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O VALE DAS TORMENTAS / Mary Stewart
O VALE DAS TORMENTAS / Mary Stewart

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O VALE DAS TORMENTAS

 

                       ABERTURA ACADÊMICA

O Hotel do Pimené, Gavarnie, adotou esse nome com base no grande pico dos Altos Pireneus a cuja sombra se encontra pela manhã. Além da barreira de árvores que ensombram seu pátio dianteiro, vê-se a estrada que vem de Lourdes; por trás do hotel e mais para baixo, em uma garganta do rochedo sobre o qual foi construído, estruge e cascateia o Rio Gave, que desce da alta escavação do Cirque para um percurso lento e meandroso nos Baixos Pireneus. As janelas do refeitório dão para essa pequena garganta, de modo que qualquer pessoa sen­tada à mesa pode fitar diretamente, lá embaixo, as pedras mo­lhadas da ponte que conduz ao sopé do Pie du Pimené.

Em uma dessas janelas, num esplendoroso cinco de julho, achava-se sentada a Srta. Jennifer Silver, de vinte e dois anos de idade, fazendo uma refeição excelente. Não se tratava de sua primeira visita à França, e saboreava aquela sensação capitosa de redescobrir o que esse país sempre desperta nos que o amam. E o pequeno refeitório, com seus fregueses cosmopolitas e empenhados em conversa, seu cheiro exótico de boa comida e vinho ótimo, e mais aquela visão estonteante que as janelas proporcionavam, tudo isso era muitíssimo diferente de Oxford, terra natal de Jennifer... Talvez, entretanto, não fosse tão diferente, afinal de contas, pois da mesa vizinha onde estavam duas mulheres de meia-idade, roupa enxadrezada e de sapatos grossos e pesados a despeito daquela manhã encantadora, vinham fragmentos de uma conversa que, da maneira mais irrefutável, tinham a ver com a nova alquimia.

Minha cara Srta. Moon e um pedaço de truite maison, magnificamente preparado, era sacudido em sinal de admoestação, espetado nos dentes do garfo a separação, pela gravidade dos constituintes leves e pesados, como sabe, é tida como essencial na produção de tal combinação. A demonstrada por essas rochas parece ser do tipo rítmico, de escala pequena.

— Concordo inteiramente, Srta. Shell-Pratt — e a Srta. Moon atacou sua truta com a eficiência obstinada e apreciação artística de um verdadeiro trator. — Na verdade, como Steinbascher e Blitzstein afirmam, em sua obra magnífica Einfüh-ring in die Ursprünge der Magmatiten durch Differenziationen, os troctólitos...

Nesse ponto a garçonete, uma bela bordalesa de cabelos escuros e sem conhecer uma só palavra de inglês, trouxe os croquettes de ris de veau à la Parmentier, as pommes de terre sautées, e os petits pois en beurre, e Jennifer, como não era de espantar, perdeu o restante do diálogo fascinante que as vizinhas trocavam. Voltava a fazer a descoberta maravilhosa de que a gulodice mais simples constitui um dos prazeres humanos mais puros. A comida durante a viagem fora agradável e adequada, porém nada mais do que isso; e o que comia agora, como pensava, tomando um gole de vinho cor de topázio para ajudar na mastigação dos pãezinhos doces, era um começo bastante promissor para aquelas férias que tinham resultado de fator tão singular... Lembrou-se da carta de Gillian, que tinha no bolso, e em seu semblante perpassou o mais leve dos sinais de contrariedade. Isso podia esperar; ela se decidira de modo mais resoluto a não se preocupar durante os dez dias transcorridos desde que partira de Oxford e não ia começar agora, pois logo estaria vendo a própria Gillian.

Ainda assim, quando o meringue Chantilly pôde tomar o lugar dos pãezinhos doces em sua mesa, e os gabros hiperestênicos tomaram o lugar dos troctólitos na mesa das vizinhas, ela começou, mesmo contra a vontade, a rememorar os acon­tecimentos que haviam resultado em sua vinda, naquela manhã, para aquele pequeno hotel dos Pireneus.

Jennifer, cujo pai era professor de Música em Oxford, levara a maior parte da vida em Cherry Close, a casa velha e encantadora, cujo jardim cercado de muros tem a parte dos fundos para St. Aldate, quase por baixo dos sinos da Igreja de Cristo. Era filha única, mas qualquer solidão que pudesse sentir tivera fim aos sete anos de idade, pois nessa ocasião sua prima Gillian, que era em parte francesa e residia em Northumberland, fora para lá, com o falecimento repentino dos pais durante uma das primeiras incursões aéreas da guerra, a fim de morar com os Silvers. Estivera com eles por cerca de seis anos, e fora uma solução das melhores para o problema da Sra. Silver, o problema de encontrar o que ela teria consi­derado "companhia adequada" para Jennifer. Ao final da guerra Gillian se casara com Jacques Lamartine, que estivera com os Franceses Livres perto de Oxford, e pouco depois partira da Inglaterra, seguindo para o clima mais forte de Bordeaux, terra do marido.

Assim é que Jennifer, com treze anos de idade, voltara a estar sozinha em Cherry Close. Freqüentava diariamente uma escola particular e cara, próxima de sua casa, e fora mandada passar um ano final em escola ainda mais cara na Suíça. Essa excursão além dos muros fora a única que a Sra. Silver, com sua dedicação inalterável aos padrões de uma era em desaparecimento, teria tolerado. Tendo terminado a educação, a moça devia voltar para casa, devia casar-se adequadamente... sempre fora assim no mundo da Sra. Silver e ela jamais pensara em outra coisa. Se a própria filha tinha alguma idéia quanto ao futuro, jamais fizera qualquer referência a isso. Sempre fora uma filha sossegada, de atitude reservada, atitude essa que a mãe supunha erroneamente ser timidez, e o hábito de aceitar a vida como esta se apresentasse, sentindo-se feliz e com uma serenidade característica que a Sra. Silver (criatura volúvel e muito nervosa) achava insípida. Mãe e filha davam-se muito bem, na yerdade, com afeto profundo, fundamentado em incompreensão quase completa.

O professor Silver conhecia a filha bastante melhor. Fora ele quem, afinal, insistira (deixando brevemente uma abstração Bartokiana para tanto) em que, como Jennifer voltava para casa a fim de viver em Oxford, podia empreender alguma forma de estudo. A Sra. Silver, abandonando seus sonhos deliciosos — e, como reconhecia, impraticáveis — de salas de recepção, concordara finalmente, encontrando algum consolo no fato de que Jennifer preferira estudar artes, ao invés de alguma das ciências, coisa pouco própria para uma mulher, em sua opinião.

Assim é que Jennifer voltara para casa para freqüentar x uma escola de artes e viver em Cherry Close. Não era de imaginar que aqueles muros altos ficassem muito tempo sem serem acossados, pois Jennifer aos dezoito anos tornava-se muito encantadora. Fora criança de traços comuns, com a pro­messa de beleza na ossatura fina do rosto e na tessitura sedosa, os cabelos lisos e loiros claros. Já tal promessa fora cumprida, e a Sra. Silver preparava-se cheia de aflição para a batalha a ser travada contra as hordas de estudantes sem dinheiro e sem capacitação para o casamento, com as quais o professor Silver enchia descuidadamente a casa. Mas não tinha motivo para preocupar-se. Jennifer mostrava-se tão inconsciente — ou indiferente — à admiração desses estudantes quanto até mesmo sua mãe poderia ter desejado.

Foi assim, isto é, até conhecer Stephen Ma6efield.

Ele aparecera um pouco tarde, tendo prestado seu serviço militar e passando pela agrura de efetuá-lo em parte na Coréia, onde fora ferido. Transcorrera todo um ano após seu regresso a um hospital na Inglaterra para ser declarado capaz de retomar a vida que fora tão brutalmente interrompida. Tinha vinte e um anos de idade, mostrava-se cheio de uma sensação amarga de tempo perdido, e do sentimento de poder talvez atrofiado com a mutilação de seu corpo. Atirara-se à música como se a mesma fosse um inimigo adorado, e observando seu brilho espasmódico, quase selvagem, o professor Silver costumava assentir e praguejar.

Desde o início Stephen monopolizou Jennifer. Não parecia existir algo até mesmo remotamente parecido a namoro, na relação que a Sra. Silver observava, aflita; Stephen dava a impressão de não dispor do tempo nem da energia a desperdiçar em namoro, e a idéia não parecia ter entrado na cabeça de Jennifer. O que nenhum dos dois compreendia era que a sereni­dade de Cherry Close e a doçura sem interrupção, característica principal de Jennifer, estavam agindo simultaneamente sobre Stephen como drogas poderosas. Ele mesmo, imerso em sua música que excluía tudo o mais, tinha apenas consciência muito limitada da necessidade que sentia dela; a Sra. Silver, seus receios desfeitos tanto pelo silêncio da filha quanto pela preocupa­ção de Stephen com a música, sonhava com um genro mais do­tado e cessara de preocupar-se.

Isso foi assim até a noite do baile de início de aulas, quando a Sra. Silver, descendo apressadamente as escadas ao ouvir o motor do táxi que chegara — jamais ocorreria à boa senhora a idéia de dar uma chave a Jennifer — abriu a porta e viu algo que fez seu coração afundar-se pelo chão adentro.

Lá estava Jennifer, uma figurinha encantadora em branco prateado, tendo um pé no degrau final, a cabeça voltada para Stephen, que tinha a mão no braço dela, detendo-a. A Sra. Silver não conseguira ver o rosto da filha, mas deu para notar o de Stephen, e o que ali percebeu fizera com que escancarasse a porta e recolhesse a filha com um lindo espetáculo de ceri­mônia, levando-a para a segurança bem iluminada da sala de entrada. Stephen, que com ar bastante cerimonioso declinara seu convite de entrar e tomar café à trois, girara sobre os calca­nhares e se afastara pela rua escura.

No dia seguinte ele fora embora — fora, levando um certificado de brilhante primeiro lugar no bolso, parliindo para Viena, onde estudaria dois anos mais, enquanto a Sra. Silver se apressava em plantar novamente os cardos em volta de sua princesa adormecida e Cherry Close, sem a presença perturba­dora de Stephen, regressava gradualmente à sua antiga paz que só os sinos desfaziam em seu bimbalhar sonoro. Dois anos antes...

Jennifer foi trazida repentinamente ao presente, enquanto a garçonete retirava seu prato vazio. Na mesa ao lado, como dava para ouvir, os gabros hiperestênicos tinham dado lugar aos gabros olivinos, o ortopiroxênio ao olivino e clinopiroxênio; em sua mesa, o meringue Chantilly fora substituído por uvas, pêssegos e cinco espécies diferentes de queijo. Jennifer suspirou, sacudiu a cabeça tomada de pesar o mais genuíno e pediu café.

— Tome comigo — sugeriu uma voz.

Ela ergueu o olhar, cheia de surpresa. Um homem que, de sua mesa a um canto distante estivera a observá-la com firmeza, durante toda a refeição, havia-se levantado e se apro­ximara.

Teria seus vinte e seis anos de idade, era alto e de cabelos castanhos, o rosto fino e boca de traços sensíveis. Os olhos ostentavam pestanas compridas, eram cor de avelã, bem vívidos. Havia na movimentação de seu corpo um ar abrupto e singular que parecia indicar algum impulso nervoso muito intenso, mas a despeito disso caminhava bem, com certa graça que seu leve coxear não destruía. Tratava-se de um rapaz singularmente atraente e, mais do que isso, parecia-se a um homem que algum dia teria importância. Em seu rosto não se notava o menor traço de inflexibilidade, coisa própria dos que procuram o êxito; a impressão era devida a alguma expressão nos olhos brilhantes e cor de avelã, que desmentiam a gentileza dos traços em sua boca.

Os olhos de Jennifer se ergueram e alargaram ao vê-lo, enquanto a cor voltava às suas faces, e logo desaparecia dali, deixando-a lívida como o mármore.

Ela disse, com tom de voz onde transparecia a incredu­lidade:

         Stephen!

Ele sorriu e puxou uma cadeira para sentar.

         Jennifer... posso?

Estendia a cigarreira e, se esta tremia um pouco, Jennifer não estava em condição de observá-lo.

Mas... Stephen! O que está fazendo por aqui?

Em férias. Há alguns dias que cheguei.

Mas... aqui?

Ele preferiu não entender o que ela manifestava com espanto.

         Oh, não neste hotel. Em Gavarnie. Estou com aloja­mento muito mais humilde do que o deste hotel, na Epée de Roland, mas venho comer aqui, às vezes.

Ela aceitou um cigarro, quase aturdida.

         Stephen, que coincidência extraordinária!

         Você não acha? — retorquiu ele, com tanta calma que Jennifer o fitou com cuidado, vendo-o observá-la com diverti­mento, e mais alguma coisa, a transparecer nos olhos.

Ela disse, com incerteza:

         Bem, não é mesmo?

         Claro que não. Eu achei que já era ocasião de voltar a vê-la, só isso. Vim diretamente de Oxford.

A Mamãe... eles sabiam que você vinha para cá?

Nos lábios de Stephen surgiu um leve sorriso.

Acho que tornei isso bastante claro. Ela disse, mudando de assunto:

Você mudou.

O sorriso dele aumentou.

         Você quer dizer que já não me deixo rechaçar com tanta facilidade como antes?

A cor voltou às faces de Jennifer.

Não, claro que não! Que bobagem! Mas... Ele repetiu, incitando-a a continuar, com gentileza:

Mas?

         Eu achei que você poderia ter aparecido para despe­dir-se daquela vez — disse, sem fitá-lo.

Eu apareci. Jennifer ergueu o olhar.

Foi, mesmo? Quando?

— Bem cedo, na manhã após o baile. Sua mãe disse que você ainda estava deitada, de modo que tive de ir embora sem poder vê-la. Mandei-lhe minhas despedidas. Não lhe disseram?

Ela sacudiu a cabeça, sem falar, e diante da expressão de desamparo que surgiu no rosto da jovem, Stephen sentiu que a raiva voltava a invadi-lo, como acontecera aquela manhã dois anos antes, quando voltara impulsivamente a Cherry Close, con­tando com algo que não tinha podido precisar. Talvez uma meia hora em companhia de Jennifer, antes da partida do trem...

Mas fora a Sra. Silver quem o atendera no salão de música, e se dera ao trabalho de explicar com exatidão o motivo pelo qual não era de se desejar que ele visse Jennifer aquela manhã

         ou, na verdade, em qualquer outra ocasião do futuro. Ela o fizera de modo incontestável, cheio de encanto, de crueldade... e lidara do modo mais bondoso possível com a falta de recursos do rapaz, suas possibilidades incertas de futuro e, finalmente, com a instabilidade inconteste do temperamento musical... Ste­phen ficara infeliz e raivoso demais para poder apreciar a delicadeza com que tal argumentação fora abordada pela esposa do professor, que mantivera uma das mãos pousada graciosa­mente no grande piano de cauda Steinway e o olho, falando-se figuradamente, na porta de seu estúdio...

Ele não reagira. O que ela dissera continha muita verdade e, além disso, o próprio Stephen não era dono de percepção completa do que desejava. Sabia apenas que na noite anterior a compreensão de que não voltaria a ver Jennifer por dois anos o empolgara, como a onda de um mar amargo. Os anos prometidos em Viena, que até então tinham sido seu sonho dourado, apresentavam-se naquele momento como anos de exílio, anos em que andaria à deriva das águas inquietas da incerteza, distantes do centro calmo e sossegado de sua vida. E se tinha apenas percepção de suas próprias sensações, por outro lado desconhecia as de Jennifer. A revelação da noite anterior deveria ter sido um início; ao invés disso, parecera o fim... E assim, porque era preciso — e porque tinha um trem no qual embarcar   —        Stephen aceitara o bom senso chapado e aniquilador do que a mãe de Jennifer lhe dissera, partira para Viena e escrevera uma carta por semana a Jennifer — cartas compridas, prolixas, como se fossem conversas de corpo presente, falando principal­mente de seu trabalho — cartas que um irmão mais velho poderia ter escrito e que a Sra. Silver certamente poderia ler.. .

Ao final do exílio de dois anos não restava qualquer dúvida na mente de Stephen sobre o que desejava — sobre o que pretendia, se quisesse voltar a ser ele mesmo e encontrar-se em paz íntima. Seriam necessários mais de doze dragões-mães, muito mais armados do que a Sra. Silver, para impedir que revisse Jennifer e fizesse o início que lhe fora negado dois anos antes. Mas nem mesmo tivera de entrar em luta; a questão já fora acertada pelo professor Silver, a quem a esposa, agitada pela notícia da vinda de Stephen, fora até lá. Stephen, que mais uma vez se via diante de um pai naquele salão de música, ficara aturdido ao ouvir o professor Silver, este falando de suas possibilidades de modo inteiramente diverso... Ia haver, ao que parecia, uma vaga que o professor Silver tinha a certeza de que Stephen poderia preencher... e ia providenciar, na verdade, para que ele a preenchesse...

Stephen voltara a si com um sobressalto e dissera, com cautela:

         Aqui, senhor?

         Sem dúvida — respondera o professor Silver, os olhos com um brilho de malícia. — A outra vaga — aduziu — não seria, de modo algum, o tipo de coisa a que Jennifer está acostumada.

E Stephen, ainda aturdido, só dera cobro de si na rua, tendo no bolso o endereço de Jennifer em Gavarnie, bem como as injunções finais do professor em seus ouvidos: "... Você está precisando de férias, não é? Há algum motivo para não ir até lá? Tem dinheiro bastante? Ótimo... bem, boa sorte. Ela está em Londres agora, em casa da tia, por uma semana, mas se eu me achasse em seu lugar, iria diretamente para Gavar­nie e a encontraria por lá. Vocês dois terão oportunidade muito melhor, fora do ambiente de casa, por assim dizer. Mas... vá com cuidado, meu rapaz. Não creio que ela seja, de modo algum, a florzinha frágil que a mãe pensa, mas não se precipite."

E ali estava ele sentado em silêncio, observando o perfil de Jennifer e percebendo de modo penoso a lacuna de dois anos que tinha de ser consertada, de todas as coisas que precisavam ser ditas e que ele não conseguia preparar-se para dizer. — ainda. E Jennifer, examinando com cuidado o extremo em brasa do cigarro, sentiu que o silêncio se formava entre eles, não o silêncio cômodo do companheirismo de antes, mas uma pausa carregada de algum elemento novo e perturbador, que ela não compreendia. O que acontecera? Por que ele parecera com raiva? E... por que viera? Notou que o coração começava a bater com leveza e rapidez, mas o semblante não deixou trans­parecer sinal algum. Como podia fazê-lo, a menos que ele se manifestasse com mais clareza? E Stephen, a observá-la, perce­bendo alguma incerteza em Jennifer, fechou-se com mais força ainda em suas esperanças e desejos. Impasse...

Foi quando, pelo silêncio, ecoaram os pés muito eficientemente calçados da Srta. Shell-Pratt e Srta. Moon, que deixa­vam a mesa e seguiam ainda conversando animadamente na direção da sala de estar.

         E como era o leito deles? foi a indagação aflita da Srta. Moon, enunciada quase por cima da cabeça de Stephen, enquanto passavam pela cadeira em que se achava sentado. Em horizontal ou vertical?

A Srt. Shell-Pratt mostrou-se bastante brusca na resposta:

         Vertical, Moon. E o leito estava muito agitado...

A porta do refeitório fechou-se com estrondo à passagem delas, Stephen se voltara para lá e ainda olhava por onde as duas mulheres tinham saído, com expressão de divertimento que levou Jennifer a começar a rir.

         E de que diabo elas estavam falando?

De geologia, Stephen, apenas geologia! Estive ouvindo essa conversa por toda a hora do almoço. Você não faz idéia de como a geologia é uma coisa movimentada!

É o que parece disse êle, pondo-se em pé. Dá a impressão de ser uma ciência extraordinária. Suponho que cultivem isso em Cambridge, Venha, Jenny, vamos sair daqui. Quero que tome um licor comigo.

 

                           PRELÚDIO

A sala de estar achava-se cheia de gente, mas eles encon­traram duas cadeiras em um canto fresco, e Stephen pediu a bebida. Em volta, a conversa se apresentava em variedade ani­madora de línguas e sotaques. Três franceses ao lado deles achavam-se apaixonados por tim debate acalorado sobre recente assalto a um banco em Bordeaux; um grupo que visitara o Cirque aquela manhã exibia-se agora a otitro grupo que pretendia visitá-lo de tarde; dois alpinistas suíços confrontavam suas expe­riências com um rapaz francês, enquanto que, ainda ao lado de Jennifer, os troctólitos continuavam na mesma conversa.

—... não subiu ainda ao Cirque? Nesse caso, não alugue a mula do homem com...

—... um anfibólio incolor...

... que matou aquele empregado do banco. Foi a quadrilha Dupré, sem dúvida nenhuma. Eles apanharam o Mareei Dupré, mas a mulher. .. irmã dele, não era? ... ela fugiu...

... estou-lhe dizendo que o estupor da mula quis trotar...

Subindo uma cara lisa de quatro mil pés...

Com um troctólito salpicado de vermelho...

Mas eles vão pegá-la, podem escrever o que digo... a menos que já tenha passado a fronteira...

Graças a Deus disse Stephen, finalmente. Aí vêm as bebidas.

O garçom, a bandeja cheia de copos, seguia habilidosa­mente entre as mesas, e conseguia com a expertise de profissional francês não perder tempo algum e, ainda assim, parecer muitís­simo interessado nos assuntos preferidos dos clientes. Seguia com rapidez por seu caminho tortuoso em meio à conversa, distri­buindo as bebidas ao passar, com uma técnica que indicava muita prática nesse tipo de corrida de batatas às avessas... "Pernod, messieurs? Sim, foi uma vergonha, esse assalto. Os jornais disseram que um dos criminosos enforcou-se na cela. Tant mieux... Madame? Cinzano? Sem dúvida, Paul Lescaut devia controlar melhor aquela mula dele. Aquela foi a avó do de­mônio... Messieurs? O seu Dubonnet... um guia? O melhor era Pierre Bussac, mas êle não anda muito pela aldeia; na verdade, não tem descido com a mula dele desde... vejamos, sim, foi na noite da tempestade muito grande, faz três semanas; mas se monsieur quiser um guia, tenho Robert Vrillac... Mes dames? Água de Vichy... há, sim, havia rochas por ali, sem dúvida; ele com certeza, sabia disso..."

Deixando transparecer algum alívio, veio ter à mesa de Stephen e colocou ali os beneditinos, com o ar de quem trouxera boas notícias, e que o conseguira após vencer oposição das mais fortes. Beneditino, monsieur... merci, monsieur... E con­tava que os quadros estivessem bem. Com ar de triunfo repri­mido, afastou-se.

         E como é possível que ele soubesse disso? inter­pelou Stephen.

         De que estava falando?

Só que eu perpetro algumas aquarelas, como passatem­po. É descanso e mobilização do espírito, e dá um resultado que você provavelmente acharia cômico.

Não acharia! Talvez até gostasse. Sei direitinho tudo quanto se deve dizer para não ofender os artistas. Não sabia que você pintava, Stephen!

Nunca tive coragem de contar isso a você, minha cara. Bem, vou pedir sua opinião de perita... Enquanto isso, ao que suponho, você veio ver sua prima?

Jennifer assentiu, mas uma sombra perpassou-lhe o rosto, de modo que Stephen apressou-se a perguntar:

Que é, Jenny? Há algo errado?

N-não. Isto é, sim, Stephen. Estou preocupada com ela.

Gostaria de me contar?

         Sim, você nunca conheceu a Gillian, conheceu? Casou-se com Jacques no ano em que a guerra acabou. Êle tinha a ver com o comércio de vinhos; e eles eram donos de uma boa casa em Bordeaux... uma vez estive lá com eles... e eram muito felizes. Depois, passaram-se alguns anos e Jacques mor­reu, e como não havia filhos e Gil se achava sozinha em Bor­deaux, ficamos contando que ela voltasse e estabelecesse casa na Inglaterra. Não ficara em muito boa situação, mas não quis ir. Parecia ter algumas idéias tolas, julgando que ia ser um encargo para nós, ou coisa parecida. Mais tarde ficamos sabendo que tinha arranjado um emprego de ensinar inglês na escola do convento local. E depois, na primavera passada, adoeceu... oh, não foi coisa grave. Parece ter-se tratado de uma espécie de gripe não muito perigosa, mas debilitante e deprimente. De qualquer modo, ela pareceu levar muito tempo para melhorar. Escrevemos outra vez e tentamos persuadi-la a ir para a Ingla­terra... ela tivera de deixar o emprego de lado... Mas Gil finalmente disse que vinha para cá, para os Pireneus, tentar recobrar a saúde.

Aqui? Na Gavarnie?

Não é bem assim. Ia ficar em um convento no vale ao lado. Chama-se o Convent de Notre-Dame-des-Orages, e é também um orfanato.

Já estive lá. Fica em um vale pequeno e bem agreste, a poucos quilômetros daqui.

Bem, foi onde se hospedou. Escreveu e contou-me tudo isso no mês passado, e sugeriu que eu aparecesse aqui durante as férias. Eu disse que viria, e depois recebi outra carta dela.

Stephen observava com atenção.

         E o que houve de mais com essa outra carta? Jennifer respondeu, falando devagar:

         Ela me disse que estava muito satisfeita com a minha vinda, porque queria muito falar comigo, debater...

Sua voz faltou e ela ergueu o olhar para fitá-lo, os olhos estavam indicando a preocupação, enquanto Jennifer aduzia:

         Stephen, Gillian diz que está pensando tornar-se freira. Fitava-o com uma espécie de horror enquanto o dizia e, sem

poder evitá-lo, Stephen riu. Tornava-se bem claro que para Jennifer, com vinte e dois anos de idade, um convento era habitat tão normal quanto o palácio do Dalai Lama.

         Que consciência protestante endurecida! comentou êle. Por que poderia ela fazer isso?

Jennifer riu também, com algum pesar.

         Eu sei. É bobagem minha. Mas, Stephen, não é só por isso que estou assim. Começo a pensar que ela deve ter adoecido outra vez, no convento. Eu lhe disse que ela escreveu de novo. Foi na noite anterior à partida para Gavarnie. Olhe, aqui está a carta...

Procurou na bolsa e entregou-lhe a carta...

Trazia a data de 12 de junho... "Estou satisfeitíssima porque você vem. Quero muito vê-la e falar-lhe sobre isto. Quando chegar aqui, estarei em Notre-Dame-des-Orages, e espe­ro que em condição muito melhor. Espero também que lá em cima ficarei um pouco mais próxima de achar a resposta... Você sabe do que estou falando. Não disponho de tempo agora e, de qualquer modo, não tenho clareza bastante de pensamento, ainda, mas vou tentar e escrever mais a você a esse respeito, quando chegar ao convento. Começo a desejar muito a subida para lá. O velho carro ainda está forte e combinamos partir amanhã cedo... Experimente o Hotel do Pimené. Acho que tratam muito bem os clientes, e a preço razoável. Mas vou ver se é possível que você fique no convento... esses lugares às vezes recebem hóspedes, e será mais agradável, porque fica a alguma distância de Gavarnie (e muito mais barato, ao que conto!) e informarei você quando escrever..."

Stephen ergueu o olhar e notou que Jennifer o examinava, tendo no rosto a mesma aflição de antes.

         Mas Gil não me escreveu outra vez explicou a jo­vem. Isso foi há três semanas. Eu disse a ela quando ia para Londres, dei-lhe o endereço, e não recebi mais notícia alguma. Nem ao menos sei se ela chegou aqui.

         Bem disse Stephen, procurando ser reconfortante               eu não me preocuparia mais. Agora que você está aqui, há um modo fácil de descobrir tudo.

Jennifer sorveu o resto da bebida e se pôs em pé.

         Eu sei. Vou até lá para vê-la agora.

Falava com tal decisão que o rapaz a fitou de modo inda­gador.

         Para arrancá-la daquele lugar?

Claro, se conseguir isso retorquiu Jennifer, fitando-o também e rindo. E por que não?

Você, contra a Santa Igreja Católica Romana? Por que não, realmente? O que acha que o Colégio dos Cardeais diria?

Eles podem dizer o que quiserem replicou Jennifer com calma, apanhando a bolsa e seguindo em direção à porta.

         Estou pensando em Gillian.

Stephen, a quem ocorrera a lembrança passageira da Sra. Silver, sorriu e seguiu no encalço.

 

Eles caminharam pela aldeia e começaram a subir a estrada na encosta que serpenteia pelo vale do Gave d'Ossoue, o primeiro e mais lindo afluente do Gave. Atrás deles, as casas pareciam afundar-se e desaparecer na concavidade ensolarada, até que os telhados coloridos e a torre da igreja, bem como a pequenina ponte encurvada, parecessem um amontoado de brinquedos peque­ninos e brilhantes à extremidade de uma fita branca, formada pela estrada.

Era uma tarde dourada de sol. A estrada subia à frente deles pela encosta, o vale desdobrando-se em curva após curva. Logo de começo, a estrada se via apertada, com lados íngremes e verdes tombando até o leito do córrego à direita, erguendo-se outra vez além da água, em pastos naturais e lindos, onde animais caminhavam, fazendo tilintar vagarosamente seus cincerros. O vale retorcia-se na direção do sul, e diante deles a grande muralha dos cumes verde apagados que o barrava havia-se, como por milagre, dividido, e agora o vale e a estrada se achavam entre encostas revestidas de pinheiros e rugindo, cheias de luz de sol, rumando para cristas ainda mais distantes em azul, que se encostavam no céu. E estas, que a distância tornava esmaecidas, orladas em neve e sombra contra os dedos compridos de nuvem que se prendiam a elas eram, de modo inacreditável, apenas as primeiras elevações das barreiras maio­res que havia além.

Não pareceu tão distante, até o Vale das Tormentas. Este se estendia, vindo do sul, numa faixa verde e estreita nascida das cordilheiras espanholas, e seu curso de água gelada, o Petit Gave, escachoava no Gave d'Ossoue, uns cinco quilômetros acima de Gavarnie.

         Chegamos. Aí temos o Vallée des Orages — observou Stephen. — Você verá o convento assim que passar por aquele penhasco.

Dito isso, olhou-a bem e aduziu:

Prefere ir sozinha agora?

Sim, por favor. E obrigada, Stephen.

O prazer foi todo meu — disse ele, de modo formal, sorrindo em seguida. — Nós nos veremos hoje à noite.

Ela saiu da estrada, tomando a trilha — era pouco mais do que isso — que dava para galgar ao vale menor. Caminhava com firmeza e logo, ao fazer uma curva na trilha, Jennifer viu, a alguma distância, encastoado contra o flanco da montanha à esquerda, o convento de paredes altas e brancas. Uma pequena torre quadrada se projetava a fim de receber a luz do sol, apresentando-se em branco muito vivo sobre um contraforte de pinheiros mais além e, enquanto o entrevia e calculava sua natureza, Jennifer viu, flutuando no vento carregado de tomilho, o som prateado de um sino.

Ela inclinou a cabeça para ouvir, sorrindo, todo o corpo atingido, como que lavado, formigando em prazer intenso. Mas logo a própria beleza contida naquela nota pura e sem paixão, insistindo batida após batida e afirmando a estranheza do lugar, empolgou-a de sensação nova, em parte prazer e em parte medo, e inteiramente parecida à sensação de um sonho. Para Jennifer, de súbito, naquele lugarejo alto com sinos e águas escachoantes, a missão que a trouxera parecia ter perdido todo o caráter de realidade. Com as muralhas brancas e distantes do convento, contrastando na orla aguda e única de pinheiros, Jennifer não conseguia observar qualquer ligação com a prima Gillian. O simples fato de pensar em Gillian residindo em Bordeaux, uma francesa entre os franceses, tinha sido algo fantástico, e imaginá-la ali a Gillian esguia e loura, com o céu de Northumberland nos olhos cinzentos imaginá-la ali, sossegada e enclausurada entre as Irmãs de Nossa Senhora das Tormentas, era algo impossível. Gillian, fechada naquele vale solitário, talvez para sempre. ..

Seus passos tornaram-se hesitantes, ela estacou. Estava fitando as muralhas distantes do convento como se fossem as de uma prisão, uma fortaleza encantada a ser tomada de assalto a própria Torre Negra, circundada por seus morros vigilantes. E ela viera sozinha para tomar aquilo de assalto, ela que era uma forasteira, uma intrusa... sozinha. Sozinha. Essa própria palavra, naquele vale selvagem, parecia ainda mais fria, mais débil, mais abandonada.

Um estremecimento leve a percorreu e desapareceu como a sombra efêmera lançada pela asa de um pássaro. Jennifer olhou em volta, apressada, até mesmo apreensivamente, em rea­ção involuntária que a incomodou até mesmo enquanto ocorria. Os morros esperavam. O sol brilhava com firmeza sobre o vale vazio. Não se notava movimento algum, senão o passar das águas brancas; não se ouvia som algum, senão o bimbalhar distante do sino, as batidas de seu próprio coração...

O som que estivera crescendo com firmeza em seus sentidos, em meio ao escachoar da água, não era das batidas de seu próprio coração, afinal de contas. Tratava-se de uma cadência rápida, accelerando, um tropel por trás dela, seguindo a grama da trilha do vale, trazendo consigo aquela sensação formigante e leve de animação, aquele formigamento apreensivo e lento da pele que a nossa herança, deixada por inúmeros homens, desde muitos mortos, para quem o som repentino de cascos em galope representava perigo.

O estrépito cresceu, aumentou, eclodiu no vale aberto, enquanto os três cavalos faziam a volta e se aproximava em galope, as crinas esvoaçando, os pescoços castanhos estendidos à frente.

Jennifer saiu rapidamente da trilha, mas seu cuidado foi desnecessário, pois antes que a cavalgada chegasse ao ponto onde estivera, o cavalo da frente foi sofreado por seu cavaleiro, fêz uma curva acentuada e saiu da trilha, descendo pela relva íngreme na direção do rio. Os dois cavalos que o acompanha­vam, sem cavaleiros, seguiram-no imediatamente. Ela teve o vislumbre do cavaleiro, um jovem com seus dezoito anos, o corpo ágil e enérgico e rosto moreno, de aspecto espanhol. Ele se achava muito bem sentado na sela, e a reação ajustada e fácil do corpo aos movimentos do cavalo indicavam uma espécie de prazer selvagem no mergulho que o animal fizera pela trilha. Perto da margem, Jennifer viu que seu cavaleiro puxava a cabeça do animal para firmá-lo, e enquanto o fazia parecia quase fundir-se no corpo do animal; o galope desen­freado diminuiu, firmou-se, e o animal controlou-se à beira da água e saltou o obstáculo largo. Os cavalos soltos, sem sela e as rédeas amarradas bem alto nos pescoços, saltaram após ele, e a luz do sol refletiu-se em seus corpos enquanto voavam, saltando o curso d’água.

 

Saltos de cavalos tinham sido tão belos que faziam os olhos arder e a garganta também. Era como observar o vôo impecável de flechas brilhantes, transformadas em ouro...

E então, sacudindo os quadris e na mistura de cascos que batiam no chão uma saraivada de pedras pequenas, eles desapareceram em volta de um penhasco distante na montanha calva.

O sino parara de tocar. A poeira rodopiava, espalhava-se e começava a cair.

Um camponês voltara para casa com seus cavalos, depois de alugá-los na cidade; fora tudo.

Jennifer deu de ombros, arredando de si a mágica da montanha, e acelerou os passos, subindo o vale.

 

                           PERGUNTAS E RESPOSTAS

O portão do convento, na muralha branca, alta e lisa, era de madeira escura, com a parte superior arqueada, e dobra­diças enormes, de ferro trabalhado. Jennifer, tendo puxado a aldrava antiga, esperava em meio ao silêncio quente. Um gafanhoto, saltando sobre a sombra dela, estendeu sua asa de pára-sol, feitas do azul em pó mais descorado, e o minúsculo lagarto que embarafustou pela pedra quente parecia parte do mesmo encantamento que pairava em volta dela, em tal tranqüilidade. O cheiro dos pinheirais além da murada distante dos edifícios era forte e aromático, encantador também, nas recor­dações com que permeava o ar límpido.

Mas a jovem de faces coradas que veio finalmente abrir o portão desmanchou os últimos passes de mágica. Era, presumivelmente, uma das órfãs acudidas pelas boas freiras; muito jovem, não tinha mais do que quatorze anos, e seu corpo firme e sadio estava envolto em um camisolão de algodão azul e empoeirado. O rosto brilhava, redondo e viçoso como uma maçã, e as pernas à mostra achavam-se tisnadas de sol. Ela sorriu com timidez para Jennifer, e nos olhos redondos e azuis trans­parecia a curiosidade.

Jennifer falou em francês.

Eu me chamo Silver. Jennifer Silver. Creio que me esperam aqui. Vim visitar minha prima, que está no convento... Madame Lamartine.

O efeito dessa apresentação simples foi inesperado. O sorri­so desapareceu do rosto animado da menina. Esta não disse coisa alguma, mas aproximou-se um pouco mais do portão, dando a impressão de que gostaria de fechá-lo naquele mesmo instante.

         Espero prosseguiu Jennifer, educadamente não ter vindo em momento inconveniente. Tenho licença para entrar?

A jovem continuava a fitá-la de olhos arregalados e abriu a boca como se fosse falar, mas logo a fechava outra vez, e arrastou os chinelos de sola de corda na poeira do chão.

Jennifer, um tanto surpreendida, recomeçou:

         Se não há inconveniente... um pensamento lhe ocorreu, e ela perguntou: Você é francesa, e não espanhola, não é assim?

A jovem assentiu, e parecia agora prestes a prorromper em uma risadinha nervosa.

         Nesse caso, tenha a bondade de me levar à autoridade

disse Jennifer, com firmeza, sem saber o motivo pelo qual uma criança que não sabia falar era a encarregada do portão.

Leve-me à Madre Superiora, por favor.

Para seu alívio, diante destas palavras, a jovem recuou e abriu mais o portão, mas seus olhos, ainda a fitá-la como se estivesse fascinajda, mantinham um traço dç inquietação do qual Jennifer não gostou de modo algum. Sobre aquele brilho infantil e azulado era como se o desânimo se apresen­tasse sim, e alguma coisa medonha e obscura. Algo, de qualquer modo, que não era simplesmente timidez e medo às pessoas desconhecidas; algo que começava a comunicar-se a Jennifer, na mais leve sensação premonitória. Algo, como Jenni­fer dizia com rispidez a si própria, que estava sendo trazido das profundezas do subconsciente, onde meia centena de contos românticos havia contribuído para nutrir aquela mente secular com o medo supersticioso das muralhas do convento. Isso, ao que lembrou com alguma aspereza, enquanto passava pela órfã e chegava a um pátio pequenino, não era um enredo do tipo fantasmagórico, onde as celas de mosteiro e pavores notur­nos sucediam um ao outro, assim como a noite sucede ao dia; aquilo não era uma localidade da Transilvânia em horas mortas da noite. Tratava-se de instituição pequena e pacífica, dirigida em moldes medievais, talvez, mas ainda assim refeste-lando-se com calma ao brilho quente do sol, em uma tarde civilizada.

Tampouco, na verdade, o pátio pelo qual começava agora a conduzi-la vinha sugerir, até mesmo de longe, quaisquer flagelações, ou freiras sepultadas vivas, ou algum dos lugares-comuns da vida monástica fictícia. O calor e a luz apresentavam-se em ondas tangíveis, refletidas na poeira do soalho e nos muros brancos, onde as trepadeiras, encobrindo em parte o brilho, pendiam pesadamente em volta das janelas arqueadas. O pátio mostrava-se inacreditavelmente parado e quente, era um pequeno poço de tranqüilidade onde se tinha quase de abrir caminho em meio ao calor palpável do ar e, em seu centro, como um símbolo, o próprio poço se apresentava rodeado de grama pisada, o balde imóvel, inteiramente seco, pendendo da corda.

As duas alas do edifício formavam as muralhas meridional e oriental do pátio, e em seu encontro via-se a capela, com sua torre quadrada projetando-se acima dos tetos. A menina seguiu à frente em diagonal, atravessando o pátio e rumando para aquele canto, onde a arcada dava para uma passagem de pedras, uma espécie de túnel que contornava a extremidade da capela e seguia diretamente, passando pelo bloco meridional do edifício, rumo aos jardins mais além.

No interior do túnel havia obscuridade, a atmosfera era magnificamente fresca. Jennifer fez uma pausa momentânea, reconhecida, como se a friagem da pedra estivesse a dar-lhe o banho reconfortante de uma brisa fria. À esquerda, um lance estreito de degraus ia ter a um corredor de pedras lisas; mais além, pelo túnel, uma porta pesada, a corda do sino enrodilhada ao lado, dava a impressão de ser uma entrada para a capela. Em frente à porta da capela via-se outra que, como Jennifer descobriria mais tarde, dava para o refeitório e cozinha, os dormitórios das órfãs e freiras leigas, no pavimento superior.

A jovem que a conduzia seguiu rapidamente, subindo os degraus até o salão, que parecia ser o centro dos escritórios principais do edifício. Ali encontrava novamente a luz do sol, mas dessa feita a luz forte era mitigada pelos trabalhos lindos de vitrais, estendendo sua cauda de pavão em dourado, verde e ametista, até as pedras do chão, onde os degraus de um imponente lance de escadas os detinham.

— Suponho — Jennifer começou a dizer, quando a menina começou a subir apressadamente os degraus — suponho. ..

Mas a jovem, dedicando-lhe um olhar cheio de apreensão, seguiu à frente, as pernas nuas reluzindo com rapidez naquela luz que fazia pensar em jóias: vermelhão, âmbar, esmeralda... Pare. Atenção, Siga, pensou Jennifer sem o poder evitar, recha­çando a recordação dos autores de enredos cheios de horror. Ela tratou de acompanhar a jovem, enquanto a luz variegada se matizava no vestido, e entrando na sombra da parede de lambris no lance de escadas, onde um santo após outro parecia fitá-la, na imagem de veniz marrom, pintada em telas pequenas e sem dúvida alguma medíocres. São Sebastião, naturalmente, lá estava mais do que perpassado de flechas; Santa Teresa sobre uma nuvem, miraculosamente suspensa; e uma terceira figura mais apagada, retirada, na escuridão do verniz, mas, mas ainda assim indubitavelmente cercada por uma revoada de pombos, gansos, cegonhais, biscos chilreiros e uma ave que se parecia muitíssimo a uma cacatua... São Francisco e seus amigos logo ficavam para trás na escada, enquanto Jennifer, acompanhando a jovem, chegava a um corredor superior e com­prido, certamente iluminado pelo brilho vespertino que atra­vessava as janelas comuns, incidindo em uma parede branca e uma fileira de portas feitas de madeira em cor clara. E aqui, em nichos e outras janelas, estavam novamente os santos, triun­falmente emergidos da obscuridade das pinturas, como pequenas estátuas corajosas ao brilho de vermelho e azul e dourado, com alegria variada de flores em volta dos pés.

Os autores de enredo de pavor, batidos, desapareciam na­quela fartura de luz, e Jennifer falou em tom decidido, que fez a órfã apressada deter-se em meio do corredor.

         Diga-me, por favor — e a jovem voltou-se para fitá-la — se vou conseguir ver hoje minha prima.

Naquele ponto, todavia, para espanto de Jennifer e sua crescente exasperação, a órfã levou de repente a mão à boca aberta, mas não o fez a tempo de abafar uma risadinha nervosa e estridente. Sobre aquela mão que lhe encobria a boca, os olhos azuis a fitavam com a mesma expressão fixa e descon­certante. Ela engoliu em seco e não respondeu.

         Ora, escute aqui — começou Jennifer a dizer e logo, como a inquietação nos modos da menina voltava à contagiá-la, disse em voz que se aguçava na apreensão: — Há algo de mais? Minha prima adoeceu? Ela está aqui, não é... Madame Lamartine?

E então, para seu embaraço e desalento, viu que embora a menina ainda engolisse em seco nervosamente, a boca encoberta pela mão, havia lágrimas de perturbação verdadeira na­queles olhos azuis e redondos. Mas quando Jennifer se apro­ximou dela, a órfã recuou e, voltando-se, correu o mais depressa que pôde. Seus passos deslizavam e faziam estrépito pelo lance da escada, afastando-se com rapidez do salão de pedras lisas lá embaixo, e desaparecia.

Jennifer, abandonada desse modo em um corredor vazio, -ficou olhando a menina por alguns momentos, no espanto mis­turado com inquietação e então, desistindo de preocupar-se com ,a jovem, começou a olhar em volta.

As portas que tinha à direita estavam todas fechadas; os santos à esquerda continuavam calados, todos eles; mas na extremidade da avenida fartamente iluminada, que era aquele corredor, viu outra porta cujo lintel esculpido em ornamentos complexos em ferro dava a impressão de importância. Devia ser aquela, com certeza, a sala da Madre Superiora, em direção da qual pedira à órfã que a levasse. Jennifer hesitou por mo­mentos, oprimida agora pelo silêncio que se formara em volta; por momentos, pareceu-lhe ainda menos possível caminhar por aquele corredor e bater audaciosamente à porta. A fantasma­goria do lugar estava a oprimi-la bastante e lembrou-se, no mesmo instante, que desde o começo até o fim a órfã não pronunciara uma só palavra. Talvez, pensou Jennifer, aban­donada ali em meio ao corredor, fosse aquele o tipo de convento em que ninguém falava. Trapistas, era como se chamavam. Ou seriam os trapistas sempre homens? E podia-se ensinar...?

Nesse momento, como uma aragem levíssima que faz erguer •os pêlos da nuca, veio a sensação de que estava sendo observada em silêncio. Observada por alguém situada atrás dela.

Ela voltou a cabeça sobre o ombro, e lá estava o olhar castanho e brilhante de Santo Antônio, sorrindo para ela, em seu nicho, enfeitado de perpétuas e o repositório de velas extintas; Santo Antônio, aquele que encontrava o que houvesse perdido... nada havia naquele sorriso fixo que pudesse ter causado o pequeno frisson de arrepio, momentos antes. Ela se voltou mais e notou o olhar de uma figura imóvel de preto, que se apresentava como se fosse outra estátua em um umbral de porta. Mas a porta fora fechada, quando passara por ali momentos antes. E os olhos daquela estátua eram vivos.

O silêncio e o ar estranho do lugar tinham trabalhado de modo tão eficaz que, por parte de um momento, Jennifer não pôde compreender o fato simples de que ali, finalmente, estava uma das internas do lugar, que lhe poderia dizer o que queria saber. Em vez disso, diante da visão repentina da freira em manto negro e em pé atrás dela, teve uma sensação forte de choque; aquela contração dos músculos do estômago, o esvazia­mento rápido e regelante do sangue no coração, que por ins­tantes cancela o funcionamento normal da razão e a ação.

Aqui, no corredor ensolarado do convento, era por certo o lugar onde se devia contar com a presença de uma freira, em manto igual àquele. Mas a mágica exercida pelos vales altos, a estranheza do silêncio e o comportamento inexplicável da pequena no portão tinham sido de tal natureza que Jennifer fitou a figura em hábito negro tomada por todo o horror e apreensão com que teria encarado um ser sobrenatural, recém-chegado dos mistérios medievais da Inquisição.

Foi quando a figura falou e caminhou do umbral, deixando assim de lado seu anonimato fantasmagórico, transformando-se desse modo em uma mulher alta, de voz calma e autoritária.

— Buenos días, señorita. A Reverenda Madre está ocupada no momento, mas talvez a senhorita possa tratar do assunto comigo. Quer fazer o favor de entrar?

O aposento para o qual Jennifer a seguiu dava as mesmas indicações de pobreza que notara no resto do convento. Era quadrado e pequeno e, além dos móveis simples, formados pela cama dura, uma só cadeira, cômoda e prie-dieu, não continha mais coisa alguma. O soalho, de tábuas brancas e bem esfrega­das, não ostentava qualquer cera, e o prie-dieu simples e não-entalhado parecia deliberadamente colocado de modo que o olhar de quem ali se ajoelhasse se afastasse da visão ensolarada do prado e da montanha, dirigindo-se a um crucifixo tosco — uma efígie onde se tornava perfeitamente claro que a cruz era um instrumento de tortura. O odor de santidade, pensava Jennifer, passando para aquele ambiente onde não havia luz de sol, era com toda a clareza o odor do pano bruto. Se aquela era a norma dirigindo a Irmandade de Nossa Senhora das Tormentas, nesse caso o lugar servia ainda menos para Gillian.

A ocupante do quarto fechou a porta sem ruído e voltou-se.

Vista ali, na luz clara e sem sombras que entrava pela janelinha, seu aspecto parecia tão espanhol quanto as primeiras palavras haviam sugerido. Algures, muitas vezes, Jennifer vira aqueles traços de estirpe nobre, ossos finos, em semblantes que fitavam as pessoas altivamente, pintados em telas, ornamentados com rufos e jóias. O nariz comprido e narinas arqueadas, as angulosidades da face e mandíbula, a linha fina da boca que já fora apaixonada — ali estava a linhagem e a arrogância da antiga Espanha, que fora levada à submissão, por assim dizer, mediante a fome. Somente os olhos grandes e escuros cintilavam ainda com o fogo que ali já residira, e eram encobertos como o de um falcão, sobre pálpebras que já não mais eram lisas, porém enrugadas e com o arroxeado de olheiras, como pétalas desbotadas de papoula. Seu brilho, que já fora grande, diminuíra de modo que se mostravam tão difíceis de interpretar e de ler quanto o olhar obsidiano de uma efígie.

Ela continuou em pé ao lado da porta, as mãos cruzadas e ocultas, do modo tradicional, nas mangas compridas do hábito. A veste e a cobertura eram em tecido negro, sem encontrar qualquer atenuação em algum contraste delicado da orla branca da touca que emoldurava o rosto. Sobre a veste grossa e que alcançava o chão ela usava uma espécie de túnica, até a altura dos quadris, e presa na cintura por um cordão nodoso. Esse ornamento de aspecto medieval (no que Jennifer se lembrou com agudeza de uma tela espanhola do século dezessete) tinha um capuz que encobria inteiramente os cabelos e era preso sobre o queixo, emoldurando o rosto. Por cima havia um véu claro e fino, que caía abaixo dos ombros. Tudo quanto trazia algum alívio ao negro sombrio da roupagem era a pequena cruz no peito da freira, e também o rosário pendente de sua cintura.

Com leve inclinação da cabeça ela indicou a cadeira isolada a Jennifer, e permaneceu em pé, próxima à porta.

Jennifer sentou-se. Para sua surpresa, persistia a sensação ilógica de desconforto. Diante de uma das internas do convento, aquela mulher que se mantinha imóvel em vestimenta tradicional e medieval, formando contraste com a simplicidade austera da parede branca e alojamento sem enfeites, devia com certeza poder deixar de lado seus receios anteriores, como absurdos. Por que, então, a aparência da mulher vinha a dar mais corpo do que diminuir a inquietação sem sentido dos últimos minutos.

Foi quando a mão da espanhola moveu-se da manga do hábito e foi tocar a cruz em seu peito, e Jennifer compreendeu, ainda que lamentando a sua perplexidade. Em um dos dedos compridos e brancos brilhou um anel enorme, com ametista, côr suavemente feminina em confronto com a túnica negra. Enquanto Jennifer acompanhava, levemente chocada, o movi­mento do anel com o olhar, viu também que a túnica e a veste brilhavam, no lustre inconfundível da seda. Também o véu era de seda tão fina quanto cambraia.

... já os dedos compridos brincavam com a cruz do peito. Também ali Jennifer percebeu o brilho de uma jóia; o brilho masculino de um rubi, em resposta ao brilho mais macio da ametista... O efeito causado era o de força sombria e contra aquele pano de fundo branco e simples curiosamente desagradável.

         E como posso servi-la? — indagou a voz, calma e precisa.

Jennifer afastou de si o que, afinal de contas, devia ser apenas uma impressão momentânea e levemente influenciada pelos nervos, apresentando-se declinando sua missão, sem per­der mais tempo.

         Meu nome é Silver, e sou a prima de Madame Lamartine que, ao que estou informada, acha-se aqui com vocês...

Fez uma pausa, sem saber qual o motivo exato para isso. Os olhos negros que a observavam não deixavam transparecer qualquer expressão, porém o rubi no peito da mulher cintilou e depois voltou a embotar-se. Ela não fez comentário algum.

Jennifer prosseguiu, um tanto apressadamente:

         Ela me escreveu para que viesse vê-la, de modo que aluguei um quarto em Gavarnie, por uma quinzena. Cheguei hoje de manhã, e vim diretamente para cá, contando vê-la hoje. É possível, ou terei vindo em momento inconveniente?

Fez uma pausa, cheia de expectativa. Por momentos, a mulher não respondeu, e depois repetiu, falando devagar:

A senhorita é a prima de Madame Lamartine?

Sim.

Ela lhe disse que podia vir aqui e vê-la?

         Sim — repetiu Jennifer, tentando afastar da voz qual­quer som de impaciência.

         Mas a senhorita é inglesa.

Ela também. Casou-se com um francês e a mãe dela era francesa, mas ela é inglesa.

Mas... — e a mulher tinha começado a falar, mas se deteve, e as pálpebras grossas encobriram-lhe os olhos, não a tempo de ocultar um lampejo de perplexidade, e alguma outra coisa que Jennifer não conseguiu identificar. A freira guardou silêncio.

E isso importa? — perguntou Jennifer. — Ela, com certeza, mencionou o fato de que eu estaria vindo para vê-la. Naturalmente, supus que podia fazer isso, ou ela teria escrito para que eu não viesse.

A outra não ergueu os olhos. Disse devagar, de modo quase distraído:

         Não. Não, ela não fez menção ao fato. Não sabíamos que tinha qualquer... ligação.

Havia algo tão estranho no tom da última frase que mais uma vez Jennifer teve aquele assomo curioso de inquietação.

Ela disse, procurando manter a voz em tom agradável e despreocupado:

         Compreendo. Sinto muito tê-los encontrado sem conhecimento disso. Mas gostaria muito de vê-la, agora que vim. Pode levar-me a ela, por favor, Irmã?

A mulher em veste negra, todavia, continuava ali, sem dar qualquer resposta, e de repente a impaciência e a inquieta­ção anterior de Jennifer juntaram-se, formando torrente de apreensão. De repente se tornava urgente, imperativo, que visse Gillian. Era ao mesmo tempo errado e absurdo que tal encontro se tornasse tão difícil; um convento não era prisão, e, de qual­quer modo, Gillian não podia, de modo algum, ter feito ainda os votos, de forma que as regras do convento não se aplicavam a ela. Por que, então, deveriam ser apresentadas aquelas barrei­ras impalpáveis entre as duas, a cada instante Por mais ridícula que a desconfiança parecesse, ela começou a ver no silêncio da jovem que a atendera no portão, e na falta de correspondência daquela mulher, a indicação de um esforço misterioso no sentido de mantê-la afastada de Gillian.

Ela disse, em tom equilibrado:

         Eu sei que minha prima esteve doente; ela própria escreveu e avisou. Se está doente agora, gostaria muito que me dissesse a verdade. De qualquer modo, esteja bem ou esteja enferma, gostaria de vê-la. Agora mesmo, por favor.

Tal pedido obrigava uma resposta. As pálpebras grossas se ergueram e aqueles olhos sem qualquer expressão fitaram os dela.

Receio que não seja possível.

Quer dizer que não posso? — e Jennifer teve um movimento brusco. — Por que não? Ela ainda está aqui, não é?

Algo voltou a brilhar naqueles olhos escuros e espanhóis e, de modo inteiramente repentino, Jennifer sentiu mais uma vez, bem fundo em seu ser, a garra fria do medo.

Não é?

Oh, sim — disse aquela voz calma — ela está aqui. Morreu há duas semanas, señorita, e foi sepultada em nosso cemitério. Quer ir lá agora?

 

                           A CAMINHADA AO JARDIM DO PARAÍSO

Foi misericordiosamente entorpecida, sem ter ainda saído do pesar, que Jennifer, seguido sua nova companhia, voltou atrás aos passos que dera para chegar lá. Foi pelo corredor, passando por trás das portas e janelas refulgentes, onde os santos esperavam, mudos em seus nichos sombrios... Eu encon­trei aquilo que perdi... O sorriso imutável de Santo Antônio passou por cima de sua cabeça que não o percebia, e tampouco ergueu os olhos ao descer em silêncio a escadaria ampla, entre outras fileiras de observadores.. . São Francisco, Santa Teresa, São Sebastião... e qualquer consolo que pudesse encontrar naquelas telas imersas na penumbra não foi curado; Jennifer nem sequer as olhou. O salão, ainda cheio de luz farta, que fazia enxamear pontos azuis e escarlates na poeira dourada e cor de topázio, a passagem pelo túnel fresco e com ecos, a porta da capela... tudo aquilo perpassou como um sonho, esque­cido no mesmo instante.

E haviam deixado o edifício, irrompendo então pelos lados o brilho do jardim ensolarado.

Se a pobreza fora a nota marcante nos edifícios do convento, o jardim tranbsordava de riqueza. Havia, até mesmo ali, certa indicação de austeridade monástica, no fato de que nenhuma flor crescia apenas para ser bela, mas os canteiros formalizados, debaixo dos pessegueiros, eram ricos de tomilho, lavanda, ale­crim purpúreo, enquanto os pés das pereiras e macieiras, for­mando latadas nos muros em volta, estavam bem afundados em um tapete prateado de salva. Uma fileira de pés de abricó dava apoio a uma desordem disciplinada de vinhedos; por baixo, em filas bem arrumadas, caules descoloridos vergavam sobre o ver­melho fabuloso de tomates. Havia até mesmo duas laranjeiras como que sentinelas na extremidade de uma trilha orlada de canteiros, e com suas frondes simétricas vergadas ao peso de frutas verdes e luzidias, parecendo guardiãs de algum portão fantástico dando para o país dos contos de fada, ou para o herbanário representado em alguma publicação medieval desco­lorida... basílico, verbena, borragem açafrão, hissopo, zimbro; violetas para reconfortar o coração, esclaréia azul e o pequeno tomilho de limão... Por cima de tudo pairava o odor de especiarias e terra quente, e o cheiro resinoso dos pinheirais pró­ximos, misturando-se sonolentamente com a fragrância da lavan­da. Não se ouvia ura só pássaro cantando, mas era forte o zumbido das abelhas.

Jennifer não percebia nada disso e tampouco, ao que parecia, o ambiente era observado por sua companhia de veste negra, que, por algum motivo próprio, sem dúvida, passou céleremente entre as laranjeiras, de olhos baixos, e seguiu à frente para uma trilha cujas orlas impediam o avanço de uma onda de bálsamo e papoulas sonolentas, rumando para um portão de ferro na muralha oriental do jardim. Mas antes de chegar lá, algo quer fosse o zumbido alto e repentino de uma abelha passando demasiadamente perto de seu rosto, ou a visão de um lagarto cruzando a trilha, ou a batida emudecida de um abricó maduro que caíra em meio das ervas algum pequeno sobressalto nos sentidos fez com que Jennifer voltasse a si.

Ela deteve os passos e falou:

         Irmã, por favor.

A mulher voltou-se. As mãos brancas estavam novamente escondidas, mas o rubi cintilou, atingido pela luz do sol. A copa de um pessegueiro, que formava sombras à luz do sol no hábito negro, lançou um véu na parte superior de seu rosto.

         Por favor disse Jennifer, detendo-a com um gesto só um momento. Por favor, diga-me... um pouco mais do que aconteceu. Foi um choque para mim, como percebe. Gostaria que me contasse... como aconteceu.

         Que deseja saber?

Em tais circunstâncias, a pergunta já era surpreendente, mas a voz calma e mais toda a atitude indiferente da mulher tornavam aquilo uma afronta. Uma pontada sadia de raiva veio aguilhoar o entorpecimento causado pelo pesar em Jennifer.

Ela disse, com veemência:

         É natural que eu queira saber alguma coisa a respeito! Venho aqui, contando ver minha prima; não tive qualquer notí­cia dela desde que me escreveu, faz três semanas, pedindo que eu viesse. Foi com a maior dificuldade que descobri alguma coisa a respeito... e agora a senhora diz que ela morreu, e acha que isso é o bastante? Não acredita que eu tenha o direito de saber como ela morreu, e por que nenhum dos parentes foi informado do falecimento?

Por toda a duração dessa explosão a outra não se mexeu, e permaneceu ali em pé, ouvindo e de cabeça inclinada, atitude humilde que de algum modo deixou inteiramente de dar a im­pressão de humildade; Jennifer, na verdade, viu-se com a im­pressão singular de que a espanhola estava empenhada em algum tipo de cálculos rápidos e desagradáveis. Fosse lá como fosse, o resultado pareceu ser uma transformação de atitude, pois quando Jennifer parou de falar, a outra pareceu pronta a proporcionar as informações desejadas; na verdade, estava quase preocupada em oferecer relato tão completo que nada mais restaria por indagar.

— Ela faleceu de pneumonia, depois de um acidente de automóvel que aconteceu quando vinha para cá, de Bordeaux, no dia 13 de junho. Ela veio dirigindo em um dia ruim, depois de ter caído muita chuva pesada. Anoitecia, o tempo estava muito tempestuoso, quando ela chegou ao vale, vindo de Luz, e estava um pouco abaixo de Gavarnie quando o acidente acon­teceu. Dizem que algumas pedras e barro em cima da estrada foram soltas pela chuva; de qualquer maneira, um avalancha de pedras maiores e menores deve ter arrastado o automóvel para a garganta. Ela...

Um momento — e Jennifer interrompeu a narrativa. — Que quer dizer com "dizem", e "parece" Vocês não sabem como o acidente aconteceu? Se Gil... Se Madame Lamartine morreu de pneumonia depois do acidente ela, por certo, pôde explicar o que se passou.

Mas, não — veio a resposta, enfática. — Ela não deu explicação alguma. Eu já disse que foi uma noite tempestuosa; bem, quando o automóvel caiu na garganta, madame ficou ma­chucada e abalada, mas felizmente escapou de ferimentos maio­res. Naquele ponto, a garganta não é profunda. Ninguém viu o acidente. Ela conseguiu chegar cá em cima, sem ajuda, mas a caminhada é longa, e naquela tempestade horrível... — e dentro das mangas negras as mãos esboçaram um pequeno gesto. — Quando ela chegou a nosso portão, estava esgotada, inteira­mente esgotada. Nós a recolhemos e a pusemos na cama, mas o choque a fizera adoecer, e no dia seguinte delirava. Depois disso, não teve muito mais tempo. Morreu oito dias depois, na terça-feira. Fizemos o que era possível.

Mas eu não compreendo... onde foi que isso aconteceu?

A uns seis quilômetros abaixo de Gavarnie.

Nesse caso, por que perguntou Jennifer ela não foi a Gavarnie procurando ajuda? Por que se esforçou tanto assim para subir aqui? Ela não passou pela aldeia? E nin­guém a viu?

A aflição e o choque haviam aguçado a voz de Jennifer, sem que esta o percebesse, de modo que tais perguntas rápidas pareciam quase uma acusação; mas, se à freira não agradou o tom de voz, não deu qualquer sinal disso, mantendo os olhos a fitar o chão e a voz calma.

Sobre isso não posso responder-lhe, señorita. Não sei por que motivo ela agiu assim. Mas o fato é que ela não foi à aldeia procurando ajuda, e subiu para cá, sozinha. Pode ser que o acidente a tenha deixado aturdida, de modo que só conse­guisse lembrar-se de fazer esforço para chegar ao lugar para onde pretendia ir; é bem certo que, quando chegou a nossos portões, estava nos últimos estágios de esgotamento. Inteira­mente molhada e desmaiando. Já tinha sido causado o mal de que ela morreu.

Eu... entendo. Mandaram chamar o médico da aldeia, naturalmente

Naturalmente e os olhos negros ergueram-se final­mente para fitar os de Jennifer, e era inconfundível, neles, a presença da raiva, mas a freira continuou, em tom de voz suficientemente calmo:

Tenho a certeza de que fizemos o que era possível, señorita; somos dotados de alguma habilidade nessas questões. Monsieur le médecin teve a gentileza de dizer que ela não poderia ter caído em mãos melhores.

Feita uma pausa, ela aduziu:

         O Padre Anselm esteve com ela no fim. Ele poderá dizer-lhe que ela faleceu em paz.

Em volta, naquele jardim tranqüilo, evolavam os milhares de odores curativos de folhas e flores. Jennifer, em que a raiva desaparecia, sentiu-se tocada pela sensação de vergonha. Impul­sivamente, disse:

         Desculpe, Irmão, não queria dar a entender que vocês não cuidaram de minha prima; tenho a certeza de que foi feito tudo quanto era possível. Deve perdoar-me... é que foi um choque para mim, entende? Ainda assim, não consigo aceitar. Parece impossível que Gillian... — e ela parou.

Um sorriso chegou aos cantos daquela boca de lábios finos, e logo desapareceu. Quando a freira respondeu, sua voz perdera a frieza e continha suavidade perceptível:

Compreendo, señorita. Acredite-me, quando digo que compreendo. Sei que não foi fácil para a señorita. Talvez eu lhe tenha dado a notícia de modo muito direto; aqui, como deve saber, acostumamo-nos a aceitar o fato da morte, e não o enca­ramos como tragédia. É um tanto difícil para nós lembrar de que, para a señorita, a morte é apenas motivo de pesar.

Tem toda a razão, claro — disse Jennifer -— e eu teria comprendido isso, se a notícia não me fosse dada tão de repente. Mas a senhora percebe que venho de muito longe, com toda a animação de ver minha prima, ao final da viagem que empreendi. Estivemos separadas por tantos anos, e existe... existia tanta coisa a dizer. Em parte, é este o motivo pelo qual... bem, pelo qual foi tão desapontador. Se ao menos houvéssemos sido informados antes. . .

Mas era impossível informar-lhes. Eu disse que ela estava doente, delirando. Não nos contou coisa alguma a seu próprio respeito ou sobre os parentes. Se soubéssemos que havia parentes, teríamos, naturalmente, informado, mas ela não falou em ninguém.

         Sim, naturalmente. A senhora disse isso. Foi só que — e Jennifer se exprimia em tom quase escusatório — eu pensei que devia haver alguma referência entre os documentos dela, talvez minha própria carta. . .

         Não havia nada.

A voz da espanhola era calma e seu rosto não demonstrava qualquer modificação de expressão, mas o ar terminante de sua frase era tão palpável quanto um golpe. "Nada", repetiu, naquela voz que ainda dava a impressão de ênfase demasiada. Quase uma voz de advertência, pensou Jennifer. Não se meta: não se meta. E mais uma vez, naqueles olhos velados, surgiu o brilho do que, desta feita, era cálculo, e do modo mais perceptível. A certeza de que sua atitude instintiva estivera certa — de que ali havia algo, se não errado, pelo menos carente de explicação — assaltou Jennifer. Ela não falou mais, mas observou aquele rosto encoberto, esperando a explicação que iluminaria a inquietação despertada nela pelo encontro. Mas a espanhola não fez tentativa por explicar coisa alguma. Voltou a sorrir e Jennifer não pôde explicar como julgara ter visto qualquer calor naquele retorcimento árido dos lábios.

Ela se voltou, em atitude de decisão calma, na direção do portão alto e de ferro trabalhado que dava passagem pela muralha.

— E agora, se quiser ver a sepultura de sua prima. . . Sem qualquer palavra, Jennifer acompanhou-a, saindo do jardim.

 

                         MARCHA FÚNEBRE: DOLENTE

O cemitério era pequeno, cercado em três lados pelas mes­mas muralhas, e no quarto pela capela, cuja porta de transepto dava diretamente para a relva macia. Na muralha em frente a esta outra porta, ao que parecia, dava diretamente para a encosta da montanha mas, ao contrário da entrada para a capela, encon­trava-se fechada e semi-oculta sob uma cascata de rosas silvestres carmesins. Essa sebe fechada era, por si só, tão encantadora quanto o jardim; ali, de qualquer modo, tinha sido detida a austeridade da mão monástica. Alguém aparara a relva, é ver­dade, e os poucos túmulos estavam arrumados e limpos, mas onde o vento soprara as sementes das flores das montanhas por cima da muralha, estas haviam podido pousar na relva aça­frões, saxifragas estreladas e pequenas campânulas minúsculas, amarelas, brancas, e azul de verônica.

O manto de seda farfalhava enquanto seguia pela relva, a espanhola levando Jennifer a uma sepultura perto da muralha distante, onde campainhas, distribuindo suas trombetas quase até ao chão, se erguiam para ocultar a relva recém-aparada que fazia lembrar o sepultamento recente. Ao lado dessa pequena elevação do chão, uma forma acocorada e escura achava-se ajoe­lhada ; era uma freira, de colher de pedreiro na mão. Aos nervos abalados da Jennifer, parecia empenhada na tarefa macabra de cavar pequenos buracos na nova sepultura e o estado de espírito da visitante era tal, que ela teria achado essa ocupação nada surpreendente. Mas enquanto a sensação já conhecida de horror vinha retorcer-lhe as vísceras, viu que a freira estava plantando flores, apertando as raízes com firmeza, e fazendo isso com dedos competentes, usando os buracos que cavara. Ao ouvir passos que se aproximavam pela relva, ergueu o olhar e sorriu, e a visão de seu rosto velho e agradável, as faces vermelhas e sadias, e os olhos azuis orlados de rugas risonhas, veio contribuir em muito para restaurar o equilíbrio de Jennifer.

 

A irmã com que viera disse, em seu francês preciso, com sotaque espanhol:

         Esta é a Irmã Maria-Louisa. Ela cuida do jardim para nós.

A jardineira sentou-se sobre os calcanhares, sacudindo as mangas compridas nos braços fortes e enxugando a testa com o dorso da mão, em gesto tipicamente camponês. Ao lado da espanhola, parecia-se a uma fazendeira atarracada, e sua voz, como os gestos, assinalava o contraste entre elas. Ela assentiu — gesto curiosamente falto de respeito — na direção de quem falava, sorriu amplamente para Jennifer e falou, com o seu sotaque forte do Midi.

Deus te abençoe, menina — foi tudo que disse, mas ocorreu a Jennifer que a bênção fora dada com inteira sinceridade.

A Irmã Maria Louisa — prosseguiu a espanhola, e dessa vez o tom aristocrático apareceu de modo inconfundível em sua voz — cuida das coisas da terra.

Se havia alguma intenção mordaz na observação, a Irmã Louisa não pareceu notá-lo. Deu risadinhas gostosas e estendeu as mãos fortes e sujas de terra, como a comprovar o que fora afirmado.

         Sim, eu sou a jardineira. Sou eu quem dá de comer­ aos corpos sujos — afirmou e seus olhos luziram para Jennifer, enquanto aduzia como explicação: — É a barriga cheia o que faz a alma abençoada, muitas vezes, e o demônio tem lugar demais para agir, quando a pessoa está de barriga vazia. Por isso eu cuido do jardim do Senhor para Ele, e trato das almas vivas d'Ele... e dos mortos também... — explicou, a mão acariciando a elevação coberta de relva.

A voz espanhola e calma não indicava qualquer expressão.

         Nossa Irmã Lamartine era prima desta mademoiselle. Mademoiselle veio ver a sepultura dela.

A velha freira ergueu o rosto com rapidez, seus olhos se fecharam contra o brilho do sol e, pela primeira vez, pareceu reparar no rosto de Jennifer. O sorriso desapareceu abruptamente de sua expressão e, estendendo a mão manchada de terra, tocou de leve no pulso da visitante.

         Minha pobre menina.

Diante do compadecimento cálido na voz da velha freira, Jennifer percebeu que seus olhos repentinamente marejavam, e só soube ficar ali em pé, entorpecida, enquanto o verde e dou­rado e azul da sepultura se aproximava, como em uma bruma composta. Viu vagamente, em meio às lágrimas, que a espanhola se afastara, caminhando em silêncio na direção da entrada da capela. Jennifer teve a surpresa de notar um alívio intenso ao ver aquela figura alta e negra desaparecer no interior da capela.

A Irmã Louisa, ainda ajoelhada à cova, estendeu novamente a mão.

         Sente-se aqui comigo, menina disse, com gentileza.

Jennifer obedeceu sem dizer uma só palavra e, por algum tempo, reinou o silêncio, enquanto a freira voltava placidamente ao trabalho de plantar as flores.

         Você não soube da morte dela senão agora? perguntou a velha freira, finalmente.

Jennifer sacudiu a cabeça.

         Não deve ter sabido, mesmo. Nenhuma de nós sabia que tinha parentes; nunca falou sobre eles. Não sei qual o motivo, mas não pensamos, por um só instante, que ela tivesse parentes.

Aqueles dedos curtos e fortes tocavam novamente a relva, como se estivessem fazendo uma carícia, e ela prosseguiu:

         Esta é a cova dela, você sabe.

Jennifer assentiu novamente, sem falar. A sensação da gra­ma primaveril e cálida sob os pés era reconfortante, e diante dos olhos as pequenas flores estreladas estavam bailando agora, entrando em foco. Ela ergueu a mão e afastou as lágrimas dos olhos.

         Pode chorar, se quiser disse a Irmã Louisa. Eu sou velha e um pouco boba, e também fico assim confusa, quando ouço falar de coisas que não são o que Sua Senhoria chama de "da terra", mas sei que é bom, em alguns momentos, e o que não é, e não adianta nada dizer a você que sua prima está melhor lá para onde foi, porque você não vai ouvir, e isso é muito natural.

Dizendo essas palavras, colocou uma plantinha no lugar, com gesto decidido.

         Assim sendo prosseguiu pode chorar. Quando tiver acabado com a pena que sente de si mesma, é hora de começar a pensar na sorte dela.

         Sorte?

Os olhos da velha freira ergueram-se por momentos.

Sim — respondeu, e logo apanhou outra planta e come­çou a arrumar-lhe carinhosamente as raízes.

Eles contaram a você como a coisa aconteceu, menina? — perguntou, meneando a cabeça, à moda camponesa, na direção dos edifícios silenciosos.

Sim — respondeu Jennifer, verificando que a voz estava bastante firme. — Ela... a Irmã que me trouxe aqui... ela me contou.

A Irmã Louisa sentou-se novamente nos calcanhares.

Ela contou a você? E onde estava a Reverenda Madre, quando você chegou?

Informaram que estava ocupada. Foi a Irmã quem me atendeu, em lugar dela.

Irmã coisa nenhuma — disse a velha freira, do modo mais positivo, em tom de voz que podia ser chamado extremamente mundano. — Ela não é membro de nossa Ordem... Não, nem vai ser, enquanto a Reverenda Madre puder impedir, e disso não tem dúvida.

Fitou Jennifer que se mostrava surpresa, e sorriu como um velho duende ligeiramente envergonhado.

—         Talvez eu dê importância demais às coisas da terra. Vou ter de fazer penitência por isto, mas sou só humana, e Sua Senhorita força a paciência da gente, é o que faz. "Irmã Maria Louisa". . . — e a mímica, no sotaque rijo do Midi mostrava-se irresistível; sem poder evitá-lo, Jennifer começou a sorrir — "cuida das coisas da terra...!" Virgem Santa, e o que é que ela faz, com aquelas vestes de seda, mantilhas e anéis no dedo?

Dizendo isso, apanhou uma planta e a colocou eficiente­mente no lugar.

—         Ela não tinha nada de receber você e deixar você perturbada assim — acrescentou. — Há muitos modos de dizer às pessoas que aconteceram coisas ruins, e é fácil ver que ela não é a pessoa indicada. Mas não vou negar que ela dirige bem este lugar... e não perde para ninguém..., mas não devia querer fazer o trabalho da Reverenda Madre também, além de tudo que faz! Já disse antes, e ainda vou dizer outras vezes!

Deu um leve empurrão na plantinha e depois revirou os olhos azuis para Jennifer.

—         Ah, eu fiz você sorrir, menina. Muita coisa de mim vai ser perdoada, por causa disso.

Tornava-se claro, agora, o que Jennifer não percebera antes: o negro rico e solene da espanhola adquirira a atmosfera do convento apenas por causa do cenário em que se achava, e mediante acessórios tais como a cruz e rosário. Na verdade, fora, não o hábito de uma freira, mas uma cópia — certamente deliberada — da vestimenta de alguma dama piedosa e medieval. Não era de admirar que parecesse deslocado, pensou Jennifer, olhando agora para o hábito de sarja bruta da Irmã Louisa, véu de algodão e a touca que lhe emoldurava o rosto idoso e alegre, em seu branco encantador. A cruz no peito de Irmã Louisa era feita de prata, e em sua mão suja de terra via-se o anel simples, de prata, representando o casamento espiritual. Seu hábito, quando se ajoelhava, erguia-se o bastante para revelar meias grossas e negras, e sapatos velhos e grossos, de aspecto espantoso.

Ela continuava a tagarelar, cheia de satisfação:

         Sim, Doña Francisca é nossa tesoureira, e muito boa tesoureira, de cabeça firme e sabendo fazer as coisas. Ela ensina também... Oh, sim, tudo aquilo em que põe as mãos eia sabe fazer muito bem, reconheço isso, e bem queria que ela cuidasse da vida dela e...

Nesse ponto, todavia, a Irmã Louisa procurou bastante tardiamente corrigir suas palavras. Prosseguiu, com a malícia alegre já banida da voz:

         Ela veio para cá durante as encrencas na Espanha... faz muitos anos já. A família dela era de gente grande, tão antiga quanto as montanhas e muito rica, gente perto da realeza, é o que eu sempre soube... Ela tem um nome tão comprido quanto o braço, de alguma coisa, el e outra coisa, y mais algum negócio... você conhece esse tipo de besteiras? Bem, eles entra­ram em apuros e perderam tudo... eu nunca soube da coisa muito bem, porque ela não é de falar comigo, mas o negócio é que saiu da Espanha de algum modo escondido e veio para cá. A Reverenda Madre tinha conhecido os parentes dela, anos antes, e acho que ouvi alguém contar que Doña Francisca dera muitas coisas para nossa Ordem, em tempos idos. Talvez seja esse o motivo pelo qual a Madre deixa que ela fique, embora jamais possa permitir que ela faça os votos, e ouvi dizer que ela tem tido uma vontade medonha de fazer os votos, desde que chegou.

Jennifer, que não podia evitar o interesse, perguntou:

         E por todo esse tempo ela não... como se diz?... re­cebeu as Ordens?

         Professou explicou a Irmã Louisa, com seu riso alto e singularmente mundano. Não, não professou. É um negócio engraçado, esse, e naturalmente não sei como foi a coisa, mas todo o mundo diz mais uma vez aquele olhar furtivo da mexeriqueira, dado para o lado todo o mundo diz que a Reverenda Madre não quer saber disso, mesmo com ela diri­gindo nossos negócios, e mesmo sendo professora tão boa. Não tem vocação. Pelo menos, não tem isso aduziu a Irmã Louisa, pondo outra planta no lugar. É o que eles dizem.

Jennifer, recordando-se da impressão de personalidade fer­vente que percebera por trás daquela massa aristocrática e olhos encobertos, achou que conseguia entender a usurpação clara­mente deliberada da posição da Reverenda Madre em questões tais como a entrevista que lhe fora concedida de tarde. E o efeito causado pela vestimenta da espanhola aquilo também era, por certo, um efeito visado. O que talvez surpreendesse era que mulher assim se contentasse em ficar em lugar tão pequeno e isolado, mas talvez suas ligações familiares explicas­sem isso... E Jennifer viu que recordava, de repente, ter cha­mado Dona Francisca de "Irmã" algumas vezes, e não fora corrigida por ela ao fazê-lo.

Irmã Louisa observava-a com olhar astuto.

Você vai pensar que sou uma mexeriqueira velha e lin­guaruda, e talvez seja mesmo. Mas se minha conversa faz você pensar em outras coisas que não os seus males, vai fazer mais bem do que mal. Sente-se melhor, menina?

Sim, obrigada, Irmã. Eu... sinceramente não acho que aceitei ainda o fato. Não é muito fácil para mim aceitar que Gillian... quero dizer disse Jennifer, e não estava sendo muito coerente. É diferente, quando a gente a coisa acon­tecer, não é?

Eu sei. Dona Francisca falou com você sobre o ocorri­do, não foi?

A bem da verdade, ela me disse muito pouca coisa... ou talvez eu não estivesse em condições de compreender tudo. Sei que houve um acidente, e que minha prima veio para cá durante uma tempestade muito forte, adoeceu e faleceu aqui.

Sim, menina e aquela mão suja de terra fêz um gesto rápido na direção da cruz de prata. Foi uma tempestade horrorosa que tivemos na noite de segunda-feira. Não é à toa que chamamos a este o Vale das Tormentas.

Ela fitou Jennifer com olhar indagador e perguntou:

Você é inglesa?

Sim.

Como a prima francesa?

Ela era inglesa, também. Surpresa, a freira voltou-se para fitá-la.

Inglesa? Mas ela falava...

Oh, sim — e Jennifer voltou a dar aquela explicação. — Ela falava como se fosse uma francesa. A mãe dela era fran­cesa, compreende? E ela mesma casou-se com um francês. Mas o pai era inglês, e ela veio do norte da Inglaterra.

Entendi — disse a velha freira, assentindo. — Mas, ainda assim, é esquisito que ela não falasse dessas coisas... nem mesmo do marido.

Ele morreu faz pouco tempo.

Ah, entendo. Mas você... ela sabia que você vinha pa­ra cá?

Sim, sem dúvida. Foi ela mesma quem escreveu para que eu viesse. Recomendou um hotel em Gavarnie, e disse que ia verificar para que eu pudesse ficar algum tempo aqui, no convento.

Nesse caso, com certeza — disse a Irmã Louisa, com outro de seus olhares brilhantes — fica mais esquisito ainda que ela não falasse com alguém sobre você.

Eu também achei, de início — explicou Jennifer — mas, naturalmente, se ela estava delirando de febre, não seria capaz de lembrar...

Bem, sim, é claro. Mas houve muitos momentos em que ela esteve lúcida, também. É por isso que parece tão esqui­sito...

Jennifer sentou-se abruptamente sobre os calcanhares e se pôs a fitar a Irmã Louisa.

Quer dizer... que ela não esteve febril por todo o tempo ?

Claro que não. Você sabe como são essas coisas; vem o delírio, muitas vezes acompanhado por um período no qual a mente do paciente tem toda a clareza... muito fraca, entende-se, mas de todo clara. Ela teve momentos assim, é o que acredito.

Mas — contrapôs Jennifer — Dona Francisca me fez entender que Gillian... minha prima... delirou por todo o tempo e não teve oportunidade de lembrar-se de mim!

A Irmã Louisa deu de ombros, de modo notavelmente mundano.

Quanto a isso, não posso contar-lhe mais nada, menina. Eu mesma não vi sua prima, mas fiquei sabendo com certeza, com a Celeste...

Celeste?

Uma das órfãs... a mais velha delas, uma doçura de criança. Ela e Dona Francisca trataram de sua prima.

Dona Francisca tratou?

Sem dúvida. Ela é habilidosa em cuidados médicos. Foi quem acolheu sua prima e insistiu em cuidar dela em companhia de Celeste para ajudar. Somos uma instituição pequena, você sabe, e embora Dona Francisca tenha mau gênio e aqueles modos arrogantes de espanhola e ela sorriu de repente é boa médica para cuidar de enfermos. Eu mesma posso dizer isso. . . o reumatismo me ataca todos os invernos, e ela tem cuidado muito bem de mim.

E a Celeste disse à senhora que minha prima tinha esses períodos de lucidez?

Não sei se ela disse assim, com certeza, mas foi o que eu entendi. Na verdade, é esse o motivo pelo qual estou aqui ocupada, plantando estas coisinhas. . . você sabe o que elas são?

Não, o quê?

Gencianas. São flores resistentes. Na primavera a relva na sepultura vai estar azul, mais azul ainda do que aquelas campainhas.

Jennifer a fitava.

Mas. . .

Oh, sim, existem gencianas em flor agora, nas monta­nhas, eu sei. Olhe, aqui tem algumas nesta tigela. Mas as que eu estou plantando são as de primavera. Eu mesma trouxe, de modo que ela tivesse gencianas na primavera. Ela adorava essa côr, você sabe. Foi a Celeste quem me disse isso. E daí eu compreendi que sua prima conseguiu falar lucidamente por algum tempo; ela disse à Celeste que eram as flores favoritas dela. Dificilmente ia dizer uma coisa dessas em delírio, não acha?

Acho. Mas...

Celeste costumava colhê-las para ela, e quando sua prima morreu, eu fiz o projeto de plantar gencianas na sepul­tura. É um pequeno serviço que se presta, mas é coisa que gosto de fazer por eles...

Dizendo isso, teve um gesto leve na direção das duas outras sepulturas cobertas de flores, aduzindo:

         A Irmã Thérèse adorava amores-perfeitos, e a velha Irmã Marianne sempre me disse que a flor mais bonita de todas era a margarida das montanhas. E aqui estão as gen­cianas para a sua prima...

         Sim... entendo. É muita bondade sua.

Alguma coisa, todavia — algo abalado e sem fôlego, na voz de Jennifer — fez com que a velha freira voltasse a fitá-la.

         O que se passa, menina?

Por momentos, Jennifer não respondeu. Permaneceu sen­tada, olhando para as mãos que entrelaçara com firmeza no regaço, enquanto sua mente empolgada pelo pesar lutava por examinar uma idéia nova e suficientemente espantosa.

A Irmã Louisa pôs no chão a colher de pedreiro, com uma batida pequena.

         Tem alguma coisa. Que é?

Jennifer olhou-a então, afastando os cabelos macios da testa, como se mediante esse ato pudesse arrumar o emaranhado de confusão mental que sentia. E fitou aqueles olhos velhos e aflitos, falando com calma:

         Irmã Louisa, minha prima era daltônica.

A velha freira dedicou-lhe um olhar intrigado, e depois estendeu semi-automaticamente a mão para pegar a colher de pedreiro. Apanhou outra flor e começou a colocá-la no lugar.

Sim?

A senhora sabe o que isso quer dizer?

         Bem, é claro. Quando eu era nova, tive uma amiga cujo irmão sofria da mesma coisa. Talvez eles nunca soubessem disso, mas ele foi trabalhar na estrada de ferro, e logo descobriram e o despediram. Era uma questão dos sinais, com­preende? As luzes vermelhas e verdes. Ele não conseguia vê-las.

A freira apertou a terra em volta das raízes da genciana.

Um infortúnio, menina, mas, como todos os infortú­nios, escondia a mão de Deus. Ele arrumou emprego como garçom, e agora tem um restaurante próprio em Menton, seis filhos, e a esposa já faleceu. E isso — aduziu a Irmã Louisa, colocando a terra com a colher de pedreiro — você teria tam­bém na conta de uma bênção, se tivesse conhecido a peste que era a mulher dele. Que descanse em paz.

Sem dúvida — disse Jennifer, tomada de incerteza quanto ao prosseguimento da conversa.

A Irmã Louisa prosseguiu, com brilho maroto e momen­tâneo nos olhos:

Mas... sua prima, foi o que disse? Eu sempre soube que era um mal de que os homens padeciam, não as mulheres, mademoiselle. O médico nos disse isso, ao que me lembro.

Sim — disse Jennifer. — É bem verdade que, em geral, são os homens que sofrem de daltonismo, e o tipo mais comum dessa doença é aquele que teve o irmão de sua amiga, que mistura o vermelho com o verde. Mas Gillian... minha prima... não era apenas daltônica, ela sofria também de uma variação muito rara de daltonismo, a tritanopia.

A Irmã Louisa baixou novamente a colher de pedreiro e fitou-a, com perplexidade que aumentava.

         O quê?

Jennifer usara o que tinha calculado ser a palavra francesa equivalente — la tritanopie. Ela insistiu nisso outra vez:

Tritanopia. É a incapacidade de distinguir o azul do amarelo.

O olhar da Irmã Louisa passou para a tigela de gencianas, que resplandeciam azuis contra a relva. E depois voltou a fitar Jennifer, com expressão indagadora.

Você está dizendo que sua prima, que Madame Lamartine…?

Jennifer assentiu.

         Ela não conseguia distinguir o azul do amarelo, de modo algum. Até onde se sabe, ela via as duas cores como tonalidades variadas de cinzento. Em outras palavras — encerrou — da não teria reconhecido uma genciana, se lhe mostrassem!

A velha freira baixou os olhos para a planta que acabara de colocar à beira da sepultura.

         Eu devo ter-me enganado — disse, humildemente. — Mas quando eu dei gencianas para ela, tinha tanta certeza...

Jennifer inclinou-se à frente, mais do que depressa, tocando-lhe a mão. Tinha o rosto retesado.

Não, Irmã! Como podia enganar-se em coisa tão sim­ples... a senhora e Celeste também? A senhora me disse que Celeste muitas vezes colhia gencianas para minha prima.

Sim, mas...

Quem colheu estas aqui? — perguntou Jennifer, indi­cando a tigela sobre a sepultura.

Celeste.

E Celeste lhe disse, em palavras, que Madame Lamar­tine gostava das gencianas, e que afirmou serem suas flores favoritas?

         Oh, sim, ela disse. Mas, minha filha, — contrapôs a velha freira, olhar ainda perplexo — não compreendo. Por que iria sua prima fingir...?

Aí interrompeu-se no que ia dizer, deu novamente de ombros.

Mas, afinal de contas, não tem grande importância.

Isto... estas flores que planto... não passa de um gesto, apenas um gesto, em favor dos vivos. Margaridas, amores-perfeitos, gencianas... são tudo a mesma coisa para os mortos.

Retomou a colher de pedreiro e voltou à tarefa. Seus olhos ergueram-se brevemente para o rosto retesado de Jennifer e ela aduziu, com gentileza:

O que se passa, menina? Não é nada, afinal de contas. Um engano...

Mas não pode ser engano! — gritou Jennifer. — É tudo sem sentido, a ponto de me preocupar! Como a senhora disse, por que iria ela fingir, e por causa de uma bobagem tão grande, quando, por todo o tempo...

Suas palavras faltaram e ela ficou ali, mordendo o lábio inferior. Os dedos puxavam nervosamente a grama curta.

De qualquer modo, é... esquisito — completou e, de repente, por algum motivo, lembrou-se do olhar encapuzado e vigilante de Doña Francisca. Um estremecimento leve fez com que ela se retraísse.

Esquisito — repetiu, falando mais para si mesma — outra coisa esquisita...

Irmã Louisa apertou a terra em volta de outra planta, com dedos grossos e competentes, e depois limpou as mãos na relva. Voltava a falar, em seu tom prático e firme:

Eu acho, minha filha, que estamos criando um mistério do nada. E não é nem "esquisito". Se você pensar, vai ver que sua prima estava apenas sendo educada. Se a Celeste colhia flores para ela e trazia, sua prima ia naturalmente dizer que gostava. Talvez até dissesse, para agradar a menina, que eram as flores favoritas dela. Pode escrever o que digo, porque a coisa é simples assim.

Oh, sim — disse Jennifer. — Oh, sim. Só que...

Só quê?

Se ela estava suficientemente senhora de si para pensar em cortesias assim, poderia também mandar uma mensagem a mim — disse Jennifer, em tom terminante. — E isso, afinal de contas, era muito mais importante.

         Sim, sim, é claro. Você tem razão. É esquisito que ela não tenha feito isso.

—         Se é que ela não fez — disse Jennifer.

No silêncio curto e carregado que se formou, ela fitou de frente o olhar dos olhos sobressaltados da velha freira e disse, medindo bem as palavras.

Dona Francisca deu-me a entender com toda a clareza que minha prima não falou coisa alguma a meu respeito e não me enviou mensagem nenhuma. Mas foi também Dona Francis­ca quem me deu a entender que minha prima jamais saiu do delírio. A senhora afirma que isso não é verdade. Talvez a outra afirmação dela também não seja.

Eu... minha filha... — e a velha freira titubeou e se deteve.

As mãos fortes que ela havia entrelaçado começavam a tremer. Tornava-se óbvio que os prazeres da conversa leve de bisbilhoteira eram uma coisa, e aquela acusação direta outra, muito diversa.

A perplexidade e a perturbação toldavam os velhos olhos.

         Toda esta conversa... não compreendo.

         Não compreendo mais o quê — disse Jennifer e, por momentos, ficou surpresa diante da aspereza de sua própria voz. — Essa jovem, a Celeste... será que está mentindo?

Era inevitável que a ênfase de suas palavras estivesse ali, pousando de leve no pronome, chamando à compreensão do momento a imagem da outra "ela". Era como se a sombra comprida da dama espanhola estivesse a interpor-se, friamente, entre elas, no outro lado da relva.

As mãos da velha freira estavam inteiramente desgarradas i,agora, e sua boca também não tinha mais controle.

         A Celeste? Oh, sim; oh, sim. Ela é uma menina e tanto, uma criança adorável. Ela jamais mentiria...

Voltara aquela ênfase, a sombra se movimentava.

E por que iria mentir? — prosseguiu a velha freira. — Dizer que Madame Lamartine gostava de gencianas... é coisa tão sem importância, como trivial...

Precisamente — disse Jennifer, afastando o olhar, para não ver a agitação patente na velha mulher.

Ela se sentou novamente nos calcanhares, de olhos no desenho encantador do portão que guardava o verde e dourado perdulários dos pés de abricó, e falou baixinho:

         As pessoas não se dão ao trabalho de mentir, Irmã, sobre coisas que não têm importância.

A velha freira não respondeu.

         Olhe a coisa pelos dois lados — disse Jennifer. — Se ela falou sobre as gencianas por uma simples questão de edu­cação ... se ela, na verdade, estava suficientemente bem para falar de coisas triviais, por que não mandou mensagem alguma a mim ? Se, por outro lado, ela realmente gostou das flores...

Irmã Louisa continuava sentada e imóvel.

E então, menina?

Nesse caso, não tinha mensagem alguma a me mandar, porque — disse Jennifer — nunca ouviu falar de mim. Não falava inglês, porque não sabia falar inglês. A senhora não compreende?

Estava ajoelhada agora, de frente para a velha freira, as mãos apertando com força as pernas. Os nós dos dedos, devido à força, estavam destituídos de qualquer cor.

         Não percebe o que isso significa? — repetiu ela, quase em cochicho. — Significa que não era a minha prima Gillian!

Sobre o azul vibrante das gencianas as duas se entreo­lharam.

—         De qualquer modo — disse Jennifer — não creio que a mulher que morreu possa ter sido Gillian!

No interior dos edifícios do convento um sino tocou, dobrando de modo imperativo.

 

                           PRESSÁGIOS

Era como se o toque penetrante do sino as trouxesse, de volta de alguma terra lindeira de desconfiança, às realidades lúcidas da tarde ensolarada. Irmã Louisa teve um sobressalto, uma leve exclamação, e começou com rapidez a reunir as ferramentas. Suas mãos ainda tremiam de leve, os movimentos eram confusos e denotavam sua idade, mas com o toque do sino pareceu recobrar, se não a serenidade completa, ao menos algu­ma dignidade e compostura de sua vocação.

Ela disse, em suposição muito aceitável, de repreensão calma:

         Você está agitada, minha filha; não pode saber o que diz. Não é possível que um engano assim... — e ela se interrompeu, engoliu em seco e disse, com coragem: — Não haveria... ora, não haveria motivo algum pelo qual Doria... pelo qual pessoa alguma mentisse a você.

Jennifer não respondeu. Também ela fora chamada a si, à compreensão clara de sua loucura em falar desse modo com uma das componentes daquela pequena coletividade a que Dona Francisca qualquer que fosse seu cargo pertencia. E a força da última afirmação de Irmã Louisa não podia ser negada, de modo algum.

         Além do mais disse Irmã Louisa, de modo quase rixento havia documentos. Ela tinha documentos.

Jennifer ergueu o olhar, mais do que depressa.

—         Tinha mesmo?

         Sim. Você deve ter visto. Eles mostraram a você... mas nós não vamos mais falar sobre isso disse a velha freira, com firmeza, e arrastou-se com incerteza na grama, ao pé do túmulo. E agora, aonde foi que pus o meu garfinho?

         Está aqui, debaixo das rosas.

         Obrigada, minha filha. Acho que é tudo. Agora preciso ir. Este foi o sino para o serviço religioso das crianças.

Ela começou a erguer-se, com algum esforço. Jennifer se pôs em pé e estendeu-lhe a mão.

Obrigada, minha filha — voltou a dizer Irmã Louisa, e lançou-lhe um olhar de esguelha, aduzindo com a voz ainda trêmula:

E quanto ao que estivemos conversando... não pense mais nisso. Eu errei em ouvir, mas você, estava tão abatida... acredite em mim, compreendo como você lamentava e como está chocada. A coisa veio de repente demais, e você talvez não tenha recebido as notícias — ela fez uma pausa — como devia ser. Vai sentir-se melhor amanhã, depois de ter dormido •um pouco. Todas essas... idéias... elas tomarão o lugar certo e vão desaparecer de manhã.

         Sim.

Irmã Louisa deu-lhe uma palmadinha no braço, e era perceptível o modo como sua confiança aumentava.

Você está abalada — disse — e sentindo-se mal, e não pode aceitar ainda o fato da morte de sua prima. Mas aceitará... aceitará mesmo... e haverá de sentir-se melhor amanhã.

"A alegria chega de manhã?" — disse Jennifer, a voz fraca.

A velha freira piscou os olhos, desconcertada. Foi quando Jennifer, com movimento rápido, cobriu a mão da velha mulher com a sua, apertando-a.

         Desculpe — disse, e sorriu mediante esforço. — A se­nhora tem toda a razão, Irmã. Eu estava abalada. E dizendo bobagens. Está claro que tudo isso pode ter uma explicação natural. Amanhã, talvez...

Irmã Louisa valeu-se da palavra como se fosse uma fór­mula mágica.

— Amanhã. Sim, amanhã. Volte agora para seu hotel, menina, e trate de fazer uma boa refeição esta noite... com vinho, não se esqueça, para poder dormir logo... e descansar bastante. Depois, se ainda estiver preocupada, volte a falar conosco. Não temos nada a esconder!

Dizendo isso, conseguiu apresentar um simulacro de sua risada natural de antes, como quem ria do absurdo da idéia, e Jennifer sorriu com ela.

         Vai ser muito fácil esclarecer toda essa bobagem - afirmou a velha freira. — Doña Francisca e Celeste terão todo o prazer em explicar a você tudo que puderem.

O sorriso desapareceu dos lábios de Jenny, que disse imediatamente:

A senhora não vai contar a elas o que falei? Eu... não sabia o que estava fazendo. E disse algumas coisas muito tolas. Por favor, quer esquecer isso e não dizer mais nada?

Tudo esquecido — afirmou Irmã Louisa, com vigor. — Não se preocupe, menina, não vou contar.

Ela dedicou um olhar astuto e ainda inquieto a Jennifer, e aduziu:

Se você tiver alguma outra preocupação, como sabe, devia levá-la ao lugar certo... à Reverenda Madre. De qual­quer modo, devia vê-la.

Naturalmente — disse Jennifer. — Naturalmente é o que devo fazer. Não tenha dúvida de que irei falar com ela.

Faça isso. Tudo ficará esclarecido em pouco tempo. E agora, tenho de ir embora, ou chegarei tarde à capela.

Ela parecia estar inteiramente em seu natural de antes.

         Você seria capaz de pensar que sou uma mulher muito santa, não é, com toda esta coisa de ajoelhar, ao invés de uma velha pecadora, da terra, que pensa em maçãs e rosas e muito mais do que devia. Mas vai esquecer qualquer coisa que eu disse que não devia ter dito, não é?

Jennifer sorriu e repetiu:

Tudo esquecido.

Deus a abençoe, menina. Você sabe sair sozinha daqui?

Creio que sim, obrigada.

Nesse caso, preciso ir embora. Au revoir, mon enfant.

Au revoir, ma soeur.

A velha Irmã desapareceu pelo portão de ferro, e Jennifer ficou sozinha no cemitério.

Isso, todavia, foi apenas por momentos, pois, quando se achava parada e irresoluta, ao lado da sepultura coberta de gencianas, a porta da muralha externa abriu-se sem ruído, e por ali passou uma jovem. Tendo passado, fechou a porta silencio­samente e, ao voltar-se, viu Jennifer e se deteve onde estava, os lábios entreabertos, o busto arfando como se houvesse corrido poucos momentos antes. Era bem jovem, morena e muito linda; até mesmo o algodão azul desbotado, em seu uniforme de órfã, não conseguia ocultar a graça de seu corpo.

Os cabelos pendiam soltos sobre os ombros, como se o vento em sua corrida os houvesse desgrenhado, tinha as faces coradas. As mãos estavam cheias de flores.

Ela hesitou por momentos, olhando para Jennifer, e depois atravessou a relva com rapidez em direção da visitante, ajoelhando-se ao lado da sepultura nova. Tirou as gencianas murchas do jarro e começou, com bastante pressa, a arrumar as novas em lugar delas.

         Você é Celeste?

A jovem dedicou-lhe um olhar tímido e assentiu. Jennifer disse:

         Eu sou a prima de Madame Lamartine. Vim visitá-la hoje, e soube do falecimento. A Irmã Louisa me contou que você ajudou a tratá-la. Fico muito reconhecida a você.

Celeste sentara-se sobre os calcanhares e fitava Jennifer com olhos arregalados.

         Prima dela? — indagou, o olhar ao mesmo tempo intri­gado e agitado. — Eu... sinto muito, madame. Deve ter sido um grande choque descobrir... ficar sabendo... eu sinto muitíssimo, madame.

         Sim — confirmou Jennifer — foi.

Ela observava a pequena, mas aqueles olhos lindos não continham outra coisa senão compaixão, e uma perplexidade que crescia.

Eu não sabia que ela tinha uma prima — afirmou Celeste. — Se nós soubéssemos, madame, que havia parentes...

Vocês certamente teriam informado os parentes quanto à doença dela, ou pelo menos do falecimento, não é? — perguntou Jennifer, com suavidade.

         Mas é natural! — gritou Celeste.

Com gesto rápido, afastou os cabelos do rosto e fitou Jennifer.

Não é estranho, madame, que ela não nos tenha con­tado? — perguntou.

Sim, muito estranho — corroborou Jennifer. — Se não estava doente demais para poder falar com você, Celeste.

A jovem sacudiu a cabeça em negativa.

         Houve ocasiões... diversas vezes... quando ela estava bem lúcida, quando podia contar-nos qualquer coisa. Na verdade, nós mesmas perguntamos a ela se havia alguém a quem devêsse­mos avisar.

         Fizeram isso, mesmo? — perguntou Jennifer, com calma.

         É comum — disse Celeste, e voltou-se para a jarra de gencianas. — E agora, madame, preciso ir embora. Já estou um pouco atrasada.

Colocou as flores no lugar e se pôs em pé, mas Jennifer estendeu a mão para detê-la.

Só mais uma coisa... eu devia ter agradecido a vocês, também, por trazer estas flores a minha prima.

Não foi nada.

Foi muito que você tivesse cuidado e... e reconfortado minha prima — disse Jennifer, hesitando, sem saber como prosseguir.

A jovem corou e baixou os olhos, pondo-se a fitar os pés.

         Não foi nada — voltou a dizer. — Eu... gostava dela.

Ergueu a cabeça, e seus olhos lindos estavam marejados, enquanto aduzia:

         Sinto muito, madame, sinto mesmo. E que a senhora houvesse descoberto a morte dela... deste modo... — e ela fez um gesto débil, mordendo o lábio.

Diante do que era, do modo mais evidente, uma pertur­bação genuína, Jennifer voltou a hesitar. E, nesse momento, alguém falou por trás dela.

         Celeste!

Era a voz de Dona Francisca, e a jovem teve um sobres­salto, e se voltou, enquanto a cor desaparecia de suas faces, assim como a espuma é soprada das ondas. Jennifer percebeu um leve aperto em sua própria respiração, ao voltar a cabeça para ver a figura alta e em negro, da tesoureira, aproximan­do-se pela relva. Aborrecida consigo mesma, afastou de si o ar de infelicidade e disse, com calma:

         Espero não ter feito com que Celeste chegue atrasada à capela, Dona Francisca. A Irmã Louisa me contou como Celeste ajudou a senhora a cuidar de minha prima, e eu estava agradecendo.

Os olhos velados fitaram os seus, por instantes. A espa­nhola baixou a cabeça, depois voltou-se para fitar a pequena.

         Você já devia estar em seu quarto meia hora antes. Celeste. Por onde andou?

A jovem explicou, com voz baixa:

         Apanhando flores para a sepultura de nossa Irmã Lamartine.

Enquanto falava, não fitava Dona Francisca, e suas mãos amarfanhavam nervosamente a parte dianteira do vestido.

Houve um relance de algo que poderia ser irritação, nos olhos da mulher, mas essa se manifestou com suavidade.

Um pensamento bondoso, Celeste, mas não devia fazer com que você se atrasasse. Não deve deixar que até mesmo um bom impulso venha tentá-la a negligenciar o que é sua obrigação.

Não, señora.

Celeste estava inteiramente pálida agora, e fitava o chão, com aspecto de grande abatimento.

Vá imediatamente preparar-se para a capela disse Doña Francisca e olhou para Jennifer afàvelmente, por cima da cabeça inclinada de Celeste. E venha falar comigo logo depois da refeição, Celeste.

Sim, señora.

Há só uma coisa...começou Jennifer a dizer, a voz firme e só um pouco mais alta do que devia, mas a ordem aristocrática e sucinta de Doña Francisca rebateu-a com facilidade.

Agora mesmo, Celeste.

As faces de Jennifer ficaram rubras, mas sua voz não dava qualquer sinal de raiva, enquanto dizia com calma:

         Por favor, señora... Espere, Celeste!

A tesoureira pareceu muito surpresa e a jovem hesitou enquanto se voltava para afastar-se dali. Não podia ser com freqüência que se opunham à Doña Francisca, pensou Jennifer, com certo prazer. Ela disse depressa, em tom quase humilde:

         Eu gostaria de voltar aqui amanhã, señora, se posso, para visitar mais uma vez a sepultura de minha prima e des­pedir-me. Achei que podia trazer-lhe algumas flores.

Doña Francisca observava-a com firmeza.

         Está claro. Quando estiver recuperada do choque que sofreu hoje, talvez pense em outras coisas que gostaria de saber conosco. Peça para falar comigo, quando vier.

Era uma permissão ao tipo da realeza, uma ordem do mesmo feitio... Sim, devo fazer isso, pensou Jennifer. Em voz alta, disse:

Obrigada, señora e logo, voltando-se para Celeste e falando com rapidez:

Você saiu agora para colher as gencianas? Eu acharia que as rosas selvagens eram tão boas quanto...

Mas a jovem recuou um passo, em movimento no qual transparecia seu susto. O rosto, ainda pálido, perdeu qualquer expressão, tornou-se quase estúpido, e naqueles olhos encantadores perpassou a sombra inconfundível do medo. Ela disse apressadamente:

         Eu... eu tenho licença para isso. Doña Francisca sabe. Ela disse que eu podia.

A tesoureira não olhara para a jovem. Observava Jennifer, seus olhos escuros intraduzíveis e sem fraquejar, no rosto imóvel.

Ela disse, em voz quase inaudível:

         Vá, Celeste.

A jovem voltou-se e correu para a sombra da porta da capela exatamente quando, por cima, o sino da torre começava a tocar, anunciando o serviço religioso. Jennifer virou-se para enfrentar o olhar atento de Doña Francisca.

         É melhor que eu vá, também disse. Au revoir, señora.

Au revoir, mademoiselle. E virá amanhã ?

Oh, sim confirmou Jennifer. Virei amanhã.

—         C'est bien disse Doña Francisca, sem qualquer ex­pressão no rosto, enquanto se voltava para ir, sem ruído, pela relva, no encalço de Celeste. E logo desaparecia na escuridão da porta da capela.

Jennifer passou com rapidez pelo portão de ferro orna­mental, seguindo para a atmosfera odorosa do jardim. O portão fechou-se à sua saída, com uma batida metálica. A sombra estreita da arcada vinha brindá-la com uma faixa de frescor na tarde quente, e ela fêz uma pausa lá dentro, apoiando-se nas barras do portão. Descobriu que tremia da cabeça aos pés; era uma onda após outra de agitação, raiva, e apreensão a acossar-lhe a mente, irrompendo com vigor surpreendente pela vacuidade deixada após o primeiro choque entorpecedor de pesar. Fora um golpe fortíssimo, e aquele, a reação no sentido de uma esperança temível e fantástica, vinha a ser ainda mais terrível, por singular que parecesse. Todo o seu corpo tremia incòntrolàvelmente, as mãos seguravam com força as barras do portão, puxando-as de costas até que o ferro parecesse entrar em sua carne; o coração batendo rapidamente e com força parecia reverberar por todo o corpo, ora sufocando-a na garganta, ora batendo-lhe nas costelas, ou então retorcendo-se com mo­vimentos pequenos e enjoativos de dor forte no estômago. Ainda assim, ela se prendia ao portão, as mãos geladas nas barras de ferro que a magoavam. Os joelhos pareciam desconjuntados, e ela mordeu os lábios para impedir que tremessem, fechando os olhos e mantendo-os bem fechados.

E logo o tumulto da mente e do corpo começou a diminuir. Ela se encostou de modo mais natural no portão, e um músculo após outro entrava em descanso, sob a carícia daquele ar fragrante. Abriu os olhos e, de imediato, em uma onda curativa de calor, a cor e odores do jardim vieram ter com ela, engol­faram-na — menta e tomilho esmagado, e o odor forte e doce de abricós caídos entre folhas luzidias; a afabilidade da lavanda e salva sobre cujas folhas as papoulas pendiam as cabeças escarlates e sonolentas. Uma cigarra, escondida no pessegueiro, cantava baixinho. Jennifer soltou o portão, empertigou-se deva­gar, esfregou as mãos e começou, de modo bastante razoável, a pensar.

Seu primeiro pensamento foi o de que tivera razão, e isso já era suficientemente avassalador. Aquilo que começara com um pressentimento, e pela inquietação se transformara em des­confiança a mais escancarada, desabrochara agora, de modo inegável, como fato. Havia algo errado. Estivesse ou não correto seu palpite alimentado pela esperança, pudesse ou não ser explicada a questão das gencianas, a atitude de Dona Francisca no segundo encontro, e também o medo evidente de Celeste, tudo isso revelava que existia algo errado. E ela tinha de descobrir do que se tratava. Que a tesoureira não alimentava a menor intenção de deixá-la encontrar-se com Celeste a sós, isso era certo; igualmente certo era que Jennifer estava decidida a consegui-lo.

O sino da capela parara de tocar. Ela ergueu o olhar para a arcada que dava para o túnel e o pátio. A corda do sino estava enrodilhada, e ainda balançava de leve. O túnel encon­trava-se vazio. Deviam estar todos na capela e, depois disso. Dona Francisca falaria com Celeste e a advertiria para não responder a pergunta alguma. Era também possível que, prevenida como se achava, a espanhola pudesse impedir Jennifer de ver a Reverenda Madre no dia seguinte.

Jennifer mordeu novamente os lábios, dessa vez imersa em pensamentos. Foi quando chegou a uma decisão. Para sua própria paz de espírito, bem como por toda uma série de outros motivos, tinha de fazer as indagações naquele mesmo dia. Per­maneceria ali, oculta no jardim, até que se encerrasse o serviço religioso e então, se fosse possível, procuraria diretamente a Madre Superiora, fazendo perguntas francas. Bastante francas — porque Jennifer dizia com firmeza a si mesma: recuso-me terminantemente a acreditar que todo o convento possa estar envolvido nessas mentiras. A Irmã Louisa é criatura tão sincera quanto uma margarida e tão simples quanto Deus, e a própria Celeste parecia genuína até certo ponto; até, na verdade, que eu lhe fizesse a pergunta sobre as gencianas. Não, a Reverenda Madre não pode estar em conluio com o que se passa — isso seria coisa da mais completa ficção horripilante... Eu a verei após o serviço religioso, descobrirei o que tem a dizer. Pelo menos, ela pode deixar-me ver os "documentos" e tudo o mais que, como se diz, estava em poder de Gillian, quando veio para cá...

O canto da capela já terminara, e o órgão entretecia sua melodia, seguindo para algo imponente e lento, que chegava ao jardim apenas em uma série de vibrações irrompendo em meio ao verdor luxuriante de ervas e trepadeiras. Jennifer encostou-se mais uma vez contra o portão, ao ouvir o ruído de passadas no túnel, revelando-lhe que as religiosas seguiam, em silêncio, da capela para o refeitório. Inclinou a cabeça à frente para espiar em meio a uma trepadeira que a protegia. Lá estavam as órfãs vestidas de azul; e as noviças em branco, as freiras em cor sombria, marchando pelo túnel em silêncio disciplinado. A porta do refeitório fechou-se após a passada da última freira. Jennifer, vigilante no jardim, ouviu as vozes das crianças fazendo a oração antes da refeição, e depois o arrastar de cadeiras, quando todos se sentaram à mesa.

Ela voltou em silêncio, passando pelo portão e indo ter ao cemitério, e prosseguiu pela relva até a porta da capela. Se passasse pela capela, tinha todas as possibilidades de chegar ao corredor superior sem ser vista, e estava na certeza de que a porta grande que ela notara à extremidade daquele corredor devia ser a do aposento pertencente à Madre Superiora. Provavelmente a Reverenda Madre sairia do refeitório em primeiro lugar, e, tendo-a abordado, Jennifer achava que até mesmo a tesoureira onipresente e aparentemente cheia de poder não conse­guiria impedir a conversa.

O que ela contava ganhar, mediante essa conversa, não era coisa de que pudesse ter certeza, em absoluto, mas em seu estado presente de perplexidade e desconfiança, qualquer tipo de plano era melhor do que não ter plano algum. Foi com uma sensação reconfortante de animação que Jennifer abriu devagar a porta da capela e entrou, saindo da luz do sol.

 

                         AS JÓIAS DA MADONA

Ao sair do calor para o interior escuro e cheio de incenso da capela, teve tempo para se pôr a pensar, um tanto ociosamente, em que tipo de santuário para adoração a austeridade característica do convento teria formado. A porta, fechando-se atrás dela, cortou o feixe de luz abruptamente e por alguns segundos ela ficou cega na penumbra. E depois a nave tomou forma, diante de seu olhar ofuscado... um corredor lateral, com seu pequeno altar... os minúsculos transeptos... o coro em plano mais alto... o altar elevado...

Ela ficou ali pregada ao chão, olhando.

De modo básico, a capela era o mesmo que os demais edifícios do convento; as paredes caiadas de branco, as arcadas de portas e janelas bem simples, simples também o trabalho em pedra. As colunas pareciam firmes e sem enfeites, e as Estações da Cruz apresentavam-se na penumbra e inofensivas, entre as janelas. A estátua única presente era pequena, de Nossa Senhora, no altar lateral isolado. Mas ali terminava a austeridade. Por todo o comprimento da nave, cortando a simplicidade branca em duas, com faixa arrogante de carmesim, um tapete de vermelho vivo se estendia como um rio de sangue, chamando o olhar rapidamente para o santuário, como o traçado das pétalas de uma flor leva a abelha diretamente ao pólen. Além das colunas fortes, entre os bancos muito simples, subindo os degraus do santuário e do coro, indo à caverna sombria da abside, onde a lâmpada do santuário tremelicava acima do altar elevado...

Jennifer percorreu rapidamente o corredor e subiu os de­graus do coro. Deteve-se no corrimão baixo, muito bem escul­pido em alguma madeira escura, e ali ficou, para olhar nova­mente.

Era pólen dourado, sem dúvida, o que a flecha carmesim indicava; a lâmpada do santuário, em sete braços, era feita de ouro, bem como os braços duplos dos candelabros, mas não foi isso o que lhe reteve o olhar. Por trás e acima do altar elevado, distante da parede, porém agindo como retábulos e janela oriental, ao mesmo tempo, encontrava-se um grande tríptico, suas três pinturas com molduras grossas, em cinzento e azul. E ali, na torrente imponente de chamas e asas e estados beatíficos dos santos, até mesmo o olhar semi-educado de Jennifer podia perceber a mão de um mestre, cuja obra não fora comumente entronizada em lugares como aquele. Aqueles gestos visionários largos, as vestes com tantas dobras, as diagonais cortantes em prateado e purpúreo e amarelo de ácido... quem, pensou ela confusamente, escondera um dos trabalhos de El Greco, em local como aquele, relativamente esquecido? Não haveria alguém — e nisto seus pensamentos se tornaram ainda mais vagos, se tal era possível — não havia museus, galerias, as grandes igrejas de seu próprio Toledo natal, que pudessem impedir esse sepultamento de obras-primas, ainda vivas?

Ela apertou as palmas das mãos nos olhos e depois voltou a piscar e olhar o quadro. Obra-prima? El Greco? Era absurdo, naturalmente. Aquilo não poderia ser um El Greco. Não naquele lugar. Tratava-se de algum truque de sua memória, apenas isso. Mas a impressão persistia. Ela não podia estar errada? De todos os pintores El Greco era o mais fácil de confundir. E não podia uma cópia ou imitação criar, no espectador, aquela mistura singular e sem fôlego de exaltação e humildade com que nós nos encontramos a examinar as melhores coisas que os homens já produziram com as mãos? Enquanto olhava o quadro, Jennifer reconhecia aquilo como um exemplar falso; para uma observadora inexperiente como era, uma boa cópia certamente representaria tão bem a beleza quanto o próprio trabalho do mestre. Nâb, não sabia dizer com certeza. Mas quer se tratasse de uma cópia de primeira, ou do próprio original, era bastante surpreendente encontrá-lo ali, numa pequena insti­tuição que, por toda & parte, parecia fazer profissão de sua pobreza.

Ela espiou o canto da tinta escura, na esperança de uma identificação mais fácil, mas não encontrou nome algum. E então, com alguma recordação confusa de pintores que marcavam os trabalhos no verso das obras, caminhou para trás do altar e espiou o reverso da tela, onde o tríptico estava bem afastado da parede. A moldura tinha reforço sólido, e a parte de trás da pintura, por conseqüência, estava oculta. Jennifer espiando na luz fraca, passou desapontadamente o dedo até a parte de baixo, na junção da moldura. Ali encontrou algo, um fragmento de madeira macia, enfiado entre a moldura e o re­forço. Apertando mais a cabeça para a parede e olhando bem no escuro, deu para ver o que parecia apenas a orla acinzen­tada de um papel, cujo canto escapava de seu esconderijo. Ela o puxou cuidadosamente com as unhas e logo, com alguma agitação, tirou-o de lá.

Não fazia idéia do que contava encontrar; se houvesse parado para pensar, teria sabido quão distantes eram as pos­sibilidades de encontrar um documento de identificação enfiado em uma moldura que tinha pelo menos três séculos a menos de idade que a pintura. Mas levou o papel aos degraus do coro, onde a luz era melhor, e o alisou com dedos levemente trêmulos. Estava amarelado e sujo, um pouco rasgado na dobra, quando o desdobrou. Parecia ser uma carta ou parte de uma carta, escrita em francês:

 

"C'est alors après avoir reçu l'assurance de notre ami mu­tuel que j'ai osé vous approcher..."

 

Com interesse que diminuía sempre, ela prosseguiu a leitura:

"— assim é que, com a garantia de nosso amigo mútuo, eu lhe escrevi. Folgo em saber que está concordando, e suponho ser inevitável, diante das circunstâncias, que tenha posto suas condições tão altas. Temos o seguinte, afinal: — Eu irei como ficou combinado, na noite de seis de setembro, e pagarei três milhões de francos, sendo esta a soma com que concordamos antes.

Tomei nota de suas instruções quanto à bagagem. Nas circunstâncias em que estamos, elas não são inteiramente necessárias.

ISAAC LENORMAND"

 

Era tudo; língua moderna, caligrafia iniludivelmente moderna, assinatura que não significava coisa alguma. Jennifer franziu as sobrancelhas com aquilo, por momentos; deveria tentar devolver a mensagem a seu esconderijo? Provavelmente, pensou não era a rigor um "esconderijo" a carta fora, sem dúvida, enfiada ali para firmar a moldura, que tinha alguma folga nesse ponto. Não podia ter grande importância. Mas talvez...

O movimento, um som leve, vindo do corredor sombrio da capela, fêz com que seu coração prorrompesse em disparada inexplicável. Ela enfiou o fragmento de papel no bolso, tendo-se esquecido dele, e desceu os degraus do coro, sentindo irritação pelo fato de que o silêncio e mistério da capela, ao que parecia, houvessem trazido de volta todos os receios que tentara arredar de si. Olhou para a capela e viu que aquilo que lhe causara alarme era apenas uma menina em vestido de algodão azul, ajoelhada à beira da pequena fonte de luz que banhava a estátua da Virgem; era uma das órfãs, que viera em silêncio orar, enquanto Jennifer estivera no coro.

Ela olhou curiosamente o altar menor, e viu que ali tam­bém a mão generosa estivera trabalhando, pois a pequenina estátua era muito bem feita em bronze e marfim, e jóias mi­núsculas brilhavam no punho da espada que atravessava o coração da Virgem. Notre-Dame-de-Douleur... uma escolha singular, sem dúvida, para o caso de uma capela de criança... Jennifer voltou-se para sair com pressa pela nave, repreendendo-se por ter perdido tanto tempo, mas ao se afastar a jovem ajoelhada persignou-se e se pôs em pé. Era Celeste.

Jennifer, animada com a sorte que fizera a jovem atravessar seu caminho antes que a tesoureira pudesse vê-la, deteve-se na parte de trás da capela e ficou esperando. Celeste fez a genu­flexão diante da estátua, e depois seguiu com passos rápidos pelo corredor, voltando-se para a porta do norte.

Estacou, quando viu que a outra ali a esperava.

Ah, Celeste disse Jennifer, com gentileza eu que­ria vê-la outra vez.

Mas... mas, mademoiselle, pensei que já tinha ido embora!

Não duvido. Mas ainda estou aqui, como vê. Se você tiver a bondade de responder uma ou duas perguntas...

A inquietação voltava a tremular, de modo inconfundível, naqueles olhos lindos.

         Eu não acho... não devo... começou a jovem a dizer, tomada de nervosismo.

Jennifer interpelou-a, sem mais preâmbulos:

         Você estava contando a verdade a mim hoje de tarde, Celeste, quando disse que Madame Lamartine nunca mencionou os parentes ingleses, mesmo quando você perguntou a ela?

A jovem arregalou os olhos.

Mas, sim, mademoiselle! Naturalmente! Se ela tivesse falado com a gente...

Sei, sei. Mas a mim parece de todo impossível que ela não falasse, se é que, como você diz, minha prima estava consciente e lúcida por algum tempo. Mas, se ela não falou... a mim não ocorreu qualquer explicação para isso.

Mademoiselle?

Jennifer disse, de modo direto.

         Suponhamos que ela tenha falado a meu respeito, e pedido a você... a você e à Dona Francisca... que escrevesse, e vocês não o tivessem feito. Suponhamos...

Mas Celeste, tornando-se rubra, interrompeu com indigna­ção a mais patente.

Mas ela não pediu isso! Eu já lhe contei, mademoi­selle... ela não pediu! O que está sugerindo é coisa perversa! Monstruosa!

Não — disse Jennifer, com calma — não é perversa. Apenas uma questão de negligência. É o bastante para fazer com que você fique tão relutante quanto está, em responder qualquer pergunta. De que tem medo, Celeste?

Eu? Com medo? Isso é absurdo, mademoiselle! — e na verdade ela parecia agora não tanto assustada, porém raivosa. — Por que teria medo da senhorita?

Fiquei pensando, sem saber. E, de começo, você não tinha. Foi só quando perguntei o motivo pelo qual você foi colher as gencianas.

A jovem baixou os olhos, mais uma vez seu rosto tornou-se inexpressivo. Ela não respondeu.

Foi por que você notou que cometeu um erro? Os olhos se ergueram.

Erro? Não compreendo. Que tipo de erro?

— Não importa. Mas por que você ia importar-se por eu ter perguntado?

—Eu não me importo — disse Celeste e, para surpresa de Jennifer, sorriu.

         Muito bem — disse Jennifer. — Nesse caso, conte-me uma coisa... e eu acho que saberei, se for a verdade: por que você levou gencianas para minha prima?

Celeste a fitava, cheia de perplexidade.

Já lhe disse. Eu. .. gostava dela.

Sim, sei disso. Mas por que gencianas?

Ela gostava dessas flores.

Foi ela quem disse?

A confusão ainda transparecia nos olhos da jovem e, com ela, uma espécie de alívio. Era, pensava Jennifer, como se aquelas fossem, finalmente, perguntas muito fáceis de responder.

Sim.

O que disse ela?

Celeste ergueu as mãos um pouco, em gesto de quem estava indefesa.

—         Mademoiselle, não compreendo. Jennifer foi paciente.

         Quando ela disse que gostava das gencianas, quais foram as palavras que usou? Você levou as flores para ela, e ela então agradeceu, só isso, e disse que eram flores bonitas, ou disse o quê? Procure lembrar-se, Celeste. Afinal de contas, ela era minha prima, e qualquer coisinha que tenha dito... eu também podia trazer gencianas, amanhã...

Celeste, jovem demais e profundamente acostumada aos atos simbólicos da vida diária no convento, não podendo assim ver o absurdo sentimental disso, deu a Jennifer um olhar ainda perplexo, porém mais brando, e franziu as sobrancelhas. Jennifer esperou, sentindo que a garganta se punha repentinamente apertada de tanta agitação.

Não disse a menina, afinal. Não foi assim. Eu me lembro de como fiquei com a impressão de que eram as flores favoritas dela. Foi logo depois de ter chegado. Eu tinha trazido uma quantidade grande de flores... de todos os tipos... e estava colocando-as ao lado da cama dela. Sua prima ali estava, deitada e olhando para mim, e depois levou a mão.. . muito devagar e sua própria mão moveu-se, imitando o gesto de que se lembrava e tocou as gencianas. Ela disse: "As azuis, Celeste, o que são elas?" Eu disse que eram gencianas. Ela disse: "São tão belas. Nunca vi um azul assim. Ponha mais perto de mim, onde possa ver." Depois disso, eu trouxe gencia­nas todos os dias.        

Obrigada disse Jennifer, respirando fundo, e Celeste, vendo a expressão em seu rosto, recuou com parte da preocupa­ção anterior.

É só isso, mademoiselle.

Só isso — disse Jennifer e riu, uma risadinha agitada, sem fôlego. — E peço que me perdoe por ter sugerido que você andou mentindo antes!

Não foi nada. E agora, mademoiselle, se me der li­cença. ..

É claro. Você precisa ver Dona Francisca, não é? — perguntou Jennifer, esforçando-se bastante para manter a voz calma. — Podia ter a bondade de me mostrar onde fica o quarto da Reverenda Madre, por favor?

Eu... sim, é claro.

E Celeste, parecendo retomar parte do nervosismo de antes, lançou a Jennifer um olhar estranhamente cauteloso, enquanto passou à frente, para saírem da capela.

Jennifer, que a acompanhava na pressa, atravessando o salão e subindo a escadaria ampla, tentou em vão recompor os pensamentos agitados, dando-lhes uma parecença de ordem. Aquilo que acabara de ouvir fora a verdade, sem a menor dúvida; a coisa começava a fazer sentido, ainda que, ao fazê-lo, torna­va-se ainda mais profundo mistério. A mulher moribunda afir­mara realmente que não tinha parentes — e a mulher mori­bunda não fora daltônica.

Em suma, enfrentando os fatos, aquela mulher não fora Gillian Lamartine.

E onde, pensava Jennifer, jubilosa e desesperada ao mesmo tempo, enquanto Celeste seguia à frente para a luz do corredor de cima — e aonde ir agora? Aonde, em nome de Deus, vamos agora?

Pela segunda vez, naquele dia, enfrentou o olhar castanho e brilhante de Santo Antônio, fitando-a por cima de emaranhado de velas. Muitas velas, muitas orações atendidas... Rejubila-te comigo, pois descobri aquilo que perdera.

Ela estendeu a mão e tocou de leve uma das coroas de sempre-vivas do pedestal dos santos, e depois voltou-se quando Celeste se deteve diante da porta mais próxima e ergueu a mão para bater.

         Não! — disse Jennifer, com aspereza.

A jovem deteve o gesto, a mão ainda no ar. O rosto de Jennifer estava vermelho e os olhos cheios de irritação.

Pedi a você que me levasse à Madre Superiora. Este não é o quarto dela, é?

Ora, eu...

Este é o quarto de Dona Francisca, não?

Sim, eu só pensei...

Olhar e voz de Jennifer mostravam-se frios, agora. A Sra. Silver teria de olhar duas vezes para reconhecer, naquela pessoa, sua filha, tão gentil. Ela disse:

         Eu pedi que me levasse à Madre Superiora. Faça o favor de levar-me lá imediatamente.

Celeste baixou a mão e, de olhos também baixos, passou por Jennifer e levou-a à porta na extremidade oposta do corredor.

É este o quarto da Reverenda Madre, mademoiselle.

Obrigada.

Celeste afastou-se um pouco e Jennifer bateu. Ouviram o convite, em voz gentil:

         Entre.

Ao obedecer, teve uma impressão confusa, por trás dela, de que Celeste se afastava às pressas, voltando pelo corredor. A porta do quarto da Reverenda Madre fechou-se ao passar. Mais além do corredor, como um eco suave, outra porta tam­bém se fechou.

 

                               BLUES

A primeira coisa que veio ao encontro de Jennifer, enquanto se adiantava pelo quarto da Madre Superiora, foi a luz do sol. Pela janela alta e sem cortina ele entrava, e se refletia em ondas tangíveis de calor brilhante, nas paredes e teto cor de creme, e no chão de tábuas brancas, onde um tapete estreito assinalava o fato de que também ali a regra de pobreza espartana era mantida. As duas cadeiras retas, a mesa simples de madeira, o faldistório sem qualquer entalhe, sem ter mesmo uma almofada para ajoelhar-se, acentuavam esse fato. Nada existia para mi­tigar a simplicidade, senão uma placa na parede, algo infor­mante de placa, em alto-relevo, representando a Virgem e Filho. Lembrando-se da capela, Jennifer olhou para isso com interesse ao entrar e, depois, com surpresa; era uma peça tosca das mais baratas, uma Brummagem Della Robbia, provavelmente adquirida em Lourdes.

         Entre voltou a dizer aquela voz gentil, de alguém sentado ao banco da janela, onde, bem ao sol, imersa em seus raios, achava-se uma freira muito idosa. Ela não voltou a cabeça, mas fêz um gesto com uma das mãos velhas e macias, na direção de uma cadeira.

Jennifer sentou-se.

         Eu sou a Srta. Silver, a prima de Madame Lamartine. Vim para ver minha prima, e fui informada de que ela morreu há alguns dias.

Dessa feita, a velha freira voltou-se para ela. Contra a luz brilhante do sol, Jennifer não a podia ver com toda a clareza, mas teve a impressão de um rosto redondo, idoso e pálido, suavemente enrugado pela idade, como uma mão que esteve na água de sabão. As rugas não eram tanto linhas traçadas pela personalidade, mas um esmaecimento suave dos traços. A testa, sob a coifa negra, era de todo lisa, e sem dúvida as sobrancelhas não se tinham franzido por muito tempo. A expres­são nos olhos apagados não podia ser percebida, mas a linha da boca era de doçura.

         Eu soube que tinha vindo, mademoiselle. Lamentei que encontrasse tais notícias à sua espera. Foi um caso triste... sempre é triste para os amigos de alguém que tenha falecido tão jovem.

Ela sorriu, aduzindo:

         Não é fácil, eu sei, encarar a morte mais como um começo do que como um fim.

Não é.

Você já viu a sepultura de sua prima, menina?

Sim, ma mire.

Jennifer fêz uma pausa, sem saber como iniciar as perguntas e não podia evitar o abalo que sentia, diante da normalidade tranqüila na atitude da velha superiora. A desconfiança e inquie­tação pareciam tão distantes... A idade residia em companhia da bondade, naquele aposento simples e agradável.

Interpretando erroneamente o motivo do silêncio de sua visitante, a velha prioresa começou a falar, com gentileza, porém sem sentimento, de modo que traria reconforto a Jennifer, se esta sè achasse realmente aflita, mas que sob as circunstâncias tornava ainda mais difícil iniciar suas indagações.

Ela finalmente abordou o assunto, no que lhe pareceu o modo inverso de fazê-lo.

Conversei com Doña Francisca e com a Irmã Louisa hoje disse Jennifer e fiquei sabendo que minha prima tinha documentos...

É certo aprestou-se a dizer a Reverenda Madre. Você precisa ficar com eles, é claro. Ela conseguiu trazê-los consigo, em uma bolsa que estava atada ao punho. Doña Francisca encarregou-se da bagagem que foi trazida mais tarde, do automóvel, mas tenho os documentos aqui.

Ela se levantou e puxou uma gaveta ao lado, tateou na mesma por alguns momentos depois se voltou com uma bolsa lisa de couro na mão. Deu-a então a Jennifer.

Foi isto o que ela trouxe, minha filha. Leve com você. É seu, agora.

Obrigada disse Jennifer, e permaneceu sentada, segu­rando a bolsa, os dedos um tanto trêmulos no fecho. — Importa-se se eu a abrir, ma mere?

         Claro que não. Faça como quiser e a príoresa, de volta a seu banco perto da janela, inclinou a cabeça sobre um rosário que manuseava, como a dar à visitante a ilusão de estar sozinha.

Jennifer enfiou os dedos na bolsa, tirando o seu conteúdo e depositando tudo no regaço... pente, pó de arroz, espelho, batom Lancôme, uma bolsinha cheia de dinheiro em notas de papel, e um envelope grosso, também cheio. Jennifer contou e ali havia mais de cem mil francos cem libras, mais ou menos. Olhou para as notas com desagrado. Sim, talvez Gillian pudesse ter encerrado sua conta bancária e levado consigo o que restava das poupanças; ela tivera a intenção de permanecer ali para sempre, afinal de contas.

Revirou o envelope. No canto superior via-se o nome impresso de um banco de Bordeaux, e o envelope era endereçado, em caligrafia francesa ornamental, a "Madame Lamartine, 135 R. de la Pompe, Bordeaux." O pequeno maço de documentos de identificação trazia a mesma legenda.

Nada mais havia na bolsa.

Começou, devagar, a repor os objetos na bolsa. A prioresa se voltara para ela, os dedos j á não mais manuseavam o rosário. Dizia agora, em tom gentil:

         Existe algo mais, não é, menina? Não é apenas o falecimento de sua prima o que agita você? O que mais, minha filha? Pode contar-me?

Jennifer ergueu a cabeça, piscando um pouco no brilho do sol vespertino

Sim, há uma outra coisa.

Pode contar-me o que seja?

—         Ma mire... e Jennifer respirou fundo. O que vou dizer-lhe pode parecer muito singular, mas espero que me perdoe e escute.

         Estou ouvindo.

E assim é que Jennifer contou-lhe o que se passava. Não lhe falou de suas desconfianças de que Dona Francisca e Celeste pudessem saber mais do que diziam, mas a dificuldade que ela própria encontrara para acreditar em que a mulher sepultada no cemitério do convento fosse Gillian; o fato estranho de que, ate mesmo no delírio, a mulher falecida aparentemente jamais falara inglês, e não fizera uma só referência à Inglaterra ou a sua própria família.

Mas a senhora — disse Jennifer, afinal — a senhora ia visitá-la, é claro. Ela estava consciente quando a senhora a viu? Ela realmente disse alguma coisa?

A mim, nada. Quando me avisaram de que você veio, esta tarde, fiquei chocada e pesarosa por ver que ia encontrar essas notícias à sua espera...

A Madre Superiora hesitou, e depois prosseguiu com calma:

         Eu também fiquei com pena, pelo fato de que você não me fosse trazida diretamente. Mas...

Ela pareceu hesitar mais uma vez, e depois resolveu deixar de lado o que pretendera dizer.

Dona Francisca foi quem esteve com sua prima a maior parte do tempo, afinal de contas. Sim, mademoiselle, fiquei cho­cada, mas também espantada por sua vinda, pois nada que sua prima disse serviu para nos levar a crer que tivesse parentes. Espero apenas que nos perdoe por uma falta que não pude­mos deixar de cometer...

É claro. Porque é como eu pensei! Ela não falou coisa: alguma sobre os parentes, porque não os tinha, nenhum... essa mulher não era minha prima, estou convicta disso!

—         Mademoiselle...

         Um momento — suplicou Jennifer. — Escute, ma mère. Não é apenas isso o fato mais estranho em tudo...

E ela narrou à superiora o que acontecera no caso das gencianas, referindo-se ao azul que a mulher falecida reconhecera e de que tanto gostara, dizendo que Gillian jamais teria visto esse azul.

A Madre Superiora ouvia sem se mover.

         A senhora percebe, então — terminou Jennifer — o motivo pelo qual estou tão convicta de que foi outra pessoa, e não minha prima, quem veio para cá aquela noite. E, se é assim, onde está minha prima?

Seguiu-se um silêncio curto.

Sim — disse a velha freira, afinal. — Percebo. É real­mente singular. É mais do que isso, torna-se difícil acreditar que algum engano tão sério pudesse ser cometido...

Eu sei. Mas a senhora compreende que eu não posso deixar a coisa ficar nisso, ir simplesmente embora, não é?

Sim, percebo também. Mas, mademoiselle, com certeza, se tem razão, e sua prima se acha viva, por que não entra em contato com você? Ou conosco? Você diz que ela sabia de sua vinda para cá?

— Sim, sabia. Mas algo deve ter-lhe acontecido, e isso está me preocupando.

         Mas o que pode ter acontecido a ela? E por que, se a jovem que morreu não era Madame Lamartine, deixou que lhe falássemos assim? E por que trazia os documentos de Madame Lamartine?

         Não consigo imaginar, porém...

         O automóvel que bateu aquela noite era também o de sua prima.

Jennifer não se manifestou.

         E se suas desconfianças são fundadas — prosseguiu a prioresa, de modo calmo e inexorável — temos de perguntar não apenas "onde está agora Madame Lamartine?", mas também "Quem, então, era a mulher que morreu?"

Outra pausa.

         Esse caso das gencianas — disse a prioresa, afinal. — É isso o que realmente a convence, não?

         Creio que sim. Sim, é.

A Madre Superiora assentiu.

Desse modo, você podia identificar sua prima, sem qualquer possibilidade de engano?

Só de maneira negativa. Quero dizer, se a mulher que morreu não era daltônica, não podia ter sido Gillian. Mas isso podia quase servir de identificação positiva; as mulheres muito raramente são daltônicas, e aquelas do tipo azul-amarelo são raríssimas, sem dúvida.

Ela se interrompeu de repente, levando a mão à cabeça.

Que idiota eu fui! Falando de identificação positiva, e por todo o tempo não experimentei o que era óbvio! Estava pensando em outras coisas quando falei com Celeste, mas devia ter pensado nisso no mesmo instante.

E o que é? — indagou a Superiora, com gentileza.

O aspecto dela! — gritou Jennifer, em triunfo. — Essa jovem que morreu... qual era o aspecto dela?

A velha madre permaneceu sentada por momento, em silêncio, enquanto o sorriso leve voltava a bailar em seus lábios.

         Minha filha, não posso dizer-lhe. Eu nunca a vi. Nin­guém aqui a viu, senão Dona Francisca e Celeste.

Jennifer a fitava cheia de perplexidade.

Ninguém a viu? Mas eu pensei que a senhora a tinha visitado.

E visitei.

Nesse caso, do que está falando?

         Estou dizendo explicou a Reverenda Madre que sou cega, minha filha.

E com as costas para o brilho zombeteiro do sol, ela voltou a sorrir, de modo um tanto pensativo.    

Eu... sinto muito disse Jennifer, pesarosa.

A velha freira sorriu.

         Não é necessário. Muitas vezes acho que os outros têm mais consciência de minha cegueira do que eu própria.

E depois ela se sentou, sua voz tomou o ar ríspido de autoridade.

         A mim parece, menina, que temos ao menos de ofere­cer-lhe nossa hospitalidade. Eu, pessoalmente, tenho a certeza de que um erro como o que você imagina é bizarro demais para ter qualquer probabilidade... Lamento, pelo seu bem, mas tenho a certeza de que sua prima está morta. Quando tivermos tempo para examinar os fatos, com um pouco mais de calma, certamente encontraremos uma explicação simples para tudo.

Jennifer não disse coisa alguma. Suas mãos estavam entrelaçadas com força no regaço, e ela mal ouviu o resto do que a freira estava dizendo. Ficar ali mesmo no convento... com oportunidades infinitas de observar, indagar, verificar com as pessoas presentes quanto às afirmações feitas por Dona Francisa... isso era mais do que ela contara possível. A prioresa continuava falando:

         Mas você deve fazer as indagações que achar necessá­rias, e o lugar em que vai querer começar, é claro, é aqui. Se quiser vir para ficar conosco...

É muita bondade sua. Mas acho que estaria abusando da hospitalidade, se aceitasse a oferta.

         É o mínimo que podemos fazer. O convento tem culpa... ainda pela ignorância... de uma falta, em deixar que você descobrisse notícia tão triste, de tal modo. Tem que permitir que nós nos penitenciemos.

Jennifer sorriu.

Não é preciso penitenciar-se. Mas eu gostaria de vir. Obrigada.

Nesse caso, venha esta noite.  

Tão cedo, ma mère?

Quanto mais cedo você puder tranqüilizar-se, tanto me­lhor, mademoiselle. Mas se acha que seu hotel possa criar algu­ma dificuldade...

Não creio que isso aconteça. Tornei bem claro que minha reserva do quarto era provisória... Minha prima tinha sugerido que eu viesse para cá, percebe?

Nesse caso, nós a esperaremos esta noite, se conseguir vir a tempo. Se não, venha amanhã. Teremos prazer em vê-la a qualquer momento, menina. Até mesmo se suas indagações somente a levarem de volta à verdade melancólica do falecimento de sua prima, tenho a certeza de que nossa companhia tranqüila, aqui, tem algo a oferecer-lhe, como reconforto.

Era hora, ao que Jennifer observou, de deixar que suas desconfianças silenciassem.

         Obrigada — disse, com simplicidade. — Ficarei satis­feita em vir. Este é um belo lugar, e imagino que se alguém pode encontrar paz em algum canto do mundo, é aqui.

O rosto da Reverenda Madre iluminou-se.

Você acha isso? Folgo muito em sabê-lo.

Eu passei pela capela de vocês, ainda agora — explicou Jennifer. — É maravilhosa, aquele altar... até mesmo inesperado, se posso dizer isso, para uma instituição tão pequena, tão isolada.

Ah, sim. O lugar é simples, naturalmente, mas o estilo da construção acha-se em harmonia com estes vales altos. Teria sido um erro construir um St. Bertrand de Cominges no Vallée des Orages. Aqui, neste vale tempestuoso, erigimos muros brancos e fortes, e nossas janelas da capela não necessitam de vidro colorido, porque servem de molduras para as monta­nhas.

E as suas pinturas, lâmpadas e obras entalhadas...

Quanto a isso — replicou a Reverenda Madre, tranqüilamente —, não posso dizer o mesmo. Conforme talvez ima­gine, tenho folgado, nos anos mais recentes, em dar todas as nossas questões de negócios às mãos de Doña Francisca, que é muito eficiente. A decoração de nossa capela tem sido obra dela, por algum tempo já. Sei que ela pôs muitas coisas na capela, pinturas, um tapete e alguns candelabros... No ano passado, ela trouxe um trabalhador de Bordeaux, que fez um corrimão no altar para nós; mas ainda que nos anos anteriores eu mesma mantivesse a capela bem simples, compreendo que al­guns... a maioria, na verdade, de nossos membros... são auxi­liados em suai adoração pela beleza visível de uma estátua ou lâmpada. Assim é que, sendo uma instituição pobre, não podemos gastar muito dinheiro com essas coisas, e permitir a Doña Francisca fazer o que ela quiser com a capela, a fim de agradar as irmãs mais jovens e sorriu novamente a seu triodo compreensivo as crianças.

Jennifer recordou-se da coleção grande de santos e anjos, voando em asas de chama por cima do altar; recordou o corrimão do coro que nenhum "trabalhador de Bordeaux" jamais havia tocado; pensou nos candelabros, feitos de ouro florentino "para agradar as crianças"... havia mais do que um mistério, ao que parecia, quanto ao Convento de Nossa Senhora das Tormentas. E se tal mistério estivesse relacionado a lâmpadas de ouro e santos por El Greco... Recordou-se imediatamente da carta que encontrara por trás do tríptico, e que agora aparecia, em menção altamente provocante de "três milhões de francos". Em seu estômago, um nervo retorceu-se, como minúscula agu­lha dolorosa.

         Compreendo disse e notou, com raiva, que sua voz ainda estava fraquejando. Bem, é muito lindo. E Doña Fran­cisca é quem faz tudo?

Foi a voz da própria quem respondeu, falando baixinho por trás de sua cadeira:

Queria falar comigo, Reverenda Madre?

Ah, sim...

A prioresa não deu qualquer sinal de surpresa; com um sentido a mais, atribuído aos cegos, já devia estar ciente da presença de outra pessoa.

         Folgo em que tenha vindo. Aqui está uma questão que é melhor esclarecer imediatamente, se possível. Já conhece Mademoiselle Silver, naturalmente.

Sim.

Ela veio... com alguma perturbação do espírito, falar comigo, Francisca.

Dona Francisca não olhou para Jennifer, mas falou naquela mesma voz descolorida e calma:

         O pesar que ela sente é muito natural.

         Sim, mas não se trata apenas de uma perturbação pelo falecimento da prima, o que a trouxe para falar comigo.

A prioresa voltou-se para Jennifer, que permanecia sentada e rígida em sua cadeira.           

— Dona Francisca prosseguiu a Madre Superiora é a pessoa com quem deve conversar, minha filha. Conte-lhe o que acabou de contar a mim... fale de sua convicção de que há algum mistério ligado ao falecimento da prima.

Os olhos de Dona Francisca moveram-se, em um salto quase palpável, fixando-se no semblante de Jennifer. Algo reluziu neles, como o brilho da luz em lâmina de punhal. Raiva? Apreensão? Medo?

Jennifer, agarrando a bolsa de Gillian, com os dedos trê­mulos, tentou em vão evitar uma situação que não tivera tempo de antever.

Não importa, ma mère. Talvez... não valha a pena agora. Seria melhor deixar.. .

É melhor que seja agora — disse a prioresa, em tom decidido e, voltando-se para a figura rígida da tesoureira, narrou com brevidade, porém fidelidade, todas as dúvidas e descon­fianças que Jennifer lhe apresentara pouco antes.

Jennifer não se atrevia a olhar para Dona Francisca, mas sentiu que esta a fitava de modo inflexível. A mulher permanecia em pé como se fosse uma estátua, inacreditavelmente imóvel e silenciosa, a não ser pela jóia vermelha que refulgia e cintilava em seu peito.

         Assim, acho melhor — encerrou a Reverenda Madre — que mademoiselle venha ficar conosco por algum tempo e...

Ao ouvir isso, Dona Francisca moveu-se, tão depressa quan­to um fantoche do qual foi puxado o fio. O rubi flamejou.

         Aqui? Ficar aqui?

A surpresa transpareceu no rosto da prioresa.

         Sim. Parece-me que é o mínimo que podemos fazer com ela; e se isso a tranqüilizar, podendo fazer indagações, tenho a certeza de que este é o melhor lugar para ela.

—         Indagações? Que indagações ela poderá fazer?

         Esta, por exemplo — disse Jennifer, e ficou surpresa diante do tom duro de sua própria voz. — Qual era o aspecto de Madame Lamartine, Dona Francisca?

A tesoureira voltou-se para fitá-la. Houve uma pausa minúscula, e logo ela sorriu.

         Era muito alta, e de compleição leve. Tinha cabelos claros, um pouco anelados, e olhos de cinzento claro. Nariz reto, sobrancelhas espessas e retas.

Falava devagar, observando Jennifer com seu olhar velado.

A descrição está boa, mademoiselle? — perguntou depois.

Muito boa — disse Jennifer, a voz roufenha.

Dona Francisca voltou-se para a prioresa. Sua voz se aguçou áspera como uma serra que corta a madeira.

         Reverenda Madre, não existem indagações a serem feitas como vê. Não existe mistério algum. As sugestões feitas por Mademoiselle são um ultraje...

Francisca... — e a voz da velha mulher era branda, mas a espanhola se deteve no meio da frase acusatória, e baixou a cabeça,

Desculpe, Reverenda Madre.

La petite é nossa convidada disse a prioresa, com gentileza e nós lhe faltamos. Você precisa conversar comigo sobre esse assunto, mais tarde... depois das Completas... mas agora ficaria satisfeita se você desse ordens para que um quarto seja preparado, a fim de receber mademoiselle.

Dona Francisca disse, em tom de voz que ainda era sub­misso, porém inteiramente definido:

Não temos um quarto de sobra, Reverenda Madre.

Não? O que aconteceu com o quarto ocupado por Ma­dame Lamartine?

A Irmã Marie-Jeanne. Está atacada de resfriado.

Ah, sim. E o quarto do hospital?

Duas das crianças...

Lembro-me. Então, parece... — e rosto cego voltou-se para Jennifer. Somente podemos oferecer-lhe um tipo pobre de hospitalidade, afinal de contas, mademoiselle. Talvez não se importe em partilhar o quarto de alguém? Se se importa, não deixe de dizê-lo.

Partilhar um quarto? e Dona Francisca interveio, antes que Jennifer pudesse responder. Não há um só leito livre.

Mas, com certeza... o da Irmã Marie-Jeanne, se ela está no quarto de sobra... Mademoiselle não se importará de ficar no quarto com Celeste.

Jennifer ouviu que a tesoureira aspirava rapidamente, como uma cobra a sibilar.

—         Mademoiselle Silver não vai querer...

Jennifer ergueu a cabeça pela primeira vez e fitou-a bem nos olhos. O azul enfrentou o negro, com o ar de espada que saúda antes da luta.

         Ao contrário afirmou. Terei grande prazer.

 

 

O sol se punha depressa quando Jennifer, finalmente, saiu pelo portão e começou a descer apressadamente o vale. Pouco a pouco o dourado do dia se aprofundara, e as sombras mais compridas dos picos ocidentais apresentavam-se azuis sobre a superfície do vale, encobrindo a trilha por onde caminhava. Mais uma vez ela sentiu a solidão do lugar, que parecia oprimi-la, e estremeceu, apressando os passos, como se pudesse, por esse recurso, fugir à recordação da tarde. Tão pouco tempo antes ela julgara aquele vale bonito... lembrava-se das flores e do vento carregado de odores agradáveis, das águas escachoantes, e dos três cavalos em galope livre, da luz que reluzia em seus flancos. Fora exatamente aqui que eles haviam-se desviado da pista, para saltar o córrego; dava para ver ainda o salto deles por cima da água branca, fantasmagórica e sem qualquer cinti­lação à sombra da montanha...

O coração deu um salto incontrolável, e ela estacou onde se achava, olhando para cima.

Acima do vale, além da espuma fantasmagórica do Petit Gave, em contraste acentuado com o céu colorido, achava-se um cavaleiro. A montaria estava imóvel, a não ser onde o vento lhe agitava a crina, e também o cavaleiro se apresentava como se fosse uma peça esculpida na rocha negra. Mas não havia qualquer indicação de calma naqueles ombros jovens, como acontecera de tarde; a cabeça estava inclinada à frente, afundada entre os ombros retesados, como a cabeça de um falcão, observando, esperando.

O som único que se ouvia no vale era o ruído suave da água em cascatinha. E, então, o cavaleiro moveu-se, e o animal, as rédeas puxadas com brusquidão para trás, empinou-se como se atingido por dor repentina. Veio o som dos cascos que batiam na pedra, e logo o cavalo e cavaleiro desapareciam além da elevação.

Jennifer alcançou a estrada principal e voltou-se na direção de Gavarnie. Quando, momentos depois, um enorme carro de passeio se deteve ao lado dela e uma voz em inglês ofereceu-lhe carona até a aldeia, aceitou cheia de reconhecimento, e com a sensação singular de um regresso brusco à normalidade. Logo estava sendo levada com rapidez, descendo o vale rumo ao hotel e à possibilidade, agora imensamente reconfortante, de rever Stephen.

 

                            INTERLÚDIO

Ela não tinha percebido, até entrar no refeitório do hotel e deixar de encontrar Stephen à sua espera, o quanto contara vê-lo imediatamente. Sentou-se, estendendo a mão de modo mecânico para apanhar o guardanapo, e examinou o cardápio apetitoso, com olhos que nada viam. Quando a comida foi servida, ingeriu-a sem provar, vigiando a porta. Mas ele não veio. Com grande desapontamento, que a surpreendeu, Jennifer achou que Stephen estaria jantando em seu próprio hotel.

Sentia-se esgotada e vazia; suspensa naquele vácuo arrasa­dor da alma, entre o conhecimento de que a ação drástica tor­na-se necessária e um momento em que é preciso dar o primeiro passo.

Entre a ação de uma coisa horrível. E o primeiro movimento... e ali estava ela, apanhada no intervalo fantástico, em um sonho tornado mais horripilante pelas dúvidas que, em retrospecto, vinham assaltá-la. E se ela estivesse enganada? E se, afinal de contas, não houvesse nada de mal? Os fantasmas de existência improvável zombavam dela; Gulian viva... Gillian escondida algures, de algum modo... presa por lá... Gillian em perigo... Ela afastou tais pensamentos. Coisas assim não acon­teciam. Ou aconteciam?

Foi uma Jennifer rígida e exercendo grande controle sobre si mesma quem, depois do jantar, procurou o patron do hotel e pediu desculpas a ele, em seu francês fluente e impecável, por ter mudado de planos quanto a permanecer no hotel.

— Eu lhe tinha dado a entender que talvez isso acontecesse — encerrou — mas não contava que fosse tão cedo. Está claro que pagarei por esta noite.

O patron, que abria a boca para protestar, voltou a fechá-la, e depois de dedicar mais um olhar à hóspede, tornou-se plenamente prestimoso. Sua bondade e solidariedade evidentes não serviram em nada para aumentar o autocontrole de Jennifer, e quando esta finalmente se afastou do homem, foi quase correndo ao foyer iluminado, tendo apenas um pensamento, encontrar Stephen.

O crepúsculo se transformara em semi-noite, pontilhada por algumas estrelas débeis, mas ela o viu quase imediatamente, vin­do pela margem do rio abaixo do hotel. Correu em direção dele, descendo a margem íngreme em meio das árvores escuras, tro­peçando sem atenção nas raízes de pinheiro que se entreteciam pela trilha.

Ele parara mais embaixo, na ponte de pedras lisas que cruzava o rio, e fitava a água escachoante e cheia de espuma. Os sorvos estendiam os galhos por sobre aquilo, e suas folhas sombrias, acicatadas pelo vento da cachoeira, estavam em uma dança esbranquiçada, e a ravina se mostrava luminosa com a espuma da água que caía. Ali estava Stephen, cabeça baixa, observando a torrente.

Jennifer, que descia a trilha escura por baixo dos pinheiros, a visão de sua figura conhecida serviu para libertá-la dos últimos vestígios de seu alto controle. Quando tivera o peso daquela questão para suportar sozinha, conseguira — o que a surpreen­dera um tanto — portar-se à altura. Mas o peso, agora, parecia demasiado, e tinha de ser partilhado. Ao partilhá-lo, Jennifer sabia que grande parte do controle que mantinha sobre si mesma precisava ser afrouxada. E ali estava Stephen, repre­sentando tudo aquilo de que, em tal momento, ela mais preci­sava. Reconforto, vigor, confiança... nada mais. Stephen, o irmão mais velho. De repente, ela se comprazia em que fosse assim que ele queria as coisas. Stephen, irmão mais velho... As coisas estavam nesse pé. Jennifer, refugiando-se na inocência como um caramujo se refugia na casca, estendeu as mãos e correu para ele, chamando-o pelo nome.

Stephen voltou a cabeça, vendo-a. O ruído da cachoeira o impedira de ouvir sua aproximação, e tudo que notava era Jenny, uma figura fantasmagórica sob os pinheiros, correndo em direção dele, com as mãos estendidas.

Seus lábios esboçaram as palavras:

Ora, Jenny!

Stephen... oh, Stephen!

Ele se voltou com rapidez para recebê-la, abrindo os braços. E quando a tinha neles, fechou-os bem. Seu coração começara a bater depressa, em cadência tão forte que o preocupava. Seus braços se apertaram mais, a cabeça baixou, a boca procurando a dela..., mas a cabeça de Jennifer estava inclinada para baixo, comprimindo-se com força no ombro dele, e os lábios de Stephen só encontraram os seus cabelos sedosos. Ele disse, a voz rouca:

         Jenny.

Ela não ergueu a cabeça.

         Jenny.

Ainda assim, ela não se moveu. Passaram-se cinco segundos de cegueira e rodopio, para Stephen compreender que ela cho­rava, esquecido de tudo a não ser sua própria perturbação. O estremecimento do corpo de Jennifer era devido não à paixão, mas às lágrimas, e seus braços o seguravam apenas procurando reconforto, Stephen, o irmão mais velho. Calma por aí, seu imbecil... ela nem sequer sabe se é você...

Cinco vidas mais tarde, ele ouviu que sua voz, irreco­nhecível, repetia:

         Ora, Jenny!

E então, mais uma vez e com muita suavidade:

         O que se passa?

Ela sacudiu a cabeça, enfiando-a ainda mais em seu ombro, de modo que o rapaz permaneceu em silêncio, chamando-a bem a si, até que os soluços de Jennifer diminuíssem. Ele já se controlara bastante, agora; sobre a cabeça de Jennifer, o rosto de Stephen era como uma máscara, mas ele arquejava, e a mão que subira, contra a vontade, para afagar-lhe os cabelos, tremia de leve. Pareceu que ele logo observava isso, pois sua boca retorceu-se em desagrado, e baixou a mão.

Depois de algum tempo, Jennifer agitou-se nos braços de Stephen e, afastando-se dele um pouco, procurou um lenço.

         Tome o meu — disse ele, oferecendo-o. — Não sei por que os homens estão sempre mais equipados do que as mulheres, em emergências como esta. Deve ser uma questão de autodefesa.

Jennifer, enxugando os olhos, conseguiu trazer aos lábios um sorriso bastante abalado. 

Eu encharquei o seu ombro? Desculpe. Mas você apa­receu tão bem, na emergência de que fala, que dá para des­confiar, Stephen. Existe muita gente que aparece correndo e vem chorar em seu ombro?

Apenas umas três por dia.

Pobre Stephen. Sinto muito.

Sua bobinha.

As palavras eram de zombaria, mas a voz dele era gentil, e seus olhos examinavam com seriedade o rosto de Jennifer. Em seguida, ele passou o braço de leve pelos ombros dela, trazendo-a para a extremidade oposta da ponte.

         Venha para cá, onde possamos ouvir o que se pensa e conte-me tudo que aconteceu.

Eles começaram a subir a trilha que dava para os pastos nas montanhas, saindo quase imediatamente das sombras frias da passagem mais baixa. O ar quente da noite veio a seu encontro, trazendo odores de relva e de zimbro, e os ruídos acariciantes da brisa vinda das montanhas. Atrás deles, o rugido do rio transformava-se em murmúrio e finalmente desaparecia, sob a escuridão dos galhos agitados pelo vento.

Encontraram um muro baixo que se estendia pelo prado e ali, sentados na pedra ainda quente, com os olhos na relva aos pés dela, Jennifer contou o que se passara. Falou-lhe da recepção no convento. De seu pressentimento cada vez mais forte de desastre e, então, do modo brusco pelo qual Dona Francisca anunciara o falecimento de Gillian.

—         Morta? disse Stephen, o choque transparecendo na voz, e logo aduziu, com suavidade: Pobre Jenny. Sinto muito. Que coisa horrível... e você tomar conhecimento assim, desse modo. Com os diabos, mesmo se Gillian pretendia afas­tar-se do mundo, eles podiam ao menos dar-se ao trabalho de informar você sobre isso!

Jennifer apertou as mãos de leve e disse, em um arquejo:

         Exatamente, Stephen. Escute só...

E prosseguiu, falando-lhe do resto do caso fantástico; do daltonismo e das gencianas; da reticência extraordinária demons­trada pela mulher moribunda; das conversas que ela própria tivera com as pessoas no convento e as coisas que tinha visto. Por tudo isso, como um fio negro numa tapeçaria colorida, transpareciam a voz e atos da mulher espanhola, ora mentindo abertamente, ora apenas obstruindo as coisas, mas por todo o tempo visivelmente calculista e apreensiva, apreensiva quanto a... quê ?

A lua já despontara em meio às estrelas, como um cisne que nada serenamente em um lago de lótus. Montanha e prados haviam recuado um pouco para a escuridão. O vento soprava em silêncio, de modo invisível, sobre a relva. O vale estava tão tranqüilo que dava para ouvirem os movimentos das flores minúsculas que tinham aos pés.

Stephen voltou a falar, finalmente, e suas palavras serviram para desfazer a tensão. Ele disse:

         Parece que você teve uma tarde das mais difíceis, levando tudo em conta. Quer um cigarro, Jenny?

À chama do isqueiro, ela, olhos cansados e bem abertos, examinou-o.

Stephen, você não pode deixar de acreditar em mim.

Eu acredito em você... até certo ponto.

Certo ponto? Que ponto é esse?

Aquele em que você começa a transformar em uma peça de Grand Guignol... reconheço que é tudo bastante esquisito..., mas que mais tarde aparecerá a claro, com explicações bastante simples.

Você pensa assim? — e a voz dela estava firme, irri­tável, o que era sinal de perigo.

Stephen fez um careta para si mesmo, ao ouvi-la, mas asseverou do modo mais enfático:

         Minha querida pequena, olhe o que está dizendo: duas mulheres jovens, de aparência semelhante, de algum modo foram trocadas uma pela outra. Uma delas morre, e até mesmo no leito de morte finge ser a outra. Essa outra, uma inglesa res­peitável e com senso de responsabilidade, desaparece sem deixar vestígio. E você fica aí com dois problemas dos mais emara­nhados: um... quem era a mulher que morreu? dois... onde está Gillian?

Ele sacudiu a cabeça, e aduziu em seguida:

Não faz sentido.

Por que não?

Ele foi deliberadamente brutal:

         Porque é mais razoável aceitar, em vez de duas improbabilidades, a possibilidade que todos os outros aceitam, de que Gillian morreu e foi sepultada.

Ela disse em voz baixa e trêmula, depois de algum tempo:

         E eu pensei que você ia-me ajudar, Stephen. Ele teve um leve movimento involuntário.

         É o que estou procurando fazer, Jenny, você não per­cebe? Não quero que comece a concatenar alguma história fantástica. .. e, talvez, meter-se em uma embrulhada por demais embaraçosa... imaginando acusações contra pessoas que dificilmente seriam o tipo de criminoso que parecem, de acordo com suas suposições.

É somente Doña Francisca, e ela...

Está certo. Ela mentiu a você, e você não gostou dela. Isso não a torna uma criminosa.

Eu não disse que ela é uma criminosa! Mas se você a tivesse visto hoje, e falado com ela, Stephen, ficaria convencido, tanto quanto eu estou, de que ela não é aquilo que devia ser!

Quem é essa mulher, afinal de contas? O que está fazendo no convento?

Jennifer relatou o que a Irmã Louisa lhe contara.

E, mais tarde, eu tentei arrancar informações da noviça que me acompanhou para sair do convento. É uma boa pequena, e tem um medo terrível de Doña Francisca. Pude ver que ela... Doña Francisca... dirige quase tudo que não seja de caráter religioso. Também pude perceber... não com base em qualquer coisa que a pequena tenha dito, mas com base nos modos dela... que nenhum deles gosta muito de Doña Francisca, e acham que ela se vale da cegueira da Reverenda Madre, mas ninguém gosta de dizer coisa alguma. São gente simples, inclinam-se a aceitar aquela mulher do modo como ela própria se avalia.

Ela parece ter muita autoridade, para alguém que nunca professou votos.

Sim. Eu chego quase a pensar que é exatamente esse o motivo. Fiquei com a impressão de que a Reverenda Madre permite que ela faça as coisas a seu jeito, como uma espécie de compensação por não a aceitar na Ordem. Você sabe em que ela me faz pensar? Nos bons dias antigos, quando as rainhas e duquesas e damas desapontadas, de alta estirpe, retiravam-se para os conventos, quando a política se tornava demasiada para elas, e transformavam-se em estorvo completo, com cachor­rinhos de estimação, visitantes, e mostrando-se condescendentes para com a abadessa.

Stephen riu ao ouvir isso,

Você não fez referência a qualquer cachorrinho de ístimação.

Bem, você sabe do que estou falando. Mesmo sem o cachorrinho de estimação, e deixando de lado a criação aristocrática, ela é... oh, ela é desequilibrada, Stephen! Não apenas no que diz respeito a Gillian. Existe a capela. Ela, de modo mais claro, tem gasto uma quantidade inacreditável de dinheiro, com a capela, e...

         Minha querida Jenny, existem coisas tais como cópias das obras de El Greco. Você pôde verificar se era um original ou cópia?

Não, claro que não. Mas sei muito bem quando as coisas são feitas de ouro e marfim, e até mesmo aquele tipo de cópia de pintura custaria muito dinheiro! E de onde ela tira o dinheiro, você pode me dizer?

Você disse que ela já foi rica.

Mas a família perdeu o dinheiro que tinha. Ela não trouxe coisa alguma, quando foi para o convento. Foi a Irmã Louisa quem me contou — explicou Jennifer. — E se tudo está perfeitamente legal, por que a Reverenda Madre, ao que parece, não tem conhecimento de nada?

S-sim — disse Stephen, devagar. — Reconheço que é singular. Mas lembro outra vez que deve haver alguma explicação fácil... Quero dizer, onde pôde ela pôr as mãos em tanto dinheiro assim? Devem haver milhões de francos em jogo?

Milhões de francos... — e Jenny arquejou, enfiando a mão no bolso e trazendo de lá um pedaço amarrotado de papel. — Aqui, Stephen, leia isso.

Que é?

Ela contou como tinha encontrado o papel enfiado na moldura do tríptico. Ele baixou a carta ao abrigo do muro, e acendeu o isqueiro. A brisa cessara, e a chama queimou com brilho. E logo ele ergueu o olhar, apagando o isqueiro. Stephen, agora, tinha uma leve expressão de preocupação.

Jennifer comentou:

Que acha disso, Stephen?

Achar? Nada. Mas, levando tudo em conta, a menção de uma soma de três milhões de francos faz com que a gente pense...

Ele devolveu o bilhete a Jennifer, que voltou a guardá-lo no bolso. Em seguida, ele apagou o cigarro, apertando-o na pedra.

         E então? — indagou Jennifer, em cuja voz reaparecera a irritabilidade.

Stephen respondeu, em tom calmo:

Se você continua insistindo com seu mistério, minha cara, não posso impedir que se magoe mais tarde. Mas, tam­bém, não consigo ver que diabo dá para fazer.

A polícia...

A voz dele tornou-se mais áspera.

         Pelo amor de Deus, Jenny, não! Você é estrangeira e protestante, sozinha em uma região bastante isolada do país. E Gillian era cidadã francesa, por casamento. Você não pode andar por aí mexendo em todas as casas de marimbondo, sem dispor de provas bastante convincentes.

N-não. Sei disso. Nesse caso, só resta uma coisa a fazer.

Ele a fitou em ar de dúvida.

E o que é?

Jennifer levantou-se em movimento abrupto, e esmagou o cigarro com o calcanhar.

         Ir para lá e ficar no convento, até descobrir alguma coisa.

Também ele se ergueu, seu vulto encobrindo-a na escuridão.

         Jenny, será que nada que eu possa dizer convencerá você de que tudo isso é bobagem? E que você vai simples­mente enrascar-se...

A resposta foi calma:

Não. Stephen, eu preciso descobrir onde está Gillian.

Minha querida menina...

Ela rebateu no mesmo instante, e o controle precário que mantinha sobre si mesma estava cedendo:

         Pelo amor de Deus, Stephen! Você pode chamar-me de idiota, se quiser, mas eu simplesmente não acredito que Gillian esteja naquela sepultura! Você não compreende uma coisa tão simples? Não acredito que ela esteja morta!

Defrontava-o, arquejante, o corpo retesado e vibrando com raiva e agitação, uma figura fantasmagórica, porém esguia e viva, contra o pano de fundo de rocha e a imensidade ameaçadora da escuridão. De repente, parecia inteiramente sozinha, como­vente, um tanto perdida na bravura de seu desafio insensato, e muito jovem. Stephen, olhando-a, sentiu uma onda de desejo, tão forte que se sobressaltou, e ficou surpreso em que ela pudesse estar ali, sem notar o que se passava, fitando-o com olhos raivosos.

E começou a estremecer.

         Minha querida menina...

         E não me chame de sua menina querida! — retorquiu Jennifer.

Stephen riu, então, capitulando de maneira tão súbita que a raiva de Jennifer transformou-se em surpresa. Jamais lhe ocorrera que êle estava querendo aproveitar qualquer possibili­dade em mantê-la em Gavarnie, a princesse lointaine, fora de sua casa tão bem guardada...

Ele disse:

Está bem, minha florzinha delicada. Você venceu. Conte comigo.

Você quer dizer... você vai me ajudar, Stephen?

Oh, sim. Se você vai sair por aí procurando encrencas, prefiro que não o faça sozinha. Só peço que não me tenha na conta de herói do caso, Jenny. Farei o que puder, mas o melodrama não combina com meu feitio.

Ela respirou fundo e sorriu, ao mesmo tempo em que pensava no motivo pelo qual não via um brilho de resposta nos olhos dele, e porque ele a observava com o rosto tão distante e fechado quanto o de um rei egípcio.

         Eu sabia que você ia ajudar!

O triunfo e o alívio fortaleciam-lhe a voz, e Jennifer cami­nhou para ele, os olhos brilhando ao luar. Quase sem saber o que estava fazendo, ele a tomou pelos ombros e puxou-a a si. Jennifer veio sem resistir, no corpo rígido de animação... e erguendo o rosto encantador a perguntar, de modo ingênuo:

         O que vamos fazer agora?

Ele a agarrou com mais força ainda, por um segundo.

Você quer mesmo saber?

É claro!

Para homem com o meu temperamento instável — disse Stephen, falando entre dentes — acho que sou notavelmente sincero — disse e baixou as mãos, rindo depois para o rosto perplexo da jovem. — Deixe para lá, doçura. O passo seguinte que nós vamos dar é pôr você a salvo, em seu convento.

Levou um dedo ao queixo dela, erguendo o rosto de Jen­nifer, iluminado pela lua.

         Um convento — prosseguiu. — Isso combina com você. Bela Adormecida.

Ela afastou a cabeça.

Por que me chama assim? Você já disse muitas coisas singulares hoje.

É a lua.

E eu não sou uma florzinha delicada.

Não diga! — comentou Stephen. — Na verdade, meu coração está sangrando de piedade por Dona Francisca.

Jennifer sorriu, e a animação ainda a sustentava.

E é para ter pena, mesmo... Bem, suponho que tenho de subir para o Vallée des Orages...

Acho que posso apanhar um carro emprestado. Aristide Celton... é o gendarme do lugar... é meu companheiro de bebidas, e ele tem um pequeno Renault, que com certeza vai-me emprestar.

Isso é ótimo. Eu estava imaginando o que fazer com minhas malas.

Se eu não arranjar o automóvel, um dos muladeiros levará suas coisas mais pesadas para o convento, de manhã. Um dos muladeiros mora em seu vale, em uma fazenda por cima do convento; chama-se Pierre Bussac. Adho que êle transporta frete, quando é necessário. E há um rapaz chamado Luís, que tem cavalos...

O interesse de Jennifer aumentou no mesmo instante.

Três cavalos? Castanhos?

Sim. Por quê?

Oh, nada. Acho que o vi hoje.

Eles começaram a descer lentamente a elevação. Jennifer, agora que a decisão fora tomada, e formado um plano, ainda que experimental, sentia que diminuía bastante a tensão. Olhou de lado para Stephen. Êle percebeu o olhar e sorriu para ela. Tudo quanto fora singular e reticente no rapaz já desaparecera. As coisas estavam novamente normais. Estendeu a mão para ajudá-la, Jennifer aceitou. Desceram juntos, ainda de mãos dadas.

         Esse rapaz disse ela mora no vale, também?

A casa dele é em Argelès, na fazenda do padrinho, mas êle traz o gado aqui para cima, no verão, e mora em companhia do gado, por assim dizer, em uma cabana, no outro lado do Vallée des Orages.

Você parece conhecê-lo muito bem! comentou Jen­nifer divertida.

Oh, êle apareceu e veio examinar meus desenhos diversas vezes. Está sempre andando entre Gavarnie e o Vallée des Orages.

É muita coragem sua arriscar-se a enfrentar a crítica do local, Stephen!

         Tenho a certeza de que ela é devastadora! Ela sorriu.

         Eles são muito francos. Luís está sempre querendo me eu desenhe os cavalos dele, coisa que eu não conseguiria fazer, e Madame Bussac... ela olhou minhas pinturas uma vez... disst com simplicidade que as pinturas não representam coisa

alguma para ela, que prefere fotografias... Devo procurar você amanhã ?

Não sei, Stephen. É uma caminhada e tanto...

Eu irei. Gostaria de fazê-la sentir que estou presente, se precisar de mim. Eu sei, Jenny...

Sim?

Se eu levar alguma comida e uma garrafa de vinho, você poderá encontrar-se comigo amanhã... que tal na curva da pista, por baixo do convento... para um piquenique, e então trocamos informações. Que tal?

Claro que sim. Gostaria muito. Mas... trocar informa­ções, Stephen? Que descobertas você vai fazer?

Ele disse:

         Acho que posso bater um papo amanhã com o médico local, e com o padre. Os dois viram Gil... Essa mulher, afinal de contas.

Achavam-se na ponte. Ela se deteve e voltou-se para t olhá-lo.

Stephen... — e aduziu, falando bem devagar: — Eu sei que você me julga doida, e espero ver isso provado a cada instante..., mas tenho de agir assim. Você percebe, não é?

Sim, percebo.

Jennifer tocou-lhe a mão, em gesto quase tímido.

         E fico muitíssimo reconhecida. Eu... eu acho ótimo você estar aqui.

Ele disse, com firmeza:

Isso é muito bom... já preparou as malas?

Sim.

Ele fitava o mostrador luminoso do relógio de pulso.

Ainda não é tarde demais. Vamos até lá pedir o auto­móvel emprestado a Aristide Celton, e então, se você quiser, poderemos falar com o padre esta noite.

Isto parece uma proposta e tanto — disse Jennifer, em tom brejeiro, e seguiu à frente pela trilha.

 

                             PARA TODOS OS SANTOS (A. & M.)

Embora já se passasse bastante tempo, desde a hora do ofício religioso, o Padre Anselm achava-se em sua igrejinha. Mandados para lá por sua dona-de-casa, Jennifer e Stephen escalaram os degraus que subiam pela encosta do morro, por trás da aldeia e em direção da igreja, um vulto de torre escura. A luz que vinha pela janela lateral brilhava acima deles, ao mesmo tempo distante e acolhedora, amarela em confronto com as estrelas afirmando sua ligação entre a imensidade daquela treva perfurada por estrelas e o edifício cercado de terra, que se prendia à encosta. Lá dentro, encontraram a fragrância de incenso apagado, misturado com o cheiro mais forte de velas que também tinham sido apagadas, fragrância essa penumbrosa, nostálgica como o cheiro de pot-pourri. Ela pairava entre as pilastras, por cima dos braços de candeeiros, diante dos nichos onde se achavam os pequenos santos feitos de pedra e massa.

Ali parecia existir, na verdade, uma verdadeira reunião de santos. Em cada coluna, três nichos; em cada nicho, um santo... as passagens laterais estavam cheias deles, grandes e pequenos, sem cor ou coloridos, alegres e tristes. E assim, diante de um santo pequeno e de aspecto triste, encontraram o Padre Anselm, prosaicamente ocupado com o espanador.

Era homem de baixa estatura, rosto magro, olhos alertas e nariz notável. Não parecia idoso, mas o cabelo que ainda lhe restava era grisalho, e tinha os ombros caídos, como se houvesse, lido livros com tipo mal impressos. Os cabelos grisalhos e a sotaina que usava impediam que se parecesse demasiadamente ao Dr. Beetle parecença que, de outra forma, seu nariz ter-lhe-ia assegurado. Recebeu os visitantes com aceno alegre do espanador, com o que espalhou mais poeira do que acabara de recolher laboriosamente. Eles retribuíram o cumprimento e Jennifer começou educadamente a admirar a igreja. O Padre Anselm sorriu amplamente com satisfação e, antes que eles percebessem o que se passava, estavam sendo levados a ver um santo após outro.

         Policarpo... — disse o Padre Anselm, parando final­mente. — São Brício; São Macuto...

Ele fêz uma pausa, a fim de arredar um pouco a poeira inteiramente, imaginária do pedestal de São Macuto. Stephen respirou fundo e começou:

         Nós vimos vê-lo, mon pire, para falar de...

         São Remígio, Bispo de Rheims — disse o Padre Anselm, e logo partira em passos rápidos, o espanador em posição de funcionamento.

Eles o acompanharam à coluna seguinte.

         São Enurco — explicou ele. — São Bonifácio, São Alphège, Santa Luci...

De um... de uma mulher...

Santa Perpétua, Virgem e Mártir...

Que morreu faz mais ou menos uma quinzena...

         São Blásio, Bispo de Sebaste — e ele já partira para outra coluna. — São Simão e, naturalmente...

         São Judas? — perguntou Jennifer, automaticamente.

Essa interrupção, por surpreendente que fosse, teve o efeito de deter a marcha hagiólatra do Padre Anselm. Como se notasse pela primeira vez a presença deles, voltou-se e sorriu ampla­mente para Jennifer.

E São Judas — concordou. — Mademoiselle conhece, então, o calendário dos santos abençoados?

Oh, não — disse ela, mais do que depressa — não é assim. Apenas alguns.

O rosto do Padre Anselm assumiu uma expressão de pré-libação.

Já ouviu falar — perguntou ele, em tom aflito — de São Bidulfo?

Não.

De São Onésimo?

N-não.             

De São Agostinho de Hippo?

Também não.

O Padre Anselm, com ar de triunfo, voltou à sua coluna.

         Todos aqui! Todos eles — e acenava com o espanador, cheio de satisfação.

Stephen, com um olhar disfarçado ao relógio de pulso, abriu novamente a boca para falar, mas foi deixado de lado. Jennifer e o Padre Anselm, demonstrando ambos o maior prazer por estarem um em companhia do outro, já tinham desaparecido atrás de outra coluna, presumivelmente para identificar São Bidulfo e seus companheiros menos conhecidos. Stephen ergueu, a sobrancelha e os acompanhou.

—... Uma igreja das mais interessantes Jennifer dizia, com toda a aparência de satisfação. E tão invulgar. E essas estátuas... Nunca vi outra como esta, mesmo na França. E em meu país, via de regra, ficamos contentes em lidar com um santo de cada vez.

A não ser por São Simão...

E São Judas assentiu Jennifer.

Eles se entreolharam sorridentes, um satisfeito com o outro. Foi quando Jennifer disse, talvez em tom casual demais:

         Aquela é uma estátua notável da Madona, a que eles têm no convento, não acha? Creio nunca ter visto uma estátua tão linda.

O pequeno sacerdote pareceu perplexo.

Estátua? Oh, fala daquela no corredor? Aquela é de Santa Ana, minha filha.

Não, aquela não. A que está na capela da Virgem, no pequeno altar. Eu achei maravilhosa. Bem como aquela pintura grande, no coro.

Quanto a isso disse o Padre Anselm, com franqueza — trata-se de uma coisa moderna, não? Acho que não olhei muito bem para aquilo. Sou um pouco míope, além de antiquado em meu gosto aduziu, com uma risadinha.

Na verdade, o padrão geral de gosto, refletido na pequenina igreja congestionada de objetos, não indicava grande senso crítico por parte do sacerdote do convento. Ao Padre Anselm era bem provável que os santos de El Greco, compridos e voltados para o céu, parecessem "modernos" e nada mais. No entanto, homem atento às estátuas como era, teria ele notado a Madona cheia de jóias?

Jennifer ergueu o olhar para ver a mesma indagação na expressão de Stephen, já quando o Padre Anselm respondia:

         E a estátua que mencionou... não me lembro de ter notado essa estátua, também. Na capela da Virgem? Eles, por certo, têm um quadro sobre o altar lá, uma coisinha bonita, azul e dourada? As crianças põe flores diante da imagem, quando eu as visito.

Com que então, os tesouros eram escondidos, nos dias de visita? Jennifer, sem se atrever a olhar para Stephen, sofreou o impulso de perguntar se os candelabros de ouro também tinham o hábito de desaparecer, e em vez disso ela perguntou, com gesto amplo na direção de certa coluna, ainda mais sobrecarregada que as outras:

         Mas o senhor tem muitos aqui, não é? Todos esses... e desconhecidos... eu me sinto tão ignorante...

Essa tentativa de animar a conversa teve êxito imediato. O Padre Anselm deu um saltinho furioso.

         Isso mesmo! É exatamente isso! Eu decidi, em minha igreja, que ninguém... ninguém (por mais obscuro que seja) ... será esquecido. Alguns anos antes — e começou distraida­mente a limpar os candelabros já reluzentes de Santo Agos­tinho de Hippo — alguns anos antes, escrevi um livro sobre os santos da Igreja. Dá para imaginar, mademoiselle, que as vidas deles levaram-me a lugares numerosos, desconhecidos e inesperados. Falo de modo metafórico, é claro.

         É claro.

         Levou bom número de anos..., mas acho que posso dizer que, na obra completa... compêndio seria a expressão melhor... não omiti nome algum, por mais obscuro que fosse.

         Não diga!

E quando eu me tornei o cura daqui, chamei a mim a tarefa de celebrar todos eles (por mais obscuros que fossem), que fizeram sua contribuição à fé.

Acho uma idéia maravilhosa — disse Jennifer, em tom caloroso. — E a sua igreja é maravilhosa, também.

Dedicada — disse o Padre Anselm, com uma risadinha súbita — a Todos os Santos. Assim sendo, e não podia deixar de fazê-lo! — deu uma esfregadela final nos candelabros de Santo Agostinho, e olhou para Stephen, de modo que era ao mesmo tempo desconcertantemente astuto e sábio.

E agora — disse Padre Anselm, com um safanão do espanador — vocês querem me fazer algumas perguntas sobre a mulher que morreu na terça-feira, no dia vinte e um de junho, no convento do Vale das Tormentas? Estou à escuta, meu filho...

 

Era pouco, todavia, o que se podia saber de novidade. — De começo eles pensaram que ela ia melhorar — disse o Padre Anselm — mas depois, na noite de terça-feira, ela teve uma recaída e parecia enfraquecer com muita rapidez. Manda­ram-me chamar, e estive lá com ela, quando faleceu. Foi por volta das onze horas da noite.

Dizendo isso, olhou para Jennifer.

Diz que ela era sua prima, mademoiselle? — perguntou. Jennifer assentiu.

Sinto muito — disse Padre Anselm, com simplicidade.

Stephen cruzou o olhar com Jennifer e, de modo quase imperceptível, assentiu para ela.

Padre — começou Jennifer a dizer.

Ma filie?

         Espero que não ache estranho eu fazer estas perguntas. Trata-se de questão muito confidencial, percebe, e...

         Não falarei com pessoa alguma.

         Se eu puder apenas fazer-lhe algumas perguntas sobre esse caso... sobre minha prima...

Padre Anselm voltou seu olhar desconcertantemente brilhante, para não vê-la, e passou a falar com Santo Onésimo.

         Pode perguntar o que bem quiser, minha filha, e eu responderei a tudo que puder. O que deseja saber?

Stephen falou:

         Gostaríamos de saber, mon père, qual era o aspecto da mulher.

O pequeno sacerdote abandonou Santo Onésimo por momentos, a fim de dedicar a Stephen um olhar de surpresa.

Meu filho, ela estava morrendo, e os que se acham moribundos...

Eu não queria dizer nesse sentido — apressou-se Stephen a corrigir. — Queria saber a cor dos cabelos e olhos dela, e coisas assim.

Mas a mademoiselle aqui... — e o Padre Anselm se interrompeu, dirigindo-se ao Santo Onésimo. — Ela era clara e loura — disse, de modo breve — e tinha olhos cinzentos ou azuis... não posso precisar. Quanto à altura, não sei. Quando a vi, estava muito magra, e sofrera muito pela febre. Uma mulher que morre não tem o aspecto que teve durante a vida, meus filhos, eu somente a vi no final. E à luz das velas — aduziu.

         Ela falou francês com o senhor?

         Mas, sim. Por todo o tempo. Até que a mademoiselle me dissesse ser prima dela, nunca calculei que não fosse inteiramente francesa. Também o nome dela, como vêem...

Ele começou a tirar uma gota de cera derretida no pedestal de Santo Onésimo, usando para isso a unha do dedo.

         Ela estava lúcida... quero dizer, não estava em delírio quando o senhor a viu?

Não. Inteiramente lúcida. Sabia que ia morrer.

Sabia que ia morrer? — perguntou Jennifer, baixinho.

Exatamente.

         E não deixou alguma mensagem com o senhor, não mencionou pessoa alguma pelo nome?

Em resposta, ele sacudiu a cabeça.

         Eu sei — disse Jennifer, embaraçada — que o senhor não pode falar de qualquer coisa contada na confissão, mas pode dizer-me se ela havia deixado algum recado mencionando algum nome, mesmo sem poder dizer do que se tratava?

Padre Anselm piscou para ela.

         Sim, poderia. Mas, não, nada desse tipo foi dito. Sinto muito, mademoiselle.

Sua voz voltara à gravidade.

         Na verdade, ela não confessou. O fim veio mais depressa do que tinha sido esperado. Depressa demais...

Seguiu-se uma leve pausa. Depois, ele voltou a olhar mais uma vez, os olhos escuros e brilhantes com expressão astuta. O sacerdote disse:

         Já examinou os documentos dela? Todos têm documen­tos na França, como sabe.

         Sim. Eu os vi.

         Nesse caso — disse o Padre Anselm, fitando Santo Onésimo diretamente — receio não poder contar-lhe mais coisa alguma que pudesse identificá-la sem deixar qualquer dúvida.

Quando o deixaram, ele estava despreocupadamente empenhado na limpeza de uma coluna lotada de Santos inocentes.

 

                           NOTURNO

Stephen despediu-se à porta do convento e Jennifer, con­tando um pouco nervosamente que não encontrasse Doña Fran­cisca outra vez aquela noite, tocou a campainha pedindo entrada. Não precisava alimentar tal receio. Quem a deixou entrar foi uma jovem freira que não vira antes, criatura de rosto agradável, na touca branca de noviça, e atravessou o pátio em sua companhia, dirigindo-se ao som de canto, vindo da capela. A noviça levou-a com rapidez para o túnel, depois passaram pelo refeitório e subiram as escadas para a extremidade dis­tante do salão. Ali chegaram a um corredor comprido e estreito, com uma sucessão de portas. Em uma dessas a noviça se deteve, bateu e, não tendo recebido resposta, abriu e convidou Jennifer a entrar.

O aposento era pequeno e tão pobre quanto seria de esperar; havia duas camas, duas cadeiras, duas cômodas, e uma almofada para ajoelhar, colocada sob pequena imagem da Virgem e Crian­ça. A janela dava para o sul, vendo-se o jardim e, mais além, erguendo-se milagrosamente acima da escuridão, viam-se as neves enluaradas da Espanha.

A noviça apontou para a cama próxima da janela.

— Aquela aí vai ser sua, mademoiselle, e aquela cômoda foi esvaziada. Eu preparei para mademoiselle uma pequena lista com as horas das refeições e da capela, mas — e ela sorriu — não deve sentir-se obrigada a comparecer à capela. A Reverenda Madre insistiu bastante em que mademoiselle se sinta livre para ir e vir como bem entender.

Jennifer agradeceu e a jovem retirou-se, deixando-a a sós.

Ela foi ter à janela e dali ficou olhando o jardim. Na muralha para a esquerda, em meio a um emaranhado de ramos de macieira que a noite havia tornado escuros, dava para ver o cemitério e o muro que servia de apoio para as rosas e convólvulos azuis sobre a sepultura. Pois bem, lá estava ela, no meio de seu mistério, e algo, dizia a si própria, tinha de acontecer logo. De início, haveria Celeste.

Afastou-se da janela, pondo-se novamente a pensar no aspecto desolado de algum aposento no qual não existem objetos de posse pessoal. Nada existia ali para dar uma pista quanto ao caráter da dona do aposento. A capa escura, pendurada por trás da porta, os chinelos com sola de corda, lado a lado sob a cadeira — aquilo era tudo. Não havia sequer cortinas na janela. E ne­nhuma flor, nenhum quadro, a não ser um que era dedicado à devoção, nenhum livro senão um pequeno missal escarlate, em cima de uma das cômodas. Ela o apanhou e, então, o interesse aumentando, examinou-o de modo mais detido. Estava enca­dernado em couro escarlate, muito bem trabalhado em letras douradas, e as páginas eram ilustradas de modo requintado, com arabescos medievais em dourado, verde e púrpura. Ela passou as páginas com reverência, maravilhada diante da obra, até que algo conhecido, em sua sensação de surpresa, fez com que parasse. Aquilo já acontecera antes, e em ocasião recente. Na capela... o edifício pequeno e penumbroso, desataviado, com suas paredes brancas e nuas, as janelas comuns — e os tesouros da Itália e Espanha refulgindo sob sua iluminação tão rica...

E aquilo fazia repetir o efeito de antes, aquele pequeno objeto tão belo e deixado de maneira descuidada sobre a cômoda tão feia. Ela ergueu o olhar para a imagem da Madona e Criança, e viu sem surpresa que os lábios ali representados sorriam para a criancinha, com aquele sorriso que Murillo utilizara para ilu­minar pinturas maiores.

O missal caíra em suas mãos e as páginas se haviam voltado sozinhas, deixando o livro aberto na primeira página, a folha inicial em branco.

Ali se achava escrito: "Marie Celeste, de Maria Francisca, un don en Dios."          

A Madona sorria.

Foi quando a porta abriu-se sem ruído e Celeste entrou no aposento.

Jennifer, com o livro aberto nas mãos, sentiu-se confusa e culpada, como se alguém a houvesse pego em algum ato duvidoso. Sorriu para a jovem e disse:

Espero que não se importe, Celeste. É um livrinho tão lindo.

A jovem se pusera rubra, como por aborrecimento, mas murmurou:

De rien, mamselle e sentou-se de costas voltadas para Jennifer, começando a desafivelar as sandálias.

Jennifer, olhando-a com ar duvidoso, achou que confidên­cias seriam mais fáceis de conseguir no escuro, e não falou mais. Mas quando já se tinha despido e voltara do banheiro, Celeste estava enrodilhada na cama, tendo o rosto voltado para a parede. Se não dormia, tornava-se claro que queria dar a impressão disso.

Jennifer teve um leve suspiro, apagou a vela com um sopro e deitou-se.

 

Acordou em meio da treva mais espessa e continuou deitada por momentos, imaginando vagamente onde estava e depois, de modo mais coerente, procurando descobrir o que a despertara. O vento? Devia ter aparecido de súbito, porque embora a noite houvesse sido calma, dava para ouvir agora o choro dos pinheiros e a saraivada intermitente da chuva, batendo na janela.

Mas fora algum som mais leve do que aquele, o que a despertara; algum som minúsculo e revelador, que não devia ter sido feito...

Jennifer teve um leve suspiro, apagou a vela com um sopro

Ela se sentou na cama e forçou os olhos no aposento escuro; e então, quando percebeu o vulto das coisas, notou que a cama de Celeste estava vazia, e suas sandálias tinham desaparecido de .sob a cadeira. Ela procurou a bolsa e, depois de uma ou duas tentativas inúteis, acendeu um fósforo e examinou o aposento, àquela luz incerta. Sim, as sandálias haviam desaparecido e a capa negra por trás da porta... Bem, pensou Jennifer, os cor­redores estão frios e ela, afinal de contas, pode estar fazendo algo perfeitamente normal. Disse a si mesma que não devia seguir com pressa demais na pista de seu mistério.

O fósforo apagou-se, mas enquanto isso acontecia, algo que Jennifer viu em seu último relance fêz com que se sentasse ainda melhor e voltasse a procurar a caixa de fósforos. O que julgara ter visto sim, tivera razão. A camisola de algodão branco de Celeste estava jogada em cima d0 leito. Jennifer saiu de sua cama e foi, com cautela devida ao tremular do fósforo, até à cômoda onde, horas antes, vira Celeste dobrar cuidadosamente suas roupas diurnas. Abriu a gaveta. Estava vazia. Ao estender a mão para pegar a vela, o segundo fósforo se apagou, e lá ficou em escuridão silenciosa, a mente em disparada. Se Celeste tinha ido apenas a algum outro ponto do convento — digamos, ao quarto de Dona Francisca, ou, ao que parecia possível, à capela, ter-se-ia vestido para fazê-lo? Sua capa, com certeza, era para proteger contra o frio. Mas se tinha saído... Jennifer foi até a janela e olhou para fora. No luar onde o vento soprava, o esboço fraco da montanha e floresta apresentava-se enorme e incerto; a chuva batia nas vidraças, e nuvens baixas lançavam sobre o chão suas sombras móveis e ameaçadoras. E então, de repente, viu outra sombra, uma sombra negra e pequena, caminhando com passos mais decididos, pelo jardim, do que o fantasma de qualquer nuvem. Seguia por baixo das macieiras, passou pelo portão e desapareceu na escuridão mais profunda do muro do cemitério. Jennifer, inclinando-se para fora da janela, tomada ao mesmo tempo de agitação, ouviu em uma parada repentina do vento o estalido de um trinco. A porta na muralha externa.

Ela não resolveu conscientemente o que fazia; na verdade, jamais poderia explicar depois como veio, apressada mas adequadamente vestida, a passar por aquela mesma porta, poucos minutos depois. Enquanto a fechava sem ruído, e fazia uma pausa no abrigo da muralha, com o vento sacudindo-lhe o casaco, dizia a si mesma que estava sendo uma idiota. Na escuridão, e com aquela vantagem, Celeste já estaria bem longe, não poderia alcançá-la. O que contava descobrir — e nesse ponto não tinha a menor clareza de espírito — não poderia ser desco­berto em uma noite como aquela. E então, de modo inacreditável, quando um fragmento rasgado à nuvem e correndo lá em cima pôs à mostra uma faixa de luz de estrelas, ela viu; estava, talvez, a setenta passos à frente, uma figura apressada em negro, incli­nada contra o vento, a capa enfunada como uma vela.

Satisfeita agora com a escuridão ruidosa, Jennifer seguiu furtivamente da porta e partiu em perseguição.

O vento não era forte, mas veio em lufadas que lhe tiraram o fôlego e tornavam seu equilíbrio difícil, na trilha rochosa. Celeste seguia, em velocidade notável, diretamente para o lado do vale, na direção da orla da faixa de pinheiros, e logo ela e sua perseguidora mergulhavam em profundidades tranqüilas e escuras. Ali o vento, transformado em suspiro distante lá nas copas, não impedia mais a marcha; Jennifer sentia agora as agulhas de pinheiro em que pisava e silenciavam seus passos. Mas estava escuro, uma escuridão profunda e aveludada, que a teria confundido em questão de momentos, se a trilha, seguindo em linha reta pela faixa de pinheiros, não mostrasse um pouco da noite mais clara em seu extremo, como a luz que se vê ao final de um túnel. Ao apressar-se, quase correndo pela trilha seca e macia, teve um vislumbre de sua presa, momentanea­mente esboçada contra uma faixa de céu mais claro, antes que a figura se voltasse para a esquerda e desaparecesse de sua vista com uma lufada de vento e chuva.

Chegada à orla do bosque ela descobriu, na verdade, que a trilha fazia uma volta acentuada, subindo a elevação para a esquerda, indo ter a uma trilha mais larga que subia o flanco meridional da montanha e do pinheiral. Por aquela trilha bruta Jennifer tropeçava, sem pensar coerentemente para onde ia, ou o que pretendia fazer, mas simplesmente decidida a descobrir para onde Celeste se dirigia, de modo tão secreto e com tanta rapidez. Qualquer pista para seu mistério, por mais tênue que fosse, precisava ser acompanhada.

E aquela aventura à meia-noite era, por certo, suficientemente misteriosa. Ela suspendeu as abas molhadas do casaco acima dos joelhos e esforçou-se em meio da chuva pesada, con­tando fervorosamente que Celeste ainda estivesse caminhando à frente, e não a esperá-la em alguma reentrância da rocha seguinte.

Logo, todavia, foi reconfortada pela visão da figura ensombrecida contra a linha do céu acima, enquanto chegava ao cume da trilha. Um minuto depois também Jennifer, chegando à última elevação, estacou.

A figura desaparecera. Mas, ali à frente e pouco para a direita da trilha, via-se uma luz. Um pequeno grupo de edifícios se apresentava ao abrigo de uma rocha baixa, e no edifício central uma réstia larga de luz aparecia entre as persianas que estralejavam. Em algum lugar uma corrente tilintou, um cachor­ro rosnou e logo silenciava.

Era para ali, portanto, que Celeste viera. E Jennifer, com a recordação de algo que Stephen lhe dissera, sentiu-se repen­tinamente agitada e tensa, como se estivesse finalmente à beira da descoberta.

"Há um homem que mora em seu vale", ele lhe dissera, "em uma fazenda por cima do convento; ele se chama..." Como fora o nome dele? Bussac, isso mesmo; Pierre Bussac... Ela repetiu o nome para si mesma, olhando para a janela iluminada, e logo teve um sobressalto quando outra recordação veio ligar-se ao nome de que se lembrara. O garçom no hotel — ele fizera menção a Pierre Bussac, também; Pierre Bussac, que estivera na aldeia, na noite da tempestade violenta, três semanas antes. À noite em que o automóvel de Gillian caíra no Gave, e Gillian. . .

Jennifer estremecia com violência. Aquilo não precisava significar coisa alguma, era claro, mas se o instinto servisse de alguma orientação, havia a ligação. E tendo chegado a esse ponto, com medo ou sem ele, ia completar sua missão. Era preciso descobrir, se fosse possível, o que tinha Celeste a ver com Pierre Bussac. Ela começou a adiantar-se pela relva curta e molhada, na direção da janela iluminada, cuidando para não atravessar a faixa estreita de luz por ali projetada, e caminhando com cuidado por causa do cachorro. O vento, com seu acompanhamento de portas estralando e persianas batendo, devia ter disfarçado sua marcha, pois, de outra forma, ou o cachorro estava acostumado a visitas noturnas, e não a ouviu, ou não deu qualquer sinal de aviso.

Ela atravessou sem ruído a faixa de pedras brutas por baixo da janela e, comprimindo-se de costas à parede, em um dos lados da moldura, dobrou o pescoço até poder olhar pela racha­dura na persiana.

Foi quando teve a segunda surpresa da noite.

Não era Celeste, a figura negra que entrava pela sala iluminada da cabana, sacudindo as gotas de chuva das dobras de sua capa.

Era a espanhola, Dona Francisca.

 

                             ENIGMA

Seria essa, portanto, a explicação de como encontrara com tanta facilidade a trilha de quem perseguia. Celeste, como Jennifer pensara, devia ter chegado ao portão do jardim quando esta iniciara a perseguição. Por outro lado, Jennifer compreen­deu, com leve aceleramento da respiração que devia ter acompa­nhado Doña Francisca de pouca distância, quando sairá do convento. Se a tesoureira tinha ou não conhecimento da saida de Celeste, ou se algo fora combinado entre as duas, Jennifer não podia adivinhar, naturalmente, mas por enquanto estava de todo decidida, se possível, a ver e ouvir o que se passava na cozinha da cabana.

Ela se comprimiu mais à parede, aguçando os ouvidos em meio às lufadas do vento.

Doña Francisca tirara a capa e a jogara sobre a mesa exis­tente no centro do pequeno aposento, de vigas baixas. Lá estava diante da luz tremelicante do fogo; falando com rapidez a alguém a quem Jennifer não conseguia ver.

Para seu pesar, Jennifer descobriu que não ouvia praticamente nada do que era dito; o francês era rápido, e o vento o recortava, fazendo as palavras rodopiarem no gemido e estralejar da noite. Mas uma coisa era clara, que Doña Francisca estava furiosa. Seu rosto, mais pálido e severo do que nunca, parecia consumido por uma paixão de raiva, sentimento cuja intensidade assustou Jennifer e a fêz visualizar aquela fuga noturna pela montanha.

Ela parara de falar, no que parecia ter sido uma pergunta furiosa. De alguma parte além da visão de Jennifer, perto do fogo, veio uma resposta inaudível, no resmungo taciturno de um homem.

E então, a uma calmaria aparente no vento caprichoso, a voz da mulher veio com clareza, e o que ela disse tinha significado suficiente para fazer com que o sangue de Jennifer fervesse.

—... prima dela — dizia Dona Francisca — fazendo perguntas. Eu a despistei, mas ela estava muito desconfiada, e agora, pensando que tem essa prova, não vai mais parar.

Sua voz ergueu-se bastante, e ela prosseguiu:

         O que é mais, hospedou-se no convento, e não consigo pensar em alguma coisa que consiga satisfazê-la...

O homem resmungou alguma coisa, mas Dona Francisca rebateu no mesmo instante, como uma cobra a desferir seu bote.

         Mas você não percebe o que fez, seu idiota? Seu estúpido, seu imbecil lascivo!

Os epítetos eram pronunciados com clareza, repletos de desdém.

—         Obscène bete! Animal! Não vê o que pode ter perdido? Se ela...

O vento apagou o restante, mas Jennifer, agora, esforçan­do-se um pouco mais, pôde ver a companhia da mulher, pois o homem dera um passo rápido à frente e ali parara, resmungando algo que, mais uma vez, não conseguiu ouvir. Notou que era um homem de compleição forte, com seus quarenta e cinco anos e o rosto moreno e furtivo do camponês dos Pireneus. Os olhos negros reluziam sob sobrancelhas retas e espessas; o nariz era reto, também, a boca de traços e aspecto raivoso. Era um rosto que podia, a seu modo animal, ter sido belo, mas todo o ser do homem estava desfigurado pela raiva e ódio que denotava. Olhos e boca apresentavam-se taciturnos e cruéis, e a paixão denotava sua violência a cada movimento dele.

Defrontando-o, Dona Francisca parecia ainda mais aristocrática, o rosto magro e de estirpe, seus olhos luzentes de fanática, não tendo qualquer medo diante da aproximação do raivoso homem, e apenas, quando ele se aproximou ainda mais, um leve desagrado. Recomeçou a falar, a boca mordendo as palavras como se estas fossem retorcidas e cheias de ácido. Mas embora Jennifer quase caísse pela janela, em seus esforços por ouvir, o vento apagava a voz quase inteiramente.

—... Só há uma coisa para fazer, e você sabe qual é! Quem pode dizer por quanto tempo essa moça inglesa vai ficar, rondando por lá ? Ela virá para cá... ça se voit, e acabará vendo a prima dela!

Jennifer fechou os olhos e encostou-se na parede, enquanto a noite rodopiava em volta dela, com um ruído que não era o do vento; um ruído que diminuiu devagar, ao se desacelerarem as batidas do coração, chegando a um ponto onde a voz azeda ainda falava:

         O que você fez foi loucura de qualquer maneira, mas agora, é suicídio! Comprenez, imbêcile, le suicidei

O homem disse qualquer coisa em resposta, mas sua voz era tão baixa que a Jennifer tornou-se inaudível. Dona Fran­cisca não esperou que ele falasse, e atirou seu desdém mordaz novamente na cara do homem, e dessa feita havia ameaças das mais declaradas. Jennifer aguçou os ouvidos para ouvir aquele francês torrencial:

—         Vous feriez bien de vous rappeler... Não se esqueça, Pierre Bussac, do que tenho em meu poder! Você deve saber a essa altura, que não pode estar nesta coisa sozinho! Só há uma medida a tomar, e você sabe qual é... você vai livrar-se dela!

Pierre Bussac jogou-se à frente, ouvindo isso, quase como se fosse golpear Dona Francisca, mas esta nem se mexeu. Êle se deteve à mesa, pondo os punhos fortes sobre a mesma, e rosnou algo em resposta.

Ela disse com frieza, enquanto o observava:

         Mas você sabe que eu tenho razão, não é? Em geral, tenho. Se pensasse com o cérebro, em vez de pensar com o corpo, veria que o único caminho seguro é que nos livremos dessa mulher. Madame Lamartine e sua voz enrijou-se um pouco, enquanto Jennifer sentia os nervos retesar-se Madame Lamartine morreu de febre, e está sepultada no cemitério do convento. Ela precisa ficar lá... Uma pergunta, uma dúvida, uma pá no lado da cova... e o escândalo estaria neste vale... e seria o fim de você, meu amigo!

         E de você! — rebateu ele, com ferocidade. Dona Francisca riu.

         Oh, não penso que seja. Eu era parte inocente. Tudo que posso perder é minha renda particular.

Êle ergueu a cabeça, ouvindo isso.

         Tudo? Tudo?

Deu uma risada curta e feroz.

         Tudo que você pode perder, minha bela dama, é o sonho para o qual vive... o sonho do poder e da glória que o dinheiro vai-lhe trazer! Por que mais você fica neste vale esquecido de Deus, se não é pelo medo de perder a sua "renda particular"? Acha que não conheço os planos que você tem, naquela sua capelinha, Doña Francisca, esperando... sim, e rezando para que a velha Madre morra... esperando e contando que, quando não houver mais ninguém que a conheça tão bem quanto ela, vai chegar onde quer? É isso, não é? Madame Prioresa de Notre-Dame-des-Orages. Não será mais um orfanato pequeno e simples, oh, não! Será um lugar dos grandes, com edifícios novos e a capela muito bonita e famosa, que terá gente a visitar, vinda de todo mundo!

Sua voz tornava-se mais zombeteira, enquanto ele prosse­guia:

         Não, você não vai querer abandonar a linha que vem da Espanha e que põe o ouro em seus bolsos e o poder em suas mãos, e sem essas coisas estaria morta!

Ela ouvira sem se mover, mas diante destas palavras as pálpebras baixaram sobre os olhos. Ele voltou a rir.

         Ah, eu conheço você, está vendo? É o poder, Doña Francisca... é o que o dinheiro representa para você...

A voz do homem baixou a um cochicho perverso, perfeitamente audível enquanto o vento fazia uma parada.

         E que se importa, se eu estiver manchado de sangue?

Ela se moveu ao ouvir isso, mas controlou-se imediata­mente. Seu rosto pareceu encapuzar-se, tornar-se de novo a máscara imóvel de que Jennifer tanto desconfiara. As pálpebras se ergueram.

         Amanhã, de noite. Você vai livrar-se dela amanhã à noite. Os olhos negros pareciam queimar, naquela máscara.

O homem se moveu, então. Estava gritando alguma coisa. Erguera os punhos fortes e parecia sacudi-los, tomado de fúria repentina, mas Doña Francisca o manteve a distância, ao que parecia, pela simples força da personalidade que irradiava dos olhos.

Disse, no mesmo tom de voz amargo:   

         Eu virei amanhã à noite, depois das Completas, à hora de costume, e verei se o trabalho foi feito. E você vai fazê-lo, meu estúpido amigo!

Ele disse, em voz rouca:

         Como?

Ela ergueu os ombros, em resposta.

         Isso é de sua conta.

         Não há lugar algum... você sabe tão bem quanto eu que não tenho para onde mandá-la!

Ela o fitou bem, não falou. O vento continuava em pausa. Jennifer pôde ver Bussac, ainda inclinado sobre a mesa, a cabeça para a frente, fitando a mulher. Ele estava de costas para a janela, mas havia em sua posição de imobilidade alguma indi­cação forte de horror. E o horror apresentou-se em sua voz, quando ele voltou a falar:

         Você está sugerindo... assassinato?

A resposta foi áspera:

         Não estou sugerindo coisa alguma. Já lhe disse que é de sua conta. Você entrou na encrenca. Pois bem, agora trate de sair. Eu não sei de nada.

         Não vou fazer isso, com os demônios!

Ela encurvou o lábio em desdém.

Você está-me julgando por si, amigo. Exijo apenas que você a afaste daqui, tire-a da França. Jesus Maria, você, logo você, sabe como fazer isso!

Minha ponte? Levá-la até lá e mostrar-lhe o caminho para a Espanha? Do modo como ela se acha? Isso seria assassi­nato, e você sabe muito bem! Seria melhor cortar-lhe a garganta e acabar logo com o caso.

Está exagerando. Se ela for idiota o bastante para perder-se no caminho, que culpa cabe a você... ou a mim? Se ela recebesse a liberdade e lhe mostrassem o caminho para a Espanha, eu certamente não acharia que o assassinato dela fosse de minha responsabilidade! Repito que só exijo que você a tire da França. O que acontecer depois disso...

Ela fez uma pausa, os olhos negros reluziram para Bussac.

         Você, de repente, ficou muito bonzinho, não é? Quem é, para estar falando de assassinato? O que é mais um para você, um a mais ou um a menos?

Ele silenciou, mas continuou a fitá-la. Houve uma pausa e no silêncio formado o vento começou a gemer outra vez, pegando-se nas persianas, fazendo balançar a saia molhada de Jennifer, contra a parede da cabana.

Dona Francisca manifestou-se outra vez, com clareza:

         Nesse caso, já compreendeu. A noite de amanhã. E se você se recusar...

Pela primeira vez ela se aproximou do homem e, embora seu corpo continuasse rigidamente ereto, era como se houvesse baixado a voz e inclinado à frente, em atitude de confiança horripilante:

         Se você se recusar...

O vento uivava pelos beirais partidos. Jennifer, tomada por fúria de frustração, viu os lábios da tesoureira mover-se, enquanto ela falava. O homem sacudia a cabeça; deu um passo à frente e esmurrou a mesa, como impelido a isso pela paixão da recusa. Dona Francisca ignorando o gesto como se Bussac jamais se houvesse movido, atirou-lhe mais uma frase final, desdenhosa e virulenta. Depois, voltou-lhe as costas e apanhou a capa.

Jennifer não esperou mais, e fugiu para as sombras, des­cendo a trilha de pedras mais depressa ainda do que as asas das fúrias a teriam levado.

 

Ao entrar furtivamente no túnel de pedra entre a capela e o refeitório, foi detida por um som fraco, que parecia vir da porta ocidental da capela, que estivesse aberta. Ela hesitou por momentos e então, achando que tinha vantagem suficiente sobre Dona Francisca, seguiu sem ruído para a porta, abriu-a um pouco mais e espiou para dentro.

De início não deu para ver coisa alguma e logo, no brilho vermelho e fraco da lâmpada do santuário, viu mais uma vez o que encontrara antes. Celeste estava ajoelhada, ou melhor, acocorada, diante do altar da Nossa Senhora das Dores. Jennifer conseguiu ouvir, de leve, quase espectralmente, o sopro muito leve de uma oração em soluços.

Ela recuou, não antes de ter visto, nos ombros da capa da jovem, gotas de chuva que rebrilhavam à luz vermelha, como um punhado de rubis. Atenta a quem a acompanharia em ques­tão de momentos, retirou-se depressa para as sombras e fechou a porta pesada, não mais ouvindo aquele cochicho desesperado.

 

                               CAPRICHO ESPANHOL

Seria fácil com certeza, agora, convencer Stephen de que ela estava com razão. Jennifer, constantemente de olho no relógio de pulso, viu o ponteiro minúsculo que marcava o decorrer da manhã, enquanto ela própria se punha em uma febre cres­cente de impaciência e incerteza.

Não conseguia perceber qualquer utilidade imediata em apresentar todo o seu caso diretamente à prioresa: se era para de­nunciar Dona Francisca, tal devia ser feito por quem pudesse controlar aquela mulher. E não se devia correr risco algum de deixá-la desconfiar e alarmar-se, e agir antes do momento certo, levando-a a "destruir a prova" que se achava oculta na propriedade de Bussac.

Por esse mesmo motivo, Jennifer não se atrevia a sair demasiadamente cedo do convento, a fim de encontrar-se com Stephen antes da ocasião combinada. Afinal de contas, aceitara a hospitalidade do convento para o fito declarado de fazer inda­gações ali, e se não levasse a cabo tal programa, estaria des­pertando as desconfianças que desejava evitar. Tampouco poderia sair com grande facilidade, se o desejasse fazer, pois a prioresa estava tão ansiosa, desejando penitenciar-se quanto ao "engano" do convento, que mandara chamar Jennifer assim que o desjejum terminara e lhe perguntara, na presença de Dona Francisca, que indagações ela desejava fazer.

— Dona Francisca disse aquela voz idosa e suave vai fazer o melhor que pode para ajudá-la.

E a tesoureira, fitando Jennifer com aqueles olhos enco­bertos e indevassáveis, dissera que sim, confirmando a declara­ção da Madre Superiora.

Jennifer, todavia, tivera bastante tempo para pensar e estava pronta para a situação. Limitara-se a receber o relato minucioso e repetitivo de Doña Francisca, sobre questões que não apre­sentavam margem de dúvidas a batida do automóvel, a tem­pestade, a chegada de sua "prima" ao convento, o decorrer da enfermidade, o chamamento do Padre Anselm, o falecimento...

A tesoureira respondia às perguntas sem qualquer sinal de hesitação; sua voz era calma e agradável, o rosto inexpressivo como sempre, mas os olhos vigiavam. Jennifer, de sua parte, deixou perceber desde o começo daquela entrevista que, aquela manhã, ela já se arrependia dos impulsos da véspera. Começou com uma hesitação levemente escusatória, e suas perguntas fran­cas, percorrendo toda a faixa da persistência envergonhada e, finalmente, convicção relutante, levaram a mais leve indicação de desdém às linhas da boca da mulher. Jennifer percebeu isso com algum prazer, e viu, também, um leve afrouxamento no olhar firme e vigilante. Com ar encantador de desculpas, ela passou a acalmar ainda mais aquele cão de guarda...

Foi um desempenho que teria causado divertimento em Stephen, abalando a Sra. Silver até as raízes de seu ser. O encontro terminou em intercâmbio tão belo de hipocrisias quanto se podia desejar; Jennifer, com o número necessário de pala­vras, retratava-se das tolices da véspera, e Doña Francisca re-' conheceu que algum engano ocorrera certamente, e que se hou­vesse algo que o Convento pudesse fazer, bastava que Jennifer o dissesse...

Foi quando o sino tocou para o ofício religioso matinal, e tanto em seu papel de convidada do convento quanto no de parente que deplorava o falecimento da prima, Jennifer nao deixou de aceitar o convite da tesoureira que a acompanhasse até a capela e ali ficasse inquieta, por toda a duração do que lhe pareceu um ofício religioso interminável.

Tampouco a fuga se tornou possível depois disso. Quando, após a capela, Doña Francisca sugeriu do modo mais ameno possível que Jennifer examinasse a bagagem da prima e resolvesse o que devia ser feito com ela, a convidada não conseguiu encontrar qualquer modo convincente de recusar. Passou-lhe pelo espírito a idéia de que Doña Francisca estava, por assim dizer, a mantê-la deliberadamente perto de si, e tal idéia lhe trouxe uma pontada de medo e inquietação. Para seu alívio, todavia, foi entregue à Irmã Marie-Annette mulher de rosto viçoso, com seus quarenta anos de idade — enquanto a tesoureira ia cuidar dos afazeres.

Passou-se toda uma hora até que Jennifer conseguisse, mediante algum pretexto aceitável, afastar-se da solidariedade prá­tica e interesse obviamente apaixonado da Irmã Marie-Annette, criatura que ansiava por mexericos — e foi o pretexto de fazer outra peregrinação à sepultura da prima.

Seguiu apressadamente pelo corredor iluminado, descendo as escadas observadas pelos santos e atravessou o salão. As órfãs, em companhia de duas das freiras mais jovens, estavam reunidas no túnel de pedra perto do refeitório, a caminho de alguma aula, de modo que Jennifer desviou-se, a fim de passar pela extremidade ocidental da capela, seguindo para o jardim.

Não viu, senão após ter alcançado o meio da nave, que tanto Celeste quanto Dona Francisca encontravam-se na capela, ocupadas em alguma espécie de limpeza. No mesmo instante, arrependeu-se de ter vindo por ali.

As duas, todavia, não lhe deram atenção. Mostrava-se duvidoso, na verdade, que Celeste até mesmo a houvesse visto. Estava sentada no degrau baixo do altar, com uma dobra da tapeçaria puxada da parede em sua direção, sentada acima de Celeste no que devia ser a cadeira do sacerdote, polia um dos candelabros do altar, e seus dedos compridos pareciam deli­ciar-se a cada curva do objeto, como se estivesse acariciando em vez de esfregando, para dar-lhe brilho. Mas não prestava atenção ao que fazia; tinha os olhos fixos na cabeça inclinada da jovem e Jennifer, com recordação vívida daquele rosto ator­mentado e furioso, que vira na noite da véspera, percebeu com sensação de choque a expressão ali estampada agora. Era como se, de profundidade escura e amarga, insondável, uma espécie de ternura feroz e sôfrega estivesse a erguer-se, e se esforçasse como uma paixão por dominar os traços que lutavam por negá-la. O amor, em lugar onde apenas tinham medrado a esterilidade e os fogos da frustração.

Jennifer, mais uma vez chocada com a sensação de desa­grado profundo que a invadiu, afastou-se com rapidez e em silêncio, na direção da porta do sul. Os olhos de Dona Francisca ergueram-se por momentos, observaram-na sem qualquer expres­são e recaíram na tarefa que tinha em mãos.

Jennifer, o coração batendo com força e com modo desconfortável, foi quase correndo para o brilho doce de sol no jardim e para a presença sadia da jardineira.

Não precisou de muito tempo para satisfazer as indagações da Irmã Louisa. A velha freira também sentia grande alívio por ver Jennifer aparentemente de volta à lucidez, abrindo-se novamente às perguntas perigosas da véspera. Jennifer narrou-lhe o bastante para deixá-la confiante, e depois a abandonou à tarefa de extirpar as ervas, acocorada e satisfeita sob os pessegueiros como um sapo benévolo, e voltou ao cemitério, passando pelo portão.

Ali ficou apenas o tempo suficiente para conferir veraci­dade ao que dissera à Irmã Marie-Annette; e depois, com um olhar para a porta fechada da capela, no lado sul, foi com rapidez para o portão na muralha e finalmente saiu dos edi­fícios do convento.

 

Já estava atrasada, pois, ao esquivar-se à muralha externa do jardim, ouviu o som de cascos de cavalo na pista do vale, e fazendo a volta viu o jovem do encontro da véspera, aproximando-se do convento. Ele cavalgava o mesmo garanhão grande e castanho, e os dois outros cavalos o acompanhavam como antes.

Ela aguardou na sombra próxima do portão do convento. Ocorrera-lhe que talvez valesse a pena saber alguma coisa mais sobre Pierre Bussac e sua esposa, e que aquele rapaz, que também residia no vale, no que afirmara Stephen, poderia contar-lhe algo.

Ele puxou as rédeas ao aproximar-se dela, fitando-a com olhos de incerteza, enquanto o cavalo passarinhava e se mos­trava inquieto, mordendo o bridão e bufando com força pelas narinas alargadas.

Formava um quadro bastante imponente, o cavalo tendo a luz do sol a ondular em seus músculos movimentados, o cava­leiro sentado com tão pouco esforço, as calças puídas e camisa azul manchada acentuando a beleza de seu corpo jovem e firme. Seu aspecto era o de um jovem espanhol, olhos escuros e de pálpebras longas, lábio superior curto e boca altiva, sensual, de belo talhe. Esperou, olhando para Jennifer que teve o sobres­salto de notar, sob aquelas pálpebras insolentemente baixadas, o brilho inconfundível do desagrado e da desconfiança.

Isso a deixou perturbada, e só conseguiu dizer, em tom incerto:

Você deve ser Luís.

Sim.

Os dois cavalos soltos adiantaram-se então, desejosos de beneficiar-se da sombra da muralha. Um deles esbarrou com a espádua no outro, que se voltou de orelhas abaixadas, e eles ficaram juntos na sombra da muralha, as cabeças baixas e as caudas abanando. Tomada de nervosismo, Jennifer afastou-se e viu que o desdém surgia com divertimento na boca arrogante do jovem Luís.

O encontro, tornava-se claro, começava mal. Ela recomeçou a falar, quase sem ter o que dizer:

         Eu o vi ontem à noite.

Aquelas palavras inocentes tiveram efeito surpreendente. O divertimento desapareceu no rosto do rapaz, cujos olhos escuros se estreitaram e endureceram. Jennifer não o viu mover mão ou calcanhar, mas o garanhão movimentou-se, abanando a cauda, como se não houvesse gostado de algo.

Sim?

Você estava saltando o córrego lá embaixo no vale. Você mora por lá, não é?

Sim — disse Luís, pela terceira vez, mas seu olhar atento se abrandara um pouco e o garanhão sossegara. Luís inclinou a cabeça na direção do nascente. — Na elevação além do Petit Gave.

Essa resposta loquaz incentivou Jennifer. Ela adiantou-se e pôs a mão hesitante no pescoço do garanhão.

Como é lindo. Pertence a você?

Todos eles — disse o rapaz, com orgulho. — Eu alugo os outros dois, mas — e sua mão acariciou o pescoço luzidio este não. Foix, não.

Ela afagou de leve a espádua do cavalo. O couro estava quente e bem vivo, ao contato de seus dedos.

         Ele morde?

Houve um relance de sorriso, antes da resposta:

Só se eu deixar.

Nesse caso, não deixe, por favor! — pediu Jennifer, fitando-o e apalpando ainda o caminho pelo qual rompera aquela barreira de hostilidade. — O seu nome... Luís. Você é espanhol, não é... e não francês?

Ele disse, educadamente:

Metade, mamselle. Minha mãe era espanhola, sim; mas meu pai veio de Orthez.

Gascão? Compreendo — e ela aduziu, procurando rom­per mais caminho: — Deve achar este vale muito solitário.

Talvez replicou ele, e mais uma vez dava para notar um recuo imperceptível, da parte dele.

Mora mais alguém no vale, Luís?

Só os Bussacs. Eles têm uma fazenda, mais para cima.

Você os visita?

Os olhos do rapaz se turvaram.

Pierre Bussac não gosta de visitas.

Mas você já esteve lá? Conheceu a mulher dele?

Não.

Deve ser uma vida muito solitária, a que ela leva. A Madame Bussac não tem... companhia ?

Não sei. E como haveria de saber? Por quê?

O tom de voz do rapaz voltara a ser duro, quase rude. Ela disse, sem dar importância:

Você sabe quem eu sou?

Sim. É a prima da mulher que morreu aqui. Todo o mundo sabe.

Eles sabem...? Nesse caso, você compreende o motivo pelo qual estou interessada neste vale. Você mora aqui por todo o verão, de modo que deve saber do que se passa. E deve saber de muitas coisas acerca do convento.

Sob a mão dele, de modo perceptível, as argolas do bridão deram um solavanco e o cavalo ergueu a cabeça com raiva e começou a caminhar de lado. Luís o acalmou com afagos da mão e a voz, mas sem tirar os olhos do rosto de Jennifer. Somente quando o cavalo voltou a sossegar é que ele respondeu, e sua voz não tinha qualquer expressão.

Talvez foi tudo o que disse.

Ela persistiu:

Você se lembra da noite do acidente de minha prima ?

Naturalmente.

Você nunca... nunca a viu ?

E como havia de ver? replicou ele mais uma vez, de modo quase selvagem, enquanto Jennifer se lembrava repentinamente do modo como o vira, montado na noite anterior, a cabeça baixa entre os ombros, como um falcão à espreita.

E ninguém mais... você não conversou com nenhuma outra pessoa que a tivesse visto?

A rédea reluziu e esticou-se contra o pescoço luzidio. Os calcanhares de Luís se moveram, o garanhão estufou o peito largo e rodopiou sobre a traseira, dirigindo-se à porta do convento, quase afastando Jennifer do caminho com um esbarro da espádua. Ela deu um salto para o lado.

         Tenha cuidado!

Êle não deu atenção, o rosto moreno furioso.

         Você faz perguntas demais! — replicou, falando sobre o ombro, enquanto o cavalo partia em galope.

Luís não fez qualquer tentativa por deter o animal, e a contragosto, a despeito da raiva sobressaltada, ela admirou o quadro que os dois formavam. Um centauro? Isso era tolice. Tratava-se de mais do que uma união física. Era como se como se uma parte de cada qual fosse cavaleiro e montaria ele usava aquele grande animal para exprimir suas emoções vio­lentas. Se o cavaleiro estava cheio de raiva, o garanhão deixava tal sentimento irradiar de todo o corpo. A luz forte cintilava e se espalhava do couro vermelho-dourado e do aço dos cascos, a poeira seca erguia-se, levantada por eles; o suor irrompia na­queles flancos, enquanto o animal se atirava à frente, em uma série de saltos perversos que se destinavam, de modo mais evidente, a atirar o cavaleiro a seus pés, onde o poderia esmagar à vontade. Por trinta segundos Luís o deixou saltar assim, e depois o punho, as esporas e o corpo se moveram ao mesmo tempo, e o grande garanhão passou a obedecer ao bridão, obri­gado a caminhar de lado, atirando-se ainda de modo maligno, na direção do portão do convento. A sombra da muralha abafou o brilho sedoso e de aço de seu couro suado e o cavalo foi jogado ao que parecia de lado contra o portão, enquanto Luís o segurava agora com uma das mãos magras e tisnadas de sol. A outra foi ao peito da camisa, extraindo de um pacote de cartas que ele jogou, no mesmo movimento, em uma caixa do portão.

A mão erguem-se e puxou o cordão da campainha e depois retomou a rédea ao lado de sua companheira, exatamente quando o sino tocava lá dentro, e o garanhão, obediente aos punhos do rapaz, atirou-se à frente, em um só salto amplo que voltou a colocá-lo, bem como a Luís, sob a luz do sol. Houve um assovio estridente e os dois outros cavalos se voltaram, remexendo a terra seca e trotando um pouco pesadões na esteira de fumaça deixada pelo garanhão. E logo eles também pareceram receber o estímulo da agitação, ergueram as cabeças e se atiraram em passo mais rápido, não tardando para que os três formassem o galope conhecido e furioso que os tirou da vista, em um estrugir do tropel.

         E agora disse Jennifer, a quem a voz quase faltava o que se passa com você?

Seus pensamentos voltaram ao momento presente, com o tilintar da campainha que ainda se fazia ouvir na parte interna do portão, anunciando ao convento que o correio chegara. Logo alguém viria atender, e ela não queria ser detida outra vez. Correu para um canto da muralha e fez a volta pela mesma, exatamente quando passos rápidos cruzavam o pátio empoeirado, rumo ao portão.

Ali, Jennifer esperou. Ouvi o ranger do portão, o ruído do pacote de cartas que era retirado da caixa. As dobradiças queixaram-se outra vez, o ferrolho voltou ao lugar, com estrépito metálico. As passadas se afastaram.

Jennifer voltou-se e seguiu com pressa, pelo vale, a fim de encontrar-se com Stephen.

 

                           CAÇADA E TEMPESTADE

O dia estava abafado. Todo o frescor da chuva ou orvalho que caíra na relva na noite anterior desaparecera, tragado por um sol ameaçadoramente quente ameaçador porque, embora brilhasse no céu, a atmosfera por trás dos cumes das montanhas parecia espessa e o ar se movimentava pesadamente, como se estivesse carregado de trovoadas. A brisa fraca que parecia correr com pés luzidios na relva inclinada trazia o mesmo presságio de tormenta.

Jennifer, todavia, não notou coisa alguma. Seguia célere­mente pelo caminho em meio da poeira, quase correndo. Já passava do meio-dia, e ainda não tivera qualquer sinal de Stephen. Se êle estivesse atrasado... se ele não houvesse vindo...

Mas, ao fazer a primeira curva do caminho, ela o viu, a menos de oitenta metros de distância, caminhando para lá, a despeito de seu leve coxear, em passos largos naquela poeira ainda trêmula que os cavalos tinham levantado do chão. Se seu rosto parecia mais sombrio do que na véspera, Jennifer não o observou. Limitou-se a chamá-lo, cheia de reconhecimento, e percorreu correndo os últimos metros de distância para encontrá-lo.

Jenny! Graças a Deus! Eu estive...

Não terminou a frase, entretanto. Era quase como se a pequena cena da noite anterior estivesse sendo revivida, mas dessa feita sob aquela luz de sol, impiedosa e carregada de tempestade, que transparecia com clareza demasiada no rosto pálido e agitado que a levava ali. E, dessa feita, Stephen sabia qual era o seu papel.

Estendeu as mãos, tomando as dela. Jennifer achegou-se a esse acolhimento reconfortante.

Oh, Stephen, tive medo de que você não viesse!

Eu disse que viria.

Oh, Stephen...e ela estremecia, agora.

Êle ergeu-lhe as mãos, ainda aprisionadas nas suas, trazendo-as ao peito e puxando a jovem a si.

         Está tudo bem, Jenny. Eu vim. Que é?

Ela começou a contar, ainda tremendo, e na pressa se tornava quase incoerente; durante o primeiro minuto, mais ou menos, a única palavra que lhe parecia conter algum signifi­cado era assassinato...

Foi então que êle afastou com gentileza as mãos de Jennifer, tirando-a do caminho empoeirado para a sombra do penhasco.

         Agora, sente-se — ordenou, com calma e conte a coisa direito... não, espere. Acho que um pouco de vinho seria uma idéia ótima, não é? E algo para comer, também? Vamos fazer nossa conferência enquanto almoçamos... Aqui. Trate de sentar-se... Isso mesmo. Agora, coma este sanduíche de presunto; vou deixar que você fale, mesmo com a boca cheia.

Stephen tirou um dos sanduíches para si e encostou-se na rocha.

         Agora, conte-me. Comece pelo princípio.

Seu tom de voz natural, bem como o gole de vinho, tive­ram efeito, e Jennifer logo conseguia dar a seu relato um pouco de coerência. Ele ouviu em silêncio, e o ar sério do semblante transformou-se em expressão suficientemente grave, ao torrjar conhecimento da excursão que Jennifer fizera pelo vale escuro e, como se tornava evidente agora, em missão tão horrivel­mente perigosa.

         E Gillian está lá, como prisioneira! gritou Jennifer. O motivo pelo qual está sendo mantida por lá, não sei, e no momento não me importa. Mas ela corre perigo... esta noite... Stephen, isso já não é mais imaginação, mas a pura verdade. Stephen...

A mão dele tomou a dela, trazendo-lhe tranqüilidade.

Sim, Jenny, eu sei. Já tinha descoberto por mim mesmo. Fiquei preocupadíssimo em pensar no que você se meteu.

Descobriu alguma coisa? Com o médico?

Não, com a polícia. Bati um papo com meu amigo Aristide hoje de manhã, e sem revelar coisa alguma, obtive informação suficiente para desconfiar de um patife bem perigoso.

         Pierre Bussac?

Sim, ele mesmo. O Rato Rei, nosso amigo Bussac. E descobri quem foi Isaac Lenormand.

Isaac... oh, a carta! Ele, então, tem alguma coisa a ver com isso?

Sim. Escute, vou ser sucinto. Obtive essas informações sob a forma de mexericos, mas o resumo é que o seu Pierre Bussac tornou-se bastante conhecido por aqui, como contra­bandista ... os boatos dizem que êle tem uma rota toda particular e muito perigosa, de acesso à Espanha. Deve ser essa a "ponte" a que êle se referiu e você ouviu. Pois bem, isso não causou grande preocupação a ninguém... todos fazem contrabando nesta parte do mundo, é quase uma ocupação respeitável. Mas durante a guerra ele começou... e também são os boatos que dizem isso... um tráfico diferente, o de retirar pessoas ricas do país, afastando-as dos nazistas.

         Você quer dizer os judeus e... oh! Isaac Lenormand!

         Exatamente. Isaac pagou três milhões de francos... muito dinheiro. Ainda mais porque nunca chegou à Espanha.

         Nunca chegou... o que quer dizer ?

A resposta foi em tom comedido:

O cadáver dele foi encontrado no Petit Gave. Tinha sido morto a tiros.

Eu... percebo. E o que diziam os boatos a esse res­peito?

Tornava-se bastante claro que Pierre Bussac o assassi­nara, a fim de tirar-lhe todos os objetos de valor que levava para o exílio. Mas não havia provas, naturalmente, nem mesmo prova disso, e nessa ocasião, durante a guerra, ninguém ia aprofundar-se muito no caso...

Stephen, é horrível!

Ele assentiu, e estendeu a mão para pegar os cigarros.

         Mas parece que eles agora estão se interessando por nosso amigo Bussac. Ainda há muito dinheiro a ser ganho, contrabandeando pessoas procuradas, fazendo-as passar a fron­teira... Criminosos, Jenny, criminosos em fuga; homens e mu­lheres procurados por crimes sérios... como, por exemplo, aqueles ladrões de banco de Bordéus, sobre os quais estivemos falando no hotel ontem. A quadrilha Dupré.

Ela ergueu o rosto para olhá-lo frente a frente, empalidecendo.

A irmã de Mareei Drupé arquejou Jennifer. — A mulher que escapou... Poderia ser?

E por que não? Ela desapareceu por completo, de acordo com o que diz Aristide. Suponhamos que tenha sido combinado que Bussac traria essa jovem, passá-la-ia pela fronteira e, de algum modo, ela teve conhecimento da chegada de Gillian aqui, e conseguiu uma carona. Você se lembra de que a carta de Gillian dizia "nós vamos partir amanhã"?

Sim. Sim, lembro. Achei que era apenas um modo de falar referindo-se ao automóvel.

Pode ter sido. Mas pode ter-se referido a ela e à passageira que levava.

E então ocorreu um acidente.

Sim. Aconteceu alguma coisa, não sabemos o quê, e a jovem Dupré, de algum modo, trocou de lugar com Gillian. Di­gamos que ela tenha apanhado o documento e dinheiro de Gillian, e partiu para a fazenda de Bussac, mas desmaiou no portão do convento. E depois disso achou melhor deixar as freiras supo­rem que ela era Gillian Lamartine, melhor do que reconhecer que era Lally Dupré... só que, no fim, não deu certo. Ela faleceu.

E Gillian está na fazenda de Bussac — disse Jennifer, em voz fraca, entre triunfal e apreensiva.

Ele lhe dedicou um olhar.

         Parece que sim.

Jennifer respirou fundo.

E é porque ela viu essa moça Dupré, e sabe que ela está aqui, que Bussac a mantém prisioneira!

Duvido muito. Por que iria ele fazer isso? Lally Dupré está morta agora e... não, a coisa não faz sentido. Além do mais, é Dona Francisca quem quer que Gillian seja eliminada, e não Bussac, de acordo com o que você disse.

Jennifer afastou os cabelos macios que tinham tombado em seu rosto, com movimento ríspido e nervoso e se pôs de joelhos, como quem ia levantar-se.

         Depois nós veremos o sentido. Neste momento, a coisa única que importa é tirar Gillian de tudo isto, e tirá-la a salvo da polícia...

Stephen, entretanto, não se moveu. Continuava com ex­pressão pensativa e semblante carregado, fitando a fumaça que subia em espirais do cigarro nos dedos.

Não, Jenny. Acho que a polícia não vai dar grande atenção ao que pudermos contar.

Mas... o que eu ouvi ontem à noite! Aqueles planos para matar Gillian!

Êle ergueu os olhos por instantes.

         Existe apenas Aristide Celton, em Gavarnie. Quando houvermos chegado a Luz ou Pierrefitte, explicado tudo, pres­tado nossos depoimentos... provavelmente em três cópias... de que Doña Francisca, a tesoureira do Convento de Notre-Dame-des-Orages, pretende assassinar uma mulher que oficial­mente já está morta...

Ele teve uma risadinha áspera e prosseguiu:

         Jenny, querida, você não conhece a França o bastante? Se acusei você, ontem à noite, de inventar o Grand Guignol, o que pensa que a polícia vai dizer?

O silêncio curto parecia orlado com a ameaça de tempes­tade. Um lagarto irrompeu de uma pedra e ali ficou, em curva­tura delicadamente formada de jade escuro, um ornamento chinês perfeito em artesanato, a não ser pela pulsação minúscula da garganta, sobre a pedra quente.

Jennifer disse, em voz incerta e baixa:

         Neste caso, temos de impedi-lo nós mesmos.

Ele voltou a cabeça. Diante desse movimento, o lagarto desapareceu de vista e a pedra ali ficou, quente e nua, entre os dois. Ele a fitou com ar grave.

         Oh. .. sim, vamos impedir. E não deve ser difícil de­mais, Jenny. A despeito do cenário de Grand Guignol... vales nas montanhas, assassinato, andanças misteriosas no convento... não creio que seja um caso a requerer atitudes heróicas.

Ele se deteve, aduzindo em seguida:

Ou mesmo a polícia. Ainda acho que seria um erro intervimos em coisas que não nos dizem respeito... e as atividades de Pierre Bussac, por mais desonestas que sejam, estão inteiramente fora de nossa alçada.

Mas, Gillian...

Oh, sim. Ela nos diz respeito. Na verdade, a questão) toda se resume a um fato simples: tirar Gillian, ilesa, da fazenda de Bussac, e levá-la para casa conosco.

Stephen hesitou, mas prosseguiu após instantes:

         Se isso pudesse ser feito sossegadamente... sem Cha­marmos a polícia e acusarmos Bussac e aquela mulher de algum crime... tanto melhor.

Sorriu, ao notar a expressão de Jennifer.

         Acha que isso não é heróico o bastante, Jenny? Acha que não estou à altura?

Ela corou.

Não é isso. É só que... bem, se eles são criminosos...

Se são, temos o dever de fazer alguma coisa, não é? — Talvez. Mas pense um pouco — e a mão dele pousou de leve na mão de Jennifer — porque, se entrarmos na questão com estardalhaço e armas sacadas, só Deus sabe o que poderá acontecer, e Gillian está bem no meio da coisa. Se pudermos tirá-la de lá, mediante negociações, por assim dizer, você não acha sinceramente que seria melhor?

É claro. Mas isso é possível?

Creio que sim. Começo a ter um vislumbre... o vis­lumbre mais aloucado... de uma idéia do que ela esteja fazendo naquela fazenda... embora não faça a menor idéia quanto ao motivo... E isso me leva a pensar que o nosso primeiro passo, do modo mais claro, é ir até lá.

         E que me diz do Bussac?

Ele sorriu.

         Não vai estar presente. Eu o vi, quando vinha para cá, e subia o morro montado em uma mula. É por isso que vamos diretamente para lá, agora.

Ele se pôs em pé e estendeu a mão para Jennifer, ajudando-a a levantar-se. A jovem disse, cheia de aflição:

         Se Madame Bussac estiver lá sozinha, poderemos lidar com ela!          

Ele a fitava com a expressão um tanto singular.

         Espero que possamos, se não estou enganado — disse, devagar.

         Que quer dizer?

Ele riu, esquivando-se à pergunta:

Eu já disse que não sou herói. Não me agrada muito enfrentar o Rato Rei, mas a questão é diferente, no que diz respeito à mulher dele. É uma amiga minha.

Oh, sim. Tinha esquecido. Ela é um dos críticos de suas pinturas.

Exatamente. A que prefere fotografias — disse ele, voltando-se para apanhar a mochila. — E isso me leva de volta à idéia maluca de que ia falar-lhe. Eu acho... que diabo é isso?

De cima, um som forte o interrompera. No alto da monta­nha brotara uma lufada de poeira. Algo se movia...

—         Cuidado.

Com um salto, Stephen se pusera ao lado de Jennifer. Não havia tempo para sair, e ela sentiu-se tomada nos braços dele, esmagada, enquanto Stephen se voltava, dando as costas para o penhasco, encobrindo com o corpo o perigo que descia.

Houve o sopro e o cheiro quente da poeira. A pedra que caía assoviou na passagem, bateu...

O impacto foi de estrondo, na rocha onde Jenny estivera sentada, e ali o penedo partiu-se em uma dúzia de projéteis perigosos. Ela sentiu que o corpo de Stephen estremecia uma vez, e quando um dos braços a deixou, o outro apertou-se em sofrimento momentâneo, de modo que ela quase gritou. Tinha o rosto comprimido no enxadrezado do paletó dele. Um botão machucava-lhe a face, tinha a impressão de que os ossos iam estalar, no modo como ele a apertava.

E logo tudo terminava. Uma pedrinha caiu de modo quase desdenhoso na rocha ao lado; outra bateu inofensivamente na mão dela. Nada mais se movia.

Como um eco zombeteiro, vindo do alto do penhasco, todavia, ouviram outro estralejar que a fez encolher-se de novo e logo enrijar o corpo.

Era o ruído de cascos de animal, batendo em retirada.

Ele ainda a segurava.

         Stephen!

O medo surgia na voz de Jennifer, enquanto se afastava do braço do rapaz, erguendo a cabeça para fitá-lo no rosto.

         Stephen, você está machucado!

Ele teve um estremecimento tão rápido e forte que era como se estivesse levando outro golpe; e logo pareceu controlar-se mediante esforço igualmente rápido e violento. A expressão de vacuidade deixou-lhe o olhar, e ele fitou a jovem. Estava muitíssimo pálido.

Oh, meu. Deus, Jenny, pensei... você está bem ?

Sim. Oh, sim. Mas, e você?

Eu estou bem.

Tem certeza?

Completa.

Ela olhou-o no fundo dos olhos.

         Não minta, Stephen. Você foi atingido. Eu senti.

         Foi só uma batida no ombro, pode crer. Não fez mal algum — afirmou Stephen, e flexionou o braço direito com cautela, uma leve careta. — Escoriações, só isso.

É, mesmo? Você... Você estava com aspecto horrível.

Estava mesmo? — contrapôs ele, com sorriso leve.      

Foi apenas susto. Se aquela pedra dos infernos tivesse caído em linha mais reta...

         Ou se você não tivesse saltado para baixo dela, que­rendo tirar-me da frente... — disse Jenny, sacudindo a poeira do vestido fitando-o com seriedade. — Não está tão longe de ser um herói, Stephen; não se diminua, meu caro. Aquela pedra estava destinada a mim.

Ele sorriu, e em seu rosto a cor já voltava, embora um vestígio de dor permanecesse ainda no traço da boca.

         Eu vivo para os outros — disse, em tom leve, e logo dedicou um olhar rápido para cima. — Vamos sair daqui, você não acha melhor?

         Você acredita que vai cair mais pedra?

Penso que não. Mas é bom que estejamos fora do alcance. Jenny disse:

Ele já foi embora. Stephen a olhou de esguelha.

Você também ouviu?

Oh, sim.

Ele não fez comentário, mas disse, quando chegavam à segurança do caminho aberto:

         Acho que podemos gastar algum tempo para nos lavar. Isso fortalecerá nosso moral, e estou coberto de poeira.

Ainda resta alguma coisa para beber?

Meia garrafa de viri topase, e está intata.

A água mostrou-se gelada e revigorante, o vinho deu-lhes mais forças. Em seguida eles escalaram a encosta coberta de relva, da margem do rio até o caminho, em silêncio. O sol continuava brilhando, quente e mormacento, porém na direção do sul uma frente acinzentada de nuvens vinha-se formando por trás dos cumes das montanhas. Qualquer brisa de antes desa­parecera, o ar se apresentava quente e carregado naquelas en­costas. O verde da relva se aprofundara, tornara-se verde-oliva, e até as cabeças leves das sempre-vivas já não balançavam em qualquer aragem.

Chegaram ao caminho e ambos estacaram, a fim de olhar, de maneira quase involuntária, para o cimo do penhasco, onde nada mais se via, senão o céu escurecido e carregado.

Jennifer comentou:

Aqueles cavalos...

Cavalo. Havia apenas um.

Ela o fitou.

         O rapaz, Luís.

Stephen não fez qualquer comentário, porém os olhos se estreitaram de modo indagador, fitando o ponto em que a rocha caíra.

         Por que, Stephen? Ele foi muito esquisito comigo, esta tarde, mas para que... isso? Você diz que o conhece. Qual o motivo para ele fazer uma coisa assim?

Stephen deu de ombros e depois teve uma contração no rosto, de modo que Jennifer voltou a olhá-lo com aflição.

O seu ombro está ferido, Stephen.

Ele disse, em tom quase impaciente:

Não foi nada. E então, vamos.

Partiu na escalada da trilha, e seu coxear talvez estivesse um pouco maior do que o costumeiro. Jennifer acompanhou-o, mordendo o lábio, sentindo-se agora quase reconhecida pela possibilidade da ação que tinham à frente, e que não lhe deixava tempo de pensar minuciosamente no que acabara de acontecer. Tentativa de assassinato? Até mesmo para Luís, criatura ins­tintivamente dotada para fazer coisas espetaculares, fora uma tentativa bastante dramática. Usar as prórias montanhas como arma... Ao relancear os olhos para trás, voltou a sentir-se tocada por aquela; pontada muito leve de medo; a mesma pontada de pânico que a assustara na véspera, quando seguira apressadamente em meio das montanhas, rumo à Torre Negra...

Stephen se voltara um pouco e estava esperando.

         Tudo bem, mignonne?

A voz já era mais uma vez cálida, forte e normal. A palidez do medo que ele sentira por sua causa desaparecera, e ele estava confiante, um pouco sombrio. Jennifer sorriu.

         Sim. Pode crer, Stephen. Estou muito bem.

Os olhos cor de avelã pareciam zombar dela, com gentileza.

Florzinha delicada... Mas, falando sério, Jenny, eu... Fez uma pausa, e logo aduziu, de maneira abrupta:

Eu bem queria que você ficasse para trás.

Oh, Stephen, não! Você não pode impedir que eu faça isso!

Eu ficaria mais satisfeito se você não viesse.

Mas, por que motivo? Não é perigoso. Bussac...

         Não estou pensando em Bussac. Ele não vai estar por lá. É só que tive uma impressão de que o encontro pode ser... perturbador, e eu preferia que você não se achasse presente.

Mas, por certo, será mais fácil se eu estiver! Quer dizer, Gillian...

Eu... suponho que sim — disse ele, em tom de dúvida. — É só que... com os diabos, Jenny, eu sei que você já fez maravilhas, até agora, mas não está acostumada a este tipo de coisa.

E quem está? — contrapôs Jennifer, cheia de razão. — Melodrama nos Alto Pireneus? Deixe isso para lá, Stephen; nós dois somos amadores.

Ele teve de rir.

Talvez. Mas eu não fui criado em estufa.

E eu fui? —- contrapôs ela, sem qualquer rancor. — E daí? Você, com certeza, não vai sugerir que eu volte para aquele convento infernal e fique esperando, vai?

A despeito do tom leve em que se manifestara, algo muito parecido ao pânico transparecia em sua voz, de modo que Stephen se pôs a observá-la.

Lá estavam, bem claros no rosto de Jennifer, os sinais fracos, porém muito bem definidos, de tensão. A serenidade desaparecera; Jennifer tinha os olhos ensombrecidos, a boca sob controle demasiadamente firme. Stephen sentiu um sobressalto de piedade e ternura. A torre protegida de Cherry Close acha­va-se muito longe dali...

Ele disse:

Está bem. É como você diz, talvez seja mais fácil com a sua presença. Mas eu preferiria vê-la a salvo, fora da tem­pestade, nos dois sentidos da palavra.

Mais criação de estufa?

Ele voltou a rir. 

A culpa é toda sua. Você não devia ter esse aspecto tão frágil. Venha, se é preciso, mas não me culpe se tiver de entrar na chuva.

Não culparei — afiançou Jennifer e o seguiu, passando pelas muralhas do convento e rumando para a sombra distante do pinheiral.

Em volta deles, enquanto seguiram, a luz do sol pareceu engrossar-se de modo quase palpável, e a atmosfera carregada de trovoadas amassava a grama e o cascalho. Ao longe, no norte, a nuvem enorme e carregada de tormentas escureceu ainda mais, aproximou-se, e sua orla apurada.

 

                             A NOIVA VENDIDA

A cabana da fazenda estava em silêncio, fechada, e parecia deserta, mas quando Stephen e Jennifer se aproximaram, pisando nas pedras entre as quais crescia a erva, viram uma mula amarrada ao lado de um dos telheiros. O couro estava escurecido pelo suor, os pêlos na barriga marcados com pontos molhados.

Stephen estacou e estendeu a mão para segurar Jennifer pelo braço.

         Com os demônios — disse, falando baixo. Isso signi­fica que êle já voltou. Jenny, pelo amor de Deus, quer afastar-se disto? Depressa!

Era tarde demais, porém. Um homem já aparecera de um dos telheiros e vinha em direção deles, de balde na mão. Era o homem grande e moreno que ela vira na noite da véspera; Pierre Bussac, habitante das montanhas e... assassino? Jennifer, presa às pedras onde pudera ouvir o diálogo na noite da véspera, só podia esperar que o francês não percebesse quem era ela.

A luz do sol, encoberta pela forma ameaçadora da nuvem, incidia em ângulo, nos olhos dele, de modo que, ofuscado por momentos, ao sair do telheiro escuro, êle deu três ou quatro passos à frente, antes de vê-los. Estacou ao notar-lhes a presença, fazendo uma careta de incerteza para Stephen, que se pusera diante de Jennifer.

         Que diabo quer aqui? perguntou o homem, com grosseria.

Stephen contrapôs:

         Você é Pierre Bussac?

Não obteve resposta direta, senão a réplica grosseira:

         Está perdendo seu tempo.

Bussac dizia isso com seu sotaque meridional bem forte, que deixara Jennifer perplexa na noite anterior. Ela compreen­deu, com alívio, que o homem supunha ser Stephen algum turista que procurasse seus serviços profissionais como guia. Ele aduziu, em tom azedo:

         Não estou aceitando mais nada neste verão. Não disse­ram isso na aldeia?

Ato contínuo ele se voltou, baixando um dos ombros como a querer afastá-los dali. Mas esse movimento lhe proporcionara a visão de Jennifer, escondida atrás de Stephen. O homem se pôs a olhar, a expressão desconfiada e raivosa examinando-a, percebendo os cabelos dourados claros, a pele tisnada de sol, o vestido de algodão verde que ela usava...

Os olhos negros de Bussac abriram-se mais, arregalaram-se. O balde escapou-lhe dos dedos, batendo no chão com estrondo, virando-se e derramando, em movimento tão lento que não parecia real. Ele não se mexeu para impedi-lo. O estrépito da queda do balde fez com que dois cachorros viessem correndo, mas os animais estacaram ao ver o leite derramado nas pedras, e se puseram atrás do dono, o pêlo um pouco eriçado e vendo os desconhecidos com desconfiança, enquanto rosnavam.

Bussac sabia quem Jennifer era; isso já se tornara evidente. E em mistura com a raiva, em seu olhar notava-se a presença inconfundível' do medo. Seu olhar fraquejou, baixou, e em seguida — de modo irresistível — ele olhou para a porta fechada da cabana.

Foi por momentos, apenas. O som leve do balde caído, rolando em um arco a seus pés, pareceu trazê-lo de volta aos sentidos. Ele se inclinou para apanhá-lo, praguejou para os cachorros e voltou-se para Jennifer e Stephen com seu auto­controle aparentemente intacto.

Disse então, do modo mais enfático:

         Não tenho tempo a perder com conversa. Já disse que não estou trabalhando como guia.

Ia embora, mas a voz de Stephen o fez deter-se.

         Um momento... Não lhe quero falar de viagem alguma, como deve estar percebendo, Monsieur Bussac; quero conversar com você.

Bussac sorriu, e não o fazia de modo agradável.

         Não preciso escutar.

Stephen insistiu, em voz calma:

— Não. Mas acho melhor que escute, Monsieur Bussac. Ou talvez prefira que nós dois vamos embora agora e falemos com a polícia...

Tirou um cigarro e o acendeu, fitando o homem enquanto o fazia e acrescentava, com gentileza:

Ou... digamos... Doña Francisca.

Era como se o nome agisse como um falcão um abutre pairando no meio da tempestade, pensou Jennifer e cuja sombra projetada sobre as criaturas por baixo tivesse o poder de torná-las imóveis. O homem ficou parado, os olhos presos nos de Stephen. Voltara o medo ao seu olhar e, juntamente com o mesmo, algo novo que era difícil de determinar o tipo de desespero que resulta de uma futilidade avassaladora e terrível.

Ele disse, molhando os lábios secos:

Está bem. Vou escutar. Para que veio aqui? Quem é você?

Eu não importo disse Stephen mas acho que você já conhece a mademoiselle que veio comigo. Notei que você a reconhece. Doña Francisca descreveu-a a você ontem à noite, não foi? E ela também lhe contou que a mademoiselle não estava satisfeita com a informação de que a prima tinha morrido, e que talvez aparecesse aqui para indagar.

Ontem à noite? Doña Francisca? De que está falando?

Não precisa tirar o corpo fora. A conversa de vocês foi ouvida.

Os olhos negros fitaram Jennifer por momentos e logo voltaram a Stephen. Havia brilho neles, mas o homem se limitou a dizer:

         E então?

Stephen o encarava com calma.

         Assim sendo, sugiro que não percamos mais tempo. A prima da mademoiselle está aqui, Monsieur Bussac, e nós vimos buscá-la!

De repente, a atmosfera estava cheia de eletricidade. O sol desaparecera por trás das torres altíssimas das nuvens, e o ar pairava, carregado e purpúreo, sobre os pinheiros imóveis. A dis­tância, ouviam o primeiro trovejar da tormenta.

Bussac ergueu os ombros fortes.

         Não vou mais ouvir o que diz. Está falando bobagens... mentiras!

Fez um gesto violento, que serviu para levar os cachorros a recuarem.

         Vá dando o fora, ouviu? Vá, dê o fora, você e sua mulher, também! E que tem, se eu sei quem ela é, e conheço o que ela tem falado? O que tem, se Doña Francisca veio aqui ontem à noite para me avisar, porque ela ia querer espiar minha propriedade? Aqui não há ninguém, só eu e minha esposa, e nós não gostamos de desconhecidos rondando por aqui.

Voltou-se para Jennifer, com olhar tão ameaçador que esta recuou um passo, instintivamente.

         Quanto a você... sua prima está morta e foi enter­rada... ouviu bem? Morta e enterrada, e você não tem de andar por aí, querendo meter o nariz nas coisas. Vão tratando de dar o fora daqui, antes que eu atice os cachorros!

Stephen voltou a falar, e o fazia com aspereza:

         Um momento, Busfsac! Você pode roncar o quanto, quiser, mas sabe... e nós sabemos... que tudo isso é blefe

E aduziu, em tom razoável de voz:

Escute um momento... não! Garanto que vale a pena" escutar! Nós sabemos que a prima de mademoiselle está aqui, assim como sabemos que você se atolou até o pescoço, você e aquela mulher no convento, em um jogo muito perigoso. Eu não sei do que se trata , acredite em mim, Monsieur Bussac, não me importa!

Não sei do que está falando! retorquiu o homem, dando um passo ameaçador à frente, tendo os cachorros atrás de si.

E que nos importa? disse Stephen, sem se mover. Acha que nós nos importamos com o que aconteceu a Lally Dupré ?

Pierre Bussac estacou como se houvesse levado um tiro. A respiração era arquejante, em suas narinas. Êle disse:

O que sabe de Dupré?

Stephen o fitava com calma.

Não sei nada... se você fizer o que proponho.

Pierre Bussac esperou, imóvel como uma rocha, a bela cabeça um pouco baixa acima dos ombros, e os olhos negros intraduzíveis. Eles relancearam uma vez na direção da porta da cabana e voltaram a fixar-se em Stephen.

         Bem?

Stephen disse, e falava de maneira agradável:

         Podemos chegar a um acordo, Pierre Bussac. Vou repetir que as suas atividades não são de nossa conta, a não ser no que dizem respeito à prima de mademoiselle. Tudo quanto que­remos é que ela nos seja entregue ilesa. Pois bem, sei que a presença dela é motivo de embaraço, até mesmo um perigo para você e sua... sua parceira — disse, olhando para o cigarro que tinha à mão. — Eu proponho que nós o livremos desse perigo, agora.

O homem piscou os olhos e pareceu hesitar.

Stephen disse:

         Agora, Monsieur Bussac. E nós a tiraremos daqui o mais depressa e sigilosamente que pudermos; não diremos coisa alguma.

No olhar de Bussac transparecia a luta, algum brilho de paixão ou medo, combinado a algo que poderia — se não fosse absurdo — ser a vergonha. Ele fitava Stephen de modo esqui­sito. A mão que erguera para abrir mais a gola da camisa estava tremendo.

Stephen instou no que parecia ser sua vantagem:

         Entendeu? — disse, em tom de urgência, porém suave­mente. — A polícia... Dupré... Dona Francisca... eles não entram neste negócio. Tudo que queremos é a moça, sã e salva.

E sua voz tornou-se mais áspera, enquanto prosseguia:

         Estou oferecendo um bom negócio, homem. Nós o livra­mos da prova, nós mesmos, Monsieur Bussac, e livramos agora. Quando aquela mulher vier esta noite, sua... pensionista terá desaparecido, e a esta hora de amanhã estará a caminho da Inglaterra. E "Madame Lamartine" continua sepultada... e minguem jamais descobrirá Lally Dupré!... Que me diz?

Mas o que Bussac poderia ter dito ficou sem ser sabido, pois quando erguia a cabeça, os ombros fortes prontos para a luta, as mãos cerradas, houve uma interrupção — dramática em si mesma, porém tornada claramente teatral pela ameaça da tempestade que se avizinhava.

Por trás de Bussac, abriu-se a porta da cabana. Um feixe solitário de luz amarela, que de algum modo varara as nuvens, incidiu sobre as pedras, destacando a mulher que ali surgira.

Era esguia e loura, tinha olhos cinzentos. De onde se achava, diante do feixe de luz, não podia ver Stephen e Jennifer, e falou diretamente para Bussac, de costas para ela:

         Vai chover — observou. — É melhor você entrar, não é? Mais alto do que a praga proferida por Bussac, enquanto

se voltava, mais alto do que o trovejar mais próximo, veio o grito de Jennifer:

         Gillian!

 

                                     DISCORDÂNCIA

         É Gillian! Jennifer gritou novamente, e adiantou-se sobre as pedras do chão.

E, então, algo pareceu acontecer, de repente.

Àquele primeiro grito de alegria livre e incrédula, a bela jovem no umbral teve um sobressalto e ficou rígida, as palavras congelaram-se em seus lábios. Os olhos, arregalados e em cin­zento muito claro, encontraram-se com os de Jennifer, em uma expressão de susto, e quando a praga proferida por Bussac se fêz ouvir, ela voltou à sombra do umbral da cabana.

—         Gillian!

Jennifer correu para ela, os braços estendidos. E a porta da cabana bateu bem em seu rosto.     

Enquanto Jennifer recuava, Bussac entrava em ação. Com outra praga, cujo significado violento era inconfundível, ele agarrou Jennifer pelo braço e a arrastou, afastando-a da porta. A mão pareceu morder-lhe o braço, tamanha a força, e ela gritou. Stephen deu um salto à frente, o cigarro chiando como um minúsculo meteorito no leite que corria, azulado, entre as pedras lisas do caminho. Bussac, atirando Jennifer para o lado com violência, voltou-se para enfrentá-lo.

Não se soube se Stephen pretendia fazer mais do que surpreender o homem e obrigá-lo a soltar Jennifer. Mas qualquer escolha de ação foi-lhe brutalmente arrebatada, porque Bussac, de cabeça baixa e brandindo os punhos, atacou como um homem enlouquecido.

Jennifer, escorada e estendida nas pedras do caminho, teve uma visão momentânea e rápida como se uma lente de câmara houvesse aberto e fechado quase no mesmo instante daquele verdadeiro touro, de chifres para baixo, acossando o inimigo; enfrentando o perigo* enquanto as fêmeas ficavam protegidas, em suas costas... mas, naturalmente (e ela se pôs em pé, abalada e atabalhoadamente) não era Stephen quem representava o inimigo e Bussac o protetor, e sim o contrário. Bussac tinha Gillian como prisioneira em sua cabana horrível, Stephen e ela precisavam libertá-la. Naquele instante.

Bussac, com um resmungo de fúria, conseguira livrar-se de Stephen que o agarrara, e os dois homens se separaram. Ali estavam, olhares fuzilantes e arquejando, enquanto o ar entre os dois já estremecia na perspectiva do novo assalto. Bussac avançou outra arremetida parecia à de um touro e Stephen esquivou-se, mas não o fez suficientemente bem. O punho do outro acertou-o acima do coração, e logo os dois estavam novamente pegados, em uma luta horrível de músculos retesados e arquejos animais.

Jennifer voltou-se e correu para a porta da cabana.

Não levara em conta os cachorros, todavia, ao estender o braço para o trinco da porta, o cachorro mais à frente lançou-se à mão dela. Ela retirou a mão com um grito de terror, e o corpo do cachorro bateu na porta. Ela rodopiou para enfrentá-lo, o coração disparado, a boca seca de tanto medo, e encostou-se na parede para enfrentar o ataque que vinha em seguida. Isso não aconteceu, porém. O cachorro que caíra já se levantara das pedras, e agora se acocorava a dois passos de distância, rosnando em ódio e com a pata machucada. O outro cachorro avançava e recuava sem parar, sempre a salvo de um pontapé. Jennifer permaneceu onde estava, crucificada pelo medo que sentia, encostada em uma das persianas abertas, entre a janela da cabana e a porta. Os corpos dos dois homens, entrelaçados em luta, oscilavam e balançavam a pouca distância dela. Em defesa, ficou a observar, a respiração presa na garganta por soluços secos, o lábio inferior entre os dentes, para não gritar...

Como acontece com a maioria das jovens civilizadas, Jen­nifer jamais vira homens lutando corpo a corpo. Tampouco pudera antever a luta que ali se travava. Não se tratava de um combate limpo e de golpes duros, entre mocinho e bandido, do tipo a que os romances e o cinema nos acostumaram; era uma luta inteiramente suja e chocante, uma luta de golpes, resmungos e violência, em que tudo valia, e Jennifer sentiu-se enojar, enquanto observava.

Stephen parecia estar levando muito a pior. Os dois homens achavam-se encharcados de suor; a camisa de Bussac já enegrecera e colava-se às suas costas, esboçando-lhe os músculos fortes. O rosto de Stephen estava manchado e de aspecto gorduroso, e havia uma mancha vermelha em seu malar. A boca se abria em esgar e o sangue escorria para ela do ferimento na face. A respiração era difícil, curta e, enquanto Jennifer observava, apavorada, veio de lá um som ao mesmo tempo furioso e desesperado, quando Bussac o pegou em outro lugar, batendo com o joelho, em golpe contra as regras de qualquer país. Stephen esquivou-se para evitá-lo, e o joelho passou por' sua coxa; no mesmo instante, ele desferiu um golpe perverso e sem mestria na garganta do adversário. O golpe falhou e foi estalar inofensivamente na clavícula de Bussac. Mas o francês, que o antevira, soubera esquivar-se e tal movimento, conjugado ao torcimento do corpo de Stephen, fez com que os dois camba­leassem, entrelaçados como se achavam. E, então, Stephen pisou a faixa azul e perigosa do leite derramado, caindo, com Bussac por cima. Tinha as mãos em sua garganta, agora, e lutava por livrar-se delas — mãos morenas, de dorso peludo.

Jennifer gritou. Voltou a cabeça, deixando de ver Stephen que estava sendo estrangulado no ponto de luz, e voltou a gritar. Por trás dela, na pequena peça escura, no outro lado do vidro, houve um leve movimento. Ela forçou a cabeça para olhar, e um dos cachorros rosnou baixinho..., mas deu para ver. Deu para ver o rosto da outra jovem, pálida na escuridão por trás do vidro. Aquele rosto branco voltou a mover-se, adiantou-se, comprimiu-se na vidraça, os olhos cinzentos e arre­galados fitando a tarde purpúrea de tempestade. E fixaram-se em Jennifer, a menos de um metro da vidraça; nos animais que a retinham; nos corpos em luta mais além...

— Afaste os cachorros! Pelo amor de Deus, afaste os cachorros! — gritou Jennifer, com todas as forças, na direção daquela janela.

O rosto hesitou e desapareceu. Como acionada por um apertar de botão, o feixe de luz apagou-se e, com um trovejar pressago, a tempestade aproximou-se mais.

Foi quando a porta da cabana se escancarou e a jovem saiu correndo. Os cachorros recuaram e se puseram a andar diante dela, enquanto o grito que deu fez com que eles, a cauda entre as patas, entrassem correndo pela porta da cabana. Ela não dedicou um só olhar a Jennifer, mas atirou-se por sobre o caminho de pedras, como se tivesse asas, e caiu sobre Bussac, que ainda continuava sobre o corpo tombado de Stephen.

Jennifer, com um soluço que era também oração, acom­panhou-a.

A jovem agarrara um dos braços de Bussac e lutava com tôdas as forças para fazê-lo soltar a presa. Jennifer, que não sabia ter tanta força, agarrara o outro punho com ambas as mãos, e usava todo o peso do corpo nesse esforço. Estava gritando e não sabia o que gritava — alguma coisa incoerente, fruto do pavor — e a jovem a quem ela chamara de Gillian gritava, também, e gritava com Bussac, em francês rápido e indistinguível, que, ainda assim, depois do que pareceu uma eternidade de gritos, chegou ao cérebro do homem, atravessando sua muralha de intuito assassino.

As mãos morenas afrouxaram-se, saíram — e Stephen, retorcendo-se como um peixe, conseguira livrar-se do estrangulamento e afastar-se dali.

Não estava morto. Stephen não estava morto. Jennifer, que naqueles momentos fora a território além do medo, afastou Bussac com todas as forças que tinha e foi correndo ajudar Stephen.

Bussac levantou-se devagar, arquejando para respirar e sacudindo a cabeça, parecendo-se imensamente a um touro raivoso. Era bem mais alto do que Stephen que, surrado e abalado como se encontrava, esforçou-se por ficar em pé para enfrentar um novo ataque. O brilho assassino continuava nos olhos do francês e, se ele houvesse atacado de novo, a luta somente poderia ter um resultado, mas quando se adiantou para isso, a jovem que estivera presa ao seu braço deu um grito baixo, emitiu um som curioso de gemido, que passou quase despercebido, mas que serviu para deter o homem em meio ao assalto, assim como um tiro detém um bisão em investida.

Ele se voltou para a jovem, que lhe soltara o braço e se apresentava agora, lívida, oscilando sobre os pés. Uma das mãos foi à cabeça, com dificuldade. Ela parecia muitíssimo doente. Quando Bussac rodopiou, com uma pergunta rápida e sem fôlego ("Qu'as ?"), ela estendeu a mão cegamente e quase caiu onde se achava.

Bussac agiu com rapidez de relâmpago, apanhando-a antes que tombasse sobre as pedras, pondo-a nos braços como se não fosse mais peso do que uma simples boneca. A cabeça da jovem pendia, seu rosto branco como um lençol àquela luz incomum. Foi quando ele falou, dirigindo-se a Jennifer e Stephen :

— Vão embora.

Stephen, ainda que com pouca firmeza, estava em pé. Jennifer lívida também, olhou deseperadamente para a jovem desmaiada.

Monsieur Bussac...

Vocês ouviram. Vão-se embora.

Êle caminhou para a porta da cabana. Os cachorros estavam ali, na sombra, de olhos injetados e inquietos. Jennifer deu um passo à frente, mas foi detida pela mão de Stephen em seu braço. Ao adiantar-se, um dos cachorros rosnou, o pêlo eriçado e já acocorado para saltar, mas logo mergulhou nas sombras, quando Bussac estendeu a mão para a porta. Ele entrou sem olhar para trás e fechou a porta com um pontapé.

Jenny, adiantou-se instintivamente mais uma vez, quando Bussac desapareceu, viu-se novamente impedida pela porta da cabana.

A mão de Stephen fechou-se em seu punho, segurando-a. Ela disse, sem acreditar, como uma criança:

         Mas era Gillian. Era mesmo Gillian. Eu sei que era... E, então, a futilidade de seus esforços, como a atmosfera

carregada, pareceu descer e avassalá-la. Ela se voltou como se estivesse cega, sem perceber nada, e deixou que a mão de Stephen a tirasse dali; eles passaram pelo caminho de pedras lisas, voltaram à trilha, voltaram à escuridão abafante do pinheiral...

A distância, por trás da imensidade de nuvem, veio o brilho do primeiro relâmpago.

 

                                 ENTREATO

O bosque estivera calmo antes, mas, agora, uma tempestade estendendo-se sobre o cimo das árvores, o silêncio estava carre­gado, era pesado e aziago. O tapete de espinhos de pinheiro sugava os pés, como um pântano, abafando as passadas; a mar­cha de qualquer exército por aquela trilha, tinha-se a impressão, não faria mais ruído do que a marcha de uma tropa de fantas­mas, uma corrente de ar, um suspiro. Até mesmo a respiração violava o silêncio reinante...

A respiração de Stephen parecia roufenha e penosa. Ele capengava ao lado dela, segurando-a ainda pelo braço, instando para seguirem sobre aqueles espinhos que se prendiam nos pés, afastando-se do perigo, afastando-se de Gillian, afastando-se daquele demônio assassino...

Jennifer, que seguira aturdida e apressadamente, obede­cendo à pressão da mão de Stephen, deteve-se e voltou-se um pouco como em rebelião. Foi quando cambaleou, e os caules enfileirados dos pinheiros pareceram inclinar-se e afastar-se... e logo ressurgiam esboçados na luz... oscilando, depois endireitando-se, com esforço...

Encontrou-se sentada, de costas para uma árvore, onde os pinheiros escasseavam na orla setentrional do bosque. Stephen sentara-se a seu lado. Ela voltou a cabeça, com alento prolongado e trêmulo, e o fitou.

Stephen tinha a cabeça baixa e vasculhava o bolso. Parecia ao mesmo tempo sombrio e indescritivelmente cansado, e havia ainda em seus lábios um vestígio da expressão feia que a assustara, oculta como se achava pelas marcas de sangue seco. Tinha os cabelos emaranhados e molhados na testa, e quando ergueu a mão para afastá-los, Jennifer viu sangue - sangue de Bussac sob as unhas de Stephen.

         Fume um cigarro, Jenny — e ela teve novo choque, ao ouvir-lhe a voz, que era pouco mais do que um cochicho pastoso. Dessa vez... não há vinho... ao que receio.

         Oh, Stephen...

Não havia coisa alguma que pudesse ser dita. Ela aceitou o cigarro e viu, com enorme pena, como as mãos dele tremiam... Estava não apenas esgotado, pensou Jennifer; fora batido. Ele... nós fomos batidos.

Afastou o olhar, examinando os pinheiros que escasseavam, fitando o local onde o convento se apresentava sob o céu escuro, as paredes caiadas tornadas purpúreas à luz da tempestade. Enquanto observava, um relampejo distante deu vida trêmula ao convento e, segundos depois, a trovoada despejou-se sobre as montanhas próximas.

Trovoadas. Também isso, pensava ela, mas sem amargura, embotada também isso viera encerrar o pequeno drama que ainda agora se desenrolava. Seu papel no drama fora bastante fútil, e o de Stephen sim, fútil era a palavra que também cabia nesse caso. O que tivera ele para dizer-lhe, na véspera ? Não me ponha no papel de herói de sua história. Mas ela fizera isso. Fora correndo a êle, pusera o peso de suas apreensões e medo nas mãos do rapaz, confiante em que êle não lhe faltaria, não poderia faltar-lhe. A estória precisava ter o final certo. O herói, o homem forte, o irmão mais velho... ele não faltaria, mas ele faltara, faltara.

Ela voltou a cabeça fitando-lhe os olhos.

Naquele momento, então, aconteceu algo a Jennifer. Ela percebeu, além da contrariedade e cansaço dele, Stephen sabia o que ela estivera pensando, e com o conhecimento viera a vergonha; e algum impulso instintivo, trazido à baila pela pena que sentia dele, e que com um simples alento fizera desaparecer as incapacidades da inocência, com que ela se estivera a enganar. Hoje atinja a perfeição... Com seus novos olhos de adulta ela percebia tudo; fora ela quem cometera a traição, fora ela quem "falhara", ela quem deixara a singularidade da situação criar em si valores que eram tão estranhos quanto inúteis. O modo semicasual e semijocoso pelo qual Stephen rejeitara o "heroís­mo" ia, na verdade, muito além, ele era o tipo de homem alta­mente civilizado que detestaria a violência em todas suas ma­nifestações, do mesmo modo como detestaria a praga. Na verdade, seria assim que ele veria a violência, como uma praga, um câncer a espalhar-se pelo mundo moderno e lutaria contra a aceitação disso. Inteligente, sensível, gentil... e, por mais que os super-homens de celulóide e papel ostentassem seu esplen­dor invencível, eram os homens como Stephen, os homens que pensavam não mais do que moyen sensuel os verdadeiros constantes.

Ele tinha dito que não era herói das histórias em quadrinhos. Bem verdade, e a grandeza da mágica exercida pelo lugar em que ela se achara fora tal que Jennifer se vira traída a aceitar isso como confissão de fraqueza. Percebia, agora, que se tratava do contrário. O herói de histórias em quadrinhos não tinha lugar na vida; ele abria caminho a pancadas, em vinte capítulos vitoriosos, esmaecia com um beijo na heroína e desaparecia para sempre. Mas, ao final da estória em que ela vivia, restaria um capítulo novo a ser aberto, Inglaterra, Oxford, Cherry Close... ela e Stephen... A compreensão veio a Jennifer com toda a clareza, e serenidade, mostrando-lhe o que os capítulos seguintes deviam conter.

Antes, todavia, era preciso devolvê-lo a si próprio. Hoje procure a perfeição. Ela disse:

         Stephen, meu caro. Não se importe tanto, por favor.

Ele não respondeu, e ela estendeu a mão, tocando a dele, de leve.

         Stephen.

Ele voltou o olhar para outro lado.

         Eu perdi sua luta, Jenny.

Ela gritou:

Não diga isso! Não é justo! Não admito que você diga isso!

É verdade.

Ela se voltou para Stephen, com ar quase feroz.

Não é verdade! Você não perdeu nada! Se tivesse feito o que me disse e ficasse para trás, não teria acontecido assim. E êle tem duas vezes o seu peso, e você estava com o ombro machucado, e além do mais...

Além do mais?

Você tem esse defeito físico disse ela, a voz muito fraca.

As palavras fizeram-nos entrar em silêncio. Logo Stephen ouviu um som minúsculo e finalmente olhou para ela. Jennifer chorava. As lágrimas reluziam nas pestanas, escorriam pelas faces. O coração dele doía, mas Stephen não se moveu.

         Jenny. Oh, Deus, Jenny não chore, sinto muito. Gillian...

Ela disse:

         Não é Gillian. É só que eu... eu não posso agüentar que você... você sofra mais. Não posso, por coisa nenhuma. Você, não.

Ele disse, muito abalado:

         Oh, minha querida...

E Jennifer estava nos braços de Stephen, e ele a beijava finalmente, mas o fazia com gentileza, beijava-lhe as pestanas molhadas de lágrimas, a boca...

         Minha Jenny adorada. Meu amor.

Os pinheiros agitavam-se acima deles, os ramos escuros suspiravam no sussurro distante das ondas do mar que se ouvem em uma concha. O relâmpago desferiu um golpe próximo a eles. Uma saraivada de granizo parecia estar subindo a encosta e os bosques, com seus milhões de pequeninos pés fantásticos batendo e galopando, como uma onda que varre a ardósia do telhado. Quando o silêncio se refez, o relâmpago desferiu outro golpe: um clarão, um estrondo e com um só passo a tempestade chegara ao vale; o rugir da trovoada rolava pelas montanhas e ecoava em ambos os lados, e a espada do relâmpago acutilava, voltava a acutilar, como a examinar as profundezas dos bosques amedrontados, buscando o que ali estivesse abrigado.      

Jennifer arquejou e encolheu-se nos braços de Stephen. Ele a puxava bem a si, apertando-lhe a cabeça no ombro.

Está tudo certo. Jenny, já vai passar.

Será que nós... quero dizer, as árvores...

Está tudo certo voltou êle a dizer. Já está passando.

Mal acabara de dizer isso e o relâmpago voltou com um estrondo, como se a grande espada Durindana, de Roland, esti­vesse ali a golpear as montanhas.

         O estrondo do destino disse Stephen e logo aduziu, ao sentir que ela estremecia: Esse caiu bem além dos bosques, Jenny. Está passando depressa.

Ela ergueu a cabeça.

Na direção da fazenda comentou, estremecendo de novo.

Assustada? Não precisa ficar assustada.

Mas não é disso. É da outra coisa. Do caso de Gillian. Nós não devíamos ter esquecido assim. Eu não queria dizer que não me importo com o que aconteceu com Gillian. Só queria...

Querida, ninguém está imaginando que você estivesse querendo dizer isso.

Ela ergueu os olhos assustados, onde as lágrimas ainda se achavam presentes.

         A trovoada. Você disse que era o estrondo do destino. E foi mesmo assim; por todo o dia... Parecia alguma coisa esperando, esperando nos bastidores, esperando para atacar. O desastre. É um mau presságio, Stephen, e o mal está acontecendo agora.

         Ainda não.

Ela disse, com um pequeno soluço:

Mas vai acontecer. E não podemos impedir.

Não?

Havia na voz do rapaz um tom novo que fez o sangue de Jennifer arder. Ela se afastou, pondo as mãos no peito dele, examinando-lhe o rosto. A transformação fora surpreendente. A fadiga, a depressão, a dor — tudo isso desaparecera, como se houvesse seguido na esteira da tempestade que se retirava. As marcas da derrota ainda estavam presentes, as escoriações, cortes, manchas feias onde o sangue e o suor haviam secado, mas ele sorria, e os olhos estavam firmes e confiantes e — sim, animados.

Ela disse, com aspereza:

         Você não vai voltar lá! Você não vai voltar!

Ele riu, depois chamou-a a si e a beijou.

         Não pretendo fazer isso... embora esteja-me sentindo, agora, capaz de virar o nosso amigo Bussac ao avesso, com umas das mãos!

Pôs a mão sob o queixo dela, ergueu-lhe o rosto ainda sorrindo.

         Sua mágica, Jenny... e falam de remover montanhas! Eu removeria toda a cordilheira, por Deus, antes do desjejum, e lavaria as mãos, dizendo... como é mesmo?..." Bolas para esta vida tranqüila, eu quero trabalho!"

Dizendo isso, Stephen se pôs em pé e estendeu a mão para ela.

         Você e a trovoada, minha querida, limparam o ar! Ainda temos um modo de sair de seu melodrama, basta ter cérebro para vê-lo!

Colocou as mãos nos ombros de Jennifer e a sacudiu com gentileza.

         Não fique com esse aspecto abatido, minha querida. Não vai ser tragédia alguma! Escute só.

Ao longe, em meio aos picos das montanhas, a trovoada se fêz ouvir mais uma vez.

         Trovoada... à direita disse Stephen. É esse o seu presságio, Jenny, e não se acha no lado sinistro. Trovoada à direita... o melhor dos augúrios! Um final feliz!

Ela viu que sorria também e que o coração se reconfortara de modo inteiramente ilógico.

         Está bem disse vamos até lá mover essas monta­nhas. Só que... é melhor andarmos depressa.

 

Sem desejar que os vissem aproximar-se do convento pelo caminho que dava diretamente da fazenda, eles desceram o morro, mantendo-se na orla do bosque.

A caminhada entre os pinheiros era íngreme, mas os espi­nhos grossos e secos das árvores tornavam os passos fáceis e seguros. Por toda a parte no chão o tapete de matéria morta se abria, pondo à mostra báculos curvos e caules verde-claros, abrindo caminho para a luz. Aqui e acolá, orquídeas alvíssimas pareciam assentir acima da estrela das folhas, luzes de velas esguias revoavam por cima, nas batidas frágeis de asas minús­culas. De vez em quando, chuveiros de gotas de granizo que se derretia tombavam do alto, fazendo os pequenos enxames agi­tarem-se, e o odor forte e resinoso dos pinheiros tornavá-se maior no ar quente.

Stephen estendeu a mão para ajudar Jennifer a passar sobre um pinheiro tombado.

A primeira montanha que temos a mover disse e talvez seja difícil... é a polícia.

A polícia? Mas você disse que ela não daria ouvidos. Você disse que não havia provas...

Meu Deus, o meu rosto não é prova? As coisas estão um pouco diferentes agora, minha cara. Nós vimos e identificamos Gillian, nós mesmos, e de qualquer modo, agora, posso insistir em que o homem seja ao menos interrogado quanto a isso afirmou, indicando a face ferida.

Mas... oh, Stephen, não temos tempo! Concordo qranto à polícia, e não vejo o que mais podemos fazer, mas isso por certo não vai ajudar! Tudo o que fizemos foi alertar Bussac e levá-lo a agir imediatamente, porque ficou com medo!

Eu sei — e o tom de voz era sombrio. — Ainda não me perdoei por isso, embora ache que a coisa ferveu mais quando ele reconheceu você. E havia a possibilidade de que ele aceitasse nossa proposta e nos desse Gillian. Pelo menos, foi o que pensei, até que a visse.

Que quer dizer?

Stephen dedicou-lhe um olhar rápido.

Você não adivinhou?

Adivinhou o quê?

Ele pareceu medir bem as palavras que ia pronunciar.

Deve ter ocorrido a você que Gillian não era... não é... uma prisioneira, na expressão da palavra.

Claro que ocorreu. Ainda não tive tempo de pensar bem a esse respeito, mas acho que tendo Bussac e os cachorros por perto, ela não teria conseguido fugir para muito longe... oh!

Precisamente. Os cachorros fizeram o que ela mandou. E também — aduziu Stephen, em tom de meditação — em certa medida, Pierre Bussac fez o que ela mandou...

Havia incerteza na voz de Jennifer.

Talvez ela e a esposa de Bussac...

Stephen atalhou:

Ela é a esposa de Bussac.

Jenny arquejou e voltou-se, e teria caído se Stephen não lhe estendesse a mão com rapidez para firmá-la.

Cuidado. Sinto muito e não compreendo o que se passa, mas é verdade. Não existe mais pessoa alguma naquela fazenda. Ela é "Madame Bussac".

Não pode ser! Não pode ser verdade! Você se enganou, Stephen!

Não, esquece, Jenny, que eu a vi antes?

Você, o quê? Quando?

Já contei a você. Estava pintando, uma vez, bem cedo. Devia estar perto da fazenda e não sabia, no lado distante do morro. Tinha vindo a pé de Gavarnie... aquilo por lá é inacreditavelmente solitário e a caminhada muito difícil; duvido que alguém vá até lá, em cada cem anos... De qualquer modo, ela... sua Gillian... deve ter saído cedo, também. Apareceu-me de repente, e não sei qual de nós dois ficou mais sobressaltado. De começo ela se esquivou, parecendo muito assustada, mas eu falei, e conversamos por uns cinco minutos. Foi só isso. Ela ainda parecia inquieta e depois afastou-se com pressa. Mas era, com certeza, a jovem que você chamou de Gillian, e com a mesma certeza posso dizer que ela declarou ser Madame Bussac e que morava por lá.

Jennifer repetiu, um tanto aturdida, a única palavra que parecia fazer sentido:

Você disse que ela estava "assustada"?

Talvez seja palavra forte demais. Inquieta, apreensiva... deve ter sabido que Bussac não queria que a vissem. Duvido que ela tenha contado a Bussac que nós nos vimos.

Jennifer levou a mão à cabeça.

E ela não quis vir conosco... nem me conheceu. Faz alguns anos que nós nos vimos pela última vez, é claro, mas eu teria jurado que era Gillian.

Oh, sim, era Gillian.

Jennifer voltou-se, perplexa, os olhos quase em pânico, para fitá-lo.

         Mas eu não posso acreditar! A coisa se torna cada vez mais incoerente!

Sua voz erguia-se, com um estremecimento de histeria.

         Todo esse vale dos infernos está cheio de pequenas que se parecem com Gillian!

Ele passou os braços pelos ombros de Jennifer, fê-la vol­tar-se na direção da orla das árvores.

         Venha, querida. Saiamos do bosque.

O braço apertou-se por momentos e ele sorriu para ela.

         Outro augúrio... E não fique com medo, doçura. Algo incoerente, mas não loucura; ainda existe apenas uma Lally, que morreu, e apenas uma Gillian, que está viva... e deverá continuar assim.

Tinham chegado à beira do bosque, saindo da visão do convento, deixando o crepúsculo de odor forte, o dos pinheiros, chegando à escuridão trovejante do vale aberto. O centro da tempestade já se afastara, mas o céu continuava carregado e escuro, e nos relampejos intermitentes as sombras das montanhas exibiam uma curiosa tonalidade de verde-oliva, mais clara do que as nuvens em índigo além. Os prados e as encostas mais baixas tinham ainda tonalidade mais pálida, estendendo-se de modo fantasmagórico, onde a chuva deixara seu brilho evanes­cente. O céu escuro, as montanhas claras, prados acinzentados como fantasmas... era como fitar o negativo de uma fotografia tirada em luz normal do dia, uma paisagem invertida per passe de mágica, e em cujo primeiro plano empalidecido passava o sulco fundo e negro do Petit Gave.

Encontravam-se em campo aberto agora, e a grama do prato, endurecida com o granizo ali caído, rangia e fazia barulho sob seus pés.

Uma outra coisa eu lhe disse — comentou Stephen. — Não se lembra? Eu disse que Madame Bussac não gostou de minhas pinturas. Preferia fotografias.

E então?

Qual a diferença principal entre uma pintura e uma fotografia? — perguntou Stephen, falando devagar.

Não compreendo. Por quê? Deve ser porque uma é, oh, uma reprodução mecânica da coisa fotografada, e a outra...

Jennifer parou de respirar por momentos.

Não, não é isso. É que a fotografia sai em preto e branco, e a pintura... em cor ?

Exatamente. Talvez a cor não signifique grande coisa para Madame Bussac — disse Stephen e olhou-a de lado. — Isso constitui uma prova a mais. Nas circunstâncias em que nos achamos, é indício bastante. Acho que podemos considerar isso como indicação conclusiva. Quero dizer que este vale dos infernos não pode estar lotado de jovens daltônicas que se parecem com Gillian, não acha?

Não — disse Jennifer, mas seu sorriso era forçado. — Está certo, é Gillian, casada com aquele homem. E como fica­mos nós? Ela se acha viva, mas... por quanto tempo? Oh, Deus, Stephen, é como um pesadelo, e não faz sentido algum!

Pense, querida! O fato... estranho que pareça... de que ela esteja casada com Bussac, serve para garantir que, no que diz respeito a ele, ela continua viva! No que diz respeito a Bussac. Pense na conversa que você ouviu ontem à noite. Você não me disse que Bona Francisca queria forçá-lo a tomar medidas que resultariam na morte de Gillian, e que ele se recusava a isso, e se recusava apaixonadamente?

S-sim. Sim, eu contei.

E o modo pelo qual ele acabou de agir, não foi uma repetição da mesma cena, de outro modo? Ele sabia que devia deixá-la ir, pelo próprio bem dele, mas não o quis fazer. Ela agiu como se ele a assustasse? Ao contrário; eu diria que ele gosta dela, e isso combina com as reações de Bussac, tanto comigo como com Bona Francisca.

Jennifer disse, em voz enfática:

         Quando foi que ele se casou com ela?

Eu... o quê? — indagou Stephen, claramente perplexo.

Quando ele casou com ela?

Stephen guardou silêncio. Jennifer disse:

         A menos que se tenham casado em Bordeaux, antes mesmo de Gillian vir para cá, não houve muito tempo para isso, você não acha? E eles não se casaram. Quando ela me escreveu, na noite anterior à partida de Bordeaux, ainda plane­java entrar para o convento.

Dizendo isso, desferiu um pontapé em um tufo de grama, e as gotas que ali se derretiam voaram para todos os lados, em arcos luzidios de água borrifada.

         O Padre Anselm também não os casou, ou teria falado comigo.

Stephen disse, com suavidade:

Sinto muito, Jenny.

Ontem à noite — disse Jenny, sem fitá-lo — aquela mulher amaldiçoava Bussac, por ter estragado os planos deles, por causa da luxúria. Também isso combina, com o que você diz, não acha? Obscène bete, foi o que ela o chamou, e ani­mal. ..

Stephen apertou-lhe o braço.

Calma, aí. Seja lá o que Gillian pretende, isso é coisa dela. Tudo que nos importa é sua segurança, e esse caso com Bussac, seja lá como for, é uma garantia exatamente disso. Ele não a vai magoar. Aposto minha vida nisso, e é um motivo — disse, sorrindo pesarosamente — um motivo pelo qual eu me afastei da fazenda, Não, o perigo verdadeiro para Gillian está em outra direção.

Dona Francisca?

Nossa gentil Francisca. Para dizer francamente, enquanto Gillian estiver viva e, portanto, puder ser encontrada por nós ou pela polícia, existe o perigo de um inquérito ser feito quanto à identidade do corpo no cemitério.

Mas mesmo se provassem que a mulher sepultada é Lally Dupré, não haveria provas de que Dona Francisca soubesse de coisa alguma! Ela própria disse que não perderia qualquer outra coisa senão a renda particular.

Exatamente. E Bussac deu alguma indicação, não deu, do que isso representaria para ela? Há muito dinheiro em jogo, Jenny... passaram-se quinze anos desde que os três milhões de francos de Isaac Lenormand foram pagos, e em quinze anos deve ter havido uma boa quantidade de tráfico, de um lado para o outro, pela ponte particular de Pierre Bussac. Com os diabos, quanto custou aquele El Greco? Mesmo que ela o tenha comprado por pouco, na confusão geral da guerra, quando os Rembrandts foram vendidos por quase nada e os Botticellis eram guardados em celeiros... não, o saque que esses dois estiveram apanhando é coisa maior do que ninharia. É muito dinheiro, ambição, amor ao poder e medo ao escân­dalo ... isso a meu ver representa perigo, Jenny. Ela não vai abandonar os sonhos com muita facilidade, se o que você conta for verdade. E para manter esses sonhos ela precisa manter Bussac, e livrar-se de Gillian... de algum modo. Jennifer teve um leve estremecimento.

Amor ao poder... sim, é ela mesma... aquela expres­são sequiosa e faminta... como se estivesse alguma coisa ardendo por dentro. Eu não gostaria de me interpor entre ela e qualquer coisa que aquela mulher quisesse muito.

A Gillian se interpôs — comentou Stephen, com serie­dade.

Haviam dado a volta por uma ombreira do prado da montanha, e agora o convento estava próximo, lá embaixo, Ele se deteve, fitando aquela construção, com ar pensativo.

         Olhe o caso do ponto de vista de Bussac — disse ele, devagar. — De algum modo... não importa o como e o porquê, está com Gillian por lá, vivendo com ele como esposa, de própria vontade. Suas indagações fazem Dona Francisca descobrir o fato de que se trata de Gillian, e não de Lally Dupré. Ela insiste para que Bussac a elimine, antes que você possa reconhecê-la, e dê assim início a uma confusão que só pode terminar com a denúncia de Bussac e dela própria. Ele se recusa... ou, de qualquer modo, gostaria de recusar-se... É quando nós apare­cemos, reconhecemo-la. Oferecemos levá-la daqui, e não dizer coisa alguma. Bussac volta a recusar.

Ele ergueu a cabeça e seu olhar pousou, sem parecer que estivesse vendo, no flanco comprido do morro, por trás do convento.

         Pois bem, como se situa ele? Seja qual for a atitude de Doma Francisca, é claro que nós iremos diretamente para a polícia. Embora não possamos pegá-lo por causa de Gillian, já que ela parece estar com ele de livre vontade, deveremos iniciar um inquérito que levará a Lally Dupré e, por meio dela, às ligações criminosas de Bussac. Adicionemos a isso as ameaças de Dona Francisca, e que decisão você acha que Bussac tomará?

Em lugar dele — disse Jennifer — eu mesma desapa­receria.

E eu também — confirmou ele, fitando-a com expressão grave. — Do modo como vejo, nosso amigo Bussac vai partir no momento mais próximo, tomando sua estrada particular para a Espanha. Levando Gillian.

Jennifer voltou-se e começou a caminhar, quando os pés já lhe pareciam feitos de chumbo, descendo a encosta na direção do portão do convento.

E Gillian quer ir.

Parece que sim.

Ela... ela podia ter falado comigo.

Stephen não fez qualquer comentário.

 

Você acha que ela está misturada, de algum modo, às atividades criminosas dele? E foi por isso que ela não me falou, e não me reconheceu?

Duvido muito, Jenny. Ela teria escrito para que você não viesse, se fosse assim.

Seguiu-se uma pausa.

         A coisa não se tornou mais clara, tornou? — pergun­tou ela.

         Também acho que não.

Em algum ponto ao sudeste, a trovoada murmurou. Ela ergueu o olhar.

         Trovão à direita...

A voz não parecia sua.

É o final feliz, Stephen. Parece que o drama não foi por nada, afinal de contas. A heroína não quer ser salva. Nada resta a fazer.

Oh, sim, resta. E muito — retorquiu ele, falando mais depressa: — Não podemos deixar a coisa assim, Jenny. Existe muito a ser explicado quanto ao papel de Gillian na estória. Com os diabos, querida, há uma coisa, desde o começo, que tem doído em mim: por que ela escreveu, convidando você para vir aqui, e depois não escreveu para que você não viesse? Ela teve três semanas para isso e, por certo, uma carta afastando você seria mais simples do que não reconhecê-la, depois de você ter vindo.

Jennifer levou a mão à cabeça.

         É claro! Se ela estivesse envolvida com Bussac nas atividades criminosas dele, teria movido céus e terra para impedir minha vinda!

         E Bussac — prosseguiu Stephen, em tom sombrio — teria pessoalmente posto essa carta no correio. Não, quaisquer que sejam as emoções de nosso amigo Bussac para com Gillian, não creio que possamos supor coisa alguma, da parte dela para com ele; se Dona Francisca exerce poder sobre Bussac ele, por sua vez, possui poder sobre Gillian. Muita coisa ficaria explicada, se fosse assim.

Tinham chegado à coberta da muralha do convento. Jennifer estacou e o encarou, falando baixo.

Que podemos fazer? Tentar detê-los?

Acho que devemos.

Eles já terão ido embora.

É muito provável. Mas quanto mais cedo formos à polícia, tanto melhor. Eles poderão ser apanhados na Espanha. E existe uma outra... circunstância... que eu gostaria de esclarecer, enquanto estamos por aqui.

Jennifer teve um olhar instintivo para o portão do convento.

Ela?

Ela. Não se esqueça de que ela prometeu ir lá à fazenda, depois das Completas. Se descobrir que se foram, talvez possa acompanhá-los para verificar que ele não a abandone. Provavelmente conhece o caminho. E a mim não agrada a idéia de que ela esteja livre para acompanhar Gillian.

Jennifer tremeu.

         Teremos de detê-la. Será preciso. A polícia acreditará em nós?

Stephen continuava sombrio.

Providenciarei para que acredite. Escute — disse, tomando-lhe as mãos e segurando-as com força. — É possível que Bussac não consiga afastar-se tão depressa assim. A viagem è longa, deve ser difícil, e ele talvez necessite de preparativos. "Lembre-se, também, de que Gillian desmaiou... isso pode -causar um retrato de uma hora ou duas.

Você acha que existe uma possibilidade?

Sempre existe uma possibilidade. Mesmo que a polícia não chegue a tempo de impedir Bussac, talvez consiga acompanhá-lo e pegá-lo, se nós fizermos com que ela aja depressa. Agora — disse, e o aperto de suas mãos aumentava — você pode entrar aí e chegar ao telefone sem ser vista?

Jennifer respondeu, com pensar:

Aqui não há telefone.

O quê? Oh, meu Deus, não deve ter, mesmo — e sua voz indicava desespero e cansaço. — Eu devia ter pensado nisso. Veja só as montanhas que eu iria remover, Jenny, minha querida. Tudo de que nós precisávamos era de um milagre e eles não acontecem mais. Bem, teremos de contentar-nos com pegar a loba; pelo menos, resta tempo bastante para que eu vá a Gavarnie e traga a polícia até à fazenda de Bussac, quando as Completas estiverem terminadas.

Soltou-lhe as mãos e ergueu as dele para acariciar o rosto de Jennifer, dizendo com muita suavidade:

         Não se preocupe, minha cara. Aposto a vida em que Bussac não a machucará.

Inclinou a cabeça como se fosse beijá-la, mas nesse próprio movimento Jennifer percebeu que êle se enrijava e se voltava no mesmo instante, como à escuta. Em seguida, baixou as mãos e empertigou o corpo. Voltou a falar baixinho, mas os olhos começavam a fuzilar.

         E lá está o meu milagre, por Deus afirmou. Quem disse que os milagres não acontecem mais?

Foi quando Jennifer ouviu também. Eram as batidas rápi­das de cascos de cavalo, descendo o morro e vindos do nordeste.

Luís? Milagre?

Transporte disse Stephen e riu.

Lá estavam eles, os três, o garanhão grande à frente, des­cendo a encosta com as crinas esvoaçando, os pêlos castanhos brilhando tanto àquela luz singular. O rosto de Luís parecia pálido quando se voltou para olhar o convento. Stephen ergueu o braço, fez gestos de urgência e começou a correr, coxeando, na direção dele. Luís, erguendo a mão em resposta, fêz com que o garanhão voltasse a cabeça. Stephen parou e se pôs à espera.

Camarada espetacular, não é ele? perguntou, com algum divertimento na voz.

Stephen disse Jennifer, que viera atrás dele, quase sem fôlego o que vai fazer?

Apanhar um cavalo emprestado, querida.

Mas Luís tentou matar-nos.

         O quê? Oh, aquilo. Não, Jenny, aquilo foi Bussac. Você não viu a mula? Estava suando. Êle tinha acabado de chegar. Deve ter visto você correndo do convento para encon­trar-se comigo e resolveu aproveitar a oportunidade para calar sua boca ou afastá-la daqui pelo medo. Notei que se sobressaltou, quando aparecemos na cabana dele, uma hora depois... Não se preocupe com o Luís. É amigo meu.

         Meu, não. Foi horrivelmente grosseiro e deu-me a impressão de que me odiava.

Stephen riu por instantes.

         Você deve ter sondado um terreno delicado para ele. Andou fazendo perguntas sobre o convento?

Suponho que sim. Que tem isso a ver com o Luís?

Tem tudo. Tem a ver com Celeste.

Antes que Jennifer pudesse piscar diante dessa nova informação, já os cavalos estavam ali, o garanhão fazendo uma parada abrupta, inteiramente suado, a pouca distância. O animal ainda não se detivera e já Stephen se pusera ao lado dele.

Luís, mon ami...

Monsieur?

         Escute, Luís, não posso explicar, não tenho tempo para isso. Mas é preciso que eu chegue a Gavarnie e bem depressa. Você me empresta Foix?

O rapaz permanecia sentado como se fosse feito de pedra, olhando para Stephen, os olhos escuros e inescrutáveis sob as pestanas compridas. O garanhão meneou a cabeça em gesto perverso, mas a mão de Stephen puxou-a para baixo, segurando-a com força.

—         Eh bien, Luís?

         Não é nada que tenha a ver comigo... ou... com os meus ?

Firmes, os olhos cor de avelã fitaram os do cavaleiro.

         Nada. Luís assentiu.

         Nesse caso eu empresto, com prazer — disse, os dentes aparecendo em um sorriso. — Se conseguir montá-lo, monsieur. Ele é um cavalo perigoso, nas horas boas, e o próprio Belzebu, quando há trovoada. Mas sabe andar depressa.

Luís girou na cela e desceu para o chão, aduzindo:

         Mas o senhor já sabe qual é o risco, naturalmente? Foix vai querer matá-lo.

         Eu me arrisco — afiançou Stephen.

Já se ocupava em preparar os estribos e falara distraida­mente, mas Jennifer protestou.

         Não, Stephen! Ele está falando sério! Não é brin­cadeira !

         Eu sei.

Luís tinha agora os três bridões na mão, e Stephen aproximou-se de Jennifer com rapidez, puxando-a a si.

         Mas acontece que isto é a coisa que posso fazer. Será a luta que vencerei hoje...

Puxou-a mais ainda a si, falando em tom de urgência:

         Eu vou-me embora agora, querida. Entre no convento e fique aí até que eu volte. O resto é por minha conta e por conta da polícia; é melhor você se manter fora disso.

Seus olhos brilharam por um instante, no esboço de um sorriso.

         Muito bem, minha pequena. Se eu conseguir chegar aqui a tempo, tanto melhor; se não, é certo que chegaremos à fazenda a tempo de preparar uma comissão de recepção para você. Ante então... trate de ficar fora de perigo, minha querida.

         Ficarei.

         E aconteça o que acontecer, o drama de hoje não foi em troca de nada, Jenny... Você não viu os portões dourados que se abriam para nós, lá em cima, no bosque? Não ouviu os clarins que tocavam??

         Todos eles.

Ele a beijou uma vez, e foi um beijo forte e curto, e depois se voltou depressa. A mão de Luís em ajuda, um salto rápido e ele estava montado. O garanhão, de olhos brancos, ergueu a cabeça, baixou as orelhas e começou a andar de lado, sacudindo a cauda. Luís, segurando ainda o bridão, falou-lhe em tom acariciante e depois dedicou um olhar aflito para cima.

Tem certeza, monsieur? Ele não gosta de pessoas desconhecidas e sempre foi difícil na trovoada, até mesmo comigo.

Darei conta. Quando eu chegar a Gavarnie, ele estará bastante sossegado, com trovoada ou sem ela! Pode soltar, Luís... e obrigado!

Luís recuou.

O cavalo, as orelhas murchas, as narinas alongadas, cami­nhou de lado e para trás, e sacudiu a cabeça, procurando controlar o bridão. Mas o cavalheiro o segurava com força e controlou o bridão, com pontapé que arrancou de Luís uma exclamação de satisfação e alívio.

Stephen lutava, agora para fazer com que o cavalo, movimentando-se em círculos, voltasse à trilha. Arrastou aquela cabeça rebelde para o lado e empurrou o calcanhar esquerdo. Foix, preso como se achava, lançou-se em arranco perverso para a esquerda, tentando arremessar de si o cavaleiro, por sobre o ombro nu.

         Diabo — disse Stephen, alegremente, e voltou a puxá-lo.

Dessa feita o animal seguiu o caminho certo em um salto comprido, como se fosse uma flecha, mas se pôs inteiramente parado, esticando as patas dianteiras para levantar poeira.

Jenny emitiu um gritinho, mas os olhos de Luís brilhavam, e eles ouviam que Stephen estava rindo, quando voltava a acicatar o garanhão com os calcanhares.

Vamos, garoto disse ele, entredentes.

Em seguida, bateu com força no pescoço do animal, usando as rédeas e, em uma tempestade de cascos raivosos, desaparece­ram em galope pelo vale abaixo.

Luís, com outro de seus olhares imperscrutáveis a Jennifer, saltou para um de seus cavalos e, sem dizer mais do que uma palavra murmurada, fêz com que os dois animais descessem para o rio. Os estampidos dos cascos ecoaram de modo singular naquele ar tranqüilo, em galope rápido e esmaeceram na direção do norte.

De repente o vale parecia um lugar vazio e abandonado... Ela se voltou depressa e abriu a porta do convento para entrar.

 

                           PACIÊNCIA

A chuva recomeçara. Eram gotas grandes, que pareciam cantar quando batiam na vidraça, atingindo-a com impactos pequenos, porém fartos. Além da vidraça, o vale parecia nadar em luz esverdeada e líquida, fantasmagórica sob o sol azul de ardósia, agora cruzado pelas diagonais pálidas da chuva.

O convento tinha ar de abandonado e as freiras se achavam ocupadas com suas tarefas de ensino, no outro lado do edifício, ou então tratando de afazeres próprios, em silêncio. Jennifer não passara por pessoa alguma, ao subir o corredor acima do refeitório. Tomara banho e mudara o vestido sujo e amarrotado, sentando-se agora no banco da janela à extremidade do corredor, apertando em volta de si um casaco, devido ao frio que fazia naquela sombra e forçando os olhos para ver o mais longe que pudesse, nas linhas esmaecidas do vale.

Estava tudo vazio, a não ser pelas flechas prateadas da chuva. Ela permaneceu sentada e imóvel, as mãos tranqüilas no regaço, prendendo-se aos pensamentos, calada, adestrando-se para esperar... esperar... Lá fora o vale estava deserto, a não ser pelo vento úmido.

Não; ela estava errada. Lá se via alguém. Alguma coisa, alguém, vinha subindo em corrida, no caminho dando para o Petit Gave, na direção do portão do convento.

Uma lufada de vento sacudiu a trepadeira que envolvia a janela, fazendo-lhe cair as gotas em número maior ainda sobre a vidraça encharcada, por onde a água escorria. Ela olhou para baixo, e uma anotação de sua memória vibrou, ao ver a figura esguia, de capa para proteger-se da chuva, marchando pela grama embaixo. Era Celeste, a quem a tempestade fazia regressar de alguma excursão mais ou menos culposa, algum desígnio que a levara lá embaixo, à beira do Petit Gave. Era verdade, então: Celeste e Luís era verdade. Os lábios de Jennifer se curvaram involuntariamente, ao ver que a jovem trazia flores talvez fossem mais gencianas, para a pobre sepultura no cemitério. Se as gencianas não tinham sido outra coisa senão uma desculpa para sair e encontrar o namorado, nesse caso a hesitação e a atitude culposa da jovem ficavam explicadas. Era de notar que ela não se importara com as perguntas, quando a tesoureira não se encontrava por perto. Outras recordações surgiram a expressão de posse quase selvagem, com que Doria Francisca parecera estar pensando na jovem; o relance de ciúme impaciente em seu olhar, diante dos cuidados evidentes que Celeste dispensava à sepultura; o pequeno missal vermelho e tão lindo, o "presente em Deus"...

Jennifer levantou-se quando Celeste chegou ao portão, lá embaixo. Não desejava ser apanhada a vigiar o vale. Caminhou com rapidez pelo corredor até o quarto, enquanto sua preocupação aguda era permeada por uma sensação forte de pena da moça, tão jovem e tão ignorante, tão tolhida pelos laços de educação e fé, e agora cruelmente em dúvida pois devia estar assim entre a promessa radiosa do jovem gascão e a vida branca e estreita, a única que conhecia, no convento. Não era de espantar que houvesse lágrimas e sofrimento na pequena capela. E não era de espantar, pensou Jennifer, ao ter uma recordação vívida de Luís, montado no grande garanhão dourado, não era de espantar que ela se arriscasse a fazer o que fazia para revê-lo, uma vez e outras vezes...

Celeste devia ter deixado o encontro mais uma vez a tempo de chegar à capela; havia um certo simbolismo evidente no modo pelo qual o sino começava a dobrar, chamando à devoção. Três notas mais uma vez, levadas pelo vento. E mais três. Ela consultou o relógio, tomada de incredulidade. O Ange­lus? Seis horas? Duas horas, desde que Stephen tinha descido o vale, e ainda não se via qualquer sinal de luz, nenhum automóvel, nenhum grupo apressado e destinado ao sal­vamento ...

Ela mordeu o lábio com força, ao sentir o assomo de pânico. Ele não magoaria Gillian; a esse respeito, não podia negar, Stephen tinha razão; e se a levasse dali, seria seguido. Ele não vai magoá-la. O perigo único estava em Dona Francisca, e esta ficaria retida com segurança até dez e meia, quando terminassem as Completas.

Mas, ficaria mesmo?

O sino batia com firmeza, anunciando as vésperas. Jennifer dedicou rápido olhar ao espelho, passou o pente pelos cabelos e saiu para descobrir isso.

 

Seus passos ecoavam isoladamente pelo corredor de penumbra. Os degraus de madeira rangiam e emitiam um som mortiço; os ladrilhos no refeitório vazio estralejavam nos saltos de seus sapatos. O túnel estava cheio de vento lamurioso e da voz fria e distante do sino.

A capela, aquecida e acolhedora com o brilho de meia centena de velas acesas, parecia um mundo diferente, um mundo onde havia luzes e sombras flutuando, imersas no incenso e o cheiro de cera queimada. Os acordes do órgão apresentavam-se e engrossavam-se, em marcha firme. Sobre as luzes enfileiradas no altar mais elevado, os santos aspiravam e os anjos voavam. Ela se ajoelhou a um canto de sombra perto da parede, exata­mente quando a música chegava a seu encerramento e o sino parava de tocar.

Doña Francisca estava em seu banco de costume, um pouco a distância, hirta e imóvel como uma escultura na tela por trás. O rosto, reservado e austero, brilhava sem vida à luz das velas, como o rosto de uma estátua, destituído ao mesmo tempo de bem e de mal. Jennifer, observando-a com olhos novos, por assim dizer, notou o controle rígido que se denunciava nas mãos, na boca, nas pálpebras. Todo o ser da mulher fora disciplinado à mesma paciência de esperar... esperar... Em seu peito, todavia, o rubi pulsava como uma coisa viva.

Continuava chovendo. A escuridão tornou-se maior em volta do edifício iluminado; na parte externa das janelas já era noite e as vidraças enegrecidas brilhavam apenas com o reflexo das velas e da lâmpada do santuário. A chuva esbatia-se nas paredes, como punhos cerrados atirados ali na saraivada de chumbo, mas por cima das portas a tapeçaria continuava firme e as chamas enfileiradas das velas não balançavam. A música crescia e voava, em sóbrio êxtase latino. Jennifer, ajoelhada a seu canto, segurando as costas da cadeira à frente, procurava não pensar, apagar da mente a visão da pequena fazenda, com sua porta fechada e as janelas encobertas, o rosto de Gillian na escuridão que balançava. Deviam estar lá agora. Stephen e a polícia chegariam a tempo. Nada restava a fazer, da parte dela. Nada, senão aguardar.

O ofício religioso chegava ao fim e todos saíam silenciosamente para o refeitório. Ela verificou estar sentada ao lado da prioresa, na mesa maior, e conseguia até mesmo comer, mas embora devesse estar com fome, o excelente carneiro cozido tinha o gosto de cinza e as maçãs que vieram depois apresenta­vam o sabor de frutas do Mar Morto. Jennifer deu graças ao costume que designava uma das freiras para ler em voz alta durante as refeições, lendo alguma obra religiosa, pois isso significava que não tinha de conversar com a Reverenda Madre, ser interrogada onde Doña Francisca pudesse ouvir, sabendo como tinha passado o dia. Ela dedicou um olhar furtivo à janela mais próxima gesto fútil, pois as janelas nada mais eram que oblongos opacos de escuridão gritante, contra os quais a luz 'da lâmpada nada conseguia. E ainda assim a voz da freira que lia prosseguia plácidamente e os olhos encobertos a obser­vavam do pé1 da mesa, e seu coração disparava, parecia subir-lhe à garganta, ao fitar o prato e esperar...

De repente, tudo acabava. Cadeiras se arrastavam, entoa­va-se a oração de graças, a prioresa encabeçava a fila branca e negra de freiras, saindo do aposento, Doña Francisca seguia sem olhar para trás e Jennifer se achava mais uma vez livre no corredor das noviças, podia voltar à sua vigilância dilace­rante, entre as janelas. E se o corredor estivera vazio antes, agora a escuridão maior conferia um ar zombeteiro a esse abandono. O coração ainda descompassado, Jennifer fez uma pausa no patamar da escada, olhando para a fileira de portas fechadas, e depois foi novamente para a janela que dava para o vale.

Nada. Nada, senão a escuridão.

Ela se voltou e correu para o quarto, encostando o rosto na janela de lá. E então, tomada por assomo de frustração, abriu a janela. Segurou-a contra o vento que a empurrava, inclinou-se para a chuva, os olhos esforçando-se para ver na direção do pinheiral, na encosta do sul. Recebeu no rosto o estrugir das árvores e o cheiro forte de mais de mil ervas que a chuva esbatia e sacudia, nada mais. E entardecia.

Recuou devagar, lutando em vão para recobrar a calma que perdera. Se tinham chegado a tempo de deter Bussac, com certeza já estaria voltando pelo vale, trazendo Gillian a salvo, rumando para o convento. Ou esperariam lá em cima, todos eles, até que aquele sino frio tocasse outra vez, anun­ciando as Completas, em três horas, De repente o cansaço pareceu envolvê-la. Ela mordeu os lábios, ao fechar a janela. Três horas mortais a se arrastarem...

Ao fechar a janela, então, uma luz apareceu na escuridão além. O coração de Jennifer teve um sobressalto doloroso, mas no mesmo instante notou que a luz não era na escuridão da noite, mas por trás, no quarto. Ela se voltou e viu Celeste em pé, emoldurada no umbral da porta, estendendo uma das mãos, em que tinha uma vela acesa.

Jennifer fechou a janela e a chama da vela firmou-se. Atrás da mesma, a jovem a fitava com olhos negros e intra­duzíveis.

         Quero falar-lhe — anunciou, e seu tom de voz era abrupto, quase hostil.

Jennifer afastou-se da janela.

         Muito bem — concordou, cansada e sem grande inte­resse. Estava inteiramente concentrada na escuridão sem vida, além da janela. — Do que se trata?

Sentou-se na cama e ficou à espera. Achava que era um modo tão bom de passar o tempo quanto qualquer outro.

Celeste fechou a porta e ficou de costas para a mesma, ainda com a vela na mão. À luz que fluía como líquido dourado, parecia muito bela, uma criatura de sombras compridas e esplen­dor ondulante. Parecia também muito dramática. Jennifer, muito cansada e tensa ao ponto do esgotamento, notou isso com receio.

         É melhor você pôr a vela em algum lugar — observou. A jovem obedeceu, colocando-a sobre a cômoda, de modo

que o rosto da Madona se iluminava com sorriso incerto e as letras douradas do missal brilhavam bastante.

Ela disse, em voz que não era natural, por estar alta e desafiadora:

Eu saí esta noite para ver meu namorado.

Sim. Eu vi você.

Os olhos escuros se alargaram.

         Então, já sabe?

Oh, sim. Ontem à noite também vi você sair, embora não soubesse para onde ia, naquela ocasião. Acho — aduziu Jennifer, com esboço de sorriso no rosto cansado — que é melhor você vê-lo com um pouco menos de freqüência, se não quiser ser descoberta.

Parecendo muitíssimo surpresa, Celeste abandonou a pose heróica e sentou-se na cama, fitando Jennifer com ar de dúvida.

         Quer dizer que não vai contar aos outros?

         Eu? Não, Não é de minha conta, afinal. O que acon­teceria, aliás, se eu contasse? Contasse à Reverenda Madre, é o que quero dizer.

Celeste deu de ombros, em gesto taciturno.

         Nada de mais, ao que acho. A Reverenda Madre já me disse muitas vezes que eu não tenho vocação. Ela diz que devo sair, arranjar emprego e levar uma vida comum, algum dia casar e... ter filhos.

Jennifer surpreendeu-se e deu isso a notar.

         Mas, bom Deus, Celeste, você certamente não acredita que a Reverenda Madre aceitasse essas idas e vindas? Você, por certo...

A jovem retorquiu no mesmo instante, indignada:

         Não há nada demais nas minhas saídas!

Jennifer ergueu as sobrancelhas e silenciou. Os olhos negros de Celeste fitavam os seus, em desafio, e logo a jovem corava e olhava para outro lado, os dedos puxando a colcha.

         Bem, não há. Só porque elas são secretas! Jennifer manteve silêncio, fitando a janela e vendo por ali

o vale escuro e abandonado. Estava positivamente fora de sua alçada, como dissera, intervir na vida de Celeste e de sua consciência. Mas ao voltar-se para o quarto percebeu a expressão da jovem e a juventude perplexa de seu olhar despertou um acorde de piedade nela, o que a levou a oferecer ajuda, atitude talvez desaconselhável. Ela disse, com gentileza:

         Mas você vai ter de decidir-se, sem demora, Celeste. Não pode continuar assim! Não é justo para você, ou para Luís, ou a Reverenda Madre. Se você não tem "vocação" para tornar-se freira, e a prioresa sabe disso, por que não vai falar com ela...?

Os dedos de Celeste enterraram-se na colcha e ela se sentou com um solavanco.

A senhora não vai dizer a ela!

Já afirmei que não — repetiu Jennifer, em tom fatigado. — Isso cabe a você. E é preciso que o faça, como sabe. Precisa decidir-se. E se não tem "vocação", nesse caso, pelo amor de Deus, aceite o conselho da Reverenda Madre e saia, para levar uma vida comum. Ela tem suas... recompensas.

Celeste não disse coisa alguma, mas os dedos começaram a puxar e amarrotar outra vez a colcha de algodão. Em seguida ela explicou, com dificuldade:

         Mas eu tenho uma vocação, na verdade. É Dona Fran­ca quem diz. Ela não admite que eu fale em sair daqui, nunca.

Jennifer replicou, com mais aspereza do que pretendera empregar:

         Você é a pessoa única a resolver isso. Está apaixonada pelo Luis?

         Sim murmurou Celeste, os olhos marejando. Jennifer examinou-a bem. Tornava-se claro que era verdade.

Como podia Celeste evitá-lo? E como, já que se tratava disso, poderia Luís evitá-lo? Lembrou-se da frustração ardente em toda a atitude do rapaz e em sua voz, quando perguntara: "É al­guma coisa que tem a ver comigo... e com os meus?" Bem, êle teria de lutar muito para fazer-se valer, caso Celeste se recusasse a seguir qualquer outro conselho, senão o de uma mulher de forte instinto proprietário, cuja natureza azedara, transformando-se em puro mal. Se não interpretara erradamente a ex­pressão que surpreendera no rosto de Dona Francisca, na capela, a espanhola exerceria toda a força da personalidade forte e influência pessoal sobre a jovem que ali estava. Enquanto isso, havia outros perigos...

Ela perguntou, sem rodeios:

         Luís já falou em casamento?

A cabeça de Celeste ergueu-se e em seus lábios surgiu um sorriso altivo e tímido ao mesmo tempo, muito belo e comovente.

Oh, sim.

Êle poderia sustentar você?

         Oh, sim! O tio tem uma fazenda em Argelès, uma fazenda grande, foi o que o Luís disse, com uma manada de vacas de leite e... oh, tudo! O homem não tem filhos e a fazenda ainda vai ser do Luís. Êle disse que nós podemos...

O brilho desapareceu de modo abrupto e a jovem aduziu, em tom mecânico e levemente delambido:

         Mas, naturalmente, não é possível. Não, quando alguém tem vocação para uma vida mais elevada.

         E você tem tanta certeza de possuir essa vocação?

Claro que sim. Foi Dona Francisca quem disse.

Jennifer mordeu o lábio e disse, em voz tranqüila:

Você faz com que eu tenha muita pena do Luís. Celeste pareceu muito surpresa.

Do Luís?

         É claro prosseguiu Jennifer, com suavidade. Celeste, é muito natural que você... goste de Dona Francisca, assim como tenho a certeza de que ela gosta de você... Mas pense por instantes. Você sabe que Dona Francisca deseja há muitos anos entrar na Ordem, aqui, e que... diversas coisas... impediram que ela entrasse?

A jovem assentiu, parecendo confusa.

Jennifer mediu bem as palavras.

         Isto é difícil de explicar, Celeste, mas creio sincera­mente que seja a verdade. Será que Dona Francisca vê você, de algum modo, como se fosse ela mesma? Que ela não está levando em conta você e sua vida tanto quanto fazendo de você uma espécie de projeção dela mesma, uma espécie de segunda vida?

Fez uma pausa, acrescentando então:

         A Reverenda Madre diz que você não tem vocação. E ela já disse o mesmo uma vez a Dona Francisca. Pois bem, Dona Francisca insiste em que você tem vocação e que deve ficar aqui (seja sincera, agora!) mesmo contra sua inclinação, e que você deve, na verdade, deixá-la... como posso dizer isso?... realizar-se em você.

Percebia, porém, a incompreensão total nos olhos da jovem, e parou no que ia dizer. Sorriu, aduzindo com gentileza:

         Você sabe, Celeste, a Reverenda Madre é conselheira a mais capaz, com certeza, na questão de vocações. Você não consegue acreditar, em seu íntimo, minha cara? Ainda mais quando a Reverenda Madre diz que você pode?

Por momentos a jovem pareceu hesitar, mas logo dizia, obstinadamente:

—         Dona Francisca não concorda com a Reverenda Madre. Eu sei, porque ela me disse que já conversaram muitas vezes sobre isso. A Reverenda Madre é velha, muito velha, mas Dona Francisca é inteligente e boa, e me conhece melhor do que qualquer outra pessoa!

         Ela sabe do Luís?

Celeste ficou lívida e pareceu encolher-se.

         Não.

         Nesse caso, ela não conhece você tão bem assim, não acha? — disse Jennifer, secamente.

Estava espantada com a onda de repugnância e — sim, ódio, que a varria, diante da reiteração terna, quase reverente, do nome da tesoureira. Voltou a cabeça rapidamente na direção da janela, cerrando os punhos no regaço, como se ao fazê-lo pudesse controlar as emoções e tolher o impulso de denunciar a tesoureira e fazê-lo àquela criança infeliz. Mas tinha seus próprios medos com que lutar. Não estava pronta — nem capacitada — a interferir mais, em questão que parecia ser caso simples de sentimento exagerado de posse, mas que devia parecer, aos olhos de Celeste, uma escolha entre a vida mortal e a vida com Deus.

Na verdade, havia tanta coisa que Celeste procurava expli­car, em um murmúrio hesitante, do qual Jennifer só conseguiu entender algumas frases singulares em francês deficiente... "Tão sábia", estava dizendo quase para si, o rosto voltado para outro lado, "Dona Francisca... aquele tipo de vida... marido... filhos..." e então, de modo ainda mais suave, Jennifer ouviu a palavra isolada: "Pecado".

Ela se levantou e abriu uma gaveta com estrondo, tirou de lá os cigarros e voltou a fechar a gaveta com estrondo. Caminhou com passos firmes pelo quarto, pôs o cigarro na chama da vela, puxou-o e depois empertigou o corpo e exalou baforada comprida e reconfortante. A fumaça percorreu o quar­tinho, seu cheiro forte parecendo chocante naquela atmosfera estéril do convento. Mas trazia o mundo — o mundo agra­dável, comum, sujo e pecaminoso — que se punha entre ela e as emoções fortes de uma cena que se tornara intolerável. Ela disse:

         Não é para isso que você veio falar comigo. Do que se trata?

Celeste parou de falar e a observava, com expressão de choque. Jennifer sentiu uma pontada de divertimento irônico. Voltou a inalar o cigarro e repetiu a pergunta:

         Do que se trata?

Celeste pareceu momentaneamente surpresa. Hesitou, mas ao lembrar-se de alguma indignação corou. Sentou-se ereta na cama e voltou ao início da conversa.

Eu estive com Luís hoje.

Já contou isso.

         E ele me disse — prosseguiu a jovem, em quem a ver­melhidão aumentava, ao mesmo tempo em que os olhos lindos fitavam raivosamente os de Jennifer — ele me contou que a senhora andou fazendo perguntas sobre o falecimento de Madame Lamartine. A senhora e seu namorado.

O cigarro de Jennifer foi detido pela mão que também parou, a caminho dos lábios.

— Eu e o meu o quê?!      

Celeste a fitava agora quase com raiva.

         Seu namorado. Luís disse que ele é isso. Não é seu namorado?

Jennifer sentou-se vagarosamente na cama.

         Eu... bem, sim, acho que é. Eu não tinha... — e ela fitou a outra jovem, tomada por certo tipo de surpresa. — Sim, ele é meu namorado. — corroborou, e foi quem sorriu, dessa feita.

Celeste, que quase não aguardara a resposta, continuou:

         Por que continua fazendo essas perguntas? Por que o Luís diz que existe alguma coisa suja na morte de Madame Lamartine?

         Ele diz isso?

         Sim, diz! Que a senhora e o inglês parecem desconfiar de algum tipo de mistério. É verdade, não? Foi por isso que a senhora me fez todas aquelas perguntas! De que me acusa?

         A você? De nada.

         Não é verdade! — e o peito de Celeste arfava, o rosto estava rubro, os olhos fuzilando.

Parecia muito linda. Assaltada pelo desânimo, Jennifer percebeu que fugir de uma tempestade emocional para cair em outra.

— Pensa que eu a envenenei? — indagou Celeste, em tom ardoroso.

Jennifer esforçou-se por controlar a impaciência, por não deixar que transparecesse na voz.

Oh, Celeste, não seja boba! Claro que não! É coisa que nada tem a ver com você. Posso garantir...

Nesse caso, o que pensa que foi sujeira? De que des­confia? O que pode haver de mais?

Nada! Nada a que você pudesse estar ligada. Por favor, creia em mim, Celeste. Ninguém poderia imaginar, por um só instante, que você tenha feito qualquer coisa senão o melhor, por... por Madame Lamartine.

Mas ontem a senhora me fez perguntas, acusou-me de esconder coisas, quando eu garanti que não sabia...

Não é isso. Sinto muito, se a interroguei assim. Eu estava perplexa, tinha de descobrir. Mas acredito em você, acredito sinceramente.

         Se é assim, qual o mistério? — interpelou Celeste.

         Olhe — disse Jennifer, cansada. — Não existe mistério algum, no que diz respeito a você. As perguntas que nós... o inglês e eu... estivemos fazendo são exclusivamente de nossa conta. Elas têm a ver com a morte de Madame Lamartine, mas não dizem respeito a você. Juro. E agora, está satisfeita?

Celeste, todavia, continuava a ferver.

         Eu tratei dela — disse, obstinada — e estive com ela quase até o momento em que morreu. Isso me afeta, sim. Tenho o direito de saber de que vocês desconfiam.

Jennifer apelou para os últimos farrapos de paciência e envolveu-se neles com ar digno, dizendo tranqüilamente:

Não posso contar-lhe, Celeste. Se você não aceita mi­nhas afirmações, terá de aceitar o que lhe diga agora. Não posso contar-lhe nada... hoje.

Hoje? — e a voz da jovem sofreu alteração ao repetir a palavra e ela sentou-se mais à frente, o corpo retesado e tremendo, os olhos brilhando.

Com pavor, Jennifer percebeu os sintomas da histeria iminente. Tratou então de dizer, mais do que depressa:

         Escute, minha cara...

A jovem não deu atenção, todavia. Inclinou-se à frente no leito, a cabeça adiantada e o olhar acusador, e voltou a gritar:

         Hoje! Sim, fale-me sobre isso, mademoiselle l'anglaise? Que vai acontecer hoje? Por que olha assim, com o rosto pálido e as mãos tremendo e os olhos... sim, seus olhos esperando?

Jennifer contrapôs, com aspereza.

Por todo o dia a senhora andou assim — gritou Celeste, com estridência. — Eu a vi, rondando e vigiando, pensando em nós. Eu a vi! Oh, sim! Eu a vigiei também! E hoje! O que está esperando? Por que espia pelas janelas? O que está procurando no vale... hoje?

Celeste, pelo amor de Deus...

A outra a interrompeu com um grito:

         É a polícia?

Houve passos no corredor, os passos macios de uma freira. Jennifer se pôs em pé, tremendo.

         Cale a boca, sua imbecil do inferno!

Tomada de terror novo, que lhe fustigava os nervos, e tra­zida também para mais perto da histeria do que percebera, Jennifer falou como jamais teria falado antes. Mas as palavras brutais tiveram efeito. Celeste encolheu-se, arquejou, e quando voltou a falar, embora a voz continuasse abalada e hostil, era mais baixa.

Ela disse, em tom quase triunfal:

Eu tinha razão, viu? Luís disse que o inglês falou com o gendarme hoje de manhã e que tinha ido buscar a polícia hoje à noite. Por isso, não precisa tentar enganar-me, dizendo que não há nada demais!

Eu não disse isso. Disse que não era coisa que tenha a ver com você.

Celeste deixou a cama e a enfrentou, os olhos brilhando à luz da vela.

Mas diz respeito ao convento, mademoiselle, e não está certo que a senhora, uma estrangeira e intrusa, traga problemas a nós, dessa maneira. Não vou deixar que faça isso, não vou!

Celeste. Para onde vai agora?

A jovem voltou-se, já de mão no fecho da porta.

         A senhora disse que nada tem a ver comigo, mademoiselle... e pode ser assim... mas existem aqueles que estarão interessados!

Jennifer adiantou-se.

Não, Celeste, você não deve aborrecer a Reverenda Madre...

A Reverenda Madre? e Celeste dedicou-lhe outro olhar candente, enquanto se voltava para ir embora. Não vou falar com a Reverenda Madre! Doña Francisca é quem está interessada, e vamos ver como a senhora responde a ela, made­moiselle l'anglaise.

Dizendo isso, escancarou a porta.

O salto que Jennifer deu foi puramente instintivo. Em ques­tão de momento, a situação se modificara: onde fora apenas exacerbadora, tornava-se agora de todo perigosa. Assim sendo, adotou medidas drásticas, sem pensar melhor. Saltou pelo quar­tinho e agarrou Celeste pelo braço, puxando-a da porta e fechando-a com um pontapé.

Com a rapidez de uma gata, a jovem voltou-se para en­frentá-la.

         Deixe-me sair!

Jenny, arquejando, tentou falar com calma:

Escute, por favor!

Deixe-me sair! e a jovem começou a lutar selvagemente, libertando o braço e atirando-se mais uma vez à porta.

Quando pegou o ferrolho, a mão de Jennifer fechou-se na dela, segurando-a com força.

         Deixe-me sair! — arquejava e soluçava Celeste, contorcendo-se na porta, segura por Jennifer. Vou falar... com Doña Francisca...

Além da porta, os passos se fizeram ouvir mais uma vez e, em algum lugar, um ferrolho estalou.

—         Deixe-me sairl e Celeste respirou fundo, para gritar. Jennifer disse, cheia de desespero:

—         Para avisar aquela assassina?

O rosto da jovem endureceu-se, tornou-se imóvel. A respiração soluçante pareceu parar. Jennifer soltou-a e afastou-se. Estava enojada e aturdida. Sentou-se na cama e olhou para o chão. A ponta do cigarro estava onde a deixara cair, ardendo devagar. Ela adiantou o pé e a esmagou.

Celeste disse:

         Do que está falando?

Jennifer ergueu o olhar para fitá-la, com relutância. Celeste continuava encostada na porta, mas já não havia qualquer atitude dramática na jovem. Tampouco parecia bela. Tinha o rosto angus­tiado e astuto, o corpo encostado na porta, como se somente esta a impedisse de cair.

A voz era baixa e sem entonação, como a de uma criança. Ela disse:

         Agora, vai ter de me contar, sabe?

         Sim — concordou Jennifer. — Sim, vou ter de contar a você. É melhor que se sente.

         Estou bem.

Jennifer afastou o olhar, fitando a janela escura, o vale onde o vento da tempestade abria caminho em meio da relva que se curvava. Não via luz ou movimento algum. Mas sentia-se cansada, também cansada demais para se preocupar.

Da porta, Celeste incitou:

         Pode falar.

Com leve suspiro, Jennifer começou a fazê-lo...

Talvez fosse um erro conversar com Celeste, logo de início, mas erro que dificilmente poderia evitar. Também inevitável fora a enunciação da acusação terrível que fizera. E uma vez dito isso, o terceiro passo desastroso tinha de ser dado. Mesmo tendo consciência dos perigos de ter de destruir um ídolo diante de seu adorador, fora preciso enfrentar coisas em demasia, aquele dia, para perceber bem os riscos do passo que se vira obrigada a dar. Esgotada pelas tempestades do dia, evitou olhar para Celeste e, mantendo a voz em tom impessoal, os olhos fitos na escuridão além da janela, fez seu relato.

Explicou as coisas sem ocultar os sentimentos, falou das gencianas, da surpresa que sentira, da desconfiança e inquietação a aprofundar-se, chegando ao ponto da certeza. Falou da carta encontrada por trás do tríptico, da decisão de investigar o enigma do falecimento da prima e, finalmente, falou da corrida pela encosta da montanha, à meia-noite, e do que acontecera por lá.

         E o que minha prima está fazendo por lá, não sei — prosseguiu — mas isso não importa. Logo saberemos. O que importa é que sua Dona Francisca está nisso... metida até o pescoço, e é algo tão perigoso que ela não parará diante de coisa alguma para impedir que façamos perguntas. Eu estive lá e ouvi as palavras dela, bem claras, exigindo que Pierre Bussac eliminasse minha prima Gillian...

Foi quando ergueu o olhar, e algo mais que pudesse dizer congelou-se em seus lábios.

Celeste estava acocorada à porta, ainda como um animal, e sua pele era como a cera à luz da vela. A carne em suas faces e têmporas parecia ter encolhido, aguçando-lhe os traços fisionômicos, transformando-os em uma máscara feia. Os olhos negros e grandes estavam vazios de qualquer expressão, eram como os de um fantasma.

O coração de Jennifer retorceu-se, ela se inclinou à frente e pediu, com aflição:

Não fique assim, Celeste! Minha cara!

Os lábios moveram-se em sussurro.

É verdade?

Sim... eu... é verdade. Mas...

Jura... a... mim... que... é... tudo verdade?

Celeste...

Jura?

Jennifer disse, em tom impassível:

         Não tenho certeza quanto à chantagem que fez com Pierre Bussac, mas a outra... o assassinato.

         Ouviu ela falar?

Sim, ouvi — respondeu Jennifer, movimentando-se e estendendo a mão. — Eu... eu sinto muito, Celeste. Não posso dizer o quanto lamento. Bem queria que você não tivesse de saber.

Foi bom eu saber — disse a jovem, em cochicho quase inaudível, e Jennifer fitou-a com aspereza.

Acho que a Reverenda Madre... será melhor eu levar você... — começou a dizer, cheia de incerteza.

Não — atalhou Celeste, endireitando o corpo, movimentando-se depressa e estendendo a mão para a capa que estava jogada sobre a cama.

         Que vai fazer? — perguntou Jennifer, com severidade. Sem responder, todavia, a jovem abriu a porta e desapa­receu como uma fúria no corredor escuro.

 

                            ABERTURA TRÁGICA

A chama da vela, inclinando-se para o lado na corrente de ar foi apagada pela porta batida com estrondo. O cheiro de cera queimando vinha varando a escuridão.

         Oh, Deus! disse Jennifer com um soluço abafado de apreensão, atirando-se na direção da porta, as mãos cegas tateando na treva.

A superfície lisa da porta foi o que encontrou, rechaçando os dedos apressados. Ela passou as mãos pela porta, apalpando, escorregando, por momentos eternos, até encontrar o ferrolho.

Abriu a porta e saiu em^carreira pelo corredor, procurando cegamente o patamar da escada do refeitório.

         Celeste! chamou, em tom de voz cheia de apreensão. Celeste!

A jovem, todavia, já desaparecera. Jennifer não se deu ao trabalho de adivinhar para onde Celeste fora, pois somente podia ser na direção do desastre. Desceu as escadas em velocidade maior, na direção do oblongo de luz fraca que era a porta do refeitório.

Também aquele aposento se achava vazio, mas um cheiro fantasmagórico de calor e alimento ainda pairava por lá. Uma só lâmpada, bem alta na parede, distribuía luz fraca e incerta. A porta do túnel achava-se aberta, balouçando ao vento, e o próprio túnel estava cheio de sons frios e lamentosos vindos da tempestade. A tapeçaria grossa, cobrindo a porta da capela, oscilava como se alguém houvesse acabado de passar por ali... naturalmente, a capela. Celeste estaria lá. Para o navio acossado pela tempestade, um porto seguro...

Jennifer, a mão já na tapeçaria, deteve-se hesitando entre a pena e o alívio. Mas enquanto decidia o que fazer, tudo se resolveu de outro modo. A voz de Doña Francisca indagava, com aspereza:

         Aonde vai?

Todos os nervos no corpo de Jennifer tiveram um sobres­salto e formigamento. A mão afastou-se da tapeçaria, como se aquilo estivesse eletrificado. Foi quando compreendeu que a voz viera do lado interno da tapeçaria, dentro da capela.

Acontecera, então. Celeste, quer por acidente ou intuito, fora diretamente aos braços da tesoureira.

Jennifer puxou de leve a beira do tecido grosso. Uma folha da porta que encobria estava fechada. Ela passou por ali, indo à treva entre a cortina e a porta. Olhou para o interior da capela, o coração disparado.

O pequeno templo não estava iluminado para ofício reli­gioso, mas duas lâmpadas brilhavam na parede, e em diversos ninhos e nichos nos corredores as velas brilhavam, a lâmpada do santuário refulgia em vermelho firme e claro, e na capela lateral uma outra lâmpada menor fora acesa, parecia-se a um rubi.

Debaixo dela estava Celeste, rígida e empertigada. Doña Francisca, interrompida em algum afazer no pequeno altar, encarava a jovem. Em meio àquela atmosfera carregada de incenso, vinha uma fuga de Bach, tocada ao órgão pela Irmã Marie-Claude, isolada e distraída em sua pequena sobreloja.

Jennifer, congelada de medo, permaneceu no abrigo da tapeçaria, a mente transformada em redemoinho de indecisão e terror, quando em meio a uma frase mais baixa da música, ouviu que Celeste falava. Ela se exprimia em voz dura e fria, que Jennifer não a ouvira usar antes. Dizia:

         Foi o que vim contar. Vou embora, senhora, esta noite, e nunca mais voltarei. Nunca mais, ouviu bem?

A tesoureira fitava Celeste como se esta houvesse enlouquecido.

         Celeste! Do que está falando? Ficou doente? Minha filha... minha cara filha...

Deu um passo na direção da jovem, mas Celeste, sem se mover, disse com clareza:

— Afaste-se de mim. Não se atreva a tocar-me!

Celeste — e a dona da voz dura parecia estupidificada, mas logo transparecia sua raiva. — Como se atreve a me falar assim? Ficou louca? Sabe com quem está falando?

Oh, sim — e a resposta foi tão gentil quanto a morte, tão fria quanto ela. — Você é Doña Francisca, que por todos

«stes anos eu pensei que amava. Tudo isso acabou. Não, não ine toque. Quero explicar o motivo pelo qual vim despedir-me... por causa de todos esses anos, porque não consigo esquecer de todo... — e a voz fraquejou, mas ela disse, em tom de horror: Mesmo esta noite, em que você foi boa para mim, a seu modo.

—         Esta noite?

Jennifer, que levara a mão à garganta seca, viu que a espanhola enrijava o corpo, notou que os olhos negros se estreitavam à luz da vela.

—         De que está falando, Celeste? Por que "mesmo esta noite"?

Pela primeira vez a jovem se moveu; foram apenas as mãos que agarraram as dobras da capa, mas o gesto, curioso que fosse, era cheio de força dramática. Ela disse, a voz endurecendo-se:

         Deu para entender, não? É verdade, então. Engraçado, mas eu sabia que era verdade, logo que ela me contou.

Dona Francisca voltava a falar, e o fazia com muita sua­vidade.

         Quem contou a você, Celeste ?

         A moça inglesa. Você não ia querer que eu conti­nuasse aqui, depois do que ouvi, pois não?

Foi quando a mulher se moveu, como uma víbora que desfere um bote. Sua mão comprida estendeu-se e agarrou Celeste pelo ombro. Ela disse, sibilando:

Que é que ela sabe? Celeste não se moveu.

Assassinato disse, em voz calma.

Em meio ao silêncio a música irrompia, distante e an­gelical.

E então Celeste, com movimento rápido e violento, livrou o ombro que a espanhola agarrara, e a capa foi puxada para o lado, quando o algodão fino do vestido azul se rasgou. Ela desferiu um soco na mão da mulher mais velha, a voz, ainda automaticamente baixa por influência do lugar onde se achavam, veio em cochicho mais chocante do que um grito:

         Vou embora agora. Embora de você e de suas belas palavras e suas coisas cheias de piedade. Vou embora agora, para meu namorado... aah! Não sabia disso, sabia? Tenho um namorado e faz muitas semanas que me encontro com ele, lá na montanha. Você chamaria isso de pecado, tenho certeza, Dona Francisca! Pecado! Talvez seja. A mim não importa. Se fôr pecado, é melhor que seu tipo de santidade!

Ela recuara ao dizer isso, dirigindo-se para a porta do sul e a luz forte das velhas tremelicava enquanto a iluminava. Celeste fez uma pausa no umbral da porta e o desdém que endurecera seu rosto, como se fosse congelamento, rompeu-se e derreteu, transformando-se em lágrimas. Ela abriu os lábios para falar outra vez, mas não emitiu som algum. Voltou-se às cegas e escancarou a porta.

A capa negra rodopiava em volta dela, como se fosse uma nuvem. Em questão de momento estava lá, presa na luz contra as sombras da porta enorme. E logo desaparecia, no outro instante, e a corrente de ar vinda da noite fazia com que as chamas das velas se dobrassem e se estendessem no ar.

 

A porta da capela, emoldurando um quadrado de noite negra e cheia de vento, bateu pesadamente uma vez, duas.

Dona Francisca permaneceu ali por longos momentos, rígida em sua posição singular e parecida à de um pássaro, e a mão que agarrara a jovem e que Celeste arredara de si com um soco continuava estendida, como uma garra, na direção do portal vazio. A outra fora levada ao peito, um punho cerrado sobre a cruz de rubi. Era como se, mediante algum sortilégio maligno, ela se houvesse transformado em estátua de madeira, madeira escura e muito velha, na qual as linhas profundas do rosto abatido tinham sido acentuadas por algum artesão primitivo.

Mesmo quando se moveu, essa ilusão não se desfez. Deva­gar, como os braços de uma boneca cujos membros caem com seu próprio peso, os braços caíram e ali ficaram, as mãos a se remexerem sem intuito. Outra coisa caiu também, como uma centelha — a cruz, cuja corrente se rompera naquele puxão convulsivo, tombando ao tapete e apagada à sombra da veste de seda. Ela não o notara. Aquele rosto esculpido continuava sem expressão, os olhos encobertos como os de um abutre.

E então, vagarosamente, a gárgula escura do rosto voltou-se para a porta onde Jennifer se escondia.

— A moça inglesa... — disse Dona Francisca, baixinho, e veio diretamente em sua direção.

 

Jennifer não percebeu que se tinha movido, em absoluto, mas antes que a espanhola houvesse dado dois passos em sua direção, saíra do esconderijo como um coelho assustado e correu pelo túnel, rumo ao jardim. A escuridão se fechava em volta dela, mas um relance de alguma janela entreaberta mostrou-lhe o caminho.

Parara a chuva, mas o ruído de sua carreira foi abafado pelo vento que ainda rugia em meio das árvores. Acima da cabeça, os ramos das macieiras soltavam folhas em assobio; as peque­ninas laranjeiras sacudiam-se como folhas de dentes-de-leão sopradas pelo vento, enquanto ela corria por ali e, abrindo o portão de ferro, entrava no abrigo mais escuro da noite.

Seu salto no escuro fora puramente instintivo, mas Jennifer percebeu em meio ao pânico e enquanto cambaleava nos montes molhados do cemitério que tivera razão. Precisava seguir dire­tamente para a fazenda e encontrar Stephen. Tinha de adver­ti-los, mas não tentou persuadir a si mesma que estava correndo para avisar Stephen e a polícia. Corria, e pela terceira vez, rumo ao abrigo reconfortante dos braços de Stephen. A razão se emparelhara ao instinto. Por mais que ele negasse a si o papel, era Stephen, de modo bastante simples, o herói de qualquer cena na qual Jennifer se achasse presente. E Jennifer não tinha dúvida alguma quanto ao tipo de cena em que estava envolvida, naquele momento. Se o assassinato já se apresentara a alguém, fora na expressão da espanhola, quando partira à procura de sua presa.

Sua presa... Mas se a tempestade ocultava a fuga de Jennifer à caçadora, apagava igualmente qualquer ruído feito pela perseguidora. Dona Francisca não podia tê-la visto quando saía, tampouco era provável que tivesse ouvido alguma coisa. Podia estar ainda subindo para o corredor, acima do refeitório, procurando "a moça inglesa", mas poderia também, naquele exato instante, vindo atrás dela como uma sombra ainda mais negra, passando pelo cemitério escuro... As mãos estendidas de Jennifer encontravam folhas molhadas e balouçantes, onde as roseiras formavam uma cortina, por cima da muralha próxima ao portão externo. O cabelo caía-lhe nos olhos, espinhos rasga­vam-lhe mãos e punhos, rasgavam-lhe a aba do casaco, agarra­vam-na como se fossem presas. Algo bateu com força no braço e ela devolveu o golpe, com um grito de terror, compreendendo então que era o portão, a abrir-se tocado pela ventania.

Passou por ele, rumo à encosta da montanha.

Vou para a fazenda de Bussac. Stephen vai estar lá, Ste­phen e a polícia de Luz e Gavarnie. Stephen...

Agora que deixara as muralhas e árvores do convento, conseguia enxergar melhor. Subiu correndo a trilha de grama, rumo ao pinheiral, soluçando e sem fôlego,, tangida pelo terror que a acossava, enquanto fugia. Tocava para a trilha da tempes­tade, sem olhar um só instante para trás. Chegada acima do nível onde os edifícios do convento ofereciam proteção contra a intempérie, o vento apoderou-se dela, levando-a a sua frente como se Jennifer não tivesse mais peso do que uma pluma. Os sapatos escorregavam na relva e por duas vezes ela cam­baleou e caiu de joelhos, de modo que as mãos ficaram arra­nhadas, o casaco rasgou-se, tornou-se sujo; mas nenhuma das quedas nem a dor dos machucados, impediram por um momento sua velocidade de fuga, e as lufas que a impeliam, batendo nela como se fosse uma vela de barco, faziam-na prosseguir pelo caminho íngreme, tal qual um pequeno navio, rumo ao bosque. O vento a atirou, semi-cega, quase diretamente à coluna do primeiro pinheiro, e logo Jennifer era engolida pelo silêncio do bosque, abafando o rugido do vento, assim como um penhasco abafa os sons do mar.

A escuridão era intensa, de modo que caminhar era o mesmo que atirar o corpo, contra a vontade, sobre a treva palpável. Mas ela não se atrevia a parar. Não se atrevia sequer a olhar para trás, com medo de ver uma sombra ainda mais escura a caminhar sob as árvores, de sentir outro sopro que não o do vento frio em sua nuca. Ela prosseguia correndo.

E logo saía do bosque, em corrida para a trilha que dava para a fazenda.

Esse caminho, já por si pedregoso e perigoso em qualquer momento, parecia-se aquela noite ao cascalho da montanha do inferno; uma dezena de pequenos filetes de água, formados pela chuva, corria por ali, de modo que em vez de uma trilha tornara-se o leito de outro córrego, torrente rasa e traiçoeira que fluía por cima das rochas lisas, ou passava em lama entre elas. Jennifer prosseguia sempre, subia mais e mais, já não corria, mas escorregava na lama, arrastava-se até o ponto mais fundo, tendo erguido o corpo pesado sobre pedra e toco...

Para a frente, para cima... e já estava acima da fonte principal da água, correndo sobre rochas molhadas apenas pela chuva... sempre para a frente... e chegava ofegante à última pedra.

E ali à frente, bem baixa sob o vento ululante, estava afinal a fazenda, cujas janelas iluminadas piscavam atrás de persianas batendo.

         Stephen! gritou Jennifer e atirou-se na arrancada final sobre as pedras, com lágrimas de alívio.

Abriu a porta da cabana e entrou. Foi recebida pelo calor e o cheiro de cozido e pão fresco. Ela voltou a arquejar:

         Stephen!

E ali estava, piscando diante da lâmpada do pequeno aposento, enquanto a porta se fechava com uma batida. Do outro lado da mesa encontrou a expressão sobressaltada e indagadora da jovem com olhos cinzentos.

Não havia mais pessoa alguma no aposento.

 

                         CONTO FANTÁSTICO

A moça estava sentada em um banco alto, que puxara à mesa, no centro da salinha. Parecia ainda muito pálida; o rosto dava sinais de cansaço e os movimentos das mãos eram pesadões e mal controlados. Estivera ocupada em cortar um pão, em fatias grossas, e a seu lado, sobre a mesa, achava-se uma pilha de carne em fatias. O resto de uma refeição apressada, feita por duas pessoas, ainda preenchia a mesa, e a sala dava todos os sinais de preparativos apressados de partida. Eram pouquíssi­mos os móveis; a mesa, algumas cadeiras, um sofá com pilha de cobertores, sob a janela e, por estranho que fosse, um antigo relógio de pé a um canto. A porta em frente da janela dava para o que parecia ser um dormitório vazio.

Jennifer conseguiu perceber tudo isso no segundo de choque e espanto, até que a moça falasse. Ela baixou a faca que segurava e disse:

—         Mademoiselle?

Parecia consideravelmente assustada e era para estar mes­mo. Jennifer disse, sem fôlego:

         Você não se foi. Está tudo certo, você não foi!

         Não disse a jovem, em francês, a perplexidade transparecendo na voz. Fiquei doente, e depois ele descobriu que a mula estava estropiada, de modo que não podíamos partir. Mas o quê...?

Jennifer adiantou-se um pouco trêmula, na direção da mesa.

Então, está tudo certo! Oh, Gillian!

Mademoiselle?

Aqueles olhos cinzentos nada mais refletiam do que perplexidade e depois apreensão, no relance dedicado à porta.

         Por que voltou? Já viu como ele ficou com raiva esta tarde. Se ele voltar e a encontrar aqui...

As mãos de Jenny tateavam, procurando o encosto da cadeira mais próxima, que agarrou com os dedos brancos.

Quer dizer... eles ainda não estiveram aqui... eles... eles não a levaram...?

Eles? — e a voz da outra aguçou-se. — Quem são eles?

O inglês — respondeu Jennifer de modo automático, o cérebro rodopiando mais uma vez em conjecturas cheias de medo. — A polícia.

Polícia? — e a jovem perguntou, estreitando os olhos cinzentos, que logo se alargavam com susto. — A polícia? Por quê?

Jennifer, todavia, não a observava. Também voltara a cabeça na direção da porta dizendo, a voz entrecortada:

Alguma coisa deve ter dado mau resultado. Precisamos sair daqui agora... aquela mulher pode estar vindo para cá e Bussac... onde está Bussac ?

Na fazenda do vale ao lado. Na casa de Corentin. Eu não podia ir a pé, ele foi apanhar uma mula emprestada. Voltará a qualquer momento.

Jennifer empertigou-se, como se houvesse levado uma chicotada. O rosto lívido irradiava agitação.

         Então, precisamos ir agora! Depressa! Não espere mais nada... não temos tempo! Está escuro como breu lá fora e a tempestade nos esconderá...

E logo, quando a outra não se movimentou:

         Meu Deus, Gillian! O que se passa? O que é isto? Você está querendo dizer que ainda não me reconhece? Eu sou Jenny, Gil, sua prima Jenny! Não me conhece agora? — per­guntou, estendendo a mão aflita sobre a mesa. — Não há tempo para explicações, Gil, mas você corre perigo aqui e esta é nossa oportunidade. Acredite em mim, não tem importância se está metida em alguma coisa! Basta vir comigo agora e cuidaremos disso depois. Mas é preciso que você venha!

A outra jovem, entretanto, recuou, afastando-se da mão que Jenny lhe estendia desesperadamente, e em seu rosto a apreensão perplexa transformara-se em medo o mais claro.

Eu... eu não compreendo. Por que deveria ir com você? De que está falando? Quem é você?

Uma lufada de vento fez com que a persiana batesse na janela lá fora, mas Jennifer não ouviu. Olhos azuis fitavam os cinzentos, por cima da mesa cheia de objetos. Na tranqüilidade entre eles, a lâmpada parecia cantar com sua luz alegre.

         Já lhe disse. Sou sua prima Jenny.

         Minha... prima? contrapôs a jovem, que agora se punha tão branca quanto a toalha da mesa, e sacudindo a cabeça. Eu.. . eu não compreendo.

         Você... você está querendo dizer que não é Gillian ?

         Eu não... eu não sei do que está falando. Sou Marie Bussac. Não me lembro de prima alguma afirmou a outra, as mãos tremendo enquanto empurrava um prato sobre a mesa.

Em volta de Jennifer o pequeno aposento parecia inchar e crescer, enquanto a lâmpada se contraía, tornando-se um ponto pequeno e sibilante de luz. Ela tremia, e disse, desnorteada:

Marie... Marie Bussac? Marie...?

Sim, mademoiselle. Naturalmente. Esposa dele.

A outra apanhou a faca com a mão incerta, como se pretendesse continuar em seus afazeres, mas a segurava frouxamente, fitando Jennifer com ar aturdido, muito pálida.

         Por favor, mademoiselle. Precisa explicar o que disse. A polícia... por que viria a polícia aqui ? O que descobriram a nosso respeito? Pelo amor de Deus, mademoiselle, precisa contar-me o que se passa! E quem é você, realmente? Por que veio aqui?

Jennifer procurou apoio na cadeira mais próxima, sentan­do-se nela. Afastou os cabelos do rosto e fitou a outra jovem, com expressão de completo aturdimento. A outra, com gesto quase mecânico, estendeu a mão para uma garrafa de vinho tinto, pôs um pouco em um copo e o empurrou sobre a mesa. Jenny aceitou e sorveu sequiosamente o líquido. O sabor áspero da bebida serviu para firmá-la e pareceu fazer-lhe o sangue circular novamente, indo ao cérebro e aos dedos.

Ela disse:

         Pensei que era sua prima, Jennifer Silver, mas agora não sei mais. Eu... eu... ela olhou mais uma vez para a outra jovem, dizendo em tom incerto: — Você não faria isto comigo, faria, Gil? Você, com certeza, tem confiança em mim, não é? Se está metida nesta vida de Bussac, vivendo com êle aqui... e... oh! Que importa? Eu juro que ajudarei você.

O rosto pálido que tinha à frente pareceu congelar-se, o medo veio refletir-se em suas linhas e sombras. A jovem disse, falando com rapidez:

         Eu não a conheço. Não sei do que está falando.

Jennifer contrapôs, em um cochicho:

Nesse caso, você é a sócia dela e ela está morta. Mas você continua viva, mademoiselle Lally Dupré!

O rosto da outra não deu qualquer sinal de transformação.

         De que me chamou? Por outro nome? Está louca, com seus nomes, suas primas e...

Mas Jennifer, dando um grito, pusera-se em pé,

         Está claro! Que idiota eu sou! Nós dissemos que não podia haver mais de uma com seu aspecto!

Colocou-se, com uma passada, em plena luz da lâmpada, e abriu as abas do casaco.

         Marie Bussac, Madame Bussac, qualquer que seja o seu nome, qual é a cor de meu vestido?

A jovem a fitava como se Jennifer estivesse louca.

         Eu... eu não compreendo. Você deve ser louca.

         Não. Basta responder essa pergunta, e se responder certo irei embora daqui.

Dizendo isso, estendeu as dobras do tecido para que a lâmpada as iluminasse melhor, repetindo:

         De que cor é isto?

Os olhos cinzentos fitaram, hesitaram. As sobrancelhas retas juntaram-se.

         Eu... é cinzento ? Um cinzento claro e amarelado?

Lágrimas marejaram nos olhos de Jennifer, escorreram por suas faces. Ela disse, a voz trêmula:

         Não. Não, não é e deixou que as dobras do vestido caíssem.

Levou as mãos frias às faces e afastou as lágrimas, em gesto infantil. Sobre a lâmpada que soltava fumaça, fitou Gillian e disse:

         Eu sabia que era você, Gil. Não estou entendendo. Por que não confia em mim?

Gillian a observava, o corpo curvado sobre o banquinho como se estivesse esgotada, as mãos agarrando a beira da mesa, muito brancas. As linhas de medo e cansaço acentuavam-se em seu rosto. Parecia doente e disse, a voz incerta:

         Eu não... não posso...

E logo a mão subiu à cabeça, em gesto repentino, quase frenético.

—         Oh, mon Dieu, que fai peur. Je n'y compreends pas.

Jennifer permaneceu imóvel e disse, respirando fundo:

         Eu... entendo.

Colocou as mãos na mesa e inclinou-se à frente, dizendo:

Madame Bussac, você não se lembra de nada, não é? Gillian pôs as mãos na cabeça e esta sacudiu de leve.

Por quanto tempo está aqui?

Outra sacudida em negativa.

Quando foi que se casou?

Eu... faz um ano. Por quê?

Foi êle quem disse isso?

A voz abafada corroborou. Jennifer mordeu o lábio, mas a voz continuava gentil.

         Mas você não se lembra de ter-se casado Madame Bussac?

Gillian sacudiu a cabeça mais uma vez.

Não, mamselle. Isso foi antes...

Antes do acidente disse Jennifer, baixinho.

Sim.

Por sobre a lâmpada que sibilava, os olhos cinzentos volta­ram a fitar os seus, intrigados, incertos e na expressão infantil da pessoa cujo passado foi apagado. Houve uma pequena pausa.

E logo Jennifer se empertigava, com alento trêmulo que era quase um suspiro de alívio. Finalmente, agora, sabia onde estava. E a questão se apresentava a ela em toda a sua impossibilidade.

Tinha de tirar Gillian dali. Quaisquer que fossem as inten­ções de Bussac para com ela, ficava fora de dúvida que não podia deixar Gillian em sua companhia. Quando não fosse mais, Gillian se achava doente. De algum modo, precisava ouvir o que ela lhe dizia, confiar.

Jennifer fitou-a, vendo que aqueles olhos cinzentos estavam agora cheios de confusão, tocantemente perdidos.

Nesse caso, deve deixar que eu me lembre por você, Mane. É verdade que sou sua prima, mas isso não importa. Precisa confiar em mim. Não tem de ficar com medo de Bussac. Se você vier agora mesmo, comigo...

Eu não tenho medo dele... mas a polícia...

Por que têm medo da polícia? Você não fez nada. Não podem incriminá-la por coisa alguma que êle tenha feito.

As mãos de Gillian retorciam-se, muito brancas, no regaço.

         Eles podem, sim. Podem. Eles também me procuram. Aquele caso em Bordeaux...

         Bussac, então, disse que você também está envolvida nisso? Deve ter sido o modo de garantir que você ficasse longe de todos. Começo a entender...

Jennifer deu volta à mesa e pôs a mão no braço de Gillian,-mas esta voltara a cabeça, ouvindo algum som lá fora. A ventania-sacudia as persianas e, enquanto o coração de Jennifer dava um salto, ouviu outra batida, como se fosse um eco, e não era provocada pela tempestade. A porta se abriu com uma lufada de vento, fechou-se com estrondo.

—         Eh bien, mademoiselle? disse Pierre Bussac, expres­são sombria, e fechou o ferrolho da porta após ter entrado.

 

                       A MORTE E A DONZELA

De súbito pareceu que os sons da tempestade haviam diminuído, deixando a cozinha silente e parada. No fogão, uma acha de lenha chiou. O relógio batia baixinho, a lâmpada parecia 'Cantar com sua luz; mas os sons baixos seguravam o silêncio, apenas, enquanto Jennifer, soltando o braço de Gillian, recuou da raiva que irradiava dos olhos de Bussac. Ele perguntou:

         Para que voltou?

Gillian estendeu a mão.

         Pierre...

Ele não lhe deu qualquer atenção, olhando Jennifer por sobre a mesa.

         Que faz aqui? Que andou contando a minha esposa? Jennifer respondeu, com mais coragem do que sentia:

Você sabe muito bem o que andei contando a ela. Ela é minha prima, Gillian Lamartine! E, além disso, você sabe que é verdade, Monsieur Bussac.

Tolices — replicou Bussac, com brutalidade. — Ela pró­pria pode dizer-lhe...

Ela não pode dizer-me coisa alguma, como você deve saber muitíssimo bem. Ela não se lembra de nada. Mas é minha prima, e eu posso provar!

Ouvindo isso, Bussac deu um passo à frente e Jennifer notou em seu olhar um brilho que a assustou. Ele disse, bai­xinho:

Pode, mesmo? E você veio aqui sozinha, madmoselle? Jennifer passou a língua pelos lábios secos.

Eu... não... eu...

Ele atalhou:

         Onde está o seu amigo? Onde está aquele inglês a quem surrei esta tarde?

Gillian estivera em pé, apoiando-se na mesa, acompanhando a troca de palavras com a mesma expressão de perplexidade aturdida. E agora, quando Jennifer não respondeu, ela interveio, em voz suave:

         Ela disse que ele virá.

Jennifer moveu-se em gesto brusco, mas Bussac limitou-se a rir.

Pois que venha.

Com a polícia. Será agora. Não vai demorar.

Ele fitou Jennifer, apertando os olhos, a expressão perigosa.

         Ele, então foi, buscar a polícia?

Naturalmente! — e a voz dela tornava-se estridente, cheia de desafio. — O que esperava? Deve ser um idiota, Monsieur Bussac, se pensou que não faríamos nada.

Não, eu não sou tão idiota assim. Achei que ele podia ir. Mas a coisa é que não há polícia a ser encontrada numa quarta-feira, mademoiselle. É o dia de folga de Aristide e ele vai... no automóvel jogar pelota em Luz. Seu amigo descobrirá que o caminho é bem comprido até Luz, e que se torna ainda mais, quando não existe transporte!

         Há um telefone — disse Jennifer, com aspereza.

         E há também — informou ele, em tom agradável — uma tempestade de trovoadas, que se avizinha. Corentin me informa que as linhas estão sem funcionar, desde as três horas da tarde.

Sorria para ela, um sorriso que se aprofundava diante do que percebia no semblante de Jennifer. Esta abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la, erguendo a mão em débil gesto que era comovente, pelo seu ar de criatura indefesa. Talvez isso comovesse Gillian, pois esta pareceu despertar de sua apatia fatigada e voltou-se para Bussac, tocando-lhe a manga do capote.

         Pierre... que é isso? Do que se trata? Ela disse que me conhece. Disse que eu era a prima dela.

Os olhos que erguia para fitá-lo tinham uma expressão de criatura perdida, hesitante, que em qualquer outra circunstância comoveria um frade de pedra. Do modo como as coisas se achavam, todavia, deu a Jennifer a vontade de gritar.

         Que significa tudo isto? — perguntou Gillian.

A mão de Bussac encobriu a que ela pusera em seu braço. O gesto era de proteção, até mesmo de ternura, e sua voz e semblante denotavam gentileza. Jennifer, embora preparada para assistir a alguma coisa semelhante, teve um sobressalto ao ver com que rapidez e inteireza tal transformação se operava nele. Ora, estava pensando, acho que esse homem a ama. Aí está o motivo pelo qual não deu ouvidos à proposta de Stephen. E agora estou tentando tirá-la dele... Oh, Senhor, oh, precisava disso. Que vou fazer agora? Bussac falava com gentileza.

         Isso não significa nada, ma mie. Ela é quem está confusa. Tomou você por outra pessoa. Eu já lhe contei quem você é. Seu lugar é aqui.

         Mas essa prima...

         Está morta. Morta, ouviu? explicou ele, a mão apertando a dela, mas falava olhando diretamente para Jennifer. Foi a mulher que morreu no convento. Já lhe falei a res­peito dela, lembra-se?

Jennifer não agüentava mais.

         Marie! Escute-me!

         Cale-se, você! — atalhou ele, com fúria, transformando-se da gentileza de antes, e de tal maneira que Jennifer se encolheu, obedecendo.

Bussac ergueu a mão de Gillian suavemente, segurou-a por instantes, inclinando-se sobre ela e explicando, com voz que se mostrava invulgarmente convincente, pela aflição que nela trans­pirava :

—         Ma chère, você ouviu toda essa história sobre a polícia. É verdade. Lembra-se de que lhe falei antes, que a polícia estava a nossa procura por causa do que aconteceu em Bordeaux?

Ela assentiu, parecendo entender.

         Pois bem, eles nos descobriram. Esta moça e o inglês trouxeram os flics até cá. É por isso que vamos embora. Não contei antes, porque não queria assustá-la, mas é o motivo pelo qual vamos embora, e bem depressa.

Bussac afagou-lhe a mão, sorriu para ela e deixou-a.

         Agora, precisamos ir acrescentou. Acho que ainda temos bastante tempo, mas quanto mais cedo nós formos, tanto melhor.

         E que me diz... dela?

Bussac voltava a sorrir para Jennifer. Parecia enorme à luz da lâmpada, um brutamontes confiante, belo, cuja sombra reduzia a salinha a dimensões minúsculas. Ele disse, baixinho:

         Ela quis intrometer-se em minha vida... Talvez não seja tão fácil livrar-se das conseqüências.

Gillian fez um movimento curto e rápido.

         Você não deve... machucá-la, Pierre — disse. Bussac replicou, sem deixar de fitar Jennifer:

         Oh, não, não vou machucá-la... — mas a expressão dos olhos indicava perigo.

Cheia de desespero, Jennifer quis explicar:

         Nós já lhe dissemos que esqueceremos sua vida. Não queremos interferir nela. Tudo que desejamos é que minha prima esteja a salve...

Bussac atalhou novamente, com brutalidade:

Sua prima está morta, idiota, e quanto mais cedo com­preender isso, tanto melhor será para você mesma. No que diz respeito a minha esposa, ela se acha bem, a meu lado.

Para onde vai levá-la?

Isso é de minha conta — disse Bussac, voltando-se para o outro lado. — Pois bem, chega de conversa... é hora de irmos. Está pronta, Marie?

Em resposta, ela anuiu.

         Apanhei a mula de Corentin. Está no telheiro. Você consegue selar a mula? Ótimo. Ande ligeiro, se puder. Lá fora há uma lanterna.

Ela se voltou para obedecer, dedicando olhar perturbado a Jennifer, muito pálida e ao lado do fogo.

Você vem logo?

Sim, sim. Vá depressa, agora.

A porta fechou-se com estrondo, a chama da lâmpada oscilou no globo de vidro, logo ficava firme outra vez. Trêmula, Jennifer disse:

Monsieur Bussac, por favor, escute... por favor, só por um instante...

Eh bien? — contrapôs ele, que tirara um capote do cabide ao canto e enchia os bolsos apressadamente com em­brulhos de comida, mantendo-se por todo o tempo entre Jennifer e a porta.

Ela se obrigou a falar com calma:

         Vamos ser francos um com o outro, Monsieur Bussac... agora que não há ninguém ouvindo. Você estava esperando Lally Dupré aquela noite. Já a conhecia?

Ele hesitou e depois disse:

Não.

Nesse caso, você... e Dona Francisca... acharam que essa jovem, a quem chamam Marie era Lally Dupré. Mas quando eu comecei a fazer perguntas, Dona Francisca compreendeu logo quem era a pessoa que você estava guardando aqui. Quando eu pedi a ela que descrevesse a mulher que morreu, ela descreveu Gillian... Marie. Já tinha adivinhado. E veio diretamente para cá, ontem à noite, a fim de lhe dizer que se antes tinha sido loucura não mandar sua... convidada... diretamente para a Espanha, agora que "Marie" era com certeza Madame Lamartine, ficar com ela constituía suicídio. Eu a acompanhei até aqui... você sabe disso. Ouvi o que ela dizia. Você deve ter sabido, então, Monsieur Bussac, o que ocorreu na noite da tempestade.

Os olhos negros fitaram os dela, por momentos.

         E se eu soubesse?

Nada — prosseguiu Jennifer — a não ser que sabe, e eu também sei, que estou dizendo a verdade.

Oh, sim — concordou Bussac, em tom de indiferença. — Você está dizendo a verdade.

Nesse caso, pelo amor de Deus, acredite em mim quando digo que não criarei problemas para você! Você sabe que ela não se encontra em condições de fazer essa viagem! Conte-lhe alguma coisa... você sabe como... e deixe que ela venha comigo!

A resposta foi brutal:

         Com os diabos! Não entende o que eu digo? Eu a quero comigo!

Mas não tem o direito!

Ela é minha esposa!

É, mesmo?

Bussac fitou-a por longos instantes, os olhos baixos.

         Que quer dizer?

         Ela veio para cá faz apenas três semanas. Deve ter-se ferido no acidente de automóvel e perdeu a memória. Ela me contou que está casada com você há um ano. Por que lhe contou essa mentira, Monsieur Bussac?

Houve uma pausa e logo ele explicou, em voz baixa:

         Está bem. Você queria saber, vai saber agora. Já adi­vinhou o resto, ou perto disso. Eu estava sendo pago pela turma de Mareei Dupré para tirar Lally da França, levá-la à Espanha. Devia encontrar-se comigo na garganta abaixo de Gavarnie, em um lugar chamado Chãos. Fui informado de que ela estava aproveitando uma carona de alguma mulher cha­mada Lamartine. Levei a mula lá para baixo aquela noite, mas ela não estava. Depois de algum tempo, segui pela beira do rio e encontrei o automóvel, amassado. Ela... Marie estava lá. Devo ter deixado de ver a verdadeira Lally Dupré, no escuro da noite. Marie estava caída, perto do automóvel. De começo, pensei que tinha morrido, mas verifiquei que só havia desmaiado. Procurei os documentos, a bolsa... qualquer coisa que a identificasse. Não descobri nada, de modo que supus que esta era Lally Dupré... a descrição que me deram combinava bastante... e que a mulher chamada Lamartine tinha apa­nhado as coisas dela e procurado ajuda. Eu sabia que Lally tinha de ser retirada dali rapidamente, antes que alguém che­gasse, e além do mais...

Ele vestira o capote enquanto falava e assim parecia maior do que antes. Deu um passo adiante e bateu com os punhos na mesa, inclinando-se para Jennifer com expressão furiosa e disse:

         Ela estava caída na grama, e eu vi com a lanterna elétrica, os cabelos espalhados, as roupas meio rasgadas. Era linda, e eu a queria para mim.

Dizendo isso, ele exibiu os dentes em sorriso.

         Foi exatamente assim. Você compreende uma coisa dessas, inglesinha descorada? Eu a queria para mim.

Jennifer não conseguia desviar o olhar, e ele prosseguiu:

         Por isso, eu a apanhei e trouxe para cá. E depois, de manhã, soube da outra mulher que tinha chegado ao convento. Andei preocupado por causa dela, porque no trabalho normal eu teria feito meu passageiro estar bem longe, passando as montanhas, antes de amanhecer, sem restar prova nenhuma de que ela houvesse estado perto de mim, e ali me achava eu, com uma pequena que não podia ser levada a viajar. Mas a minha sorte foi grande.

Ele riu por instantes.

         É sempre assim. A mulher no convento ficou calada. Lally deve ter imaginado o motivo pelo qual a polícia não perguntou sobre a "passageira" que ela deixou como morta no desastre, mas valeu-se no mesmo instante da confusão e não ia pôr tudo a perder, fazendo perguntas. Se soubesse que a senhora estava comigo... mas, naturalmente, ninguém sabia.

Fez uma pausa, antes de prosseguir.

         De qualquer modo, ela não criou problemas e ficou de boca fechada. Eu simplesmente imaginei que ela estava doente demais para lembrar-se de ter uma passageira... e depois morreu. Mais sorte ainda.

E sorte, também disse Jennifer, nada satisfeita em que minha prima houvesse perdido a memória, não é?

Perfeito. Ela não teria ficado comigo, de outro modo, verdade? Do jeito como foi a coisa, quando descobri que ela não se lembrava de nada, fiquei muito satisfeito, porque ela não tinha pressa alguma de partir para a Espanha. Eu disse que ela era minha esposa... podem ter corrido outras versões na aldeia, mas ela nunca saiu da fazenda, e ninguém se mete comigo.

E você, ao que suponho, contou-lhe que ela esteve envolvida no caso do banco de Bordeaux, então?

É claro. Precisava de um motivo para ficar com ela em casa. Achei que era verdade, já que falamos no assunto. Não disse a ela que era assassinato, só o bastante para mantê-la escondida e não o suficiente para que sentisse vontade de ir embora... E quando descobri que realmente era ela, não vi necessidade de mudar o que tinha contado. Dava tudo no mesmo, não era? Ela ia ficar aqui comigo, embora só Deus saiba que ela deve ter achado a vida aqui difícil e um pouco estranha, e verificado que eu talvez não seja exatamente aquilo a que estava acostumada.

Sorria para Jennifer, enquanto empertigava o corpanzil.

         Achei que isso ia abalar você, mademoiselle 1'anglais e você, inglesinha descorada... vocês são todas iguais. Ela também tem esse ar... e eu o acho... interessante.

O sorriso dele aumentava.

         Não, não olhe para mim desse jeito. Estou pensando em outras coisas esclareceu, e voltou-se para o lado, a fim de abrir a gaveta.

         Você é... horroroso disse Jennifer, tremendo. Bussac tirara uma lanterna elétrica da gaveta, enfiando-a

no bolso. Ouvindo o que ela dissera, ergueu o ombro, em sinal de indiferença.

Acha, mesmo? Já ela parece gostar de mim.

Jennifer perguntou, a voz rouca:

Para onde vai levá-la?

Para um lugar onde você não a encontrará nunca. Ele seguirão você.

         Não vão seguir, pelo caminho que pretendo tomar asseverou êle, com risadinha astuta. Sabe como tenho conseguido fugir aos guardas da fronteira por tanto tempo? Sabe, minha cara? Tenho uma estrada toda minha, que dá para a Espanha.

Seu idiota! — gritou Jennifer. — Mesmo que consiga fugir, não poderá esconder-se para sempre.

Não? A Espanha é bem grande. Tenho meu dinheiro por lá e amigos também.

Ela vai ficar boa — disse Jennifer, com brutalidade. — Vai lembrar-se. Imagina que ela ficará com você, quando isso acontecer?

E por que não? Sou bom para ela. Jennifer contrapôs, em assomo de desespero.

Está louco! Nunca conseguirá escapar!

Bussac voltou-se para ela, retomando parte da atitude de antes.

         Cale-se, sua imbecil! Acha que corri os riscos de ficar com ela, para deixar que se vá agora? Economize palavras, petite anglaise. Ela vai comigo.

         E eu? — indagou Jennifer, falando baixinho. Bussac fitou-a nos olhos.

         Você fica aqui. Mas não vou deixá-la solta, para ver o rumo que tomamos. Prometi que não a machucaria e não vou machucar. Mas terá de ficar fora de ação por algum tempo, minha cara. Pode passar-se algum tempo até que eles pensem em procurá-la aqui, e a essa altura já estaremos bem longe.

Ergueu um pedaço de corda, tirando-a das costas de uma cadeira e caminhando na direção de Jennifer.

 

Antes de ter dado mais de um passo, a porta da cabana abriu-se outra vez. Jennifer rodopiou, voltando-se para lá, a esperança surgiu em sua atitude, entreabriu-lhe os lábios. Mas era apenas Gillian, sem fôlego por causa da ventania que pusera suas faces coradas e lhe dera brilho ao olhar.

Ela disse:

A mula está pronta, Pierre.

Ótimo. Apanhe seu casaco. Nós já vamos.

Gillian correu para o quarto e Bussac deu a volta à mesa, a corda na mão, na direção de Jennifer. Esta recuou, encolhendo-se, e quando Bussac estendeu o braço para pegá-la, esqui­vou-se e correu em volta da mesa, e já o defrontava nova­mente, sem fôlego. Ele soltou uma imprecação e mergulhou em perseguição de Jennifer. Sua mão passou raspando pela manga do capote de Jennifer, mas esta fez nova finta e correu, colocando-se à frente dele. Era como algum brinquedo horrível, procurando escapar do terror, em volta da mesa iluminada, es­quivando-se e resfolegando, na orla daquela pequena poça de luz, enquanto atrás deles as sombras dançavam e cresciam, tornavam-se enormes, projetadas na parede e no teto. Não havia som algum, senão o arrastar dos pés e a respiração acelerada, e o ruído tranqüilo do relógio ao canto, batendo os segundos.. Para Jennifer, todavia, aquela escuridão monstruosa era varada por seu próprio grito frenético — Stephen! Stephen! Stephen...! Ele viria, tinha de vir, tinha de vir... A perseguição continuava.

A sombra cresceu e atacou, quando Bussac se atirou sobre a mesa, o braço estendido para agarrá-la. Jennifer saltou para trás, fugindo à mão. Ele errara no pulo e perdia o equilíbrio, caía à frente com estrondo. A lâmpada balançou-se. Na fração de segundo em que Bussac estivera sobre a mesa, Jennifer saltou em meio das sombras em movimento, tomando a direção da porta. Estava com a mão nó ferrolho quando ele a segurou. Seus braços fecharam-se em volta dela, por trás, em aperto inescapável, e ele a arrastou da porta. Jennifer debatia-se, en­louquecida de medo, e usou os pés, acertando-o nas pernas. Bussac voltou a praguejar e mudou o braço com que a segu­rava. Prendendo-a com força, em volta do corpo, usando um dos braços, a outra mão segurou-a também. De modo vago, em meio ao pânico em rodopio, Jennifer ouviu a voz de Gillian..

         Pierre!

E a resposta sem fôlego de Bussac, em tom selvagem:

         Vá tocando. Estarei lá em um minuto. Você conhece o caminho, até a cachoeira.

         Mas, a moça?

         Não posso deixar que ela fique aqui para nos seguir, você sabe. Tenho de fazê-la calar-se. Agora, pelo amor de Deus, Marie...

         Está bem.

A porta se abriu, o vento entrou em catadupas. Jennifer gri­tou uma vez:

—         Gillian, não vá!

A mão dele encobriu-lhe a boca, com brutalidade. A porta se fechou com estrondo e, segundos depois, de volta no vento, veio o ruído de casco de animal que se afastava.

Jennifer sentiu que êle afrouxava um pouco e inclinou a cabeça, a mão se soltou. Ela a mordeu cegamente, como um animal aterrorizado e sentiu que a pele era rasgada por seus dentes. Bussac puxou a mão, soltando uma praga, e a agarrou com força. Jennifer estava indefesa, colada a Bussac, que a segurava com um braço, de maneira inflexível, enquanto a outra mão, que ela mordera, servia para fazê-la erguer a cabeça, sendo obrigada a fitá-lo. Notou, em meio ao terror que sentia, que Bussac ria.

Descorada, hem? disse êle, a voz pastosa. Você sabe morder também, sua diaba! Quem teria pensado nisso? Uma pena, que eu não tenha tempo para ensinar-lhe bons modos.

Antes que Jenny percebesse o que Bussac pretendia fazer, êle baixou a cabeça e a beijou na boca.

Ela emitiu um leve som de protesto e logo as sombras giraram, engolfando-a, e ela desmaiou.

 

O lapso em sua consciência não podia ter durado mais do que alguns segundos, mas ainda assim Bussac soubera agir depressa. Jennifer notou que estava deitada de costas no que parecia ser uma cama, piscando, enojada, olhando para o teto onde a lâmpada fazia a luz aumentar e diminuir, na corrente de ar. O som do relógio se apresentava alto demais, destorcido por seu estado de semiconsciência, transformado em saraivada rápida, como os sons distantes de cascos pequenos, em marcha rápida...

Gillian.

A memória voltava e Jennifer se moveu com energia, descobrindo que algo lhe segurava as mãos, mantendo-a presa onde se achava. Todo o corpo pesava, como se carregado de chumbo... ela estava indefesa, sufocando... Compreendeu, to­mada de incredulidade, que se achava deitada, amarrada e amor­daçada, na cama do quarto.

Sua primeira sensação foi de raiva a mais pura, pelo fato de que alguém a houvesse tratado assim. A corda não fora atada de modo cruel, mas os nós pareciam morder-lhes os punhos e tornozelos, e a mordaça era algo pavoroso. Bussac tinha enfiado alguma coisa em sua boca e depois passado um xale por volta da parte inferior do rosto. O objeto apertava-lhe a língua, fazia com que a boca doesse de secura e comprimia-lhe os dentes. Ela emitiu um som baixo e frenético de protesto e voltou a cabeça para ver o lugar onde a lâmpada lançava um feixe oblíquo de luz pela porta entreaberta.

E logo Jennifer encolheu-se, os olhos arregalados e o cora­ção disparado.

Pierre Bussac estava à porta, o corpanzil encobrindo a faixa de luz. Não olhava para Jennifer. Achava-se em pé, muito parado, toda a atenção cravada em algo que tinha na mão.

Uma carta? Jennifer julgou reconhecer o papel dobrado e rasgado. Bussac devia tê-lo encontrado em seu bolso... sim, já percebia...

Era a carta de Isaac Lenormand.

Procurou desesperadamente compreender o que aquela nova descoberta representaria. Ele tinha agora uma parte — a metade — do que devia ser o instrumento da chantagem exercida por Doña Francisca. Saberia que Jennifer também tinha lido o do­cumento. E poderia achar que ela soubesse onde estava escondida a outra metade. Mas se Busac ia embora aquela noite, certa­mente tal conhecimento, da parte de Jennifer, ou a derrota de Doña Francisca não tinham importância... E ele dissera que não a machucaria... A carne parecia retorcer-se nos ossos, enquanto Jennifer se tornava pequenina, a mente estonteada a insistir, de modo infantil, atendo-se a essa esperança nada firme... Ele dissera que não a machucaria... não era homem de todo mau; seu modo de tratar Gillian, embora explicado pelo interesse próprio, era, por certo, indicativo disso. Não restava dúvida de que ele obrigara Gillian a aceitá-lo, de modo impiedoso, mas era uma criatura guiada por suas próprias paixões, ferozmente indiferente a qualquer direito que não fosse o seu, e movido por desejos e ódios igualmente fortes e simples. Ódios? Jennifer lembrou-se da expressão no semblante de Bussac, quando ele enfrentara Doña Francisca na noite da véspera e, por estranho que fosse, sentiu-se reconfortada. Era ódio puro, guar­dado e ardente ao correr de muitos anos de frustração, rumando para alguma explosão repentina e terrível... e comparado ao que ela vira em Bussac, sua conduta aquela noite, no que lhe dizia respeito, tinha sido quase gentil. Ele não a machucaria. Tudo quanto aquele homem desejava era deixá-la fora de ação por algum tempo. Fora isso o que Bussac dissera. Ele não a machucaria. Ele não a...

Bussac enfiou a carta no bolso e voltou-se para a cama. Sua sombra pareceu crescer e fez escurecer todo o aposento.

Deu um passo na direção dela e a sombra encobriu a parede, estendeu-se ao teto e ali ficou parada, esperando.

Ele se detivera e voltara a cabeça para ouvir. Lá fora, o vento gemia em escala atrevida, diminuindo. Pés eram ouvidos em marcha pelas pedras do caminho.

Stephen! Foi um grito mudo, impensado. Pareceu-lhe que enchia toda a noite e abafava o vento... Finalmente! Stephen!

A porta abriu-se depressa. De onde estava, no canto obscurecido, Jennifer não podia ver quem entrava, mas Bussac se retesava como um homem eletrizado, e seguia agora para a luz da lâmpada, ao passar fechava a porta.

 

                             DANÇA MACABRA

A porta não se fechou e oscilou um pouco, rangendo, e mais uma vez sua faixa de luz alargou-se no chão de tábuas brutas. Dava para Jennifer ver o canto da mesa, tendo ainda o pão onde Gillian o deixara, a garrafa de vinho brilhando como um rubi, o brilho esguio da faca por baixo da lâmpada. Além do pé da mesa brilhavam as achas do fogo aceso.

Bussac saíra de sua visão, na direção da porta. Ela viu que as achas de lenha soltavam centelhas na corrente de ar e logo a porta se fechava sem ruído.

Ouviu que ele dizia, em tom de surpresa:

         Você! Já! Como conseguiu sair tão cedo?

Em meio das palavras, proferidas em arquejo, soaram pas­sos macios, houve o frolo da seda. Jennifer remexeu-se nas cordas que a prendiam. Tinha esquecido, esquecera-se de modo inacreditável, do outro motivo de terror que percorria a noite tempestuosa. Ouviu a voz de Dona Francisca, falando bem baixo:

         Você a deixou escapar?

Eram palavras ditas com suavidade, mas dava para perceber que estava furiosa, e a resposta de Bussac foi em defesa automática. Ele se esquivou ao sentido:

De que está falando?

Não seja idiota! Eu ouvi seu animal. Ela foi embora?

Foi para onde não a poderá descobrir, minha dama. Seguiu-se uma pausa.

Você vai fazer o que eu lhe disse?

         Vou fazer o que bem me agradar. E agora, saia daqui. Eu também já vou.

         Esperarei. Conversaremos quando você voltar. Bussac retorquiu, em tom de satisfação.

Pois terá de esperar muito tempo. Eu não voltarei mais.

Que está dizendo? Não, espere, espere, imbecil! Que pretende fazer? Não pode ter pensado...

Ele a interrompeu, com brutalidade:

Não vamos começar outra vez com essa discussão. Já se falou o bastante em imbecis e imbecilidade, e esta idiotice já acabou, no que me diz respeito. Faça o que entender, mas eu vou embora. Agora, saia de minha frente.

Pierre Bussac! Você está falando sério?

Se estou? Vai sair dessa porta, ou tenho de empurrá-la daí?

A voz dela explodia em fúria e desdém!

         Não se atreva a pôr a mão em mim, seu labrego!

Ele riu, e havia em sua voz uma confiança, quase triunfal, que pareceu abalá-la.

Bussac disse:  

Quer esperar aqui comigo, até que chegue a polícia?

A polícia? Aqui?

Sim, aqui.

Ela começou a dizer, em alento prolongado e cheio de ódio:

A moça inglesa...

É como diz.

Bussac arrastou os pés no chão e Jennifer, rígida em seu canto de sombra, esperou que ele a denunciasse. Mas Bussac apenas se aproximara da mesa. Viu que ele levava a mão à lâmpada, para apagá-la, e disse, falando sobre o ombro:

         E agora, quer ir embora?

Dona Francisca, todavia, movimentou-se com rapidez pela sala. Suas vestes compridas farfalhavam, indo ter ao brilho do fogo. Achava-se agora no campo de visão de Jennifer, quando se inclinou sobre a mesa, na direção de Bussac. O rosto, iluminado por baixo pela lâmpada, era como uma máscara projetada de modo dramático sobre alguma tela, uma coisa de sombras acentuadas e pontos luminosos, com grandes poços de sombra no lugar dos olhos. Ela disse, quase sem fôlego:

         Não. Espere. Essa moça descobriu mesmo alguma coisa?

         Acho que descobriu praticamente tudo — disse ele, com calma.

         À meu respeito?

         Ah, sim. Esteve aqui ontem à noite e ouviu nossa con­versa.

As mãos de Dona Francisca baixaram à mesa, com um som de leve bofetada. Ao lado delas, a lâmina da faca saltou e brilhou.

Ela esteve aqui esta noite, também?

Sim.

E o que fez com ela? Deixou que fosse dar parte?

Houve um silêncio curto, a lâmina brilhava ao lado da mão magra. E logo Bussac disse, devagar:

         De nada adiantava segurá-la. Ela já tinha dado parte.

A mulher emitiu um som de fúria e seus dentes brilharam, enquanto mordia o lábio inferior.

         Nesse caso... também não posso ficar aqui. Não quero enfrentar um inquérito. Não posso. Você deve saber que não posso.

Havia na voz de Bussac um tom altamente desagradável.

         Se é assim, você está liquidada. Devia ter pensado nisso antes de fazer chantagem comigo, obrigando-me a dar-lhe metade do que eu ganhava. Devia ter parado de pensar que estava a tornar-se igualmente culpada... e que viria o momento em que o diamante viria a cortar o diamante, Dona Francisca...

Também ele se aproximara da mesa. Inclinava-se sobre ela, na direção da recém-chegada, e seu rosto veio ao campo de visão de Jenny, um rosto moreno, de aspecto formidável, tendo nos olhos negros uma expressão que Jennifer vira antes — o mesmo relance de ferocidade pura, quando ele atacara Stephen, mas agora sem qualquer medo ou incerteza para nublá-lo. Aquele homem — tornava-se evidente — não era mais o brutamontes raivoso que Dona Francisca estivera acostumada a manter a distância; tratava-se de um animal perigoso, que de repente se sentia livre para agir. Ao se fitarem, Dona Fran­cisca devia tê-lo percebido, pois os olhos se alargaram de sur­presa e ela recuou um pouco, mudando de lugar.

         Está dizendo tolices. Culpa igual! Nunca foi o mesmo, nunca! É só que eu não desejo enfrentar um inquérito, e talvez tenha de devolver o que comprei com o seu dinheiro!

Ele deu uma risadinha cruel.

         É mesmo?

Ela retorquiu, em tom feroz:

Não poderão tocar em mim! Tudo que fiz foi aceitar o dinheiro de você, que é um criminoso comum... um assassino, e usar o dinheiro para o bem. Para o bem! Não fiquei com dinheiro algum para mim! Era tudo para a casa de Deus!

Pode ser, mas você sabia como eu conseguia o dinheiro. Sabia que eu ajudava criminosos e assassinos a fugir. Estava aceitando o assassinato, Dona Francisca! — disse ele, com sorriso inteiramente desagradável. — Eles chamam a isso cum­plicidade, não é?

As narinas de Dona Francisca estremeceram, os lábios finos tornaram-se ainda mais delgados. Ela voltou a inclinar-se, com um de seus movimentos rápidos e impressionantes, o rosto bem destacado à luz da lâmpada.

         Ainda assim, Pierre Bussac, estamos juntos na mesma canoa. O diamante pode cortar o diamante nos dois sentidos, meu amigo! Não vou ficar aqui sentada, esperando a polícia, enquanto você sai e me deixa... ! Precisa levar-me, também!

A voz dela baixou, tornando-se um cochicho aflito.

         Eu conheço o caminho por onde você vai — disse ela. — Leve-me também... para a Espanha...

Bussac riu-lhe bem na cara.

         Nunca! — asseverou, e sua mão foi outra vez ao pavio da lâmpada. — Agora, dê o fora. Está-me fazendo perder tempo, e ainda tenho... uma coisa... a fazer, antes de ir.

A espanhola empertigou-se com movimento súbito e seu antigo olhar de desdém voltara ao rosto.

         Pois vá, idiota! — bradou. — Afinal de contas, o que tenho a temer? Posso jurar que aceitei seu dinheiro inocente­mente... como um bálsamo para sua consciência. Vai haver escândalo, mas essas coisas passam... e eu, eu sou quem sou. Você terá ido embora, e quem vai acreditar nessa inglesa de cara coalhada?

Os olhos encobertos se erguiam, brilhavam como o ônix.

         E vou fazer com que você seja perseguido, Pierre Bussac — prometeu. — Mesmo na Espanha, meu amigo, eu o alcançarei. Na Espanha ainda sou alguém, eu e minha família! Você vai ver, Pierre Bussac, que ainda tenho força!

Ele sorria, ao redarguir:

         Se está falando da carta de Lenormand, sua força já acabou.

Seguiu-se uma pausa.

Que quer dizer?

Isto — e houve um estralejar de papel, um arquejo de surpresa.

Isso é apenas um pedaço — disse ela, com rapidez. — Eu tenho...

Não duvido. Mas metade de uma carta vale alguma coisa... sem assinatura?

Onde foi que você arranjou isso? Dê para cá!

A mão dela estendeu-se, rápida como uma cobra, mas com a mesma rapidez ele retirou o papel e voltou a rir.

Oh, não, não vai apanhar. Este é meu passaporte para a liberdade, señora, e minha garantia de que você vai comportar-se direitinho. Pode experimentar seus truques espanhóis, se quiser, mas estou prevenindo que se quiser me encontrar, eu a farei cair também. E se pensa que pode provar inocência em meu... ofício, digamos assim... é melhor desistir. Cúmplice de assassinato, minha bela madame. Há uma testemunha para dizer onde esta carta estava escondida...

Isso não prova nada! Não estava em meu poder!

Não? A vida em um convento é um pouco misturada, não acha? Mas aposto que daria resultado, se procurassem mais, onde isto foi achado.

A respiração dela tornara-se sibilante, em arquejo curto. Bussac deu uma risada estrondosa.

Essa foi na mosca, não? Seu pequeno esconderijo, seu tesouro particular, seu pequeno banco de dinheiro roubado de mim... Incluindo, é claro, metade do que o Dupré pagou... em notas roubadas do banco de Bordeaux, com seiscentos diabos, e o número de todas elas registradas pela polícia!

Não — veio a contestação, pouco mais que uma impre­cação. Os olhos de Doña Francisca eram pouco mais que poços negros, em seu rosto cinzento.

Ele disse:

É verdade. Descobri esta noite. Corentin, soube, com Aristide Celton — asseverou, os dentes aparecendo em sorriso. — Portanto, é melhor voltar correndo para o seu tesouro, antes que os flics descubram... ou talvez nossa testemunhazinha já tenha tirado tudo de lá.

Não!

A negativa fora pronunciada com suavidade, mas o tom de voz fez com que o sangue de Jennifer se transformasse em gelo. A mulher parecia estar novamente dona de si, apresentando-se como estátua, os olhos encobertos, parecendo imersa em pensamentos. Mas a respiração era rápida, havia suor em seu rosto. Bussac disse:

Sim, é verdade. A coisa acabou, minha bela dama. E se você tivesse juízo, teria deixado aberta a porta dos fundos, como eu fiz.

Posso usar a mesma — contestou ela, em voz irreconhecível.

         Pode, o diabo! — asseverou ele, com brutalidade.         

Já debatemos isso, e não vou ficar aqui mais tempo discutindo. Agora, saia da frente e deixe-me em paz. Se andar depressa, talvez chegue ao convento antes que os flics descubram alguma coisa importante.

Ele se voltou para apagar a luz. O pavio aceso diminuiu, fraquejou, tornou-se um fio em brasa. A mulher inclinou-se sobre a mesa e sua respiração ainda era curta e difícil.

         Eu vou com você. Para a Espanha.

Ele não respondeu, nem ao menos com um olhar. Estava atento em apagar a lâmpada. A mão dela se moveu, como cega­mente, sobre a mesa. Descobriu algo, agarrou-o. A lâmpada se apagou, soltando um pouco de fumaça, e a luz do fogo aceso apoderou-se do aposento. Ela deu a volta pela mesa, sem ruído. A seda das vestes farfalhava, a mão segurando a faca estava oculta em uma dobra das vestes. Ela disse, em voz singularmente sem ênfase:

         Você vai-me levar também. A resposta foi selvagem:

         Por Deus, não levo! Quantas vezes tenho de dizer o mesmo? Agora, vai sair daqui ou não?

Doña Francisca estava ao lado dele.

         Eu conheço o caminho — disse.

Algo, em seu tom de voz, pareceu detê-lo. Bussac voltou a cabeça e fitou-a, por segundos. Em seguida concordou, a voz pastosa:

         Até a cascata, conhece, sim, señora. E pensa que vou deixar que me acompanhe e à Marie, até a Espanha? Já teve sua oportunidade de dar o fora e agora, por Deus, vou fazê-la sair daqui! Terá um pouco de tempo para pensar no que vai dizer à polícia.

Achava-se entre ela e a porta. Atrás desta havia um cabresto e um pouco de corda. Bussac voltou-se para tirá-la do gancho. Quando se virava, ela atacou. As duas sombras juntaram-se, oscilaram de modo grotesco. Algo reluziu, desceu com batida suave e espessa. Uma imprecação, um arquejo e as duas sombras se separaram, enquanto Pierre Bussac caiu onde se achava, estendendo-se à luz do fogo, aos pés de sua assassina.

Ela permaneceu ali, em pé e sem se mover, por longos momentos, negra e imóvel contra a luz do fogo. Em seguida caminhou devagar, rigidamente, para trás, a fim de olhá-lo no chão. Passaram-se segundos e, então, com movimento rápido, quase violento, inclinou-se sobre ele, puxou o capote grosso para o lado e começou a vasculhar-lhe apressadamente os bolsos. Quase no mesmo instante, ergueu-se com o que parecia ser uma carteira cheia, na mão. Examinou-a de qualquer maneira e a enfiou no bolso oculto das vestes, fazendo uma pausa, olhando vagarosamente pela cozinha da cabana. Hesitou, ao fitar a porta do quarto onde estava Jennifer.

Enquanto olhava, alguma lufada perdida na ventania da tempestade, sacolejando as persianas, fez com que uma corrente de ar percorresse a cozinha e a porta abriu-se mais um pouco. O brilho fraco da luz do fogo sondou as sombras. A porta rangeu, abrindo-se ainda mais, e a mulher pareceu esta fitando diretamente o quartinho escuro. A luz cruel do fogo saltitava e brilhava, refletindo-se nos olhos apavorados de Jennifer.

Ela os fechou, sem respirar, quase sem viver.

A porta rangeu novamente. Algo, em seu som de abandono, devia ter falado de cabana vazia, de casa abandonada, com um homem morto no chão e uma mulher que fugia sozinha para as montanhas...

Emitindo um som que parecia leve gemido de dor, Dona Francisca voltou-se e saltou para a porta da casa.

 

                             NOITE NO MONTE CALVO

Uma casa abandonada; um homem morto no chão, uma mulher fugindo sozinha para as montanhas... se antes fora um pesadelo, ali estava agora todos os ingredientes do pavor. Melodrama? Essa expressão, que parecia irônica, pertencia a uma outra existência, onde coisas assim não aconteciam. Aquilo tinha ocorrido, era verdadeiro. Jennifer estava metida nessa situação, ali se achava, naqueles momentos.

Permanecia deitada, o corpo doendo e tremendo, a mente entorpecida, os olhos fixos em uma espécie de fascínio no corpo caído do homem assassinado. Aquilo era verdadeiro, estava acontecendo, a ela, Jennifer.

Ela se esquecera de Stephen e da longa estrada até Luz, tão difícil que convidava os acidentes. Nem mesmo pensava em Gillian e na faca que partira atrás dela, em meio da escuridão; permanecia deitada, em uma espécie de vazio de medo, no que teria parecido uma paralisação do próprio tempo, a não ser pelo relógio, que preenchia cada segundo com seu tique-taque, na parede escura do quartinho.

Com o mesmo ranger, como o grito de um camundongo em algum escaninho deserto, a porta abriu-se mais. Uma acha de lenha partiu-se, emitindo jatos de chama amarela, pequenas sondas luminosas que examinaram o corpo caído, no qual seus olhos indefesos se focalizavam. A porta rangeu de novo, com outro movimento fantasmagórico que lhe trouxe calafrios de medo. Os dedos da luz examinavam o homem morto, dando a impressão completa de que ele se movia.

Ele se movia, realmente.

Jennifer retorceu a cabeça no travesseiro, de lado, forçando os olhos até que os mesmos parecessem saltar das órbitas.

O corpo tornou-se rígido, ela prendeu a respiração, todo o ser concentrado em uma dor nova, cheia de pavor ao corpo que continuava tombado de borco, no chão da cozinha.

Ele se movia. Ao observá-lo, presa pela corda e tornada indefesa, Jennifer notou que havia um estremecimento dos om­bros de Bussac, o movimento perceptível de sua cabeça. E agora era uma mão que se movia; tremia no chão de pedras e logo se estendia, rígida, com dor, arrastando-se sobre o corpo, como a querer chegar ao ferimento feito pela faca.

Houve o som de um arquejo forte, que foi quase um assovio entredente, enquanto o corpo do homem se tornava imóvel outra vez, encolhendo-se em volta do ferimento, assim como um animal ferido faz, para proteger suas partes mais fracas.

E então ele pareceu juntar forças, vindas repentinamente de alguma fonte. A outra mão desceu e ele ergueu a parte de cima do corpo, devagar, até estar fora do chão. Por muito tempo, ao que pareceu, Bussac ficou assim, rigidamente estendido, os músculos dos ombros ressaltando, formando um sombrio arabesco de dor e esforço, e depois colocou um joelho por baixo, ergueu-se com um grunhido de dor. Por instantes, pareceu que o esforço tinha sido demasiado. Ele tombou à frente e poderia ter caído novamente, não fosse a perna da mesa, onde seu ombro se prendeu, segurando-o. De modo instintivo, a mão se ergueu para segurar a mesa e com esforço que, só em observar, fez Jennifer suar, o homem conseguia pôr-se de pé e estava inclinado sobre a mesa, apoiado nos punhos, respi­rando em ofegantemente.

Ali ficou sem qualquer outro movimento, senão as batidas convulsivas da mão no ferimento produzido pela faca e sua luta por respirar, enquanto o relógio ao canto continuava com seus tique-taques, infinitamente mais sérios do que o rugir tem­pestuoso lá fora. Ainda assim o homem ficou parado, apoiado na mão, e Jennifer amarrada a observá-lo, o vento a esbater as persianas e depois percorrendo as cavidades e espaços da montanha, como escura ave de vingança, perseguindo Gillian. . .

Pierre Bussac ergueu a cabeça. Vagarosamente, seu corpo ergueu-se, uma das mãos ainda no flanco. A outra tateou cega­mente em meio dos objetos na mesa, provocando o estrépito da louça, ruído doméstico que teve efeito singular naquele silêncio tão carregado. A mão que procurava encontrou, fechou-se. Ele sacudiu a cabeça uma vez, com força, como a afugentar o resto da dor. E então, movendo-se ainda devagar, em uma espécie de decisão apavorante, ergueu uma faca da mesa e voltou-se para a porta do quarto.

Essa parte do pesadelo, já acontecera antes. Uma vez antes ela se encolhera, amarrada, ao observá-lo a aproximar-se. Mas chega-se a um ponto no qual o terror se anestesia a si mesmo, um ponto além do qual ele não tem mais efeito algum. Jennifer, misericordiosamente, estava além do terror, naquele momento. Permanecia de corpo arqueado, procurando afastar-se da cama, como a resistir ao golpe que vinha. Seus olhos deixaram de fitá-lo, foi tudo.

Ele fizera nova pausa no portal, o corpanzil encobrindo a luz do fogo. A respiração era rápida e difícil. Pareceu ficar ali interminavelmente, uma sombra ameaçadora, até conseguir, mediante esforço perceptível, adiantar-se alguns passos, fraque­jando apenas um pouco, vindo até ela.

Em certo momento ele voltou a cabeça para trás, como a ouvir, e Jennifer pôde ver o brilho lateral de seus olhos. Foi quando a sombra de Bussac caiu sobre ela. Jennifer notou que as mãos dele procuravam, agarravam-lhe os punhos. Ele a puxou para o lado, procurando a corda que a atava. A lâmina fria da faca foi posta entre as mãos e a corda, e ele procurou cortá-la.

         Marie — murmurou ele, a voz pastosa. — Ela vai encontrar Marie.. .

As cordas se afrouxaram, afastaram-se, caíram. Enquanto Bussac punha a faca de cozinha na corda que lhe prendia os tornozelos, Jennifer estendeu as mãos entorpecidas e conseguiu livrar-se da mordaça sufocante. Cuspiu os trapos com que ele enchera sua boca e passou a língua seca e machucada por uma boca que devia estar indescritível, lutando para sobrepujar um assomo de náusea. E começou a esfregar os pulsos, para que o sangue voltasse a eles.

Bussac murmurou, em sua voz pastosa e difícil:

         Ela vai pegar... Marie.

Serrava a corda, mas a faca estava embotada, as mãos pouco firmes. Jennifer quis dizer: "Dê-me a faca", mas não conseguiu emitir som algum, apenas um coaxar débil. Ela se inclinou e tomou a faca dos dedos de Bussac, que não opôs resistência, e passou a serrar a corda já esfrangalhada, que lhe prendia os tornozelos. Bussac empertigou-se.

         Marie... — disse outra vez e cambaleou como um bêba­do, atravessando o quartinho rumo à cozinha.

E logo Jennifer estava livre. Não podia ter passado muito tempo desde que fora posta ali — aquelas eternidades cheias de terror — porque a corda não lhe amortecera inteiramente os membros. Os pés formigavam, o corpo doía, mas ela se ergueu da cama com pouco mais do que leve tontura, e seguiu em passos razoavelmente firmes até a cozinha, atrás de Bussac.

Êle se voltou da mesa, tendo uma xícara rachada na mão, e ela percebeu o cheiro forte do brandy.

         Preciso ir — disse ele, arfando. — Você tem de ajudar. Estou ferido. Aquela espanhola do inferno feriu-me. Você vai ter de ajudar. Tome.

Pôs mais brandy na xícara e estendeu-a a Jennifer, que aceitou sem hesitação, tomando um bom gole. A acrimônia ardeu e queimou-lhe a boca magoada, e depois percorreu-lhe o corpo como se fosse fogo. Ela engasgou e estremeceu, bebeu outra vez e dessa feita a bebida lhe trouxe vida nova, bem vermelha e quente, que percorria as veias até formigar nas pontas dos dedos, pondo-lhe o corpo cheio de energia.

Ela conseguiu falar, em murmúrio rouco e sem fôlego:

Sim. Ela saiu correndo. Estava com a faca. Qual é o caminho? Diga-me para onde ir.

Você nunca vai achar. É meu caminho... secreto... vou ter de mostrar.

Ele, todavia, ainda tinha a mão sobre o ferimento e o brilho da luz revelava um rosto abatido, como o de um moribundo. Jennifer disse, com leve soluço:

         Oh, meu Deus... onde foi que ela o atingiu ?

Deixe-me ver.

         Quieta, mulher — disse ele, com brutalidade. — Não há tempo.

Ela retorquiu, com aspereza:

         Deixe de ser imbecil. Não vai conseguir dar cinqüenta passos, desse modo.

Empurrou-o para uma cadeira e Bussac foi, sem resistir. Ela abriu o capote do ferido e rasgou-lhe a camisa, que estava pegajosa e pisada sobre um lugar que parecia negro e de onde o sangue borbotava. Era ferimento pequeno, do qual o sangue escuro se juntava e crescia devagar, descendo em filete vagaroso, assim como a água se junta e depois goteja de uma torneira vazando.

Se Jennifer fora além do medo, estava também muito além do choque. Com rapidez e calma, como se houvesse tratado de ferimentos a faca por todos os dias da vida, rasgou um pedaço limpo da camisa, molhou-o com brandy e limpou com gentileza a beira do ferimento.

Pierre Bussac não se mexeu, mas a mão fechou-se com força, uma vez, e ficou fechada.

         O inglês — disse ele, naquela voz penosa e indistinta, mas ainda assim com pontada de ironia. — Nós podemos... usá-lo... mesmo agora. Talvez ele. .. tenha arranjado... trans­porte.

Ele estava a cavalo. No cavalo de Luis. Bussac teve uma sombra de gargalhada.

Não vai adiantar de muito a ele.

O garanhão — explicou Jennifer, sucintamente.

O homem ferido teve um ligeiro movimento, como de sur­presa.

Aquele? Então... ele deve ser... um homem... afinal de contas.

Homem o bastante — disse Jenny, entredentes — para ser ferido a serviço da pátria, enquanto outros passavam a guerra em casa, ganhando dinheiro, roubando refugiados e assassinando os infelizes.

Dizendo isso, atirou o trapo empapado de brandy ao fogo, onde o mesmo se incendiou, em clarão azul e forte.

Esse fogo serviu para revelar um brilho de divertimento nos olhos de Bussac, sobrepujando a aflição e a dor. Ela o fitou com respeito relutante. Um brutamontes corajoso, aquele. Rato Rei? Não, Stephen se enganara. Era um homem, a despeito de tudo...

         É melhor calar a boca — disse, sem qualquer delicadeza. — Você vai precisar de todas as forças que tem.

Persistia aquele brilho nos olhos.

         Está bem, Inglesa Branqueia... está bem. Talvez vo­cês... não façam tão... mau negócio... afinal de contas.. .

Jennifer não ouvia. Sentara-se nos calcanhares, olhando com rapidez o que existia naquela cozinha, primitiva, procurando algo com que fazer uma almofada grossa. Um lenço limpo no bolso. Ótimo, ia servir para o ferimento. E que mais podia usar? Viu a toalha estendida sobre uma extremidade da mesa. Parecera tecido limpo, ao que se lembrou. Apanhou uma parte e sem hesitar um só instante, puxou-a impiedosamente, de modo que xícaras, pão, colheres e fragmentos de carne, tudo isso deslizou na mesa, com grande confusão. Ela puxou a toalha, fazendo aquele mistifório cair com estrondo; Bussac, com movi­mento surpreendentemente rápido, estendeu a mão e conseguiu pegar a garrafa de brandy, enquanto a mesma caía ao chão.

Com dedos rápidos, ela enrolou a toalha, passou o lenço em volta, depois apertou o tampão com toda a coragem que encontrou, contra o ferimento. Sentiu que o corpo forte' do ho­mem se retesava, mas tudo que ele disse foi "Depressa”!, en­quanto levava a garrafa de brandy à boca, sorvendo com avidez.

         Um xale — disse Jennifer. — Há por aqui um xale para amarrar?

Ele meneou a cabeça.

         Na porta.

Ela correu pelo quarto, tateando no canto escuro, entre as roupas ali penduradas. Descobriu o xale. Segundos depois, dava os nós e ele fechava o capote e se punha em pé. Tinha o rosto lívido à luz do fogo, mas estava cheio de decisão e caminhava, ainda que sem facilidade, com uma espécie de força obstinada que sobrepujava a dor.

Quando Jennifer se pôs em pé, Bussac passou o braço pelos ombros dela, instando na direção da porta.

—         Viens donc.

E logo tinham saído para a noite escura de tempestade, vendo pela frente a escuridão ainda maior das montanhas.

 

Bussac seguiu à frente, dando a volta pela cabana, onde a trilha se voltava, passando pelo estábulo de vacas, na direção do pasto íngreme que ficava por trás. O pior da tempestade parecia ter passado, mas o vento continuava soprando vigorosamente, em lufadas vindas do norte, e uma chuva esparsa e pesada rodopiava, tangida por esse vento. A escuridão já não era de breu, pois as nuvens mais altas estavam-se desfazendo, e de vez em quando o vento abria uma faixa, pondo as estrelas à mostra. Mas a caminhada era dura, e sem a ajuda da lanterna de Bussac a marcha de Jennifer teria sido penosamente lenta.

Ao passarem pelos edifícios, duas sombras se destacaram de uma porta escura. Eram os cachorros, que saíam para investigar. Jennifer encolheu-se, mas Bussac os fez parar com uma imprecação, escorraçando-os de volta.

Ela realmente sabe qual é o caminho, o caminho secreto? — perguntou Jennifer, que já arquejava devido ao esforço da caminhada.

Sabe, sim. Já fiquei doente uma vez... faz muitos anos... e ela tratou de mim... ela e uma velha freira, que já morreu... foi quando começou o problema... falei mais do que devia, quando estava com a febre... e ela... aquela alma condenada... ouviu e lembrou-se e... examinou minha casa. procurando provas.

         A carta?

         Sim. Agora, não fale... menina. Nós... vamos pegá-la...

Êle estava subindo o pasto escuro e encharcado com passos largos, sem dar qualquer sinal do ferimento, a não ser na dor que transparecia na respiração e no movimento da mão, que ia sempre proteger o flanco. Jennifer escalava e escorregava ao lado dele, os olhos fixos no círculo de luz dançando à frente dos dois. A trilha era perfeitamente visível, porém enlameada e peri­gosa, com pedras molhadas e lisas, e as lufadas impetuosas do vento, pelas costas, tornavam a marcha ainda mais difícil. Em certo momento, Bussac escorregou. Recobrou imediatamente o equilíbrio, mas devia ter prejudicado o ferimento, pois Jen­nifer ouviu que êle quase soltava uma maldição e, na luz fraca da lanterna elétrica, estava com expressão horrível no sem­blante. No entanto, quando Jennifer se deteve na marcha e voltou-se um pouco, uma indagação nos lábios, êle disse, rou­fenho :

         Não. Depressa...

Depressa... e tinham chegado ao fim da pastagem e ao começo das rochas. No mesmo instante as montanhas se apre­sentavam a rodeá-los, fortalezas negras impedindo a visão das estrelas e detendo a força do vento, gargantas demoníacas que assoviavam com suas próprias tempestades infernais, muralhas imensas de rocha cruel que ecoavam as batidas da ventania e o estralejar da chuva pesada. E por toda a parte, ao que parecia, a água rugia... por baixo, à frente, em todas as rachaduras e reentrâncias da rocha a água chiava e berrava, retorcendo suas cordas brancas em nós fantásticos, vindos de todos os lugares.

         Depressa...

E agora a lanterna, cuja luz era fraca, enfraquecia-se mais ainda. Jennifer respirava com dificuldade, na ilharga um ponto dolorido parecia apunhalá-la, o suor escorria quente por seu corpo, dava-lhe o sabor de sal nos lábios mordidos. Mas a mancha célere não afrouxou por um só instante. Não houvera tempo para dúvidas ou hesitações; jamais lhe ocorrera imaginar qual seria o desfecho da perseguição. Tudo Dona Francisca, Gillian, o perigo potencial no homem que tinha ao lado tudo se tinha apagado diante da necessidade imediata de pressa.

Alguns momentos antes tinham deixado a trilha. Bussac se afastara dela e, sem a menor hesitação, entrara no que parecia a Jennifer uma série de barrancos estreitos, fechados por pedras enormes. Em certa feita, uma árvore caída estava diante do caminho e, de outra, eles mergulharam até os joelhos em um córrego gelado, mas onde a mula devia ter passado eles também podiam passar, e Bussac nunca fraquejou, seguindo com firmeza em meio ao emaranhado de sombras tortuosas.

O caminho tornava-se mais íngreme, a marcha mais difícil, e Jennifer compreendeu que o companheiro estava finalmente fraquejando. Devia ser por um milagre de resistência que Bussac chegara a esse ponto, com tal velocidade. Quando fizeram uma pausa para atravessar uma faixa íngreme de rocha, ela notou como a lanterna tremia na mão de Bussac, ouviu-lhe a respira­ção, que estava desesperadamente rouca e entrecortada, a seu lado. A mão livre de Bussac comprimia o lado do corpo e este já não se punha ereto. Mas ele se jogou de algum modo após ela, subindo sempre a rocha íngreme, e a escalada horrível prosseguiu.

A trilha como se apresentava agora — levava-os a passar por um barranco em pé. À direita, um penhasco imenso estava bem próximo, tirando-os da trilha estreita que passava por sua face, um caminho alto e trilhado entre a rocha viva e uma muralha de pedras caídas, oferecendo proteção contra as profun­dezas da esquerda, de onde vinha o rugido firme de algum curso volumoso de água. No barranco, os penhascos ofereciam proteção. Somente quando eles davam a volta por uma esquina repentina, ou se esforçavam por passar em uma fenda na muralha, uma lufada forte de vento tirava-lhes o fôlego e trazia confusão às suas passadas.

Mas se as profundezas do barranco estavam abrigadas, o ar por cima continuava muito vivo. O estrondo da tempestade tornara-se um grito alto e lancinante entre os picos das monta­nhas. Era como se as lufadas de vento saltassem, carregadas de chuva, passando por cima do barranco, saltando obstáculos de um a outro pico, tendo toda a mantilha de demônios no encalço, latindo de maneira infernal. A tempestade magnética desde muito se desmanchara, mas agora a torrente lá embaixo criava seu próprio trovão, e quando o vento abriu uma faixa do céu, as estrelas lá por cima pareciam incendiadas com fogo tão ameaçador quanto o de qualquer relâmpago. Fogo, ar, água... os três elementos combinavam-se em toda sua fúria para confundir e atordoar o transgressor... Jennifer desco­briu-se presa à face do penhasco, como se esta fosse uma âncora, enquanto seguia pelo caminho estonteante. Apenas a terra a terra firme, era segura... Mas era, mesmo ?

A primeira advertência que recebeu foi quando a lanterna elétrica sacolejou na mão de Bussac e ele se deteve, pondo-se imóvel. Jennifer ouviu o que ele dizia, em um soluço lancinante:

Sainte Vierge...

Jennifer voltou-se depressa.

Que é? Não dá para continuar?

Viu que a mão dele se movia, erguendo-se em gesto singularmente desalentado para as partes superiores e escuras do bar­ranco.

E foi quando ouviu também.

Por baixo do rugido da torrente, sobre o gemido intermi­tente do vento, ela ouviu — ou melhor, sentiu, o som terrível, que não era um som, apenas uma vibração preenchendo o ar e fazendo estremecer as próprias raízes das montanhas, assim como o diapasão enorme faz balançar uma catedral. O último elemento viera juntar-se aos demais e trazia sua voz ao caos.

Era a própria montanha que se movia.

Pela segunda vez aquela noite Jennifer se viu apertada nos braços de Bussac, mas dessa vez achegou-se a ele por sua própria vontade, tremendo, a cabeça escondida no ombro dele. Também Bussac tremia e seus braços a seguravam como se ele desejasse proteger a si mesmo, e o coração batia com força, disparara.

Ali ficaram, entrelaçados e ouvindo, enquanto o ruído da avalancha crescia e chegava ao clímax irresistível... e depois deslizava, afastando-se, em uma corrente de ecos fantásticos, ao mesmo tempo em que, por cima disso, a voz da torrente prosseguia rugindo, retomando triunfalmente o poder sobre a noite.

Ao desfazer-se o som, chegando a um fim terrível, ele disse, em voz irreconhecível:

         Em frente de nós... Marie... escute!

         Escute! — disse Jenny, erguendo a cabeça e sentindo que Bussac enrijava o corpo, que as batidas do coração de Bussac estremeciam-no da cabeça aos pés.

Que foi? Ela se afastou.

Ouvi um grito e... lá! Que é aquilo?

Fracas, porém inconfundíveis, acima dos ruídos da noite, vieram as batidas de cascos de animal.

         A mula — disse Bussac, enrouquecido, segurando Jennifer pelo punho. — Marie.. . Tem certeza de que foi um grito?

         Sim, ouvi alguém gritando.

Ele se afastou de Jennifer, soltando uma praga que se parecia a uma oração, e partiu na escalada da trilha, como se estivesse começando naquele instante e não se achasse ferido. Depois, fraquejou. Cambaleou, oscilou e estendeu a mão para a muralha de pedra ao lado. Jennifer correu para lá. Bussac se apoiava pesadamente na rocha; à luz incerta das estrelas, seu rosto era uma máscara sombria de dor, tendo a boca negra, por onde a respiração chiava horrivelmente. Ele olhava a mão que estivera comprimindo o flanco e ela estava negra.

Nada havia a dizer, nada a fazer. Jennifer passou o ombro por baixo da axila de Bussac, tentando sustentá-lo, mas ele sacudiu a cabeça em negativa.

         Eu estou... liquidado.

Foi um murmúrio roufenho, nada mais. Seu corpo pareceu decair e ele tossiu, voltando a cabeça para outro lado.

Jennifer esforçou-se desesperadamente por mantê-lo em pé, tornada impiedosa por tanto pavor que sentia.

         Você precisa ajudar-me! Não pode parar! Monsieur Bussac!

Cascos de animal faziam ruído pela trilha acima. Ela olhou sobre o ombro e viu uma forma escura impedindo a passagem da luz das estrelas.

— A mula!

Soltou-o, sem saber se Bussac oscilava e escorregava pela rocha. Saltou para o meio da trilha, abriu bem os braços.

A mula desceu pelo caminho cheio de pedras, em carreira escorregadia. Tinha a cabeça erguida e parecia assustada, com os olhos luzidios e orelhas baixas. Um dos cascos ferrados fez faíscas em alguma pedra. Ela descia depressa pela encosta, enchendo o caminho, vindo com rapidez na direção de Jennifer, em meio a uma cascata de pedras partidas.

         Pare! — disse Jennifer, impensadamente, em inglês, e continuou onde estava.

O animal vinha mais depressa, estava quase a alcançá-la. Viu-a então, e Jennifer notou que as narinas da mula se abriam, soltando um bufado, cheia de pânico repentino. As patas da frente estenderam-se, tirando fogo das pedras, e ela fez alto. com as ancas bem à frente, o bafo quase tocando o ombro de Jennifer.

Quando o animal começou a recuar, bufando e esquivan­do-se, Jennifer estendeu a mão e agarrou as rédeas. Tomou-as, puxou para baixo a cabeça da mula e arrastou-a até onde estava Bussac. E por não ter tido tempo de arrecear-se do animal, este a obedeceu, seguido-a tranqüilamente.

Bussac estava como o deixara, quase caído ao pé do pe­nhasco, a cabeça voltada para o lado, a face encostada na rocha molhada. Jennifer ajoelhou-se ao lado, tendo a rédea da mula passada por um dos braços e o agarrou pela parte dianteira do capote.

—         Monsieur Bussac! Levante-se! Aqui está a mula! Con­segue montar ? Será que consegue ? Monsieur Bussac.. . Oh, Deus, fazei com que êle se levante! gritou, frenética.

Um estremecimento percorreu o corpo do homem tombado. Ergueu a cabeça, levou uma das mãos a ela. A respiração era superficial e entrecortada. Olhou para Jennifer, no que lhe pareceu um modo vago, e depois o olhar foi além, vendo a mula. Fitou-a por momentos e depois a língua veio umedecer os lábios e ele disse, no mesmo murmúrio penoso:

         A sela.. .

Jennifer relanceou o olhar para o que ele dizia.

         Do que está falando? Que tem a sela?

Ele conseguiu respirar, estertorante.

         A barrigueira.. . está frouxa.. . Ela pôs os. . . estribos pára cima.. . e amarrou as rédeas... no pescoço.

         Sim, e daí ? Monsieur Bussac?

         Não percebe?... Ela chegou lá.. . Mandou a mula.. . de volta. A mula de Corentin. .. emprestada.

A voz de Bussac foi-lhe tirada, em imprecação abafada, enquanto ele voltava a tossir.

         Sim, mas. . . — e Jennifer parou cie respirar, por ins­tantes. Entendo! Quer dizer que Gillian... Marie... já deve ter chegado ao lugar? Para lá da avalancha?

Bussac assentiu, lutando por respirar.

         E a mula já estava de volta, quando a avalancha caiu... disse ela, erguendo a cabeça para ver o vale. O grito que ouvi... o grito que ouvi, Monsieur Bussac, foi deste lado da avalancha, tenho certeza, um grito e o tropel de animal, tudo ao mesmo tempo.

Ele disse, a voz pastosa:

—         Doña Francisca. .. Talvez a avalancha a tenha... ou então a mula... começou a recuar quando a avalancha vinha... encontrou-a... assustou-a...

Jennifer repetiu, respirando fundo:

—         Deste lado da avalancha.

Bussac movimentou-se um pouco, de modo que encostava os ombros na rocha.

         Escute disse, a mão erguendo-se, tomando-a pelo braço com vigor surpreendente. É uma possibilidade. Você vai ter de continuar. Eu não posso.

O aperto da mão tornou-se convulsivo, como se a dor o lancinasse, e a voz veio entrecortada, mas rija e clara:

         Acho que sei onde foi a avalancha. Havia um lugar... não importa. Fica entre este ponto e a cascata, e deve ter fe­chado o caminho... Marie já passou. Ela ia esperar perto da cascata e mandar a mula de volta.

Dizendo isso, fez uma pausa. O aperto no braço de Jennifer diminuía, mas os olhos do homem retinham os dela, com expressão dura e imperativa.

A señora vai ter de escalar a avalancha... ou voltar. Qualquer das coisas levará tempo. Você precisa chegar lá... primeiro. Acho que pode fazer isso. Há um outro caminho.

         Diga-me como é.

Ele deu uma sacudidela com a cabeça, indicando o lado. Seus dedos enfiavam-se no braço de Jennifer.

Na próxima virada... para a esquerda. É um caminho que desce entre duas rochas pontudas. Ele passa... por baixo deste, quase lá na água. É caminho mais difícil, porém mais curto, e dá certo, se você conseguir enxergar.

A luz está boa. Ele vai até a cascata?

Sim. Escute, agora.

Bussac achegou-se um pouco, com esforço, o rosto saindo da sombra para a luz das estrelas, rosto cheio de dor e esforço.

         O caminho para a Espanha... uma ponte de pedras em frente da cascata. É seguro, se você for... devagar. Mas você precisa apressar-se... a tempestade... o rio vai encher depressa... e com água alta a cascata... passa por cima... da ponte.

Puxou-a mais a si e a voz enfraquecia.

Atravesse com ela. Você vai chegar a tempo. Se a água estiver subindo, a señora talvez chegue tarde demais. Se não, e se não conseguir esconder-se a tempo... bem, é uma ponte estreita e fácil de... defender.

Sim disse Jenny, enrouquecida.

Se aquela cadela assassina pegar vocês...

Sim? perguntou Jennifer, em leve gemido.

— Ora, vai ter de... matá-la... sua branquela — disse Bussac e a mão afrouxou-se, soltou a manga do capote de Jennifer.

Ele ainda respirava, mas nada havia que se pudesse fazer. Jennifer soltou o bridão da mula e examinou o bolso de Bussac, procurando o punhal. Estava no bolso esquerdo e sua mão saiu dali quente e pegajosa. Mas Jennifer quase não notou. Estava em poder do punhal.

Ela se empertigou, segurando-o, passando pela mula que se acalmara, e saiu quase correndo pela trilha estreita, sozinha em meio da luz das estrelas, que se pusera mais forte.

 

                    PASSAGEM PELA PONTE

O caminho que deixava a trilha foi bem fácil de achar. Mergulhava para a esquerda, serpenteando em meio ao cascalho caído, como uma escadaria natural e estonteante. Jennifer desceu por ali, em velocidade na qual se arriscava a um acidente, mas tinha os passos firmes, guiados por um desespero que já se esquecera do medo.

Aqui e acolá, alguma planta firme servia para ajudá-la a segurar-se. Ela escorregava audaciosamente em pequena avalanche de chão solto, até encontrar novamente terreno firme e então, girando em volta daquilo, como se fosse uma coluna de escada, mergulhava sem hesitar até o lugar seguinte onde pudesse firmar os pés. As escoriações e arranhaduras aumen­tavam sempre, mas ela não sentia isso; misericordiosamente, não caía. Vinha descendo a escarpa em uma série de lances curtos, em ziguezague, ricocheteando, por assim dizer, de uma rocha e árvore a outra, até que finalmente chegou, em movi­mentos desordenados, ao que era um caminho.

Se alguma criatura maior e menos ágil do que o camaleão já usara essa pista, não se tinha qualquer indicação do fato. Mas dava para ver o caminho em meio do amontoado de rochas e Jennifer, capaz de ver com bastante clareza, conseguiu impelir-se à frente, em velocidade bastante boa. Impelir-se — porque só raramente se atrevia a fazer qualquer movimento sem a ajuda das mãos; o caminho era praticamente sacudido pelo trovejar da torrente bem próxima e o ar se apresentava frio e luminoso de espuma de água. Além das águas furiosas erguia-se a outra muralha do barranco, negra e lisa, um precipício gigan­tesco. Ela se prendia de perto à rocha bruta da direita, enquanto se empurrava pela trilha quase inexistente.

Não tardou para que esta desaparecesse completamente. Jennifer parou, soluçando para respirar, e olhou em volta, tomada por acesso de pânico. Foi quando compreendeu que o chão onde se achava era macio e friável, matéria solta na qual os sapatos se afundavam até os tornozelos, e onde lascas agudas de rocha se adiantavam como se fossem presas de animais. Olhou em volta. Por cima e por baixo, a mesma confusão de terra e rochas. Estava atravessando o caminho da avalancha. Ela seguiu caute­losamente por aquela terra solta e escorregadia e logo retomava a trilha.

Começava a subir agora, escalando com rapidez a encosta da montanha, em passos estonteantes que se aproximavam cada vez mais do trovão ensurdecedor da cascata invisível. De algum modo, conseguiu erguer-se pela escadaria perigosa, mais uma vez cega e surda a tudo, menos à necessidade de apressar-se. Parecia-lhe que estivera cambaleando desde muito tempo, ma­chucada e sem fôlego, naquele pesadelo de vento e escuridão, passando pelas profundidades da montanha calva.

E então, de repente, dando a volta por uma rocha íngreme nessa escadaria, encontrou a cascata.

Ali o barranco tinha uma entrada para o oeste e, em suas profundezas, a ventania não penetrava. Tampouco o vento tinha voz, naquele lugar. A voz única a imperar era a trovoada gigantesca da água e o vento único, aquele da torrente que, a pouca distância adiante, caía reluzente de algum lugar distante, a uma centena de metros acima.

Para Jennifer, que parou e ficou piscando, encostada na face da rocha, nessa volta do barranco, pareceu-lhe que a grande força se derramava do céu noturno. E então, com uma dessas transformações repentinas e próprias das tempestades nas regiões montanhosas, uma corrida de nuvens ocasionada pelo vento deixou a nu uma lua luminosa, de modo que para seus olhos intrigados era como se a queda d’água tombasse em um trovão comprido e branco, diretamente da fonte da própria lua.

O barranco apresentava-se agora com agudeza, em preto e branco, ao luar. Em ambos os lados viam-se os penhascos enormes, pontiagudos e lisos; à frente, e tão imponente quanto os penhascos, via-se a grande barreira de rochas sobre a qual a torrente se derramava. Para a esquerda, à direita, à frente, o lugar parecia intransponível.

Acima daquilo, todavia, como se fosse um arco de sombra sobre a face da torrente, viu o caminho que dava para a Espanha. Era um caminho natural e terrível, feito de rocha, caído dos lados da garganta e ligado a um arco de pesadelo, que oscilava quase etéreo no borrifo iluminado pelas estrelas. Por trás dele a cascata tombava em um lençol branco, despejando-se em fúria abaixo da orla avançada e rochas caídas, saltando então, em centenas de braços menores de água em rodopio, para a poça negra no fundo do barranco.

Jennifer piscou outra vez. Sim, lá estava. Ao lado da cascata, na extremidade daquela ponte inacreditável, havia uma luz fraca a oscilar pela orla da água borrifada. Era uma lanterna elétrica. Ela se movia, balançando um pouco, e sua orla incerta de luz amarela enfraquecia e mudava, quando a espuma eclodia e levantava-se em fumaça diante dela.

Lá estava Gillian. Esperando.

Jennifer continuou correndo, tendo nos lábios uma oração tão amarga quanto o suor que era obrigada a provar.

 

Começara já a fazer a escalada frenética, íngreme e final que dava para o nível da "ponte", quando lhe ocorreu que não sabia o que ia dizer a Gillian.

A prima, afinal de contas, pudera vê-la da última vez como vítima da raiva de Bussac, na cozinha da cabana, como cúmplice da polícia e obstáculo à fuga deles, retirando-se da França. Como iria receber o que parecia ser a inclusão de Jenny nos planos de Bussac para essa fuga?

Ela fez uma pausa, lutando para respirar, apoiando-se em um degrau alto na rocha que lhe impedia o caminho, e olhou para cima. A trilha parecia alisar-se ao luar, tornando-se uma escada enganadoramente fácil, de rochas que se erguiam até a cascata; era a escada de Jacó, encostada na lua...

Jennifer esfregou o rosto que ardia, usando para isso a manga do capote, como a querer desfazer-se das fantasias pro­piciadas pelo esgotamento e, fitando os olhos no ponto de luz da lanterna elétrica, deu início à última etapa, da escalada.

A lanterna elétrica balançava-se onde estava, à medida que Gillian se movia. Mas estava bastante firme. Gillian acha­va-se lá, a salvo. A mulher espanhola não podia tê-la alcançado ainda. Até ali, tudo bem... Mas como poderia Jennifer persuadir Gillian, transformada em pessoa naturalmente desconfiada, a atravessar a cascata em sua companhia, em vez de esperar Bussac? Como afastá-la de um perigo do qual ela clara­mente não poderia suspeitar?

A tensão e pavor pelos quais Jennifer havia passado, o esgotamento físico contra o qual lutava agora não tinham deixado qualquer possibilidade de raciocínio. Foi somente quando se ergueu, soluçando e quase liquidada, subindo a distância final é que a verdade simples lhe ocorreu, com todas as suas im­plicações.

Bussac jamais levaria Gillian para a Espanha. O homem estava morto ou moribundo. O certo era que, no tocante a Gillian, Bussac saíra de cena. A questão se apresentava com toda a simplicidade, entre Jennifer e a espanhola. Tudo que tinha a fazer era ocultar-se e a Gillian, para que Dona Fran­cisca não as pudesse achar, até ser possível descer com a prima, procurando ajuda e a civilização — e a Inglaterra, Não se tratava de atravessar aquela ponte horrível. Na escuridão, nos barrancos negros e nas ravinas da montanha calva, toda uma tropa de homens podia esconder-se com facilidade. Ela trataria de enlear Gillian com algum relato...

Arrastou-se para galgar o último obstáculo de rocha e seguia à frente, em carreira trôpega, rumando para a luz da lanterna.

Gillian pusera a lanterna no chão, à beira da água; e o brilho amarelo da luz elétrica continuava firme, espelhado na laje úmida em que se achava. De vez em quando, a espuma de água vinha da beira da torrente e passava em frente da luz, como uma cauda de cometa, cheia de fagulhas. Ela própria não estava à vista.

Jennifer correu à frente, caindo de joelhos ao lado da lanterna, ocultando-lhe a luz com o corpo, na direção da qual viria a perseguição. E uma figura escura apresentou-se do negrume de uma coberta de rocha próxima e a voz de Gillian, bem clara acima do trovão da cascata, gritou:

—         Quoi donc, mamselle?

Arquejando, Jennifer lutava com a lanterna.

         Depressa, Madame Bussac! Apague isto! Temos de nos esconder.

         Mas por que está aqui? Pierre disse...

         Pierre virá depois. Foi detido. Mandou-me avisá-lo. Eu não sou inimiga sua, sabe? Expliquei tudo a ele, depois de você ter saído. Quero ajudar. Agora, apague isso!

Havia em seu tom de voz, no semblante, nas mãos que se sacudiam desesperadamente, algo que impunha obediência. Gillian abaixou-se, descobriu o botão da lanterna e o fez girar.

A pequena luz esmaeceu e sumiu, no clair-obscure do luar pra­teado e da montanha negra.

         Onde está Pierre? — interpelou Gillian.

         Não pode vir ainda. Precisamos esconder-nos agora e descer depois para ter com ele. Nós...

         Ele corre perigo?

         Sim — disse Jennifer, sem faltar à verdade. — Nós precisamos voltar.

Ergueu-se e segurou o braço da prima, em aperto aflito.

         Venha agora.. . agora mesmo. Precisamos descobrir um abrigo.

Gillian voltou-se imediatamente para a faixa de sombra onde se escondera antes. Jennifer, apanhando a lanterna apa­gada, emitiu um leve soluço de reconhecimento pela facilidade com que sua história tão fraca — nem mesmo fizera sentido — fora aceita. Gillian voltou-se outra vez e estendeu-lhe a mão.

—         Venez, donc — disse ela. — Podemos subir aqui... Ela parou e se empertigou, olhando para além do ombro

de Jennifer, que girou sobre os calcanhares.

De algum lugar acima delas, em meio à barafunda de novas rochas, onde a avalancha estivera, veio o estralejar de pedras que eram deslocadas. E então, cruzando uma faixa do luar, surgiu uma sombra negra, rápida, informe, envolta em capa esvoaçante.

         Aí está Pierre! — gritou Gillian e correu novamente para o luar.

O que aconteceu em seguida Jennifer jamais soube explicar ou recordar.

Deixou cair a lanterna, com estrondo, saltando à frente. Viu o rosto de Gillian, erguido ao luar, e sua expressão transfor­mar-se da expectativa à perplexidade, e desta para a apreensão, o medo, o pavor. Viu Dona Francisca descendo pelo cascalho, na direção delas, as vestes negras esvoaçando em volta do corpo. E então, vendo Jennifer, ela gritou:

         Você! Eu sabia! Você!

E Gillian voltou-se, com pequeno soluço de medo, correndo diretamente pela pedra da cascata, como se o fino arco de rochas caídas fosse uma ponte comum, e o luar incerto, o brilho do meio-dia. Sem saber o que fazia, Jennifer se voltou e a seguiu.

Para a direita, a grande muralha trovejante de água, encobrindo a luz; à esquerda, o ruidoso pano de fundo que era a poça negra... a própria ponte não passava de um amontoado de rochas caídas e atiradas por alguma convulsão da montanha, por cima do espaço horripilante das águas. Parecia estremecer com o rugido da queda d’água; as rochas inclinadas pareciam estender-se, negras e traiçoeiras, sob os leques de espuma que esvoaçava de modo intermitente.

E por cima dessa ponte terrível Gillian fugia, tendo Jennifer em seu encalço. Achavam-se agora no centro, parecendo paradas de modo precário no espaço, por sobre uma grande nuvem de borrifos de água, iluminados pelo luar, nos quais a sombra da ponte tremia como um arco-íris mais escuro. O ruido era terrível. Seria apenas imaginação ou a torrente se apro­ximava mais, cada vez mais, da ponte? A cada segundo um grande leque brilhante de água se abria, caindo sobre as pedras lisas. Jatos de espuma tombavam como pequenas cordas retor­cidas, esbatendo-se aos pés delas, transformando-se em orlas luzidias que desciam para engrossar o brilho do arco-íris. A torrente se aproximava mais. As rochas estendiam-se. Gillian estava a dois terços da travessia, escalando de qualquer modo uma pedra inclinada e lisa, coberta de água escorregadia. Jennifer, vindo em seguida, olhou para trás.

Doña Francisca chegara à ponte. Fizera uma pausa ali, talvez assustada pela visão da travessia amedrontadora. Gritava algo inaudível, mas não se movia.

Ao lado de Jennifer apareceu, débilmente, em meio ao rugir da água, o eco de um grito.

Ela se voltou exatamente a tempo de ver Gillian chegar à parte de cima da pedra e então escorregar, oscilar por mo­mentos, os braços a se esbaterem freneticamente, por cima da rocha, e cair na laje onde Jennifer se achava, ficando inerte e imóvel, o corpo precariamente suspenso entre as pedras, a cabeça pendente e indefesa sobre o abismo ao lado.

Jennifer baixou-se ao lado dela, agarrando-a pelo capote.

Ouviu uma risada, bem clara, a despeito do ruído da água, e voltou a cabeça.

A mulher pusera o na ponte. Sua boca era um sorriso negro no rosto branco. Agarrara a saia das vestes, com uma das mãos, e vinha cuidadosamente caminhando pela ponte.

 

                         APPASSIONATA

O cascalho negro por trás de Doña Francisca pareceu tomar vida, quando outra sombra, ainda mais escura, destacou-se do negrume da noite e desceu de qualquer maneira pela encosta, em meio a uma chuva de pedras soltas. Houve um grito de espanto, e um homem saltou os últimos metros que faltavam no cascalho, correndo à frente sob a luz da lua. O luar iluminou-lhe os cabelos escuros, o corpo de movimentos soltos que, não fosse pelo coxear, movia-se tão bem...

—         Stephenl

O ruído da água abafou o grito de Jenny. Era a mesma oração desesperada e inaudível, mas dessa feita a resposta já se achava lá...

Ele gritou outra vez e sua voz ricocheteou com força de uma para outra rocha, passando em meio ao rugido incessante da água.

Doña Francisca, que se adiantara um pouco pela ponte, parou em sua marcha cuidadosa e o vento da cachoeira sacudia com tal força as vestes negras que ela oscilou ao voltar-se. Os braços se estenderam procurando equilíbrio, as mangas drapejando, a saia solta do hábito estendeu-se também, molhada e pesada, puxando-lhe o corpo. Com três passadas largas Stephen atravessara o espaço vazio de rocha iluminada pela lua, acha­va-se na ponte. Jennifer ouviu que ele gritava outra vez:

         Venha para cá, sua louca!

Mas a mulher voltou-se mais uma vez e, perdendo toda a cautela, jogou-se à frente pela ponte, em direção das jovens, faca na mão.

Stephen movimentou-se com rapidez maior ainda. Com um salto, estava na ponte e se atirava imprudentemente pela mesma.

A mulher olhou para trás uma vez, os passos fraquejaram, e depois prosseguiu, mas as vestes molhadas e grossas impediam-lhe a marcha, prendiam-se às suas pernas. Duas passadas mais, três, êle se inclinou, agarrando-lhe o braço. Errou, mas a mão pegou-lhe a manga do hábito. De algum modo ela conseguiu livrar-se, atirando-se à frente. Seu véu esvoaçante bateu no rosto de Stephen, fazendo com que se desequilibrasse, perdendo distância. Quer fosse a vingança que a impelia, ou o medo, ou apenas o desejo pânico de fugir, ou fora a lucidez que final­mente se desfizera em seu cérebro, jamais iriam saber. Talvez Doña Francisca nunca utilizasse a faca de que Gillian havia fugido, e por causa da qual Jennifer se encolhia agora, tentando encobrir o corpo inconsciente da prima. A mulher gritava alguma coisa, chegara a elas. Foi quando os braços de Stephen vieram por trás, agarrando-a com firmeza. As mãos dele fecharam-se com brutalidade nos punhos da mulher e ele a arrastou para trás.

O impulso desesperado de Doña Francisca, todavia, confe­ria-lhe força terrível. Ela se voltou contra Stephen, até mesmo agarrada por ele, seus punhos molhados escorregando nas mãos dele. Voltou-se assim como uma víbora e, também como uma víbora, atacou. Jennifer viu que o corpo de Stephen estremeceu, quando a faca o atingiu, viu que ele a soltava momentanea­mente, cambaleava, cegado por uma dobra drapejante do véu da mulher, enquanto esta erguia a faca para atingi-lo outra vez.

E então, quando desferiu o golpe, o pé escorregou. Os braços dela ergueram-se, batendo-se no ar como se fossem asas. Mas o impulso com que dera o golpe atirou-se à frente, fazendo-a passar por ele, bem além do gesto desesperado com que Stephen a quis segurar, levando-a à própria margem da ponte, onde ficou parada no que pareceu uma eternidade inclinada à frente, como um mergulhador que ia saltar no abismo pavoroso.

Doña Francisca tinha os olhos arregalados, as mãos diante do corpo, bracejando no ar vazio e logo, com grito alto e lancinante, inclinou-se à frente no tombo horrível, e caiu.

Em um instante estivera ali, pousada como ave negra e má, acima do borrifo de água, iluminado pelo luar. No instante seguinte desaparecera, tragada pela corrente, e acima de seu desaparecimento, o arco-íris formado pelo luar oscilou um pouco e logo voltou à firmeza.

Stephen ajoelhou-se ao lado de Jennifer.

— Stephen... Oh, Stephen!

Você está bem?

Sim. Mas você...

         Foi apenas um arranhão — disse ele. — Depois — ordenou, segurando-a com vigor reconfortante, enquanto olhavam para Gillian. Stephen ergueu a voz, acima do trovão da cascata. — Que aconteceu com ela?

         Caiu.

         Saia do caminho, então. E segure-se naquela rocha. O rio está enchendo. Em dez minutos, passará por cima de nós.

Era verdade. As rochas formando a pequena ponte já esta­vam inundadas. Não fora fantasia de sua imaginação, afinal de contas. A cascata estivera vagarosamente a se aproximar, enquan­to a chuva da tempestade engrossava a nascente. E agora a orla da torrente que caía raspava, por assim dizer, a beira interna da ponte, golpeando-a e explodindo sobre ela em leques contí­nuos de água borrifada. Repetidas vezes aquela estrutura frágil estremeceu, ao impacto de alguma carga maior de água. A laje em que Stephen e Doña Francisca haviam lutado já se achava sob alguns centímetros de água escorregadia.

Stephen firmou o pé em uma rachadura, o outro em uma pedra e ergueu Gillian nos braços. Jennifer se pôs em pé, prendendo-se à rocha.

         Eu posso voltar.

         Fique onde está — disse ele, em tom de ordem. — Eu volto já.

E de algum modo, com um grunhido de esforço, passara o corpo de Gillian sobre o ombro, à maneira dos bombeiros, firmara os pés na pedra e se voltara para seguir pela ponte. Jennifer acocorou-se bem próxima da rocha, a água já a passar por suas pernas e indo ter aos ombros, fria, muito fria... todo o corpo parecia lavado pela água gelada, as mãos pareciam mortas, o próprio cérebro congelado, inteiramente aturdido pelo trovejar da torrente e pela friagem espumante de sua água. Stephen tivera razão. Ela não poderia mais regressar pela tor­rente, assim como não poderia voar sobre o arco-íris, naquela bruma enluarada.

Agarrou a rocha com os dedos inertes e observou, com olhos horrorizados e fascinados, enquanto Stephen caminhava de volta pela ponte, tendo Gillian atravessada nos ombros como se fosse um saco de carvão. Apenas uma vez ele cambaleou, quando atingido no ombro por um jato de água, mas recuperou o equilíbrio imediatamente e, pondo os pés com movimento firme nas lajes molhadas da ponte, prosseguiu imperturbável. E chegara lá, baixava Gillian, depositando-a na rocha que a lua iluminava.

Jennifer compreendeu então, pela primeira vez, que o cascalho estava cheio de homens. As sombras se separavam, adiantando-se e voltando a juntar-se, enquanto os homens corriam por ali e se aproximavam da ponte. Tudo aquilo acontecera com uma velocidade que, depois daqueles instantes, Jennifer acharia inacreditável; os outros, que não podiam estar a mais de sessenta metros atrás de Stephen, quando êle chegara à ponte, e agora, enquanto carregava o corpo inerte de Gillian para a segurança, estendiam as mãos para ajudá-lo. Alguém tirou-lhe Gillian. Archotes. Archotes brilhavam, uma lanterna elétrica acenou. Ela foi levada com rapidez para um ponto abrigado. Os homens se inclinavam sobre Gillian ajoelha­vam-se. ..

Os demais continuavam agrupados na ponte, onde Stephen lutava para despir o capote encharcado. Dois dos homens se adiantaram, como a querer repreendê-lo, mas Stephen passou por eles e, mais uma vez, partiu sobre aquele arco perigoso, seguindo com firmeza na direção de Jennifer.

Ela observou que êle vinha. Estava a um quarto do cami­nho na metade, e movendo-se em uma nuvem, em uma tempestade de borrifos de água. As estrelas, por trás de Stephen, reluziam como cristais de gelo. A lua parecia encolhida de tanto frio. Jennifer também se encolheu, transformando-se em pequeno volume de carne que tremia, e de ossos gelados, e cujos olhos estavam fixos, doendo na friagem.

E logo Stephen chegava a seu lado, tocava-a, mas Jennifer não o sentia. Stephen trouxera a ponta de uma corda e a amarrou em volta de Jennifer, praguejando baixinho enquanto lutava com a corda encharcada.

Falando entredentes, ele disse:

         Você está a salvo. Eles têm a outra ponta da corda. Basta ir com firmeza. Olhe para a frente.

Os dentes de Jennifer batiam, de modo descontrolado.

E você?

Eu estou bem. Vá andando.

Foi a coisa mais difícil que Jennifer fizera na vida, deixar aquela rocha e caminhar pela ponte. O simples colocar-se em pé, com o corpo dolorido, fê-la estremecer com o medo renovado de sua própria fraqueza, enquanto a suposição de que suas pernas sem força conseguiriam levá-la à frente constituía um ato de fé, do qual ela se julgava inteiramente incapaz... Mas enquanto hesitava, o pânico a entravar-lhe os ossos, as mãos de Stephen, rápidas e brutais, arrancaram as suas de onde se segurava, fazendo voltar-se para enfrentar aquele espaço trovejante. Ela viu, sem sentir, que Stephen tomava-lhe as mãos geladas e as colocava na corda que se estendia de sua cintura até a extremidade da ponte, segura lá por três homens. Via-os com clareza, ao luar. Um deles sorriu-lhe, gesticulando para que viesse. Outro subiu para a ponte, estendendo-lhe a mão.

Não estava tão longe assim... A confiança voltou-lhe, pela corda retesada, e quando as mãos de Stephen, por trás dela, a impeliram, Jennifer começou a caminhar para a frente, com passos firmes, na direção em que a esperavam.

Segundos depois, tomara a mão, era puxada finalmente para a rocha ao lado da catarata. Estendiam-lhe mãos, braços fortes tomavam-na e a tiravam da ponte e faziam-lhe perguntas, às catadupas,

Ela não deu qualquer atenção, todavia. Retorcia-se nas mãos deles, como um peixe molhado, para ver Stephen equili­brar-se e vir por aquela ponte horrível, até que também ele fosse agarrado e puxado para lugar seguro.

E assim é que pela terceira vez Stephen ergueu o olhar e viu que Jennifer corria para ele, os braços abertos. E como acontece em todas as histórias, a terceira vez é o momento certo, o momento da sorte, em que o vencedor ganha tudo... Chegara o momento. Os impedimentos tinham caído, eram poeira levada pelo vento. A princesa adormecida despertara, a torre em que fora guardada já não existia. Ele estendeu os braços e Jennifer aninhou-se neles, como se os dois estivessem sozinhos na escuridão e não ao luar brilhante, diante da vista e olhar sorridente de uma dúzia de homens. Ele a aceitou nos braços, chamou-a a si com calor. Só agora, em que suas próprias barrei­ras tombavam, compreendia o quanto necessitava dela, de modo profundo e absoluto; e naquele exato momento de compreensão maior, ela estava ali, era sua; era sua âncora, seu centro, sua chama flamejante, sua paz...

Soltou-a e Jennifer ficou por momentos no círculo de seus braços, os olhos piscando muito. Ele riu para Jennifer, mas o fogo ainda ardia em seus olhos e Jennifer pôde ver que o coração de Stephen disparara, onde a camisa encharcada se colara ao corpo. Ele arquejava, como se houvesse corrido muito, e disse:

         Há muita gente olhando, querida. Você se importa? Ela voltou a piscar e girou a cabeça, um pouco aturdida.

Os homens que tinham vindo em companhia de Stephen acha­vam-se em volta deles, assim como o gado forma um circulo curioso ao redor de qualquer fenômeno estranho que ocorra em seu pasto. E doze pares de olhos escuros os observavam com firmeza, sem a menor sombra de embaraço — observa­vam-nos, na verdade, com aprovação, inveja e o interesse apai­xonado do connoisseur inato.

A filha única da Sra. Silver corou, riu e voltou-se para os braços de Stephen.

         Importar-me? De modo nenhum disse, ditosa e er­gueu novamente a boca para que Stephen a beijasse.

 

                                 FINAL TRANQÜILO

Lá fora a tempestade amainara e o vento, esgotado, parecia não ter forças para balançar as persianas. Jennifer, também exausta, estava refestelada numa cadeira ao lado da lareira acesa, com o calor do brandy dado pelo Dr. Lebrun a percorrer-lhe as veias.

A recordação de sua chegada à cabana de Bussac era tão difusa quanto os sonhos que agora a invadiam. Tinha vaga lembrança de que sua roupa encharcada lhe fora tirada, de ter sido envolta em cobertores secos e quentes, posta na poltrona ao lado da lareira, que lhe tinham dado a beber doses fortes de brandy em meio ao café.

Seu olhar, piscando ainda, examinou o aposento que tão bem conhecia, e que se achava agora positivamente congestio­nado por um grupo numeroso de sombras que se moviam, fazendo algo, e que ela supôs ser a polícia. Mas estava além de preocupar-se, ou mesmo de querer imaginar o que ali se passava. Seus olhos fecharam-se outra vez. Era invadida por calor sonolento, o corpo em seu ninho de cobertores começou a entregar-se, enquanto o calor da lareira vinha até ela, os músculos se afrouxavam um por um, entregando-se ao sono...

... Alguém fazia perguntas, e a voz de Stephen, tran­qüila e denotando muito cansaço, respondia. Ela voltou a abrir os olhos e o encontrou a seu lado, sentado no chão, com os ombros encostados em sua poltrona, a cabeça escura bem próxima de seus joelhos. As pernas de Stephen, lamentavelmente envoltas em calça de flanela, amarrotada, que tinha sido secada momentos antes, estavam estendidas diante da lareira.

Ele fumava e respondia, com voz denotando cansaço controlado, as perguntas feitas por Jules Médoc, o superintendente vindo de Luz, que, encarapitado em banquinho diante da lareira, conseguia ainda assim dar a impressão de estar presidindo uni tribunal de alguma importância. Seus olhos negros estavam com expressão de interesse e vivacidade, os gestos eram ani­mados e formavam surpreendente contraste com os movimentos lentos e até relutantes da mão de Stephen, enquanto levava o cigarro à boca.

Ele tragou o cigarro de maneira quase furiosa, soltando a fumaça em suspiro prolongado.

         E assim foi a coisa dizia, jogando a ponta do cigarro na lareira. Já contei tudo que sei. A maior parte foi adivinhação, mas pelo que Bussac lhe disse esta noite, minha adivinhação era correta. Só não entendi o motivo pelo qual um homem como Bussac devesse submeter-se à chantagem, por período tão prolongado. Isso não combinava com a personalidade dele. Mas com base no que o senhor diz, ela conseguiu entrar mais ou menos como sócia, à força.

Jules Médoc assentiu.

Exatamente. Parece que ela entrou no negócio de modo inocente, de início. Usara Bussac uma ou duas vezes, muitos anos antes, a fim de ajudar um ou dois amigos a saírem da Espanha. Com base em tudo que sei, foi Bussac quem de início a ajudou a fugir. Depois, ela descobriu o quanto êle ganhava com esse tráfico, durante a Ocupação, e teve a idéia de ajudar e ficar com uma parte. Estava em posição, por meio de suas relações na Espanha, de ajudá-lo do outro lado... Quer dizer, se êle pudesse entregar os passageiros lá, a pessoas que os auxiliassem na Espanha, podia contar com mais movimento e, na verdade, cobrar preços mais altos. Acredito sinceramente que ela tenha dado início ao negócio em boa-fé, e por algum tempo iludiu a si mesma, pensando que poderia mexer com a sujeira, sem se sujar.

E quando descobriu o que havia acontecido com Isaac Lenormand. estava já metida demais no negócio para poder sair, não é?

Talvez. Mas não creio que seja assim, pelo que Bussac nos disse, ele teria ficado satisfeito se ela saísse. Mas uma vez que dispunha de força sobre êle, a mulher estava em posição de exigir mais. E exigiu.

         E aceitou o assassinato de Lenormand, então?

Jules Médoc disse:

         Não podemos adivinhar como, nessa altura, ela conse­guiu justificar-se perante sua própria consciência. Creio que a cobiça, desejando dinheiro e poder, já tinha aumentado bastante, de modo que não podia mais parar. Essas coisas acontecem. A exigência ou necessidade cria mais exigência ou necessidade. Ainda assim, deve ter procurado convencer-se de que os fins justificavam os meios. Talvez o tenha conseguido, mas duvido.

         O senhor quer dizer que a consciência, ao fim, sai vitoriosa?

Jules Médoc procurou explicar, de modo muito sério:

         Quero dizer que ela deve ter vivido à beira do inferno, por muito tempo. Não se pode violar a si mesmo, sem se tornar um centro de torturas.

Fêz-se algum silêncio, em meio ao qual o velho relógio se fêz ouvir, no tique-taque solene.

Coisas assim podiam ser ditas em francês, pensava Jennifer, tomada de sonolência, e nem sequer pareciam singulares. E era verdade, também. Ela piscou para Monsieur Médoc, cheia de respeito sonolento.

Stephen disse:

Foi uma sociedade ruim e relutante. Estava destinada a se destruir... e aos dois... no fim. E agora só resta ao senhor abrir aquele tríptico — disse, sorrindo, Com grande cautela, é claro.

Cautela a mais absoluta prometeu Monsieur Médoc. Para mim, monsieur, o trabalho desta noite foi magnífico e não vou esquecer com facilidade o que lhe devo e à mademoiselle explicou, com leve mesura na direção de Jennifer.

Stephen voltou-se para vê-la.

         Acordou, Jenny? Como está?

Ela estendeu a mão, tirando-a do abrigo do cobertor, e a de Stephen veio tomá-la.

         Quentinha e muito bem disse ela, e seu olhar diri­giu-se ao sofá, diante da lareira, onde um homem atarracado, que parecia ser médico, ainda se inclinava sôhre Gillian. A recordação finalmente rompeu a bruma de sono e cansaço, fazendo-a despertar com sobressalto. Como está ela, Stephen?

O médico se voltara ao ouvir-lhe a voz e explicou, antes que Stephen pudesse responder:

         Como está? Tem sorte. Muita sorte, é o que acontece. Vocês três têm mais sorte do que merecem.

Afastou-se para o lado, a fim de que Jennifer pudesse ver Gillian, envolta igualmente em cobertores. Parecia muito pálida, naquelas sombras tremelicantes, mas a respiração era firme e tinha os olhos abertos. Ela voltou, a cabeça, e a luz da lareira brilhou em seus cabelos louros. Os olhos cinzentos continuavam bem abertos e intrigados. Fitou com hesitação o médico, passou por Jules Médoc e Stephen, deteve-se em Jennifer...

Foi quando se abriram mais, estavam sorrindo. A voz fraca, Gillian disse, em inglês: — Ora essa, se não é a Jenny!

Depois disso, tudo pareceu acertar-se sozinho e com rapi­dez. Dois subordinados de Jules Médoc, sob supervisão ríspida do médico, levaram Gillian com seu agasalho para o jipe da polícia, que aguardava diante da cabana, e o médico, acompanhando-os, deteve-se para olhar Jennifer.

         É melhor ir para sua cama, sabe? Bem melhor. E seu rapaz, também.

E quando Jennifer teve um movimento súbito, lembrando-se do que acontecera, êle ergueu a mão enorme e a fez voltar para a poltrona.

         Não há nada de mais com êle disse, em tom feroz.

         A faca quase não o tocou. É arranhão dos mais simples. Se êle disser que não foi isso, é porque está fazendo manha asseverou, fitando-os com expressão de raiva fingida. Sorte, muita sorte.

Jennifer segurava com firmeza a mão de Stephen.

Sorte! Isso e muito mais, doutor! Se ele não nos tivesse achado... Stephen, como foi que achou o caminho até a cascata?

Querida, seguimos sua lanterna elétrica — explicou Stephen, rindo, enquanto Jennifer o fitava sem compreender.

         Não é tão disparatado quanto parece. Não estávamos muito atrás de você, sabia? E naqueles lugares dá para ver uma luz a grande distância. Nós vimos a luz, seguindo pelos barrancos, e depois, quando achamos que tínhamos perdido, encontramos Bussac e êle ensinou o caminho.

         Muito simples, quando se sabe como foi disse o médico, olhando-os por cima dos óculos que brilhavam. — Ei! Por que está chorando?

Jennifer enxugou os olhos.

Não estou chorando.

O médico bufou.

Mulheres! Eu já lhe disse que ela vai ficar boa.

E estava falando sério. Ela se lembra de tudo, até o momento do acidente. E de nada mais.

Jennifer teve de esforçar-se para compreender.

—         O acidente? A batida com o automóvel?

Isso mesmo. Acha que foi assim que se feriu. Foi ela quem me disse e os olhos azuis do médico estavam cheios de bondade, ainda que encimados por sobrancelhas brancas as mais ferozes. Amnésia retrógrada explicou com voz de impaciência fingida, tornando as palavras bem claras. Uma lacuna. Lacuna completa.

Quer dizer perguntou Stephen que ela pensa estar saindo agora mesmo do acidente do automóvel? Não vai lembrar-se do tempo transcorrido desde então ?

Foi o que acabei de lhe dizer explicou o médico, com impaciência. Uma lacuna. Não vai lembrar-se de nada disto...afirmou, indicando a cozinha da cabana com um gesto, e hesitou de modo singular, quando indicava a porta fechada do dormitório... — Ou dele afirmou, finalmente.

Jennifer endureceu o corpo nos cobertores, olhando aquela porta.

—         Talvez ela se recorde mais tarde disse o médico mas não vai ter tanta importância, quando acontecer. Já estará mais forte. Mas é ótimo que seja assim, por enquanto.

Dizendo isso, abriu a porta, fazendo aceno brusco para Jennifer.

—         Muita sorte, como eu disse acrescentou e fechou a porta com estrondo.

Jennifer, todavia, não ouviu a batida, e fitou Jules Médoc no silêncio curto que se formara.

—         Pierre Bussac?

Foi Stephen quem explicou, falando com suavidade:

Morreu, Jenny. Viveu o bastante para contar as coisas e morreu depois. Já o trouxeram de lá, enquanto você dormia.

Eu... entendo disse ela, voltando a cabeça para outro lado.

Jules Médoc perguntou, tomado de espanto:

—         Mademoiselle chora por causa de um homem como aquele?

Jennifer voltou a fitá-lo.

—         Sinto muito que êle tenha morrido desse modo, mon-sieur. Eu... eu gostaria que êle pudesse ter fugido. Talvez seja errado, mas mesmo fazendo o que fêz, o fato é que salvou Gillian. Uma vez, quando Lally Dupré a roubou e a deixou na tempestade, e outra esta noite. Pode ter sido um assassino, mas a amava a seu modo e eu, pelo menos, sempre me lembrarei dele com bondade.

A mão de Stephen apertou a sua.

—         Nesse caso, será o mesmo comigo afiançou.

Algo se movimentou no canto além do sofá, uma figura singularmente sem forma, mas logo Jennifer verificava tratar-se do Padre Anselm. Também parecia cansado, mas seus olhos pequenos e brilhantes fitavam Jennifer e Stephen com grande bondade.

—         Deus é muito misericordioso foi tudo que disse, e Jennifer percebeu que ele falava sobre Pierre Bussac.

Ninguém mencionara outra pessoa aquela cujo corpo devia ter sido levado pela corrente, magro e negro, como um corvo afogado e estendido em alguma rocha no meio da torrente.

Ela perguntou, de chofre:

—         A Reverenda Madre sabe?

Padre Anselm assentiu.

—         Estive no convento. Na verdade, já estava a caminho quando a polícia me alcançou. A jovem Celeste...

Jennifer sentou-se em um instante, agarrou os cobertores que caíam, puxou-os a si, fitando o pequeno sacerdote com ar de choque.

Celeste! gritou. Que horrível! Esqueci inteira­mente dela! Oh, céus! Tenho a certeza de que ela estava fugin­do para encontrar-se com Luís, e...

Estava mesmo confirmou Padre Anselm. E o rapaz a trouxe diretamente a mim. "O senhor vai cuidar dela, para mim", foi o que disse, em atitude muito altiva e solene. "Ela vai ser minha esposa, e não quero que comecem a falar na aldeia. Por isso, vou deixá-la com o senhor." Alors, lá está ela, dormindo em minha casa, e hoje volta aos cuidados da Reverenda Madre, enquanto se prepara para o casamento. Você, minha filha e fitava Jennifer, tendo nos olhos um brilho de malícia dormiu por muito tempo. Olhe só.

Passou por ela, indo à janela, e estendeu a mão, abrindo as persianas. A luz clara do amanhecer veio encher o aposento, sobrepondo-se ao brilho fraco da lâmpada de óleo e destacando com clareza o que restara dos acontecimento terríveis da noite da véspera. Lá estava a confusão de louça partida e fragmentos de comida, onde Jennifer rasgara a toalha de mesa. Lá estavam os fragmentos queimados de um trapo embebido em brandy e manchas de sangue; e no chão, perto do pé da mesa, uma mancha escura, de formato irregular...

Stephen e Médoc entreolharam-se rapidamente e o primeiro se pôs em pé, ainda que com alguma dificuldade. Colocou-se entre Jennifer e a desarrumação desoladora do aposento.

         E nós — disse, animadamente — ainda não dormimos quase nada. Já chegou o jipe, de volta.

Olhava para ela e falava, agora, em inglês:

         Acabou tudo, Jenny. O que se passou já foi, minha querida, e o melhor que podemos fazer é sair daqui e dormir. Isto não é insensibilidade, mas bom senso. Para nós, acabou, a tragédia sempre tem um rastro ruim, mas nós não precisamos esperar. Você, e eu, e Gillian... nós continuamos.

         Sim — disse Jennifer, e eles sorriram um para o outro. O jipe vinha com ruído pela encosta lá fora, fazia-se uma

mudança de embreagem e ele estacava com ruído sobre as pedras lisas. Jules Médoc levantou-se, espreguiçou-se e sorriu para o casal.

         Vocês têm sorte, é isso — afirmou.

 

Ele se achavam sentados em um ponto elevado, sobre uma pedra, bem acima do vale, onde a relva lisa parecia vir a seus pés como um pequeno mar espumante de flores minúsculas. Para trás ficara o convento, as paredes bem brancas, luzindo ao sol. Nada se movimentava naquele vale, a não ser o córrego, que refulgia sobre pedras redondas e ensolaradas, e "bem peque­nino, a distância, um cavalo castanho que transportava com mo­vimentos suaves o cavaleiro, cruzando a grama e seguindo para a sombra da muralha do convento.

Mais uma vez, frio e prateado em meio ao ar quente e azul, o sino do convento começou a bimbalhar. Jennifer, sem erguer a cabeça, estendeu a mão e, no mesmo instante, a de Stephen veio encontrá-la. Ficaram ali sentados por mais alguns minutos, olhando o vale vazio.

Em seguida veio por trás deles o som de vozes, de botas caminhando na ro