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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ÚLTIMO CANTO DA COTOVIA / J. M. Simmel
O ÚLTIMO CANTO DA COTOVIA / J. M. Simmel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NA PRIMAVERA

O ÚLTIMO CANTO DA COTOVIA

 

À pergunta de seu pai, se ela havia ficado louca, Susanne Marvin, 18 anos, respondeu, pegando uma pilha de blusas de seu guarda-roupa e jogando-a numa mala: — Eu sou completamente normal. Se há alguém louco, então esse alguém é você.

— Por que você quer se mudar daqui imediatamente?

Dr. Markus Marvin chegara em casa poucos minutos antes.

— Porque eu não posso viver nem uma hora a mais sob o mesmo teto com você. — Susanne pegou outras blusas do armário e arrumou-as na mala que estava em cima da cama. Ao lado desta havia uma segunda.

— O que você tomou?

— Como, o que eu tomei?

— Drogas. Agora você também se meteu nessa?

— Não me meti em absolutamente nada. Nunca tomarei drogas. — Pulôveres e roupas íntimas voaram para a primeira mala. Susanne estava com pressa.

— Ora, merda, diga o que você tem!

— Eu estou cheia — disse a esbelta moça com cabelos castanhos e olhos cinzas. — Eu estou de saco cheio de você e de seus amigos. Eu quase não tenho ar, desde que você está aqui. Esperei tanto que você chegasse mais tarde e eu não estivesse mais aqui. Que o meu pai colaborasse, para mim já era suficientemente grave. Que ele tam­bém colaborasse com essa safadeza, é inesperado até para mim. Se não fosse o Frankfurter Rundschau vocês teriam continuado calados.

— Ah, sim — disse Dr. Markus Marvin. De repente ele se sentiu muito cansado. Pesadamente, ele caiu sobre a cama revolvida. — É sobre isso que você se refere. Eu poderia ter imaginado. Pare com essa arrumação idiota! Nós não nos calamos sobre absolutamente nada.

— Vocês não... — Ela começou a rir histericamente.

— Não ria! Nós, a inspeção do Ministério do Meio Ambiente de Hessen, não nos calamos sobre absolutamente nada. Nem um dia! Nem uma hora! O executor informou-nos da avaria com uma classificação errada, ou seja, com a mais baixa. E porque tínhamos uma sensação ruim, investigamos a coisa, reconstituímos a estória e constatamos que aquilo não era um Caso-N, mas sim um Caso-E. Você deve parar com essa arrumação! — Ele jogou no chão uma das duas malas. Roupas caíram. Diante da casa, na calma Rua da Selva sobre a Montanha do Sol, em Wiesbaden, cinco pesadas motocicletas japonesas passaram trovejando. Rapazes em casacos de couro preto e com capacetes coloridos estavam sentados nelas.

— Hoje é dia 5 de fevereiro de 1988. No dia 6 de fevereiro de 1987, logo há um ano — há um ano! — ocorreu uma seríssima avaria no Bloco A de Biblis — disse Susanne Marvin com uma voz incrivelmente calma, mas suas mãos tremiam quando ela levantou a mala e entupiu-a de novo com as roupas.[1]

— Na circulação fria do reator uma válvula não estava fechada. Naquele tempo vapor radioativo correu para fora. Três turnos do pessoal de serviço não notaram durante 15 horas — durante 15 horas! — a lâmpada de advertência. O Rundschau escreve que se corria o perigo de fundição do núcleo1. Os executores avisaram a vocês de um Caso-N, não é? Um Caso-Normal. Vocês precisaram de cinco meses para fazer dele um Caso-E, um Caso-Emergência. E hoje, um ano depois, vem à tona — mas só através da notícia de jornal — que nós, por muito pouco, não tivemos uma Super-PGA nessa maldita UEN! Deixe a minha mala em paz! Se você tocá-la mais uma vez, vou embora daqui sem camisola. Que todas as usinas de energia nuclear são casos de morte, todos sabemos. Por isso protestamos há anos contra elas — e eu mais ainda, com um pai desses! Mas que vocês tenham tido o incrível cinismo de esconder essa Quase-Super-PGA durante um ano e só agora revelar como se só houvesse caído um pedacinho de cimento, isso é tão infame, que sei de apenas uma coisa: preciso ir embora daqui. Embora de você. O mais rápido que puder.

Dr. Markus Marvin, um homem esbelto de 42 anos com rosto magro e cabelos pretos, nos quais havia vários remoinhos, de forma que sempre parecia estar despenteado, gritou repentinamente: — Nunca houve, em nenhum momento, o perigo de uma Super-PGA! Nunca o perigo de fundição do núcleo!

— Pare com essa gritaria! — disse Susanne. — Teria sido melhor gritar noutro lugar e há um ano. Mas você calou o bico. O Rundschau publicou um artigo de uma revista técnica americana...

— Bico? Susanne, você não pode falar assim com o seu pai, entendeu? Assim, não.

— ...no qual a opinião da inspeção americana sobre essa avaria foi citada. — Susanne puxava vestidos, trajes e meias-calças do grande armário e jogava tudo, com movimentos cada vez mais rápidos, em ambas as malas. — A inspeção americana declarou que em Biblis poderia ter ocorrido a fundição do núcleo.

— Isto eu mesmo sei. — Marvin fazia o possível para manter a calma e o equilíbrio. — Eles se deliciaram dramatizando tudo. Difamar-nos foi o que lhes deu mais prazer! Já fizeram isso n vezes. Susanne, eu suplico, pare com essa arrumação! Há 11 anos sua mãe me abandonou! Você é tudo o que tenho.

— Que você tem? Teve! Vou embora. Devia tê-lo feito há mais tempo. Com um pai que pertence à máfia-nuclear!

— Eu proíbo você...

— Você não me proíbe de nada! Você acha que me diverte dizer uma coisa dessas? Eu tenho como pai um membro da máfia-nuclear! Que trabalha na inspeção! Pretensamente formada para a mais severa vigilância. Vigilância — que piada! Vocês estão comprados há muito tempo por essa máfia! Sobre o que vocês ainda calaram? Quantos outros Quase-Super-PGAs? Quanto você rece­beu por isso, por colaborar com esses trapos assassinos?

— Se você não se desculpar por isso imediatamente, então... — Marvin levantou-se num pulo.

— Então, então o quê? — Agora Susanne também gritava. Respirando fundo, os dois estavam frente a frente, a cama entre eles. — Você vai me bater? Então você vai precisar me bater até a morte para que eu me desculpe. Nunca, nunca farei isto! Só agora vejo que bom caráter você tem. Agora entendo mamãe. A inspeção de vocês se calou, isto você não pode contradizer!

— Primeiro! Porque fomos informados pelo executor de um Caso-Normal. Iguais a eles já há quatro, cinco mil. Se todas as vezes nós tivéssemos dito...

— Teria sido há muito tempo um péssimo negócio.

— ...seríamos causadores irresponsáveis de pânico. — Marvin ofegava — Se você soubesse quantos Casos-Normais acontecem no trânsito aéreo todos os dias. Os pilotos informam os passageiros sobre isso?

— Mas vocês descobriram que se tratava de um Caso-E.

— Sim, isso nós descobrimos. Nós!

— Depois de cinco meses. Solte o sapato! Ordeno que você solte os sapatos! — Ela bateu nele.

Ele recuou. — Susanne...

— Pare com “Susanne”! Desde o começo tratou-se de um Caso-I! Um Caso-Imediato! A fundição do núcleo...

— Em nenhum momento houve o mínimo perigo de uma fundição do núcleo, com os diabos mais uma vez!

— Disto você tem plena certeza, não é?

— Disto eu tenho plena certeza, sim! Nossas UENs são construí­das de tal forma, que mesmo com falha humana elas continuam seguras.

— Também por isso o vapor radioativo pôde sair. Por isso vocês fizeram segredo disso um ano inteiro. E teriam feito segredo disso para sempre, se os americanos não tivessem vindo com a sua informação. Falha humana! Quantas pessoas falharam naquela época? — Susanne imprensara sempre novas peças de roupa na primeira mala e agora tentava fechá-la. Ela saltou sobre a cama, ajoelhou-se sobre a tampa, lutou com os fechos. Entretanto, continuava a gritar: — Lâmpadas de advertência piscam durante 15 horas! Dois turnos ignoram isso, não a vêem, não lhe dão importância! O que eles tomaram? Drogas? Cachaça? Estavam viajando?

— Susanne...

— O terceiro turno, certamente só meio imbecilizado, afinal nota algo, rapidamente faz o errado — e apenas no último momento consegue impedir uma Chernobyl vezes mil. Tão seguras são as suas UENs contra a falha humana! E depois que tudo passou, classifica o executor no mais baixo grau. Você sabe o que as pessoas na rua, o que a opinião pública acha disso?

Ele gaguejou: — A opinião pública... naturalmente... a opinião pública está, com razão, altamente inquieta...

— Inquieta! Você ouviu as entrevistas no noticiário das oito? Eles querem matar vocês, cada um de vocês! E com razão!

— Susanne! Por favor! Através de nós passou a ser conhecida a gravidade da avaria! Nós instauramos o inquérito, que levará os responsáveis à condenação.

— Nisso você não acredita nunca!

— Estou convencido disso. Para tal existe a nossa inspeção.

— Mais presunçoso, impossível. Vocês não têm que se acusar de nada. Ninguém se acusou de nada. Um Caso-Imediato! E o que aconteceu até hoje? O executor foi multado? Não! Nossos políticos estão cagando pras pessoas. Eles estão tão comprados quanto vocês. Ainda mais! Para mim, toda a República está comprada. Pela máfia-nuclear, por Krupp, por Thyssen, pelos vagabundos, pelo Deutschen Bank.

— Você é grotesca! Nossa tarefa foi examinar e informar. Isso nós fizemos. O caso foi fartamente discutido nos grêmios, por exemplo, no plenário da Comissão de Segurança de Reatores. Com a participação de todos os responsáveis. Os estados da Federação receberam nossos comunicados. Foram tomadas medidas de cunho técnico e pessoal imediatamente, para que algo igual não aconteça nunca mais.

— Ai! — Ela havia prendido um dedo.

— Deixe-me ajudá-la!

— Não me toque! Não toque a mala! — O primeiro fecho estava fechado. Susanne estava ajoelhada sobre o segundo. — No noticiário de agora há pouco até o diretor da usina de Biblis admitiu que pudesse existir a Possibilidade de Grande Acidente. E você ainda insiste que se agiu corretamente no dia do acidente? O correspondente da ARD em Washington disse que nos Estados Unidos uma comissão de inquérito teria sido imediatamente formada.

— Meu Deus, foi exatamente o que aconteceu conosco! A Sociedade para Segurança de Reatores intercedeu. Nós incumbimos o TUV. Estes são os grêmios, aos quais devemos nos dirigir.

— De novo, antes que eu fique realmente louca: você então acha certo que o Ministério Federativo do Meio Ambiente seja informado de um Quase-Super-PGA, acontecido em fevereiro de 1987, somente em fevereiro de 1988?

— Não somos nós que devemos informar o Ministério Federativo, mas sim a Sociedade para Segurança de Reatores, Quantas vezes ainda tenho que dizer isso? Aliás, nesse meio-tempo ficou acertado que nós, no futuro, também devemos nos comunicar imediatamente com o Ministério do Meio Ambiente. Mas nós — nós, nós, nós — fomos aqueles que desmascaramos o caso na sua totalidade.

— Pai? — Susanne desceu da cama. Ela havia fechado as duas malas.

— Sim?

— Você me enoja.

— Susanne... Por favor, Susanne... — Ela arrastou as malas para a porta.

Ele entrou no seu caminho. — Não... Por favor... Por favor, não me deixe só!

Ela continuou a andar.

Ele a segurou.

Susanne olhou-o fixamente. Depois seus lábios se transformaram num sorriso de desdém. Ele virou a cabeça e foi para o lado, pois aquele sorriso era mais do que ele podia suportar. Ela deixou rolar pela escada as duas malas até o hall e cambaleou entre elas. Agora ele estava ali, parado. No pé da escada Susanne se virou e fez-lhe ainda uma pergunta. Marvin não deu resposta. Ela abriu o portão da casa e se foi. A porta se fechou. Pouco depois ouvia-se o motor do Passat de Susanne.

Markus Marvin ainda estava ali, parado, como uma pedra. Primeiro minha mulher, pensou ele. Agora minha filha. Só. Estou completamente só agora. Há dez anos, desde que parei com meu trabalho de direção, trabalho na inspeção, convencido de fazer o certo. Todos os colegas estão convencidos disso. Todos que começaram com energia nuclear estavam: finalmente encontramos uma solução. A bênção para a humanidade é a energia nuclear. Limpa. Não-prejudicial. Sem dióxido de carbono. A coisa de Biblis foi encoberta, sim. Mas não por nós, não pela inspeção! Seja lá por quem foi encoberta, quem leva a culpa nisso — nós não levamos. E mesmo assim Susanne me abandonou.

Um dia fomos uma família feliz. Um bom lugar. Uma boa casa. Somente amor. Então, Elisa se foi. No divórcio, Susanne ficou comigo. Eu ainda tinha Susanne. Querida Susanne. Eu vi como em volta de mim filhos e pais não se entendiam mais, como suas relações se despedaçavam, como os filhos se revoltavam, como eles iam embora. Sempre dei liberdade a Susanne. Ela pode trabalhar para Greenpeace, até mesmo para o Movimento Antinuclear. Tudo, ela podia fazer tudo, só para ficar aqui comigo. Para que também eu não pertença aos muitos, que sempre são mais, que são abandonados pelos seus filhos. Mesmo assim, aconteceu. O que devo fazer? Como deverei continuar a viver?

As pernas de Marvin de repente não o suportavam mais, ele caiu por um degrau da escada quando pensou que sua filha lhe havia gritado na cara a mais dolorosa pergunta que se pode fazer a uma pessoa:

— Quem pelo amor de Deus você deve ser, para fazer algo assim?


LIVRO PRIMEIRO

 

“A História ensina aos Homens que a História aos Homens nada ensina.”

Mahatma Gandhi, nascido em 1869, assassinado em 1948

 

A vaca se levantou devagar, vacilou e caiu. Alguns outros exemplares do rebanho se ergueram quando o Landrover — com os dois homens — se dirigiu a eles sobre o pasto.

— Nasceram aleijados — disse Ray Evans atrás da direção. — Andam com as articulações e não com as patas. Veja, mister — como se chama? Desculpe, eu ouço mal.

— Marvin — disse o homem a seu lado. — Markus Marvin. — Ele tinha uma aparência miserável, estava pálido, cansado, triste, estressado.

— Claro, Marvin — disse Ray Evans. Ele mostrou um animal especialmente defeituoso, que era absolutamente incapaz de se levantar. — Veja isto, mister Marvin! Não dá vontade de chorar? E estes aqui não chegam a ser os piores. Os piores são comidos ainda bezerros pelos coiotes.

Dois do gado que haviam se levantado, caíram de novo.

— As pernas não os sustentam, o senhor viu. Isso é uma miséria. Eu poderia chorar, chorar o dia inteiro.

O pasto estava diante da pequena cidade de Mesa sobre o rude planalto da parte oriental do Estado de Washington, que se limita com o Canadá. Aqui o vento sopra sempre do sudoeste. De acordo com a direção do vento, Mesa se situa mais proximamente do enorme depósito nuclear de Hanford. Tudo o que vem dos reatores comerciais, dos depósitos experimentais, das fábricas de trítio e plutônio e da estação de testes de rápida deterioração de materiais nocivos, tudo vai de encontro ao lugarejo. O grande rio Columbia, que flui nas proximidades do depósito e de cuja água os milharais, as plantações de batata, os pastos, vinhedos e pomares aqui em cima se tornam frutíferos, está sujeito ao material expelido das estações de Hanford da mesma forma que Mesa.

Um alto ribombar fez tremer o ar. Marvin olhou para cima. Um avião a jato sobrevoou, bem baixo, as mais ou menos duas dúzias de torres de reatores de Hanford.

— Este aterrissa no Tri-Cities-Airport — gritou o fazendeiro Ray Evans. — Aqui é a zona de aterrissagem.

— Sempre?

— Sim, quando o vento sopra assim.

Markus Marvin chegara de carro, mas ele sabia que o Tri-Cities-Airport estava destinado às cidades de Richland, Kennewick e Pasco. Ele havia se virado no Landrover e olhava agora os prédios e torres de Hanford. Na luz do sol clara e fria daquela manhã eles tinham perfis duros e bem contornados. Marvin olhou para o relógio. Eram 11 horas e 28 minutos de 11 de março de 1988, uma sexta-feira.

— Tri-Cities é um grande aeroporto — gritou ele. — As usinas nucleares têm proteção contra explosão?

O enorme avião rugiu sobre eles. Agora o seu bramido era quase insuportável.

— Muitos não têm nenhum — gritou Evans. — Ao menos, é o que nos parece.

Marvin observou o fazendeiro. Ele estava fora de si — há dias. Tinha olhos inflamados, seus lábios e suas mãos tremiam, ele só falava com esforço. Marvin se sentia um miserável. Eu não queria acreditar nisso, pensou. Achei que todos que contavam coisas como essas eram mentirosos. Mas todos eles falaram a verdade. Sempre quando vim aqui nas últimas semanas, vi a mesma coisa. As piores semanas de minha vida foram estas. Meu Deus, que safadeza infame!

Susanne, pensou aquele homem cansado, pálido. Ah, Susanne.

Logo depois que ela o havia abandonado, ele foi enviado pela inspeção. Conhecer estações americanas. Sistemas de segurança americanos. Havia uma grande agitação na Alemanha por causa de Biblis. A inspeção queria saber se havia melhores sistemas nos Estados Unidos do que os da Alemanha Federal. Mas eles não o haviam mandado justamente ali, realmente não. Ele deveria ir às melhores usinas nucleares. Àquelas que no máximo haviam tido alguns Casos-N. Ele não se prendeu à rota da viagem. E assim ele chegou no Estado de Washington, no depósito nuclear de Hanford.

Você tem razão, Susanne, pensou ele. Todos os seus amigos têm razão. Mas é muito pior do que vocês imaginam, do que vocês sabem. Como fomos felizes um dia, Susanne, ah, tão felizes.

Nessun maggior dolore.... Uma frase de Dante Alighieri lhe ocorreu de repente: “Nada dói mais do que se lembrar, no sofrimento, de tempos de felicidade...” Pensava nos perdidos tempos de felicidade. Permanecia sempre observando o homem na direção. Ele usava uma calça aveludada, botas, uma jaqueta de couro sobre a colorida camisa de algodão. Marvin trajava roupas parecidas. Tinha uma câmera na mão e fotografava sempre. Preciso poder prová-lo na Alemanha, pensou, tremendo. Preciso provar o que vou contar.

O fazendeiro Ray Evans tinha 37 anos, dissera a Marvin. Parecia ter 60. Quase não tinha mais cabelos. O rosto marcado por profundas rugas. Olhos sem brilho. Glândulas tireóides visivelmente incha­das. Muitos as têm aqui, pensou Marvin. Glândulas tireóides visivelmente inchadas.

Na periferia do complexo nuclear Marvin viu, a poucos metros de altura, três pequenos jatos de pesticida, que espalhavam suas nuvens de veneno sobre os campos. Era assim do amanhecer ao crepúsculo, informara Evans. Ele ainda dirigia através do pasto com seus animais.

— Lembro-me exatamente do que me aconteceu há alguns anos — continuou ele. — Os monstros nasciam nos estábulos. Ovelhas muito pequenas ou, às vezes, com duas cabeças. Sem pernas. Sem rabo. Aqui parecia com Frankenstein. Só que nem tanto aconche­gante. Doc, quer dizer, Doc Clayton, o veterinário daqui, disse-me sempre, homem, Ray, você alimenta os animais de maneira errada, por isso há filhotes assim. Fucked-up Doc! Naquele tempo eu já sabia porque é que era assim, meu gado novo, o gado novo de muitos fazendeiros daqui. Agora todos já sabem. Das torres vem a radiação, radiação em massa, e ela assassina os animais, assassina homens, contamina o solo e a água. — Ele apontou para o depósito. — Lá, o Reatot-T, o senhor pode vê-lo?

— Sim. — Marvin fotografava.

— Naquele eles produziram, durante a guerra, o plutônio para a bomba de Nagasaki. A coisa já funciona todo esse tempo. Há mais de 40 anos! O que o senhor acha da quantidade que eles utilizaram desde então para os sem fucked-up mísseis? Há mais de 40 anos a coisa irradia! O senhor pode imaginar isso? Há mais de 40 anos dura aqui essa safadeza assassina2. Danos pela irradiação de longo prazo temos todos aqui — homem, animal, água, terra. Lá, no Reator-N, lá, até o princípio do ano, eles também produziram plutônio para armas nucleares. Mas finalmente eles o puseram no cold standby. Por falta de segurança. — O Landrover dava solavancos. — Falta de segurança! — disse o fazendeiro Evans, desesperado. — Segu­rança a porcaria da coisa não teve desde que começou a funcionar. Incomodou alguém durante todos estes anos? Hell, no, não incomodou ninguém! Firmas particulares, não? Aquelas, aos quais isto pertence, os goddamned bastards, que ganham muito, mas não moram aqui, mister, e suas crianças também não.

Susanne, pensou Marvin, Susanne. Essa maneira de produção de energia era segura, foi a minha crença. Uma vez em dez mil anos pode acontecer, talvez, alguma coisa, e isso é o mais grave com o que se podia contar. Uma vez em dez mil anos! Há dois anos Chernobyl veio à tona. Porcaria do Leste, todos disseram, conosco isso é impossível, absolutamente impossível, eu também disse isso, eu também, muitas vezes, muitas vezes. E agora?

— Sim — disse o homem com as glândulas tireóides inchadas —, mas o que foi preciso acontecer antes desse Reator-N ter sido desativado? Protestos de cidadãos por todos os lados. O Time fez um escândalo com uma coverstory, o Newsweek da mesma forma. E os grandes canais de televisão. Eles provaram que do no-good-fucking reator saiu mais irradiação nos 40 anos que em Chernobyl. O senhor precisa fazer uma idéia disso, mister Marvin! — Evans agora gritava novamente. — 40 anos! Durante 40 anos mais do que Chernobyl! Que porcaria de mundo amaldiçoado, no qual se pode praticar qualquer crime quando se tem dinheiro suficiente e se é um big shot que tem um punhado de amigos que são big shots? O senhor diz que é físico. Mas o senhor maneja a câmera como um profissional.

— Durante uma época rodei documentários — disse Marvin —, mas sou físico — acrescentou, secamente.

— Físico nuclear? Quer dizer... como aqueles de lá?

— Não, numa inspeção.

— E na Alemanha ainda não aconteceu nada? Em lugar nenhum uma irradiação? O senhor nunca precisou desativar um reator?

— Algumas vezes. Por tempo determinado. Pequenas panes. Perfeitamente controláveis graças ao sistema de segurança. — Marvin precisava lutar com cada palavra. Isso ainda vai me matar, pensou. Isso ainda vai me matar, tudo isso. Susanne, Susanne. Nada dói mais...

— Pare com isso! — Evans gritou. — Não há segurança. Em nenhum lugar do mundo. Não há nos russos, aqui não há, nem onde o senhor mora. You bet your fucking life, mister, os mesmos crimes para com os homens também acontecem onde o senhor mora. O senhor apenas não sabe.

Longe, bem longe estava Marvin, de repente, com os seus pensamentos.

 

— Há um único caminho para afastar o choque climático iminente: precisamos utilizar ainda mais, bem mais intensivamente, a energia nuclear compatível com o meio ambiente!

Ele, Markus Marvin, havia dito isso, numa tarde de novembro do ano passado, na casa de veraneio do professor Gerhard Ganz, em Sylt, uma ilha do Mar do Norte. A casa ficava em Keitum, no Uwe-Jens-Lornsen-Wai, acima do estuário. Estava nublado naquele dia de inverno precoce, e muito frio.

O professor Ganz, 63 anos, grande e robusto, chefe da Sociedade de Física de Lübeck, havia convidado Markus Marvin para uma conversa, na esperança de dissuadi-lo de sua euforia sobre a energia nuclear. Fora uma esperança vã, como se podia constatar a cada dia. O físico nuclear Dr. Markus Marvin, membro da inspeção do Ministério do Meio Ambiente de Hessen, não se deixava dissuadir de suas convicções. Ganz o constatou com tristeza. Era mais um, ao qual ele falava em vão, novamente um entre os muitos, com os quais ele se debatera, sua vida inteira. E que continuaria a se debater.

— Não! — disse ele, apaixonadamente. — Não, não e não! Encare o problema na sua totalidade, então ficará imediatamente claro o quão errado seria esse caminho! No momento, a cota de energia nuclear é de quase 5%, ridículos 5%.

Também Marvin tornara-se ainda mais excitado. — Então há que se construir ainda mais usinas nucleares, o mais rapidamente possível — disse.

Ganz se sentiu miserável naquele dia. Seu estômago doía, percebeu um forte ardor. E aquele homem, o qual ele havia convidado, porque lhe fora dito que ele dispunha de boas relações, que ele era inteligente, compreensivo e de rápida percepção — ele não era melhor do que todos os outros idiotas. Ganz queria se atemo­rizar, mas se dominou, se conteve, para falar com aquele homem objetivamente.

Ele disse: — Mais usinas nucleares? Quantas, doutor Marvin? Quantas? Para alcançar algo realmente substancial, você precisaria fazer funcionar, durante décadas e quase que diariamente em algum lugar do mundo, uma nova usina nuclear da capacidade de Biblis. Durante décadas!

Eles estavam na grande sala de estar da bela e antiga casa com suas paredes, portas e janelas azuis. As paredes estavam cobertas de estantes, numa lareira queimavam pedaços de madeira, sobre ela estava pendurada uma litografia de A. Paul Weber, que mostra um homem encostado no tronco de uma árvore, de pijama, e que bate, com o martelo, um grande prego na testa.

Uma terceira pessoa se encontrava no recinto: Dra. Valerie Roth, assistente do professor Ganz. A Dra. Roth era de média estatura e esbelta, seus olhos eram castanhos como os cabelos. Ela disse: — Mesmo excluindo o fato, doutor Marvin, de que nenhuma repartição estatal do mundo nem qualquer capitalista conseguiriam construir diariamente uma nova usina — onde deve­riam ficar essas usinas? Diante da chancelaria? No lago Brahm? Em Oggersheim? Ouça: temos no instituto estudos dos Estados Unidos para a Comunidade Européia, nos quais fica provado que cada marco — cada marco! — que é investido em medidas de economia de energia, evita sete vezes mais — sete vezes! — dióxido de carbono que o mesmo investimento em usinas de energia nuclear. E é principalmente com dióxido de carbono que enve­nenamos o ar e a atmosfera de tal maneira, que entre 40 e 60 anos virá a definitiva destruição do mundo, o fim do mundo. A metade de todos os homens que hoje vive verá essa maior de todas as catástrofes.

— Não há em todo o mundo — disse Ganz — nenhum cenário energético em conseqüência do qual se chegaria a uma redução das emissões de CO2 no caso de um alastramento da energia nuclear. O prognóstico mundial da Agência Internacional de Energia espera, por exemplo, mesmo com o uso 12 vezes maior da energia nuclear, um aumento da quantidade de dióxido de carbono de cerca de 43 bilhões de toneladas até a metade do século XXI. Mais do que uma duplicação, nesse caso.

— E nada — disse a Dra. Roth — seria mais irresponsável que querer aumentar um risco — a ameaçadora catástrofe climática — com um outro risco — o perigo de uma Super-PGA. Já hoje a Nuclear Regulatory Commission calculou a probabilidade de uma fundição de reator até o ano 2000 somente para os EUA em mais ou menos 45%. 45%!

— E por que então — perguntou Marvin, irritado — os participantes da Conferência sobre o Clima Mundial em Toronto exigiram exatamente agora o auxílio da energia nuclear para reduzir as emissões de dióxido de carbono nos países industriali­zados?

Ganz bebeu um gole de chá, suas mãos tremiam. A dor agora era acima do estômago, ficou mais forte. Com quantas pessoas, que não acreditavam nele, ele já havia falado, lhes suplicado para não participar da destruição do mundo! Talvez aquele ho­mem pudesse prestar atenção no que ele dizia. Alguns já haviam mudado a sua opinião. Por que também não este homem? Agora a dor já estava no peito. Ganz se obrigava a continuar sua fala: — Havia em Toronto pessoas que apóiam a energia nuclear e que jogaram isso no debate. Mas foi dito claramente, e assim está na declaração: “Quando alguém deseja recorrer à energia nuclear, então primeiramente precisa-se estar bem seguro de que todos os perigos ligados a ela podem ser dominados, a saber, o proble­ma insolúvel da destruição do lixo atômico, o problema insolúvel da propagação do material apto para o serviço militar e o problema — a princípio insolúvel — das possíveis catástrofes acidentais.” Assim está na declaração, doutor Marvin, eu sou um de seus autores. E eu lhe digo: você nunca poderá esperar da energia nuclear uma solução para os nossos problemas — mas a qualquer momento uma catástrofe inimaginável...

A qualquer momento uma catástrofe inimaginável... A frase voltou a soar nos ouvidos de Marvin, enquanto o jipe do fazendeiro Evans dava solavancos sobre o pasto e ele escorregou de volta ao presente.

— Os mesmos crimes acontecem no seu país. O senhor apenas não sabe.

— E o senhor? — Em seu desespero, Marvin se tornou agressivo. — Como é que o senhor sabe disso? Como é que o senhor sabe alguma coisa da Alemanha? A maioria aqui não tem nem uma idéia de onde ela fica.

— Eu, sim — disse Evans, doutrinário. — Sei um monte de coisas sobre o seu país, mister Marvin. Estive lá.

— O senhor esteve na Alemanha?

— Pois é.

— Quando?

— Há 12 anos, em 1976. Primeiro em Frankfurt. Depois em Munique e Hamburgo, em Berlim e Düsseldorf. Estive lá duran­te quatro meses, mister Marvin. Observei tudo atentamente. Pres­tei muita atenção na sua Germany, mister Marvin... — Evans silenciou por um momento, depois voltou ao seu eterno tema: — Os mesmos crimes também acontecem no seu país, acredite em mim! Naquele tempo os nossos repórteres pensaram que faziam um grande escândalo, maior impossível. Fizeram-no. Os senho­res em Washington ficaram incrivelmente nervosos, durante al­guns dias. O reator desativado. Então, vocês vêem, nós fazemos mesmo tudo! E as pessoas que não moram diretamente aqui esqueceram-se de tudo. Eu lhe digo, mister, os grandes e os ricos e toda a raça de assassinos, eles só podem sobreviver há milê­nios, porque os homens esquecem rápido. Idiotas! — gritou ele, e bateu na sua testa com a mão aberta — Nós somos idiotas. Somos idiotamente educados. Idiotamente nos mantemos a vida inteira. Eles sabem bem o que fazem. Como devem nos adestrar. Como deve ser nossa vida. O senhor sabe como é a nossa vida, Marvin? Comer, trepar, ver televisão. Exatamente assim é na França, na Rússia, na Inglaterra. Como foi mesmo com o grande acidente em Windscale, que o governo de lá manteve como segredo 25 anos, antes de ser descoberto? — Evans gritava com tal cólera, que ele parou o Landrover no meio do pasto por não poder mais dirigir. Ele arquejou. Então continuou a gritar: — As crianças nascidas aqui nos anos 40 ou 50, como eu, como o meu primo Tom, receberam, apenas com o leite, mais radioatividade durante a vida que as pobres minhocas que cresceram em Nevadas, onde eles fazem testes nucleares. Um único e gigantesco crime, mister Marvin! O que o governo fez contra isso? O de hoje e o anterior e o outro? Todos os fucked-up goddamned governos desde 1945? Eles fizeram a mother-fucking shit, todos uns com os outros, nothing, nothing, nothing! Durante mais de 40 anos: nada. E finalmente desativaram o Reator-N, porque uma vez — uma vez! — o escândalo depois das reportagens dos jornais e dos canais de TV foi muito grande. Este é um mau ano para a administração de Reagan. Um ano no qual os garotos da TV e da imprensa ficaram mais acordados. Aqui e no complexo do rio Savannah na Carolina do Sul e em Rocky Flats em Denver, Colorado. Lá aconteceu o mesmo que aqui. Também lá o governo desligou os reatores. Também lá. Vá lá sem falta, mister! Sem falta o senhor precisa ir até lá!

Marvin se preparou duas vezes antes de poder falar. — Eu já estive lá, senhor Evans. No rio Savannah e em Rocky Flats.

— E o senhor viu tudo?

— Sim — disse Marvin —, vi tudo.

— E o senhor sabe também o que os políticos alegam?

— Sim, senhor Evans.

— Eles se cagam nas calças! — Evans gritou — Choramingam e lamentam: se desativarmos mais alguns deles, não poderemos mais construir armas nucleares e nos defender dos russos. O senhor sabia que até hoje, nos Estados Unidos inteiros, não temos um único depósito de lixo atômico? Nem um único fucked-up depósito! O senhor tem algum, um ao menos, em Germany?

— Não — disse Marvin, em voz baixa.

— O quê? Fale alto, homem, eu ouço mal. O senhor tem algum? Um único?

— Não! — Agora Marvin também gritava. Ele estava no fim de seu equilíbrio. — Também não temos. Nem um único.

— Então, meus parabéns, mister Marvin! E tudo sob absoluto controle, graças às regras de segurança. — Evans ligou o jipe novamente e deixou-o rodar até a estrada. Mais uma vez, passaram por alguns animais doentes, com partes do corpo que faltavam, sem patas. Havia também muitos saudáveis. Ou apenas parecem saudáveis, pensou Marvin, que agora tremia o corpo inteiro. Apenas parecem saudáveis e estão condenados à morte. Deus do céu! E eu colaboro com isso há anos. Há muitos anos. E considerei Susanne e o professor arruaceiros sem escrúpulos.

— Regras de segurança — repetiu Evans. — Vocês têm as mais seguras, o senhor disse. Mas não têm nenhum depósito. Por que vocês deveriam ter melhores sistemas que nós, mister? Nós tivemos os primeiros! Nossa gente tem mais experiência. Olhe só que boa segurança eles nos deram com sua grande experiência! Olhe em sua volta!

— Estou olhando — disse Marvin.

— O quê, mister?

— Estou observando à minha volta, senhor Evans. Há semanas. No país inteiro. Fotografo. Falo com muita gente. Gente como o senhor. Com médicos. Militares. Políticos. Responsáveis pela saúde. À noite datilografo meus relatórios.

— Para a sua inspeção?

— Sim — disse Marvin, sentindo como tremia, agora de raiva. — Para a minha inspeção.

— Eles vão se alegrar, mister Marvin.

— Eles devem se alegrar, senhor Evans!

— Sabe o que eles farão, mister Marvin? Vão demiti-lo.

— Sei disso, senhor Evans.

— Fazer tudo para que o senhor não arrume mais trabalho, nem mesmo como um faxineiro de bosta na sua maravilhosa Germany. Assim será, mister Marvin.

— Eu sei, senhor Evans. Mas há outros, muitos outros. Eles também falarão. Também escreverão seus relatórios. Não se pode demitir todos, senhor Evans. Não se pode queimar todos os nossos relatórios. Não se pode conseguir que todos calem o bico.

— Não? Não se pode? — Evans sorriu ironicamente. — Olhe o nosso país, mister! Pode-se demitir todos vocês. Pode-se queimar todos os seus relatórios. Já se fez, e se continuará a fazer. Por um longo tempo me perguntei que sentido isso tem: nós construímos armas nucleares para nos proteger dos russos — e nos envenenamos com isso! Parece que isso não tem sentido, não é?

— Sim.

— Mas só parece! E como isso tem sentido, mister, e como! Eu entendi tudo. Isso tem um maldito sentido. O lucro! O lucro! O lucro para aqueles que se metem nisso aqui. Pode-se ganhar bilhões e bilhões. E isso tem sentido, ou não? Isso não tem um maldito sentido, mister Marvin?

Ele não recebeu resposta.

O pensamento de Marvin estava de novo longe, muito longe dali... A casa no estuário. A névoa. O frio lá fora. A chaminé. A conversa com o professor Ganz e a Dra. Roth. O desenho do homem que bate um prego na testa. Markus Marvin teve de pensar novamente naquela tarde de novembro de 1987...

 

— A energia nuclear é mortal — disse Ganz. — Ele apertou ligeiramente a mão contra o peito, a dor estava mais forte. Continue, disse a si mesmo, continue a falar! — O senhor mencionou a Conferência de Toronto, Dr. Marvin. O senhor conhece o documento final e sua primeira frase, não é? — Ele citou: “A humanidade promove um experimento atmosférico só comparável a uma guerra nuclear....”

— Ouça, professor... — começou Marvin impacientemente, mas o outro o interrompeu: — Não, deixe-me falar! — A respiração de repente está me dificultando, pensou. O que é isso? O que está acontecendo? — De fato, a humanidade — disse ele com esforço — transformou a atmosfera, usando apenas gases, os gases de escape provocados e produzidos por ela e que há muito tempo estão fora de controle, numa bomba químico-climatológica de longa duração.

— Isso eu consideraria exagerado...

— De forma alguma, Dr. Marvin. Isso é, ao contrário, uma atenuação. Pois a “longa duração” da ignição da bomba consiste agora somente de poucas décadas. Nós, ecologistas, advertimos desesperadamente quando esse desenvolvimento se pronunciou. Neste meio tempo há uma certeza inexorável: nos próximos 30, 40 anos há a ameaça de um aumento da temperatura média global entre 1,5 até 6 graus centígrados — não balance a cabeça! Se as causas disso não forem revistas o mais rápido possível — o mais rápido possível! —, então as temperaturas, na primeira metade do próximo século — e seu início está a apenas 12 anos de distância de nós, aumentarão dois graus nas latitudes tropicais, nas latitudes médias de dois a cinco graus e nas latitudes polares, entre oito e dez graus. E disso o senhor sabe!

Do lado de fora do Uwe-Jens-Lornsen-Wai crianças brincavam, apesar do frio e da névoa. Elas cantavam. Suas vozes felizes entraram no grande cômodo:

 

“Marmota sabe dançar,

um e dois e três e quatro!

Marmota sabe dançar,

a pequena marmota!”

 

O suor emanava do corpo de Gerhard Ganz. Ele sentia gotinhas descerem da cabeça através da nuca. Com um lenço de papel, enxugava a pele. Continue! dizia a si próprio. Mesmo se você se sentir ainda pior. Você precisa continuar a falar! Você já disse isso mil vezes. Mil vezes em vão. Talvez seja esta, esta vez não será em vão. Por causa desta uma vez você viveu.

— As causas do aumento de temperatura foram identificadas — disse ele. — Elas estão ligadas sobretudo à liberação de dióxido de carbono na queima de materiais fósseis, como o carvão, óleo e gás subterrâneo; na maneira, estrutura e quantidade, pois, da energia gasta por nós.

— Do criminoso gasto de energia, que é exagerado e só serve para o enriquecimento de alguns poucos — disse Valerie Roth.

— Mas a causa não é só essa, como o senhor sabe — disse Ganz — mas também o aumento da concentração de hidroclorofluor-carbono na atmosfera — daqueles materiais, pois, que saem de milhões de latas de spray a toda hora, de bilhões de radiadores, de bilhões de geladeiras, condicionadores de ar e na produção de materiais plásticos.

— Por que o senhor me conta tudo isso? O que tenho a ver com isso? — Marvin se irritou de ter aceito aquele convite. Fanáticos, pensou. Loucos inocentes.

— Vou lhe explicar logo por que contamos tudo isso ao senhor — disse Ganz. Valerie me olha seriamente, pensou. Tenho uma aparência tão péssima assim? Também me sinto péssimo. Agora a dor aparece no braço esquerdo. Não importa! Continue! Preciso dizer tudo a este homem. É um daqueles que ao menos tem compreensão suficiente. Preciso ganhá-lo para nós. Ele não pode continuar colaborando com aqueles que exterminam o mundo. Não pode. Eu sinto, não, eu sei, ele passará para o nosso lado.

Ganz disse: — O efeito-estufa será fortificado através do desmatamento rápido e absolutamente inconsciente das florestas tro­picais — aí o senhor não pode me contradizer! — como também através da morte da floresta e a destruição do solo...

— Realmente não sei por que o senhor me conta tudo isso — Marvin o interrompeu. — O que eu posso fazer?

— Um momento. Isso lhe diremos logo, logo — disse Valerie Roth. — O senhor sabe que, através da liberação de dióxido de carbono, para falar somente do de base fóssil, surgem por ano quase 21 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Apenas a queima maligna de florestas aumenta as emissões de dióxido de carbono no globo em 20%. Queimada, hidroclorofluorcarbono, gás metano de três bilhões de estômagos bovinos — tudo isto junto tem o efeito, com os outros gases encontrados, de um teto de vidro de uma estufa que está tapado sobre nossa Terra, não é? Tudo isso incomoda o calor administrado pela Terra, porque a irradiação de calor para o universo está cada vez mais bloqueada.

Marvin não agüentava mais. — A senhora quer me dar aulas particulares de ciências, doutora?

— Certamente não — disse Valerie Roth.

— O quê, então?

— Queremos que passe para o nosso lado — disse o professor Ganz, enquanto sentia como a dor do braço esquerdo começava a alcançar sua mão, seus dedos. — Que trabalhe conosco. Que tente evitar, conosco, o pior...

Isto é mesmo nojento, Marvin pensou.

 

Isto é mesmo nojento, pensei naquele tempo, lembrava-se Marvin, quando agora estava sentado no Landrover, ao lado do fazendeiro Evans. E agora? E agora? Agora cheguei ao primeiro círculo do inferno. Oh, maldição, maldição, maldição!

Eles haviam alcançado a estrada e iam em direção à pequena cidade de Mesa. Depois de um tempo Marvin disse comovido, mas também irado consigo mesmo, irado por seu comportamento naquela casa em Sylt: — Já estive aqui uma vez, senhor Evans. Não aqui diretamente, pois o tempo não fora suficiente. Mas estive em Richland. E lá eu conversei com muita gente.

— E então?

— E então me disseram que cerca de 150 mil pessoas vivem na região de Tri-Cities, direta ou indiretamente, da energia nuclear. Todos estariam convencidos de fazer algo de bom, de necessário. Quase ninguém vê inconvenientes. O senhor sabe tão bem quanto eu: em Richland há um supermercado com um enorme cartaz, no qual está escrito ATOMIC FOOD. E o boliche maior se chama Atomic Lanes. E o time de futebol da High-School — que emblema eles têm nas suas jaquetas? Eles têm nas suas jaquetas um cogumelo atômico, senhor Evans. E como eles se denominam? Os Richland Bombers. A sua pobre gente, não é verdade, a sua pobre gente, que é tão desamparada...

— Idiotas! Idiotas mesmo, sistematicamente imbecilizados!

— Deixe-me falar, senhor Evans! Há em Richland uma grande lavanderia que se chama Atomic Laundry. Como ela faz propaganda em cartazes e anúncios gigantes? Eu vi. Eu fotografei. Assim a Atomic Laundry faz propaganda: “Nós detonamos a sujeira de suas roupas — com a água mais quente da cidade.”

— Malditos, idiotas. — Ray Evans agora dirigia com mais velocidade. Suas mãos agarravam-se ao volante. Ninguém, nenhum carro pelo caminho. — Idiotas, mister Marvin! Só assim funciona esta merda de mundo. Idiotas! Por exemplo, Joe Webb! É dirigente de uma associação de cidadãos aqui. Por Hanford. Pelas fábricas atômicas. Chama-se Hanford Family. O senhor precisa ir ver esse idiota, mister Marvin, visitá-lo, falar com esse cara! Na casa dele a bíblia está aberta sobre a mesa, e antes que o senhor lhe diga alguma coisa, ele dirá ao senhor.

— E o quê?

— Isto: a indústria de plutônio não faz mal a ninguém! Ela presta serviços a todos, diz o filho da mãe. Uma campanha mal intencionada está sendo feita contra Hanford, diz ele. E quando o senhor perguntar quem faz essa campanha mal intencionada, ele responderá: o senador Brock Adams e os chamados grupos ecológicos e os jornais e os canais de televisão que querem nos derrubar. Ele vai lhe dizer isso na cara, esse assassino filho da mãe! Esse Joe Webb é um dos que dizem que nunca houve um acidente em Hanford. Não há nenhuma prova de que o iodo-131 produza câncer, diz ele. E o fato do Reator-N ter sido desativado o son of a bitch chama de “tragé­dia”! — Eles haviam alcançado a Main Street de Mesa. Postos de gasolina, cinemas, bancos, lojas, alguns prédios altos. Pouco trânsito.

As pessoas, pensou Marvin. As pessoas aqui. Todos parecem aflitos. Preocupados. Ninguém sorri. Até as crianças são sérias. Só algumas brincam. E mesmo assim são tristes quando brincam. A maioria fica sentada ou em pé. Como os bois no pasto. Tudo aqui é triste, pensou Marvin, que grande tristeza!

— E como esse Joe Webb pensam muitos — disse Ray Evans, e tossiu. — Ainda. Justo agora. Não aqui, naturalmente. Mas em Richland, Kennewick, Pasco. O senhor tem razão com a Atomic Food e a Atomic Laundry e tudo o mais, mister Marvin. Bico grande, nada na cabeça. Esses caras são tão imbecis — se eles tivessem um instituto de funerais ninguém mais morreria! Mas não aqui em Mesa, mister! Aqui nós nos cagamos de medo, desde que o Reator-N foi desativado. Cada vez mais gente vai embora. Casas e apartamentos há agora a torto e a direito. — Ele riu de novo o seu sorriso desesperançoso.

— E existe mais um medo entre as pessoas aqui.

— Que tipo de medo?

— Medo de perder seus empregos na indústria nuclear. Que mais reatores tenham de ser desativados. E disso eles também têm medo em Richland e em Kennewick e em Pasco. Em toda a região de Tri-Cities. Medo. Medo. Medo. Medo da vida. Medo da morte. — Ele conduziu o jipe para a beira da estrada, enquanto cantava com voz frágil uns trechos da velha canção: Ahm tired of livin’. An’ feared of dying, But Ol’man river, he jes keeps rollin’ along...

Evans saiu do jipe. — Venha, mister — disse, e já foi na frente, adentrando o Stardust Memories Cafe.

Um boteco como em cem filmes americanos: balcão comprido, no qual come-se e bebe-se sobre bancos altos. Nichos coloridos com mesas de plástico coloridas e cadeiras de plástico. Ao lado, uma loja de quinquilharias, farmácia, drogaria e loja de departamentos — a loja era tudo ao mesmo tempo. Aqui podia-se comprar tanto uma boneca como uma arma, um pacote de preservativos com sabor framboesa ou laranja, assim como varas de pesca, livros de bolso, sementes de gerânio ou uma furadeira elétrica.

Empregados de lojas e de escritórios vizinhos estavam sentados lá, trabalhadores de uma construção próxima e três moças de uma high-school com seus namorados, que brincavam um pouco, enquanto que os outros falavam sério e baixo. E a maioria, viu Marvin, tinha glândulas tireóides bem inchadas.

Logo ao entrar, veio em direção a eles o primo de Ray Evans, Tom. Eles se cumprimentaram e Marvin pensou que Tom era um tipo esquisito, para se pensar bondosamente. Tom, a quem pertencia o Stardust Memories Cafe, pediu silêncio, ficou calmo, e apresentou o gentleman da Alemanha, que fora enviado pela sua inspeção para que pudesse ter uma impressão do lugar. Ele também trabalhava no atomic business e deveria fazer um relatório de sua inspeção para a gerência, e também para maybe, uma americana, sobre tudo o que se passava aqui e, talvez, who knows, as coisas ficassem diferentes e melhores. Se alguém tinha alguma coisa contra o senhor Marvin fotografar.

Ninguém tinha nada contra, as pessoas balançaram a cabeça para o estranho, agora algumas sorriam, rápida e amigavelmente, e a beleza atrás do balcão, sobre a qual os rapazes diziam que se parecia com Marilyn Monroe, retocou rapidamente os lábios. Os mais estranhos caminhos já haviam levado a Hollywood.

— Um drink? — Tom perguntou.

— Talvez uma Coca.

— Três cokes, Corabelle!

E enquanto Marilyn servia no balcão, as pessoas falavam baixinho umas com as outras, e as três teenagers cochichavam com os seus namorados. Também aqui Marvin sentia aquela grande tristeza, aquela tímida devoção para com a dura vida, aquela desesperança que pairava sobre tudo e todos como um orvalho sujo. Mesmo um pequeno cachorro sobre uma velhíssima cadeira de vime sob um enorme cartaz, o qual intimava a prevenção contra a AIDS, olhou aflito para Marvin com pequenos olhos opacos. Seu pêlo era sarnento, muito já havia caído, via-se a pele branca. Tão minúsculo o cachorro, tão grande a radiola de fichas entre a cadeira de vime e a porta para os sanitários.

Como contrapeso da radiola de fichas estava pendurado do outro lado da porta um grande quadro, em direção do qual Tom mancava agora, torto e encurvado; seu primo e Marvin o seguiram. Ray Evans havia dito a Marvin que lhe mostraria algo que ele deveria fotografar. Com voz estranhamente metálica, Tom ex­plicou que ele mesmo pusera os títulos no quadro, word by word, e o que estava lá era a pura verdade, cross my heart and hope to die. Escrito em vermelho, bem alto, estava: DEATH MILE FAMILIES. Abaixo, 29 sobrenomes.

— Fotografe isto, senhor! — Tom disse. Take some pictures! Take the names! All of them. — Então houve um silêncio na gran­de sala, Marvin fotografou e todos observavam. O gentleman da Alemanha se interessa realmente por essa história. Porque ele sendo, some bigshot, de um seguro, maybe, talvez as coisas real­mente mudem. Essa maldita esperança que você sempre tem.

No quadro estava escrito:

 

OS LIVESEYS — mãe e filha, câncer nas glândulas tireóides

OS HAMMONDS — Mary e Bob, câncer no seio, câncer no fígado

OS FORRESTS — o filho, câncer na pele; a mãe, câncer no seio

MIKE E HELEN LEE — ambos câncer, os filhos foram embora

OS HOLMES — mãe, câncer nos ossos

 

E assim por diante. 29 nomes, por último havia: TOM EVANS.

Ele mesmo explicou rapidamente o que lhe faltava: — Nasci no dia 25 de março de 1947. Com pernas curvas e dedos curvos. — Ele mostrou. — Dedos das mãos e dos pés aleijados. Foram muitas vezes operados, até que melhoraram um pouco — estes aqui, não. Preciso usar luvas especiais. Sou impotente. A mulher me abando­nou depois da primeira noite de casados. Todo mundo aqui sabe. Posso falar disso sem problemas. Muitos estão na mesma situação que eu. O Café aqui é uma mina de ouro, confesso. Mas cago em cima. Isto tudo me enoja. Só quero um coisa, for Christ’s sake!

— Ah, pare com isso, Tom! — disse um cliente.

— Não vou parar nunca — disse Tom.

— Cara, não dá mais pra ouvir isso! — um outro disse.

— Então dê o fora, se você não pode mais ouvir isso, Fred!

— Você realmente precisa se libertar disso, Tom! — disse uma mulher. Talvez pertença a ela a pequena loja ao lado, pensou Marvin. — Conosco, tudo bem, a gente conhece você. Mas as pessoas...

— As pessoas falam, Tom. Dizem que você é um contraria­do. Isto é uma das coisas mais inofensivas que elas dizem. Tam­bém dizem que you’re nuts, que você é louco, que você já não tem todos os parafusos, que a irradiação subiu para o seu cérebro. Pare de vez com isso, Tom! E ainda mais na frente do gentleman de Germany!

— Principalmente na frente do gentleman de Germany! — Tom disse, obstinado. — Justamente ele deve ouvir e me fotografar tanto quanto ele quiser. Em frente, continue a bater, sir, continue! E as pessoas podem pegar seu falatório imbecil e enfiá-lo no rabo.

— O que você quer ter de qualquer maneira? — perguntou Marvin.

— Justiça — disse o torto e aleijado Tom, e alguns clientes riram um riso malvado, e o pequeno cachorro choramingou de leve como se quisesse dizer: ele quer justiça, meu Deus!

— Isto mesmo, justiça — disse Tom. Agora eles só balançavam a cabeça e continuavam a comer seu frango frio ou seu bife com batatas fritas com muito ketchup em cima. Todos que conheciam Tom o consideravam pirado, um pirado inocente. Tinha mesmo sua neura com a justiça. Ele mesmo admitia.

— Tudo bem — disse Tom —, eu sou louco. Okay, folks, I’m nuts, muitos dizem isso, especialmente aquele bosta do Joe Webb, aquele no-good-fucked-up-son-of-a-bitch! “Tom Evans, ah, o lou­co”, diz ele, “que ficou pretensamente canceroso por causa de Hanford, câncer nas glândulas tireóides, diz ele, mas há uma predisposição genética, isso eu sei, todos os médicos aqui disseram isso, um defeituoso genético e um arruaceiro comunista, esse é Tom Evans.” Assim fala esse mau-caráter Joe Webb. Sou um goddamned commie, folks? Vocês me conhecem, vocês sabem que isso é uma mentira suja. Ou não?

Algumas reações simpáticas a ele e novamente o pedido de que ele finalmente parasse com isso.

— É claro que você não é nenhum commie, Tom — disse um gordo com enormes glândulas tireóides — mas essa sua coisa com a justiça, não fique com raiva, mas isso já ninguém agüenta mais, cara.

Alguns deram razão ao gordo. Outros protestaram. E assim eles começaram a discutir o tema.

— Você quer justiça — disse um rapaz com a cara cheia de sardas. — Dinheiro. Indenização pela sua doença. Isso você não vai ter nunca, entenda de uma vez por todas, cara!

— Por que é que ele nunca vai tê-la? — perguntou Marvin, que fotografava sem parar.

— Porque eles precisariam pagar bilhões a milhares no país inteiro. — Um homem de terno azul, camisa branca e gravata azul se meteu, talvez fosse o gerente da filial bancária ali defronte. — E assim transferem todas as inspeções, todos os médicos, todos os seguros para defeitos genéticos! Esta é a palavra preferida de­les. Genético! Tom Evans e toda a gente na trilha da morte e to­dos que estão doentes, eu também, não temos nenhuma chance, no goddamned chance, no sir, ninguém tem uma maldita chance.

— Por que — disse um homem, cujo rosto estava desfigurado pelos eczemas e cujos olhos estavam inflamados — sempre se diz que tudo o que temos, que todas as doenças não são geneticamente explicáveis, ou que o câncer nas glândulas tireóides decorre de uma falta natural de iodo — isto realmente existe, não é, mister?

— Sim — disse Marvin, e fotografou o homem com o rosto carcomido, sentindo-se tão miserável como nunca. Ele pensou desesperado em Susanne e na sua conversa com o professor Ganz e a Dra. Valerie Roth na invernosa ilha de Sylt, e disse: — Mas se vocês, se preciso, diante do tribunal, podem provar que suas doenças não são geneticamente explicáveis, que vocês — como os animais — ficaram doentes com a irradiação aqui... Quer dizer, justiça aqui, justiça acolá, isso não existe! Um tribunal precisa compreender isso. Não é possível que todos os homens sejam uns safados.

— Talvez sim. De qualquer forma, nenhum de nós conseguiu — disse o homem com terno azul. — Tentar, muitos tentaram, believe you me, acredite!

— Lá em Richland — disse Corabelle atrás do balcão, botando os cabelos louros pra trás, esticando o busto, e já estava something to look at, um bom número, oh yeah — lá em Richland existe um Science Center e um computador. Estive lá uma vez. No computador está escrito PARA A SUA DOSE PESSOAL. — Marvin a fotogra­fou. Ela se dirigiu a ele, sorriu como Marilyn e, enquanto contava, imitava a voz de Marilyn. Não se sabia realmente, mas alguns dizem que um casal de superstars tentou tirá-la da miséria, e que depois ela posou nua num desses calendários. — Então eu me sentei lá, mister Marvin, e o computador perguntou: “Onde você mora?” Digito: “Mesa, state of Washington.” Vem ao monitor algo escrito em verde: “Irradiação da terra — 26 milírios por ano.”

Marvin pensou: milírio, aqui, é uma palavra como Pepsi, todo mundo conhece.

— “Do prédio de apartamentos — sete milírios por ano.” Então o computador perguntou pelos exames de raio-X. Quantos eu havia feito? Quanto tempo vejo televisão? Quantas vezes andei de avião? Perguntou pela comida e bebida, digitei tudo bonitinho, e sempre novos números apareciam no monitor, todos simplesmente idiotas, ridiculamente baixos. No final o computador perguntou: “A que distância você mora da usina nuclear mais próxima?” — Enquanto falava, Corabelle fitava Marvin ininterruptamente. — Bem, pensei, vou me divertir, e digitei: “Diretamente na cerca.” Just for the hell of it, you know. Sem mais nem menos.

— E? — Marvin perguntou.

— O computador calculou três milírios a mais, senhor Marvin! Três milírios — diretamente na cerca!

Todos ouviram a estória de Corabelle. Um homem praguejou alto e longamente. Outro riu. O pequeno cachorro gemeu nova­mente.

— Minha dose pessoal, então, é de 2.168,15 milírios anualmente — disse Corabelle. Ela havia olhado para um papel, pregado com percevejo na parede interior do balcão. — Temos aqui dois radiologistas. Também me consultei com eles. Um constatou algumas centenas de milírios a menos, o outro, a mais. Tudo genético, mister Marvin, tudo genético. Também comigo.

— Como assim? O que você tem?

— Leucemia — disse Corabelle. — Estou constantemente em tratamento. Agora mesmo a fórmula do sangue melhorou um pouco. Posso viver ainda décadas a fio, disse o doutor. — Dez anos de Hollywood me bastariam, ela pensou. Marilyn também não teve mais que isso. — Atípico — disse ela.

— O que é atípico?

Corabelle botou a blusa de seda branca energicamente para dentro da saia preta. Seios realmente bonitos.

— Que eu tenha leucemia. Os homens têm mais que as mulheres. Houve uma grande pesquisa em Tennessee. Sobre defeitos genéticos, naturalmente, não sobre os causados por irradiação. Nos homens, há mais leucemia e câncer no cérebro. Nas mulheres, há mais câncer no busto. Como eu disse, sou atípica. — Ela deu de presente a Marvin um sorriso prometedor, ao que ele disse, cheio de raiva: — E por que você aceita isso? Por que não protesta?

— Já fizemos isso mil vezes — disse um trabalhador.

— Mas é melhor pararmos por aqui — disse Ray Evans, que havia levado Marvin até lá. — I keep telling you again and again. Digo a vocês e repito; a você também, Tom. Acalme-se! Veja, mister Marvin, a maioria de nós tem dívidas no banco. Nos Esta­dos Unidos é assim mesmo. Quando alguém tem algo a ver com fábricas nucleares, e a maioria tem, e quando esse alguém faz confusão, ele é demitido e não pode pagar suas dívidas bancá­rias. Se ele diz que é doente, perde o trabalho. E o banco rescinde imediatamente o crédito. Sou fazendeiro, não tenho nada a ver com as fábricas nucleares. Mas também devo ao banco. Se eu fosse falar de doença, também o meu crédito seria rescindido. Além disso: o senhor viu o que cresce aqui, o que vem da região — milho, batatas, frutas, vinho. Ninguém mais compraria nos­so produto se se dissesse por aí que o que” fornecemos, também eu, como a minha carne de boi, vem de uma região contaminada, não é?

Professor Ganz, Marvin pensou. Aquela tarde na casa dele. O que disse ainda? O que aconteceu ainda...

 

— E o buraco de ozônio — disse o professor Gerhard Ganz. — Tanta coisa já foi construída, doutor Marvin. Falta um minuto para as doze. Somente juntos poderemos, não digo afastar, já que isso não é mais possível, mas fazer a catástrofe menor possível. — De repente ele teve a impressão de não ter mais dores e de se sentir maravilhosamente bem. — A Terra, como o senhor sabe, é coberta de uma camada de ozônio num espaço de cinco a 50 quilômetros. Essa camada protege a vida terrestre dos perigosos raios infravermelhos do universo. Todos os anos, na primavera antártica, nos meses de setembro e outubro, desaparecem daqui mais de 50%, em alguns lugares até mais de 90% das moléculas de ozônio. De maneira dramática, essa área de ozônio extremamente diluído se alastrou nos últimos anos, pelo fato de infestarmos a atmosfera. No momento, o “buraco” é tão grande quanto os EUA. Câncer de pele, outros tipos de câncer, doenças desconhecidas e a quebra de todos os fenômenos da natureza serão as conseqüências inevitáveis, se o buraco ficar maior.

— Por favor — disse Marvin. Ele balançou a cabeça e olhou através da vidraça o estuário ali embaixo. Estava anoitecendo.

— O quê, por favor?

— Por favor, caro professor, sem pânico! — Marvin disse, repentinamente muito irritado. Velho pateta, pensou. E essa Roth, sua parva assistente! Precisava mesmo vir aqui e escutar tudo isso?

— Pânico? — Valerie Roth estava atônita.

— Sim — disse Marvin exasperado. — Sim, sim, sim! Buraco de ozônio! Catástrofe climática! Há anos que não ouço outra coisa. Todos os jornais, o rádio, a televisão vivem disso. Ninguém pode mais abrir um folhetim sem ler que a diabólica indústria destrói a Terra. Que todos nós somos criminosos irresponsáveis. Esta mentira se tornou a conversa preferida das festas.

— Doutor Marvin... — começou Ganz, mas ele não se deixou mais interromper.

— Em escritórios. Em escolas. No ônibus. Sempre isso. Sempre a vontade do declínio. Todo folhetim vagabundo traz a cada dia uma nova, uma horrível informação. Um congresso atrás do outro. Pesquisas. Greenpeace-heróis. Manifestações de protesto. Gente que não sabe de nada protesta, acusa! Todo político precisa, todo dia, declarar que ele e seu partido se engajam com todas as forças pela salvação do mundo — como se eles não fizessem o que é possível fazer!

— O que fazem os políticos? — Valerie Roth gritou, agora irritada como ele. — O quê, senhor Marvin? Nada! Absolutamente nada!

— Isto não é verdade! — gritou Marvin.

— Por favor! — disse Ganz. — Por favor... — Mas os dois não lhe deram ouvidos.

— Isto é verdade! — Valerie Roth gritou. — Tudo é prometido. Nada é feito. No parlamento foi requerida uma proibição imediata de hidroclorofluorcarbono. E negada! A justificativa do chanceler, ao pé da letra, é a seguinte: “Não podemos dar ordens à indústria. Ela está muito consciente de sua responsabilidade perante a socie­dade.” Nunca houve declaração maior de bancarrota de um governo absolutamente subordinado à indústria.

De longe, do crepúsculo e névoa, soou a sirene de um trem que passava sobre o dique de Hindenburgo.

Valerie Roth gritou, agora completamente fora de si: — Nossos políticos estão na indústria do show! O ministro do meio ambiente nada no Reno e mostra que de fato se pode sair vivo de lá. Na Baviera, um outro bebe um gole de leite contaminado, que há anos é servido no país, e diz: “Não me faz mal!” O ministro das finanças bebe um copo de água do Mar do Norte e prova que se pode sobreviver a isso.

— Por favor, Valerie — disse Ganz —, por favor, pare!

Mas Valerie Roth não parava. — Vivemos num país escandaloso! Estou desapontada com o senhor, doutor Marvin, muito desapontada. O senhor acha então certo que aqui tenham sido gastos 60 bilhões com energia nuclear — e para uma ecológica energia renovável só uma fração disso? Sim, o senhor acha isso certo?

— Olhe aqui, eu...

— O governo “garante” bilhões à gente da Mercedes, que com isso pode se tornar, ligada à MBB, a maior fábrica de armas da Europa! N bilhões para o caçador 90! O rápido reator sobre-regenerador Kalkar, que nunca funcionará, nem poderá — n milhões por ano apenas para a sua manutenção!

Marvin gritou irado: — O que é que há como proteção do meio ambiente na Europa Oriental? Nada! Absolutamente nada! E eles infestam o ar mais do que todos os países no Ocidente!

— Outros devem falar de seus escândalos — gritou Roth —, eu falo do nosso. Em todo o mundo, um trilhão de dólares anualmente para armamento! Mais 40, 50 anos, e o nosso mundo não existirá mais!

Nesse momento, Gerhard Ganz teve a impressão que uma mão de aço lhe tirava o coração do peito. Ele se levantou cambaleando e logo após caiu no chão. Ficou estendido, imóvel.

— Gerhard! — Valerie Roth gritou. Ela se ajoelhou sobre ele, Marvin a seu lado. Eles tentaram fazer com que Ganz se deitasse de costas para o chão. Seu corpo estava tão tenso, que a tentativa fracassou.

— Um médico — arfou Marvin. — Vamos, vamos, chame um médico!

 

— E assim foi, senhor Gilles — disse Markus Marvin nove meses depois, na tarde de 12 de agosto de 1988. Um calor intenso sobre Sylt, um calor intenso também na grande sala de estar da bonita casa antiga do professor Ganz em Keitum, sobre o estuário. Marvin se sentou na mesma poltrona que em novembro de 1987. Valerie Roth estava sentada num sofá forrado de linho, as pernas dobradas sob o corpo. Seu vestido de musselina leve e azul era longo e fechado. Marvin usava. jeans, uma camisa fina por fora da calça e sandálias. Seus cabelos pretos estavam, como sempre, despenteados. Nos olhos escuros, a segura e desperta disposição de tomar partido, de se misturar a eles, de agitar.

— E assim foi, senhor Gilles — repetiu —, nos Estados Unidos e muito antes aqui, quando o professor Ganz sofreu o seu primeiro enfarte grave.

O homem chamado Gilles olhou-o calado. Tinha mais de 60 anos. Tinha cabelos grisalhos, densos, era grande, robusto, mantinha-se ereto; os olhos cinzas desse homem brilhavam muito, desse homem que havia chegado lá uma hora antes e ouvido a história de Markus Marvin.

— Eles levaram Gerhard primeiro para o hospital da ilha — disse Valerie Roth. — 16 dias de UTI. Então o levaram de avião para Hamburgo. Lá, ele teve o seu segundo enfarte. Os médicos realmente fizeram todo o possível. Gerhard ainda viveu quatro meses. Quando parecia realmente que ele estava melhorando, teve o terceiro ataque. Não sobreviveu a ele. Morreu no dia 6 de agosto. Sempre foi seu desejo ser enterrado em Sylt. Por isso o senhor está aqui, senhor Gilles. O senhor conhecia Gerhard há muito tempo, não é? Vocês eram amigos?

— Sim — disse o homem com cabelos grisalhos e densos e olhos sérios. — Nos conhecíamos desde a guerra. Mas depois de 1945 só nos vimos duas vezes. Mas fiz questão de vir ao enterro.

— Agora já passou — disse Marvin.

Gaivotas gritavam sobre a casa. Alguma coisa se agitava.

— Sim — disse Gilles —, agora já passou. — Ele falava devagar, com uma voz profunda e calorosa. — E o senhor trabalha com a doutora Roth na Sociedade de Física, doutor Marvin?

— Sim — disse ele. — Grotesco, não é?

— Grotesco? — Gilles perguntou.

— Se o senhor pensar como decorreu minha última conversa com o professor Ganz...

— Ah — disse o desconhecido, que há uma hora chegara àquela casa, na verdade, por acaso. — O homem é polivalente, não é? E também o abalou muito o que o senhor viu nos Estados Unidos.

— Abalou demais — disse Marvin. — Voei de volta para a Alemanha e relatei à minha inspeção em Wiesbaden tudo sobre Mesa e tudo sobre os Quase-Super-PGA no complexo do rio Savannah, na Carolina do Sul, e sobre as condições inimagináveis em Rocky Flats, perto de Denver, Colorado, onde eles também tiveram de desativar reatores — forçados pela imprensa e televisão e iniciativas civis e greves dos trabalhadores. Mostrei àqueles que me enviaram aos Estados americanos, a fim de que conhecesse seus sistemas de segurança, as minhas fotos e que ouvissem meus cassetes com entrevistas. Eles pegaram fotos e cassetes, mas natu­ralmente estavam certos de que eu possuía os originais. De qualquer forma, me ameaçaram com medidas judiciais, no caso de eu vir a divulgar fatos — mentiras, disseram, obviamente. Então me bota­ram na rua, claro. — Marvin não podia deixar de falar.

Quando eu era mais jovem, pensou Philip Gilles, também era assim. Faz tempo.

— Sondei alguns bons escritores — apenas sondei —, eles queriam escrever sobre o assunto, porém seus editores, naturalmente, não queriam publicá-los.

— Hum — Gilles estava muito calmo, quase imóvel.

— Somente Die Zeit não teve medo. Eles enviaram para lá um redator e publicaram o que ele tinha a dizer, e ninguém acusou Die Zeit, ninguém! Mas a reportagem, é lógico, não mudou nada, nem aqui, nem nos Estados Unidos. O pessoal da energia nuclear continuou, business as usual, e nenhum deputado no parlamento achou que valeria a pena fazer uma pergunta. Nenhum cidadão se manifestou, não houve protestos, não houve nada, absolutamente nada. Bem, fiquei desempregado por um tempo, não ganhei dinheiro com as minhas filmagens, e agora estou na Sociedade de Física de Lübeck. Vendi minha casa em Wiesbaden, moro num apartamento perto daqui. — E Susanne está, provavelmente, na América do Sul, pensou. Nunca mais deu notícias. Precisei vender a casa em Wiesbaden, seria impossível continuar a morar lá. Tomara que Susanne não tenha muitas dificuldades. Ela é tão sincera, tão impulsiva...

E ali estavam sentadas as três pessoas na grande sala de estar da bonita casa de Gerhard Ganz, sobre o estuário. O tempo da maré cheia já havia passado há muito, a água recuou, já se via um largo filete preto de lodo e lama e pássaros em cima, os quais mordiam minhocas e peixes, e no caminho asfaltado passeavam muitos turistas de férias. O riso deles se espalhava no ar quente.

Marvin passou a mão nos cabelos, se levantou e começou a andar pra lá e pra cá. — Contei-lhe um pouco do que vivi com as fábricas nucleares, bem pouco mesmo. No instituto temos material sobre as grandes safadezas que acontecem todos os dias. Com as florestas tropicais. Com o irracional excesso de produção de energia. Posso provar, provar, senhor Gilles, que no ano 2040 este mundo será um inferno gritante para todos que então viverão. E só estou há pouco tempo no instituto. Não sei praticamente de nada. — Ele ficou em pé, diante de Gilles. — Então?

— Então, o quê?

— Então o senhor escreverá sobre isso?

Philip Gilles ficou calado.

— Senhor Gilles! — Valerie Roth tinha a voz rouca.

— Sim?

— O senhor quer nos ajudar? O senhor quer escrever sobre tudo isso?

— Não — disse Philip Gilles.

E ali estavam as gaivotas sobre a casa e sua gritaria estranha e agitada.

— O senhor não quer nos ajudar? — Marvin gritou.

— Não.

— Mas... mas... este mundo está perdido se não acontecer nada, senhor Gilles!

— Hum.

— E isso lhe é indiferente?

— Totalmente — disse o homem com cabelos grisalhos, e pensou que havia sido um erro ter vindo. Uma coroa teria sido suficiente. Interessaria ao seu amigo Gerhard o fato de ele ter vindo ao enterro? Gerhard não sabia de nada. Ele não sabe de mais nada, pensou Philip Gilles. Ele tinha sorte.

— Que a metade de todas as pessoas que hoje vive... — A calça de Marvin escorregou, ele a puxou para cima — de todas as pessoas que hoje vive irá presenciar o declínio, isso lhe é indiferente? Também isso?

— Também isso. Indiferente. Totalmente — disse Gilles. — Preciso de uma vez por todas telefonar para o aeroporto. — Com isso ele se levantou e foi ao telefone, passando pela lareira e a litografia de A. Paul Weber, com o homem que bate um prego na cabeça.

Markus Marvin interrompeu o seu caminho: — O senhor não tem nem um pouco de consciência?

— Pare com essa coisa de consciência! — disse Philip Gilles.

 

Há seis horas ele havia chegado, proveniente de Hamburgo, com uma Twin Otter no aeroporto de Sylt. A Twin Otter tinha uma lotação de 19 passageiros. Ela estava lotada. Todos os aviões estavam lotados agora, sempre, disseram a ele. Ele havia reservado um lugar a tempo. Volta em aberto. Em razão do calor, ele usava um leve terno azul. Roupas íntimas e uma gravata preta foram postas na pequena mala. Diante do aeroporto havia táxis. Ele se arrumou na parte traseira do primeiro e disse: — Benen-Diken-Hof, por favor.

— Vai demorar um pouco — disse o motorista, um homem idoso.

— Por quê?

— Carros. Tudo congestionado. O senhor vai ver logo.

Philip Gilles viu mesmo logo. Era assustador o que se passava na ilha. Só com muito esforço eles avançavam, também na larga estrada de Keitum. Centenas de carros se empurravam do leste para o oeste, do oeste para o leste. O campo florescia, arvorezinhas brilhavam no sol num violeta avermelhado.

— Todos pensam que faturamos aos montes na alta-estação — disse o motorista. — Aos montes? Menos da metade do que no inverno! E, mesmo assim, muitas viagens. Sou chamado tantas vezes que faz tempo que desliguei esta coisa. — Ele mostrou o radiotelefone. — Absurdo. Não avanço. E os nervos, senhor! Hoje é o meu último dia. Só rodo de novo quando aqui ficar mais calmo. Agora veja esse sacana!

O sacana era um cara vestido de couro preto e capacete, com uma pesada Honda, que ultrapassava a todos num tempo louco no estreito espaço entre as colunas daqueles que iam em direção leste, para o estuário.

Depois que Philip Gilles viu o sacana, olhou para a esquerda — à direita só havia carros — através da janela para os campos e pastagens, e viu bonitas casas antigas cobertas de cana, paredes brancas, vigas de madeira preta e muitas flores: arnicas douradas, tojos marrons, campânulas cor de salmão, e satiriões cor-de-carne. Gilles viu enormes pedras pretas; eram rochas erráticas, logo reconheceu, certamente já as havia visto no inverno. Eles vinham sempre aqui no inverno, sua mulher Linda e ele, cinco ou seis vezes, para o Natal e o Ano-Novo, e sempre ficaram hospedados no Benen-Diken-Hof. Por isso ele reservou lá um quarto, e teve sorte — um homem havia pisado numa medusa, o pé havia se inflamado, e assim ele viajou mais cedo que o previsto, e só por isso ainda havia lugar na alta-estação. Gilles ficava hospedado, na medida do possível, sempre nos hotéis onde ficara hospedado com Linda, pois assim ele podia pensar em como havia sido com ela. Fazia-lhe bem pensar como havia sido com Linda.

O motorista de táxi se chamava Edmund Keese, apresentou-se.

— Tudo uma merda — disse Edmund Keese. — Tudo está se acabando. Fazer, ninguém faz, aqueles finos senhores do go­verno. Embora os peixes e leões-marinhos morram, não só aqui, mas em todo o Mar do Norte, os da indústria despejam nele toda sorte de veneno, sempre mais — e ninguém os proíbe disso. Ninguém. Só o despejo de ácido de enxofre já é devastador. Esse ministro do meio ambiente! Esteve aqui, o homem. Nem ao menos falou com o nosso prefeito. Andou com os jornalistas pelo estuário. Em outros lugares organiza conferência em cima de conferência, engaja-se na RDA por um rio Elba limpo — e a indústria está cagando pra ele.

Gilles viu muitas ovelhas e cordeiros no pasto, todos muito magros. No inverno, quando esteve aqui com Linda, eles tinham seus pêlos densos, eram gordos, eram redondas bolas brancas. A maioria tinha sinais coloridos no pêlo, pontos azuis, vermelhos ou verdes, cruzes, triângulos e círculos, e Gilles se lembrou que Linda havia se informado exaustivamente, explicando-lhe depois: — Essas marcas são para os proprietários. Para que cada um saiba o que pertence a quem. No inverno, as ovelhas quase sempre ficam ao ar livre. Se ficam muito tempo no estábulo, seu pêlo fica ruim. No inverno as ovelhas são cruzadas.

— O quê?

— As ovelhas no inverno cruzam com os carneiros, querido. Diz-se assim. Muito decente, o que você queria? E todos os carneiros carregam então sacos vermelhos na sua guarnição — acalme-se, na França chama-se assim, la garniture, o equipa­mento. Então, os sacos coloridos ficam pendurados, para que se saiba imediatamente que ovelha está abençoada. O sorriso do cordeiro...

— Você está confundindo alguma coisa — ele disse.

— Quando o cordeiro está abençoado, ele sorri, o que você sabe sobre isso, criança de Deus? E na época da Páscoa as ovelhas abençoadas então parem, ou coisa parecida, agora eu me esqueci, elas dão à luz, enfim, então elas são tosquiadas, e por isso no verão elas são tão magras quanto as alegres cabrinhas...

— O apocalipse está perto — disse Keese, o motorista de táxi.

— O que é? — Ah, Linda, pensou Gilles.

— O apocalipse está perto, senhor. Ar envenenado, água envenenada, terra envenenada. Não vai durar muito, acredite em mim! Se os turistas não vêm, há os problemas com os desempregados. Isto seria o êxodo da ilha inteira. Isso mesmo: êxodo. Conheço muitas palavras finas, educo-me através da leitura.

Edmund Keese era um homem idoso e conversador; Gilles já sabia por quê. Há 16 anos que ele vivia sozinho, havia dito. Também um, pensou Gilles.

— Nosso prefeito — disse o solitário Keese —, se ele simplesmente jogasse tudo para o alto e dissesse àqueles de Bonn: “Comigo não, meus senhores!” Teríamos discutido. Não, disse ele, não. Ele era tão insignificante, disse ele, que não ajudaria em nada se ele renunciasse. E se eles dizem: “Fique!” Para onde ele poderia empurrar o ponteiro do relógio? Para um minuto para as 12? Ele diz que já são doze e cinco para Sylt. A cada ano perde-se um pedaço de ilha. Então, fazer o quê? Tudo no rabo. Digo mesmo. — Keese freou forte. Gilles foi jogado para a frente. — Maldita, desça e ande, se você não quer dirigir, imbecil!

A imbecil era uma loura na direção do carro na frente deles. Ela se maquiava enquanto dirigia, sempre freava, dava uma olhada no retrovisor e paquerava outros motoristas, que passavam lentamente em sentido contrário e admiravam sua beleza.

— Todos vêm para cá com suas carroças, e o trânsito fica um caos. Nem por isso deixam de existir em Husum grandes cartazes, segundo os quais pode-se conseguir no continente ótimas vagas para estacionar, e que aqui há bicicletas em todo posto de gasolina. Para alugar. Sem falar nos ônibus. Mas não! Anda logo, perua!

O ar era como vidro, e o distante era distante, claro e sereno. Mas no inverno, com névoa e chuva, tudo aqui se torna fantástico no campo, sobre os pântanos, pensou Philip Gilles. Veio-lhe à mente o que Ernst Penzoldt havia escrito: “Deus achou aqui o necessário para a produção do homem. Areia e argila para a forma, vento bastante para a respiração, a língua e a alma, umidade suficiente para as lágrimas, azul para os olhos, pedras para o coração no peito.

Penzoldt, pensou Gilles. Foi também um como nunca fui. Lembro-me exatamente do dia no nosso quarto no Benen-Diken-Hof, quando Linda leu-me essa passagem, e Linda está morta, e logo estarei morto e esta ilha e a Terra inteira e todos os homens. Não é uma pena?

— Quando ouvi falar que o “Kronos Titan” pode continuar a despejar, fiquei desconcertado — disse Keese. — Não, não, pra mim, chega. Não tenho mais confiança nos nossos políticos e seus discursos inúteis. Todos uns lacaios da indústria. Lacaios, o senhor vê — também uma dessas palavras! Conheço muitas, pois leio demais. Diga-me uma coisa, o senhor por acaso é escritor? O senhor me parece conhecido. O senhor escreve?

— Não — disse Gilles.

— Não faz mal — disse Keese. — Mas não tenho razão com os políticos? Estão a milhas de distância dos problemas! Não querem fazer nada. Não podem fazer nada. Um monarca — disse ele, sonhador — seria melhor um monarca. Desde que ele tenha a utopia certa. Novamente uma palavra dessas! Um monarca não fala besteira por aí, um monarca dá ordens. Agora estamos em Tinnum. Estamos chegando. Se a loura imbecil não houvesse dirigido na nossa frente!

Agora Philip Gilles via a chácara Stricker. Tinha mais de 300 anos, ele havia estado muitas vezes lá com Linda. Uma vez eles comeram lagosta, dia após dia, sempre preparada de outra forma, até que Linda quase teve um choque de albumina e foi preciso chamar um médico, e ele perguntou por que foram tão irresponsáveis comendo tanta lagosta. — Isso a senhora pode pagar com a vida. — Doutor — disse Linda em seguida —, com a minha vida eu pago de qualquer forma...

— Sim — disse agora o motorista, desanimado —, posso imaginar o que aconteceria se o primeiro-ministro e alguns de nós arrastássemos até diante do chanceler um leão-marinho morto. Se calculo bem, passar-se-ia bem perto de Engholm, este tomaria com ele um café e falaria sobre as crianças e então diria amigavelmente que os próximos submarinos não precisariam necessariamente ser construídos em Kiel... Uma hipótese, claro. Mas é assim mesmo que as coisas acontecem! Certo, pode-se fazer correntes humanas, colher assinaturas. Não dá em nada. Precisar-se-ia negociar. Imediatamente. Senão já se pode enterrar o mar. Mas o que acontece? O ministro do meio ambiente tolera os despejos. É a mesma coisa que dar veneno a um doente terminal e lhe desejar melhoras! Só mais dez minutos, senhor. Se não tivéssemos essa empalidecida na nossa frente... Não, não posso ficar pensando nos irmãos de Bonn. Na verdade deveria deixar meus impostos numa conta bloqueada. O chanceler? Há muito tempo deveria ter feito alguma coisa. Para tal ele foi eleito, não é? Mas ele não pode. A indústria! Mas se um bunda-mole como esse não desiste, então pelo menos deve lutar! Ninguém luta aqui. Nunca. Qualquer um pode ser julgado por força da lei. Cadastrado. Assim ele segue a carreira certa. Sabe o que eu sempre digo, senhor?

— O que o senhor sempre diz? — Philip Gilles perguntou.

— Melhor um cego que mija pela janela que um engraçadinho que o faz crer que ele está no sanitário. E o senhor sabe quem são esses engraçadinhos? Todos os caras que continuam fazendo a mesma coisa, enquanto a merda já bate no nosso pescoço. Os caras safados que estão bem de grana e que suplicam aos céus para que fique assim por um bom tempo. O cego, ele não vê nada, nada do que acontece no mundo, ele não entende nada. Não tem culpa de nada. Os engraçadinhos entendem tudo, sabem exatamente o que vem ao nosso encontro, o que acontecerá. — De repente, Keese falou baixo: — Na verdade, todos nós somos culpados. Quem é que economiza energia? Quem é que anda de bicicleta ou vai ao quinto andar pela escada e não com o elevador? Quem tem um catalisador e lava com água fria e renuncia a algumas lâmpadas e deixa de lavar as camisas até a última cor? O senhor faz isso? Ninguém o faz!

 

A moça parecia estar sempre contente e risonha. Agora ela não ria. Agora ela falou preocupada: — Senhor Gilles, o senhor falou com minha colega, com Nele Starck, a respeito de um quarto. Ela conhece o senhor há muito tempo. Ficou tão contente que o senhor voltasse aqui. Ficou bem excitada. Por isso ela não perguntou pelo seu endereço e número de telefone.

— Não tenho telefone — disse Gilles. — Telefonei de um hotel.

— Nele não sabia disso! Também não sabia que o senhor não mora mais em Berlim. Consultamos a ficha. O senhor esteve aqui pela última vez há 12 anos. No Natal e Ano-Novo. Com a sua esposa. Nele conhece a sua esposa. E é claro que telefonamos para Berlim. Mas lá em Grunewald moram agora outras pessoas, não sabiam nada a seu respeito. Nas informações de Berlim aconteceu o mesmo.

— Pois é — disse Gilles.

— Realmente não podemos fazer nada! Nele lhe deu o prazo correto: hoje, sexta-feira, 12 de agosto, 16 horas. E então eles mudaram a data não sei por quê, e o professor Ganz foi enterrado um dia antes, ontem. Como poderíamos tê-lo avisado?

Então ele chegara com um dia de atraso. Seu amigo Gerhard já estava debaixo da terra. E aqui no Benen-Diken-Hof eles não sabiam da morte de Linda. Acontece. Doze anos...

— A coroa que o senhor encomendou a Nele foi levada pontualmente, ontem, pela loja Blumen-Friedrich de Westerland. Há muitas coroas no túmulo. A sua é a mais bonita. Estive na igreja. E no cemitério. O professor tinha uma casa aqui em Keitum. Muita gente esteve ontem lá. Até mesmo um ministro de Kiel. Não tenho a mínima idéia onde ficaram hospedados. Talvez em Westerland. O que faremos agora, senhor Gilles? — Ela tentou rir ligeiramente. Friede Lennig era uma moça bonita, seu nome estava numa plaquinha no balcão da recepção.

— Quero descansar um pouco — disse ele. — O calor. O vôo. Talvez durma. Depois vou ao túmulo.

— O senhor Johannsen disse que o senhor irá para o apartamento que sempre teve. Número 11.

— Obrigado. Claas está? — Claas Johannsen era o proprietário do Benen-Diken-Hof.

— Precisou ir a Flensburg. Deixou muitas lembranças. — Friede se antecipou a Gilles. Eles haviam reformado a casa. O chão estava coberto de carpete branco e os anexos eram ligados entre eles por corredores longos e claros, que se constituíam de vidraças em ambos os lados. Por todos os cantos havia ovelhas, muitas brancas e duas pretas, artificiais, nenhuma empalhada. Isto se transformou numa enorme hospedaria, pensou Gilles, com sauna e piscina, tudo branco ou azul-claro. Através das grandes paredes de vidro dos corredores de ligação ele viu campos e caminhos, nos quais ele freqüentemente andou com Linda. Muitas ovelhas magras com marcas coloridas pastavam lá fora, e também alguns cavalos. Ele cruzou nos corredores com alegres crianças e adultos satisfeitos.

O apartamento 11, no qual ele e Linda sempre ficavam, era um pequeno bangalô com uma escada para o primeiro andar. A sala de estar era embaixo, como a cozinha, quarto e banheiro eram em cima. Também aqui eles haviam reformado, posto flores e uma cesta de frutas, e de repente Gilles acreditou estar sentindo o perfume de Linda. Ele se sentou, cansado. Sou um velho homem, ele pensou.

Então se sentiu melhor, subiu a escada, se banhou longamente e deitou nu sobre uma cama deixando a água evaporar. Através da janela aberta chegavam até ele vozes e o rolar dos trens sobre o dique de Hindenburgo e uma música soprava baixinho. Ele se lembrou de quanto havia sido feliz com Linda naquele quarto, mas aí ele já havia adormecido e pensou nisso sonhando.

 

Nos velhos tempos, quando o desejar ainda ajudava e se ia caçar baleias ou se transformava em capitão de armadores dinamarqueses e comerciantes de Hamburgo, muitos tiveram sorte e se mudaram, ricos, para Sylt. Eles construíam uma bonita casa e passavam aqui, em paz, o final da vida. Por volta de 1600 havia mais de 30 casinhas de camponeses na mais tarde vila de capitães Keitum, onde se fazia força para construir seu lar tão bonito quanto possível. E essas casas ainda hoje existiam, e para muitas pessoas Keitum era a parte mais bonita da ilha, não só para Philip Gilles.

Às três e meia ele foi pela cidade com árvores antiqüíssimas e caminhos de areia pela Süderstrasse até a C.-P.-Hansen-Allee pelo caminho Weidemann, passando pelo famoso restaurante até o museu regional de Sylt e a casa vermelha da Velha Frísia. De vez em quando ele parava e admirava as casas de capitães cobertas de folhas de cana, as paredes brancas, a cana musgosa, as portas e janelas quase sempre azuis. Ele passou por um supermercado e uma cabine telefônica amarela e novamente pelas milenares rochas erráticas e, por todos os caminhos que levavam ao estuário, viu grandes pedras encaixadas em muros de arrimo, por todos os lados flores, tantas flores e tantas pessoas alegres. E Linda ia a seu lado. Sim, aqui em Keitum ele tinha a impressão de que ela estava com ele.

Naquele 12 de agosto de 1988 a maré baixa alcançava o estuário às dez horas e quatro minutos e às vinte e duas horas e trinta e seis minutos; a maré alta, às três horas e quarenta e oito minutos e às quinze horas e cinqüenta e dois minutos. Alguém de Sylt lhe havia dado um calendário, e aí ele pôde consultá-lo.

Então olhou do alto da duna, sobre a qual ele estava, como a maré já havia avançado e subido, aqui e ali ela transbordava no caminho asfaltado e nas suas pedras de proteção, e o mar brilhava, cintilava e encadeava, e ele pensou como ele e Linda, vestindo roupas quentes — ela usava sempre gorros com borlas e quentes cachecóis e botas e jaquetas acolchoadas e calças aveludadas —, como eles andavam lá embaixo, pelo caminho e entre canaviais úmidos, areia, sargaço e bole-bole. Na maré baixa sempre havia uma grande faixa de lodo e lama, sobre ela mariscos, medusas e peque­nos caranguejos; eles prestavam atenção como os pássaros os picavam. Já na segunda visita Linda conhecia todos, pois ela havia comprado um livro com muitas ilustrações e lhe explicado tudo: — Tudo em você funciona pra dentro, e você nunca des­creve a natureza, isto é uma vergonha, os críticos também o di­zem, e cartas de leitores você também já recebeu: por que nenhu­ma descrição da natureza, senhor Gilles? E você? Não está nem aí para a natureza. Você é indiferente a ela. Os melhores bares e halls de hotéis e aeroportos lhe facilitam as coisas, mas não para mim! Agora escute, cheio de humildade e gratidão: neste paraíso de pássaros — não ria — há andorinhas-do-mar, gansos e patos, patos selvagens e gansos selvagens... — Linda ficava sempre mais rápida, enquanto andavam ao longo do estuário — ...e tarambolas, galinholas e bicos-de-espada e gaivotas e gaivotas pra­teadas...

— Eu não devo rir.

— Você, não, mas as gaivotas, sim, elas devem. E você sabe que sob um quilômetro quadrado de solo estuário vivem entre 40 e 50 milhões de minhocas? Você não sabe nada da natureza maravilhosa de Deus, e por isso é claro que você não pode escrever sobre ela. É uma lástima, este homem...

Nós não escolhemos nossas lembranças. Elas é que nos escolhem. E assim elas fizeram naquele dia de verão, quando Philip Gilles e Linda a seu lado andaram pelo Kirchweg para o norte com a maré cada vez mais alta.

São Severino, velha igreja de marinheiros, é uma construção da última fase do romantismo. O adorno na bacia de granito é provavelmente de origem irlandesa, o mesmo modelo ele e Linda acha­ram na decoração de velhas igrejas bretãs, como também em brasões da Bretanha. E foi Linda que o informou sobre o que uma senhora idosa havia contado a ela (Linda sempre ouvia estórias, pois ele precisava constantemente de estórias): — Em São Severino dois anões chamados Ing e Dum fundaram a torre e o sino; eles estão enterrados atrás das duas rochas erráticas no muro. Você pode fazer algo com isso?

Agora, tanto tempo depois da morte de Linda, ele viu novamente essas rochas, entrou no cemitério e foi para o túmulo fresco. Ainda não havia lápide, claro que não, apenas uma cruz de madeira, onde estava escrito: GERHARD GANZ, 1924-1988. E ele estava ali com Linda sobre o monte de terra e pensou que Gerhard lhe havia salvo a vida. Foi em 1944, eles transferiram Gerhard e sua tropa da frente oriental para a ocidental, e seu trem foi atacado por vôos rasantes, que atiraram. Philip Gilles sofreu um tiro na coxa e não podia andar e seria queimado pelos destroços do trem, se Gerhard não o houvesse tirado do fogo e carregado quase três quilômetros até um médico. Linda naturalmente sabia disso, quando o professor a conheceu em Sylt e a convidou com o seu marido até sua casa, a qual ficava no ponto mais alto sobre o estuário e era tão bonita, que Linda disse: — Quem pode viver aqui será feliz até a morte.

Rosas, cravos e satiriões floresciam no velho cemitério. Ele era cercado, como muitos jardins da ilha, por um muro de pedras, algumas lápides estavam quebradas e caídas, e Gilles estava lá, numa tarde de calor, e imaginava se Gerhard havia sido feliz até a morte. Ele nunca havia se casado; Gilles também não tinha conhecimento de parentes e na verdade não sabia nada sobre ele; de repente deu conta disso, e isso o fazia triste, pensar que ele sabia tão pouco das pessoas que tinham alguma importância na sua vida. Com exceção de você, claro, disse ele a Linda, que naquele dia estava com ele.

Sua coroa estava lá, as rosas amarelas já murchavam, na fita estava escrito apenas PHILIP, ele desejou assim. Havia muitas coroas, algumas em cavaletes em volta do túmulo, e muitos buquês, e todas as outras flores já murchavam.

E Gilles pensou como era estranho que pessoas que se conheciam do tempo da guerra, que se ajudaram e socorreram, que viveram e sobreviveram ao horror, em muitos casos, em quase todos, não se viram nunca mais, como se no geral eles não pudessem gostar de se rever, como se a amizade na guerra fosse bem diferente da amizade na paz, e assim ele também perdera Gerhard de vista. E Gerhard está morto e não tem idéia que estou aqui, pensou. Foi bobagem vir, também Linda não existe mais e ela não sabe do ocorrido. Já é tempo de entender isso, pensou, ela não anda comigo, ela não está a meu lado. É preciso desaparecer de novo. Algumas gaivotas gritavam sobre ele o tempo todo e voavam para o estuário e voltavam, pareciam muito irritadas. E agora Linda não estava mais ao lado dele.

Ele tentou rezar, mas isso nunca funcionou bem e agora também não. No outro canto do cemitério, num túmulo quente, um gato havia cruzado com uma gata, ele observou isso, e quando os bichos terminaram, ele deixou o cemitério e tomou o caminho de volta para o lugarejo. No dique e estuário abaixo havia muitas bétulas curvadas pelo vento, fantasticamente formadas, aleijadas, e a confusão de ramos já se separava no solo. A maré alta alcançava agora seu ponto máximo. Ela transbordava pelos caminhos, campos e pelas grandes pedras que se havia colocado lá para que ela não avançasse tanto, mas isso não preocupava a maré.

Ele se lembrou de que a casa de Gerhard estava nas proximidades, logo em frente no Uwe-Jens-Lornsen-Wai, perto da casa frísia, e ele pensou, vá lá! Era realmente uma casa muito bonita, num jardim grande e selvagem com paredes brancas, janelas e portas azuis, e no jardim estava sentada uma jovem senhora numa poltrona de vime, na sombra.

— Sim? — disse a jovem senhora.

— Boa tarde — disse ele e pensou imediatamente que teria sido melhor voltar para o Benen-Diken-Hof e ir para o aeroporto, agora, sem Linda.

A jovem senhora estava chegando aos 40, tinha estatura média e era esbelta. Ela usava um vestido longo de musselina leve, azul, todo fechado. Seus cabelos castanhos brilhavam no sol. Ela estava lendo um livro, que agora deixou virado sobre o joelho. Gilles pôde ler o título, era O livro do riso e do esquecimento, de Milan Kundera, esse era um escritor triste, pensou ele.

A jovem senhora perguntou: — Posso lhe ajudar em alguma coisa?

— Não — disse ele. — Desculpe o incômodo, por favor. Queria só ver a casa por um momento. Conhecia Gerhard Ganz, sabe? — Ele disse o seu nome.

— Philip Gilles? — Excitada, ela se levantou, o livro caiu na grama. O Philip Gilles? Digo, o escritor?

— Sim.

— Então a coroa com PHILIP na fita é do senhor?

— Sim.

— Incrível! — Ela chegou mais perto, e mais perto. Agora seu rosto estava a dois palmos do dele.

— Eu...

— Minhas lentes de contato — disse ela.

— Como?

— Perdi. Em algum lugar aqui na grama. Sou míope. Seis graus. Não posso lhe ver direito. Só daqui a duas horas.

— O quê, daqui a duas horas?

— Posso lhe ver direito. Meu Deus, Philip Gilles! — Sua voz soou rouca. Tinha dentes bonitos, os ossos da bochecha sobressalentes, uma grande boca com lábios grossos. Sob os olhos castanhos, profundas sombras. Ela parecia cansada. — Sou sua sobrinha — disse ela. — Valerie Roth. Trabalhamos muitos anos juntos. Ele falou tantas vezes do senhor.

— Mesmo?

— Sim, comigo. E com outros. Não sabia onde o senhor estava. Agora o senhor está aqui. Fantástico. Não posso acreditar. Em duas horas.

— Em duas horas?

— O mais tardar. Ele me prometeu.

Muito confusa essa sobrinha, pensou Gilles. Preciso sair daqui.

— Falo do motorista de táxi — disse ela. — Tenho uma identidade para as lentes. Todos têm, os que as usam. Meu único parente era Gerhard. Minha mãe morreu há 11 anos. Não tenho mais ninguém. É muito difícil para mim...

— Com certeza — disse ele — Meus pêsames, senhora Roth.

— Obrigada. Um bom oculista tem as lentes adequadas para mim. Telefonei para Westerland. Disse que precisava buscar as lentes no depósito, eu devo mandar o motorista de táxi com a identidade. Vai durar duas horas, com esse trânsito louco. Não pense que sou louca! Ou esquisita. A morte de Gerhard... me... tocou muito. Preciso voltar à realidade... Eles anteciparam o enterro em um dia.

— Sim — disse Gerhard, e começou a ir embora —, agora eu sei.

— Não acharam nada na autópsia — disse ela. As gaivotas agora gritavam muito alto, diretamente sobre eles.

Gilles continuou a andar.

— Nenhuma indicação — disse ela.

Gilles parou.

— Nenhuma indicação? — ele repetiu.

— Eles só disseram que ele precisava ser enterrado imediatamente. O calor, não é?

— Quem são “eles”?

— Os de lá, da administração da comunidade. — Valerie Roth apontou com o queixo. — Eu já havia mandado cartões. Precisei telefonar para todas as pessoas e comunicar a nova data. Não enviei cartão ao senhor. Não sabia onde o senhor mora, não é? Ainda hoje chegaram umas pessoas, com as quais não pude falar. Todas passaram por aqui. Só o senhor entrou.

— O que significa: nenhuma indicação? — Gilles perguntou. Por que entrei aqui? pensou ele.

— Ah! — disse a jovem senhora.

— Ah, o quê?

— O senhor sabe.

— Não sei de nada. O que significa ah?

— É repugnante isso, quando não se vê nada. As coisas aqui precisam estar à vista. Eu já sabia antes que eles não achariam nada.

— Quando, antes?

— Antes da autópsia. Foi um autêntico enfarte no miocárdio. Seu terceiro. O enfarte lhes economizou trabalho.

— Que tipo de trabalho?

— Matá-lo — disse Valerie Roth.

 

Caros colegas de Hoechst e Kali-Química,

todos os sintomas mostram que a humanidade está prestes a perder a desesperada corrida pela manutenção da camada de ozônio e contra o efeito-estufa. A indústria química se cansa de dizer que ela aprendeu com os próprios erros, mas mesmo assim as chefias das firmas ainda se permitem não divulgar os números de produção de hidroclorofluorcarbono. Elas brin­cam de gato e rato com a opinião pública e os políticos...

 

Quando Gilles leu essas frases já se haviam passado 15 minutos, e ele estava sentado com Valerie Roth na grande sala de estar da casa de Gerhard Ganz, sobre a qual Linda havia dito que quem morasse aqui seria feliz até a morte. Gerhard foi feliz até a morte? Foi?

A Dra. Roth não deixou Gilles ir embora de maneira nenhuma. Ela precisava falar com ele de qualquer maneira, tinha dito, e praticamente o empurrado para dentro de casa.

Falar sobre o quê?

— Leia isto primeiro! — Valerie havia dado a Gilles duas folhas datilografadas. — Isto é uma carta-aberta que será publicada na próxima semana pela Stern. Um químico a escreveu. Chama-se Peter Bolling. Trabalha conosco. Na Sociedade de Física de Lübeck. O senhor perguntou quem queria ver meu tio morto. Então leia — apenas um exemplo, esta carta-aberta! — Valerie agora estava sentada com o seu vestido longo de musselina num sofá muito grande, em forma de U, que rodeava uma mesa cheia de livros e que era forrado de linho. Gilles estava sentado numa velha poltrona perto da janela panorâmica, através da qual se podia ver, embaixo, o estuário. Agora as gaivotas gritavam sobre a casa, e mais e mais. Ele continuou a ler:

 

...Infelizmente sou eu que tenho que regatear, sobre se esses hidroclorofluorcarbonos contribuem em 20 ou 40% para a destruição da camada de ozônio, se eles condicionam o efeito-estufa em 20 ou 35%. Então deixemos de jogar com os números: dependendo da idade de vocês, talvez a pele de vocês ainda possa ser salva. Seus filhos e netos não o conse­guirão...

 

Ele baixou as folhas.

— Então — disse Valerie, rouca — o que o senhor acha disso? Ele não respondeu. Sobre a lareira estava pendurada uma litografia de A. Paul Weber, que ele conhecia. Um homem de pijama encostado no tronco de uma árvore, usa um gorro pontudo, tem um rosto sério e tenta bater com um martelo um grande prego na testa. O golpe no vazio, chamava-se o quadro, Gilles sabia. Sobre a cornija da lareira havia um vaso com flores-do-campo. Ele leu:

 

...Vocês acham normal quando a indústria trata os políticos como marionetes. Mas o que vocês contarão a seus filhos, quando toda a vegetação morrer, quando os mares não produzirem mais oxigênio por causa dos raios ultravioleta? Vocês balbuciarão sobre a carreira, gratificação, lealdade, ordem? Vocês não têm medo de ser chamados à responsabilidade por conta de suas atividades, quando gente com câncer na pele exigir de vocês indenização, quando agricultores reclamarem a plantação seca de vocês, quando famintos perguntarem pelo seu direito à alimentação?...

 

— O que o senhor lê sobre os hidroclorofluorcarbonos naturalmente é apenas um dos inúmeros escândalos que estão à mostra — disse Valerie Roth. As sombras sob os seus olhos agora pareciam pretas. — Há um monte de outros. Continue a ler!

 

...Ouçam suas mulheres e filhos, que exigem uma produção para a vida na Terra! Lutem em suas fábricas pela suspensão da produção dos hidroclorofluorcarbonos, como também de todas as substâncias nocivas ao ozônio! Trata-se da sobrevivência da humanidade...

 

Quando ele chegou a essa parte, um homem entrou na sala de estar e disse: — Senhor Gilles, graças a Deus!

O homem era grande e muito magro. Tinha um rosto estreito e cabelos arrepiados com vários remoinhos, de forma que pareciam sempre despenteados. Usava jeans, uma camisa leve sobre a calça e as sandálias. Tão magro, mas tão forte ele parecia. Ele dava uma impressão de ser nervoso e muito triste. Estava no início dos 40.

— Me chamo Markus Marvin. Isso é que é sorte! Estava tomando café com um jornalista no Benen-Diken-Hof, quando alguém disse que Philip Gilles estava hospedado lá, que tinha ido ao cemitério. Então fui correndo. No cemitério, ninguém. Pensei, dê uma olhada aqui! Talvez ele esteja aqui. O senhor conheceu Gerhard, não é? E de fato! Alegro-me, senhor Gilles, realmente! O senhor é justamente o homem de que precisamos. Oi, Valerie! Você ainda não passa bem?

— Sim. E perdi minhas lentes de contato.

— De novo? O senhor sabe, não há ninguém melhor. Gerhard sempre disse isso, não é verdade?

— Por isso pedi que o senhor Gilles entrasse. — Valerie pestanejava veementemente. — Esperei que o senhor viesse logo. Naturalmente, não há ninguém melhor.

Gilles se levantou.

— Por favor! Por favor! — adiantou-se Marvin, precipitado, empurrando-o de novo na poltrona. — Li seus livros quando ainda ia à escola. Grande, simplesmente grande! O senhor escreve de forma que todo mundo entenda. Seu livro sobre manipulação de gens — nós o desejamos! Todo mundo lê. Precisamos de alguém que seja compreendido pelas pessoas. Senhor Gilles, o senhor é um grande autor. Sem essas estórias idiotas, elitistas. É um que não dá importância à literatura...

— Eu dou importância à literatura — disse Gilles, levantando-se novamente. — Mas naturalmente agradeço pelo cumprimento.

— Pai todo-poderoso — disse Marvin, tremendo. — Não queria ofendê-lo! Pelo contrário! Nós o idolatramos. O senhor precisa acreditar nisso. Por favor! Senhor Gilles! O senhor acredita em mim?

— Naturalmente — disse Gilles. — Onde está o telefone?

— Um momento! Um momento! — Marvin levantou as mãos, implorando. — Vejo que o senhor leu a carta-aberta de Peter Bolling.

— Sim.

— E então?

— Então, o quê?

— O que ele escreve é indiferente ao senhor?

— Preciso ir. Sinto muito, senhora Roth, ter incomodado. De fato, sinto muito.

— Mas... mas... — começou ela. — Mesmo, o senhor precisa escrever para nós. O senhor simplesmente precisai

— Sim, sim — disse ele. — Uma boa tarde. — Ele deu três passos.

— Senhor Gilles! — Marvin gritou. — O senhor leu a carta-aberta e diz: “Então, o quê?”

— Então, o quê?

— Senhor Gilles, por favor! O senhor escreveu sobre deficientes mentais. Fez uma enorme confusão em Düsseldorf por causa das crianças cancerosas na velha clínica universitária, por tanto tempo e tão alto, até que se deu início à construção da nova clínica. Escreveu contra o tráfico de drogas. Contra o armamento. Contra — meu Deus, o senhor não pode dizer que a carta-aberta lhe deixou indiferente, senhor Gilles!

— Quero ir embora daqui.

— Mas... por favor, senhor Gilles! — Markus Marvin pôs a mão no seu ombro. — Escute-me alguns minutos! Alguns poucos minutos. Se... se eu lhe contar minha estória, nada lhe será indiferente!

— Eu não quero ouvir sua estória.

— Precisamos do senhor. Precisamos de alguém que escreva de maneira que as pessoas despertem. Alguém que as faça iradas. As pessoas precisam finalmente despertar e ficar iradas. O senhor pode fazer isso. É sua a responsabilidade.

— Que responsabilidade?

— Com as pessoas.

— Não estou nem aí para as pessoas.

— Não, não, não, o senhor não pensa assim.

— Sim, sim, sim, penso exatamente assim.

— Simplesmente não acredito.

— Acredite no que quiser!

As gaivotas. As gaivotas. Elas gritavam. Diretamente sobre a casa.

— Mas o senhor não pode deixar de ver como o mundo está sendo destruído e todos nós estamos morrendo!

— Não? — Gilles perguntou.

— Não. O senhor pode escrever! O senhor precisa escrever! O senhor irá escrever! —Marvin gritou. Sou um convertido miserável, pensou ele, desesperado.

Trocou de crença. Tudo o que eu pensava. Convertidos são os piores. Sempre foram. Os mais implacáveis. Os mais intole­rantes. Os mais fanáticos. Como um católico que foi protestante. Como um comunista que chega à conclusão que seu deus fracas­sou, que seu trono divino estava vazio. Arthur Koestler, Ignazio Silone, George Orwell, Stephen Spender. Como eles viraram anti­comunistas!

— Já não escrevo há dez anos. E não escreverei nunca mais! — Gilles disse calmamente.

Susanne, pensou Marvin, Susanne. Se você estivesse aqui agora. Este homem ouviria você.

— Alguns minutos, senhor Gilles. Dê-me alguns minutos!

— Não.

— Por favor! — Marvin procurava palavras. — Eu... eu estive nos Estados Unidos... Vivi coisas inconcebíveis... Vou lhe contar sobre isso.

— Não.

— Sim! Mesmo se o senhor depois disser: tudo me é indiferente, eu respeito! Palavra de honra! Levo-o ao aeroporto. Por favor!

Philip Gilles nunca pôde explicar por que ele se sentou e disse: — Então, que seja.

 

Vinte e sete minutos depois Markus Marvin havia contado apressadamente sobre as condições do depósito nuclear de Hanford e sobre o fim do professor Gerhard Ganz, e quando Gilles ainda assim se recusava a ajudar indo ao telefone, ele ficou na sua frente.

— O senhor não tem nenhuma consciência?

— Pare com essa coisa de consciência — disse Philip Gilles. — Sou um homem idoso. O que posso fazer ainda por este mundo?

Alguém chegou subindo a escada, e uma voz gritou: — Olá, doutora Roth! — Pouco depois apareceu o motorista de táxi Edmund Keese, que havia conduzido Philip Gilles do aeroporto para o Benen-Diken-Hof. Ele começou: — A porta estava aberta. Trago-lhe... — Então ele viu Gilles. — O senhor não é... — Gilles empurrou Marvin para o lado, correu em direção a Keese e levou-o até a escada. — Deixe as lentes aí! Vamos, vamos, vamos! Venha!

— Mas...

— Vamos!

Marvin gritou atrás de Gilles: — O senhor ainda vai sentir por isso! Sentir muito! Ninguém pode se comportar assim nos dias de hoje! O senhor sabe o que fiz um dia. Fui castigado por isso. Perdi tudo. Vai acontecer também com o senhor.

— Não pode me acontecer — disse Gilles. — Já perdi tudo.

— O que... — começou o motorista Keese, triste.

— Não escute! — Gilles disse. Ele puxou Keese através do jardim para a rua, até o táxi.

As gaivotas. As gaivotas.

Um bando circulava sobre a casa, os pássaros gritavam alto.

— Vamos sair daqui! Sair, sair, sair! — Gilles empurrou Keese para trás da direção, correu em volta do radiador e deixou-se cair ao lado dele.

— Primeiro para o Benen-Diken-Hof!

— Escute, assim não dá — Keese protestou.

— Dá, dá, sim. Ande!

— Conheço a doutora Roth. Não conheço o outro. O que houve com o senhor e ele? O que aconteceu? Chamo a polícia.

— Não!

— Sim! Pelo rádio. Aconteceu alguma coisa.

— Não aconteceu absolutamente nada.

— Não acredito no senhor.

Gilles deu a ele duas notas de 100 marcos, e então Keese acreditou nele e foi embora. No Benen-Diken-Hof ele até carregou a pequena mala do apartamento para o táxi. Gilles pagou sua conta à moça chamada Friede Lennig, que certamente gostava de rir e não o fez, a coroa ele também pagou e deu uma gorjeta a Friede.

— Boa viagem, senhor Gilles! Gostaríamos que o senhor tivesse ficado mais tempo.

— Infelizmente preciso ir. Lembranças ao senhor Johannsen!

Então ele se sentou novamente no carro, e eles foram para Westerland.

— Não posso entender tudo isso — disse Keese.

— Desentendimento entre amigos — disse Gilles. — Por que justamente o senhor chegou com as lentes de contato? Há muitos táxis na ilha.

— Sim — disse Keese —, mas em Keitum apenas dois. — Certamente se lembrando dos 200 marcos, ele acrescentou: — Dou-lhe o meu cartão. Caso o senhor volte. Ou precise de algo. Posso ser encontrado dia e noite. Aqui está o meu número. — Ele passou um cartão de visitas, um caderno de notas e uma caneta de plástico. — Pequenos presentes. Pode pegar! E não perca o cartão! Nunca se sabe o que pode acontecer.

Gilles precisou pensar uma vez naquela última frase.

No aeroporto lhe disseram que o último avião naquele dia para Hamburgo estava lotado. Mas ainda havia alguns trens, o próximo em mais ou menos duas horas e meia.

Keese levou Gilles à estação. Este despachou a mala e pagou Keese. O motorista fez o sinal-da-cruz na testa de Gilles e balbuciou alguma coisa.

— O que está acontecendo?

— Shalom! — disse Keese — Conferi. É israelita. Significa paz. — Gilles pensou que os turistas de Sylt deviam ser muito internacionais, se Keese, o amante de palavras estrangeiras, precisava dela, pois em toda a Alemanha Federal não chegavam a viver 30 mil judeus, e especialmente aqui em cima, no Norte, a saudação feita pelo motorista era, de certa forma, excêntrica.

— Shalom! — disse então também Gilles, e olhou para Keese, quando este foi embora. Aqui havia muito trânsito e mais pessoas ainda, e já que Gilles tinha tempo, desceu para a praia de Westerland...

 

— As pessoas podem se compadecer de um animal — disse a mulher com maiô amarelo. Ela disse isso para uma mulher com maiô vermelho. As duas juntas tinham cinco filhos, nenhum com mais de dez anos. Dois gritavam no mar raso, três nadavam. A 30 metros de distância havia uma quantidade enorme de espuma de algas brancas, empurradas pra lá. — Mas — continuou a mulher de amarelo — elas morrem do lado de fora, elas só são empurradas pra cá, não é?

Naquele dia, Gilles leu depois, foram achadas nas praias de Sylt 348 focas mortas. Eram muitas, mas o dia recorde não seria aquele por muito tempo. — Quando a água mortal chega aqui, então ela já está quase filtrada. E também não quero estragar a infância de meus filhos. — Ela baixou a voz. — Não sabem do que se trata.

A de vermelho não tinha nenhuma preocupação. — E daí? — perguntou, acenando para as crianças. — Os meus podem nadar o quanto quiserem. Todos devemos morrer mesmo. Veja, é como enfarte no coração. Um sobrevive a ele, o outro não. O marido de minha amiga Lotte não sobreviveu, e ele só tinha 46 anos.

Naqueles dias de alto-verão do ano de 1988 a mortandade das focas não foi sensação somente em Sylt; diariamente os programas de televisão informavam a respeito. Milhões se mostraram abala­dos, chocados, indignados com o quanto o mar já estava envenenado. Animais emocionam sempre, pensou Philip Gilles. As pessoas são indiferentes às pessoas, mas animais, essas pobres criaturas de Deus, inocentes e indefesas — seu sofrimento e morte alegram o coração de um redator de jornal, rádio e televisão.

Pessoas desconhecidas falavam com ele.

Um homem disse: — Ontem uma foca foi parar em frente ao Hotel Thule. Estava tão horrível que ninguém a fotografou. Durante duas horas ninguém ficou no local.

— E ninguém nadou — disse uma mulher.

— Nem tanto — disse o homem. — Um pouco mais à frente, sim. As pessoas, no fim das contas, estão de férias.

Sylt estava lotada de turistas, as praias estavam cheias de gente. Quase todos entravam na água, viu Gilles, só alguns ficavam nas cadeiras de praia. Três damas da região do Ruhr (elas se apresenta­ram aos outros que falavam com Gilles, também a ele) tinham feito um acordo fora do comum.

— Tomamos banho até a barriga — informou uma. — Se tivermos erupções, podemos sempre usar meias-calças. E naturalmente também usamos o.b.

Ao lado, uma mulher esfregava água-de-colônia em seu filho nu, e numa cova rasa uma beleza de mais ou menos 15 anos se protegia com spray solar. Ela jogava olhares raivosos para o grupo.

Dois garotinhos passaram apressados. Um deles disse para o amigo:

— Amanhã vamos olhar de novo focas mortas.

Olhar focas mortas pareceu ser a brincadeira preferida das crianças naquele verão.

Gilles olhou para o relógio e foi pela praia em direção sul de volta para a estação. De repente passaram por ele grupos de todos os lados que queriam ir para o mar. Ele viu os primeiros abrirem uma grande faixa em frente à massa de espuma. Era branca, e estava escrito em vermelho: NOSSO MAR DO NORTE — DEIXEM-NO VIVER!

Um homem gordo esbarrou com força em Gilles. Seguiam-no a igualmente gorda esposa e uma multidão de cinco filhos.

— Sinto muito — disse o homem gordo, ofegante. — Precisamos nos apressar.

— O que está havendo?

— A corrente — disse sua mulher.

— Que corrente?

— Fazemos uma corrente. Todos os dias. Damo-nos as mãos. Veja, a televisão já chegou! A mulher apontou para um heli­cóptero, que voava baixo sobre a praia. Na fuselagem, Gilles viu em grandes letras o nome do canal de TV. Sentado e preso, um cameraman. Um homem estava atrás dele e segurava um megafone.

— Apressem-se — soava a sua voz alta e desfigurada. — Queremos filmar!

Agora Gilles via outros helicópteros e outros homens com câmeras na mão, e ele viu que na praia as pessoas se davam as mãos e como se formou uma corrente rapidamente, que crescia sempre.

Um homem baixinho, em cujo pescoço estavam penduradas várias máquinas fotográficas em correias de couro, adiantou-se através da multidão e gritou, tão alto quanto podia: — Fotografias de lembrança em formato de cartão-postal grande! Fotografias de grupos da corrente! Vocês estavam aqui! Vocês lutaram juntos! Em duas horas, fotografias da loja Foto-Gernrich, Lange Strasse cinco! 30% do apurado para a associação de proteção ao meio ambiente! Fotografias de lembrança em formato de cartão-postal grande! Fotografias de grupos da corrente!

Uma mulher, que passava lá naquele momento, perguntou: — Quanto custa isso?

— Seis fotos, 30 marcos. Doze, 50 marcos.

— Descaramento! — a mulher disse. — Por esse preço podem me pintar!

— Tudo por uma boa causa! — latiu o baixinho. — 30% para a associação de proteção ao meio ambiente!

— Quem acredita? — disse a mulher.

— Ninguém precisa, ninguém é obrigado. — O baixinho começou a gritar de novo: — Fotografias de lembrança...

Um homem barbudo disse a Gilles: — Sou da Liga de Banhistas do Mar do Norte, em Schleswig-Holstein.

— Prazer — disse Gilles.

Era um homem conversador. — Semana da ação — disse ele. — No domingo o pastor celebrou uma missa ecológica. No pavilhão, na Kurpromenade.

— Aha.

Durante anos os empresários dos transportes daqui calaram a boca. Por medo que os turistas não viessem. Agora informamos os turistas e pressionamos os políticos.

— Como?

— As correntes humanas aparecem na televisão! — o barbudo gritou. — Não só no nosso país. O senhor vê, há outras equipes aqui. Há dois meses, um tapete de algas como este, só que maior, bem maior, chegou na Noruega e matou milhões de peixes e trouxe as primeiras focas mortas. Agora é a nossa vez. — Ele deu a Gilles um panfleto e disse, cerimonioso: — Crescem a raiva e a perplexidade diante da vacilante política do meio ambiente do governo federal.

— Compreendo.

— Se continuar assim, será o fim de Sylt — disse o homem. — E não apenas de Sylt. Do mundo inteiro. Desejo-lhe um bom dia, meu senhor. Também o senhor está convocado.

— Certamente — disse Gilles, olhando-o, enquanto ele ia à praia aos tropeços, onde a corrente humana tornara-se longa e o homem do helicóptero informara, com o megafone, como ele gostaria que ela fosse e que eles, em no máximo dez minutos, precisariam filmar.

Gilles se apertou entre a massa em direção à estação. Havia jogado fora o panfleto. Na zona de pedestres muitas pessoas estavam sentadas diante de doceiras e comiam bolo e bebiam café. Música gemia dos alto-falantes. Alguns casais dançavam.

Sobre os prédios passou um avião pequeno. Trazia numa faixa um anúncio, e Gilles leu que simplesmente não existia nada mais maravilhoso que a citada marca Campari. Uma mulher esbofeteou seu filho porque ele deixou cair um pedaço de torta no seu vestido estampado de flores. O garoto chorou.

— Um dia como este, tão maravilhoso como hoje, um dia como este não deveria nunca acabar! — ressoou a voz de um cantor de um alto-falante sobre um café, diante do qual só havia idosos. As pessoas mais velhas estavam felizes.

Finalmente Gilles chegou à pequena estação. Aqui havia um aperto tal, que ele só era empurrado, passando por quiosques de jornais e cartões-postais. Viu toda a sorte de focas em cartões-postais brilhantes. Eram comprados aos montes. Uma mulher à sua frente mostrou a seu filho um cartão — um filhote de foca nadava no mar. A mãe leu alto o que estava escrito ao lado: — Uma foca nada entre as ondas e pensa: onde está o meu queridinho? Pois há pouco tempo achei que o tivesse visto.

— Talvez ele esteja nos cofres congelados — disse um homem irritado, careca, que também se dirigia a um trem e esperava atrás de Gilles.

— Que cofres congelados?

— Bem, as instalações para queima de lixo aqui. — Era morador da ilha. Falava baixo-alemão. — Duas vezes por semana os cadá­veres são congelados e levados para Kiel, para a dissecação — disse ele. — Pode imaginar o que acontece. A cada transporte, 800, 900. Tudo cheio. — Ele tossiu. — Uma merda — disse ele. — Peixes são peixes, né? Mas focas? Focas são gente como você e eu.

Agora não se andava mais. Diante da entrada da estação Gilles precisou ficar parado. Vários trens extras foram ativados, mas simplesmente não se podia controlar a massa. Também na entrada havia quiosques de cartões-postais. Um casal pegou três de foca: uma nadando, outra fazendo gracinhas, outra olhando.

Pensativa, a mulher disse para o marido: — Querido, olhe só, parece a nossa Susi.

— Quem é Susi? — alguém perguntou.

— A nossa filha mais moça.

 

O trem estava lotado. Gilles não achou lugar e ficou no corredor. Do dique de Hindenburgo ele viu mais uma vez Keitum e a casa de Gerhard Ganz sobre o estuário. Era uma noite quente de verão, Gilles havia baixado a janela, o vento da viagem ia de encontro ao seu rosto, e ele pensava em Linda.

Em Altona ele esperou um pouco mais de uma hora. Na plataforma estavam sentados alguns bêbados. Eram pacíficos e filoso­favam. — Cara! — disse um — Nesta merda de mundo há muito tempo que se mata mais do que se trepa!

O trem noturno para Zurique, com quatro carros-leito, entrou na estação, e Gilles recebeu uma cabine de solteiro. Ele se deitou na cama e ainda queria ler jornal, mas adormeceu imediatamente e sonhou com as gaivotas.

 

Chamo-me Philip Gilles.

Tenho 63 anos.

Se você escolher a auto-estrada Zurique—Genebra e abandoná-la na saída de Bulle, numa pequena cidade próxima do Lac de la Gruyère há uma estrada que ruma em direção sul e leva-o às cidadezinhas de Gruyère, Enney, Villars-sous-Mont, Albeuve e Montbovon até uma espaçosa comunidade montanhosa com colônias espalhadas e variados pátios. Este é Château-d’Oex, a sede do Pays-d’Enhaut, pelo qual na Idade Média os condes de Greyerz e Bern andavam aos tapas. Uma cidadezinha aqui se chama Rossinière, outra Les Moulins, uma outra L’Etivaz, e outra ainda Rougemont e finalmente — como a sede — Château-d’Oex.

Este lugar de colônias espalhadas pegou fogo em 1800 e foi reconstruído. Nos últimos anos surgiram, ao pé de uma encosta de grama, que quanto mais alta, mais íngreme, e à qual se juntam largas encostas montanhosas, que levam a Almen, modernas residências de férias. Na beira da floresta, entretanto, sobre o bonito Hotel Bon Accueil, há uma grande casa de camponeses reformada e ainda umas duas dúzias de construções muito antigas. Uma destas chama-se Le Forgeron e de fato foi, um dia, uma ferraria.

Talvez você conheça meu nome — publiquei 18 livros entre 1946 e 1978, que foram muito comprados e traduzidos em muitas línguas. Há dez anos que não escrevo uma linha sequer. Em 1978 minha mulher, Linda, morreu no Hospital Martin Luther, em Berlim, onde tínhamos uma casa em Grunewald.

Com a morte de minha mulher, que está enterrada em Berlim, no cemitério na Heerstrasse, próximo ao lago, parei de ser um autor. Comecei a escrever muito cedo, como soldado durante a guerra, aos 17 anos. Em 1946 foi publicado meu primeiro romance. Durante o trabalho dos seis livros seguintes — somente o oitavo trouxe-me fama internacional — escrevi, para sobreviver, roteiros de cinema de assuntos meus ou não, fui repórter de uma grande revista e durante quatro anos correspondente da Agência de Imprensa Ale­mã. Eles me mandaram para muitos países, e informei, enquanto escrevia, sobre os acontecimentos da história contemporânea — como repórter, correspondente e autor de livros.

Em 1953 encontrei Linda Brenner em Berlim. Tinha sido bailarina e trabalhado em Roma e Londres e especialmente, por longo tempo, na Ópera de Paris. Quando a conheci, era intérprete no escritório do comandante francês da cidade. Em 1954 nos casamos em Berlim. Com toda certeza Linda foi a mulher que mais amei. E mesmo assim abandonei-a em 1974 por causa de outra, com a qual passei dois anos nos Estados Unidos, antes dessa relação se desfazer e eu voltar para Berlim e Linda. Ela já estava começando a ficar doente, mas apesar disso aqueles dois anos foram os mais felizes da minha vida e da dela.

Durante aquele pouco tempo experimentei novamente que um assimilava o pensamento do outro como sendo seu, como também a compreensão, esperança, alegria, tristeza, coragem, consciência e humor, embora, considerando-se o mundo no qual vivemos, o humor de Linda tinha uma importância especial. Ela e sua coragem. Sim, e ela era minha consciência, sempre foi. Por sua causa me meti a escrever novamente, e novamente nos acontecimentos do dia, o que às vezes me trouxe aplauso e reconhecimento, mas incomparavelmente mais inimizade, ataque e recusa.

Aconteceu, por exemplo, de um crítico num grande e sério semanário idolatrar meu novo livro e três semanas mais tarde um outro crítico no mesmo semanário achar que eu não teria direito de nem me aproximar do reino da literatura. E quando depois um terceiro crítico respondeu ao segundo, e um quarto ao terceiro, e por fim não era eu que estava sendo o alvo, mas os críticos, como aconteceu várias vezes, faziam sua guerra particular, então Linda fazia disso perfeitos números de cabaré e provava que nada melhor podia me suceder que uma crítica alemã, que gritava “Crucifiquem-no!” e outra “Hosana!”.

E quando Linda mostrava noutros esquetes (ela imaginava novos, sempre) como os críticos caíam mais em cima de um colega que de mim, um colega que havia publicado um livro, quando ela, pois, conseguia, com suas representações dessa feira de vaidades, de altivez, de presunção e de grotesco — sem as quais nosso movimento literário não pode viver — quando ela conseguia que eu risse, então ela nunca deixava de me mostrar o quão pouco significam, na verdade, um elogio, um reconhecimento e as bênçãos de críticos.

E ela dizia: — Mesmo fazendo sempre essas critiquices, nenhum classificou, jamais, nem na mais dura crítica, aquilo em que você acredita, aquilo que você defende e aquilo que você procura defender, como ruim.

Algo era especialmente importante para ela, e ela citava a última linha de um poema de Erich Kästner, no qual um amigo, desgostoso, quer se suicidar e Kästner lhe oferece bofetadas, ainda como cadáver, e esta última linha é assim: “Continue na vida, para irritá-la!”

— Então — dizia Linda —, isso não é uma tarefa bem importan­te? — Ela me deu um disco com canções de Barbra Streisand, e numa canção a Streisand cantava: I’ Il never give up. E isso Linda dizia sempre, sempre, isso devia me dar forças, e ela tentou ela mesma me dar força na doença e na dor:

— Nunca, ouviu, nunca você deve desistir! Nunca. — E isso eu nunca fiz. Nunca desisti.

Enquanto Linda viveu.

Quando escrevo estas linhas, lembro-me de outros ditos e opiniões que a caracterizavam.

Naturalmente já nos anos 70 havia discussões apaixonadas sobre como as pessoas destroem o mundo e sobre como as pessoas deviam lutar contra isso. Lembro-me de uma que durou horas a fio e que foi levada pelos participantes de maneira extremamente agressiva. Linda ouviu calada. O cineasta Billy Wilder, de quem ela, muito jovem, foi namorada em Berlim durante um ano, contou-me uma vez, depois da guerra, que ele chamava Linda “meu silêncio”, porque ela — na maioria das vezes — só escutava e raramente falava. Naquela discussão, pois, alguém exigiu de Linda que ela finalmente expressasse sua opinião, e aí ela disse: — Acho que o homem deveria se movimentar na Terra com agilidade e fazer o possível para deixar poucos rastros.

Estas palavras, acho, poderiam servir de divisa para o livro que escrevo.

Aos 18 anos saí da igreja, porque minha mãe me havia contado que o pastor havia abençoado, na Primeira Guerra Mundial, os canhões dos dois lados da frente, para que estes matassem muitos inimigos maus. Linda vacilou com a saída, nunca a concretizou. Desde a juventude ela sofria de uma rara doença no sangue e estava constantemente sob controle.

— Não se pode saber — disse ela. — Tenho minha anemia hemolítica. E talvez Ele seja mesquinho, e se eu sair, Ele pode se ofender e me deixar morrer — e eu quero viver com você o mais tempo possível. Não, não, isso é muito arriscado. Além disso: as igrejas católicas são tão bonitas, a Bíblia é um livro maravilhoso, bastante pornográfico no Velho Testamento — não que eu tenha algo contra —, e há muitas passagens grandiosas.

Uma das passagens mais grandiosas, achava ela, era aquela na qual se diz: “Bem-aventurados são os pobres de espírito.”

Ela sempre foi entusiasmada com isso: — Sim. Sim. Sim. Os idiotas são felizes. E tão dignos de inveja. — E muito confidencialmente, como se fosse uma mensagem secreta, ela me comunicou: — Se Deus quiser castigar alguém, então que lhe dê a razão.

Uma vez, quando eu era roteirista de cinema, Linda foi ao estúdio e prestou atenção. Estava justamente sendo preparada uma cena com um fotojornalista que tinha uma câmera pendurada no pescoço.

— Tem um filme dentro? — Linda perguntou ao diretor.

— Não. Mas ninguém pode notar.

— O público notará — respondeu Linda. Para mim, com isso foi dito tudo sobre arte.

Eu sempre lia em voz alta o que escrevia, e nunca havia tido um crítico melhor e mais inteligente. Como eu tenho tendência para exageros, sempre acontecia de Linda balançar a cabeça cautelosamente e dizer, educadamente, que aquilo era melodramático demais ou muito longo ou precisaria ser modificado. Então havia sempre — ah, como era bom! — a mesma cena: eu me recusava a reescrever a coisa. — Foram três dias de trabalho, e você sabe que suplício é escrever, os ombros doem e a cabeça e os olhos, simplesmente tudo, e não se pode dormir, e se sente lixiviado e vazio, e de uma vez por todas: não corto nada, não reescrevo nada!

Quando me comportei assim tão histericamente pela primeira vez, Linda disse que precisaria me contar uma estória de seu tempo com Billy Wilder.

— Ele tinha um apartamento minúsculo, e era meu primeiro homem, e eu o amava tanto, e quando a tarde acabava, ele dizia freqüentemente: “agora vamos imediatamente ao Café Romântico — contar”. Naturalmente nada era contado, mas íamos no Café Romântico, e você sabe que lá iam muitos atores famosos, gente de jornal, pintores e escritores, e eu pequena dançarina era totalmente dominada por todas essas grandes pessoas e tinha justo 15 anos, eu só podia mesmo ficar calada. Bem, um dia chegou Erich Maria Remarque e se sentou conosco. Remarque era naquele tempo redator-chefe da Dame, e aquilo era para mim simplesmente monstruoso. E naquela noite ele disse que queria parar de trabalhar para a Dame para poder escrever um romance. E Billy disse a seu amigo Remarque que ele não fosse louco de jogar fora um posto esplendoroso como aquele, e aí eles discutiram por um momento, e por último Billy me disse: “Agora fale finalmente com o doido, meu silêncio!” E, de nervosa, quase não pude falar, quando disse: “Senhor Remarque, acho que o senhor Wilder tem razão. Nós o visitamos uma vez, lembra-se? O senhor tem um escritório tão bonito. E ali há damas tão bonitas. E o senhor disse que ali não havia muito trabalho. O senhor realmente deveria ficar na Dame, senhor Remarque!” — Bem — contou-me Linda —, Remarque, porém, pediu demissão na Dame e escreveu um romance, Nada de novo no Front. Isso acontece, quando não se ouve a mim.

E depois disso ela dizia sempre, quando ela tinha algo a reparar nas minhas leituras e eu protestava: — Pense em Remarque!

Sua alegria constante era quando eu, no dia seguinte, no café da manhã, dizia: — Já reescrevi tudo. — Sempre a ouvi, e o que ela dizia estava sempre certo.

Nos últimos dois anos Linda escondia de mim que se sentia doente e mais doente, que tinha dores e sofria — até aquela noite, quando não agüentou mais e gritou. E então era tarde para tudo. Notei, naturalmente, que ela estava mais e mais fraca, mas ela tinha aquela doença do sangue e precisava estar sempre preparada para uma determinada dose de remédios. Naqueles anos todos houve tempos de grande fraqueza e cansaço, e Linda sabia me convencer de que aquele era um daqueles tempos. Mesmo quando ela mal podia comer e não queria ir ao concerto, teatro ou ao cinema, nada me fazia temer algo pior. Comprei filmes em vídeo, o que foi bom — após a sua morte eu tinha uns 200 cassetes —, e quanto mais ela piorava, mais determinadamente ela exigia, quando eu, à noite, lhe oferecia o “programa”, somente filmes engraçados: Tootsie ou Quanto mais quente, melhor ou tudo de Woody Allen. E dos muitos e famosos adágios, dos quais ela gostava, ela gostava mais de um do Noivo neurótico, noiva nervosa.

— Há uma velha piada — diz Woody Allen nesse filme. — Duas senhoras mais velhas estão sentadas num hotel. Uma diz: “Deus, a comida aqui é realmente horrível!” Diz a outra: “Tem razão, e essas pequenas porções.” — Bem — diz Allen depois, no filme —, essencialmente também vejo a vida assim: cheia de solidão e miséria e sofrimento e preocupação. E depois tudo passa tão rápido.

Essa parte Linda citava freqüentemente, e uma vez ela disse as últimas palavras alto, para si própria. Ela estava sentada na escura sala de estar e não me ouviu entrar, e quando terminou, ainda repetiu: Tão rápido.

Um assimila o pensamento do outro, escrevi, e assim eu era depois da morte de Linda, apenas uma meia-pessoa com uma meia-vida. E perdi toda a minha coragem, toda esperança, toda capacidade de me alegrar e agüentar infâmias com humor. Era um sentimento de infinito asco, que me tomou na minha solidão, de asco sobretudo do que acontecia no mundo e sobre o que me esforcei a informar a vida inteira, asco das pessoas. Não de todos, naturalmente, não de Linda e meus amigos, mas os evitei, porque só me faziam lembrar da mulher que eu havia perdido e cujo lugar nunca nenhuma outra iria ocupar ou poderia ocupar, eu sabia.

Asco das pessoas, sim, e certamente tenho tão pouco valor quanto elas. Asco daquilo que as pessoas fizeram deste mundo. Asco da maneira como tratávamos uns aos outros, como mentíamos, enganávamos, prejudicávamos uns aos outros, traíamos uns aos outros, dependíamos de alguém quando precisávamos de ajuda e o abandonávamos quando não precisávamos mais de sua ajuda.

Todo noticiário de televisão me enojava. Não podia mais ver as caras dos senhores das companhias, dos homens da igreja, dos militares pendurados de latas coloridas e dos políticos, não podia mais ouvir suas palavras. A cada um que falava, eu me perguntava: quanto ele recebeu por isso, se está mentindo assim e não de outra forma? Quantos crimes vão para a sua conta, que o fazem extorquível para esconder tudo? Enojava-me que aqueles que determinavam nosso destino, o destino deste mundo, tinham se tornado tão abertamente corruptos. Antigamente, eles ainda faziam esforço para esconder seus crimes, sua brutalidade, seu desprezo pelas pessoas e representar como atores para aqueles que estavam em suas mãos. Agora eles renunciavam a qualquer máscara. Agora eles se haviam tornado absolutamente desavergonhados. Consideravam seus próximos tão imbecis e ruins como eles próprios eram. Tempo é dinheiro, para que então a simulação se é possível também sem ela?

Para o meu desespero ainda havia o fato de que durante toda a minha vida escrevi ou lutei contra os nazistas, pois eles foram os maiores criminosos da história vivida por mim, os que haviam cometido os maiores crimes da história vivida por mim — e então tive de saber que todo o meu esforço e o de muitos outros foi em vão e à toa, precisei ver dia após dia como ela ainda — ou novamente — existia, essa peste, e que fascismo e racismo eram exportados — para a França de Le Pen, para o Chile de Pinochet, para a África do Sul de Botha... A lista era grande e sempre ficava maior.

Na Alemanha nunca foi feito um ajuste de contas interior. Desculpamo-nos frente aos judeus e pagamos (disso alguns políticos são orgulhosos) muitos bilhões de reparação e fizemos a “grande paz com os criminosos”, como formulou Ralph Giordano. Assim acreditamos ousar um novo começo. O comentador da Lei Racial de Nuremberg tornou-se chefe da chancelaria, os generais de Hitler formaram o novo exército, e Willy Brandt teve de se justificar que na guerra havia ficado do outro lado. Na Alemanha Federal, até o momento em que escrevo, não há nenhum monumento às vítimas do holocausto, e até pelo menos 1955 o gás Ciclon B, que foi utilizado nas câmaras de gás, foi usado com este nome, só que sem o B. Só mais tarde ele recebeu, modificado quimicamente, a denominação Cianosil3.

Durou 40 anos, até que um chefe de Estado alemão federal se permitiu caracterizar o 8 de março de 1945 como tinha de ser, ou seja, o “Dia da Libertação”. Esta descoberta foi tão sensacional, tão grandioso esse discurso de Richard von Weizsäcker, que foi impresso em forma de livro, gravado em discos e comercializado em cassetes. Mas o ódio há muito estava novamente entre nós — sutil lá em cima, onde se pensava em leis para estrangeiros mais duras e se enviava asilado de volta para o seu país e, com isso, para a morte, e brutal lá embaixo, onde se ia bater em turcos e se berrava canções nazistas em viagens de trens Intercity a jogos de futebol.

A vida precisa ter um sentido, dizem muitos, senão não se pode suportá-la. O sentido de minha vida foi, durante 25 anos, Linda. Então Linda estava morta e pensei que se podia também viver sem sentido, não tão bem e certamente não alegre, mas mesmo assim. E o tempo de um homem era tão curto. Também só então tomei consciência disso. Ontem li no Journal de Château-d’Oex, o jornalzinho que é impresso aqui e que é publicado às terças e sextas e que, ao lado de notícias locais e muitos anúncios, traz ainda uma coluna “Novidades do Mundo Inteiro”, que pesquisado­res acabaram de descobrir uma galáxia que está a 15 bilhões de anos-luz longe da Terra. Ela deve ser, segundo o Journal, tão velha quanto o Universo.

Ah, Linda, Linda, Linda.

Havia vendido tudo o que tinha em Berlim, e fiquei um tempo na França, Inglaterra e Holanda, para então chegar aqui há oito anos, onde comprei a velha casa na beira da floresta que se chama Le Forgeron e que foi uma ferraria antigamente. Tudo o que trouxe foram os meus ternos e roupas e algumas caixas de livros. Em Berlim eu tinha quase 15 mil, e agora só possuía umas centenas, raramente romances, principalmente biografias, obras de ciências naturais e dos filósofos, aqueles que eu acreditava entender: Bertrand Russell, Karl Jaspers, Hannah Arendt, Karl Popper, Spinoza, Voltaire, Pascal, Schopenhauer e alguns outros. E as obras de Shakespeare e Tristram Shandy, de Laurence Sterne, um livro que sempre leio novamente, ainda, A aventura do bravo soldado Schweik e tudo de Hemingway.

Sim, e o Meditador, de Ernst Barlach; conservei essa escultura magra de mais ou menos 70 centímetros de altura de um homem de camisa longa, que tem na mão direita um livro e os dedos da mão esquerda na bochecha, os olhos fechados. Dessa forma, em bronze emana uma calma monstruosa, fica-se bem calmo, e todo o pensamento volta-se para dentro. Muitas vezes sentava-me horas a fio diante da figura e pensava em tudo o que tinha sido passado e maravilhoso. Uma vez tinha vendido aos Estados Unidos uma estória para o cinema, e então comprei o Meditador. Eu e Linda gostávamos muito dele.

Dos móveis, não conservei, propositadamente, nenhuma peça, e então foi preciso comprar algo novo. Já mencionei o Hotel Bon Accueil. Um homem chamado Antoine Oltramare havia se apaixonado por essa enorme casa suíça de camponeses, há muito tempo. Ele a reconstruiu e procurou nos arredores armários, mesas, cadeiras e camas. Monsieur Oltramare, magro, pensativo, muito educado e de um charme leve como uma pluma, foi comigo, logo depois que eu havia comprado Le Forgeron, aos grandes pátios e chalés centenários, e compramos móveis maravilhosos por quantias aceitáveis. Monsieur Oltramare me ajudou na decoração do Le Forgeron. Ele ajeitou a chaminé e construiu estantes de livros e me fez assinaturas de muitos jornais e revistas, alemães, franceses, ingleses. Nunca fez uma pergunta, sempre se retirava e só vinha quando eu pedia que viesse.

A escultura de Barlach estava então sobre um tapete feito a mão, na grande sala de estar.

Uma vez por dia eu ia ao Hotel Bon Accueil para comer, e às vezes jogava xadrez com Monsieur Oltramare. No mais, fazia longos passeios, dormia muito, lia muito e pensava em Linda, e isso era bom e terrível ao mesmo tempo. E assim continuei a viver, e naturalmente via televisão e ouvia todos os mentirosos e criminosos e carniceiros e arlequins que dominavam nosso mundo, e aí era o asco, o asco.

Muitas vezes eu pensava no fato de que meu tempo passava, rápido, tão rápido. Cada dia podia trazer o fim. Meus banhos eram especialmente esmerados, eu cortava as unhas dos pés e procurava estar sempre bem-cuidado e usar roupas íntimas limpas, pois todo dia era possível que eu saísse do nada e do escuro devagar, devagar, e ouvisse uma voz que diria: “Senhor Gilles, agora o senhor volta a si. O senhor sofreu um grave enfarte e está na UTI.” Não precisava ser enfarte, tudo era possível, e tão grande quanto a possibilidade de voltar a si era aquela de não sair mais do nada e do escuro e nunca mais ouvir ou sentir. A cada hora isso podia acontecer.

Um dia, na minha velha livraria berlinense, que me abastecia de novas publicações de obras de ciências naturais e novas biografias, achei um livro fininho. Chamava-se O monstro, o autor era Ulrich Horstmann, e o que ele escrevia me fascinou até o ponto de ter insônia. O monstro é, segundo Horstmann, o homem. O autor o considera como terrível e absoluto destinatário da evolução, tão terrível que entre nós, monstros, segundo Horstmann, há desde muito tempo um acordo secreto, um enorme consentimento: precisamos pôr um fim em nós e em nossos semelhantes, tão logo e tão radical quanto possível — sem perdão, sem escrúpulo e sem sobreviventes. Com a moderna tecnologia de armas, o monstro tem pela primeira vez a chance, “depois de uma ladainha que se estendia de milênio a milênio, uma ladainha do bater, picar, espetar”, de pôr um fim ao processo de evolução, este processo medonho, de maneira consciente e planejada — com a autodestruição coletiva da humanidade. Só uma coisa preocupa Horstmann: a oportunidade dada com os arsenais das armas ABC de acabar conosco irrevogavelmente e sem lembranças poderia fracassar.

Que livro! Que pensamentos! Que explicação para tudo o que acontece neste mundo!

Mais ou menos na época que li O monstro, conheci Gordon Trevor. Era mais ou menos da minha idade e também morava num chalé, que se chamava Les Clématites. O incêndio de 1800 havia poupado nossas casas.

Trevor era inglês e tão reservado e discreto quanto os seus conterrâneos. De fato, durou dois anos até que ele me dirigisse a palavra, uma vez quando eu voltava das compras na cidadezinha. Ele se apresentou com uma timidez pueril, disse que havia lido alguns de meus livros, e se não poderíamos tomar a cup of tea no Monsieur Oltramare.

Ao lado dele andava seu feio cachorro. Tinha olhos grandes, tristes e um pêlo manchado, que em muitos lugares mostrava vazios. Até hoje ainda não sei de que raça era. Trevor também apresentou o cachorro. O cachorro se chamava Happy.

Então, tomamos chá no Monsieur Oltramare, e fiquei sabendo que Trevor já morava ali há 12 anos e era empregado da comunidade como piloto de balões de ar quente. Durante o verão e o inverno eu tinha visto aquelas bolas gigantes quase diariamente, como elas pairavam alto no céu, sobre montanhas e vales. Gordon Trevor era, ao lado de dois nativos, um dos homens que as guiavam.

Na Segunda Grande Guerra Trevor havia lutado como Spitfire-pilot na Royal Air Force. Ele voou 45 missões sobre a Alemanha; depois voltou para a 46ª. Então voltou diretamente para o hospital, pois através dos estilhaços dos canhões aéreos alemães ele se feriu no abdômen. Os cirurgiões conseguiram muito, inclusive que ele pudesse urinar sem problema. Algumas coisas eles não consegui­ram, e assim aconteceu que Gordon dormiu pela última vez com uma mulher em maio de 1943.

Depois da guerra ele trabalhou com êxito como arquiteto e ganhou muito dinheiro, e ele tinha um grande amor, uma jovem advogada que dizia não se importar com o acontecido com Gordon. Ela não se importou com isso durante 11 anos, e então ela o abandonou por um outro. Gordon viveu com várias mulheres, sempre por pouco tempo, e sempre acabava mal. Viveu dois anos com um homem, também este disse um dia que estava tudo acabado.

— Mas você continua meu amigo — disse-lhe Gordon. — Preciso de você.

— Se você precisa de um amigo, compre um cachorro! — disse esse homem.

Assim, Gordon tinha três amigos: um cachorro, eu e Monsieur Oltramare. O cachorro, ele não precisou comprar, ele o encontrou. Gordon havia, como eu, cortado todas as relações, antes de chegar em Château-d’Oex, e nós nos entendíamos muito bem e íamos com o cachorro, que se chamava Happy, para Almen com as muitas vacas e para as florestas, ou sentávamos na minha sala de estar em frente à lareira e olhávamos o Meditador, silenciávamos e bebíamos uísque.

Naqueles anos eu sonhei algumas vezes o mesmo sonho. Como repórter, havia sido enviado também ao Japão, e uma vez fui a um templo na cidade de Nara e vi uma citara, e nos meus sonhos eu estava lá de novo e via a citara e os sinais sobre ela, um padre me explicava o que eles significavam, e eles significavam isto:

 

No mar da vida,

mar da morte,

cansado de ambos fiquei

e minh’alma procura a montanha,

na qual toda enchente seca.

 

Sim, então eu pensei que quando acordasse e me lembrasse do sonho, eu a acharia, a montanha, e também Gordon a acharia.

— Somos ricos — disse ele uma vez, bebendo uísque —, ricos como nunca visto, Philip, você sabia?

— Você bebeu — disse eu. — Não somos ricos. Seria bom se fôssemos.

— Nós somos — disse ele, insistente. — Aqui em Château-d’Oex nós somos, porque aqui estamos protegidos. Qualquer proteção contra a vida real é riqueza.

— Ah, sim — disse eu. — Faz algum sentido. Vamos, vamos tomar mais uma!

Quando o ex-aviador de caça tinha muito o que fazer na temporada, eu o ajudava. Eu dirigia o amassado Rover com o reboque e tentava ficar naquela direção, pela qual Gordon voava com o balão, pois a coisa deveria ser transportada de volta.

No dia 7 de agosto de 1988, um domingo, Monsieur Oltramare telefonou e disse que um senhor e uma senhora de Roma gostariam de voar no domingo de manhã. O ajudante de Gordon estava doente, e assim dirigi outra vez o Rover. Para qualquer emergência, tínhamos walkie-talkies, mas só precisávamos falar muito pouco, pois eu via constantemente o balão azul, vermelho e amarelo de Gordon sob o forte azul no céu de verão, enquanto dava solavancos em caminhos através de campos cheios de flores se abrindo e arbustos, e era verão, alto verão, e eu via muitas pessoas alegres.

Gordon pousou num grande campo, e fui o mais próximo possível, então aconteceu algo, o que sempre voltava a me encantar: para chegar até mim, Gordon jogava pequenas flamas de propano ardente no interior do balão, e através do aquecimento sempre novo o balão pulava com o cesto, Gordon e o senhor e a senhora de Roma graciosamente sobre o campo até chegar ao Rover. Depois separávamos o balão do cesto, deixávamos sair o ar e o dobrávamos cuidadosamente. Guardávamos tudo no reboque e finalmente voltávamos todos no Rover. Primeiro eu levei o casal de italianos, que, emocionados, estavam calados (como ficava calada a maioria, quando voltava para a terra), até o hotel, e então fomos eu e Gordon para casa, não sem antes pegar nossos jornais no Monsieur Oltramare — ele os recebia por nós. Nunca havia cartas, parecia que há anos não havia mais ninguém que se lembrasse de Gordon e de mim, e assim nós também desejávamos. Diante do Le Forgeron sentáva­mos na sombra de uma velha árvore e folheávamos os novos jornais e revistas; nessas horas Gordon fumava cachimbo. Ele lia muito mais atentamente que eu, e assim foi ele que descobriu a notícia no Süddeutsche Zeitung, uma pequena coluna, onde se dizia que o professor Gerhard Ganz, chefe da Sociedade de Física de Lübeck, havia morrido numa clínica de Hamburgo no sábado, dia 6 de agosto.

— Esse é por acaso o seu Ganz? — Gordon perguntou. E eu disse que era, pois eu pelo menos sabia o que Gerhard havia feito depois da guerra e em que havia trabalhado em Lübeck.

— Esse é mesmo aquele que carregou você três quilômetros, durante a guerra?

— Sim.

Eu havia contado a Gordon como Gerhard me havia salvo a vida.

— Aqui fala que ele será enterrado em Sylt — de acordo com o seu desejo — disse Gordon. — Você devia ir até lá.

Pensei que só fazia isso com desprazer, sentia-me sempre bem doente quando devia deixar Château-d’Oex, mas já tinha sido suficientemente grave ter perdido Gerhard de vista, e agora ele estava morto, por isso disse: — Sim, preciso ir até lá.

— Há certamente um Swiss-Air de Genebra a Hamburgo — disse Gordon. — E na ilha você chega com um desses pequenos aviões Twin Otter, são aviões canadenses. — Ele se interessava ainda por aviação e tinha um monte de horários de vôo. Alguém precisa ter alguma coisa, eu tinha o Meditador.

Quatro dias depois, muito cedo, voei então do aeroporto de Genebra a Cointrin e voltei mais uma vez àquele mundo do qual eu havia me retirado há tanto tempo. Assim conheci a Dra. Valerie Roth e o Dr. Markus Marvin, os colaboradores de meu amigo Gerhard Ganz, e uma porção de outras pessoas que, abandonadas e sem força, punham em jogo a sua vida na tentativa de evitar tudo o que acontecia para a destruição definitiva de nosso mundo, e nisso sucediam coisas terríveis e maravilhosas, e havia o amargo e o doce, sim, também o doce.

Somerset Maugham pertence aos grandes escritores que amo e venero. Ele sempre é o cronista fora dos acontecimentos, nas suas novelas de mestre, um cronista que nunca intervém, nem se permite um julgamento moral, que não admira nem despreza as pessoas por aquilo que fazem, e nem tenta entender o que pensam ou aquilo que fazem. Ele só relata — mesmo quando freqüentemente não é testemunha ocular ou auditiva, porém toma conhecimento depois. Minha vida inteira desejei escrever assim, e sabia ao mesmo tempo que nunca conseguiria isso.

Tudo o que tenho para descrever não foi, em momento algum, da mínima importância — com exceção daquele acontecimento que considerei impossível, até que me sucedeu. Aqui será mesmo inevitável usar às vezes a primeira pessoa. No mais, quero me esforçar para novamente escrever como cronista, tendo presentes as palavras de Horácio no final de Hamlet:

 

“... Assim deveis ouvir

sobre ações, carnais, sangrentas, artificiais,

julgamentos acidentais, assassinato cego;

sobre mortes, causadas por violência e astúcia

e sobre planos que fracassaram e caíram

na cabeça do inventor: tudo isto

posso contar com verdade.”

 

— Pode-se naturalmente achar — disse Gordon Trevor — que Philip não agiu corretamente, quando deixou na mão aquelas pessoas de Sylt tão brutalmente. Se ele não quer escrever a história deles, deveria pelo menos ter podido ouvir suas preocupações. Agora, posso entendê-lo bem. Em seu lugar teria agido da mesma forma. Tanto quanto ele, não me sinto o escolhido como salvador da humanidade. Principalmente na nossa idade. O que ainda nos importa, porcaria? — Gordon Trevor, antes piloto da Royal Air Force, saído da vida assassina e há muitos anos em Château-d’Oex, calou-se e fumou seu cachimbo.

Era a noite de 17 de agosto, uma quarta-feira. Gordon, seu cachorro feio, Happy, e Monsieur Oltramare estavam sentados no bar do Hotel Bon Accueil; já era tarde, todos os hóspedes tinham-se recolhido, e os dois tomavam um pouco de uísque. Depois de um dia quente, ainda fazia calor. Naquelas semanas de alto-verão Gordon teve muito o que fazer, estava sempre voando com o seu balão e estava muito bronzeado.

Monsieur Oltramare fez novos drinques. Ele falava muito pouco. Monsieur Oltramare era um grande ouvinte.

— Philip queria simplesmente voltar — disse Gordon, acarician­do o cachorro. — Ele quer ficar aqui. Pra sempre. Não se meter nunca mais, não interessa em quê. O senhor conhece a história de Rip Van Winkle?

— Não — disse Monsieur Oltramare. — Desculpe-me — acrescentou rapidamente.

— Obrigado pelo uísque — disse Gordon, levantando o copo. — Cheers! — Bebeu. Então continuou a falar: — Um escritor americano, Washington Irving, escreveu a estória por volta de 1820, essa é de fato a primeira estória curta americana. Nos EUA toda criança a conhece, e outros escritores sempre a aproveitaram e variaram — até hoje. Ninguém sabe no que consiste a fascinação.

Monsieur Oltramare se curvou e escutou atentamente.

— Bem, esse Rip Van Winkle era um homem totalmente insignificante, com uma vida totalmente insignificante, um amigo das crianças e que tinha medo de sua mulher birrenta — conta Gordon. — Um dia ele saiu de seu lugarejo para fazer um passeio e nisso chega numa região que lhe é completamente desconhecida. Encontra um gigante que está vestido como um holandês. Tudo fica cada vez mais estranho. Um grande trovejar enche o ar. O gigante convida Rip para ir com ele, e eles acabam num grupo de gigantes holandeses que jogam boliche e fazem rolar uma enorme bola — era ela o trovão, o senhor entende?

Monsieur Oltramare balançou a cabeça afirmativamente.

— Então — disse Gordon —, com esse gigante Rip se embebeda e adormece. Quando acorda, ninguém está mais lá. Com muito esforço, encontra o caminho de volta para o lugarejo — porém lá ninguém o reconhece mais. Tudo se modificara. Ele também não conhece ninguém. Encheu-se de pânico quando constatou que 20 anos haviam passado desde que ele tinha ido embora. 20 anos! “Aqui ninguém conhece Rip Van Winkle?” Ele grita. Ninguém. Então ele acredita ver ele próprio, como ele era 20 anos antes; quando ele sobe a montanha, perde completamente a calma, começa a duvidar de sua identidade e se pergunta se ainda é ele mesmo ou um outro... Santé, Monsieur Oltramare!

— Santé, Monsieur Trevor! Ambos beberam.

— Mas então — disse Gordon — Rip reconheceu seu filho envelhecido, e também a sua filha ainda vivia. Só a malvada mulher havia morrido. E assim termina a vida de Rip, agora velho e pobre. Que justamente a morte de sua mulher o leva a explicar quem ele é, é motivo para um final de tom irônico — Gordon esvaziou seu cachimbo. — Monsieur Oltramare, eu dizia que essa estória sempre foi revista por outros escritores. Em 1953, o seu grande escritor suíço Max Frisch fez disso uma peça radiofônica. E no romance Stiller, Frisch deixa o personagem principal contar o conto de fadas a seu defensor insensato.

O cachorro se esfregou em Gordon. O feio amava o tão ferido, e este a ele.

Rip é para Stiller o símbolo de uma liberdade comprometida, a qual só se pode resguardar se se conseguir se livrar de uma falsa identidade imposta pela sociedade. E por isso o narrador Stiller muda o final do conto de fadas, que ele conta a seu defensor. Rip resiste ao desejo de se fazer reconhecer por sua filha: “Seu pai está morto — disse Rip. — E assim a jovem mulher também deixou-o de lado, o que lhe doeu, mas era assim que precisava ser.”

Gordon começou a encher um novo cachimbo.

— Mas o desejo de Stiller, fugir do cerco do mundo, não se realiza com Frisch. Stiller fracassa e precisa, como Rip, representar novamente o seu velho papel. E justamente isto Philip não quer. Ele não quer voltar ao velho mundo. Ele é um Rip Van Winkle à la Frisch, mas um Rip que tem mais sorte. Quando a mulher de Philip morreu, ele veio para cá e encontrou paz. Então ele foi lá fora, para o mundo, para a velha vida. Ele não pode estar mais lá. Nem poderia. Nunca! Por isso posso entender Philip tão bem.

Gordon acendeu com cuidado o tabaco dentro do cachimbo. Depois de uns tragos, continuou a falar: — Somos ambos muito velhos, eu e Philip. Estamos aqui há muito tempo. Somos ambos Stiller, cujo sonho se tornou realidade. Gente corajosa, aquela de Sylt. Têm tão grandes preocupações. Querem impedir a catástrofe. Deus os abençoe! Com certeza Philip tem simpatia por todos os que acham que ainda poderia haver salvação. Mas ele não quer — não, ele não pode ter algo a ver com eles como um Rip, que é mais inteligente que o do conto de fadas e que tem mais sorte que o de Frisch. Aqui Philip é feliz — com sua lembrança. Aqui ele é livre. Aqui ele tem calma e está satisfeito. Aqui ele quer ficar, exatamente como eu, o pouco tempo que ainda temos.

No escritório de Antoine Oltramare, ao lado, o telefone começou a tocar. Ele foi lá. O cachorro feio suspirou e se imprensou ainda mais contra a perna de Gordon.

Oltramare voltou. — Para Monsieur Gilles. Uma mulher. Diz que é urgente. Precisa falar com ele de qualquer maneira.

— Vou buscá-lo — disse Gordon. Ele se levantou e saiu do bar e andou os escassos 100 metros de distância até a casa de Philip Gilles. A porta estava aberta. Gilles via televisão.

— O que aconteceu? — ele perguntou.

— Telefone para você.

— Quem pode ser? Quero ver este programa até o fim.

— Venha! — disse Gordon. — A mulher falou que era muito urgente. Precisa falar com você de qualquer maneira. De qualquer maneira, ela disse. Vamos, Philip!

Ele se levantou irritado e andou atrás de Gordon até o hotel e através do bar para o escritório de Oltramare. Lá ele pegou o telefone e se identificou. Ele reconheceu imediatamente a voz de mulher. Era a Dra. Valerie Roth.

— Graças a Deus que eu lhe achei! — ela disse, aliviada.

— De onde a senhora tem este número?

— Informações. Eles me disseram onde o senhor morava. Disseram que o senhor não tinha telefone. Mas que havia um hotel nas proximidades.

— O que a senhora quer?

— Markus Marvin foi preso.

— Sei.

— Ele está sob prisão preventiva em Frankfurt.

— Aha.

— Ouça, senhor Gilles, o senhor precisa vir imediatamente!

— Ah, é?

— Gerhard lhe salvou a vida — sim ou não?

— Hum.

— Gerhard lutou a vida inteira por aquilo que faz Markus estar preso agora.

— Aha.

— Ele espancou um homem.

— Bonito — disse Gilles.

— O cara se chama Hilmar Hansen.

— Que cara?

— Que ele espancou. Tem uma indústria química.

— Muito interessante.

— Produz desodorantes sanitários.

— Produz o quê?

— Desodorantes sanitários. O senhor não sabe o que são desodo­rantes sanitários? Os cubos azuis e verdes que estão pendurados em qualquer privada, em qualquer mictório. Aquelas coisas que servem para que não haja fedor, mas cheire a lavanda. Ou a violeta. Ou a limão ou a pinho. Até mesmo a lírios-do-vale.

— A senhora está bêbada ou o quê?

— Inteiramente sóbria. Aconteceu em Frankfurt. Ainda estou em Lübeck. — Agora ela falava agitadamente. — Hansen produz o negócio também como comprimidos de paradiclorobenzol, para higiene de ataúdes.

— Para o quê?

— Higiene de ataúdes! — A voz de Valerie Roth estava alta, ela falava exageradamente claro. — Deixa-se os comprimidos junto aos cadáveres nos ataúdes. Também por causa do aroma. Espalha-se cerca de 200 gramas para cada ataúde. Somente na Alemanha Federal são 700 mil cadáveres anualmente. Mais ou menos 10% são cremados, em cerca de 30 crematórios. O paradiclorobenzol só afeta os nervos olfativos, naturalmente, não destrói o mau cheiro...

— Escute...

— E só uma parte dos crematórios é equipada com filtros primitivos. Na incineração dos cadáveres surgem o paradicloro­benzol dioxina e furano — que vão diretamente para o meio ambiente. Em naftalinas, aliás, a coisa também está dentro. Esse Hilmar Hansen fez de um veneno um artigo comercial. Na incineração de cadáveres é promovida ainda a formação de dioxinas através de restos de paradiclorobenzol no tecido adiposo humano. E a fumaça contém também cádmio dos órgãos internos.

— Escute aqui, doutora Roth, agora basta.

— Isto mesmo, cádmio! Os rins de pessoas idosas são como depósitos de cádmio. .

— Bem — disse Gilles —, agora é só.

— O senhor não vem? O senhor não vai escrever?

— Não.

— Então... precisa acontecer outra coisa. Então o senhor será trazido.

— Boa noite, doutora Roth — disse Gilles, desligou o telefone e foi para o bar.

Gordon e Monsieur Oltramare olhavam para ele.

— Então — perguntou o piloto de balões —, quem era?

— Valerie Roth, aquela louca.

— É? O que aconteceu?

— Absolutamente nada — disse Philip, e se sentou. — Também queria um gole.

 

Numa fria manhã de inverno de 1944, uma mulher de meia-idade foi com um carro de circulação berlinense, pouco depois das seis horas, até o complexo Siemens. Ainda estava escuro. No vagão, com suas janelas pintadas de preto, através das quais não podia passar nenhuma luz por causa dos caças aliados, ardiam luzes trêmulas, fracas. As pessoas tinham rostos pálidos, cansados, o carro estava lotado, a mulher precisou ficar em pé. Ela também deveria ficar em pé se o carro estivesse totalmente vazio. Ela estava proibida de se sentar. Ela era uma chamada “judia protegida”, protegida pelo casamento com um “ariano”, e obrigada a trabalhar. No seu casaco ela trazia, na altura do peito, uma estrela de tecido amarela, sobre a qual havia, em letras pretas, a palavra JUDEU. A judia protegida tinha uma aparência doente. Ela se segurava numa armação que descia do teto e era jogada pra lá e pra cá com o balançar do carro de circulação.

Um trabalhador com jaqueta de couro e um grande boné de pala, cujo olho direito era fechado por um tampão preto, se levantou e disse para a judia protegida: — Sente-se aqui, estrelinha cadente!

A mulher disse: — O senhor é muito gentil, mas não posso me sentar. É proibido.

— Mas cago pra isso — disse o homem. — Era meu lugar, agora é seu. Tenho certeza quase absoluta que ninguém tem nada contra.

— A judia... — começou um homenzinho.

— Cale o bico, cara — disse um soldado, que provavelmente estava de férias. E para a mulher: — Então, madame, sente-se, por favor!

A judia protegida se sentou e começou a chorar.

Quando o cego de um olho desceu mais tarde, uma pasta debaixo do braço, o soldado também desceu. Ele deu a mão ao trabalhador e disse: — Meu nome é Oskar Kraszinski. Pegue o meu endereço. Nunca se sabe. — Durante o trajeto ele havia rabiscado qualquer coisa num jornal, que agora ele dava ao outro.

— Obrigado — disse este. — Meu nome é Karl Bukatz. Mas não posso lhe dar endereço, camarada. Minha casa foi bombardeada. Agora moro aqui e ali.

— No jornal também está o endereço de minha tia — disse Oskar. — Ela mora em Hasenheide. Algum lugar você vai achar.

— Certamente — disse Karl. — Você vai voltar à frente?

— Sim.

— Tudo de bom! — Karl disse. — Em breve estarão liquidados, esses cachorros.

— Ainda vai durar um pouco, infelizmente — disse Oskar. — Então, até às seis depois da vitória no boteco de Hardtke!

Eles se apertaram as mãos e se separaram, cada um em uma direção, seguindo a escuridão e o frio.

 

Loucura, pensou a Dra. Miriam Goldstein, uma pequena e graciosa mulher com cabelos brancos, que eram leve e descontraidamente penteados. Os olhos no rosto da advogada ficavam grandes e escuros. Ela usava uma roupa azul de verão e gola branca e punhos brancos enrolados, e estava num Airbus, que havia saído de Frankfurt 15 minutos antes e voava para Genebra.

Uma loucura completa, pensou Miriam Goldstein. Que eu esteja viajando para Genebra e de lá para um lugar chamado Château-d’Oex, a fim de encontrar um homem chamado Philip Gilles, o qual procuro há seis anos. Que eu saiba a respeito daquela judia prote­gida, que numa manhã de inverno em 1944 saiu para trabalhar na Siemensstadt, e de Oskar Kraszinski, o soldado de férias, e de Karl Bukatz, o trabalhador que só tinha um olho e que ofereceu seu lugar num vagão do carro de circulação à judia protegida, dizendo: “Sente-se aqui, estrelinha cadente!” Oskar morreu faz muito tempo, e Karl morreu faz muito tempo, e a judia protegida também. Eu ainda vivo e sei disso tudo e de muito mais, e isso não é louco, mas completamente normal e regular. Tudo tem o seu sentido. Não há nada neste mundo que aconteça por acaso e não tenha sentido.

Lá fora o ar ardia sob um céu azul de alto verão. Muitas janelas estavam fechadas. O jato rumorejava baixinho.

Em 1982, pensou Miriam Goldstein, encontrei em Berlim, numa festa organizada pelo cônsul-geral dos Estados Unidos, Mrs. Bellamy, uma senhora mais velha, ainda bonita. Seu marido Georg era cirurgião da guarnição americana. Só duas vezes antes eu havia estado em Berlim. Na terceira vez conheci Mrs. e Mr. Bellamy. Também isso foi predestinado, também isso precisa ser assim.

 

Mais tarde, naquela noite e depois do jantar, Mrs. Bellamy se aproximou da advogada sem o seu marido.

— Desculpe-me, doutora Goldstein... — Ela falava alemão correntemente. — A senhora se chama Miriam?

— Sim — disse esta.

— A senhora cresceu em Hamburgo?

Muitas pessoas estavam naquela festa, uma pequena orquestra tocava. Mrs. Bellamy puxou Miriam Goldstein para um canto.

— Sim, em Hamburgo — disse, sentindo-se ficar inquieta.

— E seu pai tinha lá um grande escritório de advocacia?

— Sim — disse Miriam novamente, e agora estava muito nervosa. — De onde a senhora sabe tudo isto, Mrs. Bellamy?

— Conheci seu pai — disse esta.

Naquele tempo Miriam Goldstein estava convencida de que seu pai havia morrido num campo de concentração. Desde 1941 ela nunca mais ouviu falar dele. Durante muitos anos, depois da guerra, ela o procurou. Não encontrou nada, apesar de toda procura. E agora...

— Quando? — Miriam perguntou. — Quando a senhora conheceu meu pai, Mrs. Bellamy?

— Em 1952 eu o encontrei pela primeira vez — disse a mulher loura. — Depois, freqüentemente. Ele a procurou, senhora Goldstein. Tantos anos ele a procurou em Berlim.

— Como... — começou Miriam, muito chocada. — Quer dizer... onde a senhora viu meu pai naquele tempo?

“Oh, when the Saints go marching in”, tocava a pequena orquestra.

— Aqui faz muito barulho — disse Mrs. Bellamy. Ela pegou o braço de Miriam e a levou para fora, num pequeno parque. A noite de verão estava quente. Elas se sentaram num banco ao lado de um arbusto florido, que cheirava muito. Agora as vozes e a música chegavam a elas bem baixinho.

— Por favor — disse Miriam. — Onde a senhora viu meu pai, Mrs. Bellamy?

— Num bar da Kurfürstendamm — disse ela. — Oskars Bar, chamava-se. Seu pai chegou com um par de sapatos femininos bem pequenos...

 

— Olhe só!

Miriam Goldstein se assustou.

Um garoto apareceu diante dela e a olhava seriamente. Seu rosto magro era muito pequeno. Ele tinha uma grande folha de papel nas mãos, que mostrou a Miriam. Com lápis coloridos estavam pintadas casas e rios e ruas e árvores e carros.

— Fui eu que fiz — disse o garoto. O avião estava quase completamente ocupado.

— Mas é lindo — disse ela. — Você desenha o que se pode ver lá embaixo, não é?

— Tudo o que eu vejo. — Ele balançou a cabeça bem sério, bem preocupado. — Sempre faço, quando vôo.

— Você voa sempre?

— Ah, sim. Papai me leva.

— Onde está seu pai?

Ele mostrou com a mão. — Umas filas mais atrás.

Miriam se virou. Um homem com óculos lia uma pasta de documentos. O lugar ao lado dele estava livre.

— É o senhor com óculos?

— Sim — disse o garoto. — Sempre tem muito o que fazer. Me dá lápis colorido e blocos e diz que devo desenhar. Mas ele nunca olha bem os meus desenhos. Porque ele tem muito o que fazer.

— E sua mamãe? — Miriam perguntou. — Onde está sua mamãe?

— Somos separados — disse o garoto. — Meu pai ficou com a minha guarda.

— Como você se chama?

— Klaus — disse ele.

— Um bonito nome. Meu nome é Miriam.

— Miriam é muito mais bonito que Klaus — disse ele, sempre sério.

— Ambos os nomes são igualmente bonitos — disse a graciosa mulher. — Quantos anos você tem, Klaus?

O garoto queria responder, mas uma repentina crise de tosse o impediu. Ele se segurou no encosto da poltrona de Miriam, seu corpo todo tremia, enquanto ele tossia em tom grave, ladrando, áspero. Seu rosto se desfigurou, angustioso, e ficou ainda mais pálido. Algumas pessoas se viraram.

— Meu Deus... — Miriam se levantou assustada e se curvou sobre Klaus, cuja tosse lhe trazia lágrimas aos olhos.

— O que é... vou chamar seu pai.

Klaus parou de tossir.

— Já passou. Foi pequeno.

— Foi pequeno o quê?

— O ataque.

— Isto foi pequeno?

— Pois eu lhe digo. Na verdade, quase nada.

— Nada? Olhe lá! Você tosse sempre assim?

— Sim. Só que na maioria das vezes muito pior.

— Mas o que você tem?

— Algo a ver com crupe — disse Klaus. — Não me lembro agora. Você conhece alguma coisa como crupe?

— Sim, crupe — disse Miriam baixinho, e se sentou na sua poltrona.

— Crupe, sim, isto eu tenho — disse o pálido garoto. Ele enxugou a boca e os olhos com um lenço de papel. — Você sabe o que é isso?

Miriam balançou a cabeça. — Sim — disse ela. Uma laringite é crupe, pensou ela, em crianças entre um e seis anos. É causada através da aspiração de ar empestado de dióxido de enxofre e perturbações psíquicas. Ao lado de tratamento com remédios, o mais importante: sossego.

— Onde vocês moram? — Miriam perguntou, enxugando com o seu lenço gotas de suor da testa do garoto.

— Em Duisburg — disse Klaus. — É horrível. Quando tenho de tossir, sempre tenho medo. Quer dizer, na verdade também tenho medo quando não tusso. Mas quando vem um ataque destes, na maioria das vezes, eu posso me sufocar, sabe?

— Sim — disse Miriam. Um sintoma típico, pensou ela. Causado pelo estreitamento na aspiração e expiração. — Você já tem isso há muito tempo?

— Mais de um ano — disse Klaus. — Por isso viajo tanto.

— Por isso?

— Meu pai é engenheiro. Constrói em muitos lugares. Também em Tenerife. Lá mora a minha tia Clara. Perto de Santa Cruz. Você conhece Santa Cruz?

Miriam balançou a cabeça.

— Pois é, e meu pai me leva sempre lá. A gente desce em Genebra e pega outro vôo para Tenerife. Vou ficar novamente dois meses com tia Clara. Então preciso voltar a Duisburg. Exames. Depois novamente para a tia Clara, dois meses. Assim a crupe irá embora, diz o doutor. Só que ela não vai. Você perguntou que idade tenho. Cinco. No próximo ano terei seis e preciso ir para a escola. Então não poderei mais ir tantas vezes para Tenerife. Só nas férias. Não sei como será.

— Vocês não têm governanta?

— Sim, Tina. — Ele levantou os ombros. — Eu já sei, não se pode fazer nada. Você quer meu desenho? Eu lhe dou.

— Oh — disse Miriam —, isso é gentil de sua parte. Muito obrigada, Klaus.

— Quer que eu desenhe mais outro? Com outras coisas? Há sempre coisas sob nós.

— Sim — disse Miriam. — Se você quer, seria ótimo.

Ele balançou a cabeça e foi sério e pálido para a poltrona vazia ao lado do homem com óculos e a gorda pasta de documentos. O homem o olhou rapidamente, alisou, ausente, os cabelos pretos da criança. Klaus acenou para Miriam. Ela acenou de volta.

Ele tem cinco anos, pensou ela. Crupe. Duisburg. O ar cheio de dióxido de enxofre. Quantas crianças têm medo? Quantas criancinhas têm medo, um constante medo de se sufocar? Na Alemanha. Na Europa. No mundo inteiro.

Cinco anos, pensou ela, mergulhada em divagações. Eu tinha quatro, naquele tempo, 1941, quando eles chegaram de noite, Hans e Ellen Schönberger. Bons amigos de meus pais em Hamburgo. Já estava combinado há muito tempo que eles esconderiam meu pai, minha mãe e eu na sua grande casa no Blankensee, quando houvesse uma ameaça de “deportação”. Sim, naquele tempo eu tinha quatro anos, não entendi nada daquilo que aconteceu, somente que deví­amos nos esconder. Achei aquilo muito excitante.

Os adultos carregavam malas, mamãe me pegava pela mão, e eu devia andar, e todos andavam muito rapidamente. Na Dorotheenstrasse apareceu, de repente, á patrulha. Dois policiais. Eles exigiram ver os documentos. Papai mostrou, ao invés da identidade, a sua estrela de judeu. Todos nós tínhamos estrelas de judeu, papai, mamãe e eu, mas as havíamos retirado antes de sair do apartamento. E agora papai mostrava sua estrela aos dois policiais.

Naquele tempo eu não entendi: ele tentou pelo menos nos salvar. E conseguiu. Depois que mostrou sua estrela de judeu, ele correu o mais rápido que pôde, na direção de onde vínhamos. Os policiais correram atrás dele. E Hans e Ellen Schönberger puxaram mamãe e a mim, puxaram, puxaram, num canto, numa outra rua, numa terceira, e nos salvamos.

A casa no Blankensee tinha um grande sótão. Lá passamos, mamãe e eu, os três anos e meio seguintes. Seus amigos cuidavam de nós. Mamãe chorava muito e dizia que os policiais naturalmente haviam alcançado e prendido papai e que ele, com certeza, havia caído num campo de concentração. Naquele tempo eu ainda não sabia o que era aquilo, um campo de concentração.

Quase quatro anos Hans e Ellen Schönberger nos esconderam. Pessoas maravilhosas. Naquele tempo também havia muitas pes­soas maravilhosas na Alemanha, e muitas ajudaram judeus ou os esconderam. Em maio de 1945 os ingleses nos libertaram, e mamãe e eu íamos de repartição em repartição, pois ainda tínha­mos esperanças de que papai houvesse sobrevivido ao campo de concentração. Procuramos anos a fio por ele, mas ninguém podia nos ajudar, e não tivemos nenhuma pista dele, e assim pensamos por último que ele havia morrido. Em 1982, numa festa do cônsul-geral americano, encontrei então Mrs. Bellamy, que disse ter conhecido meu pai, e que ele me havia procurado por muitos anos, e ele teria chegado num bar da Kurfürstendamm com um par de sapatos femininos bem pequenos...

 

— O que significa: com um par de sapatos femininos bem pequenos? — Miriam Goldstein perguntou a Mrs. Bellamy no banco daquele parque.

Mrs. Bellamy balançou a cabeça. — Preciso lhe contar tudo ordenadamente, senhora Goldstein — disse ela. — Berlim estava sob ruínas depois da guerra — como quase todas as cidades alemãs. Talvez um pouco mais. Na Kurfürstendamm só havia quase que ruínas queimadas. A casa onde se localizava o Oskars Bar estava semidestruída, as paredes que ainda existiam tinham inúmeros disparos. O bar pertencia a dois homens. Um se chamava Oskar Kraszinski, o outro Karl Bukatz. Karl se denominava Charly e sabia tocar piano. Oskar ficava atrás do balcão. Eles se haviam conhecido durante a guerra, no carro de circulação, contou-me Oskar uma vez... — Mrs. Bellamy contou da judia protegida e do trabalhador que se levantara naquele vagão e dera a ela seu lugar. — ...Oskar deu a Karl seu endereço, e depois da guerra se encontraram novamente, e em 1948 eles abriram o bar. Durante quatro anos só eram eles dois, em 1952 eles puderam arrumar uma garçonete. Esta garçonete era eu.

— A senhora?

— Sou berlinense. Chamo-me Elfi, meu nome de solteira é Zeiner. Sim, trabalhei como garçonete com Charly e Oskar. Todas as bebidas lá eram mais baratas, tínhamos muitos clientes. Oskar e Charly eram ativos no mercado negro, e ambos sonhavam com um bar maior e mais bonito, eu também. Em 1952 era ainda o mesmo, com os móveis de veludo vermelho e as paredes vermelhas e os bancos forrados de vermelho no balcão. Sim, e num dia de outono de 1952, eu estava há dois meses no bar, entrou um homem pequeno e magro. Tinha uma aparência doente e triste, tinha bochechas encovadas, uma pele pálida e atacada de eczemas e apenas poucos cabelos grisalhos... Ele tinha uma aparência terrível... Desculpe-me, senhora Goldstein, por favor, desculpe-me!

— Nada a desculpar — disse esta e sentiu o sangue bater nas suas têmporas. — Continue a contar, Elfi, por favor, continue a contar!

E Elfi contou...

 

O pequeno e magro homem tinha um pacote na mão. Ele cumprimentou Oskar e Charly e os clientes — só eram poucos naquela tardinha —, e Elfi viu como ele apertou a mão de Oskar e Charly. Então ele se curvou diante de Elfi e disse: — Boa tarde, minha dama. Meu nome é Alfred Goldstein. — E também apertou a mão de Elfi, que naquele tempo era muito jovem e extraordinariamente bonita.

Depois Goldstein abriu cerimoniosamente o pequeno pacote e tirou de lá um par de pequenos e brancos sapatos femininos.

— Deixo o papel com você, senhor Oskar — disse ele. — E agora quero perguntar às pessoas, se o senhor permite.

— Okay — disse Oskar.

Goldstein foi pelo bar para uma mesa, e Elfi viu que ele mostrou o sapato ao rapaz e à moça ali sentados e que falava com eles. Eles escutavam atentamente, então balançaram a cabeça, e Goldstein se curvou e foi para a próxima mesa.

— Quem é esse, Oskar? — Elfi perguntou.

— Ah, um pobre-coitado — disse Oskar, que, atrás do balcão e de testa franzida, observava exatamente as reações dos clientes. — Sempre vem aqui, Alfred Goldstein. Já teve um grande escritório de advocacia em Hamburgo. Judeu. Charly arrumou para ele um quarto em Grunewald.

Charly, um tampão preto sobre um olho, estava ao piano e tocava La vie en rose.

— Mas o que ele quer? — Elfi perguntou, aflita. — Que tipo de sapatos são esses, Oskar?

— Sapatos infantis. Você está vendo.

— Sim, vejo. Só que não entendo.

— Olhe — disse Oskar, que não tirava os olhos do homenzinho — este Goldstein e sua filha e sua mulher foram presos em 1941, ele me contou. A mulher e a filha, ele acha, foram para Auschwitz. Ele foi parar em Gross-Rosen. Quando os russos o libertaram, ele tomou o caminho de Auschwitz. Os nazistas lá ainda explodiram e puseram tudo em chamas, tudo o que puderam, mas era simplesmente demais, e por isso ainda havia prédios, e lá havia ainda um monte de óculos e roupas e próteses e cabelos de mulher e malas e sapatos... e entre os sapatos também havia muitos bem pequenos, de muitas criancinhas. E Goldstein tirou um desses pares pequenos, porque ele estava convencido que eles pertenceram a sua filha. Ela se chamava Miriam, tinha quatro anos quando eles foram presos. Eles lhe disseram mil vezes que em Auschwitz mães e criancinhas eram diretamente enviadas da rampa às câmaras de gás, mas ele simplesmente não acreditou nisso. Até hoje ainda não. Desde 1947 que ele anda com os sapatos por Berlim e mostra-os a todos e pergunta se eles não sabem onde está a sua Miriam, porque ele se convenceu de que Miriam foi trazida para Berlim.

— Mas, por quê? Ele é de Hamburgo.

— Meu Deus, você não vê que o homem é completamente atordoado? Ele esqueceu Hamburgo. Ele não se lembra mais de nada. Só de sua pequena filha. Uma lástima.

— Nenhum médico cuida dele? — Elfi perguntou.

— Mas claro — disse Oskar. — Ele já esteve algumas vezes em manicômios. Não adiantou nada. A culpa é de algumas mulheres.

— Que mulheres?

La mer, tocava Charly agora.

— As que sobreviveram, em Auschwitz. Ele as encontrou lá, e uma se lembrava de Miriam e lhe contou que as crianças tinham uma brincadeira: o que eu preferia ser? E essa Miriam respondeu: “Preferia ser um cachorro, pois a SS gosta de cachorros.” E por isso Goldstein acredita piamente que a SS também gostava de sua Miriam e não a mataram.

Elfi Bellamy parou e olhou para Miriam.

— Desculpe-me mais uma vez — disse ela hesitante. — Isto tudo é tão terrível, senhora Goldstein. Mas pensei que deveria lhe contar que conheci seu pai e o que aconteceu naquele tempo...

Miriam pôs sua mão sobre a de Mrs. Bellamy.

— Obrigada — disse ela. — É claro que tudo isto é terrível, mas preciso saber. Preciso saber de tudo. Conte, Elfi, por favor!

Um avião rugiu sobre elas, já bem baixo, antes da aterrissagem no aeroporto Tegel. Quando o barulho parou, Elfi continuou.

— É claro que naquela noite ninguém pôde ajudar seu pai. Mais tarde também não, quando ele voltou. As pessoas ficavam embaraçadas e chocadas, mas também sempre cheias de piedade, todas, até...

— Até? — perguntou Miriam.

— Até aquela tarde de janeiro de 1954 — disse Elfi. — Lembro-me exatamente... O bar no começo estava vazio. Então chegaram um homem e uma mulher que vinham com freqüência. Eles gostavam de nosso bar e nós gostávamos deles. Charly sempre tocava suas músicas preferidas. Eles lhe haviam dito de quais músicas gostavam mais. E eles sempre citavam “sua” música: era a velha Sentimental Journey, ainda sei. Eles não eram casados, os dois, mas queriam se casar. E se amavam muito, via-se. O balcão do bar foi construído com um grande L, na parte estreita havia um banco para dois, era o canto “deles”. Não sei como a mulher se chamava, só sabia o primeiro nome, Linda. Ele se chamava Philip Gilles.

Miriam Goldstein levantou os olhos.

— O escritor?

— Naquele tempo ele era sobretudo repórter e roteirista — disse Elfi.— Acho que seus livros não faziam sucesso. Eles tinham pouco dinheiro, os dois, e bebiam conhaque, não podiam se dar ao luxo de uísque, e mesmo o conhaque eles bebiam lentamente. Nós realmente gostávamos dos dois, sempre vinham à tarde, quando ainda estava calmo e Charly tinha tempo de tocar suas músicas. Naquele dia de janeiro de 1954 nevava muito...

 

...e por muito tempo Linda Brenner e Philip Gilles eram os únicos clientes, e Charly tocava bonito, e Oskar havia acendido uma vela no balcão, e eles bebiam seu conhaque realmente devagar e eram gentis com Oskar e Charly e Elfi, a garçonete que colocava pequenos vasos com flores sobre a mesa, cinzeiros e a lista de bebidas.

Elfi havia contado a Linda e Gilles que ela trabalhava duro 11 meses por ano naquela mina de ouro e apurava uma boa quanti­dade de gorjetas e já havia levado um cliente para casa. Ela economizava, e um mês por ano viajava para St. Moritz, com malas de primeira e bonitas roupas. Lá ninguém a conhecia, e ela vivia como as finas damas, sobre as quais ela lia em revistas, e este era o seu maior luxo: — Então eu não deixo ninguém ficar por cima, nem por um milhão!

Naquela noite, de repente Elfi tinha muito o que fazer, pois uma turma de dez ou 11 homens havia chegado. Todos eram barulhentos e riam e já estavam meio tocados.

— Sinto muito — disse Oskar para os dois no banquinho.

— Mas é bom para o senhor — disse Linda. — Vamos embora daqui a pouco.

— Por favor, fiquem! — Oskar disse. — Eles são do Ocidente, posso até apostar. — O Ocidente era a Alemanha Federal. — Olhem só: uns gordões.

Quando ele disse isso, já havia um gordo ao lado de Charly, ao piano, e perguntou alto e descontroladamente se ele só sabia tocar aquela porcaria estrangeira, e Charly disse, não, ele sabia tocar tudo, o que deveria ser agora? E o gordo pediu “Só as pernas de Dolores fazem isso” e “Leve o calção de banho” e “Ah, Egon, Egon, Egon.” E Charly levantou os ombros e começou com as pernas de Dolores. Alguns dos clientes bêbados berraram o texto, e Oskar disse a Gilles: — Veja só!

Elfi anotou os pedidos, os homens queriam cerveja e cachaça, dois queriam champanhe (“Mas não a marca da casa! Mostre-me a lista, o que vocês têm mesmo neste pardieiro?”), e o gordo apalpou o busto de Elfi e seu traseiro, e ela lhe bateu nos dedos. Linda olhou para Gilles, que balançou a cabeça. Eles realmente queriam ir embora.

Logo em seguida a porta se abriu, a ventania trouxe neve para a entrada, e um pequeno homem, muito magro, entrou inseguro e humilde. O homem tinha bochechas encovadas, pele pálida e atacada de eczemas e olhos escuros, tristes. Ele tirou o chapéu, e todos viram que ele só tinha poucos cabelos grisalhos. Tinha na mão um pequeno pacote. Ele balançou a cabeça para Oskar e também Charly, que havia acabado com Dolores e começado com o calção de banho. O homem idoso foi até Charly.

— Maldição — disse Oskar —, justamente agora!

— O quê, justamente agora? — Linda perguntou.

— Ele chega.

O homem falou com Charly, e pôde-se ver que este o aconselhou a desaparecer urgentemente. Mas o homenzinho disse que não.

— Tenha paciência! — Oskar disse, extremamente irritado. Ele fez sinal para Charly. Este levantou os ombros. Também Elfi, ocupada em servir, falou no caminho com o homem pequeno e magro, da mesma forma em vão.

— Quem é esse? — Gilles perguntou.

Oskar explicou a Linda e Gilles quem ele era, contou a história de Goldstein e que ele havia encontrado os pequenos sapatos em Auschwitz e que acreditava que eram os sapatos de sua filha. Toda a história ele contou apressadamente em poucas frases e finalizou: —... O senhor esteve em Auschwitz, senhor Gilles, como repórter, não foi?

— Sim — disse Gilles —, estive lá em 1952. — Ele pensou: Auschwitz I, Auschwitz II — Birkenau, lugar de extermínio. Auschwitz III — Monowitz. No museu em Auschwitz I vi tudo aquilo de que falou: os cabelos femininos, as próteses, os óculos, os sapatos, as roupas, as malas com os nomes de seus antigos nomes e endereços escritos em cima. IDA KLEIN, GRUPELLOSTRASSE 15, DÜSSELDORF, ÓRFÃ. Nunca me esquecerei disso.

Em Monowitz, pensou Gilles, foi construída uma fábrica para produção de borracha sintética, e lá e nos campos de trabalho das redondezas centenas de milhares trabalhavam até não poder mais para a indústria bélica alemã, e além da IG-Farben havia companhias, como Krupp, Siemens e muitas outras. Ah, como soam no mundo os nomes de nossas fábricas!

— Bom — disse Oskar —, agora é que vamos ver!

Goldstein se dirigiu aos homens e lhes mostrou os sapatos.

— Senhor Goldstein! — Oskar gritou. Mas já era tarde. O gordo pegou os sapatos do homenzinho e os levantou para o alto, tão alto que Goldstein não podia alcançá-los, mesmo quando ele tentou pegá-los saltando. O gordo deixou que ele saltasse. Ele tinha um rosto róseo, não era brutal, não, era interessante e bondoso. Ele era um homem grande e gordo, que se divertia com um homenzinho magro.

— Dê-lhe os sapatos de volta, imediatamente! — disse Oskar.

O gordo não pensava nisso. A maioria de seus amigos estava repugnada e também dissera isso, mas alguns estavam encantados, e o gordo jogou os minúsculos sapatos para um amigo que também estava encantado, e este se levantou e os jogou para um terceiro, e Goldstein corria entre eles e gritava: — Devolver! Por favor! Por favor, devolver!

Elfi trazia uma bandeja cheia de copos e foi de encontro ao gordo. A bandeja caiu no chão, o vidro se estilhaçou, e Elfi, aquela lady, disse ao gordo, indignada: — Pare com isso! Imediatamente! Isso é maldoso de sua parte! — O gordo olhou assustado para Elfi, balançou a cabeça sorrindo e queria se ocupar novamente de seus seios.

— Espere aí, seu bosta! — disse Charly, que há pouco deixara de tocar piano. Ele se levantou, passou por Elfi e disse a ela energicamente: — Saia daqui!

Depois ele deu uma bofetada na cara do gordo, no que este, instintivamente, jogou as mãos para cima, e Charly bateu na sua barriga com toda a força. O gordo ofegou e se sentou no chão.

— O senhor também, fora! — Charly disse a Goldstein — Vamos, vamos, vamos! Para trás do balcão!

Enquanto ele ainda falava, um amigo gordo saltou sobre ele pelas costas e o segurou, e um outro amigo começou a bater sistemati­camente na parte superior do abdômen. Um terceiro pegou os sapatos infantis e os jogou contra o espelho de parede atrás do balcão, onde havia muitas garrafas. Uma garrafa caiu da prateleira, levou outras com ela, algumas quebraram, cheirava a álcool, e Oskar correu para o telefone e discou o curto número da patrulha. Enquanto isso, Elfi havia achado uma vassoura e batia com ela com toda a força num dos homens que havia espancado Charly.

Goldstein ficou parado, como que entorpecido. O gordo puxou-o contra ele e começou a bater no homenzinho, sempre na cabeça do homenzinho, que se livrou dele e gemeu: — Não... não... por favor, não...

— Você, judeuzinho de merda — disse o gordo, enquanto ia de encontro à cabeça de Goldstein, sempre. — Toma-se pacífica e calmamente a sua cerveja, e aí chega um tipo desses! Esqueceram de você para a câmara de gás.

Três homens tomaram, entusiasmados, partido do gordo, os outros protestaram em voz alta, se levantaram e gritaram ao gordo e seus amigos que eles se comportavam como porcos, e tentaram ajudar Goldstein. Com isso, a pancadaria se aproximou de seu ponto alto.

 

— Minhas senhoras e meus senhores, aqui fala o seu capitão — soou uma voz de alto-falante na cabine de passageiros do Airbus — Estamos sobrevoando a Basiléia e em cerca de 25 minutos estaremos aterrissando em Genebra...

A voz havia tirado Miriam de sua lembrança. Ela pensava perturbada: em 1954 alguém espancou meu pai e o chamou novamente de judeu de merda. E já há décadas existe o partido nazista NPD e há alguns anos aqueles terríveis “Republicanos”, cujo chefe é um antigo homem da SS chamado Franz Schönhuber, e a reação dos chamados partidos cristãos parece ser a de que alguns políticos querem assumir as metas radicais dos “Republicanos”, e isto o mais rapidamente possível, ou seja, principalmente tudo aquilo que Schönhuber e sua gente exigem com relação à remoção de estran­geiros, ao fim da vinda de imigrantes e ao “fim da eterna gangue Canossa”. Pois, assim pensam alguns dos cristãos senhores da União, precisamos em tudo ser da mesma opinião que os “Republicanos”, de forma que todos os “patriotas” elejam diretamente CDU/CSU, esta é a sua verdadeira pátria. Já naquele tempo, no começo de 1954, quando eles espancaram meu pai, pensou Miriam, já havia novamente racismo e anti-semitismo, mesmo que ainda não na grande política e como programa de partido, mas nas pequenas coisas, e neonazistas pintavam nos túmulos judeus cruzes suásticas e jogavam pedras e os desonravam com lama.

— Veja!

Miriam Goldstein virou-se para o lado. Ali estava o garoto com cabelos pretos, que se chamava Klaus e a olhava sério. — Fiz ainda outro desenho pra você. — Ele estendeu a ela uma outra folha. — Agora mesmo. Este é o Reno.

Miriam viu que uma grande linha azul dominava o novo desenho.

— Sim, naturalmente — disse ela. — Este é o Reno. Está maravilhoso, Klaus.

— Pode ficar! — disse o garoto pálido. — Eu havia prometido!

— Muito obrigada, Klaus — disse Miriam Goldstein e pegou a folha e sorriu ao garoto, que sofria de crupe e era tão gentil com ela...

 

Oskar havia falado rapidamente ao telefone, e agora ele corria para ajudar seu amigo Charly e a bonita Elfi. A maioria dos homens estava indignada com o comportamento do gordo e seus alegres amigos e tentava controlá-los, e a conseqüência foi uma pancadaria geral, onde todos batiam em todos.

Oskar levou um soco nos dentes e cuspia sangue. Ele saltou num homem que batia em Charly, e o emaranhado de gente caiu no chão. O gordo ainda acertava na cabeça de Goldstein, que gemia, e dizia: — Seis milhões, que piada! No máximo, dois.

Quando ele, durante a pancadaria, chegou bem perto do balcão, Gilles disse: — Nazista de merda.

O gordo soltou Goldstein, olhou para Gilles com seus bondosos olhos infantis e disse: — Diga isso mais uma vez, seu bosta!

Então Gilles disse mais uma vez e tirou seus óculos. Ele era relativamente míope, com a idade deveria melhorar. A Elfi ele havia dito uma vez que não gostava nem um pouco de bater em alguém, mas na sua profissão aquilo tinha sido freqüentemente necessário, e como sem óculos ele via pouco, ele lutava, quando devia lutar, inescrupulosamente, para ter uma chance.

Ele saiu de seu canto e foi de encontro ao abdômen do gordo, tão forte quanto podia, e o gordo gritou e de novo se sentou no chão e segurou aquilo que Linda chamava la garniture nos pouco educados círculos franceses. Gilles pisou nas mãos do gordo e ouviu a voz de Linda, mas agora tantos homens se batiam, que ele não via mais Linda, ainda mais sem óculos. Um jogou uma cadeira que bateu nas têmporas de Gilles e caiu pelas costas. Antes de se levantar, um outro saltou sobre ele e esbofeteou seu rosto. Gilles rebateu, mas não atingiu o cara — mas este sim, sempre no rosto. A pele sobre a sobrancelha direita de Gilles se rasgou, e ele começou a sangrar muito e agora via tudo através de um véu vermelho, ou seja, ele não via quase nada, e de repente o cara se ajoelhou sobre ele e começou a bater sistematicamente, principalmente no peito. Gilles quase não tinha ar e ficou com medo que o cara, o qual ele não podia ver através da cortina de sangue, o matasse, se continuasse assim, e aí ele caiu para o lado e não se mexeu mais. Como uma silhueta vermelha, Gilles viu Linda, que se curvou sobre ele. Ela havia tirado um sapato e batido no cara na cabeça, com o salto. Naquele dia ela calçava sapatos de saltos altos, finos e pontudos. O cara continuava a não se mexer, e Gilles pensou que Linda talvez tivesse atingido seu crânio, e aí ela o levantou e lhe deu seus óculos e seu casaco; o seu, ela já havia vestido, viu ele através da cortina vermelha, pois ainda corria sangue sobre seus olhos.

Linda gritou: — Senhor Goldstein!

E ali estava ele, pequeno e tremendo, e enquanto a pancadaria continuava, Linda puxou os dois homens para a porta de saída, e logo após eles estavam no frio glacial da Kurfürstendamm. Nevava muito, a tempestade lhes chicoteava flocos brancos no rosto, Linda gritou: — Os sapatos! — e correu mais uma vez com o sapato esquerdo até o Oskars Bar; o outro, com o qual ela havia batido, lhe havia escapado.

Gilles segurou Goldstein, que ameaçava constantemente cair, e aí chegou Linda de volta, sempre mancando, pois estava claro que não havia achado seu sapato direito. Mas ela segurava os dois sapatinhos, os quais Goldstein havia tirado em Auschwitz de um monte de sapatinhos parecidos e os quais ele mostrava há sete anos em Berlim a todos, perguntando se não sabiam onde estava a sua filhinha Miriam, e Linda deu esses sapatos a Goldstein.

Então ela andou pela Kurfürstendamm — no pé direito apenas uma meia de seda. Veio um táxi, e Linda levantou os dois braços, o motorista de táxi freou, seu carro se virou na rua escorregadia, ela abriu com violência a porta do carro e gritou para Goldstein: — Pra dentro! Isto aqui é dinheiro! Amanhã de manhã o senhor vem até nós! — Para o motorista, que xingava, ela disse: — Aqui, os 20 para o senhor. Desculpe o que fiz, mas é urgente. Por favor, tome nota do nosso endereço e leve este senhor até em casa em Grunewald.

— Está certo, minha senhora — disse o motorista de táxi, e realmente rabiscou o endereço num bloco, e foi embora.

Elfi saíra do bar para ajudar seus clientes preferidos, mas não era mais preciso.

Linda pegou Gilles e correu com ele, que via tão pouco por causa do muito sangue, até a Knesebeckstrasse e através dela. Aqui estava escuro. Gilles se sentia bastante estafado e caiu contra a parede de uma ruína, e Linda fez uma bola de neve e com ela limpou o sangue, mas sempre aparecia mais. Então eles ouviram, com Elfi, que havia ficado num canto, a sirene de uma patrulha. O barulho ficou mais alto e depois morreu, portas de carro estalaram, e Linda ainda limpava sangue do rosto de Gilles. Pingava no casaco dele e no seu, a tempestade de neve passava por eles, e Gilles disse: — Aquilo com o sapato, você fez muito bem.

— Meu Deus, como odeio os nazistas!

— Sabe, devíamos nos casar — Gilles disse.

 

— Foi assim naquele dia, senhora Goldstein — disse Elfi Bellamy, 34 anos depois, no parque da vivenda do cônsul-geral americano em Berlim. As duas se calaram durante muito tempo.

Finalmente, Miriam perguntou: — E o que aconteceu depois? Com o meu pai?

— Os dois, meus clientes preferidos, casaram-se pouco depois, e se preocupavam muito com ele. Arrumaram-lhe um bonito quarto no asilo de velhos judeus Jeanette Wolff na Dernburgerstrasse e um médico de primeira, chamava-se doutor Schäfer. E toda sema­na a senhora Gilles visitava seu pai. Eu também o visitava — mas nem tão freqüentemente. Pouco depois ele estava bem me­lhor, mas, claro — desculpe-me, não era mais o mesmo. No fim a senhora Gilles era como uma filha para ele, disse-me ele uma vez. Muito calmo e quase feliz ele era lá, e nos sentávamos juntos e bebíamos chá, e os sapatinhos ficavam sobre a cômoda. Ele não andava mais com eles por aí. Isto o doutor Schäfer havia consegui­do. Sim, e em 1962, em St. Moritz, conheci meu marido. Casamo-nos aqui, em Berlim, e temos um filho de 24 anos e uma filha de 16. Moramos na Miquelallee, estamos bem... Meu Deus, digo isso na sua frente...

— Também estou bem — disse Miriam.

— Sua mãe ainda vive?

— Comigo, em Lübeck. Deus lhe dê ainda muitos anos!

— Sim, ele deve fazer isso! Me... me alegra que pelo menos sua mãe ainda viva, senhora Goldstein.

— Alguém tem sempre de ficar com ela. Temos uma fiel governanta.

— Sua mãe é doente?

— Cega — disse Miriam. — Quando nos escondemos, durante quase quatro anos, quase não víamos a luz do dia. Depois de 1945 mamãe via mal, e foi piorando. Algumas operações ajudaram — durante uma época. Desde 1968 que ela não vê mais nada. Mas ela é muito alegre e mentalmente ativa. E meu pai? Quando ele morreu?

— Em 1979 — disse Elfi. — Em maio. Eu estava com George no enterro. Seu pai tem um bonito túmulo no cemitério da comunidade judaica na Scholzplatz. As pessoas do asilo cuidam dele. Com certeza, eles podem lhe contar muito mais sobre o seu pai do que eu. Em 1978 Linda Gilles morreu...

— Meu Deus.

— Sim, parece que foi terrível para seu marido. Estávamos justamente nos Estados Unidos e só soubemos na nossa volta. Eles também viviam em Grunewald, na Bismarckallee. Não estavam mais na lista telefônica. Então fui lá. Mas já moravam pessoas desconhecidas, que não tinham a menor idéia onde o senhor Gilles tinha ido morar. Confesso que não nos demos muito ao trabalho de achá-lo... É sempre a mesma coisa... O trabalho... os filhos... as muito curtas férias na Europa... E o tempo passa tão rápido... Charly morreu em 1973, Oskar em 1976. Há muito que eles haviam vendido o bar. Fui ao enterro dos dois — tão velhos amigos, não é? Sim, todos estão mortos. Nem sei se o senhor Gilles ainda vive. Sim, deve viver. Ele é muito conhecido, se ele tivesse morrido, se saberia...

 

— Senhoras e senhores — soou uma voz feminina dos alto-falantes de bordo — em poucos minutos aterrissaremos em Genebra. Por favor, observem o aviso de não fumar e utilizem os cintos de segurança. Esperamos que tenham tido um agradável vôo, e nos alegraríamos de poder cumprimentá-los em breve. Obrigado...

 

“O mundo despedaça qualquer um, e depois disso muitos se tornam fortes nas partes quebradas. Mas aqueles que não querem se quebrar, estes ele os mata. Ele mata os muito bons e os muito delicados e os muito corajosos; sem diferença. Se você não pertence a estes, pode ficar certo de que ele também matará você, mas ele não estará especialmente apressado.”

Estas frases do livro Adeus às armas, de Ernest Hemingway, Philip Gilles lia numa cadeira de repouso na frente de sua casa Le Forgeron, no momento exato em que pressentiu passos.

Ele tirou seus óculos de leitura.

Do Hotel Bon Accueil vinha uma mulher graciosa com cabelos brancos, descontraidamente penteados, em sua direção. Tinha um rosto estreito e grandes olhos escuros, e usava uma roupa de verão azul, com gola branca e punhos brancos enrolados.

Ele se levantou.

A mulher se aproximou. — Senhor Gilles?

— Sim.

— Eu sou Miriam Goldstein — disse a visitante.

Ele olhou para ela e tentou falar, mas não conseguiu. Durante quase um minuto eles ficaram assim, um diante do outro, então Miriam Goldstein chegou na frente dele, pegou sua cabeça com as mãos e o beijou na testa, nas bochechas e na boca.

Ela tinha lágrimas nos olhos, quando disse: — Obrigada! Agradeço ao senhor e a sua mulher por tudo o que fizeram pelo meu pai, caro senhor Gilles.

Ele ainda quase não podia falar. — Mas... — começou ele. — Mas como... A senhora existe realmente... A senhora ainda vive...

— Sim — disse ela, em voz baixa. — Como o senhor.

— E está aqui! Isto... isto é uma loucura! Um acaso como este não existe.

— Não há nenhum acaso, caro senhor Gilles — disse ela, séria. — Acredite, estou tão emocionada quanto o senhor. Posso... pode­ria me sentar?

— Perdão... — Ele a levou para dentro da casa, e ela se sentou na grande sala de estar, próximo à estreita e alta figura do Meditador, de Ernst Barlach.

Gilles pegou copos e uma garrafa de Perrier da geladeira. Voltou e encheu os copos de água mineral, ambos beberam, e ele também se sentou.

— Há seis anos que sei o que o senhor fez — disse Miriam. — Soube através de Valerie Roth onde o senhor morava. Sou advogada da Sociedade de Física de Lübeck, senhor Gilles.

— Aha — disse ele.

— Há seis anos uma Mrs. Bellamy, em Berlim, me contou do senhor e sua mulher. Assim soube de tudo o que vocês fizeram pelo meu pai. Também sobre aquela noite no pequeno bar na Kurfürstendamm. Chamava-se Oskars Bar, não é?’

— Sim.

— E ela me contou de Oskar e Charly, o pianista. O senhor se lembra?

— Sim — disse ele. — Morreram.

— Como o meu pai.

— Quem é essa Mrs. Bellamy? — Gilles perguntou. — Ouço esse nome pela primeira vez.

— Mrs. Elfi Bellamy — disse Miriam, acentuando o primeiro nome.

— Elfi? A bonita Elfi do bar? — Ele olhou novamente para Miriam.

— Sim, senhor Gilles. Ela se casou com um médico america­no, que ela conheceu há muito tempo, de St. Moritz. Encontrei-a numa festa. Mas Elfi também não sabia onde o senhor morava. Só agora posso lhe agradecer. Tantos anos depois. Tudo é predestina­do, tudo, embora o senhor diga que nada tem sentido e que Deus não existe.

— A senhora acredita em Deus?

— Sim, senhor Gilles.

— Se ele existe, então ele deve ter odiado o mundo, quando o criou.

— Caro senhor Gilles...

— E agora a senhora me conta que acredita na bondade dos homens.

— Acredito na bondade dos homens.

— Estive em Auschwitz — disse ele. — E em Hiroshima e na Coréia e no Chile e no Vietnã, e eles me enviaram para inúmeras guerras depois de 1945. Conheci especialistas em torturas e vi suas vítimas. Realmente, há muita bondade nos homens.

— Em muitos homens, senhor Gilles.

— Como judia, era melhor não pensar assim.

— Como judia, não me resta outra coisa, senão pensar desta forma. Como poderia viver depois de tudo o que aconteceu e que acontece, senhor Gilles?

— Ah, sim. Tudo bem, se a senhora o faz por motivos terapêuticos.

— De forma alguma por causa deles! Acredito realmente. As pessoas que esconderam minha mãe e a mim, todos aqueles que fizeram resistência aos nazistas e a todos os tipos de criminosos e a todos os tipos de crimes e injustiça e terror — não são muitos, senhor Gilles? O senhor e sua mulher odiaram o mal, lutaram contra ele, não apenas contra os nazistas. Conheço seus livros.

— Pare com isso!

— Não, não paro. Vim até aqui para falar disso. Naquele tempo... sem o senhor e a sua mulher meu pai teria apanhado. Vocês impediram que ele acabasse miseravelmente. Cuidaram dele. E havia Charly e Oskar. E há Elfi. Há milhões no mundo, senhor Gilles. Seu amigo Gerhard Ganz lutou contra os criminosos e os crimes contra a humanidade, como o senhor — como Markus Marvin o faz.

— Olhe aqui, esta é uma comparação um pouco audaz.

— Não é audaz. As pessoas que levam, conscientemente e por escolha, o mundo ao seu declínio por grandes lucros são também criminosas, como foram os nazistas. Markus Marvin corre perigo. Preciso fazer o que posso para que não seja condenado à prisão por muito tempo.

— Muito tempo de prisão?

— Ele foi acusado de tentativa de homicídio.

— O que aconteceu realmente?

— Roth e Bolling lhe contarão em Frankfurt. Senhor Gilles, agora o senhor precisa escrever sobre esse escândalo. Agora! Já. Para ajudar Marvin. O senhor conhece os jornais importantes. Do senhor, tudo é impresso.

— Não estou completamente certo.

— Pode estar certo. O senhor precisa vir comigo. É, por assim dizer, um caso de vida ou de morte — uma formulação do professor Ganz. Ele falava sempre do senhor.

— Por quê?

— Ele via aí um caminho possível para sacudir as pessoas. Pois o senhor, dizia ele, pode explicar assuntos complicados de maneira simples e interessante. Os ecologistas — Robin Wood, Greenpeace — têm fortes interesses e poderes com os adversários. Poderes que fazem com que as pessoas não sejam informadas, ou o sejam de maneira errada. Os defensores da natureza mentem ou exageram, diz-se então. As pessoas não conhecem a verdade. Não que elas não queiram, não, mas porque não podemos lhes explicar corretamente o que se passa. O senhor pode, senhor Gilles.

— Antes, talvez. Agora não.

— Ah, sim! Lembro-me de algumas conversas com Marvin, Bolling, com o professor Ganz e Valerie Roth. Temos o mesmo problema que todos os nossos colegas. Claro que poderíamos ganhar amigos em alguns partidos políticos — mas aí seria um interesse egoísta, e seriam dependentes. Por isso, não levamos em consideração o apoio da indústria e do Estado — então eles nos teriam na mão, e estaríamos sujeitos a todo tipo de manipulação. “Não devemos”, sempre dizia o professor Ganz, “confiar em ninguém que não nós próprios. E precisamos de alguém que faça as pessoas nossas colaboradores.” Isto soa bem patético, eu sei. “Philip Gilles”, dizia o professor Ganz, “se o tivéssemos...” Agora o temos. Estou sentada diante dele. E ele voará comigo para Frankfurt e, quando escrever, ajudará Markus Marvin — e a todos nós. Escrevendo, ele sempre tentou ajudar quando as pessoas o chamaram.

— Eu era mais novo, cara senhora Goldstein. Acredite, não dá mais. Perdi qualquer esperança.

— Isto não é verdade!

— Isto é verdade — disse Gilles. — Preciso lhe dar um livro para ler... O monstro... Sou um homem idoso que não acredita em outra coisa que no fim de tudo.

— O senhor então não nos ajudará?

— Não.

— O senhor não irá para Frankfurt?

— Não irei para Frankfurt.

 

Um dia depois, por volta do meio-dia do dia 19 de agosto, Philip Gilles entrou no Frankfurter Hof. O hall na recepção, ele viu, fora reconstruído, o mesmo com uma ala inteira do hotel. Seu quarto era muito bonito, decorado em preto e branco. Ele havia tomado banho e descido novamente.

O porteiro-chefe da manhã, Günter Bergmann, passou por ele, grande, esbelto, elegante — Gilles o conhecia há certamente 20 anos. Bergmann falou baixo: Estou esperando pelo senhor no grande hall, senhor Gilles. Permita-me que o acompanhe.

Gilles já se havia hospedado no Frankfurter Hof, ainda quando ele era uma meia-ruína. Aqui pertenço à “família”, pensou ele então. Meus muitos amigos nos muitos hotéis, todos eles conheciam Linda. Sim, estou um pouco em casa, pensou ele, enquanto andava ao lado de Bergmann. Meu amigo Bergmann.

O grande hall estava quase vazio. Do lado de fora vibrava ar quente. Aqui estava frio. Bergmann levou Gilles para uma mesa no canto esquerdo, no fundo, falou umas poucas palavras, sorriu, curvou-se vagamente e desapareceu.

Um homem e uma mulher estavam sentados na mesa. O homem, que usava óculos, se levantou.

— Muito obrigado por ter vindo, senhor Gilles! Meu nome é Peter Bolling. O senhor conhece Valerie Roth. Com a doutora Goldstein, nos encontraremos mais tarde. Ela foi ao tribunal.

Gilles cumprimentou a Dra. Roth e se sentou ao mesmo tempo que Bolling. Miriam Goldstein disse que não havia acaso, ele pensou. Aqui estou. Não queria vir por nada neste mundo. Aqui estou.

Um garçom apareceu, eles pediram chá. Peter Bolling tinha os cabelos pretos cortados bem curtos. Lixívia e ácidos haviam cor­roído seus dedos amarelados. Em tudo ele era o equivalente de Markus Marvin: tímido, fechado, reservado, falava baixo.

Roth usava um vestido de verão claro. Algo irritava Gilles. Ele olhou para ela.

— Alguma coisa, senhor Gilles?

— Seus olhos.

— O que há com os meus olhos?

— São verdes.

— Sim, por quê?

— Quando a encontrei em Sylt, eles eram castanhos.

— E são.

— Mas a senhora disse agora...

— Lentes de contato — disse Valerie Roth. — Não se lembra? Naquele dia eu havia perdido minhas lentes de contato e esperava novas.

— Me lembro — disse ele. — Mas agora seus olhos são verdes.

— Agora tenho lentes de contato verdes — disse ela. — Também tenho castanhas. E pretas e azuis. Tem-se em várias cores.

O garçom trouxe o chá e serviu.

Bolling pigarreou violentamente. — Então, para ser breve, senhor Gilles: paradiclorobenzol. Produtor principal — produtor, é claro, entre aspas — aqui na Alemanha é a Bayer. — De repente, ele respirou com esforço. — Além disso, há outras quatro firmas na Alemanha Federal. A coisa ataca na coloração de benzol, é altamente venenosa e cancerígena e naturalmente precisaria ser retirada. Mas custaria muito. E, assim, o paradiclorobenzol se tornou um produto comercial e chega às pessoas como artigo de higiene para o combate ao mau cheiro. — Agora ele ofegava violentamente. — A senhora Roth já lhe contou uma porção de coisas no tele... — Bolling se levantou e disse, procurando respira­ção: — Desculpe-me! — Então pegou uma garrafinha da bolsa, segurou-a na boca e foi rapidamente em direção ao vestiário e aos sanitários localizados abaixo deste.

— O que ele tem? — perguntou Gilles, assustado.

— Asma — disse Valerie Roth. — Doença de profissão. Por isso é aposentado precocemente, com 46 anos. Pegou isso no laboratório. Fica bom uns dias. Depois volta. São corticóides, o que ele espirra agora na boca.

Perto, duas mulheres de chapéu riam enquanto comiam torta e café.

O garçom passou por eles e disse: — Tudo bem?

Gilles balançou a cabeça afirmativamente.

— Ele está doente? Devo chamar um médico?

— Não é necessário. Muito obrigada — disse Valerie Roth, e sorriu para ele. — Muito gentil de sua parte.

 

Um caso típico de subconsciente revoltado, pensou Bolling. Ele se sentou, cansado pelo ataque, num banco da entrada do sanitário. Durante cinco minutos vejo esse Gilles e já não tenho mais ar. Uma história vergonhosa. Espero que ele não conte isso a ninguém. Acontecia quando Ganz — de vez em quando — o elogiava. E eu dizia: — Realmente, professor, só mesmo por causa de sua repu­tação o senhor não pode se dar ao luxo disso.

— De quê? — Ganz perguntou.

— Esse Gilles.

— Por que não? — Goldstein perguntou.

— Tudo o que é de direito — disse eu. — Mas Philip Gilles!

— Não fale besteiras! — disse Markus Marvin.

— Não é besteira — disse eu. — É a verdade.

— Você leu um livro dele?

— Livro? — eu disse. — Nem uma única linha! E voluntariamente não o farei nunca.

— Mas você sabe exatamente sobre ele, não é? — Marvin perguntou.

— Sim — disse eu. — Afinal, me interesso por literatura, não é verdade? O que nossos críticos escrevem sobre esse Gilles me é suficiente. Me é completamente suficiente!

Isto é vergonhoso, realmente.

 

Uma grande parte do prédio alto da Gerichtstrasse 2, no qual estavam o juízo da comarca, o tribunal da comarca e o tribunal de relação, estava sendo reconstruído. Havia muito barulho aqui. O funcionário do tribunal, Franz Kulicke, contava ao porteiro do turno uma piada.

— O que tem uma mulher que usa durante décadas spray íntimo, Gustav?

— O que ela tem? — perguntou o porteiro, que se chamava Gustav.

— Um buraco de ozônio — disse Kulicke, e riu tanto que se engasgou.

— Pare! — disse Gustav. — É a Goldstein. A graciosa mulher de cabelos brancos usava um vestido de verão verde-claro.

Kulicke saltou da portaria.

— Doutora! Já esperava pela senhora! O senhor procurador Ritt disse que eu deveria levá-la quando a senhora chegasse.

— Eu mesma acho, senhor Kulicke — disse Miriam Goldstein.

— Isto é que não! — Kulicke jantava. — Nunca na vida, doutora. Isto aqui é talvez uma macaquice com a reconstrução! Cada dia pior. Hoje os elevadores não funcionam. Preciso realmente levá-la. Permita-me? — Eles foram por um longo corredor. Kulicke não podia ficar calado nem dez segundos, era seu tique. — A senhora nos conhece há tanto tempo e tão bem, doutora. Não fique zangada se digo algo. — Não era uma pergunta, era uma constatação.

— Naturalmente que não, senhor Kulicke — disse Miriam. Ela havia esperado por algo parecido quando viu aquele senhor ao entrar.

— Tem certeza de que não vai ficar zangada?

— Certeza que não, senhor Kulicke.

Ele começou: — A senhora vem em razão desse Markus Marvin, eu sei. Não digo nada, absolutamente nada. É sua advogada. Não pode escolher seus clientes. Tudo bem. Tudo em ordem. Mas eu acho: é um louco com sua água suja e seu ar envenenado e tudo o mais! A senhora não pode escolher, já disse. Mas se a senhora quer saber, doutora, já não agüento mais essas lamentações e choradeiras, que destruímos o mundo. Mas não é verdade! Grandes mentiras dos vermelhos e dos verdes. Só querem espalhar medo. A senhora se lembra da confusão de Chernobyl, doutora? Olha, chegou a ser criminoso, o que eles se deram ao luxo de fazer! Pretensamente, tudo irradiado, não se devia comer nada, as crianças não brincarem na areia, correr quando chovesse — toda a porcaria. Uma mentira escabrosa. A senhora conhece as cifras, dadas pelo ministério do interior, tão bem quanto eu, doutora. Normal, completamente normal.

Miriam Goldstein sabia que ele não podia parar de falar. Ela virou para o seu lado em direção a outro corredor.

— Ou o desmatamento! A senhora já viu como as florestas ao longo das auto-estradas estão intactas? Mas, não, velocidade máxima 100, grita a esquerda, e catalisador ainda por cima! O que a nossa indústria automobilística deve fazer com seus carros bons, rápidos? Onde as florestas estão destruídas, se é que estão? Sim, lá, onde não chega nenhum carro. Chuva ácida, dizem. Também uma mentira. Não haverá nunca chuva ácida nas auto-estradas! Os suíços, estes são gente com razão. Não se deixam enlouquecer. Têm um partido do carro. Um partido que se preocupa com os direitos dos motoristas. Acho legal, bem legal. Na Suíça há adesivos. Arrumei um. Colei no vidro de meu carro. Está escrito: MEU CARRO TAMBÉM ANDA SEM FLORESTA! — Ele riu com vontade. — Bom, não é?

— Hum.

— Ou os peixes mortos — continuou Kulicke, funcionário do tribunal, animado. — Perguntei a um professor, ele está aqui por causa... Deus me livre, não devo dizer! Então, ele me expli­cou, aquilo com os peixes é completamente normal. Também com as focas e os outros animais. Agora subindo a escada, por favor. A natureza, com a sua sabedoria, regula tudo. Havia muitos peixes e focas e outros animais, por isso morreram aqueles em excesso. Um processo, diz o professor, para o qual devemos nos ajoelhar, agradecidos. Nos ajoelhar! Sempre subindo a escada, eu digo, a senhora sozinha nunca iria achar o procurador Ritt! Também aquilo com o clima é pura propaganda. Sempre houve oscilações desde milhões de anos. Absolutamente natural. Neces­sário! O professor diz. Então a bobagem com o buraco de ozônio! A senhora já conhece a piada, o que tem uma mulher — desculpe-me! Acontece por me excitar tanto, quando devo pensar nesses vermelhos e verdes. Não podemos interferir nos métodos regulatórios da natureza de milhões de anos de idade, diz o professor. Agora à direita! Ou com a poluição do ar. Pura demagogia política. Esses criminosos, eles querem o caos, querem uma indústria arminada, alguns milhões de desempregados a mais. E fim com o comunismo! É verdade! Quer dizer, um professor, tão bem instru­ído, ele sabe do que fala, não é?

 

Bolling voltou ao hall do hotel. Estava embaraçado, quando se sentou.

— O senhor soube o que há comigo? — Ele olhou rapidamente para Valerie Roth.

— Sim — disse Gilles.

— Outros estão pior. É o seguinte: os desodorantes sanitários, na sua utilização, liberam veneno, que vai para o esgoto e fica no lodo de clarificação. Não extraível. 40% do lodo de clarificação vai como adubo para as plantações e, assim, a cadeia alimentar. O resto vai para depósitos ou instalações para a queima. Com a queima surge a dioxina. O senhor sabe o que é isso? — Gilles afirmou com a cabeça. — O pior dos venenos. Mas, veja, como produto traz muito dinheiro. Também para a chamada higiene de estábulo.

As mulheres com chapéu ao lado riram de novo. Naquele momento o garçom serviu a elas dois outros pedaços de torta de cereja.

— Os camponeses querem que seus estábulos não cheirem mal. As vacas também não devem ficar no mau-cheiro. Queremos leite de vacas felizes. Quando, num estábulo desses, se joga isso, então na água da limpeza há uma boa quantidade de paradiclorobenzol. Os camponeses ficam felizes, as vacas ficam felizes, e o paradi­clorobenzol vai para a água subterrânea e para os nossos alimentos. Isso tudo não é de longe — de longe — a safadeza maior, porém é uma bela safadeza, sobretudo se se pensar quantos outros “produ­tos” do gênero estão ainda no comércio.

Valerie Roth disse: — E esse Hilmar Hansen produz a coisa, compreende, senhor Gilles? Para as privadas, para os cadáveres e para os estábulos. Em massa! Há muito tempo. Em 1984 houve um pequeno transtorno. O programa de TV Monitor fez uma reporta­gem, na qual foi apontada a periculosidade dos desodorantes sanitários.

Gilles pensava no que fazia uma mulher mudar constantemente a cor de seus olhos.

— Foi um escândalo. As pessoas ficaram com medo da coisa. Hansen e os outros procuraram novas químicas e colaram nos seus produtos um papel: “Este produto não contém paradiclorobenzol.”

— Compreendo — disse Gilles. — E por que Marvin está preso?

— Espere! — Bolling agora falava mais livremente. Este Gilles parece ser boa pessoa. Talvez uma porcaria de escritor apesar de claro. — Espere! Hansen continuou a produzir produtos com paradicloro. Obviamente! Quando uma coisa dessas não é mais possível na Europa, é no Terceiro Mundo.

— Quer dizer que a coisa simplesmente está sendo vendida em outros lugares?

— Senhor Gilles, olhos azuis, inocência, é muito bonito — disse a Dra. Roth, que estava com olhos verdes. — Mas não exagere! Toda criança realmente sabe que se pode arrancar bilhões e bilhões do faminto, indigente e miserável Terceiro Mundo.

— Bonito — disse ele. — Já quis escrever um romance sobre o Terceiro Mundo. Todas as organizações filantrópicas. Pão para os pobres irmãos et cetera.

— Bom que o senhor não fez — disse Bolling. — Agora mesmo um navio alemão de ajuda ao desenvolvimento foi novamente preso na costa da Somália. Cheio de armas. O senhor certamente leu. Rituais e costumes bem antigos. Divisa: navio com arroz. Debaixo do arroz, metralhadoras.

— Sim, sim, sim — disse Gilles. — Uma grande safadeza. Poderia talvez finalmente saber por que Marvin está preso?

— É assim em todo canto — disse Valerie Roth, coberta de indignação. — Por exemplo, os Estados Unidos! Lá foi promulgada uma lei, segundo a qual os sprays são proibidos. Todos os tipos de spray. Ótimo, não é? Em se comparando com a sujeira aqui. Nem tão ótimo. Pois os gringos naturalmente continuam a produzir todos os tipos de spray. E exportam para países nos quais eles não foram proibidos.

— Já que começamos a lhe explicar sobre o principal, senhor Gilles — disse Bolling —, o senhor pode tomar como ponto de partida que vivemos num mundo que está sendo destruído por imbecis e criminosos. Os imbecis formam um grupo muito menor. Falando no geral: ninguém é só um pouquinho melhor do que deve ser. É bom que o senhor marque isto como a “Lei de Bolling nº 1.” Eu e Valerie sempre denunciamos e abrimos processos contra esse cara Hansen, os últimos com o apoio de Markus. Perdemos todos.

— Por isso precisamos do senhor — disse Roth. — É como nos Dez Mandamentos.

— Como?

— Sim — disse ela. — Eles nunca funcionaram. Não podiam funcionar. Moisés fracassou totalmente. Os Dez Mandamentos deveriam ter sido propagandeados de maneira completamente diferente. — Ela riu.

— Aqui existe um argumento de homicídio — Bolling disse.

— Um o quê?

— Argumento de homicídio. Com a ajuda dele pode-se fazer simplesmente tudo, e nada pode ser proibido ou restringido. Este argumento de homicídio reza: perdem-se empregos. A paz, por exemplo, prejudica os postos de trabalho. Então, fornecemos submarinos para o regime racista da África do Sul. Caças Tornado para a vizinha de Israel, Jordânia. Instalações nucleares para o Paquistão. Precisamos, senão...

— ...perdem-se os empregos — disse Gilles. — Está claro. Entendo perfeitamente. Uma lógica impressionante. Se vocês tivessem finalmente a amabilidade de me dizer por que Marvin está preso...

— Se relaciona a tudo isto! —Valerie Roth gritou. — Deixe-nos contar de nossa maneira, senhor Gilles! Para que o senhor entenda melhor o que Markus fez.

— Por favor. Como a senhora achar mais certo. Dra. Roth.

— Também precisamos continuar a fornecer, por quantias mira­bolantes, pedras de carvão e produzir energia em quantidade mirabolante e empestar o ar com dióxido de carbono. Fechar minas? De jeito nenhum! Perdem-se empregos! Não podemos desativar nenhuma UEN ou só pensar em parar com a energia nuclear. Perder-se-iam empregos! — disse Valerie Roth. — Fora com os estrangei­ros! Tiram os postos de trabalho dos alemães. Empregos alemães só para alemães! Nenhum estrangeiro mais! Leis brutais? Abaixo com o mais artificial de todos os vícios humanos: a caridade! Ela custa empregos.

— Um sonega impostos — disse Bolling. — Bilhões! Se não sonegasse sua obra teria ido à falência, diz ele. Muitos empregos estariam perdidos. A canção do bravo homem soa bonito.

— Empregos — disse Valerie Roth —, precisa-se assegurá-los. E quando se apronta tanta desgraça com os trabalhadores nesses postos. Quando se dá a este mundo o resto — está tudo muito certo! Tudo em ordem! Temos dois milhões e 250 mil desempregados. Nunca acabaremos com eles, serão sempre mais, dizem os especialistas. Ridículo! Também solucionamos esse problema. Destruímos o mundo de tal maneira, que os homens morrem como moscas por causa do ar envenenado, da água envenenada, da comida envenenada.

— E graças a esse método genial há sempre menos desemprega­dos e sempre mais empregos. Por último, não haverá mais desem­pregados — disse Bolling — e muitas vagas de emprego. Ainda haverá aquele que chegará a tal conclusão!

— O maior criminoso ecológico não é criminoso, se ele arruma empregos — disse Valerie Roth, e suas lentes de contato verdes cintilaram.

— Por isso aquele que desvenda um crime desses precisa ser eliminado — ele, não o criminoso, disse Bolling.

— Este mundo — continuou ele, doutrinário —, este mundo podia ser diferente. Há muito tempo que deveríamos ter passado para formas alternativas de energia. Para a energia solar, por exemplo. É possível? Pois não é! São “sistemas imaturos”. Empregos em perigo. Isto não interessa de jeito nenhum.

— Energia solar? — Gilles perguntou.

— Sim! — disse a Dra. Roth. — A única forma de energia no futuro — se ele existir. Mas com o argumento dos empregos tudo vai por água abaixo. Por isso Hansen também pôde exportar sua coisa para o Terceiro Mundo. Imagine, ele teria de fechar tudo! Os empregos, senhor Gilles! Um emprego conservado é mil vezes mais importante que um trabalhador saudável, mais importante que o choque climático, mais importante que o fim do mundo. Por isso é que nós naturalmente perderemos nosso último processo contra Hansen. Markus estava simplesmente desesperado.

 

— Agora ainda por esta escada, doutora, então estaremos lá — disse o funcionário Franz Kulicke, a quem um professor presi­diário, um homem muito instruído, havia explicado que essa grande macaquice em torno de choque climático e poluição am­biental e aumento de temperatura pertenciam ao repertório dos arruaceiros verdes e vermelhos, que queriam arruinar a indústria, a economia, o Estado, simplesmente tudo. — Algo mudou aqui, não é? Cresceu tanto, que rebentou. Há dez anos! — Kulicke riu. — Meu Deus! E hoje! Esse louco, o seu Markus Marvin — a senhora não está realmente zangada? —, ele está preso lá em Frankfurt-Preungesheim. Um presídio gigantesco, realmente! A senhora não conhece, não é? Pensei mesmo. Um para homens, um para mulheres. A mesma entrada — Homburger Strasse 112. Talvez duas caixas! Lá, onde hoje estão as mulheres, já foi da Gestapo. E se eles bombardeiam tudo, as prisões ficam em pé neste país. Os juizes e os procuradores, a maioria, pelo menos, nunca esti­veram em Preungesheim. Engraçado, não é? Agora lá são realiza­das verdadeiras visitas para todos. Para que vejam como é que é numa prisão. Senão... se se deve falar com um presidiário, aí temos serviço de ida e volta. Empregadas imaturas. Numa destas um como Marvin é enfiado, na maioria das vezes com outras pessoas, e a empregada o traz aqui até o procurador, e quando termina, a empregada o leva, com o resto da turma, de volta a Preungesheim. Os presidiários gostam. Vêm sempre novamente para fora do lugar até a cidade. Pra variar, não é? Não ganham dinheiro, os bandidos! Mas vivemos numa democracia, não é? Bela democracia! Já faz tempo que é necessário que venha um e ponha ordem nisto aqui!

 

— Marvin bateu em Hansen, deixando-o a ponto de ir para o hospital? — Gilles perguntou.

— Mais ou menos — disse Roth.

— O que significa mais ou menos?

— Mais ou menos quatro, cinco semanas internado.

— Parabéns — disse Gilles. — E naturalmente se deve pensar que ele estava muito desesperado. E onde ele fez o serviço?

— Na casa de Hansen — disse Bolling. — Nunca lhe permitiriam entrar na fábrica. A moça que lhe abriu a porta não sabia de nada. Então, Markus entrou, ouviu vozes e na sala de estar ele encontrou Hansen e dois empregados de maior escalão. Eles tinham uma reunião. Hansen queria botar Markus para fora imediatamente, mas não pôde. Nem os três juntos. Ele é muito forte, nosso Markus.

— Tinha três contra ele — disse Roth. — Se livrou dos dois empregados e espancou esse Hansen. Foram trocadas palavras desagradáveis. E assim se chegou à acusação de tentativa de ferimentos corporais seguidos de morte.

— Como assim?

— Bem, Markus gritou: “Eu lhe mato!”

— E ele não queria bem isso — disse Bolling.

— Tem certeza?

— Senhor Gilles! — Valerie Roth balançou a cabeça. — O senhor conhece Markus. Ele é facilmente irritável e extremamente sensível.

— Oh, sim — disse Gilles.

Sério, Bolling disse: — Um idealista sensível. Não deixaria sua existência constantemente em jogo se ele fosse outro. Veja, senhor Gilles, isto é o que quer a doutora Goldstein agora lá no procurador. Markus já teve tantos reveses como documentarista e na inspeção, viu tanta baixeza, tanta destruição da natureza e do homem e do animal causadas pela avidez, que ele simplesmente não pode mais se comportar como é de praxe na corte inglesa. Onde a violência impera, só a violência ajuda, isto ele reconheceu.

— Brecht já reconheceu — disse Gilles.

— Por favor! — Roth disse. — Um poeta tão grande! Markus atacou Hansen por motivos objetivos e honrosos. Hansen é um dos muitos empresários, dos quais nenhum procurador não mexe nem num fio de cabelo. Por isso não é menos reprovável o que ele faz. Mais reprovável é a posição do procurador ou daquelas instâncias, as quais dão orientação ao procurador para não fazer nada.

— Que Hansen caiu no chão, é claro que foi azar — disse Bolling. — Daí surgiu a maioria de seus ferimentos.

— Que tipos de ferimentos foram esses? — Gilles perguntou.

— Bem — disse Bolling —, três costelas quebradas, dois dentes, um hematoma no olho esquerdo, uma fratura na clavícula, uma distensão no tendão, muitas efusões de sangue.

— Impressionante — disse Gilles. — O senhor Hansen teve mesmo muito azar.

 

Miriam Goldstein já estava meio ofegante, quando Kulicke finalmente parou diante de uma porta e disse: — Aqui estamos, doutora! — Na porta ela viu uma pequena placa, onde estava escrito: ELMAR RITT — PROCURADOR.

Kulicke bateu na porta, e eles entraram numa sala de espera. A porta para o escritório do procurador estava encostada. Ouvia-se uma voz de homem. Certamente Ritt falava ao telefone, naquele momento.

Kulicke entrou e anunciou a chegada da doutora Goldstein.

— Dois minutos — diz a voz. — Peça que ela se sente.

— Dois minutos — disse Kulicke, virando-se para Miriam. — Sente-se...

— Já ouvi — disse Miriam, e se sentou.

— Sim, então tchau, doutora! — Kulicke disse, desaparecendo. A porta se fechou atrás dele. Miriam estava sentada numa poltrona forrada de napa e ouviu a voz furiosa ao lado...

— ...“Teste Ariano” se chama a coisa, senhor procurador-geral... Isto mesmo, “Teste Ariano!” Estamos encaminhando um processo de averiguação por incitamento popular. Infelizmente, até agora, contra “desconhecido”. Também já obtivemos uma resolução de embargo para o software desse — recuso-me a dizer: jogo... Sim, parece que aí em Munique acontece a mesma coisa que aqui em Frankfurt... Como?... O que nós embargamos foram 864 disquetes para PCs comercializados clandestinamente. Os mais simples aparelhos, que qualquer criança pode manejar. No “Teste Ariano” há uma contagem de pontos que surge quando se responde a 20 perguntas — como lugar de nascimento, cor dos cabelos e dos olhos, se se vota NSDAP, Partido Popular Judeu ou Verdes. — A voz do procurador estava cada vez mais alta. — Para os “judeus” descobertos dessa maneira, esse jogo nojento prevê a “eliminação no campo de concentração”, para certos “mestiços de primeiro e segundo graus”, o envio para a frente oriental. Se se alcançar o “ariano total”, aparece no monitor do computador este texto: “Vitória, salve! O Estado precisa de homens como você!”

Acredito na bondade dos homens, pensou Miriam Goldstein. De repente, ela estava desesperada. Você nunca deve ficar desesperada, disse a si mesma. Você nunca deve perder sua crença. Nunca.

Enquanto isso, a voz ao lado continuava a falar: — A comissão examinadora em Bonn colocou esse “Teste Ariano”4 na “lista ne­gra” como prejudicial à juventude... Não, a posse do disquete não está sujeita à multa, aí o senhor tem razão, senhor procurador-geral. Apenas a produção e distribuição. E esta corre clandesti­na. Ainda não temos nenhuma pista. Um único pai preocupado enviou-nos um disquete desses... anonimamente... Os 864 nós achamos num depósito. Ninguém quer ou pode nos dar informa­ções... Ninguém sabe a quantidade total dos “Testes Arianos” na Alemanha. Publicamos um apelo: quem souber alguma coisa sobre os divulgadores, que se dirija a nós... Também aí, bom! Anoto, senhor procurador-geral... Sim, para a imprensa aqui... Solicita-se entrar em contato na Baviera, com a procuradoria em Munique I na Nymphenburgerstrasse, telefone 52041... Claro, senhor procurador-geral, eu providencio isto imediatamente...

Miriam ouviu quando uma poltrona foi empurrada para trás. Passos se aproximaram. Na porta do escritório apareceu um homem jovem e esbelto. Tinha uma cara boa, aberta. A pele estava fortemente avermelhada. O condicionador de ar funcionava, mas ao procurador Ritt parecia fazer calor. Ele usava uma calça de linho e uma camisa esportiva vermelha, mangas curtas.

— Senhora advogada...

Miriam se levantou.

— A senhora ouviu tudo?

— Sim.

— Isto não é uma infâmia?

— Com certeza.

— Uma infâmia terrível — disse Ritt. Ele estava muito nervoso.

Miriam perdeu o controle: — O senhor ainda se espanta com isso?

Ele a olhou: — Como?

— Nada — disse ela. — É infame. O senhor tem razão. — Aqui está um homem decente, pensou ela. Você não deve desencorajá-lo. Você não deve desencorajar ninguém. Nunca. E você mesma nunca deve perder a coragem. Se você fizer isso, está perdida. Este homem está morto de raiva, pensou ela. A bondade nos homens? Sim, sim, sim, pensou ela, e cerrou as duas pequenas mãos. A bondade nos homens!

— Por favor, entre, minha senhora! — disse o procurador Ritt. Ela o seguiu num pequeno escritório que tinha apenas uma janela. Enquanto ele se sentava numa escrivaninha apinhada de documentos, perguntou — e o tempo todo, lá perto, ribombavam as britadeiras: — Em que país vivemos nós? — Ele bateu na escrivaninha e xingou brutalmente. — Desculpe-me, senhora advogada — disse ele, depois, e parecia infeliz. — Quando telefonei ao Frankfurter Hof, a senhora já havia saído.

— Fiz o caminho a pé — disse ela. — Por que telefonou?

— Para lhe economizar o caminho.

— Não compreendo. Nós queríamos falar sobre Markus Marvin.

— Já se resolveu.

— Como?

— Já se resolveu — disse Elmar Ritt. — O senhor Hansen mandou dizer do hospital, através de seus advogados, que ele nada tem contra o senhor Marvin e que não se sente prejudicado. A frase “Eu lhe mato”, o senhor Marvin não teria dito. No mesmo sentido os dois colaboradores do senhor Hansen também se expressaram.

Miriam olhou para o procurador.

— E os dentes partidos, a fratura da clavícula, a distensão, as costelas quebradas, efusões de sangue — tudo isto esse Hansen simplesmente esqueceu?

— Tudo isto esse Hansen simplesmente esqueceu.

— E as quatro, cinco semanas de hospital também.

— E as quatro, cinco semanas de hospital também — disse Ritt. — É claro que algo está por trás disso! — ele gritou, repentinamen­te. — Desculpe-me, senhora advogada!

— O senhor está com os nervos abalados — disse Miriam.

— E a senhora, não?

— Ah, Deus — disse Miriam. — Sou muito mais velha que o senhor. Tenho o tempo da revolta atrás de mim.

— Não acredito — disse ele.

— O senhor naturalmente teria julgado o ataque de meu mandante como justo.

— Naturalmente — disse ele. — Mesmo quando não há acusador, claro. Mas aquilo com a tentativa de ferimentos corporais seguida de morte podemos esquecer. Haverá uma multa em dinheiro. — O telefone tocou. Ritt tirou do gancho e falou.

Na mesma hora se levantou.

— Quando? — ele perguntou, com a voz completamente mudada. Ele escutou, então. — Polícia criminal, avisada? — Novamente um intervalo. — Também não sei como isso foi possível! — ele começou a gritar novamente. — Claro, estou indo imediatamente! Imediatamente! — Ele pôs o telefone no gancho e tirou a jaqueta do cabide.

— O que há? — perguntou a Dra. Miriam Goldstein.

— Markus Marvin está morto — disse Elmar Ritt. — Veneno na comida.

 

E aconteceu naqueles dias...

A primeira catástrofe ecológica na Antártida: No estreito de Bismarck, próximo da ponta norte da Antártida, afundou o navio argentino Bahia Paraíso, carregado com 900 mil litros de óleo diesel. Nos dias seguintes, começou uma morte em massa de várias raças de filhotes de passarinhos, porque os pais não podiam achar comida na água contaminada de óleo. Também os locais de ninhadas de pingüins foram invadidos pelo tapete de óleo, condenando dezenas de milhares de animais a morrer. Os cientistas prevêem que o mundo vegetal e o animal na região precisarão, por causa do frio intenso, de pelo menos — e se for o caso — cem anos para se recuperar.

 

Em conseqüência da alta poluição do ar, a cidade de Genebra decretou, por enquanto, uma semana de proibição parcial para os motoristas. Carros sem catalisador tiveram de se revezar de acordo com os números pares e ímpares da placa, ficando um desses na garagem um dia inteiro.

 

O jornal soviético Sozialistischeskaia Industria avisou que o ar e a água potável de Moscou estariam “cronicamente” sujas. A concentração de dióxido de nitrogênio era, na capital da URSS, 30% mais alta do que as normas permitidas, a quantidade de monóxido de carbono ultrapassaria as “normas de segurança” em seu dobro. A água de Moscou, segundo estes dados, não poderia mais ser bebida.

 

Há mais de um ano só se mediu alguns milímetros de chuva em Milão. A névoa envolve a cidade de um milhão e 750 mil habitantes. Em conseqüência disso, uma inversão das condições atmosféricas sem corrente de ar forma uma densa nuvem de poeira sobre a cidade. Dois terços das pessoas usam máscaras protetoras, policiais se recusam a arejar seus filtros bucais para dar informação. Nas salas de aula, por causa das máscaras, predomina somente um murmurinho incompreensível. Nas paredes das casas colam-se cartazes com o apelo de fechar as calefações. Rádio e TV dão informações para a preservação da saúde. Na periferia, policiais impedem a entrada de carros sem a placa milanesa.

A TV mostrou moradores da cidade:

— Não consigo me desfazer — disse o porteiro no Hotel dei Fiori na auto-estrada das Flores em direção à Riviera — já há meio ano de minha gralhada.

O proprietário do quiosque atrás do Scala: — Sinto-me todos os dias muito mal. Como posso saber se hoje há especialmente muita sujeira no ar?

Vendedores de souvenirs na zona de pedestres na catedral mostram feridas abertas e pústulas na pele. Um com eczemas: — A sujeira vem de cima para baixo e também se arrasta ao longo das ruas interditadas — e a maior parte vem de qualquer jeito das chaminés das fábricas.

Alguém gritava de raiva ou de medo?

Que nada.

 

A radioatividade nos arredores da fábrica de plutônio Windscale — hoje, por motivos propagandísticos, rebatizada como Instalação de Reprocessamento Sellafield — no noroeste da Inglaterra ultra­passa as normas de segurança em seu quíntuplo. Esta acusação foi feita pela organização ecológica Amigos da Terra em razão do problema do solo nas proximidades do rio Esk. Disto surgiu uma grande quantidade de césio, amerício 241 e uma considerável irradiação de raios-gama.

Nenhuma medida por parte das autoridades.

 

Dois anos e meio depois da catástrofe do reator de Chernobyl, dobrou o número de doenças do câncer nas regiões próximas à usina nuclear naquele tempo não evacuadas — anunciou a agência de notícias soviética TASS. A irradiação ainda está muito maior do que o permitido. Um aumento alarmante de abortos e malformações é observado em crianças e animais domésticos.

 

Texto original do noticiário principal, Zeit im Bild, da TV austríaca. Voz do locutor: “Também as autoridades tchecas admitem pela primeira vez abertamente uma catástrofe ecológica. Até agora, a água contaminada e a extinção de florestas não eram temas. Agora há informações e exames sobre o estado da flora e da fauna na Serra dos Gigantes, e eles são assustadores. Já se fala em ‘florestas mortas’.”

 

O ministro do meio ambiente alemão-federal, Klaus Töpfer, doou ao “polichinelo de Colônia”, Werber Bach, chefe do teatro de bonecos de Höhenhaus, 200 marcos por apresentação (de 200 apresentações por ano), porque Bach se engaja, em escolas e jardins de infância, em supermercados e associações, por um meio ambiente limpo. Por ora Bach, há 30 anos no ramo, está em turnê com uma peça de 60 minutos, O engraçado cesto de lixo. Excerto:

 

“Restos, papel e sujeira

não jogamos em qualquer canto,

não jogamos na rua,

isso não nos diverte.

Ao cesto com o lixo,

então você é bom de ecologia!”

 

A sirene do carro da patrulha apitava.

Ele corria pela Eschenheimer Anlage em direção leste, então à esquerda um bom pedaço da Friedberger Landstrasse para o norte, passando pelo interminável cemitério central, à esquerda na Giessener Strasse e finalmente a paralela a ela, ao longo da Homburger Landstrasse. Já era o bairro Preungesheim, ali já estavam os enormes prédios do presídio, à esquerda a seção de homens; à direita, a das mulheres.

A grande porta de entrada estava aberta. O carro da patrulha entrou no pátio central e parou. A sirene morreu. O procurador Elmar Ritt saltou. Ele agora usava uma jaqueta branca por cima da camisa pólo vermelha.

Cinco outros carros de patrulha estavam no pátio, ao lado deles cerca de duas dúzias de policiais. Alguns tinham metralhadoras. Também um carro funerário e um carro aparelhado do serviço de reconhecimento estacionaram lá. As portas de entrada já haviam se fechado sem ruídos. Um rapaz veio do prédio grande. Ele trazia cuidadosamente dois sacos plásticos, cujo conteúdo Ritt não pôde reconhecer, e foi para o carro do serviço de reconhecimento.

— Bom dia, senhor Ritt.

— Bom dia. Quem é o chefe da polícia criminal?

— O comissário Robert Dornhelm. Seu amigo, não é?

— Sim. Onde o encontro?

— No escritório do diretor. Borboleta.

— O quê?

— Ali dança uma borboleta. — O rapaz sorriu pensativo. Ritt correu pelo portão do presídio.

 

Em 1932 havia seis milhões de desempregados, e por isso Hitler (“Darei a vocês trabalho e pão!”) teve tanto êxito. Ele provavelmen­te não teria chegado ao poder, se social-democratas, comunistas e liberais tivessem lutado juntos contra ele. Mas os partidos de esquerda, tragicamente, estavam muito divididos. Diariamente havia no país lutas de rua. Vitoriosos eram quase sempre os nazistas, e havia muitos mortos e feridos.

Entre os seis milhões sem trabalho estava Paul Dornhelm, mecânico de precisão em Frankfurt. Ele tinha mulher e um filho de dois anos, Robert, e a situação era péssima para a família. Muitas vezes não havia o bastante para comer. Quase sempre a luz elétrica, o gás e a calefação não podiam ser pagos e freqüentemente eram cortados. O pai de Robert estava muito desesperado.

Na noite de 9 de maio de 1932 ele se foi. Não disse aonde ia, e nunca mais voltou. A mãe foi ao posto policial mais próximo e o declarou desaparecido, e o pai foi procurado durante muito tempo — em vão.

Nunca pôde ser esclarecido se Paul Dornhelm havia perdido a vida em meio a uma batalha de rua e se perdera, ou se, o que naquele tempo sempre acontecia, havia abandonado a família, perplexa e desalentada, como um daqueles homens que “iam ali na esquina comprar cigarros”.

O pai do homem que era, a partir de 1980, chefe da polícia criminal em Frankfurt am Main I, havia decidido, em 1929, entrar no Partido Comunista. Naquela noite de 9 de maio de 1932 houve na cidade de Frankfurt nove graves confrontos entre comunistas e nazistas. Paul Dornhelm, então, pode muito bem ter sido uma das muitas vítimas. A mãe, que agora se segurava na vida com seu pequeno filho com trabalho dos mais pesados e mal pagos, nunca teve condições de aceitar que o seu marido não existia mais. Quando ela rezava com Robert durante o jantar, pediam juntos ao bom Deus que protegesse também o pai.

— Onde está papai? — Robert perguntava freqüentemente.

E a mãe sempre respondia: — Você sabe, estive na polícia, a polícia o procura, meu coração.

Aos cinco anos Robert Dornhelm decidiu ser policial para achar seu pai e, se tivesse acontecido alguma coisa com ele, responsabilizar aqueles que tinham culpa.

 

No momento em que o procurador Ritt se encontrava em Preungesheim, Miriam estava novamente no salão de seu apartamento na parte nova do Frankfurter Hof. O procurador lhe havia dito que ele telefonaria.

Miriam quase não se sentava, andava pra lá e pra cá, deitava-se na cama, se levantava e se sentava numa poltrona branca, ao lado da qual havia uma mesinha preta com muitos jornais. Eles já haviam sido entregues de manhã, mas Miriam ainda não os havia folheado. Agora ela tentava ler, mas também não conseguia, estava muito chocada com a morte de Marvin. Assim, ela só passava as páginas dos jornais, e de repente viu um anúncio de página inteira.

Dois terços da parte de cima da folha mostravam bem grande a Terra com a Europa, África, partes da Rússia ocidental, o leste dos Estados Unidos e toda a América do Sul. Em volta da Terra, lembrando um pneu, um anel largo, no qual estava escrito: AGEN­TE PROPULSOR SEM HCFC. No outro terço da página podia ser lido primeiramente em duas linhas da largura da página: SUCESSO DO MINISTRO DO MEIO AMBIENTE TÖPFER: SPRAYS SEM HCFC! Embaixo havia em duas colunas o seguinte texto: Mais rápido do que o previsto no protocolo internacional de ozônio de Montreal reagiram os produtores alemães de sprays. Porque o HCFC está sob a urgente suspeita de prejudicar a camada de ozônio, começou — já em 1987 — a tirar completamente HCFC de laquês e desodorantes. Há um ano as firmas (aqui seguiam os nomes das sete conhecidas empresas que produziam cosméticos) fornecem ao mercado apenas produtos livres de HCFC. Um sinal respectivo fará reconhecer esses produtos. Cidadãos de consciência ecológica, assim esperamos, aceitarão esta possibilidade. Sobretudo porque sprays continuam sendo a melhor forma de utilização: — Entre as colunas havia um pequeno spray e ao lado dele o “sinal respectivo”, novamente a Terra pequena com o slogan agente-propulsor-sem-HCFC sobre o anel largo.

Miriam Goldstein observou durante muito tempo o anúncio gigante. Primeiro, puxa-saquismo com o ministro do meio ambiente. Então: “Mais rápido do que o previsto... no protocolo internacional de ozônio...” E: “Há um ano...” E aí se gabavam as sete firmas. Por que não se gabaram há um ano? Por último queriam conquistar as graças do comprador: “Cidadãos de consciência ecológica, esperamos...” Medo pelo negócio? Muito estranho.

Miriam folheou outros jornais que estavam sobre a mesinha, em todos achou o mesmo anúncio de página inteira. Ela pensou na carta-aberta que Bolling havia escrito para a Stern e na qual ele se dirigia aos caros colegas da Hoechst e da Kali-Química com o pedido urgente de protestarem contra a produção atual e secreta de hidroclorofluorcarbono. Na carta de Bolling, porém, não se falou de laquês e desodorantes em spray. Ele advertira os “caros colegas”, que eles ainda poderiam salvar sua pele, a de seus filhos e netos, porém, não mais. O que eles iriam contar para os seus filhos quando morresse a vegetação, ele perguntava, e quando, por causa dos raios ultravioleta, os mares não produzissem mais oxigênio. “Trata-se da sobrevivência da humanidade”, havia sido o seu apelo.

O que significavam aqueles anúncios, nos quais se informava com grande entusiasmo que sete firmas haviam tirado o hidroclorofluorcarbono de laquês e desodorantes? Por que aquilo era um sucesso do ministro do meio ambiente? A Kali-Química e a Hoechst, por exemplo, não estavam incluídas entre as sete firmas.

Miriam continuou a folhear. Por fim, ela achou no Süddeutschen Zeitung, na página de comentários, uma coluna com o título: TÖPFER ULTRAPASSADO PELOS AMIGOS DA SUJEIRA.

“Muito tarde e muito pouco, esta é a tragédia da política do meio ambiente. A indústria, como foi anunciado orgulhosamente em anúncios gigantes, tirou finalmente quase todo o hidroclorofluorcarbono de seus produtos em spray. Só que ficam as utilizações mais importantes, como o material de refrigeração e gás propulsor para plásticos. E as químicas de substituição esquentam da mesma forma a atmosfera da Terra...”

E quantos sprays dos antigos vão agora para o Terceiro Mundo? pensou Miriam.

“O ministro do meio ambiente, Töpfer, tem como meta utilizar, até 1995, um total entre 90 e 95% menos hidroclorofluorcarbono...”

Quer dizer, novamente um prazo de muitos anos ao invés da proibição imediata, pensou Miriam.

“Para avisos, este governo federal é sempre bom. Mas, ao contrário de seus prognósticos repetidos há anos, a poluição do ar com azoto na Alemanha, por exemplo, não somente não baixou, mas ficou muito pior. Causa principal: a velocidade de sempre, mais caminhões e carros sem o catalisador segundo a norma... O espe­rado mercado europeu do livre trânsito para os caminhões de todos os países através da Alemanha Federal será uma catástrofe não mais calculável para o meio ambiente, se isto não for imediatamente revisto politicamente...”5

Miriam Goldstein estava quieta na poltrona branca perto da janela e observava as muitas torres iluminadas dos bancos na cidade. Ela pensava em quem tinha motivo para tirar a vida de Markus Marvin, e ela pensou numa porção de gente, ah sim, uma porção...

 

 

O comissário Robert Dornhelm, a quem o diretor do presídio Frankfurt-Preungesheim havia posto, em nome da velha amizade, o seu escritório à disposição, era um homem grande e pesado com lábios constantemente violeta. Ao contrário de todas as suspeitas, o homem de 58 anos tinha um coração completamente saudável. A sala, na qual estava, era decorada como sala de trabalho de um advogado bem-sucedido, mas grades pesadas na janela impediam a vista. Na escrivaninha havia um fino vaso de cristal com uma rosa vermelha.

Apesar do calor na sala — aqui não havia condicionador de ar — o maciço comissário vestia um paletó cinza-escuro com colete e, sobre a camisa listrada de verde e branco, uma gravata verde-escura, na qual estava enfiado um brasão de fantasia pequeno e dourado. Ele estava limpando suas unhas, quando a porta se abriu e Elmar Ritt irrompeu.

— Que safadeza é essa aqui, Robert? — gritou o jovial procurador, sem fôlego. A máfia já assumiu este negócio?

O homem de lábios violeta apenas mexeu impassível os ombros, enquanto Ritt continuava furioso: — Esse Marvin, ele esta­va junto com o Engelbrecht numa cela, não é, com esse contra­bandista de armas. O contrabandista de armas recebe, natural­mente, seu fino rango de um hotel. Seu procurador permitiu. Por­que ele é um filantropo, esse contrabandista de armas, ele não podia ver como o pobre Marvin engolia a porcaria do presídio, não é verdade? Por isso o convidou. Marvin aceitou, alegre. Eu também teria aceito, concordaria da mesma forma. Então, os dois receberam facilidades extras. E o diretor disse no telefone que o veneno estava na comida.

— Sim, mas... — começou Dornhelm, calmamente.

— Então! — Ritt falava com cada vez mais raiva, cada vez mais rápido. Estava quente. O suor corria pelo seu rosto. — Por que o filantropo Engelbrecht também não está morto e envenenado?

— Mas está. Mortinho.

— Justiça de Deus... Mas, preste atenção: vinha sempre num carro, do hotel, o fino rango, não é isto? Embalagens térmicas, não é isto?

— Rapazinho... — Dornhelm novamente mexeu os ombros impassível e se calou. O fato de ter podido se dominar muito tempo e não ter perdido a paciência é, segundo muitos, a explicação de seu grande êxito na profissão.

— O homem que as traz entrega as embalagens na entrada e as leva de volta no dia seguinte, quando fornece as próximas, não é isso?

— Elmar! — Dornhelm gritou de repente. Também a sua capacidade de súbita mudança de ânimo era admirada por muitos.

— Não grite! — Ritt gritou. — Negócio safado este, miserável! O homem nunca chega no prédio! As embalagens são recebidas por um funcionário, então um zelador as leva com um colega ou um preso até a cela de Engelbrecht e Marvin. Todos devem comer na cela. As refeições são controladas muito levianamente. Você pode procurar no prédio o assassino de Marvin até o ano 3000! Eu lhe digo: ele nunca estará aqui.

Dornhelm começou a gritar: — Cale a boca finalmente, cara! O seu Marvin não foi envenenado de jeito nenhum! Está vivíssimo!

— O quê?

— Ele vive, o seu Marvin. Nada aconteceu a ele.

 

 

O telefone tocou no salão de hotel de Miriam Goldstein. Ela tirou do gancho e falou.

— Oh, Maître Goldstein — disse uma voz de mulher — isso é maravilhoso! — A pessoa falava francês.

— O que é maravilhoso? — Miriam perguntou, também em francês.

Um avião passou sobre o prédio. Ela olhou pela janela e viu um jumbo da Air France sobre as duas torres gigantes do Deutsche Bank. O piloto inclinou o avião para o azul brilhante do céu. Por pouco tempo o gemido das turbinas foi muito alto.

— Hein? — gritou a jovem voz feminina. — Maître Goldstein!

— Sim. Um avião. O que é maravilhoso?

— Que eu a ache tão rapidamente. O Monsieur Vitran disse que a senhora estaria em Frankfurt hoje. O Frankfurter Hof foi o primeiro hotel a que telefonei. E tive sorte. Posso passar para o Monsieur Vitran?

— Sim, Isabelle.

— Ne quittez pas! — Isabelle disse.

Isto todos dizem, sempre, pensou Miriam.

Uma voz de homem falou: — Aqui quem fala é Gerard Vitran. Boa tarde, Miriam!

— Boa tarde, Gerard!

— Você já foi ao tribunal?

— Sim.

— E pôde fazer algo por Markus?

— Gerard, nosso amigo Markus está morto.

Ele gritou, chocado: — Não!

— Sim — disse Miriam.

— Mais, pour la grâce de Dieu, por quê? Como aconteceu isso?

— Foi envenenado.

— Mas ele está na prisão!

— Ele foi envenenado no presídio.

Ela ouviu quando ele pronunciou suas últimas palavras e, depois, duas vozes de mulheres começaram a falar nervosas.

Então ele voltou: — Escute, Miriam, isto... isto... é chocante. Por quê? Por que o mataram?

— Não tenho idéia — disse ela. — Estava justamente agora com o procurador, ele se chama Ritt, quando telefonaram. Ritt ficou muito chocado, disse apenas que Marvin estava morto, envenenado, e foi imediatamente para a prisão. Fica na periferia de Frankfurt. Ritt disse que eu deveria esperar por outras notícias suas.

— Terrível. Absolutamente inacreditável. Chegamos a esse ponto?

— Como você vê...

— Iremos com o próximo avião, Miriam! Por favor, fique no hotel ou deixe um recado se for sair! Não sei quando parte o próximo avião. Em todo caso, estaremos em Frankfurt em algumas horas.

 

 

— O que significa isso, Marvin está vivo? — perguntou Elmar Ritt. Na sua perplexidade, falava normalmente de novo. — No telefone...

— Sim! — O maciço comissário com os lábios violeta balançou a cabeça. — O idiota de um segurança, em pânico, só disse o bloco, o andar e o número da cela, quando avisou do caso. E nessa cela estavam Marvin e Engelbrecht, pôde constatar o diretor no seu escritório, ao dar uma olhada no plano das celas. Então ele telefonou ao procurador de Engelbrecht e a você, a fim de avisar a vocês a alegre notícia de que seus clientes estavam mortos. Desculpa, se eles lhe informaram errado, rapazinho. — A voz de Dornhelm estava novamente doce e baixa.

— Sinto muito ter gritado aqui. Uma grande merda hoje. Hansen retira a denúncia. Declara que não se sente prejudicado. Duas testemunhas mentem. Tudo isto fede muito. Então se telefona de Munique. Por causa de uma safadeza de nazistas.

— Horrível, como você transpira. Olhe-me. Eu suo? A me­nor sombra de suor. Você não pode ficar nervoso com tudo, rapazinho!

— Pare, cara! Por que é que você está sentado aí? Não tem nada pra fazer?

— Não.

— Como, não?

— Tenho meu pessoal. Pessoal de primeira classe. Faz tudo certo. Só precisa saber que o velho idiota está por perto.

— Que velho idiota?

— Eu. — Dornhelm arreganhou os dentes. — Você não tem nem idéia do que aconteceu aqui! Um caos, disse o diretor. Até que achassem um médico! Precisaram chamar com o bip. Seu bip quebrado, claro. Durou quase 15 minutos até que chegasse à cela. Os dois homens mortos há muito tempo.

A sala cheirava a poeira, suor e velhos documentos. O rosto de Ritt estava vermelho de novo. Ele engoliu seco.

— Os dois homens? Que dois homens?

— Engelbrecht e Mohnhaupt.

— Vou pirar — afirmava Ritt, gritando. — Engelbrecht e quem?

— Mohnhaupt. Traugott Mohnhaupt.

— Quem é Traugott Mohnhaupt?

— O servente que levou as embalagens térmicas.

— Por que ele está morto? — Ritt gritou.

— Por que ele tinha na barriga o envenenado e fino rango do hotel, rapazinho.

— Como ele... essa coisa... como ele... — balbuciou Ritt.

— Engelbrecht o convidou.

— O convidou para o rango?

— Estou dizendo, rapazinho. Incrível como você transpira.

— Como é que Engelbrecht convidou Mohnhaupt para o rango?

— Calma! Calma! Você precisa se controlar! Ataque do cora­ção. As pessoas que têm são cada vez mais jovens, eu li. Veja bem, o Engelbrecht recebe seu rango. Sente-se sozinho. Está só. Não quer rangar só. Então convida Mohnhaupt. Ele adora. Minutos depois está mortinho.

— Por que Engelbrecht está sozinho na cela? — Ritt sussurrou, rouco.

— Porque eles tinham ido buscar o seu Marvin duas horas antes. Ele será solto hoje, você esqueceu? Precisa resolver um monte de coisas na administração. Ainda está lá. Rangou lá. O rango no prato de lata.

Ritt disse devagar: — Marvin só está vivo porque não comeu na cela com Engelbrecht.

Dornhelm se encostou na escrivaninha e gritou: — Você de fato já entendeu? — O abalo causou a queda do vaso de cristal com a rosa vermelha. Caiu água no tapete.

— Não grite! — Ritt disse.

— O quê?

— Você não deve gritar! Eu não gosto disso.

— Sem-vergonhice. Logo você! — Dornhelm se levantou, foi para uma pia e encheu de novo o vaso de cristal. Depois ele pôs a rosa no seu lugar, cautelosamente. — Madelon — disse ele. — Sempre Madelon.

— O quê?

— O tipo de rosa. Ela se chama assim. Madelon. De dois em dois dias, uma nova Madelon. O diretor me disse. Ele gosta de todos os tipos de rosa vermelha. Porém, mais de Madelon. — Agora Dornhelm ria muito. — Sim, Mohnhaupt recebeu o rango de Marvin! Pois ele havia saído da cela. Os seguranças ainda não haviam comunicado isto. Lara. Solaria. Baccara. Todos os ti­pos de rosas vermelhas. Todas bonitas. Não tão bonitas quanto Madelon — diz o diretor. — Também há Dallas. E Sônia. Mas esta tem cor de salmão. A morte chega ao homem rapidamente, rapazinho. Uma bela morte. Sabe do que eles morreram, Engelbrecht e Mohnhaupt? — Dornhelm mascava sorrindo. — Coquetel de camarão. Cordon bleu com risoto. De sobremesa uma variedade de finos sorbets. Mas não chegaram a isso.

— A quê eles não chegaram? — Ritt enxugava com um lenço o suor na testa.

— Aos finos sorbets. — O riso de Dornhelm aumentou ainda mais. “O veneno estava no risoto”, disse o doutor Grünberg, nosso médico. Encontrou bolinhas. Rangaram quase todo o riso­to, os dois, antes de o veneno fazer efeito. Cianeto de potássio. A cela fede a amêndoas amargas. Mau cheiro mesmo. Cheirei. Nenhuma dúvida, cianeto de potássio. Bolinhas bem pequenas, diz o doutor Grünberg. Misturadas no risoto. Ninguém podia re­conhecer. As bolinhas recheadas vêm de uma substância — Grünberg sabe exatamente qual —, que é diluída por ácidos estomacais em dois ou três minutos. Engelbrecht e Mohnhaupt puderam devorar a comida normalmente, antes de notar qualquer coisa. — Dornhelm gostava do tema. — Quando o cianeto de potássio é liberado, ele se transforma em ácido prússico. O ácido prússico no estômago bloqueia imediatamente todas as enzimas ferruginosas. O ácido prússico faz sempre assim. Você sabe o que são enzimas, rapazinho?

— Não.

— Matérias formadas em células vivas que catalisam o processo de inúmeras reações no organismo.

— Ah.

— O ácido prússico bloqueia naturalmente também as enzi­mas respiratórias. Com isso, é o fim da respiração. E também do abastecimento de oxigênio para o cérebro. Um cérebro assim reage muito sensivelmente à falta de oxigênio, sabe, rapazinho. Quando se dispõe de cianeto de potássio numa cápsula e se precisa rasgá-la com o dente, a coisa corrói o esôfago, mas quando, como com Engelbrecht e Mohnhaupt, o veneno é liberado no estômago, quando se recebe diretamente como gás, esta é, propriamente, uma maneira extraordinariamente humana de matar. Também acho Madelon a mais bonita.

 

 

— Preciso de mais um conhaque — disse o Dr. Markus Marvin. — Sinto-me muito fraco.

Passava um pouco das 17 horas naquele 19 de agosto, e Marvin estava no salão do apartamento de Miriam Goldstein no Frankfurter Hof. Na tentativa, com sucesso, de espancar — a ponto de hospital — o produtor de desodorantes sanitários Hilmar Hansen, ele também recebeu sua parte. Sua mão direita estava enfaixada, o olho direito estava inchado, ele tinha um hematoma no rosto e um curativo na têmpora esquerda.

O homem com os cabelos pretos que sempre pareciam despenteados estava mais elegantemente vestido que a seu tempo em Sylt. Ele vestia um terno azul de verão, pantufas e até mesmo uma gravata. O atlético físico nuclear estava consciente de que só vivia graças a uma troca. Miriam Goldstein pegou uma outra garrafinha de Remy Martin do bar do quarto.

Todos estavam então no apartamento da meiga advogada de cabelos brancos, e lá fora estava um calor de matar, enquanto aqui soava o chiado baixo do condicionador de ar.

O procurador Ritt havia telefonado e contado a Miriam o que acontecera no presídio Preungesheim. Agora ele não agüentava mais a mulher e os advogados do contrabandista de armas enve­nenado, Herbert Engelbrecht, como também os parentes do tam­bém envenenado, por conta da gentileza anfitriã de Engelbrecht, Traugott Mohnhaupt, e ainda a administração do presídio e o ministério da justiça, e ele e seu amigo Dornhelm, da polícia criminal, precisavam tentar descobrir quem havia envenenado a comida, onde e por quê. E finalmente o procurador queria saber urgentemente por que o fabricante sanitário Hansen, a quem Marvin havia espancado, de repente estava decidido a retirar sua acusação.

Tantas perguntas. Tanto trabalho.

Miriam, por sua vez, contou aos reunidos que havia telefonado a Gerard Vitran, de Paris, no momento em que ela pensava que Marvin estava morto, e que Vitran estava agora a caminho de Frankfurt.

— Ele vem sozinho? — Marvin perguntou.

— Ele disse: “nós”. Não sei quem vem.

— Provavelmente ele e sua mulher. Será um belo choque para os dois, quando me virem aqui sentado. — Marvin balançou a cabeça. — É incrível a minha sorte — disse ele com uma admiração francamente infantil. — Imaginem se eu tivesse comido com Engelbrecht!

— Babacas têm sorte — disse Peter Bolling. — Velha sabedoria popular. Aí você vê de novo, como é inteligente.

— Eu não quero de jeito nenhum lhe excitar mais — disse Miriam Goldstein — mas o senhor não chegou a pensar que alguém não queria envenenar Herbert Engelbrecht, mas o senhor?

— Com mil raios — disse Marvin —, que bela idéia! É mesmo, isso também é possível.

— O senhor Ritt pensa igualmente nessa possibilidade — disse Miriam.

— Por que alguém poderia querer eliminar Markus? — perguntou Bolling.

— Ora, por quê — disse Valerie Roth. Ela se dirigiu a Gilles. — Quando o senhor foi ao túmulo de Gerhard em Sylt e então nós nos conhecemos, eu lhe disse que o terceiro enfarte de meu tio livrou o esforço de certas pessoas de assassiná-lo, o senhor se lembra?

— Sim — disse Gilles.

— Agora é a vez de Markus — disse ela. — Miriam tem razão.

— Talvez — Miriam disse. — Talvez só Herbert Engelbrecht devesse realmente morrer. Mas tenho a péssima impressão de que era a sua vez, Markus.

— Na verdade, já deve ser a minha vez há muito tempo — disse, imediatamente alerta quanto à possibilidade. — O mais tardar quando voltei do depósito nuclear Hanford e fui embora da inspeção.

— O procurador Ritt acha que o senhor deve exigir proteção da polícia — disse a Dra. Goldstein.

— Não quero — disse Marvin. — Tudo isso não tem sentido! Se eles realmente querem me matar, vão conseguir — mesmo com tanta proteção da polícia. — Ele riu ao dizer: — Nenhuma proteção da polícia, não! Tenho sorte, vocês vêem. Sou um cara sortudo.

Miriam Goldstein bateu na madeira. — Uma coisa assim não se pode dizer nunca! Estou muito preocupada, Markus. Gerhard ficará pelo menos tão preocupado quanto eu.

Valerie Roth se dirigiu a Gilles. — O senhor não sabe quem são os Vitrans. Bons amigos nossos. Trabalhamos juntos.

Marvin ficou radiante. — E que amigos! Gerard e Monique. O senhor ficará encantado, Gilles. Gerard já passou por cada uma — meu Deus! Veja, ele estudou numa dessas “Grandes Escolas” da França, de onde vêm todos os bons especialistas em política e economia: na École Polytechnique, em Paris. Ele é doutor em ciências naturais. Sua especialização: física nuclear. Mas não fez carreira na política ou na indústria, e sim se tornou secretário da Seção de Trabalhadores Nucleares, da C.D.T., aquele sindicato. E lá ele se aproveitou do posto e das possibilidades para criticar as usinas de energia nuclear e a energia nuclear. Como especialista! Ele sempre fez ver todos os perigos. Quais são os perigos das UENs francesas. Sempre só representou os interesses dos trabalhadores. Eles o amavam.

— Um camarada! — disse o químico Bolling, vivaz. — É típico dele, por exemplo: como chefão da C.D.T. ele sempre poderia comer no restaurante dos grandões. Nunca. Sempre na cantina com os trabalhadores.

— Escreveu um livro sobre os perigos da técnica nuclear. A propósito, junto com Monique. Ele a conheceu no sindicato. Ela também é física nuclear. Ela tem 35 anos, ele vai fazer 41. — Marvin de repente riu ligeiramente e torceu o rosto. Rir doía. — Quando o livro foi publicado — disse ele — o pessoal da instala­ção de reprocessamento no canal da Mancha declarou greve por três meses. E é claro que Gerard teve de sair da chefia do sindicato. As firmas fizeram questão.

— Depois ele foi chamado pelo governo — disse Bolling.

— Desde o começo Gerard dizia — interrompeu-o Marvin — que se continuarmos a gastar tanta energia, será o fim da Terra, antes de sairmos da energia nuclear e de usinas de energia carbônica e entrarmos na energia solar. Primeiro, então, baixar o con­sumo de energia, mas drasticamente, então energia solar! Isto iluminou o governo, e ele pediu a Gerard um grande estudo sobre o assunto, de como, onde e com que meios se pode economi­zar energia. Pode-se economizar muito — Gerard contará ao senhor. — Marvin riu mais uma vez, disse “ai!”, parou de rir e continuou: — Mas simplesmente foi capaz até demais. Culpou toda a indús­tria de desperdiçar energia e propôs medidas de economia tão radicais — e realizáveis —, que o governo não pôde segurá-lo contra a pressão da indústria. Gerard foi mandado embora pela segunda vez. Incomodou-se com isso? De jeito nenhum. Junto com sua mulher e outros ele fundou a ESI — Energy Systems International. O que devo dizer ao senhor? Agora essa firma aconselha sociedades e ministérios, sim, governos de todo o mundo.

O telefone tocou.

— Será que já são eles? — Miriam perguntou, nervosa.

Miriam tirou o fone do gancho.

Uma voz feminina disse: — Doutora Miriam Goldstein?

— Sim.

— O senhor Joschka Zinner chegou. Disse que marcou com a senhora às cinco e meia.

— Meu Deus! — Miriam levou a mão à testa. — Peça ao senhor Zinner por um momento de paciência! — Ela tapou o fone com a mão e se dirigiu aos outros. — Agora começo a esquecer encontros. Completamente! Na verdade ainda sou nova para ser gagá.

— Joschka Zinner? — Gilles disse.

— Sim. O produtor de cinema. O senhor o conhece?

— E como — disse Gilles, furioso. Mas o que ele quer com a senhora?

— Não sei. — Miriam levantou os ombros, desamparada. — Telefonou há dois dias. Disse que precisava falar comigo sem falta. Era muito importante. Que se tratava de uma coisa bem grande, da qual também a televisão de Frankfurt participava. Disse que eu poderia perguntar lá a um homem da produção. Foi o que fiz. O homem confirmou o que disse Zinner. Eles preparam um projeto que seria de grande interesse para nós. — Miriam olhou para todos. — Eu queria lhes contar. Na aflição por causa de Marvin esqueci completamente. — Ela perguntou a Gilles: — Que tipo de gente ele é, esse Zinner?

— Um louco — disse. — E que louco! A senhora mesma vai ver logo.

— Se ficar muito grave, ponho-o pra fora — disse a Dra. Miriam Goldstein.

Ela tirou a mão do fone. — Senhorita, peça que o senhor Zinner suba.

— Sinto muito, doutora. Ele disse que estava demorando muito.

— O quê?

— Desculpe-me, por favor! — A moça na central parecia aflita — Ele perguntou pelo número de seu apartamento. Minha colega disse, infelizmente. Isso me é extremamente desagradável. O se­nhor Zinner estava muito nervoso e falava muito rápido. Ele correu para o elevador. Estará aí a qualquer momento. Nós simplesmente não estávamos preparados para ele. Desculpe-me, por favor!

— Tudo bem — disse Miriam Goldstein, e pôs o fone no gancho.

— Ele simplesmente se mandou pra cá — disse ela, balançando a cabeça, aos outros. — O senhor disse um louco, senhor Gilles?

— Sim — disse ele, devagar. — Mas mesmo que se leve isso em conta...

— O que o senhor quer dizer? — perguntou Valerie Roth.

— ...é estranho que ele apareça para a senhora justamente agora.

— O senhor pensa — disse Miriam Goldstein — que alguma coisa está errada?

— Talvez esteja tudo em ordem — disse Gilles, de repente estranhamente inquieto. — Mesmo assim... Joschka Zinner. Prepare-se!

A campainha do apartamento tocou.

 

 

— Philip! — Miriam Goldstein se levantara e abrira a porta. O pequeno homem que estava do lado de fora passou pela advogada e pelos outros através do salão e passou os braços em Gilles. Porque o homem era pequeno e gordo, ele pegou Gilles pelos quadris.

— Pra baixo! — ele disse. — Abaixe-se bem! — Gilles se abaixou, e o homenzinho beijou sua bochecha. — Vamos! — disse ele depois. Tudo foi muito rápido.

— Vamos o quê?

— Joschka não vai ganhar um beijinho?

Ele recebeu um e olhou em volta, radiante.

— Meu melhor e mais antigo amigo, senhoras e senhores! — anunciou ele. — Escreveu sete ou oito filmes para mim, faz tempo! A única pessoa decente na porcaria do ramo. A única que sabe alguma coisa. Quer dizer, exagero. Quer dizer, só nos irritamos um com o outro. Constantemente no tribunal porque eu nunca paguei a terceira prestação pelo roteiro. Não o escutem, senhoras e senhores, não o escutem! Ele só o faz por modéstia. Ele nunca vai se gabar, nunca vai se dar importância. Que eu não paguei a terceira prestação qualquer autor lhes diz. E está certo. Deixo-me sempre ser acusado. O único divertimento. Senão não se inveja nada. É como na roleta. Às vezes ganha o autor, às vezes ganho eu. Ora, sempre admirei esses advogadozinhos. Eu próprio não sei o que eles imaginam.

Todos o fitavam.

Ele vestia um terno de seda branco na medida; sua camisa branca tinha uma gola loucamente alta. Através do nó da gravata e da gola da camisa estava enfiada uma preciosa agulha de brilhante. Botões de brilhante nos punhos. Estes se penduravam das mangas. Ele deve ter cruzado com o escritor americano Tom Wolfe, pensou Gilles. Antigamente Joschka só usava os produtos mais baratos. “O que faz alguém mais bonito que um macaco é luxo.” Ele sempre citava esta frase do livro de Friedrich Torberg, A tia Joseleh. E ele tentou passar a perna em Torberg como em mim.

— Este é o senhor Joschka Zinner, produtor de cinema — disse Gilles. — Joschka, posso lhe apresentar a...

— Faço eu mesmo. Você precisa de muito tempo para isso. Seu único erro. Essas finuras de merda. Também sou fino. Porém mais rápido. Doutora Goldstein.

— Sim... — E já havia sido beijada na mão — De onde...

— Ah, eu sei. Mulher conhecida. E a senhora é a doutora Roth. É uma grande honra. — Segundo beijo na mão. — Naturalmente doutor Markus Marvin! — Apertos de mão. — E o senhor Bolling. E a asma, senhor Bolling? Isto é terrível. Mas é por isso que estou aqui. — Ele caiu num sofá de couro branco. As perninhas pendu­radas no ar. Joschka riu, mostrou seus dentinhos de rato e esfregou as mãozinhas rosadas. — A senhora pode me dar um copo de água gasosa, doutora? Não toco em álcool. Absolutamente pernicioso. Beijo-lhe a mão, doutora, obrigado! — ele disse, pegando um copo cheio de água gasosa de Miriam. — Ao assunto! Tempo é dinheiro. Preciso ir amanhã para Hollywood. Quero acertar tudo com os senhores ainda hoje. Prestem atenção na idéia-relâmpago!

— Que idéia? — Miriam perguntou, muito irritada.

— Uma idéia-relâmpago. Minha especialidade. Cresci com ela. As minhas melhores idéias são sempre como relâmpagos. Um produtor de cinema, diz ele. Tck, tck, tck! O maior produtor da Europa! Cinema e televisão! Nos últimos tempos, mais televisão. Co-produções internacionais. Muitos prêmios. Qualidade de primeira em todos os canais. Verdade ou não, Philip?

— Verdade — disse. — Não se deixem enganar pela conversa e aparência deste senhor. Ele é de fato um grande produtor. Engana como pode, mas fez filmes excelentes.

— Basta, Philip! Os senhores já têm uma idéia. Adorarão. A melhor idéia-relâmpago que Joschka Zinner já teve.

Markus Marvin riu. Doeu, e ele parou imediatamente.

— O senhor ri, doutor Marvin. Pode rir. A chance de sua vida. — Joschka aumentou ainda mais a velocidade com que falava. — Acompanhei tudo desde que parou de filmar: sua demissão na inspeção. Seu trabalho em Lübeck. Também seu trabalho, Bolling, e o seu, doutora Roth. Exatamente aquilo que se deve mostrar agora. Não há nada mais importante. Mas com feelling. Muito bem organizado. Internacional. Precisa causar tumulto. As pessoas precisam gritar! As pessoas precisam vociferar! Farão! Farão! Joschka Zinner já preparou tudo. Podemos começar imediatamente. Joschka tem consigo todos os contratos. — Ele levantou uma pasta de executivo. — Aqui! Tudo dentro. Apenas assinar.

— Senhor Zinner... — começou Miriam Goldstein.

— Não interrompa, por favor, digníssima senhora, perdão! Eu lhes explico. Tudo combinado com a televisão de Frankfurt. Sinal verde dos mais altos chefes. Estão entusiasmados. — Ainda mais rápido. — Claro que somente porque eu sou o produtor. Dei-lhes um lucro gigante com os últimos filmes. Bom, e agora primeiro! Então, rapidamente, time is money, preciso ir para Hollywood: vocês terão uma equipe de primeira. Minha gente! Cameraman e técnicos especializados. Vocês dizem aonde querem ir. De avião. Nenhuma censura. O que rodarem será mostrado. A televisão de Frankfurt quer sensação. Vocês podem mostrar tudo. Qualquer escândalo. O maior! Podem atacar qualquer um. Kohl. O governo. Todos os governos! Absolutamente livres. Assegurado no contrato. Vocês controlam a montagem. Ninguém os influenciará. E há dinheiro suficiente, acreditem em Joschka Zinner! — Ele olhou para todos, radiante. — Então?

— Não tenho a menor idéia do que o senhor fala — disse Valerie Roth.

— Me expressei claramente! Admiro o que vocês fazem. Vene­ro-os por isso. Os últimos que podem salvar este mundo. Mas com a televisão! Desmascaram qualquer safadeza. Sem consideração. Bem duro. Bem extremo. Numa série própria na televisão de Frankfurt. Tudo já programado. Sucesso absoluto. Eu só digo: revolução!

A doutora Goldstein disse lentamente: — O senhor propõe que uma equipe de filmagens viaje com Marvin e rode filmes-documentários?

— Beijo-lhe a mão, digníssima senhora.

— Por exemplo, sobre a devastação das florestas tropicais?

— Por exemplo.

— O desperdício desmedido de energia?

— Claro.

— Os negócios com o lixo atômico? — disse Roth.

— Coisas assim.

— Despejo de ácido de enxofre? Assassinato dos mares? — disse Marvin.

— Em todo caso!

— O lobby nuclear?

— Há de tudo! — Joschka afirmou com a cabeça, tomado pela própria grandeza. — Então, por favor: isto não é uma idéia-relâmpago?

— O que eu vi nos Estados Unidos — disse Marvin, nervoso. — Em Mesa? Na reserva nuclear?

— O senhor vê. Tem ressonância. Claro! Precisa ir até lá novamente.

— Os negócios sujos de plutônio? — Bolling disse, segurando os óculos.

— Sim! — Joschka jogou as mãos para o alto. Punhos voaram. — Mas também o positivo. Não esquecer jamais o positivo! Sempre faço. Há idiotas que só fazem o negativo. Grande moda agora. No future. E brutalidade. Pisa no traseiro da mãe! Joga-a escada abaixo, a velha senhora! Claro que vão à falência, tais idiotas. Positivo, sempre positivo! O que é a salvação para o nosso mundo? — Agora ele mal podia respirar. — Energia solar! Isto precisa entrar na série bem detalhadamente. O maior projeto que já tive. Mas também o maior tema. Li bastante. Conheço o assunto. Joschka Zinner sempre está a par de tudo. Tem faro. E o faro lhe diz: isto e nada de diferente agora!

— Acho isso maravilhoso — disse Valerie Roth.

— Eu também — disse Marvin. Susanne, pensou ele, se você agora ouvisse sobre tudo isto ou lesse e por último visse, talvez você voltasse para mim. Ah, Susanne!

— Ainda não sei se transmitiremos os filmes espaçadamente ou um atrás do outro, em bloco. Para que realmente impressione as pessoas. A televisão de Frankfurt quer um por semana. O maior suspense. O que vocês pensam, o quanto o exterior compraria? O tema! Já tenho interessados em 14 países. O financiamento não é de jeito nenhum o problema. Posso lhes pagar cachês decentes. Eventualmente, uma participação. Você também, Philip! Escrever comentários de cada parte! Não me olhe assim! Ele sempre precisa se fazer de rogado, um artista! Cara, Philip, eu já lhe vendi para a televisão de Frankfurt! O todo é um pacote. Já é tempo de ouvir falar de você. Dez anos sem escrever. Pode se responsabilizar por isso diante de Deus? Para que Ele lhe presenteou a vida? Para que você se esconda nesse fim de mundo na Suíça? Ele vai lhe contar algo bonito, quando você estiver diante de Seu trono. “Não foi para isso que lhe dei vida, Philip Gilles”, Ele dirá, “não para isso!”. Você ofende, Philip. Como ele me olha! Ele não é um doce? Ah, eu amo o homem! Um desses só existe uma vez. Não se repete. Então, assinemos contratos!

— Senhor Zinner — disse Miriam Goldstein, docemente.

— Caríssima senhora?

— O senhor sempre trabalha assim?

— Sempre. Por quê?

— Porque comigo não dá.

— O que significa, com a senhora não dá? O que a senhora tem a ver com isso?

— Sou a advogada.

— E qual é a dificuldade?

— Quero ler os contratos. E ter tempo para isso.

Ele não hesitou nem um momento. — Obviamente, doutora, como queira. Admiro-a. Parabéns! Sério. Quer examinar tudo. Por favor! Não vou amanhã para Hollywood. Hollywood pode esperar. Isto aqui é mais importante. A senhora e eu, nós nos sentamos. Leremos os contratos. Linha por linha. O que não lhe convier, será mudado. Sei muito bem que tipo de projeto temos. O que depende disso. Nunca existiu projeto mais importante. Sei muito bem de tudo, cara doutora. Olhe para o senhor Marvin, senhor Bolling, senhora Roth. Todos estão entusiasmados.

O telefone tocou e Miriam tirou do gancho.

— Doutora Goldstein — disse a voz feminina de antes. — Agora chegaram três pessoas. Monsieur e Madame Vitran e Mademoiselle Delamare. Não quero cometer um segundo erro. Eu...

— Eles podem subir — disse Miriam. — Eu os espero no elevador.

 

 

Então ela foi pelo longo corredor através do prédio novo e aí um pedaço através do antigo até os gobelinos nos elevadores. Um chegou naquele momento. Duas mulheres e um homem saíram. O homem a viu e gritou: — Miriam!

— Gerard!

Ele a abraçou. — Meu Deus, quem matou Markus? Que maldito...

— Gerard...

— Sim?

— Um outro foi morto. Markus está vivo.

Vitran a olhou perplexo. — Está vivo?

— Sim! Ele está em meu apartamento.

— Venham! — Vitran pegou sua mulher pela mão e andou rápido. Miriam acompanhou.

A segunda mulher ficou um momento no elevador, então seguiu-os lentamente. Tinha olhos azuis, cabelos curtos e louros colados na cabeça, um doce rosto com uma bonita pele. Era esbelta, dava uma impressão de frágil. As pernas eram longas e bem moldadas. Vestia um conjunto. A saia era cinza-escura, presa nos quadris e depois solta. A jaqueta era quadriculada e fechada. Galões pretos e finos na gola, no fim das mangas e nas bordas dos pequenos bolsos. Esta jovem mulher calçava sapatos pretos e meias cinza-escuras. Quan­do ela entrou no apartamento de Miriam Goldstein, cuja porta estava aberta, Gerard Vitran e sua mulher Monique ainda abraça­vam Markus Marvin. Monique havia cortado os cabelos à la garçonne. Era tão grande quanto o seu marido, que tinha o fino rosto de um erudito e olhos muito claros. Seus densos cabelos estavam acinzentados. Ele bateu nas costas de Markus, repetindo sempre esse gesto. Monique alisava a mão de Marvin.

A jovem mulher fechou silenciosamente a porta do apartamento e ficou ao lado dela. Dava uma impressão reservada, discreta. Durou um tempo até que Vitran largasse Marvin. Ele olhou a jovem mulher.

— Isabelle! Excuse-moi! — Foi rápido até ela, pôs o braço sobre seus ombros e a levou até o salão. Ele falou francês com ela, terminando: — ...alors, ma chère, s’il te plaît!

A mulher que irradiava tanto charme, tanta juventude, olhou sorrindo para todos e depois disse em alemão fluente, com um leve sotaque: — Meu nome é Isabelle Delamare e sou a secretária do senhor e da senhora Vitran. E sua intérprete. Eles só falam inglês e muito pouco alemão. Como trabalham em muitos países, quase sempre os acompanho, para traduzir.

— Como fala tão bem alemão? — Bolling perguntou. Ele olhava para Isabelle encantado.

— Estudei línguas.

— Quais?

— Além de alemão — disse Isabelle —, ainda inglês, espanhol, português e italiano.

— Com mil raios! — Bolling estava lá, com a boca levemente aberta.

Monique Vitran falou em francês. Isabelle riu e balançou a cabeça. — Mais oui, mais oui! — Monique disse.

Isabelle disse envergonhada: — Madame Vitran... ela é muito gentil mas exagera muito, é claro... Ela pede... não, ela faz questão que eu diga que ela e seu marido não poderiam trabalhar sequer um dia sem mim. Isto é grotesco e não é verdade.

— É verdade! — Monique disse. — É verdade!

Todos riram, e os Vitrans se dirigiram a Joschka Zinner e a Bolling e falaram inglês. Por último, os três franceses estavam diante de Gilles, com quem eles podiam falar na sua língua. Durante a curta conversa, Gilles olhou para Isabelle ininterruptamente e dava a impressão de um homem para quem tudo ficou de repente irreal, completamente irreal.

 

 

Tudo se estendeu até muito tarde naquele noite. Joschka Zinner relatou seu projeto aos Vitrans, e estes ficaram muito impressionados. Monique disse que Markus precisava de qualquer forma rodar um capítulo sobre todas as possibilidades de economia de energia, e Gerard ofereceu suas ligações e trabalhos. Eles tinham novas idéias, mas também dúvidas e preocupações, e Isabelle Delamare sempre voltava à conversa como intérprete.

A conversa ficava cada vez mais amigável, e de repente foi para Gilles como se fosse há muito, muito tempo na Berlim do pós-guerra na sua casa em Grunewald, quando atores e autores, políticos, cantores e pintores transitavam na casa dele e de Linda. Aquela atmosfera de amizade e de alegria sobre tudo o que se iria fazer agora — porque agora se poderia fazer — também houve naquela noite em Frankfurt, e lembranças inundaram Gilles. Mas, pensou ele inquieto, mas algo aqui é diferente, muito diferente. O que ele via, o que ele ouvia não era a verdade, não, não a verdade...

Ele estava sentado perto da janela, fumava cachimbo e só escutava. Enquanto isso, sempre voltava a olhar para Isabelle, como traduzia calma, segura e incansável, precisa e eloqüente. Numa hora ela cruzou as pernas e ele viu que a saia cinza-escura de seu conjunto era forrada por dentro com o tecido quadriculado.

Isabelle sorriu para ele algumas vezes, e ele também riu e ficou, durante toda a noite, tomado por um sentimento de preocupação indeterminada e, na mesma medida, um de estranho feitiço quando olhava para Isabelle, quando ouvia sua voz.

Mais tarde todos comeram no restaurante francês no térreo do hotel. A conversa continuara também ali e, sempre que era necessário, Isabelle traduzia gentilmente e com a maior atenção. Foi então Gerard Yitran quem propôs que ela acompanhasse a equipe de filmagem por toda parte, posto que dominava seis línguas perfeitamente. Todos ficaram entusiasmados, especialmente Bolling. Gilles se alegrou do fato de Vitran ter elogiado Isabelle, ele a observou comendo, bebendo e falando, e tudo o que ela fazia o agradava. Isabelle olhava para ele de tempos em tempos, uma hora ela levantou seu copo de vinho e ele levantou o seu, e a noite inteira ele sentiu uma grande emoção.

Naturalmente, Joschka Zinner começou novamente a falar de que Gilles deveria também viajar e fazer depois os comentários para cada filme separadamente, e todos pediram a Philip para aceitar, e Isabelle o olhou, e, para espanto dele, ele disse que sim.

Depois do jantar foram ainda para o Lipizzaner Bar ao lado da recepção e beberam um pouco. Todos estavam excitados.

Miriam Goldstein se sentou ao lado de Gilles. Ela disse baixinho: — Bonito como todos estão entusiasmados, alegres, esperançosos, não é?

Ele a olhou calado.

— O senhor está calado — disse ela baixinho. — O senhor pensa o mesmo que eu?

Ele continuou calado.

— Devo-lhe dizer o que o senhor pensa? — Miriam perguntou, ainda mais baixinho, só ele a escutava na confusão de vozes e da música do pianista. — O senhor pensa que acontece muita coisa ao mesmo tempo. O atentado a Markus. O recuo de Hansen. Joschka Zinner, que nos dá tanto dinheiro e uma possibilidade tão grandiosa — justamente agora. Durante anos a fio ele teve essa chance. Por que a televisão de Frankfurt quer produzir uma série dessas justamente agora? Por que há pessoas que querem matar Marvin, para que ele se cale, e por que, ao mesmo tempo, outros lhe põem à disposição todos os meios para que ele, através de um tão violento meio como a televisão, possa falar a milhões sobre tudo o que os homens causam a homens e o que os homens causam a esta Terra? Nisto o senhor pensa, não é, senhor Gilles?

— Sim — disse ele. — Nisto eu penso, doutora Goldstein. E por isso precisamos começar com o trabalho. Pois só desta maneira teremos uma chance de descobrir o que realmente acontece.

Miriam confirmou seriamente e voltou aos outros. Gilles ficou sozinho. Depois de um tempo ele se levantou, pois queria ir para o seu quarto. Todos lhe desejaram uma boa noite, e Isabelle lhe deu a mão ao se despedir.

No apartamento, Gilles telefonou ao Hotel Bon Accueil. Monsieur Oltramare atendeu e disse que Gordon jogava xadrez com ele justo naquele momento, e então Gordon foi ao telefone e perguntou como Gilles estava. Ele contou tudo o que acontecera e terminou: — ...Então amanhã viajarei com o avião da tarde da Swissair até Genebra e ficarei uns dias em Château-d’Oex, meu velho. No dia 25 de agosto, como combinado agora, voaremos de Frankfurt para o Rio de Janeiro. Marvin quer primeiro fazer um filme sobre a destruição das florestas tropicais no Amazonas. Um ecologista, recomendado por Vitran, mora no Rio.

Gordon, que sabia de cor quase todos os horários de vôo, disse: — A partir de Frankfurt parte às quintas um Boeing 747 da Lufthansa às 21:50h. Chega às 6:35h, hora local, no Aeroporto Internacional do Rio. Vôo número 510. — E Gilles pensou nova­mente que aquela pessoa precisava ter alguma coisa na qual se segurar, mesmo que fosse no tempo em que Gordon pilotava aviões Spitfire. — Sim, Gordon, tomaremos esse avião — disse ele. — Até lá a doutora Goldstein e Joschka Zinner terão conversado sobre tudo o que se relaciona a contratos e dinheiro. Escrevo para os filmes só os comentários. Posso fazer o que quiser com o resto do material que pesquisarmos.

— Você precisará levar uma porção de coisas para vestir — disse Gordon.

— Sim.

— Eu disse uma vez que toda a proteção com relação à vida real era riqueza. Você ainda se lembra?

— Sim, Gordon.

— Mas você tem razão: não se deve proteger-se sempre e de tudo.

— Não — disse Gilles —, não se deve. E há outra coisa, Gordon.

— O que você quer dizer — outra coisa?

— Não posso dizer. Mas sinto. Sinto muito forte. Fui repórter durante tanto tempo, eu sei simplesmente que algo a mais acontecerá ao lado desse plano de fazer filmes que deve sacudir as pessoas. Estou absolutamente convencido disso!

— E você quer descobrir o que é isso.

— Preciso descobrir. Pois algo de ruim está para acontecer, de muito ruim. Como esse Joschka Zinner apareceu! Como esse Marvin ainda vive por pura sorte! Como esse cara, esse Hansen, retirou sua acusação. Clip, clap, clip, clap. Abre porta, fecha porta. Como isso transcorre. Como é encenado, sim, encenado...

— Bom Deus! — Gordon disse. — Philip como era, antes de chegar em Château-d’Oex. O velho Philip!

— Não o velho Philip, mas o velho repórter.

— Okay, okay. Pegaremos o velho repórter no aeroporto, Monsieur Oltramare e Happy e eu. E levaremos o velho repórter de volta, para a despedida.

— Vocês são os melhores — disse Gilles — você, Monsieur Oltramare e Happy.

— Ah, pare com isso! — Gordon disse. — Então, até amanhã!

— Até amanhã! — disse Gilles, e pôs o telefone no gancho, percebendo, nesse gesto, que sua mão ainda tinha o aroma do perfume de Isabelle.

 

 

LIVRO SEGUNDO

 

“Para achar a verdade, você precisa se aproximar dela.

Se você se aproximar, você se arrisca.”

Do filme Americano Salvador

 

Então G. tira as rolhas das quatro garrafinhas de cachaça e pega dos bolsos da jaqueta de seu conjunto cáqui dois maços de cigarro americano e os abre e divide as garrafinhas e os cigarros comigo. Nós dois vestimos conjuntos cáqui e cha­péus de panamá por causa do sol forte. A selva está cheia de palmeiras altas e antigas, nas quais estão pendurados enormes molhos de orquídeas.

Precisa-se abrir as garrafas, diz G. Os espíritos não podem. O mesmo com os cigarros. Os espíritos não podem abrir os pacotes, por isso precisamos fazê-lo e deixar os cigarros nos buracos, e não podemos esquecer os fósforos. — Acender os cigarros, eles mesmos sabem, sim? — Isso eles precisaram aprender, diz G. Se nós os acendêssemos, eles já estariam apagados antes de os espíritos chegarem, não é? — Lógico, digo. Que buraco me pertence? — Procure um. Você vê, há muitos aqui. Aqui, os fósforos. — Obrigado. — Pode segurar tudo? — Muito bem, digo. Falamos francês, na metade do caminho para o Corcovado, em cuja ponta (G. informou) se levanta em 40 metros a alta estátua do Cristo. Viemos aqui para fazer uma macumba...

 

14 de junho de 1989: agora é começo de noite e depois do calor deste dia está agradavelmente frio em Château-d’Oex e na minha velha casa Le Forgeron. Há meses que escrevo aqui. Na grama do bonito hotel de Monsieur Oltramare estão sentados muitos hóspe­des. Suas vozes e seu riso chegam até meu quarto.

Um diário está diante de mim, sobre a mesa. Isabelle me presenteou e deu a permissão de fazer citações dele, o que quiser e quanto quiser. Agora fiz isso pela primeira vez e penso que farei ainda algumas outras vezes; por um lado, porque eu facilmente corro o perigo de ser por denominação e felicidade melodramático ou exageradamente emotivo na descrição daquele acontecimento que eu considerei impossível, até que ele me aconteceu; por outro lado, porque a escrita de Isabelle me dá a possibilidade de ser fiel à minha posição de cronista. A parte que eu comecei a citar está datada, no diário de Isabelle, de domingo, 28 de agosto de 1988, e eu ainda me lembro muito bem daquele dia e de nossa macumba. Os olhos de Isabelle eram azul-escuros, quando ela estava ao meu lado na selva, e sob o chapéu de panamá só se viam as pontas de seus cabelos louros. Ela quase não estava maquilada.

Ainda de seu diário:

 

Agora já é nosso terceiro dia no Rio. A época mais quente do ano já passou, mas a umidade do ar é muito alta. Estamos hospedados no Hotel Miramar, na Avenida Atlântica, com Markus Marvin, Peter Bolling e a equipe escolhida por Joschka Zinner — um cameraman e um técnico.

Graças às ligações de Joschka Zinner, foi possível que Marvin deixasse a Alemanha num momento em que nem o estranho comportamento de Hilmar Hansen, nem o assassinato do contrabandista de armas Engelbrecht, nem o do zelador Traugott Mohnhaupt estão esclarecidos. Também Valerie Roth, com bons contatos, se engajou para isso. O procurador Ritt, o qual conheci antes da partida, fez uma observação nesse contexto. Não posso imaginar que contatos seriam esses. Marvin pôde deixar o país sob duas condições: ele deve comunicar a Ritt e ao comissário Dornhelm da polícia crimi­nal I constantemente o seu local de estada e estar pronto para voltar a qualquer momento, caso as investigações façam necessária a sua presença em Frankfurt.

Foram reservados para nós bonitos quartos, o meu ao lado do de G., ambos localizados de frente, e da varanda vê-se, do outro lado da Avenida Atlântica, a praia de Copacabana e o mar. A areia, disse G., era na sua última estada aqui muito branca e a água clara e pura. Agora a água ainda parece clara e pura e a areia muito branca, mas um dos dois porteiros, ele se chama Carioca Parcas, disse que devemos ir para outro lugar para entrar na água, aqui as pessoas teriam alergia na pele.

Em 1973, disse G., a praia na frente do Miramar era cheia de gente alegre, de diferentes cores de pele, viam-se todas as misturas de pele — e as moças eram mais bonitas. Ainda há moças bonitas e mestiços de toda sorte, mas em menor quantidade. Este mar aqui e esta praia expulsaram muita gente.

 

Isabelle ainda não havia estado no Rio, e quando se descobriu que o Dr. Bruno Gonzalos, o ecologista, que estava em primeiro lugar na lista de Marvin, havia entendido certamente mal o nosso recado e saído do Rio no fim de semana com sua mulher, aluguei um carro e mostrei a cidade a Isabelle. O porteiro Parcas disse que a senhora deveria fazer uma macumba sem falta, e Isabelle perguntou o que era isso. Meu amigo Carioca Parcas havia envelhecido muito desde que o vi pela última vez, mas, afinal, eu também...

 

Isso é um negócio muito estranho, disse o porteiro, quase todos aqui acreditam nisso, os mais beatos católicos e aqueles que não acreditam em nada. Veja, minha senhora, na selva do Corcovado vivem muitos espíritos poderosos. Eles podem prejudicar muito a pessoa, se quiserem. Mas eles podem também realizar qualquer desejo que a pessoa tenha. — E ele pestanejou. — Soa fabuloso, digo e pestanejo. — Qualquer desejo, se se pode preservar seu humor, dos espíritos, diz o velho porteiro. — E como se preserva seu humor, Senhor Parcas? — Senhor Gilles sabe, disse Parcas. Ele já fez macumba. — É verdade? pergunto a G. — Sim, é verdade — E? — E o quê? — E aquilo que você desejou se realizou?

 

Nesse dia cheirei de novo o perfume de Isabelle.

No que diz respeito à minha primeira macumba, não podia me lembrar mais dela, mas da última, em 1973. Naquele tempo desejei dos espíritos da selva o amor daquela mulher, com a qual fui então para os Estados Unidos por dois anos, e esse amor terminou de forma horrível.

 

Monsieur Gilles! Ele se assusta muito com alguns pensamentos secretos e me olha, e eu pergunto mais uma vez: aquilo que você desejou se realizou?

Parece que ele queria dizer não, mas diz sim, e digo: então também quero fazer uma macumba!

Fomos ao Corcovado, que se encontra diretamente atrás da cidade, um pedaço mais ao alto até lá, onde a rua acaba. Depois vamos a pé. G. se lembra que aqui havia um excelente restaurante florestal, e ainda há. Sentamos ao ar livre, sob palmeiras e molhos de orquídeas, e nos arbustos sobem mansos papagaios e nos olham. Um garçom pergunta se queremos aperitivos e G. diz que o único aperitivo que se deve beber antes do cair do sol é um gin-tônica com uma rodela de limão.

Então tomamos o sun-downer e um pouco de vinho acompanhando o maravilhoso peixe, e quando fica mais frio, vamos lá onde estão os buracos. Em torno de uma enorme cratera há um estreito caminho, ao longo das íngremes encostas. Nessas encostas há muitos pequenos buracos abertos. Arbustos, jibói­as e árvores escondem a profundidade da cratera. O sol brilha no estranho anfiteatro, e eu seguro garrafinhas, cigarros e fósforos nas mãos e digo: gostaria muito de fazer minha macumba neste buraco aqui, d’accord? — D’accord, diz G., e vai um pedaço mais adiante para o outro buraco, e eu deixo os cigarros, as garrafinhas e os fósforos e vejo negros diante de outros buracos do outro lado da cratera, e também vejo mulheres brancas...

 

Todas as vezes eu havia visto mulheres brancas e pensava por que elas queriam ganhar, com seus presentes, a amizade e ajuda dos espíritos, e me dizia que certamente elas rezavam para que seu amado não as abandonasse por causa de outras e que elas também desejavam ser desejáveis por muito tempo com seus corpos bonitos, uma boa pele e olhos radiantes, pois no Rio havia muitas mulheres radiantes e bonitas e jovens e homens de muito boa aparência.

Quando deixei lá meus presentes, dei um passo para trás e avistei Isabelle. Ela estava diante de seu buraco, muito magra no seu conjunto cáqui, havia tirado o chapéu, os cabelos louros brilhavam no sol, e pensei, aflito, que essa mulher poderia ser minha filha ou minha sobrinha, de acordo com a diferença de idade. Lá estava ela, e ao redor da cratera passeavam pessoas, e os papagaios selvagens faziam barulho, e pensei que gostaria de saber o que Isabelle havia desejado. Por último ela virou a cabeça e gritou: — Pronto, você também?

Afirmei e fui até ela, no ar úmido e abafado senti o aroma de seu perfume especialmente forte, e disse: — Esse aroma deve ter sido inventado para você.

 

Naturalmente, digo, e vejo meu rosto minúsculo nos seus olhos. De Emenaro.

Saímos da cratera. G. faz questão de que eu vá pelo lado da montanha para que eu não caia, e durante muito tempo não falamos. Quando chegamos ao estacionamento, ele abriu para mim a porta do carro, e enquanto descíamos à cidade, ele perguntou: você desejou muita coisa? — Nada, disse. — Nada? Mas você ficou tanto tempo diante do buraco! — Havia algo de estranho, disse. — Algo de estranho? — Eu tinha muitos desejos, mas então pensei nessa coisa estranha, e isso me impressionou tanto que eu não cheguei a desejar nem um pouquinho. — Compreendo, disse G., e naturalmente ele não compreende nada.

A estrada tinha muitas curvas e ele precisa ter muita atenção ao dirigir.

E você desejou alguma coisa? pergunto a G. — Não, disse ele. Tive uma impressão parecida com a sua. Eu a observei, você não notou, e então não pude mais pensar nos espíritos. — Sinto muito. — Eu também posso desejar tanta coisa, disse ele. Mas com esses espíritos é uma coisa incerta. Você não vai me dizer o que era a coisa estranha na qual você pensou? — Ah, não! disse, claro que não. E depois fecho os olhos, pois naquele momento ele fez outra curva, e a brilhante luz do sol poente nos encontra junto com a brilhante luz do mar, e ambas encandeiam. G. dirige lenta e cuidadosamente, e só abri os olhos quando alcançamos as favelas das imediações com suas casas de zinco.

 

E aconteceu naqueles dias...

Nos institutos de aproveitamento de animais em Horstedt (Husum) e em Niebüll (Frísia do Norte), cerca de cinco mil corpos de focas decompostos e malcheirosos foram transformados em ração e gordura industrial. O toxicólogo Prof. Otmar Wassermann, da Universidade de Kiel6 se indignou: — O aproveitamento de cadá­veres com materiais contaminados para ração animal e gorduras garante que a população, já carregada de materiais contaminados de maneira crítica, esteja sujeita a outros materiais, absolutamente evitáveis... Por que na sociedade industrial tudo precisa simples­mente ser aproveitado — até mesmo os cadáveres das focas, de cujas mortes somos cúmplices?

Sua pergunta ficou sem resposta; o escândalo, despercebido pela mídia.

 

 

A água potável, uma das propriedades mais preciosas da huma­nidade, virou bebida perigosa. A culpa número um da contamina­ção do alimento são a agricultura e a indústria, declararam cientis­tas alemães reconhecidos internacionalmente.

Alguns informes alarmantes de uma lista interminável: seis bebês na Baviera morreram por conta de água potável contaminada com cobre.7 Em Baden-Württemberg foram fechadas 250 fontes empestadas. A água contendo nitrato aumentou o número de câncer de estômago em Vechta. Entre Passau e Flensburg, químicos descobriram na água subterrânea 45 pesticidas diversos. No Harz, a água contaminada de metais pesados era mandada a cabo para Göttingen. Em 4.600 fontes de Nordrhein-Westfalen foi encontra­do o dobro da quantidade permitida de nitrato.

O responsável pelo meio ambiente em Bielefeld denunciou ao público, numa discussão, a política federal do meio ambiente: — Os políticos continuam inativos, temos o déficit de execução organiza­do. A indústria química continua a fazer negócios estupendos e faz pouco caso das tentativas dos ecologistas de advertir a opinião pública do perigo dos pesticidas na água potável. Em congressos especializados e conferências de imprensa os representantes da indústria, em comum acordo com seções de proteção às plantas e câmaras de agricultura, condenaram a agitação em torno das “ultra-pistas”.

 

 

Na costa sul do Alasca houve a maior catástrofe ecológica da história dos Estados Unidos. Carregado com 211 mil toneladas de petróleo em rama, o supercargueiro Exxon Valdez passou por um recife no estreito Príncipe William e foi cortado. O tapete de óleo se espalhou sobre uma enorme região. Milhões de focas, peixes e pássaros morreram dolorosamente.

Quatro dias após o acidente o preço do petróleo em rama subiu em todas as bolsas, no mais alto nível em 19 meses.

 

 

Ao norte da Noruega afundou um submarino soviético carregador de torpedos com uma tripulação de 60 pessoas, numa profun­didade de 1.500 metros. Apenas poucas pessoas puderam ser salvas. Elas teriam desativado o reator, declararam os sobreviventes. Especialistas falaram de uma bomba-relógio atômica, cientistas noruegueses lembraram Chernobyl.

Poucos dias após o acidente ninguém mais falava no assunto.

 

 

Segundo uma pesquisa do Greenpeace, há no solo dos mares do mundo 48 mísseis não-detonados e 11 reatores nucleares. Um porta-voz do Greenpeace disse: — A culpa é tanto dos soviéticos quanto dos americanos, através de acidentes, panes e porcarias mais. Não sabemos com segurança se já começou uma contamina­ção do meio ambiente. Mas um dia essas armas vão se decompor e se tornar perigosas. Os mísseis e as bombas perdidas estão em tão grande profundidade que não podem ser recolhidos.

— Só posso desejar ao mar do Norte um verão muito ruim, com muita chuva e pouco sol — declarou o professor Thomas Höpner, bioquímico e biólogo marítimo, da Universidade de Oldenburgo. — O mar do Norte não suporta mais um bom clima. A situação do mar é frágil e caótica. — Na opinião de Höpner a culpa é dos muitos despejos para o mar do Norte, anualmente, entre outros quatro bilhões de metros cúbicos de água de esgoto, um e meio milhão de toneladas de ligações de azoto e 200 mil toneladas de fosfates. As muitas substâncias nutritivas na água — em ligação com luz e calor — “engordam” as algas. As algas mortas são decompostas por bactérias. Para isso as bactérias precisam de uma quantidade violenta de oxigênio. Conseqüência: os peixes se asfixiam, o ecossistema em sua totalidade pode se transformar.

 

 

Uma pesquisa entre 3.000 estudantes alemães da décima classe revelou: 25% não sabiam citar nenhuma flor. 70% não sabiam que o pinheiro está ameaçado de extinção. Só quatro por cento sabiam o que seria o “lixo-extra”.

 

— Mais da metade de todas as florestas tropicais já está irreversivelmente destruída ou estragada. Ninguém se arrisca a calcular, nem por alto, a perda de animais e sobretudo de espécies vegetais — disse o Dr. Bruno Gonzalos. Ele esperou até que Isabelle traduzisse, e então continuou: — Mas já é certo desde agora que nas florestas tropicais foi praticado pela mão humana o maior ecocídio e, com isso, a mais extensa destruição de espécies da história mundial.

Clarisse, sua mulher, uma bonita mulata com cabelos pretos bem curtos, olhos pretos bem grandes e dentes esplêndidos, disse: — Cristóvão Colombo já se encantou com a “grande beleza” e a “multiplicidade” da paisagem da floresta no Caribe, com “árvores as mais variadas, que são tão altas, que parecem tocar o céu”.

Seu marido pegou um livro. — E Alexander von Humboldt escreve aqui, cito: “Invejo as pessoas na zona quente, que são agraciadas com a natureza sem abandonar sua pátria, vendo todas as formas de plantas da Terra.”

— Mas isso já passou — disse Clarisse, profissão bióloga. — Com o desmatamento desaparecem diariamente várias espécies de animais e plantas de nosso planeta. Se a velocidade da destrui­ção continuar, serão várias por hora. É como se as nações do mundo tivessem decidido queimar suas bibliotecas sem ver o que há nelas.

— Essa destruição — disse Gonzalos — não significa apenas uma perda monstruosa de formas de vida, mas uma destruição do processo de evolução em seu todo. Nesse ecocídio não se trata apenas de morte, mas do fim do nascimento.

Depois que Isabelle havia traduzido também isto, fez-se um silêncio no escritório do Dr. Gonzalos. O meteorologista de 36 anos, que há sete anos lutava, em missão da organização de proteção do meio ambiente da ONU, para que as demais florestas tropicais também não fossem extintas, era um homem calmo e doce e dava uma impressão de tímido. Enquanto falava, sua voz soava pedinte e suplicante ou também, como agora, fria, denunciadora e dura. A cor de seu fino rosto era muito clara; seus olhos, castanhos como os cabelos curtos. Ele estava sentado perto de uma janela, através da qual se avistava em frente o grande prédio do Museu Nacional de Belas-Artes na Avenida Rio Branco. Gilles havia estado com Isabelle no palácio enquanto esperavam pela volta dos Gonzalos ao Rio. Eles tinham visto todos os quadros maravilhosos e Gilles, que se interessava muito por pintura, explicou e contou muitas coisas a Isabelle, e a jovem mulher ficou impressionada com a maneira de suas descrições. Agora, no escritório do Dr. Gonzalos, Isabelle estava sentada entre Gilles e Clarisse. Atrás de Clarisse, na parede, havia um quadro que mostrava um casal de namorados de forma poética, sonhadora. Gilles imediatamente reconheceu, encantado, a obra do pintor Ismael Nery, o que agradou os Gonzalos, pois também gostavam dos quadros de Nery, e assim se falou que aquele artista, depois de uma estadia em Paris a partir de 1927, foi influenciado por Chagall, e Isabelle, que traduzia, ficou contente em ver o quanto Gilles sabia e tinha a dizer; ela estava estranhamente orgulhosa disso, e de vez em quando olhava para o escritor, como se o olhasse pela primeira vez.

Três outras pessoas se encontravam no recinto: o químico Peter Bolling, o cameraman da equipe e um técnico. Os Gonzalos não sabiam que canais de televisão passaram a mandar equipes de duas pessoas, e este foi o assunto durante longo tempo. Antigamente, explicou o muito educado e muito sério cameraman Bernd Ekland, trabalhava-se com equipes de até cinco colaboradores, mas agora, disse ele, havia câmeras muito novas, chamavam-se BETAs.

As câmeras eletrônicas já existem há muito tempo — disse Ekland, que continuamente pousava a mão esquerda no braço direito, massageando-o cuidadosamente. — Mas essas novas trabalham com fitas BETA de meia polegada em cassetes que não são maiores que videocassetes normais. Elas têm a grande vantagem de se poder filmar exatamente como uma câmera de vídeo normal e imediatamente gravar o cassete através de um gravador num monitor e saber se as filmagens deram certo, acústica e visivelmente. Antigamente ainda havia um especialista de som, um assistente do cameraman e um iluminador. Era o mínimo. Hoje uma única pessoa faz o trabalho deles, e porque tem tão variadas coisas para fazer, ninguém achou nada melhor, para caracterizá-lo, que a palavra “técnico”. Com o meu técnico — disse ele, e sua voz ficou doce — trabalho há 11 anos.

— Nos primeiros oito anos eu era especialista de som — disse o técnico, uma jovem mulher que se vestia como um rapaz. Chamava-se Katja Raal, tinha um penteado de homem, repartido, e um rosto constantemente alegre, cuja pele era devastada por uma acne nunca curada. — Eles sempre nos enviam, a mim e Bernd, juntos, já que nos entendemos tão bem. — Berdn sorriu ligeiramen­te para ela, mas logo depois ficou sério. Sua mão esquerda massageava o braço direito. — Eles fazem questão — disse a pequena pessoa com olhos engraçados — que o cameraman e o técnico se entendam bem. Freqüentemente ficam juntos durante meses. Isso só é possível quando eles se entendem bem. — E novamente seu olhar brilhou para Ekland.

— Quanto pesa uma câmera BETA? — Gilles perguntou.

— Nove quilos — disse Ekland.

— E você a segura nos ombros?

O homem grande, forte, afirmou com a cabeça. — Ou pode-se prendê-la num tripé.

— Nove quilos. Isso é duro — disse Clarisse, e tudo o que era falado, Isabelle traduzia.

— Um pouco, sim — disse Ekland. — Quando se tem uma coisa dessas 50 vezes por dia nos ombros e então levantá-la de novo no tripé e do tripé para o chão e novamente sobre os ombros e então no tripé, e isto semanas a fio... um pouco duro, sim, sim. Mas Katja me ajuda. Sem Katja eu não poderia trabalhar.

— Você também levanta a câmera? — Isabelle perguntou.

— Mas claro! — Katja disse, e seus alegres olhos brilharam, e a pele de seu rosto era coberta de cicatrizes e pústulas e poros pretos, grandes pontos que parecem couro. Para a maioria das pessoas era difícil olhar para Katja descontraída e naturalmente e não deixar notar um choque por causa desse rosto. Katja esta­va acostumada quando a examinavam piedosos ou irritados. — Você acha que sou muito fraca? Ah! Você não imagina a minha força!

Bernd a observava ternamente. — Trabalha como um cavalo, a pequena. Pois é claro que ela precisa se preocupar ainda com o som e ajudar na filmagem, cuidar da iluminação e outras coisas. Um BETA-set como este se compõe de muitas partes: câmera, tripé, projetores e tudo o que é ligado a eles, cabos, uma mala de luz, o cinto onde estão os discos acústicos que fazem funcionar a câmera, um monitor, cassetes, ferramentas... Vocês não imaginam o que carregamos conosco! Maravilhoso, o meu técnico.

Katja riu e acariciou o braço de Bernd.

E sempre alegre, sempre bem-disposta — um milagre, realmente, um milagre.

— Pare com isso! — gritou Katja rindo, e um vermelho tomou conta de seu desfigurado e pálido rosto. — Não desejo fazer outra coisa senão trabalhar assim — com você.

E isso, pensou ela, rindo e ao mesmo tempo completamente desesperada, só vai durar mais um ano. No máximo um ano. Eu e Bernd sabemos, e mais ninguém além de dois médicos. No primeiro Bernd esteve há três anos, quando as dores nos ombros ficaram bem fortes. O primeiro médico constatou uma doença de trabalho. Sei de cor o nome latino, porque a vida de Bernd e a minha giram em torno dessa doença. Ela se chama Periathritis humeroscapularis. Surgiu por carregar a maldita BETA e todas as malditas câmeras antes dela. Primeiro, então, radioterapia. Calor. Ultra-som. Ondas curtas. A condição, claro: não trabalhar! Naturalmente, nem pensar. Bernd continuou a trabalhar como antes. Filmar simplesmente significa a vida para ele, e isso não é uma frase. As dores continuam. O médico diz, então, injeções. Cortisona. No ombro. Regularmente. Ensina-me como se faz, pois estamos sempre fora. Com as injeções fica melhor, de fato. Até que há um ano um outro médico ouve falar disso e se irrita: injeções de cortisona? Três por semana? O senhor é mesmo louco! Interrompa, interrompa imediatamente! Senão, o senhor se arrisca a rasgar o tendão do músculo. Então é o fim, mas definitivamente. Então o senhor não poderá mais levantar o braço. Então o senhor terá um frozen shoulder. Assim, eu e Bernd tomamos um grande susto e de fato paramos com a cortisona. Naturalmente, as dores ficam mais fortes. A cada dia mais fortes. Agora elas já são tão fortes, que Bernd está constantemente sob o efeito de analgésicos, toma-os demais, sempre toma-os demais. Há seis meses que ele não vai mais ao medico, ele não quer saber do assunto, ele engole analgésicos porque quer filmar, filmar, e eu, eu quero exatamente o mesmo, que ele filme, filme, filme enquanto ainda puder segurar uma câmera. Eu conheço alguns que tiveram uma Periathritis humeroscapularis com esse trabalho. Vi um que no fim não podia sequer levantar uma folha de papel e ficou meio louco por causa das dores. Ele filmou até não poder mais, e isso Bernd também fará, ele quer assim e eu, eu sei que isso é egoísta, mas eu sei, sim, que para ele, filmar significa viver, eu também quero assim, e ninguém deve saber, senão ele será imediatamente posto diante de uma mesa de trabalho, e se Bernd não puder mais filmar, o que será de mim? Ninguém nunca me aceitou porque tenho uma aparência tão horrível, ninguém me quis, até que Bernd apareceu, foi gentil e educado e carinhoso comigo desde o primeiro mo­mento. A mim ele contou sobre seu braço ao voltar do médico pela primeira vez, e também quando soube que só pode durar um ano, no máximo um ano. E depois? O que será de mim? Nem pensar nisso, pensou Katja, só não pensar nisso, não, não, e ela riu alegre.

Eles se encontraram na manhã daquele 29 de agosto, uma segunda, no apartamento dos Gonzalos, para acertar os detalhes do filme sobre a destruição das florestas tropicais.

— Quanto melhores as entrevistas — disse Marvin — tanto melhor será o trabalho. Precisamente saber exatamente antes do começo das filmagens do que se trata para fazer as perguntas certas. Isto é importante também para a intérprete. Facilita o traduzir pra lá e pra cá em frente à câmera...

Eles sentaram e beberam chá, e da rua soava, através da janela aberta, a canção de um mendigo.

— O que ele canta? — perguntou Peter Bolling.

Isabelle espreitou e disse, com pequenos intervalos: — O que o meu destino me reservou... Não me deixa nunca... Só conheço a tristeza... pois para ela nasci... eu para ela...

Clarisse se levantou, enrolou moedas e notas numa folha de papel e a jogou da janela para aquele que cantava.

— Genocídio, ecocídio — disse Marvin. — Palavras terríveis. Morte de gente. Morte da natureza. Em que tempos vivemos!

Isabelle traduzia tudo. Ela usava um leve vestido azul-claro e sapatos brancos, e de vez em quando olhava para Gilles e às vezes sorria, mas ele ficava sério e não sorria nunca.

— Gente pode matar gente e extinguir povos e raças inteiros — disse Bruno Gonzalos. — Mas não pode matar a natureza. Pode tentar. Mas a partir de um determinado momento a natureza pode reagir e isso é o fim daqueles que tanto feriram a natureza. A natureza será eterna, ela sempre se recuperará em novas formas. Os homens precisam da natureza. A natureza não precisa dos homens. Não nos enganemos: países tropicais como o Brasil ou a Indonésia precisam abrigar e alimentar a cada ano mais pessoas. Com a coragem do desespero, muitos desses infelizes sempre voltarão a atacar as florestas tropicais — da mesma forma como os empresários num sistema econômico orientado unicamente para o lucro. Então, a catástrofe final, o suicídio da humanidade, terá que vir, logo — se não formos capazes de realizar, o mais rápido possível, um eficaz controle da natalidade e uma proibição da exploração absolutamente inconsciente de todos os tesouros das florestas tropicais através dos absolutamente inconscientes gover­nos, bancos e indústrias.

— Começaremos com esse desafio — disse Marvin. — E depois explicaremos o que significa a destruição das florestas tropicais para o clima.

— É melhor filmarmos aqui — disse Ekland. — Primeiro vem a entrevista com o senhor.

Embaixo, na Avenida Rio Branco, o mendigo ainda canta o seu lamento.

— A floresta tropical — disse Gonzalos — se desenvolve em mais de 60 milhões de anos na região da Terra mais rica em animais e plantas; 20 milhões de quilômetros quadrados era o seu tamanho. O homem precisou de mais ou menos um século, e as enormes áreas arborizadas na altura do Equador estavam reduzidas à metade. As florestas tropicais na Índia, Bangladesh e Sri Lanka já estão quase que completamente destruídas.

— A diminuição da zona de folhagem tropical, sobretudo o enrugamento do “pulmão verde” na Bacia Amazônica causam mudan­ças de temperatura em todo o mundo — disse Clarisse Gonzalos.

Katja a olhava encantada. Essa bela pele, pensou. Tão lindamen­te escura. Fina como veludo. Ah, pensou Katja, Bernd ainda pode segurar a câmera. Ainda tenho sorte. E com uma expressão alegre ela espreitou Clarisse, que continuou a falar.

— Se o desmatamento e a queimada não se reduzirem, em curto espaço de tempo haverá a ameaça da catástrofe climática. Antigas bolhas de ar do gelo da Groenlândia e da Antártida mostram: quanto maior a quantidade de dióxido de carbono, tanto mais aumenta a temperatura. Hoje vão para o ar anualmente cinco bilhões de toneladas de dióxido de carbono...

— Quanto? — Marvin perguntou, chocado. — Diga mais uma vez, Isabelle.

— Não errei, Monsieur Marvin — disse a jovem mulher com cabelos louros e olhos azuis. — Cinco bilhões de toneladas de dióxido de carbono, anualmente.

— E, segundo as estimativas, três quintos se originam das queimadas nas florestas tropicais — disse Clarisse. — Se isso continuar assim, a temperatura do mundo aumentará de tal maneira que o gelo nas cúpulas dos pólos começará a derreter. Isto teria como conseqüência uma enchente em paisagens costeiras, e a devastação da Terra se aceleraria rapidamente.

— Quando faltarem as enormes áreas vegetais, também ficará impedido o catabolismo natural do dióxido de carbono através da fotossíntese — disse Gonzalos.

Bolling se dirigiu a Gilles. — Fotossíntese significa que as plantas absorvem dióxido de carbono e água e transformam ambos, com a ajuda da energia solar, em amido e açúcar.

— Obrigado — disse Gilles.

— De nada — disse Bolling. — Explico-lhe com prazer o que o senhor não entende, como amador. — Sua antipatia com o escritor se reacendera novamente. Este parece que não percebeu e sempre voltava a olhar Isabelle.

— A destruição das florestas tropicais tem efeitos mundiais tam­bém na circulação da água — continuou Gonzalos. — Antigamente elas eram doadoras gigantes de umidade, onde circulavam infinitamente alguns bilhões de toneladas de água através de evaporação e preci­pitação. Assim, elas estabilizavam o clima tropical e protegiam além de suas fronteiras da seca e enchente. Por causa do desmatamento assassino isso também acabará em breve. E finalmente perdemos a chamada reserva genética de calculado 1,7 milhão de espécies de plantas e animais, que ainda não foram catalogados sequer na sua metade. A floresta tropical é — excluindo-se talvez o mar — o único hábitat que guardou um grande número de novos alimentos, materiais para remédios e matérias-primas vegetais... Mas agora ela é explorada inescrupulosamente por sociedades multinacionais, bancos, companhias e governos. Nós mostraremos a vocês, nós mostraremos tudo a vocês, minha mulher e eu.

— Iremos com você ao centro de estatística do Instituto de Pesquisa do Universo — disse Clarisse. — Lá há fotos de satélites que estão estacionados sobre o continente sul-americano. As fotos mostram a extensão da destruição da Bacia Amazônica.

— Fotos, bom — disse Ekland. — Quanto mais fotos, melhor. As fotos têm mais efeito que as palavras.

— Teremos fotos suficientes — disse Gonzalos. — Meu pessoal decidiu que eu os acompanharei na viagem. Estarei à sua disposição para todos os seus filmes. Primeiro voaremos para Belém e de lá para Altamira. Lá começará, daqui a três dias, um congresso, para o qual convidaram os índios que são contra a construção da maior usina hidrelétrica do mundo. Levarei vocês aos garimpeiros. Levarei vocês a Carajás, onde surgiu a “Região do Ruhr brasileira” — sem a menor consideração para as conseqüências desse abuso, sob o desprezo cínico de todas as relações ecológicas. — Gonzalos disse repentinamente e com olhar cabisbaixo: — Sim, todos os crimes cometidos aqui eu lhes mostrarei. São crimes internacionais, muitos países tiveram participação neles — especialmente os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão. Nós... — ele parou... — Nós não desistiremos. E muitos outros também não. Porém... sinceramente: não sei — ninguém sabe — se podemos evitar a catástrofe. E numa situação dessas é absolutamente irresponsável trazer filhos ao mundo. Pois o que lhes acontecerá se todos os esforços não tiverem sucesso, e eles, em breve, muito em breve precisarem viver num inferno dantesco, eles e os filhos desses filhos?

Clarisse se desculpou para preparar o almoço para o qual as visitas estavam convidadas.

— Preciso ir para a cozinha — disse ela. E para Isabelle: — Quer vir comigo? Mostro-lhe também o apartamento.

Isabelle foi.

Na cozinha trabalhava uma índia. Clarisse a apresentou à sua visita, ocupou-se da comida e levou Isabelle para o quarto. Lá ela se deitou, aparentemente sem forças, sobre a cama.

— Sou infeliz, senhora Delamare. Tão infeliz.

— Por quê? — perguntou Isabelle, assustada.

Clarisse respondeu baixinho, quase cochichando: — Meu marido não quer um filho sob hipótese nenhuma, a senhora ouviu. Eu também não queria. Agora eu quero de qualquer forma. Estou grávida, no segundo mês, senhora Delamare. Bruno não sabe disso. Quero ter esse filho. O que devo fazer? — Ela se levantou, abraçou Isabelle emocionada, apertou-a enquanto começou a chorar, repetiu desesperada: — O que devo fazer? O que devo fazer?

 

No dia 4 de maio de 1945 altos militares alemães e ingleses assinaram, em Lüneburgo, a declaração de capitulação das tropas alemãs na Holanda, Frísia, Bremen, Schleswig-Holstein e Dinamarca. Uma trégua foi ordenada às rápidas vedetas ancoradas no porto de Avenborg. No alvorecer do dia 6 de maio, cinco marinheiros abandonaram seus alojamentos para se desligarem da tropa e tomar o caminho de casa. Mas logo foram apanhados e, no dia 9 de maio — cinco dias depois da capitulação parcial, no dia em que começou a vigorar a capitulação da totalidade do Reino Alemão — foram condenados à morte por um conselho de guerra sob a presidência do juiz do Estado-Maior Holzwig, em razão de “difícil caso de fuga à bandeira em campo de guerra”. Os julgamentos foram executados por fuzilamento no dia 10 de maio; os cadáveres foram jogados ao mar.

Desde o começo da guerra até o dia 31 de janeiro de 1945 (depois desta data não há mais números) os juizes militares alemães condenaram à morte, “de acordo com a lei”, 24.559 soldados alemães. Pelo menos 16.000 foram fuzilados, decapitados ou enforcados; a grande maioria dos outros, através de “indulto”, foi para companhias disciplinares e lá perdeu a vida.

Como comparação; os juizes do exército imperial alemão fizeram executar, durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial, 48 soldados.

Dos dez milhões de americanos que eram soldados na Segunda Guerra Mundial, apenas um foi condenado à morte por juizes americanos e fuzilado por causa de fuga à bandeira.

Nem sequer a um juiz militar alemão pediram-se explicações depois de 1945. A maioria deles fez grandes carreiras profissio­nais ou políticas. O escândalo em torno do antigo juiz das forças armadas e posterior primeiro-ministro de Baden-Württemberg, Dr. Hans Filbinger, ficou conhecido.

Entre os cinco marinheiros que foram fuzilados no dia 10 de maio de 1945, por conta de uma sentença do juiz do Estado-Maior Holzwig, estava Peter Ritt, de 29 anos. Seu filho, Elmar Ritt, tinha naquele tempo um ano e meio de idade. Ele nunca viu o pai.

— Como assim, proteção pessoal? — Elmar Ritt perguntou.

— Mas isso consta na sua disposição, senhor procurador! — disse o jovem funcionário criminal Karl Eilmers, atordoado. — O Doutor Hansen tem proteção o tempo inteiro. O senhor mesmo exigiu, senhor procurador!

— Eu — disse Ritt, com lábios finos —, isso eu não exigi.

— O senhor não... — Wilmers ficou ainda mais atordoado. — Mas por isso estamos aqui! Se o senhor não exigiu isso, então quem?

Essa conversa teve lugar ao meio-dia de 29 de agosto de 1988, naquela segunda-feira em que o Dr. Bruno Gonzalos e sua mulher Clarisse receberam em seu apartamento no Rio de Janeiro Markus Marvin e sua equipe para o documentário de TV sobre a destruição da floresta tropical brasileira.

Elmar Ritt estava com um estenógrafo no hall de entrada do hospital civil em Frankfurt am Main. Ele havia dito ao porteiro que tinha um encontro com o Dr. Hilmar Hansen, que estava na ala particular, quando um jovem foi ao encontro dele e se apresentou como o inspetor criminal Karl Wilmers.

— Quem exigiu isso? — Ritt respondeu. — Provavelmente alguém da Procuradoria-Geral. Talvez tenham se esquecido de me comunicar. — Ritt se lembrou de seu pai, o qual ele nunca tinha visto, e pensou: por isso me tornei procurador. Queria fazer tudo o que podia para que a justiça vingasse neste país. Nunca nenhum juiz sanguinário de antigamente foi acusado por um colega. Nunca muitos assassinos de massa nazistas foram condenados. Muitos médicos nazistas também não. Nunca muitos criminosos da economia. Muitos pontos obscuros recebeu a justiça em nosso país. O que acontece aqui novamente? Não tem sentido ficar zangado com este jovem. Ele foi mandado para cá. Vou descobrir o que aconteceu, sob as ordens de quem, por que sem o meu conhecimento e por quê, de qualquer forma. Não perca a calma!, disse para si mesmo. Este jovem não tem culpa de nada.

— Gostaria de falar com o doutor Hansen — disse ele.

— Com certeza, senhor Ritt. Levo-o até ele — disse Wilmers.

Ele entrou atrás do procurador e do estenógrafo num elevador, e eles subiram até a ala particular, que ficava por detrás de uma porta com vidro fosco. O jovem funcionário criminal tocou a campainha. Uma enfermeira abriu.

— Sim?

— Tudo bem, enfermeira Cornelia — disse Wilmers. — Este é o senhor procurador Ritt, conheço-o de vista, e este é... — ele interrompeu.

— Este é o senhor Jakob Horn, estenógrafo do tribunal — disse Ritt, que voltou a ficar com raiva. Diante de uma das portas da seção particular estava sentado um jovem, que logo veio e cumpri­mentou.

— O inspetor Herterich — Wilmers apresentou-o. — Vigia o doutor Hansen aqui em cima. Será substituído em duas horas.

— Leve-me, por favor, ao doutor Hansen — pediu Ritt sorrindo ao segundo funcionário criminal, que se chamava Herterich.

— Imediatamente, senhor procurador... — Herterich parecia infeliz. — Imediatamente, depois que...

— Imediatamente depois do quê?

— É só um detalhe... — explicou Herterich envergonhado.

— Que tipo de detalhe?

— Preciso revistar o senhor e seu acompanhante para saber se os senhores carregam armas — disse Herterich, quase gaguejando.

— O senhor precisa o quê?

— Assim consta na disposição, senhor procurador — disse Wilmers. — Ninguém pode ir até o senhor Hansen sem ser controlado. Precisamos cumprir com o nosso dever... O senhor não quer nos trazer dificuldades, não é, senhor procurador?

— Eu... — Ritt respirou fundo. Calma!, disse para si mesmo, maldição, fique calmo! Não despeje sua ira nos dois rapazes! — Tudo bem — disse ele. — Tudo em ordem. — Ele perguntou à enfermeira: — Onde posso telefonar?

— Aqui dentro. — Ela mostrou um pequeno cômodo cheio de armários de medicamentos, cuja porta estava aberta.

— Obrigado. — Ritt disse ao estenógrafo: — Um momento, senhor Horn. Tudo se resolverá rapidamente. — Foi até o pequeno cômodo, pegou o telefone, discou, pediu para falar com o chefe da Procuradoria-Geral de seu tribunal.

Ele falou com três pessoas. Por último, disse uma voz de mulher: — O senhor procurador-geral Hilmer não está, senhor Ritt.

— Então passe-me para o substituto.

— Ele também não está... não... não...

— Então! — Ritt gritou. Não!, pensou ele. Não grite!

— Não há ninguém aqui, senhor Ritt — disse a voz de mulher, queixosa. — Até as 15 horas certamente não. Os senhores estão na hora do almoço. Não posso fazer nada.

— A senhora sabe quem deu ordens para revistar toda e qualquer pessoa antes de entrar no quarto do senhor Hansen no hospital civil?

— Não, senhor Ritt.

— Não?

— Não. O senhor Hansen corre perigo, não é?

— Quem diz isso?

— Ninguém. Mas ele precisa estar em perigo, se existe uma tal disposição.

Diante dessa lógica Ritt só pôde fechar os olhos. — Obrigado — disse ele, bateu o telefone e voltou ao corredor.

— Por favor, tire todos os objetos metálicos dos bolsos, senhor Horn! — Herterich dizia naquele momento.

Ritt disse a Horn: — Faça o que este homem diz! — Horn obedeceu. Tirou as chaves e as moedas de sua jaqueta. Herterich pegou uma sonda e passou-a pelo corpo de Horn, para cima e para baixo, enquanto murmurava: — Não tenho nada a ver com isso.

— Sim, sim, sim — disse Ritt, enquanto deixou fazer o mesmo com ele. Ele tremia de raiva, porque obrigatoriamente devia pensar no seu pai e no seu fim nos últimos dias. — Tudo bem. Tudo bem. O senhor não tem nada a ver. O senhor não tem nada a ver. O senhor não tem nada a ver. Escute, senhor Horn, o homem não tem nada a ver!

— Desculpe-nos outra vez — disse Wilmers com voz apertada. — Venham, meus senhores, levo-os agora até o senhor Hansen.

Eles foram pelo corredor até a porta, diante da qual Herterich estava sentado. Da porta em frente veio um médico mais velho, grisalho e cumprimentou formalmente. — Senhor procurador Ritt?

— Sim.

— Heidenreich. Nos falamos ao telefone.

— Certo.

— O senhor Hansen ainda está muito fraco. Quinze minutos, disse-lhe pelo telefone. Quinze minutos; mais tempo, de jeito nenhum. Não seria responsável. — Ele bateu na porta, na qual havia uma placa com as palavras ENTRADA PROIBIDA, e a abriu. — Doutor Hansen — disse ele —, os senhores do tribunal já estão aqui.

 

 

— Doutor Hansen — disse Elmar Ritt, sentando-se numa cadei­ra ao lado dele. — O senhor já sabe quem sou eu, e o senhor já sabe quem é o senhor naquela mesinha. Tenho uma pergunta. Falar causa-lhe dores? Então é suficiente se o senhor balançar a cabeça.

— Tudo bem — disse Hansen. Ele falava baixinho. Marvin partiu-lhe dois dentes, pensou Ritt. O rosto de Hansen e os braços estavam cobertos de hematomas de todas as cores. Em torno do tronco havia um grande curativo. As costelas quebradas, pensou Ritt. Isto se chama curativo de telha. Cola bem. Vai doer quando tirarem. Gaze sobre o olho esquerdo. Hematoma. Gesso no ombro direito. Fratura de clavícula. O pé direito no gesso. Rotura no tendão da perna, pensou Ritt. Ele observou a cabeça fina de Hansen. Seu cabelo era muito fino e branco. Os olhos eram grandes e escuros e davam uma impressão branda. Dá uma impressão bem feminina, pensou Ritt, sim, ele poderia ser uma moça encantadora, certamente cheia de charme e ao mesmo tempo cheia de timidez, extremamente terna e meiga.

Ritt pegou o auto, no qual ele havia se informado sobre o Dr. Hilmar Hansen durante o trajeto.

Seu nome completo era Hilmar Christoph Augustus Hansen, nascido a 22 de maio de 1946, em Frankfurt. Pai: Alexander Christoph Thomas Hansen; a mãe, Roswitha Clementina, nome de solteira Werth. Proprietário único da firma Hansen-Chemie, comandita. A Hansen-Chemie foi fundada pelo bisavô de Hansen, Paul Alexander, em 1827. O pai de Hansen a aumentou muito. De 1925 a 1943 a firma cresceu sob sua direção para uma poderosa empresa. Então a maior parte das instalações à beira do Meno foi destruída por ataques aéreos. Logo depois Alexander Christoph Thomas Hansen começou a reconstrução. Já na época em que Hilmar era estudante e depois, quando ele entrou na firma, ajudou o pai no crescimento da empresa. Então, em 1989 a Hansen-Chemie já era uma coisa como um irmão — menor — da Bayer e Hoechst.

Hilmar Hansen morava perto de Königstein, no Taunus, no pequeno palacete Arabella, que o seu avô mandara construir. Ele era casado com Elisa Katharina Luise Hansen, nome de solteira Thiel, e tinha um filho, Thomas, de nove anos.

Ritt se curvou para a frente. — Pode falar, senhor Hansen?

— Claro, senhor procurador. Claro. Mas não muito alto. Quase não dói. — Apesar do sorriso, havia melancolia, humildade e tristeza nos bonitos olhos com as longas e sedosas pestanas. A voz de Hansen era melódica e pura. Ao falar, ele soltava minúsculas gotas de saliva através dos buracos nos dentes.

— Então, bem — disse Ritt. — Senhor Hansen, o senhor já produziu um produto comercial da ligação paradiclorobenzol, chamado desodorante sanitário, ou mesmo para a chamada higiene de cadáveres?

— Sim, senhor procurador. Mas por pouco tempo, talvez meio ano. Depois a produção foi interrompida.

— Por quê?

— Recebemos de várias partes informações, nas quais o paradi­clorobenzol está sob suspeita de ser cancerígeno. Na sua utilização, as substâncias venenosas ficam ativas. — Hansen agora falava muito rapidamente. — Do último, nós sabíamos. Com a ajuda de modificações químicas impedimos desde o começo que essa substância ficasse ativa. Mas mesmo assim interrompemos a produção — de livre decisão, senhor procurador, de livre decisão.

— O que significa “livre decisão”?

— Falta até hoje a prova exata de que o paradiclorobenzol seja cancerígeno de fato. As pesquisas estão aí — e ainda vão durar anos. Não queríamos ter nenhum tipo de prejuízo. Nenhum tipo de prejuízo.

— Nesse meio-tempo o Ministério Federal de Saúde proibiu o paradiclorobenzol.

— Em 1988, senhor procurador — disse Hansen, sibilando suavemente. — Paramos com a produção já em 1985. Deixe-me acrescentar que produtos com paradiclorobenzol não são proibidos em muitos países. As determinações alemãs se caracterizam por uma particular cautela e rigor.

O estenógrafo trabalhava silenciosamente na sua pequena máquina. Jakob Horn era um homem triste. Ele amava sua mulher, e sua mulher sofria de esclerose múltipla, que estava tão avançada, que ela só podia se movimentar em cadeira de rodas, devia ser levada para a cama, carregada da cama, lavada, cuidada, vestida, despida. Todas as noites depois do trabalho, todos os fins de semana, todo feriado, toda hora livre, Jakob Horn passava ao lado de sua mulher. O médico lhe havia dito que a doença atingiria o aparelho respiratório de sua mulher no decorrer do próximo ano, o que significa morte por asfixia. Há alguns minutos que Jakob Horn novamente pensava que ele deveria então morar sozinho no grande, cinza e velho apartamento.

— Senhor Hansen, o senhor disse que interrompeu a produção pouco tempo depois.

— Foi assim, senhor procurador.

— O senhor nunca forneceu produtos de paradiclorobenzol para outros países, especialmente para os do Terceiro Mundo?

— Nunca.

— A doutora Valerie Roth e Peter Bolling o denunciaram quatro vezes e afirmaram que o senhor fornecia para outros países, especialmente aqueles do Terceiro Mundo.

— Venci — e o senhor sabe disso, senhor procurador — todos os quatro processos. Não se achou nenhum fundamento, nem muito menos uma prova para tal afirmação.

Ritt folheou o seu auto. — Por último o senhor foi denunciado pelo mesmo motivo pelo doutor Markus Marvin.

— Também aí fui absolvido, como o senhor sabe.

Ritt se levantou. — Por que o senhor está sob proteção pessoal, senhor Hansen?

— Porque o senhor fez questão disso. — Palavras como “questão” elevaram o baixo sibilar e também a quantidade das finas gotas de saliva. O homem afeminado olhou para Ritt, irritado. — Por que esta pergunta? Eu disse que não queria nenhuma proteção pessoal, acho isso desnecessário, ridículo e uma maçada — mas o senhor fez questão, com a justificativa de que eu teria recebido muitas cartas ameaçadoras e ameaças de morte, depois que foram divulgadas notícias sobre os meus supostos fornecimentos para o Terceiro Mundo.

— Senhor Hansen — disse Ritt —, eu nunca pedi proteção pessoal para o senhor.

— O senhor nunca...

— Nunca. — Ritt olhou para Horn. — O senhor pode acompanhar?

— Sim, senhor procurador — disse o pálido homem em seu aparelho, cujas teclas ele movimentava silenciosamente. Até quase o aparelho respiratório, pensou ele.

— Sim, mas sou vigiado dia e noite! Ninguém pode entrar neste quarto sem ser revistado — até mesmo a minha mulher não pode!

— Até mesmo eu e o senhor Horn — disse Ritt.

— Mas sob as ordens de quem? Quer dizer... Se o senhor não deu a ordem, quem o fez? E por quê?

— Para proteger o senhor, senhor Hansen. Tais ameaças de morte são levadas muito a sério.

— Sim, mas seja lá quem tenha sido, precisaria ter entrado em contato com o senhor. — Os doces olhos de moça se abriram inquietamente. — O que dizem os funcionários lá fora?

— Que eu dei a ordem.

— Mas isso é uma imbecilidade. — Sibilos.

— Não acho que seja uma imbecilidade, senhor Hansen — disse Ritt. — Com certeza tudo tem o seu lado correto — acrescentou ele, enquanto pensava que aqui nem tudo tinha o seu lado correto. Ele não queria que Hansen notasse como ele estava indignado. Talvez ele realmente tivesse um inocente diante dele. Ou então as aparên­cias enganavam, e Hansen sabia muito mais do que disse — então ele não mostrou o seu lado fraco. Ritt disse: — Pecador do meio ambiente. Criminoso ecológico. Assim o senhor foi etiquetado na mídia, não foi? Sempre há catástrofes ecológicas: Quase-PGAs, terra envenenada, água envenenada, ar envenenado. Muita gente está cheia de dúvida. É certo que há psicopatas entre eles. A sua proteção tem uma razão de ser, senhor Hansen.

— Uma das conseqüências do espírito da época — disse Hansen, atencioso e escorregadio.

— O que o senhor quer dizer com o espírito da época?

— Veja bem, senhor procurador, sobre o que é que as pessoas hoje ouvem mais? De efeito-estufa, buraco na camada de ozônio, catástrofe climática 24 horas por dia elas ouvem sobre isso. Mas também acontece muita coisa. Em todos os continentes, gente e natureza são castigadas por secas, enchentes, inundações, safras malsucedidas, fome. — O rosto de Hansen se avermelhara, ele falava mais alto. — 25 milhões de “refugiados ecológicos” já são contados hoje apenas em Bangladesh e Sudão, li hoje cedo. — Ele olhou para a sua mesa-de-cabeceira, onde havia jornais e revistas. — E isso porque enchentes, por causa das mudanças climáticas, tomam extensões catastróficas. Assim eu li.

— O senhor acentuou as últimas palavras. Isto não está certo? É isto o que o senhor chama de “espírito da época”, senhor Hansen? Algo como a vontade do declínio? Entendo-o bem? — Ritt havia ficado em pé, ao lado da cama. Quem é este homem realmente? pensou ele. O que ele pensa realmente?

— O senhor só me entende em parte — disse Hansen, ameno. — Permito-me a pergunta, se o clima pode “colapsar” ou se deixa “matar”, como hoje gostam de dizer, ou se no Sudão ou Bangladesh sempre houve, periodicamente, enchentes e se mudanças demográficas e políticas são causas mais importantes para o lamentável destino dos 25 milhões de “refugiados ecológicos” que justamente o clima. É de certa forma, perdão, grotesco constantemente receber apresentados cenários precisos (duas palavras graves para ele) de catástrofes climáticas que devem ocorrer em certas regiões em 40 ou 50 anos, embora o cotidiano ensine que os meteorologistas hoje não podem acertar nenhuma previsão que tenha mais de dez dias de duração.

— Isso significa então que o senhor não acredita nesses perigos...

— Por favor, deixe-me acabar de falar, senhor procurador! É tudo muito mais complicado do que como é tratado na mídia. Muito mais complicado. Acho que estou há tempo suficiente nessa profissão a ponto de poder dar uma opinião. Naturalmente existem perigos que hoje são pintados gigantescamente. A chamada ciência oficial perdeu no passado muita credibilidade, muito certamente, ela inocentou problemas não bem vistos, sim, senhor! Porém...

— Porém já há alguns anos sempre mais pesquisadores e um sem-número de seus discípulos que não têm nada com a pesquisa nem nunca tiveram acham que eles deveriam abandonar sua torre de marfim para salvar a natureza e a humanidade. Alguns recomendam invenções benéficas para a solução dos mais gra­ves problemas — a energia solar, não é, meios contra a AIDS e o câncer, vacinas para as focas doentes, adubo para a floresta doente —, os outros previnem contra o declínio do mundo através de venenos no meio ambiente, contaminação dos rios e mares, do ar e da terra, através de extinção de espécimes, buraco na camada de ozônio ou mesmo colapso climático.

A porta se abriu, entrou o idoso e grisalho Dr. Heidenreich. — Sinto muito, senhor procurador, os 15 minutos já se esgotaram há muito. O senhor Hansen precisa de cuidados e calma. Sou responsável pelo seu estado. Por favor, vá agora!

— Não! — quase gritou Hansen.

Todos o olharam surpresos.

— Mas... — começou o médico.

— Doutor, por favor, deixe-me chegar ao fim sobre o que eu justamente explico ao senhor procurador. É importante... É muito importante para um homem como ele que entenda as relações reais. Sinto-me muito bem. Mais 15 minutos — sob minha responsabilidade, doutor!

O médico levantou os ombros.

— É a sua saúde — disse ele. — Em dez minutos deve-se terminar, definitivamente. — Ele deixou o quarto, irritado.

— Uma merda (péssima palavra para ele) eles fazem comigo... — Hansen balançou a cabeça. Agora ele estava muito irritado. — Ainda preciso lhe explicar, senhor procurador! Sou um dos implicados. Estive diante do tribunal. Denunciado pela Dra. Roth, pelo Dr. Marvin e por Bolling. Absolvido todas as vezes, sim. Inocente, com certeza. Mas um criminoso ecológico para a mídia. Um bom prato para o espírito da época. Estive diante do tribunal: semper aliquid haeret. Sempre restam dúvidas, não é? De volta para o espírito da época! Não são apenas os cientistas “alternativos” nos eco-institutos que cultivam esse espírito da época com pose de salvador e apelos de Cassandra. Também diretores de universidade e institutos caminham para essa onda. Em parte por convicção, em parte porque traz simpatias. Sobretudo porque... — Ele levantou a voz suplicante, e Ritt pensou se este homem realmente não era íntegro e uma vítima e Marvin, ao contrário, um fanático que foi de um extremo (idolatrar a energia nuclear) para o outro (lutar pela sobrevivência da humanidade) como um caráter frágil (para utilizar uma palavra inofensiva). Ou, pensou Ritt, alguma coisa acontece aqui, sobre a minha cabeça, da qual não faço idéia, a qual não posso imaginar? — Mas sobretudo — repetiu Hansen — porque se falou que apenas com a possibilidade da solução de um importante problema — e naturalmente estamos diante de problemas enormes — são liberadas quantias milionárias para a pesquisa. — Aqui ele se virou gemendo para o lado e pegou uma revista do monte de jornais na mesa-de-cabeceira. — O Jornal alemão de médicos, a mais nova edição, página um, escreve “...que a AIDS, numa área totalmente diferente, é uma bênção — entre aspas — macabra: só depois da AIDS existe a pesquisa de vírus altamente subvenciona­da”. — Hansen deixou cair o jornal no lençol. — O senhor vê, procurador. Somente através da morte das florestas a esquecida silvicultura passou a ter significado. Doenças em algas e morte de focas deram à pesquisa marítima ventos ascendentes nunca ima­ginados. Buraco na camada de ozônio e efeito-estufa despertaram a pesquisa da atmosfera e a climatologia com quantias bilionárias de seu sono profundo.

— Tanto melhor!

— Também acho, senhor procurador. Só não acho quando grupos ecológicos, políticos, jornalistas e cientistas, aos quais está sujeito este mundo, usam esses perigos em benefício próprio. Não acho quando alguns, cinicamente, anseiam o próximo acidente, porque finalmente então “algo se mexeria politicamente”. Nem todos, senhor procurador, nem todos que se dizem salvadores e protetores têm verdadeiros motivos. Já era tempo de analisar essa gente com olho crítico...

— O senhor precisa se acalmar — disse Ritt, que constatou irritado que Hansen ficou excitado até arquejar, que seu rosto esfolado ficou vermelho-escuro.

— Preciso me acalmar? Preciso me irritar! — Hansen disse. — O senhor, naturalmente, sabe quem é Paul Watzlawick.

— O conhecido psicoterapeuta austríaco que trabalha nos Esta­dos Unidos. Conheço seus livros.

— Pois bem, li numa revista de informações austríaca uma entrevista com Watzlawick.8 Ele fala sobre esse estranho fenôme­no: a situação das pessoas na Europa Ocidental, pelo menos aqui, hoje, é melhor do que nunca. Ninguém tem fome, não é? A segurança social mantém quase todos. E mesmo assim muitos não estão felizes, estão deprimidos, estão em clima de fim dos tempos. O que está acontecendo?, pergunta o entrevistador. E Watzlawick responde: “George Orwell, o autor de 1984, explicou muito bem em seu ensaio, no qual escreveu: ‘Pessoas de barriga vazia não se desesperam com o universo. Elas nem pensam nisso.’” Em 1946, disse Watzlawick, ele trabalhava na bombardeada Trieste nas inspeções policiais. Faltava tudo, e eles registraram 14 suicídios por ano. Nos anos 50, quando a maioria das pessoas voltou a ter novamente trabalho, moradia e o que comer, a taxa de suicídios aumentou: 12 por mês. Isto, disse Watzlawick, fazia-o refletir muito.

— E como ele interpretou isso? — De repente a conversa fascinou Ritt.

— O homem está mal preparado para viver em condições relativamente seguras, diz ele.

— Minha mãe contava que as igrejas nunca estiveram tão cheias como logo depois da guerra, na miséria, em meio a ruínas, fome e frio — disse Ritt, cada vez mais pensativo.

— Veja, senhor procurador. Watzlawick diz nessa entrevista mais ou menos o seguinte: os grandes exemplos são importantes quando há o perigo. Quando há por toda a parte morte e destruição, o homem vive mais em função da existência e, por isso, irá procurar uma crença ou quaisquer outras convicções, que o fazem capaz de resistir. O entrevistador perguntou: “Poderia se afirmar então que o fato de nossa existência estar tão bem assegurada nos faz ter menos crença que antigamente?” E Watzlawick respondeu: “Poderia se afirmar isso.”

— Um prognóstico nada bom — disse Ritt.

— De fato, não é. Antes do ano 2000, disse Watzlawick, e antes de sua aproximação ainda vão acontecer algumas coisas. Pode-se fazer já comparações, diz ele, com o ano 999, do qual temos notícia de uma histeria sem precedentes. Naquele tempo, diz Watzlawick, não havia buraco na camada de ozônio, chuvas ácidas, AIDS. Mesmo assim, o fim do mundo foi profetizado e o desapa­recimento da Terra em fogo e peste. E agora ouça, senhor procura­dor, isso diz Watzlawick ao pé da letra: “Como representante de um grupo que é da opinião que nós mesmos construímos nossa realida­de, eu me sinto certo. Pois a loucura de 999 não deixou rastros naqueles países que não faziam uso da cronologia cristã. Para eles aquela era uma data completamente normal.” — Hansen sorriu: — Grande, não é?

— Grande — disse o procurador, que agora olhava para Hansen constantemente. — E por que o senhor retirou a denúncia contra Markus Marvin, que o espancou de tal maneira?

Hansen não titubeou nem um segundo com a resposta: — Ele é um velho amigo meu.

— Um amigo?

— Sim. Há mais de 25 anos. Estudamos juntos; eu, Química; ele, Física. Nós praticamente éramos inseparáveis, até que Markus mudou completamente — o senhor sabe, até bem pouco tempo ele era da inspeção no Ministério do Meio Ambiente em Hessen e abruptamente então se tornou — deve-se dizer sob a influência do espírito da época — um homem com mania de perseguição. Virou paranóico, deve-se também dizer, infelizmente. Todas as fábricas químicas e farmacêuticas são, de acordo com a sua loucura, dirigidas por criminosos que destroem este mundo. Ele, de repente, desenvol­veu um ódio, sim, um puro ódio também por mim — especialmente por mim, naturalmente porque eu estava mais próximo dele. — A voz de Hansen ficou tão baixa que Ritt quase não entendeu as palavras seguintes: — Isto é trágico. Assim se destrói a amizade, o que há de mais sagrado. O senhor também não o teria perdoado nessas condições, senhor procurador? O senhor não teria retirado a denúncia?

— Isto tudo não é a verdade — disse uma voz feminina.

Ritt e Hansen olharam para a porta. Sem que os dois tivessem notado, uma mulher de mais ou menos 40 anos havia entrado.

— Oh, Elisa — disse Hansen.

— Hilmar, querido! — A mulher vestia um vestido de verão de tecido cor de creme, trazia uma dúzia de rosas vermelhas na mão. Ela era grande e tinha ombros largos, quadris estreitos e longas e belas pernas. Seu cabelo estava cortado no estilo pajem. Ela tinha uma grande e carnuda boca e olhos castanhos. A mulher usava luvas brancas; se aproximou da cama e beijou Hansen na boca.

— Elisa — disse Hansen, quando ela se ergueu —, este é o procurador Ritt e este é o estenógrafo, senhor... Esqueci o nome.

— Horn — disse Ritt.

— Horn — disse Hansen.

Horn não disse nada.

— Eu sei, querido — disse a mulher.

— Como? Perdão, senhor procurador, senhor Horn, esta é a minha mulher Elisa.

— Muito prazer — disse Ritt.

Horn não disse nada.

— Os funcionários criminais lá fora me disseram — disse Elisa a Hansen.

— E o que é que não é verdade? — Ritt perguntou.

— O que o meu marido deu como motivo para ter retirado a denúncia contra Markus, contra o senhor Markus Marvin.

— Elisa, por favor — disse Hansen, fraco.

— Deixe-me! — ela disse. — O senhor Ritt vai descobrir de qualquer forma.

— Qual foi então o motivo, prezada senhora? — ele perguntou.

— Hilmar retirou a denúncia porque pedi isso para ele — disse ela.

— E por que a senhora pediu isso para ele?

— Markus Marvin foi casado comigo durante nove anos — disse ela.

— Ele foi... — Ritt se calou, atônito.

— Meu marido. Durante nove anos. Temos uma filha — Susanne. O senhor talvez saiba que Susanne também abandonou o seu pai.

— Isto eu sei. Mas por que...

— Eu lhe explico, senhor procurador, eu lhe explico.

Elisa Hansen era extraordinariamente enérgica. — Abandonei Markus há 11 anos. Isto ele nunca me perdoou. E nunca perdoou Hilmar por ter-me casado com ele.

— Elisa — disse Hansen, extremamente incomodado.

— Querido, por favor — disse ela. — Esse ataque ao meu marido, senhor procurador, não tem outro motivo, nem o menor possível, que o enorme ciúme de meu ex-marido, Markus Marvin.

A porta se abriu, o Dr. Heidenreich entrou no quarto.

— Senhor procurador...

Ritt se levantou.

— Desculpe-me. Nós já vamos. — Ele fez um sinal para Horn, que em seguida fechou seu aparelho de estenotipia. Ritt olhou para Elisa Hansen. — Mas nós precisamos conversar, prezada senhora.

— A qualquer momento — disse ela, e agora os seus olhos brilharam. — Quando o senhor quiser. Estou à sua disposição.

 

 

No carro oficial, que os havia trazido para o hospital civil e agora os levava de volta para o tribunal, o motorista havia ligado o rádio. Era justamente o noticiário quando Ritt e Horn entraram.

— ...Pela primeira vez várias inspeções do meio ambiente deram hoje cedo alarme de ozônio — disse a voz de um locutor.9 — Sobretudo crianças, pessoas idosas, atletas e asmáticos estão prejudi­cados. Estes grupos de risco são prevenidos para todo tipo de esforço. O SPD exigiu uma proibição de tráfego para todos os carros sem catalisador...

O motorista guiava o carro cautelosamente através do grande trânsito. No rádio, uma entrevista curta com o especialista de ar da inspeção berlinense do meio ambiente, Dr. Manfred Breitenkamp.

Uma voz de repórter perguntou: — De onde vem esse ozônio, Dr. Breitenkamp? — A voz de Breitenkamp: — Nestes dias de calor extremo ele tem a sua origem no trânsito de automóveis. Ao se pôr gasolina, é liberado hidrogênio carburado. Este se mistura, simplificando a coisa, a óxidos nítricos dos gases de escape dos automó­veis. Com a irradiação solar intensiva, surge daí, novamente simpli­ficando, o ozônio. O gás tem o cheiro levemente doce. A palavra ozônio vem do grego e quer dizer “o que cheira”. — Voz de repórter: — Mas como combina a nova preocupação com o muito ozônio através dos automóveis e o calor com a preocupação com o pouco ozônio através do buraco de ozônio? — A voz de Breitenkamp: — Chamamos as duas mais baixas camadas da atmosfera do ar de troposfera — ela vai de zero a 15 quilômetros de altura — e a de cima é a estratosfera — vai de 15 a 60 quilômetros de altura. Lá em cima, na estratosfera, só então o ozônio toma possível a vida na Terra: ele protege pessoas, animais e plantas de raios solares cancerígenos. Lá apareceu o fatal buraco de ozônio que ameaça nossa Terra. Na troposfera, ao contrário, ozônio demais é prejudi­cial. Ele mata bactérias, germes, vírus e plantas na Terra. Também provavelmente leva à extinção das florestas. Em pessoas e mamífe­ros, ele leva a uma irritação nos canais respiratórios e causará nos casos graves através de desmaios e sangramentos nasais, edemas pulmonares fatais. Como proteção e antídoto os médicos recomen­dam vitamina E, que é encontrada em cápsulas.

O motorista precisou parar. Na rua entupida, o trânsito chegou a parar.

A voz do locutor do noticiário foi ouvida novamente: — Com relação a isto chega a mim agora mesmo uma outra notícia. Dois deputados da CDU/CSU protestaram com indignação contra o alarme de ozônio e exigiram a demissão dos responsáveis. Eles caracterizaram a ação de “puro terrorismo” e pediram um aumento dos valores máximos permitidos por metro cúbico... União Sovié­tica: na sua edição de hoje, o jornal do governo Izvestia noticia uma praga de ratos e ratazanas de milhares de cabeças na região da usina nuclear de Chernobyl, que explodiu em 1986. Os animais são três vezes maiores que o tamanho normal e são extremamente agressi­vos. Da mesma forma se desenvolvem naquela região árvores, que secaram depois da catástrofe, em plantações gigantescas. As folhas de choupo têm até 18 centímetros e os botões de muitas espécies de árvores se abriram fora do seu tempo...

O estenógrafo Horn estava imóvel no carro. Se Marie morrer, eu me mato, ele pensou.

 

 

Na rua do tribunal furadeiras vociferavam, máquinas gemiam. O ar estava cheio de poeira. O funcionário Franz Kulicke comia, quando Elmar Ritt entrou no hall no juízo de primeira instância.

— Muito bom dia, senhor procurador! É uma alegria aqui, não é? Sempre ativo, sempre de vento em popa! Ainda deve durar dois meses. — Ele falava muito alto, sua necessidade de comunicação era ininterrupta. — Temos alarme de ozônio, já ouviu, senhor procurador? Também pensam que podem fazer tudo conosco, não é? Uma vez muito pouco ozônio, outra, ozônio demais. Batatas para dentro, batatas para fora! Se um não vier logo se preocupar com o direito e a ordem...

Ritt havia desaparecido num canto de parede. Kulicke o procurou, ofendido. Ele voltou para a portaria no seu lugar preferido e disse para o funcionário atrás da janela de vidro: — Olhe só para esse, Gustav! Conde Koks do estabelecimento de gás! A gente é simpática e gentil e ele não diz nem um a. Belo comportamento, os finos senhores. Realmente. Isso são modos?

— Pode ser que você o irrite — disse o porteiro.

— Eu? Por quê?

— Com a sua eterna conversa mole. Sou seu amigo, Franz, você sabe. Mas às vezes sua conversa mole me enche. Além disso, você precisa entender que nem todos estão de acordo com o que você diz. Schönhuber não é Beckenbauer.

— Espere pra ver — disse Kulicke.

Elmar Ritt abriu a porta para o seu escritório e atravessou a sala de espera. Nisso ele notou que um envelope havia sido posto através da abertura da porta e estava no chão. Ele o abriu enquanto ia para a sua mesa e tirava a jaqueta. Como sempre, sentia muito calor. O papel que Ritt desdobrou tinha o cabeçário da Procuradoria-Geral no juízo de primeira instância.

 

29 de agosto de 1988

Senhor Procurador

Elmar Ritt

Caríssimo colega:

Venho através desta lhe informar que o andamento do caso Hilmar Hansen/Markus Marvin será, a partir de agora, encaminhado pelo Sr. Dr. Werner Schicksal. Os motivos ainda serão comunicados por mim.

Peço-lhe para que hoje, 29 de agosto de 1988, até no máximo 15 horas, passe ao Sr. Dr. Werner Schicksal todos os autos relativos ao caso e outros documentos e para informá-lo sobre a situação das averiguações.

Saudações cordiais,

— Nome assinado e carimbo —

Chefe da Procuradoria-Geral

 

Estou fora do caso Hansen, pensou Ritt. E fora do caso Marvin. Funcionou rápido. O que está acontecendo aqui? O que deve ser mascarado? Quem está sendo protegido? Por quem? Por quê?

Ausente, ele olhou para o seu relógio de pulso. Eram duas horas e três minutos. Elmar Ritt estava lá, imóvel. Ele pensou no seu pai.

 

No quarto de seu apartamento da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, Clarisse Gonzalos perguntou a Isabelle Delamare, desesperada: — O que devo fazer? O que devo fazer?

Isabelle pôs o braço em volta dos ombros dela e a levou lentamente para a cama. Elas se sentaram.

— Se é importante para você, se você deseja tanto essa criança, você deve tê-la — disse Isabelle.

— Não é! — Clarisse levantou a cabeça. — Eu apenas quis dizer: o que devo fazer para convencer o meu marido disso. Eu, eu estou totalmente decidida a ter o filho.

Isabelle balançou a cabeça e se calou.

— Uma interrupção da gravidez, senhora Delamare, pareceria com algo como uma resignação em todas as áreas, não é? Meu marido e eu, nós lutamos contra a destruição das florestas tropicais, contra a destruição do mundo. Se eu nego esse filho, se eu não ouso pô-lo neste mundo, então isto significa que no fundo, lá no fundo de mim, se formou a certeza absoluta de que todos os nossos esforços são em vão, que tudo já está perdido. Tenho razão?

— Tem toda a razão, senhora Gonzalos.

— Acho — disse Clarisse — que esse filho é muitíssimo importante — para o nosso casamento, para o nosso trabalho, para tudo, simplesmente.

— Certamente — disse Isabelle. — Você falará com o seu marido. Pode-se entender que ele, sob a impressão do choque diário, chegou à conclusão que não se pode mais pôr filhos neste mundo. Mas se você então falar com ele... se você der argumentos... tudo o que você acaba de me dizer... Ele talvez precisará de um tempo para se acostumar à situação... para mudar a sua opinião... Mas estou certa de que ele a mudará. Em que tempos terríveis já nasceram crianças! Durante a peste, a cólera, em guerras, em bombardeios. E mesmo assim cresceram...

— Eu a conheço há apenas algumas horas — disse Clarisse —, mas tive uma simpatia tão imediata por você, que quis desabafar. Muito obrigada!

— Não — disse Isabelle —, não me agradeça! Sou eu que fico feliz com a sua confiança... Cada um de nós está freqüentemente sozinho e precisa do outro. Tudo vai terminar bem. — Ela sorriu. — Afinal, o bluebird disse que ele voltaria na primavera e cantaria.

— Não entendo...

— Robert Frost — disse Isabelle —, ele é...

— ...um dos maiores poetas dos Estados Unidos, eu sei — disse Clarisse. — Na tradução para o português há, infelizmente, apenas uma seleção de poemas.

— Para o francês também — disse Isabelle. — Não posso dizer de que poema mais gosto entre os muitos. Certamente aquele do bluebird, contado para uma criança.

— O que é o bluebird?. O pássaro azul?

— O pássaro azul — repetiu Isabelle. — Como espécime, ele só existe nos Estados Unidos, ele é um mensageiro da primavera. Em Robert Frost, ele significa mais, muito mais do que um espécime.

— Não entendo...

— Espere — disse Isabelle. — Espere, Clarisse. Eu explico... Primeiro quero tentar traduzir o poema, para que você possa contar a seu marido... sobre isso e mais alguma coisa... Então: The Last Word of a Bluebird... As I went out a crow in a low voice said: Oh, I was looking for you. How do you do?... Quando fui para o ar livre, uma gralha me disse baixinho: “Oh, eu já lhe procurava. Tudo bem?”... I just came to tell you... Eu vim lhe contar que você deve contar a Leslie — não se esqueça! — que o seu pássaro azul me pediu para lhe comunicar sem falta: o vento norte hoje à noite, que fez as estrelas tão claras... that made the stars bright... e deixou congelar sorvete no algeroz... almost made him cough... levou-o a tossir tanto, que ele quase perdeu a sua cauda...

Clarisse olhava séria para Isabelle, que também estava séria, enquanto tentava traduzir as linhas do grande poeta dirigidas a uma criança.

— ...He just had to fly... Ele precisava simplesmente voar... Mas ele manda saudações a Leslie, e ela deve ser boazinha... and wear her red hood... e usar seu gorro vermelho... e procurar na neve o rastro do zorilho... e fazer tudo o que lhe der alegria... And perhaps in the spring he would come back and sing... E talvez na primavera... o pássaro azul volte e cante...

— Bonito — disse Clarisse.

— Não é?

— Qual é o pássaro no seu país que é símbolo do começo da primavera, do novo dia, da alegria e da esperança?

— A cotovia.

— Aqui também.

— Na Alemanha e na Inglaterra também. Toda pessoa no mundo deseja para si alegria, esperança, futuro. Mas apenas se ele procura tudo isto e quer que todos participem, então ele a encontra, a cotovia... E ela o faz e a todos os outros felizes e confiantes. Você, Clarisse, e seu marido e tantos outros procuram com o seu trabalho a cotovia, este pássaro matinal... E vocês o presenteiam a todos... Enquanto as pessoas procurarem e presentearem aquilo que encontram, a cotovia sempre voltará na primavera e cantará...

— Sim — disse Clarisse —, mas o pássaro azul de Frost manda dizer a Leslie que ele talvez virá e cantará na primavera. Talvez...

Isabelle balançou a cabeça. — Se as pessoas — diz ela — não procuram mais a cotovia porque agem irresponsavelmente, então ela realmente um dia, na primavera, cantará pela última vez para elas...

— Oh! — Clarisse olhou para Isabelle.

— O que é?

— Com o seu filme, vocês querem fazer as pessoas despertarem, fazê-las atentas para o perigo, no qual elas se encontram!

— Com certeza...

— Este não seria um bom título para a série?

— Um bom título?

— Sim — disse Clarisse. — “Na primavera, o último canto da cotovia.”

 

 

Quando todas as estórias forem contadas, as grandes e as trági­cas, as melodramáticas e as grotescas, quando forem contados todos os acontecimentos desta Terra em vacilante declínio, na cronologia cristã no fim do segundo milênio, então se irá lembrar — caso sobrevivamos — as histórias e destinos daquelas pessoas que um dia salvaram nosso mundo.

Uma conversa telefônica.

— Dr. Marvin?

— Sim. O que é, maldição?

— Aqui quem fala é Miriam Goldstein, de Lübeck.

— Quem?

— Miriam Goldstein.

— Miriam Goldstein... Oh!... Desculpe-me, estava dormindo. Acho mesmo que profundamente... Que horas... Cinco e meia da manhã... Que bom ouvir sua voz, querida Dra. Goldstein!

— Sei que é impertinente de minha parte ligar a esta hora, senhor Marvin. Desculpe-me, por favor! Aqui já são dez e meia... Cinco horas de diferença... Não telefonaria se não fosse urgente...

— Por favor, fale! Desculpe a minha confusão... Agora já acordei de vez. E então?

— O senhor ainda se lembra de que Joschka Zinner, aquele louco produtor de filmes, apareceu aqui repentinamente no Frankfurter Hof?

— Repentina e inesperadamente, não foi?

— É verdade. De repente tanto dinheiro! A pressa para que fôssemos logo para rodar o filme. Foi mesmo estranho...

— Muito estranho, sim, senhor Marvin. A propósito, falo de uma cabine no correio. Não sei se o meu telefone está limpo. Talvez esteja sendo censurado.

— O que aconteceu, Dra. Goldstein?

— O procurador Elmar Ritt — lembra-se? — me telefonou. De uma cabine telefônica. E disse que eu deveria ir a uma agência de correio, para onde poderia me telefonar.

— Ritt lhe telefonou? Por quê?

— Ele foi afastado do caso Marvin/Hansen.

— Mas por quê?

— Sim, por quê? Ritt telefonou para o Ministério da Justiça de Hessen. Exigiu uma explicação.

— E não recebeu a explicação, não é?

— Não. Sentou-se em seu carro. Foi para Wiesbaden. Fez confusão no ministério. Segundo foi dito, justamente aqueles que sabem por que lhe tiraram o caso, haviam viajado. Então ele telefonou a Valerie Roth e a mim e pediu ajuda. A Dra. Roth tem as suas relações. E eu vou conversar com a senhora Hansen. Ninguém pode me proibir. Telefonarei para ela, porque provavelmente aí também há algo de errado. O senhor ainda não notou nada?

— Não, nada. Depois de amanhã voaremos para Belém e de lá para um congresso de protesto de índios em Altamira. O congresso vai durar cinco dias. Ficarei com os olhos e os ouvidos bem abertos. Obrigado pela notícia, Dra. Goldstein! E muita sor... Não, espere, sei a palavra: masseltoff! Masseltoff, Dra. Goldstein!

— Masseltoff também para o senhor, Marvin.

 

 

— Foi um trabalho muito difícil — disse o físico Carlos Bastos. — Meu colega Érico Veleso e eu dia e noite atrás dos monitores. Alternando. Em turnos de 12 horas. Sobre nós, numa altura de 830 quilômetros, voavam os satélites de tempo NOAA9 e 10 a cada 102 minutos sobre o continente sul-americano e mandavam para mim e Érico as provas para esta catástrofe, nos nossos monitores.

A BETA de Bernd Ekland estava presa num tripé. Na manhã do dia 30 de agosto de 1988, uma terça-feira, a equipe filmava no Centro de Estatística do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais. O enorme e muito bem iluminado laboratório dos físicos Bastos e Veleso tinha lugar para dezenas de computadores, complicados aparelhos e um sem-número de imagens de computador bem ampliadas, que cobriam todas as paredes. Os dois cientistas estavam diante de uma parede dessas. Ao lado deles estava Markus Marvin, para quem Bastos havia falado.

A técnica Katja Raal, com olhos quase sempre alegres e a pele do rosto destruída pela acne, teve muito o que fazer antes do começo da entrevista com os preparativos de todos os que participavam da conversa. Bastos e Veleso tinham pequenos microfones nas casas de botão mais altas de seus casacos brancos de laboratório, Marvin tinha um microfone daqueles na gola aberta de sua camisa de verão. Embaixo dos casacos de laboratório, camisas de verão e através das pernas da calça dos três homens saíam os fios, que passavam pelos sapatos e iam pelo chão de pedra até os aparelhos de gravação de Katja.

Um pouco distante, numa sala ao lado, estava Isabelle numa mesa de laboratório. Ela também foi preparada com os fios pela pequena Katja que, apesar das preocupações, se mantinha alegre. Isabelle segurava um microfone manual, e na sua orelha direita havia um botão prateado, do qual saía um longo fio. Marvin e os dois físicos tinham também os tais botões. O porquê dessa ligação: graças aos botões na orelha, Bastos, Veleso e o alemão ouviam a voz de Isabelle, a qual traduzia o que era falado simultaneamente para o português ou alemão. Desta maneira a entrevista podia correr sem problemas. Os aparelhos de Katja gravavam as vozes originais e a tradução de Isabelle. Mais tarde, no estúdio, a voz de Isabelle seria substituída por uma locutora profissional e posta mais alto que as vozes dos brasileiros.

O físico Veleso disse: — Nós revistamos nossa região em retículos de um quilômetro cada vez. Queria-se descobrir exata­mente e pela primeira vez que proporções já havia tomado a destruição da floresta amazônica através do fogo e do desmatamento. Tentávamos diariamente adicionar os dados dos satélites às imagens do computador. — Ele pegou uma vara e mostrou o início da série de imagens atrás de si. — Isto, por exemplo, foi em 1987, no começo da seca que dura três meses...

— Pare! — disse Markus Marvin.

— Como? — Veleso perguntou, depois que a tradução de Isabelle soou no seu ouvido. — Por que parar?

— Não pode ser com a BETA no tripé — disse Marvin. — Bernd, você precisa ter completa liberdade de movimentos. Não podemos simplesmente virar estas paredes.

— Claro que não — disse o cameraman.

Katja Raal já abria os fechos do tripé. Cuidadosamente ela ajudou Ekland, quando este levantou a BETA no ombro direito. Ela cochichou: — Dói?

— Hoje está ótimo — cochichou Ekland.

No rosto destruído de Katja mostrou-se a maior alegria. Ela foi até a sua mala de som e olhou as escalas. — Tudo OK aqui — disse ela.

A câmera rodava novamente.

— Por favor, doutor Veleso!

Este começou mais uma vez: — Isto, por exemplo — ele mostrou com a sua vara uma série de imagens de computador muito ampliadas —, foi em julho de 1987, no começo da seca que dura três meses. O prejuízo ainda estava nos limites... Trata-se de uma parte da região muito pequena do espaço imenso da bacia Amazônica... Os pontos negros nas imagens são focos de fogo... No começo de julho de 1987 os NOAA9 e 10 registraram apenas 752 desses focos de fogo... — Veleso mostrou lentamente a série de imagens. Ekland o seguiu, calmo, sem hesitar nem tremer, como se a câmera rolasse em trilhos. Foi bom ter tomado mais dois comprimidos hoje cedo, pensou ele. Os olhos de Katja o acompa­nharam sem cessar com uma expressão de amor ilimitado e admi­ração.

— Mas já no dia 14 de agosto — disse Veleso, levando a vara sobre as imagens — eram 6.949 focos de fogo... Imaginem! Mais de dez mil pontos... aqui... aqui... aqui... não se podem contar. Dez mil pontos que eram focos de fogo. O fogo avançava monstruosamen­te... — Sempre outras imagens, nas quais apareciam pretas as áreas queimadas, Ekland filmava. De imagem para imagem a parte norte do Brasil escurecia.

— Esse fogo — disse agora Carlos Bastos, e a câmera virou da parede para ele — deixou a maior nuvem de fumaça já obser­vada... — Bastos mostrou numa outra parede. — São fotos feitas do avião... — Lentamente Ekland se virou, a câmera sobre os seus ombros girou, lenta, tão lenta. — Terrível, não? — Bastos perguntou. — Temos aqui um ecologista muito conhecido, Chico Mendes. Recebeu condecorações e homenagens da ONU pelo seu trabalho... Um seringueiro do Norte... Chico Mendes voou sobre a região e disse: — “É o apocalipse.” — Disse também: — “Para onde eu olhava, árvores fumaçavam como chaminés, a floresta... sim, o que aconteceu com a floresta?” — disse Mendes. — “Ela foi cozida, assada, fervida. Atrás da fumaça o céu desapa­recera, durante noites a fio não havia estrelas, a lua... Agimos” — disse Chico — “como se fôssemos a última geração na face da Terra, e depois de nós vem o dilúvio, o fim do mundo, o apocalipse, sim, o apocalipse...” O piloto que voou com Chico Mendes disse que teve a impressão que todo o Brasil ia pegar fogo... Os olhos de ambos lacrimejaram, até que não podiam mais ver quase nada. Depois de sua aterrissagem, a companhia aérea VASP teve que cortar 35 vôos só no Nordeste, porque muitas pistas estavam cobertas de nevoei­ro... Aqui, nesta foto, vejam, já há nevoeiro... — Ekland havia esquecido suas dores. Que imagens!, pensou ele. Meu Deus, que imagens!

Na sala ao lado Isabelle traduzia tudo no microfone manual. Naquele dia ela usava largas calças azuis de tecido muito leve, sandálias azuis e uma blusa azul amarrada abaixo do busto. Gilles estava sentado ao lado dela e gravava tudo. Ele precisava de todas as entrevistas para os textos que acompanhariam os filmes.

— ...Essa monstruosa nuvem de fumaça — Isabelle traduzia as palavras de Bastos — escondeu momentaneamente a vista sobre 1,5 milhão de quilômetros quadrados...

— Quanto? — Marvin perguntou, olhando para o físico, incrédulo.

— Quanto? — perguntou Isabelle através do botão na orelha.

Bastos repetiu: — 1,5 milhão de quilômetros quadrados. — Ele mostrou novos quadros: — E assim foi em outubro de 1987. — Preta, preta, preta estava a imensa região então em tantos, tantos pontos. — Aqui vocês têm a mensagem assustadora para a huma­nidade — disse Bastos, diretamente para a câmera. — A cada ano — a cada ano! — são destruídos mais 140 mil quilômetros quadra­dos das florestas tropicais primárias pelo desmatamento ou quei­madas.10 E uma área que corresponde à metade da Alemanha Federal, anualmente. A cada ano uma área como essa. Nunca — disse Bastos —, nunca eu e Érico pensamos que fosse tão terrível assim... — Ekland foi até bem próximo ao seu rosto e então deixou a câmera rodar lentamente sobre as paredes com as imagens do terror até Érico. Este disse: — Tais observações alarmantes fazem cientistas em quase todos os países tropicais, na Indonésia, na Tailândia, na Costa do Marfim, em Gana, Haiti ou Equador. — A câmera ainda se dirigia ao rosto de Veleso. — Se a dinâmica do processo de destruição não parar, a floresta na maioria dos países tropicais estará acabada no decorrer dos próximos 50 anos.11

— Na época da seca — disse então Bastos — as árvores são cortadas com serra elétrica, madeiras abatidas com bulldozers. As partes restantes das árvores queimam sob o sol, por último elas são iscas. No meio de agosto elas são postas no fogo, a fim de transformar a floresta morta em campos e pastos...

A BETA estava novamente no tripé.

— Queimada — disso Bastos — é uma antiga técnica de camponeses porque ela queima resíduos vegetais e através disso libera substâncias nutritivas que aumentam a fecundidade do solo adubado com cinza. Mas após poucos anos o solo fica rachado. O arado destrói a terra, o sol tropical a queima. O vento leva as migalhas, chuvas torrenciais arrastam tudo... — Ao lado, Isabelle traduzia. Pequenas gotas de suor na testa. — Só resta um deserto vermelho de areia e barro ferruginoso, e por último a terra aparenta, como Chico Mendes, este homem que luta há dez anos pelas florestas tropicais, descreveu, “como os ossos de um animal sem pele...”

— E quase em toda parte — completou Veleso — medidas econômicas ou políticas causam ou beneficiam esse processo de destruição.

— Por favor, explique isto melhor! — Marvin disse.

Veleso disse: — Primeiramente é a política de colonização interna do governo aqui no Brasil. Há um desejo de transferir milhões de pessoas miseráveis do Sul para o Norte. Esses milhões queimam aquilo que restou depois dos cortes das árvores. Fora da região florestal, eles não recebem terras. Então, o que devem fazer? No seu terreno queimado eles tentam criar o seu gado... Segundo: as florestas continuam a ser destruídas por inescrupulosas firmas madeireiras — em primeiro lugar os japoneses, então os alemães, e por fim os americanos. A necessidade de madeira nos países industrializados cresce a cada dia.

Na sala ao lado, Gilles enxugava com um lenço o suor na testa de Isabelle. Ela sorriu para ele. A tradução simultânea exigia muito esforço.

— Voltando à criação de gado — disse Bastos. — Havia lá um projeto que era favorecido por impostos menores, com cuja ajuda o Brasil deveria se tornar o maior exportador de carne do mundo. Com mais de um bilhão de dólares, nossos militares financiaram latifundiários e companhias internacionais na formação de fazendas de gado. Assim, a VW do Brasil também entrou no negócio. A fazenda Rio Cristalino, da VW do Brasil, uma área tão grande quanto Berlim, Hamburgo e Bremen juntas, foi paga em parte pelo Estado... Muitas outras companhias fizeram o mesmo — e depois desistiram do projeto, como a VW do Brasil.12

— Por quê? — Marvin perguntou.

— Veja, senhor Marvin — disse Veleso —, o crescimento de capim seco no solo árido alimenta apenas um boi por hectare e isso apenas por poucos anos. A produção de carne só alcançou 16% do planejado. A maioria das grandes fazendas, das quais cada uma recebeu em média 1,27 milhão de dólares de subvenção do Estado, anualmente, caíram tão logo a subvenção se esgotou. Por isso a VW do Brasil desistiu já em 1986.

— Mas — disse Bastos — porque o latifúndio, que antes foi desmatado, é beneficiado pelos impostos, os investidores fazem até com que a floresta entre em chamas, sem jamais ter entrado na criação de gado. Isto também fazem inúmeros parlamentares na capital, Brasília, eles mesmos proprietários de terras. Da especula­ção restam enormes regiões desertas, cujo solo é tão ruim, que a condição alimentar da população se agrava mais ainda.

— Sobre isso fala Chico Mendes sempre — disse Veleso. — Ele denuncia os criadores de gado de maneira geral. Eles afirmam que estão no negócio para ajudar os famintos do Brasil. O cinismo, diz Chico Mendes, fica por conta de que toda a carne é produzida para a exportação — para os hambúrgueres nas cadeias americanas desses produtos, por exemplo.

— Terceiro — disse Bastos —, os bancos e os políticos ambiciosos se entusiasmam, por exemplo, com gigantescas instalações industriais, represas e usinas nucleares, que fazem desaparecer as imensas florestas. De todo o mundo vêm bancos e sociedades que decidiram abrir os enormes jazigos de minérios nas regiões das florestas tropicais e pressionar, com o minério brasileiro, os preços no mercado mundial — e embolsar bilhões. Também através deles as florestas são destruídas... Meu amigo Érico Veleso citou, choca­do com os resultados de nossas pesquisas, todas as causas da destruição da floresta tropical numa revista de notícias — e também os destruidores. Só uma catástrofe atômica pode superar os efeitos globais dessa destruição, escreveu ele.

— Quem o senhor citou como destruidores? — Marvin olhou para Veleso.

— O governo brasileiro — disse ele —, o comércio internacional de madeira, o Banco Mundial, a CEE, a Deutsche Kreditanstalt für Wiederaufbau, os bancos particulares alemães e japoneses, que entraram no negócio dos minérios com quantias bilionárias. O senhor não lê jornais? A CEE se assegurou por 15 anos com um terço da produção anual de minério de ferro com preços de 1982. Somente a companhia Thyssen encomendou 8 milhões de tonela­das. O Banco Mundial quer dar ao Brasil um outro crédito de 500 milhões de dólares para o setor da energia. Os EUA — com 19 vozes na diretoria do Banco Mundial — provavelmente vão negar tal crédito. O seu representante, Hugh Foster, já denominou o primeiro crédito para a energia, por causa de suas conseqüências para o meio ambiente, de “loucura completa”. Assim, escreveu ele, cabe à Alemanha Federal, que tem 5% das ações do Banco Mundial, uma importância-chave na decisão. Ligados à discutível resposta afirmativa do Banco Mundial há ainda outros maiores créditos de bancos particulares da Alemanha Federal, Japão e EUA — uma quantia total de 1,7 bilhão de dólares! Com este dinheiro ainda deve ser pago o término das carvoarias nucleares Angra I e II, que a sua companhia elétrica Siemens constrói na parte ocidental do Rio de Janeiro. Se essas usinas se tornarem um fracasso de investimento, a Siemens poderia exigir do seu país indenizações de milhões como impostos, porque o governo alemão federal está ligado aos projetos através de finanças.13

— O seu ministro do meio ambiente — disse Bastos — lamentou, em janeiro deste ano, no parlamento, o destino do Brasil que, como ele disse, praticamente “não tem fornecimento do bom Deus de fontes de energia fósseis. Não se pode julgar o Brasil”, disse ele, “quando ele utiliza suas fontes hidráulicas e explora a energia atômica”... Mas nós poderíamos cobrir, com­parativamente, com baixos investimentos a metade de nossa necessidade de energia, se utilizássemos melhor as já existentes reservas de energia. Quem diz isso é um parecer de especialistas do Banco Mundial. O especialista do meio ambiente Rich disse, aliás, de maneira amarga, que o estudo poderia ter sido escrito na lua... Tudo isto — disse Bastos — estava nessa estória da revista, e mais, muito mais. Pois bem, em conseqüência disso...

— Pare com isso, Carlos! — Veleso disse.

— Por que devo parar?

— Porque... Por favor, desligue a câmera! — Veleso disse. — Acho que já temos o mais importante.

Ekland balançou a cabeça afirmativamente.

— Isso não precisa necessariamente estar no filme — disse Veleso.

— O quê? — Marvin perguntou, irritado. — De que falam os dois?

— É, meu amigo Érico Veleso trabalhou durante seis anos num livro sobre a destruição do meio ambiente e proteção do meio ambiente — um grande livro — disse Bastos. — O original já havia sido aceito por uma editora. Depois da estória na revista houve muita irritação nos jornais ligados ao governo, no rádio e na televisão, e depois disso os cachorros covardes da editora se cagaram nas calças e disseram que não iam publicar o livro.

— Mas há outros editores — disse Marvin. Ekland havia se sentado e massageava o braço direito. Katja, com seus olhos alegres, estava ao lado dele.

— Quando um se caga, todos se cagam — disse Veleso. — No seu país é a mesma coisa. No mundo inteiro é a mesma coisa. Um original que foi negado por uma editora — ah, nem estou ligando! Teria sido bom. Em todo caso, foram seis anos de trabalho. Há coisa pior.

O químico Peter Bolling havia entrado no laboratório. Foi apressado ao encontro de Markus, tirou os óculos e falou com ele.

Gilles perguntou baixinho a Isabelle: — Pode ouvir o que Bolling está dizendo? Ou Marvin?

Depois Gilles viu como Marvin tirou o pequeno microfone que estava preso à sua gola aberta, levantou um pé e tirou o aparelho com os fios através da perna da calça. Deixou tudo cair no chão e foi com Bolling a um canto do laboratório.

— Que azar — disse Gilles.

— O que é? O que tem?

— Nada — disse Gilles. — Eu... bem... Eu tive uma idéia completamente idiota. Esqueça, por favor! — Ele sorriu.

Num canto Peter Bolling ainda falava com Markus Marvin.

 

Quarta-feira, 30 de agosto de 1988: G. quer ir jantar comigo. Amanhã voaremos para Belém, então até Altamira pela floresta. Quem sabe o que nos espera por lá; cobras e lagartos serão os nossos alimentos. Se agüentaremos? A última refeição. Do que eu gostaria? — De algo tipicamente brasileiro. Imedi­atamente ele deu cinco propostas de cardápio. Ficamos com os abacates, cortados como salada. Sim, é bem diferente de seus abacates com sauce vinaigrette ou sauce provençale, minha querida! Depois camarão com catupiri, camarões gigantes com queijo, mas que queijo, a especialidade brasileira, algo assim não há em lugar nenhum do mundo! E como sobremesa, ameixas com doce-de-coco, isto é, como é feito aqui, uma coisa com a qual você vai sonhar a vida inteira, ma belle! Só de falar de boa comida já me conquista. Você é um gourmet, diz ele, confesse! Certamente também cozinha com amor. — Sim. — Por favor. Como cidadã de um país cuja enorme cultura já se manifesta no fato de que tem 400 tipos de queijo (mesmo que não tenha o catupiri), é meu dever patrió­tico ir jantar com ele. Maravilhosa e fresca mulher com maravilhoso, não mais tão fresco, homem. Todos vão admirá-lo e invejá-la (ou vice-versa, como for melhor). E o restaurante me mandará catupiri a Paris até o resto da vida, por isso ele se responsabiliza, ele tem amigos lá. E quando então vivermos em Paris, eu vou cozinhar para ele.

OK, vamos, confesse! Muita coisa nesse homem me agrada. Que ele se diverte constantemente. Que é tão seguro. Pode-se conversar muito seriamente com ele, e ser alegre e brincar. Maravilhoso, diz ele. Um homem velho, sozinho (mas extremamente bem-cuidado) então me espera às sete no bar. — Quando então chego, ele pega no coração. Meu vestido! Mais do que um homem sozinho e velho pode suportar. O homem s. e v. está, a propósito, muito chic. Um terno azul-escuro, uma camisa branca, uma gravata azul, cabelos grisalhos, rosto bronzeado. As pessoas olham para nós quando saímos do bar. Só por minha causa, ele acha. Ele não só me olharia. Ele correria atrás de mim! Até o fim do mundo — ou pelo menos até o fim de Copacabana, se ele tiver ar suficiente.

Vamos com o carro alugado. Trânsito louco. G. quer ir ao restaurante Caesar, fica em Ipanema, um pouco mais pra frente, diz ele. Não tenha medo. Confie em G. o tempo todo e com tudo! Mais: deveriam se fazer cartazes com seu rosto e escrever embaixo: mães, vocês poderiam confiar este homem às suas filhas!

Restaurante Caesar-Park. No 21º andar do hotel. O maître-d’hôtel nos saúda como seus mais velhos amigos. De fato, ele é um velho amigo de G. Ele, como me disse G., viveu metade de sua vida no hotel e desenvolveu um tique de hotel com seus amigos, os porteiros, os manobristas, os garçons, os barmen. Por que não? Quantos tiques eu tenho? E G. é de tal amabilidade e camaradagem com todos, que todos naturalmente gostam dele. Entre outros, G. tornou a sua vida mais fácil sendo assim. Ele não ostenta, não quer exagerar, não quer me impressionar. Para ele, tudo isso é óbvio. Ele fica contente que o seu amigo, o maître, nos tenha levado para a mais bela mesa do local, num cantinho diante de uma grande parede de vidro. Um vaso de cristal com orquídea, catléia, lilás-escuro. Desco­bre-se que G. já esteve aqui. A tarde. Então ele trouxe a orquídea, procurada por ele mesmo numa floricultura. A mais bela.

Então ele pediu. Os abacates, cortados como salada, os cama­rões gigantes com o segredo do queijo brasileiro mais bem guardado, o catupiri. Eles realmente vão mandá-lo para mim em Paris, mas com prazer! Balé dos garçons. O maître-d’hotel me admira. Ele pode se permitir me fazer elogios? Como Mademoiselle está! Ravissant, simplesmente ravissant! O maître-d’hotel acendeu velas. Conselho sobre o champanhe Cuvée Dom Perignon, ano 1980. — Este eu bebi pela primeira vez depois de minha colação de grau, digo. Descuidadamente. Pois G. declara de pronto que ele naturalmente sabia disso e por isso...

Ah, pare com isso, G.! Você está louco! Obviamente, diz ele, por você. Deve-se estar, senão o que, minha queridíssima?

Então estamos sozinhos, esperando pelos aperitivos (por Godot, diz ele). Olhamo-nos tanto tempo, até que ele diz: bela vista, não é? — Sim, acontece o mesmo comigo, eu só poderia olhá-lo uns segundos a mais. Então, a bela vista. Correntes de luz na praia de Ipanema. Faróis e luz dos retrovisores nos intermináveis carros, que iam nas duas direções. Luzes dos navios no mar, brancas, vermelhas e azuis, tudo tão maravilhoso que chega a ser kitsch. Ah, que besteira, que seja kitsch!

G. me fala novamente como estou bonita, e eu fico contente com isso, da mesma forma como fico contente quando ele diz que eu teria usado o perfume Emenaro. Era o que melhor combinava comigo (também acho), ele conhece perfumes, é especialista, não reconheceu a marca na floresta, quando queríamos fazer nossa macumba, uma vergonha, nunca lhe aconteceu. Rimos. Ah, pode-se rir com este homem! E conversar bem! E se sentir bem.

— Moon River — diz ele. — O quê? — O pianista toca Moon River. Sua música preferida. Eu conheço. De Breakfast at Tiffany’s. Com Audrey Hepburn. Quando procuram o gato na chuva... Qual é a minha música preferida? — Summertime. — Ah. Hum. Também, muito, muito bonita... Cinco minutos depois ele se desculpa. Só um momento. Desaparece. Volta. E logo em seguida o pianista toca a minha Summertime. Então ele foi ao pianista, deu-lhe dinheiro, pediu a música. — Obrigada, G..! — Que nada, diz ele.

Os muitos Martinis secos chegam, logo depois ele dirá: a nós, que nos encontramos! — Bebemos. O que ele diz? — Então você é uma fã de Emenaro, ele diz. Não só no que diz respeito ao perfume. Ele já sabia disso no Frankfurter Hof. Lá você usou uma roupa Emenaro. Saia cinza-escura, colada aos quadris, depois mais solta. Jaqueta fechada. Quadriculada... Ele descreve a roupa exatamente. Como ele se lembra! É verdade, prefiro as roupas Emenaro e compro o que posso. E isso ele nota? — Ele era, há muito, muito tempo, um escritor (ele fala disso como um conto de fadas), precisava saber muita coisa, por exemplo, como ele vestia as mulheres dos seus livros. Por isso ele sempre se interessava por moda...

 

Sim, eu disse isto naquela noite. Não me custou muito, tanto que eu representava. Digo: ela 32, eu 63. Então comecei com a estória do escritor. E ficou nisso, como leio no diário de Isabelle...

 

... Ele afinal é escritor, diz G. Ou foi. Se ele voltar a sê-lo, se ele escrever um livro sobre esta viagem — ele nunca o fará, mas apenas por suposição — então ele citará bem ou mal alguém como eu, não é? — Bem ou mal, digo. E bem ou mal alguém como ele, não é? — Pois é, diz ele. Nesse ponto ele quer chegar. Se ele escreve sobre alguém como eu ou sobre uma noite como esta — nunca o fará, mas apenas supondo — ele precisará saber o que uma dramatis persona como eu, quando vai jantar com uma dramatis persona como ele, usa como roupa, isto é mesmo óbvio. — Muito óbvio, digo. — Tira um bloco do bolso, pega um lápis, rascunha algo, faz anotações. — Pois bem, primeiramente teríamos o vestido, diz ele. Seda verde-clara, o tecido tem estampa com pequenas flores, com uma jaquetinha de seda marrom com a mesma estampa, só que marrom. Uma faixa larga nos quadris — que largura, minha querida? — 20 centímetros, digo rapidamente, e ele anota, 20 centímetros. Um laço bem largo. O laço está ao lado, mas naturalmente poderia estar na frente, atrás ou do outro lado, se se tira a jaquetinha. E — ele olha para debaixo da mesa — sem meias, sapatos marrons. Emenaro, claro, diz G., outra coisa nem se discute com Isabelle. Uma mulher inteligente com muito bom-gosto e olhos azuis, que ficam escuros, como agora, e... — Pára com isso! — ...e bolsa de couro marrom. Uma bolsa de couro marrom muito bonita. E no pescoço, numa corrente de ouro fina, uma medalha. Um amuleto, de importância especial. Isabelle não vai dizer o quê, segredo, tem de ser segredo, Isabelle e seu segredo. Algo assim é sempre bom numa estória, diz G.

Vem o champanhe, põe um pouco em duas taças, os homens provam, apreciam, balançam a cabeça. O garçom enche até a metade a minha taça e a de G., então bebemos à saúde de ambos mais uma vez, desta vez à nossa, é a minha proposta.

As últimas gotas de sua taça G. deixa cair no chão. Para os deuses debaixo da terra. Têm tanta sede quanto aqueles da floresta, e se lhes servem Cuvée Dom Perignon, vintage 1980, eles trarão sorte.

Não, nunca lhe direi o segredo de minha medalha! Aliás, há um outro segredo: o que me veio à cabeça naquele dia na floresta com a macumba, quando se pode desejar tudo. Eu já havia posto no pequeno buraco os cigarros, a cachaça e os fósforos, ele me observava, notei ao olhar rapidamente. Oh, quantos desejos eu teria tido, mas pensei em algo estranho, que me encantou tanto que eu simplesmente não tive mais a concentração de desejar alguma coisa. O estranho: de repente me ficou claro como G. me impressionava, mesmo não tendo quase falado com ele. Com 32 já se tem, é claro, algumas experiências nas costas, mas nunca houve um homem que me atraísse imediatamente, que fosse alegre e me enchesse de esperanças, como G. De onde vinha isso? Por quê? Tudo isso eu pensava na floresta. E tudo começou assim, meus queridos, tudo começou assim (Kipling).

Naquela noite no restaurante do Caesar-Park fui eu que mais falei e contei de mim. Nunca fiz isso. Sempre fui preocupada em ouvir, em deixar os outros falarem, em guardar para mim sensações e sentimentos. Uma vida inteira de reservas. Não naquela noite! E naturalmente me veio à mente a minha idée fixe...

 

Ah, sim, sua idée fixe!

Ela dizia estar muito engajada. Achava que superaríamos isso. Mas também achava que ninguém pode julgar o tempo no qual ele vive. Isto é impossível. Só o futuro pode julgar o passado. “Agora temos o fim dos tempos” — quantas vezes já se disse isto? Não, assim não dá, pensava Isabelle. Pois o que é uma vida humana e todo o seu saber e pensar? Uma estrela sem importância no universo infinito que brilha durante frações de segundos — e fim. É lógico que cada um queira julgar tudo de si, mas como ele pode fazer isso? O que ele sabe? Nada, absolutamente nada. Como vivemos a história em nossa curta, muito curta vida? Como um acelerador enlouquecido. Não entendemos que a história é infinita — nas duas direções, para frente e para trás...

Sim, a sua idéia fixa: quando criança, sempre passava o verão com os pais, no campo. Nas proximidades de Beaugeney, em Orleans, no Loire. E ouvia de velhos camponeses profecias, como por exemplo: quando todas as mulheres usarem calças compridas e quando a água do Loire fluir ao contrário, para cima, então chegou o fim do mundo.

— Como? — perguntei. — Mulheres usarem calças significa o fim do mundo? Mademoiselle não dá importância à emancipação, não pensaria...

— Escute — disse Isabelle —, os camponeses dizem isso, os velhos camponeses em Beaugeney. Este é só um exemplo, e você sabe perfeitamente. Quando — disse ela solenemente e um pouco tocada — as mulheres usarem calças e assim, nos olhos dos camponeses — somente nos olhos dos camponeses! — não representarem o papel que cabe a elas, quando rios fluírem ao contrário — algo nada impossível hoje, não é? — então chegou o fim do mundo. Vivemos num tempo contínuo. Tempo não é história. A historiografia nunca levou a nada. Mas o tempo... Por que não há algo como historiografia psicológica? — ela perguntou.

Psico-história! Isto seria importante! Não julgar pensando nos acontecimentos, mas pensar na pesquisa, nas condições prévias dos acontecimentos. Poder dizer: se vocês fizerem isto ou aquilo por estes ou aqueles motivos (ou se não fizerem isto ou aquilo por estes ou aqueles motivos), então pode-se prever com certeza o que vocês fazem. Desde que ela se lembre das profecias dos velhos campone­ses que não deixa em paz o pensamento da psicopesquisa do tempo. Registrar como o tempo correu até agora, com que ritmo, em cima da onda ou abaixo da onda, para que pudéssemos estar muito previamente preparados para os tempos catastróficos, não tão tardiamente como até agora. Então se poderia finalmente dizer: isso aconteceu — aquilo deverá ser a conseqüência. Por isso deve acontecer isso e isso! Por isso e isso não pode acontecer, porque não sobreviveríamos às conseqüências!

Então não seríamos mais estrelas sem importância. Então pode­ríamos, a partir do nosso tempo, julgá-lo.

Tudo isto disse Isabelle e, por último, como está no seu diário...

 

... Agora você me fez dar uma palestra, dar uma palestra, G. Com champanhe. Você é verdadeiramente pérfido! — E você é verdadeiramente maravilhosa, diz ele. — Pare imediatamente com isso. — Eu ainda nem comecei. Mulheres inteligentes sempre trazem alguma coisa importante consigo, como por exemplo, alfinetes de segurança. Certamente você tem um alfinete de segurança, ma belle? — Sim — digo, atônita. — Por quê?

Ele pega a orquídea violeta. Porque lhe peço para botá-la no seu decote — Se isso lhe deixa alegre, monsieur... Sim, tudo começou assim, meus queridos, e tudo começou assim. Tarde, duas da manhã, de volta ao nosso hotel. Ele me leva até a porta do quarto, beija a minha mão, pergunta se pode beijar meu rosto, ele pode, eu beijo o seu. Ele espera até eu entrar no quarto e fechar a porta. A orquídea está num copo com água. Sobre a mesa na outra sala: uma pequena montanha de pequenos pacotinhos. Cada um embrulhado num papel de cor diferente e enrolado com cordão dourado. Bebi demais! Mas os pacotinhos são reais, e então me sentei na mesa e contei os pacotinhos, nove. Banheiro. Tesoura. Tirar o cordão. Desembrulhar. Uma quantidade enorme de cosméticos — exclu­sivamente Emenaro. Perfume Flakon, eau de toilette Flakon, ambos com pulverizadores mecânicos, body spray, sem HCFC, ‘body soap, shower bath, perfumed powder, body lotion, body cream, body dry oil... Lá estava eu sentada, entorpecida como uma mulher do Velho Testamento, que não deveria se virar, mas naturalmente o fazia, diante de todas as garrafinhas e latinhas, e então ri e pedi, através da central, uma ligação para G. Ele atende imediatamente. — G., você é louco, completa­mente louco! — Acho que já ouvi isso hoje à noite. Seria melhor para a mademoiselle se eu fosse normal? — Oh, não, de jeito nenhum! — Voilà! — E toda a linha de Emenaro eu levo amanhã para o meio da floresta, é isto? — Pelo menos o perfume e a eau de toilette. Precisaremos sem falta. Todo o resto fica com o porteiro Parcas, meu velho amigo. Voltamos mais uma vez ao Rio, antes de voltar à Europa. Então você leva o resto. — Quando você comprou isto, G.? — Hoje à tarde, quando fui à procura da orquídea. É quase toda a coleção Emenaro, a moça na perfumaria me deu uma lista. — E fez os pacotinhos, os belos pacotinhos? — Orientada por mim, mademoiselle. — Eu... eu agradeço, monsieur! — Eu é que agradeço, mademoiselle. Agradeço por você existir. Durma bem! Espere! Você sabe que os ecologistas não tomam banho de banheira. Por isso falta o body bath. Tome uma ducha com o shower bath, e por favor não se esqueça, depois a body lotion! — Vou fazer tudo fielmente, monsieur. — Ah, e o mais im­portante, quase esqueci. — O mais importante? — A jovem dama só tinha um perfume Flakon de 15 ml. Amanhã cedo ela entrega aqui no hotel um de 30 ml. Precisamos de estoque. Boa noite, bonita dama com a medalha misteriosa no pescoço! — Boa noite, digo e desligo o telefone e vou ao banheiro e abro o shower bath e sinto o aroma Emenaro antes de me despir. E tudo é completamente louco e completamente impossível e completamente maravilhoso.

 

— Energia? — A índia gritou com os cabelos longos e viçosos, o enfeite colorido na cabeça e a camisa puída. — Energia, o que é energia? Eu não preciso disso. — Ela estava nervosa e levantou a faca que tinha na mão. Assim, ela foi por entre as pessoas até o pódio e até José Muniz, que queria recuar, chocado, mas não pôde, porque estava preso na multidão: índios, seguranças, repórteres, policiais, dezenas de equipes de televisão. A velha índia estava fora de si. A pesada faca assobiava em torno da cabeça do chocado Muniz, que estava morto de medo. A multidão bramia no pavilhão municipal de Altamira. Ainda mais luzes se acenderam. Todas as câmeras traba­lhavam — também a BETA de Bernd Ekland.

— Maria, mãe de Deus — gemeu ele. — Por favor, deixem-na continuar a fazer aquilo com a faca sobre sua cabeça... Continue!

Ao lado dele estavam Katja Raal, Markus Marvin, Peter Bolling, Isabelle Delamare, Bruno Gonzalos e Philip Gilles. Todos olhavam para o pódio. José Muniz, o diretor da seção de planejamento de energia da gigante Eletronorte, o qual fora enviado à cidadezinha de Altamira, no rio Xingu, para que ele explicasse aos índios por que eles iriam inundar suas terras, por que eles deveriam ser expulsos dali, por que era justamente ali que deveria ser construída a maior hidrelétrica do mundo, estava lívido. Sentiu as pernas quentes, sentiu como sua bexiga esvaziava. A urina corria para os seus sapatos.

— He, he, he! Ho, ho, ho! — escandiam os mais de 300 índios com suas lanças de ferro ritmicamente, para animar a mulher que rodava a faca em torno da cabeça de Muniz, no seu desespero, na sua ira desamparada, pois ela sabia o que sabiam os índios aqui, que todos já estavam há muito traídos e perdidos. Fazia 35° diante do pavilhão. Certamente dentro dele estava muito mais quente. Peter Bolling se encostou totalmente pálido em Marvin, precisou de ar e usou sem cessar a garrafinha na boca, que ele tinha sempre consigo por causa da asma. O spray ajudou um pouco, não muito. O ar cozinhava. Todos os homens estavam nus, com exceção de bermudas e shorts, as mulheres usavam shorts e camisetas, o suor escorria em bicas sobre os corpos. Ekland tinha dificuldade de manusear a BETA com as mãos úmidas. A camiseta branca de Isabelle colava no corpo, parecia que ela estava nua.

— Se ela o matar... — murmurou Isabelle. — Se ela o matar...

— Maldição, se ela finalmente fizesse isso! — Ekland disse, fervoroso. — Vamos, minha velha, vamos!

José Muniz estava sentado, imóvel, petrificado de medo. Seus pés se banhavam em urina. Também o seu músculo anular havia desistido. Os que estavam em torno dele sentiam o cheiro. O diretor da seção de planejamento da Eletronorte se cagou nas calças de medo.

— Assassino! — gritou a velha índia, cuja faca zunia no ar, esquerda, direita, direita, esquerda. — Assassino! Assassino! Assassino!

— He, he, he! — Os índios gritavam — Ho, ho, ho! — Eles batiam com os pés descalços compassadamente. Balançavam suas lanças. As luzes das câmeras cruzavam a névoa de calor no pavilhão.

— Fim! Parem! Ponto final! — gritou Paulinho Paiakã, cacique dos índios caiapós, que tinha ido lá com os mais de 300 guerreiros. — Deixe disso, Carca! — Ele se apertou até a mulher furiosa, que agora batia com a faca afiada nas bochechas do executivo da Eletronorte. — Você deve parar!

De repente fez-se um silêncio de morte. Só era ouvido o arquejar das pessoas — todas queriam ar. Aqueles, que ainda chegaram a animar a índia, se calaram. Cada um compreendeu, de repente, que havia sido testemunha de uma tentativa de assassinato.

O cacique puxou a mulher. Ela cambaleou, caiu, ficou no chão. Lágrimas jorravam de seus olhos e corriam sobre o seu rosto. Ela começou a rolar, em convulsões histéricas. Todos se afastaram dela.

— Você ainda tem filme suficiente? — Marvin gritou para Ekland. — Meu Deus, se o cassete tiver de ser trocado agora!

— Cinco minutos — gritou Ekland. Katja já segurava um novo cassete. Ela também estava molhada de suor.

O cacique Paulinho Paiakã havia chamado para esse congresso de cinco dias jornalistas do mundo inteiro, para que o mundo inteiro soubesse que aqui a natureza deveria ser destruída, os índios exterminados e o mais louco empreendimento do século deveria ser posto em ação.14

Eles vieram: correspondentes de agências de notícias, repórteres de grandes jornais e estações de rádio, fotojornalistas, equipes de TV, mais de cem pessoas que carregaram aparelhos fotográficos e câmeras de TV e computadores pessoais até o meio da selva. Tantos correspondentes não foram enviados somente por causa de um protesto de índios. Para este não apareceu nem meia dúzia de jornalistas. A construção da mais gigantesca hidrelétrica do mundo estava ligada ao engajamento de muitos políticos famosos e grandes bancos de muitos países. Aqui se tratava de luta de poderes entre o leste e o oeste, de bilhões de dólares, instituições internacionais metidas à meia-luz, de corrupção e escândalos econômicos mons­truosos. Por isso aconteceu essa invasão de repórteres, só por isso. Protestos de índios apenas teriam deixado a mass-media totalmente indiferente. Mas assim...

Há meia hora José Muniz ainda sorria, forçadamente, mecanica­mente para esconder seu medo. Também já há uma hora ele amaldiçoava seus chefes que o haviam enviado ali para que falasse àquela corja esfarrapada, explicasse, elogiasse o que deveria ser construído ali. Porcos, malditos, Muniz pensou. Vocês estão em suas mansões com suas putas, condicionadores de ar, drinques geladíssimos, um canal aqui transmite ao vivo e então vocês podem, encostados em suas poltronas, ver o que acontece, suas putas podem se excitar com as imagens, antes de trepar com seus sacos de gordura. Sou sempre eu, sou sempre eu quem eles enviam, pensou Muniz, para onde a situação é pior.

O cacique Paiakã havia preparado o congresso eficazmente. Antes que Muniz tivesse a oportunidade de explicar aos reunidos o quanto era benéfico para todos o “Plano 2010”, que deveria ser realizado aqui, o plano que deveria transformar Altamira, aquele fim de mundo, num centro industrial, cuja hidrelétrica, um dia, deveria produzir 11 mil megawatts de energia, mais ou menos dez vezes mais que uma moderna usina nuclear. Antes que Muniz pudesse falar disso, os 300 guerreiros tinham começado com a sua apresentação. Tinham ornamentos de penas na cabeça, no mais apenas shorts, cada um deles com a sua tradicional estaca de madeira, muitos deles ainda com lanças e flechas e arcos. Eles haviam começado a dançar e gritar ritmicamente: — He, he! Ho, ho! He, he! Ho, ho! — Eles faziam ataques simulados com as estacas e lanças contra Muniz, e depois disso Paiakã falou — e Isabelle traduziu seu discurso, muito alto, e apenas para a mala de som de Katja: — Você sabe o que significa kararaô? Significa mais ou menos’: “Nós declaramos guerra!” Sim, nós declaramos guerra! O honrado senhor Wanderlan de Oliveira Cruz, presidente e porta-voz da honrada Sociedade dos Latifundiários, declarou: “O progresso não será estacionado por causa de 300 índios.” Com outras palavras: todos aqui somos candidatos à morte. E isto não é exagero. Apenas em torno de 20 mil índios dos dez milhões originalmente sobreviveram à marcha triunfante da civilização no Brasil! — Gritaria. — Nos bares desta cidade, depois que se toma a terceira caipirinha, diz-se: “Agora é a vez do resto, o primeiro é o cacique Paiakã.” Pois o que as leis valem aqui? Os jornais não vêm para Altamira. Quem possui algo, que primeiro aliste seguranças. — Gritaria. Todas as câmeras ligadas. Uma tempestade de flashes. — Estamos no caminho do progresso da honrada sociedade, minhas irmãs e irmãos! Devemos ser fuzilados, envenenados, espancados, enforcados, devemos ser exterminados — para o progresso dos latifundiários! Digo aqui, diante de tantos repórteres de tantos países: não abandonaremos nossas terras. E se se chegar à construção da represa, então preferimos morrer aqui do que num lugar qualquer.

O calor infernal no pavilhão, a gritaria e o barulho dos tambores eram quase insuportáveis. Isabelle caiu num acesso de fraqueza contra o peito nu de Bolling. Ele a segurou. Excitado, ele sentia cada curva de seu corpo.

— Isabelle!

Ela se levantou e balançou a cabeça. — Já está tudo bem. Quente aqui, não?

Ele passou o seu pano molhado sobre seu pescoço e seu busto.

— Não...

— Só para tirar o suor.

— Por favor, não! — Ela recuou. Bolling arfava.

— He, he! Ho, ho! He, he! Ho, ho! — 300 guerreiros batiam os pés, agitavam as lanças, arcos e flechas, dançavam, os rostos desfigurados em caretas.

Marvin falou no microfone: —... Em Altamira deve-se construir essa imensa hidrelétrica. Por causa da queda baixa do Xingu, que deságua a noroeste de Belém no delta do Amazonas, aqui surgirá atrás do mais baixo nível da represa um lago de 1.200 quilômetros quadrados — ele pensou rápido —, mais do que o dobro do Bodensee. E esta é terra de índios. Aqui é a floresta tropical, que será inundada por uma massa de água.

— Fim — disse Ekland.

— O quê? — Marvin olhou para ele.

— Acabou o cassete.

A câmera estava sobre o tripé. Rapidamente Katja, a alegre Katja, pôs o novo cassete. Ela estava sempre com medo de desmai­ar, mas ela ria muito. Obstinada, ela manuseava os botões de seus aparelhos, observava o movimento dos mostradores de escalas. Por debaixo de seus fones de ouvido corriam riachos de suor.

— Pronto! — Ekland gritou. — Continue, Markus!

— Um momento! — Katja gritou. Ela riscou com um lápis algo sobre uma folha de papel e a segurou em frente à câmera. ALTAMIRA III/PAVILHÃO.

— Som? — gritou Ekland.

— Ligado! — Katja gritou.

— Vamos! — gritou Ekland.

Markus Marvin continuou a falar: — Não apenas os índios caiapós vieram até Altamira para protestar contra a represa; também vieram ecologistas do Brasil... — Ekland virou a BETA e filmou o Dr. Bruno Gonzalos, que também tinha voado até lá, como pro­metera. — ...da América do Norte, Ásia, Europa... O cantor pop inglês Sting apareceu aqui, para explicar a um grupo de índios brasileiros, mexicanos e americanos do norte: “Eu sei que os americanos protegem a floresta tropical, aqui e no mundo inteiro. Se a floresta tropical morrer, meu país também estará prejudicado!” Desligar a câmera, por favor! — Marvin perguntou a Ekland: — Vocês têm lá material suficiente sobre o Sting?

— Em massa.

— Também a sua música?

— Em grande quantidade.

— Ótimo. Incluiremos aqui.

O calmo Gonzalos havia escrito uma palavra num papel e mostrou-o a Marvin. “Hélio”, estava escrito.

Marvin fez um sinal para Ekland. A BETA funcionava novamen­te. Marvin disse: — Não nos foi preparada uma recepção muito amável. Pouco antes do início do encontro, o governador do Pará começou: “Então vêm os demagogos da Suécia, Sérvia e Bulgária e querem rios proibir de desenvolver nosso país.” E para os ecologistas da América do Norte, que muito certamente estavam mais numero­samente representados que por exemplo a Sérvia, o governador tinha palavras bem diferentes para a saudação: “Vocês é que são os especialistas! Vocês é que melhor sabem como extinguir índios!”

Isto foi há 20 minutos.

Nem bem o cacique Paulinho Paiakã havia tirado a velha mulher irada com a faca da frente do diretor José Muniz, nem bem ele começava a falar, soou de fora um barulho monstruoso.

— O falatório do sujeito, a minha amiga Tuesday Wells, da ABC, nos dará — disse Ekland. — Vamos, vamos ver o que está aconte­cendo lá fora! — Katja e ele pegaram a BETA do tripé, ele a pôs no ombro, e com ele se empurravam e se apertavam os outros para a rua. Lá, num cruzamento no centro do lugar, havia começado uma segunda manifestação — a hora fora muito bem escolhida.

— Espere, cara! — Katja gritou com as mãos cheias de cabos e instrumentos, correndo atrás de Ekland. — Mulher velha não é nenhum trem expresso! — Numa pressa atroz ela ligou microfones e prendeu o cabo de energia da BETA novamente no cinto de caubói de Bernd. A BETA era pesada, o cinto era pesado, Ekland muito excitado, profissional demais para sentir dores agora. Ele filmou uma multidão que gritava, cantava, dançava.

— Pergunte às pessoas quem eles são! — Marvin gritou. Isabelle correu, voltou, informou: a organização dos latifundiários. Extrema direita, União Democrática Ruralista, UDR. Aqui, anotei. Subli­nhei as sílabas que são acentuadas...

Homens cavalgavam, deixavam seus cavalos se empinarem, dezenas de morteiros explodiam ao mesmo tempo, sempre se seguiam novas salvas. A cidade inteira estava lá — sob 35°. Centenas de carros, todos buzinando, caminhões de gado, até máquinas de arruamento estavam rodando. O barulho era infernal, o calor era infernal, era o inferno.

O rosto de Ekland se transformou num sorriso. Ele tinha a BETA sobre os ombros e filmava. Esquecer o último ano, esquecer as dores. — Rapazes, rapazes, rapazes! — ele gemeu. Faixas. Faixas. Ele as filmou.

— Traduza as frases, por favor, Isabelle!

A jovem mulher traduzia para o microfone o que estava escrito nas faixas: — Produzimos quatro mil toneladas de café por ano!... Temos mil bois e 500 porcos — por isso precisamos de energia!... Energia nuclear não — energia hidráulica sim!... Este país nos pertence!... O Brasil para os brasileiros!

Pesados caminhões rodavam.

— O que é isto? — Marvin gritou.

Isabelle leu os letreiros. — Serviço de Limpeza... Caminhões do Serviço de Limpeza.

— Por que é que eles estão com os latifundiários? Por que é que eles são pela Eletronorte?

— Recebem dinheiro deles — disse Bruno Gonzalos, e Isabelle traduziu. Também os peões e os outros... todos pagos.

— Ali, naquela faixa se fez rima — disse Isabelle, cujos seios pequenos e rijos, sob a camiseta suada, agora estavam tão evidentes, como se ela estivesse nua. Bolling a admirava atrás das lentes embaciadas dos óculos. — Somos pela ecologia, com progresso e energia!

Marvin repetiu as palavras, ele estava novamente diante da câmera. — A coisa está se transformando num carnaval — disse ele. — Um carnaval assassino... Os peões espancam os ecologistas e os repórteres... — Ele recuou. Ekland filmou a cena da pancadaria. A voz de Marvin: — Os cavaleiros se aproximam... as máquinas de arruamento também... Os homens sobre elas têm correntes de bicicletas e cabos de ferro... — Uma sirene tocou... — Ambulân­cia... em algum lugar... não está sendo vista... não poderá chegar aqui... Agora correm dois médicos... um está sendo espancado...

No espaço de carga dos caminhões, os habitantes de Altamira dançavam, como se realmente fosse carnaval. Muitos estavam bêbados. Mormaço, calor, álcool. E sempre as mesmas palavras, que eram vociferadas em coro. Isabelle traduzia ofegante: — Energia! Fora os gringos!.. Energia! Fora os estranhos!

Agora a equipe estava rodeada de nativos. Rostos desfigurados de ódio, bocas escancaradas, gestos brutais e ameaçadores.

— Os mais pobres dos pobres representam os interesses dos latifundiários e do gigante de energia Eletronorte — disse Marvin no microfone, empurrado para lá e para cá como muitos outros. Só o robusto Ekland ninguém empurrava. — Espancam os ecologis­tas... os repórteres... por um punhado de cruzeiros...

Perto deles um fotógrafo americano queria saber algo. Um gigante esfarrapado gritou para ele, ameaçador.

— O que ele diz? — perguntou o fotógrafo a Isabelle.

— O senhor deve falar português com ele!

O esfarrapado agora gritou para Marvin.

— O que ele quer... o que ele está dizendo, Isabelle?

— Por que vocês não nos desejam o progresso? — Isabelle gritou. — Por que vocês não nos desejam o progresso?

Antes que Marvin pudesse responder, um peão a cavalo, que se aproximou rapidamente, bateu nele, com a estaca de madeira sobre a sua cabeça. Marvin gritou, segurou a cabeça. O sangue começou a escorrer. Ekland filmou como ele caiu no chão. Imagens, pensou Ekland, imagens, imagens!

— Vamos, fora daqui, fora agora! — Dr. Gonzalos gritou isso. Ele e Gilles ajudaram Marvin a se levantar. Seu rosto e seu corpo estavam vermelhos de sangue. Os outros guardaram apressados todos os aparelhos. Eles haviam caído no meio de um monte de gente que se batia. Morteiros ainda explodiam. A música veio, penetrante, de carros de alto-falantes. As pessoas ainda dançavam, cantavam e gritavam de cima dos caminhões: — Energia!... Ener­gia!... Fora os gringos!... Fora os gringos!

— Atrás de mim, não saiam de trás de mim! Segurem firme no meu cinto! — gritou o normalmente meigo Bruno Gonzalos.

Ele baixou a cabeça e procurou um caminho para ele e os outros através da multidão raivosa e barulhenta, através de pessoas bêba­das, maconhadas e meio loucas por causa do calor. Adentrava pela direita, esquerda. Os outros o seguiam, cambaleando. O sangue pingava na sujeira da rua. Por fim eles alcançaram, num terreno em ruínas, um ambulatório. Aqui havia mais ou menos 50 feridos. Enfermeiros o atenderam. Ekland viu colegas de estações de TV, fotógrafos, repórteres, entre os quais várias mulheres.

O médico que desinfetou a ferida de Marvin e fez-lhe um curativo disse algo em português.

Isabelle traduziu, ela se havia deixado cair no chão: — Por que vocês vêm até aqui? Já não aprontaram o suficiente? A metade do país não tem nada para comer. Tudo, tudo o que produzimos é exportado. Vocês é que têm que se responsabilizar que a situação esteja assim agora, que a floresta tropical seja destruída para hidrelétricas, fazendas de gado e para a explosão das riquezas minerais! Vocês começaram espertamente! Estamos endividados, isso nos estrangula! Precisamos pagar 18 bilhões de dólares de juros por ano pelas nossas dívidas! 18 bilhões de dólares somente de juros! A nobre proteção da natureza de vocês! Dos índios! Merda, tudo uma merda! Quem é que fica sempre mais rico e mais gordo e mais poderoso? A CEE! Os seus bancos! As suas companhias! Shell e BP! Texaco e Esso! Não grite, cara!

Marvin mordeu o seu lábio inferior, que sangrou.

Bruno Gonzalos havia se sentado ao lado de Isabelle. Enquanto estouravam morteiros e tiros, as sirenes tocavam, as pessoas berravam, cantavam e gritavam, Gonzalos disse com um sorriso tímido: — Eu queria lhe contar o tempo todo. Minha mulher está grávida.

— Isto é ótimo, doutor Gonzalos — disse Isabelle.

— Ela me disse pouco antes de nossa partida. Primeiro fiquei... Sim, um pouco confuso e tinha as minhas dúvidas, mas então... — Ele se calou, e em volta as sirenes continuavam a tocar, estouravam mais tiros, morteiros ainda explodiam, pessoas gritavam e cantavam e gemiam de dor. — Mas então — disse Gonzalos — e especialmente agora, neste caos... É completamente louco, não é... quero dizer... agora eu me convenci de que vamos ter um bebê... — Ele sorriu novamente. — Mas... agora eu me alegro com isso. — Ele se levantou e desapareceu entre as ruínas, como se se envergonhasse de ter mostrado tão claramente suas novas sensações.

 

 

Marvin estava num catre de uma ambulância velhíssima, que corria através da cidade. O motorista estava bêbado e cantava. Gonzalos e Bolling estavam sentados a seu lado. Gilles e Isabelle se acocoravam num outro catre e impediam que Marvin escorregasse para o chão. O médico que havia feito o curativo fez questão de um exame no hospital. Desde então Marvin estava irado.

Ele se sentia muito tonto e tinha dores fortes. Bernd e Katja dirigem à nossa frente, pensou ele, ela na direção. Ele quer filmar a cidade em ebulição. Eles dirigem um Landrover. Trouxemos de Belém o Landrover. Landrover? Que diabos, não posso pensar em outra coisa? Landrover. Já estive em um. Num menor. Tão descompensado quanto esta ambulância. Nenhuma rua. Campo. Então ele se lembrou e fechou os olhos. Era o Landrover do fazendeiro Ray Evans, no campo com uma parte do gado aleijada. No depósito nuclear de Hanford, no Estado de Washington. Preciso voltar lá, pensou ele. Meu Deus, ainda temos um programa à nossa frente! Tudo apenas começou. Precisamos nos apressar. Tanta coisa ainda. Tanta coisa ainda. Até os garimpeiros. Jesus, faça com que as dores parem! Jesus...

O motorista bêbado passava naquele momento pelo suntuoso episcopado. A única coisa suntuosa aqui, pensou Gonzalos. No mais, duas dezenas de hotéis, a maioria ensebadas pensões, às vezes não mais que uma cama ou mesmo apenas dois ganchos para a rede nos buracos que eles chamavam de quartos. Lojas com grades rolantes e quadros com o letreiro COMPRO OURO. Dois bordéis. Uma grande quantidade de putas recém-chegadas. De fato, uma cidade de garimpeiros. A clínica, certamente lotada e perigosa. Aqui eles assassinam um na cama do hospital, com a metralhadora. Acontece sempre e em todo lugar. O assassinato de um cidadão de importância mediana, pensou Gonzalos, é baratíssimo. Lá na Colômbia há os melhores pistoleiros. E os mais baratos. Custam entre 32 e 64 dólares, segundo a mais nova pesquisa do mercado da polícia que eu li. Este bom preço é justificado pela grande oferta de pistoleiros profissionais, diz-se na pesquisa. Os “Grandes” ou os “Luvas Brancas”, os “Monges”, os “Pedacinhos de Queijo” ou os “Creme Chantilly”, como as gangues se autodenominam, acobertam a necessidade de segurança dos traficantes de drogas colombianos, que investem o seu dinheiro em terrenos. Os latifundiários, aqui, vão buscar os seus seguranças, os seus guardas, seus pistoleiros quase sempre na Colômbia, são os melhores, formados em “escolas de assassinos” e “academias da morte”.15

O Motel Kiss Me passou, o mais fino dos dois bordéis — para aqueles que têm dinheiro vivo pela venda de ouro e querem desfrutar de algumas belas horas ou para cooperantes estrangeiros. Estes não precisam vender ouro. Algumas dezenas de mansões com segurança monitorizada também passaram, alguns milhares de casebres tortos pelo vento. Igreja, supermercado, pornoshop, hotel, hotel, igreja, igreja. O motorista freou, enquanto Gonzalos pensou: espero que o médico Ernesto Geisel esteja aí, com quem o médico do curativo falou pelo rádio. A ambulância parou. Gonzalos desceu, o motorista também. Eles estavam diante do Hospital Coração de Maria.

— Tire o gringo! — disse o motorista para Gonzalos. — Me ajude, homem!

Ele abriu a porta de trás. Isabelle e Gilles levantaram Marvin numa maca. Marvin xingava. Enquanto os outros homens tiravam a maca do carro, Gilles ajudou Isabelle. Ele a tirou para fora, e seu coração bateu alto naquele momento, tão gracioso era o seu corpo, tão leve, tão leve.

 

 

— Raio-X — disse o homem com a suja bata branca, que estava no segundo andar do hospital num corredor imundo cheio de feridos na frente da maca com Markus Marvin. Nesse meio tempo também chegou Katja, enquanto que Ekland foi encher o tanque do Landrover.

— De jeito nenhum — disse Marvin. — Traduza, Isabelle, por favor! — Isabelle traduziu.

— Diga a ele que ele não deve fazer uma cena — disse o radiologista, Dr. Ernesto Geisel. Ele estava com a barba malfeita e olhos vermelhos. — Ele vê como está a situação. Esse maldito congresso mal começou, e já estamos todos semimortos. Traduza, por favor, senhora! Isabelle traduziu.

— Sem discussão — disse Marvin, e Isabelle traduziu.

— De qualquer forma — disse o doutor Geisel, e Isabelle traduziu.

— Não — disse Marvin. — Não quero. Ouvi que aqui os pacientes são fuzilados. Não confio no Hospital Coração de Maria de Altamira.

— Ele realmente não quer — Isabelle traduziu.

— O que ele disse do Santa Maria? — quis se informar o Dr. Geisel. Ele era magro, seu rosto cinza, mal podia se agüentar em pé de tanto cansaço.

— Pelo Santa Maria, ele se nega — disse Isabelle.

— Então que morra — disse o Dr. Geisel. Embaixo, sirenes tocavam, aumentavam o volume, morriam. — Por favor — disse Geisel —, o próximo. É assim dia e noite. Então que morra.

— Você realmente precisa fazer o raio-X — disse Isabelle a Marvin. — O doutor tem razão. É muito perigoso. Seja racional, Markus! Estamos aqui com você.

— Vão me matar. Agora me conhecem. Esperaram por mim nesta clínica assassina — disse Marvin. — O cara aí tem como missão me matar. Onde as pessoas são mais facilmente mortas do que no hospital? Basta ar na veia. São puros pistoleiros com diplomas universitários. Sei de tudo, Gonzalos me contou.

— O que ele diz? — perguntou o cansado médico, repugnado.

— Ele tem medo.

— Medo, ridículo.

— Também tenho medo — disse Isabelle.

— Dou minha palavra de honra, nada vai acontecer a ele. Sou responsável pela sua segurança. Traduza isso, por favor, senhora.

Isabelle traduziu.

Marvin olhou para Geisel, irado. — Diga onde ele pode enfiar sua segurança!

— Ele tem dores — traduziu Isabelle.

— Por isso. — Geisel se sentou num banquinho e se levantou imediatamente. — Durmo, se me sentar — disse ele. — Pela última vez: ele vai ser radiografado. Precisamos saber se isso é uma hemorragia cerebral e se ela leva a um aumento de pressão no cérebro, um hematoma subdural, pois... — ele continuou a falar.

Isabelle esperou, depois traduziu, desta vez certo, e terminou: — ...pois se há uma tal hemorragia cerebral e ela levar a um aumento de pressão no cérebro, pode-se ficar cego, surdo ou demente e morrer miseravelmente. Você quer isto?

— Sim — disse Marvin. Como todos os outros, o suor lhe corria pelo corpo. — Eu quero. Diga isso a ele, mas mesmo! Diga a ele que não há nada que eu possa desejar mais do que ficar cego e surdo e demente e morrer sob dores terríveis. Odeio essas perguntas idiotas de médicos. Vamos, levem-me para dentro!

Então Gonzalos e Bolling o levaram para a sala de raio-X. Não deixaram Marvin sozinho nem um só momento. O aparelho, com o qual sua cabeça foi radiografada, se originava de uma firma de nome Josef Hohenemser & Söhne, Mannheim, e foi construído em 1937. Isabelle leu isso numa pequena placa de latão.

Depois eles precisaram esperar numa sala com muita gente, até que a chapa fosse revelada e analisada. A sala enorme cheirava mal. Depois que esperaram mais de uma hora, Peter Bolling explicou que voltava logo, ele precisava vomitar.

— Também me sinto mal — disse Katja a Isabelle. Ela seguiu Bolling. Do lado de fora o ar estava melhor, Katja respirou fundo. Então ela viu, atônita, como Bolling, que queria vomitar, foi escada abaixo até uma central telefônica. Ele parecia estar muito apressado.

O que está acontecendo, pensou Katja, inquieta. Ela seguiu o químico e prestou atenção para que ele não a notasse. Ele não se virou nem uma vez. Na central telefônica trabalhavam três moças. Katja ficou atrás de uma coluna e pôde ouvir o que Bolling dizia.

— Speak English? — Bolling perguntou às três moças.

— A little — respondeu uma delas.

— Preciso telefonar — disse Bolling, em inglês. — Urgente. Rápido. Quanto vocês quiserem. Para Hamburgo.

— O quê?

— Hamburgo. Grande cidade na Alemanha. Alemanha Ocidental. Hamburgo.

— Só através de Belém. Preciso pedir. Vai demorar.

— O mais rápido possível — disse Bolling, e deu à moça uma nota de dez dólares.

— O mais rápido possível — disse a moça, olhando para ele. — Número?

Bolling disse um número. Atrás da coluna, Katja o anotou. A moça entrou em contato com a central em Belém.

— Cinco minutos — disse ela então. — Mas dê o dinheiro adiantado. Cem dólares. Deixe aqui. Ordem. Senão não tem telefonema. Depois calculamos.

Seis minutos depois a ligação estava feita.

— Cabine três — disse a moça —, a um e a dois estão quebradas.

— Onde está a porta da cabine?

— Não há portas. Então, o que há? Tenho Hamburgo. Vai falar ou não?

Bolling foi para a cabine sem porta, entrou e pegou na parede o auscultador de um aparelho fora de moda.

Katja se inclinou. Ela ouviu quando Bolling disse seu nome e falou: — Senhor Joschka Zinner! Rápido, sua lesma!

Joschka Zinner, pensou Katja, atônita. Nosso produtor com as idéias-relâmpago. Por que Joschka Zinner?

— Zinner? — Bolling falava agitado. — Estamos em Altamira... na clínica... Marvin foi radiografado... Um abalo cerebral, provavelmente... Então, se em algum lugar é fácil matar alguém, é aqui... Precisamos urgentemente... — Neste momento vieram dois médicos correndo. Um deles falou com Katja, ao lado da coluna.

— O que você faz aqui?

— Quero telefonar.

Katja viu que Bolling ainda falava, mas ela não podia entender mais nada.

— Agora o telefone é só para os médicos! — gritou o médico, que correu até Katja.

O segundo médico falava com a moça na central.

— E aquele lá na cabine — é um médico? — Katja gritou.

— Saberemos imediatamente — disse o primeiro médico. — Vocês, malditos gringos, só nos faltava essa!

Katja viu quando o primeiro médico pegou Bolling pela gola e o tirou da cabine. Bolling resistiu. O segundo médico tirou o fone de sua mão.

— Desapareça ou chamo a polícia! — gritou o primeiro médico.

— Precisamos do telefone. Lá em cima eles morrerão como moscas, se o maldito helicóptero não chegar com os novos tubos de oxigênio.

Bolling então ficou no corredor, diante da cabine. O segundo médico telefonava. Enquanto Bolling foi para a central, Katja correu para a escada acima, de volta para a grande sala, na qual estava Marvin.

 

 

Depois de quase duas horas veio um médico até a maca de Marvin.

— Meu nome é Banquero — disse ele. — Doutor Jesus Banquero.

— Onde está o doutor Geisel? — perguntou Bolling, que voltou logo depois de Katja.

Isabelle traduziu.

— Está operando — disse Banquero. — O senhor Marvin teve muita sorte. Apenas um leve abalo cerebral. Quatro dias de repouso absoluto. Virei vê-lo toda noite. Honorários, mais tarde.

— Queremos um enfermeiro — disse Gonzalos. — Não, dois enfermeiros. Dia e noite. O tempo todo.

— Ótimo — disse Peter Bolling. — O tempo todo. Da mesma forma como é aqui.

Hum, pensou Katja. — Você também pensa assim? — ela perguntou ao químico, que olhava para Isabelle.

— Claro. Imediatamente. O tempo que for possível.

— Absurdo — disse Marvin, irado.

— E você cale a boca — disse Bolling. — Você não sabe de nada.

Eu também não, pensou Katja, confusa. Eu também não sei de nada. O que está acontecendo aqui? Qual é a do Bolling? Que tipo de conversa era aquela com Joschka Zinner, em Hamburgo? O que está sendo representado aqui?

— Fazemos questão de enfermeiros — disse Bolling. E para Isabelle: — Por favor, pergunte quanto custam dois enfermeiros em tempo integral!

— Ele disse quatro dias na cama? — Marvin rosnou.

— Quieto! — Bolling disse.

— De jeito nenhum! —Marvin gritou. E logo em seguida gemeu de dor.

— Sem discussão — disse Bolling. — Por favor, Isabelle, informe-se!

Isabelle se informou.

— Quinhentos — ela disse então. — Para os dois. Armados, naturalmente.

— De qualquer forma, armados — disse Bolling. Ele notou que Gonzalos olhava para ele. — Por que está olhando para mim?

— Você tem olhos tão bonitos — disse Gonzalos.

— Ah, deixe-me em paz...

— Não se irrite, fique contente — disse Banquero. — Aqui é assim.

— Claro — disse Gonzalos. — Mas 500 dólares é muito.

— Quatro dias! — disse o Dr. Banquero.

— Ele está louco — disse Bolling.

Isabelle traduzia rapidamente: — Então, não, diz ele. 500 dólares. Seus honorários são 200.

— Tudo bem com os honorários, mas não 500 para os dois enfermeiros — disse Gonzalos.

— Para compensar, o exame e o raio-X são de graça — disse Banquero. — 500 para os dois enfermeiros. Preço especial. Porque o senhor Marvin é alemão. Eu amo a Alemanha.

— 200 — disse Bolling.

Preciso falar urgentemente com Bernd, pensou Katja. Algo fede aqui.

— 400 — disse Banquero.

— 250 — disse Bolling.

— 300. O senhor é judeu?

— Então só 150 — disse Bolling.

— O que é, o que é? Pergunto por simpatia. Amo os judeus — disse o Dr. Jesus Banquero, que embolsou duas notas de 100 e desapareceu. Depois de 15 minutos ele voltou com um enfermeiro gigantesco.

— Este é Santamaria — disse Banquero. — O primeiro enfermeiro. Vai logo com vocês. 12 horas. Então será substituído.

— Onde está sua arma? — Bolling perguntou.

Isabelle traduziu.

Santamaria levantou sua suada camisa verde. No cós da calça estava uma nove milímetros. Dos bolsos da calça Santamaria pegou três revistas grossas.

— OK? — ele perguntou.

— OK — Bolling disse.

Eles viajaram novamente através do lugar e ouviram tiros e gritos. Santamaria estava na frente entre Katja e o motorista.

— Precisamos nos apressar — disse Gonzalos, que estava sentado atrás e ao lado do catre, com Gilles, Isabelle e Bolling. — Os latifundiários mandaram dizer que às 18 horas chegará seu pessoal da segurança. — Marvin era jogado na maca para lá e para cá, embora Isabelle e Gilles o segurassem. O novo motorista estava apressado. Parece ser do pessoal da segurança, pensou Gonzalos. Katja se virou e viu como Bolling falava baixo com Marvin. Esses dois, pensou ela. O que há com esses dois?

Os hotéis um pouco melhores de Altamira estavam lotados, quando eles chegaram de Belém. Eles só acharam um quarto numa pousada chamada Paraíso. Este paraíso era uma grande pousada, de 62 quartos, nos quais em certas épocas dormiam até 150 pessoas. Eles haviam subornado o dono e conseguiram um quarto isolado. Assim, havia pelo menos camas e duchas.

A ambulância parou em frente ao Paraíso.

Santamaria e o motorista trouxeram Marvin numa maca até o pequeno hall, onde os olhou, rabugento, um pequeno porteiro com camisa suja, bermudas sujas e muita brilhantina nos cabelos. No fim do hall havia um bar. Repórteres alemães berravam em coro: “A patroa também tem uma pulga...”

O porteiro disse algo, enojado.

— O que ele diz? — Bolling perguntou.

— Ele odeia todos os gringos.

— Eu o amo — disse Gilles. — Vou beijá-lo depois. Primeiro precisamos da chave do quarto do senhor Marvin. 215.

— Não está aqui. Deve estar em cima — traduziu Isabelle.

O porteiro havia se sentado atrás do seu balcão e olhava fotos numa revista pornográfica. Ele não se deixou interromper.

Santamaria e o motorista carregaram Marvin na maca para o segundo andar e através de um sujo corredor. Atrás de uma porta uma mulher gritou: — Ah! Ah! Ah! Você me mata! Você me mata! Continue! Continue!

Ninguém pediu uma tradução.

Eles chegaram ao quarto 215.

— A chave está aí — disse Bolling. — Para trás. Todos para trás. Atenção! — O enfermeiro Santamaria pegou debaixo de sua camisa a nove milímetros no cós da calça. Ele levantou um pé e empurrou. A porta se escancarou. Rapidamente Santamaria pulou para o lado. Agora ele segurava a pistola com as duas mãos, pronto para atirar.

De dentro do quarto veio uma moça magra com cabelos castanhos e olhos cinza. Ela vestia uma leve jaqueta e a calça verde do Exército americano.

Marvin olhou para ela.

A moça magra se ajoelhou ao lado dele.

— Papai — disse Susanne Marvin, e o beijou nos lábios sujos de sangue.

 

— Acredite em mim, doutora Goldstein, eu amei Markus. Mais do que o normal. E ainda o amo. Não, não é verdade. Posso entender o que ele fez. Tenho pena dele. Sim, os sentimentos de antes se transformaram em piedade — disse Elisa Katharina Luise Hansen seriamente, as pontas dos longos dedos cruzados, os lábios tremiam num sorriso melancólico. — Por isso fiz tudo para que Hilmar, meu marido, retirasse a denúncia. Mais uma xícara de café? A senhora disse ao telefone, de preferência café. Sem leite, eu sei. O açúcar, a senhora mesma serve.

Estas palavras foram quase ditas ao mesmo tempo em que, a milhares de quilômetros de distância, no Hotel Paraíso, Susanne Marvin beijava os lábios de seu pai sujos de sangue na cidadezinha de Altamira, no Norte do Brasil.

Elisa Hansen e Miriam Goldstein estavam sob um guarda-sol azul no grande terraço do palacete Arabella, perto da cidade de Königstein, no Taunus. A graciosa advogada com os cabelos brancos penteados descontraidamente e os grandes olhos escuros no rosto estreito vestia um vestido de verão de listras pretas e brancas e sapatos igualmente alvinegros. Vindo de Frankfurt, ela havia chegado num táxi.

— Bonito lugar — havia dito o motorista. — Aqui mora o senhor Hansen. Cheguei a conhecer seu pai. Grande homem, realmente. Quando se pensa que ele reconstruiu tudo, todas as fábricas no Meno, tudo estava em ruínas! Um mérito. Também conduzo o filho com freqüência. E a senhora Hansen. Gente fina, realmente. Luta­ram por cada centavo. Assim não invejo a riqueza de ninguém. Honestamente. Nenhuma inveja. E ainda mais quando ele produz medicamentos para pessoas doentes, produtos industriais que não prejudicam o meio ambiente... Bravo, bravo! Aqui preciso parar, infelizmente, prezada senhora. — Ele havia chegado ao portão de entrada, no qual Miriam viu duas câmeras de TV. — Proibido, todo o complexo. Compreensível, não é? Sobretudo quando se pensa no que aconteceu ao doutor Hansen. Uma safadeza. Por mim esse Marvin receberia a mais alta pena que há. Comunista. Guiado pelo Leste.

— Quem diz isto? — Miriam perguntou.

— Ninguém precisa me dizer isso. É óbvio. Sabemos qual é a situação aqui, não é? 45 marcos e 20 centavos, por favor... Oh, muito generosa, muito obrigado, madame, muito obrigado! E uma boa tarde!

Enquanto ele manobrava o carro, Miriam foi ao portão e tocou a campainha. Logo depois ouviu-se uma voz de homem. — Sim?

— Meu nome é Miriam Goldstein. Tenho um encontro marcado com a senhora Hansen. Às 15 horas. Faltam dois minutos para as 15.

— Vou imediatamente — disse a voz.

Miriam estava sob o sol ardente na grande área diante do portão. O chão estava coberto com uma densa camada de mármore branco, que brilhava e iluminava.

De repente soou o horrível grito de uma voz masculina. Miriam estremeceu. Pelo amor de Deus, pensou ela, ou alguém aqui está sendo morto da maneira mais cruel, ou alguém mata da maneira mais cruel. Ela tremia de susto.

Sobre o caminho de cascalho do parque veio um rapaz. Ele cumprimentou educadamente e abriu o portão digitando o código de números num aparelho ao lado.

— Reiter — disse ele. — Polícia criminal. — O portão se fechou. De uma casinha no jardim vieram mais dois homens.

— A senhora Hansen tem proteção pessoal — disse Reiter. — Conheço-a, doutora Goldstein. Mesmo assim, preciso lhe pedir para ser brevemente examinada — é uma ordem.

— Naturalmente — disse Miriam. Ao lado dos dois homens apareceu uma jovem moça.

— Na casinha, doutora. A colega resolve isso.

No interior da casinha de jardim, na qual havia aparadores de grama, ceifeiros e outros aparelhos, a funcionária da polícia apalpou com uma sonda metálica o corpo de Miriam. Ela também examinou o conteúdo de sua bolsa. — Em ordem, doutora. Não foi por mal! Não fazemos isso para nos divertir.

— Certamente que não — disse Miriam, e foi de novo para fora. Então ela percebeu que ainda outros homens passeavam lentamente pelo jardim.

Sobre o caminho de cascalho vinha agora uma mulher com um quimono preto bordado de dourado, com sapatos baixos, bordados de preto e dourado. A mulher tinha ombros largos, quadris estreitos e longas pernas. Seus cabelos castanhos estavam cortados no estilo pajem. Tinha lábios carnudos e bonitos olhos castanhos e andava cheia de elegância e graça.

De novo soou o terrível grito. De novo Miriam estremeceu. Ela viu que a mulher sorriu. A calma não durou três segundos, e vieram dois gritos, consecutivamente.

— Boa tarde, doutora Goldstein — disse a mulher de quimono bordado. — Sou Elisa Hansen. — Sua mão estava fria e seca. — Alegro-me em conhecê-la, doutora. Por favor, venha. Mandei servir café no terraço, está bem assim?

— Claro — disse Miriam. Ela viu as grandes, velhas e, em parte, exóticas árvores. No silêncio só podiam ser ouvidos o chiar dos sapatos e o canto dos pássaros. Então, repentinamente, de novo um atroz grito.

— Daqui a pouco acaba — disse Elisa Hansen, sorrindo. — Já dura muito tempo. Diariamente dois ou três. Aos sábados, domin­gos e feriados, não.

— Mas o que é isso, pelo amor de Deus?

— Oh, a senhora sabe, no fim do parque, a senhora não pode ver daqui, alguns metros mais abaixo, há um seminário de padres. Os jovens senhores treinam.

— Treinam o quê?

— Caratê, senhora Goldstein, caratê. Nesse tipo de luta os participantes soltam tais gritos. Quase não ouvimos. É tão maravilhoso aqui. E é sempre bom ter por perto homens jovens que dominam o caratê, não é?

A calma agora durava.

— Veja, três horas. É tudo, por hoje. Às seis eles cantarão. Mas só se ouve se o vento soprar numa determinada direção. Desculpe-me a investigação corporal. É muito desagradável para as visitas — e para nós também. Thomas, nosso pequeno filho, é diariamente levado para a escola e trazido de volta. Não pode mais brincar com os amigos, o pobrezinho. Não entende tudo isso.

— A senhora entende, senhora Hansen?

— Entendo o quê?

— Essas medidas de segurança tão extraordinárias.

— Ah, sim. Também o meu marido no hospital municipal teve... Depois de tudo o que aconteceu... Todas as cartas e ameaças de morte... Não se deve correr riscos, dizem os senhores.

— Vocês viviam assim, antes?

— Ah, alguns anos vai durar esse nervosismo... Uns fanáticos quaisquer... Invejosos... Concorrentes... Desequilibrados... Produzimos preparados pretensamente nocivos à saúde... nocivos ao meio ambiente... A senhora sabe como é isso.

— Não — disse Miriam — Não sei. Como é isso?

— Vou lhe contar. Vou lhe contar tudo, doutora Goldstein. No terraço. Obrigada, senhor Reiter. — Isto para o jovem funcionário criminal que havia aberto a porta para Miriam e agora seguia as duas mulheres. Ele recuou.

Elas entraram no palacete Arabella, que há pouco tempo teve de receber uma nova pintura. O branco brilhava como o mármore em frente ao portão de entrada. A pequena construção do século XIX era de grande beleza. Escadas largas artisticamente arrojadas levavam ao primeiro andar e de lá para o segundo. Aqui Miriam entrou com a senhora Hansen num cômodo muito iluminado, em cujas paredes havia quadros de Matisse, Degas e Liebermann. Um museu particular que valia milhões, pensou Miriam. A luz vinha do teto de vidro opaco. Elas chegaram a uma sala de estar decorada em estilo moderno. Sobre a lareira de mármore branco estava pendurado, com molduras pesadas e douradas, um portrait de Elisa Hansen, os olhos seguiam o observador, aonde quer que ele fosse. Um lado da sala era de paredes de vidro. Elas estavam semi-abertas. Atrás delas havia um terraço de mármore. Ali estavam sob um guarda-sol azul um jogo de cadeiras de linho azul e uma mesa de vidro quadrada, que estava coberta graciosamente.

Apareceu uma mulher de cabelos escuros. Ela vestia um vestido branco de linho, fechado.

— Faremos tudo sozinhas, Therese — disse a senhora Hansen. A mulher sorriu amigavelmente e desapareceu novamente. — Venha, minha cara doutora. É lindo aqui fora, tão fresco com este calor. — Os cumes das velhas árvores entravam bem densamente no terraço. A senhora Hansen serviu café e biscoitos. Finalmente, ela se encostou, sorridente. — Bonito, não?

— Quase inacreditável — disse Miriam.

— Aqui o meu marido pode descansar — disse a senhora Hansen. — Há três terraços como este. Em volta da casa. Podemos ter sol desde cedo até tarde. Mas este é o lugar preferido de Hilmar. Por isso o escolhi. O café está bom, minha cara?

— Sim, senhora Hansen.

— Não está muito forte?

— Não, senhora Hansen.

— E não muito fraco?

— Exatamente como eu gosto, senhora Hansen.

— Deve-me dizer, minha cara, mesmo! Faço com prazer outro! Este eu fiz há alguns minutos. A placa embaixo do bule o esquenta. Está realmente tudo em ordem?

— Ele está muito saboroso — disse Miriam, quase no fim de seu autodomínio. — Agradeço que tenha me recebido tão rapidamente, senhora Hansen. A senhora sabe que eu defendo Markus Marvin e...

— Não é possível, é um rouxinol! — disse a senhora Hansen.

— Maravilhoso. Permita-me que expresse a minha comiseração, senhora Hansen. Sei que seu marido tem dores terríveis, ainda.

— Ainda, infelizmente, sim. Temos aqui uma espécie de paraíso dos pássaros. Muitos rouxinóis. Só que... eles não cantam a partir de junho. Isso deve estar ligado ao quente agosto. Hilmar conhece todos os pássaros ouvindo seu canto. Freqüentemente ele se senta horas a fio aqui e escuta... nos fins de semana apenas, naturalmente, o pobre quase nunca chega antes da meia-noite do escritório. E todas as viagens... Lá, um outro rouxinol!

Miriam Goldstein pousou energicamente a xícara de café e se curvou para a frente. — Não quero lhe aborrecer por muito tempo...

— Aborrecer! Que coisa mais sem sentido, minha cara! Estou feliz de tê-la aqui, de poder lhe explicar tudo... ou ao menos alguma coisa... Pegue desse bolo... Não, não, não, a senhora deve, faço questão, ele é muito saboroso!... Permita que eu... — Ela empurrou um pedaço no prato ao lado da xícara de Miriam.

— Obrigada, senhora Hansen. Muito gentil. Porque a senhora falou que podia me explicar algumas coisas...

— Ah, sim. — A senhora Hansen se encostou e olhou para o céu sem nuvens. — Veja, Hilmar, Markus e eu, nós nos conhecemos desde os 16 anos. Íamos ao mesmo colégio. Fizemos ao mesmo tempo o vestibular, estudamos na mesma época... Este é um pintarroxo, a senhora ouve?... Sim, nos conhecemos há 26 anos. Temos a mesma idade. 42 anos.

— Impressionante — disse Miriam, e pensou: suas mãos tremem, as mãos de Elisa Hansen tremem. Não muito, mas ainda assim. Um leve tremor. Ela notou que eu notei, ela esconde as mãos como pode. Quando não pode, ela segura firmemente o tampo da mesa. Cruza os dedos. Por que as mãos da senhora Hansen tremem? Por que ela está tão nervosa? Ela pode ser doente. Mas não deve ser doente. Não, não deve.

— Eu... eu estou muito contente de poder contar tudo isso a uma mulher e não a um homem... ao procurador Ritt, por exemplo... — Elisa Hansen sorriu rapidamente. — Falo com mais facilidade para uma mulher... Hilmar e Markus... Markus e Hilmar... os dois tão diferentes... e apesar disso: fascinantes para mim. O doce Hilmar, todo espírito... e Markus, forte, grande, cheio de força e... e tão do lado de cá. Bem, e entre os dois, eu. Todos os dois me admiravam... E bom ser admirada por dois homens, não é?

— Certamente, senhora Hansen.

— É claro, no fim não se conhece a si próprio... Quero dizer, chega-se freqüentemente a uma confusão de sentimentos... O pedaço de bolo, meu Deus, coma o pedaço de bolo, cara doutora!... Não me envergonho... Não há motivos para isso... Eu era jovem, romântica... Durante um bom tempo não pude me decidir entre esses dois homens... Até que no começo... no decorrer dos anos... dos anos, sim... eu fui amante de Hilmar e depois também amante de Markus... Digo isso sem vergonha, porque estou convencida de que a senhora, como mulher inteligente...

— Eu a compreendo, senhora Hansen. A senhora era jovem, e é sempre bom ser admirada por dois homens extraordinários. Por que as suas mãos tremem?

— Eu sabia que a senhora entenderia... Café? Mais café? Sirva-se, por favor! Eu... o que queria... ah, sim! É claro que isso não pode durar, não é verdade? Deve-se decidir, não é?... No fim me decidi... por Markus. Nós nos casamos.

— Quando, senhora Hansen?

— Em 1969. No dia 21 de maio. Em Starnberg, perto de Munique. Meus pais têm uma propriedade lá. Quer dizer, pelo menos deveríamos ter um pouco de consideração pelo pobre Hilmar, não é verdade? Nada de casamento em Frankfurt.

— Naturalmente não.

— Aliás, ele tentou o suicídio nesse dia.

— Oh.

— Cortou os pulsos, sim. Uma situação crítica, durante três dias. Então os médicos o salvaram. Soubemos disso mais tarde, muito mais tarde. Pobre Hilmar... Este é um melro.

— Realmente excelente, o bolo — disse Miriam. Se você quer, você pode tê-lo, pensou ela. — E depois, senhora Hansen? — ela perguntou, doce. Por que tremem as mãos?

— E depois? — Elisa pigarreou. — Primeiro tudo foi maravilhoso. Markus trabalhou no Instituto de Física Teórica, então os seus documentários. Ganhava, é claro, muito pouco. Por sorte eu venho de família abastada. Éramos felizes. Tão felizes. Em 1970 nasceu nossa filha Susanne... Então já uma... uma sombra... é, devo dizer assim... Uma sombra pairava sobre o nosso casamento. — A senhora Hansen suspirou, com as mãos escondidas.

— Uma sombra — repetiu Miriam.

— Sim... veja... agora chegamos ao que a senhora quer saber, minha cara, o que a senhora deve saber... Vou dizê-lo com grande precaução... Acredite em mim, cara senhora Goldstein, eu amei Markus um dia. Sobre todas as coisas. Posso entender o que ele fez. Compreendo os seus sentimentos, tenho pena dele. Por favor, tome mais café! A senhora disse ao telefone que preferia café!

— Muito obrigada. A sombra sobre o seu casamento...

— Markus havia mudado. Eu já via isso muito claramente. O que eu não tinha visto era que Markus sempre pareceu sofrer... no colégio... talvez já na infância... Essas coisas se desenvolvem já na infância... Sim, ele sofria, e sofria cada vez mais...

— Com o quê, senhora Hansen?

Elisa Hansen se levantou de repente. — Com a sua posição marginalizada — disse ela alto e duramente. — Disso resultou: uma insatisfação, uma ambição ofendida, um complexo de inferioridade que crescia a cada dia. A isto seguiram, por sua vez: os primeiros desejos impossíveis, então agressão, inveja, pedantismo, fanatis­mo, uma mania constante de superioridade, uma amargura sempre crescente e finalmente injustiça perante qualquer um, naturalmente mais perante aqueles mais próximos a ele — eu e a criança —, e por último ódio, sim, ódio...

— Ódio de quê?

— De tudo, minha cara. Mais, é claro, de Hilmar Hansen.

— De seu amigo de juventude?

— Justamente de seu amigo de juventude. Pense, cara senhora Goldstein, como transcorreu a vida dos dois! Markus trabalhava no instituto. Muito bem. O ideal para ele. Eu sabia. Mas ele... ele só via Hilmar, como ele se desenvolvia... como ele construía as fábricas com o pai... como as fez florescer... estimulou a produção... como Hilmar ficou criativo... digo criativo, doutora...

— Ouvi.

— Como o sucesso de Hilmar ia crescendo. Condecorações, prêmios, homenagens, sem esquecer o lado financeiro. E o internacional. Hilmar sempre pelo mundo, minha cara. Fazia uma palestra nesta universidade, depois naquela... Doutor honoris causa, diplomas, vendeu as patentes dos produtos em vários países... um programa de pesquisa imenso... E Markus, o meu Markus? Depois que os documentários não lhe trouxeram lauréis, ele se mudou para Wiesbaden na inspeção do Ministério do Meio Ambiente de Hessen. Meu Deus, ele me dava tanta pena, apesar de toda sua injustiça, sua maldade, sua maneira de me ferir, porque ele não podia ferir outra pessoa, porque ele não podia reagir de outra forma!... É claro que eu sofria, chorava toda noite ao dormir. Mas o compreendia, compreendia o seu desespero, fiquei com ele, embora fosse cada dia mais difícil... — A senhora Hansen tirou um lenço, enxugou os olhos e se calou. Esta mulher quer se impor a mim como grande mártir, pensou Miriam. — Veja, venho de uma família católica. Educada nos moldes respectivos. Talvez isso seja demodé, mas acredito sincera e profundamente em Deus...

Também faço assim, pensou Miriam. Só que de maneira comple­tamente diferente.

— ...e Marvin é ateu, sempre foi. Cientista, a senhora dirá, combina. Embora haja exemplos contrários... o ancião Einstein... tantos grandes eruditos... Sempre tive compreensão com Markus, tenho compreensão com ateus e agnósticos... aliás Hilmar, também cientista, é católico... Só mencionei o ateísmo de Markus porque ele, quanto mais amargo ficava, tanto mais ele pregava a sua descrença... Entre outras coisas, ele confundia a nossa filha, naquele tempo ainda pequena...

— A senhora diz que ele era muito infeliz — disse Miriam, em voz baixa.

— Amargurado, eu disse. Irado. E a ira se transformou em malda­de. Na sua modesta posição na inspeção do meio ambiente ele teve oportunidades bastantes para praticá-la, esta maldade nascida de seu sofrimento pelo fracasso. Ele impôs dificuldades a inúmeras firmas farmacêuticas, químicas e cosméticas. E sempre, é claro, a Hilmar.

— Pensei que ele só fizesse isso nos últimos tempos por causa dos produtos com HCFC.

— Ah, caríssima! Isto já dura anos! Chicanas. Determinações. Denúncias. Tudo o que é possível. De vez em quando o exame de todas as medidas de segurança... de todas as máquinas... das chaminés... dos filtros... Markus virou totalmente maníaco, senhora Miriam. Ele era meu marido! E eu o havia amado um dia! Casado com ele. Amei-o mais que a Hilmar. E por último Markus ficou absolutamente insuportável, acredite-me! Às vezes se comportava como um louco. Causava escândalos... um na casa de meus pais... Meu pai já sofreu dois enfartes...

— O que aconteceu na casa de seus pais?

— Fomos convidados — com muitos outros — para uma caçada. Meu pai caça na Alta Baviera, sabe? Durante anos Markus ficava muito contente quando éramos chamados... Então, naquela vez tudo deu errado para ele. Ele errou em três animais bem próximos, teve uma raiva doentia, tanta, que ele, xingando muito, atirou para cima, imagine. Atirou para o céu depois que xingou Deus todo-poderoso — na frente de todo mundo!

— E então? — Miriam perguntou. — A senhora acha que ele tinha chance de acertar no Deus todo-poderoso?

— Senhora Goldstein! — Elisa Hansen, melindrada. — É claro que não.

— Mas então o senhor Marvin acredita mais que a senhora — disse Miriam. Elisa Hansen não entendeu.

— Quando ele me bateu pela primeira vez — bateu até sangrar, senhora Goldstein! — então foi o fim, eu não podia mais. Então o abandonei. Com o coração partido, pois Susanne tinha sete anos naquele tempo. Primeiro a levei comigo. Aluguei um apartamento. Pedi o divórcio. Divorciei-me. E vim morar com Hilmar Hansen, nesta casa.

— Mas Susanne...

— No divórcio a guarda ficou com o pai — disse Elisa Hansen, e eu chorei sem parar. — Fiz tudo errado... É claro que já antes do divórcio eu me encontrava com Hilmar freqüentemente... Eu precisava de apoio... de quem quer que fosse... A criança não entendia o que se passava, por que eu havia abandonado Markus...

— E por isso foi dada a guarda a seu ex-marido? Acalme-se, por favor! — Miriam se levantou e olhou para o parque. O choro se transformou em soluços. Os soluços passaram. Molhado de lágri­mas estava aquele rosto não mais jovem, porém bonito, de Elisa Hansen. Suas mãos agora tremiam muito, e ela não as escondia mais.

— Cometi erros em cima de erros no meu desespero, senhora Goldstein... aceitei um trabalho... eu simplesmente não podia mais... estava no fim... Hilmar me ajudou com dinheiro... muito dinheiro... Fui intimada a voltar para a minha vida conjugai... Recusei... Markus agitou a repartição responsável pelos jovens... Naturalmen­te Hilmar me visitava algumas vezes... A repartição achou que a criança vivia num ambiente perigoso... perigoso para o desenvolvi­mento normal... Eu... eu não posso falar sobre tudo com detalhes... Em todo caso, Markus recebeu o direito de criá-la... Eu tinha o direito de levar Susanne em determinados espaços de tempo... Isso durou um pouco... Então ela se recusou a vir a esta casa... As pro­vocações do pai!... A criança ficou completamente confusa... foi para a extrema esquerda... Para ela Hilmar era um criminoso, como achava Markus, que naquele tempo defendia a energia nuclear com unhas e dentes... Foi por isso que aconteceu a última grande desa­vença entre Susanne e Markus... A senhora sabe que ela saiu de casa em razão do ocorrido na usina nuclear de Biblis e nunca mais voltou...

— Eu sei, senhora Hansen.

— Ele carregou muita culpa, o pobre Markus, acredite-me, senhora Goldstein! E ele penou muito por isso. A senhora vê como a amargura, o ódio, a ira, a solidão — por sua própria culpa — nos últimos tempos o destruíam mais e mais... o deixavam mais agressivo e injusto... sempre mais irracional... Ele ainda luta pela energia nuclear, não é, e logo depois se junta a esses militantes apóstolos ecologistas... Desculpe-me pela palavra injusta! A douto­ra Roth e o senhor Bolling e toda essa gente nessa Sociedade em Lübeck são certamente íntegros... Mas com Markus, dói-me dizer isso, com Markus chegou a ele um destroço humano... um homem que não pode se resignar e se domar e que as sim não destruiu apenas a sua vida, não, não apenas a sua... — Elisa Hansen ficou em silêncio por muito tempo. Novamente cantou um rouxinol, mas desta vez ela não se referiu a ele. Por último ela disse: — Mas sim! Quando ele, na sua loucura, espancou o meu pobre Hilmar, que é tão doce, tão mais fraco que ele, espancou da maneira mais brutal, então eu senti ódio. Dele. Só por pouco tempo. Então a compreensão tomou o lugar do ódio. E pedi a Hilmar para retirar a denúncia. Ele o fez imediatamente. Ele compreende Markus bem... Agora a senhora sabe como foi, senhora Goldstein. Agora a senhora sabe de tudo.

— Obrigada, senhora Hansen — disse Miriam. — Gostaria de perguntar apenas uma coisa.

— Pergunte.

— O que a senhora acha, quem poderia ter querido tentar matar meu cliente na prisão?

A resposta veio imediatamente: — Sabe, eu acho que a polícia, o procurador, todos vocês foram vítimas de um mal-entendido.

— Como assim?

— Markus nunca deveria ser morto.

Um garoto veio ao terraço, seguido por um homem à paisana. O funcionário da polícia falou rapidamente e se retirou.

O garoto tinha mais ou menos nove anos. Usava calças curtas e uma camisa branca.

— Boa tarde, mami.

— Boa tarde, Thomas. — Ele beijou Elisa Hansen no rosto. Depois ele se curvou diante de Miriam.

— Este é o meu filho Thomas — disse Elisa Hansen. — Thomas, esta é a doutora Goldstein.

Incrível como o garoto se parece com a mãe, pensou Miriam. Os mesmos ombros largos e quadris estreitos. As longas pernas. Os olhos castanhos. Os já agora carnudos lábios.

— Boa tarde, doutora Goldstein.

Little Lord Fauntleroy, pensou Miriam.

— Estou vendo que o senhor Woller lhe trouxe para casa. Foi boa a natação?

— A natação, sim — disse Thomas.

— O que significa: a natação, sim?

— Eles disseram de novo — Thomas olhou para o chão.

— Não ligue para isso! São garotos bobos.

— Sim, está certo. Mas por que eles dizem isso, mami? Por que eles sempre dizem isso? Isso não é verdade!

— É claro que não é verdade. Eu já lhe disse, eles são influenci­ados pelos pais.

— E por que os pais dizem isso, mami?

— Meu Deus... — Elisa Hansen tinha novamente lágrimas nos olhos. — Aí a senhora vê até que ponto tudo chegou, senhora Goldstein! Diga a ela o que os garotos dizem, Thomas!

Thomas olhou com um ar sério para Miriam. — Seu pai é um criminoso, eles dizem.

— Isto não é terrível? — Elisa gritou. — Uma criança, uma criança precisa ouvir isto! Diariamente!

— Por que os professores não fazem nada contra?

— Os professores fazem o que podem... A senhora vê com que sucesso... — Elisa Hansen levou o lenço aos olhos.

— Eu não devia ter lhe dito isso. E não devia tê-la aborrecido — disse Thomas. — Mas o senhor Woller disse que precisava me trazer até você.

— Sim, ele precisava.

— Tudo muito triste — disse o triste garoto, e isto soou estranho de sua boca. Ele se curvou diante de Miriam. — Até logo, doutora. — E para sua mãe: — Vou procurar Thesi, mami. — Com os ombros pendurados, ele saiu do terraço.

Elisa Hansen começou a chorar muito.

Miriam ficou imóvel e a observava.

Muitos pássaros cantavam no parque.

 

 

Alguns minutos depois Elisa Hansen havia se acalmado.

— Desculpe-me... mas isso é uma miséria... Como tudo deve continuar, senhora Goldstein?

— A sua posição pública faz necessária uma proteção severa, por enquanto — disse Miriam, séria. — A senhora disse antes que Markus Marvin não deveria ser assassinado.

— Disse, sim.

— Mas...

— Eu sei o que a senhora quer argumentar... Ele está vivo graças a um acaso. Certamente. Mas esse acaso não cancela que simples­mente não há uma razão de alguém querer matar Markus. O outro, o contrabandista de armas, era sem dúvida um perigo para muita gente... Sabia muito... Colegas de trabalho que tinham medo que ele abrisse o jogo. Isto também diz o meu marido. E nós dois não podemos mesmo compreender que ninguém leve em conta essa versão, que está tão clara, e a investigue.

— Também está sendo investigado nessa direção, senhora Hansen, é claro.

— Bem, senão seria grotesco. Quero dizer: certamente ninguém queria envenenar Markus — mesmo que a sua morte, sem aquele acaso, que a impediu, fosse uma boa coisa para muitos...

— Uma boa coisa?

— Nestes tempos agitados, senhora Goldstein! Sempre se irá encontrar pessoas que dizem que ele tinha sido para a indústria farmacêutica, para a indústria química, sei lá para quem, um espinho no olho, fanático ecologista que era, como desmascarador de males. E sempre se achará pessoas que acreditarão nisso... Veja os pais dos colegas de Thomas... Os inimigos daquele contrabandis­ta de armas, pelo menos...

 

 

— “... conseguiram o que queriam. Ele está morto”, declarou-me a senhora Hansen. Logo depois a deixei e vim diretamente para cá — disse Miriam Goldstein menos de uma hora depois a Valerie Roth e ao procurador Elmar Ritt.

Eles estavam na sala do apartamento de Miriam no Hotel Frankfurter Hof, no qual ela estava hospedada há dois dias, novamente. Foi-lhe dado o mesmo apartamento da última vez, aquele na construção nova com decoração em preto e branco e vista para as torres gigantes dos bancos, que cintilavam no fim da tarde.

— É, a senhora Hansen pode naturalmente ter razão com a sua convicção. O que ela disse é absolutamente lógico. Seria uma explicação para o fato de o caso ter sido tirado de suas mãos, senhor Ritt? — Miriam perguntou.

O procurador estava com uma péssima aparência. Ele levantou os ombros e baixou-os novamente. — Naturalmente. Mas se é assim, para que então a proteção pessoal para os Hansen?

— Porque de fato existem ameaças de morte — disse Valerie Roth. Ela usava um vestido de verão azul com pontos brancos e lentes de contato marrons. Os dois outros a olhavam. — Ameaças de morte que devem ser absolutamente levadas a sério, diz-se em Bonn — continuou ela. — Tenho as minhas relações lá. Graças a elas recebemos — falo da Sociedade de Física de Lübeck — ajuda freqüentemente. A senhora Goldstein pode confirmar isso, senhor Ritt.

— Não tenho nenhuma dúvida — disse este. — A senhora não me dirá que relações são essas?

Valerie balançou a cabeça energicamente.

— Certamente não... Apenas sob a condição de não citar nomes, recebo sempre instruções, informações, ajuda discreta... Por últi­mo, quando se falava se Markus poderia sair da Alemanha. A sua permissão não foi suficiente, se o senhor se lembra, senhor Ritt. E de repente ela se tornou suficiente.

Valerie olhou para ele.

— Por que é que os Hansen são ameaçados de morte? A senhora sabe alguma coisa graças às suas relações?

— Sim, senhor Ritt. Por assim dizer, o pobre Markus é culpado dessas ameaças... Nós todos somos culpados, atacamos Hansen como criminoso ecológico. A opinião pública está muito excitada e indignada com ele — com razão, independentemente do que a senhora Hansen lhe contou, Miriam. Ele produz produtos perigo­sos. Mas isso não tem nada a ver com o fato de que esse contraban­dista de armas deva ter sido um tipo nojento, que tinha muitos inimigos. Puro azar para o senhor, senhor Ritt, que ele, por assim dizer, fugiu dos seus domínios. Ou o caso Marvin/Hansen nunca lhe teria sido tirado. Amanhã de manhã o senhor encontrará uma carta no seu escritório. Da Procuradoria-Geral. Uma carta muito educada, na qual se está desculpando por um erro. Lamentável erro humano, causado por um mal-entendido. O caso evidentemente nunca deve­ria ter sido tirado de suas mãos. Desde já ele é de sua responsabilidade novamente.

Ritt torceu a boca. — Prezada doutora Roth, tudo é possível na minha profissão, mas isto não.

— Sim — disse Valerie. — Isto também, senhor Ritt. O senhor tem razão, dentro do aparelho judiciário isso é inimaginável. Mas há, como o senhor sabe, os direitos dos aliados. A convicção da senhora Hansen está certa, digo-lhe mais uma vez.

— Quem se preocupou com o caso Engelbrecht? — Miriam perguntou. — Os americanos? Os ingleses? Os franceses? O que lhe foi dito a respeito, Valerie?

— Não se entrou em detalhes. Falou-se apenas desses direitos.

— Isso quer dizer que os contrabandos desse Engelbrecht seriam para um aliado, ou para vários, de tal importância, que se fez esse teatro? — Ritt perguntou.

— Sim, quer dizer isso.

— Contrabando de armas causa tais coisas?

— Parece que não foram apenas contrabandos de armas, senhor Ritt.

— E se eu não lhe der trégua? Se eu quiser saber de qualquer forma por que é que o caso Marvin/Hansen foi tirado de minhas mãos?

— Mas o senhor já tem o caso de volta!

— Bem, então por que é que eu não o tive durante dois dias — disse Ritt, tenaz. — Se eu quiser saber sobre isso de qualquer forma? Se eu quiser saber de qualquer forma por que é que Engelbrecht causava interesse para alguns — quero dizer, para os poderes, para os quais alguns trabalham —, que levou a justiça a tomar um tal passo...

— Pediu — disse Valerie Roth.

— Como?

— A justiça pediu, senhor Ritt. Foi-me dito nas entrelinhas. Também que o procurador-geral da República estava informado.

— O procurador-geral da República? — Ritt pestanejou.

— O procurador-geral da República! — disse Valerie. — Isto lhe dá talvez uma idéia da importância do caso Engelbrecht?

— Em todo caso. E se justamente por isso tento receber uma explicação completa?

Valerie Roth se curvou e falou de forma penetrante: — O senhor não receberá absolutamente nada. Mas terá uma explicação a ouvir. Por conta de sua experiência o senhor pode supor que os aliados se interessam por Engelbrecht fervorosamente — pelo mundo de Engelbrecht, não apenas por ele. Obviamente, senhor Ritt, e isto o senhor sabe através de sua atividade de anos, o senhor não vai alcançar nada.

— Tudo isso é grotesco.

— É claro que é. Por isso o senhor recebe o caso de volta, pois por último, na justiça, a “razão” se impôs. Mas se o senhor quer ir tão longe, saber dos motivos, o senhor põe os meus informantes em perigo — e isto seria grave, não apenas para eles. Também para nós. Uma grande perda...

— Sou da opinião de Valerie — disse Miriam Goldstein.

— Também sou — disse Ritt, cuja feição ficara sombria. — Mas isso não significa que não me interessarei mais por Engelbrecht, que fugiu dos meus domínios, como a senhora disse. E certamente acontece o mesmo com o meu amigo, o comissário Dornhelm. Ele está no meio das investigações da morte de Engelbrecht. Um momento! Por que é que não tiraram o caso dele?

— Tiraram, senhor Ritt, tiraram. O senhor não está mais informado. O senhor Dornhelm precisou se obrigar a não falar com ninguém sobre o assunto, que ele também não deveria trabalhar no caso por alguns dias.

— E sob que desculpa o proibiram disso?

— Seu amigo Dornhelm exigiu uma ordem de busca. Com isso ele caiu fora.

— Um momento! — Miriam Goldstein disse. — Houve uma busca na casa de Engelbrecht?

— Sim.

— Disseram-lhe? — disse Ritt.

— Disseram-me.

— O que a senhora Engelbrecht disse a respeito? — Ritt pergun­tou. — A mim e a Dornhelm ela não deixou em paz depois da morte de seu marido.

— No momento ela deixa todos em paz.

— O que significa isto?

— A senhora Katharina Engelbrecht faz sonoterapia. Na psiquiatria. Sofreu um colapso de nervos. Há dois dias.

— Do que se fica sabendo — disse Ritt. — Em Bonn, eles naturalmente não ficaram informados sobre quem fez a busca na casa de Engelbrecht.

— Naturalmente não.

— E naturalmente também não se algo e, caso sim, o quanto pode vir à luz na busca.

— Senhor Ritt! Por favor, o que o senhor exige dos meus conhecidos? A ajuda deles também tem limites. Volto a dizer: eles só nos ajudam sob a condição de que sua identidade continue em total segredo. O senhor não pode entender isso?

— Oh, sim — disse Ritt. Ele olhou para Miriam. Esta fechara os olhos por um momento. Ela sabia que Elmar Ritt pensava em seu pai. Miriam Goldstein pensava no seu. E ambos pensavam em justiça.

 

 

O quarto de Markus Marvin no Hotel Paraíso, em Altamira, estava encoberto pela escuridão e por um calor abafado. Ele estava estendido em sua cama de ferro. Susanne estava sentada a seu lado e de vez em quando enxugava-lhe o suor no rosto e nos ombros. Quando, na rua, os carros passavam, a luz de seus faróis jogava fantásticas sombras através das cortinas fechadas no teto sujo do quarto. Lá fora, diante da porta, estava sentado num banco o gigantesco enfermeiro Santamaria.

— Susanne — disse Marvin. — Ah, Susanne. Estou tão feliz. Tão feliz. Tudo isto é absolutamente irreal. Nunca mais ouvi falar de você, desde que você foi embora. Como você apareceu aqui?

— Trabalho no Brasil — disse ela, alisando cuidadosamente sua bochecha ferida. — O pessoal do Greenpeace me trouxe. Há meses que estamos aqui no Norte. Por favor, pai, me perdoe! Fui má e injusta com você.

— Você tinha toda a razão — disse ele. — De tudo o que você disse. Vi muita coisa desde então. — O choro da sirene de uma ambulância ficou mais alto. Marvin precisou aumentar o tom de sua voz fraca. — Coisas graves. As mais graves. Por isso trabalho há meses com o pessoal da Sociedade de Física de Lübeck. Sabe o que é, não?

— Claro. — Ela enxugou sua face o quanto pôde. A ambulância foi embora. — Mas eu não tinha nenhuma idéia, pai! Você não acredita que eu teria lhe telefonado imediatamente se tivesse a mínima idéia? Soube há três dias. Também que você viria até Altamira. Meu Deus, como fiquei nervosa! Eu estava justamente trabalhando em Belém. Lá é o nosso ponto de apoio. Lá temos máquinas de escrever, uma biblioteca, um computador. Lá temos uma gráfica. Publicamos material informativo... A maioria das pessoas aqui não sabe ler, é muito difícil... Sempre se precisa achar alguém que leia em voz alta. Para esses cadernos informativos trabalha um homem que você precisa conhecer de qualquer forma, de qualquer forma! Ele se chama Chico Mendes. Seringueiro. Vive e trabalha num lugarejo, Xapuri, no Estado do Acre, na mais longínqua Amazônia.

— Sim — disse Marvin —, já ouvi falar dele.

— Ele virá a esse congresso indígena. No último dia. Você precisa entrevistá-lo, pai! Telefonei para ele. Por ora ele ainda está em São Paulo. Toda noite fala para um público enorme. Meu Deus, como estou contente! — Susanne, de repente, abraçou Marvin com força. Ele gemeu. Ela recuou — Eu sou uma mulher idiota! Desculpe!

— Me abrace mais uma vez, Susanne!

— Mas vai doer.

— Não dói absolutamente — disse ele. — É maravilhoso. Estava tão infeliz, Susanne. E tão sozinho. E agora... Por favor, mais uma vez!

Ela o abraçou e o beijou mais uma vez, agora cuidadosamente e terna.

— Meu Deus, que sorte tenho! Nunca na vida fui tão feliz, minha filhinha.

— Eu também não, papai... — Ela acariciou o seu braço. — Agora trabalharemos juntos, sim?

— Sim, Susanne.

— Você me leva com a equipe, quando você ficar bom? Posso mostrar e explicar a vocês tantas coisas!

— É claro que você vem com a equipe. Ficaremos juntos, Susanne. Para... — Ele parou.

— Para?

— Você sabe o que quero dizer. Mas não o direi. Por superstição. Para que nada aconteça.

— Nada vai acontecer.

— Você não pode dizer isso... Acontece tanta coisa... justamente aqui... justamente com esse trabalho...

— Nada acontecerá — disse Susanne, segura. — E se acontecer, estamos juntos, pai. — Ela acariciou sua mão suja e a pousou na bochecha.

Embaixo passou um caminhão. Atrás havia pessoas esfarrapadas pressionadas umas às outras, que gritavam e cantavam.

— Esse Chico Mendes — disse Susanne —, ele tem 44 anos e é presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Campo local. A ONU lhe deu o prêmio de meio ambiente “Global 500”. — Ela estava cada vez mais solícita. — Ele luta contra o desmatamento da floresta tropical. Deve-se agradecer com toda a certeza a ele o fato de que o Banco Mundial interrompeu, por enquanto, um crédito de 200 milhões de dólares para a construção da estrada entre Porto Velho e Rio Branco. Você sabe, o Banco Mundial também hesita com esse projeto hidrelétrico maluco. — Ele confirmou. — Mas a hesitação não vai adiantar. Também não se o Banco Mundial negar definitivamente. Há outros bancos, japoneses, alemães. Chico Mendes falou com seringueiros, com pescadores e com comerciantes do rio, sempre, sempre, e con­seguiu que eles protestassem contra a construção da estrada. Pois com uma estrada dessas pode-se fazer o desmatamento muito mais facilmente...

Ele sorriu na escuridão. Sua cabeça doía, como se quisesse saltar, mas ele sorriu e pensou: que cachorro feliz eu sou, Susanne está novamente ao meu lado. Susanne está novamente ao seu lado, cachorro feliz!

— Em setembro passado, Chico teve outra vitória parcial — continuou Susanne. — O governador do Acre declarou a zona dos seringais Cachoeira, em Xapuri, como reserva. Sabe o que isso significa?

— Não, não sei.

— Significa — disse Susanne — que nessa reserva não se pode mais desmatar. A criação de gado é proibida. Não se construirão represas, nem minérios podem ser extraídos. Somente são permitidas, por exemplo, a colheita de castanha-do-pará ou a extração de borracha. Isto não é maravilhoso, papai? Foi Chico que conseguiu. E conseguirá muito mais quando vocês tiverem com ele uma conversa diante das câmeras, quando os filmes forem exibidos. Quando... Ah, pai! — Ela o beijou novamente nos lábios.

Bateram na porta.

Susanne se levantou e abriu. Do lado de fora estava Isabelle com o enfermeiro Santamaria, que mantinha a nove milímetros pronta para atirar. Ela usava um turbante e um roupão de banho.

— Desculpe — disse ela. — Através de mim, todos perguntam como está seu pai.

— Obrigada — disse Susanne. — Muito melhor. Não quer entrar?

— De jeito nenhum — disse Isabelle. — Você está com ele. Têm muito o que contar. Ficamos muito contentes que vocês tenham se reencontrado.

 

Quarta-feira, 31 de agosto de 1988: ao passar pelo quarto de G., ouço o barulho da máquina de escrever. Bato. G. está na mesa estreita, na janela. Só de bermuda. Óculos. Datilografa muito rápido. Na rua, gritaria e cantoria, barulho de motores, tiros. Muito abafado. Uma lâmpada sem abajur balança do teto sobre a máquina de escrever portátil.

Ele se levanta. Tira os óculos. — Ele escreve, digo. Gilles escreve! E eu já tenho um título. — Ele pestaneja. Título? Que título? — Para o livro. — Ah. E qual é o título? — Na primavera, o último canto da cotovia. — Não é mau, diz ele. Verdade. De onde você... Um momento! The Last Word of a Bluebird... Tem a ver com isso? — Claro, digo. — Você conhece a estória de Robert Frost? — Meus poemas america­nos preferidos, digo. — Que coisa! Os meus também. O destino conosco, diz ele. Não podemos nos livrar dele. Mas por que “o último”? É assim... hum... And perhaps in the spring he would come back and sing... — Talvez ela voltará e cantará. — Sim, mas Clarisse Gonzalos, com quem falei, tem uma justificativa para a modificação. Achei boa a idéia. É a seguinte... — Não é necessário, diz ele. Tudo bem, colega, se você a acha boa. Talvez uma equipe, nós dois! Agora já temos uma estória de amor para o livro e um título. Se continuarmos assim... Ele fica sério: pensei muito tempo... sobre o que você disse no Rio, sua psico-história... Sobre tudo, os ditos daquele homem da Eletronorte, as faixas dos la­tifundiários, o projeto louco de uma represa aqui, sobre o que o cacique Paiakã disse: apenas mais ou menos 20 mil dos dez milhões de índios sobreviveram à civilização no Brasil... E ninguém, ninguém se interessa por isso! Sim, eu comecei a escrever. Ele sorri envergonhado. Uma coisa entre o Monstro, de Horstmann, e a sua psico-história. — Posso ler? — Por favor, não! Por favor, sim! — E eu posso, é claro...

Mais ou menos isto ele já escreveu:

Há muito que todos os sinais mostram que nos tornamos um dos bilhões de tentativas com as quais a vida toca o espaço das possibilidades, que, vendo da perspectiva da criação, há muito tomou o rumo do futuro um outro galho na árvore da vida. Nenhuma lei da natureza nos aniquila, mas sim a nossa tolice medíocre, embora também não nos ajude o fato de que provavelmente somos a coisa mais inteligente que a evolução já criou. Pelo contrário! Pois esta é a lição picante que podemos aprender de nosso fim próximo: no jogo da evolu­ção, a inteligência não conta absolutamente, mas a relação com o poder. O domínio podia-se determinar quantitativamente como a relação entre o conhecimento e o poder. Esta relação não alcança, pelo menos agora, o ponto crítico, do que foi conseguido com a divisão do átomo. Desde a intervenção, com sucesso, do gen, esse “fator de domínio” foi empurrado para uma série de zeros à direita da vírgula...

Ele escreveu, mais ou menos assim, o seguinte:

A nossa ruína, a nossa pena de morte é a velocidade sufocante, com a qual mudamos o mundo e que não dá aos vagarosos moinhos da evolução o seu direito ao protesto. Como deveria ser a inteligência (isto eu acho ótimo) necessária para equili­brar o rápido avanço de nosso poder sobre a mudança? No momento em que começamos a mexer no banco de dados da evolução, isto só poderia dar certo se tivéssemos à disposição o bilhão de experiências da evolução. Seria um remédio (da natureza). O outro seria uma tomada de poder da razão: uma negativa de toda essa idiotice, avidez e orgulho, que nos deixam fazer tudo o que podemos fazer, também quando não temos nenhuma idéia das conseqüências. Sabemos da ameaça de nossa base de vida. Não há nenhum dia em que não haja nos jornais notícias sobre escândalos ecológicos. Políticos de todos os partidos enchem uns aos outros de confissões para a proteção da natureza e para a responsabilidade para com os nossos contemporâneos e posteriores. Por que é que então as perspectivas se tornam na mesma medida mais sombrias, nas quais se reproduzem essas confissões vazias? Não podem tornar ação o que reconhecemos como totalmente necessário — ou não queremos? Que nós poderíamos, se quiséssemos, não há dúvida. Porém: estamos prontos para pagar esse preço? Esta questão prescinde da qualidade do querer. Existe ainda claramente uma categoria entre poder e querer, que a nossa língua não supre com um verbo próprio: não querer realmente, seriamente, urgentemente. É o querer do bebedor, do fumante, em geral do viciado, que na maioria dos casos quer parar — ou gostaria. A chave da desgraça, na qual entramos a olhos vistos, é o partidário irrefletido, aquele ser social que deixa acontecer tudo o que se passa. Muitos ainda acreditam na capacidade de aprendizagem da raça humana. Uma pergunta-teste: o que aprendemos do último (ou talvez se deva dizer: do penúltimo) holocausto? E a pergunta não é: o que aprendemos em fatos? Porém: em comportamento social?

 

Gilles já havia escrito isso, a última folha ainda estava na máquina. Quando Isabelle leu tudo, ela olhou para ele.

— É verdade — disse ela —, é tudo verdade. E?

— E? E? — ele disse. — Há algum tempo a ZDF mostrou um filme incomum sobre a vida cotidiana no Terceiro Reich... Em parte com documentos conhecidos, mas sobretudo com cenas representadas. O diretor e autor Erwin Leiser ocupou-se da questão, de como num povo do mundo cristão no século XX pôde estourar a mais sangrenta barbárie. O que afligia no filme: não o criminoso político que estava na berlinda, não as tropas da SA, também não os assassinos dos campos de concentração e suas montanhas de cadáveres, mas o pai de família, que no fim do dia quer ter sua calma, a dona-de-casa, que pensa na próxima refeição, o funcionário, na sua aposentadoria, o merceeiro, no seu lucro, e que, calados, deixam acontecer tudo, que vão ser quebradas as vidraças dos seus vizinhos judeus, colada na jaqueta uma estrela — gente como você e eu.

Gilles olhava para a escuridão, só a folha de papel se iluminava no brilho da lâmpada nua. Ele escutou por um momento o barulho daquela bêbada, rebelde e sangrenta casa de loucos chamada Altamira, junto com os seus pensamentos.

— Faremos um filme: Partidários irrefletidos — quem fez o nosso mundo se tornar inabitável? — disse ele, finalmente. — Agora e aqui e hoje. Não precisamos procurar o material como Erwin Leiser, 50 anos depois e nos arquivos, e as cenas com os partidários irrefletidos temos todos os dias, novas, em excesso e não premeditadas. A personagem-chave, que é comum a todas as catástrofes, que fez de tudo, ela é o partidário irrefletido... Tive uma vez uma conversa com um homem extraordinário em Munique, Lothar Mayer, aliás, também um tradutor simultâneo. Ele é colaborador da Sociedade Schuhmacher de Ecologia. Escreveu um artigo no Süddeutschen Zeitung que me fascinou.16 Marcamos um encontro, conversamos horas a fio, e ele disse tanta coisa, que explica tanta coisa... por exemplo, por que nos calamos diante de tudo o que acontece com o nosso mundo. E então me veio à cabeça. E eu... Santo Moisés! — disse Gilles — eu realmente comecei a escrever! Que diabos!

— Continue! — disse ela. — Continue a escrever, camarada! Eu já vou.

— Não! Por favor, fique!

— Então você não vai continuar a escrever!

— Continuarei a escrever. Por favor, fique! — Gilles puxou para

a frente uma velha cadeira de vime. — Sente-se! Um pouco de água... Sim, venha!

— Mas o que você queria escrever agora...

— Eu lhe conto, depois anoto. Juro...

— Você, jurando!

— Sim — disse ele. — Sim. Eu, jurando.

— Mas você não acredita em nada.

— Sim — disse ele, de repente muito sério. — Eu acredito!

— Em quê?

— Em você — disse Gilles.

Durante alguns segundos ninguém falou. Havia um barulho infernal e apocalíptico lá fora.

— Seus olhos — disse ele. — Agora eles estão bem escuros.

Ela se calou.

— Não diga nada! Você não precisa dizer nada. É coisa minha, não é? Maldição, o que você tem a ver quando eu... quando eu acredito em você? — Ele se encostou e continuou a falar calmamente: — O estatuto do partidário irrefletido. A lei número um de Lothar Mayer. A condição prévia para todos os crimes ecológicos. Para todos os crimes nazistas. Só que uma sentença sobre nós, contem­porâneos de hoje, deveria ser muito pior do que uma sentença sobre as pessoas dos anos 30. Pois o que poderíamos encontrar hoje como desculpa para nós mesmos? Se fosse o desemprego, miséria total... Naquele tempo havia na Alemanha seis milhões de desempregados nunca uma desculpa, mas aos olhos de muitos um motivo atenuante. Hoje? Hoje o nosso problema não é como ficaremos de barriga cheia, mas como poder ficar esbelto com todo esse excesso. Tudo isto escreveu Mayer... O que nos obriga a produzir lixo radioativo para os próximos milênios? O que nos obriga a destruir a floresta tropical aqui e em outros lugares e a queimar megatoneladas de carvão e petróleo, fazendo com que o clima da Terra fique irreparavelmente prejudicado? O que nos obriga a arar tantas matérias-primas químicas e metais pesados no solo, fazendo com que ele fique infecundo por séculos? Ele falou com raiva.

Eles se olhavam.

— Que desespero, que miséria — perguntou ele, enquanto ela só olhava seus olhos, seus olhos cinza e tão jovens no rosto enrugado — poderíamos fazer valer para nós como estado atenuante? Talvez a miséria na África e em outros países do Terceiro Mundo? Não! Quem quisesse nos aliviar com isso precisaria ser extremamente inocente ou muito cínico. Temos o nosso obsceno bem-estar justa­mente por conta de um sistema econômico que pretende, com as suas leis, explorar os mais pobres do mundo até a última gota de sangue.

Isabelle balançou a cabeça.

— Nada a questionar — continuou ele —, todos nós podemos saber o que acontece — ainda as palavras e pensamentos de Mayer. Há centenas de quilômetros de documentários sobre o assunto. Quase todas as noites são mostrados na televisão. Todos nós podemos saber sobre os crimes ecológicos que acontecem. E: se os nazistas tornaram tão perfeito o seu sistema de terror, tanto que custava a vida protestar — quem nos impede hoje? Ninguém. Então por que hoje tão poucos protestam? — Por que tão poucos se chocam? Por que tão poucos fazem algo contra os criminosos monstruosos com esta Terra?

— Nós, partidários irrefletidos — disse ela.

— Nós, partidários irrefletidos da destruição ecológica — disse Gilles. — Nós emudecemos. Sempre. Naquele tempo. Hoje. Hoje ainda mil vezes mais mudos que antigamente. Nunca um Joseph Goebbels nos perguntou: “Vocês querem a guerra total contra a natureza?” Mas os nossos gritos de Sim! Sim! Sim! soam a cada dia nas caixas dos supermercados e lojas, quando pagamos nosso leite em sacos plásticos, nossa verdura encharcada de pesticidas, nossos bifes bem vermelhos. É todo o nosso way of life expressado em dinheiro, com o qual nós, diariamente, e em pequenas prestações, para que não transpareça muito, damos o nosso consentimento para a contaminação da água potável e para a destruição da camada de ozônio, para o desmatamento das florestas tropicais e para o envenenamento do Mar do Norte.

Ela pensou: Como este homem mudou — e em tão pouco tempo!

— Nós nos calamos de novo — disse ele. — É a mudez juramentada da máfia, de todos que bem ou mal ganham com o crime organizado. You never had it so good, diz-se. Está certo! Mas não queremos ver que atrás desse bem-estar antes nunca existente há negócios obscuros, tem de haver, dos quais, de preferência, não queremos saber. Naquele tempo nós nos calamos, fechamos os olhos e os ouvidos — as covas coletivas não estavam em frente à nossa casa, mas em algum lugar na Polônia ou na Morávia. Hoje elas estão no ano 2000 ou um pouco mais tarde. — Gilles derrubou um copo d’água. — E de novo nos calamos. Nós, tão corruptos, que também ainda nos calaríamos se devêssemos reconhecer que a heroína dos chefões da máfia é vendida aos nossos filhos no pátio do colégio...

Ela estava fascinada com este homem e com o que ele dizia.

— ...Nós destruímos as florestas que pertencem aos nossos filhos. Nós deixamos para eles um solo envenenado que, quando muito, só carregará frutos envenenados. Nós contaminamos para os nossos filhos a água com nitratos. Damo-lhes radioatividade em altas taxas de Becquerel já com o leite materno. E nos calamos — porque estamos tão bem como nunca. Calamo-nos, embora hoje ninguém vá à prisão por ser dissidente ou aos campos de concentra­ção por se negar a cumprir o serviço militar. Nesse sentido, o nosso país está mais “humano”, podemos achar bom o nosso sistema, em comparação com os regimes totalitários.

E então ela lhe perguntou: — E que sentido têm então os filmes que rodamos, que sentido tem todo esse trabalho? Nenhum! Não é tudo em vão?

— Minha querida... — Gilles se levantou e pousou uma mão sobre o seu ombro. — Certamente nada é em vão, quando se fazem coisas decentes — num sentido mais alto, particular. Mas uma espécie que é incapaz de aprender com o passado, não tem futuro. Não merece um futuro!

— Não! — disse ela de repente, indignada com ele. — Não, não, não! Expliquei a você, no Rio, a minha opinião. Nunca podemos julgar a situação no tempo em que vivemos.

— Justamente isto — replicou ele — me impressionou bastante. — Agora eles estavam tão próximos, que um sentia a respiração do outro. — Hoje — continuou ele — eu só pensei por que é que as pessoas se calam frente ao que acontece. Desistir? Nunca você deve desistir, nunca! Também a mim, apesar de todo pessimismo, esse projeto começou a me fascinar — especialmente depois que lhe conheci, Isabelle! Agora vejo como é importante fazer esses filmes. Pois na história sempre houve ondas de razão, graças a pequenos grupos, primeiramente, depois como onda coletiva...

Bateram na porta.

— Sim?

— Senhora Delamare, senhor Gilles?

Ele foi até a porta e abriu. Do lado de fora estava o segundo porteiro do Hotel Paraíso, um homenzinho aleijado com olhos tristes.

— Perdão! Telefone para a senhora — disse ele. — Paris! — Então ele olhou para Isabelle e falou em português: — A senhora precisa descer. A cabine está no hall.

Ela saiu do quarto, desceu a escada. No sujo hall, o porteiro abriu a porta da cabine. No bar ainda berravam repórteres e gente de televisão. Eles cantavam naquele momento Non, je ne regrette rien com um texto obsceno.

— Alô? — Isabelle havia pego o auscultador.

— Senhora Isabelle Delamare? — perguntou uma voz feminina.

— Sim.

— Aqui é da telefônica de Belém. Temos uma ligação de Paris para a senhora. Fale, por favor!

— Alô! — Isabelle gritou. — Alô!

A ligação chiava.

— Isabelle, ma petite! Aqui é Gerard!

— Meu Deus, Gerard! Que alegria! Como você me achou?

— Eu e Monique passamos muito tempo sem notícias de vocês. Começamos a nos preocupar — com você, principalmente. Telefo­nei para o Rio. Clarisse Gonzalos disse que vocês tinham ido para Altamira, para um congresso de protesto de índios. Mas ela não sabia onde vocês estavam hospedados. Então tentei com esse produtor louco em Hamburgo, Monsieur Zinner. Ele disse: Hotel Paraíso. Deu-me o número. Bom hotel?

— O quê? Cinco estrelas!

— Você está bem, ma petite?

— Muito bem — disse ela, sentindo de repente o calor inundando o seu rosto.

— Os outros também?

— Marvin foi espancado hoje... — Ela contou os detalhes. — O que há, Gerard?

— Ontem veio ao instituto um americano... De qualquer forma falava assim e disse que era um deles. Perguntou, perguntou, perguntou... Talvez esta conversa seja censurada. Tant pis! O ho­mem queria saber o que vocês fazem, como esses filmes deverão ser, quem financia tudo — e volta e meia perguntava por Markus Marvin. Queria saber tudo sobre ele. Seu passado. Sua vida parti­cular...

— E?

— Bem, eu e Monique só dissemos que éramos velhos amigos.

— Vocês não perguntaram a ele por que ele queria saber de tudo isso?

— Sim, naturalmente.

— E?

— Pretensamente para uma agência de informações, colhe infor­mações para um cliente. Eu o pus para fora. Não importa se alguém estiver ouvindo, foi assim mesmo.

— Estranho.

— Por isso diga a ele! Ele precisa saber disso!

— Digo a ele, Gerard.

No bar eles cantavam agora La vie en rose, também com texto pornográfico.

— Quanto tempo vocês ainda ficam no Brasil?

— Não sei exatamente. Mais ou menos duas semanas. Amanhã iremos até os garimpeiros.

— Pergunto porque tenho três ótimas pessoas para Marvin. O primeiro pode lhes contar tudo sobre o escândalo com dioxina, que praticamente já envenenou o mundo inteiro. Não posso dizer seu nome pelo telefone. O outro sabe tudo sobre instalações para a queima de lixo e o contrabando de lixo, chama-se Dr. Michael Braungart, um homem fantástico, trabalha em Hamburgo. E há também um especialista em energia solar. Um dos melhores. Velho amigo meu. Doutor Wolf Loder. Alemão, como Braungart. Inven­tou uma coisa ótima. Nos filmes, vocês não querem apenas mostrar a decadência, mas também mostrar o que é feito e o que se pode fazer, não é? Proponho que vocês, primeiro, peguem o informante sobre as safadezas da dioxina, então vocês vêm até Paris, Loder está aqui, então vocês o conhecem, e então podemos também falar sobre o gasto de energia. E finalmente vocês vão até Braungart.

— D’ accord, Gerard. Telefono antes de nossa partida, então você já pode marcar os encontros.

Ela olhou para a parede toda riscada da cabine.

— Ma petite! — A voz de Gerard Vitran entrava no seu ouvido via montanhas, florestas e um oceano. — E você? O que você faz, ma petite?

Ela contou o que acabara de falar com Gilles, que tinham ido jantar juntos, que riam muito juntos. Toda a estória do Emenaro. Como ele era simpático...

 

Monique! Gerard grita. Nossa pequena se apaixonou! — Uma pequena luta para quem fica com o auscultador, depois Monique no telefone: Mon petit, você realmente se apaixonou? — Ao que tudo indica... — Que bom! Sempre o achei simpático. Félicitations! — De quem você fala, na verdade? — De Markus Marvin, naturalmente! — Ah, ele... Sou uma idiota. Por que fui confessar? Porque os dois são meus melhores amigos. Porque eu simplesmente precisava dizer para alguém. Estou completamente confusa. — O que signi­fica: ah, ele? perguntou Monique. Não é ele? — Não. — Quem, então? — Philip Gilles. — Silêncio. — O escritor? Monique pergunta, afinal. — Sim, Monique. — E ele? — Acho que ele também gosta de mim. — Ele disse isso? — Não. — Escute... Vocês não falam disso? — Ainda não. — Ele é seguramente um homem maravilhoso, diz Monique. Aber; to para a vida, experiente. Mas não é um pouco velho para você, Isabelle? — A voz de Gerard: você está certa, ma petite! Um abraço, e desejamos aos dois felicidade, felicidade, felicidade!

Obrigada, digo.

Quando saio da cabine, estou novamente molhada de suor. Felicidade. Sim, felicidade também desejo a nós, a ele e a mim. Precisaremos.

 

No dia seguinte estava ainda mais quente e mais abafado. Eles haviam alugado um barco com piloto e viajaram Xingu abaixo — Gonzalos, Ekland, Katja, Isabelle e Gilles. Susanne ficou com o seu pai.

Isabelle usava uma calça de linho branco e uma blusa azul. Seus cabelos voavam no vento, salpicados de espuma. O barco ia muito rápido. Gilles, que estava sentado ao lado de Isabelle, tinha um braço em volta de seus ombros. Bolling os observava ininterruptamente.

Atrás do barco havia a pesada aparelhagem de filmagem. Bernd está com péssima aparência hoje, pensou Katja, a de olhos alegres. — Muitas dores? — perguntou ela, os lábios no seu ouvido, pois o motor do barco fazia barulho. Ele confirmou. — Os comprimidos não ajudam? — Ele negou. — E uma crueldade — disse Katja. — Prometa-me que nunca mais vai levantar sozinho a maldita BETA! Prometa que sempre o fará comigo! — Ele afirmou e levantou a mão direita. Ela o beijou no rosto, se esfregou nele e riu.

Depois de duas horas o piloto baixou a velocidade. Eles haviam alcançado o garimpo mais próximo. O piloto disse que o local se chamava Ressaca.17 Eles já tinham visto de longe. Os garimpeiros trabalhavam com instrumentos pesados.

Quando já estavam em terra, Katja levantou com Ekland a BETA num tripé. Eles filmaram o local e a paisagem de um monte. O piloto — ele disse que poderia ser chamado de Pedro — explicou a situação, Isabelle traduziu num microfone. Gilles havia ligado seu gravador...

— ...são as bombas de alta pressão, com as quais os homens trabalham. Primeiro eles queimam todos os montes, depois os lavam literalmente, até desaparecerem. — Ekland filmava o que Isabelle descrevia: — Num sistema de várias peneiras fluem barro e água... a terra vermelha fica incrustada, um sinal de que não há mais ouro a ser encontrado — mas também de que nunca mais uma árvore, um arbusto, uma vergôntea crescerá ali.

As áreas desertas eram enormes.

— É melhor irem primeiro até Anselmo — disse Pedro. — Ele pode lhes contar alguma coisa. É um sabidão... — Pedro andava descalço, sua camisa, puída, sobre a bermuda esverdeada. Na cabeça ele tinha um chapéu de palha. Eles usavam chapéus e toucas de todos os tipos, por causa do sol chamuscante.

Juntos, eles carregaram a BETA até uma casinha de madeira, que era uma loja. Ela pertencia ao sabido Anselmo. Novamente Katja e Ekland levaram a BETA ao tripé, a fim de filmar uma conversa do comerciante com Bolling. Anselmo Almeida tinha, como ele disse, 27 anos. Há sete anos ele viera da metrópole industrial, São Paulo. Primeiro procurou ouro, mas logo depois...

— ...compreendi que isso é idiota. Você trabalha como um cão, depois de no máximo três anos você apaga. Então construí a casinha aqui e vendi alimentos em conserva e talheres e armas — primeiro tudo com crédito. Agora a loja anda. Em todo caso, ganho mais que os caras que procuram ouro aqui. — Ele sorriu ironicamente, enquanto continuava a falar e Isabelle traduzia: — OK, OK, as coisas aqui são um pouco mais caras do que as de Altamira.

— Muito mais caras? — Bolling perguntou.

— Em torno de três a quatro vezes mais caras — disse Anselmo. Mas, e daí? Aqui ele pede o que quer. Não há concorrência. — Ainda assim, há aqui uns dois mil homens, sempre. Em 1974, dizem eles, viviam aqui apenas dois homens velhos.

— Que quantidade de ouro esses garimpeiros de Ressaca podem esperar? — perguntou Bolling.

Anselmo alçou os ombros. — 20 gramas, 50 gramas, 100 gramas — 500 gramas, mas aí já é bem raro.

— E por isso eles arriscam a vida?

— O senhor vê, sim.

— Quantos garimpeiros moram no Estado do Pará?

— Não se sabe exatamente. Aproximadamente 350 mil.

— Tantos?

— Às vezes um tem sorte e encontra um monte de ouro, não é? O que eles chamam de “sorte amarela”. Isso faz com que os outros fiquem loucos anos a fio.

— 350 mil pessoas — o senhor diria que a busca do ouro tornou-se um verdadeiro ramo da economia, Anselmo?

— Madonna, sim. O maior! E o mais destrutivo! Quando os garimpeiros acabam de lavar um local, mudam-se para um outro. Aqui será o fim, em breve. E eu também me mudarei.

Bolling olhava continuamente para Isabelle. Sob um chapéu de lona branca, saíam seus cabelos louros.

Durante a entrevista, Ekland, curvado sobre a BETA, se mordeu de dor. Katja o observava com o rosto alegre e a maior preocupação.

— Na maioria das vezes — disse Anselmo — ganham os donos das terras. Os garimpeiros devem lhes dar 10% do ouro. Por isso o dono das terras faz o garimpeiro desmatar, construir casas e lavar o ouro — naturalmente, com mercúrio.

— Com mercúrio?

— Separa mais rapidamente o ouro do barro e da areia.

— E assim o mercúrio vai neste rio e em muitos outros.

— Claro — disse Anselmo.

— Aqui no Amazonas o peixe é o alimento principal. O mercúrio se concentra nos peixes.

— Claro — disse Anselmo. — E então ele se concentra nos consumidores de peixe.

— Ouvimos dizer que há uma proibição de mercúrio.

Anselmo sorriu novamente. — Também ouvimos.

— E então?

— Madonna, homem! Nunca vem ninguém do governo aqui. E sem o mercúrio, é muito mais difícil limpar o ouro.

 

 

Katja havia pedido uma pausa antes de Ekland pôr a BETA nos ombros e fazer as grandes tomadas: das figuras quase nuas e miseráveis nas bombas e peneiras, de seus rostos, suas mãos, seus olhos, da terra morta e vermelha, da água envenenada. Du­rante a pausa Peter Bolling puxou Gonzalos, Isabelle e Katja para o lado.

— Você contou a Markus sobre sua conversa no telefone com Vitran. Isabelle?

— A ele e a Philip. Também Susanne sabe que esse americano, ou seja lá o que for, apareceu a Vitran e se informou sobre Markus.

E Miriam Goldstein também sabe, pensou Katja. Eu lhe telefonei e contei sobre isso e sobre o telefonema de Bolling a Joschka Zinner.

— Algo está acontecendo — disse Bolling. — Falei com Markus. Algo está acontecendo. Não sabemos o quê. A questão é se foi acaso ele ter sido espancado em frente ao pavilhão municipal, ou se ele deveria ser não só espancado, mas morto.

— Por que morto? — Isabelle perguntou.

— Escute! — A voz de Bolling ficou alta. — Tudo o que fazemos, especialmente tudo o que fazemos agora, não agrada a muita gente. Não pode lhes agradar. As filmagens, aí é que não. Devem aborrecer muita gente. Nunca pensou nisso?

— Sim, Peter, naturalmente — disse Isabelle. — Joschka nos enviou para um tour de cochon.

— Para um o quê? — Katja perguntou.

— Para um passeio de porcos — explicou Isabelle. Era desconcertante como Bolling a olhava. É melhor que eu faça como se não notasse, pensou ela. — É uma expressão idiomática francesa, se origina da Primeira Guerra. Naquele tempo, os franceses manda­vam porcos aos campos minados pelos alemães. Os porcos farejavam trufas. Assim eles tocavam em muitas das minas, que explodiam e dilaceravam os porcos. Depois os soldados franceses podiam pas­sar. Também nos mandaram para um passeio de porcos como aqueles.

— Nós encontramos uma boa quantidade de trufas — disse Katja. — Grandes trufas, não é? Bom para os filmes. Bom para as nossas intenções, se sobrevivermos. — Ela olhou para Bolling.

Nada se modificou em seu rosto. — Uma vez eu vi um filme — disse ele. — Americano. Salvador, uma história de repórteres que querem descobrir a verdade sobre as mais graves intrigas políticas. Excelentes atores. Bons diálogos. Lembro-me de uma passagem, quando um repórter diz: “A verdade! Para achar a verdade, você precisa se aproximar dela. Se você se aproximar, você se arrisca!” Ele tossiu. — Também estamos atrás da verdade. Queremos filmá-la e mostrá-la a milhões. A muitos milhões. Será desconcertante para muitos na indústria e na política e na economia. Muito desconcertante.

Sua respiração estava cada vez mais curta e ele havia tirado sua garrafinha de spray do bolso da calça. Então ele se sentou na terra vermelha, abriu bem a boca e espirrou, contra a ameaçadora crise de asma, corticóide na sua garganta. Gilles e Isabelle estavam mudos diante dele. Ele procurou ar e espirrou o spray novamente. Depois de alguns minutos, o seu rosto, antes pálido, voltou à sua cor normal.

— Já passou — disse ele, incomodado. — Tudo bem. Sim, esses filmes serão muito desconcertantes para muitos ricos e muitos grandes e muitos poderosos. É bom assim! Assim queremos! Há anos que trabalhamos para isso, mas nunca tão intensivamente, tão agressivamente, tão abertamente. Estamos nos aproximando. Mas, se possível, não queremos nos arriscar, não é? Marvin é o que está mais em perigo.

— Por que Markus Marvin? — Gonzalos perguntou. O que quer, o que pensa esta pessoa realmente? Ele pensou: Representa? Que papel ele representa? Que papel representa Marvin? Quem faz aqui alguma coisa para quem?

— Markus dirige esta expedição — disse Bolling. — É o que sabe mais. É o que pode mais. É o mais conhecido. Eles entraram primeiro com ele, estou convencido disso. — Sim, pensou Gonzalos, está mesmo? — Ele precisa de tanta proteção quanto poderá receber — disse Bolling, tirando os óculos e se levantando. — Todos nós precisamos de proteção. Markus precisa mais. Estou-lhe muito agradecido, senhor Gonzalos, que o senhor tenha exigido no hospi­tal enfermeiros que o vigiam o dia inteiro.

— Sim — disse Gonzalos. — Eles o fazem.

— Durante alguns dias então Markus tem proteção — disse Bolling. — Espero que ninguém suborne os enfermeiros. Aqui se precisa contar com tudo. Por isso telefonei, ainda no hospital, para Joschka Zinner.

Ou este é um caso de atrevimento nunca visto, ou suspeitei deste homem injustamente. — O senhor telefonou para Joschka Zinner? — Katja se esforçava para parecer surpresa.

— Sim.

— Mas por quê? — Isabelle perguntou.

— Porque Markus precisa de proteção. Os enfermeiros são uma solução provisória. Precisamos ter profissionais.

— E por isso o senhor telefonou para Joschka Zinner? —perguntou Katja.

— Sim — disse Bolling. — Ele tem um primo em Bogotá. Eles trabalham há muito tempo para Zinner. Não sabia?

— Não, não sabia — disse Katja. — O que tem o primo de Joschka a ver conosco?

— Bogotá é a capital da Colômbia — disse Bolling. — A Colômbia tem fronteiras com a parte ocidental do Brasil. O primo arrumará alguns profissionais, que chegarão o mais rápido possível.

 

 

Apesar da chuva, a procissão dos aleijados se empurrava, com as suas próteses, carrinhos e muletas, suas bengalas, faixas avisando a cegueira, tampões no olho e braços ou pernas de couro através do parque e pela grande igreja na montanha Monserrate, no leste de Bogotá.

A procissão se repetia diariamente. Ela ia pela Calle del Candelero, uma rua reconstruída do tempo colonial, até uma ermida e o “Cristo Morto”, num armário de vidro. Aqui os aleijados imploraram salvação para os seus defeitos; lamentando, beijavam o vidro protetor. De manhã e à tarde eles vinham. De tarde quase sempre chovia em Bogotá.

Num corredor de colunas da igreja havia dois homens que observavam a procissão.

— Então, dois Bravos — disse um, um grande mestiço, que parecia estar vestido como um advogado-star. Ele usava, igual ao outro, uma capa de chuva, era de fato advogado e se chamava Ignacio Nigra. — O mais rápido possível. Para Altamira. Os melhores, naturalmente. Farei todos os esforços possíveis, senhor Machado. Embora muitos Bravos tenham se transferido, por causa da rentabilidade instável do comércio de assassinatos através da inflação de mercado, para a criminalidade cotidiana. Muitos dos melhores.

Na Calle del Candelero, camelôs tentavam vender produtos aos aleijados. Em voz alta, eles enalteciam a qualidade de seus tesouros. Os aleijados cantavam: — Em profunda miséria gritamos para Ti, Senhor Deus...

— Maravilhosos bolinhos de manteiga! Bolinhos de amêndoa de primeira! As mais finas tortinhas de maçã! Tortinhas de abacaxi ainda quentes...

— Jesus, Jesus, deixa-nos pensar, com o coração partido, em Teu sofrimento...

— Chá com rum contra a umidade! Saboroso conhaque! Café quente! Cachecóis de casimira contra o frio! Luvas de algodão! Gorros! Tampões de orelha! Tudo da distante Paris!

O segundo homem, elegante da mesma forma, era importador. Achille Machado, primo do produtor de filmes de Hamburgo, Joschka Zinner, disse: — Sobretudo o meu mandante precisa de proteção, doutor Nigra. O mais rápido possível. A mais perfeita possível. Os guardiães mais capazes.

— Bem, aí — disse o advogado — aconselha-se, naturalmente, os Bravos. Veja, aqueles que fazem comércio com drogas e usam o seu dinheiro tradicionalmente na compra de terras — assim como os comerciantes de esmeraldas — precisam de proteção. Os mais capazes Bravos são ex-alunos de academias de morte. Pois o que significa isto, proteção? Proteção significa que se elimina o que ataca o mais rápido possível, não é?

— Está certo — disse o primo de Joschka Zinner. Ele olhou para a cidade de Bogotá, uma costa com casas baixas e de teto vermelho, entre elas parques verdes e montes cinza de prédios de apartamentos e escritórios insignificantes, atravessados por aléias cobertas de árvores. Hipermodernas torres de concreto rasgavam em muitos pontos o céu chuvoso. Em torno do centro da cidade havia um cinturão de mansões, distantes umas das outras, de ricos e quadras coloridas e apertadas dos mais pobres. As ruas estavam dispostas retangularmente.

— ...Volta para mim e escuta o meu pedido... — cantavam os aleijados.

— Cigarros americanos! Charutos cubanos! Chicletes de Hollywood! Colírios! Bálsamos! Bombons da bonita Viena! — enalteciam os camelôs.

A juventude — disse sentimental o advogado Nigra, obser­vando a cidade, que se situava no planalto La Sabana, a 2.600 metros de altura, enquanto que ele e o primo de Joschka Zinner estavam no Monserrate, a 3.125 metros do mar — é possuída pelo pensamento de enriquecimento ligeiro e daí altamente suscetível à vontade de matar, tendo como meta a melhoria de seu nível de vida. Jovens Bravos são os mais requisitados. Farei todo o possível, senhor Machado, farei realmente todo o possível — já por conta de nossa cooperação comercial de sucesso. E além disso, é claro, também por causa de sentimentos verdadeiramente amigáveis que sinto pelo senhor.

— Isto — disse Machado — é absolutamente recíproco, honrado doutor. — Eles haviam subido ali separadamente, com o tele­férico. Durante três longos minutos nauseantes gôndolas os haviam trazido ao longo da costa de 81o de inclinação até o cume do Monserrate.

— Neste caso — disse o Dr. Nigra (os senhores conversavam em bom espanhol) — quero tentar receber dois Bravos dos “Damascos” de Medellin. Eles realmente se sobressaem entre todas as outras organizações, caro senhor Machado. Por exemplo, eles foram os responsáveis pelo assassinato do ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonillas, do juiz Hernando Baquero e do dono do jornal El Espectador, Guillermo Cano. Algo melhor o senhor não achará.

— ...Deixa que o Teu sofrimento seja o consolo de nosso sofrimento...

— ...Os melhores rádios transistores japoneses para a boa música! Revistas pornográficas francesas para o repouso!...

— E esses melhores dos melhores são, graças ao fato de que o mercado sofre do excesso de oferta de assassinos profissionais, apesar de tudo, ainda muito baratos, honrado senhor Machado.

— É bom ouvir isso, doutor Nigra. Mas o dinheiro não tem importância nesse caso. A proteção é de importância fundamental — mesmo que não seja muito barata.

— É barata, senhor Machado. O senhor verá. Mesmo com os “Damascos”! Só tenho boas experiências com eles.

— Mas o mais rápido possível, caríssimo!

— O mais rápido possível, certamente. E só o melhor que há.

— ...Compadeça-se, compadeça-se! Imploramos na nossa dor: dá arrependimento aos nossos corações!

 

 

Também no dia 3 de setembro Markus Marvin precisou ficar na cama, os médicos fizeram questão disto. Ele foi obediente, pois ele queria de qualquer forma, estar pronto para quando se encontrasse com o ecologista Chico Mendes, sobre o qual sua filha tanto falava.

Susanne arranjou na cidade um grande ventilador, que agora funcionava no quarto do hotel. Ele não chegava a esfriar o ar quente e úmido, mas pelo menos o movimentava, e isso já era um alívio.

À noite, a equipe se reuniu no quarto de Marvin. Ela havia trabalhado muito, e graças à técnica de filmagem da BETA eles podiam ver os filmes num monitor, como videocassetes na tela de televisão. Assim, estavam eles sentados em volta da cama de Marvin — Bernd Ekland, Katja Raal, Dr. Gonzalos, Susanne, Bolling, Gilles e Isabelle. O ventilador, cujo rotor balançava pra lá e pra cá, deixava a ilusão de esfriamento. Isabelle primeiro se sentou ao lado de Bolling. No que ele pôs, de vez em quando, as mãos sobre suas coxas, ela se levantou, indo se sentar ao lado de Susanne.

A primeira entrevista que foi passada tinha sido feita perto de Altamira, com um rapaz chamado Flavio Flossard. Primeiro, foram mostradas as tomadas de Ekland de duas fazendas gigantescas, as quais Flavio administrava como parte do patrimônio familiar, depois veio a entrevista com ele. Bolling a havia feito.

— Há 15 anos — disse Flavio — havia aqui, ao invés dos campos e pastos, apenas florestas. Nossas fazendas me divertem. Elas são o futuro! Veja, criamos gado, plantamos café e tantas outras coisas.

— Mais trabalhadores do que o necessário, não é? — perguntou Bolling.

— Não posso ocupar tantos — disse Flavio. — Mas é um povinho de merda. — Sua voz soou altiva. Ele era um rapaz bonito e presunçoso, antigamente piloto de helicóptero, havia dito. — Se não fico atrás deles com a arma, param imediatamente de trabalhar.

— De onde vêm todos?

— Do Sul. Não entendem nada de animais, não entendem nada de aragem, a pior gentalha!

— Pare aqui, Bernd — disse Bolling. Ele parou o filme.

— Podemos comentar muito sobre as tomadas aéreas da floresta tropical destruída, Markus. Por exemplo, devemos dizer que se trata aqui de cinco ou seis milhões de pessoas (não se sabe um número exato), que no Sul simplesmente não acharam mais trabalho e, por isso, vieram para cá. E sempre vêm mais, e por isso eles destruíram todos os esforços dos ecologistas.

— A igreja católica — disse Dr. Gonzalos — estimula as pessoas para terem muitos filhos. Com nada mais que a roupa do corpo, as famílias se mudam para a floresta amazônica. Elas podem se sustentar no máximo cinco anos, os que não estão empregados numa fazenda como essa, num pedaço de terra dado a eles por latifundiários, primeiro para o desmatamento, depois para a queimada. Em seguida o solo está seco e a terra, que agora nenhuma árvore protege mais, é levada pela chuva tropical. Então recomeça a peregrinação de milhões. Uma vez conversei com o diretor do Museu Goeldi, um maravilhoso instituto de pesquisas em Belém — na verdade, vocês têm de ir lá! — “O que se deve fazer contra essas pessoas?” — perguntou-me. — “Declarar-lhes guerra? E como se deve explicar a alguém que recebe dois dólares por árvore derrubada que a Terra se acabará sem a defesa da natureza e que ele, por isso, não deve derrubar árvores?”

— Dois dólares — disse Susanne, amarga. — É suficiente para uma refeição, mas também quase para pagar um assassino de primeira. O Brasil pertence às dez nações mais industriali­zadas do mundo, mas a metade da população vive na miséria. E ela cresce anualmente em mais de 2%. Enquanto a miséria social não for solucionada, se precisará da Amazônia por cau­sa da matéria-prima, por causa das fontes de energia — e co­mo válvula interior. Enquanto aqui não houver mudanças polí­ticas substanciais, enquanto terras infinitas pertencerem a umas dezenas de latifundiários, a floresta tropical não terá nenhuma chance.

— Continue, Bernd! — Marvin disse.

O belo Flavio Flossard falou no monitor: — Os caras que vêm para cá são bandidos. Puros bandidos. Fizeram algo no Sul. — Ainda mais altiva e cortante ficava a voz do jovem senhor com um conjunto cáqui, e a voz de Isabelle ao traduzir imitava o seu tom de voz. — Assassinaram não sei quem. Roubaram. Enganaram. Crimi­nosos, todos criminosos — como o chefe de polícia de Altamira. Ele embolsa pela manhã sua gorjeta pelas permissões de permanência, ao meio-dia ele elimina um, de tarde se senta no bar e se embebeda. Ninguém aqui paga impostos. Todos roubam. O antigo prefeito abocanhou até os móveis e o condicionador de ar da prefeitura, quando saiu de lá.

Todos olhavam para o cintilante monitor, só Bolling fitava Isabelle. No filme ele estava diante de Flavio, sua voz soou: — E como é com a lei, segundo a qual apenas a metade do terreno deve ser queimada?

O jovial latifundiário sorriu ironicamente. — É muito simples, senhor! Eles vendem a metade que não foi limpa. O homem que a compra desmata a metade da metade e a queima. A parte de floresta ele vende. O terceiro proprietário faz o mesmo etc. etc. — e quando toda a terra está livre de florestas, eles a compram de novo. — Ele riu, encantado com o truque.

Mas isto é um tesouro! — disse Marvin.

— Há coisa muito pior — disse Susanne.

No monitor, Bolling perguntou: — E o que acontece com a proibição de exportação para madeiras não-trabalhadas?

Flavio Flossard teve um ataque de riso. Ekland se aproximou de seu rosto com a câmera, que agora preenchia todo o monitor.

— Veja a ilha de Marajó! — Flavio disse, logo depois que se recuperou e pôde falar novamente.

— Estivemos lá — disse Katja, precipitada. — Eu e Bernd. Com o helicóptero. Tomadas fantásticas. Podemos incluir aqui.

— A região se situa na região da foz do Amazonas — continuou Flavio, no monitor. — Perto de Belém. Muitos quilômetros de troncos de árvores são levados para lá para os navios...

— Filmamos — disse Katja, tão rápida como nunca. — De cima...

— Quem é que pergunta — disse Flavio rindo no monitor — se os troncos acabarão em fábricas brasileiras, européias ou japone­sas? A inspeção florestal, que controla aqui uma região maior que a Europa ocidental, não tem nem 300 funcionários. Sabe, senhor Bolling, alguns latifundiários aqui são idealistas no interesse pela continuidade da floresta, da qual eles vivem e a qual eles querem reflorestar. Por isso, eles só deixam cair, em determinadas regiões, apenas um número determinado de troncos. Mas nas estradas sem saída através da floresta, que agora existem, seguem milhares de bandidos, toda a gentalha esfarrapada, e estes recebem dos latifundiários um pedaço de terra, para que derrubem todas as árvores, e isto, e claro, eles fazem, derrubam todas as árvores, pois senão eles não podem fazer queimadas, senão eles não têm solo que os alimentará por um tempo, não é? E por isso esses idealistas são, por interesse, idiotas. Eles mesmos começam anotar. — O jovem sorriu de novo, sonoramente.

— Era tudo — disse Katja. Ela trocou os cassetes. — O que vem agora é a serra dos Carajás... — Ela pôs o novo cassete em funcionamento.

As primeiras imagens foram feitas de cima de um vagão de trem, que andava, com 50 outros, através da floresta. A câmera mostrou um homem magro e mulato e se deslocou depois para a floresta. O homem falava, e a voz de Isabelle traduzia: — Meu nome é Luís Carlos. Sou chefe da seção do meio ambiente da estatal brasileira Companhia Vale do Rio Doce — CVRD. Nossa companhia se encarrega tanto da extração de minério de ferro como também da rede ferroviária. O barulho dos trens de minérios, mesmo que soe como tiros de canhões, não mata a floresta tropical. Mas se ao longo destes 900 quilômetros de ferrovia, sobre os quais viajamos agora e que vai da serra dos Carajás até São Luís, apenas são construídas 30 fundições, isto significa para a região o início do fim...

Mudou a imagem. A selva desapareceu. Uma gigantesca paisagem industrial apareceu, filmada de vagões em movimento. A voz de Bolling: — Esta é a serra dos Carajás, e o que surgiu aqui nos últimos 20 anos denomina-se a “região do Ruhr brasileiro”. Aqui se localiza a Ferro Carajás, o maior programa de desenvolvimento integrado...

O filme mostrou a região industrial em imagens imponentes. Poços de extração ao lado de poços de extração, fábricas, trens, vagonetas, trilhos, estações de carregamento, gruas, massas de trabalhadores.

Então soou novamente a voz de Luís Carlos, por cima a de Isabelle: — Em 1967, equipes de geólogos americanos e brasileiros descobriram as “montanhas de ferro” nesta serra da floresta amazônica. Ao lado de enormes reservas de mangano, cromo, bauxita, níquel, cobre, estanho, ouro e tungstênio, aqui estão aproximada­mente reservas de minério de ferro para 500 anos — 18 bilhões de toneladas — sob uma fina camada de terra. Em 1985 deu-se início à produção de ferro. A meta: um fornecimento anual de 35 a 50 milhões de toneladas. Do fundo das fantásticas instalações industri­ais surgiu, no monitor, Bolling. Ele disse: — Os países industriais ocidentais participam da construção da Ferro Carajás: através de contratos europeus de carvão e aço, a CEE contribuiu com 600 milhões de dólares. Como pagamento, foi-lhe assegurado, durante 15 anos, um terço da produção anual — ao preço de 1982. O Banco Mundial, com 300 milhões de dólares, ficou com uma parte do financiamento. Do Japão e dos Estados Unidos vieram créditos para este projeto de 4,9 bilhões de dólares. Também a Frankfurter Kreditanstalt für Wiederaufbau pertence aos credores. A Alemanha Federal já compra há anos minério de ferro brasileiro. Desde 1985 a estatal brasileira fornece ferro para os altos-fornos de Salzgitter, Thyssen, Mannesmann, Klöckner, Korf e Dillingen. Hoje, 40% do ferro trabalhado na Alemanha Federal se originam do Brasil. A maior parte, cerca de 56%, compra a indústria de aço japonesa...18

No monitor se seguiram, umas às outras, numa série imponente, tomadas sensacionais da monstruosa “região do Ruhr brasileiro”. Nunca Bernd havia filmado tanto em tão curto espaço de tempo.

A voz de Isabelle cobria a de Luís Carlos: — Para fazer funcionar a mina, a Companhia Vale do Rio Doce construiu uma cidade para nove mil pessoas... mas vieram 32 mil trabalhadores...

— Que imagens são essas? — Marvin perguntou.

— Arquivo. Recebemos da Companhia. Gravadas. Má qualida­de — disse Ekland, cujo braço doía tanto, que ele tinha lágrimas nos olhos. — Mas justamente algo assim sublinha o autêntico da coisa, não é?

— Ótimo, Bernd — disse Marvin. — Você também é ótima, Katja. Todos vocês são ótimos, de verdade!

Seguiram-se outras imagens de arquivo. — ...400 mil hectares de florestas foram queimados na montanha para as instalações e a linha férrea. — Milhares de árvores gigantes caíam no chão. — A U.S. Steel forneceu os trilhos, as instalações de sinalização forneceu a filha brasileira da alemã AEG... — Homens na construção da linha férrea, as imagens tremiam, contrastando com as outras tomadas, chocando sobretudo pela falta de técnica. — Na cidade portuária de São Luís o governo transferiu 20 mil pessoas compulsoriamente... — Soldados empurram pessoas em trens. Os vagões estão lotados. Crianças e pessoas idosas são pisoteadas. Casas voam pelos ares. Sempre novas massas, que são espancadas em vagões, em caminhões. Uma boneca quebrada. Um soldado que bate na mulher com o cabo da arma. Mais uma série de casas voa pelos ares. Uma garota senta-se num pedaço de concreto e chora. — Aqui surgiu um enorme porto de águas profundas para carregadores de ferro...

Outras imagens cortadas em flagrante e com enorme velocidade, feitas de carros em movimento, helicópteros, com câmera em pé. Além disso, a voz de Bolling: — Mas em Carajás o assunto não é só minério de ferro e outras matérias-primas. O programa de desenvolvimento Grande Carajás abarca mais de 800 mil quilôme­tros quadrados. Como comparação: a Alemanha Federal cobre uma região de 248 mil quilômetros quadrados. A Grande Carajás utiliza 10% do território brasileiro. Usinas pertencem a ela, como também fundições, fazendas de gado, grandes plantações de soja e milho, estradas, trilhos, a abertura de caminhos de água... A construção continua... continua... sempre mais... Sem levar em conta as conseqüências ecológicas. Sem levarem consideração as conseqüênci­as catastróficas para o Brasil, e para o mundo inteiro, desse abuso. Bilhões são investidos. Bilhões são embolsados — por poucos, por tão poucos. E esses poucos sabem que eles contribuem, atra­vés da destruição da floresta amazônica, para o fim do mundo. Eles têm filhos, como bilhões de outras pessoas. Filhos que vão morrer, quando o ar estiver envenenado para ser respirado. Aqueles que destroem a floresta tropical não pensam que eles são os assassinos de seus filhos? O que se passa nos cérebros desses políticos, desses banqueiros, desses industriais? Eles querem sucesso. Eles querem lucro. Eles querem riqueza ainda maior. Devem ser loucos. Pois pensam: se não temos mais ar respirável, então com­praremos ar respirável.

 

 

Quando todas as estórias forem contadas, as grandes e as trági­cas, as melodramáticas e as grotescas, quando forem contados todos os acontecimentos desta Terra em vacilante declínio, na cronologia cristã no fim do segundo milênio, então se irá lembrar, caso sobrevivamos, das estórias e destinos daquelas pessoas que fizerem tudo para acabar com o nosso mundo.

 

 

Quando falavam da entrevista de Marvin com Chico Mendes, que deveria acontecer no dia seguinte, bateram na porta.

Susanne foi até lá e abriu.

O enfermeiro Santamaria estava no seu turno. Ao lado dele estavam dois rapazes em ternos tropicais creme. Todos dois davam uma impressão de muito sérios e bem-cuidados.

O primeiro rapaz disse em bom inglês para Susanne: — Bom dia, miss. Meu nome é Sergio Cammaro. Este é o meu colega Marcio Sousa. Viemos de Bogotá. Mister Achille Machado, o primo do produtor alemão mister Zinner, de Hamburgo, da Alemanha Ocidental, pediu uma proteção pessoal para mister Markus Marvin. Fomos avisados de nossa central para vir o mais rápido possível.

— Os senhores têm identidade? — Susanne perguntou.

Os dois mostraram os passaportes.

— Por favor, anote os números dos passaportes, a data de expedição e o local, miss — disse o segundo rapaz, que se chamava Marcio Sousa. — Aqui está uma carta de recomendação de mister Machado e uma do advogado, Dr. Nigra, que fez a intermediação. — Ele estendeu dois envelopes e o seu passaporte.

Susanne leu as duas cartas, nas quais estavam anexadas fotogra­fias dos dois homens. Ela as comparou com as fotografias nos passaportes. — Um momento, por favor!

— É claro, miss...

— ...Marvin. Sou a filha.

— Muito prazer, miss Marvin.

Susanne voltou para a porta com um caderno de anotações e olhou os passaportes mais uma vez.

— Está certo — disse ela, então. — Recebemos um telefonema do senhor Zinner. De Hamburgo. Ontem à noite. Ele nos deu todos os seus dados e disse também que chegariam hoje. Os dados estão corretos. Por favor, entrem!

Ela entrou no quarto na frente deles. Os rapazes seguiram. Cada um usava, com o terno tropical, uma camisa branca, uma gravata marrom-clara e um lencinho marrom-claro no bolso de cima. O calor parecia não lhes incomodar. Eles parecem modelos, pensou Isabelle, enquanto Susanne os apresentava para os demais. Parecem manequins, de fato.

— Para nós é uma honra poder cuidar de sua segurança, mister Marvin — disse Sergio Cammaro.

— E da das outras pessoas também, naturalmente — disse Marcio Sousa, um pouco mais jovem. Embaixo do olho esquerdo, na pele cor de oliva, ele tinha uma cicatriz de cerca de dois centímetros.

— Graças a Deus, vocês chegaram — disse Bolling. Ele apertou a mão de ambos veementemente.

— Podemos começar imediatamente? — Sousa perguntou.

— Por mim... Embora Santamaria ainda esteja em serviço — disse Marvin.

— Nós o dispensaremos imediatamente — disse Cammaro. — Não se preocupe! Incomodaremos o menos possível.

— Quem é que lhes paga? — Marvin perguntou.

— Mister Machado, o primo de mister Zinner, acertou isso através do advogado Nigra com a nossa central. Ele deu um adiantamento. Depois há uma conta final. É sempre assim que se faz. — Cammaro sorriu e mostrou dentes maravilhosos.

— Estão no hotel? — Susanne perguntou.

— Naturalmente, miss Marvin.

— Mas ele está lotado! — disse Bolling.

— Para nós eles ainda acharam quartos — disse Cammaro e sorriu mais uma vez. — Não há problema. Nós revezamos o trabalho. Quando o senhor sair deste quarto, mister Marvin, o acompanharemos sempre. Quartos 311 e 314, é onde estamos.

— Nosso equipamento — disse Sousa — ainda está na bagagem. No momento só carregamos pistolas. — Ele abriu sua jaqueta e mostrou uma arma que estava escondida num coldre de couro sob a axila esquerda. — Serei o primeiro a ficar diante de sua porta, mister Marvin, se me permite. Com uma metralhadora.

 

 

Isabelle estava sob a velha e enferrujada ducha, montada atrás de uma cortina de plástico no canto de seu quarto. A água vinha morna e nunca esfriava. Ela deixou-a correr pelo corpo e se virou lenta­mente. Ela tomava banho pela segunda vez naquela noite. O ar estava ainda mais abafado. A água, pelo menos por pouco tempo, trazia alívio. Isabelle pensava nas primeiras horas da manhã. Talvez ficasse um pouco mais fresco. Talvez...

Mãos a pegaram, a tiraram de debaixo da ducha. Isabelle gritou. Então ela viu Bolling. Ele só vestia uma calça de pijama, e seu rosto tinha uma expressão agitada, confusa.

— Peter! — Isabelle gritou. — Solte-me!

Sua respiração fazia um ruído. — Você me deixa louco... Você deixou louco desde o primeiro momento...

— Desapareça! — gritou Isabelle.

Ele pôs a mão sobre a sua boca, puxou-a para si, jogou-a na cama e caiu sobre ela. Ele era muito forte. Isabelle entrou em pânico. Ele imobilizou seus braços. Ele estava sobre a jovem mulher. Seus lábios se imprensavam nos dela. Ela jogava a cabeça violentamente de um lado para o outro. O rosto de Bolling, sem óculos, estava vermelho de excitação. Sua respiração agora vinha intermitente. Com toda a força, Isabelle conseguiu levantar um joelho. Ela o chutou na parte inferior do tronco. Ele gritou de dor, rolou para o lado, caiu da cama. Ele ficou ofegante sobre o chão sujo. Ela se levantou. Ele movia os braços.

— Não me toque! — Isabelle gritou.

Os braços caíram.

Ela pegou uma toalha de banho e enrolou-a no corpo.

Bolling balbuciou: — Perdoe-me... por favor, perdoe-me... Você é tão bonita... Eu não sei o que me... — Ele não completou a frase. Gemendo ele pegou na garganta com as duas mãos, se engasgou e rolou com os membros confrangidos sobre o chão para lá e para cá. O medo estava estampado no seu rosto.

— Errr... errr...

Isabelle se ajoelhou a seu lado, levantou seu corpo, encostou-o na parede. Se ficar deitado, ele se asfixiará, pensou ela.

— Arrr... arrr... arrr...

Da ducha, a água continuava a correr e inundava o chão do quarto.

Isabelle correu para o corredor e bateu com os punhos na porta ao lado.

— Philip! — gritou ela. — Philip!

— Sim — soou sua voz. — Um momento. — A porta se abriu. Lá estava ele, num pijama azul, os cabelos grisalhos despenteados, a cara de sono.

— Peter... — Isabelle ofegava.

— O que há com ele?

— Uma crise de asma... no meu quarto...

— E seu spray?

— Não está com ele...

— Vou pegá-lo no seu quarto... — Correndo, ele gritou para ela: — Volto já! Acalme-se! Não se morre tão rapidamente! — Ela olhou para ele, então voltou para o seu quarto. Bolling estava caído para o lado. Estava sobre a barriga, rosto para baixo. Ela o rolou para o lado e levantou novamente o seu corpo. Sua boca estava aberta, a língua estava pendurada num canto da boca. Seus olhos estavam totalmente virados. Os membros quase não se mexiam. Ele escorregou novamente para o chão.

Gilles entrou correndo no quarto. Ele segurava a pequena garrafa com as gotas de corticóide.

— Como ele está?

— Não sei... não tem ar...

— Absurdo! — Gilles tentou espirrar o medicamento na boca aberta de Bolling. Sua cabeça caiu para o lado. — Segure a cabeça! Assim, agora! — Desta vez o spray da garrafinha entrou na boca de Bolling. E mais uma vez. E mais uma vez. Nenhuma reação. — Não pode ficar deitado — disse Gilles. — Pegue a garrafinha! — Ele foi para trás de Bolling, pegou-o pelos braços e levantou-o. — Mais uma vez — disse ele, com a mão segurando a cabeça de Bolling. Isabelle espirrou o medicamento na garganta de Bolling.

— Nada — balbuciou ela.

— Não é tão rápido — disse Gilles. — Continue! Mais uma vez! — Mais uma vez Isabelle apertou o botão da garrafinha. Bolling abriu os olhos. Ele olhou para Isabelle.

— Eu...

— Não fale! — ela disse.

— Por favor...

— Não fale!

Ela saltou, correu para a ducha e fechou a torneira. Então voltou para os dois homens. A respiração de Bolling estava quase normal. Ele se levantou inseguro e pegou a garrafinha. Sem dizer sequer uma palavra, ele saiu do quarto.

Silêncio.

Isabelle não disse nada, Gilles não perguntou nada.

— Seria hoje... — disse ele, afinal. — Se algo de desagradável acontecer, se você precisar de ajuda, bata simplesmente na parede. 24 horas de service para você.

— Obrigada, Philip — disse ela.

— Não tem de quê. Feche a porta depois que eu sair! Tente dormir! Se ficar insuportável, tome outro banho! Vou fazê-lo também. — Ele foi para a porta. — A eau de toilette na cabeceira. Passe no corpo. Refresca. Emenaro. Não há nada melhor.

— Philip...

— Hein?

— Você é uma figura.

— Hum.

— De verdade — disse Isabelle. — Um cara muito legal. — Eles falavam em francês. — Un chic type — disse Isabelle.

— Eu sei — disse Gilles. — Todas as mulheres são loucas por mim.

 

E aconteceu naqueles dias...

Numa documentação sobre a indústria de plutônio, a ARD noticiou sobre problemas com um cadáver. Tratava-se de um ex-limpador de laboratório turco que, em razão de suas altas taxas de irradiação, não poderia ser cremado, nem enterrado, nem enviado para a Turquia.19

 

 

A Tunísia começa a se devastar mais rapidamente. Ainda há 20 anos o país tinha condições de alimentar mais de dez milhões de pessoas. Hoje, a Tunísia é o quarto maior importador de alimentos do Terceiro Mundo. O processo de devastação já alcança a metade do território tunisiano. Há três anos que a chuva diminui. Dez mil hectares de solo agrário se perdem anualmente.

 

 

PROSTI, ARAL! Perdão, Aral!, está escrito no escuro casco de um barco de pescadores apodrecido no lago Aral. Mas este pedido, segundo a DPA, não faz decrescer uma das maiores catástrofes da natureza. Muito mais, ameaça um desastre de “proporções inimagináveis”, temem ecologistas soviéticos. A sua preocupação vai para o quarto maior mar fechado do mundo, que ainda há 30 anos era tão grande quanto a Bélgica. Pois o lago Aral, antes conhecido por sua riqueza em peixes, está secando. Projetos de irrigação gigantescos para os enormes campos de algodão das repúblicas soviéticas centro-asiáticas cortam as veias vitais do lago. Os rios Amur-Daria e Syr-Daria foram desviados e só fluem mesmo nos mapas através do Aral. No início dos anos 60, o lago tinha mais de 66.000 quilômetros quadrados, hoje a sua área é de um terço da original. O antes pouco salgado lago está lentamente se tornando um lago de sal: seu espelho d’água baixa anualmente mais ou menos 90 centímetros. O solo seco do lago tornou-se um deserto. Especi­alistas calculam que a cada ano vão para a atmosfera cerca de 65 milhões de toneladas de pó salgado prejudicial do antigo solo do lago. Do universo, os cosmonautas viram uma cauda de pó salgado de até 400 quilômetros de comprimento e 40 quilômetros de largura. Os ataques ao lago Aral prejudicam, segundo especialistas, a saúde e a vida de quase três milhões de pessoas. A situação piora ainda com “o exagerado uso de químicos na agricultura”. Hoje morrem em Karakalpakia, ao sul do lago, quase seis vezes mais recém-nascidos que a média na URSS.20

 

 

Num jornal interno do trem Eurocity entre Hamburgo e Chur havia, um ao lado do outro, dois anúncios:21

 

 

 

       
   

QUO VADIS

(Para onde você vai?) Jesus diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém chega a Deus, o Pai, senão através de mim. (João, 14,6.)

Para onde você vai?

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