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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O TRÍLIO DE SANGUE / Julian May
O TRÍLIO DE SANGUE / Julian May

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O TRÍLIO DE SANGUE

 

Uma história recheada de fantasia, uma terra de reis e rainhas que se aventuram por regiões cercadas de geleiras, magia e paixões avassaladoras — estes são os ingredientes que fazem de O trílio de sangue, de Julian May, um romance para ser devorado. O Mundo das Três Luas, povoado por humanos, duendes, aborígines e outros seres, vive em perfeito equilíbrio sob a regência da Arquimaga Haramis, até ser ameaçado pelo feiticeiro Portolanus, que retorna de Kimilon, a longínqua e inóspita Terra de Fogo e Gelo, para disseminar a guerra e dominar o mundo.

Depois de ouvir a triste história de Shiki, um caçador de peles que teve mulher e filhas assassinadas por Portolanus, a Arquimaga Haramis consulta seu talismã para saber quem é esse malfeitor e que tipo de ameaça ele significa ao equilíbrio do mundo. Atordoada, ela começa a suspeitar que ele é, na verdade, Orogastus, o feiticeiro que amara e que pensava estar morto há muitos anos. Aos poucos, Haramis descobre que a desconfiança tem razão de ser. Orogastus, agora na pele de Portolanus, passou anos confinado até ser resgatado com a ajuda da poderosa caixa mágica da Estrela, e planeja destruir a paz no Mundo das Três Luas.

A avidez em alcançar seu objetivo o leva a fazer alianças com a realeza de povos que também almejam mais poder. Mas ele só terá o que deseja quando conseguir os três talismãs que formam o Cetro do Poder, em mãos de Haramis e suas duas irmãs gêmeas, Kadiya e Anigel. As três formam uma unidade: Haramis é o princípio, a pedra fundamental; Kadiya, o ímpeto e a resistência, e Anigel, a perspicácia humana e o amor desinteressado.

As trigêmeas, no entanto, não dominam completamente a arte de manusear os talismãs. A riqueza do livro está justamente no encanto provocado pela trama fantástica da disputa entre Orogastus e as irmãs pelos amuletos; e a transformação dos personagens femininos com o aprendizado sobre magia, amor, poder, ambição, limitações e valores. O trílio de sangue é aconselhável para aqueles que querem refletir sobre o comportamento humano através de uma leitura romanceada e encantadora.

 

 

A primavera e o fim das chuvas de inverno custaram muito a chegar, naquele ano, no mundo iluminado pelas Três Luas. Monções fora de época tinham alagado as terras baixas da península e empilhado a neve em volta da torre da Arquimaga, na encosta meridional do monte Brom. E na noite em que o pequeno fugitivo chamado Shiki chegou, caía granizo.

O abutre-dos-alpes, que o carregou através do vendaval uivante, estava machucado e cansado demais para usar sua voz mental e avisar seus companheiros no ninho-de-águia da Arquimaga, por isso sua chegada foi uma surpresa desanimadora. Mal aterrissou no escorregadio telhado da torre, o pássaro gigantesco sofreu um colapso e morreu, e a princípio os criados da Dama de Branco nem notaram a carga que ele trouxera, com tanta firmeza, rumo ao sul. Todas as partes do grande corpo branco e preto, menos as asas, o rabo e a cabeça, estavam cobertas por uma camada de gelo. O manto de couro de Shiki, que o protegia enquanto se encolhia no dorso do pássaro, durante a terrível viagem, estava duro como uma armadura e praticamente colado ao corpo enorme do abutre. O fugitivo estava quase morto, sem força para sair do seu abrigo de penas, e poderia ter mesmo morrido, se os guardas da Arquimaga não corressem para socorrê-lo. Viram logo que era um homem do povo da montanha, da mesma raça aborígene vispi à qual eles pertenciam, mas, devido à pequena estatura, obviamente devia fazer parte de alguma tribo desconhecida.

— Sou Shiki. Tenho uma notícia para a Dama de Branco—ele conseguiu dizer. —Aconteceu uma coisa terrível no país do norte, em Tuzamen. Eu... eu preciso contar para ela...

Antes de dizer mais alguma coisa, perdeu os sentidos, sonhando com a esposa e as duas filhas mortas. Parecia que chamavam Shiki nesse sonho febril, pedindo que se juntasse a eles num reino dourado de paz e calor, onde o sagrado Trílio Negro brotava sob um céu sem nuvens.

Ele queria muito seguir seus entes queridos e ir para aquele lugar! Livre afinal, da dor e do chamado inadiável do dever! Mas ainda não tinha comunicado sua mensagem assombrosa, por isso implorou para os fantasmas esperarem um pouco, até ele completar essa última missão e informar à Arquimaga sobre o grande perigo. Enquanto falava, sua família foi se afastando, sorrindo, envolta numa névoa brilhante, balançando as cabeças.

E quando acordou, ele soube que ia viver.

Estava numa cama, num quarto aconchegante, com pouca luz, sob uma coberta de pele, as mãos geladas envoltas em panos. O pequeno lampião ao lado da cama era estranho, produzia uma luz brilhante e amarela de um tipo de cristal, sem chama. A chuva de granizo açoitava a janela do quarto, mas o lugar estava bem quente, mesmo sem lareira ou braseiro à vista. Um perfume sutil pairava no ar. Ele fez um esforço para sentar e viu sobre a mesa, ao pé da cama, uma fileira de urnas douradas, nas quais floresciam Trílios Negros mágicos, como os que tinha visto no sonho.

De pé, nas sombras atrás das flores, havia uma mulher alta. Usava um manto com capuz feito de um tecido branco brilhante, que soltava faíscas azuladas como o gelo nas grandes geleiras do interior. Seu rosto estava escondido e no início Shiki chegou a prender a respiração pressentindo algo, pois dela emanava uma aura de extraordinário mistério e poder que causava medo e o deixava trêmulo feito uma criança apavorada. Só havia encontrado uma pessoa com aquele tipo de aura uma vez na vida, e quase morreu por causa disso.

A mulher jogou o capuz para trás e foi para o lado dele. Gentilmente empurrou-o para que se recostasse nos travesseiros novamente.

— Não tenha medo — disse ela.

A aura assustadora logo diminuiu, e ela pareceu ser apenas uma jovem e bela mulher de cabelos negros. Humana, não da sua raça, com olhos azuis opalescentes e faíscas douradas lá no fundo, e lábios doces que sorriam tristemente.

O medo transformou-se em violenta ansiedade. Será que seu voor o tinha levado para o lugar errado? A lendária Arquimaga que ele procurava era uma anciã, protetora e guardiã do povo da montanha, desde a época dos Desaparecidos. Mas aquela mulher parecia não ter nem trinta anos de idade...

— Fique tranqüilo — disse ela. — Desde tempos imemoriais que uma Arquimaga sucede a outra, conforme ficou decidido no início. Sou a Arquimaga Haramis, a Dama de Branco desta era, e confesso que ainda sou uma novata no uso dos poderes do meu grandioso cargo, que mantenho há apenas doze anos. Mas diga-me quem é você, e por que veio me procurar e farei tudo que puder para ajudá-lo.

— Senhora — sussurrou ele, e as palavras saíram devagar, como as últimas gotas de uma esponja torcida. — Pedi ao meu fiel voor para trazer-me até aqui porque busco justiça, a correção de um mal terrível que foi perpetrado contra mim, minha família e o povo daminha aldeia. Mas, durante o voo, quase morri, e percebi que não somos os únicos que precisam de sua ajuda. O mundo inteiro precisa.

Ela ficou olhando para ele em silêncio, durante um longo tempo. Então se espantou ao ver lágrimas brotando em seus olhos, mas não chegaram a escorrer pelo seu rosto pálido.

— Então é verdade! — murmurou ela. — Por toda a terra tem havido uma agitação apreensiva, rumores sobre o renascimento do mal, tanto no meio do seu povo quanto na espécie humana, até discussões com minhas duas queridas irmãs. Mas procurei razões concretas para os distúrbios, porque não queria acreditar que o equilíbrio do mundo estivesse ameaçado mais uma vez.

—- E está mesmo! — gritou Shiki, dando um pulo na cama. — Senhora, acredite em mim! A senhora tem de acreditar em mim! Minha mulher não acreditou e foi assassinada, assim como nossas filhas e muitos do nosso povo. Aquele ser maligno que saiu da Calota de Gelo Sempiterna agora mantém toda Tuzamen sua escrava. Mas logo... em breve...

Ele teve um acesso de tosse e não conseguiu mais falar. Frustrado, começou a se debater na cama como louco. A Arquimaga ergueu a mão.

— Magira!

A porta se abriu. Entrou outra mulher, foi rapidamente para o lado da cama e olhou para ele com enormes olhos verdes. O cabelo dela era como platina em fios finíssimos, e as orelhas em pé tinham jóias cintilantes vermelhas. Contrastando com a austera vestimenta branca da Arquimaga, a recém-chegada trajava um manto magnífico, esvoaçante, mas volumoso, cor de sangue, e portava colar e braceletes dourados com pedras multicores. Ela segurava uma taça de cristal com um licor escuro e fervente e, acatando a ordem da Arquimaga, deu de beber a Shiki.

A tosse parou, e o pânico que ele sentia também.

— Em um instante vai se sentir melhor — disse a que se chamava Magira. — Tenha coragem. A Dama de Branco não dá as costas para aqueles que pedem ajuda.

Magira secou a testa pálida e úmida de Shiki com um pano macio, e ele observou com alívio que a mão dela tinha três dedos, como a dele. Era reconfortante saber que aquela pessoa pertencia ao seu povo, embora tivesse estatura humana, suas feições fossem mais finas do que as dele e sua pronúncia estranha. Afinal, era na humanidade que residia a fonte da calamidade iminente.

O gosto da bebida medicinal era amargo, mas deu-lhe forças e deixou-o mais calmo. A Dama de Branco sentou de um lado da cama e Magira do outro, e em poucos minutos Shiki relaxou e conseguiu contar sua história:

Meu nome é Shiki - ele disse - e meu povo se chamadorok. Vivemos na parte longínqua de Tuzamen, onde línguas glaciais da Calota de Gelo Sempiterna avançam a partir do centro gelado do mundo e quase chegam ao mar. A maior parte daquele território é desértico e sem árvores, um lugar de charnecas varridas pelo vento e montanhas desoladas. O meu povo vive em pequenas aldeias nos vales profundos, sob penhascos gelados. Gêiseres jorram por lá, aquecendo o ar e o solo, de forma que árvores e outras plantas possam crescer, e nossos lares em cavernas são simples, mas confortáveis. Os humanos das aldeias costeiras e das ilhas Flamejantes raramente nos visitam. Também mantemos pouco contato com outras tribos do povo da montanha, mas sabemos que temos parentes vivendo nas terras altas em muitas partes do mundo, e como eles criamos os voors dos longos voos, nos associamos a esses grandes pássaros e voamos neles.

(Percebo agora que a senhora Magira e os criados que me trouxeram para cá devem pertencer a um ramo nobre daminha raça, privilegiado por poder servir à Dama de Branco. E agora também começo a compreender porque meu pobre voor morto, Nunusio, queria tanto que eu trouxesse essa má notícia para vocês... Mas perdoe essa digressão! Devo continuar a minha história.)

Eu ganhava a vida como caçador de peles de fedoks negros e worrams dourados, que habitam apenas as montanhas mais altas, e às vezes guiava peregrinos humanos que buscavam metais preciosos nas remotas crateras sem gelo, onde os grandes vulcões mitigam o frio terrível.

Há dois anos, durante a época seca do outono, três humanos chegaram à nossaaldeia.Não eram garimpeiros nem comerciantes, disseram que eram acadêmicos do sul, de Raktum. Eram enviados da rainha regente Ganondri, contaram, em busca de uma certa erva rara, capaz de curar Ledavardis, o menino-rei deles, de um enfraquecimento maligno que o afligia. Era uma planta que supostamente só crescia no Kimilon, a remota Terra de Fogo e Gelo, uma ilha temperada, cercada de geleiras, em meio a rochas recém-esfriadas, cuspidas das entranhas do mundo.

A Primeira da nossa aldeia, a velha Zozi Twistback, disse aos estranhos que o Kimlon ficava a mais de novecentas léguas a oeste, que era completamente cercado pela calota de gelo, inacessível por terra, e que apenas aqueles enormes pássaros, que nosso povo chama de voors e os humanos de abutres-dos-alpes, são capazes de chegar até lá. A viagem é praticamente impossível, por causa das tempestades monstruosas que varrem a Calota de Gelo Sempiterna. Nenhum outro grupo do povo da montanha, a não ser os doroks, jamais ousou se aventurar até o Kimilon no dorso dos voors, e nós mesmos evitamos o lugar há quase duzentos anos.

Os três estranhos prometeram uma recompensa enorme para o guia dorok que os levasse até o Kimilon. Mas ninguém queria ir. Além da expedição ser considerada perigosa demais, havia também um aspecto agourento nos três humanos, um cheiro de magia negra, que fazia com que relutássemos em confiar neles. Um estava todo vestido de preto, o outro de roxo e o terceiro usava roupas de um amarelo vivo.

O trio então exigiu que vendêssemos voors para eles, para poderem voar sozinhos até o Kimilon!

Nossa Primeira conteve a raiva e explicou que os grandes pássaros são seres livres, não são propriedade de alguém e nos transportam apenas por amizade. Também lembrou cortesmente aos estranhos que os esporões e os bicos afiados dos voors fazem deles criaturas formidáveis para aqueles que não são seus amigos. Diante disso o trio renovou a oferta de ricas recompensas para qualquer guia dorok que os acompanhasse. Mas ninguém se ofereceu, e finalmente os humanos montaram em seus froniais e, aparentemente, deixaram a aldeia.

Bom, é sabido entre os doroks que eu sou o melhor guia de todos, e os forasteiros sem dúvida descobriram isso. Um dia, quando eu voltava de minhas caçadas, encontrei minha caverna deserta. Minha mulher e minhas duas filhas tinham desaparecido e ninguém sabia dizer o que tinha acontecido com elas. Fiquei louco de dor aquela noite e bebi tanto conhaque de amoras-de-névoa, que quase perdi os sentidos. Então o forasteiro vestido de preto bateu à minha porta e disse que tinha uma importante mensagem para mim.

É isso mesmo, vocês já adivinharam. Os humanos canalhas tinham seqüestrado minha família, para me forçar a servir de guia para eles! Avisaram que se eu contasse o que estava acontecendo, para qualquer membro do meu povo, matariam minha mulher e minhas filhas. Por outro lado, se eu levasse os três homens em segurança até o Kimilon e voltasse com eles, meus entes queridos seriam devolvidos e os humanos me pagariam com um saco de platina que equivalia a dez anos de trabalho.

— A viagem perigosa pode ser em vão — disse eu —, se não conseguirem encontrar a erva medicinal que procuram.

Os vilões riram muito.

— Não existe erva nenhuma — falou o que se vestia de roxo. — Mas há uma outra coisa à nossa espera, que não tolera demora. Por isso convoque um bando dos seus abutres-dos-alpes mais robustos, quatro para nós e dez para carregar certos suprimentos dos quais necessitamos, e partiremos antes do raiar do sol.

Não me restou alternativa senão fazer o que mandavam.

Eu não vou falar daquele voo terrível para a Calota de Gelo Sempiterna. Demorou sete dias, e os valentes voors só puderam gozar de um descanso muito breve na superfície gelada, açoitada pelo vento. Quando chegamos afinal à Terra de Fogo e Gelo, os vulcões estavam em plena atividade, a lava derretida escorria pelas encostas, e o céu estava cheio de fumaça negra, manchado de vermelho, como a visão dos dez infernos. Caía uma chuva de cinzas, embranquecendo o solo e cobrindo a rala vegetação, como neve venenosa.

E lá encontramos um macho humano solitário.

Ele construíra uma casa bem forte com blocos de lava. O lugar era grande, do tamanho de dois celeiros, ficava encostado em um grande penhasco e, além de bem construído, chegava a ser bonito. Mas os únicos alimentos que o homem devia conseguir eram os liquens presos às rochas, raízes e frutinhas dos poucos arbustos que cresciam no solo raso, e lesmas e crustáceos que viviam nas fontes de água quente. A chuva de cinzas certamente estava acabando com essas criaturas, e ele tinha tanta carne no corpo quanto um esqueleto, quando o encontramos.

Era um homem alto, tinha mais ou menos o dobro da minha altura. O cabelo e a barba amarelados e imundos chegavam quase aos seus joelhos. O rosto era todo enrugado e cheio de cicatrizes, e os olhos — de um azul claríssimo, com um faiscar dourado no fundo das pupilas escuras — espiavam de dentro de cavernas profundas em seu crânio e tinham o brilho da loucura. Ele usava sandálias toscas para proteger os pés das pedras pontudas de lava, e um rústico manto remendado, feito de fibras vegetais entrelaçadas, que era suficiente, pois o fogo subterrâneo torna o Kimilon bem mais quente do que a calota de gelo que o cerca.

Compreendi, imediatamente, que o objetivo da nossa expedição era resgatar aquele homem, que se chamava Portolanus. Ele era, sem dúvida nenhuma, um poderoso feiticeiro. Devo dizer-lhe, Dama de Branco, que ele provocava a mesma atmosfera assombrosa de encantamento que há na sua pessoa. Mas a magia dele não transmitia nenhuma benevolência. Ao contrário, Portolanus tinha uma espécie de brilho de fúria reprimida, como se por dentro fosse um poço de emoções incandescentes. Achei que aquilo podia transbordar de forma tão destrutiva quanto o jorro de magma fervente de um vulcão, se ele liberasse todo o poder de sua alma.

Quando encontramos esse Portolanus, ele mal conseguia pronunciar qualquer som humano inteligível. Eu nunca soube quanto tempo ele ficou perdido naquele lugar horrível, nem como fez para chamar seus três salvadores, que o tratavam com o mais profundo respeito, misturado com medo. Eles levaram roupas novas e luxuosas para ele, brancas como a neve. Depois de alimentado, limpo, cabelo e barba aparados, ficou irreconhecível, não era mais o pobre farrapo humano que soltara um berro animalesco de triunfo, quando os voors aterrissaram perto da sua casa.

Os ”suprimentos” que os capangas de Portolanus me fizeram incluir na carga dos voors adicionais eram apenas sacos e cordas, além da comida e das barracas minúsculas que usamos para dormir na calota de gelo. A utilidade daqueles itens de embalagem logo ficou clara. Enquanto os voors descansavam lá fora, e um vilão ficava de guarda comigo, o feiticeiro e os outros dois homens se ocupavam de alguma coisa dentro da casa de pedra. Acabaram aparecendo com muitos embrulhos, que carregaram nos pássaros. Então retornamos para Tuzamen pela mesma rota perigosa que tínhamos seguido na ida.

No entanto, não voamos para a minha aldeia. Fomos para a costa, para o pobre povoado de humanos de Merika, na foz do rio Branco, que se denomina capital de Tuzamen. Lá, os vilões desembarcaram com sua carga misteriosa, em um lugar decrépito chamado Castelo Tenebroso, com vista para o mar. Fui liberado, e me deram uma pequena bolsa de moedas de platina, menos de um décimo do que tinham prometido. O restante do meu pagamento seria dado, disse Portolanus, ”quando sua sorte voltasse”. (Uma história promissora, pensei eu. Mas sabiamente me calei.) Os lacaios de Portolanus me deram a localização do remoto tubo de lava, onde tinham emparedado minha família. Disseram que as encontraria sãs e salvas.

Voltei com os voors para as montanhas e resgatei minha mulher e minhas filhas. Elas estavam famintas, com frio e sujas, mas, fora isso, ilesas. Vocês podem imaginar a felicidade do nosso encontro. Minha mulher ficou muito contente ao ver a bolsa com a platina e imediatamente fez planos excelentes para gastá-la. Ordenei a ela e às crianças para não contarem a ninguém sobre o que tinham sofrido, pois quando se está lidando com humanos — especialmente com os que manipulam magianegra—todo cuidado é pouco.

Daí em diante, por quase dois anos, vivemos em paz.

As notícias sobre os feitos dos humanos chegam com atraso aos vales remotos das montanhas dos doroks. Não nos demos conta quando Portolanus, afirmando ser o sobrinho-neto do poderoso feiticeiro Bondanus, que governou há quarenta anos, rapidamente subjugou Thrinus, o potentado nominal de Tuzamen, e dominou todo o país. Disseram que ele e seus seguidores usaram armas de feitiçaria, que tornavam as armaduras comuns inúteis, e que eles mesmos eram invulneráveis, que nada podia feri-los e que podiam se apossar das almas dos seus inimigos e transformá-los em meras marionetes.

Não encontrei Portolanus novamente até a chegada das chuvas deste inverno, cerca de vinte dias atrás. Ele chegou na calada da noite, invadiu nossa caverna trovejando feitiços e quase arrancou a espessa porta das dobradiças. Nossas filhinhas acordaram gritando, e minha mulher e eu ficamos quase loucos, de tão chocados. Dessa vez o feiticeiro deu um jeito de controlar sua aura, e eu não o teria reconhecido, não fossem seus olhos. Estava vestido como um rei e usava por cima uma capa para cavalgar suja de lama. Tinha recuperado o peso e sua voz não era mais áspera, e sim suave e hipnotizante.

Ele disse: ”Temos de voltarão Kimilon, oddling. Chame voors para você e para mim, e mais outro para carregar os suprimentos necessários.”

Fiquei indignado e cheio de medo, porque eu sabia, e ele talvez não soubesse, que da última vez que nos aventuramos pela calota de gelo por pouco não escapamos com vida, e era na época seca. Seria loucura fazer aquela viagem agora, quando os furacões de neve estavam com plena força, e eu expliquei isso para ele.

— Mesmo assim, nós iremos — retrucou —, possuo magia para comandar a tempestade. Você não sofrerá nenhum mal e dessa vez deixarei a recompensa com a sua mulher, isso o animará durante a viagem.

Ele sacou uma sacola de couro bordada, abriu e despejou uma pilha de pedras lapidadas sobre a nossa mesa de jantar. Rubis, esmeraldas e raros diamantes amarelos, tudo cintilava à luz da nossa lareira.

Mesmo assim recusei. Minha mulher estava grávida e uma das meninas meio adoentada, e apesar das garantias do bruxo, temia que nós dois não conseguíssemos voltar vivos.

Para meu desespero, minha mulher começou a discutir comigo, salientando as coisas boas que podíamos comprar quando vendêssemos as gemas. Fiquei furioso com sua idiotice e ganância, gritamos um com o outro, e as crianças choramingavam e se lamentavam, até que Portolanus rosnou: ”Basta!”.

Sua aura mágica assustadora envolveu-o de repente. Ele parecia mais alto e tremendamente ameaçador, e nos afastamos com medo, enquanto ele tirava um bastão metálico escuro de uma sacola que trazia presa ao cinto. Antes de compreender o que estava acontecendo, ele tocou a cabeça da minha mulher com aquela coisa e ela caiu no chão. Soltei um grito, mas ele fez o mesmo com minhas pobres filhinhas, e em seguida brandiu o bastão para mim.

— Demónio! — berrei. — Você as matou!

— Elas não estão mortas, apenas privadas dos sentidos — ele disse. — Mas não vão acordar, até eu tocá-las outra vez com esse objeto mágico. E não farei isso, enquanto você e eu não formos ao Kimilon.

—Nunca! — disse eu, fazendo uma concentração mental para emitir o chamado aos doroks, membros da minha tribo. Eles chegaram correndo em meio à noite tempestuosa para me socorrer, preparados com espadas e catapultas de mão, formando uma multidão enfurecida sob a saliência da rocha que encobria a porta da minha caverna.

Portolanus riu. Ele abriu um pouco a porta e jogou um objeto pequeno lá para fora. Deu-se um forte clarão e todas as vozes se calaram. O mágico abriu a porta e saiu com passos largos. Meus amigos destemidos estavam lá, prostrados na escuridão varrida pela chuva, cegos e impotentes. Portolanus tocou neles com seu bastão, um por um, e eles ficaram imóveis.

Então as famílias dos que tombaram começaram aaparecer nas portas de suas cavernas, gritando e chorando. O grande feiticeiro virou-se para mim e sua aura me imobilizou como o vento glacial, e seus olhos terríveis se transformaram em diamantes flamejantes incrustados em obsidianas negras. Quando ele falou, sua voz era muito tranqüila.

— Todos morrerão... ou todos viverão. A escolha é sua.

— Eles já estão mortos! — gritei, descontrolado. — Chamarei os voors e eles o farão em pedaços!

Foi então que ele encostou o bastão em mim.

Tive a sensação que uma vela deve ter quando é apagada. Fui engolido por um vazio. Um segundo depois voltei a mim, inerte como um vart recém-nascido, deitado de costas na lama, com a chuva crivando meu rosto. O bastão mágico estava a um milímetro do meu nariz, e Portolanus olhava ferozmente para mim.

— Seu oddling estúpido! — disse ele. — Será que não compreende que não tem escolha? Eu o deixei sem sentidos, depois o despertei com a minha magia. O bastão vai recuperar sua família e seus amigos também, mas só se me servir!

— Os voors não podem voar longas distâncias durante as tempestades — resmunguei. —Nessa época do ano eles costumam ficar em seus ninhos.

— Eu sei aplacar a tempestade — afirmou ele. — Chame os pássaros e vamos partir.

Tendo perdido toda coragem e esperança, acabei cedendo. As mulheres e filhos mais velhos da aldeia chegaram para carregar seus maridos e pais atordoados para casa, e Portolanus orientou-os para cuidar de seus entes queridos e da minha família até eu voltar.

Assim que, finalmente, alçamos voo, ele fez com que os três voors voassem bem juntos, o dele no centro. De alguma forma milagrosa ele suavizou aforçada ventania, e ganhamos altura como se voássemos com bom tempo. Quando os pássaros cansaram, aterrissamos na calota de gelo como antes e nos abrigamos em barracas, com os pássaros amontoados à nossa volta. O mesmo encantamento afastou a neve e o vento, enquanto descansávamos, e logo partimos novamente. Só levamos seis dias para chegar ao Kimilon dessa vez, apesar das incessantes nevascas, e eu estava em ótima forma física, com o espírito resignado.

O mago pegou apenas uma coisa na casa de pedras de lava, uma arca escura mais ou menos do meu tamanho, com vinte e cinco centímetros de largura e outros tantos de profundidade. Era feita de um material liso, como vidro preto, e tinha uma estrela prateada com muitos raios em relevo na tampa. Todo jovial, com sua aura novamente sob controle, Portolanus abriu a caixa e me mostrou que estava vazia.

— Uma coisa simples, não é, oddling? — perguntou. — No entanto é a chave com a qual conquistarei o mundo — explicou, puxando da jaqueta requintada um medalhão bem gasto e escurecido preso a uma corrente, no mesmo formato da outra estrela —, da mesma maneira que isso salvou minha vida! Há poderosos feiticeiros nas terras do sul, que desistiriam da imortalidade de suas almas só para possuir essas duas coisas, e reis e rainhas que de bom grado renunciariam às suas coroas por elas. Mas são minhas e estou vivo para usá-las, graças a você.

Então ele começou a rir feito louco, e sua aura me envolveu como o nevoeiro do gelo sempiterno que congela os ossos, e fiquei com medo de morrer de desespero e autodesprezo naquele instante. Mas em minha mente, ouvi a voz telepática do meu amado voor Nunusio, incentivando-me a ter coragem, e lembrei da minha família e dos outros.

Temos de ir, disse-me Nunusio, pois uma enorme tempestade se aproxima e será o mais completo desafio para a mágica desse malvado. Temos de estar fora do Kimilon antes que ela desabe.

Hesitando um pouco contei para Portolanus o que o voor tinha dito. Ele rogou uma praga estranha e começou a embrulhar depressa a caixa-estrela. Amarrou-a nas costas do pássaro que o transportava, ao invés do terceiro voor que carregava nossos suprimentos.

Então partimos, no momento em que os vulcões desapareciam no meio das nuvens de neve impenetráveis.

Nossa viagem para casa foi tão horrível que minhas lembranças praticamente se apagaram. O feiticeiro conseguiu conter o vento para não sermos sugados para a morte na calota de gelo, mas não teve sucesso em afastar o frio monstruoso. No quinto dia a tempestade finalmente acabou. Acampamos no gelo aquela noite, sob a luz brilhante das Três Luas, e Portolanus dormiu como um morto, exausto com a luta que travara contra a tempestade.

Ousei enviar um chamado para a nossa aldeia, perguntando sobre minha família e os outros que sofreram o feitiço do bruxo. O velho Zozi Twistback respondeu com notícias assustadoras. Aqueles que no início pareciam apenas dormir sob o efeito de um sono encantado, no segundo dia liberaram seus espíritos e foram em segurança para o além. Os sinais foram muito claros. E assim o povo entristecido confiou seus corpos a uma única grande pira funerária.

Não resisti e soltei um uivo de dor. O feiticeiro acordou e acusei-o de mentiroso e assassino cruel, fiz menção de sacar minha faca de caça, desistindo apenas quando ele me ameaçou com o bastão mágico.

— Quando usado em humanos, tem o efeito que descrevi, não causa mal — explicou. — E você mesmo se recuperou facilmente, ficando inconsciente apenas um minuto. Deve haver algum efeito imprevisível. Seus aborígenes oddlings têm corpos diferentes dos humanos, talvez sejam mais vulneráveis à mágica do bastão.

— Talvez! — gritei. — É isso que esses assassinatos são para você? Uma charada mental?

— Eu não tive a intenção de matar seu povo — disse. — Não sou um monstro sem coração — ele parou um pouco, pensando, enquanto eu continuava a amaldiçoá-lo, impotente. Então continuou: — Vou compensá-lo triplicando sua recompensa e contratando-o como meu empregado. Agora sou o Mestre de Tuzamen, e daqui a um tempo, governarei o mundo. Vou considerar o tratador de voors um empregado muito valioso.

A recusa mordaz já estava na ponta da minha língua, mas a prudência me fez engoli-la. Nada traria minha mulher, minhas filhas ou meus amigos de volta. Eu poderia vingar-me de uma forma ou de outra, mas naquele momento ele acabaria comigo, se eu o desafiasse. Estávamos a apenas um dia de viagem da borda da calota de gelo, e minha aldeia ficava a uma hora e pouco de distância dali.

—Vou considerar sua oferta—resmunguei, virando de costas para ele dentro da barraca.

Fingi roncar, e logo ele estava dormindo novamente. Pensei no que poderia fazer. Quando estava dominado pela dor e pela fúria, tê-lo-ia destruído com prazer. Agora não conseguiria fazer isso a sangue-frio. Tinha os voors... mas também não ia dar uma ordem deliberada para que o atacassem. Se eu o matasse, não seria melhor do que o próprio Portolanus.

Saí engatinhando da barraca, cheguei perto de Nunusio e dirigi-me ao meu grande amigo telepaticamente, pedindo seu conselho.

Ele disse:

Há muito, muito tempo, quando o povo da montanha ficava muito confuso, procurava os conselhos da Arquimaga, a Dama de Branco, guardiã e protetora de todo o povo.

Eu respondi que tinha ouvido histórias sobre ela quando era criança, mas certamente ela devia viver em algum canto distante do mundo e nem ia dar atenção aos problemas de um pobre dorok de Tuzamen.

Nós, voors, sabemos onde ela mora, disse Nunusio, e é bem longe. Mas eu o levo até lá, se minhas forças permitirem, e ela lhe fará justiça.

Falei com os outros dois voors, pedindo que levassem o feiticeiro em segurança até a borda do gelo, mas só até ali, e que voltassem para a aldeia. O povo consternado ia poder dividir entre todos as pedras que Portolanus tinha deixado e todos os meus bens. Expliquei para os pássaros meu outro desejo: que todos os voors saíssem para sempre da nossa aldeia, para nenhum outro guia sem sorte provocar calamidades sobre nosso povo, como eu tinha feito, caso Portolanus retornasse e exigisse mais serviços. Sem os voors, o povo seria inútil para ele.

Então Nunusio e eu saímos voando.

E acabei chegando aqui, Dama de Branco, com essa história.

Haramis e Magira saíram do pequeno quarto e desceram a escada em espiral, que dava na biblioteca da Arquimaga.

— Certamente não pode ser ele! — exclamou Magira. — Ele morreu! Desintegrado pela explosão do Cetro do Poder.

A expressão no rosto da Arquimaga era de incerteza.

— Isso veremos mais tarde. Por enquanto basta saber que o Mestre de Tuzamen é um feiticeiro que decerto é bem capaz de afetar o equilíbrio do mundo... e o nome do lugar onde ele estava exilado, Kimilon... Sei que jáouvi essa palavra antes, mas acho que em um contexto diferente.

A biblioteca era uma sala gigantesca, entupida de livros, com pé-direito de três andares. Haramis tinha mandado construir dessa forma, ampliando o projeto original da antiga torre da feiticeira. Era ali que ela costumava trabalhar, mergulhada em livros de magia, história e uma centena de outros assuntos que considerava úteis para o cumprimento do difícil cargo que escolhera. Do lado oposto da porta havia uma divertida lareira, onde o fogo verdadeiramente sempre ardia, e Haramis encontrava inspiração, olhando fixo para as chamas, embora fossem menos eficientes para aquecer do que o sistema hipocaustobiólito que era usado em todo o resto da torre. Duas rampas espiraladas dos dois lados da sala davam acesso às estantes, e as janelas altas e estreitas vazavam a parede ao longo das espirais, deixando o lugar muito bem iluminado durante o dia. Quando escurecia, os lampiões mágicos que ladeavam as janelas produziam uma luz suave. Na grande mesa de trabalho que ela usava, perto do fogo, havia um candelabro curiosamente moldado, fruto da mesma ciência antiga, que brilhava intensamente ou apagava, se alguém tocasse um certo ponto no seu pedestal.

De pé bem no centro da biblioteca, Haramis fechou os olhos e pousou a mão no talismã, a varinha de metal branco com o círculo em uma ponta, que pendia de uma corrente presa ao seu pescoço. Abriu os olhos de repente e saiu correndo, subindo uma das rampas e tirando um determinado livro da estante.

— Aqui! Éeste! Estava entre os livros que encontrei nas ruínas de Noth, onde a Arquimaga Binah viveu por tanto tempo.

Haramis voltou para sua mesa de trabalho, pôs o volume empoeirado em cima dela e bateu nele com o Círculo das Três Asas. O livro se abriu e algumas palavras fosforeceram. Ela as leu em voz alta.

— Será uma lei imutável do povo da montanha, do pântano, da floresta e do mar, que todo artefato dos Desaparecidos encontrado nas ruínas deva ser apresentado ao Primeiro do lugar e estudado, para determinar se pode ou não ter efeitos danosos, se é de difícil controle, se é misterioso ou talvez pertencente à magia poderosa. É proibido ao povo usar ou negociar tais artefatos. Serão guardados em local seguro e, uma vez por ano, deverão ser enviados para ficar aos cuidados da Arquimaga, que poderá guardá-los em segurança no Kimilon Inacessível, senão dispor deles como bem entender...

— Agora guardamos as peças perigosas aqui no monte Brom — disse Magira —, na caverna do Gelo Negro.

Haramis concordou, balançando a cabeça.

— E eu presumi, erradamente, ao que parece, que esse Kimilon era um lugar dentro da torre da velha Arquimaga. O que desapareceu com a morte dela. Mas se nosso amigo Shiki está certo, então o Kimilon lá no gelo deve ser o lugar onde fica o esconderijo da Arquimaga Binah... e talvez até de outras Arquimagas antes dela.

Haramis franziu a testa, olhando para o livro aberto, tamborilando nele com seu talismã. Não tinha acendido o candelabro e a gota de trílio-âmbar fóssil brilhava com uma radiância interior própria. Mas o objeto mágico não ofereceu mais nenhuma ajuda.

— Se o homem que encontraram é quem pensamos que seja, então ele só pode ter ido ao Kimilon Inacessível porque o Cetro do Poder o enviou para lá. E isso depois que nós Três suplicamos para sermos julgadas... e para que ele fosse julgado.

— Mas... por quê? — gemeu Magira. — Por que o Cetro faria tal coisa, em vez de destruí-lo? Sua função não era restabelecer o equilíbrio do mundo?

Mas Haramis olhava fixo para o âmbar brilhante e falou como se pensasse em voz alta.

— Ele deve tertido anos para estudar todos aqueles assombrosos artefatos antigos. E então, de alguma forma, conseguiu chamar seus seguidores para salvá-lo. Ele assumiu o controle de Tuzamen com a ajuda dos artefatos dos Desaparecidos.

A perplexidade de Magira era imensa.

— Mas por quê? Por que o Cetro deixou essa coisa terrível acontecer?

Haramis balançou a cabeça.

— Eu não sei. Se ele realmente está vivo, deve ser porque ainda tem um papel a desempenhar na restauração do grande equilíbrio. Achávamos que esse equilíbrio tinha sido alcançado. Os acontecimentos recentes provam que estávamos erradas.

— Na minha opinião, é ele que está criando todos esses problemas recentes! —afirmou Magira. — Seus agentes da magia negra podem estar fomentando a intranqüilidade nas fronteiras humanas, a rebelião entre o povo da floresta e até o antagonismo entre a rainha Anigel e a Dama dos Olhos...

Desanimada, Haramis ergueu a mão.

— Minha querida Magira, deixe-me sozinha agora. Preciso pensar e rezar, e resolver o que deve ser feito. Cuide do nosso hóspede e, quando estiver mais forte, conversarei com ele novamente. Agora vá.

A mulher vispi obedeceu.

Sozinha, Haramis olhou sem ver para a janela da biblioteca, onde a chuva escorria copiosa, lembrando da maldade deflagrada doze anos antes, e também das feições de um certo rosto, que tentara banir de sua memória e de seus sonhos. Tinha conseguido esquecêlo, acreditando que estava morto e também tinha esquecido do turbilhão que ele criou em sua alma, aquela confusão que ela confundira com amor...

Não.

Seja honesta, ordenou a si mesma. Você queria acreditar nas mentiras que ele contou. Que não foi ele que inspirou o rei Voltrik de Labornok a invadir Ruwenda, que ele nunca ordenou o assassinato de seus pais, rei e rainha de Ruwenda por direito, nem conspirou para matá-la e a suas irmãs. Você acreditou nele porque realmente o amava. E quando seus truques se tornaram claros, quando ele mostrou seu plano obscuro para governar o mundo e pediu para você partilhar isso com ele, você teve medo e o desprezou. Você rejeitou aquela visão monstruosa e rejeitou-o também.

Mas jamais chegou a odiá-lo.

Não, você jamais conseguiu fazer isso, porque bem lá no fundo do seu coração, em segredo, seu amor por ele sobrevivia.

E agora, tendo de enfrentar o fato de ele ainda estar vivo, você sente o medo mais profundo, não apenas pelo caos que ele pode gerar no mundo, mas também por aquilo que ele pode provocar em você...

— Orogastus — sussurrou Haramis, sentindo o coração dar uma cambalhota quando seus lábios ousaram pronunciar mais uma vez o seu nome. — Que Deus faça com que esteja morto. Bem morto, e jogado no mais profundo dos dez infernos!

Depois de amaldiçoá-lo, começou a chorar, e se viu desdizendo o desejo de condená-lo à danação, mas ao mesmo tempo continuava implorando aos céus para que ele não estivesse vivo.

Só depois de um longo tempo Haramis conseguiu se recompor. Sentou-se diante do fogo e concentrou mais uma vez toda a sua atenção no talismã, segurando a varinha com o círculo para cima, como se fosse um espelho de mão, olhou para o interior do anel prateado.

— Mostre-me quem, ou o quê, representa a maior ameaça para o equilíbrio do mundo — disse ela com firmeza.

Uma névoa cintilante começou a encher o círculo. No início as cores eram fracas, como o nácar que envolve as conchas, mas logo ficaram mais vivas e formaram um ponto embaçado no centro, primeiro cor-de-rosa, depois fúcsia, depois carmim e vermelho forte. A névoa clareou, dividiu-se em três partes. Ela viu que era uma flor de três pétalas: um trílio cor de sangue, como jamais floresceu no mundo das Três Luas. A imagem permaneceu apenas alguns segundos e depois o círculo ficou vazio.

Era como se seu corpo tivesse virado gelo.

— Nós Três? — murmurou ela. — Somos nós o perigo, e não ele? O que significa essa coisa que você me mostrou?

O círculo prateado refletia as chamas da lareira da biblioteca, e o âmbar incrustado com o Trílio Negro fossilizado emitia o habitual brilho suave. O talismã respondeu:

A pergunta é impertinente.

— Ah, não! Nada disso! — exclamou Haramis. — Você não pode me enganar como fez tantas vezes. Ordeno que me diga se nós, as três Pétalas do Trílio Vivo, ameaçamos o equilíbrio do mundo, ou se a ameaça provém de Orogastus!

A pergunta é impertinente.

— Droga! Responda!

A pergunta é impertinente.

As pedrinhas de gelo da chuva de granizo batiam nas janelas, e uma tora incandescente caiu na lareira, provocando um ruído surdo e o chiado de faíscas. O Círculo das Três Asas continuou inerte, como se zombasse dela, lembrando-lhe mais uma vez o pouco que ela sabia do seu funcionamento, apesar de todos os seus estudos.

Haramis descobriu que suas mãos tremiam de raiva ou de medo. Esforçando-se para acabar com o tremor, implorou ao talismã:

— Pelo menos mostre se Orogastus está vivo ou morto.

O círculo prateado encheu-se novamente com anévoa perolada, as cores suaves formaram pequenos redemoinhos nervosos, procurando formar uma imagem. Mas nenhum rosto apareceu. Um instante depois o Círculo das Três Asas estava vazio.

Bem. Era de esperar. Se estivesse vivo, estaria protegido de observação por meio da feitiçaria. Havia uma outra maneira de tentar visualizá-lo... mas antes, um último pedido ao talismã.

— Diga-me que tipo de coisa Portolanus levou do Kimilon, em sua segunda viagem para lá com Shiki, o dorok.

Dessa vez a visão ficou clara, mostrando a caixa rasa e escura conforme Shiki descrevera, com uma estrela na tampa. Só que a caixa estava aberta, revelando um fundo de tela metálica e um quadrado em um canto dessa tela com várias jóias cintilantes incrustadas em cima. Haramis tentava adivinhar o enigma da caixaestrela quando o talismã falou:

A caixa rompe uniões e possibilita a formação de outras.

— Rompe uniões? Que tipo de uniões? Uniões como a que me associa a vós.

— Deus Trino e Uno! Você quer dizer que aquilo pode romper a união dos três talismãs do Cetro do Poder, meu e de minhas irmãs, e transferir o poder para Portolanus?

Pode. Só precisa pôr um talismã dentro da caixa e manipular as pedras preciosas, uma por uma.

Com o coração dominado pelo medo e por maus presságios, Haramis foi para os seus aposentos à procura de peles e luvas grossas para os preparativos da visita à caverna do Gelo Negro. As vestimentas especiais que Orogastus sempre usava, antes de entrar naquele lugar, e as duplicatas que tinha mandado fazer especialmente para ela faziam parte de um ritual inútil que pretendia aplacar os deuses negros dele, e eram totalmente desnecessárias. Mas na época ele não compreendia muitas coisas sobre a origem do seu poder e confundia ciência antiga com feitiçaria, dependendo demais dela, enquanto ao mesmo tempo negligenciava a magia genuína que aprendera com seu mentor, Bondanus.

— Pela Flor, sou grata pelo fato de ele ter negligenciado a magia — disse Haramis para si mesma. — Pois se tivesse usado a verdadeira magia contra nós, poderia ter vencido, afinal.

Agasalhando-se, desceu para o nível mais baixo da torre, um longo túnel que entrava na encosta do monte Brom. O tubo pedregoso e rústico era iluminado pelos mesmos maravilhosos lampiões sem chama existentes no resto da torre, só que ali não havia aquecimento. Sua respiração formava uma nuvem de vapor, enquanto caminhava apressada, segurando as peles em volta do corpo. Não visitava aquele lugar havia anos, pois as reverberações eram muito perturbadoras. Mas não era nenhuma aura de magia negra que a repelia, e sim a lembrança dele.

Ela abriu a porta pesada e coberta de gelo no final do túnel e entrou em uma grande caverna com paredes de granito bruto, cheio de veios de quartzo branco. O chão era coberto de lajotas brilhantes, escuras e lustrosas como o gelo negro, que permeava as rachaduras no teto e nas paredes da caverna. Em volta de todo o perímetro do salão havia nichos abertos que continham objetos estranhos, de formas complexas. Portas negras e vítreas se abriam para outras salas repletas de coisas diferentes. Foi Orogastus que contou para ela que a caverna era um depósito de instrumentos de feitiçaria, entregues aos cuidados dele pelos Poderes Obscuros. Mas mesmo naquela época Haramis suspeitou que as coisas deviam ser máquinas dos Desaparecidos, algumas conseguidas por Orogastus no comércio com o povo, outras que ele encontrara quando descobriu aquele lugar. Ele construiu a torre para proteger a caverna do Gelo Negro e ter fácil acesso ao tesouro de maravilhas. Quando ele morreu, Haramis ficou com a torre para uso próprio, mas nunca utilizou a coleção da caverna, que lentamente foi aumentando com o passar dos anos, com outros artefatos proibidos retirados das ruínas pelo povo do pântano.

Muitas coisas escondidas na caverna do Gelo Negro eram armas.

Mas o que ia usar aquela noite não era. Haramis abriu uma das portas obsidianas e entrou em uma câmara estreita, que tinha uma das paredes coberta por uma camada espessa de geada. Cravado no meio do gelo havia um círculo cinza que parecia um espelho, uma máquina antiga que era capaz de localizar e supervisionar qualquer pessoa no mundo. A máquina não estava funcionando muito bem. Na verdade, da última vez que Haramis tentou consultá-la, querendo saber onde estava a bruxa glismak Tio-Ko-Fra, ela apenas estalou baixinho e depois apagou sozinha, resmungando palavras ininteligíveis, para indicar que estava exausta. Desde então aproveitou muitos anos de descanso, e devia haver pelo menos uma remota chance de ter se consertado sozinha. Haramis teria de formular a pergunta com muito cuidado, porque provavelmente a primeira questão seria também a última.

Ficou diante do espelho, respirou fundo e falou com a voz bem alta.

— Atenda ao meu pedido!

A única coisa que via era a própria imagem refletida, e depois de um tempo ela repetiu as palavras em um tom um pouco mais agudo.

A máquina acordou! Um brilho fraco substituiu seu reflexo, e ela ouviu um sussurro bem baixinho.

— Respondendo. A pergunta, por favor.

Ela teve o cuidado de manter o mesmo tom agudo forçado que usou antes, falando na linguagem truncada que Orogastus tinha ensinado quando mostrou para ela seus mais preciosos segredos, a fim de conquistar seu amor.

—Visualize uma pessoa. Localize a posição atual da pessoa no mapa.

Devagar... tão devagar!... o espelho se iluminou. E sibilou:

— Pergunta válida. Nome da pessoa.

Ela conjurou a imagem dele em sua mente, espantada com a facilidade com que seu rosto aparecia, austero e belo, emoldurado por longos cabelos prateados. Mas dessa vez não ousou pronunciar o nome antigo. Quem quer que fosse esse feiticeiro recém-investido, era necessário vê-lo, para ela saber quem era seu grande inimigo.

— Portolanus de Tuzamen — disse ela.

— Fazendo a varredura — disse o espelho, bem baixinho, como um último suspiro.

A superfície do espelho transformou-se em um caleidoscópio de cores pálidas que quase parodiavam o efeito do seu talismã, e ouviu a voz sibilante que ela não compreendia. Haramis sentiu vontade de chorar de tanta frustração, mas se conteve, sabendo que qualquer palavra que dissesse naquele momento seria considerada uma ordem pela antiga máquina, e poderia provocar um resultado indesejado, até fazer o espelho se apagar.

A massa saltitante de cores se firmou, e a imagem imprecisa que se formou retratava vagamente o mar próximo às ilhas de Engi. Havia um minúsculo ponto piscando longe da terra. Haramis sentiu uma espécie de vertigem dominar sua mente. O coração batia no peito feito um animal enjaulado tentando escapar.

Primeiro a máquina tentava localizar a pessoa. Depois mostrava o rosto.

O mapa desapareceu e uma nova imagem se formou, mais imprecisa ainda. Com certeza era o rosto de um homem, mas as feições estavam tão embaçadas e escuras que podiam pertencer a qualquer um. Ela ficou furiosa e desapontada e se culpou por ter sido tão idiota.

A imagem desapareceu. O espelho suspirou mais algumas sílabas incompreensíveis e depois a luz em seu centro apagou. Haramis tinha certeza absoluta que a máquina nunca mais funcionaria. Ela saiu da câmara e fechou a porta, estremecendo com o frio abominável e com a força das sensações que procurava controlar.

Portolanus estava no mar, provavelmente navegando para o sul com a delegação de tuzamenianos, rumando para o mesmo destino que suas duas irmãs alcançariam em breve. Ele era dono de uma nação. Tinha acesso aos tesouros dos Desaparecidos que podiam ser muito mais perigosos para o mundo do que os que ficaram escondidos na caverna. Ele tinha também a caixa-estrela que poderia torná-lo proprietário de um talismã, se conseguisse arrancálo de quem o detinha. Talvez Portolanus fosse apenas algum mago iniciante que encontrou o esconderijo secreto da Arquimaga por acaso. Se fosse, continuaria sendo uma ameaça e ela teria de organizar uma campanha cuidadosa para enfrentá-lo. Mas se o feiticeiro fosse de fato Orogastus, então sua tarefa seria infinitamente mais difícil, e não só por causa do seu envolvimento emocional.

Lembrou que ele fora banido para o Kimilon Inacessível pelo próprio Cetro do Poder, por alguma razão insondável. E era muito possível que Orogastus, tendo passado doze anos exilado naquela solidão gelada, afinal tenha aprendido a dominar a verdadeira mágica que havia dentro dele.

Como ela ainda pretendia fazer.

A conferência de Kadiya com os líderes aliansas levou muitos meses para ser arranjada, e era tão importante que ela até se consultou com o Mestre no Lugar do Conhecimento, antes de resolver que estratégia usar. Esse povo do mar não era como os aborígenes de Ruwenda, acostumados a obedecer às leis da Dama de Branco, aceitando espontaneamente Kadiya como líder deles. A Arquimaga era um mito quase esquecido para os aliansas do mar Meridional... e a Dama dos Olhos um personagem desconhecido, que possivelmente não seria digna de confiança.

Kadiya estava sentada de um lado, na grande cabana, na ilha do Conselho, e o povo do mar do outro, feliz com a leve brisa que soprava através do entrelaçamento das paredes feitas de folhas. Seu talismã, o Olho Ardente Trilobado, estava em uma esteira de capim diante dela, cercado de flores e vinhas verdes e fragrantes que simbolizavam a paz. A espada do grande chefe dos aliansas, enfeitada do mesmo jeito, estava ao lado.

Atrás de Kadiya, Jagun, o nyssomu, e os dezesseis guerreiros wyvilos, que faziam parte da sua escolta estavam inquietos. Já fazia quase três horas que estavam ali na cabana do conselho, sem nenhum intervalo para descanso. Mas enquanto Har-Chissa e seus trinta chefes tribais demonstrassem disposição para conversar, Kadiya lhes daria toda a sua atenção. Ela já havia explicado demoradamente a proposta que trouxera para eles. Como a Dama dos Olhos, a grande defensora dos povos da península nos seus acordos com a espécie humana, ela oferecia também seus serviços aos aliansas, na antiga disputa com o reino de Zinora. Ela estava ali para fazer a paz.

O povo do mar ouviu suas palavras em silêncio sepulcral. Então Har-Chissa fez um gesto e os subchefes detalharam seus problemas e reclamações contra a humanidade zinorana. Um por um, eles catalogaram as atrocidades cometidas pelos comerciantes humanos contra seu povo. Kadiya ficou desanimada de ver como essas histórias contradiziam o relato que tinha ouvido na fala macia do rei Yondrimel de Zinora, que tratou com desdém a necessidade da sua intervenção. Era óbvio que esse assunto era muito pior do que suspeitava.

Uma chefe fêmea dos oddlings do mar, de uma das ilhas menores, desfiava sua arenga. Seus grandes olhos amarelos com pupilas verticais saltavam das hastes curtas, e suas garras cortavam o ar, enquanto ela liberava sua raiva. Ela vinha de um lugar pobre e usava apenas duas fileiras de pérolas díspares no pescoço e um tabardo de palha sem adornos. As escamas nas costas e nos braços não tinham pintura, e a arma que carregava no cinto era um machado rústico de pedra com bainha de concha.

— Você diz que devemos fazer as pazes com os humanos de Zinora! — ela acenou com a mão espalmada, para abranger o grupo de líderes aborígenes acocorados em volta. —Nós, os orgulhosos aliansas, vivemos em liberdade nessas ilhas desde o tempo em que a Grande Terra ainda era prisioneira do gelo! Mas por que devemos dar ouvidos a você? Os zinoranos vêm para nossas ilhas e sempre trapaceiam com suas trocas. Se recusamos negociar nossas pérolas, kishati e óleos perfumados, eles roubam! Eles queimam nossas aldeias! Eles até nos matam! Meu próprio filho foi morto por eles! Você ouviu as palavras de muitos outros chefes, Dama dos Olhos, atestando as vilezas cometidas contra nós. Não queremos mais nada com os zinoranos. Não precisamos do comércio deles. Vamos vender para as nações dos okamis e dos imlits, do outro lado do mar dos Baixios. Diga a esse feroz novo rei de Zinora que cuspimos nele! Sabemos que ele ousa declarar que essas ilhas fazem parte do seu reino, mas ele é mentiroso e tolo. As ilhas Windlorn pertencem ao povo do mar que vive nelas, não a um humano fanfarrão que mora em um lugar luxuoso na Grande Terra.

O grupo de aliansas manifestou aprovação com muito estardalhaço.

— Se os comerciantes deles voltarem — continuou a chefe —, deixe-me dizer o que faremos com eles! Nossos guerreiros ficarão à espreita em suas canoas nos recifes externos, e quando os navios chegarem de mansinho para nos saquear furaremos seus cascos e os afundaremos sem aviso. Quando o mar devolver os corpos dos zinoranos, tiraremos suas peles para fazer nossos tambores! Seus crânios serão empilhados nas estacas do mar e os griss e pothi farão ninhos neles! A carne dos zinoranos será alimento para os peixes e os barcos quebrados servirão de abrigo para o monstro marinho Heldo!

Todos os outros chefes berraram concordando, e ela cruzou os braços escamosos, voltando a sentar-se no seu lugar.

O grande chefe Har-Chissa ficou de pé afinal. Era uma criatura esplêndida, mais alto do que um humano robusto, embora não tão alto quanto um wyvilo. O rosto dele, com o focinho curto, presas brilhantes e escamas pintadas de dourado, era uma visão que fazia parar o coração dos piratas raktumianos, por mais sedentos de sangue que estivessem. Ele usava um saiote de tecido sedoso azul, de boa qualidade, feito em Var, e a couraça de aço com um boldrié cheio de pedras preciosas só podia ter sido feita pelo ferreiro real de Zinora. Era um indivíduo taciturno e austero, que preferia que seus chefes menores relatassem os danos causados ao povo do mar. Agora que tinham terminado, ele dirigiu-se a Kadiya em um tom de voz profundo e coaxante.

— Lelemar de Vorin resumiu o que todos nós sentimos, Dama dos Olhos. Ouvimos o que tinha para dizer e você nos ouviu. Você nos diz que é a defensora do povo, uma das Três Pétalas do Trílio Vivo, irmã de sangue da grande Dama de Branco. Você nos mostrou aquele talismãmágico, chamado de Olho Ardente Tri lobado que carrega consigo, e sabemos que certos povos de terra, nyssomus, uisgus, wyvilos e glismaks a consideram líder e seguem seus conselhos. Você nos pede para fazer o mesmo. Mas eu digo que você é também irmã de sangue da rainha Anigel de Laboruwenda que, com seu consorte, o rei Antar, oprime os povos que se recusam a fazer sua vontade. E você também é humana...

Os outros membros do povo do mar assentiram com a cabeça, murmuraram e rosnaram. O chefe Har-Chissa continuou:

— Você nos pediu para selar a paz com Zinora. Você diz que somos em menor número do que os humanos daquele país e não tão espertos nas táticas de guerra. Você diz que nossas mulheres e crianças sofrerão, se lutarmos contra os zinoranos, e que é melhor fazer um acordo com eles... Mas os glismaks, que já foram um povo orgulhoso, não desistiram de seus métodos ferozes pelo seu comando e de suas irmãs? E dessa forma, eles não sofreram, sendo forçados a trabalhar em bandos nas estradas dos pântanos de Ruwenda, em vez de viverem livres na floresta Tassaleyo? E eles não são, junto com os nyssomus, uisgus e wyvilos, tratados como seres inferiores e sujeitos à vontade dos humanos que vivem no meio deles?

Mais uma vez o grupo do povo do mar assentiu com a cabeça e emitiu berros de indignação e fúria. O chefe os fez silenciar

— Eu digo a você, Kadiya dos Olhos, que os aliansas jamais farão a paz com Zinora, e nem vamos nos submeter à vontade de nenhum outro humano. Somos livres e continuaremos assim!

Os aplausos causaram um grande tumulto. Finalmente Kadiya ficou de pé e o povo do mar se aquietou. Já chegava o entardecer e o interior da cabana do conselho tinha pouca luz. A única iluminação provinha do brilho quente da incrustação de trílio-âmbar do pomo da sua espada-talismã e dos grandes olhos cintilantes dos aborígenes: dos hostis, que pertenciam ao povo do mar, e dos wyvilos, amigos leais de Kadiya.

—Primeiro deixe que eu refute suas crenças sobre os glismaks — disse Kadiya.— Se não aceitarem a minha palavra, podem consultar meu companheiro Lummomu-Ko, orador de Let e chefe entre os wyvilos, que me concedeu a honra de me acompanhar nesta missão. Antigamente os glismaks viviam atacando os wyvilos, seus vizinhos. Quando desistiram de seus métodos imorais, tiveram de encontrar outros meios para sobreviver. Alguns glismaks viraram silvícolas, como os wyvilos, mas outros concordaram em trabalhar na estrada do Lamaçal da rainha nos pântanos ruwendianos, uma nova e grande estrada patrocinada por minha irmã, a rainha Anigel. Os salários que ela ofereceu eram mais que justos. Muitos milhares de glismaks foram para o norte na estação da seca a fim de trabalhar na estrada. Mas na última época seca alguns se tornaram ríspidos e estavam descontentes. Exigiam o dobro do salário e pediram outras coisas que os humanos não podiam dar. Rebelaram-se e mataram alguns humanos; e os humanos mataram alguns deles. Então eles voltaram para a floresta. Os mais orgulhosos e gananciosos agora impedem aqueles que desejam trabalhar de retornar à estrada. É uma questão complicada, mas estou empenhada em resolver. Também procuro resolver as desigualdades e injustiças que ainda persistem entre os povos da península e a humanidade. Estaria disposta a trabalhar também com vocês, para mediar seus problemas com Zinora. Meu talismã, o Olho Ardente Trilobado, que é parte do grande Cetro do Poder, garante que a justiça prevalecerá.

O chefe grunhiu, sem se comprometer. Outros companheiros dele soltaram assobios e rosnados zombeteiros. Kadiya parecia nem notar, voltou a sentar-se com calma e dignidade diante do seu pequeno grupo do povo da terra, olhando fixo para seu talismã. Era como uma espada escura e sem ponta, com as bordas cegas, assim como Kadiya parecia apenas uma fêmea humana de estatura mediana, com cabelo ruivo brilhante e uma túnica de escamas douradas de milingal, adornada com um Trifólio Ocular. Todos os aliansas tinham ouvido histórias sobre o pomo do seu talismã possuir três olhos mágicos similares, e como podia matar com fogo sem chama os inimigos da Dama, ou até qualquer um que tocasse nele sem sua permissão.

Assim o chefe Har-Chissa fez silenciar os mais desrespeitosos de seu povo e cuidadosamente disfarçou o próprio desprezo por aquela bruxa humana com corpo frágil. Então ela queria ser a defensora dos aliansas! Quem pediu para ela se intrometer nos seus problemas? Sem dúvida, o próprio rei de Zinora, companheiro humano dela! Ela não era amiga do povo do mar. Jamais se deu ao trabalho de visitá-los até o jovem rei Yondrimel reivindicar as ilhas Windlorn. O grande chefe só concordou com a reunião porque Kadiya se comprometeu a ajudar os aliansas. E agora tornava-se claro que o tipo de ajuda que Kadiya tinha em mente era a rendição.

Essa Dama dos Olhos não passava de uma intrometida perigosa. Mas deveria ser tratada com cuidado, para evitar que impusesse sua vontade através da força. Aquele talismã mágico... Se ela não estivesse mais com ele, seria inofensiva. E o próprio talismã...

Porém, naquele momento, o Grande Chefe se viu na obrigação de responder a ela, e a honra dos aliansas exigia que dissesse a verdade.

— Dama dos Olhos—disse Har-Chissa com voz séria e cortês —, agradecemos sua preocupação com o povo do mar. Se quiser de fato nos ajudar, avise ao rei Yondrimel de Zinora para não nos molestar. Diga para ele que repudiamos sua reivindicação de soberania sobre as ilhas Windlorn, e que não faremos mais negócios com ele, enquanto as Três Luas navegarem pelo céu. Avise que a morte espera seus marinheiros se resolverem se arriscar pelos recifes, baixios e bancos de areia que protegem este lugar. Diga isso a ele e faça com que acredite, pois é verdade. Assim você será uma verdadeira amiga dos aliansas. Agora meu discurso está terminado. Ele pegou sua espada, tirou as flores que tinha em volta e enfiou-a na bainha com um prazer sinistro.

— Lá fora meu povo está preparando um banquete de despedida para você e seus seguidores. Venha para a festa ao raiar da terceira lua. Com respeito e firmeza, pedimos que deixe estas ilhas antes de o sol aparecer amanhã, e volte depressa para Zinora.

A reação de Kadiya foi traída apenas pelos punhos cerrados. Ela recuperou seu talismã e fez um gesto para que sua delegação se levantasse. Todos inclinaram as cabeças para o grupo do povo do mar, depois saíram da cabana do conselho e foram na direção do crepúsculo azul.

Quando estavam fora do alcance dos ouvidos dos aliansas, na praia, sob as altas e sussurrantes árvores lown, Kadiya falou:

— Meus amigos, eu falhei na minha missão. Não fui bastante persuasiva. Posso até ter tornado a situação ainda pior. Har-Chissa deixou bem claro que me rejeita, do mesmo modo que rejeitou minhas propostas.

— Exigir a nossa partida antes de o sol nascer — comentou Lummomu-Ko balançando a cabeça, lembrando a ordem mal disfarçada do grande chefe. — Entre os wyvilos, isso é um insulto mortal. Acho que deve ser a mesma coisa para nossos primos, do povo do mar.

Kadiya emitiu um som que era em parte exasperação, em parte desespero.

— Não desanime, Olhos Penetrantes — disse o pequeno e velho nyssomu, Jagun. Ele era amigo de Kadiya desde a infância e seu conselheiro mais íntimo. — Esse conflito entre o povo do mar e Zinora é muito antigo. Não deve se culpar por não conseguir resolver na primeira tentativa.

— Se ao menos pudesse ter trazido algum tipo de concessão da parte do rei de Zinora! — disse ela com amargura. — Mas Yondrimel é um volumnial teimoso e sobrecarregado, que só pensa em exibir sua coragem para os outros governantes que assistirão à sua coroação em breve.

— Você fez o melhor possível para persuadi-lo — insistiu Jagun. — No futuro, se os aliansas continuarem irredutíveis na questão da retomada do comércio, o rei pode resolver ouvi-la. Ele é jovem e, talvez, capaz de aprender a ser sábio. Os licores e corais preciosos das ilhas Windlorn são muito valiosos para Zinora, e as pérolas também constituem uma parte importante do comércio que mantém com as outras nações.

O bando de guerreiros wyvilo que operava como guarda-costas de Kadiya saiu para esticar as pernas antes do banquete, mas ela, o pequeno Jagun e Lummomu-Ko sentaram juntos na areia e ficaram olhando o mar. As monções tinham terminado e as águas em torno da ilha do Conselho eram como um espelho de metal escuro, com a primeira das pequenas meias-luas refletida. Aqui e ali no horizonte despontavam silhuetas negras de ilhas menores, altas estacas marítimas e arcos de pedra entre as estrelas cintilantes. O navio varoniano que transportara a delegação de Kadiya estava ancorado a mais ou menos uma légua da costa, no meio dos recifes, brilhando com a luz dos lampiões. A tripulação humana tinha sido proibida de descer em terra.

— Então voltaremos para Zinora, conforme Har-Chissa ordenou? — perguntou Lummomu-Ko.

Fisicamente ele era semelhante aos aliansas, alto e robusto; com o rosto menos humanóide do que os aborígenes do pântano e da montanha. Suas roupas eram bonitas e a última moda da nobreza laboruwendiana, pois os wyvilos eram tão vaidosos quanto corajosos e honestos.

— Não nos traria benefício algum ir para Zinora agora, velho amigo—respondeu Kadiya. — A festa da coroação estaria no auge quando chegássemos a Taloazin, e não estou disposta a exibir meu fracasso diante da realeza do mundo. Não, melhor seria se eu simplesmente mandasse uma carta para Yondrimel. Posso defrontar-me com ele pessoalmente mais tarde, quando meu fracasso não puder mais causar nenhum prejuízo ao prestígio da minha irmã Anigel.

— Mas como isso poderia acontecer, Olhos Penetrantes? — Jagun estava confuso. — Não há ligação entre as reclamações dos aliansas e a distante Laboruwenda.

Kadiya deu uma risada sem alegria. Ela alisava os três lobos negros do pomo do seu talismã e o trílio-âmbar lá dentro brilhou ainda mais, a luz começou a latejar.

— Aquele jovem rei de Zinora é homem de vastas ambições. Teria um prazer especial de vangloriar-se sobre meu fracasso diante dos outros governantes, salientando que também falhei até agora em conciliar os outros povos em suas disputas com Laboruwenda. Ele discorreria sobre os próprios planos grandiosos para arrasar os aliansas, dissimuladamente afrontando a rainha Anigel e o rei Antar por não terem sido mais duros com o povo de seu reino. O rei Yondrimel ganharia pontos valiosos aos olhos da poderosa rainha regente de Raktum, se fizesse minha irmã e seu marido parecerem incompetentes, e eu impotente.

— Ainda não compreendi como isso pode prejudicar sua irmã — disse o líder wyvilo.

— A rainha Ganondri de Raktum gostaria de expandir o próprio reino à custa de Laboruwenda — explicou Kadiya. — Ela poderia subverter os tronos de Anigel e Antar se certas facções humanas de Labornok achassem que os co-monarcas eram fracos. A união entre Labornok e Ruwenda é frágil, construída em grande parte sobre a reverência dos humanos diante das Três Pétalas do Trílio Vivo. Se duas dessas pétalas parecerem impotentes e a terceira estiver distante, em sua torre na montanha, mais preocupada com questões ocultas, a unidade do reino pode se romper.

— Você e Anigel não podem dominar os inimigos humanos com seus talismãs mágicos? — perguntou o líder wyvilo.

— Não — disse Kadiya. — Do mesmo modo que não posso, com o meu talismã, forçar Yondrimel e os aliansas a viver em paz. Os talismãs não funcionam assim.

Lummomu-Ko rolou os enormes olhos nas órbitas.

— Política humana! Quem consegue entender? Com vocês nada é o que parece ser. Atos que parecem simples e diretos têm motivos escondidos por trás. As nações nunca estão satisfeitas de viver e deixar viver, estão sempre tramando umas contra as outras, fazendo manobras para adquirir mais poder... Por que os humanos não conseguem se dar uns com os outros abertamente, sem dissimulações, como um povo honesto?

— Eu me fiz essa pergunta muitas vezes — suspirou Kadiya —, mas não sei a resposta — ela levantou-se e sacudiu a poeira das roupas. — Meus amigos, peço que me deixem agora, até o nascer das Três Luas, para irmos juntos ao banquete — ela apontou para o âmbar latejante da espada mágica ao seu lado. — Como vocês certamente já perceberam, meu talismã sinaliza que uma das minhas irmãs deseja se comunicar comigo através das léguas que nos separam.

Jagun e Lummomu-Ko se aprontaram para sair, mas o líder wyvilo falou:

— Vamos ficar por perto, de onde possamos vê-la. Não gostei do tom fantasmagórico dos aliansas na despedida.

— Eles não ousariam me atacar!—disse Kadiya, empertigando-se e segurando o cabo do seu talismã.

Lummomu-Ko abaixou a cabeça.

— É claro que não. Peço seu perdão, Dama dos Olhos. Jagun e ele saíram juntos, andando pela praia, o alto-líder do clã diminuindo os passos para acompanhar o minúsculo caçador. Pararam em uma pedra protuberante que ficava a menos de cinqüenta metros de distância, e Kadiya percebeu que os dois mantiveram os rostos virados para ela.

—Ridículo—resmungou, erguendo o Olho Ardente Trilobado e perguntando baixinho. — Quem chama?

Um dos lobos negros do pomo da espada se abriu, revelando um olho castanho, idêntico ao de Kadiya. No mesmo instante sua mente recebeu uma visão da irmã Haramis.

— Pela Flor, já não é sem tempo, Kadi! Por que não respondeu logo? Fiquei com medo que tivesse sofrido algum desastre aí nas ilhas Windlorn!

Kadiya soltou um palavrão.

— Estou perfeitamente bem, só que minha missão foi um fracasso completo — e ela resumiu o que tinha acontecido na reunião. —Não voltarei paraZinora. Minha presença lá só tornaria as coisas ainda mais difíceis para Ani e Antar. Duvido que até eu mesma conseguisse ser civilizada com os dois. Chegamos a um impasse na questão da concessão de cidadania aos povos do pântano e da floresta, e estou furiosa com o tratamento desastrado que deram à rebelião dos glismaks. Eles sabem que os glismaks não foram civilizados. Se os trabalhadores insubordinados da estrada tivessem sido tratados com mais tato, jamais teriam recorrido à violência.

Haramis fez um gesto como se deixasse de lado a questão.

— Podemos conversar sobre esses assuntos uma outra hora. Tenho uma notícia mais importante para você agora. Mas primeiro... pense nisso com todo cuidado, irmã: ultimamente tem percebido, através do seu talismã ou de qualquer outra maneira, algum distúrbio no equilíbrio do mundo?

— Lógico que não — disse Kadiya lacônica. — Deixo essas sutilezas para você, Arquimaga. O equilíbrio dos aliansas e dos glismaks era minha preocupação até agora, e tive pouco tempo para pensar em qualquer outra coisa. Tendo falhado aqui, voltarei para o pântano labirinto, passando por Var e pelo grande rio Mutar, para tentar apaziguar os glismaks ao chegar às suas terras. Depois irei novamente para o Lugar do Aprendizado e buscarei aconselhamento com o mestre.

— É. Claro que tem de fazer isso. Mas tenho uma razão muito boa para perguntar sobre o equilíbrio do mundo. Kadi... recebi uma notícia que me faz suspeitar que Orogastus ainda vive.

— O quê? Mas isso é impossível! O Cetro do Poder transformou-o em cinzas anos atrás, com a nossa vitória sobre o rei Voltrik.

— Foi o que todos nós achamos que aconteceu. Mas um membro do povo da distante Tuzamen, um homenzinho chamado Shiki, arriscou sua vida para chegar até aqui com uma história estranha. Ele foi forçado a guiar um grupo de humanos no dorso de abutres-dos-alpes até um local bem no meio da calota de gelo. Resgataram um mago que estava perdido por lá havia anos. Esse homem diz chamar-se Portolanus, e é o mesmo que usurpou o trono em Tuzamen.

— Então é isso! — Kadiya exclamou com uma risada zombeteira. — Ouvi falar desse Portolanus de Tuzamen. Acho que não passa de um parvenu com uma certa queda para a feitiçaria menor. O deus Trino e Uno sabe que não é necessário muita magia para receber um desprezível ninho de varts como Tuzamen. O seu talismã confirmou que o mestre feiticeiro é realmente Orogastus?

— Não — admitiu Haramis. — Ele não me diz se Orogastus está vivo ou morto, e nem concede qualquer visão desse Portolanus. Nunca falhou desse jeito antes. Mas mesmo se Portolanus não for Orogastus, pode muito bem representar um grande perigo para nós e para a nossa gente.

Uma emoção que Kadiya não experimentava havia muitos anos aflorou de dentro dela, como um hediondo skritek emergindo lentamente de seu poço mortal. Essa emoção era medo. Mas Kadiya rejeitou esse medo, assim que percebeu o que era.

— Se Orogastus está vivo, vamos cuidar dele novamente, como fizemos antes — declarou ela. — Nós Três juntaremos os talismãs para formar o Cetro do Poder e o devolveremos ao exílio que ele merece!

— Queria que fosse tão simples assim — o olhar de Haramis estava triste. Mas então ela sorriu para Kadiya. — Mesmo assim, esse Portolanus ainda precisa confrontar-se diretamente conosco, e estamos de sobreaviso. Cuide-se, irmã, e comunique-se comigo imediatamente, se perceber qualquer indício de desequilíbrio no mundo.

— Farei isso — prometeu Kadiya, e a visão de Haramis desapareceu.

Bem depois da meia-noite, Kadiya, Jagun, Lummomu-Ko e os quinze guerreiros wyvilos voltaram à praia e embarcaram nos dois pequenos barcos que os levariam aonavio. O marestavacalmíssimo e o céu negro salpicado de estrelas, com as três meias-luas. Toda a delegação tinha comido demais e bebido demais o delicioso, mas altamente embriagante, licor kishati. Em vez de deixá-los alegres, o banquete os fez sentir mais melancólicos que nunca. Os wyvilos desejavam voltar para a floresta Tassaleyo, e Kadiya e Jagun sentiam saudade da bela Mansão dos Olhos, que os nyssomus haviam construído para sua líder humana, seus conselheiros e criados, no ponto mais alto do rio Golobar, na terra verdejante de Ruwenda.

Tonta e enjoada, Kadiya comandava o leme na popa de um dos barcos, enquanto Jagun fazia o mesmo no outro. Lummomu-Ko remava junto com seus companheiros e guiava os wyvilos com um canto monótono e lúgubre de remadores. As notas baixas e guturais do canto e a confusão mental de Kadiya impediram que ela ouvisse alguns ruídos pequenos e ameaçadores, e não notou nada até o momento em que as águas mornas cobriram seus tornozelos, no fundo do barco. Na mesma hora que ela gritou, Jagun também berrou do barco dele.

— Olhos Penetrantes, estamos afundando! Venha nos ajudar!

— Estamos afundando também! — exclamou ela. — Rápido! Vá para um dos recifes!

Ainda estavam a mais de uma légua do navio, em uma região cheia de rochas afiadas, no meio de águas profundas. Os wyvilos remavam feito doidos, batendo tanto na água, que chegavam a formar espuma. Kadiya ouviu o grito de alívio de Jagun.

— Estamos no recife!

Parecia que todos gritavam ao mesmo tempo. Então a quilha do barco dela raspou em alguma coisa e a embarcação adernou violentamente. Os wyvilos deixaram os remos cair, rolaram e foram arremessados para fora do barco.

— Eu estou bem! — berrou Kadiya. — Salvem-se vocês! Mas de repente ela se viu presa, com os pés imobilizados, enquanto o barco desaparecia na água negra. Lutando obstinadamente para se libertar, ela nem pensou em pedir socorro, e quando o fez, quase tarde demais, deu um grito sufocado, logo antes de ser obrigada a prender a respiração. A última coisa que viu, quando estava afundando, foi Lummomu-Ko e um dos guerreiros dele mergulhando das pedras e nadando em sua direção.

Ela foi direto para o fundo, com o peso de sua couraça de ferro e do talismã, ainda presa ao barco que afundava. Lutou freneticamente para libertar as pernas do que as prendia. Não era madeira nem cordas, e sim algo áspero e duro, que prendia seus tornozelos. Puxou aquilo com as mãos enquanto afundava, mas a coisa continuou apertando. O que era? Se ao menos estivesse sóbria e conseguisse pensar direito! A água estava cheia de faíscas luminosas minúsculas, água-viva cintilante, e fios de algas luminosas que ondulavam e murmuravam em volta dela. Era muito bonito... e ela estava se afogando.

Seu peito queimava como um caldeirão de metal derretido, e o ar era forçado para fora dos seus pulmões. Seus ouvidos troavam e sibilavam. Não conseguia mais prender a respiração. Bolhas brilhantes saíam de sua boca e das narinas, subindo através da vida aquática cintilante. O talismã e o cinturão também brilhavam, não dourados, mas de um verde profundo e fulgente que lembrava a Pequena raiz de trílio que ela seguira pelo Inferno Espinhento havia tantos anos, em sua missão.

Esperneie! Chute com mais força! Livre-se do que a prende... Finalmente ela fez isso e conseguiu nadar um pouco. Mas então algo prendeu uma de suas pernas novamente e arrastou-a mais para o fundo. Ela percebeu, tarde demais, que alguma coisa, ou alguém, segurava firme seu tornozelo. Garras afiadas cortavam sua carne no início das tiras da sandália, e músculos poderosos se retesaram, frustrando suas tentativas de escapar.

Uma onda de raiva percorreu seu corpo. Os aliansas! LummomuKo estava certo ao concluir que planejavam uma traição! A inteligência de Kadiya parecia tê-la abandonado, mas continuou a espernear com toda a força que havia nela. O fogo que ardia em seu Peito já era insuportável...

E então a dor cessou de repente. A raiva diminuiu. Ela parou de se debater e sentiu uma paz enorme, enquanto continuava a descer naquele mar de algas cintilantes. Tinha os olhos bem abertos, mas o mundo ficava cada vez mais escuro.

Em um último lampejo de consciência, ela pôs a mão no Olho Ardente Trilobado. Se ao menos pudesse usá-lo... se conseguisse Pensar no que devia fazer com ele...

Ela segurou o talismã.

A garra mortal afrouxou a pegada no seu tornozelo. Ela estava livre, à deriva na escuridão.

Pronto, pensou ela, feliz. Assim é melhor. Agora podia relaxar.

Abriu os dedos e o talismã caiu de sua mão. Ficou vendo o brilho verde diminuir, diminuir, até finalmente desaparecer. Depois disso não viu mais nada.

Kadiya abriu os olhos. A cabeça doía como se estivesse dentro de um torno e ela viu apenas cores fora de foco. A garganta estava seca e irritada de bile e parecia que não tinha corpo, braços ou pernas. A sensibilidade do pescoço para baixo levou algum tempo para retornar e então ela arriscou movimentar os braços e as pernas. Sentia muito frio, apesar de estar vestida, com uma camisola macia de lã challis. Aos poucos a visão foi clareando e ela percebeu que estava em um leito na cabine de seu navio varoniano. A porta balançava devagar, abrindo e fechando com o movimento das ondas do mar. Pelo ranger do madeirame e pelo sibilar das ondas ao longo do casco, ela percebeu que navegavam a todo pano.

Depois de algumas tentativas frustradas, acabou conseguindo chamar Jagun. Seu velho amigo chegou aos tropeções pelos degraus do compacto passadiço de ferro que dava na cabine dela, com um sorriso largo, exibindo seus incisivos pontudos. Logo atrás apareceram Lummomu-Ko e o capitão humano da nau varoniana, Kyvee Omin. Alvoroçaram-se todos em volta de Kadiya, pondo um monte de travesseiros nas suas costas para poder ficar sentada. Jagun a fez beber um pouco de conhaque ladu para recuperar as forças.

— O que aconteceu? — perguntou ela afinal.

— Foram os aliansas — disse o chefe wyvilo, com tristeza. — Os demónios traiçoeiros são excelentes nadadores, ainda melhores que nós. Esburacaram nossos barcos com espeques e brocas, depois a arrastaram para o fundo. Eu a vi submergindo e mergulhei atrás de você com o jovem Lam-Sa, e vimos logo o que tinha acontecido. Quando você finalmente empunhou seu talismã, o aliansa que a segurava nadou para longe, e Lam-Sa e eu conseguimos pegá-la e levá-la para a superfície, até as pedras. Achei que você tinha passado para o além, mas Jagun não parava de partilhar a respiração com você.

— Obrigada — disse ela, virando-se para o amigo nyssomu com um sorriso de gratidão.

— Depois de um tempo, os Senhores do Ar trouxeram seu espírito de volta para seu corpo — disse Lummomu-Ko. — Os humanos do navio ouviram nossos gritos e nos resgataram.

Kyvee Omin adiantou-se. Era um cidadão de cabelos grisalhos de Var, com feições iguais às de um guarda-livros meticuloso, mas que tinha a fama de ser o mais intrépido capitão do mar Meridional. Kadiya teve de pagar quase mil coroas de platina para que ele a levasse para as Windlorn, pois ninguém mais se arriscaria a enfrentar aquela viagem.

—Dei ordem para içar âncora e zarpar daquele lugar agourento com a maior velocidade que os remadores conseguissem atingir— disse ele. — Os oddlings do mar acenderam fogueiras na praia e bateram o chamado de guerra em seus tambores sagrados. Se tivéssemos demorado um pouco mais, suas enormes canoas talvez nos alcançassem antes de conseguirmos escapar das regiões sem vento perto das ilhas, e chegar ao mar aberto.

— Quanto tempo eu dormi? — perguntou Kadiya com voz fraca.

— Vinte horas — respondeu Jagun.

— O vento está suave mas constante, agora que saímos do abrigo daquelas desgraçadas estacas do mar — acrescentou o capitão.—Devemos chegar ao porto Taloazin de Zinoraem menos de sete dias.

— Não vamos para lá! Devemos voltar! — Kadiya perdeu a voz, soltou um gemido e pôs a mão sobre os olhos. Sua cabeça doía tanto que parecia que ia explodir. Por que tinham de voltar? Sabia que havia uma razão. Uma razão muito forte...

— Há uma notícia ainda pior, Olhos Penetrantes — Jagun aproximou-se do leito em que ela estava e Kadiya notou que ele segurava alguma coisa. Era seu cinturão e a bainha da espada. — O seu talismã... — ele começou a explicar, mas não conseguiu dizer mais nada.

A confusão mental finalmente se dissipou. Ela viuque a bainha estava vazia e lembrou do que tinha acontecido.

—Não podemos retornar para as ilhas — Kyvee Omin estava dizendo. —Não vou arriscar minha embarcação em uma batalha com selvagens. Sou um comerciante, não capitão de um navio de guerra. Só concordei em levá-la até a ilha do Conselho nas Windlorn e depois voltar para Var. Se tem algum motivo para evitar Taloazin, então podemos aportar em Kurzwe ou em outro porto zinorano para reabastecer o barco com mantimentos e água antes de seguir viagem para o oriente. Mas não podemos voltar.

Kadiya se ajeitou para ficar sentada direito. Seus olhos estavam em brasa e o rosto contorcido de raiva quando falou, com voz baixa e rouca.

— Temos de voltar. Eu perdi o Olho Ardente Trilobado! Você sabe o que isso significa?

O capitão deu um passo para trás, como se estivesse diante de uma louca.

— Não, eu não sei, patroa. Seus amigos deram a entender que se trata de uma calamidade, mas o infortúnio é culpa sua, não minha, e deve tratar de repará-lo sozinha. Não arriscarei meu navio e minha tripulação em um esforço inútil para recuperar sua espada mágica. Enquanto você estava desmaiada, seus amigos wyvilos e eu voltamos ao lugar onde seus barcos afundaram. Determinamos rapidamente que seu talismã está perdido em um grande abismo entre dois recifes, onde a água tem trinta braças, ou mais, de profundidade. Nem mesmo os aliansas podem mergulhar tão fundo. O talismã está perdido para sempre.

— Não — sussurrou ela, fechando com tristeza os olhos escuros. — Oh, não! — Gotas de suor faiscaram em sua testa e ela ficou em silêncio um longo tempo.

Jagun ajoelhou-se ao lado dela, segurando uma das mãos inertes nas suas, com a cabeça abaixada.

O capitão trocou olhares com Lummomu-Ko, depois saiu apressado da cabine.

Quando Kadiya voltou a abrir os olhos, a expressão do seu rosto tinha mudado. Era uma expressão decidida. Ela falou:

— Meus queridos amigos, Kyvee Omin estava certo. Não posso exigir que ele me ajude. Se ele não voltar para as ilhas, terei de encontrar outro capitão para fazer isso. Felizmente, ainda tenho bastante dinheiro. Pedirei a Kyvee Omin para me deixar nesse lugar chamado Kurzwe. Vocês, é claro, podem continuar a viagem até Var e depois subir o Grande Mutar até Ruwenda...

— Não — disse, categoricamente, o grande líder wyvilo. As orelhas eretas de Jagun estremeceram de indignação e ele arregalou seus enormes olhos dourados.

— Olhos Penetrantes, como pode pensar que vamos abandoná-la?

Ela olhou primeiro para um, depois para o outro.

— Sem meu talismã, não sou mais a Dama dos Olhos, não mereço mais ser chamada de grande defensora do povo. Não sou mais alguém especial. Apenas Kadiya.

Ela passou as pernas para o lado do leito e encostou os pés no convés. As contusões e marcas das garras do assassino frustrado deixaram seus tornozelos descorados.

— Há apenas uma pequena chance de conseguir recuperar meu talismã, e uma chance excelente dos aliansas tentarem terminar o trabalho homicida que falhou na Primeira tentativa.

— De qualquer modo — disse Lummomu-Ko – meus irmãos wyvilos e eu ficaremos ao seu lado.

Os olhos deKadiya encheram-se de lágrimas. Ela balançou um pouco ao ficar de pé, e o alto aborígene e o pequeno deram-lhe as mãos. Ela foi até uma pequena mesa diante da vigia e sentou no banco.

— Obrigada, meus amigos muito queridos. Logo minha irmã, a Arquimaga, vai descobrir o que Aconteceu, embora eu não possa mais comunicar-me com ela. Certamente encontrará algum meio de nos ajudar. Até lá, vamos nos ocupar de educadamente esmiuçar os cérebros do capitão Kyvee Omir, e je sua tripulação. Vou começar fazendo cópias das cartas náuticas da região. Posso fazer isso, mesmo estando trêmula demais para andar por aí.

Ela olhou para o líder wyvilo.

— Lummomu-Ko, você e seus guerreiros entrevistem os marinheiros para saber como se pode ganhar a vida nas ilhas Windlorn; os alimentos naturais que crescem na terra, o que há de comestível no mar e que coisas são venenosas ou perigosas, qualquer coisa que eles saibam sobre as ilhas e seu povo. Pagaremos aos marinheiros que cooperarem.

— E eu, Olhos Penetrantes? - perguntou Jagun. Ela deu um sorriso retorcido.

— Aprenda o que puder sobre a arte de velejar, velho amigo, e eu farei o mesmo. Pois temo que o único meio de voltar para as ilhas Windlorn será por nossa conta.

O galeão real contornou o cabo e entrou na baía das Pérolas. Imediatamente as três crianças subiram no cordame, escalando lepidamente como varts das árvores, enquanto a babá nyssomu Immu espiava apreensiva do convés lá embaixo e pedia, em vão, para descerem.

—Mais navios! A baía está cheia de grandes navios!—gritava o príncipe consorte Nikalon, de onze anos, que se apoderou do pequeno telescópio e tinha subido no mastro mais alto. — Há dois de Imlit e um de Sobrania, e três com bandeira de Galanar... e olhem! Quatro de Raktum! Estão vendo aquela grande trirreme negra, toda enfeitada de dourado, com cem bandeiras? Deve ser o navio da malvada rainha Ganondri de Raktum em pessoa!

— É a minha vez com o telescópio! — reclamou o príncipe Tolivar. — Niki ficou com ele a manhã toda! Quero ver a rainha malvada!

Ele tinha oito anos de idade, embora parecesse bem mais novo por ser muito franzino. Quando Nikalon recusou-se a ceder o telescópio, ele começou a chorar.

— Jan, Jan, faça ele dar o telescópio para mim!

— Crianças, desçam daí imediatamente! — gritou Immu lá debaixo — Vocês sabem que sua mãe proíbe que se exponham a perigos!

Mas as crianças reais ignoraram a babá, como ignoravam muitas tentativas da rainha Anigel de disciplinar seu comportamento, aceitando de bom grado os castigos resultantes.

— Não chore, Tolo. Eu cuido do Niki, esse egoísta! — disse a princesa Janeel, de dez anos, muito madura para a idade.

Ela escalou o cordame, chegou perto do irmão mais velho, começou a fazer cócegas na sua barriga e os dois balançaram juntos nas cordas, a dez metros de altura do convés, e a pobre velha Immu soltou um grito lá embaixo, horrorizada. Em um instante, a ágil princesa tirou o telescópio de Nikalon, que ria, indefeso. Então ela voltou para onde estava Tolivar e os dois dividiram o instrumento, enquanto o príncipeNiki dava gargalhadas e subia mais ainda, para o cesto da gávea.

O telescópio, um presente especial para a viagem, dado pelo pai, o rei Antar, não era apenas um óculo-de-alcance de marinheiro. Era um raro artefato mágico dos Desaparecidos. O tubo era feito de um material negro que não era metal nem madeira, e do lado tinha três botões coloridos que aproximavam a cena observada cada vez mais, se apertados. Um botão maior, prateado, possibilitava o uso do instrumento à noite, só que as imagens ficavam fora de foco, não passavam de silhuetas esverdeadas. O telescópio parecia mais uma coisa viva, não um objeto inanimado, pois tinha de ficar ao sol, como uma planta, para funcionar direito. Uma vez, durante a viagem, o príncipe Tolivar escondeu-o em sua arca um dia inteiro, fingindo que o tinha perdido, para brincar com ele sozinho, sem partilhá-lo com o irmão mais velho e a irmã. Mas quando tentou espiar com ele, só viu escuridão, e correu chorando para o rei. Depois de repreendê-lo pelo egoísmo, seu pai explicou como o telescópio se alimentava com a luz do sol, o que ocorria com muitos outros artefatos misteriosos dos Desaparecidos.

Tolo estava observando o grande navio da rainha regente Ganondri de Raktum. Tinha três fileiras de remos, e não duas, como a nau capitânia de Laboruwenda, e pelo menos o dobro do comprimento, com uma carranca enorme na proa que servia de aríete contra as embarcações inimigas. Na vela mestra e na bujarrona tinham pintado o emblema do estado pirata, uma chama dourada estilizada. Tolo ficou desapontado de não avistar nenhum sinal das temíveis máquinas de guerra que lançavam enxofre derretido ou pedras candentes nas naus dos inimigos de Raktum. Só havia cavaleiros de armaduras brilhantes e damas com roupas coloridas, descansando no tombadilho de popa, onde tinham posto um toldo dourado sobre uma cadeira também dourada.

— A rainha malvada ainda deve estar na cama — disse Tolo para a irmã. — Estou vendo o trono dela na popa do navio, mas ele está vazio. Dê uma olhada, Jan.

A princesa Janeel espiou pelo tubo mágico.

— Que navio lindo! Os raktumianos devem ser muito ricos.

— Eles são piratas — observou Tolo. — Piratas são sempre ricos. Eu gostaria de ser um pirata.

— Que bobagem dizer isso. Os piratas matam gente, roubam, e todos os odeiam.

A menina virou o telescópio para o exótico navio sobraniano, do ponto mais distante do Extremo Ocidente.

— Ralabun, o Mestre dos Animais, disse que você terá de se casar com o duende corcunda neto da rainha malvada quando crescer — disse Tolo, com um sorriso malicioso de satisfação. — Quando você for a rainha dos piratas, pode fazer de mim um pirata também.

A princesa Janeel abaixou o telescópio e olhou ferozmente para o irmão menor.

— Nunca vou casar com ninguém! E se fosse, certamente não me casaria com uma coisa horrenda feito Ledavardis. Tia Kadiya disse que posso ir morar na sua mansão secreta, na terra verdejante, quando crescer, se eu quiser. E eu quero!

— Ah, não vai não! Príncipes e princesas não podem fazer o que querem como as pessoas comuns. Niki vai ser o rei de Laboruwenda e terá de se casar com alguém da realeza. E você também. Mas eu sou apenas um príncipe extra. Posso ser um pirata sequiser.Agora devolva o telescópio. Quero ver se os sobranianos realmente têm penas como diz Ralabun.

Janeel jogou o objeto nele zangada e começou a descer pelo ovem. Meninos! Não sabiam de nada! Mesmo assim, quando chegou à segurança do convés com Immu, ela ignorou o pito da babá nyssomu e também a idéia de irem até o salão tomar um refresco, e puxou-a pela amurada, para trás de alguns caixotes de carga. Ali a mulher idosa nyssomu e a princesa tinham completa privacidade.

— É verdade que terei de casar com Ledavardis de Raktum, quando for mais velha?

A babá aborígene caiu na risada.

— É claro que não! Quem andou enchendo a sua cabeça com essa bobagem, docinho?

Tolo — rosnou Janeel. — Ele soube por Ralabun.

O rosto de Immu crispou-se de indignação e as orelhas cretas por cima da touca de linho tremeram como folhas sopradas pelo vento.

Ralabun, Ralabun, Ralabun! Vou espremer seu crânioaté os olhos pularem das órbitas! Aquele idiota falastrão devia cuidar de limpar o esterco dos estábulos e deixar as questões de estado para seus superiores!

— Então não é verdade?

Immu segurou gentilmente o rosto da princesa com suas mãos de três dedos. As duas tinham quase a mesma altura, e a babá olhou bem para os olhos castanhos da protegida com seus enormes olhos amarelos.

Eu juro a você, pelos Senhores do Ar, que seus queridos pais iam preferir a morte a vê-la casada com o reizinho duende de Raktum. O boato que aquele idiota do Ralabun inventou para seu irmão menor é o mesmo que os inimigos dos Dois Tronos espalham por aí, o senhor Osorkon e os da sua espécie. É uma mentira.

Ela beijou Janeel, depois começou a arrumar as tranças da menina, que haviam se soltado enquanto ela brincava no cordame. Jan não era excepcionalmente bela como a mãe, mas seu rosto era simpático, salpicado de sardas, os olhos bem afastados e inteligentes. O cabelo era extraordinariamente brilhante, castanho dourado como a casca da noz blok, e caía até a cintura quando solto, por isso usava tranças, para não atrapalhar.

É verdade que as princesas não podem escolher seus maridos? — persistiu Janeel.

Immu respondeu rápido.

Quanto a isso, algumas podem, outras não. Quando sua tia Haramis era princesa consorte de Ruwenda, antes de tornar-se a Dama de Branco, e antes dos Dois Tronos se unirem, o malvado rei Voltrik de Labornok quis a mão dela. Essa união foi recusada pelo rei Kreyn e pela rainha Kalanthe, já que significaria a tomada de Ruwenda por Labornok, o que é muito diferente da União dos Dois Tronos. A princesa Haramis concordou em casar com um príncipe de Var, apesar de não amá-lo, porque esse príncipe estava disposto a tornar-se co-regente de Ruwenda. Assim, sua tia pôs os interesses de seu país acima da própria felicidade, o que era seu dever.

— Mas tia Haramis renunciou ao trono!

— É. E a coroa passou para sua tia Kadiya, que também renunciou, e depois para sua querida mãe, que era a mais preparada das três para ser rainha. Nessa época o brutal Voltrik estava morto e Antar, seu pai, era o rei de Labornok. Sua mãe e seu pai se amavam muito, casaram, e agora governam os dois reinos, passando a época seca na corte de Ruwenda na Cidadela e as chuvas no palácio Derorguila em Labornok.

—Mas será que Niki vai poder escolher uma princesa, para amar e fazer dela sua rainha? E eu posso escolher meu príncipe? Immu hesitou um pouco.

— Espero que seja assim, queridinha. Espero de todo coração. Mas o futuro só quem conhece é o deus Trino e Uno e os Senhores do Ar que são seus servos, e é melhor que as meninas pequenas como você não se preocupem com essas coisas. Você não vai casar com ninguém por um bom tempo ainda... Mas agora vamos para a cabine das roupas. Estaremos atracando no Porto de Taloazin em poucas horas e vamos escolher um lindo vestido para você e pôr um diadema de pedras preciosas em seu cabelo. Temos de mostrar para os cidadãos arrogantes de Zinora que a casa real de Laboruwenda é muito mais esplêndida do que a do pequeno reino presunçoso deles.

O príncipe consorte Nikalon estava no cesto da gáveajunto com um jovem marinheiro chamado Korik, que se tornara seu amigo naquela viagem de duas semanas, desde Derorguila. Diferente do resto da tripulação labornokiana, que fazia mesuras e rapapés e chamava o menino de Sua Alteza e ao mesmo tempo o chamava de peste insuportável pelas costas e lhe negava acesso às partes mais interessantes do navio — que a rainha Anigel proibira para as crianças reais —, Korik sentia pena do rapaz entediado e mostrava tudo para ele, desde o paiol dos ferros do porão de vante até a roda do leme no cadaste de popa. Ensinara secretamente ao príncipe como escalar o cordame (e Niki ensinou à irmã e ao irmão menor) e aceitava sua companhia nos turnos de vigia no cesto da gávea sem ninguém saber, atento a rochas, bancos de areia e outras embarcações, enquanto a flotilha navegava pelas ilhas de Engi, ao longo da costa de Var, na direção de Zinora. Korik explicou como os cabos e as velas funcionavam, e por que o navio bordejava quando o vento soprava de uma certa direção, e por que baixavam as velas durante as tempestades, e por que homens livres eram melhores nas galés do que escravos e respondia a miríades de outras perguntas, da melhor forma possível.

Niki,agradecido, tinha dito a Korik que faria dele um almirante quando fosse rei. O jovem riu ao ouvir isso, dizendo que almirantes tinham de passar tempo demais na corte, indo a reuniões de conselho aborrecidas e redigindo relatórios tediosos. Tudo que ele queria era ser capitão do seu próprio navio.

— E então — explicou ele para Niki — eu seria o primeiro a navegar para os lugares mais longínquos do mundo conhecido, além de Sobrania, até do outro lado da terra dos Bárbaros Emplumados. Eu daria a volta completa no mundo, através das ilhas congeladas do terrível mar Aurora, ladeando a borda da Calota de Gelo Sempiterna, até chegar aos desertos gelados ao norte de Tuzamen. E depois desceria pelas ilhas Flamejantes, desafiaria os piratas de Raktum e voltaria são e salvo para casa, para Derorguila.

Niki olhava para ele, boquiaberto.

— Alguém fez isso antes?

— Ninguém — respondeu Korik, com orgulho. — Todos têm medo do Mar Aurora rodeado de gelo e dos monstros marinhos. Mas eu não tenho medo — ele olhou intensamente para Niki. — Uma viagem de exploração como essa custaria muito dinheiro, mas o rei que a patrocinasse seria lembrado para sempre. E eu traria para ele plantas raras, animais e outras coisas... e talvez até a localização de alguma nova cidade secreta, outras ruínas dos Desaparecidos, com mais tesouros maravilhosos do que todas que foram descobertas.

— Eu vou patrocinar a viagem! — declarou o príncipe Niki. Mas o marinheiro apenas riu, observando que o menino só seria rei dali a muitos e muitos anos, já que o rei Antar era um jovem robusto que gozava de boa saúde, e que quando ele ficasse velho e morresse, Nikalon certamente já teria esquecido a promessa.

— Eu não vou esquecer — disse o príncipe consorte...

No alto do mastro, Niki olhava para a costa por cima do mar brilhante, onde ficava a capital Zinora, e imaginava como seria ser um rei jovem feito Yondrimel de Zinora, que podia comissionar explorações ou executar outros grandes feitos. O que o rei de Zinora devia estar sentindo, a ponto de ser homenageado em sua coroação pelos governantes do mundo? Claro que Yondrimel, aos dezoito anos, já era o governante de sua nação e a coroa era dele por direito de herança. Mas a cerimónia se destinava a confirmar seu reinado aos olhos das outras nações, mostrando a todas que ele era um verdadeiro soberano, e não um fantoche leviano como o rei-menino Ledavardísde Raktum, que tinha quase amesma idade de Yondrimel, mas que o trono lhe fora negado pela avó poderosa. O rei Antar explicou que o rei zinorano também esperava fazer alianças para alicerçar seu trono durante a coroação.

Apesar de ter apenas onze anos, o príncipe Nikalon já compreendia a importância das alianças. Laboruwenda mantinha alianças com Var e com o Principado Insular de Engi na península. O comércio entre eles era livre e se aliavam no combate aos piratas, que ameaçavam seus navios, recusando-se a dar asilo a criminosos que cruzavam as fronteiras. O rei Antar e a rainha Anigel esperavam formar uma aliança semelhante com o rei Yondrimel de Zinora. Mas Raktum, o maior inimigo de Laboruwenda, também desejava isso e já enviara milhares de coroas de platina e muitos baús de jóias para Yondrimel, como presentes pela coroação. Niki ficava pensando se o jovem monarca de Zinora sucumbiria aos agrados da rainha pirata. Ela era tão, tão rica!

Navegavam mais próximo da flotilha raktumiana. A madeira dourada do casco da enorme trirreme brilhava ao sol, e as centenas de bandeiras coloridas penduradas no cordame eram um espetáculo magnífico. Os outros três barcos negros tinham uma decoração parecida. Ah, sim, Raktum era rica! Depois da coroação haveria um tremendo banquete e uma recepção luxuosa, e diziam que quase tudo era custeado pela perversa Raktum.

Niki perguntara ao pai e à mãe por que os outros governantes não condenavam a nação pirata ao ostracismo. Eles apenas suspiraram e disseram que grandes questões de estado não eram tão simples como assuntos do dia-a-dia, e que ele entenderia melhor quando ficasse mais velho. Mas Niki duvidava disso.

O príncipe Tolivar finalmente cansou de espiar pelo telescópio mágico, pendurado desconfortavelmente nas cordas ásperas, e teve uma grande idéia. Desceria e emprestaria o maravilhoso brinquedo para sua mãe. Por alguma razão a rainha parecia muito triste no café da manhã, e aquilo podia alegrá-la. Segurando o tubo estreito com firmeza entre os dentes, o pequeno menino escorregou pela escada feita de cordas, pulou para o convés e foi saltitando e bamboleando para a popa. Quando passava por fora dos salões no meio do navio quase deu um encontrão no lorde Penapat e seu pai, o rei, que estavam pescando. Os longos braços do tio Peni içaram-no do chão quando tentava escapar, mantendo-o no alto, esperneando como um sucbri recém-tirado da concha.

—Viu minha mãe? — perguntou o pequeno príncipe ao rei. — Acho que ela gostaria de ver os outros navios e Zinora com meu telescópio.

— Ela está na popa com lady Ellinis, elaborando alguns documentos reais, como sempre. Pode dar o telescópio para ela, mas não se demore, nem a distraia com sua conversa.

— Pode deixar, pai.

O menino saiu galopando, o cabelo louro ondulando ao vento, e o pomposo Penapat balançou sua grande cabeça, admirando a criança.

— Que rapaz alegre. Ele, seu irmão real e a pequena princesa animaram bastante a tripulação nesta viagem, meu senhor.

Rindo, o rei concordou. Ele pôs uma isca nova em seu anzol e lançou ao mar. Então ficou sério.

— Espero não ter cometido um erro em trazê-los para a coroação. Eu não queria, mas Anigel insistiu, dizendo que era dever deles conhecer outros nobres e aprender a conviver com estrangeiros... Mas há sempre um certo perigo associado a qualquer acontecimento que envolva Raktum. E Raktum está mesmo envolvido profundamente com essa celebração, como todos sabemos.

Penapat balançou a cabeça, concordando.

— Graças a Zoto a rainha Ganondri tem apenas um neto repulsivo, e não uma neta, que poderia casar com Yondrimel e assim garantir uma aliança!

— Raktum fica muito distante de Zinora, por isso esse assunto não preocupa muito os Dois Tronos, por mais que Ganondri zombe de nós. Mas continuo com maus pressentimentos de vir para cá com as crianças.

Penapat apoiou os cotovelos na amurada e ficou olhando para os navios raktumianos, que estavam a menos de meio quilómetro de distância. Dava para ver bem as pequenas figuras dos marinheiros e passageiros na nau capitânia da rainha regente, embasbacados com a flotilha de Laboruwenda.

—Nem mesmo a rainha Ganondri seria tão descarada a ponto de nos atacar, com toda a realeza e nobreza de sete outras nações presentes para testemunhar qualquer ultraje — disse Penapat lentamente. — E ela também não se arriscaria a antagonizar o rei Yondrimel bem no dia de sua coroação, provocando um incidente.

— Claro que você tem razão, Peni. Talvez devêssemos nos preocupar mais com a presença do Mestre de Tuzamen.

O volumoso tesoureiro soltou uma praga, surpreso.

— Tuzamen? Então eles afinal mandaram uma delegação? O rei assentiu com a cabeça.

— Recebi a notícia do nosso capitão antes do café da manhã. O veloz e pequeno cúter engiano, que nos ultrapassou esta manhã, fez sinal de que uma solitária nau tuzameniana navega devagar atrás de nós. Sem dúvida o chamado Mestre de Tuzamen está a bordo. Sua insígnia da estrela estava desfraldada no topo do mastro. Acho que podemos seguramente concluir que um conviva inesperado pretende homenagear o jovem rei Yondrimel, comparecendo à coroação.

— Pelas pedras de Zoto! Isso explica por que a rainha Anigel parecia tão abatida.

— De fato. Essa má notícia, seguida da informação da Arquimaga que sua irmã Kadiya perdera seu talismã, deixou minha amada esposa cheia de maus pressentimentos. E ninguém pode culpá-la. Ela chegou ao ponto de tirar o próprio talismã de seu lugar, no interior da coroa, para escondê-lo melhor no meio de suas roupas. Diz que não se separará dele dia e noite, enquanto permanecer em Zinora.

— Senhor, será que é possível, apesar de nossos espiões garantirem o contrário, que esse Portolanus de Tuzamen seja o feiticeiro Orogastus que retornou dos mortos?

— Deus tenha piedade de nós e do nosso povo, se isso for verdade. Você lembra como o mago cruel subverteu meu pai? Transformando-o, de um homem honesto, em um maníaco, dominado por uma ambição profana? O feiticeiro insinuou-se no cargo de grão-ministro de Estado, mas acho que na verdade ele pretendia se autoproclamar sucessor de Voltrik depois de me matar. Mesmo agora seu legado de traição e subversão persiste nas intrigas e rebeliões fomentadas secretamente pelo lorde Osorkon e seus amigos nas regiões limítrofes ao norte, perto de Raktum. Se o feiticeiro Orogastus estiver mesmo vivo, então Tuzamen não pode mais ser considerado um lugar de bárbaros atrasados. Com certeza ele usará suas artes ocultas para transformá-lo em uma poderosa nação...

—...e a rainha Ganondri vai se juntar a ele, contra nós — completou Penapat, com uma expressão sombria.

— Pode ser—Antar observou o grande navio raktumiano com os olhos semicerrados. — Mas ela não é boba, a rainha regente. E ela joga segundo regras próprias — o rei endireitou-se, sorriu e deu um tapinha no ombro do velho amigo. — Anime-se, Peni. Uma semana de banquetes, festas, altas manobras e baixas imposturas nos espera em Taloazin. Vamos acabar com essa pescaria inútil e afastar nossos bravos lordes da jogatina e da bebida. Quero ter certeza de que todos estejam com suas armaduras bem polidas e as espadas afiadas.

A rainha Anigel agradeceu carinhosamente ao filho mais novo por emprestar o telescópio, depois beijou-o e ordenou que ele fosse com Immu, tomar banho e trocar de roupa. Quando ele saiu desapontado, ela suspirou e deixou o instrumento de lado, sem usá-lo. — Tolo esquece que eu não preciso dessas coisas para ver ao longe.

Lady Ellinis, ministra doméstica dos Dois Tronos, desviou os olhos do documento que estava lendo e concordou.

— O seu talismã cumpre essa função, é claro. Além de outras. Ela era uma dama venerável e muito sensata, viúva do lorde Manoparo dos Companheiros Juramentados, que perdeu a vida defendendo inutilmente a mãe de Anigel. Ellinis e seus três filhos, muito inteligentes, eram os cortesãos mais íntimos de Anigel, assim como lorde Penapat, o chanceler Lampiar e Owanon, o lorde marechal, eram de Antar.

A rainha tirou o talismã mágico, chamado de Monstro de Três Cabeças, do vestido azul simples que usava e pôs sobre sua cabeça. Contrariando o nome assustador, o talismã era uma tiara de metal prateado muito brilhante, com seis pequenos vértices e três maiores, talhados com desenhos de flores e conchas e três caras grotescas. Uma de um skritek uivando, outra de um humano agonizante com a boca aberta de dor, e a terceira, que ficava no centro, era de um ser feroz com os dentes arreganhados, e raios de estrelas estilizadas no lugar dos cabelos. Embaixo disso havia uma gota de âmbar com um leve brilho e o minúsculo fóssil do Trílio Negro dentro, o amuleto protetor de Anigel desde o seu nascimento até a realização da sua missão de vida, quando encontrou o talismã.

— Vamos observar juntas a rainha pirata? — Anigel sugeriu a Ellinis. — O talismã divide sua clarividência se eu pedir. Só que a visão não durará muito, pois invocá-la para duas pessoas requer concentração profunda.

Os olhos escuros da lady ministra faiscaram de interesse.

— Adoraria a chance de vislumbrar Ganondri, minha senhora. Não a vejo em carne e osso desde quatro anos antes do seu nascimento, quando o filho dela falecido, rei Ledamot, casou com a infeliz Mashriya de Engi. Naquela época Ganondri era uma bela criatura, orgulhosa, mas com um comportamento discreto. Sei que isso pode parecer incrível, dada sua reputação atual.

— Segure minha mão — ordenou a rainha Anigel.

Ela então fechou os olhos e invocou a magia do talismã.

As duas viram o salão nobre de um navio, coberto de valiosas tapeçarias de plumas da Sobrania e mobiliado com cadeiras elegantes e baús trabalhados com aplicações de madrepérola, coral polido e pedras semipreciosas. Algumas arcas estavam abertas, derramando roupas caras sobre o tapete espesso. A rainha regente estava sentada a uma penteadeira laqueada, com um espelho de moldura dourada e franzia a testa, impaciente, experimentando inúmeros colares que lhe entregava uma tímida dama de companhia. Amgel e Ellinis não podiam ouvir o que a rainha ou sua damafalavam,pois a visão chegava apenas através do olho da mente.

Já idosa, Ganondri continuava sendo uma bela mulher, embora seu rosto emaciado estivesse sulcado por uma trama de linhas minúsculas e exageradamente pintado com cosméticos. A boca formava um bico rabugento e os olhos, emoldurados por longos cílios eram verdes e faiscantes de malícia. O cabelo, ainda abundante e penteado em um estilo muito intrincado, típico das mulheres da semibárbara Raktum, era vermelho pálido, como cobre recém-areado, crivado de mechas brancas extravagantes. Ela usava um vestido de veludo fino verde-água, todo bordado com fios de metal precioso e barrado com a rara pele dourada de worram.

Depois de descartar meia dúzia de jóias maravilhosas e de proferir o que bem podia ser impropérios impacientes, Ganondri se decidiu por um pesado colar de folhas de gonda de ouro, todas cravejadas com centenas de esmeraldas e diamantes aqui e ali, imitando gotas de orvalho. A trêmula dama de companhia então apresentou os grandes brincos de pingentes que formavam conjunto com o colar, mas a rainha recusou-os rudemente e pegou no lugar deles outros menores, de ouro, com um único diamante em cada. Nesse momento Anigel soltou a mão de Ellinis e a visão que partilhavam se dissolveu.

O gosto de Ganondri para jóias continua exótico — observou Ellinis com malícia.—Mas eu não gostaria de deparar com ela sozinha e desarmada em um canto escuro do castelo de Taloazin. Ela parecia prestes a devorar sua pobre dama, caso a menina oferecesse mais um colar que não servisse. Anigel estava pensativa.

Ela é uma inimiga formidável da nossa nação, de bom ou de mau humor, e já causou muitos danos na nossa fronteira norte. Fico pensando se o jovem Yondrimel será tolo o bastante para confiar nela?

— Se ele confiar, madame, pode aprender a lição do simplório que achou que podia assar uma salsicha em segurança sobre um vulcão!

Anigel suspirou e juntou os papéis que tinha acabado de preparar.

— Por favor, leve isso para o lorde Lampiar, Elli. Lembre a ele que Antar e eu ainda temos de assinar uma mensagem de felicitação que deve acompanhar os presentes de Yondrimel. Se o escriba não tiver terminado de escrever, deve se apressar. Os presentes têm de ser mandados na frente do nosso grupo, assim que aportarmos em Taloazin.

Ellinis levantou-se e recolheu seu trabalho junto com o da rainha. Era fácil perceber que Anigel estava preocupada e profundamente deprimida com a perspectiva da visita que ia fazer. Pôs a mão suavemente sobre o ombro da mulher mais jovem.

— Devo pedir a Sharice que traga um pouco de vinho doce e obréias para recuperar suas forças?

— Não, obrigada. Tenho de pensar sobre certas coisas com a cabeça clara.

A velha dama sorriu com simpatia.

— Não me julgue insistente, madame, mas devo pedir que aproveite o tempo antes do desembarque para se refrescar e trocar de roupa.

— Sim, sim—disse Anigel impaciente.—Não vou desgraçar nossa nação parecendo a desleixada real.

— Ficaria maravilhosamente bela se aparecesse vestida de trapos — disse Ellinis, sem se deixar intimidar. — Mas nosso povo ficaria desapontado, e nossos inimigos felicíssimos.

Ela fez uma mesura e saiu, deixando a rainha sozinha diante da pequena mesa sob o toldo listrado.

Naquela parte da popa não dava para ver nenhum marinheiro ou qualquer outra pessoa. O vento tinha quase parado de soprar depois que passaram do cabo, e duas grandes fileiras de remos impulsionavam a nau laboruwendiana através da calma baía das Pérolas. Os outros navios também usavam seus remos e a trirreme raktumiana, acompanhada de suas três embarcações menores, estava bem adiantada.

— E quanto aos tuzamenianos? — perguntou Anigel para si mesma.

Fechou os olhos novamente e invocou o talismã. Dessa vez a visão era muito mais ampla e incluía todos os sons naturais. Ela parecia uma gaivota dando um voo rasante nas ondas, aproximando-se de um navio solitário com quatro mastros, pintado de branco. As velas mestras, brancas como a neve, não apresentavam nenhum desenho, mas em cima do mastro principal panejava uma bandeira negra com uma estrela cheia de raios.

— Mostre-me Portolanus! — ordenou Anigel ao talismã.

A visão entrou em foco no tombadilho superior do navio tuzameniano, onde o capitão e alguns oficiais estavam reunidos atrás da roda do leme.

No meio dos oficiais havia uma forma embaçada, com o contorno de um homem.

— Mostre-me Orogastus!

A imagem do navio desapareceu, mas o que surgiu em seu lugar foi um rodamoinho caótico composto de tons diferentes de cinza. Quando Anigel soltou uma exclamação frustrada, esse rodamoinho começou a clarear e diminuir, até sobrar apenas uma única faísca ofuscante de luz branca, que piscou e apagou.

— Mostre-me Kadiya.

Outra embarcação, dessa vez um veloz navio mercante ostentando a bandeira de Var. Estava se aproximando muito depressa do lúgubre porto zinorano de Kurzwe, que ficava a cerca de quatrocentas léguas a oeste da capital, Taloazin. Kadiya estava deitada de bruços em cima do gurupés, segurando em um cabo com uma só mão, enquanto o mar corria a muitos metros por baixo dela. Vista assim de perto, Kadiya parecia mais uma náufraga do que a indômita Dama dos Olhos. Usava uma roupa de couro manchada de sal e o cabelo estava todo despenteado, grudento de maresia. Mas os olhos inchados e os fios de água no seu rosto não eram da maresia, e o coração de Anigel quase se partiu de dó diante do desamparo da irmã.

Pobre Kadi! Ela era a mais fogosa e corajosa das três. Jamais vacilava ou duvidava de suas habilidades como Haramis, nunca se preocupava com o trabalho ou coisas sérias, como Anigel mesmo.

Era verdade que muitas vezes Kadiya propunha soluções simples demais para problemas difíceis, e às vezes deixava a paixão dominá-la e perdia o controle. Mas nenhum outro ser humano amava tanto os aborígenes e nem estava sempre pronto para dar a vida por eles, se necessário.

E agora ela se sentia humilhada por causa da perda do talismã, desesperada por enfrentar a perspectiva de voltar para as perigosas ilhas com companheiros que eram bravos, mas quase nada sabiam de navegação e de sobrevivência em um clima marítimo. Incapaz de se comunicar com as irmãs, mas certa de que elas já tinham conhecimento daquela perda terrível, ela não sabia que Anigel e Haramis estavam montando um esquema para recuperar o talismã perdido, logo que a coroação terminasse.

Tenha coragem, querida Kadi! Hara e eu vamos ajudá-la a recuperar seu Olho Ardente Trilobado.

Será que a figura deprimida levantara a cabeça? A expressão desanuviou? Será possível que ela tenha ouvido? Anigel rezou para que isso fosse verdade. Kadiya enxugou os olhos e ergueu o corpo, de forma que ficou montada no gurupés, em vez de ficar perigosamente deitada ao longo dele. As lágrimas pararam de rolar e ela assumiu uma nova expressão, pensativa.

É isso, Kadi, é isso! Lembre que somos Três e somos Uma!

Então Anigel deu uma última ordem ao talismã.

— Mostre-me Haramis.

Levantando a cabeça de um grande mapa que estudava na biblioteca, a Arquimaga olhou para a irmã trigêmea mais nova e sorriu.

— Está triste, Ani?

— Confesso que acabo de visualizar Kadiya, e seu profundo desespero atravessou meu coração. Espero que você esteja certa, que o meu talismã, levado ao lugar em que o dela afundou, chame de volta o Olho Ardente Trilobado para a mão de sua dona.

— Tudo vai acabar bem — confortou a Arquimaga. —Nossa irmã não perdeu seu talismã por descuido, foi apenas uma infelicidade. Ela não tem culpa nenhuma e a mágica que alimenta seu talismã e o une a ela continua intacta.

— Mesmo assim — disse Anigel —, fico intranqüila de não ir procurá-lo imediatamente.

— Já discutimos e resolvemos essa questão antes. Sua presença é necessária na coroação, pela honra do seu país. O talismã de Kadiya está bem seguro nas profundezas do mar. Qualquer um que tente tocar nele, sem a permissão dela, certamente morrerá, e Portolanus, com sua caixa-estrela, não está nem perto. O mais provável é que ele nem saiba que Kadi o perdeu.

— É. Decerto você tem razão.

— Kadiya vai levar algum tempo para voltar para as ilhas, mesmo se conseguir fretar um barco zinorano. Se ela e seus companheiros forem por conta própria, terão de avançar com enorme cautela, mantendo sempre a terra à vista até chegarem ao extremo norte das Windlorn, e então seguir para Ilha do Conselho. O lugar fica a mais de oitocentas léguas de Kurzwe, mesmo pela rota mais curta. Você certamente poderá ultrapassá-los nos seus navios velozes, mesmo depois da semana inteira de festividades da coroação.

— É, eu concordo. Será bem fácil encontrá-la com o monstro das Três Cabeças... Presumo que você ainda não conseguiu falar com Kadi.

— Infelizmente não — admitiu Haramis. — Tentei diversas vezes, sem resultado. Minha predecessora, Binah, conseguia conversar com humanos e membros do povo através de léguas, mas tinha bem mais anos de prática do que eu. Quando Kadiya está sem seu talismã, não posso falar com ela, apesar de vê-la claramente.

Anigel hesitou um pouco antes de falar.

—Quando a vi agora mesmo, não me contive e fiquei triste por ela, desejei seu bem. Ela... pareceu que ela pressentia meus pensamentos.

— É mesmo? Talvez seja seu profundo amor e senso de compaixão que impulsionem sua mensagem mental. Confesso que andei zangada com Kadi ultimamente e, sem dúvida, isso afeta minha concentração. Às vezes me desespero só de pensar, se um dia aprenderei mesmo a ser uma verdadeira Arquimaga. Eu estudo e estudo e estudo, mas quando chega a hora de usar magia, eu erro demais.

— Que bobagem! A velha Dama de Branco escolheu você.

— Pode ser que ela tenha optado pela menos ruim, em uma cesta cheia de frutas estragadas... Mas não devo aborrecê-la com minha persistente insegurança. Vou ficar de olho em todos os participantes do teatro que está para acontecer, e informo a você se notar que qualquer complô nefasto está florescendo. Abençoada seja, irmãzinha, e cuide-se bem.

Quando a visão de Haramis desapareceu, o brilho do bom humor e da esperança de Anigel também se foi. Meditando, ela olhava para a popa do navio, para além das outras três embarcações laboruwendianas, para o horizonte e o imponente cabo que acabavam de rodear.

Outro barco entrava na grande baía das Pérolas. Um barco tão branco facilmente visível, apesar de estar, possivelmente, a cinco léguas de distância. Ela não conseguia tirar os olhos dele, e seguiu seu progresso como se estivesse hipnotizada, até o rei Antar chegar, quinze minutos depois, para afastar aquela apreensão com um beijo e levá-la para o almoço.

O pequeno príncipe Tolivar, aborrecido depois de ter de aguentar a longa cerimónia zinorana de coroação no Templo da Mãe, teve um faniquito e não queria deixar Immu vesti-lo, quando soube que o irmão mais velho, Nikalon, ia usar uma espada em miniatura no baile da coroação, e ele não.

— Niki sempre fica com as melhores coisas, só porque é o príncipe herdeiro — choramingou o menino de oito anos. — Não é justo! Se eu não puder ter uma espada, eu não vou!

Então ele saiu correndo, fazendo com que os empregados domésticos partissem no seu encalço, subindo e descendo escadas, entrando e saindo das inúmeras salas da embaixada de Laboruwenda em Taloazin, enquanto a carruagem aguardava do lado de fora e o rei e a rainha ficavam cada vez mais irritados com a demora. Uma dupla de valentes lacaios acabou arrancando o menino do seu esconderijo na adega, mantendo-o bem preso, ainda se esgoelando, enquanto Immu vestia sua roupa de brocado roxo. A essa altura o rei Antar já estava tão furioso com o pequeno filho rebelde que resolveu castigá-lo, declarando que Tolo não usaria o telescópio mágico na viagem de volta para casa.

— Você me odeia! — gritou o menino enraivecido para o pai, com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Você sempre trata o Niki melhor do que a mim. Vou fugir para Raktum e ser um pirata, daí você vai querer ter me deixado usar uma espada!

Os pais aborrecidos puseram Tolo e as outras duas crianças rapidamente na carruagem e disseram ao cocheiro para chicotear os froniais. Por causa disso eles foram o último grupo real a chegar no novo palácio de lazer à margem do rio, onde aconteceria o baile. Na apinhada antecâmara do salão de baile, Anigel e Antar deixaram as crianças, temporariamente, aos cuidados do lorde Penapat e sua esposa lady Sharice, e se apressaram atrás de um guia zinorano para encontrar seus lugares na procissão da felicitação.

— Por que não podemos ir com mamãe e papai? — perguntou Tolo petulante.

—Porque ainda não chegou a nossa vez—retrucou o príncipe Nikalon. — Pare de agir feito uma peste mimada.

— Vocês três irão atrás dos reis e rainhas e outros líderes — disse lady Sharice alegremente. — Agora venham comigo e tio Peni. Temos um lugar especial de onde poderemos ver o novo rei de Zinora saudar seus convidados mais importantes.

— Acho que isso não vai ter muita graça — resmungou Tolo.

—Não é para ser engraçado — explicou a princesa Janeel. — É seu dever. Depois que a procissão terminar, podemos comer, dançar e nos divertir. Mas primeiro você tem de se comportar durante um tempo.

A princesa segurou uma das mãos de Tolo e lady Sharice segurou a outra, e as duas arrastaram o menininho até um lugar cercado com cordas azuis de cetim. Lá já estavam reunidos muitos outros familiares reais, maravilhosamente vestidos, e membros da alta nobreza, crianças e adultos, a maioria conversando e rindo.

Com um olhar furioso, Tolo jogou-se no chão de mármore polido, no meio da multidão distraída.

— Vou sentar bem aqui — disse ele, ignorando os apelos escandalizados de lady Sharice.

Lorde Penapat abaixou-se e começou a passar um pito no menino, mas um instante depois parou e se levantou, esquecendo Tolo e sua malcriação quando alguém se manifestou em voz alta.

— O feiticeiro! Olhem... é Portolanus de Tuzamen que está chegando!

Tolo ficou de pé em um segundo.

— Tio Peni, me levanta! Quero ver o feiticeiro!

— Certamente, rapaz — Penapat pôs o menino sobre seus ombros. — Lá está ele, acaba de passar pela porta. Pelas tripas de Zoto! Que figura impressionante!

— Ohhh! — Tolo arregalou os olhos, de espanto. — Ele vai fazer mágica esta noite?

— Tenho certeza que sim — disse lady Sharice, dando uma risadinha alegre — Ah, sim, tenho certeza que vai mesmo

— Deve ser muito bom ser um feiticeiro — suspirou Tolo. — Ninguém jamais consegue forçar um feiticeiro a fazer uma coisa que ele não quer... Talvez eu seja um feiticeiro quando crescer, em vez de um pirata.

Lorde Penapat pôs o menino no chão, rindo.

— Que idéia estranha!

— Você vai ver — disse Tolo.

Mas nesse momento ele se viu às voltas com a animação do início do baile da coroação, e esqueceu completamente o que disse.

Portolanus evitou, deliberadamente, participar da rodada preliminar de pompa e festejos, que antecedia a coroação, e também ficou bem para trás durante a cerimónia propriamente dita, tão completamente cercado por seus assistentes e cortesãos que poucas pessoas conseguiram vislumbrá-lo. Só naquele luxuoso baile, em que os governantes das diversas nações se adiantavam, em uma parada solene, para felicitar o recém-coroado rei Yondrimel, é que o autodenominado Mestre de Tuzamen finalmente faria sua primeira aparição pública.

Sozinho, com uma roupa fantástica e inadequada, ele foi para um lugar no final da cintilante procissão da felicitação, parecendo não ouvir os sussurros, nem notar que os olhos dos dignitários e nobres do salão estavam fixos nele, e não no rei Yondrimel.

Uma orquestra de cem músicos tocava. O enorme salão tinha paredes adamascadas vermelho-vinho, pilastras douradas e gigantescos espelhos emoldurados com hematitas, jaspes e ônix. Tudo iluminado por grandes candelabros dourados com milhares de velas flamejantes. As altas janelas, dos dois lados do salão, estavam abertas, deixando entrar a brisa perfumada dos jardins.

Era o começo da noite. Quase mil convidados ilustres tinham comparecido ao palácio de lazer situado na margem do rio Zin, construído especialmente para a ocasião. A maioria era composta de nobres zinoranos, enfeitados com valiosas pérolas, o orgulho da nação. Entre os visitantes, os raktumianos eram os mais numerosos. Muitos homens e mulheres piratas usavam capacetes ornamentados e couraças cravejadas de pedras preciosas, em vez de vestimentas formais.

A rainha Anigel e o rei Antar estavam entre os últimos a ocupar seus lugares na procissão.

— Não vejo nenhuma semelhança com Orogastus nesse homem Portolanus — murmurou Antar para a mulher, enquanto analisava a bizarra figura do Mestre de Tuzamen. — O feiticeiro que conheci há doze anos tinha feições belas e era corpulento. Esse camarada tem um porte curvado e semblante esquisito, feições retorcidas, quase cômicas. Não há nada de imponente ou ameaçador nele. Parece mais um curandeiro do que feiticeiro, com aquele capuz pontudo idiota, com a estrela de diamante em cima, tão enfiado na cabeça que até suas orelhas estão dobradas!

O governante tuzameniano realmente estava longe de ser uma figura imponente. A barba cheia de falhas e o bigode, ridiculamente longo, eram de um amarelo forte, crespos e oleosos demais. O manto era verde berrante com listras cor de laranja, tão amplo, que parecia uma tenda. A metade dos convidados no salão de baile zombava dele, mas ele nem se importava, sorria e piscava ridiculamente para todos, à direita e à esquerda, agitando os dedos nodosos em um gesto malicioso de saudação.

— Portolanus não conquistou Tuzamen através de destreza manual — cochichou a rainha Anigel com uma certa rispidez. — Concordo que dessa distância ele não se parece com o velho Orogastus, e não apresenta nenhuma aura de encantamento oculto, que Haramis pediu para eu observar. Mas muitos anos se passaram e ele deve ter sofrido uma grande privação na calota de gelo. Sua aparência pode ter mudado enormemente. Tenho de dar uma espiada mais de perto, quando acabarmos de falar com o rei Yondrimel. Até aqui, Portolanus foi tão indefinível quanto um lingit em um gabinete, à luz de uma lamparina.

Clarins soaram bem alto.

— Oh, lá vamos nós — suspirou Anigel. — Minha coroa está direita? É tão pesada que mal posso esperar para tirá-la.

— Você é a rainha mais gloriosa do salão —- assegurou Antar. Ele havia desistido de usar a ornamentada armadura de desfile e o capacete-monstro cravejado de pedras preciosas, que eram as tradicionais insígnias reais de Labornok. Seu diadema de platina e diamantes era pequeno e quase modesto, se comparado à grande coroa da rainha de Ruwenda que brilhava com esmeraldas e rubis, tendo por cima um broche em forma de sol radiante feito de diamante, com um grande nódulo de âmbar no centro. No interior da gota de âmbar havia um Trílio Negro fossilizado, emblema do pequeno país pantanoso que incrivelmente derrotou seu vizinho mais poderoso, o que resultou na união dos Dois Tronos. Os dois, Anigel e Antar, estavam de azul, o manto dele bem escuro como a noite, cingido por um cinturão com espada cravejado de safiras, e o dela de um azul profundo como o do céu da época seca, com a tradicional blusa de gorgorão bordado com gemas miúdas nas mangas, no corpete e em partes da cauda. Ela usava um colar de pequenas contas de âmbar com trílio, decorado com cabochões de safiras, combinando com seus olhos.

Os dignitários que avançavam na direção do jovem rei de Zinora eram alinhados de acordo com uma ordem rígida de precedência, com a nação mais antiga na frente e a mais nova, Tuzamen, por último. Os primeiros a prestar homenagens foram o príncipe eterno Widd e a princesa eterna Raviya, da minúscula ilha do principado de Engi, um país tão pouco dotado e com uma população tão pequena, que até os piratas de Raktum não se dignavam a saqueá-lo. Mesmo assim Engi se orgulhava de ser a casa real mais venerável do mundo conhecido. Seus marinheiros eram também os mais habilidosos e o príncipe eterno, apesar de toda a aparência excêntrica, era um velho muito astuto, que já mediara muitas disputas peninsulares.

Anigel sorriu ao notar que a querida Raviya estava usando o mesmo vestido de brocado marrom, ligeiramente gasto, que usou na escolha do nome do príncipe Tolo, oito anos atrás. Widd usava sua coroa um pouco de lado e calmamente deu uma boa coçada nos fundilhos principescos, enquanto oferecia alguns enérgicos conselhos a Yondrimel.

Depois foi a vez do rei Fiomadek e da rainha lia de Var, ele rotundo e com modos pomposos, ela bem doce e maternal. Os dois usavam tantas jóias que Anigel achou incrível conseguirem ficar de pé. Vizinha mais próxima do lado oriental de Zinora, a próspera Var via com uma certa apreensão o flerte do jovem rei com Raktum e Tuzamen. Fiomadek mostrava uma cordialidade nervosa e matraqueava sem parar, enquanto lia fazia desaparecer o sorriso do jovem rei ao pedir para ele não se demorar na escolha de uma noiva.

Então chegou a vez de Anigel e Antar. Como Ruwenda era a nação mais antiga das duas, Anigel falou primeiro, limitando-se a lacônicas felicitações. Antar foi mais específico.

— Desejamos que tenha um reinado longo e próspero, irmão, e pretendemos exclusivamente manter as boas relações que sempre existiram entre Zinora e Laboruwenda durante o reinado do seu falecido pai. Os Dois Tronos, juntamente com os monarcas de Engi e de Var, recebê-lo-iam de bom grado no Pacto Peninsular, se assim desejar.

Yondrimel era alto para seus dezoito anos, tinha olhos azuis como água que dardejavam de um lado para outro, como se esperasse a chegada iminente de alguém mais importante. Possuía o hábito enervante de ficar o tempo todo umedecendo os lábios finos com a ponta da língua. Anigel e Antar antipatizaram com ele à primeira vista. Ele os tinha recebido com frieza, seis dias antes, e ficara claramente desapontado por não terem levado presentes mais caros. Para a coroação estava todo vestido de couro branco macio e tecido em ouro, com um diadema também de ouro, com inúmeras pérolas de cores diferentes. O cinturão que usava a tiracolo e a bainha da espada e do punhal também eram enfeitados com pérolas. Em uma corrente em volta do pescoço ele usava uma magnífica pérola rosa iridescente, quase do tamanho de um ovo de griss.

— Agradeço essas palavras gentis — disse Yondrimel suavemente. — Embora meu real pai, de lembranças felizes, tenha se recusado a participar da sua aliança por motivos que pareciam válidos para ele, considerarei com todo cuidado seu valioso convite, com a mesma deliberação que dedico às propostas das outras nações de boa vontade.

Antar e Anigel assentiram com a cabeça, sempre sorrindo, e começaram a se afastar para uma pequena alcova onde serviam comes e bebes para os governantes. Atrás deles aproximou-se com passos largos o chefe bárbaro Denombo, que se autodenominava imperador da Sobrania, com uma vestimenta assombrosa de penas multicores, e começou a fazer um discurso bombástico para o jovem rei. A música estava propositadamente alta, de forma que os espectadores a mais de três ou quatro metros de distância não pudessem ouvir as conversas entre o rei e seus simpatizantes reais.

— Acho que Yondrimel não recebeu muito bem nosso convite para participar do pacto — sussurrou Anigel para o marido. — Temo que o príncipe Widd e o rei Fiomadek tivessem razão, quando sugeriram que ele tem ambições perigosas.

Antar estava carrancudo.

— Se de fato os aborígenes hostis proibirem o comércio de Zinora com as ilhas Windlorn, então suas fortunas diminuirão muito. Var é um prémio de consolação tentador.

— Será que Yondrimel seria tão tolo assim, a ponto de desafiar a península inteira e invadir Var?

— Sozinho não, é claro. Ele não tem navios suficientes, e por terra é impossível. Mas se Raktum juntar-se a ele...

— Então nós, do pacto peninsular, teríamos de lutar ao lado do nosso aliado — os dedos de Anigel apertaram o braço do marido. — Oh, Antar! Estamos em paz há tanto tempo... Receio que o povo de Ruwenda não terá muita disposição para travar uma guerra pela próspera Var.

— E se mandarmos nossos leais cavaleiros e soldados labornokianos para o sul, nossa fronteira ao norte vai virar uma porta aberta, contando apenas com Osorkon e os outros lordes de lealdade duvidosa para nos defender de uma possível invasão raktumiana. As forças terrestres da rainha Ganondri são insignificantes, se comparadas à sua grande armada de navios, mas quem sabe quantos exércitos equipados com armas mágicas o Mestre de Tuzamen porá à disposição dela?

— Meu querido, teremos de fazer alguma coisa quanto a Osorkon e sua facção de duas caras, assim que voltarmos para Derorguila — resolveu Anigel. — Precisamos adiar a mudança sazonal para a cidadela de Ruwenda até definir essas questões em Labornok.

Chegaram à alcova dos comes e bebes, mas ao invés de aproveitar a elegante exibição de comidas e bebidas, foram juntar-se aos governantes de Engi e de Var, que estavam acintosamente boquiabertos diante da procissão interminável, cochichando entre si.

O vulgar imperador da Sobrania tinha terminado suas felicitações e saiu marchando com um ar presunçoso estampado no rosto de barba vermelha. Atrás dele Yondrimel lambia os lábios feito doido e parecia encolher dentro da roupa da coroação ao confrontar-se com uma mulher gorda, de meia-idade, que sorria gentilmente. A rainha Jiri da próspera nação ocidental de Galanar tinha ainda seis filhas solteiras, além das três que conseguira casar com os governantes de Imlit e Okamis.

—Agora ele não escapa—sibilou o príncipe eterno Widd, sem disfarçar sua satisfação.

O rei e a rainha de Var o acompanharam, fazendo comentários maliciosos sobre a perspectiva de Yondrimel permanecer solteiro por muito tempo, diante da formidável capacidade casamenteira de Jiri. A rainha de Galanar conversou longamente com o jovem rei, que foi flagrado secando o suor das mãos e da testa com um lenço de seda, depois que ela finalmente beijou-o no rosto e afastou-se.

A seguir chegaram os dois duumvirs, simplesmente vestidos, da república de Imlit, e o presidente de Okamis (com suas maravilhosas esposas galanaris), cujos discursos foram caridosamente breves. Foram seguidos pela rainha regente de Raktum e o neto, o rei Ledavardis, em sua primeira aparição nas comemorações zinoranas, pois estava ”indisposto” mais cedo.

— Céus, ele é mesmo um rapaz repulsivo, não é? — sussurrou a rainha Jiri para Anigel. — Eu não conseguia chegar a uma conclusão se devia ou não homenagear Raktum com uma proposta de noivado, pois afinal eles são piratas, e devemos manter nossos padrões... Mas vendo o reizinho duende em carne e osso, dou graças à minha indecisão.

Ledavardis era uma visão desagradável, mais ainda por estar à direita de sua esplêndida avó, que usava um vestido de veludo vermelho com ouro, diamantes e rubis incrustados, e uma coroa que tinha o dobro do tamanho da coroa de Ruwenda. Aos dezesseis anos, o rei de Raktum era robusto, mas baixo demais, com ombros largos e a coluna torta. A cabeça, coroada com um simples círculo de ouro, era grande demais para o pescoço fino que a sustentava, e as feições eram grosseiras, a não ser pelos tristes olhos castanhos, grandes e luminosos como os de um pássaro noturno. Sua roupa era toda de seda preta com laivos dourados, e apenas servia para enfatizar suas deformidades. Ele não se manifestou quando a rainha Ganondri e Yondrimel se cumprimentaram efusivamente. Quando o outro jovem rei tentou puxar conversa com Ledavardis, ele murmurou apenas algumas palavras, fez um gesto desajeitado de saudação e saiu com surpreendente agilidade para aalcova. Ganondri, obviamente constrangida com o neto, foi forçada a encurtar a conversa e segui-lo.

Ela caminhou calmamente para a sala de comes e bebes com o queixo erguido, ignorando o grupo de governantes que rapidamente abria caminho para ela, e foi direto para os cântaros de cristal que continham vinho, onde serviu-se de um grande cálice. O ignorante imperador de Sobrania, o único que até aquele momento tinha experimentado a comida e a bebida, parou de encher a boca de ave grelhada e ficou observando a expressão de desprezo de Ganondri por um momento. Então, como se tivesse perdido o apetite, juntou-se aos outros, que espiavam o Mestre de Tuzamen.

Portolanus não se apressou para chegar até Yondrimel. Os diamantes no topo do seu chapéu pontudo cintilavam à luz das velas, ele vacilava, desajeitado, pelo chão de mármore branco do salão, com uma lentidão irritante, e continuava a fazer arremedos de saudações e caretas cômicas para os espectadores. Estes já estavam rindo abertamente e dando outros sinais de estarem contentes com o fim dos tediosos rituais de abertura da festividade, e com a subida ao palco da estrela, afinal.

O rei Yondrimel franziu a testa, depois recompôs imediatamente a expressão, umedecendo os lábios muitas vezes, como se quisesse evitar que rachassem quando sorrisse para aquela aparição que se aproximava. Ele ergueu as duas mãos em um gesto de calorosa amizade, coisa que só tinha feito antes para Ganondri e Ledavardis.

De repente Portolanus levantou o braço direito.

A música cessou misteriosamente, no meio de um compasso.

A multidão assombrou-se e prendeu a respiração.

O feiticeiro segurava um bastão dourado com um cristal facetado na ponta, que lançava raios prismáticos. Apontou aquilo para o rei, parodiando um golpe de sabre, com um sorriso largo. Yondrimel recuou, apreensivo e espantado.

— Ah-ah — cacarejou o Mestre de Tuzamen. — Está com medo?

Ele atacou novamente, e apareceu uma faísca brilhante e uma nuvem de fumaça. Um monte de pequenas e cintilantes moedas de platina que chegava à altura do joelho surgiu diante do jovem monarca surpreso, tilintando quando alguma deslizava para o chão. Os dignitários, que observavam, e a multidão de nobres e cortesãos soltaram exclamações de espanto.

Yondrimel engoliu as palavras de indignação que ia proferir quando o feiticeiro desafiou sua coragem. Estalando os lábios, começou a agradecer Portolanus pelo grande monte de dinheiro, mas calou-se quando o mestre zany passou a rodopiar como pião, o volumoso manto verde e laranja inflando em volta dele. O bruxo rodopiante transformou-se em uma bola fora de foco, mas o chapéu cônico com a estrela de diamante continuava imóvel. Então a bola caiu e virou uma perfeita poça de tecido, com o chapéu ridiculamente em pé, bem no meio.

Portolanus tinha desaparecido.

— Pelos dentes de Zoto — murmurou Antar. — Ele não passa de um mágico de festival!

Alguma coisa estava acontecendo embaixo da roupa listrada. O chapéu pontudo tremia. O tecido começou a vibrar em círculos concêntricos, então subiu com contornos irregulares, enchendo novamente como um balão, enquanto o chapéu era jogado de um lado para outro no topo. A esfera listrada ficou com o dobro da altura de um homem e a multidão soltava gritos estridentes, deleitando-se antecipadamente com o espetáculo, sem um pingo de medo. Dentro do balão o brilho de uma luz crescia e diminuía e o chapéu saltitante subitamente virou de cabeça para baixo, de forma que a estrela de diamante pousava sobre a roupa.

A estrela projetou-se para baixo, furando o balão brilhante. Deu-se um clarão estonteante e ouviu-se uma grande explosão. Todos gritaram, e quando recuperaram a visão, viram Portolanus de novo, com a mesma roupa, batendo com as mãos nos joelhos e dando gargalhadas de prazer. Depois de um instante aturdido, o rei Yondrimel começou a sorrir e a aplaudir, e os nobres e cortesãos apressaram-se a imitá-lo.

— Um truque barato de charlatão — disse Antar para Anigel, dando as costas para Portolanus e preparando-se para pegar um cálice de vinho.

Mas o feiticeiro deu um grito, apontando sua varinha de cristal.

— Pare!

Todos os olhares acompanharam a direção do bastão até o rei Antar. Fez-se silêncio de repente. Antar virou-se devagar e olhou para Portolanus com expressão impassível e dura feito pedra. Uma das mãos descansava sobre o punho da espada.

— Você falou comigo, mago?

— Falei sim, grande rei de Laboruwenda — ele usava um tom de adulação. — Se condescender em aproximar-se, o Mestre de Tuzamen terá o prazer de demonstrar maravilhas que podem impressionar até mesmo o seu ceticismo real.

Anigel segurou o braço do marido, sussurrando nervosa.

— Não, meu amor! Não vá!

Mas Antar soltou o braço e caminhou com passos largos de volta para o centro do salão de baile, onde Yondrimel estava, chafurdando no tesouro espalhado, boquiaberto, os olhos fixos, prestando atenção, para variar. Uma rajada forte e repentina de vento enfunou as cortinas transparentes, e lá longe se ouviu o ribombar de um trovão. Imediatamente ocorreu o estalo de um outro relâmpago, o grande raio iluminou os jardins à beira do rio e o palácio de lazer estremeceu com o estampido do trovão que se seguiu.

O feiticeiro sorriu.

— Além dos pequenos divertimentos que já mostrei, estou preparado para apresentar demonstrações mais espetaculares de poder. Por exemplo, essa tempestade fora de época.

Uma outra série de relâmpagos deixou o jardim todo iluminado, como se fosse dia. Ao longo dos caminhos quicavam globos brilhantes fantasmagóricos, de fogo azul do tamanho de melões. Mais bolas de fogo dançavam pelos mastros dos grandes navios atracados ao longo do cais na margem do rio. Antes que a multidão estarrecida manifestasse alguma reação, uma daquelas coisas entrou voando por uma janela, sibilando, e caiu exatamente na ponta do bastão que Portolanus segurava bem alto.

— Pela Flor! — exclamou Anigel assustada. — Ele controla a tempestade!

O rosto retorcido do feiticeiro refulgiu sorrindo diante dela, horrivelmente iluminado pela bola de raios azuis que estalava acima dele.

— Ah, sim. E muito mais, altiva rainha. Eu dou recompensas para os meus amigos e exatamente o oposto para meus inimigos e caluniadores. Aconselho todos vocês a lembrar disso.

Então, negligentemente, ele jogou a bola fulgurante em Antar.

Rogando uma praga, o rei sacou sua espada e deu um golpe poderoso no estranho míssil. No momento em que a lâmina encostou no fogo azul, tanto Antar quanto Portolanus desapareceram no meio de duas nuvens de fumaça.

Anigel deu um grito e correu para a frente, arrancando o talismã do vestido, segurando-o com as duas mãos.

— Fique, Portolanus! Eu ordeno que fique aqui e devolva meu marido!

O palácio foi mais uma vez atacado por uma grande explosão de relâmpagos e trovões, e todos gritavam, enquanto o vento açoitava os candelabros e as velas começarem a apagar. Anigel sufocou um gemido quando ficou claro que o talismã não ia trazer Antar nem o feiticeiro de volta. Ela virou-se furiosa para o rei Yondrimel. O jovem monarca estava branco de terror e seus cortesãos e guardas corriam para perto dele.

Anigel parou diante dele, segurando o talismã bem no alto. O âmbar com o trílio no meio brilhava como um sol minúsculo e o âmbar da grande coroa do estado e do colar cintilavam com quase a mesma intensidade.

— Dê ordem para Portolanus trazer o rei Antar de volta! — berrou ela com uma voz terrível para Yondrimel. — Seu canalha traiçoeiro! Eu ordeno!

—Não posso trazê-lo de volta! — gemeu o jovem rei. —Não me machuque! Eu não sabia... não tinha idéia... nunca me disseram que...

—Vejam!—trovejou o imperador da Sobrania. — Lá fora, no rio! Os navios piratas raktumianos zarparam! E a embarcação do feiticeiro também! Aposto coroas de platina como seqüestraram Antar!

Todos correram para aquele lado do salão de baile para ver. Os clarões praticamente contínuos de relâmpagos iluminaram cinco navios indo para o meio do leito do rio e descendo para o estuário, as velas inchadas com a ventania. Quatro eram negros e um branco. A multidão levou apenas alguns segundos para perceber que os convidados de Tuzamen e de Raktum tinham simplesmente desaparecido durante o número de mágica.

— Atrás dos bastardos! — gritou a temível rainha Jiri de Galanar.

Os nobres e cavaleiros de Laboruwenda, de Var e de Engi atenderam ao chamado, imediatamente seguidos pelos valorosos guerreiros de Imlit e Okamis. A comoção foi grande. O imperador Denombo e seus sobranianos, enfeitados com plumas, brandiram suas espadas de duas pontas e saíram pelas janelas do salão de baile uivando seu grito de guerra, pisoteando os canteiros de flores, a caminho do cais. Outros foram atrás por caminhos mais convencionais, sem se importar com o fato de suas roupas finas ficarem encharcadas com a chuva pesada que começava a cair.

Anigel com lady Ellinis, a princesa eterna Raviya e a rainha lia de Var procurando consolá-la, continuava imóvel no centro do salão de baile que ia ficando vazio. O rei Yondrimel tinha desaparecido, junto com a maior parte de seus compatriotas. Algumas crianças reais começaram achoramingar. Os convivas mais idosos, e também as mulheres que não tinham saído com os guerreiros, formaram um grupo de simpatizantes da rainha laboruwendiana.

Anigel continuava segurando o talismã bem no alto.

— Mostre meu marido, Antar! — ordenou ela.

Os que estavam em volta soltaram exclamações de espanto quando o broche transformou-se em um espelho que girava com a luz. Então a imagem de um homem vestido de azul escuro apareceu. Estava deitado, inconsciente, em um pequeno leito desarrumado, que ficava obviamente no porão de algum navio. Suas pernas estavam amarradas e três piratas corpulentos, ainda em trajes de festa, vigiavam-no com suas lâminas desembainhadas.

— Mostre qual navio carrega Antar! — gritou Anigel.

O talismã mostrou a enorme trirreme da rainha regente de Raktum.

— Mostre Portolanus!

O cenário mudou para o convés de popa do navio da rainha Ganondri. Nele estavam a própria rainha regente, o manto vermelho esvoaçando ao vento, alguns oficiais do navio e a já conhecida imagem fora de foco, com contorno de um homem.

— Mostre a disposição de navegação dos navios raktumianos e tuzamenianos juntos! —comandou Anigel.

A área interna do broche mostrou os cinco navios enfileirados, descendo velozes o rio. A grande trirreme negra ia atrás, suas três linhas de remos brilhando à luz dos relâmpagos. A visão piscou e apagou depois de poucos segundos.

— Anime-se, mocinha — disse a venerável princesa Raviya para Anigel, dando um tapinha no ombro da outra para encorajá-la.

-— Com este vento, nossos velozes cúteres alcançarão os vilões bem depressa, destruindo seus remos e lemes.

— E o bom imperador Denombo e seus guerreiros bárbaros estarão logo atrás — acrescentou a rainha lia. — O navio dele é quase tão grande quanto o navio pirata, e mais bem equipado para abalroar.

—Os raktumianos não poderão usar suas catapultas de enxofre nessa chuva — disse lady Ellinis. — Com um pouco de sorte, pegaremos os bandidos antes que cheguem ao mar aberto...

— Não — disse Anigel desolada. — Olhem aqui, no meu talismã.

Aqueles que podiam se acotovelaram para chegar mais perto e espiar a nova visão mágica por cima do ombro dela. O primeiro navio engiano acabava de aparecer logo atrás da grande trirreme e ganhava terreno rapidamente. Subitamente um raio gigantesco iluminou o rio, e os observadores viram uma coisa estranha pairando na água diante da embarcação engiana, totalmente negra e com o dobro da altura dos três volumosos mastros da trirreme. O minúsculo navio de Engi, navegando veloz a favor do vento, tentou desviar. Mas a coluna se contorceu, ficando exatamente no caminho do barco e bateu nele de frente. O cúter desapareceu como se nunca tivesse existido.

Todos que olhavam gritaram, horrorizados.

— O que era? — perguntou uma das filhas da rainha Jiri. — Uma serpente marinha conjurada pelo feiticeiro?

—Não, é uma tromba dágua, um tipo de tornado que se forma sobre o mar—disse Raviya de Engi, com lágrimas escorrendo pelo rosto abatido. -— Vemos isso às vezes, em volta das nossas ilhas durante as monções do verão, mas nunca na época seca. Ai de mim! Lá vem outra! Nossos bravos marinheiros logo desistirão da perseguição, assim como os que vêm mais atrás. Nenhuma embarcação, por mais forte que seja, pode sobreviver ao confronto com uma daquelas coisas demoníacas.

Do outro lado do salão de baile teve início um novo tumulto entre os guardas zinoranos na porta principal. Ouviram uma voz gritando.

— Madame! Oh, madame, que calamidade!

Um homem, com a roupa labornokiana de gala encharcada, conseguiu escapar e correu na direção de Anigel.

Ela abaixou o talismã. A visão dentro dele desapareceu e o brilho do trílio-âmbar diminuiu, o mesmo acontecendo com a radiânciadas outras jóias de Anigel. Estava consternada, mas nada disse até lorde Penapat chegar, andando pesadamente, com os olhos arregalados e o rosto largo tão vermelho que parecia que ia ter um ataque.

— Oh, madame! — ele caiu de joelhos diante da rainha. — Como posso explicar? A vergonha!... A traição!... Como é que ela pôde fazer tal coisa?

—Acalme-se, Peni. Pronto, meu velho amigo! Nós já sabemos que o rei foi seqüestrado pelo infame feiticeiro...

— Mas não foi só isso! — o homenzarrão estendeu os braços na agonia do desespero. — Minha mulher! Minha própria mulher, Sharice! Ela pediu para eu sair e fazer alguma coisa fora do salão de baile durante a procissão da felicitação, dando-me um bilhete que dizia ser da maior urgência, que eu devia entregar para o marechal Owanon. Mas a mensagem não tinha sentido, e quando voltei para minha mulher, disseram que ela fora embora, levando-os com ela, e eu não entendi, e... oh, Deus! Eu corri atrás deles, mas já era tarde demais!

O coração de Anigel quase parou de bater.

— Meus filhos — balbuciou ela com a voz inexpressiva. — Meus filhos.

— Sharice os fez sumir misteriosamente — contou o tesoureiro em prantos. — Os três, e também minha mulher, foram vistos subindo a bordo do navio da rainha pirata.

— Esse bilhete para o lorde Owanon — disse lady Ellinis com firmeza. — O que dizia?

— Tinha apenas duas palavras — respondeu Penapat. — Seu talismã.

Nos cinturões Flamejantes e nas ilhas Nevoentas, os vulcões marinhos entravam em erupção. Colunas de fogo dormentes no continente começavam a soltar uma fumaça ameaçadora também, e as terras em torno delas tremiam. Nas montanhas Ohogan e outras cordilheiras não vulcânicas ao sul da península, que margeavam a Calota de Gelo Sempiterna, ocorreram nevascas fora de época. Nas terras baixas e no alto platô pantanoso de Ruwenda, grassavam extraordinárias tempestades elétricas, e os mares do sul e do leste eram sacudidos por vendavais uivantes.

Quando o tempo calamitoso e os abalos das entranhas incandescentes do mundo começaram, na noite do rapto, Haramis soube quase imediatamente o que estava acontecendo. A sensibilidade especial que cultivava havia anos, aquela percepção mística que alertava a Arquimaga quando nem tudo estava bem em sua terra ou com seu povo, provocou nela uma angústia profunda, que não podia ser totalmente atribuída aos acontecimentos chocantes da coroação, conforme Anigel tinha informado.

Nas horas seguintes, depois que Haramis assegurou-se de que não havia nada que pudesse fazer, de imediato, para ajudar Antar e as crianças seqüestradas, ela usou seu talismã para vasculhar os países da península e em seguida as nações mais distantes. Estudou as tempestades atípicas, os terremotos e deslizamentos de terra, os vulcões em erupção, o comportamento agitado dos animais selvagens, e descobriu que não se tratava de meros efeitos colaterais da tempestade mágica engendrada por Portolanus para ajudá-lo a escapar de Zinora. Algo mais estava acontecendo. Algo muito pior.

Ela pediu uma explicação para o Círculo das Três Asas.

O talismã mostrou mais uma vez a visão de um trílio cor de sangue, e falou também:

Agora o equilíbrio do mundo está realmente desfeito, pois o herdeiro renascido dos Homens da Estrela tem em seu poder dois elementos do grande Cetro do Poder. Cuidado, Arquimaga da Terra! Procure os bons conselhos de outros da sua espécie e corrija suas imperfeições. Tome uma providência e se abstenha de seu estudo inútil e escrutínio inadequado. Senão os Homens da Estrela triunfarão afinal, e a cura de doze vezes dez centenas terá sido em vão.

A voz silenciou, e Haramis ficou olhando fixo para a visão do Trílio de Sangue, paralisada e descrente, até ele derreter e desaparecer. A indignação ocupou o lugar das sensações anteriores de medo, ela levantou da mesa da biblioteca e começou a andar de um lado para outro, zangada, diante da lareira.

Procurar o conselho de quem? De suas tolas irmãs trigêmeas?

Corrigir suas imperfeições?

A sua vida, que tinha dedicado ao estudo e ao serviço, era fútil?

A constante vigília cuidadosa, sobre Laboruwenda e as partes do mundo que a afetavam, era inadequada?

Como é que o talismã ousava insultá-la dessa maneira? Estava fazendo o melhor possível, e fazia isso havia doze anos, desde que tinha se tornado Arquimaga. Ruwenda e Labornok estavam unidas e em paz, os humanos prosperando e os aborígenes... bem, a maioria estava bem melhor do que antes. Se o mundo estavadesequilibrado, então a culpa certamente era do maléfico Portolanus, não dela!

E por que é que em vez de mandá-la consultar as duas, o talismã não apontou as imperfeições de suas irmãs, junto com as suas, se os defeitos delas eram tão mais visíveis?

Consideremos Kadiya! Sempre impaciente, correndo para lá e para cá, propondo soluções simplistas para os problemas complexos que afetavam as relações entre humanos e os povos. Arrogante em sua honestidade, estava sempre remexendo em coisas que deviam ser deixadas quietas. Perdeu o talismã por descuido e estupidez... e agora ele estava ao alcance de Portolanus.

E Anigel, a rainha adorável e valorosa, governando com cautela e disposição, tão dedicada que ignorava os descontentes de Labornok e as injustiças concretas em Ruwenda, jovialmente certa de que os problemas se resolveriam sozinhos. Seu marido, mais sensato, tinha tentado avisá-la do que estava acontecendo, mas diversas vezes ela preferiu ignorar as preocupações dele, considerando-as infundadas. E ele, apaixonado para muito além da razão, não querendo se arriscar a criar um desentendimento entre eles, acabou se convencendo de que ela estava certa. Pobre rei Antar, tão cego pela devoção!

E as três crianças reais, a quem ensinavam que a vida era uma adorável trama de paz e alegria, mimadas e superprotegidas menos quando mais precisaram de proteção! E agora o rei-marido e os filhos tinham sido raptados e seriam trocados por um resgate, e suas vidas perdidas, a menos que Anigel entregasse o talismã mágico para Portolanus.

E ela ia fazer isso mesmo! Era suficientemente fraca e sentimental para fazer tal coisa!

Senhores do Ar, que dupla de imbecis eram suas irmãs! O que se apossou da Arquimaga Binah para fazê-la pensar que mereciam possuir instrumentos com profundo poder mágico? Por que os três talismãs não ficaram juntos, aos seus cuidados?

Haramis sabia que teria sido capaz de salvaguardá-los. E tendo as três partes, naquele momento poderia juntá-las e formar o Cetro do Poder para enfrentar esse Portolanus diretamente, fosse ele quem fosse. Mas naquela situação impossível em que se encontrava seria melhor se render do que ficar aguardando temerosa na torre que o feiticeiro de Tuzamen investisse contra ela, armado com os outros dois talismãs.

— Grande Deus e Senhores do Ar, defendam-me — suplicou ela, sentindo que os olhos começavam a arder e lacrimejar. — De fato o mundo está desmoronando, não só esta pequena península que tenho protegido, e estou me comportando como uma tola desprezível, culpando minhas irmãs pelo desastre, pronta para me entregar a Portolanus sem ao menos lutar!

Tome uma providência.

Haramis conseguiu se controlar quando estava a ponto de chorar de raiva, impotente.

— Providência? Que tipo de providência? Devo voar nas costas de um voor até o sul e enfrentar o feiticeiro no navio da rainha pirata? Bem antes de alcançá-lo, ele certamente já terá se apossado do talismã de Kadiya, ligado a ele através daquela maldita caixaestrela! Por que permitiram que ele possuísse aquela coisa? Por que permitiram que ele encontrasse o Kimilon? Por que deixaram Orogastus sobreviver?

Uma forte rajada de vento desceu rugindo pela chaminé, lançando uma carga de fagulhas sobre ela, como um aviso divino. Uma queimou sua mão, ela deixou cair o talismã, preso à corrente, e gritou. A queimadura era insignificante. Resmungando a meia voz, tratou de pisar nas brasas acesas para apagá-las e de se recompor ao mesmo tempo. Então ajustou o regulador de entrada de ar da chaminé e sentou desanimada no tapete, olhando para as chamas, com as lágrimas atrapalhando sua visão.

A ventania gemia pelas ameias da torre, como cantores de coro entoando uma marcha fúnebre, e o pensamento na música trouxe de volta de repente uma lembrança tocante do bom e velho Uzun, o harpista e flautista nyssomu que tinha sido seu querido amigo najuventude. Sempre que estava deprimida, ele fazia de tudo para alegrá-la. O velho sábio Uzun era engraçado, com sua lista interminável de histórias fabulosas, e ele a acompanhou fielmente na busca do talismã, até ser forçado a voltar por causa das limitações impostas pelo seu corpo.Uzun passara para o além havia cinco anos, deixando-a sem ninguém em quem confiar, ninguém para aceitá-la e amá-la com todas as suas imperfeições. Não tinha nenhum amigo verdadeiro. Seus únicos companheiros eram os deslumbrados criados vispis, que achamavam de Dama de Branco e que acreditavam que ela também possuía o poder e a sabedoria de Binah, porque usava o manto da velha Arquimaga.

Que ridículo... Com todo aquele estudo, ela continuava sabendo muito pouco sobre os poderes do seu talismã. Talvez tivesse de se atrapalhar anos a fio para lentamente descobrir como usá-lo. A Arquimaga Binah tinha chegado a uma idade incrível e dominava uma magia imensa mesmo sem o talismã, mas não deixara nenhum manual de feitiços para sua sucessora. Haramis se esforçava ao máximo... mas naquele momento, na hora da maior crise, estava impotente e aquela coisa enigmática que pendia do seu colar zombava de todos os seus esforços.

Outros. Procure os bons conselhos de outros da sua espécie.

Outros?...

Franziu a testa, depois desfranziu. Pela primeira vez as palavras ditas pelo talismã penetraram em sua mente e adquiriram significado. Outros? Então não eram suas irmãs, e sim... mas... não era possível! Binah teria contado para ela!

Mas e se Binah não soubesse?

Haramis afastou-se do fogo, secou as lágrimas do rosto e ergueu o talismã novamente, com as mãos trêmulas.

— Eu sou a única Arquimaga no mundo? — perguntou.

- Não.

Ela engoliu em seco.

— Rápido! Mostre-me outra! Qualquer outra!

O círculo encheu-se de névoa perolada. Mas de novo apareceram os rodamoinhos que anteriormente indicaram que Portolanus estava protegido contra visões por forte magia. Ela soltou um gemido.

— É claro. Eles ou elas também estão protegidos, como eu. Haramis fez outra pergunta para o talismã.

— Quantas Arquimagas existem?

Uma da terra, uma do mar e uma do firmamento.

Era isso! Por certo a da terra era ela, então restavam mais duas.

— Alguma delas pode falar comigo, me ajudar?

- Só se for ao seu encontro.

— Como posso encontrá-las?

Existem duas maneiras. A primeira é se elas a convidarem. A segunda se encontra no Kimilon Inacessível. Haramis deu um grito de alegria.

— Graças ao deus Trino e Uno! Vou para lá agora mesmo! A porta da biblioteca se abriu e Magira espiou pela fresta meio indecisa, para ver o que estava acontecendo. Atrás dela havia vários vispis.

—Dama de Branco? Você chamou? Ouvimos um grito de dor...

Radiante de otimismo, Haramis balançou a cabeça.

—Foi só uma fagulha da lareira que queimou minha mão. Uma bobagem. Mas me alegro de estarem aqui. Avisem os tratadores dos voors! Amanhã, ao raiar do dia, voarei para o Kimilon. Peçam ao nosso hóspede Shiki para vir aqui imediatamente, pois quero perguntar se ele pode me acompanhar. Preparem os mantimentos, abrigos portáteis e tudo mais que precisaremos para a viagem, e para passar pelo menos dez dias no deserto de gelo.

— Mas, senhora! — reclamou Magira, consternada. — E essa tempestade mágica! Se os vulcões da costa estão cuspindo fogo será que os do Kimilon também não estarão explodindo?

—Qualquer tempestade que Portolanus é capaz de conjurar, eu sou capaz de enfrentar—declarou Haramis. — Pelo menos isso eu aprendi nos meus estudos sobre o talismã. Quanto aos vulcões e as outras intempéries, estou certa de poder acalmá-las também, se ameaçarem a mim ou aos meus. Essa viagem é essencial, se pretendo contra-atacar a ameaça que Portolanus representa para o mundo. Vão agora e façam o que eu disse.

Ela sentou-se novamente à mesa e segurou o talismã diante dos olhos. Antes de sair se aventurando, tinha de supervisionar de novo a situação caótica no sul e dizer a Anigel como proceder. Agindo por conta própria, provavelmente a rainha estragaria tudo! Mas primeiro a irmã do meio.

— Mostre-me Kadiya — comandou a Arquimaga.

Ela viu uma rua estreita molhada de chuva em uma cidade miserável. Era zinorana, pelo estilo das construções, o porto de mar, número extraordinário de tavernas em volta, muitas com motivos náuticos nos letreiros. Kadiya, Jagun e uma tropa de mais de uma dúzia de wyvilos altos, de aparência feroz, caminhavam pela rua de pedras, carregando seus pertences em sacos jogados nos ombros, todos carrancudos. Era óbvio que ainda não tinham conseguido encontrar um barco que os levasse de volta para as ilhas Windlorn.

Haramis encostou dois dedos no trílio-âmbar do talismã e fechou os olhos. A visão da irmã e seus amigos preencheu sua mente por completo. Podia sentir os pingos da chuva em Kurzwe, ouvir as sinetas de vento das tavernas, o crocitar melancólico dos pássaros-pothi impedidos de voar, o cheiro da maresia e o fedor dos becos imundos.

Kadiya! Kadiya! É Haramis chamando! Pode me ouvir?

A expressão do rosto da irmã não se alterou. Era óbvio que os pensamentos de Kadiya se ocupavam exclusivamente de seus próprios problemas e não estavam receptivos para o contato mental com Haramis.

A Arquimaga suspirou, abriu os olhos e desfez a visão.

—Talvez eu possa tentar falar com Kadi em seus sonhos. Deve haver algum meio de me comunicar com ela através das léguas, mesmo que não esteja com o seu talismã.

Observaria novamente os piratas e Anigel. Haramis pegou um pergaminho que estava perto dela, com um mapa da costa zinorana, desenrolou-o e prendeu as pontas com um livro, um castiçal, um cubo negro dos Desaparecidos, que cantava canções misteriosas se apertassem o botão, e uma caneca de chá vazia. Então fez um pedido ao talismã.

— Mostre-me claramente o navio da rainha Ganondri, em uma tomada bem de cima, para que eu também possa ver as terras ou ilhas que estejam por perto. Oriente essa visão para que a direção sul fique do meu lado e o norte afastado de mim.

Ela fechou os olhos outra vez. A visão que adquiriu vida em sua mente não era tão compreensível quanto os elegantes desenhos do mapa do agora extinto espelho de gelo de Orogastus. O talismã resistiu às suas tentativas de ensinar como indicar escalas de espaço físico e nomear formas de terra, rios ou outros aspectos geográficos identificáveis. Mas anos atrás ela aprendera a interpretar as imagens mais anônimas que o talismã se dignava a apresentar, usando o grande sortimento de mapas e cartas da biblioteca para distinguir a região exata que aparecia.

Era a segunda vez que espionava a posição da trirreme da rainha pirata aquela noite. Como estava escuro e tempestuoso, viu uma imagem sem as cores vivas que a luz do dia criaria, uma visão em tons de cinza e preto. A nau capitânia raktumiana era um pontinho entre duas pequenas ilhotas, quase invisível e evidentemente bem na frente dos outros quatro navios que a acompanhavam mais cedo aquela noite. Uma porção de uma grande extensão de terra era parcialmente visível do lado esquerdo. Haramis tinha de fixar as formas da terra na memória, depois estudar o mapa, até poder determinar a localização do navio.

—Ah-ah! Peguei você!

A embarcação estava a mais de cem léguas a sul-sudoeste de Taloazin. Conforme temia, não estava indo para casa, mas navegava em uma rota direta para as ilhas Windlorn, com Portolanus e os prisioneiros a bordo. Haramis marcou a posição da nau capitânia raktumiana no mapa, então mandou o talismã mostrar os outros navios de Raktum e o barco tuzameniano que pertencia a Portolanus, além da flotilha formada pelos quatro navios de Anigel que os perseguia. As fatais trombas dágua desencorajaram as outras nações de colaborar na perseguição.

Os lentos navios raktumianos e o solitário tuzameniano estavam a vinte léguas ou mais de distância da trirreme e ficavam cada vez mais longe à medida que o navio da rainha pirata voava a favor da ventania. A nau de Anigel estava quinze ou dezesseis léguas atrás dos piratas, com os três navios de escolta na esteira.

— Agora mostre-me o rei Antar — Haramis ordenou ao talismã.

A visão que teve dele foi quase a mesma que tivera três horas antes. Ele continuava desmaiado em um leito de remador em alguma parte do porão imundo do navio, com mãos e pernas amarradas, guardado por uma dupla de desordeiros. Balançando sua cabeça por pena, Haramis comandou uma visão das três crianças.

Elas já não estavam nacabine da pérfida lady Sharice. Tinham colocado os três em um compartimento apertado e escuro, com tramela na porta. A imagem dos meninos subia e descia violentamente com o movimento do navio na tempestade, e havia o som intermitente de um ribombar, além do barulho constante de tábuas rangendo. Em cima do colchão fino sobre o qual Nikalon, Janeel e Tolivar dormiam havia grandes pilhas de correntes molhadas e enferrujadas, com elos enormes. As roupas festivas das crianças estavam manchadas de sujeira e ferrugem.

— O compartimento das correntes na proa do navio. É lá que estão confinados. Pobrezinhos! O coração de Ani deve ficar despedaçado, quando os vê com seu talismã. Mas parece que estão ilesos.

Invocou uma visão da irmã. A rainha era uma figura patética, enrolada em uma capa de couro de marinheiro, agarrada à amurada do tombadilho superior da nau capitânia de Laboruwenda, de frente para a tempestade. Seu talismã, o Monstro de Três Cabeças, estava em sua cabeça, e era evidente que Haramis interrompera a visão que Anigel estava tendo dos seus entes queridos.

—Hara! A que distância estamos deles?—perguntou a rainha. — Não consigo entender o que meu talismã indica quanto à distância.

—Você deve dizer ao seu capitão para mudar um pouco o curso — respondeu a Arquimaga, descrevendo a posição e a rota exatas da flotilha raktumiana. — O feiticeiro e os piratas estão indo à toda para as Windlorn, e não para casa, como pensamos a princípio. Estão atrás do talismã de Kadi, e esse vento do diabo que Portolanus invocou provavelmente os levará para Ilha do Conselho em menos de três dias, se continuar assim.

— Nós nunca os pegaremos — os olhos de Anigel revelavam desespero.

— Existe uma chance. Assim que a trirreme deixar o mar aberto, passando entre o continente e as ilhas, cairá nas calmarias que costuma haver por lá. Não são chamadas de ilhas Windlorn por acaso! Duvido que até mesmo a bruxaria consiga conjurar uma brisa boa naquele labirinto de estacas marítimas, ilhas, rochas e recifes. Seu navio é menos volumoso que o raktumiano e seus remadores são livres e têm mais disposição. Você pode ultrapassálos remando.

— Kadi já zarpou de Kurzwe?

— Infelizmente, não. Creio que ainda está tentando alugar um navio. Tentei falar com ela novamente, mas não tive sucesso. Ani, você deve tentar. Você está mais próxima do coração dela do que eu...

— Não diga isso! Ela ama você tanto quanto a mim, e sei que o seu amor tem a mesma intensidade.

Haramis suspirou.

— De qualquer forma, faça o possível. Se ela partisse de Kurzwe logo, em um navio veloz, poderia chegar ao lugar onde perdeu o talismã antes de Portolanus.

— Mas tínhamos planejado inicialmente que usaríamos o meu talismã para chamar o de Kadiya das profundezas. Como poderá recuperá-lo sem a minha ajuda?

— Eu não sei. Mas bastaria que ela descobrisse um jeito de impedir Portolanus de pegá-lo até você chegar com seus navios. Tente falar com Kadi quando ela estiver dormindo. Pode ficar mais suscetível assim. Ela precisa alcançar o talismã antes do feiticeiro!

 

Windlorn significa sem vento, que o vento abandonou (N da T)

 

— Muito bem. Vou tentar com todas as minhas forças. Mas continue velando por nós e nos guiando, Hara.

A Arquimaga hesitou um pouco.

— Tenho um novo plano para confundir Portolanus, mas não quero falar dele ainda. Não se desespere se eu não entrar em contato com você com freqüência daqui por diante. Mas se precisar de mim, chame-me imediatamente.

O rosto de Anigel se iluminou.

— Um novo plano? Oh, Hara, qual é? A Arquimaga balançou a cabeça.

— Pode ser inútil se Portolanus conseguir se apoderar do talismã de Kadiya, ou do seu. Você deve lembrar que o feiticeiro voltou para o Kimilon uma segunda vez e pegou apenas uma caixa misteriosa. Perguntei ao meu talismã o que era essa caixa, e ele disse-me que a coisa era capaz de desassociar os talismãs de suas donas. Só era preciso colocá-los dentro dessa caixa mágica e fazer o encantamento apropriado.

— Você quer dizer que o feiticeiro seria capaz de tocar nos nossos talismãs sem se machucar?

— Talvez seja ainda pior que isso. Ele talvez possa ligá-los a si mesmo e usá-los, depois que estiverem desassociados de vocês.

— Pela Flor!

— Ani, querida, eu sei que você está sofrendo demais com o destino do seu amado marido e filhos. Mas não deve ceder à tentação de pagar o resgate que Portolanus exigir. Ele certamente vai mentir e dizer que devolverá Antar e as crianças sãos e salvos, em troca do seu talismã. Nossa única esperança é salvar os prisioneiros. Jure para mim que não dará o talismã para o feiticeiro!

— Eu... eu serei firme. O lorde Owanon e seus bravos cavaleiros vão me ajudar a salvar Antar e meus filhos dos piratas. Ah, se ao menos eu pudesse chegar bem perto do bruxo bastardo, para poder esmagá-lo com o Monstro das Três Cabeças! Ele jamais teria conseguido raptar os meus queridos se eu percebesse o que estava tramando.

Haramis disse ainda algumas palavras de incentivo para a irmã e depois deixou a imagem desaparecer. Levantou-se da mesa e foi até um conjunto de escaninhos que continham muitos mapas enrolados e ordenou ao talismã para encontrar um que mostrasse a região da calota de gelo a oeste de Tuzamen. Mas é claro que tal mapa não existia. Haramis procurou nos compartimentos, descobrindo mapas de Tuzamen (mas nenhum com bastantes detalhes) e um único mapa da cadeia de montanhas onde vivia o povo dorok. Não havia nada que mostrasse o Kimilon Inacessível.

Haramis tinha visto o lugar através do talismã, é claro, semicerrando os olhos diante da visão do pequeno enclave cercado de geleiras cobertas de vulcões fumegantes. Mas não conseguiu de jeito algum obter uma indicação do local exato, e nenhum livro da vasta biblioteca dava qualquer pista. Naquele momento tornou-se óbvio que a Arquimaga Binah, afinal, não tinha usado o Kimilon como depósito. Talvez fosse anterior à sua vigência, tão antigo que nem daria para calcular. Podia ser também que o lugar pertencesse a uma das outras, a Arquimaga do mar ou a Arquimaga do firmamento...

Haramis ouviu algo arranhando de leve a porta da biblioteca.

— Entre — disse ela, abandonando os mapas e indo saudar Shiki.

O pequeno e robusto aborígene estava quase completamente recuperado de sua dolorosa experiência de sete dias atrás. Seus olhos enormes estavam dourados, sem sangue em volta, e o rosto, com feições quase humanas, e as mãos já estavam quase boas da ulceração produzida pelo gelo. Ele perdera as pontas das duas orelhas com o frio e as tinha enfaixadas. Os servidores vispis da torre fizeram roupas novas e ele usava com orgulho um medalhão com o emblema do Trílio Negro da Arquimaga em uma corrente em volta do pescoço, pois resolvera se dedicar a servi-la.

— Magira contou que quer viajar para o Kimilon, Dama de Branco.

— Se você estiver disposto a me guiar, Shiki. Meus mapas e habilidades mágicas não fornecem nenhuma imagem clara de onde fica o lugar. Deve estar protegido por algum encantamento, além das léguas de gelo que o circundam.

O homenzinho assentiu balançando a cabeça, com expressão séria.

— Posso guiá-la para lá com prazer, e darei minha vida por você se os Senhores do Ar assim quiserem. Nenhuma missão me daria mais alegria do que ajudá-la a derrotar o terrível feiticeiro que assassinou minha família e meus amigos. Outros membros do povo da montanha vão nos acompanhar no voo com os voors?

— Não. Só iremos você e eu. E pode ser que... tenhamos de viajar até mais longe do que o Kimilon antes de terminar nossa jornada. Para lugares que nenhum membro dos povos ou da raça humana jamais viram. Lugares terríveis.

Shiki estendeu a mão com três dedos e sorriu.

— Eu estou disposto, Dama de Branco. Somos fortes, nós dois, e vamos para onde tivermos de ir, e voltaremos juntos, a salvo. Eu sei.

Haramis segurou a mão de Shiki e sorriu para ele também.

— Você saberá exatamente de quais suprimentos vamos precisar. Vá falar com o tratador de voors e trate para que tudo esteja pronto para a partida amanhã bem cedo, está bem?

— Farei isso—disse ele balançando a cabeça para cima e para baixo alegremente, e depois foi embora.

Tome uma providência.

Foi isso o que o talismã ordenou. Nada mais de estudos, nada mais de contemplação nem meditação. Tinha sido forçada a assumir uma atividade física bem árdua quando mais nova, levada através de perigosas montanhas pelas sementes do Trílio Negro, que a guiaram até seu talismã. Mas não havia sementes mágicas para ajudá-la naquele momento, apenas um único homenzinho vulnerável que chegara por acaso e fortuitamente à torre.

Por acaso? Oh, Haramis...

— Silêncio! — disse ela com firmeza, enfiando o talismã na roupa, apagando o candelabro e caminhando para a porta da biblioteca.

Mas de repente pensou em uma coisa. Como ia falar com Kadiya? Mas é claro!

— Haramis, sua tola! — exclamou ela em voz alta. Ergueu o talismã e deu uma ordem.

Kadiya, Jagun e os quinze altos nativos da floresta Tassaleyo estavam amontoados na rua, diante da penúltima taverna que tinham para visitar, enquanto os trovões rugiam e estalavam, e as sinetas de vento feitas de bambu, que pendiam do letreiro da estalagem, faziam uma barulheira com o vendaval, anunciando até para o caminhante mais ignorante que havia comida e bebida lá dentro.

— Talvez nossa sorte mude para melhor nesse buraco de algaravias. Temos de conseguir um navio logo, pois estou com um mau pressentimento que me impele a correr para reaver meu talismã. Jagun, você cobre a retaguarda, como sempre, e fique de olho nos sentinelas da cidade. Nossa reputação pode ter chegado antes de nós. Lummomu-Ko, por favor instrua seus guerreiros para controlar os ânimos dessa vez, se os malandros da taverna começarem com provocações ou insultos. Pelo menos peça a eles para não iniciar nenhuma briga até eu ter chance de falar com todos os capitães lá dentro.

O wyvilo mais corpulento, cuja roupa, que um dia tinha sido elegante, agora estava toda enlameada com a tempestade que açoitava o porto de Kurzwe, respondeu:

— Se os vadios nojentos insistirem em se recusar a alugar um navio para nós, teremos de apelar para o nosso plano alternativo e zarpar por nossa conta.

— Eu detestaria ter de fazer isso — disse Kadiya. — Com esse tempo horroroso, nossas chances de chegar às Windlorn vivos seriam mínimas, sem marinheiros experientes a bordo.

O jovem wyvilo, chamado Lam-Sa, que ajudara LummomuKo a salvar Kadiya de se afogar, retrucou.

— Mas podemos também persuadi-los.

As presas afiadas do guerreiro faiscaram com os lampejos erráticos dos relâmpagos, e os outros reagiram com risos ameaçadores às suas palavras.

— Não — advertiu Kadiya. — Levar um barco e deixar pago é uma coisa, mas seqüestrar uma tripulação é bem diferente. É preferível deixar meu talismã perdido para sempre a recuperá-lo através de meios ilícitos. Tenho rezado para que os Senhores do Ar nos ajudem. Vamos acabar encontrando um navio, de algum jeito. De repente Jagun, o nyssomu, soltou um grito agudo. Seu corpo se retesou, as pupilas de seus olhos amarelos se dilataram e ele ficou olhando fixo para o céu, com a chuva batendo no rosto largo e plano.

— Velho amigo, o que houve? — exclamou Kadiya.

Mas o homenzinho não se manifestou, ficou ali paralisado, olhando fixo para algo que ninguém mais via. Finalmente, depois de vários minutos, ele foi se recuperando devagar, os olhos desembaçaram e o corpo relaxou. Ele olhou para Kadiya assombrado e falou, sussurrando.

— A Dama de Branco! Ela falou comigo!

— O quê? — gritou Kadiya, espantada.

Jagun segurou a cabeça com as duas mãos, como se quisesse evitar que o cérebro escapasse.

— Olhos Penetrantes, ela falou! Você sabe que o povo do pântano pode conversar com outros da nossa espécie sem palavras, apesar de não sermos tão hábeis quanto nossos primos, os uisgus e os vispis. E você, com seu talismã, falou comigo através das léguas muitas vezes. Mas eu jamais tinha ouvido a Dama de Branco até agora.

— O que ela disse? — Kadiya mal conseguia se conter.

— Ela... ela disse que foi tola. Tinha urgência de falar com você, mas não conseguia, depois que você perdeu seu talismã. Nesse exato minuto ela teve a idéia de falar comigo, para eu transmitir a mensagem para você. Disse que esquecera que eu estava aqui, achava que você viajava só com os wyvilos, que são menos afeitos à telepatia que vem de uma grande distância.

— Sim, sim... mas e a mensagem?

—Ai de nós, Olhos Penetrantes! O maligno feiticeiro Portolanus está a bordo de um navio muito veloz, navegando para o sul para se apossar do seu talismã.

— Deus Trino e Uno!

— A Dama de Branco diz que se zarparmos de Kurzwe imediatamente, teremos uma chance de chegar ao talismã antes dele.

— Ela disse o que tenho de fazer para reavê-lo? — perguntou Kadiya aflita.

— Sua irmã, a rainha Anigel, também está no encalço do feiticeiro. Se vocês duas conseguirem dar um jeito de chegar juntas ao local em que o talismã se perdeu, a Dama de Branco acha que o talismã da rainha atrairá o seu de volta.

— Jagun, se conseguíssemos...

Mas naquele instante a porta da taverna do outro lado da rua se abriu abruptamente. Um facho de luz, uma grande algazarra de música dissonante, risadas de bêbados e gritaria escaparam lá de dentro, assustando Kadiya e seus amigos. Um momento depois apareceram dois humanos robustos, com aventais sujos, segurando um freguês que esperneava e berrava. Esse freguês que tentava em vão escapar de seus captores usava roupas extravagantes, calça de seda preta enfiada em botas vermelhas de cano alto, um colete de retalhos multicoloridos de couro, uma bela capa vermelha e um chapéu de abas largas com plumas negras, preso à nuca com fitas vermelhas, que tinha caído para a frente, cegando-o e ocultando suas feições.

— Socorro! Ladrões! — berrava. — Tra... trapaceiros! Soltem-me! Aqueles ossos eram viciados!

Os dois taberneiros levantaram o homem do chão e o jogaram para fora, fechando a porta com estrondo. O homem expulso aterrissou de cara no meio da rua lamacenta, e o chapéu no rosto salvou-o de ficar com a boca cheia de sujeira. Ficou lá deitado gemendo e se lamentando, enquanto a chuva molhava sua capa e fazia murchar suas plumas.

Kadiya se ajoelhou ao lado dele, virou-o de barriga para cima e livrou-o do chapéu. Ele soltou um bafo de álcool e abriu os olhos turvos.

— Olá, belezinha. O que é que uma moça bonita feito você está fazendo aqui fora, em uma noite terrível como essa? — e logo ele enxergou o bando de wyvilos inumanos atrás de Kadiya e interrompeu sua ladainha de bêbado. — Cuidado! Socorro! Bandidos! Monstrushh! Oddlings do mar invasores! Socorro!

Kadiya enfiou calmamente uma ponta da capa na boca dele. Ele tentou cuspir, engasgou e ficou em silêncio.

— Fique quieto. Não vamos machucá-lo. Somos apenas viajantes de Ruwenda e estes não são oddlings selvagens do mar, e sim wyvilos civilizados que são meus amigos. Você está ferido?

O homem grunhiu. Os olhos vermelhos pararam de rolar de um lado para outro em pânico. Ele balançou a cabeça, indicando que não.

Kadiya acenou para Lummomu-Ko. Juntos, puseram o homem em pé e a mordaça improvisada caiu da sua boca. Ele ficou oscilando e resmungando. Jagun pescou o chapéu enlameado, que boiava e já ia para a sarjeta, e deu para ele.

— Eu sou Kadiya, chamada de Dama dos Olhos, e este é Jagun, do povo do pântano, este é o chefe Lummomu-Ko do povo da floresta Tassaleyo, e seu bando de guerreiros, que são meus amigos. Estávamos nos preparando para entrar nessa taverna quando você saiu assim, bruscamente.

O homem bufou com amargura e pôs o chapéu na cabeça. Tirou um grande lenço da manga e começou a enxugar o rosto. Sua voz estava tão enrolada por causa da bebida, que mal dava para entender o que dizia.

— Quando... aqueles porcos vagabundos me jogaram para fora, você quer dizer! Tiraram meu couro, me fizeram de bobo... trapacearam naquele jogo da dança dos ossos... me enganaram, tiraram meu noga, depois de roubar todo o dinheiro do meu frete! Ohhhh... eu vou vomitar...

Lummomu-Ko e um outro guerreiro seguraram a cabeça do homem, enquanto ele vomitava. O vento uivava, a chuva caía forte e a sineta de vento da taverna tilintava alegremente. Quando a vítima parecia ter se recuperado um pouco, Kadiya falou novamente.

— Quem é você, e o que é esse noga que diz que tiraram de você?

— Meu nome é Ly Woonly... marinheiro honesto de Okamis — ele olhou de lado para ela, desconfiado. — Você conhece Okamis? Maior país do mundo conhecido! República... não um reino qualquer feito Zinora. Maldito o dia que naveguei para Zinora. Devia ter levado minha carga para Imlit, mesmo não pagando tão bem.

Os olhos de Kadiya brilharam.

— Então você é um lobo-do-mar!

Ly Woonly levantou e rodou a capa com um gesto altivo.

— Mestre navegador! Capitão do bom navio Lyath, o veloz e pequeno noga. O nome é da minha querida, muito querida esposa — ele deu um soluço e verteu copiosas lágrimas. — Ela vai me matar, a Lyath! Fará conserva das minhas bolas e me venderá para os senhores de escravos sobranianos!

Os olhos de Kadiya encontraram os de Lummomu-Ko. Ele fez que sim com a cabeça lentamente, depois consultou os outros guerreiros aborígenes, que sorriram felizes diante daquela expectativa.

— Nosso novo amigo Ly Woonly foi ludibriado em um jogo desonesto de dança dos ossos—disse Kadiya solenemente. — É triste ver que essas coisas podem acontecer... e aqui, nesse lugar de trevas que é Kurzwe, as autoridades provavelmente tomarão partido do taberneiro local, em vez de impor a justiça para um estrangeiro.

— É isso mesmo — a voz de Lummomu-Ko ribombou feito trovão. — É vergonhoso, e isso clama aos Senhores do Ar por vingança.

Os companheiros de Lummomu-Ko rugiram, de acordo. Seus olhos, com as pupilas verticais que traíam a infusão de sangue da raça skritek, brilhavam como pares de brasas douradas na noite tempestuosa.

Kadiya segurou as duas mãos sujas de lama do capitão.

— Capitão Ly Woonly — disse ela com veemência — nós gostaríamos de ajudá-lo. Mas também gostaríamos de que você nos ajudasse. Estamos procurando um navio para alugar e fazer uma viagem... de cerca de oitocentas léguas. Os covardes capitães zinoranos temem velejar com esse tempo ruim. Se recuperar seu noga e o dinheiro que perdeu, deixará que aluguemos seu navio? Pagaremos mil coroas de platina laboruwendianas.

O okamisiano arregalou os olhos.

— Mil? E vocês vão acabar com aqueles zinoranos vigaristas e pegar de volta o que apostei também?

— Vamos — disse Kadiya.

Ly Woonly balançou de um lado para outro, depois ajoelhou com dificuldade em uma poça aos pés de Kadiya.

- Madame, faça isso, e eu a levarei até o congelado mar Aurora ou para as portas do inferno, o que for mais longe.

- Muito bem. Você gostaria de nos acompanhar quando formos apresentar sua justa reivindicação lá na taverna?

Ly Woonly ficou de pé aos tropeções e amarrou as fitas do chapéu.

— Não iria perder isso por nada neste mundo.

Para grande desapontamento dos guerreiros wyvilos e alívio de Jagun, não houve briga. A simples visão dos assombrosos aborígenes da floresta, com seus focinhos e presas expostas, e as mãos com garras pairando próximas de suas armas, foi suficiente para converter os trapaceiros da dança dos ossos à integridade instantânea. Jogando os ossos viciados de umamão para outra, Kadiya balançou a cabeça com tristeza, olhando para os três jogadores zinoranos aterrorizados que estavam sentados a uma mesa no fundo. Tinham sido pegos quando dividiam o espólio dos bens de Ly Woonly.

— Meus bons homens — disse ela para os três —, é óbvio para mim, embora talvez vocês não tenham notado, que algum bandido desconhecido substituiu os ossos honestos, que certamente são usados em um estabelecimento correto como este, por outros habilmente carregados com chumbo.

— Isso isso é possível, madame — balbuciou o vigarista mais bem-vestido, um homem raquítico com olhos frios e duros. — Pode ter acontecido sem a gente ver.

Os outros dois jogadores balançaram a cabeça com energia. Tinham os sorrisos petrificados, enquanto os wyvilos acariciavam os punhos de suas espadas e os cabos dos machados de guerra que carregavam nas costas.

Kadiya deu um sorriso confiante para o trio, depois jogou os ossos no meio da pilha de pequenas moedas de ouro.

— Fico muito aliviada de saber disso. Tinha certeza que nenhum jogador honesto como vocês tiraria vantagem de um pobre okamisiano desconhecido que bebeu demais. Sabem, meus camaradas wyvilos e eu ficaríamos muito tristes se o capitão Ly Woonly não pudesse zarpar esta noite, pois nós contratamos o seu navio.

— Aqui! Aqui está o documento do noga! — disse o jogador líder, rapidamente tirando um papel da carteira presa ao cinto e espalmando-o sobre a mesa. — Pode levar, com nossos melhores votos, madame, e boa viagem para todos vocês.

— E o dinheiro do frete! — reclamou Ly Woonly insistente. — Setecentos e dezesseis marcos zinoranos de ouro.

Quando o jogador vacilou, Lummomu-Ko segurou gentilmente o ombro do homem com sua mão de três garras e começou a apertar.

— O dinheiro do frete — trovejou ele.

Dando um grito sufocado, o jogador empurrou as pilhas de moedas que estavam em cima da mesa na direção do capitão e falou.

— Leve-as e vá para o inferno!

Ly Woonly deu uma risadinha e recolheu todo o ouro em sua bolsa.

O taberneiro chegou todo afobado nessa hora, servilmente implorando o perdão do okamisiano pelos maus-tratos. Os garçons que tinham jogado Ly Woonly para fora, disse o homem, seriam punidos com severidade.

— Teremos mais certeza da sua boa vontade — disse Kadiya com doçura, olhando direto nos olhos dele -— se você mandar uma boa refeição e bebidas para todos nós. Assim só levaremos boas lembranças do belo porto de Kurzwe. Nas outras tavernas que visitamos esta noite, os taberneiros foram muito hostis. Meus companheiros aborígenes foram insultados, e temo que resolvam compensar isso de acordo com seus costumes.

Todos os wyvilos rosnaram e fizeram caretas, manuseando de novo suas armas.

— Que vergonha! — gritou o proprietário, com o suor brotando de sua careca. — A hospitalidade de Kurzwe é famosa em todo o mar Setentrional! Sentem-se todos, e servirei um banquete para vocês.

— Por conta da casa — disse Lummomu-Ko.

— Mas é claro! — disse o taberneiro.

Seria a última refeição decente que fariam por muitos dias.

Ly Woonly caiu em um sono tranqüilo, enquanto Kadiya e seus companheiros comiam, e tiveram dificuldade para acordá-lo, tendo de carregá-lo para o cais onde o Lyath estava atracado. Sob a chuva torrencial que continuava a cair, eles encontraram um pequeno navio airoso, com proa e popa bem afiladas e dois mastros, balançando no mar revolto, batendo com as defensas de trapos e cordas no cais. O acesso para a balouçante prancha de embarque estava bloqueado por dois homens mal-encarados, fortemente armados.

— Guardas do cais de Kurzwe, madame — explicou um deles para Kadiya. — Ninguém desembarca nem embarca nesse navio até as tarifas portuárias e a conta atrasada do fornecedor de provisões para embarcações serem pagas.

Kadiya examinou as contas sob um lampião de cais que pingava cera.

— Parecem legítimas.

Ela pegou a bolsa abarrotada do cinto do capitão que roncava e contou cento e cinqüenta e três peças de ouro.

Os guardas do cais fizeram uma saudação e saíram correndo para se abrigar da chuva. Lummomu-Ko jogou Ly Woonly por cima do ombro e liderou a subida a bordo.

O Lyath estava maltratado e precisava de pintura e tinha menos da metade do tamanho do navio varoniano que transportou inicialmente o grupo de negociadores para as ilhas Windlorn. As ferragens precisavam de polimento e o convés estava áspero e cheio de farpas. Mas parecia bem construído e os equipamentos e cordame eram novos, assim como as velas, que brilhavam de tão brancas na escuridão, muito bem presas com adriças aos botalós. Não se via vivalma. Havia uma única cabine a meia-nau e uma escada de tombadilho que dava no porão, passando pela vigia de vidro onde brilhava a luz fraca de um lampião.

Kadiya abriu a porta da escada.

— Tem alguém aí? — perguntou ela.

Depois de perguntar uma segunda vez, um jovem vestido apenas com uma calça rasgada apareceu no pé da escada de tombadilho, esfregando os olhos.

— Capitão Ly? É o senhor? Nós já tínhamos desistido de esperar... oh! — seus olhos se arregalaram de choque, quando o lampejo de um raio iluminou Kadiya e o assustador Lummomu-Ko ao lado, carregando o capitão adormecido. — Entranhas divinas! Quem são vocês? O que aconteceu com o capitão?

— Seu capitão está em segurança e bem, meu bom homem — disse Kadiya. — Nós o trouxemos de volta de sua bebedeira noturna. Eu sou Kadiya, Dama dos Olhos, e esse é o chefe LummomuKo dos wyvilos. Nós contratamos este navio e Ly Woonly concordou em zarpar imediatamente...

— Não, não — disse o marinheiro, balançando a cabeça desgrenhada.

Ele devia ter talvez uns vinte e cinco anos de idade, tinha cabelo escuro e encaracolado e um rosto simpático.

—Não vamos a lugar nenhum sem umatripulação,madame— explicou ele. — Somos apenas três a bordo, Ban, o velho Lendoon e eu, desde que os outros foram embora naquele grande navio mercante varoniano que atracou esta tarde.

Kadiya e Lummomu-Ko se entreolharam.

—O navio de KyveeOmin, que nos trouxe até aqui—disse ela.

O jovem subiu para o convés, sem se preocupar com a chuva, e pediu para Kadiya e o sobrecarregado chefe wyvilo para segui-lo até a cabine do capitão, no convés superior do navio.

— Sabem, o capitão Ly é um pouco mão-fechada se o marinheiro não é da família dele, como Ban, o velho Lendoon e eu. Aquele navio varoniano precisava de gente e arrebanhou nossos dez rapazes. Eles ficaram felizes de ir, loucos para pôr as mãos na dinheirama dos portos orientais. Os olhos do capitão quase pularam para fora das órbitas quando eles se mandaram. Disse que ia tentar conseguir mais homens amanhã, e que esta noite ia se esbaldar.

Lummomu deixou o roncador Ly Woonly cair em seu leito. O rapaz tirou as botas encharcadas e as roupas enlameadas do capitão, apossou-se da pesada bolsa e levou Kadiya e o wyvilo de volta lá para baixo. Pegou uma garrafa de ilisso e três copos e se apresentou como Ly Tyry, sobrinho do capitão e primeiro piloto.

— Agora, que história é essa de vocês fretarem o Lyaíhl

— Temos muita pressa de sair desse lugar esta noite — disse Kadiya, tomando um gole da bebida em um copo, Tyry no outro e Jagun no terceiro, e o bando de wyvilos partilhou a garrafa.—Quais são as chances de você conseguir contratar outros marinheiros?

— Pouquíssimas, quase nenhuma—admitiu Tyry. — Foi por isso que o capitão ficou tão furioso. Só existe essa escória zinorana preguiçosa aqui nesse fim de mundo. Ninguém disposto a vir com o querido e velho okamisiano. Não imagino por quê.

— Meus quinze companheiros e eu não somos totalmente destreinados — disse Kadiya. — Os florestais wyvilos estão acostumados a navegar em gigantescas jangadas de toras no lago Wum durante as nevascas de inverno em Ruwenda, e todos aprendemos um pouco do mar desde que viemos para o sul. Estamos dispostos a ajudá-lo a levar o Lyath... além de pagar as mil coroas de platina que seu tio e eu concordamos sobre o valor do frete.

— Para onde estão indo?

— Para a ilha do Conselho nas Windlorn.

O jovem piloto vociferou e levantou-se de repente.

— Madame, a senhora perdeu o juízo? Já é bem ruim querer velejar nessa tempestade fora de época! Mas ir para lá...

— Os nativos aliansas não serão hostis com vocês — disse Kadiya. — Acabo de chegar das ilhas, depois de participar de uma conferência com o chefe supremo Har-Chissa. Ele interrompeu o comércio com Zinora, dizendo que o povo zinorano o enganou. Declarou que de agora em diante só vai negociar com okamisianos ou imlitianos.

Os olhos do rapaz brilharam.

— Isso é verdade mesmo?

— Juro pelo sagrado Trílio Negro do meu povo — respondeu Kadiya. — Então, vai nos levar?

Tyry estava raciocinando, muito concentrado.

— O capitão está fora de combate até amanhã. Mas temos Ban de timoneiro e Lendoon de segundo piloto. E esses odd... esses rapazes altos aí parecem fortes e animados, e o pequenininho pode ser útil também. Maldição, acho que podemos! — exclamou, mas parou, olhando para Kadiya desconfiado. — Só tem uma coisa...

— O que é, homem?

— Madame, não se ofenda, mas... a senhora sabe cozinhar?

— Sei, e Jagun também sabe.

— É um peso a menos na minha cabeça — disse Tyry. Ele deu um sorriso largo. — Ou na minha barriga. O velho Lendoon é o único daqui que sabe distinguir uma panela de uma vigia. Só que as gororobas dele fariam um skritek sair correndo para a amurada. Você e seu pequeno amigo tratem de nos alimentar, e ficaremos bem.

Kadiya suspirou.

O jovem piloto entornou o resto do seu ilisso, bateu com o copo na mesa do salão dos oficiais e notou, aparentemente pela primeira vez, que estava seminu. Ele corou.

—Vou vestir uma roupa, acordar Ban e Lendoon. Se você e sua tripulação souberem obedecer ordens, madame, zarparemos em uma hora.

Os três filhos do rei Antar e da rainha Anigel ficaram inicialmente confinados em uma suntuosa cabine da nau capitânia raktumiana, junto com lady Sharice, encarregada de cuidar deles, dois guerreiros tuzamenianos e o Voz Negra do feiticeiro montando guarda. Quando Sharice admitiu que eram de fato prisioneiros, e o rei Antar também, o príncipe consorte Nikalon e a princesa Janeel pediram para ver o pai. Esse pedido foi seguidamente recusado, então os dois fizeram greve de fome e se empenharam em atazanar a vida da traidora Sharice, censurando-a sem parar, não deixando-a em paz um minuto, enquanto a trirreme navegava veloz para o sul no mar de tempestade.

Ela acabou chorando e entrando sem cerimónia no grande camarote de Portolanus.

— Grande Senhor! Preciso falar com o senhor. Oh...

Apesar de estar tão atormentada, Sharice percebeu imediatamente que o homem sentado à escrivaninha, com a roupa do feiticeiro, era muito diferente do aposentado caduco que conhecera. Era Portolanus... mas não era, eela piscava os olhos inchados de tanto chorar, imaginando se estava ficando louca.

Ele mexia em um objeto estranho, todo desmontado, as partes espalhadas na sua frente, polindo as minúsculas peças de metal da máquina com rouge de joalheiro. Seus dedos estavam manchados de vermelho e pareciam salpicados de sangue.

— É... é o senhor, Mestre de Tuzamen? — gaguejou Sharice. Ele olhou para ela, e seus olhos eram cor de prata azulada, com pupilas muito grandes e, bem lá no fundo, faiscavam pequenos pontos dourados. Uma malignidade palpável emanava dele, mergulhando na vergonha e tristeza da alma de Sharice, desprezandoas com enorme frieza. Ela sabia que tinha de fugir. Mas encontrou coragem para sussurrar.

— Mestre... o príncipe Nikalon e a princesa Janeel se recusam a comer. E... e eles me censuram eme desprezam, e não posso mais ficar com eles.

— Se não querem comer —disse Portolanus secamente —, deixe-os sem comida. Vão acabar com essa teimosia quando seus estômagos doerem bastante.

— Não, grande senhor. — Sharice torcia e retorcia um belo lenço de renda, fazendo-o em pedaços, e tinha uma expressão arrasada, com os olhos fundos. —O príncipe consorte é um menino com grande força de vontade e a irmã tão resoluta quanto ele. Eles ficarão com fome e acabarão doentes, não vão desistir. E... e eles me maltratam tanto! Ficam me reprovando sem parar por causa da minha traição e nos últimos dois dias, sempre que eu tentava dormir, um dos dois me beliscava para manter-me acordada. Mareada e sem dormir, estou completamente esgotada! Senhor, eu não agüento mais!

— Sua idiota. É só dormir em outra cabine à noite. Mas durante o dia vigiará as crianças e cuidará delas. Agora saia daqui e deixe-me trabalhar.

—Não posso ficar com eles! — gritou Sharice descontrolada. — Eles têm razão de me chamar de malvada e sem honra. Suas expressões de reprovação partem meu coração! Ah, que idiota eu fui de sucumbir à tentação do Voz Negra e de resolver ajudá-lo a raptar as crianças! Nenhum tesouro que ofereça para mim e para meu irmão Osorkon poderá compensar a maldade que cometi.

Portolanus levantou da mesa e apontou um dedo manchado de vermelho para a mulher desesperada.

— Fora! — trovejou ele. — Ou farei os piratas da rainha regente surrá-la até recuperar o juízo!

Sharice saiu de fininho, gemendo.

O feiticeiro trabalhou em paz durante mais ou menos uma hora, consertando um dispositivo mágico enguiçado, capaz de ver embaixo da água e localizar a posição exata do talismã submerso de Kadiya. Então alguém bateu à porta, e o acólito baixo e magro que se chamava de Voz Negra entrou, o rosto vermelho de raiva.

— Mestre, aquela mulher miserável, Sharice, se jogou no mar. Foi vista por um vigia, mas nessa tempestade, não havia possibilidade de tentar içá-la. Ela deve ter se afogado quase que imediatamente.

Portolanus praguejou.

— Então ponha uma das mulheres piratas para cuidar das pestinhas reais.

— Há uma notícia pior. Durante a ausência de Sharice o príncipe consorte Nikalon ateou fogo em um travesseiro com um dos lampiões, e quando os guardas e eu chegamos para investigar o que era a fumaça, ele e a princesa Janeel nos driblaram e escaparam. Claro que foram imediatamente recapturados, mas teremos de ser mais cuidadosos no modo de prendê-los.

— É, temos mesmo — o tom da voz do feiticeiro era terrível. Ele começou a limpar as mãos com um pano. — E já que você, minha voz principal, parece incapaz de lidar com esse probleminha de forma competente, vou tratar pessoalmente do novo arranjo de coisas, antes da minha conferência com a rainha regente.

Quando Portolanus saiu do seu escritório com o VozNegra, sua aparência sofreu uma mudança. O corpo, que parecia pertencer a um homem normal e proporcional quando estava dentro da sua cabine particular, encolheu e se deformou, ficando extremamente velho. Os dedos, que eram fortes e firmes quando trabalhava na Máquina dos Desaparecidos, ficaram retorcidos, as unhas manchadas e rachadas. Os olhos se embaciaram e a pele do rosto, antes lisa, tornou-se rugosa e marcada, repulsiva como um fungo dos pântanos. Ele claudicava lentamente pelo corredor, indo para a cabine onde estavam aprisionadas as crianças reais, apoiando-se nas paredes quando o navio jogava sobre o mar revolto.

Ao entrar na cabine, que fedia a penas queimadas, viu Nikalon e Janeel amarrados em cadeiras. Os guardas tuzamenianos supervisionavam um tripulante temeroso que trocava os lençóis da cama encharcada e coberta de fuligem. O pequeno príncipe Tolivar, que não estava amarrado, observava tudo sentado em um sofá, comendo um punhado de frutinhas hala. Quando o feiticeiro apareceu, ele esqueceu das frutinhas e ficou boquiaberto, olhando para o recém-chegado.

—Então, o que foi essa confusão toda?—perguntou Portolanus em tom de reprovação. — Incendiando as coisas? Recusando-se a comer? Vocês sabem que isso não pode acontecer. Quero poder devolver vocês para sua mãe real bem saudáveis e felizes assim que o resgate for pago.

— Queremos ver nosso pai — disse o príncipe Nikalon. Portolanus levantou as mãos e seus olhos rolaram nas órbitas.

— Infelizmente, jovem lorde, isso não é possível. Ele não está mais neste navio, está em outro, que partiu veloz para Raktum. Mas logo que o resgate dele for pago, voltará são e salvo para o seu país, e vocês três também.

— Eu acho — disse o príncipe consorte, sem modificar o tom de voz—que você está mentindo. Soubemos pela traidora Sharice que você aprisionou o rei na mesma hora que ela nos atraiu para longe do baile, para este navio. Ela disse que ele está acorrentado no porão, com os remadores escravos, merecendo um tratamento igual ao deles. Se você concordar em dar ao nosso pai o respeito devido a um prisioneiro real, minha irmã e eu pararemos de fazer jejum e daremos nossa palavra de honra de não tentar escapar.

Portolanus estalou a língua e passou a negar a história, observando que o príncipe Tolivar era muito sensato, pois continuava a comer, e então Tolo deixou as frutinhas de lado e ficou envergonhado.

—Ele é jovem demais para entender—disse a princesa Janeel. — Mas nós compreendemos muito bem qual é o seu objetivo, de roubar o talismã mágico da nossa mãe e usá-lo para o mal.

O feiticeiro deu uma risada, satisfeito.

— Que trama de mentiras a lady Sharice teceu para vocês! É verdade que o talismã é o resgate, mas que vou usá-lo para o mal é falso. Não mesmo, mocinha! Eu vou usá-lo para recuperar o equilíbrio perdido do mundo, coisa que sua mãe não sabe fazer. Ela jamais compreendeu de fato seu talismã, e nem suas duas irmãs. Por isso nosso pobre mundo está à beira de uma grande catástrofe, com humanos planejando guerras contra humanos, o povo sendo subjugado e terríveis encantamentos ameaçando destruir a terra aqui embaixo e derrubar as Três Luas do céu!

— E você poderia consertar isso? — perguntou o pequeno príncipe Tolivar, assombrado.

O feiticeiro fez que sim com a cabeça, cruzando os braços, numa pose altiva.

— Meu conhecimento é vasto e meus poderes são muito maiores do que os da sua tia Haramis, a Arquimaga. Ela está tentando recuperar o equilíbrio, mas não pode fazê-lo sem ajuda. Essa ajuda, só eu posso oferecer.

O príncipe consorte Nikalon não estava acreditando.

— Ouvi rumores de guerras. E os únicos oddlings que são oprimidos são os rebeldes ou arruaceiros.

— E o equilíbrio do mundo foi restabelecido — acrescentou a princesa Janeel —, quando nossa mãe e suas irmãs derrotaram o malvado mago Orogastus. Elas são as Três Pétalas do Trílio Vivo. Os três talismãs mágicos que estão aos cuidados delas garantem que haverá paz para sempre.

—Mas sua tia Kadiya perdeu seu talismã!—sibilou Portolanus, arregalando os olhos vermelhos. — Vocês sabiam disso?

— Não — admitiu Nikalon, e pela primeira vez sua confiança ficou abalada.

— É por isso que está acontecendo essa terrível tempestade?— perguntou Tolo, ressabiado.

Portolanus deu um sorriso largo para o menino.

— Rapaz esperto! Ah, que cérebro você tem! É claro que a tempestade é um sintoma do equilíbrio perdido do mundo, e você já sabia disso, seu irmão e sua irmã, não.

Tolo sorriu encabulado.

Mas o feiticeiro rodopiou no meio deles, olhando furiosamente para Niki e Jan.

—Não vou desperdiçar mais tempo com vocês dois. Se não me derem sua palavra de honra que vão desistir dessa estúpida greve de fome e que vão se comportar direito, então terei de trancá-los em um lugar horrível e escuro, infestado de varts de navio.

Tolo ficou horrorizado.

— Eu também?

Portolanus deu uns tapinhas na cabeça do menino, parecendo triste.

— Ah! Você também, querido rapaz... se seus teimosos irmão e irmã insistirem em se comportar mal.

— Mas tenho medo de varts de navio! — choramingou o menininho. — Eles mordem! Niki... Jan... digam que vão fazer o que ele quer.

O príncipe consorte Nikalon empertigou-se o mais que podia, já que estava amarrado na cadeira.

— Tolo, fique quieto! Lembre que é um príncipe de Laboruwenda — e então dirigiu-se a Portolanus. — Se nosso pai real está sofrendo, será uma honra partilhar seu suplício.

— Eu digo o mesmo—o rosto da princesa Janeel estava muito pálido, mas ela apertou os lábios e ergueu o queixo, mesmo quando Tolo começou a chorar apavorado.

— Leve-os para o compartimento das correntes — Portolanus ordenou ao Voz Negra. — Não podem levar nada com eles, a não ser as roupas que estão vestindo. E dê-lhes apenas pão e água para comer... ou não comer, como quiserem... até recuperarem o bom senso.

Os dois cavaleiros de cara verde, que estavam de guarda na porta com o timbre real de Raktum na parte de cima, sacaram suas espadas com certa relutância, quando Portolanus surgiu cambaleando no corredor do castelo de popa, curvado quase até o chão, oscilando de um lado para o outro da passagem e balançando os braços para manter o equilíbrio com o movimento do navio na tempestade.

— Ela não poderá vê-lo, mago — disse um dos homens com voz tensa. — A dama de companhia não transmitiu a mensagem?

— Oh céus, oh céus — balbuciou Portolanus. — Mas eu preciso falar com a rainha regente. Meu assunto é muito urgente!

Ele não usava seu chapéu pontudo, e sim um manto com capuz, roxo, com listras cor-de-rosa e salpicado de estrelas prateadas.

— Volte quando o tempo melhorar — ordenou o segundo cavaleiro-pirata, que tinha os olhos fundos e os lábios úmidos, meio azulados. — A rainha Ganondri está de cama, mais enjoada do que nós, sendo atendida por sua médica. Perderíamos nossas cabeças se deixássemos qualquer um entrar.

— Já perdemos nosso almoço — disse o primeiro cavaleiro, acenando com a cabeça para um balde que havia perto.

— Que coisa, que coisa! Vocês estão mareados? — disse o feiticeiro, remexendo em uma grande bolsa roxa que tinha pendurada no cinturão do manto espalhafatoso. — Tenho aqui um remédio para o que aflige vocês, que vai curar rapidamente a pobre rainha Ganondri também...

O primeiro cavaleiro zombou do mago.

— Não queremos nenhuma de suas desprezíveis poções, Mestre de Tuzamen, e a grande rainha também não. Suma daqui!

Portolanus tirou da bolsa um bastão curto feito de metal escuro, com enfeites em relevo e várias pedras incrustadas. Sorrindo avidamente, aproximou-se dos cavaleiros segurando o bastão com as duas mãos.

—Não é poção! Estão vendo? Um toque com este instrumento mágico de cura e seu sofrimento cessará.

Os piratas nauseados rejeitaram a oferta e insistiram em impedir a entrada de Portolanus, cruzando as espadas diante da porta. Portolanus gemeu, curvou-se e deu meia-volta para ir embora, como se desistisse, de forma que os cavaleiros foram pegos completamente de surpresa, quando o velho aleijado rodou e pulou sobre eles com a agilidade de um fedok, tocando primeiro no rosto de um, depois no do outro. As espadas caíram no chão atapetado do convés com um ruído surdo e os olhos dos homens rolaram para dentro das órbitas. Escorregaram devagar pelo anteparo dos dois lados da porta, e terminaram sentados com as pernas esticadas para a frente e as cabeças afundadas no peito, inconscientes.

O feiticeiro apontou o dedo para eles, como se estivesse repreendendo-os.

— Eu disse que o assunto que tinha para tratar era urgente. Então ele tirou um outro objeto da bolsa, uma chave dourada sem ponta, e usou-a para destrancar a porta. Entrou no salão elegante e bem decorado da rainha regente, que estava vazio e sem luz, as vigias fechadas para evitar a visão angustiante das ondas gigantescas. Com espantosa facilidade o feiticeiro puxou os dois corpos com suas armaduras pesadas para dentro da cabine e trancou a porta novamente. Uma mulher alta, vestida de preto, apareceu de repente em uma porta interna, que dava para os aposentos da rainha.

— O que é isso? — exclamou ela rispidamente. — O que está fazendo aqui?

— Oh céus, oh céus! — bufou o feiticeiro —, um grande desastre, senhora médica! Venha ver! Encontrei esses bons homens dormindo em seus postos, e não consegui acordá-los.

Ele dançava de um lado para outro, abanando as mãos, enquanto a médica abaixou-se para examinar o homem que estava mais perto. Mas assim que ergueu a pálpebra do cavaleiro, Portolanus tocou com o bastão na sua cabeça, e ela caiu por cima dos corpos das outras vítimas.

— Koriandra? O que foi? — chamou uma voz aflita.

O feiticeiro entrou correndo nos aposentos reais e esboçou uma mesura.

— Você! O que fez com meus criados? — gritou a rainha regente.

— Temos de conversar, grande rainha. O seu pessoal está dormindo em paz. Não causei nenhum mal a eles, só os deixei desmaiados com meu bastão mágico. Outro toque com ele e se recuperam... depois da nossa conversinha.

Ganondri estava deitada em uma grande cama redonda, recostada em travesseiros com bordas rendadas e coberta com um belo acolchoado de seda. O cabelo acobreado estava despenteado, em tranças, e o rosto apresentava a palidez da morte, mas apesar do enjoo, seus olhos cor de esmeralda flamejavam de fúria. Estendeu a mão para puxar a corda da sineta.

Portolanus puxou-a para fora do alcance da rainha com seu bastão, meneando a cabeça e estalando a língua.

— Precisamos conversar sem interrupções.

— Bandido infame! — coaxou a rainha pirata. — Como ousa invadir meus aposentos?

O navio adernou violentamente. O enjoo dominou-a e ela caiu para trás, apertando a testa com a mão.

Calmamente, Portolanus cortou a corda da sineta com sua pequena adaga. Depois puxou uma cadeira para o lado da cama e jogou o capuz para trás. O cabelo e a barba, molhados, estavam emaranhados, e ele tinha as feições retorcidas, o nariz torto como raiz, os lábios pendentes e enrugados como a abertura de uma velha sacola de couro.

— Graciosa dama, temos de continuar aquela conversa que começamos dois dias atrás, no início da nossa fuga de Taloazin, que infelizmente foi interrompida quando você ficou indisposta. Pensei muito naquela nossa breve conversa, e fiquei preocupado com certas implicações. Devo insistir para que você esclareça certas observações misteriosas que fez... e deve fazer isso imediatamente.

Ganondri virou o rosto para longe dele.

—Estou quase morrendo com essa terrível tempestade que você conjurou, feiticeiro. Faça-a parar e então conversarei com você.

— Não. É esse vendaval que vai nos fazer chegar às ilhas Windlorn antes da rainha Anigel, para eu poder me apoderar do talismã mágico da irmã dela, Kadiya. Você sabe muito bem disso, grande rainha.

Ganondri gemeu.

— Eu sei!... Agora eu sei, seu hipócrita! Mas isso não fazia parte da sua barganha inicial. A primeira vez que ouvi falar dessa viagem maldita para o sul foi quando todos subimos a bordo com os prisioneiros. Tenho procurado entender e pensado muito nisso desde então! Nosso acordo original só tratava do seqüestro do rei Antar e dos filhos dele, para você poder pegar o talismã da rainha Anigel. Fizemos essa aliança de igual para igual, apesar da sua presunçosa naçãozinha ser insignificante em recursos comerciais, não ter dinheiro e nem força armada. A grande Raktum abrigou-o sob suas asas porque você me garantiu que conquistaríamos o mundo juntos, logo que se apoderasse do talismã de Anigel como resgate do seqüestro. E eu acreditei em você... que tola eu fui!

— Pode acreditar em mim agora. Nada mudou.

— Mentiroso! Não havia nada no seu acordo sobre ajudá-lo a conquistar um segundo talismã!

Portolanus sacudiu os ombros e sorriu abertamente.

— Da primeira vez que fez sua oferta — continuou a rainha —, pedi aos nossos sábios em Frangine para determinar exatamente que tipo de artefato mágico você cobiçava. Disseram que o talismã de Anigel é apenas um em três, e que juntos eles formam o invencível Cetro do Poder. Com um talismã em suas mãos, você teria a nação de Anigel indefesa, e Raktum e Tuzamen juntos poderiam conquistá-la. Isso era aceitável. Mas com doistalismãs de poder, você certamente os utilizaria para obter o terceiro.

— Não...

— Não negue! Você cobiça esse Cetro todo-poderoso. E quando estiver com ele, a grande Raktum será logo reduzida a uma nação dependente de Tuzamen e a rainha será sua escrava.

O feiticeiro abanou as mãos, desanimado.

— Você entendeu mal...

A mulher mareada ergueu-se nos travesseiros, revigorada pela raiva.

— Silêncio, traste! Não me venha com condescendência. Se eu não estivesse prostrada com essa náusea, teria descoberto seu plano antes. Agora que entendi, já tomei precauções para assegurar que Raktum não caia sob seus feitiços demoníacos.

Portolanus esfregou as mãos.

— Não, não! Somos aliados! Eu jamais pensaria em tal perfídia! Você me julgou mal!

— Eu o julgo corretamente e o considero deficiente.

A rainha falava por sussurros sibilantes. Os olhos verdes estavam flamejantes.

— O fato de você e seus três capangas nojentos estarem vivos se deve à minha clemência. Meus cavaleiros tinham ordens de matá-lo, enquanto dormia na noite passada, mas pensei melhor. Resolvi cumprir sua barganha original, de ajudá-lo a obter um talismã.

Ela recostou-se, novamente enjoada, mas depois de um segundo continuou a falar.

— E não pense que pode vencer me matando ou me inutilizando com mágica. Fiz planos contra essa contingência antes mesmo de zarpar para a coroação em Zinora. A grande esquadra pirata de Raktum tem suas ordens. Se qualquer coisa acontecer com a rainha regente por sua causa, nossos navios de guerra interditarão todos os portos de Tuzamen. Você jamais poderá voltar para o seu país por mar. E se voltar pela terra, nosso exército cuidará de você, de forma que seus sonhos de conquista do mundo serão reduzidos a nada.

Portolanus abaixou a cabeça.

— A rainha regente é uma estrategista brilhante.

— Pode zombar de mim, se quiser—retrucou ela. — Mas não esqueça do que eu disse. Se eu não der ordens diárias, todas as manhãs, ao meu almirante, para continuar rumo ao sul, esse navio mudará imediatamente de rota e irá para Raktum com meu corpo, morto ou inconsciente. Você perderá o talismã de Kadiya. A rainha Anigel está no seu encalço e sabe o que você procura. Certamente ela também conhece um jeito de evitar que o talismã da irmã caia em suas mãos, utilizando o dela.

— Como você tem tanta certeza de que eu não posso forçar a tripulação deste navio a me obedecer, depois que você estiver morta ou incapaz de reagir?—perguntou Portolanus em um tom diferente. — Minha mágica pode forçar qualquer um a fazer o que eu quiser!

A personificação debilitada dele desapareceu, e o rosto, embora continuasse grotesco, tinha mudado. Em volta dele havia uma aura de magia tão ameaçadora que a rainha regente achou que ia desmaiar de medo, mas continuou firme.

— Se você não precisasse da grande Raktum, jamais teria feito um pacto conosco, para começar. Quanto a dominar este navio, você pode achar que conhece um jeito de apossar-se dele. Mas quero lembrar que outros três navios raktumianos armados estão nos seguindo, junto com o seu. Antes de sair de Taloazin, eu não compreendia seu plano inteiramente, mas sabia o suficiente para não deixar o controle nas suas mãos. Os três capitães da minha escolta não permitirão que você retorne ao seu navio tuzameniano, a menos que eu dê ordem. Se você subir a bordo clandestinamente e tentar fugir, eles alcançarão sua embarcação, que é mais lenta, e vão bombardeá-la com suas catapultas de fogo.

O feiticeiro não disse nada.

Os olhos de Ganondri brilharam triunfantes.

— Você tem poder, mago, mas seu poder não é invencível. Essa invencibilidade pertence apenas a quem juntar os três talismãs das trigêmeas ruwendianas e formar o Cetro... Você pode até ficar com o talismã de Kadiya. Meus súditos e eu vamos ajudá-lo a conseguir isso. Mas quando estiver seguro em suas mãos, ligado a você por meio da sua caixa mágica, você será desembarcado em uma das ilhas Windlorn, onde ficará aguardando o resgate pelo seu navio tuzameniano. Deixará comigo a caixa-estrela. O rei Antar e seus pestinhas também ficarão sob minha custódia, e eu exigirei o pagamento do resgate de Anigel. O talismã dela será meu!

— Parece que você pensou em tudo.

A rainha deu uma risada suave e proposital.

— Minha vida tem dependido da minha esperteza há muitos anos, mago. Senão, como é que você acha que uma pobre e velha viúva ia se tornar rainha do reino dos piratas?... Agora saia. E cure meus criados ao sair.

Os olhos faiscantes se fecharam lentamente. Portolanus ficou um longo tempo ao lado da cama, observando a rainha mareada, apertando o bastão paralisante com uma mão e acariciando um desgastado pingente em forma de estrela, que usava escondido por baixo da roupa com a outra. Mas finalmente ele sacudiu a cabeça frustrado e saiu, depois de tocar a médica inconsciente e os cavaleiros, que gemeram e começaram a recuperar a consciência lentamente.

Havia uma solução em potencial para o impasse. Mas não estava na rainha Ganondri, e sim em outra pessoa, que ele foi correndo ver.

Sob o céu cinzento, do qual a chuva tinha finalmente parado de cair Portolanus andava furtivo pelo convés balouçante, segurando firme nos cabos de segurança para não perder o equilíbrio e cair pela amurada. As ondas que quebravam nas laterais do navio espirravam nele, deixando-o completamente molhado de água salgada. A enorme trirreme raktumiana se contorcia como um grande animal atormentado, pois voava adiante da ventania em uma velocidade assustadora, com apenas algumas velas esfarrapadas. Os escravos da galé, é claro, não se importavam. Com vento tão forte, seus remos prejudicariam o avanço do navio, em vez de ajudar. De qualquer forma, quase todos estavam terrivelmente enjoados, assim como a maioria dos passageiros, e Voz Amarela e Voz Roxa também.

A náusea dessa dupla era bem inconveniente para Portolanus. Precisava de pelo menos dois acólitos seus como fontes acessórias de energia mental para poder examinar o mar em longas distâncias, visualizando os navios inimigos que estavam no seu encalço. Sem a ajuda de duas ou mais vozes, o feiticeiro só conseguia supervisionar as águas com outra pequena máquina dos Desaparecidos. Era um artefato excelente, que mostrava a posição de outras embarcações ou de formas terrestres até o horizonte, que funcionava tanto à noite quanto de dia. Só que não via abaixo da linha do horizonte, como a sua visão mágica.

Portolanus não considerou, nem uma única vez, amenizar a força da tempestade que havia invocado. Teria tempo bastante para espionar Anigel, quando chegassem às calmarias no meio das ilhas e à corrida final para o talismã.

Quando finalmente chegou à ponte de comando, Portolanus abriu a porta e entrou cambaleando, tremendo e bufando contra o tempo horrível. O almirante Jorot, de pé atrás do timão, deu apenas uma olhada rápida e desgostosa para o feiticeiro. Mas dois outros oficiais piratas apressaram-se em ajudar o passageiro distinto a sentar-se em uma cadeira diante da mesa de navegação, oferecendo toalhas para enxugar a água do mar que escorria do seu cabelo, pelo seu rosto, e uma capa seca e quente para cobri-lo. Estranhamente, o rei Ledavardis também estava presente na ponte de comando, de pé, a um canto, observando o feiticeiro ridículo todo encharcado com uma mistura de nervosismo e fascínio.

— O senhor não devia ter corrido esse risco de vir até aqui, grande senhor! — disse um dos oficiais.

Portolanus acenou para ele se afastar com um sorriso afetado.

— É necessário que eu transmita ao almirante uma mensagem urgente que acabo de ouvir dos lábios da rainha Ganondri. Peço que os outros nos deixem a sós por um momento — disse, inclinando a cabeça e dando um sorriso debochado para o menino-rei —, inclusive você, jovem senhor.

— Meu timoneiro não! — protestou Jorot.

O cabelo e a barba do almirante eram brancos e o rosto emaciado pelo tempo, bronzeado como uma bota velha. Ele era alto e parecia debilitado. Diziam que sofria em segredo de uma doença mortal. Mas comandava seus homens com autoridade férrea e até a rainha Ganondri se dirigia a ele respeitosamente, e não com sua empáfia costumeira.

O tom de voz que o feiticeiro usou era melodioso mas insistente, quando respondeu à objeção do velho lobo-do-mar.

— Sim, o timoneiro também tem de sair. A menos que não possa conduzir sozinho o seu navio, almirante.

— Isso eu posso fazer, Mestre de Tuzamen — disse Jorot, cerrando os dentes. Ele disse aos outros para saírem e ficou no timão, de costas para o feiticeiro. — Agora, que história é essa de mensagem da grande rainha? Ela não confia em estrangeiros indefiníveis.

Portolanus riu baixinho.

— No entanto você parece bastante interessado no que esse estrangeiro indefinível tem para dizer, em particular.

— Diga logo, então, e vá embora.

— Não seja tão ríspido, almirante. Andei observando você. É um homem forte e inteligente e, além de tudo, tem uma excelente mentalidade de pirata. Estas são qualidades que devem ser valorizadas e eu gostaria de partilhar algumas idéias com você e talvez discutir certos assuntos, que são importantes para nós dois.

— Guarde seus truques desonestos para os ingênuos laboruwendianos. Está perdendo seu tempo.

— Creio que não. Para provar que minhas intenções são boas, vou mostrar meu verdadeiro eu para você, coisa que jamais fiz para qualquer um a bordo, a não ser meus três acólitos.

Portolanus tirou a capa e o volumoso manto de mágico que estava encharcado. Ele estava ereto, sem nenhum sinal da enfermidade senil que sempre apresentava. Jorot olhou assombrado para o feiticeiro transformado e rosnou uma praga, pois Portolanus era um homem muito mais alto do que ele. Vestido apenas com uma malha justa e uma camisa por cima, uma estrela prateada de muitas pontas, bem gasta, pendurada no pescoço, parecia forte como um atleta. Até seu rosto, emoldurado pelo cabelo louro embaraçado e desfigurado pelo bigode desalinhado tinha mudado, deixando de ser horrorosamente velho para voltar à meia-idade, quase belo, já que não tinha mais as feições contorcidas.

— É! — exclamou Jorot. — Então você tem mais truques na manga do que qualquer um de nós suspeitava.

— Pense como quiser, almirante — a voz de Portolanus tinha mudado junto com todo o resto, estava ressonante e viril. — Mas não duvide dos meus poderes mágicos, pois são ainda mais formidáveis do que você imagina. Essa grande tempestade foi criada por mim e se quisesse poderia acabar com ela em um instante... ou fazêla atingir tal nível de fúria que engoliria seu navio.

— E você junto! — zombou Jorot.

— Eu não morreria, nem eu nem minhas três vozes, nem os prisioneiros reais que seqüestrei. Só você e sua tripulação seriam destruídos, e todos os passageiros, inclusive a rainha regente Ganondri e seu reizinho duende... bastaria eu querer.

— E você quer?

O feiticeiro deu a volta no timão para Jorot poder vê-lo de frente.

— Isso, almirante Jorot, depende inteiramente de você. Você é um homem que serve à rainha regente com tanta fidelidade que daria sua vida por ela?

O velho pirata deu uma sonora gargalhada.

— Aquela megera vaidosa? Ela tem sido uma praga para o nosso país há sete anos, e nenhum homem da minha tripulação derramaria uma lágrima ao vê-la respirando água salgada. Só os cavaleiros de sua guarda pessoal são leais a ela por aqui, e seus parentes em Raktum—olhou de soslaio para o feiticeiro, franzindo a testa. — Mas se ousar fazer mal ao rei Ledo, conjurador, os marinheiros do mar do Norte irão atrás de você até os confins do mundo conhecido, e darão seu corpo de comer ao monstro Heldo.

Portolanus deu uma risadinha.

— Ora, ora! Então o rapaz é o queridinho de vocês, não é? Eu andei pensando por que o jovem feioso raramente era visto nos aposentos reais.

— Seu rosto e seu corpo são malfeitos — disse Jorot tristemente —, mas seu espírito é o de um grande príncipe. Um dia o mundo vai deixar de desprezá-lo... se ele sobreviver até a maioridade.

Portolanus ficou interessado.

— E por que ele não haveria de viver até lá?

— Sua avó real está com sessenta e dois anos de idade e goza de excelente saúde. Ela não está disposta a desistir das rédeas do poder daqui a dois anos, como deveria, de acordo com a nossa legislação. Não, se puder governar mais vinte anos, caso o rei seja declarado incompetente ou sofrer algum infortúnio fatal.

—Você está correto na sua avaliação da ambição de Ganondri, almirante. Ela é uma adversária inteligente e corajosa. Mas também me subestimou, fatalmente... e por essa razão vim até aqui estanoite para conversar com você.

Os olhos de Jorot se iluminaram de repente, quando compreendeu.

— Entendi! A rainha não tem medo de você! Ela o enfrentou, feiticeiro, e agora ameaça de alguma forma seus planos desonestos.

— É isso mesmo — admitiu Portolanus. — Embora eu seja o senhor supremo da magia, ainda não domino uma multidão de seguidores, e nem minha pequena nação, Tuzamen, tem um exército poderoso ou armada de navios de guerra comparáveis aos de Raktum. Ganondri e eu fizemos uma aliança antes de zarpar para Zinora para a coroação, mas recentemente percebi que não posso confiar nela. Deixe-me ser perfeitamente franco. Embarquei em Taloazin com meus prisioneiros neste navio, ao invés de ir no meu, porque a rainha me convenceu no último minuto de que esta era a embarcação mais segura, com armamento suficiente para repelir os perseguidores laboruwendianos. Isso é verdade... mas eu não me dei conta de que ela seria idiota bastante para repudiar os termos do nosso acordo original e tentar extrair de mim concessões extraordinárias.

— Nós, piratas, temos as nossas próprias noções de honra, é verdade. Mas nenhum de nós veleja a todo pano assim na ventania, quando se trata de negociações arriscadas, como a rainha regente!... Se ela o está ameaçando, por que simplesmente não golpeia a cabeça dela com sua feitiçaria?

— Se eu fizesse isso, você e os capitães dos outros navios raktumianos obedeceriam minhas ordens?

Jorot deu uma gargalhada.

— De jeito nenhum, trapaceiro. A magia negra tem seus limites. Não pode forjar lealdade ou amor... ou até mesmo respeito. Afunde-nos a todos com a sua mágica, se puder. Provavelmente o seu instável barco tuzameniano também afundaria, já que não foi desenhado para tempo ruim. Você e seus preciosos prisioneiros ficariam à deriva no meio do mar aberto, a mais de seis mil léguas de sua casa. Você ia preferir morrer, mesmo em uma calmaria... a menos que soubesse voar como os pássaros pothi.

— Ai de mim, eu não sei -— admitiu Portolanus amargamente. — Senão não estaria a bordo dessa sua chata balouçante neste momento.

Jorot estava empalidecendo e os tendões no seu pescoço saltavam com o esforço que fazia para manter a enorme trirreme na rota. Agarrava-se com força ao timão e os nós dos dedos estavam brancos.

— Feiticeiro, estou cansado de digladiar mentalmente com você e também estou fisicamente exausto. Não sou jovem e nem tenho boa saúde, e minha função é pilotar o leme, e não lutar contra um timão teimoso no meio desse vendaval. Terei de chamar o timoneiro de volta logo, senão me arriscarei a perder o controle do navio... o que poderia muito bem nos deixar sem mastros nessa ventania. Você deve ter uma boa razão para vir até aqui. Desembuche logo, ou volte para lá e continue seu jogo com a rainha regente.

O feiticeiro começou a vestir o manto molhado novamente.

—Muito bem. Se a rainha Ganondri morresse e o rei Ledavardis passasse a governar, você e todos os piratas aceitariam a soberania dele? Obedeceriam suas ordens?

— Com todo o entusiasmo — disse o almirante Jorot. — Mas se pensa que pode impor sua vontade ao rapaz, trate de mudar de idéia. Ele apenas finge ser um retardado, para não provocar a avó.

— Eu já suspeitava disso. Se ele for esperto, tanto melhor. Talvez possa evitar cometer os mesmos erros fatais que Ganondri cometeu.

— Fatais?

—Pretendo mandar a rainha regente para o além, assim que ela deixar de ser útil para mim.

— Posso avisá-la das suas pretensões malignas. Portolanus riu.

— É, poderia, mas acho que não faria isso. Avise ao pestinha real, isso sim. Se ele cooperar comigo quando estiver usando a coroa de Raktum, logo possuirá riquezas iguais às de mil anos de saques de piratas, e incontáveis escravos fortíssimos nas galés. E você, almirante Jorot, poderá ter o que desejar... até, e inclusive, o posto de vice-rei de Laboruwenda.

— Mas quando o resgate for pago...

— O rei Antar e seus filhos jamais voltarão vivos para a terra deles, com ou sem resgate. E a rainha Anigel, privada do seu talismã e de sua família, em breve terá seu país conquistado por minha magia e pela união das forças de Tuzamen e Raktum. Ah, sim, isso acontecerá muito depressa, logo que o coração e a vontade dela estiverem partidos...

Mais uma vez vestido com seu volumoso manto, Portolanus parecia ter encolhido e seu corpo se retorcia com a idade. O rosto recuperou o aspecto repulsivo de antes. Ele abriu a porta interna da ponte de comando do navio e gritou, com voz trêmula, para que os outros retornassem. O timoneiro e os dois oficiais entraram correndo, mas o rei Ledavardis não estava mais lá, tinha saído por outra porta.

— Dê ao querido rapaz lembranças minhas quando o vir novamente — disse o feiticeiro para o almirante. — E diga-lhe que gostaria de ter uma conversinha com ele muito em breve.

Ele cobriu a cabeça com o capuz e saiu na tempestade. Só que dessa vez não fingiu estar sendo açoitado por ela, caminhou com firmeza, devagar, mantendo o equilíbrio com facilidade, como se o navio estivesse ancorado em algum porto bem calmo, e ele tivesse saído para dar um passeio vespertino pelo convés.

Lá de baixo o príncipe Tolivar gritou.

— Está vendo alguma coisa?

— Ondas grandes e um pôr-do-sol bem tempestuoso, cheio de nuvens ligeiras—disse o príncipeNikalon.—Primeiro uma coisa, depois a outra, à medida que o navio sobe e desce.

— Nenhuma terra — disse a princesa Janeel. — Só mar.

— Isso é engraçado! — disse Tolo. — Do seu lado, deveria dar para ver toda a costa, se estamos voltando para a península. Talvez os piratas não estejam nos levando para a Raktum deles, afinal.

A única luz que havia na nova prisão das crianças provinha de duas aberturas idênticas, nove metros acima dos paineiros pegajosos do chão no compartimento dos ferros. A mobília do lugar consistia em três catres estreitos com cobertores velhos e bolorentos, um balde de despejos com tampa, uma vasilha de barro com água morna e um pequeno cesto com pães dormidos. Niki e Jan tinham resolvido que a greve de fome não serviria mais à sua causa, e já haviam comido a metade do pão.

Certificando-se de que seus captores não iam voltar, as duas crianças maiores subiram nos dois montes de correntes de âncora que praticamente chegavam ao teto do compartimento. Escalaram se agarrando aos elos gigantes pendurados, e passaram do grande mecanismo com dois guinchos e adriças de ferro, que içavam e abaixavam as âncoras, até os escovéns da proa por onde saíam as correntes. Proibiram o pequeno Tolo de segui-los. Sempre que a proa da trirreme subia em uma onda especialmente alta, ouviam um estrondo e a água do mar entrava pelas duas aberturas, molhando Niki e Jan. Mas a água, como o ar, era morna, e eles até pararam de gritar quando atingidos por uma nova ducha.

— As âncoras lá fora são tão monstruosas que escondem a maior parte da vista — disse Niki.

— Você acha que os buracos são grandes o suficiente para a gente passar e escapar por eles? — indagou Jan.

— Seria muito apertado com as âncoras no caminho — respondeu Niki. — E mesmo se conseguíssemos, cairíamos direto na água e seríamos tragados para baixo do navio.

— Desçam — implorou Tolo. — Acho que estou ouvindo aqueles horríveis varts de navio raspando as unhas em um dos cantos escuros novamente.

— Seu medroso — disse Niki, mais como um carinho do que uma reclamação. — Eles não podem machucá-lo.

— Mas eu detesto essas coisas. São tão feios e sujos. Desça aqui e venha espantá-los, Niki. Por favor!

O príncipe consorte começou a descer e depois de alguns segundos de hesitação, sua irmã também decidiu fazer o mesmo. As correntes estavam cobertas de lama fedida e molhada do rio e cheias de plantas aquáticas zinoranas, o que as tornava muito escorregadias.

— Quando o navio afinal parar em algum porto e eles jogarem os ferros — disse Niki para Jan —, eu vou fugir! Por um daqueles buracos, descendo pela corrente até a água.

— Os piratas não são idiotas — concluiu Jan. — Vão nos tirar daqui antes disso.

Os olhos dela estavam bem abertos, para ver com a pouca luz. Sem medo, ela agarrou-se com força em um enorme elo de ferro quando o navio mergulhou feito pedra caindo, depois apontou a proa para cima e subiu para o céu. As pesadas correntes, cada uma enrolada no respectivo tubo do guincho, balançaram só um pouco. Jan fez uma pergunta paraNiki, falando bem baixinho para o irmão pequeno lá embaixo não ouvir.

— Niki, você acha que eles vão nos matar?

— Não, se a mãe pagar o resgate.

— E o pai?

Niki desviou o rosto. Sua irmã era uma criatura corajosa e sensata, e normalmente confiava completamente nela. Mas naquele momento não suportaria contar o que achava do seqüestro do rei.

Sem Antar no trono, Raktum ia pensar que podia atacar seu vizinho rico do sul com a vantagem da impunidade, procurando conquistálo de uma vez, em vez de ficar simplesmente atacando seus navios em alto-mar. Niki ouvira várias vezes seu pai e sua mãe falando sobre o perigo que a ambiciosa rainha pirata representava. Mas para responder a Jan, ele teve de dizer outra coisa.

— Os piratas certamente vão pedir um resgate pelo pai também. Provavelmente um navio cheio de platina e diamantes por ele, além do talismã da mãe... mas apenas alguns baús por nós.

Jan sorriu.

— Talvez só um penico de prata pelo Tolo.

Lá embaixo, o príncipe menor deu um guincho.

— Eu ouvi alguma coisa de novo, mas não são varts de navio! Alguém está vindo para cá. Oh, desçam, rápido!

Niki e Jan começaram a escorregar para baixo, arranhando as mãos e rasgando as roupas no metal áspero, com a pressa. Mal saltaram das pilhas das correntes e pularam para as camas estreitas e uma seqüência de batidas indicou que estavam destrancando o compartimento dos ferros. A porta abriu-se. Além da porta havia um porão escuro, um lugar atulhado de coisas, cordas, pedaços de madeira, de metal, lonas velhas e barris de alcatrão. Um homem estava ali parado, segurando um lampião bem alto em uma das mãos e uma espada curta na outra. Não era um dos cavaleiros-piratas debochados que aprisionaram as crianças, mas um outro, que parecia um marinheiro.

—Para trás—ele ordenou ao príncipe Nikalon, que de um pulo tinha avançado até ele. — Para longe da porta, menino — ele iluminou o compartimento com o lampião e olhou em volta com cara de nojo. — Que lugar horrível para pôr três jovens, mesmo sendo gentalha de Labornok.

— Gentalha de Laboruwenda — disse Niki calmamente. — Quem é você, e o que quer?

— Sou Boblen, o contramestre, e trouxe uma visita para vocês — ele chegou para trás, afastando-se da porta, continuando a segurar o lampião no alto, e uma figura mais baixa, toda vestida de preto, materializou-se no porão escuro e entrou no compartimento das correntes.

— O rei duende! — berrou Tolo. — Ele veio para nos torturar! Jan deu um beliscão rápido e discreto no irmão menor.

O jovem rei Ledavardis corou diante do insulto impensado de Tolo, mas não disse nada, só ficou olhando para os três, um por um, como se fossem criaturas que nunca tivesse visto antes.

— Bem, já os viu, jovem senhor — disse o contramestre rispidamente. — Agora saia daí antes que alguém nos descubra aqui. Vai arranjar apenas uma bronca real e irá para a cama sem jantar, se a rainha regente souber que andou aqui embaixo... mas certamente ela mandará picar meu fígado e servi-lo aos peixes.

—Ótimo! — choramingou Tolo. — Espero que ela acabe com vocês dois! — disse ele, mostrando a língua.

—Fique quieto—ordenouNiki, depois virou para Ledavardis: —- Meu irmão é uma criança mal-educada e peço perdão pela grosseria dele. Mas ele não está acostumado a ser tratado como algum animal do zoológico real. Nem minha irmã, nem eu. Ou isso é um tipo de acomodação costumeira para passageiros reais nos navios de Raktum?

—Não, não é—disse Ledavardis, falando em voz baixa. Meio relutante, ofereceu uma sacola para a princesa Janeel. — Boblen disse-me que agora vocês só podem se alimentar de pão e água. Eu sinto muito. Aqui está um pássaro aquático assado e alguns doces com nozes que consegui encontrar.

Jan pegou a sacola sem dizer nada.

— Obrigado, rei — agradeceu Niki.

— Bom — murmurou Ledavardis, virando-se para ir embora. — É melhor eu ir.

— Só uma coisa — disse Niki. — Pode nos dizer como está nosso pai, o rei Antar? Ele está... ele está vivo?

— Está. Eu não o vi, mas sei que o mantêm acorrentado com os escravos das galés.

— Soubemos disso por lady Sharice.

— Tenho certeza que o rei não está sendo forçado a remar — Ledavardis apressou-se em dizer. — Os remos não são usados durante uma ventania dessas.

— Vamos todos ficar presos em Raktum, à espera do resgate? — perguntou Niki.

— Eu não sei. Primeiro temos de velejar para o sul, até as ilhas Windlorn, em uma missão misteriosa do feiticeiro.

— Para o sul! — gritou Niki.

— Vamos embora, não diga mais nada! — disse o contramestre, que estava no porão. — E se aquele filhote de lothok, o Voz Negra, nos encontrar aqui e contar para o feiticeiro?

— Cale-se, Boblen. Não vai acontecer nada conosco.

E o menino-rei continuou a desprezar os pedidos do homem, fazendo muitas perguntas sobre a vida que os três prisioneiros levavam na casa deles, em Laboruwenda. Queria saber como os cortesãos tratavam os três, se podiam sair do palácio e viajar pelo país, como era o ensino deles, se tinham amigos da mesma idade, se invejavam as crianças que não eram reais.

Nikalon e Janeel deixaram rapidamente de lado as suspeitas que tinham de Ledavardis, tratando-o com educação e até simpatia, fazendo também perguntas, além de responder às dele. Mas o pequeno Tolivar não conseguia deixar de sentir repulsa diante da feiúra do jovem raktum iano, e não falou com ele, a não ser uma vez, para perguntar se ele gostava de ser um rei pirata.

Ledavardis parecia não notar a hostilidade do menino. Explicou que foi muito feliz quando seu pai, o feroz rei Ledamot, era vivo. O monarca raktumiano transformou sua armada de navios piratas no flagelo do mar do Norte, e era implacável com qualquer um que o ameaçasse. Amava muito o filho e foi cruel com todos os nobres raktumianos que ousavam sugerir que Ledavardis talvez fosse incapaz de sucedê-lo no trono.

Mas então o rei Ledamot morreu precocemente em um naufrágio e a rainha mãe Ganondri logo provou que não ia tolerar nenhum regente rival do seu neto. Vários capitães de esquadra importantes que se opuseram a ela morreram de doenças misteriosas, explicou Ledavardis, e outros ela derrotou abertamente, através de astutas jogadas políticas, privando-os de suas fortunas, além de todo poder. A mãe do menino-rei, a rainha Mashriya, ficou reduzida a uma inválida patética, que jamais deixava o leito.

Ledavardis foi bem realista quando contou como sua vida mudou para pior nos sete anos de regência de sua avó. Embora o menino-rei tentasse minimizar seus problemas, era evidente que se sentia solitário e desprezado na corte raktumiana. Só encontrava um pouco de alegria quando o deixavam sair para o mar, com alguns dos capitães piratas mais velhos, que escaparam do expurgo da rainha regente e continuavam amigos dele. No mar seu corpo torto ganhou força, e era onde se sentia um verdadeiro rei, não uma criança indefesa.

Quando Ledavardis finalmente saiu do compartimento das correntes, Niki e Jan admitiram um ao outro que estavam arrependidos de terem achado que ele era um duende. Mas o jovem Tolo imitou o andar esquisito do corcunda, e fez caretas debochando de sua feiúra, chamando-o de bebê-chorão e covarde, dizendo que não era um pirata de verdade.

Jan abriu a sacola de comida.

— Quem se importa com isso? Foi bondade dele trazer isso para nós.

— Provavelmente está envenenado — disse Tolo, fazendo uma careta. — Eu não confio naquela droga de rei duende!

Niki tirou a pequena ave do saco, desembrulhou-a do guardanapo e cheirou.

—Não, parece bom — estendeu o guardanapo como toalha de mesa sobre o chão sujo, e espalhou a comida por cima. — Mas essa visita de Ledavardis foi estranha, e mais estranho ainda foi ter aberto seu coração para nós — ele olhou para a irmã, que continuava segurando a sacola vazia. — O que você acha, Jan?

—Eu... eu acho que o rei de Raktum é uma pessoa muito infeliz — disse ela. — Não sei nada além disso.

Niki partiu a ave em pedaços, distribuiu, e os três começaram a comer.

A rainha Anigel estava em suacabine, sozinha, triste e apreensiva. O capitão do navio laboruwendiano, assim como Owanon, Ellinis, Lampiar, Penapat e os outros nobres da corte, tinham pedido para ela não fazer suas avaliações com o talismã no convés, mesmo ficando mais próxima de seus entes queridos ao ar livre, porque corria o risco de ser jogada para fora do navio por uma onda grande enquanto estivesse em transe.

Ela não comia quase nada havia quatro dias e tinha um sono agitado. Só aceitava ser atendida por Immu. Passava praticamente todo o tempo observando o marido e os filhos perdidos com a ajuda da tiara mágica, para se assegurar de que não estavam mais sofrendo. De vez em quando também visualizava o feiticeiro Portolanus, mas não conseguiu ver os encontros importantes dele com a rainha regente e o almirante Jorot, por isso não conhecia o plano de Portolanus de assassinar os prisioneiros assim que obtivesse o resgate.

Anigel viu a primeira visita que o rei Ledavardis fez às crianças, e ficou surpresa e comovida com a bondade inesperada do jovem rei. Viu também a segunda ida dele ao cativeiro, sozinho, no quarto dia de viagem, levando mais comida. Ficou lá mais de uma hora, perguntando a Niki e Jan como tinham sido atraídos, sem saber, para fora do baile da coroação, e o que achavam de Portolanus. Ledavardis era um menino bastante ingênuo, apesar de já ter dezesseis anos. Ficou claro para Anigel que ele suspeitava um pouco do aliado tuzameniano da avó, e que temia o que o futuro guardava para ele.

Ledavardis também mencionou casualmente o modo como o feiticeiro tinha abatido os guardas e a médica da rainha regente com seu bastão mágico, despertando-os mais tarde ao encostar o mesmo instrumento neles outra vez. Anigel mal conseguiu conter a animação quando ouviu isso, pois achava que aquele bastão tinha sido usado em seu marido, Antar. Afinal, ele não estava em coma mortal, como pensou, ao ver que não acordava havia dias, mas apenas sob o efeito de algum encantamento, que se desfaria quando o feiticeiro quisesse.

O rei Ledavardis gostava de conversar com outros jovens do seu nível. A vida de uma criança real não era natural, mesmo sob as melhores condições, mas aquele menino, com a coluna torta e feições repulsivas, tinha menos sorte que os outros.

Anigel ficou triste e constrangida com o jeito que o pequeno Tolivar continuava a zombar de Ledavardis e chamá-lo de rei duende. Mas Tolo era apenas um bebê, afinal de contas, franzino e inseguro também. Embora Tolo nunca tivesse sofrido a cruel rejeição que vitimava o menino raktumiano, Anigel sabia que ele invejava seu irmão mais velho, forte e belo. Desprezar Ledavardis fazia Tolo sentir-se melhor quanto às suas imperfeições.

Quando tiver o pequeno Tolo de volta, pensou a rainha, tenho de passar mais tempo com ele, dizer-lhe que o amo e dar-lhe segurança para deixá-lo confiante. E vou pedir para Antar fazer isso também...

Antar...

O amor e a ansiedade que sentia pelo marido afastaram de sua mente todos os pensamentos sobre o príncipe Tolivar. Pediu ao talismã para mostrar o rei e viu que ele continuava dormindo em um leito, no porão imundo que servia de alojamento para os escravos. Como fazia sempre, ela rezou pelo bem-estar dele e para que voltasse, são e salvo. Agora que tinha certeza de que ele não se encontrava em nenhum estado de inconsciência mortal, dava graças ao fato de que assim ele ignorava a situação desesperadora em que os quatro estavam. Antar era um homem altivo e impetuoso, e seria torturado pela raiva e humilhação se estivesse consciente. Quem sabe o que os piratas poderiam fazer com ele se os enfrentasse ou tentasse escapar?

Ou se ela se recusasse a pagar o resgate.

O que eu vou fazer, pensou ela, se Portolanus ameaçar ferir Antar de alguma forma terrível, ou até matá-lo”?

Tinha pensado muitas vezes nessa possibilidade horrível, ficava remoendo o pensamento, como alguém que está sempre mexendo em um dente dolorido, sabendo que vai sentir mais dor, mas incapaz de parar. As lágrimas brotavam, mesmo quando lutava contra elas, e enfrentava mais uma vez o dilema que a dominava desde o instante em que leu as duas palavras que definiam o preço da liberdade dele:

Seu talismã.

Será que ia conseguir manter-se firme, como tinha dito para Haramis, se o preço para ficar com o Monstro de Três Cabeças fossem os gritos torturados de Antar, sua morte vergonhosa?

Se cedesse à vontade de Portolanus, não seria uma verdadeira rainha, deixando seu país à mercê da conquista pela magia negra. Mas se tirassem Antar dela, sabia que também ia morrer, e que o diabo levasse Laboruwenda.

Ficou observando apenas o rosto do marido por um longo tempo e foi tomada pela tristeza. Então a visão de Antar começou a apagar, apesar de tentar mantê-la clara, e ouviu a voz impaciente de Haramis em sua mente.

Ani! Ouça! Olhe atrás da sua flotilha e alegre-se!

Ela segurou a capa de couro, própria para o mar, e saiu correndo para o convés, sem se importar de responder à irmã.

A chuva tinha parado, mas um forte vento continuava rugindo do norte. As ondas monstruosas que se levantavam atrás deles pareciam prestes a estourar e esmagar os quatro navios, arrastando-os até o fundo do mar. Mas as enormes vagas não quebravam e os barcos subiam e desciam, cavalgando aquelas encostas estonteantes como carroças rolando de marcha à ré nas montanhas. No início ela ficara mareada com aquele movimento contínuo. Mas já estava quase se acostumando, e se agarrava com firmeza à amurada do tombadilho superior, ordenando ao seu talismã para produzir uma longa visão do mar atrás dos navios laboruwendianos.

A imagem revelou uma outra embarcação que procurava ultrapassá-los.

Ofegante, ansiosa, pediu ao talismã para mostrar esse outro navio mais de perto. Era bem menor do que sua nau capitânia birreme, com dois mastros inclinados para trás em um ângulo impertinente, com apenas quatro velas bem pequenas içadas. Cortava o mar revolto como uma flecha e já estava quase emparelhando com o último barco laboruwendiano. Certas figuras minúsculas que trabalhavam no convés tinham formas estranhas, e quando as viu mais de perto, descobriu que eram aborígenes wyvilos. Entre os humanos havia uma mulher esguia, com o cabelo castanho esvoaçando ao vento, que usava a imagem de um trílio com olhos no blusão.

— Kadi! — gritou a rainha. — Você veio! Oh, graças aos Senhores do Ar!

A visão de Kadiya desapareceu, e mentalmente Anigel viu o rosto de sua outra irmã, Haramis, envolto em um capuz com pele nas bordas, desenhado sobre um fundo de céu tempestuoso.

—Ouça, Ani! Agora Kadiya e você devem trabalhar juntas. Os seus navios e os do inimigo estão quase chegando à latitude da ilha do Conselho. Mais ou menos ao meio-dia, amanhã, a trirreme pirata vai virar para o oeste, nas Windlorn, para chegar ao lugar onde Kadi perdeu seu talismã. Portolanus está tão à frente de vocês, que temo que sua nau capitânia jamais o alcance. Você terá de passar para o navio menor de Kadiya. É muito veloz e certamente vai ultrapassar os raktumianos antes da ventania parar de soprar, no meio das ilhas.

— Mas na calmaria — protestou Anigel —, a trirreme pirata será capaz de navegar bem mais depressa, com seus remos...

— A maioria dos escravos nas galés da rainha Ganondri está terrivelmente mareada. Os corsários de Raktum costumam singrar águas costeiras, e o mar do Norte fica protegido contra os piores efeitos das monções pela península. Acho que os homens da rainha jamais depararam com algo semelhante a essa tempestade mágica de Portolanus.

—Nosso bravo capitão Velinikar disse que ele nunca viu nada igual. Apesar das ondas tremendas, o vento se mantém no limite perfeito, entre impulsionar os navios em alta velocidade e arrancar mastros e velas.

—Não se preocupe com isso — disse Haramis impaciente.— O que importa é que os remadores da trirreme raktumiananão vão se recobrar de imediato desse enjoo. Vai levar algum tempo para eles ficarem bons e remar com vigor. Enquanto isso, você e Kadiya, no barco menor, podem manter a dianteira. Nos ventos fracos e erráticos que predominam no meio das Windlorn, estarão em vantagem... por um tempo.

— Então não é certo que Kadiya e eu vamos chegar ao talismã primeiro?

— Não — respondeu Haramis. — Mas tem de pedir ao seu talismã para ajudá-las, além de rezar muito aos Senhores do Ar para apressar seu navio.

Anigel ergueu as mãos para o alto, exasperada. —Não posso controlar meu talismã do jeito que você controla o seu! Às vezes essa coisa me obedece, em outras situações, diferentes da visão, mas em geral não é assim. Eu não sou nenhuma Arquimaga!

Haramis suspirou.

— Eu sei que a ação dos talismãs continua sendo um mistério para você e para Kadi. Mesmo o meu Círculo das Três Asas é só um pouquinho mais cooperativo. Mas estou fazendo uma viagem agora, que pode resolver esse problema para nós...

— Hara, você tem de me dizer o que está tramando! Eu vi você voando por cima das altas montanhas em um abutre-dos-alpes...

—Pequena irmã, não poderei executar nada útil em tempo para ajudá-las a recuperar o talismã de Kadi. Esqueça-se de mim. Use toda a sua inteligência e toda a sua força para tirar o Olho Ardente Trilobado das profundezas. A cada hora de atraso, o mundo fica mais desequilibrado. Adeus, e que Deus e os Senhores do Ar as protejam de Portolanus.

A nau capitânia laboruwendiana içou e tentou lançar no mar um escaler que levaria Anigel para o Lyath. Mas o mar estava tão agitado e o vento tão forte que o barco virou de borco antes de se soltar por completo dos cabos dos botalós. Afundou quase imediatamente, e um membro da tripulação que se ofereceu para conduzilo desapareceu.

— Desse jeito não dá, madame—disse o capitão Velinikar para Anigel, quando os marinheiros sobreviventes foram resgatados.

O Lyath estava a um quarto de légua de distância do navio e passava a metade do tempo escondido atrás das ondas colossais. Anigel tinha revelado suas intenções para Jagun, e ele passou a notícia para Kadiya e para o capitão Ly Woonly.

— Então temos de encontrar outro jeito de me transferir para o navio de Kadiya—retrucou Anigel, que usava um impermeável de marinheiro, com o talismã preso nas tranças enroladas em sua cabeça.

O capitão labornokiano balançou a cabeça.

— Madame, eu não conheço outro jeito.

— Então vamos pedir a Jagun para consultar o capitão do Lyath —insistiu Anigel, que fechou os olhos para usar o talismã mais uma vez e abriu de novo, poucos minutos depois, para falar com o capitão. — O capitão okamisiano sugere uma bóia-calça... seja lá o que for isso.

Os outros marinheiros que estavam por perto soltaram exclamações de protesto horrorizados. Até Velinikar praguejou, depois pediu desculpas à rainha, meio sem jeito.

— Madame, já ouvi falar dessa invenção, mas é loucura até sugerir que a senhora use uma coisa dessas.

— Descreva a bóia para mim.

— Nós teríamos de navegar novamente, à frente do vento, quase sem velas. O pequeno barco okamisiano teria de calibrar suas velas de tempestade com a maior perícia para igualar nossa velocidade, depois chegar o mais perto possível, costado com costado. Atiraríamos um cabo para o outro barco, com uma catapulta. Esse cabo seria usado para pendurar um forte cabo de reboque, com um aparelho de roldanas e engrenagens ligadas por correntes preso a ele. Quando nossos dois barcos estivessem ligados, bem seguros, a senhora teria de entrar em um tipo de salva-vidas redondo, amarrado ao aparelho, que deslizaria pelo cabo de reboque. O pessoal do Lyath então puxaria a senhora através do espaço entre os navios, pelo primeiro cabo.

Ànigel empalideceu enquanto o capitão descrevia a operação, mas conseguiu dar um sorriso.

— Estou disposta a tentar isso.

—Não, minha rainha, não pode! — gritou Velinikar. — Se por acaso os dois navios se afastarem de repente, ou um ficar adiante do outro em uma rajada traiçoeira de vento, os cabos se romperão, deixando-a cair no mar. E se os barcos forem subitamente puxados para mais perto, um do outro, a senhora também cairia na água quando os cabos afrouxassem, e talvez até fosse esmagada entre os cascos.

— Eu tenho de fazer isso—disse ela simplesmente. — É nossa única chance de salvar o rei e as crianças. Faça os preparativos, capitão, enquanto converso com Jagun e peço ao Lyath para fazer o mesmo.

Primeiro o carpinteiro da nau capitânia tinha de construir a bóia-calça, que não passava de um anel de cortiça com menos de dois metros de diâmetro, uma calça de lona cortada firmemente presa aela, e cabos para suspendê-la com a roldana. Depois levaram quase uma hora para pôr os barcos na posição, e quando conseguiram já era quase noite. Velinikar comandou o leme da birreme real ele mesmo, para manter a rota firme feito uma rocha. O Lyath entrou na posição com menos presteza, ficando a uns vinte metros do navio maior e corcoveando muito, para cima e para baixo, nas águas revoltas, sem conseguir chegar precisamente à mesma velocidade.

Os imediatos dos dois navios gritavam de um lado para o outro, através de cornetas de comunicação, mas suas vozes quase se perdiam no meio da ventania. O trabalho de instalação do salvavidas com calça começou. Kadiya chegou à amurada do noga com Jagun e um alto wyvilo ao seu lado. Anigel e ela berraram apenas algumas palavras animadoras, uma para outra. Não era hora de perder tempo com conversas telepáticas.

Anigel observava, com Immu, Ellinis e Owanon à sua volta, quando lançaram o primeiro cabo para o outro barco. Depois puseram cuidadosamente o resto do equipamento no lugar: um sarilho, o cabo de reboque para a roldana correr e a engrenagem mais leve que puxaria a rainha para o outro lado. O primeiro imediato da nau capitânia garantiu para Anigel que pequenas variações na distância dos navios seriam compensadas pela aparelhagem. Só movimentos bruscos e violentos poderiam representar perigo. Três marinheiros fortes se aproximaram e ficaram de joelhos para receber a bênção da rainha, depois foram para perto do importantíssimo sarilho que apertaria ou soltaria o cabo de reboque se algum movimento perigoso acontecesse.

No Lyath, cujo convés ficava quase doze metros abaixo da alta birreme, a outra ponta do cabo de reboque foi amarrada ao mastro principal. Uma roldana foi posta por baixo, e Lummomu-Ko ficou a postos para puxar Anigel com ela, o mais depressa possível. Os cabos rangiam e os homens que cuidavam do sarilho se esforçavam para mantê-los retesados. O vento tinha amainado um pouco, e afinal o primeiro imediato resolveu que a bóia-calça estava pronta. Anigel beijou Immu, Ellinis e Owanon. Então entrou na coisa, agarrou-se à bóia que ficava na cintura com toda força, foi içada do chão, e passou voando por cima da amurada do navio.

A birreme embicou para baixo e o Lyath subiu. Por um momento o cabo de reboque em que estava presa a bóia ficou quase na horizontal, enquanto as águas cinzentas e espumosas formavam uma encosta desigual inclinada lá embaixo. Anigel estava avançando, voando acima das ondas, molhada pelos respingos, jogada de um lado para outro como uma boneca pendurada no varal para secar. Então a birreme subiu e o Lyaíh mergulhou entre as ondas. O cabo em cima da cabeça da rainha estalou com o puxão, depois firmou de novo. Anigel parou de repente, com um tranco, e começou a rolar outra vez. Os navios estavam milagrosamente mantendo a mesma velocidade e direção, apesar do mar encrespado, como um casal estranho de dançarinos habilidosos.

A bóia se movia depressa novamente e Anigel já estava além da metade do caminho para o noga. Ela conseguiu acenar para as pessoas que estavam ao longo da amurada do navio menor. Por alguns segundos o mar ficou liso sob os dois cascos, quando os dois navios entraram em um vão entre as ondas. Anigel deslizava com facilidade na bóia pelo cabo inclinado, puxada pelos músculos poderosos de Lummomu-Ko, mas também pela gravidade. Lado a lado, os barcos pareciam patinar para trás, subindo outro vagalhão gigantesco.

E foi então que o vento mudou de repente. Anigel teve a impressão que o Lyath estava vindo célere em sua direção. Mas o cabo que sustentava a bóia estava com uma folga perigosa e, em vez de deslizar por ele, ela começou a cair e chegar terrivelmente perto do mar. Ela ouviu gritos do Lyath e um berro agudo de uma aborígene da sua nau capitânia. As duas embarcações estavam se aproximando, puxadas pela mudança na direção do vento. Em poucos segundos ela estaria na água.

— Talismã, salve-me! — gritou Anigel.

O vento rugiu, mudando de novo de direção. Ela ouviu um barulho forte provocado pelo tranco do cabo quando se retesou. Lummomu-Ko tinha perdido o controle e estava estirado no convés. Anigel estava sendo lançada para a frente, como se uma catapulta a tivesse jogado para o navio menor. Sabia que dali a pouco bateria de cabeça no barco...

Ela parou no ar.

Não havia mais vento.

Não havia mais mar revolto, nem o barco pequeno sacolejante. Tanto o Lyath quanto o mar estavam completamente imóveis, como pedra.

Anigel estava suspensa no ar parado, os cabos todos embaralhados sobre sua cabeça, imóvel, congelada. Ela nem ousava respirar. A vida tinha feito uma pausa.

Então só ela, no mundo todo, pôde se mover. Ela flutuou para o Lyath, passou por cima da amurada e desceu suavemente, ainda agarrada à bóia de cortiça. Seus pés tocaram no convés. À sua volta estavam o petrificado wyvilo e Jagun, como uma estátua pequena com enormes olhos amarelos e a boca aberta de espanto, e Kadiya...

A fantasmagórica experiência acabou um segundo depois de começar. Anigel tombou de joelhos, coberta pelos cabos soltos e presa à bóia. Kadiya e os outros gritavam aliviados, e dava para ouvir ao longe os aplausos da nau capitânia.

Quando libertaram Anigel daquela parafernália toda, ela cambaleou para os braços da irmã, chorando de alegria.

— Foi o meu talismã! Ele me salvou! Kadi... Kadi...

— Foi — concordou Kadiya. — Foi ele, sem dúvida. Em um momento você estava despencando no mar, no outro já estava aqui.

Atrás das duas mulheres, o imediato Ly Tyry orientava a tripulação para rapidamente cortar os cabos que uniam o noga à nau capitânia laboruwendiana. No mesmo instante os dois navios começaram a se afastar. O Lyath estava navegando com duas velas pequenas. Desfraldaram uma terceira ao vento uivante e o noga disparou, deslizando mais rápido que a birreme. Ficou ainda mais veloz quando içaram uma quarta vela pequena.

— Vamos lá para baixo — disse Kadiya, guiando a irmã feito criança.

A rainha tremia violentamente, encharcada até os ossos apesar do impermeável, rosto e mãos brancos de frio. Mas continuava sorrindo, e tentava acenar um adeus para os que ficaram na nau capitânia.

— O talismã — disse outra vez. — O talismã realmente me salvou!

Kadiya abriu a porta da escada.

- Vamos torcer para que ele me salve também — murmurou ela sem emoção.

A Arquimaga e Shiki, o dorok, voaram na direção oeste, por cima das primeiras elevações das montanhas Ohogan de Labornok, na parte inicial da viagem para o Kimilon, cada um montado em um enorme abutre-dos-alpes branco e preto. Dois outros pássaros carregavam os suprimentos. A Arquimaga mitigava a tempestade que rodopiava em volta deles, com até maior eficiência do que Portolanus tinha feito, e Shiki ficou maravilhado com o fato de estar tão aquecido e confortável—e como o voo dos voors era rápido — dentro da bolha mágica de calma que a grande maga criava, com seu talismã todo-poderoso.

No início, Shiki estava tão encantado com a Arquimaga que mal ousava falar com ela. Guardou um silêncio reverente durante o voo para não perturbar sua contemplação mística, e foi humilde e muito discreto quando desceram aquela noite para descansar em terra. Ela produziu comida quente para os dois, com a ajuda de um objeto mágico. Mais tarde, quando os pássaros gigantes já estavam aninhados em volta das duas minúsculas barracas de acampamento, o talismã continuou a protegê-los dos elementos da natureza.

Shiki teve a impressão de acordar no meio da noite ouvindo sons estranhos, que pareciam produzidos por um humano sofrendo. Mas quando chamou, os fracos ruídos cessaram e ele se convenceu de que estava imaginando coisas, que ouvira apenas os gemidos do vento. Pela manhã ele já esquecera o incidente, e teve um sono tranqüilo nas outras noites que acamparam nas montanhas.

Depois de sobrevoar as montanhas Latoosh de Raktum e chegar à fronteira da Calota de Gelo Sempiterna, a tempestade atípica gerada por Portolanus afinal acabou e o céu clareou. Os corcéis alados continuaram a bater as asas sem descanso através de campos nevados deslumbrantes, interrompidos de vez em quando por picos de montanhas que varavam a imensidão silenciosa do interior do continente do mundo.

A Arquimaga conduzia seu voor com tanta destreza quanto Shiki guiava o novo pássaro que substituía o amigo morto e, sem pensar, ele aventurou-se a parabenizá-la pela habilidade. Ela não se ofendeu com aquela intimidade, pelo contrário, mostrou-se perfeitamente disposta a conversar, dizendo que costumava viajar no dorso dos voors, nas ocasiões pouco freqüentes que deixava a torre, para visitar as duas irmãs ou para estar pessoalmente com humanos ou membros do povo que precisavam de ajuda. Disse que tinha aprendido a guiar voors havia muito tempo, antes de ser Arquimaga, e que seu professor tinha sido a mulher vispi Magira, que agora servia de governanta da torre.

Essa foi mais uma surpresa para Shiki, que achava que a Dama de Branco era uma deusa que sabia tudo sem ter de aprender. Ela riu ao ouvir isso e contou um pouco da história de sua vida, que era Arquimaga havia apenas doze anos, e que ainda estava começando a aprender como cumprir seu dever adequadamente. Timidamente, Shiki então perguntou que tipo de trabalhos ela fazia, em prol de seus clientes. Ela respondeu com objetividade, explicando que resolvia disputas, ajudava a encontrar pessoas perdidas, aconselhava líderes confusos, revelava previsões de calamidades naturais que estavam para acontecer, guiava e protegia de muitas formas os que recorriam a ela e confiavam nela.

Shiki ficou espantado quando ela admitiu que havia problemas para os quais não encontrava soluções. (Isso surpreendeu Shiki quase tanto quanto a descoberta que fizera antes, de que ela comia e bebia como pessoas comuns, tinha necessidades fisiológicas e às vezes até dormia demais.) Ficou mais embasbacado ainda quando ela confessou que não sabia exatamente o que a esperava no Kimilon Inacessível, só que era importante. E que estava com medo de ir para aquele lugar e tremendamente feliz de poder ter a companhia dele.

O pequeno dorok começava a entender que tinha errado na sua primeira avaliação da Dama de Branco. Ela dominava a mágica, de fato, mas não era uma deusa inatingível, nem uma das lendárias sindonas, sublime demais para sentir medo ou ter apreensões como os mortais comuns. Ao contrário, essa Arquimaga era uma pessoa de carne e osso, com emoções muito parecidas com as dele, insegura e carente de carinho e amizade. Por isso ele passou a ousar cada vez mais, a conversar com ela de um modo normal e até fez algumas piadinhas. Ela, por sua vez, pediu detalhes da sua vida nas montanhas de Tuzamen, e ele contou que junto com a mulher tinha cuidado de plantações dispersas de ferol, que cresciam no vale aquecido pelos gêiseres, onde ficava sua aldeia, colhendo tubérculos nutritivos e frutas que compunham uma bebida estimulante. Durante a estação da neve fazia armadilhas para pegar worrams e outros animais de pêlo, enquanto a mulher fiava e tecia lã zuch e criava cachecóis e xales de ótima qualidade que podiam ser trocados ou vendidos para os humanos das terras baixas, junto com as peles dos animais. Com tristeza, Shiki explicou que seu povo era amigo dos abutres-dos-alpes gigantes desde tempos imemoriais, que se comunicavam com eles por meio da telepatia, e que viajavam no seus dorsos quando queriam visitar outras aldeias do povo nas montanhas de Tuzamen.

— Mas agora, conforme já contei — acrescentou — nós, os doroks, e os voors não podemos mais ser amigos, por causa do terrível feiticeiro.

Ele esperou que a Arquimaga o animasse, dizendo que resolveria a situação derrotando Portolanus.

Mas ela não disse nada, só passou a mão no talismã e ficou olhando para longe, para a desolação da calota de gelo que os voors atravessaram, com uma expressão sombria e misteriosa. Aquela noite Shiki ouviu outra vez os débeis sons que pareciam de alguém chorando, mas não podia ser.

Sete dias depois de deixar a torre da Arquimaga, os viajantes viram algo que parecia uma imponente montanha escura, com uma forma estranha e arredondada, surgindo no horizonte, além da imensa extensão quase homogênea de gelo e neve. Mais de perto a massa ficou parecida com nuvens negras e cinzentas de tempestade, rolando e rodopiando, só que aparentemente mais densas do que as nuvens comuns que carregavam chuva ou neve. Lampejos vermelhos ocasionais iluminavam seu interior.

—É Kimilon—disse Shiki para a Arquimaga—, o lugar que os doroks conhecem como a Terra de Fogo e Gelo. Normalmente a grande nuvem que cobre o planalto é composta, em grande parte, de vapor, com um pouco de fumaça e cinzas também, mas temo que agora muitos vulcões estejam entrando em erupção. Devemos rezar, Dama de Branco, para que a lava derretida não tenha tomado a bacia interna. É lá que encontraremos a estranha construção que a senhora procura, onde morou o feiticeiro Portolanus. O seu talismã pode dizer se é seguro entrar no vale?

Haramis tirou a varinha de dentro da capa e pediu para ela exibir uma visão clara do Kimilon Inacessível. Ao tentar ver o lugar quando estava na torre, os detalhes do interior quase sempre ficavam escondidos atrás de nuvens densas, e ela não conseguia uma visão mais próxima do que havia no solo. Naquele momento, mais uma vez a imagem dentro do Círculo das Três Asas estava obscura, mostrando pouco além do que era capaz de ver a olho nu, se estivesse bem em cima, espiando através da fumaça turbulenta.

— Receio que teremos de esperar até chegar lá para ver o que aconteceu com o antigo prédiodo depósito—explicou Haramis. — O Kimilon é um lugar impregnado de magia muito poderosa. Espanta-me pensar que seu povo não sabia nada a respeito da existência dele.

O homenzinho deu de ombros.

— A Terra de Fogo e Gelo é mencionada nas nossas lendas mais antigas, como um lugar sagrado dos Desaparecidos. De tempos em tempos um dos nossos heróis doroks se sentia irresistivelmente atraído pela necessidade de ir até lá no dorso de um voor, mas sabia que não podia tocar em nada, senão jamais veria seu lar de novo. Os que resistiam à tentação voltavam para casa em segurança. Alguns heróis nunca mais foram vistos. Diziam que tinham sucumbido ao fascínio da magia proibida do lugar e que acabaram ficando lá mesmo, transformados em estátuas de gelo. Assim as lendas antigas eram mantidas vivas na memória dos doroks, e o caminho para o Kimilon confirmado, inúmeras vezes, em suas lembranças.

— Fico imaginando — disse Haramis pensativa — se o seu povo um dia prestou serviços a alguma Arquimaga há muito esquecida, transportando antigos e perigosos artefatos para o Kimlon por ordem dela. Vocês são parentes próximos do povo vispi das montanhas Ohogan, e eles serviram à minha antecessora, a Arquimaga Binah, desde tempos imemoriais.

— Dama de Branco, não sei nada sobre esse trabalho. Nós, doroks, acreditávamos que a Arquimaga vivia muito longe da nossa terra e que tinha pouco a ver conosco. Foi meu falecido querido voor, Nunusio, que me fez lembrar que a senhora é a guardiã e protetora de todos os povos, e que insistiu para que eu a procurasse.

Haramis sentiu um formigamento fortíssimo na nuca. Os abutres-dos-alpes! Jamais pensara em consultá-los...

Hiluro!

Estou ouvindo, Dama de Branco, e respondo.

Fale comigo de forma que Shiki e os outros pássaros não ouçam.

Muito bem.

Hiluro, você conhece outras Arquimagas vivas, além de mim?

Conheço. Há a dama do mar, que vive na fortaleza das auroras, e o senhor do firmamento, cujo lar é no céu. Esses dois e você são os únicos que restam da grande Instituição de Arquimagos, estabelecida pelos Desaparecidos para combater os malignos Homens da Estrela. As únicas coisas que posso dizer sobre esses dois outros Arquimagos são seus títulos e locais de moradia, e o fato de que eles viverão e darão prosseguimento à sua missão enquanto a Estrela ameaçar o equilíbrio do mundo.

Obrigada, Hiluro.

Pelo menos isso era um pouco mais do que o talismã tinha dito, e Haramis avaliou a informação, enquanto chegavam cada vez mais perto do Kimilon. E finalmente, enquanto o sol poente lançava um véu cor-de-rosa sobre a Calota de Gelo Sempiterna e formava um extraordinário pano de fundo para as nuvens de cinza, eles chegaram.

O Kimilon Inacessível era um pequeno platô com mais ou menos três léguas de diâmetro, cercado por uma dúzia de elevados vulcões. Cinco deles, lado a lado a oeste, cuspiam uma fumaça preta e projetavam para o céu bolhas ocasionais de lava vermelho vivo. Riachos estreitos de rocha derretida desciam pelos flancos. Outras duas montanhas apenas fervilhavam, soprando vapores brancos que se misturavam com os penachos escuros vizinhos, e as restantes hibernavam. Os vulcões ativos eram uma visão aterradora, e o estrondo que faziam era um trovoar constante. Shiki surpreendeu-se ao notar um tremor na mão com que a Arquimaga segurava o talismã.

— O vento está soprando a fumaça e as cinzas para longe do interior do Kimilon — disse Haramis para Shiki. — Pelo menos isso é uma boa notícia.

Os quatro abutres-dos-alpes sobrevoaram uma fenda profunda do lado leste do platô, onde ficavam os vulcões extintos, cobertos por geleiras imensas, manchadas de cinza e fuligem. O solo do vale era lava solidificada, uma parte cheia de blocos com buracos irregulares e outros mais uniformes, dando a impressão de serem enormes fileiras negras de almofadas ou uma massa culinária derramada sobre pedras pretas. Um lago de tamanho considerável, alimentado por torrentes de gelo derretido das crateras inativas, refletia o céu violento, bem no centro da depressão. Fumarolas esguichavam e sibilavam além da margem ocidental do lago, uma região onde o solo era rachado e fervia, com poças de lama quente que borbulhavam feito caldeirões de tinta multicor. Na margem oriental o terreno parecia sólido, embora coberto por uma espessa camada de sedimentos de cinza branca, e nas rochas cresciam liquens. Havia também alguns poucos arbustos mirrados e outros tipos de vegetação, com as folhas murchas e desbotadas pelas emanações venenosas dos vulcões.

Viram a casa na base de um grande penhasco negro.

Os quatro voors deram uma volta sobrevoando o lago, depois planaram até o solo, perto da construção. Um cheiro acre de enxofre, ruim mas suportável, permeava a atmosfera, e o ar era úmido e muito quente. Uma leve chuva de cinzas caía sem cessar, rodopiando no solo ao sabor de brisas caprichosas. Pequenos nódulos de pedras-pomes se espatifaram sob os pés da Arquimaga e de seu pequeno companheiro ao desmontar das aves. O chão parecia vibrar e um rugido baixo, quase musical, se misturava com o sibilar das fumarolas e com o som da água corrente.

— Não podemos ficar muito tempo aqui, Shiki — decidiu Haramis. — Vou me apressar nas minhas explorações.

— A senhora... a senhora gostaria que eu a acompanhasse? — Ele se ofereceu. — Se houver demônios de guarda no lugar, como dizem nossas lendas, eu a defenderei de bom grado, com a minha vida.

Ele puxou a longa espada da bainha e segurou-a com as duas mãos, de forma que a lâmina refletiu o vermelho do brilho da lava.

Haramis olhou-o profundamente comovida. Ele mal a conhecia e certamente estava mais amedrontado que ela. No entanto a maga tinha certeza de que a oferta se devia à amizade, não era simplesmente o cumprimento do dever.

Ela pôs a mão no ombro dele.

— Caro Shiki, com a bondade do seu coração você descobriu que estou com medo do que posso encontrar neste lugar. Mas você precisa compreender que não temo monstros ou demônios, ou qualquer outra forma de perigo externo que signifique uma ameaça à minha vida. Afinal, essa casa foi construída por uma Arquimaga igual a mim. Eu posso entrar e explorá-la. A coisa desconhecida que procuro, que reconhecerei quando encontrar, é apavorante, porque pertence ao âmago do meu ser e da minha alma, e nesse reino interior ninguém pode entrar comigo, a não ser eu mesma. Mesmo assim, gostaria muito que você viesse comigo até onde puder. Mas guarde sua arma, meu amigo.

Shiki enfiou a espada na bainha.

—Nós, os doroks, temos um ditado que diz que o monstro que enfrentamos com um companheiro é menor do que aquele que enfrentamos sozinhos.

Ela apenas sorriu e foi se aproximando da misteriosa construção com Shiki ao seu lado.

A casa era toda feita de pedra preta de lava, igual ao penhasco naqual se fundia, e tinha o tamanho aproximado de um celeiro, com telhado de lajes bastante inclinado, para evitar acúmulo de neve e de cinza. Dos dois lados da porta estreita, na frente, ficavam as três únicas janelas, encravadas bem fundo na parede que tinha quase dois metros de espessura, com muitas vidraças pequenas, chumbadas umas às outras. A porta era de metal, não tinha trinco nem fechadura, e não cedeu ao toque da Arquimaga.

Ela pegou seu talismã com a corrente que usava como colar e bateu de leve na porta.

— Talismã, proteja-nos de todo o mal e nos conceda acesso a este lugar.

A porta abriu-se imediatamente. A área interna era um breu completo. Haramis entrou e ordenou que aparecesse luz. No mesmo instante uma série de candelabros de parede acenderam, e a fonte da luz era a mesma dos cristais brilhantes, que havia por toda a torre da Arquimaga, sem chama. Shiki foi entrando, logo atrás dela. Era óbvio que a sala era onde o exilado Portolanus tinha morado. Havia um manto de fibras ásperas e um par de sandálias bem gastas abandonados no chão, e uma capa e um chapéu cônico bem largo, feitos do mesmo material, jogados em um canto. Contrastando com essas vestimentas rudes, a mobília da sala era extraordinariamente bela e sofisticada. Uma mesa, duas cadeiras, uma cama e vários armários e baús, de um material desconhecido, castanho-amarelado e brilhante, elaborados em um estilo que Haramis nunca tinha visto, cheios de curvas graciosas, sem encaixes aparentes, como se tivessem crescido com aquelas formas, como se não tivessem sido feitos por um artesão. A cama tinha travesseiros que pareciam duas gigantescas bolhas de sabão, e cobertores de um tecido muito forte, finíssimo e transparente, delicioso ao tato, presos à cama de modo a não serem removidos. Ao lado da cama havia um estranho armário estreito, liso como osso polido, mas resistente feito metal, com um grande quadrado cinza e muitos outros menores de várias cores, em sua superfície meio abaulada. Cada um desses quadrados menores era decorado com símbolos estranhos em baixo-relevo. Do lado oposto do salão, perto da mesa e das cadeiras, ficava um objeto maciço que chegava até a cintura, com muitos retângulos de tamanhos diferentes desenhados nele. Na parte da frente, dentro de uma moldura, havia dez círculos, menores que uma coroa de platina, incrustados também com hieróglifos misteriosos.

— Com certeza essas coisas maravilhosas foram feitas pelos Desaparecidos! — sussurrou Shiki.

— Você tem toda razão. E agora vamos descobrir o que os objetos misteriosos fazem.

Ela encostou o talismã no estranho móvel ao lado da cama e fez mentalmente uma pergunta, conforme havia aprendido na época em que investigava outros artefatos antigos na caverna do Gelo Negro. O talismã explicou.

Isso é uma biblioteca. Deve-se consultá-la do seguinte modo...

— Por favor, espere — pediu Haramis. Ela tocou na coisa pesada perto da mesa.

Isso é uma unidade de cozinha. Inclui uma variedade de recipientes e implementos, faz comida, aquece ou gela, e armazena indefinidamente em perfeitas condições. Primeiro se abre o compartimento que contém os utensílios...

— Por favor, espere — repetiu Haramis.

Ela encostou em um objeto do tamanho de uma arca grande. A tampa se abriu, revelando polígonos e círculos brilhantes, arrumados segundo padrões incompreensíveis.

Este é um criador musical que pode reproduzir os sons de qualquer instrumento, e orquestrá-los de acordo com o desejo do compositor...

— Por favor, espere — disse Haramis, indo até uma porta interna, que abriu com facilidade.

As luzes se acenderam quando ela entrou em um salão enorme, que devia ocupar a maior parte do espaço da construção. Era preenchido por inúmeras fileiras de prateleiras que iam até o teto, com passagens estreitas entre elas, entulhadas de mecanismos com formas estranhas e caixas de todos os tamanhos. As prateleiras e tudo que continham estavam cobertos por uma camada espessa de poeira, e aqui e ali havia espaços vazios, indicando que algum objeto tinha sido removido.

Haramis e Shiki foram caminhando pelas passagens, examinando os artefatos, maravilhados. De vez em quando a Arquimaga tocava em uma máquina com seu talismã e identificava todo tipo de coisas espantosas, tudo que se pode imaginar em termos de ferramentas, armas terríveis, estranhos aparatos científicos, mecanismos para fabricar coisas (só que não havia ali as matérias-primas que as tornariam úteis para o feiticeiro no exílio), máquinas para ensinar, entreter e até curar.

— Que maravilha! — exclamou Shiki. — Portolanus deve ter sentido muito não ter podido levar todas essas coisas com ele.

— Acho que devemos agradecer aos Senhores do Ar por isso — observou Haramis muito séria. — Só Deus sabe como as máquinas maiores foram trazidas até aqui.

Quando estavam chegando à parede formada pelo penhasco, ela consultou mais uma vez seu talismã.

— Este é realmente o depósito secreto de alguma Arquimaga?

- É.

— Quem o construiu?

O Arquimago da Terra, Drianro, mandou construí-lo depois que o depósito original, usado pelos antigos Arquimagos da Terra, foi tragado por uma torrente de lava e ficou inutilizado.

— Diga-me em que época viveu Drianro, e por que este lugar não foi usado pela Arquimaga Binah.

Drianro nasceu há dois mil trezentos e seis anos. Ele teve uma morte súbita e não pôde informar sua sucessora, a Arquimaga Binah, a localização desse esconderijo de artefatos antigos, dentro do Kimilon Inacessível.

Haramis engoliu em seco. O talismã, lendo sua mente como costumava fazer muitas vezes, deu a resposta da pergunta que faria a seguir.

A Arquimaga Binah viveu mil quatrocentos e oitenta e seis anos e manteve seu posto sagrado durante mil quatrocentos e sessenta e quatro desses anos.

— Pela Flor! E eu estou fadada a viver tanto tempo assim?

- A pergunta é impertinente.

Haramis apertou os lábios. Quantas vezes o talismã debochava dela com aquela frase detestável, quando ela fazia uma pergunta que ele não sabia responder! Mas em um instante ela esqueceu a humilhação. O encantamento assumiu o controle enquanto ela admirava aqueles milhares de mecanismos misteriosos, e questionou o talismã novamente.

—Todas essas coisas... elas eram consideradas potencialmente perigosas, para terem de ser isoladas aqui?

Algumas o Arquimago Drianro só considerava inadequadas para a cultura nativa, e outras achava que eram perigosas.

— Essas coisas são mágicas, ou apenas máquinas?

Elas são fruto de uma ciência antiga que alguns consideram mágica.

— Mas há magia verdadeira? — insistiu Haramis.

- A pergunta é impertinente.

— Droga! — reclamou Haramis. — Será que pode parar de zombar de mim toda vez que procuro ir até o âmago da questão? À própria essência da minha função de Arquimaga?

As perguntas são...

— Pare, por favor — interrompeu exasperada, deixando a varinha cair, pendurada na corrente no seu pescoço.

Shiki tinha ouvido esse diálogo com o talismã boquiaberto, o tempo todo, com os olhos arregalados de espanto.

— Não fique escandalizado, meu amigo — resmungou ela, mordaz. — Magia pode ser espantosa, mas também pode ser monótona e frustrante, especialmente para quem é forçado a aprender sem professor. Eu vim até aqui com a esperança de remediar exatamente essa carência.

Shiki sorriu, meio constrangido.

—Você esperava encontrar um livro mágico ou uma máquina que pudesse instruí-la?

— Não. Estou procurando algo mais especial. E já que não se dignou a se revelar, terei de dar uma ordem.

Ela ergueu o talismã mais uma vez e fez o pedido em voz alta.

— Se há algum dispositivo neste lugar, que possibilite a comunicação com outros arquimagos vivos no mundo, então revele qual é!

Os dois ouviram um som baixinho.

Era como a vibração de uma unha arranhando um espelho de cristal, agudo, puro e ressonante. Haramis olhou em volta, aflita, o monte de prateleiras cobertas de objetos enigmáticos. De onde vinha aquele som? O ruído começou a diminuir enquanto ela tentava, em vão, localizar a origem.

Shiki tinha tirado seu capuz de couro para as orelhas cretas, com suas pontas congeladas, poderem ouvir melhor.

—Desse lado!—gritou ele, saindo em disparada, a Arquimaga logo atrás.

Foram correndo ao longo da parede do lado oposto à entrada, que era de lava endurecida, obviamente parte da face do penhasco. Shiki finalmente parou em um lugar que não tinha nada de especial, apontou para o chão e disse.

— Aqui!

Haramis bateu na superfície poeirenta de pedra com o talismã. O som ressoou novamente, e uma parte do chão ficou transparente como fumaça rala, depois desapareceu, deixando um buraco de mais de um metro de diâmetro, negro como breu até o fundo. Um vento com cheiro de mofo saiu lá de dentro, soprando a poeira do depósito e fazendo Haramis e Shiki espirrar.

Ela ordenou que o interior do buraco ficasse iluminado, mas nada aconteceu. Continuou completamente negro, e não saía mais vento, apenas a nota musical que ainda reverberava baixinho nos ouvidos dos dois.

Haramis falou com o talismã.

— O que é essa abertura? Onde vai dar?

Isso é um viaduto, e leva para onde se é chamado.

— Eu estou sendo chamada para entrar aí?

Está. A Arquimaga da Terra está sendo convocada pela Arquimaga do Mar, para uma temporada de aprendizado de três vezes dez dias e três vezes dez noites.

Haramis exalou um longo suspiro. Estava radiante.

— Era isso que eu imaginava... o que eu esperava encontrar! Graças ao deus Trino e Uno!

Ela ia entrar imediatamente na abertura do viaduto, mas Shiki gritou desesperado.

— E eu? Devo esperar aqui até a senhora voltar, Dama de Branco?

Haramis ficou envergonhada de não ter se lembrado dele. Dirigiu-se ao talismã com rispidez.

— Não posso deixar meu bom criado Shiki sozinho nesse terrível Kimilon por trinta dias. E também temos de considerar nossos fiéis abutres.

 

                       JULAN MAY

Shiki, o dorok, é chamado para ir a outro lugar, onde sua presença se faz necessária, e ele deve entrar no viaduto antes da Arquimagada Terra. Os quatro voors que os trouxeram até aqui já voaram para casa.

—Ohhh! — gemeu Shiki. — Estamos isolados aqui... igual ao feiticeiro cruel!

— Silêncio — pediu Haramis. —Não é nada disso... Talismã, para onde vai mandar Shiki?

Para onde ele tem de ir.

— Ah, que coisa irritante! — exclamou Haramis. Ela logo se acalmou e virou-se para Shiki.

— Procure não ter medo. Tenho certeza que o talismã não nos causará nenhum mal. Eu... eu só posso deduzir que há algum lugar onde você estará fazendo algo de útil, enquanto eu estiver concentrada nos meus estudos, e esse lugar não é para onde vou, por isso temos de nos separar. Você será corajoso e entrará primeiro no viaduto, e fará o que o talismã pedir?

O homenzinho abaixou a cabeça.

— O talismã é seu, e eu sou seu criado, Dama de Branco. Ele segurou a mão dela e beijou-a. Depois pôs o capuz de couro bem firme sobre as orelhas e entrou na abertura escura.

O badalar de um sino soou bem alto e Shiki, o dorok, desapareceu. Haramis gritou o nome dele, mas não ouviu nem o eco de sua voz, apenas a reverberação do som do sino.

Agora é minha vez, pensou. E então lembrou de uma coisa terrível. Será que Portolanus também tinha sido chamado?

Será que ele tinha sido chamado duas vezes?...

Existiria algum propósito no Cetro Triplo e nos três talismãs individuais que o formavam, que ia muito além de qualquer coisa que ela jamais sonhou? Ela sentiu uma necessidade imensa de pedir o conselho das irmãs, de contar tudo a elas sobre esse mistério, de pedir sua força e determinação para mergulhar no desconhecido. Valente Kadiya! Amorosa e perseverante Anigel!

E sou eu que vacilo... eu que devia ser a líder.

Mas não farei isso, ela resolveu. Não vou dar mais uma preocupação a elas para aliviar a minha. Vou parar com essa maldita indecisão e seguir o exemplo do bom amigo Shiki...

Ela segurou o talismã com as duas mãos e entrou no buraco chamado de viaduto. Por um momento se viu envolta em uma escuridão sufocante, suspensa no vazio. Seu cérebro parecia que ia explodir, sem dor, com um enorme latejar musical.

Então sentiu algo sólido sob os pés. Seixos escorregadios. Ainda estava tudo escuro em volta, mas ela sabia que era apenas noite, não uma ausência mágica de luz. Seus olhos lentamente se adaptaram e ela viu que havia até estrelas, meio apagadas em um céu, que parecia tomado por um brilho estranho, vermelho-escuro. E um barulho, o som de pequenas ondas batendo nos seixos, indo e vindo suavemente. Uma brisa cortante e profundamente fria tocou seu rosto.

Uma praia.

Lá fora, na água, flutuavam umas coisas enormes, brilhando um pouco como navios fantasmas, mas muito maiores do que qualquer objeto fabricado pelo homem. Eram imensas como ilhas, tão grandes quanto pequenas montanhas, e cada uma apresentava uma fosforescência levemente esverdeada ou azul. As ondas também tinham uma espuma luminosa na ponta.

E o céu vermelho-escuro começou a mudar. Lá longe no horizonte um raio de luz perolada foi crescendo, depois outros se materializaram lentamente, e chegaram a cinco, pairando feito dedos espectrais. Eles se alargaram, viraram um grande leque de luz rosa, branca e verde, que depois se expandiu em uma torrente luminosa. A luz celeste brilhou sobre os gigantescos icebergs, que flutuavam ao largo, e iluminou a estranha paisagem às costas de Haramis, uma grande extensão desolada de montanhas nuas, sem árvores, pontilhadas aqui e ali pela neve cintilante. O vento ficava mais forte.

— Onde estou? — murmurou Haramis.

Na costa do mar Aurora.

Isso explicava a luz fantástica no céu! Era a aurora, um fenómeno natural raro sobre o qual tinha lido mas jamais esperava testemunhar, que acontecia nos lugares mais remotos ao norte do mundo. As cores mutantes eram tão gloriosas que ela quase esqueceu para que estava ali...

Mas não deve se distrair assim, Haramis. Você tem muito que aprender.

Ela deu um grito agudo. O que falava sem palavras não era seu talismã.

— É a Arquimaga do Mar? — perguntou. — Onde você está?

Siga o Caminho da Luz.

O esplendor da aurora refletia fulgurante no mar, e num ponto específico, perto de onde ela estava, parecia que a água se solidificava, virando uma superfície firme que faiscava como gelo puro, salpicado com milhões de diamantes minúsculos. Diante de seus olhos o caminho de gelo foi avançando, da praia até o mais alto iceberg cintilante.

Será que agüenta meu peso? pensou Haramis. Ela estremeceu por causa do vento forte e deu um passo para frente. O gelo produziu um som suave, mas continuou firme. Outro passo. Dos dois lados do estreito caminho faiscante o mar negro se encapelava. Mas o Caminho da Luz era sólido como ferro.

Enrolada na capa de Arquimaga, Haramis começou acaminhar mar afora.

— Se esse mapa que desenhou estiver correto, senhora — disse o capitão Ly Woonly para Kadiya —, devemos estar a apenas duas léguas do lugar em que seu talismã mágico caiu.

Kadiya e Anigel, que tinham acabado de acordar, correram para o convés do Lyath quando o mestre da embarcação chamou. Viram que o navio avançava lentamente rumo ao sul, passando pela irregular ilha do Conselho, mantendo-se bem ao largo da costa.

Nos últimos três dias, desde que o Lyath começara a trilhar seu caminho pelas Windlorn, um vigia tinha assumido seu posto para detectar algum sinal dos piratas raktumianos ou nativos hostis. Mas até aquele ponto não tinham avistado nenhum outro navio no mar, apesar da fumaça visível das inúmeras aldeias aliansas, e de um pequeno grupo de aborígenes que foi visto pescando com rede nos baixios.

O talismã de Anigel não foi muito útil para traçar a trirreme pirata naquele labirinto de ilhas. A rainha conseguia visualizar muito bem o grande navio, mas era impossível determinar exatamente sua posição no mapa, por meio daquela simples observação. Muitas ilhas pareciam iguais para ela e o mapa, com certeza, não era muito preciso. Continuava sendo um mistério, se os piratas estavam na frente ou atrás deles.

O talismã confirmou que havia uma quantidade enorme de aliansas observando a passagem doLyath, em seus esconderijos. Já que o povo do mar das várias ilhas se comunicava por meio de telepatia, sem dúvida devia saber exatamente onde estava o navio pirata. Mas os aliansas se recusavam a responder, assim que os companheiros wyvilos de Kadiya falavam com eles, e quando a rainha Anigel conseguiu espioná-los com seu talismã, descobriu, com pesar, que toda vez que o povo do mar conversava, usava seu próprio idioma incompreensível, e não o dialeto universal baseado na linguagem dos humanos que tinham utilizado durante a frustrante conferência com Kadiya.

Privadas de qualquer informação sobre a localização do inimigo, as irmãs limitaram-se a recomendar ao capitão Ly Woonly para navegar o mais depressa possível, ao sabor do vento intermitente, enquanto rezavam para alcançar o local da perda do talismã antes de Portolanus.

— Você se saiu muito bem chegando à ilha do Conselho tão rápido, capitão—disse Anigel com simpatia. — Estou assombrada de ter conseguido viajar durante a noite por esse labirinto de recifes e pedras que a cerca.

Dando uma olhada de soslaio para um dos wyvilos, que ajustava uma vela, Ly Woonly respondeu baixinho.

— Devemos isso aos oddlings da floresta, grande rainha. Os feiosos olhudos têm algum tipo de sentido especial que ajuda a evitar obstáculos na água. Noite e dia são a mesma coisa para eles, e navegar no mar raso também é igual a navegar nos rios das terras deles.

— Acho que a baía onde fica a grande aldeia do supremo chefe Har-Chissa é logo depois daquele cabo — disse Kadiya, estudando o mapa amassado. —Não consigo entender por que barcos nativos não vieram nos interceptar. Da última vez que viemos aqui, inúmeras canoas com vinte ou mais de vinte remadores apareceram como enxame para nos receber e escoltar até o ancoradouro, quando estávamos bem mais distante que agora.

— Pode ser que os oddlings do mar tenham uma boa razão para permanecer em terra — observou Ly Woonly, cujas feições, normalmente joviais e alegres, ficaram sombrias, sob o chapéu emplumado. — Grande rainha, dê mais uma espiada na sua penetrante tiara para descobrir o que está acontecendo do outro lado daquela ponta de terra.

— Muito bem. — Anigel fechou os olhos e tocou no círculo prateado preso ao seu cabelo louro.—Oh! A trirreme pirata está lá, com as velas abaixadas!... E estou vendo que lançaram âncoras.

— Raios e trovões! — exclamou Ly Woonly. — Todos os marujos no convés! Helm! Prepare-se para pôr o navio à capa! — Ele saiu dando mais ordens e em questão de minutos o navio diminuiu a velocidade e parou.

— Rápido! — disse Kadiya para a irmã. — Olhe mais de perto o navio pirata. Eles estão lançando ao mar escaleres com croques, ou fazendo qualquer outra coisa que pareça uma tentativa de pegar meu talismã?

Anigel ficou calada um instante, com os olhos vidrados.

— Não, não vejo nada assim, só marinheiros enrolando cabos e amarrando as velas recolhidas, e o almirante raktumiano conversando com um dos seus comandantes... Ele diz que chegaram à baía do Conselho. Não puderam velejar à noite com medo de encalhar. Parece que Portolanus tem um objeto mágico que mede a profundidade do mar, mas que não funcionou direito, e isso obrigou a trirreme a fundear todas as noites... Pela Flor! Estão esperando Portolanus e seus acólitos em breve no convés!

— Mostre-me! — disse Kadiya.

Anigel pediu ao talismã para partilhar a visão e a cena ficou um pouco apagada e sem som. Mesmo assim Kadiya viu claramente três figuras surgindo de uma escada na popa do navio raktumiano — um homem de estatura mediana, usando um manto com capuz de tecido roxo, um indivíduo mais atarracado com roupa igual, só que amarela, e um terceiro, bem baixo, vestido de preto. Atrás deles apareceu aquela mancha fora de foco bem conhecida que indicava a presença de Portolanus. Por último, a rainha regente Ganondri, usando roupas de seda verde-água e evidentemente recuperada depois de três dias de tempo bom, e o corcunda e jovem rei de Raktum, taciturno e pálido.

Os assistentes do feiticeiro se enfileiraram, andando bem juntos ao longo de uma das amuradas ornamentais do tombadilho de popa, e pareciam olhar diretamente para Anigel e Kadiya. O feiticeiro oculto seguiu atrás dos três e de repente ficou visível. Seu manto era alvíssimo, não usava chapéu, e o cabelo e a barba, de um cinza amarelado, esvoaçavam à brisa fraca e quente. As irmãs prenderam a respiração quando ele agitou os dedos em um gesto irônico de saudação, perfeitamente consciente de que elas o estavam vendo. A rainha regente e o neto ficaram o mais longe possível do quarteto taumatúrgico, mas não tiravam os olhos deles.

O rosto de Portolanus não tinha mais o sorriso ridículo. Seu corpo se endireitou, ficando mais alto e com os ombros mais largos, e suas feições menos grosseiras. Ele pronunciou uma palavra curta de comando e os três acólitos caíram de joelhos. Com violência assustadora o feiticeiro tirou o capuz dos três, revelando cabeças raspadas, que juntou como um feirante abraçando melões. Então abriu bem os dedos das duas mãos, de forma a tocar no topo das cabeças dos assistentes, e fechou os olhos.

— Grande Deus — sussurrou Kadiya. — Os protegidos dele! Está vendo, irmã?

Anigel limitou-se a balançar a cabeça, estarrecida. As órbitas oculares dos três homens ajoelhados transformaram-se em poços negros e vazios, e eles ficaram imóveis como estátuas. Atrás deles, Portolanus abriu lentamente os olhos, deixando as mãos caírem ao lado do corpo. Sob as sobrancelhas emaranhadas e amareladas faiscaram duas minúsculas estrelas brancas, com um brilho estonteante.

— Muito bem, rainha Anigel, lady Kadiya! — disse ele.

Elas ouviam sua voz claramente, como se ele estivesse ali ao lado.

— Ele nos vê! — disse Anigel.

— Claro que vejo — respondeu Portolanus, sorrindo. — Com a ajuda das minhas três poderosas vozes, posso visualizar os lugares mais distantes do mundo e virtualmente ver qualquer coisa ou pessoa e falar com eles também!... Esta manhã não está linda? Confesso que pessoalmente prefiro tempo bom, e foi um grande alívio, para mim e também para meus criados, poder parar de conjurar tempestades. Deixe-me parabenizar a vocês e ao seu capitão pela velocidade que seu pequeno navio conseguiu atingir. Nossos escravos raktumianos estão completamente exaustos, depois de se esforçar desde o raiar do sol para nos trazer até aqui por um atalho.

— Você devia ter mantido sua ventania mágica em ação — retrucou Kadiya.

— Ai de mim — disse Portolanus dando de ombros. — Meu poder para comandar a tempestade não é sutil o bastante a ponto de influenciar os erráticos ventos leves, que predominam nas ilhas Windlorn. Mesmo assim, tivemos sucesso através de meios naturais, como podem ver. Devo avisá-las para não chegarem mais perto. Não tentem entrar nesta baía, nem se aproximar do local onde o talismã afundou, ou as conseqüências serão muito sérias.

Portolanus estalou os dedos e do passadiço saíram dois piratas com armaduras, carregando um corpo inerte. Um terceiro apareceu logo atrás, com uma espada na mão.

— Antar! — gritou Anigel.

O feiticeiro com estrelas nos olhos riu.

— Uma bela figura de rei, não é mesmo? E preguiçoso também,dormindo todos os dias da nossa viagem, desde Taloazin. Mas agora chegou a hora de acordar. Através da minha magia, vocês podem falar com ele.

Ele tocou com uma pequena varinha no rei de Laboruwenda. No mesmo instante, o homem inconsciente começou a se mexer nos braços de seus captores e levantou a cabeça. Assim que percebeu que estava preso, passou a lutar violentamente e a rogar pragas para Portolanus.

O feiticeiro balançou a cabeça, zombeteiro.

— Tsk, tsk. O hóspede real retribui nossa gentil hospitalidade com palavras ásperas. Ele tem de aprender boas maneiras.

Ele apontou um dedo enrugado para o rosto de Antar, e da ponta desse dedo saiu uma chama cor de laranja. Portolanus falou alguma coisa em voz baixa para o guerreiro raktumiano que segurava a espada. Anigel e o marido distante gritaram em uníssono, quando o homem agarrou o cabelo de Antar e puxou sua cabeça para trás, de forma que a barba loura do rei encostasse no fogo encantado. Ouviram o som de algo queimando e viram uma pequena nuvem de fumaça. Anigel começou a chorar, horrorizada. Mas quando Portolanus desviou o dedo, só os pêlos da barba do rei estavam queimados, não a pele.

— Seu sujo, filho da mãe! — gritou Kadiya, abraçando a irmã que chorava.

Portolanus fez um gesto afetado.

— Posso ser mesmo, já que não conheci meu pai nem minha mãe, e não há banheiras nos navios raktumianos, apesar de toda a decoração espalhafatosa. Mas recomendo que controle sua língua, Dama dos Olhos, senão a próxima demonstração pode ser mais dolorosa para seu cunhado.

— Não o machuque! — implorou Anigel.

As estrelas gêmeas nos olhos do bruxo cintilaram e sua voz trovejou na mente da rainha.

— Posso libertá-lo agora mesmo, e seus três filhos também, se me der o talismã chamado Monstro das Três Cabeças.

— Não! Você é um mentiroso sujo! Eu... eu não acredito que vá libertá-los! Você deseja a morte de todos nós!

Portolanus suspirou.

— Mulher tola. Quem disse isso? Sua irmã Haramis? Ela não passa de uma desajeitada e incompetente com os mistérios que jamais entenderá. Ela não sabe nada dos meus planos. Pague o resgate! Sua tiara é de pouca utilidade para você... mera conveniência para espionar e um símbolo de... sei lá do quê.

— Não dê ouvidos a ele, querida! — gritou o rei Antar. — Mande seu talismã matá-lo!

Puseram uma espada no pescoço dele para fazê-lo calar, mas o feiticeiro fez um gesto e o cavaleiro pirata abaixou a arma, relutante.

— Pense nisso, rainha Anigel — disse Portolanus enfático. — Para que o Monstro das Três Cabeças tem servido para você, nesses últimos doze anos? De fato, permitiu que se comunicasse com suas irmãs através de léguas. Mas vou dar-lhe três pequenas máquinas dos Desaparecidos que cumprirão a mesma função!

Kadiya manifestou-se com veemência.

— E o que vai dar para mim, seu charlatão, para substituir meu Olho Penetrante Trilobado? E será que a Arquimaga Haramis também vai entregar seu talismã em troca de alguma bugiganga mágica?

A expressão amigável de Portolanus se desfez e ele franziu o cenho.

—Estou falando com a rainha, lady, e não com você!... Anigel, se não pagar meu resgate, seu marido e seus filhos certamente morrerão. É assim que deve fazer para salvá-los: ponha sua tiara em um pequeno barco e deixe-o à deriva. Ao mesmo tempo porei Antar e as crianças em um barco aqui. O rei pode remar para passar para o outro lado do cabo e chegar até vocês em menos de duas horas nesse mar calmo. Vou atrair o barco com o talismã usando magia. Então, se vocês zarparem para casa imediatamente no Lyath, juropor todos os Poderes Ocultos que não irei atrás de vocês, nem farei mal a ninguém.

Anigel titubeou, com os olhos cheios de lágrimas, vendo Antar, que sacudia a cabeça, dizendo para ela recusar. O rei era uma visão lamentável, olhos fundos nas órbitas, o rosto emaciado por ter passado sete dias sem se alimentar. O talismã parecia um preço pequeno a pagar pela volta dele e das crianças em segurança. E no entanto, ele dizia para ela não ceder... insistia para que usasse o talismã para matar. Mas ela jamais dera tal ordem deliberadamente ao artefato mágico, e mesmo naquele momento, com a vida do marido em perigo, hesitava em fazê-lo.

Kadiya sentia a batalha que acontecia na mente da irmã.

— Faça o que achar melhor — disse ela, com a voz carregada de subentendidos.

Anigel fechou os olhos. Talismã! Pelos Senhores do Ar, eu ordeno que destrua aquele homem maligno que aprisionou meu marido e meus filhos! Eu ordeno! Eu ordeno!...

A rainha abriu os olhos novamente para ver a visão do talismã. Portolanus estava intacto. Nada acontecera.

Os olhos de Kadiya encontraram os dela e Anigel balançou a cabeça, com um movimento quase imperceptível. Os músculos do maxilar de Kadiya se retesaram, quando ela resolveu se controlar para não proferir uma exclamação amarga, culpando Anigel, lá no fundo, além do talismã, pelo fracasso do feitiço.

Com a voz quase inaudível, esforçando-se para esconder seu sofrimento e decepção, a rainha dirigiu-se a Portolanus.

— Não posso entregar meu talismã para você.

O feiticeiro não demonstrou grande desapontamento.

— É uma decisão infeliz, minha rainha. Mas com o tempo, você poderá mudar de idéia. Por enquanto, para demonstrar minha boa-fé, vou me abster de torturar o rei, se você continuar a essa distância. Você jura pelo Trílio Negro que você e sua irmã Kadiya não chegarão mais perto?

— Não jure! — gritou o rei, recomeçando a espernear. Mas estava impotente, nas garras dos robustos cavaleiros piratas.

— Sim! — gritou Anigel imediatamente. — Eu juro! A reação de Kadiya foi mais relutante.

— Sim — rosnou ela afinal.—Juramos pela Flor que nós duas não vamos sair deste lugar. Mas se você fizer algum mal ao rei Antar, esse juramento perde a validade. E vamos observá-lo o tempo todo.

— Façam isso mesmo — respondeu o feiticeiro, rindo. — Acorrentem o rei novamente com os escravos, e dêem-lhe um pequeno prato da lavagem deles. Tomem cuidado, pois seu estômago não suportará muita coisa, depois desse longo jejum — disse Portolanus para os cavaleiros raktumianos.

Depois que Antar foi arrastado para o porão do navio, Portolanus deu um enorme bocejo e espreguiçou. Então aquietou-se, e Anigel e Kadiya viram que seus olhos tinham recuperado o aspecto humano normal. No mesmo instante os três protegidos do feiticeiro gemeram e sofreram pequenas convulsões. Os rostos deles também voltaram ao normal, os olhos rolando nas órbitas, e caíram no convés.

Portolanus virou-se e cumprimentou Ganondri e o rei Ledavardis, com uma mesura exagerada, e deixou o convés real da popa. A rainha regente chamou o neto rispidamente. O rapaz ficara ouvindo boquiaberto a conversa do feiticeiro com as irmãs invisíveis. Os dois também foram embora e vários marinheiros apareceram para carregar os acólitos desmaiados.

Anigel interrompeu a visão.

— E agora, o que vamos fazer?

Ela enxugou as lágrimas do rosto e foi sentar-se em um barril de água, pois ainda estava muito abalada.

Kadiya continuou apoiada na amurada por algum tempo, em silêncio, olhando para a costa da grande ilha. Tinha uma mata fechada, com praias de areia branquíssima, intercaladas com montes de pedras pretas e avermelhadas. O mar era azul brilhante e ficava verde-claro mais perto da terra, com desenhos complexos formados pela espuma das ondas, que quebravam nos recifes e rolavam para a praia. Daquele lado do grande promontório não havia sinal de aldeias.

— O plano inicial de Haramis previa que você chamasse meu talismã com o seu — disse Kadiya, virando-se afinal para encarar a irmã. — Tente fazer isso, mesmo de longe!

— Ora, eu não pensei nisso — disse Anigel. — Claro que vou tentar — mas a expressão dela era mais de dúvida do que de esperança ao fechar os olhos e apertar o trílio-âmbar da tiara com as duas mãos.

— Talismã—sussurrou ela—eu ordeno que me traga o Olho Penetrante Trilobado perdido.

Durante o espaço de tempo de doze pulsações nada aconteceu. Mas depois o talismã de Anigel falou.

Isso eu não posso fazer, a não ser que você me suspenda diretamente acima do lugar onde está o Olho.

— Oh! — exclamou a rainha. — Você ouviu isso, Kadi?

— Ouvi — o rosto da Dama dos Olhos espelhava determinação e frieza. — Você pode fazer isso tornando-se invisível e indo para o navio pirata. Não há nada a fazer senão quebrar a promessa...

—Nem pense nisso! — retrucou Anigel. Mesmo usando uma roupa tosca de marinheiro, e com o rosto manchado de lágrimas, ela ainda parecia uma rainha. — Eu não vou quebrar meu juramento, e nem permitirei que quebre o seu.

—Não seja tola, Ani! —exclamou Kadiya, os olhos castanhos com o brilho do combate. — Se não recuperar meu talismã antes de Portolanus pôr as mãos nele, perderemos a chance de salvar Antar e as crianças! Você acha que ele vai simplesmente soltá-los quando se associar ao meu talismã?

— Eu não...

— Ou você planeja entregar docilmente o seu talismã como resgate por eles afinal?

— É claro que não! Mas deve haver um meio honrado de salvá-los.

— Honra! Você está sendo tão imbecil quanto um bezerro volumnial! Como pode ficar falando de honra se a vida da sua família está em jogo? E o meu talismã?

Anigel levantou-se de um pulo do barril.

— O seu talismã! É isso que importa para você, não é? Sem ele você não tem poder. O povo do pântano e os outros aborígenes não vão mais reverenciá-la e segui-la, nem chamá-la de Grande Defensora, se não tiver o talismã, não é, Dama dos Olhos? Será até bom, penso eu! Você não poderá mais alimentar a discórdia entre eles...

— Não haveria discórdia, se os governantes humanos como você não fossem cegos para as injustiças impostas ao povo! Você e Antar sempre ignoraram meus pedidos para dar-lhes cidadania plena.

— Por uma boa razão! — respondeu a rainha furiosa. — Isso destruiria nossa economia, se os oddlings pudessem negociar diretamente com as outras nações, em vez de fazê-lo por nosso intermédio. Você sabe muito bem disso, e no entanto persistiu, encorajando maquinações sediciosas entre os wyvilos e os glismaks, além de incitar os nyssomus e os uisgus a segurar suas mercadorias para forçar um aumento de preço.

— E por que eles não deveriam obter um aumento de preço? Eles dão duro e recebem pouquíssimo em troca. Você os chama de oddlings! Eu digo que são pessoas, que valem tanto quanto qualquer humano. Você não tem direito nenhum de explorá-los!

— Quem disse a eles que estavam sendo explorados? — desafiou a rainha. — Quem encheu seus corações simples de insatisfação? Você! A que se diz defensora deles! Oh, eu não queria acreditar no que Owanon e Ellinis e os outros falavam de você, que bem lá no fundo de sua alma você lamentava ter desistido da coroa e invejava meu poder de rainha, por isso insuflava os aborígenes, para que eles alimentassem sua auto-estima. Mas tinham razão!

— Que idéia monstruosa! — gritou Kadiya. — Foi você que se tornou a dona da verdade e arrogante, esquecendo como o povo nos ajudou a derrotar o rei Voltrik e Orogastus! Você só pensa no bem-estar de seus súditos humanos e apenas usa os pobres povos nãohumanos que também a procuram para obter justiça! Você se submete ao seu marido labornokiano, que foi criado acreditando que os povos são animais! Ele envenenou sua mente...

— Como ousa dizer isso do meu querido Antar! Você é insensível, não conhece o verdadeiro amor! Tudo que jamais teve foi a adulação fútil de seu bando patético de selvagens. Eles são como crianças, e você também tem a mentalidade de uma criança! Está repleta a mais não poder do tipo de raiva imprudente, que leva pirralhos malcriados acriar encrenca. Para você, a solução simplista de um problema é sempre a única! Você não sabe nada de governo e segurança das nações!

— Eu sei o que é justo e o que é injusto — disse Kadiya, com a voz repentinamente calma e ameaçadora — e eu sei a diferença entre um juramento verdadeiro e um falso, arrancado à força. Pode fazer o que quiser, irmã, e pode recusar a me ajudar com a sua tiara se for preciso. Mas se tentar me impedir de recuperar meu talismã do meu jeito, então que os Senhores do Ar tenham piedade de você, pois eu não terei.

Kadiya afastou-se com passos largos, chamando Jagun e Lummomu-Ko, e não atendeu quando Anigel pediu desculpas pelas palavras ásperas e implorou para que ela voltasse.

Arrasada demais para chorar, Anigel cambaleou até a proa do Lyath e sentou no meio dos cabos enrolados. Ficou vigiando o rei Antar e os filhos com o talismã todo o resto do dia, e também espionou o feiticeiro, apesar de a imagem dele estar fora de foco novamente.

Completamente desinteressada, Anigel viu Portolanus e seus três acólitos em sua cabine, cantando, fazendo encantamentos e executando estranhos rituais que ela não compreendia. Fora isso, não tentaram nem uma vez encontrar o talismã de Kadiya.

E Kadiya também não. Depois da conversa com seus amigos aborígenes (que Anigel não ousou espionar), a Dama dos Olhos desceu para sua cabine e dormiu o dia todo.

Ao entardecer, aborrecida com a falta de atividade na trirreme pirata e embalada pelo sol quente e o leve balanço do noga, Anigel parou de vigiar. Jagun levou-lhe um refresco de suco de ladu, e ela tirou um cochilo. Só despertou quando já era bem tarde da noite, tarde demais para evitar a calamidade.

— Algo estranho está acontecendo no convés—gritou o príncipe Nikalon para o irmão e a irmã. Estavam no meio da noite, e o depósito das correntes na escuridão, a não ser pela luz da lua que entrava pelos escovéns. Niki estava pendurado, metade do corpo para fora, metade para dentro, em uma dessas grandes aberturas. — Ouço uma cantilena — disse ele. — Em uma língua que não conheço.

— Deve ser o feiticeiro — disse o príncipe Tolivar, sentindo um prazer inconveniente —, lançando um feitiço nas pessoas que nos perseguem. Eu adoraria vê-lo jogando raios ou conjurando monstros!

— Seu pateta do contra! — a princesa Janeel gritou com o menino. — Consegue ver alguma coisa na costa? — perguntou ela para Niki.

— Só uma fogueira falseando lá atrás, entre as árvores. Não há barcos de espécie alguma no mar. Mas duas das Três Luas estão brilhando bastante e provavelmente seríamos vistos se tentássemos escapar agora.

— Se ficarmos, o navio pode zarpar! — disse Jan. — Vamos agora, enquanto podemos.

— Isso é verdade — raciocinou Niki —, mas dessa vez a trirreme ancorou mais perto da costa do que antes. Só teríamos de nadar cerca de meia légua.

— Que distância é essa? — quis saber Tolo, meio apreensivo.

— Uns três mil metros — explicou Jan. — Mas não precisa ficar com medo, bobo. Niki e eu podemos rebocá-lo quando se cansar.

— Eu não quero ir — choramingou o menino. — Detesto nadar. A água sempre entra no meu nariz.

— Você detestaria ainda mais ser amarrado a um mastro e servir de alvo para a prática de lançamento de facas dos piratas — disse Niki impiedoso.

Tolo começou a chorar e Jan foi logo consolá-lo, olhando feio para o irmão mais velho.

— Olha o que você fez, Niki!... Pronto, querido, Niki estava só brincando. Ninguém vai machucar você.

— Eu odeio esse lugar — gemeu o pequeno príncipe. — Por que ninguém vem nos salvar?

—Tenho certeza que mamãe está tentando... — ela ia dizendo, quando ouviram um barulho do lado de fora da porta. — Desça depressa! — sibilou paraNikalon. — Está vindo alguém!

O príncipe herdeiro mal teve tempo para deslizar até o monte reduzido de correntes antes de a porta ser destrancada. Era Boblen, o contramestre, que chegou segurando um lampião, e atrás dele o reizinho duende, com outro.

Ledavardis passou a frente do marinheiro e entrou no compartimento das correntes. Carregava um grande saco com uma forma estranha.

— Espere lá fora e feche a porta, Boblen. Quero ficar a sós com estas crianças infelizes.

— Espere um pouco, jovem senhor! Já não basta ter se aproveitado da minha boa vontade para vir até aqui na surdina...

— Silêncio, homem! Você realmente acredita que essas crianças podem me fazer algum mal? Espere lá fora, eu ordeno!

Resmungando, Boblen saiu. Com a porta fechada, Ledavardis pendurou o lampião em um prego e rapidamente esvaziou o saco nas tábuas rústicas do chão. Havia um salva-vidas de cortiça, uma faca com bainha, uma machadinha, um saco de lona, um outro de oleado cheio até a metade de alguma coisa, uma cuia de água e um pequeno pote com um pano amarrado em volta.

—Pela Flor! — sussurrou o príncipe Niki espantado.—O que é isso?

—Vocês precisam tentar escapar esta noite —- disse Ledavardis sem rodeios. — O feiticeiro passou o dia todo trabalhando em algum encantamento prodigioso, com o qual pretende resgatar uma espada mágica que afundou nessas águas. Todos no navio estarão assistindo, quando ele e seus três lacaios lançarem o feitiço final daqui a mais ou menos meia hora, quando a Terceira Lua nascer. É nessa hora que vocês têm de fugir. Quando ele recuperar a espada, levantaremos âncoras e rumaremos imediatamente para Raktum.

— Eu não quero fugir! — começou a choramingar Tolo novamente. — Eu não sei nadar.

— O salva-vidas vai ajudar você — disse o rei Ledavardis. — Vocês três podem se agarrar nele, se for preciso, e bater os pés embaixo da água, seguindo em silêncio até a praia. Esse saco à prova dágua tem comida e também serve para levar algumas roupas, assim terão algo seco para vestir ao chegarem à terra. O pacote de lona tem linha de pesca e anzóis e um jogo de conchas de fogo. Com tudo isso, a faca e a machadinha, terão como se alimentar e se abrigar até o seu povo poder salvá-los.

— Mamãe com certeza nos encontrará bem depressa com seu talismã — disse Jan esperançosa.

—Mas não há como salvar nosso pai, o rei?—perguntou Niki.

—É impossível—explicou Ledavardis.—Ele está acorrentado a um banco da galé, cercado de escravos e de marinheiros o vigiando. Vocês devem se salvar. Ouvi minha avó discutindo com Portolanus. Ela conseguiu convencê-lo, de alguma maneira, de que o talismã da rainha Anigel, pagamento do resgate do seu rei Antar, ficará com ela, se ele recuperar o talismã que afundou na água.

—Mamãe jamais entregará seu talismã! — declarouNiki com firmeza. — E sem dúvida ela e seus cavaleiros estão no encalço deste navio e em breve vão salvar-nos a todos.

—É uma possibilidade—respondeu o rei. — Mas o que eu sei mesmo é que Ganondri pretende forçar sua mãe a entregar o talismã. Portolanus tentou em vão obrigar a rainha Anigel, torturando levemente o seu pai...

— Ohh! — gemeu Jan, horrorizada. Ledavardis continuou.

— Mas minha avó é feita de material mais duro. Ela quer obter logo o segundo talismã... torturando você, Nikalon, e você, Janeel, diante do seu pai e de sua mãe.

— Eu não? — quis saber Tolivar, com cara de alívio.

— Tolo! — gritou a irmã, indignada. — Você devia se envergonhar!

— Chega Jan — disse o príncipe herdeiro—não temos tempo para tolices de crianças — e virando-se para Ledavardis: — Ficaremos eternamente gratos, se conseguirmos escapar. Pode nos dizer por que está fazendo isso?

—Nem eu sei—admitiu Ledavardis tristemente. — Só sei que tenho de fazer isso. Temo que seu nobre pai esteja condenado e que eu não possa fazer nada para ajudá-lo. Mas posso ajudar vocês — ele tirou o lampião do prego. — Agora tenho de ir antes que notem a minha falta. Tenho de estar presente quando o feiticeiro executar sua magia. Iniciem a fuga quando a Terceira Lua surgir. Naquela pequena vasilha tem cera preta de engraxate, que devem espalhar na pele exposta para não serem traídos pela brancura, quando saírem nadando. E agora, adeus.

Ledavardis passou rapidamente pela porta, fechando-a com cuidado e um segundo depois as três crianças ouviram a tramela sendo posta no lugar. Niki ajoelhou-se e examinou as coisas que o saco à prova dágua continha.

— Tem biscoito de navio aqui, doce de nozes e salsichas. Se pudermos pescar e encontrar frutas, deve dar. Vamos pôr nossos sapatos e nossas capas na sacola. Ela deve flutuar um pouco, e podemos rebocá-la puxando pelos cordões. Vou prender a faca dentro da minha camisa e Jan, você amarra o pequeno machado ao cinto do seu vestido. Agora vamos nos apressar para estarmos prontos quando chegar a hora.

Tolo chegou para trás e encostou na madeira úmida do casco.

— Eu não vou!

— Vai sim! — disse Nikalon ameaçadoramente. — Eu sou o príncipe herdeiro e seu irmão, e isto é uma ordem!

— Bolas para você e para suas ordens idiotas, Niki! Há coisas na água. Coisas perigosas! Ralabun disse que...

Niki e Jan rosnaram em uníssono.

— Ralabun! Ele só sabe contar histórias incríveis e falar de superstições de oddlings — zombou Niki.

— Ralabun diz que há peixes grandes, três vezes maiores que um homem — insistiu o menininho —, com bocas enormes, do tamanho de portas escancaradas, com três fileiras de dentes afiados como facas de açougueiro. E imensas bolhas de águas-vivas que queimam até a morte. E o monstro marinho Heldo vive aqui no sul, e seus olhos são do tamanho de pratos, e os braços fortes como cabos, com garras nas pontas. Eles enrolam em você e apertam até o sangue jorrar de sua boca e dos seus ouvidos...

—Não, não! — disse Jan, aproximando-se de Tolo e segurando suas mãos. — Essas coisas não existem! O grande perigo está aqui mesmo neste navio, com a rainha pirata e o feiticeiro malvado.

—O reizinho duende disse que a rainha Ganondri só ia torturar você e o Niki — disse Tolo — e não eu.

A expressão do menino ficou sombria e interesseira de repente.

— Essa conversa é perversa—reprovou Jan.—Agora pare de discutir e tire seus sapatos.

— Não! Eu não vou! Os monstros marinhos vão me devorar!

—Maldito Ralabun—resmungou Niki, abrindo o pote de cera preta e começando a espalhar pelo rosto.—Olhe aqui, Tolo. Eu não estou horrível? Você não gostaria de empretecer seu rosto também? Vamos ficar tão nojentos que as criaturas do mar fugirão apavoradas quando nos virem!

— Não! —berrou o menino de oito anos. — Não, não e não! Jan inclinou a cabeça, escutando alguma coisa.

—Ouçam! A cantoria no convés..não está ficando mais forte?

— Está sim — concordou Niki, notando o olhar de Jan. — Venha, Jan. Prepare-se. Se esse bebezinho teimoso insiste em ser do contra, simplesmente vamos deixá-lo para trás.

— Tudo bem — disse ela, fingindo concordar.

As duas crianças mais velhas tiraram os sapatos e os guardaram no saco. Jan puxou o rabo da saia para a frente, entre as pernas, e prendeu no cinto junto com a machadinha, e escureceram seus rostos, mãos e pés descalços. Felizmente nenhuma peça das roupas luxuosas que usaram na coroação zinorana, já rasgadas e sujas, era de cor clara. EntãoNiki subiu por uma corrente de âncora, puxando o saco e o salva-vidas, deixando-os pendurados nas catracas do guincho, enquanto Jan tentava convencer Tolo mais uma vez. Mas ele afastou-se dela correndo para trás das duas pilhas de correntes.

— A Terceira Lua já vai nascer! —- exclamou Niki baixinho.

— Apresse-se!

— Não consigo pegá-lo! — Jan estava histérica.

— Eu não vou com vocês! — chorou Tolo. — Afastem-se de mim!

— Vou descer daqui, e nós dois o pegaremos à força — resolveu Niki.

— Se fizer isso — avisou Tolo —, vou espernear e gritar e morder quando for agarrado, e os piratas vão pegar e torturar vocês.

— Diabinho danado! — Niki estava apavorado, apesar de disfarçar muito bem. A recusa do irmão menor ia minando rapidamente a pouca coragem que lhe restava. — Seria bem merecido se o deixássemos aqui mesmo!

— É! Deixem-me aqui! Os piratas não vão me machucar. O reizinho duende disse. Vocês dois podem fugir. Não se preocupem comigo. Sou apenas um segundo príncipe. Você disse que eu não valia um grande resgate.

— Não podemos abandoná-lo — gemeu Jan. Niki teve uma reação negativa.

— E tudo indica que não podemos levá-lo conosco. Então devemos ficar os três e nos sacrificar por ele? Ledavardis disse realmente que a rainha regente o pouparia, mas só Deus sabe por quê. Posso dizer uma coisa para você, Jan. Estou achando que nenhum de nós vai sair desse navio com vida, independente da mamãe entregar ou não seu talismã como resgate. Seria uma enorme vantagem para Raktum se papai e os verdadeiros herdeiros dos Dois Tronos de Laboruwenda fossem assassinados.

— Você... você acha, então, que é nosso dever tentar escapar? — a princesa tremia, e seus olhos arregalados formavam dois pequenos círculos rodeados de branco no rosto escurecido.

— Acho — disse Niki.

— Eu também acho! — guinchou Tolo. — Andem! Vão embora!

Jan estendeu as mãos para o irmão menor.

— Dê-me um beijo de despedida, então, docinho.

— Não — disse ele —, porque aí você me agarra! Os olhos de Jan encheram-se de lágrimas.

— Adeus, então—disse ela, começando a subir pela corrente. Tolo ficou olhando até os dois desaparecerem pelo buraco do escovem. Depois subiu também, com certa dificuldade, para dar uma espiada. A Terceira Lua estava surgindo no horizonte e faziam muito barulho no convés de ré - uma cantoria muito alta e um ruído esquisito, um chiado que parecia de fogos de artifício, além do ranger de uma catraca ou de algum outro mecanismo náutico. O menino percorreu os olhos pela curva que a corrente da âncora de estibordo formava e viu duas manchas indefinidas escorregando lá para baixo pelos enormes elos de metal. Chegaram na água afinal. A luz do luar triplo cintilava nas ondas suaves e dificultava a visão das bolinhas que eram as cabeças deNiki e Jan. Eles saíram devagar na direção da praia na ilha e, em pouco tempo, desapareceram por completo.

— Ótimo — disse o príncipe Tolivar para si mesmo, bem satisfeito. — Já vão tarde! Eu sei o que acham de mim, que sou apenas um pirralho e uma peste e que não presto para nada. Mas um dia vou mostrar para eles.

Com todo cuidado ele desceu pela corrente. Chegando lá embaixo, empilhou os colchões dos três catres e arrumou uma cama mais alta e mais confortável. Jan tinha deixado um pouco da comida para ele, então deitou-se, comeu uma salsicha e ficou ouvindo a música fantasmagórica que vibrava pelo casco do navio.

— Eu pensava que queria ser um pirata — falou o menininho sozinho. — Mas mudei de idéia. Piratas são ricos e poderosos, mas precisam ficar no mar o tempo todo, vomitando as refeições quando há tempestades e guerreando outros navios. Eu gostaria de ser algo ainda melhor que piratas quando crescer.

Ele sorriu na escuridão.

— Quando o guarda vier, vou pedir para ele levar um recado para o feiticeiro. Tenho certeza que Portolanus ficará muito satisfeito de ter um verdadeiro príncipe como aprendiz.

Segurando firme na bóia de cortiça, Jan eNiki não paravam de bater as pernas, mas parecia q e não chegavam perto da praia, embora a trirreme estivesse diminuindo atrás deles. Depois de algum tempo ficaram completamente exaustos e só conseguiam se agarrar ao salva-vidas, ouvindo os sons do ritual que ecoava na água. Os cânticos monótonos eram entoados sem descanso. Era impossível ver o que acontecia no navio pirata, mas de vez em quando clarões vermelhos ou azuis subiam no céu e caíam no mar.

— Já está descansada? — Niki perguntou para a irmã.

— Já — disse ela. — Vamos prosseguir.

Começaram a bater os pés de novo, cuidando para não erguêlos e causar estardalhaço na superfície da água. Com o passar do tempo, os músculos de suas coxas pareciam estar pegando fogo e seus dedos ficaram dormentes com o esforço de segurar as cordas do salva-vidas. Mas continuaram, cada vez mais devagar. Batendo as pernas... batendo as pernas... batendo as pernas. Podiam ouvir a respiração ofegante e o bater forte dos corações sobrecarregados.

Nem se davam mais ao trabalho de olhar para onde estavam indo. Encostaram o rosto no forro áspero de lona da bóia e moviam as pernas com a maior dificuldade. Jan soltou a corda, afundou, engoliu água pelo nariz e começou a sufocar. Só conseguia se debater em busca de ar. Depois que se recuperou, Niki tentou consolá-la, dizendo que já estavam longe demais do navio pirata para alguém ouvir a barulheira que ela fez. Mas ela soluçava, totalmente exausta.

—Não agüento mais nadar. Eu vou morrer,Niki. Vá sem mim.

Apoiando uma das mãos na bóia, ele ergueu o corpo com cuidado e deu um tapa no rosto dela.

— Aaah, seu qubar nojento! — guinchou ela.

— Bata os pés! — berrou ele. — Bata os pés, Jan! E segure firme no salva-vidas! Senão, bato em você de novo!

Sem parar de soluçar, ela obedeceu.

E de repente o mar deixou de ser calmo, marcado apenas por ondas diminutas, e avolumou-se. Eles subiam e desciam e acabaram carregados para cima de uma onda enorme. Jan começou a berrar novamente.

— Agarre-se na bóia! Não largue! — gritou Niki.

O vagalhão rolava em disparada para a praia e os dois foram arrastados para a crista. À frente ouviam um rugido intermitente e à sua volta um sibilar ensurdecedor, que aumentava à medida que a onda ganhava velocidade e crescia. Jan sentiu os dedos soltando da corda do salva-vidas. Tentou gritar mas foi tragada pelo turbilhão. Sua boca encheu-se de água salgada e ficou rodando de cabeça para baixo na escuridão ruidosa. Conseguiu prender a respiração e bater os braços e as pernas, apesar de não ter conseguido movê-los momentos antes.

Para cima! Voltar para a superfície! Jan dava fortes braçadas e batia os pés. Bolhas brilhantes. A cabeça fora da água. Espuma borbulhante por todo lado. O quebrar lento e ritmado das ondas na praia...

Seus pés tocaram o fundo.

Uma grande onda quebrou em cima dela, empurrando-a para baixo dágua novamente, mas jogando-a para a frente também. Ela fez um esforço e levantou a cabeça, respirou fundo e moveu-se de gatinhas. O mar estava bem morno e ali no raso havia apenas pequenas ondas, impulsionando-a até sair da água e desabar na areia.

Muito tempo passou até ela lembrar de Niki. Uma pontada de culpa devolveu-lhe a energia. Ele salvara sua vida com aquele tapa. Ela fora covarde, queria desistir, e ele forçou-a a lutar para sobreviver. Jan sentou-se com os pés na água e examinou a praia, primeiro de um lado, depois do outro. O luar triplo confundia a visão, havia pedras escuras e montes de algas na areia que ela achou que eram o corpo do irmão. Finalmente viu a forma distinta e branca do salva-vidas a cerca de dez metros de distância e foi até lá engatinhando. Niki estava deitado logo adiante. Ele respirava, mas não abriu os olhos quando Jan sacudiu seus ombros. O saco de oleado impermeável continuava amarrado à bóia. Ela Pegou a faca dentro da camisa de Niki, cortou o saco e tirou uma capa seca. Deitou-se ao lado do irmão e cobriu os dois, rendendo-se à escuridão avassaladora.

Até acordar com a dor.

— Pare de machucar minha irmã!

Era a voz de Niki. Jan gemeu e soltou um grito alto quando sentiu uma segunda pancada em suas costelas doloridas. Niki berrava furiosamente e ela ouviu uma gargalhada. Meio zonza, abriu os olhos, para fechá-los bem apertados logo em seguida, procurando apagar a terrível visão.

Era um pesadelo! Devia estar sonhando... mas quando desferiram o terceiro golpe, concluiu que o que vira era a horrível realidade.

Uma tocha flamejante, cuja luz revelava três seres altos, com olhos amarelos que brilhavam e focinhos horrendos, rindo dela, exibindo presas brancas. Aborígenes. Pareciam um pouco os selvagens glismaks, mas eram ainda mais feios e mostravam mais ferocidade. Dois usavam saiotes curtos com pérolas cintilantes aplicadas e estavam enfeitados com muitos fios de conchas. Empunhavam maças grandes de madeira com um dente triangular de algum animal na ponta, e um deles segurava uma tocha. O terceiro, bem mais alto e com trajes mais luxuosos, carregava uma espada igual à dos humanos na cintura e uma enorm e pérola pendurada no pescoço. Ele estava de pé, com os braços cruzados, olhando para as duas crianças molhadas.

O guerreiro que acordou Jan chutando-a com o pé de palmípede atarracado, cheio de garras, apontou para ela e para Niki, pronunciando palavras de satisfação na sua língua Cativa. Apontou para o mar, onde a trirreme raktumiana estava ancorada, toda iluminada como um barco alegórico, soltando fogos de artifícios.

O aborígene imponente fez uma carranca e rosnou uma pergunta.

— Eu não compreendo o que diz—explicouNiki, mais calmo. — Você fala a língua dos humanos?

— Falo — coaxou a criatura. — Eu sou o chefe supremo Har-Chissa dos aiiansas. Quem são vocês e o que fazem aqui? Essas ilhas são proibidas para os humanos. No entanto dois navios seus ousaram lançar âncoras ao largo da nossa sagrada ilha do Conselho, e vários outros se aproximam lentamente. Vocês vieram daquele navio?

— Viemos — respondeu Niki, passando a mão no rosto para tirar a areia e tentando falar como convinha a alguém na sua posição. — Sou o príncipe herdeiro Nikalon de Laboruwenda e essa é minha irmã, a princesa Janeel. Nossos inimigos nos aprisionaram e escapamos.

— De quem é aquele grande navio? — quis saber Har-Chissa.

— Pertence à nação pirata raktumiana. Está fortemente armado e também carrega um poderoso feiticeiro a bordo.

O chefe comunicou-se nervoso com os guerreiros em sua língua nativa e virou-se de novo para Niki.

— E o segundo barco... o menor, ancorado além daquele cabo. De quem é?

Uma sensação de formigamento eriçou o cabelo de Jan. Quem seria? Os tão esperados salvadores? Poderia ser sua mãe?

—Não sei que navio é aquele — respondeu Niki —, mas pode pertencer ao nosso povo, que veio para nos salvar dos piratas. Se o navio for de Laboruwenda, vocês receberão uma grande recompensa se levarem minha irmã e eu até lá.

O chefe supremo deu uma gargalhada ruidosa, disse alguma coisa para seus seguidores e eles riram também. Então Har-Chissa estendeu uma mão monstruosa com três garras, agarrou o príncipe pelo cabelo molhado e o fez ficar de pé. As crianças viram os dentes molhados de saliva do oddling do mar brilhando ao luar.

— Levá-los até lá? Seu filhote insolente! Antes do raiar do dia nossos guerreiros afundarão os dois navios e as tripulações participarão do repasto dos peixes. É assim que os aiiansas tratam invasores atrevidos! Quanto a vocês dois, temos um plano especial.

— Qual é? — perguntou Niki, ainda tentando manter sua dignidade.

— Temos um costume — explicou o chefe Har-Chissa. — Aqueles que ousam pôr os pés nas nossas ilhas sem permissão devem fazer parte dos tambores.

— Os... os tambores? — gaguejou Jan.

Har-Chissa soltou Niki e ele quase caiu em cima de Jan. Então o chefe deu uma ordem e os dois guerreiros amarraram o príncipe e a princesa com cordas ásperas.

—O que quer dizer... fazer parte dos tambores?—gritou Niki. — O que vocês vão fazer conosco?

— Livrá-los de suas peles — disse o líder dos aliansas. — Vocês dois darão tambores bem pequenos, mas talvez produzam um som interessante.

A rainha Anigel acordou no meio da noite com a cabeça latejando de dor. As Três Luas iam altas e o Lyath estava muito quieto. Ela desceu à procura de algo para comer e para ver se encontrava a irmã, mas Kadi não estava no minúsculo salão do noga e nem respondeu ao seu chamado.

Anigel sentiu que um nó de apreensão começava a se formar na boca do seu estômago e resolveu ir até o castelo de proa para consultar Jagun. O pior pressentimento se confirmou, quando o pequeno nyssomu admitiu relutante que Kadiya tinha saído há mais de uma hora, deixando o navio junto com Lummomu-Ko e dois outros wyvilos, Mok-La e Huri-Kamo.

Anigel subiu correndo para o convés, gritando freneticamente para o talismã.

— Mostre-me Kadiya!

Mentalmente ela viu o reflexo triplo do luar na superfície do mar que já estava calmo. Um dos botes salva-vidas do Lyath apareceu flutuando naquele pedaço de mar, pouco mais do que uma plataforma de bambu grosso, com dois metros de área, toda coberta com montes de fios compridos de algas marinhas, dando a impressão de ser simplesmente uma massa de despojos à deriva. À primeira vista, não havia vivalma na jangada. Mas então, no meio das algas, Anigel percebeu o faiscar de olhos amarelos e compreendeu que os três wyvilos se agarravam à borda da jangada, mantendo apenas o topo das cabeças fora dágua, mesmo assim escondidos sob as plantas. O bote deslizava rapidamente, embora não houvesse vento. Certamente os wyvilos deviam estar batendo seus pés de palmípedes embaixo dágua.

Não dava para ver Kadiya, mas tinha certeza que ela estava lá.

— O que será que ela espera conseguir com isso? — exclamou Anigel furiosa.

— Grande rainha, a Dama dos Olhos Penetrantes quer afundar o navio pirata e — disse Jagun —, fazendo de Portolanus um náufrago nessa costa hostil, ganhar tempo para recuperar seu talismã.

A voz do nyssomu distraiu Anigel e a visão se dissolveu.

— Senhores do Ar! A Kadi não percebe que o feiticeiro deve estar se protegendo com suas malditas máquinas mágicas? Ela e os wyvilos serão descobertos e mortos!

—Minha Dama de Olhos Penetrantes e seus guerreiros pretendem se aproximar do navio raktumiano com a jangada camuflada e depois nadar por baixo dágua. Eu implorei para ela não ir, mas ela estava decidida.

— Se ao menos eu tivesse acordado a tempo!... Jagun abaixou a cabeça.

— Grande rainha, sinto muito ter de dizer isso, mas o suco de fruta que lhe dei à tarde continha algumas gotas de extrato de tylo, suficientes para induzir um sono breve mas profundo. Minha senhora ordenou que eu fizesse isso e, sabendo que não lhe faria mal, obedeci.

— Você pode ter provocado com isso a morte de Kadiya —disse a rainha cruamente, sem apelar para subterfúgios.

— É verdade — concordou o homenzinho, com a voz entrecortada. — Mas ela disse que se eu a amasse devia fazer isso, pois era sua única chance de recuperar o talismã, e que sem ele preferia estar morta...

— Tola! — gemeu Anigel. — Se ela afundar o navio pirata, o que acontecerá com Antar e as crianças, confinados no porão? Eles seriam esquecidos na confusão!

Os olhos enormes de Jagun ficaram ainda maiores de preocupação.

— Receio que a Dama dos Olhos Penetrantes não pensou...

— Não — retrucou Anigel aborrecida. — Ela não ia pensar neles mesmo. O talismã é a única coisa que importa para ela — a rainha fez uma pausa.—Jagun, comunique-se com os companheiros wyvilos de minha irmã e diga-lhes para lembrar Kadiya do perigo que correm meus entes queridos. Diga também que se ela não desistir desse plano irrefletido, serei forçada a avisar Portolanus de sua investida.

— Oh, grande rainha... a senhora não faria isso!

— Eu não sei se faria ou não! Vamos rezar para que a simples ameaça baste para aquela idiota da Kadi cair em si!... Agora fale com ela, enquanto visualizo o que está acontecendo no navio raktumiano.

Anigel pediu ao talismã para mostrar o compartimento da proa onde as crianças estavam presas. A visão surgiu muito escura, e ela viu o pequeno Tolivar pendurado na corrente, espiando pelo buraco do escovem. No chão havia um monte indefinido de roupas de cama e ela pensou que Jan eNiki estivessem dormindo. Pediu em seguida uma imagem de Antar e o viu em um compartimento entulhado no porão, iluminado por um único lampião de vela, conversando amigavelmente com um grupo de escravos da galé, sobre a possibilidade de ele ter de vir a juntar-se a eles remando a trirreme na volta para Raktum. Um dos tornozelos do rei estava acorrentado e tinham tirado suas vestes reais, de forma que mais parecia um dos remadores, a não ser pelo fato de seu corpo estar limpo e ainda não marcado pelas cicatrizes feitas a chicote.

Satisfeita de ver que sua família continuava bem, Anigel pediu ao talismã para ver Portolanus.

Ele estava bem na popa da trirreme, atrás do convés mais alto que era chamado de popa real, e perfeitamente visível para o olho penetrante de Anigel. Ele não se importava de ser observado, ou então o encantamento que executava o deixava sem energia mágica para usar no disfarce de suas formas. Os olhos dele estavam estrelados de novo, flamejando, e ele cantava em uma língua estranha. Os três acólitos, mergulhados em seu transe repulsivo, estavam ajoelhados e imóveis, perfilados como bonecos, com as roupas amarela, roxa e preta. Sobre uma almofada feita de tecido platinado, aos pés do feiticeiro, descansava a caixa-estrela.

Dois marinheiros, que pareciam apavorados, estavam postados ao lado de um pequeno guindaste de navio, que destoava grotescamente na sala de estar real do convés, toda enfeitada e engalanada. O longo braço do guindaste avançava para fora da popa do navio e tinha uma corda pendurada, com um gancho na ponta. Nesse gancho, apenas um ou dois metros acima da água, pendia um objeto ainda mais prosaico, uma pá bem larga. A maioria da tripulação e dos oficiais, além da rainha regente Ganondri, do menino-rei Ledavardis e seu grupo de cortesãos, estavam reunidos no salão principal lá embaixo, observando o ato de magia como podiam.

Jagun deu um tapinha tímido no braço de Anigel.

Ela desligou-se da visão e fez-lhe uma pergunta.

— A minha irmã concorda em desistir?

— Grande rainha, ela ficou cheia de remorso quando lembrou do enorme perigo que ameaçava o rei e as crianças. Agora ela jura pela Flor que não fará nada que possa pô-los em risco. Ela desistiu do plano de afundar o navio pirata.

— Graças a Deus! E ela está voltando para cá, então? Jagun hesitou, depois balançou a cabeça.

— Ela diz que ficará observando, e que se houver algum modo de frustrar a captura do seu talismã pelo feiticeiro, sem causar danos à sua família real, ela tentará. Pedi ao wyvilo para convencê-la do contrário, mas ela não quis ceder mais.

Anigel mordeu o lábio. Isso teria de bastar... maldita teimosia de Kadi!

Jagun encolheu-se diante da raiva nos olhos de Anigel, e ela sentiu pena dele, dividido entre a lealdade à sua senhora e a certeza de que o que ela fazia, além de inútil, seriatalvez até desastroso. Ele não tinha culpa, pobre alma, de Kadiya ser uma agitadora egocêntrica.

— Jagun... você gostaria de partilhar minha visão do navio pirata?

— Gostaria sim, grande rainha!

— Então segure minha mão — disse Anigel —, e vamos ver o que acontece.

A trirreme, ancorada em águas profundas, avolumava-se contra o céu noturno como um castelo flutuante, decorado para um baile de gala. A luz dos lampiões brilhava em muitas escotilhas e também em todos os níveis do convés e no cordame dos três mastros. As ferragens folheadas a ouro e os esmaltes vistosos do madeirame do navio brilhavam esplendidamente, e os raktumianos reunidos no convés, com suas roupas espalhafatosas, eram bem visíveis para os que os observavam escondidos na água.

— Eles ficarão ofuscados com toda aquela luz — sussurrou Lummomu-Ko paraKadiya—e não vão nos ver se chegarmos mais perto, com todo cuidado.

Lentamente os três grandes aborígenes e a mulher humana começaram abater os pés, agarrados à jangada, apenas com as mãos e as cabeças, bem camufladas com algas, para fora d’água. Estavam chegando à trirreme pela proa e a atenção de todos a bordo se concentrava na popa, onde o cântico de Portolanus tinha atingido um tom frenético. Ele guinchava repetidamente a mesma palavra, mas sua voz já estava tão desgastada e rouca que os invasores não conseguiam entender o que era.

— As crianças estão no pique de vante, no compartimento das correntes — disse Kadiy a baixinho. — Com toda aquela balbúrdia na popa, deve ser fácil escalar as correntes das âncoras e salvá-los. O rei Antar é um problema mais complicado. Se os piratas não o puseram em outro lugar, ele deve estar confinado no terceiro compartimento dos remadores, no porão do lado da costa. Mas não sei como fazer para chegar até ele. Os buracos dos remos no casco são pequenos demais para nós.

— Devem haver portas de portaló nos costados do navio para entrada de carregamentos e descarga de lixo e excrementos—disse Lummomu-Ko. — Decerto essas coisas não são arrastadas pelo centro de uma grandiosa embarcação como essa.

— As portas no casco devem estar muito bem fechadas e altas demais acima do nível da água para podermos alcançá-las — disse Mok-La, que era um wyvilo lenhador muito astuto, quase tão forte quanto Lummomu-Ko. — Mas talvez possamos conseguir acesso para os compartimentos da galé entrando pelos escovéns das âncoras e arrombando o porão na direção da proa.

— Os machados de batalha que trouxemos servirão para isso se tivermos cuidado — acrescentou Huri-Kamo, o terceiro wyvilo, conhecido por sua genialidade e habilidade em mecânica. Foi ele que Kadiya consultou quanto à possibilidade de afundar o navio pirata, e ele logo apresentou um bom plano, que tinham sido forçados a abandonar.

— A maior parte da tripulação estará lá em cima no convés, vendo o feiticeiro pescar o talismã do fundo do mar. Com um pouco de sorte, podemos arrombar o compartimento onde aprisionaram o rei sem causar muito estardalhaço, dominar os guardas que estiverem por lá e libertá-lo — sugeriu Mok-La.

— Pode funcionar — disse Lummomu-Ko. — Devemos tentar, Dama dos Olhos

?Quase não dava para ouvir a voz de Kadiya.

—Foi um egoísmo imperdoável não ter pensado no perigo que ameaça afamília de Anigel, quando partimos nessa missão. A única forma de compensar isso será tentar salvá-los. Se eu conseguir fazer isso com a sua ajuda, meus amigos, o coração da minha irmã ficará tranqüilo e seu talismã estará a salvo do perverso feiticeiro. Se falhar... podemos perder nossas vidas, mas Anigel não ficará em condições piores do que antes.

— Estamos prontos para servi-la, senhora, mesmo se tivermos de ir para o além — disse o líder da tribo wyvilo.

Os outros dois guerreiros também rosnaram concordando.

— Muito bem — disse ela. — Vamos fazer o seguinte: desmontar a jangada. As cordas serão úteis para os que tiverem de escapar com o rei, e todos podemos nadar com facilidade daqui até a praia. Depois que subirmos pela corrente, Lummomu-Ko e Huri levarão as cordas e tentarão encontrar e libertar o rei Antar. Vamos torcer para que consigam sair do navio por uma das portas de carga e descarga, deslizando pelas cordas. Enquanto isso, descerei com o pequeno Tolo por uma das correntes, e Mok descerá com Niki e Jan pela outra. Nadaremos o mais depressa possível com as crianças para a praia da ilha do Conselho. Se Lummomu e Huri tiverem sucesso na libertação de Antar, nadarão com ele para a ilha. Se não encontrarem o rei, ou se acontecer o pior, os que estiverem na ilha ficarão escondidos até o amanhecer, depois tentarão atravessar a floresta para chegar onde o Lyath está ancorado. Podemos atrair a atenção de Anigel da praia e, se tivermos sorte, zarparemos antes da trirreme raktumiana nos alcançar. Estão de acordo?

Os wyvilos responderam com grunhidos.

Então eles empurraram a jangada cuidadosamente para perto da proa do navio gigantesco, onde não podia ser vista lá de cima. Desamarraram as cordas da jangada de bambu e juntaram os pequenos pedaços com nós, formando uma corda longa. Depois os libertadores nadaram até as correntes e escalaram sorrateiramente os enormes elos.

Lá de cima do convés ouviram um grito tremendo. Kadiya e os wyvilos pensaram por um instante que tinham sido descobertos. Mas logo em seguida ouviram o barulho de alguma coisa caindo na água na popa do navio e mais gritos e vozerio, e entenderam que o tumulto era a reação às feitiçarias que Portolanus executava. Os salvadores esqueceram o cansaço e subiram o mais depressa possível. Em poucos minutos Kadiya alcançou a abertura do seu lado e ficou cara a cara com o pequeno príncipe Tolivar.

— Tia Kadiya! — guinchou o menino.

Mas sua expressão demonstrava consternação e não alegria.

—Nós viemos salvá-lo — disse ela. — Será mais fácil se você voltar lá para baixo e ficar esperando com Niki e Jan. Depressa!

— Mas eu não quero ir...

— Não seja ridículo! — ralhou Kadiya. — Vá rápido! Não podemos perder tempo. Os meus amigos wyvilos têm de encontrar o rei Antar e salvá-lo antes de o feiticeiro perceber o que estamos fazendo.

Tolo desapareceu da abertura com cara de pânico. Kadiya entrou no navio com facilidade e Mok-La foi logo atrás dela, praguejando baixinho porque o buraco era apertado para seu físico corpulento. Lummomu-Ko e Huri já estavam entrando pela outra abertura do escovem e escorregando pela corrente.

— Pelas Luas Sagradas! — soou o vozeirão de Lummomu lá embaixo. — Os outros dois jovens não estão aqui!

Kadiya tropeçou no chão do compartimento e correu para pegar Tolo que tentava se esconder atrás de uma grande pilha de correntes.

— Onde estão sua irmã e seu irmão? — perguntou para ele. Tolo começou a chorar, apavorado.

— E.. eles escaparam e foram a nado para apraia... Eu não fui... p... porque queria ser o aprendiz do feiticeiro em vez de uma droga de segundo príncipe.

Kadiya ficou um instante sem fala.

— Vocês três vão procurar o rei — disse ela depois para os wyvilos. — Eu fico tomando conta desse pestinha idiota. Que os Senhores do Ar os acompanhem — virou-se para Tolivar. — Chega de bobagens! Suba nas minhas costas e segure firme o meu pescoço. Vamos nadar até a praia.

— Eu não vou! — choramingou o pequeno príncipe. Huri-Kamo já tinha arrombado a porta do compartimento com o machado de lenhador que era a arma tradicional dos wyvilos. O porão lá fora estava às escuras e vazio. Os outros dois aborígenes, com seus olhos luminosos brilhando, sacaram seus machados dos suportes que carregavam nas costas e seguiram para o outro lado. Kadiya desamarrou o lenço de marinheiro encharcado que usava no pescoço e acenou para o menino teimoso com ele.

— Se for preciso, enfio isso na sua boca e amarro você às minhas costas com meu cinto. Mas antes darei umas palmadas nos seus fundilhos reais, e você terá de fazer suas refeições de pé durante um mês! Agora... está preparado para vir quietinho?

— Estou — disse Tolo infeliz, esfregando os olhos molhados com as mãos encardidas. Então um sorrisinho maléfico despontou em seus lábios. — Mas será sua culpa se os oddlings do mar nos pegarem, como fizeram com os outros.

— Os... o quê?

— Oddlings do mar. Vi as tochas deles na praia.

Só depois de nadar para bem longe da trirreme, Kadiya viu como Portolanus planejava recuperar seu talismã das profundezas do mar. Já percorrera cerca de cem metros da distância até a praia, com o príncipe Tolivar, e tinha uma visão clara da área da popa do navio. Dali observou que a água atrás da embarcação estava assustadoramente revolta, cheia de espuma branca e produzindo o ruído de ondas batendo. O feiticeiro estava debruçado sobre a amurada, brandindo o punho fechado e gritando. Seus olhos brilhavam feito raios brancos, e a pá pendurada na ponta do gancho do guindaste balançava muito, sob aquele facho de luz. As pessoas que estavam no convés principal tinham fugido para o mais longe possível, gemendo e praguejando.

Enquanto Kadiya e o menino pendurado no seu pescoço olhavam espantados, a grande trirreme começou a balançar também e a estremecer. Portolanus teve um acesso de raiva. Tirou uma coisa pequena de dentro do manto e jogou-a para o alto. Houve então uma grande explosão, junto com um clarão ofuscante. Logo o mar se acalmou e o navio parou de balançar. As pessoas assustadas no convés silenciaram, de tão atônitas que estavam, e Kadiya pôde afinal ouvir o que o feiticeiro dizia.

— Heldo! Que raio, Heldo... suba, eu ordeno! Pare de se debater! Você está dominado pelo meu encantamento e deve me obedecer.Não vou liberá-lo até fazer o que estou mandando. Heldo, senhor dos mares abissais, ajude-me!

A uns dez metros da popa, o mar escuro formou uma corcova. Então Kadiya e Tolo viram uma coisa gigantesca e disforme rompendo a superfície, brilhando à luz das Três Luas. Subiu, subiu, subiu e assumiu uma forma alongada com a ponta arredondada, e ficou bem mais alto que o convés de popa, quase da altura do mastro da mezena da trirreme, com mais de oito metros de largura. Primeiro Kadiya pensou que devia ser alguma erupção vulcânica submarina, uma pedra lançada para cima, mas depois ela viu dois globos vermelhos cintilando perto da superfície da água e percebeu que eram olhos.

— É o monstro marinho—disse Tolo, com uma satisfação perversa —, exatamente como Ralabun disse. Provavelmente ele vai comer todo mundo no navio pirata, depois vem aqui comer a gente.

— Fique quieto, pestinha — ordenou Kadiya. — O feiticeiro invocou essa coisa para recuperar meu talismã! Ó Senhores do Ar, livrem-nos disso!

— Grande Heldo! — entoou Portolanus. — Pegue esse instrumento — ele apontou para a pá pendurada no guindaste — e prepare-se para fazer o que eu mandar.

A criatura chamada Heldo inclinou-se para trás, e da água surgiram quatro tentáculos enormes que ficavam se enrolando e se esticando. Apêndices em forma de presas cintilavam nas pontas e havia uma franja esquisita ao longo da parte de baixo, que pingava miríades de gotas luminosas. Heldo soltou um grito trovejante e fantasmagórico, diferente de tudo que Kadiya tinha ouvido na vida. O som terrível deixou-a paralisada e ela esqueceu de nadar, até Tolo gritar que estavam afundando.

— Pegue o instrumento! — ordenou Portolanus mais uma vez. Finalmente, com grande delicadeza, um dos tentáculos coleantes segurou a pá larga e tirou-a do gancho. Outro tentáculo pairava sobre Portolanus e um terceiro ameaçava os dois piratas que operavam o guindaste, que começaram a berrar quando o viram e fugiram pela escada até o convés principal, deixando as três Vozes imóveis e o feiticeiro sozinhos.

— Agora ajude-me, Heldo! Ficará livre do encantamento que o domina, logo que fizer um servicinho para mim. Diretamente abaixo deste navio há um objeto mágico que parece uma espada escura e sem ponta, com um punho trilobado. Tem um brilho verde nas profundezas. Encontre essa coisa, e traga-a com todo cuidado até a superfície com esse instrumento que lhe dei. Não toque na espada mágica com seu corpo, senão ela o matará! Compreendeu?

Heldo trombeteou aquele berro.

Portolanus ajoelhou-se e abriu a caixa-estrela.

—Quando conseguir pegar a espada, ponha dentro dessa caixa. Depois de fazer isso, eu o libertarei. Agora vá!

A trirreme emborcou com o estardalhaço tremendo que o monstro fez, ao desaparecer na água.

Kadiya gemeu.

— Oh, Deus, não deixe isso acontecer! Haramis! Anigel! Ouçam-me e ajudem-me! Roguem ao deus Trino e Uno para devolver meu Olho Ardente Trilobado! Não deixem que caia nas mãos do feiticeiro...

O mar subiu novamente e uma espuma luminosa espalhou-se por todos os lados quando Heldo surgiu de novo na superfície do mar, com um tentáculo levantado, bem no alto. Na ponta desse tentáculo, equilibrada na lâmina larga da pá, algo faiscava como uma longa e luminosa esmeralda. O tentáculo que a segurava inclinou-se sobre o navio e Kadiya deu um grito de dor.

— Não! Não! Venha para mim, talismã! Você me pertence! A figura do feiticeiro, com os olhos estrelados, ficou parada, esperando. Um enorme silêncio encheu a noite, quando as ondas se aquietaram em volta do monstro e o gemido angustiado de Kadiya calou, O talismã com brilho verde soltou-se da ponta do tentáculo e caiu lentamente, feito pluma ao vento.

— Venha a mim — sussurrou Kadiya, lágrimas escorrendo pelo rosto.

Ela ergueu uma mão para fora d’água, em um gesto de súplica.

Na popa do navio pirata, uma faísca dourada brilhou, durante um segundo. Kadiya ouviu a voz de Portolanus proferindo uma blasfémia, surpreso. E então ouviu-se um barulho de metal batendo em metal, que sinalizou a queda do Olho Ardente Trilobado na caixa de desassociação dos Desaparecidos. A voz de Portolanus mudou e virou um crocitar triunfante.

Mas Kadiya tinha em sua mão um pedaço de âmbar brilhante, e mentalmente parecia ouvir uma voz familiar, uma lembrança quase esquecida, vinda do passado remoto.

Os anos vêm e vão velozmente. O que está no alto pode cair, o que é mais querido pode se perder, o que está oculto deve ser revelado com o tempo. E no entanto afirmo que tudo ficará bem... Mas agora você precisa fugir, Pétala do Trílio Vivo, e chegar à terra antes de o feiticeiro perceber o que aconteceu, e lançar sua vingança contra você. Apresse-se! Nade por sua vida e peça a ajuda do seu amuleto!

Seu amuleto... usou-o a vida toda, até o dia em que ele voou para incrustar-se no talismã. E agora tinha voltado paraela. Mas sua magia era insignificante, quando comparada à do Olho Ardente Trilobado...

Nade!

A ordem em sua mente a fez voltar para o perigo evidente e atual. Segurando com força o âmbar morno, Kadiya lançou-se na direção da praia na ilha.

— Segure-se, Tolo! — gritou.

Atrás dela, uma forma muito alta pairava além da trirreme. Kadiya achou que era Heldo, mas depois percebeu que o monstro marinho tinha submergido, e que aquela coisa era muito mais alta e estreita, uma silhueta negra contra o céu, como uma cobra titânica serpenteando. Nuvens apareceram céleres, vindas do nada, cobrindo as luas e as estrelas. Um raio vermelho escuro relampejou um segundo, seguido pelo ribombar do trovão. Portolanus mais uma vez comandava a tempestade, provavelmente para afastar Heldo, e a trirreme jogava como um brinquedinho no mar que crescera de repente. Ela sentiu uma rajada de vento forte. Tolo começou a chorar e havia também um zunido insistente no ar que ficava cada vez mais forte rapidamente. Kadiya afinal entendeu o que o feiticeiro tinha feito.

Ele criara outra grande tromba-dágua, que por acaso avançava exatamente na direção deles.

— Trílio Negro, salvai-me! — gritou, fechando os olhos. Kadiya segurou o pulso longo e magro de Tolo com uma das mãos e o amuleto com a outra. Em um instante a criança e ela foram tragadas e arremessadas a esmo, mas o aguaceiro que os envolveu não era de água e aquele negrume não os sufocou até a morte. Rolaram sem parar, indefesos como folhas em uma torrente, até tudo se aquietar subitamente. Tolo soltou o pescoço de Kadiya e caiu, gemendo baixinho.

Estavam sentados na areia molhada, em meio a um dilúvio.

Na ilha do Conselho.

Chuva misturada com água salgada jorrava sobre eles como se tivessem aberto as comportas do céu. Havia até mesmo alguns peixes infelizes que caíam do céu com a passagem do tornado aquático. Era impossível ver qualquer coisa no mar, onde ondas gigantescas se elevavam e estouravam na praia. Os sentidos de Kadiya estavam abafados pelos relâmpagos e trovões contínuos. A única reação inteligente que conseguiu ter foi agarrar-se com força ao menininho trêmulo e ficarem abraçados naquele temporal ruidoso.

Uma figura de duende atarracado aproximou-se deles correndo, saída de um bosque de árvores pequenas que balançavam furiosamente. Kadiya primeiro pensou que, graças a algum milagre da Flor, era Jagun que estava ali para ajudá-la. Mas quando o aborígene chegou mais perto, ela viu que ele pertencia a uma raça que desconhecia, com mais feições humanóides do que os nyssomus, de rostos largos e bocas grandes, e um corpo mais forte, trajando vestes pesadas dos povos do norte,

— Venha comigo depressa! — gritou o homenzinho para ser ouvido na tempestade.—Há nativos cruéis por aqui, que certamente vão capturá-los se ficarem na praia.

Kadiya levantou-se com dificuldade, lutando contra a confusão mental provocada pela fadiga. O aborígene pegou Tolo no colo com seus braços fortes, e os três saíram em disparada para o abrigo do bosque. Segundos depois, mergulharam nos arbustos espessos e caíram ofegantes sob as folhas enormes de uma vasta moita da ilha.

— Há outras duas crianças humanas em perigo aqui perto — disse o aborígene, depois de recuperar o fôlego. — Eu as vi há pouco, presas a estacas no chão, sendo preparadas para alguma tortura terrível. Como estou sozinho, e os nativos eram muitos, não sabia como salvar as pobrezinhas. Vim esconder-me aqui. Mas agora que vocês chegaram, talvez possamos planejar alguma coisa juntos.

—Niki e Jan! — exclamou Kadiya.—Nas mãos dos aliansas! Deus misericordioso, o que vamos fazer?...

Ela ficou algum tempo ali sentada, imóvel, tentando dominar os debilitados recursos do seu corpo.

— Meu amigo, os prisioneiros são minha sobrinha e meu sobrinho, da família real de Laboruwenda. Eu o abençoo por se oferecer para ajudar a salvá-los... Mas por que está aqui? Vejo por sua roupa que não é um nativo das ilhas Windlorn.

Os olhos inumanos do homenzinho faiscaram um pouco e o amuleto de âmbar de Kadiya também emitiu uma ténue luz dourada. O príncipe Tolivar estava quieto, com a cabeça apoiada no seio de Kadiya e os olhos bem abertos.

— Então essas são as ilhas Windlorn? — disse o aborígene balançando a cabeça. — E onde elas ficam?

— No distante mar Meridional, além de Zinora — explicou Kadiya.

— Ah. Mas isso ainda significa pouco, pois nunca ouvi falar desse mar nem dessa Zinora. Fui jogado aqui num piscar de olhos, através de um viaduto mágico. Uma voz estranha disse que eu ia para onde precisavam de mim... e foi assim que vim parar aqui!

— Quem é você, e qual é o seu povo?

— Meu nome é Shiki. Eu era um simples guia das montanhas e caçador da tribo dos doroks de Tuzamen, mas recentemente dediquei-me a servir a Arquimaga Haramis.

— Ela é minha irmã! Eu sou Kadiya, que alguns chamam de Dama dos Olhos. A arquimaga realmente mandou-o a um lugar onde precisam de você, Shiki!...

Ela olhou para o pequeno e franzino Tolivar, que estava tremendo de choque e por causa do frio repentino causado pela tempestade mágica. Sem dizer nada, Shiki tirou seu casaco com bordas de pele e embrulhou o menino com ele. A chuva continuava a cair torrencialmente, mas não penetrava muito no abrigo de folhas.

— Tolo, você fica aqui e se comporta, enquanto nós vamos procurar sua irmã e seu irmão — disse Kadiya muito séria. —Não pode mais fazer bobagens, senão porá nossas vidas em perigo. Você entendeu?

— Entendi, tia — sussurrou o menino docilmente.

— Ótimo.

Kadiya sentiu suas forças voltando. Não tinham tempo a perder. Ela arrancou um pedaço de trepadeira e tirou todas as folhas, depois enfiou o amuleto trílio-âmbar no fio e amarrou no pescoço. Sacou sua pequena adaga e afiou-a rapidamente na parte de trás da bainha e usou o lenço para prender o cabelo molhado.

—Agora estou pronta—disse para Shiki. — Leve-me até onde as crianças estão, e faremos tudo que pudermos para salvá-las.

O aborígene fez um gesto para Kadiya segui-lo e os dois partiram na chuva.

A tromba-d’água desapareceu e a trirreme navegava normalmente de novo, embora a tempestade continuasse com a mesma força. As tempestades mágicas de Portolanus chegavam depressa quando invocadas, mas levavam muito tempo para acabar. O feiticeiro eufórico reviveu suas três Vozes e levou-os para sua espaçosa cabine, carregando junto a caixa-estrela com o Olho Ardente Trilobado bem seguro lá dentro.

Depois de dizer as palavras especiais de um encantamento, o feiticeiro abriu a caixa e deixou os espantados acólitos darem uma espiada no grande tesouro, que ainda cintilava com gotas de água do mar e tinha um pedaço de alga marinha por cima.

— É seguro tocar nele, mestre? — perguntou o Voz Amarela.

— Ainda não, tenho de executar um certo ritual, usando aquelas coisas coloridas que estão no canto da caixa-estrela. Depois o talismã estará ligado a mim e poderei segurá-lo sem perigo.

Enquanto ele dizia isso, seus dedos dançavam sobre os acessórios que pareciam pedras preciosas. Uma seqüência de notas musicais suaves saiu das jóias e elas brilharam dentro da caixa. Então todas elas escureceram e Portolanus pegou o talismã.

— Ah! — exclamaram as Vozes.

— Agora o Olho Ardente Trilobado está associado ao meu corpo e à minha alma — proclamou o feiticeiro.—Nenhum outro ser pode tocar nele sem a minha permissão, pois morrerá em meio às chamas!

— Que proezas mágicas o talismã é capaz de executar, mestre? — perguntou curioso o Voz Roxa.

—Destruirá meus inimigos, dar-me-á avisão e aclariaudiência sem que eu tenha de sugar seus tão sofridos cérebros, e partilhará comigo a sabedoria oculta que me ajudará a governar o mundo... assim que eu aprender a forma secreta de operá-lo.

As vozes soltaram exclamações de admiração outra vez.

— Concedo a vocês, minhas três vozes, permissão para tocar no talismã sem sofrer dano algum—continuou Portolanus.—Essa permissão valerá até o dia em que eu revogá-la... ou até vocês renunciarem à lealdade que têm a mim.

— Jamais faremos isso! — afirmou o Voz Negra, e os outros concordaram, mais do que depressa.

— Vocês compreendem, minhas vozes, que sozinhos vocês não poderão comandar o talismã. Mas eu, trabalhando por meio de vocês, poderei fazê-lo, assim como posso falar e ouvir ao longe através de vocês.

O Voz Negra, inclinado sobre o talismã para poder examinálo melhor, apontou para uma depressão onde os lobos escuros do punho da espada se encontravam.

— Mestre, parece que havia aqui algum objeto encaixado. Uma jóia, talvez?

Portolanus deu um grito como um homem esfaqueado.

— O amuleto do trílio! Sumiu! Agora sei o que fez aquela faísca dourada sair voando quando Heldo ainda segurava o talismã! O amuleto voltou para sua dona!

E ele amaldiçoou Kadiya com as piores pragas e também xingou os poderes ocultos, enquanto os três acólitos recuavam, confusos. Então, recuperando a pose, Portolanus murmurou baixinho.

— Pode ser que a perda do trílio-âmbar não faça diferença no funcionamento do talismã. Ou talvez...

A expressão dele mudou de repente e parecia muito excitado. Tirou das dobras do manto a estrela desgastada e escurecida que sempre usava pendurada no pescoço, presa a uma corrente de platina.

— Talvez... — repetiu baixinho, aproximando o punho do talismã do pingente.

Cada um dos três lobos se abriu, revelando os grandes olhos brilhantes. Um era o olho amarelo-dourado dos povos, outro era castanho e bem humano, e o terceiro tinha uma cor estranha, azulprateado, com uma faísca dourada no fundo, igual aos olhos de Portolanus.

O talismã parecia olhar fixo para a estrela encardida, cheia de raios, pendurada na corrente. Então fez-se um súbito clarão e um segundo depois o pingente estava bem aninhado entre os três lobos do punho da espada, só que cintilante e perfeito como no momento em que tinha sido dado para seu proprietário, muitos anos antes, por um feiticeiro idoso chamado Bondanus de Tuzamen.

— Glória aos poderes ocultos! — exclamou Portolanus exultante. — Agora, talismã, você é realmente meu!

Eu sou realmente seu.

O feiticeiro ria de felicidade, segurando o talismã pelo punho e fazendo-o girar por cima de sua cabeça. Seu disfarce de velho decrépito se desfez completamente e ele ficou alto e vigoroso, com o rosto marcado pela adversidade mas também atraente, cabelo e barba brancos e brilhantes.

— Vocês ouviram? — gritou. — Ouviram o talismã falar?

— Não, mestre — admitiram as vozes.

— Ele diz que pertence a mim! A mim!... Talismã! Mostre-me aquela praga arrogante, Kadiya.

Atendendo ao seu pedido, o talismã criou uma visão mental mostrando a Dama dos Olhos e um aborígene desconhecido, esgueirando-se por uma floresta fustigada pela chuva.

— Ah-ah! Ela está em terra e agora certamente procura incitar os selvagens locais contra nós... Voz Amarela! Corra até o almirante Jorot e diga em meu nome para ele levantar ferros e acordar os remadores. Precisamos nos afastar dessa ilhahostil imediatamente. Diga que mais tarde eu informo o curso que deve seguir para juntarse aos nossos outros navios.

Quando o Voz Amarela se foi, Portolanus fez um novo pedido ao talismã.

— Agora mostre-me exatamente em que lugar da ilha Kadiya está.

Ele visualizou uma vistaaérea da ilha do Conselho, e nela havia um pontinho branco brilhando, perto da aldeia principal dos aliansas.

— É como eu pensava. Agora mostre onde a rainha Anigel está e depois permita que eu a veja.

Ele teve mais uma vez a visão da ilha, e dessa vez o ponto luminoso estava ao largo, na pequena enseada logo ao norte da baía maior onde a trirreme raktumiana estava ancorado. Depois a imagem mudou para Anigel de pé, calmamente, na proa do seu pequeno navio, com o talismã na cabeça, como se olhasse fixo para ele.

— Sim, eu sei que está me observando, Portolanus — disse ela —, por mais que esconda sua imagem da minha visão. Eu vi como você roubou o talismã de Kadiya com a ajuda da criatura do mar, e como se associou ao Olho Ardente Trilobado. Mas apesar disso, você não triunfará.

— Ora! Veremos se falará assim, com tanta bravura, quando seu marido e seus filhos forem torturados diante de seus olhos! O seu talismã agora está perdido, soberba rainha, e se não deixá-lo à deriva em um bote, agora mesmo, vou ter de ordenar que os piratas comecem o trabalho requintado nos seus entes queridos.

Anigel deu um sorriso estranho.

— Vai mesmo?!... Ela desapareceu.

Intrigado com a insensibilidade aparente da rainha, Portolanus tentou recuperar a visão. Mas agora não havia mais ninguém na proa do pequeno navio. Com certeza o talismã a escondia da visão dele, do mesmo modo que ele se escondia dela. Bem, os jogos que ela inventava não tinham importância.

—Voz Roxa! Peça ao contramestre para trazer os garotos reais para o grande salão sob guarda. Vamos ver se a rainha continua decidida quando os dedos de seu filho forem cortados, um por um, e os dedos dos pés da filha forem enfiados em um braseiro com brasas vivas.

Mas antes de o Voz Roxa chegar à porta da cabine, ouviram batidas fortes do lado de dentro. O voz abriu a porta e lá estava o primeiro-piloto, um pirata alto e saturnino, chamado Kalardis.

— Seus prisioneiros escaparam — disse ele secamente. — Enquanto vocês estavam se divertindo com o monstro marinho, três aborígenes wyvilos invadiram o porão dos escravos, libertaram o rei Antar e o levaram embora por uma das portas de carga e descarga. Quase cinqüenta remadores da terceira fileira também fugiram, e essa sua maldita tempestade provavelmente afogou todos eles!

— As crianças reais também fugiram? — coaxou Portolanus, assumindo rapidamente o disfarce de velho logo que o piloto apareceu.

— Fugiram — disse Kalardis. — Meus homens vasculharam o compartimento das correntes na mesma hora. As portas foram arrombadas pelo lado de dentro, assim como as dos compartimentos estanques e as dos corredores que dão nos porões dos escravos. Os bandidos devem ter subido a bordo pela corrente da âncora.

O feiticeiro falou em voz baixa, com um tom de urgência e ansiedade.

— Sobraram remadores suficientes para manobrar o navio? Precisamos sair deste lugar antes que os hostis oddlings do mar nos ataquem. Não creio que minha tempestade possa segurá-los por muito tempo. Há também a possibilidade de a rainha Anigel causar grandes danos com seu talismã, agora que a família dela escapou do navio.

— Encontrei seu protegido quando vinha para cá, e ele transmitiu suas ordens para zarpar. Temos homens nas duas outras fileiras de remos. Podemos navegar, mas não tão rápido quanto antes. E não seremos capazes de mudar de rumo depressa, nem nas melhores circunstâncias. Sua tempestade prejudicará a vigilância na gávea, a escuridão também, e teremos de fazer sondagens constantes para evitar encalhar ou abalroar um recife.

— A tempestade passará logo, e cuidarei da nossa segurança com meu talismã mágico... — Portolanus começou a explicar, mas o piloto interrompeu.

— Mas terá de esperar e submeter-se à vontade da rainha regente — disse Kalardis com um largo sorriso, revelando dentes manchados e quebrados. — Ou então a má vontade dela. Ela quer vê-lo imediatamente no salão real, e eu não queria estar no seu lugar, nem por toda a pilhagem que há em Taloazin.

A rainha Ganondri, guardada por seis cavaleiros piratas fortemente armados, estava sentada a uma mesa dourada com um mapa das ilhas aberto diante dela. Assim que Portolanus entrou no salão, dois grandes raktumianos agarraram seus braços e o prenderam. Ele não teve tempo de sacar o Olho Ardente Trilobado do cinturão.

Dê-me uma boa razão — disse Ganondri com suavidade venenosa — para eu não mandar meus homens cortar seu pescoço enrugado, uma vez que você deixou escapar os prisioneiros reais.

O feiticeiro respirou fundo.

Talismã! Ordeno que fulmine os meus captores!

Os dois piratas praguejaram, ofegantes. No mesmo instante soltaram Portolanus e desembainharam as espadas. A rainha regente levantou-se de um pulo, com o rosto lívido.

Nada aconteceu.

Desesperado, o feiticeiro pegou o talismã e fez um arco no ar com ele.

—Talismã, destrua todos os meus inimigos nesta sala, com seu fogo vingativo!

Mais uma vez não aconteceu nada.

Ganondri sentou de novo, rindo, aliviada. Os seis cavaleiros enfurecidos correram para cima de Portolanus. Um arrancou o talismã da mão do bruxo, segurando-o pela lâmina sem ponta.

Os três globos do punho se abriram e os olhos vivos encararam o infeliz raktumiano, por um momento. Então, do olho humano saiu um raio dourado, do olho aborígene um verde, e do estranho olho azul-prateado um branco ofuscante.

O pirata encouraçado ficou imediatamente coberto, do capacete aos pés, por uma radiância latejante. Seus dedos enluvados deixaram cair o talismã, mas as labaredas mágicas ficaram ainda mais brilhantes, envolvendo-o em um manto de luz tricolor. Ele não emitiu nem um som, mas os que estavam em volta gritaram, surpresos e horrorizados, pois o rosto do pirata, na parte de baixo do visor levantado ficou negro, carbonizado, e uma fumaça espessa começou a escapar de todas as juntas da sua armadura. Ouviu-se um estalido e um troar surdo, como fogo crepitando em um fumeiro. O cavaleiro incendiado despencou sobre o tapete. Dois piratas arrancaram uma tapeçaria da parede e jogaram em cima do camarada condenado, mas ninguém ousou tocar nele. Portolanus, que recuara de costas até encostar em uma parede, observava a cena com tanto espanto e medo quanto a rainha e seus homens.

Os terríveis sons abafados sob a tapeçaria cessaram de repente. fumaça e o fedor desapareceram, deixando o ar no salão muito claro e puro. Portolanus endireitou os ombros, adotou uma postura solene e adiantou-se marchando para levantar o tecido pesado.

As tiras de couro que uniam as partes da armadura da vítima tinham se desfeito com o fogo, e as placas carbonizadas estavam espalhadas a esmo. Não havia nem sinal do corpo, nem mesmo ossos. No meio das peças da armadura, deformadas pelo calor, estava o talismã, sem um arranhão, parecendo de novo nada além de uma espada de misericórdia feita de metal escuro, sem ponta e sem fio.

Portolanus pegou a espada, enfiou-a no cinto e deixou a tapeçaria cair. Virou-se para os cavaleiros.

— Vocês, homens, saiam.

— Não! — gritou Ganondri. — Bruxo, tenha cuidado! Já esqueceu o meu aviso? Mesmo se todos morrerem nesse navio, você ia acabar tendo frustradas suas ambições, sem a ajuda da grande Raktum. Só poderá atingir seu objetivo com a minha ajuda!

O feiticeiro aproximou-se e apoiou as duas mãos abertas sobre a mesa. Tinha uma aparência frágil e cansada e a voz rouca.

— Você está certa. Preciso da sua ajuda mais do que nunca, agora que o talismã de Anigel está fora de alcance. Mas a menos que queira que esses palermas ouçam uma conversa, que deve ficar só entre nós, dispense-os.

Ele puxou uma cadeira dourada e caiu sentado nela com um sorriso enviesado.

—Você estará bem segura comigo, grande rainha. Já percebeu que não domino o talismã perfeitamente. Ele só mata a pessoa que tenta tirá-lo de mim... um grande azar! Eu juro, pelos poderes ocultos a quem sirvo, e pelo talismã em si, que não vou causar-lhe mal algum.

A mão da rainha tremia quando finalmente fez um gesto para os cavaleiros juntarem os pedaços enegrecidos da armadura do companheiro incinerado e saírem. Ela então pegou uma garrafa ornamental, serviu conhaque em um grande cálice e mal conseguiu levá-lo aos lábios. Depois de beber tudo, ficou mais calma, apesar de seus olhos continuarem a faiscar ódio, junto com um terror profundo, que não disfarçava totalmente com sua força de vontade.

—Essa situação é inaceitável, feiticeiro—disse ela.—Temos de renegociar nossa aliança outra vez. Você tem seu talismã, mas o meu agora está fora de alcance.

— Não necessariamente! Vamos ver se essa teimosa espada mágica é capaz de fazer algo além de tostar os ladrões desavisados — antes de a rainha poder protestar, ele pegou a espada e seguroua no alto pela lâmina. — Talismã, mostre-nos o rei Antar!

Ganondri deu um grito de espanto quando a visão se formou. Ela viu um mar escuro e encapelado, pontilhado por alguns pingos de chuva. Aparecendo e desaparecendo entre as ondas, viu as silhuetas de três cabeças grotescas, com focinhos, em volta de outra, menor e humana. Antar e os wyvilos estavam nadando lentamente na direção da arrebentação de espuma luminosa da praia na ilha.

— Ah — disse Portolanus. — Então eles realmente conseguiram fugir, apesar da tempestade e de Heldo. Não deve ser muito difícil recapturar nosso hóspede real!... Agora, talismã, mostre-nos o príncipe Nikalon, a princesa Janeel e o príncipe Tolivar.

Com a visão mental o feiticeiro e a rainha regente viram Niki e Jan deitados de bruços na lama molhada, de um campo para prisioneiros, em uma aldeia nativa. As pernas e os braços estavam amarrados a estacas e pareciam inconscientes. A chuva estava parando, reduzida a apenas alguns pingos ocasionais, e uns poucos aliansas espiavam das portas de suas cabanas, chamando uns aos outros.

— Ora, ora! Parece que as duas crianças desamparadas estão recebendo uma demonstração da hospitalidade local. Acho que não devemos nos preocupar com o destino delas. E agora, o que houve com a terceira criança real?

Obedientemente, a visão mudou para Tolivar. Ele caminhava decidido pelo meio dos arbustos da floresta, falando baixinho. Portolanus e a rainha distinguiram somente algumas frases.

—.. tia Kadiya não pode me forçar... não me importo se os piratas me encontrarem... prefiro ser um feiticeiro do que uma droga de segundo príncipe... sentirei falta de Ralabun, mas não deles...

Portolanus dispensou a visão e franziu a testa, pensativo. Finalmente deu outra ordem para o talismã.

—Talismã, mostre-me exatamente onde o rei Antar e seus três filhos estão agora... e Kadiya também.

Uma imagem da ilha do Conselho materializou-se em sua mente, com pontos luminosos de luz branca. Ele percebeu imediatamente o que significava cada ponto. O rei Antar ainda estava a meia légua da praia, a uma certa distância para o sul, levado pelos ventos da tempestade. O pequeno Tolivar estava no limite da floresta, perto da praia, do lado oposto do ancoradouro da nau capitânia raktumiana. As duas crianças presas estavam na grande aldeia aliansa, a cerca de uma légua no interior da ilha e mais para o norte. Kadiya estava perto delas e aparentemente não tinha saído de sua posição inicial.

—Agora mostre-me o príncipe Tolivar novamente—ordenou Portolanus.

Pelas escotilhas abertas do salão ouviu-se o som de ordens sendo dadas em voz alta e passos apressados. Uma vibração espalhou-se pela trirreme, quando manejaram os dois cabrestantes da proa, e as duas enormes âncoras foram içadas.

A rainha levantou-se.

— Quem deu ordens para levantar âncoras? Temos de mandar patrulhas armadas para a praia imediatamente! Se recuperarmos ao menos um dos fugitivos, teremos poder de barganha suficiente para forçar Anigel a entregar seu talismã para mim.

Ela correu para a porta, abriu-a e começou a gritar, chamando o almirante Jorot.

Portolanus continuava concentrado em sua visão do príncipe Tolivar, falando sozinho.

—O diabinho! É isso que ele pensa, não é? Que audácia!...Mas ele realmente pareceu encantado comigo, não é mesmo? E cheguei a detectar nele uma tênue aura de potencial mágico! Acho que foi por isso que não tive coragem de mandar torturá-lo. Ele pode muito bem aprender a ser um feiticeiro... Gostaria de saber se ele já tem idade suficiente para compreender as implicações políticas. Será que pode ajudar-nos diretamente na derrubada dos Dois Tronos?

Ganondri retornou ao salão principal.

— Dei ordem para o navio ficar à capa, com as âncoras levantadas, enquanto seis botes cheios de homens armados vão no encalço do rei Antar e do pequeno príncipe. Podemos esquecer as duas crianças aprisionadas pelos oddlings do mar. Sem dúvida a rainha Anigel já os visualizou. Ela nem prestará muita atenção em nós, enquanto seus preciosos pirralhos estiverem sob a ameaça dos selvagens. Agora você deve...

— Eu não vou para a ilha! — declarou o feiticeiro.

— É claro que os oddlings do mar não representam perigo para um mago tão poderoso quanto você — disse a rainha maliciosa, mudando para um tom mais áspero. — Você deve guiar o grupo de desembarque diretamente até Antar e o príncipe Tolivar, com seu talismã. Não temos tempo a perder!

— Meu Voz Negra acompanhará o grupo que procura o rei e meu Voz Roxa guiará os que vão atrás do príncipe Tolivar. Comunicarei a eles os locais exatos em que o rei e o pequeno príncipe estão. Não há motivo para eu deixar o navio.

— Você vai, porque estou mandando!

— Não! Não é necessário.

Portolanus e a rainha Ganondri se encararam, olhos nos olhos, em silêncio, por um tempo. Então ele falou, baixinho.

— Você não vai me abandonar nessa ilha de oddlings, rainha pirata. Tire essa idéia da cabeça. Vamos continuar aliados, para o que der e vier, e providenciarei para que pelo menos um refém real seja recapturado, de forma que você possa barganhar com a rainha Anigel em troca do talismã. Mas sugiro veementemente que você não tente fazer a troca aqui. Anigel não estará disposta a ser razoável depois que os aliansas tiverem torturado e assassinado dois de seus filhos. Devemos zarpar assim que tivermos Antar ou o pequeno príncipe.

— E aí? — retrucou a rainha.

— Você transportará, a mim e ao meu pessoal, em segurança até meu navio tuzameniano. Por meio da visão do meu talismã posso garantir uma reunião bem rápida com o meu barco e com os três outros navios da sua flotilha. Não podem estar a mais de um dia de viagem daqui. Depois disso, se quiser continuar a aliança comigo, podemos fazer a viagem de volta para casa em comboio. Você pode levar os prisioneiros reais como antes...

—E a caixa-estrela—disse Ganondri com firmeza.—Dê-me a caixa agora, ou sua aliança com a grande Raktum estará terminada... assim como sua ambição de conquistar Laboruwenda!

Portolanus sacou o talismã do cinto e lentamente ergueu a lâmina escura e sem ponta até apontar para o pescoço da rainha regente. Ela se empertigou, mas nem piscou nem gritou quando o metal encostou na sua pele, sem machucar. Se o feiticeiro ordenava sua destruição mentalmente, o talismã se recusava a obedecer.

Os lábios de Ganondri curvaram-se, formando um sorriso breve e gelado.

— A caixa-estrela — repetiu. — Agora. E você me mostrará como usá-la.

Portolanus guardou o talismã, ficou de pé diante da mesa e saudou-a com um cumprimento de cabeça.

— Parece que chegamos a um impasse, grande rainha. Vamos procurar conter o rancor que nos separa neste momento. Em vez disso, vamos procurar pensar nos argumentos que nos uniram no início. Não precisamos gostar um do outro, para trabalharmos juntos, em prol de um objetivo comum. Você sabe muito bem que minha ambição não é tão fútil quanto a conquista de Laboruwenda. Aquela terra altiva dos Dois Tronos será sua.

— E o talismã da rainha Anigel também — o sorriso da rainha estreitou-se e ficou feroz como um esgar de lothok, e ela tamborilou com os dedos sobre a mesa, fazendo com que seus muitos anéis faiscassem à luz do lampião. — Deixe-me explicar quais vão ser os novos termos do nosso contrato, mago. A grande Raktum será sua leal aliada enquanto você renegar qualquer traição contra ela e a rainha regente. Mas ficarei com o talismã de Anigel até a minha morte, e você me ensinará a usá-lo.

Portolanus fez um gesto de frustração, pondo as mãos para o alto.

— Eu ainda não sei como usar o meu talismã direito!

— Tenho certeza que vai aprender. O feiticeiro suspirou.

— Muito bem..juro pelos poderes ocultos e por este talismã... que ele me destrua se eu violar esse juramento... que cumprirei fielmente as condições que você estabeleceu. Mandarei meu Voz Amarela trazer a caixa-estrela para você imediatamente, e depois tratarei de recuperar os prisioneiros reais.

Ganondri meneou a cabeça com imponência. Portolanus saiu do salão real, fechando a porta suavemente. Quando ele se foi, a rainha regente começou a rir e ficou tão envolvida na euforia e triunfo exultante que só conseguiu parar quando bebeu outro calice cheio de conhaque.

Um pouco mais tarde, quando o Voz Amarela chegou com a caixa-estrela, ela arrancou o objeto violentamente das suas mãos e empurrou-o porta afora. E começou a dar gargalhadas de novo.

Haramis não se apressou pelo Caminho de Luz. Foi andando deliberadamente por cima das águas profundas e frias, como se a fragilidade cintilante que havia sob seus pés fosse uma rua de pedras. A brisa ártica possuía o cheiro peculiar de gelo marinho, e a aurora luzia por todo o céu, obscurecendo as estrelas e as Três Luas e iluminando os gigantescos icebergs à deriva, com raios pálidos de azul e vermelho.

A maior montanha de gelo flutuante, para onde ia o Caminho de Luz, também brilhava com uma luz própria que provinha do seu interior. Quando partiu da praia, Haramis não havia notado isso, mas à medida que chegava mais perto, o iceberg ia ficando cada vez mais luminoso, até assumir a aparência de uma titânica pedra de berilo, azul-esverdeada em uma centena de tons diferentes, incrustada no espelho negro, que era o mar setentrional. O brilho continuava embaixo dágua, diminuindo aos poucos, e Haramis percebeu que a grande massa de gelo que havia por cima do mar era apenas uma pequena porção do volume incrível que existia escondido na água.

Ela caminhou mais de duas léguas para chegar lá. O Caminho de Luz levou-a até uma gruta em arco que cortava um lado do iceberg, um corredor com piso de água, que não era mais negra, e sim azul noite, também recoberto pela faiscante poeira de estrelas que o tornava firme para sustentar seus pés. As paredes eram uma superfície irregular e lisa, com concavidades, facetadas ou escavadas, de modo que a luz do interior parecia brilhar por meio de formas fantásticas de esmeraldas claras e águas-marinhas, sombreadas de azul-safira.

Sem pensar, Haramis estendeu a mão e tocou na parede mais próxima.

— Pela Flor! Não é gelo nada!

A superfície era macia e molhada, mas só um pouco fria ao toque e certamente mais quente do que o mar. Será que era vidro? Deu uma batidinha com as unhas. Parecia mais maleável do que cristal, diferente de qualquer substância que tinha visto na vida. Era mágico, sem dúvida criado pela Arquimaga do Mar. Uma simulação de iceberg.

Então Haramis notou que dentro das paredes transparentes havia peixes e outros animais marinhos que nadavam em sua direção. Eles vinham aos montes e se reuniam dos dois lados da fenda, até onde seus olhos podiam alcançar, sumindo no azul. O iceberg artificial era oco e cheio de vida.

Ela ficou admirando, e as criaturas também a examinavam, com olhos arregalados de espanto. Eram quase todos prateados, cinza azulados ou brancos, e alguns eram transparentes, com os órgãos internos visíveis e pulsando. Havia peixes enormes, com escamas prateadas cintilantes e bocas cheias de dentes pontiagudos, parecendo os mortíferos milingais dos rios do pântano Labirinto. Cardumes de peixes menores com olhos de um azul-elétrico rodopiavam com tamanha sincronia que pareciam regidos por um único cérebro. Havia peixes que nadavam lânguidos, como largas fitas brancas costuradas com papel laminado, outros com formato de espadas, e outros tão grotescos que era difícil considerá-los peixes, todos cheios de protuberâncias, espinhos e apêndices como lanças flexíveis, com bandeiras prateadas balançando nas pontas. Apareceram grandes hidrozoários passivos, como ovóides de gelatina multicor com franjas, e outros menores que lembravam lindos botões de flor flutuantes com pétalas de cores pastel. Criaturas com tentáculos brancos e caras engraçadas dardejavam entre os nadadores mais lentos, e bandos de mariscos translúcidos navegavam em esplendor majestoso, perseguidos por uma espécie disforme de predador cor de prata, que de vez em quando engolia uma vítima desatenta e depois sumia. Pequenos crustáceos espelhados e angulares passeavam por toda parte, pairando feito abelhas de cristal entre os peixes-flor, entrando e saindo sem medo das bocarras abertas dos milingais prateados, e até mesmo pegando carona com as criaturas menos ferozes.

Haramis não conseguiu conter uma exclamação de prazer.

Agrada-me ver que aprecia meus animais de estimação.

Assustada, ela olhou em volta. Mas a fenda que parecia um aquário não tinha nenhum outro humano.

— É a Arquimaga do Mar? — perguntou sussurrando.

É claro! Venha depressa, filha. Mal posso esperar para conhecê-la. Pode estudar os habitantes do meu lar mais tarde, se quiser. Mas nosso jantar está esfriando e estou com muita fome!

Haramis controlou-se para não sorrir. Era óbvio que aquela Arquimaga não era dada a cerimónia nenhuma, e sua voz mental também não soava nem um pouco pomposa ou condescendente. Haramis tinha procurado evitar qualquer especulação sobre o tipo de personagem que iria conhecer. Oficialmente, elas eram iguais. Mas na verdade, seriam aluna e tutora. Ela só torcia para essa colega Arquimaga ser objetiva, não tão frágil e enigmática quanto Binah. Precisava ajuda no sentido prático, e não se expor a mais mistérios. O talismã de Kadiya estava praticamente perdido para Portolanus, e o de Anigel podia ser entregue ao feiticeiro como resgate em breve. Se ela não dominasse logo o próprio talismã, tinha certeza de que Portolanus atingiria seu objetivo de dominar o mundo.

Denby pensa que esse resultado é inevitável. Mas você e eu vamos mostrar umas coisinhas para ele! Quanto a ser prática... isso, minha querida, é problema exclusivamente seu. Decerto não sou do tipo que se deixa entrar em órbita por um encantador charmoso... mas não estou tão certa quanto a você!

Haramis soltou uma exclamação de revolta, retesou-se e aborrecida retomou sua caminhada para o centro do iceberg de mentira.

— É evidente, Dama do Mar, que você consegue ler meus pensamentos — disse ela em voz alta. — Mas duvido muito que possa ler minha consciência. Venho a você como suplicante, isso é verdade, e se seus ensinamentos só puderem ser transmitidos através de afrontas à minha dignidade, que seja assim. Mas eu esperava um relacionamento mais caloroso e amigável. Sei que sou jovem, comparada a você, mas não sou criança, nem idiota. Sempre cumpri meus deveres de Arquimaga da melhor forma que pude, sem me deixar distrair por qualquer pessoa ou coisa...

... até agora! Mas você vai, sua orgulhosa! Assim como foi há doze anos, antes de assumir seu posto. Além de distrair-se de seus deveres, ficou profundamente atraída pelo mal. Admita!

Haramis parou de repente.

—Não vou tentar me justificar. É verdade que amei o feiticeiro Orogastus um dia, e que saí do caminho por um breve tempo, levada por sua visão de poder. Mas eu o rejeitei. Se ele ainda está vivo, como acho que está, tentarei rejeitá-lo novamente, com toda a força do meu coração e da minha alma, e frustrar suas intenções malignas... Mas preciso desesperadamente da sua ajuda. Você vai me ajudar?

Se não fosse, não a teria chamado para entrar no viaduto. Mas você provou que está decidida quando foi ao Kimilon, por isso resolvi que merecia um tratamento especial... não ligue para o que Denby acha. O equilíbrio do mundo e, mais que isso, a própria existência dele está ameaçada pelo ressurgimento da estrela abominável! Temos de tomar medidas drásticas, para situações desesperadas! Denby achou que Binahfora louca de arriscar-se para deixar a cargo do Cetro Trino do Poder a anulação da ameaça e ficou arrasado, quando ela providenciou o nascimento de vocês três. No entanto, até ele admitiu que o Homem da Estrela ia acabar se apoderando do cetro mais cedo ou mais tarde, mesmo sem os erros que vocês, Pétalas de Trílio, cometeram. Binah apostou que, com o tempo, vocês se tornariam capazes de destruir a ameaça de uma vez por todas, apesar dos tropeços tolos. Sangue novo, mentes jovens, enfrentando o problema antigo. Percebe?

— Não! Não faço idéia do que você está dizendo — Haramis de repente sentiu um frio enorme, embora o ar dentro do iceberg artificial estivesse bem quente. Arrumou as peles brancas que a envolviam e foi incisiva. — Explique-se, Arquimaga! Diga exatamente que tipo de perigo ameaça o mundo, e que papel minhas irmãs e eu vamos desempenhar na luta contra ele. Estou avisando que não tenho intenção nenhuma de ser enrolada outra vez com baboseiras místicas ou respostas evasivas.

Ah-ah! Cheia de verve! Gosto disso. Venha para cá, Haramisque-não-tolera-bobagens! Vamos nos dar maravilhosamente bem.

O Caminho de Luz terminou, quando o minúsculo braço de mar desapareceu no corredor cada vez mais estreito, deixando Haramis sobre uma plataforma brilhante. Dessa plataforma partiam três túneis, mas só um estava iluminado. Ela seguiu por ele uma boa distância, ficando meio zonza com a sensação de estar suspensa em água muito clara aprisionada pelo gelo. As hordas de criaturas tinham sumido, certamente por já terem saciado a curiosidade. Agora a água atrás das paredes transparentes deixava entrever apenas uma forma indistinta ou outra, movendo as barbatanas. Ela foi em frente e a luz começou a diminuir lentamente à medida que avançava, como se estivesse se afastando da fonte. As cores aquosas assumiram tons mais profundos, azul ultramarinho e verde-jade, com sombras violeta.

Então chegou a uma porta, branca opaca, com uma grande maçaneta de argola de prata que resistiu ao puxão de Haramis. Tocou nela com seu talismã e mais uma vez ouviu o badalar de sinos que havia sinalizado o misterioso viaduto. A porta se abriu para a escuridão.

Decidida, Haramis entrou. Ficou paralisada quando a porta fechou, pois apenas o brilho suave e amarelado do trílio-âmbar preso ao seu talismã, garantia que não tinha ficado cega.

Ouviu uma risadinha.

— Dê um tempo para se adaptar. Então verá muito bem. Meus velhos olhos não são mais o que eram, e essa situação é muito confortável para mim. Dê-me sua mão...

Tateando, Haramis levantou o braço. Sentiu dedos úmidos mas agradáveis, segurando firme sua mão, e foi puxada para a frente, uns doze passos. O ar tinha um quê de salgado e reverberava o eco dos sinos que parecia ampliar outras notas musicais suaves, vindas de algum ponto na escuridão.

— Pronto. Achou a cadeira? Sente-se, enquanto vou pegar o jantar.

Apalpando as coisas em volta, Haramis conseguiu sentar em um banco largo, com uma forma estranha, sem encosto. Os lados e as pernas eram cobertos de protuberâncias lisas irregulares e a almofada do assento era macia e quente, com certeza cheia de líquido. Era muito confortável.

Sentada ali no escuro, esperando, ela descobriu que a visão voltava. Estava em um grande salão cheio de móveis levemente brilhantes. A mesa e as duas cadeiras eram feitas de conchas, cada uma cercada por uma espiral de minúsculos pontos verdes, projetada para fora. Na mesa havia pratos e copos, também feitos de conchas, emitindo um brilho fraco, róseo e amarelo-topázio. O chão era todo salpicado de azul-celeste e carmim, que formavam desenhos móveis. Grandes urnas ocupavam diversos pontos da sala, também feitas com as conchas rodeadas de pontos verdes, com plantas plúmeas como samambaias gigantes, que tinham um brilho alaranjado por baixo das folhas.

Alinhados em uma parede ficavam armários com prateleiras, rodeados de faíscas azuis, com puxadores vermelho fosco. Em outra parede havia um enorme mural de vida do fundo do mar, onde criaturas abissais com olhos, barbatanas e pontos do corpo luminosos estavam suspensas na água escura ou apoiadas nas formações de corais, cobertas de pequeninas estrelas brancas.

Uma das criaturas delicadamente suspensa moveu-se, e Haramis percebeu que o mural era vivo, não era um quadro, mas uma gigantesca janela que dava para as profundezas do mar noturno.

Quando seus olhos se acostumaram à penumbra, viu que à sua volta objetos levemente brilhantes pareciam se materializar. Em um canto da sala havia uma grande bancada de trabalho com vários objetos metálicos estranhos em cima, que cintilavam, refletindo a luz da superfície de conchas na qual estavam. Em um outro canto viu um globo quase do seu tamanho, e notou espantada que era uma réplica do mundo, com os mares de um azul profundo e luminoso e as áreas de terra em ouro esverdeado ou branco.

Fileiras de estantes continham livros encadernados com tecido comum e couro, todos com letras luminosas na lombada. Havia outros livros empilhados aqui e ali, pelo chão, e um estava aberto em um suporte de conchas, ao lado de uma espreguiçadeira. Haramis não se surpreendeu ao notar que o texto do livro também era luminoso. Em frente da cadeira viu um banquinho estofado para os pés e ao lado dele, no chão, uma criatura esbranquiçada, segmentada, cheia de pernas, com dois olhos malignos, vermelhos. Quando sentiu que Haramis olhava para ele, o bicho abriu a boca e soltou um silvo, revelando que o seu interior era amarelo brilhante e que tinha várias fileiras de presas.

— Ora, Grigri! Seja educado com nossa convidada!

Um par de cortinas roxas que Haramis não tinha visto se abriu. A Arquimaga do Mar apareceu, segurando uma bandeja com uma grande terrina fumegante e vários pratos cobertos. Deixou a bandeja em cima da mesa e ficou de pé, sorrindo.

— Já está vendo bem agora?

— Estou, obrigada.

— Meu nome é Iriane. Alguns me chamam de Dama de Azul. Bem-vinda à minha casa, Arquimaga da Terra.

A maga tinha a forma humana, não era peixe, um alívio para Haramis. Sua estatura era mediana, mas era bem corpulenta, o rosto redondo como um melão e com um leve brilho azul. Os traços eram exóticos e belos, especialmente os olhos, enormes, negros e emoldurados por cílios longos e espessos. O cabelo também era negro, ou talvez azul muito escuro, penteado em cachos e ondas elaboradas, seguros por pentes de conchas e palitos com enormes pérolas nas pontas. Ela estava com um vestido sem mangas colorido de índigo, que deslizava pelo chão. Lantejoulas minúsculas formavam desenhos estilizados de seres marinhos. Nos ombros havia dois broches de pérolas, prendendo uma capa transparente azul-escuro, que flutuava às suas costas, cintilando um pouco.

Iriane estendeu a mão para Haramis, que levantou e apertou-a inclinando a cabeça devagar. Então a robusta Arquimaga sentou-se, com graça surpreendente. Fez uma breve oração pela bênção do deus Trino e Uno e os Senhores do Ar, e serviu-se fartamente da terrina.

— Coma, filha, coma. Você deve estar morrendo de fome depois de sua viagem do Kimilon. Você levou três horas para chegar aqui, sabe?

— Não pareceu tanto tempo... Diga, a que distância fica o Kimilon da praia no mar Aurora, onde cheguei pelo viaduto?

— Mais de três mil das suas léguas.

— Incrível! E fui transportada em um piscar de olhos. Sua mágica é muito poderosa, Arquimaga.

—É — concordou Iriane. — Mas o viaduto não faz parte dela. Você viajou por meio de uma máquina antiga que não tem nenhuma mágica verdadeira.

— Ah. Um artefato dos Desaparecidos?

— É. Já houve um tempo em que muitos viadutos se espalhavam pelo mundo todo. No tempo antigo, eram normalmente usados para transportar membros menos competentes do povo, para cá e para lá. Agora só uns poucos continuam funcionando.

Haramis serviu-se de pequenas porções da comida. Era tudo totalmente desconhecido, mas o cheiro era bem apetitoso. Um jarro dourado continha um líquido com fragrância doce e condimentada. Ela encheu seu copo e deu um grande gole antes de falar.

— Arquimaga Iriane, você sabe por que estou aqui. Preciso aprender como usar este talismã, esse Círculo com Três Asas, direito. Preciso também do seu conselho sobre o que devo fazer para derrotar Portolanus, que já roubou um talismã da minha irmã Kadiya, e ameaça tirar o segundo da minha irmã Anigel. Também gostaria que me ensinasse o que sabe sobre os Desaparecidos, sobre o Cetro de Poder deles e a união dos três talismãs. Espero que me explique a diferença que existe entre a verdadeira magia e a suma ciência que ativa certos artefatos antigos maravilhosos. E como magia e ciência se confundem no conflito entre Portolanus e as Três Pétalas do Trílio Vivo.

Iriane deu um suspiro e largou a colher. Tomou um gole da sua bebida e falou.

—Não posso responder algumas de suas perguntas, Haramis. Outras vão requerer longas explicações e devo adiá-las para mais tarde. Mas responderei à pergunta mais fácil... contando a história dos Desaparecidos.

Doze vezes dez centenas atrás - disse Iriane - o mundo das Três Luas abrigava uma numerosa população de seres humanos. Chegaram aqui vindos de outro lugar, bem além do firmamento, e utilizaram seu grande conhecimento para transformar certos aspectos deste mundo, para que se adaptasse melhor às suas necessidades vitais.

Com o passar do tempo, uma facção egoísta de famintos pelo poder se formou, adotando o nome de Guilda da Estrela. Eram conhecedores da ciência e também versados nas artes da magia que se originam na mente humana e na natureza mais profunda do universo. Os Homens da Estrela e seus seguidores provocaram uma guerra devastadora que durou quase duas centenas. No decorrer dessa guerra, suas armas e magia maligna, além de matar quase a metade de todo o povo, modificou o clima do mundo, gerando o início de uma Era Glacial da Conquista.

Você sabe que até hoje o mundo-continente é coberto por uma vasta Calota de Gelo Sempiterna. Só nas beiradas e no sul existe terra sem geleiras. Mas na época anterior à Era Glacial apenas as montanhas mais altas tinham geleiras. O mundo-continente de então tinha um clima ameno em geral e havia muitos lagos enormes, pontilhados por belas ilhas, onde as cidades mais elaboradas foram construídas. Quando as nevascas intermináveis começaram, todas essas cidades insulares tiveram de ser abandonadas, e apenas as que ficavam ao longo das praias ou no fundo do mar ou no baixo firmamento continuaram habitadas.

A Guilda da Estrela lutou mais do que nunca ao perder o apoio do povo e até os membros mais fanáticos perceberam que a causa estava perdida. Quando parecia que os Homens da Estrela iam destruir completamente o mundo em vez de capitular, o objeto mágico chamado de Cetro do Poder foi criado pelo Colegiado de Arquimagos para devolver a feitiçaria terrível dos Homens das Estrelas para eles mesmos. Mas havia um perigo tremendo na utilização do Cetro, e no final, os que o tinham criado ficaram com medo de usá-lo.O Quartel-general dos Homens da Estrela finalmente foi destruído por um dos maiores heróis do mundo, o Arquimago Varcour, e os vilões que permaneceram vivos espalharam-se pelos quatro ventos, pondo fim à guerra. Mas o mundo das Três Luas estava arruinado. Nem toda a ciência ou magia benigna dos Arquimagos podia recuperar a temperatura climática da terra que tinha sido bela e feliz um dia. O mundo-continente não suportava mais grandes contingentes de seres humanos, e o mar estrangulado pelo gelo também não, nem as habitações mais precárias do firmamento interno.

A maioria dos sobreviventes fez preparativos para partir para um lar distante, bem além do firmamento externo. Mas um grupo de trinta almas brilhantes e alttuístas do Colegiado dos Arquimagos, inclusive o grande Varcour, resolveu ficar e fazer o que pudesse para reparar os danos terríveis que a humanidade causara. Uma de suas principais obras foi a geração de uma nova raça, mais resistente que a humanidade, que poderia se multiplicar e repopular o devastado mundo das Três Luas depois de milhares de anos, quando o gelo afinal começasse a derreter.

Quando os seres humanos chegaram pela primeira vez a este mundo os aborígenes mais desenvolvidos que encontraram foram os primitivos e indomáveis skriteks. Esses monstros escamosos de sangue quente tinham uma consciência precária e intelecto pobre, mas possuíam o poder de se comunicar com ou sem palavras. Não conheciam nada do amor, não tinham arte nem cultura, e levavam uma vida predatória. Com sua maneira abjeta de se reproduzir, em geral a mãe era devorada pelos filhotes esfaimados ao nascerem. Usando ciênciae magia, os sábios do Colegiado de Arquimagos misturaram o sangue dessas criaturas pouco promissoras com o da humanidade, criando o povo bonito e inteligente que você conhece como vispis. Ao mesmo tempo, uma raça camarada de pássaros gigantes com poderes telepáticos, chamados abutres-dos-alpes, também foi criada para ajudar na sobrevivência dos vispis. Colónias de vispis recém-criados e abutres-dos-alpes foram espalhadas por toda a reduzida margem do mundo-continente, antes de o grosso da raça humana partir, tornando-se os Desaparecidos.

No último minuto antes da partida, alguns milhares de pessoas comuns resolveram ficar também, para ajudar os Arquimagos e ter a vida que pudessem ter no meio do Gelo Conquistador. Estes formaram o núcleo da população humana que vive no mundo das Três Luas hoje em dia.

À medida que os séculos foram passando, as nevascas violentas acabaram e o clima esquentou lentamente de novo, derretendo aos poucos a calota glacial do interior e liberando terra seca para habitação outra vez. Guiados discretamente pelos Arquimagos, os vispis se multiplicaram, mas os skriteks sobreviventes também. De tempos em tempos a miscigenação ocorria e muitas outras raças aborígenes passaram a existir, mais ou menos humanas na aparência. Os humanos também se misturavam de vez em quando com os vispis, de forma que traços do sangue aborígene agora existem em praticamente todos nós.

Os seres humanos eram inerentemente mais férteis do que os aborígenes, por isso a nossa raça cresceu mais depressa. Depois de milhares e milhares de anos, as terras mais férteis e saudáveis foram inteiramente ocupadas pela humanidade, enquanto os aborígenes viviam nas áreas marginais, as altas montanhas, os pântanos, as densas florestas e as ilhas mais remotas. Os membros do Colegiado de Arquimagos saíram do secreto Lugar do Conhecimento, construído por Varcour, e foram para seus retiros individuais, onde continuamos a nutrir e a guiar tanto os humanos quanto os aborígenes. Utilizando nossa ciência antiga, conseguimos viver bastante. Muitas vezes um Arquimago que estava à morte tinha sucesso no treinamento de um substituto, mas isso nem sempre era possível, e nos milhares de anos subseqüentes nossos números foram diminuindo, assim como a necessidade de nossos serviços para os humanos.

E agora, minha querida, nós, Arquimagos, somos apenas três: você, eu e Denby. Como Arquimaga da Terra, seu trabalho é o mais urgente e desgastante. O meu é bem menos, e Denby é o que se esforça menos ainda, por isso ele ficou implicante, amante da boavida e tornou-se um recluso, ignorando a humanidade e o povo em geral, passando o tempo com seus estudos de trivialidades celestiais antigas... como se fosse fazer-lhe algum bem!

A sua antecessora, Binah, escolheu morar na península, já que a maior concentração de aborígenes inteligentes agora reside lá. As outras espécies de povos que se espalharam pelo mundo-continente se defendiam bem sem ajuda de um guardião Arquimago, ou eram supervisionados por mim. A maior parte dos meus clientes vive nos milhares de ilhas da extremidade noroeste do mundo, onde poucos humanos se aventuram.

No passado recente as tarefas principais dos Arquimagos incluíam proteção aos aborígenes, que estavam em perigo de serem exterminados por humanos hostis, e reunir e dispor os artefatos perigosos ou inadequados dos Desaparecidos que apareciam nas antigas cidades em ruínas. Só em tempos mais recentes é que um problema inteiramente novo se manifestou, mais uma vez ameaçando o equilíbrio do Mundo das Três Luas.

Refiro-me ao reaparecimento dos Homens da Estrela.

O Colegiado de Arquimagos não sabia que a Guilda maléfica tinha sobrevivido, quando seus últimos membros fugiram. De alguma forma eles se mantiveram vivos e passaram seu conhecimento dos poderes ocultos de uma geração para outra. Nunca foram muitos, pois são exclusivistas e dissimulados. Suas fortalezas costumavam ficar em lugares onde a estirpe humana fosse menos diluída pelo sangue do povo, e vários possuíam o físico robusto, cabelos prateados e olhos azul-acinzentados, da elite criminosa original dos Desaparecidos...

Ah! Vejo que isso causou uma reação em você. Sim, filha, a remota e hostil terra de Tuzamen era um destes postos avançados dos Homens da Estrela, e o feiticeiro que você conhece tanto como Orogastus quanto Portolanus é o primeiro de sua espécie a tentar retomar a antiga herança da Guilda... a dominação do mundo.

Sim... Orogastus está vivo. Foi Denby, o Arquimago do Céu, que muito tempo atrás previu a sua vinda. Mas resolveu não fazer nada além de chamar a minha atenção e a de Binah para esse acontecimento calamitoso do futuro. Nós duas trabalhamos juntas durante quase nove centenas para nutrir a estirpe humana, que culminou em você e em suas irmãs trigêmeas, as Três Pétalas do Trílio Vivo, esperando que vocês tivessem o vigor para anular esse perigosíssimo Homem da Estrela.

O emblema da flor, que simboliza o deus Trino e Uno e também a natureza física, mental e mágica do universo, data do tempo dos Desaparecidos, assim como a estrela raiada dos malvados inimigos deles. Mas o Trílio Negro é uma coisa viva, apesar de quase ter se extinguido, e a Estrela é sem vida e destrutiva como a morte, embora bela.

Vocês, as três irmãs, com o poder dos amuletos mágicos que Binah confeccionou especialmente para vocês, puderam recuperar os talismãs que formam o temido e antigo Cetro Trino. Mais uma vez, foi o inefável Denby que determinou que esse implemento mágico era o único caminho para salvar o mundo da Estrela, só que o seu uso implicava um imenso perigo. Então, contrariando a própria invenção, Denby foi contra deixar que vocês três juntassem os talismãs de novo. Ele achava que o mundo estaria melhor se fosse dominado pela maligna Guilda da Estrela do que se fosse destruído pelo Cetro Trino do Poder.

Binah e eu não concordamos.

E assim nossas jovens princesas partiram em suas buscas, e conseguiram recuperar os três talismãs. E no momento da sua maior prova, os Senhores do Ar guiaram vocês pelo caminho certo para utilizar o Cetro do Poder.

Orogastus foi tirado de vocês, banido para um lugar onde um certo artefato oculto chamado Cynosure da Guilda da Estrela, que tinha sido levado para lá por um Arquimago, estavaesquecido havia muito tempo. O pingente de estrela pendurado no pescoço dele foi a salvação do feiticeiro, pois sem ele teria sido consumido como a pluma é consumida em um inferno, quando o Cetro fez sua magia voltar-se contra ele mesmo. Ocorreu que o Cynosure protetor atraiu o pingente e ele, salvando sua vida. Foi uma surpresa terrível para mim, pois jamais suspeitei que os Homens da Estrela tivessem conseguido elaborar qualquer tipo de contramedida para o Cetro.

Enquanto Orogastus estava lá inconsciente eu corri para o Kimilon pelo viaduto e tirei o Cynosure de lá. Temia que pudesse ter outras funções desconhecidas que deixariam o feiticeiro exilado escapar. O Cynosure está, neste momento, na minha bancada ali no canto. Venho estudando-o há anos e não descobri nenhuma outra utilidade para ele, a não ser a que demonstrou ter.

Orogastus não entendia como, nem por que, tinha sobrevivido. E não entende até hoje. Durante os doze anos que durou seu exílio no Kimilon Inacessível, ele analisou os antigos recipientes da sabedoria antiga que estavam escondidos lá, procurando uma maneira de escapar da Terra de Fogo e Gelo para recomeçar sua missão interrompida de conquista.

Usando magia continuadamente, eu pude esconder o viaduto dele. Mas não consegui evitar que ele aprendesse a usar uma certa máquina, um comunicador mecânico da linguagem sem palavras, para chamar salvadores. O artefato de fala decrépito funcionou apenas uma vez. Mas foi suficiente para levar os protegidos do feiticeiro até aterra dos doroks, onde um chamado Shiki foi forçado a ajudar Orogastus a escapar. O feiticeiro levou junto muitas armas antigas e outros artefatos do Kimilon, que mais tarde ajudaram-no a dominar Tuzamen. Depois de mais estudo, ele também obteve a caixa-estrela, outra contramedida dos Homens da Estrela que Binah e eu jamais soubemos que existia. Denby podia conhecê-la, mas nunca nos disse nada.

Não sei se nós, Arquimagas, íamos ter coragem de ressuscitar o Cetro, se soubéssemos que as partes dele podiam ser roubadas das Três Pétalas e associadas a Orogastus. Mas o que está feito, está feito.

Agora o feiticeiro já se apossou de uma parte do Cetro do Poder. Ele ainda não sabe como usá-la, mas vai aprender, através do acaso e de experiências, e dos ensinamentos do próprio talismã, como vocês três fizeram.

O conhecimento completo da utilização do Cetro Trino, e do uso dos talismãs que são suas partes, só é adquirido com o próprio Cetro, inteiro. Ninguém que vive atualmente conhece todo o seu potencial. Vocês três, jovens princesas, não puderam receber esse perigoso conhecimento. Denby e eu fizemos com que separassem o cetro nas três partes, logo depois que Orogastus foi lançado no exílio, para que o perigo para o mundo ficasse menor. Vocês eram muito imaturas na época e suas vontades eram suscetíveis à nossa coerção. Isso não acontece mais. Querendo ou não, hoje vocês controlam seus destinos, e o destino do mundo está em suas mãos.

Se Orogastus obtiver os três talismãs, ou talvez apenas dois deles, você e eu provavelmente não seremos capazes de evitar que ele descubra a maioria dos seus segredos. Ele é um feiticeiro maduro, empedernido por longos anos de privação, e sua vontade é extremamente forte. Até mesmo a magia combinada das três arquimagas teria dificuldade para dobrar o espírito do Homem da Estrela, de tão fortemente obcecado que ele está em relação ao seu abominável objetivo. O Arquimago do Céu tem muito medo de Orogastus. Tenho a impressão que Denby não teria coragem de enfrentá-lo. Mas não faz diferença alguma para o Homem Oculto do Céu, afinal, que o mundo perca o equilíbrio e que sua população de humanos e povos sejam subjugados pelo governo maligno da Estrela. A sua situação confortável não seria grandemente afetada...

Mas não vamos pensar nessas contingências horríveis. Você está aqui finalmente... e apesar de eu não poder aconselhá-la quanto ao funcionamento do Cetro inteiro, posso e vou ajudá-la a aprender a usar o seu talismã da melhor forma possível. Afinal de contas, o seu é o talismã principal. Se o Trino quiser, você vai usá-lo para descobrir um jeito de derrotar Orogastus de uma vez por todas. Três vezes dez noites devem bastar para completar a tarefa de educá-la. As lições serão difíceis, pois envolvem mais autodisciplina do que propriamente acumulação de conhecimento. Mas confio em você, Haramis-que-não-atura-bobagens. Você vai conseguir...

Agora vou trazer a sobremesa especial que preparei em sua homenagem. Um delicioso creme de ovas de peixe!

Kadiya e Shiki estavam escondidos em um arbusto, na beira de um riacho, que banhava a aldeia dos aliansas. O céu tempestuoso começava a clarear, e as pequenas criaturas da floresta da ilha pareciam afinar seus instrumentos para retomar a toada noturna interrompida. Inchado com a chuva, o riacho gorgulhava sobre as pedras no escuro, e Kadiya e Shiki atravessaram com extremo cuidado. Na aldeia, com inúmeras tochas bem altas em volta do pátio, mais de trezentos membros do povo do mar executavam uma dança cerimonial ao redor das duas vítimas-crianças espetadas na lama, cantando com suas vozes profundas e tocando instrumentos simples.

O que mais sobressaía na orquestra nativa eram os numerosos tambores.

A música primitiva, o rio ruidoso e os ruídos dos animais mascaravam qualquer barulho produzido por Kadiya e Shiki, enquanto se esgueiravam por trás do último arbusto e se preparavam para executar seu plano. Ele estava armado com a forte catapulta de mão, que era tradicional para o povo dorok, e uma lâmina larga, que era quase do tamanho de uma espada curta. A única arma de Kadiya era uma pequena faca.

—Vou entrar, andando decidida bem no meio deles, quando a cerimónia do sacrifício começar — disse Kadiya. — Os aliansas vão lembrar de mim, da conferência que tivemos, e pensarão que ainda tenho o Olho Ardente Trilobado para me defender. Se meu blefe funcionar, libertarei as crianças, pegarei os dois no colo e voltarei para encontrar-me com você aqui. Você deve dar cobertura se nos perseguirem, enquanto fugimos... Se o plano falhar, vou tentar matar o máximo de selvagens para você poder aproveitar a confusão e salvar as crianças, enquanto os aliansas cuidam de mim.

— Mas então você certamente morrerá! — exclamou Shiki. Kadiya fez um gesto de impaciência.

— Se eu morrer, você tem de levar as crianças para longe daqui e arranjar um esconderijo. Minha irmã Anigel os encontrará com sua magia e virá socorrê-los... Olhe! Alguma coisa está acontecendo na grande casa do conselho. Não teremos de esperar muito tempo agora.

— Senhora, leve minha faca, pelo menos — implorou Shiki, oferecendo a lâmina para ela.

—Não. É grande demais para esconder na minha roupa. Devo entrar audaciosamente no meio deles.

Ela segurou o amuleto quente pendurado no seu pescoço, uma gota de âmbar cor de mel, com o broto de uma pequena flor fossilizado no interior. Um sorrisinho brincava em seus lábios.

— Talvez esse amuleto me proteja, assim como ajudou-me a trazer o menino em segurança até a praia — disse ela.

— Você acha que o amuleto pode defendê-la de seus atacantes... ou talvez até matá-los?—a expressão no rosto de Shiki já não era mais de tristeza, sem esperança. Tinha achado o plano de resgate da Dama dos Olhos confuso e sem chance de sucesso, mas não ousou expressar suas dúvidas para ela. No entanto, se aquele amuleto era realmente mágico...

Kadiya largou o âmbar pendurado em seu pescoço, suspirando.

— Certamente não matará ninguém. Quanto a me ajudar de outras maneiras, sua mágica sempre foi caprichosa. A pessoa tem de acreditar muito nele se quiser que funcione. Para dizer a verdade, não sei se agora posso fazer isso... agora que tenho de agir com sangue-frio, como um adulto, e não em pânico ou com a segurança de uma criança. No passado, quando era apenas uma menina ingênua, esse trílio-âmbar me protegeu da visão do feiticeiro maligno e carregou-me em segurança pelo ar, quando pulei de um lugar muito alto, e guiou-me através de um pântano perigoso. Esta noite parece que ele também me levou em segurança pelo ar, quando enfrentamos a tromba-dágua. Mas eu estava descontrolada quando pedi sua ajuda, não o fiz deliberadamente. E... e posso também apenas ter imaginado que um milagre ocorreu. Tolo e eu podemos ter sido lançados à praia por uma grande onda, e não pela magia.

— Havia uma comoção tão grande na praia que não pude ver o modo como você chegou — admitiu Shiki.

— Quando o menino e eu estávamos no mar, pensei também ouvir a voz de uma mulher morta há muito tempo... a que me deu o amuleto e disse para eu partir na minha missão de vida. Mas posso ter imaginado isso também.

— Conheço muito pouco de magia — disse Shiki lentamente —, mas nas situações difíceis temos de ter confiança para tudo acabar bem. Posso sugerir que você deve aprimorar a confiança nesse amuleto, para que ele garanta o sucesso na sua tentativa de resgate?

— É um bom conselho — disse Kadiya. — Se vou conseguir segui-lo, é uma outra questão. Estou acostumada a contar comigo mesma... e com um certo objeto precioso que foi roubado recentemente. Sem esse objeto... esse talismã... não sou mais a mulher que eu era.

Ela contou rapidamente como perdeu o talismã, e como Portolanus recuperou o Olho Ardente Trilobado das profundezas do mar, e o que a perda de uma parte do grande Cetro do Poder significava para ela e para suas irmãs, talvez para o mundo inteiro.

— Você compreende, amigo Shiki, que essa gota de âmbar é um pobre substituto para o que eu perdi — concluiu.

Shiki pôs a mão com três dedos suavemente sobre o ombro dela.

— O âmbar certamente reteve suamagia. Ele não voou de volta para a dona, quando o feiticeiro maléfico ia pegá-lo?

— Isso é verdade... Desde o meu nascimento, quando a Arquimaga Binah o deu para mim, esse amuleto e eu jamais nos separamos. Ele se prendeu ao talismã, quando o Olho Ardente Trilobado tornou-se meu. E quando perdi o talismã, foi como se tivessem arrancado meu coração!

— E no entanto é o âmbar, e não o talismã, que é verdadeiramente seu desde que nasceu. Você já pensou, Dama dos Olhos, que sua maior perda pode não ter sido o talismã, afinal... e sim o âmbar?

Kadiya ficou olhando para ele, calada. Shiki sorriu para animá-la.

— E agora você o tem de volta. Não há razão para não confiar na sua magia. E em você mesma.

— Se você tiver razão...

O cérebro de Kadiya trabalhou furiosamente, enquanto ela via os aliansas saltitantes no pátio iluminado pelas tochas. A dança deles estava ficando mais frenética, e as batidas de tambor eram tão rápidas que se misturavam e criavam um trovoar ininterrupto, obliterando a cantoria e os sons dos outros instrumentos.

— Kadiya, é bom quando nos questionamos, quando não confiamos cegamente na nossa capacidade de reconhecer a verdade.

É aí que mora a arrogância. O que não é bom é sucumbir à dúvida, usá-la como desculpa para cometer delitos ou simplesmente não fazer nada. Isso é uma espécie de orgulho, e é mau. Você entende? Certos dons são concedidos a cada pessoa ao nascer e devemos usá-los da melhor forma possível. Se você nasceu para liderar, então faça isso. Se o papel de líder lhe for tirado, aceite. Se seu papel é de condutora de magia, aceite isso também... mas não com orgulho, como se merecesse poder. Conheça suas limitações, mas ouse ir além delas quando um bem maior do que você mesma exigir que tome uma atitude. Sim, você pode falhar. Mas não é nenhuma desgraça, e sim transcendência.

Os tambores pararam de tocar.

Kadiya abraçou Shiki, beijando-o na testa.

— Graças a Deus por ter mandado você — ela respirou fundo. — Uma vez minha irmã Anigel escapou sem ser vista por seus captores com a ajuda do seu amuleto trílio-âmbar. Em outra ocasião ela conseguiu eliminar sentinelas inimigos ficando invisível para chegar perto deles. Eu nunca tive jeito para fazer esse tipo de coisa, pois meu estilo de ação sempre foi direto e ousado e não ardiloso. Mas agora vou aceitar seu conselho... e me abrir. Se realmente eu puder ser um simples condutor para a magia, então rogo aos Senhores do Ar para me usar como quiserem. Minhas dúvidas e impaciência são irrelevantes. A única coisa que importa é salvar os pobrezinhos Nikalon e Janeel. Shiki... você está pronto?

— Estou — respondeu ele.

— Esqueça meu primeiro plano — os olhos dela cintilaram à luz do fogo. — Fique alerta e quando achar que é o momento certo, leve as crianças embora daqui.

Ela desapareceu.

Naquele instante cinqüenta guerreiros aliansas armados já estavam agrupados em volta das duas pequenas formas, enlameadas, presas às estacas no meio do pátio. Os outros nativos estavam um pouco afastados, no meio das tochas enfiadas no chão. Nikalon e Janeel permaneceram imóveis, como se estivessem inconscientes, desde o momento que Kadiya e Shiki se aproximaram da clareira. Mas com o fim da música selvagem, eles começavam a se mexer um pouco.

O príncipe herdeiro virou a cabeça para a irmã e falou com ela. Ela conseguiu dar um sorriso trêmulo. Então as duas crianças ficaram completamente imóveis, com os olhos fixos no céu estrelado. A menina de dez anos, Janeel, não usava nada além de uma túnica suja, e o príncipe trajava apenas uma tanga.

Da cabana maior saiu o líder dos aliansas, Har-Chissa, seguido de perto por outro nativo que carregava um grande embrulho. O corpo animalesco do chefe estava magnificamente adornado com um kilt de tecido de ouro cravejado de pérolas, um peitilho com colarinho de trama de ouro também com pérolas e corais preciosos. Fios de pérolas se entrelaçavam sobre seus membros peludos. Cada uma das escamas das costas, do peito, dos braços e das coxas tinha de enfeite um desenho feito com tinta dourada ou vermelha. Seus protuberantes olhos amarelos estavam pintados de vermelho por toda a volta, e amarrada à testa ele usava uma fita com pedras preciosas, incrustadas e um grande chifre curvo de pérolas preso a um encaixe de ouro.

Har-Chissa fez uma pergunta na língua dos aliansas. A multidão de guerreiros e outros povos do mar responderam em uníssono, com muito entusiasmo. Então os tambores começaram a tocar novamente, num ritmo lento e elaborado... notas profundas e o rufar trovejante dos tambores maiores, batidas em vários tons, pancadas secas, ameaçadores rufos contínuos dos tambores médios e sons estridentes como zumbido de insetos dos tambores menores.

Har-Chissa caminhou resoluto até o meio do espaço aberto. Inclinou-se sobre a princesa Janeel e com um único movimento da mão enorme, arrancou a frágil túnica de seu corpo. Ela gritou, chocada, mas logo calou-se, imitando o príncipe Nikalon ao seu lado, que continuava a olhar fixo para o céu, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.

O rufar dos tambores acelerou um pouco e ficou mais alto. Har-Chissa chamou a atendente que tinha ficado um pouco para trás. Era uma fêmea idosa, cujas roupas eram quase tão luxuosas quanto as do chefe. Ela ajoelhou-se diante dele e abriu o embrulho que carregava.

Estava cheio de facas.

A multidão atenta deu um grito animado.

Har-Chissa fez um gesto para que ficassem quietos. O som dos tambores dava dramaticidade aos seus atos, e ele ficou olhando para as fileiras bem-arrumadas de lâminas brilhantes, dispostas de acordo com o tamanho. Finalmente pegou um escalpelo bem pequeno, com o cabo cravejado de pérolas que faiscava à luz das tochas. Movendo-se ao ritmo complexo dos tambores, começou a brandir a faca por cima da princesinha, imitando os gestos que arrancariam a pele de seu corpo vivo. A cada gesto do ritual o povo do mar urrava aprovação.

Então os tambores pararam.

Har-Chissa ergueu um dos braços de Janeel e abaixou-se com o escalpelo em riste.

Shiki aprontou sua atiradeira e preparou-se para lançar uma das pesadas bolas que os doroks usavam como mísseis. Infelizmente a cabeça escamosa do líder dos aliansas, com seu chifre na testa, estava muito longe, era um alvo incerto.

Mas espere...

De repente o longo pescoço de Har-Chissa arqueou e sua cabeça virou para trás. Ele abriu a boca, sua língua negra apareceu entre as presas, e ele gritou, assustado. A faca de esfolar voou de sua mão e deu uma volta estranha no ar, refletindo as tochas, parecendo uma pequena chama. O escalpelo moveu-se mais devagar e depois ficou pairando, logo atrás do chefe. Aflito, Har-Chissa tentava cortar o grande enfeite de cabeça, com o chifre perolado, que usava na testa. Para os espectadores espantados, o adorno parecia ter adquirido vida de forma maligna, forçando a cabeça do líder para trás, cada vez mais, até sua garganta sem escamas, com seu pêlo castanho, ficar totalmente exposta. O incandescente escalpelo faiscou feito meteoro ao mergulhar rapidamente.

Surgiu uma linha vermelha na garganta do sumo chefe dos aliansas. Foi ficando mais larga e começou ajorrar o sangue escuro, enquanto o berro desesperado de Har-Chissa se transformava em um borbulhar e virava um silvo terrível. Ele foi caindo para a frente. O sangue quente jorrou sobre a princesa Janeel, cobrindo sua nudez. Ela fechou os olhos, mas não emitiu nenhum som.

Har-Chissa caiu no meio de uma piscina vermelha que se espalhava. Marcas ensangüentadas de pés apareceram misteriosamente em volta das duas crianças apáticas. Na mesma hora Shiki esgueirou-se pelos arbustos para chegar mais perto ainda, confiando que nenhum membro dos povos do mar, que berravam horrorizados, iria vigiar a mata.

A multidão ficou estática e estarrecida, vendo a lâmina perolada flutuante cortar as cordas que prendiam a princesinha. Mas a atendente com o embrulho das facas provou ser mais esperta que os outros. Ela sacou uma arma terrível, como um cutelo serrilhado de açougueiro, e mergulhou decidida para cima do príncipe Nikalon.

Shiki mirou sua catapulta, usando como alvo um dos faiscantes olhos amarelos do monstro. A bola de chumbo acertou a mosca e a nativa caiu, morta, com o míssil no cérebro. Um segundo depois as duas crianças estavam livres.

Então as pegadas ensangüentadas saíram correndo para longe dos prisioneiros, na direção do anel de guerreiros de armadura, que ainda estavam mudos, em estado de choque, e chegou até a multidão, onde as tochas queimavam. Dois dos longos suportes foram arrancados da lama e começaram a girar e investir contra os guerreiros, afastando-os das crianças. Os aliansas fugiram aos berros e muitos, que demoraram a reagir, se queimaram. Alguns atacaram impotentes o demónio invisível, com suas espadas, ou jogaram suas lanças a esmo. Mas não atingiram nada, a não ser uns aos outros. Finalmente as duas tochas giratórias voaram para cima dos aliansas mais destemidos. O demônio arrancou mais tochas do chão e jogou uma após outra no meio dos aborígenes armados. Da borda da clareira Shiki atirava suas bolas de chumbo direto na multidão, com força suficiente para quebrar ossos.

A maior parte dos aliansas desarmados e muitos guerreiros deram meia-volta e saíram correndo, fugindo entre as fileiras de cabanas, embrenhando-se na floresta escura mais adiante. Os que ficaram e tentaram lutar caíram vítimas da catapulta de Shiki, ou então levavam surras das tochas controladas pelo demônio, com as peles e roupas pegando fogo. Uivando de dor, enfurecidos e embasbacados, cambaleavam de um lado para outro, atacando o ar como criaturas enlouquecidas. Ninguém notou quando uma pequena figura disparou da floresta, agarrou o príncipe e a princesa com braços fortes e fugiu com eles.

Afinal todas as tochas foram removidas e lançadas, e suas chamas se apagaram. A única luz provinha das portas abertas das cabanas abandonadas e do brilho fraco das Três Luas que pairavam alto no céu. As pegadas de sangue não apareceram mais. Os gemidos dos membros feridos dos povos do mar formavam um contraste melancólico com o coro refeito das criaturas da floresta.

Quando tornou-se evidente que o demônio invisível tinha ido embora, levando com ele os prisioneiros humanos, os guerreiros aliansas sobreviventes foram engatinhando para a casa do conselho, onde se reuniram para comentar o acontecimento terrível e lamentar o assassinato de seu chefe supremo. Aqueles cujas mentes não estavam zonzas e inúteis enviaram mensagens por meio de telepatia, alertando as outras aldeias aliansas da ilha do Conselho e das ilhas vizinhas sobre a presença dos odiados estrangeiros e seu demônio invisível. Foi um certo consolo saber que guerreiros aliados iam partir naquele instante, por terra e por mar, para atacar os dois navios que pertenciam aos invasores.

Mas então outro fato horroroso foi descoberto pelos aldeões que voltavam receosos da floresta, um sacrilégio tão espantoso que renovou a coragem do derrotado povo do mar e inspirou-o a pegar em armas novamente. Todos os guerreiros que conseguiam se mexer partiram pela trilha que ia para a praia, esquecendo os terrores que sentiram momentos antes, jurando que nenhum humano escaparia vivo das ilhas Windlorn.

O que houve foi que todos os preciosos tambores cerimoniais da nação aliansa tinham sido rasgados pelo demônio humano invisível. Jamais rufariam novamente.

A rainha Anigel, Jagun, o nyssomu, e os treze guerreiros wyvilos que estavam a bordo do Lyath partiram para a praia em dois pequenos botes, logo depois da rainha terminar seu breve diálogo com o feiticeiro Portolanus. A situação de Niki e Jan exigia ação imediata, e Anigel estava convencida de que Kadiya ia precisar de ajuda para salvar as crianças. Quando a tempestade cessou a rainha e seu grupo pisaram na praia da pequena enseada adjacente à baía do Conselho e foram correndo pela trilha da aldeia de Har-Chissa.

— Fica a apenas duas léguas de distância — disse Jagun. — Segure minha mão, grande rainha, e eu a guiarei enquanto continua a supervisionar as crianças aprisionadas através da visão do seu talismã.

Anigel foi tropeçando, cada vez mais aflita de ver o recomeço da mortal cerimónia dos tambores dos aliansas.

— Eles reacenderam as tochas e começaram a dançar de novo! Não chegaremos láa tempo!... Oh, se ao menos minha irmã fizesse qualquer coisa!

Quando Har-Chissa estava a ponto de esfolar a pobre Janeel, e Kadiya afinal ficou invisível e o degolou, a rainha ficou tão abalada de emoção que parou de andar de repente, o olhar fixo no vazio, quase paralisada e incapaz de emitir qualquer som.

Jagun e os wyvilos fizeram uma roda ao redor da rainha imóvel. Estavam apavorados, pois até aquele momento Anigel vinha comentando o que acontecia na aldeia. Agora nenhum deles ousava dizer qualquer coisa, pois temiam que a princesinha Janeel tivesse sido morta... ou que algo ainda pior tivesse acontecido com ela. Jagun, continuando a segurar a mão gelada de Anigel, ajoelhou ao lado dela com a cabeça baixa. Os altos wyvilos ergueram os braços reverenciando as Três Luas, rezando em silêncio como faziam os povos da floresta.

Passado um tempo a rainha Anigel estremeceu e soltou um longo suspiro.

— Amigos — murmurou. — Kadiya salvou as crianças. Jagun e os wyvilos deram gritos de alívio. Anigel pediu que ficassem ainda mais perto dela, para poder partilhar a cena espantosa com eles por meio da magia de sua tiara. Eles viram Har-Chissa morto e os aliansas aterrorizados sofrendo os ataques das tochas da presença invisível. Viram um homenzinho desconhecido pegar as crianças sujas de sangue e carregá-las a salvo para a escuridão.

— Graças aos Senhores do Ar e à minha Dama dos Olhos Penetrantes! —exclamou Jagun.—Mas quem era aquele estranho que a ajudou?

— Kadiya chamou-o de Shiki — respondeu Anigel. — Mas não temos mais tempo para usar a visão. Precisamos nos apressar e encontrar Kadi e os outros antes dos nativos conseguirem se recuperar.

Mergulharam na floresta escura, cheia de criaturas assobiando, uivando e gritando de todos os lados. De vez em quando ouviam uma pancada forte na mata. Mas a visão noturna dos wyvilos concluía que havia apenas animais naquele lado da ilha, não nativos hostis. Então Anigel usou seu talismã para ver que Kadiya, Shiki e as crianças fugiam por uma trilha secundária quase paralela à deles. Os wyvilos sacaram seus machados e começaram a abrir uma rota direita para essa outra trilha através da floresta. Jagun deu um grito agudo como gorjeio, dizendo que sua senhora o reconheceria, e quando os salvadores finalmente chegaram à trilha secundária, o outro grupo estava à espera.

A rainha abraçou Nikalon e Janeel, chorando de alegria. Os meninos pareciam atordoados, não lembravam do que tinha acontecido. Janeel usava a blusa bordada de Shiki e o príncipe herdeiro a camiseta de baixo de lã de zuch dos doroks. O pequeno aborígene tinha ficado apenas com as pesadas ceroulas de couro e as botas. Secando as lágrimas do rosto, Anigel também abraçou e beijou a irmã.

— Que o deus Trino e Uno a abençoe, querida Kadi... e ao seu bravo amigo Shiki também... por salvar meus pequeninos. Mas não podemos ficar aqui parados. Antar está nadando para a praia na baía do Conselho com Lummomu e dois outros wyvilos, e Tolo também está escondido nas árvores por lá. Precisamos encontrá-los. Parte do nosso grupo terá de carregar Niki e Jan de volta para o Lyath, enquanto os outros vão para a baía do Conselho.

— Deixe Jagun, Shiki e dois guerreiros wyvilos levarem as crianças para o navio — disse Kadiya. — Eu a acompanho no salvamento de Antar e Tolo — ela segurou no alto o trílio-âmbar preso ao fino cipó e sorriu, o rosto manchado de sangue, iluminado pela vitória. — Meu talismã pode estar perdido, nas mãos do feiticeiro, mas ainda tenho a magia do meu amuleto, e é bem poderosa, pois fez justiça contra os bandidos aliansas. Irmã, nós duas juntas estaremos à altura de Portolanus!

— Que assim seja — respondeu Anigel baixinho, mas seu olhar era sombrio e incrédulo.

Ela confortou Niki e Jan e deu-lhes um beijo de adeus, e em segundos as crianças já estavam a caminho do Lyath com sua escolta. A rainha tocou na tiara, ordenando que mostrasse o cenário da baía do Conselho.

Quando obteve a visão, deu um grito consternada.

— O feiticeiro está enviando botes atrás de Antar e Tolo!

— Rápido, meus amigos — exclamou Kadiya para os wyvilos —, levem-nos para a praia da baía do Conselho o mais depressa que puderem!

Todos saíram em disparada, e o barulho provocado por seus passos abafaram os sons distantes de berros bestiais que partiam da aldeia de Har-Chissa.

— Lá estão eles! — exclamou o Voz Negra.

Ele estava de pé na proa do bote que ia na frente, seguido de perto por mais quatro embarcações. De seus olhos saíam fachos de luz branca, e ele falava na língua de Portolanus, que havia determinado a posição dos dois fugitivos com seu talismã e guiava o grupo de busca até eles. Remando em tempo triplo, os piratas tinham conseguido ultrapassar o rei Antar e seus companheiros wyvilos quando estavam a menos de cinqüenta braças da praia.

As quatro cabeças que se moviam na água desapareceram de repente.

— Eles estão mergulhando, Senhor! — avisou um dos raktumianos.

— O rei está fraco demais para ficar embaixo da água muito tempo... Rápido, você e você! — o Voz indicou dois botes. — Vão para a praia a toda velocidade, a fim de impedir qualquer tentativa dos fugitivos de escapar por terra. O resto de vocês aprontem os cabos com os arpéus, e fiquem de olho!

Alguns piratas dos três barcos restantes pegaram cordas enroladas com pequenos, mas perversos, anzóis de três pontas, muito afiados em uma das extremidades. Durante alguns minutos o único som que ouviam era o ranger dos remos dos dois botes enviados para a praia. O mar estava calmíssimo, refletindo as minúsculas luas. A um quarto de légua para o norte, o sexto bote pirata comandado pelo Voz Roxa chegava perto da praia, seus ocupantes preparados para iniciar a busca do príncipe Tolivar.

De repente houve um barulho na água e ouviu-se o som de alguém arfando, em busca de ar.

— Orei! Ali! —os olhos-faróis do Voz Negra encontraram o cabelo louro molhado de Antar e seu rosto meio submerso, a menos de seis braças de distância. Um dos piratas do barco do Voz girou seus anzóis e lançou-os no ar. O rei gritou quando os anzóis passaram raspando por sua cabeça e cravaram em seu ombro. Outros três arpéus acertaram seu corpo, as barbelas enfiadas na carne. Antar se contorcia agoniado e isso só servia para emaranhar mais ainda as cordas, chegando ao ponto de se afogar. Em pouco tempo ele parou de lutar e flutuou imóvel, com a cabeça embaixo dágua. O Voz Negra deu ordens urgentes para o rei ser puxado para bordo, antes que ele morra.

Mas logo que puseram Antar a bordo, o barco com ele e o Voz Negra começou a balançar violentamente. Os piratas praguejaram aos berros.

—Oddlings na água! — gritou um deles. — Eles vão nos fazer afundar!

Lummomu-Ko, líder dos wyvilos, emergiu gotejante sobre o gio do bote do voz com seus olhos ferozes brilhando e mostrando as presas. Agarrou um pirata, que guinchava sem parar, em cada mão e puxou-os para fora do barco, enfiando os dentes neles quando caíram na água. Os outros dois wyvilos, Huri-Kamo e Mok-La continuaram tentando emborcar o bote líder, e os piratas batiam neles com os remos.

— As espadas, seus imbecis! — berrou o Voz Negra. — Usem suas espadas! — Ele se abaixou sobre o rei inconsciente, protegendo-o dos pretensos salvadores com o próprio corpo.

Lummomu-Ko subiu de novo com grande estardalhaço e arrastou mais dois piratas de cabeça para o mar negro. Mok-La pegou outro. Um quarto perdeu o equilíbrio com o jogo do bote e caiu, quando tentava acertar um golpe com a espada. O voz, Antar e osdois raktumianos que sobraram a bordo eram jogados de um lado para outro, sem poder reagir, no meio de uma confusão de braços e pernas e armas voando, e os três wyvilos soltaram uivos de triunfo.

Mas os dois botes que vinham atrás estavam se aproximando, assim como o outro par que ia para a praia e resolveu voltar quando a confusão começou. Os raktumianos atacaram com a maior eficiência, usando os remos e as espadas contra os wyvilos na água. Ouviram um uivo de dor quando uma lâmina decepou uma das garras de Huri-Kamo, e ele afundou no mar. Lummomu-Ko e MokLa foram esfaqueados e cortados sem piedade até que eles também desapareceram. Seis homens do bote do voz tinham sido puxados para a água e mortos, e um dos dois que sobraram gemia por causa de um ferimento provocado pelos companheiros.

Puxe-nos de volta para a nau capitânia — coaxou o Voz Negra. — E rápido!

O único pirata que não estava ferido no bote do voz jogou um cabo para a embarcação mais próxima, depois sentou, olhando para os lados.

Será que os diabos escamosos se afogaram, senhor?

O protegido do feiticeiro estava calado, os raios de seus olhos brilhavam por cima da água e sua cabeça oscilava para a frente e para trás.

— Eles se foram, de qualquer modo — respondeu. — Remem mais depressa! Tenho de levar o rei para o navio a fim de poder cuidar de seus ferimentos — disse ele para os homens dos outros botes. — Se ele morrer, perderemos nossas vidas.

Nos outros barcos os homens murmuravam entre eles quando se curvavam para remar, e um dirigiu-se ao Voz, nervoso.

— Senhor, Yokil acha que está vendo luzes no mar. Logo depois daquele promontório ao sul.

— Yokil tem boa visão — disse o Voz sem vacilar. — São os aiiansas, os oddlings do mar das ilhas próximas, a caminho para nos atacar. Eles nos alcançarão em menos de meia hora. Agora poupe seu fôlego, maldito, e reme!

Depois disso Portolanus deixou seu acólito Voz Negra, cujos olhos imediatamente perderam o brilho, e concentrou-se na captura do príncipe Tolivar.

— Meu talismã revela que o menino está escondido neste bosque — disse o Voz Roxa para os oito piratas que o seguiam pela areia. — Espalhem-se e prestem atenção para captar qualquer movimento.

Os raktumianos proferiram obscenidades, quando foram surpreendidos pelas duas estrelas brilhantes que faiscaram de repente sob o capuz do acólito, cortando a escuridão da mata. Ele começou a falar com o sotaque inconfundível do feiticeiro.

— Não há razão para vocês terem medo. Sou eu, Portolanus, agindo através do meu Voz Roxa. Fiquem com suas redes preparadas assim que entrarmos no bosque. O pequeno príncipe não pode ser ferido de jeito algum..

Mas antes de o Voz terminar de falar, um som baixinho de cantoria encheu a brisa morna da noite, e inúmeros pontos de luz amarela apareceram dançando na praia, mais ao sul. Os aliansas saíam aos montes da floresta, vindos das aldeias do interior da ilha.

— Oddlings do mar! — exclamou um dos piratas, apontando

— Estão vindo direto para nós!

— E olhem lá! — outro homem apontou para o mar. — Mais daqueles bastardos horrendos! Senhor Voz Roxa, temos de voltar para o navio! Não é hora de ficar caçando pirralhos reais. O almirante vai zarpar para o alto-mar antes desses selvagens transformarem o casco da trirreme em uma peneira!

O resto dos raktumianos resmungou, concordando.

— Ainda há tempo para encontrar o menino — insistiu o Voz Roxa de Portolanus. — Vou conjurar uma outra tempestade para atrasar as canoas de guerra dos desgraçados selvagens.

— Que se danem as canoas — rugiu um rufião. — E quanto ao bando que vem pela praia? Devem estar a menos de meia légua de distância! Acho melhor sair logo daqui!

Os outros apoiaram a idéia aos gritos e antes que o Voz Roxa pudesse impedir, todos deram meia-volta e saíram correndo para o bote. O acólito furioso foi atrás, tentando em vão reagrupá-los.

De repente ouviram um grito agudo saído do meio das árvores. Os raktumianos continuaram a correr, mas o Voz Roxa parou e virou para trás. Os raios luminosos de seus olhos iluminaram uma figurinha saindo da vegetação rasteira e correndo para ele pela areia clara de luar, chorando copiosamente.

—Eles estão chegando da aldeia também! Eu ouvi! Não deixe os oddlings do mar me pegarem! Leve-me com você!

—Pelos Ossos de Bondanus... é o príncipe! — exclamou o Voz Roxa. — Então corra, rapaz!

— Tolo... não! — alguém gritou de longe. — Não vá!

O príncipe diminuiu a marcha para olhar para trás, para a floresta escura.

— Depressa, ou terei de deixá-lo para trás — avisou o voz. Tolivar acelerou o mais que pôde e jogou-se nos braços estendidos do acólito. Agarrou-se ao pescoço do homem, enquanto ele disparava para o bote.

— Segure firme, garoto!

— Você fala como o feiticeiro — disse Tolo.

— Eu sou o feiticeiro — arfou o Voz Roxa —, por enquanto. Ele subiu com dificuldade na borda do barco, quase sufocando, com o menino pendurado no pescoço. O barco partiu imediatamente.

— Quer dizer que está aí dentro do corpo desse homem? O príncipe estava fascinado.

— De certa forma... mas devo deixá-lo agora para cuidar de outras coisas.

— Você pegou meu pai de novo? — perguntou Tolivar.

— Peguei. E dessa vez nenhum dos dois vai escapar até o resgate ser pago. Mas não tenha medo, Tolo. Tenho a impressão que você e eu vamos ser grandes amigos.

— Feiticeiro?... Eu tenho de ir para casa mesmo se não quiser. — perguntou o menino com voz baixa.

Mas os olhos estrelados do voz estavam apagando, e o acóllito deu um suspiro de alívio quando voltou a si.

— Sente aqui na proa, príncipe, e fique fora do caminho dos remadores—a voz dele tinha um timbre completamente diferente

— Você não é mais o feiticeiro, não é?

- Cale-se—disse friamente o Voz Roxa.—Você encontrará meu mestre em breve.

Os piratas remavam com toda força, a ponto de arrebentar seus corações, e o barco parecia voar sobre o mar espelhado. A força nativa a chegava bem depressa e havia tantas canoas com tochas acesas no mar, do outro lado da península ao sul, que nem dava para contar.

Sobre o barulho da cantoria deles, uma voz humana chamava.

— Tolo! Tolo!

O príncipe Tolivar ficou de pé no barco, tentando ver alguma coisa em terra. O Voz Roxa agarrou-o, praguejando.

Parece a voz da minha mãe — disse o menino calmamente.

Olhe... aquela deve ser ela, saindo da floresta. Ela consegue me ver com seu talismã.

— Tolo! — um grito desesperado.

O menino acenou, dizendo para o Voz Roxa.

— Ela também pode me ouvir... Adeus, mãe!

Ele sentou-se novamente e viu as velas sendo içadas na grande trirreme raktumiana. Nuvens carregadas começavam a se aglomerar, bloqueando a luz das Três Luas.

— Tolo! Meu pobre filho, o que você fez?... Oh, Deus, não! Agora Portolanus está com os dois! Talismã! Eu ordeno que traga meu filho e meu marido de volta para mim! Destrua seus captores! Mate todos eles, eu ordeno! Faça isso, talismã! Faça...

Os gritos desesperados de Anigel não obtiveram reação alguma do talismã. Ela foi dominada por uma raiva tremenda, e teria disparado até a beira do mar se Kadiya não a tivesse impedido. As irmãs e sua tropa de guerreiros wyvilos ficaram lá, na margem da mata de árvores lown, vendo impotentes os botes piratas navegando depressa para a trirreme. O vento aumentava, fazendo farfalhar as longas folhas rijas e a multidão de aliansas carregando tochas estava tão próxima que se podia distinguir cada guerreiro, brandindo suas armas. Era óbvio que as humanas e os wyvilos já tinham sido avistados.

Kadiya procurou confortar a irmã descontrolada.

Ani, ficar assim não resolve. Acalme-se. Pense em algum...guma ordem positiva para dar ao seu talismã.

Com o belo rosto desfigurado pela dor, a rainha esperneava loucamente nos braços de Kadiya.

— Ordem positiva? — berrou ela. — Você fala feito uma idiota! Como é que posso pensar em outra coisa senão que meus queridos estão outra vez nas mãos daquele demônio? Ele vai torturá-los até a morte! E esse meu talismã inútil não pode fazer nada para salvá-los. Nada...

Kadiya deu um tapa no rosto da irmã.

Anigel ficou boquiaberta com a afronta à sua dignidade e de dor. Em seguida mudou a expressão de sofrimento para um ar de determinação.

— Nada disso, eu é que sou idiota! Obrigada pelo tapa, Kadi. Fez com que eu recuperasse o juízo quase perdido. É claro que meu talismã pode salvá-los!

E a rainha olhou para o céu e gritou.

— Portolanus! Ouça!

- Estou ouvindo, rainha Anigel.

— Meu talismã é seu! — exclamou, arrancando o Monstro de Três Cabeças que estava preso no seu cabelo e erguendo-o bem alto. — Apenas devolva Antar e Tolo, e farei o que você quiser com o talismã.

— Ani... não! — gritou Kadiya, segurando Anigel novamente. Mas os olhos vermelhos de chorar de Anigel faiscavam com uma vontade inabalável.

—Tome cuidado, irmã! Lembre que se tocar neste talismã sem a minha permissão, você morrerá, igualzinho ao mais insignificante pirata raktumiano!... Você está me ouvindo, Portolanus? Eu lhe darei o talismã agora!

Que pena, rainha. Não posso aceitar seu talismã.

— Vo... você não pode aceitar? — gaguejou Anigel.

- Não.

— Por que não?

A voz sobrenatural tinha um certo tom de ironia.

Porque agora não é o momento apropriado. Não é mesmo. Se você dá valor à própria vida e à de seus companheiros, fugirá correndo para o seu navio antes de fornecer aos aliansas embarcações com material para um novo jogo de tambores de rituais. Há mais nativos chegando da aldeia, além do bando na praia.

— Podemos fazer a troca no mar — implorou Anigel. — Em qualquer lugar, a qualquer hora. Portolanus, devolva meu marido e meu filho!

Não. O rei Antar e o príncipe Tolivar agora vão ser meus hóspedes por algum tempo, antes de retomarmos as negociações para libertá-los. Estou levando os dois para a capital raktumiana, Frangine. Não precisa temer pelo bem-estar deles. Serão bem tratados se você não tomar nenhuma atitude drástica.

— Não! Não! Leve o talismã agora, eu imploro!

Daqui a algum tempo falarei com você e tratarei do resgate. Não vou me comunicar com você de novo até lá. Adeus rainha. Atordoada, Anigel sussurrou para a irmã.

— Você ouviu?

— Ouvi — a voz de Kadiya era gélida. — Ouvi sua tentativa de fazer uma barganha covarde! Ani, você não passa de uma fracote, uma tola. Graças a Deus que o feiticeiro não aceitou sua oferta! Com dois talismãs em seu poder, quem sabe o mal que ele faria ao mundo?

—Dama dos Olhos, temos de fugir daqui—disse aflito um dos wyvilos. — Vamos embora! Não temos mais tempo. Nesse momento os guerreiros aliansas já podem ter chegado ao Lyath na nossa frente e destruído o barco.

Kadiya virou as costas para a irmã.

— Você tem razão, Wummika. Vamos embora.

Ela guiou os wyvilos correndo para o abrigo das árvores.

Anigel ainda hesitou um instante, mas depois foi atrás deles, totalmente insensível, com a tiara fria e esquecida na mão.

Foi só bem mais tarde que ela descobriu que a Flor dentro do âmbar incrustado na parte da frente do talismã, de negra que era, tinha virado cor de sangue.

O trabalho era tremendamente puxado. E quanto mais Haramis aprendia, mais se convencia de que realmente tinha sido uma Arquimaga muito incompetente e mais se desesperava de jamais conseguir se aprimorar e dominar seu talismã.

Agora conhecia o tipo de mentalidade imparcial, totalmente objetiva, que era necessário para dominar a mais alta magia. Mas conhecer e vivenciar eram coisas bem diferentes. Os exercícios mentais que Iriane queria que ela fizesse, com o intuito de reforçar e disciplinar seus processos racionais imaturos, eram exaustivos e maçantes. Pior ainda, pareciam irrelevantes. Ela não entendia por que tinha de passar horas intermináveis fazendo ginástica mental, em vez de praticar magia com o talismã. A insistência férrea da Dama de Azul de que o aprendizado mental devia preceder o exercício de magia em si, primeiro deixou Haramis exasperada, em seguida levou-a ao desânimo e finalmente gerou um fiapo de esperança de, agora, estar conseguindo de fato!

Depois de estudar durante quinze dias, ela estabeleceu os fundamentos para se executar a alta magia. Como um flautista principiante, que acaba de aprender a ler música e a criar notas com som puro, mas ainda não consegue tocar uma melodia inteira sem errar, ela conhecia a forma dos impulsos mentais que invocariam o feitiço, mas não dominava a perícia para ter certeza de que sua técnica produziria o efeito desejado. Iriane proibiu-a terminantemente de experimentar a alta magia por um tempo, avisando que o risco era se machucar e até mesmo morrer, se aquele novo conhecimento fosse aplicado erroneamente.

Às vezes Haramis tinha a impressão de que nunca seria capaz de forçar seu cérebro caprichoso a pensar sempre da forma precisa e harmoniosa que Iriane queria. As tentativas de se concentrar profundamente, liberando toda a objetividade, acabavam sendo interrompidas por preocupações com ninharias, ou ataques repentinos de revolta ou depressão. Haramis estava muito aflita por causa das irmãs, já que a Dama de Azul tinha proibido o uso da visão na primeira metade do período de instrução. Mas os episódios mais terríveis de distração envolviam lembranças insidiosas de Orogastus. Agora que tinha certeza de que ele estava vivo, as lembranças do seu rosto e da sua voz invadiam seu cérebro com persistência, e ela sempre sonhava com ele, nas poucas horas que Iriane a deixava dormir.

Em um dado momento, atolada no lamaçal do desânimo, Haramis implorou para a Arquimaga do mar determinar se o feiticeiro era pessoalmente responsável por seu tormento e incompetência. A Dama de Azul declarou, friamente, que nenhuma inteligência poderia penetrar no seu santuário sem ser convidada. Essa resposta só serviu para deixar Haramis ainda mais deprimida. Se sua distração não era culpa de Orogastus, então a culpada era ela mesma.

Haramis passava quase todas as horas de vigília se exercitando mentalmente. No início trabalhou sob a tutela impiedosa de Iriane. Depois foi ficando cada vez mais isolada, em uma ”câmara de meditação”, com chão e paredes nuas e negras, os olhos irritados fixos no âmbar brilhante que ficava dentro do Círculo das Três Asas e a mente, encurralada, esforçando-se para não se entregar à fadiga ou à distração, para ser uma só com o talismã.

Tenho de dominar isso, pensava ela, sem parar. Apenas uma Pétala do Trílio pode ser a pedra fundamental da restauração do equilíbrio, que deflagra a cura do mundo. E essa Pétala sou eu!

Eu sou o princípio. Kadiya dá o ímpeto e a resistência. E Anigel fornece a perspicácia humana e o amor desinteressado que são necessários para o cumprimento da missão...

O antigo canto do povo uisgu do pântano Dourado confirmava os papéis dos três talismãs e das que foram nomeadas suas guardiãs.

Um, dois, três: três em um.

Um, a Tiara dos Desprivilegiados, dom da sabedoria, pensamento ampliado.

Dois, a Espada dos Olhos, espalhando justiça e perdão. Três, a Varinha das Asas, chave e unificador. Três, dois, um: um em três. Venha, Trílio. Venha, Todo-poderoso.

Eu posso mesmo consertar tudo!, pensou Haramis. Se ao menos pudesse realmente usar esse meu talismã, que é a chave e o unificador dos outros... Senhores do Ar, me ajudem! Ajudem-me!...

— Eles ajudarão — disse a voz de Iriane. — Jamais perca a confiança, que eles ajudarão.

A escuridão total da câmara de meditação ficou muito azul e a ampla figura da Arquimaga do Mar se materializou. Ela sorria e tinha uma cesta com tampa, feita de talos flexíveis de gládios do mar, pendurada em um braço, e a criatura chamada Grigri no outro.

— É hora do recreio, filha. Você ficou no meu mundo tempo demais, e uma breve mudança fará bem. Siga meu amiguinho aqui, e ele a guiará até o topo da minha casa. Descanse lá ao ar livre, sob o céu ensolarado. Coma e beba as coisas que estão nessa cesta. Use seu talismã para visualizar suas irmãs e seu cunhado prisioneiro, e dê a eles seu amor e carinho. Usando essa mágica leve, não poderá se machucar. Visualize até ele, se achar que deve... e depois volte para mim. Sei que você está deprimida, mas sinto que está a ponto de abrir a última porta mental que tem sido um desafio para você. Vamos assediá-lajuntas, a partir de agora, você e eu. E venceremos.

Haramis levantou com esforço da posição ajoelhada na qual devia ficar durante os exercícios mentais. Ela pegou a cesta sem dizer palavra. O Grigri segmentado e cheio de pernas, que lembrava um worram, a não ser pela pele branca e escassa e os olhos vermelhos, soltou um breve silvo, se contorceu e escapou dos braços de Iriane, olhando uma vez para trás para ter certeza de que Haramis o seguia.

Os dois foram andando pelo apartamento da Dama de Azul, passaram pela parte transparente do iceberg artificial, onde os peixes e outras criaturas curiosas mais uma vez se aproximaram nadando para espiar através das paredes vítreas e irregulares. Um corredor com degraus baixos subia em espiral, para cima, para cima, e a luz ia ficando cada vez mais forte. Haramis afinal percebeu que era a verdadeira luz do sol que iluminava o aquário mágico, e não algum encantamento sutil, e ficou mais animada. Acelerou o passo e estava quase correndo atrás de Grigri, que também parecia energizado pelo brilho do dia. Quando chegaram ao ar livre, o animal emitiu um ronronar vibrante e apoiou-se nas pernas de trás, exibindo a barriga nua e fechando os olhos em êxtase.

— Pobre Grigri! Você sente falta do sol também...

A criatura deu um suspiro de contentamento. Enquanto Haramis observava, o corpo dele escureceu, o pêlo ficou verde e as doze pernas mudaram do branco fantasmagórico para preto. Quando ele abriu os olhos, não estavam mais vermelhos, mas azuis, como os dos worrams comuns do pântano Nevoento.

— Então a vida neste iceberg encantado não é natural para você também — raciocinou Haramis, alisando as costas de Grigri. — Não sei por que sua dona não tem pena de você e não o liberta?

A criatura virou para ela e sibilou indignada. Ele deslizou de baixo da carícia e correu com passos miúdos de criança, fazendo um muxôxo cômico, e foi tomar seu banho de sol a uma certa distância.

— Desculpe, Grigri. Eu devia saber que seu amor pela Arquimaga é mais forte do que o chamado da natureza.

O animal ignorou-a. Mas começou a ronronar novamente.

A vista do topo do gigantesco iceberg artificial era de uma beleza exótica. O mar era o mais puro azul cobalto, pontilhado por icebergs genuínos e mosaicos intrincados de gelo flutuante. O horizonte distante, delineado por ilhas montanhosas, com os picos cobertos de neve, tocavam o céu sem nuvens. O continente, algumas léguas mais adiante, tinha uma superfície de cor parda, suavemente ondulada, sem árvores. Mas a maior parte terminava em precipício na beira do mar, com rochedos colossais, e as camadas expostas revelavam maravilhosas linhas de pedras corde-rosa, alaranjadas e até vinho arroxeado, com picos marinhos igualmente berrantes na água. Pássaros brancos rodopiavam e mergulhavam em todas as direções. Se havia alguma perturbação no equilíbrio do mundo, não chegava àquelas águas tranqüilas do norte.

Haramis sentou na superfície seca e irregular. A transparência daquele chão era um pouco aflitiva, e os peixes, que de vez em quando apareciam nadando distraídos embaixo dela, também. Ela abriu a cesta e ficou emocionada de ver que a Arquimaga tinha arrumado alimentos que lhe eram familiares desde a infância em Ruwenda, e não as estranhas iguarias marinhas que Haramis comia bravamente por educação, desde o começo de sua visita. Sorrindo, pegou uma fruta ladu e mordeu a casca crocante.

Mas, o que é que estou fazendo?...

Constrangida, pôs a fruta de volta no cesto, engoliu o pedaço que mordera e encostou a mão no talismã pendurado no pescoço.

— Anigel! Irmã, responda!

A visão veio... e Haramis gritou espantada.

Aquela não era apenas uma imagem dentro do círculo prateado do talismã, nem uma visão que a cegava para o que acontecia em volta, enquanto a mente absorvia um cenário ao longe. Não, ela estava de pé, ao lado de Anigel, sob o toldo da popa da nau capitânia de Laboruwenda, que navegava célere a todo pano, em uma rota para o leste, a poucas léguas da costa. Ela sentiu o cheiro do sal no ar, sentiu o vento causado pelo movimento e sentiu as tábuas do convés sob seus pés. Lady Ellinis e os lordes Penapat, Owanon e Lampiar estavam sentados com a rainha a uma mesa coalhada de mapas e documentos. E no convés atapetado ali perto, estavam o príncipe Nikalon e a princesa Janeel.

— Hara! — exclamou Anigel, dando um pulo e empalidecendo. — Você está aqui?

Os outros também se surpreenderam com a aparição, e Haramis apressou-se em explicar que o que viam era apenas uma transmissão.

— Eu nem fiz isso conscientemente — disse ela, dando uma risadinha embaraçada.—Acho que as lições que estou aprendendo aos pés da Arquimaga do Mar são mais eficientes do que imaginava até aqui.

Ainda espantada, a rainha e seus ministros pediram a Haramis para sentar-se. A jovem princesa Janeel chegou perto de mansinho, como se quisesse tocar no vestido da tia, mas deu um grito desapontado quando sua mão não encontrou nada concreto.

— Tia Hara, você não está mesmo aqui de verdade! — disse a menina. — É o seu espírito que vemos?

—Algo parecido, meu doce—disse Haramis.—E sinto muito por isso. Mas deixe-me beijá-la e ao Niki e abraçá-los... e a sua mãe também. Mesmo que não possam sentir, eu posso tocar em vocês! Meus queridos, estou muito aliviada de vê-los em segurança.

E aliviada de ver o talismã chamado de Monstro de Três Cabeças a salvo sobre a mesa, meio coberto pelos papéis da rainha.

— Não estamos a salvo — disse a rainha, desviando o olhar e apertando os lábios depois de aceitar o abraço espectral de Haramis.

Ela deu um longo suspiro e virou-se para os cortesãos.

—Preciso conversar com minha irmã a sós. Vocês e as crianças podem sair e voltar quando eu chamar?

Os quatro se levantaram, cumprimentaram a rainha com uma mesura e saíram, lady Ellinis pastoreando o príncipe herdeiro e a princesa.

Quando as duas ficaram sozinhas, Anigel sentou-se outra vez à mesa, com a forma ilusória da irmã. A expressão da rainha era de censura.

— Eu tentei muitas vezes contar para você o que estava acontecendo, Hara... tentei pedir seu conselho e obter seu consolo... mas você não respondeu!

— Eu não podia me comunicar com você. Vou explicar tudo, mas primeiro conte o que aconteceu desde que Orogastus pegou o talismã de Kadiya.

— Orogastus! — Anigel arregalou os olhos consternada. — Então ele realmente se disfarçou como o charlatão Portolanus?

—Isso mesmo. Com que objetivo, eu não sei. Ele não foi morto pelo Cetro doze anos atrás, e sim transportado para um local remoto de exílio, bem no meio da Calota de Gelo Sempiterno. Ele escapou e tornou-se mestre de Tuzamen. Estou tremendamente aliviada por você não ter entregue seu talismã para ele como pagamento do resgate...

— Mas eu quis fazer isso. Eu ofereci o talismã! Só que ele se recusou a recebê-lo. Antar e o pequeno Tolo ainda são seus prisioneiros no grande navio da rainha regente de Raktum. Neste momento eles devem estar chegando à capital raktumiana de Frangine, impelidos pelos ventos enfeitiçados.

— Ele não aceitou o talismã de resgate? Mas por quê?

— Não sei — a rainha falava em um tom monótono e não encarava a irmã. — Ele disse que a hora não era propícia, e que se comunicaria comigo mais tarde. Quando ele entrar em contato de novo, vou entregar o talismã... e nada que você ou Kadiya digam poderá me dissuadir disso.

A Arquimaga engoliu o protesto horrorizado que tinha na ponta da língua. Se Antar e o menino continuavam prisioneiros, qualquer argumento em favor de um bem maior teria de esperar até Anigel compreender toda a situação.

— Conte-me exatamente o que aconteceu — pediu Haramis baixinho.

Anigel contou, descreveu como Kadiya salvou o príncipe herdeiro e Janeel, como Antar foi recapturado, como Tolo quis ir embora com o protegido do feiticeiro. A rainha, Kadiya e os amigos mal tinham chegado ao pequeno navio Lyath e logo as canoas cheias de aliansas enfurecidos se aproximaram. O que os salvou foi uma nova tempestade, que obviamente o feiticeiro conjurou para ajudá-lo a fugir. O guerreiro wyvilo Huri-Kamo tinha sido morto na tentativa de libertar o rei Antar, mas o líder Lummomu-Ko e seu companheiro Mok-La conseguiram nadar de volta para o Lyath, apesar dos ferimentos.

— Encontramos a nossa flotilha quando passou a tempestade —disse Anigel.—O valente capitão do pequeno navio okamisiano recebeu uma bela quantia por nos ter ajudado e foi dispensado. Então nossos quatro navios laboruwendianos navegaram rumo ao norte, em perseguição às cinco embarcações inimigas. Alcançamos o barco tuzameniano de Portolanus, que ia bem mais devagar que os navios piratas. Nós nos envolvemos em uma batalha e conseguimos afundá-lo, com toda a tripulação a bordo. Infelizmente o feiticeiro ainda estava na nau capitânia raktumiana, por isso ele permanece em segurança. Ele não fez nada para ajudar seus pobres compatriotas. Enquanto o perseguíamos indo sempre para o norte, a distância entre os navios de Raktum e os nossos foi aumentando. Eles reabasteceram em Zinora e partiram dois dias antes da nossa chegada.

”O rei Yondrimel recusou meu pedido para enviar cúteres velozes atrás dos piratas. A desculpa dele foi bem original: que sua esquadra inteira estava em uma missão especial em Galanar, escoltando um enviado real que ia pedir a mão de uma das filhas da rainha Jiri em casamento em nome de Yondrimel. Mas quando chegamos em Mutavari, seis dias depois, soubemos que era bem mais provável que a frota zinorana estivesse fora em treinamento de guerra, se preparando para invadir Var. A capital de Var estava tumultuada e o pobre rei Fiomadek e a rainha lia petrificados com os rumores terríveis sobre a aliança de Zinora com os piratas raktumianos.

”É claro que você sabe que nosso pacto peninsular prevê que prestemos auxílio a Var. Kadiya, Jagun e o contingente de wyvilos partiram para o norte imediatamente, subindo o grande rio Mutar para prevenir as guarnições em Ruwenda. Se tivermos sorte, nossos cavaleiros e soldados chegarão em tempo para defender Mutavari e frustrar a invasão. Mas o lorde marechal Owanon e meus outros líderes militares temem que o envio das forças ruwendianas para o sul irá deixar Labornok completamente desguarnecida, para enfrentar um ataque maciço vindo do norte. Na verdade, a invasão de Var pode ser apenas uma farsa, escondendo a real intenção da rainha regente Ganondri e de Portolanus, um ataque contra nós. Raktum tem tantos navios que pode facilmente dispensar uma pequena frota para a invasão de Var e ainda contar com muitos para atacar Triola, Lakana, nossos outros portos ao norte e até mesmo Derorguila. A estratégia de Portolanus pode muito bem funcionar, especialmente se o lorde Osorkon for um traidor, o que parece provável, dado o envolvimento da irmã dele no seqüestro das crianças. E se Labornok cair, Ruwenda cairá junto.

”Você tem de compreender, Hara, que sem Antar, a união dos Dois Tronos com certeza se desfará. Eu mesma não posso ter esperança de conseguir reunir os nobres leais de Labornok contra o poder combinado da facção de Osorkon, Raktum e Tuzamen. Isso é mais um argumento em favor da minha decisão de entregar o talismã, se puder garantir o retorno do meu marido e a defesa do nosso país fazendo isso.”

Haramis ouviu a narrativa e foi ficando cada vez mais apreensiva. Então, quando Anigel parou de falar, ela perguntou.

—O que Kadiya pretende fazer? Liderar as tropas ruwendianas para defender Var?

— Não. Ela... nós tivemos uma discussão horrível quanto à questão do pagamento do resgate. Acho que ela teria me matado, se tivesse coragem, para evitar que a tiara fosse parar nas mãos do feiticeiro. Ela disse que ia reunir os ruwendianos e mandá-los para o sul. Depois ela planeja viajar para o Lugar do Conhecimento e perguntar à sindona o que deve fazer, para que eu não troque meu talismã por Antar. Ela não vai conseguir. Não enquanto eu viver. Os olhos vívidos e azuis da rainha encheram-se de lágrimas, mas a linha do queixo assumia uma forma decidida, inabalável. Haramis sabia que não era hora de discutir com a irmã. Então, com toda suavidade, contou para Anigel as suas aventuras no Kimilon e no estranho lar da Arquimaga do Mar. Ficou contente ao saber que Shiki ajudara a salvar Niki e Jan e pediu a Anigel para empregar o leal dorok, para servi-la pessoalmente, até ele poder se juntar a Haramis de novo.

— Em breve — acrescentou Haramis — e se Deus e os Senhores do Ar quiserem, eu completarei meus estudos com a Arquimaga do Mar. Se você puder adiar a entrega do seu talismã até eu dominar completamente o meu...

Lentamente Anigel tirou a tiara com o Monstro de Três Cabeças debaixo dos papéis. Segurou-a sobre a mesa, entre ela e a presença fantasmagórica de Haramis, e falou com uma voz firme feito rocha.

— Eu darei essa tiara ao feiticeiro no momento que ele pedir, se ele garantir que meu Antar voltará para mim são e salvo. E o deus Trino e Uno é testemunha disso.

Haramis ficou petrificada, olhando incrédula para o talismã da irmã. A minúscula flor de trílio fóssilizada, dentro da gota de âmbar na frente da tiara, não estava mais negra, e sim vermelha como sangue. Mentalmente, ela transmitiu essa observação para Anigel.

— Sim — disse a rainha, sem se perturbar —, e a de Kadi também está vermelha. As flores se transformaram quando nos separamos brigadas. Mas isso não importa. Nada importa, a não ser que meu marido esteja a salvo de novo e que seu país tenha de volta seu rei.

— Kadiya! Sou eu, Haramis.

— Meu Deus! — exclamou a Dama dos Olhos, pois sua irmã pairava sobre as águas revoltas, por causa da tempestade, do rio Mutar, bem diante da proa da enorme canoa wyvilo em que estava. Duas embarcações subiam o rio bem ligeiras, e os respingos chicoteavam seus ocupantes, mesmo em plena estação seca.

Os wyvilos, espantados, diminuíram a velocidade das remadas, e os dois barcos que levavam Kadiya e seu grupo ficaram flutuando bem no meio do rio turbulento.

—Hara, você aprendeu a caminhar sobre a água?—exclamou Kadiya.

— Eu só fiquei mais competente sobre o funcionamento do meu talismã—respondeu a Arquimaga.—O que você vê é a minha imagem, sem matéria de verdade. Você já percebeu que agora consigo falar com você diretamente, embora você não tenha mais o seu talismã. Eu posso me comunicar através de léguas com qualquer ser vivo.

— Ótimo — disse Kadiya, mordaz. — Fale com aquela bobalhona real, a Ani,e trate de convencê-la a não entregar seu talismã para o feiticeiro!

— Eu tentei e tentarei novamente. Mas o que me preocupa agora é o antagonismo entre vocês duas. Acho que Ani estava certa quando disse que o trílio do seu amuleto tinha ficado vermelho sangue. Mas diga que ela estava errada ao acreditar que você a teria matado, para evitar o pagamento do resgate de Antar.

O semblante de Kadiya estava tão tempestuoso quanto o céu da floresta Tassaleyo.

— Você sabe, tão bem quanto eu, o que aconteceria se Portolanus tivesse dois talismãs — ela apontou para a tempestade fora de época. — É por causa dele que o equilíbrio do mundo está em risco! Você sabe que tem havido terremotos ao norte de Tassaleyo? O povo de Lummomu-Ko transmitiu a notícia para ele! E o povo de Jagun diz que os abomináveis skriteks têm andado em uma inquietação terrível, e que têm atacado por todo o pântano Negro, violando a minha trégua. No norte há uma epidemia da doença do desmaio entre os uisgus. Portoda a terra os desastres vêm se multiplicando... e é culpa exclusiva de Portolanus! Se Anige llhe der seu talismã para pagar o resgate, as coisas vão ficar ainda piores. Só mesmo algum capricho do feiticeiro foi capaz de impedir que ela entregasse a tiara antes, como um togar submisso, que expõe o pescoço no cepo. Ani põe seu amor pelo marido e seu dever para com os Dois Tronos acima do bem-estar do mundo. Sua loucura é criminosa...

—Mais ainda é a sua ameaça contra ela... Kadiya, pense! A cor vermelho sangue do seu trílio não a fez parar um pouco? O nosso destino é sermos Três, trabalhando juntas com amor fraterno. É a Flor sagrada que nos une, não o Cetro do Poder.

Por um momento a dúvida suavizou as feições inflexíveis e molhadas de Kadiya.

— Foi isso que disse Shiki, o dorok, que você enviou para me ajudar a salvarNiki e Jan... Mesmo assim, se Portolanus conseguir dois talismãs, certamente não vai descansar até conseguir o terceiro. E mesmo com dois, ele pode dominar a península inteira, talvez todo o mundo conhecido.

—Talvez—disse Haramis, enfrentando o olhar implacável da irmã. — Mas estou trabalhando para impedi-lo, e o meu talismã é a chave da operação total dos outros dois. Eu aprendi isso e muitos outros segredos importantes, com uma mentora gentil que está me ensinando a arte da magia.

Haramis relatou, resumidamente, a descoberta de que não era a única Arquimaga e sobre seus estudos com Iriane, a Dama de Azul.

—A Arquimaga do Mar ficou afastada dos nossos assuntos do continente até agora, mas pretende modificar isso. Ela será uma aliada poderosa para nós, na nossa luta contra Orogastus.

— Orogastus!Haramis fez que sim com a cabeça, lentamente.

— Ele está vivo, e se chama Portolanus. Nós não o matamos com o Cetro, afinal. Ele é um dos Homens da Estrela, descendente de uma sociedade poderosa que investiu contra os Desaparecidos há séculos.

— E é um homem que você ainda ama — declarou Kadiya, a voz áspera de raiva. — Senhores do Ar, protejam-nos! Duvido que até mesmo o Mestre no Lugar do Conhecimento possa me ajudar a salvar o mundo agora!

Haramis estendeu a mão espectral na chuva forte.

—Nem tudo depende de você. irmã. É claro que deve consultar a sindona. Mas não se apresse em condenar Anigel ou a mim. Sei que a Mestra vai aconselhá-la a ser mais compreensiva...

— Não admito que meus povos amados sejam escravizados por um feiticeiro maligno! — exclamou Kadiya, furiosa. —Nem para salvar Anigel e Antar, nem por você. Descubra um modo de destruir Orogastus de uma vez por todas! E antes de Anigel pagar o resgate! Depois venha me falar de amor e compreensão.

Haramis abaixou a cabeça.

— Vou tentar. E falarei com você de novo quando completar meus estudos. Adeus.

Quando o rosto teimoso de Kadiya desapareceu Haramis foi dominada pelo desânimo outra vez, que a arrastava para baixo, como areia movediça. O pior de tudo que sua fogosa irmã tinha dito era o fato de ser uma verdade cruel: Anigel não podia entregar seu talismã de jeito nenhum.

Se Anigel se recusava a dar ouvidos à razão, será que haveria um outro modo de convencê-la? Será que a rainha ouviria o marido, tendo recusado a atender a irmã?

— Talismã, quero a visão do rei Antar e falar com ele secretamente, sem que minha imagem apareça.

Ela viu o rei imediatamente. E a visão era terrível, pois ele estava preso em uma espécie de jaula com rodas, sendo puxado por uma rua de pedras de alguma cidade por um grupo de volumniais. O lugar estava tomado por uma aglomeração de humanos maltrapilhos que vaiavam, e quatro cavaleiros risonhos raktumianos mantinham os mais ousados longe do rei enjaulado, com suas espadas em riste.

Era evidente que a flotilha raktumiana tinha finalmente chegado a Frangine, a capital do reino pirata, e que uma procissão triunfal improvisada ia das docas para o palácio, acompanhada pelos apupos da coletividade de bandidos. Fileiras de homens fortemente armados formavam a vanguarda da parada. Mais cavaleiros cercavam a rainha regente Ganondri, que usava um traje de montaria verde e dourado enfeitado com jóias e cavalgava um fronial nervoso, com chifres dourados e atavios de seda cor de esmeralda.

Atrás dela o menino-rei Ledavardis montava um belo animal de batalha negro. Sobre a sela suas deformidades eram menos óbvias, ele parecia mais velho e mais majestoso, com uma armadura cintilante de gala e um capacete com plumas e de visor aberto.

Ledavardis não virou a cabeça nem alterou suas sólidas feições uma só vez, para reconhecer aqueles que o aplaudiam, mas o jovem monarca sem coroa sentia claramente a afeição do povo. Poucas vozes gritavam elogios para a rainha regente. E ela, com um sorriso fixo e vaidoso, parecia nem se importar.

O par real era seguido pelo almirante Jorot e pelos capitães dos outros três navios. Depois vinha a jaula com o preso, o rei de Laboruwenda e uma multidão colorida de nobres e cavaleiros montados. Relegado ao fim da procissão e ladeado por soldados que marchavam a pé, o bizarro mestre de Tuzamen, Portolanus, avançava em uma frágil carruagem aberta. Ele parecia indiferente ao fato de a multidão estar zombando e rindo dele veladamente, acenava, piscava e dava risadinhas para os espectadores, vez por outra fazendo aparecer um buquê de flores para alguma bela donzela ou punhados de balas que jogava para as crianças. As três vozes do feiticeiro cavalgavam tristes pangarés atrás da carruagem. Mas o pequeno príncipe Tolivar estava sentado ao lado de Portolanus, com uma bela roupa de brocado e sorrindo, feliz. Haramis falou baixinho.

Antar, pode me ouvir? Sou eu, Haramis.

O rei levantou a cabeça e seus lábios se abriram de espanto. Tinham posto nele a roupa luxuosa que usava quando foi seqüestrado, mas estava sentado sobre palha.

Não fale alto nem faça nenhum sinal, meu querido cunhado.

Simplesmente responda com pensamentos. Meus poderes aumentaram nessas últimas semanas, e posso ouvi-lo e vê-lo perfeitamente. Primeiro, você está bem de saúde?

Estou... mas meu coração está cheio de melancolia. Fui cortado por anzóis com barbelas quando os patifes me recapturaram, mas Portolanus usou alguns ungüentos mágicos nas feridas e elas sararam sem deixar cicatrizes. Não fui trancafiado junto com os escravos na viagem de volta. Fui tratado com decência. Tive boa comida e uma cama confortável em um camarote com guardas... Tolo, como você pode ver, além de saudável, está também muito amigo do maldito feiticeiro! Não consigo imaginar o que deu naquele pirralhinho tonto. Talvez seja vítima de algum encantamento perverso...

— Tenho certeza que ele não está enfeitiçado, por isso acalme seu coração. Você conhece os planos da rainha regente e de Portolanus para vocês dois?

Não, a não ser que devo ficar aqui no palácio... Haramis, algo muito estranho está acontecendo entre Ganondri e Portolanus. Deve ter havido alguma briga entre aqueles dois vilões! A rainha regente ia me ver às vezes, quando eu estava me recuperando a bordo do navio, e demonstrava uma preocupação incomum pelo meu bem-estar e conforto. Aparentemente ela queria se certificar que o tratamento médico ministrado pelo feiticeiro estava mesmo restaurando a minha saúde, e não me fazendo mal. Ela foi muito solícita, e você pode imaginar como fiquei espantado com essa mudança de atitude. Eu disse a ela que minha esposa real não iria ficar mais disposta apagar o resgate por estarem me mimando, em vez de torturando. E Ganondri apenas riu. Mais tarde ouvi quando ela avisou aos guardas para ficarem perto de mim toda vez que Portolanus entrasse na minha cabine trancada. Teriam mortes horríveis, disse ela, se o feiticeiro me fizesse algum mal.

— Que estranho! Antar, você sabe que Anigel ofereceu o talismã em troca da sua liberdade, não sabe? Mas Portolanus recusou-se a aceitá-lo.

Pela Flor! Não, eu não sabia... Haramis, você não deve deixar Ani entregar a tiara. Peça a ela para pensar nas calamidades que essa atitude causaria para os povos do mundo! Diga que eu a proíbo de fazer isso... que eu morreria de bom grado, para não vêla desistir do seu talismã por minha causa.

— Eu direi a ela. Mas você também deve falar com ela.

- Como? Eu não posso me comunicar com ela, e ela também não tem a habilidade de se comunicar comigo através da mente, que você agora tem.

— Elabore a mensagem no seu coração e mande para mim como se eu fosse Anigel. Vou implantar a sua imagem e suas palavras nos sonhos dela, para que cada noite ela o veja e ouça sua voz.

Meu Deus... você consegue fazer isso?

— Estou aprendendo a mais alta magia com outra Arquimaga. Descobri que não estou sozinha nessa função. Há mais duas além de mim, que servem de guardiãs e guias para o mundo através do controle da magia boa. A Arquimaga que está me ensinando a usar meu talismã se chama Iriane, e mora no extremo norte, no mar Aurora. Dentro de mais duas semanas, se eu conseguir completar meus estudos de forma satisfatória, farei uma tentativa de salvar você e o pequeno Tolo. Também espero descobrir um modo de neutralizar os planos do feiticeiro e da rainha Ganondri.

Deus queira que você consiga! Segundo os boatos que ouvi no navio, Raktum e Tuzamen planejam atacar os Dois Tronos... possivelmente com a ajuda de lorde Osorkon e sua facção de rebeldes.

—Anigel também acredita nisso. Vou fazer o melhor possível para defender seu país, assim que tiver dominado meu talismã.

Mas e quanto a Portolanus e o Olho Ardente roubado de Kadiya? Ele não será um inimigo impossível de combater?

— Eu não sei. Só posso esperar que ele ainda não saiba usar o talismã direito, e que através de algum estratagema eu consiga tirálo dele. Reze por mim! E agora, Antar, diga sua mensagem para Anigel. Insista para que ela seja firme na recusa de entregar o pagamento do resgate, pois se o feiticeiro obtiver um segundo talismã, o mundo inteiro poderá sucumbir ao seu domínio.

Haramis envolveu a mensagem amorosa de Antar em seu coração e a imagem do rei enjaulado desapareceu. Ela se viu de volta no topo do iceberg artificial. Primeiro enviou o sonho voando para a mente de Anigel, depois deu um profundo suspiro e deixou seu talismã cair, pendendo na corrente. Tinha contado aos outros de sua maestria no controle do Círculo das Três Asas com tanta segurança! Mas o que aconteceria se suas esperanças não passassem de mera presunção?

Grigri chegou perto dela se contorcendo todo, perdoando sua falta de sensibilidade e, depois de acarinhar a mão inerte da maga, começou a fuçar o cesto de piquenique.

— Ah, pequenino. Que sorte você tem de ter problemas tão simples! — ela pegou uma porção de ave assada, partiu em pedaços e deu para a criatura. — Eu não podia deixar Ani, Kadi e Antar saberem que estou preocupada por não ter certeza se serei capaz de usar o talismã com eficiência, mesmo depois dos meus estudos com Iriane. É verdade que minha capacidade de comunicação aumentou bastante... mas este é o mais modesto dos poderes do Círculo das Três Asas. Será que serei mesmo capaz de vencer Orogastus e os piratas de Raktum através da magia? E se uma parte do Cetro for incapaz de lutar contra outra?... Se isso acontecer, então Orogastus e eu teremos de nos enfrentar desarmados, como da primeira vez que nos vimos... apenas um homem e uma mulher, inimigos mortais, ao mesmo tempo amantes, reduzidos aos recursos de nossas almas na batalha... Oh, Grigri, será que conseguirei causarlhe mal, mesmo sendo para salvar o mundo?

A criatura engoliu a carne vorazmente, ignorando.

Haramis ergueu o talismã.

— Sei que não devo vê-lo, pois isso enfraqueceria minha força de vontade para rejeitá-lo. Mas desejo vê-lo mais uma vez! Sei que ele não pode se esconder de mim agora. Dessa vez eu não veria mais a figura apagada, imprecisa, mas seu rosto verdadeiro. O rosto dele...

O talismã ficou quente, à espera da ordem. A gota de âmbar cor de mel incrustada no meio das três asas prateadas continha um minúsculo fóssil da flor negra.

A flor ficou vermelha diante de seus olhos.

— Oh, Deus—murmurou ela, fechando os olhos para não ver. — É esse o preço que tenho de pagar? Será que até uma simples visão carinhosa dele comprometeria minha alma? É claro que não!... Ou será que essa é mais uma forma detestável de Iriane testar a minha força de vontade? Deixando-me vê-lo, depois revelando a conseqüência de ser levada pela tentação?... Tudo bem! Não vou ordenar uma visão dele dessa vez, já que meu desejo é apenas um capricho pessoal! Não vou alimentar meu amor, morrerei de fome! Talismã... está satisfeito? Devolva meu Trílio Negro! E vós, oh Flor... dê-me forças enquanto cumpro meu dever inevitável, sempre buscando o bem maior e não meus desejos egoístas.

Ela abriu os olhos. A flor estava negra.

Haramis ficou de pé, juntou os restos que Grigri tinha deixado e embrulhou-os em um guardanapo.

—Venha, pequeno amigo. Você comeu bem, e a fruta ladu será minha refeição enquanto voltamos. Já perdi bastante tempo de trabalho.

O animal foi na frente e ela iniciou o retorno às profundezas do iceberg. A distância nuvens pesadas se juntavam, cobrindo a terra, e um vento gelado começava a soprar.

Dia sim, dia não, deixavam o príncipe Tolivar visitar a cela confortável do pai, que ficava a meia altura, na torre oeste do palácio Frangine. O amigo de Tolo, o feiticeiro, sempre providenciava alguma comida para o menino levar, e às vezes um livro de contos, para ajudar o rei a passar o tempo em seu cativeiro.

Nesse dia o pequeno príncipe levou um prato apetitoso de frutas cristalizadas e um livro de aventuras de piratas. O afável guarda da prisão, Edruk, pegou a argola com as chaves, quando Tolo se apresentou na ante-sala da guarda.

— Como vai meu pai? — perguntou o menino educadamente. Edruk e ele caminharam pelo corredor iluminado com tochas, até o quarto onde mantinham o rei preso. Havia portas de ferro trancadas dos dois lados, e atrás delas ficavam alguns inimigos da rainha regente, que ela não ousava mandar matar.

— O rei está cada dia mais animado, à medida que o tempo vai passando, jovem senhor — respondeu Edruk, abrindo a porta da cela de Antar. — E isso difere bastante da minha experiência com amaioria dos outros prisioneiros... Entre. Voltarei para abrir a porta de novo daqui a meia hora.

Tolo agradeceu ao guarda muito sério e entrou. Ouviu a batida metálica da porta se fechando e o ruído do encaixe bem lubrificado da tranca em seguida. Antar desviou os olhos da carta que escrevia e sorriu para o filho mais novo. Usava roupas simples e tinham aparado seu cabelo e sua barba desde a última vez que Tolo esteve com ele. Parecia mesmo bem satisfeito. Através do estreito vão da janela da cela o menino conseguia ver a neve caindo, mas o lugar era aquecido e confortável.

Quando o príncipe terminou de saudá-lo e pôs os presentes sobre a mesa, Antar abraçou-o e beijou-o.

— Bom... e você continua se esforçando ao máximo para tornar-se aprendiz do feiticeiro?

O menino se afastou.

— Queria que você não zombasse de mim, papai. O mestre Portolanus nunca faz isso. Ele diz que eu possuo a aura natural de um taumu... taumaturgo nato!

— Peço perdão — os olhos azuis de Antar faiscavam. — Mas espero que não esteja gostando tanto dos números daquele charlatão, a ponto de preferi-lo a... voltar para casa.

O menino fez cara de desânimo.

— Voltar para casa? A mamãe vai enviar seu talismã para pagar nosso resgate, afinal? O feiticeiro disse que ela recusou-se a fazer isso! Achei que você ficaria trancado aqui durante um tempo. Portolanus pediu para mandarem sua coleção de máquinas mágicas de Tuzamen e diz que chegarão logo. Mas se formos libertados agora, não poderei vê-las!

O ar brincalhão do rei transformou-se subitamente em franco desapontamento. Ele segurou Tolo pelos ombros.

— Meu filho, você percebe o que está dizendo? Não, é claro que não. Eu sei que você gosta desse feiticeiro. Mas ele não é o bondoso fazedor de milagres que você pensa que é. É um homem perverso, cuja ambição é destruir os Dois Tronos.

O príncipe virou de costas, franzindo o cenho, obstinado. —Isso é o que a rainha pirata diz. Mas não é verdade. É ela que quer conquistar nosso país, não Portolanus.

— Isso pode ser o que ele diz para você — disse Antar, com mais suavidade. — Mas foi Portolanus que mentiu, Tolo. Se ele conseguir o talismã da sua mãe, terá condições de conquistar o mundo. Ele e seus aliados raktumianos poderiam invadir Labornok e Ruwenda, matar nosso povo e roubar nossas riquezas. Logo todas as outras nações pacíficas cairiam sob o domínio dele também.

— Mas ele não quer o talismã da mamãe! — gritou o menino. —Ele já tem o da tia Kadi e diz que é o suficiente. Ela não sabia usálo para fazer grandes coisas. Mas Portolanus está descobrindo seus segredos! Ele me contou! Ele vai usá-lo para transformar seu Pequeno e pobre país em uma grande potência. O talismã vai fazer o Sol brilhar sobre Tuzamen, fazer o solo ficar fértil, em vez de árido, e os rebanhos vão se multiplicar e engordar, e jóias, ouro e Platina jorrarão das montanhas!

— Meu Deus. Foi isso que ele disse?

Mas o príncipe continuou falando.

— Portolanus não precisa conquistar outros países. O talismã pode dar-lhe o que quiser! Por isso ele disse à mamãe que não queria seu talismã quando ela o ofereceu. Ele realmente nos seqüestrou para obter o talismã. Mas quando conseguiu o da tia Kadi, não Precisou mais do que está com a mamãe.

— Ele está mentindo, Tolo. Eu sei que ele desistiu da oportunidade de obter o talismã da sua mãe nas ilhas Windlorn, recusando Sua oferta como pagamento do resgate. O motivo dessa recusa ainda é Um mistério. Mas pense com atenção, rapaz! Se Portolanus não continua cobiçando o talismã, por que você e eu ainda somos prisioneiros?

— É culpa da rainha pirata — sussurrou Tolo. — Portolanus Prometeu que vai ajudar a tirá-lo daqui.

— Mentiras... tudo mentira — disse Antar, balançando a cabeça.—Você é muito jovem. Mas tem idade bastante para saber que os adultos raciocinam bem diferente das crianças, e que nem sempre dizem exatamente o que pensam. Portolanus não quer riquezas, meu filho... ele quer poder. Ele quer dominar reis, rainhas e países inteiros, não viver em paz no castelo Tenebroso, brincando de mágica com você e fazendo chover ouro e diamantes sobre seu Povo.

— Ele disse que eu posso ser o mestre de Tuzamen um dia.

— O quê?

— Ele disse que vou ser o herdeiro dele — declarou o menino. - Ele gosta muito de mim. Não serei mais um segundo príncipe inútil. Vou aprender a ser um feiticeiro como ele, e quando ele se aposentar e ficar apenas estudando mágicas antigas, eu governarei este país! Ele não tem filhos. Diz que os grandes feiticeiros de verdade não podem ter filhos. Têm de adotar um herdeiro... e ele quer adotar amim!

— Você renunciaria à sua família em favor desse bandido trapaceiro? — exclamou o rei, apertando os braços do menino, que se remexia feito um animal acuado, escapando e correndo desafiadoramente para a porta da cela.

— Você não sabe o que está fazendo! — gritou Antar. — É apenas um bebê! Uma criança tola!

A porta da cela se abriu.

—É hora de o príncipe sair—disse Edruk, com uma expressão desagradável no rosto normalmente amável.

— Eu quero sair! — berrou Tolo, disparando pelo corredor, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Papai, não quero mais vê-lo!

— Meu filho, volte aqui! Eu não devia ter sido tão drástico — falou o rei andando para a porta, mas Edruk barrou a passagem e pouco depois trancou o ferrolho.

— Tolo! — a voz de Antar foi abafada pela porta de ferro e pelas paredes de pedra. — Tolo, não vá!

O menino enxugou o rosto na manga da camisa e seguiu o guarda da prisão até a ante-sala. Dois homens mal-encarados envergando a libré do serviço pessoal da rainha estavam à espera dele.

— Aqui está ele — disse Edruk, suspirando. — Zillak e eu ouvimos a conversa que ele teve com o pai. Foi como a grande rainha suspeitava.

Mãos poderosas agarraram Tolivar pelos braços.

— Você vem conosco—rosnou um dos servos, e quando Tolo soltou um grito de medo ele riu. — E ande depressa. Sua majestade não gosta de esperar.

Vozes altas ressoavam atrás da porta fechada da sala de estar particular de Ganondri. Dois nobres de armadura postavam-se do lado de fora com as espadas cruzadas e impediram a escolta de Tolo de bater.

— Mas a rainha regente quer que levemos esse pirralho real para ela imediatamente! — protestou um dos servos corpulentos. — Ele traz uma informação de grande importância!

— Ela está com nosso mais gracioso senhor, o rei Ledavardis —disse rispidamente um dos nobres piratas. Ele e seu companheiro usavam o brasão do rei. — E vocês terão de esperar.

Os quatro servidores se entreolharam carrancudos, enquanto a gritaria continuava lá dentro, e o medo que Tolo sentia transformou-se em fascínio. Era óbvio que a rainha pirata e seu neto, o reizinho duende, estavam discutindo furiosamente! Era impossível entender o que diziam.

Depois de alguns minutos a porta se abriu e Ledavardis, com o rosto branco de raiva, saiu todo empertigado.

—Não... você não dará as costas paramim!—berrou Ganondri. — Volte, seu ingrato arrogante!

Ignorando os gritos dela, o robusto e jovem corcunda fez um sinal para seus dois guardas e os três se afastaram, com passadas decididas, pelo corredor.

Ganondri chegou até a porta, com as feições distorcidas pela fúria, e o cabelo castanho, elaboradamente enfeitado, todo despenteado. Ela usava um vestido roxo e um manto leve combinando, com barra de renda dourada. Ao avistar Tolo e os servos ela se esforçou para recuperar a pose e fez um gesto para os homens levarem o menino para a sala. Sobre uma mesa havia um pote de tinta, derramado em cima de papéis oficiais, e o líquido negro pingava lentamente no valioso tapete. Um outro documento, rasgado em pedacinhos, estava espalhado pelo chão, junto com uma pena de escrever partida em dois pedaços.

Sem se importar com a bagunça, a rainha regente foi até um tamborete que servia de bar e serviu-se de um cálice de conhaque. Quando terminou de beber, deu meia-volta e fixou seus brilhantes olhos verdes no príncipe Tolivar.

— É verdade — disse ela em voz baixa e ríspida — que sua mãe, a rainha Anigel, ofereceu-se para entregar o talismã para Portolanus, quando ainda estávamos nas ilhas Windlorn?

— É — murmurou o menino, sem tirar os olhos do chão. — Acho que sim.

— Fale mais alto!

— Meu... meu nobre pai me contou. Ele não mente.

— E Portolanus disse para você que ele não quis o talismã de Anigel. Foi isso?

— Ele... não. Ele nunca disse isso.

Ela adiantou-se de repente, segurou a orelha dele e puxou-a com tanta força que o menino gritou de dor.

— Diga a verdade!

—Eu estou dizendo a verdade! — gemeu o príncipe.—Aiiii... isso dói!

— Portolanus disse que não precisava do talismã da sua mãe? Conte-me, seu malandrinho nojento! Ou farei meus homens cortarem seu nariz e jogá-lo na prisão mais imunda!

Chorando e tremendo, Tolo desmoronou no chão.

—Não me machuque mais! É verdade! Ele disse isso! Ele disse sim.

Ganondri largou a orelha dele e lançou-lhe um olhar de desprezo.

— Assim está melhor... Que criaturinha covarde e desprezível você é! Você não tem mais lealdade por aquele bandido feiticeiro, seu benfeitor, do que por seu próprio pai. Droga! Você me dá nojo. Até meu neto bastardo é mais íntegro que você.

— Não me machuque.

O príncipe fungava, cobrindo a cabeça com os braços.

— Levem esse desgraçado embora — disse Ganondri para os homens —, deixem-no trancado em seu quarto e montem guarda.

Os homens fizeram uma mesura e arrastaram o príncipe Tolivar para fora. Ele começou a chorar de novo.

Depois que eles saíram, Ganondri falou em voz alta.

— É pior do que eu pensava. Mas talvez ainda possa salvar a situação com uma atitude drástica... desde que Portolanus ainda não tenha conquistado o domínio daquele maldito Olho Ardente.

Puxando a corda de um sino, ela pediu à dama de companhia para chamar o capitão da guarda palaciana e vinte homens. Então dirigiu-se para a suíte de Portolanus.

— Grande rainha, que honra inesperada!

Esfregando nervosamente as mãos retorcidas, o feiticeiro decrépito levantou-se de uma mesa cheia de pilhas de livros, para saudar a visitante real e o pequeno exército que a acompanhava. As Vozes Negra, Amarela e Roxa espiavam de um outro cômodo, com as caras assustadas.

— Prendam os capangas dele — ordenou Ganondri.

O capitão da guarda apontou e seis homens pesadamente armados seguraram os acólitos. Portolanus soltou um grito de protesto, depois saiu galopando pelo quarto, batendo os chinelos no chão, indo para um grande baú trabalhado de madeira envernizada.

— Agarrem-no! — berrou a rainha regente. — Ele vai pegar o talismã!

O capitão e quatro homens empunhando espadas perseguiram Portolanus e seguraram a ponta do manto dele. Ele soltou um uivo, desfez-se do manto e mergulhou no baú apenas de tanga. Mas um dos guardas deu um poderoso chute na arca com a bota da armadura e a caixa deslizou para longe do feiticeiro.

— Muito bem! — exclamou Ganondri, com um leve sorriso. Três membros da guarda agarraram o velho que se debatia. De repente ele parou, ofegante.

—Grande rainha, isso não passa de um engano lamentável. Eu gostaria de... — Portolanus começou a falar.

— Silêncio, feiticeiro!

Ela sentou-se em um banco estofado, e puseram Portolanus de pé na sua frente.

— Vamos começar nossa conversa falando de Ledavardis. Você me garantiu que lançaria um encantamento de docilidade sobre meu neto rebelde. No entanto, quando apresentei a ele alguns documentos importantes para assinar esta noite, ele não só se recusou a fazê-lo, sem mais nem menos, como também me insultou e declarou que meu reinado em breve chegará ao fim.

— Eu não compreendo — queixou-se o feiticeiro. — Minhas vozes vêm dando a poção apropriada para o jovem rei todos os dias, desde que voltamos para Frangine. A essa altura ele deveria estar tão dócil quanto um woth recém-nascido!

Ganondri bufou, fazendo pouco de Portolanus. Mas logo assumiu uma expressão ameaçadora e pensativa.

— Incompetente!... Ou será que resolveu violar nossa aliança apesar dos meus avisos? Foi isso? Você pensa que agora, que estamos de novo em terra, vai conseguir produzir alguma coisa contra mim? Será que é tão tolo a ponto de achar que pode usar meu neto engraçadinho como seu instrumento?

— Nunca! Você está enganada, grande rainha!

— Será que também me engano de achar que Anigel de Laboruwenda ofereceu seu talismã para você como pagamento do resgate semanas atrás, quando ainda estávamos nas ilhas Windlorn? E que você se recusou a aceitá-lo?

— Não, não nego isso. Tive medo de contar-lhe sobre a oferta de Anigel e você, na sua ânsia de possuir aquela quinquilharia inútil, libertasse logo o rei. Isso teria sido um golpe fatal no nosso plano de conquista. Precisamos do rei Antar preso, para obter sucesso no esquema de dominar Laboruwenda! Só ele é capaz de unir as lealdades divididas da nobreza labornokiana. Os compatriotas dele jamais lutarão para valer sob a bandeira dos Dois Tronos, a não ser que Antar os lidere em pessoa. Se Antar continuar prisioneiro, a invasão permitirá que o lorde Osorkon, criatura nossa, assuma o controle de Labornok. A conquista de Ruwenda seguirá a capitulação de Labornok como o dia segue a noite, uma vez que a maior parte das forças ruwendianas partiram para o sul, para defender Var.

—Muito plausível — disse Ganondri com desprezo.—E essa é a verdadeira razão de você ter recusado o meu talismã? — disse ela as duas últimas palavras berrando, cheia de raiva.

— Eu juro! O que você ia lucrar com aquela coisa, mulher? Você é uma feiticeira? Possuir aquilo seria um gesto inútil.

— Eu é que tinha de decidir isso, não você! — disse ela. — E você ousou esconder isso de mim! O seu medo era do que aconteceria se nos igualássemos em magia!

— Besteira. Você está sendo ridícula.

— Como ousa? — berrou Ganondri. — Seu... seu...

Fora de si, a rainha levantou-se do banco. Tirando a adaga cravejada de jóias do cinto, voou para cima de Portolanus.

— Chega dessa palhaçada — disse o feiticeiro.

A rainha vacilou diante dele, sem acreditar no que estava vendo, pois Portolanus assumiu sua aparência física normal. O corpo praticamente nu ficou mais alto e robusto, barba e cabelo brancos e brilhantes, e os olhos cinza-azulados incandescentes.

Com o braço erguido ele segurava, bem no alto, o Olho Ardente Trilobado.

A rainha Ganondri parecia uma estátua, apoiada em um só pé, com a adaga em posição de ataque.

Os homens da guarda palaciana congelaram também, sem poder se mexer, a não ser os olhos, que rolavam sem parar, de um lado para outro.

Os acólitos escaparam dos braços de seus captores petrificados e foram correndo providenciar um manto branco para o mestre. O Voz Negra abriu a arca de madeira, respeitosamente tirou de dentro um cinto e uma bainha de espada de couro prateado, que tinha sido feito especialmente para o Olho Ardente Trilobado, e prendeu na cintura elegante do feiticeiro. O Voz Amarela e o Voz Roxa desarmaram os guardas e tiraram o punhal de Ganondri. Depois se afastaram. Portolanus enfiou o talismã na bainha e livrou Ganondri da paralisia com um gesto distraído.

É claro quevocê tinha razão quanto à farsa que montei — disse para a rainha com voz aveludada. — Anigel jamais poderia dar o talismã para você! Enquanto estávamos a bordo, suas prudentes precauções obrigaram-me a ficar quieto. Mas agora o tempo de fingimento acabou... Ledo! Venha aqui!

O jovem rei Ledavardis apareceu, saído de um quarto contíguo, aproximou-se da avó e olhou friamente para ela. Ele segurava cuidadosamente um pequeno objeto com as duas mãos.

Você foi muito esperta, rainha regente — continuou o feiticeiro e pensou que eu tinha caído em uma armadilha da qual não poderia escapar, sem perder a aliança raktumiana. Julgou-se a salvo de qualquerdas minhas maquinações, porque você governa Raktum, e qualquer desfeita da minha parte... um estrangeiro de reputação bem duvidosa!... seria para o seu povo uma ameaça à própria Raktum. Como observou acertadamente, eu realmente preciso da boa vontade de Raktum! Mas, senhora, não preciso da sua... apenas dadele — Portolanus apontou para Ledavardis. — E ele a odeia, por motivos justos e mais que suficientes.

Os olhos verdes da rainha pulavam do rosto impassível do neto para o feiticeiro sorridente, sem parar.

Você não pode me matar!

Portolanus balançou a cabeça afirmativamente.

— Isso é verdade. Nem ouso exilá-la ou trancafiá-la em algum lugar. Felizmente os costumes do seu reino pirata me deram a solução para o dilema. Essas testemunhas — o feiticeiro apontou para os guardas paralisados — estão perfeitamente conscientes. Vou juntar-me a eles para observar e lembrar do que vai acontecer agora.

O feiticeiro olhou para o menino-rei, que chegou perto da avó e mostrou-lhe uma pequena caixa dourada. Com o maior cuidado, ele removeu a tampa. Uma tela bem espaçada de arames bem finos de ouro cobria a abertura da caixa. Ganondri olhou para baixo e soltou um gemido agudo. Seu rosto ficou cinzento. Virando de costas para ela, o rei Ledavardis mostrou o que havia na caixa para todos os guardas paralisados.

Dentro da caixa, uma coisa pequena, escura e gosmenta se levantou. Um apêndice minúsculo passou pela tela, uma espécie de tentáculo com dois ferrões feito agulhas na ponta. Duas gotas de veneno, brilhando como contas de cristal, pendiam das extremidades.

— Vocês sabem o que é isso — disse o jovem monarca corcunda. — Antigamente, quando um corsário do nosso país era acusado de trair seus companheiros, tinha de optar entre declararse culpado e tirar a própria vida ou passar pela prova do shareek. Às vezes o shareek considerava o acusado inocente.

—Não!—sussurrou Ganondri.—Você... você não pode fazer isso com alguém da sua própria família!

— Rainha regente — disse o jovem —, eu a acuso de privarme do trono que é meu por direito. Acuso-a de conspirar para julgarme incompetente, de forma a poder governar Raktum no meu lugar. Acuso-a de assassinar, torturar e aprisionar mais de trezentas almas que eram meus leais partidários... E agora você será julgada.

Ele segurou o pulso direito da rainha e virou a caixa, pondo a abertura com a tela dourada sobre as costas da mão dela.

—- Que o shareek decida seu destino, de acordo com a antiga lei de Raktum, enquanto conto até três. Um...

Silêncio.

— Dois...

As pupilas dos olhos de Ganondri estavam tão dilatadas que não dava para ver as íris cor de esmeralda, era tudo preto. Ela não tentou se debater.

— Três.

Ganondri deu um grito horrível, que não era humano, como de um animal lançado vivo nas chamas. Quando Ledavardis tirou a caixa dourada, os espectadores viram que as costas da mão dela tinham duas pequenas picadas. No mesmo instante a pele em volta das feridas ficou roxa, depois preta. A contusão espalhou-se para os dedos e subiu pelo braço. Ela começou a tremer e a perder o equilíbrio. Quando caiu no chão, no meio das pregas prateadas do vestido e da capa, seus olhos rolaram lentamente para trás, as pálpebras enrugadas estremeceram e se fecharam. A mão que não tinha sido picada assumiu a mesma aparência empretecida e machucada que a outra, e a coloração terrível subiu pelo pescoço e finalmente cobriu todo o rosto. Mas nesse momento a rainha regente Ganondri já não respirava mais.

Vários guardas do palácio emitiram gritos sufocados. O rei Ledavardis recolocou a tampa da caixa dourada bem apertada e guardou o shareek na carteira do cinto. Fez um sinal com a cabeça para Portolanus.

— Homens de Raktum — cantarolou o feiticeiro —, desfaço os grilhões mágicos que aprisionam seus corpos.

O capitão e seus vinte homens gemeram, cambalearam e se espreguiçaram.

— Lembrem-se do que viram! — disse Ledavardis. — Agora, capitão, providencie para trazerem uma liteira e notifique às servas da rainha falecida, para que preparem seu corpo. Teremos um funeral bem modesto... e uma coroação ainda mais modesta.

— Sim, grande rei.

O capitão e seus homens se retiraram.

Ledavardis olhou para a coisa terrível que tinha sido sua avó mais alguns segundos, depois ergueu a cabeça deselegante para encarar pensativo o feiticeiro transformado.

— Você trocou sua forma feia anterior por outra mais agradável aos olhos, Portolanus. Será que posso ter esperança de você conseguir mudar meu corpo infeliz também?

— Esta é minha forma natural — disse o feiticeiro. — A outra era uma ilusão, usada para enganar meus inimigos, para que eles me subestimassem. Lamento dizer que meu conhecimento das artes mágicas não está ainda tão aprimorado para recuperá-lo, grande rei. Mas você é bastante resistente e forte e, se desejar, posso cobri-lo com uma ilusão de beleza máscula.

Ledavardis afastou a idéia com um gesto.

— Não. Não usarei máscara alguma. Meu povo continuará a me aceitar do jeito que sou.

— E você honrará o pacto original acertado entre Tuzamen e Raktum? —perguntou o feiticeiro baixinho. — Ganondri tentou repudiar essa aliança, que fiz de boa fé. Eu a ofereço de novo a você: todas as nações da península e dos mares do sul serão suas, para que as governe, se me conceder a primazia absoluta em todas as questões de magia.

— Incluindo o talismã da rainha Anigel?

— Sim. E futuramente o talismã da Arquimaga Haramis também. Em troca, juro pelos poderes ocultos a quem sirvo, que jamais farei algum mal a você através da magia, pelo contrário, eu o ajudarei e apoiarei todas as suas ambições que considerar legítimas.

— Mas você terá supremacia absoluta — disse o menino-rei, sem emoção na voz.

—Terei. Mas só eu e essas minhas três vozes saberemos disso. É um preço pequeno a pagar. Minhas preocupações se referem a questões muito distantes do governo real e do comércio, assim como as Três Luas estão distantes da superfície do mundo. Serei para você um guia e benfeitor, não um opressor.

Ledavardis fez que sim com a cabeça.

— Muito bem. Aceito seu pacto.

O feiticeiro sacou e segurou bem alto o Olho Ardente Trilobado.

— E por este talismã, que o pacto seja selado... eu lhe dou permissão para tocar nele, apenas uma vez, para confirmar seu juramento.

O suor salpicava atesta áspera do jovem rei. Mas ele esticou o braço e encostou a mão rapidamente nos lobos frios e escuros.

— Pronto! Encostei — ele sorriu aliviado. — Imagino que se eu o traísse, o talismã me mataria.

O belo feiticeiro deu uma risada.

— Digamos que não haveria necessidade de usar o shareek! Mas vamos nos ocupar de assuntos mais agradáveis agora. Onde acha que Ganondri pode ter escondido a coroa do seu falecido pai? Você deve querer usá-la na sua primeira reunião oficial com um soberano reinante.

— E quem é esse soberano? — perguntou Ledavardis.

—Anigel de Laboruwenda—respondeu o feiticeiro. — Se eu invocar meus ventos mágicos, podemos impelir sua lenta flotilha até as estradas de Frangine em três dias. Você pode se permitir darlhe as boas-vindas e devolver-lhe o marido em troca do talismã... Então você e eu vamos nos preparar para tomar o país deles.

O primeiro a desembarcar da nau capitânia laboruwendiana foi Shiki, o dorok, carregando a bandeira azul, dourada e vermelha dos Dois Tronos. A rainha Anigel desceu logo depois dele pela prancha de desembarque atapetada, sem se perturbar com a neve que caía de mansinho, transformando a capital raktumiana de Frangine em um cenário de beleza exótica. Ela trajava o manto real que usara na coroação zinorana, com a magnífica Coroa de Gala de Ruwenda sobre o cabelo dourado. O lorde marechal Owanon e Penapat, lorde tesoureiro, seguiam-na de perto, junto com nobres guarda-costas de armadura completa, segurando espadas enormes para duas mãos na frente do rosto. O lorde chanceler Lampiar e a ministra de assuntos domésticos lady Ellinis vinham depois, de roupas pretas. Todos os outros nobres e cavaleiros que acompanharam a rainha em sua malfadada viagem para a coroação zinorana marchavam em melancólica procissão no fim da fila, com plumas negras em seus capacetes e capas também negras.

O dia em si estava especialmente triste, com nuvens escuras e uma brisa gelada e cortante, que soprava das águas turbulentas do porto, e fazia dançar os flocos de neve. As estações estavam mesmo embaralhadas, mas nenhum cidadão de Frangine parecia se importar. O povo se acotovelava em todas as ruas e passagens, observando a sombria procissão em silêncio.

O rei Ledavardis e seus cortesãos esperavam em uma praça calçada de pedras, subindo a ladeira que partia das docas. Anigel não quis ir até o palácio Frangine. O que tinha de ser feito aconteceria a céu aberto.

Tinham montado um palanque coberto na praça, para o trono do jovem rei. Ele aguardava, cercado pela guarda pessoal de cavaleiros piratas empunhando espadas, e guerreiros com lanças ou alabardas em riste. Ledavardis vestia roupas quentes e suntuosas e uma coroa com centenas de diamantes grandes. Na ponta do cetro ele exibia um diamante do tamanho da mão fechada de um homem, batizado de Coração de Zoto, roubado da casa real de Labornok havia quinhentos anos.

O mestre de Tuzamen, enrolado em uma capa branca com pele na ponta, o capuz bem puxado para a frente para esconder completamente o rosto, estava de pé à direita do monarca. O almirante Jorot, usando a faixa e o emblema de primeiro-ministro, se encontrava à esquerda. A praça estava apinhada de cidadãos raktumianos sarnentos e cheia de estandartes espalhafatosos, que batiam ao vento. Ninguém emitia um som, enquanto os laboruwendianos subiam a ladeira escorregadia e íngreme e se dispunham diante do tablado.

Soaram trompetes quando Shiki ficou de lado com a bandeira e a rainha Anigel aproximou-se do trono. Ledavardis levantou-se e cumprimentou-a cortesmente, baixando a cabeça. Ela fez a mesma coisa.

— Vim pagar o resgate de meu marido e meu filho—disse ela, simplesmente.

— Seu talismã! — exigiu o feiticeiro encapuzado.

Ela não se dignou a olhar para ele e manteve o olhar no rosto pálido de Ledavardis, que transpirava apesar do vento gélido.

—O pagamento será entregue a você, irmão real, quando eu vir meus entes queridos a salvo, aqui comigo.

— Certamente.

” O rei fez um gesto brusco e o grupo compacto de homens armados que estavam à direita do tablado se afastou. Anigel não conseguiu evitar uma exclamação plangente ao ver uma jaula dourada, toda pintada. O capitão da guarda palaciana destrancou a porta e curvou-se respeitosamente quando Antar saiu lá de dentro, seguido pelo pequeno Tolivar. Os dois estavam esplendidamente vestidos, envoltos em capas magníficas de pele dourada de worrarn, com algemas e correntes cintilantes de platina maciça em torno de seus pulsos enluvados.

A expressão de Antar era de tristeza resignada. Tolo estava carrancudo. Pai e filho foram escoltados pelo capitão até o trono e alguém entregou uma chave de platina para Ledavardis.

Ele a ofereceu para Anigel.

— Madame, pode libertar os prisioneiros.

— O talismã! — rosnou o feiticeiro.

Ledavardis fez que não ouviu. Anigel ficou ali parada, olhando fixo para o marido, com um misto de desafio e dor nos olhos, então o próprio jovem rei abriu primeiro as algemas de Antar, depois as do menino.

— Vão. Vocês estão livres.

O rei de Laboruwenda segurou a mão pálida e sem luva da mulher e beijou-a carinhosamente, depois postou-se ao lado do seu velho amigo, o lorde marechal.

Anigel pegou uma bolsa de renda dourada que estava pendurada na sua cintura e abriu. Tirou dela a fina tiara prateada chamada de Monstro de Três Cabeças e ofereceu-a com mãos trêmulas. Antes de Ledavardis poder pegá-la o feiticeiro deu três grandes passos para a frente.

— Ledo! Cuidado! Ela pode ter dado uma ordem para que ele o mate!

Anigel balançou a cabeça, desanimada.

— Eu não faria mal a ele.

O pequeno Voz Negra saiu de trás do trono carregando a caixaestrela. Com um sorriso malicioso, pôs a caixa aos pés de Anigel e abriu a tampa. Então o feiticeiro falou.

— Madame, ponha o talismã aí dentro.

Anigel ajoelhou na neve pisoteada e fez o que o feiticeiro pediu. Fez-se um clarão ofuscante, o jovem rei se encolheu e os guardas gritaram e brandiram suas armas, enquanto a multidão de cidadãos raktumianos maltrapilhos berrava e vociferava impropérios. Anigel apenas chegou um pouco para trás, aparentando indiferença.

— Não tenham medo! — disse o feiticeiro, enfiando a mão rapidamente na caixa, com um gesto de prestidigitação.

Um segundo depois ele se endireitou, jogou o capuz para trás, prendeu a tiara talismã na testa e sacou o Olho Ardente Trilobado do cinto. Já não tinha mais barba e o cabelo branco e longo ondulava ao vento. O rosto tinha marcas de sofrimento, mas era muito belo. Coroado com o talismã de Anigel e segurando o de Kadiya bem alto sob a neve que caía, deixou sua aura de poder envolvê-lo. Com isso a rainha finalmente reconheceu o velho inimigo que quase a destruiu e às irmãs, quando eram jovens.

— Orogastus! — ela gritou. — Então é mesmo você. Ah, seu canalha desprezível... que os Senhores do Ar lhe dêem o castigo que merece por roubar os dois talismãs!

Ele sorriu com ar de superioridade para a rainha atônita. A tiara adquiriu uma estrela cheia de pontas na frente, onde ficava o trílioâmbar da antiga proprietária.

— Roubar?Não, você está sendo injusta comigo, madame. Um talismã é meu pelo direito de tê-lo encontrado e recuperado, o outro foi dado livremente como pagamento de resgate, de acordo com as leis da grande Raktum. E no caso deste último, você foi amplamente recompensada. Abra sua mão! Seu marido e rei não foram a única coisa que você recuperou.

Anigel ficou olhando em silêncio para o amuleto brilhante que tinha na palma da mão. Uma minúscula flor vermelha cintilava no coração do âmbar.

— Diga para sua irmã Haramis que estarei à sua espera—disse Orogastus, continuando a sorrir. — E agora, seria melhor se você e seu grupo zarpassem para Derorguila. Essa nevasca logo será uma ventania de noroeste, que vai empurrá-los convenientemente para casa... Venha, Tolo.

Ele deu meia-volta. O pequeno príncipe Tolivar, que ficara o tempo todo de cara amarrada, alegrou-se.

— Eu posso, mestre? Posso ficar com você?

— Se você quiser — disse o feiticeiro, olhando para trás.

Eu quero!

— Tolo, não! — exclamou a rainha.

— Você gostaria de carregar a caixa-estrela para mim? —. Orogastus perguntou ao menino, ignorando a súbita expressão de desapontamento do Voz Negra.

— Ah, quero!

O pequeno príncipe arrancou a caixa do acólito furioso e segurou-a bem alto, como um troféu, para que todos vissem.

— Tolo! — Anigel não disfarçava mais o choro. — Você não pode ir com esse homem terrível! Como pode pensar em uma coisa dessas? Venha comigo, meu pobre menino!

O príncipe Tolivar, de pé ao lado do alto feiticeiro, não disse nada, só olhava para ela no meio da neve que caía com mais intensidade.

— O menino pode fazer o que quiser — declarou o rei Ledavardis. — A escolha é dele.

— Antar! — gritou a rainha, impotente. — Fale com seu filho!

— Já falei — a expressão do rei de Laboruwenda era de desesperança. Ele segurou um braço da mulher, quando ela percebeu a verdade e perdeu um pouco o equilíbrio, e Owanon segurou o outro. —Venha, minha querida. Não há nada mais que possamos fazer agora.

A rainha Anigel não disse mais nem uma palavra enquanto a reconduziam para o navio, chocada, chorando copiosamente, seguida pelo grupo de cortesãos abatidos.

Em meia hora soltaram as amarras, os remadores livres de Laboruwenda atacaram seus remos e começaram a impulsionar os quatro navios para o mar aberto, de volta para casa.

Um desenho de raios prismáticos de luz formou-se na mente de Haramis feito uma imagem da trama auroreal. Era como se controlasse aqueles fachos de luminosidade dia após dia, fazendo com que aparecessem imagens concretas sob o estímulo da Arquimaga do Mar. Pensou em um minúsculo castelo cristalino e ele surgiu, depois solidificou-se e tornou-se real diante de seus olhos. Ela o fez sumir e ordenou aos raios de luz que formassem um corcel encilhado. Um fronial materializou-se na sua frente, uma criatura que cintilava, lapidado em arco-íris. Virou um animal de carne e osso, e ficou olhando para ela espantado, balançando os chifres, até ser dispensado e desaparecer no vazio de onde tinha vindo. Haramis criava coisas e mais coisas... e lugares também, pois quando bem dirigido, o Círculo das Três Asas era um duto mágico, que transportava seu dono para qualquer lugar em um piscar de olhos. Mas Iriane só permitia que sua aluna viajasse para as partes áridas e desabitadas do mundo, que ela mesma escolhia. Eram lições difíceis que Haramis aprendia, e não podia se distrair vendo gente ou até mesmo locais conhecidos.

No início daquela parte do aprendizado, as coisas cintilantes que ”criava” e os lugares que desejava visitar muitas vezes eram mal invocados e as visões de cristal não se tornavam realidade. Mas com a ajuda de Iriane, Haramis afinal aprendeu a controlar o poder criativo e obteve êxito, na maioria das vezes. Naquele momento estava se saindo muito bem. Se ao menos pudesse evitar as crises de excessiva confiança, talvez conseguisse dominar aquele seu talismã!

— Ainda falta muito para você dominá-lo — lembrou Iriane mordaz. — Mas já não é mais a completa ignorante que chegou aquele dia ao meu iceberg!... Tome cuidado para não ficar arrogante ou imprudente, e poderá cumprir seu dever com distinção.

— Tomara que sim — disse Haramis, com toda a humildade que tinha.

A fantástica paleta de luzes coloridas e flexíveis foi perdendo o brilho e sumiu na escuridão. Haramis se viu de volta à câmara de meditação, ajoelhada, com os joelhos doendo. A Arquimaga do Mar levantou do banquinho em que estava, espreguiçou e bocejou.

—Ah, como estou cansada, menina... e faminta. Venha, vamos comer. Tenho um ótimo cozido de sucbri esta noite, recém-chegado do pântano Verde da sua terra nativa, e tortinhas de amoras, que também reconhecerá e achará deliciosas. Haramis levantou-se com esforço, arrumando a capa branca de Arquimaga que usava.

— Acho que não serei capaz de comer muito, estou cansada Demais. Só consigo pensar em dormir! Se você não fosse uma tutora tão exigente e me deixasse ficar mais tempo na cama...

— Esta noite você pode dormir quanto quiser. Sua instrução chegou ao fim.

Haramis soltou uma exclamação de apreensão.

— Mas ainda não aprendi realmente a controlar a alta magia. Iriane fez um gesto de dispensa com a mão e levou a aluna para um dos corredores do aquário.

—As trinta noites da sua visita terminaram. Agora não há mais nada que eu possa ensinar para você. Você já controla muito mais magia do que eu conheço, com e sem seu talismã. O resto você Aprenderá com o tempo.

— Mas como pode ser?...

— Acredite.

O rosto bondoso e redondo de Iriane, com suapalidez levemente azulada, espelhava um sorriso doce e enigmático. As duas mulheres caminharam pelo corredor brilhante e transparente e chegaram à penumbra agradável da sala, que continha o mural vivo do mar.

— Desde o tempo dos Desaparecidos — continuou Iriane —, nenhuma outra Arquimaga além de você possuiu um pedaço do Cetro do Poder, nem soube tanto a respeito de sua utilização. Os Desaparecidos tinham medo do cetro, mas você não pode se dar ao luxo de temê-lo. Agora você tem uma enorme responsabilidade, de exercer seu poder mágico para recuperar o equilíbrio perdido do mundo, e para garantir que as outras duas partes do cetro não sejam usadas para o mal.

Haramis procurou esconder a profunda apreensão que sentia. Sentou-se à mesa de jantar, e Iriane foi buscar a comida, preparada de uma maneira misteriosa que Haramis nunca quis saber. Quando a Arquimaga do Mar voltou com os pratos saborosos, Haramis só comeu uma provinha de cada um.

— Não é só porque estou cansada — disse ela, respondendo à reclamação de Iriane.—Também tenho um terrível pressentimento... Posso me comunicar com minhas irmãs?

— Você não precisa mais da minha permissão para nada, Arquimaga da Terra — disse Iriane solenemente. — Mas responderei à pergunta que maltrata seu coração. Sim, o talismã chamado de Monstro de Três Cabeças foi dado como pagamento do resgate do rei Antar. Agora pertence ao feiticeiro Orogastus e está associado a ele.

—Meu Deus...era o que eu temia! Por que não me contou o que estava acontecendo? Eu poderia ter evitado que ela fizesse isso!

Iriane estava muito serena, mordiscando uma tortinha de amora.

— Você não teria conseguido fazê-la parar. E interrompê-la em um ponto crítico do seu aprendizado ia perturbar sua concentração e causar um prejuízo irreparável, justamente quando afinal começava a pegar o jeito da coisa.

Haramis ficou de pé, aflita e irrequieta.

— Se Orogastus tem dois talismãs, e eu só tenho um, ele não levará vantagem sobre mim?

— Só se ele adquirir tanto conhecimento sobre os talismãs dele quanto você do seu. Mesmo assim, o seu é a chave do Cetro, conforme já lhe disse.

— Minhas irmãs tiveram a oportunidade de usar seus talismãs para matar, mas acho que o fizeram acidentalmente, sem querer de verdade. Imagino que Orogastus também possa provocar mortes sem querer. Mas será que poderá me matar deliberadamente?

Iriane balançou a cabeça.

— Até agora ele não possui suficiente conhecimento de ocultismo, para causar em você um dano mortal de propósito com seus talismãs.

— Mas... e eu, tenho o poder de matá-lo?

— Nenhum Arquimago pode deliberadamente causar a morte de outra criatura pensante. Não sei se você seria capaz de matá-lo por meios indiretos. Essa informação não estava nos meus livros de referência. Os Desaparecidos tinham de ser muito ponderados sobre essas coisas. Denby diz que não sabe também, mas pode estar mentindo. Provavelmente existe apenas um lugar onde você pode descobrir isso. O antigo Lugar do Conhecimento, onde os Desaparecidos mantinham sua maior universidade. Os Homens da Estrela tentaram destruí-lo com uma arma terrível, logo antes de o herói Varcour conseguir derrotá-los e expulsá-los. Os prédios que ficavam acima da terra ruíram, mas ainda há um labirinto de estruturas subterrâneas, guardado por seres inumanos chamados de sindonas.

Já sei sobre as sindonas e sobre o Lugar do Conhecimento. Minha irmã Kadiya obteve seu talismã lá, e estava voltando para esse lugar na última vez que falei com ela. Há uma certa sindona que se chama a Mestra...

Eriane fez que sim com a cabeça.

Vá encontrá-la. Pode ser que ela saiba lhe dizer mais sobre o Cetro. Foram as sindonas que ficaram encarregadas de dividi-lo e de esconder as três partes, há mil e duzentos anos. Como não são feitas de carne e osso, dizem que não seriam tentadas a guardar o talismã para uso próprio, nem partilhar seu conhecimento sobre ele com os indignos.

Haramis sentiu um calafrio e puxou a capa branca para cobrila melhor.

Iriane, você se importaria muito se eu fosse imediatamente para o Lugar do Conhecimento?

A Arquimaga do Mar limpou os lábios com um guardanapo azul e levantou-se da mesa.

Claro que não. Mas tem uma coisa que é bom levar com você - ella foi até a bancada de trabalho no canto da sala. —Lembra que eu contei como Orogastus escapou da morte e foi enviado para o Kimilon Inacessível?

Por meio de um artefato que disse ter o nome de cynosure.

— Exatamente! E aqui está ele.

A Arquimaga estava remexendo no monte de objetos estranhos que coalhava na bancada, e mostrou um hexágono com menos de meio metro de largura, feito de algum metal escuro. No centro havia uma estrela raiada.

Recuperei isso secretamente do Kimilon, logo depois que Orogastus chegou lá, inconsciente. Ele nem sabe que existe. Mantive o cynosure aqui desde então, para garantir que não seria usado com más intenções.

Haramis ficou olhando para ela, sem entender.

— Você quer dizer que era para Orogastus não usar isso, a fim de escapar do Kimilon?

— Não, não... deixe para lá! — Iriane estava estranhamente nervosa. — Lembre como funciona. Se um dos Homens da Estrela estiver em perigo, ou se o feitiço de sua alma se voltar contra ele, através do Cetro do Poder (e é assim que o Cetro mata), esse cynosure atrairá a vítima alvo para ele, antes de surgir o fogo purificador, salvando sua vida.

A Arquimaga do Mar deu o fino hexágono para Haramis.

— Mas o que farei com ele? — perguntou Haramis, intrigada.

—Para começar, mantenha-o longe dele—disse Iriane enfática. — Se ele por acaso puser suas mãos nisso e descobrir sua função, ficará praticamente invulnerável! Talvez a Mestra conheça um esconderijo seguro. De qualquer forma, o cynosure está sob sua inteira responsabilidade agora, e deve se encarregar dele.

— Mas não seria mais fácil simplesmente destruí-lo?

— Tente — provocou a Dama de Azul. — Eu tentei e resistiu a todos os meus esforços! Mas quem sabe você, com seus poderes do talismã, terá melhor sorte.

Haramis ordenou para que o cynosure ficasse suspenso no ar diante dela. Ele obedeceu. Então ela ordenou que se dissolvesse, visualizando sua cópia cristalizada virar uma poeira brilhante.

A coisa continuou a flutuar na penumbra azulada, intacta. Haramis tentou novamente destruí-lo, mas o objeto teimava em ficar inteiro, a estrela piscando no centro.

— Está vendo? — disse Iriane encolhendo os ombros. — Esse emblema de estrela passa uma magia muito resistente. Terá de descobrir algum outro modo de dispor dele.

Haramis pegou o hexágono no ar.

— Talvez a Mestra do Lugar do Conhecimento apresente alguma sugestão... Mas agora tenho de ir.

As duas mulheres, a alta de cabelo preto e vestida de branco, a outra roliça, coberta de mantos azuis, olharam uma para a outra, em silêncio. Então Iriane segurou as duas mãos de Haramis, puxou-a para baixo e deu-lhe um beijo estalado na testa.

— Não se esqueça de mim, querida Haramis, Arquimaga da Terra. Serei sempre sua amiga e irmã no dever. Se algum dia estiver em uma situação de extremo perigo, pode me chamar que eu farei o que puder.

— Obrigada pelo que já fez — disse Haramis abraçando a amiga. — Espero que nos encontremos de novo, em um dia mais feliz.

Ela se afastou, com o cynosure sob o braço esquerdo. Com a mão direita agarrou o talismã. Acenando com a cabeça uma última vez, desapareceu.

Iriane suspirou e balançou a cabeça. Então chamou Grigri, voltou para a mesa e dividiu o resto das tortinhas com ele.

O tom musical que denotava viagem pelo espaço soou na mente de Haramis. Viu por um breve segundo uma cena que parecia esculpida com diamantes cintilantes... que depois tornou-se real. Estava em uma câmara muito iluminada, especialmente silenciosa. Virou para trás e viu uma piscina profunda, cercada por um muro baixo de mármore branco. O pavimento sob seus pés era de cerâmica azul metálico. Do outro lado da piscina havia uma escadaria de mármore subindo na direção da origem da luz. Dos dois lados da escada, em cada largo degrau, havia fileiras de estátuas.

As sindonas.

Haramis aproximou-se do primeiro par. Eram bem mais altas que ela, mas pareciam imagens de machos e fêmeas humanos, criadas por um exímio escultor. Seus corpos não tinham vestígios de pêlos, poros, rugas ou manchas. Eram perfeitamente lisos, todos cor de marfim, pareciam osso polido. Os olhos escuros das sindonas eram como pedras incrustadas, e dentro das pupilas espreitava aquele brilho dourado que Haramis associava aos Desaparecidos. Os rostos pálidos e serenos eram cobertos pela sombra de elaborados capacetes, com os visores abertos. Esses capacetes e três cintos, dois cruzados sobre o peito e um na cintura, eram tudo que as cobria. Os cintos e capacetes tinham pequenas escamas brilhantes em vários tons de azul e verde-água. Escamas douradas bordeavam esse vestuário e formavam desenhos elegantes.

Haramis tocou em uma das estátuas com o talismã e na mesma hora os lábios esculpidos se abriram e falaram, com um tom retumbante que mais parecia o som de um instrumento musical, e não a voz humana.

— Bem-vinda ao Lugar do Conhecimento, Arquimaga. O que deseja?

— Consultar a Mestra — respondeu Haramis.

A sindona meneou a cabeça e ergueu uma mão para apontar para a escada. Embora estivesse se movendo, continuava rija como pedra, e Haramis ficou maravilhada com a genialidade dos seus criadores.

— A Mestra está à sua espera no jardim de cima, Arquimaga. Por favor, suba.

— Obrigada — disse ela, subindo lentamente os grandes degraus, estudando os seres inumanos enquanto avançava. Cada um deles tinha feições um pouco diferentes dos outros. Não eram meras máquinas, nem criaturas de carne e osso, mas algo intrinsecamente diverso.

— Por que vocês foram criados? — perguntou.

— Para servir — muitas vozes responderam suavemente e o som era de tirar o fôlego, como um doce acorde de uma grande orquestra. — Somos as sentinelas, os mensageiros e os portadores. Alguns de nós também ensinam, outros são consoladores e outros tiram a vida de acordo com a Sentença de Morte.

— Vocês matam?

— Algumas sentinelas possuem essa habilidade.

— Meu Deus! — murmurou Haramis, subindo mais depressa. Idéias novas e espantosas esvoaçaram em sua mente como borboletas cintilantes. Será que aquelas estranhas sindonas podiam ser aliadas dela contra o malvado Orogastus?

— Fomos criados para lutar contra a Estrela — disse a sindona que parecia ler os pensamentos de Haramis. — Muitos de nós sucumbiram na primeira vitória contra a Estrela séculos atrás. As sindonas que restaram defendem o Lugar do Conhecimento.

Haramis parou de repente, tendo uma grande idéia.

— E vocês me seguiriam, se eu ordenasse que mais uma vez defendessem o mundo da ameaça de um Homem da Estrela de antigamente?

— Só todo o Colegiado de Arquimagos poderia determinar uma nova tarefa para nós — lamentaram as sentinelas imóveis.

Haramis viu sua idéia nascer morta, junto com a esperança que havia gerado. O Colegiado inteiro? Mas estavam mortos há muito tempo!... Bom, era apenas uma idéia.

Ela chegou finalmente a uma área aberta radiante, onde caminhos brancos se intercalavam com exuberantes canteiros de flores, arbustos floridos e graciosas árvores ornamentais. Aqui e ali havia pequenos lagos dispostos como jóias, no meio de áreas manicuradas de grama aparada, e deles fluíam riachos com pontes exóticas por cima, feitas de mármore. Pontilhando o verde se via bancos de jardim, também de pedra branca, grutas rodeadas de flores, belvederes abertos e caramanchões cobertos de trepadeiras, carregadas de frutos. Um dos caminhos parecia chamar Haramis, e ela o seguiu até um belo mirante com teto abobadado, apoiado sobre elegantes colunas. Em toda a volta havia arbustos cobertos de flores roxas, brancas e cor-de-rosa que deixavam o ar perfumado.

Mas não havia insetos procurando néctar, nenhum pássaro cantando nas árvores, nenhum animal pequeno correndo por ali, roubando as frutas. A paisagem era extraordinariamente quieta, a não ser pelo gorgulho dos pequenos riachos e o suave roçar das folhas com a brisa. Haramis olhou para o céu ofuscante e viu que não tinha nuvens... nem sol. Lembrou de repente que Iriane tinha dito que o Lugar do Conhecimento ficava embaixo da terra...

— Será que é mesmo verdade? — perguntou em voz alta. Haramis se abaixou para examinar um canteiro com vários tipos de flores, de muitas cores misturadas ao acaso e não reconheceu nenhuma. As silhuetas das árvores também eram desconhecidas e até o gramado era de uma grama exótica, estranhamente fina e tão densa e fofa quanto um tapete. Cada lâmina tinha as bordas lisas, em vez de serrilhadas, como todas as gramíneas que ela conhecia...

— Salve, Filha da Trindade.

Haramis se assustou com o som daquela voz, pois possuía uma modulação humana. Levantou os olhos da grama e viu que uma mulher estava indo ao seu encontro, saída do belvedere.

Uma mulher? Não, não exatamente. Por mais que tivesse estatura normal e usasse um vestido de gaze de cor clara. Os braços nus e o rosto brilhavam com aquele branco marmóreo inumano, e sobre sua cabeça havia um capacete bem justo dourado, moldado para parecer cabelo curto e encaracolado. Ela, como as nobres sentinelas, era uma sindona.

— Eu sou a Mestra—disse ela, com um sorriso impassível no rosto, que continuava duro feito pedra. — Estou à sua disposição, Arquimaga Haramis.Porfavor,acompanhe-meaté aquele belvedere, onde poderemos sentar à sombra, e você poderá fazer as perguntas que quiser.

Haramis seguiu a Mestra pelo caminho. Dentro da pequena estrutura abobadada havia uma mesa de mármore branco e duas cadeiras de vime com almofadas de veludo castanho-avermelhado. Em cima da mesa uma jarra de cristal com um líquido cor-de-rosa e um único cálice com bolas de gelo até a metade. A Mestra fez um gesto indicando a cadeira para Haramis, serviu a bebida no copo com gelo e deu o cálice tilintante para ela.

— Você pode achar estranho este modo de servir suco de frutas, mas nossos antigos governantes, os Desaparecidos, gostavam muito.

—- Obrigada por sua cortesia, Mestra.

Haramis bebeu um gole. A sensação incomum do gelo tocando seus lábios, junto com o suco gelado, era deliciosamente refrescante. A idéia fútil de procurar uma máquina de fazer gelo no meio dos artefatos antigos da caverna do Gelo Negro, quando finalmente voltasse para casa no monte Brom, surgiu espontaneamente...

Relembrando a seriedade da situação, Haramis olhou para o rosto calmo da Mestra e começou a questioná-la.

— É verdade que você e os outros da sua espécie foram criados pelos Desaparecidos, e que não estão vivos de verdade?

— Fomos feitos pelos membros do primeiro Colegiado de Arquimagos. Estamos vivos, mas nossas vidas não são iguais às dos seres com alma como os humanos e os povos. Não parimos. E quando morremos, nossos espíritos se misturam com os dos que ainda vivem. Eu sou a única Mestra viva agora, mas dentro de mim residem os espíritos de duzentos Mestres menos longevos. Quando eu morrer, devo passar para uma sentinela, portador, mensageiro ou consolador, e partilhar seus deveres. E assim será até sobrar apenas uma única sindona, e com a morte desta estaremos finalmente extintas, como a última brasa de uma grande fogueira, desaparecendo em forma de cinza.

Quantas... quantas sentinelas ainda existem? — perguntou Haramis.

Trezentas e vinte e uma E há dezessete servidores, doze portadores, cinco mensageiros e dois consoladores. Mas esses últimos moram com o Arquimago do Céu e não podem servir aos da terra ou do mar sem a permissão dele.

Esse Arquimago do Céu!—Haramis estava muito interessada — O que pode me dizer sobre ele? Minha amiga, a Arquimaga do Mar, disse que o nome dele éDenby, e só explicou que ele é um personagem distante, que não tem muito a ver com os assuntos aqui do mundo. Mas parece-me que se ele é um verdadeiro Arquimago, então é seu dever proteger e aconselhar a humanidade. Se eu pedir, ele pode me ajudar?

Eu não sei. Não posso revelar nada sobre ele sem sua autorização expressa... e ele não dá essa autorização. Nem está disposto, atualmente, a se envolver nas questões da terra e do mar. Pelo menos é o que diz.

Haramis olhou bem para a Mestra.

Você acabou de consultá-lo a esse respeito?

Sim.

Haramis ficou aborrecida. Outra esperança desfeita! Será que não havia ninguém para juntar-se a ela na luta contra Orogastus?

Há sim — respondeu a Mestra, inesperadamente. — Seres humanos e do povo, as sindonas e arquimagas, as plantas e os animais do mundo, o ar, a água, as pedras e os bólidos do firmamento... todos podem responder ao seu pedido de ajuda se for bem-feito, na hora certa.

— Você pode me ensinar a pedir esse tipo de ajuda?

— Sinto muito. Esse é um conhecimento que só você pode descobrir. Seu talismã deve esclarecer isso.

— Compreendo. — Haramis estava ficando bastante aflita, mas foi adiante com as outras perguntas. — Diga, por favor, se Orogastus leva vantagem sobre mim já que possui dois talismãs do Cetro do Poder, e eu apenas um?

— Orogastus não leva vantagem... a não ser quanto aos seus dons naturais.

Surpresa, Haramis exclamou.

— Quer dizer que ele é mais inteligente que eu?

— Não é mais inteligente. Ele é mais sábio e tem mais experiência, e sua mente funciona com mais frieza e mais lógica, porque ele é devoto dos poderes ocultos. Mas você, oh Arquimaga da Terra, tem um potencial maior, por ser a Filha da Trindade.

— Minhas irmãs... mas as flores delas ficaram vermelho sangue.

— Quando os amuletos das duas tiverem o Trílio Negro de novo em seus corações, elas serão mais uma vez capazes de feitos grandiosos e altruístas. E poderão juntar-se a você como Filhas da Trindade, Pétalas do Trílio Vivo. Até lá, estão relegadas à massa dos não iniciados.

Haramis fez que sim com a cabeça.

—Então Orogastus e eu somos essencialmente iguais no poder mágico?

—Não é exatamente assim. Mas com duas partes do Cetro do Poder presas à Estrela e um à Flor, o mundo jamais terá equilíbrio e correrá grande perigo, até os talismãs que estão imerecidamente com Orogastus serem tirados dele e as Três Pétalas do Trílio Vivo ficarem juntas para virar seus poderes ocultos contra ele mesmo.

— Mas como vamos fazer isso?

— Não posso aconselhá-la quanto a isso. O modo depende demais do acaso. No entanto eu acho que a realização disso não vai envolver alta magia, e sim algum ato mais humano.

— Você não pode me ajudar, para eu descobrir a melhor maneira de superar Orogastus? — implorou Haramis. — Será que, de alguma forma... eu posso convertê-lo de seus poderes ocultos?

—O amor é permissivo—disse a Mestra misteriosamente. — Devoção não é. Quanto à conversão, não possuo essa informação. Ele faz parte da Estrela, e seus antecessores se mantiveram fiéis às suas crenças malévolas até a morte. Não conheço o coração de Orogastus.

— Nem eu — murmurou Haramis. — Mas também não conheço o meu coração, valha-me Deus! — lamentou-se ela, mas logo em seguida deixou de lado aquela perigosa crise de autopiedade que ameaçava distraí-la do seu propósito e voltou à calma e objetividade. — Mestra, quando eu sair daqui, sei que minha irmã Anigel pedirá ajuda para defender seu país contra os bandidos invasores. Eu já descobri que uma enorme flotilha de navios de guerra em breve zarpará de Raktum. Orogastus e o rei Ledavardis planejam sitiar a capital do norte de Laboruwenda. Avisei minha irmã, a rainha Anigel, do perigo que está correndo, e ela implorou para que eu use meus poderes mágicos para ajudá-la. Pode me dizer se o mais sábio a fazer é ir imediatamente em seu auxílio ou se devo concentrar-me exclusivamente no problema de Orogastus e dos talismãs?

— A sua preocupação mais premente — disse a mulher sindona—não é Anigel, e sim sua outra irmã, Kadiya, que veio aqui há alguns dias, consultar-me sobre uma maneira de evitar que a rainha Anigel entregasse o talismã. Quando eu disse a Kadiya que o resgate de Antar certamente seria pago, ela ficou fora de si de tanta raiva. Aconselhei-a a fazer as pazes com Anigel e a ficar à sua disposição, Haramis. Esse conselho Kadiya rejeitou imediatamente. Agora ela está a caminho de uma aldeia aborígene no alto do rio Mutar. Quando chegar lá, vai tentar se juntar ao valente pequeno uisgu do inferno espinhento e ao pântano dourado que a cerca. Também planeja pedir ao uisgu para mandar um chamado para os nyssomus, os wyvilos e os glismaks, e até mesmo espera convencer os abomináveis skriteks a defender sua causa. Quando reunir uma grande horda dos povos, Kadiya, a Dama dos Olhos, espera poder dominar toda Ruwenda e transformá-la no lar inviolável dos aborígenes.

—Ela entraria em guerra com os habitantes humanos de lá?— quis saber Haramis, horrorizada. — Ah, não! No momento em que os Dois Tronos precisam socorrer Var de um lado e se defender de Raktum e Tuzamen do outro...

— Kadiya calcula que essa situação instável aumentará suas chances de vitória.

— Ah, aquela tola impetuosa!... Imagino que tenho de impor-lhe algum juízo. E depois ver o que posso fazer para ajudar Anigel e Antar. Então terei tempo para tratar de Orogastus...

— Arquimaga, você ainda não compreendeu! Você não pode fazer absolutamente nada para derrotar o Homem da Estrela, sem que Kadiya e Anigel fiquem por inteiro ao seu lado.

— Pela Flor, eu devia saber! — Haramis fechou as mãos e abaixou a cabeça, de forma que o capuz da capa do seu ofício escondia a frustração e angústia que se apossavam dela.

Elas eram inevitavelmente Três. Eram Uma para sempre. Seu talismã e os recém-adquiridos poderes mágicos de Arquimaga não poderiam derrotar a Estrela.... só o Trílio Negro Vivo.

Afastou aquelas emoções e mais uma vez encarou o olhar paciente e inumano da Mestra.

— Obrigada. Agora sei o que tem de ser feito. Vou encontrar Kadiya imediatamente.

Ela se levantou da cadeira de pedra e deixou cair no chão de mármore do belvedere o prato hexagonal que se chamava cynosure. Tinha esquecido completamente dele.

— Com certeza você sabe o que é isso — disse Haramis, abaixando para pegar o prato. — Pode me dizer se é possível destruí-lo?

— Você não poderia fazer isso. Nem as sindonas. Só o Conselho da Estrela pode, ou o Colegiado de Arquimagos completo.

De novo um beco sem saída! Haramis comprimiu os lábios, aborrecida.

— Então diga qual é a melhor forma de me livrar do cynosure, para que Orogastus não possa usá-lo novamente para escapar do castigo por seus crimes.

Pela primeira vez a Mestra hesitou antes de responder.

— Se você o jogasse no fundo do mar, ou dentro de um vulcão ativo, ou o deixasse cair no meio de um precipício glacial, aquele que fosse atraído por ele pelo revertério da magia morreria, não seria salvo.

Haramis sentiu um aperto na garganta.

— Eu esperava... que você conhecesse um lugar em que eu pudesse deixar o cynosure, para aprisionar Orogastus vivo. Talvez aqui mesmo, nessa fortaleza de magia poderosa, onde as sentinelas poderiam guardá-lo e evitar que fosse encontrado pelos acólitos dele.

A Mestra hesitou de novo.

— Há apenas um lugar que pode servir. Siga-me.

Ela saiu apressada por um dos caminhos. Haramis foi atrás, quase correndo, apertando o cynosure embaixo do braço. As duas chegaram a um bosque de chorões de folhas verde-claro, e embaixo deles havia um grande jardim de pedra, enfeitado com plantas exóticas que cresciam à sombra. As flores tinham formas bizarras e as cores eram artificialmente vívidas, quase luminosas no meio de todo aquele brilho verde.

Do outro lado das pedras havia um buraco escuro no chão, cercado por um círculo de grandes pedras brancas.

A Mestra apontou para o buraco.

— Esse é o abismo do cativeiro. O único acesso é por um poço subterrâneo com paredes íngremes e lisas como vidro, repleto da mais poderosa magia do Lugar do Conhecimento. Durante as guerras entre os Homens da Estrela e nossos governantes, os Desaparecidos, alguns prisioneiros eram postos em uma caverna na base do poço pelo Colegiado de Arquimagos, até serem julgados e receberem clemência ou pena de morte, nas mãos das sentinelas da sentença de morte.

— Parece o lugar perfeito! — disse Haramis, aliviada. — Mas será que segura Orogastus?

— Se ele estiver sem os potentes talismãs, sim. Ele pode sobreviver indefinidamente no abismo do cativeiro sob nossa guarda.

— Vou inspecionar o lugar — disse Haramis — e se for tão adequado quanto você está dizendo, deixarei o cynosure lá.

A Mestra concordou, balançando a cabeça.

— Tem mais alguma pergunta para mim, Arquimaga?

Haramis sorriu tristemente.

— Só uma, e já estou perdendo a esperança de obter a resposta um dia. É magia verdadeira ou alguma ciência antiga que gera o poder do Trílio Negro e do Cetro Triplo?

— É magia.

— Ah... E o que é magia?

— É uma coisa que dá veracidade e beleza à realidade, que une em um só os universos mental e físico.

— Eu... eu vou pensar nisso — disse Haramis.

Ela pôs a mão no peito e tocou na varinha do Círculo de Três Asas que levava pendurado no pescoço em uma corrente de platina. No meio das minúsculas asas prateadas, o amuleto de âmbar com a Flor negra no centro brilhava muito.

— Não tenho mais perguntas por hora, Mestra. Obrigada por me ajudar.

A mulher sindona fez uma mesura formal, deu meia-volta e foi caminhando entre as árvores sem dizer nada.

Haramis pediu para o talismã.

Leve-me para o fundo do abismo do cativeiro.

O sino soou. A imagem cristalina que já estava ficando familiar existiu por um momento, depois virou realidade. Ela estava em uma vasta caverna, excessivamente quente e úmida. Parte do teto era rocha sólida, cheia de estalactites que pareciam cones e pilares de pedra transparente. O resto da área lá em cima era um vazio negro, no meio do qual uma estrela infinitesimal piscava fraquinha. Haramis percebeu logo que aquilo era o poço que dava na superfície e a luzinha marcava a longínqua abertura superior do abismo.

Uma luz bruxuleante vermelha iluminava o lugar, partindo de cantos e fendas obscuras. Haramis aproximou-se de um nicho radiante e espiou lá dentro. Viu uma outra caverna, bem menor e mais profunda, cujo chão era um rio de magma incandescente. Afastou-se e explorou rapidamente o próprio abismo, encontrando piscinas escuras e muitas formações curiosas de rochas. Também havia vestígios da presença humana. Círculos enegrecidos na pedra, onde fizeram fogueiras para cozinhar, jarras de barro quebradas, pratos, lampiões a óleo, catres embolorados e um livro que virou poeira quando ela se arriscou a tocar nele.

E em uma parede mais lisa que as outras, desenhada com um graveto queimado, a estrela raiada.

Não havia mais nenhum outro traço daqueles prisioneiros de doze mil anos atrás. Será que algum terminou sua vida ali? Haramis deixou sua visão vagar mais além. Viu que a câmara da prisão era enorme, com muitas alcovas e sinais de que tinham sido o espaço particular de algum indivíduo. Mas não havia ossos nem marcas de túmulos. Mesmo assim Haramis rezou por aqueles que viveram e sofreram naquela terrível penitenciária, apesar de terem merecido o castigo. E contemplando aquele sofrimento antigo, acabou lembrando dos seus problemas. Estava sozinha naquele abismo tenebroso, rezando também por si mesma.

— Meu Deus, dê-me a força e a sabedoria de que preciso para vencer Orogastus! Eu quase sucumbi diante daquele homem uma vez no passado. Faça com que eu resista agora! Não consigo deixar de amá-lo, mas tenho de encontrar um jeito de frustrar sua ambição maligna. Ajude-me!

Mas a oração parecia uma futilidade e não representou consolo. Lá no fundo do seu coração ela sabia que só havia duas maneiras de derrotar o feiticeiro. A morte ou o exílio permanente, fora do mundo. Haramis percebeu que, como Arquimaga, não seria capaz de matá-lo.

Então seria capaz de bani-lo para aquele lugar horrível, que fazia o Kimilon Inacessível parecer um paraíso?...

Duas cenas da juventude surgiram em sua mente. A visão de sua mãe, a rainha Kalanthe, ferida por uma espada, o sangue derramado aos pés do feiticeiro. E a visão do pai, rei Kreyn, feito em pedaços na própria sala do trono, por ordem do mesmo feiticeiro.

Eu teria coragem de banir Orogastus neste lugar?

— Sim — disse ela em voz alta.

Abaixou-se e deixou o cynosure no chão da caverna. Então agarrou o talismã e ordenou que a levasse até Kadiya.

O jogo mágico Guerra de Nozes atingiu um clímax frenético. O exército de nozes blok pintadas de vermelho do príncipe Tolivar sofreu pesadas perdas na última batalha, mas ele avançou temerariamente, em um esforço final para chegar ao tesouro. Os batalhões azuis de nozes kifer que defendiam, partiram a galope com suas perninhas minúsculas, lanças em riste e caretas de gritos silenciosos nos pequenos rostos. Tolo formou suas tropas vermelhas de ataque em cunha, com a ponta virada diretamente para o tesouro. Era preciso recorrer a uma manobra desesperada para as nozes vermelhas não serem derrotadas outra vez.

—Avancem, meus homens!—comandou o príncipe, socando o tapete com o punho cerrado.

Ele estava deitado de barriga para baixo, de forma que seus olhos ficavam quase da mesma altura da batalha.

As nozes blok encontraram a linha das kifers. Minúsculas explosões mudas de luz assinalaram os embates entre os soldados. Guerreiros de dólmens vermelhos, atingidos pelas lanças do inimigo azul, caíam derrotados. Suas pernas se retraíam, as caras desapareciam e os pequenos corpos rolavam indefesos como contas quando suas ”vidas” mágicas acabavam. Soldados kifer azuis também caíam, mas a maior carnificina acontecia entre as nozes blok.

—Não parem! — Tolo incitava suas forças enfraquecidas. — Não fujam! Vocês têm de pegar o tesouro agora, ou tudo estará perdido!

Os bravos que sobraram do seu exército tentaram.

A cunha vermelha desfalcada formou novamente, embora estivesse totalmente cercada pelas nozes kifer azuis. Foi avançando, ficando cada vez menor, à medida que as nozes das pontas eram dizimadas. Lentamente a cunha aproximou-se da cidadela do banquinho de três pernas perto da lareira, onde o tesouro brilhava no escuro. Havia menos de vinte nozes blok vivas! As que encabeçavam o ataque corriam cada vez mais, com as lanças apontadas para a frente, sob as ordens de Tolo. Nozes azuis caíram! Abriu-se um pequeno espaço.

— Agora! — berrou o príncipe.

Suas tropas dizimadas avançaram, com movimentos rápidos das pernas. Fizeram o inimigo se espalhar, matando os que ousavam ficar na frente. Os pobres casacos vermelhos da retaguarda perderam suas vidas, mas a pequena flecha de guerreiros, que continuava a diminuir, prosseguiu corajosamente. Restavam apenas cinco valentes nozes blok da força original de cem soldados. O tesouro estava a menos de dois palmos de distância.

— Estão quase chegando! — gritou Tolo. — Avancem! Avancem!

Caíram mais dois vermelhos. O trio sobrevivente manejava suas lanças feito louco, e Tolo ficou meio tonto com os clarões mortais do inimigo. Então... oh, não Primeiro caiu uma blok, depois a segunda. O último herói foi em frente...

... e encostou sua lança no tesouro.

No mesmo instante todas as nozes kifer azuis perderam a vida em uma fuzilaria doida de fagulhas, rolando impotentes sem pernas pelo tapete. O guerreiro blok vitorioso brilhou um tempo como brasa, enquanto se aninhava apoiado no tesouro que era uma noz rusa com formato oval. A grande rusa dourada tostou imediatamente, a casca rachou e o fruto adocicado apareceu, pronto para Tolo comer. A carinha minúscula da última noz blok sobrevivente sorriu para seu comandante humano. E então morreu também.

— Nós vencemos! — cantarolou Tolo, pegando o tesouro comestível. — Finalmente ganhamos! — ele enfiou a semente de rusa na boca e mastigou com gosto—O que achou disso, Amarelo? E você disse que eu jamais seria bom nisso!

O Voz Amarela não respondeu. Estava consertando uma das pesadas botas brancas de Orogastus e também tomando conta do príncipe, muito a contragosto. O mestre tinha recomendado que Tolivar jamais fosse deixado sozinho, para o caso de os insidiosos raktumianos inventarem de sumir com o rapaz e usá-lo em algum esquema. As três vozes também foram avisadas para cuidar da própria segurança, andando armados e testando toda a comida, para ver se não estava envenenada, durante sua estada no palácio Frangine. Traição era apenas uma possibilidade remota. Mas nenhum deles, nem mesmo o mestre, estaria perfeitamente seguro até que o exército tuzameniano e o carregamento de armas mágicas chegassem, e a guerra contra Laboruwenda começasse.

O jovem rei Ledavardis provara ser menos flexível do que o mestre esperava. Não era nem de longe o bobalhão sem expressão que parecia ser quando vivia sob a maligna influência de sua falecida avó. Ao contrário, estava criando cada vez mais problemas e recentemente insistia em ter o completo controle das forças piratas no conflito que viria, em vez de deixá-las sob o comando do general tuzameniano Zokumonus, conforme o mestre pedira. Algum novo estratagema teria de ser inventado para manter Ledavardis no seu lugar.

Que alívio seria quando todos se livrassem daquele bando decadente de batedores de carteira impacientes...

— Foi mesmo um bom jogo, não foi, Amarelo? — perguntou o príncipe Tolivar.

— Se fosse uma guerra de verdade, e não com nozes idiotas — disse o voz, fazendo bico —, o resultado teria sido um desastre total. Todos os seus homens, menos o vencedor solitário, morreram.

O príncipe guardou as nozes mágicas vermelhas e azuis no saco e lançou as cascas no fogo.

— Bobagem! Você não sabe de nada! O mestre fez o jogo Guerra de Nozes para mim. Vencer batalhas é função de príncipes, não de um... — Tolo silenciou prudentemente, franzindo a testa e olhando para o acólito atarracado, de cabeça raspada e o manto amarelo amassado.

— Se podemos considerar esse pobre desempenho uma vitória — disse o Voz Amarela com malícia, puxando uma grande agulha através da gáspea da bota.

Tolo olhou para o acólito com um sorriso travesso.

— Você tem ciúme. É por isso que você e os outros estão sempre zombando de mim.

— Não seja bobo — o Voz Amarela calou-se e examinou o trabalho que fazia franzindo o cenho.

— Tem sim! Vocês três têm ciúme de mim! Não suportam a idéia de o mestre querer a mim como herdeiro e não um de vocês!

O menino ficou de pé, limpou os joelhos das calças e alisou a túnica.

- Leve-me até Portolanus agora mesmo.

Ele está ocupado na biblioteca. A última coisa que precisa é de uma criança mimada choramingando perto dele.

Tolo falou bem calmo.

— Leve-me até ele.

Com um suspiro de sofredor, o Voz Amarela pôs de lado seu trabalho. Pegou o pequeno príncipe pela mão e levou-o para fora do cómodo espaçoso que partilhavam. A biblioteca ficava do outro lado do vasto palácio Frangine, e o acólito e o menino tiveram de caminhar uma distância que parecia meia légua por corredores enfeitados e mais corredores enfeitados, salões imensos e mais salões imensos. Em vários pontos encontraram piratas arrogantes com suas mulheres escandalosas em seus vistosos trajes palacianos. Alguns vadiando, outros fofocando, ou aguardando nervosos uma audiência com algum funcionário da corte, uns poucos tratando de negócios. Lacaios desdenhosos tiravam o pó da mobília dourada e das molduras dos quadros, varriam tapetes magníficos roubados das ilhas de Engi, atiçavam o fogo nas lareiras, enchiam os lampiões de prata das paredes com óleo perfumado, para a chegada da noite, e corriam para cá e para lá cuidando de vários serviços. Guardas robustos vigiavam os outros habitantes do palácio, franzindo atesta e segurando suas alabardas com mais força, quando Voz Amarela e Tolo passavam por eles.

Afinal, os dois atravessaram um salão sem ninguém, cheio de esculturas varonianas e tapeçarias cobertas de pérolas de Zinora e chegaram a um corredor simples, de pedra, que terminava em uma porta dupla de madeira de gonda e ferro. Um soldado raktumiano estava postado do lado de fora. Ao lado dele, em um banquinho dobrável, folheando um livro deteriorado, estava o baixinho VozNegra..

Ele levantou uma sobrancelha, em uma atitude inquisidora. O Voz Amarela explicou formalmente.

O príncipe Tolivar deseja falar com o mestre.

—O lorde Osorkon deve estar chegando para uma reunião com ele — disse o Voz Negra. — O menino terá de ser muito breve. Tolo encarou o homem.

— O que tenho a discutir não vai demorar—e virou-se para o Voz Amarela. — Você pode esperar aqui fora.

O Voz Amarela fez uma genuflexão bem servil e debochada, e abriu as pesadas portas para o príncipe entrar.

A biblioteca era um salão frio, assustador e abobadado, com clarabóias encardidas de chumbo bem lá no alto, no teto. Escadas oscilantes enfeitadas com teias de lingits empoeiradas davam acesso às três galerias que circundavam o teto. Prateleiras entupidas de livros preenchiam os níveis de cima e mais estantes de pé ocupavam a área central da sala. Em volta delas ficavam mesas e bancos, todos cinzentos com a poeira de anos, menos um. A única mesa limpa tinha um dos lampiões mágicos do feiticeiro, que brilhava ao máximo, pois a biblioteca era escura, a não ser nos pontos onde os poucos raios fracos do sol da tarde, cheios de ciscos de pó, passavam pelas janelas do lado oeste. A grande tempestade de neve finalmente terminara.

Orogastus carregava três grandes tomos encadernados em couro, que se desfazia, de volta para a estante. Ele sorriu quando Tolo apareceu e enfiou os livros em seus lugares.

— Ora, rapaz! Você veio me ajudar a juntar os poucos itens úteis de história da magia nesse ninho de varts? É fácil deduzir pela sujeira e descaso que os piratas não dão importância ao estudo. No entanto, pode ser que tenham roubado algo útil, na época em que ainda se davam ao trabalho de carregar livros, por isso achei que precisava examinar a biblioteca do palácio, enquanto estamos aqui em Frangine. Até agora descobri apenas sete volumes que valem a pena levar de volta para o castelo Tenebroso, e nenhum deles é especialmente valioso. Você gostaria de ver como faço? Estou usando o Olho Ardente Trilobado como varinha de rabdomante. Você sabe o que é rabdomante?

— Encontrar água ou minerais raros por meio da magia — respondeu Tolo educadamente.

— Correto... até certo ponto.

O manto do feiticeiro, que tinha sido branco, estava preto de sujeira e seu cabelo prateado tinha fios de teias de lingits e pedaços de mofo. Fez um gesto para o menino segui-lo até a estante mais próxima, tirou o talismã da bainha e apontou-o para a fileira de livros decrépitos.

— Instruí o Olho Ardente para indicar qualquer livro que contenha textos sobre magia... assim!

Ele apontou a espada escura e rombuda para a estante. Um livro bem pequeno, com capa de couro vermelho toda desfeita e outro grande, com bordas de bronze manchado, brilharam na penumbra com uma luz verde.

— Ah-ah! Você está vendo? — O feiticeiro guardou o talismã na bainha e pegou o livro enorme nos braços. — Você leva o vermelho para a mesa e eu levo este. Veremos o que os poderes ocultos nos deram.

Solícito, Tolo foi atrás de Orogastus, segurando o livrinho vermelho. O feiticeiro limpou os dois volumes com um trapo grudento e sacou o talismã mais uma vez. Abriu o grande, encostou a lâmina sem corte na folha de rosto e fechou os olhos.

— Oh talismã, revele um resumo do conteúdo deste livro. Tolo não pôde reprimir um grito de espanto quando ouviu uma voz estranha.

Aqui dentro estão os encantamentos da bruxa sobraniana Acha Tulume, roubado como despojo de um navio daquele país há oitenta e sete anos. O conteúdo do livro, escrito na língua sobraniana, é, em sua maior parte, trivialidade xamanística. Os encantamentos mais importantes são úteis para controlar infestações de zach em roupas de penas, para curar prurido das axilas, para obter sucesso na caça aos pássaros e para impedir que namorados, vitimas de rompimento de namoro, ou cônjuges abandonados façam alguma maldade com seus antigos parceiros.

Orogastus bufou, desprezando aquelas coisas, e fechou o livro com violência.

— Inútil... a não ser que alguém queira montar um negócio nas terras dos bárbaros emplumados! Agora vamos experimentar o seu livro, Tolo. Talvez seja um prêmio, apesar de tão pequeno... Você conhece o ditado ”os menores frascos guardam os melhores perfumes”?

— Conheço, mestre.

Orogastus abriu a capa rasgada do livro, na qual dava para ver letras douradas desbotadas.

— A língua é a falada pela maior parte da humanidade, mas a grafia é arcaica. Isso quer dizer que é muito antigo mesmo... Hummm! História da Guerra. Gostaria de saber qual guerra.

Ele pousou o talismã suavemente sobre a página de rosto e pediu para conhecer o conteúdo do livro, como antes.

Aqui dentro está a história do grande conflito mágico entre os Desaparecidos e os Homens da Estrela, escrito novecentos anos depois do fato por um descendente de uma família de compiladores de dados que sobreviveu ao Gelo Conquistador e que vivia nas ilhas Nevoentas...

—Basta! — gritou o feiticeiro, arregalando os olhos prateados, todo animado, ao pegar o pequeno livro e virar as frágeis páginas com o maior cuidado. — É isso! É isso! Uma raridade entre raridades, é um livro escrito na terra de Raktum... antes de o seu povo desgraçado ingressar na carreira da pirataria. Isso é um verdadeiro tesouro, Tolo. Terei de estudá-lo com muita calma.

O pequeno príncipe, que se esforçava muito para disfarçar o tédio, animou-se também.

—Eu também ganhei um tesouro hoje, mestre! No jogo Guerra de Nozes que você fez para mim. Foi uma grande vitória!

Orogastus riu compreensivo, enquanto examinava o índice do livro vermelho, que era escrito em letras miúdas.

— Antes eu não teria sido capaz de criar um jogo assim, com meus limitados poderes. Mas os dois talismãs me ensinaram como fazê-lo em um piscar de olhos!... É claro que não passa de um brinquedo de criança.

— O Voz Amarela zombou da minha vitória — disse Tolo desconsolado. — Mestre, ele e as outras vozes têm ciúme de mim. Quando você não está por perto, são grosseiros comigo, como se eu fosse alguém de linhagem inferior, não me tratam como príncipe. Eles não gostaram de você ter me transformado em seu herdeiro. Tenho certeza que achavam que um deles seria o próximo mestre de Tuzamen.

Orogastus deu uma sonora gargalhada e fechou o livro.

— Ah, achavam, é? E eles fizeram algum mal a você, rapaz? Além de privá-lo da deferência devida a alguém com seu berço real?

Tolo desviou os olhos, e a mágoa que fingia logo virou mau humor.

— Não, mas...

—E como é que você trata meus acólitos?—O feiticeiro falava sério. — Você é gentil, como um verdadeiro príncipe deve ser sempre com seus subalternos, ou é arrogante e rude? Você não percebe que minhas três vozes são meus amigos mais leais? Eles me salvaram do exílio na Calota Sempiterna, porque suas mentes foram bastante sensíveis para ouvir meu chamado mágico, e vêm me servindo desinteressadamente desde então. Grande parte do meu sucesso teria sido impossível sem a ajuda deles.

O príncipe olhou para o feiticeiro com inocentes olhos azuis.

— Mas agora que você tem os talismãs, não vai precisar tanto da ajuda deles. Ouvi os três falando sobre isso, quando achavam que eu não estava ouvindo.

Orogastus franziu a testa. Mas logo seu rosto desanuviou-se e ele riu outra vez.

— Você não compreende as coisas dos adultos. Se quiser me agradar, trate as vozes como atenciosos irmãos mais velhos. Seja educado e bondoso com eles e aja com modéstia. Então vai ver como os modos deles melhoram.

— Se você acha isso, mestre—suspirou Tolo. — Mas eu ainda acho...

— Obedeça-me! — a afabilidade do feiticeiro desapareceu como a remoção de uma capa. — E agora você tem de ir embora. Quero que brinque com um jogo novo. Peça ao meu Voz Amarela um bom mapa do mundo ocidental e estude-o durante o resto da tarde e toda a noite. Analise especialmente Raktum e a costa da vizinha Labornok e resolva como você invadiria a terra dos Dois Tronos, se comandasse uma armada pirata. Trabalhe duro. Eu o chamarei amanhã e jogaremos juntos.

O príncipe alegrou-se.

— Uma invasão! Isso parece muito divertido!

Orogastus fez um gesto com a mão, dispensando Tolo. O menino despediu-se abaixando a cabeça e foi embora obedientemente. O feiticeiro abriu a porta para ele, usando uma magia simples, depois ficou pensativo, novamente sozinho.

Deixar o príncipe ficar com ele tinha sido uma decisão ilógica. Uma decisão que Orogastus reconhecia que era certamente irrefletida e possivelmente até perigosa. Mas Tolivar agia como uma criança desamparada e infeliz no navio, fisicamente frágil, muito inteligente, tão diferente de seus robustos irmãos mais velhos, e nem parecia se importar de se separar dos pais. A idéia de uma aura mágica nele e a franca adoração que a criança nutria por Orogastus como herói, até mesmo no disfarce repulsivo de velho, tudo isso tocou algum estranho ponto vulnerável no feiticeiro. Desde o seu primeiro encontro com Haramis não se comovia tanto... não se deixava levar pela emoção desse jeito.

No pequeno príncipe solitário e insatisfeito, Orogastus reconhecia lembranças de outra criança desajustada, um bebê nu e enjeitado, levado com relutância para o lar do venerável Bondanus, que era o maior feiticeiro do mundo conhecido e Mestre Estrela do castelo Tenebroso na cidade costeira de Merika. Mas aquele bebê infeliz, amamentado por uma prostituta bêbada, reconhecido de má vontade, com os trapos imundos que o cobriam, cresceu e tornou-se um rapaz alto e forte, que ganhava sua vida precária como pastor de togares e ajudante de cozinha. Estava sempre maltratado e passava fome, até o dia inesquecível em que sua inteligência e sua aura psíquica, poderosa mas ainda em formação, chamaram a atenção do Mestre Estrela de Tuzamen.

A criança Orogastus também tinha oito anos de idade quando foi nomeado aprendiz do feiticeiro.

Bondanus era um mentor exigente, mas justo. Jamais demonstrou amor pelo jovem protegido, nem mesmo simpatia. No entanto deixou bem claro que Orogastus herdaria todos os seus segredos mágicos e que ocuparia seu lugar como mestre da desolada pequena nação setentrional. Orogastus passou a ser aluno e criado pessoal do idoso feiticeiro, trabalhando e estudando com entusiasmo autêntico, e nunca se deu conta que o mestre se afastava cada vez mais das questões do país, relegando o governo a um bando de comandantes predatórios e homicidas que retalharam Tuzamen em feudos minúsculos e hostis, e nada os unia, a não ser o antagonismo mútuo. Os camponeses tuzamenianos viviam desesperados e os comerciantes fugiam para terras mais promissoras, e enquanto isso o mestre passava seus últimos anos meditando sobre a antiga filosofia da Estrela, da qual era o único proponente. Quando Bondanus finalmente estava em seu leito de morte, deixou o castelo Tenebroso de herança para seu aprendiz (na época quase uma ruína inóspita), um pequeno tesouro de objetos mágicos antigos, que o velho feiticeiro considerava de menor importância, e o que possuía de mais precioso, um medalhão de platina na forma de uma estrela cheia de pontas. Esse emblema, pendurado no pescoço de Orogastus no clímax de uma cerimónia assustadora de iniciação, deu ao jovem o status de membro efetivo da antiga Sociedade da Estrela.

Naquela época Orogastus tinha vinte e oito anos de idade. A penosa experiência de iniciação deixou seu cabelo todo branco.

Orogastus logo descobriu que os corruptos comandantes de Tuzamen não iam aceitá-lo como soberano. O falecido Bondanus tinha ignorado todos eles tempo demais. Orogastus tentou intimidar o povo com magia, especialmente através do domínio da tempestade que era sua maior especialidade. Mas os teimosos barões simplesmente se escondiam nas barricadas de suas fortalezas rústicas quando ele queria forçá-los a servi-lo, e o povo era ignorante demais, arrasado pela miséria, e pobre demais para ter qualquer utilidade para um feiticeiro ambicioso.

Durante três anos ele estudou a coleção de máquinas antiquadas que Bondanus sempre desprezava, achando trivial. Orogastus resolveu que não eram nada disso e, com o tempo, sua lealdade passou da magia esotérica, instável (e muitas vezes caprichosa), da Sociedade da Estrela para os bem mais práticos poderes ocultos, chamados Aysee Lyne, Inturnal Bataree e Bahkup. Essas três divindades governavam os artefatos milagrosos dos Desaparecidos. E se fossem invocados corretamente, concediam ao seu único devoto a graça de dar livre curso a maravilhas muito mais úteis a curto prazo do que os segredos da Estrela.

A máquina mais importante continha informações que acabaram levando Orogastus a descobrir outro tesouro dos Desaparecidos em uma cidade remota em ruínas, perto da nascente do rio Branco, no extremo oeste do país dos doroks. Lá ele encontrou armas mágicas, além de muitos artefatos que impressionariam e intimidariam os ignorantes. Ele levou o produto do saque de volta para o castelo Tenebroso e reiniciou sua frustrada campanha para tornar-se o verdadeiro mestre de Tuzamen. Teria conseguido se o príncipe herdeiro Voltrik de Labornok não tivesse chegado para visitar Tuzamen e não tivesse mudado o sentido da vida de Orogastus.

Voltrik era uma alma inquieta, semelhante a ele, um homem frustrado por ter de esperar demais pela morte do seu tio senil para ocupar o trono. O príncipe herdeiro sugeriu que Orogastus ampliasse sua visão para além do deserto miserável que era Tuzamen e considerasse a rica península que ficava ao sul. Juntos, poderiam criar um império através-da conquista!

Além do mais, os sábios de Labornok conheciam muitas outras cidades em ruínas, onde o feiticeiro podia achar mais daqueles objetos mágicos, que tanto cobiçava...

Por isso Orogastus abandonou sua terra natal. Dezessete anos depois, nomeado grande ministro de Estado do recém-coroado rei Voltrik, ele participou da invasão e da conquista de Ruwenda, mas todos os seus gloriosos estratagemas deram em nada, graças à interferência das três jovens princesas de Ruwenda. Protegidas por um Trílio Negro mágico, ainda mais antigo do que a Estrela, as trigêmeas saíram em uma aventura que as levou ao encontro de um m isterioso talismã. Os três talismãs, quando associados, formavam um poderoso Cetro do Poder, que reverteu a feitiçaria de Orogastus contra ele mesmo. De alguma forma incompreensível ele foi lançado no exílio, na Terra de Fogo e Gelo, e o Cetro não o matou.

— Como? — pensou ele, folheando a esmo as páginas ressecadas do pequeno livro vermelho. — Como é que isso foi feito? As princesas queriam me destruir. Eu sei que era essa a intenção delas! E no entanto, eu não morri...

Distraído, ele passou a mão na tiara prateada presa à testa, o talismã enfeitado com três caras grotescas que chamavam de Monstro das Três Cabeças.

— Que deus desconhecido apiedou-se de mim e salvou-me da morte para que eu voltasse ao mundo e retomasse as rédeas da ambição que me foi negada há tanto tempo?... Mestre de Tuzamen! Sou isso agora, e a nação bárbara que era motivo de riso hoje goza de prosperidade e prestígio modestos. Estou no limiar do meu maior plano, que terá seu ápice na conquista do mundo. Tenho dois talismãs mágicos e um dia terei os três, e o poder ilimitado que eles prometem!... Mas qual é a resposta para o mistério da minha sobrevivência no Kimilon?

Procure no livro,

Orogastus levou Um susto e pôs a mão no punho do Olho Ardente Trilobado que usava pendurado na cintura. Mas não foi aquele talismã que falou. A voz em sua mente era nova e sem dúvida emanava da tiara da rainha Anigel.

Com dedos levemente trêmulos, ele folheou as páginas esfaceladas do pergaminho até ver um texto que brilhava, mesmo sob a luz forte do lampião.

— Cynosure?...

A estranha palavra saltava do texto e ele ficou lendo, muito interessado, durante vários minutos. Quando finalmente entendeu, olhou para cima e tocou na tiara.

—Talismã! Mostre-me esse maravilhoso cynosure que preservou minha vida e me levou ao Kimilon!

A visão de um hexágono negro surgiu em sua mente.

Este é o grande cynosure, criado pelos Homens da Estrela há mil e duzentos anos, para contrabalançar o Cetro Triplo de Poder.

Ele gritou excitado.

— Ah! Eu me lembro! Agora estou lembrando! Foi como se o mundo explodisse qUando o Cetro do Poder me abateu e pensei que estivesse morto. Mas antes de perder os sentidos, vi aquela coisa! E ela preservou minha vida, não foi? Não a vi quando acordei. Onde se escondeu?... Ser que e