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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ÚLTIMO CANTO DA COTOVIA - P.2 / J. M. Simmel
O ÚLTIMO CANTO DA COTOVIA - P.2 / J. M. Simmel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NA PRIMAVERA

O ÚLTIMO CANTO DA COTOVIA

 

LIVRO TERCEIRO

 

“Este país se sufoca no cinismo de seus empresários e políticos.”

Um membro do governo federal alemão, numa conversa com o autor.

 

É claro que você tem medo. E é claro que você não mostra que tem medo. Você ri um pouco alto demais. Você apóia os punhos nos quadris, enquanto olha como a bolha do imenso balão se enche com ar quente e ganha forma de balão e se levanta, redondo e liso e pintado. Tão bonito. Quantos já voaram num balão como esse, sobre a Paris sitiada, sobre montanhas e mares em todo o mundo! E foi dito a você também que não é perigoso, mademoiselle, e por que vai acontecer um acidente justamente com você?

 

Este registro se encontra sob a data de 11 de setembro de 1988, no diário de Isabelle. O que aconteceu depois do assassinato de Susanne Marvin em Altamira e de outras coisas, ela anotou antes dessa data. Logo será o assunto deste relato.

 

...Por outro lado há uma chama aberta diretamente sobre sua cabeça, e a pele do balão é tão fina e se rasga facilmente. Ela se carbonizaria, uma vez inflamada, em questão de segundos, e na sua cestinha você iria cair na Terra, de repente, um Ícaro feminino. Por que então você precisa fazer isso, meu Deus, o que você precisa provar a você mesma ou a G. ou a este gentil inglês que os acompanha?

Então a coisa se levanta e você nem sente e sem solavancos e balanços você já flutua, ainda perto do campo, e sobe sem notar, mas sobe, quando você olha para os montes próximos, muito rápido, mais alto, mais alto. A perspectiva da montanha se modifica, casas, ruas se transformam em brinquedo, só você permanece grande como in natura, e o piloto, e G. a seu lado, tão perto, tão perto, vocês quase não podem se mexer no cesto, por causa da garrafa de gás propano a seus pés.

Você não diz nada. Você não o olha. E ao mesmo tempo seria tão fácil lhe dizer, nessa leveza, nesse flutuar, tantas coisas, tantas... Se você ainda vacilou, se você ainda não estava muito segura, agora você está. Agora você sabe. Com segurança absoluta. E você sabe que ele sente o mesmo — o mesmo. Mas você não diz nada, nenhuma palavra. Sua discrição, sua eterna discrição, olha ela novamente!

Pelo menos você põe a sua mão sobre a dele. E ele a segura com força. É o nosso amor. Ninguém tem nada a ver com isso. Você falou dele a Monique e Gerard. São os seus melhores amigos. E Gordon Trevor e monsieur Oltramare aqui em Château-d’Oex, os amigos de G., também podem saber. Eles, aliás, reconheceram imediatamente, quando chegamos aqui há dois dias.

Ninguém precisou dizer nada a eles. Eles conhecem G. tão bem. Eles viram logo o que havia acontecido com ele. São tão gentis conosco. Fazem tudo para que tenhamos calma por um momento, depois de tudo o que aconteceu. Hoje, Gordon nos convidou para essa viagem de balão.

O grande silêncio agora, enquanto você flutua contra o céu ensolarado, em direção do qual os cumes das montanhas são cortados, como uma ponta no vestido de uma giganta, e que no oeste já vai se avermelhando. Às vezes, quando você passa por um dos cumes mais baixos, aproximam-se as copas das árvores do cesto. Então a aparelhagem começa a chiar sobre você, a flama cresce íngreme, o balão se levanta, a paisagem vai embora sob você, e o vale está lá com a estrada, sobre a qual, como insetos, os carros se arrastam, também aquele velho com o carro-reboque, que mais tarde deve transportar o balão.

Gordon Trevor cospe ao lado do cesto, observa atentamente o leve desvio vertical que descreve o cuspe: assim ele reconhece o vento, cuja direção se diferencia de camada para camada e que lhe permite dirigir a bola colorida, que nos carrega, através de ajustes da altura do vôo. E, de fato, o homem de voz baixa e doce consegue nos levar ao exato ponto, no qual o seu ajudante, o jovem suíço, nos espera — na beira de um pasto de vacas ao lado de um celeiro — e ele põe o cesto no chão quase ao lado do carro-reboque do velho e sujo jipe. E seu feio cachorro, que está no carro, salta em sua direção e late de alegria.

O resto é trabalho pesado para Trevor e o rapaz. O cesto é tirado do balão, do qual o ar quente vai embora. Cesto e balão, este muito bem dobrado, são postos no reboque. Arrastamo-nos para o velho e sujo carro para a viagem de volta. Não se falou nada. Ainda estamos de mãos dadas.

 

“Summertime — an’ the livin’ is easy,

Fish are jumpin’ an’ the cotton is high.

Oh yo’ daddy’s rich an’ yo’ ma is goodlookin’,

So hush little baby, don’t you cry...”

 

Summertime. Minha canção preferida. Summertime. Quando, depois do jantar com Gordon e monsieur Oltramare (ele mesmo cozinhou), entro na velha casa de G., Le Forgeron, ouço essa canção de Porgy and Bess, de Gershwin. G. havia ligado o som. Ele sorri ao se sentar diante de mim. Estou dominada. Pois essa canção... Mas já faz tempo, tanto tempo, embora eu ainda use a correntinha com a medalha... G. me fita. Naquele tempo, no Rio, ele perguntou qual era a minha música preferida e pediu ao pianista para tocá-la... E mais tarde ele telefonou para Gordon, e Gordon foi a Genebra e comprou o CD, para que ele estivesse lá quando chegássemos. Para que eu possa ouvi-la, minha canção preferida.

 

“One of these mornin’s you goin’ to rise up singin’,

Then you’ll spread yo’ wings an’ you’ll take the sky...”

 

Clarisse! The Blue Bird! A cotovia!, penso. E uma manhã... não, e amanhã ela despertará, cantará e agitará suas asas, e o céu lhe pertencerá. Ela cantará, a cotovia, e a vida será bela...

 

“But till that mornin’ there’s a nothin’ can harm you

With daddy an’ mammy standin’ by...”

 

Preciso fechar os olhos por um momento. É Diana Ross que canta. Violino, o piano, a onda grandiosa que sempre vem, esta melodia do profundo e dourado verão. Que gênio foi Gershwin. E morreu com 39 anos... Summertime...

 

— Ah, Philip, eu...

— Sim, Isabelle, eu também. É horrível — disse ele. — É loucura.

— Doce loucura — disse ela, continuando a ouvir a música. Agora posso falar, pensou ela. Com toda dificuldade. Lá no balão, na leveza, flutuando, eu não pude. Minha discrição. Minha eterna inibição de me abrir.

— Doce, bem, não sei — disse ele. — Aqui há um pesado sopro de Lolita no ar, se você entende o que quero dizer.

— Pare, Philip!

— Vou parar. Posso lhe dizer exatamente tudo o que você significa para mim. Mas eu? O que pode significar um velho homem?

Eles estavam bem quietos, o Meditador ao lado deles. Através da porta aberta entrava o aroma de flores e feno.

— O livro — disse ele, depois de um tempo. — O livro que talvez escreverei sobre essa expedição, sobre a pequena equipe. Se falar em pessoas como nós — um velho homem, uma jovem mulher —, o que você proporia para que soasse fidedigno? O que uma jovem mulher pode achar atraente num velho homem, de forma que ela possa começar a amá-lo?

Ela riu.

— Ah, quando você ri — disse ele. — O sol se levanta.

— Então você quer, Philip, que entremos em ação experimental.

— Que nós o quê?

— Que entremos em ação experimental.

— Esta é uma bonita transcrição — disse ele. — Não, realmente! Ah, sim, por favor! Por favor, entremos em ação experimental, minha linda!

— Então é pra já! — ela disse. — Humor. É assim que se começa. Ele precisa ter humor, o homem no livro. O essencial em qualquer relação, jovem ou não. Continue, Philip, que idade ela deve ter, a sua mulher no romance?

— Talvez uns 32 anos.

— Não é muito velha — disse ela. — Mas ela já sabe o que pode, o que quer, a sua mulher no romance, proponho, Philip. Pela aparência, talvez ela seja até mesmo mais jovem, mas para os homens de sua idade e para os mais jovens muito velha, de acordo com a sua essência. Você não quer anotar, gravar?

— Não — disse ele. — Eu também memorizo assim. Continue, Isabelle!

— Continuando — disse ela. — A pessoa no romance notou que os da mesma idade não entram no páreo. Experiências dolorosas. Quero dizer, uma com 32 anos, que já teve alguns casos, não é? Ela sabe do que sente falta. Bem, então há um com 63 anos que oferece um tipo de relação que corresponde com a sua — e isto é muito importante, Philip —, que não mostra insegurança, que mostra compreensão, o que para uma mulher desse tipo é enormemente atrativo.

— Hum, hum — fez ele. — Compreendo. Assim pode-se escrever mais fidedignamente sobre um casal tão estranho como esse.

— Ótimo — disse ela. — Isso me alegra. — Jogos dos adultos, pensou ela, por que não?

— Penso agora no velho cara, o homem do romance — disse ele. — Sei por que ele ama a jovem mulher.

— Você sabe?

— Exatamente.

— E por quê, Philip?

— Porque descreverei a jovem mulher assim como você é, Isabelle! Com todas as qualidades que você tem e que se pode gostar.

— E quais são elas, Philip?

— Excluindo o humor — disse ele —, você é valente. Você é inteligente. Você é sincera. Você é bonita num sentido, como nenhuma outra mulher. Você dá coragem, força. Ao homem do romance, de algo que ele não gostaria de voltar a fazer, porque ele acreditava que não podia fazê-lo mais: ele escreve! A mulher do romance conseguiu isto. Porque o impressionou muito como ela trabalha com dedicação. De maneira pertinaz, sem humores, sem desistir, sem jamais mostrar o exagero, o cansaço. A pessoa, então o tirou de sua letargia.

— Tudo isto são, naturalmente, motivos bem fortes — disse ela. — Fazemos progressos, Philip. O exemplo para sua personagem feminina seria eu, então. Ela tem tudo o que você gosta em mim, como você está dizendo.

— Sim, sim, mas este é só um motivo para o homem do romance amar a mulher do romance, não para que a mulher do romance ame o homem do romance.

— Mas como assim, Philip? O que significa isso? Quero dizer: quem uma pessoa como essa amaria? Saber esquiar muito bem é muito pouco. Realmente! Essa pessoa amaria — por favor, por favor! — um homem que é uma personalidade. Que viveu muito. Isto deseja a sua mulher do romance! Com quem ela possa falar. Que a escute. Que tenha tempo. Nenhum homem mais tem tempo! Ele poderia, por exemplo, ser um escritor, o homem no romance, que tal?

— Hum, sim, ele poderia.

— Então, um escritor vive de ter tempo de escutar, de se interessar pelos outros, de descobrir what makes them tick. Mais um ponto a favor! Quero dizer — com um cirurgião isso nunca funcionaria.

— Será realmente bom se ele for escritor, o homem do romance. Parece evidente — disse ele.

— Então proponho que a mulher do romance seja tradutora simultânea. Explico logo por quê. Ou seja: meu pai foi tradutor simultâneo. E minha mãe foi tradutora simultânea. Não! Não ria! Coisa séria. Eles me carregaram em não sei quantos países. Quantas vezes eu estive, quando mamãe e papai trabalhavam, em congres­sos, em seminários. Gostei de tudo aquilo. Não me tornei intérprete por acaso. Não me foi tão fácil aprender línguas num ambiente desses por acaso. E então... e então tenho acesso a tanta gente. Sento tão freqüentemente ao lado de homens muito aceitáveis. O que acontece, volta e meia? Quase ainda não se pensou que ele e realmente interessante — só não diga que eu não preciso procurar, eu preciso procurar — então quase ainda não se pensou que ele seria interessante, aí ele diz, então: “Deus, você é intelectual! Deve-se ter medo?” Olha, sabe, Philip, quando um chega a ter medo de ter medo de mim! Não, realmente, obrigada! Ou então lhe empurra um papel, que ele precisa voltar a lhe ver, de qualquer forma, que ele está fascinado por você porque você lhe dá a impressão de ser tão segura e forte e ele tem seus complexos por conta de experiências ruins com mulheres. Agora, finalmente, ele tem a certa. Pela primeira vez na vida. Pois desde criança ele só encontrou as erradas. Sua mãe o levou ao teatro infantil, Branca de Neve. Todos os rapazes se apaixonaram imediatamente pela Branca de Neve. Ele, pela rainha má. Ou então aqueles que perguntam, de preferência ainda na cama, se você não pode ajudá-los a ter um emprego de tradutor na ONU. Você tem tantas relações, eles não têm nenhuma. Eles só têm azar na vida, desde a triste infância. O pai, é claro, pisou no seu brinquedo... Sim, sim, Philip. Assim são os homens! Você precisa se pôr no lugar de sua mulher do romance! Não há tantos Gilles espalhados por aí. E quando uma Isabelle encontra um, então não faz diferença se ele é mais velho que ela, para ela não faz a menor diferença, pois um Gilles como esse é um com o qual ela não sente de jeito nenhum a diferença de idade. Entre parênteses: as mulheres são sempre muito mais maduras que os homens, não é verdade?

— Claro — disse ele. — Todo mundo sabe.

— A mulher do romance tem consciência de que ele é mais velho, mas ela não o sente.

— No momento, não — disse ele, muito sério. — Por um momento, não. Por muito tempo não, espero. Mesmo assim! Esse homem tem 63 anos. Pode lhe acontecer a cada dia, a cada segundo, que ele saia do nada e se encontre numa UTI — depois de um grave enfarte.

— Pode acontecer a qualquer um, um enfarte, também aos 20 anos — disse ela.

— Mas com 63 anos é mais provável. E por isso esse não é mais um affair de setembro, Isabelle. Por isso é um de outubro, não, de novembro.

— Pode muito bem — disse ela — ser um affair de maio para os dois, no romance, é claro, se um souber exatamente quem é o outro. — E assim também acho, pensou ela. O amor é algo bonito, sereno, alegre! E será assim com Philip, eu sei! E ela disse: — Encontrei um outro argumento.

— E qual é?

— Que um homem mais velho — disse ela — pode aceitar as particularidades que essa Isabelle-mulher tem. Com elas há sempre dificuldades com os da mesma idade e mais jovens. Pois ou esses homens ainda não têm uma personalidade ou uma tão fraca que não suporta uma mulher com idéias próprias. E então começa a luta, repugnante. Ao contrário, um homem com experiência, Philip, suportará muito bem essa mulher; mais, ele pode ajudá-la! Isto, Philip, é para a sua mulher do romance algo que ela acha bonito, maravilhoso. Isto, Philip, compõe o amor! Se um homem me aceitar como eu sou. Tudo isto vale, é claro, para a mulher do romance.

— É claro, Isabelle, é claro — disse ele.

— Se um homem tem compreensão para tudo — disse ela —, simplesmente para tudo. Por ela passar muito tempo no banho...

— Com shower bath Emenaro — disse ele.

— Sim, sim, para a sua mania Emenaro. Para os seus vestidos. Ou que às vezes ela gosta de ficar sozinha. Com as suas pequenas e grandes particularidades. O homem no seu livro, Philip, se alegra de tudo isto com ela. E ela não deve amá-lo? Naturalmente, são apenas palpites, Philip. Mas uma mulher de 32 anos sabe do que fala. Então, você pode aceitar meus palpites sem pestanejar. Esse homem que você precisa para a sua estória de amor tem a grandeza de entender tudo o que é engraçado e louco, todas as singularidades dessa mulher. E tudo isto não significa uma luta de poderes. O escritor em seu romance pode dizer: “Fiz algo de valor, fui OK com a minha profissão.”

— Isto — disse ele — também pode dizer a mulher do romance. Essa tradutora do romance. Ela pode dizer: “Faço o melhor que posso. Trabalho com prazer. Apesar disso sou uma mulher que não tem nada contra o luxo.”

— Ela não tem absolutamente nada contra o luxo — disse ela.

 

E agora essa ação experimental fica totalmente louca, agora ficamos jogando com isso. — Ela não tem absolutamente nada contra o luxo! — Pois é, diz G. novamente, embora esta fosse a minha linha no diálogo. — Pois é, pois ela trabalha duro para tudo o que ela quer: ela quer uma bela casa. Bonitos vestidos. Estar hospedada em bons hotéis. Ela é exatamente assim. Ela trabalha porque não poderia viver se não trabalhasse. Por isso ela também quer ter o direito de fazer com o seu dinheiro o que quiser.

— Exatamente como o homem mais velho, retruco. E dois tipos assim se encontram. E ela não deve se sentir atraída por ele? Nem ela precisa incomodar uma relação existente, nem está sendo empurrado um que está sozinho e precisa de uma mulher, seja lá qual for, só precisa ser bonita, pre­cisa ter formação, precisa se comportar. Dinheiro ela tem muito — e de quebra um complexo de Pigmalião. Simmmmmm, mas o homem no seu livro é bem diferente. Ele é bom para ela, ele a faz feliz! Como é então, Philip? Você acha que conseguirá escrever — com a minha ajuda constante — uma estória de amor bem bonita? — Acho que sim, diz ele, e sorri, e eu também sorrio, e ele diz: é claro que haverá novamente críticos que escrevem que o cara ornamentou com uma estória de amor o declínio do mundo! — O declínio do mundo, digo, será sempre ornamentado com uma estória de amor.

 

No dia 9 de setembro de 1988 um Mercedes, vindo do cemitério na Flandernstrasse, rodou por volta das 17 horas sobre o calmo Heidenweg sobre o Sonnenberg, em Wiesbaden. Seguindo-o, um grande BMW. Na direção do Mercedes estava Valerie Roth; ao lado dela, Markus Marvin. Ambos vestiam roupas de luto. O Mercedes parou em frente ao prédio de número 135a, onde Marvin, depois da venda de sua vivenda, próxima dali, havia alugado um apartamento.

O BMW parou cerca de 20 metros atrás. Marvin desceu. Naquele dia estava muito quente e abafado. Ele foi ao BMW, no qual estavam dois homens, que haviam tirado a sua jaqueta.

O da direção olhou através da janela aberta. — Sim, senhor Marvin?

— Inspetor Worm — disse ele —, sei muito bem que o senhor e seu colega Neumaier e os outros senhores devem fazer o que ordenou o comissário Dornhelm. Desde minha volta do Brasil serei vigiado 24 horas por dia. Eu lhe peço para interromper essa vigilância.

— Não podemos, senhor Marvin — disse o jovem funcionário chamado Worm.

— Telefone a Dornhelm através de seu aparelho no carro! Ele deve retirar sua ordem por um momento. Já foi demais que o senhor ficasse ao meu lado no cemitério, junto ao túmulo. Agora chega.

— O senhor tem proteção pessoal, senhor Marvin. Não pode negá-la.

— Posso — disse Marvin, cujo suor corria na gola da camisa. — Sou pessoa física, não estou mais no Ministério do Meio Ambiente de Hessen. Como um cidadão normal, tenho o direito, segundo a lei, de recusar proteção pessoal. O senhor sabe disso, senhor Worm.

— Mas o senhor realmente está em perigo! O senhor precisa de proteção!

— Em Altamira eu tinha proteção — disse Marvin.

Worm o olhou por muito tempo. Então disse para o seu colega: — Tente achar o comissário.

Neumaier pegou o fone e falou. — 02 aqui... Por favor, urgente, polícia criminal, comissário Dornhelm... — Ele escutou e olhou para Marvin. — Ele está no seu escritório... um momento...

Marvin balançou a cabeça e se encostou no carro. A chapa estava ardendo de quente. Ele recuou.

Depois de pouco tempo Neumaier começou a falar. Quando desligou o telefone, disse: — O comissário Dornhelm exige uma declaração por escrito do senhor. Aqui está um bloco. — Ele deu-lhe através de Worm. Marvin foi para a sombra de uma árvore, sob a qual havia um banco, sentou-se e escreveu. Então devolveu o bloco.

— Basta?

— Sim — disse Worm, depois de ler. — O senhor está muito seguro de que sabe o que está fazendo.

— Muito seguro. Obrigado. Boa tarde.

O BMW arrancou. Marvin o seguiu com os olhos. Então foi até Valerie Roth, que descera. De repente, tudo girou em torno dele.

— Segure-me — gritou ele. — Depressa! Segure-me, estou caindo!

 

 

Uma hora depois ele estava melhor, sentado no fresco e escuro escritório do apartamento alugado. Todas as persianas haviam sido abaixadas.

— Você quer mesmo ficar sem nenhuma proteção? — perguntou Valerie.

— Sim — disse Marvin. — A prisão. Altamira. Você nunca achará alguém que não tivesse a sua hora. A minha ainda não chegou. Ainda tenho de resolver algo antes.

— Esse terror — disse Valerie. — Sim, muitos estão irados conosco e com nosso trabalho. Mas que isso chegue a assassinato... à tentativa a você na prisão, ao atentado em Altamira... Meu Deus, por que esse ódio mortal, Markus, por quê?

— Só posso entender assim — disse ele — que alguma coisa de monstruoso acontece ou já aconteceu e os responsáveis por essa monstruosidade temem que eu possa chegar até eles.

— Por que justamente você?

— Não sei.

— O que pode haver de tão monstruoso?

— Também não sei. Só sei de uma coisa, Valerie: precisamos continuar a trabalhar. Esses filmes precisam ser rodados. Para... pela... — Ele virou a cabeça para o lado. — Pela vontade de Susanne. Ela se alegrou tanto em colaborar. Talvez eles quisessem matar Chico Mendes e a mim em Altamira e, por erro, acertaram em Susanne, embora eu não acredite nisso. Eles simplesmente começaram a atirar. Deveriam todos estar mortos, penso, todos três. Não, não tenho mais lágrimas. Estou irado, desmedidamente. Rodare­mos esses filmes. Denunciaremos. E descobriremos o que está acontecendo.

— Você é maravilhoso.

— Estou totalmente desesperado — disse ele. — Paradoxalmente, isso me dá forças. Pesquisaremos mais. Primeiro sobre o escândalo da dioxina. Então em Paris, com os Vitran e esse especialista em energia solar.

O telefone tocou.

Ele tirou do gancho e disse o seu nome.

— Aqui é Hilmar, Markus.

— Boa tarde, Hilmar.

— Estou com Elisa no hospital civil. Estamos com nossos pensamentos voltados para você. Elisa não queria atrapalhar o seu pesar. Por isso ela não foi ao túmulo. As rosas brancas são nossas. As flores preferidas de Susanne.

— Sim — disse ele. — As flores preferidas de Susanne.

— O que sempre nos separou, Elisa, eu e você, não existe mais. Você deve seguir o seu caminho. Você precisa seguir o seu caminho. Eu e Elisa lhe desejamos sorte. Vou passar para ela.

Então Markus ouviu a sua voz: — Numa situação dessas todas as palavras de consolo são inúteis, Markus. Mas você deve saber que sinto o mesmo que você. Susanne também era minha filha, Markus.

— Sim, Elisa — disse ele, se despediu rapidamente e desligou. — Por favor, me dê a agência de telefones, Valerie! — disse ele. — Quero marcar uma data com os Vitran. E reunir a equipe. O trabalho precisa... — Ele deixou cair a cabeça na mesa, ficou imóvel e chorou tanto, que todo o seu corpo tremia.

 

 

Miriam Goldstein estava sentada ao lado da mãe cega no jardim selvagem de sua casa em Lübeck. Ela lhe havia contado tudo o que acontecera. Agora estava muda.

Muitos pássaros cantavam, Sarah Goldstein pôde ouvi-los. Miriam pensou na tarde na casa de Elisa Hansen e nos pássaros no parque. Muitas flores se abriam, Sarah Goldstein não podia vê-las, de algumas ela podia sentir o cheiro.

— Miriam — disse a velha mulher na sua cadeira de vime.

Miriam olhou para os olhos mortos. — Sim, mama?

Uma maçã madura caiu da árvore e rolou sobre a grama abaixo, para um pequeno riacho.

— Tenho medo, Miriam — disse a velha mulher.

— Você não precisa ter medo, mama. Sobrevivemos a tanta coisa, que você não precisa ter medo.

— Sim, Miriam — disse a senhora Sarah Goldstein. — Preciso mesmo ter medo. Por você. Por mim. Por todas as pessoas. Ah, como dói.

 

— Oh; que miséria, que grande miséria! — disse o advogado Ignacio Nigra, e balançou cheio de sofrimento a bem talhada cabeça com os cabelos grisalhos. — Que crime, que crime perverso. Que dor cruel e terrível para o pobre pai. Onde está o coitado?

— Em Wiesbaden — disse o promotor Elmar Ritt.

— Onde?

— Em Wiesbaden, uma cidade da Alemanha. Ele foi para lá com o corpo de sua filha, depois que a polícia o liberou. Aconteceu no dia 7 de setembro. No dia 9 teve lugar o enterro em Wiesbaden. Estamos no dia 12 de setembro.

— Isto eu sei, honrado colega. E o senhor diz que as filmagens para esses... esses documentários foram interrompidas?

— Por enquanto, colega, apenas por enquanto. Depois do assas­sinato de sua filha, Marvin pediu para que todos compreendessem que ele não estava em condições de continuar a trabalhar imediata­mente. Ele também expressou o desejo de estar sozinho. Todos compreenderam. Os seus colaboradores viajaram de volta à Alema­nha antes dele. Têm um pouco de descanso. Mas o senhor Marvin, assim ele me disse ao telefone, rodará os filmes de qualquer forma. Principalmente agora, é como se fosse um legado de sua filha. O senhor certamente entende.

— Muito bem, prezado colega, muito bem. — Dr. Nigra passou a mão na bonita gravata. A gravata combinava muito bem com o bonito terno que ele usava. O terno, por sua vez, correspondia incrivelmente com tapetes e móveis na sala de conferências da sua chancelaria, que se situava numa antiga e suntuosa casa na Plaza Bolívar, no coração de Bogotá. Era de tarde e chovia em Bogotá. Chovia quase todas as tardes em Bogotá.

— Senhor Nigra — disse um homem grande e careca com olhos muito tristes, que só tinha 42 anos, mas parecia ter 70 e sem esperança, absolutamente sem esperança.

— Senhor comissário? — Nigra perguntou.

O comissário Henrique Galuzzi trabalhava no serviço secreto da Colômbia, abreviado em espanhol por DAS, e ninguém que sabia disso se admirava de que Galuzzi fosse tão triste. — Esta senhora e estes senhores — disse o magro comissário — que voaram tão longe, da Alemanha até aqui, estão há dois dias em Bogotá. Eles falaram com os meus funcionários e comigo. Eles expressaram o desejo de conversar também com o senhor. Um desejo compreen­sível, não é verdade?

— Mais que compreensível, honrado colega, meus honrados senhores — disse Nigra, curvando-se sentado. Chovia há horas umas pedrinhas finas e cinzentas, que traziam vento frio.

— Os senhores — disse o triste homem da DAS — desejam ouvir de sua boca que importância o senhor teve na contratação dos dois guardiães que fuzilaram a senhorita Marvin. No mais, querem saber da boca do senhor Machado — ele se curvou diante do importador — o que ele falou com o senhor. Senhor Machado, o seu primo, o produtor de filmes Joschka Zinner chegou de Hamburgo e certa­mente também está emocionado em rever um parente que não via há tanto tempo, como o senhor. — Soou irônico, mas também a ironia era triste.

— Pelo menos tão triste quanto — disse Achille Machado.

Ele pôs a mão no ombro do extraordinariamente pequeno Joschka Zinner, enquanto ele se esforçava em vê-lo, cheio de sentimento, nos olhos. Zinner também se esforçava. Teve lugar algo como uma pequena disputa pela Palma de Ouro de emoção entre os dois.

— Laços familiares são laços sangüíneos — disse Machado.

— Muito bonito — disse o advogado Ignacio Nigra.

— Talvez seja melhor irmos finalmente direto ao assunto — disse Elmar Ritt. Ele tinha frio. Eles haviam saído do Tequendama, um dos três melhores hotéis da cidade, e o frio chuvoso da tarde, como também o ar esgotavam o procurador. É claro que esses dois caras compactuam, pensou ele. E esse Galuzzi naturalmente também. Vou descobrir o que se passa aqui, mesmo que morra por isso. Acharei a verdade, disse a si mesmo, e pensou no seu pai. Ele notou que o olhar de Miriam se dirigia a ele. Ele sorriu. Ela também sorriu. Seis mil anos de perseguição sorriam para Elmar Ritt.

— Pois bem — disse o procurador com dificuldade de respiração e incomodado pelo frio úmido — todos falavam inglês — para Joschka Zinner:

— O senhor telefonou para o seu primo no dia 2 de setembro de Hamburgo e lhe pediu para contratar o mais rápido possível guardiães para Markus Marvin, correto?

— Já lhe disse três vezes. Duas no avião, uma no hotel. Esta é a quarta vez. O senhor sabe que duas grandes produções estão paradas, uma em Berlim, a outra em Telaviv, por que eu não estou presente? O senhor sabe o quanto isso custa por dia? O senhor dirá: seguro de não-realização. Seguro! Os caras não querem pagar. Dizem que eu não preciso estar presente. Eu preciso! Não funciona sem mim. Nunca funcionou. Isso me custa centenas de milhares. Centenas de milhares.

— Mas os laços sangüíneos — disse Ritt. — Mas a preocupação com o seu primo. A preocupação de que ele poderia entrar em dificuldades.

— Vim ou não vim com o senhor? — Joschka Zinner gritou, irado.

— Meus senhores, meus senhores! — disse o magro comissário Galuzzi, da DAS.

— Este homem me odeia — disse Zinner.

— Absurdo — disse Galuzzi.

— E como me odeia — disse Zinner. — Não tenho a menor idéia do porquê. Nunca lhe fiz nada. Nunca o vi. Odeia-me, ele, não posso entender. E duas produções gigantescas paradas. Centenas de milhares. Deus me castiga.

— Senhor advogado — disse Ritt, interrompendo o lamento de Zinner. — No dia 2 de setembro o senhor se encontrou com Achille Machado, o primo de Joschka Zinner.

— Não aqui, naturalmente — disse Ignacio Nigra, no que tocou ternamente o cravo branco enfiado na casa do botão da jaqueta. — Lá em cima, no Monserrate, num corredor de colunas da igreja. Havíamos marcado lá.

— Por que não aqui? — Miriam perguntou.

— Honrada colega. — Nigra balançou a cabeça. — Realmente!

— Realmente o quê?

— Prezada senhora, caríssima colega, o que tínhamos a combinar está absolutamente dentro do âmbito da legalidade, não é assim, senhor Galuzzi, não é assim?

O comissário confirmou, sombrio.

— Mas não é comum combinar essas coisas numa chancela­ria. Paredes têm ouvidos. Eu amo este país. Mas se precisa ter cuidado neste país, nesta pátria bela e coberta de glória. Talvez o senhor explique melhor, senhor Galuzzi, o que quero dizer com isso.

Galuzzi suspirou. — É uma pátria difícil — disse ele. — A DAS luta em várias frentes. O problema maior é naturalmente a resistência clandestina dos pobres. Como esta cresce sempre, cresce sempre a necessidade de segurança dos ricos, a necessidade, pois, de guardiães. Isto aumenta de tal forma, que ameaça todo o nosso sistema. Talvez eu deva lhe dizer, para que o senhor tenha uma idéia da dificuldade de nosso trabalho e do perigo da situação, que há, além dessas centrais que alugam guardiães — e naturalmente há sempre assassinos em potencial entre eles —, cerca de 41 grupos paramilitares de extrema-direita, como também seis grupos guerrilheiros de esquerda. Como a Colômbia, sob tais condições, ainda pode existir como Estado, é na verdade difícil de explicar. Continue as perguntas — disse Henrique Galuzzi em voz baixa. Ele parecia infeliz..

— Do que os senhores falaram nesse corredor de colunas? — perguntou Miriam. Também ela ainda não havia se acostumado com o ar local e tinha dores de cabeça. Além disso, ela reconheceu, assim como Ritt, que tudo que era dito ou feito aqui era sem valor e sem sentido. Mas eu não desisto, pensou também ela, como Ritt. Justiça não é apenas uma palavra, e a verdade é concreta. Nós a acharemos. Ritt e eu, com toda a certeza, pai.

— Senhor Machado, meu velho amigo, pediu para que eu arrumasse, por encomenda de seu primo, o senhor Joschka Zinner, dois guardiães de primeira para o senhor Markus Marvin, em Altamira, o mais rápido possível. Isto o senhor sabe há muito tempo — disse Nigra.

— Continue — disse Pitt.

— Continuando... Realizei o desejo de meu amigo, o senhor Machado. — Nigra parecia entediado. — Entrei em contato com o senhor Filippi Terzi. É um homem que aceita tais encomendas. Ele a estendeu para uma dessas sociedades.

— Como o senhor sabe disso? — Miriam perguntou.

— Porque ele me disse.

— Quando?

— No anoitecer do dia 2 de setembro. Ele telefonou. Quando Susanne Marvin foi assassinada, fui imediatamente à polícia e contei tudo o que sabia desse assunto. Está certo, senhor comissário?

O triste Galuzzi confirmou. — Está certo. E Filippi Terzi desapareceu desde então e está sendo procurado no país inteiro. Completamente em vão — acrescentou o homem do serviço secre­to resignado. — Ele nunca será achado. Um homem que mantém contatos comerciais com os “Damascos”.

— Contatos comerciais com quem?

— Os “Damascos”. A mais famosa sociedade que forma guardiães e assassinos. Tem a sua sede em Medellin.

— Ah, Medellin. — O advogado Nigra levantou os seus vivos olhos para o teto. — Capital mundial das orquídeas! O mais maravilhoso artigo de exportação de Medellin...

— Os mais maravilhosos são assassinos especialmente confiáveis, dos quais dois o senhor contratou.

— Eu? — O advogado se levantou. — Preciso ouvir isso, senhor comissário?

— Não, o senhor não precisa — disse Henrique Galuzzi, suspirando. E para Ritt: — O senhor Nigra explica que ele encomendou para o senhor Markus Marvin dois guardiães com o desaparecido Filippi Terzi. Isto não é fora da lei. Qualquer um pode engajar guardiães. Mas os guardiães não podem matar.

— Mas o fazem, senhor comissário.

— Infelizmente, senhor procurador.

— Então eu me desculpo, é claro.

— Aceito as desculpas — disse Nigra, cheio de dignidade. Agora ele passou a mão de novo na sua gravata. — E mais não sei, senhor procurador.

— Talvez o senhor Machado saiba mais — disse Miriam, baixinho.

— Bem, sim — disse Achille Machado. — No dia 3 de setem­bro o senhor Terzi me telefonou e disse que um mensageiro me traria fotos e todos os dados dos dois guardiães contratados. O senhor se lembra que aquele era um pedido da maior urgência, Trata-se de Sergio Cammaro e Marcio Sousa. Eu pus todos os documentos num grande envelope, lacrei-o e o enviei através de um mensageiro — aqui se pode alugar mensageiros, na Alema­nha também, certamente, madame — pelo avião até Altamira, no Hotel Paraíso, onde — assim ouvi da polícia brasileira — o envelope foi entregue ao senhor Marvin e sua filha, para que eles estivessem bem seguros na chegada dos guardiães que eles mes­mos haviam checado.

— E para que eles ficassem ainda mais seguros, o senhor telefonou para o seu primo em Hamburgo e lhe passou todos os dados sobre os guardiães.

— De fato.

— Por que o senhor telefonou ainda para Joschka Zinner?

— Porque Joschka me havia pedido essa segurança dupla. Joschka queria a melhor proteção para um colaborador. Tratei de arrumá-la.

— Sabe Deus — disse Ritt.

— Não! Isso não tem sentido — disse Miriam, em voz baixa.

— Prefiro não ter ouvido isso — disse Machado, suavemente. — Por favor, nenhuma sem-vergonhice! Ajudei o meu querido primo, era óbvio, não era?

— E o senhor Nigra o ajudou, e o desaparecido senhor Filippi Terzi ajudou o senhor Nigra, e isso também era óbvio.

— O senhor está recomeçando — reclamou o advogado. — Comissário!

— Por favor, senhor Ritt — disse o comissário desesperançoso —, deixe disso, não leva a nada.

— O que leva aqui a alguma coisa? — Ritt perguntou.

— Esta é uma boa pergunta — disse o comissário. — Pergunto-me freqüentemente.

A chuva batia contra os vidros da janela.

— Senhor Zinner — disse Ritt —, o senhor telefonou para os Marvin em Altamira — segurança dupla —, deu-lhes os dados e cuidou que os assassinos tivessem, de qualquer forma, uma entrée irrepreensível.

Joschka Zinner se levantou e saltou umas vezes como uma bola de borracha.

— E isso eu fiz — gritou ele — para que a filha do homem mais importante do meu projeto pudesse ser assassinada irrepreensivelmente! Embora provavelmente não a filha, mas Chico Mendes devesse ser assassinado. Eu não fiz isso bem? Ninguém me cumprimenta por eu ter começado de modo tão refinado? Eu, eu, eu sou culpado de tudo, agora chegamos ao ponto, finalmente!

— Sente-se e cale a boca! — Ritt disse.

— Ninguém fala assim comigo! — gritou o homenzinho. — Ninguém! Não vou permitir isso. Retire o que disse, imediatamente, agora mesmo!

— Eu retiro se se sentar e ficar calmo.

— Só me sento e fico calmo quando o senhor retirar.

Um jardim de infância, pensou Ritt. Um jardim de infância assassino.

— Retiro o que disse.

Joschka Zinner se sentou imediatamente.

— Eu tinha outro motivo para telefonar a meu primo — disse Machado.

— Que outro motivo? — Miriam perguntou. Agora ela se sentia muito mal.

— Um americano me procurou — disse Machado. — Disse que se chamava Robert Lee. Queria informações. Sobre Markus Marvin.

— Que informações?

— Muitas. Para quem ele trabalhava. Em que sentido. Para quem os filmes seriam produzidos. Por quê. Quem queria transmiti-los. Quando. Muitas perguntas.

Ritt olhou para Miriam Goldstein.

— Também em Paris um provável americano se informou de tudo o que se relaciona com Markus Marvin — disse Miriam. — Mademoiselle Isabelle me telefonou de Altamira para dizê-lo. Informei ao senhor Ritt. O senhor informou ao seu primo, senhor Machado?

— Como estava explicando...

— E por quê, senhor Zinner, o senhor não disse nem a mim nem à senhora Goldstein? — Ritt perguntou.

— Não queria intranqüilizar ninguém.

— Não querer incomodar ninguém com a informação de que um americano aqui em Bogotá queria saber, da maneira mais estranha, tudo sobre o homem mais importante dessa produção? — Miriam perguntou.

— Sim, senhora! Não queria intranqüilizar ninguém!

— Não grite, senhor Zinner!

— Grito quando estou com vontade, senhor procurador. Agora estou com vontade.

Miriam olhou novamente para Elmar Ritt e balançou a cabeça.

— Muito obrigado, senhor Zinner — disse Ritt.

— Se o senhor me culpar...

— Não o culpo de nada, senhor Zinner.

O pálido e aparentemente infeliz comissário Galuzzi, da DAS, disse: — Agora a senhora tem uma idéia de como devemos trabalhar aqui. Nunca acharão a verdade, senhora advogada, senhor procurador.

— Oh, sim — disse Miriam, e riu. — Oh, sim, nós a acharemos, senhor comissário. Talvez demore muito, mas acharemos. Descobriremos por que tudo isso aconteceu e outras coisas continuam a acontecer. Nós... — Ela olhou ligeiramente para Ritt —... nós dois não desistiremos de procurar a verdade neste mundo de juizes corruptos e de testemunhas covardes. Não desistiremos nunca, não é, senhor Ritt?

— Nunca — disse ele. — Muito patético, não é?

— Oh, não. De jeito nenhum — disse o comissário Galuzzi. — Desejo-lhes boa sorte.

— Obrigado — disse Ritt. — O resto dessa estória é conhecido. Os assassinos de Susanne Marvin se entregaram um dia depois do crime à polícia brasileira. As autoridades brasileiras informaram que os dois pertenciam ao grupo de extrema-direita UDR, e que o atentado foi dirigido a Chico Mendes.

— Por que me olha assim? — perguntou Joschka Zinner.

— Porque falo com o senhor — disse Ritt. — Tenho o hábito de olhar para as pessoas com quem falo, senhor Zinner.

— O senhor é louco — disse ele. — Eu não tinha nenhuma idéia desse Chico, ou sei lá como se chama. E se tivesse. Eu dei o ponto de partida para esses filmes! Eu estou ao lado de pessoas como esse Chico e não do lado de assassinos!

— Senhor Zinner — disse Miriam Goldstein —, sabemos que o senhor produz esses filmes. O senhor me explicou naquele tempo, ao me procurar no hotel em Frankfurt, exatamente quais eram as suas intenções. O senhor Ritt mencionou que o atentado seria a Chico Mendes. Isto normalmente deveria lhe interessar.

— Interessa-me muito — disse Joschka Zinner, falando normalmente. — Mas o senhor Ritt me olhou com tanta insistência. Fiquei contra isso. Porque o senhor procurador tem uma idéia preconcebi­da sobre mim.

— Não tenho nenhuma idéia sobre o senhor, Joschka Zinner — disse Ritt. — Ainda não...

Junto com as suas últimas palavras soou uma música militar. Miriam Goldstein se levantou. Ela disse, hesitando: — A Marcha Badenweiler...

— Como ? — perguntou Ritt.

— Esta é a Marcha Badenweiler — repetiu ela com uma voz afônica. — Sempre foi tocada quando Hitler aparecia numa manifestação de massas.

— O que significa isso? — perguntou Ritt.

— São exatamente cinco horas — disse o advogado Nigra.

— E?

— Às cinco horas em ponto acontece diariamente, diante do Palácio Presidencial, local de trabalho do presidente, a troca da guarda, de acordo com o antigo exemplo prussiano. Venham, olhem isso! O Palácio se localiza aqui em frente. — Com isso, o advogado olhou por uma das janelas de sua chancelaria. Os outros o seguiram.

Na grande Plaza Bolivar estava, em pose heróica, o libertador da América do Sul. Ignacio Nigra se revelou um orgulhoso guia turístico: — Por favor! A figura de bronze de Simon Bolivar foi criada pelo escultor italiano Tenerani. — Ainda se ouvia a marcha preferida de Hitler, que estava sendo tocada por uma orquestra militar em frente ao Palácio Presidencial. Atrás de bloqueios, na chuva, as pessoas se empurravam. Turistas levantavam as máquinas fotográficas, ligavam as câmeras, a fim de gravar a troca da guarda. Soldados usavam uniforme de opereta e marchavam em passo de parada, saudavam e apresentavam as armas. — Todas as tardes o trânsito fica caótico por causa da quantidade de gente — disse Nigra. — Realmente, uma praça maravilhosa! A construção pomposa é a catedral daquele lado. O melhor estilo clássico. Sua construção terminou em 1823, exatamente no lugar onde, em 1538, estava a primeira igrejinha do pequeno povoado, da qual surgiu a nossa maravilhosa Bogotá.

A marcha preferida de Hitler continuava a ser tocada.

Ritt pôs a mão no ombro de Miriam Goldstein.

Nigra estava entusiasmado: — Ah, esta catedral estupenda! Os senhores precisam visitá-la! A valiosa capela da Santa Elisabete da Hungria lá dentro! O túmulo do fundador da cidade, Quezada! O túmulo de Gregorio Vasquez de Arce y Ceballos!

— Quem foi esse? — perguntou Joschka Zinner. Soou de verda­deiro interesse.

— O maior pintor da Colômbia — disse o seu primo.

— Ah — disse Zinner.

— Ao lado da catedral, o palácio do cardeal, com suas imensas portas de bronze — continuou o advogado, entusiasmado — e a casa de Manuela Sáenz...

— Quem era essa? — Zinner perguntou, enquanto o advogado já havia continuado a falar.

— ...a calorosa amada de Simon Bolivar, que lhe salvou a vida.

— Como ela... — começou Zinner.

— Ao jogá-lo pela janela. A sua casa é hoje escritório do presidente. Vejam os soldados! Ouçam a música! Uma cerimônia, não é?

Ritt segurou com mais força no ombro de Miriam.

— Um espetáculo estonteante! — Nigra gritou. — Toda tarde, às cinco. Turistas do mundo inteiro. Vejam! Ouçam! Grandioso, não é?

— Por que aquela... jogou Bolivar pela janela? — perguntou Joschka Zinner.

— Ela era casada, meu Deus. Seu marido chegou em casa. O nosso herói nacional estava lá. O que devia fazer? Ele só quebrou as pernas. Uma placa de mármore faz menção, embaixo da janela respectiva, no primeiro andar, do ato de amor. Apesar da ligação pecadora, Manuela Sáenz é desde então uma heroína para o povo colombiano.

— Ali está ele — disse Achille Machado.

— Quem? — perguntou Zinner.

— O americano! — Machado mostrou com a mão.

— Que americano? — perguntou Nigra.

— Meu Deus, o que esteve comigo. O que queria saber tudo sobre Markus Marvin.

— Onde? Onde está ele? — Joschka Zinner se aproximou da janela.

— Ali, ele está correndo... Você não pode vê-lo, Joschka... Ele deve ter olhado para cá o tempo todo... E eu, idiota, mostrei com a mão. Ele seguramente viu e fugiu...

— O senhor está certo de que era o seu americano? — perguntou o triste comissário Galuzzi, da DAS.

— Absolutamente certo. Posso jurar. Pela minha felicidade eterna, era ele.

A marcha preferida de Adolf Hitler ainda era tocada.

Agora chovia muito. Chovia quase todas as tardes em Bogotá.

 

— O mais nocivo de todos os venenos já produzidos pelo homem se chama 2-3-7-8-TCDD. Desde o acidente industrial mundialmente conhecido, em 1976, ele é denominado dioxina-Seveso. Algumas características desse superveneno: é cancerígeno e causador de deformações. Dez mil vezes mais venenoso que ciancali, 60 mil vezes mais causador de deformações que a talidomida... — A voz de Valerie Roth soa do alto-falante.23

O monitor da aparelhagem BETA estava no chão do pequeno quarto de pensão. A partir de um gravador eram transmitidas, pelo seu vidro fosco, todas as gravações para uma série seguinte sobre ecologia, a qual Marvin, com a sua equipe, havia acabado de fazer. A pensão se localizava na periferia de uma grande cidade alemã. Bernd Ekland e Katja moravam lá temporariamente, os outros num hotel. O cameraman, seu “técnico”, Markus Marvin e Valerie Roth queriam, ainda na noite daquele 13 de setembro, antes de viajar, testar a qualidade das gravações feitas até então.

A tela mostra Valerie, um microfone na mão, diante de uma espécie de árvore genealógica imensa, que consiste em fórmulas químicas muito complicadas. Ela cobre toda uma parede de laboratório.

A voz de Valerie continua: — Através do acidente em Seveso a dioxina 2-3-7-8-TCDD — o que quer dizer tetraclorodibenzo-dioxina — se tornou mundialmente conhecida, ou melhor, mal-afamada. Mas a TCDD é apenas um representante de uma grande família de 75 diversas dioxinas. E depois há um parentesco numeroso e em parte não menos venenoso. São os 135 chamados dibenzofuranos clorados. Então, quando falamos de dioxina, queremos dizer com isso, no total, 210 representantes dessa honrada famí­lia, não apenas a liberada em Seveso, 2-3-7-8-TCDD.

A câmera mostra o Ministério do Interior, em Bonn. Além da voz de Marvin: — Ao governo federal em Bonn, mais exatamen­te falando: ao anteriormente responsável pela proteção do meio ambiente, o ministro do Interior Zimmermann — em 1983, já em 1983! — foi apresentado um “mandado de captura” da famí­lia dioxina. É provável que anos mais tarde tivesse havido outros “mandados de captura”, quando havia um ministério e um minis­tro do Meio Ambiente. Só temos notícias do de 1983, e só che­gamos a ele porque um funcionário não deixou esmorecer a preocupação por este mundo. Ele nos enviou uma fotocópia. Pelo grande número de funcionários e colaboradores no ministé­rio fica impossível achar o homem que nos entregou esse material secreto...

— Assim espero — disse Marvin, batendo três vezes na madeira da mesa no quarto da pensão.

— Pode ficar sossegado — disse Valerie. — Philip formulou muito bem. Vocês sabem que nosso homem vem de outro canto.

Na tela, uma grande reportagem.

A voz de Marvin: — Esse documento tem o título: “Relatório Dioxinas” e foi feito na repartição federal em Berlim. O motivo foi a concorrida discussão aberta, na primavera de 1983, sobre o paradeiro de 41 barris de restos que continham dioxina, da fábrica do acidente em Seveso.

A voz de Valerie: — O documento estava nas mãos do ministro já em maio de 1983. Ele tem o número de registro (vê-se na imagem), o algarismo romano um, o arábico quatro, traço 9-0-6-1, barra 61 e o carimbo (a câmera se aproxima): MS.

A voz de Marvin: — MS significa: material secreto. Apenas para utilização interna.

Valerie Roth — ela usava lentes de contato marrons, naquela noite — pediu a Ekland: — Pare aqui! — Ele parou o cassete. — Os textos de Philip estão OK para vocês?

— Totalmente — disse Marvin. — A coisa com as vozes alternadas também. Já está bom assim. Só colocamos provisoriamente a sua e a minha voz. Mais tarde falarão os profissionais... Deixe correr, Bernd!

Este deixou rodar o cassete novamente. Da rua soou a sirene de uma ambulância, ficou bem alta, foi baixando...

A voz de Valerie: — Então vejamos, sobre que segredo dispunha o mais alto ecologista de 1983 sobre a família das dioxinas, já há cinco anos.

A voz de Marvin: — A declaração que mais choca é a de que as dioxinas nesse meio tempo se tornaram ubíquas, quer dizer, onipresentes — também nos nossos alimentos, no nosso ar. E isto o governo federal já sabe há anos!

A voz de Valerie: — No relatório diz-se tranqüilamente: “Nas ubíquas concentrações de TCDD na cadeia de alimentos e no meio ambiente não se deve levar em consideração um perigo para o homem.” E bem alarmante é a seguinte citação: “Cidadãos normais só podem receber dioxinas através de alimentos ou do ar. Dos alimentos deve-se prestar atenção principalmente em carne gordurosa, derivados do leite de vaca, a carne de peixes.”

A voz de Marvin: — Só podemos receber dioxina através de alimentos ou do ar! Isto deve ser uma piada? Como mais? Em forma de comprimidos ou como complemento de banho?

A voz de Valerie: — Lemos em outro ponto que peixes de água doce, em determinados lugares, estão de tal forma sobrecarregados de dioxinas, que o consumo regular de apenas 200 gramas por semana ameaça uma pessoa de se tornar cancerosa ou produz, através da lesão do organismo ou do embrião, deformações em bebês. Repetindo: o consumo de apenas 200 gramas por semana de peixe de água doce, sem levar em conta outras vias de absorção de dioxina, através do ar ou outros alimentos.

De onde vem essa onipresença das dioxinas?, perguntaram os cineastas. Como pôde acontecer que esses materiais extremamente venenosos pudessem se alastrar por todos os lados?

E na sua reportagem, que era transmitida na sua primeira versão no quarto de uma pensãozinha numa grande cidade alemã, eles respondiam à pergunta... — Enquanto toda a Europa parou de respirar, quando políticos e meios de comunicação de massa encenaram uma caça espetacular aos 41 barris de Seveso com ao todo 200 gramas de TCDD, instalações industriais continua­ram a produzir calmamente, em praticamente todos os postos de química, mais quantidades desconhecidas de dioxinas. 24 horas por dia. Todos os dias. 52 semanas por ano...

Dioxinas, segundo o filme com sempre novas imagens e depoimentos de especialistas, surgem como produtos secundários, ou seja: 1º, em procedimentos industriais de produção; 2°, em proces­sos térmicos; e 3º, em processos fotoquímicos. Com outras palavras: em toda parte onde se encontram hidrogênios carburados clorados existe o perigo do surgimento de dioxinas.

Em Seveso, por exemplo, foi na produção de hexacloros que ocorreu a catástrofe. Foi aí que se formou muito indesejadamente o terrível produto secundário 2-3-7-8-TCDD. O hexacloro era, na­quele tempo, um meio extremamente eficaz e exterminador de bactérias, que se utilizava na produção de sabonetes, batons, talcos, desodorantes, sprays íntimos. Hoje já não se faz mais isso.

Contudo: só na Alemanha Federal, anualmente, são produzidos 3,5 milhões de toneladas de hidrogênios carburados clorados; no mundo inteiro, entre 40 e 50 milhões de toneladas. Na atuação de fogo, quer dizer, em toda espécie de incêndios ou em queimada “desapropriada” em instalações de queima de lixo, são liberadas em quantidades imensas não apenas dioxinas já existentes, como resultam também quantidades de dioxina através de reações químicas de vários materiais entre eles.

“Desapropriada” significa: em temperaturas abaixo de cerca de 1.100° centígrados. Dioxinas são materiais muito resistentes, que saem intactos abaixo dessa temperatura. Somente mais calor os destroem. Muitas instalações de queima de lixo, porém, não alcançam esse grau de calor mais elevado.

— Eu teria um novo título para a série — disse Marvin. — “Um mundo perverso.”

— Eu teria um melhor — disse Valerie Roth. — “O mundo é apenas um sonho do inferno.”

O filme continuava.

A voz de Valerie: — De um estudo americano resultou, já em 1980, que a dioxina, na concentração inimaginavelmente pequena de cinco trilionésimos do peso do alimento, é cancerígena. O citado peixe de água doce acusa um valor cinco vezes maior! Exceto o peixe — já em 1983, a constatada ubiqüidade, onipresença de dioxinas, não é um perigo cujas fontes se deveriam parar o mais rapidamente possível? Nenhuma palavra sobre isso no relatório. Para tentar responder a essa pergunta, fomos ao Ministério do Meio Ambiente...

Katja parou o cassete e disse: — Sobre isso ainda não temos nada, precisamos ir lá.

— Tenho uma teoria — disse Marvin. — Vejam só, todos os dias os políticos nos contam que nunca tivemos, por tanto tempo, paz na Europa. Por quê? Por causa das armas nucleares. Por causa da intimidação nuclear. Por causa do equilíbrio do terror. E exatamente assim pensa a indústria química. Lá dizem os chefões: nunca estivemos tão bem. Por quê? Porque o mais importante são as ligações de cloro. Se não as tivéssemos, tudo iria por água abaixo. Tudo terminaria. Paz e bem-estar através de ligações de cloro! — Ele olhou para Katja. — Quando temos o encontro com o ministro do Meio Ambiente?

— No dia 17 de outubro.

— Então vamos filmar pouco antes a entrevista com Braungart em Hamburgo sobre as instalações de queima de lixo e viajaremos agora até os Vitrans e esse especialista em energia solar, em Paris.

 

O físico professor Werner Loder trabalhava desde 1942 na estação de testes de mísseis Peenemünde com muitos outros cientistas, sob a chefia de Werner von Braun. Ele construía sistemas de direção. Em 1944 nasceu o seu filho Wolf. Depois da guerra os franceses mandaram chamar o professor Loder e depois os egípcios, porque o presidente Nasser também queria possuir mís­seis de qualquer forma. O filho Wolf estudou Física.

Em 1970 Werner Loder foi convidado pelos ex-colegas de Peenemünde, que agora viviam nos Estados Unidos, para uma festa de reencontro na estação espacial de Cabo Canaveral. Ele levou Wolf. Na festa, eles ouviram como alguém citou Werner von Braun com a seguinte frase: — O século XXI não será o século dos vôos espaciais, mas da energia solar.

Esta frase impressionou muito Werner e Wolf Loder, pois eles haviam iniciado há algum tempo, em Binzen, uma pequena cidade na fronteira alemã-suíça, a construção de instalações solares.

À noite, no hotel, Wolf disse: — Não estou realmente falando contra você, pai, você teve de trabalhar em Peenemünde naquele tempo. Mas nunca participarei de desenvolvimentos que podem ser utilizados para a guerra, para a luta de homens contra homens. Se há de se lutar, então seja contra a ameaça da natureza — pelos homens. Estamos no caminho certo, pai. Vamos continuar a construir instalações solares!

— Sim, meu filho — disse o pai, naquele tempo.

 

 

Na noite de 14 de setembro de 1988, uma quarta-feira, o grande e esbelto físico Dr. Wolf Loder desceu de um ônibus no ponto Place d’Anvers e foi pelo Boulevard Rochechouart até uma transversal esquerda, Rue de Steinkerque. Loder tinha cabelos louro-escuros, um rosto fino e raros olhos azuis brilhantes. Agora ele alcançou o square Saint-Pierre, que ficava aos pés de Montmartre e da imponente basílica do Sacré Coeur. Loder foi por um parque íngreme e bonito. À esquerda viu um vagão do funicular, um teleférico que muitos usavam para subir. Algumas vezes ele fixou os olhos, que lembravam os dos profetas do Velho Testamento, levou-os até Paris, embaixo, e sentiu bater o seu coração, como sempre, quando ele olhava aquela cidade, citada por Hemingway como “uma festa”.

Lentamente ele continuou a subir Montmartre, o mais alto monte de Paris. A última rua antes da praça da igreja era velha e estreita e se chamava Rue du Cardinal Dubois. Loder observava cheio de melancolia e amor, pois ele amava Paris, as casas com suas paredes manchadas, as calçadas, às vezes com nem meio metro de largura, e sempre o céu de um azul pálido.

A região lembrava uma pequena cidade adormecida. Duas anciãs conversavam, uma na calçada, a outra se curvava sobre uma janela baixa Um homem com chinelas, o boné preto na cabeça, levava para passear um cachorrinho. Loder não viu mais gente. Carros estacionavam nos dois lados da rua. O cheiro era dos muitos jantares que estavam sendo preparados, e como sempre, quando vinha até aqui o homem de 44 anos pensava na última frase do livro que Hemingway havia escrito sobre esta cidade: “Assim era a Paris de nossos primeiros anos, quando éramos muito pobres e muito felizes.”

Ele chegou à alta e velha porta de madeira de número 50a e apertou a campainha, como sempre certa, da placa de esmalte partido, há décadas enferrujada. Também mecanicamente, ele deu um passo para trás. O prédio tinha cinco andares. De uma janela do quarto andar apareceu Gerard Vitran.

— Estou descendo! — ele gritou.

— Tudo bem! — Loder esperou. O homem com o cachorrinho passou por ele e o cumprimentou. Já que o pequeno animal levantou uma perna, ele parou. Ele era um homem muito velho com muitos sinais no rosto e nas mãos magras.

— ’ soir, monsieur.

Loder também cumprimentou. Ele falava bem francês.

— Bom tempo, não é?

— Muito bom — disse Loder.

— Quente — disse o velho, que olhava interessado como o cachorrinho fazia xixi.

— Quente, sim.

— Mas não muito quente.

— Não, isso não. Não muito quente.

Vai-se poder dormir novamente, graças a Deus!

— Graças a Deus!

— ’ soir, monsieur — O cachorrinho havia acabado e continuou a levar o seu dono.

— ’ soir, monsieur — disse Loder. O velho levantou a mão, cumprimentando, e se virou. Distraído, ele disse: — São todos uns criminosos.

— Quem?

— O senhor não ouviu as notícias? Os políticos são uns crimino­sos. Podem pegar quem o senhor quiser.

— Tem razão, monsieur.

— Malditos criminosos — disse o velho para o seu cachorrinho. — Você também sabe, Coco, você também sabe. Espere! Não temos pressa. Todos criminosos. No mundo inteiro.

A decomposta porta do prédio foi aberta. Ela chiava alto. De camisa e calça, Gerard Vitran estava diante de seu amigo Wolf Loder. Eles se abraçaram.

— Wolf, meu querido. Alegro-me tanto!

— E eu também, Gerard. Estar novamente com vocês! Nesta cidade!

— Os outros já chegaram — disse Gerard. — Monique e Isabelle estão na cozinha; o resto, no escritório. Boa gente. Você vai gostar deles. Monique e Isabelle fazem gigot.

— Ah — disse Loder.

— Com acompanhamentos e salada.

— Esplêndido!

— Antes tem sopa de tomate.

— Ótimo.

— Gigot, porque você gosta tanto de gigot.

Gigot quer dizer perna de carneiro, mas Wolf Loder sabia que o que o esperava de cozinha de Monique Vitran era uma perna de carneiro totalmente inverossímil, absolutamente fantástica, que merecia um nome aristocrático. Atrás de Gerard, ele subiu os altos degraus de pedra da estreita escada.

Os degraus de pedra, pensou ele. Ela já havia sonhado com eles. Em cada andar havia um pequeno patamar e uma porta de madeira pintada de verde, da qual a tinta saía — provavelmente desde o fim da Primeira Guerra Mundial, pensou Loder. As portas cheiravam como cheiram as velhas livrarias. Também com esse cheiro maravilhoso ele já havia sonhado. No quarto andar havia num quadro pendurado na porta verde: ENERGY SYSTEMS INTERNATIONAL — ESI.

Loder seguiu o seu amigo apartamento adentro. Ele tinha dois andares, era muito grande, com muitos cantos, e por toda parte havia uma desordem imensa. Revistas e livros faziam montanhas nos estreitos corredores. Todas as paredes estavam cobertas de estantes tortas cheias de livros, documentos e pastas. As tábuas do chão suspiravam e gemiam a cada passo. No seu escritório, Gerard apresentou os outros: Markus Marvin, Philip Gilles, Bernd Ekland e Katja Raal. Eles estavam entre grandes mesas, sobre as quais também se amontoavam ameaçadoramente livros e cadernos, jor­nais e revistas, entre uma velhíssima máquina fotocopiadora, que ainda produzia cópias úmidas, e uma máquina de escrever elétrica, vários terminais de computadores e maços empilhados de fichas de arquivo. Sobre uma mesinha havia um fax barato, o carrinho ao lado apresentava, em três andares, muitas garrafas. Loder viu novamente duas velhas cadeiras de balanço e também um boneco. Ele tinha tamanho natural, vestia um smoking (rasgado, sujo) e estava de costas para quem entrava. Via-se que ele tinha um cigarro na mão. Se o virar de sua cadeira, ele mostra o rosto de um afogado. Loder pousou a mão no ombro do boneco. Daria sorte, havia explicado Monique na sua primeira visita. Ela o explicava a todo visitante, e todo visitante pousava uma mão no ombro do afogado, o qual Monique havia achado anos atrás numa feira de tralhas. Atrás do boneco vinha a luz através de uma janela inclinada, como num atelier de pintura. Também com ela Loder já havia sonhado. Agora ele não fazia caso das igrejas e palácios, hospitais e a Torre Eiffel, das milhares de casas e tetos da cidade. Um copo de Ricard (leitoso, porque misturado com muita água) na mão, ele pensou que estava novamente feliz, muito feliz, de volta a Paris e a seus bons amigos Monique e Gerard Vitran.

 

 

Silenciosos, eles tomaram a sopa. Só depois começou uma conversa. Monique e Isabelle andavam para lá e para cá, carrega­vam panelas, traziam novos pratos. Gerard repartiu a perna de carneiro. Agora todos comiam numa longa mesa na cozinha, o maior espaço da casa. Ela se localizava embaixo do sótão, precisa­va-se subir uma escada de caracol. Muitos ladrilhos do solo haviam saído. Na parede do forno estavam penduradas frigideiras, colherões e panelas. Entre elas havia molhos de alho, pimentões e espigas de milho. Nesta mesa nenhuma cadeira era igual à outra. Havia bancos rústicos, brancos, e poltronas com braços e espaldar de um veludo vermelho, empalidecido. Uma toalha de xadrez vermelha e branca cobria a mesa. Também daqui se podia ver Paris de uma janela grande. Estava quente. Eles haviam aberto uma parte da janela. Os homens vestiam camisas; as mulheres, vestidos leves Eles comeram durante quase uma hora, até chegar ao prato de queijos. As duas mulheres receberam os cumprimentos pelo gigot a saborosa salada e o maravilhoso vinho, o qual Monique havia comprado por tão bom preço. Muitas garrafas dele ainda estavam no porão, disse ela. Loder elogiou o pão branco bem torradinho que se chamava bâtard — bastardo — grande e largo, não estreito. Estes são chamados baguette ou flûte, como sabia Loder. Gilles olhou sorridente para Isabelle, que estava suada de tanto servir, e ela retribuiu o seu sorriso, enquanto Katja cortava para Bernd a carne em pequenos pedaços, mas muito discretamente, sem ninguém perceber. Já há alguns dias Ekland não podia cortar nada, nem mesmo um pãozinho. Katja olhava para ele. Ela iria apoiá-lo. Nunca mais ele poderia levantar uma BETA sozinho. E assim eles estavam à mesa e comiam e bebiam, e cada um tinha a impressão de conhecer os outros há muitos, muitos anos e de estarem ligados um ao outro através da confiança e da simpatia.

 

 

Foi enquanto comiam queijo que começou a conversa — em inglês, pois todos falavam essa língua. Naturalmente que Monique e Gerard Vitran sabiam do que Loder falava, mas os outros deveri­am ter uma idéia do assunto, que seria o próximo da série.

— Então, energia solar! — disse o jovem alemão com o rosto fino, cujo pai ainda havia construído instalações de direção para a V-1 e a V-2 dos nazistas. — A energia solar que chega à Terra poderia teoricamente cobrir 15 mil vezes a necessidade humana em energia primária. De fato, toda a energia utilizada pelo homem é energia solar transformada: o vento e a água, petróleo, carvão, lenha. Só que a humanidade gasta atualmente, por ano, tanto carvão e petróleo, quanto se juntou energia solar em cada 100 mil anos de história da Terra. Os presentes fósseis dos tempos remotos estarão por isso rapidamente consumidos, o petróleo já daqui a 30 anos. Já era tempo, pois, assim deveria se pensar, de se virar com a constân­cia do sol, saber aproveitar a energia solar e utilizar a força do sol — dia e noite. Antes que isso aconteça, a humanidade precisa baixar radicalmente o seu consumo de energia. Este é o problema que ocupa Monique e Gerard. Com isso é que tudo começa, se queremos ter um futuro. Isto você precisa salientar — Loder olhou para Marvin. Este balançou a cabeça. Todos sabiam do que lhe ocorrera, mas ele pediu para que ninguém dissesse uma palavra sequer de condolências.

— Ainda falaremos de nosso trabalho, Wolf — disse Monique. — Hoje é a sua vez. Qual o queijo?

— Camembert e Roquefort e este de cabra — disse ele. — Eu como demais, mas e daí? Monique, Isabelle, eu amo vocês!

— Nós também, doce boche — disse Monique.

— Como se pode então colher, armazenar, transmitir energia solar racionalmente? — Loder falou, de boca cheia. — Desculpem. — Ele mastigou e engoliu. — Como se pode condensá-la, deixá-la disponível em toda parte, em dias de chuva, de noite, sob a Terra? Então, como? De preferência através da transformação numa forma de energia armazenável e bem transportável — num gás, em hidrogênio, o portador ideal e secundário de energia.

Bem lentamente o sol baixava sobre a grande cidade. Milhões de janelas começaram a ficar douradas, mais e mais forte.

— E como surge da energia solar a energia de hidrogênio? — perguntou Ekland.

— Há vários sistemas — disse Loder. — Muitos já funcionam muito bem. Em Binzen, desenvolvem algo bem especial. O proble­ma em todos os sistemas é que eles só funcionam durante o tempo em que há sol, não é? Quando chove ou é noite é o fim. Nosso sistema funciona dia e noite! Com sol e sem sol. É uma invenção, vocês deveriam ir até lá! Serão os primeiros a poder filmá-la. Hidrogênio — disse ele, sonhando. — Se tudo der certo, o elemento volátil dará a todo um século o seu nome. Não foi à toa que Ludwig Bölkow disse: “O século XXI será a época do hidrogênio solar. Se não for, então boa noite, Terra!”

— Hidrogênio — disse Gerard Vitran —, esse é o elemento mais comum no universo. Um quilo de hidrogênio libera na sua queima 33 quilowatts/hora de energia, três vezes mais que a gasolina! Do hidrogênio pode-se produzir, sem muito esforço, força, calor e luz. Depois disso fez-se um longo silêncio na grande sala, e todos olhavam da janela aquela “festa”, essa cidade maravilhosa que é Paris, que parecia arder na luz do sol que se punha.

— Na maioria das vezes — disse finalmente Wolf Loder — são os homens velhos que olham para o futuro. A vida distante, que para eles é inalcançável, parece fascinar esses homens. Talvez eles queiram remediar o que em anos passados fizeram aos seus semelhantes e à Terra. Alguns poderiam viver maravilhosamente dos juros de suas posses, mas ao invés disso eles anunciam o novo tempo. Meu pai está toda manhã, antes das sete, em nossa oficina em Binzen.

— Carl Friedrich von Weizsaecker — disse Marvin —, o irmão do presidente da República, tem 76 anos de idade, um físico atômico e filósofo, quer o sol “como a fonte principal de energia do próximo século”. E Robert Jungk, 75 anos, escreve: “A chegada da era do sol é a questão vital para o futuro do homem.”

— De fato, não temos mais tempo — disse Loder. — O carvão precisou de 100 anos para reprimir a lenha. O avanço do óleo durou 30 anos — e algo assim como o óleo nunca haverá novamente na história da humanidade. Há dez anos que a energia nuclear aperta o mercado alemão. O resultado: dez por cento da energia primária, mais ou menos 30% da necessidade de energia são cobertos pelas usinas nucleares. A indústria pode tudo. Os homens só devem querer.

— E eles não querem? — Katja perguntou.

— Os homens, sim — disse Loder. — A União é que não.

— Quem é a União? — perguntou Ekland.

— Na Alemanha é um dos grupos mais poderosos da economia. Uma junção de oito companhias de energia. São imensamente ricos, fortes e influentes. Vou lhe contar mais sobre esse clã-megawatt. Apesar dele, conseguiremos. Só precisamos ser mais rápidos, muito rápidos! Energia solar significa: paz entre os homens e a Mãe-Terra, pois a natureza não será mais globalmente destruída e envenenada. Significa: paz no país, pois a energia solar não precisa nem da polícia nem de protetores do Estado. E significa: paz entre as gerações, da nossa e daqueles que vêm depois de nós.

— O pesquisador solar Dahlberg — disse Vitran — tem razão quando diz que a energia solar e o hidrogênio iriam preencher aquilo que a energia nuclear prometeu e não cumpriu.

— Temos nossos modelos — disse Loder. — Outros têm outros. Precisamos de vários — para várias regiões e formas de utilização. O que nos falta é dinheiro. Não temos dinheiro suficiente. Recebemos algum para a pesquisa, mas quando queremos ir à produção, começam as dificuldades. O fato de pequenas fábricas também conseguirem as condições para a era da energia solar, de que nossas invenções substituem usinas nucleares, parece ser insuportável para o clã-megawatt em nosso país, para os vagabundos[*], para os todo-poderosos do abastecimento de energia. A União tem milhões e milhões. A União naturalmente também se interessa pela energia solar. Naturalmente os vagabundos têm os seus modelos na gaveta. Tanto dinheiro, inteligência, entusiasmo foram investidos na ener­gia nuclear — ainda dá certo com ela. Por que se deveria desistir, enquanto der certo? Uma hora não dará mais certo, ótimo. Mas então o clã-megawatt, os vagabundos, deverão ter o completo monopólio sobre a energia solar — como agora sobre a energia nuclear e todas as outras formas de energia. Pois eles querem continuar a ganhar, como até agora. E também mandar, o que acontece. E fazer todos dependentes deles, como até agora. Os vagabundos! Ninguém mais... O desenvolvimento do motor a diesel da VW custou dois bilhões de marcos — não, por exemplo, a invenção do agregado. As oito grandes companhias de energia alemãs gastaram até agora, anualmente, mais de 12 bilhões de marcos com a reaparelhagem de suas usinas. Nós, que preparamos a energia solar, precisamos lutar por cada nota de mil marcos. Os vagabundos, ao contrário, têm bilhões para a reaparelhagem das usinas e outros bilhões para os projetos de energia solar — eles recebem o seu dinheiro através de descontos automáticos nas contas de luz de cada um.

Katja balançou a cabeça. — Esses grandes simplesmente podem fazer tudo? Determinar tudo?

— Sim, senhora Raal!

— Como? Como isso é possível?

— Através de Adolf Hitler — disse Loder. — Em 1935, quando já preparava a guerra, ele passou ao presidente do banco imperial, Hjalmar Schacht, a tarefa de cuidar para que a indústria armamentista sempre e a toda hora pudesse pôr à disposição bastante energia, dia e noite, mês a mês, ano a ano. E então, Schacht tinha os seus amigos na indústria, não é? Seus bons amigos se alegraram muito quando então Schacht criou, em 1935, a “Lei do Armamento de Abasteci­mento Alemão de Energia”. Os vagabundos podiam — não, a partir de então eles tinham o dever — produzir energia, energia, energia. Em quantidades gigantescas. Para a guerra. Perdemos a guerra em 1945. Hitler se matou. Mas a lei de 1935, a lei que dava aos grandes o direito de produzir e vender energia tanto quanto eles quiserem, essa lei é até hoje, na sua estrutura, válida!

— Não! — disse Katja.

— Sim — disse Loder. — Em todos os estados da Federa­ção, ainda em 1988, a lei nazista de 1935 é a norma. A União, a junção de oito grandes monopólios de energia, sugere que seja produzida tanta energia quanto ela custa, ainda hoje! Ninguém ousa fazer algo contra isso. Ninguém impede que as oito da União paguem eventuais perdas com o dinheiro de seus clientes, ou seja, os contribuintes, e fiquem com todos os lucros. O que as pessoas, que precisam de energia, devem fazer? Tão logo elas liguem o interruptor, tão logo usem uma tomada, elas dependem da União. Essa ditadura da energia representa um fenômeno único no mundo ocidental.

— Mas isso é um escândalo! — gritou Katja.

— Não, senhora Raal — disse Loder. — Isso não é um escândalo. Isso é a compreensão alemã do direito.

 

 

Logo depois, Bernd gemeu.

— O que foi? — Katja olhou para ele, espantada. — Dores?

Ele afirmou e apertou os lábios.

Katja disse aos outros: — Ele deu um mau jeito com a BETA, sabem? Há uns dias. E desde então... Dói muito, Bernd? — Ele confirmou. — Devemos chamar o médico de plantão?

— Não — disse Ekland. — De jeito nenhum. É só o calor. Por isso dói tanto. Não quero atrapalhar a noite. Tudo está maravilho­so, a comida, os amigos, realmente, agradeço por tudo — e por favor, ninguém fique com raiva se eu for embora agora. Preciso simplesmente me deitar.

— Mas é claro — disse Monique Vitran. — Por que não disse antes? Espere, vou chamar um táxi imediatamente!

Dez minutos depois Bernd e Katja estavam num pequeno Citroën, a caminho de uma pequena pensão, perto da Gare de l’Est. O critério parisiense da televisão de Frankfurt havia reservado um hotel para colaboradores e visitantes. Marvin, Isabelle e Gilles estavam hospedados lá. A mania de Ekland eram pensões pequenas e velhas — para onde ele sempre ia. Lá ele se sentia bem. E naturalmente Katja sempre poderia ir aonde ele estava.

No táxi, Ekland disse: — Não é nada grave.

— O que não é nada grave?

— Meu braço. Só queria ir embora, entende?

— Não digo nada. O que estava ruim? Estava muito interessante.

— Por isso mesmo — disse Ekland.

— Por isso mesmo o quê?

— Ah — disse o motorista, um mais velho, em alemão. — São alemães?

— Sim — disse Ekland. — E aí?

— E aí eu amo a Alemanha — disse o motorista de táxi. — É um país maravilhoso. Passei lá os melhores anos de minha vida.

— É verdade? — Ekland perguntou.

— É verdade. — O carro derrapou e fez um barulho. — Foi um gato.

— O que foi um gato?

— O que atropelei. Nesta região eles existem aos bandos, à noite. Não tenho nada contra gatos. Realmente, não. Aquele veio correndo em minha direção. Veio direto da transa. Perdão, senhorita.

— Como é que o senhor sabe? — Katja perguntou.

— Ou então corria para lá. Uma verdadeira loucura aqui, perto da estação. Toda noite. Podem perguntar a todos os colegas. Gare de l’Est. Famosa por isso. Ah, Alemanha! Era um sonho.

— Quando? — Katja perguntou.

De fato, havia muitos gatos na rua.

De 1940 até 45. Prisioneiro de guerra. Uma fazenda em Schwarzwald. Villingen. Conhecem Villingen? Também um so­nho! E as moças! As moças mais bonitas que eu... Pois é, e Gertrude veio comigo, para Paris. Nesse meio-tempo, envelhecemos. Nossos filhos cresceram e saíram de casa. Mas eu, eu ainda tenho o meu sonho. Villingen. O lugar mais bonito do mundo. No próximo ano paro de trabalhar, então vamos...

— Para Villingen — disse Katja.

— Para Villingen — disse o motorista de táxi. — E ficamos lá Por todo o crepúsculo da vida. E quando ela chegar, queremos ser enterrados lá. A senhora ainda não viu um cemitério como aquele Simplesmente maravilhoso. Meu Deus, serei feliz quando sair de Paris! Mal posso esperar. Chegamos, senhores. Falo muito, eu sei Sim, sim. Não contradigam! Digo disparates em cima de dispara­tes. Diz sempre Gertrude. Custa... oh, muito obrigado, monsieur! E divirta-se! Perdão. Aqui ainda se vai ficar louco. Olhe só os gatos...

 

 

— E então, o que está acontecendo? — perguntou Katja, quando entraram no quarto dela, na pensão. Era pequeno, mas decorado com bonitos móveis, como em toda casa. Ekland gostava tanto dessa maneira de hospedagem quanto detestava a afetação aristo­crática nos hotéis de cinco estrelas e se hospedar com pessoas que o rodeiam o dia inteiro, no trabalho. Desta vez ele só havia achado um quarto nesta pensão, onde se podia ouvir os trens passarem e todo o barulho da estação. Isto lhe era tão indiferente quanto o fato de que os quartos tivessem paredes finas. Ao lado, soava justamente a voz de um homem.

— Pois é — disse Ekland —, era tão interessante o que estava sendo contado. Sobre a lei nazista, que até hoje vale, não é?

— Sim, e daí?

— Tudo é tão interessante — disse ele. — Desde o começo. Que os próprios seguranças tivessem fuzilado a filha de Marvin. E Chico Mendes tivesse escapado do atentado por um triz. Que Bolling fugisse sem deixar pistas. Que na nossa equipe ninguém confie em ninguém, provavelmente com razão. E agora também a lei nazista! Escute, Katja, precisamos sair dessa! Toda essa estória é mais que suja. Você mesma viu em Altamira, quando Bolling telefonou para aquele Joschka Zinner. Tudo isso fede, estou-lhe dizendo. Você e eu não temos nada a ver com isso. Quero a minha paz. E a sua. Você é curiosa demais.

— Isto não é verdade! Entrei nessa por puro acaso.

— Não importa. Mas agora você precisa sair dessa, e muito rapidamente. Fazemos o nosso trabalho. Quanto mais cedo terminarmos, tanto melhor. Essa é uma estória mais que suja. Acredite em mim. Tenho um faro pra essas coisas. Você sabe disso. Nunca o meu faro foi tão bom quanto agora. Não quero morrer, como a pobre Susanne. E a você nada pode acontecer. Pelo fato de eles ainda começarem com essa lei nazista que ainda hoje é válida na Alemanha naquela Alemanha que o motorista de táxi tanto ama, eu disse que queria ir embora, entende? Não devemos saber de nada! Só assim nos livramos disso. Só assim ficamos de fora. E juntos.

— Ah, Bernd! — Ela começou a chorar.

— O que é agora? Por que você está chorando?

— Porque você disse que ficamos juntos. Você realmente quer isso? — É claro que quero — Ele se deixou cair na cama. As molas chiaram. Uma locomotiva passou. Ouviam-se muitas rodas rolarem. — Agora pare com isso! Pegue um lenço! — Eu... eu não... tenho nenhum.

— Pegue o meu.

Ela limpou o nariz. — Obrigada, Bernd. Faço tudo o que você quiser. Você tem razão. Se acontecer alguma coisa com você...

— Ou com você.

— Comigo não é tão grave. Mas com você. Então fico sozinha.

— E se acontecer alguma coisa com você, sou eu que fico.

— Ah, Bernd, mas a minha acne repulsiva.

— Katja! Gosto de você com a sua acne. Você sabe disso! Mas preste atenção: alguém me contou que em Hamburgo há um professor que acaba com a pior acne do mundo. Iremos até lá, quando acabarmos esse trabalho.

— Mas eu estive em toda parte! Ninguém cura a minha acne.

— Esse, sim! Trabalha com raios X.

— Já os tive há muito tempo.

— Mas não os bem suaves, de ondas longas — disse ele. — Entre dez e 12 vezes, cada uma três minutos, e você tem uma pele como Ornella Muti.

— Bernd... Bernd... Não fique zangado, por favor... Vou chorar novamente.

— Pode chorar — disse ele. — Ninguém está vendo.

— Meu Deus, meu Deus — disse Katja, sufocada.

— O quê, meu Deus, meu Deus?

— Sabe, hoje estive na igreja perto da estação, Bernd.

— Diabos — disse ele. — Na igreja? O que você foi fazer lá?

— Primeiro comprei dez velas...

— Ah, escute, você está jogando dinheiro fora!

— ...e as coloquei naquele cavalete, e então rezei para que hoje ainda acontecesse alguma coisa boa. E pedi ao bom Deus para que ele me desse um sinal.

— Que sinal?

— Se depois da oração eu acendesse todas as dez velas com um fósforo, então aconteceria algo de bom. Ainda hoje. E acendi todas as dez velas com um fósforo.

— Todas as dez? Caramba!

— Sim, e você vê, foi realmente um sinal. Pois agora você vem com esse professor e os seus raios X bem suaves, de ondas longas. Por favor! A coisa bonita, ainda hoje à noite!

Através da parede ouviu-se a voz do homem, de repente alta e bem compreensível. Ele falava inglês.

— Americano — disse Ekland.

— Minhas coisas são de primeira classe, mister Mason — disse o americano.

Uma segunda voz respondeu, também em inglês: — Suas coisas são uma merda, mister Burkett.

— É assim que gostamos — disse o primeiro americano. — Se eu fosse judeu ou um veado ou um esquerdista, então tudo já estaria feito, homem. Então eu já estaria dentro.

— Ontem um escritor negro esteve aqui — disse o segundo americano. — Disse a mim: Se eu tivesse uma pele branca, hoje eu estaria milionário.

— Ótimo — disse o primeiro americano —, e o que há com os veados?

— Há veados que escrevem muito bem — disse o segundo americano.

— Por exemplo Genet, não é? — disse o primeiro.

— Por exemplo Genet — disse o segundo.

— Oh, Deus — disse Katja. — O que há com os dois?

— Calma — disse Ekland. — Tudo em ordem. Eles lêem uma estória de Bukowski. Com papéis divididos.

— Uma estória de quem?

— Então devo me transferir talvez pras chupações? — disse o primeiro americano, através da parede.

— Charles Bukowski. Você não conhece, Katja?

— Não.

— Mas precisa! Um escritor fantástico. Tenho tudo dele. Preciso lhe dar. Isso que eles lêem é uma estória que se chama “Todo grande escritor”. Minha estória preferida. Ah, mas só tenho estórias prefe­ridas com Bukowski! Uma melhor que a outra. Simplesmente esplêndido, o homem!

— Agora só devo escrever sobre chupações, é? — disse o primeiro americano.

— Não disse isso — disse o segundo americano.

— Oh Deus, oh Deus, por que lêem isso com papéis divididos?

— Não sei — disse Ekland. — Bêbados. Loucos. Os dois. Todos somos loucos. Simplesmente grandioso, esse Bukowski.

— Escute aqui, mister Burkett — leu o segundo americano. — Aqui somos uma empresa. Se fôssemos publicar todo autor que se ajoelha diante de nós, porque sua coisa é pretensamente muito boa, não estaríamos aqui por muito tempo. Precisamos peneirar um pouco. E se nos enganamos com muita freqüência, estamos fritos. Simples. Publicamos bons autores que trazem lucro, e publicamos maus autores, que trazem lucro. Queremos vender.

— Escute aqui, o senhor imprime Bukowski — disse o primeiro americano. — E ele faliu. O senhor sabe muito bem.

— Ótimo — disse o segundo —, então ele faliu.

— Ele escreve merda — disse o primeiro.

— Se se pode dar lucro com merda — disse o segundo —, então também vendemos merda.

Depois os dois homens riram. Ekland também riu.

— Escute, Bernd — disse Katja, enquanto a leitura ao lado continuava —, eu lhe prometo ficar de fora. De tudo. Faço o que você diz. Tudo. Mas você também precisa fazer o que eu digo.

— Por exemplo? — perguntou Ekland, que tentava escutar Katja e ao mesmo tempo os dois americanos, que continuavam a ler Bukowski com papéis divididos.

— Por exemplo, começar com a cortisona.

— O quê?

— Três injeções de cortisona por semana — disse ela. — Como antigamente. Ou quatro. Eu as aplico para você. Ainda tenho um estoque. O médico que disse para parar com a cortisona é um idiota. Até então estava ótimo. Sem cortisona está cada vez pior. Hoje à noite cortei a carne pra você. Se você precisasse filmar amanhã, não poderia. Por sorte temos uns dias livres, até que eles se esclareçam sobre a energia solar. Começamos ainda hoje com as injeções. Por favor, Bernd! Senão, tudo está perdido.

— Não quero mais cortisona.

— Também não, quando tudo estiver perdido?

— Também não. Ah, pombas! OK, vamos tentar! Talvez melhore.

Ela foi, feliz, até um armário velho e trouxe uma caixa de metal cromado.

— Ah, Bernd, como estou feliz por você permitir que eu aplique! Você vai ver, vai ajudar logo. — Ele tinha posto a caixa numa mesa que balançava e a abrira. Então ela pegou uma ampola e cortou a ponta com uma pequena lima. — Tire a camisa. — Agora ela segurava uma seringa e a encheu com o conteúdo da ampola. Então ela deixou a seringa sobre uma gaze e limpou um pedaço do corpo de Ekland, no ombro direito, com algodão e álcool.

— Relaxar os músculos! Agora.

Ela furou o seu braço. Ele se comprimiu um pouco. Lentamente Katja premia o êmbolo da seringa.

— Cristo, se as dores forem embora, então o Senhor me trouxe duas coisas boas de uma só vez, minhas dez velas — disse ela baixinho.

— Sim — disse Ekland —, cinco para a sua acne, cinco para o meu ombro.

Da Gare de l’Est soou uma voz rouca de alto-falante, e novamen­te se ouviu o apito de uma locomotiva e sempre o rolar das rodas. E ao lado, a voz do primeiro americano: — Escute essa, Jack! Essa me derruba.

— Leia logo! — disse o segundo americano.

E o primeiro leu: — Um túmulo para toda a desgraça, com os dizeres, HUMANIDADE, DESDE O INÍCIO VOCÊ NÂO TINHA COMO FAZÊ-LO.

 

— Simplesmente não conseguirei sem ele — disse Adolf Hitler em 22 de abril de 1942, no almoço. — Ele não tem vergonha e é arrogante. Ousa me escrever cartas com o tratamento “Muito honrado senhor Hitler”, e tem a petulância de assinar com “heil Hitler” ou pelo menos com “saudações alemãs”, mas, eu lhe juro, é a pura verdade, esse rapaz se permite o seguinte, sempre: “Com os melhores votos, seu dedicado Schacht!” Sim, mas, por exemplo, ele entendeu imediatamente que, sem as contribuições em bilhões, toda tentativa da indústria armamentista alemã será ridícula! Ele não pestanejou quando lhe declarei precisar de oito bilhões para a primeira etapa do armamento e além disso pelo menos 12 bilhões. Ele é uma pessoa muito inteligente e por isso é simplesmente indispensável.

Isabelle pôs sobre a mesa o livro Conversas à mesa, de Hitler, de onde ela havia traduzido. O livro era da biblioteca de Gerard. Eles ainda estavam sentados na grande cozinha no andar mais alto do velho prédio na estreita Rue du Cardinal Dubois. Agora era noite. Através da grande janela viam-se milhões de luzes da cidade. Isabelle foi ao fogão, no qual Monique trabalhava.

— Horace Greely Hjalmar Schacht — disse o esbelto e grande especialista em energia solar Loder, se dirigindo a Gilles, em alemão — nasceu em 1877 e morreu em 1970. Que vida! Em 1916 era diretor do Banco Nacional, que ele, em 1922, uniu ao Banco de Darmstadt. Em 1923, conseguiu, com um truque genial, parar com a inflação galopante na Alemanha.

Ele ouve Loder, mas não o vê — disse Monique a Isabelle. As duas preparavam café. — Ele só olha para você.

— Hum.

— Sem parar.

— Hum.

— Agrada-me. As xícaras estão à direita no armário. Agrada-me muito. Sujeito inteligente. Um bonito rosto.

— Hum.

— Parece muito simpático. Quantos anos tem?

— E o leite?

— Na geladeira. Ama você. Nota-se imediatamente.

— Hum.

— Ah, não faça isso! Você também o ama!

— Onde está o açúcar?

— De 1924 a 1939 ele foi presidente do Banco Imperial — disse Loder. — De 1934 a 1937, ao mesmo tempo, ministro da Economia. Outros truques geniais para a obtenção de divisas para os nazistas. Financiou para Hitler, a quem desprezava, a Segunda Guerra. Sempre foi fiel aos seus amigos da indústria. Trouxe uma linha atrás de Hitler. Para a indústria, Schacht parece ter dito, pode em princípio ser indiferente quem acredita ter o verdadeiro poder — capacetes de aço ou chapéus altos. Mas é uma questão de tato expressar simpatia por um lado.

Gilles riu.

— Parece ainda mais novo quando ri — disse Monique ao fogão, baixinho, para Isabelle. — Vocês dois riem muito um com o outro, não é?

— Hum.

— Quando Schacht, mais tarde, tentou impedir a ameaçadora inflação através de outros créditos para a guerra, Hitler não entrou no jogo — disse Loder. — Schacht, depois disso, se pôs contra ele. Hitler mandou Schacht em 1944 para um campo de concentração. Por conta da “posição oposicionista” o banqueiro foi então absol­vido no Processo de Nuremberg. Absolvido! A partir de 1953 ele foi coproprietário de um banco de Düsseldorf. Pois bem! Mas de qualquer forma, no dia 13 de dezembro Hitler assinou a fantasticamente sutil lei da energia de Schacht. Seu criador foi tão feliz quando a inventou, que ela sobreviveu à guerra, à capitulação, à reconstrução, ao milagre econômico e à destruição das florestas.

— Isabelle, chérie! — Vitran gritou.

— Sim?

— Deixe Monique fazer o café sozinha. Venha cá e traduza para mim! Só entendo uma em dez palavras. Venha logo!

Ela se sentou ao lado de Gilles. Ele sorriu. Ela também.

— Por favor, continue! — Vitran disse. — Os nazistas, monsieur Gilles, no começo não gostaram dessa lei, que praticamente passou às companhias de energia todo o poder. Entendi mais ou menos o que Monsieur Loder contou. Os nazistas, no início, queriam destruir essas companhias, mas não tinham chance alguma contra um homem como Schacht. E Hitler nunca entendeu que foi enganado, que Schacht criou essa lei para os seus amigos da indústria — dessa vez a indústria da eletricidade. Schacht era astuto para encaixar no parágrafo três ou quatro, aparentemente, algo como um controle do Estado sobre a energia. — Vitran abriu um outro livro e deu-o para Isabelle. Seu título era O estado da energia e seu autor era Günter Karweina.24

— Leia o preâmbulo, Isabelle chérie — disse Vitran.

Isabelle traduziu: — “Essa lei foi deliberada para dirigir conjuntamente a energia como base importante da vida social e econômica na cooperação de todas as forças participantes da economia e das entidades públicas da região e, no interesse do bem-estar comum, incorporar economicamente as formas de energia, assegurar a necessária influência pública em todas as questões do abastecimento de energia, impedir efeitos prejudiciais da concorrência na economia popular, promover um equilíbrio prático atra­vés da economia de união e transformar, com tudo isto, o abasteci­mento de energia tão seguro e barato quanto possível.” Que frase!

Gilles a olhou, com simpatia.

— Isto — disse ela —, escreve o autor Günter Kaweina, é uma, aspas, “coleção de declarações de intenções descontínuas e formulações de muitas interpretações e imprecisas”. Mas justa­mente por isso a indicação ao preâmbulo da lei de energia é hoje o ponto crucial em toda discussão com reformistas e alternativos: independente do que eles propõem — para as companhias ela não é suficientemente segura e barata e de forma alguma “tão segura e barata quanto possível”... O fato de a economia de energia alemã ter sido subordinada a uma tal fiscalização do ministro da Economia, era na verdade o que havia de novo nessa lei. Todas as tentativas anteriores de uma regulamentação comum ao império fracassaram no protesto dos estados da federação. Uma importância decisiva naturalmente era como esse controle do Estado deveria funcionar.

No parágrafo três está escrito que o ministro da Economia não poderia exigir dos empreendimentos de abastecimento de eletricidade toda informação sobre a sua situação técnica e econômica, tanto quanto exija o sentido dessa lei. De acordo com o parágrafo quatro, os empreendimentos estão obrigados a comunicar seus planos ao ministério antes da construção de usinas, sua reconstru­ção, extensão ou paralisação, o qual pode aceitar, reparar ou proibir a sua pretensão, quando assim exigem motivos do bem-estar comum.

— Mas isto significa... — começou Gilles.

— Espere! — Isabelle disse. — “O dever de informação do parágrafo três”, assim escreve Karweina, “ligado à fiscalização de investimentos segundo o parágrafo quatro, oferecia ao Estado, em ações conseqüentes, a possibilidade de intervir no desenvolvimento do abastecimento alemão de energia”. Mas justamente isto Schacht queria impedir. Na “Justificativa Oficial da Lei” consta que “a lei parte do princípio de que os empreendimentos da energia são destinados eles próprios, em primeira linha, a solucionar eles mesmos as tarefas”.

— Esse genial Schacht! — Vitran gritou.

— “O ministro da Economia” — traduziu Isabelle — “a prin­cípio quer se limitar a só intervir onde a própria economia não é capaz de realizar a tarefa posta à prova”. Por este motivo, a paralisação e a construção de instalações de energia não eram passíveis de autorização, mas somente sujeitas ao direito de proibi­ção. A preparação das medidas exigidas deve ser feita, tanto quanto possível, pela própria economia. “Seguindo o espírito e o texto dessa explicação”, escreve Karweina, “Schacht transferiu a com­petência dos parágrafos três e quatro ao grupo da economia de energia...”

— E nele estavam somente pessoas da União — disse Vitran. — Com outras palavras: todo o chamado controle estava com os representantes da indústria de energia!

— Karweina escreve exatamente isto — disse Isabelle. — Assinaram essa lei, aliás, ao lado do Führer e do chanceler e o chefe da repartição para economia e interior, também o ministro e o comandante-em-chefe do exército. Tratava-se, finalmente, do desarma­mento do abastecimento alemão de energia.

— Café! — gritou Monique. — Bom e forte café, senhoras e senhores! — Ela chegou à mesa com uma grande bandeja. Isabelle se levantou para ajudá-la a dividir as xícaras. Vitran pegou uma garrafa de conhaque e copos grandes.

Quando todos novamente estavam sentados, Gilles disse baixinho a Isabelle: — O homem no meu livro, o homem o qual preparamos, estaria muito orgulhoso da jovem mulher, a qual preparamos e que ele ama. Ela é inteligente, traduz muito soberanamente e permanece muito excitante, cheia de graça e charme — infelizmente é só com o seu trabalho que fica totalmente livre e desimpedida.

— Philip! Trata-se do monopólio de energia!

— Sempre me distrai a energia que emana de minha mulher do romance.

— Pare imediatamente!

— Nenhuma prova hoje?

— Além disso — cochichou ela —, a situação é, em todos os sentidos, muito séria.

— A União — disse Loder, e Isabelle traduziu — havia vencido Hitler em 100%, como antes Weimar e antes ainda o imperador. Então houve o paraíso na Terra. Até 1939 a União tinha como meta um aumento de energia de mais de 163%. Vocês podem imaginar o que já, naquele tempo, se ganhou.

Gilles perguntou: — Como surgiu essa União?

— Havia dois outros homens geniais — disse Loder. — Um se chamava Hugo Stinnes. Como jovem empresário e proprietário de minas, ele ouviu em 1898 que em Essen deveria ser construída uma usina de eletricidade. Ele se informou rapidamente e anunciou aos seus colaboradores: “Pode-se vender carvão também através de telégrafo.”

— Era assim — disse Vitran — que o Stinnes, de 28 anos, entendia a nova tecnologia, que os geradores funcionavam para a produção de energia com vapores, que gastavam grandes quantidades de carvão. As usinas de eletricidade eram então, para alguém que possuía minas de carvão, os melhores clientes permanentes, não é? O jovem também achou sua maneira de fazer seu grande negócio sem quebrar o contrato, segundo o qual o carvão só deveria ser comercializado através do sindicato. Ele não vendia carvão na usina construída no limite de sua mina “Viktoria Mathias”, mas vapor barato da caldeira da mina. Assim, essa sociedade, a Rheinisch-Westfälisches Elektrizitätswerk, pôde produzir, já no começo, energia muito mais barata que todas as outras.

— Parabéns — disse Isabelle.

— Nem um pouco de prova ce soir? — Gilles cochichou.

— Psiu! — fez ela.

— As pessoas da usina de eletricidade estavam encantadas de tal forma com Stinnes — continuou Vitran — que o elegeram, em 1898, para o conselho de inspeção, embora ele não tivesse nenhuma ação de sua empresa. Stinnes começou imediatamente a influenciar a sociedade, e quando, na primavera de 1902, estourou uma crise na indústria elétrica, ele aproveitou a chance. Junto com o seu sócio de 28 anos, August Thyssen, o rei do aço, ele comprou a maioria das ações, 86%, da Rheinisch-Westfälisches Elektrizitätswerk, assu­miu a chefia no conselho de inspeção e esteve nela até a sua morte.

— Dois tipos mais diferentes do que esses dois homens de Muelheim an der Ruhr — disse Loder — não se pode imaginar. Hugo Stinnes: protestante fervoroso, bom pai de família para mulher e sete filhos. August Thyssen: católico separado, somente l,54m de altura, rompido com os filhos, amante de rijas damas e vulgares viúvas. Enquanto Stinnes, graças à sua mulher, estava sempre vestido de maneira correta, Thyssen usava, em todas as ocasiões, um camisão. Mas tão diferentemente que eles possam ter parecido em suas aparições conjuntas, eles eram irmãos gêmeos no espírito de Schacht, enquanto banqueiros, industriais e ao mesmo tempo técnicos de ponta, construtores, acrobatas das finanças e trabalhadores obcecados. Thyssen escreveu, por exemplo, aos seus diretores: “Peço aos senhores para trazerem à reunião alguns pães com manteiga, para que não precisemos perder tempo durante o almoço.”

— Thyssen e seu genial sócio Stinnes — disse Vitran — já haviam construído o seu império da União, quando começou a Primeira Guerra. No império se tentou de tudo para ter dos dois o seu poder — em vão. Também em vão se tentou, depois da guerra, tudo na República de Weimar para limitar a sua influência. Quando vieram os nazistas, eles tentaram novamente destruir a União — e novamente, não por último graças a Schacht, em vão. Em 1945 a União era tão rica e poderosa como nunca. Doze anos depois que Hitler, no Palácio dos Esportes, em Berlim, blasfemou o Pai-Nosso e anunciou aos alemães “o novo reino da grandeza, da honra, da força, da magnificência e da justiça, amém”, seus generais almirantes, estavam totalmente vencidos. Ele mesmo não renunciou, como antes anunciado, no caso da derrota, “nas fileiras”, mas viveu até o último momento possível no seu seguro bunker, mandou rapazes de 14 anos para a morte e se livrou rapidamente da vida e da responsabilidade. Precisou pagar o resto dos alemães — a grande maioria, que até o fim acreditaram nele, e os poucos opositores, que sobreviveram a ele.

— E com eles — disse Loder, depois de Isabelle ter traduzido — sobreviveram até hoje a União e a lei nazista de 1935, com cuja ajuda essa União hoje, na Alemanha, pode fazer e permitir tudo o que ela quer.

— Graças a essa lei — terminou Vitran —, os oito grandes propõem de que maneira, na Alemanha Federal, é produzida e vendida energia, quanto e a que preço. Eles envenenam o meio ambiente. Praticamente ninguém os controla realmente. Eles vêem como uma obviedade que perdas sejam impostas a seus clientes ou ao contribuinte — os lucros ficam com eles, até o último centavo, e até agora ninguém ousou romper o poder da União.

 

— Morta — disse o Dr. Heinrich Brelo. Ele levantou um braço da mulher na cama e deixou-o cair novamente. O braço tombou no lençol. — O senhor vê. Mortinha. Está vendo?

— Estamos, doutor. — O comissário Robert Dornhelm concordou amigavelmente com Brelo. — Morta. Nenhuma dúvida.

— E nenhuma indicação sobre a causa da morte — disse Brelo. — Nem a menor delas. Por isso lhe chamei.

— Muitíssimo correto de sua parte — disse o homem de 58 anos, grande e pesado chefe da comissão criminal com os lábios sempre violeta, que deixavam que muitos pensassem que ele era cardíaco. — Estamos muito agradecidos.

— Pode ser que Katharina Engelbrecht tenha sido assassinada — disse Brelo. — Herbert Engelbrecht, seu marido, também foi assassinado. Com ciancali.

— Certo — disse o gordo Dornhelm, que como sempre emanava uma imensa calma.

— Katharina Engelbrecht não foi assassinada com ciancali — disse Brelo —, senão sentiríamos o cheiro. O senhor sente algo senhor Dornhelm?

— Nem um pouco. — Sonhador, ele acrescentou: — Existem muitas maneiras de se assassinar uma pessoa...

— Parem finalmente com o papo-furado! — disse o procurador Elmar Ritt, irado. Ele enxugou o suor da testa com um lenço. Ao calor se juntara, há dias, um ar abafado insuportável. — O traficante de armas Herbert Engelbrecht foi envenenado na prisão de Preungesheim. O ciancali estava em Essen. Por pouco Markus Marvin também, que estava na mesma cela, não foi assassinado. Katharina Engelbrecht teve uma crise nervosa depois da morte de seu marido e foi internada no dia 28 de agosto neste sanatório. Aqui ela sofreu uma sonoterapia. Ela despertou na terça-feira, 6 de setembro, leio no protocolo hospitalar. Ela continuou a ser tratada e se recuperava rapidamente. De um check-up chegou-se à conclusão de que ela estava física e mentalmente saudável. Hoje, 13 de setembro, o senhor veio a este quarto, doutor Brelo, por volta das 19 horas na visita vespertina e encontrou Katharina Engelbrecht morta, na sua cama. Nesses casos, o senhor tem que passar o atestado. Ou seja, com a classificação de “morte natural” ou não. Se o senhor reconhecer a segunda opção, é seu dever se entender com a promotoria. Isto o senhor fez. Como é possível, meu Deus, que um homem numa cela de prisão seja assassinado e logo depois sua mulher morra num quarto de sanatório, quando estava sendo vigiada 24 horas por dia? Foi você que ordenou que ela fosse vigiada! — Ele olhou para Dornhelm.

— De novo! — disse este, reclamando.

— O que, de novo?

— De novo você se irrita tanto. De novo você sua. Já lhe disse mil vezes que você não deve se irritar tão facilmente, rapaz. Um promotor e gente da comissão criminal não devem se irritar facilmente. Você e eu, nós precisamos sempre saber: nun­ca chegaremos mesmo aos grandes safados. Então, siga o meu exemplo! Eu suo? Nem um pouco. Por que não suo nem um pouco? Porque sei de tudo. Porque não me irrito mais há muito tempo. Isso ainda será a sua morte. Você não pode se irritar assim. Você precisa...

— Robert? — Ritt disse.

— Sim?

— Cale a boca!

Dornhelm acariciou docemente a sua face. — Por mim — disse ele — Estrague-se, rapaz!

— Deixe estar, maldição! — gritou Ritt.

— Não grite, rapaz! — Dornhelm disse.

— Você... — interrompeu Ritt. Ele só se dominava com muito esforço. Agora havia suor em gordas gotas na sua testa. Ele se dirigiu ao médico: o criminologista lá fora, no corredor, disse que Katharina Engelbrecht recebeu uma visita hoje à tarde, de seu irmão. De um mister Charles Wander. Wander era o nome de solteira da senhora Engelbrecht. O irmão mora em Nova Iorque. Veio aqui só para visitar sua irmã. Identificou-se com um passapor­te americano e mostrou um documento da procuradoria com a minha assinatura, segundo o qual eu lhe permitia visitar sua irmã.

— Isto mesmo — disse o Dr. Brelo.

— Como o senhor sabe disso? — perguntou Ritt.

— Ele me mostrou, senhor procurador. Conversamos rapidamente. Ele queria saber quanto tempo a sua irmã ainda deveria ficar aqui. Para depois levá-la para os Estados Unidos. Uma pessoa muito agradável. O senhor o conhece, penso.

— Por que o senhor pensa isso, doutor?

— Bom, ele esteve com o senhor, para pegar a permissão de visita.

— Bem — disse Ritt —, não o conheço. Ele não esteve comigo. Nunca dei a um mister Charles Wander, esse pretenso irmão da senhora Engelbrecht, uma permissão de visita.

— O senhor... — Brelo olhou para Ritt, chocado.

— Nunca.

— Mas o funcionário disse que era um documento certo, com a sua assinatura. Ele conhece a sua assinatura, rapaz — disse Dornhelm.

— Então era falsificada.

— E o documento impresso?

— Roubado.

— Muita coisa de uma só vez — disse Dornhelm.

— Pode-se dizer que sim — retrucou Ritt. — Nessa maldita estória, tudo é um pouco demais. Um pouco demais até. Como era o homem que se disse irmão da senhora Engelbrecht, doutor?

Brelo relutou. — Ele era...

— Sim! — Ritt gritou ao médico. — Como ele era, doutor? O senhor conversou com ele! Que idade tinha? Era jovem? Gordo? Magro? Careca? Bigode?

Brelo estava ofendido. — O senhor não precisa descarregar em mim a sua ira, senhor procurador. Não tenho culpa de nada. Pelo contrário. Eu procurei o senhor imediatamente, depois que...

— Sim, sim, sim. O senhor reagiu maravilhosamente. Como era o homem?

— Como ele era... Mais ou menos 35, 40... — Brelo falava relutando. — Talvez l,75m de altura, esbelto. Os cabelos pretos bem curtos. Parecia tímido. Falava baixo, reservadamente. Ah, sim, seus dedos...

— O que tinham os seus dedos?

— Eram bem amarelos, como que por ácidos e lixívia... Mister Wander notou que eu observei suas mãos... Ele disse que era químico...

 

 

No escritório de Gerard Vitran, Markus Marvin falava ao telefone com o procurador Ritt, com o qual ele havia deixado o endereço e o número de telefone dos Vitran. Um andar acima, na grande cozinha, Gilles perguntava ao físico Wolf Loder: — Como é possível que uma lei nazista de 1935 ainda seja válida?

— Em primeiro lugar — disse Loder —, toda a guerra de bombas teve na indústria — mesmo na indústria bélica — efeitos muito pequenos. Apenas 10% de suas máquinas e instalações foram totalmente destruídos, todo o resto pôde ser reparado rapidamen­te. A economia eletricitária, esse enorme ganhador na guerra, saiu da guerra, no território da Alemanha Federal, ainda mais forte do que quando entrou na época nazista. Em 1947 ela havia novamente atingido a posição de 1942. O fato de, apesar de tudo, ainda ter havido dificuldades financeiras e toque de retirada, estava ligado às condições da época. Grandes quantidades de energia precisaram ser fornecidas à França e ao Benelux. E o carvão estava em primeiro lugar, na lista dos produtos de reparação. Excluindo isso, a união alemã-ocidental estava com o melhor humor. Já em outubro de 1945, se encontravam os conselhos de inspeção da Rheinisch-Westfälisches Elektrizitätswerk fora da zona de ruínas de Essen, no restaurante Ruhrstein, para eleger um novo presidente. Quanto a isso, um ex-conselheiro tinha a voz mais poderosa: Konrad Adenauer. Ele impôs um bom amigo, Wilhelm Wehrbahn, um sênior do clã Wehrbahn.

— Pensei que fosse o banqueiro Abs — disse Monique Vitran.

— Abs chegou nesse posto só em 1957 — disse Loder. — Mas em 1945 ele já fazia parte do grupo. E também, do tempo nazista, Ernst Henke. E ainda um terceiro homem, Heinrich Schoeller. Henke e Schoeller conseguiram com que a estrutura da lei de 1935 continuasse a ser obrigatória.

— Mas como? Como? — Gilles perguntou.

— Veja — disse Loder —, depois da guerra houve uma grande corrida em torno da “trasladação da propriedade pública”, como naquele tempo se denominava a socialização e a estatização. Esse perigo naturalmente também ameaçava a União... Günter Karweina o descreve muito bem em seu O estado da energia.25 Loder pegou o livro, folheou e achou a parte que ele procurava. Aqui: “Sociali­zação, diziam as pessoas da União, não é supérflua, porém contradiz o direito em constituição... O homem produtivo não pode ser explorado em prol dos capitalistas. Isso dever ser alcançado, no que a propriedade é transferida do indivíduo para o Estado, ou seja, para todos. Mas então se chegou, no geral, à conclusão de que só com essa transferência não está tudo concluído, porque também as fábricas de propriedade comum não precisam trabalhar com a meta de cobrir as necessidades o mais barato” — nota algo? Esperto, não? E uma sem-vergonhice sem igual! — “não precisam trabalhar com a meta de cobrir as necessidades o mais barato possível... Quando se fala em socialização, pensa-se por isso, hoje, numa diretiva planejada para a cobertura das necessidades, de forma que se se evita investimentos errôneos e crises, pode-se alcançar o melhor resultado possível para todos. Mas para isso não se precisa de uma lei de socialização, pois” — atenção, agora vem, é inacreditável, mas era assim que funcionava! — “pois a economia de energia garante em considerável medida a possibilidade de alcançar as metas desejadas com a socialização para todos.”

— Realmente inacreditável! — disse Gilles.

— Uma grande jogada, não? — Loder perguntou. — E continuando: “É a opinião geral de que não apenas o império ainda existe” — em 1945, foi dito, em 1945 os senhores ousavam dizê-lo, e ninguém contradizia, nenhum dos altos comissários dos aliados, ninguém —, “o império ainda existe, embora por ora lhe falte o executivo, de forma que sobretudo as leis do império, especialmen­te a lei da economia de energia, ainda vigorem”. — Loder levantou os olhos. — Naquele tempo não havia um governo federativo. Naquele tempo havia governos militares, e eles haviam dito expres­samente que eles queriam ceder todas as questões constitucionais e, por exemplo, as da socialização para um governo central alemão-ocidental. Com isso, primeiramente a União teve paz. Mas também mais tarde, depois de 1948, todos os especialistas e juristas liberais ficaram muito impressionados com essa argumentação dos senho­res Henke e Schoeller.

— Como eu com a senhora — cochichou Gilles para Isabelle.

Esta o olhou com um piscar de olhos destruidor.

— Agora você se parece com Romy Schneider em seus mais belos momentos.

— Está bem — cochichou Isabelle — e agora fim, Philip! Não sou nem uma estrela de cinema, nem uma personagem de romance.

— Especialmente boa — disse Loder — pareceu a equiparação de socialismo com direcionamento de produção capitalista mais a proteção do consumidor. O fato de a socialização sobretudo e primeiramente querer tomar do capital o poder sobre os meios de produção, obviamente não foi mencionado pelos senhores Henke e Schoeller. E para quê? Isso sabiam eles e os seus amigos. — Loder riu, furioso. — As pessoas da União ainda imaginaram algo especialmente refinado. Não havia mais o Terceiro Reich, não é? Então a união tinha e tem a ver com os estados da federação e municípios. Os artigos três e quatro da lei de 1935 conservaram a sua validade. Com os nazistas nunca houve dificuldades. Agora também não havia. Na sua generosidade infinita, a União deixou para os municípios até mesmo a maioria dos votos, contanto que eles abandonassem, na mudança, a independência de suas usinas. Além disso, a União paga aos estados, de seus lucros monstruosos, anualmente, grandes quantias de concessão; com as quantias podem cobrir suas perdas em outros campos — como, por exemplo, o dos transportes públicos. E a União propôs a nomeação de representantes municipais para as chamadas juntas consultivas, que naturalmente são muito bem pagas. — Loder levantou o livro e folheou. — E assim, pode-se ler aqui, foi deliberado em 1948: “Posto que a Sociedade Alemã da União planeja, em seus grupos, a ampliação da capacidade das usinas e dos fios de alta tensão e o reembolso das esperadas cotas de venda, trata-se, de acordo com a forma, de um cartel, no qual a disputa está excluída... Posto que os membros da União continuam proprietários de suas redes, in­clusive de seus fios de alta tensão, eles foram e são os co-proprietários de um monopólio de cabos para eletricidade. Transporte de eletricidade sobre longos trajetos dentro da Alemanha Federal, como também troca de eletricidade com o exterior apenas a Soci­edade Alemã da União pode realizar.” Seus atuais membros são: Badenwerk, Bayernwerk, Berliner Kraft und Licht, Energie-Versorgung Schwaben, Hamburgische Eletricitäts-Werke, PreussenElektra, Rheinisch-Westfälisches Elektrizitätswerk e Vereinigte Elektrizitätswerk Westfalen. “Os que estavam à direita dos, naquele tempo, ainda desejosos de socialização, os políticos do SPD”, escreve Karweina, “foram facilmente con­vencidos, pelos oito grandes, de que eles haviam criado volunta­riamente aquele aparato técnico e econômico a ser planejado centralmente, sobre o qual os socialistas tinham uma vaga idéia de que sua organização fosse porém assegurada por uma livre iniciativa e pudesse contar, através da estrutura socialista, com o apoio dos estados, ao contrário do que um planejamento estatal centralizador certamente iria fracassar com o veto dos esta­dos. A União havia vencido novamente!” — Loder levantou os olhos. — E a lei nazista de 1935 ficou com a sua validade. Muito simples.

Isabelle disse: — Mas os municípios dispõem de maioria de votos...

— Certo — disse Loder.

— Então os municípios, então o Estado ainda tem possibilidades de controle, quando a situação está ruim.

— Tem, sim, certo — disse Loder. — Por exemplo, sobre a inspeção de tarifas. Assim, os aumentos de tarifas em Nordrhein-Werstfalen, ou seja, na região do RWE, devem ser examinadas e autorizadas pelo ministro da Economia de Düsseldorf.

— Mas então! — Gilles gritou.

— Mas então — repetiu Loder, sorrindo ironicamente.— E agora imagine que, por exemplo, em Westfalen, por causa do controle mais rigoroso de tarifas, a quantia recolhida pela União seja reduzida.

— Imagino — disse Gilles. — E daí?

— E o que acontece então?

— O que acontece então?

— Então — disse Loder, ainda sorrindo ironicamente — os pagamentos de concessão para os municípios também serão reduzidos. Os municípios querem isso? Ficariam contentes com isso? Ficariam muito descontentes. E por isso nunca houve uma diminuição da tarifa de eletricidade.

Embaixo, no escritório de Gerard Vitran, Markus Marvin ainda falava ao telefone com o procurador Ritt.

 

 

O procurador Elmar Ritt e um americano chamado Walter Coldwell estavam, na noite de 15 de setembro, um dia depois que Katharina Engelbrecht foi achada morta, no escritório do comissário Dornhelm. Eles esperavam que o chefe da comissão criminal chegasse com a autópsia. Ritt havia ordenado um exame do cadáver pelo patologista do Instituto de Medicina Criminal e uma busca do químico Peter Bolling, que estava sendo procurado sob a suspeita de assassinato. Sua descrição e uma foto recente haviam sido distribuídas já há 20 horas pela radiofotografia a todos os portos e aeroportos, postos policiais e de fronteira, não apenas da Alemanha Federal, mas pelo mundo todo, através da Interpol parisiense. Os funcionários da polícia criminal haviam recebido a foto de Valerie Roth, em Lübeck. Um interrogatório com ela não teve nenhum êxito. Ela havia se mostrado, assim disseram Dornhelm e Ritt, totalmente atônita, ao ser comunicada da razão pela qual Bolling estava sendo procurado, sempre explicando que devia se tratar de uma confusão monstruosa, indubitavelmente construída. Mesmo assim, assim disse ela, Bolling havia desaparecido já no dia 4 de setembro em Altamira, na floresta tropical brasileira, no dia em que Susanne fora fuzilada. A equipe teria temido que algo pudesse ter-lhe acontecido.

Estava úmido e abafado no escritório de Dornhelm. Uma tempestade se armava. Relampejava e trovejava continuamente. Mas ainda não chovia. Trovoadas como essas eram freqüentes naqueles dias. Elas não baixavam a temperatura.

O americano chamado Walter Coldwell tinha mais ou menos 50 anos, estatura média, era corpulento, para não dizer gordo, e tinha um rosto largo, pastoso, com uma pequena boca e olhos que sempre pareciam cansados. Os cabelos de um marrom des­corado eram ralos. O feio homem prestava sempre atenção para estar muito bem-vestido. Os seus ternos eram feitos por um alfaiate na Bond Street, em Londres, as suas camisas por um outro, em Hamburgo, os sapatos vinham de Florença. Contudo, todo esse esforço era em vão. Coldwell dava uma impressão levemente grotesca e triste.

Seus pais se originavam da Alemanha, o que vinha muito a propósito para o filho: ele falava fluentemente alemão. O sobreno­me Kaltbrunn ele substituiu por Coldwell, quando entrou, há 25 anos, para a National Security Agency, para a qual ele, desde então, trabalhava exclusivamente na Alemanha Federal.

A NSA era o serviço secreto mais moderno e eficiente dos Estados Unidos. Autorizado por direitos especiais dos aliados e protegido por leis especiais nos Estados Unidos e na maioria de outros países do mundo ocidental, vigiada constantemente por forças de segurança armada, rodeada por cercas de arame farpado e câmeras e escudos protetores eletrônicos, a NSA se transformou numa organização monstruosa, que operava num vácuo político e de acordo com os próprios critérios — um escândalo global, que era conhecido dos políticos e economistas.

Nunca na história da humanidade um poder qualquer no mundo havia feito coisa comparável — ataques-segredo em todo o globo terrestre. Presidentes ou ministros falavam em reuniões de gabinete do que era dito nas casas reais ou nos andares da direção, se os generais bebiam ou embaixadores arquejavam no bordel, tudo os ouvidos — dez mil vezes grandes da NSA — gravavam em fita26. Os EUA gastavam anualmente muitos bilhões de dólares para, como descreveu o antigo ministro da Defesa Harold Brown, a extensão do aparato “manter o melhor e mais capaz sistema de espionagem, sem-par no mundo”.

Ritt e Coldwell haviam tirado suas jaquetas por causa do ar abafado e afrouxado as gravatas. Eles estavam calados e observa­vam a trovoada cada vez mais forte.

Afinal, perguntou o procurador: — O senhor está certo?

— Absolutamente certo — disse Coldwell. Ele parecia doente e mais velho do que era. — Vocês têm o bebê.

— Não posso acreditar.

— Espere até ouvir as fitas. Vocês têm o bebê. Só precisam apertar os parafusos.

— Mas justamente Marvin...

Coldwell levantou os ombros, cansado, e deixou-os cair novamente. A trovoada bramia agora diretamente sobre a cidade. Mas ainda não chovia.

— Por que não justamente Marvin? Físico de primeira! Tantos anos na inspeção do Ministério do Meio Ambiente de Hessen!

— Eles o demitiram.

— Não é verdade! Marvin pretendia ser demitido, se posso lembrá-lo. — Coldwell observou suas caras luvas de couro e disse, melancólico: — Pensa que o observamos só a partir de quando estava no Brasil? Há anos ouvimos suas conversas. O senhor não tem medo de trovoadas?

— Não. O senhor?

— Um medo terrível. Já tinha quando era criança. Idiota, sei. Mas me perturba muito. Juro, vocês têm o bebê.

— Isto — disse Ritt — seria um escândalo monstruoso.

— Ah, Deus — disse Coldwell, controlando suas unhas recém-tratadas.

— O que significa “ah, Deus”?

— Ah, Deus, há muitos escândalos monstruosos aqui. Não apenas aqui. Em toda parte. Marvin está metido neste.

— O senhor dizia que a NSA trabalha com a CIA neste caso...

— Sim.

— Além do contrabandista Engelbrecht, foi assassinado ainda o certamente inocente Traugott Mohnhaupt.

— Sim.

— Foi puro acaso Marvin não estar em seu lugar.

— Sim.

— Vale a pena correr tais riscos?

— Sim.

— Simplesmente?

— Sim — disse Coldwell pela quinta vez.

— Muito sensível.

— Também muito sensível que Bonn tenha rompido todos os contratos e leis e, por isso, hoje vocês tenham o bebê.

— E se Marvin não teve nada a ver com as safadezas desse contrabandista Engelbrecht?

Coldwell fechou os olhos e virou sua poltrona de tal forma que não precisava mais olhar pela janela, diante da qual, por causa dos relâmpagos constantes, estava sempre claro.

— Sabe, precisamos simplesmente escutar o que os dois conver­savam.

— E o que pôde ser concluído?

— Nada. Os dois quase não se falavam.

— Parabéns.

— Ah, pare! Eles apenas eram espertos. Já tinham ouvido falar de nós.

— Então foi besteira esperar que eles falassem coisas de valor para o senhor.

— Não se pode falar assim, senhor Ritt. As pessoas não são... previsíveis. Não se pode vê-las totalmente. “Sensível!” O senhor acha que é tempo de ser muito sensível com caras como esse Engelbrecht? Ele estava metido até as orelhas nessa estória, disso sabemos. Temos provas mais que suficientes.

— Com Marvin o senhor não tem.

Não suficientes — disse Coldwell. — Ainda não suficientes — acrescentou. — Ainda assim há aqueles telefonemas, não é? E as conversas. E ainda assim Marvin é amigo de Bolling.

— Isso não prova nada — disse Ritt. — Não prova absolutamen­te nada.

— Agora vai ser constatado — disse Coldwell.

— Mais uma vez “sensível” — disse Ritt. — Então eram a CIA e a NSA que provocaram a retirada do caso Marvin/Hansen por uns dias.

— Então, naturalmente — disse Coldwell.

No momento seguinte, um relâmpago muito forte clareou o escritório. O trovão seguiu imediatamente. E depois, finalmente, começou a chuva.

 

 

No lado esquerdo do rosto o agente da NSA, Walter Coldwell, tinha uma cicatriz. Era uma velha cicatriz. Ela se originava da fivela do cinto de seu pai. O pai de Coldwell, há muito tempo morto, era contador e outrora um fanático discípulo de uma seita católica, cujo fundador havia ensinado que se podia açoitar suficientemente alguém, que se amava, pelos seus pecados, e assim não mais pecavam, porém eram purificados, para a alegria do Senhor, louva­do seja o Seu nome na eternidade, amém. O pai de Coldwell espancava sua mulher quase que diariamente e muitas vezes, a ponto de sangrar, pelos muitos pecados que ela cometia. Ele a espancava com chicotes, cavacas, bengalas, as mãos e o cinto com a fivela de latão, e ele chorava de desgosto de ter uma grande pecadora como mulher.

A mãe de Coldwell foi embora quando o garoto tinha sete anos. Então o pai começou a espancar o garoto, também quase diariamente. Ele espancava onde e com o que se pode espancar, e chorava de desgosto pela vergonha causada pelo seu próprio sangue e carne, pela quase infinita torrente de pecados: ter amaldiçoado o nome do Senhor, não ter feito as seis orações diárias ou sem o fervor suficiente, ter roubado drops na confeitaria, ter-se tocado impudicamente, observado fotos sujas, e com prazer, ter colado na escola, faltado ao ensaio vespertino do coral, fitado uma prostituta na rua, suas pernas e seus grandes seios, ter tido excitações noturnas, ter desperdiçado carvão por causa do frio, jogado fora um pedaço de pão, não ter tirado o chapéu diante de religiosos, ter usado em dia útil a roupa de domingo para impressionar as moças, ter dado a Annie Upright, 15 anos, essa grande pecadora — ela se queimaria pela eternidade — 50 centavos, para que ela levantasse a saia e mostrasse como era lá embaixo, e isto não só na frente de Walter, mas, ao mesmo tempo, de seis outros rapazes, 50 centavos cada um, ter amaldiçoado o nome do Senhor, sempre, e não ter obedecido aos seus mandamentos, não ter confessado, ou só em parte, e sem arrependimento real, não ter falado com fervor suficiente as penitências infligidas de inúmeros rosários Ave-Marias, e Pai-Nossos, ter descuidado do seu corpo, presente do Senhor, não ter feito uma limpeza exaustiva com escovas, sabonetes e água fria, como o fez o pai, ter escondido para Annie Upright, ela mesma suja, o lenço manchado, ter sujado a camisa, o lençol, a cueca, a calça.

Em grande parte os pecados consistiam em auto-satisfação e pensamentos obscenos, e freqüentemente o garoto nem havia cometido esses pecados, a tentação atormentava muito mais o pai, o qual, sem mulher, de tempos em tempos precisava daquelas prostitutas com grandes seios, em fotos sujas e desenhos sujos, pensamentos voluptuosos, masturbação também quando não ha­via prostitutas ou dinheiro para pagar uma delas. Também se exigia do pai castigo pelos seus pecados, e assim ele sempre espancava o filho com o chicote, o cinto, esmagava os seus dedos na porta, até que Walter gritava de dor e o pai chorava. Não, ele não se cuidava, ele precisava se esforçar para que o filho não pecasse assim, como ele, tratava-se também da saúde de Walter (conseqüências do onanismo: medula espinhal tísica, cegueira, loucura), tratava-se da cura da alma e principalmente ser agradável ao Senhor.

Com medo do pai, Walter rezava e se confessava, se confessava e orava, confessava ao padre pecados inventados, na esperança de que isto diminuiria as pancadas, mas a esperança era vã, vã. Ele já estava tão acostumado a ser espancado, que já baixava as calças, na pobre casa em que moravam, ao voltar a ela.

Então o pai o deitava numa cadeira e começava a espancar. E Walter gritava e caía da cadeira, e o pai vinha e espancava Walter por toda parte, até que ele não tinha nenhuma força mais para gritar. E o pai dizia também que ele mataria o filho, se este por acaso fosse ao juiz de menores ou contasse a alguém o que ele fazia, só para servir ao Senhor, louvado seja o Seu nome.

O dia mais feliz da vida de Walter Coldwell foi o da morte do pai. Ele tinha 15 anos e se escondia num cinema, vendo o filme Mortos dormem pesado, com Humphrey Bogart, quatro vezes seguidas, até que um lanterninha o descobriu e o pôs para fora. Até os 18 anos Walter ficou num asilo estatal para órfãos.

Tornou-se um policial, pois considerava a profissão mais importante que existia. Policiais cuidavam para que não acontecesse nenhuma injustiça, e se mesmo assim acontecesse uma, então cuidavam para que aqueles que a cometessem fossem castigados, também aqueles que espancavam tanto as crianças que estas não tinham mais força para gritar.

Walter Coldwell construiu rapidamente uma carreira e por último — com um QI de 129 e oriundo de família patriótica e extremamente religiosa — foi parar na National Security Agency a maior organização secreta criada até hoje.

 

 

A porta se abriu e Robert Dornhelm entrou na sala. Como sempre, corretamente vestido, quase não mostrava reação ao insuportável calor abafado e segurava uma pasta fina.

— Sinto muito que precisassem esperar. Venho diretamente do necrotério. O professor Willbrandt trabalhou o mais rápido que pôde. Embolia pulmonar.

— O quê? — Coldwell perguntou.

O chefe da comissão criminal I deixou-se cair na cadeira, atrás de sua escrivaninha. — Katharina Engelbrecht morreu de uma embolia pulmonar. — Ele abriu a pasta e tirou dela duas folhas datilografadas e uma série de fotografias grandes. Estendeu-as diante de si. — Willbrandt encontrou um furo de agulha de injeção no braço direito da mulher. — Ele apontou para uma foto. — Aí, na veia grossa. Deve ter sido uma grande injeção, diz ele. A Engelbrecht recebeu muito ar. — Enquanto ele falava, folheava papéis, pegava fotos aqui e ali e aumentou a voz, pois a chuva batia agora muito forte contra as vidraças, e o estrondo dos trovões não acabava mais. — O ar foi pela circulação até os pulmões. Aqui! — Pegou novas fotos. — Ele se distribuiu entre os muitos pequenos recipientes. Pôde-se ver claramente no grau de coloração. Willbrandt preparou um pedaço. Aqui, aqui e aqui. Muito colorido, não? Vê-se daí quanto ar ela recebeu. Você vê, rapazinho?

— Sim — disse Ritt. — Há indicações de que ela se defendeu?

— Nenhuma.

— Como nenhuma?

— Não pôde. Éter. O assassino a anestesiou. Willbrandt achou resquícios de éter na região da laringe. A Engelbrecht foi levemente anestesiada. Depois da injeção tudo foi muito rápido. No máximo dez segundos, diz Willbrandt. Depois, estava morta. Sabe-se a velocidade com que a circulação transporta o sangue. Seis metros por segundo, acho. Ela apagou na hora.

— Por que ela foi assassinada? — Ritt perguntou.

— Para que ela não diga besteira, naturalmente — disse Coldwell.

— Sobre o quê? — perguntou Dornhelm.

— Sobre o bebê de vocês.

— E se ela não tinha nada a dizer sobre o bebê? — Ritt perguntou.

— Pare com isso: — disse Coldwell. — É estúpido. Não sabemos. Logo saberemos. O senhor tem um acordo com esse Marvin. Deve estar à sua disposição e vir imediatamente quando precisar dele, não é?

— Sim — disse Ritt.

— O senhor sabe onde ele está?

— Sim.

— Então — disse Coldwell. — Telefone para ele. Imediatamen­te! Exija que ele venha imediatamente!

Os relâmpagos continuavam, um atrás do outro, como também as trovoadas; a chuva batia, enquanto Ritt procurava na sua agenda o número de Gerard Vitran; ele pensou que naquele escritório de ar ruim e decoração suja pelo menos havia dois homens que exerciam as suas funções, porque desejavam que prevalecesse a justiça e não a injustiça. Ou pelo menos mais justiça e menos injustiça. Ritt se lembrou que Miriam Goldstein lhe havia dito dias antes que num velho livro foram citadas três coisas das quais depende o mundo, a primeira foi a justiça. Mas, pensou Elmar Ritt, de repente muito angustiado e desanimado, é realmente um livro muito velho: o talmude.

 

 

Na grande cozinha dos Vitran a conversa continuou enquanto Marvin falava com Ritt ao telefone.

— Chegamos ao ponto sobre o qual quero falar sem falta: sobre o desperdício enorme de energia — disse Wolf Loder. — A eletricidade não pode ser armazenada, então se precisa constantemente procurar outras possibilidades de consumo. Exatamente isto fez a União por longo tempo, com sucesso. Pensem como a calefação elétrica foi apregoada, pensem na eletricidade noturna barateada para a indústria! Pensem nos modelos de computador dos vagabundos, segundo os quais o crescimento econômico linear, ou seja, sistemático, está ligado com quantidades cada vez maiores de energia. E pensem finalmente nos argumentos pseudopsicológicos: os empresários acharam de convencer os políticos que uma União que floresce deve ser igualada com uma economia que floresce, e esta com um bem-estar comum sempre maior. Pois bem, os vagabundos produziram então capacidades imensas de eletricidade — e todos ficaram satisfeitos.

— E aqueles que não ficaram satisfeitos — disse Vitran — foram pressionados pela União por previsões de computador: se não houvesse energia suficiente com o crescimento da economia, haveria uma catástrofe — e quem queria ser responsável por ela? Então os políticos davam mais bilhões para a extensão de usinas nucleares e de todas as instalações da União. Aqui na França ocorreu o mesmo

— Nesse meio-tempo se constatou como agimos mal — disse Loder. — Já se sabe há muito tempo: todos os modelos de computador estavam errados. As quantidades necessárias de energia ficam atrás do crescimento econômico. O desenvolvimento não ocorre linearmente. Neste ano o gasto de energia na União só vai aumentar muito pouco — mesmo quando o produto interno bruto for duas vezes maior. Depois que, durante décadas, a União se apropriou de bilhões e bilhões com preços altos de energia para o cidadão comum, que — como contribuinte — também tinha de se respon­sabilizar pelos bilhões em investimentos errôneos, então mais vozes ainda se levantam, dizendo que isso é uma safadeza — também do ponto de vista da destruição de nosso meio ambiente.

— E aí — disse Monique — os vagabundos só balançam os ombros, entediados, e dizem: “Pois bem, se vocês não querem, então aceitamos. Errar é humano. OK, erramos com os nossos modelos de computador. Vocês não querem mais tanta energia. Está bem, produziremos menos. Vocês dizem que as instalações de repreparação, como Wackersdorf, são muito caras. Ótimo, interrompemos a construção de Wackersdorf. Mas então não poderemos repreparar material combustível queimado, como determina a lei nuclear. Pois bem, desistamos das usinas nucleares. Vocês não querem? Então nos digam onde devemos deixar o lixo atômico!

— Em La Hague — disse Vitran.

— Certo — disse Loder. — Lá no Canal da Mancha, na Normandia, existe essa gigantesca instalação de repreparação francesa. Agora serão enviados elementos combustíveis alemães para La Hague. Lá eles devem ser repreparados e enviados de volta. Contra isso protestaram os estados governados pelo SPD. Eles consideram fracassada toda a tentativa até então de se livrar do lixo atômico.

— Um momento — disse Gilles. — Se devo escrever a respeito, então que me expliquem como amador. Aqui estão especialistas, com exceção de Isabelle, que é uma especialista em tradução.

Risos.

— A lei nuclear alemã — disse Loder — determina que os bastões combustíveis queimados das usinas nucleares não devem ser nem repreparados nem guardados, mas em todo caso liberados. Guardado significa deixá-lo, depois de um respectivo pré-tratamento, tão profundamente e tão bem enterrado, que nenhuma irradiação possa causar danos. Um depósito desse tipo nós não temos, um depósito desse tipo não existe no mundo inteiro. Só temos um chamado depósito provisório: Gorleben. Então só resta a repreparação em La Hague. O transporte do material até lá é incrivelmente perigoso. Tanto faz, o negócio é se livrar da coisa! A idéia da repreparação é um círculo: do material combustível queimado, se recupera 95% de urânio, dois por cento de plutônio e três por cento de uma mistura. Com o urânio se produz novos bastões combustíveis, deixa-se que eles trabalhem até se quei­marem, são repreparados et cetera. Um círculo, pois. Só que ele não pode nunca funcionar, porque a coisa é muito perigosa e muito cara. Wackersdorf, então, foi desde o começo um projeto louco, no qual, acho, só o construtor da instalação, Siemens-Lurgi, poderia ter interesse — o valor do orçamento foi calculado em possivelmente mais de 12 bilhões de marcos — e naturalmente as pessoas que queriam ter plutônio como armas nucleares.

— O que acontecia até agora com o material combustível queimado? — perguntou Gilles.

— Os técnicos das UENs transformaram quimicamente o urânio em um nitrato de urânio não-radioativo e o guardaram. E há uma pequena instalação de preparação em Karlsruhe. Wackersdorf teria se tornado impagável de tão cara, pois ainda se deveria construir instalações de proteção radioativa. Então teve-se a idéia de efetuar a preparação em La Hague.

— Ao mesmo tempo — disse Vitran — qualquer um sabe exatamente que também La Hague não tem uma prova de liberação, como exige a lei nuclear, porém só representa um absurdo desvio ecológico e econômico, que cria, com o plutônio, problemas adicionais de saúde e segurança.

— Mas o governo — disse Loder — insiste nesse absurdo desvio de liberação do lixo atômico, porque uma liberação real e sólida simplesmente não está disponível. Turismo de resto nuclear como solução última para a miséria da liberação do lixo atômico da economia nuclear alemã! Por ano, até 300 metros cúbicos de restos de reatores atravessam a fronteira para La Hague. Em muitas das 21 carvoarias nucleares entre Brokdorf e Munique os depósitos estão quase cheios, nos quais os elementos queimados devem esfriar. Se não forem levados o mais rápido possível para outro lugar, pelo menos para oito usinas nucleares, está ameaçada a paralisação. Então, para La Hague com a coisa!

— Mas o que lá — disse Vitran — é oferecido como aproveita­mento sem danos, é na verdade outra coisa, ou seja, a produção de lixo atômico muito mais venenoso.

— Por quê? — Gilles e Isabelle perguntaram ao mesmo tempo.

— De acordo com o conceito da repreparação, o urânio deve ser quase totalmente aproveitado dos elementos queimados dos reato­res e ser novamente utilizado — o famoso círculo, não é? — Vitran disse. — Mas em La Hague o urânio reaproveitado aparece de tal forma irradiado, que é praticamente apenas lixo radioativo.

— Mas como isso é possível? — Gilles perguntou.

— Com a repartição e o tratamento químico dos elementos queimados dos reatores, em La Hague tanto material fica contaminado, que o resto radioativo aumenta muito: ao invés de uma solução, um aumento do problema da liberação do lixo atômico.

— E o que acontece com esse lixo irradiado? — Gilles perguntou.

— De acordo com o planejamento do governo federal, ele deve ir para o poço Konrad e para as galerias das salinas em Gorleben. Mas ninguém sabe se o lixo incrivelmente perigoso pode estar realmente seguro aqui por centenas de milhares de anos. Resultado: não há nenhum depósito final para o nosso lixo atômico, e não se pode falar de um aproveitamento sem danos dos elementos combus­tíveis, como exige a lei nuclear. — Loder se encostou na sua poltrona.

— Mais outro episódio desse manicômio — disse Vitran. — Como se o lixo atômico radioativo fosse produto escasso, o seu ministro alemão da Pesquisa, Heinz Riesenhuber, mandou seus especialistas aos Estados Unidos para procurar lixo atômico altamente venenoso. No Estado de Washington, os senhores descobri­ram e fecharam, em nome de seu chefe, um contrato para a compra de várias toneladas desse lixo para a Alemanha Federal, que mesmo assim não sabe mais onde entupir a herança da indústria nuclear.27

— Por quê, meu Deus? — Gilles perguntou.

— Porque Riesenhuber teve uma idéia grandiosa. Com o lixo atômico americano ele quer mandar testar se as salinas alemãs, como em Gorleben, são adequadas enquanto depósito final de lixo atômico. A aquisição, transporte e realização da tentativa são avaliados em mais de 187 milhões de marcos. O veneno radioativo deve ser armazenado na refinaria de sal Asse II, em Wolfenbüttel.

— Naturalmente — disse Loder, com raiva — isso é absurdo. Pois em Asse II a salina tem possivelmente uma estrutura total­mente diferente de Gorleben. Não se pode simplesmente transferir resultados de testes.

— E além disso — disse Vitran — o geomorfólogo Eckhard Grimmel, da Universidade de Hamburgo, declarou que há muito tempo já foi provado que o sal, por causa de sua baixa estabilidade física e química, nunca pode ser levado a sério enquanto depósito. Ainda mais: um armazenamento em sal só pode levar a catástrofes horríveis.

— E onde está o lixo atômico americano? — Gilles perguntou.

— Ainda nos Estados Unidos — disse Loder, irado. — Lá, alguns governadores ouviram falar sobre a coisa e disseram que o transporte através dos estados até o navio seria muito perigoso, e de preferência se deveria deixar essa besteira. Mas a coisa ainda vai chegar; afinal, ela já foi comprada!

— Uma piada — disse Vitran. — Simplesmente uma piada! Mesmo se em Asse II não houver nenhum acidente, isto não prova jamais a segurança do depósito final para milênios em Gorleben. E se algo viesse a acontecer — bom, essa experiência, para o monsieur Riesenhuber, vale a pena, mesmo com o risco e os custos.

— Mais de 187 milhões só para esse teste! — disse Loder, amargo. — Para o mesmo ministro, o fomento de fontes alternativas de energia — como a energia solar — só vale, num só ano, 52 milhões de marcos!

— Oh — disse Vitran —, não seja injusto, Wolf! Dinheiro de impostos são ordeiramente malbaratados para a mera aparência de uma liberação de lixo atômico, que na realidade não existe.

— É verdade — disse Loder. — Anualmente os empresários da energia pagam mais de um bilhão de marcos a La Hague, o dinheiro dos muitos milhões de cidadãos que consomem energia — e pagam

— Mas por que o cidadão comum, que precisa de energia, deve pagar tudo isso? — Vitran perguntou.

— Como você sabe: precisamos sempre ter muita compreensão com os muito ricos e os muito poderosos — disse Loder. — Veja, senhor Gilles, a maioria das firmas da União são “sociedades limitadas”. Se uma sociedade vai à falência, uma “tomada de responsabilidade” da sociedade-mãe, ou seja, da União, é muito difícil. Trabalhos de paralisação e interrupção são então pagos pelo Estado, e assim por todo cidadão.

— Mas isso é uma vilania — disse Gilles.

— Ah — retrucou Loder —, há ainda vilanias muito maiores! Por exemplo: o reator de alta temperatura THTR-300, em Hamm-Uentrop, é desativado. Não voltará jamais à rede. Ótimo, diz a União, então arranquem a coisa! Com o reator que funcionava já há alguns meses, isto não é tão simples! Então deixem as ruínas como estão, dizem os energéticos. Vocês é que não querem mais UENs!

— Mas, de acordo com a lei nuclear, os executores devem contribuir com bilhões para a liberação do lixo atômico do reator! — gritou Gilles.

— Isto mesmo — disse Loder. — E assim fizeram as firmas. Isto precisa fazer toda sociedade executora — também nos Estados Unidos, por exemplo. Mas nos Estados Unidos uma firma assim só pode fazer valer essas contribuições no pagamento dos impostos, se ela realmente investiu os bilhões. Na Alemanha já se pode deduzi-la do imposto, tão logo tenha sido investida. Isto já e, primeiro, a gigantesca dedução de impostos. Segundo: dinheiro para a proteção do meio ambiente e liberação do lixo atômico voltou à União desde o começo com toda conta de luz de milhões de cidadãos comuns. E terceiro: agora os executores de reatores precisam de menos dinheiro para a repreparação e liberação do lixo atômico — em breve La Hague “libera” tudo!

— E o que fazem os grandes? — perguntou Gilles.

— Eles dizem: Cada uma das oito companhias de energia é de agora em diante uma companhia que, entre outras, produz energia, entre outras! Os conselhos de inspeção concordam com que todas as áreas de negócios sejam colocadas no mesmo nível, sob o teto de um holding.

— O que significa “todas as áreas de negócios”? — perguntou Isabelle. — E o que significa holding?

— Primeiramente — disse Loder —, um holding é algo maravilhoso, uma sociedade que tem participação em empreendimentos legalmente independentes, e que na regra tem a palavra como a sociedade-mor da companhia. O significado dessa estruturação das companhias da União, porém, ultrapassa em muito o âmbito técnico-organizatório. Ela documenta para mim que o capital começa a se desviar da eletricidade. Esse pasto está ceifado, a colheita assegurada. Então se poderia perguntar, sob esse ponto de vista, quantos muitos bilhões deveriam ser devolvidos, dos recheados potes de dinheiro, aos consumidores de energia ou aos pagantes de tarifas de energia, dos quais eles se originam. Também se poderia baixar drasticamente os preços da energia, não é? Para os milhões que simplesmente utilizam a tomada e que, por isso, devem pagar altas taxas. Também seria possível, não é? Mas excluindo as simbólicas reduções de tarifas, naturalmente que não se fala nisso. Tão idiota não se pode ser! E não é.

— Quer dizer que as grandes companhias de energia se voltam para outras áreas de negócios? — Gilles disse.

— Isto mesmo! — Loder sorriu muito ironicamente. — A VEBA, por exemplo, na qualidade de holding, entre outros bens também a mãe da PreussenElektra, comprou cerca de 600 firmas. De navio fluvial a petróleo em rama, de gasolina a silício para a produção de chips, nada falta. A energia na VEBA não contribui nem em um quarto no movimento da companhia, de mais de 44 bilhões de marcos, anualmente. A vizinha RWE tem 150 participações e é nesse meio-tempo proprietária da segunda maior rede alemã-federal, depois de Aral, de postos de gasolina, DEA. O maior sucesso, no momento, são instalações de lixo. Estas são oferecidas pelas oito grandes a todos os municípios. Lá estão muitos, muito bilhões de novos lucros, pois os municípios precisam urgentemente de instalações de lixo.

Loder se levantou e se aproximou da grande janela, enquanto falava. Sobre os telhados de muitas casas, olhou para o cemitério Montmartre e pensou rapidamente nos grandes e famosos nomes ali enterrados: Berlioz, Stendhal, Zola, os irmãos Goncourt, Alexandre Dumas e Marie Duplessis, a personagem principal de seu romance A dama das camélias, Jacques Offenbach, Heinrich Heine... O olhar de Loder escorregou das alturas para o Boulevard Clichy, onde está o Moulin Rouge, conhecido na passagem do século através dos desenhos de Toulouse-Lautrec, e finalmente viu sob si os milhões de luzes da Paris noturna.

— Que cidade maravilhosa! — disse ele. — E que mundo mais sujo!

Marvin chegou pela escada em espiral. Estava pálido.

— O que foi, Markus? — Monique perguntou.

— Era o procurador Ritt — disse Marvin, secamente. — Contou muitas coisas. Quer falar comigo o mais rápido possível, em Frankfurt. Preciso estar lá depois de amanhã, cedo.

— Por causa de Bolling? — perguntou Gilles.

— Sim — disse Marvin. — Mas não apenas. Ele também pediu ao Dr. Gonzalos para ir imediatamente a Frankfurt. E o fato de nos pedir, é pura educação. Se não estivermos lá depois de amanhã de manhã, ele manda nos prender.

— O que aconteceu? — Vitran gritou. — Tem a ver com... Karlsruhe?

— Sim — disse Marvin, rouco. Estava ainda mais pálido, e suas mãos tremiam.

— O que significa ter a ver com Karlsruhe? — Gilles perguntou.

Ele não teve resposta. Marvin e Vitran balançaram a cabeça, mudos.

 

 

“E o primeiro anjo vociferou: e era um granizo e fogo misturado com sangue, e caiu na Terra; e a terceira parte das árvores queimou, e toda a grama verde queimou. E o segundo anjo vociferou: e foi como uma grande montanha ardendo em fogo até o mar, e a terça parte do mar era sangue, e a terça parte das criaturas vivas no mar morreu e a terça parte dos navios se estragou... et le tiers des créatures qui étaient dans la mer et qui avaient vie mourut, et le tiers dês navires périt...”

Gerard Vitran estava na cama e lia o Apocalipse. Monique veio do banheiro, tirou o peignoir e se deitou a seu lado.

— O que você lê, chéri?

— Ah, nada — disse Vitran.

— Que livro é esse?

Ele tentou levá-lo ao chão. Ela o pegou.

— Você lia a Bíblia?

— Sim.

— Mas Gerard! E o Apocalipse... Por quê?

— Por nada — disse ele.

Monique pegou os óculos da cabeceira, sentou-se e leu em voz alta: — “Eu vi um anjo voar no céu e dizer com grande voz: ai, ai daqueles que moram na Terra...” — Ela interrompeu. — O que está acontecendo, Gerard? O que você tem? Está preocupado com o que foi discutido hoje à noite?

— Tudo é muito mais grave — disse ele, rouco.

— Mais grave? Como? Diga-me, Gerard!

Ele lhe disse.

 

O complexo na Frankfurter Gerichtstrasse ainda estava sendo reconstruído. Máquinas ribombavam. Havia poeira em tudo. Na manhã de 16 de setembro de 1988, uma sexta-feira, dois homens apareceram na entrada. Eles disseram seus nomes ao porteiro e que estavam sendo esperados pelo promotor Elmar Ritt.

O porteiro interfonou: — Os senhores Markus Marvin e Bruno Gonzales...

— Gonzalos — disse Gonzalos.

— Desculpe, Gonzalos estão aqui... Certamente, eu os levarei até o senhor, procurador. — O porteiro desligou e gritou: — Franz!

De um pequeno quarto saiu o funcionário Franz Kulicke Sim?

— Os senhores para o procurador Ritt. Leve-os até lá, Franz!

— Oh, bom dia, meus senhores! — Kulicke comia. — Já eram esperados. Por favor...

— Achamos o caminho sozinhos — disse Marvin.

— Não mesmo! — Kulicke ainda comia. — Nunca! Os senhores não têm idéia de como isto está desde que começou a reforma! Já estamos meio loucos com o barulho e a sujeira. Os elevadores não funcionam. Por favor... — Ele avançou diante dos dois por um longo corredor, começou imediatamente a falar e forneceu a impressionante prova de quão rapidamente as pessoas mudam as suas opiniões quando o caso lhes toca pessoalmente.

— Senhor Marvin... Meu Deus, quando penso o que fizeram com o senhor!

— O que fizeram comigo?

— Senhor Marvin! Sei de tudo. O senhor estava em Preungesheim, simplesmente porque deu uns tapas no maldito destruidor ecológico, Hansen. Bravo!, eu digo. Num país decente, o senhor teria recebido uma condecoração por isso. Aqui... um pardieiro! Se os caras continuarem assim, em 40 anos o mundo terá tomado no — desculpem! O senhor sabe melhor do que eu, senhor Marvin, o senhor estudou, o senhor sempre disse. Nenhum perdão para os porcos que destroem a camada de ozônio e têm culpa pelo choque climático e pela floresta amazônica e tudo o mais! Sou apenas um homem humilde, senhor Marvin. Com os humildes eles podem fazer tudo. Como devemos nos defender? Merda de governo, o que temos. Por isso Schönhuber é a única solução. Ele acaba com tudo, pode ter certeza. Mas até que ele chegue lá... Eu poderia chorar, chorar horas a fio, quando vejo como esses ávidos cachorros destroem nosso mundo — para sempre. Agora a direita, por favor. E todas as novas doenças! O câncer na pele, porque a luz ultravioleta — não sei o que é isso, é algo mortal entra pelo buraco de ozônio até nós. Eles dizem para não ficar no sol: não tomar sol. Merda! Nunca tomei sol. E mesmo assim eles me pegaram. Vejam essa mancha preta na minha testa! Em cima há mais outra. Cheguei a esse ponto. Câncer na pele. Eu! Que nunca tomo sol. Sinceramente, meus senhores: estou totalmente desesperado. Não quero morrer! Mas quando um me... um ma... um mo...

— Melanoma? — Marvin perguntou, ajudando.

— Sim. Se é melanoma, em dois meses estou morto. Está numa revista: Melanoma, o mais grave câncer de pele que há. Eu merecia isso senhor Marvin? Só porque um safado como esse Hansen tem ainda o seu lucro com todo o veneno e toda infelicidade?... O senhor luta contra a raça, eu o admiro, senhor Marvin. Mas se for um melanoma...

— a mancha aumentou? É úmida? Sangra?

— Isto não. Mas...

— Eu iria ao dermatologista, senhor...

— Kulicke, senhor Marvin. Franz Kulicke. O doutor Bennauer, meu médico, também disse isso. Para o dermatologista, senhor Kulicke, ele disse. Por duas vezes já tive consulta na clínica da universidade. Mas não fui.

— Por que não?

— Porque não tenho coragem, senhor Marvin. Se eles realmente disserem que é câncer? Ora, se depender de mim. Pena de morte para todo destruidor do meio ambiente! Imediatamente! Pena de morte! Quando Schönhuber chegar ao poder... Mas do que isso me adianta, meu Deus, do que me adianta? Sem a clínica da universidade eu sei o que é. Bem preto. Melanoma típico. Ele me pegou, ninguém pode me ajudar. Em dois meses... Agora pela escada, meus senhores... em dois meses no máximo serei um cadáver morto...

 

 

— Em 1870 — disse no mesmo momento o físico Loder, de 44 anos, com olhos azul-brilhantes — foi publicado o romance futuris­ta de Jules Verne, A ilha misteriosa. Depois de um vôo de balão, cinco americanos do norte aterrissam numa solitária ilha do Pacífi­co, na qual eles, um dia, num frio tremendo, falam do problema de energia da humanidade. — Ele estava diante de uma lousa na sala de conferências de sua firma. Diante dele estavam sentados Philip Gilles, Isabelle Delamare, o cameraman Bernd Ekland, seu “técnico” Katja Raal e a Dra. Valerie Roth. Fora decidido rapidamente que ela deveria ocupar o lugar na equipe do desaparecido Peter Bolling.

— Os pesquisadores no romance calculam que as reservas de carvão ainda durariam de 250 a 300 anos — contou Loder.— Como deveria continuar? O engenheiro Cyrus Smith diz: “Então se utilizará água, decomposta através de energia elétrica. Naquele tempo a energia elétrica deve ter aberto possibilidades inimagináveis... Os elementos decompostos da água, do hidrogênio e oxigênio assegurarão, por tempos imprevistos, o abastecimento de energia da Terra. Um dia, os vapores e as locomotivas não terão mais depósitos de carvão, mas tanques de gás, dos quais saem gases comprimidos através de canos até a caldeira! A água é o carvão do futuro!” Jules Verne escreveu isto em 1870, há mais de cem anos!

O empreendimento na periferia de Binzen, próximo à fronteira suíça, era constituído de inúmeros prédios térreos, oficinas e um sem-número de aparelhos solares, instalados num grande gramado.

— Essa visão de Jules Verne hoje se torna realidade — disse Loder. — Com a ajuda da energia solar direta — e também da indireta, como a força da água e do vento e marés — ganharemos energia e a utilizaremos através da eletrólise para a obtenção de hidrogênio.

— Oh, Deus, hidrogênio — disse Isabelle.

— Como, “oh, Deus”?

— Para um amador, essa é uma palavra suspeita — disse ela. — Ele pensará imediatamente na bomba de hidrogênio.

— Pode ficar calma, minha querida — disse Valerie Roth. — A produção solar de hidrogênio não tem nada a ver com a produção da bomba de hidrogênio. — Como sempre, ela dava a impressão de ser educada, mas muito nervosa, o que não admirava — ela havia trabalhado tanto tempo com Bolling. O alto grau de seu nervosismo se reconhecia no fato de que nesta manhã ela usava lentes de contato de cores diferentes. Um olho estava marrom, o outro azul. Todos viram, ninguém falou.

— O hidrogênio — disse Loder — que é produzido com ajuda da energia solar, é energia solar armazenada — para toda a necessidade de energia. Então, não apenas produção de energia, como também material propulsor, como calor doméstico e industrial. O hidrogênio solar nos abre a contínua disposição e a utilização universal da energia solar. Este potencial é suficiente para toda a necessidade de energia, também de uma população mundial crescente. Ela nos deixa em condições de renunciar à energia nuclear, à queima de óleo e carvão. Imaginem! O sol, além disso, é grátis. Ele nos fornece 400 mil vezes mais energia do que um dia poderemos precisar. Também a água é grátis. A liberação de hidrogênio na água através da eletrólise já foi desenvolvida há muito tempo e é facilmente liberada. A técnica é limpa, a matéria-prima existe em excesso, na sua laboração não surgem materiais prejudiciais, as bases científicas estão pesquisadas.

— Eletrólise — disse Valerie — é, explicando bem facilmente ao senhor Gilles, a separação das partes da água. A água tem a fórmula química H2O: H para hidrogênio, O para oxigênio. Num campo de tensão elétrica entre o pólo positivo e o negativo, H2O se decompõe em seus elementos H e O. Isto se chama eletrólise. Dilui-se o hidrogênio através do resfriamento e pressão, o oxigênio liberado some no ar.

— E como se transforma da energia solar a energia do hidrogênio? — perguntou Gilles.

— Há vários modelos — respondeu Loder. — Preciso dizer desde o começo o seguinte: aqui nós somos apenas algumas pessoas entre muitas outras que se ocupam da energia solar. E a energia solar é apenas uma das condições prévias para que este mundo ainda tenha uma chance de sobrevivência. — Ele tossiu. — Sim, precisei dizer isto logo no começo — e agora à sua pergunta, senhor Gilles. Tomemos como exemplo a usina de vento!

— Como funciona? — Ekland perguntou.

— Imaginem: numa região rica em sol, uma grande área de solo vários campos de futebol — é coberta por plástico até a altura de um homem. O ar sob o plástico se aquece e corre numa chaminé de 200 metros de altura. O vento quente que passa pela chaminé faz funcionar uma turbina. A turbina produz energia. A energia é utilizada para a eletrólise. Através da eletrólise se recebe hidrogênio. Uma tal instalação está no planalto de La Mancha, na Espanha.

— Iremos até lá — disse Ekland. Katja olhou para ele. Ele lhe havia dito que as dores estavam mais fracas depois da primeira injeção de cortisona.

— Ou então — disse Loder — imaginem: algumas centenas de espelhos direcionam concentradamente a luz solar para um receptor — chamamos de receiver — no topo de uma alta torre de mais ou menos 80 metros de altura. No receiver se originam cerca de mil graus de calor. Esses mil graus são transferidos para um meio indutor de calor, por exemplo nátrio, e depois utilizado para a produção de vapor de água, que faz funcionar um gerador de energia. A energia do gerador é utilizada para a eletrólise. A eletrólise, por sua vez, traz o hidrogênio. Há uma tal instalação na Califórnia.

— Também precisamos ir lá — disse Ekland, e o coração de Katja bateu forte, de alegria.

— Continuando! — Loder disse. — Um espelho em forma de concha — chamado de espelho parabólico —, que segue automaticamente o caminho do sol, concentra a energia solar no foco. Lá está um motor de ar quente, que faz funcionar um gerador de energia. Instalação-modelo na Arábia Saudita... Em princípio se poderia armazenar hidrogênio fluido como portador ideal de energia, como gasolina em países de muito sol, como a Espanha e a África do Norte, em tanques especiais e fornecer através de pipelines a toda a Europa. Instalações solares num areai de 150 quilômetros por 200, no Saara, seria suficiente para cobrir toda a necessidade de energia da Alemanha Federal — e isto não é ficção científica! Os melhores desses sistemas já transformam hoje, embora não haja nenhuma grande produção, mais de 30% de energia primária em eletricidade. Comparando: Em UENs são no máximo 28%. Mas — disse Loder, sorrindo ironicamente — para tal você não precisa ir à Arábia Saudita. Algo assim há aqui em Binzen. Muito melhor. Construí­mos algo que lhes agradará.

 

 

No mesmo momento, em Frankfurt am Main, o procurador Ritt, no seu escritório, apresentava três homens, um ao outro: — doutor Markus Marvin e doutor Bruno Gonzalos — obrigado por terem sido tão pontuais —, este é o comissário Robert Dornhelm, da polícia criminal I.

— Muito prazer — disse Dornhelm.

— Como está Hansen? — Marvin perguntou.

— Bem — disse Ritt. Eles falavam inglês, por causa de Gonzalos.

— Ele ainda está no hospital?

— Como? Oh, sim, certamente. Ainda. O senhor aprontou uma das boas para ele. Por que pergunta?

— Por comiseração — disse Dornhelm, irônico. — Certamente o senhor doutor Marvin sente muito o que fez. Eles se conheciam há tanto tempo. E por tanto tempo tão ligados à mesma mulher.

— Isto é uma sem-vergonhice! — disse Marvin, irado. Todos eles precisavam falar muito alto por causa do barulho da construção.

— Triste, triste — disse Dornhelm.

— O que é triste?

— Como os seus nervos estão abalados.

— Está tudo bem com os meus nervos, senhor...

— Dornhelm.

— ...senhor Dornhelm.

— Então está mais calmo, senhor Marvin.

— Basta! — Ritt disse, enfático. — Pare, Robert! Você não tem tato. O senhor Marvin perdeu sua filha. Seria desumano se ele não estivesse com os nervos abalados. Meus sinceros pêsames, senhor Marvin.

— Também os meus — disse Dornhelm. — Realmente.

Marvin não disse nada.

— Meus senhores, como sabem, pedi que viessem aqui porque precisamos de sua ajuda e colaboração — disse Ritt, enxugando o suor da testa, pois o sol entrava no pequeno escritório. — Primeiramente, gostaria de lhes mostrar duas fitas gravadas.

— Que fitas? — perguntou Marvin.

— Pelo amor de Deus, não fique nervoso, senhor doutor Marvin! — disse Dornhelm. — Duas fitas. Aqui não dá. Há muito barulho. Há uma pequena sala de projeção aqui perto. Lá é silencioso. Tenham a bondade de me seguir...

Ao sair, Ritt tocou a campainha da sua escrivaninha.

 

 

Na cabine de projeção, ao lado da sala, soava um vibrador. Walter Coldwell, que esperava em camisa de mangas curtas, se curvou sobre uma grande e aberta mala de gravação com uma aparelhagem extremamente complicada e a posicionou para o inicio. O aparelho estava ligado aos alto-falantes, que estavam localizados à esquerda e à direita da tela, na frente da sala sem janelas. Como na cabine, aqui também estava silencioso e frio. Os dois aposentos estavam artificialmente iluminados.

Na frente da tela de projeção, no segundo lado estreito da sala coberta com um tecido negro, havia, abaixo da abertura de projeção um vestuário instalado, com ganchos de alumínio, cabides, um porta-guarda-chuvas e um grande espelho. Se se estava na sala de projeção, o espelho era um espelho. Se se estava na cabine de projeção, o espelho era uma janela. Walter Coldwell, elegante (mas vestido muito jovialmente e muito gordo), agente da National Security Agency, o mais secreto serviço secreto dos Estados Uni­dos, olhava com olhos cansados através desse espelho para a tela vazia, cujo prateado branco dava uma aparência de sujeira.

A NSA foi fundada em 1952. Anualmente, ela recolhia 24 mil toneladas de material secreto, do qual a maior parte era destruída; a menor, guardada. Os ouvidos da NSA estavam no mundo inteiro em imensas estações terrestres, em aviões e navios. Não havia para a organização — como sabiam seus orgulhosos agentes — nenhum caso insolúvel. Com a ajuda da melhor alta tecnologia, eles podiam ouvir toda conversa, mesmo quando era realizada atrás das mais grossas paredes de aço ou codificadas segundo os métodos mais modernos. Quatro homens entraram na sala.

Coldwell os olhou através do espelho e ouviu o que falavam, através de microfones presos ao lado da tela, que estavam ligados a um segundo aparelho. Marvin reclamou do ar sufocante, tirou sua jaqueta e a pendurou num cabide do vestiário. Depois ele foi para diante do espelho e avaliou, nervoso, o seu rosto. Neste momento ele olhou diretamente para os tristes olhos de Coldwell, que não podia ver. O agente estava distante de Marvin uns 40 centímetros. Ele também estava nervoso e se lembrou novamente que trabalhava para uma boa causa, para uma das mais necessárias — impedir crimes ou pelo menos a sua perseguição e castigo. Ele suspirou, enquanto pensava o que sempre pensava em tais momentos: alguém precisa fazer esse trabalho, mesmo que de vez em quando um inocente seja prejudicado. Nessa missão, continuou ele a pensar, trata-se de muita coisa, e este Marvin é culpado, disto estou totalmente seguro, desta vez nada pode dar errado, não, não preciso ter medo. Oh, Deus, pensou Coldwell, gostaria de não precisar ter medo, pois ninguém pode ser absolutamente seguro.

Ele ligou um segundo aparelho que gravava tudo o que era falado ao lado.

Na sala de projeção, Ritt falou: — Por favor, sentem-se, meus senhores! Ouvirão agora a gravação de uma conversa entre dois homens. Peço-lhes para depois nos dizerem se reconhecem a voz de um ou dos dois homens.

— Com prazer — disse Gonzalos.

— Um momento! — disse Marvin. — Devagar! Quem gravou essa conversa?

— No momento isto não vem ao caso — disse Dornhelm.

— Mas como não vem! — disse Marvin. — Se não souber quem gravou essa conversa, não estarei disposto a ouvi-la.

— Trata-se, como lhe disse ao telefone, da elucidação de acontecimentos muito graves — disse Ritt, esforçando-se para falar calmamente. — Pedimos a sua colaboração.

— Mas o senhor não nos trata como colaboradores! — Marvin gritou. — Como colaboradores temos o direito de saber quem gravou essa conversa.

— De forma alguma — disse Dornhelm, mal-educado.

Marvin se levantou e foi ao vestiário.

— O que isso quer dizer?

— Vou pegar minha jaqueta. Depois vou embora e entrarei em contato com a senhora Goldstein, minha advogada. Sem ela não direi nem uma palavra mais. Seu comportamento é de certa forma estranho, senhor procurador.

— O seu! — Ritt disse, irritado. — O seu é que é. Por que saber, de qualquer forma, quem gravou essa conversa? O senhor nem sabe quem participou dela!

— Primeiro me interessa saber quem a gravou — disse Marvin, e olhou para Coldwell, sem vê-lo, através do espelho, novamente direto nos olhos. — Também quero lhe dizer por quê. Já há muito tempo andam por aqui americanos que se informam sobre mim com várias pessoas. Não imagino por quê...

Não, não imagina?, Coldwell pensou.

— Mas temo que alguém esteja tentando me meter numa enras­cada, pouco a pouco. Agora, por exemplo, essa estória com a fita.

Muito sem-vergonha, pensou Coldwell. Por outro lado: se esse homem, ao contrário do esperado, realmente não fez nada... Não!, pensou ele, respirando com dificuldade. Não! Não posso pensar nisso! Esse Marvin tem culpa! Tem culpa. Ele tem culpa, meu Deus?

— Por isso, se o senhor não quer dizer, senhor procurador, digo eu: americanos, um serviço americano qualquer, um de seus serviços secretos gravou essa conversa. É suficiente se o senhor balançar a cabeça afirmativamente. Então verei que tudo pertence ao mesmo complexo. Então também ouvirei a fita.

Então, balance a cabeça!, Coldwell pensou. Esse Marvin é realmente muito ingênuo, ou só representa? Os americanos que se informaram sobre ele não eram, naturalmente, americanos. Eram alemães, naturalmente. Se faziam de americanos. Marvin não pode acreditar seriamente que somos tão imbecis em buscar abertamente informações sobre ele, como americanos. Ou acredita realmente? Os alemães o conhecem melhor? Eles tiveram certeza de que ele cairia numa dessas? Balance a cabeça, finalmente, homem, pensou ele, repentinamente irado.

Ritt afirmou de pronto, como uma transmissão de pensamentos.

— Então — disse Marvin —, por que não disse logo? Um serviço americano ofereceu a fita.

— Trabalhamos juntos nesse caso — disse Ritt, embora soubes­se que a NSA e a CIA o haviam tirado do caso Marvin/Hansen, para que pudessem realizar, sem ser incomodados, a busca na casa de Engelbrecht, da qual ele e Dornhelm não sabiam nem no que ela havia resultado.

— Então, está satisfeito? — perguntou ele a Marvin.

— Naturalmente que não — disse este. — Acho que tudo isto é uma grande impertinência, senhor procurador. Todo este segredo! Por que não podemos ver o americano, que sem dúvida está na cabine de projeção e fará rodar a fita?

— Não seja ridículo! — Dornhelm disse. — Acredita realmente que agentes se apresentam?

— Ah, estou me lixando! — Marvin se sentou. — Deixe rodar a fita!

Degradante!, Coldwell pensou, melancólico, enquanto Ritt punha em marcha o complicado aparelho, por controle remoto. As bobinas começaram a rodar. Soou a voz de um homem, limpa de barulhos secundários através de métodos eletrônicos. Falava inglês com forte sotaque, mas fluente e agitadamente: — ...Contrato germano-brasileiro de 1975! Parem com isso! Sim, sim, queremos as usinas de energia nuclear de vocês! Mas vocês nos impingiram demais.

— Esse é o General Calera — disse Gonzalos.

Ritt desligou o aparelho. — Como? — Ele perguntou.

— Esse é o General Eduardo Calera — disse Gonzalos. — No governo militar de João Figueiredo, de 1979 a 1984, ele era ministro.

— Tem certeza?

— Absoluta. Conheço-o pessoalmente. Reconheci sua voz imediatamente. Quando isso foi gravado? Ou o senhor não pode dizer?

— Posso — disse Ritt. — A conversa foi gravada na casa do senhor Calera, em Brasília, doutor Gonzalos. No dia 9 de setembro, ou seja, há mais ou menos uma semana.

— Como, o senhor naturalmente não pode nos dizer — disse Marvin.

— Não, naturalmente.

Você gostaria de saber, pensou Coldwell atrás do espelho. De repente, o homem pesado cujo pai o havia espancado até quase a morte, quando garoto, se encheu de orgulho, louvado seja o Senhor. Toda a casa de Calera estava sendo escutada por seu pessoal. Todos os ministérios em Brasília eram escutados. Não apenas os ministérios, de modo algum! O microfone na biblioteca de Calera e os dos outros aposentos de sua casa haviam sido ligados por seus rapazes com a linha telefônica. Todos os números de todas as pessoas que nos interessam, pensou Coldwell, os números de todos os ministé­rios, também aqueles dos serviços secundários estão incluídos no nosso computador principal. E no computador que servia para a escuta dessa conversa. Ele se encontra num navio de reconhecimento que cruzara Recife na semana passada. Computadores dessa natureza tocam, sempre através de antenas parabólicas, as linhas telefônicas de todos os ministérios e muitas casas particulares em Brasília. Em qualquer parte tocam outras inúmeras linhas. Cada telefone estava, por assim dizer, armazenado com o seu proprietário. Tais compu­tadores podem pescar imediatamente, entre milhares de linhas, a desejada, e anotar uma conversa. É simples. Custa muitos bilhões de dólares por ano, nosso grande ouvido.

Ritt deixou rodar a fita...

PRIMEIRA VOZ: — Pode-se entender bem o fervor de seu governo. Especialmente quando se pensa que naquele tempo houve no seu pais uma primeira crise da economia nuclear e os empresários já ameaçavam com desemprego em massa, se não se andasse tão rapidamente quanto até agora. Então chegamos a tempo. O “negó­cio do século” vocês chamaram naquele tempo de deal...28

SEGUNDA VOZ (penetrante): — Pare! O senhor acha que eu venho de Bonn até Brasília para ouvir acusações? O senhor aparentemente ainda não compreendeu do que se trata. Digo-lhe uma última vez. Desde esta primavera que trabalha conosco uma comis­são de investigação que deve esclarecer práticas ilegais da indústria nuclear alemã. Isso acontece por pressão dos americanos, que não só supõem, mas afirmam, que nesse campo, na Alemanha Federal, as coisas acontecem como numa aventura. Estou aqui para combi­nar com o senhor uma regra de discurso comum. Então: primeira­mente, os reatores não foram fornecidos ao senhor pelo governo da Alemanha Federal, mas pela Siemens-Kraftwerk-Union.

PRIMEIRA VOZ: — OK. Não pelo governo alemão federal. Pela Siemens.

SEGUNDA VOZ: — O senhor vai instruir todos que tinham a ver com a coisa. Continuando: representantes do seu e do meu governo fecharam o acordo sobre o fornecimento de reatores do tipo Biblis-B.

PRIMEIRA VOZ: — O senhor sabe tão bem quanto eu que os reatores fornecidos também produzem material que pode ser utilizado por nós sem dificuldade para a concentração de urânio e repreparação.

SEGUNDA VOZ: — Infelizmente não se pode impedir isso. O contrato está nas mãos da comissão de investigação. Precisamos tirar o melhor disso. No programa germano-brasileiro, mesmo assim, também foi tratado, no contrato, que as instalações e conhe­cimentos fornecidos da Alemanha Federal devem estar sujeitos ao controle internacional, ou seja, à Organização Internacional de Energia Atômica, em Viena.

PRIMEIRA VOZ: — Com o decreto de 31 de agosto de 1988 — ou seja, há dez dias — o novo governo fundiu o programa civil com o militar.

SEGUNDA VOZ: — O decreto está com a comissão.

PRIMEIRA VOZ: — Então essa comissão também precisa saber que o novo governo civil liquidou, em 1º de setembro, todas as firmas de cooperação germano-brasileiras e demitiu todos os técni­cos alemães de funções de chefia.

SEGUNDA VOZ: — Ótimo. Assim dará certo. Continuando. O senhor queria — cá entre nós — receber urgentemente os procedimentos assegurados militarmente para a concentração de urânio. O senhor queria o procedimento centrifugai, embora soubesse que uma transmissão dessa invenção é, de acordo com o contrato da URENCO, estritamente proibida.

PRIMEIRA VOZ: — E contudo ele naturalmente nos foi fornecido — cá entre nós.

SEGUNDA VOZ: — Mas não por nós. O procedimento centrifugal não lhe foi fornecido por nós, mas pelo traficante de armas Herbert Engelbrecht. Ele lhe trazia sempre o que o senhor queria, e o seu maior mérito...

PRIMEIRA VOZ (rindo): — Foi abençoar o tempo. Claro que foi Engelbrecht. Que Deus o tenha!

SEGUNDA VOZ: — Mas isso precisa permanecer, sobre todas as hipóteses: o senhor recebeu de Engelbrecht o procedimento centrifugai.

PRIMEIRA VOZ (rindo sinceramente): — Naturalmente. De quem poderia ser?

SEGUNDA VOZ: — Haveria também para o governo da Alemanha Federal conseqüências políticas, se fosse dita outra coisa. Já lhe disse que os americanos nos acusam de que venderíamos, junto com as instalações atômicas, também as suas instruções, o que é proibido, para a utilização militar do material fornecido. O senhor pode jurar que aqui não há nenhuma repartição que vá falar besteiras?

PRIMEIRA VOZ: — Posso.

SEGUNDA VOZ: — Como andam as coisas com os adversários da energia nuclear? Com o pessoal do movimento pela paz? Com os ecologistas? O senhor conhece o doutor Bruno Gonzalos?

PRIMEIRA VOZ: — O que há com Gonzalos?

SEGUNDA VOZ: — Estou perguntando ao senhor! Ele trabalhou para o governo brasileiro.

PRIMEIRA VOZ: — No Ministério do Meio Ambiente. Por pouco tempo.

SEGUNDA VOZ: — Gonzalos nos parece, de certa forma, não muito claro. Ele sabe de detalhes do contrato?

PRIMEIRA VOZ: — Não.

SEGUNDA VOZ: — O senhor está bem certo?

PRIMEIRA VOZ: — Eu... eu... considero impossível. Nosso pessoal tratou do fornecimento no mais alto nível de sigilo. Possivelmente, Gonzalos desconfia de algo. Ele pode desconfiar. Pro­vas? Não tem nenhuma. Impossível!

SEGUNDA VOZ: — E se tiver?

PRIMEIRA VOZ: — Desde o começo que o nosso pessoal esteve de olho nele. Aquele não teve acesso a nada.

SEGUNDA VOZ: — E se tiver?

PRIMEIRA VOZ: — Na menor indicação de que ele... na sombra de uma tal indicação, ele será imediatamente eliminado. Já. Mas ele não sabe de nada. Podemos ficar absolutamente calmos.

Ritt desligou novamente o aparelho. O segundo aparelho atrás do espelho, que gravava as conversas na sala de projeção, continuava rodando.

— Então? — Ritt perguntou, e olhou de Marvin para Gonzalos. — E a segunda voz? Reconheceram?

— Bolling — disse Gonzalos, que parecia atordoado. — Era Peter Bolling.

— Senhor Marvin?

— Soou como Peter Bolling — disse este.

— O que significa isso? Dornhelm perguntou, doce. — Era Bolling ou não era?

— Sim — disse Gonzalos. Ele estava pálido e a partir de então muito inquieto.

— Senhor Marvin! — Dornhelm disse. — O doutor Gonzalos tem certeza. O senhor não parece muito certo.

— Não — disse Marvin. — Não posso dizer com certeza. Parece muito com a voz de Bolling. Mas...

— Mas?

Filho da puta!, Coldwell pensou, atrás do espelho.

— Mas... eu... eu não posso jurar. Era sua voz, sim. Mas algo era... era diferente. Não sei dizer o quê.

— Quer ouvir a fita mais uma vez?

— Isso é tudo?

— Não. Continua.

— Eu... eu não posso explicar porque não sei dizer com certeza que seja a voz de Bolling. Eu o faria imediatamente, se estivesse certo.

— Sim, faria? — Dornhelm perguntou, e sorriu.

— Como as coisas estão — que sentido teria mentir? Sei há muito tempo que as leis foram burladas com esse fornecimento.

— O senhor sabe há muito tempo?

— Escute! Fui eu que disse a Bolling. Isso o irritou muito... como a mim... Queríamos juntos... — Marvin parou.

— Vocês queriam juntos o quê? — Ritt perguntou.

— Apresentar a prova definitiva para esse escândalo. Da mesma forma como documentamos agora outros escândalos, a fim de informar o maior número de pessoas. Esse também era um tema previsto para a série de filmes-documentários... Agora Bolling desapareceu. Por quê? Não sei. Nenhum de nós sabe.

— Talvez ele quisesse dirigir o próprio filme — disse Dornhelm, alegre.

— Realmente não há nenhum motivo para alegria — disse Marvin, irado — se se imaginava que ele possivelmente não está mais vivo. Que foi assassinado, porque sabia demais.

— Sem dramas, por favor! — Dornhelm disse.

Marvin o olhou quase que o odiando. — Não é nenhum melodrama, senhor comissário. Pessoas já foram mortas porque sabiam demais, não é? Eu estive por um fio. Um inocente por detrás das grades. E minha... — Ele parou, olhou para o espelho, se dirigiu ao invisível. — ...e minha filha — gritou ele. — Minha filha! Também contei a ela. Em Altamira eu deveria ser tão eliminado quanto ela, estou certo disso. Quase aconteceu, pela segunda vez, quase aconteceu. Sou um morto de férias. Na próxima vez deve dar certo. Eles não podem ter tanto azar assim. Impossível.

 — Senhor Marvin — disse Ritt. — Estamos apenas no começo dessa estória. Respeito sua raiva e sua tristeza. Todos nós. Mais uma vez, antes de continuarmos: era a voz de Bolling?

 — Parecia ser — disse Marvin. — Se era realmente... eu simples­mente não tenho muita certeza.

— O senhor tem certeza, doutor Gonzalos?

— Tenho certeza, senhor Ritt.

— Então a outra pergunta: o senhor sabia que uma bomba atômica brasileira estava sendo construída?

Gonzalos não respondeu. Apesar da pele morena, seu rosto estava pálido como um cadáver.

— O senhor sabia, doutor Gonzalos? — Dornhelm perguntou

Silêncio.

— Doutor Gonzalos!

— Não — disse este.

— Doutor Gonzalos — disse Dornhelm devagar e muito calmamente — eu lhe pergunto mais uma vez: o senhor sabe que o governo brasileiro construiu a bomba?

Seguiu-se um longo silêncio.

— Sim — disse Gonzalos, depois.

— O senhor sabe? — Ritt perguntou.

— Sim.

— O senhor disse antes que não sabia de nada.

— Eu... menti.

— Por que mentiu?

— Por medo.

— Medo?

— Sim, medo! O senhor ouviu o que disse Calera: morro, tão logo eles tenham apenas a impressão de que sei de alguma coisa. E o que acontece com a minha mulher e o meu bebê?

— Ninguém saberá de nada — disse Ritt. — Acalme-se, doutor!

Atrás do espelho, Coldwell mordeu os lábios. Tenho cada palavra gravada, pensou. Preciso passar a fita adiante. Será utilizada como prova contra Bonn. Gonzalos estará protegido? Seria possí­vel. Seria feito? Ele é inocente. Ele é inocente? Quem conhece a verdade sobre Gonzalos e sua mulher?... Será que estou novamente sentindo aquelas coisas, das quais tenho tanto medo?

Gonzalos estava imóvel, de cabeça baixa. Só os seus lábios se mexiam. Marvin olhava para Ritt. Este não respondeu ao olhar. Dornhelm olhava para as suas unhas. Elas pareciam lhe agradar.

E atrás do espelho, Walter Coldwell rezava: Deus, faça com que eu só ajude a lutar contra o mal, a impedir desgraças! Faça, Deus, com que eu não prejudique nenhum inocente! Não novamente. Não sempre. Oh, Deus, no céu, por favor!

Marvin disse: — Posso ouvir a fita até o fim? Não tenho explicação para o que faz Bolling aí, se realmente é Bolling. Estou completamente atordoado e perplexo.

Sim? Você está?, Coldwell pensou. E Gonzalos? Ele diz que primeiramente se calou de medo. Também tenho medo. Quem não tem hoje? Medo é um crime? Quem julga aqui? Só a NSA? Ele baixou a cabeça, infeliz.

A fita continuou:

SEGUNDA VOZ: — O que então o senhor vai explicar oficialmente?

PRIMEIRA VOZ: — Primeiramente utilizamos as ultracentrífugas no nosso programa “Submarinos com propulsão atômica”. Tudo em ordem. O grau de concentração satisfez. Mas um subma­rino não é uma arma atômica. Por isso, construímos nossa própria ultracentrífuga. Ela tem sua posição, seu grau de concentração é conhecido, mais não posso dizer. É importante que essa centrífuga seja 100% brasileira.

SEGUNDA VOZ: — Excelente.

PRIMEIRA VOZ: — Achamos que nossa máquina é algo completamente diferente da centrífuga alemã. Nosso pessoal esteve no exterior, toda uma equipe, estudou etc.

SEGUNDA VOZ: — Bom.

PRIMEIRA VOZ: — Não queremos montar um arsenal de bombas gigantesco. Mas o Brasil precisa ter uma bomba. Não queremos nenhuma corrida, mas um sinal de advertência: se vocês nos provocarem, acendemos a bomba. Suponhamos que haja uma nova guerra mundial. 29% do comércio exterior brasileiro são efetuados por navio. O que acontecerá? O Brasil entra na guerra, e os Estados Unidos aparecem como um poderoso protetor. Mas eles protegerão sobretudo seus próprios interesses. Então precisamos dizer: meus senhores, não queremos entrar nessa guerra, mas protegeremos nossa marinha mercante, escoltaremos nossos navios. Por favor, deixem nossos navios em paz, senão atacaremos! Quero dizer, isso é lógico

SEGUNDA VOZ: — E lógico.

PRIMEIRA VOZ: — Tenho ainda uma pergunta.

SEGUNDA VOZ: — Por favor.

PRIMEIRA VOZ: — Qual a distância de Karlsruhe?

SEGUNDA VOZ: — Não entendo...

Marvin se levantou e olhou para as caixas de alto-falantes no dois lados da tela de projeção.

PRIMEIRA VOZ: — Naturalmente que entende!

SEGUNDA VOZ: — Realmente não estou entendendo...

 

 

— No começo do século XIX — Wolf Loder disse mais ou menos no mesmo momento — havia ainda na Inglaterra trabalho infantil, por exemplo, em minas. As galerias, naquele tempo, eram construídas numa altura na qual as crianças pudessem trabalhar. De vez em quando havia rompimento de água. Tirava-se a água das galerias inundadas com máquinas a vapor. Isso era meio arriscado pois elas explodiam freqüentemente e muitas crianças perdiam suas vidas nas galerias. Tal coisa tocava o coração de um homem devoto, o pastor Stirling. O pastor Stirling não dizia como Karl Marx: “Precisa-se mudar o sistema”, ele dizia: “Precisa-se mudar a máquina”, para que tantas crianças não subam a Deus, o Senhor, mais cedo que o previsto.

— O senhor é um cínico — disse Valerie Roth. — Quem teria imaginado?

— Não sou cínico, senhora Roth.

— Mas talvez um idealista, senhor Loder?

— E se for?

— Muito freqüentemente idealistas e cínicos são gente muito perigosa. O senhor não. O senhor é um idealista agradável. Já era tempo de chegarmos até o senhor. Eu diria que, dramaturgicamente, o senhor e a energia solar vêm como o lado positivo da estória neste ponto de nossa inventariação. Continue contando sobre o bom pastor Stirling, senhor Loder!

— No coração do bom pastor Stirling — disse o físico com os brilhantes olhos azuis — estavam as crianças — ou os proprietários de minas. De qualquer forma, ele quebrou a cabeça sobre um substituto para a máquina a vapor, e em 1816 ele conseguiu graças a Deus. Seu aparelho era simples. Ele consistia de um cano cheio de gás e dois balões. Uma ponta do cano era esquentada, a outra, resfriada. Deste modo conseguia-se pressão e depressão e, com isso, os balões se movimentavam pra lá e pra cá. Esse movimentos eram transferidos para uma cambota. No tempo bom pastor Stirling ligava-se a cambota com uma bomba, a qual aspirava as galerias inundadas. Hoje, por exemplo, pode-se ligar a cambota com um gerador e este...

 — ...produz então energia — disse Gilles.

Loder sorriu para ele. — Assim mesmo! Quando se dirige, de um grande espelho solar, os raios ligados no fim do motor de Stirling, então se esquenta este. E quando se resfria o outro fim, se recebe energia elétrica diretamente, sem qualquer solução ideal, da energia solar. Até sem hidrogênio. Seria a solução ideal. Só que não é.

— Porque o funcionamento tem como precondição de que o sol sempre deve brilhar — disse Valerie.

— Certo. Mas apesar disso estamos felizes pelo bom pastor Stirling ter inventado seu motor. Vou lhe explicar já por quê.

De fora soaram risadas. Na grande área gramada estava um homem mais velho, de cabelos brancos, no meio de um grupo de homens.

— O meu pai — disse Loder. — Ele está justamente demonstran­do nossa invenção. Hoje temos visitas russas e japonesas. Quase que diariamente vêm políticos e cientistas do mundo inteiro — convencidos de que, de acordo com o nível atual do conhecimento, só a tecnologia solar/hidrogênio garante as condições para uma fonte de energia quase que ilimitada e não-prejudicial ao meio ambiente.

Valerie Roth disse: — Escute, senhor Loder, sei alguma coisa sobre energia solar. De qualquer forma, trabalhei anos a fio com o meu tio, o professor Ganz, na Sociedade de Física de Lübeck. Agora, que devo substituir Bolling, me ocupo mais intensivamente da energia solar. E com ela uma coisa ficou mais clara: seja qual for a maneira que o senhor libere hidrogênio através da energia solar e transforme em energia, o senhor sempre precisará de mais hidrogênio.

Loder a olhou, sorrindo.

 — Sei que estou engraçada — disse ela, levemente agressiva.

— Como? — Loder ficou atordoado.

 — Com o olho marrom e o outro azul — disse Valerie. — Vocês todos notaram. Ninguém fala a respeito. Muito tato. Coisas assim acontecem com uma mulher como eu! Quando ouvi que o senhor me esperava ainda hoje, arrumei minhas coisas com toda pressa e parti. Vagon-lit até a Basiléia. Depois que me levantei, vi a desgraça das lentes de contato no espelho. No nervosismo, peguei em casa duas cores diferentes. — Ela riu. — Na Basiléia, fui até um oculista, antes de pegar um táxi até Binzen. Até a noite vão preparar lentes de contato da mesma cor. Azuis. Só digo isso para que nenhum de vocês pense que fiquei louca. — Ela riu novamente, alto.

Bem baixinho, Isabelle disse a Gilles: — Que tipo de gente é essa que possui lentes de contato com cores diferentes e muda, de acordo com o gosto, a cor de seus olhos?

— Isto eu já me perguntei — cochichou ele. — Que tipo de mulher é essa?

 

 

A mãe dessa mulher era muito bonita e muito infeliz no Terceiro Reich, pois ela detestava os nazistas da mesma forma que os seus pais. Os pais moravam em Munique. Margot, assim se chamava a mãe de Valerie, nascida depois do fim da guerra, trabalhava como física no Instituto Kaiser Wilhelm, em Berlim. Ela tinha alguns amantes, mas não amava nenhum deles, pois entre eles não havia nenhum que odiasse os nazistas como ela, nenhum com o qual ela pudesse falar abertamente sobre a sua tristeza e o seu ódio.

Num grupo ela então encontrou um homem, com farda de atirador do exército alemão, que parecia miserável, magro e desesperado, tinha uma liga em volta da cabeça e uma outra na mão direita. Era um grupo animado, com muitos condecorados, chefes de exército e jovens mulheres. A anfitriã, que ela suspeitava ser de direita, organizava sempre tais eventos. Oficiais e bajuladores traziam sempre muitos petiscos, champanha e conhaque francês, ainda em 1944.

Margot havia levado uma amiga, ela não pôde observar como esta entrou no seu laboratório. A festa foi, para Margot, uma catástrofe, naturalmente — só aquela qualidade de homens dos quais ela se enojava... Até que prestou atenção no pobre atirador, em sua farda suja, que também havia levado um amigo. Eles conversaram em voz baixa e cuidadosamente. Ele se chamava Franz Roth. Sua mãe havia sido enforcada dois anos antes no lago Ploetzen, ele vinha justamente da Prinz-Albrecht-Strasse. Lá, na central da Gestapo, ele sobreviveu a três semanas de prisão, com contínuos interrogatórios e torturas.

Franz Roth disse: — Podemos ir até sua casa?

— Sim — disse Margot.

Nessa noite os bombardeiros britânicos não vieram, e assim os dois ouviram, no apartamento de Margot, o noticiário da BBC em alemão, e quando uma voz de homem anunciou: “Aqui fala Lon­dres! Aqui fala Londres! Aqui fala Londres!”, então Margot ficou — com o homem espancado a seu lado — tão feliz como nunca. Naquele minuto começou o seu maior amor. Há tantas maneiras de amor.

Os dois não se separaram mais, nem por um dia. Um alto oficial do comando berlinense, amigo da família Roth em tempos mais felizes, conseguiu com que Franz pudesse ficar em Berlim. Margot se encarregou de que ele recuperasse as forças. Três meses depois de se haverem conhecido, dormiram juntos. O amor aumentou ainda mais. Mas ele havia começado naquela noite, quando, juntos, ouviram Londres.

Franz contou a Margot que era diretor e havia encenado em Paris antes de 1939. Depois da guerra ele poderia voltar a trabalhar. Margot se alegrava por isto. O amor ajudou a apaziguar a dor, quando o pai foi morto por bombas, em Munique, no fim de 1944. Em 1945 ela escondeu Franz meses a fio em vários lugares, pois a Gestapo o procurava. Na noite de 8 para 9 de maio de 1945 eles estavam novamente no apartamento de Margot diante do rádio e ouviram um locutor dizer as seguintes palavras: “O império alemão capitulou sem impor condições. A guerra terminou.” Depois eles ouviram nesse programa da BBC a Nona Sinfonia, de Ludwig von Beethoven. E eles se deram as mãos e choraram de alegria.

No verão de 1945 Margot e Franz Roth se casaram na destruída Berlim. No começo de setembro ela lhe comunicou que estava grávida. No tempo da fome, das ruínas e das epidemias era muito perigoso ter um filho, e Margot perguntou a seu marido se ela deveria correr esse risco. Para sua alegria, ele disse, respondendo: — Você precisa ter esse filho! Nosso filho, pense nisso, Margot! Agora que a guerra acabou. Se você abortar, não olho mais na sua cara. — Então a criança morreu ao nascer. Margot teve uma grave infecção. À beira da morte, com 41° de febre, ela combinava com um peleiro o preço de seu único casaco de pele. Ela precisava de dinheiro para que os médicos pudessem comprar penicilina no mercado negro. O peleiro, afinal, pagou uma fração do valor que possuía o casaco de peles. Com a quantia, os médicos compraram penicilina no mercado negro, e a penicilina salvou a vida de Margot. Mesmo assim, durou meses para que ela ficasse totalmente boa e anos para que pudesse arriscar uma nova gravidez. Em 1949 nasceu Valerie. Como Margot estava feliz! Um novo tempo havia começado, ela tinha um marido que amava, uma filha que amava, e então Franz pôde trabalhar novamente como diretor, ah, vida bonita, mundo bonito!

Franz não começou a trabalhar como diretor, embora ele tivesse recebido muitas ofertas. Franz tinha muita cultura, era inteligente charmoso, falava seis línguas — mas era, como se mostrava, absolutamente incapaz de viver. Ele simplesmente não podia tra­balhar. Tudo o que ele fazia, dava errado. Tudo o que tentava, fracassava.

Quando Valerie tinha quase um ano, Franz Roth abandonou a mulher e a filha e viajou para Roma. Lá trabalhava um famoso diretor, com o qual ele tinha ido à escola. Em Roma, Franz conheceu uma jovem atriz. Quando esta foi chamada para Hollywood, ele a acompanhou. Margot nunca mais o viu, algumas vezes ela ouviu falar dele e da jovem atriz, depois ninguém pôde lhe dizer por que e para onde os dois de repente desapareceram.

Margot Roth deu tudo o que tinha na vida para a pequena Valerie. Sempre quando alguém falava mal de Franz, ela o defendia fervo­rosamente. Ele era uma pessoa boa, mas infelizmente fraca e incapaz para a vida. Que culpa tinha ele?

Margot trabalhou novamente como física. Ela cuidou para que Valerie tivesse uma juventude muito feliz. Ela se preocupou com a melhor educação, com as melhores escolas. E Valerie correspondia às expectativas. Ela era a melhor colegial, mais tarde a melhor estudante de sua turma na universidade, onde ela, como a mãe, estudou Física.

Aos 22 anos Valerie se mudou para um pequeno apartamento, mas visitava a mãe regularmente. Valerie se apaixonou por um estudante de matemática e estava feliz. O estudante engravidou Valerie e desapareceu imediatamente depois. O pai de Valerie, mesmo assim, só desapareceu depois de seu nascimento. É óbvio que Valerie não teve o filho.

Durante muito tempo ela ficou muito infeliz. Então se apaixonou de novo. Por um advogado. Este era casado e jurou que se separaria. O que nunca fez. Ele tinha dois filhos que precisavam dele, dizia. Valerie compreendeu. Só dois anos depois ela conheceu um outro homem. Um médico. Desta vez, a relação esteve bem durante três anos Então ela descobriu que o médico trabalhava para o serviço secreto tcheco e que se utilizou dela durante o período de seu amor em missões perigosas, da qual ela não tinha a menor idéia. Nada acontecia a ela por mera sorte. Quando ela o colocou na parede, ele ameaçou com denúncia à burocracia alemã, caso ela o abandonasse. Ela se recusou a ajudá-lo uma vez mais que fosse. Ele a denunciou. Os alemães reagiram racionalmente. Eles protegeram Valerie. O médico havia desaparecido há muito tempo, quando eles chegaram para pegá-lo.

Assim, havia até então três homens que ela havia amado realmente. Todos os três a enganaram e a abandonaram. O quarto, que ela, depois de muito tempo de solidão e da morte de sua mãe em Berlim, começara a amar, era oculista. Ele disse por tanto tempo que os seus óculos de lentes grossas não favoreciam a sua aparência — ela era muito míope —, que ela, cheia de complexos e medo de perder esse homem, começou a usar lentes de contato, as quais ele havia aconselhado. Naquele tempo elas não estavam perfeitamente desenvolvidas; colocá-las e tirá-las significava sempre novas dores. Os olhos de Valerie se infectaram através do contato contínuo e também através de partículas de sujeira, e por último ela pegou uma conjuntivite. Esta foi tão grave, que ela precisou ir para uma clínica e ser operada. Ao deixar a clínica depois de dois meses, o oculista se havia mudado de Berlim para Frankfurt e casado com uma jovem mulher, com a qual ele — ao lado de Valerie — mantinha uma relação de anos.

Isso aconteceu naquele tempo, em que Valerie justamente começara a trabalhar para o seu tio, o professor Gerhard Ganz, na Sociedade de Física de Lübeck. Ela agora sabia que o amor era a coisa mais cruel e mais terrível que podia acontecer a alguém, e ela decidiu nunca mais amar, nunca mais. Ela continuou a usar lentes de contato, e com elas tinha tão pouca sorte como havia tido com os homens, mas mesmo assim ela continuou a usá-las.

Wolf Loder, olhos azuis, disse: — Tem razão, senhora Roth até agora se precisou, para produzir energia elétrica da energia solar. sempre novo hidrogênio. Eu e meu pai desenvolvemos um modelo no qual só se precisa uma única vez de hidrogênio, que pode ser sempre utilizado novamente.

Ele estava diante da lousa. Lá fora, sobre o grande gramado com os aparelhos solares, russos e japoneses riam novamente alto sobre algo que seu pai havia dito.

— Apenas uma vez? — Valerie Roth disse. — Impossível.

Loder riu.

— Sim, sim, é possível, senhora Roth! — Ele disse a Ekland: — Naturalmente o senhor filmará a instalação original, que está lá fora. No momento há lá muita confusão. Primeiro desenho a coisa na lousa, OK?

— OK — disse Valerie.

— Antes de começar a desenhar — disse Loder — quero desmistificar tudo isso. Em princípio, tudo é muitíssimo simples. Peguemos uma geladeira. Há um elemento dentro dela que pode se evaporar. Antes era amoníaco. Precisamos de energia elétrica para transformar o elemento em gás — ele não pode se evadir, precisa­mos dele ainda. Por isso, o sistema é absolutamente fechado. O que acontece quando o elemento se transforma em gás?

— Fica frio — disse Gilles.

— Certo — disse Loder. — Fica frio. Mas para que a geladeira continue a poder trabalhar, precisamos sempre voltar a liqüefazer o elemento gasoso — nos velhos sistemas de amoníaco havia, para tal, canos atrás da geladeira — e tudo pode começar do começo. Chama-se isso de circulação. Eu e meu pai pensamos desde o começo numa tal circulação para hidrogênio. Pensamos imediata­mente em ligações químicas, chamadas hidridos. Simplificando, água é um hidrido. H2O. Entre os hidridos metálicos é conhecido há muito tempo o hidrido magnésio como hidrido de alta temperatura com a mais alta densidade em energia.

Ele escreveu na lousa: MgH2.

— Então o professor Bogdanovic, do Instituto Max Planck para pesquisas com o carvão, em Muelheim-an-der-Ruhr, desenvolveu um tipo especial de hidrido de magnésio: catalítico.

— O que significa isto, catalítico? — Gilles perguntou.

 — Hidrido de magnésio normal só libera, com calor, hidrogênio muito lentamente, lentamente demais para os nossos fins. O hidrido de magnésio catalítico libera hidrogênio muito rapidamente. Ótimo para os nossos fins. E então tentamos pensar numa circulação — como numa geladeira ou num motor de Stirling. Uma circulação para uma única utilização de hidrogênio.

Ele começou a desenhar.

 — Isto — disse ele, começando pela esquerda — é um de nossos espelhos especiais, com os quais captamos luz solar. Pegamos o calor solar do espelho e o dirigimos nesse recipiente de pressão. — Ele desenhou uma câmara em forma de bloco. — Aqui dentro, então, fica muito quente, não é? — Ele rascunhou uma segunda e maior câmara, ligada à primeira. — Nosso aparelho tem um outro recipiente de pressão. Este enchemos com hidrido de magnésio e pó. — Ele desenhou muitos aneizinhos e pontinhos na segunda câmara. — Assim... Tudo esboçado primitivamente... Quando o calor do sol, no recipiente de entrada, esquentá-lo muito, então a parede para o segundo recipiente naturalmente também esquenta, não é? E também no segundo recipiente ficará quente. Tão quente, que, por exemplo, podemos utilizar o calor para cozinhar ou, mais importan­te, para o funcionamento de...

— ...um motor de Stirling — disse Isabelle.

— Certo. — Loder desenhou com alguns riscos uma tal máquina, a qual ele ligou à segunda câmara. — O motor Stirling produz energia elétrica. Com isso podemos fazer muitas coisas. No recipiente cheio com hidrido de magnésio acontece ainda uma outra coisa.

 — O hidrogênio é expulso do pó — disse Valerie.

 — Sim — disse Loder —, o hidrogênio é expulso. Rapidamente. Em mais ou menos 500° centígrados... Para onde com o hidrogênio gasoso? — Ele riu, feliz como uma criança. — Agora vem! No recipiente com o hidrido de magnésio instalamos um cano... — Ele desenhou. — o cano tem uma válvula, aberta, fechada. — Ele desenhou uma válvula. — Agora está aberta. O hidrogênio gasoso pode-se evadir através do cano... — ele rabiscou — ...para um outro recipiente... — ele desenhou uma outra câmara — ...e esse recipiente é cheio de limalhas de um outro metal, ferro-titânio... — Ele fez muitos pontos com giz. — Deixamos a válvula por tanto tempo aberta, até que todo hidrogênio seja expulso do hidrido de magnésio e vá para o outro recipiente. Então o fechamos. O que acontece agora?

— Agora — disse Valerie — o hidrogênio gasoso provavelmente irá se ligar às outras limalhas ferro-titânio, para formar uma substância química.

— Exatamente. O hidrogênio expulso e o ferro-titânio fazem uma nova ligação: surgem hidrido de ferro-titânio, e ao mesmo tempo calor, mais ou menos para esquentar a água. E automatica­mente o hidrogênio está seguro e compactamente armazenado. A válvula está fechada agora. Podemos continuar a produzir energia com o calor no recipiente de pressão, água quente, fazer máquinas funcionarem, ouvir rádio, tudo, simplesmente. De acordo com o tamanho do aparelho e com o número de unidades que utilizamos podemos naturalmente utilizar o sistema também em fábricas para o funcionamento de máquinas pesadas e grandes... Bem, agora anoitece. — Ele primeiro havia desenhado um sol, então ele o apagou e desenhou uma lua minguante. — Agora podemos abrir a válvula. O hidrogênio corre de volta para o magnésio, se liga novamente a este num hidrido de magnésio, surgem altas temperaturas, a máquina de Stirling ronrona, pode-se cozinhar... E ao mesmo tempo o ferro-titânio esfria automaticamente — pa­ra a expulsão do hidrogênio, o ar natural subtrai calor. O que podemos fazer com o frio que surgiu? Bom, podemos de fato fazer funcionar uma geladeira. — Ele ligou à câmara direita uma geladei­ra rascunhada. — Com outras palavras: podemos fazer tudo o que quisermos.

— De fato — disse Valerie.

— Agora vem o dia seguinte — continuou Loder. — Durante toda a noite o hidrogênio do ferro-titânio fluiu para o magnésio, produzindo frio, energia e calor. Agora o jogo começa do início. O sol esquenta novamente o hidrido de magnésio, traz o hidrogênio de volta ao ferro-titânio, novamente o motor de Stirling funciona, novamente há calor, e é produzida água quente. O hidrogênio — sempre o hidrogênio, doutora Roth — vai do magnésio ao ferro-titânio. Na noite seguinte, de volta. No outro dia novamente na outra direção... E temos aquilo que queremos — ou seja, uma circulação, sempre com o mesmo hidrogênio.

— Parabéns! — disse a mulher com o olho marrom e o azul.

 — E tudo funciona praticamente sem qualquer perda de energia — disse Loder. — É absolutamente imaginável transportar nossos aparelhos em grande número, de trem, do sul para o norte, onde há menos ou nenhum sol, e depois de volta ao sul, onde há muito sol, para carregar novamente os sistemas.

Da grama soaram risadas e gritos.

 — Vejam — disse Loder. — Meu pai colocou uma garrafa de champanhe na geladeira ao lado do recipiente com as limalhas de ferro-titânio. E taças. Taças e champanhe agora estão geladíssimos. Lá! Eles estão, agora mesmo, bebendo!

 — Tudo isto — disse Valerie Roth, baixando a cabeça — é muito bonito. Mas só agora em desenvolvimento, senhor Loder. Todos esses sistemas solares ainda estão em desenvolvimento...

— Não é verdade! — ele gritou, passional — Muitos já funcionam, sobretudo nos Estados Unidos.

— Mas ainda são muito caros... ainda não se impuseram. O senhor mesmo diz que volta e meia se vê impedido do seu trabalho. Não se trata de pusilanimidade, acredite; é o realismo que me permite perguntar: o senhor não chegou com a sua invenção já muito tarde? No ano 2040...

Loder a interrompeu com uma paixão que levou todos a prestarem atenção: — No ano 2040 este mundo será mais bonito do que nunca!

— O senhor realmente acredita... — Valerie se calou, pois Loder continuou a falar alto.

— Mais bonito, sim! Não estamos no fim. Estamos no começo. A senhora certamente não sabe, senhora Roth, mas deve saber: no mundo inteiro, em todos os continentes, cientistas e toda uma geração de políticos íntegros há muito conseguiram formar uma rede de salvamento global. Essas pessoas estão dispostas, a todo momento, a assumir a posição de todos aqueles que, no seu desespero e decadência, amanhã não têm mais idéia e devem reconhecer a sua bancarrota. Essas pessoas, no mundo inteiro, se esforçam na medida do possível. Ainda assim, elas não conseguem tudo sem maiores problemas. Mas conseguirão — Os olhos de Loder brilhavam, seu rosto havia enrubescido.

 — Logo no início eu disse que o senhor é um idealista — disse Valerie Roth.

— Mas não um fanático — disse ele. — Só um exemplo: há pouco teve lugar nos Estados Unidos uma conferência sobre energia. Sim, mas quatro dias antes houve uma anticonferência que se denominou “energia verde”! Não tem nada a ver com os nossos grupos verdes, que infelizmente estão tão divididos. Profissionais de primeira do mundo inteiro se encontraram lá e continuaram a costurar a rede. Sabe que resoluções tomaram esses profissionais entre outras coisas? Eles querem entrar em ação enquanto partido — ao lado dos republicanos e dos democratas. Como partido de ação sistemática.

— E teriam as maiores chances — disse Valerie — com essa política mal-humorada de lá. Estive nos Estados Unidos antes de Reagan ser eleito. Vi centenas, milhares de adesivos e bottoms, onde havia: Don’t vote — you only encourage them! — “Não votem, você apenas os encoraja!” Totalmente claro sobre quem estava sendo referido como “eles”. E apenas 41% foram votar.

Loder olhou para Gilles.

— Deve ser excitante para o senhor mostrar em seu livro como o mundo está quase sendo levado ao abismo — e como de repente, em todos os lugares, há outras, novas, boas pessoas que o farão mais bonito, melhor, mais justo, como nunca fora antes!

— Sim — disse Gilles. — Muito excitante.

De fora, novamente soaram risadas. Alemães, japoneses e russos brindaram de novo com as taças cheias de champanhe, resfriado na máquina solar de hidrido de magnésio.

 

 

Frankfurt.

Uma outra fita rodava. Soou a...

VOZ DE MARVIN: — Erich, aqui é Markus. E então?

SEGUNDA VOZ: — Escute...

VOZ DE MARVIN: — Tinha dito que telefonaria hoje. Estou no correio, você está no correio. Ninguém pode ouvir. Então!

SEGUNDA VOZ: — Olha, eles desistiram do 24029. Não é suficiente. Mas com 241 eles chegaram mais perto. Longe demais.

VOZ DE MARVIN: — Como, longe demais?

SEGUNDA VOZ: — Que podem substituí-lo. E a massa crítica está realmente abaixo daquela de plutônio.

VOZ DE MARVIN: — Cara, então sim!

SEGUNDA VOZ: Então sim.

VOZ DE MARVIN: Agora os temos. Até logo!

SEGUNDA VOZ: — Até logo!

Seguiu-se o ruído de um telefone sendo desligado. Depois só o ruído de uma ligação em aberto. Ritt desligou o gravador com o controle remoto. Ao lado, Coldwell voltou para diante do espelho camuflado. Agora vamos ouvir o que o rapaz tem a dizer! O seu gravador funcionava.

Gonzalos olhou para Marvin, pálido, de boca aberta. Ninguém falou.

— Então! — disse finalmente o comissário Dornhelm. — Era a sua voz, senhor Marvin — ou não?

— Era a minha voz — disse Marvin. Ele dava uma impressão de estar sereno, quase indiferente. Nervos, pensou Coldwell, que o observava. O cara talvez tenha nervos!

— E a outra voz? — perguntou Ritt, que tinha na mão uma folha de papel datilografada.

— O senhor sabe! — Marvin disse. — Os americanos também sabem. O que quer de mim?

— Queremos que o senhor diga o nome do homem para quem o senhor telefonou.

Marvin alçou os ombros. — Doutor Erich Hornung. Físico no Centro de Pesquisa Nuclear de Karlsruhe. Velho amigo do tempo em que eu trabalhava na inspeção do Ministério do Meio Ambiente e vivia os meus anos idealistas. Idealistas com relação à energia nuclear. Satisfeito?

— Opa — disse Dornhelm. — Nenhum motivo para impertinência!

— Quem é impertinente?

— Senhor Marvin, o senhor teve essa conversa no dia 27 de gosto, às 16:35h, hora na Europa Central. Da agência do correio 135 no Rio de Janeiro — disse Ritt. — Estou certo? — Não olhei para o relógio.

O sem-vergonha!, Coldwell pensou atrás do espelho. A enorme sem-vergonhice desse cara. Ah, o quê, desse cara — todo o governo tem uma grande sem-vergonhice. Ofendido. Não dizem nada que seja a verdade. A grande palavra de honra alemã!

Ritt olhou para o papel em sua mão. — O físico Erich Hornung falou da agência de correio 43 de Karlsruhe. O senhor lhe telefonava sempre para lá?

— Sempre! — Marvin disse. — Algumas vezes. Mas estando lá sim. Porque eu, idiota, não pensava que poderíamos ser ouvidos, se Erich fosse sempre a uma mesma agência de correio.

— Pois é — disse Dornherm. — Já que os americanos sabiam que Hornung ia à mesma agência 43, todas as conversas, também as internacionais, foram ouvidas. Naturalmente o computador não gravou todas, mas somente aquelas memorizadas com as palavras nuclear, os seus dois nomes e o Centro de Pesquisa Nuclear.

— Sim — disse Marvin, amargo —, os americanos têm bastantes estações de escuta na Alemanha Federal. — Ele riu, zangado. — No meu tempo de Ministério do Meio Ambiente, defendi a energia nuclear. Ainda não fazia idéia. Se alguém tivesse me contado, naquele tempo, o que acontece em Karlsruhe ou em qualquer outro lugar, teria lhe dado uma bofetada. Só nos Estados Unidos, no depósito nuclear de Hanford, é que abri os olhos. E mais tarde ainda mais, muito mais. — Ele franziu a testa. — Tudo o que digo está sendo gravado, espero, não é?

— Pode ficar certo que sim — disse Dornhelm. — Por quê?

— Porque preciso esclarecer logo uma coisa: Bolling, Hornung e eu estamos há muito tempo convencidos de que uma bomba alemã pode ser construída. Temos a convicção — mas ainda não as provas definitivas. Ainda não.

Isto ainda é sem-vergonhice?, Coldwell pensou atrás do espelho, novamente aflito. Ou no que estou me metendo? Vai informar tudo, claro. Mas sei tão pouco sobre esse Marvin. Eles só dizem o estritamente necessário e depois mandam à luta. Então não se ouve mais nada. Tudo vai through channels, pelas vias burocráticas. Quero fazer o que é certo, meu Deus, não quero prejudi­car ninguém. Maldição, pensou ele, só aborrecimentos com a Alemanha.

— Acho que será necessário que eu comece um pouco historicamente — disse Marvin. — Assim chegarei melhor a Karlsruhe, Hornung e o transurânio 241.

— Fique à vontade! — disse Dornhelm.

Marvin se levantou, foi até o espelho e falou diante dele. — Pois bem, historicamente — disse ele. — Já com Kissinger o governo alemão fez tudo o que podia para diluir o contrato de proibição de armas nucleares. Quando ele, no fim de 1969, afinal foi assinado, os políticos alemães já o tinham mais que diluído. Franz Josef Strauss amaldiçoou o contrato, pois ele desfavorecia a indústria alemã. Talvez saibam o que o seu amigo Henry Kissinger lhe disse. Não? — You are nuclear obsessed. — Você está nuclearmente obcecado — disse Kissinger. O próprio Strauss contou. Como era o contrato que foi assinado? — gritou Marvin de repente, para dentro do espelho.

— Acalme-se! — Ritt disse. — O senhor precisa se acalmar!

— Me acalmar? Me irrito, até que ninguém me contradiga.

Três homens diante do espelho e um homem atrás do espelho o observavam mudos.

Marvin atacou Dornhelm: — O que é? Por que me olha assim?

— Estou pensando.

— Em quê?

— No perigo — disse Dornhelm lentamente — de o senhor começar a vociferar novamente, senhor Marvin: realmente e sinceramente procura uma prova concreta de que existe uma bomba atômica alemã?

— Ela...

— Um momento! Ainda não terminei. O senhor diz estar convencido há muito tempo da possibilidade de construção da bomba, mas o senhor não teria ainda provas definitivas.

— Ainda não, senhor Dornhelm. Ainda não!

— Ainda não. Isto é a verdade ou o senhor tenciona dizer, com essa repetida declaração, que o senhor — ainda — não tem provas, uma outra coisa?

— E o que seria?

— Que simplesmente o senhor não tem nenhuma prova porque não pode existir uma bomba alemã? Com outras palavras: o senhor tem talvez, caso a bomba exista realmente, o encargo de Bonn de ajudar a esconder a coisa? — Isto — disse Marvin — é de tal forma infame e ao mesmo tempo tão imbecil, que não responderei.

— No que está totalmente certo — disse Dornhelm.

— O quê?

— O senhor está totalmente certo em não responder minha pergunta.

— Por que então perguntou? — Marvin estava irritado.

— Para lhe provar que é preciso um detalhe ridículo para lhe fazer de trapo, senhor Marvin. Para lhe mostrar como é fraca a sua posição, como os seus motivos podem parecer dúbios num instante Não lhe atribuo o que acabo de dizer. Mas poderia muito bem lhe atribuir. Num pântano — o senhor se move num pântano. Isto eu queria lhe mostrar.

— Obrigado pelo esforço — disse Marvin. — Falando sério Embora eu esteja muitíssimo consciente de minha situação. Mas o senhor teve o trabalho de me confirmar a própria impressão. Foi muito gentil, senhor comissário. Se me permite, continuarei então com a descrição histórica dos fatos.

Três homens diante do espelho e um homem atrás do espelho pensavam a mesma coisa: Marvin está representando? Pode alguém representar assim? O de detrás do espelho pensou: Ah, sim, ele pode. Não há nada que o homem não possa, eu sei. Cavalos, pensou ele, atordoado. Homens apostam em cavalos. Cavalos nunca apos­tam em homens. São muito inteligentes para tal coisa.

— O que foi assinado — disse Marvin, sorrindo para Dornhelm — foi um contrato que se ocupa do que é proibido e não daquilo que é permitido. Com outras palavras: tudo o que o contrato de proibição de armas nucleares não proíbe expressamente, é permitido. Proibi­do, para poderes não-atômicos, quer dizer produzir armas e mísseis nucleares, querer dispor delas com violência e procurar apoio para a sua produção. Não incluídas na proibição estão, então, a posse e a transferência de sistemas portadores de energia nuclear. Não proibido, ou seja, é permitido preparar a construção de armas nucleares. Também a pesquisa sobre armas nucleares não está proibida no contrato e, com isso, é permitida.

Muito astuto, pensou Coldwell atrás do espelho. Inverte todos os papéis. Não o assassino, mas o assassinado é que é culpado. É assim mesmo. Ou não é assim? Deus do céu, novamente o meu Ou! Meu maldito Ou. Ele um dia me mata, esse Ou.

— Durante anos os políticos alemães lutaram para que na RFA não houvesse controles dos inspetores da agência de energia nuclear em Viena. Depois conseguiram um controle de inspetores da Euratom. Vocês sabem como ele acontecia. Os homens precisaram de nove anos para constatar o roubo de 200 toneladas de urânio concentrado — 200 toneladas! Nove anos! Aí a coisa já estava há muito preparada em Israel. Até 1975 produtores alemães anotaram 20 encomendas do exterior para usinas nucleares. A pacífica era da pacífica utilização da energia nuclear! Pacífica? — começou Marvin novamente a gritar para dentro do espelho. — Pacífica? Quatro semanas depois da ratificação do contrato de proibição de Bonn a Índia detonou a sua primeira bomba nuclear! Em usinas nucleares surge então plutônio. Utilização pacífica pode “voltar a funcionar”. O procedimento de reprocessamento Purex, previsto para Wackersdorf, pode também ser utilizado para a produção de bombas!

— Sem urrar, senhor Marvin! — disse Dornhelm, que se levantara. — Agora chega. Sem urrar!

— Se a sua filha tivesse sido fuzilada há pouco tempo, o senhor também urraria!

— Senhor Marvin — disse Gonzalos, com a voz estranhamente artificial e movimentos estranhamente artificiais e lentos, como uma boneca mecânica —, é realmente melhor que o senhor fale calmamente e permaneça sereno. Também o faço, em minha situação, a qual deve parecer a estes senhores tão obscura quanto a sua. Nossas ações não se tornarão mais dignas de crédito por conta de grandes emoções.

— Você segue o seu caminho, Gonzalos, eu sigo o meu — disse Marvin. — Explico: os alemães podem construir a bomba. O mesmo declaram há muito tempo os americanos. O que aconteceu? Os mais graúdos entre eles, gente do pentágono, eram todas as vezes expulsos, em Bonn, quando queriam protestar por isso. É claro que os alemães podem construir a bomba. Mas os americanos não podem prová-lo.

— Assim como o senhor — disse Ritt.

— Queremos prová-lo, senhor procurador. Hornung, Bolling e eu. Queríamos fazer com que nada mais fosse varrido para debaixo do tapete. Agora tudo acabou. Os americanos nos escutaram e se comportaram como imbecis, Bolling desapareceu, não sei como e por quê, talvez ele tenha sido assassinado já há muito tempo...

— Não sem antes ter assassinado rapidinho Katharina Engelbrecht — disse Dornhelm.

— Quem disse que foi ele? — Marvin perguntou. — O senhor tem provas? Não tem porra nenhuma!

— Bonito — disse Dornhelm. — O senhor talvez queira nos explicar como Bolling foi até Brasília e conversou com o general?

— Já lhe disse, não estou certo de que é a voz de Bolling, a da fita.

— E devemos acreditar no senhor? — perguntou Ritt, irritado.

— Não, rapaz, não! Fique calmo! — Dornhelm disse. — Não podemos interromper o senhor Marvin. Senhor Marvin, o senhor dizia que o senhor Bolling, o senhor Hornung e o senhor queriam fazer com que nada mais fosse varrido para debaixo do tapete, mas que agora tudo acabou, que os americanos se comportaram como imbecis...

— Por isso — gritou Marvin — eu grito para o cara atrás do espelho! Na sua imbecilidade, os americanos perderam sua chance. — Ele respirou fundo. — Os mísseis atômicos são guardados pelos americanos, até hoje. Se estourar uma guerra, primeiro uma convencional, e ela se alastra, então os america­nos determinam quando eles nos dão os mísseis. E nenhum de nós acredita que nós, justamente nós, receberemos dos america­nos um dia, contra quem quer que seja, mísseis atômicos! Nunca eles nos darão a possibilidade de nos defendermos com armas nucleares. Ninguém quer isto, neste grande, vasto mundo! E porque é assim, políticos importantes — esta é a minha opinião — procuraram convencer de que devemos ter uma bomba própria, alemã.

Marvin saiu da frente do espelho e se sentou, repentinamente sem forças. Os outros o olharam.

Caramba, pensou Coldwell, atrás do espelho. Mais atrevimento, impossível. Esse que grita, grita a verdade. Neste um cavalo poderia apostar. Ele foi ver se a fita corria sem problemas, a fita que gravava cada palavra de Marvin. Se ele continuar assim, vou ter muito material! Com ele, finalmente poderemos fazer pressão em Bonn. Jesus, meu Jesus, deixe-o continuar a gritar!

Marvin havia se acalmado e disse: — Agora vocês sabem por que colaboro com Hornung. Porque lhe telefonei do Rio. Eu também havia informado a Bolling. Ele estava investigando a coisa a fundo. Por que ninguém pode encontrar Bolling? Quem sabe em que barril cheio de cimento, em que porto ele se encontra?

— Senhor Marvin — disse Ritt —, o que o seu amigo, doutor Hornung, descobriu em Karlsruhe?

— O senhor tem uma idéia de como acontece nessa instalação de pesquisa nuclear? — Marvin perguntou. — O complexo é mais vigiado e protegido do que qualquer área de alta segurança. Lá, se um físico somente se virar ligeiro demais... Os sindicatos já reclamaram de todos esses controles e barreiras.

— Por favor, senhor Marvin — disse Ritt. — O que Hornung descobriu?

— Ele acha — disse Marvin — que eles em Karlsruhe encontraram uma solução ideal. Plutônio traria dificuldades muito grandes para a produção de uma bomba alemã. Alguém seria descoberto pelos americanos. Não são idiotas. No processamento de limalhas combustíveis há 95% de urânio, 2% de plutônio — que deve ser remetido — e 3% de uma substância mista. Pois bem, em Karlsruhe eles chegaram à conclusão de que nessa substância mista se encon­tram transurânios fortemente radioativos, nos quais a ação é muito maior do que em plutônio. Quer dizer: a massa crítica, que deve surgir para que uma bomba assim funcione, pode, na utilização de transurânio, ser bem menor do que no plutônio. Particularmente utilizáveis se revelaram todos os transurânios entre 236 e 242. Eles tentaram em 240. Mas então, como disse Hornung no telefone, eles tiveram uma decepção. O ideal é 241, transurânio 241 — e ninguém precisa mais se preocupar com plutônio bifurcado! Pela coisa dos 3% de substância mista ninguém se interessa. E transurânio 241 vem desses 3%. Todos escutaram a fita com a conversa no telefone! Eles foram muito longe em Karlsruhe, disse Hornung.

Impressionado, Ritt disse: — Se isso é verdade...

— Isso é verdade!

— Lembro-me agora de uma emissão de rádio — retrucou o procurador — onde se afirmou coisa parecida. Esqueci como o programa se chamava...

— Eu não — disse Marvin. — Chamava-se “A pista do plutônio. Rearmamento, Wackersdorf e a bomba alemã.” O autor era Günter Karweina e a rádio foi a Sender Freies Berlim30.

— Correto — disse Ritt.

— Depois da emissão, não chegou na rádio uma única palavra de protesto de Bonn — disse Marvin. — Não houve nenhuma exigência por retratação, nenhum escândalo, absolutamente nada a emissão foi 100% ignorada. Para mim, uma prova de que cada palavra correspondeu à realidade. Se não tivesse sido assim, eles teriam processado todo mundo da rádio, inclusive as faxineiras

Bateram na porta.

— Sim! — Ritt gritou.

Um funcionário do tribunal entrou, cumprimentou, deu ao procurador duas folhas de papel, desapareceu novamente.

Ritt leu uma, depois a outra. Todos o observavam. Por último, ele olhou para Marvin. — Isto chegou por telex. A filial nova-iorquina da Interpol achou o irmão de Katharina Engelbrecht, esse pretenso químico Charles Wander. Ele é um funcionário aposentado de companhia de seguros. Há 14 anos paralítico. Nunca esteve em Karlsruhe.

— Veja só — disse Dornhelm, e pegou a folha.

Ritt olhou novamente para Marvin. — Erich Hornung está morto — disse ele.

O rosto de Marvin estava pálido.

Ritt disse: — Há 20 minutos ele foi atropelado por um grande Audi, quando tentava atravessar a faixa de pedestres na Kaiserstrasse. O Audi corria a mais de 100km por hora, dizem testemunhas. Ele arremessou Hornung para pelo menos dez metros de distância, Um segundo carro, um Lincoln verde, que também ia em alta velocida­de, também passou por cima de Hornung. O físico morreu imedia­tamente. Os carros tinham placas trocadas. Até agora não há pistas deles.

Marvin estava imóvel.

Pobre homem, pensou Ritt.

Pobre homem, pensou Dornhelm.

Não, pensou Coldwell. Não, se eu fosse um cavalo, não apostaria em Marvin. Ou?

A fita rodava...

— As provas — disse Dornhelm. — Eles ainda não têm nenhuma.

— Alemães — disse Marvin, rouco —, estou convencido, os alemães mataram Hornung. Porque sabia muito.

— Não necessariamente — disse Dornhelm.

— O quê, não necessariamente?

— Alemães mataram Hornung. Quer dizer, muita coisa indica que sim. Seria lógico. Mas também podem ter sido outros.

— Quem? — Marvin perguntou. — Diga-me, senhor Dornhelm, quem? Quem ainda tem interesse em fazer sigilo que a Alemanha Federal pode construir a bomba? A bomba inteligente. Aquela com a massa crítica menor. Aquela sem plutônio. Aquela com transurânio 241. Quem é que ainda tem interesse em sigilo?

— Sim, sim, sim. Mas o senhor não tem provas — disse Dornhelm. — O senhor nos conta uma estória. Muito grave, se for verdadeira. Quem sabe o senhor não mente para salvar sua cabeça? Aqui mais e mais pessoas são assassinadas. O senhor não, senhor Marvin. Por que justamente não o senhor?

— Mas mesmo assim houve tentativas resolutas, não é?

— Mas fracassaram. O senhor vive, senhor Marvin. Por que justamente o senhor ainda vive?

— O senhor conhece A ponte de San Luis Rey, de Thornton Wilder?

— Sim — disse Dornhelm. — O que tem a ver?

— Um livro maravilhoso — disse Marvin. — Cinco pessoas, desconhecidas entre si, caem dessa ponte para a morte. A vida de cada um, assim conta o romance, não é?, foi concluída naquele momento — por motivos diversos e nas mais diversas significações da palavra. Está evidente que a vida previu para mim algumas coisas a mais, senhor Dornhelm.

— Idiotice.

— Como queira — disse Marvin. — Acredito nisso. O senhor se lembra — desde o começo eu não queria proteção policial.

— Oh, então foi por isso — disse Dornhelm com muita ironia. Ele se curvou. — E quem nos convence de que tudo o que o senhor conta não é verdade, senhor Marvin?

 

 

Sim, quem nos convence disso?, pensou o solitário Coldwell atrás do espelho. Ele era realmente muito solitário. Nenhum amigo. Nunca teve amigos. Tinha a ver com a sua profissão. Não somente. E suas estórias com as mulheres sempre foram muito curtas. Na maioria das vezes eram estórias com prostitutas. Tristes estórias com prostitutas. Certamente Jesus era amigo de Coldwell. Sempre foi. Sempre seria. O pai o convenceu disso, espancando-o. Pode-se ser muito solitário com Jesus. Uma vez, num quarto de hotel, Coldwell estava tão solitário com Jesus, que discou o número da hora e durante quase meia hora escutou a voz feminina.

Hoje vou levar uma puta para o hotel, pensou Coldwell. Na estação há das boas. Talvez descubra uma puta divertida. Meu Deus, que desgraça a minha!

 

 

— Não menti, senhor comissário — disse Marvin.

— O senhor quer proteção da polícia?

— Eu disse que não menti!

— Já ouvi. Mas talvez o senhor queira proteção policial.

— Não, agora também não quero nenhuma. Porque ela não vale nada. O americano ali, atrás do espelho, ele vai mesmo levar a fita com a minha estória para o seu escritório. As pessoas lá vão mostrá-la para Bonn e exigir que tenham acesso a Karlsruhe. Se não o obtiverem, eles não encontrarão nada, claro, nada. O senhor agora entende por que eu disse antes que os americanos teriam estragado tudo com a sua imbecilidade?

Um telefone de parede começou a tocar. Ritt o pegou.

— Aqui é Coldwell — disse o solitário homem atrás do espelho. — Acabo de falar com o quartel-general. Soltem Marvin. Será seguido, é claro. Se ele mente ou não, só descobriremos se o soltarmos — talvez.

— Sim — disse Ritt, desligando e apertando uma campainha.

— Então? — Marvin perguntou. — O que diz o americano? O que dizem os seus chefes? O senhor deve soltar Gonzalos e a mim, não é?

Ritt afirmou.

— O jogo de merda continua — disse Marvin. — Tem de continuar, claro. E o doutor Gonzalos? Ele será protegido?

O brasileiro balançou a cabeça. — Não se preocupem comigo. Ninguém mais pode me proteger. Eu mesmo devo fazê-lo.

— Mas como? — Marvin perguntou.

— Deixe comigo — disse Gonzalos.

— Nosso acordo continua valendo, senhor Marvin — disse Ritt, dando uma impressão de miséria, desamparo e impotência. — O senhor pode ir para onde quiser. Só precisa me dizer antes. E sempre deve vir aqui, se eu precisar do senhor — como foi até agora.

— Naturalmente — disse Marvin.

Na cabine, Coldwell havia fechado a sua mala de fitas, o mesmo com o gravador. O funcionário do tribunal entrou na sala de projeção. — O senhor chamou, procurador?

— Leve esses dois senhores — Ritt mostrou Gonzalos e Marvin — até a saída, por favor!

— Sim senhor, procurador. Queiram me acompanhar, meus senhores...

— Nos veremos novamente — disse Dornhelm.

Não recebeu resposta. Os dois homens seguiram o funcionário. Atrás deles a porta se fechou.

 

 

Ritt e Dornhelm acompanharam Coldwell. Carregavam seus aparelhos. Quanto mais se aproximavam da saída, mais alto ficava o barulho da construção.

— Podemos levar o senhor a algum lugar? — Ritt perguntou.

— Não, obrigado. Tenho um carro. — disse Coldwell. O que está acontecendo comigo?, ele pensou. Porque pensou justamente agora naquela voz feminina da hora? São 23h, 21min e 18s...

— O senhor vai para a estação? — Dornhelm perguntou.

— Sim — disse Coldwell. São 23h, 21min, 19s...

— Quartel-general. Na estação seis, quinto andar — disse Dornhelm, balançando a cabeça. — Ouvi falar que quer ir novamen­te para o novo prédio Woolworth. A velha foi destruída.31

— Vamos voltar para a nova — disse Coldwell. São 23h, 21 min e 20s... Uma puta, pensou ele. Uma puta divertida. E depois dormir. Estou tão cansado. Não sei o que é. Praticar de novo impudicícia com satisfação. Não esquecer na próxima confissão! Você era uma pessoa maravilhosa, pai. Espero que esteja queiman­do no inferno.

— Lá na estação, na agência dos correios, está a maioria das linhas de telégrafo e redes de linhas, não é? — Dornhelm perguntou.

— Sim — disse Coldwell. Entre Zeil e a Grossen Eschenheimer Strasse. Lá estávamos até o fim dos anos 60 na agência bancária, último andar. — São 23h, 21min e 21s... Agora eles chegaram no hall de entrada. Guindastes andavam lá fora, furadeiras crepitavam, máquinas de cimento grunhiam.

Um Cadillac preto parou em frente à entrada. Coldwell se despediu rapidamente dos dois alemães, apertando-lhes a mão frouxa e fria, e pegou os aparelhos. Ao lado da portaria, o funcio­nário Franz Kulicke tirou o chapéu e cumprimentou. Coldwell foi embora.

 

 

Dornhelm disse: — Você não deve ficar zangado comigo, rapaz, quando me faço de paizão de vez em quando e digo que não deve ficar nervoso com qualquer safadeza.

— Não estou com raiva de você, meu velho.

— Você sabe que o meu pai desapareceu quando eu tinha dois anos. Aos cinco decidi ir para a polícia. Para encontrá-lo — eles voltaram à escada. — E você... — Dornhelm, com o seu tom muitas vezes rude, parou. Baixinho, ele completou a frase: — ...você é como um filho para mim. Você sabe.

— Eu sei — disse Ritt. — Ocorreu-lhe algo engraçado, Robert?

— O quê, engraçado?

— Por favor, pense em alguma coisa engraçada...

Eles continuaram a andar.

 

 

São 23h, 21min e 22s...

Coldwell alcançara o Cadillac preto. Ele pousou a mala de fita e abriu a porta de trás. Assustado, ele recuou. No banco de trás estava imóvel, com a boca aberta, o seu motorista. Seus pensamentos se confundiam. Morto? Dopado? O homem na direção — nenhum dos nossos. Nunca vi. Uma armad...

Ele nem pôde pensar na palavra até o fim, pois neste momento um grande homem com terno cinza, que se aproximara rapidamente, deu um golpe na sua cabeça com a pistola. Coldwell perdeu os sentidos. O homem de terno cinza pegou a mala e correu. Logo depois ele havia desaparecido atrás das máquinas de construção.

O motorista do Cadillac preto se virou, fechou a porta e acelerou. Coldwell estava estendido na calçada. Em torno de sua cabeça se formou uma poça de sangue. Pessoas se aproximaram. Uma mulher gritou.

São 23h...

 

Sexta-feira, 16 de setembro: o Hotel Drei Koenige, na Basi­léia, é um dos hotéis mais bonitos da Suíça. Philip — é claro — o sugeriu. Pois é. Joschka Zinner e a televisão de Frankfurt pagam.

Voltamos para o hotel no começo da noite, de certa forma dominados por esse Loder e seu pai. Em Binzer, eles são chamados os sutis do sol.

Foi um longo dia. Ainda muito quente. Philip e eu temos uma sala em comum, quartos à direita e à esquerda. Entra-se no hotel pela lateral. Ele está localizado à beira do Reno, sobre o qual se debruçam as janelas francesas de nossos quartos. Decoração antiga. Varandas com espreguiçadeiras e mesinhas. O sol ainda brilha na água. Um pouco mais adiante, Reno acima, uma grande ponte leva à Pequena-Basiléia. Vejo carros, bondes elétricos, muita gente, mas estranhamente nenhum barulho chega a nós. É muito calmo aqui, na nossa varanda. Silenciosos, os rebocadores passavam, com acorren­te, contra a corrente, os coloridos rebocadores e seus longos barcos bem carregados. Quando passam próximos, as ondas batem nos grossos muros sob nós.

Durante muito tempo não falamos. Procuro a sua mão. Ele segura a minha com força, e silenciamos. É agora, penso. Quero. Desejo. Mas devagar e sem pressa. Doucement... Os navios têm bandeiras de muitos países. Muitas vezes vemos crianças brincarem no convés. Mulheres penduram roupas. Homens atrás de grandes rodas de leme. Outros estão sentados ao sol, deitam, dormem, lêem. Um toca gaita. Às vezes sopra música de rádio até nós. Tantos rebocadores. Tantos barcos. Tão grande a paz e o silêncio. Como seria ir junto, digo, ter tempo. Com o rebocador corrente abaixo até a Holanda... Bonito, digo. Isto é tão bonito, Philip. — Ele está calado. — Estou muito contente, digo. Com aquilo que Loder nos mostrou. A máquina com o hidrido de magnésio. E com aquilo que ele contou das correntes humanas em torno do globo... Essa conferência da “energia verde”... Eu lhe disse, Philip, que não se chegará à catástrofe. Que temos ainda uma chance. Este não é o fim do mundo. Você se lembra que eu disse isso?

 

Sim, me lembro, e naturalmente me lembro daquela noite na varanda, sobre a corrente, agora, que estou na minha casa Le Forgeron em Château-d’Oex e leio o diário de Isabelle. Ela escreveu estas frases no meio de setembro de 1988. E agora... e agora!

 

...Não é o fim do mundo, digo. Ou apenas um sentido bem determinado: na medida em que é o começo de um novo mundo, melhor. — Sim, Isabelle, diz ele. — Tudo está claro entre nós. Tudo está como desejei a partir do dia em que o conheci. Oh, sim, posso estar segura sobre o meu primeiro sentimento. Ele sempre está certo. Sou uma típica balança. Devo ter dito isto alto, pois ele brincou. — Sim, o que temos aqui? Uma típica balança! — A balança, isto você não pode saber na sua falta de cultura universal, Philip, é um signo de ar cardinal. — Um o quê? — Bem, ela se caracteriza intelectualmente, se você me entende, meu amigo, não está ligada à terra, não é materialista. — Entendo. Aha. Hum. Que coisa! Inacreditável! Mais! Explique-lhe, ao seu pobre Philip! — O signo balança, pobre Philip, é regido por Vênus... — Continue. —... que dá, àqueles que nasceram sob esse signo, charme e encanto. Assim está nos livros sábios, estou apenas citando. Só não pense que eu quero me fazer melhor do que sou. — Minha balança, ele sussurra. Cheio dessa humildade carinhosa. — Por isso, continuo, as balanças magnânimas nunca, escute Philip!, nunca... — Estou escutando, mais doce de todas as balanças, estou escutando. Nunca o quê? — nunca, com todo o desejo inato de amor e reconhecimento, desistem de um princípio, apenas para ganhar o mesmo. — O mesmo amor e reconhecimento! — Exatamente. — Isto eu acho grandioso da parte das balanças magnânimas! — Eles sabem, por experiência, que um comportamento de tal forma orientado só pode levar a humilhações. Por isso das balanças... — As balanças! — ...das balanças, deixe-me continuar a falar, é um genitivo, Philip! Você não pode saber o que é isso, um genitivo, meu pobre pequeno escritor. Por isso o autodomínio excessivo das balanças... — Ah, diz ele, já se acalmou. — O que já se... — Seu autodomínio, sua balança excessiva. O resto ainda conseguiremos viribus unitis, isto como você sabe, enquanto de boa formação, é grego e significa: eu te amo. Eu até amaria você, se você não fosse balança. — Está bem, digo, você não acredita em astrologia. — Não entendo como uma tão magnânima intérprete pode acreditar nisso. — Só o faço no principal. — Com o que a senhora quer dizer? — Com o que a senhora quer dizer: há 12 diversos signos do zodíaco. Diversos! Então as pessoas que nasceram sob eles devem ser 12 diversos tipos. — Esta é uma lógica excepcional. — Ah, deixe-me em paz, Philip! Quando você nasceu? — 11 de janeiro, diz ele. Não digo o ano, mesmo que me afogue no Reno. — Típico capricórnio, digo. — Isto é bom? — Depen­de. — De quê? — Dos ascendentes. — Por favor, diz ele, sem essas expressões! — Qual é o seu, Philip? — Deve-se ter um? — Pessoas decentes têm. — Não sei qual é o meu. — Então não se pode dizer se você é um bom capricórnio ou um mau...

E passam navios, silenciosos, tantos. Água bate na borda. O sol agora já baixou bastante. Primeiras luzes na Pequena-Basiléia. Continua quente. A paz! A paz!

Ah, diz ele, assim ou assim. De qualquer forma balança é certamente o melhor que se pode ser. Balança! Balança! Meu Deus, ainda por cima ela é balança! Tem-se que amar você, balança. Eu... eu amo você, balança! — Por que você me ama, capricórnio? — Porque você é velha e feia, diz ele. — Foi o que imaginei, digo. — Sabe, de nossas experiências está surgindo algo como uma daquelas sophisticated comedies americanas. Grande exemplo: The Philadelphia Story. Já dublei, quando os meus livros ainda não existiam. Quer que lhe dê uma prova, balança? — Dê-me uma prova, capricórnio! Então ele começa e faz alternativamente homem e mulher: não é verdade que você diz que eu sou tímido demais e dominado demais? Você não diz o que todos dizem, que sou uma mulher de mármore? — De mármore? Não, não! Você é uma mulher de carne e osso. Uma mulher que vive e respira. A mais doce mulher do mundo. Tem-se a vontade de lhe pegar nos braços e dizer sempre — oh, o que há, você tem lágrimas nos olhos. — Pare, pare, pare — não, não, continue a falar, continue a falar!... A música começa, diz ele, muitos violinos. E assim continuou: o que é? Você está tremendo... — Que nada! Escute, isto não pode ser amor de jeito nenhum! — Pode ficar certo, não é. — Graças a Deus! Seria altamente impróprio. — Você acha realmente? — É claro! É claro que não! Somos mesmo loucos um pelo outro!...

E então assumo a parte dessa “ela” e digo: loucos um pelo outro, Philip, loucos, loucos, loucos. Me segure, me segure bem forte... E ele me segura com força, e nos beijamos por muito, muito tempo, sobre a água escura. Que mara­vilhoso, penso, e digo naturalmente: e agora música, bem alta. Violinos soluçam. Devagar, os dois saem da imagem. Romy Schneider e Alain Delon. — Oh, não, diz ele, Katharine Hepburn e Spencer Tracy. Mas na verdade esperei: Romy Schneider e Philip Gilles. Agora estou com ciúme de Alain Delon. — Nova versão, digo: Philip Gilles e Isabelle Delamare!

 

E aconteceu naqueles dias...

O plástico polivinilcloreto se encontra simplesmente em todas parte: em carros, aviões, janelas, embalagens, discos, carpetes, toalhas de mesa, cadeiras de cozinha e isoladores elétricos. O polivinilcloreto é um material altamente venenoso. Na sua queima se originam dioxina e ácido clorídrico. Os prejuízos para a saúde são incalculáveis. Quando um porta-voz do Ministério do Meio Ambi­ente alemão-ocidental declarou que se pensava na obrigatoriedade de caracterização para produtos plásticos, o ministro do Meio Ambiente recebeu uma nota de protesto da comunidade de trabalho PVC e meio ambiente32. Nela consta o seguinte:

 

“Muito honrado senhor ministro:

Os trabalhadores da indústria de fabricação de materiais plásticos protestam contra a obrigatoriedade de caracteriza­ção dos plásticos intencionada pelo governo federal.

As possibilidades de aproveitamento de restos plásticos misturados fazem desnecessária a caracterização dos produtos. Uma caracterização global do gênero não pode trazer nenhuma solução melhor do que a fabricação misturada, pois não são possíveis nem sistemas de coleta para mais de 20 plásticos, nem um aproveitamento específico. Dentro de um gênero plástico são utilizadas ainda misturas e fórmulas individuais. Porém, a caracterização está sendo utilizada para a política de matérias-primas das organizações do meio ambiente através de apelos ao boicote e discriminação do produto. Isto foi determinado pelos verdes e ligas nos seus documentos de princípios como arma estratégica e tática.

Nós, trabalhadores, nos sentimos discriminados pela caracterização dos nossos produtos, determinada pelo Estado, e vemos essa caracterização como uma estrela de Davi. O mercado de reciclagem deve se desenvolver livremente e começa de preferência pelo aproveitamento do plástico misturado. Apoiamos esse caminho.

Trabalhadores da firma:

Nome, cidade, endereço, assinatura.”

 

Com o indescritível panfleto se indignaram Dietrich Wetzel, presidente da comissão parlamentar para educação e ciência, e Charlotte Garbe, porta-voz de política ambiental da fração parlamentar Os Verdes, num documento à imprensa intitulado: “Indústria plástica compara as vítimas do holocausto com produtos plásticos.”

Ninguém mais se indignou.

 

 

Há 20 anos, o Club of Rome publicou um estudo, sensacional naquele tempo, com o título “Os limites do crescimento”. Um dos autores era o cientista internacionalmente conhecido Dennis Meadows. Aproveitando a matéria-título “Quem salva a Terra?”, a Spiegel perguntou a Dennis Meadows: “Quanto tempo resta, na sua opinião, para arrancar a direção?”

Meadows respondeu: “Agora é tarde demais.”

“Desde o último verão”, segundo a reportagem, “o tempo está louco como nunca, desde tempos imemoriais. Pela primeira vez Nova Iorque teve temperaturas, durante 40 dias consecutivos, acima de 31°, Los Angeles tinha, ainda no fim do outono, tempera­turas recordes, antes que, em fevereiro de 1988, uma onda de frio totalmente incomum se instalasse na Califórnia. A seca que já dura sete anos no meio-oeste da América do Norte já diminuiu quase um terço da colheita de cereais no ano passado. Incêndios florestais... se consumiram em grandes partes do conhecido Yellowstone National Park... O furacão mais violento de todos os tempos varreu o Caribe em setembro e desabrigou, somente na Jamaica, 500 mil pessoas. Um mês depois, um outro furacão devastou a cidade Bluefields, na Nicarágua... Um pouco antes, na Antártida, quebrou-se o até então maior iceberg do continente. Desde então, o monstro de 160km de comprimento vale como advertência ao aquecimento global, que poderia fundir partes do gelo polar...”33

 

 

O pesquisador climático soviético Michail Budijko escreveu na revista New Scientist: “O efeito-estufa é uma boa coisa para a Terra. Na metade do próximo século vai chover mais 50%. Desertos vão desaparecer, as colheitas vão aumentar. No Saara vão pastar gados, campos de trigo balançarão ao vento na Ásia Central. Antes de, há 100 milhões de anos, começar a era polar, a África estava coberta de densas florestas. Agora, o paraíso pode voltar...”34

 

 

O cargueiro Oostzee sofre uma tempestade e ancora na foz do Elba, em Cuxhaven. Carregamento: quatro mil barris de epicloridrina, num total de um milhão de litros. Epicloridrina envenena rins e nervos, é corrosivo, cancerígeno e explosivo. Os barris estavam tão desordenadamente empilhados, que na tempestade foram jogados uns contra os outros, e, em parte, escorregaram. Especialistas declaram que o recolhimento do carregamento está ligado ao perigo de uma catástrofe incalculável. O Oostzee é levado de um lugar para o outro. Em nenhum o carregamento pode ser posto em segurança. Nos últimos tempos, o navio não é mais mencionado na imprensa.

 

 

O Adriático está morrendo. De Veneza até Rimini se estende, por todas as praias, um tapete de algas de um podre marrom e viscoso, que se aproxima cada vez mais da borda. Os banhos são interdita­dos Causa: despejos de todo tipo foram dirigidos, durante décadas, diretamente para o Adriático. O Ministério da Saúde, em Roma, se esforça em salvar a área turística e divulga, inescrupulosamente: “Não há nenhum perigo para a saúde.” Por outro lado, é empossado um diretor para a luta contra as algas — e após três semanas é preso sob a acusação de pertencer à Máfia.

 

 

A Inspeção Mundial de Alimentação, FAO, apresenta, no “Dia da Alimentação”, um relatório, onde se lê: “Noventa por cento do previsível crescimento da população acontece no Terceiro Mundo, onde já vivem mais de três quartos da população mundial. O desgaste ambiental nesses países parte sobretudo da pobreza da população. A luta diária pelos meios de sobrevivência representa uma enorme carga das condições naturais.” Com outras palavras: pobreza é a causa do desgaste ambiental. Os pobres são os que mais sujam.

 

 

A França começa com uma nova série de testes nucleares. Quando protestos massivos se fazem sentir, o primeiro-ministro Michel Rocard declara numa conferência à imprensa: “O pior desgaste para o meio ambiente que conhecemos é a guerra. A humanidade agradece às armas nucleares os 50 anos de paz. O poder nuclear da França não está disposto, por esta razão, a suspender esses testes.” A agência Reuter distribuiu a declaração de Rocard sob o título: “Testes de bombas nucleares são para a França uma preservação do meio ambiente.”

 

 

— O primeiro que cercou um pedaço de terra e se atreveu a dizer: “Ela me pertence”, e que encontrou pessoas simplórias o suficiente para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade huma­na. — Até aqui Miriam Goldstein havia lido isto em voz alta, de um livro. Agora ela olhava a mãe, sentada em seu local preferido, no quintal de sua casa em Lübeck. — Era essa parte, mama?

A cega afirmou. — Sim, Miriam. Jean-Jacques Rousseau. Eu sabia que ele havia escrito isso. Ele escreveu essa frase há mais de 200 anos, Miriam, imagine! — Ela virou para o sol o seu rosto de pele quase transparente e repetiu: — Há mais de 200 anos... Você precisou procurar muito?

— Não, achei logo o trecho.

— Continue a ler, Miriam!

Miriam continuou a ler: — Quantos crimes, guerras, assassinatos, quanta miséria e horror teria poupado à humanidade aquele que tivesse arrancado as estacas ou entulhado as trincheiras e gritado aos seus semelhantes: “Cuidado ao ouvir esse defraudador! Vocês estão perdidos, pois se esquecem que os frutos e a terra pertencem a todos...”

Miriam Goldstein afastou o livro e se encostou na sua cadeira. Tantas flores, tantos pássaros nas árvores; era fim de verão, maduro e glorioso fim de verão.

— Que horas são, Miriam?

— Quatro horas.

— Então logo chegarão os seus convidados.

— Sim, mama.

A anciã procurou uma das mãos de Miriam. De repente havia lágrimas em seus olhos mortos. Os dedos de Sarah Goldstein apertaram os de sua filha.

— Mama! — Miriam gritou! — O que você tem, mama?

— Medo.

— Por favor — disse Miriam, e acariciou o braço de sua mãe, o qual era muito magro —, por favor, não diga isso sempre! Você sobreviveu a coisas tão terríveis. Hoje você está em segurança.

— Não — disse a cega. — Ninguém está em segurança. Hoje mais do que nunca. Eu sei. Posso sentir. Bem forte. Tenho um medo terrível por você.

— Por mim?

— Sim, minha filha. Por você.

— Mas por quê?

— Porque o terrível está bem perto de você. Tão perto que posso sentir, cheirar, quase pegar, quase — Deus me perdoe! — ver. Você corre muito perigo, Miriam.

— Mama — disse Miriam —, o que você sente, o que você quase vê?

— Acontecem coisas terríveis, Miriam. Bem junto de você. Bem ao seu lado. E uma daquelas pessoas que trabalham com você sabe disso. Sabe muito bem. Mente e finge a serviço do terrível. — Você quer dizer, uma das pessoas que eu convidei?

— Sim, Miriam.

— Uma sabe de tudo?

— Sim.

— E mente e finge?

— Sim — disse Sarah Goldstein.

 

 

Quando todas as estórias forem contadas, as grandes e as trági­cas, as melodramáticas e as grotescas, quando for relatado sobre todos os acontecimentos na era cristã no fim do segundo milênio ocorridos nesta Terra fadada ao declínio, então se lembrará, caso nos salvemos, do livro The Divided Self, do psiquiatra inglês Ronald David Laing, e de uma frase dele, sempre citada: “Loucura também pode ser uma resposta ao mundo doentio que criamos com um fervor autodestrutivo.”

 

 

Bruno Gonzalos, Isabelle Delamare, Markus Marvin, Miriam Goldstein, Bernd Ekland, Katja Raal, Valerie Roth, Philip Gilles, Joschka Zinner — todos agora estavam sentados no escritório de Miriam Goldstein, em Lübeck.

O escritório era grande. Estantes com livros cobriam as paredes. Num canto havia um candelabro judaico de prata velha e muito bonita. Há muitas gerações que ele era da família Goldstein, e Miriam o admirava desde criança. A mãe conseguiu guardar o candelabro com amigos cristãos antes de eles terem de se esconder por causa da Gestapo, de forma que ela o pegou de volta logo depois do fim da guerra. Naquele tempo ela ainda podia ver, mesmo que muito mal. Está completamente cega desde 1968. Desde então ela passava os dedos no candelabro, e uma vez, quando acabou um ano, ela disse a Miriam: — Você ainda se lembra como seu pai acendia as luzes em chanuká?

— Sim, mama — respondeu Miriam. — Não vou esquecer nunca.

Ao contrário do candelabro menorá, de sete braços, o candelabro de chanuká tem oito — e lugar para uma nona vela, a shamash, a vela útil.

“Chanuká” é a palavra hebraica para “inauguração” e ao mesmo tempo a que designa a festa judaica de oito dias, que é festejada como lembrança da reinauguração do templo de Jerusalém, destruído e reconstruído. Agradecendo pelos “milagres e boas ações”, todo pai de família devoto acende no primeiro dia uma vela, no segundo uma segunda, até que no oitavo dia oito velas estão acesas.

A partir de 1945 a mãe de Miriam, no lugar do pai, teve de acender as velas todos os anos. Ela o fazia, embora visse muito mal, e também o fazia depois de 1968, embora fosse totalmente cega. Miriam a levava pela mão, e Sarah Goldstein não podia ver mais as velas, mas sentia o seu calor e cheirava a cera que derretia.

Na parede da janela do escritório havia poltronas e um sofá em torno de uma mesa de pedra grande, quadrada e baixa, e aqui estavam, naquela tarde de 19 de setembro de 1988, uma segunda-feira, nove pessoas — Miriam e as oito que ela havia convidado. O sol brilhava inclinado para dentro do cômodo e iluminava as lombadas coloridas dos muitos livros. A janela para o jardim estava aberta. Todos podiam ver Sarah Goldstein, imóvel diante de uma roseira. Todos podiam ver as muitas flores e as velhas fruteiras e os seus frutos, e todos podiam escutar o canto dos pássaros, quando Miriam começou a falar.

— Eu lhes pedi para vir aqui hoje, porque precisamos tentar descobrir, de qualquer forma, depois de tudo o que passaram Marvin e Gonzalos, o que realmente está acontecendo. Pois acho que está claro a todos que, atrás de tudo o que está acontecendo, existe um segredo. Não sabemos qual é — com exceção de um de nós. Este alguém o conhece muito bem. Este alguém, estou convencida, sabe de tudo exatamente. E também estou convencida de que ele sabe de algo terrível.

 

 

Joschka Zinner nasceu em 1932 em Teplitz-Schönau, uma pequena cidade no País dos Sudetos, aquela parte da Checoslováquia que era pátria de muitos alemães. Seu pai tinha um cinema.

Cinemas — cinematógrafos, assim eles ainda se chamavam pouco tempo antes — eram uma sensação naquela época. Ao lado dos filmes mudos havia os primeiros filmes americanos com voz. Anton Zinner era fascinado por essa forma de arte das imagens em movimento. Ele próprio havia construído seu cinema — antes havia sido um bar, um chamado beisl. O banco havia dado um empréstimo a Anton Zinner para que ele pudesse construir seu cinema, que se chamava Lux, e comprar os apare­lhos necessários. Ele tinha um operador, mas freqüentemente era ele mesmo que ficava ao lado da grande máquina, principal­mente nos finais de semana, quando havia duas, até mesmo três apresentações, e Grete, sua mulher, ficava no caixa e vendia os ingressos.

Quando Joschka Zinner tinha cinco anos pôde ver, pela primeira vez, um filme, que foi a obra-prima de Charlie Chaplin, Tempos modernos. Na noite posterior daquela ida ao cinema, o pequeno Joschka teve febre alta, e um médico precisou ser chamado. Mas Joschka não estava doente; ele tinha febre porque esse milagre que era o filme o havia dominado e fascinado de uma forma que não se pode descrever com palavras.

A partir daquele dia, quando viu Tempos modernos, Joschka Zinner ficou à mercê do cinema. Ele trabalhou com o pai. Estava diariamente no Lux, via filmes diariamente, todos pelo menos sete vezes, pois pelo menos sete vezes o mesmo filme era apresentado. Logo Joschka Zinner conhecia muitos filmes, e os conhecia de cor, cada cena, cada imagem, cada palavra, cada passagem da música, cada canção. Ele foi a Karlsbad, até mesmo a Praga para ver filmes, os quais o pai, em Teplitz-Schönau, ainda não apresentara ou talvez não recebesse. Filmes, filmes, filmes — eles eram a vida do Joschka em crescimento. E permaneceram a vida para o Joschka Zinner adulto.

Em 1946 a família teve de abandonar a Checoslováquia. Foi para a Baviera. Junto com o pai, Joschka conseguiu convencer o dono de uma cervejaria em Munique para que este lhes alugasse uma sala em Schwabing. Eles transformaram a sala num cinema — desta vez com empréstimos de agiotas —, que também se chamava Lux. Fizeram dele um cinema de arte, quer dizer, só apresentavam os melhores e mais bonitos filmes de muitos países. E também o novo Lux estava quase sempre lotado em todas as apresentações.

Em 1955 Joschka Zinner havia economizado dinheiro suficiente para realizar o sonho de sua vida: fundou uma sociedade de cinema, pois queria produzir. A sociedade de Joschka Zinner se chamava Íris, este era o nome da moça com a qual ele havia se casado um ano antes.

Joschka era um profissional de primeira classe. Tudo o que um profissional precisava saber com relação ao cinema, ele já havia aprendido em Teplitz-Schönau, onde ele vira filmes dia após dia, mês após mês, ano após ano, filmes bons e filmes ruins. Ele sabia exatamente sobre posições da câmera, som, montagem, todas as questões técnicas e artísticas. Ele queria fazer bons filmes, isso ele havia jurado. Para receber dinheiro para eles, produziu primeiro uma série de filmes baratos, regionalistas e musicais, que naquele tempo faziam muito dinheiro na Alemanha. Quando juntou dinhei­ro suficiente, Joschka produziu o seu primeiro filme “verdadeiro”, sobre a vida do pediatra polonês Dr. Janusz Korczak, que dirigiu em Varsóvia, ocupada pelos alemães, um orfanato judeu e que foi para o campo de extermínio com as crianças confiadas a ele, morrendo com elas na câmara de gás.

Esse primeiro filme “verdadeiro” recebeu na Alemanha a denominação “especialmente precioso”, e quase ninguém quis vê-lo. Financeiramente o filme foi uma verdadeira catástrofe na Alema­nha. Zinner havia contado com isso. No exterior, o filme foi um dos maiores êxitos do pós-guerra, recebeu muitas das mais importantes condecorações e prêmios e fez, rapidamente, o seu produtor ser conhecido internacionalmente.

Agora Joschka havia conseguido. Agora ele trabalhava em co-produções com as melhores sociedades estrangeiras. Com os melhores atores, diretores, roteiristas e técnicos. Ele só produzia bons filmes. E estava muito feliz.

 Depois veio a televisão. Foi o fim de muitos produtores e distribuidores de filmes e também o fim de muitos cinemas, pois o número de espectadores caíra muito no primeiro momento. Joschka Zinner ponderou que também a televisão precisaria de filmes. Ele foi um dos primeiros que produziu filmes em conjunto com a televisão. Hoje isso é comum, naquele tempo o que Joschka fez foi um pioneirismo. Junto com a televisão ele continuou a fazer bons filmes, boas séries. Foi-se tornando cada vez mais ambicioso, cada vez mais agitado, cada vez mais nervoso — e estranhamente cada vez mais avaro. No atelier, ele se curvava em busca de uma mera agulha que um cenógrafo poderia ter deixado cair, regateava todo cachê, mesmo o menor deles, desenvolveu um tique de a princípio não pagar a terceira prestação de um contrato e de se deixar levar ao tribunal, o que lhe conferiu uma fama à altura. Também Philip Gilles havia escrito roteiros para ele e também Philip Gilles teve de processá-lo pela terceira prestação.

Anos mais tarde Joschka Zinner não achava mais graça em processos. Anos mais tarde, jornais, editores e existências sombri­as começaram a financiar canais de televisão particulares. A conseqüência foi uma luta inclemente pela audiência, ou seja, pelo fato de quantas pessoas viam qual programa em qual canal, pois a percentagem de audiência se relacionava diretamente com os preços dos anúncios. Programas de boa qualidade se mostraram cada vez mais um mau negócio. Quanto mais tudo se desenvolvia, tanto mais os “responsáveis” baixavam o nível de suas produções. Joschka Zinner não tinha mais nenhuma chance com os seus projetos ambiciosos — ele simplesmente não recebia mais dinhei­ro da televisão. Obstinado, ele investiu o próprio — e o perdeu. Sem capital próprio e por isso absolutamente dependente das emissoras, ele fornecia agora — como todos os seus colegas — filmes e séries dos quais ele se enojava, pois aquilo que pretensamente fazia as mais altas audiências, havia se transformado naquele meio-tempo em produtos repugnantes e primitivos. Se uma série profundamente mentirosa com um pastor tinha êxito, então logo depois havia de três a cinco dessas séries. Se uma série idiota de médicos fazia sucesso, as emissoras encomendavam — e recebiam — urgentemente — pelo menos meia dúzia de tais séries. Se os particulares iam à caça de espectadores com os mais rasteiros pornôs soft, os estatais decidiam, olhos rasos d’água, que deviam tomar esse rumo.

Joschka Zinner tinha cada vez menos forças. Para poder pagar seus empregados e viver, ele produzia um lixo deplorável. Sempre voltava a apresentar projetos para bons, grandes e importantes séries e filmes. Sempre os recebia de volta. E precisava continuar a produzir aquelas séries que se exigia dele. Ele começou a vomitar todas as manhãs, antes de ir para o escritório. Todas as manhãs. Durante um ano e meio. Nenhum médico conseguia ajudá-lo. Finalmente, um psiquiatra deixou claro para Joschka que ele — não era um mecanismo difícil — vomitava todas as manhãs de nojo daquilo que o esperava no escritório com relação aos programas de televisão realmente nojentos que ele precisava produzir.

Cheio de desespero e raiva, o astuto Joschka se deixou empurrar por um grave passo. Ele produziu junto com uma sociedade france­sa, com o melhor diretor e os melhores atores, uma série de seis capítulos com duas horas cada de um romance de Joseph Roth, confiando no mercado internacional. Quase tudo o que tinha ele investiu nesse empreendimento, chegou a hipotecar sua casa e penhorou o seu seguro de vida. Agora ele não precisava mais vomitar todas as manhãs. Entretanto, o sócio francês foi à falência, quando a série estava pela metade. Por causa de um pequeno parágrafo no grande contrato de co-produção, a metade pronta caiu na massa falida. Nem mesmo uma parte de seu dinheiro Joschka recebeu de volta. Ele estava no fundo do poço, depois de uma vida plena de esforço, trabalho e reconhecimento. Nesse momento apareceu a televisão de Frankfurt.

Um chefe de departamento comunicou a Zinner — oh, milagre, milagre incompreensível — que o canal iria aceitar o seu projeto enviado 14 meses atrás para uma série sobre o estado catastrófico de nosso mundo e financiaria a produção, justamente um tema como esse! Zinner quase não acreditou. Essa série simplesmente devia ser produzida, disse aquele chefe de departamento, que estava tão amargurado e desesperado quanto Zinner; ele teria pressionado os seus superiores praticamente com ameaças de renúncia, “para conservar a minha dignidade. Para que possa me olhar no espelho todas as manhãs, ao me barbear”. Quando assinou o contrato, Joschka Zinner abraçou e beijou sua mulher Íris e disse: — Faça figa querida! Esta é a minha última chance. Se isso não der certo, podemos nos enforcar com as dívidas que tenho. A última chance é essa. Outra como essa não haverá.

 

 

— Alguém sabe de algo terrível? — disse Joschka Zinner. — Quer dizer que temos um traidor entre nós?

Desta vez o seu terno sob medida era de seda azul. O alfinete de brilhantes estava preso entre as duas pontas da gola alta de sua camisa branca, nos punhos havia abotoaduras de brilhante em forma de trevo de quatro folhas. Gilles conhecia Zinner ainda do tempo em que este, por princípio, só comprava as roupas mais baratas. Naquele tempo ele era uma pessoa feliz, que não pagava a “terceira prestação”.

— Muito bonito — continuou Joschka Zinner, de forma agitada, típica dele —, a senhora advogada fala em traidor. Traidor entre nós. Ouve-se com prazer. Alegra o coração. Como a dama chegou a tal conclusão? É uma ofensa para todos. Deve-se aceitar tal coisa? Não se deve aceitar tal coisa. Deve-se ir embora imediatamente. Joschka Zinner vai embora imediatamente. Não me importa o que os outros fazem. É uma insolência sem igual. Até logo, honrada senhora! — Ele foi em direção à porta.

— Senhor Zinner! — Miriam disse, baixinho.

— O que é?

— Não falei de um traidor.

— Sim, falou!

— Não.

— Não o quê?

— Eu simplesmente expressei a minha convicção de que por detrás de tudo o que acontece aqui há um segredo e que um entre nós sabe desse segredo e sabe muito bem sobre algo terrível.

— Isto é o mesmo que traidor.

— Não é.

— Sim, é o mesmo.

— Não.

— Sim, honrada dama!

— Senhor Zinner — disse Miriam mais baixo ainda —, deixe esse teatro e sente-se por um momento novamente!

— Não penso nisso. Não sou nenhum idiota. Joschka Zinner não se deixa ofender. Ora, se ele vai embora! E existe uma pessoa que ele não quer ver mais, e esta pessoa é a senhora, honrada dama. Até logo!

— Senhor Zinner! — Marvin disse, alto.

— O que o senhor deseja?

— Que o senhor se sente. — Marvin se aproximou dele, e o pequeno Zinner caiu sentado em sua poltrona.

— Joschka Zinner não permite ser tratado assim! — ele gritou — Joschka Zinner trabalhou com as pessoas mais importantes do ramo. Nunca passou por uma situação dessas! Nunca! Monstruoso Um de nós, diz a pessoa. Quem poderia ser esse um, gostaria eu de saber.

— Por exemplo, o senhor — disse Marvin.

— Eu? Sou eu, então, todos vocês escutaram, damas e cavalhei­ros — para o tribunal!

— Não disse que era o senhor. Disse que poderia ser o senhor.

— Sim, sim, sim. Joschka Zinner não tem tempo para idiotices como essas. Não sabe onde está a sua cabeça, o pobre Joschka Zinner. Só as multas convencionais, se ele não cumprir com os prazos! Vocês não têm idéia que porcaria de profissão infernal esta se tornou, a que ele tem, o pobre Joschka! — Ele enxugou os úmidos olhos e perguntou, repentinamente com a voz de uma criança infeliz: — Por que deveria ser eu que sabe algo mais, digam-me, por favor?

— Quem adentrou sem qualquer anúncio o Frankfurter Hof e gritou alguma coisa como uma idéia-relâmpago e única chance e que de preferência queria nos mandar na mesma noite para a floresta amazônica? Quem foi? — perguntou Marvin.

— Foi Joschka Zinner — disse Joschka Zinner. — Os senhores se opuseram terminantemente, meu senhor, e todos os outros? Joschka Zinner precisou violentá-los, um após o outro, até vocês concordarem? Porra nenhuma! Os senhores pularam de entusiasmo por Joschka Zinner ter-lhes trazido uma chance como essa.

— É verdade — disse Valerie Roth.

— Mas? — Joschka Zinner perguntou. — Onde está o mas? Mais rápido, jovem senhora, fale mais rápido! Não suporto essa vagareza. Então: mas?

— Mas o senhor cuidou de que todos nós, em primeiro lugar, estivéssemos longe, muito longe da Europa, especialmente da Alemanha, e que ainda estivéssemos ocupados com os filmes durante muitas semanas, sem poder nos preocupar com nada mais.

— E o que isso significa? Não estou entendendo nada! Rápido!

Logo! Chegue ao ponto desejado. E isso significa?

— Isso significa que talvez o motivo principal de nos engajar não seja o de conseguir filmes, mas sim nos deixar muito longe de tudo, a fim de não nos darmos conta do que acontece aqui.

O rosto de Joschka ficou violeta. — A senhora ficou louca, doutora? Por que Joschka Zinner é respeitado e honrado no mundo? Por quê? Porque durante a sua vida inteira ele nunca fez uma safadeza! Pergunte a Philip! Philip, diga alguma coisa para defen­der seu velho amigo, que lhe ajudou em seus parcos tempos, quando você não tinha nadinha pra comer! Vamos, Philip, diga alguma coisa! Diga que Joschka Zinner nunca fez uma safadeza a sua vida inteira.

— Você mesmo diz. Pela segunda vez — disse Gilles.

— Você também contra mim! Agradeço muito, Philip! Não vou esquecer. Meu amigo Philip Gilles também diz que eu queria esconder algo. Meu amigo Philip Gilles. Amigos não valem porra nenhuma. Pessoas não valem porra nenhuma. Uma só corja são as pessoas. A coisa mais miserável...

— Senhor Zinner! — disse Miriam, baixinho.

— Senhora advogada?

— Pare com isso! Imediatamente! Não creio que o senhor queria encobrir um crime ao enviar a equipe para fora do país. Mas alguém pode ter lhe passado essa missão. Alguém que, pelo seu lado, queira esconder alguma coisa. Deve esconder. Antes de o senhor ter engajado todas essas pessoas, pensava-se em levar o projeto para a televisão de Frankfurt.

— Então a televisão de Frankfurt tem algo a esconder.

Miriam passou a mão nos cabelos brancos.

— Ninguém disse isso. A televisão de Frankfurt é uma instituição pública. Isso às vezes entra na política. Talvez um político tenha algo a esconder — e o seu emissor não sabe absolutamente nada a respeito. Na TV as pessoas simplesmente apenas receberam a missão de liberar dinheiro para essa série exigente. Desculpe-me a pergunta, senhor Zinner — entretanto já sei o que o senhor produz para a televisão —, quando o senhor pôde produzir sua última série exigente, séria?

— Pare! — disse Zinner. — Por favor, senhora, é melhor parar! Não sabe o que acontece. Por causa da audiência. Somente por causa da audiência. — Isto soou como uma maldição.

— Eu sei, senhor Zinner — disse Miriam. — E por isso também sei o que os nossos filmes significam para o senhor.

— Tudo, senhora, tudo!

— Por isso o senhor invadiu o Frankfurter Hof e se comportou como um louco.

— Como um louco me comporto sempre. — Zinner riu desesperado.

— O senhor não recebeu condições especialmente boas da emissora. Tudo bem. O senhor teria aceito as piores. O que lhe restou? O senhor teria fechado sob qualquer condição.

— Sob qualquer uma, sim.

— Exatamente, senhor Zinner. E agora vamos supor — apenas supor — que o senhor teria tido a sensação de que era utilizado para encobrir um segredo. Apenas a sensação, senhor Zinner! O senhor é superinteligente... uma velha raposa no ramo... O senhor teria mandado investigar... exatamente como eu... E talvez tivesse descoberto por que o senhor, depois de tanto tempo, pôde realizar uma boa produção... O senhor teria se calado, senhor Zinner. O senhor teria pensado, o que tenho a ver, se eu posso rodar a minha série? Se eu novamente posso viver como gente. Não digo que foi assim! Mas se foi assim, se o senhor tivesse descoberto algo, se soubesse de algo... Pergunto, senhor Zinner: o senhor poderia ter impossibilita­do todas essas pessoas de desvendar um crime ao superocupá-las com trabalho? O senhor poderia ter feito isso, senhor Zinner?

Todos olhavam para Zinner, que tinha novamente o rosto violeta-escuro.

— Agora chega. — Ele se levantou. — A senhora não poderia tê-lo dito. Nunca poderia ter chamado Joschka Zinner de imprestável. Até logo, senhora advogada! — Ele foi até a porta, murmurando consigo mesmo.

— Senhor Zinner — disse Miriam, alto.

Ele abriu a porta e a bateu com força atrás de si.

Havia um silêncio de morte no cômodo.

— Doutor Gonzalos — disse Valerie Roth, afinal, em inglês. Hoje ela usava lentes verdes.

— Sim?

— Eu teria uma pergunta.

— Qual seria? — Gonzalos perguntou.

— Seria a seguinte: Markus Marvin contou que nessa fita, na qual esse general do regime militar, esse...

— Calera — disse Gonzalos.

— ...esse Calera conversa com Bolling...

— Um momento! — Marvin interrompeu. — Eu disse que é uma voz como se fosse a de Bolling. Mas desde o começo eu tinha a sensação de que não se tratava da voz de Bolling.

— OK, Markus, OK, você não está certo — disse Valerie. — Doutor Gonzalos diz que ele está certo. Nessa conversa da fita Calera diz que Gonzalos não poderia saber da transação germano-brasileira, porque primeiro ela ocorreu no mais alto grau de segu­rança e segundo porque Gonzalos só trabalhou pouco tempo no Ministério do Meio Ambiente.

— Sim, e daí? — Bruno Gonzalos perguntou.

— E não é verdade! — disse Valerie. — Eu pesquisei aqui. O senhor trabalhou durante mais de três anos, de 1975 a 1978, no Ministério do Meio Ambiente. Exatamente na época em que era feita a “transação do século”. O general se enganou? Mentiu? O senhor, de qualquer forma, não protestou contra esse falso dado com sequer uma palavra. Por que não, senhor Gonzalos?

Gonzalos se levantou.

— Não sei aonde quer chegar, senhora Roth.

— Quero esclarecer que o senhor encobriu uma verdade. Num outro ponto o senhor disse a verdade. Que o senhor tinha conhecimento da transação germano-brasileira. Quer dizer, primeiro o senhor disse que não tinha. Por quê, senhor Gonzalos? Por quê?

— Não lhe interessa! — Gonzalos gritou. Ele apontou o dedo para Marvin. — Estou fora de mim, indignado pelo senhor ter informado isso, senhor Marvin! E na verdade apenas para explicar que o senhor é quem finge.

— Doutor Gonzalos! — gritou Marvin. — O senhor não tem idéia do que diz!

— Oh, sei sim. E exijo...

— Calma! Ainda não terminei — disse Valerie. — Durante mais de três anos o senhor trabalhou diretamente próximo de Calera! Durante mais de três anos! O que o senhor sabe que ainda não disse, senhor Gonzalos? O que o senhor sabe de como Bolling conseguiu chegar até Calera e falar com ele sobre a transação nuclear? O senhor está certo de que foi Bolling. Um absurdo! Não pode nunca ter sido Bolling. Nunca. Calera muito certamente teria contatado Bonn. Até mesmo se Bolling tivesse sido anunciado oficialmente pela embaixada como o homem com o qual ele deveria fixar a versão oficial. Resultado: Bolling só teve uma chance de chegar até Calera, caso ele realmente estivesse a serviço do governo alemão. Portanto, Bolling seria o homem que mentiu e enganou a todos nós Digo isto com muita tristeza, pois trabalhei com ele muitos anos e o tinha como amigo.

— Oh, senhor, estou dizendo, a voz parecia muito estranha! — gritou Marvin. — Cada vez mais acredito que não era Bolling.

— O senhor Gonzalos ainda acredita no contrário — ou...?

— Ainda — disse este. — Ou seja, sou tão idiota em me comprometer com a insistência de minha convicção de saber mais sobre Calera, Bolling e a transação nuclear do que reconheço. Isto é um absurdo! Marvin e eu nos conhecemos como cientistas há anos. Foi Marvin que me citou e à minha mulher como o primeiro contato no Brasil. É verdade ou não, Marvin?

— É verdade.

— Mais alto! — Gonzalos gritou.

— É verdade! — gritou Marvin também.

— Então — gritou Gonzalos — vocês todos pelo menos deveriam suspeitar de Marvin como de mim!

— Talvez o senhor tenha traído a sua confiança — disse Valerie Roth, friamente. — O seu bom amigo Bolling também fez isso.

— Isso é monstruoso — disse Gonzalos, tremendo. — Não permito isso. Não fico mais nem um minuto com essa pessoa no mesmo espaço. — Ele foi em direção à porta, de onde mais uma vez olhou para trás, depois também desapareceu.

— A mais pura sinfonia do adeus — disse Marvin.

— Agora para a senhora Raal — disse Valerie.

— Para mim?

— Sim, para a senhora. A senhora viu em Altamira quando Bolling telefonou. A senhora ouviu que ele falava com Zinner e pedia proteção para Markus Marvin.

A porta se abriu, Joschka Zinner entrou.

— Não interrompam — disse ele. — Pensei bem. Quero ouvir mais um pouquinho. Mas não volto mais!

— Senhora Raal! — gritou Valerie, que provocativamente não prestou atenção em Joschka.

Katja enrubesceu. Também enrubesceram as suas espinhas. Ela olhou de forma infeliz para Bernd Ekland.

— Não é verdade, senhora Raal? Foi assim! Assim a senhora contou para Ekland e Marvin.

— Bem... — começou Katja, mas foi interrompida por Ekland.

— Preciso dizer algo importante, para todos vocês — disse o cameraman. Está certo que a senhora Raal viu o senhor Bolling ir ao telefone. Também ouviu quando ele falou. Ouviu também o nome Zinner. Desde então ela pensou em tudo com muita calma e acha hoje que ela nunca poderia ter afirmado seriamente que Bolling telefonou para o senhor Zinner, apenas porque ele citou o nome.

Mas telefonou — disse Zinner.

— Espere! Ainda não terminei. — Ekland se levantou. — Em nome da senhora Raal e no meu dou agora uma declaração. Devia ter dado há muito tempo. Estou agradecido pela oportunidade. A senhora Raal e eu fomos engajados pelo senhor Zinner...

— Porque você é o melhor cameraman que tenho: E Katja o melhor técnico — disse Zinner.

— ...e nos alegramos muito que a sua escolha tenha recaído sobre nós — continuou Ekland. — A senhora Raal e eu só nos preocupamos — só, digo — com o trabalho. E o fizemos o melhor possível. Nunca nos deixamos envolver em qualquer que fosse — em qualquer que fosse — a intriga. Desta vez também o fazemos. A senhora Raal observou Bolling ao telefone. Isto é tudo. Não há nada mais para ser contado. Nunca haverá nada mais para ser contado. Não temos nada a ver com esse terrível segredo, sobre o qual só se fala aqui. Não sabemos se realmente há algo assim... não queremos saber. Faremos o nosso trabalho, ponto final. Se vocês não quiserem assim, vamos embora imediatamente.

— Um momentinho — disse Joschka Zinner. — Isto é talvez um descaramento, Ekland. Vocês vão embora imediatamente, se todos não aceitarem que vocês não querem ter nada a ver.

— Sim — disse Ekland.

— Ou talvez nos tenhamos enganado, e vocês dois são os que estamos procurando, e agora, quando tudo está esquentando, vocês se mandam e...

Ekland empurrou o pequeno produtor para o lado.

— Vamos, Katja! — ele disse.

Alguns segundos depois os dois haviam deixado o escritório Isabelle, que durante muito tempo cochichou com Gilles, levantou a mão.

— Um momento, por favor!

Os que restaram olharam para ela.

— É muito desagradável para mim, por isso não queria falar sobre o assunto — disse Isabelle. — Agora vejo que tenho de falar. Na noite anterior ao seu desaparecimento, Peter Bolling veio ao meu quarto de hotel em Altamira e... me importunou. Chamei por Gilles. Bolling teve uma crise de asma. Quando esta passou, ele queria se desculpar e...

— E na manhã seguinte ele havia desaparecido — disse Gilles.

— Crápula — disse Joschka. — Tomou a tentativa de estupro como pretexto, porque ele precisava se mandar urgentemente.

— Se mandar para onde?

— E eu sei? Mas talvez a senhora saiba.

— O senhor acha que a senhora Delamare inventou esse aborre­cimento?

— Sim, acho. Por que sempre devo ser culpado de tudo? Talvez tenha tido os seus motivos para ajudar Bolling, porque ele precisava sumir.

Gilles disse em voz baixa e lentamente: — O senhor considera impossível que ele tenha desaparecido com vergonha pelo seu comportamento?

— Não, não! — Joschka disse. — Realmente não, senhor Gilles. Estupro, ainda por cima um que nem foi levado a cabo — o que vem a ser isto?

— No seu ofício, me parece, nada de muito especial — disse Gilles.

— Se quer me ofender, invente algo melhor, senhor! Não, nada de especial, e não apenas no meu ofício.

— Compreendo — disse Isabelle.

— Pois é. Ainda lhe falta a experiência de vida, jovem senhora.

Gilles se levantou.

— Atreva-se — disse Joschka, recuando. Ele se tornou pérfido. — E daí, se você inventou o estupro? Aparentemente acusa Bolling. Na verdade, protege-o. Até que ponto vocês dois estão metidos nessa estória?

Gilles foi ao seu encontro.

Joschka correu para a porta. De lá, disse ofegante: — Basta! Realmente! Isto aqui é um pinel! Por que Gilles e a jovem senhora não podem ter nada a ver com a safadeza? E por que não a senhora advogada, por gentileza?

Logo em seguida ele havia desaparecido novamente.

— Sim — disse Miriam — por que não eu? Represento o senhor Marvin e a senhora Roth. E a Sociedade de Física de Lübeck. Durante todo o tempo se falou aqui que gente poderosa quer vê-lo e à senhora Roth e aos outros o mais longe possível, para que não tenham oportunidade de desvendar o que realmente está acontecendo. Para tal, se serviram de Joschka Zinner.

— Isto a senhora mesma supôs — disse Valerie.

— Vou chegar lá. Quem não diz que não fiz isso com más intenções? O meu cliente Marvin está obcecado pela idéia fixa de que os alemães teriam construído a bomba atômica — ou poderiam construir a qualquer hora. Ele nunca desistiu dessa idéia fixa — nem no Brasil! E principalmente quando o procurador Ritt o chamou de volta para Frankfurt.

— Ele afirma isso, mas não tem nem a mais ínfima prova — disse Valerie, zangada. — O físico Erich Hornung, ao qual Markus telefo­nou, foi atropelado, exatamente quando Markus era interrogado. Não pode dizer nada mais. Todas as gravações foram roubadas desse agente da NSA, depois de ter sido espancado. Está com traumatismo craniano, no hospital. Ritt e Dornhelm informaram a Bonn tudo o que Marvin contou. Bonn e os americanos mandaram revistar a instalação de pesquisa nuclear em Karlsruhe. Nem a menor pista de um trabalho com transurânios, especialmente transurânio 241. E eles puseram Karlsruhe de cabeça para baixo, meu Deus! Não acharam nada!

— Porque eles lá tiveram tempo de desaparecer com tudo — disse Marvin, colérico.

— Seja o que for que tenha acontecido — você não tem nenhuma prova disso, e nunca teve!

— E mesmo assim mandaram chamar de Paris o meu cliente — disse Miriam. — Por que eu e ele não poderíamos ser aqueles que, com esse frisson em torno da bomba, em cuja existência Marvin e eu, na verdade, não acreditamos — mas só fazemos de conta que —, desviamos a atenção para uma coisa muito mais importante?

— A senhora... a senhora... — Valerie parou. — Tudo isto é enlouquecedor!

— Talvez deva ser — disse Miriam.

— Mas a senhora nos chamou aqui para nos comunicar que um de nós deve saber mais!

— E se eu for esse alguém que sabe mais? — Miriam perguntou.

Marvin atacou Valerie: — Não se achou nada em Karlsruhe, você diz. Como sabe disso? Através de suas relações em Bonn, não é? Suas relações maravilhosas. Ninguém sabe com quem.

— Devem ser realmente excelentes relações — disse Miriam. — A senhora sabe de tanta coisa, senhora Roth.

— Você sempre nos ajuda — disse Marvin, que se enraivecia cada vez mais. — Desde o começo. Ritt e Dornhelm não queriam me deixar ir até o Brasil por causa da estória com Hansen. Então você conseguiu que me fosse permitido viajar. Sem a sua ajuda, eu teria ficado aqui. E com isto a série não seria feita, pois a televisão de Frankfurt fez questão de que eu dirigisse a equipe. Você abriu caminhos com as suas relações...

— Seu filho da mãe! — gritou Valerie repentinamente. — Você ousa me culpar? Eu, que, como você bem sabe, sempre consegui que o professor Ganz e a Sociedade de Física em Lübeck se safassem de todas as dificuldades e...

— Você conseguiu, sim. Sejam quais tenham sido os caminhos. Até Philip Gilles você conseguiu convencer. Ele deve escrever. Tanta publicidade quanto possível, tudo pelo mundo ameaçado. As pessoas não devem falar de nada mais que não seja isso. Não deve se interessar por nada mais. Para isso você faz tudo. Senhora Goldstein, a senhora compraria um carro usado da senhora Roth?

— Bem, agora chega — disse Valerie. — Você ficou louco, Markus. Infelizmente não posso mais ficar aqui, a senhora entenderá doutora Goldstein. Desculpe-me.

A porta se fechou atrás de Valerie Roth.

— Mulher interessante — disse Miriam.

— A senhora também é muito interessante, doutora — disse Markus Marvin, colérico.

— Como assim, por favor?

— Sou seu cliente, a senhora diz...

— Sim, o senhor é.

— ...A senhora concorda com a minha opinião sobre a bomba...

— Sim, e daí?

— ...e então de repente a senhora vira tudo e declara a Valerie que nós dois poderíamos estar representando, porque eventualmen­te perseguimos metas totalmente diferentes. Muito obrigado, dou­tora! Muito obrigado mesmo. Foi uma grande ajuda para mim e o meu crédito. Conseguiu o que queria. E esse convite até aqui! Para quem a senhora trabalha, doutora Goldstein? De qualquer forma, não mais para mim. Não sou mais o seu cliente. A partir de agora retiro a minha procuração. Um bom dia para todos!

— A senhora fez o que podia, senhora Goldstein.— disse Gilles, depois que também Markus Marvin fora embora. — Não pôde provocar mais do que provocou.

— Não — disse Miriam. — Mas o que consegui com isso? Agora todos são inimigos de todos, mas o que acontece não é grave demais para me calar?

— A senhora teve de fazê-lo — disse Gilles.

Isabelle deu a Miriam um pacotinho.

— Trouxemos para a senhora. Philip achou algo em sua casa na Suíça, quando estávamos lá.

— O quê?

— Só desembrulhe quando estiver sozinha com a sua mãe — disse Gilles. — Também precisamos ir. Tudo de bom! Lá na frente, na esquina, há um ponto de táxi, eu sei.

 

 

Cinco minutos depois Miriam saiu para o jardim. Ainda estava muito quente. A cega estava sob a luz do sol poente. Miriam se sentou ao lado dela.

— E então? — Sarah Goldstein perguntou.

— Tudo em vão — disse Miriam. — Não avancei nem um passo — Ela deu o pacotinho à mãe.

— O que é isto?

— Isabelle Delamare e Philip Gilles me deram.

— Abra!

Miriam abriu o pacote. Em seguida ficou imóvel e olhando o que estava sobre o papel.

— E então? — perguntou a mãe.

Miriam pôs no seu colo um par de sapatinhos bem velhos.

Sarah Goldstein passou os dedos sobre eles. E os seus olhos mortos se encheram de lágrimas.

 

— Queremos ter calor quando quisermos! — gritou o rapaz magro, na tarde de 22 de setembro, na entrada do local da feira em Essen. Cerca de 30 pessoas o escutavam. Era o dia da abertura da DEUBAU, uma importante feira para tudo o que diz respeito à construção de casas. O rapaz era um propagandista brilhante. Ao lado dele estava o aparelho, para o qual ele fazia propaganda, e sobre este estava escrito o nome de quem queria ganhar dinheiro com ele: RWE.

Esse aparelho tinha um metro e meio de comprimento, 70cm de altura e dez de profundidade.

O rapaz falava o dialeto da Renânia:35 — Isto, minhas senhoras e meus senhores, é o melhor que temos a oferecer. Armazenador de energia para qualquer cômodo em sua casa! Os senhores podem acomodá-lo facilmente, tão plana que é a coisa. E como disse, ele economiza, isto é uma alegria. Os senhores o compram uma vez, e ele dura para sempre! Se comprarem óleo, também não querem comprar óleo todos os dias, apenas quando ele solicitar. A questão é quando se pode recarregá-lo. Aqui no aparelho, os senhores vêem, aqui tem algo que pensa, quer dizer, há um dispositivo dentro que controla à noite...

— Não, não, muito obrigado! — gritou um do grupo.

— Não diga não, não, estou justamente explicando o aparelho! Um dispositivo que controla a temperatura noturna exterior, ele controla quanto resta de calor dentro do aparelho, para que não seja sobrecarregado. E se 40% são suficientes com a temperatura, então ele faz isso, o aparelho. Os senhores vêem: ele é superior à sua calefação.

A BETA de Ekland havia sido montada por Katja sobre o tripé. A câmera rodava e filmava o rapaz e seu discurso. Gilles, Isabelle, Marvin, Loder, como também Monique e Gerard Vitran, estavam bem junto da câmera. Isabelle traduzia baixinho para os seus amigos franceses.

Eles filmavam a cena para o tema economia de energia, o campo de ocupação principal dos Vitran. Se não se acabasse o mais rápido possível com o louco desperdício de energia, se o consumo de energia finalmente não baixasse, e enormemente, então energias alternativas, como a energia solar, não teriam nenhuma chance, então o mundo não teria nenhuma chance mais. Na França, o Energy Systems International dos Vitran havia conseguido que a energia fosse economizada radicalmente. Estava previsto que a equipe relatasse sobre o assunto. Por causa da feira DEUBAU em Essen, Vitran, porém, propôs começar com uma documentação da situação alemã.

A atmosfera no grupo depois da discussão na casa de Miriam Goldstein, em Lübeck, havia esfriado muito, não estava abertamen­te hostil, mas nervosa. Um observava, desconfiado, o outro e havia sempre briguinhas. Ferido e ofendido, Bruno Gonzalos viajou até Hamburgo, para se encontrar com o pessoal do Greenpeace e combinar um filme sobre o descarregamento de ácido de enxofre no mar. Ritt não havia dado mais notícias e nada de novo havia sobre Peter Bolling.

O magro rapaz na entrada da feira não propagava economia de energia, mas o contrário: um consumo de energia ainda maior — para o proveito e prosperidade da RWE. E por isso Gerard Vitran queria filmá-lo de qualquer forma.

— Com este aparelho — gritava o rapaz —, com ele os senhores não precisam, digamos, comprar óleo para armazenar o ano inteiro. Aqui os senhores só pagam o que consumirem.

Gritos e inquietação entre os curiosos, agora em maior número.

— Não me acalmem! — disse o rapaz, espirituoso. — Digam-me o contrário, se acharem assim. Só digo o seguinte: uma em cada três pessoas em Essen tem calefação elétrica. Mais de 200 mil cidadãos de Essen não podem se enganar, não é? — Quando não se revidava imediatamente, ele continuava a gritar, triunfante: — É, os senhores não acompanham, não é? Os senhores estão muito rígidos, é isso

— E você não tem dores? — cochichou Katja para Ekland.

Ele balançou a cabeça.

— Nenhuma?

— Nenhuma mais, querida — cochichou ele.

Katja beijou seu rosto, a sua pele deformada havia corado de alegria. Cortisona, pensou ela. As injeções. Elas têm efeito. Com­prei dez velas e as acendi com um só fósforo. Cinco para ele, disse Bernd...

Um dos ouvintes gritou: — Pára com essa estória de mais energia, cara! Com os preços de energia que vocês querem! Isso é uma sem-vergonhice, tão altos que são.

— Bravo!

— É verdade!

— Vocês nunca estão satisfeitos?

— Calma, calma! — disse o rapaz, rindo. — Vocês dizem “muito caro, meu senhor”...

— Sim, digo!

— Então eu digo: olhem para os habitantes de Essen! Deles já são 200 mil que têm uma calefação armazenadora. Acham que 200 mil não saberiam o que estão fazendo? Se pegarem, entre eles, a metade, 50%: eles têm para a sua calefação um preço por metro quadrado de dez marcos por ano.

— Está bom — disse Valerie. — Obrigada, Bernd! É suficiente. Agora ele só faz se repetir. Vamos para o pavilhão pegar Olsen, como contraponto.

— OK — disse Ekland, parando a BETA.

— Cara, os irmãos talvez possam vender e falar besteiras para as pessoas — disse Marvin a Loder.

— Espere pelo que Olsen tem a dizer — respondeu este.

Os pavilhões estavam lotados de visitantes, o ar estava ruim, o barulho, estrondoso. Várias equipes de TV filmavam máquinas sensacionais ou exposições. Diante do estande da firma Olsen, Katja havia, vibrando de alegria, montado em tempo recorde todos os aparelhos novamente e “ligado” o especialista em calefação, Karl Olsen, de cerca de 45 anos, com Valerie Roth. Seguranças da feira isolaram no estande o espaço suficiente. Por detrás das cordas vermelhas os curiosos se apertavam. Katja estava molhada de suor, de tanto que havia trabalhado. Respirando com dificuldade, Ekland a olhava. Ele a beijou no rosto.

— Estamos prontos — disse Katja a Valerie, que havia recebido ainda, por causa do barulho, um microfone de mão.

— Estou em ordem? — Rapidamente Katja segurou um espelho. Valerie se analisou, pintou os lábios, Katja ajeitou um cacho de seus cabelos. Finalmente, como em todas as gravações, ela colocou uma folha de papel em frente à BETA, onde estava escrito: FEIRA ESSEN/3, ENTREVISTA OLSEN.

— Vamos! — disse Ekland. — Primeiro a senhora está sozinha na imagem.

Valerie afirmou e começou a falar um texto que ela havia preparado com Loder e Vitran: — Minhas senhoras e meus senho­res, vocês já viram e ouviram falar como a Rheinisch-Westfälisches Elektrizitätswerk tenta vender cada vez mais energia — aqui com a propaganda de uma calefação elétrica. Estamos no pavilhão da DEUBAU no estande do senhor Karl Olsen.

A BETA sobre o tripé saiu dela e mostrou o estande e seus visitantes, mas de uma forma que Valerie continuou na imagem. — O senhor Olsen é um médio empresário numa cidade sobre o Meno. Como pioneiro na técnica de calefação ele teve como meta ajudar os seus clientes a economizar energia — isto é útil para os clientes, é um negócio para o senhor Olsen e bom para o meio ambiente. Quase nenhum de nós sabemos o quanto também ele pode contri­buir para a descarga do meio ambiente, quando ele simplesmente dá à sua calefação a melhor condição possível, ou seja, quando ele constrói ou restaura de forma que a sua casa precise de antemão de menos calefação. Vocês verão os mais diversos tipos de casas com energia solar, com espelhos solares no telhado ou nas paredes. Todos esses tipos precisam, contudo, de energia solar renovada não importa como seja fornecida. A invenção genial do senhor Olsen é uma casa que funciona quase que totalmente com energia solar ou seja, por assim dizer uma casa de energia zero. Senhor Olsen, pode-nos explicar como isso funciona?

A BETA agora filmava Olsen, que agora começou a falar e demonstrar o que dizia com elementos de construção e diagramas.36

OLSEN: — Em primeiro lugar: construo novas casas. Há também possibilidades de adaptar velhas casas, mas fiquemos com as novas! Se não aprendermos rapidamente a pensar num todo, se cada um só vir a sua área de interesse, como até agora, então em breve terminaremos numa rua sem saída. Não tenho absolutamente nada contra energia. Pelo contrário! Acho que no futuro precisaremos cada vez mais de energia. Mas primeiro um outro tipo, ou seja, a energia solar — e segundo com quocientes de consumo bem diferentes, quer dizer: podemos e iremos apenas utilizar um décimo da necessidade atual. Vejam, a União desconta das pessoas, atual­mente, ainda cerca de dez marcos por metro quadrado por ano. Isto é muito. São os hoje 270 Kwh para um metro quadrado de área habitada, de acordo com o desejo da União.

ROTH: — E o senhor constrói casas que só necessitam de um décimo dessa quantidade, senhor Olsen?

OLSEN: — Sim, construo. E posso lhe provar isso em cerca de 20 casas de família construídas por mim. Venha um dia a uma casa dessas, eu lhe mostrarei.

ROTH: — Iremos.

OLSEN: — Nas minhas casas só são necessários no máximo — no máximo 20 Kwh por metro quadrado e por ano — justamente um décimo daquilo que hoje é oferecido e malbaratado em energia. E tem mais: se calcular isso em óleo para calefação, são necessários numa das minhas casas de família dois litros de óleo no máximo para o metro quadrado, e num prédio pequeno até mesmo só um litro.

ROTH: — E como o senhor consegue isso?

OLSEN: — Deus, não sou nenhum gênio. A senhora disse coisa parecida agora há pouco, mas isto está errado. Tive exemplos quando comecei — na Escandinávia e sobretudo nos Estados Unidos. Fui até lá e estudei tudo detalhadamente.

ROTH: — Nesse meio-tempo o senhor tem lá suas próprias filiais.

OLSEN: — Certo. E muitas construções novas nos EUA e na Escandinávia estão chegando muito perto de minha meta de casas energia zero. Aqui na Alemanha Federal ainda não chegamos esse ponto. A senhora perguntou como conseguimos.

ROTH: — Sim.

OLSEN: — Através de uma combinação de medidas técnicas de construção e climáticas. Para começar com a sustentação das janelas nas paredes exteriores, com a qual não temos praticamente nenhuma perda de calor para o exterior. Ou seja, primeiro nenhuma perda na instalação e depois nenhuma perda através das janelas.

ROTH: — Como isso acontece, então?

OLSEN (demonstra com desenhos e modelos): — Minhas janelas têm uma proteção para o calor, que se adapta exatamente aos horários e estações do ano. Essa proteção é dirigida por sensores exteriores. Aqui embaixo existe um sistema de ventila­ção... As janelas são, naturalmente, coletores solares — já explico como eles funcionam. Nos três últimos períodos de calefação eu provei — provei — que pude baixar o consumo de energia de minhas casas novas realmente em nove décimos do consumo de energia até agora aceito. Agora pense que descarga isso traz para o meio ambiente, se existem milhares, milhões de casas como essas! Onde 90% a menos de combustível são consumidos, também haverá respectivamente menos materiais nocivos. Se­riam evitáveis mais ou menos 2,7 milhões de toneladas anuais de materiais nocivos, com os quais famílias e pequenos consu­midores carregam o meio ambiente. Uma técnica de energia para a casa, como queremos e construímos, é para a proteção do meio ambiente pelo menos tão importante quanto o catalisador no automóvel.

ROTH: — Qual a aparência de sua invenção?

OLSEN: — Simples. As áreas das janelas nas outras casas, também nas casas solares, são áreas de perda, no que se refere à energia. Minhas janelas são áreas de lucro. As velhas janelas são dependentes da luz do sol e de sempre nova energia solar, não é? Em minhas casas não se perde nem um pouco de energia. Mas através da técnica solar sempre se acrescenta mais energia. Minhas janelas assimilam toda espécie de radiação. Não apenas radiação solar. Também radiação infravermelha à noite. É claro que tudo fica mais fácil se a maioria das janelas estiver na direção sul Mas casas com janelas para o norte também têm um saldo positivo de energia — isto me foi confirmado em diversos pareceres do Instituto Max Planck de Muellheim/Ruhr. Veja aqui uma janela dessas! Dá pra ver bem com a câmera? Bem... Então Em primeiro lugar esta é uma janela com vidro duplo. Entre os vidros há três persianas transparentes, que sobem e descem auto­maticamente. São feitas de folhas especiais e regulam a entrada de energia de fora de acordo com o horário e a estação do ano. A senhora pode comparar isso com a troca de roupa das pes­soas... E depois vem uma outra persiana que tem uma camada exterior de metal e protege durante a noite a radiação de frio. Chamo isso de casa “inteligente”. Minha casa “inteligente” precisa de nove décimos a menos de energia da casa “burra”, às quais ainda podem ser vendidas quantidades bem exageradas de energia.

ROTH: — Isto é incrível!

OLSEN: — Isto é incrível, a senhora tem razão. Só não é incrível o comportamento do nosso governo.

ROTH: — Como ele se comporta?

OLSEN: — Apesar de todos os pareceres, ele nega à minha firma o reconhecimento dessas janelas como instalação de energia. (Fala cada vez mais alto e com raiva.) E porque ele não as reconhece, o ministro das Finanças declara que as nossas janelas não podem ser descontadas do imposto — de acordo com o parágrafo 280a do imposto complementar, previsto para isso.

ROTH: — O ministro das Finanças se nega?

OLSEN: — Se nega, sim. E agora ouça bem! As calefações elétricas dez vezes maiores, como o RWE aconselha — a senhora viu uma lá fora, o rapaz a recomendou tanto, recomenda o dia inteiro —, essa calefação elétrica dez vezes maior é, de acordo com a mesma lei, descontada do imposto.

ROTH: — Um desconto no imposto é, para a maioria das pessoas que constrói ou manda construir uma casa, decisivo para a consu­mação do encargo. Mas se ele se nega a reconhecer as suas janelas como instalações solares...

OLSEN: — ...então isso é igual a uma desvantagem de 50% em comparação com a concorrência, beneficiada pelo desconto do imposto, a senhora entendeu bem. Sem facilitamento de imposto as casas de família novas construídas com as nossas técnicas são 5 a 10% mais caras que as convencionais. Apenas com os prédios pequenos podemos ser tão baratos quanto os convencionais, pois nossas casas não necessitam de custos de investimento mais altos. Quer dizer: este ano construiremos apenas prédios.

ROTH: — Mas essa decisão do ministro das Finanças é injusta.

OLSEN: — Claro que é. E vou continuar a lutar contra ela. É assim que acontece com as pessoas como a gente — pergunte ao senhor Loder como as inspeções dificultam a sua vida com a sua aparelhagem de energia solar! Ao mesmo tempo, e aí está a perversão, querem fomentar, com esse parágrafo 280a, a economia de energia.

ROTH: — O senhor tem uma explicação para o procedimento injusto dos consultores fiscais?

OLSEN: — Se tenho! E digo alto, é a pura verdade — assim é a realidade: o meio ambiente sofre, os consumidores de energia são enganados — mas o Estado e as companhias de energia ganham muito dinheiro. E o consumo de energia desnecessário seria evitável já há muito tempo.

ROTH: — O senhor então se vê diante de uma frente que impede a economia de energia por puro interesse.

OLSEN: — Isto mesmo! (Em voz alta.) Há algumas semanas o ministro do Meio Ambiente, Toepfer, declarou numa reunião de médios empresários em Xanten que uma boa técnica não necessita de apoio do Estado. O homem disse isso, palavra por palavra! Cada vez mais existem fomentos extras para tecnologias que prejudicam o meio ambiente. As que o poupam, quando entram no mercado — veja o meu caso —, sofrem dificuldades. Já é tempo de abrirmos o bico.37

Um homem de terno marrom havia se aproximado. Ele disse em voz baixa: — Senhor Markus Marvin?

— Sim — disse este. Ele olhou para o homem com desconfiança. — O que é?

— Ernst Petersen — disse o homem, mostrando uma identificação. — Polícia criminal. Acabamos de receber a notícia de que o doutor Bruno Gonzalos voou de Hamburgo, via Londres, para o Rio de Janeiro, há seis horas.

 

 

Uma conversa telefônica.

— Clarisse?

— Quem fala?

— Aqui é Isabelle Delamare, Clarisse.

— Isabelle, onde está você?

— Em Essen.

— Onde?

— Essen. É uma cidade no oeste da Alemanha. Estamos filman­do numa feira. Agora mesmo chegou um policial e disse que o seu marido voou para o Rio. O que significa isso?

— Não sei, Isabelle.

— O que quer dizer?

— De onde você fala?

— De uma cabine telefônica.

— Está sozinha?

— Sim.

— Você me alcançou por pouco.

— Eu... o quê?

— Bruno e eu vamos desaparecer daqui, tão logo ele chegue.

— Mas por quê, Clarisse, por quê?

— Não sei. Ele me telefonou e disse que eu deveria arrumar algumas coisas. Vamos viajar por um tempo.

— Para onde?

— Não sei.

— Por quê?

— Também não sei.

— Mas...

— Dou notícias em breve para você, Isabelle. Prometo.

— Clarisse... Clarisse... Como vai a cotovia?

— Cresce e prospera. E tenho a impressão de que já se mexe.

 

 

Três carros iam pela estrada Düsseldorf-Frankfurt. No primeiro, um Mercedes, estavam Katja Raal ao lado de Bernd Ekland, que dirigia o pesado carro. Nas duas portas dianteiras do Mercedes estava escrito TELEVISÃO DE FRANKFURT. Atrás estavam Isabelle e Gilles.

Quem dirigia o BMW com placa de Lübeck era Markus Marvin; ao lado dele estava sentada Valerie Roth. Os dois discutiam. No banco de trás estava Loder. O rádio do carro estava ligado para as informações de trânsito. Ouvia-se jazz em som baixo.

No terceiro carro, um Citroën com placa de Paris, estavam Gerard Vitran e sua mulher Monique. Ela olhava para o Mercedes, no qual estavam Isabelle e Gilles.

— Nossa pequena... quanta alegria deu a ele... e ela mesma está tão feliz... pelo menos duas pessoas nessa equipe que estão felizes.

— Duas? E nós dois, não somos nada?

— Ah, Gerard!... Claro, ele é bem mais velho... Ela ficará muito triste quando ele morrer...

— Quem sabe quando alguém morre — disse Vitran. — Além disso: Isabelle poderia ser muito infeliz, quando ele for muito velho e mudar. Veja bem: os dois se amam. Para a nossa pequena, esse amor dura uma eternidade. Isabelle não pensa em idade, doença, morte. Ele sim. Ele certamente. Acho que agora o conheço bem. Gilles sabe que esse amor não será para sempre, eterno... Isabelle o libertou da prisão de sua lembrança... sim, ela fez tudo... e mesmo assim ele sabe: essa felicidade é temporária... Ele sabe que não pode exigir uma eternidade, na sua idade e de uma mulher tão mais jovem.

— Às vezes penso que o amor é a coisa mais terrível que há — disse Monique.

— A mais terrível e a mais maravilhosa — disse Vitran. — Ambos ao mesmo tempo. Ele sabe disso. E certamente ele está mais feliz — como eu, como nós dois enquanto espectadores — por esse ser um amor leve, alegre, sereno, chérie... Eles riam tanto um com o outro... um sobre o outro... Deixe-os com a sua felicidade, enquanto ela durar!

No Mercedes Katja disse, se virando para Gilles e Isabelle: — Vocês entendem que Bernd e eu só queremos fazer o nosso trabalho e não nos metermos nessa estória?

— Precisamos saber disso — disse Isabelle.

— Alguns, acho, não entendem... e nos consideram inescrupulosos... covardes... sem sentimentos...

— E se alguém faz, então deve! — disse Ekland. — Tanto faz para nós. Não vamos nos deixar envolver nessa coisa suja... ela é suja, senhor Gilles?

— Parece que sim.

Três carros iam pela estrada.

Atmosfera ótima, pensou Loder no BMW. Desde que estiveram em Lübeck, na casa da Goldstein. E agora ainda mais, pois Gonzalos fugiu. Estão aflitos. Mas é uma situação de merda. Realmente ninguém pode mais confiar em ninguém. Mas esta viagem é a maior loucura. Marvin briga com Roth. Bate na direção. Olha para ela em vez de olhar para a frente. E isto a 160Kwh!

— ...eu tenho todo o direito de ter os meus pensamentos! Quem financia a Sociedade de Física? Bonn. O Ministério da Pesquisa. Ou você quer negar isso?

— Não quero negar nada — disse Valerie. — Você está colérico. Precisa desafogar sua cólera. E porque justamente eu estou aqui, em mim.

— Também estou aqui — disse Loder. Os dois não o ouviram.

Marvin bateu novamente na direção. — Financiada por Bonn! Muito bonito. Maravilhoso. E Bonn nega que temos a bomba. O que na verdade você sabe sobre ? Você sempre sabe de tudo! Pelas suas relações em Bonn. Você ainda não disse nem uma palavra sobre a bomba e Bonn...

— Escute aqui — gritou Valerie —, você ficou mesmo louco, Markus! Você fica nervoso e ousa insinuar...

— Sim, fico. Sim, ouso. Mas mesmo assim seria possível, não é, que você saiba um monte de coisas sobre a bomba com o seu grau de informação... que Bonn lhe diga o que você deve nos dizer... e se sobretudo se proteger... Mais do que possível seria...

Ele se preparou para a ultrapassagem de um carro.

— Não! — Valerie gritou. — Atrás de nós vem um!

— E daí? — Marvin perguntou. Ele ultrapassou. Os faróis do outro carro se acenderam, sua buzina latiu, ele passou raspando.

Marvin riu.

Loder disse muito alto: — Fim. Ponto final. Agora chega. Quero viver um pouco mais. Senhor Marvin, lá na frente há um estacionamento. O senhor vai parar e me passar a direção. De qualquer forma.

Para a sua estupefação, Marvin obedeceu.

Eles trocaram os lugares, sem que alguma palavra tenha sido dita. Agora Loder dirigia e Marvin se sentou cismado no banco de trás. Valerie se calou e olhava a pista que voava em direção contrária. Nojento, pensou Loder. Agora ninguém fala. E deve­mos trabalhar juntos! Preciso pelo menos tentar começar uma conversa normal. Ele disse em voz alta: — Há um jovem econo­mista, Olav Hohmeyer, que provou que a pretensamente barata energia de carvão e nuclear na verdade é um negócio de grandes prejuízos...

Os outros dois continuaram calados.

Ah, pensou Loder, simplesmente vou falar: — ...No seu livro38, Hohmeyer parte do fato de que as mais graves catástrofes ecológi­cas deixam a opinião pública indiferente — e os políticos, principal­mente — até que as perdas apareçam em valores monetários...

Silêncio. Música baixa no rádio do carro.

— Vocês estão me ouvindo? — Loder perguntou.

— Exatamente — disse Marvin.

Valerie Roth não disse nada.

— Continue, continue, senhor Loder! — Marvin disse.

— Está bem — disse este. — Custos sociais do consumo de energia, chama-se o livro de Hohmeyer. Ele trabalha no Frauenhofer-Institut de Karlsruhe — novamente Karlsruhe! — com técnica de sistemas e análise de inovação. Com o seu livro ele foi responsável por grande excitação, em viagens de traba­lho. Ele chega à conclusão que a economia de eletricidade investiu erradamente desde muitos anos, porque seguiu hipóte­ses erradas, que refletem apenas insuficientemente os verdadeiros custos dos portadores de energias tradicionais, carvão e energia nuclear, para a produção de eletricidade.

— Também precisamos falar sobre isso! — Marvin disse.

— De qualquer forma — disse Loder. — Mas não filmem justamente agora em Karlsruhe. Telefonarei para Hohmeyer e pedirei para vir até Binzen.

— Ótimo.

— Os custos não incluídos no preço da eletricidade em forma dos mais variados riscos e prejuízos para a saúde e meio ambiente — escreve Hohmeyer— são descarregados, com a tolerância estatal, em terceiros inocentes: os cidadãos. E justamente isso são os “custos sociais”.

— O senhor agora não pode ultrapassar — disse Valerie Roth. — Atrás de nós vem um carro com uma velocidade de louco.

— Ele já o viu há muito tempo — Marvin disse. — Fique quieta!

Oh meu Deus, pensou Loder. E ainda estarão juntos por muitas semanas. Aí vem chumbo!

Um carro grande passou pela sua esquerda, buzinando, com os faróis acesos.

— Totalmente high ou bêbado ou ambos — disse Valerie Roth. E para Loder: — Vamos, agora! Agora dá! Ou quer ficar eternamen­te atrás desses idiotas? Perdão, senhor Loder, mas realmente não sei o que há com Markus. Como ele se comporta...

— Cale a boca! — Marvin disse, atrás.

Loder se preparou para a ultrapassagem. Ekland no Mercedes à sua frente o havia feito há muito tempo.

— Continue, senhor Loder! — Marvin disse.

— Não sei. Faço vocês dois ainda mais nervosos.

— Continue, por favor! — Marvin disse.

— Está bem... No livro de Hohmeyer são encontrados os custos suplementares exatos, dos quais ele conclui que o carvão e o urânio algum dia acabarão. Por isso ele é a favor da exploração de novos sistemas de energia. Averigua os gastos para a pesquisa de base e desenvolvimento no setor nuclear e de carvão, como também os custos para a proteção policial e contra catástrofes... Pense apenas nos custos da polícia e da fronteira e sei lá o que mais em Gorleben e Wackersdorf e a infra-estrutura respectiva, como casernas, transporte, helicópteros, aparelhagem, prepara­ção de trens ABC completos para grandes acidentes! Disto re­sultam “custos sociais” entre quatro e 12 centavos por Kwh de energia nuclear ou de carvão...

— O senhor está a 200 — disse Valerie.

— Ekland está a pelo menos 220 — disse Loder.

— Se ele quer se matar, problema dele. Tire o pé do acelerador.

— Como quiser, senhora Roth. — Se continuar assim, todos acabarão no pinel, pensou Loder, e disse: — Ao contrário, vento e sobretudo energia solar! Aqui se calcula uma “utilidade social” através de qualidade de vida melhorada e a criação de empregos. Esse efeito útil, porém, não se reflete nos preços. Hohmeyer calcula de seis a 17 centavos por Kwh. Conseqüentemente: se numa comparação econômica entre energia nuclear e de carvão, de um lado, e solar de outro, os “custos sociais” se abatessem no preço, o que na verdade deveria acontecer, então a energia nuclear e de carvão se encareceriam em média em mais oito centavos, enquanto que a energia solar seria dez centavos mais barata. Com outras palavras: se uma tal conta de custo e utilidade se manifestasse nos preços de eletricidade, então se constataria: o fim da era nuclear e do carvão já está anunciado há muito tempo.

—Escute, esta é uma estória ótima! — disse Valerie, repentinamente convencida. — Tudo isso precisa ser contado por Hohmeyer diante da câmera. De qualquer forma!

— Ele o fará. Ele o fará. — Loder continuou: — A época de publicação de seu trabalho é favorável. O Ministério da Pesquisa aceita desde então requerimentos para subvenções para a obtenção de energia do vento — primeiramente limitada em 100 megawatts de capacidade. Isto é suficiente para os primeiros mil geradores de 100 Kw cada... mas mesmo assim: o fomento já chega bem perto de um reconhecimento dos cálculos de Hohmeyer...

— Energia do vento — disse Marvin, zangado. — E o que acontece com a energia solar?

— Nada — disse Loder. — Pelo contrário. Vocês ouviram em Essen o que está acontecendo. Calefações que pretensamente economizam energia são passíveis de desconto no imposto, as casas solares de Olsen, não. Hohmeyer calculou por alto quais são os “custos sociais” da pretensamente tão favorável energia nuclear e de carvão... Dependendo do tipo de cálculo, anualmente de 15 a 40 bilhões de marcos. Ou seja, se essa safadeza não puder ter um fim...

— Um momento! — Marvin disse.

— O que há?

— Aumente o volume do rádio, por favor!

Loder aumentou. Ouviu-se a voz de um locutor:

... A polícia pede a sua colaboração. Estão sendo procurados nas imediações de Frankfurt dois carros. Primeiro: uma ambulân­cia da marca Mercedes 207 D, branca, com listras largas vermelhas e a placa F-LB-1,2,3,5; segundo: um transportador VW do tipo 251 B, verde, placa HH-SU-8,7,6,5. Os dois carros podem também ter sido abandonados. Qualquer informação, entrar em contato com a polícia central de Frankfurt ou qualquer outro posto policial. Os carros estão sendo procurados em conexão com o seqüestro do industrial Hilmar Hansen e sua esposa Elisa. Repito: a polícia pede a sua colaboração. Estão sendo procurados nas imediações de Frankfurt...

 

LIVRO QUARTO

 

“Se alguém está tão preocupado assim, o conselho adequado poderia ser o seguinte: não forme uma família!”

Roger Berry, diretor da divisão de saúde e segurança da instalação de reprocessamento inglesa Sellafield, em fevereiro de 1990, a respeito do medo dos trabalhadores de que pudessem, como se declarou, transmitir leucemia para os seus filhos por causa da irradiação.

 

— Dentro dos Grupos Autônomos de Mulheres existe uma hierarquia extremamente rígida — disse Robert Dornhelm. Ele se encostou na sua feia cadeira atrás de sua feia escrivaninha em sua feia sala na polícia central e pressionou as pontas dos dedos umas contra as outras, enquanto se balançava para frente e para trás. Elmar Ritt estava sentado diante dele. — Vou-lhe explicar, rapaz. Mas lembre-se de que me prometeu não ficar nervoso. Temos todo o tempo do mundo. Os Hansens já foram levados há muito tempo para fora da área de busca. Simplesmente, azar demais. Preste atenção: bem em cima estão as lésbicas separatistas autônomas. São por assim dizer as rainhas radicais, as fêmeas-alfa, eu diria. Ouça bem, de repente tudo mudou. Interessantíssimo para todo sociólo­go. Depois vêm as lésbicas reformistas. E por último as mulheres-heteras, chamadas heteras.

— Chamadas como?

— Heteras, rapaz. Aquelas que fazem com mulheres e homens. Você está calmo?

— Meu Deus, estou!

— Está bem, rapaz. As lésbicas separatistas autônomas e as reformistas concedem às heteras acesso aos seus espaços e eventos, mas de modo algum a todas as informações e ações decisivas. São tidas como pouco confiáveis. Lógico, não é? Quero dizer, elas não podem também decidir, não é?

— Robert...

— Calma, rapaz, calma! Disse e repito: os Hansens por enquanto estão perdidos para nós. Agora precisamos esperar, até que os chantagistas dêem notícias. Fizeram tudo profissionalmente, seja lá quem tenha sido.

— Você disse que tínhamos uma testemunha.

— Por isso estou lhe contando das lésbicas radicais e essa coisa toda. Você vai ver logo por quê. Mas antes preciso lhe dizer algo muito seriamente. Você é o meu melhor amigo. Sinceramente. Gosto de você como de um filho. Maldição, você sabe tão bem quanto eu que a vida inteira lutamos batalhas perdidas, que nunca chegaremos realmente aos grandes safados. E apesar disso, rapaz, preciso lhe fazer uma acusação. Você é sempre absolutamente ambicioso, imediatista e inquieto.

— Vá com calma!

— Não, não vou com calma! Você simplesmente precisa se livrar disso! Nós dois — o que já não passamos juntos! Quantas vezes fracassamos. Justiça, meu bom Deus! Quantos criminosos escaparam de nós! Você finalmente precisa ser mais sensato, rapaz. Justiça — eu já sei, seu pai, meu pai... tudo isto não leva a nada. Eu também já tive grandes ideais. Assim como você. Esqueça-os! Aquilo com os nossos pais foi simplesmente azar pessoal. Acredite, de uma vez por todas: justiça é apenas uma palavra.

— Está bem — disse Ritt, fechando os olhos. — Está bem, Robert. Você tem razão. Continue!

Dornhelm se balançava na velha cadeira.

— Onde estava? Ah, sim! Nenhuma confiança nas heteras. Conheço a cena de antigamente. Lésbicas radicais há 12 anos... naturalmente não eram aquelas que representavam uma política particularmente radical. Isto não. Mas nenhum representante do sexo masculino podia entrar nos seus apartamentos. Naquele tem­po, isso valia também para as crianças do sexo masculino de todas as idades e também para animais domésticos machos. Só com os gatos castrados isso era discutível. A maioria dessas radicais hoje está casada e vive inerte e abastada... Dourados anos 70... — Dornhelm sorriu, sonhador. — Hoje em dia tudo isso é muito diferente. As Mulheres Autônomas — isto tudo não tem absoluta­mente nada a ver com o verdadeiro movimento feminista — foram tão longe, que nas batalhas de rua formam bandos de arruaceiras exclusivamente femininas.

— De quê?

— Bandos de arruaceiras. Assim se denominam, também, as masculinas. Vem de “fazer confusão” ou algo assim, sabe? — Dornhelm balançou a cabeça. — Uma grande vergonha — disse ele. — Nem a menor idéia da vida real. Você se senta atrás de seus papéis e investiga sobre pessoas, sobre as quais não sabe nada. Devia ser proibida, uma coisa assim. Como dizia, hoje essas mulheres têm seus próprios bandos. E agora preste atenção: quando uma hetera assim quer ter patentes mais altas, então precisa mostrar algumas ações Uma boa referência é ter abandonado companheiros do sexo masculino — da pior forma possível. Caso a vítima seja ainda por cima um dominador, um mal-afamado, por exemplo, então a hetera já tem uma vantagem imensa. O máximo, claro, é quando algumas heteras podem provar que espancaram um macho de couro com botas, capacetes de aço, correntes no braço e no pescoço, cabeças raspadas com penteados de iroquês e alfinetes, grandes como pepinos em conserva, que elas curraram um macho assim.

— Continue — disse Ritt. — Agora a coisa começa a me interessar.

— E assim as mulheres heteras, que querem subir na vida, andam pelas ruas de Frankfurt com exatamente as mesmas vestimentas — também pelas ruas de Munique, Hamburgo, Düsseldorf, Berlim — e quase todas as noites um cara assim, com tanta fama, é morto por duas ou três heteras.

— Ou seja, também nossa testemunha — disse Ritt.

— Você não deve ser tão inquieto! Sim, nossa testemunha também. Mas espere! Você precisa ter perspectiva para que possamos falar sobre o tratamento psicológico da testemunha. Tudo isso, é claro, tem um outro lado. Ou seja, os machos não querem ser continuamente mortos, não é? Então também saem e ficam à espreita de mulheres e as espancam duramente, sem com isso cometer delito sexual — ou isso já é em si um? Matéria pesada... Os caras não fazem nenhuma diferença de idade, aparência, nacionalidade. Há três semanas, em Duisburg, houve um caso de uma antiga namorada, uma hetera, que queria mudar de patente e por isso o abandonou, que foi espancada pelo cara e violentada durante 16 horas, tão sedento de vingança ele estava. Durante 16 horas, rapaz! Isso não podemos. Nunca podemos. 16 horas... — Ele se balançava, mergulhado novamente em sonhos.

Ritt perguntou, docemente: — Você também pode contar algo da testemunha, Robert?

Dornhelm parou de balançar.

— Nossa testemunha — ele se chama Stefan Milde[†], nenhum motivo para rir, ah sim, você nunca ri — ele foi espancado e assaltado à noite por duas heteras. Essas autônomas têm os seus próprios médicos. Um deles o reanimou, mas Milde é desde então um homem aos pedaços. Nem veste mais a roupa de couro, só jeans, camisa e pulôver, nem um buraco. Somente o velho penteado iroquês na cabeça careca, esse ele ainda tem. Não cresce tão rápido Amarelo.

— O que é amarelo?

— Seu penteado. Pintado. Nossa testemunha é uma vítima do irresistível crescimento das lésbicas autônomas separatistas. Você conhece Casablanca, não é?

— O quê?

— Casablanca. Com Humphrey Bogart e Bergman. As time goes by. Você conhece o filme?

— Claro.

— Pois é. Quem não conhece? Você sabe como Humphrey diz: “Eu te olho nos olhos, pequena”? Com as autônomas agora é: “Eu te soco o olho, pequeno.”

— Robert, por favor!

— Está bem, está bem! Então ele vai passear na floresta da cidade.

— Quem?

— Quem? O Milde. Seu médico recomendou. Diariamente, duas horas de passeio. Para que possa se equilibrar novamente. Lá, no campo de golfe.

— O quê, lá, no campo de golfe?

— Ele vai passear diariamente, duas horas, o Milde. Mora em Niederrad. Por isso o parque municipal. Porque está tão próximo. Brutalmente espancado pelas heteras. Vi fotos. Terrível.

— Que fotos?

— Feitas pelas colegas. Escondido. Têm fotos de todas as autônomas. Umas gordas. E desde os tiros na pista de decolagem ocidental, desde que policiais foram mortos, o telefone de todas as autônomas é censurado. Até agora nada se esclareceu por esse caminho, mas a ação continua. Talvez ainda se esclareça alguma coisa, quem sabe.

— E o Milde tem telefone.

— Muito sabidinho. Sim, ele tem. E está grampeado. Não sabe, ou tanto faz. De qualquer forma, os colegas têm tudo gravado. — Dornhelm olhou para um papel. — Hoje, 23 de setembro, às 13:21h, ele telefonou para um amigo. Completamente ofegante e chocado.

— Por que ofegante?

— Porque correu da floresta até Niederrad.

— E por que chocado?

— Porque viu algo terrível.

— Que contou ao amigo.

— Certo. Chegamos ao ponto. Você vê agora como foi necessária a minha breve introdução?

Ritt pressionou os lábios.

— Colegas dizem que o Milde conversa sempre ao telefone com o seu amigo — que se chama Anders. Milde está muito deprimido. Não apenas porque as suas bolas... porque as heteras o espancaram. Já antes. Desde os tiros na pista de decolagem ocidental. Ali deu tudo errado, diz o Milde. Nos focinhos dos tiras, OK. Mas assassinato? Não, diz ele, não. Os colegas têm tudo gravado. Não, não é assassinato. Na verdade, não há mais nenhum pedaço autônomo, diz o Milde. Fundamento histórico: justamente porque deu errado na pista de decolagem ocidental. Os mortos. Por isso essa inimizade das lésbicas reformistas e separatistas autônomas dos caras e a sua monstruosa agressividade contra o sexo masculino. Tudo se desmorona, diz o Milde. Ascensão e queda do império romano, digo. A causa da sua grande depressão e de tantos outros... Pois bem, e hoje, às 13:21h, Milde telefonou para o seu amigo Anders e contou o que vira na floresta da cidade. Temos tudo gravado, cada palavra. Bem, ele estava passeando lá, como recomendou o doutor, no caminho de cascalho. O caminho de cascalho tem a direção norte-sul, bem próximo do campo de golfe, você sabe, e do outro lado, um pedaço mais a oeste, está a estrada, e lá, mais ou menos ao sul, está o cruzamento Frankfurter e o aeroporto dos americanos e o aeroporto Rhein-Main... Pois bem, então ele vai pelo caminho de cascalho, conta o Milde a Anders, e de repente ouve uma sirene. O que faz? Reflexo pavloviano. Salta para o arbusto ao lado e se deita no chão. Então vê que vem vindo uma ambulância pelo caminho de cascalho não era um carro de polícia, como ele pensara. A ambulância passa por ele e freia, há uma imensa nuvem de poeira...

 

 

... e pára. Dos arbustos sai uma Kombi e fica quase diante da ambulância. O motorista da ambulância, um gigante de bata branca, salta para fora, corre para trás e abre as portas do carro de salvamen­to. Dois homens, também com bata branca, estão lá dentro, tipos musculosos. Um deles desce até o motorista, o outro lhes dá uma maca, puxa um civil desacordado pelos pés e o empurra para a maca. Apressadamente, os dois vão para a kombi, cuja porta um homem de macacão azul havia aberto. Para dentro com a maca! O homem de azul salta para a área vazia da kombi e descarrega o desacordado maca abaixo. Os batas-brancas correm de volta para a ambulância. Um segundo civil desacordado é empurrado para a maca e também descarregado na kombi. Novamente de volta! Um pequeno homem, parecendo delicado, com cabeça bem torneada e finos cabelos brancos, com roupa de flanela, desacordado, escorrega para a maca. Para a kombi com ele! Uma precisão, uma habilidade, uma veloci­dade! De tirar o chapéu!

Então sai da ambulância uma mulher imponente. Ela veste uma roupa azul, originária certamente de um dos melhores salões da cidade (talvez até da distante Paris), além de sapatos que combinavam, meias-luvas, um pouco de maquilagem. A dama é grande, ombros largos, quadris estreitos, longas pernas. Os cabelos cas­tanhos cortados com modelo pajem. Um pouco despenteados. Balançando os quadris, a dama desaparece na kombi. Dois batas-brancas seguem, o motorista da ambulância fecha a porta, corre para o carro de salvamento e vai embora. O de azul sobe atrás da direção da kombi. Também vai embora...

 

 

—... e foi isso — disse Dornhelm. — Se fosse antes, Stefan Milde, o grande mal-afamado, teria registrado isso bem cool, mas eu lhe disse que desde que as duas heteras o espancaram que ele está com os nervos à flor da pele, e assim ele corre para casa e telefona para o seu amigo, esse Anders. E lhe conta tudo o que viu e supõe por trás disso, é claro, a primeira coisa que lhe vem à cabeça, uma infame safadeza de tiras, ele precisa prevenir Anders e os outros, está acontecendo algo, está acontecendo algo, o Milde está totalmente histérico ao telefone, e tudo ele conta assim, como estou lhe contando agora. O nosso homem na central, que cuida disso tudo, não estava justamente no banheiro ou fumando um, também não estava dormindo, não ouviu o papo à noite ou dois dias mais tarde ou não ouviu de jeito nenhum. Não, nosso homem estava bem acordado, esse Coldwell com a sua NSA e seus dez mil ouvidos não precisa se encher de orgulho, a gente às vezes também consegue, às vezes, pouco, mas consegue! Como você acha tudo isso, rapaz?

Ritt não respondeu.

— Então, alarme. Busca. Carros da polícia. Não acham nem ambulância nem kombi. No telefone Milde havia dito a Anders as placas dos dois carros. Hurra! Mas nesse meio-tempo eles trocaram os números das placas pelo menos duas vezes! Muito mais provável é ainda que eles tenham trocado a kombi por um outro carro, e este por um terceiro — há muito tempo fora da rua e se escondem num apartamento qualquer alugado semanas atrás. Agora não saem do lugar, é claro. E não podemos fazer nada mais do que esperar pelo primeiro telefonema, quando talvez nos digam quanto querem por um Hansen vivo, a sua patroa viva e dois colegas. Mas do jeito que conheço a coisa, rapaz, vão nos dizer isso em prestações e nos deixar esperar muito, muito tempo. — Ele olhou brando para Ritt. — Ouvi falar que você deu a permissão para que Hansen saísse do hospital hoje, não foi, rapaz?

— Depois de ter falado com o doutor Heidenreich, sim. Hansen está tão bem, que o seu tratamento pode ser feito em casa.

— Quando ele saiu do hospital com a sua mulher?

— Às 13 horas — disse Ritt. — Naturalmente, com segurança pessoal.

— Naturalmente.

— Dois policiais foram na ambulância. Deveriam acompanhá-lo até o palacete Arabella.

— Aplicados colegas — disse Dornhelm.

— Não fale assim! Tinham três seqüestradores contra eles — os dois de bata branca e o motorista da ambulância.

— Foi o que disse, aplicados. Devem ter-se defendido bravamente, quando lhes deram uma injeção na ambulância. Não tinham chance. Os dois desacordados, quando foram tirados. Era uma ambulância do hospital?

— Uma particular. Requisitada pela senhora Hansen. Empresa de primeira. Pessoal treinado.

— Só Deus sabe — disse Dornhelm. — De tirar o chapéu! Tudo foi tão simples. As grandes coisas são sempre muito simples, rapaz. Mas ainda não entendemos isso. Por isso vamos de sucesso em sucesso.

— E o autônomo? — perguntou Ritt.

— O que quer dizer?

— O que disse a vocês?

— Rapaz! Você já está gagá? Ou será que é Alzheimer? Ouvi falar que está muito em voga, também nos mais moços. Ela lhe pegou, pobrezinho?

— Deixe disso! O que ele diz?

— Um caótico? Um autônomo? Não diz absolutamente nada. Não fala conosco, tira de merda! Sob condição alguma fala conosco. Podemos prendê-lo, até ficar preto. E isto não pode­mos. Dois foram até a sua casa e tentaram começar uma con­versa. No can do. Podemos lamber o seu rabo, e também já fez uma denúncia, pois grampeamos o seu telefone. Você sabe que o fazemos, ele sabe que o fazemos, só que ele não pôde imaginar que alguns idiotas disseram que deveríamos continuar a fazê-lo.

Naquela hora já se reuniam em Bonn e na polícia de Wiesbaden grupos de oficiais. No palacete Arabella — Thomas Hansen havia sido pego na escola imediatamente, por agentes da polícia — uma policial cuidava da criança de aparência precoce e altiva. Foi instalado um serviço telefônico com gravadores que se ligavam automaticamente em toda chamada. A busca localizada foi suspensa. Membros da Unidade Antiterrorista GSG 9, como tam­bém todas as forças disponíveis da polícia, proteção de fronteira e exército agora procuravam por Hilmar e Elisa Hansen em toda a área da Alemanha Federal.

No dia 26 de setembro, três dias mais tarde, os seqüestradores libertaram os dois policiais, mas ainda não havia nem a menor pista do motivo, de onde estavam os Hansens, nem mesmo se os dois — ou um dos dois — ainda viviam.

 

Ouviu-se um grito terrível, quando o carro com Elmar Ritt e Robert Dornhelm, no dia 26 de setembro, às 13 horas, entrou pelo grande portão do palacete Arabella. Duas câmeras de vídeo vigia­vam a entrada.

— Eficientes, eficientes, os garotos — disse Dornhelm, na direção. Ele cumprimentou agentes e policiais com metralhadoras, que se encontravam ao longo do caminho de pedras, distanciados um do outro, imóveis sob o forte sol.

— Que garotos? — perguntou Ritt.

— Ah, sim, você ainda não esteve aqui. Padres, rapaz, padres. — Dornhelm admirava o parque. — Olhe para essas árvores. Quase todas da Ásia, me contou a senhora Toeren.

— Quem é a senhora Toeren?

— A governanta. Therese Toeren, com o-e. Muito gentil. Since­ra e aberta. De verdade. Nem se imaginaria, aqui nesta casa.

O grito de agora soava como um urro de um leão atingido mortalmente.

— São padres? — Ritt havia estremecido.

— Bem jovens. Lá na frente, abaixo do parque, há um seminário, me disse a senhora Toeren. Entre duas e três os senhores treinam. Nos dias úteis. Sábados, domingos e nos feriados cristãos eles não treinam.

— E o que treinam, maldição?

— Caratê, rapaz.

— O quê?

— Caratê. Não sabe o que é caratê? Não sabe que no caratê se grita... — Ouviu-se um daqueles terríveis — ...bem, que soltam um desses?

Nos degraus da escada do palacete Arabella, nos salões e nos três terraços grandes, de onde se podia ver o parque, eles viram outros policiais. Dornhelm e Ritt foram pela sala cheia de quadros.

— Matisse, Degas, Liebermann... o que você quiser. Tem de tudo aqui. Tem-se quando se é bonzinho e produz hidroclorofluor-carbono, rapaz — disse Dornhelm. — Temos a profissão errada. Ah, sim, Hansen não produz HCFCs. Não mais. Diz ele. Seja lá o que fizer, ele precisa se pagar. Naturalmente não há nenhuma inveja nisso. Uma comissão criminal assim é também uma coisa legal.

Eles chegaram à sala de decoração moderna, com um sofá muito bonito, de couro branco em L e uma mesa de vidro. Sobre a lareira de mármore branco havia, numa moldura pesada e dourada, o retrato de Elisa Hansen com olhos que perseguiam o observador, seja para onde ele fosse. No grande terraço de mármore branco os toldos azuis estavam gastos. Um dos invisíveis alunos do seminário soltou naquele momento um outro grito, quando Dornhelm e Ritt se aproximaram do rapaz, de camisa e calça comprida, sentado na imponente mesa de vidro na sala do terraço. Diante dele estavam montados vários aparelhos, entre os quais o gravador high-tech, que estava ao lado do telefone. Dornhelm e Ritt conheciam o modelo: o gravador se ligava imediatamente depois que o telefone começava a tocar.

— Oi, Brauner — disse Dornhelm.

— Como vai, comissário?

— Monótono demais, não é?

— Eu nunca diria uma coisa dessas. Mas se é o senhor que diz... — O jovem agente da polícia, que se chamava Brauner, pertencia à equipe técnica da comissão criminal. Era casado, tinha dois filhos e colecionava tampas de cervejas de todas as marcas. — O mais engraçado aqui é ainda a gritaria dos padrecos.

— Muitos telefonemas? — perguntou Ritt.

— Muitos. A imprensa, naturalmente. Rádio. Televisão. Do país. Do exterior. E também aproveitadores. Cem milhões, dois bilhões, e os Hansens estão livres. Isso foi o mais cansativo, pois naturalmente precisamos prestar atenção em cada telefonema, por mais idiota que seja. Então telefonemas, nos quais os Hansens são insultados de tudo, como criminosos ecológicos. Em parte, alguns realmente fortes. Tudo gravado, se lhe interessar. Porca e sadicamente. O que se deve fazer com os Hansens. Até nós ouvimos novidades! O estômago chega a ficar embrulhado.

— Telefonemas de solidariedade?

— Muito poucos. E a maioria dos poucos bem marciais: o que devemos fazer com os seqüestradores, se os agarrarmos. Mais ou menos o mesmo que os outros desejam para os Hansens. Devemos ter muito mais psicopatas no país do que imaginamos.

— Já sei quantos temos — disse Dornhelm. — São jovens e idealistas, Brauner. Espere alguns anos! Como vocês trabalham?

— Dois homens por cada turno de seis horas, durante 24 horas. Quatro turnos, então. Embaixo, na biblioteca, há um colega. Com o mesmo equipamento técnico. Para o caso de recebermos dois telefonemas ao mesmo tempo. Mas agora... Há horas, nada.

Em meio ao canto dos pássaros, novamente um grito.

— Só os católicos, todo dia, duas horas. No mais... — Brauner levantou os ombros.

— Onde está o garoto?

— Sempre por perto. Seu quarto fica ao lado do dos quadros.

Thomas Hansen jogava xadrez com a governanta Therese Toeren, quando entraram Dornhelm e Ritt. Ele se levantou e se curvou. O garoto, que se parecia tanto com sua mãe, com os ombros largos e quadris estreitos, os olhos castanhos e lábios grossos, vestia bermuda e uma camisa Lacoste azul. Também Therese Toeren havia se levantado para cumprimentá-los. Negros como os cabelos eram os olhos da esbelta mulher com o rosto bronzeado, quase sem maquilagem. Ela usava um vestido de verão verde-claro, sapatos que combinavam. Nenhuma jóia. Ela sorriu, um braço em torno do garoto. Como se quisesse protegê-lo, pensou Ritt. E o garoto — pequeno príncipe, realmente.

Thomas Hansen disse educadamente: — Boa tarde, senhor Dornhelm. Bom que me visite mais uma vez. E o senhor é certamente o procurador Ritt.

— Sim — disse este.

Thomas estendeu para Ritt uma mão fria e estreita e se curvou novamente. Ele apresentou: — Esta é a senhora Therese Toeren. Chamo-a de Thesi.

A governanta acariciou os seus cabelos, enquanto baixava a cabeça levemente.

— Muito prazer — disse Ritt.

— Por favor, sentem-se, meus senhores — disse Thomas Hansen. Seus olhos castanhos tinham cílios longos e sedosos.

Todos se sentaram.

— Thesi já perdeu uma segunda partida.

— Porque você joga tão bem — disse a senhora Toeren. Quando sorria, o que fazia com freqüência, duas fileiras de bonitos dentes ficavam visíveis.

— Jogo muito mal — disse Thomas. — Thesi deixa que eu ganhe.

— Não é verdade!

— Sim, é verdade! — disse o rapaz. — E não quero isso, Thesi! Você tem boas intenções, eu sei, mas na próxima partida jogue certo, por favor!

O quarto de Thomas era claro como todos os cômodos da casa, perfeitamente arrumado, as janelas estavam abertas. Nas paredes, grandes posters de Tina Turner e Michael Jackson. Ritt viu um caro aparelho de som, CDs, discos, cassetes. A televisão estava num canto, uma grande fotografia de sua mãe sobre a mesinha ao lado da cama de Thomas.

Do parque se ouviu mais uma vez o grito de um devoto. A senhora Toeren olhou para o seu relógio.

— Quase três. Daqui a pouco acaba. — Ela olhou para os dois homens: — No momento não é nada mau ter algo assim por perto.

Dornhelm, a quem a mulher certamente agradava muito, balan­çou a cabeça afirmativamente. — Você não pode reclamar que tem pouca proteção, Thomas — disse ele. Com a nossa gente não tem conversa mole.

— Não reclamo, comissário — disse o garoto, sério. — O senhor mandou gente excelente. De muitos sou quase amigo. — Ele falava o mais puro alemão, tinha uma pele de veludo e seus cabelos castanhos brilhavam.

— Sinto muito que não tenhamos avançado nem um passo — disse Dornhelm. — Fazemos o que podemos.

— Estou convencido disso, senhor comissário.

— Agora não pode mais durar muito tempo, até que os seqüestradores dêem notícias — disse Dornhelm.

— Todos aqui dizem isso — respondeu Thomas.

Ritt achou o garoto estranho. O que tem essa criança? pensou ele. Não tem emoções, ou faz de conta que não tem? É uma boneca mecânica ou uma pessoa? Ele disse: — Terrível para você o que aconteceu, Thomas.

— Sim — disse o garoto.

— Quero dizer, o seu pai e sua mãe, isso é terrível demais.

— Terrível demais, senhor procurador.

A senhora Toeren sorriu. — O senhor não deve ter uma impressão errônea, senhor Ritt — disse ela. — Thomas está chocado... Ele não é capaz de ressaltar os seus sentimentos, os seus verdadeiros sentimentos. Doutor Demel também acha.

— É o médico que vem duas vezes por dia — completou Dornhelm.

— Estou chocado — disse Thomas.

Ritt o fitou. Nunca vi coisa assim, pensou ele.

— Quando passar o choque, disse o Doutor Demel a Thesi, vou tomar remédios, sedativos.

Ritt engoliu a seco. — O que você vai tomar?

— Sedativos — disse o garoto.

— Você sabe o que é isso?

Thomas encolheu os ombros. — O senhor sabe o que são sedativos, senhor procurador?

— Eu sei.

— Então por que me pergunta?

— Escute, garoto... — começou Ritt, e interrompeu. — Tudo bem, choque. Sedativos. Por isso você está assim.

— Por isso eu estou como?

— Tão calmo e sereno — disse a senhora Toeren, acariciando novamente os cabelos do garoto. — Thomas é incrível, meus senhores. Realmente, muito incrível. Eu o admiro.

— Sim, a senhora o admira? — perguntou Ritt.

— Thomas e eu nos conhecemos há cinco anos, desde que ele era bem pequeno. Gosto muito dele.

— E eu de Thesi — disse Thomas. — Gosto muito dela.

A senhora Toeren sorriu.

— Thesi está sempre ao meu dispor — disse o garoto. — Sempre! Como agora. Vejo papa muito raramente. Ou está viajando, ou chega tão tarde em casa, que já estou dormindo, e quando acordo, ele já foi... mama... vejo mais. No café da manhã. Ou quando chego da escola. E à noite. Às vezes ela até brinca comigo. Ela tem muito o que fazer. Thesi também tem muito o que fazer — mas tem sempre tempo para mim.

— Ora, ora — disse a senhora Toeren. — Também não é assim.

— É exatamente assim — disse o garoto, olhando fixamente para a mulher com o rosto bonito e aberto. — Thesi joga comigo, dentro e fora de casa. Tênis e golfe. Por ora não é possível. Por ora eu não devo ir para fora. Também as tarefas de casa Thesi faz comigo. Agora não. Agora eu não devo ir para a escola. Mas nas outras vezes. — Ouviu-se um grito. O garoto olhou para o seu relógio. — Foi o último, por hoje. — Com o jeito quase obstinado, ele acrescentou: — Gosto muito de Thesi.

— Mas você espera que seus pais voltem o mais rápido possível — disse Ritt, achando-se um idiota.

— Oh, claro, naturalmente — disse Thomas. — Vai ser muito caro.

— O quê? — perguntou Ritt.

— Nós deveremos pagar, para que sejam libertados. Resgate.

— Você está certo de que os seqüestradores exigirão dinheiro?

— O senhor não?

A senhora Toeren pigarreou.

— Felizmente há o bastante — disse o garoto. — Ontem o senhor Keller me visitou, o nosso procurador. Ele disse que não preciso ter medo — o que eles pedirem, vão receber. Então não estou com medo. Também é normal o fato de que ainda não se manifestaram, disse o senhor Keller. São profissionais. Querem que percamos a paciência ao nos deixar tanto tempo sem notícias.

— Mas você não perde a paciência, não é? — perguntou Ritt.

— Não, senhor procurador. E quando perder, quando o choque for embora, então...

— Então? — perguntou Ritt.

— Então Thesi estará sempre comigo. Por isso não tenho medo algum. Thesi estará comigo. Sempre.

— Muito bonito de sua parte, que cuide assim do garoto — disse Ritt.

— Ora — disse a senhora Toeren —, isso é óbvio.

— E então você está bem contente de não poder ir à escola, tenho a impressão.

— Sim e não, senhor procurador.

— Como, sim e não?

— Veja bem — disse Thomas —, são todos uns safados.

— Quem?

— Os professores e as crianças e os pais das crianças.

— Thomas! — disse a senhora Toeren. — Você não deve falar assim, repito. Não é verdade.

— É verdade, sim, Thesi. E também quero explicar por que aos dois senhores.

— Explique! — disse Dornhelm.

— Como eles falam — disse Thomas. — Desde que o meu pai estava no hospital, eles falam assim, os safados. Seu pai não presta. É um bandido. Estraga a natureza. Devia ir para a prisão perpétua. Ah, não, prisão! A guilhotina, a única coisa para um porco desses. O porco é meu pai. — Thomas continuou a falar, calma e objetivamente. — Um porco safado, o seu pai. Um filho da puta...

— Thomas! — disse a senhora Toeren. — Ora essa!

— .. um criminoso! — continuou calmamente o garoto. — Devia ser enforcado. É claro que foram influenciados pelos pais, disto estou certo.

— E ninguém lhe ajuda?

— Ninguém.

— Os professores?

— Alguns não se intrometem. Outros pensam como as crianças. E outros fizeram o que podiam, mas não mudou em nada. Então desistiram. Quando voltava para casa — agentes da polícia me levavam e me traziam, já estou há uma eternidade sob proteção policial...

Já estou há uma eternidade sob proteção policial, pensou Ritt, como o garoto se expressa!

— Então, quando voltava para casa, sempre me escondia com Thesi. Porque, é claro, muitas vezes ficava chorando. Thesi me consolava... às vezes encontrava primeiro a minha mãe. E ela notava logo o que havia acontecido na escola de novo. Então ela ficava chorando, e eu a consolava... Não, realmente estou contente de não poder ir à escola por um tempo. Por outro lado...

— Por outro lado? — perguntou Ritt.

— Quando o senhor me perguntou se estava contente, disse sim e não, não foi?

— Sim, e...?

— Pois é, por um lado estou contente, por outro gostaria muito de ir lá justamente agora.

— Gostaria muito?

— Sim. Amanhã.

— Por que amanhã?

— Amanhã os Peace Birds estão na Casa da América.

— Quem?

— Os Peace Birds — disse Thomas. — Não sabe quem são os Peace Birds?

— Não — disse Ritt.

— Me admira muito — disse Thomas. — Pensei que todos soubessem quem são os Peace Birds.

— Todos não, Thomas — disse a senhora Toeren. — E você simplesmente não pode ficar falando todas essas coisas terríveis! Em consideração a mim, por favor!

— Então, quem são os Peace Birds? — perguntou Ritt.

— Crianças — disse Thomas. — Muitas. Garotos e garotas. Alemãs, turcas, italianas, iugoslavas, espanholas e portuguesas — ou seja, de todas as que existem por aqui. Têm em todas as partes os seus grupos. Também em Frankfurt. Algumas são bem pequenas, cinco anos. — Thomas sorriu ironicamente. — Também se preocupam com o meio ambiente! Juntam lixo nos jardins de infância! Quando são um pouquinho mais velhas e vão à escola, negam-se a tomar leite ou chocolate com embalagens plásticas e exigem garra­fas de vidro. Engraçado, não? Vejo isso todos os dias, quer dizer, quando posso ir à escola. Os de dez e 11 anos têm aulas de ecologia e aprendem como se reconhece as plantas, como se constrói ninhos para lacrainhas e outras besteiras mais. — Ele sorriu ligeiramente. — O senhor não tem idéia de como levam isso a sério! Em Lausanne houve um encontro sobre a preservação das espécies, não foi? Os Peace Birds protestaram que os elefantes estão sendo extintos.

— Se me permite observar algo — disse a senhora Toeren. A sua voz soava acolhedora e maternal. — Isso é uma conseqüência de nossa sociedade de informações. Os Peace Birds têm esses conhecimentos através do programa infantil do canal ZDF, “Por dentro de tudo”, que, como ouvi, teve tão boa aceitação, que a emissora está produzindo novas séries. Além disso, quase todas as editoras publicam livros com o tema do meio ambiente — para crianças. — Ela cruzou uma bela perna sobre a outra. — Enquanto pais e educadores ainda perguntam se as crianças resistirão à pressão da realidade ameaçada, os pequenos lutam há muito tempo, e bem engajados, por um meio ambiente melhor. Não se deveria considerar isso possível. — Ela levantou levemente os ombros. — Infelizmente, Thomas vivenciou essa coisa negativamente. — Sim — disse Dornhelm. — Infelizmente.

— Pessoas como o meu pai — disse Thomas — são naturalmente monstros para os Peace Birds. O senhor não faz idéia do que dizem sobre pessoas como o meu pai! E porque são crianças, naturalmente são uma presa para a TV.

— Presa para a TV — repetiu Ritt, fitando o garoto.

— Assim! — disse este. — Crianças na TV! Denunciam pes­soas como o meu pai. Lutam contra pessoas como o meu pai! Muitos adultos até choram, tão tocados que estão. Os Peace Birds dizem que têm de se preocupar com que o mundo não seja destruído por pessoas como o meu pai. Os adultos não se preo­cupam o suficiente com isso, ou de forma alguma. Só destroem o mundo. É fantástica a aceitação dos Peace Birds! Uma vez o meu pai tentou discutir com eles. Falaram barbaridades. Eu es­tava lá. Meu pai começou muito sem tato. Não sabe fazer uma coisa dessas. Minha mãe também acha. Não deve se meter com debates. Meu pai é muito brando. Minha mãe também acha. Eu, eu poderia discutir com os Peace Birds. Eu, eu acabaria com eles de tal forma, que nunca mais ficariam falando por aí. Teria os argumentos certos. E sou uma criança. Crianças devem falar com crianças. Aí, sim! E por isso sinto muito em não poder ir à escola amanhã.

— Você disse que as crianças Peace Birds estarão amanhã na Casa da América?

— Sim — disse Thomas. — O grupo de Berlim. Para uma grande discussão. Uma presa para a TV: a Spiegel também estará lá e primeiro fará uma entrevista com eles.

— Entendo — disse Ritt. — E você gostaria de discutir também.

Um agente abriu a porta do quarto. — Senhor Dornhelm! Telefone! Querem falar com o senhor. Também com o garoto.

Dornhelm correu. Ritt, a senhora Toeren e Thomas foram atrás. Na sala do terraço o agente Brauner estava sentado atrás de seus aparelhos e limpava as unhas com um canivete.

— O que está acontecendo? — perguntou Dornhelm. — Pensei que alguém havia telefonado.

— Uma mulher.

— E?

— Desligou de novo.

— O quê?

— Queria falar com o senhor. Disse que iria buscá-lo. Ela perguntou se eu pensava que ela era tão idiota para esperar. Vai telefonar novamente. Como ela sabe que o senhor está aqui?

— Não tenho a mínima idéia.

O telefone começou a tocar. O gravador disparou. As suas bobinas começaram a rodar.

— Atenda! — disse Dornhelm.

Brauner tirou o fone do gancho. — Casa dos Hansens — disse ele.

Uma voz jovial perguntou: — Ele está aí agora?

— Sim.

— Passe o telefone para ele!

Brauner deu o telefone para Dornhelm e outro para Ritt, para que também escutasse.

— Aqui fala Robert Dornhelm — disse o comissário.

— E Elmar Ritt está ao lado e também ouve.

— Sim.

— E tudo está sendo gravado.

— Como sabe que estamos aqui?

— Não sabíamos. Esperamos tanto tempo.

— Por quê?

— Entenderá logo. — Ouviu-se um apito. — Esse barulho aparecerá de vez em quando. Temos um pequeno aparelho. Não poderemos ser localizados nem grampeados. Nem o número de Hansen. Nem mesmo — apito — a NSA. Temos Hansen e sua mulher. Estão bem — ainda. — Apito. — Este é apenas o primeiro contato. Não diremos agora o que será exigido para a libertação. — Apito. — Não temos pressa. Também não estamos presos a este número. Na próxima vez — apito — telefonamos talvez para Keller, o procurador. Ou para a polícia central. Ou para o tribunal. Ou para — apito — a sua casa.

— Por que não diz quanto querem?

— Nossas condições serão conhecidas depois.

— Quero ouvir o senhor e a senhora Hansen.

Apito. — Tira sabido. Por isso estamos telefonando. O garoto está aí?

— Sim.

— Passe o telefone para ele.

Dornhelm passou.

— Aqui fala Thomas Hansen — disse o garoto.

Apito. — Thomas! — gritou uma voz feminina. — Meu filho! Está me reconhecendo?

— Claro, mama.

— Meu filhinho, fique calmo. Estamos bem... Passe o telefone, querido! — Apito — Senhor Dornhelm, senhor Ritt! Os senhores precisam fazer o que essas pessoas exigem! Tudo! Sob todas as condições! Senão serão culpados da morte de duas pessoas. — Apito.

— Faremos tudo, senhora Hansen, não se preocupe. Mesmo se vocês só se esconderam, vamos descobrir onde. Nesse estranho seqüestro a senhora foi vista de pé — disse Dornhelm.

Elisa Hansen não ouviu isso. — Passe o telefone para Thomas!

O garoto o pegou. — Mama?

— Meu pequeno! Sua mãe ama tanto você, infinitamente, você sabe, não é?

— Sim, mama.

— Até logo, meu tesouro! Até breve... até breve! Espere, vou passar para o seu pai! — Apito. — Thomas? — Ouviu-se a voz baixa e educada de Hilmar Hansen.

— Como vai, papa?

— Está reconhecendo a minha voz?

— É claro, papa... Onde estão vocês?

Apito. — Não posso dizer. Amo você, meu garoto... Mama também... Tudo ficará bem... Logo nos veremos novamente... Mas as condições... — apito — devem ser cumpridas. Todos os que estão escutando entenderam, não é? — Apito.

Thomas olhou para Ritt e Dornhelm. — Sim, papa. Eles estão dizendo que sim.

Apito. A voz jovial de mulher: — Passe-me para Dornhelm outra vez!

— Ela quer falar com o senhor — disse Thomas, passando o telefone para o comissário.

— Dornhelm — disse Dornhelm.

Apito. — O telefonema foi só para a identificação e para que o senhor saiba que temos os dois e que estão vivos.

— Com isso, tudo não está cem por cento...

Apito.

— ...provado. Pode também ter sido uma manipulação de vozes — disse Dornhelm.

— Acredite no que quiser!

Clic.

A ligação foi interrompida. O gravador parou. O agente Brauner tirou o fone das mãos de Dornhelm e o colocou no gancho. Depois tirou o fone de um outro aparelho e falou: — Hans? Brauner. E então?... Absolutamente nada?... Como assim, não houve tempo suficiente? Não determinamos quanto tempo eles falam, homem!... O quê?... Pelo menos isso. Tchau! — Ele botou no gancho e falou: — Não pôde ser localizado. Uma maneira totalmente nova de codificação, dizem os especialistas. E mais: o telefonema não foi feito de forma alguma da Europa.

— E de onde, então?

— De um outro continente: Ásia, África, Austrália ou América.

— Eles estão certos disso?

— Eles estão certos.

— Ótimo! — Dornhelm se curvou para Thomas. — Bem, escute, meu garoto, para que lhe explique...

Thomas o olhou friamente. — O senhor não precisa me explicar nada. Não sou idiota. Já entendi. Tenho de ficar aqui?

— Não...

— Então quero voltar para o meu quarto — disse Thomas. Ele já estava fechando a porta. Então se virou. — Você vem também, Thesi?

— Claro, Thomas — disse ela e foi para junto do garoto. Ele encostou a cabeça nos seus quadris e pôs um braço em torno dela. Assim eles deixaram o cômodo. A porta se fechou.

— Também uma reação — disse Ritt.

— Pois é — disse Dornhelm. — Nos metemos numa muito fria. Tentativa de homicídio. Um monte de assassinatos. A bomba alemã. Seqüestro. Você ainda sabe por onde tudo começou, rapaz?

— O quê?

— Desodorante sanitário — disse Robert Dornhelm.

 

Moçada! O mundo sobreviveu a mais um dia!

Se continuar assim com a técnica, o homem um dia poderá se destruir.

O mundo ainda está em ordem uns quilômetros abaixo da terra.

Vocês tratam o mundo como se tivessem um segundo de reserva.

 

Esse foi o fim de uma carta escrita por uma criança. Embaixo da última linha ainda havia

 

Heiko, 11 anos, Alemanha

 

A carta39 estava colada na parede de uma grande sala na Casa da América de Frankfurt, perto da Ópera, na Staufenstrasse1. Todas as paredes estavam cobertas de cartas e desenhos coloridos.

— Esta filmaremos de qualquer forma — disse Ekland a Katja Raal.

Os dois haviam chegado com Marvin, Valerie, Isabelle e Gilles — uma hora antes do início da discussão com as crianças berlinenses Peace Birds. Valerie havia descoberto o evento, e todo mundo concordou que a discussão e a entrevista deveriam ser filmadas. Um homem com uns 50 anos — muito esbelto, cabelos grisalhos, barba curta e grisalha, olhos azuis — conversava com o pessoal da filmagem. Ele era um dos fundadores dos Peace Birds e se chamava Holger Güssefeld40.

— Em 1982 — disse Güssefeld — instalamos na zona comercial de Hamburgo uma grande mesa. Lá deveria ser escrita a maior carta pela paz do mundo. Sobretudo as crianças participaram desse evento. A carta ficou tão longa, que ela uniu, em 1985, no encontro dos chefes de Estado das duas superpotências, em Genebra, as embaixadas da União Soviética e dos Estados Unidos. Antes houve um evento A letter to both. Os Peace Birds, como as crianças se autodenominaram, chamaram as crianças do mundo inteiro para escreverem aos dois chefes de Estado. O resultado foi 230 mil cartas de crianças de 28 países, sobretudo europeus...

Bernd Ekland ficou diante de uma outra carta. — Esta também — disse ele.

Katja confirmou.

Um sol cor de laranja brilhava na carta desenhada, uma grande árvore carregava muitas maçãs, um gramado estava cheio de flores e no gramado uma criança havia desenhado em muitas cores várias figuras que riam e estavam felizes. Embaixo de cada uma estava escrito de quem se tratava: papai, mamãe, eu. Sobre o desenho havia uma frase em azul: SOMOS UMA FAMÍLIA FELIZ E QUERE­MOS CONTINUAR ASSIM! E finalmente o nome da artista: ZELIKA, 9 anos.

 

 

— ...então as crianças decidiram que uma delegação deveria entregar essas cartas pessoalmente a Gorbatchov e Reagan, em Genebra — disse Güssefeld.

— 230 mil cartas? — perguntou Marvin.

— Eles queriam levar todas, mas só entregar mil, e não a Reagan e Gorbatchov separadamente, mas aos dois juntos. — Güssefeld passou a mão nos cabelos grisalhos. — E não deu certo. Teria parecido muito pacífico demais. Em 1987, enviados dos Peace Birds entregaram mil cartas em Washington a pelo menos um destinatário, e as mil cartas vieram na barriga de um jumbo de volta à Alemanha...

— E esta também, sem falta — disse Ekland.

A carta mostrada por ele dizia o seguinte:

 

Acho ruim que as crianças de agora e as que ainda vão nascer devam pôr tudo em ordem novamente. Se continuar assim, como agora, do que as pessoas ainda vão viver no ano 2000? Certamente haverá progressos tecnológicos. Também haverá mais computadores e aparelhos de vídeo. Apesar disso acho que haverá mais desvantagens.

O que são 150 mil robôs em comparação com 150 mil homens que morrem num acidente nuclear, numa guerra, de uma água contaminada e de doenças?

Se todas as pessoas fizessem mais pelo meio ambiente, se todas as coisas que são compradas não fossem embaladas em plástico duas ou três vezes, se toda fábrica não jogasse o seu lixo nos rios, se não houvesse mais sprays, então as pessoas no ano 2000 certamente poderiam viver melhor.

Anika Wilmers, 11 anos, Stadthagen

 

— ...e então todas as cartas voltaram a nós — disse o grisalho Holger Güssefeld cora seus olhos azuis. E as crianças ficaram bem conhecidas. De repente havia em toda parte grupos Peace Birds.

— E esta aqui também, Bernd! Esta também — disse Katja. — Por favor, precisamos ainda de algumas tomadas durante a entrevista.

— Claro, querida — disse ele. — Esta também.

 

O meio ambiente não será mais limpo. Cada vez mais animais são extintos. Até os coelhos estão sendo extintos. Estamos sufocados no meio ambiente sujo. Se eu pudesse fazer mágica, faria com que o mundo fosse bem limpo. Quando eu tiver filhos, eles devem ter um meio ambiente limpo.

Sabine Ratajczak, 10 anos, Hannover

 

— Em 1987 uma grande parte das cartas foi para uma igreja berlinense, e lá as crianças discutiram com os adultos. Um escritor — disse Güssefeld — encaixou essa discussão num romance sobre os perigos da tecnologia genética... Está sendo filmado agora. Os realizadores estiveram conosco, e as crianças Peace Birds organizaram outra discussão — diante das câmeras. — Güssefeld parou. — No século passado autores franceses faziam muito isso...

— O quê? — perguntou Valerie.

— Eles faziam aparecer pessoas de romances anteriores. Se o senhor, senhor Gilles, escrever um livro agora, então as crianças Peace Birds aparecerão novamente. Não apenas como pessoas não, muito mais como símbolo. Símbolo para o que é positivo, bom...

— O entrelaçado dos muitos pelo mundo, de que falou Wolf Loder — disse Isabelle em voz baixa para Gilles.

— Como? — perguntou Güssefeld.

— Apenas uma lembrança — disse Isabelle.

— Não sei como acontece com vocês — disse o homem grisalho —, mas quanto mais velho fico, cada vez mais noto que círculos se fecham na vida. Primeiro esse escritor e as crianças... E agora o senhor, senhor Gilles, e as crianças... Novamente um círculo...

— Sim — disse Isabelle —, novamente um círculo. Continue, senhor Güssefeld!

— Continuando — disse este — com prazer... Agora os Peace Birds lutam tanto pela paz quanto pela conservação do meio ambiente. Eles lutam com todos os meios à disposição deles contra a destruição da natureza. Eles estão muito engajados, são muito informados e sabem falar e escrever bem. Se dirigem de maneira segura a prefeitos e membros do governo. Somente neste ano, o ministro do Meio Ambiente, Töpfer, recebeu 50 mil cartas. “Como o senhor permite que as grandes firmas químicas despejem todos os materiais nocivos no mar?” Coisas desse tipo. Ou: “Se continuar assim com a poluição do ar, até o cão estará em extinção.”... As crianças pressionam e exigem. Anne Flosdorff, de 10 anos, por exemplo, descobriu nas estantes de uma loja em Colônia fanfarras de pressão a gás. São aqueles...

— ...são aqueles trompetes, com os quais os torcedores fazem o maior barulho no futebol — disse Marvin.

— Sim — disse Güssefeld — e essas fanfarras são movidas a HCFC. Indignada, Anne escreveu ao serviço ao consumidor da loja. Se se podia responsabilizar pela oferta de produtos, com os quais é soprado no ar “gás-HCFC, inútil e insensatamente”. Ela tinha apenas dez anos, mas tinha medo do futuro.

— Ela recebeu resposta? — perguntou Valerie.

— Oh, sim — disse Güssefeld. — Em comparação com outras pessoas, respondeu-lhe o serviço ao consumidor, ela passava muito bem, e por isso não devia se preocupar com coisas sobre as quais não sabe “como serão mais tarde”. Realmente não era tarefa da loja educar pessoas. Enquanto houvesse torcedores querendo comprar essas fanfarras, Anne devia ser boazinha... Ou: um representante Peace Bird, Frank Stahmer, 14 anos, esteve agora num congresso pela paz e ecologia, em Moscou. Entre outras coisas, tratava-se do salvamento do Volga. Frank diz que ele está “à beira da morte”. Ele lê jornal regularmente. Ele sabe muito a respeito da peste do óleo no Alasca, do desmatamento nas florestas tropicais e que na Alemanha Federal são gastos anualmente 54 bilhões de marcos para o armamento. No seu entender, esses políticos são uns “derrotados”, só Gorbatchov é para ele digno de crédito...

— Bernd — cochichou Katja —, também aquela, por favor!

 

Tenho medo da velhice, do futuro. De preferência, eu pararia o tempo. Talvez também fazê-lo voltar em alguns anos...

Quando ainda não havia chuva ácida, naquele tempo...

Olho para as flores no nosso jardim. As folhas ficam tão estranhas, tão brancas. Os botões não abrem direito, murcham antes do tempo.

Olho para os pinheiros e sofro por todo galho marrom, que antes era tão verde.

Na televisão vejo os leões-marinhos, que morrem todos os dias no Mar do Norte. Também vejo os pássaros no Mar do Norte. Suas asas ficam coladas.

Então vou passear, quero respirar. A fumaça das fábricas e automóveis está no ar.

Vou para o meu quarto, sento-me no canto e me pergunto: gente, o que vocês fizeram do mundo?

Martina Rao, 13 anos, Wuppertal

 

Uma hora depois a sala da Casa da América estava lotada de crianças e adultos. Aqueles que não encontraram lugar nas poltronas, ficaram sentados ou em pé nos corredores. Ekland carregava a BETA nos ombros. Ele não somente filmava os Peace Birds, mas sempre também os seus ouvintes. Os Peace Birds se sentaram na frente da sala atrás de uma longa mesa, coberta por uma toalha comprida e verde, embaixo da grande e branca faixa de tecido onde se lia o seguinte: QUEREMOS LEITE SAUDÁVEL! PREFERI­MOS IRRADIAR NÓS MESMOS! A redatora da Spiegel, que queria entrevistar as crianças Peace Birds — diante de cada criança havia um microfone —, se chamava Angela Gatterburg. A bonita e graciosa mulher tinha cabelos louros médios e olhos verdes. Graças à sua amabilidade e à intensidade com a qual ouvira as crianças preliminarmente, estas se sentiram imediatamente ligadas a ela.

Angela Gatterburg levantou a mão. — Silêncio! Por favor, façam silêncio!

Fez-se silêncio na sala. Katja deslizava pra lá e pra cá. As luzes nos altos tripés esquentavam. Isabelle, Gilles, Marvin e Valerie estavam imprensados contra uma parede.

— Estão prontos? — perguntou Angela Gatterburg.

— De nossa parte, tudo OK — disse Katja.

— Então vamos — disse Angela Gatterburg. — Primeiro gostaria de lhes apresentar os cinco participantes desta conversa. À minha esquerda está Lisa, que tem 12 anos. Depois vem Veronika, 11 anos. A minha direita está Corinna, 14 anos. Depois vem Dilan, uma curda, 15 anos. E lá na extremidade está um turco, Güven, 14 anos. Eu me chamo Angela Gatterburg, tenho 32 anos, e há dois sou redatora na Spiegel. Então vamos começar!41 Primeira pergunta: o que é Peace Bird?

Dilan, que tinha olhos grandes e sérios, um rosto bonito e cabelos escuros, respondeu: — Um Peace Bird luta pela paz. Mas também lutamos pelo meio ambiente, pelo Terceiro Mundo e contra uma guerra infantil entre o Irã e o Iraque. — Dilan vestia um pulôver claro e de bom caimento.

— Vocês têm uma meta em comum? — perguntou Angela Gatterburg.

Corinna, que usava óculos, grandes brincos de finos fios de latão, de cabelos escuros até os ombros, respondeu: — Sim, nossa ação principal é juntar cartas de crianças a Reagan e Gorbatchov ou a Bush e Gorbatchov. Temos até agora 250 mil cartas, e isso é só uma prova de que crianças são levadas a sério.

Angela Gatterburg se curvou. — Como vocês tiveram a idéia de se engajar?

Dilan disse: — Através dos meios de comunicação fica-se informado de um monte de coisas. Quando vejo as notícias, só ouço sempre onde algumas crianças morreram, onde há miséria. Ou seja,

quem ouve sobre isso precisa fazer alguma coisa, se não for muito covarde.

Güven, o turco, usava óculos, como Corinna, tinha cabelos muito curtos, era muito grande para a sua idade e dava muito boa impressão.

— Eu — disse ele — tenho sempre um sentimento estranho quando ouço que ambas são lançadas. Desde que estou nos Peace Birds, me sinto melhor. Além deles, não tenho ninguém com quem possa conversar sobre guerra.

Isabelle estava ao lado de Gilles. Ela olhou para ele. Ele pegou a sua mão e a segurou com força.

— Também me engajo — disse Dilan. — Porque sou curda e porque os curdos na Turquia são reprimidos. São jogados na prisão por motivos políticos. Também sei que são importunados e torturados, as mulheres são violentadas. Sei disso porque o meu tio também está na prisão.

Angela Gatterburg perguntou: — Como vocês se informam sobre acontecimentos políticos?

— Leio o Taz todos os dias — disse Corinna, empurrando os seus óculos.

— Leio a Spiegel — disse Dilan. — E acho importante ver os telejornais. Isto eu impus na casa dos meus pais. Me irrito vendo os políticos falando uma merda qualquer.

Lisa tinha nos cabelos claros uma fita escura. Seu vestido sem mangas era preto e branco. Tinha olhos vivos e parecia gostar de rir — quando havia motivos para isso. Lisa disse: — Também vejo os telejornais. Todos os programas que consigo ver.

Um rapazinho, na platéia, se levantou e gritou: — Eu gostaria de saber...

Educadamente, a redatora da Spiegel o interrompeu: — Depois! Quando a entrevista acabar, vocês podem fazer todas as perguntas. Espere um pouco, está certo?

— Sim — disse o rapazinho, sorrindo para ela.

Angela Gatterburg perguntou às crianças a seu lado: — O que vocês próprios fazem pelo meio ambiente?

Dilan respondeu, calorosa: — Olha, eu tento mudar alguma coisa, mas não posso fazê-lo muito bem lá em casa. Nós ainda temos aquele papel higiênico rosa. Eu preferiria comprar o cinza, onde está escrito “obrigado”. Ou seja, não faço o bastante pelo meio ambiente. É, pelo menos sou contra os neonazistas.

— Você acha que isso seja engajamento pelo meio ambiente? — perguntou Angela Gatterburg.

— Sim — disse Dilan. — Em sentido mais vasto, sim. Se você só designar as plantas como meio ambiente, isto não está certo As pessoas também pertencem ao meio ambiente.

Nesse momento as crianças aplaudiram alto e durante muito tempo.

— Bravo! — gritou uma garota.

Isabelle olhou novamente para Gilles, e ele apertou sua mão com muita força.

Lisa esperou até acabarem de aplaudir, então apoiou seu braço nu na toalha verde da mesa e se curvou sobre o microfone. — Me lembrei que na descarga da privada vem tanta água. Aí eu simplesmente amarrei com um arame e agora saí menos água. Quando a minha mãe compra sabão em pó com fosfato, falo sério com ela.

Algumas crianças aplaudiram novamente.

A redatora perguntou: — Na opinião de vocês, o que acontecerá nos próximos dez anos?

— Em dez anos não estou mais viva — disse Dilan.

Ekland levantou a mão.

— O que é? — perguntou Angela Gatterburg.

— Troca de cassetes — disse ele. — Só um momento.

Katja já enfiava o cassete na BETA. Então levantou uma folha de papel diante da câmera, onde estava escrito: FRANKFURT CASA DA AMÉRICA/2, DISCUSSÃO CRIANÇAS PEACE BIRDS.

— Rodando — disse Ekland.

Katja se ajoelhou ao lado de um aparelho. — Som também — disse ela.

— Por favor — disse Ekland a Angela Gatterburg.

— Repito a minha última pergunta — disse ela. — Na opinião de vocês, o que acontecerá nos próximos dez anos?

— Em dez anos não estou mais viva — disse Dilan mais uma vez.

— Oh! — gritou um rapazinho, chocado.

— Essa coisa do meio ambiente é realmente grave — disse a pequena curda —, é realmente catastrófico. Alguma coisa certa­mente acontecerá, ou então capitulo e me suicido. Ou alguém me mata, ou eu mesma me mato. — Silêncio. Muitas crianças olhavam para Dilan. Ela respondia a todos os olhares seriamente.

Afinal, Lisa disse: — A coisa em dez anos mostrará seus efeitos.

— Que coisa? — perguntou a redatora da Spiegel.

— O buraco de ozônio — disse Lisa, e acentuou as palavras com movimentos de suas pequenas mãos, cujos dedos se abriam e fechavam. — E talvez uma usina nuclear também possa explodir. Tenho tanto medo do ano 2000. Certamente alguma coisa vai acontecer, uma fábrica química dessas também pode explodir. Ou políticos dizem que querem experimentar alguma coisa que não é perigosa, e então jogam uma bomba atômica. Então o mundo se acaba, se despedaça.

Os cabelos de Veronika eram castanhos, penteados para trás e presos na nuca com um pente. Ela usava calça jeans e blusa azul abotoada e de mangas claras. Seu rosto era fino e delicado. Ela disse: — Acho que isso não dura muito mais tempo. Poderia acontecer tanta coisa. Talvez um dilúvio. Talvez façam um teste de bomba atômica e com ele o declínio do mundo.

O grande Güven, que dava tão boa impressão, disse lentamente e com testa franzida: — Acho que as pessoas não podem mudar. Talvez os Estados devessem fazê-lo. Mas até que isso aconteça, certamente será tarde demais, e estaremos no escuro e mortos.

Cuidadosamente, Angela Gatterburg perguntou: — Os partidos políticos podem ajudar?

— Acho — disse Corinna, balançando a cabeça — que os partidos não estão ligando muito para isso...

Muitas crianças aplaudiram.

Ekland filmou rostos isolados.

— ...talvez os Verdes sejam úteis ou, em Berlim, a AL — continuou Corinna. — Eles são caóticos, mas conosco, com os Peace Birds, também é caótico, e apesar disso fazemos bastantes coisas.

— O que você quer dizer com “eles não ligam muito para isso”? — perguntou Angela Gatterburg.

— Por exemplo o CDU — disse Corinna. — Quando se lê os programas dos partidos, tudo soa muito bom. Mas apenas soa. Seja política externa ou escolar, quer dizer, na verdade não me vem nada à cabeça do CDU que eu pudesse dizer que está tudo OK.

Novamente muitas crianças aplaudiram, também alguns adultos. Outras protestaram.

Um pai gritou: — Absurdo!

Um outro: — Vocês estão bem enfeitiçados!

— Muito certo! — gritou um terceiro.

— Idiotice! — gritou um quarto pai. — A pequena tem razão!

— Concordo plenamente! — gritou uma mãe. — Bravo, Corinna!

Lisa, com a fita escura nos cabelos louros, disse: — Acho que o CDU é eleito por pessoas que não têm muita idéia de política, vão atrás da palavra “cristão”, que tem alguma coisa a ver com o bom Deus, e por isso é alguma coisa boa, e ponto final.

Mais aplausos e mais protestos entre os pequenos e grandes ouvintes.

— Vocês já estiveram numa manifestação? — perguntou Angela Gatterburg, depois que se fez silêncio novamente.

Todas as cinco crianças responderam ao mesmo tempo: — Sim.

Corinna disse: — Estive numa manifestação do IWF, depois fui embora, porque realmente tinha medo. Mas as manifestações de escolares não são perigosas.

— Eu estive numa manifestação de escolares — disse Lisa. — Era bastante exagerada e burguesa. Aí policiais de caras geladas postaram-se em frente à prefeitura de Schöneberg e formaram barricadas. Um policial então nos deu um megafone, o que me admirou.

As crianças riram.

— Olhe! — disse Isabelle em voz baixa, para Gilles. — Bem atrás, na entrada!

Gilles se virou. Na entrada estava o procurador Elmar Ritt. Agora ele se curvou ligeiramente. Também Gilles cumprimentou.

— O que deve estar querendo aqui? — perguntou Isabelle.

Ela olhou para Ritt. Ele respondeu ao seu olhar seriamente.

— Estranho — disse Isabelle.

Nesse meio-tempo, Angela Gatterburg havia perguntado: — Vocês acham que são levados a sério?

Dilan disse: — Quando distribuímos panfletos num evento dos Peace Birds, as pessoas ficam paradas e dizem: “Ah, as pe­quenas e doces crianças!” Então nos escutam e olham bem cri­ticamente e dizem: “Vocês não sabem o que está acontecendo, vocês não sabem de nada!” Acontece que os políticos ou os adultos em geral estão muito presos às suas opiniões. Eles não se deixam convencer.

Muitas crianças aplaudiram bem alto, e muitos adultos se mos­traram muito irritados.

— Tudo soa tão pessimista — disse Angela Gatterburg.

— Não diria que é pessimista — respondeu Dilan, balançando lentamente a cabeça com os cabelos amarrados para cima. — Diria que é realista. E se começássemos a lutar agora, então talvez tudo acabasse bem.

Aí todas as crianças e adultos aplaudiram.

Lisa disse: — Não sou pessimista, porque, quando não se tem mais confiança, então está tudo perdido.

Aplausos.

— Só se pode alcançar a paz em pequenos passos — disse Corinna. — Os sucessos não são bem aproveitados, porque não se pode ver que pessoas mudaram. Elas não ficam de repente com cabelos azuis ou coisa parecida. É claro que às vezes ficamos desencorajados.

Angela Gatterburg olhou para o seu gravador.

— Eu ainda queria dizer alguma coisa rápida sobre os políticos — gritou Lisa. — A maioria só pensa em si mesmo. São simplesmente egoístas. O que acontecerá mais tarde, depois que morrerem, lhes é indiferente. Mas o mais importante, apesar de tudo, é que não se desista de tudo.

Novamente aplaudiram crianças e adultos. Angela Gatterburg, sorrindo, levantou as mãos. Silêncio.

— Bem — disse ela —, esta foi a entrevista. E agora a discussão! Vocês podem fazer tantas perguntas quanto quiserem e dizer tudo o que pensam e conversar com os Peace Birds o tempo que quiserem.

Thomas Hansen, pensou o procurador Ritt, disse que gostaria tanto de vir e falar com os Peace Birds... “Eu, eu poderia discutir com os Peace Birds. Eu, eu acabaria com eles de tal forma, que nunca mais ficariam falando por aí. Teria os argumentos certos. E sou uma criança. Crianças devem falar com crianças.”

Sim, Thomas disse isso, pensou Elmar Ritt, achando que estava próximo, muito próximo da verdade que tanto procurava.

— Você aí! — disse Angela Gatterburg para o rapazinho que queria falar no começo da entrevista. — Agora é com você! O que queria saber?

Ele se levantou novamente. Seu rosto estava vermelho de excitação. — Eu queria saber — disse ele — como se vira um Peace Bird.

Enquanto ele falava, Ekland filmou sua cara, bem grande.

Isabelle se encostou no ombro de Gilles. Ele olhou para ela. Ela mostrou a última linha de uma carta que estava colada na parede bem ao lado deles.

Quero viver — e o meu gato também.

 

— A ecologia só tem futuro se for em forma industrial. E a indústria só pode ter futuro se pensar ecologicamente.

O homem que disse isso, na noite de 28 de setembro de 1988, uma quarta-feira, na grande cozinha dos Vitran, em Paris, se chamava Pierre Leroy. Ele era muito grande, muito forte e tinha 37 anos. Seus cabelos eram levemente crespos. Leroy tinha um rosto largo, uma testa alta e olhos escuros e vivos. Físico de profissão, sua aparência poderia lhe conferir também um aspecto de atleta. Colaborador de Gerard Vitran há muitos anos, ele vinha da Alsácia e falava um quase perfeito alemão com os presentes, sentados na cozinha depois do jantar, bebendo café e conhaque: Marvin, Valerie Roth, Gilles e Wolf Loder. Isabelle ajudava Monique a recolher a louça. Ekland e Katja não estavam. Haviam ficado na pequena pensão. Certamen­te seriam comunicados depois sobre o que deveria ser filmado, como havia pedido Ekland. Agora eles só queriam estar presentes no trabalho efetivo e não mais nas discussões preliminares. Com isso, a péssima atmosfera no grupo havia ficado ainda mais difícil.

Ela, ao que parecia, havia poupado Pierre Leroy, que falava segura e animadamente. Monique o havia apresentado aos outros — o seu marido havia sido chamado na Arábia Saudita. Lá surgiu, nas proximidades de Riad, uma rede de abastecimento de eletrici­dade adequada às necessidades locais e que se baseava em energia solar.

— Para pessoas que trabalham com energias alternativas, como por exemplo o doutor Loder, existe um grande obstáculo psicológi­co — continuou Leroy, que havia trabalhado durante anos em diversos lugares. — Vejam: Até agora, tudo o que tem a ver com a produção de energia está nas mãos de alguns poucos. Seja onde for que se precise de eletricidade, você a receberá de monopolistas todo-poderosos. Todos são absolutamente dependentes dessas pes­soas. Porém, a idéia fundamental da energia solar diz que ela se imporá melhor e mais rapidamente em pequenas unidades — comunidades, casas individuais, instalações isoladas e fábricas. Isto vale particularmente para o Terceiro Mundo. O doutor Loder sabe: a coisa realmente revolucionária da técnica solar é que ela torna as pessoas independentes dos monopólios de eletricidade. Se alguém constrói uma casa solar, se um grupo de pessoas pegar toda a sua energia de uma pequena usina de energia solar, então estão perdidos para os todo-poderosos. Isto é, naturalmente, o pesadelo dos monopolistas. Por isso eles tentam dificultar a vida de Loder, de sua gente e a nossa, exatamente onde podem. Não mais dependentes deles — quel horreur!

— O senhor fala muito bem alemão — disse Marvin.

— A segunda língua, já na escola — disse Leroy — e também em casa.

— Homem muito digno — disse Monique, em voz baixa, para Isabelle. As duas encheram a máquina de lavar pratos com a louça do jantar. — Gerard está muito contente de que ele trabalhe agora em Paris.

— Cuidado com as taças de vinho! — disse Isabelle. — Você precisa colocá-las de outra maneira, senão escorregam quando a máquina funcionar.

— Ele também lhe agrada?

— Bem — disse Isabelle —, de certa forma, sim.

— O que você não gosta nele?

— Monique, você realmente precisa colocar as taças de outra maneira, acredite em mim!

— Quero dizer — disse Leroy —, esse, na verdade, foi também o motivo do fracasso de Gerard no seu aconselhamento ao governo. Antes, quando ainda era secretário da seção dos trabalhadores em energia atômica, aconteceu o mesmo. Era sempre Gerard que voltava a mostrar os perigos da técnica com plutônio — até que as firmas fizeram questão de que ele saísse. Já ouviram falar do caso não é?

— Sim — disse Valerie Roth. — E em seguida o governo disse que ele deveria cuidar da economia de energia na França.

Leroy afirmou. — E aqui estamos novamente com o obstáculo psicológico, sobre o qual falei no início. Gerard viu imediatamente que a economia de energia só é possível, se ele cobrir a França com uma rede de agências de energia descentralizadas — descentralizadas! —, se oferecer aos consumidores técnicas econômicas e ecológicas. Exatamente isso também faz monsieur Loder, exa­tamente isso fazem todos os pesquisadores de energia solar. Eles criam um abastecimento de energia própria para o indivíduo — e com isso são, é claro, inimigos mortais dos monopolistas.

— Leroy muito certamente poderia colocar as taças de vinho no engradado, de forma que nada acontecesse, não é? — disse Monique baixinho, ao lado da máquina, e riu.

— Ah, pare com isso! — disse Isabelle.

Pierre Leroy havia se levantado e andava pra lá e pra cá na cozinha.

— Enquanto Gerard fazia o seu estudo para o governo sobre as possíveis possibilidades de economia de energia, a economia nucle­ar estatal tinha justamente a estratégia contrária: como uma explosão, surgiram sempre novas UENs e com uma pressão para a comercialização de eletricidade. Cada vez mais eletricidade deveria ser consumida. Sempre mais, sempre mais. Isso levou a que, já há dez anos — Gerard se mandou uma segunda vez —, praticamente todas as construções novas fossem feitas com calefação elétrica, ou seja, de maneira particularmente antiecológica e antieconômica. Mesmo as mais afastadas regiões rurais habitadas são incluídas na era atômica. Gerard e seu pessoal, em contrapartida, se preocuparam com a construção de usinas de madeiras descentralizadas. Também foram demitidos e perderam — aparentemente. As pesso­as devem gastar muita, muita eletricidade e estragar o meio ambiente e prejudicá-lo e pagar o pato... — Leroy falou com raiva. Ficou em pé. Em voz alta, ele disse: — Sim, mas só aparentemente. Antes de Gerard e os outros irem embora, eles ainda plantaram a sua semente: por todos os départements das províncias francesas dei­xaram, no local, escritórios regionais com especialistas em energia, que trabalham na linha de economia de energia.

— E um dos especialistas é o senhor — disse Loder.

— Sim — disse Pierre Leroy. — Um deles sou eu. Vamos ver quem vence no final.

— Ele, naturalmente — disse Monique em voz baixa. Sorrindo, ela ligou a máquina de lavar pratos.

— Gostaria de saber se o seu vencedor também tem sentimentos — disse Isabelle.

— Conte, por favor, como o senhor trabalha — disse Marvin. — Para que tenhamos uma idéia do que poderemos filmar.

— Sim — disse Valerie Roth —, como é a semente da qual falou — a semente que deixaram Gerard e seus amigos?

Pierre Leroy sorriu repentinamente, jovial e emocionado. — Falei presunçosa e energicamente, não foi? — perguntou ele. — Perdoem-me. É uma déformation professionnelle... Quando se quer continuamente convencer pessoas, quando se quer avançar, alcan­çar alguma coisa... então se ganha esse leve tom de acreditem-e-me-sigam-pois-conheço-o-caminho-certo... É claro que temos muitos outros projetos. É claro que muita coisa não funciona como esperamos. É claro que experimentamos. Pegamos um método e tentamos com ele. Quando não dá certo, reconhecemos isso e tentamos com outro método... Mas pelo menos tentamos sempre... E antes pensa­mos muito bem, pois não podemos nos dar ao luxo de muitos fracassos. — Ele pigarreou. — Um pensamento serve de base ao nosso trabalho: deve botar um ponto final nessa produção de energia desmedida, e o mais rápido possível. Nós devemos — e podemos! — baixar muito a produção de energia. Só assim a energia alterna­tiva, sobretudo, é claro, a energia solar, tem uma chance! Só assim não continuaremos a destruir este mundo quase irreversivelmente destruído. A primeira tarefa dos nossos escritórios regionais — disse o grande e forte Pierre Leroy, passando a mão nos crespos cabelos pretos — é, por isso, elaborar, em conjunto com os políticos comunais, um plano de ação político-energético.

— E porque não dá certo com o dinheiro do Estado e nunca há o suficiente — se intrometeu Monique —, o nosso pessoal é obrigado a achar soluções sempre novas para a energia, quer dizer: melhores e mais baratas. Aqui a pobreza tem alguma vantagem.

— E ainda tem outra coisa — disse Leroy. — Vivemos, e neste caso preciso dizer graças a Deus, num sistema capitalista. Se pudermos sempre mostrar que com “pouco” e “barato” podemos alcançar algo melhor do que com “caro” e “muito”, então nenhum capitalista vai deixar de se emocionar! Então uma velha raposa da economia deve dizer: o que até agora ganhamos em energia com a queima de óleo, gás e carvão só era uma pequena parte do teor de energia desses materiais — e além disso estragamos o ar! O mesmo vale para a energia nuclear. Aí só são transformados 30% da energia primária, loucamente cara, em energia elétrica. Então a velha raposa simplesmente deve dizer: “Aqui está a nossa grande chance.” O futuro acaba de começar, meus senhores! Não os proletários de todos os países — isso é passado, não, em breve se dirá: capitalistas de todos os países, vejam o quanto se pode vender “barato” e “saudável” e acumular dinheiro — e uni-vos! É assim que será. E então precisamos ter de novo um cuidado infernal, para que não venham novos monopolistas.

Gilles riu.

— Uma figura, não é? — disse ele em voz baixa para Isabelle.

— Você acha? — cochichou ela. — Eu não. Pretensioso e convencido 200% nele mesmo, e tudo por uma gracinha.

— Essa situação — disse o atlético Pierre Leroy — obriga, é claro, os políticos comunais a também procurarem soluções melhores e mais baratas. Na maioria dos casos o nosso pessoal conseguiu desenvolver relações de trabalho com os políticos regionais, caracterizadas pela confiança e respeito recíprocos. Aí a história francesa nos é favorável. Por causa da tradição monarquista ou, respectiva­mente, jacobina, todas as relações entre Paris e as regiões sofrem da desconfiança para com o poder central!

— Qual é exatamente a sua função, monsieur Leroy? — perguntou Marvin.

— Bem, eu diria que meus colegas e eu somos animadores, estimuladores. Sem nós e nossa pressão contínua muitos desses políticos locais e sua montanha de problemas — desemprego, educação, planejamento de transportes — iriam colocar a questão da energia em último plano.

— Concretamente — disse Valerie —, como poderíamos mostrar tudo isso em imagens?

— Há regiões onde particularmente temos êxito — disse Leroy. — Irei com prazer com vocês até lá. Por exemplo, até Poitou-Charente. Lá o lixo industrial é utilizado para a produção de energia. Pequenas redes à base de madeira combustível fabricam a calefação de prédios habitacionais. Também lixo doméstico e até mesmo uma fonte térmica foram incluídas na rede. — Ele se iluminou e mostrou dentes fortes e brancos. — Madeira de má qualidade não é jogada fora, mas utilizada para a produção de energia. Então a enorme fonte de energia das regiões de vinhedos: lá temos caldeiras especiais para o uso de lixos comestíveis. Como em outros lugares, prédios habitacionais e da agricultura são modificados para uma melhor utilização da energia. Na costa atlântica surgem instalações do programa social de habitação sob utilização da energia solar e bioenergia. Além disso, introduzimos eletroautomóveis em substituição às velhas caixas de gasolina. Também as construções com calefação com madeira de bancos e seguradoras. — Ele começou a novamente andar para lá e para cá. — Ou Franche-Comté! Vocês precisam ir lá! Entre as numerosas serrações da região de florestas e as áreas habitacionais são construídas redes de calor. Trabalhamos em conjunto com a silvicultura e a madeiraria. Se examinarmos e procurarmos bem, podemos ainda baixar as significantes importações da França de madeira útil para construção e economizar divisas — e por outro lado adaptar todas as calefações de prédios para duradouros “briquetes de madeira”. E precisam ir comigo a Nord/ Pas-de-Calais! Lá a aceria USINOR irá abastecer a nova rede de calor de toda uma parte da cidade com calor de lixo. Calor de lixo!

Embaixo, no escritório, o telefone tocou. Monique desceu correndo a escada, depois gritou: — Monsieur Gilles! Para o senhor!

Gilles olhou interrogativamente para Isabelle, alçou os ombros e se levantou. Só ficou no escritório por pouco tempo.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Isabelle, depois que ele subiu.

— Era o monsieur Oltramare — disse ele. — Minha casa foi arrombada. Já há oito dias. Me procuraram esse tempo inteiro, até que me acharam aqui, graças ao senhor Ritt. Monsieur Oltramare diz que Gordon ouviu barulhos e foi olhar. Os ladrões atiraram nele que está no hospital. A polícia quer me ouvir e saber o que foi roubado.

— Você precisa ir até Château-d’Oex? — perguntou Isabelle

Gilles disse que sim. — O mais rápido possível.

— E Gordon está no hospital?

— Sim.

— Onde?

— Em Fribourg.

— Vou com você — disse Isabelle. E para Leroy: — O senhor fala tão bem alemão, monsieur. Para os próximos dias vocês não precisarão de intérprete, não é?

— Certamente não, mademoiselle — disse Pierre Leroy, sorrindo. — Acompanhe o monsieur Gilles com a consciência limpa.

 

Segunda-feira, 3 de outubro de 1988: agora já estamos há cinco dias em Château-d’Oex. Chegamos de avião em Gene­bra, no dia 29 de setembro. Monsieur Oltramare foi nos buscar, gentil, tímido, cheio de charme.

Na estrada Philip notou que um bom pedaço das paredes para proteção sonora estava coberto de células solares, e me mostrou. — Este é um projeto-piloto, disse monsieur Oltramare. Um campo assim de células, numa região ensolarada como esta, fornece 140 mil quilowatts por hora de “eletricidade solar” por ano — mais ou menos o consumo anual para 30 famílias. — Caramba, disse Philip. — Você vê, dá certo! disse eu. E monsieur Oltramare continuou a contar que esse tipo de paredes para proteção sonora também já funciona na estrada Rheintal para Chur e que está planejada uma instalação solar ao longo da ferrovia Bellinzona — Locarno. — Se fossem montados campos de células solares em todas as estradas e ferrovias onde a irradiação solar é forte e suficiente, disse monsieur Oltramare, poderiam ser produzidos, segundo se diz, 550 mil megawatts por hora de eletricidade por ano. Uma grande usina de energia solar deve ser inaugurada em breve, no Mont Soleil, no Jura. E mesmo na famosa estação termal Arosa muitas casas de repouso já são abastecidas com eletri­cidade e água por energia solar, sim, lá até as máquinas de ordenha para as vacas funcionam com energia solar.

 

Monsieur Oltramare havia trazido o feio cachorro de Gordon Trevor, pois agora era ele que cuidava de Happy com os grandes e tristes olhos e o pêlo malhado que faltava em alguns pontos. O cachorro não pôde entrar no hospital, por mais que Gordon tivesse pedido.

Ainda havia um calor estivai, muitas flores se abriam nos campos outonais. Philip Gilles estava sentado ao lado de monsieur Oltramare no velho carro, Isabelle atrás dele. Ela pôs uma mão sobre seu ombro e se sentiu muito ligada a ele. O cachorro estava sentado aos pés de Philip.

Monsieur Oltramare disse que nunca havia acontecido um arrombamento em Château-d’Oex desde que ele mora lá, que todas as pessoas estavam chocadas. Mas o número de drogados sempre aumentava, e eles arrombavam em todos os lugares, quando precisavam de dinheiro de qualquer forma, para a próxima dose, arrombavam a qualquer hora do dia e da noite, fosse qual fosse o risco.

Monsieur Oltramare se mostrava preocupado que coisas como essas acontecessem no seu pequeno paraíso — ainda mais na casa de Philip, de quem ele gostava tanto, e que Gordon, de quem ele também gostava muito, tivesse sido atingido com tiros. Gordon teve muita sorte, disse monsieur Oltramare, enquanto viajavam por cidadezinhas e campos onde a colheita já acontecera, sempre subindo as montanhas, sobre as quais brilhava um céu de azul forte. Philip pousava sua mão sobre a de Isabelle, e ela pensou que grande sorte os dois haviam tido ao se encontrarem.

Um tiro havia atingido Gordon na anca esquerda, disse monsieur Oltramare, mas nem o baço nem o rim estavam feridos. Foi uma bala alojada, e Gordon estava no hospital, em Fribourg.

— Muita coisa roubada?

Monsieur Oltramare ficou ainda mais aflito. — Os caras não tiveram muita dificuldade — disse ele. — A porta de entrada do Le Forgeron tem apenas uma fechadura muito simples que se pode abrir com um pedaço de arame, e os caras também tinham muito tempo e...

— Sim — disse Philip —, e aí?

— ...e não acharam nada que pudessem transformar em dinheiro rapidamente, muito menos dinheiro vivo, e assim os dois, por vingança, tiraram os livros das estantes e destruíram muita coisa e levaram ternos e o Meditador, essa escultura de bronze, de Barlach

Monsieur Oltramare disse isso com grande esforço, pois ele sabia o quanto Philip gostava do Meditador, e ao contá-lo, fez-se um longo silêncio no carro, e Isabelle viu que Philip estava muito atordoado.

— Mas como eles puderam roubar a estátua? — perguntou ele. — Ela é tão pesada!

Monsieur Oltramare disse: — Eles roubaram um triciclo que estava no gramado ao lado do meu hotel. Nele levaram o Meditador e fizeram, assim, um pouco de barulho. Happy então latiu, o que fez com que Gordon acordasse. — O inglês teria saído de pijama e gritando da casa vizinha, Les Clématites, e aí um dos caras teria atirado, e o feio cachorro gemeu no banco da frente quando Monsieur Oltramare contou isso; é claro que ele entendia tudo.

— Mesmo assim, muito estranho — disse Philip. — O que viciados fazem com uma escultura?

— Oh, há tantos interceptadores, monsieur Philip, o senhor não faz idéia. Quanto mais viciados, tanto mais receptadores. Eles pegam uma coisa dessas rapidamente e enganam bem os ladrões, quando estes lhes trazem uma escultura assim ou jóias ou quadros ou seja lá o que for, mas para os viciados é indiferente, eles só pensam na próxima ração, n’est-ce pas? Sinto tanto, monsieur Philip.

— Eu também — disse Philip.

 

 

Quando, mais tarde, eles entraram na pequena casa com os dois gendarmes, viram que os arrombadores devastaram com vontade. O tapete bordado à mão estava cortado em muitos pontos, bonitos livros pelo chão, rasgados, os antigos móveis estavam arranhados e todas as gavetas arrancadas e destruídas. Na colcha da cama de Philip havia uma mancha grande, suja, e um gendarme disse, envergonhado, que os ladrões haviam... — Sim, monsieur Gilles, eles deixaram uma montanha de excrementos. Tivemos de limpar... as moscas... Os ladrões fazem sempre isso aqui no Sul, quando ficam com raiva porque não acharam nada...

Os gendarmes fizeram muitas perguntas a respeito do Meditador, Philip descrevendo exatamente como era a estátua. Ele mostrou fotografias dela na obra de três volumes de F. Schult que ele tinha e estava esgotada há muito tempo, somente disponível em museus e antiquários. Os gendarmes pediram para levá-la, para fotocopiar as imagens e poder dar à equipe de busca uma descrição exata. O Meditador II tinha na obra o número 445 (também havia um Meditado I), e Philip disse que na parte de trás da base não muito alta estava gravado, em bronze, E. BARLACH 1934.

 

 

De tarde eles foram com o carro de Philip até Fribourg para visitar Gordon, mas uma enfermeira velha, grande e gorda lhes disse que Gordon não podia receber visitas.

— O que significa isso? — perguntou Philip, assustado. — Aconteceu alguma coisa?

— Isto, não — disse a rigorosa enfermeira-chefe, que se chamava Bernadette — o nome estava inscrito numa plaquinha sobre a sua blusa. — Simplesmente ainda é muito cedo para visitas.

— Mas o monsieur Oltramare já esteve aqui!

— Agora — disse a enfermeira Bernadette — ele também não poderá mais vir.

— E por que não?

A enfermeira-chefe disse alguma coisa sobre responsabilidade.

— A senhora nos proíbe de visitar monsieur Trevor? — perguntou Philip.

— Proibir — disse a enfermeira Bernadette — eu não lhes proíbo nada. Só não posso me responsabilizar por isso.

— E quando poderemos visitar monsieur Trevor?

— Depois. No momento, de jeito nenhum.

Simplesmente não se podia fazer nada, e assim eles voltaram para o Hotel Bon Accueil e contaram a estória a monsieur Oltramare, que começou a rir.

— O que há de tão engraçado? — perguntou Philip.

E monsieur Oltramare contou o que era tão engraçado. Ele havia visitado Gordon todas as tardes para jogar xadrez e beber uns uísques. Ele sempre levava uma garrafa, que Gordon escondia num cantinho atrás de uma Virgem Maria de cerâmica pintada, até que Oltramare levava de volta a garrafa vazia. Por último, então, eles haviam sido surpreendidos pela enfermeira-chefe Bernadette. Esta ficou muito irritada e proibiu o uísque a Gordon Álcool era um veneno pérfido, disse ela. — Ouvi dizer que o senhor bebe há anos, monsieur Trevor. Comigo o senhor não fará isso. Álcool provoca impotência. O senhor quer ser impotente, monsieur Trevor?

— E aí — contou monsieur Oltramare — Gordon respondeu: “sim, querida enfermeira Bernadette, esse sempre foi o meu maior desejo. Mas imagine só que já há 45 anos a aviação militar alemã o realizou”. E isso — disse monsieur Oltramare — deixou a enfer­meira-chefe com mais raiva ainda, e desde então ela não pode mais se responsabilizar, do ponto de vista médico, pelas visitas. Mas daqui a alguns dias ela sairá de férias, então vocês poderão ver Gordon. As outras enfermeiras não têm nada contra um pouco de álcool.

— E por que Bernadette se opõe tão veementemente? — pergun­tou Philip.

Monsieur Oltramare riu novamente e disse: — Bernadette vem de Château-d’Oex, e seu marido é um alcoólatra inveterado e totalmente impotente. — Toda a cidadezinha sabia disso, e isso só mostrava como as experiências pessoais formavam uma pessoa.

 

Liguei para Monique em Paris perguntando se eles já precisavam de mim e Philip novamente, e Monique diz que nós poderíamos tranqüilamente ficar por um tempo, a equipe estava com Pierre Leroy entre três départements, agora mes­mo eles estavam filmando na USINOR, em Duenkirchen e avisariam quando acabassem. Leroy também escrevia os textos, fazia suas coisas muito bem e todos estavam encantados com ele.

Esse Leroy há dias que não sai da minha cabeça — como um rosto que aparece do escuro num piscar de um relâmpago.

Quando desligo o telefone e digo a Philip que ainda podemos ficar, ele, que justamente tenta tirar o caos de sua pequena casa, fica tão feliz quanto eu e me levanta e dá rodopios comigo; e rimos os dois como dois maluquinhos, e então caímos sobre o grande sofá ao lado da lareira...

 

 

Quinta feira, 6 de outubro de 1988: hoje de manhã fomos com o carro de Philip por uma parte de montanha acima até lá, onde a estrada está interrompida, sobre a cidadezinha. Estacionamos numa barreira e continuamos a pé. O cami­nho pedregoso era inclinado, novamente o céu estava azul-escuro, o sol brilhava, nas escarpas pastavam muitas vacas malhadas de branco e marrom, as encostas estavam limi­tadas por cercas de arame farpado, e nos gramados e pastos muitas flores ainda se abriam. Philip conhecia os nomes das plantas e me dizia. Como você sabe tudo isso? — Vivo aqui há dez anos, chérie. Conheço cada árvore, cada arbus­to, cada pedra, cada flor, cada estação do ano. Os campo­neses me disseram como se chamavam todas essas plantas. Por todos os caminhos andei muitas, muitas vezes com Gordon. Se alguma vez em algum lugar eu me senti em casa, foi aqui...

Agora já subimos bem alto. Andamos mais lentamente, nos sentamos sobre uma raiz de árvore. Muito abaixo de nós está a cidadezinha. Tanta calma. Tanta paz. Tão bonito. Lá em cima ele me conta por que tem tanta relação com Barlach, com o Meditador...

Seu pai era arquiteto. Quando Philip era um garotinho, por um tempo tiveram uma vida muito boa. Depois o pai perdeu tudo o que tinha, depois da quebra da bolsa em 1929. A partir de 1930 eles eram muito pobres.

Quando ainda viviam bem, tinham uma casa em Berlim-Zehlendorf. Nos finais de semana sempre iam muitos convidados. A mãe de Philip admirava atores, escritores, escultores, músicos, pintores... todos os tipos de artistas. Eles ficavam sentados atrás da casa, no jardim. Iam também políticos, médicos e advogados. Os pais de Philip tinham uma grande casa, até que tudo foi perdido. Homens famosos e particularmente os diversos cheiros de perfumes de damas maravilhosas ficaram na memória do garotinho, que podia participar e ouvir tudo. Às sete da noite ele devia comer e às oito ir para a cama.

Era sempre a mãe que convidava, tão interessada que era em todo o tipo de arte. O pai se interessava e era politicamente engajado. Havia trabalhado com Bebei. Velho socialista, o pai de Philip.

Muitas vezes ia um ator que sabia imitar Hitler muito bem. E todos morriam de rir quando ele imitava esse palhaço que queria governar a Alemanha. Alguns anos mais tarde, muitos daqueles que riam estavam em campos, exilados, mortos. Também o pai de Philip. Os nazistas o mataram...

Quantos anos você tinha em 1930? pergunto. — Não tinha ainda cinco anos, diz. Naquele tempo ele tinha ouvido falar de Barlach pela primeira vez. Havia uma famosa atriz em Berlim, Tilla Durieux. Era casada com Paul Cassirer, que negociava objetos de arte. Também foram algumas vezes a Zehlendorf. Cassirer protegia Barlach. Justamente naquele tempo ele havia começado a criar o seu Friso dos ouvintes. Este trabalho tinha raízes musicais e foi originalmente planejado para um monumento a Beethoven. Primeiramente as figuras em relevo deveriam estar ordenadas em torno de uma coluna — em cima a cabeça de Beethoven — e escutar a música maravilhosa... Entre outros estavam a Peregrina, a Dançarina, o Devoto, o Sensível, a Perdoada, o Caminhante e também o Meditador... O Meditador I, diz Philip. Você precisa imaginar! Essas figuras, magras e estreitas, não tinham costas, estavam encostadas na coluna, não é? O trabalho ficou inacabado, o resultado não havia sido bom, contou Tilla Durieux. — Tudo isto você notou? — Sim, diz ele. — Estranho. — Não é estranho. — Como não? — Espere! diz ele. Meu pai era uma pessoa calma, bem diferente de minha vivaz mãe, que gos­tava de admirar as coisas. Vejo-o diante de mim, sentado numa cadeira de vime, fumando o seu cachimbo e escutando. Ele sempre fumava cachimbo e sempre escutava. Assim eu me lembro dele... (Escrevo tudo isto minuciosamente porque a estória me impressionou muito e, é claro, por causa de seu fim.)

 

 

— Sim — disse Philip lá na encosta entre flores e pedras e arbustos espinhosos — e Durieux me contou que ela queria ao todo nove figuras da coluna de Beethoven para a sua sala de música... coisas assim ainda havia naquele tempo, chérie! Tais desejos ainda se podia ter. E em 1929 Barlach recomeçou com esse friso, mas dessa vez cada figura deveria ser independente e ter costas — separadas do relevo da coluna, sabe... Antes disso, porém, Barlach, por um motivo qualquer, tirou a nona figura, justamente o Meditador e substituiu por uma outra figura, o Cego, que se parecia com o artista...

— Por quê? Por que ele tirou o Meditador? — perguntou Isabelle.

— Por quê? Ninguém sabia responder. E justamente porque não havia resposta, porque ficou um mistério, o garotinho, que era eu, também se interessou pelo Meditador.

 

Barlach queria fazer um novo Meditador para Durieux, que ficou sendo o Meditador II. Philip tinha cinco anos, quando a figura começou a fasciná-lo... Ele falava comigo lentamente, na sua lembrança dos anos que já estavam tão longe, tão longe, perdidos na areia do tempo...

Esse Friso dos ouvintes nunca ficava pronto. Cassirer morreu. Durieux se casou novamente. Seu segundo marido deu mais dinheiro a Barlach. Então o segundo marido também perdeu tudo. Por último veio Hermann Reemtsma, um armador de Hamburgo, o irmão do fabricante de cigarros. Reemtsma apoiou Barlachdesde aquele tempo até a sua morte, em 1938... Seus trabalhos foram tirados de museus e igrejas, muita coisa foi destruída. O que Barlach criou foi considerado “arte degenerada”. Philip disse que tinha numerosos livros de Barlach no Le Forgeron, depois ele leu para mim o que os nazistas escreveram sobre Barlach...

 

 

Sim, eu li para Isabelle. Agora, tanto tempo depois, transcrevo esses apontamentos do seu diário na sala do Le Forgeron e também pego o livro Barlach, de Carl D. Carls, da estante. É a melhor obra sobre ele. E Carls cita do Völkischer Beobachter: Em meio a essas figuras de Barlach tem-se a impressão de estar em companhia de neuróticos, de criaturas mentalmente limitadas e inconstantes. Sente-se envolvido pela exalação de corpos descuidados, de formação pesada e maus humores, de vítimas de raças menores semi-idiotizadas... Um antiartista desviado da natureza... Um profanador da cultura...

 

Por que os nazistas odiavam tanto Barlach? pergunto. — Olhe para as suas figuras! diz Philip. Entre elas não há nenhuma que não mostre sequer a sombra da disposição de se submeter a criminosos, de obedecer a eles, realizar as suas ordens ou mesmo se tornar iguais a eles. Isso deve ter enlouquecido os nazistas, Barlach e as suas figuras: que ele e elas nunca se curvariam. Que cada uma dessas figuras — como ele — era a imagem da liberdade do espírito e do indivíduo.

Então, quando o pai de Philip foi morto pelos nazistas, quando eles proclamaram a morte de Barlach, então Barlach, seu pai e o Meditador se fundiram cada vez mais num só, o símbolo de tudo o que havia de bom e decente, da resistência à violência e ao terror, a tudo em que ele acreditava, por que ele esperava...

Muitos anos depois da guerra Philip viu o Meditador pela primeira vez. Ele viu! Em Hamburgo, na Casa de Barlach, que também Reemtsma havia mandado construir, onde se pode ver muitas obras de Barlach, que desafiaram os nazistas e seu terror. Desde então, Philip procurou desesperadamente uma cópia do Meditador — em vão. Não achou em lugar algum. Ele não sabe mais a quantas galerias ele pediu para achar uma. E então, em 1977, um marchand de Berlim lhe telefonou e disse que uma cópia em bronze do Meditador havia aparecido — em Londres! E que estava à venda. Philip havia vendido naquela época um roteiro aos Estados Unidos por muito bom preço... e finalmente o Meditador estava diante dele — depois de quase uma vida inteira...

Alguém a havia salvo. Mas não era só o salvamento. Era muito mais. Era a prova definitiva de que o mal nunca vence. Às vezes dura muito. Mas nunca eternamente. Era a prova de que não se pode destruir o que é bom, diz Philip. Muitas vezes se tenta. Muita coisa boa se perde. Mas o bem ninguém pode destruir. É exatamente como escreve Hemingway: eles podem matar alguém — mas não podem destruí-lo. Eles puderam matar meu pai, mas não destruí-lo.

Eles pude­ram levar Barlach à morte, mas não destruí-lo. E nunca as suas figuras. Por muito tempo esse era o meu único consolo, diz Philip, pensar em tudo isso, Isabelle. Até que encontrei você. Desde que nos amamos, tudo ficou diferente. E por isso não é tão grave que o Meditador tenha sido roubado. Sem você, Isabelle, sem você seria... Philip não diz a frase até o fim, e digo: ele voltará, o Meditador. Ele precisa voltar! O mal não vence jamais, e o bem ninguém pode destruir. Você ainda acredita nisso? — Sim, acredito. — Então!, digo eu. Então você também precisa acreditar que o Meditador irá voltar. Lógico, ou não? — Isso é lógico, diz, e sorri.

Por muito tempo ainda ficamos sentados na raiz da árvore. Então fazemos o longo caminho de volta ao carro e vamos para o vale e até Fribourg. Ouvimos falar que a enfermeira Bernadette havia entrado de férias, e assim, finalmente, va­mos visitar Gordon.

 

 

Gordon ficou muito feliz em rever Philip e também Isabelle. Ele estava num quarto individual do grande e moderno hospital. Philip abraçou Gordon com cuidado, Isabelle também o abraçou, e então eles se sentaram na sua cama. Eles haviam trazido revistas e jornais e livros de bolso, e Philip também pegou uma garrafa de uísque. Gordon riu feliz e explicou onde estavam os copos para escovar os dentes. Havia até uma pequena geladeira naquele quarto, um hospital realmente muito bem equipado.

Então todos tinham os seus drinques e beberam pela rápida recuperação de Gordon, e este contou que havia tido o mesmo sonho três vezes.

— Pois bem, imaginem — disse ele. — Eu vôo! Não com um balão, não com o meu velho Spitfire, mas não há guerra, vôo assim, bem alto e com tempo bom, e ainda por cima escuto a minha música preferida. Simplesmente fantástico! Em todos esses anos nunca tive esse sonho. No meu sonho estou muito feliz e saudável, e nunca fui ferido, tudo está em ordem, e sei que minha mulher espera por mim, quando voltar para casa.

Ele viu que Isabelle baixou a cabeça e disse: — Nunca fico triste quando acordo, Isabelle, tive a minha época e coisas muito mais bonitas do que muita gente teve, pois acabei vindo para Château-d’Oex e tenho Philip e monsieur Oltramare.

— E eu — disse ela.

— Você é maravilhosa — disse Gordon. — Você é simplesmente maravilhosa, Isabelle, e faço um brinde ao amor de vocês. Vamos beber a ele!

E assim fizeram.

 

A música preferida de Gordon era o Concerto para clarineta nº 2 de Mozart, perguntei a ele.

Quando, mais tarde, chegamos diante da casa de Philip, um carro está estacionado. Um oficial da polícia conversa com monsieur Oltramare. Ele nos olha. Ele tem a chave da casa de Philip, a casa está aberta e vemos imediatamente: o Meditador está novamente na sala. Eu fiz a profecia. Eu soube. E mesmo assim quis desmaiar por um momento.

O oficial contou: a estátua foi oferecida a um marchand em Zurique. Por dois homens. Eles perceberam que o marchand tentou chamar a polícia. Eles desapareceram rapidamente e deixaram a estátua para trás.

Então ficamos sozinhos. Fez-se noite. Philip vai pegar lascas, madeira e grandes toros. Ele acendeu a lareira. Estamos sentados lado a lado, o Meditador diante de nós e as chamas dançantes. Ponho um braço no ombro de Philip. Luz e sombra sobre a estátua. É como se ela tivesse 100 diversas caras, como se ela vivesse. Lá fora passam pessoas. Risos. Depois nova­mente o silêncio. Temos tanta sorte, digo. — Sim, diz Philip, tanta sorte...

 

Li essas anotações de Isabelle mais uma vez e constatei, surpreso, de que maneira diferente falei e pensei lá em cima, na encosta, de maneira tão diferente de tão pouco tempo antes. Tão diferente quando do começo deste relato, quando apenas tenho nojo desse mundo e de suas pessoas, quando cito O monstro de Horstmann. E falei do mal que nunca vence. Do bem, que por último sempre vence. O que aconteceu comigo, desde que encontrei Isabelle? Que presente, esse amor tardio!

Ela falou de sorte, lá, diante da lareira.

E também algumas vezes de Pierre Leroy, naqueles dias..

 

Katja Raal segurou um pedaço de cartolina branca em frente à câmera, onde havia escrito: HAMBURG/I, INTERVIEW DR. BRAUNGART.

Bernd Ekland estava atrás de uma BETA montada num tripé e disse baixinho: — Por favor, doutora Roth...

Numa escrivaninha com muitos livros e papéis estava ela, diante de um homem grande e magro e que usava óculos. Seus claros olhos verde-cinzentos eram bem vivos.

A câmera filmava.

Valerie disse, olhando para a objetiva: — Este é o doutor Michael Braungart, diretor do EPEA, Instituto do Meio Ambiente em Hamburgo.42 Sua mulher é membro dirigente do Greenpeace Internacional...

Era o começo da tarde de 14 de outubro de 1988. No dia 17 de outubro, três dias mais tarde, a equipe tinha um encontro com o ministro do Meio Ambiente em Bonn. Lá deveria ser filmada a sua tomada de posição sobre o transporte de dioxina, em grande parte já acontecido.

No escritório do Dr. Braungart todas as paredes estavam cobertas de armações, entupidas de livros, papéis, pastas e dossiês. Isabelle, Marvin e Gilles estavam num canto da sala e escutavam.

Doutor Braungart — disse Valerie para o homem incrivel­mente jovem —, qual o significado da abreviatura EPEA?

Braungart alisou os cabelos louros. — A abreviatura significa Encouragement Protection Enforcement Agency, mais ou menos: Agência para a Realização de Proteção do Meio Ambiente. Temos escritórios em Londres, Nova Iorque, São Paulo e Moscou. — O homem superinteligente falava muito rápido.

— O senhor é físico?

— Sim.

Valerie se curvou. — Doutor Braungart, depois de todos os protestos contra depósitos de lixo, há nesse meio-tempo, na Alemanha Federal, 54 instalações para a queima de lixo.

— A denominação exata — disse Braungart — é usina de lixo A senhora entenderá logo a sutil e psicológica ligação com a usina nuclear, que essa nova palavra desencadeou. 54 usinas de lixo, sim. Encomendadas pelas cidades. Com essas usinas de lixo, porém, também chegam protestos da população.

— Por quê?

— Porque elas não são boas. Na queima são liberadas dioxina e novas ligações venenosas. As primeiras medidas foram terríveis. E aí vêm os da União. Têm dificuldades de se desfazer de sua capacidade excedente, que, graças à lei de 1935, eles podem produzir. Simplesmente coisa demais aconteceu, os políticos em Bonn e nas comunas estão irritados. Bom, dizem os da União, fazemos uma proposta: vocês se asfixiam no lixo. Nós oferecemos usinas de lixo super de luxe. Vocês agora notam as sutis e psi­cológicas ligações? Usinas nucleares — usinas de lixo! E o desejo por trás disso é o mesmo: todos devem comprar de nós. Nós devemos ter o monopólio. — Braungart agora falava com raiva, mais rápido ainda. — Usinas de lixo são o maior negócio depois das usinas nucleares! Um volume de investimento de 30 a 40 bilhões de marcos está sendo esperado. Por isso muitas grandes companhias também participam da construção. As usinas nucleares dos anos 90, as usinas de lixo dos monopólios de energia!

— Quantas devem ser construídas?

— No momento, 120. Algumas já estão em andamento. Em termos de Europa, pensa-se em 400. Com tal quantidade de dinhei­ro, qualquer um se torna fraco, como no tempo em que todos eram atraídos pela tomada elétrica. O mesmo sistema, o mesmo método. O monopólio deve ser conservado! Constatar a qualidade das coisas, só quando elas estiverem construídas. Hoje uma coisa já está certa: o lixo, com isso, é armazenado principalmente no ar e na água. Os restos que surgem são em grande parte mais prejudiciais do que o lixo anterior, porque na queima se formam novas substâncias perigosas.

— Também dioxinas?

— Também dioxinas, é claro! As investigações científicas sobre o assunto se tornam muito unilaterais quando realizadas por parte dos que queimam o lixo, Após uma investigação, 80% das emissões orgânicas são desconhecidas. Mas se trata de várias toneladas anuais de substâncias desconhecidas — em Seveso foram suficien­tes dois quilos para desencadear uma catástrofe através de uma mistura até então desconhecida. Nos gases da queima de lixo estão contidas pelo menos 20 misturas químicas das características da dioxina, às quais se deve conferir um potencial de veneno semelhante ao das dioxinas. — Braungart riu um riso mau.

— O que há? — perguntou Valerie.

— Me lembrei agora de algo — disse ele. — Uma estória verdadeira. Há uma lei sobre a conservação da pureza do ar. Segundo essa lei, usinas de lixo não devem ser construídas em áreas grandes e livres. Lá o ar ainda é relativamente limpo. Uma usina de lixo, assim pensa o legislador, iria poluí-lo mais do que o permitido. — Ele riu novamente. — Por isso não há nenhuma permissão de construção de usinas de lixo onde o ar ainda está meio intacto. Permissões só existem para lugares dentro ou perto das grandes cidades. Lá o ar...

— ...já está de antemão tão sujo, que um pouco mais ou um pouco menos não irá mudar nada — disse Valerie.

— Exatamente! — afirmou Braungart. — A pureza do leite de vacas está sujeita a controles. Se se construírem usinas de lixo onde há vacas, ou seja, em pastos e campos, viriam toxinas através da respiração para a carne e o leite dos animais, e o leite não seria mais tão puro quanto exigem as normas. Nas cidades as pessoas aspiram toxinas, como por exemplo as mães que amamentam. O leite materno não está sujeito a nenhum controle, segundo o legislador. Não há valores limítrofes. Ele pode estar todo envenenado, como vem a ser. E esse veneno as mães passam diretamente aos seus bebês, quando os alimentam. Contra isso o legislador não se manifesta.

— Bom legislador — disse Valerie.

— Oh, sim — retrucou Braungart. — Pode-se dizer que sim. Mas veja: o lixo é agora o grande negócio. Já ouviu falar de armazenamento intermediário do lixo?

— Não. — O mesmo sistema do armazenamento intermediário do lixo radioativo. A mesma coisa como o despejo sobre La Hague Lá é que recebemos de volta as substâncias altamente venenosas que devem sair das usinas nucleares e para as quais não há nenhum depósito final, não é? É genial esse procedimento paralelo! Preste atenção: como as UENs no lixo radioativo, a indústria se asfixia no lixo químico. Ele simplesmente precisa desaparecer! Então, um monte de empresas se especializou em transporte. Elas dizem à indústria: “Vocês pagam e tiramos o lixo de vocês.” Nesse meio-tempo, isso se tornou um negócio internacional com extensões de lucro como no comércio de drogas e armas. A firma transporta então o lixo químico, não é? Isso está regulamentado pela lei. Mas a lei não leva a nada.

— Como assim?

— A lei — disse Braungart — é assim: o produtor dá o lixo ao transportador, e este lhe dá uma confirmação de que pegou o lixo. O transportador leva a coisa ao que vai eliminá-la. Para tal, recebe do último uma outra confirmação, que deve comunicar ao produtor o recebimento do lixo. Ou seja, há três papéis: um para o produtor, um para o transportador, um que é dado pelo eliminador ao produtor. Ah, tudo corre na mais perfeita ordem, pois não?! — Braungart riu novamente um riso mau. — Nada corre na mais perfeita ordem. Pois um gênio teve a idéia do depósito intermedi­ário, que segue a estratégia da eliminação do lixo atômico.

— Como é esse depósito intermediário? — perguntou Valerie.

— É o truque! O ponto crucial! A armadilha! Aquilo que Hitchcock chamava nos seus filmes de McGuffin.

Veja bem: o transportador pega restos de um local. Muitas vezes restos altamente venenosos, altamente perigosos. Quanto mais venenosos os restos, mais caro o transporte, é claro. É o transportador que elimina ele mesmo os restos altamente venenosos e altamente perigosos? Não. Então, para onde ele o leva?

— Para um “depósito intermediário”? — disse Valerie.

— A senhora já entendeu tudo! Há uma firma que esta se tornando o eliminador central do lixo especial, aqui no norte da Alemanha. Cuida de tudo — do pequeno e inofensivo lixo e do grande e altamente perigoso. Instalou um depósito desses — em Isernhagen. E com isso chega para eles uma chuva de grana.

— Como assim?

— De acordo com a resolução da conferência dos ministros do Meio Ambiente só podem ser transportados para o exterior os restos que não são elimináveis na Alemanha Federal. Se num depósito intermediário o lixo venenoso eliminável for misturado com os restos não elimináveis, surge, entre outros, lixo de exporta­ção não eliminável, que pode ser levado a preços módicos para outros depósitos intermediários, por exemplo na África. Ou então se mistura os restos, por exemplo, com serradura. A coisa pode até ser exportada como material combustível para a Bélgica e a Tur­quia. Lá a coisa venenosa vai para fornos de cimento e é muito bem repartida no país. Os produtores originais, é claro, não são mais responsáveis por ela. Com o truque, as firmas escaparam do procedimento com os papéis. Tão logo a mistura de lixo chegue ao depósito intermediário, como em Isernhagen, para o legislador ele é considerado eliminado. Aqui eu tenho as regras e as determina­ções da lei...

Passagens importantes estavam marcadas com caneta amarela. Ekland deveria filmar os documentos depois da entrevista.

— Para os inspetores, o lixo desapareceu, mas é claro que ele ainda existe, por assim dizer, diluído, no depósito intermediário. Porque não há controle de algo que já foi “eliminado”, e porque se escapou do procedimento com os papéis, a firma eliminadora é ao mesmo tempo produtora, transportadora e eliminadora. Dessa maneira são produzidas, só em Hamburgo, cerca de 30 mil toneladas de lixo especial anualmente.

— Incrível! — Valerie balançou a cabeça.

Braungart interrompeu.

— Tem mais! O princípio do causador não existe. Porque foram misturados restos de várias coisas, o causador não pode mais ser averiguado de acordo com partes venenosas. Aí a declaração falsa vale a pena. Há apenas três mil análises para 500 mil produtos químicos industriais.

— E assim surgem misturas de materiais que podem levar à catástrofe a qualquer hora — disse Valerie.

— É óbvio, doutora.

Nesse momento alguém bateu forte na porta do escritório.

 

 

Ekland parou a BETA.

— Quem é? — gritou Marvin.

— Joschka — disse a voz agitada do pequeno produtor de cinema, do lado de fora.

— Entre! — Marvin se levantou.

Joschka Zinner adentrou o recinto, blazer azul com botões dou­rados, camisa listrada, gravata com alfinete de brilhante, abotoaduras de brilhante, calças de flanela, sapatos de couro azul, meias brancas.

— O que está acontecendo aqui? Há uma hora que telefono. A secretária diz que não pode chamar. Então pego um táxi, venho até aqui. Uma fortuna. Nós temos para jogar fora... Ah, sim, vocês trabalham!. Bravo, crianças, bravo, muito aplicados, sempre pensando no pobre Joschka. Vocês são os meus preferidos entre todos os bandidos com quem tenho a ver. Vocês ainda não ouviram falar. — Ele quase não podia respirar.

— O que ainda não ouvimos falar, senhor Zinner? — perguntou Valerie Roth.

— Que... — Joschka caiu numa poltrona e pressionou sua mão ali, onde, sob o terno e a pele, na verdade, deveria estar o seu coração. — Que o Hansen, de quem você poliu o focinho, Marvin, que ele teria construído uma fábrica de veneno para aquele... aquele... Ajudem-me... aquele da Líbia... como se chama?

— Kaddafi — disse Valerie, se levantando lentamente.

— Kaddafi, naturalmente! — gritou Joschka Zinner. — Deu no noticiário da noite, ARD, ZDF! O mundo inteiro fora de si, e vocês nem sabiam! Estou me sentindo mal. Fábrica de veneno para Kaddafi! Gás venenoso! Justamente pelos alemães! Alegra o cora­ção, não é? Faz bem, hein? Somos novamente vistos com bons olhos diante do mundo. Sim, sim, sim, não me olhem assim durante as trovoadas, uma fábrica de veneno para o Kaddafi ele teria construído, o delicado senhor Hansen, disse o procurador.

 

Poucas horas antes, na tarde de 14 de outubro de 1988, três homens estavam sentados no escritório do comissário Dornhelm, na polícia central de Frankfurt: o chefe da comissão criminal I, com os lábios eternamente lilases, o procurador Elmar Ritt e o agente da NSA, Walter Coldwell, que havia sido levado ao hospital do exército americano com um grave traumatismo cerebral. Três dias antes ele havia podido sair do hospital.

Os dois alemães o fitavam.

— Gás venenoso? — disse Ritt. — Uma fábrica inteira?

— Sim — disse Coldwell, o qual seu pai, durante anos, havia espancado até deixá-lo inconsciente por causa de muitos pecados terríveis que o garoto nunca havia cometido.

— Chique — disse Dornhelm. — Chique. De verdade.

— Tenho a permissão para dizê-lo a vocês dois — disse Coldwell. — Hoje à noite vai ser divulgado oficialmente. Até agora, só o governo alemão-ocidental e o meu sabem a respeito. Ah, sim, também a Interpol. Precisamos dizer rapidamente ao pessoal em Paris. Eles estão certos de que Hansen e sua mulher estão num país que não extradita.

— Então todo o seqüestro foi um teatro — disse Ritt. Coldwell fez que sim. — Os dois devem ter pressentido que a coisa estava prestes a estourar. Então fugiram. Haviam planejado isso desde o começo, se algo não desse certo.

— O que significa “desde o começo”? — perguntou Ritt.

— Oh, Deus — disse Coldwell, e pensou que agorinha mesmo havia utilizado o nome do Senhor mais uma vez, um pecado terrível, ele também já havia praticado impudicícia e com uma bonita puta, e com prazer, depois que saiu do hospital. Preciso ir novamente à confissão, pensou o feio homem com o rosto largo e massudo, os cabelos ralos e os olhos eternamente tristes com os ternos de um alfaiate da Bond Street de Londres, as camisas sob medida de Hamburgo e os sapatos sob medida de Florença. Eu me arrependo, me arrependo de todo o coração, mas desta vez pelo menos também não preciso temer ter prejudicado um inocente com a minha atividade, o medo de minha vida. Era uma puta especialmente bonita. Tenho o seu número de telefone. Muito certamente voltarei a pecar em breve. — Oh, Deus — utilizou ele o nome do Senhor logo depois, outra vez —, isso vem desde 1986. — De vez em quando ele ficava tonto, e se via claramente uma cicatriz vermelho-escura e longa na sua cabeça. — Em 1986 já havíamos enviado ao serviço de notícias alemão análises de fotos de nossos especialistas, segundo as quais uma pretensa fábrica química no deserto da Líbia, perto de Toresos, podia ser identificada como local de produção de gás prejudicial aos nervos.

— Em 1986. E o que aconteceu depois disso? — perguntou Ritt.

— Nada — disse Coldwell, amargo.

— É claro que nada aconteceu depois disso — disse Dornhelm, sentado atrás de sua feia escrivaninha. — Senão você teria ouvido falar de alguma coisa, rapaz. É claro que não aconteceu nada. Você está deprimido novamente; está perto de você o que aconte­ce por aqui, sem que nada aconteça. Posso entender, você está triste porque a cada dia que passa você vê o quanto eu tinha razão, rapaz. Você também ficou muito mais calmo, devo dizer, quase não grita mais, quase não sua mais, acredita finalmente no que eu lhe disse sempre: simplesmente não se pode ficar irritado. As pessoas são assim. Assim elas são — não há outras. O serviço de notícias alemão fez um relatório e mandou para Bonn, e os de Bonn simplesmente alçaram os ombros — não foi assim, mister Coldwell?

— Exatamente assim, senhor Dornhelm. — O agente da NSA balançou a cabeça. — Um ano mais tarde lhes enviamos novamente material muito concreto: um pedaço de uma conversa telefônica. Naturalmente temos navios captadores no Mediterrâneo. Um ouviu a conversa telefônica entre Toresos e a fábrica química de Hansen. Foi feita através de satélite. O navio estava diante da Sicília. Os engenheiros líbios pediam instruções imediatas e ajuda rápida. Num teste, gases venenosos haviam escapado...

 

 

No fim da tarde do dia 22 de abril de 1915, perto do lugarejo flamengo Langemark, em Ypern, soprou um leve vento norte na frente ocidental. Observadores da frente viram se levantar das linhas alemãs duas nuvens amarelo-esverdeadas, que em densos nevoeiros se dirigiam em direção ao local de fuzilaria dos aliados, sobre o chão, a mais ou menos um metro e meio de altura.

Um minuto mais tarde, milhares de soldados franceses e argeli­nos estavam envolvidos na feroz névoa verde. Os homens marchavam azuis, apertavam a sua garganta, tentavam respirar desesperada-mente. Espuma saiu de suas bocas e narizes, muitos tossiam tanto, que o pulmão estourava. Quando a névoa se dissipou, cinco mil soldados aliados estavam mortos e dez mil gravemente feridos — o exército alemão havia inaugurado a guerra química.

Pioneiros de engenharia das tropas vigésima terceira e vigésima sexta deixaram sair, de recipientes em forma de cilindros, 160 toneladas de gás cloro, abrindo nessa primeira ação um buraco de seis quilômetros de largura na frente inimiga. Cinco meses mais tarde, depois de agitadas atividades em laboratórios ingleses, os britânicos, por sua vez, introduziram o gás cloro; mais dez meses depois, os franceses; a partir de então se desencadeava a total guerra de gás.

Também com o decorrer da Primeira Guerra Mundial a Alemanha cuidou do crescimento da indústria química: ela foi a primeira a produzir o mais venenoso, o fosgênio e depois o gás mostarda, um material de cheiro forte que pode levar a vômitos contínuos, abscessos supurados, pneumonias e cegueira, que passou a ser usado a partir de 1917. Os aliados só puderam se destacar dois meses após o fim da guerra.

Os dois lados se atacavam com aproximadamente 113 mil toneladas de materiais químicos, já no fim da guerra com principalmente granadas a gás. 1,3 milhão de soldados foram envenenados, 190 mil pereceram miseravelmente. Decisiva para a superioridade na produção de veneno era a capacidade das grandes indústrias químicas alemãs, que depois da guerra se uniram com os mesmos interesses: a I.G. Farben.

A indústria química, que com a eclosão da guerra primeiramente teve de sofrer prejuízos, fez um negócio brilhante com a produção de veneno. Carl Duisberg, diretor-geral das fábricas da Bayer e presidente da Liga das Indústrias de Tintas, já no primeiro ano de guerra teria instruído o alto-comando alemão para a utilização de armas químicas — com sucesso.

O cientista Gerhard Schrader, que pesquisava para a companhia química I.G. Farben, desenvolveu em 1937 o material Tabun e em 1938 uma ligação semelhante a ele, que foi chamada de Sarin — ambos os gases abalam o sistema nervoso e levam à total perda de controle da musculação. As vítimas se contorcem em espasmos e convulsões, intestinos e bexiga se esvaziam incontrolavelmente, a morte chega poucos minutos depois com uma asfixia cruel.

Na Segunda Guerra Mundial, Hitler não pôde se decidir pela utilização desse material, porque ele pensava, erroneamente, que os aliados também dispunham de gases como o Tabun ou o Sarin e poderiam se vingar. Em vez disso, a guerra do gás se desencadeou a portas fechadas: nas câmaras de gás de Auschwitz, Maidanek e Treblinka. Milhões de judeus, nus e indefesos, foram mortos assim. Também do holocausto, a indústria química alemã fez os seus lucros. O gás mortal dos campos de concentração, Cyclon B, era um ácido prússico de ligação com cloro.

Depois de 1945 a indústria química alemã avançou para um dos maiores produtores de inseticidas do planeta e, com sua terrível tradição, foi suspeita até de servir a déspotas do Terceiro Mundo na produção de venenos contra seres humanos: primeiro ao ditador iraquiano Saddam Hussein, que utilizou gases venenosos contra o Irã, e depois ao imprevisível coronel líbio, Moammar El Kaddafi.

 

 

— Depois dessa gravação do telefonema de socorro dos líbios à fábrica de Hansen, ainda assim não aconteceu nada em Bonn? — perguntou Elmar Ritt. Coldwell balançou o feio crânio. — Não. A chancelaria considerou essa prova “vaga”. O senhor certamente se lembra.

— Sim — disse Dornhelm.

— Quando os americanos, ainda assim, continuaram insistindo, falou-se em “material juridicamente insuficiente”. Antes disso, membros do governo haviam se indignado enormemente. O senhor certamente também se lembra disso — disse Coldwell. — Para eles era “inimaginável” que indivíduos na Alemanha Federal, por avi­dez ao lucro, participassem de projetos que, pelo menos em algumas partes do mundo, ameaçavam a paz.

— E ainda fizeram mais — disse Dornhelm. — Eles acharam “insuportável que se pusesse os alemães no banco dos réus, sem que tivessem a possibilidade de consultar as provas”. O vice da facção CDU/CSU atacou massivamente os americanos; “os tons agudos” não ficariam sem repercussão nas relações germano-americanas. Ofendidos, os de Bonn não apenas grunhiram para os aliados principais, eles puseram em jogo sua credibilidade política. Você se lembra, rapaz? Quantas vezes lhe disse como é que a vida é realmente? Você é o meu melhor amigo. Não quero que você se destrua. Não tem sentido algum! Precisamos ser realistas. Na nossa profissão, pelo amor de Deus! Nunca chegaremos aos grandes safados, nunca. A assassinos ou violentadores de crianças, talvez. Se tivermos sorte. Mas a gente assim como Hansen? A alguém que fornece gás venenoso? Nunca, jamais, rapaz. Muitos estão metidos nisso, e têm poder demais. Justiça! Quem ainda vier me falar de justiça, desse eu quebro todos os ossos!

Ritt foi até a janela e olhou para um pátio sujo.

— Mas vocês não afrouxaram — disse Dornhelm para o agente da NSA.

— Não — disse este, enquanto pensava o quanto o chefe da comissão criminal I tinha razão. Na questão da bomba alemã não demos nem um passo adiante, nem daremos, pensou Coldwell. E em tantas outras enormes safadezas, seja cometidas por nós, seja por outros, nunca haverá justiça, nunca. — Não afrouxamos — disse ele, triste. — Quando o chanceler e seus acompanhan­tes foram a Washington, mostramos-lhes tudo mais uma vez. Há meses que o colunista William Safire já havia escrito sobre a “Auschwitz na areia”, construída por uma firma alemã. Justamen­te por uma firma alemã! — E o que há com você, Senhor, pensou Coldwell, sentindo-se mal, tão mal. Onde estava Você, quando os fornos fumegavam? Por que Você permitiu Auschwitz? Você dorme bem, Senhor, para quem rezo, e por causa de quem me torturo a vida inteira com a consciência pesada, rezando dez Ave-Marias e três rosários, quando roubei no pôquer ou peguei uma puta? — Por último — disse ele — os de Bonn se decidiram a finalmente fazer alguma coisa, ainda ofendidíssimos. Mandaram inspetores para a fábrica de Hansen. Os gerentes de lá apresen­taram diversos materiais aos examinadores. Os funcionários viram fotos da construção de uma fábrica. Em torno dela, montanhas com florestas e verdes gramados. No local da construção, operários chineses e, em quadros, a escrita chinesa. Depois veio a contabilidade.

— Agradecemos a vocês que o senhor Dornhelm e eu tenhamos sido afastados do caso Hansen/Marvin por alguns dias — disse Ritt que ainda olhava pela janela o sujo pátio interno. — É claro que não apenas o apartamento de Engelbrecht foi revistado, o apartamento desse traficante de armas; igualmente importante para vocês foi a revista da firma de Hansen.

— Agora o senhor vê que era necessário — disse Coldwell.

— Claro — disse Dornhelm —, reconhecemos tudo. Eu há muito tempo e o meu amigo Ritt também, agora. Também é claro que nada foi achado na Hansen.

— Não — disse Coldwell, que há décadas se sentia continuamente como num começo de uma forte gripe. — Nada que com­prometesse, em todo caso. Os examinadores acharam recibos de vôos ao Extremo Oriente, contas do Hotel Hilton no Extremo Ori­ente, recibos de hospedagem, contas de táxi — tudo no Extremo Oriente. Nenhuma indicação da Líbia. E assim estava também no relatório da repartição de finanças: “Foi construída no Extremo Oriente uma fábrica de produtos farmacêuticos.”

Coldwell gemeu um pouco.

— Ainda as dores? — perguntou Dornhelm.

O americano passou cuidadosamente a mão pela cabeça. — Ainda, às vezes. Hansen realmente construiu uma tal fábrica no Extremo Oriente. Isso foi divulgado pelo chefe da inspeção finan­ceira depois do término da investigação, numa reunião com a imprensa. Hansen estava sentado ao lado dele, eu também estava na sala. Depois da declaração do homem das finanças, Hansen se pronunciou como homem de bem. Falou de “suspeitas infundadas, sem seriedade” — e fez, expressamente, exigências de indenização.

— O cara tem nervos — disse Dornhelm. — Agora, finalmente, sente-se novamente, rapaz! Você me deixa louco quando fica assim em pé, daqui a pouco começo a chorar.

Ritt se sentou novamente, pousando de leve a mão sobre o ombro de Dornhelm. — O negócio com Kaddafi então foi feito através do Extremo Oriente — disse ele.

— Sim — disse Coldwell. — Através do Extremo Oriente. Mas agora também os serviços alemães estavam coléricos. Os de Bonn os haviam censurado. Ridicularizaram. Não levaram a sério. Agora eles passaram a limpo essa safadeza. Ainda hoje à noite, no mais tardar amanhã, todos os meios de comunicação vão relatar detalhes .— e os seus políticos vão se esforçar para de certa forma consertar os prejuízos políticos externos. Essa tarefa penosa foi confiada ao ministro das Finanças, que já está nos Estados Unidos correndo de um para outro, garantindo que a Alemanha Federal também lamenta e condena o acontecido, e que o chanceler ordenou que se examinasse todas as pistas, sem considerar pessoas e firmas — o mais rapidamente possível. — Coldwell grunhiu. — O mais rapidamente possível o senhor e a senhora Hansen desapareceram da Alemanha, há três semanas, para um país que com certeza não pensa em extraditá-los. — Ele se curvou. — É claro que Hansen sabia desde o começo o quão melindroso era esse negócio. Não é idiota, o pequeno. Desde o começo confundiu todas as pistas, era isso o que ele queria. Ou seja, no Extremo Oriente foi construída uma fábrica de produtos farmacêuticos, pela firma Psi-Chon. O know-how e a construção foram fornecidos à fábrica de Hansen. Psi-Chon é sócia da Hansen-Chemie e velho amigo da família. O velho amigo naturalmente estava de acordo com que Hansen fundasse em Bremen uma sociedade-irmã da firma Psi-Chon. Com isso ele tinha o disfarce que precisava para o negócio com a Líbia. Agora todos sabem disso em Bonn. Agora! As negociações foram feitas por um homem de negócios paquistanês com escritório em Frankfurt, um homem de confiança de Kaddafi. Chegou a Hansen em 1984 com um pequeno desejo. O pequeno desejo era uma fábrica de gás venenoso. Ele também foi a outras firmas — de construção, pois esse deveria se tornar um complexo gigante. Estou simplificando enormemente. Detalhadamente, isso se lê como um romance poli­cial bem complicado. É claro que Hansen não poderia ter posto tudo em marcha sem os seus mais estreitos colaboradores. O procurador Keller saiu fora. Sabidão. Dois contadores foram presos. Os dois dizem que não fizeram nada mais que mandar todos os produtos químicos e instalações exigidos para o Extremo Oriente, para a fábrica farmacêutica da firma Psi-Chon. Vocês entendem — a coisa foi mandada por navio de Bremerhaven. Tudo o que Kaddafi precisava. Endereçada à firma Psi-Chon, no Extremo Oriente. Psi-Chon enviava à Líbia. De acordo com os conhecimentos da CIA, foi construída em Toresos, ao sul de Trípoli, a maior fábrica de armas químicas que jamais foi descoberta. Todos os papéis foram encontrados no porão do escritório do homem de confiança de Kaddafi em 12 grandes caixas.

— E o paquistanês também desapareceu, é claro — disse Dornhelm.

— É claro — disse Coldwell.

— E Hansen levou da Hansen-Chemie tudo o que precisava para 500 anos de boa vida, antes de se mandar.

Coldwell confirmou.

— Você vê, rapaz — tudo é absolutamente ridículo, mas a vida é assim, absolutamente ridícula! — disse Dornhelm. — Marvin espancou Hansen por causa das pedras de privada. Marvin odia­va Hansen. Não apenas por isso. Afinal, ele foi casado com a senhora Hansen. Marvin sabia como Hansen era corrupto. Certa­mente ele teria continuado a investigar, não é?

— Certamente — disse o americano.

Ritt estava imóvel. Com os olhos fechados.

— E assim alguém teve a idéia de encomendar a Marvin esses filmes e mandá-lo para longe, bem longe. Ele e Valerie Roth. Para Hansen ela era tão perigosa quando Marvin. É verdade?

— É verdade — disse Coldwell.

— E quem teve essa idéia maravilhosa? — perguntou Dornhelm.

— Sim, quem? — disse Coldwell. — E qual a importância de Bolling?

— Sim — disse Dornhelm. — E qual a importância de Bolling?

— Esse caso contínua sendo seu, senhor Ritt — disse Coldwell. — O senhor agora precisará de muitos colaboradores. Os melhores. Os mais capazes. Continua sendo seu o caso — esse labirinto de mentiras e crueldade.

— Mas não é nenhum caso incomum — disse Dornhelm. — Mentir e ser cruel não é difícil para a maioria das pessoas.

Robert Dornhelm pensou que seu pai desaparecera e nunca fora encontrado, fazendo com que ele, desde criança, se tivesse decidido a se tornar policial, a fim de ajudar a outras crianças a achar os seus pais desaparecidos e fazer com que fossem castigados aqueles que faziam maldades com esses pais.

Elmar Ritt pensou no seu pai, fuzilado no dia 10 de maio de 1945 pelo juiz do Estado-Maior, Holzwig, um dos “terríveis juristas” do exército nazista, sendo julgado ainda no dia da capitulação incondicional dos alemães.

Walter Coldwell pensou no seu pai, o fanático religioso que espancava sua mãe e ele, para honra e prazer do Senhor.

Todos os três homens pensaram que ingressaram na profissão por causa dos pais, para servir à justiça, e todos os três homens pensaram como era pouca a justiça e como era muita a injustiça neste mundo — apesar de seus esforços e os de milhões de pessoas.

E por muito tempo se fez silêncio no feio escritório da polícia central de Frankfurt am Main.

 

Na manhã seguinte, tudo veio à tona definitivamente.

Jornais, televisão e estações de rádio tinham um único tema. Multidões de repórteres abordavam qualquer político que viam à sua frente. Como era um sábado, não viram muitos. Na reunião à imprensa, convocada às pressas, o porta-voz do governo suava muito, gaguejava e tinha olhos vermelhos, de tanto cansaço. Na primeira e tímida tentativa de proteger o governo, os jornalistas protestaram veementemente.

Depois do noticiário da noite, a TV divulgou uma breve tomada de posição do chanceler. Este declarou ter sido atacado, se referiu a casos semelhantes em outros países, reclamou do mau costume alemão de sujar a própria casa e evocou a união de todos os democratas. Em seguida um programa especial, durante o qual um grupo de homens e mulheres responsáveis, vindos de variados serviços secretos e do Ministério da Justiça, berravam e se ofendiam uns aos outros.

O procurador-geral da República declarou que todas as inspeções trabalhavam muito. Os dois contadores da firma Hansen-Chemie estavam sendo interrogados ininterruptamente. Havia contra Elisa e Hilmar Hansen uma ordem de prisão internacional. A Interpol estava procurando o casal desde o dia do seqüestro simulado — em vão, o que não era culpa dos alemães.

O escândalo do gás venenoso era a manchete na maioria dos jornais europeus e em todos os grandes jornais americanos; nas estações de TV da Europa e dos EUA esse também era o assunto principal, os comentários eram, sem exceção, de denúncia agressi­va. Alemanha e gás venenoso!

Uma manifestação de protesto em Bonn, maior do que as outras foi dissolvida pela polícia. Uma unidade extra interrompeu a área em torno do palacete Arabella em Königstein, onde morava a família Hansen, e policiais fardados expulsaram grupos de repórteres, equipes de TV e membros de grupos pacifistas.

Thomas Hansen, o filho de nove anos do casal fugitivo, era vigiado por uma dúzia de funcionários, entre os quais um médico, 24 horas por dia. O garoto se recusava a sair do quarto. Therese Toeren era a única com quem ele falava.

 

 

O dia seguinte era um domingo. Para a segunda-feira, 17 de outubro, Markus Marvin havia conseguido um encontro com o ministro do Meio Ambiente. A entrevista deveria começar às 11 horas. Quando Marvin e Valerie Roth, com Ekland e Katja Raal (ela carregava o equipamento da BETA) chegaram, às 9:30h, no Ministério do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança de Reatores, na Kennedy-Allee 5, em Bonn, eles já estavam sendo esperados e foram dirigidos à grande sala de entrevistas, no segundo andar do prédio. Foram cedo para que Katja e Bernd tivessem tempo suficiente para montar o equipamento com calma. Katja desceu mais uma vez, com o elevador, e tirou do Mercedes outros filtros da televisão de Frankfurt.

Quando ela voltou ao segundo andar e foi pelo corredor que dava para a sala de entrevistas, ouviu de repente, atrás de uma porta fechada, uma voz masculina e alta, e gelou.

— Falta de vergonha! — gritou a voz atrás da porta. — Só não acredite que vai escapar dessa! Agora você vai passar por uma, prometo!

Bolling!

Era Peter Bolling, que estava tão colérico e gritava tão alto — aparentemente numa conversa telefônica. Sim, era a voz de Peter Bolling!

Ele estava atrás da porta, a três, cinco metros de distância de Katja. Ela deixou os filtros caírem. Todo o seu corpo tremia, tão assustada que estava. E Bolling continuou a falar, vociferar, ameaçar. Katja mordeu o lábio inferior e levantou os filtros de tule. Contenha-se! pensou ela, contenha-se! Você precisa se conter! Seu corpo esfriava e esquentava. Na testa cheia de acne havia muito suor.

Sair. Sair. Preciso sair daqui. Bernd, Bernd! Katja se foi, cambaleante, corredor abaixo, para a grande sala de entrevistas. Abriu a porta. Ninguém prestou atenção nela.

Um rapaz de roupa de flanela cinza estava lá, os outros falavam com ele — indignados, nervosos, confusos.

— Bernd! — gritou Katja. — Preciso lhe dizer uma coisa — agora!

Então todos olharam para ela.

— Um momento, Katja! Depois — Ekland balançou a cabeça.

— O que aconteceu? — perguntou Marvin.

Katja parou. Não. Não. Não dizer nada. Diante de todas essas pessoas, Deus do céu, faço tudo errado! — Nada de importante — murmurou. — Nada de importante... Perdão...

Os outros recomeçaram a falar com o rapaz.

— Temos um encontro marcado com o ministro! — Valerie.

— Há semanas! Duas vezes confirmado! — Ekland.

— Se acha que pode nos fazer de idiotas, então se enganou! — Marvin.

— Somente porque aqui todos têm medo de dizer uma palavra errada, uma única palavra a mais depois do escândalo do gás venenoso, não se pode falar com esse ministro! Muito bonito. — Ekland.

Bernd! Katja o fitava, ela estava ridícula com os grandes filtros na mão, tão pequena, tão perdida. Tentou fazer com que Ekland olhasse para ela. Em vão. O cameraman estava com tanta raiva, que esqueceu os próprios princípios de não mais se engajar, de não mais se meter.

— Não temos tanto tempo assim, senhor Schwarz! Esta é uma superprodução com planos de filmagens determinados. O senhor sabe o que é um plano de filmagem?

— Por favor! — O senhor Schwarz levantou as duas mãos. Ternas mãos. — O senhor ministro lamenta muito, mas ele precisou ir a uma UEN. Coisa extremamente urgente. Não pode ser adiada de jeito nenhum. É que ontem não sabíamos disso. Repito, o senhor ministro lamenta...

— Isso não vai ficar assim!

— Se quiserem marcar uma outra data...

— Não queremos. Não podemos. Já dissemos, plano de filmagem. Precisamos viajar rapidamente para os Estados Unidos. Se a coisa com Hansen e a Líbia continuar tendo esse efeito, aí é que o ministro não se dignará a falar conosco.

— Mas podemos fazer as coisas sem ele, tranqüilize-se, senhor Schwarz! Filmaremos o seu bonito ministério, e no filme um porta-voz dirá que o ministro furou um encontro marcado e não apareceu para falar.

— Não é assim. Eu já lhes expliquei que o senhor ministro, urgente e inesperadamente...

— Ouvimos isso. Muito obrigado, senhor Schwarz. Agradecimentos muito sinceros. As melhores saudações ao senhor ministro! — Schwarz foi embora sem cumprimentar. A porta se fechou atrás dele.

— E agora? — Valerie Roth olhou para Marvin.

— Agora nada — disse este. — Desmontar e sair! Gilles escreverá para nós um texto especialmente belo a respeito. Por favor, Ekland...

Katja correu em direção a Bernd.

— Onde você estava? Ajude-me.

— Bernd...

— Primeiro as luzes!

— Bernd!

— O som! Você está pisando nele!

— Bernd, escute!

— O que é? — Ele olhou para ela, impaciente.

Não dá, pensou Katja, desanimada. Não aqui. Não agora. Os outros não podem ouvir. Ninguém, a não ser Bernd. Preciso esperar, até que estejamos sozinhos.

— O que é? — perguntou ele, irritado.

— Nada... Nada, Bernd... Desculpe... Eu... as luzes...

Katja correu para a primeira e começou a tirá-la do tripé. Quando estivermos sós, pensou ela. Quando estivermos sós. Preciso esperar até lá. Uma vez já fiz tudo errado — lá em Altamira, no Brasil. Não posso fazer tudo errado outra vez. Agora preciso esperar.

Ela precisou esperar quase uma hora.

Depois que todos haviam deixado o ministério, eles foram para o Departamento Federal de Imprensa. Marvin queria, a todo custo, reclamar imediatamente com o porta-voz do governo. Ele, é claro, não foi localizado. Ninguém no departamento podia ser localizado.

Eles telefonaram à televisão e receberam a instrução de renunciar à entrevista e viajar o mais rápido possível para os Estados Unidos — a partir de Paris, com um Concorde. Nele ainda haveria lugares suficientes para todos.

— Iremos até o Bristol — disse Marvin depois, para Ekland. — Vão para a sua pensão! Façam as malas imediatamente! Pegaremos o avião do meio-dia para Paris.

Então Katja estava a sós com Ekland, finalmente.

Ele estava na direção do grande Mercedes, onde estava amonto­ado todo o equipamento, e dirigia, como sempre, cuidadosamente.

— Então, o que aconteceu, pequena?

— Bernd... Bernd... eu... eu ouvi...

— Fale!

— Eu ouvi Peter Bolling! — gritou Katja Raal.

Ekland continuou a dirigir cuidadosamente. — Onde? — perguntou ele.

— No ministério. Atrás de uma porta.

— Que porta?

— Lá no segundo andar. Onde queríamos filmar. Fui buscar os filtros, não foi?, e quando saí do elevador, passei por uma porta e ouvi a voz de Peter Bolling. Bem alto. Bem claramente. Peter Bolling! Ele está em Bonn! No Ministério do Meio Ambiente.

— Pare de gritar, Katja! Você precisa se acalmar. Não era a voz de Bolling. Você se enganou.

— Eu não me enganei! Quero cair morta agora, se não foi a voz de Bolling. Já é a segunda vez que eu... Por que é que sempre acontece comigo, Bernd? Não tenho nada com isso!

— É claro que não, pequena. — Ele parou diante de um sinal vermelho e acariciou ternamente as costas tensas de Katja. — Boa Katja, corajosa Katja. Você se conteve tanto. — Ele a beijou. — Maravilhoso. Já sei por que amo você.

Ela começou a chorar. — Você disse que não devemos de forma alguma nos meter nessa confusão. Você disse que tudo isso era muito perigoso. Precisamos pensar em nós. Trabalhar, calar o bico e fazer com que saiamos o mais rápido possível disso tudo.

— Exatamente isso devemos fazer. E faremos.

— Mas Bolling.

— O que há com Bolling?

— Se ele estiver mesmo em Bonn.

— Não era a sua voz.

— Era! Era! Era ela!

O sinal abriu. Ekland continuou.

— Não era ela. Você se deixou contaminar com a estória de sua voz na fita.

— Meu Deus, era ele! Era ele, Bernd! Atrás da porta! Eu o ouvi!

— Está bem, você o ouviu. Mas você não está certa disso. Quer dizer, não absolutamente certa. Pense em Marvin! Ele também disse que não estava absolutamente certo de que era a voz de Bolling no gravador.

— Eu estou certa, Bernd!

— Absolutamente certa? Realmente?

Ela o olhou desesperada. — N-não, quer dizer... não, absolutamente, não...

— Então! Dá no mesmo. Você não ouviu voz nenhuma.

— É claro que... — Katja parou — Ah, sim, você quer dizer...

— Exatamente isso! Você simplesmente não ouviu. Não precisamos dizer isso a ninguém. Não falaremos com ninguém sobre isso. Não vamos nos meter em nada. Em nada, querida. Em breve tudo terá acabado. Até lá conseguiremos ficar de fora dessa estória. Ninguém espera outra coisa de nós. Disse isso publicamente, lá em Lübeck, na casa da doutora Goldstein. Fazemos nosso trabalho, e ponto.

— Mas não precisamos dizer isso aos outros, Bernd?

— Não, que maldição! Ficamos fora disso até agora, e continuaremos fora.

— Mas justo agora, Bernd! Talvez Bolling esteja envolvido na estória de Hansen...

— Exatamente por isso, não! O escândalo de Hansen só começou. O que vem pela frente, ninguém sabe. Será perigoso para quem quer que se meta na estória. Gás venenoso, Katja! Gás venenoso! Você não dirá nada a ninguém, nunca! Jure, Katja! Jure!

— Eu... eu juro, Bernd...

— Agora está muito melhor, não é? Você e eu. Nós dois. Ficaremos juntos. Contra tudo e contra todos. Filmes sobre as outras instalações solares há no arquivo. Só os Estados Unidos, Katja, então se acaba para nós. Aconteça o que acontecer. Então você irá ao professor. Já telefonei para ele. Você já tem uma consulta marcada. 10 de novembro, às 15 horas. Então, o que acha?

Ela acariciou o seu braço. — Bernd... eu te amo tanto...

— Eu também amo você! 10 de novembro, Katja, está tão perto! Tão perto! Você vê que tenho razão, não é?

— Sim, vejo.

— E você não tem mais medo.

— E não tenho mais medo — disse Katja Raal. — Nenhum. Você está certo. Não se meter, já no fim. Não, não tenho medo nenhum... Meu Deus, meu Deus, se eu não tivesse medos assim!

 

 

— Finalmente se começa a fazer as contas! Quanto custa realmente tudo isto: automóvel, estradas, eletricidade, calefação, carvão, energia atômica, viagens aéreas, agricultura química? Quais são as conseqüências para o meio ambiente, saúde, bem-estar dos homens? Finalmente se pergunta por isso — e digo, essa é a coisa mais maravilhosa que o Ocidente tem a oferecer! Marcou tanto uma época quanto a .perestroika e a glasnost no Leste! — O grande e forte físico Pierre Leroy olhava entusiasmado de Marvin para Gilles e Isabelle. Seus escuros olhos vivos brilhavam de entusiasmo. Ele riu. — O capitalismo com cara humana!

Eram quase cinco da tarde, e eles estavam no grande bar do aeroporto Charles de Gaulle, nas imediações de Paris — também Katja Raal e Bernd Ekland, Valerie Roth, Monique e Gerard Vitran. Por causa de um exame técnico, a partida fora adiada. O avião teria partido às quatro e aterrissado às quinze para as duas, hora local, no aeroporto John Kennedy, em Nova Iorque. Lá haveria outro avião para o Tri-Cities-Airport de Richmond, perto do Depósito Nuclear Hanford, no Estado de Washington. E agora eles já estavam há quase uma hora no bar e esperavam. Monique e Gerard Vitran, além de Pierre Leroy, que queriam se despedir, esperavam com eles.

Leroy estava excitado. Ele havia tido o que fazer na Alemanha um pouco antes e sabido de muitas coisas que desde então não o deixaram em paz. Agora ele olhava para Gilles.

— Desculpe-me se faço aqui grandes discursos, mas tudo isso é realmente muito incrível. — Ele falava alemão novamente. — Eu ouvi um discurso de Ernst Ulrich von Weizsäcker... ele é — ajude-me, senhor Marvin!

— O filho de Carl Friedrich, filósofo e físico, e o sobrinho de nosso presidente.

— Exato, obrigado... eu não sabia bem. O diretor do Instituto de Política do Meio Ambiente na Europa, em Bonn... Bem, ele disse mais ou menos que só se pode alcançar um ponto ideal econômico e ao mesmo tempo ecológico, se os preços de todos os produtos que produzimos e compramos for calculado econômica e ecologi­camente. Então algo de grande se produzirá. Mas só quando os preços corresponderem à verdade econômica e ecológica é que as nossas decisões de compras poderão estar de acordo com a proteção da natureza. — Ele fitou Isabelle.

— Sim, isso seria ótimo — disse Gilles. — Só que: isso não é tão novo assim. O meio ambiente tem o seu preço. Já era, em 1891, uma profecia do economista americano Alfred Marshall. Em 1921 o seguiu seu colega francês Arthur Pigou com questões acerca do prejuízo do meio ambiente na produção industrial. Os dois queriam um preço justo ao meio ambiente — e não puderam fazê-lo.

— Estou encantado! — afirmou Leroy. — O senhor sabe tanta coisa, monsieur Gilles! Weizsäcker se referiu a Pigou. Finalmente ele está sendo reconhecido. Agora, nos debates sobre impostos para o meio ambiente, que não são outra coisa senão a reforma ecológica da economia de mercado.

Isabelle segurava um cigarro. Gilles acendeu um fósforo. Leroy levantou o isqueiro.

Isabelle se curvou sobre a chama do isqueiro. — Obrigada.

— Com certeza todos vocês já sabem bastante sobre esse desen­volvimento — disse Leroy. — Estou totalmente impressionado com aquilo que ouvi na Alemanha. — Ele se dirigiu a Monique e Gerard e lhes explicou em francês sobre o que falava e se desculpou por ter falado em alemão.

Monique interrompeu. — Não tem problema, Pierre. Isabelle não precisa traduzir. Você já nos contou tudo.

Pierre Leroy olhou novamente para Gilles. — Conto isso principalmente ao senhor. É a evolução mais importante. O senhor precisa escrever sobre isso no seu livro! Permita-me informá-lo...

— Muito gentil de sua parte, monsieur Leroy — disse Gilles.

— Ainda trabalhamos com base de custo-utilidade — disse Leroy. — Mas ao lado de capital e trabalho, não se pode renunciar às fontes do meio ambiente para a produção de bens de consumo. Até agora elas nem sequer foram mencionadas na economia tradi­cional como fator de produção. Natureza e meio ambiente continu­am — e o ponteiro dos relógios do meio ambiente já mostram cinco para as 12 — a ser exploradas com tarifas baratas.

Gilles, Marvin, Valerie Roth e Isabelle prestavam muita atenção, o entusiasmo de Leroy parecia contagiante.

— Mas já em 1986 — disse ele, enquanto Gilles pensava o quanto era estranho caber justamente àquela pessoa bem mais jovem entusiasmá-lo — veio a ruptura. Foi quando foi publicado o sensacional livro de Lutz Wicke, Os bilhões ecológicos — é o que custa o meio ambiente destruído. Li somente agora. Wicke calcula os prejuízos anuais, causados pela economia alheia aos problemas do meio ambiente, entre 100 e 200 bilhões de marcos — 10% do produto interno bruto da Alemanha Federal. Para a proteção ao meio ambiente Bonn dá apenas cerca de 21 bilhões de marcos, ou seja, um décimo das perdas do meio ambiente.

Ekland e Katja estavam afastados. Então ela se levantou repentinamente. Seu rosto estava pálido.

— O que há? Você vai vomitar de novo?

— Sim...

— No avião, duas vezes... Isso é realmente apenas nervosismo?

— Certamente... — Então ela se foi rapidamente, em direção a um banheiro.

Ekland a observou, preocupado.

— Wicke dividiu as verbas da RFA — disse o vivaz Leroy, de olhos negros, que no seu entusiasmo era como se fizesse um solo. — Poluição do ar, 30 bilhões. Poluição das águas, 20 bilhões Comprometimento do solo, 10 bilhões. Poluição sonora e outros estragos, 60 bilhões. Isto, é claro, vale mais ou menos para cada país. Vivemos muito além de nossas posses — em grande parte à custa do meio ambiente e por conta dos descendentes, aos quais deixamos cada vez mais problemas, como o lixo irradiado dos reatores, de que ninguém pode se livrar. Que isso é imoral, ninguém vai contestar Wicke agora apresentou um novo livro, com um colega do Minis­tério do Meio Ambiente, que se chama Jochen Hucke. Título: O plano Marshall ecológico. Os dois propõem uma ação global pelo meio ambiente. Eles acham que, tendo em vista os enormes perigos e as causas que levaram a eles — consumo de energia exagerado, com a correspondente liberação de dióxido de carbono, irresponsabilidade dos gigantes da química, miséria total, injusta distribuição de terras no Terceiro Mundo etc. etc. — que hoje a chamada política dos pequenos passos não é mais suficiente. Por isso precisamos de um plano internacional, um Plano Marshall ecológico. Assim como o velho Plano Marshall salvou a destruída Europa depois de 1945, o Plano Marshall ecológico deve, com a ajuda de um imposto pelo consumo de carvão, óleo e gás, trazer, nos próximos 40 anos, um total de seis trilhões de dólares e com isso — realmente — salvar o mundo, embora devam ser introduzidas em todos os lugares técni­cas de economia de energia, é claro.

Durante todo esse tempo Isabelle brincava com a correntinha onde estava pendurada a velha medalha.

Marvin disse, com entusiasmo: — Também li o livro. E ainda: um desvio indesejado da energia nuclear deve com isso ser evitado, que aos usuários de reatores seja imposto, futuramente, todos os custos de um seguro contra possíveis acidentes nucleares — ainda hoje ninguém é responsável por esse risco. Uma revogação desse privilégio da indústria nuclear será suficiente para impedir qualquer ampliação. Na Alemanha Federal, por exemplo, com um Plano Marshall desses, a liberação de dióxido de carbono se reduziria à metade até o ano 2030; em outros lugares também, é claro. Assim, catástrofes climáticas poderiam realmente ser evitadas.

— É como eu dizia — gritou Leroy. — Tudo isso é o contraponto ocidental da perestroika! — Ele se dirigiu a Marvin: — Li uma frase que o Conselho dos Especialistas em Economia de vocês escreveu, num parecer para o ministro da Economia: “O crescimento da economia que se preocupa com o meio ambiente é estruturado de outra forma que o crescimento que o destrói — só ele fomenta a assistência aos cidadãos.” Com isso, o movimento ecológico se impôs nas cabeças dos establishments, não somente na Alemanha, mas já em todos os países. Crescimento da economia, finalmente, é julgado segundo a sua qualidade para o meio ambiente! Apesar de todas as ameaças de catástrofes, uma luz no fim do túnel. Assim, ainda conseguiremos.

— Isabelle! — disse Gerard Vitran, em voz alta.

Ela se assustou. — Sim?

— Você traduziria o que Pierre disse por último? — Ele riu.

— Se me permite — disse Leroy, piscando para ela, e traduziu ele mesmo.

— Algo realmente está em movimento — disse Marvin, no final. — Não apenas no Leste, também aqui no Ocidente acontece uma revolução do pensamento, e não digo isso como uma criança que canta no escuro para espantar o medo. Não, é realmente assim como formula o senhor Leroy: também temos a nossa perestroika! A União Sindical Alemã prepara para o próximo congresso as mudanças na lei dos impostos e dos tributos. A tendência está na mudança da economia de mercado social para a socioecológica. Um congresso do SPD, este ano, elevou os impostos para o meio ambiente como programa de partido, imitando assim os Verdes. Como meta de uma mudança ecológica da sociedade industrial financiada por impostos para o meio ambiente, até o ano 2000, é assim caracterizada pelo SPD: diminuição do consumo de energia em cerca de um terço, uma qualidade de água para todos os lagos e rios que permita banhos sem perigos, interrupção da extinção de espécies no mundo animal e botânico através da criação de reservas naturais em 10 a 15% da área da Alemanha Federal, proteção ao solo, que não deve mais deixar penetrar materiais nocivos na água potável, em alimentos e no leite materno. E uma diminuição do lixo em 30%.

— E coisas bem parecidas estão acontecendo aqui — disse Leroy, que tinha uma aparência tão jovial, forte e firme. — E também em muitos outros países. Pois está claro: o plano só funciona ao nível mundial, além de todas as fronteiras. A situação política já esteve mais propícia que agora para uma coisa dessas? — Leroy falava tão alto, que outros presentes no bar olharam para ele — Se as idéias de Gorbatchov têm como conseqüência que dia após dia aconteçam coisas — e certamente muitas outras irão acontecer —, que ontem nem ousávamos ou podíamos imaginar, então teremos com o “novo pensamento” a mesma chance! Também ao nível ecológico poderá então acontecer tanta coisa, hoje ainda inimaginável. Tudo poderá se modificar, se de repente raciocínios éticos tiverem espaço no nosso sistema capitalista. Tudo se poria às avessas. Ainda hoje as caixas fazem as contas: quanto custa a doença? Quando custa fazer uma pessoa doente novamente saudá­vel? Uma pessoa doente por causa deste mundo doente. Amanhã a pergunta já poderia ser: quanto custa a saúde? Quanto custa eliminar lesões no meio ambiente, para que as pessoas nem cheguem a ficar doentes? Quem hoje ainda está disposto a representar o próximo? Cada um se preocupa com a sua ego-trip! — Leroy baixou o tom, sua voz soava quente, frágil, emocionada: — Tanta coisa então seria possível... Tantas perguntas seriam então absolutamente sérias... Por exemplo — desculpem-me, parece patético —, por exemplo: quanto custa um sorriso de criança? Quanto custam satisfação, calor, esperança? Quanto custa — perdão — simpatia? Quanto estarei disposto a pagar por ela? O quanto estarei disposto a fazer por isso? E deixar de fazer? — Ele olhou para Isabelle. — Você está cética?

— Como chegou a esta conclusão? — disse Isabelle. — O senhor nem me conhece!

— Pela sua expressão facial...

Gilles sorriu.

Durante toda a conversa, de vez em quando vozes dos alto-falantes informavam sobre as chegadas e partidas.

Depois do seu solo, Leroy ficou embaraçado. Ele disse: — Eu... eu estou tão tocado por toda essa coisa nova. Mas ainda sou realista. Há muita coisa que não se pode comprar com dinheiro, que não se pode compensar com dinheiro... Como, por exemplo, se pode calcular a perda estética da destruição da paisagem? Como um sofrimento causado por um câncer?... Não, não, certamente, e também o cálculo ecológico é só um meio para o fim. Mas mesmo assim: a ciência e a política desenvolverão em conjunto — vamos bater na madeira — novas técnicas sociais, com as quais poderemos aplicar na prática conhecimentos ecológicos e máximas éticas — e isto me toca mais do que tudo o que já vivi. Peço desculpas pelo meu tom de voz.

Uma campainha soou dos alto-falantes. Uma voz feminina começou a falar: — Atenção, por favor! Senhoras e senhores, a Air France informa o vôo em atraso de seu Concorde, vôo número 001 para Nova Iorque. Passageiros, por favor, comparecer ao portão de embarque 24. Obrigada!

 

— Senhoras e senhores, em cinco minutos aterrissaremos no aeroporto de Assunção — disse a voz de uma aeromoça nos alto-falantes de bordo. — Pedimos observar o aviso de não fumar e usar os cintos de segurança. Obrigada! — Essa comunicação em espa­nhol foi repetida em inglês.

Thomas Hansen estava sentado ao lado da janela do avião só parcialmente ocupado da companhia aérea estatal do Paraguai, a LAP. Ao lado do garoto de nove anos, que usava um terno azul e uma camisa branca com gravata azul, estava o Dr. Keller, procura­dor da Hansen-Chemie, 39 anos, alto, esbelto e vestido como um banqueiro: terno escuro, camisa branca, gravata escura. Sua cabeça era estreita, a testa era alta, os louros cabelos já estavam meio grisalhos e penteados para trás. Dr. Keller tinha mãos estranhamente transparentes, tinha-se a impressão de ver seus ossos. Ele olhou para Thomas, sorrindo. O rosto do garoto continuou sério. Como o Dr. Keller, ele fechou o seu cinto. Estava cansado. Os dois haviam tido um longo vôo de Frankfurt até o Rio com a Lufthansa e de lá com um avião da LAP até Assunção. Passavam alguns minutos depois do meio-dia de 25 de outubro de 1988.

Uma semana antes Markus Marvin e sua equipe haviam voado do aeroporto parisiense Charles de Gaulle até Nova Iorque e de lá para o Tri-Cities-Airport de Richmond, no Estado de Washington. Há 11 dias, em 14 de outubro, os meios de comunicação haviam noticiado pela primeira vez sobre a construção sigilosa de uma fábrica de gás venenoso para o chefe de Estado da Líbia, Kaddafi, pela Hansen-Chemie.

O avião deu uma grande volta sobre Assunção, a capital do Paraguai, e desceu cada vez mais. Então aterrissou. Thomas Hansen viu quando um Mercedes prata veio lentamente pela pista. Depois que o avião havia parado e Thomas e Dr. Keller já haviam saído dele, veio até eles o motorista do Mercedes, um rapaz com farda azul. Tinha cabelos louros, olhos azuis e ria.

— Bem-vindos ao Paraguai! Sou Paul Kassel, motorista do senhor e senhora Hansen. Por favor, entrem no carro. Levarei vocês até o lago.

— Que lago? — perguntou Thomas, seriamente.

— O mais bonito do país — disse Kassel. — O lago Ypacaraí. Em meia hora estaremos lá. Seus pais têm uma casa lá. Perdão! Posso lhe chamar de “você”?

— Claro! Chame-me de Thomas!

— Com prazer, Thomas. Então me chame de Paul! — Kassel segurava a porta traseira, que estava aberta. Thomas e Dr. Keller entraram. Paul se sentou atrás da direção e foi embora. Na saída da pista ele parou novamente na frente de um portão. Um policial se aproximou do Mercedes. Paul falou espanhol com ele. Então se virou.

— Ele quer ver seus passaportes. Pura formalidade.

O policial era gentil e ao mesmo tempo de uma dignidade serena. Ele devolveu os passaportes e cumprimentou. Paul levantou a mão. Eles foram pela Estrada Nacional 1 ao redor da capital, direção leste. O carro deslizou através do colorido bairro de trabalhadores e artesãos. Thomas despertou novamente. Havia tanta coisa para ser vista. Mulheres montadas em asnos passavam por eles, uma tinha um grosso charuto preto na boca.

— Elas vão para o mercado — disse Paul. — Aqui o comércio de trocas ainda é comum, sabe?

Homens montavam cavalos, eretos e orgulhosos.

— Também a caminho do mercado — disse Paul. — Para fazer negócios. Chamam-se arrieros — os gaúchos paraguaios.

Alegres moças passavam por eles em bicicletas.

— Você gosta, não é? — Paul riu.

— Sim — disse Thomas, sério como antes. — Bonito país, o que os meus pais escolheram.

— É verdade — disse Paul. — Toda a gente aqui é gentil e amigável e quase sempre muito bonita. Não apenas as moças. Você sabe a quem eles agradecem por isso? Já estou aqui há seis anos e me interessei pela história do Paraguai. Eles agradecem pela aparência e maneira de ser a um homem chamado Domingo Martínez Irala, o primeiro governador de Assunção. Ele decidiu, mais ou menos em 1540, há muito tempo, que cada espanhol deveria ter um harém próprio com até 50 belezas guaranis. Os guaranis foram os nativos. O que o governador permitia não era lá muito católico, mas o fez muito popular.

— Posso imaginar — disse Thomas. Seu rosto continuou sem nenhuma expressão.

— Os homens guaranis não tiveram nada contra essa disposição. Por causa das eternas lutas com os incas eles eram cada vez mais reduzidos, e os que sobreviviam simplesmente não podiam dar conta do excesso de mulheres. Ficaram realmente muito felizes que os espanhóis lhes tivessem tirado algo.

— Compreendo — disse Thomas.

— E você vê, essas misturas de nativos com imigrantes resultou numa raça por si só — os paraguaios. Pessoas bonitas com rostos claros, cabelos pretos e sempre a mesma cordialidade serena. Todo camponês recebe você assim. Sim, e as garotas...

— Você tem uma?

— Sim, tenho uma. Já tive muitas. — disse Paul. Ele e o Dr. Keller riram. Thomas não riu.

Os subúrbios haviam ficado para trás, a paisagem havia se transformado, como se Assunção estivesse a muitas horas de carro dali: um verde fresco, bem aberto, nunca plano. Até o solo era um pouco ondeado, e de longe Thomas viu, no vapor desse dia de sol, compridas cadeias de montes. Nos campos pastava o gado. Agora eles passavam por campos limpos e cortados de cana e mandioca.

— Quando vim para cá — disse Paul —, a floresta vinha até esta Estrada Nacional. Só deixaram aqui os lapachos.

— Lapachos são esses grandes arbustos de flores rosa e lilás? — perguntou Thomas. Dr. Keller olhava ininterruptamente para o garoto.

— Sim — disse Paul — esses grandes arbustos floridos, como você diz, são árvores-lapacho. Arvores! Entre agosto e dezembro elas perdem todas as folhas, e suas flores brilham. Apesar de toda a beleza, elas não vão permanecer.

— Por que não?

— Os proprietários esperam que elas cresçam totalmente e depois as derrubam. A madeira traz muito dinheiro...

Só mais tarde se pôde ver o lago Ypacaraí.

— Meu Deus! — disse Dr. Keller. — Isto só existe em cartões-postais brilhantes. Seus pais têm sempre bom-gosto, Thomas. Sobretudo sua mãe. Qual o tamanho do lago?

— 42 km2, Dr. Keller. — disse Paul. — Apenas poucos metros de profundidade. Solo lamacento, sem algas, sem peixes. Sem pescarias. Em compensação se pode banhar, velejar, fazer esqui aquático ou simplesmente se entregar ao ócio na areia. — Ele virou à esquerda. — O lugarejo principal aqui se chama San Bernardino. O senhor e a senhora Hansen moram um pouco afastados. — Eles foram então através de ruas com pequenos hotéis e pensões, muitos clubes e bonitas casas no estilo da Riviera francesa. — San Bernardino foi fundada em 1881 por imigrantes alemães. Quase todo mundo ainda fala alemão aqui...

Os clubes e casas ficaram para trás. Uma nova estrada levava novamente ao interior, que aqui tinha florestas, em grande maioria com lapachos e suas flores rosa e lilás. Paul freou, depois de ter seguido durante minutos ao longo de um muro branco, e virou novamente à esquerda. Através de um alto portão de ferro, que estava aberto, ele foi pelo grande parque. Aqui havia gramados ingleses, pequenos lagos, antigas árvores, canteiros bem cuidados e neles grandes quantidades de flores bem vermelhas.

— Veja, Thomas! — gritou Dr. Keller.

— Estou vendo, senhor Keller — disse o garoto.

— A mais bela flor do Paraguai — disse Paul. — Tem um nome que quase não se pode pronunciar.

— Como se chama? — perguntou Dr. Keller.

— Mburukuya — disse Paul. E a Thomas: — Repita!

Thomas não reagiu. Incansavelmente, Dr. Keller o observava.

— Papagaios! — gritou o procurador da Hansen-Chemie. Nas árvores!

— Selvagens — disse Paul. — Temos muitos deles. — Ele passou por um prédio branco. — Aqui moram os empregados. — O caminho pelo parque fazia uma ligeira curva. Uma casa muito branca em estilo europeu ficou visível. — E aqui moram os seus pais.

Eles estavam sobre a grande escada, Hilmar Hansen, de aparên­cia feminina, doce e terno e com a cabeça bem torneada e os muito finos cabelos brancos, e sua mulher Elisa, maior do que ele, ombros largos, quadris estreitos, longas pernas e cabelos à la pajem.

Paul parou sobre um cascalho que brilhava no sol. — Thomas! — gritou a senhora Hansen.

Ela correu em sua direção. Eles se encontraram ao lado de um canteiro de flores bem vermelhas. A mãe se ajoelhou, apertou o garoto para si.

— Meu querido — disse Elisa Hansen. — Meu coração. Meu tesouro. Meu tudo.

— Boa tarde, mama — disse o garoto, sério.

A senhora Elisa Hansen continuou a beijá-lo. Quando ela então se levantou, tinha lágrimas nos olhos. Thomas se aproximou de Hilmar, estendeu-lhe uma mão mole, deixou-se beijar na testa e no rosto e disse: — Boa tarde, papa.

— Boa tarde, meu rapaz — disse Hilmar Hansen com voz aguda e doce. — Como estou feliz em vê-lo.

— Eu também — disse Thomas, enxugando no rosto as marcas de saliva da mãe.

 

 

— Apenas um gole de boas-vindas — disse a mãe no gigantesco salão da casa. Um serviçal alemão, que usava calças pretas e um colete de listras verdes e douradas, serviu champanhe; para o garoto, suco de laranja.

— E um gole de champanhe, por favor, para comemorar — disse Elisa Hansen. — Aí você também irá dormir muito bem. — Ela levantou sua taça. — A você, Thomas! — gritou ela, e todos brindaram a ele.

No salão havia móveis antigos e bonitos, escolhidos a dedo. Havia vários sofás e diante da lareira o chão de mármore era dois degraus mais baixo. Thomas viu que havia quadros que ele nunca havia visto no palacete Arabella e que estavam ali. Para a sua idade, ele entendia muito de pintura; não havia nada por que ele se interessasse mais, e, entre outras coisas, ele reconheceu um Nolde, um Kandinsky, um Picasso e um Van Gogh, que seguramente custou um dinheirão. Lenta e seriamente, ele caminhava de um quadro para outro.

— Bonito — disse ele, sem olhar nem para a mãe nem para o pai. — Muito bonito. Tudo. Também o parque.

— Aqui é tudo muito maravilhoso — disse Elisa Hansen, atrás da qual, mudo e respeitoso, ia Dr. Keller. — Nos sentimos tão bem quanto em Königstein. Melhor. E há tantos pássaros, rouxinóis não, mas outros pássaros que cantam. Em todo o Paraguai eles não existem. Só em volta do lago Ypacaraí. Eles simplesmente cantam maravilhosamente, você vai ouvir, querido.

— Sim, mama — disse Thomas. — Ele ficou diante de um único quadro, pintado em madeira. Por muito tempo ele o observou em silêncio. Em cores saturadas, o quadro brilhava como ouro. — Esta é a coisa mais bonita que já vi — disse ele, por último.

— É a Calma na fuga, de Lucas Cranach, Pai — disse Elisa Hansen, apertando o seu filho para si. — Você conhece o quadro!

— Claro, mama. Mas o original estou vendo pela primeira vez. — O garoto observou novamente o quadro que mostrava a Sagrada Família envolta de anjos servis e músicos; no meio, José. Diante dele, sentada, em vestido vermelho e cabelos vermelhos, Maria. De joelhos, a criança, a quem um anjo dava morangos. O grupo estava composto junto a uma paisagem de montanhas com florestas. Através de um pinheiro e uma bétula o olhar atravessou até o céu azul e sem nuvens e a vastidão infinita, na qual se erguiam longe, bem longe, montanhas azul-brancas.

— Oito anjos — disse o garoto. — Não, nunca vi nada mais bonito. O senhor também não, Dr. Keller, não é?

— Nunca — disse ele.

O garoto olhou para a mãe. — Há uma ordem de prisão contra vocês — disse ele, calmamente.

— Pois é, meu coração — disse a mãe. — A casa também lhe agrada, querido?

— Sim — disse o garoto. — Vocês nunca voltarão à Alemanha.

— Não, é claro — disse o pai.

— Não, é claro — disse o garoto, balançando a cabeça. — Vocês não teriam mesmo nenhuma chance. Nem a menor.

— Por isso mesmo nunca voltaremos, meu tesouro — disse a mãe. — Embora tudo isso obviamente seja uma enorme difamação da concorrência. Somos inocentes.

— Obviamente — disse o garoto.

— Não temos absolutamente nada a ver com essa fábrica na Líbia. Felizmente fomos informados a tempo pelo Dr. Keller — ela sorriu ao procurador — sobre essa intriga monstruosa e pudemos ficar em segurança. Não deveríamos esperar por um julgamento correto por parte de um tribunal alemão. Para tal somos, para muitos no país, muito independentes e muito fortes. Certamente seríamos julgados injustamente, querido.

— E com penas máximas — disse Dr. Keller. — Certamente com penas máximas. A reputação alemã no mundo foi muito prejudicada pela intriga contra a Hansen-Chemie. Mas isso foi indiferente para aqueles criminosos. Eles queriam destruir a Hansen-Chemie e os seus pais, Thomas. Mas não conseguiram. A Hansen-Chemie continua em funcionamento, independente, grande e forte como nunca. Em breve será ainda mais forte — e seus pais têm tanta segurança quanto você, Thomas.

O garoto balançou a cabeça afirmativamente e olhou novamente para o quadro de Lucas Cranach. — Vocês, quer dizer, aqueles que construíram essa fábrica devem ter ganho muito com ela.

— Muitíssimo, querido — disse Elisa Hansen, acariciando ternamente os cabelos castanhos de seu filho. — Mas agora você deveria ir logo ao banho e depois à cama! O longo vôo! O fuso horário! O outro clima! Você está morto de cansaço e esgotado. Só em dois ou três dias o seu corpo terá realmente se adaptado. Isso também vale para o senhor, Dr. Keller. O senhor também precisa ir dormir agora.

— Certamente, madame.

— O senhor comeu no avião?

— Um bom café da manhã, madame.

— Será que você está com fome, querido?

— Não, mama.

— O quarto do senhor está na ala ocidental. O senhor Ulrich irá mostrá-lo. O nosso mordomo preferido aqui. — O empregado com o colete de listras verdes e douradas, que havia trazido as bebidas, se curvou ligeiramente. Os dois desapareceram.

— E você vai dormir na ala oriental, meu coração. Vou com você e mostro tudo — disse Elisa Hansen, com um braço sobre os ombros de Thomas.

A casa era tão grande quanto um hotel. O garoto foi com a sua mãe por um grande corredor. Durante o trajeto ele viu empregados e empregadas. Eram gente do lugar, que lhe sorriam amigavelmente e cumprimentavam com educação. Ele também cumprimentou amigavelmente, mas sem sorrir.

Com um elevador, eles subiram ao segundo andar. Finalmente, alcançaram sua meta.

— Aqui é a sua sala, querido... e aqui o quarto... e o banheiro. Todas as janelas dão para o lago, está vendo?

— Sim, mama — disse Thomas. De repente ele foi tomado por um grande cansaço. Falava lentamente.

— Tudo foi preparado para você. Também a água na banheira. Tire a roupa!

O garoto de nove anos obedeceu. A cada minuto que passava, ele ficava mais tonto. Nu, ele entrou na água quente da banheira.

— Espere! Mama vai lhe ensaboar! — Afetuosa, Elisa Hansen ensaboou seu filho. — Pronto, agora se levante! Vou tirar o sabão. — Ela o fez. — Não é bom? Você se sente bem?

— Sim — disse ele.

Ela o enxugou.

Com os pés descalços, Thomas foi para o quarto, vestiu um pijama e se deitou sob um fresco lençol, enquanto Elisa Hansen fechava as pesadas cortinas das janelas. Ficou escuro no grande cômodo.

Elisa Hansen se ajoelhou ao lado da cama e beijou Thomas na boca. — Assim... Ela ajeitou o lençol. — Está bem assim?

— Sim, mama.

— Agora você vai dormir, dormir profundamente. Amanhã, quando você já deverá ter-se acostumado um pouco, falaremos sobre tudo, está certo?

— Sim, mama.

— Vou deixar a porta um pouco aberta. Se você acordar e precisar de alguma coisa, aqui está a campainha. Logo em seguida virá alguém, de dia e de noite. E aqui está o telefone. Se você quiser falar comigo, o meu número é 11. Você vai se lembrar?

— 11 — disse ele. — É claro que vou me lembrar.

— Meu quarto fica um pouco longe. Num outro andar. Mas venho logo, querido. Mama virá imediatamente.

Ela o abraçou e o beijou mais uma vez, então se foi rapidamente. Deixou a porta aberta, como prometido.

Thomas suspirou profundamente. Dois minutos depois já estava dormindo. Ele sonhou com os oito anjos.

 

 

Na tarde seguinte, então, estavam sentados Hansen, sua mulher, Thomas e Dr. Keller diante da grande lareira no salão, onde havia o Cranach e outros quadros. Grossas lascas de madeira queimavam. O mordomo Ulrich servia chá.

— Você pode ficar aqui 90 dias, sem problemas, coração — disse Elisa Hansen a seu filho. — Depois você recebe imediata­mente uma prorrogação para mais 90 dias. — Ela havia penteado cuidadosamente os seus castanhos cabelos de pajem. Seus olhos castanhos brilhavam. Elisa Hansen tinha calças brancas e um pulôver amarelo de casimira. Os sapatos amarelos e brancos eram de salto alto. Na orelha esquerda estava pendurada uma grande esmeralda.

— A mesma coisa vale para o senhor, Dr. Keller — disse o doce e grisalho Hilmar Hansen, que no decote de sua jaqueta usava um lenço, que Elisa de vez em quanto ajeitava. Hansen estava um pouco resfriado.

— Eu sei, senhor Hansen — disse Dr. Keller.

— Só no próximo outono é que você irá para a escola secundária, Thomas — disse Elisa. — Você é tão bom na escola, que pode vir para cá mesmo que não sejam férias. Nas férias, sempre. Gostou da idéia, querido?

— Vocês estão absolutamente certos de que o Paraguai não vai extraditá-los? — perguntou Thomas, ao invés de responder.

— Absolutamente, querido! — Elisa Hansen riu, alegre.

— Assim como ninguém pode proibir você e Dr. Keller de virem aqui. Vocês dois e ninguém que queira nos visitar. Dr. Keller estará aqui com freqüência. Ele administrará a fábrica. — Ela se dirigiu ao homem vestido ultracorretamente e que dava a aparência de um banqueiro. — O senhor fará o que achar correto; sempre, Dr. Keller. Se houver necessidade de decisões importantes...

— Telefono imediatamente e venho até aqui, senhora Hansen. E trarei, se necessário, os melhores especialistas e advogados.

— Sei que posso confiar no senhor — disse Elisa, sorrindo para ele.

— É claro que haverá um processo — disse Dr. Keller. — Não se descobrirá nada, certamente. Afora muita fofoca da imprensa. Mesmo assim me permiti contratar os melhores advogados dessa área.

— Quais?

Ele citou três nomes.

— Excelente, doutor. — Elisa sorriu mais uma vez.

— Os dois contadores vão ser condenados, é claro.

— É claro — disse Elisa. E para Hilmar Hansen: — Você está com febre? Veja agora!

Obediente, ele tirou da camisa o termômetro que ela havia posto nas suas axilas um pouco antes.

— Mostre aqui!

Ele o passou para ela.

— 37,8. Temperatura elevada. Depois do chá você vai se deitar.

— Sim, querida — disse Hilmar Hansen.

— Às sete o doutor Tastil passará aqui.

— Isto realmente não é necessário...

— É claro que é necessário! Você sabe o quanto precisamos cuidar de sua saúde — nesse estado ainda muito frágil. — Ela olhou para Thomas. — Telefonaremos diariamente, meu tudo. Preciso ouvir sua voz diariamente.

— Estarei sempre ao seu dispor — disse Dr. Keller.

— Temos bastante tempo para pensar em que escola você estudará — disse Elisa. — Talvez até mesmo no exterior. Inglaterra, França. O tempo passa tão rápido. Você vai estudar Química. Era o que você queria.

— Sim, mama. Pintura só como hobby.

Ela o beijou.

— Que filho maravilhoso eu tenho! Um dia você irá dirigir a Hansen-Chemie. Dr. Keller cuidou para que agora tudo pertença a você e nada possa ser confiscado. Não existe confisco por paren­tesco. Dr. Keller está a seu lado, querido.

O mordomo Ulrich serviu chá.

— Não houve nenhum dia de interrupção na Alemanha. As máquinas trabalham como sempre — disse Elisa Hansen. — Não se preocupe com isso. Dr. Keller resolve tudo.

— Ninguém pode ousar pará-las — disse o procurador. — Quantos empregos não estariam perdidos!

— Você está ouvindo? Tudo vai continuar. Mas agora você vai ficar um mês com a sua mama!

— Não — disse Thomas.

Elisa Hansen chegou a rir.

— Não o quê, meu coração?

— Não, não vou ficar com você — disse Thomas, com um olhar sério para a mãe. — E não virei mais aqui.

— O que... — Elisa Hansen olhou para o filho, chocada.

— Nunca mais — repetiu o filho.

— Mas por que não, meu querido? — gritou ela. — Por que não, pelo amor de Deus?

— Porque quero Thesi — disse Thomas.

— Quem é Thesi? — perguntou Dr. Keller ao delicado senhor Hansen.

— A nossa governanta, a senhora Toeren — respondeu este.

— Você quer voltar para a senhora Therese? — perguntou Elisa Hansen, e sua voz de repente ficou afônica. Em dois segundos ela pareceu ter envelhecido 20 anos.

— Sim, mama — disse Thomas. — E quero ficar com Thesi. Por favor, telefone para ela e diga que ela deve vir imediatamente para me buscar.

Repentinamente houve um silêncio de morte no salão.

 

 

A vaca se levantou lentamente, vacilou e caiu. Algumas outras cabeças de gado se ergueram, um animal muito atrofiado não pôde se levantar. E dois bois, que haviam se levantado, caíram novamente.

Círculos, pensou Markus Marvin, que, no momento em que no salão de uma grande casa no lago Ypacaraí, no Paraguai, se fizera um silêncio de morte, ia num Landrover perto do depósito nuclear de Hanford, no gramado do fazendeiro e seus animais aleijados, em direção à pequena cidade de Mesa. Sempre novos círculos se fechavam. Já estive aqui uma vez. Tudo isto eu já havia visto. Parece ter sido há uma eternidade. Mas só foi em março. Apenas há sete meses. O que aconteceu nestes sete meses? Depois que estive aqui pela primeira vez, aquilo que vi e ouvi mudou a minha vida. Eles me demitiram do Ministério do Meio Ambiente de Hessen. Fui parar na Sociedade de Física de Lübeck. Minha amada filha Susanne está morta, assassinada na floresta amazônica. Outras pessoas foram mortas. Em que lugares estive?

Atrás de Marvin, num segundo carro, estavam Bernd Ekland, Katja Raal e Valerie Roth. Ao lado dele estava Isabelle; Gilles, atrás. Eles estavam fazendo as últimas tomadas. Haviam filmado aqueles animais, o depósito nuclear Hanford e falado com habitan­tes e representantes da administração. Documentaram os que fazem a exploração nuclear e de plutônio. Agora eles só queriam vir mais uma vez a Mesa, ao Stardust Memories Café, que pertencia ao primo de Ray Evans, Tom.

Um círculo. Novamente se fecha um círculo, pensou Markus Marvin.

Seguido pelo segundo carro, ele desceu pela Main Street de Mesa. Aqui também já filmamos, pensou ele. Para os outros tudo aqui é novo. Os postos de gasolina, os cinemas, casas comerciais, bancos, lojas, os poucos prédios altos, o fraco movimento de carros.

E as pessoas, pensou Marvin. Todos parecem aflitos. Ninguém ri. Até as crianças são sérias. Só algumas brincam. E são tristes quando brincam. A maioria fica sentada ou não faz nada. Como o gado no pasto de Evans. Tudo aqui está ainda mais triste.

Ele viu o Stardust Memories Café e parou o Landrover na beira da calçada. O carro atrás dele, que Ekland dirigia, fez o mesmo. Aqui, pensou Marvin, enquanto parava e descia, Ray Evans cantou naquela vez, em março, com a sua voz frágil, lembro-me muito bem... Ahm tired of livin An’ feared of dying, But Ol’ man river he jes keeps rollin’ along...

Tenho medo da vida e medo da morte, mas Ol’ man river, o velho homem-rio, ele corre calmamente, e vai, vai, vai...

 

 

Nada havia mudado no Stardust Memories Café.

Lá estava o longo balcão, onde se sentava em altos bancos para beber. Lá estavam os cantos coloridos com as coloridas mesas de plástico e cadeiras de plástico. Ao lado uma loja de trecos, farmácia, drogaria, armazém, tudo ao mesmo tempo — a drugstore.

Katja ainda nem havia entrado na drugstore e já ficou com o rosto amarelo-esverdeado, correndo para o banheiro feminino. Só Valerie notou, durante os cumprimentos gerais. Depois de uns minutos ela foi atrás de Katja, encontrando-a numa ante-sala de azulejos bran­cos com dois grandes espelhos sobre as pias. Katja estava tremendo diante de uma das pias e lavava a boca. Estava com péssima aparência. Sob os olhos, escuras olheiras.

— Coitada — disse Valerie, colocando, solidária, uma mão sobre os seus ombros. Katja estremeceu, assustada. — Não, não lhe faço nada, minha querida. — Valerie disse, com prudência: — Já venho observando isso desde que saímos de Bonn. Desde então você passa mal com freqüência. Também no bar do aeroporto, em Paris. Desde quando você está grávida, minha querida?

Katja olhou para Valerie, sem muito entender.

— Cá entre nós, mulheres! Afinal, não é catástrofe alguma. Talvez possa lhe ajudar... Em que mês você está?

— Mas... mas... — Katja limpou seu rosto com um lenço — Eu não estou grávida!

— Não mesmo? Está certa disso?

— Absolutamente certa!

— Sim, mas... o que está acontecendo então? O que você tem? — Katja se afastou de Valerie. — Não quer me dizer?

Katja balançou a cabeça.

— Não?

Novamente ela balançou a cabeça.

Valerie deu um passo à frente. — E por que não? É tão grave assim?

Ela fez que sim.

— O que pode haver de tão grave? Realmente, Katja, sou sua amiga! Estou preocupada. Você não quer me dizer o que é?

Ela fez que não.

— Por que não? Não posso mais ver você... sempre esses vômitos... Alguma coisa deve ser providenciada... Vou chamar um médico...

— Não! — gritou Katja. Ela tremia. — Nenhum médico, por favor, nenhum médico! Eu... eu não estou doente...

— Mas isso não é normal, vomitar tantas vezes... Tenho medo...

— Eu também...

Katja mordeu o lábio. Não deveria ter dito isso. Mas essa Valerie é tão simpática, pensou, e se preocupa tanto comigo. Realmente, não posso continuar assim...

Valerie se sentou ao lado de Katja, que estava afundada numa poltrona, e pôs uma mão sobre o seu braço. — Coragem! De que você tem tanto medo?

Katja começou a chorar. Valerie se aproximou dela e a acariciou, ternamente. E depois Katja começou a falar.

— Peter Bolling...

— O quê, Peter Bolling?

— Bernd disse que eu não deveria falar...

— O que você não deve dizer a ninguém, querida?

— Que ele estava em Bonn... no Ministério do Meio Ambiente...

— Bolling? No Ministério do Meio Ambiente? — Valerie, incrédula, repetiu as palavras de Katja.

— Sim...

— Mas isso é ridículo!

— Não é nada ridículo! Ouvi a sua voz! Bem claramente. — Agora Katja ficou histérica — Sua voz, juro! A voz de Bolling! A voz de Bolling!

— Isso é grotesco... pobre Katja... você deve ter-se enganado...

— Não! Era ele! Era ele!

— Não pode ser... Não pode ter sido ele. Ele desapareceu... Sabe Deus se ainda vive! Ora, que absurdo é esse? Você... Você ouviu alguma coisa de Markus... de Markus... sobre essa gravação mos­trada a ele e Gonzalos em Frankfurt. Gonzalos disse ter reconhecido a voz de Bolling... Markus disse que não era a voz de Bolling... Uma voz muito parecida, sim... mas não a de Bolling... e Markus realmente conhece Peter muito bem. Você simplesmente está estressada, minha pobre. Não é de se admirar... todas essas semanas... a mudança de clima... o trabalho... Você está com os nervos à flor da pele... bem à flor da pele... E desde que ouviu essa misteriosa estória da gravação, fica imaginando todas as coisas possíveis... por exemplo, que ouviu a voz de Bolling em Bonn... Que idéia maluca! Bolling em Bonn! Por que você simplesmente não abriu a porta e olhou, para ver quem estava dentro?

— Eu... eu não sei... Bernd também diz que estou simplesmente confusa...

— Está vendo?

— ...e que devo parar com isso... e ficar calma... agora, que o nosso trabalho está terminando... só filmaremos hoje...

— Graças a Deus! Então você vai descansar na Alemanha! Bernd também diz... e Bernd a ama, não é?

— Sim...

— Quero o melhor para você... Realmente, você não deve continuar a pensar nessa estória maluca... Senão você realmente vai ficar doente... Bernd diz e também digo: não foi a voz de Bolling!

— Acha... acha realmente?

— Minha pobre criança, por favor...

— Sim, talvez realmente esteja... Poderia me dar um lenço? O meu está muito molhado... Obrigada, é tão gentil comigo... Todos são gentis comigo... Se Bernd e agora você dizem que eu talvez esteja escutando vozes do além... — Katja riu alto, tremendo.

Valerie também riu. — Agora finalmente você está sendo racional. Espere, eu lhe ajudo com o batom... Assim é que você não pode voltar... querida, boba Katja...

Minutos depois as duas chegaram no café. Valerie sorriu mais uma vez para Katja e apertou sua mão com força.

— Obrigada — cochichou esta. — Obrigada!

Hoje não havia funcionários, operários de uma construção, moças de high-schools com seus amigos. Tom Evans havia dito que hoje viria uma equipe de TV da Alemanha, TV-people from Germany, you know, folks. Maybe you’ ve seen them, they’ve been shooting here for quite some time now, the whole goddamned fucked up mess, talvez vocês tenham visto, gente, eles já estão filmando há um bom tempo aqui, toda a maldita merda. Won’t help us a damn. Não ajudará em porra nenhuma. But you never know. Mas não se pode saber nunca...

Assim, apenas Tom Evans e seu primo, o fazendeiro Ray Evans, estavam lá, além de Corabelle, a beleza atrás do balcão, a quem os rapazes sempre diziam que se parecia com Marilyn Monroe, e Corabelle irradiava um sorriso e mostrava os seus dentes maravilhosos e punha para trás os cabelos louros e apertava seus seios sob a blusa de seda branca e tinha lábios pintados de um vermelho vibrante e era something to look at, oh yeah, não era de se jogar fora sempre em tratamento contra leucemia, fazendo com que vivesse ainda por décadas, havia dito o médico. Dez anos de Hollywood seriam suficientes, sempre dizia Corabelle, Marilyn também não teve muito mais.

Ah, sim, e o pequeno cão na velha cadeira de vime ainda estava lá — tudo como em março, pensou Marvin; embaixo do cartaz que diz que não se deve dar chance à AIDS está o cão, olhos sem brilho, seu pêlo ainda mais sarnento e mais escasso, vê-se muita pele branca.

Katja, de certa forma consolada por Valerie, montava tudo para a última entrevista. Ekland já carregava ele mesmo a BETA e podia segurá-la no ombro por muito tempo. As dores haviam desapare­cido totalmente, desde que Katja começara a lhe dar diariamente injeções de cortisona.

Ela corria pra lá e pra cá, carregava coisas, montava e pensava: feliz, feliz, você deveria estar feliz, idiota, feliz porque ele não tem mais dores. Ao invés disso... Talvez não fosse Bolling realmente...

E então Marvin entrevistou Corabelle, que contou sobre sua leucemia e todas as coisas grotescas que aconteciam em Richmond, sobre esse Science Center e o computador que diz: PARA A SUA DOSE PESSOAL, e sobre os valores ridículos que chegavam quando se fornecia os dados. Talvez aconteça ainda alguma coisa com Hollywood, pensou a bela Corabelle, o cameraman que filmou portanto tempo, um cara realmente simpático, a really nice guy com a sua assistente, poor girl, her face is just too awful to look at, pobre garota, tem-se náuseas diante de seu rosto. Certo, Corabelle tem a tireóide muito inchada, muitos aqui tinham, não se via, quando Corabelle deixava a cabeça um pouco inclinada e deixava os seus longos cabelos louros sobre os ombros, esse tique ela tinha há muito tempo, mas aqueles abscessos e espinhas no rosto da moça, pitiful, just pitiful.

E então Valerie entrevistou o aleijado Tom Evans, e este disse o que já havia dito a dezenas de repórteres — ele sabia tudo de cor.

— Nasci aqui no dia 25 de março de 1947. Com pernas e dedos tortos... Sou impotente... Defeito genético, diz Joe Webb, “e um agitador comunista”. Assim fala Joe Webb, chefe da comunidade para Hanford. Então todos foram agitadores comunistas.

Tom Evans apontou para o quadro ao lado da vitrola de fichas, diante da qual ele estava, torto. E Ekland, com a BETA no ombro, se virou lentamente e filmou o quadro, enquanto Tom explicava que ele mesmo o havia preparado, o quadro escrito de vermelho. Bem em cima estava escrito: DEATH MILES FAMILIES.

— Quando mister Marvin esteve aqui pela primeira vez, havia 20 nomes na lista. Agora dois foram acrescentados — disse Tom com a sua estranha voz, e Ekland filmou lentamente, linha por linha até embaixo, com os nomes que foram incluídos depois de março:

 

 

OS FARADAYS — Carl e Mary, câncer no fígado, câncer nos ossos.

OS ADAMS — ele, câncer na glândula tireóide; ela, câncer de mama.

 

 

Então Katja precisou trocar de cassete, e enquanto o fazia, bateram na porta do café, que estava fechado. Através do vidro da janela se viu do lado de fora um homem alto e magro de blue jeans, que acenava.

— É George Moreland — disse Tom. — Advogado. Representa muitos de nós em processos contra o governo. Gente fina. Por ele ponho a minha mão no fogo. Disse a ele que vocês estariam hoje aqui. George tem algumas estórias para contar. Quer ouvi-las?

— Por favor — disse Marvin.

Quinze minutos depois o advogado estava diante da câmera.

— Sabem como tudo isso explodiu? — perguntou George Moreland. — Um trabalhador, num controle rotineiro, disparou o alarme de irradiação. Era 1981. Quando foi-se investigar os motivos da irradiação, descobriu-se que ela vinha de ostras, distan­tes 500 quilômetros, na foz do Columbia, que corre em áreas de Hanford.

— A quantos quilômetros de distância? — perguntou Marvin.

— 500, o senhor ouviu certo — disse o advogado, com raiva. — A ameaça nuclear é ubíqua...

— Ubíqua — repetiu Marvin.

— Sim, significa...

— Sei o que significa, mister Moreland — disse Marvin. — Ouvi a palavra há pouco tempo, com relação ao alastramento de dioxina, o mais venenoso de todos os venenos. Então falou-se também de alastramento ubíquo, ou seja, onipresente.

— Onipresente, sim — disse o advogado. — Um Chernobyl furtivo, que incessantemente prejudica a saúde e a vida de milhões de trabalhadores e colonos. Sabe quem eu citei literalmente com essa afirmação? O senhor não pode saber. Citei Jack Geiger, professor na Faculdade de Medicina da City University of New York. O governador do Estado de Ohio, que justamente agora fechou a instalação de plutônio de Fernald — quando também houve um escândalo tremendo, era a mais pura instalação de irrigação de plutônio —, o governador de Ohio encontrou palavras mais drásticas ainda que as do doutor Geiger. Ele disse: “Se um terrorista houvesse enterrado uma bomba-relógio em Fernald, a reação teria sido imediata e decidida. Mas foi o nosso governo que fez isso e nos mente...”

 

 

A pequena igreja próxima à Lincoln Avenue estava vazia. Só uma pessoa estava ajoelhada diante do altar, rezando em silêncio: Katja Raal. Ela havia voltado com a equipe de Mesa para Richmond, onde ela e Bernd Ekland estavam hospedados, numa pensão chamada Rosebud, perto dessa pequena igreja — todos os outros estavam hospedados no Regency Hotel. Katja havia dito a Bernd, no caminho, que ainda queria ir à igrejinha e depois à pensão, para tomar banho e se trocar. Depois do final dos trabalhos de filmagem, Marvin havia chamado todos para uma noite no Regency.

Meu Deus, rezava Katja, agradeço que o Senhor tenha ajudado tanto Bernd. Ele não tem mais dores. Obrigada, meu Deus, obriga­da. Por favor, meu Deus, faça com que Valerie e Bernd tenham realmente razão de que não foi a voz de Bolling! Amanhã voltamos para a Alemanha. No dia 10 de novembro com o professor, por causa de minha acne. Meu Deus do céu, por favor, faça com que ele possa me ajudar com os raios de ondas longas, e que não precise mais andar por aí com essa cara horrorosa. Quero tanto que Bernd me veja sem acne. Vou comprar agora dez velas e acendê-las — como fiz em Paris. E se conseguir acender todas elas com um único fósforo, então é um sinal de que tudo irá correr bem comigo e com a acne, como correu bem com Bernd em Paris. Por favor, meu Deus. Amém.

Ela se levantou, pegou dez velas de um maço e empurrou uma nota de dez dólares pelo buraco da caixinha. Ela enfiou as velas em pregos. Depois esperou um pouco e fechou os olhos e se concentrou. E então abriu os olhos novamente e riscou um fósforo — e acendeu as dez velas uma após a outra.

O sinal, bom Deus! disse Katja em silêncio, e lágrimas correram pelo seu rosto. Foi o sinal! Oh, agradeço ao Senhor! Tudo correrá bem comigo, tudo.

Ela foi lentamente pela igreja pouco iluminada em direção à saída, e a cada passo que dava ficava mais feliz, e no pensamento sempre repetia: tudo correrá bem comigo, tudo correrá bem comigo. Quando saiu da escuridão e ficou em frente à igreja, ela estava cheia de felicidade. No momento seguinte, um golpe muito forte a jogou contra um muro, e logo depois ela sentiu no peito uma dor terrível. Ela gritou e viu quando uma figura se aproximou dela fantasmagoricamente. A Lincoln Avenue, algumas escadas abaixo dela, estava entupida com o trânsito vespertino. Carro atrás de carro nas duas direções, tantas luzes, tanto barulho de buzinas e motores. Ninguém ouviu um grito. Ninguém ouviu o segundo tiro, disparado pela figura, agora tão próxima, com uma pistola. Katja caiu, e na queda ela puxou a figura. As duas rolaram escada abaixo, Katja ficou caída de costas e gritou, e a figura estava em cima dela, e a pistola foi ainda disparada três vezes. As duas últimas vezes Katja não viu mais.

 

 

Quando a polícia descobriu quem era a morta e que ela pertencia a uma equipe de TV alemã, o detective-captain Jerome Caspary foi da homicide division até o Regency e falou com Marvin e os outros. Chocados, eles foram incapazes de dizer mais do que o fato de que Katja Raal e seu namorado, o cameraman Bernd Ekland, estavam numa pensão chamada Rosebud. Então o detective-captain Caspary foi até lá, e quando chegou, Bernd já estava na rua, diante da casa. Os outros haviam telefonado e dito o que acontecera.

Caspary desceu de seu carro.

— Mister Ekland?

— Sim?

— O senhor sabe...

— Sim.

— Sinto muito — disse Caspary.

— Onde está ela?

— No Instituto Médico-Legal, sir — Caspary pigarreou. — Será necessário que o senhor identifique a morta.

— Leve-me até lá.

— Se está se sentindo mal, chamo um médico pelo rádio...

— Leve-me até lá! — Ekland se sentou no carro da polícia. Durante o trajeto ele não disse sequer uma palavra.

Policiais fardados e civis estavam nos corredores do instituto, através dos quais iam Caspary e Ekland. Eles não o olharam. Ninguém falava. Na grande sala de azulejos brancos o cheiro era de desinfetantes. Um homem pequeno e velho puxou uma armação da geladeira. O corpo sobre ela estava coberto por um lençol branco. Ekland se aproximou. Caspary fez sinal para o ancião, e ele puxou uma ponta do lençol, e Bernd viu o rosto intacto de Katja. Era um rosto feliz, sim, parecia que a morta ria ou pelo menos sorria. Ekland olhou para o rosto de Katja e pensou o quanto ele a amara e que agora deveria viver sem ela. E continuou a olhar para o rosto feliz de Katja Raal, morta.

Sou culpado, pensou. Disse a ela que deveríamos ficar de fora de tudo, sem nos metermos. Fazer apenas o nosso trabalho e não nos deixarmos envolver, eu disse. Mas isso não é possível, estou vendo agora, quando é tarde demais. Não se pode ficar de fora de tudo e se resguardar. Ele se curvou e beijou Katja na boca. A boca estava muito fria.

— É ela? — perguntou Caspary, que havia se aproximado, em silêncio.

Ekland fez que sim.

— Pode imaginar por que foi assassinada?

— Não.

Então ele pensou que não poderia ficar de fora por muito tempo, e quis contar tudo o que acontecera nestas longas semanas.

Mas antes que ele pudesse começar a falar, Caspary disse: — Precisamos de ajuda urgentemente. Toda espécie de ajuda. O senhor vem de tão longe, miss Raal também. É claro que descobriremos o tipo da pistola. Achamos uma lente de contato azul diante da igreja.

— Uma o quê?

— Uma lente de contato azul — disse Caspary, enquanto o ancião empurrava a maca para dentro da geladeira.

 

 

O telefone tocou no quarto de hotel de Isabelle.

Ela acordou assustada e de pronto não sabia onde estava. As cortinas estavam fechadas. Ela procurou acender a luz da cabeceira e pegou no telefone.

— Bom dia, Isabelle — disse uma voz de mulher.

Isabelle se levantou na cama. — Clarisse!

— Fale baixo. Sejamos breves.

— Onde você está?

— Em Bogotá.

— Onde?

— Em Bogotá. Na Colômbia.

— Em Bogotá... mas por quê... de onde... Que horas são?

— Aí em Richmond cinco para as nove.

— Para as nove! Eu... fomos dormir muito tarde... A polícia... Você não sabe o que aconteceu, Clarisse.

— Eu sei. Por isso estou telefonando. Vamos falar rápido. Venham todos o mais rápido que puderem! É muito importante. Diga aos outros que venham!

— Ir... os outros... Valerie Roth desapareceu... Ela...

— Eu sei. Peguem o avião do meio-dia da TWA até Los Angeles! Lá devem esperar e viajar à noite para Bogotá. Amanhã às 14 horas estarão aqui. Bruno e eu estaremos esperando no aeroporto. Vocês precisam vir sem falta! Sem falta!

— Mas por quê?

— Peter Bolling está em Bogotá.

 

 

Chovia em Bogotá. Chovia quase todas as tardes em Bogotá. Um avião da TWA, de Los Angeles, aterrissou pontualmente, às 14 horas, no aeroporto El Dorado. Clarisse e Bruno esperavam Isabelle, Gilles e Marvin. Foram embora num táxi. Gonzalos deu o endereço do advogado Ignacio Nigra.

— O que aconteceu com Bolling... — começou Marvin imediatamente.

— Não agora — disse Gonzalos. — Depois. Podemos falar de qualquer outra coisa. Os jornais trouxeram a notícia do assassinato de Katja Raal. Dizia-se também que Valerie Roth estava desapare­cida e que está sendo procurada como suposta assassina.

— Eles citaram o hotel de vocês em Richmond — disse Clarisse. — Foi assim que pude telefonar imediatamente, Isabelle. Aconte­ceu alguma coisa aqui, por isso queríamos que viessem imediata­mente, eu e Bruno. Onde está Ekland?

— No hospital — disse Isabelle. — Crise nervosa. — Ele e Katja eram...

— Eu sei. Terrível... — Clarisse olhou para a chuva.

Isabelle a puxou para si. — Você está maravilhosa... Em que mês está?

— No quarto. — Clarisse usava um largo vestido creme. A mulata de cabelos pretos e muito grandes olhos pretos olhou para Isabelle. Ela sorriu. — Já é bem inquieto — disse ela.

 

 

Pouco antes das três horas eles entraram na chancelaria do Dr. Ignacio Nigra, numa velha e suntuosa casa nas proximidades da Plaza Bolívar. Dois homens com capas claras estavam na ante-sala.

— Os senhores estão sendo esperados — disse uma secretária. — Por favor, sigam-me!

Um por um, eles entraram na sala de reuniões do advogado. Estava elegantemente vestido, como sempre. A cara gravata de seda e o caro terno se harmonizavam muitíssimo bem com os papéis de parede e os móveis da sala de reuniões. Além de Nigra, outro homem se levantou — o químico Peter Bolling. Aflito, ele mexeu nos óculos. Nigra cumprimentou os seus visitantes com uma educação quase exagerada. A chuva batia contra os vidros das janelas.

Finalmente, todos se sentaram.

O advogado disse: — Agradeço por terem vindo tão rapidamente. Tudo aqui, assim me parece, requer urgência. Por este motivo, será melhor que Bolling, ele mesmo, conte a sua estória. Por favor, señor Bolling!

Este olhava para o tampo da mesa. Nervoso, ele girava a garrafinha de uma solução de corticóide, caso viesse a ter um ataque de asma, e a girava com a mão amarelada de ácidos e lixívia.

— Por favor! — disse Gonzalos, em voz alta.

Bolling levantou a cabeça e olhou para cada um deles. — Vocês me consideram um bandido, eu sei. Eu... eu sou um bandido. Mas então... — ele pigarreou — em primeiro lugar: como cheguei até aqui? Bem, naquela noite em Altamira, quando eu... eu...

— Está bem — disse Isabelle, que só traduzia quando o advoga­do falava. — O que houve naquela noite, senhor Bolling?

— Naquela noite de 4 de setembro, quando então a sua filha foi morta — sinto tanto, Markus, tanto mesmo...

— Continue, cara! — disse Marvin, grosseiro.

Ignacio Nigra, na cabeceira da mesa de reuniões, pressionava, sorrindo, as pontas dos longos dedos, uns contra os outros.

— Tudo isso é muito difícil para o meu mandante — disse ele, e Isabelle traduziu.

— Seu mandante? — perguntou Marvin.

— Sim, señor.

— Por que é difícil? — perguntou Marvin.

— O senhor entenderá, o senhor entenderá logo — disse Nigra, e seus olhos negros brilhavam.

— Naquela noite veio ainda um homem até mim — disse Bolling.

— Que homem?

— Direi depois. O homem disse — não, ele me ordenou desaparecer imediatamente de Altamira e vir para Bogotá. Aqui eu deveria falar com o Dr. Nigra.

— Por que você deveria ir embora imediatamente? — perguntou Marvin.

— Para que a suspeita recaísse sobre mim — disse Peter Bolling. — Eu deveria desaparecer e permanecer desaparecido. Para que tanta suspeita recaísse sobre mim quanto possível.

— Você não perguntou a esse... a esse homem, por que tanta suspeita deveria recair sobre você?

— Não. Eu... eu vou contar — disse Bolling. — Vou contar tudo...

 

 

Peter Bolling nasceu no dia 11 de abril de 1942 com o nome de Karl Krakowiak, na cidade de Beuthen, na Alta-Silésia. Embaixo da axila esquerda Peter tem um grande sinal.

O pai sofria de taquicardia e por isso não precisou se tornar soldado. Ele possuía uma loja de instalações em Beuthen. Dois anos antes, no dia 25 de janeiro de 1940, nasceu o irmão de Karl, Clemens.

Em janeiro de 1945, como muitos milhões de alemães, a família fugiu da parte oriental da Europa para o ocidente, para se livrar do Exército Vermelho. Naquele tempo, Karl tinha quase três anos.

Na fuga, centenas de milhares perderam a vida.

Entre eles, estavam os país de Karl e Clemens Krakowiak. Pessoas estranhas acolheram as crianças. Perto de Berlim, os retirantes entraram em luta cerrada entre tropas soviéticas e alemãs, e os irmãos foram separados. Um casal, que tinha filhos, levou Karl até a região de Colônia. Lá, os estranhos o entregaram a um pastor de uma igreja, e esta conseguiu alojar Karl num orfanato.

Durante a fuga, as criancinhas carregavam, penduradas em fios no pescoço, placas de cartolina onde estavam escritos seus nomes e data de nascimento. Em ataques aéreos, muitas crianças perdiam a vida e muitas perdiam as placas de cartolina com o nome e a data de nascimento. Karl Krakowiak pertencia a estas últimas. Os seus pais já estavam mortos e ele já estava separado de seu irmão mais velho, Clemens. No caos de gelo e sangue, neve e fome, cansaço e morte, alguém encontrou, ao lado de Karl Krakowiak, uma placa dessas e pendurou nele. O garoto só veio a notar isso depois que estava sendo chamado de Peter Bolling. Ele era pequeno e triste e muito confuso, e pensou que a mudança de nome tinha as suas boas intenções, que talvez tivesse até mesmo salvo a sua vida, e por isso nunca protestou em ser chamado de Peter Bolling. No orfanato, ele recebeu documentos com este nome.

Karl Krakowiak, que então se chamava Peter Bolling, ficou no orfanato até 1955. Para ele estava claro que também o seu irmão havia morrido durante a fuga.

No dia 15 de maio de 1955, quando Peter voltou da escola, um garoto esperava por ele.

— Ei, você — disse ele —, como se chama?

Peter fitou assustado o garoto, que era tão magro quanto ele próprio. — Meu nome é Peter Bolling.

— Tem certeza? — perguntou o garoto. As solas dos seus sapatos estavam rasgadas. — Certeza absoluta?

— Certeza absoluta, não. Acho que já tive outro nome, mas não consigo mais me lembrar. Tivemos de fugir, eu era muito pequeno. Em algum momento, acho, eles começaram a me chamar de Peter Bolling, não sei por que motivo. — Ele voltou a fitar o garoto desconhecido. — E quem é você?

— Você tem um irmão?

— Tive — disse Peter —, mas ele está morto, acho. Meus pais também estão mortos. Morreram durante a fuga, disto eu tenho certeza. Sim, eu tive um irmão.

— De onde você fugiu?

— Da Alta-Silésia — disse Peter. — Acho que de Beuthen. Mas nos meus documentos consta Breslau. Não sei exatamente.

— Como se chamava o seu irmão?

— Clemens — disse Peter. — Ainda me lembro exatamente.

— E o seu pai teve uma loja de instalações em Beuthen? — perguntou o desconhecido, que vestia uma jaqueta suja e uma calça suja e rasgada.

— Sim — disse Peter, sentindo bater o seu coração. — E como você se chama?

— Clemens Hartin — disse o desconhecido. — Você tem um grande sinal na axila esquerda?

— Sim — disse Peter, levantando a camisa.

— Então você é meu irmão — disse Clemens, e o abraçou. — Mamãe sempre disse que se nos perdêssemos eu poderia lhe reconhecer pelo sinal. Procurei você durante anos. Finalmente o encontrei.

— Meu irmão — disse Peter, emocionado. — Mas por que você se chama Hartin?

— Fui parar em Munique. Lá, uma família me adotou. Senhor e senhora Hartin. O senhor Hartin é pintor. Pinta muito bem. E porque eles me adotaram, não me chamo mais Krakowiak, mas Clemens Hartin.

— Meu irmão — disse Peter Bolling mais uma vez, e começou a chorar. Ele precisou se sentar no gramado em frente ao orfanato. Clemens Hartin se sentou ao seu lado.

— Não chore — disse ele. — Por favor, não chore! Está tudo bem agora! Nós nos reencontramos!

Depois, ele mesmo começou a chorar.

 

 

— ...e foi assim — disse Peter Bolling, 33 anos depois, na sala de reuniões do advogado Nigra, em Bogotá, onde, como quase todas as tardes, chovia. — Assim começou. Clemens era dois anos mais velho que eu e já naquele tempo o mais corajoso e mais ativo. Ele conseguiu — e só tinha 15 anos! — que eu pudesse sair do orfanato e ir com ele para Munique. Lá eu fui para um outro orfanato e outra escola. Freqüentemente estava doente. Clemens era muito mais saudável e forte do que eu. Quando um garoto batia em mim, então meu irmão batia nele de tal maneira, que logo todos me deixaram em paz. Em 1957 tive uma febre escarlatina. Os médicos já não acreditavam na minha recuperação. O meu irmão, não. Ele ficava dia e noite ao lado da minha cama, cuidando de mim. E me recuperou. Quando melhorei, estava tão fraco, que nem andar podia. A senhora Hartin tinha uma irmã que era casada com um camponês na região dos Alpes. Para lá é que meu irmão me levou. Havia leite e mel... Clemens continuou a cuidar de mim. Me ensinou a andar novamente. Ia comigo para o pasto, primei­ro só um pequeno pedaço e em solo plano, depois sempre mais e mais alto. Nas refeições havia as melhores coisas... — Bolling enxugou com as costas de uma mão os seus olhos. — Foram os melhores dias de minha vida... Sem Clemens eu teria morrido, disseram os médicos depois. Meu irmão salvou minha vida pela primeira vez.

— Pela primeira vez? — perguntou Marvin. — Ele o fez uma vez mais?

— Sim — disse Peter Bolling. — Ele salvou minha vida mais uma vez — muitos anos depois. Quando fiquei mais velho, saí do orfanato para a Casa Kolping de Munique. Fiquei lá, mesmo quando já estava na universidade. Meu irmão freqüentava a mesma. Eu estudei Química; meu irmão, Direito. Primeiro trabalhei numa fábrica farmacêutica de Munique e mais tarde na Hoechst, em Frankfurt; meu irmão, primeiro num escritório de advocacia de Munique e depois no Ministério da Economia, em Bonn.

— Onde? — perguntou Marvin.

— Sim — disse Peter Bolling. — No Ministério da Economia em Bonn.

A chuva batia nos vidros.

 

 

— Então o seu irmão era o homem em Bonn que de vez em quando ajudava a Sociedade de Física de Lübeck nas horas difíceis e através do qual Valerie estava informada sobre tanta coisa — disse Marvin.

— Meu irmão Clemens Hartin43, sim — disse Bolling. — Diretor-geral no Ministério da Economia. Você talvez saiba alguma coisa sobre a vida de Valerie Roth. Sobre o seu azar com os homens, todas as suas desilusões?

— Ela me contou a respeito. Oh, Deus! — disse Marvin sobressaltado.

— Sim, oh Deus — disse Bolling. — No meu irmão Clemens, Valerie encontrou o homem que nunca a desiludiu, que sempre foi bom para ela, que sempre a amou e nunca a abandonou. Valerie é dependente de meu irmão, totalmente dependente.

— Quer dizer — disse Marvin — que quando se começou a falar da fábrica de gás venenoso que Hansen construiu para Kaddafi, Valerie nos informou — e a outros, como por exemplo o procurador Ritt e a doutora Goldstein — propositadamente de maneira errada, contou estórias que não eram verdadeiras, deu informações falsas a mando de seu irmão.

— Exatamente — disse Bolling, e olhou novamente para o tampo da mesa.

— E o plano de nos mandar para muito, muito longe, para que não pudéssemos descobrir nada sobre a estória da fábrica de gás venenoso, também é de seu irmão Clemens?

— Sim, de meu irmão Clemens — disse Bolling.

— Então aquele seu interesse pela bomba alemã você também representou por ordens dele, para me desviar de Hansen.

— Sim, Markus.

— Entendo — disse Markus.

— Você não entende nada — disse Bolling. — Dependo do meu irmão Clemens. Devo minha vida a ele. Você vê, eu disse que tinha estado muito doente, quando era criança. Todos vocês sabem que precisei me aposentar por causa de minha asma. O que vocês não sabem é que, já adulto, tive leucemia. Para a maioria, ainda hoje isso significa pena de morte. Graças às magníficas relações de meu irmão, fui curado num hospital americano através de um transplante de medula.

— Clemens doou a medula para você? — perguntou Marvin.

— Sim — disse Bolling —, ele o fez. Somos irmãos. Com o mesmo grupo sangüíneo. O risco de que a medula doadora fosse rejeitada era, por isso, menos alto. O fato de estar sentado hoje e não estar morto há anos é um milagre, graças a meu irmão. Não desculpo nada o que Clemens fez, mas isso talvez explique por que fiz tudo o que ele exigiu de mim. Difícil de explicar... ou não: sempre fiz cegamente o que Clemens queria. Sou um cientista... bastante ingênuo, não é? Durante muito tempo pensei realmente que meu irmão fazia tudo aquilo com boas razões, que havia coisas certas naquilo que Clemens me pedia... Eu... eu amava meu irmão... Ainda o amo...

Silêncio.

— O homem que foi ao Hotel Paraíso e lhe deu ordens para desaparecer imediatamente foi enviado por seu irmão — disse Marvin.

— Sim — disse Bolling. — Clemens o mandou até lá. Não podíamos falar ao telefone.

— E você voou para Bogotá, onde ficou.

— Sim.

— Então foi o seu irmão Clemens que voou até Brasília e falou com esse general Calera. Por isso não estava certo se era a sua voz na gravação que me mostraram Ritt e Dornhelm. Era a voz de seu irmão.

— Era a voz de meu irmão, naturalmente — disse Bolling. — E naturalmente ele sabia que a NSA ouvia a conversa. Esse foi o sentido da coisa: desviar os americanos do negócio de Hansen com a fábrica de gás venenoso. Pois que os alemães forneciam instalações nucleares para todos os lugares e podiam construir a bomba, disto os americanos sabiam há muito tempo. Eles nunca puderam provar. E não podem ainda hoje.

— Entre outras coisas, graças a seu irmão Clemens — disse Marvin.

— Não, ele não tem nada a ver com isso — disse Bolling. — Mas graças ao meu irmão Clemens os americanos também nunca po­deriam provar a existência da fábrica de gás — se um daqueles navios no Mediterrâneo não tivesse escutado aquela conversa telefônica, na qual os técnicos de Toresos pediam desesperadamente ajuda à Hansen-Chemie, porque, num teste, gás havia sido liberado... Naquela época, quando Hansen entrou no jogo, é que compreendi o que Clemens realmente havia feito. Aquilo me abriu os olhos — finalmente.

— E mesmo assim você continuou a encobrir tudo — disse Marvin.

— Apesar de tudo, sim. Exatamente como Valerie.

— Amor — disse Marvin.

— Amor — disse Bolling.

 

 

— Quanto tempo você ficaria no seu esconderijo aqui em Bogotá? — perguntou Marvin.

— Tanto tempo o meu irmão desejasse — disse Bolling, calmamente. — Continuava a fazer o que meu irmão queria. Mas então aconteceu uma coisa.

— O quê?

— Depois — disse Bolling. — Primeiro o doutor Gonzalos começou a me procurar.

O homem com voz suave balançou a cabeça e se curvou. — Sim — disse ele, baixinho. — Procuramos o senhor Bolling, eu e minha mulher.

Isabelle voltou a traduzir.

Gonzalos disse: — Foi decisivo que o senhor, Marvin, no nosso interrogatório com Ritt e Dornhelm, em Frankfurt, estivesse tão inseguro com relação à voz que negociava com o general Calera, e assim ficou até o fim. Então eu me disse o que até então ninguém havia dito: talvez isso tenha acontecido porque o senhor Marvin conhece Bolling tão bem e há tanto tempo, que tem dúvidas. E se ele tem razão com as suas dúvidas, então isso significa que existe outro homem com voz muito parecida com a de Bolling, existe um segundo homem. Essa idéia nunca mais me abandonou. Depois desse interrogatório em Frankfurt houve aquele péssimo encontro na casa da doutora Goldstein, em Lübeck, quando foi rompida a nossa pequena comunidade.

Ele olhou pensativo para a sua mulher. De repente se fez silêncio, só a chuva batia contra os vidros.

— Naquele tempo me senti muito ferido e achei impossível continuar a trabalhar naquela atmosfera. Minha idéia fixa: tudo vai voltar a ser como era, quando eu houver descoberto quem realmente era o homem que estava com o general Calera. O que me restava, além de voltar para o Brasil e começar a procurar sozinho? Telefo­nei para Clarisse e lhe disse que eu estava voltando e que ela deveria estar pronta para viajar.

— Por que viajar? — perguntou Marvin.

— Eu também só sou um ser humano — disse Gonzalos. — Eu tinha muito medo por Clarisse, pela criança e por mim. Quan­do se constatou que eu havia reconhecido Calera na gravação e que ainda disse isso... Lembre-se de sua ameaça! Por um lado eu queria desaparecer com Clarisse, por outro começar a procurar aquele segundo homem, ele ou Bolling, pois estava claro que algo ligava os dois. E também estava claro para mim: se eu des­cobrisse o que ligava os dois, então saberia tudo sobre aquele “segredo”, aquela “coisa terrível” de que havia falado a doutora Goldstein, então eu saberia a verdade sobre tudo o que estava acontecendo.

— Foi uma verdadeira odisséia — disse Clarisse. — Voamos do Rio para Belém e de lá fomos de carro para Altamira. Chegamos ao Hotel Paraíso, onde todos vocês haviam estado hospedados. Perguntamos, perguntamos. Não apenas aos porteiros. A muitas pesso­as. Quem sabia para onde Bolling havia desaparecido? Ninguém sabia de nada. E se soubesse, não dizia.

— Então — contou Gonzalos — tentei com dinheiro. Isto nos levou adiante. Um porteiro se lembrou de repente de que na noite anterior ao desaparecimento de Bolling um homem havia chegado ao hotel para falar com ele. Ele descreveu esse homem. Então procuramos por ele.

— Durou uma pequena eternidade — disse Clarisse. — Publica­mos anúncios no jornal. Recompensa etc. Por fim, apareceu um homem. Não aquele que havia procurado o senhor Bolling — um amigo dele. Grandes negociações. Aquele homem precisava ser muito cuidadoso, estava claro para nós. E também nós precisáva­mos ser muito cuidadosos... Calera... o bebê... Finalmente acerta­mos o preço. Encontramos o homem certo num bar e demos o que exigiu — e ele nos disse que o senhor Bolling havia obedecido à ordem de seu irmão de ir para Bogotá. Ele nos contou tudo isso que o senhor Bolling acaba de lhes contar.

— Sim, então sabíamos que ele havia ido para Bogotá — disse Gonzalos para Marvin. — Para onde em Bogotá? Ele havia ficado lá? A cidade tem 4,5 milhões de habitantes. Também fomos para Bogotá. Me lembrei daquele primo de nosso produtor Zinner — Achille Machado, importador.

— Procuramos por ele — disse Clarisse. — Contamos que conhecíamos o seu primo. Que o meu marido trabalhava para o seu primo! Que precisávamos falar com urgência com o senhor Bolling.

— E ao mesmo tempo — disse Gonzalos — ficamos com medo de que Machado telefonasse para Joschka Zinner, em Hamburgo. Ele não o fez. Dissemos que a polícia no Brasil perseguia cúmplices dos assassinos de Susanne Marvin e que fazia muitas perguntas, também referentes a ele, Machado. Então, como esperávamos, ele ficou com muito medo e nos recomendou ao doutor Nigra. O senhor é como um Deus para ele, señor. Com certeza ele lhe telefonou e avisou de nossa chegada, assim que saímos de lá.

— Obviamente — disse Ignacio Nigra.

Clarisse disse: — Então perguntamos ao doutor Nigra pelo senhor Bolling. O doutor Nigra nunca nem tinha ouvido falar no nome dele. Ele sentia muito. Lo siento. Lo siento. Very sorry.

O advogado sorriu, levantou as mãos, balançou a cabeça, virou os olhos.

— Quando fomos embora — disse Gonzalos — Clarisse comen­tou: “Eu podia jurar que ele sabe exatamente onde está Bolling.” Afinal, nós também queríamos desaparecer — por causa do bebê. Assim, ficamos no Tropicana. É um hotelzinho barato. Não poderíamos ficar num mais caro. Então Clarisse teve uma idéia. — Gonzalos olhou para sua mulher.

— Pois é — disse Clarisse. — O senhor Bolling sofre de asma. Então disse para o meu marido: com a sua asma ele precisará sempre daquela solução de corticóide. Ele só as encontrará em farmácias. Se estiver em Bogotá, deve ir a alguma farmácia. Talvez alguém se lembre dele numa delas.

— Por isso — disse Gonzalos — começamos a correr sistematicamente pelas grandes e pequenas farmácias da cidade. Clarisse, que devia se poupar, ia diariamente a três; eu, a cinco. E mais tempo se passou. E então, finalmente, numa farmácia alguém se lembrou de um estrangeiro, um alemão, que tinha ido lá algumas vezes para comprar um spray contra a asma. A descrição coincidiu com o senhor Bolling. A partir de então ficamos observando alternadamente aquela farmácia. E um dia, de fato, ele foi lá. — Por um breve momento, Gonzalos se calou. — Ele não me notou. Segui-o, fui com ele no ônibus até um conjunto de prédios na periferia da cidade. Segui-o até a porta de sua casa. Ele ficou muito assustado. E então...

— E então? — perguntou Marvin, impaciente.

— Ele me contou tudo. Telefonei para Clarisse. Ela foi até lá. Podemos... podemos entender o que o senhor Bolling havia feito. Sua estória nos tocou muito. E então sabíamos daquele “segredo”, daquela “coisa terrível”...

— Mas você não podia ir à polícia, sem se prejudicar a si mesmo, entendo — disse Marvin.

— Você não entende — disse Clarisse. — Não teríamos ido à polícia, também se não nos prejudicássemos. Tivemos muita pena do senhor Bolling, muita pena. Assim, continuamos no nosso hotelzinho barato e ele no seu prédio-esconderijo, que o doutor Nigra havia arrumado para ele.

— E ontem o doutor Nigra nos telefonou — disse Gonzalos. — Ele contou que Bolling acabara de dar notícias da embaixada da Alemanha Federal.

— Da embajada alemán, carrera 4,72-35 Edifício Sisly — disse o elegante advogado, pedantemente. — Bogotá tem um sistema de ruas particularmente eficiente e particularmente moderno. Qual­quer criança acha um endereço imediatamente. Sim, o señor Bolling telefonou da embaixada alemã.

— Por quê? — perguntou Marvin.

— Porque aconteceu um imprevisto — como havia dito. Porque ouvi pelo rádio que Katja havia sido assassinada, e onde; e que Valerie Roth estava sendo procurada como assassina. Então foi o ponto final para mim. Seja lá o que eu tivesse feito — eu podia arcar com as responsabilidades. Com um assassinato, não.

— Você não podia? — perguntou Marvin.

— Não.

— E o que houve com os assassinatos do traficante de armas Herbert Engelbrecht, de sua mulher Katharina, do físico Erich Hornung, do Centro de Pesquisa Nuclear de Karlsruhe — se realmente quisermos acreditar que a minha filha foi morta por engano?

— Tudo isto não teve nada a ver com o meu irmão Clemens — disse Bolling.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Como?

— Porque ele me mandou dizer. Clemens nunca mentiu para mim. Algum outro teve a idéia de desviar o escândalo do gás venenoso com a pista da bomba. Por isso tive de desaparecer. Por isso Clemens foi mandado até Calera, em Brasília — sabendo que a conversa seria ouvida pelos americanos. E que o homem que apareceu para matar a senhora Engelbrecht e se fez de seu irmão, o homem com as mãos amareladas, esse não era eu, está claro a todos. E naturalmente também a você.

— Naturalmente — disse Marvin, irritado. — Como é que você sabe de tudo o que aconteceu, também depois de ter desaparecido?

— Por mim — disse o advogado Ignacio Nigra, e Isabelle traduziu.

— E de onde o senhor sabe de tudo?

— Caro señor Marvin, eu sei quase tudo. — Nigra sorriu. — E devo dizer que o agente, seja de que serviço ele for, aquele que apareceu no sanatório, se comportou idiotamente. A Interpol achou um verdadeiro irmão da senhora Engelbrecht sem problemas em Nova Iorque. Dedos amarelados... — Nigra fez uma careta de desprezo. — Que imbecilidade. Aqui na Colômbia um minúsculo traficante de drogas teria feito muito melhor.

De repente Marvin se encostou em sua poltrona, como se estivesse morto de cansaço.

— Bom — disse ele para Bolling. — Você não é assassino e você não pode desculpar um assassinato. Valerie matou Katja. E foi o ponto final para você.

— Ponto final, sim — disse Bolling. — Eu nem sei se Valerie matou a pobre Katja com ordens de meu irmão. Ela pode ter feito isso por conta própria. Tudo leva a crer que sim. De qualquer forma, Katja representava um grande perigo para meu irmão... não sei por quê... De qualquer forma, Valerie devia achar que sim. E assim ela matou Katja. E aí eu me apresentei à embaixada.

— Como é que Katja pode ter sido perigosa para o seu irmão? — perguntou Isabelle.

— Já disse que não sei.

— Um momento — disse Marvin. — Em Bonn aconteceu algo... naquela manhã no Ministério do Meio Ambiente... Vocês não se lembram? Katja voltou completamente confusa para a sala de entrevistas, onde nós discutíamos com aquele senhor Schwarz.

— Sim — disse Isabelle. — E depois ela mudou muito... cheia de medos... assustada... estava sempre se sentindo mal... Talvez ela tenha descoberto alguma coisa no Ministério do Meio Ambiente.

— Mas o quê? — perguntou Bolling. — Ela não disse nada a ninguém?

— Nada — retrucou Marvin. — A mim, não. E pelo que sei, a ninguém. Talvez a Ekland. Se disse alguma coisa, então a Ekland. Talvez nem mesmo a ele.

— Katja deve ter descoberto alguma coisa — disse Clarisse. — E deve ter contado a Valerie, seja lá o que tenha sido. E Valerie a matou para proteger o seu irmão, senhor Bolling. Foi inteligente de sua parte ter ido à embaixada e confessado tudo — foi o que o senhor fez, não foi?

— Sim — disse Bolling —, foi o que fiz. Não me importo com o que aconteça agora comigo. Provavelmente me levarão para a Alemanha. Também lá direi a verdade. Não suporto mais esta situação. Certamente me meterão na prisão. E daí? Estou gravemente doente. Mas nunca, nunca vou esquecer o que meu irmão fez por mim. Até o fim, não. Eu só tinha um desejo: contar a vocês toda a estória — e sinceramente, não foi para que vocês tivessem pena de mim.

Marvin balançou a cabeça. — Não — disse ele.

— O quê, não? — Bolling olhou para ele.

— Não, não acredito que essa seja toda a estória. Sua estória, sim. Mas realmente não toda ela.

— O que quer dizer com isso, senhor Marvin? — perguntou Clarisse.

— Quero dizer... — Marvin falou lentamente, pesou cada palavra. — Tudo o que aconteceu... com muita cautela fomos mandados para bem longe e ficamos ocupados com esses filmes, apenas para que não tivéssemos tempo e possibilidade de nos preocuparmos com Hansen e a fábrica de gás venenoso... Pois isso é o que, so­bretudo, não devia vir à tona, não é... e só veio à tona porque aquele pedido de ajuda dos líbios foi ouvido pela NSA... Todos os políticos protestaram veementemente contra a mera suspeita de que uma fábrica assim poderia ser construída até o último...

— Não entendo aonde você quer chegar — disse Bolling.

— Quero dizer que não somente a Hansen-Chemie participou da construção dessa fábrica... Se tivesse sido só ela — quem das autoridades teria sabido do assunto? E se se tivesse sabido a respeito, Hansen não teria sido imediatamente chamado para dar satisfações? Não se teria parado imediatamente com a construção da fábrica?

— Isso tem sentido — disse Gonzalos.

— Se as autoridades não sabiam de nada, então por que esse esforço enorme para encobrir aquilo que foi feito por Hansen? Quero dizer: ele é um empresário privado! Por que ele é encoberto de tal forma por seu irmão Clemens, Peter? Por que o seu irmão faz tudo isso por ele? Tudo isso a nosso respeito e com relação à nossa expedição, teria sido simplesmente... simplesmente demais, no caso de que Hansen seja sozinho o responsável pela construção dessa fábrica... Um Hansen assim deveria ter sido desvendado muito rapidamente, para que não se suspeitasse que um fornecimen­to de gás venenoso era tolerado... Mas ele foi tolerado... e contes­tado... e muito contestado... pelos mais