil novecentos e setenta e seis? Califórnia? Jack foi ficando atrás de Speedy, que agora se dirigia para um pequeno barracão de madeira, pintado de vermelho, junto à cerca de arame no fim do parque de diversões. Tinha certeza de nunca ter encontrado Speedy na Califórnia... mas a quase visível presença de suas fantasias ali ao redor tinha lhe trazido uma memória específica daquele tempo, as visões e sensações de um fim de tarde quando tinha seis anos, brincando com um táxi preto de brinquedo atrás da poltrona do escritório do pai... E, inesperadamente, magicamente, ouviu o pai falando com o tio Morgan a respeito dos sonhos de olhos abertos.

Eles têm magos como nós temos físicos, certo? Uma monarquia agrária, usando a magia em vez da ciência. Mas já imaginou a porra do choque que íamos provocar se déssemos a eletricidade a eles? Se levássemos armas modernas para alguns membros da tribo? Tem idéia do que isso significaria?

Vá com calma, Morgan! Consigo ver um monte de coisas que você não ê capaz de enxergar...

Jack quase podia ouvir a voz do pai, e o estranho e inquieto reino dos sonhos de olhos abertos pa­receu se agitar no deserto sombrio sob a montanha-russa. Começou de novo a correr atrás de Speedy, que abrira a porta do pequeno barracão vermelho e se encostara junto à entrada, sorrindo sem sorrir.

— Você está com alguma coisa na cabeça, Jack Viajante. Alguma coisa zumbindo aí dentro como uma abelha. Entre na suíte executiva e me diga o que há.

Se o sorriso tivesse sido mais largo, mais óbvio, Jack poderia ter virado as costas e corrido: o espec­tro do ridículo pairava humilhantemente perto. Mas toda a figura de Speedy parecia expressar um interes­se saudável (era esta a mensagem de todos aqueles sulcos profundos no rosto dele). Jack cruzou a porta e entrou no barracão.

O “escritório” de Speedy era um pequeno cômodo retangular — o mesmo vermelho que no exterior —, sem uma escrivaninha ou um telefone. Dois engradados alaranjados, encostados na parede ao lado de um aquecedor elétrico, lembravam a frente de um Pontiac dos anos 50. No meio da sala, uma carteira es­colar com encosto redondo de madeira fazia companhia a uma poltrona de forro desbotado, cinzento.

Os braços da poltrona pareciam ter sido arranhados pelas garras de várias gerações de gatos: pu­nhados sujos do enchimento saltavam como mechas de cabelo. Nas costas da carteira havia uma comple­xa teia de iniciais rabiscadas. A mobília era um traste. Num dos cantos viam-se duas pilhas de livros, nou­tro a tampa corroída de um toca-discos barato. Speedy esticou a cabeça para o aquecedor e disse:

— Se vier aqui em janeiro ou fevereiro, rapaz, vai ver por que tenho isso. Frio? Um verdadeiro gelo!

Mas Jack olhava agora para as gravuras coladas na parede sobre o aquecedor e os engradados amarelos. Com exceção de uma, todas eram nus tirados de revistas masculinas. Mulheres com seios maio­res que as cabeças, reclinadas em cascos de árvores, poses sinuosas, pernas estendidas. Para Jack, aquelas mulheres tinham rostos ao mesmo tempo fascinantes e vorazes — como se suas bocas se transformassem em bicos quando beijavam alguém. Algumas não eram mais jovens que a mãe, outras só pareciam alguns anos mais velhas que ele. Os olhos de Jack roçaram por aquelas carnes; todas elas, jovens e velhas, rosa­das, cor de chocolate ou de mel, pareciam ansiar pelo seu toque, mas ele estava demasiado consciente da presença de Speedy Parker a seu lado. Então viu a paisagem no meio daqueles nus fotográficos. E por um segundo deve ter esquecido de respirar.

Era também uma foto, e também parecia chamá-lo de alguma forma, até mesmo tocá-lo, como se fosse tridimensional. Uma longa planície cheia de relva estendendo-se até uma pequena cadeia de monta­nhas. Sobre a planície e as montanhas via-se um céu extremamente límpido. Jack quase podia cheirar o frescor do panorama. Conhecia aquele lugar. Sem dúvida nunca estivera lá, mas conhecia o lugar. Era um dos lugares dos sonhos de olhos abertos.

— Não se pode tirar os olhos daí, não é? — perguntou Speedy, e Jack se lembrou de onde estava. Uma mulher asiática inclinava para a câmera um traseiro em forma de coração e sorria por sobre os om­bros. Sim, Jack pensou.

— É realmente um lugar muito bonito — disse Speedy. — Essa quem colou fui eu. Todas as outras já estavam aqui quando eu mudei. Não tive coragem de rasgá-las. Elas me fazem lembrar dos bons tem­pos, quando eu andava por este mundo afora.

Jack olhou assustado para Speedy, e o velho pestanejou.

— Você conhece esse lugar, Speedy? — Jack perguntou. — Quero dizer... sabe onde ele fica?

— Talvez sim, talvez não. Pode ser a África... Algum lugar no Quênia. Ou pode ser que minha me­mória não ande muito boa. Sente-se aqui, Jack Viajante. Aproveite a poltrona.

Jack virou a poltrona para poder contemplar a gravura do lugar dos sonhos de olhos abertos.

— Isso é a África?

Talvez seja um pouco mais perto. Talvez seja um lugar aonde se pode ir... aonde se pode ir a qualquer hora. Pelo menos se quisermos conhecê-lo bem.

E de repente Jack percebeu que estava tremendo, que já estava tremendo há algum tempo. Seus punhos se fecharam formando duas bolas e ele sentiu o tremor se transferir para o estômago.

Não tinha certeza de que queria ver o lugar dos sonhos de olhos abertos, mas olhou interrogativa­mente para Speedy, que tinha se empoleirado na carteira escolar.

— Não é um lugar da África, é?

— Bem, eu não sei. Talvez seja. Eu lhe dei um nome especial, filho. Chamo isto aí de “Os Territórios”.

Jack tornou a olhar para a foto — a comprida e ondulada planície, as pequenas montanhas mar­rons. Os Territórios. Estava bem; era esse o nome.

Eles têm magos como nós temos físicos, certo? Uma monarquia agrária... armas modernas para al­guns membros da tribo... tio Morgan tramando. O pai respondendo, pisando um pouco no freio: Temos de penetrar lá com muito cuidado, parceiro... Lembre-se, temos obrigações com eles. E isto é sério: temos real­mente obrigações com eles.

— Os Territórios... — ele disse para Speedy, seus lábios saboreando o nome ao mesmo tempo que faziam uma pergunta.

— Ar puro como o melhor vinho na adega de um homem rico. Clima suave. Esse é o lugar, rapaz!

— Você já esteve lá, Speedy? — Jack perguntou, esperando ardentemente uma resposta direta.

Mas Speedy o decepcionou, como Jack tinha quase certeza que aconteceria. O zelador sorriu; dessa vez era um sorriso de verdade, não apenas um brilho subliminar de simpatia.

E após um instante Speedy falou:

— Diabo, eu nunca saí dos Estados Unidos, Jack Viajante. Nem mesmo durante a guerra. Nunca passei do Texas e do Alabama.

— E como sabe sobre... Os Territórios?

O nome estava começando a se ajustar à sua boca.

— Um homem como eu ouve histórias de todo tipo. Histórias de papagaios de duas cabeças, de homens que têm asas e voam, de homens que se transformam em lobos, histórias sobre rainhas, rainhas doentes...

... magos como nós temos físicos, certo?

— Anjos e lobisomens.

— Já ouvi histórias sobre lobisomens — disse Jack. — Já vi até em desenhos animados. Eles não são de verdade, Speedy!

— Provavelmente não. Mas já ouvi dizer que se alguém tira um rabanete da terra, uma pessoa a quase um quilômetro de distância pode sentir o cheiro do rabanete... pode sentir um perfume se o ar for puro.

— Mas anjos...

— Homens com asas.

— E rainhas doentes — disse Jack, encarando a coisa como piada. Ei, seu bruxo de vassoura, você tem muita coisa maluca na cabeça! Mas no instante exato em que pensou essas palavras, sentiu-se um tanto enjoado. Tinha se lembrado de uma gaivota arrancando um marisco da concha, o olho negro fixo nos seus; e podia ouvir o agitado, o afobado tio Morgan perguntando se ele seria capaz de fazer a Rainha Lily andar na linha.

Rainha das produções B. Rainha Lily Cavanaugh.

— Sim — disse Speedy em voz baixa. — Há problemas por toda parte, filho. Rainhas doentes... tal­vez morrendo. Morrendo, rapaz! E alguma coisa esperando lá fora, esperando para ver se alguém é capaz de salvá-la.

Jack o encarou de boca aberta, sentindo-se mais ou menos como se o zelador tivesse lhe dado um chute no estômago. Salvá-la? Salvar sua mãe? O pânico começou a inundá-lo mais uma vez. Como poderia ele salvá-la? E será que toda aquela conversa maluca queria sugerir que ela estava realmente morrendo, morrendo lá embaixo naquele quarto?

— Você tem uma tarefa, Jack Viajante — disse Speedy. — Uma tarefa que ninguém pode fazer em seu lugar e que é a verdade do Senhor. Eu gostaria que não fosse assim...

— Não estou entendendo o que você está falando — disse Jack. Sua respiração parecia ter sido comprimida num pequenino bolso quente situado na base do pescoço. Olhou para outro canto do pe­queno quarto vermelho e, na penumbra, viu uma velha guitarra encostada na parede. Ao lado dela havia um colchão fino e bem enrolado. Speedy dormia perto de sua guitarra.

— É de admirar — disse Speedy —, pois parece saber muito bem o que estou querendo dizer... Você sabe mais do que pensa que sabe. Muito e muito mais.

— Mas eu não... — Jack começou e então se levantou de repente. Acabara de se lembrar de algu­ma coisa. Agora estava ainda mais assustado; outro pedaço do passado se arremessara contra ele, exigin­do sua atenção. Subitamente estava coberto de suor e a pele parecia muito fria (como se o jato fino de uma mangueira o tivesse molhado). Fora esta lembrança que tentara reprimir ontem de manhã, de pé na porta do elevador, fingindo que a bexiga não estava à beira de explodir.

— Eu não disse que era hora de refrescar a cabeça? — Speedy perguntou, abaixando-se para em­purrar uma tábua solta do assoalho.

Jack viu outra vez dois homens de aparência comum empurrando a mãe para dentro de um auto­móvel. Uma árvore enorme estendia as copas frondosas sobre o teto do carro.

Speedy tirou suavemente uma garrafa de meio litro de uma fenda entre as tábuas do assoalho. A garrafa era verde-escura e o líquido lá dentro parecia negro.

— Isto vai ajudá-lo, filho. Só precisa tomar um golinho... Isto vai enviá-lo a alguns lugares que ain­da não conhece, vai ajudá-lo a começar a tarefa que eu disse que terá de enfrentar.

— Não posso ficar mais tempo, Speedy — Jack falou de repente, agora desesperadamente apressa­do para voltar ao Alhambra. Speedy tentou disfarçar a surpresa no rosto e tornou a colocar a garrafa sob a tábua solta. Jack já estava de pé. — Estou preocupado — disse.

— Com sua mãe?

Jack assentiu com a cabeça, recuando em direção à porta aberta.

— É, é melhor ir ver como ela anda. Mas pode voltar aqui quando quiser, Jack Viajante.

— Tudo bem — disse o menino, e só hesitou um segundo antes de caminhar para a porta. — Acho... acho que estou me lembrando... Já nos encontramos antes, Speedy!

— Não, não! Foi uma confusão dos meus miolos — disse o velho balançando a cabeça e sacudin­do as mãos. — Você estava certo. Só nos conhecemos na semana passada. Volte para junto de sua mãe e procure se divertir.

Jack saiu do barracão e atravessou correndo um espaço ensolarado e amplo. Num instante viu o grande arco que ia dar na rua se aproximando. Em cima dele, pôde ler o letreiro dlrownuf aidacra rabis­cado contra o céu (à noite, lâmpadas coloridas espalhariam o nome do parque em ambas as direções). Seus tênis levantavam poeira. Jack fez pressão nos músculos, forçando-os a correrem mais rápido e mais firme. Quando passou embaixo do arco, era como se estivesse voando.

Mil novecentos e setenta e seis. Jack estava subindo a Rodeo Drive numa tarde de junho... Ou seria julho? De qualquer modo, era uma tarde na estação seca, antes daquele período do ano em que todo mundo começa a querer fugir para o campo. Não conseguia se lembrar aonde tinha ido. À casa de um amigo? Não estava com pressa naquela tarde. Tinha alcançado um estágio onde já não ficava mais pensan­do no pai a cada segundo livre do seu tempo (por muitos meses após a morte de Philip Sawyer numa ca­çada, sua sombra continuara correndo atrás de Jack, emparelhando-se com ele sempre que o garoto esta­va menos preparado para encontrá-la). Jack tinha apenas sete anos, mas sabia que uma parte da infância lhe fora roubada (seu modo de ser aos seis anos já lhe parecia extremamente ingênuo e tolo). Aprendera, no entanto, a confiar na força da mãe. Ameaças disformes e selvagens não mais se escondiam nos cantos escuros, nas portas entreabertas dos armários, nas ruas sombrias, nos quartos vazios.

Os acontecimentos daquela absurda tarde do verão de 1976 eliminaram essa paz temporária. De­pois do que houve, Jack dormiu por seis meses de luz acesa; pesadelos agitavam-lhe o sono.

O carro surgiu na rua poucas casas acima da casa colonial de três andares e paredes brancas onde moravam os Sawyers. Era um carro verde, e a única coisa que Jack sabia além disso é que não era um Mercedes (o Mercedes era o único automóvel que reconhecia). O homem na direção tinha aberto a janela e sorrira para ele. Seu primeiro pensamento foi que já tinha visto aquele homem — por certo era um velho conhecido do pai que queria apenas lhe dar um alô. No sorriso do homem havia alguma coisa espon­tânea, natural, familiar. Ao lado dele ia um sujeito que inclinou a cabeça e o examinou por trás de óculos de cego: redondos e tão escuros que pareciam quase totalmente negros. Esse segundo homem estava usando um terno muito branco.

Por algum tempo o motorista falou apenas com o sorriso; depois perguntou:

— Filho, sabe como se chega ao Beverly Hills Hotel?

Bem, afinal era um desconhecido. Jack experimentou um estranho lampejo de desapontamento. Apontou para cima da rua. O hotel ficava bem lá no alto, tão perto que o pai às vezes caminhava até lá para tomar o café da manhã na cafeteria.

— Bem em frente? — o motorista perguntou, ainda sorrindo.

Jack confirmou balançando a cabeça.

— Você é um garotão muito simpático — disse o homem, e o outro começou a rir. — Fica muito lá em cima?

Jack fez que não com a cabeça.

— Só algumas quadras?

— É.

Estava começando a se sentir mal. O motorista ainda sorria, mas agora o sorriso parecia brilhante demais, duro e vazio. A risadinha do outro se tornava ofegante, era uma espécie de chiado, como se o su­jeito estivesse se engasgando com alguma coisa molhada.

— Cinco quadras, talvez? Seis? O que me diz?

— Cinco ou seis, eu acho — disse Jack recuando um passo.

— Bem, tenho mesmo de agradecer a você, garotão — disse o motorista. — Aposto que gosta de doce, não é? — Ele estendeu um punho fechado pela janela, virou a palma da mão para cima e abriu os dedos: era uma maria-mole. — É seu. Pegue.

Com relutância, Jack deu um passo à frente, ouvindo em sua cabeça as palavras de mil advertências contra gente desconhecida e doces. Mas o homem continuava dentro do carro; se tentasse alguma coisa, Jack podia estar a meio quarteirão de distância antes que ele conseguisse abrir a porta. E não apanhar o doce seria até falta de educação. Jack deu mais um passo à frente. Fitou os olhos do homem, que eram azuis e tão duros e brilhantes quanto o sorriso. Os instintos de Jack disseram-lhe para recuar a mão e cor­rer. Mas acabou deixando que ela avançasse mais alguns centímetros na direção da maria-mole. Seus de­dos fizeram um pequeno gancho para agarrar o doce.

Então a mão do motorista cravou-se sobre a dele e o sujeito com óculos de cego riu em voz alta. Atônito, Jack olhou dentro dos olhos do homem que lhe agarrara o braço e viu-os começarem a passar (pensou ter visto eles começarem a passar) do azul ao amarelo.

Mas sem dúvida ficaram amarelos.

O homem no outro banco abriu uma porta e avançou pela traseira do carro. Usava uma pequena cruz dourada na lapela da jaqueta de seda. Jack tentou freneticamente se soltar, mas o motorista deu mais um sorriso muito brilhante, muito vazio e segurou-o com força.

— Não! — Jack gritou. — Socorro!

O homem de óculos escuros abriu a porta traseira ao lado de Jack.      

— Socorro! — Jack gritou.

O homem pegou-o e começou a espremê-lo de forma que ele pudesse passar pela porta do carro. Jack dava pontapés, sempre gritando, mas o homem o apertava cada vez mais. Jack agarrou-lhe as mãos, tentando soltá-las de seu corpo. E com horror percebeu que o que estava sentindo sob os dedos não era pele. Torceu a cabeça e viu que aquilo que o segurava e se projetava da manga escura era uma coisa dura, metálica, que lembrava uma garra ou uma mão mecânica. Jack gritou outra vez.

De cima da rua veio uma voz:

— Ei, deixem esse menino em paz! Vocês! Larguem o garoto!

Jack arquejou de alívio e contorceu-se o quanto pôde nos braços do homem. Correndo do fim da quadra vinha um preto alto e magro, sempre gritando. O homem jogou-o na calçada e de novo fez a volta pela traseira do carro. A porta da frente de uma das casas atrás de Jack se escancarou: outra testemunha.

— Vamos embora, embora — disse o motorista, já pisando no acelerador.

O Paletó Branco pulou rapidamente para seu banco, as rodas giraram e o carro saiu em diagonal, guinchando pela Rodeo Drive, quase batendo num comprido Clenet branco dirigido por um homem bronzeado, com roupa de jogar tênis. A buzina do Clenet fez barulho.

Jack se levantou da calçada. Estava meio tonto. Um homem careca de jaqueta de safári apareceu ao seu lado e perguntou:

— Quem eram eles? Ficou sabendo o nome deles?

Jack balançou a cabeça.

— Como está se sentindo? Devíamos chamar a polícia.

— Só quero me sentar — disse Jack, e o homem recuou um passo.

— Quer que eu chame a polícia? — disse ele; Jack não quis.

— Não posso acreditar no que vi — disse o homem. — Mora por aqui? Já vi você antes, não foi?

— Eu me chamo Jack Sawyer. Minha casa fica bem ali.

— A casa branca — disse o homem balançando a cabeça. — Você é o menino de Lily Cavanaugh. Se quiser, posso levá-lo em casa.

— Onde está aquele homem? — Jack perguntou. — O preto, o homem que estava gritando?

Num passo incerto, Jack se afastou do homem de jaqueta de safári. Fora os dois, a rua estava vazia.

Lester Speedy Parker fora a pessoa que correra para socorrê-lo. Speedy lhe salvara a vida naquela ocasião, Jack percebia agora... E correu ainda mais depressa para o hotel.

— Tomou seu café? — a mãe perguntou, soltando uma nuvem de fumaça no ar.

O lenço que usava na cabeça parecia um turbante e, com o cabelo assim escondido, o rosto se tor­nara esquálido, muito vulnerável aos olhos de Jack. Um centímetro e meio de cigarro ardia entre o segun­do e o terceiro dedos. Quando Lily viu o filho olhando para o toco, espetou-o no cinzeiro sobre a penteadeira.

— Ah, não, não de verdade — disse ele, hesitando na porta do quarto.

— Oh, diga-me claramente sim ou não — disse Lily, virando-se para o espelho. — A ambigüidade está me matando!

O punho no espelho e a mão no espelho, aplicando a maquiagem no rosto de Lily, pareciam ma­gros como um palito.

— Não — disse ele.

— Bem, espere um segundo e quando sua mãe estiver mais bonita vai levá-lo até lá embaixo e pe­dir o que você tiver vontade de comer.

— Tudo bem — disse ele. — Achei muito deprimente ficar ali sozinho.

— Juro que não entendo. Por que tinha de se sentir deprimido? — Inclinou-se para a frente e exa­minou o rosto no espelho. — Você se importaria de esperar na sala, Jacky? Gosto de fazer isto sozinha. Segredos da tribo.

Jack virou-se em silêncio e foi para a sala.

Quando o telefone tocou, ele deu um pequeno salto.

— Atendo? — gritou.                                                 .

— Claro, Jack — respondeu a voz fria da mãe.

Jack pegou o fone e disse alô.

— Ei, garoto, finalmente o peguei — disse o tio Morgan Sloat. — Pelo amor de Deus, o que está se passando na cabeça de sua mãe? Podíamos estar enfrentando problemas muito sérios se eu não estivesse aqui para cuidar de certos detalhes. Ela está, Jack? Diga que tem de falar comigo. Não importa o que ela acha, mas tem de falar comigo. Confie em mim, garoto!

Jack deixou o telefone ficar pendurado em sua mão. Teve vontade de desligar, entrar no carro com a mãe e ir com ela para outro hotel em outro estado. Mas não desligou.

— Mamãe! Tio Morgan está no telefone! Diz que você tem de falar com ele!

Ela continuou um momento em silêncio; Jack gostaria de estar vendo seu rosto.

— Vou atender aqui, Jacky — ela disse por fim.

Jack já sabia o que ia fazer. A mãe fechou a porta do quarto; ele a ouviu caminhar para a penteadeira. Lily atendeu o telefone,

— OK, Jacky! — ela gritou do outro lado da porta.

— OK! — ele respondeu.

Então, tornou a pôr o fone no ouvido e, para que ninguém o ouvisse respirar, tapou o bocal com a mão.

— Fez uma grande proeza, Lily! — disse o tio Morgan. — Fantástica! Se ainda estivesse fazendo fil­mes, talvez pudéssemos tirar algum dinheiro disso! Algo tipo “Por que desapareceu a atriz?”. Mas não acha que já está na hora de agir como uma pessoa racional?

— Como me encontrou?

— Acha que é difícil encontrá-la? Dê-me uma trégua, Lily! Quero que volte a instalar seu traseiro em Nova York! Já está na hora de parar de fugir.

— Acha que é isso que estou fazendo, Morgan?

— Você não tem exatamente todo o tempo do mundo, Lily, e eu não tenho tempo para ficar procu­rando você por toda a Nova Inglaterra. Ei, seu filho não desligou a extensão!

— Claro que desligou.

O coração de Jack parara completamente de bater.

— Saia da linha, rapaz! — disse a voz do tio Morgan Sloat.

— Não seja ridículo, Sloat — disse a mãe.

— Vou lhe dizer o que é ridículo, minha senhora... Esconder-se no fim do mundo quando devia estar no hospital, isto é ridículo! Deus, não sabe que temos mais de um bilhão de assuntos a resolver? Também estou preocupado com a escola do garoto, e tenho toda a razão! Parece ter ficado inteiramente irresponsável, Lily!

— Não quero mais falar com você — Lily falou.

— Não quer, mas tem de falar. Vou até aí e, se for preciso, coloco você à força num hospital. Te­mos de fazer certos acertos, Lily. Tem metade da companhia que tento administrar... E Jack vai ficar com a sua metade quando você se for. Quero ter certeza de que ele vai ter uma boa educação. Se pensa que está cuidando bem de Jack nesse maldito New Hampshire, então está muito mais doente do que imagina!

— O que você quer, Sloat? — Lily perguntou numa voz cansada.

— Você sabe o que eu quero. Quero que todo mundo esteja seguro. Quero o que é justo! Posso to­mar conta de Jack, Lily. Posso lhe dar 50 mil dólares por ano... Pense nisso, Lily. Farei com que ele vá para uma boa universidade. Você não consegue sequer mantê-lo na escola.

— Está bem, Sloat — disse a mãe.

— Acha que isso é resposta? Lily, você precisa de ajuda e é o que estou lhe oferecendo.

— Qual é o seu interesse nisso, Sloat? — a mãe perguntou.

— Você sabe muito bem. Quero o que é justo. Quero a sua parte, suas ações na Sawyer and Sloat. Dei até a última gota do meu sangue por essa companhia e ela deve ser minha. Podemos resolver tudo numa única manhã, Lily... E depois podemos nos concentrar em cuidar de você.

— Como Tommy Woodbine cuidou de mim — disse ela. — Às vezes penso que você e Phil tive­ram êxito demais, Morgan. A Sawyer and Sloat era mais manejável antes de vocês entrarem nos investi­mentos imobiliários e nos grandes contratos de produção. Lembra-se de quando seus únicos clientes eram alguns cômicos apagados e meia dúzia de atores e roteiristas esperançosos? Eu achava a vida melhor antes das negociatas.

— Queria uma empresa mais manejável? Deve estar brincando! — gritou o tio Morgan. — Não con­segue sequer manejar a si mesma! — Fez um esforço para se controlar. — E vou esquecer que mencionou Tom Woodbine. Esse conseguia estar até mesmo abaixo de você, Lily!

— Vou desligar, Sloat. Fique longe daqui. E fique longe de Jack.

— Você vai para um hospital, Lily, e essas andanças vão...

A mãe desligou no meio da frase do tio Morgan; Jack pousou delicadamente o fone no gancho. Depois se aproximou um pouco da janela, como se não quisesse ser visto perto do telefone. Do quarto fechado só vinha o silêncio.

— Mamãe? — disse ele.                               

— Sim, Jacky?

Jack percebeu um ligeiro tremor na voz dela.

— Você está bem? Está tudo bem?

— Eu? Claro.

Os passos de Lily se aproximaram suavemente da porta que, com um estalo, começou a se abrir. Os olhos dos dois se encontraram, azul contra azul. Lily acabou de abrir a porta. Por um momento de desagradável intensidade, os olhos se encontraram de novo.

— É claro que está tudo bem. Por que não haveria de estar?

Os olhares se separaram. Uma espécie de conhecimento se comunicara entre os dois, mas o quê? Jack se perguntou se a mãe suspeitava que ele tinha ouvido a conversa; então achou que o conhecimento que tinham acabado de compartilhar era o fato de que ela estava doente.

— Bem... — disse ele, um tanto embaraçado. A doença da mãe, aquele grande assunto sinistro, crescera obscenamente aos olhos dos dois. — Eu não sei exatamente. Tio Morgan parecia...

Ele sacudiu os ombros. Lily estremeceu e Jack chegou a outra conclusão. A mãe estava com medo; pelo menos com tanto medo quanto ele.

Lily enfiou um cigarro nos lábios e abriu com um piparote o isqueiro. Outro olhar fulminante de seus olhos profundos.

— Não dê importância a essa peste, Jack! Só estou um pouco irritada porque parece que nunca vou conseguir me livrar dele. Seu tio Morgan gosta de me atormentar. — Soltou uma fumaça cinzenta. — Acho que já perdi meu apetite para o café. Por que não desce e dessa vez faz um verdadeiro desjejum?

— Venha comigo — pediu ele.

— Gostaria de ficar um pouco sozinha, Jack. Tente compreender.

Tente compreender.

Confie em mim.

Essas coisas que dizem os adultos, significando algo completamente diferente.

— Estarei mais sociável quando você voltar — disse ela. — Prometo!

E o que ela estava realmente dizendo era: Quero chorar, não posso suportar mais isto, saia, saia!

— Quer que eu traga alguma coisa?

Ela balançou a cabeça, atirando-lhe um sorriso duro. Jack saiu do apartamento, embora também já não tivesse mais vontade de tomar o desjejum. Desceu o corredor até os elevadores. De novo só havia um lugar aonde podia ir, mas dessa vez sabia disso antes mesmo de ter atingido o saguão sombrio e a cara cinzenta, reprovadora do homem da recepção.

Speedy Parker não estava no pequeno barracão vermelho que era seu escritório, não estava no longo píer, na arcada onde os dois outros velhos jogavam bocha como se fosse uma guerra que ambos sabiam que iam perder; também não estava no pátio sob a montanha-russa. Jack Sawyer ficou meio desnorteado naquele sol forte, contemplando os caminhos vazios, os pátios desertos do parque. O medo de Jack comprimia-o até a garganta. E se tivesse acontecido alguma coisa a Speedy? Era impossível, mas e se o tio Morgan tivesse descoberto sobre Speedy (mas descoberto o quê?) e tivesse... Mentalmente, Jack viu a criança rebelde virando uma esquina, as engrenagens rangendo e fazendo o caminhão ganhar velocidade.

Pôs-se bruscamente em movimento, sem saber muito bem para onde pretendia ir. No pânico que lhe envolvera a alma, viu o tio Morgan atravessar uma fileira de espelhos que o transformaram numa série de figuras monstruosas e deformadas. Nasceram chifres na testa calva, surgiu uma corcunda entre os om­bros gordos, os dedos enormes viraram pás de jardim. De repente Jack guinou para a direita e, quando deu por si, estava caminhando para uma estranha construção quase redonda, feita de tábuas brancas.

De dentro dela vinha um tap tap tap ritmado. O menino correu para o som: uma chave inglesa ba­tendo num cano, um martelo numa bigorna — um barulho de trabalho. No meio das tábuas, encontrou a maçaneta e abriu uma frágil porta de madeira.

Jack avançou pela escuridão e o som ficou mais alto. A escuridão alterava as formas em volta dele, modificava as dimensões. Estendeu os braços e as mãos tocaram uma lona. A lona deslizou; imediatamente, uma brilhante luz amarela caiu sobre ele.

— Jack Viajante! — disse a voz de Speedy.

Jack se virou para a voz e viu o zelador sentado no chão, ao lado de um carrossel parcialmente desmontado. Tinha uma chave inglesa na mão e, junto dele, empalado da sela à barriga por uma compri­da estaca de prata, havia um cavalo branco. A crina parecia espuma. Speedy encostou a chave inglesa no chão.

— Está pronto para falar agora, filho?

 

A PASSAGEM

            — Sim, estou pronto — Jack respondeu numa voz perfeitamente calma e, então, explodiu em lágrimas.

— Vamos lá, Jack Viajante — disse Speedy, largando a chave inglesa e se aproximando dele. — Vamos lá, filho, não se afobe, não se afobe...

Mas Jack não podia deixar de se afobar. De repente era demais, aquilo era demais, e se não choras­se ia submergir numa grande onda de escuridão, uma onda que nenhum raio dourado, por mais brilhante que fosse, seria capaz de iluminar. As lágrimas o magoavam, mas ele sentia que o terror o destruiria se não as deixasse cair.

— Chorar faz bem, Jack Viajante — disse Speedy pondo os braços em volta dele. Jack encostou o rosto quente e inchado na camisa fina de Speedy. O cheiro do velho lembrava especiarias, lembrava cane­la, lembrava livros que há muito tempo ninguém tirava da biblioteca. Cheiros bons, cheiros agradáveis. Seus braços tatearam e também abraçaram Speedy; as palmas das mãos sentiram os ossos das costas do negro, próximos à superfície, cobertos por uma camada muito reduzida de carne.

— Chore se isso faz você se sentir melhor — disse Speedy embalando-o nos braços. — Às vezes acontece. Eu sei. Speedy sabe como você já esteve longe, Jack Viajante, e o quanto ainda tem de caminhar. Speedy sabe como está cansado. Chore se isso faz você se sentir melhor, rapaz.

Jack quase não entendeu as palavras, mas percebeu os sons que elas fizeram — suaves e tranqüilizadores.

— Minha mãe está mesmo doente — disse ele por fim, encostado no peito de Speedy. — Acho que ela veio pra cá para fugir do velho sócio do meu pai, o Sr. Morgan Sloat.

Jack fungou com força, se afastou de Speedy, recuou um passo e esfregou os olhos vermelhos com as costas da mão. Ficou surpreso com sua falta de constrangimento; antes, as lágrimas sempre o envergonhavam e amarguravam... Era quase como molhar as calças. Será que reagia assim porque a mãe fora sempre tão dura? Achava que tinha alguma coisa a ver com isso; Lily Cavanaugh não gostava muito de lágrimas.

— Mas não foi só por isso que ela veio pra cá, foi?

— Não — disse Jack em voz baixa. — Acho... que ela veio para morrer. — O timbre se tornara bem mais agudo na última palavra, como um guincho de dobradiça sem óleo.

— Pode ser... — disse Speedy olhando com firmeza para Jack. — E pode ser que você esteja aqui para salvá-la. Ela... e uma mulher igual a ela.

— Quem? — Jack perguntou entre lábios dormentes. Ele sabia quem era. Não sabia o nome, mas sabia quem era.

— A rainha — disse Speedy. — O nome dela é Laura DeLoessian. É a rainha dos Territórios.

 

— Me ajude — Speedy pediu. — Suspenda a velha Dama Prateada por baixo da cauda. Sei que é um pouco de abuso, mas tenho de colocá-la no lugar certo. Acho que ela não vai se importar se você ajudar.

— É assim que a chama? Dama Prateada?

— Sim, rapaz — disse Speedy sorrindo, mostrando talvez uma dúzia de dentes em cima e embaixo. — Todos os cavalos do carrossel têm um nome, não sabia? Suspenda, Jack Viajante!

Jack pôs a mão sob a cauda de madeira do cavalo branco e fez pressão com os dedos. Grunhindo um pouco, Speedy colocou as grandes mãos pretas em volta das patas dianteiras da Dama. Juntos, trans­portaram o cavalo de pau para o respectivo disco do carrossel, as pontas do mastro (desagradavelmente lambuzadas de óleo lubrificante) viradas para baixo.

— Um pouco mais para a esquerda — disse Speedy com voz ofegante. — Bom... Agora é só enfiar, Jack! Com força!

Fixaram o cavalo e recuaram um pouco, Jack ofegando, Speedy sorrindo e respirando ruidosamen­te. O negro limpou o suor da testa e dirigiu um sorriso para Jack.

— Não ficou bonita?

— Você acha? — Jack perguntou sorridente.

— Se eu acho? Claro que sim!

Speedy levou a mão ao bolso traseiro e puxou a garrafa verde-escura de meio litro. Tirou a rolha, tomou um gole e, por um momento, Jack teve uma estranha certeza: podia ver através de Speedy. Speedy se tomara transparente, tão fantasmagórico quanto os espíritos dos filmes de terror de um dos canais de TV de Los Angeles. Speedy estava desaparecendo. Desaparecendo, Jack pensou, ou indo para algum outro lugar? Mas era uma idéia maluca; não fazia qualquer sentido.

Então Speedy voltou a ficar sólido como antes. Fora apenas uma peça que seus olhos lhe tinham pregado, uma momentânea...

Não. Não fora. Por um segundo ele quase desapareceu!

... alucinação.                                                                     

Agora Speedy o fitava com ar sarcástico. Começou a aproximar a garrafa de Jack, mas acabou ba­lançando os ombros. Voltou a tampá-la e colocou-a outra vez no bolso de trás. Virou-se para contemplar a Dama Prateada, de novo ajustada no carrossel, só precisando de um apertão nos pinos do mastro. Abriu um sorriso.

— Não podia estar melhor, Jack Viajante!

— Speedy...

— Todos eles têm nome — disse Speedy, caminhando lentamente em volta do disco do carrossel, os passos ecoando dentro do cercado. Lá em cima, perto do xadrez sombrio das vigas do teto, algumas andorinhas arrulhavam suavemente. Jack foi atrás de Speedy.

— Dama Prateada... Meia-Noite... Este pampa aqui é o Escoteiro... Esta égua é a Ella Speed. O negro jogou a cabeça para trás e começou a cantar, alvoroçando as andorinhas e fazendo-as esvoaçar:

— Ella Speed tinha um namorado engraçado... Vou contar o que fez o velho Bill Marhn... Ei! Jack! Olhe as andorinhas voando!

Ele riu, mas quando se virou para Jack, estava sério de novo:

— Não quer tentar salvar a vida de sua mãe, Jack? A vida dela e a vida daquela outra mulher de quem lhe falei?

— Mas... — mas como?, ele pretendia dizer; então, uma voz interior (vinda daquele mesmo quarto trancado que de manhã revelara a memória dos dois homens e a tentativa de seqüestro) ergueu-se vigorosamente: Você sabe! Você pode precisar de um empurrão inicial do Speedy, mas você sabe como, Jack. Você sabe!

Ele conhecia bem essa voz. Era a voz do pai.

— Vou tentar, se me disser como — disse Jack, sua voz aumentando e diminuindo ao pronunciar a frase.

Speedy caminhou para a parede mais distante do cercado — uma grande forma circular feita de pequenas tábuas de madeira, onde havia um primitivo mas extremamente expressivo mural de bonitos cavalos. Para Jack, a parede parecia a tampa da escrivaninha do pai (a escrivaninha estava no escritório de Morgan Sloat da última vez que ele e a mãe estiveram lá, Jack se lembrou de repente; o pensamento lhe despertou uma leve e confusa sensação de raiva).

Speedy pegou uma gigantesca argola de chaves, remexeu-as com ar pensativo, encontrou a que queria e encaixou-a num cadeado. Girou a chave e o cadeado estalou. Depois guardou a chave num dos bolsos da frente e fez toda a parede recuar sobre um trilho. O brilho magnífico do sol se derramou pelo cercado, obrigando Jack a fechar os olhos. Os reflexos das ondas dançaram agradavelmente pelo teto. Junto ao carrossel do Arcadia Funworld, eles puderam se defrontar com uma magnífica vista do oceano. Se montassem nos cavalos e os pusessem em marcha, veriam a encosta em movimento sempre que a Dama Prateada, o Meia-Noite e o Escoteiro girassem por aquele lado do cercado. Uma leve brisa marinha suspendia o cabelo da testa de Jack.

— É melhor ter a luz do sol se vamos conversar sobre estas coisas — disse Speedy. — Venha até aqui, Jack Viajante. Vou lhe contar o que puder... que não é tudo que sei. Deus não gostaria se eu lhe con­tasse tudo.

 

Speedy falava em voz baixa. Para Jack, era um tom tão macio e agradável quanto um sapato velho de couro. Jack ouvia, às vezes franzindo a testa, às vezes abrindo a boca.

— Sabe essas coisas que você chama de sonhos de olhos abertos?

Jack assentiu com a cabeça.

— Essas coisas não são sonhos, Jack Viajante. Nem sonhos de olhos abertos, nem sonhos de qual­quer espécie. O lugar onde elas se passam é um lugar real. Bastante real, mesmo. É um lugar diferente da­qui, mas é real.

— Speedy, minha mãe diz...

— Isso agora não importa. Ela não conhece os Territórios... Mas, em certo sentido, sabe da existên­cia deles. Porque seu pai, Jack, seu pai sabia. E esse outro homem...

— Morgan Sloat?

— É, acho que sim. Ele também sabe.

Então, secretamente, Speedy acrescentou: “Sei muito bem quem é ele nos Territórios. Sei muito bem, não é?”.

— A gravura em seu escritório... Não é a África?

— Não é a África.

— Não é um truque?

— Não é um truque.

— E meu pai foi a esse lugar? — Jack perguntou, mas seu coração já conhecia a resposta. Era uma resposta demasiado lógica para não ser verdadeira. Mas, verdade ou não, Jack não sabia até que ponto queria acreditar naquilo. Terras mágicas? Rainhas doentes? A idéia o deixava inquieto. A idéia o deixava confuso sobre o que estaria disposto a fazer. E afinal, quando ele era pequeno, a mãe não o advertira ve­zes sem conta para não confundir os sonhos de olhos abertos com o que existia de verdade? Sempre fora muito severa a esse respeito e chegara a assustá-lo um pouco. Talvez, Jack agora pensava, ela mesma esti­vesse um pouco assustada. Poderia ter vivido tanto tempo com seu pai sem saber de alguma coisa? Essa não era a opinião de Jack. Talvez, ele pensou, mamãe não saiba de muita coisa... mas sabe o bastante para ficar com medo.

Ficando malucas. Era isso que ela dizia. Pessoas que não conseguem ver a diferença entre coisas reais e coisas de faz-de-conta estão ficando malucas.

Mas o pai tinha conhecido uma verdade diferente, não tinha? Sim. Ele e Morgan Sloat.

Eles têm magos como nós temos físicos, certo?

— Seu pai foi muitas vezes a esse lugar. E esse outro homem, Groat...

— Sloat...

— Sim, rapaz! Ele mesmo! Ele também foi. Só que seu pai, Jacky, ia para ver e aprender. Mas o outro sujeito... bem, ele ia apenas com a intenção de conseguir uma enorme fortuna.

— Foi Morgan Sloat quem matou meu tio Tommy? — Jack perguntou.

— Não sei nada a esse respeito. Procure apenas me ouvir, Jack Viajante. Porque o tempo é curto. E se esse tal de Sloat estiver mesmo disposto a aparecer por aqui...

— Seria terrível! — disse Jack. O simples pensamento do tio Morgan chegando a Arcadia Beach dei­xava-o nervoso.

—... então o tempo é mais curto que nunca. Porque ele talvez não se importe nem um pouco que sua mãe morra. E o Duplo dele está sem dúvida esperando que a Rainha Laura morra.

— Duplo?

— Há pessoas neste mundo que têm Duplos nos Territórios — disse Speedy. — Não muitas, por­que lá há muito menos gente. Talvez uma pessoa para cada 100 mil daqui. Mas os Duplos podem ir e vir com a maior facilidade.

— Esta rainha... é minha mãe? O Duplo dela?

— É, parece que sim.

— Mas minha mãe nunca...

— Nunca. Nunca foi até lá. Não havia motivo.

— Meu pai teve um... Duplo?

— Teve sim. Um ótimo sujeito.

Jack molhou os lábios. Que conversa maluca! Duplos e Territórios!

— E quando meu pai morreu aqui, seu Duplo também morreu nos Territórios?

— Sim. Não exatamente ao mesmo tempo, mas quase.

— Speedy?

— Hã?

— Eu tenho um Duplo? Nos Territórios?

Speedy o encarou com uma expressão tão grave que Jack sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha.

— Você não, filho. Você é único. E especial... E esse tal de Smoot...

— Sloat — disse Jack, sorrindo um pouco.

— Sim, não importa o nome, ele sabe disso. Essa é uma das razões que muito em breve devem tra­zê-lo pra cá. E uma das razões pelas quais você tem de pôr os pés no caminho.

— Ora! — Jack explodiu. — De que vai adiantar se ela estiver com câncer? Se é mesmo câncer e ela está aqui em vez de ter ido para uma clínica, é porque não há mais saída. Se ela está aqui, veja bem, isto significa que... — As lágrimas o ameaçaram de novo, mas Jack as engoliu freneticamente. — Isto sig­nifica que não tem mais jeito.

Ela não tem mais jeito. Sim. Essa era outra verdade que seu coração sabia: a verdade da acelerada perda de peso da mãe, a verdade das olheiras fundas sob os olhos. Ela não tem mais jeito, mas pelo amor de Deus, ei Deus, por favor, homem, ela é minha mãe...

— O que não entendo — ele concluiu numa voz rouca — é o que esse lugar dos sonhos de olhos abertos pode fazer de bom!

— Acho que por ora já tagarelamos bastante — disse Speedy. — Só quero que acredite no seguin­te, Jack Viajante: jamais eu lhe pediria que fosse, se isso de nada servisse para sua mãe.

— Mas...

— Fique tranqüilo, Jack. Não adianta mais falar antes de você ver alguma coisa com seus próprios olhos. Seria inútil. Venha comigo.

Speedy pôs o braço em volta dos ombros de Jack e contornou com ele o disco do carrossel. Saíram pelo outro lado do cercado e desceram um dos caminhos desertos do parque de diversões. À esquerda fi­cava o Trem Fantasma, agora fechado, com as persianas arriadas. À direita, havia uma série de galpões, to­dos fechados: o jogo de argolas, o bar Famous Pier Pizza & Dough-Boys, o tiro ao alvo (nas tábuas do tiro ao alvo saltitavam figuras desbotadas de animais selvagens: leões, tigres, ursos, oh, Deus!).

Chegaram ao largo caminho central, que era chamado Avenida do Cais, numa vaga imitação de Atlantic City (Arcadia Funworld tinha um píer, não um verdadeiro cais). O pátio estava agora 100 metros à esquerda deles e o arco que marcava a entrada do Arcadia Eunworld cerca de 200 metros à direita. Jack podia ouvir o chiado, o ronco contínuo das ondas quebrando na praia e os gritos solitários das gaivotas.

Ele se virou para Speedy, querendo perguntar quando poderia ir aos Territórios ou se tudo não passava de uma piada de mau gosto... Mas não disse coisa alguma. Speedy estava lhe oferecendo a garra­fa verde.

— Mas isso... — Jack começou.

— Leve-a com você — disse Speedy. — A maioria das pessoas que visitam o lugar não precisa de nada desse tipo, mas há muito tempo você não vai lá, não é Jack?

— É.

Quando abrira pela última vez os olhos no mundo mágico dos sonhos de olhos abertos, aquele inundo de cheiros exuberantes e agradáveis, de céu profundo e transparente? No ano passado? Não. Antes disso... na Califórnia... depois da morte do pai. Teria então...

Os olhos de Jack se arregalaram. Nove anos? Foi há tanto tempo assim? Há três anos?

Era assustador pensar com que modéstia, com que discrição aqueles sonhos, às vezes doces, às ve­zes sombriamente inquietantes, tinham escapulido — como se uma boa parte de sua imaginação, sem avi­so e de modo indolor, tivesse se dissipado.

Tirou rapidamente a garrafa das mãos de Speedy, quase deixando-a cair. Sentiu um ligeiro início de pânico. Alguns sonhos de olhos abertos tinham sido perturbadores, e as advertências cuidadosamente dosadas da mãe para que ele não misturasse realidade e fantasia (em outras palavras: não vá me ficar ma­luco, Jacky, cuidado com essa cabecinha, OK?) tinham deixado uma pequena cicatriz. Mas Jack percebia agora que realmente não estava disposto a perder esse mundo.

Olhou nos olhos de Speedy e pensou: Ele sabe disso, também. Sabe de tudo que eu penso. Quem é você, Speedy?

— Quando a pessoa fica muito tempo sem ir aos Territórios, acaba esquecendo como se faz para chegar lá — disse Speedy e inclinou a cabeça para a garrafa. — É por isso que trago sempre comigo este suco mágico. É uma coisa especial.

Speedy falara a última palavra quase num tom de veneração.

— Isto vem de lá? Dos Territórios?

— Não, rapaz. Também temos alguma magia por aqui, Jack Viajante. Não muita, mas um pouco. Este suco mágico veio da Califórnia.

Jack fitou-o com ar incrédulo.

— Vamos lá! Tome um pequeno gole e aposto que a travessia vai começar. — Speedy sorriu. — Se beber bastante deste suco, poderá ir praticamente a qualquer lugar que deseje. Está olhando para alguém que conhece o assunto.

— Incrível, Speedy, mas...

Ele começou a sentir um certo medo. A boca ressecara, o sol parecia brilhante demais, podia sentir a pulsação disparando nas têmporas. E tinha um gosto de cobre na língua. É assim, Jack pensou, que deve ser o gosto do “suco mágico”: horrível!

Se ficar com medo e quiser voltar, basta tomar outro gole — disse Speedy.

— A garrafa vai junto comigo? Tem certeza? Promete?

A idéia de ficar perdido por lá, naquele outro lugar místico, com a mãe doente e a peste do Sloat quase chegando, era terrível.

— Prometo.

— Tudo bem.

Levou a garrafa aos lábios... e então afastou-a um pouco. O cheiro era penetrante, horroroso, rançoso.

— Não quero tomar, Speedy — ele murmurou.

Lester Parker encarou-o. Os lábios estavam sorrindo, mas não havia sorriso nos olhos; os olhos pa­reciam severos... intransigentes... assustadores. Jack lembrou de muitos olhos negros: olhos de gaivota, olhos de redemoinhos. Foi tomado pelo terror.

Passou a garrafa para Speedy.

— Não pode devolvê-la? — ele perguntou, e concluiu num murmúrio fraco: — Por favor...

Speedy não deu resposta. Não lembrou a Jack que a mãe estava morrendo ou que Morgan Sloat es­tava chegando. Não chamou-o de covarde, embora Jack nunca tenha se sentido tão covarde, nem mesmo no dia em que recuou do trampolim da piscina de uma colônia de férias e foi vaiado por alguns garotos. Speedy simplesmente lhe virou as costas e começou a assobiar com ar distraído.

Agora a solidão juntou-se ao terror, deslizando irremediavelmente pelo seu corpo. Speedy se afas­tava dele; Speedy tinha lhe virado as costas.

— Tudo bem — disse Jack bruscamente. — Tudo bem, se é isso que você quer!

Ergueu de novo a garrafa e, antes de ter tempo para pensar, bebeu.

O gosto era pior do que qualquer coisa que se pudesse imaginar. Já bebera vinho antes, já chegara até mesmo a gostar de vinho (principalmente dos vinhos brancos e secos que a mãe servia com carne ou peixes, como o linguado ou o espadarte). Aquilo tinha alguma coisa a ver com vinho, mas ao mesmo tem­po era uma piada comparado a todos os vinhos que tomara. O sabor, apesar de doce, era muito forte, péssimo. Não era um gosto de uvas frescas, mas de uvas mortas cuja vida não fora nada boa.

Quando sua boca se encheu daquele horrível sabor pastoso e adocicado, ele pôde realmente ver essas uvas: sem brilho, poeirentas, obesas, grosseiras, fermentando uma goma suja, um xarope gorduro­so, expostas ao enxame barulhento de muitas moscas quebrando o silêncio do sol.

Engoliu o líquido e uma trilha serpenteante de fogo desceu-lhe pela garganta.

Fechou os olhos com uma careta, a garganta ameaçando reagir. Não vomitou, mas achou que teria vomitado se tivesse comido qualquer coisa no desjejum.

— Speedy...

Abriu os olhos e as palavras foram sufocadas. Esqueceu o enjôo daquela horrível paródia de vinho. Esqueceu da mãe, do tio Morgan, do pai e de quase qualquer outra coisa.

Speedy tinha desaparecido. Os graciosos arcos da montanha-russa contra o céu tinham desapareci­do. A Avenida do Cais tinha desaparecido.

Estava em algum outro lugar. Estava...

— Nos Territórios — Jack sussurrou, o corpo inteiro formigando com uma mistura maluca de terror e alegria. Podia sentir o cabelo se arrepiando na base da nuca, podia sentir um sorriso estúpido repuxando os cantos da boca.

— Speedy, estou aqui, meu Deus, estou nos Territórios! Eu...

Mas o espanto fez com que se calasse. Levou a mão à boca e girou lentamente, completando um círculo, apreciando o lugar para onde o “suco mágico” de Speedy o transportara.

 

O oceano ainda estava lá, mas tinha uma cor mais forte, um azul mais exuberante, o azul mais autêntico que Jack já vira. Por um instante, ficou paralisado, a brisa do mar lhe agitando o cabelo, os olhos fixos na linha do horizonte, onde aquele oceano índigo se unia ao algodão desbotado do céu.

A linha do horizonte mostrava um9 débil, mas inequívoca curvatura.

Ele balançou a cabeça, franzindo a testa, e virou-se para outro lado. Plantas marinhas, altas, selva­gens, emaranhadas, espalhavam-se pelo promontório onde, um minuto antes, erguia-se o cercado do carrossel. O píer também desaparecera; em seu lugar, uma série de rochas de granito corriam para o oceano. As ondas atingiam a base das rochas e penetravam em fendas e grutas circulares com um enorme e cavernoso estrondo. Espuma branca como claras de ovos batidas erguiam-se no ar e eram sopradas pelo vento.

Bruscamente, Jack apertou a face esquerda entre o polegar e o indicador. Beliscou com força. Seus olhos ficaram marejados, mas nada se alterou.

— É de verdade — ele sussurrou, enquanto uma onda, levantando enormes labaredas de espuma, estourava sobre o promontório.

Então Jack percebeu que, de uma certa maneira, a Avenida do Cais ainda estava lá... Um rústico caminho de carro de bois descia do topo do promontório (do ponto em que, no que sua mente insistia em chamar de “mundo real”, se situava um galpão do parque). O caminho passava perto dele e seguia para o norte, exatamente como a Avenida do Cais corria para o norte, onde, depois de ultrapassar os limites do Funworld, se transformava na Avenida Arcadia. Plantas marinhas cresciam ao longo da trilha, mas bastou um olhar mais calmo e atento para Jack perceber que aquele caminho ainda era usado, pelo menos de vez em quando.

Começou a andar para o norte, mantendo a garrafa verde na mão direita. Achou que, em algum lu­gar, num outro mundo, Speedy ainda estaria segurando a rolha que a tampava.

Será que desapareci bem na frente dele? Acho que sim. Meu Deus!

Depois de uns 40 passos pelo caminho, chegou a um emaranhado de amoreiras silvestres. Sem dú­vida por causa do efeito maléfico daquele “suco mágico”, seu estômago fazia um barulho alto de coisa roncando.

Amoras silvestres? Em setembro?

Não importava. Depois de tudo o que acontecera naquele dia (e ainda nem eram dez horas), depa­rar-se com amoras silvestres em setembro era mais ou menos como não querer tomar uma aspirina depois de ter engolido uma maçaneta.

Jack estendeu a mão, pegou um punhado de amoras e atirou-as na boca. Eram extremamente do­ces; extremamente gostosas. Sorrindo (seus lábios tinham adquirido um nítido aspecto azulado), achando bem possível que estivesse fora de si, pegou outro punhado de amoras... e depois um terceiro. Nunca provara nada tão bom — embora, ele pensou mais tarde, não se tratasse apenas das amoras; parte de sua satisfação vinha da incrível limpidez do ar.

Arranhou-se algumas vezes quando pegava uma quarta porção. Era como se os arbustos estives­sem lhe dizendo para não amolar, já comera demais, já chega! Sugou o sangue do arranhão maior, debai­xo do polegar, e continuou andando para o norte entre os sulcos paralelos da trilha. Caminhava devagar, querendo ver tudo de uma vez.

Parou um pouco à frente das amoras silvestres para olhar para o sol, que parecia um tanto menor, ainda que mais ardente que no outro mundo. E não tinha uma aparência ligeiramente alaranjada, como naquelas velhas gravuras medievais? Jack pensou que sim. Então...

Um grito, áspero e enervante como um prego enferrujado sendo lentamente arrancado de uma tá­bua, assomou à sua direita e dispersou-lhe os pensamentos. Jack virou-se na direção do grito, os ombros se empinando, os olhos se alargando.

Era uma gaivota e seu tamanho era desconcertante, quase inacreditável (mas a ave era sólida como pedra, real como uma casa). De fato, tinha o tamanho de uma águia. A cabeça lisa, branca e redonda inclinava-se para um dos lados. O bico em anzol abria e fechava. O agitar das grandes asas encrespava as plantas marinhas.

E então, aparentemente sem medo, ela pousou e começou a saltitar perto de Jack.

Em surdina, Jack ouviu o som límpido e metálico de um conjunto de cometas tocando ao mesmo tempo. Sem nenhuma razão lógica, pensou na mãe.

Atraído pelo som, olhou momentaneamente para o norte, na direção que estava seguindo. O som o encheu de um estranho sentimento de urgência. Era, ele pensou (havia tempo para pensar), como ter fome de alguma coisa específica que há muito não se come: sorvete, batatas fritas, quem sabe uma tortilla mexicana... Até se ver a coisa (e até se comê-la) existe apenas uma necessidade sem nome, que deixa a pessoa inquieta, nervosa.

Recortados contra o céu, viu bandeirolas e a cúpula do que poderia ser uma grande tenda, um pavilhão.

É lá que fica o Alhambra, ele pensou, e então a gaivota guinchou. Jack se virou e ficou alarmado ao vê-la a menos de dois metros de distância. O bico se abriu, mostrando aquela suja boca rosada, fazen­do com que ele se lembrasse da véspera, da gaivota que derrubara o marisco perto da rocha e que fitara a presa com o mesmo olhar terrível com que aquela outra ave o estava observando. Mas, apesar do olhar, a gaivota sorria para ele; tinha certeza disso. Quando a ave chegou ainda mais perto, Jack pôde sentir um mau cheiro desagradável, repugnante: cheiro de peixe morto e algas apodrecidas.

A gaivota silvou e agitou as asas.

— Vá embora — disse Jack em voz alta. O coração martelava rapidamente no seu peito e a boca parecia ressecada, mas ele não pretendia se deixar intimidar por uma gaivota, mesmo daquele tamanho. — Fora!

A gaivota abriu novamente o bico... E então, numa série de terríveis pulsações pela garganta aber­ta, ela falou (ou pareceu falar):

— Mãiiiii morrrrenunn, Ack... Mãiiiiifiii momrennunn...

Mãe morrendo, Jack..,

A gaivota deu mais alguns passos trôpegos em sua direção, pés escamosos se agarrando na relva do chão, bico abrindo e fechando, olhos negros fixos nos de Jack. Quase inconsciente do que estava fazendo, Jack ergueu a garrafa verde e bebeu.

De novo aquele gosto horrível fez seus olhos fechados se contraírem... E quando voltou a abri-los estava olhando estupidamente para a tabuleta amarela que mostrava as silhuetas de duas crianças correndo: um menino e uma menina, cuidado — crianças, dizia a tabuleta. Uma gaivota — esta de um tamanho perfeitamente normal — deu um guincho e esvoaçou, sem dúvida assustada pela repentina aparição de Jack.

Olhou em volta e se sentiu totalmente desorientado. O estômago, cheio de amoras silvestres e do repugnante “suco mágico” de Speedy, estava embrulhado e roncava. Os músculos das pernas começaram a fraquejar e ele acabou desabando no meio-fio da calçada, bem embaixo da tabuleta. Sentara-se com ta­manho baque que o impacto lhe subiu pela espinha e fez os dentes rangerem.

Num movimento brusco, curvou a cabeça entre os joelhos e abriu bastante a boca, certo de que ia vomitar tudo o que tinha no corpo. Em vez disso, soluçou duas vezes, deu um pequeno arroto e sentiu o estômago ir lentamente se relaxando.

Foram as amoras, ele pensou. Se não tivessem sido as amoras, eu teria sem dúvida vomitado.

Levantou os olhos e sentiu a irrealidade envolvê-lo de novo. Não caminhara mais de 60 passos pelo caminho de carro de bois do mundo dos Territórios. Tinha certeza disso. Digamos que seu passo fos­se de 60 centímetros, ou melhor, 80 (para não fazer uma estimativa exagerada). Isto significava que não teria andado mais de 50 metros. No entanto...

Jack olhou para trás e viu o arco, com as grandes letras vermelhas: Arcadia Funworld. Embora sua visão fosse de 100%, a tabuleta estava agora tão longe que ele mal conseguia ler. À direita ficavam as alas irregulares do Alhambra, os cuidados jardins na frente e o oceano do lado.

No mundo dos Territórios, ele caminhara 50 metros.

Ali, andara quase um quilômetro.

— Meu Deus — murmurou Jack Sawyer, e cobriu os olhos com as mãos.

 

— Jack! Ei, rapaz! Jack Viajante!

A voz de Speedy conseguia se sobrepor ao ronco de máquina de lavar de um velho caminhão de seis cilindros. Jack ergueu os olhos (a cabeça parecia absurdamente pesada, os membros vacilavam numa fraqueza extrema) e viu um velhíssimo International Harvester rolando devagar em sua direção. As escoras do bagageiro eram de fabricação caseira e, à medida que o caminhão avançava, jogavam de um lado para outro como dentes frouxos. A carroceria fora pintada num horrível tom azul-turquesa. Speedy estava ao volante.

Encostou no meio-fio, deu uma última acelerada (uhup! uhup! uhup-uhup-uhup!) e desligou o motor (hahbhhhhhh...). Saltou rapidamente.

— Tudo bem com você, Jack?

Jack passou a garrafa para Speedy.

— Seu suco mágico é realmente horroroso, Speedy — disse com uma expressão abatida.

Speedy pareceu magoado, mas acabou sorrindo:

— Já ouviu alguém dizer que tomou um remédio gostoso, Jack Viajante?

— Acho que não.

Jack sentia que sua energia estava voltando, aos poucos, ao mesmo tempo que o sentimento de desorientação ia se dissipando.

— Agora acredita, Jack? Jack assentiu com a cabeça.

— Não — disse Speedy. — Assim não serve. Diga em voz alta.

— Os Territórios... — disse Jack. — Eles existem mesmo. São reais. Eu vi um pássaro...

O menino parou e estremeceu.

— Que espécie de pássaro? — Speedy perguntou num tom de grande interesse.

— Uma gaivota. A maior gaivota que já vi em toda a minha vida. — Jack balançou a cabeça. — Você não acreditaria. — Pensou um pouco e acrescentou: — Não, acho que só você ia acreditar. Ninguém mais, mas você sim.

— Ela falou alguma coisa? Muitos pássaros dos Territórios falam. A maioria só fala bobagens. Mas alguns conseguem dizer uma ou duas palavras que fazem sentido... Mesmo que seja um sentido meio ma­luco ou a mais deslavada mentira.

Jack concordava com a cabeça. O simples fato de ouvir Speedy falar daquelas coisas, como se elas correspondessem a fatos racionais, dignos de uma conversa lúcida, já o fazia se sentir melhor.

— Acho que falou. Mas era como... — Ele fez força para pensar. — Na escola de Los Angeles em que eu e o Richard estudávamos, havia um garoto chamado Brandon Lewis. Ele tinha um problema de fala e quando abria a boca era muito difícil entender o que queria dizer. O pássaro era desse jeito. Mas eu sei o que ele disse. Disse que minha mãe estava morrendo.

Speedy pôs os braços em volta dos ombros de Jack e sentou-se com ele no meio-fio. O empregado da recepção do Alhambra, a mais pálida, esquálida e suspeita de todas as coisas vivas do universo, saiu com um grande malote de correspondência. Speedy e Jack viram-no encaminhar-se para uma esquina da estrada da praia e depositar a correspondência na caixa do correio. Ele deu meia-volta, registrando com olhos um tanto rasos os vultos de Jack e Speedy, e entrou no caminho de acesso ao saguão do hotel. O topo de sua cabeça mal despontava sobre a lona do malote que ele transportava no ombro.

O som da grande porta do Alhambra abrindo e fechando foi nitidamente audível, e Jack foi atingi­do pela terrível sensação da desolação do outono naquele lugar. Ruas largas e desertas. A praia comprida com dunas desertas, brancas como açúcar. O parque de diversões vazio, com os carros da monta­nha-russa encostados num desvio e cobertos de toldos. Todas as bilheterias fechadas a cadeado. Ocor­reu-lhe que o lugar para onde a mãe o levara parecia-se muito com o fim do mundo.

Speedy inclinou a cabeça para trás e cantou num tom suave e uniforme:

— Vou deitar por aí... Ou brincar por aí... Esta vila perdeu o riso... O verão já quase foi, oh, o inver­no já manda aviso... O inverno já manda aviso... Ah, vontade eu tenho e piso... O chão pra brin­car... E por aí viajar...

Parou e virou-se para Jack.

— Tem vontade de viajar, Jack?

Um terror debilitante moveu-se furtivamente pelos ossos do garoto.

— Acho que sim — disse ele. — Se isso puder ajudá-la. Ajudar minha mãe. Posso mesmo ajudar minha mãe, Speedy?

— Pode — Speedy respondeu num tom de gravidade.

— Mas...

— Oh, há um excesso de mas em sua boca, garoto! — disse Speedy. — Um trem carregado de mas e mas, Jack Viajante! Como posso lhe garantir que vai ser o vencedor da festa? Como posso lhe prometer o sucesso, rapaz? Como posso prometer que vai voltar inteiro, ou que vai voltar inteiro e com a cabeça no lugar?

— É diferente quando a gente anda pelos Territórios. Os Territórios são muito menores. Já notou isso?

— Já.

— E aposto que já encontrou coisas incríveis naquela estrada, não foi?

Speedy não respondeu e uma outra pergunta ocorreu a Jack. Ele tinha de saber, mesmo que tives­se de mudar de assunto:

— Eu desapareci, Speedy? Você me viu desaparecer?

— Você sumiu — disse Speedy, batendo palmas num gesto vigoroso — exatamente assim.

 Jack sentiu um sorriso vagaroso e relutante lhe repuxando os lábios... Speedy também sorriu.

— Eu queria fazer alguma coisa desse tipo na aula de computadores com o Sr. Balgo — disse Jack, e Speedy riu como uma criança. Jack também começou a rir, e as risadas foram ficando gostosas, quase tão gostosas quanto as amoras.

Pouco depois, Speedy parou de rir.

— Você tem uma boa razão — disse ele — para ir até os Territórios, Jack! Há uma coisa que você tem de fazer lá. Algo extremamente importante.

— E tudo tem de acontecer nos Territórios?

— Sim, rapaz.

— E isso vai ajudar minha mãe?      

— Ela... e a outra.

— A rainha?

Speedy confirmou com um gesto de cabeça.

— Mas o que é? Onde está? Quando eu...

— Espere aí, rapaz! Calma! — Speedy exclamou levantando a mão. Seus lábios estavam sorrindo, mas os olhos pareciam graves, quase pesarosos. — Uma coisa de cada vez! E, Jack, eu não posso lhe dizer o que não sei... ou o que não tenho permissão de contar.

— Permissão? — Jack indagou, desconcertado. — Quem...

— Aí está você de novo com as perguntas — disse Speedy. — Escute, Jack Viajante... Você precisa partir o mais breve possível, antes que esse tal de Bloat apareça por aqui para atormentá-lo.

— Sloat!

— Sim, ele. Você tem de agir antes que ele chegue.

— Mas ele vai deixar minha mãe maluca — disse Jack, sem saber se estava dizendo isso porque era verdade ou porque era uma desculpa para se esquivar da viagem que, como uma refeição que podia mui­to bem estar envenenada, Speedy colocava na sua frente. — Você não conhece ele. Sloat...

— Eu o conheço — disse Speedy em voz baixa. — Já o conheço há muito tempo, Jack Viajante. E ele também me conhece. Tem minhas marcas no corpo. Elas estão escondidas, mas estão nele. Sua mãe pode cuidar de si mesma. Pelo menos por algum tempo terá de se virar sozinha... Pois você tem de ir.

— Para onde?

— Para o oeste — disse Speedy. — Deste oceano para o outro.

— O quê — Jack gritou, aterrado pelo pensamento de tamanha distância. E então se lembrou de um comercial que vira há uns três dias na TV: um homem escolhendo gulodices no carrinho de uma aero­moça a dez mil metros de altura, doces de aparência deliciosa num vôo de costa a costa, Jack voara mais de duas dúzias de vezes com a mãe e ficava deliciado pelo fato de que quando se voa de Nova York a Los Angeles tem-se 16 horas de luz do sol. Era como enganar o tempo. E era fácil.

— Posso ir voando? — ele perguntou a Speedy.

— Não! — Speedy quase gritou, seus olhos se alargando com uma certa irritação. Apertou o ombro de Jack com força. — Não deixe que nada o leve para os ares! Não se atreva! Se quiser saltar sobre os Territórios quando estiver naquele outro mundo...

Não disse mais nada; não tinha de dizer. Repentina e assustadoramente, Jack se viu desabando da­quele céu sem nuvens, muito claro... Um garoto-projétil zumbindo, de jeans, com uma camisa de listras vermelhas e brancas, mergulhando sem pára-quedas.

— Apenas ande — disse Speedy. — Peça até carona se puder... Mas não deixe de ter cuidado, por­que há estranhos ali. Alguns não passam de malucos, maricas que gostariam de encostar a mão em você ou bandidos que gostariam de atacá-lo. Mas há verdadeiros estranhos, Jack Viajante! Pessoas com um pé em cada mundo, pessoas terríveis de duas caras. Acho que não vão demorar muito tempo para saber de sua chegada. E estarão à espreita!

— Eles são... — Jack hesitou — Duplos?

— Alguns são. Outros não. Por ora não posso lhe dizer mais nada. Mas tente atravessar. Tente atra­vessar para o outro oceano. Não vai ser difícil viajar nos Territórios e você poderá se deslocar bem mais rápido que aqui. Tome um pouco do suco...

— Eu detesto ele!

— Não importa o que você detesta — disse Speedy com ar severo. — Você vai atravessar e encon­trará um lugar... outro Alhambra. Tem de ir até lá. É um lugar um tanto assustador, um mau lugar. Mas tem de ir até lá.

— Como vou encontrá-lo?

— Ele vai chamá-lo, rapaz. Você o ouvirá em alto e bom som.

— Por quê? — Jack perguntou molhando os lábios. — Por que tenho de ir lá se é um lugar tão mau?

— Porque é onde está o talismã... — disse Speedy. — Em alguma parte desse outro Alhambra.

— Não entendo o que está dizendo!

— Vai entender — disse Speedy.

Ele se levantou e pegou a mão de Jack que também se levantou. Os dois ficaram frente a frente, o velho preto e o jovem menino branco.

— Escute — disse Speedy, e sua voz adquiriu uma cadência lenta, rítmica. — O talismã deve che­gar às suas mãos, Jack Viajante. Não é grande demais; também não é pequeno demais. É parecido com uma bola de cristal. Ouça bem, Jack Viajante! Você irá até a Califórnia para buscá-lo. Mas aqui é que está a cruz mais pesada, o fardo maior: se deixá-lo cair, tudo estará pedido!

— Ainda não entendo o que está dizendo — Jack repetiu com uma obstinação assustada. — Você tem de...

— Não — disse Speedy, num tom gentil. — Esta manhã tenho de concluir meu trabalho naquele carrossel, Jack, é o que tenho de fazer. Não há tempo para mais conversa mole. Preciso voltar ao parque e você tem de seguir em frente. Por ora não posso lhe dizer mais nada. Mas acho que, de certa forma, velando por você. Aqui... ou do outro lado.

— Mas eu não sei o que fazer! — disse Jack quando Speedy subiu na cabine do velho caminhão.

— Já sabe o bastante para pôr os pés no caminho — disse Speedy. — Você chegará ao talismã, Jack. Ele vai atraí-lo.

— Eu nem sei o que é um talismã!                                                      

Speedy riu e ligou a ignição. O motor do caminhão entrou em movimento soltando uma fumaceira azulada pelo cano de descarga.

— Dê uma olhada no dicionário! — ele gritou e engatou a marcha à ré.

O caminhão recuou, depois foi à frente e completou a curva. Logo estava chocalhando para o Arcadia Funworld. Jack continuou junto ao meio-fio, vendo o veículo se afastar. Nunca se sentira tão sozi­nho em toda a sua vida.

 

JACK E LILY

Quando o caminhão de Speedy saiu da estrada e desapareceu sob o arco do Funworld, Jack começou a caminhar para o hotel. Um talismã. Em outro Alhambra. Na margem de outro oceano. Seu coração tinha uma sensação de vazio. Sem Speedy do lado, a tarefa parecia impossível, gi­gantesca; muito vaga também. Ouvindo Speedy falar, Jack tivera a impressão de estar quase compreen­dendo aquela salada de sugestões, advertências e instruções. Agora a salada perdera todo o tempero. Os Territórios, porém, eram reais. Esta certeza não o abandonava e, ao mesmo tempo que o encorajava, lhe dava calafrios. Era um lugar de verdade e ele ia lá outra vez. Mesmo se ainda não entendesse muito bem por que, mesmo como um peregrino ignorante. Sem dúvida estava disposto a ir. Agora tudo o que tinha a fazer era tentar convencer sua mãe. “Talismã”, repetiu consigo mesmo. A palavra parecia uma coisa sem sentido. Atravessou a deserta Avenida do Cais e subiu os degraus que levavam ao caminho entre as cercas de fícus. A escuridão do Alhambra, assim que a grande porta de entrada bateu, não deixou de sobressaltá-lo. O saguão era uma caverna funda; seria preciso uma lamparina para dispersar as sombras. O pálido empregado da portaria mexeu-se atrás do balcão, cravando uns olhos esbranquiçados em Jack. Havia uma mensagem naquele olhar: sim! Jack engoliu em seco e virou o rosto. A mensagem fez com que se sentisse mais forte, deu-lhe coragem, embora fosse apenas uma mensagem de desprezo.

Caminhou para os elevadores com o corpo empinado e o passo lento. Andando por aí com negros, não é? Deixando que ponham a mão em seu ombro, hem? O elevador zumbiu como uma grande e pesada ave, as portas deslizaram e Jack entrou. Levantou o braço para apertar o botão onde brilhava um 4. O por­teiro continuava como um espectro atrás do balcão e a mensagem ecoava. Anda com negros, anda com negros, anda com negros (então é assim, hem, guri? Gosta da macacada, não é?). Felizmente as portas fe­charam. Jack sentiu o estômago cair para os pés, o elevador guinou para cima.

O rancor do porteiro ia ficando lá embaixo no saguão: o próprio ar dentro do elevador ficara me­lhor assim que o térreo foi ultrapassado. Agora, tudo o que Jack tinha a fazer era dizer à mãe que precisa­va ir sozinho para a Califórnia.

Não deixe tio Morgan assinar qualquer papel para você...

Quando saiu do elevador, Jack se perguntou pela primeira vez na vida se Richard Sloat sabia que tipo de homem era o seu pai.

 

Depois de uma fileira de candelabros de parede e gravuras de pequenos barcos sin­grando mares encapelados de espuma, a porta do 408 deslizou a um simples toque, revelando um pedaço do carpete da suíte. O sol que vertia das janelas da sala formava um grande retângulo numa das paredes internas.

— Ei, mamãe! — Jack entrou gritando. — Você não fechou a porta! Que falta de cuidado... — ele se viu sozinho na sala — ... é essa?

Só a mobília o ouviu. O aposento destilava uma certa desordem: um cinzeiro cheio até a borda, um copo com água pela metade esquecido na mesa-de-cabeceira.

Dessa vez, prometeu Jack a si mesmo, não entraria em pânico.

Virou-se num círculo lento. A porta do quarto da mãe estava aberta; o quarto parecia tão escuro quanto o saguão porque Lily nunca abria as cortinas.

— Ei, eu sei que você está aqui — disse ele e, depois de cruzar o quarto vazio, bateu na porta do banheiro.

Nenhuma resposta. Jack abriu a porta e viu uma escova de dentes cor-de-rosa ao lado da pia e uma escova de cabelo abandonada num toucador — cerdas enroscadas com alguns fios de cabelo. Laura DeLoessian, anunciou uma voz na cabeça de Jack e ele foi saindo do pequeno banheiro; aquele nome o dei­xou aflito.

“Oh, não de novo”, disse para si mesmo. “Onde ela terá ido?”

Jack já estava vendo a coisa.

Viu a coisa quando atravessou de novo a sala; viu quando abriu a porta de seu próprio quarto e contemplou a cama por fazer, a mochila, a pequena pilha de livros de bolso, o par de meias enrolado so­bre a mesa-de-cabeceira. Viu a coisa quando foi procurar no seu próprio banheiro, toalhas esparramadas por todo lado como num bazar oriental: no chão, nos bancos de fórmica, do lado da banheira...

Conseguia ver a coisa. Morgan Sloat atravessando a porta, agarrando os braços da mãe, arrastando-a para baixo...

Jack voltou correndo à sala e dessa vez procurou atrás do sofá.

... arrancando-a do hotel por uma porta lateral, empurrando-a para um carro, os olhos dele ficando amarelos...

Pegou o telefone e ligou para a portaria.

— Aqui é, hã, Jack Sawyer e estou no, hã, quarto 408. Minha mãe deixou algum recado pra mim? Ela devia estar aqui e... e por alguma razão... hã...

— Vou verificar — disse a telefonista, e Jack ficou apertando com extrema ansiedade o fone. Final­mente a moça voltou: — Nenhum recado para o 408, sinto muito.

— E para o 407?

— É o mesmo escaninho — disse a moça.

— Ah... Sabe se ela recebeu alguma visita na última meia hora? Alguém veio esta manhã? Alguém veio vê-la?

— Só a recepção poderia informar — disse a moça. — Eu não sei. Quer que eu verifique?

— Por favor — disse Jack.

— Oh, felizmente tenho alguma coisa para fazer neste necrotério — disse ela. — Fique na linha!

Outra espera terrível. De repente a voz dela voltou:

— Não houve visitas. Talvez sua mãe tenha deixado um bilhete aí mesmo na suíte.

— É, vou procurar — disse Jack num tom angustiado, e desligou. Será que o homem da recepção sabia da verdade? Ou será que Morgan Sloat teria molhado a mão dele com uma nota de 20 dólares enro­lada como um canudo? Isso Jack também podia imaginar.

Deixou-se cair no sofá, sufocando um desejo irracional de olhar embaixo das almofadas. Pensando melhor, era evidente que o tio Morgan não poderia ter vindo pessoalmente seqüestrá-la; ele ainda estava na Califórnia. Mas podia ter mandado alguém fazer o serviço. Uma daquelas pessoas que Speedy mencio­nou, os estranhos que tinham um pé em cada mundo.

Então Jack percebeu que não ia conseguir mais ficar na suíte. Pulou do sofá e voltou para o corre­dor, fechando a porta atrás de si. Depois de já ter avançado alguns passos, deu meia-volta, voltou e tornou a abrir a porta com sua chave. Deixou uma fresta de porta aberta e retomou o caminho dos elevado­res. Era ainda possível que ela tivesse saído sem levar a chave... Quem sabe não teria ido à loja do saguão para comprar alguma coisa, uma revista, um jornal?

Pois sim. Ele não via a mãe abrir um jornal desde o início do verão. Ouvia pelo rádio todas as notí­cias que podiam interessá-la.

Quem sabe, então, não teria saído para dar um passeio?

Sim, fazer algum exercício e respirar ar puro. Correr na praia, por exemplo. Talvez Lily Cavanaugh tivesse resolvido dar uma pequena corrida de 100 metros rasos. Ou podia estar procurando saltar algumas pedras na areia, como se estivesse treinando para as próximas olimpíadas...

Quando o elevador despejou-o no saguão, ele se dirigiu para a loja. Atrás do balcão, uma loura idosa espreitou-o por cima das bordas dos óculos. Animais empalhados, uma pequena pilha de jornais, bonitos vidros de perfume numa prateleira. Enfiadas em sacolas de couro penduradas nas paredes viam-se algumas revistas: People, Us, New Hampshire Magazine.

— Não é nada... — disse Jack, e virou as costas.

Quando deu outra vez por si estava fitando uma placa de bronze ao lado de uma enorme e abatida samambaia.... começou a definhar, e logo deve morrer.

A mulher da loja pigarreou. Jack imaginou que ela devia passar grande parte do dia contemplando as palavras de Daniel Webster.

— Quer alguma coisa? — a mulher perguntou atrás dele.

— Desculpe — disse Jack —, não é nada mesmo.

Foi para o centro do saguão. O homem detestável da recepção ergueu uma sobrancelha, depois se virou de lado e passou a fitar uma escada deserta. Jack obrigou-se a se aproximar do sujeito.

— Por favor... — disse, parando defronte ao porteiro. O homem murmurava algo, fingindo tentar se lembrar da capital da Carolina do Norte ou do principal produto de exportação do Peru. — Por favor... — Jack repetiu. O homem franziu a testa: estava quase lembrando, não podia ser distraído...

Aquilo não passava de teatro, Jack sabia, e por isso insistiu:

— Será que não podia me ajudar?

Finalmente o homem se dignou a encará-lo:

— Depende do tipo de ajuda que precisa, filho.

Deliberadamente, Jack decidiu ignorar o sorriso disfarçado de zombaria.

— Minha mãe deve ter saído ainda há pouco. O senhor não a viu?

— O que significa ainda há pouco?

Agora o riso era quase visível.

— Viu-a sair? É isso que estou perguntando.

— Está com medo de que ela tenha visto você lá embaixo, apertando a mão daquele seu amigo?

— Cara, você é de dar nojo, hem? — Jack chegou a se espantar com a coragem que teve de dizer aquilo. — Não, não é disso que tenho medo. Só estou querendo saber se ela saiu do hotel, e se você não for o chato que parece ser, vai me dar essa informação.

O rosto de Jack se tornara vermelho e ele percebeu que tinha cerrado os punhos.

— Bem, está bem, ela saiu — disse o homem, virando-se para a estante de escaninhos atrás do bal­cão. — Mas é melhor ter cuidado com a língua, rapaz — disse ele de lá. — É melhor se desculpar pelo que me disse, meu caro pequeno Sawyer. Eu também tenho olhos. Sei de certas coisas.

— Você cuida da sua boca e eu cuido da minha vida — disse Jack, tirando a frase de um dos ve­lhos discos de jazz do pai. Talvez ela não se ajustasse inteiramente à situação, mas o efeito foi bom: o empregado voltou a olhá-lo e piscou satisfatoriamente.

— Talvez sua mãe esteja nos jardins, eu não sei — disse num tom sombrio, mas Jack já estava a ca­minho da porta.

Ele percebeu de imediato que a musa dos drive-ins, a rainha das produções B não estaria em parte alguma do jardim. Se estivesse por lá, ele a teria visto quando entrou no hotel. Além do mais, Lily Cavanaugh não gostava de perambular por jardins: isto se ajustava tão pouco a ela quanto corridas de obstáculos na areia.

Alguns carros rolavam pela Avenida do Cais. Uma gaivota berrou lá no alto e o garoto sentiu um aperto no coração.

Jack passou os dedos pelo cabelo e examinou de cima a baixo a rua iluminada de sol. Quem sabe ela não teve vontade de conhecer Speedy? Quem sabe não quis saber quem era aquele novo e singular colega do filho? Quem sabe não resolveu dar uma caminhada até o parque de diversões?... Mas era tão di­fícil imaginá-la no Arcadia Funworld quanto passeando pitorescamente nos jardins. Então Jack virou-se na direção do que lhe era menos familiar: o comércio da cidade.

Separado dos terrenos do Alhambra por uma alta e grossa cerca de fícus, o Arcadia Tea and Jam Shoppe iniciava uma fileira de lojas com fachadas vistosamente coloridas. Ele e a Farmácia New England eram os únicos estabelecimentos que, mesmo depois de setembro, permaneciam abertos naquele terraço à beira-mar. Jack hesitou um momento entre as fendas da calçada. Seria extremamente improvável encon­trar a musa dos drive-ins numa mistura de cafeteria com restaurante. Mas como era o lugar mais à mão, decidiu caminhar alguns passos e dar uma espiada.

Uma mulher de penteado alto fumava diante da caixa registradora. Na parede oposta havia uma garçonete de vestido cor-de-rosa de raiom. A princípio, Jack não viu fregueses, mas observando melhor reparou que, numa das mesas da ponta da loja que ficava mais perto do Alhambra, uma velha mulher er­guia uma xícara de chá. Estava sozinha. Jack viu-a pousar delicadamente a xícara no pires e tirar um cigar­ro da bolsa. Com um tremor de surpresa, percebeu que era sua mãe. E, quase no mesmo instante, a im­pressão de estar vendo uma velha desapareceu.

Mas ele podia se recordar da sensação. Por um momento foi como se a estivesse vendo através de estranhas lentes bifocais. Lily Cavanaugh Sawyer e aquela frágil e velha mulher estavam no mesmo corpo.

Jack abriu vagarosamente a porta, mas ainda assim os sinos de recepção (que ele sabia que esta­vam ali) não deixaram de tocar. A loura da caixa registradora convidou-o a entrar balançando a cabeça e sorrindo. A garçonete esticou o corpo e alisou a frente do vestido. A mãe olhou para o filho com um au­têntico ar de espanto, mas logo lhe abriu um largo sorriso.

— Ora, Jack Andarilho, você está tão alto que parecia seu pai quando atravessou aquela porta — disse ela. — Às vezes eu chego a esquecer que só tem 12 anos.

 

— Você me chamou de “Jack Andarilho”? — disse ele, puxando uma cadeira e sen­tando-se ao lado da mãe.

O rosto de Lily estava muito pálido e as manchas sob seus olhos pareciam quase contusões.

— Seu pai não o chamava assim? Falei por acaso... Afinal, você esteve toda a manhã passeando, não foi?

— Ele me chamava de Jack Andarilho?

— Ou alguma coisa desse tipo... Por certo que chamava. Quando você era pequenino... Jack Via­jante!— ela disse com convicção. — Era isso! Ele costumava chamá-lo de Jack Viajante. Oh, você andava aos trambolhões pelo gramado. Era engraçado, eu acho... Escute, eu deixei a porta da suíte aberta. Fiquei com medo que tivesse esquecido de levar sua chave.

— Eu já estive lá — disse ele, ainda formigando com a informação que a mãe lhe passara.

— Quer comer um sanduíche? Não posso suportar a idéia de almoçar naquele hotel.

A garçonete aparecera ao lado deles.

— O rapazinho quer alguma coisa? — a moça perguntou erguendo um bloco de notas.

— Você achou que eu ia encontrá-la aqui?

— Onde mais eu poderia ir? — a mãe perguntou com uma certa lógica, e virou-se para a garçone­te: — Traga o desjejum três estrelas. Este menino está crescendo um palmo por dia.

Jack recostou-se na cadeira. Como poderia abordar o assunto?

A mãe o fitou com ar curioso, e ele começou, ele tinha de começar agora:

— Mamãe, se eu tivesse de ir pra fora por algum tempo, tudo bem com você?

— O que está querendo dizer com tudo bem? E o que significa ir pra fora por algum tempo?

— Você seria capaz de... Bem, acho que o tio Morgan pode lhe dar alguma dor de cabeça.

— Eu sei lidar com o velho Sloat — disse Lily com um sorriso tenso. — Pelo menos por enquanto ainda posso enfrentá-lo muito bem. Por que está preocupado com isso, Jacky? Você não vai a lugar algum.

— Tenho de ir — disse ele. — Verdade mesmo!

Então percebeu que estava parecendo uma criança implorando um brinquedo. Felizmente, a gar­çonete chegou com uma bandeja de torradas e um copo largo de suco de tomate. Ele se virou um instante para o lado, e quando seus olhos voltaram à mesa, a mãe tirava geléia de um pote e lambuzava um peda­ço de torrada.

— Tenho de ir — disse ele. A mãe passou-lhe a torrada; algum pensamento atravessou-lhe o rosto, mas ela não disse nada.

— Talvez você não me veja durante algum tempo, mamãe — disse ele. — Vou tentar ajudá-la. É por isso que tenho de ir.

— Ajudar-me? — ela perguntou, e seu ar de incredulidade, Jack avaliou, era 75% autêntico.

— Quero tentar salvar sua vida — disse ele.

— É mesmo?

— Vou conseguir.

— Vai conseguir salvar minha vida! Isto é muito divertido, rapaz! Daria um ótimo quadro de hu­mor. Por que não tenta uma das redes de TV?

Ela pousara a faca com manchas de geléia vermelha e os olhos se alargaram com uma expressão de troça. Mas sob aquele jeito de se fazer de desentendida, Jack viu duas coisas: um lampejo de seu terror e uma débil, quase imperceptível esperança de que ele fosse mesmo capaz de fazer alguma coisa.

— Mesmo se você disser que não deixa, eu vou de qualquer maneira. Por isso bem que você podia me dar sua permissão.

— Oh, mas que proposta maravilhosa! Ainda mais maravilhosa porque não tenho a menor idéia do que está falando!

— Acho que não é bem assim, mamãe... Você deve fazer alguma idéia do que estou dizendo. O pai, por exemplo, saberia exatamente do que se trata.

O rosto de Lily ficou vermelho; os lábios se apertaram.

— Isto não é justo! É uma atitude baixa, Jacky! Você não pode usar o que Philip pode ter sabido como uma arma contra mim.

— O que ele sabia, não o que ele pode ter sabido.

— Não está falando coisa com coisa, filho!

Visivelmente cheirando a comida, a garçonete parou ao lado de Jack com uma bandeja de ovos mexidos, batatas fritas e salsichas. Depois que ela pousou a bandeja na mesa, Lily sacudiu os ombros:

— É difícil entender onde você quer chegar, principalmente com essa garçonete rondando por aqui. Mas, como dizia Gertrude Stein, acho que quando se abre a boca para dizer besteira, sai merda em qualquer idioma.

— Vou salvar sua vida, mamãe — ele repetiu. — Mas para isso tenho de fazer uma viagem e me apoderar de uma coisa. E é isso o que vou fazer!

— Gostaria muito de entender o que está dizendo...

Não passava de uma conversa como qualquer outra, Jack pensou. Era como pedir permissão para passar uma ou duas noites na casa de um amigo. Cortou uma salsicha ao meio e pôs um dos pedaços na boca. Ela o fitava atentamente. Depois de mastigar e engolir a salsicha, Jack pegou uma garfada dos ovos mexidos. A garrafa de Speedy no bolso da calça era como uma pedra em sua nádega.

— Eu também gostaria — disse ela — que jamais se esquecesse dos meus conselhos quando se afastar do hotel, por mais estranhos que eles possam parecer.

Jack devorou impassível os ovos. Quanto mais ficasse em silêncio, mais sua mãe lhe daria atenção quando falasse. Fingiu se concentrar no desjejum, ovos salsichas batatas, salsichas batatas ovos, batatas ovos salsichas, até sentir que Lily estava prestes a gritar.

Meu pai me chamava de Jack Viajante, ele pensou. E é isso mesmo; não podia ter sido mais

— Jack...

— Mamãe — disse ele —, às vezes papai não telefonava de um lugar muito longe quando você achava que ele tinha de estar na cidade?

A mãe ergueu as sobrancelhas.

— E às vezes você não, hã, não entrava no quarto porque achava que ele estava lá, talvez até soubesse que ele estava lá... e ele não estava?

A mãe ruminou a coisa.

— Não — disse Lily.

Os dois deixaram a negativa se enfraquecer.

— Muito raramente.

— Mamãe, isso chegou até a acontecer comigo — disse Jack.

— Havia sempre uma explicação, você sabe que havia.

— Meu pai (isto é o que você sabe) nunca se saía muito mal quando tentava explicar as coisas. Principalmente as coisas que não podiam ser explicadas. Era muito bom nisso. E é por esse motivo que foi um empresário tão bem-sucedido.

Ela ficou em silêncio.

— Bem, eu sei aonde ele ia — disse Jack. — Eu também estive lá. Fui lá hoje de manhã. E, se vol­tar, posso tentar salvar sua vida.

— Minha vida não precisa ser salva por você, não precisa ser salva por ninguém — a mãe sibilou.

Jack baixou os olhos para o prato vazio e resmungou alguma coisa.

— Que idéia foi essa? — Lily sondou o garoto.

— Foi isso mesmo que eu disse.

Seus olhos encontraram os da mãe.

— Vamos supor — disse Lily — que eu lhe pergunte como pretende “salvar minha vida”... Estou repetindo suas palavras, Jack.

— Não posso responder. Porque ainda não entendo muito bem a coisa... Mamãe, eu não estou mesmo na escola... Me dê uma chance, vamos! Talvez eu só demore uma semana.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Claro, posso demorar um pouco mais — ele admitiu.

— Acho que não está bom da cabeça, Jack! — disse a mãe. Mas Jack percebeu que uma parte dela queria acreditar em alguma coisa e as palavras que disse a seguir deixaram isso bem claro. — Se... se... eu fosse suficientemente louca para deixá-lo partir nessa andança misteriosa, teria de ter certeza de que não correria nenhum perigo.

— O papai sempre voltou — disse Jack.

— Eu antes preferia arriscar minha vida à sua — disse ela, e por algum tempo essa verdade pairou pesadamente entre os dois.

— Me comunico com você sempre que puder. Mas não fique preocupada se eu passar uma ou duas semanas sem dar notícias. Eu vou voltar, exatamente como o papai.

— Isto é uma conversa de doidos — disse ela. — E eu no meio! Como pretende chegar a esse lugar aonde quer ir? Onde ele fica? Tem dinheiro que chegue?

— Tenho tudo do que vou precisar — disse ele, esperando ardentemente que a mãe não começas­se a enchê-lo de perguntas. O silêncio se prolongou mais e mais. — Acho — disse por fim — que será ba­sicamente uma caminhada. Mas não posso falar muito sobre isso, mamãe.

— Jack Viajante — disse a mãe —, estou quase acreditando...

— Sim — disse Jack. — Sim. — Sacudiu a cabeça. E talvez, pensou, você até saiba alguma coisa do que ela, a rainha verdadeira, sabe. É por isso que está encarando a coisa com tanta naturalidade.

— É isso, mãe. Eu também acredito. É por isso que não posso deixar de ir.

— Bem... Como desde o início você me avisou que iria de qualquer jeito...

— É isso, mãe...

— Nesse caso, pouco importa o que eu ache ou deixe de achar... — Ela o fitou com uma expressão decidida. — Mas para mim importa, filho! Quero que volte o mais depressa possível, está certo? Bem, ain­da nos falamos antes de você ir.

— Não. — Ele respirou profundamente. — Tenho de ir já! Logo que nos separarmos.

— Estou quase acreditando nesse monte de bobagens. Você é mesmo filho de Phil Sawyer. Será que não encontrou alguma mocinha no lugar para onde quer ir, hem?... — Ela o fitou com grande interes­se. — Não? Nada de garotas? Tudo bem. Então salve minha vida. Sinal verde.

A mãe balançou a cabeça e Jack pensou ter visto um brilho em seus olhos.

— Se tem de ir, vá logo, Jacky. Mas telefone amanhã!

— Se puder. Ele se levantou.

— Se puder, é claro. Desculpe a distração.

A mãe levantou a cabeça e o menino observou que seus olhos estavam embaçados. Manchas ver­melhas lhe ardiam nas faces.

Jack se inclinou para beijá-la, mas Lily acenou para que ele fosse logo. A garçonete contemplava os dois como se assistisse a uma peça de teatro. Apesar do que a mãe dissera, Jack achou que conseguira re­duzir sua descrença a uns 50%; o que significava que ela não sabia mais em que acreditar.

Por um instante, Lily voltou a concentrar os olhos no filho e Jack viu de novo uma luminosidade fe­bril ardendo naquele olhar. Raiva, lágrimas?

— Tome cuidado — disse ela, e fez sinal para a garçonete.

— Gosto muito de você — disse Jack.

— Procure não sair da linha, filho. — Agora ela estava quase sorrindo. — Parta para sua viagem, Jack. Vá depressa antes que eu perceba a loucura que estou fazendo.

— Eu vou — disse ele, virando as costas e saindo do pequeno restaurante. Sentia uma pressão na cabeça, como se os ossos do crânio tivessem ficado grandes demais para seu envoltório de carne. A desolada luz amarela do sol atacou-lhe os olhos. Jack ouviu a porta do Arcadia Tea and Jam Shoppe fechar e os sininhos tocarem. Pestanejou. Atravessou correndo a Avenida do Cais sem olhar para os lados. Quando atingiu a outra calçada, descobriu que tinha de voltar à suíte para pegar algumas roupas. A mãe ainda não saíra do Arcadia quando Jack abriu a grande porta da frente do hotel.

O homem da recepção deu um passo atrás e fitou-o com ar sombrio. Jack sentiu uma espécie de emoção exalando do homem, mas por um instante não pôde entender por que o sujeito reagia com tanta veemência à sua presença. A conversa com a mãe — de fato muito mais breve do que ele imaginara — parecia ter durado dias. Lembrou-se que, antes do vasto fosso de tempo que passara no Tea and Jam Shoppe, havia chamado o empregado de nojento. Devia se desculpar? Já até se esquecera do que provo­cara sua ira contra o homem.

A mãe tinha concordado com a viagem; dera-lhe permissão para empreender a jornada... Quando Jack atravessou o fogo cruzado do olhar do porteiro, finalmente entendeu por quê. Ele não mencionara o talismã, pelo menos não explicitamente, mas mesmo que o tivesse feito (se tivesse tido a coragem de abordar o aspecto mais lunático de sua missão), ela também teria concordado. E se tivesse dito que ia buscar uma borboleta de quase meio metro para assá-la no forno, ela também concordaria em comer a borboleta assada. Em qualquer hipótese, haveria sempre uma concordância irônica, mas efetiva. Isto comprovava que o medo de Lily era tão profundo que ela seria capaz de se agarrar a qualquer migalha de salvação.

Mas ela o fazia porque, em certo sentido, sabia que talvez se tratasse de um verdadeiro bote sal­va-vidas. A mãe lhe dera permissão para ir porque uma parte dela sabia dos Territórios.

Será que nunca acordara no meio da noite com aquele nome, Laura DeLoessian, ecoando na mente?

Jack subiu ao 407-408 e atirou algumas roupas na mochila. A escolha foi quase aleatória. Seus de­dos puxaram o que encontraram numa ou noutra gaveta: camisas, meias, um suéter, bermudas. Enrolou dois jeans desbotados e comprimiu-os sobre as outras peças. Então percebeu que o fardo se tornara inco­modamente pesado, e tirou de lá a maioria das camisas e meias. O suéter também saiu. No último momento, lembrou-se da escova de dentes. Por fim, acomodou as correias nos ombros e testou o peso nas costas: não parecia excessivo. Seria capaz de andar um dia inteiro carregando aqueles poucos quilos. Então ficou um momento imóvel no meio da sala. Sentia — uma sensação inesperadamente intensa — a ausência de qualquer pessoa ou coisa a que pudesse dizer adeus. A mãe só voltaria à suíte quando já tivesse certeza de que o filho partira: se o visse agora, não poderia deixar de lhe ordenar que ficasse. Jack não podia dizer adeus àqueles três cômodos: não eram como uma casa que tivesse amado. Quartos de hotel aceitam partidas sem qualquer emoção. No último minuto, resolveu pegar o bloco de notas (que es­tampava uma gravura do Alhambra num papel fino e frágil) e, com um lápis pequeno e rombudo, escre­veu em três linhas o máximo que podia dizer:

 

Obrigado

Amo você

e vou voltar.

 

Jack desceu a Avenida do Cais sob o fraco sol setentrional. Não sabia muito bem onde devia... “passar”. Era a palavra exata. E não seria bom falar mais uma vez com Speedy antes de “pas­sar” para os Territórios? Era como se precisasse conversar de novo com Speedy, pois sabia muito pouco sobre o lugar para onde ia, quem poderia encontrar, o que exatamente estava procurando... É parecido com uma bola de cristal. Seria apenas isso que Speedy lhe podia dizer sobre o talismã? Isso e a advertên­cia para não deixá-lo cair? Jack não se sentia muito à vontade com essa falta de preparação; era como se tivesse de prestar um exame final sobre uma matéria que nunca tinha estudado.

Achava que podia “passar” ali mesmo onde estava. Sentia-se impaciente para começar, para se me­xer, para pôr decididamente os pés no caminho. O mais urgente era estar de novo nos Territórios, ele compreendeu com toda a clareza; no tumulto de suas emoções, no meio de sua ansiedade, brilhava esse raio de lucidez. Queria respirar aquele ar; ansiava por aquele ar. Os Territórios, as vastas planícies e cadeias de pequenas serras, estavam chamando por ele; os campos de relva alta e os regatos que cintilavam também. Todo o seu corpo suspirava por essa paisagem. E ele teria tirado ali mesmo a garrafa do bolso e enfiado pela goela o pavoroso suco, se não tivesse acabado de ver o antigo dono da poção. Speedy estava acocorado junto de uma árvore, o traseiro nos calcanhares, as mãos entrelaçadas em volta dos joelhos. Ao lado dele, havia uma sacola marrom de supermercado, e no alto da sacola despontava um enorme sanduíche que parecia ser de paio e cebola.

— Então está de partida! — disse Speedy, abrindo um sorriso. — Vai seguir seu caminho, eu sei. Fez suas despedidas? Sua mãe sabe que ficará algum tempo longe de casa?

Jack assentiu com a cabeça e Speedy pegou o sanduíche.

— Não está com fome? Isto é muito pra mim.

— Acabei de comer agora — disse o garoto. — Mas estou contente de poder me despedir de você.

— E estou vendo que o velho Jack está impaciente, louco para ir embora — disse Speedy, jogando para os lados a cabeça comprida. — E está mesmo em tempo!

— Speedy?

— Mas não quero que vá sem umas coisinhas que trouxe para você. Estão aqui na sacola, está vendo?

— Speedy?

Da base da árvore, Speedy lançou um olhar enviesado a Jack.

— Você sabia que meu pai costumava me chamar de Jack Viajante?

— Oh, posso ter ouvido isso em algum lugar — disse Speedy abrindo um sorriso. — Venha ver o que eu trouxe... Mas acho que tenho de lhe dizer aonde deve ir em primeiro lugar, certo?

Aliviado, Jack aproximou-se da árvore. O velho pôs o sanduíche no colo e puxou a sacola.

— Um presente — disse Speedy, e tirou da bolsa um grande e velho livro. Era, Jack logo desco­briu, um velho mapa rodoviário.

— Obrigado — disse Jack, recebendo o livro da mão estendida de Speedy.

— Lá não existem mapas, mas tente se guiar pelos caminhos deste velho atlas. Vai conseguir che­gar aonde quer.

— OK — disse Jack, e tirou a mochila dos ombros para acomodar o atlas dentro dela.

— A próxima coisa que vou lhe dar não precisa ir nesse pedaço de lona que você tem nas costas — disse Speedy. Pôs de novo o sanduíche na sacola e se levantou com um movimento suave, lento. — Pode levá-la no bolso.

Speedy enfiou os dedos no bolso esquerdo da camisa. O que saiu de lá, preso entre o dedo indica­dor e o médio como um dos cigarros de Lily, foi um objeto branco e triangular. Jack demorou um pouco para reconhecer uma palheta de violão.

— Pegue e leve com você. Vai querer mostrá-la a um homem. Ele o ajudará.

Jack virou a palheta nos dedos. Nunca vira nenhuma como aquela: marfim ornado de filigranas e arabescos, linhas curvas serpenteando ao redor como uma espécie de escrita de outro mundo. Bonita em suas formas abstratas, parecia pesada demais para ser manuseada com facilidade.

— Quem é o homem? — Jack perguntou guardando a palheta num dos bolsos da calça.

— Ele tem uma grande cicatriz no rosto. Você o verá pouco depois de chegar aos Territórios. É um guarda. Na realidade, é Capitão dos Guardas do Exterior e o conduzirá a um lugar onde você vai ver uma determinada dama. Uma dama que não pode deixar de conhecer. Então ficará a par da razão pela qual está se arriscando. Esse meu amigo lá do outro lado vai perceber o que você está fazendo nos Territórios. E vai descobrir um meio de levá-lo até a senhora.

— Essa senhora... — Jack começou.

— Sim — disse Speedy. — Você já entendeu.

— É a rainha.

— Dê uma boa olhada nela, Jack! Você vai ter uma visão, uma sensação fantástica. Vai ver o que ela é, compreende? Depois, então, siga seu caminho para o oeste.

Speedy o contemplou com um ar solene. Como se não tivesse muita certeza de que ia encontrá-lo outra vez. As rugas de seu rosto se contraíram.

— Cuidado com o velho Bloat! — disse Speedy. — Fique atento aos movimentos dele: dele e de seu Duplo. Se não for cuidadoso, Bloat poderá descobrir aonde foi, e se ele descobrir, correrá atrás de você como raposa atrás de ganso.

O velho pôs as mãos nos bolsos e contemplou Jack outra vez, como se quisesse dizer mais alguma coisa.

— Pegue o talismã, filho. Pegue o talismã e traga-o em segurança. Vai ser um fardo pesado, mas você tem de ser mais forte que ele.

Jack estava tão concentrado nas palavras de Speedy que chegava a contrair as pupilas diante dos sulcos profundos do rosto do velho. Um homem com uma cicatriz, esse tal Capitão dos Guardas do Exterior. A rainha. E Morgan Sloat... atrás dele como um predador. Um lugar perigoso do outro lado do país. Um fardo pesado.

— Tudo bem! — disse ele, desejando de repente estar ainda do lado da mãe no Tea and Jam Shoppe.

Speedy abriu um sorriso caloroso, dentes à mostra.

— Isso mesmo, rapaz! Sempre soube que Jack Viajante era um sujeito e tanto! — O sorriso ficou mais sério. — E não acha que já está na hora de tomar um golinho desse suco especial, hã?

— Acho que sim — disse Jack.

Ele tirou a garrafa escura do bolso de trás e puxou a rolha. Olhou de novo para Speedy, cujos olhos pálidos cravaram-se nos seus.

— Speedy o ajudará sempre que puder.

Jack agradeceu com a cabeça, piscou e levou o gargalo à boca. O cheiro podre e adocicado que saltou da garrafa fez sua garganta se contrair num espasmo involuntário. Inclinou a garrafa e o sabor do mau cheiro invadiu-lhe a boca. Sentiu um aperto no estômago. Engoliu. Um líquido pastoso, que ardia como fogo, escorreu-lhe pela goela.

Bem antes de abrir os olhos, pela exuberância e limpidez dos cheiros à sua volta, Jack soube que passara para os Territórios. Cavalos, relva, um odor vertiginoso de frutas verdes, terra, ar puro.

 

SLOAT NESTE MUNDO (I)

— Sei que trabalho demais — disse Morgan Sloat a seu filho Richard naquela noite.

Estavam falando ao telefone, Richard no aparelho público do corredor do andar de baixo de seu dormitório, e o pai na escrivaninha da cobertura de um dos primeiros e mais bem-sucedidos investimen­tos imobiliários da Sawyer & Sloat em Beverly Hills.

— Mas eu lhe digo, garoto, muitas vezes tenho de fazer pessoalmente as coisas para que elas fi­quem bem-feitas. Principalmente quando são assuntos que envolvem a família de meu falecido sócio. É apenas uma pequena viagem, eu espero. Provavelmente vou ter tudo sob controle naquele maldito New Hampshire em menos de uma semana. Quando tudo estiver arranjado, lhe telefono de novo. Talvez faça­mos uma viagem de trem à Califórnia... Como nos velhos tempos! Temos todo o direito a isso. Confie no seu velho pai!

A negociação do prédio de Beverly Hills fora particularmente favorável à empresa, graças à habili­dade de Sloat para resolver as coisas a seu modo. Primeiro, ele e Sawyer negociaram um curto contrato de arrendamento; depois (após uma batalha judicial), um contrato a longo prazo; por fim, fixaram suas pró­prias taxas de sublocação por metro quadrado, fizeram as alterações necessárias, e publicaram anúncios à procura de novos inquilinos. O único inquilino antigo era o restaurante chinês do térreo, que pagava um aluguel equivalente a um terço do valor da área. Sloat tentara uma conversa amigável com os proprietários, mas quando os chineses perceberam que ele estava mesmo disposto a extrair um aluguel maior, perde­ram subitamente a capacidade de falar ou entender inglês.

As tentativas de negociação de Sloat ficaram em banho-maria durante alguns dias. Foi então que ele viu por acaso um dos empregados da cozinha do restaurante saindo por uma porta traseira com uma tina de gordura. Já se sentindo um pouco melhor, seguiu o sujeito até um beco escuro e estreito, onde o viu despejar a gordura numa lata de lixo. Não precisava mais que isso. No dia seguinte, uma corrente separava o beco do restaurante e, dois dias depois, um fiscal da Secretaria de Saúde apresentou-se no restaurante com uma queixa e uma intimação. Agora o servente tinha de passar com todo o lixo da cozinha, inclusive a gordura, pelo salão de jantar e depositá-lo na calçada fronteira ao estabelecimento. Os negócios decaíram: os fregueses sentiam os desagradáveis e penetrantes odores que vinham do lixo próximo. Os donos do restaurante reaprenderam o idioma inglês e se dispuseram a dobrar o aluguel. Com uma sorridente cortesia, Sloat recusou a proposta. E naquela noite, tendo se regalado com três doses de martini, foi até o restaurante, tirou um bastão de beisebol da mala do carro e deixou em pedaços a comprida vitrine, que já proporcionara uma agradável vista da rua, mas dava agora para um corredor cercado de latas de lixo e correntes de ferro.

Ele fez essas coisas... Mas, afinal, estava um tanto fora de si.

Na manhã seguinte, os chineses pediram para ter mais uma conversa e dessa vez ofereceram o quádruplo do aluguel original.

— Agora estão fazendo uma proposta decente! — disse Sloat encarando o rosto metálico dos chi­neses. — E tem mais! Para provar que jogamos todos do mesmo lado, estou disposto a pagar metade do custo da nova vitrine.

Nove meses depois, a Sawyer & Sloat adquiria todo o edifício. Os aluguéis tinham aumentado sig­nificativamente; os custos da manobra tinham sido bastante modestos e as expectativas de lucro foram largamente ultrapassadas. Mesmo assim, aquele prédio representava um dos mais modestos empreendimen­tos da Sawyer & Sloat, mas Morgan Sloat tinha tanto orgulho dele quanto das novas e sólidas estruturas que possuía no centro da cidade. Toda manhã, quando passava defronte ao restaurante a caminho do es­critório, lembrava-se do quanto contribuíra para a grandeza da empresa que fundara com Sawyer. Sem dúvida, suas reivindicações eram mais que justas!

Esse senso da justiça de suas pretensões lhe ardia no peito enquanto ele falava com Richard. Afi­nal, era por causa de Richard que queria se apoderar da parte de Phil Sawyer na companhia. Richard, em certo sentido, representava a sua imortalidade. O filho freqüentaria as melhores escolas de Administração e se formaria em Direito antes de entrar na companhia. E com. esse nível de preparo, Richard Sloat faria todo o complexo e delicado mecanismo da Sawyer & Sloat entrar brilhantemente no novo século. A ridí­cula ambição do rapaz de se tornar químico não sobreviveria muito tempo à determinação paterna em su­focá-la. Richard era suficientemente inteligente para ver que o trabalho do pai era muitíssimo mais interes­sante, e financeiramente muito mais compensador, do que lidar com tubos de ensaio aquecidos a bicos de gás. Essa mania de “experiência química” se dissiparia num piscar de olhos quando o rapaz desse uma olhada no mundo real. E se Richard passasse a se preocupar com o destino de Jack Sawyer, não seria difí­cil convencê-lo de que 50 mil dólares por ano e a garantia de uma educação universitária eram não ape­nas justo, mas magnânimo. Principesco! Além do mais, quem podia saber se Jack ia querer uma parte do negócio ou se revelaria algum talento empresarial?

E, sem dúvida, acidentes acontecem. Quem podia garantir que Jack Sawyer iria passar dos 20 anos?

— Bem, é apenas uma questão de colocar em ordem alguns títulos de propriedade, acertar uma papelada — Sloat disse ao filho. — Há muito tempo Lily vem se escondendo de mim. A cabeça dela não anda funcionando muito bem, pode crer! Provavelmente tem menos de um ano de vida. Se me puser a caminho e forçá-la a tomar uma decisão, ainda haverá tempo para as providências legais. Poderei, por exemplo, depositar sob custódia judicial todas as somas que prometi... Acho que a mãe de seu amigo não me deixará administrá-las livremente... Bem, não quero preocupá-lo com meus problemas! Só telefonei para dizer que ficarei alguns dias fora de casa. Se quiser, me mande uma carta ou coisa parecida. E vá pensando na viagem de trem, OK? Temos de fazê-la outra vez!

O rapaz prometeu escrever, estudar bastante e não se preocupar com o pai, nem com Jack, nem com Lily Cavanaugh.

E um dia, quando aquele filho obediente estivesse, digamos, no último ano de Stanford ou Yale, Sloat o apresentaria aos Territórios. Richard seria então seis ou sete anos mais jovem do que ele era quan­do Phil Sawyer, enlouquecido de trabalho no primeiro escritório da firma da zona norte de Hollywood, o havia deixado, primeiro, confuso, depois, enfurecido (porque Sloat achara que Phil estava zombando dele), mas por fim conseguira lhe despertar o interesse (pois sem dúvida Phil era muito pobre de imagina­ção para inventar toda aquela trama de ficção científica sobre um outro mundo). Quando Richard visse os Territórios teria a maior emoção de sua vida. Se ainda fosse preciso, os Territórios modificariam completa­mente sua maneira de pensar. Mesmo uma pequena espiada nos Territórios minaria a confiança de qual­quer um na onisciência dos cientistas.

Sloat passou a palma da mão sobre o brilhante cocuruto da cabeça e depois acariciou com volúpia o bigode. De uma forma suave e sutil a voz do filho o consolara. Atrás dele havia Richard, por isso tudo estava muito, muito bem; o curso que as coisas seguiam era bom. Já era noite em Springfield, no Illinois. Na ala Nelson do Colégio Thayer, Richard Sloat seguia um corredor verde de volta a seu alojamento, talvez pensando nos bons momentos que passou e tornaria a passar ao lado do pai, nas horas felizes a bor­do de um trem nas costas da Califórnia. Já estaria dormindo quando o jato do pai rompesse a resistência do ar bem lá no alto, centenas de quilômetros ao norte. Mas Morgan Sloat puxaria a janela de sua poltrona de primeira classe e daria uma espiada lá fora, procurando a lua e uma abertura entre as nuvens.

 

Queria voltar imediatamente para casa (que ficava a 30 minutos do escritório), queria mudar de roupa e pôr alguma coisa no estômago, nem que fosse apenas um gole de Coca-Cola antes de ir para o aeroporto. Mas o problema é que ainda tinha de dar uma boa acelerada por uma longa rodovia para se encontrar com um cliente que estava metido em encrencas e à beira da ruína. Depois teria de enfrentar uma multidão de imbecis clamando que o projeto da Sawyer & Sloat em Marina del Rey ia poluir a praia. Essas coisas não podiam ser adiadas. Mas Sloat prometera a si mesmo que, assim que tivesse resolvido o caso de Lily Cavanaugh e seu filho, começaria a se preocupar um pouco menos com sua atual lista de problemas. Afinal, já estava na hora de se voltar para coisas bem maiores. Agora haveria mundos inteiros para explorar, e por certo sua parte nos bolos não se limitaria mais a 10%. Revendo o passado, Sloat não entendia muito bem como conseguira tolerar Phil Sawyer por tanto tempo. O sócio nunca jogara realmente para vencer, não seriamente; fora um homem demasiado tolhido por noções sentimentais de lealdade e honra, acreditando nas histórias que os pais contam aos filhos para mantê-los semicivilizados antes que chegue a hora de lhes arrancarem decididamente a venda dos olhos. Sem dúvida os Sawyers lhe deviam muita coisa. E enquanto calculava o quanto deviam ao velho Morgan, a indigestão lhe apertou o peito como um ataque de coração. Antes de ter atingido o carro estacionado numa vaga ainda ensolarada, já enfiara a mão no bolso do paletó e tirara de lá um pacote amassado de sal de frutas.

Phil Sawyer o subestimara, e isso ainda o amargurava. Phil o considerava uma espécie de cascavel domesticada que só podia ser deixada fora da jaula sob vigilância. Também outros o tinham olhado com um certo desprezo.

O guardador de carros, um caipira com um amassado chapéu de caubói, viu-o andar em volta do pequeno carro, procurando arranhões. O sal de frutas começava a dissolver a bola que lhe ardia no peito. Mas Sloat sentia o colarinho pegajoso de suor. O guardador tentava manter um rosto sorridente: há algu­mas semanas, Sloat tinha tirado o pêlo do homem verbalmente após descobrir um pequeno arranhão na porta do BMW. No meio de sua arenga, vira a violência começar a escurecer os olhos verdes do caipira. Num impulso repentino, cambaleou na direção do homem, continuando a lhe soltar os cachorros, quase esperando levar um soco. Mas de repente o guardador pareceu perder todo o ânimo; debilmente, num tom de desculpas, sugeriu que talvez fosse apenas um arranhãozinho de nada. E quem sabe não fora feito no estacionamento de um restaurante, hem? Aqueles sujeitos não têm o menor cuidado com os carros, o senhor sabe... E à noite, sem muita luz...

— Pare de dizer bobagens! — gritara Sloat. — Este arranhãozinho de nada, como diz você, vai me custar cerca de duas vezes o que você ganha numa semana. Eu devia despedi-lo agora mesmo, caubói, e só não vou fazer isso porque há 1% ou 2% de possibilidade de que possa ter razão. Quando saí do Chasen’s, ontem à noite, talvez não tenha olhado sob a maçaneta da porta: talvez tenha e talvez não tenha. Mas se alguma vez voltar a abrir essa boca para dizer alguma coisa, se disser uma palavra além de “Como vai, Sr. Sloat”, ou “Boa noite, Sr. Sloat”, pode ter certeza que vou despedi-lo tão depressa que você nem vai saber o que aconteceu.

O caipira, então, via-o inspecionar o carro, sabendo que, se Sloat encontrasse qualquer imperfei­ção, ele seria posto no olho da rua sem ter tempo sequer de dizer até logo. Às vezes, da janela que dava para o estacionamento, Sloat observava o guardador tirando freneticamente um cisco, um cocô de passa­rinho ou um respingo de lama da carroceria do BMW. E tudo isso era fruto de sua competência gerencial!

Quando ia retirando o carro da vaga, deu uma olhada no retrovisor e viu no rosto do caipira uma expressão muito semelhante à cara de Phil Sawyer em seus últimos momentos de vida, lá nos confins de Utah. Subiu sorrindo a rampa do estacionamento e pegou a estrada.

 

Phil Sawyer subestimara Morgan Sloat desde o primeiro encontro dos dois, quando eram calouros em Yale. Naquela época, Sloat refletiu, talvez fosse um tanto fácil subestimá-lo. Afinal, ele era apenas um gorducho rapaz de 18 anos vindo de Akron, um sujeito sem graça, carregado de ansiedades e ambições, que tinha saído de Ohio pela primeira vez na vida. Diante da fluência com que os colegas de classe falavam de Nova York, do 21, de terem visto Brubeck na Rua Basin e Erroll Garner no Vanguard, tinha de suar um bocado para esconder sua ignorância.

— Eu gosto muito do centro comercial — ele falava o mais descontraidamente possível. Secura nas palmas das mãos, dedos se cravando nelas. (Freqüentemente Sloat encontrava nas mãos arranhões feitos pelas próprias unhas.)

— Que centro comercial, Morgan? — Tom Woodbine perguntava. Os outros riam.

— Você sabe, a Broadway e o Village. Por aí!

Novas risadas, mais fortes. Ele não era atraente e não se vestia bem; seu guarda-roupa consistia em dois ternos, ambos cinza-escuro e aparentemente feitos sob medida para um homem com ombros de espantalho. Começara a perder cabelo já nos últimos anos do colégio e um ponto rosado aumentava cada vez mais no meio do penteado curto e grudado na cabeça.

Não, Sloat nunca fora bonito, e isso também o incomodava! Os outros sempre o fizeram se sentir muito mal: os arranhões que via de manhã na palma das mãos não passavam de fotos sombrias dos punhos fechados de sua alma. Os demais rapazes, interessados em teatro como Phil Sawyer, possuíam boni­tos perfis, barrigas nada salientes, modos descontraídos e elegantes. Espalhavam-se pelas espreguiçadeiras de Davenport enquanto Sloat, suando dos pés à cabeça, preocupava-se em evitar rugas nas calças dos ternos (para que não começassem a desbotar com lavagens sucessivas). Às vezes os colegas, suéteres de casemira jogados sobre os ombros como o velocino de ouro, lembravam muito as vitrines das lojas caras. Estavam em vias de se tornar atores, dramaturgos, compositores. Sloat gostava de se imaginar como dire­tor: enredando a todos numa teia de intrigas e planos que só ele saberia desemaranhar.

Sawyer e Tom Woobdine, rapazes que pareciam fantasticamente ricos aos olhos de Sloat, eram seus companheiros de quarto. Woodbine tinha apenas um fraco interesse pelo teatro e só completava seu seminário de dramaturgia para fazer companhia a Phil. Menino dourado das caras universidades particula­res, Thomas Woodbine diferia dos outros porque era bem mais sério e bem mais seguro de si. Queria se tornar advogado e parecia ter a probidade e a imparcialidade de um juiz. (De fato, a maioria dos amigos de Woodbine já o imaginava na Suprema Corte, o que deixava o rapaz um tanto encabulado.) Woodbine não possuía o tipo de ambição de Sloat, pois estava muito mais interessado em viver corretamente do que em viver bem. Naturalmente, ele já tinha de tudo, e se por acaso lhe faltasse alguma coisa haveria sempre quem preenchesse a lacuna num piscar de olhos. Como então poderia ele, tão favorecido pelo nascimen­to e com tantas amizades, ser um homem ambicioso? Quase inconscientemente, Sloat detestava Woodbi­ne, e nunca conseguira chamá-lo com naturalidade de “Tommy”.

Sloat dirigiu duas peças de teatro durante seus quatro anos em Yale: Sem saída, que o jornal estudantil rotulou de “uma furiosa confusão”, e Volpone. Esta foi descrita como “tumultuada, cínica, sinistra e quase inacreditavelmente caótica”. Sloat foi apontado como o responsável pela maior parte dessas qualidades. Talvez, afinal, não tivesse talento para ser diretor: seu mundo era demasiado intenso e desordenado.

Mas as ambições não se extinguiram, apenas mudaram de alvo. Se não estava destinado a ficar atrás de um palco ou de uma câmera, podia estar atrás das pessoas que ficavam na frente das câmeras. Phil Sawyer também começava a pensar da mesma forma. Phil nunca tivera certeza de onde seu amor pelo teatro poderia levá-lo, e achou que talvez tivesse talento para ser agente de atores e escritores.

— Vamos abrir uma agência em Los Angeles — Phil lhe disse no último ano da universidade. — Não deixa de ser uma loucura e nossos pais vão nos odiar por isso, mas talvez a coisa funcione. Mesmo que tenhamos de batalhar por alguns anos!

Já nos tempos de calouro, Sloat ficara sabendo que, afinal, Phil Sawyer não era filho de família rica. Apenas parecia rico.

— E quando abrirmos a coisa, podemos deixar Tommy ser nosso advogado. Afinal, ele vai se for­mar em Direito.

— Sem dúvida é uma boa idéia — disse Sloat, achando que seria melhor esperar uma hora melhor para afastar Tommy do negócio. — Que nome vamos dar à firma?

— Você escolhe! Sloat and Sawyer, por exemplo! Ou devíamos seguir a ordem alfabética?

— Sawyer and Sloat, sem dúvida. Em ordem alfabética — disse Sloat, furioso no íntimo porque imaginava que o futuro sócio pretendia deixá-lo para trás para sempre, sugerindo que Sloat seria secundá­rio a Sawyer.

Como Phil previra, os pais dos dois abominaram a idéia, mas os sócios da futura agência de talen­tos foram para Los Angeles no velho DeSoto (um carro de Morgan; outra demonstração do quanto Sawyer devia a ele), abriram um escritório num prédio da zona norte de Hollywood (onde havia uma turbulenta população de ratos e pulgas) e começaram a rondar pelos clubes, passando de mão em mão seus novos cartões de visitas. Nada. Quase quatro meses de total fracasso. Tiveram um cômico que tinha de se embebedar para ser engraçado, um escritor que não conseguia escrever, uma moça que fazia strip-teasee, com medo de ser enganada, exigia que a pagassem no ato. Mas num fim de tarde, com maconha e uísque na cabeça, Phil Sawyer falara rindo a Sloat sobre os Territórios.

— Você sabe o que se pode fazer, seu mestre da ambição? Oh, podemos viajar, parceiro! Sempre viajar!

Pouco depois, ambos ainda um tanto altos, Phil Sawyer encontrou uma promissora e jovem atriz numa festa de estúdio. Daí a uma hora, tinham sua primeira cliente importante. E três amigos dela também não estavam satisfeitos com seus agentes. Um desses amigos tinha um caso que escrevera um bom roteiro cinematográfico e precisava de um agente, e o caso tinha outro amigo... Antes do fim do terceiro ano, Sloat e Sawyer já possuíam um novo escritório, novos apartamentos, uma fatia, em suma, da torta de Hollywood. De uma forma que Sloat aceitara mas nunca compreendera, os Territórios tinham-nos abençoado.

Sawyer lidava com os clientes; Sloat com o dinheiro, os investimentos, a parte financeira da agên­cia. Sawyer gastava dinheiro (almoços, passagens aéreas), Sloat poupava. E essa era a justificativa de que precisava para, sem remorsos, deslizar para o bolso um pouco do creme do doce. E sem dúvida foi Sloat quem os empurrou para novas áreas: imóveis, comércio, investimentos financeiros. Quando Tommy Woodbine chegou a Los Angeles, a Sawyer & Sloat já era um negócio de cinco milhões de dólares.

Mas Sloat logo descobriu que ainda detestava o velho companheiro de universidade; Tommy Woodbine engordara 15 quilos, e no terno de colete azul parecia e agia mais que nunca como um juiz. Suas faces estavam sempre ligeiramente avermelhadas (seria alcoólatra?, Sloat se perguntava), seus modos continuavam gentis e um tanto excessivamente formais. A vida já lhe deixara algumas marcas no rosto: pequenas rugas nos cantos dos olhos e os próprios olhos infinitamente mais cautelosos que os do filhinho de papai de Yale. Sloat percebeu quase de imediato, e sabia que Phil Sawyer jamais notaria qualquer coisa a não ser que o informassem, que Tommy Woodbine vivia com um enorme segredo: fosse qual fosse sua personalidade quando era rapaz, Tommy era agora homossexual. Provavelmente, ele próprio se chamaria de gay. E isso tornava tudo mais fácil. Sem dúvida, seria muito mais fácil livrar-se de Tommy.

Porque bichas ou entendidos estão sempre sendo mortos, não é? E será que alguém ia querer que um veado de 100 quilos fosse responsável pela educação de um adolescente? Podia-se dizer que Sloat es­tava apenas poupando a Phil Sawyer as futuras conseqüências negativas de um sério erro de julgamento. Se Sawyer tivesse nomeado Sloat seu executor testamentário e tutor do filho, não haveria problemas. Os assassinos dos Territórios — aquela dupla que tentara seqüestrar o garoto — tinham forçado passagem através de um sinal vermelho e quase foram presos antes de conseguirem voltar para casa.

Tudo teria sido bem mais simples, Sloat refletiu pela milésima vez, se Phil Sawyer não tivesse se ca­sado. Se não existisse Lily, não existiria Jack; e sem Jack, não haveria problemas. Talvez Phil nem mesmo tivesse dado uma olhada no relatório sobre a vida de Lily Cavanaugh; informações cuidadosamente reuni­das por Sloat: elas revelavam onde, com que freqüência e com quem, e teriam dado o golpe de misericór­dia naquele romance, com a mesma presteza do caminhão negro transformando Tommy Woodbine numa massa de carne no meio da rua. E se Sawyer se preocupou em ler o meticuloso relatório, sem dúvida (e surpreendentemente) não se deixou afetar. Quis se casar com Lily Cavanaugh e foi o que fez. Da mesma forma como o amaldiçoado Duplo de Sawyer se casara com a Rainha Laura. Mais uma subestimação — o relatório. Tudo aquilo, porém, seria pago na mesma moeda, o que parecia bastante justo.

Após o acerto de alguns detalhes, pensou Sloat com uma certa dose de satisfação, tudo entraria fi­nalmente nos eixos. Depois de tantos anos... enfim! Quando voltasse de Arcadia Beach, teria toda a Saw­yer & Sloat no bolso. E nos Territórios, tudo estava do mesmo jeito: pairando na corda, pronto a cair em suas mãos. Assim que a rainha morresse, o governo ficaria nas mãos de um homem de sua confiança, ca­paz de introduzir todas as pequenas e interessantes novidades que ele desejava. Depois era ver o dinheiro rolar, pensou Sloat deixando a estrada e pegando o acesso para Marina del Rey. Depois era ver tudo rolar!

Seu cliente, Asher Dondorf, morava no segundo bloco de um novo condomínio numa das estreitas ruas de Marina del Rey, aléias que iam dar na praia. Dondorf era um velho ator coadjuvante que Obtivera um surpreendente nível de respeitabilidade e celebridade no fim dos anos 70 graças a um seriado de TV; fazia o papel de caseiro do jovem casal — detetives particulares, ambos tão engraçadinhos quanto bichinhos de pelúcia —, que era a estrela da série. Dondorf fora tão bem-sucedido em suas poucas aparições nos primeiros episódios que os roteiristas aumentaram-lhe o papel, transformando-o num pai não-oficial dos jovens detetives, deixando-o resolver um ou dois assassinatos, colocando-o em situações de perigo, etc. etc. Seu salário dobrou, triplicou, quadruplicou e, quando seis anos mais tarde a série foi cancelada, ele voltou para o longa-metragem. Foi então que surgiram os problemas. Dondorf se julgava uma estrela, mas os estúdios e os produtores ainda o viam como ator coadjuvante: popular, sem dúvida, mas de maneira alguma um grande trunfo para um projeto. Dondorf queria flores no camarim, queria seu próprio cabeleireiro e um auxiliar na memorização dos diálogos, queria mais dinheiro, mais respeito, mais amor, mais tudo, enfim! Na realidade, Dondorf se considerava um superastro.

Ao parar o carro na vaga do estacionamento e se esgueirar com cuidado por uma fresta da porta para não arranhar a pintura no tijolo do prédio, Sloat chegou a uma conclusão: se nos próximos dias vies­se a saber ou suspeitar que Jack Sawyer descobrira a existência dos Territórios, não teria outra alternativa senão matá-lo. A entrada de Jack nos Territórios seria um risco inaceitável.

Sloat sorriu consigo mesmo, pondo outro antiácido na boca, e empurrou com força a porta do con­domínio. Já sabia o que ia acontecer: Asher Dondorf ia se matar... Faria isso no living, para criar a maior confusão possível. Um tolo temperamental como seu futuro ex-cliente ia achar que um suicídio realmente chocante seria uma vingança adequada contra o banco que ameaçava executar sua hipoteca. Quando um pálido e trêmulo Dondorf abriu a porta, o calor do cumprimento de Sloat pareceu inteiramente sincero.

 

O PAVILHÃO DA RAINHA

Os recortes denteados das folhas da relva bem na frente de Jack pareciam com­pridos e afiados como sabres. Em vez de se curvar ao vento, cortavam-no. Jack gemeu ao levantar a cabe­ça. Ele não possuía tanta dignidade. Seu estômago ainda parecia ameaçadoramente líquido, a testa e os olhos ardiam. Ficou de joelhos e depois fez força para ficar de pé. Uma carroça comprida, puxada a cavalo, movia-se barulhentamente em sua direção pela poeira da estrada. O condutor, um homem barbado de rosto vermelho, mais ou menos da mesma forma e tamanho dos barris de madeira chocalhando atrás dele, não tirava os olhos de Jack. Jack cumprimentou-o com a cabeça, esforçando-se ao máximo para manter uma aparência de menino vadio, que tivesse acabado de tirar uma soneca na beira do caminho. Depois que se levantou, não se sentiu mais enjoado; sentia-se, de fato, melhor do que nunca desde que deixara Los Angeles; não apenas saudável, mas em perfeita harmonia, misteriosamente sintonizado com seu cor­po. O ar quente dos Territórios, agitado pela brisa, acarinhava-lhe o rosto com o mais doce e perfumado dos toques. Um delicado aroma de flores podia ser nitidamente percebido sob o forte odor de terra que o vento carregava. Jack passou as mãos pelos olhos e deu uma olhada no condutor da carroça, o primeiro exemplar que encontrava de um habitante dos Territórios.

Se o condutor se dirigisse a ele, como responderia? Será que ao menos falavam inglês por ali? E se­ria o mesmo tipo de inglês falado por ele? Por um instante, Jack se imaginou tentando passar despercebi­do num mundo onde as pessoas falassem um idioma arcaico, medieval. Achou que nesse caso o melhor que tinha a fazer era se fingir de mudo.

O condutor finalmente tirou os olhos de Jack e cacarejou alguma coisa para os cavalos, sons que não correspondiam de forma alguma a uma linguagem de 1980. Mas quem sabe... talvez fosse apenas um jeito de falar com os animais.

— Ucha, ucha!

Jack recuou um pouco para a grama da margem, achando que devia ter se levantado alguns segun­dos antes. O homem olhou-o de novo, e surpreendeu-o com um aceno de cabeça — um gesto nem amistoso nem hostil, uma simples comunicação entre duas pessoas. É, tenho muito trabalho pela frente, meu jovem! Jack devolveu o aceno, tentou pôr as mãos nos bolsos e, por um momento, seu assombro deve tê-lo deixado com um ar um tanto imbecil. O condutor riu; não foi um riso desagradável.

As roupas de Jack tinham se modificado. Ele usava agora pesadas e grossas calças de lã em vez de jeans de veludo fino. Cobria o peito com uma jaqueta bem justa, de fazenda azul e macia. Mas em vez de botões, a jaqueta (um gibão?, ele especulou) tinha uma fileira de presilhas. Como as calças, era nitidamen­te feita à mão. Também os tênis tinham desaparecido, sendo substituídos por sandálias de couro. A mo­chila se metamorfoseara num saco de couro seguro em seu ombro por uma fina correia. O condutor da carroça usava uma roupa quase exatamente igual à sua, mas o couro do gibão estava muito manchado, anéis dentro de anéis de manchas, como a casca de uma velha árvore.

Fazendo muito barulho e levantando pó, a carroça passou por Jack. Os barris exalavam um odor de levedo de cerveja. Atrás dos barris, havia três pilhas do que, irrefletidamente, Jack tomou por pneus de caminhão. Sentiu o cheiro dos “pneus” e percebeu de imediato que eles eram absolutamente carecas. Ti­nham um aroma cremoso, que enchia o paladar de sugestões de prazeres sutis. Instantaneamente, sentiu fome. Aquilo era queijo, um queijo diferente do tipo que estava acostumado a comer. E atrás das imensas rodas de queijo, na traseira da carroça, havia um monte de carne crua: grandes pedaços de bife que pare­ciam sem gordura, grandes quartos de alcatra (além de um punhado de miúdos pegajosos, que ele não sa­bia bem o que era, e que deslizavam sob um brilhante enxame de moscas). O cheiro penetrante da carne crua atingiu Jack, tirando-lhe o apetite despertado pelo queijo. Ele foi para o meio da trilha e contemplou o carro sacolejar para a crista de uma pequena elevação. E então começou a caminhar para o norte, se­guindo o mesmo caminho da carroça.

Cobrira a metade da distância até o topo da colina quando viu de novo o pico da grande tenda, rí­gida no meio de uma fileira de pequenas bandeiras que flutuavam. Aquele, presumiu, seria o seu destino. Alguns metros depois das amoreiras silvestres onde parara da última vez (lembrando-se de como as frutas eram gostosas, colocou duas enormes na boca) pôde ver toda a tenda. Na realidade, era um grande e sóli­do pavilhão, com alas compridas de ambos os lados, com portões e um pátio. Como o Alhambra, aquela estrutura excêntrica (um palácio de verão, disseram os instintos de Jack) ficava bem acima do oceano. Pequenos grupos de pessoas entravam, saíam e perambulavam pelo grande pavilhão, aparentemente impe­lidos por forças tão poderosas e invisíveis quanto o efeito de um ímã. Os pequenos grupos se encontravam, se dividiam, juntavam-se de novo.

Alguns homens usavam roupas brilhantes, de aspecto vistoso; outros vestiam-se tão modestamente quanto Jack. Algumas mulheres, de longas e brilhantes batas ou túnicas brancas, caminhavam através do pátio, decididas como generais. Do lado de fora dos portões, havia um aglomerado de tendas menores e cabanas de madeira cuja construção ainda não parecia concluída; também ali havia gente em atividade — comendo, fazendo compras ou conversando, embora mais à vontade, mais descontraidamente que os ou­tros. Lá, no meio daquela agitada multidão, Jack teria de encontrar um homem com uma cicatriz.

Olhou para trás, ao longo dos sulcos da estrada, para ver o que acontecera ao Funworld.

A uns 50 metros de distância, viu dois pequenos cavalos negros puxando arados, e achou que o parque de diversões tinha se transformado numa fazenda, mas então notou a multidão fitando do alto do campo o desempenho dos animais. Tratava-se de uma competição, de uma corrida. Depois seu olhar foi atraído pelo espetáculo de um enorme ruivo, nu até a cintura, girando velozmente em torno de si mesmo. As mãos estendidas seguravam um objeto comprido e pesado. De repente, o homem parou de rodar e soltou o objeto, que percorreu um longo caminho antes de cair com um baque na relva. Jack descobriu que era um martelo. Funworld, então, se transformara numa feira, não numa fazenda. Havia mesas cheias de comida e crianças nos ombros dos pais.

E aquele homem no centro da feira, certificando-se de que cada correia, de que cada arreio estava no lugar, de que cada forno estava bem abastecido de lenha... não era Speedy Parker? Jack gostaria que fosse.

E será que sua mãe ainda estava sentada sozinha no Tea and Jam Shoppe, sem entender muito bem por que deixara o filho partir?

Jack virou-se para trás e viu a barulhenta carroça atravessar os portões do palácio de verão e guinar para a esquerda, abrindo caminho entre as pessoas como um automóvel virando na Quinta Avenida, separando fluxos de pedestres junto aos sinais de tráfego. Um instante depois, Jack saía no rastro da carroça.

 

Jack teve medo de que todas as pessoas nas imediações do pavilhão fossem arrega­lar os olhos em sua direção, percebendo de imediato que ele era diferente. Procurou, então, cautelosamente, manter os olhos baixos, fingindo ser um garoto qualquer perambulando por ali. Seus pais o teriam mandado comprar... digamos, um certo número de coisas; o franzido no rosto mostrava a força que fazia para não confundir o que ia dizer: uma pá, duas picaretas, um rolo de barbante, uma lata de banha... Mas, aos poucos, foi tomando consciência de que nenhum dos adultos que rodeavam o palácio lhe dis­pensava qualquer atenção. Andavam de um lado para o outro, paravam, examinavam as mercadorias — tapetes, potes de ferro, braceletes — expostas em pequenas tendas, bebiam de canecões de madeira, pu­xavam a manga de alguém para fazer um comentário ou entabular conversa, discutiam com os guardas do portão. Todos, em suma, pareciam totalmente absorvidos por seus próprios afazeres. O disfarce que Jack tentava simular era tão desnecessário que chegava a ser ridículo. Então ele empinou a cabeça e começou a andar com passo mais firme, movendo-se num semicírculo em direção ao portão.

Mas quase de imediato percebeu que não seria fácil atravessá-lo. Os dois guardas postados de cada lado paravam e interrogavam quase todo mundo que se dirigia para o interior do palácio. Os homens ti­nham de exibir certas credenciais, distintivos ou selos para terem acesso ao pavilhão real. Jack só possuía a palheta de violão que Speedy Parker lhe dera, e não achava que ela fosse de alguma utilidade diante da vigilância dos guardas.

Exatamente naquele momento, um homem se aproximou do portão exibindo um distintivo redon­do de prata e os guardas o deixaram prosseguir. O sujeito que ia atrás dele foi barrado e começou a discu­tir com um dos guardas. De repente, sua argumentação se tornou mais enfática e Jack percebeu que, na realidade, ele estava implorando. O guarda balançou a cabeça e lhe ordenou que se afastasse.

— Os homens dele entram com a maior facilidade — disse alguém à direita de Jack, instantanea­mente resolvendo o problema do idioma dos Territórios. Jack virou a cabeça para ver se a pessoa estava falando com ele.

Mas o sujeito de meia-idade a seu lado conversava com um companheiro, ambos vestidos com a roupa simples, modesta, da maioria dos homens e mulheres fora dos domínios do palácio.

— Estão agindo muito mal — respondeu o companheiro. — Ele já está a caminho. Deve chegar hoje mesmo, eu acho.

Jack postou-se atrás dos dois e seguiu-os até o portão.

Os guardas deram um passo à frente quando os homens se aproximaram. A dupla ficou discutindo com um dos guardas, enquanto o outro gesticulava alguma coisa para alguém nas redondezas. Jack recuou. Ainda não vira ninguém com uma cicatriz, nem qualquer oficial. Os guardas eram os únicos soldados que havia por ali, ambos jovens e rústicos. Com os rostos muito vermelhos saindo de uniformes de pregas cuidadosamente engomadas, pareciam agricultores com fantasias de carnaval. Os dois sujeitos que Jack seguira deviam ter passado pela prova dos guardas, porque após alguns momentos de conversa os camponeses de uniforme retrocederam e lhes deram passagem. Então um dos soldados olhou atentamente para Jack. Ele desviou a cabeça e de novo recuou.

A não ser que encontrasse o capitão com a cicatriz, jamais conseguiria entrar no palácio.

Um grupo se aproximou do guarda que inspecionara Jack e começou imediatamente a discutir. Ti­nham uma entrevista marcada, era crucial que os deixassem entrar, havia muito dinheiro envolvido, em­bora, lamentavelmente, não tivessem credenciais. O guarda balançava a cabeça, coçando o queixo que despontava da gola franzida do uniforme. Enquanto Jack assistia à cena, ainda sem saber como encontra­ria o Capitão dos Guardas do Exterior, o líder do grupo agitou os braços e deu um soco na palma da pró­pria mão. Seu rosto se tornara tão vermelho quanto o do guarda. Finalmente começou a espetar o indica­dor no peito do guarda. Então, o outro soldado juntou-se ao colega: ambos pareciam irritados, hostis.

Um homem alto com um uniforme ligeiramente diferente do uniforme dos guardas (o que mais chamava a atenção era o modo como ele portava o uniforme, pois o traje dava a impressão de poder ser­vir numa batalha ou num camarote de opereta) aproximou-se discretamente. Não usava gola franzida e, Jack notou um segundo depois, o chapéu era bicudo e não de três pontas. Conversou com os guardas e depois se voltou para o líder do pequeno grupo. Não houve mais gritos nem ameaça de indicadores. O homem falava num tom calmo. Jack viu a hostilidade do grupo refluir. O líder começou a deslocar os pés num gesto de descontração e os ombros dos outros se abaixaram. Por fim, o grupo começou a se afastar. O oficial contemplou a retirada; depois disse mais alguma coisa aos guardas.

No momento em que o oficial virou o rosto na direção de Jack, afugentando de vez o grupo de ho­mens com sua atitude, o menino viu uma comprida e pálida cicatriz que descia em ziguezague do olho di­reito quase até o queixo.

O oficial inclinou a cabeça para os guardas e começou a se distanciar num passo rápido. Sem olhar para lado nenhum, Jack forçou caminho através do aglomerado de gente que agora, aparentemente, se para o lado do palácio, e correu atrás dele.

— Senhor! — gritou, mas o soldado continuou marchando entre o lento rastejar da multidão.

Jack contornou correndo um grupo de homens e mulheres que carregava um porco para uma das pequenas tendas, passou por uma brecha entre dois grupos de pessoas e, por fim, conseguiu se aproxi­mar o suficiente do oficial para estender o braço e tocar-lhe o cotovelo.

— Capitão?

O oficial deu meia-volta, fazendo Jack congelar no lugar onde estava. De mais perto, a cicatriz pa­recia mais nítida, mais grossa, uma criatura viva cavalgando no rosto do homem. Mesmo sem cicatriz, Jack pensou, aquele rosto expressaria uma vigorosa impaciência.

— O que há, rapaz? — perguntou o soldado.

— Capitão, tenho de falar com o senhor. Preciso ver a senhora, mas acho que não me deixarão en­trar no palácio. Oh, o senhor precisa ver isto!

Enfiou a mão no largo bolso da calça rústica que usava e pegou um objeto triangular.

Quando mostrou a palma da mão aberta, sentiu um choque profundo atravessar-lhe o corpo. O que havia em sua mão não era mais uma palheta, mas um dente comprido, talvez de tubarão, incrustado com um serpenteante e intrincado arabesco dourado.

Jack levantou os olhos para o rosto do capitão, quase com medo de levar um soco. Mas o que viu foi apenas um eco do mesmo choque que ele sentira. A impaciência, que parecia tão típica do homem, desaparecera por completo. Incerteza, até mesmo temor distorciam os traços marcantes do rosto do capi­tão. O oficial ergueu a mão na direção de Jack, e o garoto achou que ele pretendia pegar o dente adorna­do: Jack o teria entregue, mas o homem limitou-se a dobrar-lhe os dedos sobre o estranho objeto.

— Venha comigo — disse.

Circundaram o pavilhão e o garoto foi levado para trás de uma grande aba que, embora lembrasse a vela de um navio, era apenas a entrada de um resistente abrigo de lona. Na semi-obscuridade da tenda, as feições do soldado pareciam ter sido reforçadas com lápis cera.

— Este objeto — disse, procurando conservar a voz calma. — Onde o conseguiu?

— Foi Speedy Parker quem me deu. Mandou que eu falasse com o senhor e lhe mostrasse a coisa.

O homem sacudiu a cabeça.

— Não estou reconhecendo o nome. Quero que me dê o que tem na mão. Agora!

Agarrou com firmeza o pulso de Jack.

— Passe-o para mim e diga de onde o roubou.

— Mas estou dizendo a verdade! — Jack protestou. — Ganhei-o de Lester Speedy Parker! Ele traba­lha no Funworld... Só que não era um dente quando ele me deu. Era uma palheta de violão!

— Acho que ainda não entendeu bem o que vai lhe acontecer, garoto!

— O senhor conhece Speedy — Jack insistiu. — Ele o descreveu... Disse que era Capitão dos Guar­das do Exterior. Speedy me mandou procurá-lo.

O capitão sacudiu a cabeça e agarrou com mais força o punho de Jack.

— Diga como é esse sujeito! Vou descobrir agora mesmo se está dizendo a verdade ou não! Por isso, no seu lugar, eu procuraria ser bastante preciso!

— Speedy é velho — disse Jack. — Antigamente era músico...

O menino julgou captar um lampejo de reconhecimento nos olhos do homem.

— É preto — Jack continuou —, um homem preto. Tem cabelos brancos e muitas rugas no rosto. É bem magro, mas muito mais forte do que aparenta.

— Um homem preto... Você quer dizer, um homem pardo.

— Bem, os negros não são realmente negros. Como os brancos não são realmente brancos.

— Um homem pardo chamado Parker.

Num movimento lento, o capitão libertou o pulso de Jack.

— Aqui ele é chamado Parkus... Portanto, você veio... — Ele inclinou a cabeça para algum ponto distante e invisível do horizonte.

— É isso — disse Jack.

— E Parkus... Parker... mandou-o encontrar-se com nossa rainha.

— Ele me disse para ir ver a senhora. E disse que o senhor podia me levar até ela.

— Isto terá de ser feito com rapidez — disse o capitão. — Acho que sei o que fazer, mas não temos tempo a perder.

Tomara sua decisão com uma firmeza militar.

— Agora, escute! Temos muitos bastardos rondando por aqui, por isso vamos fingir que você é um filho ilegítimo que tive. Você me desobedeceu numa coisinha qualquer e eu fiquei furioso. Acho que ninguém poderá nos deter se representarmos nosso papel de forma convincente. Pelo menos vou conseguir introduzi-lo no palácio, mas é lá dentro que as coisas serão mais delicadas. Vai conseguir fazer isso? Con­vencer as pessoas de que é meu filho?

— Minha mãe é atriz — disse Jack, sentindo-se orgulhoso dela.

— Bom, então vamos ver como vai se sair! — disse o capitão, surpreendendo Jack com uma pisca­da de olho. — Vou tentar agir de modo a não lhe causar nenhum mal. — Estendeu de novo o braço e cravou a mão com uma força de garra no braço do garoto. — Vamos agora! — disse ele, e saiu marchando do abrigo de lona, quase arrastando Jack atrás de si.

— Quando eu lhe mandar lavar o chão atrás da cozinha, deve obedecer prontamente — disse o ca­pitão em voz alta, mas sem olhá-lo. — Entendeu bem? Vai fazer o que eu mandar. E se não fizer, será castigado.

— Posso muito bem lavar alguns ladrilhos... — Jack resmungou.

— Mas talvez não tenha apenas de lavar alguns ladrilhos! — gritou o capitão, carregando Jack com ele. As pessoas abriram caminho para deixar o oficial passar. Algumas sorriam simpaticamente para Jack.

— Agora vamos fazer as coisas direito. Não temos um minuto a perder...

O capitão puxou Jack para o portão do palácio sem nem ao menos olhar para os guardas; era como se estivesse levando o garoto à força.

— Não, papai! — Jack berrou. — Está me machucando!

— Pode estar certo de que ainda vou machucá-lo um pouco mais — disse o capitão e transpor­tou-o através do amplo pátio que o menino vira da trilha da carroça.

Na extremidade do pátio, o soldado obrigou-o a subir degraus de madeira e a penetrar no interior do grande palácio.

— Agora procure representar com um pouco mais de energia... — o homem sussurrou e dobrou imediatamente num longo corredor, apertando o braço de Jack com força suficiente para feri-lo.

— Prometo que vou obedecer ao senhor!!! — Jack gritava.

O homem arrastou-o para outro corredor mais estreito. Jack reparou que o interior do palácio não se assemelhava nem um pouco ao interior de uma tenda. Possuía um confuso labirinto de galerias e pequenas salas, e por toda parte havia cheiro de fumaça e gordura.

— Prometa! — vociferou o capitão.

— Prometo, juro!!!

Ao emergirem de um terceiro corredor, depararam-se com um grupo de homens requintadamente vestidos; alguns se apoiavam nas paredes; outros, recostados em divãs, viravam as cabeças para ver a du­pla barulhenta. Um deles, que se divertia dando ordens a duas mulheres que transportavam pilhas de pa­pel dobradas nos braços, olhou com desconfiança para Jack e o oficial.

— E eu prometo lhe dar uma boa surra! — disse em voz alta o capitão.

Alguns homens riram. Usavam chapéus macios com grandes abas adornadas de pele e as botas eram de veludo. Tinham rostos vorazes e expressão estúpida. O homem que falara com as criadas, talvez o encarregado de algum departamento do palácio, era esqueleticamente alto e magro. O rosto tenso e am­bicioso acompanhou o garoto e o soldado quando os dois passaram por ele.

— Por favor, não! — Jack gemia. — Por favor!!

— Cada por favor vai ser outra correada! — o soldado rosnou, e os homens riram de novo. O sujei­to magro acabou se permitindo um sorriso, frio como lâmina de faca. Depois voltou-se de novo para as criadas.

O capitão puxou o garoto para uma sala vazia, onde havia uma mobília de madeira cheia de pó. Então, soltou o braço dolorido de Jack.

— Aqueles são os homens dele — cochichou. — A vida seria ótima se...

Ele sacudiu a cabeça e, por um momento, pareceu esquecer toda a pressa.

— Diz no Livro da boa lavoura que os mansos herdarão a terra, mas ninguém é manso ou pacífico entre esses sujeitos. A única coisa que querem é pôr as mãos em tudo. Querem riqueza, querem... — Ergueu os olhos para o teto, sem vontade ou incapaz de dizer o que mais aqueles homens poderiam cobi­çar. Depois voltou a encarar o garoto: — Temos de agir com rapidez, mas ainda existem alguns segredos no palácio que esses homens não conseguiram descobrir.

Ele inclinou a cabeça para um dos lados, indicando uma parede de madeira sem cor.

Quando o capitão se pôs de novo em movimento, Jack o seguiu. Entendeu logo por que o homem empurrou dois cravos marrons na extremidade de uma tábua empoeirada do revestimento perto do rodapé. Uma das almofadas da parede descorada se deslocou, revelando um estreito e escuro corredor, não mais alto que um caixão na vertical.

— Você apenas vai dar uma olhada nela, mas acho que é tudo o que você precisa. E, além do mais, é tudo o que pode conseguir.

O garoto obedeceu à ordem silenciosa para se introduzir na passagem.

— Vá sempre em frente até eu mandá-lo parar — o capitão sussurrou.

Depois que o oficial também entrou e fechou o painel atrás deles, Jack começou a avançar lenta­mente através de uma escuridão absoluta.

A galeria seguia uma trajetória sinuosa, ocasionalmente iluminada pela débil claridade de uma fres­ta de porta ou de uma clarabóia. Jack logo perdeu todo o senso de direção e limitou-se a acompanhar ce­gamente o rastro do capitão. Num determinado trecho, seu nariz captou um aroma delicioso de carne as­sada; mais adiante, porém, havia um indisfarçável fedor de esgoto.

— Pare! — disse finalmente o capitão. — Agora terei de suspendê-lo. Levante os braços!

— Vou ver alguma coisa?

— Saberá num segundo — respondeu o capitão e, pondo as mãos sob as axilas de Jack, ergueu-o com energia.

— Há um alçapão bem na sua frente — murmurou. — Puxe-o para a esquerda.

Às cegas, Jack estendeu o braço e tocou uma superfície lisa de madeira. Ela deslizou facilmente, enchendo a galeria de uma luminosidade fraca. Através de uma longa teia de aranha avançando até o teto, Jack pôde ver um aposento do tamanho de um saguão de hotel. Estava repleto de mulheres vestidas de branco e equipado com um mobiliário tão requintado que lembrou ao menino os museus que ele visitara com os pais. No centro da sala, numa cama imensa, havia uma mulher adormecida ou inconsciente, apenas a cabeça e os ombros visíveis sobre o lençol.

E então Jack quase gritou sob o impacto do choque e do terror. A mulher deitada na cama era sua mãe. Era sua mãe que estava ali... E estava morrendo.

— Pronto, você a viu! — murmurou o capitão, apertando-o com mais força sob as axilas.

De boca aberta, Jack continuava contemplando a mãe. Estava morrendo, não havia mais dúvida al­guma; mesmo a pele parecia doentia, esbranquiçada, e o cabelo perdera todas as nuances de cor. As en­fermeiras corriam de um lado para o outro, ajeitando os lençóis ou arrumando livros numa me­sa-de-cabeceira. Estavam assim agitadas por não saberem mais o que fazer pela paciente. Sabiam que já não era possível prestar-lhe qualquer tipo de ajuda. Se conseguissem afugentar a morte por mais um mês, ou mais uma semana, já seria um milagre.

Jack se concentrou de novo na face virada para cima como uma máscara de cera e enfim percebeu que a mulher deitada na cama não era sua mãe. O queixo parecia mais redondo, a forma do nariz era ligeiramente mais clássica. A mulher que agonizava era o Duplo de sua mãe; era Laura DeLoessian. Se Speedy esperava que ele visse mais alguma coisa, estava redondamente enganado: aquele rosto branco e imóvel nada lhe revelava sobre a rainha que se escondia atrás dele.

— Está bem — murmurou fechando o alçapão, e o oficial colocou-o no chão.

Na galeria novamente escura, Jack perguntou:

— O que está havendo com ela?

— Ninguém descobriu ainda — disse a voz acima de sua cabeça. — A rainha não consegue mais enxergar, nem falar, nem andar...

Houve um momento de silêncio. Então o capitão tocou a mão do garoto.

— Temos de voltar — disse.

Em silêncio, foram emergindo da escuridão da passagem até a sala vazia e empoeirada. O capitão sacudiu pegajosas teias de aranha da frente do uniforme. Sua cabeça pendeu para um dos lados, a preocupação estampada no rosto. Os olhos examinaram detidamente o garoto.

— Quero que me responda a uma pergunta — disse.

— Sim.

— Foi mandado aqui para salvá-la? Para salvar a rainha?

Jack balançou a cabeça.

— Acho que sim... Acho que isso faz parte da... missão. Mas me diga uma coisa. — Ele hesitou. — Será que não existe ninguém por aqui capaz de ajudar a rainha?

O capitão sorriu. Não havia humor naquele sorriso.

— Talvez... — disse. — Meus homens... Nós tentamos deter aqueles que lhe ameaçam o trono... Mas não sei o que eles podem estar tramando em outros destacamentos militares, onde os laços de lealda­de são mais fracos... Aqui, porém, ainda garantimos o trono da rainha.

Na face onde não havia cicatriz, um músculo logo abaixo do olho saltou como um peixe. O solda­do apertou as mãos, palma contra palma.

— Suas instruções, suas ordens, a orientação que recebeu, em suma, são para... hã, ir para oeste, certo?

Jack podia sentir a vibração do homem; sua crescente agitação era mantida sob controle graças a um longo hábito de autodisciplina.

— É isso! — Jack respondeu. — Devo ir para o oeste. O senhor não sabia? Não tenho de ir para o oeste? Para o outro Alhambra?

— Não sei, não sei... — o capitão falou bruscamente, recuando um passo. — Mas tenho de tirá-lo daqui agora. Não posso lhe dizer como terá de agir.

De repente ele parecia ter perdido até mesmo a coragem de olhar para Jack, o garoto percebeu.

— Não pode ficar aqui nem mais um minuto... Vamos, hã... Vamos ver se consigo fazê-lo escapar antes da chegada de Morgan.

— Morgan? — Jack perguntou, achando que seus ouvidos o tinham enganado. — Morgan Sloat? Ele está vindo para cá?

 

FARREN

 

O capitão pareceu não ter ouvido a pergunta de Jack. Seu olhar estava fixo num canto daquele quarto estranhamente vazio; como se houvesse alguma coisa para ver ali. Procurava pen­sar. Pensar profundamente, intensamente e depressa; Jack percebeu isso. E tio Tommy lhe ensinara que interromper um adulto que estava meditando era tão deseducado quanto interromper um adulto que esti­vesse falando. Mas...

Fique longe do velho Bloat. Cuidado com ele! Com ele e com seu Duplo. Ele vai correr atrás de você como uma raposa atrás de um ganso.

Fora o que Speedy dissera, e Jack ficara tão preocupado com o talismã que quase se esquecera da advertência. Agora as palavras lhe voltaram à mente com extrema brutalidade. Era como levar um soco na nuca.

— Como é o jeito dele? — perguntou ansioso ao capitão.

— O jeito de Morgan? — replicou o capitão, como se alguém o tivesse acordado bruscamente de algum sonho interior.

— Ele é gordo? É gordo e está ficando careca? E quando fica furioso, faz uma cara... assim...? — Jack empregou seu dom inato de imitar as pessoas (uma aptidão que fazia o pai morrer de rir mesmo quando es­tava cansado ou abatido) e “fez” a cara de um Morgan enfurecido. Seu rosto pareceu envelhecer quando re-puxou a testa para reproduzir os sulcos da raiva do tio Morgan. Simultaneamente, encolheu as bochechas e inclinou a cabeça para criar uma dobra no queixo. Os lábios formaram um beiço de desdém e as sobrance­lhas começaram a se sacudir com rapidez para cima e para baixo. — É assim que ele fica?

— Não — disse o capitão, mas alguma coisa lampejou nos olhos dele, o mesmo lampejo que Jack observara quando lhe contou que Speedy Parker era um velho. — Morgan é alto. E usa cabelos compridos. — Levantou a mão até a altura do ombro direito para mostrar a Jack o comprimento. — Ele manca um pouco... Têm um pé deformado. Usa uma bota especial mas...

O capitão balançou os ombros.

— O senhor deve ter identificado algum traço dele quando o imitei! O senhor...

— Shhh! Não precisa falar tão alto, rapaz!

Jack abaixou a voz.

— Acho que conheço muito bem esse tal de Morgan — disse ele e, pela primeira vez, sentiu um medo estranho, um medo palpável... alguma coisa que podia quase pegar (muito mais do que podia “pe­gar”, “apalpar” aquele mundo). Tio Morgan ali? Jesus!

— Morgan é simplesmente Morgan. Alguém com quem não se deve brincar, rapaz. Venha! Vamos sair daqui!

Suas mãos apertaram de novo o braço de Jack. Ele se encolheu, mas resistiu.

Parker se transformara em Parkus. E Morgan... Era coincidência demais.

— Espere um pouco — disse ele. Outra pergunta lhe ocorrera. — Ela tem um filho?

— A rainha?

— É.

— Ela teve um filho — o capitão respondeu com relutância. — Olhe, rapaz, não podemos nos de­morar aqui dentro. Temos...

— Conte-me alguma coisa sobre ele!

— Não há nada para contar — respondeu o capitão. — Morreu quando ainda era bebê. Tinha menos de um mês e meio. Chegaram a comentar que um dos homens de Morgan (Osmond, talvez) sufocou o guri. Mas não se pode dar muito crédito a boatos desse gênero. Não sinto qualquer simpatia por Morgan de Orris, mas todos sabem que uma entre 12 crianças morre no berço. Ninguém sabe por quê; morrem misteriosamente, sem qualquer causa aparente. Existe um ditado: “Os desígnios de Deus são insondáveis.” Nem mesmo um bebê real constitui exceção aos olhos do Carpinteiro do Mundo. Ei... rapaz!? Você está bem?

Jack sentiu tudo escurecer à sua volta. Cambaleou um pouco e, quando voltou a sentir as mãos do capitão, seu aperto pareceu tão macio quanto um travesseiro de penas.

Ele quase morrera quando bebê.

A mãe tinha lhe contado... Como o encontrara imóvel e aparentemente já sem vida no berço, os lá­bios azulados, as faces do tom que assumem as velas de funeral quando são apagadas e tiradas dos casti­çais. A mãe contara como atravessara gritando a sala com ele nos braços. O pai e Sloat estavam sentados na grama do jardim, tomando vinho e assistindo a uma luta livre na TV. O pai o arrebatara dos braços de Lily e começara a beliscá-lo brutalmente com a mão esquerda. (Um mês depois ainda se viam os beliscões, Jacky, dissera-lhe a mãe com um riso nervoso.) Depois Phil Sawyer aplicou os lábios contra a boquinha de Jack, enquanto Morgan gritava: Acho que não vai adiantar nada, Phil! Acho que não vai adiantar

(Tio Morgan era engraçado, não era, mamãe?, Jack tinha dito. Sim, muito engraçado, Jack, a mãe respondera. E depois abrira um estranho e amargo sorriso, acendera outro Herbert Tarrytoon com o toco do que acabara de jogar no cinzeiro.)

— Ei, garoto! — o capitão murmurou, sacudindo-o com tanta força que a cabeça frouxa de Jack chegou a bater no pescoço. — Maldito garoto! Se desmaiar aqui...

— Já estou bem — disse Jack. Sua voz parecia vir de muito longe; como a voz de um jogador que perdera no beisebol ecoando distante, no meio de um sonho. — Bem mesmo! Pode me largar, mas deixe eu respirar um instante.

O capitão parou de sacudi-lo, mas fitou-o com apreensão.

— Tudo bem! — Jack repetiu e, abruptamente, deu um tapa bem forte no próprio rosto. — Oh...! — Mas tudo foi entrando de novo perfeitamente em foco.

Ele quase morrera quando era bebê... no apartamento em que moravam naquela época (mal se lembrava dele). No apartamento que a mãe costumava chamar de Palácio do Sonho em Technicolor, devi­do à vista espetacular das colinas de Hollywood que tinham da sala. Ele quase morrera quando era bebê. O pai estava bebendo vinho com Morgan Sloat, e quando se bebe muito vinho as coisas ficam um tanto confusas. Apesar da distância no tempo, ele conseguia lembrar que era fácil ir da sala do Palácio do So­nho em Technicolor para um lavabo, passando pelo quarto que ele ocupava quando era criança de berço.

Via muito bem a coisa: Morgan Sloat se levantando, rindo num tom bem à vontade, fazendo algum comentário tipo agüente a mão que só vou passar um recado, Phil; o pai mal dando conta do que se movia ao seu redor, pois Haystack Calhoun podia estar dando a chave de braço decisiva no infeliz oponente; Morgan se afastando da tela brilhante da TV, atravessando a sala para a cinzenta obscuridade do quarto do bebê (onde o pequeno Jacky Sawyer dormia com seu pijama de bolinhas, quente sob a coberta e con­fortável na secura da fralda). Viu o tio Morgan olhando furtivamente para trás, espreitando uma ponta da sala pelo quadrado da porta, a cabeça calva debruçando-se sobre as grades do berço, os lábios se franzin­do como a superfície friorenta de um lago. Viu o tio Morgan pegar um travesseiro numa cadeira; viu-o aplicar suave mas firmemente o travesseiro contra a cabeça do bebê, apertar o travesseiro com uma das mãos, suspender um pouco as costas do bebê com a outra. Quando toda a seqüência chegou ao fim, viu ainda o tio Morgan pôr de novo o travesseiro na cadeira onde Lily costumava sentar-se para acalentar o fi­lho... Depois, Morgan Sloat foi mesmo urinar no banheiro.

Se a mãe não viesse quase imediatamente ver como ele estava...

Um suor frio percorreu-lhe o corpo inteiro.

Fora desse jeito? Podia ter sido! Seu coração lhe dizia que tinha sido! A coincidência era excessiva­mente perfeita, sem mácula, completa!

Com um mês e meio de idade, o filho de Laura DeLoessian, Rainha dos Territórios, morrera no berço.

Com um mês e meio de idade, o filho de Phil e Lily Sawyer quase morrera no berço... e Morgan Sloat estava por perto.

Sua mãe sempre concluía a história com um gracejo: Phil Sawyer quase destroçara o Chrysler con­tra um poste quando corria para um hospital depois de Jacky ter voltado a respirar.

Muito engraçado, pode crer! Chocante!

 

— Agora vamos! — disse o capitão.

— Tudo bem — disse Jack. Ele ainda se sentia fraco, atordoado. — Tudo bem, vamos em...

— Shhhh!

O capitão olhou assustado em volta... Vozes se aproximavam. A parede da direita não era de ma­deira, mas de uma lona pesada e resistente. Acabava a uns dez centímetros do chão e, pela fenda, Jack viu botas passando do outro lado. Cinco pares. Botas de soldados.

Entre o burburinho, uma voz se destacou:

— Eu não sabia que ele teve um filho.

— Bem — respondeu uma segunda voz —, bastardos engendram bastardos... Um fato que você devia conhecer muito bem, Simon.

Houve um rugido alto e brutal de risos; o tipo de riso que Jack ouvia dos garotos maiores na esco­la, aqueles que brigavam ou faziam bagunça junto aos tapumes do pátio e chamavam a meninada mais nova de nomes misteriosos (e um tanto assustadores): veado, fodido, babaca. Cada um desses termos, um tanto sujos, era seguido por um áspero eco de riso, exatamente como aquele.

— Engulam a língua! Fechem a porra da boca! — disse uma terceira voz. — Se ele os ouvir, serão mandados para um posto de fronteira antes de verem 30 sóis nascerem!

Murmúrios.

Um ronco de riso abafado.

Outra piada, dessa vez ininteligível. Mais risos enquanto cruzavam o outro lado da lona.

Jack olhou para o capitão, que com os lábios repuxados até as gengivas, dentes à mostra, olhava atônito para o encerado. Não havia dúvida de quem estava falando. E assim como eles estavam falando, alguém podia estar ouvindo... Talvez a pessoa errada. Alguém que começasse a ficar curioso sobre quem realmente poderia ser aquele novo bastardo filho do velho bastardo. Mesmo um menino como Jack sabia que havia esse risco.

— Percebeu o perigo? — disse o capitão. — Temos de pôr o pé na estrada!

Talvez tenha tido vontade de sacudir Jack outra vez... Mas não se atreveu a fazê-lo.

Suas instruções, suas ordens, a orientação que recebeu, em suma, são para... hã, IR para oeste, certo?

Ele mudou, Jack pensou. Ele mudou duas vezes.

Uma, quando Jack mostrou o dente de tubarão que fora uma palheta de violão ornada de filigranas no mundo onde o que circulava nas estradas eram caminhões de entrega e não carroças puxadas a cava­los. E mudara de novo quando Jack confirmou que estava indo para o oeste. Passara de uma atitude de ameaça a uma disposição de ajudar... Mas de ajudar a fazer o quê?

Não sei... Não posso lhe dizer como terá de agir.

Agir, fazer alguma coisa com uma dedicação religiosa... ou um religioso terror.

Ele quer sair logo daqui porque tem medo de que sejamos apanhados, Jack pensou. Mas deve haver mais que isso, não é? Ele está com medo de mim. Com medo de...

Vamos — disse o capitão. — Vamos embora, pelo amor de Jasão!

— Pelo amor de quem? — Jack perguntou espantado, mas o capitão já o carregava pelos labirintos do palácio. Puxava Jack com força, quase o arrastava por um corredor que tinha uma parede de madeira de um dos lados e uma lona forte, com cheiro de mofo, do outro.

— Não foi por este caminho que viemos — Jack sussurrou.

— Não é bom passar de novo por aqueles sujeitos que vimos quando entramos — o capitão res­pondeu. — São homens de Morgan. Viu aquele cara alto? Tão esquelético que é quase transparente?

— Sim — Jack recordou o sorriso amarelo e os olhos que não sorriram. Os outros pareciam mais brandos. Mas a expressão do magro era dura. Uma expressão quase enlouquecida. E mais uma coisa: aquele rosto parecia ligeiramente familiar.

— É Osmond — disse o capitão, agora puxando Jack para a direita.

O cheiro de carne assada se tornava cada vez mais forte; ia impregnando todo o ar. Jamais um cheiro de carne lhe dera tamanho apetite. Estava assustado, estava mental e emocionalmente por um fio, talvez já beirasse as raias da loucura... Mas estava com água, muita água na boca.

— Osmond é o braço direito de Morgan — rosnou o capitão. — Ele enxerga longe, rapaz, e não seria nada bom que o visse duas vezes!

— O que poderia acontecer?

— Psssiu!

O capitão puxou com mais força ainda o braço dolorido de Jack. Estavam se aproximando de uma grande cortina que pendia do umbral de uma porta. Para Jack, não passava de uma cortina de chuveiro: a única diferença era a fazenda um pouco mais grossa, com uma textura de rede trançada; além disso, os anéis que a sustentavam eram de marfim, não de plástico ou ferro.

— Agora chore! — o capitão soprou com um hálito quente no ouvido de Jack.

Puxou a cortina e introduziu o garoto numa enorme cozinha impregnada dos mais exuberantes aromas (embora o cheiro de carne assada ainda predominasse). Ondas de vapor subiam por todo canto. Jack viu de relance alguns braseiros, uma grande chaminé de pedra e rostos de mulheres sob grandes len­ços brancos de cabeça que lhe trouxeram à memória toucas de freiras. Algumas se enfileiravam junto a uma comprida tina de ferro apoiada sobre cavaletes, os rostos vermelhos gotejando de suor. Lavavam va­silhas e utensílios de cozinha. Outras encontravam-se junto a um balcão que se estendia por toda a exten­são do aposento, cortando carne, misturando temperos, descascando batatas, preparando bolos. Outra carregava um engradado de ferro cheio de tortas para assar. Todas olharam para Jack e o capitão quando os dois entraram.

— Nunca mais faça isso! — gritou o capitão para Jack, sacudindo-o como um gato sacode um rato e continuando a puxá-lo rapidamente na direção das portas de vaivém na extremidade da cozinha. — Nunca mais faça isso, está me ouvindo?! Da próxima vez que tentar me fazer de bobo, vou lhe tirar o pêlo! Descasco você como uma batata, está entendendo?

E, a meia voz, o capitão sibilou:

— Todas elas vão se lembrar do que viram. Vão dar com a língua nos dentes! Portanto, comece logo a chorar, desgraçado!

E agora, enquanto o capitão com a cicatriz no rosto arrastava-o pela enfumaçada cozinha agarrando-o pela nuca e apertando-lhe um braço já dolorido, Jack deliberadamente evocou a imagem terrível de sua mãe num caixão. Viu-a num vestido branco com pregas de organdi: era o vestido de noiva que usara num de seus filmes, Ao correr das paixões, produzido em 1953 pela RKO. O rosto se tornava cada vez mais nítido na mente de Jack, uma perfeita efígie de cera. Reparou que ela estava usando os pequenos brincos de cruz, aqueles que Jack lhe dera no Natal de dois anos atrás... Então, o rosto se transformou. O queixo ficou mais redondo, o nariz mais reto e nobre. O cabelo se tornou um tanto mais grosso e mais descorado. Agora era Laura DeLoessian quem ele via no caixão. E o próprio caixão não era mais um ataúde anônimo encomendado numa funerária, mas uma urna rudemente talhada das melhores e mais antigas madeiras: um esquife digno dos vikings, se é que eles se preocupavam com essas coisas... era mais fácil imaginar o caixão sendo queimado sobre uma fogueira de troncos do que sendo depositado pelos coveiros na terra fria. Era Laura DeLoessian, Rainha dos Territórios, mas nessa fantasia que se tornara tão clara quanto uma visão, a rainha estava usando o vestido de casamento de Ao correr das paixões, e os brincos de cruz que o tio Tommy o ajudara a comprar no Sharp’s, de Beverly Hills. De repente, as lágrimas come­çaram a brotar num fluxo quente, abrasador — não lágrimas de mentira, mas lágrimas de verdade; não apenas pela mãe, mas por ambas as mulheres que estavam morrendo em universos distintos, que não ti­nham mais salvação, atadas pela mesma corda invisível que podia apodrecer, mas jamais se romperia... pelo menos, até que ambas tivessem morrido.

Através das lágrimas, viu um gigantesco homem de gola franzida atravessar correndo a cozinha na direção deles. Na cabeça, tinha um boné vermelho, em vez de um gorro branco de mestre-cuca, mas Jack percebeu que o propósito era o mesmo: identificar quem havia invadido seus domínios. Brandia na mão um garfo de madeira com três pontas afiadas.

— Saiam já! — ele gritou, e a voz que emergira da enorme caixa torácica era absurdamente estri­dente; a voz de um chefe dando uma ordem feroz a pés-de-chinelo. Mas o garoto nada possuía de absur­do; era pura e simplesmente mortal!

As mulheres se alvoroçaram como pássaros. Algumas tortas caíram do engradado que uma delas transportava. Ela emitiu um grito agudo de desespero quando os petiscos se desmancharam em pedaços nas tábuas do assoalho. Suco de morango escorreu pelo chão: vermelho, fresco e brilhante como sangue arterial.

— Saiam já da minha cozinha, seus safados! Isto não é um pátio de quartel! Isto não é uma espelunca de taberna! Isto é a minha cozinha e se não ficarem bem convencidos disso, podem ter certeza que não vão escapar de uma boa espetadela no traseiro!

Ele apontou o garfo para os dois, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça e semicerrava os olhos, como se, a despeito de toda a explosão, a idéia de ter perdido completamente o controle não lhe parecesse das mais elegantes. O capitão removeu a mão que segurava a nuca de Jack e impeliu-a à frente (quase sem querer, Jack pensou). Um instante depois, o mestre-cuca jazia no chão, o corpo estatelado em toda a extensão dos seus dois metros. O garfo de cortar carne resvalara para uma poça de suco de moran­go com pedaços de massa esbranquiçada e crua. O mestre-cuca guinou de um lado para o outro no assoa­lho, agarrando o punho direito e gritando naquela voz alta e cortante. As palavras que espalhava pela co­zinha eram bastante pessimistas: que estava à morte, que sem dúvida o capitão pretendera matá-lo! O es­tranho sotaque quase teutônico do mestre espalhava-se aos quatro ventos. Oh, estava próximo do último suspiro! O cruel e desalmado Capitão dos Guardas do Exterior destruíra-lhe a mão direita e a própria exis­tência! Sua vida seria miserável pelo resto de seus dias! O capitão lhe causara ferimentos terríveis, dores indescritíveis, dores insuportáveis...!

— Cale a boca!— berrou o capitão, e o mestre-cuca obedeceu. Imediatamente... Continuou estira­do no chão como um enorme bebê, a mão direita enroscada no peito, o boné vermelho caído sobre uma orelha (havia uma pequena pérola negra no centro do lóbulo). As bochechas gordas tremiam. As mulhe­res da cozinha deram risinhos abafados quando o capitão se curvou sobre o temido ogre da enfumaçada caverna onde elas passavam seus dias e noites. Jack, ainda chorando, vislumbrou um rapaz negro (um ra­paz pardo, sua mente corrigiu). Estava numa das portas do braseiro maior. Tinha a boca aberta e a surpre­sa que estampava no rosto lembrava a careta de um comediante. Mantinha, porém, um atiçador na mão; e o pernil suspenso sobre a brasa dos carvões continuava girando.

— Agora, escute bem! Vou lhe dar um conselho que não encontrará no Livro da boa lavoura — disse o capitão.                                                                                      

Curvou-se sobre o mestre-cuca até seus narizes quase se tocarem (a força paralisante com que apertava o braço de Jack — que já começava a ficar irremediavelmente dormente — não se afrouxou um só momento).

— Nunca mais... nunca mais ameace um homem com uma faca... ou um garfo... ou um arpão... ou seja lá qual for o bodoque, a não ser que pretenda realmente matá-lo! É justo esperar que os mestres-cucas sejam temperamentais, mas não se pode admitir que cheguem a ameaçar a integridade física do Capitão dos Guardas do Exterior. Entendeu bem o que eu disse?

O mestre gemeu um resmungo que ainda parecia um tanto desafiante. Jack não compreendeu o que ele disse. O insólito sotaque do homem e a voz pastosa tornaram isso impossível. Mas teve algo a ver com a mãe do capitão e os vira-latas do lado de fora do pavilhão.

— Pode até ser verdade — disse o capitão. — Afinal, eu nunca a conheci. Mas isso não responde à minha pergunta... Entendeu bem o que eu disse?

Cutucou o mestre com a ponta empoeirada e arranhada da bota. Foi um toque bastante suave, mas o mestre berrou como se o capitão o tivesse chutado com toda a força dos pés. As mulheres abafaram de novo algumas risadinhas.

— Compreendeu ou não o problema da relação entre mestres-cucas, armas e capitães? Porque se a coisa ainda não ficou clara, posso perfeitamente dar mais algumas explicações!

— Ficou tudo claro! — o mestre arfou. — Claro! Absolutamente claro! Mais do que...

— Bom. É bom que isso esteja resolvido, porque hoje ainda tenho de dar algumas lições a mais al­guém... — Sacudiu Jack pela nuca. — Não é mesmo, rapaz? — Sacudiu-o de novo e Jack deu um gemido que nada teve de simulado. — Bem... Acho que isso é tudo o que ele tem a dizer. O menino é um perfeito idiota. Puxou à mãe.

O capitão atirou um olhar agudo e cintilante ao redor da cozinha.

— Tenham um bom dia, senhoras. Que as bênçãos da rainha caiam sobre este lugar.

— E também sobre o senhor, capitão — respondeu a mais velha das cozinheiras, inclinando a ca­beça numa cortesia sem graça e sem jeito. As outras repetiram a mesura.

O capitão arrastou Jack para fora da cozinha. Os quadris do menino bateram com uma força brutal na beira da tina de lavar e ele gemeu de novo. Água muito quente jorrava. Gotas enfumaçadas atingiam as bordas e corriam, assobiando, entre elas. Essas mulheres não tiram a mão dessa água, Jack pensou. Como agüentam? Então o capitão, que agora já estava quase levando o garoto no colo, impeliu-o através de uma cortina de estopa que se abriu para um corredor.

— Arre! — disse o capitão em voz baixa. — Não gosto nada do que está acontecendo, isto me cheira mal.

À esquerda, à direita, depois de novo à direita. Jack começou a pressentir que estavam se apro­ximando das paredes externas do pavilhão. Não pôde deixar de se perguntar por que o palácio parecia muito maior por dentro do que por fora. Então o capitão o fez atravessar uma aba de lona e Jack se viu de novo em plena luz do dia. Após a semi-obscuridade do pavilhão, o sol do início da tarde parecia tão brilhante que Jack sentiu as pupilas doerem e teve de fechar os olhos.

O capitão não hesitou. No solo havia lodo amassado, barro. O ar tinha um cheiro de feno, cavalos e estrume. Jack tornou a abrir os olhos e viu que estava atravessando o que parecia ser um estábulo, um curral ou, talvez, apenas um terreiro. Viu uma tenda de aba levantada e ouviu galinhas cacarejando perto dali. Um homem muito magro, trajando apenas um calção encardido e sandálias com tiras de couro, carre­gava feno para uma cocheira, manejando com habilidade um forcado de madeira. Dentro da cocheira, um cavalo pouco maior que um pônei conservava uma atitude de total indiferença.

Já haviam ultrapassado a cocheira quando a mente de Jack foi finalmente capaz de aceitar o que seus olhos viram: o cavalo tinha duas cabeças.

— Ei! — gritou. — Posso dar uma olhada naquela cocheira? Vi...

— Não temos tempo.

— Mas aquele cavalo tinha...

— Não temos tempo, já disse. — O capitão levantou a voz e gritou: — E se eu o pegar vadiando por aí quando há tanto trabalho para ser feito, vou lhe dar uma lição dupla!

— Juro que não faço mais! — Jack gritou (na realidade, achava que a encenação já estava ficando bastante cansativa). — Juro que não! Já disse que vou me portar muito bem!!

Bem à frente deles, altos portões de madeira assomaram num muro tosco, feito de ripas cheias de farpas — era quase como um cercado de curral num velho filme de faroeste (a mãe também fizera alguns deles). Pesadas correntes estendiam-se pelo portão, mas as trancas que essas correntes deviam fixar não estavam no lugar. Tinham sido encostadas contra uma ripa à esquerda dos portões, fortes e grossas como dormentes de estrada de ferro. Havia uma abertura de uns 15 centímetros. Um confuso senso de direção na cabeça de Jack sugeria que tinham circundado completamente o pavilhão e estavam agora num terrei­ro dos fundos.

— Graças a Deus! — disse o capitão num tom mais calmo. — Agora...

— Capitão! — uma voz gritou atrás dele. A voz era baixa, mas o tom não parecia nada tranqüilo. O capitão parou de imediato. A voz chamara no momento exato em que estavam prestes a encostar a mão no portão para tentar abri-lo um pouco mais. Foi como se o dono da voz estivesse vigiando, esperando o momento exato de interferir.

— Talvez fosse bom me apresentar a seu... hã... filho!

O capitão se virou com Jack na direção do homem. No meio do terreiro, parecendo absolutamente deslocado naquele fundo de palácio, postava-se o cortesão esquelético que o capitão tanto temia; Osmond! Fitava-os com olhos sombrios e melancólicos. Jack viu alguma coisa se agitar naqueles olhos, algo profundamente desagradável. Seu medo cresceu de repente, tornou-se afiado, uma lâmina que ameaçava apunhalá-lo. Esse homem está enlouquecido, foi a intuição que saltou espontaneamente em sua mente. Está maluco, inteiramente fora de órbita!

Osmond deu dois passos na direção deles. Trazia na mão esquerda um chicote comprido, de cou­ro cru, usado pelos boiadeiros. Sacudia ligeiramente o cabo estreito sobre o ombro e o pescoço. Mas as correias do chicote pareciam grossas como o corpo de uma cascavel. Perto das pontas, tinha talvez uma dúzia de pequenas ramificações, cada uma de couro cru e trançado... e cada uma com uma rude e brilhante espora de metal.

Osmond apertou o cabo do chicote e os guizos das esporas chocalharam com um ruído seco. Sa­cudiu o cabo e as pontas dos arreios roçaram suavemente sobre a camada de barro que cobria o chão.

— É seu filho? — Osmond repetiu, e deu mais um passo na direção deles.

Jack, então, compreendeu de repente por que aquele homem lhe parecera tão familiar quando o vira pela primeira vez na sala do palácio. No dia em que fora quase seqüestrado... naquele dia... não era ele o sujeito de paletó branco?

Jack achou que podia ser...

 

O capitão fez uma espécie de continência e inclinou a cabeça para a frente. Após um instante de hesitação, Jack fez quase o mesmo.

— É meu filho Lewis! — disse o capitão num tom formal. Sua cabeça continuava um tanto inclina­da, Jack percebeu, e os olhos tentavam se desviar dos olhos do outro. Jack permaneceu também um pou­co curvado, o coração saltando no peito.

— Obrigado, capitão. É um prazer conhecê-lo, Lewis. Que as bênçãos da rainha caiam sobre você.

Quando o homem o tocou com o cabo do chicote, Jack quase gritou. Mas conseguiu sufocar o gri­to e empinar o corpo.

Agora Osmond estava apenas a dois passos de distância. Fitava Jack com a melancolia daqueles olhos loucos. Usava uma jaqueta de couro com botões que pareciam diamantes. A camisa era extravagantemente franzida. Um bracelete cheio de argolas retinia com ostentação no pulso direito (pelo modo como ele segurava o chicote, Jack suspeitou que sua mão esquerda funcionava melhor que a direita). O cabelo estava puxado para trás e amarrado com uma grande fita, que parecia de cetim branco. Dois odo­res o cercavam. O primeiro era o cheiro que sua mãe chamava de “perfume de todos os homens”: loção de barba, água-de-colônia, ou alguma coisa do gênero. O cheiro que envolvia Osmond era denso, vaporizado. Jack lembrou-se de velhos filmes britânicos em preto-e-branco onde algum pobre-coitado era levado a julgamento na Corte de Londres. Os juizes e advogados dessas fitas usavam sempre perucas, e Jack achou que as caixas de onde aquelas perucas saíam deviam cheirar exatamente como Osmond — aroma seco, adocicado, farelento como o farelo da mais velha rosquinha do mundo.

Mas sob esse, porém, havia um cheiro mais fundamental, e ainda menos agradável: um cheiro que parecia pulsar por todo o seu corpo. Era o odor de camadas de suor e de camadas de sujeira, cheiro de um homem que raramente tomava banho, se é que tomava.

Sim! Ali estava uma das criaturas que tentara seqüestrá-lo naquele dia.

Seu estômago deu um nó e se liqüefez.

— Não sabia que tinha um filho, Capitão Farren — disse Osmond.

Embora falasse com o capitão, seus olhos não se afastavam de Jack. Lewis, ele pensou, meu nome é Lewis, não posso esquecer...

Preferia não ter — respondeu o capitão, olhando para Jack com raiva e desprezo. — Dei-lhe a honra de trazê-lo para o grande pavilhão e ele se comportou como um animal. Peguei-o brincando no...

— Sim, sim — disse Osmond, com um sorriso distante.

Ele não está acreditando numa palavra, Jack pensou ansiosamente, sentindo sua mente dar mais um passo trôpego em direção ao pânico. Numa só palavra!

Crianças são assim mesmo. Não há garoto que não seja levado. É inevitável!

Deu uma pancadinha no punho de Jack com o cabo do chicote. Jack, os nervos à flor da pele, não se conteve e gritou... Ficou imediatamente vermelho de vergonha. Osmond deu uma risada.

— Levados, oh, sim, é inevitável! Todos os garotos são levados! Eu também fui; e aposto que você também, Capitão Farren. É ou não é? Vai dizer que não fazia as suas travessuras?

— Fazia, Osmond — disse o capitão.

— Muitas travessuras? — Osmond perguntou. Insolitamente, ele começara a saltitar no barro. Con­tudo, nada havia de muito estranho nisso. Osmond era quase gracioso e delicado, mas Jack não percebia nele qualquer verdadeira homossexualidade; a enfática afetação que lhe rodeava as palavras nada parecia indicar. Não, o que despontava mais claramente era o impulso maligno... e a loucura. — Muitas travessu­ras? Travessuras terríveis?

Sim, Osmond — o Capitão Farren respondeu secamente. A cicatriz brilhava na luz da tarde, ago­ra mais vermelha que rosada.

Osmond cessou sua pequena e improvisada dança tão bruscamente quanto a iniciara. Atirou um olhar frio ao capitão.

— Ninguém sabia que tinha um filho.

— É ilegítimo — disse o capitão. — E é muito simplório. Agora, ainda por cima, revelou-se um pre­guiçoso.

Farren girou de repente e deu uma bofetada em Jack. Não houve muita força no golpe, mas a mão do capitão era pesada como tijolo. Jack gritou e caiu no barro, machucando a orelha.

— Muitas travessuras, travessuras terríveis — disse Osmond, mas agora seu rosto assumira um as­pecto terrivelmente pálido, embaçado, dissimulado. — Levante-se, mau menino! Meninos levados que desobedecem aos pais devem ser castigados! E, além disso, devem ser interrogados para explicar direitinho o que fizeram...

Osmond deu um estalo com o chicote. Um ruído seco. A mente oscilante de Jack estabeleceu outra estranha ligação, uma ligação com alguma coisa que se passara em seu lar. O som do chicote de Osmond era como o estalo da espingarda de ar comprimido que o pai lhe dera quando ele fez oito anos. Ele e Ri­chard Sloat tinham espingardas iguais.

Osmond estendeu a mão e agarrou o braço enlameado de Jack. A mão era branca e parecia uma garra. Puxou Jack para perto de si, para aqueles cheiros: farelo de rosquinha velha e sujeira rançosa. Os misteriosos olhos castanhos espreitaram solenemente dentro dos olhos azuis do garoto. Jack sentiu a bexiga ficar mais pesada; teve de lutar para não molhar as calças.

— Quem é você? — Osmond perguntou.

 

A palavras ficaram pairando no ar entre os três.

Jack estava consciente do capitão olhando para ele com uma expressão severa, mas que não con­seguia disfarçar inteiramente seu desespero. Ouviu galinhas cacarejando, um cachorro latindo, o barulho de uma grande carroça se aproximando.

Conte-me a verdade; sei que está mentindo, dizia o olhar de Osmond. Você é muito parecido com um certo menino mau que encontrei na Califórnia... É ou não ê o mesmo garoto?

E por um instante tudo tremeu nos lábios de Jack:

Sim, meu nome é Jack, Jack Sawyer. Sou o mesmo garoto da Califórnia, a rainha deste mundo era minha mãe, só que eu morri... Conheço seu patrão, conheço Morgan — tio Morgan — e vou lhe dizer tudo o que quiser saber separar de me olhar com esses olhos monstruosos. Vou falar porque sou apenas um me­nino; e é isso que os meninos fazem. Eles contam, eles contam tudo...

Então ouviu a voz de sua mãe, dura, quase num tom de zombaria:

Vai dar o serviço a este sujeito, Jack? Logo a este sujeito? Ele tem cheiro de um balcão de águas-de-colônia em liquidação e parece uma versão medieval de Charles Manson... Mas faça o que qui­ser! Pode muito bem enganá-lo, quanto a isso não há dúvida. Mas faça o que bem entender!

— Quem é você? — Osmond perguntou de novo, chegando mais perto. Jack viu em seu rosto uma segurança absoluta. Por certo estava acostumado a arrancar as respostas que queria de todas as pessoas, não apenas de meninos de 12 anos.

Tremendo, Jack respirou profundamente (Se você deseja o máximo volume, se quer que sua voz seja ouvida na última fila do teatro, tem de trabalhar o diafragma, Jacky. Tem de saber puxar todo o ar pela caixa torácica.) e gritou:

— Eu estava voltando pra casa! Juro por Deus!

Osmond, que se inclinara ainda mais esperando um sussurro engasgado e sem energia, recuou como se o menino tivesse levantado o braço para esbofeteá-lo. No susto, pisou nas pontas das correias do chicote; por pouco não se enroscou nelas.

— Você, seu garoto infernal...

— Eu estava voltando! Por favor, não me bata com o chicote, Osmond! Eu estava voltando! nunca quis vir aqui! Nunca, nunca, nunca...!

O Capitão Farren investiu contra Jack e derrubou-o no chão. Jack se esparramou em cheio na lama, sempre gritando.

— É um idiota, está vendo? — ele ouviu o capitão dizer. — Peço que me desculpe, Osmond. Pode ter certeza de que saberei dar uma surra exemplar nesse garoto, uma surra da qual ele nunca vai esque­cer. Esse guri...

— Mas, afinal, o que ele estava fazendo aqui? — Osmond guinchou. Foi a voz alta e estridente de uma vendedora de peixe. — O que veio fazer aqui esse bastardo do inferno? Sei perfeitamente bem que ele não tinha autorização para vir ao pavilhão! Sei perfeitamente bem! Você o introduziu no palácio para deixá-lo pegar algumas migalhas da mesa da rainha, hã? E quem sabe ele não resolveu roubar a prata da rainha, o que me diz disso? É um menino mau. Basta olhá-lo para descobrir de imediato que é intoleravelmente, insuportavelmente mau!

O chicote estalou de novo, não com o pipocar suave de uma espingarda de ar comprimido, mas com o estouro forte de um 22. Jack teve tempo para pensar. Eu sei o que vai acontecer... E então uma correia febril atingiu-o por trás, A dor pareceu lhe abrasar o corpo inteiro, uma dor que, em vez de diminuir, aumentava. Uma dor de enlouquecer. Gritou e se contorceu na lama.

— Mau! Extremamente mau! Intoleravelmente mau!

E cada “mau” era pontuado por um novo estalar do chicote, uma nova correada, um novo grito de Jack. Suas costas ardiam. Ele não sabia mais por quanto tempo poderia suportar aquilo. A raiva de Osmond se tornava mais frenética a cada golpe.

Foi então que uma voz desconhecida gritou:

— Osmond! Osmond! Finalmente o encontrei! Graças a Deus!!

Uma agitação de passos correndo.

A voz de Osmond, furiosa e ligeiramente sem fôlego, perguntou:

— Bem! E daí? O que houve?

A mão do capitão agarrou o cotovelo de Jack e ajudou-o a se levantar. Quando o menino cambaleou, o braço ligado à mão agarrou-o pela cintura para não deixar que ele caísse. Era difícil acreditar que o Ca­pitão Farren, tão duro e áspero durante o giro atordoante pelo pavilhão, soubesse se comportar de manei­ra tão gentil.

Jack oscilava. O mundo continuava saindo um pouco de foco. Filetes de sangue quente escor­riam pelas suas costas. Ele fitava Osmond com um ódio cada vez maior. E era bom sentir aquele ódio! Servia como antídoto para o medo e a confusão.

Você teve coragem... Você me bateu, me cortou com a correia! Mas, escute aqui, seu safado, na pri­meira oportunidade que eu tiver, vou lhe dar o troco. Pode esperar!

— Você está bem? — o capitão cochichou.

— Estou.

— O que houve? — Osmond gritou para os dois homens que tinham interrompido a sessão de chicotadas.

O primeiro era um dos dândis que Jack e o capitão tinham visto ao se dirigirem para a galeria se­creta. O outro lembrava um pouco o carroceiro que o menino encontrara quase imediatamente após sua reentrada nos Territórios. O homem parecia extremamente assustado e estava ferido: o sangue que escor­ria de um corte no lado esquerdo da cabeça cobria boa parte do rosto dele. O braço esquerdo estava arranhado, o gibão rasgado.

— O que aconteceu com você, imbecil?

— Minha carroça virou numa curva... na entrada da Aldeia de All-Hands — respondeu o carrocei­ro. Falava no tom vagaroso, atordoado, de alguém sob profunda comoção. — E eu tinha apanhado meu filho em casa, senhor... Ele ficou esmagado sob os barris. Fez 16 anos no Dia da Lavoura de maio passado. A mãe dele...

— O quê — Osmond gritou de novo. — Barris? Cerveja? Não foi da Kingsland, foi? Ou está mesmo querendo dizer que derrubou uma carroça cheia de Cerveja Kingsland, seu estúpido filho de uma puta? É isso que veio me contar, seeeeeuuuuuuu...

A voz de Osmond cresceu na última palavra como o tom de um homem imitando uma diva da ópera. A voz tremeu, gorjeou. Ao mesmo tempo, ele começou de novo a dançar... Mas dessa vez era de raiva. A atitude foi tão insólita que Jack teve de levantar as duas mãos para esconder um riso involuntário. O movimento de Osmond começou a descoser-lhe as pregas da camisa e isto fez com que se acalmasse antes mesmo que o capitão murmurasse uma palavra de advertência.

Pacientemente, como se Osmond tivesse esquecido do único fato que tinha realmente importância (é o que ele deve ter achado), o carroceiro começou de novo:

— Ele tinha feito 16 anos no Dia da Lavoura de maio passado. Minha mulher não queria deixar que ele viesse comigo. Não sei como...

Osmond ergueu o chicote e brandiu-o com uma força inesperada e cega. O couro cru e as esporas de metal atingiram o lodo. Depois o chicote subiu outra vez e estalou, não como o som de um 22, mas como a espoleta de um revólver de brinquedo. O carroceiro se desequilibrou, berrando, as mãos prote­gendo o rosto. Sangue recente escorreu-lhe por entre os dedos encardidos. Caiu no chão, gritando, gargarejando num tom abafado:

— Meu senhor! Meu senhor! Meu senhor!

Jack gemeu:

— Vamos sair daqui. Rápido...

— Espere! — disse o capitão. O ar severo de seu rosto parecia ter afrouxado um pouco. Era como se a esperança tivesse renascido em seus olhos.

Osmond rodopiou para o dândi que recuara um passo, abrindo uma boca muito vermelha.

— Era mesmo a Kingsland? — Osmond ofegou.

— Osmond, você não devia ficar tão...

Osmond levantou rapidamente o braço esquerdo; dessa vez as esporas de metal das correias do chicote atingiram as botas do cortesão. Ele recuou mais um passo.

— Não me diga o que devo ou não devo fazer — gritou Osmond. — Limite-se a responder àquilo que lhe for perguntado. Estou amargurado, Stephen, estou insuportavelmente, intoleravelmente amargu­rado. Era mesmo a Kingsland?

— Sim — Stephen respondeu. — Lamento dizer isso, mas...

— Foi na Estrada do Posto de Fronteira?

— Osmond...

— Na Estrada do Posto de Fronteira, seu filho de uma égua?

— Sim — Stephen respondeu engolindo em seco.

— É claro — disse Osmond, e em seu rosto esquelético se abriu um hediondo sorriso branco. -Afinal, a Aldeia de All-Hands fica na Estrada do Posto de Fronteira. Uma aldeia não pode voar, não é, Stephen? Uma aldeia não pode passar de uma estrada para outra, não é, Stephen? É verdade ou não?

— É verdade, Osmond, é claro que não pode.

— Não pode. Portanto, há barris espalhados por toda a Estrada do Posto de Fronteira, certo? Seria correto presumir que a estrada está bloqueada por barris e uma carroça virada? E que a melhor cerveja dos Territórios está encharcando o chão para prazer e glória das minhocas? É correto isso?

— Sim... sim. Mas...

— Morgan está chegando pela Estrada do Posto de Fronteira!— Osmond gritou. — Morgan está chegando e você sabe como ele guia seus cavalos! Se a diligência der com todos esses trastes depois de uma curva, o cocheiro poderá não ter tempo de parar! A diligência poderá virar! Ele poderá morrer!

Deus nos livre! — Stephen exclamou com uma rapidez de matraca. A palidez de seu rosto ficou duas vezes maior.

Osmond balançou lentamente a cabeça.

— Acho que se a diligência de Morgan virar, é preferível rezar para ele morrer a rezar para ele ficar bom. Ai de nós!

— Mas... Mas...

Osmond se afastou de Stephen e quase correu para onde estavam o Capitão dos Guardas do Exte­rior e seu “filho”. Atrás de Osmond, o infeliz carroceiro ainda se contorcia na lama, balbuciando clemên­cia ao seu senhor.

Os olhos de Osmond tocaram os de Jack e depois se dirigiram para longe, como se o menino não mais estivesse ali.

— Capitão Farren — disse ele. — Prestou atenção aos eventos dos últimos cinco minutos?

— Sim, Osmond.

— Prestou bastante atenção? Conseguiu verdadeiramente captá-los? Conseguiu absorvê-los minuciosamente?

— Sim, acho que sim.

— Acha que sim? Que excelente capitão é você! Ainda teremos oportunidade de analisar como um capitão tão excepcional foi capaz de engendrar um filho digno de um testículo de rã!

Seus olhos resvalaram brevemente, friamente, pelo rosto de Jack.

— Mas agora não temos tempo pra conversa fiada, não é?... Claro que não! Sugiro que convoque uma dúzia de seus melhores homens e que os coloque em marcha acelerada... não, em marcha dupla­mente reforçada para a Estrada do Posto de Fronteira. Aposto que será capaz de concentrar toda a sua atenção no ponto onde aconteceu o acidente, certo, capitão?

— Certo, Osmond.

Osmond olhou rapidamente para o céu.

— Morgan deve chegar às seis horas... Talvez um pouco antes. Agora são duas... aposto que são duas horas. O que acha, capitão?

— Acho que são duas.

— E o que você acha, seu pedacinho de merda? Seriam 13? Vinte e três horas? Oitenta e uma horas?

Jack abriu a boca de espanto. Osmond fez uma careta de desdém e Jack sentiu a maré de sua raiva se erguer outra vez.

Melhor ficar de boca fechada. Se eu der um pretexto...

Osmond olhou de novo para o capitão.

— Sugiro que até as cinco horas se esforce ao máximo para salvar o maior número possível de bar­ris. Depois das cinco, sugiro que limpe a estrada com rapidez e presteza absolutas. Está claro?

— Está claro, Osmond.

— Mexa-se, então!

Farren levou o punho à testa e completou a continência inclinando a cabeça. Ofegando intensa­mente, com a raiva que sentia de Osmond pulsando nos miolos, Jack fez o mesmo. Mas Osmond virara as costas antes que as saudações fossem sequer esboçadas. Afastava-se em passo largo para o carroceiro, bramindo o chicote, provocando aquele estalo de espingarda de ar comprimido.

O carroceiro viu Osmond se aproximar e começou a gritar.

— Vamos sair daqui — disse o capitão, puxando o braço de Jack pela última vez. — Você não vai gostar de ver isso.

— Não — Jack concordou. — Por Deus que não!

Mas quando o Capitão Farren abriu o lado direito do portão e enfim conseguiu sair com o menino do terreiro, Jack ouviu os gritos (e os ouviria nos sonhos daquela noite): correias num assobio incessante e cada assobio seguido por um guincho do infeliz carroceiro.

Havia também um ruído que vinha de Osmond. Osmond resfolegava, perdia o fôlego, mas era difícil, sem se virar para lhe ver o rosto (coisa que Jack não queria fazer), dizer exatamente o que era aquele som.

Mas, ainda assim, Jack teve certeza quase absoluta de que não estava enganado.

Osmond estava rindo.

 

Tinham atingido a área pública que rodeava o pavilhão. Os passantes olhavam o Capitão Farren com o canto dos olhos... e mantinham-se à distância. O capitão caminhava com rapidez, o rosto contraído, carregado de sombrias reflexões. Jack tinha quase de correr para lhe acompanhar o passo.

— Tivemos muita sorte — disse de repente o Capitão Farren. — Realmente muita sorte! Cheguei a pensar que ele ia matá-lo.

Jack arregalou uma boca seca e quente.

— Ele é maluco, você sabe. Maluco como aquele homem que vem atrás de nós.

Jack não entendeu de imediato o que Farren queria dizer, mas concordava que Osmond era maluco.

— Por que...?

— Espere! — disse o capitão. Tinham chegado à porta da pequena tenda onde Farren interrogara Jack após ver em sua mão o dente do tubarão. — Fique aqui e espere por mim. Não fale com ninguém, está entendendo?

O capitão entrou na tenda. Jack ficou vigiando e esperando. Um malabarista passou diante dele, olhando-o de relance mas sem perder o ritmo com que formava um complexo padrão aéreo com meia dúzia de bolas. Atrás dele, como o bando que seguiu o Flautista de Hamelin, vinha um grupo de crianças sujas. Uma jovem, com um bebê encardido sugando um seio enorme, disse que poderia ensinar algumas coisas interessantes a Jack em troca de uma ou duas moedas. Jack se sentiu constrangido, e seu rosto foi ficando vermelho.

A moça soltou um riso de cacarejo.

— Ho-ho-ho! Como este jovenzinho é tímido! Venha até aqui, benzinho! Venha...

— Saia daqui, sua vagabunda, ou vai terminar o dia no calabouço!

Era o capitão. Saíra da tenda acompanhado de outro homem. O sujeito era velho e gordo, mas compartilhava uma das características de Farren: parecia um soldado de verdade, não um personagem do Recruta Zero. Tentava abotoar a frente do uniforme sobre a barriga saliente e segurava uma trompa curva (era um belo instrumento).

A jovem com o bebê encardido zarpou sem olhar uma segunda vez para Jack. O capitão segurou a trompa do homem gordo para que ele pudesse acabar de se abotoar e cochichou-lhe alguma coisa. O gordo assentiu com a cabeça, prendeu o último botão, pegou a trompa, deu um passo à frente e soprou-a. Não se parecia com o som de cometa que Jack ouvira na sua primeira incursão pelos Territórios. Daquela primeira vez, além de serem muitas cometas, o som era bem mais pomposo: um som de arautos. Aquilo lembrava apenas um apito de fábrica, anunciando o início do trabalho.

O capitão virou-se para Jack.

— Venha comigo — disse ele.

— Para onde?

— Para a Estrada do Posto de Fronteira — disse Farren atirando um olhar pensativo, quase temero­so, a Jack Sawyer. — A estrada que o pai de meu pai chamava Caminho do Oeste. Corre para o oriente através de aldeias cada vez menores até alcançar as Fronteiras. E continua além delas, rapaz! Ninguém sabe para onde... Se quer mesmo ir para oeste, que Deus o acompanhe! Embora se diga que nem mesmo Ele se aventura a cruzar as Fronteiras. Venha!

Perguntas se amontoavam na cabeça de Jack — milhões de perguntas —, mas o capitão andava num passo veloz, e o garoto não tinha fôlego para perguntar nada. Subiram uma elevação ao sul do gran­de pavilhão e Jack passou pelo lugar onde “saltara” pela primeira vez para os Territórios. A feira rústica es­tava agora bem próxima. Jack podia ouvir um homem convidando os passantes a tentar a sorte numa bar­ra de equilíbrio: quem ficasse dois minutos sem cair ganharia um belo prêmio, garantia ele. A brisa do mar conduzia com absoluta perfeição não apenas as nuances de sua voz, como também um cheiro de comida de dar água na boca: era espiga de milho e carne assada. O estômago de Jack roncava. Agora, a uma dis­tância segura de Osmond (o Grande e Terrível), sentia-se faminto.

Mas antes de atingirem a feira, os dois viraram à direita numa estrada muito maior do que aquela que levava ao grande pavilhão. Era a Estrada do Posto de Fronteira, Jack pensou. E então, com um ligeiro calafrio de medo e ansiedade lhe cruzando a barriga, ele se corrigiu: Mo... é a Estrada do Oeste. O cami­nho para o talismã.

Logo estava correndo atrás do Capitão Farren.

 

Osmond tinha razão: era preciso tomar algumas providências. Estavam ainda a um quilômetro e meio da aldeia com aquele nome estranho quando o primeiro aroma ácido de cerveja penetrou em seus narizes.

Na estrada havia um pesado tráfego no sentido leste. Em geral, de carroças puxadas por parelhas de cavalos com crinas enormes (mas nenhum com duas cabeças). As carroças, Jack supôs, eram os Mercedes, Fords e Chevrolets daquele mundo. Algumas vinham apinhadas de sacos, fardos, pacotes; outras de carne crua; outras ainda de barulhentos engradados de galinhas. Nos arredores da Aldeia de All-Hands, uma carreta cheia de mulheres passou por eles numa velocidade alarmante. As mulheres davam gritinhos e riam. Apesar da pressa, Jack observou que uma delas levantou a saia até o alto das pernas e deu uma gingada obscena. Teria caído do carro e mergulhado numa vala (provavelmente quebrando o pescoço) se uma das colegas não a tivesse puxado pelo vestido com força para o meio do veículo.

Jack ficou de novo vermelho. Lembrou-se da moça de grandes seios brancos, os mamilos avida­mente sugados por um bebê encardido: Ho-ho-ho! Como este jovenzinho é TÍMIDO!

— Deus do céu! — Farren murmurou, acelerando ainda mais o passo. — Todas elas estão bêbadas! Embriagadas com Kingsland! As putas e o condutor do carro! Todos bêbados! O carro é capaz de se arrebentar numa curva da estrada ou perder a direção num penhasco e mergulhar no mar. Se bem que não será uma grande perda... Vagabundas infectas!

— Pelo menos — falou Jack com voz ofegante — a estrada não deve estar assim tão obstruída, se todo este tráfego consegue circular. Não acha?

Estavam agora na Aldeia de All-Hands. Ali, a larga Estrada do Oeste fora pavimentada com casca­lho e havia menos poeira. Carroças iam e vinham, grupos de pessoas passavam de uma margem à outra, todos falando muito alto. Jack viu dois homens discutindo do lado de fora do que parecia ser um restau­rante. Subitamente, um deles deu um soco no outro. Logo depois, ambos rolavam engalfinhados no chão. Não foram só aquelas putas que beberam a Kingsland, Jack pensou. Acho que todo mundo da aldeia tomou o seu gole.

Mas ainda não vimos nenhuma carroça grande vindo de lá — disse o Capitão Farren. — É claro que os carros pequenos devem poder atravessar, mas a diligência de Morgan não tem nada de pequena, rapaz!

— Morgan...

— Bem, esqueça Morgan! Vamos em frente!

O cheiro da cerveja ia se tornando mais forte à medida que atravessavam o centro da aldeia. As pernas de Jack estavam doloridas pela força que faziam para acompanhar o passo do capitão. Ele calculou que já tivessem andado uns cinco quilômetros. A que distância aquilo corresponderia em seu mundo?, Jack se perguntou, e o pensamento fez com que se lembrasse do suco mágico de Speedy. Revirou freneticamente o gibão, convencido de que a garrafa não estaria mais lá — mas estava, estava guardada em se­gurança no interior daquela roupa que vira em seu corpo ao entrar nos Territórios.

Quando alcançaram o outro lado da aldeia, o lado oeste, o tráfego de carroças diminuiu, mas o flu­xo de pedestres se dirigindo para o leste aumentou extraordinariamente. A maioria deles ia cambaleando, esbarrando, rindo. Todos cheiravam a cerveja. As roupas de alguns gotejavam, como se tivessem mergu­lhado de cabeça nas poças da Kingsland e bebido como cães... era a única coisa que Jack podia supor. Um homem sorridente carregava pela mão um menino também sorridente de uns oito anos. O sujeito se parecia tremendamente com o abominável empregado da portaria do Alhambra, e Jack intuiu, com abso­luta clareza, que aquele era o Duplo do homem do hotel. Tanto ele quanto o menino estavam bêbados, e quando Jack virou a cabeça para olhá-los mais uma vez, o guri tinha começado a vomitar. O pai (Jack su­punha que fosse o pai) sacudiu-o com força pelos braços quando o garoto começou a tropeçar para o mato da beira da estrada — onde poderia continuar vomitando em relativa privacidade. A criança se debateu nas mãos do pai como um vira-lata preso numa correia curta, esparramando vômito num senhor idoso que caíra na margem da estrada e ali se deixara ficar.

O rosto do Capitão Farren se tornava cada vez mais sombrio.

— Que vão todos para o diabo! — disse.

Mesmo os mais embriagados conservavam-se bem longe do capitão. Já nas imediações do pavi­lhão, Jack observara que Farren trazia na cintura uma pequena e prática bainha de couro. E presumia (com muita lógica) que ali dentro devia haver uma pequena e prática espada. Quando algum beberrão se aproximava demais, Farren encostava a mão na espada e o sujeito se afastava com absoluta presteza.

Dez minutos depois — quando Jack começava a suspeitar que não ia mais conseguir acompanhar o passo do capitão — chegaram ao local do acidente. O carroceiro vinha fazendo uma curva fechada quando a carroça perdeu o equilíbrio e virou. Como resultado, havia barris espalhados por toda a estrada. Muitos estavam destroçados, e tudo, no raio de uns sete metros, se transformara num lamaçal. Um dos ca­valos morrera sob a carroça, só a garupa era visível. Outro jazia na sarjeta, a cabeça esmagada por uma trave de barril. Jack não achava que aquilo tivesse acontecido por acaso. Na certa o animal estava sofrendo muito e alguém lhe dera um fim misericordioso com o instrumento que encontrou mais à mão. Se havia outra parelha de cavalos, sem dúvida desaparecera por completo.

Entre o cavalo sob a carroça e o da sarjeta estendia-se o corpo do filho do carroceiro, braços e per­nas abertos no meio da estrada. Metade de seu rosto arregalava um olho para o brilhante azul do céu dos Territórios — numa expressão de estúpido assombro. No lugar da outra metade só restara uma polpa avermelhada e lascas brancas de osso saltando como pedaços de estuque.

Jack reparou que tinham revirado os bolsos do rapaz.

Vagando pela cena do acidente havia talvez uma dúzia de pessoas. Caminhavam devagar, às vezes se curvando com uma vasilha nas mãos para tirar cerveja de um barril, às vezes achando um lenço ou um pano qualquer sob a pata de um cavalo ou numa poça. A maioria cambaleava. Vozes se erguiam rindo ou em gritos de altercação. Após boa dose de insistência, a mãe de Jack o deixara ir junto com Richard a uma sessão noturna de um dos pequenos cinemas de Westwood. Era uma sessão dupla: A noite dos mortos-vi­vos e Alvorada dos mortos. Aquela gente embriagada arrastando os pés lhe trouxe à memória os zumbis daqueles dois filmes.

O Capitão Farren puxou a espada. Era curta e prática como Jack imaginara, a própria antítese de uma espada de cinema. Lembrava pouco mais que uma faca comprida de açougueiro: pontuda, lascada e arranhada, o cabo revestido de couro velho, cheio de manchas de suor. A própria lâmina estava suja... Com exceção, é claro, do gume. O gume, sim! Parecia brilhante, afiado e muito cortante!

— Fiquem longe daqui! — Farren gritou. — Fiquem longe da cerveja da rainha! Filhos do inferno! Levem a pança de vocês pra casa! Vão embora!

Rosnados de insatisfação foram ouvidos, mas todos obedeceram à ordem do Capitão Farren... To­dos, exceto um homem enorme com pequenos tufos de cabelo crescendo nos pontos mais díspares de uma cabeça quase calva. Jack estimou-lhe o peso em 150 quilos e a altura em mais de dois metros.

— É desse jeito que trata as pessoas, soldado? — o peso-pesado perguntou e fez sinal para que os aldeões (que já iam se afastando do pântano de cerveja e dos barris) parassem onde estavam.        

— É desse jeito! — Farren respondeu arreganhando os dentes para o gigante. — É assim que de- vem ser tratados! Eles e você, sua poça embriagada de merda.

Os dentes de Farren se tornaram mais afiados. Primeiro o homem hesitou, mas depois virou as cos­tas e foi embora.

— Tente alguma coisa, se tiver coragem! — provocou o capitão. — Enfiar minha espada nessa bar­riga seria a primeira coisa interessante que eu faria desde a hora que acordei.

Resmungando, de ombros caídos, o gigante bêbado foi se distanciando.

— Agora, escutem todos vocês! — Farren gritou. — Voltem pra casa! Um batalhão dos meus homens está vindo do pavilhão da rainha. Não ficarão nada satisfeitos se os encontrarem perambulando por aqui e não poderei censurá-los pelo que venham a fazer. Acho que ainda têm tempo de voltar para a aldeia e se esconder em seus porões! Seria muito prudente fazerem o que estou mandando! Afastem-se deste lugar!

Todos já se dirigiam num fluxo compacto para a aldeia de All-Hands, o homem corpulento que de­safiara o capitão na frente da coluna. Farren resmungou alguma coisa e virou-se para a cena do acidente. Tirou sua jaqueta e cobriu o rosto do filho do carroceiro.

— Gostaria muito de saber se reviraram os bolsos do rapaz quando ele já estava morto ou se nem esperaram o fim da agonia — disse Farren num tom meditativo. — Se descobrisse que alguém tentou roubá-lo quando ainda estava agonizante, não pensaria duas vezes para pendurá-lo numa cruz antes do anoitecer.

Jack ficou em silêncio.

O capitão continuou olhando um bom tempo para o corpo do rapaz, coçando com uma das mãos a carne macia, enrugada, da cicatriz do rosto. Quando se virou para Jack, era como se tivesse acabado de voltar a si.

— Agora tem de continuar sozinho, rapaz! Agora mesmo! Antes que Osmond decida investigar mais a fundo o idiota do meu filho.

— Vai haver algum problema para o senhor? — perguntou Jack.

O capitão sorriu ligeiramente:

— Se me deixar agora, não haverá problemas. Posso dizer que o mandei de volta para sua mãe. Ou que fiquei tão louco de raiva que o espanquei com um pedaço de pau e você morreu. Osmond acreditaria em qualquer coisa desse tipo. Ele não está com a cabeça no lugar. Nenhum deles. Estão esperando a mor­te da rainha... O que, aliás, acontecerá em breve... a não ser que...

Ele não concluiu.

— Agora vá — disse Farren. — Já está mais que na hora. E quando ouvir a diligência de Morgan se aproximando, saia da estrada e se esconda nos bosques. Fique bem escondido. Ou ele sentirá seu cheiro como um gato sente o cheiro de um rato. Morgan tem a capacidade de pressentir instantaneamente se al­guma coisa está fora de ordem. Da ordem dele, é claro! É um verdadeiro demônio!

— Vou ouvi-lo chegar? Vou ouvir a diligência? — Jack perguntou timidamente. Contemplou a es­trada que se estendia além da barafunda dos barris. A trilha se elevava e mergulhava numa floresta de pi­nheiros. Seria bem escuro naquele bosque, ele pensou... e Morgan estaria chegando pelo outro lado. Medo e solidão se combinaram na mais intensa, na mais desencorajadora onda de tristeza que ele já senti­ra. Speedy, eu não vou conseguir! Será que você não percebe? Sou apenas uma criança!

A diligência de Morgan é puxada por seis pares de cavalos e um 13° animal no comando — dis­se Farren. — A pleno galope, esse carro do inferno faz um barulho de trovão rolando pela terra. Você vai escutá-lo à distância, não tenha dúvida! E vai ter bastante tempo para se esconder. Cuide-se bem!

Jack murmurou alguma coisa.

— O quê?! — Farren perguntou num tom agudo.

— Estou dizendo que não quero ir — disse Jack, num fio de voz apenas um pouco mais alto. As lá­grimas estavam próximas e ele sabia que, assim que começassem a cair, a coragem que lhe restava iria por água abaixo; descontrolado, pediria ao Capitão Farren para ajudá-lo a sair daquela enrascada, para prote­gê-lo, para fazer alguma coisa...

— É tarde demais para desistir, garoto! — disse Farren. — Não conheço bem sua história, nem quero conhecer. Não quero sequer saber seu nome!

Jack continuou parado, fitando o oficial, os ombros caídos, os olhos ardendo, um tremor nos lábios.

— Empine a cabeça, vamos! — Farren ordenou com súbita ferocidade. — Está ou não disposto a salvar quem precisa salvar? Mal pisou na Estrada do Oeste e já está deste jeito! Sem dúvida você é novo demais para ser um homem, mas pode pelo menos fingir. Está parecendo um vira-lata que levou um chute!

Ferido no seu orgulho, Jack aprumou os ombros e conteve as lágrimas. Seus olhos caíram no cor­po do filho do carroceiro. Pelo menos, ele pensou, ainda estou inteiro... Por enquanto... Mas o capitão tem razão! Não posso me dar ao luxo de ter pena de mim mesmo! Era verdade. Apesar disso, não pôde deixar de sentir uma certa raiva daquele soldado de cicatriz no rosto que, com tanta facilidade, soubera atingir todos os seus pontos fracos.

— Assim está melhor — disse Farren num tom seco. — Não muito, mas um pouco melhor.

— Obrigado — Jack respondeu sarcasticamente.

— Não adianta chorar, garoto! Osmond está atrás de você! Morgan chegará em breve e também es­tará atrás de você! E talvez... talvez também tenha de enfrentar problemas graves no lugar de onde veio... Mas ouça o que eu digo. Se Parkus o mandou falar comigo, é porque queria que eu lhe desse isto aqui... Pegue e ponha os pés no caminho.

Farren estava segurando uma moeda. Jack hesitou, mas acabou pegando. Era do tamanho de uma moeda de 50 centavos de dólar, mas muito mais pesada — como se fosse de ouro, embora tivesse toda a aparência de prata escura. À moeda estampava o perfil de Laura DeLoessian. No primeiro instante, Jack tomou a ficar extremamente impressionado com a semelhança entre a rainha e sua mãe. Não, não se tra­tava apenas de semelhança... Apesar de certas diferenças físicas (como o nariz mais fino e o queixo mais redondo), ela era sua mãe! Jack sentia isso! Virou a moeda e viu um animal com cabeça e asas de águia e corpo de leão. Parecia estar olhando para ele. Isto o deixou um pouco nervoso e ele guardou a moeda no gibão, ao lado da garrafa do suco mágico de Speedy.

— Para que serve a moeda? — perguntou ao capitão.

— Você saberá quando chegar a hora — Farren respondeu. — Ou talvez nem precise dela... De um modo ou de outro, cumpri meu dever. Diga isso ao Parkus quando estiver com ele.

Jack sentiu uma estranha sensação de irrealidade envolvê-lo de novo.

— Vá agora, filho! — disse Farren. Seu tom de voz foi mais baixo, porém não necessariamente mais gentil. — Faça o que tem a fazer... Ou pelo menos faça o máximo que puder.

Em última instância, foi essa sensação de irrealidade (o vago sentimento de ser apenas um frag­mento de alucinação de alguma outra pessoa) que pôs Jack Sawyer em movimento. Pé esquerdo, pé direi­to, corpo empinado, cabeça em pé! Chutou uma ripa de barril de cerveja, saltou sobre as lascas de uma roda quebrada, rodeou a ponta da carroça sem se deixar impressionar pelas poças de sangue ou pelos enxames de moscas. Afinal, que importância tinham enxames de moscas ou poças de sangue num sonho?

Ultrapassou o trecho mais lamacento da estrada, o atoleiro de cerveja, a barafunda dos barris. Então virou-se para trás... mas o Capitão Farren já dera meia-volta, talvez para procurar os homens do seu regimento, talvez para não ter de olhar de novo para Jack. De qualquer forma, Jack supunha, dava no mesmo. Uma despedida era uma despedida. Nada de olhar para trás.

Pôs a mão dentro do gibão, tateou pela moeda que Farren lhe dera e apertou-a com força. O gesto fez com que se sentisse um pouco mais confiante. Segurando a moeda como um tostão que tivesse ganhado do pai para comprar uma bala na loja da esquina, Jack Sawyer seguiu em frente.

 

Talvez não se tivessem passado mais de duas horas quando Jack ouviu o som des­crito pelo Capitão Farren como “um trovão rolando sobre a terra”; mas também não era impossível que já se tivessem passado quatro horas. Como o sol se deslocava abaixo da orla oriental da floresta (e começara a seguir essa trajetória pouco depois de Jack ter penetrado nela), era difícil calcular com precisão o tempo.

De vez em quando, passavam veículos vindos do oeste, provavelmente rumando para o pavilhão da rainha. Entre os pinheiros, os veículos podiam ser ouvidos a longa distância; a clareza com que o som chegava aos ouvidos de Jack lembrava ao menino o que Speedy falara sobre um homem tirando um raba­nete da terra e outro sentindo o seu cheiro a quase um quilômetro. Cada vez que ouvia o barulho de um carro, Jack pensava em Morgan, atravessava as valas na margem da estrada, subia a encosta e entrava nos bosques. Não gostava de se ver no meio da escuridão dos pinheiros. Mas pelo menos ali podia se escon­der atrás de um tronco e espreitar a estrada. Embora seus nervos ficassem um tanto à flor da pele, a certe­za de que tio Morgan (que ele acreditava ser o patrão de Osmond) dificilmente suspeitaria de seu escon­derijo não deixava de lhe trazer uma certa dose de coragem.

Assim, sempre que ouvia uma carroça ou carruagem se aproximando, fugia da trilha e só voltava a andar quando o veículo passava. Numa dessas vezes em que cruzava a vala enlameada e a encosta na margem da estrada alguma coisa correu (ou deslizou) pelos seus pés. Jack gritou.

A passagem de cada veículo lhe dava algum trabalho, mas não deixava de ser um tanto reconfor­tante perceber que, pelo menos, não estava de todo sozinho naquela região.

Na realidade, já começava a se sentir um tanto farto dos Territórios.

O suco mágico de Speedy fora a pior coisa que bebera em toda a sua vida. Como seria bom se al­guém — Speedy, por exemplo — aparecesse na sua frente para lhe assegurar que, depois de cumprida a missão, poderia tomar o último gole do suco e, apesar das convulsões no estômago, abrir os olhos e ver as arcadas do parque de diversões Funworld e o Alhambra, onde estava a sua mãe. Um sentimento opressivo de risco ia tomando vulto dentro dele; uma sensação de que a floresta era realmente perigosa, que entre os pinheiros havia coisas conscientes de seus movimentos, que talvez a floresta em si mesma tivesse consciência de sua passagem por ali. As árvores iam se aproximando cada vez mais do leito da estrada. Era verdade ou não era? Claro que era! Antes, elas se detinham junto às valas. Agora, iam tomando de as­salto todos os fossos. Antes, a floresta parecia constituída apenas de pinheiros e alguns abetos. Agora outros gêneros de árvores começavam a se insinuar aqui e ali, algumas com troncos que se contorciam como nós apodrecidos de cordas, outras lembrando estranhas formas híbridas de abetos e samambaias... E essas novas árvores possuíam raízes cinzentas de aspecto maligno, raízes que se agarravam ao solo como dedos esquálidos. Será o nosso rapaz?, aquelas coisas más pareciam sussurrar dentro da cabeça de Jack. Será o nosso rapaz?

Tudo é fruto da sua imaginação, Jack. Está apenas dando asas às suas fantasias.

Bem, ele não ia se deixar dominar por elas.

Mas o problema é que as árvores estavam se transformando. Aquela sensação de opressão no ar (uma sensação de estar sendo vigiado) era absolutamente real. Ele começava a suspeitar que o progressi­vo apego de sua mente aos mais monstruosos pensamentos lhe estava sendo imposto pela desagradável vibração que a floresta emitia... como se as árvores estivessem irradiando algum terrível feixe de ondas curtas.

A garrafa do suco mágico de Speedy estava pela metade. Não podia se separar dela um só momen­to ao longo de toda a sua caminhada pelos Estados Unidos. E teria de poupá-la ao máximo. Acabaria an­tes que atravessasse a fronteira da Nova Inglaterra se tomasse um gole cada vez que se sentisse nervoso.

Também não esquecia da espantosa distância que viajara em seu mundo quando voltara dos Terri­tórios pela primeira vez. Cinqüenta metros nos Territórios correspondiam a quase um quilômetro no mun­do de onde viera. Mantida essa proporção (isto é, se suas trajetórias pelos Territórios não fossem bem mais sinuosas, uma possibilidade que Jack não podia desprezar), não precisaria caminhar mais de 15 qui­lômetros para alcançar a divisa de New Hampshire. Era como usar botas de sete léguas.

Mas as árvores... aquelas raízes cinzentas, esquálidas.

Quando começar a ficar realmente escuro, quando o céu passar de azul a roxo, vou cair fora dos Territórios. É isso, isso é tudo que eu sei. Não vou ficar andando no meio desses bosques depois do anoite­cer. E se o suco mágico me fizer saltar longe de Arcadia Beach, no Indiana ou em outro estado qualquer, posso pedir ao velho Speedy para me mandar outra garrafa pelo correio.

Pensando assim (e pensando como essas idéias o faziam se sentir melhor, pois não deixavam de ser um plano de ação que poderia ser posto em prática pouco depois do crepúsculo), Jack ouviu subita­mente o barulho de outro veículo se aproximando, um veículo com muitos cavalos.

Esticou a cabeça e parou no meio da estrada. Duas memórias desenrolaram-se diante dele com ve­locidade assustadora: o grande carro de Beverly Hills com dois homens dentro dele — o carro que não era Mercedes — e o caminhão criança rebelde fugindo do corpo estendido do tio Tommy, o sangue ain­da gotejando entre os aros do pára-choque. Viu as mãos no volante do caminhão... mas não eram mãos. Eram estranhas garras ou mãos mecânicas.

A pleno galope, esse carro do inferno faz um barulho de trovão rolando pela terra.

Agora, ouvindo aquilo (o som ainda distante, mas perfeitamente claro na limpidez do ar), Jack achou um absurdo ter receado que as outras carruagens fossem a diligência do tio Morgan. Jamais devia cometer erros desse tipo. O barulho que estava ouvindo agora era radicalmente sinistro, exalando um enorme poten­cial de maldade. O barulho de um carro do inferno, sem dúvida! Um carro do inferno trazendo um demônio!

Ficou paralisado no meio da estrada, quase hipnotizado, como um coelho se deixa hipnotizar por faróis de automóvel. O som ia se tornando cada vez mais alto: trovão de rodas e cascos, estalos de chicote e de arreios. Já podia ouvir a voz do condutor:

— Ei-aá! Ei-aaá! EEEIII-AAAAAÁ!

Permanecia na estrada, permanecia ali, a cabeça retumbando de horror.

Não consigo me mexer, oh Deus!, oh Cristo!, não consigo me mexer! Mãe!, mãe!, mããããããeeeeeee...!

Jack estava petrificado na estrada e o olho de sua imaginação viu uma enorme coisa preta (pareci­da com uma carruagem). Vinha puxada por animais negros (mais parecidos com pumas do que com cava­los). Viu cortinas negras balançando nas janelas da coisa. Viu o condutor de pé no estribo, o cabelo preto soprado pelo vento, os olhos frenéticos, enfurecidos; olhos de psicótico com chibata nas mãos.

Viu a coisa avançando em sua direção sem diminuir a velocidade.

Viu a coisa atropelá-lo.

E foi isso que quebrou sua paralisia. Correu para a direita, resvalando pela encosta da estrada, prendendo o pé numa daquelas raízes retorcidas, caindo no chão, rolando. Suas costas, relativamente indolores durante as últimas horas, lampejaram em novas pontadas. Jack repuxou os lábios numa enorme careta.

Depois ficou de pé e disparou para o meio dos bosques, as costas curvadas.

Primeiro deslizou para trás de uma das árvores mais negras, mas o toque nodoso do tronco (lembrando um pouco os bambus que ele vira no Havaí, nas férias do ano anterior) foi oleoso, incômodo. Pu­lou então para a esquerda, e escondeu-se atrás de um tronco de pinheiro.

O trovão da carruagem ficava cada vez mais alto. Jack esperava a qualquer momento ver o carro do inferno passar chispando por ele em direção à Aldeia de All-Hands. Os dedos de Jack apertavam a cas­ca viscosa do pinheiro. Os dentes mordiam os lábios.

Bem à sua frente, folhas desconhecidas, samambaias e ramos de pinheiro formavam um túnel que lhe proporcionava uma estreita, mas boa visão da estrada. E quando Jack Sawyer já começava a pensar que a comitiva de Morgan jamais chegaria, uma dúzia de soldados a cavalo passou a galope a caminho do leste. Eram os batedores! O que ia na frente conduzia uma bandeira, mas Jack não pôde ver o emblema (talvez tenha até gostado de não ver). Então a diligência faiscou pelo túnel de vegetação.

Foi breve o momento de sua passagem (não mais que um segundo, talvez menos), mas Jack jamais o esqueceria pelo resto da vida.

A diligência era um veículo gigantesco, de uns quatro metros de altura. Os fardos e baús amarrados i com cordas bem grossas no bagageiro acrescentavam mais um metro. Cada cavalo tinha um penacho negro na cabeça (os penachos se achatavam contra as crinas no vento gerado pela velocidade). Jack pensou mais tarde que Morgan devia recorrer a novas parelhas de cavalos para cada viagem, pois aqueles já pare­ciam à beira da exaustão. Baba e sangue escorriam dos freios que lhes prendiam as bocas; os olhos oscila­vam doidamente, revelando arcos imensos de brancura.

Em sua imaginação — ou em sua visão — cortinas negras e franzidas tremiam, esvoaçavam nas ja­nelas sem vidro. E de súbito, um rosto branco apareceu entre as dobras do tecido escuro. Um rosto branco de feições estranhas, duras, distorcidas. A repentina aparição daquele rosto não foi menos chocante que a face de um fantasma na janela arruinada de uma casa mal-assombrada. Não era bem o rosto de Mor­gan Sloat... Mas, ao mesmo tempo, era o rosto de Morgan Sloat.

E o dono daquele rosto sabia que Jack — ou algum outro perigo, algum outro odioso risco pessoal — estava por perto. Jack pressentiu isto no alargar dos olhos e na brusca e repelente contorção da boca.

O Capitão Farren tinha dito: Ele vai correr atrás de você como um gato atrás de um rato, e agora Jack tirava as mais pessimistas conclusões: Ele já deve ter sentido o meu cheiro. Já sabe que estou aqui. Eu é que não sei mais o que fazer! Aposto que ele vai parar toda a comitiva e mandar os soldados entrarem nos bosques para virem me pegar!

Outro grupo de soldados (esses protegendo a retaguarda da diligência) disparou pela estrada. Jack ficou imóvel, as mãos agarradas à casca do pinheiro, certo de que Morgan Sloat daria ordens para a cara­vana parar.

Mas isso não aconteceu. Logo o forte trovão da diligência e dos batedores começava a diminuir na distância.

Os olhos. São os mesmos olhos. Aqueles olhos negros naquele rosto branco. E...

As árvores:

É o nosso rapaz? simmm!

Alguma coisa deslizou em seu pé e subiu pela sua canela. Jack gritou e recuou tropeçando, achan­do que devia ser uma cobra. Mas quando olhou para baixo viu que era uma daquelas raízes cinzentas. Ela estava escalando a barriga de sua perna.

Impossível!, pensou estupefato. Raízes não se movem...

Deu um salto para trás, conseguindo arrancar a perna da algema cinzenta que a raiz formara. A dor foi tão abrasadora como uma chicotada.

Ergueu os olhos para a copa das árvores e sentiu um medo terrível crescendo dentro dele. Achava que sabia agora por que Morgan o farejara e não tomara qualquer providência. Morgan sabia que andar por aquela floresta era como nadar num rio de uma selva tropical infestado de piranhas.

Mas por que o Capitão Farren não o avisara daqueles perigos? A única hipótese concebível era que o capitão de cicatriz no rosto ignorasse-os por completo; afinal, era bem possível que nunca tivesse se aventurado até aquele ponto da Estrada do Oeste.

Agora, todas as raízes cinzentas daquelas formas híbridas de abetos e samambaias estavam se mo­vendo: subindo, descendo, rastejando em sua direção por entre os gravetos do solo. Formas de samambaia, Jack pensou morto de medo. HORRÍVEIS formas de samambaia.

Uma raiz particularmente grossa, dez centímetros de espessura cobertos de terra e lodo, ergueu-se e ondulou diante dele como uma cobra encantada por uma flauta de faquir.

O rapaz é nosso! simm!

A coisa avançava em sua direção e Jack retrocedia, consciente de que as raízes iam formando uma verdadeira barreira entre ele e a segurança do leito da estrada. Bateu de costas numa árvore, mas logo se desviou dela, gritando... O tronco começara a ondular, a se encrespar contra sua nuca — fora como sentir um músculo contorcendo-se para golpeá-lo. Jack olhou ao redor e viu uma daquelas árvores pretas com troncos cheios de nós. Agora os troncos estavam se mexendo, se retorcendo. E as torções dos nós pareciam formar uma espécie de rosto terrivelmente enrugado, deformado, um olho arregalado, aberto numa escu­ridão vazia, outro repuxando um piscar hediondo. As árvores ondularam e abaixaram as copas com um apavorante som de romper, de fender, de triturar. Uma seiva ligeiramente amarela começou a correr.

Ele é nosso! Oh, simmmmm!

Raízes que pareciam dedos deslizaram entre o braço e a costela de Jack, como se quisessem fazer cócegas.

O garoto desvencilhou-se delas e, aproveitando a última centelha de razão que, a poder de grande força de vontade, conseguia manter acesa, revirou o gibão à procura da garrafa de Speedy. Percebia — confusamente, mas percebia — gigantescos sons de rasgar. Julgou que as árvores estivessem querendo sair do solo. Ninguém jamais enfrentara o seu terror, ninguém!

Pegou a garrafa pelo gargalo, mas ao tentar destampá-la uma das raízes cinzentas enroscou-se no seu pescoço. O aperto foi tão forte quanto um laço de carrasco.

A respiração de Jack cessou. A garrafa caiu-lhe da mão quando ele agarrou a coisa que tentava es­trangulá-lo. Conseguiu enfiar os dedos sob a raiz. Não era fria e dura, mas quente e macia como carne hu­mana. Lutou com a planta, ouvindo o gargarejo de agonia que já lhe brotava da garganta e sentindo a sali­va descer-lhe pelo queixo.

Num desesperado e último esforço, ele conseguiu livrar o pescoço da raiz. Então ela tentou enroscar-se em seu pulso, e Jack puxou o braço com um grito. Olhou para o chão e viu a garrafa aos trancos e barrancos com uma das raízes cinzentas enroscada no gargalo.

Jack deu um salto na direção dela. As raízes agarraram-lhe as pernas para imobilizá-lo. Ele caiu no chão, debatendo-se, contorcendo-se, as pontas dos dedos cavando o duro e negro solo da floresta para tentar avançar alguns centímetros...

Por fim conseguiu tocar a superfície esverdeada e escorregadia da garrafa. E agarrou-a! Puxou-a com toda a sua força, percebendo que as raízes já se estendiam até sua cintura, formando laços em zigue­zague, procurando dominá-lo de uma vez por todas.

Ele destampou a garrafa. Outra raiz se aproximou — num movimento furtivo para lhe arrebatar de novo o suco de Speedy. Jack conseguiu afastá-la e levou a garrafa aos lábios. Aquele cheiro doentio de fruto podre pareceu envolver toda a atmosfera como uma membrana viva.

Speedy, faça com que isto funcione!

Novas raízes subiam-lhe pelas costas, rodeavam-lhe a cintura, jogavam-no de um lado para o outro. Então Jack bebeu, esparramando respingos daquele vinho barato pelas bochechas. Engoliu o suco gemendo, implorando a Deus... Aquilo não ia adiantar, aquilo não ia funcionar, seus olhos já estavam fechados, mas podia sentir as raízes enredando seus braços e pernas, podia sentir...

 

... A água encharcando-lhe o jeans e a camisa, podia sentir um cheiro...

De água?

De lodo e neblina, podia ouvir...

Jeans? Camisa?

... o contínuo coachar de rãs e...

Jack abriu os olhos e viu a luz alaranjada do sol poente refletida num rio enorme. Uma imensa floresta estendia-se na margem leste do rio. No lado oeste, o lado onde ele se encontrava, uma grande cam­pina, agora parcialmente obscurecida pela névoa do anoitecer, estendia-se até a beira da água. O solo era úmido, fofo. Jack estava estendido na margem do rio, na área mais pantanosa. Grandes ervas daninhas cresciam ali (as fortes geadas que as destruiriam ainda estavam a pelo menos um mês de distância). Jack se enrolara nelas como uma pessoa pode despertar de um pesadelo enrolada nos lençóis.

Ainda meio atordoado, conseguiu ficar de pé, o corpo úmido, coberto do cheiro penetrante do lodo, as correias da mochila sob os braços. Tirou com horror dos braços e do rosto algumas pequenas folhas de relva e começou a se afastar da água. Então se virou bruscamente para trás e viu a garrafa de Speedy joga­da no lodo, a rolha ao lado dela. Uma parte do “suco mágico” estaria derramado ali ou teria se perdido du­rante a luta com as malignas árvores dos Territórios. Agora a garrafa só continha um terço de líquido.

Ficou um instante imóvel, os tênis cheios de lama, afundados no barro. Contemplava o rio. Aquele era seu verdadeiro mundo; estava de novo nos Estados Unidos da América. Não via o Funworld, nem o Alhambra, nem coisa alguma de Arcadia Beach. Também não via nenhum arranha-céu nem a lua cintilan­do no céu que ia escurecendo. Mas sabia onde estava tanto quanto sabia como se chamava. Chegou até a se perguntar se estivera mesmo em algum outro mundo...

Percorreu com os olhos o contorno do rio. Não conhecia aquele rio nem a campina que o cercava. Ao longe, ouviu um brando mugido de bois.

Está num lugar que não conhece, Jack, disse para si mesmo. Sem dúvida isto não tem nada a ver com Arcadia Beach.

Não, não tinha nada a ver com Arcadia Beach, mas Jack não conhecia a área que cercava Arcadia Beach. Talvez estivesse apenas a seis ou sete quilômetros do Alhambra e da mãe. Mas sem dúvida não pressentia qualquer vestígio do Atlântico.

Era como se tivesse acordado de um sonho. E, afinal, não seria possível que tivesse sido apenas um pesadelo? Um pesadelo horroroso começando com um carroceiro transportando fardos de carne cer­cados de moscas e acabando com árvores vivas? Uma espécie de sonho mau de olhos abertos, durante» qual saíra caminhando como um sonâmbulo? Não deixava de fazer sentido! Sua mãe estava morrendo; ele agora percebia que há muito tempo tinha certeza disso. Não era de hoje que os sinais eram os mais evi­dentes. Desde o início seu subconsciente soubera tirar as devidas conclusões, embora a mente consciente tenha se recusado a aceitá-las. O conflito mental que vinha experimentando nos últimos tempos engen­drara uma atmosfera perfeita para a auto-hipnose, e aquele vinho maluco que Speedy Parker lhe dera contribuíra bastante para desencadear o processo. É claro! Tudo se encaixava!

E o tio Morgan não era nenhum demônio, é claro!

Então Jack tremeu e engoliu em seco. A garganta doeu quando ele engoliu. Não do modo como dói uma garganta inflamada, mas do modo como doem músculos que foram comprimidos...

Levantou a mão esquerda, a que não estava segurando a garrafa, e apalpou a garganta. Por um mo­mento, pareceu uma mulher tentando descobrir rugas ou papadas no pescoço. Encontrou uma contusão logo acima do pomo-de-adão. Não era uma grande ferida, mas doeu ao ser tocada. A raiz que se enrasca­ra em sua garganta tinha feito aquilo.

— Então foi verdade... — Jack murmurou, fitando a água alaranjada, ouvindo o coachar das enor­mes rãs e o mugido distante dos bois. — Foi tudo verdade.

 

Jack Sawyer começou a subir a encosta do campo, deixando o rio — e o leste — para trás. Depois de ter andado quase um quilômetro, o balanço contínuo da mochila em suas costas do­loridas (os golpes que Osmond lhe aplicara ainda estavam lá) despertou-lhe uma lembrança. Ele recusara o enorme sanduíche de Speedy, mas será que o velho não o teria colocado em sua mochila enquanto ele examinava a palheta do violão?

Seu estômago retumbou com a idéia.

Tirou a mochila das costas. Havia uma névoa rasteira muito densa, apesar da noite estrelada. Sol­tou uma das correias e viu o sanduíche! Não apenas um pedaço ou metade de um sanduíche, mas um san­duíche inteiro! Bem embrulhado numa folha de jornal. Os olhos do garoto encheram-se com o calor das lágrimas. Ele teve vontade de ver Speedy na sua frente e lhe dar um grande abraço!

Dez minutos atrás, você estava dizendo que ele dera um vinho maluco para você beber...

Seu rosto ficou vermelho ao se lembrar da injustiça, mas a vergonha não o impediu de devorar o sanduíche em meia dúzia de grandes mordidas. Depois tornou a prender a correia da mochila e a colo­cá-la nas costas.

Continuou seu caminho, sentindo-se bem melhor. Livre daquele buraco que roncara tanto tempo em seu estômago, sentia-se novamente senhor de si.

Não muito depois, viu luzes piscando na escuridão crescente. Era uma fazenda. Um cão começou a latir: o latido forte de um cachorro realmente bem grande. Jack parou.

Deve estar dentro de casa, argumentou consigo mesmo. Ou então numa corrente. Eu espero!

Virou à direita e, pouco depois, o cachorro parou de latir. Guiando-se pelas luzes da fazenda, logo chegou a uma estradinha estreita, asfaltada. Parou e ficou olhando para os lados, sem saber que caminho tomar.

Ei, pessoal, aqui está Jack Sawyer! A meio caminho entre cansado e morto! Molhado até os ossos e com os tênis cheios de lama! Será que não há ninguém para recebê-lo?

A solidão e as saudades de casa começaram de novo a crescer em seu peito. Mas Jack afugen­tou-as. Depois deixou cair uma gota de cuspe no dedo indicador da mão esquerda e deu uma palmada na gota. A maior das duas metades caiu do lado direito (ou pelo menos foi o que lhe pareceu). Decidiu então rumar naquele sentido. Quarenta minutos depois, caindo de fraqueza (e ainda por cima faminto, o que era pior que o cansaço), viu um caminho de cascalho. No fundo de uma pequena rampa, havia uma espé­cie de galpão.

Jack abaixou-se para cruzar uma corrente que bloqueava o caminho e encaminhou-se para o gal­pão. A porta estava trancada a cadeado, mas ele notou que a terra sofrera um grande processo de erosão junto a uma das paredes. Não demorou mais que um minuto para tirar a mochila das costas e esgueirar-se por uma fresta. Depois puxou a mochila para dentro. Na realidade, a tranca na porta fez com que se sen­tisse mais seguro.

Examinou o ambiente e viu que estava rodeado de ferramentas bastante velhas. Sem dúvida, aque­le lugar já não era usado há muito tempo, e isso o deixou ainda mais tranqüilo.

Ficou nu em pêlo, livrando-se do desagradável contato das roupas pegajosas e enlameadas. Apal­pou num dos bolsos da calça a moeda que ganhara do Capitão Farren. Lá estava ela, destacando-se como um gigante entre as outras moedas comuns. Jack tirou-a do bolso e reparou que a moeda de Farren, com o perfil da rainha numa das faces e o leão de asas na outra, se transformara num dólar de prata de 1921. Por alguns segundos, fitou-a sem pestanejar. De fato, ali estava a Estátua da Liberdade no grande dólar de prata! Por fim, tornou a colocar a moeda no bolso do jeans.

Tirou roupas limpas da mochila. De manhã guardara as que estavam sujas (até lá ficariam secas) e talvez conseguisse lavá-las ao longo do caminho, quem sabe numa lavanderia automática ou mesmo num regato que tivesse de atravessar.

Ao procurar meias limpas, sua mão encontrou alguma coisa comprida e dura. Jack puxou e viu que era a escova de dentes. De imediato, imagens do lar, da segurança e racionalidade da vida no lar (todas as coisas que uma escova de dentes é capaz de evocar) dominaram-no por completo. Dessa vez não houve meio de reprimir ou afugentar essas emoções. Uma escova de dentes destinava-se a ser utilizada num ba­nheiro bem iluminado, era uma coisa a ser usada com pijamas de algodão no corpo e chinelos confortá­veis nos pés. Não devia estar no fundo de uma mochila, num frio e escuro depósito de ferramentas, no fim de uma estradinha de cascalho, nos confins de um lugarejo rural deserto cujo nome ele nem sabia.

A solidão atirou-se com fúria contra Jack Sawyer; agora ele percebia com nitidez absoluta sua situa­ção de desgarrado. E começou a chorar. Não era o pranto histérico e estridente das pessoas que sufocam raiva com lágrimas; chorou com o soluçar contínuo de alguém que descobre que está sozinho e que, por muito tempo ainda, terá de continuar sozinho. Chorou porque toda a segurança e lógica das coisas pareciam ter desaparecido do mundo. A solidão estava ali, era uma realidade; e naquela situação a insanidade tam­bém não deixava de estar um pouco presente.

Jack adormeceu antes que os soluços tivessem cessado de todo. Dormiu enrascado na mochila, vestido apenas com uma cueca e meias limpas. As lágrimas tinham aberto sulcos nítidos no rosto encardi­do, e ele segurava frouxamente a escova de dentes com uma das mãos.

 

O TÚNEL DE OATLEY

Seis dias depois, Jack já conseguira superar quase inteiramente seu desespero. Ao término dos primeiros dias na estrada, parecia ter passado da infância à adolescência, e da adolescência à idade adulta. Pelo menos em termos de competência! Era verdade que ainda não voltara aos Territórios desde que despertara na margem oriental daquele rio, mas podia justificar o adiamento da jornada alegando que estava poupando o suco de Speedy para quando precisasse realmente dele.

E além do mais, Speedy não o advertira para viajar principalmente nas estradas de seu mundo ver­dadeiro? Então! Estava apenas cumprindo instruções!

Quando o sol estava a pino, seu estômago cheio e os automóveis passavam por ele a 80 ou 100 quilômetros por hora na direção do oeste, os Territórios se tornavam inacreditavelmente distantes e irreais: como um pedaço de filme que já começava a esquecer; uma fantasia temporária. Às vezes, quando se encostava no banco de algum carro que lhe dava carona e respondia às habituais perguntas sobre o que estava lhe acontecendo, chegava a esquecer completamente da existência dos Territórios. Aquele outro mundo se apagava da sua cabeça e ele voltava a ser o mesmo (ou quase o mesmo) garoto que passeava pela praia no início do verão.

Nas grandes rodovias federais, quando um motorista o largava num trecho do acostamento, basta­va esperar dez ou 15 minutos com o polegar em pé para que outro carro se aproximasse e lhe abrisse a porta. Estava agora perto de Batavia, no trecho oriental do Estado de Nova York, rumando para oeste pela rodovia I-90, o polegar sempre em movimento, dessa vez abrindo caminho para Búfalo. Depois de Bufalo, faria um pequeno contorno pelo sul (por causa do Lago Erie). Fora apenas uma questão, Jack pensou, de descobrir a melhor forma de chegar a seu destino e colocá-la em prática. Toda a aventura fantástica nos Territórios já pertencia ao passado; só precisava agora de um pouco de sorte para encontrar motoristas que o levassem a Búfalo, ou, quem sabe, diretamente a Chicago, Denver ou mesmo Los Angeles (Los Angeles é que seria mesmo o cúmulo da sorte, hem, rapaz?). Pretendia cumprir sua missão com rapidez e voltar para casa antes de meados de outubro.

Estava queimado de sol, tinha 15 dólares no bolso (fruto de seu último trabalho como lavador de pratos no Golden Spoon Diner em Auburn) e sentia os músculos fortes e rijos. Embora às vezes tivesse vontade de chorar, vinha reprimindo as lágrimas desde aquela miserável noite no galpão de ferramentas. Agora era mais senhor de si; esta era a diferença! Agora sabia como proceder, formulara caprichosamente o plano mais lógico para cumprir sua missão e mantinha-se à frente dos acontecimentos. Já conseguia ver concretamente o fim da jornada, mesmo que ele ainda estivesse um pouco distante. Viajando quase o tempo todo neste mundo, como Speedy lhe aconselhara, poderia mover-se com a rapidez das caronas nos automóveis e estar de volta a New Hampshire num período de tempo bastante razoável (trazendo o talismã, é claro!). A coisa ia funcionar; teria muito menos problemas do que imaginara a princípio!

Pelo menos era assim que pensava Jack Sawyer quando um empoeirado Ford Fairlane azul se des­viou para o acostamento e esperou que ele completasse uma pequena corrida apertando os olhos contra o sol ofuscante. Vou avançar mais alguns quilômetros, Jack pensou. Visualizou a página do mapa rodo­viário que estudara naquela manhã e decidiu: Oatley! Parecia um nome pequeno, agradável e seguro. Estava no caminho certo e não tinha nada a temer!

 

O garoto curvou a cabeça e olhou dentro do carro antes de abrir a porta. Havia muitos livros e folhetos espalhados no assento de trás e duas grandes maletas ao lado do motorista.

O homem de cabelos pretos, ligeiramente barrigudo, que quase pareceu imitar a postura de Jack quando se curvou sobre o volante para espreitar o guri pela janela aberta, era um vendedor. O paletó de seu terno azul estava pendurado num cabide atrás dele; o laço da gravata estava frouxo, as mangas da ca­misa arregaçadas. Um vendedor no meio da faixa dos 30, cobrindo confortavelmente sua área. Gostaria muito de ter alguém para conversar, como todos os vendedores. Sorriu para Jack e pegou primeiro uma das grandes maletas, jogando-a sobre o amontoado de papéis no assento de trás; depois fez o mesmo com a outra.

— Vamos abrir um pouco de espaço aqui! — disse.

Jack sabia que a primeira coisa que o sujeito ia lhe perguntar era por que não estava na escola.

— Obrigado! — disse ele abrindo a porta e entrando no carro.

— Vai pra muito longe? — o vendedor perguntou, deslizando pelo acostamento e olhando pelo re­trovisor para voltar ao leito da estrada.

— Vou para Oatley — Jack respondeu. — Acho que fica a menos de 50 quilômetros, não é?

— Acabou de ser reprovado em geografia, rapaz! — disse o vendedor. — Oatley fica a mais de 70 quilômetros.

Virou a cabeça para Jack e surpreendeu o garoto com uma piscadela.

— Não se sinta ofendido — disse ele —, mas detesto ver garotos de sua idade pedindo carona. Por isso é que sempre os apanho. Pelo menos sei que estarão mais seguros em minha companhia. Não correrão riscos, percebe o que quero dizer? Há muitos malucos rodando por aqui, garoto! Não lê os jornais? Existem até animais carnívoros! De repente, pode topar com um exemplar dos mais perigosos!

— Acho que tem razão — disse Jack. — Mas procuro sempre ter muito cuidado.

— Mora perto daqui?

O homem continuava olhando muito para ele, não dando mais que breves espiadas na estrada à sua frente. Jack revirou ávido a memória em busca do nome de alguma cidade nas proximidades.

— Palmira. Moro em Palmira.

O vendedor sacudiu a cabeça.

— É um bonito lugar — disse, voltando-se mais atentamente para a estrada. Jack relaxou um pou­co no confortável encosto do assento. — Não está matando aula, está? — o homem finalmente perguntou.

Estava outra vez na hora de Jack contar sua história.

Já a repetira tantas vezes (mudando, é claro, os nomes das cidades à medida que avançava para o oeste), que aquilo saiu como um monólogo dos mais fluentes:

— Não, senhor! O problema é que tenho de morar algum tempo em Oatley, com minha tia Helen, Helen Vaughan, sabe? É irmã de minha mãe. E professora. Meu pai morreu no inverno e as coisas ficaram muito difíceis para nós. Então, há duas semanas, minha mãe pegou uma doença e quase nem consegue mais subir uma escada. O médico disse que terá de ficar um bom tempo de cama. Então ela telefonou para a irmã e perguntou se eu não poderia passar algumas semanas com ela. Como tia Helen é professora, acho que vou continuar tendo aulas na escola de Oatley. Tia Helen jamais deixaria um sobrinho dela fora da escola, pode apostar!

— Está dizendo que sua mãe mandou-o ir de Palmira a Oatley pedindo carona? — o homem per­guntou.

— Oh, não! De jeito nenhum! Ela nunca faria isso! Me deu o dinheiro do ônibus, mas eu resolvi economizá-lo. Acho que não vou receber muito dinheiro lá de casa e a situação da tia Helen também não é das melhores. Minha mãe ia ficar furiosa se soubesse que estou indo de carona! Mas pagar a passagem de ônibus me pareceu jogar dinheiro fora. Afinal, cinco dólares são cinco dólares. Por que entregar tudo isso num guichê da rodoviária?

O homem lançou-lhe um olhar enviesado:

— Quanto tempo acha que vai ficar em Oatley?

— É difícil dizer. Mas espero que minha mãe fique logo boa.

— Bem, na volta vá de ônibus mesmo, OK?

— Perdemos até o carro — disse Jack, fazendo novos acréscimos à história. Já estava começando a achar a coisa divertida. — O senhor nem pode imaginar o que aconteceu! Vieram no meio da noite e nos tiraram o carro. Não passam de uns covardes! Sabiam que todos estavam dormindo. Vieram de madruga­da na ponta dos pés, e o tiraram da garagem. Ah, o senhor nem pode imaginar como eu teria lutado para defender aquele carro... Gostava quando íamos nele para a casa da tia Helen. Agora, quando minha mãe vai ao médico, tem de descer toda a ladeira e depois andar mais cinco quadras para chegar ao ponto de ônibus. Não deviam ter feito isso, o senhor não acha? Vir devagarinho e roubar o automóvel!! Assim que pudéssemos, íamos pagar de novo as prestações. Não acha que o que eles fizeram não deixa de ser um roubo?

— Se isso tivesse acontecido comigo, também ia achar que tinha sido um roubo — disse o homem. — Bem, espero que sua mãe se recupere o mais breve possível.

— Eu também espero — disse Jack, com absoluta sinceridade.

E a conversa os levou até as primeiras placas indicando a entrada de Oatley. O vendedor parou no acostamento pouco depois do acesso da direita, sorriu de novo e se despediu:

— Boa sorte, garoto!

Jack agradeceu com a cabeça e abriu a porta.

— Espero que não precise passar muito tempo em Oatley, rapaz!

Jack olhou-o inquisitivamente.

— Bem, você conhece pouco o lugar, não é mesmo? — o vendedor perguntou.

— Um pouco. Muito pouco!

— Ah, vai conhecê-lo melhor! É o tipo de cidade onde comem o que eles mesmos atropelam na es­trada. Uma espécie de Vila dos Gorilas. Um lugar meio maluco! Você bebe a cerveja e depois come o vidro do copo! Algo desse gênero, sabe?

— Obrigado pelo aviso — disse Jack saindo do carro.

O vendedor acenou e dirigiu de novo o Fairlane para o leito da estrada. Momentos depois, o carro não passava de uma forma escura, em disparada para o sol poente e alaranjado.

 

Por um quilômetro ou dois, a estrada conduziu o garoto pela monotonia de uma campina. Depois, Jack viu pequenas casas de madeira de dois andares empoleiradas em pequenas eleva­ções. O campo era cinza, despido de vegetação, e as casas não eram sítios nem fazendas. Bem separadas umas das outras, debruçavam-se sobre a desolação da campina, cuja morna imobilidade e o silêncio só eram quebrados pelo longínquo fluxo do tráfego correndo pela rodovia I-90. Não havia mugido de bois, nem relinchar de cavalos... Por ali não havia animais, nem máquinas agrícolas. Do lado de fora de uma das pequenas casas, Jack observou meia dúzia de carros velhos e enferrujados. Pareciam casas de pessoas que não gostavam muito de companhia. Talvez já achassem o próprio lugarejo de Oatley povoado de­mais. Por sorte os campos vazios lhes proporcionavam fossos indispensáveis à solidão de seus despoja- dos castelos de madeira.

Jack alcançou uma encruzilhada. Parecia uma daquelas encruzilhadas de desenho animado, duas estradas vazias e estreitas cruzando-se em lugar nenhum e se prolongando para outra espécie de lugar ne­nhum. Ele começava a se sentir inseguro quanto a seu senso de direção. Firmou as correias da mochila e aproximou-se de um alto poste de ferro, onde retângulos negros de ferrugem indicavam alguma coisa. Não teria sido melhor pegar o outro acesso de Oatley, o que fica à esquerda da rodovia I-90?

A placa da encruzilhada apontando o caminho que seguia paralelo à rodovia indicava: estrada da cidade dos cães. Cidade dos Cães? Jack estendeu o olhar pela estrada e viu apenas uma planura interminá­vel, campos cheios de mato rasteiro e uma tira negra de asfalto rolando pelo meio. Segundo a tabuleta, aquela tira de asfalto tinha um segundo nome: estrada da moenda.

Depois de caminhar algumas centenas de metros, ele percebeu que não se tratava apenas de pla­nura e mato rasteiro. Dois quilômetros à frente, o caminho indicado pela seta penetrava num túnel forma­do por árvores inclinadas e cercado de uma curiosa esteira de hera. Havia uma tabuleta branca apoiada na vegetação. As letras eram muito pequenas; não se podia ler nada daquela distância! Num movimento involuntário, Jack pôs a mão no bolso e apertou a moeda que ganhara do Capitão Farren.

Seu estômago protestava. Logo estaria louco por um jantar. Tinha de acelerar o passo e encontrar um povoado qualquer onde lhe dessem alguma coisa para comer. Já que entrara na Estrada da Moenda, valia a pena atravessar aquele túnel e sondar o que havia do outro lado.

Jack logo atingiu a boca do túnel. A escura abertura entre as árvores pareceu se alargar.

Frio, úmido, com cheiro de barro, o túnel deu-lhe a sensação de ter se aberto um pouco mais ape­nas para o devorar. Pois agora a vegetação parecia fechar-se ao seu redor. Por um instante o menino achou que estava seguindo um declive, que o túnel o conduziria para algum nível abaixo do solo (não via à sua frente nenhum círculo de luz indicando o fim do túnel). Então, observando com mais cuidado, percebeu que o asfalto era plano.

Ao entrar no túnel, conseguira ler as letras miúdas da tabuleta entre a vegetação: ligue as luzes, di­zia ela. Jack só se lembrou disso quando esbarrou numa parede de tijolo (então era um túnel de verdade!. ele pensou) e sentiu uma parte do reboco fragmentar-se em suas mãos.

“As luzes”, repetiu para si mesmo, desejando ardentemente ver um interruptor que pudesse ligar. O túnel devia fazer uma curva... Era por isso que não via a saída e foi por isso que, apesar de toda a caute­la e do passo vagaroso, acabou se chocando com a parede (por sorte já tinha começado a andar com as mãos estendidas, como fazem os cegos). Foi tateando ao longo do muro. (Quando alguém faz isso num desenho animado, geralmente acaba deparando com um enorme caminhão!)

De repente alguma coisa roçou pelo chão do túnel e Jack parou assustado.

Bem, podia ser um rato... Ou quem sabe um coelho cortando caminho por ali!

O problema é que a coisa parecia um tanto maior que um rato ou um coelho.

Tornou a ouvir o mesmo som e deu mais um passo cego à frente. Então escutou uma espécie de respiração e parou de novo. Seria um animal? Com as pontas dos dedos agarradas na úmida parede de tijolo, esperou outra emanação de ar. Aquilo não soara como a respiração de um animal (e sem a menor dúvida nenhum rato ou coelho respiravam tão profundamente). Jack arrastou-se mais alguns centímetros, quase determinado a não admitir que havia alguma coisa ali, alguma coisa que o estava enchendo de medo!

Parou de novo, ouvindo um som breve, abafado. Como um cacarejo ligeiramente áspero saltando da escuridão. E logo depois sentiu um cheiro familiar, mas de difícil identificação: um cheiro forte, grosseiro, penetrante, que parecia deslizar pelo interior do túnel.

Olhou para trás. Agora só metade da entrada era visível, semi-encoberta pela curvatura da parede. Parecia muito distante, do tamanho de uma toca de coelho.

— Quem está aí? — ele gritou. — Ei! Tem alguém aqui? Tem alguém?

Julgou ter ouvido alguma coisa resmungar bem no fundo do túnel.

Não estava mais nos Territórios, sabia muito bem disso. O máximo que podia haver ali era um ca­chorro tolo que tivesse penetrado na escuridão do túnel para tirar uma soneca. Neste caso, ele salvaria a vida do cachorro despertando-o antes que viesse um carro.

— Ei, cachorro! — ele gritou. — Cachorro!

E foi instantaneamente recompensado pelo som de patas trotando pelo túnel. Mas estavam aquelas patas... entrando ou saindo? Era impossível dizer! Plot, plot, plot, uma retirada ou um avanço abafado. Impossível saber se o animal fugia ou se aproximava.

Então lhe ocorreu que talvez o barulho estivesse vindo por trás... Ele virou a cabeça e percebeu que já se distanciara o suficiente para não conseguir ver mais a entrada.

— Onde você está, cachorro? — perguntou.

Alguma coisa arranhou o solo meio centímetro atrás dele. Jack deu um salto e seu ombro bateu com força na curva da parede.

Percebeu uma forma (talvez o cachorro) na escuridão. Deu um passo à frente e viu-se paralisado por um sentimento tão intenso de irrealidade que era como se tivesse voltado aos Territórios. O túnel estava impregnado de um forte e penetrante odor de zoológico. Mas aquilo que se aproximava dele não era um cachorro.

Foi atingido por uma rajada de ar frio cheirando a álcool e gordura. Jack sentiu a forma chegando mais perto.

E só por uma fração de segundo teve um vislumbre da face pendendo na escuridão: uma face bri­lhante, como se possuísse alguma débil e mortiça luminosidade interior; uma face comprida, áspera, jovem e velha ao mesmo tempo. Suor, gordura como uma espécie de graxa, um fedor de álcool na respira­ção que a coisa exalava. Jack se espremeu contra a parede e levantou os punhos fechados. Mas a face continuava sumida no escuro.

No meio do seu terror, julgou ouvir passos abafados, cruzando rapidamente o solo na direção da entrada do túnel. Virou o rosto do quadrado de escuridão onde vira a coisa e olhou para trás. Escuro, silêncio. Agora o túnel parecia vazio. Jack cruzou os braços, apertando os punhos sob as axilas e foi recostando suavemente a cabeça contra o tijolo. Seus dedos se afrouxaram e agarraram as correias da mochila. Pouco depois, começava de novo a avançar ao longo da parede.

Assim que conseguiu sair do túnel, virou-se para contemplá-lo. Nenhum ruído emergia dele, ne­nhuma criatura estranha movia-se sorrateiramente para atacá-lo. Deu três passos à frente e espreitou com mais cautela. E foi nesse momento que seu coração quase parou de bater, porque dois enormes olhos ala­ranjados vinham em sua direção. Cobririam em segundos a distância que havia até ele. Mas não conseguiu se mexer — foi como se seus pés tivessem se grudado no asfalto. Finalmente, foi capaz de estender as mãos, de palmas abertas, no gesto instintivo de quem tenta repelir um golpe. Os olhos continuaram se aproximando... e uma buzina tocou.

Segundos antes do carro emergir do túnel (o rosto vermelho do homem no volante brandindo um punho fechado), Jack pulou fora do caminho.

— Fiiiiiilho da mmmmmàãããaeeee... — escapou da boca contorcida do motorista.

Ainda atordoado, Jack Sawyer deu meia-volta e viu o carro acelerar colina abaixo em direção a um lugarejo que só podia ser Oatley.

 

Situada numa longa depressão de terreno, Oatley se espalhava ralamente a partir de duas ruas. Uma, continuação da Estrada da Moenda, ultrapassava um imenso e pobre edifício no meio de um vasto pátio de estacionamento (seria uma fábrica, Jack pensou) e se transformava numa avenida estreita, cheia de agências de carros usados (de todas as marcas e tamanhos), lanchonetes de serviço rápi­do (“as grandes tetas da América”, sua mãe dizia), um boliche com uma enorme tabuleta de néon (bowl-a-rama!), mercearias e postos de gasolina. Depois de tudo isso, a Estrada da Moenda cortava as cin­co ou seis quadras do verdadeiro centro de Oatley. Ali havia sobrados de dois andares com carros estacio­nados na frente.

A outra rua alojava flagrantemente as casas das pessoas mais importantes da cidade: grandes cons­truções de madeira com varandas e jardins. No cruzamento das duas vias, um sinal de trânsito piscava o olho vermelho naquele fim de tarde. Outro sinal, talvez oito quadras acima, mudou para o verde diante de um prédio encardido e alto, com muitas janelas, parecido com um hospital psiquiátrico (era bastante pro­vável que fosse um colégio). Muitas quadras de ambas as ruas estavam cobertas de uma miscelânea de pequenas casas, e entre as pequenas casas havia sobrados cinzentos, cercados de altas grades de arame.

A fábrica no meio do pátio de estacionamento tinha várias janelas quebradas, e muitas janelas da parte central da cidade não passavam de um amontoado de tábuas e pregos. Certos terrenos estavam cheios de lixo de cozinha e folhas amassadas de jornais. Mesmo nas casas mais importantes reinava total negli­gência; pórticos sujos e paredes desbotadas. Os carros usados de Oatley pareciam ter saído do cemitério de automóveis.

Por um instante Jack pensou em abandonar aquele povoado em ruínas e ir para a Cidade dos Cães (embora não fizesse a menor idéia do tipo de lugar que isso poderia ser). Mas virar as costas para Oatley significava ter de atravessar outra vez o túnel da Estrada da Moenda.

De repente, defronte a uma fileira de lojas, a buzina de um carro tocou e o barulho encheu os ou­vidos de Jack de um inexprimível sentimento de solidão e de nostalgia. Só conseguiu relaxar perto da fábrica bem longe do túnel da Estrada da Moenda. Quase um terço das janelas na fachada de tijolos tinha sido quebrado, e a maioria das outras estava vedada por quadrados de papelão marrom. Mesmo dos limi­tes da área de estacionamento, Jack pôde sentir um cheiro de óleo lubrificante, graxa, borracha queimada, Ouviu também o ruído metálico de engrenagens.

Pôs as mãos nos bolsos e desceu o mais rápido que pôde para a parte central de Oatley.

 

Vista de perto, a cidade era ainda mais deprimente do que parecera da colina. Os vendedores das agências de carros debruçavam-se nas janelas de seus escritórios, entediados demais para saírem dali. Os veículos malcuidados e sem brilho se amontoavam. Os cartazes espalhados pelos pá­ra-brisas revelavam os únicos indícios de otimismo: um só proprietário! verdadeira jóia! o carro da semana! A tinta havia descorado e quase se apagara totalmente em certas tabuletas, como se elas tivessem ficado expostas a alguma chuva forte.

A circulação de pessoas nas ruas era ínfima. Quando Jack se dirigia para o centro da cidade, viu um velho com faces encovadas e pele cinzenta puxando um carrinho vazio de supermercado pela beira da calçada. Quando o garoto se aproximou, o velho gritou alguma coisa hostil. Arreganhou os dentes com ar assustado e mostrou gengivas escuras como as de um cão policial. Achava que Jack ia roubar-lhe o carrinho!

— Desculpe — disse Jack, o coração disparando no peito.

O velho tentou envolver todo o carro com os braços para protegê-lo melhor. E, enquanto isso, não parava de arreganhar as gengivas negras para o inimigo.

— Desculpe — Jack repetiu. — Eu só estava indo...

— Saaaia daquiii! Saaaia jáá daquiiiii! — o velho berrou e as lágrimas começaram a descer pelas ru­gas do rosto.

Jack saiu correndo.                                  

Vinte anos atrás, nos anos 60, Oatley fora uma próspera cidadezinha. O bom traçado da Estrada da Moenda era fruto dessa era, quando havia gado nos campos dos arredores, a gasolina era barata e nin­guém ouvira falar em “racionalização dos gastos” (pois havia muito dinheiro para gastar).

As pessoas aplicaram suas economias em letras de câmbio e pequenas lojas. Puderam, durante al­gum tempo, escapar de grandes sufocos. Algumas construções de Oatley ainda conservavam traços dessa prosperidade. Mas agora, nas lanchonetes de serviço rápido, viam-se apenas alguns adolescentes senta­dos com ar de tédio diante de garrafas de Coca-Cola. E nas vitrines de muitas lojinhas, tabuletas descora­das como as das agências de carros usados anunciavam: você não pode perder! queima de estoques para fechamento das portas! Jack não viu qualquer tabuleta oferecendo trabalho, e continuou andando.

O desbotar das cores felizes dos anos 60 mostrava toda a realidade do centro de Oatley. À medida que Jack se arrastava ao longo daqueles quarteirões de prédios e sobrados sujos, sua mochila parecia se tornar mais pesada, os pés mais relutantes. Talvez fosse mesmo melhor caminhar até a Cidade dos Cães...

O problema é que suas pernas já pareciam bem fracas, e o receio de atravessar de novo o túnel da Estrada da Moenda era muito grande. Claro, não haveria qualquer uivante homem-lobo emboscado na escuridão lá dentro (ele agora tinha certeza absoluta disso). Na realidade o vislumbre de uma face fantasma­górica no túnel não passara de pura ilusão. Os Territórios tinham mexido com ele. Primeiro a visão da rai­nha, depois aquele rapaz morto sob a carroça, metade do rosto esmagado. Em seguida, Morgan. E, por fim, as árvores... Mas isso tinha acontecido lá, onde tais coisas podiam acontecer (talvez fosse até normal que acontecessem). Aqui, porém, a vida cotidiana não admitia coisas desse gênero.

Ele alcançou uma grande e suja vitrine. depósito de móveis, dizia um letreiro quase ilegível na alve­naria de tijolos. Pôs a mão em forma de concha sobre os olhos e deu uma espiada lá dentro. Um sofá e uma cadeira, ambos cobertos por lençóis brancos, repousavam a cinco metros um do outro no amplo as­soalho de madeira. Jack afastou-se do depósito, desconfiando que teria de implorar a alguém um prato de comida.

Um pouco abaixo, na frente de uma loja fechada do quarteirão seguinte, havia quatro homens dentro de um carro. Jack demorou um pouco para notar que o carro, um DeSoto preto, tão velho que po­deria ter pertencido a Broderick Crawford, não tinha pneus. No pára-brisa havia um cartaz amarelo: clube dos amigos DA esquina. Os homens lá dentro, dois na frente e dois atrás, estavam jogando cartas. Jack aproximou-se de uma das janelas da frente.

— Desculpe — disse, e o jogador mais próximo lançou-lhe um sombrio olhar de peixe morto. — O senhor podia me dizer onde...

— Vá embora — disse o homem.

Sua voz parecia abafada e catarrenta, como se não estivesse muito acostumada ao ato de falar. O rosto que tinha se virado um pouco para Jack era profundamente salpicado de cicatrizes de acne e parecia estranhamente achatado, como se alguém o tivesse pisado quando o sujeito era criança.

— Só estou perguntando se o senhor sabe onde posso conseguir um trabalho temporário.

— Tente o Texas — disse o homem que estava na frente do volante, e a dupla do assento de trás deu uma gargalhada, respingando cerveja nos leques de cartas.

— Eu já lhe disse, garoto! Vá embora! — repetiu o homem de olho de peixe morto e rosto achata­do. — Porque se não for, pode ter certeza que vou me levantar daqui e lhe dar um pescoção!

E não era mentira, Jack percebeu. Se continuasse ali por mais um instante, a raiva do homem ia ferver. Ele ia sair do carro para espancá-lo sem dó. Depois voltaria tranqüilamente para o velho DeSoto e abriria outra cerveja. Latas vazias de Rolling Rock cobriam o meio-fio, latas cheias e abertas brilhavam nas mãos dos homens, latas ainda por abrir estavam enroladas num saco plástico transparente. Jack recuou. O olho de peixe morto se afastou de seu rosto.

— Acho que vou mesmo tentar o Texas.

Ao dizer aquilo, Jack acreditou que a porta do DeSoto fosse se abrir de repente, mas só o que esta­lou foi outra lata da Rolling Rock.

Crack! Hisssss..., fez a lata de cerveja.

Ele continuou andando.

Chegou ao fim do quarteirão e, na outra rua da cidade, viu um jardim semi-abandonado, cheio de hastes de mato amarelo. No meio do mato, espreitavam estátuas de fibra de vidro. Eram personagens de Disney. Um vulto velho de mulher, segurando um mata-moscas, olhava-o de uma sacada de varanda.

Jack desviou a cabeça do desconfiado olhar da velha e se deparou com a última das inertes cons­truções de tijolos da Estrada da Moenda. Três degraus de cimento levavam a uma porta aberta, com almo­fada de vidro e cortina. Uma grande e sombria vitrine estampava uma tabuleta cintilante indicando ape­nas: taberna. Poucos centímetros à direita, havia um letreiro pintado no vidro: a melhor cerveja de oatley. E, como se não bastasse, cerca de meio metro mais abaixo, escritas à mão num cartaz amarelo (idêntico ao que Jack tinha visto no pára-brisa do DeSoto), liam-se as milagrosas palavras: procura-se auxiliar.

Jack Sawyer tirou a mochila das costas, colocou-a sob um dos braços e subiu os degraus. Por não mais que um instante, passando da mortiça luz do sol para a escuridão do bar, lembrou-se do passo fatal que o fez cruzar a densa fímbria de hera e penetrar no túnel de Oatley.

 

JACK NA PLANTA CARNÍVORA

Menos de 60 horas depois, num estado de espírito muito diferente daquele que o fizera se aventurar pelo túnel da Estrada da Moenda na quarta-feira anterior, Jack Sawyer estava na friorenta despensa da Taberna Oatley, escondendo a mochila atrás dos barris de cerveja que, como traves de alumínio de um boliche de gigantes, enfileiravam-se no fundo da galeria. Daí a menos de duas horas, quando a taberna finalmente cerrasse as portas, Jack pretendia fugir dali. Era exatamente assim que imaginava a coisa: não se tratava de sair, nem de ir andando, mas realmente de fugir dali Isso mostrava até que ponto se sentia numa situação desesperadora.

Estou dizendo seis, seis, John B. Sawyer. Estou dizendo seis, Jack. Seis.

Esse pensamento, aparentemente sem qualquer sentido, caíra naquela noite em sua mente e passa­ra a se repetir de modo incessante. Ele não duvidava que uma idéia fixa daquele tipo mostrava como seus nervos estavam à flor da pele, como as coisas voltavam a fechar um cerco em torno dele. Não sabia o que aquele pensamento significava; as palavras simplesmente giravam sem parar em sua cabeça como um cavalo de pau num eixo de carrossel.

Seis. Estou dizendo seis. Estou dizendo seis, Jack Sawyer!

A coisa se repetia infinitamente, rodava, rodava; não lhe dava trégua.

Uma das paredes da despensa dava para o salão da taberna e, naquela noite, a parede trepidava com o barulho; vibrava realmente como couro de tambor. Até 20 minutos atrás, ainda era noite de sexta-feira, e tanto os Têxteis Oatley quanto a Weaving and Dogtown Custom Rubber pagavam às sextas-feiras... Agora a Taberna Oatley estava cheia até o teto. E além do teto. Um grande cartaz à esquerda do bar dizia: ultrapassar a lotação máxima de 220 pessoas constitui infração do artigo 331, referente Às normas municipais de prevenção de incêndios. Ao que tudo indicava, o artigo 331 não se aplicava aos fins de semana, pois Jack calculava que houvesse mais de 300 pessoas ali, sapateando ao som de uma banda de música Country chamada Os Loucos Rapazes do Vale. Era uma banda horrível, mas tinha uma boa guitarra elétrica.

— O pessoal daqui adora uma guitarra elétrica! — dissera Smokey.

— Jack! — Lori gritou sobre a barreira de som.

Lori era a mulher de Smokey. Jack ainda não sabia qual era o último nome dela. Mal conseguiu ou­vi-la sobre o ronco da vitrola automática. A vitrola ficava tocando em último volume enquanto a banda descansava. Os cinco Loucos Rapazes do Vale estariam lá no fundo do bar, Jack sabia, abastecendo o es­tômago com vodca barata.

Lori espichou a cabeça pela porta da despensa. O fosco cabelo louro, repuxado num rabo-de-cavalo com prendedores de plástico branco (pareciam prendedores de cabelo de menina), brilhava sob a luz fluorescente do teto.

— Jack! Se não trouxer correndo esta barrica, ele vai lhe torcer o pescoço!

— OK! Diga que já estou indo!

Jack sentiu um arrepio na nuca, e o calafrio não veio inteiramente do frio úmido que havia na des­pensa. Smokey Updike não era homem de brincadeiras... Smokey, que usava na cabeça estreita uma pilha de chapéus de papel tipo mestre-cuca; Smokey, com a enorme dentadura de plástico (comprada pelo re­embolso postal), horrorosa e algo fúnebre em sua uniformidade absoluta; Smokey, com a violência dos olhos castanhos, um amarelo encardido, sujo nas córneas. Aquele Smokey Updike que, em certo sentido, ainda era um desconhecido para Jack (talvez por isso mesmo fosse ainda mais assustador), conseguira de alguma forma transformá-lo num prisioneiro.

A vitrola automática ficou momentaneamente silenciosa, mas o contínuo rugir da multidão aumentou um ponto para compensar. Algum vaqueiro do Lago Ontário soltou a voz num grande, embria­gado “laaarrruuuuu!”. Uma mulher gritou. Um copo foi quebrado. Então a vitrola voltou a funcionar, lem­brando um pouco um foguete Saturno da nasa atingindo a velocidade de escape.

O tipo de cidade onde comem o que eles mesmos atropelam na estrada.

E comem cru!

Jack curvou-se sobre um dos barris de alumínio e arrastou-o cerca de três metros, a boca se repu­xando numa dolorosa contorção, as costas protestando, o suor lhe escorrendo pela testa apesar do frio ar refrigerado. O barril rangeu e guinchou no chão liso de cimento. Ele fez uma pausa, ofegante, as orelhas zumbindo.

Empurrou a plataforma rolante para perto do barril e pôs o cabo na vertical. Depois conseguiu sus­pender o barril de cerveja e dar um ou dois passos para a plataforma. Quando começou a pousá-lo, não agüentou mais o peso (o barril não tinha muitos quilos a menos que o próprio Jack). A barrica caiu com força e de lado na plataforma. A sorte é que o metal tinha sido forrado com uma sobra de tapete para amortecer aterrissagens desse tipo. Jack procurou colocá-lo na vertical e livrar a mão esquerda a tempo. Não conseguiu. A barrica imprensou-lhe os dedos contra o cabo. A pancada foi dilacerante, mas por al­gum milagre conseguiu soltar os dedos latejantes. Então, pôs esses dedos na boca e sugou-os com força, as lágrimas brotando dos olhos.

Pior do que ter esmagado os dedos era o que estava ouvindo. Um lento suspirar de gases escapan­do por um orifício da tampa. Se Smokey encaixasse de mau jeito o barril no engradado do balcão e visse espuma saindo... Ou, pior ainda, se ao abri-lo a cerveja pulasse como um jato em seu rosto...

Melhor não pensar nessas coisas.

Na noite anterior, a noite de quinta-feira, quando Jack tentava “levar a barrica de Smokey”, a barri­ca caíra de lado e rolara pelo chão. A tampa se soltara. Espuma branca e dourada de cerveja inundara o chão da despensa e correra para o ralo como um grande rio. Jack ficou paralisado de medo, coberto de náusea, desligado até mesmo dos gritos de Smokey. Não era a Cerveja Busch; era a Kingsland! Não era uma cerveja comum, mas a divina cerveja de Sua Majestade.

Foi então que Smokey lhe bateu pela primeira vez: um rápido e sibilante golpe que jogou Jack contra uma das ásperas paredes da despensa.

— Hoje, a paga que você merece é só essa! — dissera Smokey. — E ai do dia em que me fizer isso de novo!

O que mais deprimia Jack na frase “E ai do dia em que me fizer isso de novo” era a suposição im­plícita que havia nela de que ele, Jack Sawyer, ainda teria dias de oportunidade para voltar a fazer aquilo! Como se Smokey Updike contasse com sua presença ali por muito, muito tempo!

— Jack, traga isso já!

— Já estou indo! — Jack resfolegou.

Empurrou de costas a plataforma rolante até a porta da despensa, tateou em busca da maçaneta, girou-a e escancarou a porta. Esta bateu em alguma coisa grande, mole e macia.

— Ei! Olhe por onde anda!

— Opa! Desculpe!

— Vá bater no traseiro da sua mãe! — disse a voz.

Jack esperou até o freguês se afastar da porta da despensa e levou o barril para o corredor.

O corredor era estreito, com paredes de um verde bilioso. Tinha cheiro de mijo e cocô, de banhei­ros infectos. O reboco era só buracos que, em alguns pontos, quase atravessavam a parede. Por toda par­te, rabiscadas a lápis ou à tinta, havia palavras ou rimas de sujeitos embriagados esperando a vez de uri­nar. A maior das inscrições parecia ter sido feita com lápis-cera preto e revelava a fúria cega e sem objeti­vo da atmosfera de Oatley: mandem todos os crioulos e judeus americanos para o ira!

O barulho do salão da taberna já fazia trepidar a despensa, mas o corredor parecia uma grande onda sonora em contínua arrebentação. Pela ponta do barril inclinado na plataforma, Jack deu mais uma olhada no fundo da despensa. Queria certificar-se de que a mochila estava bem escondida.

Tinha de fugir. Sem a menor dúvida, tinha de fugir. O olhar do sujeito em quem havia esbarrado ainda o cobria de gelo. Não era uma coisa boa! Mas com Randolph Scott a coisa teria sido ainda pior. E o sujeito não era realmente Randolph Scott; apenas lembrava o jeito de Scott nos filmes dos anos 50.

Com Smokey Updike seria pior ainda... embora Jack já não tivesse tanta certeza. Tinha visto (ou pensado ter visto) os olhos do homem que lembrava Randolph Scott mudarem de cor.

Mas que o povoado de Oatley era a pior coisa do mundo, isso era! Disso ele tinha certeza absoluta!

Oculta no fundo do Condado de Genny, Oatley parecia agora uma horrível armadilha que lhe ti­nham preparado, uma espécie de planta carnívora municipal. Sem dúvida, uma das maravilhas da nature­za, as plantas carnívoras! Fácil cair dentro delas. Quase impossível sair.

 

O homem alto, com uma grande barriga pendurada à frente, continuava esperando o banheiro. Fazia um palito de plástico passar de um a outro canto da boca e não tirava os olhos de Jack. Jack achou que a coisa mole e macia onde a porta batera fora a grande barriga do homem.

— Imbecil! — disse o sujeito.

Então a porta do banheiro se abriu. Alguém saiu de lá e desceu o corredor. Por um momento de congelar o sangue, os olhos de Jack Sawyer encontraram os olhos do homem da barriga. De fato, era precisamente o jeito de Randolph Scott, mas o sujeito não era um astro de cinema. Não passava de um dos habitantes de Oatley tomando seu porre de fim de semana. Quando saísse da taberna, ia pousar o traseiro num carro de segunda mão ou no pequeno selim de uma motocicleta. Provavelmente, não passava de um típico caipira americano com o chapéu de caubói esquecido na mesa da pista de danças.

Os olhos dele ficaram amarelos.

Não, é apenas sua imaginação, Jack! É apenas sua imaginação! Ele só...

Só lhe deu uma olhada de mau jeito porque você bateu na barriga dele. É apenas um pacato mora­dor de Oatley. Um cara que estudou no ginásio daqui, jogou futebol no clube local, fisgou uma boa moça católica e se casou com ela. Depois a boa moça católica começou a engordar comendo chocolates e ali­mentos congelados da Stouffer. É só mais um homem de Oatley, um tanto rude, é claro! Só mais um...

Mas os olhos dele ficaram amarelos.

Pare com isso! Não ficaram!

Contudo, alguma coisa fez Jack pensar no que acontecera quando estava tentando chegar à cida­de... O que acontecera na escuridão do túnel.

E, de repente, o homem da barriga, que mandara Jack bater no traseiro da mãe e o chamara de im­becil, pareceu ir minguando até se transformar num sujeito esbelto, de calça Levi’s e camiseta branca. Randolph Scott olhava firme para Jack. Tinha mãos enormes com veias azuis palpitando. E os olhos que fais­cavam um azul de barra de gelo começaram a se modificar, a oscilar de um lado para outro, a ficar um pouco mais claros, a ficar...

— Garoto... — disse ele, mas uma pressa atordoante se apoderou de Jack. A plataforma com o barril atravessou o corredor aos trancos, dando solavancos que podiam (Jack não se importava mais) bater em qualquer coisa.                                                                                                                     

O barulho do salão inundou-lhe os ouvidos. O pescoço vermelho de Kenny Rogers, um dos Loucos Rapazes do Vale, berrava uma estranha espécie de hino:

Vire a outra face, a outra

E diga que os mansos herdarão a Terra!

O salão estava cheio de pés que se arrastavam, de rostos embriagados e taciturnos. Jack não via ninguém de aparência mansa. Sapateando, os Loucos Rapazes do Vale atacavam de novo os instrumen­tos. Com exceção do tocador da guitarra elétrica, todos os outros pareciam muito tontos e bêbados... Tal­vez nem soubessem muito bem onde estavam. Mas o guitarrista parecia apenas entediado.

À esquerda de Jack, uma mulher falava com veemência no telefone público que havia na taberna. A seu lado, um homem embriagado sacudia o peito dentro da camisa de vaqueiro aberta. Na grande pista de dança, uns 70 casais se agarravam e se empurravam, indiferentes ao compasso rápido da música, espremendo-se, sorrindo, mãos em nádegas, lábios juntos, suor escorrendo nos rostos e formando grandes círculos debaixo dos braços.

— Oh, graças a Deus! — disse Lori com seu sotaque caipira, abrindo uma porta de vaivém para Jack passar com o barril. Smokey estava perto do balcão, abastecendo a bandeja de Glória com gim-tônica, vodca barata e a única coisa que competia com a cerveja local: um chope chamado Black Russians.

Jack viu Randolph Scott atravessar a porta de vaivém. Na confrontação, os olhos azuis captaram imediatamente os de Jack. O garoto balançou ligeiramente a cabeça, como para dizer: Sim, senhor, está bem. Vamos conversar. Talvez possamos chegar a um acordo sobre o que aconteceu ou não aconteceu no túnel de Oatley. Ou sobre o chicote de Osmond. Ou sobre mães doentes. Talvez possamos discutir por que está há tanto tempo no Condado de Genny... E se pretende continuar indefinidamente rondando por aqui. Até se transformar num velho maluco chorando por causa de um carrinho vazio de supermercado. O que acha disso, cara?

Jack tremeu.

Randolph Scott sorriu, como se tivesse visto (ou pressentido) o tremor. Depois sumiu no meio da multidão e do ar enfumaçado.

Foi então que os dedos magros mas fortes de Smokey beliscaram-lhe o ombro. Procuraram o lugar mais sensível e, como sempre, conseguiram achar. Eram dedos experientes, habilidosos em localizar cer­tas nervuras.

— Jack, você tem de ser mais rápido! — disse Smokey.

A voz era quase simpática, mas os dedos cutucavam, sondavam-lhe os nervos dos ombros, mo­viam-se neles. O hálito cheirava aos drops rosados de menta que ele praticamente não tirava da boca. A dentadura postiça (que veio pelo reembolso postal) mascava e estalava. Às vezes ocorria um deslocamen­to obsceno quando as placas escorregavam um pouco e Smokey precisava sugá-las para o lugar certo.

— Ou você anda mais depressa ou te sento de bunda numa fogueira. Entendeu bem o que estou dizendo?

— Entendi — disse Jack, procurando não gemer.

— Tudo bem... Está certo.

Por um torturante momento, os dedos de Smokey fizeram um gancho mais fundo, agarrando com amargo entusiasmo uma delicada teia de nervos. Jack teve de gemer! Smokey gostou da reação e se levantou.

— Ajude-me a suspender este barril, Jack. E vamos fazer isso rápido. As pessoas gostam de beber sexta-feira à noite.

— Sábado de manhã — Jack corrigiu um tanto atordoado.

— Tanto faz! Vamos com isso!

De alguma forma Jack conseguiu ajudá-lo a encaixar o barril no compartimento quadrado embaixo do balcão. Os músculos pegajosos de Smokey incharam e se contorceram sob a camiseta com a estampa da taberna. O chapéu de papel tipo mestre-cuca não caiu da cabeça de fuinha. Em nítido desafio às leis da gravidade, uma das pontas continuava se equilibrando pouco acima da sobrancelha esquerda.

Prendendo a respiração, Jack viu Smokey girar a tampa de plástico vermelho. A barrica assobiou mais ruidosamente do que devia ter feito... mas não espumou. O ar saiu dos pulmões de Jack numa golfa­da silenciosa.

Smokey extraiu a cerveja e fez o barril vazio rodar na direção do garoto.

— Leve para a despensa! Depois dê uma limpada no banheiro. Lembre-se do que eu lhe disse hoje à tarde.

Jack se lembrava. Às três da tarde, uma chaminé de fábrica deixara escapar um violento apito de ar comprimido. Jack quase pulou de susto. Lori riu e disse:

— Olhe o Jack, Smokey! Ele quase se borrou!

Smokey dirigiu à mulher um olhar enviesado e frio. Depois se virou para Jack. Disse ao garoto que o apito da sexta-feira na Oatley T & W era o maior de todos. Disse ao garoto que logo um apito muito semelhante ia sair da Dogtown Rubber, uma companhia que fabricava bóias de praia e bonecos infláveis para crianças, além de camisas-de-vênus para adultos (chamadas “Ponto das Delícias”). Daí a pouco, ele disse, a Taberna Oatley começaria a encher.

— Eu, você, Lori e Gloria vamos ter de correr como se fugíssemos do inferno! — disse Smokey. — Os urros do pessoal da sexta-feira compensam toda a pasmaceira dos domingos, segundas, terças, quartas e quintas. Quando eu mandar você me trazer correndo uma barrica, ela tem de estar na minha frente antes que eu acabe de gritar. E de meia em meia hora passe um pano no chão do banheiro dos homens. Nas sextas-feiras, mais ou menos de 15 em 15 minutos um cara vomita.

— O banheiro das mulheres fica por minha conta — disse Lori se aproximando. Tinha um cabelo ralo, ligeiramente ondulado e dourado. A pele era branca como o rosto de um vampiro de revista de ter­ror. Se não estava resfriada, sem dúvida cheirava cocaína, pois não parava de fungar. Mas Jack achava que devia ser resfriado. Dificilmente uma pessoa em Oatley poderia se dar ao luxo de ser viciada em cocaína. — Felizmente as mulheres são menos sujas que os homens. A diferença é pequena, mas existe.

— Cale a boca, Lori! — disse Smokey.

— Cale a sua! — ela respondeu.

O braço de Smokey cintilou como um raio. Houve um estalo e, de repente, a marca da palma da mão avermelhara como tatuagem plástica uma das faces pálidas de Lori. Ela começou a choramingar, mas Jack ficou surpreso e enojado ao ver em seus olhos uma expressão de quase felicidade. Talvez Lori acre­ditasse piamente que um tratamento daquele tipo era sinal de carinho.

— Trabalhe direito e não teremos problemas — disse Smokey, virando-se para Jack. — Corra quando eu lhe mandar trazer uma barrica! E não esqueça de ir de meia em meia hora ao banheiro dos homens para limpar o vômito!

Então Jack disse novamente a Smokey que queria ir embora, e Smokey reiterou sua falsa promessa de que o deixaria partir domingo à tarde...

Mas o que adiantava pensar nisso agora? A gritaria ia se tornando cada vez mais alta e havia fortes explosões de riso. Houve um barulho de cadeira quebrando e um gemido ondulante de dor. Houve um soco (o terceiro da noite) na pista de danças. Smokey soltou um palavrão e deu um empurrão em Jack.

— Livre-se do barril! — ele gritou.

Jack pôs o barril vazio na plataforma e a fez rodar na direção da porta de vaivém. Olhava ansiosa­mente em volta à procura de Randolph Scott. Viu-o de pé, no meio da turba que assistia à briga. Relaxou um pouco.

Na despensa, tirou o barril da plataforma e arrumou-o num canto. (Os fregueses da Taberna Oatley já haviam consumido seis barricas naquela noite.) Feito isso, foi novamente verificar se a mochila estava bem guardada.

Por um instante de pânico, achou que ela tinha sumido. O coração começou a martelar. O suco mágico estava lá dentro (além da moeda dos Territórios, que neste mundo se transformou num dólar de prata). Jack deu uma súbita guinada à direita, o suor encharcando-lhe a testa, e procurou entre dois outros barris. Ah, lá estava! Pôde até sentir o contorno da garrafa de Speedy através do náilon verde. O coração voltou a bater mais devagar, no entanto ele estava tonto, as pernas tremendo (como fica uma pessoa de­pois de escapar por um triz de algum perigo).

O banheiro dos homens tinha um aspecto terrível. No início da noite, Jack quase juntava ao vômito que encontrava o seu próprio, mas já parecia estar se acostumando ao fedor (e de certa forma isso era o pior de tudo: habituar-se ao fedor!). Abriu uma bica de água quente, levantou o puxador com o pano de chão enrolado na ponta, e começou a esfregar o pano na indescritível sujeira do chão. Sua mente iniciou um balanço dos últimos dias, concentrando-se neles como o animal que caiu na armadilha concentra sua ação na perna ferida.

 

A taberna oatley parecia escura, sombria, sem vivalma quando Jack atravessou pela primeira vez o umbral da porta. Os fios da vitrola automática, da máquina de fliperama e do jogo dos Invasores do Espaço estavam fora das tomadas. A única luz que havia no salão vinha do anúncio da Cer­veja Busch sobre o balcão: a marca em néon entre dois picos de montanha (sob eles havia um relógio di­gital, parecendo o mais estranho ovni jamais imaginado).

Com um leve sorriso nos lábios, Jack caminhou para o balcão. Estava quase lá quando ouviu uma voz atrás dele:

— Isto é uma taberna. Menores não podem entrar. Quem é você, cretino? Caía fora!

Jack quase pulou de susto. Tinha começado a contar o dinheiro que ainda havia em seu bolso e es­tava disposto a empregar a mesma tática que usara para conseguir seu trabalho anterior: sentava calmamente num banco, pedia alguma coisa e depois perguntava se precisavam de algum ajudante. Evidente­mente, era ilegal empregar menores num bar (principalmente sem autorização dos pais ou responsáveis), o que significava que, a pretexto de compensar o risco, só lhe pagariam uma quantia irrisória. Mas não ha­via outra solução! Jack trazia na ponta da língua a história fictícia de um padrasto malvado que o expulsa­ra de casa.

Deu meia-volta e viu um homem sentado num dos compartimentos. Fitava-o com um ar assustador de alerta e desdém. O sujeito era magro, mas uma boa musculatura movia-se sob a camiseta branca e dos lados do pescoço. As calças eram brancas e muito largas, como as calças dos cozinheiros. Um gorro de papel caía sobre a sobrancelha esquerda. A cabeça parecia de fuinha, estreita e pontuda. O cabelo, muito curto, começava a ficar grisalho. E entre suas mãos enormes havia uma pilha de faturas e uma calculadora eletrônica.

— Vi o anúncio procurando um auxiliar — disse Jack, sem muita esperança. Aquele cara não ia lhe dar trabalho, e ele também já não estava com vontade de trabalhar ali. O homem tinha toda a pinta de um mau-caráter.

— Viu o anúncio, hã? Deve ter aprendido a ler num dos raros dias em que não esteve matando aula, foi ou não foi?

Havia uma caixa de charutos Phillies em cima da mesa. O homem pegou um deles.

— Bem, eu não reparei que isto era uma taberna — disse Jack recuando um passo em direção à porta. A luz do sol atravessava a vitrine empoeirada e assumia um brilho estranho no assoalho, como se a Taberna Oatley estivesse situada numa dimensão ligeiramente diferente. — Pensei que fosse... o senhor sabe... uma espécie de churrascaria. Algo assim... Bem, até logo!

— Venha cá, rapaz!

Agora os olhos castanhos do homem olhavam-no com firmeza.

— Não, não, tudo bem! — disse Jack meio nervoso. — Vou mesmo embora.

— Venha cá! Sente-se aqui!

O sujeito acendeu um fósforo com um piparote da unha do polegar. Depois acendeu o charuto. Uma mosca que lhe rodeava o gorro de papel desapareceu zumbindo na escuridão. Os olhos do homem não saíam do rosto de Jack.

— Não vou mordê-lo, pode crer! — disse ele.

Jack se aproximou vagarosamente do compartimento e, após um instante de hesitação, resvalou para uma cadeira e cruzou os braços sobre a mesa.

Sessenta horas mais tarde, à meia-noite e meia da madrugada de sábado, passando um pano de chão no banheiro dos homens, o cabelo suado caindo nos olhos, Jack achou — isto é, teve certeza — que sem a estúpida confiança que depositara em si mesmo não teria deixado que o alçapão da armadilha caís­se sobre ele (aquele alçapão que se fechou no momento exato em que se sentou diante de Smokey Updi­ke).

A dionéia é capaz de se fechar sobre os insetos infelizes que lhe caem nas garras. Com seu aroma delicioso, e a suavidade cristalina e fatal de suas pétalas, a planta carnívora limita-se a esperar que algum inseto estúpido voe para dentro dela... O inseto acabará se afogando na água da chuva que a planta cole­ta. Em Oatley, em vez de água da chuva, a planta estava cheia de cerveja: esta era a única diferença.

Se ele tivesse corrido...

Mas ele não correu. Fez força para enfrentar os frios olhos castanhos de Smokey e achou que po­dia conseguir algum trabalho ali. Minette Banberry, proprietária e gerente do Golden Spoon, um pequeno restaurante de Auburn, onde Jack trabalhara na cozinha, tinha simpatizado com ele. Chegara a lhe dar um abraço, um monte de beijos e três enormes sanduíches quando ele partiu, mas Jack Sawyer não era tolo. Simpatia (e mesmo uma dose remota de afetividade) não excluem um frio interesse em lucros nem uma ambição por ganhos maiores à custa da mão-de-obra.

O salário mínimo em Nova York era de três dólares e 40 centavos por hora. Em cumprimento de uma lei municipal, esta informação estava afixada na cozinha do Golden Spoon, num bonito quadrado de cartolina alaranjada, quase do tamanho de um pôster de filme. Mas o chefe da cozinha era um haitiano que mal falava inglês e parecia ter entrado ilegalmente no país. O sujeito cozinhava bem, nunca deixando que uma batata frita torrasse demais ou que um bife passasse do ponto. A garçonete que ajudava a Sra. Banberry era bonita, mas participava de um programa de treinamento profissional para excepcionais. No caso dela, a tabela do sindicato também não se aplicava. Tímida e retardada, a mocinha confessou a Jack, com absoluta ingenuidade, que estava ganhando um dólar e 25 centavos por hora; e o dinheiro era todo

Jack ganhava um dólar e 50. E só tinha conseguido isso porque o velho lavador de pratos fora em­bora naquela manhã. Se a Sra. Banberry não estivesse enfrentando problemas graves na cozinha, jamais teria se deixado dobrar. “Pegue o dólar e 25, garoto, ou ponha o pé na estrada”, ela se limitaria a dizer. “Estamos num país livre.”

Agora, pensou ele com o desconhecido cinismo que começava a fazer parte de seu novo senti­mento de autoconfiança, ali estava outra Sra. Banberry. Dessa vez, numa versão masculina, um jeito es­guio e musculoso em vez de gordo e maternal, a cara feia em vez dos sorrisos. Mas, sem dúvida, outra Sra. Banberry em tudo o que havia de essencial.

— Procurando trabalho, hã?

O homem de calças brancas e gorro de papel pousara o charuto num velho cinzeiro de metal com a palavra camels impressa no fundo. Uma mosca parou de andar nas pernas dele e levantou vôo.

— Sim senhor, mas como o senhor disse, isto é uma taberna e...

Uma espécie de mal-estar percorreu o corpo de Jack. Aqueles olhos castanhos e córneas amarela­das começavam a perturbá-lo: era o olhar de um velho gato caçador, um gato que já pegara outros camundongos errantes antes dele.

— Sim, esta é a minha taberna! — disse o homem. — Smokey Updike, muito prazer!

Ele estendeu a mão. Surpreso, Jack ofereceu a sua. E o aperto que sentiu foi imediato, cruel, atin­gindo quase o estágio da dor. Tentou puxar a mão... mas Smokey não a deixou fugir.

— E então? — disse Smokey.

— Hã? — Jack respondeu, consciente de que estava parecendo estúpido e assustado. E de fato se sentia estúpido e um tanto assustado... Queria que Updike largasse sua mão.

— Ninguém o ensinou a dizer o nome às pessoas?

A pergunta foi tão inesperada que Jack quase deixou escapar seu verdadeiro nome, em vez daque­le que usou no Golden Spoon e que dava aos motoristas com quem pegava carona. Este nome (que ele estava começando a considerar seu “nome de estrada”) era Lewis Farren.

— Jack Saw... ah... Sawtelle — disse ele.

Updike prendeu-lhe mais um pouco a mão, os olhos castanhos imóveis. Por fim, deixou-a escapar.

— Jack Saw-ah-Sawtelle — disse Smokey. — Deve ser o nome mais comprido na porra da lista te­lefônica, hem, guri?

Jack ficou vermelho, mas não disse nada.

— Você ainda é muito pequeno — disse Updike. — Acha que vai conseguir levantar uma barrica de 40 quilos e empurrá-la numa plataforma rolante?

— Acho que sim — disse Jack, sem saber se conseguiria ou não. De qualquer modo, a coisa não o deixou muito preocupado. Num lugar tão desolado quanto Oatley, as barricas de uma taberna não se esvaziariam com grande rapidez.

Como se lesse seus pensamentos, Updike disse:

— Olhe, agora não há ninguém aqui. Mas temos um bom movimento lá pelas quatro, cinco horas. E nos fins de semana, isto enche até o teto. Aí é que você tem de trabalhar direito, rapaz!

— Bem, eu não sei... — disse Jack. — De quanto é o salário?

— Um dólar por hora — respondeu Updike. — Seria bom se eu pudesse pagar um pouco melhor, mas...

O taberneiro sacudiu os ombros e bateu na pilha de faturas. Chegou até a esboçar um sorriso, como se dissesse: Você sabe como é, garoto... Tudo em Oatley está parado. Como um relógio velho cujo dono esqueceu de dar corda. Desde 1971 nada mais se movimenta. Mas os olhos dele não sorriram. Os olhos vigiaram a expressão de Jack com a imóvel concentração de um gato diante de sua presa.

— Puxa, é mesmo muito pouco — disse Jack. Falava devagar, mas procurava pensar o mais de­pressa possível.

A Taberna Oatley parecia uma tumba; não havia sequer um velho chocando uma cerveja no balcão e vendo um seriado na tela de TV. Jack chegara a pensar que, em Oatley, as pessoas bebiam num carro sem pneus que chamavam de “clube”. Um dólar e 50 por hora era um péssimo salário quando se tem de suar o dia inteiro lavando pratos; mas num lugar como Oatley, quem sabe a pasmaceira da freguesia não transformaria um dólar numa remuneração bastante razoável?

— Sem dúvida é pouco — Updike concordou, voltando à calculadora. — Mas não posso lhe pagar mais.

O tom de sua voz dizia que era pegar ou largar. Não havia qualquer possibilidade de negociação.

— Então acho que está bem — disse Jack.

— Ótimo! — exclamou Updike. — Mas quero que você me explique um pequeno detalhe... De quem está fugindo? Quem anda atrás de você? — Os olhos castanhos tinham voltado ao rosto de Jack e pareciam perfurá-lo. — Não quero complicações do meu lado, não quero me foder, está claro?

Isso não abalou muito a segurança de Jack. Talvez não fosse o garoto mais brilhante do mundo, mas era suficientemente esperto para saber que não conseguiria sobreviver com a mochila nas costas sem uma historinha apropriada para possíveis patrões. Era a história número dois: O Padrasto Malvado.

— Sou de uma pequena cidade do Estado de Vermont — disse ele. — Fenderville. Minha mãe se divorciou do meu pai há dois anos. Papai quis ficar com a guarda, mas o juiz me entregou à minha mãe. Na maioria das vezes eles agem assim.

— E é a maior merda que fazem!

Smokey voltara às suas contas e estava tão curvado sobre a minicalculadora que o nariz quase en­costava nas teclas. Mas Jack sabia que ele podia somar e ouvir ao mesmo tempo.

— Bem, meu pai foi para Chicago e conseguiu trabalho numa fábrica de lá. Ele me escreve pratica­mente toda semana, mas desde que Aubrey lhe deu uma surra, nunca mais veio nos visitar. Aubrey é o...

— Seu padrasto — disse Updike, e por um breve momento os olhos de Jack se estreitaram e a sensação de mal-estar o atingiu de novo. Não havia simpatia na voz do taberneiro. Updike parecia estar quase rindo dele, como se tivesse certeza de que toda a história não passava de uma grande trouxa de mentiras.

— Sim — disse Jack. — Minha mãe se casou de novo há um ano e meio. Meu padrasto me bate, me bate a toda hora...

— É uma história triste, Jack. Muito triste. — Updike voltou a erguer os olhos; havia neles uma sar­dônica expressão de descrença. — E agora está a caminho de Chicago, onde você e o papai poderão viver felizes para sempre...

— Bem, espero que sim! — disse Jack e, tendo uma súbita inspiração, acrescentou: — Sem dúvida, meu pai verdadeiro nunca ia me pendurar pelo pescoço num gancho de armário!

Abaixou o colarinho da camiseta para Smokey ver a marca. Agora já estava meio desbotada, mas durante a temporada no Golden Spoon ainda estampava um feio e brilhante tom avermelhado, como marca de ferro em brasa. No Golden Spoon jamais tivera ocasião de exibi-la. Era, é claro, a marca deixada pela raiz que quase o estrangulara naquele outro mundo.

Ficou satisfeito vendo os olhos de Smokey Updike se arregalarem de espanto. Talvez tivesse con­seguido chocá-lo. Smokey se debruçou sobre a mesa, espalhando algumas faturas alaranjadas e amarelas.

— Jesus, garoto! — exclamou. — Seu padrasto fez isto?

— Foi aí que eu decidi fugir.

— Você acha que ele pode aparecer por aqui? Você lhe roubou algum carro, alguma moto, uma carteira de dinheiro, uma porra qualquer que pudesse trazer no bolso?

Jack negou com um movimento de cabeça.

Smokey fitou-o por mais um instante e, então, apertou a tecla off da calculadora.

— Venha comigo dar uma olhada na despensa — disse ele.

— Para quê?

— Quero ver se consegue levantar um daqueles barris. Se for capaz de me trazer uma barrica de cerveja quando eu precisar, pode ter certeza de que o emprego é seu!

 

Para a satisfação de Smokey Updike, Jack se mostrou inteiramente capaz de pôr nas costas um dos grandes barris de alumínio e pousá-lo com suavidade na plataforma rolante. Esfor­çou-se para fingir que o fazia sem grande dificuldade (ninguém ia imaginar que no dia seguinte deixaria cair uma daquelas barricas, inundando a despensa de espuma).

— Tudo bem, não foi assim tão mau — disse Updike. — Você ainda não tem idade suficiente para o trabalho e não é impossível que acabe arranjando uma hérnia... Mas, de qualquer modo, a responsabili­dade é sua.

Disse que Jack poderia começar ao meio-dia e trabalhar até uma hora da manhã (“Desde que agüente esse tempo todo, é claro.”) Jack seria pago diariamente, disse Updike, quando a taberna fechasse as portas.

— Pagamento à vista, garoto!

Voltaram ao salão e lá estava Lori, vestindo um short azul-marinho de basquete (tão curto que a ponta das calcinhas de raiom aparecia) e uma blusa sem mangas, com toda a certeza comprada fora de Oatley. Prendedores de plástico puxavam num rabo-de-cavalo o cabelo louro e ralo. Lori fumava um Pall Mall, o filtro úmido, com marcas nítidas de batom. Um grande crucifixo de prata lhe pendia entre os seios.

— Este é Jack! — disse Smokey. — Pode tirar da vitrine o cartaz para o auxiliar.

— Vá embora, garoto! — disse Lori. — Você ainda tem tempo...

— Feche a porra dessa boca!

— Se eu quiser!

Updike deu-lhe um tapa nas nádegas, não de um modo carinhoso, mas com força suficiente para fazê-la bater na borda almofadada do balcão. Jack pestanejou. Lembrou-se do som do chicote de Osmond.

— Bonito papel! — disse Lori. Os olhos dela estavam marejados de lágrimas, mas pareciam contentes, como se tudo estivesse acontecendo conforme o programado.                                           

O mal-estar inicial de Jack voltou a assaltá-lo. Dessa vez de forma mais nítida, mais intensa. Já era quase um sentimento de horror.

— Não nos deixe entrar na sua vida, guri! — disse Lori, passando perto dele para tirar a tabuleta da vitrine. — Ficará bem melhor longe de nós!

— Ele se chama Jack, não guri! — Smokey gritou. Voltara para o compartimento onde “entrevista­ra” Jack e começava a recolher as faturas. — Guri é um nome de sarjeta. Não aprendeu isso na escola? Sir­va dois hambúrgueres ao garoto. Ele só vai começar a trabalhar às quatro!

Lori removeu a plaqueta procura-se auxiliar da vitrine e guardou-a atrás da vitrola automática. Pa­recia já ter feito aquilo milhares de vezes. Passando outra vez por Jack, piscou o olho para ele.

O telefone tocou.

Todos se viraram para o aparelho, levando um susto com a campainha estridente. Para Jack foi como se uma nuvem negra passasse diante de seus olhos. Um momento estranho, quase desprovido de tempo. Mas ele teve tempo de observar a palidez de Lori; a única coloração das faces vinha das marcas avermelhadas da acne de adolescente. Teve tempo de estudar os traços cruéis, um tanto dissimulados, do j rosto de Smokey Updike e de ver como as veias saltavam nas mãos enormes. Teve tempo de ver o letreiro amarelado sobre o telefone: por favor, limite suas chamadas a três minutos.

No silêncio, o telefone não parava de tocar.

Subitamente aterrorizado, Jack pensou: É pra mim. Chamada interurbana... Chamada interurbana.

— Atenda o telefone, Lori! — disse Updike. — Saia do mundo da lua, guria, vamos lá!

Lori foi até o telefone.

— Taberna Oatley — disse ela com uma voz fraca e trêmula. Esperou um instante. — Alô? Alô?... Oh, merda!

Bateu com o fone no gancho.

— Ninguém respondeu. Brincadeira de garotos. Às vezes ligam pra perguntar se temos vaselina lí­quida em lata! Como quer os hambúrgueres, guri?

— Jack! — Updike rosnou.

— Jack, ok, ok, Jack! Como quer os hambúrgueres, Jack?

Jack explicou e ganhou dois hambúrgueres no ponto, cheios de mostarda e grandes rodelas de ce­bola. Devorou-os num instante e bebeu um copo de leite. O sentimento de mal-estar diminuiu na mesma medida da fome. Brincadeira de garotos, Lori dissera. Mesmo assim, de vez em quando, os olhos de Jack Sawyer deslizavam para o telefone. Estava meio intrigado.

 

Logo eram quatro horas e, como se a total desolação da taberna fosse apenas uma encenação armada para atraí-lo (como as plantas carnívoras atraem os insetos com sua aparência inocente e cheiro agradável), a porta se abriu e uma dúzia de homens com macacões de trabalho entra­ram com ar animado. Lori ligou as tomadas da vitrola automática, da máquina de fliperama e do jogo dos Invasores do Espaço. Alguns dos homens berraram cumprimentos para Smokey. Ele deixou escapar um sorriso estreito, expondo a grande fileira de dentes postiços comprados pelo reembolso postal.

A maioria pediu cerveja. Dois ou três pediram o chope Black Russians. Apenas um (membro do Clube dos Amigos da Esquina, Jack tinha quase certeza) pôs duas moedas na vitrola automática, convocando as vozes de Mickey Gilley, Eddie Rabbit, Waylon Jennings e outros. Smokey mandou que Jack pe­gasse um pano de chão, desse uma limpada na despensa e uma boa esfrega na pista de dança. Defronte à pista de dança havia um tablado, que, deserto, esperava pela noite de sexta-feira com os Loucos Rapazes do Vale. Smokey também mandou que Jack, depois de pôr em ordem a despensa e a pista de dança, pe­gasse uma flanela e desse um polimento no balcão.

— Quando enxergar seus dentes se arreganhando para você, pode ter certeza de que o trabalho está bem-feito!

 

E foi assim que Jack começou a trabalhar na Taberna Oatley, de Smokey Updike.

Temos um bom movimento lá pelas quatro, cinco horas.

Bem, não seria justo dizer que Smokey mentira. Até o momento em que Jack acabou os hambúrgueres, a taberna estava deserta. Às quatro, chegou uma pequena dúzia de trabalhadores e Jack começou a fazer jus ao seu salário de um dólar. Lá pelas seis horas, porém, já havia umas 50 pessoas no salão e Glo­ria, uma forte garçonete, atendia aos berros e urros dos clientes. Lori juntou-se a Gloria, servindo garrafas de vinho, um bom número de canecas de chope e oceanos de cerveja.

Além das barricas de Busch, Jack tinha de buscar caixas e caixas de cerveja em garrafa: Budweiser, é claro, pois era uma marca nacional, mas também cervejas da região, como Genesee, Utica Club e Rolling Rock. Suas mãos começaram a se cobrir de bolhas, as costas a doer.

Entre idas à despensa em busca de engradados de cerveja e idas à despensa em obediência a “Tra­ga-me uma barrica, Jack” (uma frase diante da qual já começava a sentir um temor instantâneo), Jack Sawyer passava um pano molhado no assoalho da taberna e dava lustre na grande garrafa de Pledge sobre o balcão. Certa vez, uma garrafa vazia de cerveja passou raspando pela sua cabeça, errando o alvo por um ou dois centímetros. Ele se abaixou depressa, o coração saltando pela boca, e a garrafa se espatifou na pa­rede. Smokey, a dentadura aberta num grande e falso sorriso de jacaré, expulsou da taberna o bêbado que estava criando problemas. Olhando pela vitrine, Jack viu o bêbado bater num paquímetro com força suficiente para fazer a bandeira vermelha se levantar.

— Venha cá, Jack! — Smokey gritou impaciente do balcão. — Ele quase o acertou, não é? Limpe essa sujeira!

Meia hora depois, Smokey mandou-o limpar o banheiro dos homens. Um sujeito de meia-idade, com cabelo muito curto e parecendo um pouco tonto, urinava com uma das mãos apoiadas na parede e a outra brandindo um enorme pênis não-circuncidado. Uma poça de vômito avançava entre o couro de suas botas.

— Limpe isso aí, garoto — disse o homem, tentando cambalear para fora do banheiro e dando um “tapinha” nas costas de Jack que quase o derrubou no chão. — Afinal, aqui é o melhor lugar para se vomi­tar, não é?

Jack conseguiu esperar que o homem saísse, mas logo depois perdeu o controle da goela.

Vomitou na única privada do banheiro, onde teve de enfrentar o cheiro penetrante, intenso, das fe­zes de um freguês. Vomitou tudo o que comera à tarde, respirou fundo e vomitou de novo. Com a mão trêmula, procurou o botão da descarga e apertou-o. Do outro lado da parede, Waylon e Willie atacavam na vitrola automática uma monótona canção sobre o Texas.

De repente, viu o rosto de sua mãe na frente dele, mais bonito do que em qualquer filme — olhos grandes, escuros e tristes. Viu-a sozinha na suíte do Alhambra, o cigarro ardendo num cinzeiro. Estava chorando. Chorando por sua causa.

O coração martelou com muita força no peito de Jack e ele achou que ia morrer de saudades. Quis voltar para perto da mãe, para uma vida onde não existiam coisas emboscadas em túneis, mulheres que gostavam de ser esbofeteadas, homens que vomitavam entre as botas enquanto urinavam. Quis estar junto dela e odiou Speedy Parker com todas as suas forças. Fora Speedy quem o fizera seguir aqueles terríveis caminhos do oeste.

Naquele momento, tudo o que ainda lhe restava de autoconfiança ruiu por terra. Ruiu de vez, de forma radical, integral. Todo o seu autocontrole foi substituído por uma profunda, elementar, lamuriosa, infantil vontade de gritar: Quero minha mãe! Por favor, Deus, eu quero minha mãe!...

Saiu do banheiro tremendo, as pernas bambas, pensando: Fique você com esta poça de merda, Speedy, porque eu vou voltar pra casa! Mesmo que esta casa tenha de ser o Alhambra! Naquele momento, não se preocupou mais em saber se a mãe estava morrendo. Naquele momento de dor inarticulada, tor­nou-se integralmente Jack-Jack, tão instintivo quanto um animalzinho medroso: um cervo, um coelho, um esquilo, uma doninha, que qualquer carnívoro pode pegar. Naquele momento pouco se importou que a mãe morresse daquele câncer que devia estar se expandindo vorazmente do interior de seus pulmões. Só queria que ela o abraçasse, o beijasse, lhe desse boa-noite na hora de dormir, dissesse para ele não esque­cer o rádio ligado na mesa-de-cabeceira nem o abajur aceso até de manhã.

Apoiou-se na parede e, aos poucos, foi recuperando o controle. A retomada de ânimo não foi uma coisa consciente, mas uma simples reviravolta mental, algo que tinha muito a ver com as repentinas mudanças de humor de Phil Sawyer e Lily Cavanaugh. Ia cometer um erro, um grande erro, sim!, mas já não estava disposto a voltar. Os Territórios eram reais e, portanto, o talismã também podia ser real. Não ia ma­tar sua mãe por causa de um momento de fraqueza!

Encheu um balde d’água quente na torneira da despensa e foi limpar o banheiro.

Quando voltou ao salão, eram dez e meia da noite e a turba de freqüentadores tinha começado a se dispersar. Oatley era uma cidade onde havia algumas fábricas, e nos dias de semana aqueles trabalhadores beberrões iam cedo para casa.

— Você está pálido como massa de pastel, Jack! — disse Lori. — Está sentindo alguma coisa?

— Será que eu podia tomar um gingerale? — ele perguntou.

Lori trouxe o refrigerante e Jack bebeu-o passando um pano de chão no assoalho. Às 15 para a meia-noite Smokey mandou que ele fosse até a despensa “pegar uma barrica”. Jack trouxe a barrica com muita dificuldade. Às 15 para a uma Smokey começou a gritar que fechassem a taberna. Lori desligou a vitrola automática (a voz de Dick Curless se dissipou num longo, tortuoso gemido). Ainda havia alguns fregueses, que deixaram escapar débeis exclamações de protesto. Gloria desligou os jogos, vestiu um suéter (tinha a mesma cor dos drops de hortelã que Smokey estava sempre chupando, a mesma cor das gengivas de sua dentadura postiça) e foi embora. Smokey começou a apagar as luzes e a convencer os últimos quatro ou cinco beberrões a saírem.

— Tudo bem, Jack — disse ele quando os homens se foram. — Você trabalhou direitinho. Ainda pode melhorar, mas para começar está bom. Pode dormir na despensa, Jack.

Em vez de pedir seu pagamento (que Smokey, aliás, não ofereceu), Jack cambaleou para a despen­sa, tão cansado que parecia uma versão em tamanho ligeiramente menor dos últimos bêbados a abando­nar o salão.

Na despensa, viu Lori de cócoras num canto. A posição fazia o short de basquete descer a um ponto quase alarmante. Por um instante, teve medo que ela estivesse mexendo em sua mochila. Então reparou que ela apenas estendia dois cobertores sobre um amontoado de sacos de estopa. Pusera também um pequeno travesseiro de cetim ao lado dos cobertores. O travesseiro tinha alguns dizeres: feira mundial de nova york.

— Achei melhor fazer uma cama para você, guri — disse ela.

— Obrigado — Jack respondeu. Fora um simples, quase involuntário ato de gentileza, mas Jack chegou a ter dificuldade para conter as lágrimas. Repuxando os lábios, forçou um sorriso. — Muito obri­gado mesmo, Lori!

— Não se preocupe. Ficará bem instalado aqui, Jack! Smokey não é assim tão mau. Quando passar a conhecê-lo melhor, vai ver que tenho razão.

Falara com uma certa tristeza e ansiedade, como se estivesse fazendo força para acreditar no que dizia.

— Acho que sim — disse Jack, e então, num impulso, acrescentou: — Mas vou-me embora ama­nhã. Acho que não me adaptei muito bem a Oatley.

— Talvez vá, Jack... — disse ela. — Ou talvez decida ficar mais um pouco... Agora, por que não procura dormir?

Havia alguma coisa forçada e artificial no tom de Lori. Havia alguma coisa estranha em seu sorriso quando ela lhe disse: Achei melhor fazer uma cama para você. Jack não deixou de observar isso, mas es­tava cansado demais para refletir sobre o assunto.

— Bem, amanhã será outro dia — disse ele.

— É claro que sim — Lori concordou, caminhando para a porta. Antes de sair, atirou-lhe um beijo com a palma encardida da mão. — Durma bem, Jack!

— Boa noite.

Ele começou a tirar a camisa... mas parou pelo meio, achando que era melhor tirar apenas o tênis. A despensa era fria e úmida. Sentou-se na cama improvisada, desamarrou os cordões, tirou primeiro um pé, depois o outro.

Estava prestes a deitar no travesseiro Feira Mundial de Nova York (e talvez conseguisse adormecer antes que sua cabeça afundasse nele), quando o telefone começou a tocar no salão... Uma estridência no salão, uma estridência dentro dele, uma estranha sensação que lhe trouxe à memória raízes viscosas, chi­cotes e pôneis de duas cabeças.

Ring ring, ring no meio do silêncio, no meio do silêncio mortal!

Ring, ring, ring, muito tempo depois dos garotos que podiam passar um trote perguntando se ti­nham vaselina líquida em lata terem ido dormir. Ring, ring, ring! Alô, Jacky! Aqui é Morgan! Pressenti que você estava nos bosques, seu merdinha... farejei-o nos meus bosques. E como pôde acreditar que estaria se­guro em seu mundo? Meus bosques também estão aí, rapaz! Esta é sua última chance, Jacky! Volte pra casa ou nossas tropas irão atrás de você. Você ficará sem saída, Jacky! Você ficará...

Jack se levantou e, de meias, atravessou correndo a despensa. Uma fina camada de suor, fria como gelo, parecia lhe envolver o corpo inteiro.

Abriu uma fresta da porta.

Ring, ring, ring, ring!

Então, finalmente:

— Alô? Taberna Oatley. E é melhor que isto não seja brincadeira! — Era a voz de Smokey. Uma pausa. — Alô? — Outra pausa. — Por que não vai se foder?!

Smokey bateu com o fone no gancho e Jack ouviu-o atravessar a porta interna do salão e subir os degraus para os pequenos aposentos que ocupava com Lori no andar de cima.

 

Sem acreditar no que via, Jack correu os olhos da folha verde de papel em sua mão esquerda para a pequena pilha de notas fiscais — todas iguais — e voltou para a mão direita. Eram 11 horas da manhã seguinte. Manhã de quinta-feira, quando ele reclamara o pagamento.

— O que é isto? — perguntou, ainda incapaz de crer no que via.

— Você sabe ler — disse Smokey — e também sabe contar. Não é tão ligeiro quanto eu gostaria que fosse (pelo menos ainda não), mas parece bastante esperto.

Jack segurava a folha verde de papel numa das mãos e o dinheiro na outra. Uma raiva surda come­çava a lhe pulsar como uma veia no meio da testa. despesas de empregado, dizia a folha verde. Era exatamente o mesmo modelo que a Sra. Banberry usara no Golden Spoon. Enumerava:

 

1 hambúrguer                    $1.35

1 hambúrguer                    $1.35

1 copo de leite                        .55

1 gingerale                              .55

Serviço                                   .30

 

Embaixo de tudo, a cifra $ 4.10 fora escrita em grandes algarismos e circundada por um risco à tin­ta. Jack ganhara nove dólares por seu turno de quatro da tarde à uma da manhã. Smokey reembolsara quase a metade; na mão direita de Jack Sawyer restavam apenas quatro dólares e 90 centavos.

Ele levantou os olhos, furioso. Primeiro para Lori, que desviou a cabeça como se estivesse ligeira­mente embaraçada, depois para Smokey, que nem piscou.

— É um roubo! — disse com voz trêmula.

— Jack, não é verdade. Dê uma olhada nos preços do cardápio...

— O senhor sabe muito bem que não é isso o que estou querendo dizer!

Lori contraiu um pouco o rosto, como se esperasse que Smokey desse uma bofetada no guri... Mas o taberneiro limitou-se a encarar Jack com uma espécie de assustadora paciência.

— Não cobrei a cama em que dormiu, cobrei?

— Cama?! — Jack gritou, sentindo a fervura do sangue subir-lhe à cabeça. — Chama aquilo de cama?! Cobertores forrando sacos de estopa sobre um chão de cimento? Chama aquilo de cama? Queria ver se teria coragem de me cobrar por aquela coisa, seu ladrão sujo!

Lori deu um gemido de medo e dirigiu um olhar a Smokey... Mas Smokey limitou-se a encarar Jack do outro lado do compartimento, a densa fumaça azul de um charuto rodopiando no ar. Um novo gorro de papel caía sobre a cabeça estreita de Smokey.

— Você me perguntou se tinha direito a dormir na despensa — disse Smokey. — Eu respondi que sim. Mas esquecemos de conversar sobre suas refeições. Se o problema tivesse sido levantado na hora, talvez pudéssemos ter dado um jeito... Ou talvez não. O fato é que estou apenas cumprindo fielmente o acordo que fizemos.

Jack estremeceu, lágrimas de raiva ondularam em seus olhos. Tentou dizer mais alguma coisa, mas só conseguiu extrair da garganta um gemido estrangulado. Estava, literalmente, furioso demais para conseguir falar.

— Sem dúvida, se tivesse levantado antes o problema do desconto das refeições dos empregados, eu...

— Vá para o inferno! — Jack conseguiu enfim articular. As palavras seguintes completaram a explosão: — Ensine ao próximo otário que passar por aqui como negociar um salário com você! Eu vou embora!

Cruzou o salão em direção à porta mas, apesar da ira, sabia muito bem (não apenas desconfiava, mas sabia muito bem) que não chegaria à calçada.

— Jack.

Jack pôs a mão na maçaneta como se quisesse esganá-la e girou-a com força... Mas o tom de ameaça que envolveu a voz de Smokey não podia ser desprezado. Jack tirou a mão da maçaneta, deu meia-volta e a raiva começou a se dissipar. Teve a sensação de que seu corpo se encolhera um pouco, Lori fora para trás do balcão, onde começou a espanar e murmurar uma canção. Sem dúvida, concluíra que Smokey não ia destroçar Jack com os punhos, e já que isso não ia acontecer, estava tudo bem.

— Você não vai me abandonar na véspera de um fim de semana, certo? Isto fica cheio até o teto!

— Quero ir embora. O senhor me roubou.

— Nada disso — disse Smokey. — Já lhe expliquei o que houve. Você é que não soube deixar as coisas em pratos limpos. Agora, se quiser, podemos discutir sobre as refeições. Cinqüenta por cento pela comida, quem sabe?! E olhe que não vou cobrar as sodas-limonadas. Nunca fui tão compreensivo com os rapazes que contrato de vez em quando, mas este fim de semana vai ser especialmente cabeludo. Toda a mão-de-obra do condado vem para a minha taberna, garoto! Sabe, Jack, eu gosto de você! Por isso é que não o esmurrei quando levantou a voz para me chamar de ladrão sujo, embora devesse ter feito isso. Mas preciso que fique, ao menos até domingo.

Jack sentiu a raiva subir-lhe rapidamente à cabeça e depois se extinguir outra vez.

— E se eu preferir ir embora já? — disse ele. — Pelo menos tenho cinco dólares no bolso... E sair desta cidadezinha nojenta ia me fazer muito bem.

Encarando Jack, ainda repuxando o sorriso estreito, Smokey falou:

— Lembra-se de ontem à noite, quando foi ao banheiro dos homens limpar a imundície de um su­jeito que pôs as tripas pelas goelas?

Jack balançou a cabeça.

— Lembra-se dele?

— Tinha cabelo curto, à escovinha, sei lá!

— Chamam-no Coveiro Atwell. Seu verdadeiro nome é Carlton Atwell, mas como ele passou dez anos cuidando dos cemitérios da cidade, todos o chamam de Coveiro. Isso foi... Oh, há 20 ou 30 anos. De­pois, na época em que Nixon foi eleito presidente, ele passou a fazer parte da força policial de Oatley. Agora é o nosso chefe de polícia.

Smokey pôs o charuto na boca, soltou uma baforada e voltou-se de novo para Jack.

— Eu e o Coveiro Atwell somos muito amigos — disse Smokey. — E se sair agora por aquela porta, Jack, será impossível jurar que não vai ter problemas com a polícia. Pode acabar sendo mandado à força para casa. Pode acabar sendo obrigado a colher maçãs nas chácaras da cidade. Oh, algumas delas têm 40 acres de árvores carregadinhas... Pode acabar também levando uma surra. Rapaz, o velho Coveiro tem uma predileção toda especial por crianças que encontra vadiando na estrada. Principalmente pelos garotos.

Jack se lembrou daquele pênis do tamanho de um cacetete. Sentiu náusea e frio por dentro.

— Aqui, em certo sentido, você está sob minha proteção — disse Smokey. — Mas, depois de cru­zar aquela porta, só Deus sabe o que pode acontecer! O Coveiro é capaz de estar fazendo uma ronda pelo quarteirão, não é? Sem dúvida há uma possibilidade de que consiga chegar são e salvo aos limites da cida­de. Mas é muito mais provável que o Coveiro encoste aquele Plymouth enorme que ele dirige do seu lado... Olhe, o Coveiro Atwell não é particularmente inteligente, mas tem um faro de fazer inveja a qual­quer um. Além do mais, alguém pode lhe dar um telefonema...

Atrás do balcão, Lori acabou de lavar os pratos. Enxugou as mãos numa toalha, ligou o rádio e co­meçou a acompanhar em voz alta uma velha canção de Steppenwolf.

— Diga se não tenho razão — falou Smokey. — É melhor ficar aqui, Jack. Trabalhe direitinho no fim de semana. Depois eu mesmo coloco você no meu pick-up e o tiro da cidade. Estamos combinados? Pode ir embora domingo ao meio-dia. E vai sair com quase 30 dólares no bolso! Um dinheiro que não ti­nha quando entrou aqui, não esqueça! Quando tiver tempo de pensar com mais calma, vai descobrir que Oatley não é um lugar assim tão mau. Então? O que me diz da idéia?

Jack encarou aqueles olhos castanhos. Observou o amarelado das córneas e algumas pintas verme­lhas. Inspecionou o sorriso largo de Smokey, repleto de dentes falsos. Chegou a notar, com uma estranha e apavorante sensação de déjà vu, que uma mosca passeava calmamente no gorro de papel de mes­tre-cuca, limpando e alisando patinhas finas como fios de cabelo.

Desconfiou que Smokey sabia que ele sabia que tudo que Smokey Updike dissera não passava da mais deslavada mentira. Mas isso não o preocupou. Após trabalhar até sábado de manhã, e depois até domingo de manhã, ia dormir pelo menos até as duas da tarde. Smokey ia dizer que não poderia ti­rá-lo da cidade porque ele acordara tarde. Estaria muito ocupado vendo pela TV um jogo entre os Colts e os Patriots. E Jack estaria não apenas cansado demais para andar, mas morrendo de medo que Smo­key, perdendo subitamente o interesse pela partida, resolvesse dar um telefonema para seu bom amigo Coveiro Atwell. Poderia dizer, por exemplo:

— Ele está descendo para a Estrada da Moenda, meu velho! Por que não aproveita a oportunidade? Depois dê uma passada por aqui. Podemos ver juntos o segundo tempo. A cerveja fica por minha conta, é claro! Mas não vá vomitar no meu banheiro antes de me devolver o garoto, está bem?

Essa seria uma das possibilidades. Podia pensar em outras, cada uma um pouco diferente, mas to­das com o mesmo pano de fundo.

O sorriso de Smokey Updike se alargou.

 

ELROY

Quando eu tinha seis...

A taberna, que a essas horas já começara a perder o fôlego nas duas noites anteriores, continuava rugindo como se toda a clientela quisesse saudar o amanhecer. Jack viu que duas mesas tinham desapare­cido, vítimas da briga de socos que irrompera pouco antes de sua última expedição ao banheiro. Agora, no lugar das mesas, as pessoas dançavam.

— Ande logo! — disse Smokey quando Jack passou em ziguezague para o lado de dentro do bal­cão e pousou o engradado de cerveja perto do grande refrigerador. — Arrume isto aí e vá apanhar a caixa da Bud! A porra da Bud devia ter vindo primeiro.

— Lori disse...

Uma dor ardente, abrasadora, explodiu no pé de Jack quando Smokey lhe pisou no tênis. O garoto soltou um grito abafado e sentiu as lágrimas lhe enchendo os olhos.

— Cale a boca! — disse Smokey. — Lori não sabe merda nenhuma e você é suficientemente esper­to para já ter desconfiado disso. Volte e me traga correndo uma caixa da Bud!

Ele voltou à despensa, mancando com o pé que Smokey pisara, achando que os ossos de algum dedo deviam estar quebrados. Não era nada impossível! Sua cabeça transbordava de fumaça, de barulho e do ritmo forte e sincopado dos Loucos Rapazes do Vale (dois deles já visivelmente cambaleando). Mas um pensamento despontou com nitidez: talvez não fosse possível esperar até o fechamento da taberna. Tal­vez não conseguisse agüentar tanto tempo. Se Oatley era uma prisão e a Taberna Oatley um calabouço, não havia dúvida de que a exaustão seria sua carcereira, tanto quanto Smokey Updike — talvez até mais.

Apesar dos temores sobre como poderiam ser os Territórios naquele lugar, o suco mágico começa­va a lhe parecer a única esperança de salvação. Podia tomar um gole e atravessar... Depois de caminhar um ou dois quilômetros nos Territórios, três no máximo, podia beber um pouco mais e num instante esta­ria de volta aos Estados Unidos, mas bem longe daquele lugarzinho horroroso, talvez bem mais para o oeste, nos arredores de Bushville ou mesmo Pembroke.                  

Quando eu tinha seis, quando Jack tinha seis, quando...

Pegou o engradado da Bud e oscilou de novo pela porta aberta... Mas o caubói alto e magro, de mãos enormes, aquele parecido com Randolph Scott, estava ali de pé, os olhos cravados nele.

— Alô, Jack! — disse o homem, e Jack viu com crescente terror que as pupilas daqueles olhos eram amarelas como pés de galinha. — Será que ninguém é capaz de tirá-lo daqui? Por que não desapare­ce, garoto?!

Jack parou com a caixa de cerveja apoiada nos braços, sempre fitando os olhos amarelos. E de re­pente uma idéia horripilante bateu em sua cabeça: fora ele a coisa emboscada no túnel, fora aquele homem-coisa com seus olhos terríveis!

— Deixe-me em paz — disse Jack. As palavras saíram num sussurro abafado.

O homem foi se aproximando.

— Por que não desaparece, garoto?!

Jack procurou recuar... mas agora já estava contra a parede e, quando o caubói que parecia Randolph Scott se inclinou em sua direção, Jack Sawyer pôde sentir cheiro de carne crua no hálito dele.

 

Na quinta-feira, entre o meio-dia, quando Jack começou a trabalhar, e as quatro da tarde, quando a turba habitual que freqüentava a taberna começou a chegar, o telefone público com a tabuleta por favor limite suas chamadas a três minutos tocou duas vezes.

Da primeira vez, Jack não sentiu qualquer espécie de medo. Era apenas uma senhora pedindo contribuições para instituições de caridade.

Duas horas mais tarde, quando Jack estava arrumando as últimas garrafas da noite anterior, o tele­fone voltou a tocar com enorme estridência. Dessa vez ele esticou a cabeça como um animal que sente cheiro de fogo numa floresta seca... Só que não era uma sensação de fogo, mas de gelo. Virou-se para o aparelho, a apenas um metro do ponto onde se encontrava, e ouviu os tendões do pescoço estalarem. Via o telefone coberto de gelo, gelo que escorria pela caixa de plástico negro, vazava pelos buracos do fone em linhas azuladas, finas como pontas de lápis. O gelo se insinuava como pequenas barbatanas entre os números do disco, se introduzia furtivamente na tampinha por onde eram devolvidas as fichas.

Mas Jack suspeitava que se tratava apenas de um telefone comum. A sensação de frio e morte de­via estar dentro dele.

Mesmo assim, como se estivesse hipnotizado, não tirava os olhos do aparelho.

— Jack! — Smokey gritou. — Atenda esse maldito telefone! Pra que estou lhe pagando, porra?!

Jack olhou para Smokey, desesperado como um animal acuado... Mas Smokey o encarou com lábios apertados e uma expressão de paciência esgotada (era o mesmo ar que lhe cobria o rosto quando se dispunha a dar uma bofetada em Lori). Jack começou a se aproximar do aparelho, quase inconsciente do movimento dos próprios pés. Avançava cada vez mais na direção daquela cápsula de gelo, um calafrio lhe percorrendo os braços, o nariz rachando.

Estendeu o braço e agarrou o fone. Suas mãos ficaram dormentes.

Pôs o fone no ouvido. O ouvido ficou dormente.

— Taberna Oatley — disse para a terrível escuridão do local, e sua boca ficou dormente.

A voz que escapou do fone era o grasnido seco e rascante de alguma coisa há muito tempo morta, uma criatura que jamais poderia ser vista pelos vivos (a visão levaria a pessoa à insanidade ou à morte, uma morte com gelo nos lábios e olhos cegos, arregalados de cataratas de neve).

— Jack — a voz escabrosa e rangente soprou pelo fone. O rosto de Jack ficou dormente até o pes­coço (como se ele tivesse acabado de sair da cadeira do dentista depois de uma extração dentária com muita anestesia). — Com mil diabos, você tem de voltar para casa, Jack!

De muito longe (uma distância de anos-luz), ele teve a impressão de ouvir sua própria voz se repetindo:

— Taberna Oatley. Quem fala? Alô... Alô...

Tudo frio, muito frio.                                                                                

A garganta também ficara dormente. Respirou fundo e os pulmões pareceram congelar. Logo as veias do coração ficariam congeladas e ele cairia morto.

A voz gélida murmurou:

— Coisas muito ruins podem acontecer a um guri que viaja sozinho, Jack. Pode perguntar a quem quiser.

Num gesto trôpego e veloz, bateu com o fone no gancho. Puxou rapidamente a mão e ficou para­do, fitando o aparelho.

— O que você tem, Jack? — Lori perguntou, e a voz dela era distante... mas um pouco mais próxi­ma que sua própria voz alguns momentos atrás. O mundo ia voltando ao lugar. Podia ver no fone, esboçada contra uma brilhante superfície coberta de gelo, a marca de sua mão. Mas o gelo já começava a der­reter e o plástico negro ia aparecendo.

 

Foi naquela noite (a noite de quinta-feira) que Jack viu pela primeira vez o sósia de Randolph Scott no Condado de Genny. A multidão era um pouco menor que na noite anterior (afinal, o pagamento em Oatley era às sextas-feiras e muitos já estavam sem dinheiro). Mesmo assim, havia gente suficiente para ocupar todo o balcão e se espalhar pelas mesas e compartimentos.

Era gente de uma área rural onde provavelmente os arados já estavam enferrujados, esquecidos em velhos galpões; eram homens que talvez ainda quisessem ser fazendeiros, mas sabiam que isto não era mais possível. Havia muitos chapéus de caubói, mas Jack achava que a maioria jamais tinha se aproximado de um trator. Usavam calças de brim: cinza, marrons ou verdes, mas tinham seus nomes estampados em camisas azuis com letras douradas. Alguns arrastavam botas de vaqueiro; outros, grandes sapatos de sola impermeável. Carregavam os chaveiros nos cintos e suas rugas não eram sulcos provocados por risos freqüentes: as bocas pareciam tristes.

Mas aqueles homens não largavam o chapéu de caubói; e quando Jack contemplou da extremidade do balcão uma fileira de oito beberrões, achou que todos se pareciam com os velhos vaqueiros de certos anúncios de charutos. O problema é que eles não fumavam charutos, só cigarros baratos (muitos, aliás).

Jack limpava o vidro da vitrola automática quando o Coveiro Atwell entrou. A vitrola estava desli­gada porque um jogo de futebol na TV atraía a atenção de todos. Na noite passada, Atwell usava a versão masculina de roupa esporte predominante em Oatley: calça de brim, camisa cáqui com um monte de ca­netas num dos grandes bolsos e botas de couro com ponteiras de metal. Agora vestia um uniforme azul da polícia. Uma grande pistola com cabo de madeira pendia de um coldre num rangente cinto de couro.

Olhou para Jack, que se lembrou das palavras de Smokey: Rapaz, o velho Coveiro tem uma predile­ção toda especial por crianças que encontra vadiando na estrada. Principalmente pelos garotos.

A lembrança fez Jack Sawyer se encolher, como se fosse culpado de algum crime. O Coveiro Atwell abriu um sorriso largo, vagaroso:

— Então decidiu ficar algum tempo em Oatley, rapaz?

— Sim, senhor — Jack murmurou, esfregando com mais força o vidro da vitrola (embora fosse im­possível deixá-lo mais reluzente).

Esperou que Atwell se afastasse. Queria que o homem o deixasse em paz. Jack virou-se a tempo de ver o forte policial sentar-se num banco defronte à TV. E foi então que um outro sujeito virou a cabeça.

Randolph Scott, Jack pensou de imediato. É a cara de Randolph Scott.

Mas, apesar do aspecto vago e cínico de seu rosto, o verdadeiro Randolph Scott tinha um inegável ar de heroísmo; e mesmo que alguns traços de suas feições fossem duros, era um homem capaz de sorrir. A face que Jack via no balcão parecia ao mesmo tempo entediada e enlouquecida.

E com um medo real, Jack percebeu que o homem estava olhando para ele, para Jack. Não tinha virado casualmente a cabeça durante o comercial para ver se havia algum conhecido na taberna. Nada disso! Tinha virado a cabeça para olhar para Jack. Jack Sawyer teve certeza disso.

O telefone tocou.

Com um esforço sobre-humano, Jack desviou o olhar do rosto de Randolph Scott. Mas defron­tou-se com o vidro reluzente da vitrola automática, onde seu próprio rosto, como um fantasma assustado, pairava sobre os escaninhos de fitas.

O telefone começou a ecoar com estridência cada vez maior.

O homem do balcão deu uma espiada no aparelho... e tornou a se virar para Jack, que congelara ao lado da vitrola com um vidro de lustra-móveis numa das mãos, a flanela na outra e o cabelo arrepiado, a pele congelando.

— Se for de novo um trote, vou comprar um apito bem forte para soprar no fone! — Lori dizia en­quanto se aproximava do aparelho. — Por Deus que ele não passa sem essa!

Parecia uma atriz num palco, e todos os fregueses não passavam de figurantes recebendo o cachê de 35 dólares por dia (conforme a tabela do sindicato). Os únicos personagens reais da Taberna Oatley eram Jack e aquele temível caubói de mãos enormes e olhos que não podiam ser... inteiramente... vistos.

De repente, de forma brutal, o caubói esboçou algumas palavras: Com mil diabos, você tem de voltar para casa, Jack! E piscou o olho.

O telefone parou de tocar assim que Lori estendeu o braço para pegá-lo.

Randolph Scott olhou em volta, esvaziou o copo e gritou:

— Mais uma espumosa, está bem?

— Maldição! — disse Lori — Acho que esse telefone está mal-assombrado!

 

Mais tarde, na despensa, Jack perguntou a Lori quem era o sujeito parecido com Randolph Scott.

— Parecido com quem? — ela exclamou.

— Randolph Scott foi um velho ator de filmes de faroeste. Um sujeito igualzinho a ele estava senta­do na ponta do balcão.

Ela sacudiu os ombros.

— Para mim, Jack, todos têm a mesma cara! Um punhado de gente querendo se divertir um pou­co... Nas noites de quinta, costumam assinar vales por conta do dinheiro que vão receber. Smokey confia.

— “Mais uma espumosa”, foi assim que ele pediu a cerveja.

Os olhos de Lori se acenderam.

— Ele? Oh, sei quem é! Parece um sujeito grosseiro...

Dissera aquilo como se fosse um elogio, uma apreciação positiva sobre o traçado de um nariz ou a brancura de um sorriso.

— Quem é?

— Não sei como se chama — disse Lori. — Apareceu aqui pela primeira vez há uma ou duas sema­nas. O moinho deve estar de novo empregando gente. Esteve...

— Pelo amor de Deus, Jack! Não mandei você me trazer um barril!?

Jack conversava com Lori tentando acomodar na plataforma rolante um dos grandes barris de Cer­veja Busch. Como o barril era quase mais pesado que ele, aquele ato exigia uma boa dose de equilíbrio e atenção. Quando Smokey berrou do umbral da porta, Lori gritou de susto e Jack oscilou, perdendo intei­ramente o controle do barril. O barril caiu de lado e rolou, a tampa saltando como uma rolha de champa­nha, a cerveja pulando num jato branco e dourado. Smokey continuava berrando, mas Jack não conse­guia mais tirar os olhos da cerveja. Ficou petrificado no chão... até que Smokey arremeteu contra ele.

Vinte minutos depois, quando Jack voltou ao salão usando um esparadrapo na ponta do nariz in­chado, Randolph Scott já tinha ido embora.

 

Eu tenho seis.

John Benjamin Sawyer tem seis.

Seis...

Jack sacudiu a cabeça tentando afastar aquele pensamento incessante, repetitivo. Um torvelinho de sentimentos comprimia sua mente com força cada vez maior. Os olhos do homem... amarelos e um tanto escamosos. Ele — a coisa — tinha piscado. Uma piscadela rápida, leitosa, oscilante. Jack notou estranhas membranas sobre o globo ocular.

— Por que não desaparece, garoto?! — a coisa tinha murmurado de novo antes de avançar para Jack com mãos que começavam a se retorcer, a se tornar metálicas, perigosas.

A porta se abriu com estrondo, deixando entrar uma áspera enchente de som da vitrola automáti­ca. Smokey apareceu atrás de Randolph Scott.

— Jack, se não parar de andar com a cabeça nas nuvens, vou lhe dar uma lição que nunca mais vai esquecer!

Scott recuou um passo. Agora as mãos não estavam mais se transformando em cascos metálicos, eram apenas mãos... grandes e fortes, permeadas de uma cordilheira de veias salientes. Houve mais uma j piscadela, leitosa e rodopiante, mas que, estranhamente, não exigiu qualquer movimento de pálpebra. E j de súbito os olhos do homem não estavam mais amarelos, porém ligeiramente azuis. Scott lançou a Jack um último olhar e continuou seu caminho para o banheiro.

Smokey se aproximara, o gorro de papel caído sobre a testa, a cabeça de fuinha um tanto inclina­da, os lábios se abrindo para revelar dentes de jacaré.

— Não vou mais repetir o que eu disse, ouviu bem? — Smokey gritou. — É o último aviso que es­tou lhe dando. E pode ter certeza de que estou falando sério!

Como acontecera quando teve de enfrentar Osmond, a fúria de Jack veio bruscamente à tona (esse tipo de raiva, sempre relacionada ao sentimento de estar sendo vítima de terrível injustiça, jamais é tão forte quanto aos 12 anos — às vezes os estudantes de alguma universidade acham que sentem a mesma ira, mas não é bem assim; geralmente o que sentem é pouco mais que uma espécie de ressonância inte­lectual).

Desta vez, a explosão foi incontrolável.

— Não sou um cachorro! E não admito que me trate assim! — disse Jack, avançando um passo para Smokey Updike (as pernas tremiam de medo).

Surpreso, talvez até um tanto confuso pela ira totalmente imprevista de Jack, Smokey recuou.

— Jack, estou lhe avisando...

— Não, cara! Eu estou lhe avisando —Jack se surpreendeu dizendo. — Não me confunda com Lori. Não gosto que me batam. E se encostar a mão em mim, pode ter certeza de que vai levar um bom soco!

O espanto de Smokey Updike foi apenas momentâneo. Sem a menor dúvida, o garoto não tinha noção do que podia lhe acontecer (não era de Oatley, não podia saber). Talvez achasse que tinha pesado todos os riscos e estivesse disposto a enfrentá-los. Às vezes, a segurança deixa uma pessoa tremendamen­te forte, mesmo um menino daquele tamanho.

Smokey estendeu o braço para agarrar o colarinho de Jack.

— Não tente bancar o engraçadinho comigo, rapaz! — disse ele, puxando-lhe a camisa. — Enquanto estiver em Oatley, vai ser exatamente um cachorrinho pra mim. Enquanto estiver em Oatley, vou lhe passar a mão na cabeça quando tiver vontade e vou lhe dar uma boa sova quando precisar.

Sacudiu com força o pescoço de Jack. Ele mordeu a língua e gritou.

Agora, manchas febris de raiva brilhavam como pó-de-arroz no rosto pálido de Smokey.

— Pode ter certeza, Jack, que as coisas não são como você pensa! Enquanto estiver em Oatley, não vai passar de um cachorro meu. E só vai embora quando eu deixar! E agora vou lhe ajudar a guardar bem direitinho na cabeça o que estou lhe dizendo!

Fechando o punho, Smokey fez uma das mãos recuar. Por um instante as três lâmpadas de 60 watts que pendiam no estreito corredor brilharam de maneira ofuscante no diamante do anel em forma de ferra­dura que Smokey usava. Então o punho se arremessou à frente e esmurrou uma das faces de Jack. Ele foi impelido para trás, contra uma parede coberta de riscos e inscrições. Primeiro o rosto se abrasou de dor; depois foi ficando dormente. Jack sentiu na boca o gosto do próprio sangue.

Smokey o encarava — o mesquinho olhar de avaliação de alguém que examina um novilho ou um número de loteria. Talvez não tenha visto a expressão que esperava ver nos olhos de Jack, pois tornou a agarrar o garoto, possivelmente para assestar-lhe um segundo soco.

Nesse momento, porém, veio da taberna um grito agudo de mulher:

— Não, Glen! Não!

Houve um berreiro de vozes masculinas, em geral alarmadas. Outra mulher gritou — um som alto, estridente. Depois, houve um tiro de revólver.

— Mas que merda é esta? — Smokey gritou, pronunciando cada palavra tão cuidadosamente quanto um ator num palco da Broadway. Arremessou novamente Jack contra a parede, deu meia-volta e foi como um raio para o salão. O revólver disparou outra vez e houve um grito de dor.

Jack só tinha certeza de uma coisa: estava na hora de escapar. Não quando a taberna fechasse hoje, nem quando fechasse amanhã, nem na manhã de domingo quando ele acordasse. Agora!.

A barulheira parecia estar diminuindo um pouco. Não havia sirenes, talvez ninguém tivesse ficado ferido... mas, Jack se lembrou com um frio no estômago, o sujeito que parecia Randolph Scott ainda esta­va no banheiro.

Na despensa friorenta, impregnada de cheiro de cerveja, Jack Sawyer se ajoelhou perto dos barris e procurou a mochila. Enquanto seus dedos encontravam apenas vento e o chão encardido de cimento, teve de novo aquele pressentimento sufocante de que alguém — Smokey ou Lori — vira-o esconder a mochila e a pegara. Seria o método mais seguro para não deixá-lo sair de Oatley! Então veio o alívio, qua­se tão sufocante quanto o medo, ao sentir os dedos no náilon.

Jack abraçou a mochila e olhou ansiosamente para a porta nos fundos da despensa. Poderia usá-la. Era melhor do que sair pela porta de incêndio no fim do corredor. Ficava perto demais do banheiro dos homens. O problema é que, se abrisse aquela porta de carga e descarga, uma luz vermelha se acenderia no balcão. Mesmo que Smokey ainda estivesse tentando controlar o tumulto, Lori veria a luz e não deixa­ria de alertá-lo.

Portanto...

Foi até a porta que dava para o corredor. Abriu uma fresta e deu uma espiada com um olho. O cor­redor estava vazio. Tudo bem, isso era bom. Por certo, enquanto Jack procurava a mochila, Randolph Scott resolvera seu problema no banheiro e voltara para onde a ação estava mais interessante. Ótimo!

Só que talvez ele ainda estivesse lã dentro. Quer encontrá-lo no corredor, Jacky? Quer ver os olhos dele ficarem de novo amarelos? Espere até ter certeza.

Mas não podia esperar. Smokey logo ia descobrir que ele não estava no salão, ajudando Lori e Glo­ria a limpar as mesas; nem. atrás do balcão, cuidando da louça suja. Voltaria num minuto à despensa para acabar de ensinar a Jack qual era o seu lugar no grande esquema das coisas.

E então? Vamos logo, rapaz!

Talvez ele esteja à sua espera na ponta do corredor, Jacky... Talvez salte sobre você como um grande e malvado boneco de molas...

A bela ou a fera? Smokey ou Randolph Scott? Jack hesitou numa agonia de indecisão. Que o ho­mem de olho amarelo ainda estivesse no banheiro era sem dúvida uma possibilidade; que Smokey viria procurá-lo era uma certeza!

Jack abriu a porta e saiu no estreito corredor. A mochila que colocara nas costas parecia ter aumen­tado de peso — um indício evidente, para qualquer um que o visse na rua, de que havia alguma coisa errada com ele. Começou a descer o corredor. Movia-se grotescamente na ponta dos pés, apesar do trovão da música e do berreiro da multidão. O coração martelava em seu peito.

Eu tinha seis, Jacky tinha seis.

Por que isso? Por que essas frases não lhe saíam da cabeça?

Seis.

O corredor parecia mais comprido. Era como caminhar num túnel. Só com uma exasperante lenti­dão a porta de incêndio parecia ir ficando um pouco mais perto. O suor lhe escorria pela testa e pelo lábio superior. Seu olho continuava espreitando a porta à direita. Havia o tosco desenho de um cachorro rabis­cado nela. Sob o desenho, liam-se as palavras: lugar de cão. E no fim do corredor havia uma porta pintada de vermelho, descorada, descascada. A tabuleta dizia: só use em caso de emergência! o alarme soará! Na verdade, a campainha de alarme já estava quebrada há dois anos. Fora o que Lori lhe tinha dito quando ele vacilou em abri-la para levar o lixo.

Enfim estava quase lá! Afastando-se cada vez mais do lugar de cão!

Ele está por perto, eu sei disso... E se pular em cima de mim eu vou gritar... Eu... Eu vou...

Jack estendeu sua trêmula mão direita e a encostou na tranca da porta. Sentiu um frio agradável quando a tocou. Por um instante realmente acreditou que conseguiria saltar da barriga da planta carnívora e voar para a noite... livre!

Então, bruscamente, a porta atrás dele se escancarou e a mão pesada agarrou-lhe a mochila. Jack deixou escapar o guincho alto, desesperado, de um animal que caiu numa armadilha. Num impulso, in­vestiu contra a porta, esquecido da mochila e do suco mágico que havia dentro dela. Se as correias tives­sem arrebentado, Jack teria disparado como um raio pelo terreno baldio, cheio de lixo e mato, que havia atrás da taberna. Não pensaria em qualquer outra coisa além de correr!

Mas o náilon das correias era resistente e não se rompeu. A porta se abriu um pouco, revelando uma ponta escura de noite, e depois se fechou outra vez. Jack foi arrastado para o banheiro das mulheres, sacudido para todos os lados e depois empurrado de costas. Se tivesse batido contra a parede, a garrafa de suco mágico se teria espatifado dentro da mochila, impregnado suas roupas e o velho mapa com o cheiro de uvas podres. Por sorte, bateu apenas com os rins na beira da pia. A dor foi gigantesca, torturante.

Então, o rosto de Randolph Scott se aproximou de novo, puxando-lhe o jeans com mãos que tinham começado a se contorcer e a engrossar.

— Já devia ter desaparecido, garoto! — disse ele, a voz ficando rouca, cada vez mais parecida com o rosnado de um animal.

Jack começou a se esquivar para a esquerda, os olhos fixos na cara do homem. Os olhos pareciam agora quase transparentes, não apenas amarelos, mas iluminados por dentro... Olhos de uma horripilante lanterna do Dia das Bruxas.

— Mas pode confiar no velho Elroy — disse a coisa que parecia um caubói, agora sorrindo, revelando um punhado de grandes dentes curvos, alguns quebrados e afiados, outros negros de podridão. Jack gritou. — Oh, pode confiar em Elroy — disse a voz que parecia um rosnado de cão. — Ele não vai machucá-lo muito. Você vai continuar inteiro, pode ter certeza.

A coisa continuava rosnando e se aproximando.

— Vai continuar inteiro, é claro que vai...

A coisa continuava a falar, mas Jack não entendia mais o que ela dizia. Era apenas um chiado de animal.

A mão de Jack se aproximou da lata de lixo que havia junto da porta... Quando a coisa-caubói se decidiu a pegá-lo com o casco de suas mãos, Jack pegou a lata e atirou-a com força. A lata bateu no peito da coisa-Elroy. Jack escancarou a porta do banheiro e arremeteu para a esquerda, para a porta de emergência. Puxou com força a tranca de ferro, consciente da presença de Elroy atrás de si... Então saltou para a escuridão atrás da Taberna Oatley.

À direita da porta havia uma fileira de latas abarrotadas de lixo. Jack derrubou algumas quando passou. Ouviu-as rolar, chocalhar. E depois um uivo de fúria de Elroy tropeçando e caindo sobre elas.

Virou a cabeça a tempo de ver a coisa rolando pelo chão. Teve mesmo uma fração de segundo para pensar: Oh, Deus, uma cauda! Ele tem alguma coisa que parece uma cauda! Elroy assumira quase inteiramente a forma de um animal. Uma luminosidade dourada fluía de seus olhos em raios estranhos (como uma luz brilhante jorrando por dois buracos de fechadura).

Jack foi se afastando, tirando a mochila das costas, tentando desamarrar as correias com dedos que pareciam pedaços de pau. Uma tremenda confusão rugia em sua mente.

Jacky tinha seis Deus me ajude Speedy Jack tinha seis Deus por favor...

Pensamentos e apelos incoerentes. A coisa rosnava e se debatia entre as latas de lixo. Jack viu o casco de uma das mãos se levantar e depois cair assobiando, bater com força numa chapa amassada de metal, atirá-la a um metro de distância. A coisa se levantou de novo, trôpega, quase desabando. E voltou a se atirar na direção de Jack. O rosto se contorcia, guinchava, encolhendo-se contra o peito. E de alguma forma, entre aqueles rosnados de quem muito em breve poderia começar a latir, Jack foi capaz de enten­der o que Elroy estava dizendo:

— Agora não vou apenas te dar um aperto, seu merdinha! Agora vou te matar! Vou te matar!

Teria ouvido com seus ouvidos! Ou dentro de sua cabeça?

Tanto fazia. A distância entre ele e o mundo daquela coisa tinha se reduzido a uma simples membrana.

A coisa-Elroy se aproximava rosnando, um passo oscilante e desajeitado nas patas traseiras, as rou­pas escorregando para todos os lugares errados do corpo, a língua pendendo de uma boca cheia de cani­nos. Ali estava o terreno baldio nos fundos da Taberna Oatley de Smokey Updike, sim! Ali estava aquela área coberta de mato e de lixo soprado pelo vento: aqui uma armação enferrujada de cama; mais adiante, a grade de um Ford 57. Uma fantasmagórica lua em forma de foice, lasca de osso no céu, transformava cada estilhaço de vidro quebrado num olho atento e fatal. E tudo isso não começara em New Hampshire, certo? De jeito nenhum! Não tinha começado quando a mãe ficou doente, nem com o aparecimento de Lester Parker. Tinha começado quando...

Jacky tinha seis anos. Quando todos moravam na Califórnia, e ninguém queria morar em nenhum outro lugar, e Jacky tinha...

Remexeu entre as correias da mochila.

E a coisa veio outra vez, quase executando uma dança, fazendo Jack se lembrar dos personagens de Disney — uma raposa tropeçando sob a fraca luz da lua. Jack começou a rir às gargalhadas. E então a coisa rosnou e pulou em sua direção.

Mas o equilíbrio daquela pesada mistura de cascos e patas fraquejou no meio de seu bailado frené­tico entre o mato e o lixo. A coisa-Elroy caiu sobre as molas da armação da cama e acabou ficando presa entre os arames. Uivando, soprando uma espuma branca, a besta se retorceu, se repuxou, investindo para todos os lados, uma das patas profundamente enterrada entre as espirais enferrujadas das molas.

Jack procurou a garrafa dentro da mochila. Remexeu entre meias, cuecas sujas e um embolado e malcheiroso jeans. Conseguiu encontrar o gargalo da garrafa e o suspendeu.

A coisa-Elroy se debateu com uivos de cólera e finalmente conseguiu se livrar das molas da cama.

Jack se abaixou no chão, entre o mato e o lixo, querendo se esconder. Com os dois dedos menores da mão esquerda prendia uma das correias da mochila, enquanto a mão direita segurava a garrafa. Fez força para tirar a rolha com o indicador e o polegar da mão esquerda. A mochila oscilou, balançou no ar, mas a rolha saiu.

Será que esta besta é capaz de atravessar comigo?, ele se perguntou incoerentemente, levando a garrafa aos lábios. Será que quando atravesso perfuro algum buraco pelo meio das coisas? Será que a besta pode vir atrás de mim e me pegar do outro lado?

A boca de Jack se encheu daquele gosto nauseante de uvas podres. Teve ânsia de vômito e sentiu a garganta fechando, como se pretendesse expelir o líquido. Então o cheiro terrível envolveu-lhe as narinas e as suas vias nasais. Ele deixou escapar um profundo gemido de nojo. Agora podia ouvir a coisa-Elroy gritando, mas o grito parecia muito distante, como se a besta estivesse numa das bocas do tú­nel de Oatley e ele, Jack, resvalasse com rapidez para a outra saída. E dessa vez havia uma sensação de queda. Ele pensou: Oh, meu Deus, e se eu chegar aos Territórios rolando por um penhasco ou pela encosta de uma enorme montanha?

Agarrou-se com força à mochila e à garrafa, os olhos desesperadamente fechados, esperando o que ia acontecer... A coisa-Elroy ou nada da coisa-Elroy, os Territórios ou uma espécie de nada absoluto. As idéias fixas que o assombravam naquela noite tornaram a assaltá-lo, giraram como um carrossel: Dama Prateada, Ella Speed, tudo rodopiando. Entrou num torvelinho, submergindo na nuvem do cheiro terrível do suco, esperando o melhor e o pior, sentindo as roupas se transformarem em seu corpo.

Seis oh sim quando todos nós éramos seis e ninguém era qualquer outra coisa e era a Califórnia que soprava aquele sax que o papai gostava de ouvir nas mãos de Dexter Gordon ou talvez seja isto que a mamãe quer dizer quando fala que estamos vivendo uma vida falsa e onde onde oh onde você ia papai você e o tio Morgan oh papai às vezes ele olha para você como oh como se houvesse uma vida falsa na cabeça dele e um terremoto acontecendo detrás dos olhos dele e você está morrendo no meio do terremoto oh papai!

Caindo, se contorcendo, girando para o centro de um limbo, no meio de um cheiro que se trans­formara numa nuvem arroxeada, Jack Sawyer, Jack Benjamin Sawyer, Jacky, Jacky...

... tinha seis anos quando tudo começou a acontecer, e quem soprou a nota inicial desse sax, papai? Quem soprou quando eu tinha seis anos, quando Jacky tinha seis, quando Jacky...

 

A MORTE DE JERRY BLEDSOE

... Tinha seis anos... quando tudo realmente começou, papai, quando o motor que finalmente me levaria a Oatley, e além de Oatley, começou a funcionar. Havia uma música alta de saxofo­ne. Seis. Jacky tinha seis anos. De início sua atenção estivera toda concentrada no presente que o pai lhe dera: uma miniatura de um táxi londrino. O carro de brinquedo pesava como tijolo e, na madeira lisa dos tacos do novo escritório, era preciso um forte impulso para fazer o táxi correr chocalhando até a outra pa­rede. Naquele fim de tarde, naquele dia de verão da segunda quinzena de um mês de agosto, Jack tinha um novo e bonito carrinho que rolava como um tanque de guerra no chão atrás do sofá. E havia um senti­mento de satisfação, de relaxamento no ar-condicionado do escritório... O pai não tinha mais trabalho a fazer, não tinha mais telefonemas que não podiam esperar até o dia seguinte. E Jack impelia o pesado táxi de brinquedo pela faixa sem tapete do assoalho, quase não ouvindo o rumor dos sólidos pneuzinhos de borracha por causa do solo do saxofone. O carro negro bateu numa das pernas do sofá, deu uma guinada para o outro lado e parou. Jack foi de gatinhas atrás do brinquedo. O pai tinha esticado os pés na escrivaninha e o tio Morgan se instalara numa das poltronas do outro lado do sofá. Estavam bebendo alguma coi­sa; logo pousariam os copos na mesa, desligariam o toca-discos, o amplificador, e desceriam para seus carros.

Quando todos nós éramos seis, e ninguém era qualquer outra coisa e era a Califórnia...

— Quem está no sax? — ele ouviu o tio Morgan perguntar, e, como num devaneio, percebeu aque­la voz familiar sob um tom. diferente. Alguma coisa sussurrante e dissimulada na voz de Morgan Sloat fil­trou-se para os ouvidos de Jacky. Ele encostou a mão na capota do táxi e seus dedos ficaram frios como se o carro fosse feito de neve, não de ferro inglês.

— É Dexter Gordon quem está solando — o pai respondeu. Como sempre, sua voz fora preguiço­sa e cordial, e Jack passou a mão em volta do pesado táxi.

— Um disco muito bom.

— Papai toca o pistão. É uma gravação antiga, mas muito bonita, não acha?

— Vou ver se ainda consigo encontrá-la em alguma loja.

E então Jack achou que sabia o que toda aquela estranheza na voz do tio Morgan queria dizer. Na realidade, o tio Morgan não gostava absolutamente de jazz, apenas fingia gostar quando estava diante do seu pai. Há muito tempo Jack descobrira aquele segredo de Morgan Sloat, e não entendia por que o pai não conseguia notar o que era tão evidente. Tio Morgan jamais iria procurar em alguma loja um disco chamado Papai toca o pistão. Estava apenas querendo ser agradável a Phil Sawyer — e talvez Phil Sawyer não percebesse a coisa porque, como todo mundo, nunca dava grande atenção a Morgan Sloat. Esperto e ambicioso (“Esperto como uma raposa, furtivo como um advogado num tribunal”, dizia Lily), o bom tio Mor­gan gostava disso. Gostava de poder escapar de qualquer exame mais atento. Seu olho tinha um jeito natural de se esquivar na hora certa. Jacky apostava que quando o tio era menino os professores deviam ter tido muita dificuldade para se lembrar do nome dele.

— Imagine o que esse cara seria lá! — disse o tio Morgan, agora despertando plenamente a aten­ção de Jack. Aquela falsidade ainda bulia em sua voz, mas não foi a hipocrisia de Sloat que fez Jacky levantar a cabeça e apertar os dedinhos em volta do táxi de brinquedo. Foi a palavra lá que adquiriu em seu cérebro uma ressonância de carrilhão. Porque lá era o país dos sonhos de olhos abertos. Ele percebeu de imediato isso. O pai e o tio Morgan tinham esquecido que ele estava atrás do sofá e iam conversar sobre os sonhos de olhos abertos.

O pai, então, sabia do país dos sonhos... Jack nunca tocara no assunto, nem com o pai nem com a mãe, mas o pai sabia tanto quanto ele dos sonhos de olhos abertos. Parecia incrível, mas era verdade! E a outra certeza que perpassou as emoções de Jack, mesmo que não tenha sido conscientemente expressa, é que o pai se preocupava menos que ele em guardar o segredo.

Mas, por alguma razão, igualmente difícil de traduzir da emoção para a linguagem, a conjunção de Morgan Sloat com aqueles sonhos deixou o menino inquieto.

— Ei? — disse o tio Morgan. — Este cara realmente os deixaria transtornados, não acha? Possivelmente o transformariam em Duque das Terras Secas ou coisa parecida.

— Ou talvez não — disse Phil Sawyer. — Pelo menos se gostassem dele tanto quanto nós.

Mas, papai! Tio Morgan não gosta dele!, Jack pensou, tendo a súbita certeza de que aquilo era importante. O tio não gostava absolutamente dele, de jeito nenhum. E ele está achando que a música está alta demais, e está se sentindo prejudicado de alguma forma...

— Oh, você sabe muito mais sobre isso do que eu — disse o tio Morgan numa voz que parecia a vontade e relaxada.

— Bem, estive lá com mais freqüência. Mas você está pegando a coisa com muita rapidez. Jacky percebeu que o pai sorria.

— Oh, aprendi algumas coisas, Phil! Você sabe... Vou lhe agradecer a vida toda por ter me mostra­do tudo aquilo.

As quatro sílabas de agradecer vieram cheias de fumaça e do barulho de vidro quebrado.

Mas todas aquelas pequenas sensações negativas não conseguiram eliminar a intensa, quase exul­tante satisfação de Jack. Estavam falando sobre os sonhos de olhos abertos. Era inacreditável que uma coi­sa assim fosse possível. O que os dois diziam estava além de sua compreensão, os termos e o vocabulário eram adultos demais, mas o Jack de seis anos de idade experimentava de novo o sentimento de espanto e de alegria que sempre acompanhava os sonhos de olhos abertos. Além disso, já tinha idade suficiente para entender pelo menos o sentido geral da conversa. Os sonhos eram reais e, de certa forma, Jacky os compartilhava com o pai. Isto constituía metade de sua alegria.

 

— Deixe-me tentar colocar algumas coisas em ordem! — disse o tio Morgan, e Jacky imaginou as palavras em ordem como duas cordas amarradas uma na outra, ou melhor, como co­bras. — Eles têm magos como nós temos físicos, certo? Trata-se de uma monarquia agrária, usando a ma­gia em vez da ciência.                

— Exato — disse Phil Sawyer.

— E com toda a certeza vivem assim há séculos. Suas vidas nunca se modificaram muito. Apesar das questões políticas, é claro!

Então a voz do tio Morgan ficou tensa, a vibração que tentava ocultar estalou como chicote entre as consoantes.

— Bem, vamos deixar de lado os problemas políticos. Pensemos em nós como instrumento de mu­dança. Você vai dizer, e eu não poderia deixar de concordar, Phil, que temos feito muito bem em não in­terferir nos Territórios... E que teríamos de ser muito cautelosos ao tentar introduzir mudanças. Não me é difícil aceitar esta posição. Vejo as coisas do mesmo modo.

Jack pôde sentir o silêncio do pai.

— Ok! — Sloat continuou. — Vamos admitir que, numa situação vantajosa para nós, possamos estender os benefícios a todos que estiverem do nosso lado. Não abriremos mão de certas vantagens, mas não teremos grandes ambições sobre os lucros que elas possam trazer. Respeitamos aquelas pessoas, Phil! Olhe o que elas fizeram por nós! Acho que poderíamos realmente colaborar muito com elas. Nossa energia pode se combinar com a energia delas... Alcançaremos resultados jamais concebidos antes, Phil! E acabarão nos achando generosos... O que de fato somos, embora não a ponto de deixar de lado todos os nossos interesses... é claro!

O tio Morgan estaria franzindo a testa e inclinando a cabeça. As mãos estariam entrelaçadas, as pal­mas comprimidas.

— É claro que não temos uma visão global da situação, você sabe disso. Para dizer a verdade, acho que só a sinergia já compensa... Mas, Phil, já imaginou a porra do choque que íamos provocar se lhes déssemos a eletricidade? Se levássemos armas modernas para alguns membros da tribo? Tem idéia do que isso significaria? Seria um impacto assombroso! Assombroso!

Houve um som úmido, abafado, das palmas das mãos do tio Morgan batendo uma na outra.

— Não quero colocar a carroça na frente dos bois, nem pense nisso, mas está na hora de começar a ver as coisas sob este prisma... Talvez devêssemos aumentar nosso envolvimento nos Territórios.

Phil Sawyer continuava em silêncio. Tio Morgan bateu de novo as palmas das mãos. Finalmente o pai de Jack falou num tom evasivo:

— Acha que devemos aumentar nosso envolvimento...

— Acho que esta é a hora certa! Nem preciso lhe dizer em detalhes o que tenho na cabeça. É uma experiência que estamos tendo em conjunto e você conhece as possibilidades. Talvez possamos fazer muita coisa contando apenas com nossas próprias forças. Eu me sinto muito contente por não estar repre­sentando grupos sem escrúpulos ou firmas vorazes.

— Vá com calma, Morgan! — disse o pai de Jack.

— Aviões! — disse o tio Morgan. — Pense nos aviões!

— Vá com calma, vá com calma, Morgan! Consigo ver um monte de coisas que você não é capaz de enxergar...

— Estou sempre receptivo a novas idéias — disse Morgan, e sua voz pareceu de novo estranha­mente dissimulada.

— Ok! Acho que temos de penetrar lá com muito cuidado, parceiro... Acho que qualquer coisa de vulto (qualquer modificação radical que viéssemos a provocar) poderia voltar-se inteiramente contra nós. As conseqüências seriam sérias, e algumas dessas conseqüências poderiam ser perigosas.

— Como por exemplo...? — perguntou o tio Morgan.

— Como por exemplo, a guerra.

— Isto é pura tolice, Phil! Nunca vimos qualquer indício que pudesse... A não ser que esteja pen­sando em Bledsoe...

— E estou pensando em Bledsoe. Não acha que tenho razão?

Bledsoe?, Jack se perguntou. Já ouvira aquele nome antes; mas era uma lembrança muito vaga.

— Bem, teriam de percorrer um longo caminho para chegar a uma guerra. E não vejo relação entre...

— Tudo bem! Não se lembra de ter ouvido dizer que, há muito tempo, um estrangeiro assassinou um velho rei dos Territórios? Já deve ter ouvido a história...

— É, acho que sim — disse o tio Morgan, e Jack percebeu de novo o tom de falsidade na voz dele.

A cadeira do pai rangeu; estava tirando os pés da escrivaninha, inclinando o corpo para a frente.

— O assassinato deu início a uma pequena guerra. Os que apoiavam o velho rei tiveram de debelar uma rebelião conduzida por alguns nobres descontentes. Os rebeldes queriam se apoderar do governo pela força: açambarcar as terras, requisitar propriedades, atirar os inimigos na prisão, tornar-se homens ricos.

— Ei, não seja injusto! — Morgan interrompeu. — Também soube da coisa, mas numa versão um pouco diferente. Queriam também dar uma nova ordenação política a um sistema extremamente ineficaz. Às vezes é preciso ser duro para começar as reformas. Pelo menos é a minha opinião.

— Bem, não nos cabe fazer julgamentos sobre a política deles. Mas essa pequena guerra ou revolta se prolongou por cerca de três semanas. Talvez umas 100 pessoas tenham morrido durante os choques... Ou pouco menos que isso. Alguém lhe contou quando a rebelião começou? Em que ano foi? Em que dia?

— Não — o tio Morgan murmurou num tom sombrio.

— Foi a l° de setembro de 1939. Correspondia aqui ao dia em que a Alemanha invadiu a Polônia.

O pai parou de falar e Jacky, segurando o táxi de brinquedo atrás do sofá, bocejou silenciosamente (mas foi uma boca enorme).

— O que está insinuando? — perguntou finalmente o tio Morgan. — Que a guerra deles deu início à nossa? É uma idéia maluca. Acredita mesmo nisso?

— Acredito — disse o pai de Jack. — Acredito que, de certa forma, uma rebelião de três semanas nos Territórios desencadeou aqui uma guerra que durou seis anos e matou milhões de pessoas. Acredito, sim!

— Bem... — disse o tio Morgan e Jack pôde sentir sua irritação, seu esforço para controlar a raiva.

— E tem mais! Conversei com muita gente sobre o que aconteceu nos Territórios. A sensação que tive é de que o estrangeiro que assassinou o rei era um verdadeiro estrangeiro... Entende o que eu quero dizer, não? Os que o conheceram achavam que ele não estava à vontade vestindo as roupas dos Territórios. Agia como se estivesse inseguro dos costumes locais... Não conhecia a moeda corrente, por exemplo!

— Ah!

— Sim! Se não o tivessem destroçado logo após ele ter apunhalado o rei, talvez possuíssemos mais informações a seu respeito. Quanto a mim, não tenho dúvidas de que se tratava...

— De gente como nós.

— Como nós. Exatamente. Um visitante. Morgan, acho que não devemos nos intrometer muito na vida de lá! Não sabemos quais poderão ser os efeitos. Para dizer a verdade, acho que somos continuamen­te afetados pelas coisas que se passam nos Territórios!... E será que está disposto a ouvir outra suposição maluca?

— Por que não? — Sloat respondeu.

— Os Territórios não são o único outro mundo que existe.

 

— Besteira! — Disse Sloat.

— Não acho. Quando estava lá, tive uma ou duas vezes a sensação de que me encontrava perto de alguma outra região: uma espécie de Territórios dos Territórios.

Sim, Jack pensou, era isso mesmo: os sonhos de olhos abertos dos sonhos de olhos abertos, um lugar ainda mais bonito. E do outro lado ficavam os sonhos de olhos abertos dos sonhos de olhos abertos dos sonhos de olhos abertos. Mais um lugar, mais um mundo. E ainda mais bonito! Então Jack percebeu que estava ficando com sono.

Os sonhos de olhos abertos dos sonhos de olhos abertos.

Adormeceu quase de imediato, com o táxi preto no colo, o corpo pesado de sono, desabando pe­los tacos do assoalho e, ao mesmo tempo, extraordinariamente leve.

A conversa deve ter continuado; Jack deve ter perdido muita coisa. Ele ondulava, pesado e leve, pela continuação do LP que tinha Papai toca o pistão. Durante esse tempo, Morgan Sloat deve ter primeiro tentado argumentar (gentilmente, mas com que apertões nos punhos, com que contorções da testa!) a fa­vor de seus planos; depois deve ter fingido que continuava receptivo aos pontos de vista do sócio e, em seguida, deve ter fingido que se deixara persuadir pelas dúvidas de Phil. No fim da conversa, que voltava à memória de um Jacky Sawyer com 12 anos de idade na perigosa fronteira entre Oatley e uma desconhe­cida aldeia dos Territórios, Morgan Sloat fingira parecer não apenas convencido, mas positivamente agra­decido pelas lições que aprendera de Phil. Quando Jack despertou, a primeira coisa que ouviu foi a per­gunta do pai:

— Ei, Jack desapareceu?

E a segunda coisa foi o que disse o tio Morgan:

— Diabo! Acho que você tem razão, Phil! Você consegue chegar ao âmago das questões com uma lucidez que é difícil de encontrar por aí.

— Ora, mas onde está Jack? — o pai tomou a perguntar, e Jack se mexeu atrás do sofá, agora real­mente acordando. O táxi preto tinha capotado no chão.

— Ha-ha! — disse o tio Morgan. — Perninhas curtas, mas antenas ligadas, aposto!

— Então você estava aí atrás, filhote? — disse o pai. Ruídos de cadeiras sendo arrastadas no chão, ruídos dos dois se levantando.

— Oooh — murmurou o pequeno Jack e, num gesto lento, tornou a pôr o táxi no colo. Sentia as pernas duras, dormentes. Quando ficou de pé, elas formigaram.

O pai riu. Passos se aproximaram do menino. O rosto vermelho e obeso de Morgan Sloat apareceu sobre o sofá. Jack bocejou e encostou os joelhos nas costas do sofá. O rosto do pai apareceu ao lado do rosto de Sloat. O pai estava sorrindo. Por um momento, as duas grandes cabeças de adultos pareceram es­tar flutuando sobre a borda do sofá.

— Já vamos para casa, dorminhoco! — disse o pai.

Quando o Jack de seis anos olhou para o rosto do tio Morgan, viu cálculo e dissimulação nos olhos dele, uma falsidade que deslizava sob as bochechas sorridentes e rechonchudas como cobra sob pedra. E, de repente, ele tornou a ser apenas o pai de Richard Sloat, o bom tio Morgan que no Natal e no dia de seu aniversário sempre lhe dava presentes incríveis! O bondoso tio Morgan de rosto gordo e suado!

Mas o que parecera antes? Um terremoto humano, um homem entupido de hipocrisia por trás da menina dos olhos, um homem ocultando alguma coisa presa por uma mola no fundo de uma caixa, pronta para explodir a qualquer momento....

— Que tal um sorvetinho a caminho de casa, Jacky? — perguntou o tio Morgan. — Não é uma boa idéia?

— Uh! — Jack exclamou.

— Então, rapaz! Podemos parar na sorveteria ao lado do edifício! — disse o pai.

— Hum-hum-hum! — murmurou o tio Morgan. — Agora estamos realmente falando sobre sinergia! — E sorriu mais uma vez para Jack.

 

Tudo isto aconteceu quando Jack tinha seis anos, e no meio de sua queda sem peso através do limbo, a coisa se repetia. O gosto horrível do suco arroxeado de Speedy voltava continuamente aos seus lábios, às suas vias nasais, e tudo o que aconteceu naquela tarde sonolenta há seis anos se desenrolava outra vez em sua mente. Como se o suco mágico pudesse trazer uma recordação integral de certos fatos! E de um modo tão concentrado e veloz que ele reviveu toda aquela tarde nos poucos segundos em que achou que ia vomitar. Ah, como era horrível o suco mágico!

Os olhos do tio Morgan pairando como fumaça e, dentro de Jack, uma questão que também pairava, repetindo sempre as mesmas perguntas e chegando por fim à...

Quem faz

Quem faz acontecer

Quem faz essas coisas acontecerem, papai?

Quem é responsável pela

... morte de Jerry Bledsoe? O suco introduzia-se à força pelos recantos da boca, filetes nauseantes aferroando as paredes do nariz. Assim que sentiu terra fofa nas mãos, Jack parou de bancar o valente e vomitou para não morrer sufocado. O que matou Jerry Bledsoe? A coisa fétida e roxa que saiu da boca de Jack causou-lhe enorme repugnância. Ele recuou bruscamente, esbarrando com pernas e pés numa relva alta e dura. Depois, apoiou-se nas mãos e nos joelhos e conseguiu esticar o corpo. Paciente como uma mula, esperou o que ia acontecer. A boca aberta tinha os lábios frouxos, preparados para um segundo jato. O estômago se enroscou e ele não teve tempo nem de gemer. Um novo fluxo do suco fedorento veio ardendo-lhe pelo peito e pela garganta até salpicar sua boca. Filetes viscosos de saliva pendiam dos seus lábios, e Jack os esfregou num gesto frenético. Depois limpou as mãos nas calças. Jerry Bledsoe, sim. Jerry... que sempre tivera o nome estampado na camisa... Como um empregado de posto de gasolina. Jerry, que morrera quando...

Jack Sawyer balançou a cabeça e esfregou outra vez a boca com as mãos. Vomitou de novo num monte áspero de relva (a relva parecia germinar da terra cinzenta como um buquê de casamento de gigante).

Algum obscuro instinto animal (que ele não seria capaz de entender) o fez cobrir de terra a poça arroxeada de vômito. Outro reflexo levou-o a esfregar mais uma vez as palmas das mãos nas pernas da calça. Finalmente, Jack levantou a cabeça.

Estava de joelhos, num final de crepúsculo, na margem de uma trilha de cascalho. Nenhuma horrí­vel coisa-Elroy o perseguia. Teve consciência imediata disso. Cachorros presos num cercado de madeira que parecia uma jaula latiam e rosnavam para ele, enfiando os focinhos por entre as tábuas. Do outro lado do cercado, havia uma feia estrutura de madeira de onde ruídos igualmente caninos pareciam uivar para a imensidão do céu. Sem a menor dúvida, lembravam bastante os sons que Jack ouvia do outro lado da pa­rede da despensa da Taberna Oatley: uma barulheira tremenda de homens embriagados urrando para to­dos os lados. Outra taberna? Parecia mais uma hospedaria, uma estalagem. Agora que já não sentia a náu­sea do suco de Speedy, ele era capaz de identificar os odores penetrantes, os odores difusos de vinho e cerveja. Realmente não estava disposto a deixar que os freqüentadores daquela outra taberna soubessem de sua chegada.

Por um instante, imaginou-se correndo de todos aqueles cães uivando e rosnando pelas fendas do cercado. Foi então que se levantou. O céu parecia curvado sobre sua cabeça, cada vez mais escuro. E lá atrás? Lá atrás, em seu mundo... O que estaria acontecendo? Algum desastrezinho de automóvel na rua central de Oatley? Quem sabe o início de uma bela enchente, de um bonito incêndio? Que fossem para o diabo!

Jack foi se afastando em silêncio da estalagem, caminhando entre o matagal que rodeava a trilha. A uns 60 metros de distância, velas muito grossas ardiam nas janelas de outra casa, a única que ele podia ver além da estalagem. De algum lugar não muito distante à sua direita, vinha um cheiro de porcos.

Quando cobriu metade da distância entre a estalagem e a casa, os cães pararam de rosnar e de latir. Lentamente, então, Jack Sawyer deu início a uma nova caminhada para a Estrada do Oeste. A noite era escura e sem lua.

Jerry Bledsoe.

 

Havia outras casas, que ele só conseguiu distinguir quando já se encontrava bem próximo delas. Excluindo os barulhentos beberrões da estalagem que ia ficando para trás, ali, nos campos dos Territórios, as pessoas dormiam quando o sol se punha. As velas não ardiam mais naquelas pequenas janelas quadradas. De forma simples e melancólica, as casas nas margens da Estrada do Oeste manti­nham-se num insólito isolamento. Como se houvesse alguma coisa errada na distribuição do espaço. Como num jogo visual de uma revista infantil (mas Jack não conseguia identificar os sete erros). Sem dúvida, não havia nada de cabeça para baixo, nada incandescente, nada extravagantemente fora de lugar. A maioria das casas possuía telhados grandes, espessos, telhados que lembravam montes de feno aparados à escovinha. Jack presumia que fossem telhados de sapê, um estilo local. Já ouvira falar daqueles vastos telhados rurais, mas era a primeira vez que os via.

Morgan, ele pensou com uma repentina sensação de pânico. Morgan de Orris! Era como se visse os dois na sua frente. Um homem de cabelos longos e botas de couro e um homem de rosto suado, obcecado pelos negócios: o ex-sócio do pai. Por um momento os dois chegaram a se embaralhar em sua cabeça. O olho de sua mente viu Morgan Sloat com um comprido cabelo de pirata caminhando pela estrada. Mas Morgan, pelo menos o Morgan que ele conhecia, não era o que havia de errado naqueles campos.

Jack passava agora por uma cabana pequena e atarracada, ainda em construção. Escorada em tra­ves de madeira em forma de xis, parecia uma enorme coelheira. O grosso telhado de sapê já fora devidamente instalado. Se estivesse saindo de Oatley (correndo de Oatley seria mais exato), o que esperaria ver na escuridão da única janela daquela vivenda para coelhos gigantes? E claro! A cintilação de uma tela de TV. Mas, obviamente, nos Territórios as casas não tinham aparelhos de televisão. O que o confundia, po­rém, não era a ausência daquela cintilação colorida. Era alguma outra coisa, uma coisa tão necessária que sua inexistência deixava um buraco na paisagem. A pessoa era capaz de notar o buraco mesmo que não conseguisse identificar o que estava faltando.

Televisão, aparelhos de televisão... Jack ultrapassou a pequena casa semiconstruída e viu diante dele outra pequena e estranha habitação, a porta da frente a poucos centímetros da margem da estrada. Aquela parecia ter um telhado de tijolos primitivos, não de sapê, e Jack sorriu consigo mesmo. O lugarejo que atravessava o fez lembrar-se de Hobbiton, nos Estados Unidos. Seria possível que uma camioneta de uma firma de TV por cabo estacionasse ali em frente e dissesse a uma senhora na janela da... choça... choupana: “Ei, madame, estamos instalando televisões por cabo nesta área, e por uma pequena taxa mensal, que em nada vai comprometer seu orçamento doméstico, a senhora terá ao seu dispor 15 novos canais com programas fabulosos, uma excelente cobertura esportiva e várias emissoras que transmitem dia e noite. Poderá ver...”?

E então ele percebeu a coisa. Na frente daquelas casas não havia postes! Nem fios! Nem antenas de TV complicando a visão do céu! Ao longo da Estrada do Oeste não havia postes de madeira porque não havia eletricidade nos Territórios. Aquele era o elemento cuja ausência parecera tão difícil de identificar. E quanto a Jerry Bledsoe...

Jerry fora, pelo menos durante muito tempo, eletricista e auxiliar geral da Sawyer & Sloat.

 

Quando seu pai e Morgan Sloat citaram aquele nome, Bledsoe, ele achou que nun­ca o ouvira antes. Talvez já tivesse ouvido falar uma ou duas vezes no eletricista, mas Jerry Bledsoe era quase sempre apenas Jerry, como aliás estava escrito no bolso de seu macacão. “Será que o Jerry não pode dar um jeito no ar-condicionado?” “Mande o Jerry lubrificar as dobradiças daquela porta. Este lugar está parecendo mal-assombrado.” E o Jerry logo comparecia, o macacão limpo e muito bem passado, o cabelo castanho-claro bastante cheio, os óculos de aros redondos dando-lhe ao rosto um certo ar de aus­teridade. Em silêncio, consertava o que estava enguiçado. Havia uma Sra. Jerry, que tirava as manchas de graxa e fazia muito bem o vinco nas roupas do marido. Havia ainda inúmeros pequenos Jerrys, de quem a Sawyer & Sloat invariavelmente se lembrava por ocasião do Natal. Na época, Jack era muito criança e as­sociara o nome Jerry com o eterno adversário do gato Tom. Às vezes imaginava o eletricista morando com a Sra. Jerry e os pequenos Jerrys numa gigantesca casa de rato, acessível apenas por um buraco redondo cavado num rodapé.

Mas quem matara Jerry Bledsoe? Seu pai e Morgan Sloat, sempre tão carinhosos com os filhos dele na época do Natal?

Jack continuou seguindo a escuridão da Estrada do Oeste, procurando esquecer o eletricista da Sawyer & Sloat, querendo encontrar de novo o sofá do escritório do pai, engatinhar para detrás dele e dormir. Queria dormir e se desligar dos incômodos pensamentos que aqueles fatos de seis anos atrás des­pertavam dentro dele. Prometeu a si mesmo que, assim que se distanciasse pelo menos três quilômetros da última casa, buscaria algum lugar para dormir. Um trecho de relva, até uma vala serviriam. Suas pernas não queriam mais avançar; e todos os músculos (até mesmo os ossos) pareciam duas vezes mais pesados que ele.

Foi num daqueles dias em que Jack não parava de andar atrás do pai... De repente, descobriu sim­plesmente que Phil Sawyer desaparecera. Com o correr do tempo, o pai começou a se evaporar do quar­to, da sala de jantar, da sala de reuniões da Sawyer & Sloat. Certa vez, executou seu truque de mágico na garagem da casa da Rodeo Drive.

Sentado sozinho numa pequena elevação do jardim (a coisa mais próxima de uma colina que ha­via em sua rua), Jack viu o pai sair de casa pela porta da frente, atravessar o gramado revirando os bolsos (para ver se não esquecera o dinheiro ou as chaves) e entrar na garagem pela porta lateral. A grande porta branca por onde o carro saía devia ter se levantado segundos depois. O problema é que continuou obstinadamente fechada. Então Jack percebeu que o carro estava onde o pai o deixara no início daquela ma­nhã de sábado: ou seja, no meio-fio, bem em frente à casa. O carro da mãe já se fora. Enfiando um cigarro entre os lábios, Lily anunciou que ia rodar umas cenas de Vereda sombria, o último filme do diretor de Noiva da morte, e não tinha tempo nem para piscar um olho. Depois, a garagem tinha ficado vazia. Durante alguns minutos, Jack esperou que alguma coisa acontecesse. Mas nem a porta lateral nem a grande porta da frente se abriram. Finalmente, ele escorregou do monte de grama, foi até a garagem e entrou. Aquele amplo espaço, que conhecia tão bem, estava inteiramente deserto. Manchas de óleo escureciam o chão de cimento; as ferramentas continuavam presas nos ganchos da parede. Mas não havia ninguém. Jack deixou escapar uma exclamação de espanto e chamou: “Papai?”. Depois olhou de novo ao redor, apenas para ter certeza. Dessa vez viu um grilo saltar para a sombra de uma parede e, por uma fração de segundo, quase chegou a acreditar que bruxarias existiam mesmo, que algum feiticeiro malvado estivera escondido na garagem e... O grilo deu um novo salto e sumiu por algum buraco. Não, o pai não podia ter se transformado num grilo. É claro que não! “Ei!”, chamou o garoto... Mas foi como se falasse consigo mesmo. Caminhou para a porta lateral e saiu da garagem. O sol banhava os exuberantes gramados de pri­mavera da Rodeo Drive. Teve vontade de chamar alguém, mas quem? A polícia? Meu pai entrou na gara­gem. E como não consigo encontrá-lo lá dentro, estou assustado...

Duas horas mais tarde, Phil Sawyer veio andando da esquina da rua. Trazia o paletó no ombro e ti­nha afrouxado o laço da gravata. Aos olhos de Jack, parecia um homem retornando de uma viagem de volta ao mundo.

Ansioso, Jack saltou da elevação do jardim e correu para o pai.

— Ei, garoto! Você é um corredor e tanto! — disse o pai sorrindo e, por um instante, Jack parou como uma estátua na frente dele. — Achei que estava tirando uma soneca, Jack Viajante!

Quando subiam o caminho do jardim, ouviram o telefone tocar, e algum instinto (talvez o instinto de manter o pai perto dele) fez Jack dizer que o telefone já tocara mais de uma dúzia de vezes e que a pessoa ia desligar antes que chegassem à porta da sala. Mas com a mão grande e quente, o pai tirou o ca­belo da testa e da nuca, foi correndo até a porta e se aproximou do telefone em cinco longas passadas.

— Sim, Morgan! — Jacky ouviu o pai dizer. — Oh? Más notícias? É melhor contar de uma vez, rapaz...

Após um longo momento de silêncio (em que o menino pôde ouvir o som abafado e rangente d; voz de Morgan Sloat escapando pelo fio), o pai respondeu:

— Oh, Jerry... Meu Deus! Pobre Jerry! Já estou indo para aí!

Então o pai olhou em sua direção, sem sorrir, sem piscar, sem fazer nada além de olhar o vazio.

— Não vou demorar, Morgan! Tenho de levar Jack, mas ele pode ficar esperando no carro.

Jack sentiu os músculos relaxarem. Foi um tamanho sentimento de alívio que nem se preocupou em perguntar por que ia ficar esperando no carro (preocupação que normalmente não deixaria de ter).

Phil dirigiu o carro até o Hotel Beverly Hills, virou à esquerda na Rua Sunset, e foi direto para o prédio de escritórios. Não falou nada durante todo o trajeto.

Ziguezagueando por um tráfego intenso, Phil Sawyer parou o carro numa vaga do estacionamento ao lado do edifício. No local, já havia dois carros da polícia, um carro de bombeiros, o pequeno Mercedes conversível do tio Morgan e um velho e enferrujado Plymouth de duas portas. Era o carro do eletricista. Logo na entrada do prédio, o tio Morgan falava com um policial. O policial balançava lentamente a cabeça, com um evidente ar de simpatia. O braço direito de Morgan Sloat apertava o ombro de uma mulher jovem e pequena. Ela usava um vestido muito largo e tinha o rosto curvado sobre o peito. A mulher de Jerry, Jack soube de imediato, observando que a maior parte de seu rosto permanecia oculta por um lenço branco apertado contra os olhos. Um bombeiro de chapéu e capa impermeável carregava metal e plástico retorcidos, cinzas e lascas de vidro, colocando-os numa espécie de trouxa depositada no chão do vestíbulo.

— Só vai ter de esperar um minutinho, está bem, Jacky? — disse Phil correndo para a entrada.

Junto a um pilar de concreto nos limites da área de estacionamento, uma jovem chinesa conversa­va com um policial. Ao lado dela havia a ponta de alguma coisa que Jack demorou um pouco para identi­ficar como uma bicicleta. Respirando mais fundo, sentiu um cheiro amargo de fumaça.

Vinte minutos depois, o pai saiu do edifício com o tio Morgan. Sempre abraçando a Sra. Jerry, o tio Morgan deu adeus para os Sawyers. Depois, abriu a porta do Mercedes conversível para a mulher de Jerry entrar. Phil Sawyer fez uma manobra no estacionamento e voltou para o trânsito da Rua Sunset.

— Aconteceu alguma coisa com o Jerry? — Jack perguntou.

— Um acidente terrível, filho — disse o pai. — Um curto-circuito. Todo o edifício podia ter pegado fogo.

— E aconteceu alguma coisa com o Jerry? — o menino repetiu.

— O pobre-coitado ficou tão machucado que acabou morrendo — o pai respondeu.

Jack e Richard Sloat levaram dois meses para conseguir compor toda a história a partir das conver­sas que ouviam. A mãe de Jack e a governanta de Richard forneceram alguns detalhes (os mais sangrentos couberam à governanta).

Jerry Bledsoe fora até o escritório num sábado. Tinha de resolver alguns problemas do sistema de segurança do prédio. Se tivesse escolhido um dia de semana para trabalhar com o delicado sistema, sem dúvida assustaria ou irritaria as pessoas com a barulheira dos alarmes que, vez por outra, teriam de ser tes­tados. O sistema de segurança estava conectado ao sistema elétrico central do edifício, oculto atrás de duas enormes paredes de madeira do andar térreo. Carregando o estojo de ferramentas, Jerry entrou no compartimento do sistema. Já verificara que o prédio estava vazio e tinha certeza de que ninguém morre­ria de susto quando o alarme começasse a tocar. Fora também à pequena cabine telefônica do subsolo para pedir à delegacia policial do bairro que ignorasse qualquer alarme da Sawyer & Sloat até que ele tele­fonasse outra vez. Quando voltou ao andar térreo para desligar as conexões dos fios do vestíbulo, uma moça de 23 anos, chamada Lorette Chang, pedalava sua bicicleta em direção à área de estacionamento (estava distribuindo folhetos com o anúncio de um restaurante que seria inaugurado na rua daí a 15 dias).

Mais tarde a Srta. Chang contou à polícia que deu uma espiada pelo vidro da porta da frente e viu um homem de macacão entrar no vestíbulo. Vinha do subsolo. Assim que o homem pegou a chave de fenda e tocou num painel elétrico, ela teve a sensação de que todo o pátio de estacionamento estava tre­mendo. Era, ela pensou, um miniterremoto. Morando há muito tempo em Los Angeles, Lorette Chang não se deixava mais perturbar pelos pequenos abalos sísmicos, que não faziam ninguém cair na rua nem se machucar. Viu Jerry Bledsoe firmar os pés (então ele também tinha sentido o tremor, embora ninguém mais na cidade o tivesse notado). Viu-o sacudir a cabeça e introduzir suavemente a ponta da chave de fenda numa colméia de fios.

E foi nesse momento que o saguão e o grande corredor do prédio da Sawyer & Sloat se transforma­ram num holocausto.

Todo o painel elétrico converteu-se instantaneamente num sólido e retangular corpo de fogo; re­lâmpagos em forma de arcos amarelos atingiram e envolveram as roupas de Jerry. Sirenes eletrônicas começaram a gemer sem parar: uam-uam-uam-uam-uammmm! uam-uam-uam-uam-uammm! Uma bola de fogo com dois metros de altura subiu pela parede, sacudiu o corpo já sem vida de Jerry e investiu para o fundo do corredor. A porta da frente explodiu numa torrente de estilhaços de vidro, fumaça, pedaços retorcidos da armação de ferro.

Lorette Chang largou a bicicleta e correu para o telefone público do outro lado da rua. Quando for­neceu aos bombeiros o endereço do prédio e viu sua bicicleta toda retorcida por causa da força da explo­são da porta, o cadáver carbonizado de Jerry Bledsoe ainda era sacudido para todos os lados pela voltagem do painel. Milhares de volts atravessavam-lhe o corpo, contorciam-no em súbitos safanões, faziam-no oscilar para trás e para a frente num ritmo quase regular. Os cabelos do corpo do eletricista e a maior par­te de suas roupas foram verdadeiramente fritados, a pele se transformou numa pasta cinzenta, cozida à exaustão. E os óculos viraram um sólido tablete de plástico marrom, cobrindo-lhe o nariz como um cata­plasma.

Jerry Bledsoe. Por que acontecem essas coisas, papai? Jack já conseguira fazer seus pés se arrasta­rem por meia hora sem ver mais nenhuma das pequenas choupanas com telhados de sapé. Estrelas que ele não conhecia, formando padrões que não lhe eram familiares, enchiam todo o céu... como mensagens escritas numa língua que ele não soubesse ler.

 

JACK VAI AO MERCADO

Naquela noite, Jack dormiu num monte de feno suavemente perfumado dos Territórios. Primeiro ajeitou o feno para ter uma cama mais confortável, depois tentou achar uma posição que lhe permitisse aproveitar o ar fresco da noite. Ficou apreensivamente atento a pequenos sons rastei­ros; ouvira ou lera em algum lugar que certos ratos gostavam muito de freqüentar os montes de feno. Mas se houvesse algum por ali, certamente um camundongo bem maior que eles, chamado Jack Sawyer, dei­xara-os bastante assustados, reduzindo-os a um silêncio absoluto. Aos poucos foi relaxando, a mão es­querda sentindo o contorno da garrafa de Speedy. Tinha envolvido a rolha com um punhado de musgo seco, encontrado na margem de um pequeno regato onde parara para beber água. Achava muito provável que algumas hastes do musgo acabassem caindo, ou já tivessem caído, dentro da garrafa. Quem sabe não amenizariam um pouco o sabor picante e o delicado aroma de uvas apodrecidas?

Tentou se aconchegar no feno, sentindo o corpo cada vez mais pesado de sono. A sensação, po­rém, que mais o agradava era de alívio... como se estivesse carregando uma mochila de uma tonelada nas costas e alguma alma caridosa soltasse as correias para deixá-lo cair sobre aquele feno. Estava de novo nos Territórios, o lugar onde havia gente de nomes fascinantes como Morgan de Orris; Osmond, o Chicoteador; e Elroy, o Espantoso Homem-Coisa... Os Territórios, onde tudo podia acontecer!

Mas os Territórios também podiam ser generosos. Sabia disso desde que era muito criança, quando todo mundo morava na Califórnia e ninguém queria morar em nenhuma outra parte. Os Territórios podiam ser bons, e naquele momento, por exemplo, ele era capaz de sentir essa bondade à sua volta. Uma benevolência calma, doce como o perfume do feno, límpida como o cheiro do ar.

Será que uma mosca ou uma joaninha sentiam a mesma dose de alívio quando uma inesperada rajada de vento subjugava de tal forma a planta carnívora que ela se via obrigada a abrir suas garras para deixar o inseto escapar? Jack não sabia... Mas sabia como se sentia bem por estar longe de Oatley, longe do Clube dos Amigos da Esquina, de velhos que choravam para defender carrinhos vazios de supermercado, longe do cheiro de cerveja e do cheiro de vômito... E, principalmente, longe de Smokey Updike e da Taberna Oatley.

Achou que, ao menos por algum tempo, poderia viajar em paz pelos Territórios.

E, pensando assim, adormeceu.

 

Na manhã seguinte, já havia andado três ou quatro quilômetros pela Estrada do Oeste (desfrutando o sol e o gostoso cheiro de campos quase prontos para a colheita do fim do verão) quando uma carroça se aproximou e um camponês de longas costeletas, vestindo uma espécie de toga enfiada em calções largos, gritou:

— Ei, está indo para o mercado, garoto?

Jack abriu a boca, meio em pânico, percebendo que o homem não estava falando inglês (não era um inglês arcaico, não era absolutamente inglês de espécie alguma), mas ele conseguira entender perfei­tamente a pergunta.

Na carroça, ao lado das costeletas do camponês, havia também uma mulher num volumoso vesti­do. Tinha no colo uma criança de uns três anos de idade. Sorriu com simpatia para Jack e voltou os olhos para o marido:

— Ele parece meio tímido, Henry.

Não estão falando inglês... Mas seja lã qual for essa língua, consigo entendê-la muito bem. Na realidade, estou até pensando nesse idioma... E tem mais: estou vendo as coisas na língua dos Territórios, com os nomes dessa língua, mesmo que não saiba explicar nem a mim mesmo exatamente o que estou sentindo.

Jack descobriu que acontecera a mesma coisa da última vez que estivera nos Territórios. Só que naquela primeira jornada estava confuso demais para perceber o que se passava; tudo ocorrera depressa demais, e tudo lhe parecera estranho.

O camponês inclinou a cabeça. Sorriu mostrando dentes absolutamente horríveis.

— Será que é mesmo tão tímido assim, garoto? — ele perguntou num tom cordial.

— Não — Jack respondeu, procurando devolver o sorriso, consciente de que em vez de dizer não emitira algum fantástico som da língua dos Territórios. Percebeu que quando “atravessava”, mudava sua fala e seu modo de pensar (pelo menos seu modo de apreender as coisas — ele não tinha essa palavra em seu vocabulário, mas mesmo assim compreendia o sentido geral), do mesmo modo como as roupas se transformavam em seu corpo. — Não tenho nada de tímido. O problema é que minha mãe me disse para ter cuidado com as pessoas que encontrasse pelo caminho.

Agora, a esposa do camponês sorriu:

— E sua mãe tem razão — disse ela. — Vai para o mercado?

— Sim — disse Jack. — Isto é, estou seguindo a estrada... na direção do oeste.

— Suba aí atrás, garoto! — disse Henry, o camponês. — Não se pode perder a luz do dia. Quero vender o que trouxe comigo e chegar em casa antes do anoitecer. O milho não é dos melhores, mas esta­mos no fim da estação. Sem dúvida podemos nos dar por muito felizes por ainda termos milho no nono mês. E sempre haverá quem queira comprá-lo.

— Obrigado — disse Jack subindo na traseira da carroça. Viu dezenas de sacos de milho, amarra­dos com rudes pedaços de corda e empilhados como lenha. Se o milho não era dos melhores, então Jack não podia imaginar o que seria considerado um bom milho nos Territórios: eram as maiores espigas que já vira em toda a sua vida. Havia também pequenos montes de abóboras, ervilhas e coisas que lembravam grandes laranjas: mas eram vermelhas, em vez de alaranjadas. Mesmo sem saber o que eram, Jack descon­fiava que deviam ter um sabor excelente. Seu estômago roncava sem parar. Desde que começara a seguir a estrada, descobrira como estava faminto. Não era uma sensação de fome comum, do tipo que sentimos depois da aula e que pode ser perfeitamente controlada com alguns biscoitos e um copo de Toddy. Era uma coisa mais profunda, uma ânsia de comida que às vezes amortecia um pouco, mas nunca o abando­nava totalmente.

Estava sentado de costas para a frente da carroça, as sandálias balançando nos pés, quase tocando o barro da Estrada do Oeste. Havia muito movimento naquela manhã. Jack presumiu que a maioria das carroças e pessoas fosse para o mercado. De vez em quando, Henry berrava um cumprimento para algum conhecido.

Jack ainda estava curioso para descobrir o sabor daquelas coisas parecidas com laranjas mas com cor de maçã (e curioso para saber onde encontraria uma boa refeição), quando pequenas mãos lhe agarraram o cabelo e deram um forte puxão — forte o bastante para deixar seus olhos rasos d’água.

Ele virou a cabeça e viu um menino de três anos, descalço e de pé, um grande sorriso no rosto e al­guns fios de cabelo nas mãos.

— Jason! — a mãe gritou, mas não deixava de ser um grito bastante tolerante (Viu como puxou o cabelo do rapaz? É incrível como está forte!) — Jason, não faça mais isso!

Sem se deixar abalar, Jason abriu um novo sorriso. Foi um sorriso grande, luminoso e ingênuo, doce como o cheiro do feno onde Jack tinha passado a noite. Ele também sorriu e, embora não tivesse sido uma atitude calculada, percebeu que conquistara a amizade da mulher de Henry.

— Ti — Jason exclamou, jogando o corpinho de um lado para o outro num movimento inconsciente de um velho marinheiro. Ainda sorria para Jack.

— Hã?

— Bum!

— Não estou entendendo, Jason.

— Ti-bum...

— Não estou...

E então Jason, sorridente e bastante robusto para os seus três anos de idade, jogou-se no colo de Jack.

Ti-BUM! Oh, sim, agora entendi!, Jack pensou, sentindo uma dor lhe subir dos testículos para a boca do estômago.

— Jason, que coisa feia! — a mãe repreendeu de novo naquele mesmo tom macio. (Ele não é uma graça?) Jason, que sabia quem estava no comando da situação, limitou-se a insistir no sorriso doce, sim­pático, inocente.

Jack Sawyer percebeu que Jason estava molhado. Muito, extremamente, indiscutivelmente molhado!

Bem-vindo outra vez aos Territórios, Jack!

E, sentado ali, com o menino nos braços e uma umidade quente se filtrando pelas roupas, Jack co­meçou a rir, o rosto levantado para o céu muito azul.

 

Daí a alguns minutos, a mulher de Henry se aproximou de Jack e pegou o filho.

— Ooh, molhado! Mas que menino mau! — disse ela, sempre tolerante.

Ele não fica uma gracinha molhado?, Jack pensou e riu de novo. Jason também riu e a Sra. Henry juntou-se aos dois.

Enquanto trocava a fralda de Jason, fez algumas perguntas a Jack — as mesmas que ele ouvira com tanta freqüência em seu próprio mundo. Mas nos Territórios teria de ser ainda mais cuidadoso. Era um es­trangeiro e seria fácil cair em alguma armadilha. Ouviu o pai conversando com Morgan... Um verdadeiro estrangeiro, percebe o que estou querendo dizer?...

Jack viu que a mulher do camponês o ouvia atentamente. Respondeu às perguntas com uma cautelosa versão da história que contava nos Estados Unidos (não a que contava ao se candidatar a um emprego, mas a história reservada para os motoristas que lhe davam carona).

Disse que tinha vindo da Aldeia de All-Hands — a mãe de Jason tinha uma vaga lembrança de ter ouvido falar do lugar, mas isso era tudo. Vinha realmente assim de tão longe? Era incrível! Jack confirmou com a cabeça. E qual era o seu destino? Ele disse (Henry escutava em silêncio) que estava a caminho da Aldeia da Califórnia. Desta ela ainda não ouvira falar, nem mesmo vagamente, nem mesmo nas histórias dos vizinhos mais tagarelas. Jack não ficou muito espantado por não conhecerem a “aldeia”, mas deu gra­ças a Deus por não ter ouvido Henry exclamar: “Califórnia? Será que alguém já ouviu falar de uma aldeia chamada Califórnia? Quem está tentando enganar, guri?”. Nos Territórios, devia haver muitos lugares — regiões e aldeias — de que as pessoas que viviam em áreas distantes jamais tinham ouvido falar. Não ha­via postes nem fios. Nem eletricidade. Nem cinemas. Nem TV para informá-los das coisas maravilhosas que existiam em Malibu ou Sarasota. Não havia telefones, nem chamadas interurbanas com tarifas reduzi­das nos fins de semana e depois das oito da noite. Vivem num mundo misterioso, ele pensou. Quando se vive num mundo misterioso, não se duvida da existência de uma aldeia simplesmente por nunca se ter ou­vido falar dela. Califórnia não soa mais estranho que um lugar chamado All-Hands.

Eles não duvidaram de nada. Jack contou que o pai morrera há um ano, e que a mãe estava muito doente (pensou em acrescentar que os homens do serviço de reintegração de posse da rainha tinham vin­do no meio da noite e levado o único jumento que possuíam, mas achou melhor omitir essa parte). Sua mãe lhe dera algum dinheiro (só que, na estranha língua dos Territórios, a palavra não era dinheiro, mas alguma coisa parecida com varas) e o mandara para a Aldeia da Califórnia, onde devia morar com a tia Helen.

— Os tempos estão difíceis — disse a Sra. Henry, apertando Jason, agora de fralda limpa, de en­contro ao peito.

— All-Hands fica perto do palácio de verão, não é, rapaz?

Era a primeira vez que Henry falava desde que o convidara a subir na boléia.

— Sim — disse Jack. — Isto é, razoavelmente perto, eu acho...

— Você não disse do que seu pai morreu.

Henry tinha virado a cabeça. O olhar era estreito, um olhar de avaliação. A benevolência anterior desaparecera (apagada como chama de vela ao vento). Sim, havia armadilhas ali.

— Ele estava doente? — a Sra. Henry perguntou. — Há tanta coisa ruim nos dias de hoje... Lepra, peste... São tempos difíceis.

Por um momento de descontrole, Jack pensou em dizer: Não, ele não estava doente, Sra. Henry. Morreu de um choque de milhares de volts. Imagine que saiu numa manhã de sábado para fazer um con­serto e deixou a Sra. Jerry e todos os pequenos Jerrys — inclusive eu— em casa. Morávamos num buraco do rodapé e ninguém queria morar em outro lugar, imagine a senhora! Sabe o que aconteceu? Enfiou a chave defenda num monte de fios e a Sra. Feeny, a governanta da casa de Richard Sloat, ouviu o tio Mor­gan falando ao telefone e ele disse que houve uma explosão de eletricidade, de toda a eletricidade do pré­dio. O homem ficou cozido, tão bem cozido que os óculos se colaram no nariz... O problema é que a senho­ra não sabe o que são óculos porque não existem óculos por aqui. Nem óculos... nem eletricidade... nem televisão... nem aviões. Não queira acabar como a Sra. Jerry, Sra. Henry. Não queira...

Não importa se ele estava doente — disse o camponês de longas costeletas. — Ele era político?

Jack virou o rosto para Henry. Sua boca se moveu, mas não emitiu qualquer som. Não sabia o que dizer. Havia armadilhas demais naquela conversa.

Henry fez um movimento de compreensão, como se Jack tivesse respondido.

— Pode saltar, rapaz! O mercado fica depois da próxima lombada. Acho que pode andar daqui até lá, não pode?

— Sim — disse Jack. — Acho que sim.

A Sra. Henry parecia confusa, mas tentava agora manter Jason o mais longe possível de Jack, como se ele tivesse alguma doença contagiosa.

Olhando por cima do ombro, o camponês sorriu um tanto pesaroso e disse:

— Sinto muito. Você parece um bom rapaz, mas somos pessoas simples. O que está acontecendo perto do mar são problemas que só aos grandes senhores cabe discutir. Não sei se a rainha vai morrer ou não... E, sem dúvida, um dia terá de morrer. Mais cedo ou mais tarde, a mão de Deus alcança todo mun­do. E quando gente humilde se mete nos problemas dos poderosos, sai sempre muito machucada.

— Meu pai...

— Não quero saber o que houve com seu pai! — disse Henry num tom áspero. A mulher se afastou ainda mais de Jack, sempre segurando Jason de encontro ao peito. — Não sei e não quero saber se foi um homem bom ou mau. O que sei é que é um homem morto, acho que você não mentiu sobre isso... O que sei é que o filho dele vem passando por maus momentos e está pensando em alguma artimanha. Você não tem o jeito de quem diz a verdade, garoto! Portanto, desça! Tenho um filho, como está vendo, e não posso me meter em enrascadas.

Jack saltou, lamentando o medo que via no rosto da mulher; um medo que ele, Jack Sawyer, puse­ra em seus olhos. O camponês tinha razão. Gente humilde não se mete nos assuntos dos poderosos, as­sim como crianças não se metem nos assuntos dos adultos. Ao menos quando são inteligentes.

 

OS HOMENS NO CÉU

Foi um choque descobrir que os dólares que ganhara com tanto sacrifício tinham li­teralmente se convertido em “varas”. E essas “varas” pareciam bengalas tortas ou cobras de brinquedo fei­tas por um artesão inexperiente.

Mas o choque só durou um momento e ele acabou rindo sozinho. Afinal, as “varas” eram dinheiro. Quando atravessava para os Territórios, tudo se transformava. Dólares de prata viravam moedas com o perfil da rainha, camisas se tornavam gibões, o inglês se transformava numa língua estranha, e a boa moe­da americana em... bem, em “varas”. Saíra dos Estados Unidos com cerca de 22 dólares e achava que de­via ter uma soma equivalente na moeda dos Territórios (embora tenha contado 14 “nós” numa das “varas” em forma de cobra e mais de 20 na outra).

O problema é que não tinha idéia do custo de vida nos Territórios. Não sabia muito bem o que era barato ou caro e, caminhando pelo mercado, sentia-se como um participante de um programa de TV chamado Qual é o preço?. A única diferença era que ali, se errasse, não teria um animador do seu lado para lhe dar um tapinha nas costas e um prêmio de consolação. Ali, se errasse, podia... bem, não tinha certeza do que podia lhe acontecer. Podiam enganá-lo; podiam achar que ele estava tentando enganar e ridicularizar os outros. Podiam correr atrás dele, quem sabe machucá-lo, espancá-lo? Quem sabe...? Será que iam querer matá-lo? Provavelmente não, mas era impossível ter certeza absoluta. Eram pessoas sim­ples. Não eram políticos. E ele... era um estrangeiro.

Caminhava lentamente de uma ponta à outra da barulhenta e agitada multidão que enchia o mercado. Seus problemas passaram a se concentrar principalmente no estômago: sentia uma fome terrível. Junto a uma barraca, viu Henry pechinchando com um homem que vendia bodes. A Sra. Henry permanecia ao lado dele, mas um pouco atrás, abrindo espaço para a gesticulação do marido. Estava de costas para Jack, o bebê suspenso no colo. Jason, um dos pequenos Henrys, Jack pensou — e Jason o viu. O menino sacudiu uma mão gorducha para Jack, mas Jack se virou num movimento brusco, pondo o máximo de gente possível entre ele e os Henrys.

Em toda parte parecia haver cheiro de churrasco. Viu vendedores girarem lentamente pedaços de carne sobre brasas de carvão; viu meninos estenderem fatias grossas de carne de porco sobre rodelas de pão caseiro e passarem os sanduíches abertos para os fregueses. Os vendedores tinham a agitação de leiloeiros modernos, embora a maioria dos homens que enchiam a feira fosse constituída de camponeses como Henry. A clientela escolhia as mercadorias como se fizesse lances de valores diversos: erguiam im­periosamente uma das mãos, os dedos espalmados. Jack observou de perto inúmeras transações e, em cada caso, o meio de troca foram sempre as varas marcadas de nós... Mas quantos nós seriam necessários para comprar uma coisa ou outra? Ele não sabia. Se bem que já não se preocupava muito com isso. Tinha de comer, mesmo que ao fazer alguma compra o identificassem como estrangeiro.

Passou por um grupo de saltimbancos, mas quase não os viu, embora a grande platéia ali reunida (formada principalmente de mulheres e crianças) explodisse em risos e aplausos. Encaminhou-se para uma tenda com paredes de lona onde, ao lado de uma vala escavada na terra e cheia de brasas fumegan­tes de carvão, havia um homem corpulento, com tatuagens nos grandes músculos do braço. Um espeto de ferro com mais de dois metros de comprimento se estendia pelas brasas. Em cada ponta do espeto ha­via um garoto suado e sujo. Cinco pedaços enormes de carne torravam no espeto que os garotos faziam rodar num movimento sincronizado.

— Olha a carne! — gritava o homem. — A melhor carne! A melhor carne! Olha a carne! A mais gos­tosa de todo o mercado!

De repente, o homem virou-se e disse em voz baixa para o garoto que estava mais perto.

— Rode mais depressa esse espeto, rapaz! Mais depressa!

Depois voltou à monótona gritaria de seu pregão.

Um camponês passando com uma filha adolescente ergueu a mão e apontou para o segundo pe­daço de carne a contar da esquerda. Os garotos pararam de rodar o espeto e o patrão cortou uma fatia do churrasco. Depois, colocou-a sobre uma rodela de pão. O sanduíche aberto foi servido ao freguês, que ti­rou do bolso uma “vara” com nós. Olhando mais de perto, Jack viu-o quebrar dois nós da madeira e dá-los a um dos garotos. Quando o garoto voltou para junto da tenda, o freguês tornou a guardar no bolso o que sobrara da vara de dinheiro. Era o gesto automático, mas cuidadoso, de alguém que guardava o troco no bolso. Depois o freguês deu uma mordida gigantesca no “sanduíche” e passou o resto às mãos da fi­lha (cuja primeira dentada foi quase tão entusiástica quanto a do pai).

O estômago de Jack chiava e rangia. Já tinha visto o que queria ver. Assim esperava...

— A melhor carne! A melhor carne! Olha...

O homem se interrompeu e baixou os olhos para Jack. As sobrancelhas se franziram (os olhos eram pequenos, mas não inteiramente estúpidos).

— Acho que seu estômago está roncando, amigo! Se tiver dinheiro, vou lhe dar um bom pedaço e pedir a Deus pela sua saúde quando rezar hoje à noite. Mas se não tiver, tire sua estúpida cara de cabrito de perto de mim e vá para o diabo!

Os dois garotos do espeto riram, embora estivessem visivelmente cansados. Riram como se não ti­vessem controle sobre os sons que emitiam.

Mas o cheiro enlouquecedor do churrasco que assava lentamente não deixou Jack ir embora. Ele tirou do bolso a mais curta de suas varas com nós e apontou para o segundo pedaço de carne a contar da esquerda. Não falou nada. Talvez fosse melhor assim. O vendedor resmungou alguma coisa, tornou a tirar o facão afiado do cinturão de couro e cortou uma fatia. Era uma fatia menor do que a que dera ao campo­nês, mas o estômago de Jack não tinha mais tempo de se preocupar com esses detalhes: roncava furiosa­mente, numa ansiosa antecipação da comida.

O homem pôs a carne sobre a rodela de pão e entregou-a pessoalmente a Jack, dispensando qual­quer ajuda dos garotos. Depois pegou a vara-dinheiro de Jack Sawyer. Em vez de dois nós, ficou com três.

Cheia de sarcasmo, a voz de Lily Cavanaugh falou dentro da cabeça do filho: Parabéns Jack... Está deixando que o façam de bobo com a maior facilidade!

O negociante o encarava, abrindo um sorriso cheio de dentes estragados e negros, desafiando-o a dizer alguma coisa, a esboçar algum tipo de protesto: Devia se dar por satisfeito por eu só ter tirado três nós em vez de todos os 14 que você tem nessa vara. Eu podia ter feito isso, você sabe muito bem! É como se houvesse uma tabuleta pendurada no seu pescoço, rapaz! sou estrangeiro e estou sozinho aqui! Então me diga, cara de cabrito: quer mesmo criar um caso por causa disso?

O que Jack queria não importava. Obviamente, não podia criar nenhum caso. Mas sentiu outra vez aquela raiva difusa e impotente se erguer dentro dele.

— Vá embora — disse o vendedor, cansado de Jack. A mão enorme deu uma pancadinha no rosto de Jack. Os dedos eram muito ásperos, e havia sangue sob as unhas. — Já tem sua comida. Agora suma!

Jack pensou: Se eu lhe mostrasse uma lanterna elétrica, sairia correndo como se todos os demônios do inferno estivessem atrás de você. Se visse um avião, provavelmente iria enlouquecer. Talvez não seja tão valente quanto está pensando, amigo!

Ele sorriu, e talvez alguma coisa em seu sorriso não tenha agradado ao vendedor de churrasco. Com um indício momentâneo de nervosismo, o homem tirou os olhos de Jack. Mas logo as sobrancelhas tornaram a se franzir.

— Vá embora, estou dizendo! — ele rosnou. — Suma daqui, vá para o diabo!

E, dessa vez, Jack foi embora.

 

A carne estava deliciosa Jack devorou-a juntamente com o pão. Depois, num ato involuntário, lambeu o molho que caíra na palma da mão. A carne tinha gosto de carne de porco... e, no entanto, não era. Era algo mais suculento, de sabor mais forte que o da carne de porco. Fosse lá o que fosse, encheu o buraco de seu estômago com absoluta eficácia. Jack não se incomodaria de levar durante mil anos “sanduíches” daquela carne para o lanche na escola.

Agora que conseguira acalmar um pouco a barriga (ao menos por algum tempo), sentiu-se capaz de examinar o mercado com maior interesse... E embora não percebesse isso, tinha finalmente começado a se harmonizar com a multidão. Talvez agora fosse apenas mais um caipira que saíra de sua granja para fazer compras na feira da região, no “mercado”, como eles diziam. Passeou lentamente entre as tendas e as barracas, apreciando embasbacado tudo o que via. Para os mascates era apenas mais um possível freguês entre tantos outros. Gritavam, tentavam atraí-lo com gestos quando ele passava; depois repetiam a mesma coisa para quem viesse atrás: homem, mulher ou criança. Jack arregalava os olhos para os artigos que via à sua volta, coisas ao mesmo tempo fascinantes e estranhas. Mas entre tanta gente que também abria a boca diante de tudo, deixava de ser um forasteiro... Talvez porque tivesse decidido não mais se es­forçar para parecer entediado num lugar onde ninguém reagia com indiferença. Todos riam, discutiam, pechinchavam... mas ninguém dava mostras de tédio.

O mercado tinha alguma coisa do pátio fronteiro ao pavilhão da rainha. Mas não havia aquele ar de tensão e imponente agitação nervosa. As semelhanças, porém, estavam na mistura de odores extremamente rica (com a predominância das carnes assadas e da gordura animal), na mesma multidão com roupas coloridas (embora até os mais bem vestidos estivessem longe da ostentação dos dândis que vira nos arredores do pavilhão), na mesma insólita mas empolgante justaposição de coisas que lhe pareciam perfeitamente normais com as mais absurdas extravagâncias.

Parou numa barraca onde um homem vendia tapetes com o rosto da rainha cuidadosamente bordado. Jack se lembrou da mãe de Hank Scoffler e sorriu. Hank era um dos garotos com quem ele e Richard Sloat brincavam em Los Angeles. A Sra. Scoffler tinha uma predileção toda especial pelos mais exóticos artigos de decoração. Deus do Céu! Se visse aqueles tapetes com a imagem de Laura DeLoessian, o cabelo adornado com um diadema real e um coque de belas tranças, sem dúvida perderia o fôlego e o equilíbrio. Eram muito mais bonitos que as pinturas em veludo do Alasca ou os pequenos vasos de cerâmica com motivos geométricos que a mãe de Hank expunha nas estantes da sala.

Então o rosto bordado nos tapetes pareceu se modificar... A face da rainha desaparecera e o que Jack via agora era o rosto da mãe, repetido numa fileira infinita, os olhos muito negros, a pele excessivamente esbranquiçada.

A saudade assaltou-o de novo. Atravessou-lhe a mente como uma onda do mar e ele gritou por dentro: Mamãe! Ei, mamãe! Meu Deus, o que estou fazendo aqui? Mamãe!! Num ímpeto de muito amor, quis saber o que ela estaria fazendo naquele momento, naquele exato momento. Estaria sentada perto da janela fumando, olhando para o mar com um livro aberto do lado? Vendo televisão? Num cinema? Dormindo? Morrendo?

Morta?, uma voz cruel acrescentou antes que ele pudesse detê-la. Morta, Jack?Já estará morta?

Pare com isso!

Sentiu a ardência das lágrimas.

— Por que está tão triste, rapaz? Em que está pensando?

Jack levantou os olhos, assustado, e viu um vendedor de tapetes. Era tão corpulento quanto o ho­mem do churrasco e também tinha uma tatuagem no braço. Mas o sorriso era franco, jovial. Não transmi­tia maldade. E aquela era a grande diferença.

— Em nada — disse Jack.

— Se pensar em nada deixa você com essa cara, devia estar sempre pensando em alguma coisa, garoto!

— Minha cara está tão ruim assim? — Jack perguntou, sorrindo ligeiramente. Falara de uma forma quase involuntária e talvez por isso o vendedor não notou nada de estranho ou fora do normal no jeito dele.

— Rapaz, você parece que viu um lobisomem devorar o único amigo que tinha no mundo!

Jack sorriu. O vendedor de tapetes deu meia-volta e tirou alguma coisa da pequena vitrine à direita do tapete maior: era oval e tinha cabo curto. Ele girou a coisa e o sol faiscou através dela — era um espe­lho. Parecia um espelho pequeno e barato, daqueles que a pessoa pode ganhar num parque de diversões ao acertar uma argola na garrafa do fundo.

— Aqui está, garoto! — disse o vendedor de tapetes. — Dê uma olhada e veja se não tenho razão.

Jack olhou para o espelho e, por um momento, achou que seu coração parara de bater. Era ele! Só que parecia ter saído da Ilha dos Prazeres na versão que Walt Disney fez de Pinóquio (muita pólvora de espingarda e fumaça de charuto transformavam meninos em jumentos). Seus olhos, normalmente muito azuis e redondos por causa da herança anglo-saxônica, haviam se tomado castanhos e amendoados. O cabelo, emaranhado e caído na testa, adquirira o aspecto exato de uma juba. Jack ergueu uma das mãos para tirar alguns cachos da testa. No espelho, os dedos pareceram sumir entre os cabelos. Ouviu o vende­dor rir, um riso divertido. O mais surpreendente de tudo, o mais espantoso, é que orelhas compridas de jumento caíam até abaixo da linha de seu queixo. Concentrando-se melhor, viu uma delas se mexer.

Pensou de repente: eu já tive essas orelhas!

E depois disso: Nos sonhos de olhos abertos, eu já tive essas orelhas, mas no mundo comum elas sempre foram... foram...

Talvez não tivesse mais de quatro anos naquela época. No mundo comum (aos poucos, ia deixan­do de pensar no mundo comum como o mundo real), ganhara uma enorme bola de gude com um centro rosado. Um dia, quando estava brincando, ela foi rolando pelo caminhozinho de cimento que havia na frente de casa e, antes que pudesse alcançá-la, ela caiu num bueiro. A bola de gude se fora — para sem­pre, ele pensou então, sentando no meio-fio, chorando, esfregando os olhos com as mãos encardidas. Mas a bola não se fora... De repente, lá estava ela de novo, ali naquela feira, tão maravilhosa como quan­do ele tinha três ou quatro anos. Sorriu de alegria. A imagem se distorceu outra vez, e Jack, o jumento, se transformou em Jack, o gato, o focinho esperto, manhoso, engraçado. Os olhos passaram de um tom cas­tanho ao tom esverdeado dos grandes felinos. Agora, no lugar das orelhas compridas de jumento havia duas orelhinhas de gato, atentas e cobertas de um pêlo cinza.

— Ótimo! — disse o vendedor. — Agora está melhor! Gosto de ver um garoto contente. Um garoto contente é um garoto saudável, e um garoto saudável acaba sempre achando o caminho certo. O Livro da boa lavoura diz isso, mas, mesmo que não dissesse, seria a pura verdade. Vou até sublinhar o trecho no meu exemplar... Isto é, se algum dia tiver dinheiro para comprar um. Quer o espelho?

— Quero! — Jack gritou. — Claro! É incrível!

Remexeu os bolsos em busca das varas. As medidas de economia tinham sido esquecidas.

— Quanto custa?

O vendedor franziu a testa e olhou rapidamente ao redor para ver se alguém os estava observando.

— Leve o espelho, rapaz! Esconda-o bem e siga o seu caminho. Quem mostra o dote pode perder o lote. E o mercado está cheio de ladrões.

— O quê?

— Esqueça! O espelho não custa nada. Pode levá-lo. Metade deles se quebra na boléia de minha carroça quando os levo de volta para o depósito. As mães trazem os filhos aqui, os filhos gostam dos es­pelhos, mas comprar, que é bom, ninguém compra.

— Pelo menos o senhor é sincero! — disse Jack.

O vendedor olhou-o com um certo ar de espanto e depois acompanhou-o numa gargalhada.

— Um garoto contente com uma língua afiada — disse o vendedor. — Venha me visitar quando estiver coroa e careca, rapaz! Mesmo que eu já esteja usando bengala, saberei enganar você no preço com lábios de veludo.

Jack riu. O sujeito era mais engraçado que um filme de Jerry Lewis.

— Obrigado — disse ele (um grande e absurdo sorriso arreganhou a boca do gato no espelho). — Muito obrigado!

— Me recomende a Deus — disse o vendedor... Depois, como num acréscimo repentino: — E cui­dado com a cauda!

Jack seguiu em frente, guardando com cuidado o espelho dentro do gibão, ao lado da garrafa de Speedy.

A toda hora, punha a mão no bolso para verificar se as varas ainda estavam lá.

Tinha mesmo de se proteger dos ladrões!

 

Duas barracas à frente da tenda do vendedor de tapetes havia um homem com uma venda num dos olhos, olhar depravado no outro e bafo de aguardente. Tentava vender um galo enorme a um camponês. Dizia que se o camponês comprasse o galo e o pusesse junto das galinhas teria um rendimento duplo de pintos nos próximos 12 meses.

Jack, porém, não teve olhos para o galo nem orelhas para a conversa fiada do vendedor. Juntou-se a uma multidão de crianças que ria e batia palmas, pois defronte à tenda do vendedor de um olho só havia uma grande gaiola de vime com um bicho estranho. O bicho tinha quase o tamanho das crianças mais novas, e penas lisas, de um verde muito escuro. Os olhos eram dourados, brilhantes... E eram quatro; eram quatro olhos! Como o pônei que vira nos estábulos do pavilhão, o bicho, uma espécie de papagaio, também tinha duas cabeças. Agarrava-se num poleiro com grandes pés amarelos e olhava mansamente para dois lados ao mesmo tempo (os tufos de suas duas cristas quase se tocavam).

Para maior diversão, o papagaio estava falando alguma coisa, mas Jack notou que, embora as crianças dessem grande atenção ao bicho, nem de longe pareciam tão espantadas quanto ele. Não eram como crianças vendo seu primeiro filme, estupefatas no assento do cinema, olhos muito arregalados. Lembravam antes crianças assistindo na televisão ao habitual desenho animado das tardes de sábado. Era uma coisa incrível, sim, mas não tão incrível quanto parecia a Jack! E os mais novos logo iam perdendo o interesse na exibição da ave.

— Grouuuuk! Que altura tem lá no alto? — perguntou a cabeça da direita.

— A mais baixa de todas! — respondeu a cabeça da esquerda, e as crianças riram.

— Grááááá! Qual é a verdade de um homem nobre? — perguntou de novo a cabeça da direita.

— Que um rei será rei a vida toda, mas ser cavaleiro por um dia é melhor que nada! — respondeu com animação a cabeça da esquerda.

Jack sorriu e algumas crianças riram; as menores, porém, continuavam apenas olhando.

— E o que há no guarda-louça da Sra. Spratt? — interrogou a cabeça da direita.

— Coisas que ninguém deve ver! — disse a cabeça da esquerda, e embora Jack não tivesse enten­dido, as crianças morreram de rir.

Com ar solene, o papagaio fez os pés saltitarem no poleiro e ameaçou saltar para o chão de palha.

— E por que Alan Destry morreu de susto no meio da noite?

— Ele viu a mulher... grouuuuk!... sair do banheiro!

Agora o camponês ia recuando, mas o vendedor de um olho só ainda tentava lhe empurrar o galo. Por fim, virou-se furioso para as crianças:

— Saiam daqui! Saiam daqui antes que eu dê um bom chute na bunda de todos vocês!

As crianças se dispersaram. Jack foi junto com elas, lançando um último olhar de assombro ao fa­buloso papagaio.

 

Noutra barraca pagou dois nós de madeira por uma maçã e um canecão de lei­te: o leite mais saboroso e puro que já provara. Achou que se houvesse um leite como aquele no seu mundo, a Nestlé iria à falência numa semana.

Estava acabando de tomar a caneca de leite quando viu a família Henry caminhando lentamente em sua direção. Devolveu a caneca à mulher da barraca, que a mergulhou numa grande terrina cheia d’água. Jack se afastou limpando um bigode de nata de cima do lábio e pedindo a Deus que ninguém que tivesse usado aquela caneca antes dele sofresse de tuberculose, herpes ou alguma coisa do gênero. (Mas não podia acreditar que aquelas doenças terríveis existissem nos Territórios!)

Atravessou de uma ponta à outra a rua principal do mercado. Passou de novo pelos saltimbancos, passou por duas mulheres gordas vendendo potes e caçarolas (panelas de pressão dos Territórios, Jack pensou sorrindo), viu de novo o espantoso papagaio de duas cabeças (seu dono caolho bebia agora pelo gargalo de um cântaro de barro, cambaleava de uma ponta à outra da barraca, pegava pelo pescoço o galo meio tonto e gritava furiosamente para os passantes; Jack reparou que o esquelético braço direito do homem estava coberto por uma espécie de estrume branco e amarelo). Finalmente chegou a uma área aberta, onde havia uma roda de camponeses. Deteve-se ali por um instante, curioso. Alguns camponeses fumavam cachimbos brancos e Jack viu também vários potes de barro (muito semelhantes ao cântaro do vendedor de um olho só). Os potes passavam de mão em mão. Num terreno cheio de relva ao fundo, ho­mens verificavam as ferraduras de cavalos de crina enorme, ou se agachavam no chão, a cabeça baixa, os olhos suaves, mansos.

Jack passou pelo vendedor de tapetes. O vendedor o viu passar e acenou. Jack respondeu com um gesto e teve vontade de dizer alguma coisa engraçada, tipo Use, mas não abuse!. Achou melhor, porém, continuar de boca fechada.

Teve uma súbita sensação de melancolia. O sentimento de ser um forasteiro, um estrangeiro, caíra de novo sobre ele.

Chegou a uma encruzilhada no fim da feira. A estrada que corria no sentido norte-sul era pouco maior do que uma picada. A Estrada do Oeste era bem mais ampla.

Jack Viajante..., ele pensou e tentou sorrir. Depois aprumou os ombros e ouviu a garrafa de Speedy tilintar suavemente contra o espelho. Jack Viajante seguindo pela versão dos Territórios da Estrada Federal 90! Agora é só rezar para que as pernas ajudem!

Retomou a caminhada e logo foi engolido por aquela grande terra de sonhos.

 

Cerca de quatro horas depois, no meio da tarde, Jack sentou-se na relva da mar­gem da estrada e viu alguns homens — daquela distância pareciam pouco maiores que insetos — escalan­do uma torre alta, mas de aspecto frágil. Escolhera aquele lugar para descansar e comer sua maçã. Era ali que a Estrada do Oeste chegava mais perto da torre. A torre ainda deveria estar a uns cinco quilômetros (talvez a muito mais que isso — a quase sobrenatural claridade do ar tornava extremamente difícil avaliar , com precisão as distâncias), mas há mais de uma hora Jack a vinha observando.                             

Comeu a maçã, deixou os pés cansados relaxarem e se perguntou o que podia ser aquela torre, isolada no meio de um campo coberto de relva. E naturalmente ficou curioso em saber por que aqueles homens queriam escalá-la. O vento não parara de soprar desde que partira do mercado e a torre estava contra o vento. Mas nos raros momentos em que a ventania cessava, Jack podia ouvir os homens gritando uns com os outros... e rindo. Havia muito riso naquela escalada.

Cerca de oito quilômetros a oeste do mercado, Jack atravessou uma aldeia (desde que se possa chamar de aldeia a cinco minúsculas casas e um depósito que, obviamente, há muito tempo estava fecha­do). Aquelas foram as únicas habitações humanas que vira desde que se afastara da feira. Pouco antes de vislumbrar a torre, começou a se perguntar se já não teria chegado às Fronteiras. Lembrava-se muito bem do que dissera o Capitão Farren:... a estrada que o pai de meu pai chamava Caminho do Oeste. Corre para o oriente através de aldeias cada vez menores até alcançar as Fronteiras. E continua além delas, rapaz! Ninguém sabe pra onde... Já ouvi dizer que nem o próprio Deus se aventura além das Fronteiras...

Jack teve um ligeiro tremor.

Mas realmente não acreditava que já tivesse chegado assim tão longe. E, além disso, não estava sentindo o mal-estar que experimentara ao se esconder entre as árvores vivas para escapar da diligência de Morgan... Aquelas árvores pareceram apenas uma terrível amostra dos maus momentos que teria de passar em Oatley.

Na realidade, a segurança que sentira desde que acordou aquecido e descansado no monte de feno até a hora em que Henry, o camponês, o convidara a subir na carroça tinha ressurgido: aquela sensa­ção de que os Territórios, apesar de todo o mal que pudessem abrigar, eram fundamentalmente bons, de que sempre que quisesse poderia desfrutar a atmosfera daquele lugar... Não era absolutamente um estran­geiro nos Territórios.

Começava a perceber que fizera parte dos Territórios por longos períodos de tempo. Um estranho pensamento que tomara conta dele durante a tranqüila caminhada pela Estrada do Oeste, um pensamento que veio metade em sua língua natal e metade no idioma dos Territórios: Quando tenho um sonho, só SEI que estou realmente sonhando quando começo a acordar. Se estou dormindo e me acordam bruscamente (se o despertador, por exemplo, começa a tocar), sinto o maior espanto do mundo. A princípio, o mundo do despertar é que parece um sonho. E tanto nele quanto no mundo do sonho não me sinto um estrangeiro. Será exatamente isto que estou querendo dizer? Não, mas estou chegando perto! Aposto que meu pai tinha sonhos muito profundos e sonhava muito! E aposto que o tio Morgan quase nunca conseguia sonhar...

Decidiu que tiraria a rolha da garrafa de Speedy e tomaria um gole assim que visse alguma coisa perigosa... mesmo que fosse algo apenas levemente assustador. Mas, se nada acontecesse, daria preferên­cia absoluta às caminhadas pelos Territórios. Na realidade, teria até coragem de passar outras noites em montes de feno... No momento, seu único problema era ter apenas uma maçã nas mãos e nenhum lugar à vista onde pudesse haver comida. Era uma pena que na ampla Estrada do Oeste não houvesse algum bar­zinho moderno; em último caso, até uma venda serviria.

As velhas árvores que cercavam o cruzamento na saída do mercado tinham dado lugar, depois que Jack ultrapassou aquele último povoado, a uma planície coberta de relva, estendendo-se de ambos os la­dos da estrada. Ele começou a ter a sensação de estar atravessando uma ponte interminável, cruzando um oceano sem limites. Naquele dia, o céu estava claro e ensolarado, mas o ar um pouco frio (É final de setembro, naturalmente já começa a esfriar, Jack pensou, só que a palavra que lhe veio à mente não foi se­tembro, mas uma expressão dos Territórios que, traduzida ao pé da letra, significava mês nono). Naquele trecho de estrada não havia pedestres, nem carroças, vazias ou cheias. O vento soprava sem parar, suspi­rando pelo oceano de relva num murmúrio baixo, que lhe trazia uma sensação de outono e mesmo de so­lidão. Sob aquele vento, grandes ondulações encrespavam a relva.

Se alguém perguntasse “Como está se sentindo, Jack?”, o rapaz responderia: “Muito bem, obrigado. Animado.” Animação foi a palavra que se fixou em sua mente quando começou a atravessar a imensa pla­nície (êxtase parecia uma palavra surrada demais por um dos sucessos do grupo de rock Blondie). Mas êx­tase, arrebatamento ou mesmo animação era o que experimentava ao ver aquelas grandes ondas de relva pularem umas sobre as outras em direção ao horizonte. Uma visão que pouquíssimas crianças americanas teriam oportunidade de desfrutar: enormes campos abertos sob um céu azul, planuras deslumbrantes a perder de vista e, sim!, o azul do céu era bem mais profundo! Era um céu que não conhecia a esteira de combustível dos grandes jatos, nem colunas de fumaça indicando a presença de cidades poluídas ao longe.

Jack passava por uma experiência de extraordinário impacto sensorial. Via, ouvia, cheirava coisas que lhe eram totalmente desconhecidas. Todos os artifícios sensoriais a que fora condicionado começa­vam a perder boa parte de sua força. De certa forma, era um menino extremamente sofisticado, criado numa família de Los Angeles, filho de um empresário e de uma atriz de cinema. Talvez a atmosfera dos Territórios ainda lhe parecesse mais estranha se fosse uma criança ingênua. Mas o fato é que ainda era muito novo e, sofisticadas ou não, as crianças não deixam de aproveitar de uma maneira muito própria determinadas situações... pelo menos situações como aquela. Mesmo num adulto, uma caminhada solitária através daqueles campos produziria uma sobrecarga emocional, talvez até uma vaga sensação de loucura e alucinação. Um adulto lutaria avidamente pela garrafa de Speedy (provavelmente com dedos demasiado trêmulos para conseguir se apoderar dela). Um adulto lutaria avidamente pelo direito de desfrutar por algumas horas, ou mesmo por alguns minutos, as sensações que Jack vivia naquele momento.

No caso de Jack, o choque se apoderava quase de forma integral de sua mente consciente e mergulhava no subconsciente. Quando, num verdadeiro estado de graça, começou a chorar, estava inconsciente das lágrimas (percebeu-as apenas como uma perturbação momentânea da visão, que atribuiu ao suor) e limitou-se a pensar: Puxa, como me sinto bem... Devia estar meio assombrado no meio desta campina, longe de tudo e de todos; mas não é o que está acontecendo...

Foi assim que, avançando sozinho pela Estrada do Oeste (sua sombra aos poucos se alongando atrás dele), Jack começou a encarar o estado de êxtase apenas como uma gratificante sensação de anima­ção. Não lhe ocorreu que parte daquela vibração emocional podia dever-se ao fato de que, menos de 12 horas antes, ainda era prisioneiro na Taberna Oatley de Smokey Updike (as manchas de sangue pisado do último barril a lhe esmagar os dedos ainda estavam frescas); não lhe ocorreu que, menos de 12 horas atrás, escapara — por um triz! — de alguma espécie de besta assassina que começava a figurar em sua mente como homem-cabra; também não lhe ocorreu que, pela primeira vez na vida, caminhava totalmen­te sozinho por uma estrada ampla, cercada de prados; não havia sequer um anúncio da Coca-Cola à vista, nem a placa de um motel, nem fios correndo de poste em poste ou se cruzando sobre sua cabeça (coisas que encontrara em todas as estradas por onde passara); não havia sequer o ruído distante de um avião (nada do trovão das turbinas de um 747 se aproximando de algum aeroporto, nada dos jatos militares que não paravam de decolar de Portsmouth e, como o chicote de Osmond, cortavam em baixa altitude as cos­tas do Atlântico e o céu sobre o Alhambra); ouvia apenas o tranqüilo fluxo e refluxo da própria respiração e o barulho de seus pés na estrada.

Puxa, como estou me sentindo bem, Jack pensou, enxugando distraidamente os olhos e definindo tudo aquilo como “animação”.

 

E agora lá estava aquela torre para lhe despertar a curiosidade.

Rapaz, você nunca vai descobrir para que serve esta torre, Jack pensou. Comera a maçã até o caro­ço e, sem pensar no que estava fazendo nem tirar os olhos da torre, cavou com os dedos um buraco na terra fértil e primaveril, enterrando lá dentro o caroço da maçã.

A torre parecia construída de tábuas de madeira como as dos celeiros, e Jack avaliou sua altura em mais de 150 metros. Lembrava uma espécie de cilindro oco, as tábuas se erguendo de todos os lados em escoras em forma de x. No topo, havia uma plataforma e, apertando os olhos, Jack pôde ver alguns ho­mens andando lá em cima.                                                                                       

O vento envolveu-o numa rajada suave quando ele se sentou na margem da estrada, os joelhos no peito e os braços em volta deles. Outra daquelas ondulações de relva correu na direção da torre. Jack ima­ginou como aquela estrutura franzina devia balançar e sentiu um nó na garganta.

jamais quero ir lá em cima, ele pensou, nem por um milhão de dólares!

E então a coisa que estava temendo que pudesse acontecer desde o momento em que observou pela primeira vez os homens na torre de fato aconteceu: um deles caiu.

Jack ficou de pé, no rosto a consternação e o espanto de alguém que estava num circo e, du­rante um número perigoso, presenciou um acidente no picadeiro: o acrobata que caiu de mau jeito sobre uma barra de ferro, o trapezista que perdeu o equilíbrio e foi lançado longe com um baque pela rede de proteção, a pirâmide humana que desabou inesperadamente esparramando uma monta­nha de corpos.

Oh merda, oh droga, oh...

E, de repente, os olhos de Jack se arregalaram ainda mais. Por um instante, seu queixo tremeu vio­lentamente e caiu quase até o pescoço. Mas voltou depressa ao lugar... e a boca se alargou num assom­brado sorriso de incredulidade. O homem não caíra da torre nem fora lançado no ar pelo vento. Dos lados da plataforma havia saliências que se projetavam no espaço como trampolins. O homem apenas caminha­ra até a beira de um desses trampolins e saltara. A meio caminho do solo, alguma coisa começou a se de­senrolar — um pára-quedas, Jack pensou, mas o problema é que jamais haveria tempo de abrir um pá­ra-quedas naquela altitude.

E de fato não era um pára-quedas.

Eram asas.

A queda do homem se tornou mais lenta e cessou completamente quando ele chegou a uns 15 me­tros da relva da campina. Então a trajetória ficou sinuosa. O homem voava agora para cima e para os lados, as asas se erguiam tão alto que quase se tocavam (como as crinas e cabeças daquele papagaio malu­co) e depois batiam com imensa energia (a energia dos braços de um nadador nos metros finais de uma prova).

Oh, rapaz, Jack pensou, tentando dar vazão de alguma forma ao seu total, absoluto sentimento de assombro. A exclamação coroou toda a surpresa que rodopiava em sua cabeça. Oh, rapaz, olhe isso aí, cara! Oh, rapaz!

E um segundo homem pulou do trampolim do alto da torre; depois um terceiro; logo a seguir um quarto. Daí a cinco minutos, já havia uns 50 homens no ar, esvoaçando sobre a planície numa complica­da, mas definida teia de padrões: depois de pular e abrir as asas, faziam uma trajetória em forma de oito, em seguida sobrevoavam a torre, repetiam o mesmo desenho do outro lado, passavam de novo pela torre e continuavam seguindo o padrão.

Rodopiavam, dançavam e se cruzavam no ar. Jack começou a rir de contentamento. Era como as­sistir aos balés aquáticos daqueles velhos filmes cafonas de Esther Williams. Aquelas nadadoras (em primeiro lugar a própria Esther Williams, é claro) faziam tudo parecer muito fácil, como se qualquer pessoa pudesse mergulhar daquele jeito, como se pudéssemos, com a maior tranqüilidade, saltar com nossos amigos de um trampolim com diversas pranchas, numa coreografia precisa, formando uma espécie de fonte humana.

Mas havia uma diferença. Os homens que voavam sobre a campina não transmitiam qualquer im­pressão de “facilidade”; pareciam, ao contrário, estar empregando somas fantásticas de energia para se manterem no ar. Jack compreendeu, com súbita certeza, que a coisa doía, doía como certos exercícios de educação física (as flexões de braços ou as abdominais, por exemplo). Doía! Sem dor, não se consegue nada. E num vôo daquele tipo as coisas ficariam pretas se alguém fraquejasse.

De repente, Jack se lembrou de mais uma coisa. Lembrou-se do dia em que a mãe o levara a um estúdio de dança no Bulevar Wilshire para ver o ensaio de uma amiga dela, Myrna. Myrna era uma verdadeira bailarina, participava de um ótimo grupo de balé e Jack já a vira dançar algumas vezes no palco (fre­qüentemente tinha que ir junto com a mãe aos balés, coisa que achava tão chata quanto os cultos da igreja ou os programas infantis da rede de tevê educativa). Mas nunca vira Myrna ensaiando... Nunca a vira de tão perto. Ficara realmente impressionado, até mesmo um pouco assustado, pelo contraste entre o balé no palco, onde todo mundo parecia deslizar sem esforço nas pontas das sapatilhas, e um “balé” a um ou dois metros de distância, com a sombria luz do sol filtrada por janelas que iam do chão até o teto e sem música: nada além do coreógrafo batendo ritmadamente as mãos e gritando asperamente. E nada de elo­gios; só críticas. Os rostos das bailarinas gotejavam de suor; as roupas estavam grudadas no corpo; a sala, embora larga e arejada, ficava impregnada do cheiro do suor. Músculos reluzentes tremiam, vibravam à beira da exaustão. Tendões retesados lembravam cabos de guerra. Veias salientes palpitavam nas testas e nos pescoços. Excluindo as palmas e os gritos furiosos, agressivos do coreógrafo, o único som era o tap-tap das sapatilhas se deslocando pelo assoalho e o arfar áspero, angustiante, em busca de ar. Jack achou que aquelas mulheres não estavam apenas ganhando a vida, estavam realmente se matando. Lem­brava-se principalmente das expressões dos rostos: toda aquela exausta concentração, toda aquela dor... Mas transcendendo a dor, ou pelo menos rastejando pelas brechas da dor, havia também alegria. Sem a menor dúvida! Havia alegria! E foi isso que deixou Jack ainda mais assustado, porque parecia uma coisa inexplicável! Que tipo de pessoa poderia gostar de ser submetida a uma dor tão contínua, tão severa, tão exasperante?

Era também a dor o que estava vendo ali nos Territórios, ele pensou. Seriam realmente homens que nasceram com asas, como os homens-pássaros dos velhos seriados do Flash Gordon, ou seriam asas como as de Ícaro e Dédalo, alguma coisa amarrada ao corpo? Mas Jack achou que aquilo era um detalhe que não tinha grande importância... Ao menos para ele.

Alegria

Vivem num mistério. Essas pessoas vivem num mistério.

A alegria é que lhes dá força.

E era isso que importava. Era a alegria que lhes dava força, tivessem nascido com asas nas costas ou tivessem de amarrá-las no peito com grampos e cinturões. Porque, mesmo daquela distância, ele via o mesmo tipo de esforço que havia no estúdio de dança do Bulevar Wilshire. Todo aquele pródigo investi­mento de energia para obter uma esplêndida, mas momentânea, reversão da lei natural. Que tal reversão exigisse tanto empenho e durasse tão pouco tempo era terrível. Mas que existisse gente capaz de se esfor­çar para alcançá-la, era ao mesmo tempo terrível e magnífico!

E tudo não passa de um jogo, ele pensou e, de repente, teve certeza da coisa. Um jogo ou talvez nem mesmo isso, talvez apenas um treino de jogo, do mesmo modo como o suor e a exaustão nervosa daquele estúdio de dança só faziam parte de um ensaio. Ensaio para um espetáculo que só umas poucas pessoas teriam vontade de ver e que provavelmente se resumiria a meia dúzia de apresentações.

Alegria!, ele pensou de novo, de pé na margem da estrada, o vento jogando o seu cabelo na testa, o rosto empinado para contemplar os homens que voavam no horizonte. Seu período de inocência infantil estava chegando rapidamente ao fim (se pressionado, o próprio Jack seria capaz de mostrar que tinha plena consciência do processo: um garoto não pode se mandar por aí por tanto tempo, não pode passar por experiências tão complicadas quanto as que ele vivera em Oatley e continuar sendo um menino ingênuo), mas, naquele momento, olhando os homens no céu, a inocência parecia envolver todas as coisas à sua volta; como o jovem pescador, durante seu breve momento de êxtase, no poema de Elizabeth Bishop, tudo era arco-íris, arco-íris, arco-íris.

Alegria!... Rapaz, aquilo era realmente um mundo muito animado!

Sentindo-se bem melhor do que se sentia quando aquela aventura começou (e só Deus sabia há quanto tempo tudo aquilo tinha realmente começado), Jack retomou a caminhada pela Estrada do Oes­te, o passo leve, o rosto abrindo o contorno do mesmo sorriso solto, magnífico. De vez em quando olhava para trás e dava mais uma espiada nos homens voadores. Pôde vê-los ainda durante um bom tempo. O ar dos Territórios era tão límpido que parecia quase radiante. E mesmo quando os ho­mens-pássaros ficaram na distância, a sensação de alegria continuou. Continuou como um arco-íris dentro de sua cabeça.

 

Quando o sol começou a cair, Jack viu que estava protelando o retorno ao outro mundo — aos Territórios americanos — e não apenas por causa do gosto terrível do suco mágico... Esta­va protelando porque não queria ir.

Um regato surgira do meio da campina (onde pequenos bosques despontavam de novo aqui e ali — bosques com grandes árvores de copas estranhamente achatadas, como pés de eucalipto). Depois de uma curva sinuosa, o regato passara a ladear a estrada. Mais adiante, à direita e um pouco ao longe, Jack viu uma enorme massa d’água. Na realidade, era tão grande que, até o último minuto, ele achou que fosse um trecho de céu, com uma coloração ligeiramente mais azul do que o resto. Mas não era céu, era um lago. Um grande lago, ele pensou, sorrindo com a idéia. Achou que, no outro mundo, aquilo poderia perfeitamente ser o Lago Ontário.

Sentia-se bem. Estava na direção certa — talvez um pouco excessivamente ao norte, mas não tinha dúvida de que a Estrada do Oeste faria as devidas correções na trajetória. Aquela sensação de quase en­louquecida alegria (aquilo que definira como “animação”) ia cedendo espaço a um espantoso sentimento de calma e serenidade, um sentimento que parecia tão límpido quanto o ar. Só uma coisa perturbou a continuidade daquela sensação: a lembrança.

(seis, tinha seis, Jack tinha seis)

de Jerry Bledsoe. Por que lhe era tão difícil expulsar da mente aquela lembrança?

Não... não apenas uma lembrança... Na realidade duas lembranças. Primeiro, ele e Richard ouvin­do a Sra. Feeny contando à irmã que a eletricidade explodiu e cozinhou o Jerry, que lhe grudou os óculos no nariz, que ela ouvira o Sr. Sloat falando ao telefone e fora assim que soubera dos detalhes... Depois ele atrás do sofá, sem nenhuma vontade de ouvir a conversa dos outros ou bisbilhotar, mas escutando o pai dizer “As conseqüências seriam sérias, e algumas dessas conseqüências poderiam ser perigosas.” Certamente alguma coisa tomou Jerry Bledsoe perigoso, não foi? Mas quando os óculos dele se grudaram no nariz, isso deve ter sido uma coisa bastante incômoda, não é?

Jack parou. Congelou no lugar.

O que está tentando dizer?

Você sabe muito bem o que estou tentando dizer, Jack! Seu pai tinha desaparecido naquele dia ele e Morgan, os dois. Eles estavam lá. Onde? No lugar de onde nunca saiu o edifício deles na Califórnia, lá nos Territórios americanos. E tinham feito alguma coisa, ou pelo menos um deles fez. Talvez uma coisa grande, ou talvez apenas uma pedra atirada na água... ou um caroço de maçã enterrado no chão. Mas a coisa ecoou de alguma forma... do outro lado. Ecoou lã na Califórnia e matou Jerry Bledsoe.

Jack estremeceu. Oh, sim, ele agora achava que sabia por que sua mente estava tendo tanta dificul­dade para expulsar a lembrança: o táxi de brinquedo, o murmúrio das vozes do pai, do tio, Dexter Gor­don e o solo de sax. A mente não queria expulsá-la porque

(por que acontecem essas coisas, papai?)

ela sugeria que, apesar de estar ali, ele poderia provocar alguma coisa terrível no outro mundo. Dar início à Terceira Guerra Mundial? Não, provavelmente não. Não assassinara nenhum jovem ou velho rei. Mas o que teria sido preciso fazer para engendrar o eco que cozinhou Jerry Bledsoe? Teria o tio Mor­gan dado um tiro no Duplo de Jerry (se é que o Jerry tivera algum Duplo nos Territórios)? Teria tentado mostrar a algum manda-chuva dos Territórios a força de uma coisa nova, a eletricidade? Ou teria feito ape­nas uma coisinha aparentemente sem importância... algo tão tolo quanto comprar um pedaço de churras­co num mercado rural? Quem faz essas coisas acontecerem, papai? O que faz essas coisas acontecerem?

Um desastrezinho de automóvel na rua central de Oatley... Quem sabe o início de uma bela en­chente, de um bonito incêndio...

Subitamente a boca de Jack ficou seca como sal.

Aproximou-se do pequeno riacho na margem da estrada, ajoelhou-se e fez concha com uma das mãos. Então a mão ficou paralisada. O curso suave do regato adquirira os tons do crepúsculo que avançava. Mas esses tons logo foram tingidos de vermelho, de modo que o riacho ficou parecendo mais um ria­cho de sangue que um riacho de água. Depois ficou negro. E por fim tornou-se transparente e Jack viu...

A diligência de Morgan em disparada pela Estrada do Oeste, deixando escapar um som de cascos e arreios. Viu as crinas enormes e negras de sua dúzia de cavalos flutuando no vento. Viu, com terror quase mortal, que o cocheiro sentado lá no alto, as botas de couro apoiadas no estribo, o chicote estalando sem cessar numa das mãos, era Elroy. Mas a coisa que segurava o chicote não podia absolutamente se chamar de mão. Era uma espécie de casco. Era Elroy quem conduzia aquela carruagem de pesadelo, era Elroy quem sorria com uma boca cheia de caninos mortais, era Elroy que simplesmente não podia esperar a hora de encontrar de novo Jack Sawyer... Ia lhe abrir a barriga e arrancar as tripas!

Jack continuou ajoelhado diante do regato, os olhos esbugalhados, a boca tremendo de aversão e horror. E viu ainda uma última coisa, não uma coisa muito grande, não, mas algo que lhe pareceu o deta­lhe mais horripilante: os olhos dos cavalos pareciam brilhar! E pareciam brilhar porque estavam cheios de luz... cheios da luz do pôr-do-sol!

A diligência estava seguindo para Oeste pela mesma estrada que ele... Estava no seu encalço!

Arrastando-se, duvidando até mesmo que conseguisse ficar de pé, Jack foi se afastando do regato, foi cambaleando para o leito da estrada. Caiu estatelado no chão, a garrafa de Speedy e o espelho que o vendedor de tapetes lhe dera fazendo pressão em seu peito. Virou a cabeça de lado e apertou a orelha e a face direitas contra o solo.

Pôde sentir um ronco incessante no leito duro e seco da Estrada do Oeste. Ainda estava distante... mas ia se aproximando.

Elroy lá no alto... e Morgan lá dentro. Morgan Sloat? Morgan de Orris? Pouco importava. Ambos eram a mesma pessoa.

Com grande esforço livrou-se do efeito hipnótico daquele ronco na terra e conseguiu se levantar. Tirou do gibão a garrafa de Speedy (que nos Territórios como nos Estados Unidos continuava sempre idêntica a si mesma) e puxou a rolha com toda a sua força. Não se preocupou sequer em observar o nível do líquido (agora não mais que uns cinco ou seis centímetros). Atirou um olhar nervoso à esquerda, como se esperasse ver a qualquer momento a carruagem negra despontar no horizonte, os olhos dos cavalos (cheios da luz do crepúsculo) brilhando como estranhas lanternas. Naturalmente não viu coisa alguma. Já tinha reparado que os horizontes ficavam mais perto nos Territórios e os sons viajavam mais depressa. A diligência de Morgan ainda devia estar a 15 ou mesmo a uns 30 quilômetros a leste.

Mesmo assim, está vindo bem pra cima de mim, Jack pensou e levou a garrafa aos lábios. Mas, um segundo antes de beber, sua mente gritou: Ei, espere um minuto! Espere um minuto, idiota. Ou será que está querendo morrer? Seria muito engraçado, não é mesmo, desaparecer do meio da Estrada do Oeste e aparecer na pista central de alguma grande rodovia americana (evidentemente para ser atropelado por um furgão ou uma enorme carreta).

Jack cambaleou para a margem da estrada... E depois, por medida de segurança, deu mais dez ou 20 passos por entre a relva. Então respirou profundamente, inalando pela última vez o doce aroma daque­le lugar, procurando inutilmente recuperar a sensação anterior de perfeita tranqüilidade... aquela sensa­ção de arco-íris.                         

Vou tentar me lembrar para sempre deste lugar, ele pensou. Posso não ter mais oportunidade de voltar aqui... ao menos por um bom tempo.

Contemplou de novo a planície. Ela ia sendo coberta pela noite que avançava do leste. O vento continuava a soprar, um tanto frio mas ainda perfumado, encrespando-lhe o cabelo (que, na realidade, já estava bastante desgrenhado) como encrespava a relva.

Está pronto, Jack-O?

Jack fechou os olhos e tomou coragem para enfrentar o gosto terrível e o vômito que era bem ca­paz de vir em seguida.

— Vamos à luta! — ele sussurrou, e bebeu.

 

O VELHO PARKINS

Vomitou uma fina saliva roxa, o rosto a poucos centímetros do mato que cobria a encosta de uma rodovia de quatro pistas. Sacudiu a cabeça, mas continuou curvado, as costas voltadas para o céu cinzento, carregado. O mundo, aquele mundo, cheirava mal. Jack arrastou-se para trás, distanciando-se um pouco dos filetes de vômito salpicados nas hastes de relva, O fedor se alterou, mas não diminuiu. Gasolina e inúmeros outros venenos flutuavam no ar; o próprio ar tinha um cheiro de exaustão, de fadiga (mesmo os ruídos que assomavam da rodovia poluíam aquele ar mortal). Como um gigantesco vídeo de tevê, um anúncio de beira de estrada se debruçava sobre sua cabeça. Ainda meio trôpego, Jack ficou de pé. Lá embaixo, do outro lado da estrada, cintilava uma interminável massa d’água, apenas ligeiramente menos cinzenta que o céu. Uma espécie de maligna radiância faiscava na superfície. Também daquela água vinha um odor de limalha e vapor. Era o Lago Ontário. E a medíocre cidadezinha na margem devia ser Olcott ou Kendall. Desviara-se mais de 150 quilômetros de seu caminho e perdera uns quatro dias e meio. Sem saber muito bem o que fazer, Jack Sawyer ergueu os olhos para as grandes letras pretas. Enxugou os lábios com a mão. angola. Angola? Que lugar era aquele? Através do ar já quase tolerável, contemplou a cidadezinha enfumaçada.

 

E o velho atlas de Rand McNally, seu companheiro inseparável, informou-o de que a massa d’água lá embaixo era o Lago Erie — em vez de perder dias de viagem, ele os ganhara.

Mas antes que pudesse decidir se não seria mais conveniente voltar aos Territórios assim que se julgasse a salvo (isto é, assim que a diligência de Morgan tivesse passado), sentiu um impulso incontrolá­vel de caminhar até a enfumaçada cidadezinha de Angola e ver se dessa vez Jack Sawyer, Jacky, teria mais sorte nos Territórios americanos. Começou a descer a encosta, calça jeans e camisa xadrez, bastante alto para seus 12 anos, e já começando a lembrar um menor abandonado, com um excesso de preocupação no rosto.

A meio caminho do acostamento, percebeu que estava de novo pensando em inglês.

 

Muitos dias depois, bem mais a oeste, um homem conhecido como “Velho” Par­kins, que perto de Cambridge, no Estado de Ohio, dera carona a um garoto crescido chamado Lewis Far­ren, foi capaz de reconhecer de imediato aquele ar de preocupação. Era como se a ansiedade estivesse formando sulcos eternos naquele rosto. Anime-se, meu filho! Pelo menos para o seu próprio bem!, Parkins teve vontade de dizer. Mas, segundo a história que ouvira, o rapaz tinha uma verdadeira montanha de problemas. Pai morto, mãe doente que o mandara para a casa de uma tia professora no Lago Buckeye... Sobravam motivos de preocupação para Lewis Farren. Parecia nunca ter andado com mais de cinco dóla­res no bolso desde o Natal anterior. Contudo... o “Velho” achava que alguma coisa não estava se encaixando na história daquele tal de Lewis Farren.

Por exemplo, ele tinha cheiro de gente do campo, não da cidade. O Velho Parkins e seus irmãos tinham 300 acres de terra a cerca de 50 quilômetros a sudeste de Columbus, não muito longe de Amanda. O “Velho” tinha certeza de que não estava equivocado. Aquele garoto cheirava a Cambridge e Cambridge, era campo. O Velho Parkins crescera entre pastos e lavouras, entre adubo, estrume, espigas de milho e vi­nhas. As roupas encardidas do carona a seu lado tinham absorvido todos aqueles cheiros que lhe eram tão familiares.

E havia também o problema das roupas em si. A Sra. Farren devia estar terrivelmente doente, o “Velho” pensou, para deixar o filho sair de casa com um jeans tão duro de sujeira que ficaria de pé fora do corpo. E os tênis! Os tênis de Lewis Farren estavam a ponto de cair dos pés, os cordões quase podres, a sola quase rompida, pronta a se abrir em meia dúzia de rombos.

— Então levaram o carro de seu pai, Lewis? — Buddy perguntou.

— Foi como eu contei ao senhor. Os covardes vieram depois da meia-noite e simplesmente rouba­ram o nosso carro. Acho que devia haver uma lei para proibi-los de fazer uma coisa dessas. Não deviam tirar o carro de gente trabalhadora, que ia voltar a pagar as prestações assim que pudesse. Não acha que te­nho razão?

O rosto franco e bronzeado do garoto virou-se para o Velho Parkins como se estivesse discutindo o mais sério problema americano desde Watergate ou a Baía dos Porcos. Todos os instintos de Parkins eram para concordar — não lhe seria difícil aprovar a opinião sincera de um rapaz que tanto lhe lembrava a vida rural.

— Acho que tem razão... Se bem que existem sempre dois lados em cada coisa... — disse o Velho Parkins, não muito sorridente.

O garoto piscou e virou de novo a cabeça para a estrada. E de novo Parkins sentiu a ansiedade dele, a nuvem de preocupação que parecia pender sobre seu rosto. Chegou quase a lamentar não ter concedido a Lewis Farren a solidariedade absoluta de que ele tanto parecia precisar.

— Sua tia ensina numa escola primária lá no Lago Buckeye... Isso é bom, não é? — disse Parkins, tentando abrandar a angústia do garoto. (Olhe para o futuro, não para o passado...!)

— Sim senhor. Ela ensina na escola primária. Chama-se Helen Vaughan.

A expressão do garoto não se alterou, mas alguma coisa retiniu nos ouvidos de Parkins. Ele não se considerava um especialista nos sotaques americanos, mas tinha certeza de que o jovem Lewis Farren não falava como alguém criado em Ohio. A voz era estranha, um tanto veloz e cheia de altos e baixos nos lu­gares errados. Não era um jeito de falar de Ohio. E, principalmente, não era um jeito de falar rural. Havia uma entonação muito singular.

Seria possível que um garoto de Cambridge, em Ohio, tivesse aprendido a falar daquela maneira? E para quê? Era uma coisa absurda, que não fazia muito sentido.

Além disso, o jornal que Lewis Farren prendia com o cotovelo esquerdo parecia legitimar a mais profunda e pior suspeita do Velho Parkins: ou seja, que aquele jovem cheio dos mais diversos aromas estava fugindo de alguma coisa e que cada palavra que ouvia dele não passava da mais descarada mentira. O nome do jornal, que Parkins descobrira inclinando ligeiramente a cabeça, era The Angola Herald. Havia aquela Angola na África, que a África do Sul vinha atacando com mercenários, e havia um lugar chamado Angola, no Estado de Nova York — lá em cima no Lago Erie. Não há muito tempo, vira fotos do lugarejo nos jornais, mas não conseguia se lembrar a propósito de quê.

— Queria lhe fazer uma pergunta, Lewis — disse ele pigarreando.

— Pode fazer — disse o garoto.

— Por que um rapaz de uma cidade de Ohio está carregando um jornal de Angola, em Nova York? Fica muito, muito longe daqui. Estou curioso, filho!

O rapaz olhou para o jornal amassado sob o braço e imprensou-o ainda com mais força, como se temesse que alguém o roubasse.

— Oh! — disse ele. — Encontrei num banco.

— Encontrou? — disse o Velho Parkins.

— Foi. Num banco da rodoviária. Lá perto de casa.

— Foi até a rodoviária hoje de manhã?

— Sim. Antes de resolver economizar o dinheiro do ônibus e ir de carona. Se puder me deixar no trevo para Zanesville, Sr. Parkins, só terei de andar mais um pouco. Acho que vou chegar à casa da minha tia antes do jantar.

— Tudo bem — disse Parkins e, por vários quilômetros, continuou dirigindo num silêncio inquieto. Finalmente, não pôde mais suportar e, num tom de voz calmo e sem tirar os olhos da estrada, perguntou:

— Filho, você está fugindo de casa?

Lewis Farren surpreendeu-o com um sorriso: não era um sorriso forçado, não era um sorriso falso; era um sorriso normal. O garoto achou engraçada a idéia de estar fugindo de casa. Ela o divertia. Virou-se para Parkins uma fração de segundo depois de o Velho ter se virado também. Os olhos dos dois se encontraram.

Por um segundo, por dois segundos, três... pelo tempo que aquele momento durou, o Velho Par­kins viu que o garoto sujo sentado do lado dele era muito bonito. Julgara-se incapaz de usar aquela pala­vra para descrever qualquer ser humano do sexo masculino acima de nove meses, mas, sob o rosto encar­dido, Lewis Farren sem dúvida era bonito. Seu senso de humor pareceu dissipar momentaneamente todas as preocupações. O que cintilou para os olhos de Parkins (que tinha 52 anos e três filhos adolescentes) foi uma espécie de honesta generosidade que só podia ter se originado de uma multidão de experiências incomuns. Aquele Lewis Farren, que dizia ter 12 anos, conseguira de alguma forma ter ido mais longe que Parkins, conseguira de alguma forma ter visto muito mais que Parkins. E o que vira nos caminhos por onde andara transformara-o num garoto realmente bonito.

— Não, não estou fugindo de casa, Sr. Parkins — disse o garoto.

Depois piscou, as sobrancelhas se franziram de novo, os olhos perderam o brilho, a luminosidade, e ele voltou a se afundar no assento. Suspendeu um dos joelhos, apoiou-o no painel do carro e pôs o jor­nal debaixo do braço.

— É, acho que não... — disse o Velho Parkins, olhando de novo para a estrada. Sentia-se aliviado, embora não pudesse explicar muito bem por quê. — Acho mesmo que não está fugindo de casa, Lewis! Mas há alguma coisa com você...

O garoto não respondeu.

— Esteve trabalhando numa fazenda, não foi?

Lewis levantou os olhos, parecendo espantado.

— Foi! Nos últimos três dias trabalhei numa fazenda. Dois dólares por hora.

E sua mãe nem teve tempo de lavar suas roupas antes de mandá-lo para a casa da irmã, hem?, pen­sou o Velho Parkins. Mas o que ele disse foi:

— Lewis, não quer ir lá pra casa? Não estou dizendo que tenha feito alguma coisa errada, nada dis­so... Mas, se me provar que é mesmo de Cambridge, pode estar certo que comerei este velho carro com pneus e tudo! Tenho três filhos e o mais novo, Billy, é apenas três anos mais velho que você. Sabemos muito bem cuidar de garotos lá em casa. Pode ficar conosco o tempo que quiser, desde que não se impor­te que lhe façam perguntas. Aliás, eu mesmo já perguntei muita coisa.

O Velho Parkins passou a palma da mão no cabelo grisalho, cortado à escovinha, e olhou para o lado. Agora Lewis Farren lembrava mais uma criança ingênua que um mistério a ser decifrado.

— Será muito bem recebido, rapaz!

Lewis respondeu sorrindo:

— Talvez fosse mesmo uma boa, Sr. Parkins, mas não posso ir! Tenho de chegar à casa da minha, hã, tia em...                                                                                                   

— No Lago Buckeye — Parkins ajudou.

O garoto engoliu em seco e olhou de novo para a frente.

— Se precisar, posso lhe dar uma ajuda — o Velho insistiu.

Lewis deu uma pancadinha no braço forte e bronzeado de Parkins.

— Esta carona já é uma grande ajuda, pode crer.

Depois do silêncio de quase dez minutos, o Velho Parkins viu o vulto indefeso do garoto descer vagarosamente o acostamento na entrada de Zanesville. Provavelmente Emmie ficaria furiosa se o visse chegar com um garoto estranho e sujo, mas depois de algum tempo conversando com ele, seria até capaz de tirar do armário os copos e pratos que ganhara da mãe e que só costumava usar em ocasiões especiais. O Velho Parkins não acreditava que existisse uma mulher chamada Helen Vaughan nas margens do Lago Buckeye, e duvidava até que aquele misterioso Lewis Farren tivesse mãe. O garoto sugeria muito mais ser um órfão, errando sem destino pelas estradas. Parkins ficou vendo o rapaz desaparecer na curva do trevo e depois continuou olhando para a distância (onde se via a enorme tabuleta amarela e roxa de um shop­ping).

Por um instante, teve vontade de saltar do carro, correr atrás do garoto, trazê-lo de volta... E então teve um breve lampejo de uma cena cheia de tumulto e fumaça que vira no noticiário das seis. Angola, no Estado de Nova York. Uma ocorrência sem grande importância, que só fora transmitida uma vez. Uma da­quelas pequenas tragédias que a custo conseguem figurar numa montanha de notícias mundiais. Tudo que o Velho pôde reconstituir naquele curto e provavelmente falho momento de recordação foi uma ima­gem de vigas caídas (como gigantescos fiapos de palha) sobre carros velhos. As vigas pareciam ter saltado de um buraco fumegante no solo (um buraco que devia chegar ao inferno de tão profundo). Parkins olhou mais uma vez para o trecho vazio de estrada por onde o garoto desaparecera, pisou na embreagem de seu velho carro e engatou a primeira.

 

A memória do velho Parkins fora mais precisa do que ele imaginara. Se tivesse vis­to a primeira página do exemplar do Angola Herald que “Lewis Farren”, aquele enigmático garoto, con­servava com tanto cuidado (e até mesmo temor) sob o braço, teria lido o seguinte:

 

ligeiro tremor de terra mata cinco pessoas

por Joseph Gargan, repórter do Herald

 

O trabalho na Rainbird Towers, que viria a ser o mais alto e mais luxuoso condomínio da região, e cujas obras deviam estar concluídas em seis meses, foi ontem tragicamente interrompido quando um tremor de terra, sem precedentes na cidade, fez desmoronar toda a estrutura do prédio, soterrando alguns trabalhadores. Cinco corpos já foram retirados dos escombros e dois homens ainda não foram encontrados, mas presume-se que estejam mortos. Os sete eram soldadores e montadores da Speiser Construction e, no momento do acidente, estavam no segundo andar da estrutura do prédio.

O abalo de ontem foi o primeiro tremor que a história registrou em Angola. Armin Van Pelt, do Departamento de Geologia da Universidade de Nova York (consultado hoje por telefone), descreveu o lamentável acontecimento como “deslocamento sísmico”. Representantes da Comissão de Segurança do Estado deram início a um exame do local, enquanto uma equipe de...

 

Os homens mortos eram Robert Heidel, de 23 anos; Thomas Thielke, de 34; Jerome Wild, 48; Mi­chael Hagen, 29; e Bruce Davey, de 39. Os dois trabalhadores ainda não encontrados eram Arnold Schulkamp, de 54 anos, e Theodore Rasmussen, de 43. Jack não teria mais de reler a primeira página do jornal para se lembrar do nome deles. O primeiro tremor de terra na história de Angola, em Nova York, ocorreu no dia em que ele “saltara” da Estrada do Oeste e “aterrissara” nos limites da cidade. Uma parte de Jack Sawyer gostaria de ter ido para a casa do bondoso Parkins, sentar-se na mesa da cozinha, jantar com a fa­mília (ensopadinho e torta de maçã), depois acomodar-se na cama de abrir e cobrir-se até a cabeça com um grosso acolchoado. Durante quatro ou cinco dias, só ia sair da cama para comer. Mas outra parte do mesmo Jack Sawyer via a mesa de pinho do Velho Parkins amontoada de pedaços de queijo e, do outro lado da mesa, um buraco de camundongos talhado num rodapé gigante (e de buracos nos jeans dos três filhos de Parkins saíam caudas compridas e finas). Quem faz coisas como o que se deu com Jerry Bledsoe acontecerem, papai? Heidel, Thielke, Wild, Hagen, Davey; Schulkamp e Rasmussen. Coisas como o que se deu com Jerry...? Ele sabia quem podia fazê-las acontecer...

 

Uma enorme tabuleta dizendo buckeye mall flutuava à frente de Jack quando ele contornou a última curva da variante. No pátio de estacionamento do shopping, havia uma fileira de pos­tes amarelos de luz.

O shopping era um amontoado futurístico de prédios cor de ocre que pareciam não ter janelas. Um segundo mais tarde, porém, Jack percebeu que se tratava de um único edifício... A visão de um conglomerado de prédios não passava de ilusão de ótica. Pôs a mão no bolso e remexeu o punhado de 23 notas de um dólar, que era tudo o que possuía.

Na fria luz do sol do início de uma tarde de outono, Jack cruzou a rua em direção ao estaciona­mento.

Sem aquela conversa com o Velho Parkins, provavelmente teria continuado na Rodovia Federal 40, tentando conseguir carona para avançar mais uns 70 ou 80 quilômetros. Queria chegar a Illinois, onde Ri­chard Sloat estudava, nos próximos dois ou três dias. A idéia de encontrar-se com o amigo Richard servi­ra-lhe de consolo durante o período de trabalho fatigante na fazenda de Elbert Palamountain: a imagem do rosto sério (óculos na ponta do nariz) de Richard Sloat no alojamento do Colégio Thayer, em Springfi­eld, Illinois, não o deixava menos animado que as generosas refeições da Sra. Palamountain. Jack ainda queria ver Richard, e o mais breve possível. Mas o convite do Velho Parkins conseguira deixá-lo um pou­co nervoso. Não se sentia com coragem de subir em outro carro e repetir toda a história da mãe doente e da tia professora. (Por alguma razão, pensou Jack, a história parecia estar perdendo a força.) O shopping dava-lhe uma excelente oportunidade de descansar por uma ou duas horas, principalmente se houvesse um cinema lá dentro (veria qualquer coisa com prazer, mesmo uma love story melodramática e chata).

Mas, antes do filme (se tivesse sorte de encontrar o cinema), tinha de cuidar de duas coisas que, pelo menos há uma semana, vinham reclamando os seus cuidados. Jack vira o Velho Parkins observando-lhe os tênis, já em avançado processo de deterioração. Além da lona estar começando a rasgar, as so­las, antes macias e elásticas, tinham, misteriosamente, começado a ficar duras como asfalto. Quando precisava caminhar grandes distâncias — ou quando tinha de trabalhar o dia inteiro em pé — seus dedos ar­diam como se tivessem sido queimados.

A segunda tarefa — telefonar para a mãe — vinha tão carregada de culpa e emoções desagradáveis que Jack não tinha muita certeza se seria capaz de executá-la. Não sabia se ia conseguir conter as lágrimas quando ouvisse a voz de Lily Cavanaugh. E se ela soasse fraca, por exemplo, como a voz de alguém muito doente? Teria coragem de continuar seguindo o caminho do Oeste se a mãe lhe suplicasse com todas as forças que voltasse a New Hampshire? Era difícil admitir a idéia de conversar com a mãe ao telefone. Sua mente lhe fornecia uma imagem muito nítida de uma fileira de orelhões de plástico, mas ele procurou soterrá-la quase de imediato. Como se houvesse o risco de Elroy ou alguma outra criatura dos Territórios saltar do fone e apertar-lhe a garganta com uma das mãos.

Exatamente nesse momento, três garotas, um ou dois anos mais velhas que ele, saltaram do banco de trás de um carro japonês que se enfiara numa vaga apertada, defronte à entrada principal do shopping. Por um segundo, Jack viu-as como modelos contorcidos em insólitas e elegantes poses de contentamento e espanto. Quando conseguiram se equilibrar em posturas mais convencionais, lançaram um olhar indiferente a Jack e começaram a ajeitar meticulosamente os cabelos. As confiantes princesas de início de ginásio tinham pernas compridas e apertadas nos jeans e, quando riam, tapavam a boca com as mãos (como se o riso fosse indecente, censurável). Jack avançou lentamente; era como um sonâmbulo caminhando. Uma das princesas lançou-lhe mais uma olhadela e sussurrou alguma coisa para a amiga de cabelo castanho.

Eu sou diferente agora, Jack pensou. Não sou mais como elas. Este reconhecimento encheu-o de um sentimento de solidão.

Um rapaz louro e forte, com uma camisa azul sem mangas, pulou do assento do motorista e reuniu as mocinhas à sua volta pelo simples expediente de fingir ignorá-las. O rapaz, que já devia estar no último ano da escola secundária e talvez fosse um craque no futebol, deu uma olhada em Jack e apreciou a fa­chada do shopping.

— Timmy? — chamou a garota alta, de cabelos castanhos.

— Hã? — disse o rapaz. — Só estou querendo saber de onde vem este cheiro de merda.

Premiou as moças com um breve sorriso de superioridade. A de cabelo castanho olhou com arro­gância para Jack, depois, ao lado das amigas, atravessou rebolando o asfalto. As três seguiram o corpo empinado de Timmy pela porta de vidro e entraram no shopping.

Jack esperou que Timmy e sua corte, visíveis através do vidro, desaparecessem na esquina de uma loja de brinquedos. Só depois pisou na placa que abria a porta.

Um frio de ar-condicionado envolveu-lhe o corpo.

De uma fonte no meio de um grande lago cercado de bancos, a água pingava. A fonte tinha a altura de dois andares e todas as portas de entrada do shopping se defrontavam com ela. No teto cor de ocre havia spots e curiosos candelabros de bronze. O cheiro de pipoca, que impregnara as narinas de Jack desde o momento em que as portas de vidro se fecharam atrás dele, emanava de uma antiga carrocinha de pipoqueiro. A carrocinha fora pintada de um vermelho muito vivo e cuidadosamente instalada à esquerda da fonte, junto a uma loja de livros de bolso. Jack percebeu de imediato que não havia cinema no Buckeye Mall. Timmy e suas princesas de pernas compridas estavam subindo a escada rolante na outra ponta do shopping. Dirigiam-se para um restaurante self-service chamado A Mesa do Capitão, que ficava bem à direita do alto da escada. Jack pôs de novo a mão no bolso da calça e tocou o rolinho de notas. A palheta de violão de Speedy e a moeda do Capitão Farren continuavam no fundo do bolso, junto com um punhado de moedas de dez e 25 centavos.

No andar térreo, espremida entre uma loja de doces e salgados, chamada Mr. Chips, e uma loja de bebidas anunciando novos preços baixos para o bourbon Hiram Walker e o vinho Inglenook, havia uma vitrine comprida, repleta de tênis. O caixa inclinou a cabeça e ficou espreitando Jack, evidentemente com medo de que ele tentasse roubar alguma coisa. Jack não conhecia nenhuma das marcas em exposição. Não havia Nikes nem Pumas; os tênis se chamavam Speedster, Bullseye ou Zooms, e os laços de cada par estavam bem amarrados. Talvez as marcas não fossem famosas, mas os tênis pareciam resistentes.

Comprou o par mais barato que havia no tamanho dele, um tênis de lona azul com um ziguezague de faixas vermelhas dos lados. Não havia qualquer etiqueta: o tênis era praticamente idêntico à maioria dos pares da vitrine. Junto à caixa registradora, Jack contou seis notas moles de um dólar e disse ao ho­mem que não ia querer uma sacola,

Sentou-se num dos bancos em volta da fonte e tirou os surrados Nikes (sem nem se preocupar em desamarrá-los). Quando se sentiram nos tênis novos, os pés suspiraram de gratidão. Jack se levantou do banco e jogou os velhos Nikes num grande coletor de lixo onde estava escrito não suje o que é seu em le­tras brancas sobre fundo preto. Embaixo, em letras menores, o coletor concluía: A Terra é nosso único lar.

Jack começou a andar pela longa galeria do shopping. Procurava os telefones públicos. Na carroci­nha de pipoca, despediu-se de uma moeda de 50 centavos em troca de um bom saco de pipoca doce (o mel ainda reluzente). O homem quarentão, de boné na cabeça, bigode pontudo e mangas arregaçadas, que lhe vendeu a pipoca, disse que os telefones públicos ficavam no andar de cima, perto da loja Aromas 31. Com um gesto vago, indicou a escada rolante mais próxima.

Enchendo a boca de pipocas, Jack subiu atrás de duas mulheres de calças compridas. Uma de vinte e poucos anos, outra mais velha, de ancas tão largas que cobriam quase toda a largura da escada.

Se Jack desaparecesse dentro do Buckeye Mall (ou mesmo a um ou dois quilômetros dali), será que as paredes iam tremer e o teto desabar? Será que iam cair tijolos, candelabros de bronze e spots sobre todos que tivessem o azar de estar lá dentro? Será que as princesas do ginasial, o arrogante Timmy e várias outras pessoas sairiam de lá com fraturas no crânio, pernas e braços decepados, peitos dilacerados e... Por uma fração de segundo, antes de atingir o alto da escada, Jack viu pedaços de parede e gigantescas vigas de metal caindo pelas galerias. Depois ouviu o estalo terrível dos pisos dos andares superiores Mas não ouviu os gritos: era como se os gritos tivessem se congelado no ar.

Angola. O condomínio.

Jack sentiu as palmas das mãos começarem a coçar, a suar, e esfregou-as no jeans,

aromas 31, anunciava uma luz incandescente e esbranquiçada à sua esquerda, e Jack seguiu a cur­va de um corredor. Ladrilhos marrons brilhavam nas paredes e no chão e, um pouco mais adiante, guar­dados sob orelhões de plástico transparente, havia três telefones. Em frente, viam-se duas portas: homens e senhoras.

No orelhão do meio, Jack discou o DDD de Arcadia Beach e o número da Pousada dos Jardins do Alhambra.

— Alhambra! — respondeu a telefonista.

— Isto é uma chamada a cobrar para a Sra. Sawyer nos apartamentos quatro zero sete e quatro zero oito. É Jack Sawyer quem fala.

A telefonista transferiu a chamada para a suíte e o coração se apertou dentro do peito de Jack. O te­lefone tocou uma vez, duas vezes, três vezes. Então a mãe atendeu:

— Meu Deus, rapaz! Por onde você tem andado?! Esta sua viagem não está sendo fácil pra mim, ga­roto! Morro de saudades quando não o tenho do meu lado para me dizer se estou agindo bem ou mal com os garçons.

— Você é bacana demais para a maioria dos garçons, esse é o problema, mamãe! — disse Jack, achando que a qualquer momento começaria a chorar.

— Tudo bem, Jack? Me diga a verdade!

— Tudo ótimo, pode acreditar! — disse ele. — Estou muito bem. Mas quis telefonar para saber se você... Bem, você sabe.

O telefone chiou eletronicamente, um sopro de estática que parecia areia soprando na praia.

— Estou OK — disse Lily. — Realmente OK. Pelo menos não piorei, se era isso o que estava preocupando você. Mas de onde está ligando, Jack?

Jack fez uma pausa e a estática chiou, assobiou outra vez.

— Estou em Ohio agora. Logo vou me encontrar com Richard.

— E quando pretende voltar para casa, Jacky?

— Não posso dizer. Não tenho certeza.

— Não tem certeza... Eu juro, rapaz, não sei onde estava com a cabeça quando o deixei partir! Jack Viajante!... Seu pai o chamava desse jeito, não é? Mas, se você tivesse me pedido dez minutos antes ou dez minutos depois...

Uma grande onda de estática levou a voz por um instante. Jack se lembrou da mãe no pequeno restaurante ao lado do Alhambra, pálida e fraca, parecendo uma velha. Quando a estática diminuiu, ele perguntou:

— Está tendo problemas com o tio Morgan? Ele está chateando você?

— Mandei o tio Morgan pra muito longe daqui. Ele é que está com a cabeça fervendo, pode ter certeza!

— O tio Morgan esteve aí? Foi mesmo a Arcadia Beach? Ainda está atormentando você, mamãe?

— Eu me livrei do Sloat dois dias depois de você ter ido embora, rapaz! Não perca seu tempo se preocupando com ele.

— O tio disse para onde ia? — Jack perguntou, mas assim que as palavras lhe escaparam da boca, o telefone emitiu um torturante guincho eletrônico que pareceu explodir dentro de sua cabeça. Ele fez uma careta e afastou o fone do ouvido. O terrível ruído de estática era tão alto que poderia ser ouvido a três metros de distância.

— mamãe! — Jack gritou, aproximando um pouco o fone do ouvido. O guincho de estática aumen­tou ainda mais, como se houvesse um rádio, ligado a pleno volume, entre duas estações de ondas curtas.

E, bruscamente, a linha ficou muda. Jack apertou o fone contra a orelha e só ouviu o silêncio, um silêncio inerte e sinistro de ar.

— Ei! — disse ele, sacudindo o fone. O silêncio morto da linha pareceu fazer pressão em seu tímpano.

E, de repente, como se sacudir o fone tivesse dado resultado, o ruído de linha desocupada — um oásis de sanidade, de regularidade — voltou. Jack enfiou a mão direita no bolso, procurando outra moeda.

Ficou segurando desajeitadamente o fone com a mão esquerda enquanto remexia o bolso, e estre­meceu quando o ruído de discar foi subitamente abafado.

A voz de Morgan Sloat falou tão claramente como se o velho tio Morgan estivesse no orelhão do lado.

— Volte já pra casa, Jack!

A voz de Sloat retalhava o ar como um escalpelo.

— Volte já pra casa antes que eu vá buscá-lo com minhas próprias mãos.

— Espere! — disse Jack, como se precisasse de tempo para pensar: na realidade, estava excessiva­mente aterrorizado para ter consciência do que dizia.

— Não é possível esperar mais, garoto! Agora você é um assassino. Tenho ou não tenho razão? Você é um assassino! Por isso já não estamos dispostos a lhe dar outra chance. Volte já para New Hampshire! Neste exato minuto! Ou quer vir à força, amarrado num saco?

 

Jack ouviu o clique do fone no gancho. Soltou o telefone. E então o aparelho trepidou, se curvou para baixo e pulou do orelhão. Por meio segundo, oscilou no meio de uma teia de fios; depois bateu com toda a força no chão.

A porta do banheiro dos homens se abriu atrás dele e uma voz gritou:

— Deus, que merda!

Jack virou a cabeça e viu um rapaz de uns 20 anos, magro, de cabelo curto. Arregalava os olhos para os telefones. Usava um guarda-pó branco e uma gravata borboleta: por certo era balconista de uma das lojas.

— Eu não fiz isso — disse Jack. — Simplesmente aconteceu...

— Que grande merda!

Por um instante, como se fosse atirar sobre ele, o balconista de cabelo curto revirou os olhos na di­reção de Jack. Depois olhou para o teto e pôs as mãos na cabeça.

Jack foi se afastando pelo corredor. Quando estava a meio caminho da escada, ouviu o grito do balconista;

— Sr. Olafson! O telefone, Sr. Olafson!

Jack correu.

Lá fora, o tempo estava ensolarado, mas surpreendentemente úmido. Atordoado, Jack atravessou a rua e viu, nos confins do pátio de estacionamento, um carro preto-e-branco da polícia fazer a curva em direção ao shopping. Olhou para os lados e começou a descer a calçada. Alguns metros à frente, uma família de seis pessoas lutava para fazer passar uma espreguiçadeira por uma das portas estreitas do shopping. Jack diminuiu o passo e viu o marido e a mulher inclinarem a cadeira na diagonal, exasperados pelas ten­tativas que os filhos faziam de sentar na espreguiçadeira ou de ajudá-los. Por fim, mais ou menos na posi­ção dos soldados americanos levantando a bandeira em Iwo Jima, a família conseguiu se esgueirar pela porta. O carro de polícia circundava vagarosamente a grande área do estacionamento.

A poucos metros da porta por onde a família conseguira passar a cadeira, havia um preto velho sentado num caixote. Tinha uma guitarra no colo. Ao se aproximar, Jack observou a caneca de metal ao lado dos pés dele. Seu rosto se escondia atrás de grandes óculos escuros e embaixo da aba de um chapéu de feltro coberto de manchas. As mangas da jaqueta de brim não pareciam menos enrugadas que uma tromba de elefante.

Jack se afastou para o meio-fio, abrindo espaço para as pernas esticadas do velho. Em volta do pescoço dele havia um cartaz com uma grande e trêmula caligrafia sobre uma folha encardida de cartolina branca. Alguns passos e Jack pôde ler:

 

cego de nascença

mas sabe tocar qualquer coisa

deus o abençoe

 

Jack já quase ultrapassara o homem com a guitarra quando ouviu a voz dele, uma espécie de mur­múrio malicioso, num tom de taquara rachada:

— Ei, garoto!                                           

 

A CANÇÃO DO BOLA DE NEVE

Jack virou-se para o preto, o coração aos pulos.

Speedy?

O preto tateou em busca da caneca, suspendeu-a, sacudiu-a. Algumas moedas chocalharam no fundo.

Era Speedy. Atrás daqueles óculos escuros, era Speedy.

Jack teve certeza disso. Mas, um momento depois, teve a mesma certeza de que não era Speedy. Speedy não tinha ombros quadrados nem o peito assim tão largo; os ombros de Speedy eram arredonda­dos, ligeiramente caídos, e conseqüentemente seu peito tinha uma aparência um tanto cavada. Mississippi John Hurt, não Ray Charles.

Mas, se ele tirasse os óculos, aí, sim! Eu teria certeza absoluta!

Abriu a boca para dizer em voz alta o nome de Speedy, mas de repente o velho começou a tocar a guitarra. Os dedos eram enrugados, escuros como uma tábua de nogueira cuidadosamente envernizada (mas sem polimento). Moveram-se com graça e agilidade pelas cordas. Tocava bem, solando a melodia. E Jack reconheceu a melodia. Sempre ouvira aquela música num dos velhos discos do pai. Um LP chamado Mississippi John Hurt Today. Embora o cego não cantasse, Jack conhecia a letra:

 

Oh, meus amigos, digam-me se não é duro

Ver o velho amigo Lewis num novo cemitério

Os anjos a enterrá-lo...

 

O craque louro do time de futebol de colégio cruzou a porta principal do shopping acompanhado de suas três princesas. Cada princesa com uma casquinha de sorvete. Mr. América trazia um cachorro-quente na mão direita e outro na mão esquerda. O grupo caminhou vagarosamente para o trecho de calçada onde Jack se encontrava.

Jack, cuja atenção se deixara absorver totalmente pelo preto velho, nem reparou neles. Continuava obcecado pela idéia de que era Speedy, e que Speedy conseguira de alguma forma ler seus pensamentos. Pois, afinal, quem poderia ser aquele homem que tinha começado a tocar uma composição de Mississippi John Hurt no momento exato em que Jack o achara parecido com Speedy? E uma canção que citava o nome que ele dava aos motoristas a quem pedia carona: Lewis? Pura coincidência?                      

O craque louro de futebol de colégio transferiu os dois cachorros-quentes para a mão esquerda e, com a direita, bateu o mais forte que pôde nas costas de Jack. Os dentes de Jack se cravaram na língua (como uma armadilha de urso). A dor foi brusca, torturante.

— Está na hora de mudar essa roupa, hem, meu chapa? — disse ele. As princesas riram com estridência.

Jack tropeçou e chutou sem querer a caneca do cego. Moedas se esparramaram e rolaram pela cal­çada. A suave melodia do blues desafinou e parou de repente.

Mr. América e as três princesinhas foram se afastando. Jack encarou-os por trás e sentiu outra vez a raiva impotente que já lhe era familiar. Sem dúvida, estava vivendo sem depender de ninguém, mas era jovem demais para ficar à mercê do bom ou mau gênio dos outros. Podia deparar com um psicótico tipo Osmond ou um velho e antipático luterano tipo Elbert Palamountain, cuja noção de um bom dia de trabalho significava trabalhar de sol a sol em campos pantanosos, suportar 12 horas contínuas dos aguaceiros de outubro e, na hora do almoço, sentar numa ponta qualquer da carroceria de um caminhão (comendo sanduíches de cebola e lendo o Livro de Jó).

Jack não teve qualquer ímpeto de correr atrás deles, embora tenha experimentado a estranha sen­sação de que, se quisesse, poderia perfeitamente “pegá-los” e dar uma boa sova no rapaz. Era como se tivesse adquirido uma nova espécie de força (a energia de uma descarga elétrica, por exemplo). Às vezes achava que os outros também percebiam isso; olhavam-no estranhamente, como se desconfiassem dos processos que vinham ocorrendo dentro dele. Mas Jack não queria pegá-los; queria apenas ser deixado em paz. Ele...

O cego tateava em busca das moedas, as mãos atarracadas movendo-se suavemente pela calçada, parecendo quase dispostas a ler a calçada. Esbarraram numa moeda de dez centavos, tornaram a colocar a caneca em pé e jogaram a moeda dentro dela. Plink!

Jack escutou a voz longínqua de uma das princesas:

— Como deixam gente assim ficar na frente do shopping? Viu o jeito do garoto? Tão grosseiro, tão sujo!

E, ainda mais longe, escutou a voz da outra:

— É mesmo, tão sujo!

Jack se ajoelhou. Começou a ajudar o velho a catar as moedas e a colocá-las outra vez na caneca. Ali, do lado do cego, pôde sentir-lhe o cheiro amargo do suor, do mofo das roupas, e um aroma mais brando, mais suave, que lembrava espigas de milho. Os bem-vestidos freqüentadores do shopping passa­vam bem longe dos dois.

— Obrigado, obrigado — resmungava monotonamente o cego. Jack sentiu um odor de pimenta podre no bafo do homem. — Obrigado, que Deus o abençoe, obrigado...

Ele é Speedy.

Ele não é Speedy.

O que finalmente o impeliu a falar (e não parecia nada estranho tentar puxar conversa com aquele cego) foi a lembrança de que só lhe restava uma quantidade muito pequena do suco mágico. Mal daria para dois goles. Não sabia se, depois do que tinha acontecido em Angola, seria conveniente atravessar de novo para os Territórios e voltar aos Estados Unidos. O problema é que estava determinado a salvar a vida de sua mãe. Não ia parar no meio do caminho.

E, fosse lá o que fosse o talismã, estava disposto a dar mais um pulo até aquele outro mundo para pegá-lo.

— Speedy?

— Deus o abençoe, obrigado, Deus o abençoe... Está falando com alguém? — Ele esticou o dedo.

— Speedy! É Jack!

— Não há nenhum Speedy por aqui, rapaz. Nada disso!

As mãos do cego começaram a tatear pelo cimento da calçada na direção que o dedo apontara. Uma delas encontrou um níquel e jogou-o na caneca. A outra mão tocou por acaso o sapato de uma jovem bem-vestida, que acabara de sair do shopping. O rosto bonito e fútil se contorceu numa expressão quase de dor, e ela atravessou a rua.

Jack apanhou a última moeda da sarjeta. Era um dólar de prata, a grande e velha moeda com a imagem da Liberdade num dos lados.

As lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Manchavam-lhe a face encardida e ele as enxugava com um braço trêmulo. Chorava por Thielke, Wild, Hagen, Davey e Heidel. Pela mãe. Por Laura DeLoessian. Pelo filho do carroceiro, estendido na estrada com os bolsos virados pelo avesso. Mas chorava principalmente por ele mesmo. Estava cansado das estradas. Talvez sejam estradas de sonho quando viajamos por elas num Cadillac, mas quando se tem de levantar o polegar, pedir carona e inventar uma boa história para contar aos motoristas, quando se fica à mercê do bom ou do mau gênio das pessoas, as estradas passam a ser caminhos de duras provações. Jack sabia que fizera muito... Mas era impossível desistir. Se tentasse cair fora, o câncer ia levar sua mãe — e ele podia ser levado pelo tio

— Acho que não vou conseguir, Speedy! — ele choramingou. — Acho que não vai dar, Speedy!

Agora o cego procurava tocar em Jack e não mais em moedas espalhadas. Os dedos suaves e es­pertos encontraram-lhe o braço e se fecharam em torno dele. Na ponta de cada dedo, Jack pôde sentir um calo duro.

O cego puxou o garoto para perto de si, para aqueles cheiros de suor, febre e pimenta velha. Jack afundou o rosto no peito de Speedy.

— Oh, rapaz! Eu não conheço nenhum Speedy, mas parece que você precisa muito dele. Você...

— Estou com saudades de minha mãe, Speedy! — Jack soluçou. — E Sloat está atrás de mim. Foi ele quem falou no telefone do shopping, foi ele. E isso não é o pior. O pior foi Angola... o condomínio Rainbird Towers... o tremor de terra... cinco homens... Eu fui responsável por isso, Speedy! Matei aqueles homens quando atravessei para este mundo. Matei-os como meu pai e Morgan Sloat mataram Jerry

Agora tinha desabafado o pior. Vomitara a carga de culpa entalada na garganta, ameaçando sufo­cá-lo, Uma tempestade de soluços se apoderou dele... Mas dessa vez foi antes alívio que medo. Ele tinha falado. Confessado. Era um assassino!

— Oooohhh! — o preto velho gritou. Parecia perversamente satisfeito. Segurou Jack com um braço magro, mas forte. Sacudiu-o. — Está tentando carregar um fardo pesado demais, garoto! Por certo que está. Talvez devesse se desembaraçar de uma parte dele.

— Eu os matei — Jack sussurrou. — Thielke, Wild, Hagen, Davey...

— Bem, se seu amigo Speedy estivesse aqui — disse o preto —, seja ele quem for nesta Terra grande e velha, talvez o aconselhasse a não querer carregar o mundo nas costas, filho! Não pode fazer isso. Ninguém pode. Primeiro, é preciso carregar as próprias costas pelo mundo. Tentar carregar a culpa de tudo...

— Eu matei...

— Encostou o revólver na cabeça deles e apertou o gatilho?

— Não... Mas o tremor de terra... Foi na hora em que eu atravessei...

— Você não sabe o que está dizendo — o preto falou.

Jack se distanciou um pouco e contemplou, com curiosidade e espanto, o rosto manchado. O cego virara a cabeça na direção do pátio de estacionamento. E se era realmente cego, teve habilidade suficiente para distinguir o barulho do motor do carro de polícia do barulho do motor dos outros automóveis, pois estava olhando exatamente na direção da patrulha.

— Mas sei muito bem — ele continuou — que essa idéia de “assassinato” deve ter assumido proporções enormes dentro de sua cabeça. Se algum sujeito tiver um ataque do coração e cair perto de nós, você vai achar que o matou. “Oh, veja, eu assassinei este cara porque estava sentado aqui. Oh, meu Deeeeeeeeus, sou um assassino, e mais isso e mais aquilo...”

Falou isso e aquilo separando e enfatizando bastante as palavras. Depois riu, satisfeito consigo mesmo.

— Speedy...  

— Não há nenhum Speedy por aqui — repetiu o velho, os dentes amarelados abrindo um sorriso torto. — É incrível como as pessoas gostam de se culpar por coisas que não puseram em ação! Acho que está colocando a carroça na frente dos bois, rapaz! E... acho que está sendo caçado.

O c de caçado saiu com um estranho som de g.

— Ou talvez só esteja um pouco deslocado, não é?

Fora uma inflexão muito enfática e quase debochada, que fez Jack sorrir involuntariamente.

— Quem sabe precisa chegar a algum lugar, acertei?

De novo uma inflexão insólita. O cego pôs a guitarra de lado e sacudiu as mãos. No carro de polí­cia, dois tiras esticavam a cabeça para descobrir qual dos dois teria que empurrar o velho Bola de Neve caso ele se recusasse a entrar no carro.

— Oh, meu Deeeeeeeeus. Sou um assassino!... E isso, e aquilo...

Riu de novo, como se os medos de Jack fossem a coisa mais engraçada de que já tinha ouvido falar.

— Não sei o que poderia acontecer se eu...

— Ninguém sabe o que pode acontecer quando se faz alguma coisa, correto? — interrompeu o preto velho (que podia ser ou podia não ser Speedy Parker). — Não. Ninguém sabe. Se o sujeito pensasse nessas coisas, teria de ficar em casa o dia inteiro, morrendo de medo de pôr um pé na rua! Não sei quais são os seus problemas, rapaz... Nem quero saber! Aliás, toda essa conversa de tremor de terra está me pa­recendo uma loucura! Mas, como me ajudou a pegar as moedas e não roubou nenhuma (senti uma por uma nos dedos), vou lhe dar um conselho... Certas coisas não podem ser evitadas, acredite! Às vezes morre meia dúzia de pessoas porque alguém fez alguma coisa. Mas se esse alguém não tivesse feito essa coisa, muito mais gente teria morrido. Entende onde estou querendo chegar, filho?

As lentes sujas dos óculos escuros inclinaram-se em sua direção.

Jack estremeceu, mas sentiu um alívio profundo. O velho enxergava longe e estava falando sobre escolhas difíceis. Estava sugerindo que havia uma diferença entre escolhas difíceis e comportamento cri­minoso. E que talvez ele não fosse o verdadeiro culpado.

O verdadeiro culpado podia muito bem ter sido o homem que, cinco minutos atrás, mandara-o voltar para casa.

— É até mesmo possível — observou o cego (dessa vez com um chiado rouquenho) — que tudo aconteça por vontade de Deus, como minha mãe ensinou e a sua, se foi uma boa cristã, também deve ter ensinado. Às vezes achamos que estamos fazendo uma coisa e estamos fazendo outra. O livro sagrado diz que todas as coisas, mesmo as que parecem nocivas, dão glórias ao Senhor. O que acha disso, rapaz?

— Eu não sei — Jack respondeu com franqueza. Ainda estava bastante confuso. Era só fechar os olhos e via o telefone pulando do orelhão, balançando nos fios como um estranho fantoche.

— Bem, a coisa cheira mal, mas às vezes tem de ser bebida.

— O quê? — Jack perguntou, atônito. Depois pensou: Acho que Speedy era parecido com Mississippi John Hurt, e este sujeito começou a tocar um blues de John Hurt... Agora está falando sobre o suco mági­co. Claro, está fazendo rodeios, mas sei muito bem aonde quer chegar... Não pode ser outra coisa!

— Você sabe ler o pensamento dos outros, não sabe? — Jack perguntou em voz baixa. — Apren­deu isso nos Territórios, certo?

— Não sei nada sobre o pensamento dos outros — o cego respondeu —, mas minhas antenas vão fazer 52 anos em novembro. É tempo suficiente para deixar o nariz e os ouvidos bastante afiados. Sinto cheiro de vinho barato em você, garoto! O cheiro está em todo o seu corpo! É como se tivesse lavado o ca­belo com ele!

Jack teve um estranho sentimento de culpa (era assim que se sentia quando o acusavam de ter fei­to alguma coisa da qual, na verdade, estava inocente — ou pelo menos não era o verdadeiro culpado). Desde que voltara aos Estados Unidos, só encostara uma vez na garrafa quase vazia do suco mágico. Mas esse simples toque fora suficiente para enchê-lo de temor. Passara a encarar a garrafa com o mesmo res­peito que um camponês do século XIV devotaria a uma lasca da Verdadeira Cruz de Cristo ou à ponta de osso de um santo. Era uma coisa mágica, sem dúvida. Poderosamente mágica. E podia até matar pessoas.

Não tenho abusado, pode ter certeza —Jack conseguiu dizer. — A garrafa já está quase vazia, mas sempre tentei economizar. Eu nem mesmo gosto da coisa! — Seu estômago começara a se embrulhar; a simples lembrança do suco mágico provocava-lhe náuseas. — Mas tenho de conseguir mais um pouco. Só vou usar em último caso, é claro...

— Mais desse vinho barato? Para um garoto da sua idade? — O cego riu e, com uma das mãos, fez um gesto de repulsa. — Com todos os diabos, você não precisa disso! Nenhum guri precisa viajar com um veneno desses!

— Mas...

— Olhe, vou tocar alguma coisa para lhe dar coragem. O som é gostoso como um manjar dos deuses.

Ele começou a cantar e, cantando, sua voz ficava diferente. Era profunda, enérgica, comovente, sem as cadências exóticas e preguiçosas da fala. Era, Jack pensou, a voz treinada e cultivada de um cantor de ópera divertindo-se com uma pequena canção popular. Ouvindo aquela voz cheia, exuberante, Jack sentiu arrepios nos braços e nas costas. Na calçada defronte ao monótono tom ocre do shopping, cabeças se viravam.

“Quando o pássaro, pássaro preto passa o pardal no ar; pulsa o pardal, palpita a canção do pardal a mar, a voar...”

Jack foi envolvido por um doce e assustador sentimento de familiaridade, a sensação de já ter ouvi­do aquela música antes ou, pelo menos, algo muito parecido com ela... E, quando o cego arreganhou o sorriso de dentes amarelos e cariados, Jack percebeu de onde vinha a sensação. Sabia por que tantas ca­beças se viravam na direção deles (era como se houvesse um unicórnio galopando na frente do pátio de estacionamento do shopping). Havia uma bela e estranha limpidez na voz do cego, a limpidez de um ar tão puro que se poderia sentir o cheiro de um rabanete que alguém tirasse da terra a um quilômetro de distância. Talvez fosse apenas uma velha canção americana, mas a voz era uma voz dos Territórios.

“Pule da cama seu dorminhoco... Pule, salte, solte-se livre e solto... Ame, viva, ria e diga...”

De repente, a voz e a guitarra deram uma parada brusca. Jack, que estivera febrilmente concentra­do no rosto do cego (tentando, inconscientemente, espreitar o que se escondia do outro lado daqueles óculos escuros... quem sabe não estariam ali os olhos de Speedy Parker?), virou a cabeça para o lado e viu dois tiras de uniforme azul.

— Você sabe, eu não ouvi nada — disse quase timidamente o guitarrista cego —, mas acho que cheirei uma espécie de sombra azul.

— Maldito Bola de Neve! Está farto de saber que não deve poluir a fachada do shopping! — gritou um dos policiais. — O que foi que o juiz Hallas lhe disse da última vez que esteve na cadeia? Fique no centro da cidade, entre a Center Street e a Mural Street, mas não passe daí! Será que já está ficando senil? E essas roupas? Aposto que nunca foram lavadas desde que sua mulher deu no pé, acertei? Meu Deus, eu simplesmente não entendo...

O colega agarrou-lhe o braço e inclinou a cabeça ap