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O ÚLTIMO DEUS DO NILO / Wilbur Smith
O ÚLTIMO DEUS DO NILO / Wilbur Smith

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ÚLTIMO DEUS DO NILO

 

Mais que um romance grandioso, O Último Deus do Nilo é uma magistral combinação de história e ficção escrita por um profundo estudioso da Antigüidade. Enquanto se desenvolvem os dramas de seus personagens, o dia-a-dia no antigo Egito parece renascer, recriando-se magicamente com extraordinária vivacidade e riqueza de detalhes. O fio condutor da narrativa é o escravo Taita. Eunuco, ele devota a sua senhora - a bela adolescente Lostris, filha de Intef, conselheiro real - uma adoração sem limites; sábio, domina as artes da cura e da vidência. Taita sabe que Lostris ama desesperadamente Tanus, jovem comandante do exército de elite do faraó; ele sabe, sobretudo, que a união dos dois amantes é impossível. Intef deseja um casamento muito melhor para sua filha: ele quer vê-la no trono dourado ao lado do grande rei. Mas, muito além dos desencontros amorosos, o destino das personagens mescla-se com os caminhos do próprio Egito, enfraquecido pela corrupção, ameaçado por povos vizinhos e dilacerado pela violência indiscriminada. O olhar arguto de Taita enxerga nitidamente o despreparo do faraó e as mazelas de sua terra. Acompanhado por Lostris e Tanus, ele decide arriscar a vida e a honra para restaurar a grandeza perdida do império dourado.

 

                           

 

O rio estende-se pesado pelo deserto, brilhante como metal fundido que houvesse escorrido de uma fornalha. O céu está enevoado de vapor quente e o sol golpeia a paisagem como o malho de um ferreiro. Na miragem, as suaves colinas que bordam o Nilo parecem vibrar sob as marteladas.

Nosso barco aproximou-se veloz das moitas de papiros, perto o suficiente para que escutássemos o rangido dos baldes dos shaditf que os equilibram em longas varas desde os campos até a água. O som harmonizava com o canto da garota na proa.

Lostris tinha catorze anos. O Nilo havia iniciado sua última cheia no dia exato em que sua lua vermelha feminina florescera pela primeira vez, uma coincidência que os sacerdotes de Hapi haviam considerado altamente propícia. Lostris, o nome escolhido por eles para substituir o de batismo da garota, significava "Filha das Águas".

Lembro-me dela vividamente naquele dia. Ficaria ainda mais bonita com o passar dos anos, tornando-se mais altiva e imponente, mas nunca mais irradiaria aquele brilho de feminilidade virginal tão impressionante. Todos os homens a bordo, mesmo os guerreiros nos bancos de remadores, estavam cientes dele. Nem eu nem qualquer outro conseguia despregar os olhos da garota. Ela me enchia de uma sensação de insegurança e de um profundo e pungente desejo; pois embora eu seja um eunuco, só fui castrado depois de conhecer as alegrias de um corpo de mulher.

— Taita — ela me chamou. — Cante comigo!

Quando obedeci, ela sorriu contente. Minha voz era uma das várias razões pelas quais, sempre que possível, ela me guardava a seu lado; meu tenor completava à perfeição seu adorável soprano. Cantamos uma das velhas canções de amor camponesas que eu lhe havia ensinado, uma de suas favoritas:

Meu coração voa qual ave ferida quando vejo o rosto de meu bem-amado e minhas faces brilham como o alvorecer refletindo seu sorriso ensolarado...

Da popa, outra voz juntou-se às nossas. Era uma voz de homem, grave e poderosa, mas lhe faltavam a pureza e a clareza da minha. Se eu tinha a voz de um pássaro saudando o amanhecer, aquela era a de um jovem leão.

Lostris virou a cabeça e então seu sorriso brilhou como os raios de sol na superfície do Nilo. Apesar de o homem a quem ela dirigia o sorriso ser meu amigo, senti a biles amarga da inveja queimar minha garganta. Forcei-me a sorrir para Tanus, como ela fazia, com amor.

O pai de Tanus, Pianki, o senhor Harrab, havia sido um dos grandes da nobreza egípcia, mas sua mãe fora uma filha de escravo tehenu liberto. Como tantos entre sua gente, ela tivera cabelos claros e olhos azuis. Morrera de febre dos pântanos quando Tanus ainda era criança, por isso não me lembro muito bem dela. No entanto, os mais velhos diziam que poucas vezes se vira beleza como a daquela mulher em ambos os reinos.

Por outro lado, eu havia conhecido e admirado o pai de Tanus, antes que perdesse sua vasta fortuna e as extensas propriedades que quase chegaram a rivalizar com as do próprio faraó. Ele tinha pele morena, olhos de egípcio, escuros e vítreos como obsidiana polida, um homem com mais força física que beleza, mas de nobre e generoso coração — poder-se-ia dizer generoso e confiante demais, pois havia morrido na penúria, com o coração partido pelos que considerara seus amigos, só na escuridão, longe do brilho dos favores faraônicos.

Tanus parecia ter herdado o melhor de ambos, com a única exceção da riqueza material. De natureza e força era como o pai; em beleza puxara à mãe. Então por que deveria eu ter ciúme do amor de minha ama por ele? Também a amava e, pobre coisa neutra que eu era, sabia que jamais poderia tê-la para mim, nem que os deuses houvessem elevado minha posição além da de escravo. Mas tal é a perversidade da natureza humana que eu almejava o que nunca poderia ter; sonhava com o impossível.

Lostris sentou-se sobre sua almofada na proa, tendo a seus pés duas jovens escravas negras de Kuch, esguias como panteras, inteiramente nuas a não ser pelos colares dourados ao redor do pescoço. A própria Lostris usava apenas uma saia de algodão alvejado, engomada e branca como a asa da garça. A pele de seu torso, acariciada pelo sol, era da cor do cedro azeitado que crescia nas montanhas além de Biblos. Seus seios tinham o tamanho e a forma de figos maduros, prontos para serem colhidos, e as pontas pareciam pálidos rubis.

Ela havia retirado a peruca que usava habitualmente e tinha os cabelos verdadeiros presos de lado, caindo como uma corda escura sobre um dos seios. O rasgo de seus olhos era realçado pelo verde-prateado do pó de malaquita, habilmente aplicado às pálpebras superiores. Seus olhos também eram verdes, mas de um tom mais escuro e transparente, como o Nilo quando as águas baixam e depositam no fundo sua preciosa carga de sedimentos. Entre os seios, pendurada em uma corrente de ouro, ela trazia uma imagem de Hapi, a deusa do Nilo, moldada em ouro e rico lápis-lazúli. Era sem dúvida uma jóia maravilhosa, que eu mesmo havia confeccionado para ela.

Tanus subitamente ergueu a mão direita com o punho cerrado. Como um só homem, os remadores interromperam sua cadência e mantiveram as lâminas dos remos no ar, reluzindo ao sol e respingando. Tanus girou então o leme com força e os homens do lado do porto enfiaram as pás na água, criando uma série de pequenos redemoinhos na superfície verde da água. Os de estibordo remaram com força para frente. O barco girou tão depressa que o convés inclinou-se num ângulo alarmante. Então os dois lados remaram juntos e a embarcação disparou adiante. A proa esguia, com os olhos azuis de Hórus pintados num brasão, afastou a densa vegetação de papiros e o barco singrou para fora da correnteza, ganhando as águas calmas de uma lagoa.

Lostris interrompeu a cantiga e sombreou os olhos com a mão para enxergar.

— Lá estão eles! — gritou, apontando com a mão graciosa. Os outros barcos da esquadra de Tanus espalhavam-se como uma rede pela borda sul da enseada, bloqueando a entrada principal do grande rio e impedindo qualquer fuga naquela direção.

Tanus, naturalmente, escolhera para si a posição norte, sabendo que ali o esporte seria mais ferrenho. Eu desejava que não o fosse. Não que eu seja um covarde, mas sempre tenho de levar em conta a segurança de minha senhora. Ela havia conseguido embarcar no Sopro de Hórus somente após muitas intrigas, em que, como sempre, me envolvera profundamente. Quando seu pai soubesse, como certamente saberia, de sua presença no ardor da caçada, as coisas ficariam feias para mim, mas se também soubesse que eu era responsável por permitir que ela passasse um dia inteiro em companhia de Tanus, nem mesmo minha posição privilegiada me pouparia de sua ira. As instruções que ele me dera a respeito do rapaz haviam sido inequívocas.

No entanto, eu parecia ser a única alma perturbada a bordo do Sopro de Hórus. Os outros vibravam de excitação. Tanus deteve os remadores com um gesto peremptório e o barco deslizou até parar, balançando-se suavemente sobre as águas verdes, tão imóveis que quando espiei sobre a amurada vi meu próprio reflexo olhando para mim. Como sempre, fiquei espantado ao ver como minha beleza havia sobrevivido ao tempo. Meu rosto pareceu-me mais encantador que os lótus azuis que o emolduravam. Mas tive pouco tempo para admirá-lo, pois a tripulação já se agitava.

Um dos oficiais de Tanus içou seu estandarte ao mastro. Era a imagem de um crocodilo azul, com a grande cauda dentada ereta e a mandíbula aberta. Somente um oficial do calibre dos Melhores dos Dez Mil tinha direito a um estandarte pessoal. Antes de completar vinte anos, Tanus já havia conquistado essa distinção, juntamente com o comando da divisão Crocodilo Azul da guarda de elite do faraó.

O estandarte no topo do mastro era o sinal para o início da caçada. No horizonte da enseada, o resto da esquadra estava reduzido pela distância, mas os remos começaram a bater ritmadamente, erguendo-se e caindo como asas de gansos selvagens em revoada, reluzentes. Das popas, as inúmeras marolas que criavam espalhavam-se pelas águas plácidas e permaneciam um longo instante na superfície, como que moldadas em gesso.

Tanus baixou o gongo por cima da popa. Era um longo tubo de bronze, cuja extremidade ele mergulhou no rio. Quando tocado por um martelo do mesmo metal, o som agudo e reverberante era transmitido através da água, enchendo de temor nossa presa. Infelizmente, para minha tranqüilidade, eu sabia que o temor poderia se transformar numa fúria assassina.

Tanus riu para mim. Mesmo em sua excitação, percebera minha preocupação. Para um rude soldado, ele possuía uma perspicácia incomum.

— Venha até a torre da popa, Taita! — ele ordenou. — Você pode tocar o gongo para nós. Isso afastará sua mente da segurança de seu belo esconderijo por algum tempo.

Fiquei magoado por sua frivolidade, mas aliviado pelo convite, já que a torre da popa fica bem afastada da água. Movi-me dignamente para atendê-lo, sem pressa, mas quando passei por ele fiz uma pausa para exortá-lo gravemente:

— Cuide da segurança de minha senhora. Está me ouvindo, rapaz? Não incentive sua ousadia, pois ela é tão selvagem quanto você.

Eu podia dirigir-me assim a um ilustre comandante dos dez mil porque ele fora meu aluno, e mais de uma vez eu havia aplicado a vara àquelas nádegas marciais. Ele sorriu para mim como naquele tempo, arrogante e presunçoso como sempre.

— Deixe a dama em minhas mãos, eu lhe imploro, velho amigo. Não há nada que eu preze mais, acredite!

Não o censurei por seu tom desrespeitoso, pois queria subir logo à torre. De lá, vi-o apanhar o arco.

Aquele arco já se tornara famoso em todo o exército, e na verdade por toda a extensão do grande rio, das cataratas até o mar. Eu o havia criado para Tanus quando começara a se mostrar insatisfeito com as armas menores que até então lhe haviam sido permitidas. Sugeri que tentássemos fabricar um arco de algum material novo, que não as frágeis madeiras que cresciam em nosso estreito vale; talvez madeiras exóticas como o cerne da oliveira das terras hititas, ou o ébano de Kuch; ou ainda materiais mais estranhos, como o chifre de rinoceronte ou a presa de marfim do elefante.

Assim que começamos a experimentar, topamos com inúmeros problemas, sendo o primeiro deles a rigidez desses materiais exóticos. Em seu estado natural, nenhum se vergava sem rachar, e apenas os maiores e mais caros dentes de elefante nos permitiriam esculpir um arco inteiro. Resolvi essa questão partindo em lascas o marfim de uma presa menor e montando-as num feixe suficientemente espesso para formar um arco. Infelizmente era rijo demais para que qualquer homem o vergasse.

No entanto, daí foi um passo fácil e natural laminar juntos todos os quatro materiais escolhidos: oliveira, ébano, chifre e marfim. É claro que houve vários meses de experimentos com combinações desses materiais, com vários tipos de cola para uni-los. Não conseguíamos produzir uma cola bastante forte. Afinal solucionei esse último detalhe amarrando todo o arco com fio de eletrum, feito de âmbar, para impedir que se desconjuntasse. Dois homenzarrões ajudaram Tanus a torcer o fio com toda a sua força junta, enquanto a cola ainda estava quente. Quando se resfriou, formou uma combinação quase perfeita de força e flexibilidade.

Então recortei tiras das entranhas de um grande leão de juba negra que Tanus caçou e matou no deserto com sua espada de guerra de bronze. Curti-as e trancei-as para fazer a corda. O resultado foi um arco magnífico, de potência tão extraordinária que apenas um homem dentre as centenas que o experimentaram conseguiu vergá-lo ao máximo.

O estilo de arquearia regulamentar ensinado pelos instrutores militares era visar o alvo e puxar a flecha até o osso esterno, no peito, manter a mira por um instante e então disparar ao comando. No entanto, nem mesmo Tanus tinha força para vergar seu arco e mirar o alvo fixamente. Foi obrigado a criar um estilo completamente novo. Parado de lado para o alvo, mirando-o por cima do ombro esquerdo, ele erguia o arco com o braço esquerdo estendido e, num gesto violento, puxava a flecha até que as aletas de pluma tocassem seus lábios, com os músculos dos braços e do peito realçados pelo esforço. No momento em que atingia a extensão completa, aparentemente sem mirar, ele disparava.

A princípio suas flechas voavam ao acaso, como abelhas selvagens deixando a colméia, mas ele praticou dia após dia, mês após mês. Os dedos de sua mão direita ficaram rachados e sangraram com os golpes da corda, mas cicatrizaram e tornaram-se calejados. O lado interno de seu braço esquerdo ficou ferido e lanhado pelo açoite da corda quando passava ao impelir a flecha, mas criei para ele uma proteção de couro. E Tanus praticou incansavelmente.

Até mesmo eu perdi a confiança em sua capacidade de dominar aquela arma, mas Tanus nunca desistiu. Lentamente, agonizantemente, ele adquiriu o controle até o dia em que, enfim, conseguiu disparar três flechas com tal rapidez que ficaram todas no ar ao mesmo tempo. Pelo menos duas atingiram o alvo, um disco de cobre do tamanho de uma cabeça de homem, colocado à distância de cinqüenta passos de onde estava Tanus. Era tamanha a força daquelas setas que elas atravessaram com precisão o metal, da espessura de meu dedo mínimo.

Tanus batizou a poderosa arma de Lanata, que, não por acaso, era o antigo nome de batismo de minha ama. Agora ele estava de pé na proa, com a garota a seu lado e o arco na mão esquerda. Formavam um casal esplêndido, mas isso era evidente demais para que eu ficasse tranqüilo.

Chamei asperamente:

— Senhora! Volte aqui imediatamente! Aí onde está não é seguro.

Ela nem se dignou a olhar por cima do ombro, mas fez-me um sinal por trás das costas. Todos os tripulantes da galé o viram, e o mais atrevido deles riu. Uma daquelas feiticeirazinhas negras que eram suas aias devia ter ensinado o gesto a Lostris, mais apropriado às damas das tavernas ribeirinhas do que a uma refinada filha da Casa de Intef. Pensei em repreendê-la, mas imediatamente desisti da idéia imprudente, pois minha senhora só aceitava censuras em determinados estados de humor. Então apliquei-me a bater o gongo de bronze com bastante força para disfarçar meu desagrado.

O som agudo e vibrante reverberou pelas águas espelhadas da lagoa, o ar se encheu instantaneamente com o murmúrio de asas e uma sombra escondeu o sol quando das moitas de papiros, dos poços escondidos e da água aberta uma vasta nuvem de aves ergueu-se no céu. Havia uma centena de variedades: íbis pretos e brancos de cabeças semelhantes às de abutres, consagrados à deusa do rio; bandos de gansos barulhentos de plumagem avermelhada, cada qual com uma mancha rubi no centro do peito; garças verde-azuladas ou negras como a meia-noite, de bicos como espadas e possante batida de asas; e patos em tamanha profusão que contá-los desafiava a vista e a credulidade do espectador.

A caça é uma das atividades mais apreciadas da nobreza egípcia, mas naquele dia o jogo era diferente. Não demorei a ver, a distância, algo perturbar a superfície envernizada da lagoa. Era pesado e maciço, e meu espírito tremeu, pois sabia que ali se movera uma terrível fera. Tanus também a enxergara, mas sua reação foi completamente diferente da minha. Ele emitiu um som como o de um mastim de caça, e seus homens gritaram com ele, dobrando-se sobre os remos. O Sopro de Hórus disparou adiante como se fosse um dos pássaros que toldavam o céu sobre nós, e minha ama gritou de excitação, batendo o delicado punho no ombro musculoso de Tanus.

A água agitou-se mais uma vez e Tanus indicou ao homem do leme para seguir o movimento, enquanto eu martelava o gongo para criar mais coragem. Atingimos o local onde o havíamos visto pela última vez, e a embarcação deslizou até parar, enquanto todos os homens no convés olhavam em volta avidamente.

Apenas eu olhava diretamente por cima da popa. A água sob o casco era rasa e quase tão límpida quanto o céu acima. Gritei tão alto e agudo quanto minha senhora havia gritado, e saltei afastando-me do costado, pois o monstro estava exatamente embaixo de nós.

O hipopótamo é relacionado a Hapi, a deusa do Nilo. Foi apenas com sua autorização especial que pudemos caçá-lo. Com essa finalidade, Tanus havia orado e feito sacrifícios no templo da deusa naquela manhã, com minha ama a seu lado. É claro, Hapi é sua deusa protetora, mas duvido que fosse apenas esse o motivo da participação dela na cerimônia.

O animal que eu vira abaixo de nós era um macho velho e enorme. A meus olhos parecia tão grande quanto nossa galé, uma forma gigantesca que se arrastava pelo fundo da lagoa. Seus movimentos eram contidos pela resistência da água, de modo que se locomovia como uma criatura de pesadelo, erguendo nuvens de lama com os cascos, assim como um órix selvagem agita a poeira ao correr pelas areias do deserto.

Tanus manobrou o barco e aceleramos atrás do hipopótamo. Mas mesmo com seu galope lento e cadenciado ele afastou-se rapidamente. Sua forma escura desapareceu na profundeza verde da lagoa à nossa frente.

— Força! Pelo hálito podre de Seth, força! — Tanus gritou para os homens, mas quando um dos oficiais brandiu o chicote cheio de nós, Tanus franziu o cenho e balançou a cabeça. Nunca o vi aplicar o açoite sem necessidade.

Subitamente o hipopótamo subiu à superfície adiante de nós e soprou uma grande nuvem de vapor fétido de seus pulmões. O mau cheiro nos envolveu, embora ele estivesse distante, fora do alcance de uma flecha. Por um momento suas costas formaram uma ilha de granito brilhando na lagoa, então ele inspirou forte com um assobio e desapareceu de novo num redemoinho.

— Atrás dele! — gritou Tanus.

— Lá está — gritei, apontando para o lado. — Está voltando.

— Muito bem, amigo velho — Tanus riu para mim —, ainda faremos de você um guerreiro.

A idéia era ridícula, pois sou um escriba, um sábio e um artista. Minhas bravuras pertencem ao espírito. Não obstante, senti um frêmito de prazer, como sempre que Tanus me elogia, e minha vibração misturou-se momentaneamente à excitação da caçada.

Ao sul, as demais galés da esquadra haviam-se unido à perseguição. Os sacerdotes de Hapi mantinham uma contagem precisa daqueles grandes animais da lagoa, e haviam autorizado o abate de cinqüenta hipopótamos para o grande festival de Osíris. Isso deixaria quase trezentos do rebanho da deusa em seu templo aquático, número que os sacerdotes consideravam ideal para manter as vias fluviais desobstruídas de vegetação, para impedir que os bancos de papiros se agarrassem às terras aráveis e para abastecer regularmente de carne o templo. Apenas os próprios sacerdotes tinham permissão para comer carne de hi-popótamo fora dos dez dias do festival de Osíris.

Assim, a caçada desenrolou-se pela água como uma elaborada dança, os navios da esquadra cruzando-se e fazendo piruetas enquanto os animais fugiam à sua frente, mergulhando, soprando e bufando ao emergir para novamente mergulhar. Mas cada mergulho era mais curto que o anterior, e os remoinhos na superfície mais freqüentes na medida em que seus pulmões eram esvaziados e não podiam ser completamente reabastecidos antes que os navios em perseguição os obrigassem a afundar de novo. Todo o tempo os gongos de bronze soavam na torre de popa das galés, mesclando-se aos gritos dos remadores e às exortações dos pilotos. Tudo era uma selvagem e confusa excitação, e vi-me gritando e torcendo junto com os mais sanguinários deles.

Tanus concentrava a atenção no primeiro animal, o macho maior. Ignorava as fêmeas e os filhotes que se colocavam ao alcance das flechas e seguia a grande besta em todas as suas convoluções, aproximando-se inexoravelmente a cada vez que ele subia à tona. Mesmo em minha exacerbação eu só podia admirar a habilidade com que Tanus conduzia o Sopro de Hórus e o modo como a tripulação reagia a seus sinais. Ele sempre tivera o dom de extrair o melhor de seus subordinados. De que outra forma, sem fortuna ou um grande patrono para sustentá-lo, poderia ter galgado tão rapidamente a alta hierarquia? Suas conquistas foram por mérito próprio, apesar da influência maléfica de inimigos ocultos que haviam colocado todos os obstáculos em seu caminho.

Subitamente o enorme macho irrompeu na superfície, a menos de trinta passos dos arcos. Surgiu reluzindo ao sol, monstruosamente negro e terrível, com nuvens de vapor jorrando de suas narinas como a criatura do outro mundo que devora os corações daqueles que os deuses julgam faltosos.

Com uma seta já preparada, Tanus ergueu o grande arco e lançou-a no mesmo instante. Lanata tocou sua música mortal e sibilante, e a flecha disparou num borrão que os olhos não puderam discernir. Enquanto ainda zunia no ar, outra seguiu-a, e depois mais uma. A corda do arco vibrou como um alaúde e as flechas atingiram o alvo em seqüência. O animal berrou quando elas se enterraram completamente em seu amplo dorso, e tornou a mergulhar.

Eu criara aquelas flechas especialmente para a ocasião. As aletas emplumadas haviam sido removidas e substituídas por pequenas bóias de baobá, como as usadas pelos pescadores para fazer flutuar as redes. Eram encaixadas na extremidade da flecha de modo que ficavam firmes no vôo, mas soltavam-se quando o animal mergulhava e as arrastava pela água. Eram unidas à ponta de bronze da flecha por um fio de linho enrolado na haste, que se libertava quando a bóia se desprendia. Agora, portanto, enquanto o hipopótamo acelerava o nado, as três pequenas bóias brotaram na superfície e se agitaram atrás dele. Eu as havia pintado de amarelo vivo, para que atraíssem o olhar revelando imediatamente a localização do animal, mesmo que ele mergulhasse fundo.

Tanus pôde assim prever cada desvio frenético da besta e acelerou o barco à sua frente, acertando outro conjunto de flechas em suas brilhantes costas negras quando elas emergiram. Agora o grande macho arrastava umas bonitas pequenas bóias amarelas e a água se tingia de vermelho com o sangue. Apesar da violenta emoção do momento, era-me impossível não sentir pena da criatura ferida quando surgia berrando na superfície, apenas para receber mais uma carga das sibilantes e mortíferas setas. Minha simpatia não era compartilhada por minha jovem senhora, que estava tomada de comoção e gritava com o horror e a excitação daquilo tudo.

Novamente o hipopótamo surgiu pouco adiante, mas dessa vez de frente para o Sopro de Hórus, que avançava veloz em sua direção. Ele escancarou tanto a mandíbula que pude enxergar o fundo de sua garganta, um túnel de carne vermelha-viva, que facilmente poderia engolir um homem inteiro. As mandíbulas eram guarnecidas de uma fileira de presas que me cortou a respiração e fez minha pele eriçar-se. Na parte inferior havia enormes dentes de marfim destinados a colher os rijos e flexíveis caules de papiro. Na superior, vi hastes brancas e brilhantes, grossas como meu punho, que poderiam romper o casco de madeira do Sopro de Hórus com a mesma facilidade com que eu morderia um bolo de fubá. Pouco tempo atrás eu havia visto o cadáver de uma camponesa que, ao cortar papiros na margem do rio, havia perturbado uma fêmea que acabara de parir um filhote. A mulher fora cortada pela metade de maneira tão precisa que parecia ter sido atingida por uma lâmina de bronze aguçada.

Agora o monstro enfurecido, com a boca cheia de dentes cintilantes avançava em nossa direção, e, embora eu estivesse no alto da torre de popa e tão longe dele quanto possível, fui incapaz de fazer um som ou movimento, como uma estátua do templo, congelado de terror.

Tanus disparou mais uma flecha, que voou diretamente pela garganta escancarada, mas a agonia da criatura já era tão terrível que ela não pareceu notar esse novo ferimento, que finalmente se revelou fatal. O animal avançou sem hesitar diretamente para o ventre da embarcação. Da garganta torturada brotou um rugido terrível, de tal fúria e angústia mortal que uma artéria se rompeu em sua profundeza e jorros de sangue brotaram das mandíbulas abertas. O jato formou uma névoa avermelhada à luz do sol, horrível e bela ao mesmo tempo. Então o animal colidiu de cabeça contra o bojo de nossa galé.

O Sopro de Ho'rus cortava a água com a velocidade de uma gazela, mas o hipopótamo era ainda mais ágil em sua fúria, e seu corpo era tão sólido que parecíamos ter batido num costão rochoso. Os remadores despencaram de seus bancos, e eu fui atirado para a frente com tamanha força contra a amurada da torre que o ar escapou de meus pulmões, sendo substituído por uma dor que parecia uma pedra dentro do peito.

Mas apesar do tormento, minha preocupação era toda para minha ama. Através das lágrimas de agonia vi-a ser impelida para a frente pelo impacto. Tanus estendeu o braço na tentativa de salvá-la, mas também estava desequilibrado pelo choque e o arco que segurava na mão esquerda o atrapalhou. Pôde apenas conter sua trajetória por um instante, mas então ela bateu contra o parapeito, agitando os braços desesperadamente, e suas costas arquearam-se sobre o vazio.

— Tanus! — ela gritou, estendendo-lhe uma das mãos. Ele recuperou o equilíbrio com a presteza de um acrobata e tentou segurá-la. Por um instante seus dedos tocaram-se, mas depois Lostris pareceu ter sido sugada e voou sobre a amurada.

De minha posição elevada na popa pude acompanhar a queda. Ela girou no ar como um gato e as saias brancas ergueram-se, expondo suas pernas longas e belas. Pareceu-me que ela caíra para sempre, e meu grito angustiado misturou-se a seu gemido de desespero.

— Meu bebê! — gritei. — Minha criança!

Tive certeza de que ela estava perdida. Pareceu-me ver toda a sua vida, que eu bem conhecia, desenrolar-se diante dos meus olhos. Vi-a novamente como uma menininha e escutei sua fala querida dirigindo-se a mim, seu pajem e adorador. Vi-a tornar-se mulher e lembrei-me de cada alegria e cada preocupação que ela me causara. Amei-a então, no momento de perdê-la, ainda mais. do que em todos aqueles catorze anos.

Lostris despencou sobre o imenso dorso do animal furioso, manchado de sangue, e por um instante ficou ali estirada como um sacrifício humano no altar de alguma religião obscena. A fera revirou-se, erguendo-se na água, e torceu sua grande e disforme cabeça para trás, tentando atingi-la. Seus olhos de porco, injetados de sangue, brilharam com um ódio insano e as enormes mandíbulas se fecharam na direção dela.

De alguma forma Lostris conseguiu aprumar-se e agarrar duas das flechas que brotavam do dorso do hipopótamo, como se fossem alças. Ficou deitada com os braços e pernas bem abertos. Não gritava, empregando toda a sua habilidade e sua força para manter-se viva. As presas de marfim recurvadas rangeram como espadas num duelo de guerreiros ao abocanhar o vazio. A cada mordida elas pareciam errar o alvo por um dedo, e eu esperava ver a qualquer instante um dos adoráveis membros de Lostris ser podado como um delicado broto de vinha, e seu jovem e querido sangue mesclar-se aos jorros que fluíam das chagas do animal.

Na proa, Tanus recuperou-se agilmente. Por um momento vi seu rosto aterrorizado. Ele atirou de lado o arco, agora inútil, e agarrou o punho de sua espada, libertando a lâmina da bainha de couro de crocodilo. Era uma peça de bronze reluzente, tão longa quanto seu braço, cujo gume havia sido afilado até que pudesse raspar os pêlos das costas de suas mãos.

Ele saltou sobre a amurada e equilibrou-se por um instante, observando as voltas enlouquecidas da besta ferida de morte, na água abaixo. Então atirou-se sobre ela como um falcão, segurando nas duas mãos a espada apontada para baixo.

Aterrissou sobre o grosso pescoço do hipopótamo, como se fosse cavalgá-lo pelo mundo submerso. O peso de seu corpo e o ímpeto do ousado pulo dirigiram a espada quando acertou o animal. Metade da lâmina enterrou-se em seu pescoço, na base do crânio, e Tanus, mon-tando-o como um cavaleiro, empurrou ainda mais a arma, usando os dois braços e a força de seus largos ombros. No final da lâmina a fera enlouqueceu. Seus esforços anteriores pareceram frágeis comparados ao novo rompante. O enorme hipopótamo ergueu quase todo o corpo para fora da lagoa, agitando a cabeça para os lados e atirando ao ar lençóis de água tão espessos que, ao cair sobre o convés da galé como uma cortina, ocultavam a cena de meu olhar horrorizado.

O tempo todo vi o casal montado nas costas do monstro ser sacudido impiedosamente. A haste de uma das flechas que Lostris segurava rebentou e ela quase foi atirada longe. Se isso acontecesse, certamente teria sido agarrada pelo animal e dilacerada sangrentamente por aquelas presas de marfim. Tanus inclinou-se para trás e com uma das mãos segurou-a, enquanto com a outra continuou a afundar cada vez mais a espada de bronze na nuca do animal.

Incapaz de atingi-los, o hipopótamo feria os próprios flancos, infligindo terríveis cortes ao corpo, de modo que num perímetro de cinqüenta passos ao redor da galé as águas ficaram rubras, e tanto Lostris quanto Tanus estavam completamente tingidos de carmim, do topo da cabeça às solas dos pés, pelo sangue que jorrava. Seus rostos haviam-se transformado em máscaras grotescas, das quais sobressaía o clarão branco dos olhos.

Os violentos espasmos de agonia da fera os haviam arrastado para longe do barco, e fui o primeiro a bordo a recuperar o tino. Gritei para os remadores:

— Sigam-nos! Não os deixem perder-se! — Os homens saltaram para seus postos e rumaram o Sopro de Hórus em perseguição.

Naquele momento, pareceu que a ponta da espada de Tanus atravessara as vértebras do pescoço da besta. A imensa carcaça enrijeceu-se e ficou imóvel. O hipopótamo rolou sobre o dorso, estendeu as quatro patas rigidamente para o alto e afundou na lagoa, levando Lostris e Tanus para as profundezas.

Sufoquei o gemido desesperado que brotou de minha garganta e gritei uma ordem para o convés abaixo:

— Recuem! Não passem por cima deles! Nadadores, para os costados! — Até eu me surpreendi com a potência e a autoridade de minha voz.

O curso da galé foi detido e, antes que eu pudesse refletir sobre o acerto do que estava fazendo, vi-me correndo pelo convés à frente dos pesados guerreiros. Eles provavelmente teriam aplaudido ao ver qualquer outro oficial afogar-se, mas não seu querido Tanus.

Quanto a mim, já me havia desfeito da saia e estava nu. Nem a ameaça de cem chicotadas poderia ter-me levado a isso em outras circunstâncias, pois só havia permitido a uma pessoa ver os ferimentos que me infligira o carrasco do Estado tanto tempo atrás, e esta fora justamente quem ordenou a aplicação da faca castradora. Mas agora eu havia esquecido totalmente a grosseira mutilação de minha masculinidade.

Sou bom nadador, e embora sinta tremores ao me lembrar dessa insensatez, realmente acredito que teria mergulhado sobre a amurada e nadado pelas águas tintas de sangue para tentar salvar minha senhora. No entanto, enquanto me equilibrava no parapeito do navio, a água abriu-se bem abaixo de mim e surgiram duas cabeças, escorrendo água e tão juntas quanto as de um casal de lontras. Uma era morena e a outra, clara, mas das duas brotou o som mais inacreditável que já ouvi. Eles estavam rindo! Gritavam, gemiam e cuspiam de tanto rir ao aproximar-se do casco do navio, abraçados tão firmemente que me pareceu real o perigo de afogarem um ao outro.

Toda a minha preocupação transformou-se imediatamente em ultraje diante dessa frivolidade, ao pensar na terrível insensatez que eu estivera a ponto de cometer. Qual uma mãe cujo primeiro instinto ao reencontrar o filho perdido é censurá-lo, escutei minha própria voz perder toda a autoridade e tornar-se aguda e queixosa. Eu ainda repreendia Lostris com minha famosa eloqüência quando ela e Tanus foram içados para o convés por uma dezena de mãos prestimosas.

— Sua selvagenzinha sem juízo! — ralhei. — Sua bruxinha insensata, egoísta e rebelde! Você prometeu! Jurou sobre a cabeça da deusa...

Ela correu para mim e atirou os braços em volta do meu pescoço.

— Oh, Taita! — gritou, ainda borbulhante de riso. — Você o viu? Viu Tanus atirar-se em meu socorro? Não foi o feito mais nobre de que já ouviu falar? Como o herói de suas melhores histórias!

O fato de que eu estivera a ponto de fazer um gesto igualmente heróico foi completamente ignorado, o que apenas aumentou minha irritação. Além disso, eu subitamente notara que Lostris havia perdido a saia e que o corpo frio e molhado que colava ao meu estava totalmente nu. Ela exibia ao rude olhar dos oficiais e dos homens a bordo o par de nádegas mais firme e belo de todo o Egito.

Agarrei o escudo mais próximo e usei-o para cobrir nossos corpos, enquanto gritava para as escravas que lhe buscassem outra saia. Seus risos só fizeram aumentar minha raiva e, assim que Lostris e eu estávamos novamente cobertos e decentes, virei-me para Tanus.

— Quanto a você, seu rufião imprudente, vou denunciá-lo a meu senhor Intef! Ele mandará arrancar a pele de suas costas.

— Você não fará isso — Tanus zombou, passando um braço molhado e musculoso sobre meu ombro e abraçando-me com tal vigor que fui erguido do chão —, pois ele o açoitaria com a mesma satisfação. Assim mesmo, obrigado pela preocupação, velho amigo.

Ele olhou em torno rapidamente, ainda me abraçando, e então ficou sério. O Sopro de Hórus havia se afastado dos outros barcos da esquadra, mas agora a caçada terminara. Todas as galés, menos a nossa, haviam se abastecido da carga autorizada pelos sacerdotes.

Tanus balançou a cabeça.

— Não aproveitamos nossa sorte, não é? — resmungou, e ordenou a um dos oficiais que enviasse à esquadra o sinal de reunir. Então deu um sorriso forçado. — Vamos abrir um barril de cerveja, pois agora teremos de esperar um bocado e o esforço me deixou sedento.

Ele foi até a proa, onde as escravas paparicavam Lostris. A princípio eu estava tão zangado que não quis me juntar ao piquenique improvisado no convés. Preferi continuar altivamente digno na popa.

— Ah, deixe-o ficar emburrado — escutei Lostris sussurrar para Tanus ao completar sua taça de cerveja espumante. — O querido velho levou um susto terrível, mas logo esquecerá tudo, quando sentir fome. Ele adora comer...

Minha ama é o epítome da injustiça. Nunca fico de mau humor, não sou glutão e na época eu tinha apenas trinta anos, embora para uma jovem de catorze qualquer pessoa com mais de vinte seja um ancião, e admito que no que se refere a comida tenho o gosto refinado de um perito. O ganso selvagem assado com figos que Lostrís exibia ostensivamente era um de meus pratos favoritos, como ela bem sabia.

Deixei-os sofrer por mais um instante, e foi somente quando Tanus me trouxe uma caneca de cerveja nas próprias mãos e elogiou-me com todo o seu encanto que concedi em ceder um pouco e permiti que me levasse até a proa. Ainda assim fui um tanto áspero com eles até que Lostris beijou-me o rosto e disse, alto o suficiente para que todos escutassem:

— Minhas meninas contaram-me que você assumiu o comando do navio como um veterano, e que ia mergulhar para me salvar. Oh, Taita, o que eu faria sem você?

Só então sorri para ela e aceitei a fatia de ganso que me oferecia. Estava delicioso, e a cerveja era da melhor qualidade. Mesmo assim comi parcimoniosamente, pois sempre cuidei de minha silhueta e o comentário anterior sobre meu apetite ainda me irritava um pouco.

A esquadra de Tanus estava dispersa por toda a lagoa, mas começava a reagrupar-se. Vi que, como nós, algumas das outras galés haviam sofrido danos. Dois navios colidiram no calor da caçada, enquanto quatro outros tinham sido atacados pelos animais. No entanto, reagruparam-se rapidamente e assumiram suas posições de batalha. Então, en-fileirados e com cordões de alegres flâmulas tremulando nos mastros, para proclamar o tamanho do butim de cada barco, desfilaram diante de nós. As tripulações erguiam uma aclamação quando se emparelhavam com o Sopro de Hórus. Tanus as saudava com o punho cerrado e o estandarte do Crocodilo Azul foi alçado no mastro, como se tivéssemos acabado de conquistar uma notável vitória contra probabilidades pessimistas. Exibição infantil, talvez, mas eu mesmo ainda sou suficientemente criança para apreciar o cerimonial militar.

Assim que terminou, a esquadra retomou as posições de batalha e manteve o rumo contra a suave brisa que se havia levantado, usando habilmente os remos e lemes. Ainda não havia sinal dos hipopótamos abatidos. Embora cada galé houvesse matado pelo menos um, enquanto outras haviam liquidado dois ou até três, as carcaças haviam imergido nas verdes profundezas da lagoa. Eu sabia que Tanus lamentava secretamente o fato de o Sopro de Hórus não ter sido o navio mais bem- sucedido, e que o longo combate com a fera tivesse limitado nossa presa a apenas um hipopótamo. Ele estava habituado a superar-se. De todo modo, não se mostrava efusivo como de costume e logo nos deixou na proa e foi supervisionar os reparos no casco do navio.

O ataque do animal havia rachado as tábuas do casco, e entrava tanta água que era necessário retirá-la incessantemente com baldes de couro. Era um processo muito ineficiente, que afastava os homens de suas funções como remadores e guerreiros. Certamente poderia ser aperfeiçoada, pensei.

Então, enquanto esperávamos que as carcaças dos animais mortos boiassem, mandei uma das escravas buscar o cesto que continha meus instrumentos de escrever. Depois de pensar um pouco, comecei a esboçar uma idéia para remover mecanicamente a água dos porões de uma galé de combate, um método que não exigisse a participação de metade dos tripulantes. Baseava-se no mesmo princípio dos baldes d'água dos shaduf. Imaginei que dois homens poderiam operá-lo, em vez de dezenas, como acontecia agora.

Quando terminei o rascunho, avaliei a colisão que havia causado o estrago. Historicamente, a tática utilizada nas batalhas entre esquadras fluviais fora a mesma dos embates em terra. Os navios postavam-se lado a lado e trocavam revoadas de setas. Depois aproximavam-se, atracavam-se e abordavam, terminando o assunto com as espadas. Os capitães de galés sempre tomavam cuidado para evitar as colisões, que eram consideradas navegação inábil.

"Mas e se...", pensei de repente, e comecei a rabiscar uma galé de proa reforçada. A idéia se enraizou e acrescentei um chifre parecido ao do rinoceronte na linha d'água. Poderia ser esculpido em madeira dura e revestido de bronze. Num ângulo levemente inclinado para baixo, poderia se enfiar no casco de uma nave inimiga, rompendo-lhe as entranhas. Estava tão entusiasmado que não ouvi Tanus aproximar-se por trás. Ele arrancou o pergaminho de minha mão e examinou-o atentamente.

Compreendeu de imediato de que se tratava. Quando seu pai havia perdido a fortuna, eu fizera o possível para encontrar um patrono rico que o mandasse para um dos templos como aprendiz de escriba, onde poderia prosseguir os estudos e sua formação. Eu realmente acreditava que sob minha tutela ele teria todas as oportunidades de se tornar um dos grandes cérebros do Egito, e com o tempo talvez igualar-se à fama de Imhotep, que, mil anos atrás, desenhara as maravilhosas pirâmides de Saqqarah.

Eu fracassara, é claro, pois o mesmo inimigo cuja cobiça destruíra o pai de Tanus se dedicara a bloquear o caminho do próprio Tanus. Ninguém sobre aquela terra poderia superar influência tão maligna. Assim, eu ajudara Tanus a ingressar no exército. Apesar de minha decepção e de meus conselhos, essa carreira havia sido sua opção desde que começara a andar e a brandir sua espada de madeira sobre os outros meninos nas brincadeiras.

— Pelos furúnculos das nádegas de Seth! — ele exclamou então, examinando meus esboços. — Você e esse seu pincel valem dez das minhas esquadras!

A blasfêmia de Tanus sobre o nome do grande deus Seth sempre me alarmava. Pois embora ele e eu sejamos homens de Hórus, continuo desaprovando as ofensas explícitas a qualquer membro do panteão de deuses egípcios. Pessoalmente, nunca passo por um santuário sem fazer uma oração ou oferecer um pequeno sacrifício, por mais humilde e sem importância que seja o deus que ali habita. Na minha opinião, é simples bom senso e um bom seguro. Temos inimigos suficientes entre os homens para deliberadamente buscarmos outros entre os deuses. Sou em especial obsequioso para com Seth, pois sua formidável reputação me aterroriza. Suspeito que Tanus sabe disso e o faz proposital-mente para me provocar. No entanto, meu desconforto logo foi esquecido diante de seu elogio caloroso.

— Como faz isso? — perguntou. — Eu sou um soldado, e hoje vi tudo o que você fez. Por que essas idéias não me ocorrem?

Mergulhamos imediatamente numa animada discussão de meus projetos. E claro que Lostris não poderia ficar afastada muito tempo, e veio juntar-se a nós. As criadas lhe haviam secado e penteado os cabelos e refeito a maquiagem. Sua graça me distraía, sobretudo quando ela parou a meu lado e distraidamente estendeu o braço esguio sobre meu ombro. Jamais tocaria um homem daquele jeito em público, pois seria uma ofensa aos bons modos e ao recato. Mas de qualquer maneira não sou um homem, e embora ela se encostasse a mim seus olhos jamais abandonaram o rosto de Tanus.

Seu interesse por ele remontava a quando ela mal começara a andar. Titubeava em adoração atrás do senhorzinho de dez anos, tentando copiar fielmente cada gesto e cada palavra dele. Quando ele cuspia, ela cuspia. Quando ele xingava, ela balbuciava a mesma ofensa, até que Tanus queixou-se seriamente a mim: "Não pode fazê-la me deixar em paz, Taita? Não passa de um bebê!" Agora eu notava que ele não se queixava tanto.

Finalmente fomos interrompidos por um grito do vigia na proa; todos corremos para a frente e perscrutamos com atenção a lagoa. A primeira carcaça de hipopótamo emergira. Veio de barriga para cima, pois os gases em seu intestino se expandiram e as tripas esticaram-se como um balão de criança feito de bexiga de cabra. O animal boiou com as quatro patas rigidamente estendidas. Uma das galés apressou-se a recolhê-lo. Um marinheiro alcançou a carcaça e amarrou uma corda a uma das patas. Assim que o fez, a galé singrou em direção à margem distante.

Agora os enormes cadáveres brotavam à volta toda. As galés os reuniam e rebocavam. Tanus amarrou dois deles a uma grossa corda na popa e os remadores esforçaram-se com suas pás para puxá-los pela água.

Ao nos aproximarmos da costa, sombreei os olhos contra o sol mor-dente e olhei adiante. Parecia que cada homem, mulher e criança do Alto Egito esperava na margem. Era uma verdadeira multidão, dançando, cantando e agitando folhas de palmeira para receber a frota. Os movimentos incansáveis de suas túnicas brancas pareciam ondas de tempestade quebrando-se na borda da tranqüila lagoa.

Na medida em que cada galé encostava à margem, grupos de homens vestidos em sumárias tangas enfiavam-se na água até os ombros e amarravam cordas às carcaças inchadas. Em sua excitação, esqueciam-se do constante perigo dos crocodilos que espreitavam nas águas verdes e turvas. A cada temporada aqueles ferozes dragões devoravam centenas de pessoas. Às vezes eram tão ousados que corriam até terra firme para agarrar uma criança que brincava perto da água, ou uma camponesa que lavava roupa ou buscava água para sua família.

Agora, na avidez de carne que os dominava, as pessoas só estavam interessadas numa coisa. Atavam as cordas e puxavam as carcaças para terra. Ao galgar o barranco enlameado, bandos de pequenos peixes prateados, que se banqueteavam nas feridas abertas, recusavam-se a abandonar a presa e eram tirados com as carcaças. Espalhando-se pelo barranco, debatiam-se reluzentes como estrelas que houvessem caído à terra.

Empunhando facas ou machados, homens e mulheres fervilhavam sobre os animais como formigas. Numa cobiça delirante, gritavam e rosnavam uns para os outros, como abutres e hienas sobre a presa de um leão, disputando cada pedacinho enquanto destroçavam as gigantescas carcaças. Sangue e lascas de ossos revoavam, enquanto as lâminas trabalhavam incansáveis. Haveria longas filas de feridos no templo naquela noite, esperando que os sacerdotes lhes tratassem os dedos amputados e os cortes profundos feitos por facas descuidadas.

Eu também teria trabalho pela metade da noite, pois em alguns bairros minha fama de médico supera a dos sacerdotes de Osíris. Com toda a modéstia, devo admitir que essa reputação não é totalmente infundada, e Hórus sabe que meus honorários são muito mais razoáveis que os dos homens santos. Meu senhor Intef permite que eu guarde uma terça parte do que ganho. Assim, sou um homem de certas posses, apesar da posição de escravo.

Da torre de popa do Sopro de Hórus observei a pantomima de fraqueza humana que se desenrolava diante de mim. Tradicionalmente, o povo tem permissão para comer à vontade a carne caçada ainda na praia, desde que não seja transportada. Como vivemos numa terra verdejante, fertilizada e banhada pelo grande rio, nosso povo é bem-alimentado. No entanto, a dieta comum das classes mais pobres é de grãos, e podem passar-se meses entre as oportunidades que têm de comer carne. Além disso, na época do festival todas as restrições da vida cotidiana eram deixadas de lado. Havia licença para excessos em tudo o que se refere ao corpo — comida, bebida e paixão carnal. Depois haveria dores de barriga e de cabeça e acusações conjugais, mas este era o primeiro dia da festa e não se reprimiam os apetites.

Sorri ao ver uma mãe, nua até a cintura e empastada dos pés à cabeça de sangue e gordura, surgir de uma cavidade aberta no ventre de um hipopótamo segurando um escorregadio pedaço de fígado, que ela atirou para um dos filhos entre o bando de crianças estridentes e excitadas que cercavam a carcaça. A mulher enfiou-se de novo no animal, enquanto, agarrando o prêmio, a criança correu para uma das centenas de fogueiras que ardiam ao longo da praia. Um irmão mais velho apanhou o pedaço de fígado e atirou-o sobre as brasas, enquanto um bando de menores se agrupou impaciente, salivando como cachorrinhos.

O menino mais velho fisgou com um galho verde o fígado maltostado para fora do fogo e seus irmãos avançaram sobre ele, devorando-o. Imediatamente depois de consumi-lo pediram mais, com a gordura e o suco ainda escorrendo pelos rostos e pingando dos queixos. Muitos dos menores provavelmente jamais haviam saboreado a deliciosa carne da vaca-do-rio. E doce, macia e sem nervuras, mas a maior parte é gordura, e os tutanos são realmente uma iguaria digna do próprio deus Osíris. Nosso povo é privado de gordura animal, e seu gosto o levava à loucura. Eles se fartavam, como era seu direito naquele dia.

Eu me alegrei por estar distante da multidão desordenada, feliz de saber que os criados de meu senhor Intef garantiriam os melhores cortes e tutanos para as cozinhas do palácio, onde os cozinheiros preparariam com perfeição meu prato favorito. Minha posição na casa do vizir supera todas as outras, inclusive a do mordomo ou a do comandante de sua guarda pessoal, os quais nasceram livres. Nunca se fala nisso, é claro, mas todos reconhecem tacitamente minha posição privilegiada e superior, e poucos ousariam desafiá-la.

Observei os criados atarefados, reclamando a parte de meu senhor, o governador e grão-vizir dos vinte e dois distritos do Alto Egito. Eles brandiam as longas facas com a perícia obtida com muita prática, atingindo as costas ou nádegas nuas que se metessem à sua frente e gritando suas exigências.

Os dentes de marfim dos animais pertenciam ao vizir e foram todos recolhidos pelos criados. Eram tão valiosos quanto as presas de elefante trazidas pelos comerciantes da terra de Kuch, além das cataratas. O último elefante do Egito havia sido morto quase cem anos atrás, no reinado de um faraó da Quarta Dinastia; pelo menos é o que afirmam os hieroglifos na esteia de seu templo. Naturalmente, do fruto da caçada meu amo deveria dar o dízimo aos sacerdotes de Hapi, que eram os pastores oficiais do rebanho de vacas-do-rio, pertencente à deusa. No entanto, a quantidade da doação ficava por conta de meu senhor, e eu, que era o encarregado geral da contabilidade do palácio, sabia onde iria parar a parte do leão. Meu senhor Intef não se entrega a generosidades desnecessárias, nem mesmo em relação a uma deusa.

Quanto às couraças dos hipopótamos, pertenciam ao exército e seriam transformadas em escudos de guerra para os oficiais dos regimentos. Os quarteleiros supervisionavam o corte e o manuseio das couraças, cada qual do tamanho de uma tenda de beduíno.

A carne que não pudesse ser consumida na margem do rio seria conservada em salmoura, defumada ou seca, e usada ostensivamente para alimentar o exército, os membros dos tribunais, os templos e outros funcionários do Estado. Mas na prática uma grande parte seria vendida com discrição e os rendimentos se infiltrariam naturalmente nos cofres de meu amo. Como já mencionei, meu senhor era o homem mais rico do Alto Reino depois do próprio faraó, e a cada ano tornava-se ainda mais rico.

Uma nova agitação atrás de mim me fez virar rapidamente. A esquadra de Tanus continuava em ação. As galés alinhavam-se em formação de batalha, paralelas à margem do rio, mas a cinqüenta passos dela, no limite das águas mais profundas. Em cada navio, arpoadores postavam-se nas amuradas com suas armas prontas e voltadas para a superfície da lagoa.

O sangue e os dejetos atirados na água haviam atraído crocodilos. Eles acorriam ao banquete, vindos não apenas de toda a extensão da lagoa como de mais longe, do curso principal do Nilo. Os arpoadores os esperavam. Cada longo arpão era equipado de uma pequena ponta de bronze, malignamente serrilhada. Presa a um anel na cabeça metálica havia uma resistente corda de sisal.

A habilidade dos arpoadores era realmente impressionante. Os répteis vinham deslizando pela água verde, abanando a grande cauda den-teada, deslocando-se como sombras escuras, silenciosas e mortais sob a superfície; eles aguardavam. Permitiam que o crocodilo passasse por baixo da galé e então, quando emergia no lado oposto, o arpoador, com seus movimentos ocultos pelo casco, inclinava-se sobre o costado e o atingia.

Não era um golpe violento, mas uma perfuração quase delicada com a longa vara. A ponta de bronze era afiada como uma agulha, e enfiava-se inteira na pele grossa do sáurio. O arpoador visava a parte posterior do pescoço, e as investidas eram tão precisas que muitos deles perfuravam-lhes a espinha, matando as criaturas instantaneamente.

No entanto, se um golpe errava o alvo, havia uma explosão de água quando o crocodilo ferido se agitava em terríveis convulsões. Com um giro do arpão, a ponta metálica se desprendia e ficava enterrada na couraça do réptil. Então quatro homens seguravam a criatura pela corda de sisal para controlar suas contorções. Se fosse um crocodilo grande — e alguns deles tinham quatro vezes o tamanho de um homem deitado —, a corda se desenrolava sobre o costado do barco, soltando fumaça e queimando as mãos dos homens que tentavam segurá-la.

Quando isso acontecia, mesmo a multidão esfaimada na margem se detinha por um instante para encorajá-los aos gritos e assistir à luta. O crocodilo era subjugado ou a corda se partia com uma chicotada e os marinheiros eram jogados para trás sobre o convés. Em geral, a resistente corda de sísal agüentava. Assim que a tripulação conseguia virar a cabeça do réptil em sua direção, ele não podia mais nadar para as águas profundas. Então era possível puxá-lo num turbilhão de espuma branca até o costado da galé, onde outro grupo esperava com cacetes para esmagar o crânio duríssimo.

Quando as carcaças dos crocodilos foram arrastadas até a margem, desci à terra para examiná-las. Os esfoladores do regimento de Tanus já estavam em ação.

Foi o avô de nosso atual rei quem conferiu ao regimento o título honorífico e o estandarte da Guarda do Crocodilo Azul. Suas armaduras de batalhas são feitas da pele desses dragões, rija como chifre. Tratada e curada da maneira correta, ela se torna suficientemente dura para deter uma flecha ou amassar o fio de uma espada inimiga. É muito mais leve que o metal, e mais fresca de se usar ao sol do deserto. Tanus, com seu capacete de pele de crocodilo, decorado com plumas de avestruz, e uma placa peitoral do mesmo couro, polida e enfeitada com rosetas de bronze, é uma visão que infunde terror no coração de um inimigo, ou um turbilhão nas entranhas de qualquer moça que o veja.

Eu media e anotava o comprimento e a espessura de cada carcaça, observando o trabalho dos esfoladores. Não sentia a mais ínfima simpatia por aqueles monstros odiosos, como tinha pelos hipopótamos abatidos. Para mim não há besta mais desprezível na natureza que o crocodilo, com a possível exceção da venenosa naja.

Minha repulsa multiplicou-se por cem quando um peleiro cortou o ventre de um dos maiores animais, e escorregaram para a lama os restos parcialmente digeridos de uma menina. O crocodilo havia engolido inteira a metade superior de seu corpo. Embora a carne estivesse branca e pastosa pela ação dos sucos digestivos e se desprendesse do crânio, o cabelo da menina continuava intacto e enrolado acima do rosto terrivelmente destruído. Num toque ainda mais macabro, havia um colar no pescoço do cadáver, e nos pulsos belos braceletes de contas de cerâmica vermelhas e azuis.

Assim que a medonha relíquia foi revelada, ouviu-se um grito tão agudo e horrível que superou o burburinho da multidão. Uma mulher correu, empurrando os soldados, e ajoelhou-se ao lado dos tristes despojos.

Ela rasgou as próprias roupas e começou a gritar terrivelmente, em sinal de luto.

— Minha filha! Minha menininha!

Era a mesma mulher que estivera no palácio no dia anterior para relatar o desaparecimento da filha. Os funcionários lhe disseram que provavelmente a garota fora raptada e vendida como escrava por um dos bandos de criminosos que aterrorizavam os campos. Esses bandos haviam se tornado uma força no país, conduzindo abertamente suas depredações em plena luz do dia, mesmo junto aos portões das cidades. Os guardas palacianos haviam advertido a mulher de que nada poderiam fazer para recuperar sua filha, pois os bandos escapavam ao controle do governo.

A previsão provara-se errada. A mãe reconhecera os ornamentos que ainda enfeitavam o patético cadáver. Meu coração apiedou-se da mulher em prantos e mandei um escravo buscar um jarro de vinho vazio. Embora a mulher e a criança me fossem estranhas, não pude impedir que minhas lágrimas rolassem enquanto a ajudava a recolher os despojos e colocá-los na urna para um enterro decente.

Enquanto ela se afastava cambaleando através da multidão apática, carregando o jarro apertado nos braços, refleti que apesar dos ritos e orações que a mãe dispensaria à filha, e mesmo no caso improvável de que ela pudesse arcar com os custos da mais rudimentar mumifi-cação, a sombra da criança jamais encontraria a imortalidade na vida além-túmulo. Para isso o cadáver deve estar intacto e completo antes de ser embalsamado. Meus sentimentos uniram-se totalmente aos daquela mãe. É uma fraqueza minha que muitas vezes lamento, assumir as preocupações e tristezas de qualquer infeliz que cruze meu caminho. Seria mais fácil ter um coração mais duro, uma mentalidade mais cínica.

Como de hábito quando estou triste ou aborrecido, peguei o pergaminho e o pincel e passei a registrar tudo o que acontecia ao meu redor, desde a ação dos arpoadores, a mãe mortificada, a esfoladura e o corte dos hipopótamos e crocodilos na praia, o comportamento irrestrito do populacho em festa.

Os que já se haviam estofado de carne e embebido de cerveja roncavam onde quer que houvessem caído, insensíveis aos chutes e pisadas dos que permaneciam de pé. Os mais jovens e desavergonhados dançavam e beijavam-se, usando a escuridão envolvente e o esconderijo impróprio dos arbustos esparsos e moitas de papiros para velar suas cópulas indignas. Esse comportamento libertino era meramente um sintoma da decrepitude que atingia todo o país. Não seria assim se houvesse um faraó forte e uma administração moral e direita no distrito da Grande Tebas. O povo comum toma como exemplo os que estão acima dele.

Embora eu reprovasse veementemente tudo aquilo, registrava-o com fidelidade. Durante uma hora fiquei sentado de pernas cruzadas e completamente absorto no convés de popa do Sopro de Hórus, a escrevinhar e desenhar. O sol baixou e pareceu mergulhar no grande rio, deixando uma camada acobreada sobre a água e um brilho esfumado no céu a poente, como se houvesse incendiado as moitas de papiros.

A multidão na praia tornava-se cada vez mais barulhenta e desenfreada. As prostitutas estavam em plena função. Vi uma gorda e matronal sacerdotisa do amor, usando na testa o amuleto azul de sua profissão, conduzir um marinheiro magro, que tinha a metade de seu tamanho, para as sombras além das fogueiras. Ali deixou cair as saias e ajoelhou-se na terra, apresentando a ele um par de nádegas monumentais e tremulantes. Com um grito de felicidade, o rapaz montou-a como um cachorro sobre uma cadela, e em segundos ela gania tão alto quanto ele. Comecei a desenhá-los, mas a luz se reduziu rapidamente e fui obrigado a parar.

Ao guardar meu pergaminho, percebi alarmado que não vira minha ama desde antes do incidente com a criança morta. Saltei, em pânico. Como podia ser tão omisso? Minha senhora fora educada rigidamente, isso eu podia garantir. Era uma menina de boa moral, totalmente consciente dos deveres e obrigações que lhe cabiam pela lei e os costumes. Também tinha consciência da honra da distinta família a que pertencia e de seu lugar na sociedade. Além disso, temia tanto quanto eu a autoridade e o temperamento de seu pai. Eu confiava nela, é claro.

Confiava tanto nela como teria confiado em qualquer outra jovem criatura de opiniões fortes no primeiro rompante de feminilidade apaixonada numa noite como esta, sozinha em algum lugar escuro com o belo e igualmente apaixonado soldado, por quem ela estava totalmente embevecida.

Meu pânico não foi tanto pela frágil virgindade de minha ama — o etéreo talismã que, uma vez perdido, raramente é lamentado — quanto pelo risco mais concreto de danos à minha própria pele. No dia seguinte retornaríamos a Karnak e ao palácio de meu senhor Intef, onde haveria muitas línguas ávidas para propagar qualquer indiscrição de nossa parte.

Os espiões de meu amo permeavam todas as camadas da sociedade e todo canto da terra, das docas e campos ao palácio do próprio faraó. Eram ainda mais numerosos que os meus próprios, pois ele tinha mais dinheiro para pagar seus agentes. Mas muitos serviam a nós dois imparcialmente e nossas teias se entrelaçavam em muitos níveis. Se Lostris nos desgraçasse a todos, pai, família e eu, seu tutor e guardião, meu senhor Intef o saberia pela manhã, assim como eu.

Corri de uma extremidade a outra do navio, buscando-a. Subi na torre de popa e vasculhei a praia desesperado. Não consegui vê-la, nem Tanus, e meus piores temores aumentaram.

Não podia imaginar onde os procurar naquela noite louca. Vi-me retorcendo as mãos numa agonia de frustração, e contive-me imediatamente. Sempre me esforço para evitar quaisquer maneiras efeminadas. Sinto repulsa por aquelas criaturas obesas e afetadas que sofreram a mesma mutilação que eu e tento portar-me como homem, e não como eunuco.

Controlei-me com esforço e adotei a mesma aparência fria que vira em Tanus no calor da batalha; então recuperei a tranqüilidade e tornei-me novamente racional. Imaginei como minha ama provavelmente se comportaria. Eu a conhecia intimamente, é claro. Afinal a havia observado durante catorze anos. Sabia que ela era muito requintada e consciente de sua nobre estirpe para misturar-se aos bêbados largados sobre a praia ou para esgueirar-se pelo mato para brincar de bicho de duas costas, como eu acabara de assistir ao marinheiro e à velha rameira. Eu sabia que não poderia pedir a ninguém que me auxiliasse em minha busca, pois isso asseguraria que meu senhor Intef soubesse de tudo. Tinha de agir sozinho.

A que lugar secreto Lostris permitira que a levassem? Como a maioria das jovens de sua idade, ela se encantava com a idéia do amor romântico. Eu duvidava que jamais houvesse avaliado seriamente os aspectos mais terrenos do ato físico, apesar dos esforços de suas duas negrinhas para instruí-la. Ela nem sequer demonstrara qualquer interesse pela mecânica da coisa quando eu tentara adverti-la, como era meu dever, pelo menos o suficiente para protegê-la de si mesma.

Percebi então que devia procurá-la em algum lugar que acendesse suas expectativas sentimentais de amor. Se houvesse um camarote no Sopro de Hórus, eu teria corrido para lá, mas as galés fluviais são pequenos barcos de guerra utilitários, despojados para ganhar velocidade e maneabilidade. A tripulação dormia no convés nu, enquanto o capitão e seus oficiais tinham como abrigo noturno apenas uma coberta de caniços. Esta não estava armada no momento, portanto não havia qualquer lugar a bordo onde pudessem estar escondidos.

Karnak e o palácio ficavam a meio dia de viagem. Os escravos agora erguiam nossas tendas numa das ilhotas junto à praia que fora escolhida para dar privacidade a nossa comitiva, longe do rebanho humano. Os escravos, geralmente lentos, haviam-se envolvido nas festividades. A luz das tochas, vi que alguns deles estavam mais que ligeiramente desequilibrados ao manejar as cordas. Ainda não haviam erguido a tenda particular de Lostris, e os luxuosos tapetes e cortinas bordadas, colchões estofados e lençóis de linho não estavam à disposição dos amantes. Onde poderiam estar?

Naquele momento minha atenção foi atraída pela luz amarelada de uma tocha, distante na lagoa. Imediatamente minha intuição se acendeu. Percebi que, dadas as conexões de minha ama com a deusa Hapi, seu templo na pitoresca ilhota de granito no meio da lagoa era um lugar que a atrairia irresistivelmente. Vasculhei a praia buscando algum meio de chegar até a ilha. Havia diversas embarcações pequenas na praia, mas quase todos os barqueiros estavam caídos, bêbados.

Foi então que avistei Kratas na margem do rio. As penas de avestruz de seu capacete erguiam-se bem acima das cabeças da multidão, e seu porte altivo o realçava.

— Kratas! — gritei; ele me viu e acenou. Kratas era o primeiro-tenente de Tanus e, depois de mim mesmo, o mais fiel dentre sua legião de amigos. Eu confiava em Kratas como em nenhum outro. — Consiga-me um barco!

— gritei para ele. — Qualquer um!

Eu estava tão perturbado que meu tom agudo o alcançou com clareza. Era típico dele não perder um instante com questionamentos ou indecisões. Abordou o felucca mais próximo. O barqueiro estava estendido no chão como um tronco. Kratas pegou-o pelo pescoço e ergueu-o, mas o homem despencou pesadamente sem dar-se conta, imerso no estupor do vinho barato, e ficou retorcido na posição em que Kratas o largou. O oficial empurrou o bote sozinho e, com alguns movimentos da vara, encostou-o ao Sopro de Hórus. Na pressa, saltei da torre e caí desajeitadamente no bojo do pequeno bote.

— Para o templo, Kratas — roguei-lhe enquanto me aprumava —, e que a doce deusa Hapi permita que não seja tarde demais!

Com a brisa noturna enfunando a vela latina, navegamos rapidamente pelas a'guas escuras até o patamar de pedra junto ao templo. Kratas amarrou o barco a um dos anéis de atracação e parecia disposto a seguir-me em terra, mas derive-o.

— Não por mim, mas pelo bem de Tanus, por favor não me siga

— disse-lhe.

Ele hesitou um instante, então assentiu:

— Estarei esperando seu chamado. — Desembainhou a espada e ofereceu-a a mim, pelo punho. — Irá precisar disto?

Balancei a cabeça.

— Não é esse tipo de perigo. Além disso, tenho minha adaga. Mas obrigado por sua confiança.

Deixei-o no bote e subi correndo os degraus de granito até a entrada do templo de Hapi.

As tochas nos suportes dos altos pilares do portal projetavam uma luz difusa e bruxuleante que parecia animar as figuras em baixo-relevo nas paredes, fazendo-as dançar. A deusa Hapi é uma de minhas favoritas. Na verdade, não é nem deus nem deusa, mas uma criatura estranha e barbada, um hermafrodita dotado de um volumoso pênis e de uma vagina igualmente avantajada, e seios fartos que dão leite a todos. Ela é a deificação do Nilo e a deusa das colheitas. Os dois reinos do Egito e todos os seus povos dependem totalmente dela e das cheias periódicas do grande rio, que é seu alter ego. Ela é capaz de mudar de gênero ou, como vários outros deuses egípcios, assumir a forma de qualquer animal que deseje. Seu disfarce favorito é o do hipopótamo. Apesar da sexualidade ambígua da deusa, minha ama Lostris sempre a considerou feminina, assim como eu. Os sacerdotes de Hapi podem discordar disso.

Suas imagens nas paredes de pedra eram amplas e maternais. Pintada em tons vivos de vermelho, amarelo e azul, ela nos observava suavemente com a cabeça de uma vaca-do-rio, parecendo convidar toda a natureza a ser fértil e a multiplicar-se. O convite implícito não era nada adequado à angústia que eu sentia. Temia que minha preciosa carga estivesse naquele momento desfrutando as indulgências da deusa.

Havia uma sacerdotisa ajoelhada no altar lateral. Corri até ela, toquei a borda de sua capa e puxei-a com urgência.

— Diga-me, sagrada irmã, não viu a senhora Lostris, filha do grão-vizir?

Havia poucos cidadãos no Alto Egito que não conhecessem de vista minha ama. Todos a amavam por sua beleza, seu espírito alegre e sua simpatia, e a cercavam e aplaudiam nas ruas e mercados quando ela passava.

A sacerdotisa sorriu para mim, enrugada e sem dentes, e colocou o dedo magro ao lado do nariz, com uma expressão insidiosa que confirmou meus piores temores. Toquei-a novamente, mas com menos delicadeza.

— Onde está ela, reverenda mãe? Suplico-lhe que fale! — Mas ela apenas balançou a cabeça e rolou os olhos em direção aos portais do sacrário interno.

Precipitei-me pelas lajes de granito, com o coração mais veloz que meus pés frenéticos, mas mesmo em meu tormento duvidava da ousadia de minha ama. Embora como membro da alta nobreza ela tivesse o direito de entrar no local mais sagrado do templo, haveria outra em todo o Egito que tivesse a ousadia de escolher tal lugar para seu encontro amoroso?

Parei na entrada do santuário. Meu instinto se confirmou. Lá estavam os dois, como eu temia. Obcecado pela certeza do que devia estar acontecendo, quase gritei para detê-los. Mas me contive.

Minha senhora estava completamente vestida, ainda mais que de costume, pois tinha os seios cobertos e havia posto um xale de lã azul sobre a cabeça. Estava ajoelhada diante da estátua gigantesca de Hapi. A deusa sorria para ela, ornada com guirlandas de lírios aquáticos azuis.

Tanus ajoelhara-se a seu lado. Havia deixado suas armas e a armadura à porta do santuário. Vestia apenas uma curta túnica de linho e sandálias. O jovem casal estava de mãos dadas, com os rostos quase se tocando, enquanto sussurravam juntos, solenemente.

Minha suspeita maior fora refutada e fiquei abalado de remorso e vergonha. Como poderia ter duvidado de minha senhora? Silenciosamente, comecei a recuar, pretendendo chegar ao altar lateral, onde agradeceria à deusa por sua proteção, e de onde poderia observar discretamente o desdobramento da cena.

No entanto, naquele momento Lostris ergueu-se e aproximou-se confiantemente da estátua da deusa. Fiquei tão embevecido por sua graça de donzela que me detive um instante a observá-la.

De seu pescoço retirou a pequena imagem da deusa em lápis-lazúli, que eu fizera para ela. Percebi com tristeza que pretendia ofertá-la em sacrifício. Eu havia confeccionado aquela jóia para ela com todo o meu amor, e detestava vê-la sair de seu colo. Lostris ficou nas pontas dos pés para pendurá-la no pescoço do ídolo. Então ajoelhou-se e beijou o pé de pedra, enquanto Tanus observava, ajoelhado em seu lugar.

Lostris levantou-se e voltou até ele, mas então me viu no portal. Tentei fundir-me às sombras, pois me envergonhava estar espionando um momento tão íntimo. No entanto, o rosto da garota iluminou-se de felicidade e, antes que eu pudesse escapar, correu e segurou-me pela mão.

— Oh, Taita, estou tão feliz por vê-lo aqui! Você, dentre todas as pessoas... E tão apropriado, torna tudo perfeito! — Ela me conduziu até o santuário e Tanus, erguendo-se, veio sorrindo segurar minha outra mão.

— Obrigado por ter vindo. Sei que sempre poderemos contar com você.

Desejei que minhas intenções tivessem sido tão puras quanto eles acreditavam, e escondi meu sentimento de culpa com um sorriso afetuoso.

— Ajoelhe-se aqui — ordenou Lostris. — Aqui, onde possa escutar todas as palavras que diremos um ao outro. Você será nossa testemunha diante de Hapi e de todos os deuses do Egito. — Ela me fez ajoelhar, então os dois retomaram suas posições em frente à deusa e deram-se as mãos, olhando-se fixamente nos olhos.

Lostris falou primeiro:

— Você é meu Sol — murmurou. — Sem você meu dia é sombrio.

— Você é o Nilo do meu coração — Tanus disse suavemente. — As águas do seu amor alimentam minha alma.

— Você é meu homem, neste mundo e em todos os que virão.

— Você é minha mulher, e dedico-lhe meu amor. Juro sobre o sopro e o sangue de Hórus — disse Tanus claramente, sua voz ecoando pelas paredes de pedra.

— Aceito seu juramento e o retribuo cem vezes — bradou Lostris.

Ninguém jamais poderá se interpor entre nós. Nada poderá nos

separar. Somos um só, para sempre.

Ela ofereceu-lhe o rosto e ele o beijou ardentemente. Que eu saiba foi o primeiro beijo que o casal trocou. Senti-me privilegiado por ter testemunhado um momento tão íntimo.

Enquanto se beijavam, um vento súbito e frio vindo da lagoa percorreu as salas obscuras do templo e agitou a chama das tochas, de modo que por um instante os rostos dos amantes se confundiram diante de meus olhos, e a imagem da deusa pareceu estremecer. O vento se foi rapidamente como chegara, mas seu sussurro ao redor das grandes colunas de pedra soou como o riso distante e irônico dos deuses, e tremi de temerosa superstição.

É sempre arriscado incomodar os deuses com desejos extravagantes, e Lostris acabara de pedir o impossível. Aquele fora o momento que eu esperava havia anos, e que temia mais amargamente que o próprio dia de minha morte. Os votos que Lostris e Tanus acabavam de trocar jamais poderiam se realizar. Por mais profundamente que fossem seus sentimentos, eram impossíveis. Senti meu coração dilacerar-se quando, enfim, o beijo se desfez e ambos olharam para mim.

— Por que está triste, Taita? — indagou Lostris, com o rosto inundado de felicidade. — Alegre-se comigo, pois este é o dia mais feliz de minha vida.

Forcei os lábios a sorrir, mas não encontrei palavras de felicitações para os dois, as pessoas que eu mais amava no mundo. Permaneci ajoelhado, com um sorriso idiota fixo nos lábios e a desolação na alma.

Então Tanus ajudou-me a levantar e abraçou-me.

— Você falará com o senhor Intef a meu favor, não é? — perguntou.

— Oh, sim, Taita — Lostris juntou seu pedido ao dele. — Meu pai o escutará. Você é a única pessoa que pode fazer isso por nós. Não irá nos abandonar, não é, Taita? Você nunca me decepcionou, nunca. Fará isso por mim agora, não é?

O que poderia eu dizer? Não faria a maldade de dizer-lhes a verdade crua. Não conseguiria encontrar palavras para arruinar aquele amor terno e jovial. Os dois aguardavam que eu falasse, expressasse minha alegria por eles, prometendo minha ajuda e meu apoio. Mas fiquei paralisado, a boca seca como se tivesse mordido uma romã ainda verde.

— Taita, o que há? — Vi a felicidade esmaecer na expressão de minha amada senhora. — Por que não se rejubila conosco?

— Vocês sabem que os amo muito, mas... — Não consegui continuar.

— Mas? Mas o quê, Taita? — indagou Lostris. — Por que vem com mas, e essa cara triste, neste dia da maior felicidade possível? — Ela estava ficando enraivecida, com o queixo tenso, e ao mesmo tempo havia lágrimas no fundo de seus olhos. — Não quer nos ajudar? É isso que valem todas as promessas que me fez em todos esses anos? — Aproximou-se de mim e olhou-me de perto, desafiadoramente.

— Senhora, por favor, não fale assim. Não mereço esse tratamento. Não, ouça-me! — Coloquei meus dedos sobre seus lábios para impedir um novo rompante. — Não sou eu. É seu pai, meu senhor Intef...

— Exatamente. — Com impaciência, Lostris afastou minha mão de sua boca. — Meu pai! Você falará com ele do modo como sempre faz, e tudo se arranjará.

— Lostris — comecei, demonstrando meu aborrecimento ao usar seu nome dessa maneira familiar —, você não é mais criança. Não deve se iludir com fantasias infantis. Você sabe que seu pai jamais concordará...

Ela não queria me ouvir, não queria escutar a verdade que eu ia dizer, então disparou a falar para afogar minhas palavras:

— Sei que Tanus não tem fortuna. Mas tem um futuro maravilhoso à sua frente. Um dia ele comandará todos os exércitos do Egito. Um dia lutará as batalhas que reunirão os dois reinos, e eu estarei ao lado dele.

— Senhora, por favor, ouça-me. Não é apenas a falta de fortuna de Tanus. E mais, muito mais!

— Sua linhagem e sua criação, então? É isso que o preocupa? Você sabe muito bem que a família dele é tão nobre quanto a nossa. Pianki, o senhor Harrab, era par de meu pai e seu mais querido amigo.

Ela fechara os ouvidos para mim. Não percebia a profundidade da tragédia em que estávamos embarcando. Nem ela nem Tanus percebiam, e provavelmente eu era a única pessoa no reino que a entendia completamente.

Eu a havia protegido da verdade durante todos aqueles anos, e é claro que tampouco fora capaz de contar a Tanus. Como poderia explicar a ela agora? Como poderia lhe revelar a profundidade do ódio que seu pai nutria pelo rapaz que ela amava? Era um ódio originário da culpa e da inveja, e por esses mesmos motivos ainda mais implacável.

No entanto, meu senhor Intef era um homem matreiro e sinuoso. Era capaz de ocultar seus sentimentos dos que o cercavam. Podia dissimular seu ódio e seu desprezo e beijar aquele que iria destruir, dis-pensando-lhe ricos presentes e bajulações. Ele possuía a paciência do crocodilo enterrado na lama junto ao bebedouro no rio, esperando pela gazela incauta. Poderia esperar anos, ou mesmo uma década, mas quando a oportunidade se apresentasse seria tão ágil quanto o réptil ao atacar e arrastar sua presa.

Lostris era completamente alheia à profundidade do rancor de seu pai. Chegava a acreditar que ele amara Pianki, o senhor Harrab, como o pai de Tanus o amara. Mas como poderia saber a verdade, se eu sempre a ocultara? Em sua doce inocência, Lostris acreditava que as únicas objeções de seu pai ao homem a quem amava estavam relacionadas à fortuna e à família.

— Você sabe que é verdade, Taita. Tanus é meu igual no rol da nobreza. Está registrado no templo para que todos vejam. Como meu pai poderia negá-lo? Como você pode negá-lo?

— Não cabe a mim negar ou confirmar, minha senhora...

— Então falará com meu pai sobre nós, não é, meu querido Taita? Diga que sim, por favor, diga!

Pude apenas aquiescer com a cabeça, escondendo a expressão desesperada de meus olhos.

A frota estava sobrecarregada no retorno a Karnak. As galés iam baixas na água, sob o peso das carnes frescas e salgadas. Nosso avanço contra a correnteza do Nilo era portanto mais lento que na jornada de ida, mas ainda assim rápido demais para meu coração pesaroso e meu crescente temor.

Os amantes estavam eufóricos com seu amor recém-declarado e sua confiança em mim para remover os obstáculos do caminho. Eu não poderia lhes negar aquele dia de felicidade, pois sabia que seria um dos últimos que compartilhariam. Acho que naquele momento, se tivesse encontrado as palavras ou reunido a coragem suficiente, teria incentivado a ambos a realizar a consumação de seu amor, que eu tanto temera na noite anterior. Não haveria outra chance para eles, não depois que eu alertasse meu senhor Intef na inútil tentativa de reunir o casal. Quando ele se inteirasse de suas pretensões, iria se colocar entre os jovens e os afastaria para sempre.

Então eu apenas ri, alegre como eles, e tentei esconder-lhes minhas lágrimas. Estavam tão cegos de amor que tive êxito, embora em qualquer outra ocasião minha ama teria percebido imediatamente. Conhecia-me quase tão bem quanto eu a ela.

Ficamos os três sentados na proa e discutimos a representação da paixão de Osíris, que seria o ponto forte do festival. Meu senhor Intef me nomeara diretor dos festejos, e eu escolhera Lostris e Tanus para os papéis principais.

O festival se realiza a cada dois anos, no início da lua cheia de Osíris. Em certa época fora um evento anual, mas eram tão grandes os gastos e a perturbação da vida real, causados pelo deslocamento da corte de Elefantina para Tebas, que o faraó decretara um intervalo maior entre as festas. Sempre prudente com seu ouro, nosso faraó...

Os planos para a representação ofereceram-me um excelente motivo para evitar o confronto com meu amo Intef, e agora eu ensaiava os diálogos dos dois amantes. Lostris faria o papel de ísis, a mulher de Osíris, enquanto Tanus faria o papel principal, de Hórus. Ambos se divertiam muito com o fato de Tanus representar o filho de Lostris, e tive de explicar que os deuses não tinham idade e era muito possível que uma deusa parecesse mais jovem que seu rebento.

Eu escrevera um novo roteiro para a peça, em substituição ao que permanecia inalterado havia quase cem anos. A linguagem do anterior era arcaica e imprópria para um público moderno. O faraó seria o convidado de honra quando a peça fosse apresentada no templo de Osíris, na última noite da festa, e eu esperava ansiosamente que fosse um sucesso. Já sofrera a oposição dos nobres e sacerdotes mais conservadores à minha nova versão da paixão. Apenas a intervenção do senhor Intef prevalecera sobre suas objeções.

Meu senhor não é um homem profundamente religioso e normalmente não se interessaria por discussões teológicas. No entanto, eu incluíra alguns diálogos destinados a diverti-lo e lisonjeá-lo. Li-os para ele fora do contexto, e habilmente salientei que a principal objeção à minha versão viera do alto sacerdote de Osíris, um velho rabugento que certa vez frustrara o interesse de meu senhor por uma jovem e deslumbrante acólita. Fora uma intromissão pela qual meu senhor jamais perdoara o alto sacerdote.

Dessa maneira, minha versão seria encenada pela primeira vez. Era essencial que os atores expressassem toda a glória de minha poesia, do contrário poderia ser sua última audição.

Tanus e Lostris possuíam ambos vozes maravilhosas, e estavam decididos a recompensar-me por minha promessa de ajudá-los. Esforçaram-se ao máximo, e os ensaios foram tão absorventes, suas récitas tão surpreendentes, que por um instante esqueci-me dos problemas.

Fui trazido de volta das paixões dos deuses para minhas próprias preocupações mundanas por um grito do vigia. A frota estava contornando a última curva do rio e já se viam as cidades gêmeas de Luxor e Karnak, que formavam a Grande Tebas, estendidas sobre as margens como um brilhante colar de pérolas ao sol causticante do Egito. Nosso interlúdio fantástico terminara e teríamos de enfrentar novamente a realidade. Meu espírito vacilou quando me pus de pé.

— Tanus, você deve transferir Lostris e eu para a galé de Kratas antes de nos aproximarmos da cidade. Os servos de meu senhor estarão vigiando em terra. Não devem nos ver em sua companhia.

— É um pouco tarde, não é? — Tanus sorriu para mim. — Deveria ter pensado nisso alguns dias atrás.

— Logo meu pai saberá tudo sobre nós — Lostris endossou a objeção do namorado. — Poderia facilitar sua tarefa se o advertíssemos de nossas intenções.

— Vocês sabem melhor que eu, então façam como quiserem e não participarei mais dessa loucura. — Fiz a expressão mais séria e ofendida e eles desistiram imediatamente.

Tanus chamou a galé de Kratas com um sinal e os namorados tiveram apenas alguns momentos para despedir-se. Não ousaram beijar-se diante de metade da frota, mas os olhares e as palavras apaixonadas que trocaram foram igualmente reveladoras.

Da torre de popa do navio de Kratas acenamos para o Sopro de Ho'rus quando se afastou e, com os remos brilhando como asas de libélula, dirigiu-se ao molhe diante da cidade de Luxor, enquanto nós continuamos rio acima até o palácio do grão-vizir.

Assim que atracamos no cais do palácio, indaguei sobre o paradeiro de meu amo e fiquei aliviado ao saber que ele atravessara o rio para realizar uma inspeção de última hora na tumba do faraó e o templo fúnebre na margem ocidental. O templo e o túmulo do rei vinham sendo construídos nos últimos doze anos, desde o dia em que ele colocara a dupla coroa branca e vermelha dos dois reinos. Apresentava-se enfim quase pronto, e o rei estaria ansioso por visitá-lo assim que terminasse o festival e ele tivesse tempo. Meu senhor Intef mostrava-se aflito para não decepcionar o rei. Um dos muitos títulos e honrarias de meu amo era o de Guardião das Tumbas Reais, uma séria responsabilidade.

Sua ausência dava-me mais um dia para preparar o caso e planejar minha estratégia. No entanto, os jovens me haviam feito prometer solenemente que falaria em seu nome na primeira oportunidade, e eu sabia que esta surgiria no dia seguinte, quando meu senhor pedisse o relatório semanal.

Assim que vi minha ama seguramente encerrada no harém, corri para meus aposentos na ala palaciana especialmente reservada para os companheiros do grão-vizir.

Os arranjos domésticos de meu senhor Intef eram tão tortuosos quanto o restante de sua existência. Tinha oito esposas, todas as quais haviam trazido para o leito matrimonial dotes substanciais ou influentes conexões políticas. No entanto, apenas três das mulheres lhe deram filhos. Além de minha senhora Lostris, havia dois rapazes.

Até onde eu estava inteirado, e eu sabia de tudo o que acontecia no palácio e a maior parte do que ocorria fora dele, meu senhor não havia visitado o harém nos últimos quinze anos. A concepção de Lostris fora a última vez em que ele desempenhara seus deveres conjugais. Seus gostos sexuais apontavam em outras direções. Os companheiros especiais do grão-vizir, que residiam em nossa ala do palácio, eram a mais bela coleção de jovens escravos que se poderia encontrar no Alto Reino, onde nos cem anos precedentes a pederastia havia substituído a caça como ocupação predileta de grande parte da nobreza. Este era apenas mais um sintoma dos males que afetavam nosso querido país.

Eu era o mais velho de sua seleta companhia de jovens escravos. Ao contrário de tantos outros que, ao longo dos anos, meu senhor mandara para o leilão no mercado de escravos quando sua beleza física começara a fenecer, eu permanecera. Ele passara a valorizar-me por outras virtudes além de minha beleza. Não que esta houvesse diminuído — pelo contrário, havia se tornado mais marcante com a maturidade. Não me considerem fútil por mencionar isto. Estou apenas decidido a registrar a verdade neste relato, que será suficientemente notável sem que eu precise recorrer à falsa modéstia.

Não, meu senhor raramente se comprazia comigo naquele tempo, desprezo pelo qual sou realmente agradecido. Quando o fazia, geralmente era apenas para castigar-me. Ele bem sabia a dor física e a humilhação que suas atenções sempre me causavam. Embora eu ainda fosse criança quando aprendi a ocultar minha repulsa e a simular prazer nos atos perversos a que ele me obrigava, jamais consegui decepcioná-lo.

Estranhamente, meus sentimentos de desgosto e horror por esse ato desnaturado nunca diminuíram o prazer dele; pelo contrário, pareciam acentuá-lo. Não era um homem delicado nem compassivo, meu senhor Intef. Contei às centenas os rapazes escravos que, ao longo dos anos, me foram enviados chorando e feridos depois de sua primeira noite com meu amo. Eu os tratei e fiz o possível para reconfortá-los. Talvez seja por isso que nas áreas dos jovens escravos me chamavam de Akh-Ker, que significa "irmão mais velho".

Eu podia não ser mais o brinquedo favorito de meu senhor, mas ele me valorizava muito além disso. Era muitas outras coisas para ele: médico e artista, músico e escriba, arquiteto e bibliotecário, conselheiro e confidente, engenheiro e pajem de sua filha. Não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que ele me amasse ou confiasse em mim, mas acho que às vezes chegava tão perto disso quanto era capaz. Por tal razão Lostris contava comigo para defendê-la.

Meu senhor Intef não tinha outra preocupação por sua filha única além da preservação de seu valor matrimonial máximo, e esse era outro dever que ele delegava completamente a mim. Às vezes não falava uma só palavra com a filha entre duas inundações do Nilo. Não demonstrava qualquer interesse visível pelos relatórios habituais que eu lhe fazia sobre a educação e os estudos dela.

É claro que eu me esforçava para esconder dele meus verdadeiros sentimentos por Lostris, sabendo que certamente os usaria contra mim na primeira oportunidade. Sempre tentava dar-lhe a impressão de que considerava a função de preceptor da menina uma incumbência entediante, da qual me ressentia ligeiramente, e de que partilhava seu desdém pelo gênero feminino. Creio que ele não notava que, apesar de minha emasculação, eu tinha as sensações e desejos naturais de um homem em relação ao sexo oposto.

O desinteresse de meu senhor por sua filha era o motivo pelo qual eu me sentia ocasionalmente tentado, sob a influência de minha ama, a correr riscos tão insanos quanto essa última escapada a bordo do Sopro de Hórus. Geralmente havia pelo menos uma chance de conseguirmos nos safar bem.

Naquela noite retirei-me cedo para meus apartamentos, onde minha primeira preocupação foi alimentar e paparicar meus queridos. Tenho grande amor por pássaros e animais, e uma comunicação com eles que espanta até a mim mesmo. Eu mantinha uma amizade íntima com uma dezena de gatos — pois ninguém pode afirmar que possui um gato. Por outro lado, era dono de um bando de belos cães. Tanus e eu os usávamos para caçar órix e leões no deserto.

Os pássaros selvagens afluíam ao meu terraço para desfrutar a hospitalidade que eu lhes oferecia. Competiam barulhentamente entre si para pousar em meu ombro ou minha mão. Os mais ousados apanhavam a comida que eu segurava entre os lábios. Minha mansa gazela esfregava-se em minhas pernas como se fosse um gato, e meus dois falcões piavam para mim de seus poleiros no terraço. Eram raros sakers do deserto, belos e valentes. Sempre que possível, Tanus e eu os levávamos até o deserto para perseguir abetardas gigantes. Eu extraía enorme prazer de observar sua velocidade e seu elegante vôo ao mergulhar sobre a presa. Qualquer outra pessoa que tentasse afagá-los sentiria o fio cortante daqueles bicos amarelos, mas comigo eram tão delicados quanto rouxinóis.

Somente depois de cuidar de minhas criações chamei um dos meninos escravos para trazer-me a refeição vespertina. No terraço que dominava a grande extensão verde do Nilo, saboreei a iguaria de co-dornas selvagens cozidas em mel e leite de cabra que o cozinheiro-chefe preparara especialmente para dar-me as boas-vindas. Dali eu poderia observar o retorno da barca de meu amo da margem oposta. Ela chegou com o sol poente brilhando na única vela quadrada e senti meu espírito debilitar-se. Ele poderia mandar me chamar naquela noite e eu não estava preparado para enfrentá-lo.

Com alívio escutei Rasfer, o comandante da guarda palaciana, gritar o nome do atual favorito de meu senhor, um beduíno de olhos negros que mal completou dez anos. Um momento antes eu escutara a criança protestar num lamento aterrorizado quando Rasfer o arrastou por minha porta em direção à entrada acortinada dos aposentos do grão-vizir. Apesar de já os ter ouvido muitas vezes, jamais ficava insensível aos sons das crianças e sentia a conhecida dor da piedade. Assim mesmo fiquei aliviado por não ter sido eu o chamado naquela noite. Precisava de uma boa noite de sono para estar com ótima aparência no dia seguinte.

Acordei antes do amanhecer com a sensação de pavor ainda pairando sobre mim. Nem mesmo meu ritual de nadar nas águas frias do Nilo conseguiu afastá-la. Corri de volta ao meu quarto, onde dois pequenos escravos aguardavam para untar meu corpo e pentear meus cabelos. Eu detestava a nova moda adotada pela nobreza de usar maquiagem. Minha pele e minha cor eram belas o suficiente para não necessitar disso, mas meu senhor gostava que seus rapazes a usassem, e eu queria agradá-lo especialmente naquele dia.

Embora minha imagem no espelho de bronze me tivesse agradado, não tinha apetite para o desjejum. Fui o primeiro membro da corte de meu senhor a esperar sua chegada no jardim aquático onde ele despachava todas as manhãs.

Enquanto aguardava o restante da corte reunir-se, admirei o trabalho dos pássaros mergulhões. Eu havia projetado e supervisionado a construção do jardim aquático, um magnífico sistema de canais e piscinas cuja água fluía de um para outro. As plantas floríferas haviam sido trazidas de todas as partes do reino e até do estrangeiro, formando um espetáculo colorido. As piscinas eram habitadas pelas centenas de variedades de peixes que o Nilo deposita nas redes dos pescadores, mas tinham de ser reabastecidas diariamente em conseqüência da predação das aves.

Meu senhor Intef gostava de observar os pássaros pairando no ar como jóias de lápis-lazúli, ou quando mergulhavam até tocar a água num forte espirro para alçar-se novamente com o peixe prateado debatendo-se em seus longos bicos. Acho que ele também se considerava um predador, um pescador de homens, e via nos pássaros sua própria espécie. Jamais permitiu que os jardineiros espantassem as aves.

Aos poucos, o resto da corte se juntou a mim. Muitos estavam desarrumados e bocejavam de sono. Meu senhor Intef levanta-se cedo e gosta de encerrar os negócios de Estado antes que o dia se torne quente demais. Aos primeiros raios de sol esperávamos respeitosamente pela chegada de meu amo.

— Ele está de bom humor hoje — sussurrou o camareiro-mor, sentando-se a meu lado, e senti uma ponta de esperança. Ainda poderia escapar às perigosas conseqüências de minha insensata promessa a Lostris.

Houve uma agitação e um murmúrio entre nós, semelhante aos papiros movendo-se sob a brisa do rio, e meu senhor Intef aproximou-se.

Tinha uma postura altiva e maneiras suntuosas, pois representava honrarias e poderes extraordinários. Ao redor do pescoço, usava a Comenda de Ouro, o colar de ouro vermelho das minas de Lot que o faraó colocara nele com as próprias mãos. A sua frente vinha o entoador de loas, um anão de pernas tortas escolhido por seu corpo disforme e voz estentórea. Meu amo divertia-se em cercar-se de curiosidades, fossem belas ou grotescas. Balançando-se e tropeçando sobre as pernas curvas, o anão entoava a relação de títulos e honrarias de meu senhor:

— Admirem o Esteio do Egito! Saúdem o Guardião das Águas do Nilo! Reverenciem o Companheiro do Faraó! — Estes eram títulos conferidos pelo rei, e vários deles lhe impunham deveres e obrigações específicos. Como Guardião das Águas do Nilo, por exemplo, era responsável por monitorar os níveis e fluxos das cheias sazonais do Nilo, dever que era naturalmente delegado ao fiel e infatigável escravo Taita.

Eu havia passado meio ano com uma equipe de engenheiros e matemáticos trabalhando sob minhas ordens, medindo e escavando os penhascos rochosos de Assuan, para que se definisse precisamente a que altura se elevavam as águas e assim calcular o volume da cheia. Desses números eu podia avaliar o tamanho das colheitas com meses de antecedência. Isso permitia à administração prever a penúria ou a fartura e fazer seu planejamento. O faraó admirara meu trabalho e conferira maiores honrarias e recompensas a meu senhor Intef.

— Ajoelhem-se diante do Nomarca de Karnak e Governador dos vinte e dois distritos do Alto Egito! Saúdem o Senhor de Necrópolis e Mantenedor das Tumbas Reais!

Em decorrência desses títulos, meu senhor era responsável por projetar, construir e manter os monumentos aos faraós mortos há muito tempo e aos ainda vivos. Mais uma vez, tais deveres eram depositados sobre os ombros de um escravo sofredor. As visitas de meu amo à tumba do faraó no dia anterior fora a primeira que ele fizera desde o último festival de Osíris. Era a mim que enviava ao calor e à poeira para bajular e maldizer os construtores mentirosos e os coniventes pedreiros. Com freqüência lamento ter deixado meu senhor perceber a extensão de meus talentos.

Ele me fitou sem o demonstrar. Os olhos amarelos implacáveis como os de um leopardo selvagem encontraram os meus e ele inclinou ligeiramente a cabeça. Coloquei-me atrás dele ao passar e, como sempre, fiquei impressionado por sua altura e seus ombros largos. Era um homem de uma beleza agressiva, de membros longos e lisos e ventre rijo. Tinha uma cabeça leonina, com cabelos densos e lustrosos. Nessa época ele contava quarenta anos, e eu era seu escravo havia quase vinte.

Meu senhor Intef nos conduziu até a barrazza no centro do jardim, um quiosque sem paredes coberto de palha e aberto à brisa fresca do rio. Sentou-se de pernas cruzadas sobre o piso de lajotas, junto à mesa baixa sobre a qual repousavam os papiros oficiais, e eu postei-me no lugar habitual atrás dele. Os trabalhos do dia começaram.

Duas vezes durante a manhã meu amo inclinou-se ligeiramente para trás em minha direção. Não virou a cabeça nem disse palavra, mas estava pedindo meu conselho. Eu mal movi os lábios e mantive a voz em tom baixo para que ninguém pudesse me escutar, e poucos notaram nossa conversa.

Uma vez murmurei "Ele está mentindo" e na outra "Retik é melhor para o cargo, e ofereceu um presente de cinco anéis de ouro para o tesouro particular de meu senhor". Apesar de eu não ter mencionado, haveria mais um anel de ouro para mim se obtivesse o cargo.

Ao meio-dia meu amo dispensou a congregação de funcionários e requerentes e pediu sua refeição. Pela primeira vez naquele dia ficamos a sós, exceto por Rasfer, que era o comandante da guarda palaciana e o carrasco oficial. Ele assumira seu posto no portão do jardim, à vista da barrazza mas fora do alcance de nossa conversa.

Com um gesto meu senhor convidou-me a aproximar-me e a provar as deliciosas carnes e frutos que haviam sido dispostos diante dele. Enquanto esperávamos que os efeitos de possíveis venenos se manifestassem sobre mim, discutimos em detalhe os negócios da manhã.

Ele me interrogou sobre a expedição à lagoa de Hapi e a grande caçada de hipopótamos. Descrevi-lhe tudo e dei-lhe o valor dos lucros que poderia obter com a venda da carne, do couro e dos dentes das vacas-do-rio. Exagerei um pouco em minhas estimativas, e ele mostrou seu sorriso franco e encantador. Quem já o viu compreende a capacidade de meu senhor Intef de manipular e controlar os homens. Mesmo eu, que já deveria estar acostumado, fui mais uma vez iludido por ele.

Quando ele mordeu um suculento pedaço de carne fria, inspirei fundo, juntei coragem e iniciei minha súplica:

— Meu senhor deve saber que permiti que sua filha me acompanhasse na expedição. — Pude ver em seu olhar que ele já sabia disso e pensava que eu tentaria lhe ocultar.

— Você não pensou em pedir minha autorização prévia? — perguntou suavemente.

Evitei seu olhar e concentrei-me em descascar uma uva para ele, enquanto respondia:

— Ela só me pediu quando já estávamos no local de partida. Como o senhor sabe, a deusa Hapi é sua protetora, e ela desejava venerá-la e oferecer sacrifício no templo da lagoa.

— Mas você não me pediu permissão! — ele repetiu, e ofereci-lhe a uva. Ele abriu os lábios e permitiu que eu a colocasse em sua boca. Aquilo só podia significar que estava de boa vontade em relação a mim, então obviamente ainda não havia descoberto toda a verdade sobre Tanus e Lostris.

Meu senhor estava em concilio com o nomarca de Assuan na

ocasião. Eu não ousaria perturbá-lo. Além disso, não havia qualquer perigo nisso. Era uma simples decisão doméstica que considerei abaixo de seu interesse.

— Você é tão loquaz, não é, meu querido? — Ele riu. — E está tão belo hoje. Gosto do modo como pintou suas pálpebras. E que perfume é esse que está usando?

— É destilado das pétalas de violetas selvagens — retruquei. — Fico feliz que o senhor goste, pois tenho um frasco dele para presentear ao senhor, meu amo. — Tirei o frasco de minha bolsa e ajoelhei-me para oferecê-lo. Meu amo colocou um dedo sob meu queixo e levantou-me o rosto para beijar-me nos lábios. Obedientemente, correspondi ao beijo até que ele recuou e afagou meu rosto.

— Seja o que for que esteja pretendendo, você ainda é muito atraente, Taita. Mesmo depois de tantos anos ainda consegue me fazer sorrir. Mas, diga-me, você cuidou bem da senhora Lostris, não foi? Não a deixou fora de vista nem por um momento?

— Como sempre, meu senhor — concordei com veemência.

— Então não há nada incomum a respeito dela que você gostaria de me relatar, há?

Eu ainda estava de joelhos diante dele, e minha próxima tentativa de falar fracassou. A voz secou-me na garganta.

— Não guinche para mim, meu querido. — Ele riu de novo. — Fale como um homem, embora não o seja.

Foi uma piada cruel, mas que me enrijeceu.

— De fato, há algo que desejo humildemente trazer à atenção de meu senhor — eu disse. — E de fato diz respeito à senhora Lostris. Como já relatei, a lua vermelha de sua filha ergueu-se pela primeira vez na cheia do grande rio. Desde então os cursos de sua lua têm fluído com força todos os meses.

Meu senhor fez um pequeno gesto de repulsa diante das funções corporais femininas. Achei aquilo irônico, considerando seu interesse pelos recônditos muito menos saborosos da anatomia masculina.

Apressei-me:

— A senhora Lostris está agora em idade de casar-se. É uma mulher de natureza ardente e amorosa. Acredito que seria sábio encontrar-lhe um marido assim que possível.

— Sem dúvida você quer sugerir alguém — ele afirmou secamente, e eu assenti.

— De fato há um pretendente, meu senhor.

— Um não, Taita. Você quer dizer mais um, não é? Conheço pelo menos seis, inclusive o nomarca de Assuan e o governador de Lot, que já me fizeram suas ofertas.

— Sim, eu quis dizer mais um, mas este é o que a senhora Lostris aprova. Como o senhor se lembrará, ela se referiu ao nomarca de Assuan como o "sapo gordo", e ao governador como o "bode velho rançoso".

— A aprovação ou reprovação da criança não me interessa absolutamente. — Ele balançou a cabeça, sorriu e afagou-me o queixo para me encorajar. — Mas continue, Taita, diga-me o nome desse belo enamorado que me dará a honra de tornar-se meu genro em troca do dote mais rico do Egito. — Eu me aprumei para responder, mas ele me deteve. — Não, espere! Deixe-me adivinhar...

Seu sorriso transformou-se naquele esgar insidioso que eu tão bem conhecia, e percebi que ele estivera brincando comigo.

— Para que Lostris o aceite, deve ser jovem e belo... — Ele fingiu pensar. — E para que você fale por ele deve ser um amigo ou um protegido seu. Deve ter havido uma oportunidade para que esse espécime perfeito declarasse suas intenções e lhe pedisse apoio. Quais seriam a hora e o lugar para isso acontecer, me pergunto? Poderia ter sido à meia-noite no templo de Hapi, talvez? Estou na pista certa, Taita?

Senti-me empalidecer. Como ele já sabia de tudo? O senhor Intef deslizou a mão ao redor do meu pescoço e acariciou-me a nuca. Esse costumava ser o prelúdio de seus atos amorosos, e ele beijou-me novamente.

— Vejo pela sua expressão que meu palpite chegou perto do alvo.

— Ele agarrou um chumaço dos meus cabelos e torceu-o ligeiramente.

— Agora falta apenas adivinhar o nome desse amante audacioso. Seria Dakka? Não, não, Dakka não é tão estúpido para desafiar minha raiva.

— Ele torceu meu cabelo com mais força, trazendo-me lágrimas aos olhos. — Kratas, então? Ele é belo e suficientemente tolo para correr esse risco. — Ele torceu com mais força e senti a mecha de cabelos soltar-se em sua mão com um ruído de rasgar. Sufoquei o gemido em minha garganta. — Responda, meu querido, foi Kratas? — Ele empurrou meu rosto para baixo sobre seu colo.

— Não, meu senhor — murmurei com dor. Não me surpreendeu descobrir que ele estava completamente excitado. Empurrou meu rosto sobre seu corpo e segurou-o ali.

— Não é Kratas, tem certeza? — Ele fingia estar surpreso. — Se não é Kratas, então não faço a menor idéia de quem possa ser tão insolente, atrevido e mortalmente estúpido de se aproximar da filha do grão-vizir do Alto Egito! — Subitamente, ele levantou a voz. — Rasfer!

Minha cabeça estava tão torcida em seu colo que através de meus olhos molhados pude ver Rasfer aproximar-se.

No zoológico do faraó na ilha Elefantina, em Assuan, havia um enorme urso negro trazido do Oriente por uma caravana muitos anos atrás.

A fera maligna e cheia de cicatrizes sempre me lembrava o comandante da guarda pessoal de meu senhor. Ambos tinham o mesmo corpanzil disforme, e uma força selvagem capaz de esmagar um homem até a morte. No entanto, o urso fora mais favorecido que Rasfer no que diz respeito à graça do rosto e à delicadeza de humor.

Vi Rasfer aproximar-se num trote surpreendentemente ágil para aquelas pernas grossas como troncos de árvore e o ventre inchado e peludo, e vi-me transportado muitos anos atrás, até o dia em que minha masculinidade fora extirpada.

Tudo parecia tão familiar, como se eu estivesse sendo forçado a reviver aquele dia terrível. Todos os detalhes ainda se mantinham tão claros em minha mente que eu quis gritar. Os atores daquela antiga tragédia eram os mesmos: meu senhor Intef, o bruto Rasfer e eu. Apenas a garota estava ausente.

Seu nome era Alyda, e tinha a mesma idade que eu, inocentes dezesseis anos. Como eu, era escrava. Lembro-me hoje de que era linda, mas talvez minha memória me engane, pois se o fosse teria sido enviada ao harém de uma das grandes casas, e não relegada à cozinha. Tenho certeza de que sua pele tinha a cor e o reflexo do âmbar polido, quente e macio ao toque. Jamais esquecerei a sensação do corpo de Alyda, pois nunca mais experimentarei algo parecido. Em nosso sofrimento, havíamos encontrado conforto e grande consolo um no outro. Nunca descobri quem nos traiu. Em geral não sou um homem vingativo, mas ainda sonho que um dia descobrirei a pessoa que nos denunciou.

Na época eu era o favorito de meu senhor Intef, seu queridinho. Quando ele descobriu que eu lhe fora infiel, a afronta à sua auto-estima o transportou às raias da loucura.

Rasfer viera nos prender. Arrastou-nos ao aposento de meu amo, um de nós em cada mão, com tanta facilidade como se fôssemos um casal de gatinhos. Lá ele nos despiu, enquanto meu senhor Intef sentava-se de pernas cruzadas no chão, como agora. Rasfer amarrou os pulsos e tornozelos de Alyda com ásperas tiras de couro. Ela ficou pálida, tremia, mas não chorava. Meu amor por ela e minha admiração por sua coragem jamais foram tão fortes quanto naquele momento.

Meu senhor Intef fez-me ajoelhar diante dele, cortou um cacho de meus cabelos e sussurrou carinhosamente:

— Você me ama, Taita?

Como eu sentia medo, e de alguma forma imprecisa achava que poderia poupar Alyda do sofrimento, respondi:

— Sim, meu senhor, eu o amo.

— Você ama alguém mais, Taita? — ele perguntou com a voz sedosa, e, covarde e traidor que eu era, respondi:

— Não, meu senhor é o único a quem amo.

Então ouvi Alyda começar a chorar. Foi um dos sons mais perturbadores que já ouvi. Ele ordenou a Rasfer:

— Traga aqui a prostituta. Coloque-a de modo que possam se ver claramente. Taita deve assistir a tudo o que for feito a ela.

Quando Rasfer arrastou a garota até meu campo de visão, pude ver que ele sorria. Meu senhor ergueu levemente a voz:

— Muito bem, Rasfer, pode prosseguir.

Rasfer passou um laço de couro pela testa de Alyda. A tira apresentava vários nós a intervalos pequenos, lembrando as faixas usadas na cabeça pelas beduínas. De pé atrás da menina, Rasfer enfiou um pequeno bastão de oliveira por baixo do laço e torceu-o até ele se apertar contra a pele macia. Os nós morderam a carne de Alyda, que fez um esgar de dor.

— Lentamente, Rasfer — meu senhor advertiu-o. — Temos muito tempo pela frente.

O bastão de oliveira parecia um brinquedo nas mãos enormes e peludas de Rasfer. Ele o torcia com cuidadosa deliberação, um quarto de volta por vez. Os nós aprofundaram-se, a boca de Alyda escancarou-se e seus pulmões se esvaziaram num sopro engasgado. Sua pele ficou desbotada como cinzas frias. Ela lutava para encher os pulmões de ar e então o soltava com um grito longo e penetrante.

Ainda sorrindo, Rasfer torceu o bastão e a fileira de nós enterrou-se ainda mais na testa de Alyda. Seu crânio deformou-se. A princípio pensei que fosse um engano de minha mente extenuada, mas então percebi que sua cabeça estava realmente se contraindo e alongando ao aperto do laço. Seu grito era agora um ganido contínuo que se enterrou em meu coração como uma espada. E prosseguiu incessantemente, parecendo durar para sempre.

Então o crânio explodiu. Escutei o osso ceder com o som de um coco sendo esmagado na mandíbula de um elefante. O grito terrível e perfurante parou abruptamente, enquanto o cadáver de Alyda balançou nas mãos de Rasfer e minha alma transbordou de dor e desespero.

Depois do que pareceu uma eternidade, meu senhor ergueu minha cabeça e olhou-me nos olhos. Sua expressão era de tristeza e remorso quando me disse:

— Ela se foi, Taita. Ela era má e o fez perder-se. Devemos nos certificar de que isso nunca mais aconteça. Devemos protegê-lo de novas tentações.

Ele gesticulou novamente para Rasfer, que arrastou o corpo nu de Alyda, pelos calcanhares, até o terraço. Sua cabeça esmagada bateu pelos degraus, arrastando atrás os cabelos. Com um impulso dos ombros possantes, Rasfer atirou-a longe, no rio. Seus membros finos se agitaram quando ela caiu na água e afundou suavemente, os cabelos espalhados como ervas ribeirinhas.

Rasfer virou-se e foi até a extremidade do terraço, onde dois de seus homens cuidavam de um braseiro. Ao lado dele, numa bandeja de madeira, havia um conjunto de instrumentos cirúrgicos. Ele examinou-os e assentiu, satisfeito. Voltando, inclinou-se diante de meu senhor Intef.

— Está tudo preparado.

Com um dedo, meu amo enxugou-me o rosto raiado de lágrimas e então colocou o dedo sobre os lábios, como que para sentir o gosto de minha dor.

— Venha, meu lindo amigo — ele sussurrou, levantando-me, e conduziu-me para o terraço. Eu estava tão perturbado e cego pelas lágrimas que não percebi meu próprio perigo até que os soldados me agarraram. Atiraram-me ao chão e seguraram-me estendido sobre as lajotas de cerâmica, segurando meus pulsos e tornozelos de modo que eu só podia mover a cabeça.

Meu senhor ajoelhou-se junto à minha cabeça, enquanto Rasfer abaixou-se entre minhas pernas abertas.

— Nunca mais você fará essa coisa horrível, Taita.

Só então me dei conta do escalpelo de bronze que Rasfer tinha escondido na mão direita. Meu amo assentiu com um gesto de cabeça, então Rasfer estendeu a mão livre, agarrou-me e esticou-me até eu sentir que me estavam arrancando as entranhas pela virilha.

— Que belo par de ovos temos aqui! — Rasfer sorriu e mostrou-me o escalpelo, segurando-o diante de meus olhos. — Mas vou dá-los aos crocodilos, assim como fiz com sua namorada. — Ele beijou a lâmina.

— Por favor, meu senhor, tenha piedade... — supliquei, mas meu apelo terminou num grito agudo quando Rasfer acionou a lâmina. Senti como se um espeto em brasa houvesse sido enfiado no meu ventre.

— Diga adeus a eles, garoto bonito. — Rasfer exibiu o saco de pele pálida e enrugada e seu conteúdo patético. Então começou a levantar-se, mas meu senhor o deteve.

— Ainda não terminou — disse calmamente a Rasfer. — Quero tudo. Rasfer olhou-o por um momento, sem compreender a ordem. Então

começou a rir até que sua barriga tremeu.

— Pelo sangue de Hórus — ele rugiu —, de agora em diante o rapaz bonito terá de se agachar como uma menina quando quiser mijar!

Ele golpeou novamente e depois gargalhou, segurando o dedo de carne que fora a parte mais íntima de meu corpo.

— Não se incomode, rapaz. Será muito mais cômodo caminhar sem esse peso para carregar. — Sem parar de rir, ele foi até a beira do terraço para atirar minhas partes ao rio, mas meu amo mais uma vez o deteve.

— Dê-me isso aqui! — ele ordenou, e Rasfer obedientemente colocou em suas mãos os fragmentos de minha masculinidade. Durante alguns segundos meu senhor Intef examinou-os com curiosidade, então falou para mim: — Não sou tão cruel a ponto de privá-lo para sempre desses belos troféus, meu querido. Vou enviá-los aos embalsamadores, e quando ficarem prontos mandarei colocá-los num colar, rodeados de pérolas e lápis-lazúli. Serão meu presente a você no próximo festival de Osíris. Assim, no dia de seu enterro poderão ser colocados em sua tumba, e se os deuses forem bons você poderá usá-los na outra vida.

Essas terríveis lembranças deveriam ter terminado no momento em que Rasfer estancou meu sangue com a laça fervente que pegou no braseiro, e eu mergulhei em abençoada inconsciência pela intensidade insuportável da dor, mas agora eu estava enredado no pesadelo. Tudo acontecia de novo. Só que desta vez Alyda estava ausente, e em vez da faca afiada Rasfer segurava no punho cabeludo o chicote de couro de hipopótamo.

O açoite era tão longo quanto os braços de Rasfer abertos e sua ponta tinha a espessura de seu dedo mínimo. Eu o havia visto prepará-lo pessoalmente, raspando a camada externa mais grossa da longa tira de couro curtido, até expor a pele interna, parando periodicamente para testar seu equilíbrio e sua empunhadura, cortando com ele o ar até que sibilou como o vento do deserto nos desfiladeiros das montanhas de Lot. Tinha cor de âmbar, e Rasfer o havia encerado carinhosamente até ficar macio e translúcido como vidro, mas tão flexível que se curvava num arco perfeito entre aquelas patas de urso. Ele deixara o sangue de uma centena de vítimas secar-se nele, tingindo a ponta aguçada de uma patina lustrosa que era esteticamente maravilhosa.

Rasfer era um artista com seu terrível instrumento. Era capaz de brandi-lo e deixar na coxa macia de uma jovem apenas uma marca púrpura que não chegava a romper a pele, mas doía como uma picada de escorpião, fazendo a vítima chorar e estremecer de agonia; ou com uma dezena de golpes sibilantes podia arrancar a pele e a carne das costas de um homem, deixando-lhe expostas as costelas e a espinha.

Ele estava parado sobre mim agora e sorriu ao flexionar nas mãos o longo açoite. Rasfer amava seu trabalho, e odiava-me com toda a força de sua inveja e a sensação de inferioridade que lhe provocavam minha inteligência e minha beleza.

Meu senhor Intef afagou minhas costas nuas e suspirou.

— Você é tão mau às vezes, meu querido. Tenta enganar a quem deve a mais profunda lealdade. Não, mais que simples lealdade... a quem deve a própria existência. — Suspirou novamente. — Por que me obriga a essas coisas desagradáveis? Deveria pensar melhor antes de tentar me impingir aquele macaco arrogante. Foi uma idéia ridícula, mas acho que compreendo sua intenção. Esse senso de compaixão infantil é uma de suas muitas fraquezas, e um dia provavelmente será a causa de sua ruína completa. No entanto, às vezes acho-o bastante extraordinário e enternecedor, e poderia facilmente perdoá-lo, mas não posso desprezar o fato de que colocou em risco o valor de mercado dos bens que depositei sob seu cuidado. — Ele virou minha cabeça para que minha boca pudesse responder-lhe. — Deve ser punido por isso. Compreende?

— Sim, meu senhor — sussurrei, revirando os olhos para ver o chicote nas mãos de Rasfer. Mais uma vez meu senhor Intef enterrou meu rosto em seu colo, e então falou para Rasfer:

— Com toda a perícia, Rasfer. Não rasgue a pele, por favor. Não quero estas costas deliciosamente macias marcadas permanentemente. Dez bastarão para começar. Conte-as em voz alta para nós.

Eu havia visto mais de cem infelizes ser submetidos a esse castigo, alguns deles famosos guerreiros e heróis. Nenhum fora capaz de permanecer em silêncio sob o açoite de Rasfer. De qualquer modo, era melhor não o fazer, pois ele tomava o silêncio como um desafio pessoal à sua habilidade. Eu sabia disso, por ter percorrido antes aquele amargo caminho. Estava preparado para engolir qualquer orgulho idiota e pagar tributo, aos gritos, à arte de Rasfer. Enchi os pulmões antecipadamente.

— Uma! — grunhiu Rasfer, e a chibata cantou. Assim como as mulheres depois esquecem a intensidade da dor do parto, eu havia esquecido aquela dor requintada e gritei mais alto do que pretendera.

— Você é afortunado, querido Taita — o senhor Intef murmurou ao meu ouvidc Mandei os sacerdotes de Osíris examinar a mercadoria ontem à noite Continua intacta.

Eu me contorci em seu colo. Não apenas de dor, mas também pela idéia daqueles bodes lascivos do templo manipulando minha garotinha.

Rasfer tinha seu ritual particular para executar a punição e garantir que tanto ele quanto sua vítima pudessem saborear completamente o momento. Entre cada chicotada ele corria num pequeno círculo ao redor da barrazza, resmungando exortações e incentivos para si mesmo, levantando o chicote no ar como se fosse uma espada cerimonial. Quando completou o círculo estava a postos para mais um golpe, erguendo a chibata.

— Duas! — ele gritou, e eu guinchei novamente.

Uma das escravas de Lostris esperava-me no amplo terraço de meu apartamento quando subi dolorosamente os degraus, vindo do jardim.

— Minha senhora pede que vá vê-la imediatamente — ela falou.

— Diga-lhe que estou indisposto — recusei a convocação, e, gritando por um dos meninos escravos para cuidar de meus ferimentos, corri para o quarto, na esperança de me livrar da garota.

Ainda não poderia encarar Lostris, pois temia relatar meu fracasso, tendo de fazê-la encarar finalmente a realidade de que seu amor por Tanus era impossível. A menina negra seguiu-me, inspecionando as marcas lívidas em minhas costas com um horror curioso.

— Diga a sua senhora que estou machucado e não irei vê-la — eu disse por cima do ombro.

— Ela me avisou que o senhor tentaria se safar, e que eu deveria ficar aqui até que concordasse.

— Você é insolente para uma escrava — censurei-a asperamente, enquanto o menino untava minhas costas com uma substância cicatri-zante que eu mesmo inventara.

— Sim — concordou a menina com um sorriso. — Mas o senhor também é. — E ela evitou com facilidade o tapa que lhe dirigi sem muito empenho. Lostris é demasiado branda com suas criadas.

— Diga à sua senhora que irei vê-la — capitulei.

— Ela me mandou esperar para garantir que o senhor vá.

A escrava me escoltou até passarmos pelos guardas no portão do harém. Estes eram eunucos como eu, mas, ao contrário de mim, gordos e de aspecto andrógino. Apesar de sua corpulência, ou talvez por causa disso, eram homens fortes e truculentos. No entanto, eu usara minha influência para colocá-los naquela agradável sinecura, por isso me fizeram entrar nos alojamentos femininos com uma saudação respeitosa.

O harém não era tão grande ou confortável quanto os aposentos dos rapazes escravos, o que tornava evidentes os verdadeiros interesses de meu senhor. Era um conjunto de casinhas de tijolos, rodeado por um alto muro de barro. Os únicos jardins e decorações eram os que Lostris e suas aias haviam realizado, com minha assistência. As esposas do vizir eram gordas e preguiçosas, e demasiadamente envolvidas nas intrigas do harém para se darem a esse trabalho.

Os apartamentos de Lostris eram os mais próximos do portão principal, rodeados por um bonito jardim com um laguinho de lírios d'água e gaiolas de bambu com pássaros canoros. As paredes de barro eram decoradas com murais de vistosas cenas do Nilo que eu ajudara a pintar, representando peixes, aves e deusas.

As escravas estavam agrupadas à entrada, com aspecto tristonho, e mais de uma estivera chorando. Tinham os rostos marcados de lágrimas. Passando por elas, entrei no cômodo escuro e fresco e imediatamente ouvi os soluços de minha ama, vindos do quarto interno. Corri até ela, envergonhado de ter sido tão covarde e tentar evitá-la.

Ela estava deitada de bruços na cama baixa e todo o seu corpo tremia sob a força da dor, mas ao ouvir-me entrar saltou da cama e correu para mim.

— Oh, Taita! Querem mandar Tanus embora. O faraó chegará a Karnak amanhã e meu pai lhe pedirá que mande Tanus levar a esquadra até Elefantina e as cataratas. Oh, Taita! São vinte dias de viagem até a primeira catarata. Nunca mais o verei. Desejo morrer. Vou me atirar no Nilo e deixar que os crocodilos me devorem. Não quero viver sem Tanus... — Tudo isso com fortes gemidos de desespero.

— Calma, minha criança. — Eu a aninhei em meus braços. — Como sabe essas coisas terríveis? Talvez não aconteçam.

— Ah, vão acontecer. Tanus me mandou um recado. Kratas tem um irmão na guarda pessoal de meu pai que o ouviu discutir tudo com Rasfer. De alguma forma meu pai descobriu sobre Tanus e eu. Ele sabe que estivemos sozinhos no templo de Hapi. Oh, Taita, meu pai enviou os sacerdotes para me examinar. Aqueles velhos nojentos fizeram coisas horríveis comigo. Dói tanto, Taita!

Enlacei-a delicadamente. Não tenho essa oportunidade com freqüência, mas agora ela me abraçava com toda a força. Seu pensamento voltou-se dos próprios ferimentos para o namorado.

— Nunca mais verei Tanus — ela chorava, e lembrei-me de como era jovem, pouco mais que uma criança, vulnerável e perdida em sua tristeza. — Meu pai o destruirá.

— Nem mesmo seu pai pode tocar em Tanus — tentei acalmá-la. — Ele é o comandante de um regimento de elite do faraó. É um dos homens do rei. Tanus recebe ordens apenas do faraó, e está sob a proteção da dupla coroa egípcia. — Não mencionei que essa era provavelmente a única razão pela qual o pai de Lostris ainda não o havia destruído. Continuei suavemente: — Quanto a nunca mais ver Tanus, você estará atuando ao lado dele na representação. Vou dar um jeito para que vocês dois possam conversar nos ensaios.

— Meu pai jamais nos deixará participar da peça.

— Ele não tem alternativa, a menos que esteja preparado para estragar minha produção e correr o risco de desagradar ao faraó, e pode ter certeza de que não fará isso.

— Ele mandará Tanus embora e arranjará outro para o papel de Hórus — ela soluçou.

— Não há tempo para ensaiar outro ator. Tanus fará o deus Hórus. Deixarei isso claro ao meu senhor Intef. Você e Tanus terão a oportunidade de conversar. Encontraremos uma solução.

Ela engoliu as lágrimas e olhou para mim com total confiança.

— Oh, Taita, sei que você encontrará um meio. Você sempre encontra... Lostris parou subitamente e mudou de expressão. Suas mãos alisaram minhas costas, explorando as saliências deixadas pelo chicote de Rasfer.

— Sinto muito, senhora. Tentei defender o caso de Tanus, como lhe prometi, e essa foi a conseqüência de minha estupidez.

Ela passou para trás de mim e levantou a túnica de linho fino que eu vestira para esconder os machucados.

— Isso foi obra de Rasfer — afirmou Lostris. — Oh, meu pobre e querido Taita, por que não me avisou que isso aconteceria, que meu pai se opõe com tanta violência a Tanus e a mim?

Eu estava decidido a não reagir àquela afronta inocente, eu que os havia advertido e em troca fora acusado de deslealdade. Consegui manter a calma, porém, apesar de minhas costas ainda doerem terrivelmente.

Pelo menos a tristeza de minha própria ama fora esquecida por um instante, em sua preocupação por meus ferimentos superficiais. Ela me mandou sentar em sua cama e tirar a túnica para que me tratasse, substituindo a falta de habilidade médica por seu verdadeiro amor e sua compaixão. A distração a tirou das profundezas de seu desespero. Logo estava tagarelando a seu modo efervescente, fazendo planos para domar a ira de seu pai e reunir-se a Tanus.

Alguns desses planos demonstravam seu bom senso, enquanto outros, mais mirabolantes, indicavam apenas sua juventude confiante e falta de conhecimento e experiência sobre os meios tortuosos do mundo.

— Representarei tão bem Isis na peça — ela afirmou a certa altura — e serei tão encantadora com o faraó que ele me concederá qualquer recompensa que eu pedir. Então suplicarei que Tanus seja meu marido e ele dirá... — aqui ela imitou com tamanha semelhança o tom pomposo e cerimonial do rei que fui obrigado a sorrir — Anuncio o noivado de Tanus, senhor Harrab, filho de Pianki, e da senhora Lostris, filha de Intef, e elevo meu bom servidor Tanus ao título de Grande Leão do Egito e comandante de todos os meus exércitos. Ordeno ainda que todas as antigas propriedades de seu pai, o nobre Pianki, senhor Harrab, lhe sejam devolvidas..." — Nesse ponto ela interrompeu seus cuidados a meus ferimentos e abraçou meu pescoço. — Isso pode acontecer, não é, meu querido Taita? Por favor, diga que sim!

— Nenhum homem poderia resistir-lhe, senhora. — Eu sorri diante de sua inocência. — Nem mesmo o grande faraó.

Se eu soubesse então como minhas palavras se tornariam verdadeiras, acho que teria colocado uma brasa acesa em minha língua antes de pronunciá-las.

O rosto de Lostris novamente brilhava de esperança. Aquilo era o suficiente para recompensar-me, e baixei a túnica para encerrar seus entusiásticos cuidados às minhas costas.

— Mas agora, senhora, se quiser ser uma linda e irresistível Isis, deve descansar.

Eu trouxera comigo uma poção do pó da flor vermelha calmante, chamada sheppen

Nota: Provavelmente a papoula, originária do Oriente Médio, de cujas sementes se extraem substâncias entorpecentes como a morfina e a heroína. (N. do T.). As sementes dessa bela flor haviam sido introduzidas no Egito pelas caravanas de mercadores de uma terra montanhosa do Oriente longínquo. Eu as cultivava em meu jardim e, quando as pétalas caíam, raspava a carapaça das sementes com um garfo de ouro de três dentes. Um leite branco e espesso escorria dos sulcos, o qual eu recolhia e secava de acordo com a fórmula que inventara. O pó provocava sono, produzia estranhos sonhos e amortecia a dor.

Fique comigo mais um pouco, Taita — ela murmurou acomodando-se na cama, enovelada como um gatinho sonolento. — Me embale para dormir como quando eu era bebê. — Ela ainda era um bebê, pensei, tomando-a nos braços. — Tudo vai dar certo, não vai? — sussurrou Lostris.

Viveremos felizes para sempre, como nas histórias, não é, Taita?

Quando ela adormeceu, beijei suavemente sua fronte e cobri-a com uma pele antes de me esgueirar do quarto.

No quinto dia do festival de Osíris, o faraó desceu o rio até Karnak, de seu palácio na ilha Elefantina, que ficava a dez dias de viagem numa galé rápida. Veio com toda a pompa, completamente paramentado, para oficiar no festival ao deus. A esquadra de Tanus deixara Karnak três dias antes, acelerando corrente acima para encontrar a grande frota e escoltá-la na última etapa da viagem, de modo que nem Lostris nem eu o havíamos avistado desde o retorno da grande caçada aos hipopótamos. Foi uma alegria especial, portanto, vermos sua galé surgir veloz na curva do rio, em plena correnteza e com o forte vento do deserto pela popa. O Sopro de Hórus vinha à frente da frota, conduzindo-a desde o sul.

Lostris estava no séquito do grão-vizir, entre seus irmãos, Menset e Sobek. Os dois garotos eram bonitos e elegantes, mas para meu gosto pareciam-se demasiado com o pai. Menset, o mais velho, causava-me especial desconfiança e o mais novo o acompanhava em tudo.

Eu estava de pé mais atrás, junto aos cortesãos e funcionários subalternos, de onde podia observar tanto Lostris quanto meu senhor Intef. Vi a nuca da garota ruborizar-se de prazer e excitação ao avistar a figura altiva de Tanus na torre do Sopro de Hórus. As escamas em sua armadura de crocodilo reluziram ao sol e o tufo de plumas de avestruz de seu capacete flutuou ao vento quando a galé passou.

Lostris saltou excitada e acenou com os dois braços, mas seus gritos e apupos perderam-se no fragor da multidão que se alinhava em ambas as margens do Nilo para receber o faraó. Tebas é a cidade mais populosa do mundo, e calculo que um quarto de milhão de almas havia acorrido para saudar o rei.

Tanus não olhou para nenhum dos lados, voltado para a frente com concentração, a espada desembainhada diante do rosto em continência. O resto da esquadra seguia o Sopro de Hórus num grande "V", a formação das garças, assim batizada pelo modo como essas aves voam ao retornar para os ninhos no fim do dia. Todos os estandartes e flâmulas de batalha estavam expostos, numa esfuziante profusão de cores, um espetáculo régio que fazia a multidão aplaudir e agitar freneticamente folhas de palmeira.

Passou-se algum tempo até que o primeiro navio do comboio principal surgiu, contornando a curva atrás deles. Estava carregado de senhoras e nobres do círculo do rei. Seguia-o outro, e atrás vinha uma horda desordenada de grandes e pequenas embarcações. Enxameavam corrente abaixo, lotadas de criados palacianos e escravos, com toda a sua parafernália de equipamentos, balsas carregadas de bois, cabras e galinhas para as cozinhas, barcos dourados e coloridos cheios de mobília e tesouros do palácio, nobres e plebeus, todos desconfortavelmente amontoados de maneira nada apropriada. Que contraste fazia a exibição preparada pela esquadra de Tanus quando acercou-se, mantendo a formação geométrica contra a veloz correnteza do Nilo!

Afinal a nave oficial do faraó deslizou lentamente pela curva e os aplausos da multidão se intensificaram. O imenso barco, o maior jamais construído pelo homem, abria caminho portentosamente até o lugar onde esperávamos para recebê-lo, o cais de pedra próximo ao palácio do grão-vizir.

Tive bastante tempo para examiná-lo e divagar que seu tamanho e suas linhas, e a forma como o manobravam, refletiam o atual governo do nosso Egito — que se encontrava no décimo segundo ano de reinado do faraó Mamose, o oitavo desse nome e da mesma linhagem e o mais fraco de uma dinastia frágil e vacilante. A nave oficial era tão comprida quanto cinco galés de combate alinhadas, mas sua altura e largura eram tão desproporcionais que ofendiam gravemente meu instinto artístico. O casco maciço fora pintado nas cores berrantes da moda e a figura de Osíris na proa era folheada a ouro verdadeiro. No entanto, quando ela se aproximou do ponto de atracação, onde aguardávamos, vi que as cores fortes haviam desbotado em alguns pontos e os costados estavam listrados como zebras onde a tripulação havia defecado sobre a amurada.

A meio convés erguia-se uma alta construção com os aposentos privados do faraó, feita solidamente de tábuas grossas de maravilhoso cedro e tão recheada de móveis pesados que as características de navegação do navio foram seriamente afetadas. Sobre esse grotesco edifício, por trás de um parapeito esculpido, que fora decorado com lírios frescos, sob um dossel de peles de gazela finamente curtidas, costuradas e pintadas com imagens dos principais deuses e deusas, sentava-se o faraó em majestoso isolamento. Tinha nos pés sandálias de filigrana dourado, e sua veste era de linho tão puro, que reluzia como os altos cúmulos em pleno verão. Ele usava na cabeça a alta coroa dupla: a coroa branca do Alto Egito, com a cabeça de abutre da deusa Nekhbet, unida à coroa vermelha com a cabeça de cobra de Buto, a deusa do delta.

Apesar da coroa, a verdade irônica era que nosso amado soberano havia perdido o delta quase dez anos antes. Em nossa época turbulenta, outro faraó reinava no Baixo Egito, o qual usava igualmente a dupla coroa, ou pelo menos sua própria versão dela — um farsante que era adversário mortal de nosso soberano e cujas constantes guerras contra nós dilapidavam ambos os reinos de ouro e de sangue jovem. O Egito estava dividido e dilacerado pela luta interna. Nos cerca de mil anos de nossa história, sempre fora assim quando homens fracos assumiam o manto faraônico. Era preciso um homem forte, ousado e inteligente para dominar os dois reinos.

Para manobrar o enorme navio na correnteza e trazê-lo até o cais junto ao palácio, o capitão deveria tê-lo levado mais perto da margem oposta. Se o fizesse, teria toda a largura do Nilo para completar a manobra. No entanto, ele avaliara mal a força do vento e da correnteza e começara a curva no meio do rio. A princípio o barco balançou-se perigosamente na correnteza, inclinando-se bastante quando o peso do camarote real captou o vento do deserto como uma vela. Meia dúzia de contramestres agitavam-se no convés inferior brandindo os chicotes, cujos estalos sobre os ombros nus eram transportados nitidamente sobre a água.

Sob o estímulo do Iátego, os remeiros movimentavam suas pás num frenesi que fazia espumar a água nas laterais do navio — cem remos de cada lado batendo uns nos outros, nenhum deles esforçando-se para sincronizar o ritmo. Seus gritos e impropérios mesclavam-se às ordens gritadas pelos quatro pilotos que lutavam com o longo leme na popa. Enquanto isso, no convés de popa, Nembet, o geriátrico almirante e capitão da embarcação, alternadamente penteava com os dedos a longa e hirsuta barba e gesticulava numa agitação impotente.

Bem acima desse pandemônio ia o faraó, imóvel como uma estátua e alheio a tudo. Ah, realmente aquele era o nosso Egito!

Então o ritmo da manobra do navio se impôs e ele não mais oscilava, mas rumava diretamente para onde nos encontrávamos, na margem, apanhado pela força da correnteza e o empuxo contrário do vento. O capitão e a tripulação, apesar dos esforços desesperados e erráticos, pareciam impotentes para completar a manobra e conduzi-lo pela corrente, ou para deter o barco e evitar que mergulhasse de bico nos blocos de granito do cais, destroçando a grande proa dourada.

Quando todos perceberam o que estava prestes a acontecer, os gritos da multidão cessaram gradualmente e um silêncio de terror desceu sobre as duas margens do Nilo, fazendo ouvir com maior clareza a gritaria e a confusão nos conveses da enorme nave.

De repente todos os olhares foram atraídos corrente abaixo, quando o Sopro de Hórus rompeu a formação da esquadra e veio singrando rio acima, impelido pelo remos ágeis. Em perfeito uníssono, as pás mergulhavam e empurravam, giravam no ar e mergulhavam novamente. Ele passou tão perto da proa do outro navio que arrancou da multidão um "Ah!" mais forte que o vento nas moitas de papiro. A colisão parecia inevitável, mas no último instante possível Tanus brandiu o punho cerrado sobre a cabeça. Ao mesmo tempo, os dois bancos de remeiros deram retrocesso e o piloto empurrou a grande pá do leme com toda a força.

O Sopro de Hórus estancou antes do avanço portentoso da embarcação real. As duas naves tocaram-se de leve, como um beijo virginal, e por um instante a torre de popa do Sopro de Hórus ficou quase nivelada ao convés principal do outro navio.

Naquele momento Tanus postou-se sobre a balaustrada da torre. Havia chutado as sandálias, despido a armadura e deixado de lado as armas. Amarrara na cintura uma corda de sisal longa e flexível, que se estendeu no espaço quando ele saltou o vão entre os dois barcos.

Como que despertando do estupor, a multidão agitou-se. Se ainda houvesse um dentre eles que não soubesse quem era Tanus, sabê-lo-ia agora até o final do dia. A fama de Tanus já se firmara nas guerras fluviais contra as legiões do usurpador do Baixo Reino. No entanto, apenas suas próprias tropas o haviam visto em ação, e os fatos relatados nunca têm o mesmo peso daquilo que se presencia pessoalmente.

Naquele momento, diante do olhar do faraó, da flotilha real e de toda a população de Karnak, Tanus saltou de um convés para o outro e pousou com a suavidade de um leopardo.

— Tanus!

Tenho certeza de que foi minha senhora Lostris quem primeiro chamou seu nome, mas eu fui o segundo.

— Tanus! — gritei, e então todos a meu redor acompanharam o grito.

— Tanus! Tanus! Tanus! — entoou a multidão, como numa ode a algum deus recém-descoberto.

No momento em que aterrissou no convés do navio real, Tanus correu para a proa, puxando a corda. A tripulação de sua galé havia amarrado outra corda forte, grossa como um braço, à extremidade da mais fina que Tanus carregava. Então eles a atiraram para Tanus, que se vergou sob seu peso. Com os músculos das costas e dos braços brilhando de suor, ele a puxou.

A essa altura, um grupo de tripulantes da nave real já compreendera o plano e correu para ajudá-lo. Sob a direção de Tanus, eles deram três voltas com a corda grossa ao redor do mastro de proa do navio, e no momento em que a amarra se firmou Tanus deu sinal para sua galé afastar-se.

O Sopro de Hórus zarpou na correnteza, ganhando velocidade rapidamente. Então o cordame se estendeu e o peso do navio maior na outra ponta o fez estancar com um tranco. Por um momento pensei que fosse emborcar e ser arrastado para o fundo, mas Tanus havia previsto o golpe e indicara habilmente à sua tripulação como amortecê-lo, erguendo os longos remos.

Apesar de a galé afundar tanto que a água verde inundou sua popa, ela suportou o puxão violento, voltou à tona e novamente esticou a corda. Por um longo momento nada aconteceu. O peso reduzido da galé pouco influía no avanço poderoso do grande navio. Os dois barcos ficaram travados como um crocodilo que tivesse agarrado um búfalo pelo focinho, sem conseguir arrastá-lo barranco abaixo. Então Tanus, na proa da embarcação do faraó, virou-se para a tripulação em pânico. Fez um gesto autoritário que capturou sua atenção e uma mudança notável ocorreu entre eles. Aguardavam seu comando.

Nembet era o comandante de toda a frota faraônica, com o título de Grande Leão do Egito. Anos atrás ele fora um homem poderoso, mas agora estava velho e frágil. Tanus o substituiu sem esforço, de maneira tão natural quanto a força da correnteza e do vento, e a tripulação reagiu sem vacilar.

— A frente! — Ele gesticulou para o banco de remeiros a bombordo e todos vergaram as costas, empurrando com vontade.

— Recuar! — Tanus ergueu o punho para o banco de estibordo, e eles seguraram firmemente as pontas dos remos mergulhadas na água.

Tanus subiu na amurada e fez um sinal para o homem ao leme do Sopro de Ho'rus, coordenando magistralmente ambas as tripulações. Mas o navio do faraó continuava rumando em direção ao cais e apenas uma estreita faixa de água o separava dos blocos de granito.

Finalmente, com muita lentidão, ele passou a reagir. A proa festivamente decorada começou a balançar na correnteza, puxada pela galé. Mais uma vez a multidão calou-se e um silêncio fatídico nos envolveu, todos esperando que o enorme navio se espatifasse no cais de pedra. Se isso acontecesse, não havia dúvida das conseqüências que traria para Tanus. Ele havia roubado o comando do almirante senil e assumira toda a responsabilidade pelos erros do velho. Quando o faraó voasse de seu trono devido à colisão, quando a dupla coroa e toda a sua dignidade rolassem pelo convés, quando o navio oficial afundasse e o rei fosse arrastado pelo rio como um cachorrinho, afogando-se diante de todos os seus súditos, tanto o almirante insultado como meu senhor Intef incentivariam o faraó a lançar todo o peso de sua ira sobre o jovem presunçoso.

Eu observava impotente e tremia por meu querido amigo, mas então ocorreu um milagre. O navio real estava tão perto de chocar-se com a terra e Tanus tão próximo de onde eu me encontrava que pude ouvir claramente sua voz:

— Grande Hórus, ajude-me agora!

Não tenho a menor dúvida de que os deuses muitas vezes interferem nos assuntos humanos. Tanus é um filho de Hórus, e Hórus é o deus do vento.

O vento do deserto havia soprado de oeste durante três dias e três noites, da banda do inóspito Saara. Soprara sem parar com a força de meio vendaval todo esse tempo, mas então cessou. Não se reduziu; simplesmente parou de soprar. As marolas que haviam pontilhado a superfície do rio desapareceram, e as palmeiras na margem, que balançavam vigorosamente as frondes, estancaram como que congeladas por uma geada súbita.

Livre das garras do vento, o navio estabilizou-se e cedeu à força do Sopro de Hórus. Sua gigantesca proa ergueu-se na correnteza e ele ficou paralelo ao cais no exato instante em que sua lateral encostou na pedra e o fluxo do Nilo deteve seu avanço, deixando-o imóvel na água.

Tanus deu uma última ordem e, antes que o navio pudesse recuar para estibordo, os cordames foram atirados ao cais e agilmente recolhidos por mãos ávidas que os amarraram aos mourões de pedra no cais. Leve como uma pluma de ganso a flutuar, o grande navio real repousava a salvo e tranqüilo no molhe, e nem o trono onde se sentava o faraó nem a alta coroa em sua cabeça haviam sido perturbados pela manobra.

O público irrompeu num rugido de ovação pelo feito, e o nome de Tanus se ouvia em todas as bocas, em vez daquele do faraó. Com modéstia e muita prudência, Tanus fingiu não reconhecer o aplauso. Atrair mais atenção para si, deslocando-a da recepção organizada para o rei, seria realmente insensato, e com certeza teria afastado qualquer favor que lhe era devido por sua façanha. O faraó era sempre zeloso de sua dignidade real. Tanus sinalizou sorrateiramente para que o Sopro de Hórus se aproximasse. Quando este se ocultou de nós, colocando-se por trás do navio do faraó, Tanus saltou para o convés da galé, abandonando o palco em que conquistara o destaque e deixando-o para seu rei.

No entanto, eu vi a expressão de fúria e ciúme no rosto de Nembet, o velho almirante, o Grande Leão do Egito, quando ele desembarcou atrás do faraó, e percebi que Tanus ganhara mais um inimigo poderoso.

Cumpri a promessa que fizera a Lostris naquela mesma noite, quando convoquei o último ensaio da representação teatral. Antes de iniciá-lo, deixei os dois a sós durante quase uma hora. No precinto do templo de Osíris, que seria o palco do espetáculo, eu havia armado tendas que serviriam de vestiário para os atores principais. Propositadamente, eu colocara a de Lostris um pouco afastada das outras, velada por uma das enormes colunas de pedra que sustentavam o teto do templo. Enquanto eu montava sentinela na entrada da tenda, Tanus ergueu o pano do lado oposto e esgueirou-se para dentro.

Tentei não ouvir os gemidos de prazer quando se beijaram pela primeira vez, nem os murmúrios, os risos abafados e dos leves soluços do discreto encontro de amor que se seguiu. Nessa altura eu não faria mais qualquer tentativa para impedi-lo, mas estava convencido de que eles não levariam o ato às últimas conseqüências. Muito depois, Lostris e Tanus separadamente o confirmaram para mim. Minha senhora ainda seria virgem no dia de seu casamento. Se algum de nós soubesse quão próxima estava essa data, imagino que teríamos agido de maneira diferente.

Apesar de minha aguda consciência de que cada minuto que passavam a sós naquela tenda aumentava o perigo para todos nós, não consegui chamá-los e pôr fim ao encontro. Por mais que as feridas que Rasfer fizera em minhas costas ainda queimassem e embora a inveja dos amantes ardesse dolorosamente no pântano de minha alma onde tento sufocar os pensamentos e instintos indignos, deixei-os ficar juntos por muito mais tempo do que deveria.

Não ouvi meu senhor Intef chegar. Ele costumava envolver as sandálias em macio couro de bezerro para abafar suas passadas. Movia-se silenciosamente como um fantasma, e vários cortesãos e escravos haviam sentido o chicote ou o torniquete de Rasfer por causa de uma palavra descuidada que meu amo escutara em suas peregrinações pelos salões e corredores do palácio. No entanto, com os anos eu desenvolvera um instinto que me permitia com freqüência sentir sua presença antes que se materializasse das sombras. Não era um instinto infalível, mas naquela noite me foi de boa serventia. Quando subitamente olhei em volta ele estava quase ao meu lado, deslizando entre os pilares na minha direção, magro, alto e mortífero como uma serpente ereta.

— Meu senhor Intef! — gritei alto o suficiente para assustar a mim mesmo. — Estou honrado que tenha vindo observar nosso ensaio. Ficarei muito grato por qualquer conselho ou sugestão — balbuciei afobadamente, tentando encobrir minha confusão e alertar os namorados na tenda atrás de mim.

Em ambos os objetivos tive mais sucesso do que poderia esperar. Escutei o gemido de consternação na tenda quando os amantes se separaram, e o farfalhar do pano da retaguarda quando Tanus escapuliu do mesmo modo que havia entrado.

Em qualquer outra ocasião eu não teria conseguido enganar meu senhor com tanta facilidade. Ele teria visto a culpa em meu rosto de modo tão claro quanto eu lia os hieroglifos nas paredes dos templos ou meus próprios caracteres nos pergaminhos; mas naquela noite ele estava cego com sua própria ira e pretendia apenas castigar-me por meu erro recente. Não rosnava ou rugia de raiva. Meu senhor é mais perigoso quando usa um tom suave e um sorriso sedoso.

— Querido Taita. — Era quase um sussurro. — Soube que você alterou alguns arranjos do primeiro ato da peça, apesar de eu tê-los ordenado pessoalmente. Não posso acreditar que tenha sido tão atrevido. Vim até aqui com este calor para verificar por mim mesmo.

Eu sabia que de nada adiantaria fingir inocência ou ignorância, então inclinei a cabeça e tentei parecer pesaroso.

— Meu senhor. Não fui eu quem ordenou as modificações. Foi Sua Santidade, o abade do templo de Osíris...

Mas meu amo irrompeu, impaciente:

— Sim, é claro que foi ele, mas apenas depois que você o instigou. Pensa que não o conheço e àquele sacerdote resmungão? Ele nunca teve uma idéia original na cabeça, enquanto você, é só o que tem.

— Meu senhor! — protestei.

— Qual foi o truquezinho perverso desta vez? Foi um daqueles sonhos convenientes enviados a você pelos deuses? — perguntou meu amo, com a voz suave como o murmúrio das serpentes sagradas que infestavam o templo deslizando pelas lajes de pedra.

— Meu senhor! — Fiz o possível para parecer chocado pela acusação, mas na verdade havia feito ao abade um relato fantasioso de como Osíris, disfarçado de corvo preto, havia-me visitado em sonhos para queixar-se do derramamento de sangue em seu templo.

Até aquele momento o sacerdote não se opusera à encenação realista que meu senhor Intef planejara para divertir o faraó. Eu apenas recorria aos sonhos quando fracassavam todos os esforços para dissuadir meu senhor. Era-me profundamente repulsivo participar de algo abominável como o que meu senhor havia mandado executar no primeiro ato da representação. Sei que certos povos selvagens das terras do leste oferecem sacrifícios humanos a seus deuses. Soube que os cassitas, que vivem entre os rios gêmeos Tigre e Eufrates, atiram bebês recém-nascidos numa fornalha incandescente. Os chefes de caravana que viajam àquelas terras distantes contam outras atrocidades realizadas em nome da religião: jovens virgens trucidadas para promover as colheitas ou prisioneiros de guerra decapitados diante da estátua de um deus com três cabeças.

Mas nós, egípcios, somos um povo civilizado; adoramos deuses sábios e justos, e não monstros sanguinários. Eu havia tentado convencer meu amo disso. Havia-lhe lembrado que numa única ocasião um faraó oferecera sacrifício humano, quando Menotep cortara as gargantas de sete príncipes rebeldes no templo de Seth, esquartejara seus cadáveres e enviara os fragmentos embalsamados para os governadores de cada um dos distritos como advertência. A história ainda lembrava o feito com repulsa. Menotep é conhecido até hoje como o Rei Sanguinário.

— Não é sacrifício humano — meu senhor interpôs. — É apenas uma execução merecida, a ser realizada de maneira bastante nova. Você não poderá negar, querido Taita, que a pena de morte é parte importante do nosso sistema judicial, não é? Tod é um ladrão. Ele roubou dos cofres reais e deve morrer como exemplo para os outros.

Soava razoável, a não ser pelo fato de eu saber que ele não estava interessado em justiça, mas em proteger seu próprio tesouro e em impressionar o faraó, que tanto adorava os espetáculos e o teatro. Isso não me deixara outra alternativa além dos sonhos para convencer o bom abade. O lábio de meu senhor Intef ergueu-se num sorriso que expôs seus dentes perfeitos, mas que me gelou o sangue e eriçou os cabelos de minha nuca.

— Vou lhe dar um pequeno conselho — ele sussurrou perto do meu rosto. — Sugiro que você tenha outro sonho esta noite, de modo que seja qual for o deus que o visitou na última vez tenha a oportunidade de inverter suas instruções anteriores ao abade e endosse minhas ordens. Se isso não acontecer, encontrarei mais trabalho para Rasfer. Prometo-lhe solenemente.

Ele se virou e foi embora, deixando-me aliviado por não ter descoberto os namorados e aborrecido por ser obrigado a prosseguir com a ignóbil exibição que ele ordenara.

Não obstante, após a saída de meu amo, o ensaio foi um sucesso animador, que reavivou meu moral. Lostris estava envolta num halo de felicidade depois do encontro com Tanus, o que tornava sua beleza realmente divina, e Tanus, em toda a sua força e juventude, era a encarnação do jovem Hórus.

Fiquei certamente perturbado com a entrada de meu Osíris no palco, agora que sabia do destino que meu senhor Intef havia ordenado para ele. Osíris era interpretado por um belo homem de meia-idade chamado Tod, que fora um dos bailios até que o apanharam pilhando os cofres de meu amo para sustentar uma jovem e dispendiosa cortesã por quem se apaixonara. Eu não me orgulhava de ter sido eu a descobrir a discrepância, ao examinar a contabilidade.

Meu senhor o havia dispensado da custódia, onde esperava o julgamento formal e a sentença, para interpretar na peça o deus do mundo subterrâneo. Meu amo prometera não levar adiante o assunto se ele representasse a contento o papel de Osíris. O infeliz Tod não tinha consciência da ameaça oculta nessa oferta e empenhou-se na atuação com patético entusiasmo, acreditando estar prestes a obter o perdão. Não poderia saber que, nesse ínterim, meu senhor havia secretamente assinado sua pena de morte e entregado o pergaminho a Rasfer, que era não apenas o carrasco oficial como meu escolhido para representar Seth em nossa pequena produção. A intenção de meu amo era que ele combinasse os dois papéis na noite seguinte, quando a representação seria realizada diante do faraó. Embora Rasfer fosse a opção óbvia para o papel de Seth, lamentei tê-lo escolhido quando o vi ensaiar a cena de abertura com Tod e tremi ao imaginar como a apresentação verdadeira seria diferente das preparatórias.

Depois do ensaio foi um agradável dever acompanhar minha senhora de volta ao harém. Ela não me deixou ir embora, fazendo-me escutar seu excitado relato dos extraordinários acontecimentos do dia e do papel que Tanus desempenhara neles.

— Você viu como ele invocou o grande deus Hórus e como o deus veio imediatamente em seu socorro? Com certeza ele goza dos plenos favores e da proteção de Hórus, não acha? Hórus não permitirá que nenhum mal nos atinja, agora estou confiante.

Escutei muito mais dessas alegres fantasias, e nada da conversa de separação e suicídio. Com que rapidez se alteram os ventos do amor juvenil!

— Depois do que Tanus fez hoje, do modo como salvou o navio real do naufrágio, certamente terá conquistado os altos favores do faraó, não acha, Taita? Favorecido pelo deus e pelo faraó, Tanus jamais será afastado por meu pai.

Eu era instado a aprovar todos os felizes pensamentos que lhe ocorriam, e não tive permissão para deixar o harém até ter decorado pelo menos dez mensagens de amor eterno que deveria levar pessoalmente a Tanus.

Quando finalmente cheguei a meus aposentos, exausto, tampouco tive descanso. Quase todos os rapazes escravos me esperavam, tão excitados quanto estava minha ama. Também desejavam minha opinião sobre os acontecimentos do dia, especialmente o resgate do navio do faraó por Tanus e a importância desse feito. Cercaram-me no terraço sobre o rio enquanto eu alimentava os animais, disputando minha atenção.

— Irmão mais velho, é verdade que Tanus invocou o deus em sua ajuda e que Hórus interveio imediatamente? Você viu tudo? Alguns dizem que o deus apareceu em sua forma de falcão e pairou sobre a cabeça de Tanus, abrindo sobre ele as asas protetoras. É verdade?

— É verdade, Akh, que o faraó promoveu Tanus a Companheiro do Faraó e lhe deu em recompensa uma propriedade de quinhentos feddan de terras férteis na várzea?

— Irmão mais velho, dizem que no santuário do deserto, o oráculo de Thoth, o deus da sabedoria, fez o horóscopo de Tanus. O oráculo previu que ele será o maior guerreiro da história do Egito e que um dia o faraó o favorecerá acima de todos os outros.

É divertido rever agora essas bravatas infantis e perceber as estranhas verdades que havia nelas, mas na época as desconsiderei assim como às crianças, com fingida severidade.

Enquanto me aprontava para dormir, meu último pensamento foi que o povo das cidades gêmeas de Luxor e Karnak havia adotado Tanus em seus corações completamente, mas que isso era uma distinção dúbia e onerosa. A fama e a popularidade granjeavam inveja na alta hierarquia, e a adulação das multidões é frágil. Estas costumam ter tanto prazer em destruir os ídolos de que se cansam quanto em enaltecê-los no princípio.

E mais seguro viver despercebido, o que sempre tento fazer.

Na tarde do sexto dia do festival, o faraó deslocou-se em cortejo solene de sua mansão de campo entre Karnak e Luxor, descendo a avenida cerimonial ladeada de leões de granito até o templo de Osíris na margem do Nilo.

O grande trenó que o transportava era tão alto que a densa multidão que se estendia ao longo da avenida era obrigada a inclinar os pescoços para trás para vê-lo em seu trono dourado, puxado por vinte touros brancos com corcovas e guirlandas de flores enfeitando seus chifres. Os patins do trenó deslizavam no pavimento com atrito, marcando as lajes de pedra.

Cem músicos abriam o cortejo, brandindo liras e harpas, tocando címbalos e tambores, agitando chocalhos e soprando longos chifres retos de órix e chifres recurvos de carneiros selvagens. Um coro de cem vozes, as mais refinadas do Egito, seguia-os cantando hinos em honra do faraó e do outro deus, Osíris. Naturalmente, eu regia o coro. Atrás de nós seguia uma guarda de honra do regimento do Crocodilo Azul, liderada pelo próprio Tanus. A multidão ergueu uma ovação especial para ele, quando passou todo emplumado e de armadura. As moças solteiras gritavam e mais de uma desmaiou na poeira, tomada pela histeria despertada por sua recente fama.

Atrás da guarda de honra vinha o vizir com seus altos funcionários, depois os nobres, suas esposas e filhos, então um destacamento do regimento do Falcão e finalmente o grande trenó faraônico. Ao todo estavam reunidos muitos milhares de pessoas, as mais ricas e influentes do Alto Reino.

Quando nos aproximamos do templo de Osíris, o abade e todos os seus sacerdotes estavam alinhados na escadaria, entre os altos pilares do portal, para receber o faraó Mamose. O templo havia sido pintado recentemente e os baixos-relevos coloridos nas paredes externas reluziam ao sol amarelado do poente. Uma nuvem festiva de bandeiras e flâmulas tremulava nos postes erguidos sobre os muros externos.

Na base da escadaria, o faraó desceu de sua carruagem e com solene majestade começou a subir os cem degraus. O coro alinhou-se de ambos os lados. Eu estava no qüinquagésimo degrau, e assim pude examinar detalhadamente o rei durante os poucos segundos que levou para passar diante de mim.

Já o conhecia bem, pois fora meu paciente, mas havia esquecido que era tão baixo — isto é, baixo para um deus. Não chegava aos meus ombros, embora a coroa dupla lhe desse uma aparência impressionante. Seus braços estavam cruzados sobre o peito na postura ritual, e ele carregava o gancho e o flagelo de seu cargo real e sua ascendência divina. Notei que tinha mãos lisas e sem pêlos, quase femininas, e que seus pés também eram diminutos e cuidados. Usava anéis em todos os dedos e artelhos, amuletos nos braços e braceletes nos pulsos. A maciça placa peitoral de ouro vermelho era incrustada de cerâmica de várias cores, representando o deus Thoth com a pluma da verdade. Essa jóia era um tesouro esplêndido de quase quinhentos anos e fora usada por setenta reis antes dele.

Sob a coroa dupla, seu rosto lívido, empoado de branco parecia o de um cadáver. Os olhos estavam delineados dramaticamente de preto retinto, e os lábios pintados de púrpura. Sob a pesada maquiagem, ele tinha uma expressão petulante, os lábios finos e rígidos, sem qualquer humor. Os olhos eram cambiantes e nervosos, como era de se esperar.

As fundações da grande Casa do Egito estavam rachadas, o reino fragmentado e abalado. Até mesmo um deus tem suas preocupações. Um dia seus domínios haviam-se estendido desde o mar, além das sete bocas do delta, para o sul até Assuan e a primeira catarata — o maior império sobre a terra. Ele e seus ancestrais o haviam deixado escapar, e agora os inimigos abundavam nas fronteiras reduzidas, acorrendo como hienas, chacais e abutres para banquetear-se na carcaça do Egito.

Ao sul havia as hordas negras da África; ao norte, ao longo da costa do grande mar, os povos piratas; nas extensões inferiores do Nilo encontravam-se as legiões do falso faraó; a oeste, os traiçoeiros beduínos e os líbios furtivos, enquanto a leste todos os dias pareciam surgir novas hordas, cujos nomes instigavam terror numa nação cujas derrotas haviam tornado tímida e hesitante. Assírios e medos, cassitas, hurritas e hititas — não parecia haver limite para essas multidões.

Que vantagem possuía nossa antiga civilização, se se tornara fraca e obsoleta com sua avançada idade? Como poderíamos resistir aos bárbaros, com seu vigor selvagem, sua cruel arrogância e seu desejo de rapina e saque? Eu estava convencido de que esse faraó, como os que o haviam precedido imediatamente, não conseguiria reconduzir a nação a suas antigas glórias. Era incapaz de gerar um herdeiro homem.

A falta de herdeiro para o império egípcio parecia obcecá-lo ainda mais que a perda do próprio império. Ele já se havia casado com vinte mulheres, que lhe deram apenas filhas, uma verdadeira tribo de mulheres, mas nenhum varão. O faraó não aceitava que a culpa fosse sua. Havia consultado todos os médicos de renome do Alto Reino e visitara todos os oráculos e santuários importantes.

Eu sabia disso porque fora um dos médicos que ele mandara chamar. Admito que na época senti certo temor em prescrever a um deus, e imaginei por que motivo ele precisaria consultar um simples mortal sobre assunto tão delicado. Não obstante, recomendei-lhe uma dieta de testículos de boi fritos em mel e aconselhei-o a encontrar a virgem mais linda do Egito e levá-la para seu leito nupcial um ano depois do primeiro florescimento de sua lua da feminilidade.

Eu não tinha grande fé em meu próprio remédio, mas testículos de boi cozidos conforme minha receita são um prato delicioso, e reconheço que a busca da virgem mais bela do país poderia distrair o faraó e ser ainda muito prazeroso. Numa perspectiva prática, se o rei levasse para a cama um número suficiente de jovens, certamente uma delas produziria um filhote macho.

De qualquer forma, consolava-me que meu tratamento não era tão drástico como alguns dos outros propostos por meus colegas, especialmente os remédios desagradáveis inventados pelos curandeiros do templo de Osíris que se denominavam doutores. Se minhas recomendações não fossem eficazes, pelo menos mal não fariam. Eu acreditava nisso. Mas como o destino se mostraria adverso, e se eu tivesse sabido das conseqüências de minha leviandade, teria assumido o lugar de Tod no espetáculo em vez de ter dado ao faraó conselho tão frívolo.

Fiquei contente e lisonjeado quando soube que o faraó havia levado a sério meu conselho e ordenara a seus nomarcas e governadores que vasculhassem todo o país, de El Amarna às cataratas, para encontrar touros com bolas suculentas e qualquer virgem que se adequasse às minhas especificações para ser a mãe de seu primogênito. Minhas fontes na corte real informaram-me que ele já havia recusado centenas de aspirantes ao título de virgem mais bela do país.

Então o rei passou rapidamente por mim e entrou no templo sob o zelo dos sacerdotes e as reverências obsequiosas do abade. O grão-vizir e seu séquito o acompanharam de perto, e então houve um burburinho indigno dos cidadãos menos importantes para encontrar lugares de onde assistir ao drama da paixão. O espaço no templo era limitado. Apenas os poderosos, nobres e ricos o suficiente para subornar os sacerdotes eram admitidos no pátio interno. Os outros eram obrigados a observar através dos portões do pátio externo. Milhares de cidadãos comuns ficariam desapontados e teriam de se contentar com um relato de segunda mão do espetáculo. Mesmo eu, o diretor, tive muita dificuldade para abrir caminho através do povo compactado, e só o consegui quando Tanus percebeu meu problema e enviou dois homens para me resgatar e abrir caminho até o local reservado para os atores.

Antes de a peça começar, tivemos de suportar uma seqüência de discursos floreados, primeiro dos funcionários locais e ministros de Estado, depois do grão-vizir em pessoa. Esse interlúdio de baboseiras deu-me a oportunidade de verificar se tudo estava perfeito para a apresentação. Fui de tenda em tenda vendo os figurinos e a maquiagem dos atores, acalmando acessos de nervosismo de última hora.

O infeliz Tod estava temeroso de que seu desempenho não agradasse a meu senhor Intef. Consegui convencê-lo de que com certeza lhe agradaria, e dei-lhe uma dose de sheppen vermelho para amortecer a dor que em breve lhe seria infligida.

Quando cheguei à tenda de Rasfer, ele estava bebendo vinho com dois de seus colegas da guarda palaciana e, com uma pedra, afiava o gume de sua espada curta de bronze. Eu havia criado sua maquiagem de modo a torná-lo ainda mais repulsivo, o que não era fácil, dado o alto grau inicial de feiúra. Percebi como me saíra bem quando ele sorriu para mim com os dentes enegrecidos e ofereceu-me uma taça de vinho.

— Como estão suas costas, garoto bonito? Experimente uma bebida de homens! Talvez isto lhe dê bolas novamente.

Estou habituado a suas provocações e mantive a dignidade ao lhe informar que meu senhor havia renegado as ordens do abade e que o primeiro ato seria encenado na forma original.

— Eu já falei com o senhor Intef. — Ele levantou a espada. — Sinta o corte, eunuco. Quero ter certeza de que está de acordo.

Quando o deixei, sentia-me nauseado.

Tanus, apesar de só entrar em cena no segundo ato, já estava vestido a caráter. Descontraído e sorridente, ele tocou meu ombro.

— Bem, meu velho amigo, esta é sua grande oportunidade. Depois desta noite, sua fama de dramaturgo irá se espalhar por todo o Egito.

— A sua já se espalhou. Seu nome está em todos os lábios — eu disse, mas ele riu com descuidada modéstia enquanto eu continuava: — Está preparado para a fala de encerramento, Tanus? Gostaria de recitá-la para mim agora?

Tradicionalmente, o ator que interpretava Hórus fechava a apresentação com uma mensagem ao faraó, supostamente dos deuses, mas na realidade de seus próprios súditos. Em tempos antigos, essa fora a única ocasião do ano em que a população, através do ator, podia comunicar ao rei assuntos preocupantes que não lhe podiam encaminhar em outros momentos. No entanto, durante o reinado desta última dinastia, a tradição havia caducado e a fala final tornara-se apenas mais um elogio ao divino faraó.

Há dias eu vinha pedindo a Tanus que ensaiasse a fala comigo, mas todas as vezes ele me escapara com desculpas tão frágeis que me deixaram completamente desconfiado de suas intenções.

— Esta é a última oportunidade — insisti, mas ele riu.

— Decidi que meu discurso será uma surpresa, tanto para você quanto para o faraó. Assim, vocês dois o apreciarão ainda mais.

E não houve nada que eu pudesse fazer para persuadi-lo. Às vezes ele consegue ser o jovem mais teimoso e obstinado que já conheci. Contrariado, deixei-o e fui procurar companhia mais gentil.

Quando me inclinei para entrar na tenda de Lostris, parei com um choque. Embora eu mesmo houvesse criado seu figurino e instruído suas aias exatamente como desejava que lhe aplicassem a maquiagem, não estava preparado para a visão etérea que tinha agora à minha frente. Por um instante convenci-me de que havia ocorrido outro milagre e que a deusa realmente emergira do mundo subterrâneo, tomando o lugar de minha senhora. Dei um soluço alto e já começava a cair de joelhos em mística adoração quando minha ama riu e despertou-me da ilusão.

— Não é divertido? Não posso esperar para ver Tanus fantasiado. Tenho certeza de que deve parecer o próprio deus. — Ela girou lentamente para que eu pudesse admirar toda a sua vestimenta, sorrindo para mim por cima do ombro.

— Não mais divino que você, minha senhora — sussurrei.

— Quando começará a peça? — ela perguntou impaciente. — Estou tão excitada que não agüento mais esperar!

Encostei o ouvido à lona da tenda e escutei por um momento o murmúrio dos discursos no grande recinto. Percebi que era a última oração e que a qualquer momento meu senhor Intef chamaria os atores para que se apresentassem.

Peguei a mão de Lostris e apertei-a.

— Lembre-se da longa pausa e do olhar altivo antes da primeira fala — adverti-a, e ela bateu no meu ombro jocosamente.

— Deixe disso, seu velho resmungão. Tudo correrá perfeitamente bem, você verá.

E naquele instante ouvi a voz de meu senhor Intef elevar-se.

— O divino deus faraó Mamose, a Grande Casa do Egito, o Esteio do Reino, o Justo, o Grande, o Onisciente, o Clementíssimo... — os títulos e honrarias continuaram enquanto eu saí apressadamente da tenda de Lostris e ocupei minha posição inicial atrás do pilar central. Espiei ao redor da coluna e vi que o pátio interno do templo estava lotado, e que o faraó e suas esposas mais velhas sentavam-se na primeira fila de bancos baixos de cedro, bebericando sherbet fresco ou mordiscando tâmaras e doces.

Meu senhor Intef dirigia-se a eles da plataforma elevada diante do altar que era nosso palco. O corpo principal da cena ainda estava oculto da platéia por cortinas de linho. Examinei-o pela última vez, embora já fosse tarde demais para fazer qualquer modificação.

Por trás das cortinas, o cenário fora decorado com palmeiras e acácias que os jardineiros do palácio haviam transplantado sob minhas instruções. Meus pedreiros haviam sido deslocados do trabalho na tumba real para construir uma cisterna de pedra no fundo do templo, da qual um regato fora desviado através do palco, representando o rio Nilo.

Na parte posterior da cena, pendurados do teto ao piso, havia lençóis de linho esticados, nos quais os artistas da necrópole haviam pintado paisagens maravilhosas. A meia-luz do entardecer e ao tremeluzir das tochas, o efeito era tão realista que transportava o espectador a um mundo diferente, num tempo longínquo.

Havia outras delícias que eu preparara para a diversão do faraó, desde jaulas com animais, pássaros e borboletas que seriam libertados para simular a criação do mundo pelo grande deus Amon-Rá, a fogos e tochas que eu confeccionara com substâncias que produziam brilhantes chamas púrpura e verde e, para inundar o palco de luzes espectrais e nuvens de fumaça como as do submundo onde habitavam os deuses.

— Mamose, filho de Rá, que lhe seja dada a vida eterna! Nós, vossos leais súditos, cidadãos de Tebas, imploramos vossa divina atenção para esta pobre representação que dedicamos a vossa majestade.

Meu senhor Intef concluiu seu discurso de boas-vindas e retomou o lugar. Ao som de uma fanfarra invisível de trompas de carneiro, eu saí de trás do pilar e encarei o público. Todos haviam suportado o desconforto e o tédio sobre o chão de pedra e estavam agora prontos para o início do divertimento. Uma ovação recebeu minha entrada e até o faraó sorriu de bom grado.

Ergui as duas mãos, pedindo silêncio, e somente quando este foi completo comecei a fala de abertura:

— Um dia, caminhando ao sol, jovem e cheio de vigor, escutei a música fatal nos caniços à margem do Nilo. Não reconheci o som da harpa e não tive medo, pois estava em plena força de minha masculinidade e seguro do afeto de minha amada. A música era de uma beleza surpreendente. Com prazer fui em busca do músico, sem saber que era a Morte e que tocava sua harpa para me atrair.

Nós egípcios somos fascinados pela morte, e eu imediatamente havia tocado uma veia profunda em minha platéia. Todos suspiraram e estremeceram.

— A Morte agarrou-me e levou-me em seus braços esqueléticos até Amon-Rá, o deus-sol, e eu me tornei uno com a luz branca de seu ser. A grande distância eu escutava minha amada chorar, mas não podia vê-la e era como se todos os dias de minha vida nunca houvessem existido.

Esta foi a primeira récita pública de minha prosa, e eu soube de imediato que os havia conquistado, pois seus rostos estavam fascinados e atentos. Não se ouvia um som no templo.

— Então a Morte me enviou a um lugar elevado, de onde eu podia ver o mundo como um brilhante escudo redondo no mar azul dos céus. Vi todos os homens e todas as criaturas que já existiram. Como um possante rio, o tempo corria ao inverso diante de mim. Durante cem mil anos vi suas lutas e suas mortes. Vi todos os homens passarem da morte e da velhice à infância e ao nascimento. O tempo tornou-se cada vez mais remoto, retrocedendo até o nascimento do primeiro homem e da primeira mulher. Vi-os no momento de seu nascimento e mesmo antes. Enfim, não havia mais homens na terra; existiam somente os deuses. Mas o rio do tempo continuou fluindo para trás, além do tempo dos deuses, até Nun, a era da escuridão e do caos primordial. O rio do tempo não podia mais correr para trás, então inverteu-se. O tempo passou a correr adiante da maneira que me era conhecida nos dias de minha vida terrestre, e vi a paixão dos deuses desenrolar-se à minha frente.

Meu público era todo bastante versado na teologia de nosso panteão, mas ninguém havia escutado os mistérios apresentados de maneira tão nova. Todos continuaram silenciosos e absortos quando continuei:

— Do caos e da escuridão de Nun surgiu Amon-Rá, O Que Cria a Si Mesmo. Vi Amon-Rá afagar seu membro gerador, masturbar-se e verter sua semente através da escuridão vazia em poderosas ondas de plasma prateado que conhecemos como a Via Láctea. Dessa semente foram gerados Geb e Nut, a terra e o céu.

— Bak-her! — uma voz isolada rompeu o silêncio do templo. — Amém! — O velho abade não pudera se conter e endossava minha visão da criação. Fiquei tão surpreso com sua mudança de ânimo que quase esqueci a próxima fala. Afinal ele fora meu mais severo crítico até então. Eu o havia conquistado completamente, e minha voz ergueu-se triunfante:

— Geb e Nut copularam muito, como fazem o homem e a mulher, e de sua possante união nasceram os deuses Osíris e Seth, e as deusas ísis e Néftis.

Fiz um amplo gesto e as cortinas de linho foram puxadas lentamente, revelando o mundo fantástico que eu havia criado. Nada semelhante jamais fora visto no Egito e o público fez um "Oh" de espanto. Recuei lentamente e meu lugar foi ocupado pelo deus Osíris. A platéia o reconheceu instantaneamente pela coifa alta em forma de garrafa, pelos braços cruzados sobre o peito e pelo gancho e a chibata que segurava. Toda casa tinha sua estatueta na capela familiar.

Um grito de reverência saiu de todas as gargantas, e de fato o sedativo que eu administrara a Tod dava-lhe um estranho brilho ao olhar, uma presença sobrenatural que era convincentemente divina. Com o gancho e o chicote Osíris fez gestos místicos e declamou sonoramente:

— Admirai Atur, o rio!

Mais uma vez o público agitou-se e murmurou ao reconhecer o Nilo. O Nilo era o Egito e o centro do mundo.

— Bak-her! — ouviu-se outra voz, e de meu esconderijo entre os pilares fiquei atônito e deliciado ao perceber quem havia falado: o próprio faraó. Minha peça conquistara aprovação secular e divina. Com certeza dali em diante minha versão seria a autorizada, substituindo a original milenar. Eu encontrara um lugar na imortalidade. Meu nome viveria por mil anos.

Com alegria, sinalizei para que abrissem a cisterna e as águas começaram a correr através do palco. A princípio o público não compreendeu, mas então se deu conta de que estava realmente presenciando a revelação do grande rio, e um grito ergueu-se de mil gargantas:

— Bak-her! Bak-her!

— Admirai o crescimento das águas! — gritou Osíris, e obedientemente o Nilo se engrossou com a cheia.

— Admirai a baixa das águas! — gritou o deus, e elas encolheram à sua ordem. — Agora elas voltarão a subir!

Eu havia preparados baldes de pigmento para ser adicionado à água na medida em que vertesse da cisterna nos fundos do templo. Primeiro uma tinta verde para simular o período de vazante, e depois, quando voltou a subir, uma coloração mais escura que imitava fielmente a cor das águas carregadas de sedimentos da grande cheia.

— Admirai agora os insetos e os pássaros sobre a terra! — ordenou Osíris, e as gaiolas atrás do palco foram abertas. Uma nuvem barulhenta e rodopiante de pássaros selvagens e borboletas maravilhosamente coloridas encheu o templo.

Os espectadores pareciam crianças, encantadas e absortas, agarrando as borboletas no ar e novamente soltando-as para voar entre os altos pilares. Uma das aves selvagens, uma poupa de longo bico e com lindas penas brancas, castanhas e pretas, voou incauta e pousou na coroa do faraó.

A multidão deliciou-se.

— Uma profecia! — gritavam. — Uma bênção para o rei. Que viva para sempre!

O faraó sorriu.

Foi uma ousadia minha, mas mais tarde confidenciei a meu senhor Intef que havia treinado o pássaro para localizar o faraó, e embora isso fosse quase impossível ele acreditou, dada minha reputação com os animais e aves.

No palco, Osíris passeava pelo paraíso que acabara de criar e preparava o ambiente para o momento dramático em que, com um grito de congelar o sangue, Seth saltava sobre o palco. Mesmo que já o esperassem, ainda assim a presença terrível e poderosa chocou o público, e as mulheres gritaram e cobriram os rostos, espiando por entre os dedos trêmulos.

— Que foi isso que criaste, irmão? — berrou Seth com raiva e ciúme. — Colocas-te acima de mim? Também não sou um deus? Queres para ti toda a criação, de modo que eu, teu irmão, não a possa compartilhar?

Osíris respondeu-lhe calmamente, com uma fria e remota dignidade conferida pela droga:

— Nosso pai, Amon-Rá, deu a criação a nós dois. No entanto, ele também nos deu o direito de escolher o que fazer dela, para o bem ou para o mal... — As palavras que eu pusera na boca do deus reverberavam pelo templo. Eram as melhores que eu havia escrito, e o público estava atento. Mas somente eu dentre todos sabia o que estava por vir, e a beleza e a força de minha própria composição pareceram amargas enquanto eu me preparava para o desenrolar.

Osíris chegava ao fim de seu discurso:

— Este é o mundo como o revelei. Se desejares compartilhá-lo em paz e amor fraterno, então serás bem-vindo. Mas se vieres com fúria guerreira, se o mal e o ódio encherem teu coração, então ordeno-te que te vás. — Ele levantou o braço direito revestido do linho diáfano e brilhante de sua túnica e apontou o caminho para que Seth deixasse o paraíso terreno.

Seth encolheu os ombros enormes e peludos como um búfalo e berrou tão forte que a saliva voou de seus lábios numa nuvem malcheirosa por causa dos dentes podres. Pude senti-la de onde eu estava. Ele levantou bem alto a larga espada de bronze e avançou para o irmão. Isso não fora ensaiado e pegou Osíris completamente de surpresa. Ele ficou parado com o braço estendido e a lâmina sibilou com a força do golpe ao descer. A mão foi secionada no pulso de modo tão preciso quanto eu teria podado um rebento da vinha que cresce em meu terraço. Ela caiu aos pés de Osíris e ali ficou, com os dedos tremendo ligeiramente.

A surpresa foi tão completa e a espada, tão aguçada, que por um instante Osíris não se mexeu, a não ser por uma leve oscilação do corpo. O público deve ter pensado que era mais um truque cênico e que a mão decepada fosse postiça. O sangue não correu de imediato, o que favoreceu a ilusão. Todos ficaram intensamente atentos, mas não alarmados, até que subitamente Osíris cambaleou e com um grito terrível agarrou o coto do braço. Só então o sangue jorrou entre seus dedos e esguichou sobre a túnica branca, tingindo-a como vinho. Ainda segurando o braço decepado, Osíris tropeçou pelo palco e começou a gritar, um grito alto e claro de mortal agonia que rompeu a complacência da platéia. Pela primeira vez eles perceberam que não se tratava de encenação, mas continuaram presos num silêncio horrorizado.

Antes que Osíris pudesse alcançar a beira do palco, Seth lançou-se atrás dele sobre as pernas poderosas. Agarrou o braço mutilado e usou-o para arrastar Osíris de volta ao centro do palco, onde o atirou esparramado sobre as pedras. A coroa de lata despencou da cabeça de Osíris e os cachos de cabelos escuros caíram sobre seus ombros enquanto ele chapinhava no próprio sangue.

— Por favor, poupa-me — Osíris gritou, e Seth, parado sobre ele, riu. Foi uma forte gargalhada de verdadeiro prazer. Rasfer se transformara em Seth, e Seth se divertia plenamente.

O riso selvagem despertou a platéia de seu transe. No entanto, a ilusão era perfeita. Não mais acreditavam estar assistindo a uma peça, e para todos eles aquele terrível espetáculo se transformara em realidade. As mulheres gritavam e os homens rugiam de fúria ao observar o assassinato de seu deus.

— Poupe-o! Poupe o grande deus Osíris! — berravam, mas ninguém se levantou de seu assento ou correu até o palco para tentar impedir a consumação da tragédia. Sabiam que as disputas e as paixões dos deuses estavam além da influência dos mortais.

Osíris batia nas pernas de Seth com a mão que lhe restara. Sem parar de rir, Seth agarrou-o pelo punho e puxou o braço com força, examinando-o como um açougueiro inspeciona uma omoplata de bode antes de secioná-la.

— Corte-o! — gritou uma voz na multidão, cheia de desejo sanguinário. A emoção havia novamente mudado de rumo.

— Mate-o! — gritou mais uma.

Sempre me intrigou a maneira como a visão do sangue e da morte violenta afeta até o mais tranqüilo dos homens. Eu mesmo sentia-me excitado por aquela cena terrível, tomado de náusea e horror, é verdade, mas acima de tudo imbuído de uma excitação revoltante.

Com um golpe casual da espada, Seth decepou o braço de Osíris, que caiu para trás, deixando o membro a tremelicar na mão ensangüentada de Seth. A vítima tentou se levantar, mas não tinha como apoiar-se. Suas pernas davam chutes espasmódicos, a cabeça chicoteava de um lado para outro, e ainda assim ele gritava. Tentei forçar-me a não olhar, mas embora a bile me queimasse o fundo da garganta eu precisava ver.

Seth cortou o braço em três partes, nas juntas do pulso e do cotovelo.

Um de cada vez, atirou os fragmentos para o meio da platéia compacta. Girando pelo ar, eles respingaram com gotas de rubi os de baixo, que rugiam como os leões do zoológico do faraó na hora de comer e levantavam as mãos para agarrar as relíquias de seu deus.

Seth trabalhava com gosto refinado. Cortou os pés de Osíris pelos tornozelos. Depois as panturrilhas pelos joelhos e as coxas pela junta dos quadris. Quando atirava os pedaços, a multidão clamava por mais.

— O talismã de Seth! — berrou uma voz. — Dê-nos o talismã de Seth! — E o grito se generalizou.

Segundo o mito, o talismã é a mais poderosa e mágica das relíquias. A pessoa que o possui controla todas as forças escuras do submundo. É o único dos catorze segmentos do corpo de Osíris que nunca foi recuperado por Isis e sua irmã Néftis dos remotos cantos da terra em que Seth os espalhou. O talismã de Seth é a mesma parte do corpo que Rasfer me extirpara e que constitui a peça principal do belo colar que me foi presenteado cinicamente por meu senhor Intef.

— Dê-nos o talismã de Seth! — urrava a multidão, e Seth, abaixan-do-se e sem deixar de rir, ergueu a túnica empapada de vermelho do tronco desmembrado a seus pés. Eu tremi ao reconhecer aquele riso impiedoso que tantas vezes ouvira em minhas sessões de castigo. Por empatia, senti mais uma vez o súbito fogo em minha virilha quando a espada brilhou na mão peluda de Seth, já tingida pelo sangue de sua vítima, e ele ergueu bem alto a triste relíquia.

A multidão suplicou por ela.

— Jogue-a para nós — imploravam. — Dê-nos o poder do talismã. — O espetáculo os transformara em bestas enfurecidas.

Seth ignorou seus pedidos.

— Um presente — ele gritou. — Um presente de um deus para outro. Eu, Seth, deus das trevas, dedico este talismã ao deus-faraó Ma-mose, o divino. — Ele desceu os degraus de pedra com suas possantes pernas tortas e depositou a relíquia aos pés do faraó.

Para minha surpresa, o rei inclinou-se e apanhou-a. Sua expressão sob a pintura facial era de encantamento, como se aquela fosse a verdadeira relíquia do deus. Tenho certeza de que nesse momento ele realmente acreditava que o fosse, e a segurou na mão direita durante tudo o que aconteceu a seguir.

Vendo seu presente aceito, Seth voltou ao palco e contemplou a carnificina. O que me apavorava é que a pobre criatura esquartejada ficou viva e consciente até o final. Percebi que a droga que eu dera a Tod pouco fizera para embotar seus sentidos. Vi-o deitado no lago de seu próprio sangue, com uma terrível agonia nos olhos e a cabeça girando de um lado para outro, a única parte móvel do corpo que lhe restara.

Foi para mim um grande alívio quando Seth finalmente cortou-lhe a cabeça fora e levantou-a pelos grossos cachos para que a platéia a admirasse. Mesmo então os olhos da pobre criatura giravam selvagemente nas órbitas, olhando pela última vez para este mundo. Enfim eles se nublaram e Seth atirou a cabeça para o público.

Assim terminou o primeiro ato de nossa representação, com um aplauso ensurdecedor que ameaçou abalar os pilares de granito do templo.

Durante o intervalo, meus ajudantes escravos limparam o palco das terríveis evidências da chacina. Eu estava especialmente preocupado com que minha senhora Lostris não percebesse o que havia acontecido no primeiro ato. Queria que ela acreditasse que tudo se passara conforme havíamos ensaiado. Então arranjei para que ficasse em sua tenda e que um dos homens de Tanus se postasse à entrada para mantê-la ali, e também para garantir que nenhuma das aias kuchitas pudesse espiar o primeiro ato e correr de volta para relatar a Lostris. Eu sabia que se ela soubesse a verdade ficaria perturbada demais para representar seu papel. Enquanto meus auxiliares usavam baldes da água de nosso Nilo cênico para lavar tudo, eu corri até a tenda de minha senhora para tranqüilizá-la e para verificar se minhas precauções para salvaguardá-la haviam sido eficazes.

— Oh, Taita, escutei os aplausos — ela me recebeu com alegria. — Estão adorando a peça. Estou tão contente por você! Realmente merece esse sucesso. — Ela riu com ar conspirador. — Parece que eles acreditaram que o assassinato de Osíris foi real e que os baldes de sangue de boi com que você molhou Tod realmente eram do sangue de Osíris.

— De fato, minha senhora, eles pareceram totalmente iludidos por nossos pequenos truques — concordei, apesar de ainda me sentir enojado pelo que acabara de presenciar.

Minha ama Lostris de nada suspeitou, e quando a conduzi ao palco mal olhou para as mórbidas manchas que permaneciam sobre as pedras. Coloquei-a na posição inicial e ajustei a tocha para iluminá-la. Embora eu já estivesse habituado, sua beleza ainda assim provocou um nó em minha garganta e fez meus olhos encher-se de lágrimas.

Deixei-a oculta pelas cortinas de linho e avancei, encarando a platéia. Não houve aplauso sarcástico para receber-me desta vez. Cada um deles, do faraó ao vassalo mais modesto, estava atento à minha voz, enquanto com minha prosa suave eu descrevia os lamentos de Isis e de sua irmã Néftis pela morte do irmão.

Quando desci do palco e a cortina se abriu, revelando a figura en-lutada de Isis, o público deu um profundo suspiro diante de sua beleza. Depois do horror e do sangue do primeiro ato, a presença dela tornava-se ainda mais encantadora.

ísis começou a cantar a lamentação aos mortos e sua voz vibrou pelos sombrios recônditos do templo. Quando ela movia a cabeça, conforme a cadência da voz, a luz da tocha refletia-se num raio vivo e tremeluzente na lua de bronze que encimava sua coroa com chifres.

Observei atentamente o faraó enquanto Lostris cantava. Seus olhos não abandonavam o rosto dela, e seus lábios moviam-se silenciosamente acompanhando as palavras que brotavam da garganta da deusa.

Meu coração é uma gazela ferida pelas garras do leão da tristeza...

Ela se lamentava e o rei era completamente solidário.

Não há mais doçura na colméia nem perfume nas flores do deserto. Minha alma é um templo vazio, abandonado pelo deus do amor.

Na primeira fila, uma ou duas das esposas do rei soluçavam e choravam, mas ninguém sequer as olhava.

Sorrio para a face implacável da morte.

Poderia segui-la com alegria,

se me levasse aos braços de meu amado senhor.

Agora não apenas as esposas reais, mas todas as mulheres choramingavam, assim como a maioria dos homens. As palavras e a beleza de Lostris eram demasiadas para que resistissem. Parecia impossível que um deus demonstrasse as mesmas emoções que os mortais, mas lágrimas escorregavam lentamente pelo pó branco no rosto do faraó, que piscava as pálpebras enegrecidas de kohl como uma coruja, olhando fixamente para minha senhora Lostris.

Néftis entrou e cantou um dueto com sua irmã, e depois as duas mulheres saíram de mãos dadas à procura dos fragmentos dispersos do cadáver de Osíris.

E claro que eu não havia disposto os verdadeiros membros do corpo de Tod para que elas os encontrassem. Durante o intervalo meus ajudantes os haviam recolhido e levado aos embalsamadores, segundo minhas instruções. Eu pagaria o funeral de Tod do meu próprio bolso. Parecia-me o mínimo a fazer para compensar a desafortunada criatura por minha participação em seu assassinato. Apesar da parte que faltava de sua anatomia, que o faraó ainda segurava na mão, eu esperava que os deuses pudessem fazer uma exceção nesse caso e permitir que a sombra de Tod entrasse no submundo, e que ali ele não tivesse muita raiva de mim. É aconselhável ter amigos onde quer que seja, neste mundo e no próximo.

Para o corpo do deus eu mandara os artistas fúnebres da necrópole executar uma magnífica múmia de papel grosso, representando Osíris em seus trajes completos e na pose mortuária, com os braços cruzados sobre o peito. Eu havia cortado esse invólucro em treze partes, que se encaixavam como um jogo de armar infantil.

A medida que as irmãs recuperavam cada um desses despojos, cantavam um hino em louvor às partes do deus, a suas mãos e pés, a seus membros e tronco, e finalmente a sua divina cabeça.

Esses olhos, como estrelas no firmamento, devem brilhar para sempre. A morte não deve empanar tal beleza, nem as faixas conterão sua majestade.

Quando finalmente as duas irmãs reuniram todo o corpo de Osíris, com exceção do talismã, divagaram em voz alta sobre como poderiam trazê-lo de volta à vida.

Era minha oportunidade de acrescentar ao espetáculo aquele elemento essencial que torna uma produção teatral atraente ao gosto popular. A maioria de nós tem uma ampla faceta lasciva, e o dramaturgo e o poeta devem levar isso em conta se desejarem que sua obra seja apreciada pela maior parte da platéia.

— Só há uma maneira segura de trazer de volta à vida nosso querido senhor e irmão. — Coloquei essas palavras na boca da deusa Néftis. — Uma de nós deve realizar o ato gerador com seu corpo despedaçado, para torná-lo novamente inteiro e insuflar-lhe a fagulha vital.

A essa sugestão, o público agitou-se e inclinou-se para frente em expectativa. Eu previra elementos para atrair mesmo os mais pudicos dentre os presentes, inclusive incesto e necrofilia.

Fora agoniante imaginar como eu representaria no palco o episódio do mito da ressurreição de Osíris. Minha ama havia-me chocado quando se declarara disposta a desempenhar o papel até o fim. Ela tivera até mesmo a audácia de ressaltar, com seu sorrisinho impudente, que ao fazê-lo poderia adquirir experiência e conhecimentos valiosos. Não tive certeza se ela estava brincando ou se realmente faria isso; no entanto, não lhe daria a oportunidade de demonstrar essa boa vontade. Sua reputação e a honra de sua família eram valiosos demais para brincadeiras.

Foi então que, a meu sinal, as cortinas de linho foram puxadas mais uma vez e minha senhora Lostris rapidamente saiu de cena. Foi substituída por uma cortesã de alta classe que costumava efetuar seu comércio num palácio do amor junto ao porto. Eu contratara essa prostituta, dentre as muitas que entrevistei, por causa de seu corpo elegante, que muito se assemelhava ao de minha ama. Em beleza facial certamente ela não chegava perto de Lostris, mas nesse ponto ninguém chegaria.

Assim que a deusa substituta estava a postos, as tochas no fundo do palco foram acesas de modo a projetar sua sombra nas cortinas. Ela começou a despir-se da maneira mais provocante. Os homens da platéia gritaram ao ver suas contorções na sombra, convencidos de estar admirando minha senhora Lostris. A rameira reagia aos uivos com uma exibição cada vez mais sensual, que fez quase tanto sucesso quanto a chacina de Osíris no primeiro ato.

Então chegou o trecho da peça que me havia dado mais trabalho, pois como poderia representar a fecundação sem um membro viril? Havíamos acabado de ver Osíris ser privado do seu. Afinal fui forçado a adotar aquele velho artifício teatral que eu mesmo repudiava no trabalho de outros autores, ou seja, a intervenção dos deuses com seus poderes sobrenaturais.

Enquanto minha senhora Lostris falava das coxias, seu alter ego obs-curecido no palco parou sobre a figura mumificada de Osíris e fez uma série de gestos místicos.

— Meu querido irmão, pelos raros e maravilhosos poderes a mim concedidos por nosso antepassado Amon-Rá, eu restauro as partes viris que o cruel Seth brutalmente te arrancou — entoou minha ama.

Eu havia equipado o invólucro da múmia com um aparelho que eu podia erguer através de um delicado fio de linho que corria numa roldana no teto do templo, exatamente acima de onde se encontrava Osíris. Depois das palavras de Isis, o falo de madeira preso às regiões pudendas do deus ergueu-se em majestoso esplendor, longo como meu braço, em plena ereção. A platéia engasgou de admiração.

Quando Isis o acariciou, eu puxei o fio, fazendo-o vibrar e saltar. O público adorou isso, mas gostou ainda mais quando a deusa montou a múmia deitada. A julgar pelas convincentes acrobacias de seu êxtase simulado, a prostituta que eu escolhera realmente devia ser um dos expoentes de sua arte. O público deu amplo reconhecimento a sua perita atuação, ovacionando-a com assobios e gritando conselhos indecentes.

No clímax dessa exibição as tochas foram apagadas e o templo mergulhou na escuridão. Então fizemos nova substituição e quando a luz se acendeu minha senhora Lostris ocupava o centro do palco com um recém-nascido nos braços. Uma das escravas da cozinha fora suficientemente gentil para dar à luz alguns dias antes, e eu pedira emprestado o bebê para a ocasião.

— Dou-te o filho recém-nascido de Osíris, deus do submundo, e de Isis, deusa da lua e das estrelas. — Lostris ergueu o infante bem alto, e ele, surpreendido pelo mar de estranhos à sua frente, amarrou o rosto minúsculo e ficou rubro enquanto berrava.

Isis ergueu a voz acima da do bebê e gritou:

— Saudai o jovem senhor Hórus, deus do vento e do céu, o falcão celestial!

Metade do público era composta de filhos de Hórus, donos de ilimitado entusiasmo por seu patrono. Todos ergueram-se num tumulto ruidoso e o segundo ato terminou com mais um triunfo para mim e com a mortificação do jovem deus, que ao ser examinado depois revelou ter sujado prodigiosamente as fraldas.

Abri o ato final com mais uma récita minha, descrevendo a infância e a chegada de Hórus à maioridade. Falei sobre a missão sagrada conferida a ele por Isis, e ao fazê-lo as cortinas se abriram para revelar a deusa no centro do palco.

Isis banhava-se no Nilo, auxiliada por suas aias. As vestes molhadas colavam-se ao corpo, fazendo reluzir a gloriosa palidez de sua pele. Os contornos imprecisos de seus seios eram encimados por pequenos botões de rosa virginais.

Tanus, no papel de Hórus, entrou da coxia e imediatamente dominou o palco. Em sua armadura polida e seu orgulho de guerreiro, ele era o contraponto perfeito para a beleza da deusa. A longa lista de suas honras nas batalhas fluviais, juntamente com a mais recente façanha de salvar o navio real, haviam focalizado nele a atenção do povo. Naquele momento Tanus era o bem-amado das multidões. Antes que pudesse falar, começaram a aclamá-lo, e o aplauso prosseguiu por tanto tempo que os atores foram obrigados a se congelar em suas posições iniciais.

Enquanto a ovação girava ao redor de Tanus, localizei alguns rostos na platéia e observei suas reações. Nembet, o Grande Leão do Egito, fazia caretas e resmungava intensamente sob a barba, sem tentar esconder sua animosidade. O faraó sorria graciosamente e balançava a cabeça, de modo que os que se sentavam atrás dele perceberam a aprovação e intensificaram seu entusiasmo. Meu senhor Intef, que nunca foi de navegar contra o vento dominante, sorria o sorriso mais sedoso e balançava a cabeça em uníssono com o rei. Seu olhar, porém, visto de meu ângulo privilegiado, era mortífero.

Finalmente o aplauso cedeu e Tanus pôde falar, não sem dificuldade, porém, pois a cada vez que fazia uma pausa para respirar irrompia mais uma explosão de aplausos. Foi apenas quando Isis começou a cantar que o silêncio completo os rodeou novamente.

O sofrimento de teu pai,

o terrível destino que paira sobre nossa casa,

tudo isso deve ser revertido.

Isis advertiu seu nobre filho, estendendo-lhe os braços em súplica e comando:

A maldição de Seth caiu sobre nós,

e apenas tu podes rompê-la.

Procura nosso monstruoso tio.

Saberás quem é ele

por sua arrogância e ferocidade.

Quando o encontrares, abate-o.

Acorrenta-o, subjuga-o à tua vontade, que todos os deuses e todos os homens sejam libertos para sempre de seu terrível poder.

Ainda cantando, a deusa recuou e deixou o filho entregue à sua tarefa. Como crianças acompanhando uma conhecida canção de ninar, o público sabia muito bem o que esperar e inclinou-se ansiosamente, murmurando em expectativa.

Quando finalmente Seth saltou de volta ao palco para a batalha ca-taclísmica, a antiga luta entre o bem e o mal, a beleza e a feiúra, o dever e a desonra, o público estava preparado. Recebeu Seth com um coro de ódio espontâneo e sincero. Rasfer os desafiava sorrindo e tagarelando, a desfilar pelo palco segurando a genitália e mexendo os quadris num gesto obsceno que deixou a todos possessos de fúria.

— Mate-o, Hórus! — gritavam. — Arrebente sua cara feia! — E Seth exibia-se diante deles, aguçando sua raiva.

— Mate o assassino do grande deus Osíris! — rugiam num paroxismo de ódio.

— Arrebente-lhe a cara!

— Arranque suas tripas!

A reação da platéia não era de modo algum moderada pelo fato de saber, no fundo, que aquele era Rasfer e não Seth.

— Arranque-lhe a cabeça! — gritavam.

— Mate-o! Mate-o!

Enfim Seth fingiu ver pela primeira vez o sobrinho e aproximou-se dele vibrando a língua entre os dentes pretos, salivando como um idiota e deixando escorrer fios de baba sobre o peito. Eu jamais teria imaginado que Rasfer pudesse se tornar ainda mais repugnante do que a natureza já havia logrado, mas ali ele provou que eu estava enganado.

— Quem é esta criança? — ele perguntou, e arrotou com força no rosto de Hórus. Tanus não estava preparado para isso e recuou involuntariamente, com verdadeira expressão de nojo, ao sentir o hálito de Rasfer e do conteúdo de seu estômago, o vinho em fermentação.

Tanus recuperou-se rapidamente e disse sua próxima fala:

— Sou Hórus, filho de Osíris.

Seth emitiu uma gargalhada zombeteira.

— E o que estás procurando, filho do deus morto?

— Procuro vingar o assassinato de meu nobre pai. Procuro o assassino de Osíris.

— Então tua busca terminou — gritou Seth. — Pois eu sou Seth, o vencedor dos deuses inferiores. Sou Seth, o devorador de estrelas e destruidor de mundos.

Os dois deuses desembainharam as espadas e correram um para o outro, encontrando-se a meio palco com um retinir de bronze quando as lâminas se chocaram. Para reduzir as chances de ferimentos acidentais eu tentara substituir as espadas de bronze por outras de madeira, mas nenhum de meus atores aceitou. O senhor Intef interviera quando Rasfer apelara para ele. Ordenara que fosse permitido levarem suas armas de guerra verdadeiras, e eu fora obrigado a ceder a sua autoridade. Pelo menos isso aumentou o realismo da cena, e os dois estavam agora peito contra peito, de espadas cruzadas, olhando-se fixamente.

Compunham uma dupla extraordinária, tão completamente diferentes, o que realçava a moral da peça, o eterno conflito do bem contra o mal. Tanus era alto, esguio e bonito. Seth era atarracado, de pernas tortas e medonho. O contraste era claro e visceral. O estado de espírito da platéia era tão fogoso e acirrado quanto o dos dois protagonistas.

Eles se empurraram simultaneamente e voltaram a investir, golpeando, esquivando-se e golpeando. Eram ambos espadachins altamente qualificados, dentre os melhores dos exércitos faraônicos. Suas lâminas giravam e reluziam à luz das tochas, parecendo tão insubstanciais quanto o sol refletido na superfície do grande rio agitado pelo vento. O som da luta parecia o de asas de pássaros perturbados em seus ninhos no alto e sombrio forro do templo, mas quando se chocavam era com o forte tinido de martelos na forja de um ferreiro.

O que ao observador parecia ser o caos de uma verdadeira batalha era na verdade um bale de meticulosa coreografia e que fora cuidadosamente ensaiado. Cada homem sabia exatamente como desferir cada golpe, e cada esquiva fora marcada. Eram dois atletas soberbos empenhados na atividade para a qual haviam treinado toda a vida, e faziam tudo parecer natural.

Quando Seth golpeava, Hórus esquivava-se tão tarde que a ponta da espada chegava a tocar sua armadura, deixando uma pequena marca reluzente no metal. Então, quando Hórus se lançava adiante em contra-ataque, sua lâmina voava tão perto da cabeça de Seth que um anel de seu cabelo duro e emaranhado foi raspado da cabeça como que por uma navalha de barbeiro. Seus movimentos de pés eram graciosos e intricados como o das dançarinas do templo, e eles eram ágeis como falcões e leves como leopardos em caçada.

A multidão estava hipnotizada, assim como eu. Deve ter sido, portanto, algum instinto profundo que me alertou, talvez até um sinal dos deuses, quem sabe? De qualquer modo, alguma coisa alheia a mimmesmo afastou meus olhos do espetáculo e voltei-me para meu senhor Intef, sentado na primeira fila.

Mais uma vez, foi o instinto ou meu profundo conhecimento dele, ou seria a intervenção do deus protetor de Tanus o que colocou aquela idéia em minha mente? Um pouco de tudo isso, talvez, mas entendi com completa certeza os motivos daquele sorriso de lobo nas belas feições de meu senhor.

Entendi por que ele havia escolhido Rasfer para representar Seth. Entendi por que não fizera nada para tirar Tanus do papel de Hórus, mesmo depois de ter descoberto a relação entre ele e minha senhora Lostris. Entendi por que ele havia ordenado a utilização de espadas verdadeiras e entendi por que sorria. O massacre não havia terminado ainda. Ele aguardava o resto. Antes que aquele ato terminasse, Rasfer exercitaria mais uma vez seus talentos especiais.

— Tanus! — gritei, avançando. — Cuidado! É uma armadilha. Ele quer... — Meus gritos foram sufocados pelo estrondo da multidão, e eu não chegara a dar dois passos quando me agarraram por trás, pelos dois braços. Tentei libertar-me, mas dois dos rufiões de Rasfer me contiveram e arrastaram para longe. Haviam sido colocados ali exatamente para um momento como aquele, para impedir que eu alertasse meu amigo.

"Hórus, dai-me forças!", proferi num rápido e silencioso apelo, e em vez de resistir impeli-me na mesma direção em que me puxavam. Por um instante os guardas se desequilibraram e eu safei-me de suas mãos. Consegui chegar à beirada do palco antes que me dominassem novamente. "Hórus, dai-me voz!", supliquei, e então gritei com todo o meu fôlego:

— Tanus! Cuidado! Ele quer matá-lo!

Dessa vez minha voz elevou-se acima do burburinho e Tanus escutou. Vi sua cabeça erguer-se e seus olhos estreitar-se ligeiramente. Mas Rasfer também me ouviu e reagiu de imediato, interrompendo os passos ensaiados. Em vez de recuar diante do redemoinho de golpes que Tanus desferia perto de sua cabeça horrenda, ele investiu e, com um movimento ascendente da espada, forçou Tanus a erguer a própria arma.

Sem o auxílio da surpresa ele jamais teria forçado a abertura de guarda, que aproveitou para investir com todo o peso dos ombros e tronco maciços. A ponta de sua espada visava uma polegada abaixo da borda do capacete de Tanus, precisamente o olho direito. Poderia perfurar-lhe o olho, atravessando o crânio de lado a lado.

No entanto, meu grito de advertência dera a Tanus aquele fugidio momento de graça para reagir. Ele recobrou a guarda em tempo. Com a empunhadura da espada, conseguiu acertar um forte golpe no punho de Rasfer, com impulso suficiente para desviar um dedo a ponta da espada, e no mesmo momento Tanus baixou o queixo e inclinou a cabeça. Foi tarde demais para evitar completamente o impacto, mas o golpe que poderia ter-lhe arrancado o olho e rachado sua cabeça como um melão podre apenas cortou sua sobrancelha até o osso e resvalou no ombro.

No mesmo instante o sangue verteu da ferida superficial e escorreu sobre o rosto de Tanus, cegando seu olho direito. Ele foi obrigado a recuar diante do ataque violento que Rasfer desferiu então. Cedia terreno desesperadamente, piscando por causa do sangue e tentando enxugá-lo com a mão livre. Parecia incapaz de defender-se, e se eu não estivesse fortemente seguro pelos guardas teria empunhado a pequena adaga incrustada de jóias em minha cintura e corrido em seu auxílio.

Mesmo sem minha ajuda, Tanus conseguiu sobreviver àquele primeiro ataque assassino. Apesar de ter sido ferido mais duas vezes — um corte na coxa esquerda e um talho no braço que segurava a espada —, ele continuou esgrimindo e esquivando-se. Rasfer avançava sem parar, não o deixando recuperar o equilíbrio ou a visão completa. Dentro de alguns minutos Rasfer golpeava rosnando como um javali gigante e escorrendo suor, com o tronco disforme brilhando à luz das tochas, mas a força e a fúria de seu ataque não cediam.

Embora eu não seja um grande espadachim, sou um estudante dessa arte. Havia observado com freqüência Rasfer praticá-la no pátio de armas e conhecia intimamente seu estilo. Sabia que ele era um expoente do ataque khamsin, a tática do "vento do deserto". Era uma manobra perfeitamente adequada à sua força bruta e a seu físico. Vira-o praticar em centenas de ocasiões e agora pude perceber pelo movimento de seus pés que se preparava para o esforço final que poria fim a tudo.

Debatendo-me nas mãos de meus captores, gritei para Tanus mais uma vez:

— Khamsin! Prepare-se!

Pensei que minha advertência havia sido sufocada pelo rugido que enchia o templo, pois Tanus não demonstrou reação. Mais tarde ele me contou que havia escutado e que, por estar com a visão prejudicada, esse segundo aviso certamente lhe salvara a vida.

Rasfer recuou meio passo, o prelúdio clássico para o khamsin, reduzindo a pressão por um instante para posicionar o adversário para o golpe. Então seu equilíbrio mudou e o pé esquerdo passou à frente. Ele usou esse impulso e toda a força da perna direita para lançar-se de corpo inteiro ao ataque, como um grotesco abutre alçando vôo. Quando seus dois pés se ergueram do chão, a ponta da espada estava dirigida para a garganta de Tanus. Era inexorável. Nada poderia impedir aquela lâmina mortífera de atingir o alvo, a não ser uma defesa clássica de bloqueio.

No preciso instante em que Rasfer estava completamente empenhado no golpe, Tanus lançou-se com idêntica força e maior leveza. Como uma seta deixando o arco, ele voou em linha reta para o adversário.

Quando se chocaram em pleno ar, Tanus capturou a espada de Rasfer com a sua e deixou-a escorregar até o cabo, onde a travou. Foi um bloqueio perfeito.

O peso e a velocidade dos dois homens se impuseram à lâmina de Rasfer, que não suportou a violência. Ela se partiu com um estalo, deixando-o a segurar apenas a empunhadura. Eles estavam mais uma vez abraçados, peito contra peito. A espada de Tanus continuava intacta, mas Rasfer conseguira penetrar sob sua guarda e ele não podia usá-la. Ainda segurando a espada na mão direita, Tanus tinha as duas mãos presas às costas de Rasfer, e os dois se empurravam, bufando.

A luta-livre é uma das disciplinas militares em que todo guerreiro do exército egípcio é treinado. Unidos pelo abraço esmagador, os dois homens giraram pelo palco, cada qual tentando desequilibrar o outro, fulminando-se com os olhos, tentando aplicar rasteiras, golpeando-se com os visores dos capacetes, até então empatados em força e determinação.

O público há muito percebera que aquilo não era mais uma luta encenada, mas um combate mortal. Pensei se seu apetite não teria sido satisfeito pelo que já haviam observado naquela noite, mas não. Eram insaciáveis e uivavam por mais sangue.

Finalmente Rasfer libertou o braço do aperto envolvente de Tanus. Ele ainda segurava o punho da espada partida e com a beirada áspera atacou o rosto de Tanus, visando propositalmente seus olhos e o ferimento na sobrancelha, tentando agravá-lo. Tanus girou a cabeça para evitar os golpes, recebendo-os no topo do capacete de bronze. Como uma cobra ajustando suas curvas ao redor da presa, ele aproveitou o momento para reforçar o aperto esmagador no peito de Rasfer. Comprimiu-o de tal maneira que as feições de Rasfer começaram a estufar e a encher-se de sangue. O ar era forçado para fora de seus pulmões e ele lutava para não sufocar. Começou a enfraquecer visivelmente. Tanus manteve a pressão até que um furúnculo nas costas de Rasfer se distendeu a ponto de estourar, e o pus amarelo espirrou num jato fétido e escorreu pela cintura de sua tanga.

Já sufocando, Rasfer contraiu o rosto devido à dor do abcesso e se deteve. Tanus sentiu-o fraquejar e reuniu suas mais profundas reservas de energia. Mudou o ângulo do próximo impulso, baixando ligeiramente os ombros e forçando o oponente a recuar e a erguer-se nos calcanhares. Rasfer estava desequilibrado e Tanus novamente empurrou, forçando-o mais um passo atrás. Quando conseguiu fazê-lo recuar, manteve o impulso. Ainda preso ao adversário, ele empurrou Rasfer através do palco, conduzindo-o na direção de um dos gigantescos pilares de pedra. Por um momento ninguém percebeu a intenção de Tanus, e então o vimos baixar a ponta da espada na horizontal e pressionar com força a empunhadura contra a espinha de Rasfer.

Em pleno movimento a ponta da espada de Tanus atingiu a sólida coluna. O metal rangeu contra o granito e o choque foi transmitido através da lâmina, detendo os dois homens e golpeando a empunhadura contra a espinha de Rasfer. Aquilo teria matado um homem mais fraco, e mesmo Rasfer ficou paralisado. Com o último alento de fôlego pútrido, ele soltou um berro de agonia e seus braços abriram-se no ar. O punho quebrado da espada caiu de sua mão e escorregou pelo pavimento de pedra.

Os joelhos de Rasfer dobraram-se e ele amoleceu nos braços de Tanus, que com um empurrão o derrubou de costas. Rasfer aterrissou com tanta força que escutei mais de uma de suas costelas estalar como gravetos numa fogueira. A parte de trás de seu crânio bateu no piso de pedra com o som de um melão do deserto atirado do alto, e o ar lhe escapou dos pulmões com um silvo.

Rasfer rosnou em agonia. Mal tinha forças para levantar o braço em capitulação. Tanus estava tão transportado pelo furor da luta e inflamado pelo rugido da multidão que parecia ensandecido. Parou sobre Rasfer e ergueu a espada, agarrando o cabo com as duas mãos. Era uma visão temível: o sangue da ferida na testa havia tingido seu rosto como uma máscara demoníaca e reluzente. Suor e sangue haviam-lhe empapado os pêlos do peito e manchado suas roupas.

— Mate-o! — trovejou a platéia. — Mate o maligno!

A ponta da espada de Tanus estava voltada para o centro do peito de Rasfer e eu me enrijeci, esperando o golpe que iria empalar aquele corpo horrível. Desejava que Tanus o fizesse, pois odiava Rasfer mais que a qualquer um deles. Os deuses sabem que eu tinha motivos, pois ali estava o monstro que me castrara e eu ansiava por vingança.

Foi em vão. Eu deveria conhecer Tanus melhor e saber que não liquidaria um inimigo rendido. Vi o fogo da loucura atenuar-se em seus olhos. Ele balançou a cabeça ligeiramente, como que para recuperar o controle. Então, em vez de atingir o adversário, baixou lentamente a espada até ela perfurar de leve o peito de Rasfer. A ponta aguda extraiu uma gota de sangue, viva como um rubi entre os pêlos ásperos do peito de Rasfer. Então Tanus retomou a fala de seu personagem:

— Assim, submeto-te a minha vontade e expulso-te da luz. Que vagues por toda a eternidade por locais escuros. Que nunca mais tenhas poder sobre os homens nobres e bons. Dou-te o reinado sobre os ladrões e os covardes, os prepotentes e os traidores, os mentirosos e os assassinos, os saqueadores de tumbas e os violadores de mulheres virtuosas, os blasfemadores e os infiéis. Vai-te, e leva contigo a maldição de Hórus e de seu pai ressuscitado, Osíris.

Tanus afastou a espada do peito de Rasfer e jogou-a para o lado, desarmando-se deliberadamente diante do inimigo para demonstrar seu desprezo. A lâmina caiu com ruído e Tanus aproximou-se da água corrente do nosso Nilo. Apoiou-se num joelho e recolheu o líquido na mão para lavar o sangue do rosto. Então rasgou uma tira de linho de sua túnica e rapidamente amarrou a ferida da cabeça para estancar o sangramento.

Os dois macacos de Rasfer soltaram-me e correram para o palco em socorro de seu comandante caído. Levantaram-no e ele balançou entre os dois, arfando e bufando como um enorme sapo obsceno. Vi que estava seriamente ferido. Eles o arrastaram para fora do palco e o público gritou de desprezo e ódio.

Olhei para meu senhor Intef e vi sua expressão ainda desmascarada, confirmando todas as minhas suspeitas. Fora assim que ele planejara desferir sua vingança contra Tanus: fazê-lo ser executado diante de toda a população e de sua própria filha; fazer o amor de Lostris ser morto diante de seus olhos — esse teria sido o castigo da jovem por contrariar a vontade do pai.

A frustração de meu senhor foi suficiente para fazer-me sentir uma pontada de prazer ao imaginar a recompensa que aguardaria Rasfer. Talvez ele tivesse preferido receber mais do tratamento que Tanus lhe dispensara à punição que meu senhor Intef lhe infligiria. Meu amo sabia ser cruel com os que deixavam de satisfazê-lo.

Tanus levantou as duas mãos em direção ao teto do templo e gritou bem alto a invocação tradicional dos oradores:

— Amon-Rá, dai-me voz! Osíris, dai-me eloqüência!

— Dai-lhe voz! Dai-lhe eloqüência! — a multidão ecoou, e seus rostos ainda estavam transportados pelo que haviam observado, mas famintos por mais diversão.

Tanus era uma criatura incomum — um homem de ação, mas também um homem de palavras e idéias. Estou certo de que seria suficientemente generoso para admitir que muitas dessas idéias haviam sido plantadas em sua mente por este escravo submisso, Taita. No entanto, uma vez plantadas, encontraram solo fértil.

No que se refere à oratória, eram famosas as exortações de Tanus a sua esquadra nas vésperas das batalhas. É claro que eu não estivera presente a todas elas, mas me haviam sido relatadas em detalhe por Kratas, seu fiel amigo e tenente. Eu havia copiado vários desses discursos numa série de pergaminhos de papiro, pois eram dignos de ser preservados.

Tanus possuía o jeito simples e a capacidade de atingir diretamente o homem comum. Sempre pensei que muito desse poder especial brotava de sua honestidade transparente e de suas maneiras francas. Os homens confiavam nele e o seguiam de boa vontade por onde os conduzisse, mesmo que fosse para a morte.

Eu ainda estava abalado pelo conflito que acabávamos de presenciar e pela estreita margem pela qual Tanus escapara da armadilha que meu senhor Intef lhe havia montado. Não obstante, estava ávido para ouvir a declamação que Tanus havia preparado sem minha ajuda ou conselho. Para ser honesto, ainda me ressentia um pouco por ele ter recusado minha assistência, e mais que um pouco nervoso quanto ao que ele poderia inventar. Tato e sutileza nunca haviam sido as virtudes mais nobres de Tanus.

Então o faraó fez um gesto convidando-o a falar, cruzando e des-cruzando o gancho e o flagelo cerimoniais e inclinando graciosamente a cabeça. A congregação ficou silenciosa e atenta para não perder uma palavra.

— Sou eu, Hórus, com cabeça de falcão, quem fala — começou Tanus, e todos o incentivaram.

— É mesmo o da cabeça de falcão! Escutem-no!

— Ha-Ka-Ptah! — Tanus usou a forma arcaica de que derivara o atual nome do Egito. Poucos sabiam que o significado original era "o templo de Ptah". — Vos falo desta antiga terra dada a nós dez mil anos atrás, na época em que todos os deuses eram jovens. Vos falo dos dois reinos que por natureza são unos e indivisíveis.

O faraó assentiu. Esse era o dogma oficial, aprovado pelas autoridades temporais e religiosas, nenhuma das quais reconhecia o impostor do Baixo Reino ou sequer sua existência.

— Oh, Kemit! — Tanus usou outro nome antigo do Egito: a Terra Negra, por causa da cor da lama do Nilo trazida na inundação anual. — Vos falo desta terra abalada e dividida, dilacerada pela guerra civil, sangrando e esgotada de tesouros.

Meu choque espelhava-se no rosto de todos os que o ouviam. Tanus havia acabado de mencionar o impronunciável. Tive vontade de correr para o palco e tapar-lhe a boca com a mão para impedir que prosseguisse, mas estava paralisado.

— Oh, Ta-Meri! — Outro nome antigo: a Terra Amada. Tanus havia aprendido bem a história que eu lhe ensinara. — Vos falo de generais velhos e fracos, e almirantes fracos e indecisos demais para retomar o reino roubado pelo usurpador. Vos falo de homens antigos em seus cargos, que gastam vosso tesouro e desperdiçam o sangue de vossos melhores homens como se fossem borra de vinho amargo.

Na segunda fila da platéia, vi Nembet, o Grande Leão do Egito, enrubescer-se de raiva e coçar a barba com fúria. Os outros militares idosos a seu redor franziam a testa e remexiam-se indóceis nos bancos, sacudindo as espadas nas bainhas em sinal de desaprovação. Dentre todos, somente meu senhor Intef sorria ao observar Tanus escapar de uma armadilha apenas para cair em outra.

— Nossa Ta-Meri está rodeada de hordas inimigas, e no entanto os filhos dos nobres preferem cortar os próprios polegares a pegar as espadas para protegê-la.

Ao dizer isto, Tanus olhou agudamente para Menset e Sobek, os irmãos mais velhos de Lostris, sentados ao lado do pai na segunda fileira. O decreto real eximia do serviço militar os portadores de deficiências físicas que os tornasse incapazes. Os sacerdotes-cirurgiões do templo de Osíris haviam-se especializado na arte de remover a última falange do polegar, com pouca dor ou perigo de infecção, impossibilitando assim que a mão segurasse uma espada ou puxasse a corda do arco. Os jovens varões exibiam com orgulho suas mutilações enquanto jogavam e festejavam nas tavernas ribeirinhas. Consideravam o dedo amputado não um sinal de covardia, mas de sofisticação e espírito independente. "A guerra é um jogo feito por velhos com as vidas dos jovens", eu ouvira os irmãos de Lostris argumentar. "O patriotismo é um mito concebido por velhos decrépitos para nos meter nesse jogo infernal. Que lutem o quanto quiserem, mas nós não tomaremos parte nisso."

Em vão eu lhes havia perorado que o privilégio da cidadania egípcia encerrava deveres e responsabilidades. Eles me refutaram com a arrogância dos jovens e ignorantes.

Agora, porém, sob o olhar fixo de Tanus, estavam vexados e escondiam as mãos esquerdas nas dobras das roupas. Nenhum deles era canhoto, mas haviam convencido do contrário os oficiais de recrutamento, com sua veemência e um punhado de ouro.

O povo comum no fundo do grande saguão murmurou e bateu os pés em aprovação às palavras de Tanus. Eram os filhos deles que ocupavam os bancos de remadores das galés de combate ou marchavam armados pelas areias do deserto.

Enquanto isso, eu retorcia as mãos em desespero na lateral do palco. Com aquele breve discurso, Tanus transformara em inimigos cinqüenta dos jovens nobres na platéia. Eram homens que um dia herdariam poder e influência no Alto Reino. Sua inimizade superava em cem vezes a adoração do povo, e rezei para que Tanus terminasse. Em poucos minutos havia feito o suficiente para prejudicar-nos a todos durante cem anos, mas ele continuou com amargura:

— Oh, Ta-Nutri!— Este era mais um nome antigo: a Terra dos Deuses. — Vos falo dos malfeitores e assaltantes que esperam em emboscada em cada colina e em cada arbusto. O fazendeiro é obrigado a arar com o escudo a seu lado e o viajante deve caminhar com a espada desembainhada.

Mais uma vez o povo simples aplaudiu. A predação dos bandos de assaltantes era um terrível flagelo para todos eles. Ninguém estava seguro além dos muros das cidades, e os ladrões que chamavam a si mesmos de pegas, como os pássaros carniceiros, eram arrogantes e intrépidos. Respeitavam apenas sua própria lei e ninguém estava a salvo deles.

Tanus havia tocado exatamente a nota certa junto ao povo, e subitamente tive consciência de que aquilo era muito mais profundo do que parecia. Revoluções haviam sido forjadas e dinastias de faraós derrubadas por causa de apelos às massas exatamente como aquele. Com as palavras seguintes de Tanus minhas suspeitas se reforçaram:

— Enquanto os pobres choram sob o açoite do coletor de impostos, os nobres untam as nádegas de seus formosos rapazes com os preciosos óleos do Oriente...

Uma ovação ergueu-se do fundo do templo, e meus medos foram substituídos por uma tremenda excitação. Aquilo fora planejado cuidadosamente? Seria Tanus mais sutil e insidioso do que eu jamais imaginara?

"Por Hórus!", gritei em meu coração. "O país está pronto para uma revolução, e quem melhor para liderá-la que Tanus?" Só sentia decepção por ele não ter confiado em mim, participando-me seus objetivos. Eu poderia ter planejado uma revolução da mesma forma habilidosa e eficaz como projetava um jardim ou escrevia uma peça teatral.

Estiquei o pescoço para olhar acima das cabeças do público, esperando a qualquer momento ver Kratas e seu irmãos oficiais irromper pelo templo à frente de uma companhia de guerreiros da esquadra. Senti os pêlos dos meus braços e da nuca eriçar-se com excitação enquanto os imaginava arrancando a dupla coroa da cabeça do faraó e colocando-a sobre a fronte manchada de sangue de Tanus. Com que alegria eu teria acompanhado o grito de "Longa vida ao faraó! Longa vida ao rei Tanus!"

Imagens exaltadas giravam diante de mim enquanto Tanus continuava falando. Vi realizar-se a profecia do oráculo do deserto. Sonhei com Tanus sentado ao lado de minha senhora Lostris no trono branco do Egito, comigo em pé atrás deles, resplandecente nos trajes de grão-vízir do Alto Reino. Mas por que ele não me havia consultado antes de embarcar nessa perigosa aventura?

Com o próximo fôlego ele deixou claro o motivo. Eu havia julgado mal meu Tanus, meu honesto, franco e bom Tanus, meu nobre, correto e fiel Tanus, a quem só faltavam artimanhas, falácia e dissimulação.

Não se tratava de um golpe. Era simplesmente Tanus revelando suas próprias idéias, sem medo ou favor. O povo, que momentos antes estivera embevecido por cada palavra pronunciada pela língua dele, então sentiu inesperadamente o gume cortante desse órgão.

— Ouvi-me, ó Egito! O que será de uma terra onde os ineptos tentam suprimir os poderosos dentre eles; onde o patriota é vilipendiado; onde não há ancião reverenciado por sua sabedoria; onde os mesquinhos e os invejosos buscam reduzir os homens de valor a seu próprio nível indigno?

Não houve aplausos então, quando os que estavam ao fundo do templo se identificaram na descrição. Sem grande esforço Tanus havia conseguido afastar cada um daqueles homens, grandes e pequenos, ricos e pobres. Oh, por que não me havia consultado?, eu lamentava, mas a resposta era clara. Não me consultara por saber que eu o teria desaconselhado.

— Que ordem existe na sociedade em que um escravo tem a língua livre e se considera igual aos de nobre casta? — ele os olhou fixamente. — Deve o filho ridicularizar o pai e desprezar a sabedoria pela qual pagou em cabelos brancos e rugas na face? Deve a rameira do cais usar anéis de lápis-lazúli e considerar-se superior à esposa virtuosa?

Por Hórus, ele não pouparia ninguém do açoite de sua língua, pensei com amargura. Como sempre, Tanus estava completamente alheio a sua segurança ao percorrer o caminho que considerava correto e justo.

Apenas uma pessoa no templo estava encantada com o que ele dizia. Lostris apareceu a meu lado e agarrou-me o braço.

— Ele não é maravilhoso, Taita? — sussurrou. — Cada palavra que diz é verdade. Esta noite ele é realmente um jovem deus.

Não encontrei nem palavras nem ânimo para concordar com ela, e pendi a cabeça entristecido enquanto Tanus continuava, incansável:

— Faraó, sois o pai do povo. Nós vos imploramos proteção e socorro. Colocai os assuntos de Estado e de guerra nas mãos de homens honestos e inteligentes. Enviai os desonestos e os idiotas para apodrecer em suas propriedades. Dispensai os sacerdotes infiéis e os servidores do Estado corruptos, os parasitas sobre o corpo de nossa Ta-Meri.

Hórus sabe que sou um bom inimigo dos sacerdotes, mas apenas um imbecil ou um homem muito corajoso atrairia sobre si a fúria de todos os importunadores de deus, pois seu poder é infinito e seu ódio, implacável. Quanto aos funcionários públicos, suas linhas de influência e corrupção foram estendidas ao longo de séculos e meu senhor Intef era o chefe deles todos. Eu tremi de pena de meu querido e obtuso amigo, que continuava a oferecer instruções ao faraó para reestruturar toda a sociedade egípcia.

— Acolhei as palavras dos sábios! Oh, rei, honrai o artista e o escriba. Recompensai o bravo guerreiro e o servidor fiel. Extirpai os bandidos e os ladrões da imensidão do deserto. Dai ao povo exemplo e orientação em suas vidas, para que o Egito possa mais uma vez florescer e ser grande.

Tanus caiu de joelhos no centro do palco e abriu os braços.

— Oh, faraó, sois nosso pai. A vós dedicamos nosso amor. Em recompensa, mostrai-nos o amor paterno. Ouvi nossos apelos, nós vos suplicamos.

Até aquele momento eu estivera estupidificado pela profundidade da loucura de meu amigo, mas então, tarde demais, recuperei a razão e sinalizei freneticamente para que meus auxiliares de cena fechassem a cortina antes que Tanus pudesse provocar maiores danos. Quando as brilhantes dobras do tecido flutuaram, escondendo-o de vista, o público ficou sentado em atônito silêncio, como se não acreditasse em tudo o que havia escutado e visto naquela noite.

Foi o próprio faraó quem rompeu o encantamento. Ele levantou-se, e o rosto por trás da rígida máscara branca era inescrutável. Ao retirar-se do templo, todos se prostraram diante dele. E antes que meu senhor Intef também se abaixasse em obediência pude ver sua expressão. Era triunfante.

Acompanhei Tanus na volta do templo para seu alojamento parcamente mobiliado, perto do cais onde estava ancorada a esquadra. Caminhava ao lado dele com a mão no punho da adaga, pronto para que as conseqüências de sua ousada franqueza caíssem sobre nós imediatamente, mas Tanus ia despreocupado. Na verdade, parecia extraordinariamente satisfeito consigo mesmo, sem se dar conta da profundidade de sua insensatez. Muitas vezes notei que um homem recém-liberto de uma pressão terrível ou de perigo mortal torna-se efusivo e espirituoso. Tanus, o guerreiro empedernido, não era exceção.

— Já era hora de alguém se erguer e dizer o que precisava ser dito, não acha, meu velho amigo? — sua voz soou alta e clara pelo beco obscuro, como se ele estivesse decidido a atrair qualquer assassino que nos esperasse. Fiz um consentimento mudo. — Não esperava aquilo de mim, hein? Seja honesto, Taita. Foi apanhado de surpresa, não foi?

— Surpreendeu-nos a todos — concordei, desta vez com mais entusiasmo. — Até mesmo o faraó ficou abalado, como todos perceberam.

— Ele escutou, Taita. E vi que entendeu tudo. Fiz um bom trabalho esta noite, não acha?

Quando tentei abordar o assunto do ataque traiçoeiro de Rasfer e levantar a possibilidade de que tivesse sido inspirado por meu senhor Intef, Tanus discordou.

— Isso é impossível, Taita. Você está sonhando. O senhor Intef foi o melhor amigo de meu pai. Como poderia desejar-me o mal? Além disso, serei seu genro, não é? — E apesar de seus ferimentos, deu uma forte risada que despertou os que dormiam nos pobres casebres pelos quais passávamos, e que gritaram para nos calarmos. Tanus ignorou os protestos. — Não, não, tenho certeza de que você está enganado — continuou. — Foi apenas a inveja de Rasfer manifestando-se de maneira encantadora. Bem, ele pensará melhor na próxima vez. — Tanus passou o braço sobre meu ombro e apertou-me com tanta força que senti dor.

 

Você me salvou duas vezes esta noite. Sem suas advertências Rasfer

teria me acertado duplamente. Como faz essas coisas, Taita? Poderia jurar que é um bruxo secreto e tem o dom da visão interior. — Ele riu novamente.

Como poderia eu reprimir sua felicidade? Ele parecia um menino, um grande e corpulento menino. Não pude deixar de amá-lo ainda mais. Aquela não era a ocasião para mencionar o perigo em que colocara a si mesmo e a todos os seus amigos.

Resolvi deixá-lo regozijar-se; amanhã eu ergueria a voz da razão e da cautela. Então levei-o para casa, costurei o corte em sua testa, lavei os outros ferimentos e untei-os com minha mistura especial de ervas para evitar infecções. Então dei-lhe um pouco da poção de sheppen vermelho e deixei o bom Kratas a velar seu sono.

Quando cheguei ao meu apartamento, bem depois da meia-noite, encontrei três mensageiros a me esperar: uma de minha senhora Lostris e dois do derrotado Rasfer. Não havia dúvida a quem eu teria atendido se tivesse escolha, mas não tive. Os brutamontes de Rasfer arrastaram-me até onde ele se encontrava, deitado num colchão empapado de suor, amaldiçoando e gemendo alternadamente, invocando Seth e todos os deuses a testemunhar sua dor e tenacidade.

— Meu bom Taita! — ele me cumprimentou, apoiando-se com esforço num cotovelo. — Você não acreditaria na dor que sinto. Meu peito está em brasa. Juro que todos os ossos nele estão quebrados, e minha cabeça dói como se estivesse apertada por laços de couro cru.

Com pouquíssimo esforço reprimi minhas lágrimas de pena. Mas uma estranha coisa sobre nós, médicos e curandeiros, é que não encontramos forças no coração para negar nossos serviços mesmo à mais abominável criatura que deles necessite. Suspirei com resignação, desembrulhei a sacola de couro que continha meu equipamento médico e retirei os instrumentos e ungüentos.

Fiquei deliciado ao descobrir que o autodiagnóstico de Rasfer era precisamente correto, e que além das inúmeras contusões e ferimentos superficiais, pelo menos três de suas costelas estavam quebradas e havia um inchaço atrás de sua cabeça quase do tamanho de meu punho. Portanto, eu tinha um motivo perfeitamente válido para aumentar bastante seu sofrimento. Uma das costelas quebradas encontrava-se seriamente deslocada e havia perigo real de que ela perfurasse o pulmão. Enquanto seus dois capangas o seguravam e Rasfer guinchava e berrava de maneira gratificante, manipulei o osso de volta ao lugar e enrolei seu peito com faixas de linho embebidas em vinagre para que encolhessem ao secar.

Depois dediquei-me ao inchaço em sua cabeça, no local que havia batido no chão de pedra. Os deuses costumam ser generosos. Quando iluminei os olhos de Rasfer com uma lanterna, as pupilas não se contraíram. Não houve a menor dúvida em minha mente de qual seria o tratamento necessário. Havia fluido sangüíneo acumulado no interior de seu desgracioso crânio. Sem minha ajuda Rasfer estaria morto na tarde seguinte. Repeli a tentação óbvia e lembrei-me dos deveres do cirurgião para com seus pacientes.

Existem provavelmente apenas três cirurgiões em todo o Egito capazes de fazer uma trepanação com boas chances de êxito, e pessoalmente eu não depositaria muita fé nos outros. Mais uma vez ordenei aos dois imbecis de Rasfer que o segurassem, mantendo-lhe o rosto enterrado no colchão. Pela brutalidade dos gestos e a óbvia desconsideração pelas costelas machucadas de seu patrão, deduzi que não estavam exatamente transbordantes de afeição por ele.

Um novo coro de gritos assombrou a noite e alegrou meu trabalho quando fiz uma incisão semicircular ao redor do inchaço no couro cabeludo de Rasfer e descolei do osso uma grande aba de pele. Então nem mesmo os dois brutamontes conseguiram segurá-lo quieto. Seus corcovos faziam o sangue espirrar até o teto do quarto e sobre todos nós, fazendo-nos parecer afetados pela catapora. Finalmente, exasperado, ordenei que lhe amarrassem os tornozelos e pulsos aos postes da cama, com tiras de couro.

— Oh, gentil e doce Taita, a dor é inacreditável. Dê-me apenas uma gota da poção daquela flor, eu lhe suplico, querido amigo — ele balbuciou.

Agora que se encontrava seguramente atado à cama eu podia ser franco com ele.

— Compreendo exatamente como está se sentindo, meu bom Rasfer. Eu também teria ficado grato por um pouco da flor quando você aplicou em mim sua faca. infelizmente, velho camarada, meu estoque do remédio terminou e só haverá outra caravana do Oriente daqui a um mês — menti alegremente, pois poucas pessoas sabiam que eu mesmo cultivava o sheppen vermelho. Ciente de que o melhor ainda estava por vir, apanhei a broca.

Como médico, a única parte do corpo humano que me intriga é a cabeça. Sob as ordens de meu senhor Intef, todos os cadáveres de criminosos executados são entregues a mim. Além disso, Tanus me trouxera dos campos de batalha diversos espécimes, adequadamente conservados em toneis de salmoura. Dissequei e estudei todos eles, de modo que conheço cada osso do esqueleto e como se encaixa em seu lugar exato. Identifiquei a rota pela qual o alimento entra na boca e percorre o corpo. Localizei o coração, esse grande e incrível órgão, aninhado entre os pálidos foles dos pulmões. Estudei os rios corpóreos pelos quais flui o sangue e observei os dois tipos de sangue que determinam os humores e as emoções do homem.

Existe, é claro, aquele sangue vivo e brilhante que, liberto pelo talho do escalpelo ou o machado do carrasco, jorra em impulsos regulares. Este é o sangue dos pensamentos felizes e das belas emoções, o sangue do amor e da bondade. Depois há aquele sangue escuro e espesso que flui sem o vigor e o ímpeto feliz do outro. Este é o sangue da raiva e da tristeza, dos pensamentos melancólicos e feitos malignos.

Todos esses assuntos eu havia estudado, e preenchera cem rolos de papiro com minhas observações. No meu entender, não há homem no mundo que tenha avançado tanto, certamente nenhum daqueles idiotas do templo com seus amuletos e encantamentos. Duvido que qualquer um deles possa distinguir o fígado do esfíncter anal sem fazer uma invocação a Osíris, jogar os dados divinos e receber adiantadamente uma gorda soma.

Posso dizer com toda a modéstia que nunca conheci um homem que compreendesse o corpo humano melhor que eu, e no entanto a cabeça continua sendo um enigma para mim. Naturalmente entendo que os olhos vêem, o nariz cheira, a boca sente o paladar e os ouvidos escutam — mas qual é o objetivo daquela pasta cinzenta que preenche a cabaça do crânio?

Nunca fui capaz de descobri-lo, e ninguém jamais me ofereceu uma explicação satisfatória, a não ser Tanus, que mais se aproximou disso. Depois de havermos passado uma noite juntos provando a última safra de vinho tinto, ele despertara de madrugada e sugerira com um bocejo: "Seth colocou essa coisa em nossas cabeças para vingar-se da humanidade".

Certa vez conheci um homem que viera com uma caravana de além dos lendários rios gêmeos, Tigre e Eufrates, o qual afirmava ter estudado o mesmo problema. Ele era um sábio, e ao longo de meio ano debatemos inúmeros mistérios. A certa altura ele sugeriu que todas as emoções e os pensamentos humanos não provinham do coração, mas sim daquelas curvas moles e amorfas que constituem o cérebro. Menciono essa afirmação ingênua apenas para demonstrar como até mesmo um homem inteligente e culto pode cometer graves erros.

Ninguém que já tenha examinado o coração, esse poderoso órgão que pulsa com vida própria no centro do corpo, alimentado por grandes nos de sangue e protegido pelas paliçadas de ossos, pode duvidar de que seja ele a fonte da qual vertem todos os pensamentos e emoções.

O coração utiliza o sangue para disseminar essas emoções pelo corpo. Você já sentiu seu coração agitar-se e acelerar diante de uma música maravilhosa, um rosto encantador ou as belas palavras de um discurso eloqüente? E já sentiu alguma coisa saltar dentro de sua cabeça? Mesmo o sábio oriental teve de capitular diante de minha estrita lógica.

Nenhum homem racional pode acreditar que uma massa exangue e leitosa, inerte e enovelada em seu recipiente ósseo, possa gerar os versos de um poema ou o desenho de uma pirâmide, possa fazer um homem amar ou empreender a guerra. Até mesmo os embalsamadores o removem e dispensam, ao preparar um cadáver para a longa jornada.

No entanto há aqui um paradoxo: o fato de que quando essa massa aglutinada sofre qualquer interferência, mesmo a simples pressão de um líquido ali encurralado, o paciente está certamente condenado. É necessário um conhecimento íntimo da estrutura da cabeça e uma maravilhosa destreza para se poder perfurar o crânio sem perturbar o saco que encerra esse mingau. Eu possuo ambos esses atributos.

Enquanto escavava lentamente o osso, incentivado pelos berros de Rasfer, fazia pausas regulares para lavar as lascas de osso com borrifos de vinagre sobre o ferimento. A queimação do líquido pouco acrescentava ao bem-estar do paciente, apenas reforçando o volume de seus gritos.

Subitamente a aguçada broca de bronze atravessou com precisão o crânio e um pequeno e perfeito círculo de osso foi expelido da abertura pela pressão interna. Seguiu-se imediatamente um jorro de sangue escuro e coagulado que me atingiu o rosto. Rasfer descontraiu-se em seguida. Eu soube então, com uma insidiosa pontada de arrependimento, que ele sobreviveria. Enquanto costurava a aba de escalpo de volta no lugar, cobrindo a abertura em cujas profundezas a dura mater pulsava ameaçadoramente, pensei se havia de fato prestado um grande serviço à humanidade ao preservar aquele espécime.

Quando deixei Rasfer com a cabeça envolta em bandagens, roncando e choramingando em porcina autopiedade, percebi que estava completamente exausto. O excitamento e os sobressaltos do dia haviam despendido minhas vastas reservas de energia. No entanto, não teria descanso, pois a mensageira de minha senhora Lostris ainda pairava pelo terraço de meu apartamento e saltou sobre mim assim que pisei no primeiro degrau. Só me foi permitido o favor de lavar-me do sangue de Rasfer e trocar minhas vestes manchadas.

Ao entrar em sua câmara, quase incapaz de dar um passo adiante do outro, minha ama recebeu-me com um olhar ardente e o pé tam-borilando com nervosismo.

— Onde é que esteve se escondendo, mestre Taita? — ela desferiu imediatamente. — Mandei buscá-lo muito antes da segunda ronda, e já é quase madrugada. Como ousa fazer-me esperar tanto? Às vezes você esquece sua posição. Conhece muito bem o castigo para os escravos impertinentes!

Lostris estava possessa, depois de deixar que sua impaciência fermentasse durante tantas horas. Quando está enraivecida é de uma beleza estonteante, e ao ver seu pé batendo naquele gesto adorável e tão típico dela pensei que meu coração fosse explodir de amor.

— Não fique aí sorrindo para mim! — ela atirou. — Estou com tanta raiva que poderia mandar açoitá-lo. — Ela bateu novamente o pé e senti o cansaço cair de meus ombros como um fardo pesado. Sua mera presença tinha o poder de revitalizar-me.

— Minha senhora, que papel magnífico desempenhou esta noite! Pareceu a mim e a todos os que a observavam que era de fato a divina deusa a caminhar entre nós...

— Não ouse vir com seus truques. — Ela bateu o pé pela terceira vez, mas já sem muita convicção. — Não vai se safar desta com tanta facilidade.

— É verdade, minha senhora. Quando voltei do templo pelas ruas repletas de gente seu nome estava em todos os lábios. Diziam que seu canto foi o mais belo que jamais escutaram e que havia raptado todos os corações.

— Não acredito numa só palavra — ela afirmou, mas visivelmente tinha dificuldade em sustentar sua fúria. — Na verdade achei minha voz horrível esta noite. Errei o tom pelo menos uma vez e desafinei em várias...

— Devo contradizê-la, senhora. Nunca esteve melhor. E que beleza! Iluminou todo o templo.

Minha senhora Lostris não é realmente vaidosa, mas é uma mulher.

— Que homem terrível! — ela gritou exasperada. — Eu estava realmente disposta a mandá-lo chicotear desta vez. Mas venha sentar-se ao meu lado na cama e conte-me tudo. Ainda estou tão excitada que tenho certeza de que não dormirei por uma semana.

Ela pegou minha mão e conduziu-me até a cama, tagarelando alegremente sobre Tanus e como ele devia ter conquistado todos os corações, assim como ao faraó, com sua apresentação maravilhosa e seu intrépido discurso, e como o infante Hórus havia sujado seu vestido, e se eu realmente achava que ela havia cantado bem todas as árias ou estava apenas dizendo por dizer.

Finalmente tive de contê-la.

— Minha senhora, é quase madrugada e devemos estar prontos para partir com toda a corte, acompanhando o rei na travessia do rio para inspecionar o templo fúnebre e a tumba. Deve dormir um pouco se quiser ter boa aparência numa ocasião tão importante.

— Não tenho sono, Taita — ela protestou, e continuou tagarelando.

Mas alguns minutos depois tombou sobre meu ombro e dormiu no meio de uma frase.

Com delicadeza, pousei sua cabeça no apoio de madeira esculpida e cobri-a com uma manta de peles de macaco. Não consegui sair imediatamente e fiquei vigilante a seu lado. Depois dei-lhe um beijo suave no rosto. Ela não abriu os olhos, mas murmurou sonolenta:

— Acha que terei a oportunidade de falar com o rei amanhã? Somente ele poderá impedir meu pai de mandar Tanus embora.

Não consegui encontrar uma resposta imediata, e enquanto pensava, ela adormeceu completamente.

Mal consegui me arrastar para fora da cama de madrugada, pois parecia ter acabado de fechar os olhos e já era hora de abri-los de novo. Meu reflexo no espelho de bronze pareceu doentio, com os olhos raiados de vermelho. Rapidamente servi-me da maquiagem para encobrir meu triste estado, reforçando as pálpebras com kohl e minhas feições pálidas com uma pincelada de anti-mônio. Dois meninos escravos pentearam meu cabelo e fiquei tão satisfeito com o resultado que me sentia quase contente ao correr para o cais particular do grão-vizir, onde estava ancorada a grande nave real.

Fui um dos últimos a me juntar à multidão no ancoradouro, mas ninguém pareceu notar meu atraso, nem sequer minha senhora Lostris, que já se encontrava no convés do navio. Observei-a por um instante.

Ela fora convidada a ficar entre as mulheres reais. Estas incluíam não apenas as esposas do rei, mas suas diversas concubinas e todas as suas filhas. E claro que estas últimas eram o motivo da tristeza do faraó, um bando que variava desde bebês a engatinhar a outras em idade de casar, e nenhum filho homem entre elas. Como seria mantida a imortalidade do faraó sem um herdeiro que garantisse sua linhagem?

Era difícil acreditar que, como eu, Lostris não havia dormido mais que uma ou duas horas, pois parecia fresca e suave como uma das rosas do meu jardim. Mesmo naquele magnífico mostruário de beleza feminina que fora selecionado pelos emissários do faraó ou enviado por seus sátrapas dos confins do império, Lostris destacava-se como uma andorinha entre um bando de pequenos rouxinóis do deserto.

Procurei Tanus, mas sua esquadra já estava adiantada rio acima, pronta para escoltar a travessia do faraó, e o reflexo do sol nascente transformava a superfície do Nilo numa lâmina de prata ofuscante. Não consegui olhar.

Naquele momento ouviu-se o rufo de um tambor e a população esticou os pescoços para ver a passagem pomposa do faraó, do palácio até o navio real.

Naquela manhã ele vestia a pequena coroa nemes de línho engomado e dobrado, presa à cabeça com a faixa de ouro do uraeus. A naja dourada e ereta, com o pescoço dilatado e os olhos de rubi polido, erguia-se de sua fronte. A serpente era o símbolo dos poderes de vida e morte que o faraó detinha sobre seus súditos. O rei não carregava o gancho e a chibata, apenas o cetro dourado. Depois da dupla coroa, este era o tesouro mais sagrado de todas as jóias da coroa, e afirmava-se que tinha mais de mil anos.

Apesar de todo o aparato e o cerimonial, o faraó não usava maquiagem. Sob os raios diretos do sol matinal e sem nada para disfarçar, Mamose não era digno de atenção. Apenas um homenzinho de meia-idade com uma pequena barriga projetando-se sobre a cintura do saiote e feições marcadas por rugas de preocupação.

Quando ele passou por onde eu estava, pareceu reconhecer-me, pois acenou ligeiramente. De imediato prostrei-me no chão e ele fez uma pausa, indicando que me aproximasse. Arrastei-me para a frente sobre as mãos e os joelhos e bati a cabeça três vezes no chão a seus pés.

— Você não é Taita, o poeta? — ele perguntou com sua voz aguda e petulante.

— Sou Taita, o escravo, vossa majestade — respondi. Há ocasiões que exigem um pouco de humildade. — Mas sou também um pobre escrevinhador.

— Bem, Taita, o escravo, você escrevinhou com bons resultados ontem à noite. Nunca me diverti tanto numa apresentação. Editarei um decreto real declarando sua pobre escrevinhação a versão oficial.

Ele anunciou isto alto o suficiente para que toda a corte escutasse, e até meu senhor Intef, que o seguia de perto, demonstrou seu prazer. Como eu era seu escravo, a honra pertencia mais a ele que a mim. No entanto, o faraó não havia terminado.

— Diga-me, escravo Taita, você não é também o cirurgião que recentemente me fez prescrições?

— Majestade, sou o mesmo humilde escravo que tem a temeridade de praticar um pouco de medicina.

— Então, quando seu tratamento fará efeito? — Ele baixara a voz, de modo que apenas eu pude ouvir a pergunta.

— Majestade, o evento acontecerá nove meses depois que vós tiverdes cumprido as condições que enumerei. — Como estávamos agora numa relação de médico e paciente, senti-me seguro para acrescentar: — Haveis seguido a dieta que recomendei?

— Pelos seios copiosos de Isis! — ele exclamou com um tremor inesperado nos olhos. — Estou tão cheio de testículos de touro que não sei como não berro quando um rebanho de vacas passa pelo palácio.

Ele estava tão bem-humorado que experimentei uma piada de minha lavra:

— O faraó já encontrou a novilha que sugeri?

— Infelizmente, doutor, não é tão simples como pode parecer. As mais belas flores logo são visitadas pela abelha. Você estipulou que ela deve ser completamente intocada, não foi?

— Virgem e intocada, e na estação de sua primeira lua vermelha — acrescentei rapidamente, dificultando ao máximo a execução de minha receita. — Já encontrastes alguém que corresponda à descrição, majestade?

Sua expressão mudou novamente e ele sorriu de maneira pensativa. O sorriso pareceu deslocado naquelas feições melancólicas.

— Veremos — ele murmurou. — Veremos...

Virou-se e subiu ao passadiço da embarcação. Quando meu senhor Intef aproximou-se de mim, fez um pequeno gesto ordenando-me que seguisse atrás dele, e então acompanhei-o ao convés do navio real.

O vento havia cedido durante a noite e as águas escuras do rio pareciam pesadas e imóveis como óleo num jarro, perturbadas na superfície apenas pelas marcas e redemoinhos onde fluía a eterna correnteza, profunda e ligeira. Mesmo Nembet deveria ser capaz de efetuar a travessia nessas condições, embora a esquadra de Tanus aguardasse de forma nada lisonjeira, como se ele estivesse pronto para resgatar o faraó mais uma vez.

Meu senhor Intef chamou-me de lado assim que subimos ao convés.

— Você ainda tem às vezes a capacidade de me surpreender, meu velho querido — sussurrou, apertando meu braço. — Logo quando eu começava a duvidar seriamente de sua lealdade.

Fiquei atônito com essa súbita demonstração de boa vontade, já que as marcas do chicote de Rasfer em minhas costas ainda doíam. No entanto, inclinei a cabeça para ocultar minha expressão e esperei que ele me desse indícios antes de me manifestar, o que fez prontamente:

— Eu não poderia ter escrito uma declamação mais adequada para Tanus recitar diante do faraó. Onde o imbecil do Rasfer fracassou completamente você salvou o dia para mim, como de costume.

Foi então que tudo se encaixou. Ele acreditava que eu fosse o autor da monumental loucura de Tanus e que a tivesse composto para beneficiá-lo. No clamor do templo não havia escutado minhas advertências a Tanus, ou teria percebido tudo.

— Fico feliz de que o senhor esteja contente — murmurei em resposta. Sentia um enorme alívio. Minha posição de influência não fora comprometida. Não era em minha própria pele que eu pensava naquele momento... bem, não inteiramente. Pensava em Tanus e Lostris. Eles precisariam de toda ajuda e proteção que eu lhes pudesse dar durante os dias tempestuosos que os aguardavam. Senti-me grato por ainda estar em posição de lhes ser útil. — Não fiz mais que meu dever. — Assim, extraí o máximo desse golpe de sorte.

— Verá minha gratidão — retrucou meu senhor Intef. — Lembra-se daquele pedaço de terra sobre o canal, atrás do templo de Thoth, sobre qual conversamos há algum tempo?

Com certeza, meu senhor. — Ambos sabíamos que eu cobiçava

aquele lote há dez anos. Daria um perfeito refúgio para um escritor e um lugar para o qual eu poderia retirar-me na velhice.

— É seu. Em minha próxima audiência, traga-me o documento para que eu o assine.

Fiquei atônito e desconcertado com a maneira indigna pela qual conquistara a terra, em pagamento por um ato de traição imaginário de minha parte. Por um momento pensei em recusar o presente, mas apenas por um momento. Quando me recuperei do choque já havíamos atravessado o rio e entrávamos no canal que corta a planície até o grande mausoléu do faraó Mamose.

Eu havia supervisionado esse canal com um mínimo de ajuda dos arquitetos reais, e planejara virtualmente sozinho o complicado sistema para transportar o corpo do faraó do local de sua morte até o templo fúnebre, onde ocorreria o processo de mumificação.

Imaginei que ele morreria em seu palácio, na adorável ilhota Ele-fantina. Portanto, seu cadáver seria trazido rio abaixo no navio real. Eu projetara o canal para comportar seguramente a embarcação, e agora ela deslizava para dentro dele com tanta precisão quanto uma espada em sua bainha.

Reto como a lâmina de minha adaga, o canal cortava o solo negro da planície aluvial por dois mil passos, até o sopé dos montes saarianos. Dezenas de milhares de escravos haviam trabalhado durante anos para construí-lo e revesti-lo de blocos de pedra. Quando o navio embicou no canal, duzentos escravos fortes agarraram as duas cordas na proa e começaram a puxá-lo lentamente através da planície. Cantavam uma das tristes melodias de trabalho enquanto marchavam em fileiras pelas bordas. Os camponeses que trabalhavam nos campos ao lado do canal acorreram para nos receber. Amontoados nas margens, pediam bênçãos para o rei e agitavam folhas de palmeira enquanto a grande nave passava majestosamente.

Quando enfim encostamos na doca de pedra sob os muros exteriores do templo semi-acabado, os escravos amarraram as cordas aos anéis de atracação. Meu projeto era tão preciso que a porta de entrada no casco da nave real alinhou-se exatamente com os portais do acesso principal do templo.

A enorme embarcação se deteve, o trombeteiro da proa tocou uma fanfarra em sua trompa de chifre de gazela e a grade de ferro da entrada ergueu-se lentamente, revelando o carro fúnebre real à espera, cercado pela companhia de embalsamadores em suas túnicas púrpura e por cinqüenta sacerdotes de Osíris alinhados atrás deles.

Os sacerdotes começaram a cantar enquanto puxavam o carro funerário sobre rolos de madeira até o cais. O faraó bateu palmas deliciado e correu para examinar o grotesco veículo.

Eu não havia participado da concepção daquela celebração do mau gosto. Era inteiramente obra dos sacerdotes. Basta dizer que sob o sol cruel o trabalho em ouro excessivo reluzia tanto que feria os olhos de modo quase tão doloroso quanto a forma em si. Tanto peso em ouro obrigava os sacerdotes a arfar e suar enquanto manejavam a desajeitada arca até o convés do navio, o qual chegou a oscilar de modo alarmante. Aquele peso em ouro poderia ter enchido de grãos todos os silos do Alto Reino ou construído e equipado cinqüenta esquadras de navios de combate e pago suas tripulações por dez anos. Era a tentativa dos ineptos artesãos de esconder a pobreza de sua inspiração por trás de um tesouro ofuscante. Se me tivessem dado esse material com que trabalhar, teriam visto algo diferente.

Aquela monstruosidade destinava-se a ser selada na tumba com o corpo do faraó. Por mais que sua construção houvesse contribuído em grande parte para a ruína financeira do reino, o faraó estava maravilhado.

Por sugestão de meu senhor Intef, o rei subiu ao veículo e sentou-se na plataforma destinada a carregar seu sarcófago. Dali ele sorriu para os circunstantes, esquecido de qualquer dignidade e recato real. Provavelmente estava se divertindo mais do que em toda a sua triste vida, refleti com uma ponta de compaixão. A morte seria o clímax para o qual se voltavam toda a sua energia vital e suas expectativas.

Num impulso, ele chamou meu senhor Intef para acompanhá-lo no carro fúnebre e então olhou ao redor do convés repleto como se procurasse mais alguém. Pareceu encontrar quem desejava, pois inclinou-se ligeiramente e falou algo para o grão-vizir.

Meu senhor Intef sorriu e, seguindo suas instruções, apontou para Lostris. Com um gesto, ordenou-lhe que viesse até a arca. Ela ficou claramente confusa e enrubesceu sob a maquiagem, um raro fenômeno para alguém que poucas vezes era apanhada desprevenida. No entanto, ela recuperou-se com rapidez e subiu no carro com uma agilidade graciosa e infantil que, como de costume, foi acompanhada por todos os olhares.

Ajoelhou-se diante do rei e tocou a testa três vezes no piso do carro. Então, diante de todos os sacerdotes e de toda a corte, o faraó fez uma coisa extraordinária: estendendo o braço, pegou a mão de Lostris, a fez erguer-se e sentar-se a seu lado na plataforma. Aquilo ultrapassou todo o protocolo, era algo sem precedentes, e vi os ministros trocarem olhares surpresos.

Aconteceu então mais uma coisa, de que eles não se deram conta.

Quando eu era muito jovem, no alojamento dos meninos vivia um velho escravo surdo que se tornou meu amigo. Foi ele quem me ensinou - ler o discurso humano não apenas pelo som, mas pela forma dos lábios ao emitir as palavras. Era uma habilidade muito útil, através da qual eu podia acompanhar uma conversa no lado oposto de um salão repleto de gente, com músicos a tocar e cem homens a meu redor rindo e gritando entre si.

Ali, diante de meus olhos, vi o faraó dizer suavemente a minha senhora Lostris:

— Mesmo à luz do dia você é tão divina quanto a deusa Isis sob as tochas do templo.

Senti um choque semelhante a um soco na boca do estômago. Eu estivera cego, censurei-me em desespero, ou fora apenas estúpido? Com certeza qualquer imbecil teria previsto o sentido em que minha caprichosa intervenção inclinaria os dados do destino.

Meu insensato conselho ao rei inevitavelmente o teria feito voltar a atenção para minha senhora Lostris. Era como se algum impulso maligno sob a superfície de minha mente houvesse decidido descrevê-la precisamente para ele como a mãe de seu primeiro filho varão. A mais bela virgem do país, a ser tomada na primeira estação depois que sua lua florescesse — era exatamente ela. E depois, ao destacá-la como atriz principal na encenação, eu conseguira exibi-la ao rei sob a melhor luz possível.

Aquilo que eu de súbito percebera estar prestes a acontecer era completamente minha culpa, como se eu houvesse engendrado tudo de propósito. Além disso, não havia nada que pudesse fazer a respeito agora. Fiquei tão revoltado e arrependido debaixo do sol que me vi por um instante privado da fala e do raciocínio.

Quando os suados sacerdotes empurraram o veículo através do portão, a multidão a meu redor disparou atrás e fui carregado inconsciente, como uma folha na correnteza, sem vontade própria. Antes que pudesse recuperar o tino, vi-me no átrio do mausoléu. Comecei a abrir caminho, empurrando as pessoas para alcançar a carruagem antes que chegasse à entrada principal da morgue real.

Enquanto um grupo de sacerdotes empurrava o carro adiante, outro grupo apanhava os rolos de madeira deixados para trás e corria para colocá-los à frente do portentoso veículo dourado. Houve um certo atraso quando ele atingiu a área do pátio que ainda não fora pavimentada. Os sacerdotes distribuíam palha adiante dos rolos para suavizar o percurso áspero e eu esgueirei-me por trás da fileira de enormes leões de pedra que ladeava a avenida, correndo pelo espaço desimpedido até me nivelar à arca. Quando um dos sacerdotes tentou barrar o caminho e impedir-me de chegar à lateral do veículo, dei-lhe um olhar que teria feito os leões de pedra tremer, e cuspi-lhe uma única palavra que raramente se ouvia nos confins do templo e que o fez afastar-se depressa, deixando-me passar.

Quando atingi a lateral do carro vi-me diretamente abaixo de Lostris, perto o suficiente para esticar-me e tocá-la, e para ouvir tudo o que ela dissesse ao rei. Vi imediatamente que havia recuperado a compostura, antes perturbada pelo súbito interesse do faraó, e agora esforçava-se para ser o mais agradável possível. Com desespero, lembrei-me de que ela planejara fazer exatamente aquilo, usando seu favor para obter a permissão real para casar-se com Tanus. Na noite anterior eu havia considerado aquilo uma tagarelice infantil, mas agora estava acontecendo de fato e eu não tinha qualquer poder para impedi-la ou avisá-la sobre as perigosas águas em que navegava.

Se no início desta crônica dei a impressão de que minha senhora Lostris é uma criança frívola, sem uma idéia na linda cabecinha além de sua insensatez romântica e os prazeres da vida, então não cumpri meu papel como historiador destes eventos extraordinários. Embora ainda muito jovem, ela era às vezes de uma maturidade superior a sua idade. As garotas egípcias florescem cedo sob o sol do Nilo. Ela também era uma aluna diligente, de mente brilhante e natureza meditativa e curiosa, o que ao longo dos anos eu fizera o possível para promover.

Sob minha tutela, Lostris atingira um nível que lhe permitia debater com os sacerdotes obscuros dogmas religiosos, defender sua opinião sobre assuntos como a lei da posse da terra com os advogados do palácio e a complicadíssima lei de irrigação que regulamentava a utilização das águas do Nilo. Ela havia lido e absorvido cada um dos pergaminhos da biblioteca do palácio, os quais incluíam várias centenas de minha lavra, desde meus tratados médicos até os ensaios conclusivos sobre táticas de guerra naval, assim como estudos astrológicos sobre os nomes e características dos corpos celestes, manuais sobre arquearia e esgrima, horticultura e falcoaria. Ela era capaz até de discutir comigo meus próprios princípios de arquitetura e compará-los aos do grande Imhotep.

Portanto, estava perfeitamente apta a discutir qualquer assunto, da astrologia à prática guerreira, da política à construção de templos, à mensuração e regulagem das águas do Nilo, temas que fascinavam o faraó. Além disso, era capaz de compor rimas e cunhar divertidos trocadilhos, e seu vocabulário era quase tão extenso quanto o meu. Em suma, uma exímia interlocutora, com um ágil senso de humor, articulada, dona de uma voz encantadora e de um bonito riso. Realmente nenhum homem ou deus poderia resistir-lhe, especialmente se pudesse oferecer a alguém sem um filho a promessa de um herdeiro.

Eu precisava adverti-la, mas como poderia um escravo intrometer-se na reunião de pessoas posicionadas tão infinitamente acima dele? Acompanhei nervosamente a carruagem, ouvindo a voz de minha senhora Lostris no tom mais encantador, enquanto ela se dedicava a atrair os favores do rei.

Explicava a ele a maneira como seu templo fúnebre havia sido projetado conforme os mais propícios aspectos astronômicos, os da lua e do zodíaco no instante do nascimento do faraó. É claro que ela meramente repetia conhecimentos que aprendera de mim, pois fora eu quem fizera as observações e orientara o templo na direção dos corpos celestes. No entanto, era tão convincente que me vi acompanhando suas explicações como se as escutasse pela primeira vez.

O carro fúnebre passou entre os pilares do pátio interno do templo e rolou pelo longo claustro, através das portas guardadas que davam para os seis tesouros, onde eram fabricadas e armazenadas oferendas fúnebres para acompanhar o rei na tumba. No final do átrio abriram-se as portas de acácia esculpidas com imagens de todos os deuses do panteão, e entramos no necrotério onde o corpo do faraó seria embal-samado um dia.

Ali na capela solene, o rei desceu do carro e adiantou-se para inspecionar a mesa maciça onde ficaria deitado para o ritual de mumificação. Ao contrário do embalsamamento de uma pessoa comum, a cerimônia real durava setenta dias. A mesa fora esculpida num único bloco de diorito, de três passos de comprimento e dois de largura. Na superfície escura e rajada haviam escavado uma depressão para encaixar a cabeça do rei e sulcos que recolheriam o sangue e outros fluidos libertados pelos escalpelos e instrumentos dos embalsamadores.

O grão-mestre da confraria dos embalsamadores estava parado junto à mesa, pronto para explicar ao rei o processo, e teve uma platéia atenta, pois o faraó parecia fascinado por todos os terríveis detalhes. A certa altura, pareceu prestes a esquecer sua dignidade e a subir no bloco de diorito para experimentar o tamanho, como se fosse um novo traje apresentado pelo alfaiate.

No entanto, ele se conteve com evidente esforço e concentrou-se na descrição do especialista sobre como seria feita a primeira incisão, da garganta até a virilha, e como suas vísceras seriam completamente retiradas e depois repartidas — fígado, pulmões, estômago e entranhas. O coração, centro da centelha divina, seria deixado no lugar, assim como os rins, por sua associação com a água e portanto com o Nilo, fonte da vida.

Depois das edificantes instruções, o faraó examinou minuciosamente os quatro jarros canópicos que receberiam suas vísceras. Estavam dispostos ao lado, numa mesa menor de granito. Os jarros haviam sido esculpidos em alabastro translúcido e reluzente, da cor do leite. Seus suportes tinham a forma dos deuses com cabeças de animais: Anúbis, o chacal, Sobeth, o crocodilo, Thoth, o de cabeça de íbis, Sekhmet com a cabeça de leoa. Seriam os guardiães dos órgãos divinos do faraó até seu despertar na vida eterna.

Na mesma mesa de granito os embalsamadores haviam arranjado seus instrumentos e um conjunto de vasos e ânforas que continham os sais de natro, laças e outras substâncias a ser utilizadas na mumificação. O faraó ficou fascinado pelos reluzentes escalpelos de bronze que o des-ventrariam, e quando o embalsamador mostrou a longa colher pontuda que lhe seria enfiada pelas narinas para recolher o conteúdo de seu crânio, aquela pasta leitosa sobre a qual eu meditara longa e infrutiferamente, ficou fascinado e manuseou o mórbido instrumento com temor reverente.

Quando o rei satisfez sua curiosidade sobre a mesa mortuária, minha senhora Lostris chamou sua atenção para os baixos-relevos coloridos que recobriam as paredes do templo do chão até o teto. As decorações não estavam terminadas, mas eram assim mesmo notáveis por seu desenho e execução. Eu mesmo havia desenhado a maioria dos cartões originais e supervisionara de perto os outros, criados por artistas palacianos. Estes haviam sido riscados nas paredes com bastões de carvão. Depois eu os corrigira e aperfeiçoara a mão livre e agora uma equipe de mestres escultores os estava gravando nos blocos de calcário, seguidos por uma segunda equipe de artistas que pintavam o baixo-relevo já pronto.

A cor dominante que eu escolhera para esses desenhos era o azul, em todas as suas variantes: o azul da asa de gralha, os azuis do céu e do Nilo sob o sol, os azuis das pétalas de orquídea do deserto e o azul brilhante da carpa saltando nas redes de pesca. No entanto, havia também outras cores: todos os vibrantes vermelhos e amarelos que nós egípcios tanto amamos.

O faraó, acompanhado de perto por meu senhor Intef, em sua condição de mantenedor das tumbas reais, fez um lento circuito examinando cada detalhe das altas paredes e comentando a maioria deles. Naturalmente, o tema que eu havia escolhido era o Livro dos Mortos, esse mapa minucioso que descreve o caminho pelo além-mundo que a sombra do faraó deverá percorrer, com todas as provas e perigos que deverá enfrentar no trajeto.

Ele se deteve por um longo momento diante de meu desenho do deus Thoth, com a cabeça de pássaro de longo bico curvo, pesando numa balança o coração do faraó contra a pluma da verdade. Se o coração fosse impuro, inclinaria a balança e o deus imediatamente o atiraria ao monstro com cabeça de crocodilo que aguardava para devorá-lo. Suavemente, o rei recitou o mantra protetor inscrito no livro para protegê-lo dessa calamidade, e então passou à próxima gravura.

Era quase meio-dia quando o faraó completou a inspeção do templo mortuário e passou ao pátio onde os cozinheiros do palácio haviam disposto um suntuoso banquete ao ar livre.

— Venha sentar-se aqui, onde poderei conversar mais com você sobre as estrelas! — Mais uma vez o rei ignorou o protocolo e colocou minha senhora Lostris junto de si à mesa do banquete, chegando a deslocar uma das esposas mais velhas para lhe dar lugar. Durante a refeição ele dirigiu a maior parte da conversa a minha ama, que estava agora completamente à vontade e mantinha o rei e todos ao redor cativos de sua inteligência e seu encanto.

Como escravo eu não tinha direito de sentar-me à mesa, é claro, nem podia aproximar-me de minha ama e avisá-la para moderar suas maneiras na presença do rei. Ao contrário, encontrei um lugar no pedestal de um dos leões de granito, de onde podia observar toda a mesa do banquete e ver tudo o que acontecia. Eu não era o único observador, pois meu senhor Intef sentava-se perto do rei, mas recuado, olhando tudo com olhos brilhantes e implacáveis, como uma aranha bela e mortal no centro de sua teia.

Em certo momento da refeição, um falcão de bico amarelo girou lá no alto e soltou um pio sardônico e zombeteiro. Depressa fiz o sinal contra mau-olhado, pois quem sabe que deus haveria tomado a forma do pássaro para confundir nossas mesquinhas intenções?

Depois da refeição do meio-dia era costume da corte descansar durante uma hora ou mais, especialmente naquela estação mais quente do ano. Mas o faraó estava tão animado que não quis nada disso.

— Agora inspecionaremos os tesouros — anunciou.

Os guardas à porta do primeiro tesouro se afastaram e apresentaram armas quando a comitiva real se aproximou, e as portas foram abertas por dentro.

Eu havia projetado os seis tesouros não apenas como depósito para o vasto tesouro funerário que o faraó vinha colecionando nos últimos doze anos, desde sua ascensão ao duplo trono, mas também como oficinas onde um pequeno exército de artesãos e artistas era empregado permanentemente para aumentar aquela riqueza.

O salão em que entramos era o arsenal, que abrigava a coleção de armas e adereços bélicos e de caça, tanto práticos como cerimoniais, que o rei levaria consigo para o submundo. Com o auxílio de meu senhor Intef, eu providenciara para que os artesãos estivessem em seus postos de trabalho, dando ao rei a oportunidade de vê-los em ação.

A medida que o faraó percorria a fila de bancos, suas perguntas eram tão sagazes e técnicas que os nobres e sacerdotes a quem se dirigiam não sabiam fornecer respostas e buscavam avidamente alguém que o pudesse. Eu fui procurado às pressas na retaguarda da multidão e empurrado adiante para encarar o interrogatório do rei.

— Ah, sim — o faraó sorriu radiante ao me reconhecer. — Não é outro senão o humilde escravo que escreve peças e cura doentes. Ninguém aqui parece saber a composição deste fio de eletrum que envolve o arco de guerra confeccionado para mim por este homem.

— Gracioso faraó, o metal é a combinação de uma parte de cobre com cinco partes de prata e quatro de ouro. O ouro é do tipo vermelho, encontrado apenas nas minas de Lot no deserto ocidental. Nenhum outro dá ao fio a mesma flexibilidade ou elasticidade, é claro.

— É claro — concordou o rei jocosamente. — E como você faz os filamentos tão finos? Estes são finos como meus cabelos.

— Majestade, nós procedemos à extrusão do metal quente girando-o num pêndulo especial que criei com esse objetivo. Depois poderemos observar o processo na fundição de ouro, se vossa majestade o desejardes.

Assim, durante o restante do passeio fiquei junto do rei e distraí em parte sua atenção de Lostris, mas ainda assim não encontrei ocasião para falar com ela a sós.

O faraó passeou pelo arsenal inspecionando a grande variedade de armas e armaduras estocadas. Algumas destas haviam pertencido a seus antepassados e sido empregadas em famosas batalhas; outras eram recém-fabricadas e jamais seriam usadas na guerra. Eram todas magníficas, cada qual uma obra-prima da arte da armaria. Havia elmos e placas peitorais de bronze, prata e ouro, espadas de batalha com cabos de marfim encravados de pedras preciosas, uniformes cerimoniais dos comandantes de cada regimento de elite do rei, escudos e proteções de couro de crocodilo e de hipopótamo, todos decorados com rosetas de ouro. Constituíam uma esplêndida exibição.

Do arsenal cruzamos o átrio até a oficina de mobiliário, onde uma centena de marceneiros trabalhava o cedro, a acácia e o precioso ébano para construir a mobília fúnebre da longa jornada real. Poucas árvores maciças crescem em nosso vale fluvial, e a madeira é um produto escasso e dispendioso, valendo quase seu peso em prata. Qualquer galho precisa ser carregado por centenas de léguas através do deserto ou transportado pelo rio desde as misteriosas terras ao sul. Ali estavam dispostas imensas pilhas de madeira, como se fosse lugar-comum, e a fragrância da serragem fresca perfumava o ar quente.

Observamos os artesãos incrustar a cabeceira do leito faraônico com desenhos de madrepérola e madeiras de cores contrastantes. Outros decoravam os braços das cadeiras com falcões dourados e os encostos dos sofás com cabeças de leão de prata. Nem mesmo os salões do palácio real em Elefantina continham trabalhos tão refinados como os que enfeitariam a tumba real.

Do tesouro mobiliário seguimos para o salão dos escultores. Em mármore, calcário e granito de cem tonalidades diferentes, os artistas esculpiam e desbastavam com cinzéis e formões, de modo que um pó fino e pálido pairava no ar. Os pedreiros cobriam os narizes e bocas com faixas de pano, nas quais a poeira se depositava e recobria suas feições com o material insidioso. Alguns tossiam por trás das máscaras enquanto trabalhavam, uma tosse seca e persistente típica de sua profissão. Eu havia dissecado cadáveres de muitos velhos escultores que trabalharam por trinta anos e morreram em seu ofício. Dentro de seus corpos encontrei pulmões petrificados, por isso eu passava o menor tempo possível na oficina de cantaria para não contrair a temível doença.

Não obstante, seus produtos eram maravilhosos de contemplar — estátuas dos deuses e do próprio faraó que pareciam pulsar com vida. Havia imagens em tamanho real do faraó sentado em seu trono ou caminhando, vivo e morto, em sua forma divina ou como mortal. Essas estátuas iriam ladear a longa avenida que conduz do templo fúnebre ao nível do vale até a muralha de montes negros onde estava sendo escavado naquele momento o túmulo final. Por ocasião da morte do faraó, o carro fúnebre dourado, puxado por cem touros brancos, transportaria o sarcófago maciço pela avenida até o local de seu último repouso.

O sarcófago de granito, apenas parcialmente terminado, estava no centro do salão dos pedreiros. Um único bloco de granito rosa extraído das minas de Assuan havia sido transportado rio abaixo numa balsa especialmente construída para essa finalidade. Foram necessários quinhentos escravos para desembarcá-lo e arrastá-lo sobre rolos de madeira até onde jazia agora — uma pedra sólida e oblonga de cinco passos de comprimento, três de largura e três de altura.

Os pedreiros começaram serrando uma grossa fatia de seu topo. Nessa tampa de granito, um mestre estava modelando o faraó mumi-ficado, com os braços cruzados e o gancho e o flagelo em suas mãos mortas. Outro grupo de pedreiros dedicava-se a escavar o interior do bloco de granito para formar um nicho onde se encaixaria perfeitamente a série de caixões internos. Incluindo o enorme sarcófago exterior, seriam sete caixões ao todo, um dentro do outro, como um brinquedo. Sete era um dos números mágicos, é claro. O caixão interno seria de ouro puro, e depois o vimos sendo martelado a partir de uma massa metálica amorfa no salão dos ourives.

Era esse sarcófago múltiplo, essa montanha de pedra e ouro abrigando o cadáver enfaixado do rei, que o grande carro fúnebre dourado carregaria pela avenida até as montanhas, numa lenta jornada que levaria sete dias inteiros. A carruagem deveria parar a cada noite num dos pequenos santuários dispostos ao longo da avenida.

Um fascinante apêndice ao salão das estátuas era a oficina ushabti, nos fundos, onde estavam sendo esculpidas as miniaturas de criados e servidores que acompanhariam o rei. Eram pequenos e perfeitos bonecos de madeira representando todos os graus e ordens da sociedade egípcia que trabalhariam para o rei no além, permitindo-lhe manter sua posição e seu estilo de vida.

Cada ushabti era um boneco deliciosamente esculpido, vestido com o uniforme autêntico de sua categoria e portando as ferramentas apropriadas. Havia agricultores e jardineiros, pescadores e padeiros, cervejeiros e criados domésticos, soldados e coletores de impostos, escribas e barbeiros, e mais centenas de trabalhadores comuns para executar qualquer tarefa e para adiantar-se em lugar do rei se ele fosse chamado pelos outros deuses para trabalhar no outro mundo.

A frente desse grupo de figuras havia até um grão-vizir, cujas feições em miniatura lembravam muito as de meu senhor Intef. O faraó pegou o boneco e examinou-o de perto, virando-o para ler a inscrição em suas costas.

Meu nome é senhor Intef, grão-vizir do Alto Reino, único companheiro do faraó, três vezes titular da Comenda de Ouro. Estou pronto a responder pelo rei.

O faraó entregou o boneco a meu senhor Intef.

— Seu físico é realmente tão musculoso, senhor Intef? — perguntou com um sorriso sob a superfície de sua expressão austera, e o grão-vizir inclinou-se ligeiramente.

— O escultor não me fez justiça, vossa majestade.

O último tesouro que o rei visitou naquele dia foi o salão dos ourives. O brilho infernal das fornalhas projetava uma estranha luz nos rostos dos joalheiros, que trabalhavam em seus bancos totalmente concentrados. Eu os havia treinado bem. A entrada do cortejo real, os ourives ajoelharam-se em sincronia para fazer a tripla reverência ao faraó, depois ergueram-se e continuaram a trabalhar.

Mesmo no amplo espaço o calor das chamas das fornalhas era tão sulfuroso que quase impedia a respiração, e logo ficamos banhados de suor. No entanto, o rei estava tão fascinado pela exibição de seus tesouros que nem pareceu notar a atmosfera opressiva. Foi diretamente até o centro do salão, onde os ourives mais experientes e hábeis executavam o caixão de ouro interno. Haviam captado à perfeição os traços do faraó no metal reluzente. A máscara se encaixaria com exatidão sobre a cabeça enfaixada. Era uma imagem divina, com olhos de obsidiana e cristal de rocha, e com o uraeus de cabeça de cobra rodeando-lhe a fronte. Acredito que jamais fora produzida uma obra-prima de ourivesaria mais refinada nos mil anos de nossa civilização. Aquela era o zênite, e todas as eras futuras um dia se maravilhariam diante de seu esplendor.

Depois de o faraó ter admirado de todos os ângulos a máscara dourada, parecia incapaz de afastar-se dela. Passou o restante do dia a seu lado, sentado num banco baixo, enquanto se depositavam a seus pés caixas e mais caixas de cedro com requintadas jóias, que eram catalogadas para ele.

Acredito que semelhante tesouro jamais fora acumulado num só lugar e na mesma época. A relação dos itens de modo algum poderia descrever a riqueza e a diversidade daquilo tudo. Mas já havia seis mil quatrocentas e cinqüenta e cinco peças nas caixas de cedro, e todos os dias acrescentavam-se outras à coleção, enquanto os joalheiros trabalhavam sem cessar.

Havia anéis para os dedos e artelhos do faraó; havia amuletos e berloques, pequenas esculturas de ouro dos deuses e deusas; havia colares, braceletes, medalhões e peitorais incrustados de falcões, abutres e todas as criaturas da terra, do céu e do rio esculpidas em ouro; coroas e diademas cravejados de lápis-lazúli, rubis, ágatas, cornalinas, jaspe e todas as pedras caras ao homem civilizado.

A arte com que aquilo fora criado eclipsava tudo o que se produzira nos mil anos precedentes. E com freqüência no declínio de muitas nações que se criam suas mais belas obras de arte. Nos anos de formação do império há a obsessão pela conquista e o acúmulo de riqueza. Somente depois disso ser alcançado vêem o lazer e o desejo de desenvolver as artes, e — mais importante — surgem homens ricos e poderosos para patrociná-las.

O peso em ouro e prata já utilizados na manufatura a do carro fúnebre, da máscara mortuária e de todo o resto daquela espantosa coleção de tesouros excedia os quinhentos takhs; portanto, seriam necessários quinhentos homens fortes para carregar tudo. Eu havia calculado que isso era quase um décimo do total desses metais preciosos que havia sido garimpado nos mil anos de nossa história registrada. Tudo isso o rei pretendia levar consigo para a tumba.

Quem sou eu, humilde escravo, para questionar o preço que um rei deseja pagar pela vida eterna? Basta relatar que ao reunir esse tesouro, enquanto ao mesmo tempo conduzia a guerra contra o Baixo Reino, o faraó havia quase sozinho e sem ajuda mergulhado o Egito na mendicância.

Não admira, portanto, que em seu discurso Tanus houvesse destacado a predação dos coletores de impostos como uma das mais terríveis aflições sofridas pelo povo. Entre eles e os bandos de assaltantes que saqueavam o campo, estávamos todos arruinados e esmagados sob um fardo financeiro pesado demais para qualquer um suportar. Para sobreviver tínhamos de nos esquivar da malha dos coletores de impostos. Assim, ao nos transformar em mendigos para seu próprio enriquecimento, o rei ao mesmo tempo fizera de nós criminosos. Muito poucos, grandes ou pequenos, ricos ou pobres, dormiam tranqüilos à noite. Ficávamos deitados temendo ouvir a qualquer instante a batida forte do coletor em nossa porta.

Ah, triste e maltratada terra, como gemia sob a opressão!

Luxuosos apartamentos haviam sido preparados na necrópole para o rei passar aquela noite na margem ocidental do Nilo, perto de seu último local de repouso nos desolados montes negros.

A necrópole — cidade dos mortos — era quase tão extensa quanto a própria Karnak. Abrigava todos os que estavam ligados à construção e aos cuidados do templo fúnebre e da tumba real. Havia um regimento completo da guarda de elite para proteger os lugares sagrados, pois o usurpador do norte era tão ávido por tesouros quanto nosso querido rei, enquanto os barões do saque no deserto mostravam-se cada dia mais ousados. Os tesouros do mausoléu eram uma aguda tentação para predadores dos dois reinos ou do estrangeiro.

Além dos guardas, havia todas as equipes de artesãos e seus aprendizes para abrigar ali. Eu era responsável pelo registro dos salários e rações, portanto sabia exatamente quanto somavam. No último dia de pagamento seu total chegara a quatro mil, oitocentos e onze. Havia ainda mais de dez mil escravos empregados na obra.

Não me estenderei na descrição da quantidade de bois e carneiros que deviam ser abatidos todos os dias para alimentar tanta gente, nem sobre os carregamentos de peixe trazidos do Nilo, ou os milhares de jarros de cerveja preparados diariamente para aplacar a sede da multidão que trabalhava sob o olhar e o chicote atentos dos vigias.

A necrópole era uma cidade, e nela havia um palácio para o rei. Foi com alívio que ali nos recolhemos para passar a noite, pois havia sido um dia exaustivo. Mas novamente tive pouco descanso.

Tentei comunicar-me com minha senhora Lostris, mas era quase como se houvesse uma conspiração para me afastar dela. Segundo suas pequenas escravas negras, primeiro ela se encontrava no toalete e depois no banho, e mais tarde estava descansando e não podia ser perturbada. Finalmente, como eu continuasse esperando em sua antecâmara, vieram procurar-me da parte de meu senhor Intef e tive de correr até ele.

Assim que entrei no quarto de meu amo ele dispensou todos os outros que ali estavam. Quando ficamos sós, me beijou. Fiquei mais uma vez surpreso com sua benevolência e perturbado por seus modos excitados. Raramente o havia visto com tanto humor e até então isso sempre prenunciara eventos calamitosos.

— Quantas vezes os portais do poder e da fortuna se encontram no lugar mais inesperado! — Ele riu para mim e acariciou meu rosto. — Desta vez estão entre as coxas de uma mulher. Não, meu velho amigo, não banque o inocente. Sei que você cuidou de tudo com mão hábil. O faraó me contou que você o adulou, prometendo-lhe um herdeiro para sua linhagem. Por Seth, como você é ardiloso, hein? Não me disse uma palavra sobre seus planos, elaborou tudo por conta própria!

Ele riu novamente e enrolou entre os dedos um cacho de meus cabelos.

— Deve ter adivinhado minha maior ambição, embora nunca tenhamos discutido nada abertamente. É claro que deveria puni-lo por sua presunção — torceu o cacho de cabelos até fazer brotar lágrimas de meus olhos —, mas como posso sentir raiva se você colocou a dupla coroa ao meu alcance? — Soltou meu cabelo e beijou-me mais uma vez. — Acabo de estar em presença do rei. Daqui a dois dias, no encerramento do festival de Osíris, ele anunciará seu noivado com minha filha, Lostris.

Senti uma repentina escuridão toldar meus olhos e um orvalho gélido formar-se em minha pele.

— O casamento acontecerá no mesmo dia, logo depois da cerimônia final da festa. Certifiquei-me disso, pois não queremos demoras, quando poderia acontecer algo que impedisse tudo, não é mesmo?

Uma boda real tão precipitada era incomum, mas não inédita. Quando se escolhiam noivas para selar uma união política ou para consolidar a conquista de um novo território, geralmente o casamento ocorria no mesmo dia em que era decidido. O faraó Mamose I, antepassado do nosso atual rei, havia se casado no próprio campo de batalha com a filha de um chefe hurrita vencido. No entanto, os precedentes históricos eram pouco reconfortantes para mim agora, ao enfrentar a triste realização de meus piores temores.

Meu senhor Intef não pareceu notar minha tristeza. Estava preocupado com seus próprios interesses imediatos e continuou falando:

— Antes de dar meu consentimento formal à união, consegui fazer o rei concordar que se Lostris lhe der um filho a elevará à posição de primeira esposa e rainha consorte. — Ele bateu palmas sem conter seu triunfo. — É claro que você percebe o que isso significa. Se o faraó morrer antes que meu neto tenha idade para reinar, eu, como avô e parente mais próximo na linha masculina, seria o regente...

Ele interrompeu-se de repente e me olhou fixamente, e eu o conhecia tão bem que compreendi de imediato o que passava por sua cabeça. Estava amargamente arrependido dessa indiscrição, ninguém deveria ter ouvido o pensamento que expressara. Era pura traição. Se Lostris desse um filho ao faraó, o pai não viveria muito. Ambos havíamos compreendido. Meu senhor Intef manifestara a intenção de regicídio, e já pensava em eliminar a única pessoa que o havia escutado, o humilde escravo Taita. Ambos entendíamos isso claramente.

— Meu senhor, fico apenas feliz por tudo ter saído do modo como planejei. Admito agora que agi sinuosamente para colocar sua filha no caminho do rei, e que a descrevi para ele como a mãe de seu futuro filho. Utilizei a encenação como pretexto para atrair sua atenção para Lostris. No entanto, eu não poderia lhe falar de assuntos tão importantes enquanto não estivessem perfeitamente elaborados. Mas ainda há muito que necessitamos fazer antes de podermos nos considerar seguros... — E comecei rapidamente a enumerar uma lista de tudo o que poderia sair errado antes que ele obtivesse o controle da coroa e do cetro de ouro do Egito. Com habilidade, deixei claro que ele necessitava de mim se desejava alcançar seus objetivos. Vi-o descontrair-se enquanto acompanhava a argumentação e soube que pelo menos no futuro imediato eu estaria a salvo.

Passou-se algum tempo até que consegui escapar da presença dele e correr para advertir minha senhora Lostris da terrível situação em que a havia colocado. Mas antes de alcançar sua porta percebi que meu alerta teria como única conseqüência perturbá-la até o ponto da loucura ou mesmo do suicídio. Eu não podia perder mais tempo se quisesse impedir que os fatos se sucedessem até sua trágica conclusão.

Havia apenas uma pessoa a quem eu podia recorrer agora.

Saí da necrópole e percorri o caminho à borda do canal até a margem do rio, onde sabia que os regimentos de Tanus acampariam. A lua estaria cheia dali a três dias, e iluminava os montes recortados no horizonte a oeste com uma fria irradiação amarelada, projetando sombras negras na planície abaixo. Enquanto me apressava, recitei mentalmente uma lista completa das calamidades e infortúnios que poderiam atingir Tanus, minha senhora Lostris e a mim mesmo nos dias futuros. Eu me instigava do mesmo modo que um leão de juba negra acirra seus ânimos com o aguilhão de sua cauda antes de atacar o caçador no deserto. Assim, estava num humor fulminante quando cheguei à margem do Nilo.

Encontrei sem dificuldade o acampamento de Tanus, na entrada do canal, com os navios da esquadra ancorados em frente às tendas. As sentinelas me detiveram e, depois de me reconhecer, levaram-me à barraca de seu chefe.

Tanus tomava a ceia com Kratas e mais quatro oficiais. Levantou-se para me receber com um sorriso e ofereceu-me a caneca de cerveja que segurava.

— Que prazer inesperado, velho amigo! Sente-se ao meu lado e tome um gole da minha cerveja enquanto o escravo lhe traz uma caneca e um prato. Parece encalorado e sem fôlego...

Interrompi essas amenidades, devolvendo-lhe com fúria:

— Por Seth, seu grande tolo insensato! Não compreende o perigo em que nos colocou? Você e sua boca tagarela! Não pensou na segurança e no bem-estar de minha ama?

Na verdade eu não planejara ser tão áspero com ele, mas depois de começar fui incapaz de controlar minhas emoções, e todo o meu medo e minha ansiedade saíram aos borbotões numa enxurrada de invectivas. Nem tudo de que eu o acusava era verdadeiro ou justo, mas depois de despejar aquela torrente de acusações senti-me melhor.

A expressão de Tanus se alterou e ele levantou uma das mãos como que para defender-se.

— Epa! Apanhou-me desprevenido. Estou desarmado e incapaz de me defender desse ataque assassino. — Diante dos oficiais, adotou um tom jocoso, mas tinha os lábios comprimidos quando agarrou meu braço e levou-me para fora da tenda, no escuro, quase me arrastando até o campo enluarado. Eu parecia uma criança segura por aquela mão perita em brandir a espada e vergar o grande arco Lanata.

— Agora fale tudo — ele ordenou asperamente. — O que aconteceu para deixá-lo nesse péssimo humor?

Eu ainda estava enraivecido, embora mais de medo que de ódio, e minha língua disparou novamente:

— Passei a metade da minha vida tentando protegê-lo de sua própria estupidez e estou cansado disso. Não compreende nada sobre a vida? Realmente acredita que poderá escapar ileso da incrível loucura em que nos atirou a todos ontem à noite?

— Está falando da minha declamação na peça? — Ele parecia surpreso e afrouxou o aperto da mão em meu braço. — Como pode dizer que foi uma loucura? Os meus oficiais e todas as outras pessoas com quem falei adoraram o que eu disse...

— Idiota, não vê que a opinião dos seus oficiais e de todos os seus amigos vale menos que um peixe podre no cômputo geral das coisas? Sob qualquer outro governante você já estaria morto, e mesmo o nosso velho e indeciso rei não pode se permitir deixá-lo escapar às conseqüências de sua insolência. E mais do que vale seu trono. Você terá de pagar a conta, Tanus, senhor Harrab. Hórus sabe disso, e será uma conta pesada.

— Você fala por enigmas — ele retrucou. — Prestei um grande serviço ao rei. Ele está rodeado de bajuladores que lhe dizem as mentiras que consideram adequadas. Já era tempo de ele conhecer a verdade, e meu coração sabe que quando avaliar melhor as coisas me será grato.

Minha raiva começou a evaporar diante de sua fé simples e inabalável no triunfo do bem.

— Tanus, meu querido amigo, como você é inocente! Nenhum homem fica grato por ter a verdade impalatável empurrada por sua goela abaixo. Mas, à parte isso, você se colocou nas mãos de meu senhor Intef.

— O senhor Intef? — Ele me observou com dureza. — O que tem o senhor Intef? Você fala como se ele fosse meu inimigo. O grão-vizir foi o melhor amigo de meu pai. Sei que posso confiar nele para proteger-me. Fez um juramento a meu pai em seu leito de morte...

Percebi que apesar do caráter bondoso de Tanus e de nossa amizade ele realmente estava ficando enraivecido comigo, talvez pela primeira vez em sua vida. Eu também sabia que a raiva do jovem, embora demorasse a se manifestar, era algo a se temer.

— Oh, Tanus! — Dominei enfim minha própria raiva. — Fui injusto com você. Há tantas coisas que lhe deveria ter dito e nunca disse. Tudo é muito diferente do que você pensa. Fui um covarde, mas não pude lhe dizer que o senhor Intef era o mais mortal inimigo de seu pai.

— Como pode ser verdade? — Tanus balançou a cabeça. — Eles eram amigos tão próximos. Minhas primeiras lembranças são dos dois rindo juntos. Meu pai disse que eu podia confiar minha própria vida ao senhor Intef.

— O nobre Pianki, senhor Harrab, acreditava nisso, é verdade. Essa crença custou-lhe toda a sua fortuna e finalmente a vida, que ele depositou nas mãos de Intef.

— Não, não, você deve estar enganado. Meu pai foi vítima de uma série de infortúnios...

— E cada um desses infortúnios foi engendrado por meu senhor Intef. Ele invejava seu pai por suas virtudes e sua popularidade, por sua riqueza e sua influência junto ao faraó. Percebeu que o senhor Harrab seria nomeado grão-vizir, e não ele mesmo, e o odiava por tudo isso.

— Não posso acreditar em você. Não consigo... — De novo Tanus balançou a cabeça, incrédulo, e finalmente minha raiva desapareceu por completo.

— Vou lhe explicar tudo, como deveria ter feito há muito tempo. Vou dar todas as provas de que você precisa. Mas agora não há tempo para isso. Deve confiar em mim, Tanus! Meu senhor Intef o odeia com a mesma força que odiava seu pai. Você e minha senhora Lostris correm perigo. Arriscam mais que a própria vida, podem perder um ao outro para sempre.

— Mas como isso é possível, Taita? — Ele estava confuso e abalado por minhas palavras. — Pensei que meu senhor Intef havia concordado com nossa união. Então não falou com ele?

— Sim, falei com ele — gritei, agarrando a mão de Tanus e passando-a pelas minhas costas. — Esta foi a resposta. Sinta as marcas do chicote! Ele me açoitou apenas por ter sugerido o casamento entre você e minha senhora. Esse é o ódio que ele tem por você e sua família.

Tanus olhou-me fixamente sem dizer nada, mas vi que afinal acreditara em mim. Então pude abordar o assunto que dominava meus pensamentos ainda mais que seu discurso destemperado ou a vingança que o grão-vizir empreendera contra ele tantos anos atrás.

— Ouça-me, querido amigo, e prepare-se para um futuro ainda mais sombrio. — Não havia outra forma de explicar-lhe, a não ser essa, tão direta quanto a que ele mesmo teria usado. — Longe de concordar com seu casamento, meu senhor Intef prometeu nesta noite a mão de sua filha a outro. Ela deverá casar-se imediatamente com o faraó Ma-mose, e depois que lhe der um filho homem tornar-se-á sua primeira esposa e consorte. O rei fará o proclama pessoalmente no fim do festival de Osíris. O casamento terá lugar na mesma noite.

Tanus oscilou sobre os pés e seu rosto ficou fantasmagórico ao luar. Nenhum de nós conseguiu falar por um longo instante, e então Tanus afastou-se, caminhando sozinho pelo campo de milho. Eu o segui, mantendo-o à vista, até que ele encontrou uma pedra preta e sentou-se nela com o ar cansado de um velho. Aproximei-me lentamente e sentei-me a seu lado. Fiquei em silêncio até que ele suspirou e perguntou em voz baixa:

— Lostris consentiu com esse casamento?

— É claro que não. Provavelmente ainda não sabe de nada a respeito. Mas você acha que sua objeção teria algum efeito contra o desejo de seu pai e do faraó? Ela não terá qualquer poder de decisão no assunto.

— O que vamos fazer, velho amigo?

Atormentado, fiquei feliz por ele ter usado o plural, incluindo-me e reafirmando nossa amizade.

— Há outra probabilidade que devemos enfrentar — adverti-o. — E que no mesmo discurso em que o faraó anunciará o matrimônio com Lostris, ele ordene sua prisão ou, pior, decrete sua sentença de morte. Meu senhor Intef tem influência sobre o rei e certamente o convencerá disso. Na verdade ele teria bons motivos. Você com certeza será acusado de insurreição.

— Não me importa viver se não puder me casar com Lostris. Se o rei a tomar de mim, receberá minha cabeça como presente de casamento — Tanus falou com franqueza, sem qualquer dramaticidade, de modo que me foi difícil fingir raiva e colocar na voz um tom desdenhoso:

— Você fala como uma velha frágil e digna de pena, entregando-se ao destino sem lutar. Que belo e imorredouro amor é o seu, se nem pretende lutar por ela!

— Como lutar contra um rei e um deus? — ele perguntou calmamente. — Um rei a quem se jurou fidelidade e um deus que é tão remoto e inatingível quanto o sol?

— Como rei ele não merece sua fidelidade. Você deixou isso bem claro no discurso. É um velho fraco e indeciso que dividiu os dois reinos e levou nossa Ta-Meri à desgraça.

— E como deus? — perguntou Tanus novamente tranqüilo, como se não estivesse interessado na resposta. Mas eu sabia que ele era um homem devoto e religioso, o que é comum a muitos grandes guerreiros.

— Um deus? — perguntei com sarcasmo. — Você tem mais espírito divino num braço do que ele em todo o seu corpo flácido.

— Então o que você sugere? — ele perguntou com uma suavidade exasperante. — O que acha que devo fazer?

Tomei fôlego e então exclamei:

— Seus oficiais e seus soldados o seguiriam até os portões do além. O povo o ama por sua coragem e sua honra... — Hesitei, pois a expressão dele ao luar não me encorajava a continuar.

Tanus ficou em silêncio pelo tempo de meu coração bater vinte vezes e então ordenou em voz calma:

— Continue. Diga o que tem a dizer.

— Tanus, você daria o mais nobre faraó que nossa terra-mãe conheceu em mil anos. Com minha senhora Lostris a seu lado no trono, você poderia conduzir este país e seu povo de volta à grandeza. Convoque os regimentos e lidere seus homens pela avenida até onde aquele faraó indigno repousa desprotegido e vulnerável. Amanhã ao nascer do sol você poderia governar o Alto Reino. Daqui a um ano, nesta época, teria derrotado o usurpador e reunido os dois reinos. — Levantei-me de um salto e encarei-o. — Tanus, senhor Harrab, seu destino e o da mulher a quem ama o aguarda. Agarre-o com suas fortes mãos guerreiras!

— Mãos guerreiras, sim. — Ele as ergueu diante do meu rosto. — Mãos que lutaram por minha terra-mãe e protegeram seu rei de direito. Você está me julgando mal, velho amigo. Não são as mãos de um traidor, nem este é o coração de um blasfemo que tentaria derrubar e destruir um deus e tomar seu lugar no panteão.

Frustrado, resmunguei em voz alta:

— Você daria o maior faraó dos últimos quinhentos anos, e não precisaria proclamar sua divindade, se a idéia o repugna. Faça-o, eu lhe suplico, pelo bem do nosso Egito e da mulher que ambos amamos!

— Lostris ainda amaria um traidor como amou o soldado e o patriota? Acho que não. — Ele balançou a cabeça.

— Ela o amaria não importa o que acontecesse... — comecei, mas Tanus me interrompeu.

— Você não irá me convencer. Lostris é uma mulher virtuosa e honrada. Como traidor e ladrão, eu perderia o direito a ser respeitado por ela. E, o que é igualmente importante, eu não poderia mais respeitar a mim mesmo ou considerar-me digno de seu doce amor, se fizesse o que você pretende. Não fale mais nisso, se dá valor a nossa amizade. Não tenho pretensões à dupla coroa e jamais terei. Hórus, escutai-me e virai-me o rosto para sempre se um dia eu quebrar este juramento.

O assunto estava encerrado, pois eu bem conhecia aquele grande e furioso tolo, a quem amava de todo o coração. Ele realmente fora sincero e manteria sua palavra a qualquer custo.

— Então o que fará, seu maldito obstinado? — atirei-lhe com um olhar fulminante. — Nada do que eu diga tem qualquer valor para você. Quer enfrentar isto sozinho? De repente ficou sábio demais para seguir meus conselhos?

— Estou disposto a ouvir seus conselhos desde que façam sentido para mim. — Ele estendeu o braço e puxou-me para mais perto. — Venha, Taita, ajude-nos. Lostris e eu precisamos de você mais que nunca. Não nos abandone. Ajude-nos a encontrar o caminho honrado.

— Temo que não exista tal coisa — suspirei, sentindo minhas emoções vagar e girar como uma casca de cortiça na correnteza do Nilo. — Mas se não tomar a coroa não ouse permanecer aqui. Deve raptar Lostris e levá-la para longe.

Ele me olhou fixamente sob o luar.

— Deixar o Egito? Não pode estar falando sério. Este é o meu mundo e o de Lostris.

— Não! — tranqüilizei-o. — Não foi isso o que eu quis dizer. Há outro faraó no Egito. Um que necessita de guerreiros e de homens honestos. Você tem muito a oferecer a esse rei. Sua fama no Baixo Reino é tão grande quanto aqui em Karnak. Coloque Lostris a bordo do Sopro de Hórus e mande a galé zarpar para o norte. Nenhum outro navio poderá alcançá-los. Em dez dias, com este vento e a correnteza, você poderá apresentar-se na corte do faraó vermelho em Mênfis e jurar fidelidade a...

— Por Hórus, você está decidido a me transformar num traidor! — ele me interrompeu. — Jurar fidelidade ao usurpador, é isso?! E a fidelidade que jurei ao verdadeiro faraó Mamose? Isso não vale nada para você? Que tipo de homem sou eu, que pode fazer o mesmo juramento a cada rei ou renegado que cruzar meu caminho? Um juramento não é algo que se possa cancelar, Taita, é para toda a vida. Fiz meu juramento ao legítimo faraó, Mamose.

— Esse faraó legítimo é o mesmo que se casará com sua amada e ordenará seu enforcamento — mencionei com tristeza, e dessa vez ele vacilou.

— Você tem razão, é claro. Não devemos ficar em Karnak. Mas não me transformarei num traidor ou romperei minha jura solene empunhando a espada contra o rei.

— Seu senso de honra é complicado demais para mim. — Não consegui afastar de minha voz o tom sarcástico. — Tudo o que sei é que poderemos todos virar cadáveres. Você já me disse o que não fará. Agora me conte o que pretende fazer para salvar-se e resgatar minha senhora Lostris de um destino hediondo.

— Sim, meu amigo, você tem todo o direito de estar furioso comigo. Eu lhe pedi ajuda e conselho. Quando os deu, de boa vontade, desprezei-os. Peço-lhe paciência. Fique comigo mais um pouco.

Tanus levantou-se e começou a mover-se de um lado para outro, como um leopardo no zoológico do faraó, resmungando coisas para si mesmo, balançando a cabeça e cerrando os punhos, como se fosse enfrentar um adversário. Finalmente parou diante de mim.

— Não estou preparado para ser um traidor, mas com peso no coração me obrigarei a fazer o papel de covarde. Se Lostris concordar em me acompanhar, e somente nesse caso, estarei pronto para fugir e levá-la embora desta terra que nós dois tanto amamos.

— Para onde irão? — perguntei.

— Sei que Lostris não poderia abandonar o rio. Ele é não apenas a vida dela e a minha, mas também o seu deus. Devemos ficar com Hapi, o rio. Isso só nos deixa um caminho a seguir. — Ele levantou o braço direito, os músculos brilhando ao luar, e apontou para o sul. — Seguiremos o Nilo até as profundezas da África, pelas terras de Kuch e mais além. Ultrapassaremos as cataratas e penetraremos o desconhecido selvagem onde nenhum homem civilizado esteve até hoje. Lá, talvez, se os deuses forem bons, criaremos outra Ta-Meri para nós.

— Quem os acompanhará?

— Kratas, é claro, e os meus oficiais e soldados que amam a aventura. Falarei com eles esta noite e lhes darei a opção. Cinco navios, talvez, e os homens para tripulá-los. Deveremos estar prontos para partir ao amanhecer. Você irá até a necrópole buscar Lostris para mim?

— E eu? — perguntei suavemente. — Vai me levar?

— Você? — Tanus riu. Agora que havia tomado a decisão seu humor se elevara como um falcão caçador liberto do punho enluvado. — Você realmente abandonaria seu jardim e seus livros, suas peças de teatro e a construção de templos? A estrada será perigosa e a vida, dura. Você quer realmente isso, Taita?

— Não poderia deixá-lo partir sozinho, sem minha mão refreadora em seu ombro. A que loucuras e perigos você não conduziria minha senhora se eu não estiver lá para orientá-lo?

— Venha! — ele ordenou, dando-me um tapa nas costas. — Nunca duvidei de que viria conosco. Sei que Lostris não partiria sem você, de qualquer maneira. Chega de conversa! Temos trabalho a fazer. Primeiro diremos a Kratas e aos outros nossas intenções, e deixaremos que escolham. Depois você deve voltar à necrópole e trazer Lostris, enquanto faço os preparativos para a partida. Enviarei uma dezena de meus melhores homens para acompanhá-lo, mas devemos nos apressar. Já passa de meia-noite e a terceira ronda se aproxima.

Que tolo romântico sou eu! Estava tão excitado quanto Tanus ao voltarmos para o acampamento. Sentia-me tão exaltado que meu senso de perigo ficou embotado. Foi Tanus quem notou um movimento sinistro à nossa frente, agarrou meu braço e puxou-me para a sombra de uma velha alfarrobeira.

— Um grupo armado — ele sussurrou, e vi o brilho das lâminas de bronze. Era um grande bando, de trinta ou quarenta homens, calculei. — Bandidos, talvez, ou soldados do Baixo Reino — Tanus continuou, e até eu me alarmei com os movimentos disfarçados do bando armado à nossa frente. Não estavam usando o caminho ao longo do canal, mas esgueiravam-se pelo campo aberto, espalhando-se para rodear o acampamento de Tanus na margem do rio.

— Por aqui! — Com seus olhos de soldado experiente ele descobrira um córrego raso que corria para o rio e conduziu-me para lá. Saltamos e corremos o mais que pudemos até alcançarmos o perímetro do acampamento. Então Tanus saiu do córrego e despertou os soldados com um berro.

— Às armas! A mim, guardas azuis! Sigam-me! — Era o grito de reunir da Guarda do Crocodilo Azul, que foi imediatamente ouvido pelos sargentos da companhia. O acampamento instantaneamente ferveu de vida. Os homens que dormiam em volta de fogueiras saltaram e agarraram suas armas ensarilhadas, enquanto as tendas dos oficiais se escancararam como se os ocupantes esperassem acordados pelo comando de Tanus. De espadas na mão, correram para seus postos, liderados por Kratas.

Surpreendeu-me a agilidade da reação deles, embora eu soubesse que eram todos combatentes tarimbados. Antes que eu pudesse inspirar dez vezes eles haviam formado falanges com os escudos sobrepostos e as longas lanças apontando para cima na escuridão. O bando de estranhos na noite deve ter ficado tão surpreso quanto eu com aquela exibição militar, pois embora eu ainda conseguisse discernir na obscuridade as formas vagas de muitos homens e o brilho de suas armas, o ataque assassino que esperávamos nunca se concretizou.

No momento em que Tanus viu a formação pronta, ordenou o avanço. Havíamos muitas vezes discutido as vantagens da ação ofensiva sobre a defesa, e agora os esquadrões maciços moviam-se adiante, prontos para irromper em plena carga ao comando de Tanus. Deve ter sido um espetáculo assustador para os homens que esperavam na escuridão, pois uma voz nos alcançou com uma nota de pânico:

— Somos soldados do faraó, a mando do rei. Parem o ataque!

— Alto, azuis! — Tanus deteve o avanço ameaçador e então perguntou: — A que faraó vocês servem, o usurpador vermelho ou o verdadeiro faraó?

— Servimos ao verdadeiro rei, o divino Mamose, rei do Alto e do Baixo Reinos. Sou o mensageiro real.

— Aproxime-se, mensageiro do rei, que desliza pelas sombras como um ladrão. Adiante-se e diga a que veio! — Tanus convidou-o, mas em voz baixa disse Kratas: — Esteja pronto para uma cilada. Há cheiro de traição no ar. Mande aumentar os fogos para podermos enxergar.

Kratas deu a ordem e braçadas de galhos secos foram atirados às fogueiras. As chamas se ergueram e a escuridão cedeu. No forte clarão o líder do bando estranho aproximou-se e gritou:

— Meu nome é Neter, Melhor dos Dez Mil. Sou o comandante da guarda pessoal do faraó. Trago o selo do falcão para deter Tanus, senhor Harrab.

— Por Hórus, ele está mentindo — rosnou Kratas. — Você não é um criminoso com um mandado de prisão sobre sua cabeça. Ele o está insultando e ao regimento. Deixe-nos atacá-los e enfiarei esse selo do falcão nas suas nádegas.

— Espere! — Tanus conteve-o. — Vamos ouvir o homem. — Ele ergueu a voz novamente: — Mostre-nos o selo, capitão Neter.

Neter levantou uma estatueta de cerâmica azul brilhante, em forma de falcão real. O selo do falcão era o símbolo pessoal do rei. Seu portador atuava com toda a força e a autoridade do próprio faraó. Sob pena de morte, nenhum homem poderia questioná-lo ou impedi-lo de executar as ordens reais. O portador respondia apenas ao rei.

— Eu sou Tanus, senhor Harrab — Tanus admitiu. — E reconheço o selo do falcão.

— Meu senhor, meu senhor! — Kratas murmurou com urgência. — Não vá até o rei. Certamente significará sua morte. Falei com os outros oficiais. O regimento o apoia. Não, o exército inteiro o apoia. Dê-nos a ordem e o faremos rei antes que surja o novo dia.

— Meu ouvido é surdo a essas palavras — Tanus lhe disse suavemente, mas com um peso de ameaça na voz mais decisivo que um grito. — Mas somente esta vez, Kratas, filho de Maydum. Se falar em traição novamente, entregá-lo-ei ao carrasco do rei com minhas próprias mãos.

Ele virou-se para mim e puxou-me ligeiramente para o lado.

— É tarde demais, velho amigo. Os deuses rejeitam nossa aventura. Devo entregar-me ao bom senso do rei. Se ele é realmente um deus, será capaz de enxergar meu coração e ver por si mesmo que não contém nenhum mal. — Ele tocou meu braço num gesto sutil, porém mais significativo que um abraço caloroso. — Procure Lostris e conte-lhe o que aconteceu, diga-lhe por que aconteceu. Diga-lhe que a amo e que aconteça o que acontecer a amarei nesta vida e na próxima. Diga que a esperarei até o fim da eternidade, se for preciso.

Então Tanus guardou a espada na bainha e avançou de mãos vazias ao encontro do portador do selo real.

— Estou pronto para atender ao rei — disse simplesmente. Atrás dele, os soldados assobiavam e vociferavam, batendo com as

espadas nas bainhas, mas Tanus virou-se, silenciou-os com um gesto e então caminhou até Neter. A guarda real o cercou e todos afastaram-se trotando pela borda do canal, de volta à necrópole.

O acampamento estava tomado por homens enraivecidos e amargos quando o deixei, seguindo Tanus e a escolta a uma distância discreta. Quando cheguei à necrópole, fui diretamente ao apartamento de minha senhora Lostris. Fiquei perturbado ao ver que estava deserto, a não ser por três das meninas escravas, que a sua maneira habitualmente preguiçosa empacotavam as roupas de minha ama numa arca de cedro.

— Onde está sua senhora? — perguntei. A mais velha e mais insolente delas levantou o nariz e deu-me uma resposta vaga:

— Onde não poderá encontrá-la, eunuco.

As outras riram diante dessa ousadia. Todas sentiam ciúme dos privilégios que desfruto junto a minha senhora Lostris.

— Responda-me direito ou açoitarei suas costas, insolente!

Já o havia feito antes, então ela cedeu e murmurou com medo:

— Levaram-na para o harém do faraó. Você não tem influência ali. Apesar de sua falta de bolas, os guardas nunca o deixarão ficar com as mulheres reais.

Ela tinha razão, é claro, mas ainda assim eu devia tentar. Minha ama precisaria de mim agora mais do que em toda a sua vida.

Como eu temia, os guardas no portão do harém real foram intratáveis. Sabiam quem eu era, mas tinham ordens para não deixar ninguém aproximar-se de Lostris, nem mesmo os membros mais íntimos de sua companhia.

Ao preço extravagante de um anel de ouro, o máximo que consegui foi a promessa de um dos guardas de levar meu recado até ela. Escrevi num pedaço de pergaminho uma inútil tentativa de encorajamento. Não ousei relatar tudo o que nos havia sucedido, nem o perigo a que Tanus estava exposto. Nem mesmo podia mencionar o nome dele, e no entanto devia confirmar a Lostris o amor e a proteção de seu amado. Como investimento, não valeu o preço que fui obrigado a pagar. O pior de tudo foi que mais tarde soube que desperdicei totalmente meu ouro, pois ela jamais recebeu a mensagem. Não há um só homem em quem se possa confiar neste mundo pérfido?

Não tornei a ver Tanus ou minha senhora Lostris até a tarde do último dia do festival de Osíris.

O festival encerrou-se no templo do deus. Parecia mais uma vez que toda a população da Grande Tebas se amontoara nos pátios.

Estávamos tão comprimidos que eu mal conseguia respirar no calor da multidão.

Sentia-me exausto, pois havia dormido pouco em duas noites consecutivas, cheio de preocupação e angústia. Além da incerteza sobre o destino de Tanus, eu havia sido castigado por meu senhor Intef com a onerosa tarefa de preparar a cerimônia de casamento do rei com Lostris, dever que contrariava absolutamente meu desejo. Eu mal suportava ficar afastado de minha senhora. Não sei como superei tudo isso. Mesmo os meninos escravos estavam preocupados comigo, afirmando que nunca haviam visto minha beleza tão abatida e meu moral tão baixo.

Durante o interminável discurso do faraó em seu trono, vi-me duas vezes balançando sobre os pés, a ponto de desmaiar. Mas forcei-me a resistir, enquanto o rei desenrolava as banalidades e meias-verdades com que tentava disfarçar a verdadeira situação do reino e aplacar o povo.

Como era de se esperar, ele nunca se referia diretamente ao faraó vermelho do norte ou à guerra civil em que estávamos metidos, exceto em termos vagos como "estes tempos conturbados" ou "a traição e a insurreição". No entanto, depois de ele falar por algum tempo ficou claro para mim que estava se referindo a cada um dos temas que Tanus levantara em sua declamação e tentando encontrar soluções para eles. É verdade que o fazia à sua maneira habitual, inepta e vacilante, mas o simples fato de ele ter percebido o que Tanus dissera me fez focalizar a atenção. Forcei minha passagem para a frente em meio ao público até conseguir uma melhor visão do trono; nessa altura, o rei ralava sobre a insolência dos escravos e o comportamento desrespeitoso das classes inferiores da sociedade. Esta fora outra questão mencionada por Tanus, e fiquei surpreso ao ouvir a solução do faraó:

— De hoje em diante, o proprietário de escravo pode mandar aplicar cinqüenta chibatadas ao escravo insolente, sem necessidade de o magistrado sancionar a punição — ele anunciou.

Sorri ao lembrar-me de que esse mesmo rei quase havia destruído o Estado doze anos antes, com outro pronunciamento de sentido diametralmente oposto ao deste último. Ainda idealista na época de sua coroação, ele estava realmente decidido a abolir a antiga e honrada instituição da escravatura. Queria transformar cada escravo egípcio num homem livre.

Mesmo passado tanto tempo, tal loucura ainda me parece incompreensível, apesar de eu ser um escravo. Acredito que a escravidão e a servidão são as instituições sobre as quais se baseia a grandeza das nações. O povo não pode governar a si mesmo. O governo deve ser confiado apenas àqueles nascidos e educados para isso. A liberdade é um privilégio, não um direito. As massas precisam de um amo forte, pois sem controle e orientação seria o reino da anarquia. O monarca absoluto, a escravidão e a servidão são os pilares de um sistema que permitiu nos transformarmos em homens civilizados.

Fora revelador ver como os próprios escravos se haviam rebelado diante da perspectiva de liberdade. Eu era muito jovem na época, mas também ficara alarmado diante da idéia de ser arrancado de meu canto seguro no alojamento dos meninos para vasculhar o lixo com uma horda de outros escravos libertos, disputando uma crosta de pão. Um mau senhor é sempre melhor que nenhum senhor.

O reino mergulhara no caos devido a essa insensatez, é claro. O exército estivera a ponto de rebelar-se. Se o faraó vermelho do norte houvesse aproveitado a oportunidade, a história poderia ter sido escrita de outro modo. Enfim, nosso faraó suspendera apressadamente seu decreto libertário e conseguira manter-se no trono. Ali estava ele agora, pouco mais que uma década depois, decretando novas punições para as afrontas dos escravos. Era tão típico daquele faraó hesitante e errático que fingi enxugar a testa para encobrir o primeiro sorriso que cruzou meu rosto nos últimos dois dias.

— A prática de automutilação com o objetivo de evitar o serviço militar será fortemente desencorajada no futuro — o rei continuou em tom monótono. — Qualquer jovem que reclame a dispensa sob esse pretexto deverá comparecer perante um tribunal de três oficiais do exército, dos quais pelo menos um será um centurião ou oficial de alta patente.

Desta vez meu sorriso foi de completa aprovação. Por uma vez o faraó estava no caminho certo. Eu realmente adoraria ver Menset e Sobek exibindo a ausência de polegares a algum empedernido veterano das guerras navais. Que carinhosa simpatia receberiam!

— A multa por essa infração será de mil anéis de ouro.

Pela barriga protuberante de Seth! Isso faria os dois jovens dândis conter-se, e meu senhor Intef teria de pagar a multa em nome deles.

Apesar de minhas outras preocupações, começava a sentir-me mais alegre ouvindo o faraó. Ele continuou:

— A partir de hoje, será uma infração punida com multa de dez anéis de ouro uma prostituta oferecer seu comércio em locais públicos que não os definidos pelos magistrados para essa finalidade.

Dessa vez mal consegui evitar uma gargalhada. Por causa de Tanus todos os homens de Tebas se tornariam puritanos e honestos. Imaginei como os marinheiros e soldados de folga receberiam essa interferência em suas vidas. O período de lucidez do faraó havia durado pouco. Qualquer idiota sabe que é loucura legislar sobre os hábitos sexuais humanos.

Apesar de minhas dúvidas quanto à sabedoria das panacéias faraônicas, vi-me tomado de trêmula excitação. Estava claro que o rei levara a sério todos os temas enfocados por Tanus em seu discurso. Poderia agora condenar Tanus por insurreição?

Mas o faraó ainda não havia terminado.

— Chegou a meu conhecimento que alguns funcionários do Estado abusaram da confiança que neles depositei. Essas pessoas, encarregadas do recebimento de impostos e da distribuição dos recursos públicos, serão chamadas a prestar contas dos fundos deixados a seu encargo. Os que forem considerados culpados de corrupção e desvio de verbas serão sumariamente condenados à morte por estrangulamento.

O povo agitou-se e suspirou com descrença. O rei realmente tentaria cercear os coletores de impostos?

Então uma única voz gritou do fundo do salão:

— Grande é o faraó! Longa vida ao faraó!

O grito foi repetido até que todo o templo tremeu com a ovação. Deve ter sido um som incomum aos ouvidos do rei, aquele aplauso espontâneo. Mesmo à distância que eu me encontrava do trono pude ver que ele estava satisfeito. Sua expressão lúgubre acendeu-se e a dupla coroa parecia pesar menos em sua cabeça. Tive certeza de que tudo aquilo deveria melhorar as chances de Tanus escapar ao laço do executor.

Quando os aplausos finalmente cederam, o rei continuou em seu estilo peculiar, reduzindo tudo aquilo que acabara de conquistar:

— Meu digno grão-vizir, o nobre senhor Intef, será o único e absoluto encarregado da investigação do serviço público, com plenos poderes de detenção e prisão, de vida e morte a ele conferidos.

Houve um arremedo de aplauso diante dessa nomeação, e aproveitei-o para disfarçar um riso irônico. O faraó estava enviando um leopardo faminto para contar as aves em seu galinheiro. Que diversão meu senhor Intef teria entre os tesouros reais, e que redistribuição das riquezas nacionais ocorreria agora, com meu amo fazendo as contas e ordenhando os coletores de impostos de suas economias secretas!

O faraó tinha um raro talento para o naufrágio, ou para virar o leme dos melhores sentimentos e intenções em direção aos escolhos. Imaginei que outra insanidade ele conseguiria perpetrar antes que terminasse o discurso, e não tive de esperar muito.

— Há algum tempo venho me preocupando muito com a situação de impunidade que vigora no Alto Reino, colocando em grave ameaça as vidas e propriedades de cidadãos honestos. Tomei providências para enfrentar esse estado de coisas na ocasião adequada. No entanto, o assunto me foi recentemente apresentado de maneira tão imprópria e desorientada que cheira a insurreição. Isso aconteceu sob o contexto do festival de Osíris, o que não deixa de representar uma traição e um crime de blasfêmia, um ataque à pessoa e à divindade do rei. — O faraó fez uma pausa significativa. Estava claro que falava de Tanus, e mais uma vez critiquei seu discernimento. Um faraó forte não explicaria suas razões ao povo ou tentaria conquistar a aprovação para seus atos. Simplesmente teria pronunciado a sentença e encerrado o assunto.

— Estou falando, é claro, de Tanus, senhor Harrab, que representou o grande deus Hórus no espetáculo de Osíris. Ele foi preso por crime de insurreição. Meus conselheiros estão divididos quanto à culpa dessa pessoa. Alguns dentre eles desejam impor-lhe a pena máxima... — Vi meu senhor Intef, parado abaixo do trono, desviar seu olhar por um momento, e isso confirmou o que eu já sabia: ele era o chefe dos que queriam a execução de Tanus — .. e há os que acham que seu discurso no festival foi de fato inspirado por forças divinas, e que não foi a voz de Tanus, senhor Harrab, que falou sobre esses assuntos, mas a verdadeira voz do deus Hórus. Se este for o caso, então claramente não pode haver culpa no mortal através de quem o deus escolheu falar.

O raciocínio era correto, mas que faraó digno da dupla coroa se dignaria a explicá-lo àquela horda de soldados, marinheiros e agricultores, de comerciantes, trabalhadores e escravos, cuja maioria ainda estava sob o efeito do excesso de vinho e libertinagem? Enquanto eu pensava nisso, o rei deu uma ordem ao capitão de sua guarda pessoal, que estava de pé atrás do trono. Reconheci Neter, o oficial que fora enviado para prender Tanus. Ele afastou-se rapidamente e voltou um instante depois, trazendo Tanus do santuário no fundo do salão.

Meu coração disparou ao ver meu amigo, e então com alegria e esperança percebi que estava desamarrado e sem correntes nos tornozelos. Embora não estivesse armado nem usasse os galões militares, vestido com um simples saiote, caminhava com o passo elástico e gracioso de sempre. Além da cicatriz em sua testa, onde Rasfer o havia ferido, não apresentava marcas. Não fora espancado ou torturado, e senti meu otimismo renascer. Não o estavam tratando como a um condenado.

Um instante depois todas as minhas esperanças se desvaneceram. Tanus fez a reverência diante do trono, mas quando se ergueu novamente o faraó o olhou com severidade e falou numa voz impiedosa:

— Tanus, senhor Harrab, é acusado de traição e insurreição. Considero-o culpado de ambos os crimes e o sentencio à morte por estrangulamento, a punição costumeira para os traidores.

Quando Neter colocou o laço de linho em volta do pescoço de Tanus, marcando-o como condenado à morte, um lamento ergueu-se do meio do público. Uma mulher gemeu e logo o templo se encheu de gritos e uivos pesarosos. Jamais essa manifestação acompanhara a declaração de uma sentença de morte. Nada poderia demonstrar com maior clareza o amor que o povo dedicava a Tanus. Gemi com eles e as lágrimas saltaram-me dos olhos e escorreram pelo rosto, vertendo como uma cascata sobre meu peito.

Os guardas investiram contra a multidão, usando os cabos de suas lanças na tentativa de impor o silêncio. Foi em vão, e eu gritei sobre as cabeças:

— Piedade, poderoso faraó! Perdão para o nobre Tanus!

Um dos guardas atingiu-me na fronte e caí ao chão semi consciente, mas meu grito foi repetido:

— Piedade, nós vos imploramos, divino Mamose!

Foram precisos todos os esforços da guarda para restabelecer a ordem, mas algumas mulheres continuavam a soluçar.

Somente quando o faraó levantou novamente a voz voltou a haver silêncio, de modo que todos escutaram o próximo pronunciamento.

— O condenado queixou-se da impunidade que grassa em nosso reino. Ele exigiu que o trono aniquile os bandos de assaltantes que assolam o país. O condenado foi chamado de herói, e há quem diga que é um valente guerreiro. Se isso é verdade, então ele é mais indicado que qualquer outro para executar as medidas que exige.

Agora o povo ficou silencioso e confuso, e enxuguei as lágrimas do rosto com o punho enquanto me esforçava para ouvir as próximas palavras.

— Portanto, a sentença de morte é adiada por dois anos. Se o condenado foi realmente inspirado pelo deus Hórus quando fez seu discurso rebelde, então o deus o assistirá na missão que agora lhe atribuo.

Houve um silêncio profundo. Ninguém parecia capaz de compreender o que havíamos escutado, embora a esperança e o desespero me ocupassem o coração em igual medida.

A um sinal do rei, um dos ministros da coroa adiantou-se e apresentou ao faraó uma bandeja sobre a qual havia uma estatueta azul. O faraó ergueu-a e anunciou:

— Confiro ao senhor Harrab o selo do falcão faraônico. Sob os auspícios deste selo ele poderá recrutar todos os homens e materiais bélicos que considere necessários à sua incumbência. Poderá empregar quaisquer meios que deseje, e ninguém deverá impedi-lo. Durante dois anos completos ele será um homem do rei e responderá apenas ao rei. No final desse período, no último dia do próximo festival de Osíris, ele virá mais uma vez diante do trono, usando o laço da morte ao redor do pescoço. Se houver fracassado em sua tarefa, o laço será ajustado e ele será estrangulado até a morte no local onde está agora. Se cumprir a tarefa, porém, eu, o faraó Mamose, retirarei com minhas próprias mãos o laço de seu pescoço e o substituirei por uma corrente de ouro.

Ninguém ainda conseguia falar ou mover-se, e todos olhamos fascinados quando o faraó fez um gesto com o gancho e o flagelo.

— Tanus, senhor Harrab, eu o incumbo da missão de erradicar do Alto Reino do Egito os fora-da-lei e os bandidos que infestam esta terra. Dentro de dois anos você deverá restaurar a paz e a ordem no Alto Reino. Se falhar, sofrerá as conseqüências.

Um rugido ergueu-se da platéia, temível como o som das ondas de tempestade quebrando-se no litoral rochoso. Embora todos aplaudissem, eu me lamentava. A incumbência que o faraó exigia era demasiada para qualquer mortal. A nuvem da morte não deixara de pairar sobre Tanus. Eu sabia que dentro de dois anos ele morreria no mesmo lugar em que o via agora, tão jovem, altivo e valente.

Desolada como uma criança perdida, ela estava só no meio da multidão, tendo atrás de si o rio que era seu deus protetor e à frente um mar de rostos.

A longa túnica de linho que lhe chegava até os tornozelos fora tingida com o suco de moluscos marinhos na cor de vinho, cor que a proclamava uma noiva virgem. Tinha os cabelos soltos, flutuando sobre seus ombros numa onda macia e escura que brilhava ao sol como se possuísse um fogo interior. Nos cachos reluzentes ela usava a guir-landa matrimonial trançada com os longos caules de lírios aquáticos. As flores eram de um azul cerúleo, com os miolos dourados.

Seu rosto estava branco como farinha recém-moída. Os olhos grandes e escuros lembraram-me dolorosamente a menina que, anos atrás, tantas vezes eu despertara de pesadelos, acendendo a lâmpada e sentando-me ao lado de sua cama até que voltasse a dormir. Desta vez eu não podia ajudá-la, já que o pesadelo era real.

Não podia aproximar-me dela, pois os sacerdotes e a guarda do faraó a rodeavam, como haviam feito nos últimos dias. Ela se perdera de mim para sempre, minha querida menina, e eu não suportava esse pensamento.

Os sacerdotes haviam construído o palanque nupcial sobre o barranco do Nilo, com caniços do rio, e minha senhora Lostris aguardava sob ele que seu noivo a viesse buscar. Ao lado estava seu pai, com a reluzente Comenda de Ouro no pescoço e o sorriso de cobra nos lábios.

Afinal chegou o noivo real, ao rufar solene do tambor e o estrídulo das trombetas de chifre de gazela, e para mim aquela marcha nupcial era o som mais triste da terra.

O faraó usava a coroa netnes e carregava o cetro, mas por trás da pompa e circunstância ainda era um velhinho de barriga grande e rosto triste. Não pude evitar a lembrança do outro noivo que poderia estar sob o dossel ao lado de minha senhora, se apenas os deuses houvessem sido mais justos.

Os ministros e altos funcionários do faraó o acompanhavam tão de perto que minha visão de Lostris foi obscurecida. Apesar do fato de eu ter sido obrigado a providenciar todos os detalhes da cerimônia, fora excluído da festa e apenas vislumbrava minha ama.

O sumo-sacerdote de Osíris lavou as mãos e os pés dos noivos com água retirada do Nilo para simbolizar a pureza de sua união. Então o rei partiu um pedaço do pão de milho ritual e ofereceu-o em juramento à jovem noiva. Vi o rosto de minha senhora quando ela colocou o pão entre os lábios. Não conseguiu mastigá-lo ou engolir, e ficou com aquilo na boca como se fosse uma pedra.

Mais uma vez ela saiu de minha visão. Somente quando ouvi o ruído do jarro de vinho matrimonial, já vazio, ser partido pela espada do noivo compreendi que tudo estava acabado e que cada vez mais Lostris se distanciava dos braços de Tanus.

A multidão diante do palanque se abriu e o faraó conduziu sua mais recente esposa à frente da plataforma para apresentá-la ao povo. Todos demonstraram seu amor por Lostris num coro de adulação interminável, que fez meus ouvidos tinir e minha cabeça rodar.

Eu queria escapar do aperto e procurar Tanus. Apesar de saber que ele estava novamente em liberdade, não o vira na cerimônia. Talvez fosse o único homem em Tebas que não viera à margem do rio naquele dia. Eu sabia que onde quer que estivesse sentiria tanto desejo de me ver quanto eu a ele. O único e pequeno reconforto que nós dois poderíamos encontrar naquele dia trágico seria estarmos juntos. No entanto, eu não conseguia passar entre a multidão. Teria de esperar até o fim da festa.

Enfim meu senhor Intef adiantou-se para dar adeus à filha. A multidão fez silêncio quando ele a abraçou.

Lostris parecia um cadáver em seus braços, os membros pendentes sem vida ao lado do corpo, o rosto pálido como a morte. O pai soltou-a, mas continuou segurando sua mão ao virar-se para encarar o público e oferecer o presente ritual à filha. Tradicionalmente, o presente era maior que o dote que ia diretamente para o noivo. Mas apenas a nobreza observava esse costume, destinado a dar à noiva uma renda independente.

— Agora que você deixará minha casa e minha proteção pela casa de seu marido, dou-lhe o presente de despedida, para que se lembre de mim como o pai que sempre a amou.

As palavras eram inadequadas à circunstância, pensei amargamente. Meu senhor Intef nunca havia amado outro ser vivo. No entanto, ele prosseguiu com a antiga fórmula, como se os sentimentos fossem seus:

— Peça-me qualquer dádiva, amada criança. Nada lhe recusarei neste dia jubiloso.

Era prática corrente que o valor do presente fosse combinado em particular entre pai e filha antes da cerimônia. Nesse caso, porém, meu senhor Intef havia dito a Lostris inequivocamente o que ela deveria pedir. Ele me havia dado a honra de discutir comigo o assunto no dia anterior, antes de informar à filha sua decisão. "Não quero ser extravagante, mas por outro lado não desejo parecer parcimonioso aos olhos do faraó", ele dissera. "Digamos, quinhentos anéis de ouro e cinqüenta feddan de terra — mas não na várzea, veja bem."

Sob minhas instâncias, ele concordara enfim com cinco mil anéis de ouro e cem feddan de terra irrigada como um presente adequado à boda real. Instruído por ele, eu havia elaborado o documento de posse da terra e separara o ouro de um depósito secreto que meu amo mantinha longe dos coletores de impostos.

O assunto estava decidido. Faltava apenas Lostris pronunciar o pedido diante do noivo e dos convidados ao casamento. Mas ela continuava pálida, silenciosa e distante, parecendo não ver ou escutar o que se passava ao redor.

— Fale, minha filha. O que deseja de mim? — O tom paternal de meu senhor Intef tornou-se nervoso, e ele sacudiu a mão da moça para despertá-la. — Vamos, diga a seu pai o que ele pode fazer para completar a felicidade deste dia.

Minha senhora Lostris estremeceu como se despertasse de um sonho terrível. Olhou ao redor e suas lágrimas se avolumaram, ameaçando saltar pelas pálpebras trêmulas. Ela abriu a boca para falar, mas o que saiu de sua garganta foi o grito débil de um pássaro ferido. Tornou a fechar os lábios e balançou a cabeça, muda.

— Vamos, criança. Fale! — Meu senhor Intef já tinha dificuldade de manter a expressão de pai carinhoso. — Revele seu presente de casamento e eu lhe darei, seja qual for seu desejo.

Lostris fez um esforço que até eu percebi, longe como estava, mas desta vez quando abriu a boca seu pedido foi ouvido sobre nossas cabeças tão claro quanto a música da lira. Não podia haver uma alma na multidão que não houvesse escutado cada palavra:

— Como presente dê-me meu escravo Taita!

Meu senhor Intef recuou um passo, como se ela lhe tivesse acertado uma adaga no ventre. Olhou-a fixamente, abrindo e fechando a boca sem pronunciar um som. Apenas ele e eu sabíamos o valor do presente que Lostris havia pedido. Nem mesmo ele, com a riqueza e os tesouros que acumulara durante toda a vida, poderia pagar esse preço.

Ele se recuperou rapidamente. Sua expressão estava novamente calma e benigna, mas os lábios se esticavam, tensos.

— Você é muito modesta, minha querida filha. Um único escravo não é presente digno da noiva do faraó. Essa mesquinharia não é de minha natureza. Prefiro que aceite um presente de real valor, cinco mil anéis de ouro e...

— Pai, sempre foi generoso demais comigo, mas quero apenas Taita.

Meu senhor Intef deu um sorriso branco: dentes brancos, lábios brancos, branco de raiva. Continuava fixando Lostris e percebi que sua mente corria.

Eu era a mais valiosa de suas propriedades. Não era simplesmente a ampla gama de meus extraordinários talentos que constituíam para ele a medida plena de meu valor. Mais ainda, era que eu conhecia intimamente cada fio tortuoso da intricada tapeçaria de seus negócios. Conhecia cada informante e espião de sua rede, cada pessoa que ele já subornara e que o comprara com presentes. Sabia que favores haviam selado cada negociação, quais faltavam ser acertados e que juizes ainda não haviam recebido sua paga.

Conhecia todos os seus inimigos, uma longa lista; e conhecia os que ele contava como amigos e aliados, uma lista bem mais curta. Sabia onde estava escondida cada pepita de seu vasto tesouro, quem eram seus banqueiros, agentes e prepostos, e como ele ocultara a propriedade de grandes extensões de terra e os estoques de metais e pedras preciosos no labirinto legal de atas, títulos e servidões. Toda essa informação deliciaria os coletores de impostos e faria o faraó rever suas opiniões sobre o grão-vizir.

Eu duvidava de que meu senhor Intef pudesse lembrar e localizar toda a sua riqueza sem minha assistência. Sem mim ele não poderia organizar e controlar adequadamente seu império sombrio e em expansão, pois se mantivera distante de seus aspectos menos agradáveis. Preferira destacar a mim para cuidar dos detalhes que, se descobertos, o incriminariam.

Portanto eu sabia mil segredos obscuros e mil fatos temíveis, de extorsão e intimidação, de roubo e sangrento assassinato, todos os quais reunidos poderiam destruir um homem tão poderoso quanto o grão-vizir.

Eu era indispensável; ele não podia me deixar partir. No entanto, diante do faraó e de toda a população de Tebas, era impossível negar o pedido de Lostris.

Meu senhor Intef é um homem cheio de ira e rancor. Já o vi tão furioso que deve ter feito Seth, o deus do ódio, despertar e ficar atento. Mas nunca o havia visto tão enraivecido como agora, quando sua própria filha o encurralara.

— Que o escravo Taita se aproxime — ele ordenou, e vi que aquilo era um pretexto para que recuperasse o tino. Abri caminho o mais depressa que pude até a base da plataforma nupcial, para lhe dar o menor tempo possível de planejar seu estratagema.

— Aqui estou, meu senhor — gritei, e ele olhou-me com seus olhos mortíferos. Estávamos juntos há tanto tempo que ele podia falar comigo com o olhar de maneira quase tão clara como se usasse palavras. Olhou-me fixamente em silêncio até que meu coração disparou e meus dedos tremeram de medo, então finalmente disse num tom suave, quase inaudível:

— Taita, você está comigo desde que era criança. Passei a considerá-lo como um irmão, mais que um escravo. Mas você ouviu o pedido de minha filha. Sou por natureza um homem justo e bom. Depois de todos estes anos seria desumano se o dispensasse contra o seu desejo. Sei que é incomum dar a um escravo a decisão sobre seu próprio destino, mas as circunstâncias são de fato incomuns. Escolha, Taita. Se deseja permanecer em seu lar, o único que jamais teve, não terei coragem de mandá-lo embora. Nem mesmo a pedido de minha própria filha.

Nem por um momento ele tirou os olhos de mim, aqueles terríveis globos amarelos. Não sou covarde, mas cuido de minha segurança. Percebi que estava olhando nos olhos da morte e não consegui falar.

Consegui despregar meu olhar dele e dirigi-o para minha senhora Lostris. Nela vi tanta súplica, tanta solidão e terror, que minha segurança de nada valia. Não podia abandoná-la agora, por preço algum e sob nenhuma ameaça.

— Como pode um pobre escravo negar o desejo da esposa do faraó? Estou pronto para atender a minha nova ama — gritei a plenos pulmões, esperando que minha voz tivesse um tom masculino e não soasse tão estridente quanto eu mesmo a escutei.

— Venha, escravo! — ordenou minha nova ama. — Tome seu lugar atrás de mim.

Quando subi à plataforma, tive de passar perto de meu senhor Intef. Seus lábios rígidos e brancos moveram-se e ele falou apenas para que eu ouvisse:

— Adeus, meu velho querido. Você é um homem morto.

Tremi como se uma serpente venenosa houvesse atravessado meu caminho e corri para postar-me no séquito de minha ama, como se acreditasse realmente encontrar segurança em sua proteção.

Fiquei junto de Lostris durante o resto da cerimônia e servi-a pessoalmente no banquete nupcial, grudado ao seu cotovelo e tentando fazê-la provar um pouco das carnes e outras finas iguarias ali dispostas. Ela estava tão pálida e de aspecto doentio que tive certeza de que nada comera nos últimos dois dias, desde seu noivado com o faraó e a condenação de Tanus.

Afinal consegui fazê-la ingerir um pouco de vinho aguado, mas foi tudo. O faraó viu-a beber e pensou que o estivesse brindando. Ergueu seu próprio cálice de ouro e sorriu para ela sobre a borda, retribuindo o gesto, e os convivas, deliciados, aplaudiram o casal.

— Taita — Lostris sussurrou quando a atenção do rei se desviou para o grão-vizir, sentado do outro lado. — Acho que vou vomitar. Não posso ficar aqui mais um instante. Por favor, leve-me de volta a minha câmara.

Foi uma insolência e um escândalo, e se eu não exercesse também o papel de cirurgião jamais poderia ter feito isso mas consegui engatinhar até junto do rei e sussurrar-lhe sem provocar qualquer comentário dos convidados, a maioria dos quais estava bem embriagada a essa altura.

Ao conhecê-lo melhor, eu descobriria que o faraó era um homem gentil, e essa foi a primeira prova que me deu disso. Ouviu minha explicação, então bateu palmas e dirigiu-se aos convivas:

— Minha noiva irá para sua câmara agora, preparar-se para a noite. Todos sorriram, recebendo o anúncio com comentários jocosos e

aplausos lascivos.

Ajudei minha ama a levantar-se, mas ela conseguiu fazer uma reverência para o rei e deixar o salão do banquete sem meu apoio. No apartamento, expeliu o vinho que havia bebido na cabaça oferecida por mim e depois despencou na cama. O vinho era tudo o que seu estômago continha, confirmando minha suspeita de que ela estivera em jejum.

— Não quero viver sem Tanus...

Tinha a voz fraca, mas eu a conhecia o bastante para reconhecer que sua vontade era tão forte como sempre.

— Tanus está vivo! — tentei consolá-la. — Ele é forte e jovem, viverá mais cinqüenta anos. Ele a ama e prometeu esperá-la até o final dos tempos. O rei é um homem velho, não viverá para sempre...

Lostris sentou-se sobre a colcha de peles e sua voz tornou-se dura e determinada:

— Sou a mulher de Tanus e nenhum outro homem me terá. Prefiro a morte.

— Todos morreremos no fim, senhora. — Se eu conseguisse distraí-la nos primeiros dias desse casamento, sabia que a faria superar tudo. Mas ela percebeu minha intenção.

— Sei o que está querendo fazer, mas suas belas palavras de nada servirão. Vou me matar. Ordeno-lhe que prepare um veneno para eu tomar.

— Senhora, não sou versado na ciência dos venenos. — Foi uma tentativa vã, que ela contornou com facilidade.

— Muitas vezes o vi envenenar animais em sofrimento. Não se lembra do velho cão que tinha abcessos nas orelhas, e de sua gazela de estimação que foi ferida por um leopardo? Você me disse que o veneno era indolor, que era a mesma coisa que dormir. Bem, eu quero dormir, ser embalsamada e partir para o outro mundo, onde esperarei por Tanus.

Eu precisava tentar outra persuasão.

— Mas e eu, senhora? Hoje mesmo tomou posse de mim. Como poderá me abandonar? O que seria de mim sem você? Tenha pena de Taita.

Vi-a vacilar e pensei que a havia convencido, mas ela levantou o queixo, decidida.

— Você ficará bem, Taita. Sempre estará bem. Meu pai o receberá de volta alegremente quando eu morrer.

— Por favor, minha pequena — usei o tratamento infantil numa última tentativa de conquistá-la —, vamos conversar sobre isso amanhã. Tudo será diferente à luz do sol.

— Será a mesma coisa — ela me contradisse. — Serei afastada de Tanus e aquele velho enrugado me chamará ao seu leito para fazer coisas horríveis comigo. — Sua voz ergueu-se tanto que as outras ocupantes do harém real poderiam ouvi-la. Felizmente a maioria delas ainda estava no banquete, mas tremi ao pensar que sua descrição do faraó chegasse até ele.

A voz de Lostris tornou-se mais aguda, com um toque de histeria.

— Prepare o veneno para mim agora, neste instante, enquanto eu o observo. Ordeno-lhe! Não ouse desobedecer-me! — Esta ordem foi tão alta que até os guardas nos portões externos a deviam ter escutado, e não ousei continuar a discussão.

— Está bem, minha senhora. Eu o farei. Devo buscar minha cesta de remédios em meu quarto.

Quando voltei com a cesta sob o braço ela se havia levantado da cama e caminhava pelo cômodo com os olhos reluzentes no rosto pálido e trágico.

— Estou observando. Não tente nenhum de seus truques — minha ama advertiu enquanto eu preparava a poção de uma garrafa de vidro vermelho. Ela sabia que aquela cor advertia sobre o conteúdo letal.

Quando lhe ofereci a tigela, Lostris não demonstrou medo e fez uma pausa para beijar meu rosto.

— Você foi para mim um pai e um irmão carinhoso. Agradeço-lhe por esta última bondade. Eu o amo, Taita, e sentirei sua falta.

Ela ergueu a tigela com as duas mãos, como se fosse uma taça de precioso licor e não um veneno fatal, e brindou:

— Tanus, meu querido, eles jamais me tirarão de você. Nos encontraremos novamente no outro lado! — E esvaziou o recipiente de um gole, deixando-o cair e partir-se no chão. Finalmente, com um suspiro, tombou sobre o leito.

— Venha, sente-se ao meu lado. Tenho medo de estar sozinha quando morrer.

Em seu estômago vazio, o efeito da poção foi muito rápido. Ela só teve tempo de virar o rosto para mim e murmurar:

— Diga a Tanus o quanto o amei. Até os portais da morte e além deles. — Então seus olhos se fecharam e ela se foi.

Ficou deitada tão imóvel e pálida que por um momento realmente me alarmei, temendo que houvesse avaliado mal a potência do sheppeu vermelho que eu substituíra pela essência da mortífera datura. Mas então segurei um espelho de bronze junto à sua boca e a superfície enevoada certificou-me de que ainda respirava. Cobri-a delicadamente e tentei convencer a mim mesmo de que pela manhã ela se conformaria com o fato de ainda estar viva e me perdoaria.

Naquele momento houve uma batida peremptória na porta da câmara externa e reconheci a voz de Aton, o camareiro real, pedindo para entrar. Era um eunuco, mais um membro da irmandade dos emas-culados, por isso eu podia contar com ele como amigo. Apressei-me a recebê-lo.

— Vim buscar sua pequena ama para o prazer do rei, Taita — ele me disse num tom feminino contrastante com seu corpanzil. Havia sido castrado antes da puberdade. — Ela está pronta?

— Houve um pequeno acidente — expliquei, e conduzi-o para que visse Lostris por si mesmo.

Ele inflou as bochechas vermelhas em consternação ao ver seu estado.

— O que poderei dizer ao faraó? — gritou. — Ele mandará me espancar. Não farei isso. A mulher é sua responsabilidade. Você deve responder ao rei e suportar sua ira.

Não era um dever que eu apreciasse, mas a preocupação de Aton era legítima, e ao menos minha condição de médico garantiria certa proteção contra as expectativas frustradas do rei. Com relutância, concordei em acompanhá-lo até os apartamentos reais. No entanto, antes de deixar minha senhora sozinha certifiquei-me de que uma das escravas mais velhas e confiáveis ficasse de guarda na antecâmara.

O faraó havia retirado a coroa e a peruca. Sua cabeça raspada era branca e nua como um ovo de avestruz. O efeito me assustou e imaginei como minha ama teria reagido a essa visão. Duvidei que tivesse melhorado seu ardor ou sua opinião dele.

O rei pareceu tão espantado ao ver-me quanto eu mesmo estava. Nos olhamos por um momento antes que eu me ajoelhasse a seus pés e fizesse minha reverência.

— O que é, escravo Taita? Mandei buscar outra...

— Bondoso faraó, em nome de minha senhora Lostris venho suplicar vossa compreensão e indulgência.

Deslanchei uma pungente descrição do estado de minha ama, carregada de obscuros termos médicos e explicações destinadas a reduzir o apetite real. Aton ficou a meu lado, assentindo empaticamente a tudo o que eu dizia.

Tenho certeza de que não teria funcionado com um noivo mais jovem e vigoroso, pronto para ir às vias de fato, mas Mamose era um touro velho. Seria impossível enumerar todas as adoráveis mulheres que nos últimos trinta anos haviam desfrutado seus favores. Em fila única elas provavelmente rodeariam a cidade de Tebas dos cem portões, talvez mais de uma vez.

— Vossa majestade — Aton interrompeu finalmente minha explicação —, com vossa permissão, irei buscar outra companhia feminina para passardes a noite. Talvez a pequena hurrita com seu controle in-comum da...

— Não, não — o rei o atalhou. — Terei muito tempo para isso quando a jovem se recuperar da indisposição. Deixe-nos a sós, camareiro. Há outro assunto que desejo discutir com o doutor... quero dizer, com este escravo.

Assim que ficamos a sós, o rei levantou sua túnica e mostrou a barriga.

— O que acha que está causando isto, doutor?

Examinei a irritação que se estendia por seu ventre protuberante e descobri que era uma infestação de micose comum. Algumas mulheres reais lavavam-se com menos freqüência do que seria desejável em nosso clima quente. Eu havia notado que a falta de asseio e a coceira contagiosa eram aliadas. O rei provavelmente contraíra a infecção de uma delas.

— É perigoso? Pode curar isso, doutor?

O medo nos torna a todos iguais. O faraó dependia de mim agora como se fosse um paciente qualquer.

Com sua permissão, fui até meu quarto buscar a cesta de remédios, e ao retornar mandei-o deitar-se na cama ornamentada de ouro e marfim, enquanto massageava um ungüento no círculo vermelho de pele inflamada em sua barriga. A pomada fora preparada por mim mesmo e curaria a irritação em três dias, eu lhe garanti.

— Em grande medida você é responsável pelo fato de eu ter-me casado com essa criança que é sua nova senhora — disse o faraó enquanto eu trabalhava. — O ungüento poderá curar a irritação, mas seu outro tratamento me dará um filho? — interrogou. — Estamos numa época conturbada. Preciso ter um filho antes de um ano. A dinastia está ameaçada.

Nós, médicos, sempre relutamos em garantir a cura, mas assim também o fazem o advogado e o astrólogo. Enquanto me delongava, ele mesmo forneceu a escapatória que eu procurava.

— Não sou mais jovem, Taita. Você é médico e posso lhe contar isso. Minha arma já esteve em muitas batalhas acirradas e sua lâmina já não é mais tão aguda. Ultimamente tem-me falhado quando mais necessitei dela. Há alguma coisa nessa caixa para enrijecer o flexível caule do lírio?

— Faraó, estou feliz por terdes falado sobre isso comigo. Às vezes os deuses agem de maneiras misteriosas... — Ambos fizemos o sinal para afastar o mal antes que eu continuasse. — Vosso primeiro congresso com minha ama virgem deve ser perfeitamente executado. Qualquer erro, qualquer desvio de nosso objetivo, qualquer fracasso em erguer alto o cetro real de vossa masculinidade frustrará nossos esforços. Haverá apenas uma oportunidade; a primeira união deve ter êxito. Se for preciso tentar novamente haverá o perigo de gerardes mais uma mulher.

Os fundamentos médicos de minha afirmação eram completamente insubstanciais. Não obstante, ambos ficamos muito sérios, ele ainda mais que eu.

Levantei o indicador.

— Se fizéssemos a tentativa esta noite e... — Não falei mais nada, mas deixei o dedo baixar sugestivamente e balancei a cabeça. — Não, somos afortunados porque os deuses nos deram outra chance.

— O que devemos fazer? — ele perguntou ansiosamente, e fiquei em silêncio por um longo instante, ajoelhado em profunda meditação ao lado de sua cama.

Era difícil não demonstrar meu alívio e minha satisfação. No primeiro dia do casamento de minha ama eu já conquistara uma posição influente junto ao rei, e ele me dera a desculpa perfeita para manter intacta a virgindade de Lostris pelo menos por algum tempo, talvez o suficiente para que eu pudesse prepará-la para o choque brutal de seu primeiro ato procriador, com um homem que ela não amava e que era fisicamente digno de verdadeira repulsa. Disse a mim mesmo que com o hábil manuseio da situação eu poderia conseguir estender indefinidamente esse período abençoado.

— Sim, de fato, vossa majestade, posso ajudar-vos, mas levará algum tempo. Não será tão fácil quanto curar esta irritação. — Minha mente corria. Eu tinha de espremer a esponja até a última gota. — Teremos de empreender uma dieta rigorosa.

— Chega de bolas de touro, suplico-lhe, doutor.

— Acho que já tivestes demais disso. No entanto, precisaremos aquecer vosso sangue e adoçar vossos fluidos geradores para uma tentativa de êxito. Leite de cabra morno com mel três vezes por dia e, é claro, as poções especiais que prepararei para vós, de chifre de rinoceronte e raiz de mandrágora.

Ele pareceu aliviado.

— Tem certeza de que isso funcionará?

— Nunca falhou antes, mas há outra medida essencial.

— E qual é? — Seu alívio evaporou e ele sentou-se, olhando-me ansiosamente.

— Abstinência completa. Devemos permitir que o membro real repouse e recupere sua completa energia. Deveis esquecer o harém e seus prazeres por algum tempo.

Eu disse isso com o ar dogmático do médico que não pode ser contestado, pois era o único meio garantido de manter minha senhora Lostris intocada. Mas preocupava-me qual seria a reação do faraó. Podia ter um acesso de fúria ao ver negados seus prazeres conjugais. Podia me rejeitar, e eu perderia todas as vantagens que acabara de conquistar. Mas eu precisava correr o risco em benefício de minha ama. Tinha de protegê-la até quando fosse possível.

A reação do rei surpreendeu-me. Ele simplesmente deitou-se e sorriu, complacente consigo mesmo.

— Por quanto tempo? — perguntou bastante feliz, e fiquei atônito ao perceber que minhas restrições haviam sido um alívio para ele. Eu, para quem o ato de amor com uma linda mulher seria sempre um sonho inatingível e ilusório, precisei de grande esforço para compreender que o faraó estava contente por ser poupado de um dever outrora prazeroso, mas que por força de se realizar com tanta freqüência tornara-se oneroso.

Devia haver nessa época ao menos trezentas esposas e concubinas em seu harém, e algumas das mulheres asiáticas eram notórias por seus apetites insaciáveis. Tentei simpatizar-me com o esforço que deve ser necessário para atuar como um deus noite após noite, ano após ano. A idéia não me amedrontava como a realidade parecia ter exaurido o rei.

— Noventa dias — eu disse.

— Noventa dias? — ele repetiu pensativo. — Nove semanas egípcias, de dez dias cada?

— Pelo menos — eu disse firmemente.

— Muito bem. — Ele assentiu sem rancor e mudou de assunto com facilidade.

— Doutor, meu camareiro me disse que além de suas habilidades médicas é também um dos três astrólogos mais eminentes do nosso Egito.

Fiquei pensando por que meu amigo o camareiro havia relativizado essa afirmativa. Pois, por minha vida, eu não podia adivinhar quem seriam os outros, mas inclinei a cabeça modestamente.

— Ele me lisonjeia, majestade, mas talvez eu tenha algum conhecimento dos corpos celestes.

— Faça um horóscopo para mim! — ele ordenou, sentando-se avidamente.

— Agora? — perguntei surpreso.

— Agora! — ele concordou. — Por que não? Não há nada que eu gostasse mais de fazer neste momento.

Aquele sorriso inesperado foi realmente cativante, e apesar de suas intenções em relação a Tanus e a minha senhora vi-me gostando dele.

— Terei de buscar alguns pergaminhos na biblioteca do palácio.

— Temos a noite toda — ele ressaltou. — Busque o que for preciso.

A data e a hora exatas do nascimento do rei estavam bem documentadas, e eu tinha nos pergaminhos todas as observações dos movimentos dos astros feitas por cinqüenta gerações de astrólogos antes de mim. Enquanto o rei observava avidamente, fiz a primeira leitura do horóscopo real, e antes de chegar à metade já enxergava o caráter do homem perfeitamente confirmado pelas estrelas, como eu havia observado. A grande estrela errante vermelha, que conhecemos como Olho de Seth, dominava seu destino. Era a estrela do conflito e da incerteza, da confusão e da guerra, da tristeza e do infortúnio, e enfim da morte violenta.

Mas como poderia dizer-lhe essas coisas?

Improvisei um resumo velado dos fatos documentados de sua vida e os reuni com detalhes menos conhecidos, que soubera através de meus espiões, um dos quais era o camareiro real. Então prossegui com as costumeiras garantias de boa saúde e longa vida que todo cliente quer escutar.

O rei ficou impressionado.

— Você possui todas as habilidades que eu esperava, conforme sua reputação.

— Obrigado, majestade. Fico feliz por ter sido capaz de vos servir.

Comecei a reunir meus pergaminhos e instrumentos de escrita, preparando-me para sair. Era bem tarde. Na escuridão além dos muros do palácio eu já escutara o primeiro galo cantar.

— Espere, Taita. Não lhe dei permissão para sair. Não me disse ainda o que realmente quero saber. Terei um filho e minha dinastia sobreviverá?

— Infelizmente, faraó, esses assuntos não podem ser previstos pelas estrelas. Elas dão apenas a tendência geral de vosso destino e a direção que vossa vida tomará, sem esclarecer tais pormenores...

— Ah, sim — ele interrompeu —, mas há outros meios de prever o futuro, não há?

Fiquei alarmado pela direção em que apontavam suas perguntas e tentei desviá-lo, mas ele estava determinado.

— Você me interessa, Taita, e fiz indagações a seu respeito. É adepto do jogo divinatório de Amon-Rá.

Fiquei perturbado. Como ele havia descoberto isso? Muito poucos conheciam esse meu dom esotérico e eu queria que permanecesse assim. Mas não podia negá-lo completamente, então me mantive em silêncio.

— Vi o jogo escondido no fundo de sua cesta de remédios — ele disse, e fiquei aliviado por não ter tentado negar meu dom e ser apanhado em mentira. Encolhi os ombros resignado, pois sabia o que estava por vir.

— Jogue para mim, e diga-me se terei um herdeiro e se minha dinastia sobreviverá ou não — ele ordenou.

Um horóscopo é uma coisa; exige apenas um conhecimento da configuração das estrelas e suas propriedades. Um pouco de paciência e o procedimento correto resultarão numa previsão razoavelmente acurada. Uma adivinhação através dos dez discos de Amon-Rá é inteiramente outro assunto. Exige um dispêndio das forças vitais, uma combustão de algo nas profundezas do ser que o deixa exausto.

Ultimamente tenho feito o possível para evitar o exercício desse dom. É verdade que em raras ocasiões ainda posso ser convencido a praticá-lo, mas depois passo vários dias esgotado, física e espiritualmente. Minha senhora Lostris, que sabe desse meu estranho poder, também conhece os efeitos que tem sobre mim e para meu próprio bem proibiu-me de praticá-lo, a não ser ocasionalmente em seu benefício.

Mas um escravo não pode recusar o pedido de um rei, e com um suspiro apanhei no fundo de minha cesta o saco de couro que contém as peças do jogo. Coloquei o saco de lado e preparei uma mistura de ervas necessária para abrir os olhos da alma, permitindo-lhes enxergar o futuro. Bebi a poção e esperei até ser assaltado pela sensação familiar mas temida de dissociar-me do meu próprio corpo. Sentia-me sonhador e distante da realidade quando peguei o saco de couro.

O jogo divinatório de Amon-Rá consiste em dez discos de marfim. Dez é o número místico de maior poder. Cada disco representa uma única faceta da existência humana, do nascimento à morte, e o além-vida. Com minhas próprias mãos eu havia gravado os símbolos na face dos discos. Cada um era uma pequena obra-prima. Ao manuseá-los constantemente e soprar sobre eles ao longo dos anos, eu os havia dotado de parte da minha força vital.

Despejei-os do saco e comecei a acariciá-los, concentrando neles todos os meus poderes. Logo começaram a ficar quentes como carne viva sob meus dedos e experimentei a conhecida sensação de esgotamento enquanto minha própria força fluía para os discos de marfim. Dispus os discos voltados para baixo em duas pilhas aleatórias e convidei o faraó a escolher de uma pilha por vez, esfregando as peças entre os dedos e concentrando sua atenção nelas enquanto repetia suas perguntas em voz alta: "Terei um filho? Minha dinastia sobreviverá?"

Descontraí-me completamente e abri minha alma para permitir a entrada dos espíritos proféticos. O som da voz dele começou a penetrar minha alma, cada vez mais fundo, como projéteis de um estilingue atingindo o mesmo ponto.

Comecei a oscilar ligeiramente onde estava sentado, do mesmo modo que uma cobra dança diante da flauta do encantador. A droga atingiu seu efeito total. Sentia-me como se meu corpo não tivesse peso e flutuasse no ar. Falava de uma grande distância e minha voz ecoava estranhamente em minha própria cabeça, como se estivesse numa caverna sob a superfície da terra.

Ordenei ao rei que soprasse cada pilha de discos e as dividisse em metades, separando uma delas e guardando a outra. Novamente o fiz dividir cada pilha e então misturar as restantes, até que ele ficou com apenas dois discos.

Pela última vez soprou sobre eles e, a meu comando, colocou-os um em cada uma de minhas mãos. Segurei-os com força e pressionei-os contra meu peito. Senti o coração bater contra meus punhos fechados, absorvendo a influência das peças de marfim.

Fechei os olhos e vi formas começarem a surgir da escuridão, e estranhos sons encheram meus ouvidos. Não havia uma forma coerente, tudo era confuso. Fiquei tonto e meus sentidos se enevoaram. Sentia-me cada vez mais leve, até parecer flutuar no espaço. Permiti-me ser transportado para cima como se fosse uma folha de grama seca apanhada num redemoinho, um dos demônios de poeira do Saara.

Os sons em minha cabeça tornaram-se mais claros e as imagens obscuras se firmaram.

— Ouço o choro de uma criança recém-nascida. — Minha voz estava distorcida, como se meu palato houvesse sido rompido no nascimento.

— É um menino? — A pergunta do faraó vibrou em minha cabeça, de modo que a senti mais que escutei.

Então lentamente minha visão começou a se firmar e olhei através de um longo túnel na escuridão, ao fim do qual havia uma luz. As peças de marfim estavam quentes como brasas tiradas da lareira e feriam-me as palmas das mãos.

Na nuvem luminosa no final do túnel vi uma criança deitada nos restos sangrentos de seu próprio nascimento, com a gorda serpente do umbigo ainda se desenrolando de seu ventre.

— Vejo uma criança — eu disse com a voz fina e áspera.

— É um menino? — indagou o faraó da escuridão que me cercava. A criança chorava e chutava o ar com os dois pés, e vi brotando

das coxas grossas um pálido dedo de carne com a pele enrugada.

— Um menino — confirmei, sentindo inesperada afeição por aquele fantasma de minha imaginação, como se realmente fosse de carne e sangue. Tentei alcançá-lo com o coração, mas a imagem se esvaiu, o grito minguou e perdeu-se no negrume.

— A dinastia! O que será de minha linhagem? Terá continuidade? A voz do rei me alcançou, mas então perdeu-se na cacofonia de

outros sons que enchiam minha cabeça — trombetas de guerra, gritos de homens em combates mortais e o tinido dos bronzes entrechocan-do-se. Vi o céu acima de mim e o ar estava escuro com as flechas que voavam.

— Guerra! Vejo uma possante batalha que mudará a forma do mundo — gritei para fazer-me ouvir acima do ruído do conflito que ocupava minha cabeça.

— Minha linhagem sobreviverá? — A voz do rei era frenética, mas não lhe dei atenção, pois tinha um poderoso trovejar nos ouvidos, como o som do vento khamsin ou as águas do Nilo espumando pelas grandes cataratas. Vi uma estranha nuvem amarela que obscurecia meu horizonte de visão, e a nuvem era perpassada por relâmpagos que eu sabia tratar-se dos reflexos do sol nas armas de guerra.

— E minha dinastia? — a voz do faraó insistiu em minha mente e a visão se desfez.

Houve um silêncio em minha cabeça e vi uma árvore na margem do rio. Era uma grande acácia em pleno vigor, os galhos pesados com rebentos de frutos. No ramo mais alto estava pousado um falcão, o falcão real, mas quando o olhei o pássaro mudou de forma e de cor. Transformou-se na dupla coroa do Egito, vermelha e branca, o papiro e o lótus dos dois reinos entrelaçados. Então, diante de meus olhos, as águas do Nilo ergueram-se e baixaram, ergueram-se e baixaram novamente. Cinco vezes vi as águas transbordarem.

Enquanto eu admirava com os olhos ardentes, o céu sobre a árvore subitamente se escureceu com insetos voadores e uma densa nuvem de gafanhotos desceu sobre a árvore, cobrindo-a completamente. Quando voltaram a erguer-se a árvore estava devastada e despida do último Vestígio de verde. Nenhuma folha permanecia nos galhos queimados.

Então a árvore morta inclinou-se e caiu ruidosamente sobre o solo. Na queda, o tronco partiu-se e a coroa se estilhaçou. Os fragmentos transformaram-se em pó e foram dispersados pelo vento. Nada restou além do vento e das areias móveis do deserto.

— O que está vendo? — exigiu o faraó, mas tudo se apagou e vi-me novamente sentado no chão da câmara real.

Esforçava-me para respirar, como se tivesse corrido uma grande distância. O suor salgado queimava-me os olhos e escorria por meu corpo em regatos, ensopando o saiote de linho e formando uma poça no chão sob mim. Eu tremia de febre e tinha na boca do estômago uma sensação doentia familiar, que duraria vários dias.

O faraó me olhava fixamente e percebi a visão terrível que eu lhe apresentava.

— O que você viu? — ele sussurrou. — Minha linhagem sobreviverá? Não podia lhe contar minha verdadeira visão, então inventei outra

história para satisfazê-lo.

— Vi uma floresta de grandes árvores que atingiam o horizonte de meu sonho. Seu número era infinito, e no topo de cada uma havia uma coroa, a coroa vermelha e branca dos dois reinos.

O faraó suspirou e cobriu os olhos com as mãos por um instante. Ficamos em silêncio, ele aliviado por minha mentira e eu oferecendo-lhe minha simpatia.

Finalmente pronunciei a mentira completa, para poupá-lo:

— A floresta que vi era vossa linhagem de descendentes — murmurei. — Chega aos limites do tempo, e cada um deles usa a coroa do Egito.

Mamose descobriu os olhos e sua gratidão e alegria eram patéticas de se ver.

— Obrigado, Taita. Vejo que a adivinhação exauriu suas forças. Pode ir descansar. Amanhã a corte navegará para meu palácio na ilha Ele-fantina. Mandarei reservar uma galé para que você e sua ama atravessem em segurança. Proteja-a com sua vida, pois ela é o vaso que contém a semente de minha imortalidade.

Eu estava tão debilitado que tive de utilizar a armação da cama para erguer-me. Cambaleei até a porta e me aprumei contra o batente. Mas não estava tão fraco que não me lembrasse dos deveres para com minha ama.

— Há a questão do lençol matrimonial. O povo espera que seja exibido — lembrei ao faraó. — Vossa reputação e a de minha senhora estão em jogo.

— O que sugere, Taita? — Tão cedo e ele já confiava em mim. Disse-lhe o que fazer e ele assentiu. — Providencie tudo!

Cuidadosamente dobrei o lençol que cobria o leito real. Era do mais fino linho, branco como os delgados cirros de verão, bordado com as raras linhas de seda trazidas do Oriente pelas caravanas. Levei comigo o lençol dobrado quando saí do quarto do rei e percorri o palácio ainda escuro e silencioso até o harém.

Minha senhora dormia como uma defunta e eu sabia que com a quantidade de sheppen vermelho que lhe administrara ela dormiria o dia todo e provavelmente só despertaria à noite. Sentei-me ao lado de sua cama por um instante. Sentia-me exausto e deprimido, pois a sessão divinatória havia-me drenado a alma. As imagens que evocaram ainda me perturbavam. Tinha certeza de que a criança que eu vira era de minha ama, mas então como poderia explicar o resto da visão? Parecia não haver resposta para o enigma, e abandonei o pensamento pois ainda tinha trabalho a fazer.

Agachado ao lado da cama de Lostris, estendi o lençol bordado no chão. A lâmina de minha adaga era suficientemente aguçada para raspar os pêlos do meu braço. Escolhi um dos rios azuis de sangue sob a pele suave do meu pulso e furei-o com a ponta da adaga, deixando o sangue escuro pingar no lençol. Quando achei conveniente o tamanho da mancha, envolvi o punho numa faixa de linho para estancar o sangramento e fiz uma trouxa com o lençol.

A garota escrava ainda esperava no outro quarto. Ordenei que deixasse Lostris dormir imperturbada. Sabendo que ela seria bem-cuidada, deixei-a e subi a escada até o topo da muralha exterior do harém.

A madrugada raiava, mas uma multidão de mulheres inquisitivas e curiosas aguardava do lado de fora, olhando para cima em expectativa.

Fiz uma demonstração balançando o lençol antes de estendê-lo sobre as ameias da muralha. A mancha de sangue no centro do espaço imaculado tinha a forma de uma flor, e a multidão fervilhou comentando a prova da virgindade de minha ama e da virilidade de seu noivo.

Ao fundo do ajuntamento destacava-se uma figura mais alta do que as que a cercavam. Tinha a cabeça coberta por um xale de lã listrado. Foi só quando o retirou, expondo seu rosto e sua cabeça de cabelos cor de fogo, que o reconheci.

— Tanus! — gritei. — Preciso lhe falar.

Ele olhou para mim sobre a muralha e seus olhos estavam cheios de tanta dor que desejei nunca mais vê-los novamente. A mancha no lençol destruíra sua vida. Eu também conhecera a agonia do amor perdido e lembrava-me de cada detalhe dele após tantos anos. A ferida no coração de Tanus era recente e ainda sangrava, mais dolorida que os ferimentos que recebera nos campos de batalha.

Precisava de minha ajuda agora para sobreviver.

— Tanus! Espere!

Jogando o xale sobre a cabeça, ele encobriu o rosto e virou-se, afastando-se desequilibrado como um bêbado.

— Tanus! — gritei. — Volte! Preciso lhe falar!

Ele não se virou mais e acelerou o passo.

Quando consegui descer do muro e correr pelos portões principais, ele havia desaparecido no labirinto de becos e choupanas de barro da cidadela.

Procurei por Tanus durante metade da manhã, mas seus alojamentos estavam desertos e ninguém o havia visto nos lugares que freqüentava.

Finalmente abandonei a busca e retornei a meu quarto no alojamento dos meninos escravos. Ainda tinha de reunir e empa-cotar meus pertences para que minha senhora e eu estivéssemos prontos para partir. Afastei a sensação sombria que o jogo de Amon-Rá e minha visão de Tanus haviam deixado e dediquei-me a arranjar minhas coisas e desmontar o único lar que eu conhecera.

Meus animais pareciam sentir que algo estranho estava acontecendo. Agitavam-se, chilreavam e baliam, cada qual tentando à sua maneira atrair minha atenção. Os pássaros selvagens saltitavam e flauteavam no terraço, enquanto no canto mais próximo de minha cama meus amados falcões saker abriam as asas e eriçavam as plumas da nuca, gritando de seus poleiros. Os cães, os gatos e a dócil gazela amontoaram-se ao redor de minhas pernas, tentando esfregar-se em mim e dificultando meus esforços para preparar tudo.

Exasperado, notei o jarro com leite azedo de cabra ao lado de minha cama. É uma de minhas bebidas favoritas e os meninos escravos conservam o jarro sempre cheio. Meus animais também gostam do leite espesso, então para distraí-los levei o jarro até o terraço e enchi suas tigelas. Voltei a minha tarefa e fechei as divisórias de palha trançada para mantê-los fora.

É curioso como um escravo pode reunir posses ao longo da vida. Caixas e trouxas empilhavam-se contra uma parede quando terminei. A essa altura, meu estado de depressão e esgotamento deixavam-me quase prostrado, mas ainda estava suficientemente alerta para perceber o silêncio. Fiquei parado um instante no meio do quarto, escutando com indocilidade. O único som era o tinido dos pequenos sinos de bronze nas pernas do falcão fêmea, que sentado no canto fixava-me com aquele olhar intenso e implacável da ave de rapina. O macho, menor e mais belo que ela, dormia em seu próprio poleiro no outro canto, com os olhos cobertos pelo couro macio do capuz. Nenhum dos outros animais emitia um som. Nenhum dos gatos miava ou esturrava para os cães, nem as aves cantavam ou pipiavam, nenhum dos cachorros rosnava ou embolava-se com os outros em brincadeira.

Fui até a esteira de palha e puxei-a. A luz do sol irrompeu no quarto e cegou-me por um momento. Então recobrei a visão e gritei horrorizado. Todos os pássaros e animais estavam espalhados pelo terraço e o jardim abaixo.

Deitados nas posições abandonadas da morte, cada um ficara onde havia caído. Corri para eles, chamando meus favoritos pelo nome. Ajoelhei-me para recolher um deles nos braços e abracei o corpinho quente e mole, buscando sinais de vida. Não havia qualquer centelha em nenhum deles, embora os tenha examinado um a um. As aves ficavam pequenas e leves em minha mão, com a maravilhosa plumagem inalterada pela morte.

Pensei que meu coração já carregado fosse explodir de tristeza. Ajoelhei-me no terraço em meio a minha família dizimada e chorei.

Foi algum tempo depois que consegui perceber o motivo daquela tragédia. Então levantei-me e fui até uma das gamelas vazias no chão de ladrilhos. Eles as haviam lambido até limpá-las, mas cheirei-as para tentar descobrir o tipo de veneno que alguém havia colocado ali para mim. O odor de leite azedo ocultava qualquer outro; só sabia que fora rápido e mortal.

Fiquei pensando quem teria colocado o jarro ao lado de minha cama, mas não importava a mão que havia transportado o recipiente. Eu sabia com total certeza quem havia dado a ordem. Adeus, meu velho querido. Você é um homem morto", dissera-me o senhor Intef, e não esperara muito para pôr em ação suas palavras.

A raiva que me dominou era uma espécie de loucura, agravada por meu instável e sombrio humor. Percebi que tremia com um ódio que jamais conhecera. Puxei a pequena adaga de meu cinto e antes que me desse conta estava correndo pelos degraus do terraço com a lâmina nua na mão. Sabia que àquela hora da manhã Intef estaria no jardim aquático. Não suportava mais pensar nele como meu senhor. A lembrança de todas as ofensas que me dirigira, todo o sofrimento e a humilhação, estava clara em minha mente e eu iria matá-lo agora mesmo, perfurar cem vezes aquele coração cruel e maligno.

Havia avistado os portões do jardim quando recuperei a sanidade. Havia meia dúzia de guardas no portão e haveria outros tantos depois dele. Eu jamais chegaria perto do grão-vizir antes que me barrassem. Forcei meus pés a deter-se e a recuar. Deslizei a adaga em sua bainha de couro com pedras preciosas e, controlando a respiração, caminhei lentamente de volta ao terraço, onde reuni os patéticos cadáveres de meus amigos.

Havia planejado plantar uma fileira de sicômoros nas bordas de meu jardim. Os buracos para recebê-los já haviam sido cavados, mas as árvores não seriam plantadas, agora que eu ia deixar Karnak. As covas serviriam de túmulo para minhas amadas criaturas. A tarde ia alta quando enchi a última sepultura, mas minha raiva não cedera. Se não pudesse ter uma vingança completa, pelo menos poderia dar a mim mesmo uma amostra dela.

Ainda havia um pouco de leite azedo no jarro em meu quarto. Segurando-o, tentei pensar num meio de levá-lo à cozinha do grão-vizir. Seria tão justo pagar-lhe em sua mesma moeda vil, mas eu sabia no fundo que a idéia era inútil. O senhor Intef era esperto demais para ser enganado tão facilmente. Eu mesmo o ajudara a criar o sistema que utilizava para manter-se a salvo de envenenamento e assassinato. Ele só poderia ser atingido através de um plano cuidadoso. Além disso, agora estaria especialmente na defensiva. Eu precisava ser paciente, mas era impossível. Mesmo que não pudesse matá-lo agora, poderia dar um sinal do que pretendia fazer mais tarde.

Ainda carregando o jarro fatídico, esgueirei-me para a rua por uma porta lateral do alojamento dos meninos. Não precisei ir longe para encontrar um leiteiro rodeado por seu rebanho de cabras. Enquanto eu esperava, ele extraiu o rico líquido do úbere inchado de uma delas, enchendo o jarro até a borda. Quem houvesse preparado o veneno havia usado o suficiente para matar metade dos cidadãos de Karnak. Eu sabia que permanecia no vaso mais que o bastante para meus objetivos.

Um dos guardas do grão-vizir passeava diante do quarto de Rasfer. O fato de continuar sob guarda confirmou para mim que Rasfer ainda era valioso para o senhor Intef, e que a perda de seu tenente pessoal seria um estorvo para ele.

O guarda me reconheceu e fez-me entrar no quarto do enfermo, que cheirava como uma pocilga. Rasfer estava deitado em sua cama imunda, empapado de suor. Mas vi imediatamente que minha cirurgia fora bem-sucedida, pois ele abriu os olhos e insultou-me debilmente. Devia estar tão seguro de sua recuperação que não precisava mais ser gentil comigo.

— Onde esteve, seu anormal despelotado? — ele rosnou, reforçando minha decisão e livrando-me dos últimos vestígios de piedade que eu houvesse sentido por ele. — Estou em agonia desde que você me perfurou o cérebro. Que espécie de médico é você...

E continuou nesse tom, que ignorei enquanto desenrolava a bandagem suja de sua cabeça. Meu interesse era puramente acadêmico ao examinar o pequeno ferimento que o trépano deixara em seu escalpo. Fora mais uma operação perfeitamente executada, e senti certo remorso profissional de que fosse desperdiçada.

— Dê-me algo para a dor, eunuco! — Rasfer tentou agarrar minha túnica, mas fui mais rápido e recuei para fora de seu alcance.

Fiz uma encenação despejando cristais de um sal inofensivo em sua tigela de beber e então cobri-os com o leite do jarro.

— Se a dor piorar, isto a aliviará — disse-lhe, colocando a tigela perto dele. Mesmo então não tive coragem de entregá-la diretamente.

Rasfer apoiou-se num cotovelo e tentou pegar a tigela, mas antes que pudesse tocá-la eu a empurrei com o pé para longe. No momento pensei que aquilo fosse apenas um desejo de prolongar a expectativa, e senti satisfação ao escutar seu gemido:

— Bom Taita, dê-me a poção. Deixe-me beber. Esta dor de cabeça está me deixando louco.

— Primeiro vamos conversar um pouco, bom Rasfer. Ouviu minha senhora Lostris pedir-me como presente de despedida ao senhor Intef?

Mesmo com dor ele sorriu para mim.

— Você é um tolo se acha que ele o deixará ir. É um homem morto.

— As mesmas palavras usadas pelo senhor Intef. Você lamentará minha perda, Rasfer? Chorará por mim quando eu me for? — perguntei suavemente, e ele começou a rir, então parou e olhou para a tigela.

— A meu modo, sempre gostei muito de você — ele resmungou. — Agora dê-me o remédio.

— Quanto gostava de mim quando me castrou, Rasfer? — perguntei, e ele me olhou fixamente.

— Você não se ressente mais disso, não é? Faz tanto tempo, e além do mais eu não poderia desobedecer as ordens do senhor Intef. Seja razoável, Taita, dê-me a tigela.

— Você riu enquanto me cortava. Por que riu? Gostou tanto assim? Ele encolheu os ombros e piscou com a dor provocada pelo movimento.

— Sou um homem jovial. Gosto de rir. Vamos, velho amigo, diga que me perdoa e dê-me o remédio.

Empurrei com o pé a tigela em sua direção. Ele a apanhou com movimentos ainda descoordenados. Algumas gotas espirraram sobre a borda quando ele a levou avidamente à boca.

Eu não percebera o que estava a ponto de fazer até o momento em que saltei para a frente e derrubei a tigela de suas mãos. Ela caiu ao chão sem se quebrar e rolou para o canto, espirrando leite na parede.

Rasfer e eu nos olhamos. Eu estava aturdido por minha própria estupidez e fraqueza. Se um homem merecia morrer pela agonia do veneno, era aquele. Mas então revi mentalmente os corpos contorcidos de meus animais espalhados pelo terraço e entendi por que não conseguira deixar Rasfer beber. Apenas um monstro teria cometido semelhante ato. Tenho grande respeito por mim mesmo para reduzir-me à ignomínia do envenenador.

Vi a compreensão brotar nos olhos injetados de Rasfer.

— Veneno — ele sussurrou. — A tigela estava envenenada.

— Foi-me enviada pelo senhor Intef.

Não sei por que lhe disse isso. Talvez estivesse tentando desculpar-me pela atrocidade que quase cometera. Não sei por que me comportava de modo tão estranho. Talvez ainda fossem os efeitos tardios do jogo de Amon-Rá. Cambaleei ligeiramente quando me dirigi para a porta. Atrás de mim, Rasfer começou a rir, a princípio de leve e então mais forte, até que sua gargalhada convulsiva pareceu abalar as paredes.

— Você é um idiota, eunuco — ele rugiu enquanto eu fugia. — Devia ter terminado. Devia ter-me matado, pois agora, tão certo quanto eu ter um buraco no meio das nádegas, eu o matarei.

Como eu esperava, minha senhora Lostris ainda dormia quando finalmente voltei ao seu quarto. Coloquei-me ao pé da cama, com a intenção de esperar que acordasse sozinha. Mas as agruras e dificuldades do dia e da noite haviam sido demais para mim. Caí adormecido, enrolado como um cãozinho sobre os ladrilhos.

Acordei sob ataque. Algo me atingiu o lado da cabeça com um golpe tão doloroso que me vi de pé antes de estar acordado de fato. O próximo atingiu-me as costas e doeu como uma mordida de zangão.

— Você me enganou! — minha senhora Lostris gritava comigo. - Não me deixou morrer. Ela golpeou novamente com o leque. Era uma arma formidável, com um comprido cabo de bambu e na extremidade um pente de prata maciça que sustinha as plumas de avestruz. Felizmente ela ainda estava grogue por causa da droga e do excesso de sono, e sua pontaria era imprecisa. Abaixei-me e ela caiu de novo na cama com o impulso do golpe. Lostris largou o leque e explodiu em lágrimas.

— Eu queria morrer! Por que não me deixou morrer?

Levou algum tempo até que eu pudesse me aproximar dela, e então abracei-a para reconfortá-la.

— Eu o machuquei, Taita? — ela perguntou. — Nunca bati em você antes.

— Sua primeira tentativa foi muito boa — eu a felicitei. — Na verdade foi tão boa que acho que não precisa mais praticar.

Esfreguei teatralmente minha cabeça e ela sorriu através das lágrimas.

— Pobre Taita, eu o trato tão mal! Mas você o merece. Trapaceou contra mim. Eu queria morrer e você me desobedeceu.

Vi que era hora de mudar de assunto.

— Minha senhora, tenho notícias das mais interessantes para você. Mas deve me prometer que não contará nada a ninguém, nem mesmo a suas criadas.

Desde que ela aprendera a falar não pudera resistir a um segredo; mas qual a mulher capaz disso? A menção de um segredo sempre fora suficiente para distraí-la, e mais uma vez funcionou.

Mesmo com o coração partido e a ameaça de suicídio pairando no ar, ela conteve as últimas lágrimas e ordenou:

— Conte-me!

Eu havia acumulado ultimamente um bom estoque de segredos entre os quais escolher, e fiz uma pausa para decidir. Não lhe contaria sobre o envenenamento de meus animais, é claro, nem sobre ter avistado Tanus. Precisava de algo que a alegrasse, e não que a deixasse ainda mais deprimida.

— Ontem à noite fui ao quarto do faraó e conversei com ele durante muito tempo.

As lágrimas brotaram novamente de seus olhos.

— Oh, Taita, ele é um velho feio! Não quero ter de...

Eu não queria conversar mais nada nesse estilo, ou dali a pouco ela estaria chorando de novo, então apressei-me:

— Joguei as peças de Amon-Rá para ele.

Conquistei imediatamente sua completa atenção. Minha senhora é totalmente fascinada por meus poderes divinatórios. Se não fosse pelos efeitos nocivos que o exerce sobre minha saúde, ela me faria consultá-lo, todos os dias.

— Conte-me! O que você viu? — Estava excitada. Não pensava mais em suicídio, esquecera a tristeza. Era tão jovem e ingênua que senti vergonha do meu artifício, mesmo que fosse para seu próprio bem.

— Tive visões extraordinárias, senhora. Nunca vi imagens tão claras ou tive percepções tão profundas...

— Conte-me! Afirmo que morrerei de impaciência se não me contar imediatamente.

— Primeiro deve jurar segredo. Nenhuma outra alma deve saber o que eu vi. São assuntos de Estado e de sérias conseqüências.

— Eu juro! Eu juro!

— Não podemos encarar essas coisas com leviandade...

— Continue, Taita. Você está me provocando. Ordeno-lhe que me diga tudo agora mesmo, ou... ou... — ela pensou numa ameaça para me coagir — .. ou baterei de novo em você.

— Muito bem. Então escute. Vi uma grande árvore na margem do Nilo. No topo da árvore estava a coroa do Egito.

— O faraó! A árvore era o rei. — Ela entendeu imediatamente e eu assenti. — Continue, Taita. Conte-me o resto.

— Vi o Nilo subir e descer cinco vezes.

— Cinco anos, um período de cinco anos! — Ela bateu palmas, excitada. Adorava desvendar as tramas de meus sonhos.

— Então a árvore foi devorada por gafanhotos, derrubada e transformada em poeira.

Ela fixou os olhos em mim, incapaz de pronunciar as palavras, então falei por ela:

— Em cinco anos o faraó estará morto e você será uma mulher livre. Livre do jugo de seu pai, livre para se reencontrar com Tanus, sem ninguém para impedi-la.

— Se estiver mentindo para mim, será cruel demais para suportar. Por favor, diga que é verdade.

— É verdade, minha senhora, mas há outras coisas. Na visão, havia um bebê recém-nascido, um menino. Senti meu amor ir até a criança e soube que você era a mãe dela.

— E o pai, quem era o pai de meu filho? Oh, Taita, diga-me, por favor!

— No sonho eu tinha absoluta certeza de que o pai era Tanus. — Este foi o primeiro desvio da verdade que me permiti, mas ainda assim tive o consolo de acreditar que era pelo bem dela.

Minha senhora Lostris ficou em silêncio por um longo momento, mas sua expressão radiante era a maior recompensa que eu poderia esperar. Então ela finalmente sussurrou:

— Posso esperar cinco anos. Eu estava disposta a esperá-lo por toda a eternidade. Será difícil, mas poderei esperar cinco anos por Tanus. Você estava certo em não me deixar morrer, Taita. Teria sido uma ofensa aos deuses.

Meu alívio foi reanimador e agora sentia-me mais confiante de que conseguiria conduzi-la em segurança por tudo o que nos esperava.

Na madrugada seguinte a flotilha real zarpou de Karnak para o sul. Como o rei havia prometido, minha senhora Lostris e todo o seu séquito estavam a bordo de uma das pequenas e velozes galés da esquadra sul.

Eu estava sentado com minha ama nas almofadas sob um toldo que o capitão arranjara para ela na popa. Olhamos para trás, vendo os edifícios esverdeados da cidade brilhar aos primeiros raios amarelados do sol nascente.

— Não imagino aonde ele terá ido. — Ela pensava em Tanus, como fizera uma centena de vezes desde que partimos. — Você o procurou em todos os lugares?

— Por toda parte — confirmei. — Passei metade da manhã vasculhando a cidadela e o cais. Ele desapareceu. Mas deixei sua mensagem com Kratas. Pode estar certa de que ele a entregará.

— Cinco anos sem ele! Nunca passarão...

A viagem rio acima transcorreu agradavelmente, em dias longos e preguiçosos que passei sentado no convés de popa conversando com minha senhora Lostris. Discutimos todos os detalhes de nossa nova situação e analisamos o que poderíamos esperar do futuro.

Expliquei-lhe as complexidades da vida na corte, os precedentes

e o protocolo. Discorri sobre as linhas ocultas de poder e influência, enumerei as pessoas que seriam de nosso interesse cultivar e as que seria mais seguro ignorar. Expliquei-lhe os problemas mais prementes

e como o faraó reagia a cada um deles. Então passei a discutir com ela os sentimentos e estados de ânimo do povo.

Em grande medida eu devia todas aquelas informações a meu amigo Aton, o camareiro real. Parecia que nos últimos doze anos cada navio que descera de Elefantina para Karnak trouxera-me uma carta dele repleta desses fascinantes detalhes, e ao retornar à ilha levara a meu amigo uma mostra em ouro de minha gratidão.

Eu estava decidido a ocuparmos assim que possível o centro da corte e do poder. Não havia educado minha ama todos aqueles anos para ver as armas que colocara em seu arsenal enferrujar por falta de uso. A soma de seus talentos e habilidades era formidável, e eu pacientemente a aumentava a cada dia. Ela possuía uma mente aguçada e inquieta. Quando consegui ajudá-la a livrar-se do humor sombrio que ameaçara destruí-la, ela voltou a abrir-se a meus ensinamentos, como de hábito. Sempre que eu tinha oportunidade, instigava sua ambição e sua avidez para assumir o papel que eu planejara para ela.

Logo descobri que um dos meios mais eficazes de atrair a atenção e a cooperação de Lostris era sugerir que tudo acabaria por beneficiar Tanus.

— Se tiver influência na corte, poderá protegê-lo — eu salientei. — O rei impôs a Tanus uma tarefa quase impossível. Ele precisará de nós para ter êxito, e se fracassar somente você poderá salvá-lo da sentença que o rei proferiu contra ele.

— O que podemos fazer para ajudá-lo a desempenhar a tarefa? — Sua atenção era imediatamente intensificada quando eu mencionava Tanus. — Diga-me a verdade, algum homem seria capaz de derrotar os pegas? Não é uma missão difícil demais, mesmo para alguém como Tanus?

"Pegas" era como se autodenominavam os bandidos que aterrorizavam o Alto Reino, como os valentes pássaros. A pega do Nilo é menor que um pombo, uma bela criatura de peito branco, pescoço, costas e cabeça negra, que ataca os ninhos de outras aves e faz uma terrível exibição das carcaças patéticas de suas vítimas, pendurando-as nos espinhos das acácias. Seu nome comum em nossa terra é carniceiro.

No princípio, os bandidos o haviam usado como nome críptico para ocultar sua identidade e sua existência, mas depois que se tornaram tão fortes e temidos adotaram-no abertamente e muitas vezes usavam como emblema a pluma preta e branca da pega.

No início deixavam a pena na entrada das casas assaltadas ou junto ao cadáver de suas vítimas. Mas naquela época já se haviam tornado tão atrevidos e organizados que chegavam a enviar uma pena como advertência às potenciais vítimas. Na maioria dos casos era o bastante para fazer a vítima entregar a metade de seus bens terrenos. Isso era preferível a ter tudo saqueado, ver a esposa e as filhas raptadas e violadas, e ele mesmo e os filhos atirados às ruínas em chamas de sua casa.

— Você acha possível que mesmo com o poder do selo do falcão Tanus consiga se desincumbir da missão real? — repetia minha ama. — Ouvi dizer que todos os bandos de carniceiros do Alto Reino são controlados por um homem, que chamam de Akh-Seth, "o irmão de Seth". É verdade, Taita?

Pensei por um momento antes de responder. Ainda não podia lhe contar tudo o que eu sabia sobre os carniceiros, pois se o fizesse seria obrigado a revelar como esse conhecimento chegara até mim. Naquele estágio, isso de nada serviria a ela ou a mim. Mais tarde talvez houvesse ocasião para essas revelações.

— Também ouvi esse rumor — concordei cautelosamente. — Parece que se Tanus encontrar e esmagar esse homem, Akh-Seth, os pegas se desintegrarão. Mas Tanus precisará de ajuda que apenas eu posso lhe dar.

Ela me olhou incrédula.

— Como pode ajudá-lo? — perguntou. — E o que você sabe sobre tudo isso?

Ela é rápida e difícil de enganar. Percebeu imediatamente que eu estava ocultando alguma coisa e tive de recuar agilmente, lançando mão de seu amor por Tanus e sua confiança em mim.

— Pelo bem de Tanus, não me pergunte mais nada. Apenas dê-me sua permissão para eu fazer o que puder para ajudá-lo a realizar a tarefa que lhe impôs o faraó.

— Sim, é claro, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. Diga-me como poderei ajudá-lo.

— Eu ficarei com você na corte de Elefantina durante noventa dias, mas então deve dar-me permissão para partir à procura dele...

— Não, não, não — ela me interrompeu —, se puder ajudar Tanus deve ir imediatamente.

— Noventa dias — repeti com insistência.

Esse era o período de graça que eu conseguira para ela. Embora me sentisse dividido entre aquelas duas queridas crianças, o dever primeiro era para com minha senhora Lostris.

Eu sabia que não poderia deixá-la a sós na corte sem um amigo ou tutor. Também sabia que precisava estar com ela quando o rei finalmente a mandasse buscar à noite.

— Ainda não posso deixá-la, mas não se preocupe. Mandei um recado para Tanus por intermédio de Kratas. Eles estarão me esperando, e expliquei a Kratas tudo o que deve ser feito antes que eu regresse a Karnak.

Não queria contar-lhe mais nada, e poucas pessoas são mais obtusas ou evasivas que eu quando o decido.

A flotilha navegava apenas durante o dia. Nem as técnicas de navegação do almirante Nembet nem o conforto do rei e sua corte permitiam o trajeto noturno, por isso toda tarde atracávamos e uma floresta de tendas espalhava-se pela margem do rio. Os emissários reais escolhiam os locais mais agradáveis para armar acampamento, geralmente num grupo de palmeiras ou ao abrigo de uma colina, com um templo ou aldeia próximos onde pudéssemos obter suprimentos.

Toda a corte continuava em clima festivo, e os acampamentos eram vistos como uma diversão a mais. Havia danças e festejos à luz das fogueiras, enquanto nas sombras os cortesãos faziam intrigas e flertavam. Muitas alianças políticas ou carnais foram decididas naquelas noites balsâmicas, perfumadas pelo rico aroma das terras úmidas à beira do rio e pelo ar espicaçante do deserto, a distância.

Eu aproveitava todos os momentos para obter vantagens para minha senhora e para mim. É claro que agora ela era uma das damas reais, mas já havia várias centenas delas e minha senhora ainda era uma novata. A esperteza do senhor Intef poderia alterar sua futura posição, mas somente se ela desse um filho ao faraó. Enquanto isso, tudo dependia de mim.

Quase todas as tardes, depois de desembarcarmos, o faraó mandava me chamar, em princípio para verificar o tratamento de sua coceira, mas na realidade para revermos os preparativos para a produção de um herdeiro para o trono. Enquanto ele observava interessado, eu preparei meu tônico para potência e virilidade com raspas de chifre de rinoceronte e raiz de mandrágora, que misturava com leite de cabra morno e mel. Depois que ele o tomou, examinei o membro real e fiquei deliciado, pelo bem de minha ama, porque não tinha nem o comprimento nem a espessura que se esperaria de um deus. Na minha opinião, minha ama, mesmo em seu estado de virgindade, seria capaz de suportar aquelas modestas dimensões sem muito desconforto. Naturalmente eu faria o possível para evitar o temido momento, mas já que era incapaz de impedi-lo estava determinado a facilitar para ela a passagem para a feminilidade adulta.

Depois de verificar que o rei, apesar de maldotado, era saudável nessas regiões, recomendei que fosse aplicado ao membro real à noite, antes de dormir, um mingau feito de farinha de milho com azeite e mel, e então continuei a tratar sua micose. Para intensa gratificação do rei, a pomada curou o problema em três dias, como eu prometera, e minha reputação já considerável como médico foi realçada. O rei propagou meu feito para seu conselho de ministros, e em poucos dias eu tinha grande demanda em toda a corte. Quando souberam que eu era não apenas um curandeiro como também astrólogo, a quem até o rei consultava, minha popularidade tornou-se ilimitada.

Toda noite chegava a nossa tenda uma seqüência de mensageiros, desta dama ou daquele senhor, trazendo caros presentes para minha senhora e suplicando-lhe que autorizasse minha visita a eles para uma consulta. Concedíamos favores apenas àqueles com quem desejávamos maior aproximação. Quando eu me encontrava na tenda de um nobre e poderoso senhor, ele de saiote levantado para que eu lhe examinasse as hemorróidas, era fácil elogiar minha ama e chamar a atenção do paciente para suas muitas virtudes.

As outras damas do harém logo descobriram que minha senhora Lostris e eu cantávamos em lindo dueto e que éramos capazes de compor rimas intrigantes e contar histórias engraçadas. Éramos solicitados por toda a corte, especialmente entre as crianças do harém. Isto dava-me grande prazer, pois se há coisa que amo mais que os animais são as crianças.

O faraó, que era o principal responsável por nossa popularidade, logo soube de sua força crescente. Isto fez recrudescer seu interesse por minha ama, que já era suficientemente intenso. Em muitas manhãs, na hora de zarpar, ela era chamada a bordo do navio real para passar o dia em companhia do rei, e na maioria das noites, a convite dele, minha senhora jantava à mesa do faraó, deliciando-o e à sua companhia com a inteligência e a graça que lhe eram inatas. Eu estava sempre discretamente nas proximidades. Como o rei não mandasse buscá-la à noite para submetê-la aos horríveis mas indefinidos terrores que ela imaginava, seus sentimentos em relação a ele começaram a moderar-se.

Por trás de seu aspecto melancólico o faraó Mamose era um homem bom e decente. Minha senhora Lostris logo percebeu isso, e, como eu, passou a apreciá-lo bastante. Antes que chegássemos à ilha Elefantina ela já o tratava como a um tio querido, e sentava-se com desembaraço em seus joelhos para contar uma história ou jogava palitos com ele no convés do navio, ambos corados de animação e rindo como crianças. Aton confidenciou-me que nunca havia visto o rei tão feliz.

Tudo isso era comentado pela corte, que logo reconheceu Lostris como a favorita do rei. E em breve havia novos visitantes em nossa tenda, trazendo petições que desejavam levar à atenção do faraó por intermédio de minha ama. Os presentes que ofereciam eram ainda mais valiosos que os que eu ganhava por meus serviços.

Minha ama havia recusado o dote de seu pai em troca de um simples escravo, e assim iniciara a jornada para o sul pobre e dependente de minhas modestas economias. No entanto, antes do fim da viagem, havia acumulado uma fortuna considerável e também uma longa lista de favores devidos por seus novos e ricos amigos. Eu mantinha uma contabilidade cuidadosa desses bens.

Não sou tão arrogante a ponto de supor que minha senhora Lostris não teria conquistado esse reconhecimento sem minha ajuda. Sua beleza, sua inteligência e sua natureza suave e calorosa a teriam tornado uma favorita em quaisquer circunstâncias. Sugiro apenas que eu pude fazer isso acontecer um pouco mais rápido e com maior segurança.

Nosso sucesso acarretou alguns reveses. Como sempre, havia o ciúme dos que se sentiam afastados dos favores do faraó, e havia também a questão do crescente interesse carnal do rei por minha ama. Isto era agravado pelo período de abstinência que eu lhe impusera.

Certa noite em sua tenda, depois de eu ter administrado o chifre de rinoceronte, ele confidenciou-me:

— Taita, este seu tratamento é realmente muito eficiente. Não me sinto tão viril desde que era rapaz, muito antes de minha coroação e divinização. Esta manhã, quando acordei, tinha um enrijecimento do membro tão gratificante que mandei chamar Aton para que o visse. Ele ficou muito impressionado e quis ir buscar sua ama imediatamente.

Fiquei alarmadíssimo com essa notícia. Fiz minha expressão mais preocupada e balancei a cabeça, inspirando o ar por entre os dentes e soltando-o aos trancos para exprimir minha desaprovação.

— Fico feliz pelo vosso bom senso em não concordar com a sugestão de Aton, majestade. Poderíeis facilmente ter estragado todo o nosso esforço. Se desejais um filho, deveis seguir meticulosamente meu regime.

Isso me fez lembrar que o tempo passa depressa e que logo terminariam os noventa dias de tolerância. Comecei a condicionar minha senhora para aquela noite próxima em que o faraó a requisitaria.

Primeiro devia preparar sua mente, e comecei por indicar-lhe que era inevitável e que se ela desejasse sobreviver ao rei e encontrar Tanus teria de submeter-se ao desejo real. Lostris sempre foi uma menina sensata.

— Então você terá de explicar exatamente o que ele espera de mim, Taita — ela suspirou.

Eu não era o melhor instrutor nesse sentido. Minha experiência pessoal havia sido efêmera, mas consegui delinear os fundamentos, fazendo-os parecer lugar-comum para não a alarmar indevidamente.

— Vai doer? — ela quis saber, e apressei-me a acalmá-la.

— O rei é um homem gentil, e tem grande experiência com jovens. Tenho certeza de que ele será delicado. Prepararei para você um unguento que tornará as coisas muito mais fáceis. Vou aplicá-lo todas as noites antes de você dormir, para abrir o portão. Pense que Tanus um dia passará por esse mesmo portal e que você está fazendo isso para recebê-lo, e mais nada.

Tentei ser um médico isento e não sentir prazer sensual ao fazer o que era preciso para ajudá-la. Que os deuses me perdoem, mas fracassei em minha resolução. Suas partes femininas eram tão perfeitas que obs-cureciam as mais belas flores que eu já cultivara em meu jardim. Nenhuma rosa do deserto jamais exibiu pétalas tão maravilhosas. Quando eu espalhava a pomada sobre elas, secretavam seu delicado orvalho, mais suave e sedoso ao toque do que qualquer ungüento que eu pudesse inventar.

Suas faces ficaram rosadas e sua voz, rouca, quando ela murmurou:

— Até hoje havia pensado que essa minha parte tinha apenas um objetivo. Por que é que quando você faz isso sinto tanta saudade de Tanus?

Ela confiava em mim de modo tão absoluto e tinha tão pouco conhecimento dessas sensações que me foi necessário exercer toda a ética médica para continuar com o tratamento apenas até onde era preciso. No entanto, mal pude dormir naquela noite, perseguido por sonhos impossíveis.

Ao navegarmos para o sul, as faixas de terra verdejante nas margens se estreitaram e o deserto começou a nos envolver. Em certos pontos, íngremes rochedos de granito negro erguiam-se sobre os campos e nos comprimiam a ponto de sombrear as  águas túrgidas do Nilo.

O mais arriscado desses estreitos era conhecido como os Portões de Hapi, e ali as águas espumavam com força, redemoinhando ao passar entre os penhascos.

Atravessamos os Portões de Hapi e finalmente chegamos à ilha Ele-fantina, a maior de um grande arquipélago espalhado pela garganta do Nilo, onde os montes escarpados constrangiam seu fluxo e o impeliam numa corredeira.

Elefantina tinha a forma de um enorme tubarão perseguindo as ilhotas acima do estreito. De cada lado do rio o deserto exibia cores e características diferentes. Na margem oeste, as dunas saarianas eram laranja-escuro e selvagens como os beduínos, os únicos mortais capazes de sobreviver entre elas. Para leste, o deserto Arábico era de um cinza sujo e fosco, pontilhado por montes negros que dançavam como miragem ao calor. Esses desertos tinham apenas uma coisa em comum: eram ambos assassinos de homens.

Que contraste delicioso fazia a ilha Elefantina, incrustada como uma jóia cintilante na coroa de prata do rio. Ela recebera seu nome por causa dos rochedos de granito arredondados que se amontoavam na margem como um rebanho de enormes paquidermes, e também pelo fato de ter centralizado durante mil anos o comércio de marfim transportado pelas caravanas desde a inóspita terra de Kuch, além das cataratas.

O palácio faraônico estendia-se pela maior parte da ilha, e dizia-se em troça que o rei escolhera aquela localização tão meridional para construí-lo para ficar o mais distante possível do pretendente vermelho, ao norte.

A grande extensão de água que cercava a ilha protegia-a do ataque inimigo, mas a cidade transbordara para as duas margens a seu redor. Depois da Grande Tebas, as duas porções de Elefantina formavam a maior e mais populosa cidade do Alto Reino, uma digna rival de Mênfis, capital do usurpador do Baixo Reino.

Como em nenhum outro lugar em todo o Egito, a ilha era coalhada de árvores. Suas sementes haviam sido trazidas pelo rio em milhares de inundações anuais, e se enraizaram nos férteis sedimentos também transportados pelas águas incansáveis.

Em minha última visita a Elefantina, quando eu subira o rio para pesquisar a vazão do rio para meu senhor Intef, na qualidade de Guardião das Águas, havia passado vários meses na ilha. Com a assistência do jardineiro-chefe, cataloguei os nomes e histórias naturais de todas as plantas dos jardins do palácio, por isso podia indicá-las para minha ama. Havia árvores deficus como não se viam em nenhuma outra parte do país. Seus frutos não cresciam nos ramos, mas no tronco principal, e as raízes eram retorcidas e trançadas como serpentes no acasalamento. Havia árvores de sangue-de-dragão cuja casca, quando cortada, vertia seiva de um vermelho vivo. Havia sicômoros kuchitas e uma centena de outras variedades que espalhavam uma deliciosa sombra verde por toda a ilha.

O palácio real fora construído sobre o granito maciço que repousava abaixo do solo fértil e formava o esqueleto da ilha. Muitas vezes me perguntei por que motivo nossos reis, a longa linhagem de faraós das cinqüenta dinastias, que se estendem mil anos atrás, devotaram tanta energia e riqueza à construção de enormes e eternas tumbas de granito e mármore, se em suas vidas se contentaram com palácios de muros de barro e tetos de palha. Em comparação com o magnífico templo fúnebre que eu estava construindo para o faraó Mamose em Karnak, este palácio era algo muito modesto, e a ausência de linhas retas e de simetria ofendia meus instintos, tanto de matemático como de arquiteto. Imagino que a miscelânea de paredes de argila vermelha e telhados em ângulos divergentes tivesse algum encanto bucólico, mas eu ardia de vontade de sacar minha régua e a linha de prumo.

Quando desembarcamos e chegamos aos aposentos a nós destinados, o verdadeiro atrativo de Elefantina ficou ainda mais evidente. Estávamos sem dúvida alojados no harém murado, na ponta norte da ilha, mas a dimensão e o mobiliário dos apartamentos confirmavam nossa posição favorecida, não apenas diante do rei, mas também de seu camareiro. Aton havia feito os preparativos e mostrara-se, assim como os demais, completamente indefeso contra o encanto de minha ama, e agora era seu mais desavergonhado admirador.

Ele colocou a nossa disposição doze quartos espaçosos e arejados, com pátio e cozinha próprios. Um portão lateral no muro principal levava diretamente à praia do rio e a um pequeno cais de pedra. No nosso primeiro dia ali, comprei um bote de fundo chato que poderíamos usar para pescar e caçar aves, e que mantinha amarrado ao cais.

Quanto ao restante de nosso novo lar, por mais confortável que fosse, nem minha ama nem eu ficamos satisfeitos e imediatamente passamos a embelezá-lo. Com a cooperação de meu velho amigo, o jardineiro-chefe, desenhei e plantei no pátio um jardim particular, com um quiosque de palha sob o qual descansávamos nas horas quentes do dia e onde eu mantinha empoleirados meus falcões saker.

No cais, montei um shaduf para bombear do rio um fluxo constante de água, que conduzi através de canos de cerâmica a nosso próprio jardim aquático, com piscinas de lírios e poços com peixes. A água dos tanques escorria por um cano estreito que fiz atravessar a parede da câmara de minha senhora, num canto oculto por uma tela, e dali ela retornava à corrente do Nilo. Esculpi uma banqueta de cedro oloroso com um buraco no centro e coloquei-o sobre o escorredouro, de modo que qualquer coisa que caísse pelo banco seria carregado pelo fluxo d'água incessante. Minha senhora ficou encantada com essa inovação e passava muito mais tempo encarapitada no banco do que era realmente necessário para efetuar o assunto para o qual fora projetado.

As paredes de nossos apartamentos eram de argila vermelha crua. Criamos um conjunto de afrescos para cada quarto. Eu desenhei os cartões e os transpus para as paredes, e então minha ama e suas aias pintaram os desenhos. Os afrescos eram cenas da mitologia divina. É claro que usei minha senhora Lostris como modelo para a figura de Isis, mas não era de espantar que a figura de Hórus ocupasse o centro de cada pintura e que por insistência de minha ama ele tenha sido pintado com os cabelos avermelhados e parecesse estranhamente familiar.

Os afrescos provocaram um frêmito no harém, e todas as esposas reais se revezaram para visitar-nos, beber sherbet e admirar as pinturas. Havíamos lançado a moda, e fui requisitado para efetuar a redecoração da maioria dos apartamentos privativos do harém, a uma taxa adequada, certamente. Nesse processo fizemos várias novas amigas entre as damas reais, e aumentamos consideravelmente nossas finanças.

Em pouco tempo o rei soube da decoração e veio examiná-la em pessoa. Lostris conduziu-o numa volta completa dos apartamentos. O faraó notou a banqueta d'água, da qual minha ama tanto se orgulhava que quando o rei lhe pediu uma demonstração ela a fez sem hesitar, montando no aparato e rindo enquanto enviava um brilhante esguicho pelo esgoto.

Ela ainda era tão inocente que não percebeu o efeito que essa demonstração causou em seu marido. Vi pela expressão dele que seria impossível qualquer tentativa minha de prorrogar os noventa dias prometidos.

Depois do percurso, o faraó sentou-se sob a barraca e bebeu uma taça de vinho, enquanto dava boas risadas de alguns comentários de minha ama. Enfim ele dirigiu-se a mim:

— Taita, você precisa construir para mim um jardim aquático e um quiosque como estes, só que muito maiores, e também pode aproveitar para fazer uma banqueta d'água.

Quando finalmente ele se dispôs a ir embora, ordenou-me que caminhasse um pouco a sós com ele, a pretexto de discutir o novo jardim, mas eu sabia do que se tratava. Assim que saímos do harém ele falou:

— Ontem à noite sonhei com sua ama, e quando acordei vi que minha semente se havia derramado nos lençóis. Isso não me acontecia desde que eu era menino. Essa sua pequena feiticeira passou a ocupar meus pensamentos quando durmo e quando estou desperto. Não tenho dúvida de que poderei ter um filho com ela e de que não devemos tardar mais. O que acha, doutor, ainda não estou pronto para tentar?

— Aconselho-vos enfaticamente a observar os noventa dias, majestade. Qualquer tentativa antes disso seria loucura. — Era perigoso rotular o desejo do rei de loucura, mas eu estava desesperado para contê-lo. — Seria insensato desperdiçar nossas chances de sucesso por um período de tempo tão curto. — Afinal eu prevaleci e deixei-o com o ar mais triste que nunca.

Quando voltei ao harém, adverti minha senhora das intenções do rei, e já a havia condicionado tão completamente a aceitar o inevitável que ela não demonstrou grande dissabor. A essa altura já se resignara ao papel de favorita do rei, e minha promessa de que seu cativeiro na ilha Elefantina seria breve tornava mais fácil para ela suportar tudo. Com toda a justiça, nossa estadia na ilha real não poderia ser classificada como cativeiro. Nós, egípcios, somos as pessoas mais civilizadas da terra e tratamos bem nossas mulheres. Já ouvi dizer que outros, como os hurritas, kuchitas e líbios, por exemplo, são muito cruéis e desnaturados em relação a suas esposas e filhas.

Os líbios fazem do harém uma verdadeira prisão, em que as mulheres passam toda a vida sem avistar um homem além dos eunucos e meninos. Dizem que até mesmo cães e gatos machos são proibidos de passar pelos portões, tão grande é seu furor possessivo.

Os hurritas são ainda piores. Não apenas confinam as mulheres e as fazem cobrir os corpos dos tornozelos aos pulsos, como as obrigam a andar mascaradas, mesmo na reclusão do harém. Assim, somente os olhos dos maridos pousam sobre seus rostos.

As tribos primitivas de Kuch são as piores. Quando suas mulheres chegam à puberdade, são circuncidadas da maneira mais selvagem. Cortam-lhes o clitóris e os lábios internos da vagina, retirando a zona de prazer sexual para que nunca se sintam tentadas a trair seus maridos.

Isto pode parecer tão estranho que desafia a compreensão, mas vi com meus próprios olhos o resultado dessa cirurgia brutal. Três das escravas de minha ama foram capturadas pelos traficantes somente depois da maturidade e de terem sido submetidas à ablação por seus próprios pais. Quando examinei os buracos rodeados de cicatrizes que lhes fizeram fiquei enojado, e meus instintos de médico foram profundamente ofendidos por essa mutilação da obra-prima dos deuses, o corpo humano. Pude observar que essa circuncisão não atinge seu objetivo, pois parece privá-las das mais desejáveis características femininas, deixando-as frias, calculistas e cruéis. Tornam-se monstros assexuados.

Por outro lado, nós egípcios respeitamos as mulheres e as tratamos, se não como iguais, pelo menos com consideração. Nenhum marido pode bater na mulher sem consultar um magistrado, e tem o dever legal de vesti-la, mantê-la e alimentá-la de acordo com sua posição social. A esposa do rei ou de um nobre não é confinada ao harém, e, desde que adequadamente acompanhada, pode passear pelas ruas da cidade ou pelo campo. Não é obrigada a esconder seus encantos, e, segundo a moda da época e sua própria vontade, pode sentar-se à mesa de refeições do marido com o rosto descoberto e os seios nus, e entreter os companheiros dele com conversas e canções.

A mulher egípcia pode ter seus próprios escravos, terras e fortuna à parte dos bens do marido, embora as crianças que ela gere sejam apenas dele. Pode pescar, soltar falcões e mesmo praticar o arco, embora atividades masculinas como luta e esgrima lhe sejam proibidas. Existem algumas atividades que lhe são vetadas, como a prática da lei e da arquitetura, mas uma esposa de alta classe é uma pessoa conseqüente, dona de deveres legais e dignidade. Naturalmente as coisas não são iguais para as concubinas ou esposas de homens comuns. Elas têm os mesmos direitos que os burros ou os bois.

Portanto, minha ama e eu éramos livres para passear por toda parte e explorar as cidades gêmeas em cada margem do Nilo, assim como o campo a seu redor. Nas ruas de Elefantina minha senhora Lostris logo se tornou muito querida, e o povo se reunia para lhe pedir a bênção e a generosidade. Aplaudiam sua graça e sua beleza, assim como haviam feito em sua Tebas natal. Fui instruído por ela a sempre trazer um saco de bolos e doces com os quais alimentava as crianças que pareciam esfaimadas. Por onde quer que fôssemos éramos sempre rodeados por um bando alegre e saltitante de crianças.

Minha ama parecia sempre feliz de sentar-se à porta de um casebre com a dona da casa ou sob uma árvore no campo de um agricultor e escutar suas queixas e problemas. Na primeira oportunidade ela as transmitia ao faraó. Muitas vezes ele sorria com indulgência e concordava em tomar as atitudes que ela sugeria. Assim nasceu sua reputação de defensora do povo simples. Quando passava pelos bairros mais pobres e tristes da cidade deixava atrás de si sorrisos e alegria.

Em outros dias pescávamos juntos em nosso bote nas águas recônditas das lagoas criadas pela cheia do Nilo, ou colocávamos chamarizes para os patos selvagens. Eu havia feito um arco adequado à força de minha senhora. Não se assemelhava ao grande arco Lanata que eu criara para Tanus, é claro, mas servia para caçar as aves aquáticas. Minha senhora era melhor caçadora que a maioria dos homens que eu via treinando com alvos, e quando disparava uma flecha era raro que eu não tivesse de mergulhar para recolher uma ave.

Sempre que o rei saía para caçar com falcões minha ama era convidada a acompanhá-lo. Eu caminhava atrás dela com meus falcões no braço, e bordejávamos as moitas de papiro. Assim que uma garça levantava de um poço oculto nos caniços, batendo as asas com força, minha senhora pegava um dos falcões que eu carregava e beijava-lhe a cabeça encapuzada.

— Voa rápido e certeiro, meu belo! — sussurrava para o animal, e retirava-lhe o capuz, revelando os ferozes olhos amarelos e libertando o esplêndido matador.

Olhávamos em transe enquanto o falcão circulava no alto, localizando a presa, então dobrava as asas de adaga e mergulhava com uma velocidade que fazia o vento cantar em sua plumagem manchada. O ruído do impacto chegava claramente até nós de uma distância de duzentos passos. Um borrifo de plumas azuis-claras espalhava-se pelo azul mais profundo do céu e então era levado como fumaça pela brisa do rio. O falcão atacava a presa com suas garras possantes e a esmagava contra a terra. Minha ama gritava em triunfo e corria rápida como um menino para apanhar o pássaro, elogiá-lo e acariciá-lo, e então o alimentava com a cabeça decepada da garça.

Eu amo as criaturas da água, da terra e do ar. Minha senhora tem o mesmo sentimento. Por que então, sempre me pergunto, ambos temos tanto apreço pelos esportes da caça? Já quebrei a cabeça a respeito e não consegui encontrar resposta. Talvez seja simplesmente porque o homem, e também a mulher, são os mais ferozes predadores. Sentimos uma semelhança com o falcão, com sua beleza e sua velocidade. A garça e o ganso foram dados por deus ao falcão como sua merecida presa. Do mesmo modo, o homem recebeu o domínio de todas as demais criaturas da terra. Não podemos negar esses instintos com os quais nos dotaram os deuses.

Desde a mais tenra idade, quando ela adquiriu a força e a paciência para nos acompanhar, eu permitira que minha senhora Lostris viesse com Tanus e eu em nossas excursões de caça e pesca. Pois, talvez para disfarçar seu ódio pelo rival, o senhor Harrab, meu senhor Intef consentia em minhas caçadas com o jovem Tanus.

Muitos anos atrás, Tanus e eu nos havíamos apoderado de uma barraca de pescador abandonada que descobrimos na margem do pântano perto de Karnak. Havíamos feito dela nossa cabana de caça secreta. Ficava a pequena distância da orla do deserto. Daquela base confortável podíamos escolher entre pescar ou caçar aves na lagoa ou soltar os falcões atrás da nobre e gigantesca abetarda no deserto.

No princípio Tanus havia-se ressentido da intromissão em nosso mundo particular daquela garotinha de nove anos, magra e de peito liso como um menino. Mas logo ele se acostumara com sua presença e achava até conveniente ter alguém para fazer as tarefas aborrecidas no acampamento.

Assim, pouco a pouco, Lostris havia aprendido o prazer e os segredos dos espaços abertos, até conhecer cada peixe e ave por seu nome e ser capaz de preparar um anzol ou um arco com habilidade. Afinal Tanus sentia tanto orgulho dela como se ele mesmo a houvesse convidado a nos acompanhar.

Lostris estava conosco nos montes de rocha negra que dominavam o vale no dia em que Tanus caçou o matador de vacas. Era um velho leão cheio de cicatrizes, cuja cabeleira negra ondulava como um milharal ao vento quando ele andava, e tinha um rugido de trovão. Soltamos a matilha atrás dele e a seguimos enquanto farejava o leão no pasto onde havia matado a última rês. Os cães o encurralaram na entrada de um desfiladeiro rochoso. O leão arremeteu contra nós assim que nos aproximamos e afastamos os cães para passar entre eles.

Quando veio rugindo e bufando em nossa direção, minha senhora ficou impassível, um passo atrás de Tanus, com seu pequeno arco retesado. Foi Tanus quem matou a fera, é claro, disparando uma flecha de Lanata diretamente em sua garganta aberta. Mas ambos vimos a demonstração de grande coragem de minha senhora Lostris.

Acho que foi provavelmente naquele dia que Tanus percebeu seus verdadeiros sentimentos por ela, e para minha ama as imagens de caça sempre estiveram ligadas à memória de seu amor. Desde então ela se tornara uma caçadora incansável. Aprendera com Tanus e comigo a respeitar e amar a presa, mas a não encher-se de culpa quando exercitava seus direitos conferidos pelos deuses sobre as demais criaturas da terra, de usá-las como bestas de carga, consumi-las como comida ou persegui-las como diversão.

Podemos ter o domínio sobre os animais, mas da mesma forma todos os homens e mulheres são o gado do faraó e ninguém pode contradi-zê-lo. Na nonagésima noite, ele prontamente enviou Aton para buscar minha senhora.

Devido a nossa amizade e a seus próprios sentimentos por minha ama, Aton havia-me mandado avisar antes de vir. Pude assim realizar meus preparativos finais bem antes de sua chegada. Pela última vez instruí precisamente minha ama sobre o que deveria dizer ao rei e como agir diante dele. Então apliquei-lhe a pomada que havia reservado para a ocasião. Não era um lubrificante, mas continha a essência de uma erva que utilizo para amortecer a dor de dentes e outros problemas menores de meus pacientes. Tinha a propriedade de acalmar as sensíveis mucosas do corpo.

Ela foi corajosa até o momento em que Aton apareceu na porta do quarto, então a coragem a abandonou e ela correu para mim com lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Não consigo ir sozinha. Tenho medo. Por favor, venha comigo, Taita. — Ela estava pálida sob a pintura facial que eu lhe aplicara cuidadosamente, e tomada por um acesso de tremor que fazia bater seus pequeninos dentes brancos.

— Senhora, sabe que isso é impossível. O faraó mandou buscá-la. Desta vez não posso ajudá-la.

Foi então que Aton veio em seu socorro.

— Talvez Taita possa esperar comigo na antecâmara do rei. Afinal é o médico real e seus serviços podem ser necessários — ele sugeriu com a voz esganiçada, e minha ama ficou na ponta dos pés para beijar seu rosto gordo.

— Você é tão bom, Aton — murmurou, e ele enrubesceu. Minha senhora Lostris apertava-me a mão quando seguimos Aton

pelo labirinto de corredores até os apartamentos reais. Na antecâmara ela apertou-a com mais força, então soltou-a e foi até a porta. Ali parou e voltou-se para mim. Nunca estivera tão linda, jovem e vulnerável. Meu coração estava partido, mas sorri para lhe dar coragem. Ela virou-se e avançou por entre as cortinas. Ouvi o murmúrio do rei ao recebê-la e sua suave resposta.

Aton me fez sentar numa banqueta junto à mesa baixa, e sem dizer nada arranjou o tabuleiro de bao entre nós. Joguei sem prestar atenção, movendo as pedras redondas e polidas pelas depressões esculpidas no tabuleiro de madeira, e Aton rapidamente venceu-me três partidas em seguida. Poucas vezes ele havia ganhado de mim, mas eu estava distraído pelas vozes que vinham do quarto adjacente, embora fossem baixas demais para que eu pudesse captar as palavras.

Então escutei claramente minha ama dizer, do modo como eu lhe havia ensinado:

— Por favor, majestade, seja delicado comigo. Imploro-lhe que não me machuque.

O pedido foi tão tocante que até Aton tossiu de leve e assoou o nariz na manga, enquanto eu me contive para não saltar e correr para afastar minha senhora dali.

Por um momento houve silêncio, e então um único e forte soluço que estremeceu minha alma. Depois, novamente o silêncio.

Aton e eu ficamos concentrados no jogo, não mais fingindo. Não sei quanto tempo esperamos, mas devia ser a hora da última ronda quando ouvi os roncos de um velho por trás das cortinas. Aton olhou-me e assentiu, então levantou-se pesadamente.

Antes que alcançasse as cortinas elas se abriram e minha ama as atravessou, vindo diretamente para mim.

— Leve-me para casa, Taita — sussurrou.

Sem pensar carreguei-a nos braços. Ela enlaçou meu pescoço e pousou a cabeça em meu ombro, como costumava fazer quando era menina. Aton apanhou a lamparina e iluminou nosso caminho de volta até o harém. Deixou-nos à porta do quarto de minha ama. Deitei-a na cama e enquanto ela cochilava examinei-a delicadamente. Havia um pouco de sangue nas coxas sedosas, mas estava seco.

— Sente alguma dor, minha pequena? — perguntei suavemente, e ela abriu os olhos e sacudiu a cabeça.

Então, inesperadamente, sorriu para mim.

— Não sei por que tanto segredo sobre isso — murmurou. — Afinal, não foi muito pior do que usar sua banqueta d'água, e também não demorou muito mais. — Então ela se encolheu e dormiu sem mais um som.

Quase chorei de alívio. Todos os meus preparativos e as ervas anestésicas que eu empregara haviam-na ajudado a não sofrer danos no corpo ou em seu meigo espírito.

De manhã saímos para caçar com os falcões, como se nada diferente houvesse ocorrido, e minha ama mencionou o assunto apenas uma vez durante o dia. Quando comíamos à beira do rio, perguntou pensativamente:

— Será igual com Tanus, não é, Taita?

— Não, minha senhora. Você e Tanus se amam. Será diferente. Será o momento mais maravilhoso de toda a sua vida — afirmei.

— Sim, eu sinto no fundo do coração que é assim que deve ser — ela sussurrou, e involuntariamente ambos olhamos para o norte ao longo do Nilo, na direção de Karnak, muito além do horizonte.

Apesar de eu conhecer muito bem meus deveres em relação a Tanus, a vida na ilha era tão idílica e eu apreciava tanto a companhia exclusiva de minha ama que retardei minha partida com a desculpa de que ela ainda precisava de mim. Na verdade, embora o faraó a mandasse chamar todas as noites, minha senhora tinha um caráter duro e resistente e fora abençoada com um instinto de sobrevivência a toda prova. Rapidamente ela aprendeu a agradar o rei e ao mesmo tempo permanecer intocada e emocionalmente estável. Não precisava mais de mim tanto quanto Tanus. Na verdade, foi ela quem começou a me incentivar a deixá-la em Elefantina e a descer o rio novamente.

Eu ia adiando, até que uma noite, depois de passarmos o dia todo no campo com o rei, chegamos tarde ao palácio. Providenciei o banho de minha ama e sua refeição noturna e depois fui para meus cômodos.

Ao entrar no quarto senti o delicioso odor de mangas e romãs maduras. No centro do piso havia uma grande cesta fechada, com certeza cheia dos meus frutos preferidos. Não me surpreendeu encontrar aquilo ali, pois não se passava um dia sem que minha ama e eu recebêssemos presentes de pessoas buscando nosso favor.

Imaginei quem seria dessa vez, e minha boca encheu-se de saliva quando nova lufada do aroma atingiu minhas narinas. Eu não havia comido desde o meio-dia. Quando ergui a tampa de palha e estendi a mão para apanhar a romã mais madura e vermelha, o fruto saltou e rolou pelo chão. Ouvi um silvo agudo e uma grande massa negra, contorcida e brilhante emergiu da cesta e lançou-se contra minhas pernas.

Saltei para trás, mas não suficientemente rápido. As mandíbulas da serpente atingiram o calcanhar de couro de minha sandália, com tal força que quase perdi o equilíbrio. Uma nuvem de veneno espirrou das presas curvas. O líquido transparente e mortal molhou minha pele, mas com outro salto consegui escapar do segundo bote, imediatamente em seguida. Atirei-me de costas para a parede no canto mais afastado do quarto.

A cobra e eu nos confrontamos através do aposento espaçoso. Metade de seu corpo estava enrolada, mas a porção dianteira, erguida, chegava à altura dos meus ombros. Tinha o capuz da cabeça distendido, exibindo as faixas pretas e brancas. Como um terrível lírio da morte negro balançando em seu caule, ela me fixava com seus olhos brilhantes e percebi que se encontrava entre mim e a única porta do quarto.

É verdade que algumas cobras são criadas como animais de estimação, vagando livremente pela casa e reduzindo o número de ratos e camundongos que a infestam. Bebem leite de uma tigela e tornam-se dóceis como gatinhos. Outras, porém, são treinadas com métodos de tormento e provocação para tornar-se instrumentos mortíferos de criminosos. Eu não tinha dúvida quanto a que tipo de serpente estava ali diante de mim.

Deslizei ao longo da parede, tentando flanqueá-la e atingir a segurança. Ela atirou-se contra mim, mostrando a garganta de um amarelo repulsivo e gotas de veneno que pingavam de suas presas. Gritei de terror involuntariamente, ao recuar com um salto e abrigar-me de novo no canto. A serpente recuperou-se agilmente do bote e ergueu-se. Continuava entre mim e a entrada. Eu sabia que seus sacos de veneno estavam cheios de substância suficiente para matar cem homens. Enquanto eu observava, a parte inferior de seu corpo desenrolou-se lentamente e ela começou a deslizar pelo chão em minha direção, com a ameaçadora cabeça erguida e os olhos terríveis e luminosos fixos em mim.

Já vi uma dessas serpentes hipnotizar a presa, fazendo-a ficar imóvel diante da aproximação sinuosa e mesmo deitar-se com ar resignado. Eu estava paralisado da mesma maneira e percebi que não conseguia me mexer nem gritar enquanto a morte rastejava à minha frente.

Então subitamente vi um movimento atrás da cobra. Minha senhora Lostris apareceu na porta, atraída por meu primeiro grito de pavor. Consegui recuperar a voz e gritar para ela:

— Cuidado! Não chegue perto!

Lostris não deu atenção ao meu alerta, pois com um olhar havia percebido tudo. Um momento de demora ou hesitação de sua parte e a serpente teria me dado o terceiro e último bote. Minha senhora estivera jantando quando me ouviu gritar. Tinha numa das mãos um melão comido pela metade e na outra uma faca de prata, e reagiu com o instinto rápido de uma verdadeira caçadora.

Tanus lhe havia ensinado a abandonar a maneira desajeitada de atirar típica das mulheres, e ela jogou o melão que segurava com a força e a pontaria de uma habilidosa lanceira. Atingiu a cobra atrás do capuz inflado, e por um rápido instante derrubou-a no chão ladrilhado. Como uma flecha, a serpente se reergueu e virou-se ameaçadoramente para minha ama, e então lançou-se a ela através do quarto, em pleno ataque.

Saí de meu transe, finalmente, e corri para ajudá-la, mas fui lento demais. Usando a cauda para impulsionar-se, a cobra lançou-se para a frente e atacou-a com as mandíbulas tão abertas que o veneno esguichou das presas eretas numa névoa pálida. Minha ama saltou para trás, ágil como uma gazela diante do salto da pantera. A cobra errou o bote, e por um instante o impulso a derrubou aos pés de Lostris, completamente estendida e reluzente.

Não sei o que tomou conta dela, mas nunca lhe faltou coragem. Antes que a cobra se recuperasse, minha ama pulou para a frente e aterrissou com as duas pequenas sandálias sobre a cabeça do réptil, pregando-o ao chão com todo o peso do corpo.

Talvez ela esperasse partir-lhe a espinha, mas a cobra era grossa como seu pulso e flexível como o látego de Rasfer. Apesar de ter a cabeça imobilizada, o resto de seu longo corpo chicoteou para cima e enrolou-se em suas pernas. Uma mulher de menos coragem e bom senso teria tentado escapar daquele horrível abraço. Se o fizesse, minha ama teria morrido, pois no instante em que libertasse a cabeça da serpente o golpe mortal seria desfechado.

Em vez disso, ela manteve os dois pés firmemente plantados sobre o réptil sinuoso, estendendo os braços para equilibrar-se, e gritou:

— Ajude-me, Taita!

Eu já estava a meio caminho, então atirei-me e agarrei as volutas da serpente, coladas às pernas dela. Deslizei as duas mãos pelo corpo sinuoso até onde se afinava no pescoço, então travei os dedos entrelaçados na garganta do animal.

— Peguei-a! — gritei, superando o ódio e o medo daquela criatura fria e escamosa que se debatia em minhas mãos. — Peguei-a! Afaste-se daqui! Fique longe!

Minha ama saltou para trás obedientemente e eu me levantei segurando a serpente com uma força frenética, tentando manter as mandíbulas afastadas do meu rosto. A cauda enrolou-se para trás nos meus ombros e pescoço, ameaçando estrangular-me enquanto eu retinha sua cabeça. Agora a cobra ganhara uma força apavorante e percebi que não poderia segurá-la, mesmo com os dois punhos fechados em sua garganta. Ela conseguia aos poucos libertar a cabeça, movendo-a inexoravelmente entre meus dedos. Percebi que no instante em que se libertasse do meu aperto voaria para meu rosto desprotegido.

— Não agüento mais! — gritei, mais para mim mesmo do que para Lostris. Eu a segurava com o braço estendido, mas ela se contorcia em direção ao meu rosto, aproximando-se cada vez mais dos meus olhos na medida em que ondas de energia pulsavam através dela, que contraía e apertava o nó em meu pescoço, forçando a cabeça para trás entre minhas mãos.

Eu tinha os nós dos dedos brancos, tamanha a força que colocava no aperto, mas a cobra estava tão próxima do meu rosto que eu podia ver as presas entrar e sair no revestimento de sua mandíbula. A serpente tinha a capacidade de erguer ou recolher à vontade as agulhas de osso branco de cujas pontas esguichavam jatos de veneno. Eu sabia que se uma gotícula daquele líquido entrasse em meus olhos eu ficaria cego, e que a dor ardente poderia levar-me à loucura.

Torci a cabeça da cobra para o outro lado, fazendo o veneno espalhar-se no ar, e gritei novamente em desespero:

— Chame um escravo para me ajudar!

— Na mesa! — minha ama falou, junto de mim. — Ponha a cabeça dela em cima da mesa!

Fiquei alarmado. Pensei que ela havia obedecido minha ordem e corrido para buscar ajuda, mas estava ao meu lado e vi que ainda segurava a faca de prata.

Arrastando a cobra comigo, titubeei pelo quarto e caí de joelhos ao lado da mesa baixa. Com um esforço supremo consegui forçar a cabeça do réptil sobre a borda da mesa e mantê-la ali. Isso forneceu a minha ama um apoio para utilizar a faca. Ela cortou na base do pescoço da serpente, logo abaixo da temível cabeça.

A cobra sentiu o primeiro corte e redobrou seu esforço. Voltas e voltas de carne borrachuda enrolaram-se em minha cabeça. Sopros de ar silvavam de sua garganta, quase nos ensurdecendo, com um odor horrível misturado aos jatos de veneno de suas presas.

A lâmina era pequena mas afiada, e a pele escamosa abriu-se sob ela. O sangue viscoso e frio do ofídio escorreu sobre meus dedos, mas a lâmina cortou até o osso da espinha. Com toda a força e o rosto contorcido pelo esforço, minha ama serrava o osso, mas agora meus dedos estavam lubrificados pelo sangue da serpente. Senti a cabeça esgueirar-se entre eles e a cobra libertar-se, mas no mesmo momento a faca encontrou a junta entre as vértebras e seccionou-as, partindo a espinha.

Pendurada por um fiapo de pele, a cabeça foi atirada para os lados enquanto a cobra se contorcia em espasmos mortais. Mesmo quase separada do corpo, as presas ainda vibravam e vertiam veneno. O menor toque seria suficiente para que se enterrassem em minha carne. Agarrei o corpo com os dedos ensangüentados e finalmente consegui soltá-lo de meu pescoço, jogando-o ao chão.

Nós dois recuamos para a porta, mas a cobra continuou em suas grotescas contorções, enrolando suas espirais numa bola.

— Está ferida, minha senhora? — perguntei, sem conseguir afastar os olhos dos movimentos agonizantes do bicho. — Há algum veneno nos seus olhos ou na sua pele?

— Estou bem — ela sussurrou. — E você, Taita?

O tom da voz dela me assustou o suficiente para fazer-me esquecer de mim mesmo, e olhei para seu rosto. A reação do perigo começava a dominá-la e ela tremia. Seus olhos verde-escuros pareciam grandes demais para o rosto branco e vidrado. Eu precisava encontrar um meio de livrá-la do estado de choque.

— Bem — disse rapidamente —, isso resolve nosso jantar de amanhã. Adoro um bom pedaço de cobra assada.

Por um momento ela me olhou sem expressão, então soltou uma gargalhada absolutamente histérica. Minha própria risada não foi menos selvagem e desenfreada. Nos abraçamos com força e rimos até que as lágrimas rolaram por nossos rostos.

Eu não confiaria em nosso cozinheiro para isso, então preparei pessoalmente a cobra. Tirei-lhe a pele e as entranhas, recheei-a com alho e ervas, e com uma colherada de gordura de carneiro. Depois enrolei-a numa bola e envolvi-a em folhas de bananeira, cobrindo todo o embrulho com uma camada espessa de argila molhada. Fiz sobre o pacote uma fogueira que mantive acesa durante um dia inteiro.

A noite, quando parti o barro cozido, o aroma que se desprendeu da suculenta carne branca encheu nossas bocas de saliva. Há pessoas que jantaram em minha casa que dizem nunca ter comido alimentos mais saborosos do que os que preparo, e quem sou eu para contradizer os amigos?

Servi os macios filés a minha senhora com um vinho de qualidade que Aton extraíra da adega do faraó. Minha senhora Lostris insistiu em que me sentasse com ela sob a barraca do pátio para compartilharmos a refeição. Concordamos que era melhor que cauda de crocodilo ou que a carne das melhores carpas do Nilo.

Foi somente depois de nos saciarmos e enviarmos o resto para as escravas que tocamos no assunto de quem me haveria enviado de presente a cesta de frutas.

Tentei não assustar minha ama e fiz uma piada:

— Deve ter sido alguém que não gosta do meu canto! Mas ela não desistia com tanta facilidade.

— Não banque o palhaço comigo, Taita. É uma coisa para a qual você não tem talento. Acho que sabe quem foi, e acho que eu também sei.

Fiquei olhando para ela, sem saber como lidar com o que eu suspeitava que viria. Sempre a havia protegido, mesmo da verdade. Fiquei pensando até onde poderia ler meus pensamentos.

— Foi meu pai — disse ela, com tamanha firmeza que não pude negar ou mesmo responder. — Fale-me sobre ele, Taita. Conte-me tudo o que eu devo saber a seu respeito e que você nunca ousou me dizer.

No começo foi difícil. Uma vida inteira de evasivas não se supera em um momento. Era ainda difícil para mim ter total consciência de que não estava mais sob o jugo de meu senhor Intef. Embora sempre o houvesse odiado profundamente, ele dominara meu corpo e minha alma desde que eu era criança, e persistia uma espécie de perversa lealdade que tornava difícil criticá-lo livremente. Tentei debilmente satisfazê-la com um rápido esboço das atividades clandestinas de seu pai, mas Lostris insistiu com impaciência:

— Ora, vamos lá! Não me tome por tola. Sei mais sobre meu pai


do que você jamais sonhou. Já é hora de saber o resto. Seja honesto e conte-me tudo.

Então obedeci, e havia tanto a dizer que a lua cheia ia alta no céu antes que eu tivesse terminado. Depois ficamos sentados um longo tempo em silêncio. Eu não havia deixado nada de fora, nem tentara negar ou desculpar minha participação em nada.

— Não admira que ele queira vê-lo morto — ela murmurou enfim. — Você sabe o suficiente para destruí-lo. — Lostris fez mais um silêncio e continuou: — Meu pai é um monstro. Como é possível que eu seja diferente dele? Por que, como sua filha, não sou dona de instintos tão inaturais?

— Devemos agradecer a todos os deuses que não o seja. Mas, senhora, não me despreza por tudo o que fiz?

Ela tocou minha mão.

— Você esquece que o conheço a vida inteira, desde o dia em que minha mãe morreu ao me dar à luz? Sei quem você realmente é. Qualquer coisa que tenha feito, foi obrigado a isso.

Ela levantou-se e andou impacientemente em volta do pequeno poço antes de voltar para onde eu estava.

— Tanus corre um perigo terrível por causa de meu pai. Eu não havia percebido quanto até esta noite. Ele deve ser advertido para que possa proteger-se. Você tem de procurá-lo, Taita, sem esperar mais um dia.

— Senhora... — comecei, mas ela me interrompeu bruscamente.

— Não, Taita, não escutarei mais nenhuma desculpa. Você partirá amanhã para Karnak.

No dia seguinte, antes do nascer do sol, saí para pescar sozinho. Mas certifiquei-me de que pelo menos doze escravos e criados me vissem deixar a ilha.

Num remanso da lagoa abri o saco de couro em que havia escondido um dos meus gatos de estimação. Era um animal já velho, atacado pela sarna e com um terrível cancro nos ouvidos. Fazia algum tempo que eu me furtava a aliviá-lo de seu sofrimento. Então dei-lhe um naco de carne crua banhado em essência de datura. Segurei-o no colo e afaguei-o enquanto ele comeu, ronronando feliz. Assim que perdeu os sentidos, cortei-lhe a garganta.

Espalhei o sangue pelo bote e joguei a carcaça do gato no rio, onde os crocodilos logo se encarregariam dela. Então, deixando meus anzóis, linhas e outros equipamentos no bote, rumei para a correnteza mais lenta e passei entre os bancos de papiros até atingir a margem.

Havíamos combinado que minha ama esperaria até a noite para dar o alarme. Somente no dia seguinte ao meio-dia eles encontrariam o bote e concluiriam que eu fora atacado por um crocodilo ou assassinado por um bando de pegas.

Quando pisei em terra vesti rapidamente o disfarce que havia trazido.

Decidira representar um dos sacerdotes de Osíris, cujos trejeitos e maneiras pomposas eu costumava imitar para divertir minha senhora. Precisei somente de uma peruca, um pouco de maquiagem e as roupas corretas para me transformar. Os sacerdotes estão sempre em viagem, subindo e descendo ao longo do rio entre um templo e outro a mendigar, ou melhor, a exigir esmolas pelo caminho. Eu despertaria pouco interesse e meu disfarce poderia ajudar a evitar um ataque dos carniceiros. Por causa da superstição, eles hesitavam em interferir com os homens santos.

Beirei a lagoa e entrei na cidade de Elefantina pelos bairros pobres. No cais, aproximei-me de um capitão de barco que carregava uma partida de sacos de milho e jarros de barro com azeite de oliva. Com o tom certo de arrogância, exigi passagem grátis até Karnak, em nome do deus. Ele encolheu os ombros e cuspiu no convés, mas permitiu que eu subisse a bordo. Todos os homens se resignam às extorsões da fraternidade. Podem até desprezar os sacerdotes, mas ainda assim temem sua força espiritual e secular. Alguns dizem que eles detêm quase tanto poder quanto o próprio faraó.

A lua estava cheia e o capitão era bem mais intrépido que o almirante Nembet. Não ancorávamos à noite. Com a brisa e a correnteza do Nilo pela popa fizemos uma boa travessia, e no quinto dia, ao dobrar uma curva do rio, avistamos a cidade de Karnak.

Meu estômago se inquietou quando desembarquei, pois aquela era minha cidade e todos os mendigos e ociosos conheciam-me bem. Se alguém me identificasse, o senhor Intef seria informado antes de eu chegar aos portões da cidade. Mas meu disfarce era convincente, e segui depressa pelos becos secundários, de maneira decidida como os sacerdotes, até a casa de Tanus perto da base do esquadrão.

A porta da frente achava-se aberta. Entrei como se tivesse o direito e tranquei-a atrás de mim. Os cômodos parcamente mobiliados estavam vazios, e ao vasculhá-los nada encontrei que me desse qualquer indício do paradeiro de Tanus. Obviamente ele havia partido há muito tempo, possivelmente desde que minha ama e eu deixáramos Karnak. O leite num jarro junto à janela mostrava-se espesso e seco como queijo, e o mofo azulado recobrira a crosta do pão de centeio num prato ao lado.

Pelo que pude notar nada estava faltando; mesmo o arco Lanata continuava pendurado do gancho sobre a cama de Tanus. Era extraordinário que ele houvesse abandonado aquela arma que parecia uma extensão de seu corpo. Escondi-a cuidadosamente num compartimento secreto sob a cama, que eu construíra quando Tanus se mudara para essa casa. Preferi evitar a cidade durante o dia, por isso fiquei o resto da tarde no quarto de Tanus, ocupando-me de limpar o pó e a sujeira acumulados.

Ao cair da noite, saí e fui até a margem do rio. Vi imediatamente o Sopro de Hórus atracado. Com certeza estivera em ação desde a última vez em que o vira, e mostrava vestígios de batalha: os remos estavam danificados e as tábuas a meio casco tinham talhos e mossas.

Percebi com um frêmito de orgulho que Tanus havia feito as modificações no casco que eu projetara. Um chifre revestido de metal estendia-se da proa logo acima da linha-d'água. Pelas tristes condições do navio concluí que estivera em feroz embate contra a frota do usurpador vermelho.

Mas notei que nem Tanus nem Kratas se encontravam a bordo. Um oficial secundário que eu reconheci mantinha-se de vigia, porém descartei a idéia de chamá-lo e decidi percorrer os locais próximos ao cais, freqüentados pelos marinheiros.

E revelador da moral e da santidade dos sacerdotes de Osíris que eu tenha sido bem recebido nas tavernas e prostíbulos como um cliente habitual. Numa das tavernas mais respeitáveis, reconheci a figura imponente de Kratas. Ele bebia e jogava dados com um grupo de oficiais. Não quis me aproximar, mas fiquei a observá-lo através da sala apinhada. Nesse ínterim, esquivei-me das propostas de diversos pássaros do amor, de ambos os sexos, que reduziam progressivamente suas tarifas na tentativa de levar-me até os becos vizinhos para demonstrar seus encantos. Nenhum deles se conteve diante de meu colar sacerdotal de contas de vidro azuis.

Quando Kratas finalmente deu um caloroso boa-noite a seus companheiros e saiu para a rua, acompanhei aliviado sua possante silhueta.

— O que quer de mim agora, amado dos deuses? — ele resmungou com desprezo quando me apressei para alcançá-lo. — É meu ouro ou o meu mastro que deseja? — Muitos sacerdotes haviam adotado entusiasticamente a atual moda da pederastia.

— Fico com o ouro — disse-lhe. — Você tem mais dele do que do outro, Kratas.

Ele estacou e olhou-me com suspeita. Suas feições marcadas e belas estavam apenas um pouco avermelhadas pela bebida.

— Como sabe meu nome? — Ele me agarrou pelo ombro e arrastou-me até uma porta iluminada, examinando meu rosto. Finalmente arrancou a peruca de minha cabeça. — Pelos cabelos da bunda de Seth! E você, Taita! — ele rugiu.

— Eu agradeceria se parasse de gritar meu nome — disse-lhe, e Kratas ficou imediatamente sério.

— Vamos! Venha até minha casa.

Quando nos vimos a sós, ele serviu duas canecas de cerveja.

— Já não bebeu o bastante? — perguntei, e ele sorriu para mim.

— Só saberemos a resposta para isso amanhã, Taita! Não seja tão duro comigo. Passamos as últimas três semanas rio abaixo, atacando a frota do usurpador vermelho. Doce Hapi, aquele seu esporão de proa funciona que é uma beleza. Destruímos quase vinte galés e cortamos as cabeças de algumas centenas de inimigos. Apesar de tanto trabalho, nenhuma gota de qualquer coisa mais forte que água passou por minha garganta esse tempo todo. Não me negue um copo de cerveja agora! Beba comigo.

Ele levantou sua caneca. Eu também estava sedento e brindei a ele. Depois de beber, perguntei por Tanus. Kratas ficou instantaneamente sóbrio e disse:

— Tanus desapareceu. Continuei olhando para ele.

— Desapareceu? O que isso quer dizer? Ele não comandou o ataque no rio?

Kratas balançou a cabeça.

— Não. Ele sumiu. Mandei meus homens vasculhar cada rua e cada casa de toda Tebas, e nem sinal dele. Estou preocupado, Taita, realmente preocupado...

— Quando o viu pela última vez?

— Dois dias depois da boda real, quando a senhora Lostris se casou com o rei, na noite do dia em que vocês navegaram para Elefantina. Tentei meter um pouco de seriedade em sua cabeça dura, mas ele não quis escutar.

— E o que disse?

— Entregou-me o comando do Sopro de Hórus e de toda a esquadra.

— Mas não podia fazer isso...

— Sim, podia. Usou a autoridade do selo do falcão faraônico. Eu assenti.

— E então? O que ele fez?

— Como já lhe disse, desapareceu.

Beberiquei a cerveja enquanto tentava raciocinar. Kratas foi até a janela e urinou através dela. Ouvi o ruído do jato caindo na rua lá embaixo e um passante que gritou:

— Olhe onde mija, seu porco nojento!

Kratas inclinou-se para fora e alegremente ofereceu-se para rachar a cabeça do outro, cujos resmungos cessaram rapidamente. Feliz com a pequena vitória, o soldado voltou até mim, e perguntei-lhe:

— Como estava o moral de Tanus quando o deixou? Kratas ficou novamente sério.

— O mais sombrio e assustador que já vi. Insultava os deuses e o faraó. Chegou a xingar a senhora Lostris, chamando-a de prostituta real.

Tive um sobressalto ao ouvir isso. Sabia que aquele não era o Tanus que eu conhecia. Era a voz do desespero e do amor frustrado.

— Ele disse que o faraó poderia executar a sentença prometida, de mandá-lo estrangular por traição, e que isso seria um alívio para ele. Sim, ele estava de péssimo humor e não houve nada que eu pudesse dizer ou fazer para animá-lo.

— Isso foi tudo? Tanus não deu nenhuma pista do que pretendia fazer?

Kratas balançou a cabeça e encheu a caneca de cerveja.

— O que aconteceu com o selo do falcão? — perguntei.

— Ele deixou-o comigo. Disse que não tinha mais utilidade para aquilo. Guardei-o em segurança no Sopro de Hórus.

— E as outras providências que discuti com você? Fez o que lhe pedi?

Ele olhou para a caneca e murmurou:

— Comecei a tomar as providências, mas depois que Tanus desapareceu pareciam sem sentido. Além disso, desde então estive muito ocupado no rio.

— Não parece você, Kratas, ser tão irresponsável. — Eu havia percebido que com Kratas a decepção e a mágoa funcionavam mais que a raiva. — Minha senhora Lostris contava com isso. Ela me disse que tinha total confiança em você. "Kratas é um rochedo de força", foi exatamente o que ela disse.

Vi que aquilo estava dando certo mais uma vez, pois Kratas também é um dos ardentes admiradores de minha ama. Um mero indício de desagrado dela o abalaria.

— Maldito Taita! Você fala como se eu fosse um imbecil desmiolado... Fiquei em silêncio, o que pode ser mais perturbador que muitas palavras.

— Em nome de Hórus, o que a senhora Lostris quer que eu faça?

— Nada mais do que eu já lhe pedi antes de partir para Elefantina — eu disse, e ele bateu a caneca na mesa.

— Sou um soldado. Não posso abandonar meus deveres e pegar metade do esquadrão para ir atrás de alguma aventura louca. Era diferente quando Tanus tinha o selo real...

— Agora você tem o selo do falcão — eu lhe disse suavemente. Ele me olhou fixo.

— Não posso usá-lo sem que Tanus...

— Você é o subcomandante dele. Tanus lhe deu o selo para usá-lo. Você sabe o que deve fazer. Faça-o! Eu encontrarei Tanus e o trarei de volta, mas você deverá estar pronto então. Há um trabalho desesperado e sangrento pela frente, e Tanus precisa de você. Não o decepcione mais uma vez.

Ele enrubesceu de raiva diante da provocação.

— Eu o farei engolir essas palavras — Kratas prometeu.

— E essa será a melhor refeição que você poderia preparar para mim — eu lhe disse.

Aprecio os homens valentes e honestos; eles são facilmente manipuláveis.

Eu estava incerto sobre como cumpriria minha promessa de encontrar Tanus, mas deixei Kratas e voltei à cidade para continuar tentando. Mais uma vez fiz a ronda de todos os seus locais habituais e perguntei a todo mundo que pudesse tê-lo visto. Não tinha ilusões sobre o risco que estava correndo ao insistir em minha investigação sobre Tanus, ou quanto à ineficácia de meu disfarce se eu deparasse com algum velho conhecido. Mas tinha de encontrá-lo. Continuei através da noite até que os bares e prostíbulos do porto expulsaram os últimos bêbados e apagaram as luzes.

Quando a madrugada raiou sobre o rio eu me sentia cansado e frustrado à margem do Nilo, tentando pensar se havia desprezado alguma possibilidade. Um grito selvagem me fez olhar para cima. Lá no alto, um bando de gansos delineava-se contra o céu a leste, com seus tons pálidos de ouro e cobre. Imediatamente eles me fizeram lembrar os dias felizes que nós três, Tanus, Lostris e eu, passamos caçando aves nos pântanos.

— Idiota! — eu me censurei. — Claro que é isso!

Aquela hora as ruas do bazar estavam cheias de gente barulhenta e apressada. Tebas é a cidade mais atarefada do mundo; lá ninguém fica ocioso. Sopram o vidro, trabalham o ouro e a prata, tecem a juta e moldam potes. Os mercadores apregoam e barganham, os advogados discursam, os sacerdotes cantam e as prostitutas se insinuam. É uma cidade excitante, colorida, e eu a amo.

Abri caminho em meio à confusão e ao ruído das barganhas, enquanto agricultores e comerciantes exibiam seus produtos às donas de casa e aos criados das ricas residências. O bazar recendia a especiarias e frutos, legumes, peixes e carnes, alguns dos quais não estavam nada frescos. Bois mugiam e cabras baliam, acrescentando seu estrume ao excremento humano que corria pelos esgotos abertos em direção à velha mãe Nilo.

Pensei em comprar um asno, pois tinha um longo percurso pela frente na estação mais quente do ano, e vi animais fortes à venda. Afinal decidi evitar a extravagância, não apenas movido pela economia, mas porque sabia que no campo aberto um animal de qualidade seria atração certa para os bandidos pegas. Por esse prêmio eles poderiam superar os escrúpulos religiosos. Acabei comprando apenas alguns punhados de tâmaras e um pão, uma sacola de couro para carregar as provisões e uma cabaça d'água. Então rumei pelas ruelas estreitas até o portão principal da cidade.

Não o havia alcançado quando percebi uma agitação na rua à minha frente e um destacamento de guardas palacianos que vinha em minha direção, usando as lanças para abrir passagem pela multidão do mercado. Logo atrás deles, meia dúzia de escravos carregava em passo acelerado uma liteira enfeitada e coberta por cortinas. Fiquei encurralado contra os muros de barro de um edifício e, embora tivesse reconhecido tanto a liteira como o comandante da guarda, não pude escapar ao confronto.

Fui tomado de pânico. Eu poderia passar sob o olhar casual de Rasfer, mas tinha certeza de que meu senhor Intef me reconheceria imediatamente, mesmo disfarçado. Ao meu lado estava uma velha escrava com os seios semelhantes a duas ânforas de azeite e as costas de um hipopótamo. Insinuei-me de lado até me ocultar atrás de seu volume. Então baixei a peruca sobre os olhos e fiquei espiando por trás dela.

Apesar do medo, senti uma pontada de orgulho profissional por ver Rasfer novamente de pé, tão pouco tempo depois da cirurgia. Ele conduzia a tropa na minha direção, mas somente quando chegou quase à minha frente percebi que um lado de seu rosto havia despencado. Era como se suas feições repelentes houvessem sido moldadas em cera e depois mantidas junto de uma chama forte. Essa é muitas vezes a conseqüência das mais hábeis trepanações. A outra metade do rosto tinha sua expressão costumeira. Se antes Rasfer fora medonho, agora era capaz de provocar o choro nas crianças, e ao vê-lo os velhos deviam fazer o sinal contra mau-olhado.

Ele passou perto de mim, adiante da liteira. Através de uma fresta das cortinas bordadas, vislumbrei o senhor Intef reclinado elegantemente nas almofadas de seda importadas do Oriente, que deviam ter custado ao menos cinco anéis de ouro cada uma.

Seu rosto estava barbeado, e os cabelos arranjados em cachos. Sobre o penteado formal havia um cone de cera de abelha perfumada, que derretia ao calor e escorria-lhe pela cabeça e os ombros para refrescá-lo. Uma de suas mãos, com os dedos repletos de jóias, repousava languidamente na coxa lisa e morena de um belo rapaz escravo, que devia ser uma aquisição recente à sua coleção, pois eu não o conhecia.

Fui apanhado desprevenido pelo ódio que senti ao ver meu antigo senhor. Todos os insultos e as humilhações que eu sofrera em suas mãos acorreram para me atormentar, agravados por seu mais recente ultraje. Ao enviar-me a cobra, havia ameaçado também a vida de minha senhora Lostris. Se eu era capaz de esquecer tudo o mais, jamais poderia perdoar isso.

Ele começou a virar a cabeça em minha direção, mas antes que nossos olhos se encontrassem eu me abaixei atrás da mulher imensa. A liteira se afastou pelo beco, e ao vê-la de longe percebi que tremia como depois da luta contra a serpente.

— Divino Hórus, ouvi esta súplica. Não me permitais descansar até que ele esteja morto na companhia de seu mestre, Seth — sussurrei, e abri caminho em direção ao portão da cidade.

A cheia estava no auge e as terras ao longo do rio recebiam o abraço fecundo do Nilo. Como fizera desde o início dos tempos, ele depositava em nossos campos mais uma rica camada de sedimentos negros. Quando recuasse novamente, aquelas extensões reluzentes voltariam a florescer com a patina verde típica do Egito. Os férteis aluviões e o sol produziriam três colheitas antes que o Nilo inundasse de novo as margens, trazendo sua bênção.

As bordas dos campos inundáveis eram marcadas pelos diques construídos para controlar a inundação e que também serviam de estradas. Segui um desses caminhos para leste até encontrar o terreno rochoso no sopé dos montes, então virei para o sul. Enquanto seguia, parava de vez em quando e revirava uma pedra à beira do caminho, até que encontrei o que procurava. Então prossegui com mais segurança.

Mantinha um olho atento para o campo acidentado à minha direita, pois era o tipo de terreno que permitiria uma emboscada dos pegas. Estava atravessando uma das ravinas rochosas ao longo do caminho quando fui saudado de perto:

— Reze por mim, ó amado pelos deuses!

Meus nervos estavam tão tensos que soltei um grito assustado e dei um salto no ar antes que pudesse me conter.

Um pequeno pastor estava sentado na borda da ravina, bem acima de mim. Não tinha mais de dez anos, mas parecia tão velho quanto o pecado. Eu sabia que os pegas costumavam utilizar crianças como batedores e sentinelas. O pequeno bandido parecia perfeito para a função. Seu cabelo estava grosso de sujeira e ele vestia uma pele de cabra mal-curtida que eu podia farejar a distância. Tinha olhos vivos e brilhantes como os de um corvo, que me perscrutaram, avaliando minha vestimenta e minha bagagem.

— Para onde vai e com que finalidade, bom padre? — ele perguntou, e soprou uma nota longa e aguda em sua flauta de junco, o que poderia ser um sinal para alguém escondido acima na encosta.

Levei mais um instante para acalmar o ritmo do coração, e minha voz estava um pouco desafinada quando lhe respondi:

— Não seja impertinente, criança! Que lhe interessa quem sou eu e para onde vou?

Imediatamente ele mudou de atitude:

— Estou faminto, querido padre, sou um órfão obrigado a me defender sozinho. Não tem um pedaço de pão para mim nessa sua grande sacola?

— Você me parece bem alimentado.

Virei-lhe as costas, mas ele escorregou pelo barranco e saltitou ao meu lado.

— Deixe-me ver sua sacola, bom padre — insistiu. — Uma esmola, lhe imploro, gentil senhor.

— Muito bem, pequeno biltre.

Tirei do saco uma tâmara madura. Ele estendeu a mão para apanhá-la, mas antes que a tocasse fechei minha mão e quando a reabri a fruta se havia transformado num escorpião púrpura. O inseto venenoso ergueu a cauda ameaçadoramente sobre a cabeça e o menino, gritando, fugiu barranco acima.

No topo, parou apenas o suficiente para gritar:

— Você não é sacerdote. É um feiticeiro do deserto! É um demônio, não um homem!

Ele fez freneticamente o sinal contra mau-olhado, cuspiu três vezes no chão e depois correu para o alto do morro.

Eu havia capturado o escorpião debaixo da pedra chata que encontrara no caminho. Claro que lhe quebrara o ferrão na ponta da cauda, antes de colocá-lo na sacola justamente para essas eventualidades. O velho escravo que me havia ensinado a ler lábios também me instruíra em alguns outros truques. Um deles era a prestidigitação.

A sombra do próximo morro parei e olhei para trás. O pastorzinho continuava no topo do rochedo, ao longe, mas não estava só. Havia dois homens com ele, parados a me observar, e a criança gesticulava com veemência. Ao perceber que eu os avistara, os três desapareceram. Duvidei que quisessem mais truques com um sacerdote demoníaco.

Não havia andado muito quando notei um movimento na trilha à minha frente. Parei e protegi os olhos da claridade do meio-dia. Fiquei aliviado ao distinguir um grupo pequeno e de aspecto inofensivo vindo em minha direção. Caminhei cautelosamente e, quando nos aproximamos, meu coração disparou ao reconhecer Tanus. Ele conduzia um burro sobrecarregado. Em cima da grande trouxa em seu dorso iam uma mulher e uma criança, mas o animal trotava com valentia. Vi que a mulher também estava carregada, o ventre inchado pela gravidez. A criança equilibrada atrás dela era uma menina às vésperas da puberdade.

Eu estava prestes a saudar Tanus e a correr para encontrá-lo, quando percebi que me havia enganado. O homem era um desconhecido. Fora sua silhueta alta, de ombros largos, o modo esguio de caminhar e os cabelos dourados que me haviam iludido. Ele me observou com suspeita e desembainhou a espada. Então puxou o burro para fora do caminho e se interpôs entre mim e sua preciosa carga.

— Que os deuses o abençoem, amigo — eu desempenhei o papel de sacerdote e ele resmungou, mantendo a espada apontada para minha barriga. Ninguém confiava num estranho no nosso Egito.

— Está arriscando sua vida e a de sua família nesta estrada, bom homem. Deveria buscar a proteção de uma caravana. Há assaltantes nos morros. — Eu estava realmente preocupado com eles. A mulher parecia delicada e decente, e a menina ficou à beira das lágrimas ao ouvir minha advertência.

— Vá em frente, padre! — o homem ordenou. — Guarde seu conselho para os que lhe dão valor.

— É um homem bom, gentil senhor — a mulher sussurrou. — Esperamos uma semana pela caravana em Qena e não podíamos demorar mais. Minha mãe vive em Luxor e vai ajudar-me no parto.

— Silêncio, mulher! — o marido rosnou para ela. — Não queremos nada com estranhos, mesmo que ele use as vestes de sacerdote.

Hesitei, tentando imaginar se poderia fazer algo por eles. A menina era uma belezinha, com olhos escuros como obsidiana, e me havia comovido. Mas nesse instante o homem tocou o burro e passaram por mim. Com um trejeito impotente, vi-os ir embora.

— Não se pode sangrar por toda a humanidade — disse comigo mesmo. — Nem se pode impor conselhos a quem não os quer. — E sem olhar para trás segui no rumo norte.

Era o final da tarde quando olhei para baixo do rochedo que mergulhava nas terras úmidas e verdes. Mesmo daquele ponto privilegiado era impossível avistar a cabana. Estava escondida entre altas moitas de papiro, e o teto de caules de papiro fazia um disfarce perfeito. Desci correndo a trilha, saltando de rocha em rocha, até que atingi a borda da água. Aquela distância do curso principal do Nilo a inundação não era tão forte.

Encontrei nosso velho barco amarrado sobre a margem. Estava semi-alagado e tive de esvaziá-lo antes de colocá-lo de volta na água. Conduzi-o cautelosamente com a ajuda de uma vara pelo túnel entre os papiros. Na vazante do rio a cabana ficava em terra seca, mas agora sob as estacas que a sustentavam havia água suficiente para afogar um homem.

Encontrei um barco em melhor estado que o meu amarrado a uma das palafitas. Depois de atracar ao lado do outro, galguei a frágil es-cadinha e espiei para dentro do nosso velho abrigo de caça. Era um único cômodo, e o sol penetrava pelos buracos do teto de palha, mas isso não tinha importância porque nunca chove no Alto Egito.

A choça não estivera tão desarrumada desde que Tanus e eu a havíamos descoberto. Roupas, armas e panelas espalhavam-se como detritos num campo de batalha. O cheiro de bebida era ainda mais forte que o de comida estragada e corpos sujos.

Os corpos estavam deitados num colchão igualmente sujo, no canto oposto. Atravessei o espaço atravancado em busca de sinais de vida, e nesse momento a mulher se mexeu. Era jovem e seu corpo nu era volumoso e atraente, com grandes seios redondos e uma moita de pêlos crespos na base do ventre. Mas mesmo em repouso seu rosto era duro e banal. Não tive dúvida de que Tanus a havia encontrado no porto.

Eu sempre soube que ele era difícil de agradar e nunca fora dado à bebida. Aquela criatura e os jarros de vinho vazios empilhados contra as paredes eram um mero indício do quanto ele havia decaído. Olhei-o ali dormindo e mal o reconheci. Tinha o rosto inchado e pálido por causa da bebida, e coberto de barba. Era evidente que não se havia barbeado desde que eu o vira pela última vez, diante dos muros do harém.

Naquele momento a mulher acordou. Seus olhos me focalizaram e com um único movimento felino ela saltou do colchão e apanhou a adaga pendurada na parede ao meu lado. Eu agarrei a arma antes que ela a alcançasse e mostrei-lhe a ponta aguçada.

— Vá embora! — ordenei bruscamente. — Antes que eu lhe enfie na barriga algo que nunca sentiu antes.

Ela ajuntou suas roupas e vestiu-se apressadamente, enquanto me observava com raiva.

— Ele não me pagou — disse quando ficou pronta.

— Tenho certeza de que já se serviu generosamente. — Fiz um gesto com a adaga, indicando a porta.

— Ele me prometeu cinco anéis de ouro. — Ela mudou de tom e começou a choramingar. — Trabalhei duro para ele nos últimos vinte dias ou mais. Fiz tudo para ele, cozinhei e cuidei da casa, servi-o e limpei seu vômito quando ele se embebedou. Deve me pagar. Não irei embora até que me pague...

Agarrei-a por uma mecha de seu longo e escuro cabelo e a empurrei para a porta. Ainda pelos cabelos, ajudei-a a entrar no bote mais estragado. Quando ela estava fora de meu alcance, despejou uma torrente de insultos que espantou as garças e outras aves aquáticas dos juncos ao redor.

Voltei para junto de Tanus e vi que ele não se movera. Verifiquei os jarros de vinho. A maioria estava vazia, mas ainda havia dois ou três cheios. Imaginei como teria reunido aquele estoque de bebida, e supus que houvesse enviado a mulher de volta a Karnak para encontrar um balseiro que os transportasse. Havia o bastante para suprir toda a Guarda do Crocodilo Azul durante uma temporada. Não admira que Tanus se encontrasse em tais condições.

Sentei-me ao lado dele no colchão por algum tempo e deixei minha simpatia fluir sem barreiras. Estava tentando se destruir. Eu compreendia e não o desprezava por isso. Seu amor por minha senhora Lostris era tal que se não a pudesse ter ele não queria mais viver.

É claro que eu também estava furioso com Tanus por abusar de si mesmo daquela maneira e por sucumbir à loucura da autopiedade. No entanto, mesmo naquele estado de completa embriaguez, eu podia ver tudo o que havia nele de nobre e admirável. Minha ama havia tentado se envenenar pelo mesmo motivo que ele tentara se destruir. Eu a havia compreendido e perdoado. Não poderia fazer menos por Tanus. Suspirei por aqueles dois jovens que eram tudo o que eu possuía de real valor na vida. Então levantei-me e me pus a trabalhar.

Primeiro fiquei parado junto de Tanus, atiçando minha raiva ao ponto em que conseguiria ser realmente duro com ele. Então peguei-o pelos calcanhares e arrastei-o pela cabana. Ele saiu parcialmente do estupor e amaldiçoou-me debilmente, mas não dei ouvidos a seus protestos e derrubei-o pela porta. Ele mergulhou de cabeça no pântano, erguendo um forte repuxo. Esperei que flutuasse e espiasse pela superfície, ainda semiconsciente.

Saltei na água ao lado dele, agarrei uma mecha de seus cabelos e mergulhei a cabeça novamente na água. Por um instante ele se debateu sem forças e consegui mantê-lo submerso com facilidade. Então seu instinto de sobrevivência aflorou e ele recuperou sua antiga força. Fui erguido completamente da superfície e atirado para o lado como um graveto na tempestade.

Tanus emergiu berrando, no esforço para respirar, e atacou cegamente seu adversário invisível. Um daqueles golpes poderia ter derrubado um hipopótamo e recuei depressa, observando-o a distância.

Tossindo e engasgando, ele agarrou-se à escada com os cabelos escorridos sobre os olhos. Evidentemente havia engolido e aspirado tanta água nos pulmões que senti certo receio. Meu tratamento talvez tivesse sido rigoroso demais. Estava a ponto de ir em seu auxílio quando ele escancarou a boca e despejou uma horrível mistura de água do pântano e vinho azedo. Fiquei surpreso ao ver a quantidade.

Tanus ficou agarrado à escada, retomando o fôlego. Nadei até uma das palafitas da cabana e esperei que ele vomitasse novamente antes de lhe dizer, colocando na voz todo o desprezo que consegui:

— Minha senhora Lostris ficaria orgulhosa de vê-lo agora!

Ele espiou ao redor com os olhos incrédulos, até que afinal me enfocou:

— Taita, seu maldito! Foi você quem tentou me afogar? Idiota, eu poderia tê-lo matado!

— Na sua atual condição só poderia ter causado mal a um jarro de vinho. Que visão triste e lamentável!

Trepei pela escada e entrei na cabana, deixando-o na água a balançar a cabeça e murmurar para si mesmo. Comecei a arrumar a desordem e a limpar a sujeira.

Algum tempo depois Tanus galgou a escadinha e sentou-se envergonhado na entrada. Ignorei-o e continuei com meu trabalho, até que ele quebrou o silêncio:

— Como vai você, velho amigo? Senti sua falta.

— Outras pessoas sentiram falta de você. Kratas, por exemplo. A esquadra esteve combatendo no rio. Mais uma espada teria sido útil. Minha senhora Lostris também fala em você todos os dias e guarda seu amor puro e verdadeiro. Imagino o que teria pensado daquela vagabunda que expulsei da sua cama.

Ele resmungou e segurou a cabeça.

— Oh, Taita, não pronuncie o nome de sua ama. É insuportável lembrar-me dela...

— Então agarre outro jarro de vinho e afogue nele sua degradação e sua autopiedade — sugeri com raiva.

— Perdi-a para sempre. O que queria que eu fizesse?

— Queria que você tivesse fé e força de espírito, como ela tem. Ele me olhou com uma expressão lastimável.

— Fale-me dela, Taita. Como está? Ainda pensa em mim?

— Mais seria impossível — resmunguei tristemente. — Ela não pensa em outra coisa. Só espera o dia em que vocês possam se reencontrar.

— Isso nunca acontecerá. Perdi-a para sempre e não quero continuar vivendo.

— Ótimo! — concordei asperamente. — Então não perderei mais tempo aqui. Direi a minha ama que você não quis escutar o recado dela.

Passei por ele, desci a escada às pressas e pulei no bote.

— Espere, Taita! — ele gritou. — Volte!

— Para quê? Você quer morrer, então vá em frente. Mandarei os embalsamadores recolherem seu cadáver.

Ele sorriu envergonhado.

— Está bem, estou sendo idiota. A bebida embaralhou minha mente. Volte, eu lhe imploro. Dê-me o recado de Lostris.

Demonstrando relutância, subi a escada e ele seguiu-me para dentro da cabana, ainda cambaleando um pouco.

— Minha senhora manda dizer que seu amor por você está inabalado por tudo o que lhe foi imposto. Ela ainda é e sempre será sua mulher.

— Por Hórus, ela me faz sentir envergonhado — ele murmurou.

— Não — discordei. — A vergonha é de sua própria responsabilidade.

Ele apanhou a espada dependurada na bainha acima da cama imunda e golpeou as ânforas de vinho alinhadas contra a parede. Na medida em que arrebentavam, o vinho jorrava e escorria pelas fendas do piso. Tanus arfava quando voltou até mim, e eu zombei:

— Olhe só para você! Deixou-se ficar em tal estado, tão mole e sem fôlego quanto um velho sacerdote...

— Basta, Taita! Você já disse o que queria. Não zombe mais de mim ou se arrependerá.

Vi que ele ficava tão enraivecido quanto eu desejara. Meus insultos o estavam enrijecendo.

— Minha ama gostaria que você aceitasse o desafio do faraó, para que continue vivo, honrado e digno daqui a cinco anos, quando ela estará livre para reencontrá-lo.

Agora eu havia conquistado toda a sua atenção.

— Cinco anos! Do que está falando, Taita? Realmente haverá fim para o nosso sofrimento?

— Joguei as peças de Amon-Rá para o faraó. Ele estará morto daqui a cinco anos — disse-lhe simplesmente. Ele me olhou deslumbrado, e vi centenas de emoções diferentes atravessar seu rosto. Ele é tão fácil de se entender quanto este pergaminho em que escrevo.

— O jogo de Amon-Rá... — ele sussurrou.

Muito tempo atrás Tanus fora um descrente e havia caluniado meus dons. Isso mudara e agora ele acreditava em meus poderes ainda mais que minha ama. Havia visto minhas visões se transformar em realidade com freqüência e não mais duvidava.

— Pode esperar tanto tempo por seu amor? — perguntei. — Minha senhora jurou que o esperará por toda a eternidade. Pode esperá-la alguns anos?

— Ela prometeu me esperar? — Tanus perguntou.

— Por toda a eternidade — repeti, e pensei que ele fosse começar a chorar. Eu não teria suportado isso, ver um homem como Tanus aos prantos, portanto continuei apressadamente: — Não quer escutar a visão que tive?

Ele conteve as lágrimas.

— Sim! Sim! — concordou ansiosamente, e comecei a falar. Conversamos até a noite cair, então ficamos sentados no escuro e continuamos a falar.

Contei a Tanus as coisas que eu havia dito a minha senhora Lostris, todos os detalhes que eu havia escondido deles durante todos aqueles anos. Quando cheguei à explicação de como o pai dele, Pianki, senhor Harrab, havia sido arruinado e destruído por seu inimigo secreto, o ódio de Tanus foi tão intenso que consumiu em sua mente os últimos efeitos da devassidão, e quando a aurora raiou sobre os pântanos ele estava mais uma vez clara e firmemente decidido.

— Vamos em frente na sua empreitada, pois parece a coisa certa a fazer. — Levantou-se de um salto e agarrou a bainha da espada. Apesar de eu achar que seria aconselhável descansar um pouco e recuperar-se completamente dos efeitos do vinho, ele não quis escutar.

— Vamos voltar já para Karnak! — insistiu. — Kratas está esperando e o desejo de vingar a memória de meu pai e de rever meu amor queima como fogo em meu sangue.

Ao deixarmos o pântano, Tanus tomou a dianteira pelo caminho pedregoso e eu o seguia correndo. Assim que o sol se ergueu sobre o horizonte, o suor vertia em suas costas e escorria, molhando a cintura de seu saiote, como se o corpo estivesse purgando o vinho rançoso. Eu podia ouvi-lo ofegar fortemente, mas nem uma vez Tanus parou para descansar ou moderou o passo, correndo sem hesitar em direção ao calor crescente.

Fui eu quem o deteve com um grito. Paramos lado a lado e olhamos em frente. Os pássaros haviam-me chamado a atenção. De longe eu notara a agitação das asas.

— Abutres — Tanus resmungou com a respiração ofegante. — Há alguma coisa morta entre os rochedos. — Ele puxou a espada e avançamos cautelosamente.

Encontramos primeiro o homem, e espantamos os abutres numa revoada tempestuosa. Reconheci pelo cabelo louro que era o que eu havia encontrado no dia anterior. Nada restara de seu rosto, pois estava deitado de costas e os pássaros lhe haviam comido toda a carne, até o osso do crânio. Haviam arrancado seus olhos, e as órbitas vazias fixavam o céu sem nuvens. Os lábios haviam desaparecido e ele sorria com os dentes ensangüentados, como se da fútil piada de nossa breve existência nesta terra. Tanus rolou-o de bruços e vimos em suas costas os ferimentos de faca que o haviam matado. Haviam feito uma dúzia de perfurações através de suas costelas.

— Quem fez isso quis ter certeza do trabalho — comentou Tanus, empedernido como só um soldado experiente.

Caminhei entre os rochedos e uma nuvem negra e ruidosa de moscas voou do cadáver da mulher. Nunca compreendi de onde vêm as moscas, como se materializam com tanta rapidez no calor seco e ardente do deserto. Imaginei que a mulher havia abortado enquanto se ocupavam dela. Deviam tê-la deixado viva depois de se divertir. Com suas últimas forças ela havia tomado nos braços a criança, tentando protegê-la. Morrera assim, encostada a uma pedra, protegendo o feto dos abutres.

Avancei pelo terreno acidentado e mais uma vez as moscas me conduziram até onde os bandidos haviam arrastado a menina. Pelo menos um deles havia tido a compaixão de lhe cortar a garganta depois que terminaram com ela, em vez de deixá-la sangrar lentamente até morrer.

Uma mosca pousou nos meus lábios. Afastei-a e comecei a chorar. Tanus encontrou-me ali aos prantos.

— Você os conhecia? — perguntou. Assenti e clareei a garganta para responder.

— Encontrei-os ontem no caminho. Tentei adverti-los... — Interrompi-me, pois não era fácil continuar. Respirei fundo. — Tinham um burro. Os carniceiros o devem ter levado.

Tanus concordou. Tinha a expressão desolada quando se virou e fez um gesto na direção dos rochedos.

— Por aqui! — chamou, e saiu correndo pelo deserto acidentado.

— Tanus! — gritei. — Kratas está esperando...

Mas ele não deu a menor atenção e não tive alternativa senão segui-lo. Alcancei-o novamente quando ele perdeu a pista do burro num trecho de solo rochoso e teve de parar.

— Sinto por aquela família ainda mais que você — insisti. — Mas isso é loucura. Kratas está nos esperando. Não temos tempo a perder...

Ele me interrompeu sem sequer olhar para mim:

— Que idade tinha aquela menina? Não mais que nove anos? Sempre há tempo para fazer justiça. — Tinha a expressão fria e vingativa. Era evidente que havia recuperado sua antiga bravura, e achei melhor não discutir mais.

A imagem da menina continuava forte e nítida em minha mente. Acompanhei-o e retomamos a trilha, e avançamos ainda mais rápido em cooperação mútua.

Tanus e eu havíamos perseguido dessa forma gazelas, órix e até leões, e éramos ambos adeptos dessa arte. Trabalhávamos em equipe, correndo de ambos os lados das pegadas deixadas pela presa, e indicando um ao outro cada alteração de rumo. Logo nossa caça atingiu uma pista esburacada que levava para leste a partir do rio e se aprofundava pelo deserto. Eles a haviam seguido, tornando nossa tarefa muito mais simples.

Era quase meio-dia e nossas moringas d'água estavam vazias quando finalmente os avistamos a distância. Eram cinco, mais o burro. Estava claro que não esperavam ser seguidos pelo deserto, seu hábitat, pois deslocavam-se descuidadamente. Nem se deram o trabalho de encobrir as pegadas.

Tanus me fez agachar com ele atrás de uma rocha para tomar fôlego e murmurou:

— Vamos rodeá-los pela frente. Quero ver seus rostos.

Ergueu-se e conduziu-me numa grande volta lateral à trilha. Ultrapassamos o bando de carniceiros, mas fora de seu campo de visão, depois mudamos de direção para alcançar a trilha à frente deles. Com sua visão de soldado, Tanus armou a emboscada com precisão.

De longe ouvimos o bando se aproximar, pelo ruído dos cascos do burro e das vozes conversando. Enquanto esperávamos duvidei de minha prudência ao decidir seguir Tanus sem questionar. Quando o bando de pegas finalmente apareceu cheguei à conclusão de que me havia precipitado. Era o grupo de facínoras de aspecto mais mortífero que eu já havia visto, e minha única arma era a pequena adaga cravejada de pedras.

Pouco adiante de onde nos encontrávamos deitados, o beduíno alto e barbado, que obviamente era o chefe, parou de súbito e ordenou a um de seus homens que descarregasse do burro o odre de couro com água. Ele bebeu primeiro e então passou-o aos outros. Minha garganta se fechou quando os vi sorver o líquido precioso.

— Por Hórus, veja as manchas do sangue das mulheres em suas roupas. Quisera ter Lanata comigo — Tanus sussurrou. — Eu poderia acertar uma flecha na barriga daquele ali e fazer a água esguichar como cerveja do barril. — Então ele colocou a mão no meu braço. — Não se mexa até eu começar, ouviu? Não quero heroísmos.

Assenti vigorosamente, sem a menor inclinação para protestar contra instruções tão sensatas.

Os pegas continuaram a andar, vindo diretamente para nossa atalaia. Estavam fortemente armados. O beduíno caminhava na frente, com a espada presa às costas, mas com o punho aparecendo sobre o ombro esquerdo, pronta para ser usada. Ele tinha o capuz do seu manto de lã sobre a cabeça, para proteger-se do sol escorchante. Isso prejudicava sua visão lateral e ele não nos viu quando passou perto de nós.

Dois outros o seguiam logo atrás, um deles puxando o burro. Os dois últimos marchavam depois do animal, discutindo animadamente sobre uma jóia que haviam roubado da mulher assassinada. Todas as armas deles estavam embainhadas, exceto os longos chuços com pontas de bronze carregados pelos da retaguarda.

Tanus esperou que todos passassem, então levantou-se silenciosamente e aproximou-se por trás dos dois últimos. Parecia mover-se sem intenção, como faz o leopardo, mas na verdade passou-se um átimo antes que desferisse um golpe de espada no pescoço de um dos bandidos.

Eu pretendia seguir Tanus e dar-lhe cobertura, mas por algum motivo não consegui passar à ação e continuei agachado atrás da pedra. Justifiquei minha atitude dizendo a mim mesmo que provavelmente apenas o atrapalharia se o acompanhasse perto demais.

Eu nunca havia visto Tanus matar um homem. Embora soubesse que era sua vocação e que ao longo dos anos ele pudera aperfeiçoar essa horrível arte, ainda assim fiquei surpreso com seu virtuosismo. Quando ele girou a espada, a cabeça de sua vítima saltou dos ombros como uma lebre do buraco, e o tronco decapitado chegou a dar um passo antes que as pernas cedessem. Quando o movimento em arco chegou ao limite, Tanus agilmente o inverteu e com o mesmo impulso acertou o outro homem. O segundo pescoço foi cortado de modo igualmente preciso. A cabeça caiu e rolou pelo chão, enquanto o corpo desabava para a frente, esguichando sangue.

O jato sangrento e o baque surdo das duas cabeças contra o solo alertou os outros carniceiros. Eles viraram-se alarmados e por um instante olharam sem acreditar para a carnificina que havia ocorrido em suas fileiras. Com gritos selvagens, os três desembainharam as espadas e correram juntos para Tanus. Ao invés de recuar, Tanus investiu contra eles ferozmente, dividindo-os. Ele virou-se para enfrentar o homem que se isolara dos companheiros e com um impulso abriu-lhe um enorme rasgo sangrento no peito. O homem gritou e recuou, mas antes que Tanus pudesse terminar com ele os dois outros o atacaram pelas costas. Tanus fez um giro para enfrentá-los, e com um estrépito de bronze deteve o ataque. Conseguiu mantê-los à distância da espada, enfrentando um de cada vez, até que o bandido ferido se recuperou e aproximou-se pela retaguarda.

— Atrás de você! — gritei, e ele virou-se no tempo exato de aparar o golpe com a espada.

Em seguida os outros dois estavam de novo sobre ele, e Tanus foi obrigado a ceder terreno para defender-se de todos os lados. Sua perícia com a espada era impressionante. A lâmina girava tão depressa que parecia haver uma parede de bronze brilhante ao redor dele, contra a qual as investidas dos inimigos se chocavam sem êxito.

Então percebi que Tanus estava ficando cansado. O suor escorria por seu corpo e ele tinha as feições contorcidas por tanto esforço. As longas semanas de vinho e lascívia haviam prejudicado sua força ou-trora ilimitada.

Ele recuou antes que o beduíno voltasse a atacá-lo impetuosamente e apoiou as costas num dos rochedos, no lado da trilha oposto a onde eu estava agachado e inerte. Com a rocha protegendo as costas de Tanus, os três bandidos foram obrigados a abordá-lo pela frente, com golpes incessantes. Liderados pelo beduíno, eles uivavam como uma matilha de lobos a rodeá-lo. O braço direito de Tanus estava cansado e movia-se mais devagar.

O chuço do primeiro homem degolado estava caído no meio da trilha. Percebi que eu tinha de fazer alguma coisa imediatamente, se não quisesse ver Tanus ser destroçado diante dos meus olhos. Com enorme esforço reuni coragem e arrastei-me para fora do esconderijo. Os pegas me haviam esquecido completamente, em sua avidez de matar.

Alcancei a lança no chão, sem que me notassem, e agarrei-a. Ao sentir o peso sólido da arma nas mãos, recuperei a coragem.

O beduíno era o mais perigoso dos três adversários de Tanus e também o que estava mais perto de mim, dando-me as costas e concentrado no duelo desigual. Empunhei a lança na horizontal e corri para ele.

Os rins são a parte mais vulnerável das costas. Com meu conhecimento de anatomia, mirei exatamente o golpe. A lâmina penetrou inteira, a um dedo da coluna, abrindo um buraco que secionou o rim com precisão cirúrgica. O beduíno se enrijeceu e ficou paralisado instantaneamente, como uma estátua do templo. Então torci a lâmina da maneira que Tanus me havia ensinado, esmigalhando o rim do bandido. A espada caiu de seu punho e ele desabou com um grito terrível, distraindo os companheiros, o que deu a Tanus a oportunidade que esperava.

O próximo golpe de Tanus atingiu um deles no centro do peito, atravessando-lhe o torso, e a ponta da espada ensangüentada emergiu entre as omoplatas do inimigo. Antes que Tanus pudesse livrar a espada da pressão da carne viva e matar o último carniceiro, o sobrevivente girou nos calcanhares e correu.

Tanus ainda deu alguns passos atrás dele, mas parou sem fôlego e disse:

— Estou esgotado. Pegue-o, Taita! Não deixe esse chacal assassino fugir. Poucos homens conseguem ser mais velozes que eu. Tanus é o único que conheço, mas precisa estar em sua forma máxima para consegui-lo. Apoiei o pé no meio das costas do beduíno, arranquei o chuço de sua carne e corri atrás do outro bandido.

Alcancei-o antes de ele ter dado duzentos passos, e com tal leveza que ele nem escutou minha aproximação. Com o gume da lança cortei o tendão de seu calcanhar e ele se esparramou no chão, deixando a espada voar. Ficou deitado de costas, esperneando e gritando, e eu dançava a seu redor, espetando-o com o chuço e escolhendo a melhor posição para o golpe mortal.

— Qual das mulheres lhe agradou mais? — perguntei, golpeando-o na coxa. — A mãe, com sua barriga crescida, ou a garotinha?

— Por favor, poupe-me! — ele gritou. — Não fiz nada. Foram os outros. Não me mate!

— Há sangue seco na frente do seu saiote — eu disse, e feri-o no estômago, mas com pouca profundidade. — A criança gritou tão alto quanto você agora? — perguntei.

Ele enrolou o corpo numa bola para proteger o estômago, e atingi-o na espinha, encontrando por um feliz acaso o espaço entre as vértebras. Ele ficou instantaneamente paralisado da cintura para baixo e eu recuei.

— Muito bem. Você me pede para não o matar, e não o matarei. Seria bom demais para você.

Virei-me e voltei ao encontro de Tanus. O bandido aleijado arrastou-se atrás de mim, puxando as pernas imóveis como um pescador que leva um par de peixes mortos. Mas o esforço foi demasiado e ele deixou-se cair, soluçando. Já passava de meio-dia, mas o sol ainda estava forte o suficiente para matá-lo antes do poente.

Tanus olhou para mim de maneira curiosa quando me aproximei.

— Há em você uma veia selvagem de que eu não suspeitava. — Balançou a cabeça, espantado. — Você sempre me surpreende.

Ele tirou o odre do lombo do burro e ofereceu-o a mim, mas balancei a cabeça.

— Você primeiro. Está precisando mais que eu.

Ele bebeu, comprimindo os olhos de prazer, e então disse, engasgado:

— Pelo doce hálito de ísis, você tem razão. Estou mole como uma velha. Esse pequeno duelo quase acabou comigo. — Então olhou em volta para os corpos espalhados e sorriu satisfeito. — Mas afinal não foi um mal começo para a missão do faraó.

— Foi um péssimo começo — eu o contradisse, e quando ele franziu o cenho sem entender, continuei: — Devíamos ter guardado pelo menos um deles vivo para que nos levasse ao ninho dos facínoras. Mesmo aquele ali — indiquei com um gesto o homem agonizante entre os rochedos — está muito mal para nos servir para alguma coisa. Deixei que minha raiva me dominasse. Não devemos mais cometer esse erro.

Estávamos a meio caminho de onde havíamos deixado os cadáveres da família assassinada quando minha verdadeira natureza se recompôs e comecei a arrepender-me amargamente do tratamento brutal que dera ao último bandido.

— Afinal ele era um ser humano como nós — eu disse a Tanus, e ele resmungou:

— Era um animal, um chacal raivoso, e você fez um ótimo trabalho. Já se lamentou demais. Esqueça-o. Mas, diga-me, por que estamos voltando para ver os cadáveres, em vez de irmos direto para o acampamento de Kratas?

— Preciso do corpo do marido.

E não disse mais nada até que chegamos ao corpo mutilado. A carcaça patética já cheirava mal sob o calor. Os abutres haviam deixado muito pouca carne sobre os ossos.

— Olhe para esse cabelo — eu disse a Tanus. — Quem você conhece que tem uma moita dessas?

Por um instante ele pareceu perplexo, então riu e passou os dedos por seus espessos cachos.

— Ajude-me a carregá-lo no burro — ordenei. — Kratas o levará para Karnak para ser embalsamado. Vamos dar-lhe um bom enterro e uma boa tumba com o seu nome gravado. Amanhã à noite toda Tebas saberá que Tanussenhor Harrab, faleceu no deserto e foi semidevorado pelas aves.

— Se Lostris souber disso... — Tanus fez um ar preocupado.

— Mandarei uma carta avisando-a. A vantagem que ganharemos ao fazer o mundo pensar que você morreu superará qualquer risco de assustar minha senhora.

Kratas estava acampado no primeiro oásis na rota das caravanas para o mar Vermelho, a menos de um dia de marcha de Karnak. Acompanhavam-no uma centena de homens da Guarda do Crocodilo Azul, cuidadosamente escolhidos, como eu havia ordenado. Tanus e eu alcançamos o acampamento no meio da noite. Havíamos viajado muito e estávamos exaustos. Caímos em nossas esteiras ao lado da fogueira e dormimos até o amanhecer.

Ao raiar do dia Tanus já estava de pé e conversava com os soldados. Era evidente o prazer que sentiam por tê-lo de volta. Os oficiais o abraçavam e os soldados o saudavam, sorrindo com orgulho quando ele os cumprimentava pelos nomes.

No desjejum, Tanus deu instruções a Kratas para levar o cadáver putrefato até Karnak, onde seria enterrado, e para se certificar de que a notícia de sua morte fosse comentada em toda Tebas. Dei a Kratas uma carta para minha senhora Lostris. Ele encontraria um mensageiro de confiança para levá-la a Elefantina.

Kratas selecionou uma escolta de dez homens, que se prepararam para partir com o burro e sua carga malcheirosa e seguir o Nilo até Tebas. Quando o pelotão deixava o acampamento, Tanus gritou para Kratas:

— Tente nos alcançar na estrada para o mar. Se não conseguir, nos encontrará acampados no oásis de Gebel Nagara. Esperaremos você lá. E lembre-se de trazer meu arco Lanata!

Assim que Kratas desapareceu atrás da primeira colina na estrada para oeste, Tanus reuniu o regimento e conduziu-o na direção oposta, seguindo a rota das caravanas para o mar. A estrada desde o Nilo até as praias do mar Vermelho era longa e difícil. Uma caravana grande e lenta geralmente levava vinte dias para completar a jornada. Nós cobrimos a distância em quatro dias, pois Tanus nos obrigou a uma série de marchas forçadas. No início, ele e eu éramos provavelmente os únicos da companhia que não estávamos em excelente forma física. No entanto, quando chegamos a Gebel Nagara, Tanus havia queimado o excesso de gordura do corpo e transpirara os últimos venenos do vinho. Estava novamente ágil e resistente.

Quanto a mim, era a primeira vez que fazia uma marcha forçada com uma companhia de guardas. Nos primeiros dias sofri todos os tormentos da sede e das dores musculares, das bolhas nos pés e da exaustão que o Ka de um homem morto tem de suportar na estrada para o submundo. Mas meu orgulho não me permitia ficar para trás, e além do mais fazer isso naquela paisagem selvagem significaria a morte certa. Para minha surpresa e meu prazer, descobri que após os primeiros dias tornava-se cada vez mais fácil manter minha posição entre os guerreiros.

No caminho passamos por duas grandes caravanas que se dirigiam para o Nilo, com os burros vergados sob pesadas cargas de mercadorias e escoltas de homens fortemente armados, estes em número muito superior ao de mercadores e seus acompanhantes. Nenhuma caravana estava a salvo da predação dos pegas, a menos que fosse protegida por forças mercenárias como aquelas, ou que os comerciantes estivessem dispostos a pagar as taxas elevadas que os bandidos lhes exigiam.

Quando encontrávamos esses estranhos, Tanus puxava o xale sobre a cabeça para mascarar o rosto e ocultar os cabelos louros. Ele tinha uma figura muito marcante; não podia se arriscar a ser reconhecido e ter esse fato relatados em Karnak. Não respondíamos às saudações e perguntas que os viajantes nos dirigiam, e passávamos por eles em silêncio, sem sequer olhar em sua direção.

Quando estávamos a um dia de marcha da costa, deixamos a rota principal das caravanas e fizemos um desvio para o sul, seguindo uma antiga trilha abandonada que um beduíno me ensinara alguns anos antes. Os poços de Gebel Nagara ficavam nesse antigo caminho para o mar, e atualmente recebiam raras visitas humanas, a não ser dos beduínos e dos bandidos, se é que se pode chamá-los de humanos.

Quando chegamos aos poços eu estava magro e em boa forma como nunca, mas lamentava a falta de um espelho, pois tinha certeza de que essa nova energia que experimentava no interior devia refletir-se em minhas feições, realçando minha beleza. Teria apreciado a oportunidade de me admirar. Mas não parecia faltar quem admirasse. A noite, à luz das fogueiras, diversos olhares cúpidos brilhavam em minha direção e recebi mais que algumas ofertas indecorosas de meus companheiros, pois mesmo aquele corpo militar de elite estava contaminado pela nova licenciosidade sexual que permeava nossa sociedade.

Eu mantinha a adaga ao meu lado à noite, e quando espetei o primeiro visitante indesejado em minha esteira, seus gritos provocaram muitos risos entre os outros. Depois disso fui poupado de novos assédios.

Mesmo depois de chegarmos ao oásis, Tanus dava-nos pouco descanso.

Enquanto esperávamos que Kratas nos alcançasse, ele fazia os homens exercitar-se com as armas em competições de arco, luta e corrida. Agradou-me ver que Kratas havia escolhido os homens estritamente segundo as instruções que eu lhe dera. Não havia um só bru-tamontes entre eles. Com exceção do próprio Tanus, eram homens pequenos, ágeis e adequados aos papéis que eu planejara para eles.

Kratas chegou apenas dois dias depois de nós. Levando em conta seu retorno a Karnak e o tempo necessário para cumprir as tarefas que Tanus lhe incumbira, isso significava que ele devia ter viajado ainda mais rápido que nós.

— O que o fez demorar? — foi a saudação de Tanus. — Encontrou alguma senhorita amável no caminho?

— Tive de carregar dois grandes pesos — ele respondeu, abraçando o outro. — Seu arco e o selo do falcão. Estou feliz por me ver livre de ambos. — E entregou a arma e a estatueta com um sorriso, contente por estar novamente com seu chefe.

Tanus imediatamente pegou Lanata e foi para o deserto. Acompanhei-o na perseguição a um bando de gazelas. Com aquelas ágeis criaturas saltando e disparando pela planície, foi extraordinário ver Tanus abater mais de uma dúzia delas com o mesmo número de flechas. Naquela noite, enquanto nos banqueteávamos com fígados e filés grelhados, discutimos a próxima etapa de meu plano.

De manhã deixamos Kratas no comando dos guardas e Tanus e eu partimos para a costa. Foi apenas um dia e meio de viagem até nosso objetivo, uma aldeia de pescadores e, ao meio-dia, depois de subir a última montanha, vimos lá embaixo a faiscante extensão do mar. Daquela altura podíamos enxergar claramente o contorno escuro do recife de corais sob a superfície turquesa da água.

Assim que entramos na aldeia, Tanus chamou o chefe, um velho que veio correndo diante da imponência do oficial. Quando Tanus lhe mostrou o selo do falcão, ele caiu de joelhos como se estivesse diante do próprio faraó e bateu a cabeça três vezes no chão, com tanta força que temi que se ferisse seriamente. Quando o ajudei a erguer-se, ele nos levou aos melhores alojamentos da aldeia, sua própria cabana imunda, expulsando a família para nos ceder espaço.

Depois de comermos uma tigela de peixe cozido e uma taça do delicioso vinho de palmeira, Tanus e eu fomos até a praia de areias brancas ofuscantes. Lavamos o suor e a poeira do deserto nas águas cálidas da laguna, encerrada por uma coroa de ásperos corais paralelos à praia. Atrás de nós, as montanhas íngremes, sem o menor vestígio de verde, subiam contra o céu profundo do deserto.

O mar, as montanhas e o céu combinavam-se numa sinfonia grandiloqüente que assombrava os sentidos. Mas tivemos pouco tempo para admirar tudo isso, pois os barcos de pesca estavam voltando. Cinco pequenos cascos em mau estado, com velas feitas de palha trançada, entravam pela passagem entre os recifes. A carga de peixes que traziam era tão grande que pareciam prestes a afundar antes de chegar à praia.

Sou fascinado pela abundância natural que os deuses nos oferecem; assim, examinei curiosamente a pescaria que foi despejada na praia e interroguei os pescadores sobre as centenas de espécies diferentes. A montanha de peixes constituía um tesouro resplandecente e multico-lorido, e desejei ter meus papiros e tintas para registrar tudo aquilo.

Mas foi um breve interlúdio. Logo que descarregaram a pescaria embarquei num dos pequenos veleiros, que cheirava terrivelmente à sua função, e acenei para Tanus na praia quando passamos pela abertura nos recifes. Ele ficaria ali até que eu voltasse com o equipamento de que necessitávamos para a próxima parte do plano. Mais uma vez, eu não queria que o reconhecessem no lugar aonde me dirigia. Sua função agora era impedir que qualquer pescador ou algum de seus familiares se esgueirasse pelo deserto para encontrar os pegas e relatar a presença na aldeia de um senhor louro que trazia o selo do falcão.

O barco ergueu a proa ao primeiro borrifo de mar aberto. O piloto apanhou o vento e dirigiu-o para o norte, navegando paralelamente à costa marrom e inerte. Foi um rápido percurso, e antes que a noite caísse o piloto apontou sobre a proa o amontoado de construções de pedra do porto de Safaga, ao longe no litoral.

Há mil anos Safaga era o entreposto de todo o tráfego comercial do Oriente para o Alto Reino. De pé na proa da pequena embarcação, pude distinguir no horizonte as formas de barcos muito maiores que transitavam entre Safaga e os portos árabes no litoral leste do mar estreito. Já era noite quando desembarquei na praia de Safaga, e ninguém pareceu notar minha chegada. Eu sabia exatamente aonde me dirigia, pois visitara com regularidade o porto sob os nefastos encargos do senhor Intef. Naquela hora viam-se as ruas quase vazias, mas as tavernas estavam repletas. Caminhei rapidamente até a casa do mercador Tiamat. Era um homem rico, dono da maior casa da cidade antiga. Um escravo armado barrou minha entrada.

— Diga a seu patrão que está aqui o cirurgião de Karnak que lhe salvou a perna — instruí-o, e o próprio Tiamat saiu mancando para me receber. Espantou-se ao ver meu disfarce clerical, mas teve o bom senso de não comentar nada ou mencionar meu nome diante do escravo. Introduziu-me em seu jardim murado, e assim que ficamos a sós exclamou:

— É você mesmo, Taita? Ouvi dizer que havia sido assassinado pelos pegas em Elefantina.

Ele era um homem de meia-idade e volumoso, de feições inteligentes e mente arguta. Alguns anos antes fora trazido a mim numa liteira. Um grupo de viajantes o encontrara ao lado da estrada, onde fora deixado como morto depois que sua caravana fora pilhada pelos carniceiros. Eu o havia suturado e até consegui salvar-lhe a perna já meio gangrenada quando o vi pela primeira vez. Mas sempre andaria mancando.

— Estou feliz por ver que os relatos de sua morte eram prematuros. — Ele riu, e bateu palmas para que os escravos me trouxessem uma taça de sherbet frio e um prato de figos e tâmaras com mel.

Após um intervalo de conversa educada, ele perguntou suavemente:

— Há algo que eu possa fazer por você? Devo-lhe minha vida. É só pedir. Minha casa é sua, tudo o que tenho é seu.

— Estou a serviço do faraó — disse-lhe, e retirei o selo real de sob a túnica.

II Sua expressão ficou séria.

— Reconheço o selo do falcão faraônico. Mas não era necessário mostrar-me. Peça-me o que quiser. Não posso lhe recusar.

Ele escutou tudo o que eu tinha a dizer em silêncio, e quando terminei mandou chamar seu bailio e deu-lhe ordens. Antes de despachar o homem, virou-se para mim e perguntou:

— Há algo que eu tenha esquecido? Qualquer outra coisa de que precise?

— Sua generosidade é infinita — retruquei. — No entanto, há mais uma coisa. Preciso de material para escrever.

i Ele virou-se para o empregado:

— Providencie também papiros, pincéis e tinta.

Depois que o criado saiu, ficamos sentados conversando durante boa parte da noite. Tiamat morava no centro da rota mercantil mais movimentada do Alto Reino e sabia de todos os rumores e sussurros dos mais remotos cantos do império e de além-mar. Naquelas poucas horas em seu jardim inteirei-me de mais coisas do que teria sabido em um mês na ilha Elefantina.

— Você ainda paga pedágio aos pegas para que permitam a passagem das caravanas? — perguntei, e ele encolheu os ombros em resignação.

— Depois do que fizeram comigo, que alternativa? A cada estação suas exigências tornam-se mais exorbitantes. Devo pagar mais de um quarto do valor de minha mercadoria assim que a caravana parte de Safaga, e a metade de meus lucros após as vendas em Tebas. Logo eles nos transformarão a todos em mendigos e a relva crescerá nas rotas das caravanas. O comércio no reino minguará e morrerá.

— Como faz os pagamentos? — perguntei. — Quem determina a quantia e quem a recebe?

— Eles têm espiões aqui no porto. Observam cada carga que chega e sabem o que cada caravana transporta ao deixar a cidade. Antes que chegue ao passo nas montanhas será interceptada por um dos assaltantes, que exigirá a fiança.

Era bem mais de meia-noite quando Tiamat chamou um escravo para acompanhar-me até um quarto. Tiamat abraçou-me.

— Você partirá antes que eu me levante amanhã. Adeus, meu bom amigo. Minha dívida com você ainda não está quitada. Procure-me sempre que precisar.

O mesmo escravo acordou-me antes do amanhecer e levou-me pela escuridão até o porto. Uma nave mercante da frota de Tiamat estava ancorada dentro dos recifes. O capitão levantou âncora assim que embarquei.

No meio da manhã deslizamos pela passagem entre os corais e fundeamos diante da aldeia, onde Tanus me aguardava na praia.

Durante minha ausência Tanus havia conseguido reunir seis burros decrépitos, e os marinheiros do navio de Tiamat carregaram até a praia os fardos que trouxéramos de Safaga, depositando-os no lombo das pobres criaturas. Tanus e eu demos ao capitão ordens expressas para esperar nossa volta, e então rumamos com a tropa de burros para o oásis de Gebel Nagara.

Os homens de Kratas obviamente estavam aborrecidos com o calor e as moscas do deserto, pois nos receberam como se não nos vissem há muito tempo. Tanus mandou que Kratas os reunisse em fila. Os soldados observaram quando eu abri o primeiro fardo. Quase imediatamente seu interesse deu lugar à surpresa quando desembalei as roupas de uma escrava. Logo se ouviu um burburinho de especulações quando os fardos produziram mais setenta e nove trajes femininos completos.

Kratas e dois de seus oficiais ajudaram-me a colocar cada um deles na areia diante de cada guerreiro, e então Tanus ordenou:

— Tirem as roupas! Vistam o traje à sua frente!

Houve um rumor de protesto e risos incrédulos, e foi somente quando Kratas e os oficiais passaram diante da fileira com expressões rígidas que eles começaram a obedecer a ordem.

Ao contrário de nossas mulheres, que vestem roupas leves e muitas vezes deixam o peito e as pernas nus, as assírias usam saias que varrem o chão e mangas que recobrem seus braços até os pulsos. Por motivo de recato elas chegam a tapar os rostos com véus quando saem à rua, embora essas restrições talvez lhes sejam impostas pelo ciúme doentio de seus homens. Há também uma grande diferença entre a terra ensolarada do Egito e climas mais amenos, onde o céu despeja água que se torna sólida e branca nas montanhas, e os ventos congelam até a morte a carne e os ossos.

Depois que os homens superaram o primeiro choque de ver-se naquelas bizarras vestimentas, entraram no espírito do momento. Logo havia oitenta escravas veladas, exibindo-se e meneando-se com as longas saias, beliscando-se mutuamente as nádegas e lançando olhares debochados para Tanus e seus oficiais.

Estes não conseguiam mais manter-se sérios. Talvez devido às minhas circunstâncias peculiares, sempre achei vagamente repulsivo o espetáculo de homens vestidos de mulheres, mas é estranho como poucos compartilham essa opinião, e basta um rufião peludo meter-se numa saia para levar a platéia ao desvario.

Em meio à balbúrdia, felicitei-me por ter insistido que Kratas escolhesse os homens menores e mais esguios do esquadrão. Vendo-os ali, tive a certeza de que poderia levar a cabo minha farsa. Eles precisariam apenas de algumas aulas de maneiras femininas.

Na manhã seguinte, nossa estranha caravana passou pela aldeia de pescadores e desceu para a praia, onde nos esperava o navio mercante. Kratas e oito oficiais a escoltavam. A completa ausência de escolta para uma encomenda tão valiosa certamente teria despertado suspeitas. Nove homens armados e vestidos com as roupas variadas dos mercenários seriam o suficiente para isso, mas não deteriam um ataque maciço dos pegas.

No final da caravana vinha Tanus, vestido com a rica túnica e a coifa bordada de contas, típicas dos mercadores da região do Eufrates. Sua barba havia crescido densamente e eu a enrolara nos cachos apertados que os assírios tanto apreciam. Muitos desses asiáticos, especialmente os das elevadas regiões montanhosas do norte, têm a mesma cor de pele de Tanus, e ele estava perfeito em seu papel.

Eu o acompanhava de perto. Havia superado minha aversão pelas roupas femininas e adotara a saia longa e o véu, assim como as vistosas jóias de uma esposa assíria. Estava decidido a não ser reconhecido quando voltasse a Safaga.

A viagem foi animada pelo enjôo da maioria das escravas e de vários oficiais, acostumados a navegar nas águas tranqüilas do grande rio. A certa altura havia tantos deles enfileirados na amurada para fazer suas oferendas aos deuses do mar, que o navio adernou visivelmente.

Ficamos todos aliviados quando pisamos na praia de Safaga, onde provocamos grande excitação. As garotas assírias eram famosas por suas artes no leito de amor. Dizia-se que algumas delas eram capazes de truques que fariam reviver uma múmia de mil anos. Era evidente para os que observavam nosso desembarque que os véus de nossas escravas ocultavam imagens de grande beleza, pois um avaro mercador assírio não as transportaria tão longe e a grande custo se não tivesse certeza de vendê-las por bom preço nos mercados de escravos do Nilo. Um comerciante local aproximou-se imediatamente de Tanus e ofereceu-se para comprar no ato todo o lote de moças, poupando-lhe a onerosa travessia do deserto. Tanus descartou-o com desdém, mas o comerciante insistiu:

— Já lhe advertiram sobre os perigos da jornada que pretende empreender? Antes de alcançar o Nilo terá de pagar uma taxa para passar em segurança que comerá todo o seu lucro.

— Quem irá me obrigar a pagar? — perguntou Tanus. — Só pago o que devo.

— Há gente que guarda a estrada — avisou o mercador. — E mesmo que você pague o que exigem, não há garantia de que o deixarão passar incólume, especialmente com mercadorias tão tentadoras como as que está levando. Os abutres na rota do Nilo estão tão gordos de se alimentar das carcaças de comerciantes teimosos que mal conseguem voar. Venda-as para mim agora e terá um bom lucro...

— Tenho guardas armados — Tanus indicou Kratas e seu pequeno pelotão — que enfrentarão qualquer bandido que se aproxime.

Os curiosos que ouviam a conversa sorriram e se entreolharam diante da bravata. O mercador encolheu os ombros.

— Muito bem, meu valente amigo. Na minha próxima travessia do deserto procurarei seu esqueleto à margem da estrada. Reconhecerei você pela barba vermelha.

Como me havia prometido, Tiamat tinha quarenta burros à nossa espera. Vinte deles estavam carregados de odres com água, e os restantes com arreios especiais para levar os fardos e trouxas que trouxéramos do navio.

Eu estava ansioso para que ficássemos no porto o menor tempo possível, sob todos aqueles olhares perscrutadores. Bastaria que um lapso de uma das garotas escravas revelasse seu verdadeiro gênero e tudo estaria perdido. Kratas e a escolta as apressaram pelas ruas estreitas, mantendo os curiosos a distância e verificando se as escravas tinham os véus no lugar e os olhos baixos. Nenhuma devia reagir com voz de homem aos comentários que nos acompanharam até chegarmos ao campo aberto.

Na primeira noite acampamos ainda perto de Safaga. Embora eu não previsse um ataque até que estivéssemos bem além do primeiro passo nas montanhas, tinha a certeza de já estarmos sendo observados pelos espias dos carniceiros.

Enquanto ainda estava claro, certifiquei-me de que nossas escravas se comportassem como mulheres, que mantivessem os corpos ocultos e que quando entrassem numa ravina para satisfazer as exigências da natureza se agachassem de maneira decorosa e não vertessem o jato de pé.

Depois que escureceu Tanus ordenou que se abrissem os fardos transportados pelos burros, e as armas que continham foram distribuídas entre as "moças". Cada uma delas dormiu com a espada e o arco escondidos sob a esteira.

Tanus dispôs sentinelas duplos ao redor do acampamento. Depois de os inspecionarmos e verificarmos que estavam bem colocados e totalmente alertas, Tanus e eu nos esgueiramos e retornamos no escuro até Safaga. Conduzi-o pelas ruas sombrias até a casa de Tiamat. O mercador nos esperava com uma refeição pronta e percebi sua felicidade por conhecer Tanus.

— Sua reputação o precede, senhor Harrab. Conheci seu pai, um verdadeiro homem — ele cumprimentou Tanus. — Apesar de ter ouvido persistentes rumores de que você morreu no deserto há menos de uma semana e de que neste exato momento seu corpo está sendo embalsa-mado na margem ocidental do Nilo, passando pelo ritual de quarenta dias, você é bem-vindo a esta humilde casa.

Enquanto desfrutávamos o banquete oferecido por Tiamat, Tanus interrogou-o minuciosamente sobre os pegas e ele respondeu de boa vontade.

Afinal Tanus olhou para mim e assenti. Ele voltou-se para Tiamat e disse:

— Você foi para nós um amigo generoso, mas não fomos muito honestos. Foi por necessidade. Era de vital importância que ninguém conhecesse nosso verdadeiro objetivo nesta empreitada. Agora lhe direi que nosso alvo é esmagar os pegas e entregar seus líderes ao faraó.

Tiamat sorriu e afagou a barba, dizendo:

— Não me surpreende, pois soube da acusação que o faraó lhe fez no festival de Osíris. Isso e seu óbvio interesse pelos facínoras deixaram-me pouca dúvida. Só posso dizer que farei oferendas aos deuses pelo seu êxito.

— Mas precisarei mais uma vez de sua ajuda — Tanus disse.

— É só pedir.

— Acha que os pegas já estão cientes de nossa caravana?

— Toda Safaga está falando de vocês — respondeu Tiamat. — E a carga mais valiosa que chegou nesta temporada. Oitenta lindas escravas devem valer pelo menos mil anéis de ouro cada uma em Karnak — Ele sorriu e balançou a cabeça. — Pode estar certo de que os carniceiros já sabem tudo sobre vocês. Vi ao menos três de seus espiões na multidão que os observava no cais. Pode contar que os encontrarão e farão suas exigências antes que cheguem ao primeiro desfiladeiro.

Quando nos levantamos para sair, Tiamat acompanhou-nos até a porta.

— Que todos os deuses velem por sua missão. Não apenas o faraó, mas todas as almas vivas do reino ficarão endividadas se conseguirem deter essa terrível praga que ameaça destruir nossa civilização e conduzir-nos de volta à barbárie.

Ainda estava escuro e fresco na manhã seguinte quando a coluna partiu. Tanus, com Lanata pendurado no ombro, ia à frente da caravana. Eu o seguia com toda a minha formosura feminina.

Atrás vinha a fila de burros ligados pelos arreios, no meio da trilha batida. As escravas andavam em colunas duplas, dos dois lados da tropa de burros. Suas armas estavam escondidas nos volumes sobre os animais. Bastava a qualquer homem estender o braço para alcançar o punho de sua espada.

Kratas havia dividido a escolta em três grupos de seis homens cada, comandados por Astes, Remrem e ele próprio. Astes e Remrem eram guerreiros famosos e mais que merecedores do posto de comandantes. Mas ambos haviam recusado diversas promoções para permanecer com Tanus, pois ele inspirava esse tipo de fidelidade em todos os que serviam sob suas ordens. Não pude deixar de pensar mais uma vez que daria um excelente faraó.

As escoltas marchavam agora ao lado da coluna, fazendo o possível para disfarçar sua postura militar. Para os espias que certamente nos vigiavam dos morros, isso pareceria ter a finalidade de impedir que alguma escrava fugisse. Na verdade elas tinham bastante trabalho para evitar o ritmo de marcha e cantar as canções debochadas do regimento.

— Você aí, Kernit! — ouvi Remrem desafiar um deles. — Não dê passos tão longos, homem, e balance um pouco essa sua bunda gorda! Tente parecer interessante.

— Me dê um beijo, capitão — reagiu Kernit — e farei tudo o que quiser.

O calor aumentava e a miragem começava a fazer as rochas dançar. Tanus voltou-se para mim.

— Logo ordenarei o primeiro descanso. Um copo d'água para cada um...

— Meu bom marido — interrompi-o. — Seus amigos chegaram. Olhe para frente!

Tanus virou-se de novo e instintivamente agarrou o grande arco pendurado a seu lado.

— E que gente fina eles são!

Naquele momento a coluna serpenteava pelas primeiras encostas abaixo do platô desértico. De ambos os lados erguiam-se as paredes rochosas das montanhas, e havia três homens parados na trilha adiante.

O líder, alto e ameaçador, estava envolto no albornoz de lã dos viajantes do deserto, mas tinha a cabeça descoberta. Sua pele era muito escura e profundamente marcada pelas cicatrizes da varíola, o nariz era adunco como o bico de um abutre e o olho direito, uma gelatina opaca, por causa do verme da cegueira que se enfia nos olhos.

— Conheço esse vilão caolho — eu disse baixinho para que somente Tanus ouvisse. — Chama-se Shufti. É o mais famoso dos barões do deserto. Cuidado com ele. O leão é um animal dócil comparado com este.

Tanus, que pareceu não me escutar, levantou a mão direita para mostrar que não estava armado e disse alegremente:

— Que os seus dias sejam perfumados de jasmim, gentil viajante, e que uma esposa carinhosa o receba à sua porta no fim da última jornada.

— Que seus odres estejam cheios e brisas suaves lhe refresquem a fronte quando atravessar as areias sedentas — respondeu Shufti, sorrindo. Aquele sorriso era mais feroz que o rosnar do leopardo, e seu único olho reluziu horrivelmente.

— É gentil, meu nobre senhor — Tanus agradeceu. — Gostaria de lhe oferecer uma refeição e a hospitalidade de meu acampamento, mas rogo sua indulgência. Temos uma longa estrada pela frente e devemos prosseguir.

— Apenas mais um pouco de seu tempo, meu bom assírio. — Shufti avançou, bloqueando o caminho. — Tenho algo de que precisa, se você e sua caravana desejam alcançar o Nilo em segurança. — Ele mostrou um pequeno objeto.

— Ah, um amuleto! — exclamou Tanus. — Então é um mago! Que espécie de amuleto é esse que está me oferecendo?

— Uma pena. — Shufti continuava sorrindo. — Uma pena de pega. Tanus sorriu, como que para agradar a uma criança.

— Muito bem, então. Dê-me a pena e não o retardarei mais.

— Um presente contra outro. Deve dar-me algo em troca — disse o bandido. — Dê-me vinte de suas escravas. Depois, quando voltar do Egito, o encontrarei de novo no caminho e você me dará a metade dos lucros da venda das demais escravas.

— Por um única pena?! — Tanus caçoou. — Parece-me um mau negócio.

— Esta não é uma pena comum. É uma pena de pega — Shufti ressaltou. — Está tão mal informado que nunca ouviu falar desse pássaro?

— Deixe-me ver essa pena mágica.

Tanus caminhou na direção dele com a mão direita estendida e Shufti avançou ao seu encontro. Ao mesmo tempo, Kratas, Remrem e Astes aproximaram-se de maneira inquisitiva, como que para examinar a pena.

Em vez de apanhar o presente da mão do outro, subitamente Tanus agarrou o pulso de Shufti e torceu-o nas costas. Com um grito de surpresa, o bandido caiu de joelhos e Tanus o conteve com facilidade. Kratas e seus homens correram e agarraram os dois outros, tão surpresos quanto o chefe. Derrubaram as armas que traziam nas mãos e os arrastaram até onde estava Tanus.

— Então os passarinhos querem assustar Kaarik, o assírio, com suas ameaças? Sim, meu bom vendedor de penas, ouvi falar nos pegas. Ouvi dizer que são um bando de avezinhas covardes e faladeiras, que fazem mais barulho que um bando de pardais.

Ele torceu o braço de Shufti com mais força, até que o bandido gritou de dor e caiu de rosto no chão.

— Sim, ouvi falar nos pegas, mas já ouviu algo sobre Kaarik, o terrível? — Ele fez um sinal para Kratas, e rápida e eficientemente deixaram os três bandidos nus e pregados no chão, de bruços e com os membros em forma de cruz.

— Quero que se lembre de meu nome e fuja voando como uma boa pegazinha na próxima vez em que o escutar — disse-lhe Tanus, e fez novo sinal para Kratas, que agarrou o cabo de seu chicote, feito do mesmo couro de hipopótamo que o de Rasfer. Tanus estendeu a mão para apanhá-lo e Kratas entregou-o com relutância.

— Não fique tão triste, capataz — disse Tanus. — Depois o deixarei se divertir. Mas Kaarik, o assírio, sempre se serve primeiro.

Tanus estalou o chicote no ar várias vezes, fazendo-o sibilar como as asas dos gansos em fuga. Shufti encolheu-se e girou a cabeça, olhando para Tanus.

— Você está louco, animal assírio! Não percebe que sou um barão do clã dos pegas? Não ouse fazer isso comigo... — Suas costas e nádegas nuas eram pontilhadas de cicatrizes de varíola.

Tanus levantou o chicote bem alto e desceu-o com toda a força. Deixou uma marca vermelha larga como meu dedo nas costas de Shufti. A dor foi tão intensa que todo o corpo do bandido teve uma convulsão e o ar saiu de seus pulmões com um chiado, de modo que ele não conseguiu gritar. Tanus ergueu novamente o açoite e fez outra marca funda paralela à primeira, quase tocando-a. Desta vez Shufti encheu os pulmões e soltou um berro rouco, como um búfalo que caísse num poço. Tanus ignorou suas contorções e os gritos ultrajados e trabalhou metodi-camente, distribuindo os golpes como se tecesse um tapete.

Quando terminou, as pernas, nádegas e costas de sua vítima estavam rendilhadas com marcas rubras. Nenhum dos golpes se havia sobreposto a outro. A pele estava intacta e nenhuma gota de sangue brotou, mas Shufti não mais se mexia ou gritava. Estava deitado de rosto no chão, a respiração roncando na garganta, de modo que cada vez que expirava erguia uma nuvem de poeira. Quando Remrem e Kratas o soltaram, ele não tentou se sentar, nem sequer se mexeu.

Tanus passou o chicote para Kratas.

— O próximo é seu, capataz. Vamos ver se faz uma tatuagem bonita nas costas dele.

Os golpes de Kratas vibravam com potência, mas faltava-lhes o requinte exibido por Tanus. Em pouco tempo as costas do bandido gotejavam como um jarro de vinho rachado. As gotas de sangue caíam na terra e formavam bolinhas de lama.

Suando um pouco, Kratas enfim se satisfez e passou a chibata para Astes, indicando o último bandido.

— Dê-lhe algo que o faça lembrar-se das boas maneiras.

Astes tinha um estilo ainda mais rústico que o de Kratas. Quando acabou, as costas do último bandido pareciam um pedaço de carne cortado por um açougueiro demente.

Tanus fez sinal para a caravana avançar em direção ao desfiladeiro nas montanhas de rochas avermelhadas. Nos demoramos um pouco junto aos três homens nus.

Afinal Shufti estremeceu e levantou a cabeça, e Tanus dirigiu-se a ele com ironia:

— Agora vamos deixá-lo, meu amigo. Lembre-se do meu rosto e seja mais cauteloso na próxima vez em que o vir. — Tanus apanhou a pena de pega e enfiou-a na faixa que tinha ao redor da cabeça. — Agradeço-lhe pelo presente. Que suas noites sejam embaladas pelos braços de belas damas.

Ele fez o gesto assírio de despedida, tocando o coração e os lábios, e eu o segui pela estrada ascendente, atrás da caravana.

Virei-me para trás antes de descermos do outro lado da colina. Os três carniceiros estavam de pé, apoiando-se uns nos outros para não cair. Mesmo a distância pude ver a expressão do rosto de Shufti. Era a essência destilada do ódio.

— Bem, vocês garantiram que todos os pegas deste lado do Nilo virão atrás de nós no instante em que dermos o primeiro passo depois do desfiladeiro — eu disse a Kratas e seus homens, e não os teria agradado mais se tivesse prometido um navio cheio de cerveja e lindas mulheres.

Da crista do desfiladeiro olhamos pela última vez para o azul refrescante do mar e então descemos para a fornalha de pedras e areia que nos separava do Nilo.

Ao avançarmos, o calor nos envolveu como um inimigo mortal-Parecia entrar por nossas bocas e narinas arfantes, roubando a umidade de nossos corpos. Secava a pele e a fazia rachar até que nossos lábios se abriram como figos maduros. As pedras do chão estavam quentes como se tivessem saído do forno de um oleiro, escaldando nossos pés e criando bolhas mesmo através das solas de couro das sandálias. Era impossível manter a marcha durante as horas mais quentes do dia. Deitávamo-nos à sombra tênue das tendas de linho que Tiamat nos fornecera e suávamos como cães depois da caçada.

Quando o sol descia na direção do horizonte recortado de rochedos, retomávamos viagem. O deserto a nosso redor estava carregado de uma ameaça sem nome que reduziu até mesmo o moral da Guarda do Crocodilo Azul. A longa e lenta coluna serpeava como uma cobra ferida entre os rochedos negros e as dunas amarronzadas, seguindo a antiga rota por onde haviam trafegado incontáveis viajantes antes de nós.

Quando a noite finalmente caiu, o céu acendeu-se num espetáculo de estrelas, e o deserto ficou tão iluminado que do meu posto à frente da caravana eu podia reconhecer a forma de Kratas na retaguarda, a duzentos passos de distância. Marchamos durante metade da noite antes que Tanus desse a ordem de parar. No dia seguinte levantamos antes do amanhecer e caminhamos até que a miragem dissolvesse os rochedos em volta, fazendo o horizonte ondular como se fosse piche derretido.

Não vimos sinal de vida, a não ser uma vez, quando um bando de babuínos com cabeça de cachorro gritou para nós do alto de uma grande pedra achatada. Os abutres planavam tão alto no céu azul que pareciam traças girando em círculos lentos e deliberados acima de nós.

Quando descansamos ao meio-dia, os redemoinhos de vento faziam piruetas com a graça de dançarinas através da planície, e a gamela de água que era nossa ração pareceu evaporar-se em minha boca.

— Onde estão eles? — Kratas resmungou nervoso. — Pelo escroto suado de Seth, espero que esses passarinhos encontrem coragem logo e venham cacarejar.

Embora fossem todos veteranos rijos, habituados às privações e ao desconforto, os nervos e os temperamentos estavam se desgastando. Bons camaradas e velhos amigos começavam a rosnar entre si sem qualquer motivo e a discutir pela ração de água.

— Shufti é um velho cão sabido — eu disse a Tanus. — Vai reunir suas forças e deixar que o procuremos, em vez de correr ao nosso encontro. Vai esperar que estejamos cansados da viagem e distraídos, para então atacar.

No quinto dia, soube que nos aproximávamos do oásis de Gallala ao ver os penhascos escuros marcados pelas cavernas de antigos túmulos. Séculos atrás, o oásis havia sustentado uma pujante cidade, mas um terremoto sacudira as montanhas e danificara os poços, reduzindo a água a algumas gotas. Apesar de terem aprofundado os poços para alcançar a água, e de os degraus de terra descerem até onde sua superfície ficava constantemente na sombra, a cidade havia morrido. As paredes sem teto erguiam-se desoladas no silêncio e lagartos tomavam sol nos pátios onde ricos mercadores um dia desfrutaram seus haréns.

Nossa principal preocupação era reabastecer os odres. As vozes dos homens que recolhiam água no fundo dos poços eram distorcidas pelo eco distante. Enquanto se ocuparam disso, Tanus e eu demos uma volta rápida pela cidade em ruínas. Era um lugar solitário e melancólico, em cujo centro se erguia o templo dilapidado ao deus patrono de Gallala. O telhado havia desabado e em alguns pontos as paredes estavam desmoronando. Sua única entrada era o portal na fachada a oeste.

Parados no centro do templo, notei as pegadas de um bando de babuínos e mostrei-as a Tanus.

— Devem vir aqui beber nos poços — disse-lhe.

Naquela noite, sentados ao redor de pequenos fogos de excremento de burro seco, escutamos novamente os macacos. Os velhos machos gritavam desafios nos morros que cercavam a cidade, seu alarido ecoando nos penhascos. Fiz um sinal para Tanus:

— Seu amigo Shufti chegou. Suas escoltas estão no alto dos morros nos observando. Foram eles que assustaram os babuínos.

— Espero que você esteja certo. Meus soldados estão perto de se amotinar. Sabem que tudo isto foi idéia sua, e se estiver enganado eu poderia ter de lhes dar sua cabeça ou suas costelas para acalmá-los — Tanus resmungou e foi falar com Astes junto da fogueira ao lado.

Quando os homens perceberam a proximidade do inimigo, um novo estado de espírito rapidamente se apoderou do acampamento. Os res-mungos cessaram e os soldados sorriam uns para os outros à luz do fogo, testando disfarçadamente o gume das espadas escondidas sob as esteiras. Mas continuaram a desempenhar os movimentos normais na vida de uma caravana para não alertar os vigias nos morros acima. Afinal, todos nos deitamos e deixamos os fogos se extinguir, mas ninguém dormiu. Eu ouvia os soldados tossir e mexer-se no escuro a meu redor. Longas horas se escoaram, e pelo teto aberto observei as constelações lá em cima girar em seu esplendor, mas o ataque não veio.

Pouco antes do amanhecer, Tanus fez a ronda das sentinelas pela última vez, e ao voltar para seu lugar junto às cinzas da fogueira parou do meu lado por um momento e sussurrou:

— Você e seus amigos babuínos se merecem. Todos guinchavam para as sombras.

— Os pegas estão aqui. Posso sentir seu cheiro. Os morros estão cheios deles — protestei.

— Você está é sentindo o cheiro do desjejum — ele resmungou. Tanus sabe que detesto insinuações de que eu seja um glutão. Em vez de retrucar diante de humor tão pueril, fui para um monte de ruínas na escuridão para me aliviar.

Quando me agachei, mais um macaco gritou, emitindo um som selvagem que ecoou rompendo o silêncio sobrenatural da noite fria. Virei a cabeça naquela direção e escutei, leve e distante, o ruído de metal batendo na pedra, como se uma mão nervosa houvesse deixado cair um punhal lá no alto do penhasco ou um escudo houvesse raspado o granito quando um homem armado se posicionara.

Sorri para mim mesmo, complacente; tenho poucos prazeres na vida comparáveis ao de fazer Tanus engolir suas palavras. Quando voltei para minha esteira, sussurrei para os homens por quem passei:

— Preparem-se. Eles estão aqui. — E ouvi meu aviso ser transmitido de boca em boca.

Lá no alto as estrelas começavam a desaparecer e a alvorada avançava sobre nós tão imperceptível quanto uma leoa preparando o bote a um grupo de órix. Então, subitamente, ouvi uma sentinela sobre a parede do templo assobiar, um som que poderia ser o pio de um pássaro, mas que conhecíamos bem. Imediatamente um frêmito percorreu o acampamento, mas foi contido pelos sussurros urgentes de Kratas e dos oficiais:

— Parados, Azuis! Lembrem-se das ordens. Mantenham as posições! — E nenhum homem se moveu da esteira.

Sem levantar-me, e com o xale mascarando meu rosto, virei lentamente a cabeça e olhei para a crista dos rochedos, que se elevavam acima das paredes do templo. A silhueta dentada dos morros de granito começou a modificar-se sutilmente. Tive de piscar os olhos para me certificar do que estava vendo. Então, devagar, virei a cabeça num círculo completo, e era o mesmo em qualquer lugar que olhasse. A toda a volta delineavam-se contra o céu as silhuetas escuras e ameaçadoras de homens armados, formando uma paliçada ininterrupta pela qual ninguém teria esperança de escapar.

Entendi então por que Shufti havia retardado tanto sua retaliação. Fora necessário muito tempo para reunir um tal exército de bandidos. Devia haver mil homens ou mais, embora à luz fraca fosse impossível contá-los. Eles nos excediam em pelo menos dez para cada um, e senti meu ânimo vacilar. Era uma triste perspectiva, mesmo para uma companhia de Azuis.

Os pegas mantinham-se imóveis como as rochas que os cercavam, e fiquei alarmado por essa demonstração de disciplina. Havia esperado que despencassem pelos morros numa corrida desordenada, mas eles se comportavam como guerreiros experientes. Sua imobilidade era mais ameaçadora e intimidativa do que se estivessem gritando e brandindo as espadas.

Com a rápida chegada do dia pudemos vê-los com maior nitidez. Os primeiros raios do sol cintilaram em seus escudos e suas lâminas de bronze, lançando feixes luminosos em nossos olhos. Todos usavam uma faixa de lã preta ao redor da cabeça, deixando à mostra apenas os olhos malignos como os dos ferozes tubarões azuis, o terror do mar que deixáramos para trás.

O silêncio perdurou até que pensei que meus nervos fossem se dilacerar e minha cabeça explodir pela pressão interna do sangue. Então, subitamente, ergueu-se uma voz, rasgando o silêncio da madrugada e ecoando pelas encostas:

— Kaarik! Está acordado?

Reconheci Shufti, apesar do rosto coberto. Estava no centro da parede rochosa a oeste, por onde passava a trilha.

— Kaarik! — ele chamou de novo. — É hora de pagar o que me deve, mas o preço aumentou. Agora quero tudo. Tudo! — ele repetiu, e atirou o pano para o lado, revelando o rosto cheio de perfurações. — Quero tudo o que você tem, inclusive sua cabeça estúpida e arrogante!

Tanus levantou-se da esteira, jogando de lado a coberta de pele de carneiro.

— Então terá de descer até aqui para tirá-la de mim — gritou em resposta, desembainhando a espada.

Shufti levantou o braço e seu olho cego brilhou na luz como uma moeda de prata. Então baixou o braço abruptamente.

A esse sinal, um brado percorreu as fileiras de homens no topo dos morros. Eles ergueram as armas e as agitaram em direção ao céu amarelo-pálido. Shufti fez um novo gesto e todos desceram as encostas como uma torrente, para o estreito vale de Gallala.

Tanus correu para o centro do pátio do templo, onde os antigos habitantes haviam erguido um altar de pedra a seu patrono, o anão Bes, deus da música e da embriaguez. Kratas e os oficiais juntaram-se a ele correndo, enquanto as escravas e eu nos encolhemos nas esteiras e cobrimos as cabeças, gemendo de pavor.

Tanus saltou para o altar e apoiou-se num dos joelhos enquanto flexionava o grande arco Lanata. Foi necessária toda a sua força para vergá-lo, mas quando ele voltou a levantar-se rebrilhou com suas espirais de fio de prata, como se fosse um ser vivo. Tanus tirou uma flecha da aljava pendurada nas costas e mirou o portal por onde deveria entrar a horda inimiga.

Abaixo do altar, Kratas havia colocado seus homens em fila única, os quais também mantinham os arcos prontos voltados para a entrada. Formavam um grupinho insignificante ao redor do altar, e senti um nó na garganta ao vê-los tão heróicos e destemidos. Decidi num súbito impulso compor um soneto em sua homenagem, mas antes que pudesse encontrar o primeiro verso a multidão de facínoras irrompeu aos berros pelo portal.

Apenas cinco homens de cada vez podiam subir a escada íngreme diante da entrada, distante menos de quarenta passos de onde se encontrava Tanus, no altar. Ele disparou a primeira seta, que sozinha matou três homens. O primeiro foi um sujeito alto, vestido num saiote curto, com longas tranças ensebadas descendo-lhe pelas costas. A flecha atingiu-o no centro do peito nu e atravessou seu tórax com tanta facilidade como se fosse um alvo recortado numa folha de papiro.

Lubrificada pelo sangue do primeiro, a seta acertou a garganta do homem que vinha logo atrás. Embora já perdesse a força, ela saiu pela nuca, mas não completamente. Ficou presa pelas aletas da extremidade posterior, enquanto a ponta de bronze perfurava o olho de um terceiro homem que estava muito próximo. Os dois bandidos, pregados pela seta, cambalearam no meio da abertura, bloqueando a passagem dos que se comprimiam para entrar. Afinal a ponta da flecha desprendeu-se da cabeça do terceiro bandido, trazendo o olho impalado. Os dois caíram e uma torrente de homens aos gritos passou por cima deles, ganhando o pátio. O pequeno grupo ao redor do altar os recebeu com seguidas revoadas de setas, fazendo os cadáveres quase bloquear a entrada e obrigando os que chegavam a trepar no monte de mortos e feridos.

Aquilo não podia durar muito. A pressão dos guerreiros que vinham atrás era demasiada e seu número, impressionante. Como o estouro de um dique incapaz de conter a inundação do Nilo, eles forçaram a entrada. Uma sólida massa de combatentes invadiu o pátio e cercou o pequeno grupo ao redor do altar de Bes.

Agora a distância era muito reduzida para os arcos, e Tanus e seus soldados os atiraram de lado e sacaram as espadas.

— Hórus, armai-me! — Tanus deu o grito de guerra e os homens o repetiram, recebendo os inimigos.

O bronze retinia sem cessar, mas os pegas não conseguiam atingir os poucos soldados, que haviam formado um círculo ao redor do altar. Por qualquer lado que viessem, os pegas encontravam as espadas hábeis e mortíferas dos experientes guerreiros. Mas não faltava coragem aos bandidos, que se aproximavam cada vez mais do altar. Quando um deles caía, era substituído por outro que saltava.

Vi Shufti no portal, afastado da refrega, mas insultando seus homens e impelindo-os à luta com terríveis gritos de ódio. Seu olho cego rolava na órbita enquanto ele os exortava:

— Quero o assírio vivo! Quero matá-lo lentamente e ouvi-lo chorar.

Os bandidos ignoraram completamente as mulheres, que continuavam encolhidas em suas esteiras, de cabeças cobertas, chorando e gemendo de terror. Eu também chorava, mas o combate no pátio era incômodo demais para meu gosto. A essa altura já havia mais de mil homens amontoados no espaço reduzido. Engasgado pela poeira, fui chutado e pisado pelas sandálias da horda combatente, até que consegui me arrastar para um canto do pátio.

Um dos bandidos afastou-se da luta e inclinou-se para mim. Arrancou o xale do meu rosto e por um instante fixou meus olhos.

— Mãe de Isis! — ele suspirou. — Como você é linda!

Era um demônio horroroso com falhas nos dentes e uma cicatriz na face. Seu hálito cheirava a esgoto quando ele falou junto do meu rosto:

— Espere até acabarmos esse negócio, então lhe darei algo que a fará gritar de alegria — ele prometeu, então ergueu meu rosto até o dele e me beijou.

Meu instinto natural foi afastar-me, mas resisti e retribuí o beijo. Sou um artista do amor, pois aprendi minhas técnicas nos alojamentos de rapazes do senhor Intef, e meus beijos podem derreter um homem.

Beijei-o com ardor e o bandido ficou paralisado. Então deslizei minha adaga da bainha embaixo da blusa e enfiei-lhe o bico pontiagudo no espaço entre a quinta e a sexta costelas. Quando ele gritou, abafei o som com meus lábios e segurei-o amorosamente contra o peito, torcendo a lâmina em seu coração até que, com um estremeção, ele se descontraiu completamente em meu colo e o deixei rolar para o lado.

Olhei em volta. Nos poucos momentos que levei para dar conta de meu admirador a situação do grupo de Tanus havia piorado. Havia brechas em sua formação. Dois homens tinham caído e Amseth estava ferido. Ele havia mudado a espada para a mão esquerda, enquanto o outro braço pendia ensangüentado ao lado do corpo.

Com um tremor de alívio vi que Tanus continuava ileso, rindo com a alegria selvagem daquilo tudo enquanto golpeava com a espada. Mas ele havia esperado demais para acionar a arapuca, pensei. Todo o bando de pegas estava amontoado no pátio e o acossava como cães em volta de um leopardo encarapitado na árvore. Em instantes ele e seu valente grupo seriam dominados.

Enquanto eu olhava Tanus matou mais um deles com um golpe certeiro na garganta, depois arrancou a espada da carne e recuou um passo. Atirando a cabeça para trás, ele soltou um berro que ecoou pelas paredes em volta.

— A mim, Azuis!

No mesmo instante todas as garotas escravas pularam e se livraram dos vestidos, com as espadas já prontas. Os soldados investiram contra a retaguarda da horda de ladrões, numa surpresa completa e avassaladora. Vi-os matar cem homens ou mais, antes que suas vítimas sequer percebessem o que estava acontecendo e pudessem correr a seu encontro. Mas quando se viraram para enfrentar o novo ataque expuseram as costas a Tanus e seu grupo.

Lutaram bem, admito, mas tenho certeza de que era o terror, e não a coragem, o que os movia. No entanto, suas fileiras cerradas não permitiam que movimentassem livremente as espadas, e seus adversários eram dos melhores soldados de todo o Egito, o que eqüivale a dizer de todo o mundo.

Mas por alguns momentos eles resistiram. Então Tanus gritou novamente em meio ao torvelinho. Pensei que fosse uma nova ordem, mas depois percebi que era o verso inicial do hino de batalha da guarda. Eu já havia escutado que os Azuis sempre cantavam quando o combate estava no auge, mas nunca havia acreditado que fosse realmente possível. Agora, à volta toda, a canção ergueu-se através de cem vozes valentes:

Somos o sopro de Hórus, quente como o vento do deserto, somos comedores de homens...

Suas espadas retiniam ao ritmo das palavras, como o clangor de martelos nas bigornas do submundo. Diante de tal ferocidade e arrogância, os pegas restantes fraquejaram, e de repente não se tratava mais de um combate, mas de um massacre.

Já vi uma matilha de cães selvagens cercar e arremeter contra um rebanho de carneiros. Aquilo foi pior. Alguns pegas deixavam cair as espadas e ajoelhavam-se, pedindo clemência, mas não houve demonstrações de piedade. Outros tentavam alcançar o portal, mas encontravam guardas à espera, de espada na mão.

Eu saltitava na periferia da luta, gritando para Tanus, tentando fazer-me ouvir sobre a confusão:

— Faça-os parar! Precisamos de prisioneiros!

Tanus não me escutava, ou simplesmente quis ignorar minhas instruções. Cantando e rindo, com Kratas à sua esquerda e Remrem à direita, dizimava o inimigo. Sua barba estava empapada com o sangue das vítimas e seus olhos reluziam na máscara rubra do rosto com uma insanidade que eu jamais havia visto neles. Bendita Hapi, como ele se comprazia na embriaguez da luta!

— Pare, Tanus! Não mate a todos! — Desta vez ele me escutou. Vi a loucura ceder e ele recuperar o controle.

— Perdoem os que implorarem! — ele gritou, e os soldados o obedeceram. Mas afinal, dos mil bandidos do início restavam menos de duzentos pegas desarmados, ajoelhados sobre as lajes de pedra ensangüentadas e suplicando por suas vidas.

Por um momento fiquei entorpecido e hesitante na borda dessa carnificina, e então com o canto dos olhos captei um movimento furtivo.

Shufti percebera que não podia escapar pelo portal. Atirou fora a espada e correu para a parede leste do pátio, perto de onde eu estava. Era a porção mais arruinada, onde a parede se reduzira à metade de sua altura original. Os tijolos caídos formavam uma rampa íngreme e Shufti os galgou, escorregando e caindo, mas conseguiu aproximar-se rapidamente do topo. Acho que eu fora o único a perceber sua fuga. Os soldados estavam ocupados com os prisioneiros e Tanus, de costas para mim, organizava a remoção dos inimigos mortos.

Quase sem pensar, abaixei-me, peguei um pedaço de tijolo e atirei-o em Shufti com toda a força. Ele foi atingido atrás da cabeça com tal violência que caiu de joelhos. Então a traiçoeira pilha de detritos cedeu; ele veio escorregando numa nuvem de poeira e caiu a meus pés, semiconsciente.

Montei sobre Shufti e pressionei a ponta de minha adaga em sua garganta. Ele me olhou com o único olho bom ainda vidrado pela pancada que recebera.

— Fique quieto, ou o estriparei como um peixe — adverti.

Eu havia perdido o xale e meus cabelos caíam sobre os ombros. Então ele me reconheceu, o que não era de surpreender, pois nos havíamos conhecido em circunstâncias muito diferentes.

— Taita, o eunuco! — ele balbuciou. — O senhor Intef sabe o que está fazendo?

— Logo saberá — afirmei, e apertei a lâmina em seu pescoço até ele gemer —, mas não será você a informá-lo.

Sem retirar o punhal de sua garganta, gritei para que dois guardas próximos tomassem conta dele. Eles o viraram de bruços e amarraram-lhe as mãos antes de arrastá-lo.

Tanus, que me havia visto capturar Shufti, aproximou-se de mim caminhando sobre os mortos e feridos.

— Boa mira, Taita! Não esqueceu nada do que lhe ensinei. — Ele me deu um tapa nas costas tão forte que me desequilibrei. — Ainda há muito trabalho para você. Perdemos quatro homens e há pelo menos uma dúzia de feridos.

— E o acampamento deles? — perguntei. Tanus olhou-me fixamente.

— Que acampamento?

— Mil bandidos não brotam da areia como flores do deserto. Devem ter animais de carga e escravos, que não devem estar longe. Não os deixe escapar. Ninguém deve contar a história desta batalha. Nenhum deles deve levar a Karnak a notícia de que você continua vivo.

— Doce Isis, você tem razão! Mas como os encontraremos?

Era óbvio que Tanus ainda estava entorpecido pelo ardor da luta. Às vezes fico pensando o que ele faria sem mim.

— Siga as pegadas deles — eu disse com impaciência. — Mil pares de pés terão formado uma estrada que nos levará até eles.

A expressão de Tanus se iluminou e ele chamou Kratas.

— Pegue cinqüenta homens e vá com Taita. Ele os levará à base dos bandidos.

— Os feridos... — comecei a protestar. Para mim bastava de luta por um dia, mas ele dispensou minhas objeções.

— Você é o melhor batedor que conheço. Os feridos podem esperar por seus cuidados. Meus valentões são duros como bifes de búfalo e poucos morrerão antes que você volte.

Encontrar o acampamento dos pegas foi simples, como eu havia previsto. Com Kratas e cinqüenta homens seguindo-me de perto, fiz uma ampla investigação ao redor da cidade e por trás da primeira linha de morros descobri a trilha larga que eles haviam feito quando se aproximaram de nós e nos cercaram. Acompanhamos o trajeto em marcha acelerada e havíamos percorrido menos de mil passos quando chegamos ao topo de uma colina e avistamos os pegas remanescentes no vale abaixo.

A surpresa foi total. Eles haviam deixado menos de vinte homens guardando os burros e as mulheres. Os soldados de Kratas os arrasaram na primeira investida, e dessa vez a ação foi rápida demais para salvar prisioneiros. Pouparam apenas as mulheres, e quando o local ficou seguro, Kratas deixou seus soldados servirem-se delas, o que tradicionalmente fazia parte da recompensa dos vitoriosos.

As mulheres eram mais apetecíveis do que eu teria imaginado, dada a companhia em que andavam. Submeteram-se ao ritual de conquista com uma boa vontade notável. Cheguei a ouvir algumas rir e brincar enquanto os guardas as disputavam com os dados. A vocação para acompanhantes de um bando de carniceiros não podia ser considerada das mais refinadas, e eu duvidava de que qualquer daquelas senhoras fosse uma virgem pudica. Uma a uma, elas foram conduzidas por seus novos donos para o abrigo das rochas mais próximas, e suas saias levantadas sem cerimônias.

A lua nova segue a morte da velha, a primavera segue o verão; nenhuma das mulheres demonstrou sinais de luto por seus ex-maridos. De fato, parecia que provavelmente estavam sendo iniciados ali nas areias do deserto novos e duradouros relacionamentos.

Quanto a mim, interessavam mais os burros e sua carga. Havia mais de cento e cinqüenta deles, na maioria animais fortes e em ótimas condições, que alcançariam ótimos preços nos mercados de Karnak ou Safaga. Calculei que quando o dinheiro do prêmio fosse dividido eu receberia pelo menos a parte de um centurião. Afinal, havia gasto muito de minhas economias para promover essa empreitada e deveria ter direito a alguma compensação. Falaria seriamente com Tanus a respeito disso, e podia contar com sua compreensão. Ele tem um espírito generoso.

Quando voltamos à cidade de Gallala, levando os animais abarrotados com o saque e seguidos por uma fila de mulheres que se haviam apegado com muita naturalidade a seus novos homens, o sol já se havia posto.

Um dos prédios menores em ruínas, perto dos poços, havia sido transformado em hospital de campanha. Ali trabalhei durante toda a noite, à luz de tochas e lamparinas, costurando os guardas feridos. Como sempre, fiquei impressionado pelo estoicismo deles, pois muitos ferimentos eram graves e dolorosos. Não obstante, perdi apenas um de meus pacientes antes de o dia nascer: Amseth sucumbiu ao sangramento de diversas artérias do braço. Se o tivesse socorrido logo após a batalha, em vez de sair pelo deserto, poderia tê-lo salvo. E embora a responsabilidade recaísse sobre Tanus, senti a culpa e a tristeza conhecidas diante de uma morte que eu poderia ter evitado. No entanto, estava confiante em que os demais pacientes ficariam curados rapidamente. Eram homens fortes e em soberbas condições.

Não havia bandidos feridos para atender. Suas cabeças haviam sido cortadas no local em que eles caíram na batalha. Como médico, perturbava-me esse antigo costume de lidar com os inimigos feridos, mas suponho que houvesse nele certa lógica. Por que deveriam os vitoriosos despender recursos com os vencidos, se era improvável que tivessem algum valor como escravos e se, caso fossem deixados vivos, poderiam recuperar-se e voltar a combater-nos?

Trabalhei a noite toda sustentado por apenas um gole de vinho e alguns bocados de comida que ingeri com as mãos ensangüentadas, e estava quase esgotado, mas ainda não teria descanso. Tanus solicitou minha presença assim que clareou.

Os prisioneiros sãos estavam sendo guardados no templo de Bes. Tinham os pulsos amarrados às costas e estavam agachados em fileiras ao longo da parede norte, vigiados pelos guardas.

Assim que entrei no templo, Tanus chamou-me. Estava reunido com um grupo de oficiais. Eu ainda usava as roupas de esposa assíria, então levantei as saias respingadas de sangue e abri caminho pelo chão coalhado de detritos da batalha.

— Há treze clãs de carniceiros, não foi isso que me disse, Taita? — perguntou Tanus, e assenti. — Cada clã tem seu barão. Nós pegamos Shufti. Vejamos se você reconhece mais algum barão entre esse amontoado de gente bonita e gentil. — Ele indicou os prisioneiros com um sorriso irônico e, pegando-me pelo braço, levou-me até os homens agachados.

Mantive meu rosto coberto com o véu para que nenhum prisioneiro me reconhecesse. Observei cada face enquanto passava e reconheci dois deles. Akheku era o chefe do clã do sul, que assolava as terras ao redor de Assuan, Elefantina e a primeira catarata; Setek era do norte, o barão de KomOmbo.

Era evidente que Shufti tinha reunido todos os homens que pudera em tempo tão reduzido. Havia membros de todos os clãs entre os capturados. Quando identifiquei os líderes, com um toque no ombro, eles foram apartados.

Ao chegarmos ao final da fila, Tanus perguntou:

— Tem certeza de que não escapou nenhum deles?

— Como posso ter certeza? Já lhe disse que não conheço todos os barões.

Tanus encolheu os ombros.

— Não podemos querer capturar todos os passarinhos com um só lance da rede. Devemos nos considerar felizes por termos agarrado três em tão pouco tempo. Mas vamos olhar as cabeças. Poderemos ter sorte e descobrir mais alguns.

Foi uma coisa horrível, que teria perturbado estômagos mais sensíveis que o meu, mas lidar com carne humana, tanto viva quanto morta, é o meu ofício. Enquanto tomamos tranqüilamente o desjejum nos degraus do templo, as cabeças decepadas foram trazidas diante de nós e erguidas uma a uma pelos cabelos empastados de sangue, com as línguas penduradas dos lábios frouxos e os olhos foscos e empoeirados a olhar fixamente para o outro mundo ao qual se dirigiam.

Meu apetite era tão saudável como sempre, pois eu havia comido muito pouco nos últimos dois dias. Devorei os deliciosos bolos e frutas que Tiamat nos fornecera, enquanto apontava as cabeças que eu identificava. Havia um punhado de ladrões comuns que eu conhecera ao trabalhar para o senhor Intef, mas somente mais um dos barões. Era Nefer-Temu, de Qena, um membro menor da terrível fraternidade.

— Com esse são quatro — resmungou Tanus satisfeito, e ordenou que a cabeça de Nefer-Temu fosse colocada no cume da pirâmide de crânios que ele estava erigindo diante do poço de Gallala.

— Agora devemos encontrar os outros nove barões. Vamos começar interrogando nossos prisioneiros. — Ele levantou-se agilmente. Eu engoli depressa o resto do desjejum e segui-o com relutância de volta ao templo.

Fora eu mesmo quem sugerira a Tanus a necessidade de termos informantes dentro dos clãs, e também eu sugerira a maneira de recrutá-los, mas agora que chegava a hora de agir sentia-me arrependido e culpado. Uma coisa era sugerir um ato indigno, e outra totalmente diferente ficar observando sua execução.

Desculpei-me debilmente dizendo que os feridos precisavam de mim, mas Tanus me contradisse com um gesto.

— Nada de escrúpulos agora, Taita. Você ficará comigo durante o interrogatório para ter certeza de que na primeira inspeção não lhe escapou algum de seus velhos amigos.

O interrogatório foi rápido e impiedoso, o que, suponho, era adequado ao caráter dos homens com que estávamos lidando.

Para começar, Tanus saltou sobre o altar de Bes e, com o selo do falcão numa das mãos, olhou para as fileiras de prisioneiros com um sorriso que os deve ter gelado, apesar de estarem sob o pleno sol do deserto.

— Sou o portador do selo do falcão do faraó Mamose, e falo com sua voz — ele disse asperamente, levantando a estatueta. — Sou seu juiz e seu carrasco. — Tanus fez uma pausa e passeou lentamente o olhar pelos rostos erguidos. Quando encontravam seus olhos, eles baixavam os próprios. Nenhum conseguiu manter-se firme sob o escrutínio penetrante.

— Vocês foram detidos no ato de pilhar e assassinar. Se há um dentre vocês que negue isso, levante-se e declare sua inocência.

Ele esperou, enquanto as sombras dos abutres, circulando impacientes no céu, riscavam o pátio empoeirado.

— Vamos! Quem for inocente que fale! — Ele olhou para as aves girando no alto, com suas grotescas cabeças avermelhadas. — Seus irmãos estão ansiosos para o banquete. Não vamos fazê-los esperar.

Mas nenhum deles falou ou se mexeu, e Tanus baixou o selo do falcão.

— Seus atos, os quais foram testemunhados, os condenam. Seu silêncio confirma o veredicto. São culpados. Em nome do divino faraó, confiro sua sentença: serão decapitados. Suas cabeças decepadas serão expostas ao longo das rotas das caravanas. Todos os homens dignos que passarem por aqui verão seus crânios sorrindo ao lado da estrada e saberão que a pega encontrou a águia. Saberão que a era da ilegalidade passou e que a paz voltou ao nosso Egito. Tenho dito, em nome do faraó Mamose.

Tanus fez um sinal e o primeiro prisioneiro foi arrastado para frente e obrigado a ajoelhar-se diante do altar.

— Se responder sinceramente a três perguntas, sua vida será poupada. Você será alistado como batedor no meu regimento de guardas, com soldo e privilégios. Se se recusar a responder às perguntas, sua sentença será aplicada imediatamente — disse Tanus.

Ele olhou para o prisioneiro ajoelhado.

— Esta é a primeira pergunta. A que clã você pertence?

O condenado não respondeu. O juramento de sangue dos pegas era forte demais para que o rompesse.

— Esta é a segunda pergunta. Quem é o barão que o comanda? O homem continuou mudo.

— Esta é a terceira e última pergunta. Você me levará até o lugar secreto onde se esconde seu clã? — perguntou Tanus, e o homem olhou para ele e cuspiu ruidosamente. Tanus fez sinal ao soldado que aguardava com a espada ao lado do bandido.

O golpe foi preciso. A cabeça tombou sobre os degraus aos pés do altar.

— Mais uma cabeça para a pirâmide — disse Tanus tranqüilamente e indicou o próximo prisioneiro, que foi trazido adiante.

Fez as mesmas perguntas, e quando o bandido lhe respondeu com uma obscenidade desafiadora, Tanus assentiu. Dessa vez o verdugo errou o golpe e o cadáver estrebuchou com o pescoço semicortado. Foram precisos mais três golpes para que a cabeça rolasse pelos degraus.

Tanus cortou vinte e três cabeças. Eu as contava para distrair-me das ondas de compaixão que me assaltavam, até que um dos condenados se arrependeu. Era jovem, quase um menino. Com a voz aguda, ele balbuciou as respostas antes que Tanus realmente lhe fizesse as perguntas.

— Meu nome é Hui. Sou irmão de sangue do clã de Basti, o Cruel. Conheço seus esconderijos e o conduzirei até eles.

Tanus sorriu com satisfação e gesticulou para que levassem o rapaz.

— Cuidem bem dele — advertiu aos carcereiros. — Agora é um dos Azuis e seu companheiro de armas.

Depois da primeira deserção tudo correu mais depressa, embora muitos ainda desafiassem Tanus. Alguns o amaldiçoavam, enquanto outros riam desafiadoramente até que a espada caía, e sua valentia terminava com um espirro púrpura, no último sopro da traquéia secionada.

Eu sentia grande admiração por aqueles que, depois de uma vida desprezível, preferiam morrer com alguma semelhança de honra. Riam-se da morte. Eu sabia que não teria aquele tipo de coragem. Se me visse naquela situação, com certeza teria reagido como os prisioneiros mais fracos.

— Sou membro do clã de Ur — confessou um deles.

— Sou do clã de Maa-En-Tef, barão da margem ocidental até El Kharga — disse outro, até termos informantes para nos levar aos valhacoutos de todos os bandidos e uma pilha de cabeças recalcitrantes para acrescentar à pirâmide.

Um dos assuntos que Tanus e eu havíamos discutido muito era o que fazer com os três barões capturados e o grupo de informantes que havíamos extraído dentre os pegas condenados. Sabíamos que, devido à influência abrangente dos carniceiros, seria impossível manter nossos prisioneiros no Egito. Não havia prisão suficientemente segura para impedir Akh-Seth e seus barões de atingi-los, fosse para libertá-los por meio de propinas ou pela força, fosse para silenciá-los pelo veneno ou outro meio desagradável. Sabiamos que Akh-Seth era como um polvo, cuja cabeça se escondia, mas cujos tentáculos atingiam todas as facetas de nosso governo e o próprio tecido de nossas vidas.

Foi então que meu amigo Tiamat, o comerciante de Safaga, veio em meu auxílio.

Marchando agora como uma unidade da Guarda do Crocodilo Azul, e não como uma caravana de escravas, retornamos ao porto no mar Vermelho na metade do tempo que havíamos levado para alcançar Gallala. Nossos cativos foram jogados num dos navios de Tiamat que nos esperava no porto e o capitão zarpou imediatamente para a costa árabe, onde Tiamat mantinha um depósito de escravos seguro na ilhota de Jez Baquan. As águas ao redor da ilha eram patrulhadas por bandos de ferozes tubarões-azuis. Tiamat garantiu-nos que ninguém que já tentara escapar da ilha conseguira evitar a vigilância dos guardas ou o apetite dos tubarões.

Apenas um de nossos prisioneiros não foi enviado para a ilha: Hui, do clã de Basti, o Cruel, o jovem que primeiro capitulara diante da ameaça de execução. Durante a marcha até o mar, Tanus mantivera o rapaz junto de si e exercera sobre ele a força irresistível de sua personalidade. Agora Hui era seu devotado escravo. Sempre me surpreendera esse dom especial de Tanus para conquistar lealdade e devoção onde menos se esperaria. Eu tinha certeza de que Hui, que cedera tão depressa à ameaça de execução, agora daria de bom grado sua vida inútil por Tanus.

Sob o encanto de Tanus, Hui despejou todos os detalhes de que se lembrava sobre o clã a que um dia fizera um juramento de sangue. Com a pena a postos, escutei em silêncio enquanto Tanus o interrogava e registrei tudo o que ele tinha a dizer.

Soubemos que o refúgio de Basti, o Cruel, ficava na imensidão do terrível deserto de Gebel-Umm-Bahari, no topo de uma montanha em forma de mesa e protegida por penhascos de todos os lados. Oculta e inexpugnável, mas a menos de dois dias de marcha da margem leste do Nilo e das agitadas rotas de caravanas que o acompanhavam, era o ninho perfeito para o predador.

— Há apenas um caminho para chegar lá, recortado na pedra como uma escada. Sua largura só permite subir um homem por vez — disse Hui.

— Não há outro modo de alcançar o topo? — perguntou Tanus, e Hui sorriu, colocando o dedo ao lado do nariz, num gesto conspirador.

— Há outro caminho, que usei muitas vezes para voltar à montanha quando abandonava meu posto para visitar uma amiga. Basti teria me matado se soubesse que eu me afastara. É uma subida perigosa, mas por ali uma dúzia de homens poderia chegar ao topo do penhasco enquanto a força principal se aproximaria pelo caminho. Eu os levarei até lá, Akh-Hórus.

Era a primeira vez que eu ouvia aquele nome: Akh-Hórus, "o irmão do grande deus Hórus". Era um bom nome para Tanus. E claro que Hui e nossos outros prisioneiros não podiam saber seu verdadeiro nome. A sua maneira simples, sabiam apenas que Tanus devia ser uma espécie de deus. Ele parecia um deus, lutava como um deus e invocava o nome de Hórus em plena batalha. Portanto, devia ser o irmão de Hórus, raciocinavam.

Akh-Hórus! Era um nome que todo o Egito viria a conhecer nos próximos meses. Seria gritado de um cume de morro a outro, transportado pelas rotas de caravanas, viajaria por todo o rio nos lábios dos barqueiros, de cidade em cidade e de um reino ao outro. A lenda cresceria ao redor do nome na medida em que os relatos de seus feitos eram repetidos e exagerados em cada versão.

Akh-Hórus era o poderoso guerreiro que surgia de lugar nenhum, enviado por seu irmão Hórus para prosseguir a eterna luta contra o mal, contra Akh-Seth, o senhor dos carniceiros.

Akh-Hórus! A cada vez que o povo egípcio repetia seu nome ele enchia os corações de novas esperanças.

Mas tudo isso era futuro, enquanto nos sentávamos no jardim de Tiamat. Somente eu sabia a sanha que Tanus sentia por Basti e como estava ansioso para conduzir seus homens ao Gebel-Umm-Bahari, para caçá-lo. Não se tratava apenas do fato de Basti ser o mais rapace e impiedoso de todos os barões. Era muito mais que isso. Tanus tinha um assunto muito pessoal para acertar com o facínora.

Eu lhe contara que Basti havia sido o instrumento particular utilizado por Akh-Seth para destruir a fortuna do pai de Tanus, Pianki, senhor Harrab.

— Posso levá-lo aos penhascos de Gebel-Umm-Bahari — prometeu Hui. — Posso pôr Basti nas suas mãos.

Tanus ficou em silêncio na escuridão, saboreando a promessa. Ouvimos o rouxinol cantar no fundo do jardim de Tiamat. Era um som totalmente alheio aos assuntos malignos e terríveis que discutíamos. Depois de um momento Tanus suspirou e dispensou Hui.

— Você agiu bem, rapaz — ele lhe disse. — Cumpra sua promessa e conhecerá minha gratidão.

Hui prostrou-se como se estivesse diante de um deus, e Tanus, irritado, cutucou-o com o pé.

— Chega dessa besteira. Agora suma daqui.

Essa recente e indesejada elevação de Tanus à divindade o perturbava. Ninguém jamais poderia acusá-lo de ser modesto ou humilde, mas ele era pelo menos um pragmático, sem falsas ilusões quanto à própria posição; jamais aspirara a tornar-se um faraó ou um deus, e era sempre brusco diante do servilismo ou do comportamento obse-quioso dos que o cercavam.

Assim que o rapaz saiu, Tanus virou-se para mim:

— Muitas vezes fico acordado à noite, pensando em tudo o que você me contou sobre meu pai. Cada fibra do meu corpo e da minha alma clama por vingança contra aquele que o levou à penúria e à desgraça, impelindo-o para a morte. Mal posso me conter. Meu maior desejo é abandonar esta maneira tortuosa que você imaginou para agarrar Akh-Seth. Na verdade gostaria de procurá-lo pessoalmente e arrancar seu coração desprezível com minhas próprias mãos.

— Se o fizer, perderá tudo — eu disse. — Você sabe disso. Faça-o à minha maneira e recuperará não apenas sua própria reputação, mas também a de seu nobre pai. Ao meu modo você recuperará as propriedades e a fortuna que lhe foram roubadas. Não apenas terá uma vingança completa como será levado de volta a Lostris e ao cumprimento da visão que tive de vocês dois através do jogo de Amon-Rá. Confie em mim, Tanus, pelo seu bem e pelo de minha ama.

— Se não confiar em você, em quem confiarei? — ele perguntou, tocando meu braço. — Sei que você tem razão, mas a vida inteira fui impaciente. Para mim, o caminho direto e rápido sempre foi o mais fácil.

— Mas por enquanto tire Akh-Seth da cabeça. Pense apenas no próximo passo nesta estrada sinuosa que devemos percorrer juntos. Pense em Basti, o Cruel. Foi ele quem destruiu as caravanas de seu pai quando retornavam do Oriente. Durante cinco estações nenhuma caravana do senhor Harrab voltou a Karnak. Todas foram atacadas e saqueadas na estrada. Foi Basti quem destruiu as minas de cobre de seu pai em Sestra e assassinou os engenheiros e os trabalhadores escravos. Desde então aqueles ricos veios de minério estão abandonados. Foi Basti quem sistematicamente pilhou as propriedades de seu pai ao longo do Nilo, quem matou seus escravos nos campos e queimou as plantações, até que afinal apenas ervas daninhas cresciam nos campos do senhor Harrab e ele foi obrigado a vendê-los por uma fração de seu verdadeiro valor.

— Tudo isso pode ser verdade, mas foi Akh-Seth quem deu as ordens a Basti.

— Ninguém acreditará nisso. O faraó não acreditará, a menos que Basti confesse — falei com impaciência. — Por que você é sempre tão teimoso? Já discutimos isso centenas de vezes. Primeiro os barões, depois a cabeça da cobra, Akh-Seth.

— Você tem a voz da sabedoria, eu sei. Mas é difícil suportar a espera. Anseio por vingança, anseio por limpar minha honra da mancha de traição e anseio... oh, como anseio... por Lostris.

Ele inclinou-se e abraçou-me com uma força que me fez oscilar.

— Já fez o bastante aqui, velho amigo. Jamais teria feito tanto sem você. Se não tivesse vindo me procurar eu ainda estaria encharcado de bebida e deitado nos braços de alguma prostituta malcheirosa. Devo-lhe mais do que poderia pagar, mas agora preciso mandá-lo embora. Você é necessário em outro lugar. Basti é minha presa, e não preciso de você para partilhar o festim. Não me acompanhará a Gebel-Umm-Bahari. Quero que volte para o seu lugar, que é também o meu, mas onde não posso estar: ao lado da senhora Lostris. Eu o invejo, amigo, e daria minha esperança de imortalidade para estar em seu lugar e ir ao encontro dela.

Protestei veementemente, é claro. Jurei que tudo o que eu desejava era mais uma chance de vingar-me daqueles vilões, que eu era seu companheiro e ficaria seriamente insultado se ele não me desse um lugar a seu lado na próxima campanha. Mas o tempo todo eu tinha certeza de que Tanus, quando decidia uma estratégia, não podia ser facilmente dissuadido, a não ser muito ocasionalmente, por seu amigo e conselheiro, o escravo Taita.

A verdade era que eu tivera o suficiente de heroísmo e de pessoas tentando matar-me. Eu não era por natureza um soldado insensível. Odiava os rigores das campanhas no deserto. Não suportaria mais uma semana de calor, suor e moscas, sem um vislumbre sequer das doces águas verdes da mãe Nilo. Ansiava pelo toque do linho limpo em minha pele recém-lavada e untada. Sentia falta de minha ama mais do que poderia expressar em simples palavras. Nossa vida calma e civilizada nos quartos pintados da ilha Elefantina, nossa música e longas conversas, meus animais e papiros, tudo isso exercia sobre mim uma atração irresistível.

Tanus tinha razão. Ele não precisava mais de mim e meu lugar era com minha senhora. No entanto, concordar rápido demais com suas ordens poderia diminuir o conceito que tinha de mim, o que eu tampouco desejava.

Finalmente deixei-o convencer-me e, ocultando minha felicidade, comecei os preparativos para a volta a Elefantina.

Tanus havia ordenado que Kratas retornasse a Karnak para reunir e conduzir reforços para a expedição pelo deserto de Gebel-Umm-Bahari. Eu viajaria sob sua proteção até Karnak, mas despedir-me de Tanus não foi simples. Por duas vezes, depois de eu deixar a casa de Tiamat para encontrar Kratas, que me esperava nos arredores da cidade, Tanus chamou-me de volta para enviar mais uma mensagem a minha senhora Lostris.

— Diga-lhe que penso nela em todas as horas do dia!

— Você já me deu esse recado — protestei.

— Diga-lhe que meus sonhos são cheios de imagens de seu lindo rosto.

— Esse também. Posso recitá-los de cor. Diga algo novo — pedi.

— Diga-lhe que acredito na visão que você teve, de que em alguns poucos anos estaremos reunidos...

— Kratas me espera. Se me retardar aqui, como poderei levar suas mensagens?

— Diga-lhe que tudo o que faço é por ela. Cada vez que inspiro é por ela... — Ele interrompeu-se e me abraçou. — Na verdade, Taita, duvido que consiga viver mais um dia sem ela.

— Cinco anos passarão como um único dia. Na próxima vez em que a encontrar, sua honra estará restaurada e você mais uma vez será um homem importante. Ela o amará ainda mais por isso.

Ele me soltou.

— Cuide bem dela até que eu possa assumir esse feliz dever. Agora, vá. Corra para o lado dela.

— Essa foi minha intenção na última hora — eu lhe disse com ironia, e parti.

Com Kratas à frente de nosso pequeno destacamento, fizemos a viagem até Karnak em menos de uma semana. Temendo ser descoberto por Rasfer ou pelo senhor Intef, passei em minha amada cidade apenas o tempo necessário para encontrar lugar numa balsa que navegava para o sul. Deixei Kratas entre os regimentos de elite do faraó, recrutando os mil homens que Tanus requisitara, e embarquei.

O vento norte enfunou nossas velas durante todo o percurso, e atracamos no cais leste de Elefantina doze dias depois de deixar Tebas. Eu continuava vestindo os trajes e a peruca de sacerdote e ninguém me reconheceu quando desembarquei.

Pelo preço de um pequeno anel de cobre, contratei um barqueiro para levar-me até a ilha real, do outro lado do rio, e ele me depositou nos degraus que levavam a nosso jardim no harém. O coração batia em meu peito quando subi as escadas. Eu havia estado tempo demais longe de minha ama. Era em ocasiões como essa que eu percebia toda a força de meus sentimentos por ela. Eu tinha certeza de que o amor de Tanus não passava de uma brisa suave, comparado ao khamsin de minhas emoções.

Uma das aias kuchitas de Lostris encontrou-me no portão e tentou impedir minha entrada.

— Minha senhora não está bem, sacerdote. Há outro médico com ela neste momento. Ela não o receberá.

— Sim, ela me receberá — eu lhe disse, arrancando a peruca.

— Taita! — ela gritou, e caiu de joelhos, fazendo freneticamente o sinal para afastar o mal. — Você está morto. Não é você, mas uma aparição maligna do além-túmulo.

Afastei-a e corri para os aposentos de minha ama. Na porta, encontrei um dos sacerdotes de Osíris que se consideram médicos.

— O que está fazendo aqui? — perguntei-lhe, abalado ao ver um daqueles charlatães perto de minha ama. Antes que ele pudesse responder, gritei-lhe: — Fora! Saia daqui! Leve seus encantos, amuletos e poções repulsivas, e não volte.

Ele parecia disposto a discutir, mas apoiei a mão entre suas omoplatas e dei-lhe um empurrão em direção à entrada. Então corri para minha ama, no leito.

O cheiro de doença enchia o quarto, azedo e forte, e um terrível temor apoderou-se de mim quando olhei para minha senhora Lostris. Ela parecia ter encolhido e sua pele estava pálida como as cinzas de uma antiga fogueira. Dormia ou estava em coma, não tive certeza, mas havia sombras escuras e profundas sob seus olhos fechados. Os lábios tinham um aspecto seco e crestado que me encheu de temor.

Retirei o lençol que a cobria e vi que estava nua. Olhei horrorizado para seu corpo. A carne parecia ter derretido. Seus membros estavam finos como gravetos e suas costelas e os ossos da pelve destacavam-se na pele doentia. Delicadamente, apalpei sua axila para sentir a temperatura, mas a pele estava fria. Que espécie de doença seria aquela?, indaguei-me. Nunca havia visto nada semelhante.

Sem abandoná-la, gritei pelas meninas escravas, mas nenhuma tinha coragem para enfrentar o fantasma de Taita. Afinal, tive de irromper em seus alojamentos e arrastar uma delas, aos prantos, de debaixo da cama.

— O que vocês fizeram com sua ama para deixá-la nesse estado? Chutei-lhe o traseiro gordo para fazê-la concentrar-se em minha pergunta e ela gemeu, cobrindo o rosto para não ter de me olhar.

— Ela não quer comer há várias semanas, desde que a múmia do senhor Tanus foi depositada na tumba no Vale dos Nobres. Até perdeu o filho do faraó que trazia no ventre. Poupe-me, bom espírito, eu não lhe fiz mal nenhum.

Fiquei olhando para ela atônito por um instante, até perceber o que havia acontecido. Meu recado para reconfortar a senhora Lostris não havia sido entregue. Eu havia temido que o mensageiro que Kratas enviara de Luxor para levar minha carta a Lostris jamais alcançasse Elefantina. Provavelmente havia sido mais uma vítima dos pegas, mais um cadáver boiando rio abaixo com a bolsa vazia e um corte profundo na garganta. Torci para que a carta houvesse caído nas mãos de algum bandido analfabeto, e não nas de Akh-Seth. Mas não havia tempo para preocupar-me com isso agora.

Corri de volta a minha ama e ajoelhei-me ao lado de seu leito.

— Minha querida — murmurei, acariciando sua testa pálida. — Sou eu, Taita, seu escravo.

Lostris moveu-se levemente e balbuciou alguma coisa que não entendi. Percebi que não havia tempo a perder; ela estava sucumbindo. Fazia mais de um mês desde que a morte de Tanus fora anunciada. Se a escrava tinha dito a verdade, era um milagre que minha senhora ainda estivesse viva.

Levantei-me de um salto e corri para meu apartamento. Apesar de meu "desaparecimento", nada havia mudado ali e minha cesta de remédios continuava na alcova onde a deixara. Com ela nos braços, corri de volta para a senhora Lostris. Minhas mãos tremiam quando acendi um ramo de arbusto-escorpião na lamparina e segurei a ponta em brasa sob seu nariz. Quase imediatamente ela engasgou, espirrou e debateu-se para evitar a fumaça pungente.

— Senhora, sou eu, Taita. Fale comigo.

Ela abriu os olhos e vi o princípio de prazer neles extinguir-se rapidamente, devido à fraqueza. Ela estendeu os braços finos e pálidos para mim e abracei-a.

— Taita — Lostris balbuciou sem forças. — Ele está morto. Tanus está morto. Não posso viver sem ele.

— Não! Não! Está vivo. Trago diretamente dele mensagens de amor e devoção por você.

— Você é cruel de zombar assim. Sei que ele está morto. Sua tumba foi selada...

— Foi um engodo para confundir seus inimigos — gritei. — Tanus está vivo. Juro. Ele a ama e vai esperá-la.

— Ah, como eu gostaria de acreditar! Mas conheço-o bem, Taita. Mentiria para me proteger. Como pode atormentar-me com falsas promessas? Eu o odeio tanto... — Lostris tentou libertar-se de meus braços.

— Eu juro! Tanus está vivo!

— Jure pela honra da mãe que você nunca teve. Jure pela ira de todos os deuses. — Lostris quase não tinha forças para me desafiar.

— Juro por tudo isso, e por meu amor e meu dever para com você, senhora.

— Será possível? — Vi a força da esperança retornar e um leve rubor surgir em seu rosto. — Oh, Taita, seria mesmo verdade?

— Eu estaria tão feliz se não o fosse? Você sabe que o amo quase tanto quanto a você. Eu poderia sorrir se Tanus estivesse realmente morto?

Enquanto ela fixava meu olhar deslanchei o relato de tudo o que havia acontecido desde que eu a deixara, tantas semanas atrás. Excluí apenas os detalhes das condições em que eu havia descoberto Tanus na velha cabana nos pântanos e sua companhia feminina.

Lostris nada dizia, mas seus olhos não se desviavam de meu rosto enquanto ela devorava minhas palavras. Seu rosto pálido, quase translúcido de inanição, brilhava como uma pérola enquanto ela escutava as aventuras em Gallala, como Tanus conduzira divinamente o combate e como havia cantado com a alegria selvagem da batalha.

— Então, está vendo? É verdade, Tanus está vivo — concluí, e ela falou pela primeira vez desde que eu começara.

— Se ele está vivo, então traga-o até mim. Não comerei nada até que volte a vê-lo.

— Trarei Tanus aqui assim que puder enviar um mensageiro para encontrá-lo, se esse é o seu desejo — prometi, e busquei em minha cesta o espelho de bronze polido. Segurei-o diante de seus olhos e perguntei-lhe suavemente: — Quer que ele a veja nestas condições?

Ela olhou para a própria imagem esquálida, de olhos encovados.

— Mandarei chamá-lo hoje mesmo, se você ordenar. Ele poderia estar aqui em uma semana, se realmente o desejar.

Vi-a lutar com suas emoções.

— Estou feia — ela murmurou. — Pareço uma velha...

— Sua beleza continua aí, logo abaixo da superfície.

— Não posso permitir que Tanus me veja assim. — A vaidade feminina triunfara sobre todas as outras emoções.

— Então deve comer.

— Você jura... — ela insistiu — .. jura que ele está vivo e que o trará aqui assim que eu estiver recuperada? Coloque a mão sobre meu coração e jure.

Senti sob a mão suas costelas e o coração palpitando como um pássaro preso numa armadilha.

— Juro — disse.

— Vou acreditar em você desta vez, mas se estiver mentindo nunca mais confiarei. Traga-me comida!

Ao correr para a cozinha, não pude deixar de sentir-me envaidecido. Taita, o ardiloso, mais uma vez conseguira o que queria.

Misturei leite quente e mel numa tigela. Precisávamos começar devagar, pois ela chegara à beira da desnutrição. Depois de vomitar o conteúdo da primeira tigela, conseguiu reter a segunda. Se eu tivesse demorado mais um dia talvez fosse tarde demais.

Disseminada pelas escravas, a notícia de meu milagroso retorno do além percorreu a cidade como varíola. Antes do anoitecer o faraó mandou Aton conduzir-me a uma audiência. Mesmo meu velho amigo Aton estava tenso e retraído em minha presença. Saltou agilmente quando tentei tocá-lo, como se minha mão pudesse atravessar sua pele como uma baforada de fumaça. Enquanto me conduzia pelo palácio, escravos e nobres afastavam-se do caminho e rostos inquisitivos espiavam-me de todas as janelas e cantos obscuros.

O faraó saudou-me com uma curiosa mistura de respeito e nervosismo, muito estranha para um rei e um deus.

— Onde esteve, Taita? — perguntou, como se na verdade não quisesse ouvir a resposta.

Prostrei-me aos pés dele.

— Divino faraó, como vós mesmo sois parte da divindade, compreendo que façais essa pergunta para testar-me. Sabeis que meus lábios estão selados. Seria um sacrilégio se eu falasse sobre esses mistérios, mesmo convosco. Por favor, informai às outras divindades que são vossos pares, especialmente a Anúbis, o deus dos cemitérios, que fui fiel à missão a mim designada. Mantive o juramento de silêncio que me foi imposto. Dizei-lhes que passei pela prova que me propusestes.

Sua expressão se anuviou enquanto ele considerava essas palavras, inquieto. Percebi que imaginava perguntas e mais perguntas, e as descartava uma a uma. Eu não havia deixado nenhuma brecha a ser explorada.

Afinal ele pronunciou timidamente:

— É verdade, Taita, você passou no teste. Seja bem-vindo. Sentimos sua falta.

Mas pude notar que todas as suas suspeitas haviam sido confirmadas, e ele me tratava com o respeito devido a alguém que solucionou o mistério supremo.

Engatinhei até ele e baixei a voz a um sussurro:

— Grande Egito! Sabeis a razão pela qual fui mandado de volta? Ele parecia confuso, mas assentiu com hesitação. Levantei-me e olhei

ao redor desconfiadamente, como se estivesse sendo vigiado por forças sobrenaturais. Fiz o sinal contra o mal antes de continuar:

— A senhora Lostris... Sua doença foi causada pela influência direta de... — não pude dizer o nome, mas fiz um chifre com dois dedos, o sinal do deus da escuridão, Seth.

A expressão do faraó passou da confusão ao temor e ele tremeu involuntariamente, aproximando-se de mim como que em busca de proteção. Prossegui:

— Antes que eu fosse levado, minha ama já carregava no ventre o tesouro da Casa de Mamose, quando o Sombrio interveio. Devido à doença, o filho que ela estava gerando para vós foi abortado. O faraó pareceu perturbado.

— Então foi esse o motivo do aborto... — ele começou, mas interrompeu-se.

Apanhei rapidamente a deixa:

— Não temais, Grande Egito, fui mandado de volta para salvá-la por forças superiores às do Sombrio, para que o destino que previ possa cumprir-se. Haverá outro filho para substituir o que se perdeu. Vossa dinastia será assegurada.

— Você não deve sair do lado da senhora Lostris até que ela se recupere. — A voz dele vibrava de emoção. — Se a salvar e ela me der outro filho, poderá pedir-me o que desejar, mas se ela morrer... — ele parou, considerando uma ameaça capaz de impressionar alguém que retornara do além, e afinal deixou a frase no ar.

— Com vossa permissão, majestade, irei para o lado dela imediatamente.

— Imediatamente! — ele concordou. — Vá! Vá!

A convalescença de minha ama foi tão rápida que comecei a suspeitar que eu houvesse inocentemente invocado alguma força alheia a minha própria compreensão, e senti um temor supersticioso de meus próprios poderes.

Sua carne se revigorou e enrijeceu sob meus olhos. As tristes dobras de pele murcha transformaram-se novamente em seios fartos e redondos, belos o suficiente para fazer arder de inveja a imagem de pedra da deusa Hapi, postada à porta de sua câmara. O sangue fresco e jovem substituiu o giz de sua pele até que ela reluziu novamente, e seu riso retinia como as fontes de nosso jardim.

Logo tornou-se impossível manter Lostris no leito. Três semanas depois de meu retorno a Elefantina ela já brincava com as aias, dançando pelo jardim e saltando acima das outras para agarrar a bexiga inflada, até que eu, temendo que abusasse da força recuperada, confisquei a bola e ordenei-lhe que voltasse ao quarto. Ela obedeceu-me somente depois de mais uma barganha, e tive de concordar em cantar com ela e ensinar-lhe as táticas avançadas do jogo de bao, que lhe permitiriam vencer Aton pela primeira vez.

Aton vinha quase todas as noites perguntar em nome do rei sobre a saúde de minha ama, e depois jogava conosco. Meu amigo parecia ter decidido enfim que eu não era um fantasma perigoso e, embora me tratasse com um respeito renovado, nossa amizade sobreviveu à minha morte.

Todas as manhãs Lostris fazia-me repetir a promessa. Então buscava o espelho e examinava seu reflexo sem o menor vestígio de vaidade, avaliando cada ângulo de sua beleza para determinar se já estava pronta para ser vista pelo senhor Tanus.

— Meu cabelo parece palha, e vejo mais uma espinha surgindo em meu queixo — ela lamentava. — Torne-me novamente bela, Taita. Pelo bem de Tanus, faça-me bonita.

— Você mesma se prejudicou e agora pede que Taita conserte tudo — resmunguei, e ela riu, atirando os braços em volta do meu pescoço.

— É por isso que você está aqui, seu velho rabugento. Para cuidar de mim.

Todas as noites eu lhe preparava um tônico e trazia-lhe a tigela fumegante quando se preparava para dormir, e ela fazia-me repetir a promessa:

— Jure que trará Tanus assim que eu estiver pronta para recebê-lo. Eu tentava ignorar as dificuldades e os perigos que essa promessa

acarretaria para nós todos.

— Juro — repetia fielmente, e ela deitava a cabeça no apoio de marfim e dormia com um sorriso no rosto.

Eu me preocuparia com o cumprimento da promessa quando chegasse a hora.

O faraó obteve de Aton um relatório completo sobre a recuperação de Lostris e veio pessoalmente visitá-la. Trouxe-lhe um novo colar de ouro e lápis-lazúli, em forma de águia, e ficou até a noite, jogando jogos de palavras e inventando rimas com ela. Quando decidiu ir embora, chamou-me para acompanhá-lo até seus aposentos.

— É extraordinária a transformação dela. Um milagre, Taita. Quando poderei levá-la para a cama novamente? Já parece suficientemente bem para gerar meu filho e herdeiro.

— Ainda não, ó Grande Egito — afirmei com veemência. — O menor esforço da parte de minha ama poderá provocar uma recaída.

Ele não questionou minha opinião, pois agora eu falava com a autoridade dos ex-defuntos, apesar de seu antigo respeito por mim ter-se desgastado um pouco com a familiaridade.

As garotas escravas também se habituaram à minha ressurreição e conseguiam olhar-me no rosto sem ter de fazer o sinal protetor. De fato, meu retorno do submundo deixara de ser o tema de mexericos mais cotado no palácio. Tinham outra coisa de que se ocupar. Era o advento de Akh-Hórus nas vidas e consciências de todas as pessoas que viviam ao longo do Nilo.

Na primeira vez em que ouvi o nome de Akh-Hórus sussurrado nos corredores do palácio, não o localizei imediatamente. O jardim de Tiamat junto ao mar Vermelho parecia muito distante do pequeno mundo de Elefantina, e eu havia esquecido o nome com que Tanus fora batizado por Hui. Porém, quando escutei os relatos dos feitos extraordinários atribuídos a esse semideus, percebi de quem estavam falando.

Numa febre de excitação, corri de volta ao harém e encontrei minha ama no jardim, cercada por uma dezena de visitantes, damas da nobreza e esposas reais, pois se havia recuperado da doença o suficiente para reassumir seu papel de favorita da corte.

Fiquei tão aborrecido com isso que me esqueci do meu papel de mero escravo e fui bastante rude para livrar-me das damas reais. Elas se retiraram do jardim grasnando como um bando de gansos perturbados, e minha ama censurou-me:

— Nem parecia você, Taita. O que lhe deu na cabeça?

— Tanus! — pronunciei o nome como uma oração. Ela esqueceu toda a sua indignação e pegou minhas mãos.

— Você tem notícias de Tanus? Conte-me depressa ou morrerei de impaciência!

— Notícias? Sim, tenho notícias dele. E que notícias! Coisas extraordinárias, inacreditáveis!

Ela soltou minhas mãos e apanhou seu formidável leque de prata.

— Pare com essa insensatez imediatamente! — E ameaçou-me com o abano. — Não vou suportar suas provocações. Conte-me, ou juro que farei mais calombos em sua cabeça do que há moscas sobre um núbio.

— Venha! Vamos a um lugar onde ninguém possa nos ouvir. — Conduzi-a até nosso pequeno ancoradouro e a fiz entrar no bote. No meio do rio estaríamos a salvo dos ouvidos que se escondiam atrás de todos os cantos de paredes no palácio.

— Há um vento fresco e puro soprando pelo país — eu disse a Lostris. — Chamam a esse vento de Akh-Hórus.

— O irmão de Hórus — Lostris suspirou com reverência. — É assim que chamam a Tanus agora?

— Ninguém sabe que é ele. Pensam que seja um deus.

— Ele é um deus — Lostris insistiu. — Para mim é um deus.

— É é assim que o consideram. Se não fosse um deus, como saberia onde se escondem os pegas, como saberia exatamente onde eles esperam para saquear as caravanas e surpreendê-las com suas emboscadas?

— Ele fez tudo isso? — ela perguntou maravilhada.

— Tudo isso e muito mais, a se acreditar nos loucos boatos que revoam pelo palácio. Dizem que todos os bandidos do país fogem aterrorizados, que os clãs de pegas estão sendo dizimados um a um. Dizem que Akh-Hórus criou asas como as de uma águia, voou sobre os inacessíveis penhascos de Gebel-Umm-Bahari e surgiu milagrosamente no meio do clã de Basti, o Cruel. Com suas próprias mãos ele atirou quinhentos bandidos do cume dos rochedos...

— Conte-me mais! — Lostris bateu palmas, quase virando o bote de tanto entusiasmo.

— Dizem que em toda encruzilhada e ao lado de cada rota de caravana ele construiu grandes monumentos.

— Monumentos? Que espécie de monumentos?

— Montes de crânios humanos, enormes pirâmides de caveiras. As cabeças dos bandidos que ele matou, como advertência para os outros.

Minha ama tremeu com um horror deliciado, mas seu rosto continuava radiante.

— Ele matou tantos assim?

— Alguns dizem que trucidou cinco mil, outros dizem cinqüenta mil. Há mesmo quem afirme serem cem mil, mas acho que exageram um pouco.

— Conte mais! Mais!

— Dizem que ele já capturou pelo menos seis dos barões saqueadores...

— E decepou suas cabeças! — ela se antecipou com um prazer perverso.

— Não. Dizem que não os matou, mas os transformou em babuínos e os mantém numa jaula para divertir-se.

— Tudo isso é possível? — ela perguntou com um sorriso.

— Para um deus nada é impossível.

— Ele é meu deus. Oh, Taita, quando me deixará vê-lo?

— Logo — prometi. — Sua beleza arde com novo vigor a cada dia. Logo estará completamente restabelecida.

— Enquanto isso você deve escutar todas as histórias e rumores sobre Akh-Hórus, e depois contar-me.

Ela me enviava ao cais todos os dias para indagar às tripulações dos barcos que vinham do norte notícias de Akh-Hórus.

— Agora estão dizendo que ninguém jamais viu o rosto de Akh-Hórus, pois ele usa um capacete com um visor que esconde tudo, menos os olhos. Dizem também que no calor da batalha surge na cabeça de Akh-Hórus uma chama que cega seus inimigos — contei-lhe depois de uma dessas expedições.

— Já vi os cabelos de Tanus brilharem à luz do sol como uma luz celestial — minha ama concordou.

Noutra manhã, contei-lhe a novidade:

— Dizem que ele pode multiplicar seu corpo terreno como imagens num espelho e que é capaz de estar em diversos lugares ao mesmo tempo, pois no mesmo dia foi visto em Qena e Kom-Ombo, a cem mil passos de distância.

— Isso é possível? — ela perguntou, maravilhada.

— Alguns dizem que não é verdade, e que ele só consegue cobrir essas grandes distâncias porque nunca dorme. Dizem que à noite ele galopa através da escuridão montado num leão, e que de dia voa pelos céus nas costas de uma enorme águia branca e cai sobre os inimigos quando menos esperam.

— Isso poderia ser verdade — ela assentiu com seriedade. — Não acredito nas imagens espelhadas, mas o leão e a águia poderiam ser verdade. Tanus é capaz dessas coisas. Eu acredito.

— Acho mais provável que todo mundo no Egito esteja ávido para ver Akh-Hórus, e a vontade é mãe da verdade. Eles o vêem por trás de cada arbusto. Quanto à velocidade de suas viagens, bem, eu marchei com os guardas e posso testemunhar...

Ela não me deixou terminar, interrompendo-me sem rodeios:

— Sua alma não tem romantismo, Taita. Você poderia duvidar de que as nuvens sejam a lã do rebanho de Osíris e que o sol seja a face de Rá, simplesmente porque não consegue estender a mão e tocá-los. Eu, de minha parte, acredito que Tanus é capaz de tudo isso.

A afirmativa encerrou a discussão e baixei a cabeça, submisso.

Nós havíamos retomado o hábito de caminhar à tarde pelas ruas e mercados. Como antes da doença, minha ama recebia as boas-vindas do povo de todas as categorias, que a adorava, e detinha-se para conversar com todos. De sacerdotes a prostitutas,

- ninguém ficava imune a sua beleza e seus encantos espontâneos.

Ela sempre conseguia conduzir a conversa para Akh-Hórus, e as pessoas eram tão ávidas quanto ela para falar sobre o novo deus. Nessa época ele já havia sido promovido na imaginação popular de um semideus a membro integral do panteão divino. Os cidadãos de Elefantina já haviam iniciado um abaixo-assinado para a construção de um templo a Akh-Hórus, para o qual minha senhora fez uma generosa doação.

Fora escolhido um local na margem do rio, em frente ao de Hórus, seu irmão, e o faraó declarara formalmente sua intenção de consagrar em pessoa a obra. O rei tinha todos os motivos para estar grato. Um novo espírito de confiança grassava por toda parte. Com a segurança das rotas de caravanas, floresciam os negócios entre o Alto Reino e o resto do mundo.

Enquanto antes uma caravana conseguia chegar a salvo do Oriente, agora quatro atravessavam o deserto em segurança e outras tantas faziam a viagem de volta. Para abastecer os chefes de caravanas eram necessários milhares de burros de carga, e os agricultores e criadores os levavam às cidades sorrindo diante dos bons preços que esperavam obter.

Como agora se tornara seguro trabalhar os campos fora da proteção das muralhas das cidades, surgiram plantações onde durante décadas só havia crescido o mato, e os fazendeiros, outrora reduzidos a mendigos, novamente prosperavam. Bois puxavam carroças carregadas de víveres pelas estradas agora protegidas pelas legiões de Akh-Hórus, e os mercados se abasteciam de produtos frescos.

Parte dos lucros dos mercadores e proprietários rurais eram gastos na construção de novas mansões nos campos, onde era novamente seguro viver com suas famílias. Artesãos que vagavam pelas ruas de Elefantina e de Tebas em busca de emprego sofreram uma repentina demanda e usavam seus honorários não apenas para suprir as necessidades básicas da vida, mas também na compra de produtos de luxo para suas famílias. Os mercados expandiam-se.

O volume do tráfego no Nilo aumentou enormemente, de modo que havia necessidade de novas embarcações e os estaleiros fervilhavam com a construção de cascos. Os capitães e marinheiros dos barcos fluviais gastavam sua nova riqueza nas tavernas e casas de prazer, e assim as prostitutas e cortesãs exigiam roupas e adornos finos; os alfaiates e joalheiros prosperavam e construíam novas residências, enquanto suas esposas invadiam os mercados com as bolsas cheias de ouro e prata, procurando de tudo, desde novas panelas a novos escravos.

O Egito retornava à vida, depois de ser estrangulado durante tantos anos pelas predações de Akh-Seth e dos pegas.

Em conseqüência disso tudo, as rendas do Estado recrudesciam e os coletores de impostos do faraó rondavam tudo com tanta avidez quanto a dos abutres sobre os cadáveres dos bandidos que Akh-Hórus e suas legiões espalhavam pelos campos. Certamente o faraó estava agradecido.

E também minha ama e eu. Por minha sugesstão, investimos na sociedade de uma expedição mercantil que partiria em direção à Síria. Quando a caravana voltou, seis meses mais tarde, descobrimos que havíamos lucrado cinqüenta vezes nosso investimento original. Minha ama comprou para si um colar de pérolas e mais cinco escravas para infernizar minha vida. Prudente como de costume, utilizei minha parte para comprar cinco lotes de terras férteis na margem oriental do Nilo, e um escriba da lei registrou a aquisição nos livros do templo.

Então chegou a época que eu temia. Certa manhã minha senhora examinou seu reflexo no espelho com ainda mais cuidado que de costume e declarou que estava finalmente pronta. Com toda a justiça, fui obrigado a concordar que ela nunca estivera mais bela. Era como se tudo o que havia sofrido recentemente lhe houvesse forjado uma nova têmpera. Os últimos vestígios de infantilidade e indecisão haviam se evaporado de suas feições e ela se tornara uma mulher madura e serena.

— Confiei em você, Taita. Agora prove-me que não foi em vão. Traga Tanus até mim.

Quando Tanus e eu nos despedimos em Safaga, não chegamos a um acordo sobre um método seguro de trocarmos mensagens.

— Estarei em marcha todos os dias, e quem sabe aonde esta campanha me levará. Não deixe a senhora Lostris preocupar-se se não tiver notícias minhas. Diga-lhe que enviarei uma mensagem quando a missão estiver terminada. Mas diga-lhe que estarei lá quando os frutos de nosso amor estiverem maduros na árvore e prontos para ser colhidos.

No entanto, não tivéramos qualquer notícia dele além dos boatos e lendas contados no bazar.

Mais uma vez parecia que os deuses haviam intervindo para me salvar, agora da ira de minha senhora Lostris. Surgiu um novo rumor no mercado naquele dia. Uma caravana que chegou pela rota norte havia encontrado pouco antes uma pirâmide de crânios erguida recentemente à beira da estrada, a pouco mais de dois mil passos das muralhas da cidade. As cabeças estavam tão frescas que ainda fediam e não haviam sido completamente limpas pelos corvos e abutres.

— Isso só pode significar uma coisa — diziam os fofoqueiros. — Que Akh-Hórus está no distrito de Assuan, provavelmente perto dos muros de Elefantina. Ele atacou os remanescentes do clã de Akheku, escondidos no deserto desde que seu barão foi decapitado em Gallala. Akh-Hórus abateu os últimos bandidos e empilhou suas cabeças ao longo da estrada. Graças ao novo deus, o sul está livre dos temíveis carniceiros!

Esta era realmente uma notícia, a melhor que eu ouvira em semanas, e fiquei febril para levá-la a minha ama. Abri caminho no cais entre a multidão de marinheiros, comerciantes e pescadores, à procura de um barqueiro que me levasse a Elefantina.

Alguém puxou meu braço e eu repeli a mão com irritação. Apesar da recente prosperidade que grassava no país, ou talvez por causa dela, os mendigos eram mais exigentes que nunca. Este não era fácil de descartar, e voltei-me para ele enraivecido, erguendo o bastão para afastá-lo.

— Não golpeie um velho amigo! Tenho uma mensagem de um deus para você — sussurrou o mendigo. Eu detive o golpe e olhei-o fixamente.

— Hui! — Meu coração vibrou ao reconhecer o sorriso manhoso do ex-bandido. — Que está fazendo aqui? — Não esperei pela resposta e continuei: — Siga-me a alguma distância.

Levei-o até uma casa de prazer num dos becos atrás do porto, que oferecia quartos para casais de sexos diferentes ou iguais. Alugavam os quartos por um curto período, medido por um relógio d'água colocado junto à porta, e cobravam um anel de cobre pelo serviço. Paguei a soma exorbitante e no instante em que ficamos sós agarrei Hui pelo manto maltrapilho.

— Quais são as notícias de seu amo? — perguntei, e ele sorriu com uma insolência que me deixou furioso.

— Minha garganta está tão seca que não consigo falar. — Ele já havia adotado as maneiras arrogantes de um membro da Guarda Azul. Com que rapidez os macacos aprendem novos truques! Gritei para o atendente trazer um jarro de cerveja. Hui bebeu como um burro sedento, depois baixou o jarro e arrotou com alegria.

— O deus Akh-Hórus envia suas saudações para você e para outra pessoa cujo nome não pode ser mencionado. Ele me manda dizer que a missão está terminada e que todos os pássaros estão engaiolados. Lembra-lhe que faltam apenas alguns meses para o próximo festival de Osíris e que é hora de escrever um novo texto para a representação, para divertir o rei.

— Onde ele está? Quanto tempo você levará para reencontrá-lo? — perguntei ansiosamente.

— Posso estar com ele antes que Amon-Rá, o deus-sol, mergulhe atrás das montanhas a oeste — afirmou Hui, e olhei pela janela para o sol que já percorrera a metade do céu. Tanus já estava bem perto da cidade, o que me deixou contente. Como desejava sentir seu abraço forte e escutar sua gargalhada retumbante!

Sorrindo para mim mesmo em expectativa, caminhei pelo quarto imundo enquanto decidia que mensagem enviar a ele.

Estava quase escuro quando desembarquei em nosso ancoradouro e subi correndo os degraus. Uma das meninas escravas chorava junto ao portão, esfregando a orelha inchada. — Ela me bateu — choramingou a menina, e percebi que sua dignidade estava mais ferida que a orelha.

— Não se refira à senhora Lostris como "ela" — repreendi-a. — De qualquer forma, de que pode se queixar? Os escravos existem para ser espancados.

Não obstante, era bem incomum minha senhora erguer a mão para qualquer pessoa da casa. Devia estar realmente com péssimo humor, pensei, e diminui o passo. Cautelosamente, aproximei-me justo quando outra escrava saía em disparada do quarto. Minha ama surgiu à porta atrás dela, vermelha de raiva.

— Você transformou meu cabelo num monte de palha...

Então ela me viu e interrompeu a repreensão. Observou-me com tanto prazer que percebi ser eu o motivo de sua raiva.

— Onde esteve? — perguntou. — Mandei-o até o porto antes do meio-dia. Como ousa deixar-me esperando tanto tempo?

Ela avançou para mim com uma expressão que me fez recuar, nervoso.

— Ele está aqui — eu lhe disse apressadamente, e então baixei a voz para que nenhuma das escravas pudesse escutar. — Tanus está aqui — sussurrei. — Depois de amanhã cumprirei a promessa que lhe fiz.

Seu humor transformou-se completamente e ela pulou, envolvendo meu pescoço com os braços. Depois afastou-se, buscando as meninas magoadas para desculpar-se.

Como parte de seu tributo anual, o rei-vassalo dos amoritas, de seu reino do outro lado do mar Vermelho, havia enviado ao faraó um casal de chitas, uma espécie de leopardo que pode ser treinado para a caça. O rei estava ansioso para soltar as magníficas criaturas contra um dos rebanhos de gazelas que abundavam nas dunas do deserto na margem ocidental. Toda a corte, inclusive minha senhora, fora intimada a comparecer à excursão.

Navegamos até a margem oeste numa frota de pequenas embarcações, com as velas brancas e flâmulas coloridas flutuando. Ouviam-se risos e a música de alaúdes e sistros. A cheia anual do grande rio começaria dentro de dez dias, e essa perspectiva, juntamente com o novo ambiente de prosperidade do país, reforçava o clima festivo da corte.

Minha senhora estava mais feliz que qualquer um deles, e pronunciava alegres saudações para seus amigos nos outros barcos enquanto nossa felucca cortava veloz as verdes águas estivais, formando na proa uma guir-landa branca de espuma e deixando para trás uma onda reluzente.

Eu parecia ser o único que não se encontrava alegre e despreocupado. O vento, que soprava do quadrante errado, possuía algo de áspero e abrasivo. Fiquei olhando ansiosamente para o céu a oeste. Estava limpo e claro, mas tinha um brilho inatural. Era quase como se outro sol se estivesse pondo na direção oposta à habitual.

Tentei afastar minhas preocupações e entrar no clima da festa. Mas não o consegui, pois tinha mais que as condições meteorológicas com que me preocupar. Se uma parte do meu plano não desse certo, minha vida correria perigo, e talvez outras vidas, mais valiosas que a minha, estivessem em risco.

Devo ter exibido tudo isso no rosto, pois minha ama tocou-me com o dedão do pé pintado e disse:

— Está tão sombrio, Taita! Todos os que o olharem perceberão que está pensando em alguma coisa. Sorria! Ordeno-lhe que sorria!

Quando aportamos na margem ocidental, havia um exército de escravos à nossa espera. Valetes seguravam esplêndidos asnos brancos dos estábulos reais, todos adornados de seda. Burros de carga levavam tendas, tapetes, cestos de comida, vinho e todas as provisões necessárias para um piquenique real. Um regimento de escravos estava pronto para carregar guarda-sóis sobre as damas e atender os nobres convivas. Havia palhaços, acrobatas e músicos para diverti-los, e cem caçadores para efetuar o esporte.

A jaula dos chitas estava colocada sobre uma carreta puxada por parelhas de bois brancos, e a corte reuniu-se ao redor do veículo para admirar as feras raras. Eram animais inexistentes em nosso país, originários das savanas, e não havia nenhum terreno semelhante ao longo do rio. Eram os primeiros que eu via, e minha curiosidade estava tão aguçada que por um momento esqueci-me das outras preocupações e me aproximei da jaula o máximo que pude sem empurrar ou pisar no pé de algum nobre irascível.

Eram os felinos mais belos que eu poderia imaginar, mais altos e esguios que nossos leopardos, com longas pernas e ventres côncavos. Suas caudas sinuosas eram marcadas por manchas muito pretas, e dos cantos internos dos olhos saíam linhas pretas que desciam pelas faces como marcas de lágrimas. Isto e seu porte régio davam-lhes um ar romântico e trágico que me pareceu encantador. Desejei ter uma daquelas criaturas e decidi imediatamente colocar essa idéia na mente de minha ama. O faraó jamais recusava qualquer desejo seu.

Cedo demais para o meu gosto, o navio que trazia o rei chegou à margem e acorremos com o resto da corte para saudá-lo.

Ele estava vestido em trajes leves de caçada, parecendo descontraído e feliz. Parou ao lado de minha ama e enquanto ela fazia a reverência ritual indagou gentilmente sobre sua saúde. Fiquei cheio de temor que ele decidisse mantê-la a seu lado durante todo o dia, o que estragaria meus planos. No entanto, o animal caçador atraiu sua atenção e ele passou adiante sem ordenar que minha ama o seguisse.

Perdemo-nos na multidão e chegamos até o local onde um burro esperava minha ama. Enquanto a ajudava a montar, conversei em voz baixa com o valete. Quando ele me disse o que eu esperava ouvir escorreguei em sua mão um anel de prata, que desapareceu como que por mágica.

Com um escravo a conduzi-la e outro segurando um guarda-sol, minha senhora e eu seguimos o rei e a carreta com os chitas pelo deserto. Com paradas freqüentes para nos refrescarmos, levamos metade da manhã para chegar ao vale das Gazelas. No caminho, avistamos o antigo cemitério de Trás, da época dos primeiros faraós. Alguns sábios diziam que as tumbas haviam sido escavadas no penhasco de rocha negra três mil anos atrás, mas eu não entendia como haviam chegado a essa conclusão. Sem me fazer notar, examinei as entradas dos túmulos enquanto passamos. No entanto, a distância, não consegui identificar vestígio algum de presença humana recente e fiquei bastante desapontado. Mas continuei olhando para trás enquanto avançávamos.

O vale das Gazelas era uma das reservas de caça reais protegidas por decretos de uma longa série de faraós. Um pelotão de guarda-caças ficava permanentemente estacionado nas colinas que dominavam o vale, para garantir as ordens do rei, que se reservava todas as criaturas que ali viviam. A pena para quem caçasse sem autorização era a morte por estrangulam ento.

Os nobres apearam no topo de um dos morros que dominavam a planície. As tendas foram armadas rapidamente e abriram-se jarros de sherbet e cerveja para aplacar a sede da jornada.

Consegui um ótimo lugar para minha ama e eu assistirmos à caçada, mas de onde também poderíamos escapar discretamente. Observei a distância os rebanhos de gazelas, através da miragem que ondulava sobre o solo, e indiquei-as para minha ama.

— O que elas encontram para comer lá embaixo? — perguntou Los-tris. — Não há sombra de verde. Devem comer pedras, pois dessas há bastante...

— Muitas daquelas não são pedras, mas plantas — expliquei-lhe. Quando ela riu, descrente, vasculhei o solo pedregoso e arranquei um punhado desses vegetais milagrosos.

— São pedras — ela insistiu, até que segurou uma delas e a esmagou. O suco espesso escorreu por seus dedos e ela ficou maravilhada com a sabedoria do deus que teria inventado aquilo. — É disso que elas vivem? Parece impossível...

Não pudemos continuar a conversa porque a caçada já começava. Dois caçadores reais abriram a jaula e os chitas saltaram para o chão. Imaginei que fossem tentar escapar, mas eram dóceis como gatos do templo e esfregaram-se afetuosamente nas pernas de seus domadores. Os felinos produziam um estranho som flauteado, mais semelhante ao de pássaros que ao de ferozes predadores.

No lado oposto do vale marrom e calcinado distingui a linha de batedores, com suas formas diminutas distorcidas pela distância. Moviam-se lentamente em nossa direção, e os bandos de antílopes começavam a se deslocar à frente deles.

Enquanto o rei e seus caçadores desciam a encosta, com os chitas presos em coleiras, nós e o restante da corte permanecemos no alto do morro. Os cortesãos já faziam apostas entre si e eu estava tão ansioso quanto qualquer um deles para saber o resultado da caçada, mas minha ama pensava em outra coisa.

— Quando poderemos ir? — sussurrou. — Quando poderemos escapar para o deserto?

— Quando a caçada começar, todos estarão concentrados. Será nossa oportunidade.

Enquanto eu falava, o vento que havia soprado sobre nós na travessia do rio e refrescara nossa marcha parou subitamente. Era como se um ferreiro houvesse aberto a porta da forja. O ar tornou-se tão quente que era quase impossível respirar.

Mais uma vez olhei para o horizonte a oeste. Ali, o céu havia se tornado de um amarelo sulfuroso. Mesmo enquanto eu olhava, a mancha pareceu espalhar-se por toda a abóbada. Senti-me indeciso. Mas parecia ser o único dentre todos ali a notar o estranho fenômeno.

Embora a equipe de caça estivesse agora no sopé do morro, ainda era suficientemente perto para eu observar os grandes felinos. Eles haviam localizado o rebanho de gazelas, que eram impelidas lentamente em sua direção. Isso os transformara de animais carinhosos em selvagens caçadores, o que realmente eram. Tinham as cabeças levantadas em alerta, as orelhas espetadas para diante e puxavam as coleiras. Seus estômagos côncavos estavam chupados e viam-se os músculos tensos como cordas de arco.

Minha ama puxou meu saiote e murmurou imperativamente:

— Vamos agora, Taita.

Com relutância, comecei a afastar-me na direção de um grupo de rochas que encobriria nossa fuga do resto da companhia. Uma gorjeta em prata para o valete havia-nos fornecido um burro que estava fora de vista, escondido entre os rochedos. Assim que o alcançamos, verifiquei que transportava o que eu havia pedido, um odre de água e uma sacola de couro com provisões. Estava tudo em ordem.

Não pude me conter e supliquei a minha ama:

— Espere apenas mais um instante. — Antes que ela pudesse me proibir galguei até o topo do penhasco próximo e espiei o vale abaixo.

Os antílopes mais próximos corriam algumas centenas de passos adiante do local onde o faraó segurava as chitas. Pude apenas vê-lo soltar os animais e mandá-los correr. Eles começaram a avançar num trote suave, de cabeça erguida, como se estivessem avaliando os rebanhos de antílopes para selecionar a presa. Subitamente os rebanhos perceberam sua rápida aproximação e dispararam a toda velocidade, cruzando a planície poeirenta como um bando de andorinhas.

Os felinos esticavam seus corpos longilíneos, vencendo com as patas dianteiras um grande espaço, e depois impulsionavam-se com os quartos traseiros, dobrando os torsos esguios antes de esticar-se novamente. Em pouco tempo atingiram sua velocidade máxima, e nunca vi animais tão velozes. Comparadas a eles, as gazelas pareciam correr em solo pantanoso. Com uma elegância sem esforço, os felinos ultrapassaram o rebanho e perseguiram algumas gazelas desgarradas, escolhendo suas vítimas.

Os antílopes apavorados tentavam esquivar-se da corrida mortal. Saltavam muito alto e mudavam de direção em pleno ar, retorcendo-se e duplicando o pulo no instante em que seus cascos delicados tocavam o solo. Os felinos seguiam as contorções com graciosa perícia, e o desfecho foi inevitável. Cada um deles derrubou uma gazela ao chão, com uma nuvem de poeira, e então dominou-a, montando sobre ela e es-trangulando-a com as garras presas à traquéia, enquanto as pernas traseiras da gazela davam chutes convulsivos, até finalmente parar no rigor da morte.

A excitação deixou-me trêmulo e sem fôlego. Então a voz de minha ama despertou-me:

— Taita! Desça imediatamente! Eles o verão aí em cima. — E desci para reunir-me a ela.

Embora continuasse excitadíssimo, coloquei-a na sela e puxei o burro pelo terreno acidentado, onde o séquito na colina não poderia nos enxergar. Minha ama não conseguia ficar irritada comigo por muito tempo, e quando mencionei o nome de Tanus ela esqueceu completamente a raiva e incitou a montaria ao encontro dele.

Somente depois de passar por mais uma barreira de colinas e certificar-me de que estávamos fora do vale das Gazelas fiz uma volta e rumei diretamente para o cemitério de Trás. No ar quente e parado os cascos do burro faziam ruído nas pedras como se estivéssemos passando sobre uma camada de vidro quebrado. Eu sentia o suor brotar em minha pele, pois o ar estava pesado, com uma sensação de tempestade. Muito antes de chegarmos às tumbas, disse a minha ama:

— O ar está seco como ossos antigos. Você deveria beber um pouco d'água...

— Vamos em frente! Você terá muito tempo para beber depois.

— Estava pensando apenas em você, minha senhora — protestei.

— Não devemos nos atrasar. Cada momento que desperdiçarmos me deixará menos tempo para ficar com Tanus.

Ela estava com a razão, certamente, pois os outros logo notariam nossa ausência. Minha ama era tão popular que muitos a procurariam para desfrutar sua companhia quando a caçada terminasse e todos voltassem para o rio.

Ao nos aproximarmos dos penhascos, sua ansiedade cresceu ao ponto de ela não poder suportar o passo lento do burro. Lostris desceu da sela e correu até a próxima elevação.

— Chegamos! Ele estará à minha espera — ela gritou, apontando à frente.

No momento em que a silhueta de Lostris saltitava pelo morro, tendo o céu como fundo, o vento atingiu-nos como um lobo faminto, uivando entre as elevações e os desfiladeiros. Apanhou os cabelos de minha ama e os espalhou como uma bandeira, enovelando-os em sua cabeça e erguendo-lhe as saias acima das coxas morenas e esguias. Ela riu e fez piruetas, flertando com o vento como se fosse seu amado. Eu não compartilhei seu prazer.

Virei-me e vi a tempestade aproximar-se pelo Saara. Ela erguia-se terrível pelo céu amarelado, avolumando-se como as ondas que quebram sobre um recife de coral. A areia soprada pelo vento arranhava minhas pernas e comecei a correr, puxando atrás de mim o burro. O vento que soprava em minhas costas quase me derrubou, mas consegui apanhar minha ama.

— Temos de ser rápidos — gritei acima do barulho do vento. — Devemos alcançar o abrigo das tumbas antes que a tormenta nos atinja.

Nuvens de areia elevavam-se diante do sol, formando um filtro que me permitia olhar diretamente para o astro. Todo o mundo estava banhado por aquela sombra ocre, e o sol era apenas uma mortiça bola cor-de-laranja. A areia raspava a pele exposta de nossos membros e nucas. Enrolei meu manto na cabeça de Lostris para protegê-la e conduzi-a pela mão.

Lençóis de areia nos envolviam, apagando a paisagem, e temi ter perdido a orientação, até que subitamente se abriu um vão na cortina de areia e vi a boca escura de uma tumba surgir diante de nós. Arrastando minha ama com uma das mãos e o burro com a outra, cambaleei para o abrigo da caverna. A entrada fora escavada na rocha maciça, conduzindo para o interior da encosta, e fazia uma curva fechada antes de entrar na câmara mortuária, onde um dia a antiga múmia fora depositada para descansar. Séculos antes, ladrões de túmulos haviam saqueado o corpo embalsamado e seus tesouros. Agora restavam apenas os afrescos desbotados nas paredes de pedra, imagens de deuses e monstros que pareciam fantasmagóricos na obscuridade.

Minha senhora sentou-se encostada à parede de pedra, mas seu primeiro pensamento foi para seu amor.

— Tanus jamais nos encontrará — ela gemeu desesperada, e senti-me magoado por sua ingratidão, depois de tê-la posto em segurança. Removi os arreios do burro e amontoei a carga num canto do túmulo. Então servi uma caneca de água do odre e a fiz beber.

— O que acontecerá aos outros, o rei e todos os nossos amigos? — Lostris perguntou entre goles. Era de sua natureza pensar no bem-estar dos outros, mesmo que prejudicasse a si mesma.

— Os caçadores cuidarão deles — eu disse. — São homens valentes e conhecem o deserto.

Mas não o suficiente para ter previsto a tempestade, pensei sombriamente. Embora eu tentasse tranqüilizá-la, sabia que seria duro para as mulheres e crianças que lá estavam.

— E Tanus? — ela indagou. — O que será dele?

— Tanus saberá muito bem o que fazer. Ele é como um beduíno. Pode ter certeza de que viu a tempestade se aproximar.

— Conseguiremos voltar ao rio? Eles nos encontrarão aqui? — Finalmente ela pensava em sua própria segurança.

— Estaremos a salvo aqui. Temos água suficiente para vários dias. Quando a tempestade amainar encontraremos o caminho para o rio.

Pensando no líquido precioso, carreguei o odre cheio para o fundo da tumba, onde o burro não o derrubaria. Agora estava quase completamente escuro e apanhei a lamparina que o escravo havia colocado na bagagem. Assoprei o pavio fumegante e ele se acendeu, iluminando a tumba com uma reconfortante luz amarelada.