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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O TERCEIRO GÊMEO / Ken Folett
O TERCEIRO GÊMEO / Ken Folett

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O TERCEIRO GÊMEO

 

Uma onda de calor cobria Baltimore como um sudário. Os subúrbios mais arborizados eram refrescados por milhares de regadores automáticos de relva, mas os habitantes endinheirados ficavam dentro de casa com o ar condicionado no máximo. Em North Avenue, inúmeras prostitutas procuravam as sombras e transpiravam sob as perucas, enquanto os miúdos de rua vendiam a droga que tiravam dos bolsos de calções largos. Estava-se no fim de Setembro, mas o Outono parecia encontrar-se ainda a léguas.

 

Um Datsun branco ferrugento, com um dos faróis partido e remendado com fita isoladora, atravessou um bairro operário de brancos a norte do centro da cidade. O carro não possuía ar condicionado e o condutor abrira todas as janelas. Era um jovem bonito de vinte e dois anos, com calças de ganga, uma T-shirt branca e um boné vermelho de basebol com a palavra «Segurança» escrita em letras brancas à frente. Sob as coxas, a napa do assento encontrava-se escorregadia do suor, mas ele parecia não se incomodar. Estava bem disposto. O auto-rádio encontrava-se sintonizado na 92Q «Vinte seguidas sem parar!» No banco do passageiro via-se um dossier aberto. O rapaz olhava de vez em quando para ele, tentando decorar uma página dactilografada de termos técnicos para o teste do dia seguinte. Tinha facilidade em aprender, e após alguns minutos de estudo fixaria tudo.

 

Num semáforo vermelho, uma loura num Porsche descapotável parou ao seu lado.

 

Que belo carro! elogiou ele, com um sorriso.

 

A mulher desviou o olhar sem dizer nada, mas o rapaz julgou detectar um sorriso nos cantos da sua boca. Levava óculos escuros e tinha provavelmente o dobro da idade dele: a maior parte das mulheres ao volante de Porsches tinha essa idade.

 

Vamos fazer uma corrida até ao próximo semáforo desafiou ele.

 

Ela deu uma gargalhada, um riso musical sedutor, e em seguida meteu a primeira com mão muito elegante e arrancou como um foguete.

 

O rapaz encolheu os ombros. Estava só a brincar.

 

Contornou o complexo universitário de Jones Falis, que tinha um aspecto muito mais pretensioso do que a universidade que ele frequentava. Quando passou junto aos imponentes portões, viu um grupo de oito ou nove mulheres suadas que corria em calções justos e tops. Era uma equipa feminina de hóquei em campo a treinar, calculou ele, e a mais atlética, à frente, devia ser a capitã a prepará-las para o novo campeonato.

 

Viraram para o complexo universitário e, de repente, foi dominado por uma fantasia tão forte e excitante que mal conseguia ver para guiar. Imaginou-as no vestiário: a mais rechonchuda a ensaboar-se no duche, a ruiva a secar o cabelo comprido com uma toalha, a negra a vestir umas cuecas brancas de renda, a capitã lésbica a passear nua exibindo os músculos, até que acontecia algo que as assustava. Subitamente, entravam todas em pânico, os olhos muito abertos de medo, gritavam e choravam quase à beira da histeria. Corriam em todas as direcções, colidindo umas com as outras. A gorda caía e ficava para ali a chorar, impotente, enquanto as outras a pisavam, distraídas, tentando desesperadamente esconder-se, encontrar a porta ou fugir daquilo que as assustava.

 

O rapaz parou o carro junto à berma e pô-lo em ponto morto. Ofegava e sentia o coração a bater com força. Fora o melhor de todos. Mas faltava qualquer coisa na fantasia. O que as teria assustado? Vasculhou a sua imaginação fértil à procura e suspirou de prazer quando lhe ocorreu: um incêndio. O local estava a arder e elas ficavam aterrorizadas com as chamas. Tossiam e engasgavam-se devido ao fumo que as envolvia, enquanto corriam meio nuas e em pânico.

 

Meu Deus murmurou ele, olhando em frente e vendo a cena como um filme projectado do lado de dentro do pára-brisas do Datsun.

 

Passado algum tempo, acalmou-se. O seu desejo ainda era forte, mas a fantasia já não bastava: era como pensar numa cerveja quando se estava a morrer de sede. Levantou a parte de baixo da T-shirt e limpou o suor do rosto. Sabia que devia tentar esquecer a fantasia e continuar a conduzir, mas ela era demasiado agradável. Seria incrivelmente perigoso... ficaria preso durante muitos anos se fosse apanhado; no entanto, o perigo nunca o impedira de fazer nada. Tentou resistir à tentação, mas apenas por um minuto.

 

Não aguento mais sussurrou, fazendo inversão de marcha e atravessando os imponentes portões que conduziam ao complexo universitário.

 

Já ali estivera antes. A universidade estendia-se por cem acres de relvados, jardins e bosques. A maior parte dos edifícios era feita de tijolo vermelho, mas havia algumas estruturas de cimento e vidro, todos ligados por estradas estreitas ladeadas por parquímetros.

 

A equipa de hóquei em campo tinha desaparecido, mas encontrou facilmente o ginásio: era um edifício baixo próximo de uma pista de atletismo, e em frente à entrada havia uma grande estátua de um discóbolo. Estacionou junto a um parquímetro, mas não meteu qualquer moeda na máquina. Nunca punha dinheiro nos parquímetros. A musculada capitã da equipa de hóquei encontrava-se nas escadas do ginásio a falar com um rapaz de T-shirt rasgada. Correu escadas acima, sorriu para a rapariga quando passou por ela e atravessou as portas do edifício.

 

O átrio estava cheio de jovens em calções e com fitas na cabeça que iam e vinham, de raquetas na mão e sacos desportivos ao ombro. Sem dúvida, a maior parte das equipas da faculdade treinava aos domingos. Havia um segurança atrás de uma secretária no átrio a verificar os cartões de estudante que lhe eram mostrados, mas, nesse momento, um grande grupo de atletas passou por ele a correr, alguns acenando-lhe com o cartão, outros esquecendo-se, e o segurança encolheu os ombros e continuou a ler A Zona Morta.

1 Romance de Stephen King (N. do T.).

 

O desconhecido virou-se e olhou para um armário de vidro onde eram exibidas taças, troféus ganhos pelos alunos da Jones Falis. Pouco depois, entrou uma equipa de futebol, dez homens e uma mulher entroncada com chuteiras, e ele deslocou-se rapidamente para se lhes juntar. Atravessou o átrio no meio do grupo e desceu umas escadas largas que conduziam à cave. Os jovens falavam do jogo, sorrindo devido a um golo feliz e furiosos por causa de uma falta escandalosa, e não repararam nele.

 

O seu andar era descontraído, mas os olhos estavam atentos. Ao fundo das escadas havia um pequeno vestíbulo com uma máquina de Coca-Cola e um telefone de moedas. O vestiário dos homens ficava logo a seguir ao vestíbulo. A mulher que entrara com os jogadores de futebol seguiu por um grande corredor, provavelmente em direcção ao vestiário, que devia ter sido acrescentado a posteriori por um arquitecto que nunca imaginara que iria haver tantas mulheres na Jones Falis, nos tempos em que a educação feminina era considerada uma coisa supérflua.

 

O desconhecido levantou o auscultador e fingiu procurar uma moeda. Os homens entraram no vestiário. Viu uma mulher abrir uma porta e desaparecer.

 

«Ali deve ser o vestiário das mulheres. Estão todas lá dentro», pensou, excitado, «a despir-se, a tomar duche e a esfregarem-se com toalhas». Aquela proximidade fê-lo ficar em brasa. Limpou a testa com as costas da mão. Para completar a sua fantasia só lhe faltava pregar-lhes um susto de morte.

 

Acalmou-se. Não iria estragar tudo com a pressa. Precisava de planificar as coisas durante alguns minutos.

 

Quando ficou sozinho, avançou pelo corredor atrás da mulher.

 

Havia três portas, uma de cada lado e outra ao fundo. A mulher seguira pela da direita. Foi abrir a do fundo e viu que dava para uma sala grande e empoeirada cheia de máquinas: caldeiras e filtros, calculou, para a piscina. Entrou e fechou a porta. Ouvia-se um ligeiro zumbido, provocado pela electricidade. Visualizou uma rapariga apavorada, vestida apenas com a roupa interior (imaginou um soutien e umas cuecas às flores), deitada no chão a olhar para ele com os olhos cheios de medo enquanto ele desapertava o cinto. Saboreou a visão durante mais algum tempo, sorrindo. Ela estava apenas a alguns metros. Naquele momento, poderia estar a imaginar como iria ser a sua noite. talvez tivesse um namorado e daí a algumas horas o deixasse fazer tudo o que ele quisesse; ou podia ser uma caloira, solitária e um pouco tímida, sem nenhum programa para o domingo à noite a não ser assistir a mais um episódio de Columbo; ou talvez tivesse de entregar um trabalho no dia seguinte e tencionasse fazer uma directa para o acabar. «Não vai ser nada disso, querida. Chegou a hora dos pesadelos».

 

Já anteriormente fizera aquilo, embora numa escala menor. Sempre gostara de assustar raparigas. No liceu, nada lhe agradava mais do que apanhar uma rapariga sozinha, algures numa esquina, e ameaçá-la até ela implorar misericórdia. Era por isso que andava sempre a mudar de escola. Às vezes saía com raparigas só para ser como os outros rapazes e ter alguém com quem pudesse entrar de braço dado no bar. Se pareciam receptivas ia para a cama com elas, mas isso nunca tivera graça.

 

Calculava que toda a gente tinha as suas fantasias; alguns homens gostavam de vestir roupa de mulher, outros de ter uma rapariga vestida de cabedal a passear sobre eles de saltos altos e pontiagudos. Um tipo que conhecia achava que a parte mais sensual das mulheres eram os pés. ficava com uma erecção quando ia às sapatarias e as via experimentar sapatos

 

A fantasia dele era o medo. O que o excitava era uma mulher a tremer de medo. Sem medo não havia excitação.

 

Ao olhar metodicamente em volta, reparou numa escada presa à parede que levava a um alçapão de ferro trancado por dentro. Subiu rapidamente a escada, abriu os fechos e empurrou o alçapão. Deparou com os pneus de um Chinler NewYorker no parque de estacionamento. Depois de se orientar, calculou que estava nas traseiras do edifício. Fechou o alçapão e desceu.

 

Saiu da sala das máquinas. Ao percorrer o corredor, uma mulher que vinha em sentido contrário lançou-lhe um olhar hostil. Sentiu-se momentaneamente ansioso. Ela poderia perguntar-lhe o que raio fazia ali à porta do vestiário das mulheres. Uma altercação daquelas não estava no programa. Naquele momento, isso poderia arruinar os seus planos. Mas o olhar dela subiu até ao boné, leu a palavra «Segurança» e desviou-se. Pouco depois entrava no vestiário

 

Sorriu. Comprara o boné por nove dólares numa loja de recordações. No entanto, as pessoas estavam habituadas a ver guardas de calças de ganga nos concertos de música rock, detectives com aspecto de bandidos até exibirem os seus crachás, polícias de camisola nos aeroportos; dava demasiado trabalho pedir a identificação de todos os idiotas que diziam ser seguranças.

 

Experimentou a porta em frente ao vestiário. Dava para uma pequena arrecadação. Acendeu a luz e fechou a porta atrás de si.

 

À sua volta via-se equipamento de ginástica obsoleto: bolas pretas cheias de areia, colchões de borracha gastos, maças, luvas de boxe bolorentas e cadeiras desdobráveis de madeira cheia de lascas. Havia ainda um cavalo com a espuma a ver-se através da napa rasgada e com uma perna partida. A arrecadação cheirava a bafio. No tecto havia um tubo prateado bastante largo, que devia ventilar o vestiário do outro lado do corredor.

 

Esticou-se e experimentou os ferrolhos que prendiam o tubo ao que parecia ser uma ventoinha. Não conseguiu rodá-los com os dedos, mas tinha uma chave inglesa no porta-bagagens do Datsun. Se conseguisse soltar o tubo, a ventoinha puxaria o ar da arrecadação em vez do do exterior do edifício.

 

Atearia o fogo debaixo da ventoinha. Iria arranjar uma lata de gasolina e verteria alguma para uma garrafa de água mineral que levaria até ali, juntamente com fósforos, um jornal para atear e a chave-inglesa.

 

A fogueira iria arder rapidamente e soltaria grandes nuvens de fumo. Ele taparia a boca e o nariz com um pano molhado e esperaria até a arrecadação estar cheia de fumo. Depois, soltaria o tubo de ventilação. O fumo seria puxado para a conduta e sairia no vestiário das mulheres. A princípio ninguém daria por isso. Depois uma ou duas fungariam e perguntariam: «Está alguém a fumar?» Ele abriria a porta da arrecadação e deixaria o corredor encher-se de fumo. Quando as raparigas se apercebessem de que algo de errado se passava, abririam a porta do vestiário e pensariam que todo o edifício estava a arder. Então entrariam em pânico.

 

Nessa altura, ele avançaria para o vestiário. Depararia com um mar de soutiens, meias, seios e pêlo púbico. Algumas sairiam a correr dos duches, nuas e molhadas, à procura das toalhas; outras tentariam vestir-se; a maior parte andaria a correr à procura da porta, meio cega pelo fumo. Haveria pânico, soluços e gritos de medo. Ele continuaria a fingir ser um segurança e gritar-lhes-ia ordens: «Não parem para se vestir! Isto é uma emergência! Saiam! O edifício está a arder! Corram, corram!» Daria palmadas nos rabos nus, iria empurrá-las e apalpá-las e esconderia as suas roupas. Iriam desconfiar que havia algo de estranho naquilo tudo, mas a maior parte estaria demasiado assustada para perceber o que seria. Se a musculada capitã da equipa de hóquei ainda lá se encontrasse, talvez tivesse presença de espírito suficiente para o desafiar, mas ele pô-la-ia a dormir com um soco.

 

Caminhando em volta, escolheria a sua vítima. Seria uma rapariga bonita, de aspecto vulnerável. Pegar-lhe-ia no braço e diria: «Venha por aqui, por favor, eu sou segurança». Levá-la-ia para o corredor, depois viraria na direcção errada, na direcção da sala das máquinas da piscina. Ali, quando ela pensasse que estava quase a salvo, dar-lhe-ia um soco e esmurrá-la-ia no estômago, atirando-a para o chão de cimento sujo. Vê-la-ia rolar até se sentar, de respiração entrecortada, a soluçar e a olhá-lo aterrorizada.

 

Então ele sorriria e desapertaria o cinto.

 

Quero ir para casa disse Mrs. Ferrami.

 

Não te preocupes, mãe, havemos de tirar-te daqui mais depressa do que julgas respondeu a sua filha Jeannie.

 

Patty, a irmã mais nova de Jeannie, lançou-lhe um olhar que parecia dizer: «Como raio achas que vamos fazer isso?»

 

O Lar Bella Vista Sunset era tudo o que o seguro da mãe podia pagar, e era miserável. O quarto tinha duas camas de hospital muito altas, dois roupeiros, um sofá e uma televisão. As paredes estavam pintadas de castanho-cogumelo e o chão era de azulejos de plástico cremes com riscas cor de laranja. As janelas tinham grades, mas nada de cortinas, e davam para uma bomba de gasolina. A um canto havia um lavatório, e a casa de banho ficava ao fundo do corredor.

 

Quero ir para casa repetiu a mãe.

 

Mas, mãe contrapôs Patty, passas a vida a esquecer-te das coisas... já não consegues olhar por ti.

 

É claro que consigo! Não ouses falar comigo nesse tom! Jeannie mordeu o lábio. Tinha vontade de chorar de cada vez que olhava para a ruína daquela que fora sua mãe. Esta tinha feições marcadas: sobrancelhas pretas, olhos escuros, um nariz aquilino, uma boca larga e um queixo bem delineado. Essas feições repetiam-se em Jeannie e Patty, embora a mãe fosse pequena e elas altas como o pai. Todas eram tão determinadas quanto o sugeria a sua aparência: «formidável» era a palavra geralmente utilizada para descrever as mulheres Ferrami. Mas a mãe nunca mais voltaria a ser formidável. Sofria da doença de Alzheimer.

 

Ainda não completara sessenta anos. Jeannie, com vinte e nove, e Patty, com vinte e seis, tinham esperado que ela conseguisse olhar por si própria durante mais alguns anos, mas essa esperança fora destruída às cinco horas daquela manhã, quando um polícia de Washington telefonara a dizer que encontrara a mãe delas na Rua Dezoito em camisa de dormir, a chorar e a dizer que não conseguia lembrar-se onde vivia.

 

Jeannie entrara no carro e fora para Washington, que ficava a uma hora de Baltimore, numa manhã calma de domingo. Foi buscar a mãe à esquadra, levou-a para casa, lavou-a e vestiu-a e depois chamou Patty. As duas irmãs trataram de tudo para ela ser admitida no Bella Vista. Ficava em Colúmbia, entre Washington e Baltimore. A tia Rosa passara ali os seus últimos anos, pois tivera uma apólice igual à da mãe.

 

Não gosto deste sítio disse a mãe.

 

Nós também não garantiu Jeannie, mas agora não temos dinheiro para mais. Pretendera parecer razoável, mas as suas palavras foram ríspidas.

 

Patty olhou-a com uma expressão reprovadora.

 

Vá lá, mãe interveio, já vivemos em sítios piores. Era verdade. Depois de o pai ter ido para a prisão pela segunda vez, as duas raparigas e a mãe haviam vivido num quarto com uma chapa eléctrica sobre a cómoda e uma torneira no corredor. Sobreviveram nesses anos graças à Segurança Social. Porém, a mãe enfrentara a adversidade com unhas e dentes. Assim que Jeannie e Patty foram para a escola, arranjou uma mulher de confiança para olhar por elas quando chegassem a casa, procurou um emprego (havia sido cabeleireira, e ainda era boa, se bem que um tanto ou quanto antiquada) e mudaram-se para um pequeno apartamento de duas assoalhadas em Adams-Morgan, na altura um bairro operário respeitável.

 

Fazia fatias douradas ao pequeno almoço, mandava Jeannie e Patty para a escola com vestidos lavados, depois penteava-se e pintava-se (a trabalhar num salão, tinha de estar sempre apresentável) e deixava sempre a cozinha imaculada, com um prato de biscoitos em cima da mesa para as filhas comerem mais tarde. Aos domingos, as três limpavam o apartamento e lavavam a roupa. A mãe sempre fora uma pessoa tão capaz, tão de confiança, tão incansável que fazia pena olhar para aquela mulher esquecida e lamecha ali na cama.

 

Ela imobilizou-se, como se estivesse intrigada.

 

Jeannie perguntou, por que é que tens um brinco no nariz?

 

Jeannie tocou ao de leve na delicada argola prateada e sorriu.

 

Eu furei o nariz quando era miúda, mãe. Não te lembras que ficaste furiosa? Até julguei que ias expulsar-me de casa.

 

Não posso lembrar-me de tudo retorquiu a mãe.

 

Eu lembro-me bem interveio Patty. Achei isso espectacular. Mas nessa altura eu tinha onze anos e tu catorze, e tudo o que fazias era para mim ousado, moderno e inteligente.

 

E talvez fosse disse Jeannie, fingindo-se vaidosa. Patty deu uma gargalhada.

 

O mesmo não se pode dizer do casaco cor de laranja...

 

Meu Deus, esse casaco! Acabaste por queimá-lo depois de eu ter dormido com ele num prédio abandonado cheio de pulgas.

 

Disso recordo-me disse a mãe. Pulgas! Uma filha minha! Ainda parecia indignada, embora já se tivessem passado quinze anos.

 

A atmosfera ficou mais desanuviada. Aquelas recordações haviam-nas feito perceber que ainda continuavam muito chegadas. Era uma boa altura para se irem embora.

 

É melhor ir andando disse Jeannie, levantando-se.

 

Eu também secundou Patty. Tenho de fazer o jantar. Contudo, nenhuma das mulheres avançou em direcção à porta.

 

Jeannie teve a sensação de estar a abandonar a mãe, deixando-a sozinha numa altura daquelas. Ali, ninguém a amava. Devia ter alguém da família que olhasse por ela. Jeannie e Patty deviam ficar com a mãe, fazer-lhe a comida, engomar-lhe as camisas de noite e mudar a televisão para o seu canal preferido.

 

Quando voltarei a ver-vos? perguntou a mãe.

 

Jeannie hesitou. Queria dizer: «Amanhã trago-te o pequeno almoço e passo o dia contigo». Mas era impossível: tinha uma semana muito ocupada no emprego. Sentiu-se cheia de remorsos. «Como posso ser tão cruel?»

 

Patty salvou-a.

 

Eu venho amanhã, e trago os miúdos, se quiseres.

 

Contudo, a mãe não iria deixar Jeannie escapar-se com tanta facilidade.

 

Também vens, Jeannie? Esta mal conseguia falar.

 

Assim que puder. Quase engasgada com o sofrimento, inclinou-se sobre a cama e beijou a mãe. Amo-te muito, mamã. Não te esqueças disso.

 

Do lado de fora da porta, Patty desatou a chorar.

 

Jeannie teve vontade de fazer o mesmo, mas era a irmã mais velha e já há muito que tinha o hábito de controlar as suas emoções quando olhava por Patty. Colocou um braço sobre os ombros da irmã enquanto caminhavam pelo corredor anti-séptico. Patty não era fraca, mas mais sensível do que Jeannie, combativa e determinada. A mãe sempre a criticara, dizendo que ela deveria ser mais parecida com Patty.

 

Gostava muito de a ter comigo lá em casa, mas não posso lamentou-se Patty.

 

Jeannie concordou. Patty era casada com um carpinteiro chamado Zip. Viviam numa pequena casa com duas assoalhadas. O segundo quarto era partilhado pelos três filhos do casal: Davey tinha seis anos, Mel quatro e Tom dois. Não havia lugar para a avó.

 

Jeannie vivia sozinha. Enquanto professora assistente na Universidade Jones Falis, ganhava trinta mil dólares por ano, muito menos do que o marido de Patty, segundo calculava, e acabara de fazer a primeira hipoteca para comprar um apartamento de duas assoalhadas que mobilara a crédito. Tinha uma sala com uma pequena kitchenette e um quarto com um roupeiro e uma pequena casa de banho. Se desse a sua cama à mãe teria de dormir todas as noites no sofá, e durante o dia não havia ninguém em casa para tomar conta de uma mulher com a doença de Alzheimer.

 

Eu também não posso ficar com ela.

 

Então por que lhe disseste que havemos de a tirar daqui? perguntou, furiosa. Não podemos!

 

Saíram para o calor abrasador.

 

Amanhã vou ao banco pedir um empréstimo disse Jeannie. Metemo-la num sítio melhor e eu aumento o seguro dela.

 

Mas como é que vais depois conseguir pagar o empréstimo?


Hei-de ser promovida, depois encomendam-me um livro e a seguir sou contratada como consultora por três multinacionais.

 

Patty sorriu através das lágrimas.

 

Eu acredito em ti, mas será que o banco também?

 

Patty sempre acreditara em Jeannie. Ela própria nunca fora ambiciosa. Na escola andara sempre abaixo da média, casara com dezanove anos e preparara-se para criar filhos, aparentemente sem arrependimentos. Jeannie era o oposto. A melhor da aula e capitã de todas as equipas de desporto, fora campeã de ténis e frequentara a universidade com bolsas de estudo. Patty não duvidava das coisas que ela dizia que iria fazer.

 

No entanto, Patty tinha razão, o banco nunca concordaria com outro empréstimo depois de lhe ter concedido um para a compra do apartamento. E ainda há pouco começara a sua carreira de professora: só dali a três anos é que poderia ser promovida. Quando chegaram ao parque de estacionamento, Jeannie disse, desesperada:

 

Okay, vou vender o carro.

 

Ela adorava-o. Era um Mercedes 230 C com vinte anos, vermelho, de duas portas e bancos pretos em pele. Comprara-o havia oito anos, com os cinco mil dólares que recebera por ter ganho o Torneio de Ténis Mayfair Lites. E isso fora antes de ser considerado chique ter um Mercedes antigo.

 

Provavelmente vale o dobro daquilo que paguei por ele.

 

Mas terias de comprar outro carro contrapôs Patty, mais realista.

 

Tens razão concordou Jeannie, com um suspiro. Bom, posso dar umas explicações. É contra as regras da universidade, mas sempre posso ganhar quarenta dólares à hora a ensinar estatística a alunos ricos que chumbaram nos exames de outras universidades. Talvez conseguisse sacar trezentos dólares por semana. Sem impostos, se não o declarar. Olhou a irmã nos olhos. Consegues poupar alguma coisa?

 

Patty desviou o olhar.

 

Não sei.

 

O Zip ganha mais do que eu.

 

Ele mata-me se souber que eu disse isto, mas creio que talvez consigamos juntar setenta e cinco ou oitenta dólares por semana respondeu Patty, por fim. Vou dizer-lhe para pedir um aumento.

 


Ele tem vergonha de pedir essas coisas, mas sei que merece e o patrão gosta dele

 

Jeannie começou a ficar mais animada, embora a perspectiva de passar os domingos a dar explicações não lhe agradasse muito

 

Com mais cem dólares por semana, talvez consigamos pôr a mãe num quarto individual com casa de banho privativa

 

E poderia ter mais das suas coisas com ela, alguns bibelôs e móveis do apartamento

 

Vamos investigar e saber se alguém conhece um bom lar.

 

Está bem. Patty continuava pensativa. A doença da mãe é hereditária, não é? Vi um programa na televisão sobre isso

 

Jeannie assentiu

 

Há um gene defeituoso, o AD três, que está ligado ao aparecimento prematuro da Alzheimer. Ficava no cromossoma 14q243, recordou-se Jeannie, mas isso nada significaria para Patty

 

Isso quer dizer que nós vamos acabar como a mãe?

 

Quer dizer que há fortes probabilidades de que isso aconteça. Ficaram em silêncio durante alguns minutos. A possibilidade de perder a memória era demasiado aterradora para ser discutida

 

Ainda bem que tive os meus filhos cedo comentou Patty. Quando isso me acontecer já serão suficientemente crescidos para olharem por si

 

Jeannie percebeu a indirecta. Tal como a mãe, Patty achava que havia algo de errado numa mulher com vinte e nove anos sem filhos

 

O facto de terem descoberto o gene é positivo e pode dar-nos alguma esperança disse Jeannie. Quando tivermos a idade da mãe talvez consigam injectar-nos uma versão modificada do nosso ADN que não contenha o gene fatal

 

Falaram disso na televisão. Tecnologia do ADN recombinante, não é?

 

Jeannie sorriu

 

Exacto

 

Estás a ver, não sou assim tão estúpida

 

Nunca achei que fosses estúpida

 

Mas há uma questão, o ADN faz-nos ser aquilo que somos. Então, se mudares o meu ADN, será que me transformo numa pessoa diferente?


Não é só o ADN que te faz ser o que és. É também a tua educação. É disso que trata o meu trabalho.

 

E que tal vai ele?

 

É empolgante. Esta é a minha grande oportunidade, Patty. Muita gente leu o meu artigo sobre criminalidade e sobre se ela está contida nos nossos genes. O artigo, publicado no ano anterior, quando ela frequentava ainda a Universidade de Minnesota, ostentara o nome do coordenador por cima do seu, embora tivesse sido ela a fazer todo o trabalho.

 

Não consegui perceber se dizia que a criminalidade é ou não herdada.

 

Identifiquei quatro características herdadas que conduzem ao comportamento criminoso: impulsividade, intrepidez, agressão e hiperactividade, mas a minha grande teoria é que certas formas de educação contrapõem essas características e transformam potenciais criminosos em bons cidadãos.

 

Como é que podes provar uma coisa dessas?

 

Estudando gémeos univitelinos criados separadamente. Esses gémeos têm o mesmo ADN. E quando são adoptados à nascença, ou separados por qualquer razão, são educados de maneira diferente. Por isso, procuro pares de gémeos em que um seja um criminoso e o outro um indivíduo normal. Depois estudo a forma como foram educados e o que é que os pais fizeram de diferente.

 

O teu trabalho é muito importante disse Patty.

 

Também acho.

 

Temos de descobrir por que motivo tantos americanos são actualmente criminosos.

 

Jeannie assentiu. Resumidamente, era isso.

 

Patty virou-se para o seu carro, uma carrinha Ford com carroçaria de madeira com a mala cheia de brinquedos: um triciclo, um carrinho de bebé desmontado, várias raquetas e bolas e um camião de plástico com o volante partido.

 

Dá um beijinho aos miúdos, está bem? disse Jeannie.

 

Obrigada. Telefono-te amanhã depois de ir visitar a mãe. Jeannie tirou as chaves da mala, hesitou, depois aproximou-se de Patty e abraçou-a.

 

Amo-te, mana.

 

Eu também te amo.

 


Jeannie entrou no carro e arrancou

 

Sentia-se desnorteada e inquieta, com sentimentos indefinidos em relação à mãe, a Patty e ao pai, que não estava presente. Entrou na 1-70 e seguiu a grande velocidade, ziguezagueando por entre os carros Perguntava a si própria o que ia fazer durante o resto do dia, depois lembrou-se de que tinha combinado ir jogar ténis às seis e em seguida comer uma pizza com um grupo de alunos do último ano e alguns professores do departamento de psicologia da Jones Falis. Apeteceu-lhe cancelar tudo Mas não estava com vontade de passar a noite a pensar na morte da bezerra. Decidiu ir jogar ténis. O exercício faria com que se sentisse melhor. Depois iria ao Bar Andy’s, ficaria lá cerca de uma hora e iria cedo para a cama

 

Mas as coisas não correram dessa forma

 

O seu adversário no ténis era Jack Budgen, o bibliotecário principal da universidade. Já jogara em Wimbledon e, embora agora fosse careca e tivesse cinquenta anos, ainda se mantinha em forma e não perdera a perícia. Jeannie nunca fora a Wimbledon. O ponto mais alto da sua carreira fora um lugar na equipa olímpica de ténis enquanto estudante Mas era mais forte e rápida do que Jack

 

Jogaram num dos courts de terra batida do complexo universitário. Eram dois antagonistas à altura um do outro e o jogo atraiu alguns espectadores. Não havia uma norma rígida em relação ao equipamento, mas, por hábito, Jeannie levava sempre calções brancos e um pólo da mesma cor. Tinha cabelo escuro comprido, não sedoso e liso como o de Patty, mas encaracolado e indomável, por isso prendeu-o debaixo do boné

 

O serviço de Jeannie era dinamite e o slash oblíquo poderosíssimo. Jack não pôde fazer muito quanto ao serviço, mas depois dos primeiros lançamentos certificou-se de que ela não tinha muitas oportunidades de utilizar o... oblíquo. Fez um jogo de astúcia, poupando as energias e deixando Jeannie cometer os erros. Ela jogava com agressividade, falhando nos serviços e correndo para a rede demasiado cedo. Num dia normal», pensou ela, «poderia ganhar-lhe, mas hoje não conseguia concentrar-se nem adivinhar que jogo ele faria. Cada um ganhou uma partida, depois a terceira chegou aos 5-4 a favor dele e ela teve de servir para continuar a jogar


O jogo prosseguiu com dois empates, depois Jack ganhou um ponto e ficou em vantagem. Jeannie serviu para a rede e a audiência soltou um «ah! de espanto. Em vez de um segundo serviço normal, mais lento, ela mandou a precaução às urtigas e tornou a fazer o serviço como se fosse o primeiro. Jack chegou a custo à bola e devolveu-a com um golpe oblíquo. Ela acertou-lhe e correu para a rede. Mas Jack não estava tão desequilibrado como fizera crer e devolveu-lhe uma bola alta perfeita, que lhe passou por cima da cabeça e foi cair na linha de fundo, dando-lhe a vitória.

 

Jeannie ficou a olhar para a bola, com as mãos nas ancas, furiosa consigo mesma. Embora já há alguns anos não jogasse a sério, ainda encarava aquilo como uma competição e era-lhe difícil aceitar a derrota. Depois acalmou-se e sorriu, virando-se.

 

Boa jogada! exclamou.

 

Aproximou-se da rede e apertou-lhe a mão. Os espectadores aplaudiram.

 

Um jovem aproximou-se dela.

 

Foi um grande jogo! exclamou ele com um enorme sorriso. Jeannie avaliou-o com um único olhar. Era um borracho: alto,

 

atlético, cabelo louro encaracolado bastante curto e bonitos olhos azuis. Naquele momento estava a atirar-se a ela a todo o gás. Não se sentia com disposição.

 

Obrigada respondeu, lacónica.

 

Ele tornou a sorrir, um sorriso descontraído e confiante, que dizia que a maior parte das raparigas ficava feliz quando ele lhes dirigia a palavra, independentemente de fazer ou não sentido.

 

Eu também jogo um pouco de ténis, e estava a pensar...

 

Se só jogas um pouco de ténis, provavelmente jogas pior do que eu ripostou Jeannie, passando por ele.

 

Ouviu-o responder bem humorado:

 

Então devo pressupor que um jantar romântico seguido de uma noite de amor está fora de questão?

 

Ela não conseguiu evitar sorrir, pelo menos pela sua insistência, e reconheceu que fora mais ríspida do que o necessário. Virou a cabeça e falou por cima do ombro, sem se deter:

 

Sim, mas obrigada pelo convite.

 

Saiu do court e dirigiu-se aos balneários. Interrogou-se sobre o que estaria a mãe a fazer naquele momento. Já devia ter jantado. Eram sete e meia e nos lares serviam sempre cedo as refeições. Provavelmente estaria a ver televisão na sala comum. Talvez arranjasse uma amiga, uma mulher da sua idade que tolerasse os seus esquecimentos e se interessasse pelas fotografias dos netos. A mãe já tivera muitos amigos, as outras mulheres do salão de cabeleireiro, algumas das clientes vizinhas, pessoas que conhecera durante vinte e cinco anos, mas era difícil conservar essas amizades quando todo o tempo se esquecia de quem eram as pessoas

 

Quando passou pelo campo de hóquei deparou com Lisa Hoxton. Lisa era a única amiga que ela fizera desde que chegara à Jones Falis, havia um mês. Era técnica no laboratório de psicologia. Formara-se em Ciências, mas não queria seguir a carreira académica Tal como Jeannie, era oriunda de famílias pobres e sentia-se intimidada pelo prestígio da Jones Falis. Haviam simpatizado imediatamente uma com a outra

 

Um miúdo acabou de tentar engatar-me disse Jeannie com um sorriso

 

Como é que ele era?

 

Parecido com o Brad Pitt, só que mais alto

 

Disseste-lhe que tinhas uma amiga quase da idade dele? perguntou Lisa, que tinha vinte e quatro anos

 

Não. Jeannie olhou por cima do ombro, mas o homem não estava à vista. Não pares, para o caso de ele me seguir

 

Achaste-o assim tão mau?

 

Anda daí

 

Jeannie, tens é de fugir dos feios.

 

Pára com isso.

 

Podias ter-lhe dado o meu número de telefone

 

Devia era ter-lhe dado o número do teu soutien, e não seria preciso mais nada

 

Lisa deteve-se Por um momento, Jeannie pensou que tinha ido demasiado longe e que ofendera Lisa. Começou à procura de uma desculpa

 

Que boa ideia. exclamou Lisa, então «Sou uma trinta e seis D. Para mais informação, contacte este número. É também muito subtil

 

Eu tenho é inveja. Sempre quis ser mamalhuda disse Jeannie, e riram-se ambas. Mas a verdade é que rezei para ter mamas


Fui a última rapariga da turma a ter o período, o que foi um pouco embaraçoso.

 

Chegaste mesmo a pedir de joelhos, ao lado da cama, «Meu Deus, por favor, faz com que as minhas mamas cresçam».

 

Por acaso rezei à Virgem Maria. Achei que era um assunto mais próprio de mulheres. E não disse «mamas», é claro.

 

Então o que disseste, «seios»?

 

Não, achei que não podia dizer «seios» à Virgem.

 

Então o que lhes chamaste?

 

«Boiazinhas». Lisa desatou a rir.

 

Não sei onde é que ouvi a palavra, com certeza nalguma conversa de homens. Achei que era um bom eufemismo. Nunca contei isto a ninguém.

 

Lisa olhou para trás.

 

Bom, não vejo nenhum rapaz bem parecido atrás de nós. Creio que despistámos o Brad Pitt.

 

Ainda bem. Ele era mesmo o meu género: bonito, sexy, cheio de autoconfiança, mas de pouca confiança.

 

Como é que sabes que não podes confiar nele? Só o viste durante vinte segundos!

 

Não se pode confiar em nenhum homem.

 

Se calhar tens razão. Vais logo ao Andy’s?

 

Sim, mas só por uma hora. Primeiro tenho de tomar duche. Tinha o pólo encharcado em suor.

 

Eu também. Lisa trazia calções e ténis. Estive a treinar com a equipa de hóquei. Mas porquê só por uma hora?

 

Tive um dia difícil. O jogo distraíra-a um pouco, mas naquele momento fez uma careta quando se lembrou de tudo. Tive de meter a minha mãe num lar.

 

Oh!, Jeannie, lamento.

 

Jeannie contou-lhe a história enquanto entravam no edifício do ginásio e desciam as escadas até à cave. No vestiário, viu a sua imagem e a da amiga ao espelho. Eram completamente diferentes fisicamente. Lisa era mais baixa do que a média e Jeannie tinha quase um metro e oitenta. Lisa era loura e voluptuosa, ao passo que Jeannie era morena e atlética. Lisa tinha um rosto bonito, com algumas sardas, um narizinho arrebitado e lábios grossos. A maior parte das pessoas dizia que Jeannie era vistosa, alguns homens consideravam-na engraçada, mas nunca ninguém lhe chamara bonita.

 

E o teu pai? perguntou Lisa, enquanto tiravam a roupa suada. Não falaste nele.

 

Jeannie suspirou. Aprendera a temer aquela pergunta desde pequena, mas ela acabava invariavelmente por surgir, mais cedo ou mais tarde. Mentira durante muitos anos, dizendo que o pai morrera, ou que tinha desaparecido, ou que tornara a casar e fora trabalhar para a Arábia Saudita, mas nos últimos tempos começara a dizer a verdade.

 

O meu pai está preso.

 

Oh!, meu Deus! Não devia ter perguntado.

 

Não faz mal. Esteve preso quase toda a minha vida. É ladrão. Já é a terceira pena que cumpre.

 

De quanto tempo é esta?

 

Não me lembro, mas também não interessa. Quando sair, não servirá para nada. Nunca tomou conta de nós e não é agora que vai começar.

 

Nunca teve um emprego regular?

 

Só quando queria assaltar algum sítio. Trabalhava lá como zelador, porteiro ou segurança durante uma semana ou duas antes de o roubar.

 

É por isso que estás tão interessada na genética dos criminosos? perguntou Lisa.

 

Talvez.

 

Provavelmente, não retorquiu Lisa com um gesto, a afastar o assunto. Seja como for, detesto amadorismo na psicanálise.

 

Foram para os duches. Jeannie demorou mais tempo, pois lavou a cabeça. Sentia-se grata pela amizade de Lisa. Esta já estava em Jones Falis havia um ano e fizera as honras da casa a Jeannie quando ela chegara no princípio do semestre. Jeannie gostava de trabalhar com Lisa no laboratório, porque ela era uma pessoa de grande confiança, e gostava de sair com ela depois do trabalho, porque sentia que podia dizer o que lhe viesse à cabeça sem ter medo de chocá-la.

 

Estava a pôr amaciador no cabelo quando começou a ouvir ruídos estranhos. Imobilizou-se e escutou. Pareciam gritos de medo. Um arrepio de ansiedade percorreu-a, fazendo-a tremer. De repente, sentiu-se vulnerável: nua, molhada, ali debaixo da terra. Hesitou, depois enxaguou rapidamente o cabelo antes de sair do duche para ver o que estava a passar-se.

 

Sentiu o cheiro a queimado assim que fechou a água. Não via fogo, mas havia nuvens espessas de fumo negro e cinzento junto ao tecto. Parecia sair dos ventiladores.

 

Sentiu medo. Nunca estivera num incêndio.

 

As raparigas mais calmas pegavam nos sacos e dirigiam-se para a porta. Outras estavam histéricas, gritando umas às outras com vozes assustadas e correndo de um lado para o outro. Um segurança idiota, com uma bandaria a cobrir a boca e o nariz, assustava-as ainda mais, andando por ali a gritar ordens.

 

Jeannie sabia que não devia perder tempo a vestir-se, mas não tinha coragem de sair nua do edifício. O medo corria nas suas veias como água gelada, mas ela obrigou-se a ter calma. Encontrou o seu cacifo. Não viu Lisa em lado nenhum. Agarrou na roupa, vestiu as calças de ganga e enfiou a T-shirt,

 

Demorou apenas alguns segundos, mas durante esse tempo o vestiário ficara vazio de pessoas e enchera-se de fumo. Já não conseguia ver a porta e começou a tossir. Assustou-se ao pensar que não conseguiria respirar. «Sei onde é a porta e só tenho de manter a calma», disse a si própria. Tinha as chaves e o dinheiro no bolso das calças. Pegou na raqueta de ténis. Sustendo a respiração, passou pelos cacifos em direcção à saída.

 

O corredor estava cheio de fumo e os olhos começaram a lacrimejar, pelo que quase ficou cega. Desejou ter saído nua, ganhando assim alguns segundos preciosos. As calças não a ajudavam a ver melhor o caminho ou a respirar através do fumo. E não fazia mal estar nua se já estivesse morta.

 

Apoiou a mão trémula à parede para se orientar e correu pelo corredor, ainda a suster a respiração. Pensou que talvez colidisse com outras raparigas, mas parecia todas terem saído antes. Quando a parede acabou, soube que estava no pequeno vestíbulo, embora só conseguisse ver nuvens de fumo. As escadas deviam ser em frente. Atravessou o átrio e esbarrou na máquina de Coca-Cola. As escadas seriam à esquerda ou à direita? «À esquerda», pensou. Seguiu nessa direcção, depois bateu na porta do vestiário dos homens e apercebeu-se de que errara.


Já não conseguia suster a respiração. Com um gemido, inspirou. Era quase só fumo e tossiu. Recuou a cambalear até à parede, ainda a tossir, as narinas a arder, os olhos lacrimejantes, mal conseguindo ver as próprias mãos. Desejou com todas as forças do seu ser inspirar uma lufada do ar que tomara como certo durante vinte e nove anos. Seguiu a parede até à máquina de Coca-Cola e contornou-a. Soube que encontrara as escadas quando tropeçou no último degrau. Deixou cair a raqueta, que deslizou para fora do seu raio de visão. Era especial, ganhara o Torneio Mayfair Lites com ela, mas deixou-a para trás e subiu as escadas de gatas.

 

O fumo ficou menos espesso quando chegou ao espaçoso átrio do rés-do-chão. Viu as portas abertas. Junto a elas encontrava-se um segurança.

 

Vá lá, despacha-te! gritou o homem.

 

Jeannie atravessou o átrio a cambalear e a tossir e saiu para o abençoado ar puro.

 

Ficou junto aos degraus durante dois ou três minutos, dobrada, inspirando e expelindo o fumo dos pulmões. Quando a respiração estava quase normal, ouviu uma sirena à distância. Olhou em volta à procura de Lisa, mas não a viu.

 

Estaria ela ainda lá dentro? Abalada, Jeannie avançou por entre a multidão, olhando os rostos. Agora que estavam fora de perigo, havia muitos risos nervosos. A maior parte das alunas encontrava-se mais ou menos despida, pelo que havia uma curiosa atmosfera de intimidade. As que tinham conseguido levar os sacos emprestavam roupa às menos afortunadas. As raparigas nuas agradeciam as T-shirts sujas e transpiradas das amigas. Havia muitas apenas cobertas com toalhas.

 

Lisa não estava entre elas. Cada vez mais ansiosa, Jeannie tornou a aproximar-se do segurança junto à porta.

 

Acho que a minha amiga ainda está lá em baixo disse, ouvindo o tremor na sua própria voz.

 

Eu não vou à procura dela retorquiu ele rapidamente.

 

Que homem tão corajoso! escarneceu Jeannie. Não sabia bem o que esperava que ele fizesse, mas não contava que fosse completamente inútil.

 

Ele ficou ressentido.

 

Isso é trabalho deles disse, apontando para o carro de bombeiros que se aproximava.


Jeannie começou a temer pela vida de Lisa, mas não sabia o que fazer. Viu, impaciente e impotente, os bombeiros a descer do carro e a colocar as máscaras de oxigénio. Parecia mexerem-se tão devagar que sentiu vontade de gritar-lhes: «Despachem-se, despachem-se!» Chegou outro carro de bombeiros, depois um carro-patrulha com a risca azul e prateada da Polícia de Baltimore.

 

Quando os bombeiros arrastaram uma mangueira para o edifício, um bombeiro deteve o segurança e perguntou-lhe:

 

Onde acha que o fogo começou?

 

No vestiário das mulheres respondeu o segurança.

 

E onde fica isso?

 

Na cave, ao fundo.

 

Quantas saídas há na cave?

 

Apenas uma, as escadas que vêm dar aqui ao átrio.

 

Um homem da manutenção que se encontrava perto corrigiu-o.

 

Há uma escada na sala das máquinas da piscina que dá para um alçapão nas traseiras do edifício.

 

Acho que a minha amiga ainda deve estar lá dentro disse Jeannie ao bombeiro.

 

Como é que ela é?

 

Baixinha, loura, com vinte e quatro anos.

 

Se ainda lá estiver, havemos de encontrá-la.

 

Jeannie sentiu-se mais tranquila. Depois percebeu que ele não prometera encontrá-la viva.

 

O segurança que estivera no vestiário não se encontrava à vista.

 

Havia outro segurança lá em baixo disse ela ao bombeiro. Não o vejo aqui. Era alto.

 

Não há mais nenhum segurança no edifício retorquiu o do átrio.

 

Bem, ele tinha um boné com a palavra «Segurança» e disse-nos para sairmos do edifício.

 

Não me interessa o que ele tinha escrito no chapéu...

 

Oh!, por amor de Deus, deixe-se de discussões! gritou Jeannie. Talvez eu o tenha imaginado, mas, se não foi esse o caso, a vida dele pode estar em perigo!

 

A ouvi-los estava uma rapariga com calças de caqui.

 

Eu vi esse tipo. É um patife disse ela. Apalpou-me.

 

Tenham calma, havemos de encontrar toda a gente disse o bombeiro. Obrigado pela vossa ajuda. E afastou-se

 

Jeannie lançou um olhar irado ao segurança. Pensava que o bombeiro a achara uma histérica por ter gritado ao homem. Virou-lhe as costas, triste. O que iria fazer agora? Os bombeiros entraram a correr no edifício com capacetes e botas. Ela estava descalça e de T-shirt. Se tentasse entrar com eles seria mandada embora. Cerrou os punhos, furiosa. «Pensa, pensa! Onde mais pode a Lisa estar»

 

O ginásio ficava ao lado do Edifício de Psicologia Ruth W. Acorn, que recebera o nome da mulher de um dos benfeitores, mas era mais conhecido por «Manicómio. Poderia Lisa ter ido para lá? As portas deviam estar fechadas, pois era domingo, mas provavelmente ela tinha uma chave. Talvez tivesse corrido para lá à procura de uma bata para se tapar ou para se sentar à secretária a recuperar. Jeannie decidiu ir ver. Qualquer coisa era melhor do que ficar ali sem fazer nada.

 

Atravessou o relvado a correr em direcção ao «Manicómio» e espreitou através dos vidros. Não havia ninguém no átrio. Tirou do bolso o cartão de plástico que servia de chave e enfiou-o na ranhura. A porta abriu-se. Jeannie subiu as escadas a correr.

 

Lisa’ Estás aí? chamou.

 

O laboratório encontrava-se deserto. A cadeira de Lisa estava encostada à secretária e no monitor do computador nada se via. Jeannie experimentou a casa de banho ao fundo do corredor. Nada.

 

Raios! exclamou, em pânico. Onde estás tu?

 

A ofegar, correu para fora. Decidiu dar a volta ao ginásio, não fosse Lisa estar sentada algures na relva a recuperar o fôlego. Percorreu um dos lados do edifício passando por uma zona cheia de contentores de lixo enormes. Nas traseiras havia um pequeno parque de estacionamento. Viu um vulto a correr, afastando-se. Era demasiado alto para ser Lisa, e ela tinha a certeza de que era um homem. Pensou que talvez fosse o segurança desaparecido, mas evaporou-se na esquina da associação de estudantes antes de ela poder ter a certeza.

 

Continuou a contornar o edifício. No lado mais afastado havia uma pista de atletismo, agora vazia. Completando a volta, chegou à frente do ginásio.

 

A multidão agigantara-se e havia mais carros de bombeiros e carros-patrulha, mas não conseguiu ver Lisa. Tinha quase a certeza de que ela ainda se encontrava no interior do edifício. Pressentiu uma fatalidade, mas esforçou-se por não pensar nisso. «Não podes permitir que isto aconteça!»

 

Avistou o bombeiro com quem falara anteriormente. Agarrou-lhe no braço.

 

Tenho quase a certeza de que a Lisa Hoxton está lá dentro disse, num tom aflito. Já a procurei em toda a parte.

 

O homem observou-a com um olhar frio e pareceu decidir que ela era de confiança. Sem lhe responder, levou o walkie-talkie à boca.

 

Procurem uma jovem branca que deve estar dentro do edifício. Chama-se Lisa, repito, Lisa.

 

Obrigada agradeceu Jeannie.

 

Ele acenou com a cabeça e afastou-se a passos largos.

 

Jeannie sentiu-se satisfeita por ele lhe ter dado ouvidos, mas não ficou mais descansada. Lisa poderia estar presa algures, trancada numa casa de banho ou encurralada pelas chamas, gritando por ajuda sem que ninguém a ouvisse; ou podia ter caído, batido com a cabeça e desmaiado, ou sucumbira ao fumo e estava inconsciente, no chão, enquanto as chamas se aproximavam a cada segundo.

 

Jeannie lembrou-se que o homem da manutenção tinha dito que havia outra entrada para a cave. Não a vira quando dera a volta ao ginásio. Decidiu ir procurar de novo. Regressou às traseiras do edifício.

 

Viu-a de imediato. O alçapão ficava rente ao edifício e estava parcialmente escondido por um Chrysler New Yorker cinzento. O alçapão estava aberto, a tampa, de aço, encostada à parede. Jeannie ajoelhou-se junto ao buraco quadrado e inclinou-se para espreitar.

 

Uma escada conduzia a uma sala suja iluminada por lâmpadas fluorescentes. Viu máquinas e muitos tubos. Havia algum fumo no ar, mas nada de nuvens espessas: não devia ter ligação com o resto da cave. No entanto, o cheiro a fumo fê-la lembrar-se de como tossira enquanto procurava as escadas, e o seu coração bateu mais depressa.

 

Está aí alguém? perguntou.

 

Julgou ter ouvido um ruído, mas não teve a certeza. Gritou com mais força.


Está aí alguém? Não obteve resposta.

 

Hesitou. O mais sensato era regressar à parte da frente do edifício e ir chamar um bombeiro, mas isso poderia demorar muito, especialmente se o bombeiro decidisse fazer-lhe perguntas. A alternativa era descer as escadas e dar uma olhadela.

 

A hipótese de voltar a entrar no edifício deixou-lhe as pernas trémulas. O seu peito ainda doía devido aos espasmos da tosse provocada pelo fumo, mas Lisa podia estar lá em baixo, ferida e incapaz de se mexer, ou encurralada por um pedaço de madeira caída, ou apenas desmaiada. Tinha de ir ver.

 

Acalmou os nervos e apoiou um pé na escada. Não tinha muita força nos joelhos e quase caiu. Hesitou. Passado um momento sentiu-se mais forte e desceu um degrau. Depois, uma nuvem de fumo entrou-lhe pela garganta, fazendo-a tossir, e tornou a subir.

 

Quando deixou de tossir, voltou a tentar.

 

Desceu um degrau, depois dois. «Se o fumo me fizer tossir, saio outra vez», disse a si mesma. O terceiro degrau foi mais fácil, e depois desceu rapidamente os restantes, saltando o último firmando os pés no chão de cimento.

 

Viu-se numa enorme sala cheia de bombas e filtros, presumivelmente para a piscina. O cheiro a fumo era intenso, mas conseguia respirar normalmente.

 

Viu Lisa imediatamente, e o seu aspecto deixou-a boquiaberta.

 

Estava deitada de lado, na posição fetal, nua. Tinha uma mancha na coxa que parecia ser de sangue. Não se mexia.

 

Durante momentos, Jeannie ficou imóvel devido ao medo.

 

Tentou controlar-se.

 

Lisa! gritou. Apercebeu-se da histeria na sua voz e inspirou para manter a calma. «Por favor, meu Deus, faz com que ela esteja bem». Atravessou a sala, através do emaranhado de tubos, e ajoelhou-se ao lado da amiga. Lisa?

 

Lisa abriu os olhos.

 

Graças a Deus! exclamou Jeannie. Pensei que estavas morta.

 

Lisa sentou-se, devagar. Não olhou para Jeannie. Tinha os lábios inchados.

 

Ele... ele violou-me sussurrou.

 


O alívio que Jeannie sentira por tê-la encontrado viva foi substituído por uma sensação de horror.

 

Meu Deus! Aqui? Lisa assentiu.

 

Disse que a saída era por aqui.

 

Jeannie fechou os olhos. Sentiu a dor e a humilhação de Lisa, a sensação de ser invadida, violada e conspurcada. Vieram-lhe lágrimas aos olhos, mas conseguiu reprimi-las. Durante um momento, sentiu-se demasiado fraca e nauseada para dizer fosse o que fosse.

 

Depois tentou controlar-se.

 

Quem era ele?

 

Um segurança.

 

Com uma bandaria na cara?

 

Tirou-a. Lisa virou o rosto. Estava sempre a sorrir. Era de esperar. A rapariga das calças de caqui dissera que o homem a apalpara. O segurança do átrio afirmara que não havia mais colegas seus no edifício.

 

Ele não era segurança disse Jeannie.

 

Ainda há uns minutos o vira afastar-se a correr. Uma onda de fúria inundou-a ao imaginar o que ele fizera ali, no complexo universitário, no edifício do ginásio, onde todas elas se sentiam em segurança para poder tirar a roupa e tomar duche. As suas mãos tremiam, e teve vontade de ir atrás dele e estrangulá-lo.

 

Ouviu barulho: homens a gritar, passos e água a correr. Os bombeiros estavam a utilizar as mangueiras.

 

Olha, aqui estamos em perigo disse, num tom urgente. Temos de sair do edifício.

 

Não tenho roupa retorquiu Lisa, sem entoação. «Podemos morrer aqui!»

 

Não te preocupes com a roupa, lá fora metade das pessoas está nua. Jeannie olhou em volta rapidamente e viu o soutien e as cuecas vermelhas de Lisa atrás de um tanque, cheios de pó. Foi buscá-los. Veste isto. Está sujo mas é melhor do que nada.

 

Lisa continuou sentada no chão, com o olhar vazio.

 

Jeannie esforçou-se por não entrar em pânico. O que poderia fazer se Lisa recusasse sair dali? Poderia pegar-lhe ao colo, mas conseguiria carregá-la escada acima?


Vá lá, levanta-te! exclamou. Agarrando nas mãos da amiga, puxou-a até ela ficar de pé.

 

Por fim, Lisa olhou para ela.

 

Foi horrível, Jeannie disse. Jeannie abraçou-a com força.

 

Lamento, Lisa, lamento muito.

 

O fumo era cada vez mais denso, apesar da porta pesada. O medo substituiu a piedade no seu coração.

 

Temos de sair daqui... isto está tudo a arder. Veste isto, por amor de Deus!

 

Lisa começou então a mexer-se. Enfiou as cuecas e apertou o soutien. Jeannie pegou-lhe na mão, conduziu-a até à escada na parede e fê-la subir primeiro. Quando Jeannie a seguiu, a porta abriu-se e um bombeiro entrou, envolto numa nuvem de fumo. A água fazia remoinhos à volta das suas botas. Ficou admirado ao vê-las.

 

Estamos bem, vamos sair por aqui! gritou-lhe Jeannie. Em seguida, seguiu Lisa escada acima.

 

Pouco depois, estavam lá fora a respirar o ar puro.

 

Jeannie sentia-se fraca de tanto alívio: tirara Lisa do incêndio. Mas agora a amiga precisava de ajuda. Pôs-lhe um braço à volta dos ombros e conduziu-a até à parte da frente do edifício. Nas bermas havia carros de bombeiros e carros-patrulha. A maior parte das raparigas na multidão já encontrara algo com que tapar a nudez e Lisa dava nas vistas com a sua roupa interior vermelha.

 

Alguém tem um par de calças a mais, ou qualquer outra coisa? perguntou Jeannie, enquanto abriam caminho por entre a multidão. Já ninguém tinha mais nada. Jeannie teria dado a sua T-shirt à amiga, mas não trazia soutien.

 

Por fim, um negro alto tirou a camisa e estendeu-a a Lisa.

 

Depois quero-a de volta, é Ralph Lauren disse ele. Chamo-me Mitchell Waterfield e sou do departamento de matemática.

 

Não me esqueço afirmou Jeannie, grata.

 

Lisa vestiu a camisa. Como era baixa, ela chegava-lhe aos joelhos.

 

Jeannie achou que estava a conseguir controlar o pesadelo. Conduziu Lisa até junto de três polícias encostados a um carro-patrulha, de braços cruzados. Dirigiu-se ao mais velho, um gordo de bigode cinzento.

 

Esta mulher chama-se Lisa Hoxton. Foi violada. Esperava que ficassem electrizados com a notícia de que fora cometido um grande crime, mas a reacção deles foi banal. Levaram alguns segundos a digerir a informação, e Jeannie estava já para gritar com eles quando o do bigode se desencostou do carro.

 

Onde é que foi isso? perguntou.

 

Na cave do edifício que está a arder, na sala das máquinas da piscina. Fica nas traseiras.

 

Um dos outros, um jovem negro, interveio:

 

Neste momento, os bombeiros devem andar à mangueirada a destruir as provas, sargento.

 

Tens razão concordou o mais velho. É melhor ires até lá abaixo, Lenny, salvar a cena do crime. Lenny afastou-se a correr. O sargento virou-se para Lisa. Conhecia o homem que a violou, Miss Hoxton?

 

Lisa abanou a cabeça.

 

É um tipo alto, branco, com um boné vermelho a dizer «Segurança» à frente. Entrou no vestiário das mulheres pouco depois de o incêndio ter deflagrado e acho que o vi a correr para fora da universidade pouco antes de ter encontrado a Lisa.

 

O polícia aproximou-se do carro e puxou o microfone do rádio. Disse algumas palavras e depois voltou a pendurá-lo.

 

Se for suficientemente idiota para continuar com o boné, devemos apanhá-lo declarou. Depois dirigiu-se ao terceiro polícia. McHenty, leva a vítima para o hospital.

 

McHenty era um jovem de óculos.

 

Quer ir à frente ou atrás? perguntou ele a Lisa. Lisa não respondeu, mas ficou apreensiva.

 

Vai à frente, senão parece que vais detida.

 

Não vens comigo? perguntou Lisa, aterrorizada.

 

Vou, se quiseres. Ou posso ir buscar alguma roupa a casa e encontrar-me contigo no hospital.

 

Lisa lançou a McHenty um olhar preocupado.

 

Agora estás em segurança tranquilizou-a Jeannie. McHenty abriu a porta do carro-patrulha e Lisa entrou.

 

Para que hospital vai? perguntou Jeannie.


Santa Teresa respondeu o homem, entrando no carro

 

Estarei lá daqui a uns minutos gritou ela quando o carro se afastou.

 

Correu até ao parque de estacionamento da faculdade, já arrependida de não ter ido com Lisa. A amiga parecera muito assustada e abalada. É claro que precisava de roupa lavada, mas talvez tivesse mais necessidade da presença de outra mulher, de alguém que a acompanhasse, lhe agarrasse na mão e a tranquilizasse. Provavelmente, a última coisa que queria era ficar sozinha com um machão armado. Quando entrou no carro, Jeannie sentiu que tinha feito asneira.

 

Bolas, que dia! exclamou, saindo do parque de estacionamento a toda a velocidade.

 

Vivia perto do complexo universitário e o seu apartamento situava-se no primeiro andar de uma pequena vivenda. Estacionou em fila dupla e correu para casa.

 

Lavou rapidamente as mãos e a cara e depois vestiu roupas lavadas. Perguntou-se que roupas suas serviriam a Lisa, mais baixa e forte. Pegou num pólo largo e num par de calças de fato de treino com cintura de elástico. A roupa interior era mais problemática. Achou que um par de boxers de homem lhe deveriam servir, mas os seus soutiens eram muito pequenos. Juntou uns sapatos, meteu tudo num saco e saiu de novo a correr.

 

Enquanto seguia para o hospital, a sua disposição mudou. Desde que o incêndio deflagrara, estivera apenas concentrada no que tinha de fazer, agora começava a ficar furiosa. Lisa era uma rapariga alegre e tagarela, mas o choque e o horror daquilo que lhe acontecera transformara-a num zumbi, com medo até de entrar sozinha num carro da Polícia.

 

Numa rua cheia de lojas. Jeannie começou a procurar o tipo do boné vermelho, imaginando que se o visse subiria o passeio com o carro e o atropelaria, mas a verdade é que seria incapaz de reconhecê-lo. Ele devia ter tirado o lenço e provavelmente também o boné. O que mais tinha vestido? Ficou chocada ao verificar que não se lembrava. Uma T-shirt qualquer, pensou, um par de calças de ganga azuis, ou talvez calções. Fosse como fosse, já podia ter mudado de roupa, tal como ela.

 

De facto, podia ser qualquer dos homens altos que se viam na rua: o rapaz de casaco vermelho que entregava pizzas; o careca que ia para a igreja com a mulher, de missal debaixo do braço; o homem de barba com o estojo de uma guitarra; até o polícia que falava com um vadio à porta de uma loja de bebidas. Jeannie nada podia fazer com a sua fúria e limitou-se a agarrar com força o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

 

Santa Teresa era um grande hospital suburbano na zona limítrofe a norte da cidade. Jeannie deixou o carro no parque de estacionamento e procurou as urgências. Lisa já se encontrava numa cama, tendo vestida uma bata do hospital, e olhava para o vazio. Um televisor sem som mostrava a cerimónia de entrega dos Emmys: centenas de celebridades de Hollywood em traje de cerimónia a beberem champanhe e a felicitar-se. McHenty estava sentado ao lado da cama com o bloco de apontamentos sobre o joelho.

 

Jeannie pousou o saco.

 

Aqui estão as tuas roupas. O que se passa?

 

Lisa continuava apática e silenciosa. Jeannie calculou que ainda se encontrava em choque. Estava a reprimir os seus sentimentos, esforçando-se por não se descontrolar, mas, mais tarde, acabaria por soltar a sua ira. Tinha de haver uma explosão, mais cedo ou mais tarde.

 

Tenho de tomar nota dos principais pormenores do caso, miss disse McHenty. Deixa-nos sozinhos durante mais alguns minutos?

 

Oh!, com certeza desculpou-se Jeannie. Depois viu Lisa a olhar para si e hesitou. Ainda há poucos minutos se amaldiçoara por ter deixado a amiga sozinha com um homem. Agora estava prestes a fazer a mesma coisa. Por outro lado disse, talvez a Lisa prefira que eu fique. O seu instinto foi confirmado quando Lisa acenou imperceptivelmente. Jeannie sentou-se na cama e pegou-lhe na mão.

 

McHenty não parecia muito satisfeito, mas não discutiu.

 

Estava a perguntar a Miss Hoxton de que forma é que ela resistiu à agressão explicou. Gritou, Miss Hoxton?

 

Uma vez, quando ele me atirou para o chão respondeu ela em voz baixa. Depois, puxou de uma navalha.

 

McHenty parecia muito descontraído e olhava para o bloco enquanto falava.

 

Tentou lutar?


Lisa abanou a cabeça.

 

Tive medo que ele me cortasse.

 

Então não ofereceu nenhuma resistência, para além desse primeiro grito?

 

Ela abanou a cabeça e começou a chorar. Jeannie apertou-lhe a mão. Tinha vontade de perguntar a McHenty: «O que raio queria que ela fizesse?», mas ficou calada. Naquele dia já fora mal educada com um rapaz parecido com Brad Pitt, fizera um comentário grosseiro sobre os seios de Lisa e gritara com o segurança da entrada. Sabia que não era boa a lidar com a autoridade e estava determinada a não transformar aquele polícia em seu inimigo. Afinal, o homem estava só a fazer o seu trabalho.

 

McHenty prosseguiu.

 

Ele abriu-lhe as pernas à força antes de a penetrar? Jeannie fez uma careta. Não deveria ser uma mulher polícia a

 

fazer aquelas perguntas?

 

Tocou-me na coxa com a ponta da navalha respondeu Lisa.

 

Cortou-a?

 

Não.

 

Então abriu as pernas voluntariamente.

 

Se um suspeito aponta uma arma a um xui, vocês costumam logo atirar nele, não é? Chama a isso «voluntário»?

 

McHenty dirigiu-lhe um olhar furibundo.

 

Deixe isto comigo, por favor. Virou-se para Lisa. Tem alguns ferimentos?

 

Estou a sangrar.

 

Isso foi resultante da penetração forçada?

 

Sim.

 

Onde é que está a ferida?

 

Jeannie não foi capaz de aguentar mais.

 

Porque não deixa o médico determinar isso? O polícia olhou-a como se ela fosse estúpida.

 

Tenho de fazer um relatório preliminar.

 

Então escreva que ela tem ferimentos internos resultantes da violação.

 

Sou eu que estou a fazer as perguntas.

 

E eu digo-lhe para acabar com elas retorquiu Jeannie, controlando-se para não gritar. A minha amiga está perturbada e não me parece que ela precise de lhe descrever os seus ferimentos, uma vez que daqui a pouco vai ser observada pelo médico. McHenty estava furioso, mas prosseguiu.

 

Reparei que tinha roupa interior vermelha, de renda. Acha que isso pode ter provocado o que aconteceu?

 

Lisa desviou o olhar, quase a chorar.

 

Se eu me queixasse de que o meu Mercedes foi roubado, você perguntava-me se eu provoquei o furto por conduzir um carro tão vistoso?

 

McHenty ignorou-a.

 

Julga já ter visto o violador antes, Lisa?

 

Não.

 

Mas o fumo não lhe deve ter permitido vê-lo bem. E ele tinha a cara tapada com um lenço.

 

A princípio eu estava quase cega. Mas não havia muito fumo na sala onde... ele fez aquilo. Vi-o bem. Assentiu. Vi-o bem.

 

Seria capaz de o reconhecer se o visse? Lisa estremeceu.

 

Oh!. sim!

 

Mas nunca o viu antes, num bar ou noutro sítio?

 

Não.

 

Costuma ir a bares, Lisa?

 

Sim.

 

Bares de solteiros, ou desse género?

 

Que raio de pergunta é essa? explodiu Jeannie.

 

Uma pergunta que os advogados de defesa costumam fazer respondeu McHenty.

 

A Lisa não está a ser julgada... ela não é a arguida, mas sim a vítima!

 

É virgem. Lisa? Jeannie levantou-se.

 

Muito bem, já chega. Não acredito que isto deva ser assim. Não tem o direito de fazer essas perguntas íntimas.

 

McHenty elevou a VOZ

 

Estou a tentar descobrir se ela tem credibilidade.

 

Uma hora depois de ter sido violada? Esqueça!

 

Estou a fazer o meu trabalho...


Não me parece que saiba qual é o seu trabalho. Acho que você não sabe peva, McHenty!

 

Antes de ele poder responder, um médico entrou sem bater. Era novo e parecia apoquentado e cansado.

 

Isto é que é a violação?

 

Isto... é Miss Lisa Hoxton respondeu Jeannie com voz gelada. Sim, foi violada.

 

Preciso de um esfregaço vaginal.

 

O médico não era nada simpático, mas pelo menos dava-lhes uma boa desculpa para se verem livres de McHenty. Jeannie olhou para o polícia. Não se mexeu, como se julgasse que iria assistir à recolha de um esfregaço.

 

Antes de fazer isso, senhor doutor, talvez o agente McHenty não se importe de nos deixar sozinhos.

 

O médico fez uma pausa e olhou para McHenty. Este encolheu os ombros e saiu.

 

O médico levantou o lençol que cobria Lisa com um gesto abrupto.

 

Levante a bata e abra as pernas disse ele. Lisa começou a chorar.

 

Jeannie não podia acreditar naquilo. O que teria dado àqueles homens?

 

Dá-me licença? interveio ela. O homem olhou-a, impaciente.

 

O que é que foi?

 

Importa-se de ser um pouco mais bem educado? Ele corou.

 

Este hospital está cheio de feridos graves e doentes em estado crítico retorquiu. Neste momento, encontram-se três crianças nas urgências vítimas de um acidente de viação e vão todas morrer. E vem você queixar-se de que eu não estou a ser educado com uma rapariga que foi para a cama com o homem errado?

 

Jeannie ficou estupefacta.

 

Que foi para a cama com o homem errado? Lisa endireitou-se.

 

Quero ir para casa disse.

 

Parece-me muito boa ideia concordou Jeannie. Abriu o saco e colocou a roupa em cima da cama.


O médico ficou atordoado durante uns momentos.

 

Faça como quiser disse ele, irritado, e saiu. As raparigas entreolharam-se.

 

Não posso acreditar que isto aconteceu comentou Jeannie.

 

Ainda bem que se foram embora disse Lisa, levantando-se. Jeannie ajudou-a a despir a bata e ela enfiou rapidamente a roupa limpa e calçou os sapatos.

 

Eu levo-te a casa disse Jeannie.

 

Importas-te de dormir no meu apartamento? Não quero ficar sozinha esta noite.

 

Claro que não me importo.

 

McHenty esperava lá fora. Parecia menos confiante. Talvez soubesse que conduzira a entrevista de forma incorrecta.

 

Ainda tenho mais algumas perguntas a fazer disse.

 

Vamo-nos embora retorquiu Jeannie, calmamente. A Lisa está demasiado perturbada para poder responder seja ao que for.

 

Ele pareceu assustado.

 

Mas tem de responder. Fez uma queixa.

 

Eu não fui violada interveio Lisa. Foi tudo um erro. Agora só quero ir para casa.

 

Sabe que é crime apresentar uma queixa falsa?

 

Esta mulher não é uma criminosa disse Jeannie, furiosa. É a vítima de um crime. Se o seu chefe perguntar por que é que ela retirou a queixa, diga-lhe que foi brutalmente importunada pelo agente McHenty da Polícia de Baltimore. Agora vou levá-la a casa. Com licença. Pôs um braço sobre os ombros de Lisa e dirigiram-se para a saída.

 

Quando passaram pelo polícia, ouviram-no murmurar:

 

Mas o que é que eu fiz?


Bemngton Jones olhou para os seus dois melhores amigos

 

Não posso acreditar. Estamos os três perto dos sessenta. Nunca nenhum de nós ganhou mais de algumas centenas de milhar de dólares por ano. Agora, oferecem a cada um sessenta milhões e estamos para aqui a falar em recusar a oferta.

 

Nunca andámos nisto por dinheiro retorquiu Preston Barck

 

Continuo sem perceber, interveio o senador Proust. Se sou dono de um terço de uma companhia que vale cento e oitenta milhões de dólares, como é que tenho um Oovt Victoria de três anos?

 

Os três homens possuíam uma pequena companhia privada de biotecnologia, d Genético. Inc Preston ocupava-se dos negócios diários, Jim estava na política e Berrington era um académico. Mas a venda era obra de Berrington.A bordo de um avião para São Francisco conhecera o director executivo da Landsmann, um conglomerado farmacêutico alemão, e interessara o homem ao ponto de levá-lo a fazer uma oferta. Agora tinha de persuadir os sócios a aceitá-la. Estava a ser mais difícil do que ele esperara

 

Encontravam-se no escritório de uma casa em Roland Park, um subúrbio elegante de Baltimore. A casa era propriedade da Universidade Jones Falis e emprestada a professores de fora. Berrington,, para alem de Jones Falis dava aulas em Berkeley, na Califórnia, e em Harvard, utilizava a casa durante as seis semanas que permanecia em Baltimore. Havia muito pouco de seu naquele aposento um computador portátil, uma fotografia da ex-mulher e do filho e uma pilha de exemplares do seu novo livro, Para Herdar o Futuro: Como a Engenharia Genética Irá Transformar a América. Uma televisão com o som no mínimo mostrava a cerimónia de entrega dos Emmys.

 

Preston era um homem magro e sério. Embora fosse um dos mais brilhantes cientistas da sua geração, parecia um contabilista. «As clínicas sempre deram dinheiro», costumava dizer. A Genético era dona de três clínicas de fertilidade especializadas na concepção in vitro, «bebés-proveta», uma técnica tornada possível graças à investigação pioneira de Preston nos anos 70.

 

A fertilidade é a área de maior crescimento na medicina americana. A Genético permitirá à Landsmann entrar nos grandes mercados. Querem que abramos cinco novas clínicas durante os próximos dez anos.

 

Jim Proust era um homem careca, bronzeado, com um grande nariz e óculos de aros grossos. O seu rosto feio e poderoso agradava muito aos cartoonistas políticos. Berrington e ele eram amigos e colegas já há vinte e cinco anos.

 

E por que motivo nunca vimos dinheiro? perguntou ele.

 

Gastámo-lo sempre na investigação. A Genético tinha os seus próprios laboratórios e fazia contratos com os departamentos de biologia e psicologia das universidades. Berrington tratava da ligação da companhia ao mundo académico.

 

Não percebo como é que vocês os dois não conseguem ver que esta é a nossa grande oportunidade disse Berrington, exasperado.

 

Jim apontou para a televisão.

 

Aumenta o volume, Berry... Estás no ar.

 

Os Emmys haviam dado lugar ao programa Larry King Live e Berrigton era o convidado. Detestava Larry King, na sua opinião um liberal com simpatias comunistas, mas o programa era uma oportunidade para falar a milhões de americanos.

 

Observou a sua imagem e gostou do que viu. Era um homem baixo, mas a televisão punha toda a gente do mesmo tamanho. O seu fato azul-escuro era de bom corte, a camisa azul-celeste combinava com os seus olhos e a gravata era vermelho-escura, não dando muito nas vistas na televisão. Como era bastante crítico, achou que o seu cabelo prateado estava demasiado penteado, quase armado: por pouco não se parecia com um dos evangelistas da televisão.

 

King, que tinha, como sempre, os suspensórios que eram a sua imagem de marca, estava um bocado agressivo e a sua voz grave era desafiadora.

 

Professor, o senhor voltou a criar uma certa controvérsia com o seu último livro, mas algumas pessoas são de opinião que ele não trata de ciência, mas sim de política. O que tem a dizer?

 

Berrington ficou satisfeito ao ver que respondera numa voz suave e calma.

 

As decisões políticas deviam ser baseadas na ciência pura, Larry. A Natureza, deixada sozinha, favorece os bons genes e mata os maus. A nossa política social vai contra a selecção natural. É assim que estamos a alimentar uma geração de americanos de segunda categoria.

 

Jim bebeu um gole de uísque.

 

Foi uma boa frase comentou. Uma geração de americanos de segunda categoria. Pode vir a ser muito citada.

 

Na televisão, Larry King voltou a falar.

 

Se conseguir o que quer, o que acontece aos filhos dos pobres? Morrem à fome, não é?

 

O rosto de Berrington assumiu uma expressão solene no ecrã.

 

O meu pai morreu em 1942, quando o porta-aviões Wasp foi afundado por um submarino japonês, em Guadalcanal. Nessa altura, eu tinha seis anos. A minha mãe teve muitas dificuldades em criar-me e mandar-me para a escola. Larry, eu sou um filho dos pobres.

 

E não estava muito longe da verdade. O pai, engenheiro brilhante, deixara à mãe um pequeno rendimento, mas que era suficiente para ela não ter de trabalhar ou de voltar a casar. Mandara Berrington para colégios caros e depois para Harvard... mas fora difícil.

 

Estás com bom aspecto, Berry comentou Preston, com excepção, talvez, do penteado à rancheiro.

 

Barck, o mais novo do trio, de cinquenta e cinco anos, tinha cabelo preto curto, que se colava à cabeça como um boné.

 

Berrington resmungou, irritado. Já tinha pensado a mesma coisa, mas aborrecia-o ouvi-la da boca de outro. Serviu-se de mais um pouco de uísque. Bebiam Springbank, um bom malte.


No ecrã, Larry King dizia:

 

Falando em termos filosóficos, acha que as suas opiniões diferem das dos nazis, por exemplo?

 

Berrington carregou no comando da televisão e desligou o aparelho.

 

Já há dez anos que faço isto disse. Depois de três livros e um milhão de talks shows rascas, qual é a diferença? Nenhuma.

 

Tem de haver uma diferença contrapôs Preston. Tornaste a genética e a raça num assunto importante. Começas é a ficar impaciente.

 

Impaciente? repetiu Berrington, irritado. Podes crer que estou impaciente! Daqui a quinze dias faço sessenta. Estamos todos a ficar velhos. Já não nos sobra muito tempo!

 

Ele tem razão, Preston disse Jim. Não te lembras de como eram as coisas quando éramos novos? Olhávamos à volta e víamos a América a ser destruída: direitos cívicos para os negros, a entrada de muitos mexicanos, as melhores escolas frequentadas pelos filhos dos judeus comunistas, os nossos filhos a fumar droga e a fugir à guerra. E tínhamos razão! Vê o que aconteceu desde então! Nem nos nossos piores pesadelos imaginámos que as drogas ilegais se tornariam uma das maiores indústrias da América e que um terço dos bebés nasceriam de mães doentes. E somos as únicas pessoas com coragem para enfrentar os problemas... nós e alguns indivíduos parecidos connosco. Os restantes fecham os olhos e esperam que aconteça o melhor.

 

Não tinham mudado, pensou Berrington. Preston sempre fora cuidadoso e receoso, Jim demasiado seguro de si. Conhecia-os há tanto tempo que as suas falhas já não o incomodavam e fazia por ignorá-las a maior parte das vezes. Estava habituado ao seu papel de moderador, que os conduzia para um meio termo.

 

Em que pé estão as coisas com os alemães, Preston? perguntou. Põe-nos a par da situação.

 

Estamos muito perto de uma conclusão respondeu Preston. Querem anunciar a compra numa conferência de imprensa de amanhã a oito dias.

 

De amanhã a oito dias? repetiu Berrington, animado. Isso é óptimo!

 

Preston abanou a cabeça.


Eu continuo com algumas dúvidas. Berrington soprou, exasperado.

 

Revelámos os nossos segredos continuou Preston. Temos de mostrar os nossos livros aos contabilistas da Landsmann e falar-lhes de tudo o que possa afectar resultados futuros, tal como devedores quase a ir à falência ou processos pendentes.

 

Não temos nada disso, pois não? perguntou Jim. Preston lançou-lhe um olhar mal humorado.

 

Todos sabemos que esta empresa tem segredos. Houve um momento de silêncio no escritório.

 

Ora, isso já foi há muito tempo comentou Jim.

 

E depois? A prova do que fizemos anda aí por fora.

 

Mas é impossível a Landsmann descobrir o que quer que seja... especialmente numa semana.

 

Preston encolheu os ombros, como que a dizer: «Quem sabe?»

 

Temos de correr esse risco retorquiu Berrington com firmeza. A injecção de capital que iremos receber da Landsmann vai permitir-nos acelerar o nosso programa de investigação. Daqui a alguns anos seremos capazes de oferecer um bebé geneticamente perfeito aos americanos brancos ricos que forem à nossa clínica.

 

Mas que diferença fará isso? perguntou Preston. Os pobres continuarão a reproduzir-se mais depressa do que os ricos.

 

Estás a esquecer-te da plataforma política do Jim interveio Berrington.

 

Um imposto de renda estável de dez por cento e injecções anticoncepcionais obrigatórias para as mulheres sustentadas pela Segurança Social declarou Jim.

 

Pensa nisso, Preston disse Berrington. Bebés perfeitos para a classe média e a esterilização dos pobres. Podíamos voltar a acertar o equilíbrio racial da América. Sempre foi o que quisemos, já desde o início.

 

Nessa altura éramos muito idealistas comentou Preston.

 

Mas estávamos certos! insistiu Berrington.

 

Sim, estávamos certos. Mas, à medida que vou envelhecendo, começo a pensar que o mundo irá provavelmente conseguir progredir, embora de modo atabalhoado, mesmo que eu não consiga fazer tudo o que planeei quando tinha vinte e cinco anos.


Aquele tipo de conversa era susceptível de sabotar grandes empreendimentos.

 

Mas podemos conseguir aquilo que planeámos interveio Berrington. Agora, tudo aquilo por que trabalhámos nos últimos trinta anos está ao nosso alcance. Os riscos que corremos inicialmente, todos esses anos de investigação, o dinheiro que gastámos... por fim está tudo a chegar às nossas mãos. Não te ponhas com ataques de nervos nesta altura do campeonato, Preston!

 

Os meus nervos estão bons, mas estou a apontar problemas reais e práticos retorquiu Preston, impaciente. O Jim pode propor a sua plataforma política, mas tal não significa que isso vá acontecer.

 

É aí que intervém a Landsmann disse Jim. O dinheiro que vamos receber pelas nossas acções irá permitir-nos conseguir obter o melhor de tudo.

 

O que é que estás para aí a dizer? perguntou Preston, intrigado, mas Berrington sabia o que vinha aí e sorriu.

 

A Casa Branca respondeu Jim. Vou candidatar-me à presidência.


Alguns minutos antes da meia-noite, Steve Logan estacionou o seu velho Datsun ferrugento na Rua Lexington, no bairro denominado Hollins Market, a oeste da Baixa de Baltimore. Ia passar a noite em casa do primo Ricky Menzies, que estudava Medicina na Universidade de Maryland, também em Baltimore. O lar de Ricky era um quarto numa grande casa antiga alugada por estudantes.

 

Ricky era o maior arruaceiro que Steve conhecia. Gostava muito de beber, de dançar e de ir a festas, e os amigos eram iguais. Steve andava desejoso de passar a noite com Ricky, mas o grande problema dos arruaceiros era que eles não eram de confiança. No último minuto, Ricky combinara sair com uma rapariga e cancelara o encontro com Steve, que tivera de passar sozinho a noite.

 

Saiu do carro, levando na mão um saco de desporto com roupa lavada para o dia seguinte. A noite estava quente. Trancou o carro e dirigiu-se até à esquina. Um grupo de jovens, quatro ou cinco rapazes e uma rapariga, todos de cor, estavam à porta de um clube de vídeo a fumar. Steve não se sentia nervoso, embora fosse branco: aparentava ser ali do bairro, com o seu velho carro e as calças de ganga desbotadas; para além disso, era vários centímetros mais alto do que qualquer dos jovens. Quando passou por eles, perguntaram-lhe:

 

Queres marijuana ou crackl

 

Steve abanou a cabeça, sem abrandar o passo.

 

Na sua direcção caminhava uma negra muito alta, vestida para matar, com uma minissaia, sapatos de salto, o cabelo penteado para cima, bâton vermelho e sombra azul nos olhos. Não conseguiu deixar de olhar para ela.

 

Olá, borracho disse ela com uma voz masculina quando se aproximou.

 

Steve apercebeu-se de que era um homem. Sorriu e continuou a andar.

 

Ouviu os jovens da esquina cumprimentar o travesti com uma certa familiaridade.

 

Olá, Dorothy!

 

Olá, meninos.

 

Pouco depois ouviu pneus a chiar e olhou para trás. Um carro-patrulha com agentes brancos parara na esquina. Alguns dos jovens desapareceram em ruas escuras; outros ficaram. Os dois agentes saíram, sem pressa. Steve virou-se para observar a cena. Ao ver o homem chamado Dorothy, um dos agentes cuspiu, acertando na ponta do sapato de salto alto vermelho.

 

Steve ficou chocado. Aquele gesto fora tão gratuito e desnecessário! No entanto, Dorothy mal abrandou o passo.

 

Vai-te foder, cabrão murmurou.

 

O comentário foi feito em voz baixa, mas o polícia tinha bom ouvido. Agarrou no braço de Dorothy e encostou-o com força contra a montra da loja. Dorothy vacilou em cima dos saltos.

 

Não voltes a falar comigo nesse tom rosnou o polícia. Na mente de Steve começou a soar um alarme. «Não te metas em sarilhos, Steve».

 

O outro polícia observava a cena encostado ao carro, com uma expressão neutra.

 

O que se passa, pá? perguntou Dorothy num tom sedutor. Será que eu te incomodo?

 

O polícia socou-o no estômago. Era um homem corpulento, e o soco foi dado com balanço. Dorothy dobrou-se, sem fôlego.

 

Que se lixe murmurou Steve, dirigindo-se para a esquina. «O que estás a fazer, Steve?»

 

Dorothy continuava dobrado, mal conseguindo respirar.

 

Boa noite, senhor guarda disse Steve. O polícia olhou para ele.

 

Desaparece, cabrão!

 

Não retorquiu Steve.


O que disseste?

 

Disse «não», senhor guarda. Deixe esse homem em paz. «Vai-te embora, Steve, seu idiota, vai-te embora».

 

O seu desafio fez os jovens ficarem atrevidos.

 

É assim mesmo disse um rapaz alto, de cabeça rapada. Não tens nada que chatear o Dorothy, ele não infringiu a lei.

 

O polícia apontou um dedo agressivo para o rapaz.

 

Se queres que te prenda por posse de droga, continua a falar assim.

 

O rapaz baixou os olhos.

 

Mas ele tem razão disse Steve. O Dorothy não está a infringir qualquer lei.

 

O polícia aproximou-se de Steve.

 

«Não lhe batas. Faças o que fizeres, não lhe toques. Lembra-te do Tip Hendricks».

 

És cego? perguntou o polícia.

 

O que quer dizer com isso?

 

Vá lá, Lenny, o que é que interessa? interveio o outro agente, pouco à vontade. Vamo-nos embora.

 

Lenny ignorou-o e dirigiu-se a Steve.

 

Não percebes? És o único branco aqui. O teu lugar não é este.

 

Mas acabei de presenciar um crime.

 

O polícia aproximou-se de Steve, demasiado.

 

Queres ir até à esquadra? perguntou. Ou queres desaparecer daqui já?

 

Steve não queria ir à esquadra. Era muito fácil para os agentes colocarem um pouco de droga nos seus bolsos, ou espancá-lo, dizendo que resistira à voz de prisão. Steve andava a estudar Direito: se fosse condenado nunca poderia exercer. Desejou não ter tomado aquela posição. Não valia a pena arruinar toda a sua carreira só porque um polícia estava a incomodar um travesti.

 

Mas estava errado. Agora havia duas pessoas a serem incomodadas, Dorothy e Steve. Era o polícia que estava a infringir a lei. Steve não podia afastar-se. Mas falou num tom conciliador:

 

Não quero sarilhos, Lenny disse. Deixe ir o Dorothy e eu esqueço-me que o vi agredi-lo.

 

Estás a ameaçar-me, estupor?


«Um murro no estômago e um gancho à cabeça. O polícia havia de cair como um cavalo com uma pata partida».

 

Estou apenas a fazer uma sugestão amigável.

 

O polícia parecia querer sarilhos. Steve não via maneira de se esquivar a um confronto. Rezou para que Dorothy se afastasse discretamente, enquanto Lenny estava de costas para ele, mas o travesti não saiu dali e observava a cena, enquanto passava devagar com a mão pelo estômago, saboreando a fúria do polícia.

 

A sorte interveio. O rádio do carro-patrulha ganhou vida. Ambos os polícias se imobilizaram, à escuta. Steve não percebeu nada da torrente de palavras e dos códigos, mas o colega de Lenny disse:

 

Agente em apuros. Vamos embora.

 

Lenny hesitou, ainda a olhar para Steve, mas este julgou ver alívio nos olhos do homem. Talvez também ele tivesse sido salvo de uma situação delicada. Mas, quando falou, o seu tom era cruel.

 

Lembra-te de mim disse a Steve, porque eu hei-de lembrar-me de ti. Dito isto, entrou no carro, fechou a porta com força e o veículo arrancou.

 

Os miúdos bateram palmas e assobiaram.

 

Bolas suspirou Steve. Foi por pouco.

 

«E foi também uma parvoíce. Sabes onde podia ter chegado. Sabes como és».

 

Nesse momento apareceu Ricky, o seu primo.

 

O que se passa? perguntou, vendo o carro-patrulha a afastar-se.

 

Dorothy aproximou-se e pousou as mãos nos ombros de Steve.

 

Meu herói! exclamou, com ar coquete. John Wayne. Steve ficou atrapalhado.

 

Ora...

 

Quando quiseres conhecer o lado escuro da vida, John Wayne, vem ter comigo. É à borla.

 

Obrigado na mesma...

 

Dava-te um beijo, mas já percebi que és tímido, por isso, adeus. Acenou-lhe, exibindo unhas vermelhas, e afastou-se.

 

Adeus, Dorothy.

 

Ricky e Steve seguiram na direcção oposta.

 

Estou a ver que já fizeste amigos aqui no bairro observou Ricky.


Steve riu-se, essencialmente de alívio.

 

Quase me meti em sarilhos disse. O estúpido de um xui começou a bater naquele gajo de saia e eu fui suficientemente idiota para o mandar parar.

 

Ricky ficou admirado.

 

Tens sorte em estar aqui.

 

Eu sei.

 

Chegaram a casa de Ricky e entraram. Cheirava a queijo, ou talvez fosse leite azedo. Havia graffiti nas paredes verdes. Contornaram as bicicletas presas com correntes ao vestíbulo de entrada e subiram as escadas.

 

Fico furioso disse Steve. Por que teria o Dorothy de levar um murro no estômago? Ele gosta de usar minissaias e de se pintar; quem se importa com isso?

 

Tens razão.

 

E por que haveria o Lenny de fazer o que bem lhe apetece só porque anda fardado? Os polícias deviam ter um comportamento melhor, devido à sua situação privilegiada.

 

Não querias mais nada!...

 

É por isso que quero ser advogado. Para impedir que estas merdas aconteçam. Tens algum herói, alguém que gostarias de ser?

 

Talvez o Casanova.

 

O meu ídolo é o Ralph Nader, um advogado. Lutou contra as empresas mais poderosas da América e ganhou!

 

Ricky riu-se e pousou um braço nos ombros do primo quando entraram no seu quarto.

 

O meu primo, o idealista.

 

Ora...

 

Queres café?

 

Sim.

 

O quarto de Ricky era pequeno e estava mobilado com velharias. Tinha uma cama de solteiro, uma secretária antiga, um sofá roto e uma televisão grande. Na parede via-se o póster de uma mulher nua com a indicação de cada osso do ser humano, desde o parietal, na cabeça, às falanges dos pés. Havia ainda um aparelho de ar condicionado, que devia estar avariado.

 

Steve sentou-se no sofá.

 

Que tal a tua companhia?


Não tão escaldante como prometera respondeu Ricky, pondo a chaleira ao lume. A Melissa é gira, mas eu ainda não teria chegado a casa se ela estivesse tão louca por mim quanto eu julgava. E tu?

 

Fui dar uma volta pelo complexo universitário de Jones Falis. Tem muita pinta. Também conheci uma rapariga disse, animando-se. Vi-a jogar ténis. Era espantosa... Alta, musculosa, com uma excelente preparação. Tinha um serviço que fazia lembrar uma bazuca.

 

Nunca ouvi dizer que alguém se apaixonasse por uma rapariga por causa da maneira como ela jogava ténis retorquiu Ricky com um sorriso. É gira?

 

Tinha feições muito marcadas disse Steve, visualizando-a. Olhos castanho-escuros, sobrancelhas pretas, uma grande cabeleira escura... e uma argolinha de prata na narina esquerda.

 

A sério? É fora do vulgar, não achas?

 

Tu é que o dizes.

 

Como é que se chama?

 

Não sei respondeu ele, sorrindo, pesaroso. Deu-me uma tampa sem sequer abrandar o passo. Provavelmente nunca mais a vejo.

 

Ricky serviu os cafés.

 

Talvez seja o melhor... Tens uma namorada firme, não tens?

 

Mais ou menos. Steve sentia muitos remorsos por ter gostado tanto da tenista. Chama-se Celine informou. Andamos no mesmo curso. A faculdade de Steve era em Washington, DC.

 

Vais para a cama com ela?

 

Não.

 

Porquê?

 

A nossa relação não é assim tão forte. Ricky ficou admirado.

 

És completamente diferente de mim. Queres dizer que precisas de ter uma relação forte com uma gaja antes de a foderes?

 

É o que eu sinto respondeu Steve, atrapalhado.

 

Sempre sentiste a mesma coisa?

 

Não. Quando andava no liceu fazia o que as raparigas me deixavam fazer, era como uma espécie de concurso... deitava-me com aquela que tirava as cuecas... mas isso foi antes, e isto é agora, e já não sou um miúdo. Acho eu.

 

Que idade tens? Vinte e dois?

 

Sim.

 

Eu tenho vinte e cinco, mas não me acho tão adulto como tu. Steve apercebeu-se de um certo ressentimento.

 

Olha lá, eu não estava a criticar-te!

 

Está bem disse Ricky, não parecendo muito ofendido. Então o que fizeste depois de ela te ter dado tampa?

 

Fui a um bar em Charles Village, bebi umas cervejas e comi um hamburger.

 

A propósito... tenho fome. Queres comer alguma coisa?

 

O que é que há? Ricky abriu o armário.

 

Muesli, Rice Krispies e Choco Crisps.

 

Os Choco Crisps parecem-me boa ideia.

 

Ricky colocou leite e umas tigelas sobre a mesa e começaram a comer.

 

Depois de terem terminado, lavaram as tigelas e prepararam-se para ir para a cama. Steve ficou no sofá, em cuecas: estava demasiado calor para precisar de cobertor. Ricky ocupou a cama.

 

Então o que vais fazer em Jones Falis? perguntou Ricky.

 

Convidaram-me para tomar parte num estudo. Vou ter de fazer testes psicotécnicos e coisas do género.

 

Porquê a ti?

 

Não sei. Disseram que eu era um caso especial e que me explicavam tudo quando lá chegasse.

 

Por que aceitaste? Parece-me uma perda de tempo.

 

Steve tinha uma razão, mas não a revelou a Ricky. Respondeu-lhe com parte da verdade.

 

Acho que por curiosidade. Quero dizer, às vezes não fazes perguntas sobre ti próprio? Que tipo de pessoa és e o que queres fazer na vida?

 

Quero ser um grande cirurgião e ganhar milhões de dólares a fazer implantes nas mamas das mulheres. Acho que sou uma alma simples.

 

Não te perguntas para quê tudo isso? Ricky soltou uma gargalhada.


Não, Steve. Mas tu perguntas. Sempre foste um grande pensador. Já quando éramos miúdos te interrogavas sobre Deus e outras coisas.

 

Era verdade. Steve atravessara uma fase religiosa aos treze anos. Visitara diferentes igrejas, uma sinagoga e uma mesquita e interrogara vários religiosos sobre os seus credos. Os pais haviam ficado preocupados, pois eram agnósticos.

 

Mas sempre foste um pouco diferente prosseguiu Ricky. Nunca conheci ninguém que tirasse tão boas notas sem se esforçar.

 

Isso também era verdade. Steve sempre tivera facilidade em aprender, e fora o primeiro da turma com a maior das facilidades, excepto quando os colegas troçavam dele e errava de propósito para dar menos nas vistas.

 

Contudo, havia outro motivo que o levava a sentir-se curioso acerca da sua personalidade. Ricky desconhecia-o. Ninguém o conhecia. Só os pais.

 

Steve quase matara uma pessoa.

 

Na altura tinha quinze anos; já era alto, mas magro. Era capitão da equipa de basebol. Naquele ano, o Liceu Hillsfield chegara à meia final do campeonato da cidade. Jogaram contra uma equipa de arruaceiros de uma escola reles de Washington. Um jogador adversário, Tip Hendricks, cometeu faltas sobre Steve durante todo o jogo. Tip era bom, mas nunca fazia jogo limpo. E, de cada vez que cometia uma falta, sorria, como se dissesse: «Enganei-te outra vez, parvalhão.» Steve ficou furibundo, mas teve de engolir a sua fúria. No entanto, jogou mal e a sua equipa perdeu.

 

Para azar, Steve encontrou Tip no parque de estacionamento, onde os autocarros esperavam as equipas. Um dos condutores estava a mudar um pneu e tinha uma caixa de ferramentas aberta no chão.

 

Steve ignorou Tip, mas este atirou-lhe a beata, que acertou no blusão.

 

Aquele blusão era muito importante para Steve. Poupara o dinheiro que ganhara aos sábados a trabalhar no McDonald’s e comprara-o no dia anterior. Era de cabedal cor de manteiga e agora estava queimado no peito, bem à vista. Estragado. Por isso, Steve bateu-lhe.


Tip ripostou com vigor, dando pontapés e cabeçadas, mas a raiva de Steve deixou-o dormente e ele mal sentiu as pancadas. O rosto de Tip já estava cheio de sangue quando ele viu o estojo das ferramentas e pegou numa barra de ferro. Bateu com ela na cara de Steve duas vezes. Aquilo doeu bastante e Steve ficou cego de raiva. Arrancou a barra das mãos de Tip... e não se lembrava de nada depois disso, até estar sobre o corpo de Tip, com a barra de ferro coberta de sangue na mão, e ouvir alguém dizer: «Meu Deus, acho que ele está morto».

 

Tip não estava morto, morreu dois anos mais tarde, às mãos de um importador de marijuana jamaicano a quem devia oitenta e cinco dólares. Mas Steve quisera matá-lo, tentara matá-lo. Não tinha desculpa: dera o primeiro murro e, embora tivesse sido Tip a pegar na barra de ferro, Steve usara-a selvaticamente.

 

Foi condenado a seis meses de prisão, mas a pena ficou suspensa. Depois do julgamento mudou de escola e passou a todas as disciplinas, como era hábito. Uma vez que ainda era menor na altura da luta, o seu registo criminal não podia ser revelado a ninguém, por isso não o impediu de entrar na Faculdade de Direito. Os pais encaravam o assunto como um pesadelo passado. Steve, porém, tinha as suas dúvidas. Sabia que fora apenas a sorte e a capacidade de resistência do corpo humano que o haviam salvo de ser condenado por homicídio. Tip Hendricks era um ser humano e Steve quase o matara por causa de um blusão. Acordado, a ouvir a respiração regular de Ricky, perguntou a si próprio: «O que sou eu?»


Alguma vez conheceste um homem com quem quisesses casar? perguntou Lisa.

 

Estavam sentadas à mesa no andar de Lisa, a beber café solúvel. Tudo na casa era bonito, como a dona: gravuras de flores, bibelôs de porcelana e um urso com um laço às bolinhas.

 

Lisa ficaria em casa nesse dia, mas Jeannie já estava vestida para o trabalho, com uma saia azul-escura e uma blusa de algodão branca. Era um dia importante e ela sentia-se tensa. O primeiro dos candidatos iria ao laboratório fazer testes. Encaixar-se-ia na sua teoria ou não? No final dessa tarde, ou se sentiria vingada ou estaria a refazer todas as suas ideias.

 

No entanto, queria sair dali o mais tarde possível. Lisa ainda estava muito debilitada. Jeannie calculava que a melhor coisa a fazer era falar-lhe de homens e de sexo tal como sempre haviam feito, ajudá-la a regressar à normalidade. Gostaria de poder ficar ali toda a manhã, mas era impossível. Lamentava que Lisa não estivesse no laboratório para poder ajudá-la naquele dia, mas isso estava fora de questão.

 

Sim, um respondeu Jeannie. Houve um tipo com o qual eu não me importava de ter casado. Chamava-se Will Temple. Era antropólogo. Ainda é. Conseguiu imaginá-lo: alto, de barba loura, com calças de ganga e camisa de flanela aos quadrados, transportando a bicicleta de dez velocidades através dos corredores da universidade.

 

Já me falaste nele antes disse Lisa. Como é que ele era?


Espectacular. Jeannie suspirou. Fazia-me rir, cuidava de mim quando eu adoecia, passava as camisas dele a ferro e adorava sexo.

 

Lisa não sorriu.

 

O que é que correu mal?

 

Jeannie estava na brincadeira, mas era doloroso recordar.

 

Trocou-me pela Georgina Tinkerton Ross. E acrescentou, à laia de explicação: Dos Tinkerton Ross de Pittsburgh.

 

Como era ela?

 

A última coisa de que Jeannie se queria lembrar era de Georgina. No entanto, aquela conversa impedia Lisa de pensar na violação, por isso obrigou-se a recordar.

 

Era perfeita respondeu, detestando o sarcasmo cheio de amargura que ouviu na sua voz. Loura, escultural, muito bom gosto em camisolas de caxemira e sapatos em pele de crocodilo. Não tinha cérebro, mas era muito rica.

 

Quando é que isso aconteceu?

 

Eu e o Will vivemos juntos durante um ano, enquanto eu fazia o doutoramento. Haviam sido os dias mais felizes da sua vida. Abandonou-me quando eu estava a escrever o meu artigo acerca da existência de criminalidade na genética. «Foi numa altura muito oportuna, Will. Quem me dera poder odiar-te ainda mais». Depois o Berrington convidou-me para trabalhar em Jones Falis e eu aceitei.

 

Os homens são uns patifes!

 

O Will não é bem um patife. É um tipo espectacular. Mas apaixonou-se por outra, é tudo. Acho que ele fez uma péssima escolha. Mas nós não éramos casados, ele não quebrou quaisquer promessas. Nunca me foi infiel, excepto talvez uma ou duas vezes antes de me contar. Jeannie apercebeu-se de que estava a repetir a justificação de Will. Não sei, se calhar ele era mesmo um patife.

 

Talvez devêssemos regressar à era vitoriana, quando um homem que beijava uma rapariga se considerava comprometido com ela. Pelo menos as raparigas sabiam em que pé se encontravam.

 

Naquele momento, a opinião de Lisa sobre relações amorosas era bastante drástica, mas Jeannie não lho disse.

 

E tu? perguntou, em vez disso. Já conheceste alguém com quem quisesses casar?


Nunca. Nem um.

 

Somos muito esquisitas. Não te preocupes. Quando o homem certo aparecer, vai ser maravilhoso.

 

A campainha tocou, assustando-as. Lisa deu um salto e bateu na mesa. Uma jarra de porcelana caiu e estilhaçou-se.

 

Raios partam isto! Ainda estava muito tensa.

 

Eu apanho os cacos disse Jeannie, numa voz calma. Vai ver quem é.

 

Lisa pegou no intercomunicador. Uma ruga de preocupação surgiu-lhe no rosto enquanto estudava a imagem no ecrã.

 

Não há problema, acho eu disse, em tom de dúvida, carregando no botão para abrir a porta.

 

Quem é? perguntou Jeannie.

 

Uma detective.

 

Jeannie calculara que iriam mandar alguém para tentar convencê-la a colaborar na investigação. Estava decidida a impedi-los. A última coisa de que Lisa precisava naquele momento era de mais perguntas indiscretas.

 

Por que não a mandaste foder?

 

Talvez por ela ser negra.

 

A sério? Lisa assentiu.

 

«Que inteligentes», pensou Jeannie, apanhando os pedaços de porcelana do chão. Os xuis sabiam que ela e Lisa eram hostis. Se tivesse mandado um homem, este não passaria da porta, por isso, tinham enviado uma negra, sabendo que duas raparigas brancas da classe média seriam capazes de lhe fazer uma vénia. «Bom, se ela tentar forçar a Lisa, eu expulso-a daqui na mesma».

 

A mulher era corpulenta e tinha cerca de quarenta anos. Trazia uma blusa creme com um lenço de seda colorido e, na mão, uma pasta.

 

Sou a sargento Michelle Delaware apresentou-se. Costumam tratar-me por Mish.

 

Jeannie perguntou a si própria o que estaria naquela pasta. Normalmente, os detectives andavam com armas, não com papéis.

 

Eu sou a doutora Jean Ferrami disse Jeannie. Usava sempre o título académico quando achava que ia discutir com alguém. E esta é a Lisa Hoxton.


Miss Hoxton, quero que saiba que lamento o que lhe aconteceu ontem. A minha unidade lida, em média, com uma violação por dia, e cada uma é uma tragédia terrível e um trauma para a vítima. Sei que está a sofrer e compreendo-a.

 

«Uau», pensou Jeannie, «isto já é diferente de ontem».

 

Estou a tentar esquecer tudo disse Lisa, esforçando-se por parecer forte, mas as lágrimas vieram-lhe aos olhos, traindo-a.

 

Posso sentar-me?

 

Claro.

 

A detective sentou-se à mesa da cozinha. Jeannie estudou-a.

 

A sua atitude é diferente da do polícia de ontem comentou. Mish assentiu.

 

Também lamento imenso a forma como o McHenty a tratou. Tal como todos os agentes, ele foi treinado para saber lidar com vítimas de violações, mas parece ter esquecido o que lhe ensinaram. Todo o departamento é da minha opinião.

 

Foi como ser violada de novo disse Lisa, a chorar.

 

Isso nunca mais voltará a acontecer declarou Mish, deixando escapar na voz uma certa ira. É por isso que tantos dossiers sobre casos de violações acabam numa gaveta com a etiqueta «Infundados». E não é porque as mulheres mintam sobre a violação. É porque o sistema judicial as ameaça de forma tão brutal que elas retiram a queixa.

 

Acredito comentou Jeannie, pensando: «A Mish pode falar como uma das nossas, mas continua a ser polícia».

 

Mish tirou da carteira um cartão.

 

Aqui está o número de um centro de voluntárias para vítimas de violação e abuso de menores disse. Mais cedo ou mais tarde, todas as vítimas precisam de conselhos.

 

Lisa pegou no cartão.

 

Neste momento só preciso de esquecer que aquilo aconteceu disse.

 

Mish assentiu.

 

Mas siga o meu conselho: meta o cartão numa gaveta. Os seus sentimentos vão mudando e provavelmente chegará uma altura em que estará preparada para procurar ajuda.

 

Está bem.


Jeannie achou que Mish merecia algo mais.

 

Quer um café? perguntou.

 

Gostaria muito.

 

Vou prepará-lo disse. Levantou-se e encheu a cafeteira.

 

Trabalham juntas? perguntou Mish.

 

Sim respondeu Jeannie. Estudamos gémeos.

 

Gémeos?

 

Avaliamos as suas semelhanças e diferenças e tentamos descobrir quanto foi herdado e quanto foi devido à forma como foram educados.

 

Qual é o seu papel nisso, Lisa?

 

A minha tarefa é encontrar os gémeos para os cientistas poderem estudá-los.

 

E como faz isso?

 

Começo pelas certidões de nascimento, que, na maior parte dos Estados, são acessíveis ao público. A probabilidade de haver gémeos é de um por cento em cada cem partos, por isso arranjo um par deles em cada cem certidões. A certidão dá-nos a data e o local de nascimento. Fazemos uma fotocópia e depois vamos à procura dos gémeos.

 

Como?

 

Temos todas as listas telefónicas americanas em CD-ROM. Podemos também recorrer à Direcção-Geral de Viação e às agências de crédito.

 

Encontram sempre os gémeos?

 

Credo, não! A nossa taxa de sucesso depende da idade deles. Detectamos noventa por cento dos gémeos com dez anos, mas só cinquenta por cento dos octogenários. Os mais idosos mudaram de casa algumas vezes, alteraram o nome ou morreram.

 

Mish olhou então para Jeannie.

 

E depois você estuda-os.

 

Concentro-me mais em gémeos univitelinos que tenham sido criados separadamente. Estes são muito mais difíceis de encontrar. Colocou a cafeteira sobre a mesa e encheu uma chávena para Mish. Se a detective tencionava pressionar Lisa, não tinha pressa.

 

Mish bebeu um gole e olhou para Lisa.

 

Tomou alguma coisa no hospital?

 

Não, não estive lá muito tempo.


Deviam-lhe ter dado um comprimido para interromper uma eventual gravidez. Não lhe deve interessar estar grávida.

 

Lisa estremeceu.

 

Claro que não. Já estava farta de perguntar a mim própria o que deveria fazer.

 

Vá ao seu médico. Ele dá-lhe o comprimido, a menos que a sua religião o impeça de tal... Alguns médicos católicos não gostam de o fazer. Nesse caso, o centro de voluntárias recomendar-lhe-á outro.

 

É bom falar com alguém que sabe tudo isso.

 

O incêndio não foi acidental prosseguiu Mish. Falei com o comandante dos bombeiros. Alguém fez fogo numa despensa junto aos vestiários, e depois desenroscou os tubos da ventilação, para ter a certeza de que o fumo era puxado para o vestiário. Ora, os violadores não estão realmente interessados no sexo: é o medo que os excita, por isso, creio que o incêndio fazia parte da sua nojenta fantasia.

 

Jeannie não pensara nessa possibilidade.

 

Achei que o violador tinha sido um oportunista que se aproveitara do incêndio.

 

Mish abanou a cabeça.

 

A violação de alguém conhecido é outra coisa: o rapaz apercebe-se de que a rapariga está demasiado drogada ou bêbeda para o repelir. Mas os homens que violam desconhecidas são diferentes. Fazem muitos planos. Fantasiam o acontecimento, depois arranjam a melhor maneira de o tornar real. Por vezes são bastante inteligentes. Isso torna-os ainda mais perigosos.

 

Jeannie ficou furiosa.

 

Quase morri naquele maldito incêndio! exclamou.

 

Estarei certa em pensar que nunca tinha visto o homem antes? perguntou Mish a Lisa.

 

Creio que o vi uma hora antes respondeu ela. Quando estava a correr com a equipa de hóquei em campo, um carro abrandou e o condutor olhou para nós. Tenho um pressentimento de que era ele.

 

Que tipo de carro?

 

Era antigo, disso estou certa. Branco, muito ferrugento. Talvez um Dutsun.


Jeannie estava à espera que Mish tomasse nota, mas ela continuou a falar

 

Tenho a sensação de que o indivíduo é inteligente e implacável e que fará tudo o que for preciso para satisfazer os seus desejos

 

Devia ser metido na prisão para o resto da vida comentou Jeannie com amargura.

 

Mish jogou o seu trunfo

 

Mas isso não vai acontecer. Está livre E voltará a atacar.

 

Como pode ter a certeza disso? perguntou Jeannie com cepticismo

 

A maior parte dos violadores é persistente, ataca em série. A única excepção é o rapaz oportunista que referi anteriormente: esse pode atacar só uma vez. Mas os homens que violam desconhecidas fazem-no uma e outra vez.. até serem apanhados. Mish dirigiu um olhar duro a Lisa. Daqui a sete ou dez dias, o homem que a violou irá submeter outra mulher à mesma tortura... a menos que o apanhemos primeiro.

 

Oh, meu Deus, exclamou Lisa

 

Jeannie conseguia ver onde Mish queria chegar. Como calculara, a detective iria tentar convencer Lisa a colaborar na investigação. Jeannie ainda estava determinada a não permitir que Mish perturbasse ou pressionasse Lisa, mas era difícil objectar às coisas que ela dizia naquele momento

 

Precisamos de uma amostra do ADN dele disse Mish. Lisa fez uma careta

 

Do esperma dele, quer a senhora dizer

 

Sim.

 

Lisa abanou a cabeça.

 

Tomei um duche, um banho de imersão, e fiz uma irrigação com um desinfectante. Espero que já não haja nada dele dentro de mim. Mish foi persistente.

 

Os vestígios permanecem no corpo até quarenta e oito ou setenta e duas horas depois. Precisamos de um esfregaço vaginal, de uma análise dos pêlos púbicos e de uma amostra de sangue.

 

O médico que a viu ontem no Santa Teresa era um idiota comentou Jeannie.

 

Mish assentiu


Os médicos detestam lidar com as vítimas de violações. Se tiverem de ir a tribunal, perdem tempo e dinheiro. Mas a Lisa nunca deveria ter sido levada para o Santa Teresa. Esse foi outro dos muitos erros do McHenty. Há três hospitais na zona mais indicados.

 

A qual quer que eu vá?

 

O Hospital Mercy tem uma unidade de observação de mulheres violadas, a EFAS, Exame Forense de Abusos Sexuais.

 

Jeannie assentiu. O Mercy era um grande hospital na zona central da cidade.

 

Vai ser observada por uma enfermeira especializada: sempre uma mulher. Ela sabe como lidar com as vítimas e recolher as provas, ao contrário do médico de ontem... Mesmo que lhe tivesse tocado, teria estragado tudo.

 

Era evidente que Mish não tinha grande respeito pelos médicos.

 

Ela abriu a pasta. Jeannie esticou o pescoço, curiosa. Lá dentro estava um computador portátil. Mish levantou a tampa e ligou-o.

 

Temos um programa chamado «TIFE», que quer dizer «Técnica de Identificação Facial Electrónica». Gostamos de acrónimos disse ela, com um sorriso seco. Por acaso, foi criado por um detective da Scotland Yard. Permite-nos arranjar um retrato-robô do criminoso, sem precisarmos da ajuda de um desenhador declarou, olhando, expectante, para Lisa.

 

Esta fitou Jeannie.

 

O que achas?

 

Não quero que te sintas pressionada. Pensa em ti. Tens direito a isso. Faz o que te apetecer.

 

Mish dirigiu-lhe um olhar hostil, depois virou-se para Lisa.

 

Não estou a pressioná-la. Se quiser que eu me vá embora é só dizer. Mas fiz-lhe um pedido. Quero apanhar este violador, e preciso da sua ajuda. Sem a senhora, não tenho a mínima hipótese.

 

Jeannie sentiu uma grande admiração por aquela mulher. Mish dominara e dirigira a conversa desde que entrara ali, mas fizera-o sem forçar nem manipular. Sabia do que estava a falar e aquilo que queria.

 

Não sei respondeu Lisa.

 

Por que não dá uma olhadela a este programa de computador? sugeriu a detective. Paramos, caso se sinta perturbada.


Se não, pelo menos saberei qual é o aspecto do homem que persigo. Depois, quando tivermos terminado, pode decidir se quer ou não ir ao Mercy.

 

Lisa tornou a hesitar.

 

Está bem concordou, por fim.

 

Lembra-te de que podes parar quando te apetecer interveio Jeannie.

 

Lisa assentiu.

 

Para começar, vamos buscar uma cara. Não vai ser parecida com a dele, mas é uma base. Depois, apuramos os pormenores. Preciso que se concentre no rosto do violador e depois me faça uma descrição geral. Leve o tempo que for preciso.

 

Lisa fechou os olhos.

 

Era branco e tinha mais ou menos a minha idade. Cabelo curto, sem nenhuma cor específica. Olhos claros, creio que azuis. Nariz aquilino...

 

Mish mexia no rato. Jeannie levantou-se e foi colocar-se atrás da detective, de forma a poder ver o ecrã. Era um programa do Windows. No canto superior estava um rosto dividido em oito partes. À medida que Lisa ia fazendo a descrição, Mish carregava nessa zona da cara, puxava um menu, depois seleccionava os elementos do menu com base no que Lisa dizia: cabelo curto, olhos claros, nariz aquilino.

 

Lisa prosseguiu:

 

Queixo mais ou menos quadrado, sem barba ou bigode... que tal estou a ir?

 

Mish carregou outra vez no rato e no ecrã surgiu o rosto de um homem. Este aparentava cerca de trinta anos, possuía feições regulares e podia ser qualquer um de mil indivíduos. Mish virou o computador para que Lisa pudesse ver o ecrã.

 

Agora, vamos mudar a cara dele aos poucos. Primeiro, mostro-lhe esta cara com várias testas e diferentes contornos do couro cabeludo. Diga sim, não ou talvez. Está pronta?

 

Sim.

 

Mish carregou no rato.

 

O rosto no ecrã alterou-se e a testa ficou com umas grandes entradas.

 

Não disse Lisa.


Tornou a carregar. Desta vez, a cara tinha uma franja parecida com a dos Beatles.

 

Não.

 

O penteado seguinte era ondulado.

 

Já está mais parecido disse Lisa. Mas creio que ele tinha um risco.

 

O seguinte era encaracolado.

 

Melhor. Este é melhor do que o outro. Mas o cabelo continua muito escuro.

 

Depois de termos visto todos, voltamos para aqueles que escolheu disse Mish. Quando tivermos o rosto completo, podemos fazer uns últimos retoques; pôr o cabelo mais escuro ou mais claro, mudar o risco, tornar o rosto mais jovem ou mais velho.

 

Jeannie estava fascinada, mas aquilo iria demorar uma hora, ou mais, e ela precisava de ir trabalhar.

 

Tenho de ir-me embora. Ficas bem, Lisa?

 

Óptima respondeu Lisa, e Jeannie viu que era verdade. Talvez fosse melhor ela distrair-se com a caça ao homem. Olhou para Mish e viu uma expressão de triunfo.

 

«Ter-me-ei enganado», pensou, «quando fui hostil para a Mish e quis proteger a Lisa?» Mish era simpática. Tinha as palavras certas. Mesmo assim, a sua prioridade não era ajudar Lisa, mas sim apanhar o violador. Lisa continuava a precisar de uma amiga, alguém cuja principal preocupação fosse ela.

 

Ligo-te mais logo disse Jeannie. Lisa abraçou-a

 

Muito obrigada por teres ficado comigo. Mish estendeu-lhe a mão.

 

Prazer em conhecê-la. Jeannie apertou-lha.

 

Boa sorte. Espero que o apanhe.

 

Eu também retorquiu Mish.


Steve deixou o carro no enorme parque de estacionamento dos alunos na extremidade sudoeste do complexo de Jones Falis. Faltavam alguns minutos para as dez e viam-se bastantes alunos com roupas leves de Verão a caminho da primeira aula do dia. Enquanto atravessava o complexo pensou na tenista. Sabia ter poucas probabilidades de voltar a encontrá-la, mas mesmo assim não conseguiu impedir-se de olhar para todas as morenas altas, para ver se tinham uma argola no nariz.

 

O Edifício de Psicologia Ruth W. Acorn era uma estrutura moderna de três andares, coberto com o mesmo tijolo vermelho dos outros edifícios mais antigos e tradicionais da universidade. Steve deu o seu nome no átrio e foi enviado para o laboratório.

 

Durante as três horas seguintes foi submetido a mais testes do que aqueles que imaginara serem possíveis. Pesaram-no, mediram-no e tiraram-lhe as impressões digitais. Cientistas, técnicos e alunos fotografaram-lhe as orelhas, testaram a força do seu aperto de mão e avaliaram a sua capacidade de reacção, mostrando-lhe fotografias de vítimas de incêndios e corpos mutilados. Respondeu às perguntas sobre os seus tempos livres, as suas crenças religiosas, as suas namoradas e aspirações profissionais. Teve de dizer se sabia arranjar uma campainha, se pensava que tinha bom aspecto, se bateria nos filhos e se algumas músicas lhe faziam lembrar imagens ou várias cores. No entanto, ninguém lhe explicou por que motivo fora seleccionado para aquele trabalho.


Não era o único a ser estudado. No laboratório encontravam-se também duas meninas e um homem de meia idade com botas à cowboy, calças de ganga e uma camisa com franjas. A meio do dia, juntaram-se numa sala com sofás e uma televisão e almoçaram pizza e Coca-Cola. Foi nessa altura que Steve se apercebeu de que na realidade havia dois homens de meia idade: eram gémeos e tinham roupa igual.

 

Ele apresentou-se e ficou a saber que os cowboys se chamavam Benny e Arnold e as meninas Sue e Elizabeth.

 

Vocês vestem-se sempre da mesma maneira? perguntou Steve aos homens enquanto comiam.

 

Eles entreolharam-se.

 

Não sei respondeu Benny. Acabámos de nos conhecer.

 

São gémeos e acabaram de se conhecer?

 

Fomos adoptados quando éramos bebés... por famílias diferentes.

 

E por acaso vestem-se da mesma forma?

 

Assim parece.

 

E somos ambos carpinteiros acrescentou Arnold, fumamos Camel Lightx e temos dois filhos cada um, um rapaz e uma rapariga.

 

As raparigas chamam-se Caroline, mas o meu filho chama-se John e o dele Richard disse Benny.

 

Eu quis baptizar o meu de John, mas a minha mulher insistiu em Richard explicou Arnold.

 

Uau! exclamou Steve. Mas não podem ter herdado o gosto por Camel Lights.

 

Quem sabe?

 

Onde está o teu irmão gémeo? perguntou Elizabeth a Steve.

 

Não tenho nenhum respondeu. É isso que se estuda aqui, gémeos?

 

Sim acrescentou, orgulhosa: Eu e a Sue somos bivitelinas.

 

Steve franziu o sobrolho. A rapariga parecia ter cerca de onze anos.

 

Não conheço essa palavra retorquiu ele com gravidade. O que quer dizer?


Que não somos iguais. Apontou para Benny e Arnold. Eles são univitelinos. Têm o mesmo ADN. É por isso que são tão parecidos.

 

Pareces perceber muito do assunto comentou Steve. Estou impressionado.

 

Já aqui viemos antes.

 

A porta atrás de Steve abriu-se e Elizabeth olhou para lá.

 

Olá, doutora Ferrami cumprimentou. Steve virou-se e viu a tenista.

 

O seu corpo musculado encontrava-se oculto sob uma bata branca pelo joelho, mas ela movia-se pela sala como uma atleta. Tinha a mesma expressão concentrada que tanto o impressionara no court. Ficou a olhá-la, mal podendo acreditar na sua sorte.

 

Ela cumprimentou as raparigas e apresentou-se aos restantes. Quando apertou a mão de Steve olhou-o de relance uma segunda vez.

 

Então você é o Steve Logan! exclamou.

 

Jogou uma boa partida de ténis comentou ele.

 

Mas perdi. Ela sentou-se. Tinha o cabelo forte e escuro solto e Steve reparou, à luz impiedosa do laboratório, que tinha alguns cabelos brancos. Em vez da argola prateada tinha uma pequena bola de ouro no nariz. Estava pintada e a base fazia os seus olhos escuros parecerem ainda mais hipnóticos.

 

Agradeceu a todos a sua disponibilidade para estarem ali a bem da ciência e perguntou se as pizzas eram saborosas. Depois de mais algumas trivialidades pediu às raparigas e aos cowboys que fossem começar os testes da tarde.

 

Estava sentada junto a Steve, e ele teve a sensação de que ela se sentia atrapalhada. Parecia que ia dar-lhe más notícias.

 

Já deve ter perguntado a si próprio para que é tudo isto disse.

 

Calculo que fui escolhido por ter boas notas.

 

Não retorquiu ela. É verdade que teve muito boas notas em todos os testes intelectuais. As suas notas na escola são mais baixas do que deviam ser. O seu QI é muito acima da média. Provavelmente foi sempre o melhor da turma sem ter de se esforçar muito, não é verdade?

 

Sim. Mas não é por isso que aqui estou?


Não. O nosso projecto é saber até que ponto a vida das pessoas é predeterminada pela sua herança genética. O embaraço foi desaparecendo à medida que se ia embrenhando no assunto. Será o ADN que determina que sejamos inteligentes, agressivos, românticos, atléticos? Ou será a nossa educação? Se ambos têm influência, de que forma interagem?

 

Isso é uma polémica muito antiga comentou Steve. Tivera filosofia na escola e sentira-se fascinado por aquele tema. Sou o que sou porque nasci assim? Ou serei um produto da minha educação e da sociedade em que fui criado? Lembrou-se de uma frase que resumia tudo: Natureza ou educação?

 

Ela assentiu com a cabeça, e o seu cabelo comprido agitou-se um pouco, como o oceano. Steve perguntou a si próprio o que sentiria ao tocá-lo.

 

Mas estamos a tentar arranjar uma resposta estritamente científica disse ela. Os gémeos univitelinos têm os mesmos genes... exactamente os mesmos. Os bivitelinos não, mas são normalmente criados no mesmo ambiente. Estudamos os dois tipos e comparamo-los com os gémeos univitelinos criados separadamente, medindo as suas semelhanças.

 

Steve questionou-se sobre em que é que aquilo o afectaria. Também se interrogou sobre a idade de Jeannie. Quando a vira a jogar ténis na véspera, com o cabelo escondido sob o boné, julgara que ela era da sua idade; agora apercebia-se de que devia estar perto dos trinta. Isso não modificou o que sentia por ela, mas nunca antes se sentira atraído por uma pessoa tão mais velha.

 

Se o ambiente fosse o mais importante prosseguiu ela, os gémeos criados juntos seriam muito parecidos e os gémeos criados separadamente bastante diferentes, independentemente de serem univitelinos ou bivitelinos. Na realidade, descobrimos que é precisamente o contrário. Os gémeos univitelinos são parecidos, ainda que criados por pessoas diferentes. Os gémeos univitelinos criados separadamente são mais parecidos do que os gémeos bivitelinos criados juntos.

 

Como o Benny e o Arnold?

 

Exacto. Reparou, com certeza, como eles são parecidos, embora tenham sido criados em lares diferentes. Isso é comum. Este departamento já estudou mais de cem pares de gémeos univitelinos educados separadamente. Dessas duzentas pessoas, duas eram poetas de renome, e univitelinas. Duas lidavam profissionalmente com animais de estimação... uma treinava cães e outra era criadora. E eram univitelinas. Tivemos dois músicos: um professor de piano e um guitarrista... igualmente univitelinos. Mas estes são apenas os exemplos mais flagrantes. Como viu esta manhã, fazemos medições científicas da personalidade, do QI e de vários aspectos físicos, e essas medições apresentam muitas vezes o mesmo padrão: os gémeos univitelinos são muito parecidos, independentemente da sua educação.

 

Ao passo que a Sue e a Elizabeth parecem ser bastante diferentes.

 

Exacto. No entanto, têm os mesmos pais, a mesma casa, frequentam a mesma escola, comeram a mesma coisa durante toda a vida, e assim por diante. Calculo que a Sue tenha estado calada durante o almoço e que Elizabeth lhe contou a história da sua vida.

 

Por acaso, ela explicou-me o que queria dizer «univitelino». A Dr.a Ferrami riu-se, mostrando dentes brancos e uma ponta da língua rosada, e Steve ficou estranhamente satisfeito por tê-la divertido.

 

Mas ainda não explicou qual é o meu envolvimento. Ela pareceu de novo atrapalhada.

 

É um pouco difícil. Isto nunca aconteceu antes.

 

De súbito, compreendeu. Era evidente, mas tão espantoso que só agora adivinhara.

 

Acham que eu tenho um irmão gémeo que desconheço? perguntou ele com ar incrédulo.

 

Não me ocorre nenhuma forma mais suave de lhe dizer isso respondeu ela, atrapalhada. Sim, achamos.

 

Uau! exclamou ele. Estava atordoado: era difícil digerir aquela informação.

 

Lamento muito.

 

Não tem de pedir desculpa, acho eu.

 

Mas claro que sim. Normalmente, as pessoas sabem que têm gémeos antes de cá virem. No entanto, eu arranjei uma nova forma de recrutar pessoas para este estudo, e você é o primeiro. Por acaso, o facto de não saber que tem um irmão gémeo é ainda melhor. Mas não me ocorreu que podíamos dar às pessoas notícias chocantes.


Eu sempre quis ter um irmão disse Steve. Era filho único e nascera quando os seus pais estavam quase nos quarenta. É um irmão?

 

Sim. E são univitelinos.

 

Um irmão gémeo univitelino murmurou Steve. Mas como pôde isso acontecer sem eu saber?

 

Ela ficou mortificada.

 

Espere lá, acho que consigo descobrir. Eu podia ter sido adoptado.

 

Jeannie assentiu.

 

Aquilo era ainda mais chocante: a mãe e o pai podiam não ser os seus pais.

 

Ou o meu gémeo podia ter sido adoptado.

 

Sim.

 

Ou podemos ter sido os dois adoptados, como o Benny e o Arnold.

 

Exacto confirmou ela com ar solene. Fitava-o intensamente com os seus olhos escuros. Apesar da confusão que reinava no seu espírito, Steve não pôde impedir-se de pensar que ela era encantadora. Desejou que o olhasse para sempre daquela forma.

 

Na minha experiência disse Jeannie, mesmo que uma pessoa desconheça que tem um gémeo, sabe normalmente que foi adoptada. Ainda assim, eu devia ter calculado que você era diferente.

 

Não acredito que os meus pais guardassem segredo da adopção disse Steve, triste. Não é nada o género deles.

 

Fale-me dos seus pais.

 

Sabia que ela queria fazê-lo falar para que esquecesse o choque, mas não se importou. Ordenou as ideias.

 

A minha mãe é excepcional. Já ouviu, com certeza, falar dela: chama-se Lorraine Logan.

 

A colunista dos corações solitários?

 

Sim. Publicada em quatrocentos jornais, autora de seis bestsellers sobre a saúde das mulheres. É rica e famosa, e merece-o.

 

Por que diz isso?

 

Porque ela se preocupa bastante com as pessoas que lhe escrevem. Responde a milhares de cartas. Na sua maioria, as pessoas querem que ela agite a sua varinha mágica... que faça desaparecer as suas gravidezes indesejadas, tire os seus filhos da droga, transforme os maridos brutos em indivíduos meigos e atenciosos. Ela dá-lhes sempre a informação de que precisam e diz-lhes que a decisão lhes cabe, que devem confiar nos seus sentimentos e não permitir que ninguém abuse delas. É uma boa filosofia.

 

E o seu pai?

 

É bastante vulgar, acho eu. É coronel, trabalha no Pentágono. Está nas relações públicas, escreve os discursos aos generais, esse género de coisas.

 

É adepto da disciplina? Steve sorriu.

 

Tem um grande sentido do dever, mas não é um homem violento. Viu-se em algumas alhadas na Ásia, antes de eu nascer, mas nunca falou disso em casa.

 

Você precisou de ser disciplinado? Steve riu-se.

 

Eu fui sempre o mais mal comportado da turma. Estava sempre metido em sarilhos.

 

Porquê?

 

Por infringir as regras. Por correr nos corredores. Por usar meias vermelhas. Por mascar pastilha nas aulas. Por beijar a Wendy Prasker na biblioteca, atrás da prateleira dos livros de biologia, quando tinha treze anos.

 

Porquê?

 

Porque ela era muito bonita. Jeannie riu-se.

 

Queria referir-me ao motivo que o fez infringir as outras regras.

 

Ele abanou a cabeça.

 

Não conseguia ser obediente. Fazia o que me apetecia. As regras pareciam estúpidas e eu aborrecia-me. Podiam ter-me expulsado da escola, mas eu sempre tive boas notas e era geralmente o capitão de uma equipa, quer de futebol, de basquetebol, de basebol ou de atletismo. Não me compreendo. Serei esquisito?

 

Toda a gente é esquisita.

 

Acho que sim. Por que é que tem um brinco no nariz?


Ela ergueu as sobrancelhas escuras, como se dissesse: «Eu é que faço as perguntas», mas respondeu-lhe:

 

Atravessei uma fase punk quando tinha catorze anos: cabelo verde, collants rotos, tudo. O nariz furado também fazia parte disso.

 

Se você quisesse, o buraco já podia ter fechado.

 

Eu sei. Creio que continuo com ele por achar que a respeitabilidade completa é uma seca.

 

Steve sorriu. «Meu Deus, gosto desta mulher», pensou, «embora ela seja demasiado velha para mim». Depois os seus pensamentos concentraram-se no que ela disssera.

 

Por que é que está tão certa de que tenho um irmão gémeo?

 

Criei um programa de computador que procura pares nos registos médicos e noutras bases de dados. Os gémeos univitelinos têm ondas cerebrais, electrocardiogramas, impressões digitais e dentes semelhantes. Investiguei uma grande base de dados de radiografias dentárias feitas por uma companhia de seguros de saúde e descobri uma pessoa que tem os dentes e o formato da arcada muito parecidos com os seus.

 

Isso não é conclusivo.

 

Talvez não, embora ele tenha cavidades nos mesmos sítios que você.

 

Então quem é o rapaz?

 

Chama-se Dennis Pinker.

 

E onde está agora?

 

Em Richmond, na Virgínia.

 

Já o viu?

 

Vou amanhã a Richmond. Irei fazer-lhe grande parte dos mesmos testes e recolher uma amostra de sangue para comparar o ADN dele com o seu. Nessa altura, teremos a certeza.

 

Steve franziu o sobrolho.

 

Há alguma área específica em que esteja interessada no campo da genética?

 

Sim. A minha especialidade é a criminalidade e se ela é hereditária.

 

Steve assentiu.

 

Já percebi. O que fez ele?

 

Desculpe?

 

O que fez o Dennis Pinker?


Não percebo o que quer dizer.

 

Vai visitá-lo em vez de lhe pedir que venha cá, por isso é evidente que ele está preso.

 

Ela corou ligeiramente, como se tivesse sido apanhada a mentir. Ficava ainda mais sexy com as faces ruborizadas.

 

Sim, tem razão disse.

 

Por que crime está ele na cadeia? Ela hesitou.

 

Homicídio.

 

Credo! Steve desviou o olhar do dela, tentando digerir a informação. Não só fico a saber que tenho um irmão univitelino, como também que ele é um criminoso! Deus do Céu!

 

Desculpe disse ela. Conduzi isto muito mal. Você é a primeira pessoa assim que estudo.

 

Caramba! Vim aqui à espera de aprender qualquer coisa a respeito de mim próprio, mas fiquei a saber mais do que desejava!

 

Jeannie não sabia, nem nunca iria saber, que Steve quase matara um rapaz chamado Tip Hendricks.

 

Vocês são muito importantes para mim disse ela.

 

Como?

 

A questão é saber se a criminalidade é hereditária. Publiquei um trabalho onde defendi que um certo tipo de personalidade é hereditária... uma mistura de impulsividade, ousadia, agressão e hiperactividade, mas depende da forma como os pais lidam com essas pessoas se elas se transformam ou não em criminosas. Para provar a minha teoria, tenho de descobrir um par de gémeos univitelinos em que um seja um criminoso e o outro um cidadão respeitável. Você e o Dennis são o meu primeiro par, e são perfeitos: ele está na prisão e você, perdoe-me a expressão, é o rapaz americano ideal. Para lhe dizer a verdade, sinto-me tão excitada que mal consigo estar quieta.

 

Imaginar que aquela mulher se sentia demasiado excitada para estar quieta deixou Steve perturbado. Desviou o olhar do dela, com receio que o desejo fosse visível no seu rosto. Mas o que ela lhe dissera era bastante perturbador. Tinha o mesmo ADN de um assassino. Isso transformava-o em quê?

 

Atrás de Steve, a porta abriu-se e ela olhou para cima.


Olá, Berry cumprimentou Jeannie. Steve, quero que conheça o professor Berrington Jones, o director do estudo de gémeos da Universidade Jones Falis.

 

O professor era um homem baixo, que andava perto dos sessenta anos, bem parecido e com cabelo grisalho. Trazia um fato de muito bom corte em tweed verde irlandês e, no lugar da gravata, um fio de cabedal vermelho com as extremidades brancas. Tinha um ar tão perfeito que parecia ter acabado de sair de uma loja. Steve vira-o algumas vezes na televisão a falar da forma como a América estava a ser destruída. Não gostava das ideias dele, mas, como a sua educação o mandava ser delicado, levantou-se e estendeu-lhe a mão.

 

Berrington Jones olhou para ele e pareceu ter visto um fantasma.

 

Meu Deus! exclamou, empalidecendo.

 

O que foi, Berry? perguntou a Dr.a Ferrami.

 

Fiz alguma coisa? indagou Steve.

 

O professor ficou calado durante algum tempo. Depois pareceu controlar-se.

 

Desculpem, não foi nada disse, mas parecendo ainda abalado. É que me lembrei de repente de uma coisa... uma coisa de que me esqueci, um erro muito grave. Por favor, dêem-me licença. Dirigiu-se para a porta, ainda a murmurar: As minhas desculpas. Saiu.

 

Steve olhou para a Dr.a Ferrami.

 

Ela encolheu os ombros e levantou as mãos, num gesto de impotência.

 

Não faço a mínima ideia disse.


Berrington sentou-se à secretária, respirando com custo.

 

Tinha um gabinete num dos cantos do edifício, mas, tirando as paredes de vidro e a bela vista, o seu aspecto era monástico: chão de plástico, paredes brancas, arquivos, prateleiras baratas. Não se esperava que os académicos tivessem gabinetes luxuosos. O screensaver do seu monitor mostrava uma espiral de ADN em rotação, na conhecida forma da dupla hélice. Na secretária viam-se fotografias dele próprio com Geraldo Rivera, Newt Gingrich e Rush Limbaugh. A janela dava para o ginásio, fechado devido ao incêndio da véspera. Do outro lado da estrada, dois rapazes jogavam ténis no court, apesar do calor.

 

Berrington esfregou os olhos.

 

Raios, raios, raios! exclamou.

 

Convencera Jeannie Ferrami a trabalhar ali. O artigo que ela publicara sobre criminalidade abrira novos rumos ao centrar-se nos componentes da personalidade criminosa. Isso era crucial para o projecto da Genético. Quisera que ela continuasse a trabalhar sob a sua protecção. Conseguira arranjar-lhe emprego na faculdade e financiar a sua investigação com uma bolsa da Genético.

 

Com a sua ajuda, ela poderia fazer coisas grandiosas, e o facto de ser de origem humilde realçava ainda mais o que atingira. As suas primeiras quatro semanas em Jones Falis tinham confirmado a opinião dele. Começara em grande força e o seu projecto avançara rapidamente. A maior parte das pessoas gostava dela, embora por vezes pudesse ser muito ríspida: um técnico do laboratório, um rapaz com rabo-de-cavalo que pensava poder continuar a ser o desleixado do costume, ouviu uma violenta reprimenda no segundo dia de trabalho de Jeannie.

 

O próprio Berry estava enamorado. Ela era física e intelectualmente deslumbrante. Sentia-se dividido entre uma necessidade paternal de encorajá-la e guiá-la e o forte desejo de seduzi-la.

 

E agora aquilo!

 

Quando recuperou o fôlego, pegou no telefone e ligou a Preston Barck. Preston era o seu melhor amigo: tinham-se conhecido no MIT2 durante os anos 60, quando Berry andava a tirar o seu doutoramento em Psicologia e Preston era um notável embriólogo. Com os seus cabelos curtos e fatos de tweed, ambos eram considerados estranhos naquela época de estilos de vida extravagantes. Haviam logo descoberto que tinham a mesma opinião sobre diversas coisas: o jazz moderno era uma fraude, a marijuana era o primeiro passo para o consumo da heroína, o único político honesto da América era Barry Goldwater. A amizade durara mais do que os seus casamentos. Berrington já não pensava se gostava ou não de Preston: este estava ali, como o Canadá.

 

Naquele momento, Preston devia encontrar-se no quartel-general da Genético, um aglomerado de edifícios baixos com vista para um campo de golfe no município de Baltimore, a norte da cidade. A secretária de Preston informou-o de que ele estava numa reunião, e Berrington pediu para passar na mesma a chamada.

 

Bom dia, Berry. O que se passa?

 

Quem é que está aí?

 

Lee Ho, um dos contabilistas da Landsmann. Estamos a discutir os últimos pormenores do contrato.

 

Manda-o já dar uma volta!

 

A voz de Preston ficou mais baixa quando ele afastou a cara do auscultador.

 

Desculpe, Lee, isto vai demorar ainda algum tempo. Falo consigo mais tarde. Houve uma pausa, e depois voltou a falar para o bocal. Agora a sua voz era impaciente. Acabei de mandar embora o braço direito do Michael Madigan. O Madigan é o

 

2Massachusetts Instituto of Technology (N. do T.).


director executivo da Landsmann, para o caso de te teres esquecido. Se ainda estás tão interessado neste negócio como ontem à noite, é melhor não...

 

A paciência de Berrington esgotou-se.

 

O Steve Logan está cá interrompeu ele. Houve um momento de silêncio.

 

Em Jones Falis? perguntou Preston, atordoado.

 

Aqui, no edifício de psicologia.

 

Preston esqueceu-se imediatamente de Lee Ho.

 

Deus do Céu! A que propósito?

 

Está a fazer uns testes no laboratório. A voz de Preston subiu uma oitava.

 

Como diabo é que isso aconteceu?

 

Não sei. Vi-o há uns cinco minutos. Imagina a minha surpresa.

 

Reconheceste-o?

 

É claro que o reconheci.

 

Por que está ele a fazer testes?

 

Por causa do nosso estudo dos gémeos.

 

Gémeos? gritou Preston. Gémeos! Quem raio é o outro gémeo?

 

Ainda não sei. Era de esperar que uma coisa destas acontecesse, mais cedo ou mais tarde.

 

Mas agora? Vamos ter de cancelar o negócio com a Landsmann.

 

Bolas, não! Não vou permitir que faças disto uma desculpa para anular tudo, Preston. Neste momento Berrington desejava não ter feito o telefonema, mas precisara de partilhar o choque com alguém. Só temos de arranjar maneira de controlar a situação.

 

Quem é que chamou o Steve Logan?

 

A nova professora que contratámos, a doutora Ferrami.

 

A que escreveu aquele magnífico trabalho sobre criminalidade?

 

Sim. Para além de inteligente, é também muito bonita...

 

Não me interessa que ela seja a Sharon Stone...

 

Calculo que tenha recrutado o Steve para o projecto. Estava com ele quando o vi. Vou verificar.

 

Isso é fundamental, Berry. Preston começara já a acalmar-se e a pensar na solução, não no problema. Descobre como é que ele foi recrutado. Depois já podemos calcular o perigo.


Vou mandá-la vir já aqui ao gabinete.

 

Depois telefona-me, está bem?

 

Claro disse Berrington, desligando.

 

No entanto, não ligou imediatamente a Jeannie. Em vez disso, ordenou as suas ideias.

 

Na sua secretária havia uma fotografia a preto e branco do seu pai, um segundo-tenente, resplandescente no uniforme da marinha. Berrington tinha seis anos quando o Wasp fora ao fundo. Tal como todos os rapazinhos na América, ele odiava os Japoneses e nos seus jogos matava-os à dúzia. E o seu paizinho fora um herói invencível, alto e bem parecido, corajoso, forte e conquistador. Ainda sentia a fúria que o dominara quando descobrira que os Japoneses tinham morto o seu paizinho. Rezara a Deus para que a guerra continuasse até ele ser adulto, poder entrar para a marinha e matar um milhão de japoneses para se vingar.

 

Nunca matara ninguém. Mas nunca contratara um trabalhador japonês, nunca admitira um aluno japonês nem aceitara psicólogos japoneses para o laboratório.

 

Muitos homens, quando deparados com um problema, perguntavam a si próprios o que faria o seu pai na mesma situação. Os amigos haviam-lhe dito que ele nunca teria esse privilégio. Não conhecera bem o pai, porque não passava de uma criança. Não tinha a mais pequena ideia de como reagiria o tenente Jones numa situação de crise. Nunca tivera realmente um pai, apenas um super-herói.

 

Perguntaria a Jeannie Ferrami qual havia sido o seu método de recrutamento. Depois, decidiu, convidá-la-ia para jantar.

 

Ligou para o número de telefone interno de Jeannie. Ela levantou de imediato o auscultador. Ele baixou a voz e falou num tom a que a sua ex-mulher costumava chamar «meloso».

 

Jeannie, é o Berry.

 

Ela foi tipicamente directa.

 

O que raio se está a passar?

 

Dás-me um minuto, por favor?

 

Claro.

 

Importas-te de vir até ao meu escritório?

 

Vou já para aí disse ela, desligando.

 

Enquanto esperava que ela chegasse, interrogou-se sobre com quantas mulheres já teria ido para a cama. Demoraria algum tempo a recordar-se de todas, uma a uma, mas poderia fazer uma estimativa. Fora mais do que uma, mais do que dez, certamente. Teriam sido mais de cem? Isso corresponderia a dois ponto cinco desde que fizera dezanove anos: certamente haviam sido mais. Mil? Vinte e cinco por ano, uma nova mulher em cada duas semanas, durante quarenta anos? Não, não se saíra assim tão bem. Durante os dez anos em que fora casado com Vivvie Ellington, provavelmente não tivera mais de quinze ou vinte relações adúlteras. Mas depois disso compensara. Então, haviam sido entre cem e mil mulheres. Mas não iria levar Jeannie para a cama. Iria descobrir como raio é que ela entrara em contacto com Steve Logan.

 

Jeannie bateu à porta e entrou. Sobre a saia e a blusa trazia a bata branca do laboratório. Berrington gostava que as jovens usassem as batas como vestidos, tendo por baixo exclusivamente a roupa interior. Achava isso bastante sedutor.

 

Obrigado por teres passado por cá disse. Puxou uma cadeira para ela e depois empurrou a sua para o outro lado da secretária, por forma a não haver barreiras entre os dois.

 

A primeira tarefa seria apresentar a Jeannie uma explicação plausível para o seu comportamento quando fora apresentado a Steve Logan. Não iria ser fácil enganá-la. Desejou ter pensado nisso em vez de ter estado a contabilizar as suas conquistas.

 

Sentou-se e dirigiu-lhe o seu sorriso mais desarmante.

 

Quero pedir desculpas pelo meu comportamento estranho declarou. Estive a copiar para o computador alguns ficheiros da Universidade de Sydney. Apontou para o computador. Quando me apresentaste aquele jovem lembrei-me de que tinha deixado o computador ligado e me esquecera de sair da linha. Senti-me um pouco idiota, é tudo, mas fui bastante grosseiro.

 

A explicação não era muito boa, mas ela pareceu aceitá-la.

 

Ainda bem disse Jeannie, candidamente. Julguei que tinha feito algo que te houvesse ofendido.

 

Até ali, tudo bem.

 

Ia falar contigo a respeito do teu trabalho prosseguiu ele, calmamente. Começaste a todo o vapor. Só cá estás há quatro semanas e o teu projecto já vai bem lançado. Parabéns.

 

Ela assentiu.


Conversei bastante com o Herb e o Frank durante o Verão, antes de começar oficialmente explicou ela. Herb Dickson era o chefe do departamento e Frank Demidenko um dos professores. Estabelecemos logo o método de trabalho.

 

Fala-me um pouco mais disso. Surgiram alguns problemas? Posso ser útil em alguma coisa?

 

O recrutamento é o meu maior problema respondeu ela, porque as pessoas que estudamos são voluntárias, na sua maior parte como o Steve Logan, americanos respeitáveis da classe média que acreditam que um bom cidadão tem o dever de contribuir para o avanço científico. Não aparecem muitos chulos nem traficantes de droga.

 

Um aspecto que os nossos críticos liberais não deixaram de focar.

 

Por outro lado, não é possível descobrir mais coisas sobre a agressão e a criminalidade ao estudar famílias cumpridoras da lei. Por isso, era crucial que eu resolvesse o problema do recrutamento.

 

E resolveste?

 

Creio que sim. Lembrei-me de que está hoje em dia disponível em bases de dados de companhias de seguros e agências governamentais muita informação médica sobre milhões de pessoas. Isso inclui o tipo de dados que utilizamos para determinar se os gémeos são univitelinos ou bivitelinos: ondas cerebrais, electrocardiogramas, e assim por diante. Se pudéssemos procurar pares de electrocardiogramas parecidos, por exemplo, poderíamos identificar gémeos. E, se a base de dados fosse suficientemente grande, alguns desses pares teriam sido criados separadamente. E agora vem o mais excitante: alguns deles podem nem saber que têm irmãos gémeos.

 

Isso é extraordinário observou Berrington. Simples, mas original e engenhoso. E não estava a mentir. Os gémeos univitelinos criados separadamente eram muito importantes para a investigação genética, e os cientistas faziam quase tudo para recrutá-los. Até à data, a forma mais eficaz de os localizar era através de publicidade: liam artigos de revistas sobre o estudo de pares de gémeos e ofereciam-se para participar neles. Como Jeannie dissera, esse processo permitia-lhes estudar essencialmente pessoas da classe média, o que era uma desvantagem em geral e dificultava o estudo da criminalidade.

 


Mas para ele, pessoalmente, era uma desgraça. Olhou-a nos olhos e tentou ocultar a sua consternação. Aquilo era pior do que ele temera. Ainda na noite anterior Preston Barck dissera que ninguém poderia descobri-los. Não contara com Jeannie Ferrami.

 

Berrimgton fez outra tentativa

 

Encontrar entradas semelhantes nas bases de dados não é tão fácil como parece

 

É verdade. As imagens gráficas ocupam muitos megabytes de memória. Vasculhar esses registos é bastante mais difícil do que mandar o computador fazer a revisão ortográfica de uma tese de doutoramento.

 

Acho que é um grande problema na concepção do software. Então o que é que fizeste?

 

Criei o meu próprio software. Berrimgton ficou admirado.

 

Criaste?

 

Claro. Como sabes, fiz o mestrado em Informática em Princeton Quando estive em Minnesota, trabalhei com o meu orientador num software específico para o reconhecimento de padrões.

 

Seria ela assim tão inteligente?

 

Como é que isso funciona?

 

Serve-se de lógica para acelerar o processo de reconhecimento de padrões. Os pares que procuramos são semelhantes, mas não completamente idênticos. Por exemplo, as radiografias de dentes iguais tiradas por médicos diferentes em máquinas diferentes não são exactamente iguais. Mas o olho humano consegue aperceber-se da sua semelhança e, quando as radiografias são analisadas, digitalizadas e armazenadas electronicamente, um computador preparado para isso consegue reconhecê-las como um par

 

Calculo que precisaste de um computador do tamanho do Empire State Building..

 

Descobri uma maneira de encurtar o processo de identificação de pares observando apenas uma parte da imagem digitalizada. Imagina o seguinte. para reconheceres um amigo, não precisas de olhar para todo o seu corpo. Basta a cara dele. Os entusiastas de automóveis conseguem identificar a maior parte dos carros comuns apenas olhando para um farol. A minha irmã diz-te o nome de qualquer canção da Madonna depois de a ouvir dez segundos.


Isso é falível.

 

Ela encolheu os ombros.

 

Quando não analisamos a imagem completa arriscamo-nos a deixar passar algumas semelhanças. Descobri uma maneira de reduzir drasticamente o processo de busca apenas com uma pequena margem de erro. É uma questão de estatística e probabilidades.

 

É claro que todos os psicólogos estudavam estatística.

 

Mas como é que o mesmo programa consegue analisar radiografias, electrocardiogramas e impressões digitais?

 

Reconhece padrões electrónicos. Não se importa com o que eles representam.

 

E o teu programa funciona?

 

Parece que sim. Consegui uma autorização para o experimentar numa base de dados de registos dentários de uma grande companhia de seguros médicos. Mas é claro que estou apenas interessada em gémeos criados separadamente.

 

Como é que os descobres?

 

Eliminei todos os pares com o mesmo apelido e todas as mulheres casadas, uma vez que a maior parte delas tem o apelido dos maridos. O que resta são gémeos sem razão aparente para terem apelidos diferentes.

 

«Engenhoso», pensou Berrington. Estava dividido entre a admiração que sentia por Jeannie e o medo daquilo que ela pudesse vir a descobrir.

 

Quantos te restaram?

 

Três pares... o que, em certa medida, foi uma desilusão. Estava a contar com mais. Num dos casos, um dos gémeos mudou de apelido por motivos religiosos: tornou-se muçulmano e adoptou um nome árabe. Outro par desapareceu sem deixar rasto. Felizmente, o terceiro par era precisamente daquilo que eu andava à procura: Steve Logan é um cidadão cumpridor da lei e Dennis Pinker um assassino.

 

Berrington sabia disso. Uma noite, Dennis Pinker cortara a luz de um cinema no meio da exibição do filme Sexta-Feira, 13. No pânico que se gerou, atacara várias mulheres. Parece que uma tentara fazer-lhe frente e ele matou-a.

 

Então Jeannie tinha descoberto Dennis. «Credo», pensou, «ela é perigosa». Poderia dar cabo de tudo: do negócio com a Landsmann, da carreira política de Jim, da Genético e até da reputação académica de Berrington. O medo enfureceu-o. Como é que tudo aquilo por que ele lutara poderia estar ameaçado por uma das suas protegidas? Mas fora-lhe impossível prever o que poderia acontecer

 

Jeannie tinha sorte por estar ali em Jones Falis, na medida em que ele já sabia o que ela tencionava fazer. Contudo, não via saída possível. Se ao menos os ficheiros dela pudessem ser destruídos num incêndio ou morresse num acidente de viação. Mas tal não passava de fantasia

 

Seria possível minar a confiança dela no software)

 

O Steve Logan sabia que era adoptado? perguntou ele, com uma certa malícia

 

Não respondeu Jeannie, franzindo o sobrolho de preocupação. Sabemos que algumas famílias mentem muitas vezes a respeito da adopção, mas ele acha que a mãe lhe teria dito a verdade. No entanto, pode haver outra explicação. Imagina que não conseguiram adoptá-lo através dos canais normais, por uma razão qualquer e compraram um bebé. Poderiam mentir a respeito de uma coisa dessas

 

Ou o teu sistema pode ter-se enganado sugeriu Berrimgton. Só porque dois rapazes têm dentes iguais não significa que tenham necessariamente de ser gémeos

 

Não creio que o meu sistema se tenha enganado retorquiu Jeannie com brusquidão. Mas preocupa me dizer a dezenas de pessoas que talvez tenham sido adoptadas. Nem sequer sei se tenho o direito de invadir as suas vidas dessa forma. Só agora me apercebi da magnitude do problema

 

Ele olhou para o relógio

 

Estou com uma certa pressa, mas gostaria de continuar a falar deste assunto contigo. Posso convidar te para jantar?

 

Esta noite?

 

Sim

 

Viu-a hesitar. Já uma vez tinham jantado juntos, no Congresso Internacional de Estudos de Gémeos, onde se haviam conhecido. Desde que ela entrara para a Universidade Jones Falis, haviam bebido uns copos juntos uma vez, no bar do clube da faculdade. Num sábado à noite, tinham-se encontrado por acaso numa rua cheia de lojas em Charles Village, e Berrmgton levara a ao museu de arte. Não estava apaixonada por ele, longe disso, mas Berry sabia que ela gostara da sua companhia nessas três ocasiões. Para além disso, era o seu mentor; era difícil recusar a companhia dele.

 

Claro respondeu Jeannie.

 

Vamos ao Hamptons, no Hotel Harbor Court? Acho que é o melhor restaurante de Baltimore. Pelo menos era o mais pretensioso.

 

Muito bem disse ela, levantando-se.

 

Posso ir buscar-te às oito?

 

Sim.

 

Quando ela lhe virou as costas, Berrington teve subitamente uma visão das suas costas nuas, macias e musculosas, do seu rabo e das suas pernas longas, longas; por um momento, a garganta ficou seca de desejo. Depois, ela fechou a porta.

 

Berrington abanou a cabeça para se livrar da fantasia lasciva, depois tornou a telefonar a Preston.

 

É pior do que julgávamos disse, sem preâmbulos. Ela criou um programa de computador que vasculha bases de dados médicas até encontrar pares de gémeos. Da primeira vez que experimentou, encontrou logo o Steve e o Dennis.

 

Merda!

 

Temos de dizer ao Jim.

 

Devemos reunir-nos os três e decidir o que raio havemos de fazer. Que tal hoje à noite?

 

Convidei a Jeannie para jantar.

 

Achas que isso pode resolver o problema?

 

Mal não faz...

 

Continuo a achar que vamos ter de acabar por desistir do negócio com a Landsmann.

 

Não concordo contrapôs Berrington. Ela é bastante inteligente, mas nenhuma rapariga é capaz de descobrir toda a história numa semana.

 

Contudo, assim que desligou perguntou a si próprio se deveria ter tantas certezas.


Os alunos que assistiam à aula de Biologia Humana estavam irrequietos. Tinham dificuldade em concentrar-se e pareciam nervosos. Jeannie sabia porquê. Também ela estava nervosa. Por causa do incêndio e da violação. O pequeno e confortável mundo académico fora desestabilizado. A atenção dos alunos dispersava-se à medida que a sua mente se ia recordando do que acontecera.

 

As variações observadas na inteligência dos seres humanos podem ser explicadas por três factores disse Jeannie. Primeiro: por genes diferentes. Segundo: um ambiente diferente. Terceiro: erro na medição. Fez uma pausa e os alunos tomaram nota das suas palavras nos cadernos de apontamentos.

 

Ela reparara naquele efeito. Sempre que apresentava uma lista numerada, os alunos passavam-na para o caderno. Se tivesse dito simplesmente «genes diferentes, ambientes diferentes e erro experimental», ninguém teria escrito nada. Assim que detectara aquela síndroma, incluía o máximo possível de listas numeradas nas suas aulas.

 

Era boa professora, para sua própria surpresa. Geralmente, achava que as suas capacidades eram bastante limitadas. Era impaciente, conseguia ser abrasiva, tal como naquela manhã com a sargento Delaware. Mas era uma boa comunicadora, clara e precisa, e gostava de explicar coisas. Não havia nada melhor do que ver o rosto de um aluno iluminar-se após uma explicação.


Podemos apresentar isto sob a forma de equação prosseguiu ela, virando-se e escrevendo no quadro com um pedaço de giz:

 

Vt=Vg+Va+Vm

 

W é a variação total, Vg o componente genético, Vá o ambiental e Vm o erro de medição. Todos escreveram a equação. O mesmo pode aplicar-se a qualquer diferença mensurável entre seres humanos, desde a altura ao peso, passando pela sua tendência para acreditar em Deus. Alguém consegue descobrir uma falha nisto? Ninguém respondeu, por isso Jeannie deu-lhes uma pista. A soma pode ser maior do que as parcelas. Mas porquê?

 

Um dos rapazes falou. Eram geralmente os homens: as mulheres pareciam incrivelmente tímidas.

 

Porque os genes e o ambiente interagem para multiplicar os efeitos?

 

Exacto. Os vossos genes conduzem-vos para determinadas experiências ambientais e afastam-vos de outras. Os bebés com temperamentos diferentes exigem um tratamento diferente dos pais. Aqueles que começam a andar têm experiências diferentes daqueles mais sedentários, ainda que na mesma casa. Os adolescentes mais rebeldes ingerem mais drogas do que os meninos de coro da mesma cidade. Temos de acrescentar ao lado direito da equação o termo CGA, ou seja, co-variação gene-ambiente. Escreveu-a no quadro e depois olhou para o relógio de pulso. Faltavam cinco minutos para a hora. Há alguma pergunta?

 

Foi uma mulher quem falou, para variar. Chamava-se DonnaManne Dickson, era enfermeira e voltara a estudar com trinta anos. Era muito inteligente, mas bastante tímida.

 

E os Osmonds? perguntou. A turma riu-se e ela corou.

 

Explica o que queres dizer, Donna-Manne pediu Jeannie com suavidade. Alguns dos teus colegas devem ser demasiado novos para se lembrarem dos Osmonds.

 

Eram um grupo pop dos anos setenta, constituído por irmãos e irmãs. Na família Osmonds todos eram músicos. Mas não tinham os mesmos genes, não eram gémeos. Parece ter sido o ambiente familiar a transformá-los em músicos. O mesmo se passou com os Jackson Five. Os outros, quase todos mais novos, tornaram a rir-se. Ela sorriu, envergonhada, e acrescentou: Isto só serviu para dizer que sou velha.

 

Miss Dickson levantou um problema importante, e admira-me que mais ninguém tenha pensado nisso disse Jeannie. Não estava nada admirada, mas Donna-Mane precisava de receber um voto de confiança. Os pais carismáticos e dedicados podem fazer com que todos os seus filhos se conformem a um certo ideal, independentemente dos seus genes, tal como os pais violentos podem transformar todos os membros da família em esquizofrénicos. Mas estes casos são extremos. Uma criança mal nutrida pode ser baixa, mesmo que os pais e os avós sejam altos. Uma criança excessivamente nutrida será gorda, mesmo que tenha antepassados magros. No entanto, cada novo estudo tende a mostrar de forma mais conclusiva do que o anterior que aquilo que determina a natureza da criança é predominantemente a herança genética, e não o ambiente ou o tipo de educação. Fez uma pausa. Se não houver mais perguntas, leiam, por favor, antes da próxima segunda-feira, o livro Stieme, de Bouchard et ai., de 12 de Outubro de

1990. Jeannie pegou nos seus papéis.

 

Os alunos começaram a guardar os livros. Ela ficou por ali mais algum tempo, a fim de dar aos alunos tímidos de mais para fazerem perguntas em frente à turma oportunidade de a abordarem em particular. Os introvertidos davam muitas vezes grandes cientistas.

 

Foi Donna-Mane quem se aproximou. Tinha um rosto redondo e cabelo louro encaracolado. Jeannie calculou que ela devia ter sido uma boa enfermeira, calma e eficiente.

 

Lamento muito o que aconteceu à Lisa disse Donna-Mane. Que coisa mais horrível!

 

E a Polícia tornou tudo ainda pior comentou Jeannie. O agente que a levou para o hospital era um idiota completo.

 

Isso foi azar. Mas talvez apanhem o culpado. Andam a espalhar folhas com o retrato-robô dele por toda a universidade.

 

Óptimo! As folhas de que Donna-Mane estava a falar deviam ter sido produzidas pelo programa de Mish Delaware. Esta manhã, quando saí de casa, a Lisa estava a trabalhar no retrato com uma detective.

 

Como é que ela se sente?


Ainda um pouco entorpecida... mas nervosa. Donna-Manne assentiu.

 

Passam por várias fases. Já antes vi casos assim. A primeira fase é a negação. Dizem que querem deitar tudo para trás das costas e continuar com a vida. Mas nunca é assim tão fácil.

 

Ela devia falar contigo. Se soubesse o que pode esperar talvez se sentisse melhor.

 

Quando quiserem disse Donna-Manne.

 

Jeannie atravessou o complexo universitário, dirigindo-se ao «Manicómio». Ainda estava calor. Deu consigo a olhar em volta, vigilante, como um cowboy nervoso num western, à espera que alguém surgisse detrás de uma esquina da residência dos caloiros e a atacasse. Até ali, o complexo universitário de Jones Falis parecera-lhe um oásis de antiquada tranquilidade no deserto de uma cidade americana moderna. Na verdade, a Universidade Jones Falis era como uma pequena cidade, com as suas lojas e bancos, campos de jogos e parquímetros, bares e restaurantes, escritórios e casas. Tinha uma população de cinco mil pessoas, metade das quais vivia no complexo universitário. Mas tudo aquilo se transformara numa zona perigosa. «O gajo não tem o direito de fazer isto», pensou Jeannie com amargura, «fazer-me sentir medo no local onde trabalho». Talvez um crime tivesse sempre aquele efeito, fazendo com que a terra firme parecesse agitar-se debaixo dos pés.

 

Quando entrou no seu gabinete começou a pensar em Berrington Jones. Era um homem atraente, muito atencioso para com as mulheres. Gostara dos poucos momentos que passara com ele. Para além disso, sentia que lhe devia muito, pois fora Berrington quem lhe dera aquele trabalho.

 

Por outro lado, o homem era um bocado untuoso. Ela desconfiava que a sua atitude para com as mulheres devia ser manipuladora. Fazia-a sempre pensar naquela anedota do homem que diz para a mulher: «Fala-me de ti. O que pensas, por exemplo, de mim?»

 

Em alguns aspectos, não parecia um académico. Mas Jeannie vira que os notáveis do mundo universitário raramente tinham o ar vago e impotente do estereotipado professor distraído. Berrington parecia e agia como um homem poderoso. Já há alguns anos que não fazia trabalho científico de grande importância, mas isso era normal: as brilhantes descobertas originais, tal como a da dupla hélice, eram normalmente feitas por pessoas com menos de trinta e cinco anos. À medida que os cientistas iam envelhecendo, usavam a sua experiência e o seu instinto para ajudar e conduzir as mentes mais jovens e frescas. Berrington fazia isso bem, leccionando três disciplinas e desempenhando o papel de gestor do dinheiro da Genético destinado à investigação. No entanto, não era tão respeitado como poderia ser, porque os outros cientistas não apreciavam o seu envolvimento na política. Jeannie era de opinião que a ciência dele era boa e a sua política uma porcaria.

 

A princípio, acreditara prontamente na história de Berrington sobre a gravação de ficheiros da Austrália, mas, depois de ter pensado um pouco, não ficou assim tão certa. Quando Berry olhara para Steve Logan vira um fantasma, não uma conta telefónica.

 

Muitas famílias tinham segredos de paternidade. Uma mulher casada poderia ter um amante, e só ela saberia quem era o verdadeiro pai do seu filho. Uma adolescente poderia ter um filho e dá-lo à mãe, desempenhando o papel de irmã mais velha, enquanto toda a família conspirava para guardar o segredo. As crianças eram adoptadas por vizinhos, familiares e amigos, que escondiam a verdade. Lorraine Logan poderia não ser o género de mulher que ocultasse uma adopção legal, contudo podia ter dezenas de outros motivos para mentir a Steve a respeito das suas origens. Mas de que forma estaria Berrington envolvido? Poderia ele ser o verdadeiro pai de Steve? Essa ideia fez Jeannie sorrir. Berry era bem parecido, mas tinha, no mínimo, quinze centímetros a menos do que Steve. Embora qualquer coisa fosse possível, essa explicação não parecia muito provável.

 

Incomodava-a aquele mistério. Em todos os restantes aspectos, Steve Logan representava para ela um triunfo. Era um cidadão respeitador da lei com um irmão gémeo que, por sua vez, era um criminoso violento. Steve provara que o seu programa de computador funcionava na perfeição e confirmava a sua teoria sobre a criminalidade. É claro que iria precisar de mais cem pares de gémeos como Steve e Dennis antes de poder falar de provas. Mesmo assim, não podia ter começado melhor a sua investigação.

 

No dia seguinte iria visitar Dennis. Se ele fosse um anão moreno, Jeannie saberia que algo correra mal. Mas se tivesse razão, ele seria o sósia de Steve Logan.


Ficara admirada ao saber que o rapaz não fazia ideia de que fora adoptado. Iria ter de arranjar uma forma qualquer de lidar com aquele problema. De futuro, entraria em contacto com os pais e verificaria o quanto eles haviam contado antes de abordar os gémeos. Isso iria abrandar o seu trabalho, mas teria de ser feito; não poderia ser ela a revelar segredos de família.

 

O problema era solucionável, mas tal não a impedia de estar ansiosa devido às perguntas cépticas de Berrington e à incredulidade de Logan, e começou a pensar na fase seguinte do projecto. Esperava conseguir utilizar o seu software no ficheiro de impressões digitais do FBI.

 

Era a perfeita fonte para ela. Dos vinte e dois milhões de pessoas contidos no ficheiro, muitas haviam sido acusadas de crimes ou condenadas por eles. Se o seu programa funcionasse, revelaria centenas de gémeos, incluindo muitos pares criados separadamente. Poderia ser um salto de gigante para a sua investigação. Mas primeiro teria de obter autorização do FBI.

 

Na escola, a sua melhor amiga fora Ghita Sumra, um génio matemático de ascendência asiático-indiana que agora dirigia o sector de tecnologia da informação no FBI. Trabalhava em Washington, DC, mas vivia em Baltimore. Ghita já concordara em pedir aos seus chefes que cooperassem com Jeannie. Prometera transmitir-lhe a sua decisão até ao final da semana, mas naquele momento Jeannie tinha vontade de apressá-la. Marcou o número dela.

 

Ghita nascera em Washington, mas a sua voz ainda fazia lembrar a índia, devido à sua doçura e à forma como arredondava as vogais.

 

Olá, Jeannie, que tal foi o teu fim-de-semana? perguntou.

 

Horrível. A minha mãe passou-se completamente e tive de interná-la num lar,

 

Lamento saber isso. O que fez ela?

 

Esqueceu-se de que estava a meio da noite, levantou-se, esqueceu-se de vestir a roupa, saiu para comprar um pacote de leite e esqueceu-se onde morava.

 

E o que aconteceu?

 

A Polícia encontrou-a. Felizmente ela tinha na carteira um cheque meu e conseguiram localizar-me.

 

Como é que te sentes?


Era uma pergunta de mulheres. Os homens Jack Budgen, Berrington Jones tinham-lhe perguntado o que iria fazer. Era preciso uma mulher para lhe perguntar como se sentia.

 

Mal respondeu. Se eu tiver de tomar conta da minha mãe, quem irá tomar conta de mim? Sabes?

 

Em que tipo de sítio está ela?

 

Num lar barato. O seguro não dá para mais. Tenho de tirá-la de lá assim que arranjar dinheiro para pagar uma coisa melhor. Ouviu um silêncio comprometido do outro lado da linha e percebeu que Ghita pensara que ela estava a pedir-lhe dinheiro. Vou dar explicações aos fins-de-semana acrescentou rapidamente. Já falaste com o teu chefe sobre a minha proposta?

 

Por acaso já.

 

Jeannie susteve a respiração.

 

Aqui estão todos muito interessados no teu software disse Ghita.

 

Aquilo não era nem um sim nem um não.

 

Não têm sistemas de busca?

 

Sim, mas o teu é muito mais rápido do que os que temos. Já falaram em comprar-te o programa.

 

Uau! Afinal, talvez não precise de dar explicações aos fins-de-semana.

 

Ghita riu-se.

 

Antes de abrires o champanhe, é melhor certificarmo-nos de que o programa trabalha mesmo.

 

Quando poderemos fazer isso?

 

Vamos pô-lo a correr à noite, para não interferir muito com a utilização normal da base de dados. Terei de esperar por uma noite calma. Talvez consiga daqui a uma semana, duas, no máximo.

 

Não pode ser antes?

 

Há alguma pressa?

 

Havia, mas Jeannie tinha uma certa relutância em contar a Ghita as suas preocupações.

 

Estou impaciente respondeu ela.

 

Farei o que puder, não te preocupes. Podes enviar-me o programa por modem

 

Claro. Mas não achas que eu devia estar presente quando puseres o programa a correr?


Não, Jeannie, não acho retorquiu Ghita com um sorriso.

 

Claro, percebes mais destas coisas do que eu.

 

Podes mandá-lo para aqui. Ghita leu-lhe o endereço do seu E-mail e Jeannie tomou nota. Envio-te os resultados da mesma forma.

 

Obrigada. Ghita?

 

O que é?

 

Achas que vou ter de arranjar um subterfúgio para fugir aos impostos?

 

Desaparece! exclamou Ghita com uma gargalhada, desligando o telefone.

 

Jeannie acedeu à Internet. Enquanto enviava o seu programa para o FBI, bateram à porta e Steve Logan entrou.

 

Ela olhou-o com admiração. O rapaz recebera notícias perturbadoras, e isso era visível no seu rosto, mas era jovem, recuperava rapidamente e o choque não o deitara abaixo. Era um indivíduo psicologicamente bastante estável. Se fosse do tipo criminoso, como o seu irmão Dennis devia ser, já teria arranjado sarilhos com alguém.

 

Como é que vai isso? perguntou Jeannie. Ele fechou a porta com um calcanhar.

 

Já estou despachado respondeu ele. Fiz todos os testes e preenchi todos os questionários inventados pelo engenho da humanidade.

 

Então está livre para ir para casa.

 

Pensei em ficar esta noite em Baltimore. Por acaso, lembrei-me de a convidar para jantar.

 

Ela ficou admirada.

 

Para quê? perguntou, de forma pouco cortês. A pergunta apanhou-o de surpresa.

 

Bem, hum... para ficar a saber mais um pouco acerca da sua investigação.

 

Ah! Bem, infelizmente, já tenho um compromisso para esta noite.

 

Ele ficou bastante desiludido.

 

Acha-me demasiado novo?

 

Para quê?

 

Para convidá-la para sair?


Foi nessa altura que ela compreendeu.

 

Não percebi que me tinha convidado para um jantar romântico disse ela.

 

Steve ficou atrapalhado.

 

Você é um bocado lenta a perceber as coisas.

 

Desculpe. Estava mesmo a ser lenta. Ele abordara-a na véspera, junto ao campo de ténis, mas Jeannie passara o dia a pensar nele como um alvo do seu estudo. No entanto, agora que pensava nisso, ele era demasiado novo para convidá-la para sair. Tinha vinte e dois anos, era estudante; ela tinha mais sete. Era um grande fosso.

 

Que idade tem o homem com quem vai sair?

 

Cinquenta e nove ou sessenta.

 

Uau! Gosta mesmo de homens velhos

 

Jeannie teve pena dele. Achou que lhe devia algo depois daquilo por que o fizera passar. O computador emitiu o som de uma campainha, indicando que acabara de enviar o programa.

 

Hoje já não trabalho mais disse ela. Quer ir beber qualquer coisa ao clube?

 

Ele alegrou-se imediatamente.

 

Claro. Gostaria muito. Estou bem vestido?

 

Tinha umas calças verdes e uma camisa de linho azul.

 

Melhor do que a maior parte dos professores. Jeannie saiu da Internet e desligou o computador.

 

Telefonei à minha mãe e falei-lhe da sua teoria disse Steve.

 

Ela ficou zangada?

 

Riu-se. Disse que eu não tinha sido adoptado e que não tive nenhum irmão gémeo.

 

Estranho. Para Jeannie era um alívio verificar que a família Logan estava a aceitar bem as coisas. Por outro lado, o cepticismo deles fê-la pensar que talvez Steve e Dennis não fossem gémeos. Sabe... Hesitou. Já lhe dissera coisas suficientemente chocantes naquele dia. Há outra possibilidade de você e o Dennis serem gémeos.

 

Já sei no que está a pensar. Bebés trocados no hospital.

 

Ele era muito rápido. Naquela manhã ela reparara mais do que uma vez na rapidez com que ele resolvia os problemas.


É verdade anuiu. A mãe número um teve gémeos, as mães dois e três tiveram cada uma um rapaz. Os gémeos são dados às mães dois e três, e os bebés destas são criados pela mãe número um. À medida que as crianças crescem, a mãe número um conclui que teve gémeos bivitelinos, pois os filhos são muito pouco parecidos.

 

E se as mães dois e três não se conhecerem, ninguém notará a semelhança extraordinária entre os bebés dois e três.

 

É uma história muito usada pelos romancistas admitiu ela. Mas não é impossível.

 

Há algum livro sobre gémeos? perguntou Steve. Gostaria de saber mais sobre o assunto.

 

Sim, eu tenho um... Olhou para a prateleira. Não, está

 

em casa.

 

Onde é que mora?

 

Aqui perto.

 

Podia levar-me a sua casa para a tal bebida.

 

Ela hesitou. «Este é o gémeo normal», pensou ela, «não o psicopata».

 

Hoje ficou a saber muito sobre mim insistiu ele. Tenho uma certa curiosidade a seu respeito. Gostaria de ver a sua casa.

 

Jeannie encolheu os ombros.

 

Claro, por que não? Venha daí.

 

Eram cinco da tarde e, quando saíram do «Manicómio», o tempo começara a arrefecer. Steve assobiou quando viu o Mercedes vermelho.

 

Que carro tão fixe!

 

Comprei-o há oito anos. Adoro-o.

 

O meu está no parque de estacionamento. Vou buscá-lo e depois faço-lhe sinais de luzes.

 

Afastou-se. Jeannie entrou no Mercedes e ligou o motor. Pouco depois, viu os faróis dele no espelho retrovisor. Afastou-se da berma e seguiu.

 

Quando saiu do complexo universitário reparou que um carro-patrulha ia atrás do carro de Steve. Olhou para o conta-quilómetros e reduziu para cinquenta.

 

Parecia que Steve Logan estava enamorado dela. Embora Jeannie não sentisse o mesmo, isso agradava-lhe. Era lisonjeador ter conquistado o coração de um jovem tão bem parecido.


Ele foi colado a ela durante todo o caminho. Jeannie parou em frente à sua casa e ele estacionou atrás dela.

 

Como em muitas das velhas ruas de Baltimore, havia um alpendre comum da largura das casas onde os vizinhos se sentavam a apanhar a brisa fresca antes da invenção do ar condicionado. Jeannie atravessou o alpendre e parou junto à porta, tirando as chaves da mala.

 

Os dois polícias saíram rapidamente do carro-patrulha de armas em punho. Puseram-se em posição de atirador, os braços estendidos, os revólveres apontados directamente para Jeannie e Steve.

 

O coração de Jeannie quase parou.

 

Que merda!... começou Steve.

 

Polícia! Não se mexam! gritou um dos agentes. Jeannie e Steve puseram as mãos no ar.

 

Mas os polícias não ficaram mais descansados.

 

Já para o chão, filho da puta! gritou um deles. A cara para baixo e as mãos atrás das costas!

 

Jeannie e Steve deitaram-se os dois de cara para baixo. Os polícias aproximaram-se com tanto cuidado que até parecia que cada um deles era uma bomba-relógio.

 

Não acham melhor dizer-nos o que vem a ser isto? perguntou Jeannie.

 

A senhora pode levantar-se disse um deles.

 

Bolas, obrigada. Pôs-se de pé. O seu coração batia muito depressa, mas parecia evidente que os polícias se tinham enganado. Agora que me pregaram um susto de morte, importam-se de me explicar o que se passa?

 

Os homens continuaram sem responder. Mantinham as armas apontadas para Steve. Um deles ajoelhou-se ao lado do rapaz e, com um gesto rápido e preciso, algemou-o.

 

Estás preso, cabrão disse o polícia.

 

Sou uma mulher de espírito aberto interveio Jeannie, mas será que todo esse arrazoado de palavrões é realmente necessário? Ninguém lhe ligou. Ela insistiu. O que é que acham que ele fez?

 

Um Dodge Colt azul-claro parou atrás do carro-patrulha com um grande chiar de pneus e saíram de lá duas pessoas. Uma era Mish Delaware, a detective da Unidade de Crimes de Natureza Sexual. Tinha a mesma blusa e a mesma saia daquela manhã, mas levava um casaco de linho que lhe ocultava parcialmente o coldre à cintura.

 

Chegou cá depressa comentou um dos polícias.

 

Estava aqui perto retorquiu ela. Olhou para Steve, deitado no chão. Levantem-no! ordenou.

 

O polícia agarrou em Steve pelo braço e ajudou-o a levantar-se.

 

É mesmo ele disse Mish. O tipo que violou Lisa Hoxton.

 

O Steve? perguntou Jeannie, com ar incrédulo. «Meu Deus, e eu que ia levá-lo para o meu apartamento!»

 

Violei? perguntou Steve.

 

Os agentes viram o carro dele a sair da universidade disse Mish.

 

Jeannie reparou pela primeira vez no carro de Steve. Era um Datsun castanho com cerca de quinze anos. Lisa julgara que vira o violador ao volante de um Datsun branco.

 

O choque e o medo iniciais começaram a dar lugar a um pensamento racional. A Polícia suspeitava dele, mas isso não o tornava culpado. Onde estavam as provas?

 

Se vão prender todos os homens com um Datsun...

 

Mish entregou-lhe um papel. Tinha uma fotografia computorizada a preto e branco de um homem. Jeannie observou-a. Era algo parecida com Steve.

 

Pode ser ele, mas pode também não ser comentou.

 

O que estava a fazer com ele?

 

Hoje fizemos-lhe alguns testes no laboratório. Não posso acreditar que ele seja o violador! Os resultados dos testes haviam demonstrado que Steve tinha a personalidade herdada de um potencial criminoso, mas também provavam que ele não se transformara num verdadeiro criminoso.

 

Pode dizer-nos onde esteve ontem entre as sete e as oito e meia? perguntou Mish a Steve.

 

Bem, estive na Universidade Jones Falis respondeu ele.

 

A fazer o quê?

 

Nada de especial. Devia ter ido dar uma volta com o meu primo Ricky, mas ele cancelou a nossa saída. Vim até cá para ficar a saber onde devia dirigir-me esta manhã. Não tinha mais nada para fazer.


Parecia uma desculpa fraca, até aos ouvidos de Jeannie. «Talvez Steve fosse o violador», pensou ela, abalada. Mas se fosse, toda a sua teoria ia por água abaixo.

 

Como é que passou o tempo?

 

Assisti a um jogo de ténis. Depois fui a um bar em Charles Village e fiquei lá algumas horas. Perdi o incêndio.

 

Alguém pode confirmar o que acabou de dizer?

 

Bem, falei com a doutora Ferrami, embora nessa altura ainda não soubesse quem ela era.

 

Mish virou-se para Jeannie. Esta viu hostilidade nos seus olhos e lembrou-se da troca de palavras pouco amigável travada naquela manhã, quando Mish tentava convencer Lisa a colaborar.

 

Foi a seguir ao meu jogo de ténis, alguns minutos antes de o incêndio eclodir afirmou Jeannie.

 

Então não pode dizer-nos onde ele estava quando ocorreu a violação.

 

Não, mas posso dizer-lhe outra coisa. Passei o dia todo a fazer exames a este homem e ele não tem o perfil psicológico de um violador.

 

Isso não serve de prova observou Mish com desdém. Jeannie ainda tinha na mão a folha de papel.

 

E creio que isto também não. Enrolou-o numa bola e atirou-o para o passeio.

 

Mish virou a cabeça na direcção dos polícias.

 

Vamos embora.

 

Esperem disse Steve, numa voz clara e calma. Eles hesitaram.

 

Jeannie, estou-me nas tintas para estes gajos, mas quero que saiba que não fiz isso, nem nunca faria nada do género.

 

Ela acreditou, perguntando a si própria porquê. Seria porque precisava que ele fosse inocente para provar a sua teoria? Não: tinha os testes para comprovar que ele não possuía nenhuma das características associadas aos criminosos. Mas havia ainda outra coisa: a sua intuição. Sentia-se segura com ele. Não lhe dera quaisquer sinais errados. Escutava-a quando ela falava, não tentara forçá-la a nada, não lhe tocara de forma inadequada nem se mostrara zangado nem hostil. Gostava de mulheres e respeitava-as. Não era um violador.


Quer que eu telefone a alguém? Aos seus pais?

 

Não respondeu ele com firmeza. Eles ficavam preocupados. E daqui a algumas horas tudo terá acabado. Nessa altura falo com eles.

 

Estão a contar consigo esta noite?

 

Disse-lhes que talvez ficasse outra vez com o Ricky.

 

Bom, se quer assim...

 

Quero.

 

Vamos disse Mish, impaciente.

 

Para quê tanta pressa? retorquiu Jeannie. Tem mais inocentes para prender?

 

Mish lançou-lhe um olhar furioso.

 

Tem mais alguma coisa a dizer-me?

 

O que vai acontecer a seguir?

 

Vamos reunir alguns indivíduos e pedir à Lisa que tente identificar atrás de um espelho o homem que a violou. Depois, acrescentou com falsa deferência: Tem alguma coisa a objectar, doutora Ferrami?

 

Não, nada respondeu Jeannie.


Levaram Steve para a Baixa no Dodge Colt azul-claro. A detective foi ao volante e o colega, um homem branco robusto de bigode, ia sentado ao seu lado, parecendo demasiado apertado no habitáculo. Ninguém falou.

 

Steve fervilhava, cheio de ressentimentos. Por que raio deveria ele ir ali naquele carro desconfortável, de pulsos algemados, em vez de estar no apartamento de Jeannie Ferrami com uma bebida gelada na mão? Era melhor que despachassem aquilo o mais rapidamente possível.

 

A esquadra era um edifício de granito cor-de-rosa construído no bairro de prostituição de Baltimore, entre os bares de topless e as lojas de aluguer de vídeos pornográficos. Subiram uma rampa e estacionaram na garagem interna. Estava cheia de carros-patrulha e de outros baratuchos, como o Colt.

 

Levaram Steve num elevador e deixaram-no numa sala sem janelas, com as paredes pintadas de amarelo. Tiraram-lhe as algemas e ficou sozinho. Calculou que tivessem trancado a porta: não foi verificar.

 

Havia uma mesa e duas cadeiras de plástico. Sobre a mesa encontrava-se um cinzeiro com duas beatas, ambas com filtro, uma delas com bâton. Embutida na porta estava uma pequena janela de vidro opaco: Steve não podia ver para fora, mas desconfiava que podiam ver para dentro.

 

Olhou para o cinzeiro e lamentou não fumar. Pelo menos estaria a fazer alguma coisa ali naquela cela amarela. Em vez disso, pôs-se a andar de um lado para o outro.


Disse a si próprio que não podia encontrar-se metido em sarilhos. Conseguira ver a fotografia do papel e, embora fosse mais ou menos parecida com ele, não era ele. Era, sem dúvida, parecido com o violador, mas, quando seguisse para a identificação juntamente com outros indivíduos altos, a vítima não iria escolhê-lo. Afinal de contas, a pobre mulher devia ter tido oportunidade de olhar bem para o estupor que a violara: o rosto dele estaria gravado na sua memória. Ela não se enganaria.

 

Mas os xuis não tinham o direito de o manter ali preso. Okay, precisavam de eliminar um suspeito, mas não era necessário demorarem toda a noite. Ele era um cidadão cumpridor da lei.

 

Tentou olhar para o lado alegre da coisa. Tinha a oportunidade de ver de perto o sistema de justiça americano. Mais tarde seria um dos seus advogados: ali estava uma boa maneira de ganhar prática. No futuro, quando representasse um cliente acusado de crime, saberia o que essa pessoa estaria a passar detida pela autoridade.

 

Já uma vez vira o interior de uma esquadra, mas a sensação fora bastante diferente. Na altura tinha apenas dezasseis anos. Fora à Polícia com um dos seus professores. Admitira imediatamente o crime, e contara, muito cândido, aos agentes tudo o que acontecera. Eles puderam ver as suas feridas: era evidente que não fora apenas um a agredir. Os pais tinham ido buscá-lo.

 

Nunca se sentira tão envergonhado como naquele momento. Quando o pai e a mãe entraram na cela, desejou morrer. O pai estava mortificado, como se tivesse sofrido uma grande humilhação; a expressão da mãe denotava pesar. Pareciam ambos atordoados e magoados. Na altura, tudo o que ele pudera fazer fora desatar a chorar, e ainda sentia um nó na garganta de cada vez que se lembrava disso.

 

Mas agora era diferente. Agora ele estava inocente.

 

A detective apareceu com uma pasta de cartão na mão. Tirara o casaco, mas continuava com a arma à cintura. Era uma negra bonita com cerca de quarenta anos, um pouco forte, com um ar mandão.

 

Steve olhou para ela, aliviado.

 

Graças a Deus! disse.

 

Porquê?

 

Por estar a acontecer alguma coisa. Não quero passar aqui o resto da noite.


Importa-se de se sentar, por favor? Steve obedeceu.

 

Sou a sargento Michelle Delaware. Tirou uma folha de papel da pasta e pousou-a sobre a mesa. O seu nome completo e morada?

 

Ele disse-lhe, e Michelle tomou nota.

 

Idade?

 

Vinte e dois.

 

Habilitações?

 

Frequento o curso de Direito.

 

Ela continuou a escrever no formulário e depois virou-o na direcção dele. Tinha o seguinte cabeçalho:

 

DEPARTAMENTO DE POLÍCIA BALTIMORE, MARYLAND

 

EXPLICAÇÃO DE DIREITOS Formulário n.° 69

 

Leia, por favor, as cinco frases do formulário e em seguida escreva as suas iniciais nos espaços ao lado de cada frase. Estendeu-lhe uma caneta.

 

Ele leu o formulário e começou a escrever as iniciais.

 

Tem de ler em voz alta disse ela. Steve pensou durante algum tempo.

 

Para ter a certeza de que eu sei ler? perguntou.

 

Não. Para mais tarde você não poder fingir que é analfabeto e alegar que não o informaram dos seus direitos.

 

Não ensinavam aquelas coisas no curso de Direito.

 

«Fica agora notificado de que: primeiro, tem todo o direito de não prestar declarações» leu ele. Escreveu «SL» no espaço no final da linha, depois prosseguiu a leitura, repetindo o processo no fim de cada frase. «Segundo, tudo o que disser ou escrever pode ser usado contra si em tribunal. Terceiro, tem o direito de falar com um advogado em qualquer altura, antes de ser interrogado, antes de responder a perguntas ou durante um interrogatório. Quarto, se desejar um advogado e não tiver dinheiro, não lhe serão feitas quaisquer perguntas e pedir-se-á ao tribunal que designe um defensor oficioso. Quinto, se concordar em responder às perguntas, pode parar a qualquer momento e pedir a presença de um advogado, e não lhe serão feitas mais perguntas.»

 

Agora assine, por favor. Ela apontou para o formulário. Aqui e aqui.

 

O primeiro espaço para assinar ficava sob a frase:

 

LI A ANTERIOR EXPLICAÇÃO DOS MEUS DIREITOS E COMPREENDO-A PERFEITAMENTE.

 

(Assinatura)

 

Steve assinou.

 

E logo a seguir disse a detective.

 

Estou disposto a responder a perguntas, e não desejo a presença de um advogado nesta altura. A minha decisão de responder a perguntas sem a presença de um advogado é livre e voluntária.

 

(Assinatura)

 

Ele assinou.

 

Como raio é que conseguem que os culpados assinem uma coisa destas? perguntou.

 

Ela não respondeu. Escreveu o seu nome em maiúsculas e depois assinou o formulário.

 

Guardou-o na pasta e olhou para ele.

 

Está metido num grande sarilho, Steve disse.

 

Mas parece um tipo vulgar. Por que não me conta o que aconteceu?

 

Não posso respondeu ele. Não estava lá. Acho que sou apenas parecido com o idiota que o fez.

 

Ela encostou-se, cruzou as pernas e dirigiu-lhe um sorriso amistoso.

 

Eu conheço os homens disse, num tom de intimidade. Têm certas necessidades.

 

«Se eu não soubesse», pensou Steve, «olharia para a sua linguagem corporal e diria que ela está a atirar-se a mim».

 

Deixe-me expor-lhe o que penso prosseguiu a detective. Você é um homem atraente e ela olhou para si com ar apreciador.


Nunca vi a mulher, sargento.

 

Ela ignorou-o. Inclinando-se sobre a mesa, cobriu a mão dele

 

com a sua.

 

Acho que ela o provocou.

 

Steve olhou para a mão dela. Tinha boas unhas, tratadas pela manicura, não demasiado compridas, com um verniz claro. Mas a mão era um pouco engelhada: ela tinha mais de quarenta anos, talvez quarenta e cinco.

 

A mulher prosseguiu num tom de conspiração, como se dissesse: «Isto é apenas entre nós».

 

Ela estava a pedi-las, por isso você deu-lhe o que ela queria. Estou certa?

 

Por que raio pensa uma coisa dessas? perguntou Steve, irritado.

 

Eu sei como são as raparigas. Ela provocou-o e, no último minuto, mudou de ideias. Mas era tarde de mais. Um homem não pode parar assim, sem mais nem menos, não um verdadeiro homem.

 

Oh!, espere, já percebi disse Steve. O suspeito concorda consigo, pensando que está a fazer boa figura, mas, na realidade, admitiu que a relação sexual teve lugar e metade do seu trabalho está feita.

 

A sargento Delaware encostou-se, com um ar aborrecido, e Steve calculou que acertara. Ela levantou-se.

 

Muito bem, espertinho, venha comigo.

 

Aonde vamos?

 

Para as celas.

 

Espere lá. Quando é que é a identificação?

 

Assim que entrarmos em contacto com a vítima e a trouxermos até cá.

 

Não pode deter-me indefinidamente sem autorização do tribunal.

 

Podemos detê-lo durante vinte e quatro horas sem nenhuma autorização, por isso cale a boca e venha daí.

 

Ela levou-o para baixo no elevador e, depois de passarem por uma porta, chegaram a um vestíbulo pintado de laranja-acastanhado. Uma folha na parede lembrava os agentes de que deviam manter os suspeitos algemados, enquanto os revistavam. O carcereiro, um polícia negro com cerca de cinquenta anos, estava atrás de um balcão alto.

 

Ei, Spike disse a sargento, tenho aqui um estudante universitário muito espertinho para ti.

 

O polícia sorriu.

 

Se ele é assim tão esperto, como é que veio aqui parar? Riram-se ambos. Steve tomou mentalmente nota de, no futuro,

 

não dizer a um polícia que adivinhara as suas intenções. Era uma das suas fraquezas: antagonizara os seus professores da mesma forma. Ninguém gostava de um tipo armado em esperto.

 

O polícia chamado Spike era pequeno e magro, com cabelo grisalho e um bigodinho. Tinha um ar empertigado, mas nos olhos uma expressão fria. Abriu uma porta de aço.

 

Vais entrar nas celas, Mish? perguntou ele. Se assim for, tenho de pedir-te que entregues a tua arma.

 

Não, por agora já acabei respondeu ela. Mais tarde vai ser identificado. Virou costas e afastou-se.

 

Por aqui, rapaz disse o carcereiro a Steve. Passaram pela porta.

 

Encontravam-se junto às celas. As paredes e o chão tinham a mesma cor lamacenta. Steve ficara com a impressão de que os elevadores tinham parado no segundo andar, mas não havia janelas e parecia-lhe estar numa gruta bem abaixo do solo. Iria levar bastante tempo a subir até à superfície.

 

Numa pequena antessala havia uma secretária e uma máquina fotográfica num tripé. Spike pegou num formulário. Lendo-o de pernas para o ar, Steve viu que o cabeçalho era o seguinte:

 

DEPARTAMENTO DE POLÍCIA BALTIMORE, MARYLAND

 

RELATÓRIO DA ACTIVIDADE DO PRISIONEIRO Formulário n.° z

 

O homem tirou a tampa a uma esferográfica e começou a preencher o formulário.

 

Quando terminou, apontou para uma mancha no chão e disse:

 

Vai para ali.


Steve ficou de frente para a máquina fotográfica; Spike carregou num botão e viu-se o clarão de um flash.

 

Vira-te de lado. Houve outro flash.

 

Em seguida, Spike agarrou num quadrado de cartão com letras cor-de-rosa, onde se lia:

 

FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION

 

DEPARTAMENTO DE JUSTIÇA DOS ESTADOS UNIDOS

 

WASHINGTON, DC, 20 537

 

Spike encostou os dedos de Steve a uma almofada de tinta, depois pressionou-os nos quadrados do cartão com a indicação l, Poleg. D, 2, Indic. D, e assim por diante. Steve reparou que Spike, embora fosse um homem baixo, tinha mãos grandes com veias salientes.

 

Na prisão de Greemont Avenue há um computador que recolhe as impressões digitais sem precisar de tinta disse Spike durante a tarefa. É como uma máquina de fotocópias: basta encostar as mãos ao vidro. Mas nós aqui em baixo ainda utilizamos o velho método.

 

Steve apercebeu-se de que começava a sentir vergonha, embora não tivesse cometido qualquer crime. Em parte era devido às instalações sombrias, mas essencialmente à sensação de impotência. Desde o momento em que os polícias tinham saído a correr do carro-patrulha em frente à casa de Jeannie que Steve era empurrado de um lado para o outro como um pedaço de carne, sem qualquer controlo sobre si mesmo. Isso deitava abaixo qualquer ego.

 

Depois de ter tirado as impressões digitais, deixaram-no lavar as mãos.

 

Permita-me que o conduza à sua suite disse Spike jovialmente.

 

Conduziu Steve através de um corredor com celas à esquerda e à direita. Cada cela era mais ou menos quadrada. No lado que dava para o corredor não havia parede, apenas grades, de forma que cada centímetro da cela fosse perfeitamente visível do lado de fora. Através das grades, Steve viu que cada cela tinha um catre de metal preso à parede, uma sanita de aço inoxidável e um lavatório. As paredes e os catres eram laranja-acastanhados e estavam cobertos de graffiti. As sanitas não tinham tampas. Em três ou quatro celas viam-se homens apáticos deitados nos catres, mas a maior parte estava vazia.

 

As segundas-feiras são sempre calmas aqui no Holiday Inn da Lafayette Street brincou Spike.

 

Steve foi incapaz de se rir.

 

Spike parou junto de uma cela vazia. Steve olhou lá para dentro enquanto o polícia abria a porta. Não havia a mínima privacidade. Steve apercebeu-se de que se tivesse de usar a sanita teria de o fazer à frente de toda a gente, homem ou mulher, que nesse momento passasse no corredor. Isso era o mais humilhante de tudo.

 

Spike abriu a porta de grades e encaminhou Steve lá para dentro. A porta fechou-se e Spike trancou-a.

 

Steve sentou-se no catre.

 

Deus do Céu, que lugar! comentou ele.

 

Hás-de habituar-te animou-o Spike, afastando-se. Pouco depois apareceu com uma embalagem de plástico.

 

Sobrou-me um jantar. É frango frito. Queres?

 

Steve olhou para a embalagem, depois para a sanita aberta, e abanou a cabeça.

 

Obrigado, mas acho que não tenho fome.

 

Berrington pediu champanhe.

 

Jeannie teria preferido um bom gole de vodca Stolichnaya com gelo depois do dia atribulado que tivera, mas ingerir bebidas duras não era a melhor forma de impressionar positivamente um patrão, por isso decidiu guardar o desejo para si.

 

Champanhe significava romance. Nas ocasiões em que se haviam encontrado anteriormente, ele fora encantador, não romântico. Estaria agora a tentar atirar-se a ela? Isso deixava-a pouco à vontade. Nunca conhecera um homem que aceitasse de bom grado uma nega. E aquele homem era o seu patrão.

 

Também não lhe falou de Steve. Esteve prestes a fazê-lo várias vezes antes do jantar, mas algo a impediu. Se, ao contrário do que esperava, Steve fosse mesmo um criminoso, a sua teoria começaria a parecer muito falível. Mas Jeannie não gostava de antecipar más notícias. Não levantaria dúvidas antes de o caso estar provado. E estava certa de que tudo era um enorme erro.

 

Falara com Lisa.

 

Prenderam o Brad Pitt! dissera ela. Lisa ficara horrorizada ao pensar que o homem passara o dia inteiro no «Manicómio», o local de trabalho da amiga, e que esta estivera prestes a levá-lo para casa. Jeannie explicara-lhe que tinha a certeza de que Steve não era o criminoso. Mais tarde, apercebeu-se de que talvez não devesse ter feito o telefonema: poderia ser entendido como manipulação da testemunha. Não que isso fosse fazer muita diferença. Lisa olharia para vários homens brancos, e veria ou não aquele que a tinha violado. Não era o género de coisa acerca da qual se pudesse enganar.

 

Jeannie também falara com a mãe. Patty fora naquele dia ao lar, com os três filhos, e a mãe contara-lhe, muito animada, que os rapazes tinham andado a correr pelos corredores. Felizmente, parecia ter-se esquecido de que fora apenas na véspera que se mudara para Bela Vista. Falara como se morasse ali há anos e repreendeu Jeannie por não a visitar mais vezes. Depois da conversa, Jeannie sentiu-se um pouco melhor a respeito da mãe.

 

Que tal estava a perca? perguntou Berrington, interrompendo-lhe a cadeia de pensamentos.

 

Deliciosa.

 

Ele alisou as sobrancelhas com a ponta do indicador direito. Jeannie achou o gesto típico de alguém que estava satisfeito consigo próprio.

 

Agora vou fazer-te uma pergunta e gostaria que respondesses com toda a sinceridade. Sorriu, para que ela não o levasse muito a sério.

 

Okay.

 

Queres sobremesa?

 

Sim. Achas que eu sou daquelas que costuma fingir a respeito dessas coisas?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Acho que finges a respeito de muito pouco.

 

Se calhar. Já me disseram que não tinha o mínimo tacto.

 

Será uma das tuas maiores falhas?

 

Talvez me saísse melhor se pensasse mais no assunto. Qual é a tua pior falha?

 

Apaixonar-me respondeu Berrington, sem hesitar.

 

Isso é uma falha?

 

Sim, se acontecer demasiadas vezes.

 

Ou por mais do que uma pessoa ao mesmo tempo.

 

Talvez deva escrever à Lorraine Logan a pedir conselho. Jeannie riu-se. Não queria que a conversa fosse parar a Steve.

 

Qual é o teu pintor preferido? perguntou.

 

Vê se consegues adivinhar.

 

Berrington era bastante patriota, por isso devia igualmente ser um sentimentalão.


Norman Rockwell?

 

Claro que não. exclamou ele, parecendo verdadeiramente horrorizado. Não passa de um ilustrador vulgar. Se eu tivesse dinheiro para coleccionar quadros, compraria os impressionistas americanos. As paisagens de Inverno de John Henry Twachtman. Adoraria ser dono do The While Bridge. E tu?

 

Agora tens tu de adivinhar. Ele pensou durante algum tempo

 

Joan Miró.

 

Porquê?

 

Calculo que gostes de manchas coloridas ousadas. Ela assentiu.

 

É verdade. Mas erraste. O Miró é demasiado confuso. Prefiro o Mondnan.

 

Ah, sim, claro. As linhas rectas.

 

Exactamente. És muito bom nisto

 

Berrington encolheu os ombros e ela calculou que ele já tentara adivinhar muita coisa a respeito de várias mulheres

 

Jeannie mergulhou a colher no sorvete de manga. Aquilo não era um jantar de negócios. Em breve teria de decidir que tipo de relação iria ter com Berrington.

 

Já havia um ano e meio que não beijava um homem. Desde que Will Temple saíra da sua vida não andara com mais ninguém. Não queria manter-se fiel a Will. já não o amava. Mas estava cansada.

 

No entanto, começava a dar em doida com aquela vida de reclusão. Sentia saudades de ter alguém peludo na cama, sentia falta dos odores masculinos. óleo de bicicleta, camisolas suadas e uísque e, acima de tudo, sentia falta de sexo. Quando as feministas radicais vinham dizer que o pémis era o inimigo, Jeanie tinha vontade de lhes responder. Fala por ti, pá!»

 

Levantou o olhar para Berrington, que comia delicadamente maçãs caramelizadas. Gostava do homem, apesar de discordar das suas tendências políticas. Era inteligente, (os seus homens tinham de ser inteligentes) e possuía modos cativantes. Respeitava-o pelo seu trabalho científico. Era elegante e parecia em forma; provavelmente seria um amante hábil e cheio de experiência e tinha uns belos olhos azuis

 

Mesmo assim, era demasiado velho. Ela gostava de homens maduros, mas não tão maduros.


Como poderia rejeitá-lo sem destruir a sua carreira? O melhor seria fingir que considerava as suas atenções apenas amáveis e paternais. Dessa forma, evitaria dizer-lhe «não» frontalmente.

 

Bebeu um gole de champanhe. O empregado estava sempre a encher-lhe o copo e ela já não sabia ao certo quanto tinha bebido; ainda bem que não precisava de conduzir.

 

Veio o café. Jeannie pediu um duplo, para ver se ficava mais sóbria. Quando Berrington pagou a conta, apanharam o elevador para o parque de estacionamento e entraram no Lincoln Town Car prateado dele.

 

Berrington seguiu junto ao porto e entrou na via rápida de Jones Falis.

 

Ali fica a prisão disse ele, apontando para um edifício semelhante a uma fortaleza que ocupava todo um quarteirão. A escumalha da terra encontra-se lá.

 

«Talvez o Steve também lá esteja», pensou Jeannie.

 

Como pudera ela imaginar alguma vez ir para a cama com Berrington? Não sentia por ele o mínimo afecto. Tinha vergonha de haver sequer pensado numa coisa dessas. Quando ele parou junto à sua casa, Jeannie disse:

 

Bom, Berry, obrigada pela agradável noite. Iria ele apertar-lhe a mão, perguntou-se, ou tentaria beijá-la? Se assim fosse, ela oferecer-lhe-ia a cara.

 

Mas ele não fez nem uma coisa nem outra.

 

O meu telefone de casa está avariado e preciso de fazer um telefonema antes de ir para a cama disse. Importas-te que use o teu?

 

Não teve coragem para lhe dizer: «Sim, importo. Por que não usas uma cabina?» Parecia condenada a ter de lidar com um atiradiço decidido.

 

Claro que não respondeu, suprimindo um suspiro. Anda daí. Perguntou a si própria se poderia esquivar-se a oferecer-lhe um café.

 

Saiu do carro e foi à frente até à porta. Esta dava para um pequeno vestíbulo com mais duas portas. Uma conduzia ao apartamento do rés-do-chão, ocupado por Mr. Oliver, estivador reformado, a outra, a de Jeannie, dava para as escadas que conduziam ao seu apartamento, no primeiro andar.


Franziu o sobrolho, intrigada. A sua porta estava aberta.

 

Entrou e subiu as escadas. Lá em cima a luz estava acesa. Curioso: quando saíra ainda era de dia.

 

As escadas terminavam na sala de estar. Jeannie entrou e deu um grito.

 

Ele estava junto ao frigorífico, com uma garrafa de vodca na mão. Tinha um ar desgrenhado e a barba por fazer e parecia ligeiramente embriagado.

 

O que se passa? perguntou Berrington, atrás dela.

 

Isto não tem segurança nenhuma, Jeannie disse o intruso. Abri as tuas fechaduras em cerca de dez segundos.

 

Quem raio é ele? perguntou Berrington.

 

Quando é que saíste da prisão, pai? perguntou, por sua vez, Jeannie, chocada.

 

A sala da identificação ficava no mesmo andar das celas. Na antessala encontravam-se outros seis homens da idade de Steve e com a mesma constituição. Ele calculou que eram polícias. Não lhe falaram e evitaram o seu olhar. Tratavam-no como um criminoso. Teve vontade de dizer: «Ei, pessoal, eu estou do vosso lado, não sou um violador, estou inocente».

 

Tiraram todos os relógios de pulso e os anéis e fios e puseram-nos dentro de sobrescritos brancos sobre a roupa. Enquanto se preparavam, apareceu um homem vestido à civil.

 

Qual de vocês é o suspeito? perguntou.

 

Eu respondeu Steve.

 

Eu sou Lew Tanner, defensor oficioso esclareceu o homem. Estou aqui para ver se a identificação é feita de forma correcta. Tem alguma pergunta?

 

A que horas posso sair daqui? perguntou Steve.

 

Se não for identificado, daqui a duas horas.

 

Duas horas! exclamou Steve, indignado. Tenho de regressar àquela maldita cela?

 

Sim.

 

Deus do Céu!

 

Vou pedir que tratem da sua libertação o mais depressa possível disse Lew. Mais alguma coisa?

 

Não, obrigado.

 

Muito bem. Saiu.


Um carcereiro conduziu os sete homens através de uma porta até um estrado. Na parede atrás havia uma escala que indicava a altura deles e locais numerados de um a dez. Uma luz forte iluminava-os e um vidro dividia o estrado do resto da sala. Os homens não conseguiam ver através do vidro, mas podiam ouvir o que se dizia atrás dele.

 

Durante algum tempo, houve apenas passos e vozes baixas, todas masculinas. Em seguida, Steve ouviu o som inconfundível dos passos de uma mulher. Pouco depois, falou um homem, que parecia estar a ler ou a repetir algo que já sabia de cor.

 

À sua frente estão sete pessoas. Irá identificá-las pelos números. Se algum destes indivíduos lhe fez alguma coisa, ou fez algo na sua presença, quero que diga o número dele, apenas o número. Se quiser que algum deles fale, que diga qualquer coisa específica, mandá-lo-emos falar. Se quiser que algum deles se vire ou se ponha de lado, fá-lo-ão todos. Reconhece aquele que lhe fez alguma coisa ou fez algo na sua presença?

 

Silêncio. Os nervos de Steve estavam retesados como as cordas de uma guitarra, embora tivesse a certeza de que não iria ser escolhido.

 

Ele tinha um chapéu disse uma voz de mulher baixinho. Parecia uma jovem da classe média, da mesma idade que ele, pensou Steve.

 

Temos chapéus disse o homem. Quer que eles ponham chapéus?

 

Era mais um boné. Um boné de basebol.

 

Steve ouviu a ansiedade e a tensão na voz da rapariga, mas também a determinação. Não havia a mínima falsidade. Ela parecia ser o tipo de mulher que dizia a verdade, mesmo quando perturbada. Sentiu-se um pouco melhor.

 

Dave, vê se temos sete bonés de basebol nesse armário. Houve uma pausa de vários minutos. Steve rangeu os dentes, impaciente.

 

Caramba murmurou uma voz, não sabia que tínhamos estas coisas todas... óculos, bigodes...

 

Nada de conversas, por favor, Dave disse o primeiro homem. Isto é uma identificação.

 

Por fim, um detective foi ao estrado e entregou um boné a cada um dos homens. Colocaram os bonés e o detective saiu.


Do outro lado do vidro ouviu-se uma mulher a chorar. A voz masculina repetiu o que tinha dito anteriormente:

 

Reconhece aquele que lhe fez alguma coisa ou fez algo na sua presença? Se assim é, quero que diga o número dele, apenas o número.

 

Número quatro disse a mulher com um soluço. Steve virou-se e olhou para o seu número.

 

Era o número quatro.

 

Não! gritou. Não pode ser! Não fui eu!

 

Ouviu isto, número quatro? perguntou uma voz de homem.

 

Claro que ouvi, mas não fui eu!

 

Os outros rapazes começaram a sair do estrado.

 

Por amor de Deus! Steve olhou para o vidro, os braços abertos, a implorar. Como é que pôde escolher-me? Nem sequer sei como você é!

 

Não diga nada, minha senhora ouviu-se a voz de homem. Muito obrigado pela sua colaboração. A saída é por aqui.

 

Há qualquer coisa errada, não percebe? gritou Steve. O carcereiro Spike apareceu.

 

Acabou-se tudo, filho, vamos embora disse.

 

Steve olhou para ele. Por um momento sentiu-se tentado a dar um murro nos dentes do homenzinho.

 

Spike viu a expressão dos olhos dele e o seu rosto endureceu.

 

Nada de problemas. Não tens para onde fugir. Agarrou o braço de Steve e apertou-o como um torno. Era inútil protestar.

 

Steve sentiu-se como se tivesse sido agredido pelas costas. Aquilo fora inesperado. Deixou descair os ombros e foi invadido por uma fúria imensa.

 

Como é que isto aconteceu? perguntou. Como é que isto aconteceu?

 

Pai?! repetiu Berrington.

 

Jeannie teve vontade de morder a língua. Fora a coisa mais estúpida que podia ter dito: «Quando é que saíste da prisão, pai?» Ainda há minutos Berrington chamara aos presos a escumalha da terra.

 

Sentia-se mortificada. Já era mau o patrão descobrir que o seu pai era um assaltante profissional. Que ele o conhecesse era ainda pior. O pai tinha uma nódoa negra na cara devido a uma queda e uma barba de vários dias. As suas roupas estavam sujas e tinham um odor vago, mas desagradável. Sentia-se tão envergonhada que era incapaz de olhar para Berrington.

 

Houvera uma altura, há muitos anos, em que não tivera vergonha dele. Fora precisamente o contrário: ele fazia com que os pais das outras raparigas parecessem maçadores e enfadonhos. Fora um homem bonito e fácil de amar, e chegava sempre a casa com um fato novo e os bolsos cheios de dinheiro. Depois havia cinema, vestidos novos e enormes gelados, e a mãe comprava uma camisa de noite bonita e começava a fazer dieta. Mas ele acabava sempre por desaparecer e, quando tinha nove anos, Jeannie descobrira porquê. Tammy Fontaine contara-lhe. Nunca iria esquecer aquela conversa.

 

«O teu fato de treino é horroroso», dissera Tammy.

 

«O teu nariz é horroroso», retorquira Jeannie, e as outras raparigas tinham-se afastado.

 

«A tua mãe compra-te roupas que são mesmo asquerosas».

 

«A tua mãe é gorda».


«O teu pai está na prisão».

 

«Não está nada».

 

«Está sim».

 

«Não está NADA!»

 

«Ouvi o meu pai contar à minha mãe. Estava a ler o jornal. ”Parece que o velho Pete Ferrami está de novo preso”», disse ele.

 

«Sua mentirosa!», retorquira Jeannie, mas, no seu íntimo, acreditava em Tammy. Aquilo explicava tudo: a riqueza súbita, os desaparecimentos igualmente súbitos, as longas ausências.

 

Jeannie nunca mais voltou a ter uma daquelas atormentadoras conversas de colegas. Qualquer pessoa podia calá-la ao falar no pai. Com nove anos, era como se tivesse ficado aleijada para o resto da vida. Sempre que alguma coisa desaparecia na escola, ela sentia que todos lhe lançavam olhares acusadores. Nunca conseguiu afastar o sentimento de culpa. Se outra mulher abrisse a carteira e exclamasse: «Raios, julguei que tinha aqui uma nota de dez dólares!», Jeannie corava até à raiz dos cabelos. Tornou-se obsessivamente honesta: era capaz de andar quase dois quilómetros para devolver uma esferográfica barata, com receio de que o proprietário dissesse que ela era uma ladra como o pai.

 

Agora ali estava ele, em frente ao patrão dela, sujo e com a barba por fazer e, provavelmente, sem dinheiro.

 

Este é o professor Berrington Jones apresentou Jeannie. Berry, apresento-te o meu pai, Pete Ferrami.

 

Berrington mostrou-se afável. Apertou a mão do homem.

 

Prazer em conhecê-lo, Mister Ferrami disse. A sua filha é uma mulher muito especial.

 

Lá isso é verdade anuiu o pai com um sorriso satisfeito.

 

Bem, Berry, agora ficaste a saber o segredo da família declarou Jeannie num tom resignado. O meu pai foi preso pela terceira vez no dia em que me formei summa ciun laude em Princeton. Esteve preso durante os últimos oito anos.

 

E podiam ter sido quinze interveio o pai. Usámos armas no servicinho.

 

Obrigada por nos dizeres isso, pai. O meu patrão vai ficar muito bem impressionado.

 

O pai pareceu magoado e desconcertado, e ela sentiu pena dele, apesar do seu ressentimento. A fraqueza de Pete magoava-o tanto como magoava a família. Ele era um dos falhanços da Natureza. O sistema fabuloso que produzia a raça humana, o mecanismo profundamente complexo do ADN que Jeannie estudava, estava programado para fazer cada indivíduo ligeiramente diferente do anterior. Às vezes o resultado era bom: um Einstein, um Louis Armstrong, um Andrew Carnegie. E outras vezes era um Pete Ferrami.

 

Jeannie tinha de livrar-se rapidamente de Berrington.

 

Se quiseres fazer a tal chamada, Berry, podes usar o telefone do quarto.

 

Hum, não é preciso respondeu ele. «Graças a Deus».

 

Bem, obrigada por esta noite especial disse, estendendo a mão.

 

Foi um prazer. Boa noite. Berry apertou-lhe a mão desajeitadamente e saiu.

 

Jeannie virou-se para o pai.

 

O que aconteceu?

 

Saí por bom comportamento. Estou livre. E é claro que a primeira coisa que fiz foi ver a minha filhinha.

 

Depois de teres passado três dias completamente bêbedo. Ele era tão pouco sincero que até magoava. Sentiu a habitual fúria a crescer. Por que não podia ter um pai como o das outras pessoas?

 

Vá lá, não sejas antipática disse ele.

 

A fúria transformou-se em pena. Nunca tivera um verdadeiro pai, nem teria.

 

Dá-me essa garrafa pediu. Vou fazer café.

 

Com relutância, ele entregou-lhe a garrafa de vodca e Jeannie voltou a guardá-la no frigorífico. Pôs água na máquina de café e ligou-a.

 

Envelheceste comentou o pai. Já tens alguns cabelos brancos.

 

Ena, obrigada. Colocou canecas, natas e açúcar em cima da mesa.

 

A tua mãe também teve cabelos brancos muito cedo.

 

Sempre pensei que a causa eras tu.

 

Fui a casa dela disse ele algo indignado. Já lá não vive.

 

Agora está em Bella Vista.


Foi o que me disse a vizinha. Mistress Mendoza. Deu-me a tua morada. Não me agrada que a tua mãe esteja num sítio daqueles.

 

Então, tira-a de lá! gritou Jeannie, indignada. Ainda é a tua mulher. Arranja um emprego e um apartamento decente e começa a olhar por ela.

 

Sabes que não posso fazer isso. Nunca pude.

 

Então não me critiques por não o fazer. O tom dele tornou-se conciliador.

 

Não estava a falar de ti, querida. Só disse que não gosto de ver a tua mãe num lar, mais nada.

 

Eu também não gosto, nem a Patty. Vamos tentar arranjar dinheiro para a tirar dali. Jeannie sentiu-se emocionada e teve de reprimir as lágrimas. Bolas, pai, isto já é suficientemente difícil sem que estejas para aí a queixar-te.

 

Okay, okay disse ele.

 

Jeannie engoliu em seco. «Não devia permitir que ele me afectasse desta maneira». Mudou de assunto.

 

O que vais fazer agora? Tens alguns planos?

 

Vou procurar umas coisas.

 

Isso significava que iria procurar um local para assaltar. Jeannie não disse nada. Era um ladrão e ela não podia mudá-lo. O pai tossiu.

 

Talvez me possas dispensar alguns dólares para eu começar. Isso tornou a enfurecê-la.

 

Já te digo o que vou fazer retorquiu, bastante tensa. Vou deixar-te tomar banho e fazer a barba, enquanto lavo a tua roupa. Se não tocares nessa garrafa de vodca, preparo-te uns ovos e umas torradas. Empresto-te um pijama e podes dormir no sofá, mas não vou dar-te dinheiro. Ando a tentar juntar algum para meter a mãe num sítio onde a tratem como um ser humano e não te posso dispensar nada.

 

Está bem, querida disse ele com ar de mártir. Eu compreendo.

 

Jeannie fitou-o. Por fim, quando o turbilhão de vergonha, ira e piedade diminuiu, tudo o que sentiu foi ansiedade. Desejava de todo o coração que ele pudesse tomar conta de si próprio, conseguisse ficar num local mais do que apenas algumas semanas, arranjasse um emprego normal, pudesse dar-lhes amor, apoio e estabilidade.


Ansiava por um pai que fosse um pai. E sabia que nunca iria ver esse desejo cumprido. No seu coração havia espaço para um pai, e esse espaço estaria sempre vazio. O telefone tocou.

 

Sim disse Jeannie.

 

Era Lisa e parecia perturbada.

 

Jeannie, era ele!

 

Quem, o quê?

 

O tipo que foi preso contigo. Hoje fui à identificação. Foi ele quem me violou. O Steve Logan.

 

Ele é o violador? perguntou Jeannie com ar incrédulo. Tens a certeza?

 

Não há dúvida, Jeannie respondeu Lisa. Oh!, meu Deus, foi horrível voltar a ver a cara dele. A princípio não disse nada, porque parecia diferente sem o boné. Depois o detective obrigou-os a pôr bonés de basebol e foi aí que tive a certeza.

 

Lisa, não pode ser ele retorquiu Jeannie.

 

O que queres dizer?

 

Os testes que fez não se encaixam. E passei bastante tempo com ele, tenho um pressentimento.

 

Mas eu reconheci-o. Lisa parecia aborrecida.

 

Estou espantada. Não consigo compreender.

 

Isso dá cabo da tua teoria, não é? Querias que um dos gémeos fosse bom e o outro mau.

 

Sim. Mas um exemplo contrário não desacredita a teoria.

 

Lamento que aches que o teu projecto está ameaçado por isto.

 

Não é por esse motivo que digo que não é ele. Jeannie suspirou. Raios, talvez seja. Já não sei mais nada. Onde estás agora?

 

Em casa.

 

Sentes-te bem?

 

Sim, agora que ele se encontra preso.

 

Parece um tipo tão simpático...

 

Esses são os piores, pelo que me disse a Mish. Os que parecem ser perfeitamente normais à superfície são os mais inteligentes e implacáveis, e gostam de fazer sofrer as mulheres.

 

Meu Deus!

 

Vou-me deitar, estou exausta. Só queria que soubesses. Que tal foi a tua noite?


Mais ou menos. Amanhã conto-te.

 

Ainda quero ir a Richmond contigo.

 

Jeannie tencionara levar Lisa para esta a ajudar a entrevistar Dennis Pinker.

 

Achas que estás em condições?

 

Sim. Quero continuar a viver uma vida normal. Não estou doente, por isso não preciso de um período de convalescença.

 

O Dennis Pinker deve ser igualzinho ao Steve Logan.

 

Eu sei. Consigo aguentar.

 

Se achas que sim...

 

Ligo-te amanhã de manhã.

 

Okay. Boa noite.

 

Jeannie sentou-se pesadamente. Poderia o encanto de Steve Logan não passar de uma máscara? «Eu devo ser péssima a julgar as pessoas», pensou. «E talvez também uma péssima cientista: talvez todos os gémeos univitelinos sejam igualmente criminosos». Suspirou.

 

O seu progenitor criminoso estava sentado ao seu lado.

 

Esse professor é um tipo bem parecido, mas deve ser mais velho do que eu! exclamou. Tens algum caso com ele, ou quê?

 

Jeannie franziu o nariz.

 

A casa de banho é além, pai retorquiu.


Steve estava de novo na sala de interrogatórios com as paredes amarelas. No cinzeiro encontravam-se as mesmas beatas. A sala não mudara, mas ele sim. Há três horas atrás era um cidadão cumpridor da lei, inocente de qualquer crime pior do que excesso de velocidade. Agora era um violador, preso e identificado pela vítima, e acusado. Encontrava-se no interior da máquina da justiça, na correia da produção em série. Era um criminoso. Apesar de se recordar constantemente de que não fizera nada de errado, não conseguia livrar-se da sensação de inutilidade e ignomínia.

 

Algum tempo antes falara com a detective, a sargento Delaware. Agora o outro detective, um homem, entrou, trazendo também uma pasta azul. O polícia era da altura de Steve, mas mais largo e pesado, com cabelo curto cinzento e bigode hirsuto. Sentou-se e puxou de um maço de cigarros. Sem dizer uma palavra, bateu o cigarro na mesa, acendeu-o e deitou o fósforo no cinzeiro. Então abriu a pasta. Lá dentro encontrava-se outro formulário. Este tinha o seguinte cabeçalho:

 

TRIBUNAL DISTRITAL DE MARYLAND PARA (z)

 

A metade superior estava dividida em duas colunas: QUEIXOSO e ARGUIDO.

 

Mais abaixo:

 

ACUSAÇÕES


O detective começou a preencher o formulário, continuando sem falar. Depois de ter escrito algumas palavras levantou a primeira folha branca e verificou as quatro cópias: verde, amarela, cor-de-rosa e castanha.

 

Com a folha invertida, Steve conseguiu ver que a vítima se chamava Lisa Margaret Hoxton.

 

Como é que ela é? perguntou. O detective olhou para ele.

 

Cala a boca! respondeu. Puxou uma baforada do cigarro e continuou a escrever.

 

Steve sentiu-se humilhado. O homem estava a ser grosseiro e ele nada podia fazer. Era mais uma forma de o humilharem, obrigando-o a sentir-se insignificante e impotente. «Cabrão», pensou, «gostaria muito de te encontrar fora deste edifício, desarmado».

 

O detective começou a escrever as acusações. Na caixa número um escreveu a data de domingo, depois «no ginásio da Universidade Jones Falis, Baltimore, Maryland». Por baixo escreveu: «Violação». Na caixa seguinte tornou a anotar o local e a data, depois «ofensa à integridade física».

 

Pegou na folha de continuação e acrescentou mais duas acusações: fraude sexual e coito anal.

 

Coito anal? perguntou Steve, surpreendido.

 

Cala a boca!

 

Steve estava disposto a socá-lo. «Isto é de propósito», pensou. «O tipo quer provocar-me. Se eu lhe der um murro, tem uma desculpa para chamar outros três polícias para me segurarem enquanto ele me dá uma tareia. Não faças nada, não faças nada».

 

Quando acabou de escrever, o detective virou os dois formulários ao contrário e empurrou-os na direcção de Steve.

 

Estás metido num grande sarilho, Steve. Espancaste, violaste e sodomizaste uma rapariga...

 

Não fiz nada disso.

 

Cala a boca!

 

Steve mordeu o lábio e ficou calado.

 

És escumalha. És merda. As pessoas decentes nem sequer querem estar na mesma sala que tu. Espancaste, violaste e sodomizaste uma rapariga. Sei que não é a primeira vez. Já há algum tempo que o fazes. És esperto e planeias as coisas e até agora sempre conseguiste escapar. Mas desta vez foste apanhado. A tua vítima identificou-te. Há testemunhas que te viram perto do local. Daqui a cerca de uma hora, assim que a sargento Delaware conseguir um mandado de busca ou de captura do juiz, vamos levar-te ao Hospital Mercy para te fazer uma análise ao sangue e examinar os teus pêlos púbicos, a fim de provarmos que o teu ADN é igual ao que encontrámos na vagina da vítima.

 

Quanto tempo é que demora... o teste ao ADN?

 

Cala-te. Estás feito, Steve. Sabes o que vai acontecer-te? Steve não respondeu.

 

A pena para violação é prisão perpétua. Vais para a prisão e sabes o que te vai acontecer lá? Vais provar aquilo que tens andado a distribuir. Um rapaz tão bem parecido como tu? Não há problema. Vais ser espancado, violado e sodomizado. Vais ficar a saber aquilo que a Lisa sentiu. Só que no teu caso será durante anos e anos.

 

Fez uma pausa, pegou no maço de cigarros e ofereceu um a Steve.

 

Admirado, este abanou a cabeça.

 

A propósito, sou o detective Brian Allaston. Acendeu um cigarro. Não sei bem por que motivo estou a dizer-te isto, mas há uma maneira de conseguires melhorar as coisas.

 

Steve franziu o sobrolho, curioso. O que viria a seguir?

 

O detective Allaston levantou-se, contornou a mesa e sentou-se na beira, com um pé apoiado no chão, muito próximo de Steve. Inclinou-se para a frente e falou em voz baixa.

 

Deixa-me explicar-te as coisas. A violação é uma cópula em que há o uso da força, ou a ameaça de força, contra a vontade ou sem o consentimento da vítima. Na fraude sexual, uma pessoa aproveita-se do erro da sua identidade para copular com a vítima. As penas para a fraude sexual são mais baixas. Agora, se conseguires persuadir-me de que aquilo que fizeste foi apenas esta segunda, podes melhorar as coisas para o teu lado.

 

Steve ficou calado.

 

Queres contar-me como tudo aconteceu?

 

Cale a boca disse Steve, por fim.

 

Allaston mexeu-se muito depressa. Levantou-se, agarrou na parte da frente da camisa de Steve, levantou-o da cadeira e encostou-o à parede. A cabeça de Steve bateu na parede, e a pancada foi dolorosa.


Ele imobilizou-se, de punhos cerrados. «Não faças nada», disse a si próprio, «não lhe dês troco». Era difícil. O detective Allaston tinha peso a mais e Steve sabia que podia pô-lo a dormir em menos de nada. Mas tinha de se controlar. A sua única esperança era insistir na inocência. Se espancasse um polícia, apesar de ter sido provocado, seria culpado de um crime. Nessa altura, mais valia desistir. Perderia a esperança se não sentisse aquela indignação justa para o animar. Por isso ficou imóvel, rígido, de dentes cerrados, enquanto Allaston o fazia bater na parede mais duas, três, quatro vezes.

 

Não voltes a falar comigo assim, estupor disse Allaston. Steve sentiu a sua raiva esmorecer. Allaston nem sequer estava a magoá-lo. «É tudo teatro», pensou. Allaston estava a representar um papel, e por sinal bastante mal. Ele era o polícia mau e Mish a polícia boa. Dali a pouco entraria na sala e oferecer-lhe-ia café, fingindo ser sua amiga. Mas teria o mesmo objectivo que Allaston: persuadir Steve a confessar a violação de uma mulher que ele nunca vira, chamada Lisa Margaret Hoxton.

 

Vamos acabar com as tretas, detective disse. Sei que o senhor é um durão, com pêlos a saírem-lhe das narinas, e sabe que se estivéssemos noutro local e o senhor não tivesse essa pistola à cintura eu lhe dava uma tareia. Por isso é melhor deixarmos de armar aos cucos...

 

Allaston ficou admirado. Sem dúvida esperara que Steve estivesse demasiado assustado para falar. Largou a camisa do rapaz e foi até à porta.

 

Tinham-me dito que eras um espertalhão prosseguiu. Bom, então deixa-me dizer-te como tenciono contribuir para a tua educação. Vais voltar para a cela durante mais um tempo, mas desta vez terás companhia. As quarenta e uma celas que temos aqui estão um pouco cheias, por isso vais partilhar uma com um tipo chamado Rupert Butcher, conhecido por «Porky». Achas que és muito grande? Pois ele é ainda maior. Está a recuperar de uma festa de crack que durou três dias, por isso tem dores de cabeça. A noite passada, por volta da altura em que deitavas fogo ao ginásio e enfiavas a tua pixa nojenta na pobre Lisa Hoxton, o Porky Butcher estava a matar o amante com um ancinho. Deviam gostar da companhia um do outro. Anda daí.


Steve ficou assustado. Toda a sua coragem desapareceu como se tivesse tirado a tomada da ficha e sentiu-se indefeso e derrotado. O detective humilhara-o sem ameaçar magoá-lo, mas uma noite com um psicopata era bastante perigosa. Aquele tal Butcher já matara uma pessoa e, se conseguisse pensar, sabia que pouco tinha a perder se matasse outra

 

Espere aí disse Steve com voz trémula. Allaston virou-se, lentamente.

 

Então?

 

Se eu confessar, fico sozinho numa cela? O detective fez uma expressão de alívio

 

Claro respondeu, num tom de voz subitamente amigável. A mudança de tom encheu Steve de medo.

 

Mas, se não confessar, sou morto pelo Porky Butcher. Allaston levantou as mãos num gesto de impotência. Steve sentiu o seu medo transformar-se em ódio.

 

Nesse caso, detective, vá-se foder! Allaston ficou surpreendido

 

Estupor! exclamou. Vamos ver se daqui a duas horas continuas tão agressivo. Anda.

 

Levou Steve até ao elevador e acompanhou-o às celas. Spike ainda lá estava

 

Mete este estupor com o Porky disse Allaston. Spike levantou as sobrancelhas.

 

É assim tão mau, hem?

 

Sim. E a propósito, o Steve tem pesadelos.

 

Assim’’

 

Se o ouvires gritar, não te preocupes. É só um sonho.

 

Percebido disse Spike.

 

Allaston afastou-se e Spike levou Steve para a cela.

 

Porky estava deitado no catre. Era mais ou menos da altura de Steve, mas muito mais robusto. Parecia um culturista acabado de sofrer um acidente de viação: a T-shirt ensanguentada retesava-se sobre os músculos protuberantes. Dormia de costas, a cabeça virada para o fundo da cela, os pés pendurados na extremidade do catre. Abriu os olhos quando Spike abriu a porta e fez Steve entrar

 

A porta fechou-se com um estrondo e Spike trancou-a.

 

Porky tornou a abrir os olhos e olhou para Steve.

 

Este susteve o olhar durante uns momentos. Bons sonhos disse. Porky tornou a fechar os olhos.

 

Steve sentou-se no chão, de costas para a parede, e observou Porky a dormir.

 

Berrington Jones conduziu devagar até casa. Sentia-se simultaneamente desiludido e aliviado. Como uma pessoa que faz dieta e luta contra a tentação durante o caminho até à geladaria e depois a encontra fechada, Berry fora salvo de uma coisa que sabia não dever fazer.

 

Contudo, não estava mais próximo de solucionar o problema causado pelo projecto de Jeannie e por aquilo que ela pudesse vir a descobrir. Talvez devesse ter passado mais tempo a fazer-lhe perguntas e menos a divertir-se. Franziu o sobrolho, perplexo, enquanto estacionava e entrava em casa.

 

O local estava calmo. Marianne, a governanta, já devia ter ido deitar-se. Foi até ao escritório e verificou o atendedor de chamadas. Havia uma.

 

Professor, fala a sargento Delaware, da Unidade de Crimes de Natureza Sexual. É segunda-feira à noite. Agradeço a sua colaboração de hoje. Berrington encolheu os ombros. Pouco mais fizera do que confirmar que Lisa Hoxton trabalhava no «Manicómio». Ela prosseguiu: Como é o patrão de Miss Hoxton e a violação teve lugar no complexo universitário, achei que devia dizer-lhe que prendemos um homem esta tarde. Aliás, ele foi alvo de estudo hoje no seu laboratório. Chama-se Steve Logan.

 

Jesus! exclamou Berrington.

 

A vítima identificou-o, por isso estamos certos de que o ADN irá confirmar que ele é o culpado. Por favor, transmita esta informação a outras pessoas da faculdade. Obrigada.


Não! gritou Berrington. Sentou-se pesadamente. Não repetiu em voz mais baixa. Depois começou a chorar. Passado algum tempo levantou-se, ainda a chorar, e fechou a porta do escritório, com receio de que a governanta pudesse entrar. Depois regressou à secretária e ocultou o rosto nas mãos.

 

Ficou assim durante algum tempo.

 

Quando, por fim, as lágrimas secaram, pegou no telefone e marcou o número que já sabia de cor.

 

Por favor, meu Deus, não quero o atendedor de chamadas pediu, em voz alta, enquanto aguardava.

 

Atendeu um jovem.

 

Sim?

 

Sou eu disse Berrington.

 

Então, como estás?

 

Desolado.

 

Oh! O tom era de culpa.

 

Se Berrington tivera dúvidas, aquele tom fizera-as desaparecer.

 

Sabes porque te telefonei, não sabes?

 

Diz lá.

 

Não brinques comigo, por favor. Estou a falar de domingo à tarde.

 

O jovem suspirou.

 

Okay.

 

Seu idiota! Foste ao complexo universitário, não foste? Tu...

 

Percebeu que não devia dizer muita coisa ao telefone. Voltaste a fazê-lo.

 

Lamento...

 

Lamentas!

 

Como é que soubeste?

 

A princípio não desconfiei de ti. Pensei que tinhas saído da cidade. Depois prenderam um tipo igualzinho a ti.

 

Uau! Isso significa que...

 

Estás safo.

 

Uau. Que «fezada». Olha...

 

O quê?

 

Não dizes nada, pois não? Nem à Polícia nem a ninguém.

 

Não, não digo nada respondeu Berrington, com um peso no coração. Podes confiar em mim.

 

A cidade de Richmond tinha um ar de grandeza perdida e Jeannie achou que os pais de Dennis Pinker se encaixavam perfeitamente ali. Charlotte Pinker, uma ruiva sardenta com um vestido de seda sussurrante, tinha a aura de uma grande dama da Virgínia, embora vivesse numa casa pequena num lote estreito. Disse que tinha cinquenta e cinco anos, mas Jeannie calculou que já devesse estar mais perto dos sessenta. O marido, a quem se referia como «o major», tinha sensivelmente a mesma idade, mas possuía o aspecto descuidado e o ar tranquilo de alguém há muito reformado. Piscou o olho a Jeannie e a Lisa:

 

As meninas gostariam de um cocktail perguntou.

 

A mulher tinha um forte sotaque do Sul e falava um pouco alto de mais, como se estivesse constantemente a dirigir uma reunião.

 

Por amor de Deus, major, são dez da manhã! Ele encolheu os ombros.

 

Estava apenas a esforçar-me para que a festa começasse bem.

 

Isto não é nenhuma festa. Estas senhoras estão aqui para nos estudarem. Isto porque o nosso filho é um assassino.

 

Chamou-lhe «nosso filho», reparou Jeannie, mas isso não significava muito. Podia ter sido adoptado. Estava ansiosa por perguntar quem eram os verdadeiros progenitores de Dennis Pinker. Se os Pinker admitissem que ele fora adoptado, isso resolveria o quebra-cabeças, mas tinha de ter cuidado. Era uma pergunta delicada. Se a fizesse de forma demasiado abrupta, o mais provável seria mentirem. Obrigou-se a esperar pelo momento oportuno.


Também sentia um certo nervosismo relativamente ao aspecto de Dennis. Seria ele um sósia de Steve Logan ou não? Olhou ansiosa para as fotografias nas molduras baratas que se viam na pequena sala de estar. Haviam sido todas tiradas há alguns anos. Via-se o pequeno Dennis num carrinho de bebé, num triciclo, equipado para jogar basebol e a apertar a mão ao Rato Mickey na Disneylândia. Não havia fotografias dele como adulto. Sem dúvida, os pais queriam recordar o rapaz inocente que ele fora antes de se tornar um assassino. Por conseguinte, Jeannie não ficou a saber nada pelas fotografias. A criança loura de doze anos podia ser agora muito parecida com Steve Logan, mas poderia também ter ficado moreno e feio.

 

Charlotte e o major já haviam preenchido vários questionários, e agora tinham de ser entrevistados durante uma hora cada um. Lisa levou o major para a cozinha e Jeannie entrevistou Charlotte.

 

Teve dificuldade em concentrar-se nas perguntas rotineiras. A sua mente continuava a divagar para Steve, na prisão. Ainda achava impossível acreditar que ele era um violador. Não apenas porque isso arruinaria a sua teoria. Gostava do rapaz: era inteligente e cativante e parecia bondoso. Também tinha um lado vulnerável: o seu espanto e perturbação quando soubera que tinha um irmão gémeo psicopata haviam feito Jeannie ter vontade de o abraçar e confortar.

 

Quando perguntou a Charlotte se outros membros da família já haviam tido problemas com a lei, aquela virou o olhar imperioso na sua direcção.

 

Os homens da minha família sempre foram muito violentos. Inspirou pelas narinas muito abertas. Sou uma Marlowe de nascimento, e sempre fervemos em pouca água.

 

Isso sugeria que Dennis não fora adoptado ou que a sua adopção não era reconhecida. Jeannie escondeu a desilusão. Iria Charlotte negar que Dennis podia ter um irmão gémeo?

 

A pergunta tinha de ser feita.

 

Mistress Pinker, há alguma possibilidade de o Dennis ter um irmão gémeo?

 

Não.

 

A resposta foi monocórdica: sem indignação, irada, apenas factual.

 

Tem a certeza?


Charlotte riu-se.

 

Minha querida, isso é uma das coisas acerca da qual uma mãe não pode enganar-se!

 

Não foi adoptado.

 

Carreguei o rapaz no ventre, que Deus me perdoe. Jeannie ficou muito desanimada. Charlotte Pinker seria capaz de mentir mais prontamente do que Lorraine Logan, calculou ela, mas, mesmo assim, era estranho e preocupante o facto de ambas negarem que os seus filhos eram gémeos.

 

Sentia-se bastante pessimista quando saíram de casa dos Pinker. Tinha o pressentimento de que quando visse Dennis o acharia muito diferente de Steve.

 

O Ford Aspire que haviam alugado encontrava-se lá fora. O dia estava muito quente. Jeannie levava um vestido sem mangas com um casaco por cima, para ter um aspecto mais profissional. O ar condicionado do Ford gemeu e libertou ar morno. Tirou os collants e pendurou o casaco no gancho por cima do banco de trás.

 

Entraram na auto-estrada rumo à prisão, com Jeannie ao volante.

 

Incomoda-me bastante que penses que eu escolhi o tipo errado comentou Lisa.

 

Também me incomoda disse Jeannie. Mas sei que não o terias feito se não tivesses a certeza.

 

Como é que podes ter a certeza de que me enganei?

 

Não tenho a certeza de nada. Sinto um forte pressentimento a respeito do Steve Logan.

 

Parece-me que devias tentar descobrir por que motivo desconfias da opinião das testemunhas.

 

Eu sei. Mas já alguma vez viste aquele programa do Alfred Hitchcock? É a preto e branco, às vezes passam-no na televisão por cabo.

 

Já sei o que vais dizer. Aquele episódio onde quatro pessoas testemunham um acidente de viação e cada uma vê uma coisa diferente.

 

Ficaste ofendida? Lisa suspirou.

 

Devia ter ficado, mas gosto demasiado de ti para me zangar. Jeannie inclinou-se e apertou a mão de Lisa.

 

Obrigada.


Houve um longo silêncio, interrompido por Lisa:

 

Detesto que as pessoas pensem que sou fraca. Jeannie franziu o sobrolho.

 

Não acho que sejas fraca.

 

Mas acha a maior parte das pessoas. Provavelmente porque sou baixa, tenho um nariz pequeno e sardas.

 

Bom, é verdade que não pareces muito forte.

 

Mas sou. Vivo sozinha, tomo conta de mim, tenho um emprego e ninguém me lixa. Pelo menos era o que eu pensava até domingo. Agora sinto que as pessoas têm razão: sou fraca. Não consigo olhar por mim! Qualquer psicopata que ande na rua pode apanhar-me, encostar-me uma faca à cara, fazer o que bem entender com o meu corpo e deixar o seu esperma dentro de mim.

 

Jeannie olhou para ela. Lisa estava muito pálida. Só esperava que lhe fizesse bem desabafar aquilo.

 

Não és fraca disse.

 

Tu és forte retorquiu Lisa.

 

Tenho o problema oposto: as pessoas pensam que sou invulnerável. Como tenho um metro e oitenta, uma argola no nariz e cara de poucos amigos, imaginam que não posso ser magoada.

 

Não tens cara de poucos amigos.

 

Devo estar a enfraquecer.

 

Quem é que te julga invulnerável? Eu não.

 

A mulher que dirige Bella Vista, o lar onde a minha mãe está internada. Disse-me, sem mais nem menos: «A sua mãe não chegará aos sessenta e cinco». Sem mais nem menos. «Sei que prefere que eu seja sincera». Tive vontade de lhe dizer que lá por ter uma argola no nariz não significa que não tenha sentimentos.

 

A Mish Delaware diz que os violadores não estão realmente interessados no sexo. Do que gostam é de ter poder sobre uma mulher, de a dominar, de a assustar e de a magoar. O tipo escolheu uma pessoa com ar de ser facilmente assustada.

 

Quem é que não teria medo?

 

Mas não foi a ti que ele escolheu. Provavelmente tinha-lo arrumado.

 

Gostaria de ter essa oportunidade.

 

Seja como for, terias dado mais luta do que eu, não te terias sentido impotente e apavorada. Foi por isso que ele não te escolheu.


Jeannie compreendeu onde a amiga queria chegar.

 

Lisa, isso pode ser verdade, mas não te torna culpada pela violação, está bem? Não és culpada. Tiveste um acidente: podia ter acontecido a qualquer pessoa.

 

Tens razão disse Lisa.

 

Afastaram-se dezasseis quilómetros da cidade e viraram para uma estrada secundária com uma tabuleta que indicava «Penitenciária de Greenwood». Era uma prisão antiquada, um aglomerado de edifícios de pedra cinzenta rodeados por muros elevados e arame farpado. Deixaram o carro à sombra de uma árvore no parque de estacionamento dos visitantes. Jeannie voltou a vestir o casaco, mas deixou os collants no carro.

 

Estás pronta para isto? perguntou Jeannie. O Dennis deve ser igualzinho ao tipo que te violou, a menos que a minha metodologia esteja errada.

 

Lisa assentiu com ar taciturno.

 

Estou pronta.

 

O portão principal abriu-se para deixar sair uma carrinha de entregas, e elas entraram sem que ninguém as incomodasse. A segurança não devia ser apertada, concluiu Jeannie, apesar do arame farpado. Já as esperavam. Um guarda verificou a sua identificação e acompanhou-as através de um átrio muito quente, onde alguns jovens negros de uniforme prisional jogavam basquete.

 

O edifício da administração tinha ar condicionado. Levaram-nas ao gabinete do director, John Temoigne. Vestia uma camisa de manga curta e gravata e no cinzeiro viam-se pontas de charuto. Jeannie apertou-lhe a mão.

 

Sou a doutora Jean Ferrami, da Universidade Jones Falis.

 

Muito prazer, Jean

 

Temoigne era obviamente um daqueles homens que achavam difícil tratar uma mulher pelo apelido. Propositadamente, Jeannie não lhe disse o primeiro nome de Lisa e apresentou-a como sua assistente.

 

Esta é Miss Hoxton.

 

Olá, querida.

 

Expliquei-lhe qual era o nosso trabalho quando lhe escrevi, senhor director, mas, se tiver mais perguntas, terei muito gosto em responder-lhe. Jeannie tinha de dizer aquilo, muito embora estivesse ansiosa por ver Dennis Pinker.


Têm de perceber que o Pinker é um homem violento e perigoso disse Temoigne. Sabem os pormenores do crime?

 

Creio que ele tentou violar uma mulher no cinema e que a matou quando ela lhe fez frente.

 

Não está longe da verdade. Foi no velho Cinema Eldorado, em Greensburg. Estavam a ver um filme de terror. O Pinker foi à cave e cortou a corrente eléctrica. Então, quando as pessoas entraram em pânico no escuro, ele começou a apalpar as raparigas.

 

Jeannie olhou, admirada, para Lisa. Era tudo tão parecido com o que acontecera no domingo na Universidade Jones Falis! Uma diversão criara confusão e pânico e dera ao perpetrador a sua oportunidade. E nos dois cenários havia uma vaga sugestão de fantasia adolescente: apalpar raparigas no cinema escuro e ver mulheres a correr nuas para fora do vestiário. Se Steve Logan fosse o gémeo univitelino de Dennis, aparentava terem cometido vários crimes semelhantes.

 

Temoigne prosseguiu:

 

Uma mulher pouco sensata tentou resistir-lhe e ele estrangulou-a.

 

Jeannie olhou-o com desprezo.

 

Se ele o tivesse apalpado a si, senhor director, o senhor teria a pouca sensatez de lhe resistir?

 

Eu não sou uma mulher contrapôs Temoigne com o ar de quem acaba de jogar um trunfo.

 

Cheia de tacto, Lisa interveio.

 

Era melhor começarmos, doutora Ferrami... Temos muito trabalho a fazer.

 

Tens razão.

 

Normalmente entrevista-se o prisioneiro através de um gradeamento. Vocês pediram especialmente para estar na mesma sala que ele e recebi ordens superiores para o permitir. Mesmo assim, peço que reconsiderem. Ele é um criminoso violento e perigoso.

 

Jeannie sentiu um tremor de ansiedade, mas, por fora, manteve-se muito calma.

 

Haverá um guarda armado na sala enquanto estivermos com o Dennis?

 

Claro que sim. Mas eu ficaria mais à vontade se entre vocês e o prisioneiro houvesse uma rede de aço. Esboçou um sorriso nojento. Não é preciso um homem ser psicopata para se sentir tentado por duas jovens tão bonitas. Jeannie levantou-se abruptamente.

 

Agradeço a sua preocupação, senhor director, mas temos de fazer determinadas coisas, como recolher sangue, fotografar o indivíduo, e assim por diante, e tal não seria possível através das grades. Para além disso, algumas partes da nossa entrevista são pessoais e sentimos que estaríamos a comprometer os resultados se houvesse uma barreira artificial entre nós e o indivíduo.

 

Ele encolheu os ombros.

 

Bem, acho que não vão ter problemas. Levantou-se. Acompanho-as até às celas.

 

Saíram do gabinete e atravessaram um pátio de terra batida em direcção a um bloco de dois andares. No interior estava tanto calor como lá fora.

 

A partir de agora, o Robinson irá cuidar de vocês disse Temoigne. Se precisarem de alguma coisa, gritem.

 

Obrigada pela sua colaboração, senhor director agradeceu Jeannie.

 

Robinson era um negro alto com cerca de trinta anos, com um ar bastante tranquilizador. No coldre tinha uma pistola e do outro lado um cassetete de aspecto intimidante. Levou-as até uma pequena sala com uma mesa e meia dúzia de cadeiras empilhadas. Na mesa havia um cinzeiro e a um canto uma máquina de refrigeração de água. O chão era de plástico cinzento e as paredes encontravam-se pintadas num tom semelhante. Não havia janelas.

 

O Pinker estará aqui dentro de minutos disse Robinson, ajudando Jeannie e Lisa a preparar a mesa e as cadeiras.

 

Elas sentaram-se.

 

Pouco depois a porta abriu-se.


Berrington Jones encontrou-se com Jim Proust e Preston Barck no Monocle, um restaurante junto ao edifício do Senado, em Washington. Era um local bastante bem frequentado e encontrava-se repleto de pessoas suas conhecidas: congressistas, consultores políticos, jornalistas, assessores. Berrington achava que não valia a pena tentarem ser discretos. Eram todos bastante conhecidos, em especial o senador Proust, com a sua careca e o enorme nariz. Se se tivessem encontrado num local obscuro, algum repórter tê-los-ia certamente avistado e perguntar-lhes-ia publicamente por que motivo tinham reuniões secretas. Seria melhor irem para um local onde fossem logo reconhecidos e se julgasse que estavam a ter uma conversa de rotina acerca dos seus legítimos interesses comuns.

 

O objectivo de Berrington era manter o negócio com a Landsmann. Sempre fora uma venda arriscada, e Jeannie Ferrami tornara-a bastante perigosa, mas a alternativa seria desistirem dos seus sonhos. Só haveria uma forma de mudar a América e voltar a pô-la na rota da integridade racial. Ainda não era demasiado tarde. A visão de uma América cumpridora da lei, religiosa e cheia de valores familiares poderia ser transformada em realidade. Mas todos eles tinham cerca de sessenta anos: não disporiam de outra oportunidade.

 

Jim Proust era a grande personalidade, muito espalhafatoso, mas, embora aborrecesse várias vezes Berrington, geralmente podia ser persuadido. Preston, de falinhas mansas e muito mais agradável, era também teimoso.


Berrington tinha más notícias para ambos e transmitiu-as assim que fizeram o pedido à empregada.

 

A Jeannie Ferrami está hoje em Richmond, a visitar o Dennis Pinker.

 

Jim sorriu com desdém.

 

Por que raio não a impediste? Tinha a voz grave e áspera devido a vários anos passados a dar ordens.

 

Como sempre, os modos arrogantes de Jim irritaram Berrington.

 

O que podia eu fazer, amarrá-la?

 

És o patrão dela, não és?

 

Aquilo é uma universidade, Jim, não a merda do exército.

 

É melhor falarmos baixo interveio Preston, cheio de nervosismo. Tinha óculos estreitos de armações pretas; usava aquele género de óculos desde 1959, e Berrington reparara que agora tinham voltado a ser moda. Já sabíamos que isto poderia acontecer a qualquer altura. Sugiro que tomemos a iniciativa e confessemos tudo de imediato.

 

Confessemos? repetiu Jim com ar incrédulo. Será que fizemos algo de errado?

 

Depende da forma como as pessoas encararem as coisas...

 

Permite-me recordar-te que quando a CIA apresentou o relatório que iniciou tudo isto, o Desenvolvimento da ciência soviética», o próprio presidente Nixon disse que eram as notícias mais alarmantes provenientes de Moscovo desde que os Soviéticos dividiram o átomo.

 

O relatório podia não ser verdadeiro disse Preston.

 

Mas nós achámos que era. Mais importante ainda, o nosso presidente acreditou nele. Não te lembras de como as coisas eram assustadoras na altura?

 

Claro que Berrington se lembrava. Os Soviéticos tinham um programa para criar seres humanos, segundo dissera a CIA. Planeavam produzir cientistas perfeitos, jogadores de xadrez perfeitos, atletas perfeitos... e soldados perfeitos. Nixon ordenara ao Comando de Investigação Médica do Exército, como na altura se chamava, que criasse um programa paralelo e arranjasse maneira de criar soldados americanos perfeitos. Jim Proust fora encarregado de tornar isso realidade.

 

Fora logo pedir ajuda a Berrington. Alguns anos antes, este chocara toda a gente, especialmente a mulher, Vivvie, ao juntar-se ao exército precisamente na altura em que o sentimento antibélico fervilhava na maior parte dos americanos da sua idade. Fora trabalhar para Fort Detrick, em Frederick, Maryland, e estudava a fadiga nos soldados. No início dos anos 70 tornara-se um dos maiores peritos mundiais no estudo da hereditariedade das características combativas, como a agressividade e o vigor. Enquanto isso, Preston, que ficara em Harvard, conseguira excelentes avanços na fertilização humana. Berrington convencera-o a deixar a universidade e a fazer parte da grande experiência com ele e Proust. Fora o momento de maior sucesso de Berrington.

 

Também me lembro de como era excitante disse ele. Estávamos na vanguarda da ciência, começávamos a dirigir a América para o rumo certo e o nosso presidente pedira-nos que fizéssemos este trabalho para ele.

 

Preston brincava com a salada.

 

Os tempos mudaram. Já não serve de desculpa dizer: «Fi-lo porque o presidente dos Estados Unidos mo pediu». Já foram algumas pessoas para a prisão por terem feito aquilo que o presidente lhes mandou.

 

E o que tinha aquilo de errado? perguntou Jim, irritado. Era segredo, claro. Mas o que há para confessar, por amor de Deus?

 

Camuflámos as nossas actividades interveio Preston. Jim corou sob o bronzeado.

 

Transferimos o nosso projecto para o sector privado.

 

Aquilo era sofística, pensou Berrington, embora não antagonizasse Jim dizendo-o. Aqueles palhaços da comissão de reeleição do presidente haviam sido apanhados em flagrante no Hotel Watergate e toda a cidade de Washington tremera de medo. Preston criara a Genético como uma empresa privada limitada e Jim dera-lhe suficientes contratos militares importantes para a tornar financeiramente viável. Passado algum tempo, as clínicas de fertilidade tornaram-se tão rentáveis que os seus lucros pagavam o programa de investigação sem ser necessária a ajuda dos militares. Berrington regressara ao mundo académico e Jim fora directamente do exército para a CIA e depois para o Senado.

 

Não quero dizer que estivéssemos errados afirmou Preston, embora algumas das coisas que fizemos no passado tenham sido contra a lei.


Berrington não desejava que ambos tomassem posições opostas. Interveio calmamente.

 

A ironia de tudo é que já provámos ser possível criar americanos perfeitos. Todo o projecto estava na pista errada. A criação natural era demasiado inexacta. Mas fomos suficientemente inteligentes para ver as possibilidades da engenharia genética.

 

Na altura ainda ninguém tinha ouvido essas malditas palavras grunhiu Jim enquanto cortava o bife.

 

Berrington assentiu.

 

O Jim tem razão, Preston. Devíamos sentir-nos orgulhosos daquilo que fizemos, não envergonhados. Se pensares bem, verás que foi um milagre. Tivemos a tarefa de descobrir se certas características, como a inteligência e a agressão, são genéticas. Depois, identificar os genes responsáveis por essas características. E, finalmente, inoculá-los em embriões dentro de tubos de ensaio... e estamos prestes a ser bem sucedidos!

 

Preston encolheu os ombros.

 

Toda a comunidade científica tem andado a trabalhar no mesmo...

 

Não exactamente. Nós estávamos mais concentrados e fizemos as nossas apostas com bastante cuidado.

 

É verdade.

 

De modos diferentes, os dois amigos de Berrington tinham libertado a tensão. Eram tão previsíveis, pensou ele com um sorriso; talvez os velhos amigos o fossem sempre. Jim explodira e Preston lamuriara-se. Agora talvez já estivessem suficientemente calmos para analisar friamente a situação.

 

Isso traz-nos de volta à Jeannie Ferrami disse Berrington. Daqui a um ano ou dois ela poderá dizer-nos como fazer as pessoas agressivas sem as transformar em criminosos. As últimas peças do quebra-cabeças começam a arrumar-se. O negócio com a Landsmann oferece-nos a oportunidade de acelerar todo o programa e levar o Jim até à Casa Branca. Não é altura para recuar.

 

Isso é tudo muito bonito observou Preston, mas o que vamos fazer? Como sabem, a Landsmann tem a sua ética.

 

Berrington engoliu uma resposta torta.

 

A primeira coisa que temos de perceber é que não estamos a braços com uma crise, apenas com um problema. E o problema não é a Landsmann. Os contabilistas deles não hão-de descobrir a verdade nem que passem cem anos a olhar para os nossos livros. O nosso problema é a Jeannie Ferrami. Temos de impedi-la de saber mais, pelo menos até à próxima segunda-feira, quando fecharmos o negócio.

 

Mas não podes dar-lhe ordens disse Jim com sarcasmo, porque estás numa universidade... não na merda do exército.

 

Berrington assentiu. Conseguira finalmente levá-los a pensar como queria.

 

É verdade concordou, calmamente. Não posso dar-lhe ordens. Mas há maneiras mais subtis de manipular as pessoas do que aquelas utilizadas pelos militares, Jim. Se deixarem o problema comigo, eu resolvo tudo.

 

Preston não parecia satisfeito.

 

Como?

 

Já há algum tempo que Berrington tentava arranjar uma resposta para isso. Não tinha um plano, mas tinha uma ideia.

 

Acho que há um problema qualquer no facto de ela utilizar as bases de dados médicas. Levanta problemas éticos. Acho que conseguirei obrigá-la a parar.

 

Deve ter tomado certas precauções.

 

Não preciso de uma razão válida, apenas de um pretexto.

 

Como é a rapariga? perguntou Jim.

 

Tem cerca de trinta anos. É alta e muito atlética. Tem cabelo escuro, uma argola no nariz e um velho Mercedes vermelho. Durante algum tempo tive muito boa opinião sobre ela. Ontem à noite descobri que na família corre sangue mau. O pai é um criminoso. Mas ela é inteligente, agressiva e teimosa.

 

Casada, divorciada?

 

Solteira, sem namorado.

 

Um cão?

 

Não. Mas é difícil manipulá-la. Jim assentiu, pensativo.

 

Ainda temos muitos amigos leais nos serviços secretos. Não seria assim tão difícil fazer desaparecer uma rapariga dessas.

 

Preston pareceu assustado.


Nada de violência, Jim, por favor.

 

O empregado levantou os pratos e ficaram em silêncio até ele se afastar. Berrington sabia que tinha de contar-lhes o recado da noite anterior deixado pela sargento Delaware.

 

Há outra coisa que precisam de saber disse ele, pesaroso. No domingo à tarde foi violada uma rapariga no ginásio. A Polícia prendeu o Steve Logan. A vítima identificou-o.

 

E foi ele? perguntou Jim.

 

Não.

 

Sabes quem foi? Berrington olhou-o nos olhos.

 

Sim, Jim, sei.

 

Oh!, merda! exclamou Preston.

 

Talvez devêssemos fazer desaparecer os rapazes interveio Jim.

 

Berrington sentiu um aperto na garganta, como se estivesse a sufocar, e apercebeu-se de que começava a corar. Inclinou-se sobre a mesa e apontou um dedo ao rosto de Jim.

 

Não quero voltar a ouvir-te dizer uma coisa dessas! exclamou, brandindo o dedo tão perto dos olhos de Jim que este os piscou e se encolheu, embora fosse muito mais corpulento.

 

Parem com isso, olhem as pessoas! sibilou Preston. Berrington baixou o dedo, mas ainda não terminara. Se não estivessem num local público teria deitado as mãos ao pescoço de Jim. Em vez disso, agarrou-lhe na lapela.

 

Demos vida àqueles rapazes. Trouxemo-los ao mundo. Bons ou maus, são da nossa responsabilidade.

 

Está bem, está bem! disse Jim.

 

Então vê se entendes. Se algum deles se magoar, rebento-te com a cabeça, Jim!

 

Aproximou-se um empregado.

 

Os senhores vão querer sobremesa? Berrington largou a lapela de Jim.

 

Este alisou o casaco com gestos bruscos.

 

Raios partam! murmurou Berrington. Raios partam!

 

Traga-me a conta, por favor pediu Preston ao empregado.

 

Steve Logan não pregara olho durante toda a noite.

 

Porky Butcher dormira como um bebé, e de vez em quando ressonara um pouco. Steve sentou-se no chão a olhar para ele, observando a medo cada movimento, cada tremura, pensando no que poderia acontecer se o homem acordasse. Iria Porky lutar com ele? Tentaria violá-lo? Espancá-lo?

 

Tinha bons motivos para tremer. Na prisão, os homens estavam sempre a ser espancados. Muitos eram feridos, alguns mortos. Lá fora, a opinião pública estava-se nas tintas, pois se os bandidos se mutilassem e matassem uns aos outros teriam mais dificuldade em roubar e matar os cidadãos cumpridores da lei.

 

Steve passou o tempo todo a dizer a si próprio que deveria tentar a todo o custo não parecer uma vítima. Sabia que era fácil as pessoas interpretarem-no mal. Tip Hendricks cometera esse erro. Steve tinha um ar simpático. Embora fosse grande, parecia não ser capaz de fazer mal a uma mosca.

 

Agora tinha de parecer apto a ripostar, embora sem ser provocador. Acima de tudo, tinha de impedir que Porky o julgasse um menino da universidade. Isso torná-lo-ia o alvo perfeito para insultos, golpes casuais e, por fim, uma tareia. Tinha de assemelhar-se a um criminoso calejado, se possível. Se tal falhasse, tentaria confundir Porky emitindo sinais estranhos.

 

E se nada disso resultasse?

 

Porky era mais alto e mais pesado do que Steve e podia ser um lutador de rua. Steve estava em melhor forma e provavelmente conseguiria mexer-se mais depressa, mas já havia sete anos que não batia em ninguém por se sentir furioso. Num espaço maior, Steve poderia arrumar Porky com uma certa rapidez e safar-se sem grandes ferimentos, mas ali na cela seria um combate sangrento e qualquer deles poderia ganhar. Se o detective Allaston tivesse dito a verdade, Porky provara nas últimas vinte e quatro horas que tinha o instinto de um assassino. «Será que eu tenho o instinto de um assassino? Estive quase a matar o Tip Hendricks. Isso torna-me igual ao Porky?»

 

Quando pensou no que significaria vencer a luta com Porky, Steve estremeceu. Imaginou o grandalhão deitado no chão da cela, a sangrar, e ele em pé junto dele, como estivera junto de Tip Hendricks, e Spike, o carcereiro, a dizer: «Deus do Céu, acho que ele está morto». Preferia ser espancado.

 

Talvez devesse mostrar-se passivo. Talvez fosse mais seguro enroscar-se deitado no chão e deixar que Porky o espancasse até se fartar. Mas Steve não sabia se era capaz de fazer isso, por conseguinte, ficou sentado, com a garganta seca e o coração aos pulos, olhando para o psicopata adormecido, travando combates na sua imaginação, combates em que perdia sempre.

 

Calculou que era um truque muito utilizado pelos polícias. O carcereiro Spike pareceu não achar isso fora do comum. Se calhar, em vez de espancarem os suspeitos nas salas de interrogatórios para os obrigar a confessar, deixavam que os outros suspeitos lhes fizessem o servicinho. Steve perguntou-se quantos teriam confessado crimes que não haviam cometido apenas para evitar passar a noite numa cela com um indivíduo como Porky.

 

Jurou que nunca iria esquecer-se daquilo. Quando fosse advogado, a defender pessoas acusadas de crimes, nunca consideraria a confissão uma prova. Imaginou-se perante um júri.

 

«Fui outrora acusado de um crime que não cometi, mas estive quase a confessá-lo», diria. «Estive lá, sei como é».

 

Depois lembrou-se de que se fosse condenado por aquele crime seria expulso da Faculdade de Direito e nunca poderia defender ninguém.

 

Repetiu uma e outra vez que não iria ser condenado. Os testes ao ADN iriam ilibá-lo. Por volta da meia-noite, tiraram-no da cela, algemado, e levaram-no ao Hospital Mercy, que distava apenas alguns quarteirões da esquadra. Aí retiraram uma amostra de sangue, a partir da qual poderiam obter o seu ADN. Perguntou à enfermeira quanto tempo demoraria o teste e ficou abalado quando soube que os resultados estariam prontos apenas daí a três dias. Regressou à cela muito desanimado. Voltaram a juntá-lo a Porky, que, felizmente, continuava a dormir.

 

Calculou que conseguiria ficar acordado durante vinte e quatro horas. Isso era o máximo que poderiam mantê-lo detido sem autorização do tribunal. Fora preso às seis da tarde, portanto, teria de ficar ali até à mesma hora daquele dia. Então, se não antes, perguntar-lhe-iam se queria pagar uma caução. Seria a sua oportunidade de poder sair.

 

Esforçou-se por recordar a aula sobre cauções.

 

«A única questão que o tribunal poderá considerar é se o acusado aparecerá no julgamento», dissera o professor Rexam. Na altura, aquilo parecera tão monótono como um sermão; agora significava tudo. Os pormenores começaram a surgir na sua mente. Eram levados em conta dois factores. Um era a possível sentença. Se a acusação fosse grave, era mais arriscado conceder a acertar o pagamento da caução: seria mais provável um indivíduo fugir de uma acusação de violação do que de uma de furto. O mesmo se passaria se ele tivesse cadastro e, consequentemente, enfrentava uma longa pena. Steve não tinha cadastro; embora uma vez houvesse sido condenado por ofensa à integridade física, ainda não tinha na altura dezoito anos e não poderiam utilizar isso contra si. Iria a tribunal com uma folha limpa. No entanto, as acusações que enfrentava eram muito graves.

 

O segundo factor, recordou, eram os «laços comunitários» do prisioneiro: família, lar e trabalho. Um homem que tivesse vivido com a mulher e os filhos no mesmo endereço durante mais de cinco anos e trabalhasse ao virar da esquina teria direito a uma caução, ao passo que aquele que não tivesse família na cidade, ocupasse o seu apartamento havia seis meses e dissesse que a sua profissão era músico desempregado não sairia sob caução. Naquele aspecto, Steve sentia-se confiante. Vivia com os pais e andava no segundo ano da faculdade: tinha muito a perder se quisesse fugir.

 

Os tribunais não deveriam considerar se o acusado era um perigo para a comunidade. Isso seria subentender a sua culpabilidade.


No entanto, era o que faziam na prática. Não oficialmente, um homem envolvido numa discussão violenta teria menos probabilidades de poder pagar a caução do que um que ofendera a integridade física de alguém. Se Steve tivesse sido acusado de várias violações, em vez de um único acidente isolado, as suas hipóteses de poder pagar a caução seriam praticamente nulas.

 

No pé em que as coisas estavam podiam acontecer ambas as coisas, e, enquanto observava Porky, ensaiava discursos eloquentes para o juiz.

 

Continuava determinado a ser o seu próprio advogado. Não fizera o telefonema a que tinha direito. Queria desesperadamente ocultar aquilo dos pais até poder dizer que fora ilibado. Dizer-lhes que estava preso seria demasiado: ficariam muito chocados e abalados. Seria reconfortante partilhar com eles o sofrimento, mas de cada vez que se sentia tentado a fazê-lo recordava-se dos rostos deles quando tinham entrado na esquadra havia sete anos depois da luta com Tip Hendricks. Sabia que contar-lhes o que acontecera os magoaria mais do que Porky Butcher poderia magoá-lo.

 

Durante a noite foram levados mais homens para as celas. Alguns estavam apáticos e submissos, outros protestavam ruidosamente a sua inocência e um lutou com os polícias e foi espancado.

 

As coisas acalmaram por volta das cinco da manhã. Cerca das oito, o substituto de Spike trouxe-lhes o pequeno almoço em recipientes de plástico de um restaurante chamado Mother Hubbard’s. A chegada da comida animou os ocupantes das outras celas e o barulho acordou Porky.

 

Steve ficou onde estava, sentado no chão, a olhar vagamente para o vazio, mas observando Porky atentamente pelo canto do olho. A simpatia poderia ser vista como um sinal de fraqueza, calculou. A hostilidade passiva seria a atitude a tomar.

 

Porky sentou-se no catre, segurando a cabeça e olhando para Steve, mas não falou. Steve calculou que o homem estava a avaliá-lo.

 

Passado um ou dois minutos, perguntou:

 

Que raio estás aqui a fazer?

 

Steve exibiu uma expressão de ressentimento, depois o seu olhar deslizou até se cruzar com o de Porky. Fixaram-se durante algum tempo. Porky era bem parecido, com um rosto carnudo de feições agressivas. Olhou especulativamente para Steve com olhos raiados de sangue. Steve avaliou-o como um delinquente, um perdedor, mas perigoso. Desviou o olhar, fingindo indiferença. Não respondeu à pergunta. Quanto mais tempo Porky demorasse a avaliá-lo, mais seguro estaria.

 

Quando o carcereiro empurrou a comida através do espaço entre as grades, Steve ignorou-o.

 

Porky pegou num tabuleiro. Comeu todo o bacon, os ovos e as torradas, bebeu o café, depois utilizou a sanita fazendo bastante barulho, sem qualquer acanhamento.

 

Quando terminou, puxou as calças para cima, sentou-se no catre, olhou para Steve e perguntou.

 

Estás dentro porquê?

 

Aquele era o momento de maior perigo. Porky estava a avaliá-lo, a tirar-lhe as medidas. Agora Steve tinha de fingir ser tudo menos aquilo que era, um estudante vulnerável da classe média que não lutava desde miúdo.

 

Virou a cabeça e olhou para Porky, como se o visse pela primeira vez. Fitou-o durante bastante tempo antes de responder.

 

Um cabrão começou a chatear-me, por isso arrumei-o de vez retorquiu, comendo um pouco as palavras.

 

Porky não desviou o olhar. Steve não percebeu se ele acreditara ou não.

 

Homicídio? perguntou, passado algum tempo.

 

Podes crer.

 

Eu também.

 

Parecia que Porky tinha acreditado na história de Steve. Este acrescentou:

 

Agora o cabrão nunca mais há-de chatear-me.

 

Sim anuiu Porky.

 

Houve um longo silêncio. Porky parecia estar a pensar. Acabou por perguntar:

 

Por que é que nos puseram juntos?

 

Não têm provas contra mim respondeu Steve. Acharam que se eu te matasse aqui me lixavam.

 

O orgulho de Porky ficou ferido.

 

E se eu te matasse? Steve encolheu os ombros.

 

Então lixavam-te.


Porky assentiu devagar.

 

Sim disse. Faz sentido.

 

Parecia não ter mais assunto. Passado algum tempo, voltou a deitar-se.

 

Steve esperou. Estaria tudo acabado?

 

Minutos depois, Porky parecia ter voltado a adormecer.

 

Quando o ouviu ressonar, Steve encostou-se à parede, fraco de tanto alívio.

 

Depois disso, nada mais aconteceu durante várias horas.

 

Ninguém foi falar com Steve, ninguém lhe disse o que estava a passar-se. Não havia nenhum balcão de informações onde pudesse dirigir-se. Gostaria de saber quando teria oportunidade de pedir o pagamento da caução, mas ninguém lhe disse. Tentou falar com o novo carcereiro, mas o homem ignorou-o.

 

Porky ainda estava a dormir quando o carcereiro apareceu e abriu a porta da cela. Algemou Steve e prendeu-lhe os pés com correntes, depois acordou Porky e fez-lhe o mesmo. Foram presos a outros dois homens, levados para a extremidade do corredor e metidos num pequeno gabinete.

 

Lá dentro havia duas secretárias, cada uma com um computador e uma impressora laser. Em frente às secretárias encontrava-se uma fila de cadeiras. Uma das secretárias estava ocupada por uma negra bem vestida com cerca de trinta anos. Levantou os olhos para eles.

 

Sentem-se, por favor disse, continuando a trabalhar, escrevendo no teclado com dedos bem tratados.

 

Os homens avançaram ao longo das cadeiras e sentaram-se. Steve olhou em volta. Era um gabinete vulgar, com arquivos de aço, quadros de cortiça, um extintor e um cofre antiquado. Depois das celas, parecia lindo.

 

Porky fechou os olhos e pareceu voltar a adormecer. Um dos outros homens olhou com ar descrente para a sua perna direita, envolta em gesso, ao passo que o outro sorria para o vazio, obviamente sem fazer ideia do local onde se encontrava, parecendo completamente pedrado ou atrasado mental, ou ambas as coisas.

 

Por fim, a mulher afastou-se do computador.

 

Diga-me o seu nome.

 

Como Steve era o primeiro da fila, respondeu:

 

Steve Logan.


Mister Logan, sou a delegada Williams.

 

Claro: era uma delegada do tribunal. Recordou-se das aulas sobre direito criminal. Um delegado era um oficial do tribunal, mas bastante inferior a um juiz. Lidava com mandados de captura e outros assuntos menores. Tinha poderes para conceder uma caução, recordou-se ele; ficou mais animado. Talvez estivesse quase a sair dali.

 

Estou aqui para o informar daquilo de que é acusado prosseguiu ela, da data do seu julgamento, hora e local, se poderá pagar caução ou se será libertado à sua responsabilidade e, se for libertado, sob que condições. Falava muito depressa, mas Steve apanhou a referência à caução, que veio confirmar as suas suspeitas. Tinha de convencer aquela mulher de que, se libertado, compareceria a tribunal.

 

Encontra-se aqui acusado de violação, ofensa à integridade física, fraude sexual e coito anal. O seu rosto redondo continuava impassível ao enumerar os crimes horríveis de que ele era acusado. Continuou, dizendo-lhe que o julgamento teria lugar dali a três semanas, e ele recordou-se de que os julgamentos não deviam distar mais de trinta dias.

 

Pela acusação de violação, sujeita-se a apanhar prisão perpétua. Pela de ofensa à integridade física, de dois a quinze anos. Ambos são delitos graves.

 

Steve sabia o que era um delito grave, mas saberia Porky Butcher?

 

O violador também incendiara o ginásio, recordou-se. Por que não fora acusado de ter provocado incêndio de relevo? Talvez porque a Polícia não tinha provas que o ligassem directamente ao incêndio.

 

Ela entregou-lhe duas folhas de papel. Uma declarava que ele havia sido informado do seu direito a ser representado, a segunda explicava-lhe como entrar em contacto com um defensor oficioso. Teve de assinar cópias de ambas.

 

Ela fez-lhe uma série de perguntas rápidas e escreveu as respostas no computador.

 

Diga-me o seu nome completo. Onde mora? E o seu número de telefone. Há quanto tempo mora lá? Onde viveu antes disso?

 

Steve começou a ficar mais esperançado à medida que ia dizendo à delegada que vivia com os pais, que andava no segundo ano de Direito e que não tinha cadastro. Ela perguntou-lhe se bebia ou se se drogava e ele respondeu que não. Perguntou a si próprio se teria oportunidade de dizer qualquer coisa que facilitasse concederem-lhe a caução, mas ela falava depressa e parecia ter de seguir um guião.

 

Não há causa provável para a acusação de coito anal disse ela. Afastou o olhar do monitor e pousou-o em Steve. Isso não quer dizer que não tenha cometido o delito, mas sim que não há aqui, na declaração de causa provável feita pelo detective, informação suficiente para confirmar a acusação.

 

Steve interrogou-se sobre o motivo que teria levado os detectives a acrescentar aquela acusação. Talvez esperassem que ele a negasse, indignado, e se denunciasse, dizendo: «Isso é nojento. Fodi-a, mas não a enrabei. O que é que pensam que sou?»

 

A delegada prosseguiu:

 

Mas vai ter de ir a tribunal por causa da acusação.

 

Steve estava confuso. De que valia ela descobrir se ele tinha de ir a tribunal? E se ele, um estudante de Direito, achava aquilo difícil de engolir, o que pensaria uma pessoa vulgar?

 

Tem alguma pergunta? inquiriu a delegada. Steve inspirou com força.

 

Desejava poder pagar uma caução começou. Estou inocente...

 

Ela interrompeu-o.

 

Mister Logan, o senhor encontra-se aqui acusado de delitos graves, o que significa que eu, como delegada, não posso conceder-lhe uma fiança. Só um juiz o poderá fazer.

 

Foi como se levasse um murro na cara. Steve ficou tão desiludido que se sentiu mal. Olhou-a com ar descrente.

 

Então para que serve toda esta farsa? perguntou, irritado.

 

Neste momento encontra-se retido sem direito a caução. Ele levantou a voz.

 

Então por que me fez todas estas perguntas e aumentou as minhas esperanças? Julguei que podia ir-me embora daqui!

 

Ela não se demoveu.

 

As informações que me deu acerca do seu endereço e o resto serão confirmadas por um agente de investigação criminal, que transmitirá ao tribunal as suas conclusões retorquiu, calmamente. Amanhã será revista a sua caução, e o juiz decidirá se lha concede ou não.

 

Meteram-me numa cela com ele! exclamou Steve, apontando para Porky, que dormia.

 

As celas não são da minha responsabilidade.

 

O tipo é um assassino! Só ainda não me matou porque não consegue estar acordado! Faço-lhe formalmente queixa, como oficial do tribunal, de que estou a ser psiquicamente torturado e que a minha vida se encontra em perigo.

 

Quando as celas estão cheias, é preciso partilhar...

 

As celas não estão cheias, espreite aqui à porta e verá. A maior parte está vazia. Meteram-me com ele para que me espancasse. E se isso acontecer, acusá-la-ei pessoalmente, delegada Williams, por ter permitido a situação.

 

Ela abrandou um pouco.

 

Verei o que posso fazer. Agora, vou dar-lhe alguns papéis. Entregou-lhe o resumo das acusações, a declaração de causa provável e várias outras folhas. Por favor, assine cada uma delas e fique com uma cópia.

 

Frustrado e abatido, Steve pegou na esferográfica que ela lhe estendia e assinou os papéis. Enquanto o fazia, o carcereiro abanou Porky e acordou-o. Steve entregou os papéis à delegada. Ela colocou-os numa pasta.

 

Depois virou-se para Porky.

 

Diga-me o seu nome.

 

Steve escondeu o rosto entre as mãos.

 

Jeannie olhou para a porta da sala quando esta se abriu lentamente.

 

O homem que entrou era o sósia de Steve Logan.

 

Ao seu lado, Lisa susteve a respiração.

 

Dennis Pinker era tão igual a Steve que Jeannie não conseguiria distingui-los.

 

O sistema funcionava, pensou ela com ar triunfante. Estava vingada. Embora os pais negassem com veemência que qualquer daqueles rapazes tinha um irmão gémeo, eles eram tão iguais como as duas mãos dela.

 

O cabelo louro encaracolado tinha o mesmo corte: curto, com risco. Dennis enrolava as mangas da camisa do uniforme da mesma maneira que Steve enrolava as da sua camisa azul de linho. Dennis fechou a porta atrás de si com o calcanhar, tal como Steve fizera quando entrara no gabinete de Jeannie no «Manicómio». Quando se sentou, dirigiu-lhe um sorriso cativante e arrapazado, tal como Steve. Ela mal podia acreditar que aquele rapaz não era Steve.

 

Olhou para Lisa. Esta fitava-o com os olhos muito abertos, o rosto pálido de medo.

 

É ele sussurrou. Dennis olhou para Jeannie.

 

Vais dar-me as tuas cuecas pronunciou ele.

 

Jeannie ficou gelada ao aperceber-se da confiança calma que emanava do rapaz, mas sentiu-se também intelectualmente excitada. Steve nunca diria uma coisa daquelas. Ali estava, o mesmo material genético transformado em dois indivíduos completamente diferentes: um deles, um estudante encantador, o outro, um psicopata. Mas seria a diferença meramente superficial?

 

Agora porta-te bem e sê simpático, Pinker, senão, metes-te em sarilhos disse suavemente Robinson, o guarda.

 

Dennis voltou a esboçar o sorriso arrapazado, mas as suas palavras foram assustadoras.

 

O Robinson nem sequer se vai aperceber, mas tu fá-lo-ás disse ele a Jeannie. Vais sair daqui com o vento a soprar no teu rabo nu.

 

Jeannie tentou acalmar-se. Aquilo não passava de bazófia. Ela era inteligente e forte; Dennis não acharia fácil atacá-la, mesmo que estivesse sozinha. Com um guarda prisional alto e armado ali mesmo ao lado, sentia-se completamente segura.

 

Estás bem? perguntou ela a Lisa.

 

Esta estava pálida, mas a sua boca formava uma linha determinada.

 

Sim respondeu, taciturna.

 

Tal como os pais, Dennis preenchera já vários formulários. Naquele momento, Lisa começou com os questionários mais complexos, que não podiam apenas ser preenchidos com cruzes. Enquanto trabalhavam, Jeannie viu os resultados e comparou Dennis a Steve. As semelhanças eram espantosas: perfil psicológico, interesses e passatempos, gostos, capacidades físicas: tudo igual. Dennis tinha também o mesmo QI elevado de Steve.

 

«Que desperdício», pensou ela. «Este jovem podia ser um cientista, um cirurgião, um engenheiro, um criador de software. Em vez disso, está para aqui a vegetar».

 

A grande diferença entre Dennis e Steve era a socialização. Steve era um homem maduro com capacidades sociais acima da média: sentia-se à vontade ao conhecer pessoas novas, estava preparado para aceitar a autoridade legítima, estava à vontade com os amigos e gostava de fazer parte de uma equipa. Dennis tinha as capacidades interpessoais de uma criança de três anos: pegava em tudo o que queria, tinha dificuldade em partilhar, sentia medo de pessoas estranhas e, se não conseguisse levar a sua avante, descontrolava-se e tornava-se violento.

 

Jeannie lembrava-se de ter três anos. Era das primeiras recordações que tinha. Viu-se inclinada sobre o berço onde dormia a sua irmãzinha. Patty tinha vestido um babygrow cor-de-rosa com flores azul-claras bordadas na gola. Jeannie ainda conseguia sentir o ódio que a invadira ao olhar para o pequeno rosto. Patty roubara-lhe a mãe e o pai. Jeannie desejava com todas as suas forças matar aquela intrusa, que tomara para si tanto do amor e da atenção que antes só a ela eram dedicados. A tia Rosa perguntara: «Gostas muito da tua irmãzinha, não gostas?», e Jeannie respondera: «Odeio-a, quero que ela morra.» A tia Rosa dera-lhe uma bofetada e Jeannie sentira-se duplamente maltratada.

 

Jeannie crescera, tal como Steve, mas não Dennis. Por que seria Steve diferente de Dennis? Teria ele sido salvo pela forma como fora educado? Ou pareceria apenas diferente? Seriam as suas capacidades sociais apenas uma máscara para o psicopata que se encontrava por baixo?

 

Enquanto via e escutava, Jeannie apercebeu-se de que havia outra diferença. Tinha medo de Dennis. Não era capaz de apontar a causa exacta, mas à volta dele o ar parecia cheio de ameaças. Pressentia que ele faria aquilo que lhe viesse à cabeça, independentemente das consequências. Steve nunca a fizera sentir isso.

 

Jeannie fotografou Dennis, e em especial as suas orelhas. Nos gémeos univitelinos, as orelhas eram normalmente muito semelhantes, sobretudo a ligação aos lobos.

 

Quando estavam quase no fim, Lisa recolheu uma amostra de sangue de Dennis, uma coisa a que já estava habituada. Jeannie estava ansiosa por comparar o ADN. Tinha a certeza de que Steve e Dennis tinham os mesmos genes. Isso provaria que eram gémeos univitelinos.

 

Lisa selou o frasco e assinou a etiqueta, depois foi pô-lo na geleira que se encontrava no porta-bagagens do carro, deixando Jeannie a terminar sozinha a entrevista.

 

Quando acabou o último grupo de perguntas, desejou poder juntar Steve e Dennis no laboratório durante uma semana. Mas isso não seria possível para muitos pares de gémeos univitelinos. Quando estudava criminosos, deparava muitas vezes com a dificuldade de os seus objectos de estudo se encontrarem presos. Os testes mais sofisticados, que envolviam maquinaria de laboratório, não poderiam ser feitos a Dennis enquanto ele não saísse da prisão, se é que sairia. Teria de conformar-se e trabalhar os outros dados.

 

Terminou o último questionário.

 

Obrigada pela sua paciência, Mister Pinker disse ela.

 

Ainda não me deste as tuas cuecas retorquiu ele friamente.

 

Vá lá, Pinker, portaste-te bem toda a tarde, não estragues agora as coisas interveio Robinson.

 

Dennis lançou ao guarda um olhar de desprezo.

 

Sabias que o Robinson tem medo de ratazanas, psicóloga? De súbito, Jeannie sentiu-se ansiosa. Estava a passar-se qualquer coisa que ela não percebia. Começou a arrumar os papéis cheia de pressa.

 

Robinson parecia atrapalhado.

 

Detesto ratazanas, é verdade, mas não tenho medo delas.

 

Nem sequer daquela cinzenta grandalhona no canto? perguntou Dennis, apontando.

 

Robinson girou sobre si mesmo. Não havia ratazana nenhuma no canto, mas quando Robinson ficou de costas para Dennis, este levou a mão ao bolso e tirou de lá um embrulho. Mexeu-se tão depressa que Jeannie não adivinhou o que ele iria fazer até ser tarde de mais. Abriu um lenço azul e branco, revelando uma gorda ratazana cinzenta com uma comprida cauda cor-de-rosa. Jeannie estremeceu. Não era medricas, mas havia algo de profundamente assustador na visão da ratazana amorosamente contida naquelas mãos que tinham estrangulado uma mulher.

 

Antes que Robinson pudesse voltar-se, Dennis soltou a ratazana.

 

Esta atravessou a sala.

 

Além, Robinson, além! exclamou Dennis. Robinson virou-se, viu a ratazana e empalideceu.

 

Merda resmungou, puxando do cassetete.

 

A ratazana correu pelo chão, procurando um sítio para se esconder. Robinson foi atrás dela, brandindo o cassetete. Deixou uma série de marcas pretas na parede, mas não acertou no bicho.

 

Jeannie observou Robinson, enquanto na sua cabeça começava a soar um alarme. Ali havia qualquer coisa errada, qualquer coisa que não fazia sentido. Tratava-se de uma brincadeira. Dennis não era um comediante, era um tarado sexual e um assassino. O que ele fizera não era normal. A menos, pensou ela com medo, que aquilo fosse uma manobra de diversão e Dennis tivesse outro objectivo...


Sentiu algo a tocar-lhe o cabelo. Virou-se na cadeira e o seu coração parou.

 

Dennis mexera-se e estava de pé junto dela. Segurava junto à sua cara uma faca artesanal: era uma colher de latão com a concha achatada e afiada na ponta.

 

Jeannie quis gritar, mas sentiu-se sufocar. Ainda há um segundo julgara-se em segurança: agora estava a ser ameaçada por um assassino com uma faca. Como poderia aquilo ter acontecido tão depressa? O sangue parecia ter-se esvaído da sua cabeça e ela mal conseguia pensar.

 

Dennis agarrou-lhe o cabelo com a mão esquerda e aproximou tanto o gume da faca do olho de Jeannie que ela não conseguiu focá-lo. Ele inclinou-se e falou-lhe ao ouvido. O seu hálito era quente junto à cara dela e o rapaz cheirava a suor. Falou tão baixo que ela mal conseguiu ouvi-lo por causa do barulho que Robinson estava a fazer.

 

Faz o que te digo, senão corto-te as órbitas! Ela ficou aterrorizada.

 

Oh!, meu Deus, não, não me cegue! implorou.

 

Ouvir a sua voz falar num tom tão estranho de rendição fê-la recompor-se um pouco. Tentou desesperadamente acalmar-se e pensar. Robinson continuava a perseguir a ratazana: não imaginava o que Dennis estava a fazer. Jeannie mal podia acreditar que aquilo estava a acontecer. Encontravam-se no centro de uma prisão estadual e ela tinha consigo um guarda armado; no entanto, estava à mercê de Dennis. Como fora presunçosa ao pensar, ainda há algumas horas, que o faria passar um mau bocado se ele a atacasse! Começou a tremer de medo.

 

Dennis puxava-lhe o cabelo com toda a força, e ela levantou-se de um salto.

 

Por favor! disse. Ao falar, odiou-se por implorar de forma tão humilhante, mas estava demasiado apavorada para parar. Faço qualquer coisa!

 

Sentiu os lábios dele na orelha.

 

Tira as cuecas murmurou ele.

 

Jeannie imobilizou-se. Estava disposta a fazer o que ele quisesse, por muito vergonhoso que fosse, para conseguir escapar, mas tirar as cuecas podia ser tão perigoso como desafiá-lo. Não sabia o que fazer. Tentou vislumbrar Robinson. Ele estava fora do seu campo de visão, atrás dela, e Jeannie não ousou virar a cabeça por causa da faca junto ao seu olho. No entanto, conseguia ouvi-lo a amaldiçoar a ratazana e a tentar acertar-lhe com o cassetete. Era evidente que ainda não vira o que Dennis estava a fazer.

 

Não tenho muito tempo murmurou Dennis numa voz que parecia uma brisa gelada. Se não conseguir o que quero, nunca mais hás-de voltar a ver o sol.

 

Ela acreditou. Terminara três horas de testes psicotécnicos e conhecia-o. Não tinha consciência: era incapaz de sentir culpa ou remorso. Se não satisfizesse o seu desejo, ele mutilá-la-ia sem a mínima hesitação.

 

«Mas o que faria depois de ela ter tirado as cuecas?», pensou, desesperada. Ficaria satisfeito e afastaria a faca da sua cara? Ou quereria mais qualquer coisa?

 

Por que não conseguia Robinson matar a maldita ratazana?

 

Depressa! sibilou Dennis.

 

O que podia ser pior que a cegueira?

 

Está bem gemeu ela.

 

Inclinou-se, com Dennis a puxar-lhe o cabelo e a apontar-lhe a faca. Desajeitada, levantou a parte de baixo do vestido e baixou as cuecas de algodão brancas. Dennis grunhiu como um urso quando as cuecas chegaram aos tornozelos de Jeannie. Ela sentiu-se envergonhada, embora a razão lhe dissesse que a culpa não era sua. Rapidamente, baixou o vestido, para tapar a nudez. Depois desenvencilhou-se das cuecas e atirou-as com um pontapé para o chão cinzento de plástico.

 

Sentia-se muito vulnerável.

 

Dennis soltou-a, agarrou nas cuecas e encostou-as à cara, inspirando, os olhos fechados em êxtase.

 

Jeannie observou-o, horrorizada com aquela intimidade forçada. Embora ele não estivesse a tocar-lhe, estremeceu de nojo.

 

O que faria ele a seguir?

 

O cassetete de Robinson esmagou algo com um som horrendo. Jeannie virou-se e viu que finalmente o homem acertara na ratazana. O cassetete esmagara a metade traseira do seu corpo gordo e havia um rasto vermelho no chão. O animal já não podia correr, mas continuava vivo, de olhos abertos e a respirar. Robinson tornou a atingi-lo, esmagando-lhe a cabeça. Deixou de se mexer e uma substância verde viscosa escapou-se do crânio.

 

Jeannie tornou a olhar para Dennis. Para sua surpresa, estava sentado à mesa, tal como estivera toda a tarde, parecendo não se ter mexido. Tinha um ar inocente. A faca e as cuecas dela haviam desaparecido.

 

Estaria Jeannie fora de perigo? Teria tudo terminado?

 

Robinson ofegava de cansaço. Dirigiu a Dennis um olhar suspeito e perguntou:

 

Não trouxeste para aqui aquele verme, pois não, Pinker?

 

Não, senhor respondeu Dennis, presunçoso. Jeannie pensou: «Trouxe, sim!», mas não ousou dizê-lo.

 

Porque se eu julgasse que fizeste uma coisa destas, eu... prosseguiu o guarda, olhando de lado para Jeannie e achando melhor calar-se. Creio que sabes que faria com que te arrependesses.

 

Sim, senhor.

 

Jeannie percebeu que estava a salvo. Mas o alívio foi imediatamente seguido de raiva. Olhou para Dennis, furiosa. Iria ele fingir que nada acontecera?

 

Bom, podes ir buscar um balde com água e limpar imediatamente esta porcaria.

 

É para já, senhor.

 

Isto é, se a doutora Ferrami já não quiser mais nada de ti. Jeannie tentou dizer: «Enquanto andavas atrás da ratazana, o

 

Dennis roubou-me as cuecas», mas as palavras não saíam. Pareciam idiotas. E podia imaginar as consequências. Ficaria ali retida durante mais uma hora enquanto a sua alegação fosse investigada. Dennis seria revistado e iriam encontrar as suas cuecas. Teriam de ser mostradas ao director Temoigne. Imaginou-o a observar a prova, mexendo nas cuecas e virando-as do avesso, com uma expressão estranha...

 

Não. Não diria nada.

 

Sentiu-se culpada. Sempre desdenhara das mulheres que eram atacadas e nada diziam, permitindo que o criminoso ficasse impune. Agora estava a fazer o mesmo.

 

Apercebeu-se de que Dennis contara com isso. Previra o que ela iria sentir e calculara que iria poder safar-se. Isso indignou-a tanto que, por momentos, considerou a possibilidade de aguentar o vexame só para o prejudicar. Depois imaginou Temoigne e Robinson e todos os outros homens da prisão a olhar para ela e a pensar: «Ela não traz cuecas», e apercebeu-se de que seria demasiado humilhante.

 

Como Dennis era inteligente: tão inteligente como o homem que incendiara o ginásio e violara Lisa, tão esperto como Steve...

 

Parece um pouco abalada disse-lhe Robinson. Calculo que goste tanto de ratazanas como eu.

 

Ela dominou-se. Acabara tudo. Sobrevivera sem perder a vista. «O que acontecera assim de tão mau?», perguntou a si própria. «Eu podia ter sido mutilada ou violada. Em vêz disso, só fiquei sem roupa interior. Tenho de estar grata».

 

Estou bem, obrigada retorquiu.

 

Nesse caso, acompanho-a até lá fora. Saíram os três da sala.

 

À porta, Robinson virou-se.

 

Vai buscar uma esfregona, Pinker.

 

Dennis dirigiu a Jeannie um sorriso longo e íntimo, como se fossem dois amantes que tivessem passado a tarde juntos na cama. Depois desapareceu no interior da prisão. Jeannie viu-o afastar-se com grande alívio, mas enojada, pois ele tinha a sua roupa interior no bolso. Iria dormir com as cuecas encostadas à cara, tal como uma criança com o seu urso de peluche? Ou enrolá-las-ia à volta do pénis enquanto se masturbava, fingindo que estava a fodê-la? O que quer que fosse, ela sentiu-se uma participante forçada, a sua privacidade violada e a sua liberdade comprometida.

 

Robinson acompanhou-a até ao portão principal e apertou-lhe a mão. Ela atravessou o parque de estacionamento quente até chegar ao Ford, pensando: «Estou desejosa de sair daqui». Tinha uma amostra do ADN de Dennis, o que era o mais importante.

 

Lisa estava ao volante e tinha o ar condicionado ligado para refrescar o carro. Jeannie atirou-se para o banco do passageiro.

 

Pareces arrasada observou Lisa, arrancando.

 

Pára no primeiro centro comercial pediu Jeannie.

 

Claro. Do que é que precisas?

 

Já te digo respondeu Jeannie. Mas não vais acreditar.

 

Depois do almoço Berrington foi até um bar calmo do seu bairro e pediu um Martini.

 

A casual sugestão de assassínio feita por Jim Proust abalara-o. Berrington fizera figura de parvo ao agarrar na lapela de Jim e ao gritar. Mas não estava arrependido. Pelo menos podia ter a certeza de que Jim sabia qual era a sua opinião.

 

Não era a primeira vez que discutiam por causa daquilo. Recordou-se da primeira crise, no início dos anos 70, quando eclodira o escândalo de Watergate. Fora uma altura terrível: o conservadorismo estava desacreditado, os políticos não passavam de uns corruptos e qualquer actividade clandestina, apesar de bem intencionada, era subitamente considerada uma conspiração inconstitucional. Preston Barck ficara apavorado e quisera abandonar tudo. Jim Proust chamara-lhe cobarde, argumentando, furioso, que não havia perigo e sugerindo que o projecto passasse a ser conjuntamente do exército e da CIA, com segurança reforçada. Sem dúvida estaria pronto a matar qualquer jornalista que tentasse descobrir o que andavam a fazer. Fora Berrington quem sugerira a criação de uma empresa privada, de forma que se distanciassem do Governo. Agora, cabia-lhe de novo descobrir uma maneira de livrá-los de apuros.

 

O local era escuro e fresco. Sobre o balcão, uma televisão exibia uma comédia, mas sem som. A bebida fresca acalmou Berrington. A sua irritação em relação a Jim evaporou-se gradualmente e ele concentrou-se em Jeannie Ferrami.

 

O medo levara-o a fazer uma promessa precipitada. Dissera a Jim e a Preston que trataria de Jeannie. Agora tinha de cumprir. Precisava de impedi-la de fazer perguntas sobre Steve Logan e Dennis Pinker.

 

Era enlouquecedoramente difícil. Embora tivesse sido ele a contratá-la, não podia dar-lhe ordens: como dissera a Jim, a universidade não era o exército. Ela trabalhava para a Universidade Jones Falis, e a Genético já pagara antecipadamente o subsídio para aquele ano. A longo prazo, é claro que poderia mandá-la embora; mas isso não bastava. Ela tinha de ser imediatamente detida, naquele dia ou no outro, antes que descobrisse algo que pudesse destruí-los.

 

«Acalma-te», pensou, «acalma-te».

 

O ponto fraco dela era a utilização de bases de dados médicas sem a autorização dos doentes. Era o tipo de coisa que os jornais poderiam transformar num escândalo, apesar de a privacidade dos visados não ter sido genuinamente invadida. E as universidades tinham muito medo de um escândalo: isso dificultava-lhes a tarefa de arranjar subsídios.

 

Era uma tragédia destruir um projecto científico tão promissor. Ia contra tudo aquilo em que Berrington acreditava. Encorajara Jeannie, e agora tinha de demovê-la. Ficaria arrasada, e com razão. Disse a si próprio que ela tinha genes maus e que, mais tarde ou mais cedo, se meteria em apuros, mas, ainda assim, desejou não ser a causa da sua queda.

 

Tentou não pensar no corpo dela. As mulheres sempre tinham sido o seu ponto fraco. Nenhum outro vício o tentava: bebia com moderação, nunca jogava a dinheiro e não percebia por que motivo as pessoas se drogavam. Amara a sua mulher, Vivvie, mas nem nessa altura conseguira resistir à tentação de ter outras mulheres. Vivvie acabara por deixá-lo por causa das suas escapadelas. Agora, quando pensava em Jeannie, imaginava-a a passar os dedos pelo seu cabelo e a dizer: «Foste tão bom para mim, devo-te tanto, como poderei agradecer-te?»

 

Aqueles pensamentos envergonhavam-no. Ele devia ser o seu patrono e mentor, não um sedutor.

 

Com o desejo, sentiu também ressentimento. Ela era apenas uma miúda, por amor de Deus; como poderia constituir uma ameaça tão grande? Como poderia uma miúda com um brinco no nariz pô-lo em perigo, e a Preston e Jim, quando estavam prestes a conseguir a ambição de toda uma vida? Era impensável que alguém os detivesse agora: a ideia deixava-o tonto de pânico. Quando não se imaginava a fazer amor com Jeannie, fantasiava estar a estrangulá-la.

 

Mesmo assim, sentia-se relutante em iniciar uma campanha contra ela. Era difícil controlar a imprensa. Havia a possibilidade de os jornalistas começarem a investigar Jeannie e acabarem a investigá-lo a ele. Era uma estratégia perigosa. Mas não conseguia pensar noutra, para além da sugestão feita por Jim.

 

Despejou o copo. O barman ofereceu-lhe outro Martini, mas ele recusou. Olhou em volta e viu um telefone público junto à casa de banho dos homens. Enfiou no aparelho o seu cartão American Express e ligou para o gabinete de Jim. Atendeu um dos seus jovens acólitos.

 

Gabinete do senador Proust.

 

Fala Berrington Jones...

 

Neste momento o senador está numa reunião.

 

«O homem devia ensinar os seus assistentes a serem um pouco mais simpáticos», pensou Berrington.

 

Então vamos ver se evitamos interrompê-lo disse. Ele tem algum encontro com a imprensa marcado para esta tarde?

 

Não sei bem. Posso perguntar por que deseja saber, senhor?

 

Não, meu jovem, não pode respondeu Berrington, exasperado. Aqueles assistentes que se davam ares importantes eram a maldição de Capitol Hill. Pode responder à minha pergunta, pode passar a chamada ao Jim Proust ou pode perder o seu emprego. Qual das três escolhe?

 

Aguarde só um minuto.

 

Houve uma longa pausa. Berrington pensou que desejar que Jim ensinasse os seus assistentes a serem mais simpáticos era como esperar que um chimpanzé ensinasse os filhotes a sentarem-se à mesa. O estilo do chefe transmitia-se aos subalternos: uma pessoa mal humorada tinha sempre empregados malcriados.

 

Uma voz nova veio ao telefone.

 

Professor Jones, daqui a quinze minutos o senador vai assistir a uma conferência de imprensa para lançar o novo livro do congressista Dinkey, intitulado Nova Esperança para a América.

 

Aquilo vinha mesmo a calhar.


Onde?

 

No Hotel Watergate.

 

Diga ao Jim que eu vou para lá e certifique-se de que o meu nome aparece na lista de convidados, por favor. Berrington desligou sem esperar pela resposta.

 

Saiu do bar e apanhou um táxi para o hotel. O assunto tinha de ser tratado com delicadeza. Manipular a imprensa era perigoso: um bom repórter podia ignorar a história mais óbvia e começar a perguntar por que motivo ela fora contada. Mas, de cada vez que pensava nos riscos, lembrava-se das recompensas e dominava os nervos.

 

Descobriu a sala onde iria ter lugar a conferência de imprensa. O seu nome não estava na lista; os assistentes presunçosos nunca eram eficientes, mas o editor reconheceu-o e viu nele uma atracção adicional para as câmaras. Ficou satisfeito por ter vestido a camisa Turnbull e Asser às riscas, que ficava sempre tão distinta nas fotografias.

 

Pegou num copo de Perrier e olhou em volta. Havia um pequeno atril em frente a uma ampliação da capa do livro e uma pilha de comunicados numa mesa. As equipas de televisão começavam a montar a iluminação. Berrington viu um ou dois jornalistas conhecidos, mas nenhum em quem realmente confiasse.

 

No entanto, estavam sempre a chegar mais. Deu uma volta pela sala, mantendo o olhar fixo na porta. A maior parte dos jornalistas conhecia-o: ele era uma pequena celebridade. Não lera o livro, mas Dinkey defendia teorias tradicionalistas de direita, algo semelhantes às que Berrington partilhava com Jim e Preston, mas mais suaves, por isso, pôde dizer aos jornalistas que estava de acordo com a mensagem do livro.

 

Alguns minutos depois das três, Jim chegou com Dinkey. Logo atrás vinha Hank Stone, um dos jornalistas mais antigos do New York Times. Careca, de nariz vermelho, barriga proeminente, colarinho aberto, gravata larga, sapatos puídos, devia ser o jornalista com pior aspecto do corpo de imprensa da Casa Branca.

 

Berrington perguntou a si próprio se Hank serviria.

 

Hank não tinha convicções políticas conhecidas. Berrington conhecera-o quando o homem fizera uma reportagem sobre a Genético, havia quinze ou vinte anos. Desde que fora trabalhar para Washington, escrevera uma ou duas vezes a respeito das ideias de Berrington e várias vezes sobre Jim Proust. Tratava-os de forma sensacionalista, e não intelectual, como a maior parte dos outros jornais, mas nunca moralizara, como faziam os jornalistas liberais.

 

Hank encarava as coisas pelo seu devido valor: se pensava que a história era boa, escrevê-la-ia. Mas poderia confiar nele para que não vasculhasse mais? Berrington não sabia.

 

Cumprimentou Jim e apertou a mão a Dinkey. Falaram durante alguns minutos, enquanto Berrington procurava um jornalista mais adequado. Mas nenhum se aproximou, e a conferência de imprensa teve início.

 

Berrington sentou-se durante os discursos, refreando a impaciência. Não havia tempo suficiente. Se dispusesse de mais alguns dias, poderia encontrar alguém melhor do que Hank, mas não dispunha de dias, apenas de algumas horas. E um encontro aparentemente fortuito como aquele levantaria muito menos suspeitas do que marcar uma reunião e convidar o jornalista para almoçar.

 

Quando os discursos terminaram, continuava a não haver ninguém melhor do que Hank.

 

Depois de os jornalistas dispersarem, Berrington aproximou-se dele.

 

Hank, ainda bem que o encontrei. Talvez tenha uma história para si.

 

Óptimo!

 

É acerca da má utilização de informação médica contida em bases de dados.

 

Ele fez uma careta.

 

Não é bem o meu género, mas continue, Berry. Berrington gemeu interiormente: Hank não parecia muito receptivo. Mas continuou, fazendo valer o seu charme.

 

Creio que é o seu género, porque verá um bom potencial onde um jornalista vulgar não veria nada.

 

Bom, diga lá.

 

Primeiro, não estamos a ter esta conversa.

 

Isso já promete mais...

 

Segundo, pode interrogar-se sobre o motivo por que eu lhe dei a história, mas nunca me fará a pergunta.


Está cada vez melhor disse Hank, mas sem fazer qualquer promessa.

 

Berrington decidiu não insistir mais.

 

Na Universidade Jones Falis, no departamento de psicologia, há uma jovem cientista chamada Jean Ferrami. Para procurar objectos de estudo, pesquisa várias bases de dados médicas sem a autorização das pessoas cujos dados se encontram nos ficheiros.

 

Hank apertou o nariz vermelho.

 

Isso é uma história sobre computadores ou sobre ética científica?

 

Não sei, você é que é o jornalista. Ele não parecia muito entusiasmado.

 

Isso não é um grande furo.

 

«Não comeces a armar-te em difícil, estupor». Berrington tocou no braço de Hank num gesto amigável.

 

Faça-me um favor e comece a investigar disse, em tom persuasivo. Ligue ao presidente da universidade. Chama-se Maurice Obell. Ligue à doutoura Ferrami. Diga-lhes que é uma boa história e veja o que lhe respondem. Creio que surgirão algumas reacções interessantes.

 

Não sei...

 

Prometo-lhe, Hank, que vai valer a pena. «Diz que sim, filho da mãe, diz que sim!»

 

Hank hesitou.

 

Okay, vou dar uma vista de olhos disse, depois. Berrington tentou ocultar a sua satisfação atrás de uma expressão grave, mas não pôde evitar um sorriso de triunfo.

 

Hank viu-o e ficou desconfiado.

 

Não está a tentar usar-me, pois não, Berry? Talvez para assustar alguém, não?

 

Berrington passou um braço sobre os ombros do jornalista.

 

Hank disse, confie em mim.

 

Jeannie comprou um pacote com três cuecas brancas de algodão num Walgreen, num centro comercial logo à saída de Richmond. Vestiu um par na casa de banho de um Burger King ali perto. Depois ficou melhor.

 

Era estranho como se sentira indefesa sem roupa interior. Quase não conseguira pensar noutra coisa. Contudo, quando estava apaixonada por Will Temple, gostava de andar sem cuecas durante o dia. Fazia-a sentir-se mais sexy. Sentada na biblioteca, a trabalhar no laboratório ou a caminhar na rua, imaginava que Will apareceria inesperadamente, possuído pela paixão, que lhe dizia «Não disponho de muito tempo, mas tenho de possuir-te agora, aqui», e estava pronta para ele. Mas sem um homem na sua vida precisava da roupa interior tal como precisava de sapatos.

 

De novo vestida, regressou ao carro. Lisa conduziu até ao Aeroporto Richmond-Williamsburg, onde entregaram o carro alugado e apanharam o avião de regresso a Baltimore.

 

A chave do mistério devia encontrar-se no hospital onde Dennis e Steve tinham nascido, pensou Jeannie quando levantaram voo. De alguma forma, os gémeos tinham acabado por ir parar a mães diferentes. Era um cenário fantasista, mas devia ter sido isso que acontecera.

 

Vasculhou os papéis da pasta e verificou a informação sobre o nascimento dos dois rapazes. O aniversário de Steve era a 25 de Agosto. Para seu horror, viu que o de Dennis era a 7 de Setembro, quase duas semanas mais tarde.


Deve haver algum engano disse. Não sei por que não verifiquei isto antes. mostrou a Lisa os documentos contraditórios.

 

Podemos verificar novamente sugeriu Lisa.

 

Os nossos formulários perguntam em que hospital nasceram as pessoas?

 

Lisa soltou uma gargalhada pesarosa.

 

Acho que não incluímos essa pergunta.

 

Neste caso, deve ter sido num hospital militar. O coronel Logan está no exército e, presumivelmente, o major» era soldado quando Dennis nasceu.

 

Havemos de verificar.

 

Lisa não estava tão impaciente como Jeannie. Para ela era apenas mais uma pesquisa. Para Jeannie era tudo.

 

Gostaria de telefonar imediatamente declarou. Há algum telefone no avião?

 

Lisa franziu o sobrolho.

 

Estás a pensar em ligar à mãe do Steve?

 

Lisa notou o tom de reprovação na voz da amiga.

 

Sim. Por que não?

 

Ela sabe que ele está preso?

 

Boa pergunta. Não sei. Raios! Não devia ser eu a dar-lhe a má notícia.

 

Talvez ele já tenha ligado para casa.

 

É melhor eu ir ver o Steve à prisão. É permitido, não é?

 

Creio que sim. Mas talvez tenham um horário para visitas, como os hospitais.

 

Vou até lá, e logo vejo o que me dizem. Seja como for, posso ligar aos Pinker. Acenou à hospedeira. Há algum telefone a bordo?

 

Não, lamento.

 

É pena.

 

A hospedeira sorriu.

 

Não te lembras de mim, Jeannie?

 

Jeannie olhou para ela pela primeira vez e reconheceu-a de imediato.

 

Penny Watermeadow! exclamou. Penny doutorara-se em Inglês na Universidade de Minnesota, tal como Jeannie. Como estás?

 

Óptima. E tu, o que fazes?

 

Estou em Jones Falis, a trabalhar num projecto que já começou a dar problemas. Pensei que querias seguir a carreira académica.

 

E queria, mas não consegui.

 

Jeannie sentiu-se atrapalhada por ter tido sucesso onde a colega falhara.

 

É pena.

 

Agora estou mais satisfeita. Gosto deste trabalho e pagam-me mais do que algumas universidades.

 

Jeannie não acreditou. Chocava-a ver uma rapariga com um doutoramento a trabalhar como hospedeira de bordo.

 

Sempre achei que serias uma óptima professora.

 

Dei aulas durante algum tempo. Fui esfaqueada por um aluno que discordou de mim por causa do Macbeth. Perguntei a mim própria por que estaria a fazer aquilo, a arriscar a minha vida por ensinar Shakespeare a miúdos desejosos de voltar para a rua e roubar para comprar crack.

 

Jeannie lembrou-se do nome do marido de Penny.

 

Como vai o Danny?

 

Óptimo. Agora é director de vendas, o que significa que viaja muito. Mas compensa.

 

Bem, foi bom voltar a ver-te. Moras em Baltimore?

 

Em Washington, DC.

 

Dá-me o teu número de telefone, que eu depois apito. Jeannie estendeu a Penny uma esferográfica e ela escreveu o número de telefone numa das pastas de Jeannie.

 

Havemos de ir almoçar disse Penny. Vai ser divertido.

 

Podes crer. Penny afastou-se.

 

Parece uma pessoa esperta comentou Lisa.

 

É muito inteligente. Estou horrorizada. Não há nada de mal em ser hospedeira, mas é desperdiçar vinte e cinco anos de estudo.

 

Vais telefonar-lhe?

 

Bolas, não! Ela está numa de negar as coisas. Acabei de lembrar-lhe aquilo com que sonhara. Iria ser desagradável.

 

Acho que sim. Tenho pena dela.

 

Também eu.


Assim que aterraram, Jeannie dirigiu-se a uma cabina e ligou para os Pinker, em Richmond, mas estava impedido.

 

Raios! exclamou, em tom de queixume.

 

Esperou cinco minutos e tornou a tentar, mas continuava na mesma.

 

A Charlotte deve estar a contar à sua violenta família que tal foi a nossa visita disse. Tento mais tarde.

 

O carro de Lisa encontrava-se no parque de estacionamento. Dirigiram-se à cidade e Lisa deixou Jeannie em casa. Antes de sair do carro, esta perguntou:

 

Posso pedir-te um grande favor?

 

Claro. Mas isso não quer dizer que o faça retorquiu Lisa com um sorriso.

 

Começa hoje a extracção do ADN. O sorriso desvaneceu-se.

 

Oh!, Jeannie, passámos todo o dia fora. Tenho de fazer compras para o jantar...

 

Eu sei. E eu tenho de ir à prisão. E se nos encontrássemos no laboratório pelas nove horas?

 

Okay anuiu Lisa, sorrindo. Estou curiosa para saber o resultado dos testes.

 

Se começarmos esta noite, teremos os resultados depois de amanhã.

 

Lisa parecia ter dúvidas.

 

Só se tomarmos alguns atalhos.

 

Assim é que é! Saiu do carro e Lisa afastou-se. Jeannie gostaria de se ter metido logo no seu carro e seguido

 

para a prisão, mas achou melhor ver primeiro que tal estava o pai, por isso, foi a casa.

 

Ele estava a ver A Roda da Sorte na televisão.

 

Olá, Jeannie cumprimentou. Hoje vieste tarde.

 

Estive a trabalhar e ainda não terminei disse ela. Que tal foi o teu dia?

 

Aborrecido, sempre aqui sozinho.

 

Sentiu pena dele. O pai parecia não ter amigos. No entanto, estava com melhor aspecto do que na noite anterior. Tomara banho, fizera a barba e descansara. Tirara uma pizza do congelador e aquecera-a para o almoço: a louça suja encontrava-se na bancada da cozinha. Jeannie esteve quase para lhe perguntar quem é que ele julgava que iria pôr a louça na máquina, mas absteve-se.

 

Pousou a pasta e começou a arrumar as coisas. Ele não desligou a televisão.

 

Estive em Richmond, na Virgínia.

 

Que bom, filha. O que é o jantar?

 

«Não», pensou ela, «isto não pode continuar. Ele não vai tratar-me como tratava a mãe».

 

Por que não fazes qualquer coisa? retorquiu ela. Aquilo desviou-lhe a atenção. Desligou o televisor e olhou

 

para ela.

 

Eu não sei cozinhar!

 

Eu também não, pai.

 

Ele franziu o sobrolho e depois sorriu.

 

Então vamos comer fora!

 

A expressão no rosto dele era perturbadoramente familiar. Jeannie recuou vinte anos. Ela e Patty vestiam calças de ganga iguais. Viu o pai de cabelo preto e patilhas a dizer: «Vamos à feira popular! Que tal se comermos algodão-doce? Entrem para o carro!» Fora o homem mais maravilhoso do mundo. Depois as suas recordações avançaram dez anos. Ela estava com calças de ganga pretas e botas Doe Marten’s, o cabelo do pai era mais curto e grisalho, e ele dizia: «Levo-te a Boston mais às tuas coisas, alugo uma carrinha, assim podemos passar algum tempo juntos, comemos uns hamburgers à beira da estrada e divertimo-nos imenso! Está pronta às dez!» Ela esperara todo o dia, mas ele não chegara a aparecer e, no dia seguinte, Jeannie apanhara um autocarro.

 

Agora, ao ver outra vez o brilho da diversão nos olhos do pai, desejou de todo o coração poder voltar a ter nove anos e acreditar em todas as suas palavras. Mas agora já era adulta, por isso, perguntou:

 

Quanto dinheiro tens? Ele ficou carrancudo.

 

Nenhum, já te disse.

 

Eu também não, por isso não podemos comer fora. Abriu o frigorífico. Tinha uma alface, uma maçaroca, um limão, uma embalagem de costeletas de borrego, um tomate e meia caixa de arroz V nele Ben’s. Pegou nas coisas e pô-las em cima da bancada.


Já sei disse. Comemos milho com manteiga derretida como entrada, seguido de costeletas de borrego com limão acompanhadas por salada e arroz e para sobremesa, gelado.

 

Bom, isso parece-me óptimo.

 

Então começa a fazer as coisas enquanto eu estiver fora. Ele levantou-se e olhou para a comida.

 

Ela pegou na pasta.

 

Volto pouco depois das dez.

 

Não sei cozinhar isto! exclamou ele, pegando na maçaroca Jeannie tirou de cima do frigorífico um livro de culinária e

 

entregou-lho.

 

Procura disse. Deu-lhe um beijo e saiu

 

Quando entrou no carro e se dirigiu à cidade, perguntou a si própria se teria sido demasiado cruel. Ele pertencia a outra geração, as regras haviam sido diferentes quando era novo. Mesmo assim, não podia ser governanta dele, ainda que o quisesse, tinha um emprego. Ao dar-lhe uma casa onde podia dormir, já estava a fazer mais do que aquilo que ele fizera por ela. Mesmo assim, desejou tê-lo deixado mais satisfeito. Não era perfeito, mas era o único pai que tinha.

 

Arrumou o carro num parque de estacionamento subterrâneo e foi a pé até à esquadra. Deparou com um átrio ostentoso com bancos de mármore e um mural com cenas da história de Baltimore. Disse ao guarda de serviço que queria ver Steve Logan, um dos detidos Estava à espera de ter de insistir, mas alguns minutos depois uma mulher de farda acompanhou-a até um elevador.

 

Deixaram-na numa sala do tamanho de um roupeiro. Era incaracterística, tirando uma pequena janela ao nível da cara e um painel de som abaixo dela. A janela dava para outra sala semelhante. Não havia forma de passar algo de uma sala para a outra sem fazer um buraco na parede.

 

Jeanme olhou pela janela. Cinco minutos depois, trouxeram Steve. Quando entrou na sala, ela reparou que estava algemado e que tinha os pés acorrentados, como se fosse perigoso. Aproximou-se do vidro e espreitou. Quando a reconheceu, esboçou um largo sorriso.

 

Que surpresa tão agradável’ exclamou. Aliás, foi a única coisa agradável que me aconteceu desde que aqui cheguei.


Apesar dos seus modos animados, estava com má cara: tenso e cansado.

 

Como se sente?

 

Mais ou menos. Meteram-me numa cela com um tipo que está de ressaca por causa do crack. Tenho medo de adormecer.

 

Jeannie sentiu uma enorme pena dele. Recordou-se de que fora aparentemente aquele rapaz que violara Lisa. Mas não podia acreditar.

 

Quanto tempo acha que vai aqui ficar?

 

Amanhã um juiz vai rever a minha fiança. Se isso não resultar, terei de continuar aqui até surgirem os resultados do teste ao ADN. Parece que isso demora três dias.

 

A referência ao ADN lembrou-a por que motivo ali fora.

 

Hoje vi o seu gémeo.

 

E então?

 

Não há dúvida. É igualzinho a si.

 

Talvez ele tenha violado a Lisa Hoxton. Jeannie abanou a cabeça.

 

Só se tivesse fugido da prisão no fim-de-semana. Mas ainda lá está.

 

Acha que ele pode ter fugido e depois regressado? Para arranjar um álibi?

 

Isso é que é imaginação! Se o Dennis fugisse da prisão, nada o faria voltar.

 

Acho que tem razão disse Steve, triste.

 

Tenho algumas perguntas a fazer-lhe.

 

Força.

 

Primeiro, preciso de confirmar a data do seu nascimento.

 

Vinte e cinco de Agosto.

 

Fora isso que Jeannie escrevera. Talvez se tivesse enganado a registar o aniversário de Dennis.

 

E sabe, por acaso, onde nasceu?

 

Sim. Na altura, o meu pai estava destacado em Fort Lee, na Virgínia, e eu nasci no hospital militar local.

 

Tem a certeza?

 

Absoluta. A minha mãe fala disso no seu livro Ter Um Filho. Semicerrou os olhos e arvorou uma expressão que começava a ser familiar para Jeannie. Significava que ele estava a adivinhar o raciocínio dela. Onde nasceu o Dennis?


Ainda não sei.

 

Mas foi no mesmo dia.

 

Infelizmente, ele diz que foi a 7 de Setembro. Mas pode ser engano. Vou verificar. Ligarei à mãe dele assim que chegar ao meu gabinete. Já falou com os seus pais?

 

Não.

 

Quer que eu lhes ligue?

 

Não! Por favor. Não quero que saibam até eu poder dizer-lhes que fui ilibado.

 

Ela franziu o sobrolho.

 

Por aquilo que me contou, eles parecem ser pessoas bastante compreensivas.

 

E são. Mas não quero atormentá-los nem fazê-los sofrer.

 

É claro que seria doloroso, mas talvez preferissem saber, para poderem ajudá-lo.

 

Não. Por favor, não lhes telefone.

 

Jeannie encolheu os ombros. Steve estava a ocultar-lhe algo. Mas a decisão era dele.

 

Jeannie... como era ele?

 

O Dennis? Superficialmente, igual a si.

 

Tem cabelo comprido ou curto? Bigode, unhas sujas, acne, coxeia?

 

O cabelo é como o seu, não tem barba, tem as mãos limpas e a pele também. Podia ser você.

 

Credo! Steve parecia muito pouco à vontade.

 

A maior diferença é o comportamento. Ele não sabe dar-se com o resto da raça humana.

 

Isso é estranho.

 

Não acho. Aliás, confirma a minha teoria. Quando nasceram, eram ambos aquilo a que eu chamo «crianças selvagens». Roubei a expressão de um filme francês. Utilizo-a para identificar o tipo de criança destemida, incontrolável, hiperactiva. É difícil para essas crianças viverem em sociedade. A Charlotte Pinker e o marido falharam em relação ao Dennis. Os seus pais foram bem sucedidos consigo.

 

Isso não o tranquilizou.

 

Mas, no fundo, eu e o Dennis somos iguais.

 

Nasceram ambos selvagens.


Mas eu tenho o verniz fino da civilização. Ela apercebeu-se da sua perturbação.

 

Por que razão isso o incomoda tanto?

 

Gostaria de considerar-me um ser humano, não um gorila amestrado.

 

Ela riu-se, apesar da expressão solene do rapaz.

 

Os gorilas também têm de viver em sociedade. Tal como todos os animais que vivem em grupo. É daí que vem o crime.

 

Ele pareceu interessado.

 

De viverem em grupo?

 

Claro. O crime é a violação de uma importante regra social. Os animais solitários não têm regras. Um urso destrói a gruta de outro, rouba a sua comida e mata as suas crias. Os lobos não fazem essas coisas: se tal acontecesse, não poderiam viver em alcateias. Os lobos são monogâmicos, tomam conta das crias uns dos outros e respeitam o espaço pessoal de cada indivíduo. Se um deles viola uma regra, castigam-no: se ele insistir, expulsam-no ou matam-no.

 

E se violarem regras sociais pouco importantes?

 

Tal como dar... um peido num elevador? Chamamos-lhe falta de educação. O único castigo é a desaprovação dos outros. Mas é espantoso verificar o quanto é eficaz.

 

Por que está tão interessada nas pessoas que violam as regras? Pensou no pai. Não sabia se ela própria tinha genes criminosos

 

ou não. Talvez Steve ficasse mais consolado se soubesse que também ela estava preocupada com a sua herança genética. Contudo, mentira a respeito do pai durante tanto tempo que só dificilmente conseguia referir-se-lhe.

 

É um grande problema respondeu ela de forma evasiva. Toda a gente está interessada no crime.

 

A porta abriu-se atrás deles e a jovem guarda entrou.

 

Acabou o tempo, doutora Ferrami.

 

Okay disse ela por cima do ombro. Steve, sabia que a Lisa Hoxton é a minha melhor amiga aqui em Baltimore?

 

Não.

 

Trabalhamos juntas. Ela é técnica.

 

E que tal é?

 

Não é o tipo de pessoa capaz de fazer uma acusação leviana. Ele assentiu.


Mesmo assim, quero que saiba que não acredito que tenha sido o culpado.

 

Durante um momento, julgou que ele iria chorar.

 

Obrigado respondeu, com voz rouca. Não sabe o que isso significa para mim.

 

Telefone-me quando sair. Disse-lhe o número do telefone.

 

Consegue decorá-lo?

 

Claro.

 

Jeannie estava relutante em ir-se embora. Dirigiu-lhe um sorriso que esperava fosse encorajador.

 

Boa sorte.

 

Obrigado. Bem preciso. Ela virou-se e saiu.

 

A guarda acompanhou-a até ao átrio. Quando regressou ao parque de estacionamento, a noite começara a cair. Entrou na via rápida de Jones Falis e acendeu os faróis do velho Mercedes. Rumou para norte a grande velocidade, ansiosa por chegar à universidade. Andava sempre muito depressa. Era boa condutora, embora por vezes um pouco imprudente, sabia-o. Mas não tinha paciência para andar a noventa quilómetros à hora.

 

O Honda Accord branco de Lisa já se encontrava estacionado junto ao «Manicómio». Jeannie deixou o seu ao lado do dela e entrou. Lisa estava a acender as luzes do laboratório. A geleira com o sangue de Dennis Pinker encontrava-se em cima de um banco.

 

O gabinete de Jeannie ficava mesmo do outro lado do corredor. Destrancou a porta, passando o cartão plástico pela ranhura do leitor de cartões, e entrou. Sentou-se à secretária e marcou o número dos Pinker, em Richmond.

 

Finalmente! exclamou, quando ouviu o sinal de chamada. Foi Charlotte quem atendeu.

 

Como está o meu filho? perguntou.

 

De boa saúde respondeu Jeannie. «Mal parecia um psicopata», pensou ela, «até ter-me encostado uma faca e roubado as minhas cuecas». Tentou pensar em qualquer coisa boa para dizer.

 

Colaborou bastante.

 

Sempre foi muito bem educado disse Charlotte com o sotaque arrastado do Sul que utilizava para proferir as maiores barbaridades.


Mistress Pinker, importa-se de me dizer novamente em que dia ele nasceu?

 

Nasceu a 7 de Setembro. Como se devesse ser feriado. Não era a resposta de que Jeannie estava à espera.

 

E em que hospital?

 

Na altura estávamos em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Jeannie reprimiu uma praga.

 

O major estava a treinar recrutas para o Vietname disse Charlotte, muito orgulhosa. O Comando Médico do Exército tinha um grande hospital em Bragg. Foi aí que o Dennis veio ao mundo.

 

Jeannie não conseguia pensar em mais nada para dizer. O mistério era cada vez maior.

 

Mistress Pinker, mais uma vez, obrigada pela sua colaboração.

 

De nada. Regressou ao laboratório.

 

Parece que o Steve e o Dennis nasceram com treze dias de diferença em estados diferentes disse a Lisa. Não consigo perceber.

 

Lisa abriu uma caixa de tubos de ensaio.

 

Bom, há um teste incontestável. Se tiverem o mesmo ADN, são gémeos univitelinos, independentemente do que disseram a respeito do seu nascimento. Tirou dois tubos pequenos. Tinham alguns centímetros de comprimento. O seu fundo era cónico e tinham também uma tampa. Abriu uma caixa de etiquetas, escreveu «Dennis Pinker» numa e «Steve Logan» na outra, depois colou-as aos tubos de ensaio e colocou-os num suporte.

 

Quebrou o selo do frasco onde se encontrava a amostra de sangue de Dennis e colocou uma única gota num dos tubos de ensaio. Depois, retirou da câmara frigorífica um frasco do sangue de Steve e fez o mesmo.

 

Usando uma pipeta, um tubo com um bolbo na extremidade, acrescentou uma pequena quantidade de clorofórmio a cada um dos tubos de ensaio. Depois, pegou numa pipeta limpa e acrescentou uma quantidade exactamente idêntica de fenol.

 

Fechou os dois tubos e colocou-os no agitador durante alguns segundos. O clorofórmio dissolveria as gorduras e o fenol quebraria as proteínas, mas as moléculas de ácido desoxirribonucleico espiraladas permaneceriam intactas.

 

Lisa voltou a colocar os tubos no suporte.

 

É tudo o que podemos fazer durante as próximas horas disse.

 

O fenol dissolvido na água iria separar-se lentamente do clorofórmio. Na extremidade do tubo formar-se-ia um menisco. O ADN estaria na parte aquosa e poderia ser retirado com uma pipeta para a fase seguinte do teste. Mas isso só poderia ser feito na manhã seguinte.

 

Tocou um telefone algures. Jeannie franziu o sobrolho: o som parecia vir do seu gabinete. Atravessou o corredor e foi atender.

 

Sim?

 

É a doutora Ferrami?

 

Jeannie detestava as pessoas que ligavam e exigiam saber o nome do interlocutor sem se identificarem. Era como bater à porta de alguém e perguntar: «Quem raio é você?» Absteve-se de dar uma resposta sarcástica.

 

Sim, sou a Jeannie Ferrami. Com quem estou a falar, por favor?

 

Naomi Freelander, do New York Times. Parecia ser uma grande fumadora com cerca de cinquenta anos. Gostaria de fazer-lhe algumas perguntas.

 

A esta hora da noite?

 

Trabalho a qualquer hora. Parece que a senhora também.

 

Por que me ligou?

 

Estou a escrever um artigo sobre ética científica.

 

Oh! Jeannie pensou imediatamente no facto de Steve não saber que fora adoptado. Era um problema ético, embora solucionável... mas com certeza o Times não estava a par disso. E qual é o seu interesse?

 

Constou-me que analisava bases de dados médicas à procura de pessoas adequadas para o seu trabalho.

 

Oh, okay. Jeannie ficou mais descontraída. Bem, criei um programa de busca que analisa os dados computorizados e procura pares coincidentes. O meu objectivo é encontrar gémeos univitelinos. Pode ser utilizado em qualquer base de dados.

 

Mas teve acesso a registos médicos para poder utilizar o seu programa.

 

É importante definir o que entende por acesso. Tive o cuidado de não devassar a vida privada das pessoas. Nunca vi a ficha médica de ninguém. O programa não imprime os registos.

 

O que imprime então?

 

Os nomes dos dois indivíduos, as suas moradas e números de telefone.

 

Mas imprime os nomes aos pares.

 

Claro, o objectivo é esse.

 

Então se o usasse numa base de dados de, por exemplo, electroencefalogramas, ele dir-lhe-ia que as ondas cerebrais de fulano são iguais às de sicrano.

 

Iguais ou parecidas. Mas não me diria mais nada a respeito do estado de saúde da pessoa.

 

No entanto, se soubesse previamente que fulano era esquizofrénico, poderia concluir que sicrano também o era.

 

Nunca saberíamos uma coisa dessas.

 

Podia conhecer o fulano.

 

Como?

 

Ele podia ser o seu porteiro, ou qualquer outra coisa.

 

Ora, vá lá!

 

É possível.

 

A sua história vai ser essa?

 

Talvez.

 

Okay, é teoricamente possível, mas a probabilidade é tão mínima que qualquer pessoa a poria de parte.

 

Isso é discutível.

 

A jornalista parecia decidida a ver uma devassa da vida privada, independentemente dos factos, pensou Jeannie, e começou a ficar preocupada. Já tinha problemas suficientes sem precisar que os malditos jornais a chateassem.

 

Isto é mesmo real? perguntou. Descobriu alguém que achou que a sua vida privada tinha sido devassada?

 

Estou interessada no potencial. Jeannie lembrou-se de uma coisa.

 

Mas quem é que lhe disse para me telefonar?

 

Por que pergunta?

 

Pela mesma razão por que me fez perguntas. Gostaria de saber a verdade.

 

Não posso dizer-lhe.

 

Isso é interessante comentou Jeannie. Falei-lhe considerável mente da minha investigação e dos meus métodos. Não tenho nada a esconder. Mas a senhora não pode dizer o mesmo. Parece-me que está... bom, envergonhada. Tem vergonha de me dizer como é que descobriu o meu projecto?

 

Não tenho vergonha de nada retorquiu a jornalista. Jeannie começou a ficar zangada. Quem pensava aquela mulher que era?

 

Bom, então alguém tem vergonha. Senão, por que me esconde a identidade dele? Ou dela?

 

Tenho de proteger as minhas fontes.

 

Do quê? Jeannie sabia que devia calar-se. Não ganhava nada em antagonizar a imprensa, mas a atitude da mulher era insuportável. Como já expliquei, não há nada de errado nos meus métodos e eles não ameaçam a vida privada de ninguém. Então por que haveria o seu informador de ser tão misterioso?

 

As pessoas têm motivos...

 

Parece que o seu informador fez tudo com má intenção, não é? Ao fazer a pergunta, pensava: «Por que quereria alguém fazer-me isto?»

 

Não comento isso.

 

Não comenta, hein? repetiu, com sarcasmo. Tenho de lembrar-me de utilizar essa frase mais vezes.

 

Doutora Ferrami, gostaria de agradecer a sua colaboração.

 

Ora essa disse Jeannie, desligando.

 

Ficou a olhar para o telefone durante um longo momento.

 

Mas que raio era aquilo tudo? perguntou.

 

QUARTA-FEIRA

Berrington Jones dormiu mal.

 

Passou a noite com Pippa Harpenden. Pippa era secretária no departamento de física e já inúmeros professores a tinham convidado para sair, incluindo vários homens casados, mas Berrington era o único com quem saía. Vestira-se muito bem, levara-a a um restaurante romântico e encomendara um excelente vinho. Recebera o olhar invejoso dos homens da sua idade que jantavam com as suas horríveis mulheres velhas. Depois, levara-a para casa, acendera velas, vestira um pijama de seda e fizera amor muito devagar, até ela gemer de prazer.

 

Porém, acordou às quatro da manhã e pensou em todas as coisas que poderiam correr mal no seu plano. Na véspera, à tarde, Hank Stone havia estado a beber o vinho barato oferecido pela editora: podia ter-se esquecido da conversa com Berrington. Se se lembrasse dela, os editores do New York Times talvez decidissem não continuar a vasculhar a história. Podiam fazer algumas perguntas e chegar à conclusão de que não havia nada de errado naquilo que Jeannie andava a fazer. Ou podiam simplesmente andar devagar e começar a investigar apenas na semana seguinte, quando já fosse demasiado tarde.

 

Depois de ter andado às voltas durante algum tempo, Pippa murmurou, ensonada:

 

Estás bem, Berrington?

 

Ele acariciou-lhe o belo cabelo comprido louro e ela emitiu alguns sons encorajadores. Fazer amor com uma mulher bonita era normalmente um consolo para qualquer tipo de problema, mas ele pressentia que daquela vez não iria dar resultado. Tinha demasiadas coisas em que pensar. Teria sido um alívio falar com Pippa sobre os seus problemas (ela era inteligente e mostrar-se-ia compreensiva), mas Berrington não podia revelar a ninguém os seus segredos.

 

Passado algum tempo, levantou-se e foi correr. Quando regressou ela tinha-se ido embora, deixando um bilhete a dizer «obrigada» preso numa meia preta de nylon.

 

A governanta chegou alguns minutos depois das oito e fez-lhe uma omeleta. Marianne era uma rapariga magra e nervosa, da Martinica. Falava pouco inglês e tinha um medo de morte de que a mandassem para casa. o que a tornava muito dócil. Era bonita, e Berrington calculava que se a mandasse fazer sexo oral ela consideraria isso parte das suas funções. É claro que ele não fazia isso: dormir com as empregadas não era o seu estilo.

 

Tomou um duche, fez a barba e vestiu-se de forma a deixar transparecer autoridade: um fato cinzento-escuro às riscas brancas, camisa branca e gravata preta com pequenos pontos vermelhos. Colocou botões de punho em ouro com monograma, um lenço branco de linho dobrado no bolso do peito e engraxou os sapatos pretos até brilharem.

 

Dirigiu-se ao complexo universitário, subiu ao seu gabinete e ligou o computador. Tal como a maioria dos académicos vedetas, dava muito poucas aulas. Ali, em Jones Falis, fazia uma prelecção por ano. A sua função era dirigir e supervisionar a investigação dos cientistas do departamento e acrescentar o seu prestigiado nome aos ensaios que eles escreviam. Mas naquela manhã não conseguia concentrar-se em nada, por isso, olhou pela janela e viu quatro alunos a disputar um animado jogo de ténis em pares, enquanto aguardava que o telefone tocasse.

 

Não teve de esperar muito.

 

Às nove e meia, Maurice Obell, presidente da Universidade Jones Falis, telefonou.

 

Temos um problema disse. Berrington ficou tenso.

 

O que se passa, Maurice?

 

Uma tipa do New York Times acabou de me ligar. Disse que alguém do teu departamento anda a devassar a vida privada das pessoas. Uma tal doutora Ferrami.


«Graças a Deus», pensou Berrington, eufórico, «o Hank Stone fez o que tinha a fazer!» Falou numa voz muito solene:

 

Receava que acontecesse uma coisa dessas disse. Vai acabar imediatamente.

 

Desligou e não se mexeu durante algum tempo, a pensar. Era ainda demasiado cedo para cantar vitória. Estava apenas no começo. Agora tinha de pôr Maurice e Jeannie a fazer o que ele queria.

 

Maurice parecera preocupado. Isso era um bom começo. Berrington iria certificar-se de que ele permaneceria assim. Precisava que Maurice sentisse que seria uma catástrofe Jeannie não deixar imediatamente de utilizar o seu programa de investigação de bases de dados. Assim que Maurice resolvesse tomar medidas, Berrington teria de garantir que não mudava de opinião.

 

Acima de tudo, era necessário evitar qualquer espécie de compromisso. Jeannie não era muito de fazer compromissos, como ele bem sabia, mas talvez que, com o seu futuro em risco, pudesse tentar qualquer coisa. Ele teria de alimentar a sua ira e mantê-la combativa.

 

E deveria fazer tudo enquanto tentava mostrar-se bem intencionado. Se se tornasse evidente que era ele quem andava a prejudicar Jeannie, Maurice poderia começar a desconfiar. Tinha de fingir defendê-la.

 

Saiu do «Manicómio» e atravessou o complexo universitário, passando pelo Teatro Barrymore e pela Faculdade de Belas-Artes, rumo a Hillside Hall. Outrora a mansão do benfeitor da universidade, era agora o edifício da administração. O gabinete do presidente da universidade era a magnífica sala de estar da velha casa. Berrington acenou com a cabeça à secretária do Dr. Obell.

 

Ele está à minha espera comunicou-lhe.

 

Faça favor de entrar, professor respondeu ela. Maurice estava sentado na janela de sacada com vista para o relvado. Era um homem baixo e entroncado, que regressara do Vietname numa cadeira de rodas, paralisado da cintura para baixo. Berrington dera-se facilmente com ele porque tinham ambos o mesmo passado militar. Também partilhavam a paixão pela música de Mahler.

 

Maurice tinha muitas vezes um ar apoquentado. Para manter a Universidade Jones Falis em funcionamento necessitava de obter dez milhões de dólares por ano junto de benfeitores e empresas e, consequentemente, temia a publicidade desagradável. Virou a cadeira e dirigiu-se para a secretária.

 

Estão a preparar um grande artigo sobre ética científica disse ele. Berry, não posso permitir que a Jones Falis seja mencionada num artigo como exemplo de falta de ética. Metade dos nossos doadores nunca mais nos daria nada. Temos de fazer qualquer coisa.

 

Quem é ela?

 

Maurice consultou um bloco.

 

Naomi Freelander. É a editora de ética. Sabias que os jornais tinham editores de ética? Eu não.

 

Não me admira que o New York Times tenha um.

 

Isso não os impede de agirem como a maldita Gestapo. Estão prestes a publicar este artigo, segundo dizem, mas ontem receberam uma dica sobre a tua doutora Ferrami.

 

De onde terá vindo a dica? perguntou Berrington.

 

Há sempre uns tipos muito desleais.

 

Pois é. Maurice suspirou.

 

Diz-me que não é verdade, Berry. Diz-me que ela não devassa a vida privada dos doentes!

 

Berrington cruzou as pernas, tentando parecer descontraído, mas no seu íntimo estava muito tenso. Era ali que tinha de caminhar na corda bamba.

 

Não acredito que ela esteja a fazer nada de mal respondeu. Analisa bases de dados médicas e encontra pessoas que não sabem que têm gémeos. É muito inteligente, por acaso...

 

Ela vê os registos médicos das pessoas sem a sua autorização?

 

Berrington fingiu uma certa relutância.

 

Bem... mais ou menos.

 

Então vai ter de parar.

 

O problema é que precisa mesmo dessa informação para o projecto.

 

Talvez possamos oferecer-lhe alguma compensação. Berrington não se lembrara de a subornar. Duvidava que isso funcionasse, mas não fazia mal tentar.

 

Boa ideia.

 

Já é efectiva?

 

Começou aqui este semestre, como professora assistente. Faltam-lhe, no mínimo, seis anos para ficar efectiva. Mas podíamos aumentá-la. Sei que precisa de dinheiro, pois foi ela quem mo disse.

 

Quanto é que ganha agora?

 

Trinta mil dólares por ano.

 

Quanto achas que devíamos oferecer-lhe?

 

Uma importância substancial. Mais oito ou dez mil.

 

E quem iria custear isso? Berrington sorriu.

 

Acho que conseguiria persuadir a Genético.

 

Então é o que vamos fazer. Telefona-lhe agora, Berry. Se ela estiver no complexo universitário, manda-a cá vir imediatamente. Vamos resolver esta questão antes que a tal comissão de ética volte a ligar.

 

Berrington pegou no telefone de Maurice e ligou para o gabinete de Jeannie. Esta atendeu imediatamente.

 

Jeannie Ferrami.

 

Fala Berrington.

 

Bom dia. Parecia aborrecida. Teria pressentido o seu desejo de seduzi-la na segunda-feira à noite? Talvez desconfiasse que ele queria tentar de novo. Ou talvez já lhe tivesse chegado aos ouvidos o problema do New York Times.

 

Posso falar contigo pessoalmente?

 

No teu gabinete?

 

Estou no do Dr. Obell, em Hillside Hall. Ela emitiu um suspiro exasperado.

 

É por causa de uma mulher chamada Naomi Freelander?

 

Sim.

 

São tudo tretas, como bem sabes.

 

Pois sei, mas temos de resolver o problema.

 

Vou já para aí. Berrington desligou.

 

Ela vem já para cá disse ele a Maurice. Parece que já teve notícias do Times.

 

Os minutos seguintes iriam ser cruciais. Se Jeannie se defendesse bem, Maurice poderia decidir mudar de estratégia. Berrington tinha de manter Maurice firme sem hostilizar Jeannie. Ela era uma rapariga temperamental, agressiva, não do tipo conciliatório, em especial quando julgava ter a razão do seu lado. Provavelmente, faria de Maurice um inimigo sem a ajuda de Berrington, mas, para o caso de se mostrar muito doce e persuasiva, ele precisava de um segundo plano. Com um rasgo de inspiração, sugeriu:

 

Enquanto esperamos, podíamos rascunhar uma declaração para enviar à imprensa.

 

Boa ideia.

 

Berrington pegou no bloco e começou a escrever. Precisava de algo com que Jeannie não concordasse, algo que ferisse o seu orgulho e a enfurecesse. Escreveu que a Universidade Jones Falis admitia terem sido cometidos alguns erros. A universidade pedia desculpa àqueles cuja vida privada fora devassada. E garantia que o programa havia sido imediatamente suspenso.

 

Entregou a sua obra à secretária de Maurice e pediu-lhe para bater aquilo no computador.

 

Jeannie chegou bastante indignada. Trazia vestida uma T-shirt larga verde-esmeralda, calças de ganga justas e umas botas antigamente chamadas «botas de engenheiro», mas que estavam agora muito na moda. No nariz tinha uma argola de prata e prendera o cabelo escuro. Berrington achou-a gira, mas a sua indumentária não iria impressionar o presidente da universidade. Este achá-la-ia uma professora irresponsável, capaz de meter a Universidade Jones Falis em sarilhos.

 

Maurice convidou-a a sentar-se e falou-lhe do telefonema do jornal. Os seus modos eram rígidos. «Sentia-se à vontade com homens maduros», pensou Berrington, «mas as mulheres jovens com calças de ganga justas pareciam-lhe extraterrestres».

 

Recebi um telefonema da mesma mulher disse Jeannie com irritação. Isto é um absurdo!

 

Mas a senhora tem acesso a bases de dados médicos.

 

Eu não vejo as bases de dados, o computador é que vê. Nenhum ser humano vê os registos médicos. O meu programa elabora uma lista de nomes e moradas, agrupados em pares.

 

Mesmo isso...

 

Não fazemos mais nada sem primeiro pedir a autorização do potencial objecto de estudo. Nem sequer lhes dizemos que são gémeos até concordarem em participar. Então, que vida privada é devassada?

 

Berrington fingiu apoiá-la.

 

Eu disse-te, Maurice. O Times percebeu tudo ao contrário.

 

Mas a jornalista não é dessa opinião. E eu tenho de pensar na reputação da universidade.

 

Acredite que o meu trabalho vai ajudar a cimentar essa reputação interveio Jeannie. Inclinou-se para a frente e Berrington ouviu na sua voz a paixão pelo conhecimento que impelia todos os bons cientistas: Este projecto é da máxima importância. Sou a única pessoa que descobriu como estudar a genética da criminalidade. Quando publicarmos os resultados causaremos sensação.

 

Ela tem razão, observou Berrington. Era verdade. O seu estudo teria sido fascinante. Era devastador ter de destruí-lo, mas não lhe restava alternativa.

 

Maurice abanou a cabeça.

 

É meu dever proteger a universidade do escândalo.

 

Também é seu dever defender a liberdade académica contrapôs Jeannie, imprudente.

 

Ela não devia enveredar por aquele caminho. Outrora, sem dúvida, os presidentes das universidades haviam lutado pelo direito ao avanço livre do conhecimento, mas esses dias tinham acabado. Agora não passavam de homens que reuniam fundos. Só iria ofender Maurice se falasse da liberdade académica.

 

Ele olhou-a furioso.

 

Não preciso que me dê um sermão sobre os meus deveres, minha senhora retorquiu, muito rígido.

 

Jeannie não percebeu a indirecta, para gáudio de Berrington.

 

Ai não? redarguiu ela, cada vez mais acalorada. Há aqui um conflito directo. De um lado, um jornal que aparentemente insiste numa história falsa, de outro, um cientista em busca da verdade. Se um presidente universitário vacila sob este tipo de pressão, que esperança poderá haver?

 

Berrington sentiu-se exultante. Jeannie estava linda, corada e de olhos brilhantes, mas começara a cavar a sua própria sepultura. Maurice estava prestes a explodir.

 

Depois, Jeannie pareceu perceber o que tinha feito, pois mudou imediatamente de táctica.


Por outro lado, nenhum de nós quer má publicidade para a universidade disse, num tom de voz mais suave. Percebo perfeitamente a sua preocupação, Dr. Obell.

 

Maurice acalmou-se imediatamente, para desgosto de Berrington.

 

Percebo que isto a coloca numa posição muito difícil disse. A universidade está disposta a oferecer-lhe uma compensação, na forma de um aumento de dez mil dólares por ano.

 

Jeannie ficou perplexa.

 

Isso deverá permitir que tires a tua mãe daquele sítio horrível disse Berrington.

 

Jeannie hesitou apenas por segundos.

 

Ficaria muito grata respondeu, mas isso não resolveria o problema. Continuarei a precisar de gémeos delinquentes para a minha investigação. De outra forma, não terei nada que estudar.

 

Berrington calculara que ela não podia ser subornada.

 

Com certeza haverá outra forma de encontrar pessoas indicadas para o seu estudo.

 

Não há. Preciso de gémeos univitelinos, criados separadamente, e que pelo menos um deles seja criminoso. Isso é pedir muito. O meu computador localiza pessoas que nem sequer sabem que têm irmãos gémeos. Não há outra forma de fazer isto.

 

Não tinha percebido comentou Maurice.

 

O tom da conversa estava a tornar-se perigosamente amigável. Depois, entrou a secretária de Maurice e entregou-lhe uma folha. Era a comunicação redigida por Berrington. Maurice mostrou-a a Jeannie.

 

Precisamos de publicar ainda hoje uma coisa destas, se queremos acabar com a história declarou.

 

Ela leu-a rapidamente e a sua ira regressou.

 

Mas isto são tretas! explodiu. Não foram cometidos quaisquer erros. Ninguém invadiu a privacidade de ninguém. Nenhuma pessoa se queixou!

 

Berrington ocultou a sua satisfação. Era paradoxal ela ser tão temperamental e ter paciência e perseverança para fazer trabalho de investigação bastante moroso e entediante. Já a vira a trabalhar com os pares de gémeos: nunca pareciam irritá-la ou cansá-la, mesmo quando faziam batota nos testes. Considerava o mau comportamento deles tão interessante como o bom. Limitava-se a tomar nota do que diziam e agradecer-lhes com sinceridade no fim. Contudo, fora do laboratório explodia à mínima provocação. Ele desempenhou o papel de conciliador preocupado.

 

Mas, Jeannie, o Dr. Obell acha que a declaração tem de ser firme.

 

Não podem dizer que foi suspensa a utilização do meu programa de computador! exclamou. Isso seria o mesmo que cancelar todo o projecto!

 

A expressão de Maurice endureceu.

 

Não posso permitir que o New York Times publique um artigo onde se diz que os cientistas da Jones Falis devassam a vida privada das pessoas declarou. Isso custar-nos-ia milhões de dólares em donativos.

 

Descubra uma saída intermédia implorou Jeannie. Diga que estamos a analisar o problema. Crie uma comissão. Se necessário, desenvolveremos mais medidas de segurança.

 

«Oh!, não», pensou Berrington. Aquilo era um assunto bastante delicado.

 

É claro que temos uma comissão de ética disse ele, tentando ganhar tempo. É uma subcomissão do senado. O senado era o conselho dirigente, constituído por todos os professores efectivos, mas o trabalho era feito por comissões e conselhos. Podia anunciar que o assunto lhe foi entregue.

 

Isso de nada serviria retorquiu Maurice, abruptamente. Todos perceberiam que tentamos apenas ganhar tempo.

 

Não vê que ao insistir numa medida imediata está praticamente a impedir qualquer discussão racional?

 

Era altura de concluir a reunião, pensou Berrington. Aqueles dois estavam em forte desacordo, ambos entrincheirados nas suas posições. Devia pôr-lhe cobro antes que começassem a pensar de novo num compromisso.

 

Tens razão, Jeannie interveio Berrington. Deixa-me fazer-te uma proposta... se é que me permites, Maurice.