Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
O VENTO DOS KHAZARES
Sarkel
ATEX ENTERROU O PÉ DIREITO NA TERRA ARGILOSA. Retirou-o subitamente, imprimindo uma marca perfeita, que logo desapareceu, coberta pela água.
Franzindo o sobrolho, levanta novamente o pé, e enterra-o com mais força na terra mole. A marca fica mais bela, mais profunda. No entanto, a água invade-a ainda mais depressa, apagando-a novamente.
De repente, a brisa desenha estrias nas poças. Attex ergue os olhos para o rio. Ouve a explosão das gargalhadas para lá da baía onde se encontra, circundada por roseiras-bravas. Na margem, as servas lavam lãs em grandes tinas de madeira. A mais velha arregaçou a parte inferior da túnica e apertou-a na cintura, desnudando as coxas carnudas. Entrou na água e estendeu uma mão para a menina:
- Princesa Attex! Se te aventuras longe demais no rio, ainda
serás levada pela corrente!
- Se o rio me levar, o meu pai cortar-te-á a cabeça - troçou
Attex.
- Precisamente - respondeu a serva. - Faço questão em guardá-la, pois está muito bem no seu lugar...
Attex ouviu gritar: no pomar de cerejeiras que orlava o rio e subia colina acima, o seu irmão José treinava-se com o maior dos guerreiros khazares, o valoroso Borouh. Como só tinha treze anos, montava um potro e possuía uma espada mais curta que a de Borouh. Contudo, Attex orgulhava-se ao ver como ele era exímio, galopando entre as árvores com a mesma destreza que o guerreiro.
- Attiana - perguntou, ao deslizar os dedos na grande mão
da serva - porque não posso ir com José à sinagoga, amanhã?
A serva suspirou, abanando a cabeça.
- Já te expliquei, princesa. Amanhã é o bar-mitzva1 do teu
irmão. O príncipe José vai tornar-se um homem. Nesse dia, só os
homens têm direito a entrar na sinagoga. As meninas, não...
- Não é justo.
Attiana sorriu.
- Mas é assim... Tu és princesa e eu sou serva. És bela e eu
já sou uma velha desdentada. Justo ou não, a vida é assim...
Attex olhou para o rosto amplo e terno de Attiana. Não era tão velha quanto isso, e só lhe faltavam dois dentes. Dois grandes brincos pendiam-lhe das orelhas e os seus olhos brilhavam de malícia. Tinha uma boca feita para comer bolos e dar beijos.
- É verdade que não és bela - mentiu, para a enfurecer. -
Quanto a mim, serei ainda mais bela quando for grande. A mais bela
de todas!
Attiana não se zangou. Plena de doçura, deslizou os dedos pelos caracóis ruivos de Attex.
- Claro, também tenho a certeza.
Desiludida, Attex afastou a mão e fez esguichar a água sob os pés, correndo para a margem e pulando como um cabrito.
- Sou princesa, sou a mais bela e aborreço-me! - exclamou.
- Quero ter treze anos, como o meu irmão, e ir à sinagoga!
Attiana e as servas desataram a rir.
Attex riu com elas. Não era verdade que se aborrecesse, isso nunca lhe acontecia. Queria apenas ver o que ocorreria no dia seguinte com José, na sinagoga!
Sentou-se na margem, para secar ao sol. Por detrás da crista da colina, avistavam-se as elevadas torres da fortaleza de Sarkel-a-Branca e, um pouco mais ao lado, uma longa caravana de camelos, aproximando-se da cidade.
Ao olhar novamente para o rio, descobriu estranhos aglomerados
' Cerimónia de iniciação religiosa que marca a entrada do adolescente de treze anos na comunidade dos adultos (N. do T.).
de moitas e ramagens, descendo lentamente com a corrente. As ramagens ainda não estavam mortas. Pelo contrário, conservavam todas as folhas, como se tivessem acabado de ser cortadas.
Os pedaços de verdura flutuante não deslizavam pela parte principal da corrente, seguindo antes, cuidadosamente, os meandros da margem.
Attex levantou-se para ver melhor. Havia uma quinzena. Num dos emaranhados, julgou discernir as narinas de um cavalo e o brilho amarelado dos seus olhos.
- Attiana! - gritou, apontando para o rio. - Attiana, olha!
José puxou a rédea e obrigou o seu meio-sangue a girar. Com a mão direita, ergueu o scramasaxe para o céu e este gesto simples tranquilizou-o. Era um gládio curto, de um só gume, mas a lâmina, assaz espessa para aguentar os golpes mais violentos, pesava demais no seu braço de miúdo.
Foi a vez de Borouh voltear o seu cavalo. Encontrava-se muito longe para um longo galope por entre as cerejeiras. Num gesto calculado, desembainhou a espada da bainha da sela e apontou-a na direcção de José. Um raio de sol cintilou nos filamentos de ouro incrustados no seu capacete de prata, fazendo reluzir, subitamente, as argolas cinzeladas no ferro dos hunos, cosidas no peitoral de couro.
- Yyyaah!
Quando Borouh lançou o seu corcel, José viu nitidamente a terra e os tufos de erva arrancados pelos cascos. A cada salto, o puro-sangue espumava por entre os beiços arreganhados.
Para lá da crina ondulante, José distinguia o olhar negro e incandescente de Borouh. O seu medo transformou-se numa fúria alegre. As esporas metálicas dos seus calcanhares espicaçaram o ventre do potro. Disparou como uma flecha. O seu espírito tornou-se o de um guerreiro.
Aproximaram-se. Borouh ergueu a espada bem alto. José puxou violentamente pela rédea, inclinando o corpo para a esquerda. O freio apertou a boca do meio-sangue. Lançando as patas dianteiras para a frente, este empinou-se na altura em que a lâmina de Borouh fendia o ar, encontrando apenas o vazio.
Foi o momento escolhido por José para estender o gládio com toda a força. Girando na sela, Borouh apenas teve tempo para aparar o golpe. O metal tiniu com tanta força que José sentiu o choque até aos rins.
Borouh prosseguiu o seu movimento, girando ao mesmo tempo o gládio, que arrastou o braço do miúdo. Um ligeiro recuo do potro acabou por fazê-lo perder o equilíbrio. As botas saíram-lhe dos estribos. Caiu na erva com um grunhido de raiva.
Sem chegar a parar o puro-sangue, Borouh saltou da sela. Retirou o seu magnífico capacete, revelando um rosto de maçãs elevadas, olhos
ligeiramente rasgados. Os seus cabelos, muito negros, estavam reunidos numa espessa trança, presa a uma fivela de prata. Um comprido bigode realçava-lhe os lábios carnudos e fortemente delineados.
- Príncipe José! Não tens nada partido?
Com o traseiro na relva, o miúdo abriu a viseira de aço e rechaçou o capacete com cólera.
- Fiz o que me ensinaste, Borouh! - exclamou, zangado. -
"A astúcia é a força do mais fraco!" Se eu fosse grande e forte como
tu, agora estarias morto e...
Calou-se. Ouviu gritos, vindos da margem. Reconheceu a voz de Attex.
LÁ em baixo, muito perto da margem, uma dezena de cavalos emergiu das águas do rio. Grandes pedaços de ramagens espalharam-se à sua volta, pondo a descoberto os cavaleiros encharcados, a testa cingida por turbantes vermelhos.
Ergueram os braços, quase todos ao mesmo tempo. Por cima das suas cabeças começaram a silvar compridas correias de cabedal atadas à volta de uma pedra redonda.
As servas gritaram de novo, abandonando as tinas com a roupa, procurando escapar. Attiana gritou por Attex e estendeu os braços para a menina. Sozinha, à parte, imóvel como uma estátua, a pequena princesa olhava os assaltantes que lançavam os cavalos na água pouco profunda da baía.
- Os petchenegues! - exclamou Borouh, abismado.
José já se apoderara da rédea do puro-sangue e saltava desajeitadamente para a sela. As suas pernas eram demasiado curtas para que a ponta das botas chegasse aos estribos. Decidiu então segurar-se à crina do animal e apertou os joelhos, enquanto o poderoso cavalo se lançava encosta abaixo.
À beira do rio, uma das servas caíra à água, com os tornozelos presos numa correia de couro. Soltando gritos de horror, era em vão que procurava impedir dois petchenegues de a içarem numa das montadas. Os outros galopavam atrás das mulheres em fuga. Attiana alcançara Attex, protegendo-a agora com o seu corpo. Ao longe, José viu um bárbaro fazer girar a correia a dez passos delas.
Sem sequer se aperceber, soltou o grande grito dos guerreiros khazares.
Anichada em Attiana, Attex ouviu o grito de José. Viu-o, com a mão esquerda agarrada ao pescoço do cavalo e a espada erguida bem alto. Galopava na sua direcção, levando o cavalo a dar saltos enormes, logo seguido por Borouh. Deixou de ter medo.
Nesse preciso momento, Attiana apertou-a com mais força de encontro ao seu ventre. A correia do petchenegue mordeu-lhes a pele. A pedra bateu na face da serva, arrancando-lhe um gemido de dor. O sangue começou a escorrer-lhe por entre os lábios. José ainda estava a algumas jeiras da margem. Attiana quis recuar. A correia foi esticada e elas caíram na água. Attex deslizou para o fundo e atolou-se frouxamente no lodo. Aterrorizada, fechou a boca e cerrou as pálpebras. Depois, Attiana voltou-se e a jovem princesa regressou à luz do dia.
Por cima dela, surgiu o rosto trocista do petchenegue, retendo a correia que a prendia a Attiana. Soltando rugidos de fúria, com a boca coberta pelo sangue escuro que continuava a jorrar, tingindo a água do rio, a serva debatia-se para soltar Attex. Foi nessa altura que José as alcançou.
Attex viu uma espécie de pássaro terrível deslizar pelo céu, sobre a sua cabeça. Depois, avistou a espada apontada, na extremidade do braço. E o olhar incendiário de José.
O petchenegue esbugalhou os olhos. Com um rangido áspero, a espada atravessou-lhe a barriga. Levado pelo impulso, José caiu com ele na água, cravando-o no lodo.
Attiana soltou um gorgolejo aterrorizado. Com as mãos ensanguentadas, José levantou-se e precipitou-se para desprender Attex.
- Estou aqui, irmã, estou aqui! Eles já não te apanharão!
Attex encostou o rosto ao pescoço do irmão. Apenas deixava
brotar as lágrimas.
Durante um momento, apenas se ouviu o ruído e a confusão do combate, enquanto Borouh punha os ladrões em fuga. Alertados pelos vigias da fortaleza, chegaram outros cavaleiros khazares, a todo o galope. José reconheceu a cabeleira branca do seu avô Benjamim e ouviu-o dar ordens.
Attiana cambaleou até à relva, onde se estatelou, inconsciente, com o queixo quebrado.
O PETCHENEGUE ATINGIDO PELA ESPADA DE JOSÉ levou tanto tempo a agonizar, que Borouh teve de o degolar para lhe calar o estertor.
Retirou a espada do cadáver e, erguendo-a, aproximou-se de José, com o rosto resplandecendo de alegria:
- Príncipe, este é um grande dia para ti! Amanhã, ocorrerá o
teu bar-mitzva. Recitarás a Tora diante do rabi Hanania, do teu pai,
o nosso rei Aaron, e de todos os grandes do reino dos khazares. Mas
hoje o Todo-Poderoso mostrou-nos a que ponto te protege!
Calou-se um momento, pois a voz tremia-lhe com súbita emoção, sincera, e mais ardente do que esperava:
- Puniste o mau e preservaste a vida do inocente! Serás um
grande guerreiro, José!
- Serás ainda mais do que isso! - exclamou uma voz pujante.
José sobressaltou-se, enquanto Borouh se apartava dele.
- Avô Benjamim! - exclamou Attex, apertando as mãos
ensanguentadas de José nas suas. - Não tive medo... José veio sal
var-me e não tive medo!
O velho homem inclinou a cabeça, rindo-se. Trazia um comprido manto de pele, bordado com fios de prata. No seu largo rosto, inteiramente marcado por uma cicatriz que lhe atravessava o olho esquerdo e lhe deformava a boca carnuda, o seu único olho válido fixava orgulhosamente José. Trazia um simples solidéu de feltro negro, espetado nos cabelos.
Borouh ajoelhou-se e inclinou a cabeça.
- Que o Eterno te conceda uma longa vida, Benjamim, pai do nosso Khagan. Este ataque não devia ter acontecido. É culpa minha.
Esta manhã, não coloquei os vigias a montante do rio!
Benjamim olhou-o com frieza.
- Bem. É bom que o reconheças...
Ergueu uma mão, na qual metade dos dedos fora cortada aquando de um combate contra o rei dos alanos, e apontou para Attex, sempre agarrada ao irmão:
- Reconduz a princesa à fortaleza. E manda transportar essa pobre Attiana, para que se ocupem dela...
Como Borouh se inclinava novamente, o velho Benjamim esboçou um sorriso na direcção de José:
- Tens razão, Borouh. O meu neto será certamente um grande guerreiro. Mas também será outra coisa. Chegou a altura de ele aprender tudo o que deve saber aquele que será um dia o Khagan dos khazares1.
' Designação do soberano dos khazares. Segundo os islâmicos, provém da palavra tártara "Kan", e segundo as fontes judaicas, da palavra "Cohen", o que, em ambos os casos, equivale a príncipe. O Khagan partilhava sempre o poder com um co-soberano, sobre o qual tinha precedência apenas na medida em que era sempre saudado em primeiro lugar. Representava, sem dúvida, a antiga família reinante, talvez de origem turca, enquanto o rei ou bei, seu co-soberano, vinha do povo e era, portanto, khazar. Um documento do século IX revela que já no século VI o Khagan tinha um vice-rei a seu lado, um califa.
Fontes: Pavic, Milorad, Dicionário Khazar, Dom Quixote, 1990. (N. do T.)
Bruxelas, hotel Amigo Abril, 2000
- Senhor Sofer, num dos seus romances, o senhor escreveu que éramos incapazes de partilhar os nossos sonhos como partilhamos o pão e o amor... Enquanto romancista, não acha estranho dizer uma coisa dessas?
A mulher que colocava esta questão estava sentada na terceira fila diante do estrado. Marc Sofer sentiu que ela acabara de lhe fazer uma boa pergunta, numa boa altura.
Ela também o sabia. Os seus olhos verdes, ligeiramente rasgados, e as maçãs do seu rosto, assaz pronunciadas, davam-lhe um ar oriental. Um sorriso pairava-lhe nos lábios, pintados de vermelho escuro. Devia andar pelos trinta anos e a sua cabeleira curta, num tom arruivado e fulgurante, realçava-lhe ainda mais a palidez delicada da pele.
Na realidade, a sua beleza era assaz atraente para que Sofer não tivesse reparado nela, por entre todas as outras mulheres presentes, logo que a viu entrar na sala de conferências.
Diante dele tinha uma centena de auditores, ou melhor, de auditoras, pois, como sempre, eram mulheres na sua maioria, leitoras fiéis que seguiam os seus ensaios, de livro em livro, e que, mais uma vez, lhe faziam dom dessa marca de respeito estranha e exclusiva que os leitores têm por um autor que amam. Pairava no ar algo de íntimo e até de familiar. E, como sempre, alguns rostos femininos exprimiam uma ternura mais ambígua. Uma boa sala, portanto, como Sofer conhecera centenas delas. Uma dessas conferências que o reconfortava, devolvendo-lhe um pouco do ânimo e da excitação de outrora, da época em que estava plenamente convencido que escrever podia mudar a face do mundo e, sobretudo, contribuir para a paz...
Sofer apercebeu-se que tardava em responder. Como um pássaro fascinado, perdia-se no olhar verde da bela interveniente, enquanto a sala aguardava a sua réplica.
Escapou ao feitiço da mulher ruiva piscando as pálpebras e recostou-se no assento. Percorreu os rostos tremendamente sérios que tinha à sua frente e, por fim, declarou:
- Tem razão. Penso ter escrito que o sonho é a única activi
dade que não podemos partilhar. Sonhamos sozinhos. Só podemos
partilhar a lembrança de um sonho, ou o que resta dele...
- No entanto, não procura partilhar um sonho ao escrever os
seus romances?
Ela interpelava-o novamente. Tal como a sua pele, a voz, grave e atraente, era de uma fineza e de uma transparência um tanto veladas. Desconcertado, Sofer lançou um olhar pela sala, a fim de se certificar que só ele podia captar o que havia de pessoal neste diálogo.
Efectivamente, era o único a aperceber-se.
Os seus auditores continuavam tão atentos e benevolentes como antes.
- Quando escrevo - respondeu, ousando desta vez enfrentar
a beleza da desconhecida - não é para partilhar um sonho, mas
uma narrativa; é para transmitir uma história, conhecimento... Isso
pode originar um sonho nos meus leitores... ou leitoras. Mas será o
sonho deles e não o meu... Sim, durante muito tempo julguei que o
acto de escrever desembocava nessa magia da partilha. Esperava
que um romance fosse uma espécie de dança entre o autor e o leitor,
permitindo viver a emoção dos nossos sonhos na mesma cadência,
abraçando a mesma coreografia, de modo a que eu, o livro e a leitora, atraíssemos o sonho à realidade, a fim de transformá-la, enquanto nos transformávamos a nós próprios...
Sofer sentiu a tensão na sala. As suas palavras continham demasiadas confissões e duplos sentidos. Parou, para sorrir e reencontrar o rosto das suas outras auditoras com um pequeno gesto teatral da mão.
- Mas hoje sei que um romance é... uma ficção. Apenas partilhamos a ficção, o eco dos nossos sonhos! Chega o dia em que até um romancista tem de reconhecer que não é Deus. Apenas molda
personagens de pó, logo dispersas pela primeira borrasca...
Ouviram-se alguns risos. Apreciava-se a pirueta do escritor.
Mas a bela ruiva não sorria. O seu olhar esverdeado tornara-se longínquo. A decepção apagara-lhe até os vestígios de ironia.
Remexendo na caneta colocada em cima do pequeno feltro escuro que revestia a mesa, Sofer lastimou ter brincado ao belo melancólico. Receou ver despontar o desprezo sob a decepção da desconhecida.
Decidiu prosseguir sem mais precauções. Como se falasse apenas para ela. Porém, assim que pronunciou as primeiras palavras, o seu tom tornou-se mais cortante e violento do que teria desejado:
- É verdade que não escrevi apenas romances, como também ensaios, artigos e grande quantidade de protestos! Partilhei certamente esperanças, e não sonhos, com milhares de leitores, um pouco por toda a parte. No entanto... e se é esse o sentido da sua pergunta, nesse caso sim, sinto-me desiludido por não ter conseguido influenciar minimamente a realidade. Escrevi páginas e mais páginas sobre a vida e a história dos judeus. Sonhei que essas páginas os ajudariam, nos ajudariam a todos, judeus ou não, a vivermos mais em paz, com nós próprios e com os outros. Ora, após tantas palavras, páginas e livros, a paz continua a não comparecer aos encontros.
Nem em Israel, nem nos corações...
Desta vez, a bela ruiva reencontrou o seu sorriso. Inclinou ligeiramente a cabeça antes de lhe perguntar, numa voz bem clara:
- É por isso que não deseja mais escrever?
Após um instante de estupefacção que quase se transformou em gesto de cólera, Sofer encontrou força para deixar transparecer um sorriso trocista:
- Digamos que, por ora, é por isso que não sinto vontade de escrever...
A desconhecida ergueu os braços na sua direcção. O gesto foi tão gracioso que Sofer julgou que ela ia mesmo tocá-lo. Ela comportava-se como se estivessem ambos a sós. Algumas auditoras franziram o sobrolho. Porém, a jovem não se deixou intimidar minimamente:
- Se encontrasse uma esperança, ou um sonho, assaz grandioso, assaz delirante e justo para merecer ser defendido, aceitaria escrevê-lo e defendê-lo perante o mundo inteiro?
Ela pusera tanto ardor e violência na pergunta quanto ele colocara anteriormente na sua resposta. Sentiu um velho fundo de cinismo despertar dentro dele. Com que então esta beleza queria imolar-se no altar da "inspiradora"? Era esse o sonho louco e grandioso que propunha? Estaria a seduzi-lo? Que diabo! Acaso queria que ele a levasse para um dos quartos do belo hotel?
Estes jogos já não eram para a sua idade e já os praticara demasiadas vezes!
Inspirou profundamente, procurou o olhar tranquilizador de um casal de idade madura e declarou com tanta calma quanto podia:
- Certo dia, um homem, de nome desconhecido, partiu em busca do seu destino. Percorreu o mundo e, muitos anos depois, já muito velho, regressou a casa de mãos a abanar. Para sua grande surpresa, à entrada da casa viu o destino que o esperava. E morreu. .. Já sou muito velho para ignorar que não se corre atrás do destino! Ele é que nos apanha. E quando lhe apetece!
Toda a assistência riu, como que aliviada. Um homem muito calvo, que Sofer identificou como o redactor de uma revista judaica ultra-confidencial, levantou-se e fez uma pergunta sobre a partilha de Jerusalém...
Sentiu os músculos relaxarem. A conferência regressava, por fim, à normalidade habitual.
Sarkel
Nesse dia, véspera do bar-mitzva do príncipe José, os soldados que efectuavam a ronda nas elevadas muralhas de Sarkel-a-Branca, os mercadores que gabavam os artigos das suas bancas nas tendas de couro da capital, os barqueiros que conduziam pesadas barcas pejadas de frutos e tecidos por entre a agitação das águas do rio Varshan, as moças que lavavam roupa nas margens, todos viram o velho Khagan e o jovem príncipe caminhando, de mãos dadas, em redor da fortaleza. Até à hora em que o sol chega ao zénite e torna o ar irrespirável, Benjamim respondeu às perguntas que ia suscitando no neto. O seu olho, rasgado como os dos habitantes da China e ao qual devia o cognome de "Mongol", brilhava com o ardor que os seus dedos feridos procuravam transmitir ao moço.
- Orgulho-me de ti, neto! - exclamou, num tom vibrante. - Todos os khazares de Sarkel se orgulham da coragem do jovem príncipe José!
Mais abaixo, em ambas as margens do rio, a cidade de tendas estendia-se ao longo de vários níveis. O fumo das fogueiras elevava-se, direito, rumo ao céu, juntamente com os gritos, os apelos, o ranger das carroças, os bramidos roucos dos camelos. Uma caravana chegara três dias antes. Nessa manhã, o mercado estendia-se ao longo do lento meandro do Varshan, até longe, para sul e na direcção do mar Azov. Era aí que arengavam russos, magiares ou muçulmanos, súbditos do vizir Ahmed íbn Kuya, vendendo tecidos, armas, animais ou escravos. O ar zumbia com toda esta exuberância.
Benjamim apontou para as centenas de tendas acastanhadas.
- E eles adorar-te-ão, pois irão dançar esta noite em tua honra...
- Poderei juntar-me a eles, avô? Também poderei dançar?
O velho Khagan pareceu surpreendido com a pergunta. Deixou escapar uma pequena gargalhada:
- Não, meu rapaz, não poderás! Na véspera do seu bar-mitzva, um príncipe permanece na fortaleza e prepara-se espiritualmente para a cerimónia. Compreendeste bem o que te espera amanhã?
- Claro que compreendi! - exclamou José, desiludido. - Lerei páginas da Tora. Cantarei para ti e para o meu pai...
- É tudo? E depois?
- Terei direito a marchar com os guerreiros khazares, a escolher uma esposa e a tornar-me Khagan, quando o meu pai Aaron deixar de o ser...
Tinham subido parte do caminho que levava até às muralhas de tijolos brancos da fortaleza. Reverberando os abrasadores raios solares, a mais poderosa das cidadelas do reino khazar quase queimava os olhos. Sarkel-a-Branca parecia talhada no gelo, impassível e inexpugnável. Nos caminhos por onde passava a ronda, só se avistavam os capacetes de couro dos guardas e as suas finas lanças.
Como Benjamim prosseguia caminho, silenciosamente, José perguntou:
- Enganei-me, avô?
O olho rasgado do velho homem franziu-se ainda mais. Não respondeu imediatamente. Em vez de prosseguir até à fortaleza, levou José por entre um amontoado de rochas, entrando assim numa vereda abrupta que serpenteava até ao norte da cidade. Abrandou o passo, como se precisasse de recuperar fôlego. Retendo com firmeza a mão do jovem, respondeu-lhe com uma pergunta:
- Então, segundo me dizes, dentro em breve terás apenas direitos? É para isso que serve o bar-mitzva?
José não ousou erguer os olhos para o avô.
Só lhe apetecia uma coisa: correr para a cidade repleta de gritos e de vida e misturar-se à multidão. No entanto, não era possível: tinha de escutar os sermões do avô. Amava e adorava o velho Khagan, pai do seu pai. Contudo, temia esses momentos tão severos em que, tal como ele, devia manter um rosto grave e reflectir em coisas profundas. Se, ao menos, tivesse podido regressar à fortaleza com Borouh, a esta hora estariam ambos a exercitar-se no tiro ao arco!
- Sei o que te vai pela cabeça, neto - prosseguiu Benjamim, recomeçando a caminhar. - Estás a pensar na vida lá em baixo, nos mercadores e nas lavadeiras. Gostarias de correr atrás das moças que te viram há pouco combater os petchenegues. Gostarias de ver-lhes os olhos brilhar de admiração diante de José, o príncipe corajoso que já matou um bárbaro em combate, na véspera do seu bar-mitzva... Mas tu és José, filho de Aaron, o Segundo, meu neto, filho do Khagan, aquele que, num futuro próximo, conduzirá o povo khazar nos dias de paz e de guerra. Tens de aprender a carregar doravante com esse fardo como se fosse um motivo de regozijo!
Benjamim calou-se, enquanto contornava um grande choupo. Abandonou o carreiro que descia até ao rio e à cidade, levando José através dos campos. O jovem compreendeu que iam dar a volta à fortaleza, o passeio preferido do avô. Quando buscava uma resposta, o velho homem era capaz de efectuar uma dezena de voltas!
José reprimiu um suspiro de exasperação. Afastando os cabelos compridos, perguntou, com uma ponta de perfídia:
- Mas tu, avô, tu não foste Khagan durante muito tempo, pois não? Não gostaste de carregar esse fardo e confiaste-o ao meu pai...
Benjamim concordou com um risinho.
- É verdade! E dá prazer ver que sabes utilizar a tua cabecinha tão bem quanto um scramasaxel
- Porque deixaste de querer ser Khagan?
- Terminara a minha tarefa e era altura de prossegui-la de outra maneira. Enquanto Khagan, combati os alanos que nos impediam de alcançar o mar de Bizâncio e atacavam os nossos comboios de mercadorias, bloqueando o comércio com Nova Roma.
Parou e largou a mão de José, para lhe mostrar os seus dedos amputados:
preço àessa paz. Depois, já não era hora para mais combates. Era tempo de aprender os ensinamentos da Tora.
Intrigado, José voltou a colocar a mão na do avô e perguntou, numa voz cheia de dúvidas:
- Achas que é melhor aprender a Tora do que combater como um guerreiro?
- Um guerreiro combate com o seu corpo – respondeu Benjamim, com doçura. - Aquele que estuda a Tora combate com o espírito e o coração de todo um povo.
- O guerreiro que vence um combate ganha a armadura do vencido e até a sua mulher, a sua casa, os seus domínios... Qual é a recompensa para aquele que estuda?
- A recompensa? Oh, ela é imensa: pode pousar o seu olhar sobre as sombras e os enigmas do mundo. E se estudar mais e mais, começa a compreender de que são feitas essas sombras e esses enigmas. É uma felicidade inestimável, José! Acredita-me...
Sem se aperceberem, tinham recomeçado a caminhar e alcançaram rapidamente a sombra das muralhas de Sarkel-a-Branca, onde não chegava qualquer ruído vindo da cidade, nem sequer o do escoamento das águas do rio. José escutava mais atentamente as respostas de Benjamim e as questões surgiam-lhe naturalmente.
- Mas tu, avô, nunca foste estudar para as sinagogas de Jerusalém, como o rabi Hanania?
- Infelizmente, não! E estou muito longe de ser tão sábio quanto Hanania.
- Pensas que os judeus de Sião são diferentes de nós?
- Sim e não.
- Não entendo.
- Os filhos de Israel são filhos de Abraão e Moisés e, também, filhos do Livro e do Exílio. A sua história é diferente da nossa.
Deslizam pelas palavras como nós galopamos pela estepe. Sabem
escutar a sabedoria dos escritos e nós sabemos ouvir a do vento. São judeus há milhares de anos, mas já não possuem reino. Nós escolhemos a sua religião há menos de duzentos anos, mas somos assaz fortes e poderosos para que o imperador de Bizâncio deseje ser nosso amigo... No entanto, judeu de Israel ou judeu do reino khazar, temos fé no mesmo Deus, abençoado seja o Seu nome, e respeitamos a mesma lei.
Caminharam uns instantes em silêncio, deixando a sombra. Ouviram novamente a algazarra da cidade e do mercado. Uma dezena de pesadas barcas de fundo achatado, carregadas com frutos, jarras de vinho e sacos de arroz, afastaram-se dos pontões que serviam de cais, dispersando-se pelas águas agitadas do Varshan. José apenas lhes dispensou uma atenção distraída.
Ignorando a porta da fortaleza guardada por uma dezena de soldados, o velho homem e o jovem regressaram ao carreiro que haviam abandonado há pouco. Sobrolho franzido, José queria agora saber como fora escrita a Tora, por quem e por que motivo, ou se os judeus de Israel viriam viver um dia para as estepes e para os vales ricos do reino khazar...
O avô respondia-lhe meticulosamente. Nunca se mostrara tão paciente com o jovem príncipe.
Quando passavam novamente sob o grande choupo, Benjamim apontou para um velho rochedo:
- Sentemo-nos um pouco. A falar desta maneira, ininterruptamente, perco o fôlego.
José acocorou-se aos pés do avô. Permaneceu calado pouco mais tempo do que aquele que precisaria uma andorinha para sobrevoar a torre mais larga da fortaleza.
- Avô, por que motivo o rei Bulã quis que nos tornássemos judeus?
O velho Khagan conseguira levar José a colocar a única pergunta que valesse verdadeiramente a pena. Com a mão de dedos intactos, acariciou-lhe orgulhosamente a face. Depois, com voz velada, como se confiasse um segredo, disse:
- Para obter a paz no seu coração e para a dar ao seu povo.
Em nome da paz e do futuro de todos nós, os khazares!
A sua mão abandonou o rosto de José para lhe apertar o braço, puxando-o de encontro a si, para que o jovem o olhasse atentamente.
- Escuta-me bem, neto. Quando o nosso antepassado, Bulã se tornou rei, o reino não era tão vasto e poderoso quanto hoje. A sudeste, os grão-vizires da Pérsia e de Bagdade expandiam a sua fé em Alá. A sua religião era nova e queriam que todos a partilhassem. Por sua vez, os devotos de Cristo, Senhor de todo o Universo, abandonavam Bizâncio para construírem igrejas até às margens do Atei, onde edificámos a nossa cidade mais preciosa. Os bárbaros russos e nórdicos pilhavam e violavam como lhes apetecia. Expulsos, ora pelos discípulos de Maomé, ora pelos de Cristo, alguns judeus refugiaram-se junto de Bulã. Este não acreditava em nenhum deus. Ou melhor, acreditava em todos, o que resultava no mesmo. Como todos os grandes guerreiros, prostrava-se sobretudo diante dos xamãs, praticantes da medicina, e diante dos seus amuletos...
Benjamim calou-se e franziu o olho maliciosamente. José baixou o nariz. O grande Borouh fazia parte daqueles soldados que nunca partiam para o combate sem levar algumas patas de lebre e pequenos objectos mágicos pendurados ao pescoço. Tinha dado um destes a José. Uma velha moeda de prata, datando da noite dos tempos, fundida num dos desertos da China, e que ele trazia agora cosida no reverso da túnica.
O jovem evitou apalpar o tecido. Porém, compreendeu que o avô não precisava de ver a moeda para adivinhar que ele a trazia.
- Um dia, Bulã começou por pensar: "Os povos do Sul são ricos e poderosos. Constróem palácios, cidades e portos. Têm grandes sábios e inventam máquinas e leis que decuplicam o poder dos seus soberanos quando estes decidem estabelecer a paz ou entrar em guerra. E todos crêem num Deus único que os ajuda e apoia... Durante todo este tempo, que fazemos nós, os khazares? Esgotamo-nos a deambular de um lado para o outro, em vão'. Transportamos as nossas tendas ao sabor da disposição do momento. Ora
' Segundo certas fontes, a denominação khazar vem do turco qazmak, que significa vagabundear, emigrar, ou ainda de quz, a vertente norte de uma montanha, o glaciar. A partir de 552, os khazares pertenceram provavelmente ao Império turco Ocidental, e participaram possivelmente na marcha do primeiro Khagan sobre a fortaleza persa Sul, ou Derbent. No século VI, a região situada a norte do Cáucaso esteve nas mãos dos sabir, uma das duas grandes tribos de hunos, nome com que, aliás, os turcos designavam os khazares. No início do período conhecido da sua história, os khazares tinham vencido a tribo dos Onoqundur, termo pelo qual os gregos designavam os búlgaros. Assim, os primeiros combates travados pelos khazares na região do Cáucaso teriam sido contra os búlgaros e os árabes. (N. do T.)
vamos para Leste, ora para Oeste! É certo que somos guerreiros corajosos e vencemos todas as batalhas. Mas de que nos serve? Quando um de nós morre, os xamãs pedem-nos que queimemos o corpo, juntamente com todo o gado, as reservas e as mulheres do falecido. A sua riqueza esvai-se em fumo. Nem sequer passa para os filhos! Deste modo, por muito ricos que nos tornemos, continuaremos sempre pobres, nómadas e ignorantes..."
Benjamim calou-se um momento, para molhar os lábios ressequidos por tantas palavras. José aproveitou a pausa para perguntar imediatamente:
- Bulã não acreditava no Eterno?
- Não! Nessa altura, ainda não. Mas fez algo que modificou tudo...
O velho Khagan apontou um dedo para o reverso da túnica de José, precisamente para o lugar onde o amuleto estava dissimulado, e declarou:
- Expulsou os idólatras das suas terras; proibiu a sua família, esposas, filhos e servos de terem qualquer contacto com os charlatães dos amuletos. E declarou aos seus guerreiros que, caso não fizessem o mesmo, morreriam todos no combate seguinte!
- E os idólatras foram-se embora? - murmurou José, muito pálido.
- Todos os que eram praticantes! E os que protestaram foram expulsos a golpes de lança ou afogados nas águas do Atei!
- E depois?
- Poucos dias após a partida dos últimos adivinhos e xamãs,
Bula recebeu a visita de um anjo, enquanto dormia...
No olhar atónito de José, lia-se a pergunta em suspenso. O avô esperou que ele a colocasse:
- Que aspecto tem um anjo?
- Só aquele que recebeu a sua visita te poderá responder, meu neto! - suspirou Benjamim. - Infelizmente, o Todo-Poderoso nunca me concedeu esse privilégio...
O velho homem e o moço calaram-se uns momentos, contemplando silenciosamente as águas do rio, escorrendo e troando de espuma, como se transportasse, repetidamente, toda a memória dos homens.
- O anjo veio visitar Bulã - prosseguiu Benjamim, com brandura. - Anunciou-lhe ser o mensageiro de Deus: "Deus enviou-me para junto de ti, pois ouviu-te gemer e expulsar os idólatras. Sabe que aguardas um sinal d'Ele e quer ajudar-te..." Do fundo do seu sono, Bulã reuniu toda a coragem e respondeu: "Senhor, é uma felicidade inominável receber um sinal de Ti. Mas, como sabes, há muitas espécies de khazares. Se eu me dirigir a eles sem nada nas mãos, como poderão crer na Tua existência?" O anjo respondeu-lhe: "Rei Bulã, faz o que tens a fazer e recolherás abundantes provas. Os teus inimigos vergar-se-ão diante de ti, terás leis e preceitos, a tua família será abençoada e a tua progenitura viverá muitos anos!" E assim se procedeu logo na manhã seguinte'.
- Deus fê-lo ganhar todas as batalhas?
- Fez.
Benjamim inclinou-se e agarrou a parte inferior da túnica do neto. Um punhal de cabo curto surgiu-lhe subitamente na mão. Com um gesto preciso e rápido, rasgou o pedaço do tecido que continha o talismã. O moço soltou um grito e levantou-se.
- Não se vai à sinagoga com amuletos cosidos nas roupas -
declarou Benjamim, voltando a colocar o punhal no estojo.
Envergonhado e furioso, José abriu a boca, sem conseguir pronunciar palavra. O rosto de Benjamim, marcado pela cicatriz, era um monumento de severidade. Estendeu as palmas das mãos abertas para o jovem e troou:
- Depois de amanhã serás um homem, o solidéu que trarás na cabeça será o de um homem! Entendes finalmente o que isso significa? És o descendente de Bulã, príncipe José. Um dia, sentar-te-ás, como ele, no trono de ouro do Khagan dos khazares! E, também
como ele, deverás privilegiar a sabedoria em cada decisão que tomares. Deverás adormecer todas as noites com o coração e as mãos assaz puras para que o anjo do Eterno te possa visitar e ajudar! Não és um khazar como os outros, filho do meu filho Aaron!
' Na versão do livro Al Khazari, de Yehuda Haveli, célebre poeta e cronista da polémica khazar, o anjo teria dito: " As tuas intenções agradam a Deus, mas não os teus actos". (N. do T.)
Nos olhos de José brilharam algumas lágrimas. Retesou todos os músculos do rosto para as conter. O seu coração batia tão desalmadamente que em breve ia deixar de poder respirar. Mas, subitamente, o olhar do avô amenizou-se. Os seus dedos amputados agitaram-se.
- Vem cá... Aproxima-te, não tenhas medo.
José levantou-se. O velho Khagan envolveu-o com os seus braços secos. José acolheu o abraço, mordendo os lábios.
- Sentados na margem dos rios da Babilónia, choramos, pensando em Jerusalém - cochichou-lhe o avô, enquanto lhe acariciava as costas.
Permaneceram assim um curto momento, apenas preenchido pelo abraço. Depois, Benjamim afastou o moço.
- José, ouve bem o que te vou dizer. É verdade que receberás uma espada e um cavalo magnífico. É a lei. E será justo, pois sei que serás um grande guerreiro. Mas, como te disse há pouco, receberás muito mais do que isso. Muito mais! Receberás o poder de ser aquele que trará a paz a todos os judeus do mundo. Sim, talvez venhas a ser o Khagan que acolherá o Messias no seu reino! Aquele a quem Deus indicará a terra sagrada da Nova Jerusalém... Não deves apenas aprender a tornar-te um bom guerreiro, rapaz! Deves também aprender a ser o melhor dos homens e o mais sábio. É nisso que consiste precisamente ser rei. Deves aprender os ensinamentos da Tora e do rabi Hanania. É o teu dever. Aprender, aprender, aprender. Até que a sabedoria corra em ti como o sangue!
José tremia. Cerrava as pálpebras com tanta força, que lhe doíam. Desejava poder tapar os ouvidos da mesma maneira e deixar de escutar a voz do avô.
Benjamim levantou-se. Com um sorriso cheio de ternura, anunciou:
- Vamos até à beira-rio. Vais jogar o teu amuleto à água.
Bruxelas, hotel Amigo Abril, 2000
A CONFERÊNCIA DECORREU DURANTE MAIS UMA HORA, com toda a normalidade.
Sofer vigiava a bela auditora com o canto dos olhos, mas evitava cruzar com o seu olhar. Surpreendentemente, ela apenas deixou transparecer um vago interesse pela continuação do diálogo e nunca deu sinais de querer voltar a intervir.
Quanto mais o tempo passava, mais a amarga disposição de Sofer se dissipava. O facto de a sentir ali, tão perto, capaz de se deixar arrebatar, insuflava-lhe a excitação do caçador. Afinal, por que recusar as benesses da existência? Tanto mais que aquela mulher possuía esse "algo" indefinível que transporta a beleza para a antecâmara do mistério!
Começou a temer vê-la desaparecer por encanto.
Enquanto respondia às perguntas com a distância divertida que um exercício desses reclama, prometeu para consigo que daria o primeiro passo. Encontraria maneira de lhe transmitir duas palavrinhas na altura em que os auditores abandonassem a sala.
Perguntar-lhe-ia, por exemplo, se a convencera. Ou, até, que sonho particular fora esse, a que aludira. Talvez lhe dirigisse uma observação provocadora...
E porque não? Há comboios para Paris todas as horas, até podiam jantar juntos. Bastar-lhe-ia adiar a reserva...
Sofer apercebeu-se que sorria nesciamente, apesar das questões colocadas merecerem muito mais seriedade. Dominou-se e retomou a sua postura distante, mais irónica do que verdadeiramente severa.
Mas nada correu como imaginara.
Uma dezena de minutos antes de a conferência terminar, a jovem ruiva levantou-se subitamente, pediu amavelmente desculpa aos vizinhos e encaminhou-se para a porta, com uma agilidade felina. Sofer mal teve tempo para se aperceber que, por cima de uma minissaia preta, ela trazia um comprido sobretudo de pele clara, ligeiramente apertado na cintura, o que lhe realçava o movimento das ancas.
Ela voltou-se ao chegar à saída, de mão na porta. Parando subitamente no meio de uma frase, Sofer julgou detectar-lhe no brilho dos olhos esmeralda algo que se podia assemelhar a um sorriso cúmplice. Era mais um "até à próxima" do que um adeus. A menos que tomasse os seus desejos por realidade. Estava muito longe para ter a certeza...
Pensou em endereçar-lhe um sinal, em dirigir-lhe uma palavra, uma gracinha... Mas não lhe ocorreu nada. Aliás, diante de uma assembleia, não podia correr atrás dela, mesmo verbalmente!
Sem grande esperança, esperou que ela não desaparecesse de vez. Já tinha visto mulheres discretas abandonarem a sala, para ressurgirem como que por milagre logo que punha os pés no passeio, fingindo-se vítimas das soberbas manigâncias do acaso!
Contudo, nessa tarde o acaso decidiu revestir a pele de uma pessoa completamente diferente.
Quando a sala de conferências se esvaziava finalmente, uma curiosa personagem apareceu diante de Sofer, de sorriso nos lábios, .sorriso que não podia ser ignorado, pois punha a descoberto o brilho de dentes revestidos de ouro!
Era um fulano alto, de trinta e cinco ou quarenta anos, que se via logo não ter o hábito de andar de fato. Este, feito de um tecido que passara de moda há vinte anos, arredondava-lhe o peito, muito forte, deixando ver uma camisa às bolinhas pretas e brancas. Tinha posto uma larga gravata cinzenta, com pequenas flores verdes e cor-de-rosa.
Era uma silhueta um tanto inesperada neste grande hotel de Bruxelas, de tapetes espessos e ostentando a decoração elegante dos anos trinta.
- Bom dia, estou muito feliz por vê-lo. Disseram-me que o podia encontrar aqui...
Sofer levou alguns segundos até compreender que lhe falavam em russo. Recuou um passo, como que para ver melhor o seu interlocutor. Rosto estreito, olhos enterrados nas órbitas, olhar penetrante. Um look de mafioso, como se costuma dizer, mas um mafíoso da província!
- Chamo-me Yakubov - prosseguiu o homem, estendendo-lhe uma grande mão. - Vim vê-lo, pois preciso de si... Compreende-me? Compreende o russo?
- Sim, compreendo - respondeu Sofer, intrigado.
- Chamo-me Ephraim Yakubov - repetiu o homem, mostrando o seu sorriso de ouro. - Se me permite, gostaria de ficar com a sua morada.
Desferiu o pedido assim, sem quaisquer rodeios. E, logo a seguir, lançou um olhar de suspeição à sua volta, franzindo o sobrolho. Uma verdadeira caricatura, pensou Sofer, dividido entre o divertimento e o fastio. Nome de judeu, esgar de fora-da-lei, o que, infelizmente, nem sempre era incompatível. Além disso, o indivíduo arruinava-lhe as últimas esperanças de correr atrás da bela desconhecida!
A menos que lhe evitasse ridicularizar-se.
A sala estava agora praticamente vazia, os dois adidos de imprensa aguardando calmamente junto da porta. Um punhado de leitores, ainda presentes, devorava o russo com os olhos. Pelo menos, este encontro ia alimentar a sua imagem de escritor dado a aventuras misteriosas!
- E porque deseja a minha morada, senhor Yakubov?
O outro colocou a mão no braço de Sofer. Era uma mão que tinha o hábito de desempenhar tarefas, de ser um instrumento fiel e poderoso. Contudo, o gesto não era nem ameaçador, nem familiar. Era simplesmente uma maneira de reclamar uma grande atenção.
- Eu venho do Cáucaso, senhor Sofer. Da Geórgia. Está a entender?
- Entendo muito bem - replicou Sofer, libertando o braço.
Entendia até com grande precisão! Para qualquer pessoa que conhecesse um pouco o antigo Império soviético, a Geórgia e o Cáucaso possuíam dois sinónimos: Estaline e máfias. Desde a queda do comunismo, estes sinónimos tinham-se transformado em guerras de clãs e máfias.
- E em que lhe posso ser útil? - prosseguiu, circunspecto.
- Disseram-me que às vezes ajuda pessoas que se encontram na minha situação... Preciso de documentos. Entrei na Alemanha como turista. Com o meu visto, vão pôr-me a andar dentro de duas ou três semanas. Não posso regressar à Geórgia.
- Deseja ficar na Alemanha?
- Na Alemanha, em França... na Europa! Como quiser! Para um judeu como eu, disseram-me que o senhor podia...
Com uma ponta de fascínio pela desenvoltura com que o homem lhe reclamava ajuda, Sofer perguntou:
- Desculpe-me, mas esse "disseram-me" refere-se a quem?
Yakubov inclinou-se e, de modo quase inaudível, cochichou um nome que Sofer conhecia efectivamente muito bem. Lançou ainda um olhar para os que se demoravam a sair da sala e sussurrou, como se revelasse um segredo de Estado:
- Sou um "judeu das montanhas"!
- Um judeu das montanhas?! - exclamou Sofer.
Devia ter pensado nisso. Há séculos que os judeus das montanhas, que alguns também chamavam de "Décima Terceira Tribo", se encontravam instalados, ou até mesmo perdidos, nas montanhas do Cáucaso. Talvez até desde há milénios, pois a Bíblia conta que, na época assíria, alguns judeus foram enviados para o Midii, na margem do mar Cáspio, região que corresponde ao actual Azerbaijão. Se a memória de Sofer não o enganava, estes homens ainda utilizavam uma língua de origem desconhecida, o tath...
- Sabe quem são os judeus das montanhas?
- Mais ou menos...
- Nesse caso, saiba que sou um deles e que tenho coisas importantes a dizer-lhe. É também por isso que desejo vê-lo. Não é só pelos documentos.
- Deseja beber alguma coisa? - sugeriu Sofer, aborrecido por já se sentir complacente e vagamente culpado.
- Não, aqui não. Em Paris, em sua casa. É importante.
- Não me quer revelar mais nada?
- Tem de me acreditar, é importante. Para si, será importante.
E, para mim, os documentos são importantes.
- Como veio da Alemanha até aqui?
- Oh, quanto a isso, não há problema! Já não há fronteiras,
não é verdade? Estamos na Europa!
Yakubov sorriu com todos os seus dentes de ouro, feliz como uma criança.
- Por isso, posso deslocar-me a Paris, até sua casa - acrescentou.
Afinal, pensou Sofer, que arrisco? O amigo que lhe enviara este candidato ao exílio não era um estouvado qualquer. E este caucasiano era assaz intrigante para merecer ser ouvido ou, quiçá, ajudado. De qualquer modo, não era mais ridículo que o desejo de cortejar uma desconhecida!
Levou a mão ao bolso, de onde retirou um cartão de visita que entregou a Yakubov.
- Pegue. Telefone-me e teremos uma pequena conversa. Mas, quanto aos documentos, não lhe posso prometer nada.
O caucasiano fez reluzir os incisivos de ouro.
- Daqui a três dias! Estarei em sua casa daqui a três dias!
E verá como não se arrependerá!
Evidentemente, quando Sofer deixou o hotel, a jovem ruiva não reapareceu. Era um pouco como nos sonhos de infância, pensou. Nem estava muito seguro de a ter visto, nem de ter ouvido a sua voz grave e cativante. Contudo, e apesar de todos os sarcasmos que podia dirigir a si mesmo, sentia-se desiludido. Desiludido, e de forma insensata.
Resmungando, apanhou o primeiro comboio para Paris.
Sarkel
A noite chegava. O sol deitava-se por detrás das colinas de florestas impenetráveis. As muralhas de Sarkel-a-Branca pareciam apagar-se.
Antes do ocaso, longas nuvens avermelharam o céu, como tiras de tecido embebidas de sangue, reflectindo-se na superfície do rio.
José sentiu a frescura do fim da tarde na nuca. Era o vento de leste que chegava do grande mar de Djordjan, atravessando a estepe do nascer ao pôr-do-sol e que os muçulmanos e cristãos do reino chamavam "vento dos khazares"!
Attex sentiu um arrepio e chegou-se mais a José.
- Dizem que Attiana não vai morrer, mas que deixará de poder falar - sussurrou. - Desta vez, ficou mesmo desdentada.
Estavam anichados no recorte em meia-lua de uma ameia, no caminho da ronda da fortaleza. José ouviu a irmã, sem lhe prestar atenção. Lá em baixo, rugiam os largos meandros do rio, semelhante ao corpo escamado de um dragão gigantesco. José deixou-se levar pela imaginação. Longe, na direcção do sul, já sob o manto da noite, o dragão erguia uma cabeça enorme e terrível. A sua boca mostrava dentes colossais. Os seus olhos, polvilhados de ouro, buliam de fúria. Uma língua bífida, semelhante a mil chicotes reunidos, rasgava a atmosfera crepuscular!
Os habitantes da cidade escapuliam-se, gritando. Os camelos empinavam-se, berrando o seu terror. Os cavalos fugiam, quebrando cercas. Mulas, cães e, até, gansos e patos, escapuliam-se a toda a pressa! Nesta corrida tresloucada, avistavam a cabeça do dragão, bamboleando-se por cima deles, focinho erguido para o céu para expelir torrentes de fogo, cujas cinzas incendiariam o couro das tendas! Todos gritavam aterrorizados: mulheres, jovens, velhos e até guerreiros instalados nas torres de Sarkel!
Nessa altura, Borouh vinha ter com ele e dizia-lhe: "Príncipe, chegou o momento. Deves ajudar-me. Temos de abater o dragão. Só nós poderemos fazê-lo antes de ele destruir o reino dos khazares!..."
A toda a pressa, selavam os cavalos árabes, de membros trementes. Batendo com as botas, num galope desenfreado, saíram de Sarkel-a-Branca, disparados rumo ao horizonte, lança em riste, sem se preocuparem com os bramidos demoníacos do monstro!
- Eh! - protestou Attex, sacudindo o ombro do irmão. - Porque não me respondes?
José suspirou, ao ser despertado do sonho. Não se avistava nenhum dragão. A escuridão já apagara a agitação à superfície do rio. Acendiam-se tochas e pequenas fogueiras por entre as tendas, iluminando grupos de homens acocorados.
- Responder a quê? - perguntou.
- Que pensas que fazem os petchenegues das raparigas que raptam?
- Fazem delas escravas, servas... Que outra coisa queres que façam?
- Eu nunca teria aceite. Sou uma princesa! Não quero ser escrava. Se me tivessem apanhado, deixar-me-ia afogar!
Attex falara com um orgulho grave. José olhou-a afectuosamente. Embora ela tivesse apenas cinco anos, sabia-a tão corajosa quanto ele. Também gostava de sentir os seus caracóis sedosos roçando-lhe pelas faces do rosto.
Ela apertou-lhe a mão e acrescentou:
- Agora, devo-te a vida. És o meu guerreiro para sempre.
E, um dia, também salvarei a tua... É verdade, não é? Mesmo quando fores Khagan, guardar-me-ás junto de ti, não é verdade?
- Guardar-te-ei - respondeu José, emocionado.
Passou a ponta dos dedos pelo reverso rasgado da túnica. Incomodava-o não sentir mais o peso da velha moeda de prata.
Guardara rancor ao avô por tê-lo obrigado a jogá-la ao rio. Nunca ousaria confessar a Borouh que já não a possuía!
Porém, talvez ele o adivinhasse. Era bem capaz. Possuía a intuição mágica que salva os grandes guerreiros quando uma flecha lhes assobia nas costas ou quando os seus inimigos se dissimulam. Borouh sabia voltar-se a tempo e ver através das sombras.
E, não obstante, o avô Benjamim não queria que o neto se assemelhasse a ele!
- Em que pensas? - perguntou Attex. - Tens um ar tão triste...
- Em nada...
Era a pior resposta que podia dar à irmã. A curiosidade de Attex era insaciável. Ela afastou-se ligeiramente e amuou.
- Não é verdade! Estás a pensar no dia de amanhã, quando entrares na sinagoga?
- Não.
- No cavalo ou na espada que irás receber?
José sorriu.
- Sim...
A luz fraca das tochas, Attex franziu as suas encantadoras sobrancelhas, com ar interrogador, antes de fazer outra pergunta:
- Que foi que te contou o avô Benjamim?
- Disse-me coisas que só se dizem àquele que se tornará o Khagan dos khazares.
- Porquê?
- Porque é assim - resmungou José.
Desiludida, Attex franziu o nariz.
De onde se encontravam, podiam adivinhar as famílias reunidas à volta das fogueiras da cidade. Podiam ouvir o eco das melopeias das cantoras, do som dos tambores e dos alaúdes dos mercadores árabes, repercutindo contra os muros da fortaleza. Quando fosse noite cerrada, quando tivessem devorado a carne assada e bebido o vinho de uva, crianças ou adultos, barqueiros ou pastores, todos dançariam em honra de José até a lua se inclinar no horizonte como se fosse cair no mar Azov. As jovens do povo alano, de pele tão clara que se tornava fosforescente à luz do luar, rodopiariam, enfunando as túnicas! Mas ele, o príncipe dos khazares, o herói do dia, tinha de se contentar em ouvir o eco das suas gargalhadas perdendo-se na noite.
- Sei que o avô te disse coisas que não te agradaram – reatou Attex, num tom carinhoso. - Sinto sempre quando não estás contente. Podes confiar-te a mim.
Ele resmungou:
- O avô não quer que me torne um grande guerreiro como Boroúh.
- Porquê? - espantou-se sinceramente a irmã.
- Diz que o Khagan é, em primeiro lugar, um sábio.
- Ah...?
- Mas engana-se. Um rei é poderoso e respeitado por ser o vencedor de grandes batalhas, não é?
Attex aprovou com a cabeça.
- Sim, se não fosses um guerreiro, hoje não me terias salvo.
- O avô diz que tenho de ser sábio como o mais sábio dos judeus -
prosseguiu José, numa voz tremida. - Diz que talvez caiba a mim vir a salvar os judeus que, uma vez expulsos de todos os reinos, vierem procurar refúgio entre nós...
- E tu não queres? - perguntou Attex, impressionada.
José não respondeu. Permaneceram silenciosos durante alguns momentos, enlaçados, como se o muro da fortaleza fosse apenas um frágil batel perdido no meio da noite. José apontou para as fogueiras na margem do rio e resmungou, cheio de fúria:
- De que serve ser Khagan, se é preciso mostrar-se sempre sábio? Não gosto de passar o tempo a ler em voz baixa. Apenas desejo tornar-me um guerreiro, um grande guerreiro, como Borouh!
Attex encostou-se mais a ele e sussurrou-lhe, numa voz quase inaudível:
- Quanto a mim, sei que vais ser Khagan, como o nosso pai.
E que também serás um guerreiro muito poderoso. Sei. E quando crescer, poderei ser como que tua esposa.
Paris, Montmartre Abril, 2000
Nos três dias que se seguiram à conferência de Bruxelas, Marc Sofer ocupou-se exclusivamente das rosas de que cuidava escrupulosamente no enorme terraço do seu apartamento, em Montmartre.
Graças aos seus esforços e apesar das previsões pessimistas dos horticultores especializados, conseguira fazer crescer, num vaso italiano, uma admirável rosa antiga, chamada Buff Beauíy, designação que se poderia traduzir por "Beleza Acamurçada". As pétalas das flores jovens exibiam uma espantosa corola ocre. Depois, a rosa desabrochava, aumentava de peso e empalidecia, adquirindo uma macieza carnal que recordava o ombro de uma mulher que o sol mal teria aflorado.
Enquanto se ocupava do seu pequeno jardim, Sofer não pensou uma única vez em Ephraim Yakubov, o judeu das montanhas. No entanto, a recordação do belo rosto da interlocutora de Bruxelas não o deixava em paz. Por mais que podasse, limpasse e vigiasse a germinação das rosas, estimuladas pelos primeiros calores primaveris, os olhos verdes, a cabeleira ruiva e a voz grave da desconhecida assombravam-no, interrompendo os estalidos da tesoura de podar.
Esta obsessão parecia-lhe chocante e malsã. Em breve teria sessenta anos. Numerosas mulheres tinham-no acompanhado pela vida: amantes belas, sempre atenciosas, frequentemente inteligentes, ternas ou apaixonadas. Por vezes, eram isto tudo simultaneamente, como um milagre ou uma doação do Eterno. Infelizmente, também reclamavam mais do que é possível dar, pelo menos no que lhe dizia respeito.
Em suma, conhecera muitos momentos magníficos, prazeres de que era grato recordar-se. Mas eram também aventuras que, mal começavam, se encaminhavam inevitavelmente para o seu próprio fim...
Sofer era um daqueles homens aos quais a idade conferia um encanto suplementar. Diziam-lhe regularmente que não parecia ter a idade que tinha. A sua silhueta adelgaçava-se, as rugas que lhe sulcavam o rosto e os seus cabelos cinzentos acrescentavam uma nota de distinção à sua pessoa. A sua sedução funcionava ainda muito bem e, às vezes, contra sua própria vontade, de tal modo estava farto das manobras que não levavam a lado nenhum. Chegara mesmo a pensar em deixar crescer a barba, para ter realmente um ar mais velho, visto que a natureza se recusava a desempenhar o seu próprio papel.
Na realidade, o que considerava como o seu falhanço, isto é, a sua tão fraca influência sobre o curso real dos acontecimentos e a sua decisão em deixar de escrever romances, secara-lhe também o interesse pelos jogos da sedução e pelas suas satisfações fugazes. Desfrutava da sua solidão como de um vinho longamente conservado, que tivesse finalmente adquirido o seu melhor sabor.
Ora, eis que uma mulher o vinha provocar em ambos os terrenos, a um tempo enquanto escritor e enquanto homem. Depois, a imagem desvanecia-se, apesar de não conseguir expulsá-la da mente!
- Velho imbecil! - resmungou, na altura em que o telefone tocou.
Soltando um suspiro, pousou o regador, retirou as luvas e entrou na sala, para pegar no aparelho que tinia na secretária.
- Senhor Sofer?
- Sim.
- Yakubov. Lembra-se de mim? Sou Ephraím Yakubov, o judeu das montanhas.
- Lembro-me - resmungou Sofer, em russo.
- Estou no café, no rés-do-chão de sua casa. Subo imediatamente, como combinado.
- Eh, mas...
O caucasiano já desligara.
Resmoneando, Sofer foi lavar as mãos e mal teve tempo para vestir um casaco de tweed antes da campainha lhe anunciar a chegada do judeu das montanhas.
- Tinha-lhe dito três dias! - exclamou Yakubov, quando o escritor lhe abriu a porta. - Passaram precisamente três dias.
Trazia o mesmo fato, a mesma camisa e a mesma gravata. E sorria com todos os seus dentes de ouro.
Sofer convidou-o a entrar. Chegado a meio do salão, pareceu intimidado pela primeira vez. Os seus olhos sombrios perscrutaram todos os cantos da ampla divisão, percorrendo as bibliotecas pejadas de objectos e fotografias, memórias de uma vida de viagens e encontros. Depois, ao descobrir o terraço, aventurou-se nele. A presença de um caramanchão de rosas no décimo andar de um edifício pareceu-lhe algo ainda mais extraordinário do que a sumptuosa vista que podia desfrutar da cidade.
- Tem uma linda casa - concluiu.
- Vodca ou café? - perguntou Sofer, à laia de agradecimento.
- Vodca, se não se importa.
Os dentes de ouro reapareceram.
- Ponha-se à vontade - propôs Sofer, indicando as poltro nas instaladas no terraço.
Quando regressou com uma garrafa gelada de Zubrowska e dois copos, já Ephraim Yakubov tirara o casaco e desapertara o nó da gravata.
Sofer não pôde deixar de admirar a faculdade de adaptação do seu visitante. Para este homem, que passara a vida numa aldeia caucasiana, tudo devia ser novo, tão estranho quanto complexo. No entanto, parecia capaz de sobreviver a todas as situações.
Beberam um primeiro copo em silêncio e, em seguida, Sofer perguntou:
- Não creio que me tenha dito onde residia no Cáucaso.
- Em Kvareli. Enfim, numa aldeia não muito longe de Kvareli...
Fica na montanha, muito perto do Daguestão e da Tchetchénia.
- Partiu por causa da guerra?
Yakubov olhou-o como se ele tivesse dito alguma piada.
- A guerra? Mas nós, judeus das montanhas, já vivemos com a guerra desde há dois mil anos! O meu pai escondeu-se na montanha quando Estaline enviou os judeus do Cáucaso gelar para a Sibéria!
- Nesse caso, que foi que o obrigou a deixar casa e família, senhor Yakubov? Porque precisa da minha ajuda e por que razão devo ajudá-lo?
Sofer falara com certa vivacidade e Yakubov pareceu ficar espantado. Levou algum tempo para reflectir e, por fim, perguntou:
- Senhor Sofer, já ouviu falar dos khazares?
Atrapalhado, Sofer pestanejou. Sim, sabia vagamente do que se tratava. Koestler consagrara-lhes um dos seus livros.
- Eles possuíam um reino no nosso país - prosseguiu
Yakubov, sem esperar pela resposta. - Um grande reino, que ia do
mar Cáspio até ao mar Negro e até Kiev. Uma sagrada extensão! Foi
há muito tempo. Há mais de mil anos...
- Converteram-se ao judaísmo...
- É verdade! Um reino judeu, mesmo na nossa região.
Imenso, riquíssimo... Um reino judeu, como em Israel!
Yakubov exultava. Os seus olhos brilhavam tanto quanto os seus dentes. Quantas vezes os judeus das montanhas teriam contado esta história extraordinária de um reino judeu em pleno Cáucaso? - perguntou Sofer a si mesmo. Como não se emocionar com este povo que criara um Império judeu na Idade Média?
Encheu os copos, comovido pelo entusiasmo de Yakubov.
- É verdade - admitiu. - Li duas ou três coisas sobre esses khazares, mas foi há muito tempo. Eram nómadas, não eram?
- Começaram por sê-lo. Depois, tiveram um verdadeiro reino, com cidades, fortalezas, mercados... Um reino! E foi a única vez, nos anais da História, que um povo escolheu o judaísmo.
Sofer riu-se, como se a ideia lhe parecesse insólita. Yakubov lançou-lhe um olhar chocado e protestou, abanando a sua grande cabeça:
- Portavam-se como verdadeiros judeus, senhor Sofer! Iam à sinagoga, aprendiam a Tora e liam o Talmude, como nós... Eram sábios!
Bebeu um golo de vodca e inclinou-se sobre a mesa, perguntando em voz baixa:
- Sabe o que faziam aos seus reis?
Surpreendido pelo fervor inesperado do caucasiano, Sofer fez sinal que não e convidou-o a prosseguir. Num tom doutoral, Yakubov explicou:
- Eram reis, de pai para filho. Mas só um judeu podia ser soberano. No dia da coroação, os khazares conduziam o futuro rei diante do povo. Dois homens passavam-lhe uma corda de seda pelo pescoço...
Yakubov apertou o nó da gravata, simulando um estrangulamento:
- Assim! Apertavam com força. O tipo mal conseguia respirar. E sabe porquê?
- Não.
- Pois bem, enquanto tinha a garganta apertada e a língua de fora, perguntavam-lhe: "Quanto tempo queres governar?". E ele respondia: "Tantos e tantos anos". Cinco, dez, quarenta... E, pronto, afrouxavam o nó da corda! Mas, atenção, não era uma brincadeira. Ele deixava-se mesmo estrangular e só lhe faziam a pergunta quando o sujeito começava realmente a asfixiar! Nestas condições, o futuro monarca nunca ousava declarar um elevado número de anos. E se dissesse quatro, e morresse antes do fim do prazo, ou abandonasse o trono, tudo bem. Se persistisse, era morto logo que o prazo expirava! Se insistisse em guardar o trono, zás, degolavam-no!
Yakubov desatou a rir, cheio de admiração:
- Imagine se fizéssemos o mesmo aos nossos presidentes, senhor Sofer...
Este sorriu.
- Senhor Yakubov, qual a relação entre os khazares e a sua vinda para a Europa?
- Como lhe disse, enquanto viveu, o meu pai nunca abandonou as montanhas. Eu conheço-as de cor, mas ele podia deslocar-se de noite, na neve, sem nunca se perder. Uma vez desapareceu durante dois anos. Até julgámos que tivesse morrido...
Yakubov calou-se, com ar grave, como se visse o pai passar diante deles. Sofer começava a apreciar o homem. O caucasiano ou era sincero e aquela sensibilidade agradava-lhe, sob a carapaça um tanto bruta dos seus ares, ou então era um comediante. Mas, neste caso, que excelente comediante!
- O meu pai descobriu uma gruta enorme - prosseguiu
Yakubov, com uma voz mais alquebrada, ao olhar para as rosas. -
E essa gruta continha ruas, casas, uma sinagoga...
- Uma sinagoga?
- Exacto. Construída pelos khazares! Vi-a com os meus próprios olhos... Era grande. Tinha uma enorme biblioteca cheia de livros...
- Viu-a com os seus próprios olhos? - insistiu Sofer, enquanto sentia uma bem conhecida excitação apoderar-se dele.
- Que o Eterno, abençoado seja o Seu nome, me abata, se estiver a mentir...
- Acredito-o.
- Uma sinagoga única, como não há mais nenhuma. Construída em pedra, no interior da gruta, com colunas, candelabros e a estrela de David... Com madeiras revestidas de ouro...
- Como a descobriu?
- Conforme lhe disse, os russos, os soviéticos, fizeram o possível para que todos se esquecessem dos khazares. Como se o seu reino nunca tivesse existido. Por conseguinte, quando o meu pai descobriu esta gruta, não o revelou a ninguém. Ninguém! No entanto, de vez em quando partia para a montanha, desaparecia durante uma ou duas semanas. Ninguém sabia para onde, nem porquê! E eu, um dia, quis saber. Segui-o. Caminhámos duas noites. Ele à frente, eu atrás. Na segunda manhã, encontrei-me diante de uma falésia esburacada. O meu pai trepava-a com a ajuda de uma escada! Assim que desapareceu numa gruta, comecei também a trepar. Foi deste modo que descobri a sinagoga dos khazares.
Yakubov deixou passar algum tempo, inclinando a cabeça repetidas vezes, antes de prosseguir:
- Também fiquei a saber que o meu pai ia até lá para ler o Talmude e a Tora! Imagina? Deslocava-se sozinho à gruta, entrava na sinagoga, onde acendia velhas lâmpadas de óleo, sentava-se num banco, e eu, escondido na sombra, via-o rezar, balouçando-se para à frente e para trás. Vejo-o ainda com a cabeça coberta pelo talith com os tephillim’ pendendo-lhe no braço. Rezava, sozinho, naquela sinagoga com morcegos pendurados no tecto! Imagina? Era por isso que desaparecia de casa...
- Como tem a certeza que a sinagoga data da época dos khazares? - perguntou Sofer.
Yakubov passou a sua enorme mão pelo rosto e a manha voltou a brilhar-lhe nos olhos.
- O meu pai nunca me disse que a tinha descoberto. E eu também decidi calar-me. Mas, para além dos objectos, também continha livros, uma bíblia, papéis muito velhos. E um cofre cheio de velhas moedas. Há dois anos, pensei que seria estúpido deixar apodrecer aquilo tudo... Mostrei uma das moedas a alguém. Foi assim que soube que a gruta datava do tempo dos khazares.
- A quem se dirigiu?
Yakubov hesitou, parecendo sinceramente incomodado.
- Não lhe posso dizer. É impossível...
- Isso tem alguma relação com a sua vinda para a Europa?
- Tenho imensos aborrecimentos desde que mostrei essa velha moeda. Há pessoas que querem absolutamente saber onde fica a gruta. E eu não confio nessa gente.
- Mas confia em mim - troçou Sofer.
Yakubov fitou-o frontalmente.
- Sei quem é o senhor. E eis o que lhe tenho a propor: arranja-me um visto para um ou dois anos, cinquenta mil dólares, e eu mostro-lhe onde fica a gruta. Oficialmente, será o senhor a descobri-la. Com todo o recheio. Isso dar-lhe-á matéria para um bom livro, não é verdade? Sem contar com os artigos que poderá escrever nos jornais! Que pensa? Não é caro.
Siderado, Sofer deixou escapar um assobio.
1 Espécie de xaile tradicional que os judeus colocam sobre a cabeça durante as orações. (N. do T.).
2 As franjas do mesmo xaile (N. do T.)
- Você, ao menos, tem cá uma desfaçatez!
Mas Yakubov não estava a brincar. A sua expressão nunca fora.
- É melhor que seja o senhor. É judeu. E a si, eles não ousarão fazer nada.
- Eles?
O caucasiano não respondeu e Sofer deixou-o levantar-se, sem reagir.
- Telefonar-lhe-ei - disse Yakubov, vestindo o casaco demasiado apertado. - Dou-lhe tempo para reflectir.
Levou a mão ao bolso e retirou uma grande moeda de contornos irregulares, que tiniu pesadamente na mesa. É uma moeda de prata, avaliou Sofer, num relance de olhos. E cunhada há vários séculos. Na face polida pela limpeza, era perfeitamente visível um candelabro de sete braços.
Mâcon
No decurso de uma viagem muito longa e incerta, o jovem Isaac Ben Eliezer chegou a Mâcon numa tarde de Abril de 954.
Tendo deixado Córdova há um mês, partira de Lyon na véspera e seguira as margens do Saône numa mula caprichosa. Apesar de ser Primavera, estava um tempo sufocante. Uma hora antes de poder avistar as muralhas da cidade, o céu escurecera como breu e a tempestade rebentara. Os relâmpagos iluminaram as trevas por cima da imensa floresta que cobria as colinas. O ribombar do trovão tornou-se tão violento que toda a terra pareceu estar prestes a rachar-se.
Quando avistou a cidade estava encharcado como um pintainho à chuva.
A grande cidade dos mercados de Borgonha estendia-se no sopé de uma colina. A muralha ameada que a protegia, pontuada por torres de vigia de toros rijos, chegava a algumas jeiras do rio, que amarelecera. Imóvel, endurecido pela chuva, pendendo numa haste do torreão principal, o estandarte real com as armas de Othon, rei dos Burgundios (1) e da Itália, mais parecia um farrapo abandonado.
Contrariamente aos seus receios, os guardas instalados na grande porta deixaram-no entrar na cidade, contentando-se com
(1) População germânica que se estabeleceu nas margens do Reno, no século V.
Vencidos por Aécio (436), instalaram-se na bacia do Ródano (443), sendo submetidos pelos francos em 534. Deram o seu nome à Borgonha (N. do T.).
uma moeda de prata cunhada em Narbonne, sem sequer lhe abrirem as sacolas que trazia penduradas na sela.
A tormenta transformara as ruas em riachos. Os detritos incrustavam-se nas pedras deslocadas e nos patamares das casas. Afastando as galinhas e os gansos com as penas coladas pela chuva, os porcos, semicobertos de lama, vasculhavam nas imundícies, soltando pequenos grunhidos agudos. Excepto estes animais de criação, não parecia haver vivalma. Os cascos da mula soavam de modo sinistro por entre os muros cerrados.
Isaac entrou numa rua mais larga, que devia levar ao centro da cidade. Tinha de encontrar o quarteirão judaico e a casa do cambista Nathan Judicaêl, um sábio homem do Livro, recomendado pelos seus amigos de Lyon.
Um jovem surgiu de uma ruela adjacente, com passos miúdos e apressados, transportando um molho de lenha quase tão alto quanto ele. Isaac mal teve tempo para parar a mula, a fim de não chocar com o rapaz. Quando se aprontava para prosseguir caminho, descobriu um velho homem, já muito desdentado, sentado numa acha, mastigando uma papa de farelo à sombra da soleira da porta de uma casa.
Isaac sorriu, saudou-o respeitosamente, e perguntou-lhe:
- Avô, bom-dia para o senhor e para os seus, e que Deus o guarde! Procuro a loja do sábio Judicaêl, o cambista...
O velho lançou-lhe um olhar totalmente deslavado. Sem responder, remexeu na tigela com o pedaço de pau que lhe servia de colher.
Embaraçado, Isaac perguntou a si mesmo se o velho não seria doido ou se não compreendia a língua franca. Como tinha ainda menos hipóteses de ser compreendido em latim, ia colocar-lhe novamente a pergunta em germânico quando o homem desatou a rir, com a boca cheia de papa.
- Por ora, o cambista está nas mãos do bispo!
Isaac estremeceu. Esperou ter compreendido mal.
Os olhos do velho semicerraram-se e apontou a sua infortunada colher para o rosto do viajante.
- E tu também te pareces com Judas! Hoje é Sexta-feira Santa, Judas! Vai pois servir o bispo com os outros judeus! Estão lá todos!
Indicou um ponto na direcção do norte, através da ruela e das paredes das casas, antes de recomeçar a revolver a papa, troçando.
De peito gelado, Isaac bateu na garupa da mula e afastou-se, após uma saudação frouxa. Adivinhava o espectáculo que o esperava. Sentia a náusea apoderar-se dele.
Quando chegou à praça do mercado, deixara de chover. As bancas estavam desertas. Apenas se avistavam miúdos brincando, acocorados sob as tábuas, com o traseiro na lama, trincando maçãs verdes. Alguns saíram dos seus abrigos para examiná-lo melhor, proferindo algumas palavras quase ininteligíveis.
Erguida bem alto por cordas, a cruz dos cristãos estava fixada nas muralhas da fortaleza do ducado dos Burgundios. Era daí que provinha o ruído de uma multidão. Um cântico.
Sem se importar com os miúdos que o seguiam, Isaac atravessou a vasta praça do mercado, fazendo trotear a mula.
No flanco direito da fortaleza, num terrapleno que se assemelhava a um lodaçal, todos os habitantes da cidade, andrajosos ou ricos, comprimiam-se uns aos outros, ocupados a rezar.
O palácio do Cristo ainda se encontrava em fase de esboço. Sobrepujadas por andaimes de madeira, as paredes do envasamento elevavam-se até à altura de um homem. Para leste, desenhavam um esqueleto de pedras enegrecidas pela tormenta e formando uma espécie de concha em redor de um bacio talhado no calcário, destinado à cerimónia baptismal. Um estrado estreito, onde se erguera um dossel bordado com fios de prata, dominava a multidão, protegendo uma estátua de madeira representando Jesus Cristo, olhos exorbitados, corpo pintado violentamente de branco, dourado e vermelho-sangue.
A seu lado, encontrava-se uma dezena de monges de burel de linho e um bispo de capa púrpura. O prelado salmodiava longas frases num latim quase incompreensível. Subitamente, passando à língua franca com um acentuado sotaque da Burgundia, exclamou:
- Eis como as coisas se passaram: Pilatos colocou a coroa de espinhos na testa de Jesus e mandou chicoteá-lo! Então, os judeus foram ter com ele e disseram-lhe: "Temos uma lei. Segundo essa lei, aquele que chamas Jesus tem de morrer, pois pretende ser o filho de Deus. É mentira! Deus não tem nenhum filho!..."
Os monges benzeram-se e um grunhido percorreu a multidão. Isaac parou a mula e quedou-se quieto, esperando que ninguém se voltasse para ele. Depois de olhar para o auditório como homem habituado a fazê-lo vibrar, o bispo prosseguiu numa voz cortante:
- Sim! Foi deste modo que os judeus falaram. E como, não obstante, Pilatos, o Romano, queria soltar Nosso Senhor Jesus Cristo, disseram-lhe: "Não! Não podes libertá-lo! Este homem quer ser filho de Deus e quer ser rei! Deves crucificá-lo. Deves quebrar-lhe os joelhos e fazê-lo beber vinagre!..."
Um novo grito de cólera explodiu. As mulheres desataram a chorar. Um vento furioso varreu o estrado.
A multidão cerrou-se mais perto do baptistério. Eclodiram berros. O bispo apontou para um homem que era puxado para o estrado. Tinha a mesma idade que Isaac, pouco mais de vinte anos. Trazia os braços atados a uma trave que lhe pesava nos ombros, a cabeça descoberta e os cabelos cortados muito acima da nuca. Os monges ajoelharam-se ao vê-lo, benzendo-se veementemente como se o odor putrefacto do diabo lhes enchesse as narinas. O bispo berrou:
- Eis o judeu! Eis o judeu!
Ao longe, à esquerda de Isaac, soou um gemido abafado. Um pequeno grupo de homens e mulheres amontoava-se atrás de carroças carregadas de beterrabas. Transidos pela chuva, agarrados uns aos outros, eram os companheiros e a família do infortunado que, mais longe, desempenhava o papel do vilão no cenário instalado pelo prelado dos cristãos! O queixume saíra da garganta de uma jovem, com a túnica enfunada por uma barriga que continha toda a promessa de uma vida futura.
Sem perder demasiado tempo a reflectir, Isaac lançou a mula na direcção do grupo, enquanto as vociferações dos cristãos soavam por entre os muros do recinto. Os olhares inquietos dos judeus voltaram-se para ele. Teve consciência do seu rosto de estrangeiro e do medo que lhes podia causar. Ergueu uma mão em sinal de concórdia e disse, em voz muito baixa, de modo a que só eles o pudessem ouvir:
- Sou dos vossos! Chamo-me Isaac Ben Eliezer...
Não teve tempo para dizer mais. A jovem grávida gritou:
- Simão! Simão!
No estrado, o bispo vergastava o jovem judeu com um ramo de silvas, dilacerando-lhe o rosto a cada golpe. A multidão aplaudia, gritando "vivas". O ramo quebrou-se nas mãos do bispo, que passou então a esbofetear o jovem com tanto vigor que, de braços e ombros ainda entravados, este caiu de lado, incapaz de se levantar.
A mulher quis correr em seu auxílio. Os seus companheiros retiveram-na, amordaçando-lhe a boca para lhe abafar os gritos. Isaac já arregaçara a capa. De pé sobre os estribos, brutalizando os flancos da mula, soltou um berro enquanto desembainhava a sua adaga de Toledo.
A surpresa permitiu-lhe apartar a multidão como Moisés apartou as águas! A estupefacção paralisou os cristãos. Durante um momento, apenas viram este homem sentado na sua mula, cabelos compridos e encaracolados, cor de mel, rosto fino, boca bela e bem delineada, olhar mais azul que as águas de um lago, resplandecendo de cólera. Aos seus olhos, ele era belo como um demónio disfarçado de anjo.
Isaac chegou ao estrado, de lâmina em riste. Encostando a mula à armação de madeira, libertou o jovem judeu da trave de penitência com alguns golpes ágeis.
- Vem! - murmurou-lhe. - Monta atrás de mim!
A multidão caiu em si. Mulheres e crianças voltaram-se contra o grupo de judeus.
Começaram a lançar-lhes pedaços de terra que arrancavam da lama, enquanto berravam:
- Morte aos judeus! Morte ao Judas!
Abrandada pelo peso do jovem de rosto ensanguentado, aterrada pelos berros, a mula de Isaac hesitava em recomeçar o trote. Brandindo o seu báculo, o bispo gritou para que os apanhassem. Os homens agitaram paus, forquilhas ou enxadas. Isaac aparou alguns golpes com a lâmina, pontapeando as bocas que berravam. Porém, a mula avançava como um caranguejo, sempre pronta a rodopiar sobre si mesma. A atenção de Isaac foi então atraída por um grito de grande ferocidade, vindo do pequeno grupo a que procurava juntar-se.
Algumas crianças agarravam nos braços da jovem grávida e arrancavam-lhe as roupas.
Isaac sentiu na nuca o sopro aterrorizado do seu companheiro.
- Não lhe façam mal - balbuciou o jovem, como se pudessem ouvi-lo. - Por favor! Suplico-vos!
A mulher estava quase nua. Os miúdos arrastavam as suas saias pela lama, rindo-se. Por entre a camisa rasgada, surgia a palidez do seu ventre redondo e indefeso.
Simão saltou da mula e precipitou-se ao encontro da sua bem-amada. Isaac quis segui-lo, mas um homem gordo atacou-o nesse preciso momento com uma forquilha de madeira. Rechaçou o primeiro ataque com um pontapé. A segunda investida, cravou a adaga na madeira, como se fosse um pequeno machado. Partiu dois dentes da forquilha. Impelido pela fúria, o cristão conseguiu espetá-la na coxa do jovem. Isaac gemeu. Mas, aterrorizada pela violência que a rodeava, a mula salvou-lhe a vida, galopando energicamente até à outra extremidade da praça. Quando a dominou, sentiu a brusca mudança na loucura geral.
Deixaram de se ouvir berros ou vociferações.
O ar gelava, sob um silêncio pesado como um manto de trevas.
Antes que Simão conseguisse prestar ajuda à sua bem-amada, o ventre desta apanhara com uma pesada pedra, retirada de perto dos andaimes. Agora jazia na lama, desfalecida, nua e maculada.
Como se se sentisse saciada pelo odor do sofrimento e da morte, a multidão resmungou e afastou-se, pronta a reatar a sua prece interrompida pela sede de vingança.
Antes da noite cair, as nuvens, tão baixas que parecia possível tocar-lhes, acabaram por se entreabrir. Um raio de sol acariciou os cumes mais elevados da floresta. Num ápice, o raio transformou-se numa lâmina e, em seguida, numa vaga. A floresta esfumou, misturando a sua neblina às nuvens que se retiravam.
A luz surgiu num brilho de tons esverdeados. O mundo pareceu imenso, belo e calmo.
Em circunstâncias completamente diferentes, Isaac, encostado à parede de um pequeno casebre situado a uma légua da cidade, teria gostado de agradecer este súbito esplendor ao Todo-Poderoso. Mas, no seu íntimo, apenas sentia cólera e nojo.
Tinham-lhe tratado da ferida. Porém, na realidade, esta ardia menos que a sua cólera. A jovem morrera, levando consigo a criança esmagada no ventre!
Um homem baixo, de olhar terno e pesaroso, veio sentar-se a seu lado. Depois de soltar um suspiro, disse-lhe:
- Quando as crianças perdem a inocência, o mundo perde a alma.
Acrescentou:
- Sou Nathan Judicaêl, o cambista. Agradecemos-te pela tua ajuda... Sem ti...
- Não impedi a morte da jovem - interrompeu-o Isaac, com dureza. - Talvez até a tenha provocado. Quer agradecer-me o quê?
O cambista esboçou um sorriso amargo:
- Por teres recusado o que não devíamos ter aceite.
- Apenas obedeci a um impulso normal!
Com um gesto da mão, o cambista varreu a objecção.
- Cada um faz o que pode... Disseram-me que me procuravas...
- É verdade. Apenas disponho de uma bolsa com moedas de Narbonne e viajo para muito longe, para Leste.
Nathan Judicaêl examinou-o mais atentamente.
- Longe? Para Leste? Para a Polina’?
- Foi lá que nasci - esclareceu Isaac, relutantemente.
- És muito novo para teres viajado tanto.
- O meu pai estudava. Partiu para se juntar ao grande rabi Hazdai Ibn Shaprut, que vivia com os mouros de Andaluzia. Levou-me com ele quando eu tinha dez anos...
- E aposto que já és uma pessoa sábia. Vê-se no teu rosto. Tens a beleza do saber e da inteligência. Regressas, portanto, à tua terra?
- Não. Vou ainda mais longe. Para lá do país magiar...
O cambista sobressaltou-se.
- Para lá do país magiar? Mas, meu rapaz, só encontrarás húngaros sedentos de sangue! Bárbaros loucos, como aqueles que nos invadiam continuamente antes de o rei Othon os rechaçar...
'Antiga designação da Polónia.
Isaac hesitou. Num dia como aquele, sabia o que a sua resposta podia conter de esperança e de sonho. Mas, precisamente, agora era mais indispensável que nunca a esperança ser mais do que um sonho.
- Vou até um reino cujo soberano é judeu - anunciou, destacando bem as palavras. - Trata-se do povo khazar, que decidiu respeitar a lei de Moisés...
O cambista não se mexeu, como se não tivesse ouvido. Depois, os seus lábios começaram a tremer. Levantou-se, apoiando-se no ombro de Isaac.
- Um rei judeu! A Leste... Dizes que se trata de um novo reino de Israel? Mas, nesse caso... Que o Todo-Poderoso me perdoe, mas terá chegado a hora do Messias?
Isaac evitou o olhar demasiado brilhante que o seu interlocutor lhe dirigia e não respondeu.
Paris, Montmartre Maio, 2000
Nas duas semanas que se seguiram à visita de Yakubov, a vida de Sofer foi perturbada por três acontecimentos. Em primeiro lugar, a moeda de prata parecia ser efectivamente de origem khazar, segundo a opinião de um perito em numismática da Idade Média. Depois, contrariamente ao que prometera, e contra toda a lógica, Ephraím Yakubov não voltou a telefonar. Por fim, a ruiva desconhecida de Bruxelas arruinou-lhe o repouso durante várias noites. Sonhava que ela lhe fazia continuamente a mesma pergunta e preferia acordar a enlouquecer. Começava a odiar aquela mulher e a desejar ardentemente ter a oportunidade para lho dizer.
O perito era suíço e muito reputado nas salas de venda, recomendado por Sotheby's ou Christie's. Mediante um cheque de mil e quinhentos francos, aceitou efectuar a peritagem em menos de três meses.
- Esta moeda é realmente de prata, mas foi fundida segundo uma técnica muito antiga, oriunda da bacia do Eufrates - confirmou. - Muito antiga, significa dois ou três séculos antes da era cristã. Contudo, a própria moeda é bastante menos velha. Na minha opinião, situa-se entre os séculos VIII e IX...
Colocou uma enorme lupa de luz automática sob o nariz de Sofer, girando a moeda entre os seus dedos finamente tratados.
- Como já era do seu conhecimento, trata-se de uma moeda judaica, cunhada com o candelabro de sete braços. Contém duas em hebreu, indicando o peso, sinal do valor que possuía nessa época... O que é surpreendente, o que a torna realmente interessante, é isto!
A sua unha envernizada designava um conjunto de três sinais sobrepostos. Mudando de tom, lançou um olhar cúmplice a Sofer:
- Levei um momento a compreender. Moeda judaica, velha técnica de fundição... Tudo indicava tratar-se de uma moeda síria, ou até da colónia judaica de Bagdade. Excepto que esta inscrição não enquadrava no resto. Não corresponde a nenhuma das línguas faladas nessa região, durante essa época! Depois, lembrei-me de uma moeda identificada há alguns anos...
Sem dizer palavra, com a pálpebra semicerrada para se proteger do brilho violento da lupa, Sofer aguardava pacientemente por informações à altura do preço que pagara.
O perito abandonou a secretária e abriu a porta blindada de um móvel de aço polido, destinado a arrumações. Fez deslizar uma gaveta muito estreita, de onde extraiu uma moeda semelhante à de Yakubov, mas mais pequena.
- Veja - pediu-lhe, colocando-a sob a lupa. - Está a ver isto, aqui?
Sofer olhou. Na prata, estava moldado o mesmo conjunto de sinais, tão incompreensível quanto o da outra moeda.
- Que significa esta inscrição? - perguntou.
- Bulã, rei dos Khazares!
Sofer ergueu o sobrolho.
- Diz-se que, à excepção dos bizantinos, só os khazares sabiam fundir as moedas na região caucasiana, antes do século X.
Faziam-no até para os vizinhos... Bulã foi rei dos khazares no século VIII. Segundo a lenda, foi ele que ordenou ao seu povo que se convertesse ao judaísmo.
Por conseguinte, Yakubov não lhe mentira.
Daí a dar-lhe cinquenta mil dólares que não possuía, pelo menos sem complicações, isso exigia mais pormenores e, sobretudo, uma explicação franca.
Ora o caucasiano não lhe telefonava.
Passaram duas semanas. E mais uns tantos dias. Manhã e noite, Sofer contemplava a moeda pousada na secretária, com uma frustração crescente. O perito estimara que ela devia valer aproximadamente cinquenta mil francos... Custava-lhe acreditar que Yakubov lhe tivesse deixado esta moeda e desaparecido. Não fazia sentido. Tanto mais que o descobridor da gruta parecia um tanto apressado! Teria Yakubov encontrado sarilhos? Ele mencionara-os. Mas que sarilhos, e da parte de quem?
Acaso possuiria uma caixa com moedas khazares, iguais à que lhe tinha dado? Sendo assim, por que lhe pedira dinheiro? Bastar-lhe-ia vendê-las, mesmo a baixo preço e a sua fortuna estaria assegurada!
Sofer instalou-se na varanda e observou Paris oferecendo-se ao sol da nova Primavera. Detestava perguntas sem resposta. A maior parte das vezes, era assim que lhe vinha a vontade de escrever!
Por fim, certa manhã, decidiu-se. Abandonou as suas rosas, que não precisavam minimamente dele, colocou uma pilha de enciclopédias na secretária e ligou o computador.
Depois de ter perdido um tempo louco na Internet, reuniu as magras informações que pôde colectar. Eram tão concisas quanto insuficientes.
Aparentemente, restavam poucos vestígios arqueológicos dos khazares. Mais uma vez, Yakubov tinha razão. Ao longo da sua história, russos e soviéticos esforçaram-se por fazê-los desaparecer. Por exemplo, a fortaleza de Sarkel-a-Branca, na margem do Don, fora malfadadamente soterrada pelo lago de uma barragem nos anos cinquenta. No entanto, ainda subsistiam alguns parcos vestígios nas redondezas de Itil, a grande capital khazar, situada na embocadura do Volga. Evidentemente, já não havia quaisquer sinais de grutas ou da sinagoga secreta nos montes do Cáucaso.
Quanto a marcas, os artigos evocavam três documentos interessantes. Três cartas redigidas entre 940 e 960.
Uma fora escrita por um khazar nobre e endereçada à importante comunidade judaica de Córdova. Conservada em Cambridge, continha aparentemente numerosas informações acerca da vida do reino e dos seus súbditos. As duas outras eram ainda mais essenciais.
No ano 953 da nossa era, o grande rabi Hazdaï Ibn Shaprut, conselheiro do califa Abd al-Rahman III, muito conhecido pela sua ciência e pelas suas poesias, conseguira enviar uma missiva repleta de questões a José, jovem soberano dos khazares. Enfrentando mil provas através de uma Europa em pleno caos, Isaac Ben Eliezer, um jovem judeu intrépido, fora encarregue de transportar a mensagem. Decorreu um período de sete anos antes que a resposta do mesmo José chegasse às mãos do rabi Hazdaï, sempre graças a Isaac. Estas duas missivas, também conservadas em Cambridge, pareciam conter todas as perguntas susceptíveis de serem colocadas sobre o reino dos khazares, bem como algumas das respostas...
A lembrança da mulher ruiva assombrou-o durante duas noites seguidas. Perguntava-se onde viveria ela. Seria belga? Francesa? Subitamente Sofer sentiu-se todo arrepiado: o encontro com Yakubov tinha-o perturbado tanto que já não sabia ao certo se a desconhecida lhe falara em francês!
Não, era absurdo: ela respondera em francês. Aliás, a sala rira-se...
Sim, mas ele falava cinco línguas e misturava-as à vontade. Se a beldade ruiva tivesse falado em russo ou em hebreu, ou até em inglês, ninguém se teria sentido chocado!
Recordava-se com precisão das suas roupas: um sobretudo de pele clara, cingido na cintura, e um vestido negro. Não trazia anéis, nem brincos. Apenas um colar de prata.
Uma personalidade forte, provavelmente. Em pequena, devia ter sido alguém muito seguro de si, gostando que lhe obedecessem. Era pessoa para brincar com a sedução e o capricho...
Que profissão teria? Seria uma mulher só, casada, uma amante ou até, uma mãe de família?
Via-a muito bem a conduzir um carro. Um carro rápido. Ela devia ter dinheiro, levar uma vida de luxo.
Mas como obtinha esse dinheiro? Vendendo moedas khazares?
Estendido às escuras, Sofer soltou uma gargalhada trocista ao aperceber-se para onde o levavam os seus pensamentos. Independentemente da sua vontade, despoletava-se um processo que conhecia muito bem: ele moldava a sua lembrança, de forma a transformar a desconhecida numa personagem!
Voltou-se para o outro lado, para escapar a esta obsessão, e pensou nos khazares. Qual seria o aspecto desses judeus do fim do mundo, desses homens que tinham decidido adoptar a lei de Moisés, quando esta já era sinónimo de exílio e de opróbrio na maioria dos países?
E porquê uma tal decisão?
Que representava o judaísmo para eles, perdidos nas estepes do mar Cáspio, sob a vigilância de Bizâncio?
E como tinham desaparecido? Porquê? Como viviam, como amavam?
Sofer compreendeu que o velho demónio tomava conta dele: quer pensasse na ruiva desconhecida ou nos khazares, a escrita atraía-o como um íman. O demónio cochichava-lhe que o facto de mergulhar no fluxo de um romance não era assim uma coisa tão terrível. Afinal de contas, não quebrava nada de modo definitivo. No pior dos casos, devia resignar-se a realizar uma tarefa supérflua, a sonhar um sonho inútil!
Por fim, os acontecimentos precipitaram-se na manhã seguinte.
Sofer previra há muito um almoço com o seu editor.
Prudente, deslocou-se até ao encantador pátio do hotel Plaza Athénée. O seu editor, tão culto quanto refinado, tinha a arte de levar alguém a escrever livros sobre assuntos nos quais nem se pensara, antes de ele os mencionar. Sofer temia um ataque, que não deixou de ocorrer:
- Marc, há quanto tempo não acabas um romance?
- Há sete anos, seis meses e doze dias. Poupa-me as horas.
- Estás a ver? Dir-se-ia um amante abandonado pelo amor da sua vida! Podes explicar-me agora a verdadeira razão desse silêncio? Sei que não "secaste". A não ser, talvez, financeiramente... Queres que te ajude a encontrar um assunto?
- Se precisar de alguma coisa, não é certamente que me peguem na mão como a um velhote senil - replicou secamente Sofer.
Remexeu nervosamente nas suas coquilles Saint-Jacques, acompanhadas por molho de cogumelos, descontente por ver estragado o seu prazer, quando uma voz o sobressaltou.
Fora uma gargalhada, seguida por uma exclamação. Uma exclamação em russo!
O seu olhar percorreu rapidamente o pátio. Atrás de um sábio arranjo de bananeiras e palmeiras, plantadas em vasos, reconheceu a silhueta, mas apenas ela, pois o fato, esse era irreconhecível: cinzento antracite, por cima de uma camisa preta. Em vez de uma gravata, distinguiu um lenço de seda, amarelo-canário. O conjunto, desta vez de bom corte, cobria a largura dos ombros.
Quando Yakubov voltou a cabeça, Sofer perguntou a si mesmo se não delirava.
- Santo Deus! - exclamou.
- Que se passa? - inquietou-se o editor, atónito.
Sofer levantou-se, sem responder. Contornou o pátio, zigueza-gueando por entre as cadeiras. Yakubov abandonava uma mesa na companhia de dois homens e afastava-se na direcção do grande hall da entrada. Sem quaisquer modos, Sofer empurrou uma americana e correu atrás dele.
- Senhor Yakubov! Senhor Yakubov!
O caucasiano parou, enquanto, a seu lado, os dois homens se voltavam. Pareceu tremendamente incomodado. Lançou um olhar consternado aos companheiros; estes afastaram-se, falsamente indiferentes.
- Senhor Yakubov! O senhor ficou de me telefonar, não é verdade?
Com o ar de um miúdo apanhado em flagrante, Yakubov pôs-se a mexer no avesso do fato novo.
- Bem sei, mas já não vale a pena incomodá-lo. Sofer apontou para o fato, troçando:
- Efectivamente, dir-se-ia que as coisas lhe correm muito bem. Belo fato, lindo hotel...
- Sim, muito bom.
- Já não precisa de visto? Arranjou os cinquenta mil dólares? Yakubov olhou novamente para os dois homens que esperavam
diante da porta giratória.
- Estou desolado, devia ter-lhe telefonado.
- Vamos arranjar isso. Diga-me onde podemos beber um copo esta noite e o senhor contar-me-á as suas aventuras.
- Não é possível. Tenho de apanhar um avião - disse, revelando de novo o sorriso de ouro.
- Ah, bom? Regressa à Geórgia?
- Não, não! Vou para o Canadá. Sofer ficou estupefacto.
- E a gruta? Essa gruta que eu devia descobrir?
O sorriso de Yakubov apagou-se. Voltou a cabeça para o lado.
- Sinto muito, senhor Sofer.
- Como assim, "sente muito"?
- Tenho de me ir embora. Pode guardar a moeda como lembrança.
- A moeda... Meu Deus, Yakubov! - enervou-se Sofer. - Que disparates são esses?
Mas o caucasiano já lhe voltara as costas. Os seus dois acólitos avançaram um passo. Sofer compreendeu: eram dois "gorilas". Guarda-costas, "senhores músculos", como parecia ser possível alugar ao dia, ou ao mês.
Era evidente que Yakubov fizera bom uso da sua comovente história paterna e das suas moedas khazares.
Metade do hall calara-se e observava-os. Enquanto o trio deixava o hotel, Sofer contentou-se em resmungar um insulto bem sentido.
Nessa mesma tarde, descobriu o nome e o número de telefone de Mikhail Yakovlevitch Agarounov, presidente da Associação dos Judeus das Montanhas, em Baku.
Agarounov respondeu ao quarto toque. Quase nem se mostrou surpreendido quando Sofer se apresentou.
- Mas que prazer em ouvi-lo! Sabe que li três dos seus livros? Em alemão!
Após uma breve troca de cortesias, Sofer contou-lhe o aparecimento-desaparecimento de Yakubov.
- Yakubov? Não...
Após alguns segundos de reflexão, Agarounov repetiu, de modo firme:
- Não, esse nome não me diz nada. Será preciso consultar o meu ficheiro para ficar mais seguro, mas se ele é oriundo da Geórgia, não me espanta se não o conhecer. A nossa associação só reagrupa os judeus das montanhas do Azerbaijão...
- É pena.
- Que tinha ele para lhe vender?
Pelo tom da voz, Sofer adivinhou o sorriso. Contou sucintamente a história da gruta e da moeda. Agarounov não o deixou acabar:
- Os khazares! - exclamou. - É extraordinário! Sabe que ontem foi perpetrado um atentado que danificou gravemente quatro postos de bombeamento de petróleo na baía de Baku? Ainda há uma hora, a rádio mencionava uma reivindicação lançada por um grupo até então desconhecido. Acertou em cheio, senhor Sofer! Esse grupo intitula-se o "Renascimento Khazar"!
Sofer fechou os olhos, enquanto o encantador Agarounov lhe transmitia todos os pormenores que conhecia.
- E que exigem eles? - murmurou Sofer.
- Isso não é claro. A rádio não divulgou o teor da carta reivindicativa. Dinheiro, certamente. Mas posso dizer-lhe que não é nada bom para a nossa comunidade...
Sofer reconhecia o arrepio que o percorria: só lhe restava comprar um bilhete de comboio para Londres e dirigir-se a Cambridge, para consultar os documentos khazares com os seus próprios olhos.
Mâcon
Ao fim da tarde desse dia terrível em que se assistiu à morte da jovem mulher grávida, os judeus de Mâcon reuniram-se a pedido de Nathan Judicaêl, o cambista.
O local designado era uma granja na orla da floresta, a meia-légua das muralhas da cidade, local que lhes servia de sinagoga.
- Sinagoga secreta - precisou Nathan, dirigindo-se a Isaac. - É melhor assim, pois, de outro modo, há sempre um "Gentil"’ que tem a ideia de incendiar o local. Estão persuadidos que conversamos com o diabo, que comemos criancinhas e não sei que outros horrores do género!
Havia tanto azedume quanta ironia na sua voz.
- Contudo, é evidente ao mantermos secretas as nossas sinagogas, isso só levanta mais suspeitas! - interveio, rindo-se, um pequeno homem careca, o moleiro. - Por conseguinte, os cristãos ainda têm mais vontade de nos assar. Como vês, corajoso Isaac, o Todo-Poderoso faz questão de nos pôr à prova por todos os meios, particularmente comprimindo-nos por entre as pedras de amolar!
- Pelo menos ensina-nos a modéstia - suspirou Nathan, apontando para as paredes de pranchas nuas que os rodeavam, onde estavam fixados alguns suportes para velas.
‘ Termo com que nessa época se designava um "estrangeiro" à comunidade, ou um "bárbaro". (N. do T.)
Uma lâmpada de óleo pendurada numa trave entalhada iluminava debilmente um púlpito, onde se encontrava um rolo do Livro e um pobre material para escrever. Não havia mesa, nem banco, tal como não havia textos para estudar. Isaac sentiu o coração apertar-se-lhe perante este despojamento. Como estavam longe as belas bibliotecas de Córdova!
Nathan Judicaêl aconchegou melhor aos ombros o xaile para as orações e murmurou:
- De facto, o Senhor está neste lugar e eu não o sabia... Reconhecendo o versículo da Génesis, Isaac acrescentou:
-Este lugar é terrível! Não é nada menos que a Casa de Deus e a Porta do Céu.
Nathan e o seu companheiro calvo olharam-no com admiração.
- Companheiro viajante, parece que o Eterno, abençoado seja o Seu nome, te concedeu muitas das Suas mercês! - declarou Nathan. - Vamos rezar a oração da noite e depois contar-nos-ás os motivos da tua viagem. É uma novidade assaz maravilhosa para que todos beneficiem dela e aqueçam o coração neste dia de tristeza.
E assim se fez.
Acabada a prece, uns cinquenta homens surgiram subitamente da escuridão, passando discretamente sob a luz fraca e vacilante da granja, reunindo-se em volta de Isaac.
Este começou por lhes falar da vida extraordinária que os judeus levavam em Córdova, na Andaluzia.
- As flores das laranjeiras cobrem as colinas com uma brancura mais deslumbrante que a da própria neve. O perfume é tal que quando o sol mergulha no outro lado do mundo nas noites mais quentes da Primavera, todos respiram comedidamente, para não sufocarem sob tanta doçura.
Também explicou que os judeus eram correctamente tratados nessa região e, por vezes, apreciados pelo seu saber.
- O califa Abd al-Rahman, o Terceiro, filho de Mohammed, filho de Abd al-Rahman, filho de Heschem, filho de Abd al-Rahman, que Deus lhe conceda uma longa vida, concede a sua confiança e a sua misericórdia ao grande rabi Hazdai Ibn Shaprut, que é seu conselheiro e um mestre para todos os judeus de Sefardi.
- O que significa "Sefardi"? - perguntou um jovem, de olhos pisados e com o rosto marcado por crostas.
Isaac reconheceu Simão, aquele que o bispo fustigara com o ramo de silvas, aquele que, para lá da humilhação sofrida, perdera num ápice a sua bem-amada e a criança que ela trazia no ventre. Depois de tantos horrores, como encontrara ainda forças para se dirigir a esta sinagoga?
- É o nome que os ismaelitas dão à Andaluzia - respondeu Isaac, com doçura. - A Andaluzia é a parte sul da Espanha. As suas margens dão para o Grande Oceano, onde banham as terras do mundo. Do outro lado, mais a sul, começa a outra parte da terra que vai até Jerusalém...
- Isaac, meu rapaz! - interveio Nathan, impaciente. - Não nos faças suspirar. Fala-nos desse novo reino dos judeus.
- Tudo começou há uma dezena de anos - contou Isaac, com ardor. - No ano 4710, depois da criação do mundo pelo Eterno, alguns mercadores de Constantinopla foram vender tecidos e objectos em Sefardi. Um deles procurou vender ao rabi Hazdaï um rolo contendo regras de aritmética grega. Sabem como são os comerciantes. Estão sempre a tagarelar, contando anedotas de outras paragens. Ora, este afirma que existe um reino judeu na fronteira a norte de Bizâncio!
Isaac sorriu ao ver os rostos iluminarem-se na penumbra, sem auxílio de velas ou lâmpadas.
- Continua, rapaz - sussurrou um velho homem de olhos tão cinzentos que pareciam ter deixado de ver. - Continua, é uma bela história!
- O rabi Hazdaï espanta-se. Pergunta: "Como? Um reino judeu? Mas só existe um reino! Só existe uma Israel, uma Jerusalém! E já não há nenhum Estado, a não ser nos nossos corações e nas nossas memórias! O nosso Estado foi de calamidade em calamidade por culpa nossa, pois a sombra de Deus nunca deixou de nos proteger..." O mercador protesta veementemente: "Não, Rabi! Que o Eterno me fulmine se estiver a mentir. Existe um reino judeu a norte de Bizâncio. Asseguraram-me ser povoado de judeus que seguem a lei de Moisés, mesmo que não sejam filhos de Abraão!" "Não são filhos de Abraão? Como é possível?" - exclama o rabi Hazdaï. "É possível, assim o digo" – insiste o mercador. - "Esses judeus não pagam nenhum tributo aos "Gentis" e são senhores do seu domínio!" (1)
Isaac fez uma pausa, antes de recuperar fôlego para prosseguir.
- O rabi Hazdai Ibn Shaprut é um verdadeiro sábio. Não é homem para acreditar no primeiro rumor que lhe chega aos ouvidos. Pensou que esta história era demasiado bela e que o mercador queria acreditar nos seus sonhos. Conservou este conto na memória e não falou dele a ninguém para não suscitar uma esperança infundada...
Isaac calou-se novamente.
- Enfim, sempre acabou por falar a alguém. Precisamente a meu pai, o astrónomo Josué Ben Eliezer, pois apreciava o seu discernimento e depositava inteira confiança nele. Porém, pouco tempo depois, durante o mês de Abril de 4712, o meu pai morreu nos braços do rabi. Nessa altura eu era apenas uma criança de treze anos e ainda não passara pelo meu bar-mitzva. Pressentindo o apelo do Todo-Poderoso, apertei a minha mão na do meu pai, que me confiou este segredo, fazendo-me prometer que não o revelaria a ninguém. "Isaac, meu filho, tem esperança" - disse-me. "Espera, de todo o coração, que esse reino exista e que seja aquele que todos aguardamos. Espera, reza para que assim seja, mas não digas palavra a ninguém. É uma promessa que fiz ao rabi, e tens de mantê-la..."
Ouviram-se murmúrios e os homens inclinaram as cabeças. Num gesto automático, Isaac afastou as longas madeixas louras que lhe cobriam a testa.
- No entanto, com a continuação dos mercados, chegaram mais pormenores desta história aos ouvidos do rabi Hazdai. Comerciantes de Khorossan ou de Bagdade, muito sábios, e outros ainda, que se deslocaram até aqui, ou mesmo mais longe, para Leste, até à Polina e ao país magiar, confirmaram a história do mercador de
(1) Segundo fontes cristãs russas, como A Crónica de Nestor, no século IX, as tribos a sul do médio Dniepre pagavam um imposto aos khazares: uma pele de esquilo branco ou uma espada por cabeça. No século X, o imposto era pago em dinheiro. (N. do T.)
Constantinopla. Asseguraram ter encontrado os habitantes desse reino judeu, chamado Khazária. Homens com elevadas maçãs do rosto, como todos os que são oriundos da Ásia, vestidos com longas túnicas de pele ou de linho, consoante as estações, falando e escrevendo uma língua desconhecida, mas conhecendo também suficientemente o hebreu para poderem ler a Tora...
- Mas como é possível? - murmurou o moleiro.
- Melhor ainda! - afirmou Isaac. - Diz-se que vão buscar os nomes dos seus reis ao Livro, que o actual soberano se chama José, e que o seu sucessor terá de ser judeu! Diz-se que foram os próprios khazares que decidiram tornar-se judeus, que há sinagogas espalhadas por todo o reino, que vivem em paz de acordo com a Lei e que...
- Não é assim tão certo! - desferiu uma voz grave.
Isaac sobressaltou-se, tal como os outros. O homem que falara era alto, de silhueta delgada, mas com um rosto poderoso. Tinha os olhos profundamente encovados nas órbitas. Uma cicatriz atravessava-lhe toda a têmpora direita, alisando-lhe a pele como se esta fosse oleosa.
- Que dizes, Saul? - exclamou Nathan, o cambista. - Conheces este reino?
Saul inclinou a cabeça e enfrentou as expressões estupefactas que o cercavam.
- _- Também sou mercador. Há sete anos, também fui comprar espadas e facas fabricadas pelos magiares, utensílios que vendi muito bem, aliás. E foi nessa região que, pela primeira vez, ouvi falar dos khazares.
E porque não nos disseste nada? - perguntou o jovem Simão.
- E porque diria? - enervou-se Saul. - Apenas me disseram que existia um reino khazar a leste do mar Azov, aquele que vai até Constantinopla. Mas ninguém me disse ser habitado por judeus.
O silêncio foi tão intenso, que se ouviu o piar de um pequeno mocho. Saul voltou-se para Isaac:
- Tudo o que ouvi, foi que esses khazares viviam em tendas, andavam a cavalo e não paravam de combater os bárbaros do Norte, a que chamamos os russos. Mas posso jurar que nunca ouvi dizer que eram judeus! No entanto, fui até muito longe, para leste, quase até Kiev. Tudo o que me disseram, foi que existe um grande número de filhos de Ismael, na Khazária. Também há uns tantos cristãos e idólatras. Muitos idólatras! Daqueles que convocam demónios com os amuletos... No meio disso tudo, estava fora de questão pensar num rei judeu!
O silêncio regressou, pesado. Nathan evitou o olhar de Isaac. Os olhos do jovem Simão brilharam de febre.
Isaac abriu a sacola que apertava contra si e retirou um rolo de couro.
- Aqui dentro está a carta que o rabi Hazdai Ibn Shaprut escreveu a José, rei dos khazares. E o rabi encarregou-me, a mim, Isaac, filho de Josué, de depositar esta missiva nas mãos do próprio rei José. E é isso que farei.
- Vais até lá? - murmurou Simão.
- Vou. E mesmo que me roubem a carta, poderei recitá-la ao rei dos khazares, pois já a decorei.
- E se eles não forem judeus? - insistiu Saul.
- Mas sim, são judeus - insistiu Isaac, com dureza. - E há uma pergunta do rabi Hazdai para a qual deverá haver uma resposta.
emoção.
Isaac apertou o rolo de couro contra o coração e começou a recitar:
- Ainda tenho outra coisa a solicitar ao meu mestre, José, rei dos khazares. Que ele se digne dizer-me o que sabe sobre o milagre que esperamos há tantos anos, enquanto passamos de cativeiro em cativeiro. Ah, como poderia conhecer o repouso quando a destruição do nosso Templo nos leva de exílio em exílio? Hoje, somos apenas um pequeno grupo no seio de uma grande multidão. Destituídos da nossa antiga glória, nada temos a responder quando nos dizem: "Todas as nações possuem uma pátria, e vocês, judeus, nem sequer têm uma terra com as marcas da vossa?!" Deste modo, Senhor, ao tomar conhecimento da existência do vosso reino, do poder do seu império e do seu exército, a nossa coragem ressuscita, a nossa força regressa. O meu Senhor será o rei que tanto esperámos, aquele que governa a pátria tão aguardada pelo nosso povo espalhado pelos cantos da terra, no esgotamento da servidão? A terra dos khazares será aquela que o Todo-Poderoso escolheu para erguer novamente o Templo? Deus queira que esta notícia seja verdadeira. Abençoado seja o eterno Deus de Israel, por não ter recusado nem libertador nem pátria, às tribos de Israel!
- Ámen!
O murmúrio percorreu a granja, pronunciado de uma só vez por todas as bocas.
- A carta é longa e contém muitas outras coisas - acrescentou Isaac.
- Nenhum de nós sabe com exactidão o que existe para lá do país magiar - reconheceu Nathan. - No entanto, um grande rabi de Sefardi não se aventura a escrever a um rei, se este não existir.
- Quanto a mim, tenho a certeza que esse reino judeu existe! - exclamou o jovem Simão, chorando. - E quero acompanhar Isaac! Nada me retém aqui, a não ser o desgosto de viver. Se for necessário, mais vale morrer pelo caminho, por uma causa válida para todos nós, em vez de ter de suportar ainda o ódio do bispo!
- É preciso fazer uma cópia dessa carta - interveio o velho homem de olhos cinzentos. - Guardá-la-emos aqui. Deste modo, caso aconteça uma desgraça, alguém poderá substituir-te e levá-la ao rei José!
O moleiro agarrou no braço do mercador:
- Saul! Tu sabes viajar, foste muitas vezes até Leste. Conheces os costumes e as estradas. Acompanha Isaac e Simão.
- Estás a fazer esse pedido a mim, que não estou certo, como vocês, da existência desse reino judeu?
- Precisamente. Guardarás a cabeça fria. Olha para eles! Isaac é corajoso e sábio, sábio para a idade que tem. Mas a sua idade é o que é. A paixão arrebatá-lo-á. Estará sempre disposto a cometer loucuras, como hoje... E olha para o nosso Simão. Todo ele é chagas e dor. Perdeu tudo num só dia e, ao primeiro raio de sol tomará os seus sonhos pela realidade.
- Ao passo que eu, pelo menos, sempre posso comerciar com os khazares! - troçou Saul. - É isso que queres dizer?
- De certo modo. Isso dar-te-á vontade de ir e voltar.
- O moleiro tem razão - disse Nathan. - Poderás ser-lhes de grande ajuda, Saul. E pensa na nossa causa!
- Ficarei feliz pela tua companhia - admitiu Isaac - E o rei José ficará certamente feliz ao saber como praticas o teu comércio.
Saul olhou sobranceiramente para Isaac, a fim de se assegurar que não havia troça alguma naquelas palavras. Encolheu os ombros.
- Decidir-me-ei amanhã.
Leram a longa carta do rabi Hazdaï Ibn Shaprut até altas horas da noite. Em seguida, recopiaram-na com um cuidado meticuloso, da primeira à última linha.
Os lobos uivavam na floresta quando abandonaram finalmente a sinagoga, no meio da escuridão, em grupos apertados.
Oxford, Inglaterra Maio, 2000
NINGUÉM OUSA APROXIMAR-SE DO KHAGAN DOS KHAZARES, a não ser para um assunto de extrema importância. Nesse caso, o visitante deve prostrar-se diante dele, tocar com a testa no solo e permanecer nessa posição enquanto o Khagan não o autorizar a levantar-se. Da mesma maneira, todos devem permanecer calados enquanto o Khagan desejar o silêncio. Na realidade, o poder do Khagan dos khazares é tão absoluto que as suas ordens e os seus menores desejos devem ser acatados com uma obediência cega. Se ele achar por bem desfazer-se de alguém da corte, basta-lhe convocá-lo. Por muito poderoso que seja o senhor, diz-lhe então: "Desaparece da minha vista. Os teus erros conspurcam o reino do Todo-Poderoso. Regressa a casa epõe termo à tua vida". Então, o senhor regressa a casa e mata-se...
Sofer soltou um suspiro e fechou as pálpebras cansadas.
No silêncio da sala luxuosamente revestida de lambrim, ouviu o bater reconfortante da chuva. Chovia, claro. A Inglaterra sem chuva é como Nova Iorque sem arranha-céus! Fina e regular, ela lavava os maciços de rododendros e azáleas que circundavam o pátio do Randolph, hotel vitoriano, vasto e típico, situado no centro de Oxford.
Com a cabeça apoiada na parte superior da poltrona de couro, Sofer acariciava a moeda khazar, desbastada pelo tempo, que Yakubov lhe deixara. Não mais a largara a partir dessa altura, como se fosse um talismã. Enervado, e ao mesmo tempo esgotado, era incapaz de encontrar descanso. Os dias precedentes tinham sido desgastantes.
Dirigira-se à Universidade, logo que chegara a Cambridge. Os autocarros despejavam turistas, em grupos ruidosos. Apanhado no meio da algazarra, tivera de se colocar numa bicha interminável, antes de poder ter acesso à biblioteca do Queen's College. Por fim, e para sua grande surpresa, quando entrou no dito santuário recusaram-lhe o acesso aos documentos.
Foi em vão que recorreu a toda a sua capacidade persuasiva: não se abriam excepções no departamento dos velhos manuscritos. Ocorreu-lhe a ideia de telefonar à editora londrina que assegurava a tradução das suas obras. Como por milagre, as portas do Queen's College abriram-se diante dele na manhã seguinte, com todo o respeito devido ao seu trabalho!
Um bibliotecário de idade madura assegurou-lhe que podia certamente consultar os documentos medievais da colecção Taylor-Schechter.
- Os autênticos originais? - insistiu Sofer.
- Certamente, certamente!
Também lhe podiam fornecer todas as cópias necessárias. Aliás, tinham prevenido uma especialista desses textos, que estaria todo o dia à sua disposição.
A sala de consulta dispunha apenas de uma quinzena de assentos. Quatro janelas estreitas deixavam entrever os edifícios de tijolo do College. Imperava uma atmosfera de recolhimento e a tensão era tal que se ouvia o menor sopro de respiração. Neste local, a leitura equivalia a uma prece. Sofer não conseguiu evitar de pensar na atmosfera de uma yeshiva.’
Após uma breve espera, viu chegar uma jovem sorridente, empurrando uma mesa rolante, silenciosa, que lembrava o carrinho de sobremesas de um grande restaurante. Transportava uma espécie
‘ Escola talmúdica, existente em todas as comunidades judaicas do Leste europeu. (N. do T).
de caixa envidraçada, dentro da qual estavam estendidas quatro folhas de pergaminho.
- Senhor, eis o documento que solicitou - anunciou a jovem, em voz baixa. - Chamamos-lhe The Schechter Letter ("A Carta de Schechter")...
Os manuscritos estavam em bom estado. Só um deles se encontrava rasgado em certos locais, com manchas de humidade. As letras, nítidas, tinham sido traçadas a tinta castanha, quase púrpura em certas partes. A caligrafia era firme e espessa. Em todos eles, o texto repartia-se por duas colunas.
Logo ao primeiro olhar, Sofer identificou os signos da antiga língua hebraica, o modo tão característico da Idade Média de colar as palavras umas às outras, sem deixar espaços intercalares, nem sinais de respiração ou pontuação.
A garganta apertou-se-lhe de emoção ao ver-se ali, diante daquela presença física dos tempos antigos. Aquelas páginas tinham sido escritas há mais de mil anos e, não obstante, ainda continham o pulsar da vida, tal como uma luz tremeluzindo no abismo de um poço.
Perto dele, a jovem historiadora apercebeu-se da sua perturbação. Sorriu com brandura.
- Estes manuscritos antigos são sempre comoventes. Fazem-nos pensar num velho álbum de família.
Sofer ergueu os olhos para ela. Até então não lhe prestara muita atenção. Surpreendido, descobriu um rosto sensual e inteligente, que lhe despertou imediatamente o interesse.
- Não se pode abrir essa malfadada caixa? - perguntou.
- Infelizmente não, siri Devemos evitar qualquer contacto com estes pergaminhos. Parecem em bom estado, mas oxidar-se-iam muito facilmente ao contacto com o ar...
Retirou um dossier da parte inferior da carrinha.
- Como pediu, aqui estão as fotocópias dos originais, bem como a sua tradução, da autoria de Schechter. Deseja conhecer a história destes documentos?
Sofer folheou o dossier e aprovou com a cabeça:
- Por favor.
- Como muitos documentos antigos que se reportam ao mundo judeu, este provém de Gheniza, no Cairo. Foi aí que o investigador Solomon Schechter efectuou as suas buscas em 1890, trazendo-os pessoalmente para Cambridge, seis meses depois. Hoje, consideramos que esta carta foi redigida no começo do século X. Certamente antes de 955...
- Por quem?
- A identidade do autor não é certa, mas os investigadores concordam em reconhecer nela a marca de uma personagem importante da corte khazar. Trata-se, sem dúvida, de um judeu, que residia em Constantinopla quando a escreveu.
- Como pode ter a certeza da data em que foi redigida? - interrompeu-a Sofer. - Ela não parece datada...
A jovem anuiu, inclinando ligeiramente a cabeça.
- É um trabalho de dedução assaz simples - respondeu, com um rasgo de ironia nas pupilas claras. - Não se trata de uma correspondência usual, mas de uma espécie de relatório. Este documento resume a origem, a história e a situação do reino khazar. Descreve a sua conversão ao judaísmo, o sonho do rei Bulã, as suas visões do anjo, a querela religiosa que organizou entre o sacerdote, o rabi e o imã, para saber qual a melhor religião1... Também são evocados certos factos, contemporâneos do autor: as lutas com os russos e os petchenegues, ou as difíceis negociações com Bizâncio!
Ela inclinou-se ligeiramente para Sofer, como que para partilhar um segredo.
1 Trata-se da famosa "polémica khazar", que deu origem a inúmeros debates nos meios hebraicos, cristãos e islâmicos. As fontes cristãs situam esta polémica em 861, segundo a biografia de Salónica, São Cirilo. Na realidade, a conversão ao judaísmo desenrolou-se em duas fases. Foi efectivamente o soberano Bulã, o primeiro a adoptar certas formas exteriores do judaísmo, por volta de 740. No entanto, quem lhe imprimiu um impulso decisivo foi o Khagan Obadia, que erigiu sinagogas e abriu escolas. As personalidades mais importantes do Estado khazar converteram-se ao judaísmo no momento em que a influência islâmica se encontrava enfraquecida pelo conflito das duas dinastias do califato árabe - os omíadas e os abássidas. Consequentemente, segundo Massudi, o rei dos khazares tornou-se judeu na época do califa Harun Al Rachid (786-804), o que corresponde exactamente ao período da reforma do judaísmo empreendida pelo Khagan Obadia. (N. do T).
- Tem-se quase a certeza que este relatório chegou às mãos do rabi Hazdaï Ibn Shaprut de Córdova, antes deste escrever a sua famosa carta ao rei José.
Em seguida, concluiu, num tom definitivo:
- Graças a este conjunto de dados, podemos situar a redacção do texto como anterior ao ano 955 da nossa era...
Esta última frase deixou Sofer sonhador. Involuntariamente, os seus dedos acariciaram o vidro que protegia o manuscrito, como se, através dele, pudesse tocar a textura morna e lisa do pergaminho, garatujado aqui e além pelo cálamo.
- Escreviam como na época dos faraós - murmurou. - Um caule de junco ou de cana, com o bordo chanfrado e fendido no meio. Algo semelhante às nossas plumas Sargento-Major! Excepto que aparavam os calamos à medida que eles se iam gastando, tal como fazemos com os lápis.
A jovem inglesa observava-o com um sorriso enternecido. Esquecendo-se da sua presença, Sofer prosseguia com o monólogo.
- Portanto, foi assim que as coisas se passaram... Alguns mercadores judeus deslocavam-se pelas grandes cidades mediterrânicas. Traziam Jerusalém continuamente presente nos espíritos... O Templo destruído, o exílio, as tribos dispersas! E eis que, graças às casualidades do comércio, vários de entre eles passam algum tempo em Constantinopla. Por qualquer motivo, entram em contacto com o khazar que escreveu estas palavras...
Sofer deu umas pancadinhas no vidro e prosseguiu, com uma emoção contida:
- Talvez fosse um mercador como eles, porque não? E este homem fala-lhes do reino dos judeus! Imagine-se a estupefacção. Um reino judeu, algures, para lá das montanhas do Cáucaso. Oye, oye! Claro que pensam no Messias! Imediatamente! Pensam, mas não dizem, sem dúvida, nada. Em compensação, pensam também no rabi Hazdaï. É uma personagem importante, chefe da comunidade judaica mais sábia e mais influente. E, certamente, a mais rica... Os nossos mercadores deslocam-se portanto a Córdova e contam a história ao rabi. Hazdaï não acredita no que ouve: um rei judeu! Tem de saber mais...
A jovem bibliotecária concordou com a cabeça. Sentia-se seduzida por este homem tão entusiasta, tão ancorado na sua história. Começou a deixar-se apanhar pelo jogo e trouxe mais água ao moinho:
- O rabi Hazdaï Ibn Shaprut envia um mensageiro aos khazares, esperando que este alcance o reino através do mar Negro. Mas Romano, o imperador bizantino, trava uma campanha contra os khazares, pois quer conquistar-lhes o reino. Estes são ricos, mas tolerantes: a elite é judia, mas o povo pode ser muçulmano ou até cristão e pagão, o que horroriza a igreja bizantina... As autoridades bizantinas impedem portanto a passagem do mensageiro de Córdova...
Sofer ergueu novamente a cabeça na direcção da jovem e, como se se tratasse de uma leitura a dois, prosseguiu:
- Depois desta malograda tentativa, o rabi Hazdaï decide escrever uma carta em mão própria, para enviá-la ao rei dos khazares. Para contornar a vigilância de Bizâncio, o novo mensageiro arriscar-se-á numa longa viagem através da Europa...
A jovem riu, com as maçãs do rosto mais coloridas:
- O senhor encontrará o nome desse mensageiro...
- Já o conheço! - exclamou Sofer, com certo orgulho. - Isaac Ben Eliezer!
- Ah, já viu esse documento?
- Apenas alguns excertos! E conto consigo para poder vê-lo por inteiro!
- Comigo?
A jovem olhara-o com os olhos muito abertos, consternados:
- Mas, Mister Sofer, o senhor está enganado. A correspondência entre o rabi Hazdaï e o rei José não está guardada aqui! Está no Christ Church College de Oxford!
Sofer deixara Cambridge profundamente desiludido. Antes de partir, a jovem historiadora contactara os seus colegas de Oxford, para se certificar que eles lhe podiam fornecer uma cópia da "correspondência khazar". As coisas revelaram-se mais complicadas do que previsto.
- Por ora, não é possível consultar os documentos originais - anunciara-lhe, com uma careta de desolação. - Não me quiseram explicar porquê...
Perante a expressão de Sofer, acrescentara precipitadamente:
- Espere um momento, não está tudo perdido. Vou telefonar a um dos meus amigos. Quando isso se justifica, prestamo-nos mutuamente serviço.
A jovem multiplicara as chamadas. Por fim, o seu olhar tornara-se mais brilhante.
- Pronto, terá tudo o que precisa - cochichara-lhe. - Mas custar-lhe-á cinquenta libras esterlinas...
Sofer erguera o sobrolho. Fotocópias a preço de ouro! Contudo, a jovem historiadora era cativante. Como desiludi-la, depois de tantos esforços?
Concordara. Ela estendera-lhe um pedaço de papel, no qual garatujara um nome e um número de telefone. Depois, perguntara-lhe timidamente:
- Posso pedir-lhe um favor, senhor Sofer?
- Tudo o que quiser. Estou em dívida para consigo.
- Chamo-me Janet Woolis. Quando publicar o seu livro sobre os khazares, poder-me-á oferecer um exemplar com uma dedicatória?
- Quem lhe disse que vou escrever esse livro? - resmungara Sofer, surpreendido.
Por sorte, a inglesa rira, protestando, dizendo-lhe que ele o escreveria certamente.
Agora Sofer lastimava a sua reacção. Para se fazer perdoar, enviar-lhe-ia as suas últimas obras logo que tivesse regressado a Paris. Contudo, a sua rabugice não fora um capricho. Nada era ainda irreversível. Apenas caçava. Ainda não cercara a presa, ainda não escrevera uma palavra e, ainda menos, uma só linha. Estava no patamar da aventura imaginária, vacilante e atraído, mas ainda suficientemente lúcido para se afastar!
Mal se instalou no Randolph, marcou o número que Janet Woolis lhe confiara. Respondeu-lhe uma voz jovem e fria:
- Sim, sei quem é o senhor. Agora não lhe posso falar. Não saia do hotel; entrarei brevemente em contacto consigo...
O tom peremptório aborrecera-o. Para quê tais modos por causa de documentos conhecidos há tantos anos e que apenas interessavam meia dúzia de pessoas?
Esteve prestes a encaminhar-se directamente para o Christ Church College, para se assegurar que não estavam a ludibriá-lo. Mas chovia e o trajecto de Cambridge a Londres não fora nada repousante. O conforto do Randolph não era de molde a encorajar explorações. Afinal, visto que lhe pediam que continuasse no hotel...
Pegou no telefone e encomendou um Bloody Mary e jornais. Apenas teve tempo para desfazer o saco, antes que lhe batesse à porta um criado de casaco branco impecável.
Beberricando o cocktail, folheou o Times, detendo-se por momentos no suplemento literário. Depois, abriu o Guardian. Nas páginas interiores descobriu um breve artigo assinalando o atentado de Baku. Curiosamente, o jornal não continha qualquer alusão ao "Renascimento Khazar", o grupo terrorista de que falara Agarounov, o presidente da Associação dos Judeus das Montanhas. O correspondente do jornal dizia apenas:
A explosão provocou importantes danos materiais. Um colector de bombeamento e de tratamento do petróleo por pressão, recentemente activado pela O. CO. O. (Offshore Caspian Oil Operating) foi seriamente danificado, no oleoduto de Baku, em Tupsa, no mar Negro. Os técnicos estimam que uma dezena de dias será necessária antes de se poder retomar o abastecimento até ao mar Negro.
Por ora, a polícia parece ter recebido as reivindicações mais fantasistas. Como nenhuma parece credível, não é possível definir quais os motivos deste acto terrorista. Alguns responsáveis das companhias petrolíferas, reunidos neste consórcio de exploração da O.C.O.O., parecem recear que se trate de um sinal precursor de um extravasamento da guerra na Tchetchénia e no Daguestão...
Pensativo, Sofer lembrou-se da conversa com Agarounov. Ele não inventara certamente esta reivindicação. Os rumores mais loucos deviam circular em Baku e este "Renascimento Khazar", terminologia cujo sentido não era aliás muito compreensível, fazia certamente parte das "reivindicações fantasistas" referidas pelo Guardian.
Porém, as casualidades eram perturbantes. Yakubov e a sua história de moedas khazares e de gruta secreta, o seu desaparecimento num fluxo inexplicável de dinheiro, o atentado... Tudo isto, quando os famosos khazares dormiam num esquecimento tranquilo desde há séculos!
Casualidades demasiado insistentes para serem apenas casualidades!
Porém, devia desconfiar da sua imaginação, tão lesta a tecer fios entre acontecimentos sem verdadeiras ligações. Na verdade, não podia deixar-se levar por nenhuma conclusão. A não ser... a não ser que o acaso lhe desse um novo sinal.
"O acaso dos khazares! (1)" resmungou Sofer, troçando de si próprio.
Depois de um novo gole de Bloody Mary, mais rica em vodca do que em sumo de tomate, regressou aos documentos de Cambridge. O fascínio pelos textos antigos apanhara-o muito depressa. Durante uma hora tentou decifrar o texto original, garatujando algumas anotações num velho caderno.
O rei dos khazares intitula-se de Khagan. Mas, a seu lado, o exército é dirigido por outro príncipe, intitulado o Bei. Apesar de deter poderes consideráveis, é obrigado a entender-se com o Khagan quanto à guerra e à paz e, em última instância, tem de se lhe submeter. Os príncipes que se tornam Bei são escolhidos por entre os melhores guerreiros, mas não são obrigatoriamente judeus...
As grandes cidades khazares chamavam-se Itil, Samandar, Tmurtorokan, Sarkel... Itil, a capital real, situava-se em várias ilhas, ligadas por pontes flutuantes, no delta do Volga, que, na época se chamava rio Atel. Samandar, que dava para o mar Cáspio, então chamado o mar dos khazares, possuía um enorme mercado frequentado por comerciantes do Oriente, da Pérsia e de Bagdade. A grande fortaleza de Sarkel-a-Branca, nas margens do Varshan, hoje chamado o Don, fora construída com a ajuda dos bizantinos. Esta não era a menor das ambiguidades que regiam as relações entre os khazares e Nova Roma. Frente à Crimeia, Tmurtorokan
1 Aliteração intraduzível: "Le hasard des khazares!" (N. do T.).
controlava o estreito do Bósforo, passagem comercial essencial entre o mar Azov e o mar Negro, chamados, respectivamente, mar dos russos e mar de Constantinopla.
Tmurtorokan fora construída na extremidade do Cáucaso, encostada aos primeiros contrafortes da imensa cadeia montanhosa, rodeada por jardins que se estendiam até ao mar. Sofer imaginava-a esplêndida. Era uma cidade importante para José. Aos vinte anos, ainda jovem Khagan, disputara a sua primeira grande batalha contra os russos, apoiados e manipulados por Bizâncio. Ganhara-a, ilustrando-se de tal modo nos combates que os seus súbditos o consideraram imediatamente um guerreiro tão grande quanto o seu Bei, o reputado Borouh. Esta vitória marcara o início da sua lenda.
Era evidente que o reino khazar devia suscitar muitas cobiças. Vasto e rico, encontrava-se no centro das rotas comerciais que circulavam de Leste a Oeste, de Norte a Sul. Esta dinastia judia às portas da rica e poderosa Bizâncio só podia desagradar profundamente aos devotos do Cristo, Senhor de todo o Universo! Era preciso submetê-la, a qualquer preço...
O telefone tocou. Sofer sobressaltou-se. Sentiu-se chocado por esta brusca passagem do imaginário ao real. A sua mão tremia ao pegar no auscultador. Reconheceu imediatamente a voz:
- Senhor Sofer?
- Sim...
- Sou o amigo de Janet Woolis. Tenho aquilo que combinámos.
- Muito bem. Agradeço-lhe pela sua ajuda. Diga-me onde...
- Estou na recepção do seu hotel, senhor.
- Aqui, no Randolph?
- Sim. Posso subir ao seu quarto? Será mais discreto.
O homem que lhe apareceu alguns minutos depois parecia desprovido de pescoço, com o rosto como que enfiado à força no colarinho do blusão de cabedal. Trazia um grande envelope na mão.
- Não temos o direito de sair com cópias de documentos - anunciou, logo que Sofer fechou a porta atrás dele. - Mas confiei em Janet...
- Nada receie, receberá as suas cinquenta libras esterlinas! - disse Sofer.
O inglês não pareceu registar a ironia. Abriu o envelope, espalhando uma vintena de excelentes fotografias pela mesinha do quarto. Umas reproduziam pergaminhos, outras reproduziam folhetos, que pareciam de papel.
- Eis a carta do rabi Hazdaï. Esta é a resposta do rei José...
- Dir-se-ia papel - observou Sofer, espantado.
O rapaz concordou, com uma nota de desprezo na voz.
- É papel, senhor Sofer. Os khazares sabiam fabricá-lo. Aprenderam a técnica com os chineses. Já escreviam no papel três ou quatro séculos antes dos monges europeus!
Sofer registou a novidade sem comentários, mas perguntou:
- Porquê tanto mistério com estes documentos? Eles nada têm de extraordinário.
- Se exceptuarmos que se tratam de documentos únicos e exclusivos, atestando a existência do reino khazar!
- Esquece-se do documento de Cambridge...
- O seu autor não foi rigorosamente identificado. E apenas um testemunho em segunda mão, por assim dizer. Este documento foi escrito por um dos últimos reis khazares...
- Muito bem - admitiu Sofer. - Mas por que motivo não pode ser consultado?
- Foram retirados do domínio público da biblioteca há quatro dias.
- Quatro dias? Porquê?
O jovem fez uma careta de desinteresse. Estava com pressa e esperava que lhe pagassem. Contudo, Sofer estava decidido a fazer valer a sua soma. O inglês encolheu os ombros:
- Alguém exigiu uma nova peritagem. A menos que os tenham reclamado para alguma exposição... ou que haja alguma necessidade de ordem técnica. São documentos muito antigos. Por vezes, é preciso cuidar deles...
- Quem pode conseguir que estes documentos sejam retirados para uma nova peritagem?
- Um grande especialista da época! Sabe, há...
O rapaz calou-se bruscamente, dispensando finalmente alguma atenção às perguntas de Sofer:
- Tem razão... Isto não me tinha chamado a atenção, senhor Sofer. Mas, agora, ao pensar no assunto, também me parece estranho. Estes documentos não foram consultados durante anos e eis que actualmente toda a gente se interessa por eles!
- Toda a gente? Que quer dizer?
- Ontem, uma jovem fez-me as mesmas perguntas que o senhor. Queria absolutamente uma cópia e...
- Qual era o seu aspecto? - interrompeu-o brutalmente Sofer.
O rosto do jovem pareceu alegrar-se pela primeira vez.
- Era bela, senhor Sofer, muito bela.
- Ruiva, com uns trinta anos?
- Ruiva, sim. Mas mais nova. Diria ter vinte e sete ou vinte e oito anos. Sotaque estrangeiro. Olhos esmeralda. Pequena cicatriz no queixo. Aqui, assim, ao longo do queixo... Que há, senhor Sofer? Conhece-a?
Tmurtorokan Maio, 955
Chegaram de noite, como hienas irrompendo das trevas, e agora as suas garras brilham à luz do dia! A voz de Borouh estava plena de azedume. Attex sentiu um arrepio e fechou a grande capa bordada. Não era a frescura matinal que lhe causava arrepios, mas o que via diante dela. Imóveis na baía de Tmurtorokan, tão grandes como rochedos, meia dúzia de navios fechavam o estreito.
- Os barcos gregos! As formidáveis máquinas de guerra de Bizâncio, capazes de cuspir o seu terrível fogo1 a mais de quinhentos côvados!
Nem sequer as ondas conseguiam fazê-los balouçar. Com o raiar da madrugada e a luz ascendente do dia, as suas proas, com compridos pescoços de cisne, de focinho dourado, projectavam brilhos ameaçadores. As lâminas de bronze das rodas das proas, da largura de um homem e suficientemente sólidas para quebrar qualquer embarcação, luziam à superfície das águas, cortando a ressaca. Nas pontes laçadas de branco, os homens, com as suas couraças, atarefavam-se em redor das bestas, apontadas para as margens.
- Eles estão aqui apenas como embaixada - declarou Attex, dissimulando a sua emoção. - Não vieram para guerrear...
Borouh resmungou e, sem sequer a olhar, respondeu:
1 O temível fogo grego consistia numa preparação incendiária, à base de salitre e betume, que ardia mesmo ao contacto com a água. (N. do T.)
- Kathum, as embaixadas de Bizâncio são apenas outra forma de guerra. Se os gregos fossem tão pacíficos, não precisariam destes enormes barcos para virem saudar o teu irmão, o Khagan! Há quinze anos que nos guerreiam e hoje desejariam a paz?
Borouh bateu com o punho na sua couraça de couro e cuspiu no solo.
- Acredita na minha experiência, Kathum. Se o imperador de Bizâncio estende a mão, é para melhor enganar aquele que cumprimenta...
Attex encolheu os ombros, picada pela ironia do tom de Borouh.
- Senhor Bei, vês sempre tudo a preto!
Desta vez Borouh voltou-se para ela. A sua expressão embaraçou-a. Porém, inclinou respeitosamente a cabeça, dizendo-lhe:
- Talvez tenhas razão, Kathum.
Borouh já não era o jovem e intrépido guerreiro que outrora a fascinara, a ela e ao seu irmão José. Engordara, e as rugas tinham-lhe cavado sulcos em redor dos olhos sombrios. Os cabelos, sempre impecavelmente entrançados, eram agora mais prateados do que pretos. Apenas a boca e a voz se mantinham, continuando ambas duras e implacáveis. Se bem que fosse agora o Bei, chefe de todos os exércitos khazares e segunda personagem do reino, as suas maneiras denotavam sempre uma certa insatisfação. Quanto mais o tempo passava, mais se tornava rígido e cerimonioso. Doravante, apenas se dirigia a Attex utilizando o seu título, Kathum, que significava "irmã do Khagan", como se quisesse mantê-la à distância.
- Olha, Borouh! - exclamou subitamente Attex.
A vela vermelha enfunada de um pequeno navio surgira por entre os barcos, e encontrava-se agora à distância de um só escolho. Já se discernia o movimento regular dos remos.
- O navio do embaixador - resmungou Borouh. - Não perdem tempo!
Voltou-se e deu algumas ordens breves. A vintena de guerreiros que o acompanhava subiu para as respectivas selas. De lanças na mão, traziam o grande traje de combate, rostos meio dissimulados por cascos pontiagudos. Cobrindo as cotas de malha, ostentavam a túnica vermelha bordada com o candelabro de sete braços, sinal da sua pertença à guarda real.
Tomaram posição de ambos os lados da liteira de Attex. Os portadores eunucos esperaram pelo sinal da sua senhora para erguerem os varais. O cortejo dirigiu-se para o porto.
A luz matinal, o mar de Constantinopla parecia branco como o leite. Era a hora preferida de Attex, em que a baía de Tmurtorokan parecia uma réplica do Éden.
Partindo do palácio real, construído à moda grega numa encosta abrupta, os terraços desciam em cascata, às centenas, até ao rio. De jardim em jardim, o verde aveludado das figueiras sucedia ao verde, mais denso, do centeio e da cevada. Os reflexos cinzentos dos campos de milho-miúdo alternavam com os das vinhas e das oliveiras. Rosas trazidas da China, alas de loureiros, canas, lírios ou jarros, orlavam os caminhos. Ali, naquelas encostas laboradas pelos homens, encontravam-se todas as riquezas que a terra podia engendrar.
Uma saliência de rochedos vermelhos avançava rio adentro, protegendo uma angra de baixios e formando um porto natural. A própria cidade, feita de casas de madeira, estendia-se mais a norte, dispersa pelo vale no sopé da montanha, face às imensas planícies e pântanos que ladeavam as costas do mar Azov.
Alcançaram o porto na altura em que o navio ancorava. Uma barcaça de fundo achatado acostou-o. Meia dúzia de homens instalaram-se, de pé, para serem conduzidos até à beira-mar.
Enquanto Borouh descia do cavalo, Attex ordenava aos seus portadores que conservassem a liteira nos ombros.
Entre os gregos, o embaixador era facilmente reconhecível. Sobre a sua toga amarela, um grande colar de ouro exibia a medalha com a efígie do imperador Constantino. Alto, de faces imberbes, todo ele respirava à-vontade e autoridade. O seu espesso nariz e uma estranha ausência de sobrancelhas conferiam-lhe o ar de um animal selvagem à espreita de uma presa. As suas pálpebras pareciam semicerrar-se e a boca, muito delineada, descaía para baixo.
Atrás dele, para além dos soldados de couraça, vinha um homem vestido de preto, que se benzeu várias vezes, resmungando logo que pousou as sandálias em terra firme. Uma cruz de madeira brilhava-lhe no pescoço. Attex reconheceu um dos monges do Cristo, de aparência modesta e frágil, mas capaz de percorrer a estepe durante anos a fio para converter à sua fé aqueles que encontrava.
O embaixador ergueu as mãos na direcção de Borouh. Dois grossos anéis brilharam nos seus anelares, enquanto sorria com uma ponta de lassidão.
- Senhor Bei, as minhas saudações...
Attex ficou espantada ao ouvi-lo pronunciar estas palavras no idioma dos khazares. Ele exprimia-se com uma desenvoltura desajeitada, mas com uma voz doce e cativante.
- É sempre agradável chegar a Tmurtorokan. É um verdadeiro paraíso!
O seu olhar deslizou das montanhas para Attex, fixando-se nela com surpresa, como que fascinado pela cabeleira de fogo da Kathum, segura simplesmente por um diadema de ouro. A seu lado, o padre prosseguia com os murmúrios.
Borouh inclinou-se um instante:
- Seja bem-vindo. O Khagan José pediu-me para vir recebê-lo, na companhia da sua irmã, a Kathum Attex...
O embaixador piscou as pálpebras na direcção de Attex:
- É um prazer travar finalmente conhecimento com a Kathum. Os mercadores khazares não se contentam apenas em vender as suas peles de raposa na Nova Roma: também entoam cânticos em louvor da princesa.
Levou a mão direita ao coração, saudando à maneira dos cristãos, mas o seu gesto continha tanta delicadeza fingida quanto sarcasmo. Aliás, o seu olhar azul endureceu imediatamente e foi em grego que prosseguiu, anunciando:
- Chamo-me Bardos Blymmédès. Trago ao senhor dos khazares a mensagem de amizade de Constantino, nascido na púrpura, senhor do universo, soberano autocrata e Imperador da Igreja do Oriente! Peço-vos que me levem até ao vosso soberano.
O monge benzeu-se rapidamente atrás dele. Num grego gutural, Borouh declarou:
- Embaixador, vou escoltar-te até ao palácio do Khagan. Mas, antes disso, devo assegurar-me que conheces a regra real para as saudações da praxe. Só poderás ver o Khagan após um dia e uma noite de espera. Quando te encontrares diante dele, terás de te ajoelhar e pousar a testa no solo. Deverás permanecer calado até ele te questionar...
O embaixador esboçou um sorriso de desprezo soberano:
- Senhor Bei, o dia de espera ainda vai! Aliás, a viagem foi aborrecida e terei grande prazer em dispor de algum tempo para festejar. No entanto, sabe muito bem que o embaixador de Bizâncio não se pode prostrar diante de ninguém, à excepção do seu senhor, o Imperador. Independentemente da minha sincera vontade, claro está. Não veja nisso qualquer insulto.
- Não há excepção à regra, senhor Blymmédès.
- Ah, mas sim, há sempre excepções! - enervou-se o embaixador. - Eu represento Constantino, nascido na púrpura. Enquanto seu representante, só me posso ajoelhar diante de Cristo!
Borouh sorriu, pondo a nu uns dentes muito brancos, e colocou calmamente a mão na bainha da sua longa espada:
- Nesse caso, embaixador, é melhor regressares ao teu barco, pois o Khagan não te pode receber.
O queixo de Blymmédès descaiu, tanto de fúria, como de estupefacção. O riso de Attex não lhe deu tempo para encontrar uma resposta.
- Senhor Blymmédès! - exclamou Attex, num grego fluente. - Vamos lá, não se zangue por tão pouco. Ouvi dizer que muitos dos homens da Nova Roma se inclinam de bom grado diante das damas, o que o senhor pretende só poder fazer diante de Cristo. Estarei atrás do meu irmão quando vier saudá-lo: bastar-lhe-á imaginar que se ajoelha diante de mim...
O silêncio era tal, que todos puderam ouvir o gemido de horror do monge. Borouh e Blymmédès contemplaram Attex com a mesma estupefacção ofuscada. Ela fez sinal aos portadores, anunciando no mesmo tom:
- Até amanhã, senhor embaixador. Perdoe-me, mas está na hora do meu banho.
- Kathum! - admoestou-a Borouh. Attex levantou uma mão, para o calar.
- Nada feito, Borouh! Está na hora do meu banho. Além disso, hoje é dia do meu aniversário. A laia de presente, o Khagan José deu-me autorização para fazer o que me apetecesse até à noite...
Do alto da liteira, endereçou o seu sorriso mais encantador a Blymmédès. Borouh e os gregos ficaram a vê-la afastar-se, transportada pelo balanceamento dos robustos eunucos, ligeira e graciosa como um sonho.
- Decididamente, vocês, os khazares, têm uns costumes muito curiosos - murmurou Blymmédès. - Mas tenho de reconhecer que esta jovem judia é ainda mais bela do que dizem.
O riso de Attex ressoou por entre as paredes cobertas de faianças. A água da grande piscina, talhada na própria rocha, provinha de uma fonte natural. Estava tão quente, que as espirais de vapor subiam em torvelinho até às abóbadas de tijolos envernizados.
- Borouh estava furibundo - explicou. - Julguei que me ia massacrar diante do embaixador!
- O teu irmão, o Khagan, ficará tão furioso quanto ele! - resmungou Attiana.
- E porquê? Amanhã, o embaixador Blymmédès pousará a testa no tapete da sala de audiências, com o seu ar de grego que se submete a um suplício bárbaro! Quando se levantar, olhar-me-á bem nos olhos, ao passo que eu nem terei de erguer uma pálpebra!
Attex riu-se novamente, deslizando voluptuosamente pela água. O seu corpo pálido desapareceu por instantes no líquido quente. Quando voltou a emergir, Attiana acorreu, agitando as suas mãos rechonchudas:
- Sai daí! Ficas demasiado tempo nessa água escaldante. Um dia morrerás.
De olhos fechados, Attex deixou-se levar pela água, sem sequer fingir ouvir as lamúrias da serva.
- É verdade! - insistiu Attiana, com voz gutural. - O banho quente faz ferver o sangue. Morre-se subitamente. Já o vi com os meus próprios olhos! Uma rapariga muito nova, como tu...
Contrariamente ao que os médicos tinham previsto, Attiana conseguia falar, apesar do queixo partido. O ataque dos petchenegues, que quase a matara há dezasseis anos, na véspera do bar-mitzva de José, transformara-se numa longínqua recordação. Aguentando dores terríveis, conseguira conservar uma mobilidade suficiente da boca para formular frases curtas que só endereçava a Attex. Infelizmente, com o correr do tempo, o seu rosto não parara de se deformar, seguindo a deslocação dos ossos mal colados. Horrorizada pela sua própria imagem, vivia na sombra da Kathum, dissimulando-se com espessos véus logo que saía do palácio. Deste modo, a devoção que lhe dedicava tornara-se a sua única razão de ser. Com uma fascinação melancólica, vira o corpo da menina tornar-se o de uma mulher e atingir a perfeição. Nesta esplendorosa graciosidade feminina via um sinal da vontade do Todo-Poderoso.
Quando os rumores elogiando a beleza incrível de Attex lhe chegavam aos ouvidos, Attiana sentia-se dividida entre o orgulho e a tristeza. Estava a chegar a hora em que aquela admirável inocência, que sempre lhe compensara os seus infortúnios, iria ser captada pelas mãos de um homem, oferta aos jogos dos seus desejos e do seu poder. Nessa altura, o esplendor de Attex escapar-lhe-ia para sempre. Deixaria de ser a única a desfrutá-lo, como se desfruta de um segredo nunca partilhado.
Sabia tratar-se de uma ideia disparatada, mas que podia fazer?
Com alguns movimentos ágeis, Attex aproximara-se da escada junto à piscina. Sacudiu-se, agitando os longos cabelos de fogo, salpicando o solo.
- Pára de rabujar, Attiana! Vai buscar os óleos, em vez de dizeres disparates!
Enquanto Attiana, barafustando, se dirigia para a pequena sala adjacente, Attex chamou:
- Hakon?
Na penumbra surgiu um eunuco imponente, cujos olhos azuis e cabeleira loura revelavam a origem nórdica.
- Sim, Kathum...
- Não te importas de me trazer as toalhas?
Nua e escorrendo água, saiu do banho num ruído cristalino e esperou que o eunuco regressasse com uma grande toalha. Attiana tinha uma certa razão: a sua pele tão fina e macia, tornara-se encarnada e inchada como a grainha de uma romã! No entanto, o brilho que surpreendeu no rosto de Hakon quando ele lhe estendeu a comprida toalha de banho fê-la compreender que nada perdera da sua beleza.
- Os óleos estão prontos - anunciou bruscamente Attiana, regressando com um cesto cheio de frasquinhos e boiões.
Hakon colocou outras toalhas numa bancada de tijolos, onde Attex se estendeu. Com a ponta da toalha, limpou o vapor de água que cobria a placa de cobre polido que servia de espelho.
- Já chega, Hakon - guinchou Attiana. - Já não precisamos de ti.
O eunuco aguardou um sinal de Attex, na esperança de vê-la contrariar a ordem. Mas esta contentou-se em murmurar:
- Obrigada, Hakon. Manda preparar a minha túnica, por favor. O eunuco louro esboçou um sorriso maldoso destinado a Attiana e, sem dizer palavra, abandonou as abóbadas húmidas da sala de banho. Resmungando insultos incompreensíveis, Attiana besuntou as palmas das mãos com unguento e, desnudando as costas de Attex, principiou a sua massagem.
- Pára de implicar com Hakon - disse subitamente Attex. - Eu gosto dele.
- Uma Kathum não deve gostar de um escravo, ainda menos de um eunuco! Faz-se servir por ele, e é tudo. Ora, este eunuco tem uns olhos demasiado curiosos!
- Não vês que eu lhe agrado?
A massagem de Attiana endureceu.
- Eh! Estás a magoar-me, velha louca! - protestou Attex, soerguendo parte do corpo.
No cobre polido, o seu olhar cruzou com o da serva. Acrescentou:
- Tens ciúmes. Na realidade, és uma velha ciumenta! E tens razão: Hakon é muito mais agradável de contemplar do que tu!
Calaram-se ambas, ruminando as respectivas cóleras.
As mãos de Attiana prosseguiram o seu movimento, levando a pele a absorver os óleos perfumados. Acalmando-se, Attex acabou por se aperceber que elas tremiam. Procurou o rosto da serva no espelho de cobre e descobriu as lágrimas que lhe brotavam das pálpebras inchadas.
- Attiana!
Voltou-se e agarrou-a pela cintura, apertando-a com força, como fazia outrora.
- Attiana, por favor, perdoa-me! Não é verdade, não és uma velha louca. Sabes muito bem que não é verdade!
A boca desfigurada da serva deixou passar um soluço.
- Desculpa-me! - repetiu Attex. - Não quero saber de Hakon para nada! Ao passo que a ti, amo-te...
Com a ponta dos dedos procurou as maçãs disformes do rosto de Attiana e secou-lhe as lágrimas com ternura.
- Não chores, Attiana. Eu gosto de ti. Nunca me deixarás... Attiana afastou-a sem dizer palavra e obrigou-a a estender-se.
Com a palma da mão limpou bruscamente os olhos e, depois, erguendo os caracóis ruivos da princesa, despejou-lhe pelos ombros um pouco de óleo de benjoim misturado com leite de burra, mistura onde macerara cravos-da-índia e pétalas de rosa.
Attex abandonou-se às suas mãos experientes e repetiu:
- Juro-te que nunca ninguém nos separará!
- Não é verdade - murmurou Attiana. - O homem que te escolher não me quererá para nada.
- Nesse caso, não o aceitarei! - riu-se Attex.
- Não digas disparates. Ele terá razão. É muito mau ter uma serva tão feia como eu!
- Prometo-te que escolherei um homem que te aceite.
- Basta, minha filha, não te armes em criança! Não escolherás nada. Sabes muito bem que é o teu irmão que escolherá por ti. É a lei do Khagan. É a lei do Todo-Poderoso. Até tu terás de respeitá-la.
Attex ergueu-se bruscamente, de rosto crispado, braços cruzados no peito.
- Tenho medo, Attiana! Receio que ele não me agrade.
- Todas as mulheres têm medo antes de saber quem será o seu esposo.
- Quero poder amá-lo.
Attiana ergueu os olhos na direcção da abóbada e deixou escapar um grunhido irónico:
- Esperemos, sobretudo, que ele te ame a ti!
- Desejo-o forte, belo e respeitador do Todo-Poderoso! - insistiu Attex.
- Ah, sim?
- Se amar o Eterno, terá de me amar um pouco, não é verdade?
Desta vez, o peito generoso de Attiana foi sacudido por uma verdadeira gargalhada.
- Espero que não faças declarações dessas ao rabi!
- Attiana! Pensas que vou ter de esperar ainda muito tempo?
- Antes de teres um esposo? Ai de mim, receio bem que não, minha querida!
Em Tmurtorokan, o Khagan José dava as suas audiências numa sala atapetada, cujo tecto era sustido por uma floresta de pilares de madeira esculpida e pintada. O seu trono era um simples assento, sobrepujado pelo candelabro de ouro de sete braços. Um dossel de cabedal, muito parecido com uma tenda e tecido de fios dourados, cobria o estrado onde ele estava instalado. Sentado muito erecto, com a barba aparada e curta e a testa larga, como que aureolada pela sua cabeleira, José exibia um porte orgulhoso.
Tal como todos os Khagan, aprendera a aguentar as audiências, por muito longas que elas fossem. Sabia permanecer imóvel, sempre senhor das suas emoções. Em seis anos de reinado, o seu olhar adquirira uma gravidade surpreendente, atendendo à juventude do rosto.
Como previra Attex, o embaixador Blymmédès ajoelhou-se e posou a testa no tapete. A seu lado, foi imitado por dois gregos eminentes da comitiva. Apenas o monge vestido de preto permaneceu no pátio, sussurrando preces, a fim que Deus lhe permitisse sofrer a humilhação de que era alvo num local judeu.
Imobilizando os bizantinos na sua humilde postura, José guardou o silêncio durante uns momentos. Attex não pôde conter um sorriso. Procurou o olhar de Borouh, para saborear a sua vitória. Não encontrou os seus olhos, mas sim os do rabi Hanania, brilhando de malícia.
Pouco mais alto e ainda mais magro que um adolescente, o velho homem desaparecia sob um manto grená, com um cordão cingindo-lhe a cintura. O seu rosto parecia minúsculo sob a espécie de turbante de linho branco que lhe cobria a testa. A sua boca parecia sempre pronta para a ironia ou para a ternura. Attex perguntava-se a si mesma como é que um corpo tão frágil podia conter tanto saber!
- Levante-se, embaixador - ordenou finalmente José, numa voz monocórdica. - Seja bem-vindo ao reino dos khazares.
Muito corado, Blymmédès levantou-se vivamente, sacudindo a poeira com um gesto brusco da mão.
- Khagan José, esta saudação é pessoal e é um sinal da estima que tenho pelo senhor. Não representa, de modo algum, o meu senhor, Constantino, o Sétimo, nascido na púrpura, senhor do universo, soberano autocrata e Imperador da Igreja do Oriente.
O rosto de José permaneceu inexpressivo, tal como o tom da sua voz, quando declarou:
- O senhor atravessou os mares com seis dos seus navios, embaixador. Suponho ter sido por um bom motivo.
Durante um momento o grego hesitou em optar pela via contornada das delicadezas. No entanto, os olhares concentrados na sua pessoa decidiram-no a abordar directamente o assunto.
- O motivo é a paz, Khagan José! O imperador enviou-me para varrer definitivamente os antigos rancores. Deseja que saiba que foi contra sua vontade e contra o seu parecer que Romano, o seu pai, manobrou os russos contra vós, aqui mesmo, em Tmurtorokan...
- E assim partiu os rins! - interveio Borouh, com uma fúria mal contida. - Como todos os russos que o tentaram antes dele!
- Sabemo-lo, senhor Bei. Constantino sabe-o! Eis porque lhes oferece a paz e o calor da sua amizade...
O olhar de Blymmédès deslizou até Attex. O seu sorriso foi apenas uma careta. Os olhos permaneceram frios e calculistas.
- Senhor Blymmédès, agrada-me a paz quando ela não é o simples silêncio que antecede a batalha. Caso contrário, prefiro a batalha.
O grego agitou as mãos como se quisesse rechaçar as palavras de José:
- Sei como o senhor é um grande guerreiro, Khagan José. Conhecemos a sua coragem. Mas também sabemos que experimenta actualmente algumas dificuldades para conter os russos na fronteira do Norte. Não passa uma estação sem que o exército de Kiev tente alcançar a vossa capital, Itil. Parece que o mais ardente desejo dessa gente é dormir no vosso palácio! O vosso reino é rico, Khagan. O vosso comércio com o Oriente floresce. Sois senhores das margens do mar dos khazares, onde prosperam cidades comerciais, ricas e belas, que vos pagam tributos! Os russos são ainda uns bárbaros. O ouro excita-lhes o apetite e a violência. Hoje em dia, estão mais excitados que nunca. A sua sede pelo ouro dos khazares é mais forte que nunca! Constantino sabe disso tudo. Apenas aspira a um reino de paz e tranquilidade. A paz nas terras de Bizâncio, certamente, mas também por entre os povos vizinhos que nos são caros.
- Senhor Blymmédès...
A voz doce e de forte sotaque surpreendeu todos os presentes. O rabi Hanania saiu da sombra de Borouh, avançando para o embaixador. Chegou-se-lhe tão perto, que este esboçou um passo de recuo. Porém, com um sorriso que pôs a descoberto as gengivas desdentadas, o rabi colocou a mão de dedos claros no braço do grego.
- Senhor Blymmédès, permita que um velho profira alguns disparates... O príncipe de Kiev não é uma criança de dez anos?
Blymmédès anuiu, desconfiado:
- Sim, Sviatoslav tem onze anos... É a sua mãe, Olga, que dirige o reino. Mas...
- Nestas paragens, diz-se que Olga de Kiev abraçou a fé do Cristo da Nova Roma. Diz-se que se encontra neste momento em Constantinopla, onde o próprio Patriarca Constantino a deve levar ao baptismo.
- Olga de Kiev é cristã desde o último Inverno; isso não é segredo para ninguém - explicou Blymmédès, aborrecido.
O rabi abanou a cabeça contrariado, como se não se tivesse feito entender.
- Senhor Blymmédès, seja paciente com os disparates de um velho! Na verdade, neste reino acolhemos todos os dias judeus que fogem da Nova Roma. Todos deploram as brutalidades e as humilhações de que são alvo os fiéis da lei de Moisés... Por que motivo o imperador Constantino desejaria que vivêssemos em paz com ele, nós, povo judeu do reino khazar, quando ele insulta e oprime os judeus que vivem sob o seu tecto?
- Não! Não! O imperador Constantino reprova as violências que vitimam os judeus! - protestou Blymmédès.
Em seguida, olhou para trás, para se assegurar que o monge estava suficientemente afastado. Avançou um passo e acrescentou em voz baixa:
- O imperador é inteiramente contra! No entanto, Khagan José, às vezes os monges são tão exaltados, que se tornam incontroláveis! Estou aqui para lhe prometer que doravante os judeus poderão viver em toda a segurança em Constantinopla. Poderão até praticar o seu comércio como bem lhes aprouver...
O rabi contorceu a boca desdentada num sorriso malicioso e deu uma palmadinha no braço do grego.
- É uma óptima notícia, senhor embaixador. Uma excelente notícia, se for verdadeira!
Irritado, Blymmédès franziu o sobrolho e exclamou:
- Ela é verdadeira! Absolutamente verdadeira! Uma aliança, eis o que o imperador Constantino deseja oferecer ao Khagan dos khazares! Uma aliança estreita, frutuosa, afectuosa...
- Tão estreita, que tem de apontar as armas dos seus navios na direcção do palácio? - troçou Borouh.
- Não se fie nas aparências, senhor Bei! Faça a guerra aos russos e mais cedo ou mais tarde acabará por perdê-la. Confie em Constantino e ele conseguirá que Olga de Kiev contenha os seus guerreiros...
- Embaixador, porque agiria ele desse modo? – interveio José. - Olga é sua aliada. Doravante, comunga a vossa religião e sabemos perfeitamente a importância que ele atribui a esse facto. Porque procura a nossa amizade?
O rosto de Blymmédès imobilizou-se numa pose cheia de gravidade. Fitando os olhos de José, declarou:
- Bizâncio esteve muito tempo em paz com o reino khazar. Ajudámo-nos mutuamente. Artistas vindos de Nova Roma construíram a vossa fortaleza de Sarkel e o vosso próprio palácio de Itil é...
- Conheço a história dos meus antepassados, embaixador! - interrompeu secamente José. - Também me recordo que Bizâncio se apoiou nos nossos guerreiros para rechaçar os exércitos da Pérsia e de Bagdade1.
Blymmédès inclinou a cabeça com um sorriso manhoso:
- Era precisamente o que eu queria dizer, Khagan José! Se, por desgraça, Olga e o seu filho conseguissem conquistar o vosso reino, seriam donos de uma imensa nação. Imensa, rica, poderosa... Ora, só Bizâncio poderá orgulhar-se disso.
José deixou o silêncio pesar sobre todos os presentes e, depois, perguntou:
- Por que razão devo acreditá-lo, embaixador? Blymmédès levantou a mão direita. Fazendo fulgir o anel, apontou para Attex, de que todos se tinham esquecido:
- Uma aliança, Khagan! Uma verdadeira aliança, feita de carne e amor! Eis o que propõe Constantino, o Sétimo, ao rei dos khazares. Para provar a sua sinceridade, e por intermédio da minha presença e das minhas palavras, ele solicita a mão de sua irmã, a Kathum Attex, para colocá-la na de um dos seus melhores generais, João Tzimiskès.
Um grito de surpresa escapou dos lábios da princesa e, ao mesmo tempo, dos de Borouh. Todos, até José, se voltaram para ela.
- Casar-me, casar-me a um dos vossos, senhor embaixador! - exclamou Attex. - É essa a vossa aliança?
Respondeu-lhe o silêncio. Blymmédès não parava de sorrir,
(1) Os khazares firmaram uma aliança com o imperador bizantino Heráclio I, em 627 (N. do T.)
enquanto o rabi Hanania triturava nervosamente as gengivas, como que acometido por uma náusea.
Attex procurou o olhar de José, mas o Khagan já se levantara, declarando numa voz monocórdica:
- Embaixador Blymmédès, tenho de partir amanhã para Sarkel, a fim de visitar o meu antepassado Benjamim. Poderá juntar-se a nós.
Oxford, Inglaterra Maio, 2000
Uma mulher ruiva, bela, sim senhor, mas que mais quer que lhe diga?
Apesar de insistir, Sofer não conseguira arrancar ao jovem inglês mais informações sobre a desconhecida. Tudo o que este sabia era que ela viera buscar as cópias dos documentos khazares na véspera. Não, não anotara o seu nome. Para quê? Ela fizera simplesmente um telefonema, tal como Sofer.
- Mas como soube ela que o senhor fazia cópias? - interrogou o escritor.
O outro encolheu os ombros.
- Como quer que saiba? Deve ter-se informado.
Sofer sorriu dubitativamente. A sua intuição não o podia enganar. Tinha a certeza que se tratava dela. Sim, ela, a desconhecida de Bruxelas.
Porquê, como, isso não sabia. Talvez porque durante as últimas semanas não tinha conseguido simplesmente expulsá-la da mente. Ela, a bela ruiva que lhe perguntara se ele ainda acreditava nos sonhos!
Logo que o jovem inglês se foi embora, com as cinquenta libras esterlinas no bolso, Sofer saiu por sua vez do Randolph. Estava certamente impaciente por ler a carta do rabi Hazdai ao Khagan José, mas só o facto de pensar que a desconhecida podia estar ainda em Oxford impeliu-o literalmente, contra sua própria vontade, a desafiar a chuva que redobrara de intensidade.
Caminhou em frente. Subiu High Street, chegou ao quarteirão dos Colleges e, em seguida, desviou para Lodge Lane, Merton Street. Prosseguindo até St. Aldates, passou pelos veneráveis edifícios da ciência e do saber, misturando-se aos grupos de estudantes e turistas, perscrutando-lhes os rostos. Em vão.
Decidiu caminhar até à esplanada de St. Gille, passou pela multidão que saía dos museus e chegou às ruas comerciais situadas na parte baixa de Beaumont Street. Aí, deambulou à volta da estação da rodoviária, onde os jovens, de cabelos compridos ou crânio glabro, anéis de metal incrustados nos lábios, nas narinas ou nas sobrancelhas, esperavam calmamente pelos autocarros dos subúrbios. Subitamente teve a impressão de ter mudado de mundo, de ter saltado de uma época para outra.
Era tarde e escurecia, as lojas fechavam, os clientes iam-se embora. Sofer reparou que mesmo ali, em terra inglesa, as mulheres ruivas eram raras e, evidentemente, nenhuma se assemelhava à desconhecida.
Não, na verdade não pensava ter a mínima hipótese de a encontrar. De repente sentiu-se ridículo ao ver-se, com a sua idade, correndo atrás de uma sombra! Como ele, ela viera certamente a Oxford apenas para obter uma cópia da correspondência khazar.
Mas, porquê?
Tantas perguntas, segredos, esquisitices! Era como se se encontrasse repentinamente enredado numa teia de fios invisíveis tecidos pacientemente na sombra, por mão desconhecida. Começava a duvidar do seu bom senso.
Não se apercebeu que a chuva parara. As ruas esvaziavam-se com a chegada da noite. Perguntou o caminho a um velho senhor. O hotel ficava longe. Com as pernas cansadas e o cérebro nebuloso, empurrou a porta de um coffe shop, sentou-se a uma mesa e encomendou um chá.
Caminhar daquela maneira, até ao esgotamento, tinha pelo menos a vantagem de o acalmar.
Lá fora, por detrás do vidro do café, alguns raros transeuntes passavam sob a luz alaranjada dos candeeiros. O seu olhar deteve-se numa menina que brincava, saltitando nas poças abandonadas pela chuva. Então, viu-a. Era Attex em criança, a irmã de José, o futuro Khagan. Viu-a brincando à beira-rio, sob a fortaleza de Sarkel, mil anos antes.
Viu-a enterrando o pé na lama, fascinada pela onda cinzenta do rio que ia apagar a marca. E quando ela ergueu a cabeça para responder à serva que a avisava do perigo que constituía a corrente, Sofer apercebeu-se que a menina Attex tinha os traços da desconhecida!
Oh, tratava-se ainda de um mero esboço, mas já se adivinhava a beleza da mulher de Bruxelas: os olhos esmeralda, o desenho da boca, o queixo voluntarioso e, claro, a cabeleira de fogo.
“Meu Deus. Ela está ali! Já a captei! Já os captei a todos!” -exclamou, sem se aperceber que os vizinhos sentados à sua mesa lançavam olhares divertidos para este turista que falava sozinho.
Num passo rápido, quase a correr, Sofer regressou ao Randolph. Encomendou um Bloody Mary, fechou-se no quarto e percorreu os folhetos da correspondência entre o rabi Hazdai e o Khagan José. Depois, ligou o seu computador portátil.
A história começou a sussurrar-lhe ao ouvido. O romance adquiria forma sob as suas mãos. Brevemente, encontrá-los-ia a todos, no seu ecrã.
Primeiro, Attex. Bela, mas com um carácter danado. Irónica, trocista. Inquieta com o desejo de amor que sentia crescer dentro dela, sem saber quem lhe seria enviado por Deus. Depois, José, mais severo, mais grave que a irmã, com a sua graça, mas com o peso da responsabilidade a mais. O cargo de Khagan obrigava-o a calcular as frases, os gestos. A perspectiva de ser um chefe espiritual não o entusiasmava...
Em seguida, surgiram o velho Khagan Benjamim, Borouh, o rabi Hanania, a serva Attiana, o embaixador Blymmédès. Todos começaram a viver na penumbra do quarto. Finalmente, foi a vez de Isaac Ben Eliezer e dos seus amigos, Simão e Saul.
Viu-os, viajando durante meses através da Germânia, da Hungria, embrenhando-se cada vez mais para Leste. O Verão passava. O Outono transformava os caminhos em montes de folhagens que retinham o calçado. O frio mordia. Alcançar um casebre com uma lareira, onde recebiam uma tigela de sopa, era uma autêntica libertação. Dormiam por vezes à chuva, cobrindo-se de folhas mortas para se protegerem. Por vezes havia um albergue, uma serva de pele macia, uma tina de água quente.
Um dia, tudo esteve prestes a terminar. Quando experimentavam dificuldade em adormecer ao abrigo de um grande pinheiro, os olhos dos lobos reluziram na escuridão da noite. Simão gemeu de medo e, por uma vez, Saul invocou o Eterno, abençoado seja o Seu nome.
Os animais estavam suficientemente perto para que Isaac, tal como Sofer, lhes sentisse o sopro. Um deles começou a latir, outro respondeu. Em poucos segundos, eclodiu um concerto de uivos de morte sob o céu estrelado!
- Estamos tramados - resmungou Saul, furioso. - Nunca devia ter-te prestado ouvidos, Isaac. Morrer, para ir até um reino que nem sequer existe! Que bela história!
Simão soltou uma gargalhada nervosa:
- Ah, a mim não me importa que eles me degolem. Juntar-me-ei à minha bem-amada!
Subitamente Isaac lembrou-se do seu alaúde. Com gestos prudentes, retirou o instrumento do saco. Os seus dedos entorpecidos dedilharam as cordas, procurando o ritmo.
Foram necessários alguns segundos para que os lobos deixassem de uivar. Intrigados pelo som das cordas e pelo canto lamuriento de Isaac, alguns gemeram estranhamente, afastando-se. Outros sentaram o traseiro na erva gelada. Estes abandonaram o cerco pela madrugada.
A viagem prosseguiu até às planícies arenosas de Kiev. Saul não tardou a encontrar mercadores judeus. Estes afirmaram-lhe que o reino dos khazares existia efectivamente e que o seu Khagan se chamava José!
Isaac ficou tão contente que dançou sozinho como se estivesse embriagado! Por uma vez, Saul ficou emocionado a ponto de ir rezar com os outros à sinagoga. Esgotado como um homem que se liberta finalmente das suas angústias, Simão dormiu quatro dias seguidos, de modo que o pequeno grupo só voltou a partir num dia de Maio do ano 4715, depois da criação do mundo pelo Todo-Poderoso, abençoado seja o Seu nome...
Após Kiev, que transpuseram precisamente pela porta dos khazares, foram necessárias duas semanas para alcançar o rio Varshan, com boas mulas. Aí, se tudo corresse bem, bastar-lhes-iam cinco semanas de navegação para alcançarem a fortaleza de Sarkel-a-Branca.
Sofer via um Isaac impaciente. Impaciente por chegar ao seu destino. Sentindo a meta no bico dos sapatos. Sonhando encontrar o rei dos judeus. Preparando já o seu discurso. Imaginando a resposta. ..
Cheio de ardor e contentamento, arrebatado pela esperança e pelas ilusões, como podia ele adivinhar que o destino iria favorecê-lo e, ao mesmo tempo, vencê-lo?
Sarkel Junho
Benjamin sorriu. Os seus lábios exangues puseram a descoberto os quatro dentes amarelecidos que lhe restavam. Com a sua voz quase inaudível, soprou:
- Há um tempo para viver e um tempo para morrer. São as palavras do Eclesiástico, aquelas que me ensinaste, rabi Hanania! Desta vez, chegou o tempo da minha morte.
O velho Khagan calou-se, com o seu único olho válido fechado, incapaz de prosseguir, apenas ocupado em respirar. Oito lâmpadas de nafta brilhavam permanentemente na sala quase vazia, mas não conseguiam dissipar o odor da morte. No dia seguinte à festa do Yom Kippur1 fazia, precisamente dez dias que agonizava no leito, uma superfície de madeira coberta de peles de raposa. O sofrimento de Benjamim apenas transparecia na chama dorida do seu olhar e na careta que por vezes lhe escapava. A sua cabeleira branca espalhava-se pelo rosto como fumo prateado. A pele adquirira uma extrema fineza. Esticada a ponto de lhe alisar todas as rugas, parecia querer fundir-se nos ossos, desenhando traços perfeitos e de uma estranha beleza.
Sentado a seu lado, um rolo da Tora repousando nos joelhos, o rabi Hanania parecia bem mais velho e frágil que o moribundo! Sob o largo turbante branco, os seus olhos estavam repletos de tristeza.
(1) Também chamada a festa do Grande Perdão, dia de penitência celebrado pelos judeus, dez dias após o Ano Novo (N. do T.)
Estremecendo, os três dedos de Benjamim estenderam-se na direcção do rabi. Este hesitou. Durante um breve instante, observou aquela mão de unhas endurecidas, de carne lustrosa e engelhada. Por fim, estendeu a sua própria mão. Os dedos dos dois velhos entrelaçaram-se. Para surpresa do rabi, a mão de Benjamim estava tão quente que a sua lhe pareceu gelada.
- Rabi! - cochichou o velho Khagan. - Pensas que vou receber o beijo do anjo?
O rabi esboçou um sorriso. Sem largar a mão de Benjamim, balouçando vagarosamente como uma mãe embala o filho, começou a recitar os versículos do Berakhoth}:
- Quando um homem vai deixar este mundo, o anjo da morte vem buscar a sua alma. Esta parece uma veia que lhe corre pelo corpo, por onde dispersa as suas raízes. Então, o anjo agarra numa das suas extremidades e desprende-a do corpo do moribundo. Caso seja um homem justo, isso será tão simples como retirar um cabelo de uma tigela de leite. Caso seja um homem mau, a alma é-lhe arrancada como se procede com a agua da catarata de um rio louco ou com um espinho num novelo de lã: desfazendo-o por completo!
O rabi Hanania calou-se e largou os dedos de Benjamim. Depois, prosseguiu em voz clara:
- Não tenhas medo, Khagan! O anjo virá e tu serás o cabelo no leite...
Após um momento de hesitação, acrescentou:
- Khagan Benjamim, sem querer contradizer o Eclesiástico, e mesmo que seja bom ver um navio chegar ao seu porto, tenho de te confessar que me sinto triste... Vou sentir a tua falta.
- Eu também... Ah! Mas vou sobretudo lastimar nunca ter visitado a terra de Israel. Nestes últimos meses, sonhei frequentemente com Jerusalém...
A excitação apoderou-se do velho. O seu peito vibrou com uma espécie de riso. Um murmúrio rugoso encheu o ar fechado e mal-cheiroso da sala:
(1) Livro do Talmude, também conhecido por Livro ou Tratado da Bênção (N. do T.)
- Rabi! Rabi, julgava ter entrado em Jerusalém e até reconhecia as ruas! Reconhecia a luz que cai nos telhados e se introduz entre as tendas! Reconhecia o odor dos fumos e o perfume do rio ao fim do dia! Rabi... Julgava entrar em Jerusalém, quando, afinal, regressava a Itil.
Caiu um momento de silêncio, antes de Benjamim murmurar ainda:
- Itil, a nossa Itil! A nova Jerusalém. Para Ele! Para o Seu regresso, finalmente...
- Amen - disse sobriamente o rabi, que murmurou uma pequena prece para conjurar tanta esperança.
- Ah... Se ao menos fosse possível! Rabi, não é verdade que o filho de David pode chegar? Ele poderá reunir as tribos aqui, como fez na terra de Israel! Temos de nos penitenciar, temos de nos penitenciar...
A excitação de Benjamim agudizava-lhe a voz e arqueava-lhe o corpo. Contudo, desta vez o rabi não respondeu, balouçando-se simplesmente em silêncio. Após um momento, a agitação do Khagan voltou a diminuir. A sua respiração acalmou e lançou um olhar muito claro para o companheiro.
- Sei muito bem o que Bizâncio tem para oferecer, Rabi. José não deve aceitar. O imperador Constantino está a brincar com ele. É um trapaceiro. Os gregos não têm palavra. José não lhes deve entregar a minha neta...
Foi então que se ouviu a voz de José:
- Avô, devias estar a descansar ou a rezar!
De pé, na entrada da sala, franzindo o nariz devido ao odor, José hesitava em avançar até ao leito do avô. De rosto fechado, aproximou-se finalmente, inclinando-se suficientemente para que o velho Khagan lhe pudesse colocar a mão na testa.
O rabi Hanania espantou-se ao ver a semelhança dos dois rostos. Ambos apresentavam a mesma fineza de traços, a mesma boca sensual e voluntariosa, as elevadas maçãs dos homens das estepes e os olhos em forma de amêndoa dos seus antepassados do Oriente. Mas, doravante, o poder estava concentrado nas pupilas implacáveis de José.
- José! - reatou Benjamim, acometido por nova agitação. - José, lembras-te do teu bar-mitzval
- Lembro-me.
- Na véspera, meu filho, tiraste a vida a um homem pela primeira vez. Pelo bem, contra o mal...
Benjamim calou-se, ofegante, esboçando uma careta de alegria.
- Lembro-me - repetiu José.
Hanania ficou surpreendido pela rudeza do seu tom de voz. Benjamim recorreu às suas últimas forças. Os seus dedos agarraram a bainha de pele do manto de seda de José, como se temesse cair do leito.
- José, não quiseste que os petchenegues levassem a tua irmã... Hoje, não podes entregá-la aos gregos! Não podes!
José agarrou na mão do velho Khagan e, num gesto ambíguo, autoritário e afectuoso, obrigou-o a soltá-la.
- Avô! Não deves preocupar-te mais com esses assuntos...
- O teu pai Aaron, que Deus o guarde na Sua misericórdia, nunca cedeu nada a Bizâncio! Sempre a combateu. Fez o mesmo com os russos. E, antes dele, eu também nunca cedi nada a Bizâncio! Os bizantinos são pessoas pérfidas. Prometem a paz, para fazerem melhor a guerra. Dizem uma coisa, e fazem outra. São manhosos por prazer, José! Não podes...
Era quase um grito de raiva, mas desta vez a dor esmagava o velho Khagan. O rabi Hanania levantou-se, de olhos dilatados, atento ao momento do trespasse. A boca de José estremeceu. Ajoelhou-se, e apertou os três dedos miseráveis do moribundo nas suas mãos possantes.
- Ouço as tuas palavras, avô - murmurou. - Conheço a tua sabedoria. Fica em paz. Nada está decidido...
Com as pálpebras fechadas sobre os olhos que pareciam querer desaparecer no crânio, Benjamim abanou a cabeça com esforço. Estupefacto, o rabi Hanania viu lágrimas correndo pelas faces do moribundo.
- José... José! Se a tua irmã Attex se tornar cristã, o reino dos khazares deixará de ser judeu. Deixará de ser a terra eleita. O filho de David jamais entrará em Itil montado no seu jumento branco!
Seguiu-se um longo silêncio, pontuado pela respiração rouca de Benjamim. Desta vez, nem o rabi, nem José, tiveram coragem para o interromper.
Do exterior, chegavam os ruídos de vozes, as idas e vindas no palácio. Todos os senhores da corte estavam reunidos na fortaleza desde a véspera, prontos a acompanhar o velho Khagan até ao seu túmulo. No exterior, à sua volta, três mil arqueiros da guarda real formavam uma cintura intransponível e todos os mercadores estrangeiros tinham sido afastados para a outra margem do rio Varshan. Na cidade de tendas, mesmo os que não eram judeus refreavam as crianças e falavam em voz baixa.
A voz de Benjamim soou, tão baixo que o rabi Hanania mais adivinhou as palavras do que as ouviu.
- Que Deus te conceda uma longa vida, José. Lembra-te que te amei tanto quanto ao meu filho Aaron. Agora, vai-te embora e chama Attex para junto de mim.
Attex chegou à cabeceira do avô em lágrimas. Ao invés de José, não procurava dissimular a sua tristeza.
O velho Khagan esboçou um sorriso ao vê-la, mas a discussão com José esgotara-o demais, impedindo-o de falar. Ergueu desajeitadamente as mãos para aflorar a cabeleira ondulante da neta e balbuciou:
- Que esplendor! Que esplendor! E acrescentou ainda:
- Cheiras bem... Como um anjo...
Como não encontrava palavras para lhe responder, Attex estendeu-se a seu lado, deslizando o jovem corpo contra o dele, abraçando-o e encostando a cara na dele. O rabi soltou um grunhido de protesto, estendeu o braço para agarrar no ombro da jovem, a fim de obrigá-la a abandonar aquela postura sacrílega. Mas o velho Khagan agarrara-se tanto à neta que o rabi interrompeu o gesto:
- Não deves ficar triste, Kathum - suspirou. - Lembra-te das palavras do Eclesiástico: Há dois navios no mar, um abandona o porto e outro regressa. O povo regozijava-se com a partida do primeiro, mas não com a chegada do segundo. Um sábio que ali se
encontrava, disse então: "A minha opinião é contrária à vossa. Não vos deveis felicitar pela partida deste barco, pois ninguém sabe que bravos mares e tormentas o esperam^ ao passo que vos devíeis regozijar pelo navio que acaba de chegar, são e salvo, ao seu destino..." Attex fungou, abanando a cabeça:
- Não me posso alegrar, Rabi - cochichou, com um olhar cheio de críticas. - Não posso...
Subitamente o velho Khagan soltou um estertor violento. Hanania agarrou-lhe na mão. Teve medo que Benjamim morresse daquela maneira, no meio dos gritos e da dor, o que teria sido de péssimo agouro. Attex apertou o corpo tremente de encontro a si. Benjamim reabriu os olhos. Um sorriso de alegria distendeu-lhe os lábios exangues.
- Attex, és a beleza da terra! - murmurou. - És a vontade do Eterno, abençoado seja o Seu nome!
As suas pupilas dilataram-se e o seu corpo retesou-se entre os braços de Attex como um molho de madeira ressequida.
- Ah! - gemeu. - Aah... O anjo aproxima-se, Rabi! Ouço os cânticos que o acompanham! Oh, ouço a sua voz!
A sua agitação era tanta, que Attex teve de o segurar com toda a força:
- Attex, não vás ter com os gregos! Não cometas essa loucura! Attex, não renegues o Livro de Moisés!
- Não, avô! Está descansado.
Nunca chegou a saber se ele o ouvira, pois nesse preciso instante, de olhos alucinados, o avô fechou as pálpebras e trespassou com um derradeiro suspiro.
E assim faleceu o décimo segundo rei judeu dos khazares, no dia seguinte ao do Kippur do ano 4715, depois da criação do mundo...
Oxford, Inglaterra Maio, 2000
Eram quase quatro da manhã, quando Sofer decidiu fazer uma pausa. Nenhum ruído perturbava a calma do Randolph. O silêncio no quarto era tal que se podia ouvir o ronronar do mini-bar.
Lá fora, por detrás das cortinas, a noite revestira-se de tons amarelados. Oxford banhava-se nas luzes dos halogéneos. Deixara de chover. Sofer abriu a janela e massajou os olhos doridos. Sentia-se cansado, mas feliz. Excitado, até. Terrivelmente vivo. Como se lhe tivessem vertido um pouco mais de sangue nas veias ou aumentado o volume do coração. Afinal, de ora em diante trazia dentro de si o sopro e as emoções de Attex, de Isaac, de José e dos outros.
Durante um momento descansou a vista, olhando para a imagem imóvel do relvado, para os maciços de rododendros e azáleas que os candeeiros cobriam de ocre. Respirou o ar húmido a plenos pulmões. Então, soube: queria respirar o vento dos khazares!
Tinha de ir até lá, ver o sol do mar Cáspio, do mar dos khazares. Sim, tinha de ir!
Consultou novamente o relógio. Pouco passava das nove em Baku. Era um tanto cedo, mas uma hora já aceitável. Talvez a altura indicada para apanhar Agarounov ao telefone antes de ele sair de casa.
Sentou-se na cama para marcar o número do presidente da Associação dos Judeus das Montanhas. Enquanto ouvia vários toques, passou as mãos pelas faces ásperas. Não se barbeara desde a véspera. Devia ter cá um aspecto...
- Da? - respondeu Agarounov, em russo.
Sofer apresentou-se, e informou-o que falava de Inglaterra.
- Desculpe-me por lhe telefonar tão cedo. Queria ter a certeza de ainda o encontrar...
- Não há problema, meu amigo! - respondeu Agarounov, sempre amável. - Não me incomoda. Aliás, ontem à tarde pensei precisamente em si.
- Ah sim?
- Lembra-se do atentado contra o oleoduto?
- Precisamente, eu...
- O "Renascimento Khazar". Foram mesmo eles os autores do golpe. Não é espantoso?
- Tem a certeza, senhor Agarounov? Tenho aqui os jornais ingleses que falam do atentado. Não há qualquer menção ao "Renascimento Khazar"...
- Ora, ora... - interrompeu-o Agarounov, num tom divertido. - Os ingleses só podem contar aquilo em que lhes deixam acreditar... Não, tenho a certeza. Os meus amigos são formais.
- Eles conhecem os membros desse "Renascimento Khazar"?
- Isso... não. Penso que não.
- Essa referência aos khazares é uma ideia bem esquisita, não acha?
Agarounov soltou um risinho.
- De vez em quando, as pessoas daqui precisam de reviver o passado. Sobretudo nos nossos dias...
- Senhor Agarounov! - exclamou Sofer. - Os khazares eram judeus! Tem consciência do que isso pode significar?
- Com certeza, com certeza!
Sem perceber por que motivo, pelo tom e pelas respostas do seu interlocutor, Sofer adivinhava um mal-estar crescente perante as suas interrogações. Franzindo o sobrolho, perguntou ainda:
- E que querem? Já se conhecem as suas reivindicações? Apenas lhe respondeu o silêncio. Ele durou tanto que Sofer
perguntou, com certa brusquidão:
- Está? Senhor Agarounov? Ainda aí está?
- Sim, sim, estou a ouvi-lo. Mas é-me difícil responder às suas questões. Ao telefone...
Foi a vez de Sofer se calar, pensativo, procurando deslindar os meandros deste surpreendente subentendido. Por fim, exclamou com um pequeno riso:
- Bom, tanto pior para mim. Aliás, pouco importa, responder-me-á cara a cara! Telefonei-lhe precisamente por esse motivo: decidi ir passar alguns dias a Baku. Quero ver o mar dos khazares!
- Oh, magnífico! Que boa notícia, que boa notícia! A alegria de Agarounov parecia sincera.
- Sabe, comecei a escrever a minha "coisa" - confessou Sofer, sentindo a necessidade súbita de se confiar um pouco.
- A sua... "coisa"?
- Sim, o meu livro. Um romance, sobre os khazares, evidentemente...
Durante alguns instantes, Sofer não resistiu ao prazer de contar rapidamente o motivo da sua presença em Oxford. Descreveu os documentos em sua posse, a escrita do rabi Hazdai e, sobretudo a do rei José.
- Enfim, neste aspecto estou a precipitar-me, pois não é certo que o Khagan tenha redigido pessoalmente a resposta. Podemos imaginar que dispunha de uma espécie de secretário. Um copista. Até é bastante provável. Aliás, certos investigadores pretendem que a carta do rabi também é uma cópia. Mesmo assim, senhor Agarounov, posso dizer-lhe que é comovente ter estes documentos diante dos olhos!
Do outro lado, além, no Azerbaijão, Agarounov proferia pequenos gritos de entusiasmo.
- Mostrar-lhos-ei - prometeu ainda Sofer. - Levá-los-ei comigo.
- Maravilhoso! - repetiu Agarounov. - Que emoção para os nossos amigos das montanhas ver as cartas daquele que talvez seja um dos seus antepassados!
- A propósito, não há notícias do misterioso Yakubov? - inquiriu Sofer.
Agarounov suspirou:
- Nenhuma. Procurámos nos ficheiros da Associação. Não há sinal de Yakubov em lado nenhum. Fiz algumas perguntas sobre a gruta aos nossos amigos. Sabe-se da sua existência, e se uma delas contiver uma sinagoga, isso nada teria de extraordinário. Mas não há nada de preciso. Evidentemente, a montanha é grande...
- Evidentemente. Só mais uma pergunta, se me permite, senhor Agarounov. O senhor não conhece por acaso uma jovem ruiva muito... muito bela? Quero dizer: de uma beleza rara. Está a ver?
- Ah! Uma mulher? Uma mulher bela?
- Quase anormalmente bela, se assim me posso exprimir.
- Oh!
- Uns trinta anos, talvez menos. Olhos esmeralda... Não muito alta, sempre bem vestida, ao que parece. Ruiva, como já lhe disse...
- Tem aborrecimentos com ela?
- Não, não, de forma alguma, apenas...
Sofer sentiu-se ridículo, como se estivesse a confessar imediatamente, a este quase desconhecido, que se encontrava obcecado por uma mulher. Riu-se, com certa brutalidade, e acrescentou:
- Pergunto-me se ela não poderá tornar-se uma personagem da minha história.
A resposta de Agarounov chegou-lhe, perplexa:
- Não tem mais indicações? O nome?
Sofer grunhiu, afectando uma falsa indiferença, para anular o embaraço que sentia na voz de Agarounov.
- Não, não é nada. Só uma ideia... Explicar-lha-ei quando o vir...
Quando desligou, pensou que se estava a comportar como um miúdo. A gentileza de Agarounov tornava-o volúvel. Certamente, também o facto deste homem, tão longe dele, cuja voz nem sequer conhecia há algumas semanas, ser o único laço real que o ligava aos acontecimentos imprevisíveis que o rodeavam. O próprio Agarounov era um estranho personagem, tão caloroso quanto misterioso. Que aspecto teria?
E qual seria o aspecto de Baku?
Agora sentia o cansaço pesar-lhe nos ombros. Hesitou em reatar o trabalho. Pensou em tomar um duche, mas contentou-se em estender-se, encostando-se às almofadas amontoadas. Ouviu os primeiros ruídos do despertar do hotel.
De olhos fechados, tentou reflectir no que poderia significar o "Renascimento Khazar". Quem se dissimulava atrás deste nome? Que queriam os seus membros? Porquê destruir instalações petrolíferas?
O facto de esbarrar contra tantos mistérios, sem poder decifrá-los, levou-o a evocar mais uma vez a ruiva desconhecida. Na verdade, os mistérios pareciam sobrepor-se!
A menos que desse provas de um pouco de bom senso e se contentasse com a realidade.
Uma mulher colocara algumas perguntas durante uma conferência. Como era bela e porque, pela maior das casualidades, estas tinham despertado interrogações que o atormentavam há algum tempo, agora estava a elaborar toda uma história. Contudo, após o fim da conferência - até um pouco antes - essa beldade desconhecida regressara calmamente a casa, sem sequer se voltar, encantada por ter embaraçado o velho escritor rabugento. Deve ter chamado todas as amigas para lhes contar a cena. A esta hora, devia estar a dormir nos braços de um amante ou de um marido. Dentro de duas horas, prepararia o pequeno-almoço dos filhos com enlevo materno, antes de ir para o trabalho, lendo talvez um romance de John Irving ou de um autor qualquer, repleto de devaneios!
Sim, a realidade devia ser essa!
Sentindo o sono chegar, sorriu de todas estas elucubrações. Antes de adormecer, teve ainda tempo para se aperceber que, na realidade, se esquecera do rosto da desconhecida. Com as pálpebras já fechadas, apenas via o rosto de Attex, da Kathum Attex, plena de juventude, de impaciência, e de algo indizível que talvez fosse a encarnação de um fragmento do divino.
JÁ PASSAVA DO MEIO-DIA QUANDO DESPERTOU. Levou alguns Segundos a compreender que o telefone tocava. Uma voz amável perguntou-lhe se desejava permanecer mais uma noite. Respondeu que não sabia. Primeiro tinha de obter um bilhete de avião para Baku. A voz amável disse-lhe que podia encarregar-se do assunto, se não se importasse de lhe ligar dali a uma hora.
- Talvez depois de uma sólida refeição, não?
Sofer aceitou tudo o que lhe propunham e agradeceu efusivamente. Só acordou verdadeiramente quando se encontrou no duche. Depois, ao barbear-se, descobriu com infinito prazer que o seu rosto mudara, parecendo mais novo e vivo. Tinha um olhar mais incisivo. Menos olheiras. Mais firmeza na boca. No conjunto, via um rosto longo, de traços finos, desembaraçados da sua lassidão. Reconhecia esse rosto desperto: era o dos tempos da escrita!
Nada a ver com a face de cera do velho Khagan moribundo, e ainda menos com a face decrépita do rabi Hanania. Santo Deus, ainda tinha tempo para envelhecer dessa maneira!
Barbeado de novo, uma mulher podia agora acariciar-lhe as faces do rosto com certo prazer. Attex, por exemplo. Ainda não imaginara as suas mãos. Mãos de princesa, de pele muito branca, sem ter sofrido com o lume da cozinha ou a lavagem da roupa. Dedos mais longos do que as palmas.
Infelizmente, ele não era Isaac. Isaac, o sortudo!
Com uma mão cheia de creme de barbear e a outra segurando a lâmina, Sofer suspendeu o seu gesto e sorriu à sua própria imagem, reflectida no espelho.
Claro, evidentemente: ele era Isaac!
Sarkel Junho
- Passa-se alguma coisa! E não é nada de bom - resmungou Saul.
De pé, na parte elevada da barcaça, com a mão protegendo os olhos do sol matinal, perscrutava ansiosamente o rio, a jusante, e os pequenos bosques de choupos que trepavam pela colina onde tinham acabado de surgir centenas de cavaleiros. Estes avançavam de frente, desenhando uma linha perfeita, como uma cintura encerrando ambas as margens do rio.
- Isto não é nada bom! Nada bom! - gemeu novamente Saul. Os cavaleiros continuavam a aproximar-se. Logo a seguir,
Isaac avistou os arcos a tiracolo, as cotas de malha brilhando sobre as túnicas bordadas, as espadas encurvadas presas aos largos cinturões, os capacetes de couro com pontas de aço ou de prata... Na altura em que começou a distinguir os bigodes, uma voz vinda do comboio de embarcações gritou em russo:
- Os khazares! Os khazares!
Saul e Simão voltaram-se para Isaac. Ouviram-se mais gritos proferidos pelos mercadores, todos eles gritos de medo.
- Os khazares! Mas, porque param as embarcações? - perguntou Saul, sem que ninguém lhe pudesse responder.
Chegados à distância de um arremesso de flecha, os guerreiros khazares imobilizaram os cavalos. Alguns pousaram os arcos no cabresto das montadas. A trintena de pesadas barcaças já perto do cascalho da margem do Varshan encontrava-se agora apertada numa tenaz.
- Porque nos tratam como se fôssemos petchenegues! - irritou-se novamente Saul.
O alto homem do Norte que os acolhera no seu barco ouviu a pergunta. Com o ar de alguém a quem mais nada surpreende, resmungou:
- Sabe-se lá! Os khazares são assim! Aqui, são eles que mandam. Fazem o que lhes apetece. Um dia podemos acostar em Sarkel, no outro dia não. É assim. E não vale a pena barafustar...
Apontou para a linha de cavaleiros e acrescentou:
- Não vos aconselho a aproximarem-se. As suas flechas acertam no alvo a cem côvados de distância com a facilidade com que vocês apagam um morrão entre dois dedos!
Mimou o gesto, revolvendo os olhos.
- Durante quanto tempo nos podem impedir de avançar? - perguntou Isaac.
- Quem sabe? Um, dois ou três dias... Dez, se quiserem! Encolheu os ombros e deixando de se ocupar dos guerreiros
khazares, agora imóveis como estátuas, o barqueiro atarefou-se sob uma espécie de tenda instalada na popa do barco.
- Ora! - suspirou Simão. - Que importa? Não há pressa. Enquanto permanecermos no barco, não arriscamos nada.
- Excepto assar ao sol, espécie de burro! - explodiu Saul. - Parece-me que te esqueceste dos teus delírios! Não dizias que seríamos recebidos com frutos, vinho, danças e lágrimas de alegria?! Olha para os teus khazares! Chamas judeus a esses brutos com cabeças de bárbaros, turcos ou sei lá quem?
O sorriso de Simão imobilizou-se. Procurou o olhar de Isaac, na esperança de um auxílio. Mas este voltou friamente a cabeça.
Qualquer dos companheiros o aborrecia. A partir de Kiev, o trajecto fora mais penoso e incerto do que temiam. A região estava infestada de petchenegues, que saqueavam planície após planície, obrigando os mercadores a deslocarem-se em longos comboios de mercadorias.
O carácter de Saul, pouco amável por natureza, tornara-se cada vez mais inquieto e soturno, talvez por se ir apercebendo das dificuldades que encontraria para trazer de volta mercadorias valiosas da Germânia. Passeava o seu corpo esquisito, de rosto amplo e estômago vazio, como se esperasse ser vítima de um sortilégio a qualquer momento, e não havia dia em que não o ouvissem lamuriar-se.
Ao invés, Simão dava provas da sua pouca instrução e fragilidade espiritual. A seu ver, a missão tornara-se tão sagrada que não podia falhar. Assegurava que o Eterno, abençoado seja o Seu nome, desejava firmemente que encontrassem o Khagan e que este lhes apareceria certamente como filho de David. Deste modo, tornar-se-iam os novos profetas! Repetia insistentemente as maravilhas que os mercadores contavam sobre o reino judeu da Khazária: a sua riqueza, o esplendor das suas residências, o trono de ouro do soberano, a sua fortaleza branca, a sua ciência e sabedoria, a sua coragem no combate. Em todas as coisas desejava ver a prova da forma extraordinária como o Todo-Poderoso protegia a terra, o povo khazar e, inclusivamente, a irmã do Khagan José, que, segundo se dizia, era a mais bela mulher que os olhos de um homem jamais poderiam contemplar. Como se tudo isto não bastasse, assegurava que as estrelas se deslocariam numa próxima noite, dançando numa sarabanda, como último sinal do Fim dos Milagres!
Excedido pelo mau feitio de um e pela fé grosseira e fantasmagórica do outro, Isaac já só era impaciência. E eis que nesta manhã, quando se encontravam apenas a meia jornada de barco de Sarkel-a-Branca, os primeiros khazares com que deparavam eram temíveis guerreiros que lhes proibiam aproximarem-se da fortaleza!
Permaneceram todos desunidos e infelizes durante um longo momento. Qualquer deles procurava acalmar-se, não ousando afastar-se da margem do rio onde mergulhavam por vezes uma mão para se refrescarem.
As primeiras horas da manhã passaram no meio de uma pesada espera. Quando o calor começou a fazer vibrar o ar e a queimar os lábios, barqueiros e mercadores acocoraram-se à sombra dos barcos, como galinhas, de traseiro na água. Quanto aos cavaleiros khazares, continuavam tão imóveis quanto os seus cavalos. As suas cotas de malha cintilavam à luz do sol mas, devido à sua imobilidade, mais pareciam de pedra.
As embarcações estavam encostadas umas às outras, com as proas no areal, algumas carregadas com peles de raposa até as precintas. Soltavam uma pestilência tal que até os pássaros se enjoavam. A maioria transportava escravos capturados nos países nórdicos ou vendidos pelos russos. Esgotados e tratados como vil gado, mulheres, crianças, homens, velhos e jovens, todos sofriam horrivelmente com o sol. As correias de couro que os ligavam magoavam-lhes a carne, retalhando-a como lâminas. Por vezes, um deles gemia e desfalecia. Nessa altura, um mercador aspergia-os com água fria lançada de grandes tinas, como fazia para os cestos de abóboras, maçãs ou pepinos.
Quando o sol atingiu o zénite, uma meia dúzia de homens, aparentemente inebriados com cerveja de centeio, deslizou pelas águas do Varshan, a fim de se refrescar. Riam em voz alta, gritando e atirando-se água. Um deles afastou-se um pouco mais da beira-rio, com fortes braçadas. A corrente surpreendeu-o em menos tempo do que seria preciso para dizê-lo. O seu pesado corpo voltou-se como um pedaço de palha levado por um turbilhão. Desapareceu, ressurgindo cinco ou seis côvados a jusante. Viram-lhe a cabeça e um braço por entre montes de espuma. Isaac adivinhou que berrava de medo, mas o ruído do rio era tão violento que não era possível ouvi-lo.
Os seus companheiros saíram apressadamente da água, gritando por sua vez, agarrando nos remos e nas cordas para o socorrer. Precipitaram-se ao seu encontro. Foi então que Isaac viu quatro ou cinco cavaleiros abandonar a linha formada pelos guerreiros.
Trotando, aproximaram-se do rio. Os seus arcos ergueram-se ao mesmo tempo. Silenciosas, majestosas, as flechas descreveram um arco perfeito até ao homem que se afogava. Todas se cravaram nele ao mesmo tempo. O homem afundou-se num ápice, tragado para sempre pelas vagas lodosas.
- Que o Todo-Poderoso me perdoe! - murmurou Simão, lívido.
Desta vez Saul calou-se. Não era preciso falar.
Os barqueiros e mercadores que corriam à beira-mar imobilizaram-se imediatamente. Nenhum ousou dar mais um passo. Os cavaleiros khazares voltaram-se para eles, esticando os arcos. As pontas mortais das flechas brilharam à luz do sol. Os homens do Norte berraram, agitando os braços, caindo de joelhos e mostrando todos os sinais de submissão. No entanto, as flechas partiram, tombando mesmo diante deles, formando uma espécie de grelha perfeita. De uma ponta à outra do comboio de embarcações, nenhum dos escravos, barqueiros ou mercadores, ousou abrir a boca.
O estrondo do rio cobriu o vale inteiro.
Então, um cavaleiro com um longo manto encarnado, a cabeleira entrançada até aos rins, lançou o seu cavalo baio num curto galope até ao grupo, sempre ajoelhado. Chegado perto deles, voltou graciosamente a montada, com a cabeça protegida por um capuz de prata rebatido. Desembainhando a espada, fez silvar a lâmina enquanto gritava algumas palavras.
Isaac apenas captou uma espécie de pios e de sons violentos, transportados pela brisa. Mas os mercadores e os barqueiros puseram-se de pé e desataram a correr para as embarcações, enquanto o guerreiro khazar voltava, sem qualquer pressa, para junto da fila dos arqueiros.
Pouco depois, a notícia percorreu o comboio como fumo levado pelo vento: o Khagan dos khazares falecera. Não era permitido a nenhum estrangeiro aproximar-se de Sarkel-a-Branca durante cinco dias, sob pena de morte.
Só algumas horas antes do crepúsculo é que o mal-entendido foi inteiramente esclarecido. Depois de questionar incansavelmente os que compreendiam um pouco de russo, Isaac voltou para junto dos companheiros, rindo-se.
- Somos uns idiotas! Não foi o rei José que morreu! Foi o seu avô, o Khagan Benjamim!
Simão chorou de alegria, sob o olhar indiferente de Saul. Isaac levou-os para um canto e explicou-lhes qual a sua intenção. Ia abandonar o comboio à noite. Aproveitar-se-ia da escuridão para escapar à vigilância dos cavaleiros khazares e alcançar Sarkel de madrugada.
- Se não te perderes nos bosques, ou se não fores comido pelos animais selvagens que os habitam - insurgiu-se imediatamente Saul. - A menos que andes às voltas no meio da escuridão e acabes por cair nos braços dos cavaleiros!
- Sei orientar-me pelas estrelas - afirmou tranquilamente Isaac. - O meu pai ensinou-me quando era criança.
Com um gesto, Saul varreu a objecção:
- Para quê arriscares a vida e não esperares tranquilamente pela chegada do comboio à fortaleza?
- Prometi ao rabi Hazdaï que entregaria a sua carta ao rei José. Em mão própria. E é isso que farei.
- E então?
Isaac teve um gesto de enfado.
- Põe os miolos a trabalhar, Saul! Se o velho Khagan morreu em Sarkel e se nos proíbem de nos aproximarmos da cidade, isso significa certamente que o rei José se encontra na fortaleza! É uma ocasião inesperada! Evitar-nos-á ter de procurá-lo por todo o país, meses a fio! Lembra-te do que nos disseram os judeus de Kiev!
- Que o Khagan José é tão poderoso que permanece nos seus palácios e na sua tenda real durante todo o ano?! - interveio Simão.
- E, sobretudo, que os próprios khazares podem viver toda uma vida sem nunca lhe verem o rosto! - acrescentou Isaac. - Que ele só aparece aquando de grandes cerimónias ou durante as guerras...
- Se calhar, são apenas disparates - rabujou Saul. - Conversas de mercadores que se querem armar em importantes!
Isaac suspirou e apontou para os cavaleiros khazares que conservavam o seu perfeito alinhamento:
- Olha para eles, Saul. Lembra-te do homem que foi morto ainda há pouco! Vê do que é capaz o Khagan para manter a ordem por ocasião do enterro do avô! Nem isso te dá um vislumbre do seu poder?
- Mesmo assim!
- Nunca conseguiremos chegar perto dele apresentando-nos simplesmente à entrada da fortaleza! - afirmou Isaac, contendo mal a sua cólera.
O olhar duro de Saul permaneceu incrédulo. Via os barqueiros e os mercadores instalarem-se para a noite, acender fogueiras, formar círculos. Era como eles. A vida ensinara-lhe uma lei que lhe permitia viver muito tempo: um homem é mais forte em grupo do que sozinho.
- Aguardemos pela partida dos barcos e apresentar-nos-emos como embaixadores judeus que somos! O Khagan não nos recusará uma audiência. Aliás, se chegares à fortaleza, que farás? Não conheces a sua língua!
- Falarei em hebreu! Isso revelará logo de onde venho. A mão de Simão apertou calorosamente o pulso de Saul.
- Saul, meu irmão! Não percebes que o luto do Khagan é uma oportunidade incrível que o Eterno nos concede para ver o rei José e lhe entregar a carta?
- Pára com esses teus disparates, Simão! - enervou-se Saul. - Será que nunca irás compreender de uma vez por todas que o Todo-Poderoso, abençoado seja o Seu nome, tem mais que fazer do que passar o tempo a seguir os teus actos e gestos? A oportunidade única dada a Isaac, espécie de asno, é a de ver uma flecha espetar-se-lhe na barriga!
Simão abanou a cabeça, indiferente aos insultos.
- Enganas-te. O Todo-Poderoso continua a ajudar-nos. Mas tu tens a cabeça cheia de chumbo!
Isaac interrompeu a disputa. Era inútil, a sua decisão estava formada e tinha de se preparar.
A partir de Kiev, vestira o traje típico dos homens da região: uma espécie de calças compridas que lhe desciam até abaixo do joelho e uma túnica de algodão bordada com fios de lã colorida, com um cordão de linho à volta da cintura. Sandálias de cânhamo serviam-lhe de calçado. Escondeu o estojo de cabedal com a carta sob a túnica e colocou a adaga de Toledo no cordão da cintura, enchendo um cantil de pele de cabra com a água do rio.
Quando a escuridão foi assaz densa, deslizou até à amurada de um barco que o escondia da vista dos cavaleiros khazares. Os seus companheiros juntaram-se-lhe.
- Deixa-me acompanhar-te - implorou-lhe Simão.
- É melhor que não venhas... Nunca se sabe; Saul pode ter razão. Fica com ele, pois sei que se me acontecer alguma desgraça também farás tudo para saudar o rei José no meu lugar. Tens uma cópia da carta; dar-lha-ás...
O olhar de Simão metia dó. Isaac abraçou-o:
- Cuida do meu alaúde. Tudo correrá bem.
De expressão sombria, Simão abraçou-o, sem pronunciar palavra.
Isaac abreviou as despedidas. Presentemente, a escuridão impedia-os até de enxergar a luminosidade das pedras da margem. Embrenhou-se nela, silencioso como uma doninha. De corpo curvado, durante um longo minuto correu ao longo do rio, rumo ao norte. Não se passou nada. Nenhuma flecha assobiou. Não houve gritos, nem galopadas. Ninguém o perseguia.
NÃO mentira a Saul. Há muito que sabia orientar-se pelas estrelas.
Prosseguiu rio acima, acompanhando os seus meandros sem hesitar. A noite estava bem cerrada pois, nesta época do ano, a lua só se levantava pouco antes do amanhecer. Quanto mais avançava, mais os seus olhos se habituavam à escuridão.
Deixou de tropeçar nos pequenos montículos da margem. Quando descobriu, finalmente, um caminho que partia à sua esquerda através da erva curta da estepe, deitou-se, com os pés dirigidos para a parte superior do rio.
A terra ainda estava quente e cheirava a poeira. A beleza do céu fê-lo contudo estremecer. No firmamento, o imenso trajecto da Via Láctea reunia os horizontes. O rasto de luz era tão nítido que se podiam contar as estrelas. Isso teria levado certamente mais de uma vida inteira!
Precisamente na vertical, na parte da Via Láctea que se fechava como a parte superior de um saco, identificou Deneb e a constelação do Cisne.
Era como se ouvisse a lição do pai: "Isaac, lembra-te desta regra. Quando Deneb ocupa o centro do céu por cima da Estrela Polar, é porque te encontras no primeiro mês do Verão. Nessa altura, as extremidades da Via Láctea indicam o Nordeste e o Sudoeste. A Estrela Polar continua a Norte. Deste modo, a linha que forma com Deneb indica-te o Sul com tanta precisão quanto o caule de um junco. Aliás, não te podes enganar, filho: no Verão há sempre menos estrelas a Sul do que a Norte!"
Era isso que Isaac via bem neste preciso momento. Por baixo de Deneb, viam-se quanto muito cinco pontos brilhantes da constelação do Golfinho e o emaranhado de Aquário com Capricórnio.
Isaac pensou afectuosamente no seu pai, que Deus lhe guardasse a memória.
Quando voltou a levantar-se, descobriu uma estrela muito brilhante aflorando um horizonte tão baixo que parecia possível tocá-la com um dedo. Não a conhecia. Sem compreender de onde lhe vinha esta certeza, soube imediatamente que lhe indicava o caminho com precisão.
Deste modo, caminhou até ao nascer do dia, como que atraído por um íman. A frescura da noite deu-lhe um novo vigor. Passo a passo, com os olhos fixos na estrela brilhante, sentiu-se conduzido por um caminho milagroso, seguro de não se perder. Às vezes tinha de contornar um bosque. A certa altura teve de arrepiar caminho quando a corda das sandálias se enviscou no lodo de um pântano.
Quando se aprontava a cortar pela cova de uma estepe, adivinhou a presença de tendas aglutinadas à volta de brasas já quase apagadas. Esperou que nenhum animal cheirasse a sua passagem e efectuou um grande desvio.
Contrariamente aos receios de Saul, não deparou com nenhum animal selvagem. Por vezes captava o silvo de uma serpente na erva seca ou o voo silencioso de uma ave de rapina. Nada que o pudesse amedrontar.
Pensou mais de cem vezes no que iria dizer ao Khagan. Apertando, através da túnica, o rolo de couro que continha a carta preciosa, pensou no rabi Hazdaï e rezou para que ele ainda estivesse vivo. Como lastimava não lhe poder gritar, através dos ares, que estava finalmente a chegar ao termo da sua missão!
Alcançou a extremidade de um planalto, muito antes do aparecimento dos primeiros alvores da madrugada. Sem se ter apercebido, trepara uma pequena encosta e, subitamente, encontrava-se sobre um barranco. Ouviu novamente o marulhar do Varshan. No entanto, o mais importante era a luz de uma vintena de tochas ardendo a quatrocentos ou quinhentos côvados de distância, como se flutuassem nas trevas.
Graças à sua luminosidade, avistou o reflexo dos tijolos.
A fortaleza!
Parou imediatamente.
Na mesma altura, desapareceu a estrela tão brilhante que o guiara, como se tivesse terminado a sua tarefa.
Isaac teve vontade de rir, de soltar gritos de alegria para agradecer ao Todo-Poderoso. Ainda lhe restava um pouco de sensatez e contentou-se em murmurar uma prece.
Estendeu-se. Só então se apercebeu do seu cansaço. Prometeu a si mesmo continuar de olhos fixos nas tochas até à alvorada, mas adormeceu imediatamente, sem se aperceber.
Foi acordado pelo som de uma trompa.
O sol brilhava. Pensou que ainda sonhava. Num promontório parcialmente cercado pelo rio, erguia-se a fortaleza, imaculada. As suas muralhas ameadas eram tão altas que nenhuma escada, por mais alta que a imaginasse, parecia poder atingir os seus cumes. Sobrepujando os caminhos da ronda, quatro torres permitiam vigiar o horizonte dezenas de léguas em redor. Contrariamente às fortalezas que vira até então, esta era inteiramente fabricada em pedra e tijolo. Não avistava nenhuma torre de vigia, nem nenhuma passagem em madeira. Apenas via tijolos brancos! Não discernia qualquer via de circulação. A porta da fortaleza devia situar-se no outro lado, na direcção do rio e da cidade de tendas que se estendia ao longo das margens.
Ver a fortaleza diante dele foi tanto uma fonte de exaltação como de prostração.
Apesar de toda a segurança que mostrara diante dos companheiros, apercebia-se agora da dificuldade que teria para chegar até ao Khagan José!
Como entrar na fortaleza? Como dar a entender a importância da sua missão? A quem? A um guarda que apenas se preocuparia em afastá-lo, ou talvez ainda pior. Saul tinha razão: o facto de não falar a língua dos khazares ia dificultar-lhe consideravelmente a missão. Desobedecera à proibição, destinada aos estrangeiros, de se aproximarem. Mesmo que fosse o emissário do rabi Hazdaï, certamente que se arriscava mais a aterrar numa enxovia do que diante do trono real!
Distinguiu um grupo de guerreiros que passavam atrás das elevadas ameias. Pressentindo que era demasiado visível no alto do planalto, dissimulou-se um pouco estupidamente atrás de um arbusto. Indiferentes e seguros, os soldados khazares nem sequer se dignaram lançar um olhar pelo campo circundante. Soltando gargalhadas cujo eco chegou a Isaac, subiram uma escadaria estreita que conduzia a uma torre e desapareceram.
Isaac sentiu-se ridículo e furioso consigo próprio. Foi nessa altura que o relincho de um cavalo o sobressaltou.
Deu um pulo, soltando um grito de medo.
Dez passos atrás dele, sentado num meio-sangue pardacento, viu um miúdo de uns doze anos, segurando um arco. Os seus longos cabelos de reflexos acobreados caíam-lhe pelas largas maçãs do rosto. Por entre as pálpebras alongadas, os seus olhos azul-acinzentados fixavam-no. A sua túnica parecia de seda, de um amarelo dourado, ricamente bordada no pescoço. Trazia ao peito uma corrente de prata, com uma grande medalha que se assemelhava a uma moeda.
Não denotava qualquer receio ou agressividade. Pelo contrário, irradiava uma calma e uma graça que impressionaram Isaac.
Após uma breve hesitação, durante a qual nenhum deles esboçou o menor gesto, Isaac inclinou-se numa saudação respeitosa, como teria feito perante um adulto.
O rapaz esporeou o cavalo e fê-lo avançar alguns passos. Pronunciou uma frase ininteligível. Isaac reconheceu os sons do idioma khazar. Sorriu-lhe e com um gesto da mão deu a entender que não o entendia. O rapaz franziu o sobrolho e repetiu o que devia ser uma pergunta.
- Não te compreendo - disse Isaac em hebreu. - Sou um viajante, venho de muito longe, da região onde o sol se põe.
A surpresa espalhou-se pelos traços graciosos do rapaz. Isaac viu que ele fazia um esforço. Finalmente, com um sotaque estrangeiro, semelhante ao rolar de um calhau, o moço revelou o seu espanto:
- Falas a língua do rabi e do livro do Eterno!? És um rabi? Profundamente aliviado, cheio de alegria, Isaac soltou uma grande gargalhada. Abanando a cabeça, avançou na direcção do rapaz:
- Não! Não! Não sou um rabi - explicou, destacando bem as palavras. - Sou um judeu de Sefardi, para Oeste. E, como tu, também leio a Tora, o livro do rabi!
- És um judeu como os judeus do Livro? - perguntou ainda o rapaz, com os olhos brilhando de curiosidade, como se não tivesse bem a certeza de que tudo aquilo fosse real.
- Sim, se quiseres - admitiu Isaac - Chamo-me Isaac Ben Eliezer. E tu?
- Hezekiah!
O rapaz pronunciou o seu nome na língua khazar, de tal modo que Isaac teve de lhe pedir que o repetisse várias vezes antes de compreender.
- Que fazes aqui? - prosseguiu o moço, novamente desconfiado. - Hoje, os estrangeiros não têm direito a aproximarem-se da fortaleza. O meu pai vai entregar o corpo do seu avô, o Khagan Benjamim, ao Todo-Poderoso...
- O teu pai? - exclamou Isaac. - O teu pai?
- O meu pai é o Khagan José - anunciou orgulhosamente Hezekiah. - O meu pai é o Khagan dos khazares. E tu não devias estar aí...
Isaac ajoelhara-se. Balouçando o corpo, agradecia ao Eterno pela Sua mansidão. Tendo reencontrado todo o seu aprumo, Hezekiah fez avançar a montada. Retirou uma flecha da aljava da sela e, com a ponta de metal, picou o pescoço de Isaac.
- Se quiser, furo-te a garganta - proferiu, com a arrogância de um jovem guerreiro. - Tenho o direito. Mesmo o meu pai e o rabi felicitar-me-iam...
E como Isaac erguia o rosto, apontou para a fortaleza e acrescentou:
- Também posso gritar e os guardas ouvir-me-ão. Virão buscar-te...
Isaac anuiu com calma. Levantou-se e, apoiando-se no pescoço do cavalo, pegou delicadamente na mão do jovem cavaleiro.
- Hezekiah! Sou um viajante vindo de muito longe. Há quase um ano que caminho e atravesso uma quantidade de países, rios e florestas para encontrar o teu pai, o Khagan José. Não me devem matar antes de me poder inclinar diante dele.
- Porque desejas encontrar o meu pai? Que tens a dizer-lhe de tão importante?
Isaac retirou o rolo de couro de sob a túnica.
- Aqui dentro está uma carta do grande rabi de Sefardi, o rabi Hazdaï! Ele é muito respeitado nas terras a Oeste. Escreveu ao teu pai porque o respeita e o admira...
- Um grande rabi? - interrompeu o rapaz, para quem esta palavra parecia ter uma virtude mágica.
- Sim! O maior e o mais sábio dos rabis de todos os judeus! - exagerou Isaac, rogando ao Todo-Poderoso que o desculpasse.
- Maior ainda que Hanania, o nosso grande rabi?
- Talvez não - admitiu diplomaticamente Isaac. - Mas tão sábio quanto ele... É muito importante, Hezekiah. Prometi entregar esta carta em mão própria ao teu pai, o Khagan.
Hezekiah abanou a cabeça, com um trejeito:
- Se te dirigires à porta da fortaleza, não te deixarão entrar. Isaac viu então o desenho em relevo na medalha de prata que o rapaz trazia: um candelabro de sete braços.
- Hezekiah - murmurou. - Ajuda-me.
O rapaz franziu o sobrolho. Voltou a colocar a flecha na aljava e puxou a rédea do seu potro. Antes que Isaac o pudesse reter, lançou-se num curto galope, mesmo ao lado do barranco. Temendo alertar os guardas, Isaac não ousou gritar para o chamar. Para seu desespero, viu o rapaz afastar-se. Subitamente este parou o meio-sangue. Voltou-se e regressou a trote.
- Monta atrás de mim - ordenou-lhe. - Se mentes, o Bei Borouh far-te-á degolar.
Com o coração em brasa, Isaac saltou para a garupa do cavalo.
- Que idade tens, Hezekiah?
- Farei treze anos no próximo ano. Nessa altura receberei um verdadeiro cavalo de batalha e uma espada igual à do meu pai. E eu também poderei tornar-me Khagan!
NÃO DEMORARAM NADA a chegar à porta da fortaleza.
Quanto mais avançavam, mais as muralhas deslumbravam Isaac. Ao ver a fila de guardas armados de lanças, arcos e espadas, que impediam a entrada em Sarkel-a-Branca, teve de confessar a si mesmo que tinha medo. A porta mal permitia a passagem de uma carroça e mal chegava à altura de três homens. O seu fecho de madeira, todo trabalhado em ferro forjado, era mantido na vertical por cadeias que se perdiam na espessura da muralha. Deviam bastar alguns segundos para deixá-lo cair.
Logo que os viram aproximar, os guardas baixaram as lanças. No entanto, Hezekiah não abrandou o andamento do cavalo. Gritou algumas palavras. Um jovem guerreiro de cabelos entrançados apontou para Isaac. Sem mostrar a menor inquietação, Hezekiah gritou de novo, chicoteando o pescoço do seu meio-sangue com a extremidade da rédea.
Isaac apercebeu-se da surpresa e da hesitação dos guardas. Porém, havia tanta autoridade no comportamento do jovem príncipe que eles recuaram, erguendo subitamente as lanças. Uma passagem abriu-se diante deles, tão estreita que Isaac sentiu as suas sandálias roçarem-lhes pelos peitos!
Uma vez transposta a fileira dos guardas, não ousou voltar-se, temendo ouvir assobiar uma flecha nas costas e apertou um pouco mais a cintura de Hezekiah. Apenas se registou um grande silêncio. Seguiram a sombra da muralha. Os cascos do cavalo soaram nas pedras. Uma espécie de estreita ruela serpenteava por entre as vertiginosas muralhas. Hezekiah manejava o cavalo com mão hábil.
O coração de Isaac batia desalmadamente. Parecia-lhe entrar no lugar mais santo que pudesse encontrar na Terra.
O interior da fortaleza era de uma frescura inesperada. Uma trompa soou por cima das suas cabeças, no caminho da ronda. Isaac descobriu os rostos com capacetes e os arcos retesados de uma dezena de guerreiros. Compreendeu que avançavam num labirinto de defesas, de onde lhes era fácil abater um intruso.
Diante deles, surgiu um pórtico de pedra, de arco perfeito.
Hezekiah abrandou o andamento ao cavalo e atravessou-o quase a passo, entrando numa estreita praça, muito comprida.
Encostados às muralhas, viam-se pequenos edifícios, arrecadações, armarias, e uma forja com a fornalha ainda incandescente. Sob alpendres de junco, encontravam-se alguns cavalos e uns tantos homens acocorados. Alguns levantaram-se quando Hezekiah impeliu bruscamente o cavalo. Em poucos passos de galope, e semeando a estupefacção, alcançaram a extremidade da praça.
Aí, havia uma nova porta de botaréus, mais imponente e com pilares esculpidos, dando para a parte norte da fortaleza. Ouviram-se novamente gritos e alguns guerreiros precipitaram-se para o cavalo, agitando os braços.
O animal empinou. Hezekiah ergueu-se nos seus estribos de madeira. Isaac sentiu que deslizava pela garupa. Temendo arrastar o rapaz na queda, largou-o e caiu de traseiro no chão. Amedrontado, o meio-sangue começou a escoicear com as patas dianteiras. Isaac rodopiou sobre si próprio para evitar ser espezinhado. Uma bota imobilizou-o, esmagando-lhe o ombro. Tentou libertar-se, agarrando na perna que o retinha. Recebeu um golpe violento nos rins, fechou os olhos sob o choque, enquanto um novo golpe o atordoava, desta vez na cabeça. Imóvel, abriu as pálpebras. Tinha a ponta de uma espada pressionando-lhe a testa, com tanta dureza que lhe retalhava a carne. Sentiu o calor do seu próprio sangue correr-lhe pelos cabelos.
Sem hesitar, o khazar apertou-lhe o pescoço com a sola da bota, estrangulando-o.
Enxergando apenas a cota de malha do guerreiro e o céu azul, ouviu a voz furiosa de Hezekiah, berrando ainda palavras incompreensíveis. Outra voz, esta grave, replicou-lhe com cólera.
O cavalo relinchou e enquanto lhe deviam apertar as rédeas, os seus cascos bateram no solo pavimentado com tanta força que Isaac sentiu a repercussão nas costas. Os gritos de Hezekiah agudizaram-se e, pela primeira vez, Isaac ouviu este nome:
- Attex! Attex!
Uma voz respondeu, imperiosa, mas tão feminina quanto um véu de seda.
Seguiu-se um silêncio, um período de indecisão. Sentiu afrouxar a pressão da espada na testa. Aproveitou o ensejo, sem calcular quanto se arriscava, e com ambas as mãos agarrou na bota do guarda que ainda lhe pesava na garganta. Levantou-a com toda a força, torcendo-a ao mesmo tempo. Apanhado de surpresa, o khazar saltitou antes de perder o equilíbrio. Com o sangue escorrendo-lhe ao longo do rosto, Isaac conseguiu soerguer-se, até ficar de joelhos. Num gesto de reflexo, deslizou a mão pela túnica e retirou o estojo de couro, enquanto desembainhava a adaga de Toledo com a outra, apontando-a diante de si, para reter os guardas que se preparavam para atacá-lo. Gritou:
- Shalom! Shalom!
Só então se apercebeu do que havia à sua volta. A praça em que se encontrava tinha aproximadamente cinquenta côvados de largura. Encostados às muralhas, viam-se edifícios extraordinários, casas com frontões em trapézio, esculpidos com candelabros de sete braços e sustidos por colunas de mármore branco com pilastras de ouro.
De espada na mão, rosto meio tapado por capacetes arredondados com as pontas ornadas por uma pena azul e branca, os guerreiros khazares apontavam-lhe lanças e espadas. E, entre eles, apertando Hezekiah contra o peito, estava uma mulher.
Uma mulher como ele nunca vira no universo criado pelo Todo-Poderoso.
Os seus olhos ligeiramente rasgados e as salientes maçãs do rosto davam-lhe um ar quase oriental. A sua cabeleira de reflexos cobreados caía-lhe até às ancas, envolvendo um rosto de pele tão clara que mais parecia transparente. Os seus lábios, de traços bem delineados, estavam realçados de vermelho. Trazia uma longa túnica verde e um colar de ouro ao pescoço.
O olhar que lhe dirigia subjugou Isaac. Esquecendo-se das armas que lhe apontavam e do estilete que empunhava, levantou-se e estendeu o rolo para ela, dizendo-lhe em hebreu:
- Por favor, ajude-me! O rei José tem de ler esta carta.
Hezekiah ergueu o rosto para a jovem.
Isaac ajoelhou-se:
- Por favor, o próprio Eterno está a ver-nos!
Foi nessa altura que um pequeno guerreiro, com ombros de touro, bigode tão comprido que as suas pontas lhe desciam abaixo do queixo, deu uma ordem breve. Isaac apenas teve tempo para lançar o rolo de couro aos pés da mulher e de Hezekiah antes de um khazar lhe assestar um golpe no ombro, com o corpo da lâmina. Isaac rolou para trás, sem largar a arma. Pulou, cheio de fúria, perante tanta insensatez, pensando em todo o caminho que percorrera para chegar ali. Quis correr na direcção da jovem mulher, cuja boca parecia sorrir e cujos olhos brilhavam como estrelas. Berrou:
- Não pode deixar que me matem! Fui enviado pelo rabi Hazdai!
Por entre o próprio som das suas palavras ouviu o sopro da massa de armas lançada com toda a força. Quis baixar-se, mas foi a escuridão que subiu ao seu encontro.
Londres-Baku, voo BA 786 Maio, 2000
Como era seu hábito, Sofer escolhera um lugar sentado perto da janela. Sem hesitar, o homem instalou-se a seu lado, no Boeing 727 da British Airways.
Sofer reparara nele um pouco antes, na sala de embarque. Não era o tipo de indivíduo que passasse despercebido. Alto, com poucos cabelos, faces imberbes, trazia um fato de linho cru com o corte característico de Savile Row e uma gravata de seda de cor creme, com finas riscas índigo. Em cada anelar, brilhava um anel largo e achatado. O seu nariz espesso, bem como uma estranha ausência de sobrancelhas faziam-no parecer-se a um animal selvagem, à espreita. Sem pestanejar, erguia os olhos, de um azul frio, das páginas cor de salmão do Financial Times, para olhar para os viajantes com uma ponta de soberba.
Graças a uma intuição obscura, Sofer teve a certeza que o homem ia acabar por lhe dirigir a palavra. Quanto a ele, não tinha qualquer intenção de conversar com um desconhecido e não sentia a menor necessidade de falar para fazer passar o tempo.
Durante a descolagem, aproveitou o facto de estar sentado junto da janela para fixar ostensivamente a pista de aterragem.
Apreciava muito este momento das viagens de avião, quando o aparelho se afastava dos edifícios, dos pontos habituais de referência, para principiar o processo de voo. Era um momento de liberdade excitante, a altura em que uma pessoa se sentia em "nenhures" ou, pelo menos, não se sentia ainda "num dado lugar". Com um pouco de imaginação era possível acreditar estar numa bolha de tempo suspensa, onde todos os caminhos pareciam ainda possíveis, onde um fraco erro informático, uma má indicação, um grão de loucura, em vez de nos dirigir para Baku, podia enviar-nos para Makhatchkala ou Los Angeles, Samarcanda ou Paramaribo...
No entanto, ao ver desaparecer os edifícios desprovidos de charme do aeroporto de Heathrow, desta vez experimentava um grande desejo de chegar depressa ao seu destino. Não queria que o acaso lhe pregasse qualquer partida e esperava encontrar Agarounov à chegada. Num sinal de impaciência, como se quisesse esconjurar não se sabe que azar, avançou os ponteiros do relógio para colocá-los à hora do mar dos khazares.
Logo que o avião alcançou a sua velocidade de cruzeiro, abriu a obra de D. M. Dunlop, The History ofthe Jewish Khazars. Este estudo datava dos anos cinquenta, mas continuava a ser uma obra única no seu género1. Dunlop parecia ser o único historiador a ter tentado compreender seriamente a estranha conversão dos khazares ao judaísmo.
Já se encontrava profundamente embrenhado na leitura quando uma hospedeira lhe propôs a bandeja com a refeição. Mal aquiesceu, o desconhecido a seu lado aproveitou a oportunidade para lhe dirigir um sorriso conivente. A hospedeira estendeu a bandeja - frango com arroz e molho, salada de cenoura, iogurte, um bolo de confecção industrial, louça delicada em plástico. No entanto, os copos e os talheres eram de vidro e metal.
O homem segurou amavelmente a bandeja, enquanto Sofer arrumava o livro.
- Leve todo o seu tempo - disse-lhe, num inglês perfeito.
Sofer agradeceu-lhe, sabendo perfeitamente que doravante não iria escapar à tagarelice da boa vizinhança. Esta começou após o desconhecido ter recebido o que encomendara, uma "verdadeira" garrafa de côtes-de-blaye, um vinho de Bordéus, um pouco menos banal que o quarto de litro de vinho australiano oferecido pela British Airways.
(1) 'D. M. Dunlop - History of Jewish Khazars, Princeton, 1954. (N. do T.)
Quando o homem levou a garrafa à altura dos olhos, apontou para o copo de Sofer e declarou:
- Por favor, dar-me-ia muito gosto se o aceitasse. O seu frango muito britânico não padecerá...
Sofer aceitou. Era difícil resistir a tantos esforços de convívio.
- Vai a Baku em viagem de negócios?
A pergunta brotou quando esboçavam uma saudação mútua. Fora colocada num tom de pura delicadeza, uma entrada obrigatória na matéria, sem nenhuma curiosidade especial. No entanto, Sofer não conseguiu evitar senti-la como o primeiro passo de um interrogatório. Mostrou um sorriso irónico e respondeu:
- Nem uma coisa, nem outra...
O inglês suspendeu o seu copo, momentaneamente desestabilizado.
- Nem a negócios, nem para fazer turismo... - explicou Sofer.
O homem riu-se. Um riso franco, apesar do seu olhar distante.
- Nesse caso, só vejo outro motivo - disse, num tom de sonso. - O amor!
Foi a vez de Sofer se sentir desconcertado. Durante alguns segundos, perscrutou o rosto do desconhecido como se estas palavras possuíssem um significado particular. Até lhe aflorou a ideia que ele sabia qualquer coisa a respeito da mulher ruiva. Finalmente, apercebeu-se do absurdo dos seus próprios pensamentos e também riu.
- Quem sabe? - exclamou. - Quem sabe o que descobrirá o viajante no final do seu percurso?
O homem sorriu educadamente:
- Infelizmente, hoje as surpresas fazem-se raras...
Sofer anuiu e ia aproveitar esta banalidade para pôr termo à conversa quando, apontando para o livro arrumado na traseira do assento dianteiro, o homem lhe perguntou:
- Desculpe-me importuná-lo mais um bocado, mas não estava a ler uma obra sobre os khazares?
Desta vez Sofer não conseguiu dissimular a surpresa.
- Estava... O senhor é historiador? Conhece a história dos khazares?
O inglês abanou a cabeça, vagamente divertido.
- Nem uma coisa, nem outra. Não sei nada sobre os khazares, antes pelo contrário...
Pousou o copo, e retirou do bolso um cartão de visita milagrosamente preparado, estendendo-o.
- Seria melhor apresentar-me.
O cartão continha apenas um nome: Alastair Thomson. Mais abaixo indicava: Lloyds International. Não havia qualquer morada, nem sequer um número de telefone.
Sofer hesitou uma fracção de segundo, antes de estender a mão:
- Marc Sofer - apresentou-se simplesmente.
O aperto de mão de Thomson era firme e cortês. Agitou as folhas cor de salmão do Financial Times.
- Leia isto - disse, apontando para um curto artigo. - Irá perceber.
O artigo evocava o atentado contra as instalações da O.C.O.O. na baía de Baku. Era quase idêntico ao do Guardian, com duas notáveis excepções. Em primeiro lugar, avaliava o prejuízo sofrido pelo consórcio em vários milhões de dólares. Mas, sobretudo, mencionava o "Renascimento Khazar"... Por entre várias reivindicações fantasistas, os investigadores parecem considerar com certa seriedade a do Renascimento Khazar, se bem que até hoje seja impossível dizer com precisão, pelo menos oficialmente, o que dissimula esta estranha apelação...
- Não parece surpreendido - observou Thomson, picando a salada. - Já estava ao corrente?
Sem saber o que o impelia, talvez apenas o fastio perante a curiosidade do inglês, Sofer mentiu, antes de corrigir ligeiramente:
- Não! Enfim, sim... Um amigo de Baku falou-me sobre o atentado. De acordo com o Guardian, julguei não haver qualquer reivindicação séria.
Thomson olhou-o, como se esperasse que ele prosseguisse. Finalmente, verteu um pouco de vinho nos copos. Na verdade, Sofer parecia agora tão curioso sobre Alastair Thomson quanto este parecia curioso sobre ele.
- Efectivamente, não se sabe nada de certo - admitiu Thomson.
- Este atentado diz-lhe profissionalmente respeito? - inquiriu Sofer, lançando um olhar ao cartão de visita colocado em cima da bandeja da refeição.
Alastair Thomson sorriu com uma ponta de vaidade e acrescentou:
- A Lloyd's assegura 38% da exploração da Offshore Caspian Oil Operating. Viu o montante dos prejuízos. Entre três a quatro milhões de dólares. É certamente excessivo. No entanto, até um prejuízo de dois milhões de dólares já representa uma linda soma!
- O senhor não será porventura um desses bisbilhoteiros de romance policial, um desses detectives das companhias de seguros, que procuram saber a quem beneficia o crime?
- Bem, pode exprimi-lo dessa maneira - aprovou Thomson, com a maior seriedade.
Esvaziaram os copos em silêncio. A hospedeira aproveitou para se preocupar gentilmente com o conforto dos dois passageiros. Sofer aceitou o toalhete perfumado que lhe ofereciam para limpar os dedos e assim que ela se dirigiu para os assentos seguintes, perguntou:
- Na sua opinião, qual é a finalidade do atentado?
- Se me pudesse dizer, senhor Sofer, oferecer-lhe-ia imediatamente uma ponte em ouro!
O tom de voz de Thomson era tão trocista quanto crítico. Sofer sentiu-se estranhamente atingido. Era evidente que o inglês adorava fazer pairar subentendidos. Com certa agressividade, observou:
- Quando um grupo reivindica um atentado, geralmente explica o motivo.
Thomson anuiu. Em vez de responder, perguntou:
- Não se importa de me falar um pouco sobre os khazares? Refiro-me aos antigos, aos verdadeiros. Ignorava a sua existência até ontem de manhã. Informaram-me rapidamente, muito por alto, apenas os tópicos gerais. Visto que o acaso o colocou a meu lado...
Então era isso! - pensou Sofer. Na sala de embarque, o inglês devia ter reparado na capa do livro que ele trazia. Depois, manobrara para se sentar a seu lado e meter conversa. Conteve-se para não lhe dizer que, no caso presente, o acaso lhe parecia algo manipulado. Contudo, na realidade, a ambiguidade da situação divertia-o.
- Originalmente, os khazares eram um povo nómada - principiou, como se se lançasse numa verdadeira conferência. - Durante muito tempo, compararam-nos aos turcos. Mas é bem mais provável que tenham vindo das estepes do Oriente...
Em traços largos, esboçou um quadro do que sabia: o desenvolvimento dos khazares, as guerras constantes com os vizinhos, as alianças mil vezes denunciadas e reatadas, o poder crescente, a originalidade da cultura e a estranha e tolerante política religiosa... Perfeitamente atento, o inglês anotava alguns apontamentos. Só interrompeu Sofer uma vez:
- Resumindo, o grande tema dos khazares é a sua conversão ao judaísmo, não é verdade?
- Essa é efectivamente a marca que deixaram na História - concordou Sofer. - Pelo que sei, não existe outro exemplo histórico de tal escolha. Sobretudo da parte de um Estado que, mesmo que contasse com judeus no seio da sua população, globalmente esta não era constituída por descendentes de Moisés. Originalmente não havia nada de judeu nos khazares: nem memória, nem cultura, nem língua! Quando o rei Bulã efectuou esta escolha, até é provável que ignorasse tudo do judaísmo! Nestas circunstâncias, acho extraordinário que os Khagan tenham conservado o seu poder e a integridade do reino durante três séculos, preservando ao mesmo tempo uma perfeita tolerância para com os muçulmanos e os cristãos...
- Mas, nesse caso, porque escolheram o judaísmo? - insistiu Thomson.
Sofer sorriu. Antes de responder, esperou que a hospedeira retirasse as duas bandejas com os restos da refeição em que ambos mal haviam tocado.
- Vou dar-lhe uma resposta de romancista e não de historiador. Para mim, um dia o rei Bulã compreendeu que um povo rico é aquele que deixa de vagabundear com a mudança de estações. Sob o seu reinado, os khazares começaram a conhecer a riqueza e a força que a acompanha. O seu reino encontrava-se precisamente na encruzilhada das rotas comerciais. As do Oriente e as do Ocidente, de Leste a Oeste. As de Bizâncio, a Sul, com um Norte rico em mão-de-obra e escravos...
"Um povo rico constrói cidades, ergue casas de tijolo e restaura as suas tendas. Edifica um Estado, com leis e instituições, pois o comércio prospera na estabilidade e na paz. O comércio obriga também a efectuar trocas com outros povos ricos e poderosos, capazes de comprar e vender. Deste modo, os khazares tinham de se tornar, a um tempo, um povo sedentário, estável, poderoso e capaz de escolher cuidadosamente as suas alianças. Senão, desapareciam. O Khagan Bulã compreendeu isso tudo. Mas também entendeu uma verdade suplementar: as alianças que deviam firmar para viver em paz poder-se-iam revelar tão mortais quanto uma guerra. Três forças pesavam nas fronteiras do seu reino: os bárbaros, essencialmente a norte; os árabes muçulmanos a sudeste, dos quais os khazares estavam protegidos pelas montanhas do Cáucaso e, por fim, o todo-poderoso império cristão de Bizâncio.
"Bula compreendeu que acabara o tempo da errância, dos xamãs, dos amuletos. A barbárie tinha de se apagar... Mas diante de quê? Em princípio, diante de uma dessas religiões monoteístas que protegem os povos mais ricos. Existem duas perto das suas fronteiras. Primeiro, a dos cristãos de Bizâncio, donos do mundo nessa época. São eles que reinam, quer no comércio, quer na guerra. Contudo, Bulã viu os gregos actuar. Sabe que, se abraçar a sua religião, Bizâncio asfixiá-lo-á! Podia então inclinar-se pela fé muçulmana, que vai conquistando gradualmente o mundo árabe. Mas o resultado teria sido o mesmo. Tanto mais que, se é verdade que os khazares combateram frequentemente os senhores de Bagdade e da Pérsia1, também o é que se entendiam muito bem com os muçulmanos no seu próprio território, pois estes são excelentes comerciantes..."
Thomson inclinou a cabeça com um fino sorriso.
- Estou a ver! O seu rei decide escolher a única religião que não esteja representada por um Estado poderoso nas suas fronteiras!
(1) Segundo fontes islâmicas, a primeira guerra árabe-khazar eclodiu em 642, no Cáucaso. Numa batalha perto de Balandjar, em 653, o estratega árabe foi morto e os combates foram suspensos. De acordo com as notas do escriba, Massudi, a capital, que até então era Balandjar, começou por ser deslocada para Samandar e, depois, para Itil (ou Atil). A segunda guerra árabe-khazar começou em 772, ou um pouco antes, e terminou em 773, com a derrota dos khazares. (N. do T.)
- Exactamente!
- Muito astucioso. Geopolítica de alto gabarito, de certa maneira.
- Mas, infelizmente, impossível de manter a longo prazo. O reino khazar deve ter enriquecido demasiado para que fosse possível evitar por muito tempo o confronto com Bizâncio. Não obstante, ao escolher a fé judaica, Bulã obteve uma trégua de alguns séculos. Não é pouco...
Sofer hesitou em prosseguir. Na sua opinião, por muito política que fosse, uma escolha destas nada retirava ao seu valor espiritual. No entanto, duvidava que isso interessasse Thomson. Movido por um reflexo, levou a mão ao bolso para retirar a moeda de Yakubov, como se quisesse que o inglês se inteirasse por ele próprio da realidade e da força dos khazares.
- Pegue - disse, estendendo-a a Thomson. - Observe-a. Thomson pegou na moeda.
- Fabricavam a sua própria moeda - explicou Sofer com entusiasmo, enquanto o inglês voltava prudentemente o disco de prata. - Um saber tão raro nessa época, que também o faziam para outros Estados, particularmente para os bárbaros do Norte.
- Como a obteve? - perguntou Thomson.
Sofer sentiu uma certa crispação no seu vizinho. Subitamente, foi como se duas peças de um puzzle tivessem encaixado uma na outra. Ele ainda não estabelecera explicitamente o laço entre o estranho Yakubov e o atentado de Baku. Numa fracção de segundo, reviu o sorriso de ouro de Yakubov enquanto este lhe estendia a moeda para o convencer a ajudá-lo, afirmando-lhe que era perseguido, que corria perigo... Depois, voltou a vê-lo já no Plaza Athénée, tendo solucionado todos os seus problemas como por milagre, voando para a América com um fato Cerruti! A história do judeu das montanhas interessaria certamente Thomson.
No entanto, fosse por prudência, desconfiança, ou para satisfazer um curioso sentimento de solidariedade para com os judeus das montanhas, sobre os quais ainda ignorava tudo, preferiu calar-se.
- Foi uma prenda de um judeu que se interessava pelos khazares e que efectuava, por assim dizer, algumas buscas - sofismou.
Recuperando a moeda, acrescentou com um sorriso:
- Embora seja um procedimento pouco judio, esta moeda serve-me de talismã para o meu trabalho.
O olhar de Thomson tornou-se subitamente vago. Então, fez a pergunta que Sofer já esperava há algum tempo:
- A propósito, ainda não lhe perguntei qual era o seu "trabalho"...
- Escrevo romances de todo o tipo, escrevo e faço humor sobre o estado do mundo!
- Ah! É romancista?
Vexado, Sofer achou que ele não ficara nada surpreendido. Mais parecia condescendente. Devia ser daquelas pessoas que só abrem um romance quando estão na cama de um hospital e não lhes resta outra solução a não ser perder o tempo! Mas o inglês reclamava novamente a sua atenção:
- Senhor Sofer, sabe que a actual situação política do Cáucaso não difere muito da dos khazares?
- Que quer dizer?
- Substitua o comércio das especiarias, da seda e dos escravos pelo do petróleo, e obterá a mesma situação. Substitua Bizâncio pelos soviéticos, até há pouco tempo, ou por nós, ocidentais... O mar dos khazares, senhor Sofer, é o mar do ouro negro! Sim, nem imagina a que ponto a situação é comparável!
Thomson calou-se, com um sorriso de satisfação nos lábios. A hospedeira propôs-lhes café, e ele manteve o silêncio enquanto lhes serviam um líquido escuro, vagamente aromatizado; em seguida, perguntou bruscamente:
- Que sabe sobre o petróleo?
- Quase nada. Nem sequer o que representa o volume de um barril!
- 0,14 toneladas. Para lhe dar uma escala de grandeza, saiba que a produção quotidiana de mil barris representa uma produção anual de cinquenta mil toneladas!
Sorveu com satisfação o sucedâneo de café e prosseguiu:
- Até aos últimos anos, calculava-se que as reservas contidas nas bolsas petrolíferas do subsolo do mar Cáspio representariam 3,5 biliões de toneladas. Um número considerável, sem mais.
Comparativamente, a maior reserva mundial conhecida - a de Ghawar, na Arábia Saudita - representa por si só uma bolsa de 10 biliões de toneladas! Ora, senhor Sofer, as prospecções empreendidas à volta do mar Cáspio, depois da queda do comunismo, revelaram a existência de reservas muito mais importantes do que se imaginava.
Pousou a chávena de plástico como se se tratasse da mais fina porcelana e cruzou o seu olhar desprovido de emoção com o de Sofer:
- Um só campo petrolífero a norte do mar Cáspio contém 7 biliões de toneladas. Mais vale dizer que isso triplica as reservas da região! Hoje em dia Baku exporta quotidianamente uma centena de barris de bruto. Daqui a dez anos, em 2010, serão dois milhões...
- Por dia?
- Claro, dois milhões de barris por dia! Senão, deixará de ter gasolina para o seu carro! Ora, repare que contrariamente ao que se julga, a dificuldade no comércio do petróleo não é a extracção do bruto, mas o seu transporte. Na maioria dos casos, é preciso levá-lo até muito longe do poço, de forma contínua e quotidiana. É uma tarefa pesada e poluidora. O transporte por navios cisterna é uma servidão que já não corresponde às necessidades da nossa época. A solução mais económica, limpa e segura, é o oleoduto. Um enorme conduto capaz de encaminhar milhões de toneladas de petróleo, dia e noite, numa extensão de vários milhares de quilómetros... Ora, essa é precisamente a questão: esses milhares de quilómetros atravessam diferentes países.
Sofer começava a perceber onde o inglês queria chegar. Com um gesto da mão, este esboçou no ar o relevo da cadeia do Cáucaso:
- A Geórgia, a Tchetchénia, o Daguestão, o Azerbaijão... Do mar Negro ao mar Cáspio, estes países tornaram-se tão vitais para o Ocidente quanto o Médio-Oriente. O petróleo desta região envolve todas as potências mundiais: a Europa, os Estados Unidos, a China, os russos... Todas as companhias petrolíferas estão actualmente presentes em Baku. Os anglo-americanos: BP, Exxon, State Oil, British Gas, Mobil, Shell, Chevron, e por aí adiante... Os franceses da Total-Fina e da Elf. E, claro, os russos da Gazprom!
Sofer aprovou com a cabeça:
- Repetiu-se frequentemente que o petróleo era a razão principal da guerra no Daguestão e na Tchetchénia. Se não me engano, existe um oleoduto, construído na época do Império soviético, que atravessa ambos os países.
- Exacto. Depois do desabamento do Império comunista, todos os países do Cáucaso procuraram jogar a carta da independência. O Azerbaijão e a Geórgia conseguiram-no por metade, dado que a pressão internacional era assaz forte para reter os russos. Mas para o Kremlin e os seus "homens de negócios", estava fora de questão deixar o Daguestão e a Tchetchénia aproveitarem também o maná petrolífero que atravessa as suas regiões. Enquanto passar uma gota de petróleo por Grozny, a Tchetchénia sentirá a bota russa... E tanto a Europa como os Estados Unidos desinteressar-se-ão do conflito, pois o petróleo que lhes chega actualmente da região do mar Cáspio contorna esse trajecto. Desde 1999, há um oleoduto que liga directamente Baku ao mar Negro, através da Geórgia. A partir daí, ele pode chegar sem dificuldade a Hamburgo ou a Dunquerque...
O inglês exibiu um esgar de triunfo.
- Encantador - resmungou Sofer. Thomson encolheu os ombros.
- Os russos perderam a jogada devido à sua derrocada e à força de brincarem aos mafiosos. Perderam o controlo do petróleo do mar Cáspio. Hoje, nessa região, esse papel cabe a nós, ocidentais, os mais ricos, os melhor organizados e, portanto, os mais fortes! Por muitos bons anos! Já não nos poderão expulsar de lá. A antiga Bizâncio perdeu a sua galinha dos ovos de ouro, viva a nova Bizâncio! Claro está, que tudo isto enfurece os russos. A Tchetchénia paga o preço dessa cólera, mas quem se importa? Nem sequer os seus amigos franceses dos Médicos sem Fronteiras, senhor Sofer!
Thomson riu devagarinho. O seu cinismo siderava Sofer. Não ignorava que o inglês se contentava em tecer comentários sobre uma certa política e os imperativos económicos, que outros preferiam proferir em surdina. De certo modo, este discurso nada tinha de novo. A não ser o enjoo.
Desagradava-lhe deixar o inglês supor que ele pudesse ser um auditor cúmplice e até admirativo do seu discurso sobre aquelas "grandes manobras". Estendeu ostensivamente a mão para agarrar no livro, mostrando claramente que desejava interromper a conversa.
Porém, Thomson inclinou-se para ele. Cheirava a água-de-colónia de luxo e exalava um vago odor a vinho. Os seus olhos brilhavam, divertidos. Um gato brincando com o rato - pensou Sofer.
- Sei no que está a pensar, senhor Sofer. E tem certamente razão. No entanto, eu faço apenas o meu trabalho, que consiste em compreender uma situação e desenredar os fios para que ela possa tornar-se diferente... Não só diferente, mas melhor. E, acredite ou não, melhor para toda a gente.
- Estará a procurar justificar-se, senhor Thomson? - perguntou Sofer, divertido. - Que lhe importa o que penso? Quando se é servidor de Bizâncio, a opinião dos doutos não conta para nada!
O escárnio atingiu Thomson em cheio. Sofer viu com satisfação que o olhar do inglês se encolerizava. Mas o inspector da Lloyd's era um verdadeiro britânico. Mordeu os lábios e, bruscamente, desatou a rir.
- Em cheio! Bravo... Desculpe-me se lhe pareci arrogante nas minhas explicações.
Magnânimo, Sofer ergueu a mão em sinal de paz.
- Para voltar ao ponto de partida da nossa conversa, de certo modo esperávamos ver a mão dos tchetchenos neste atentado contra as instalações de Baku - prosseguiu o inglês. - Parece que nos enganámos.
- Tem a certeza?
- Neste género de acontecimento é difícil ter a certeza do que quer que seja.
- Não vejo qual a relação com os khazares. Já desapareceram há quase mil anos! Receio que a geopolítica petrolífera seja um dado muito recente para eles.
Thompson reencontrara toda a sua segurança. Apontou para as
páginas cor de salmão do Financial Times e, num trejeito trocista, declarou:
- Quem sabe? Aqueles que se dissimulam atrás deste "Renascimento Khazar" não escolheram certamente esta designação sem motivo.
- E então? - perguntou Sofer, sentindo o coração bater-lhe mais depressa.
- E então, nada... - suspirou Thomson, com falsa modéstia. - Ainda é demasiado cedo para compreender. Mas não posso excluir qualquer hipótese.
Já levara a mão ao bolso do casaco, para retirar um novo cartão onde apontou alguns números.
- Aqui está o número do meu telemóvel, para onde pode ligar enquanto permanecer em Baku. Terei sempre o maior prazer em conversar consigo. Nunca se sabe; talvez venha a saber qualquer coisa, poderá ocorrer-lhe uma ideia...
- Duvido - resmungou Sofer, pegando no cartão sem qualquer pressa.
Nessa altura Thomson falou gravemente, num tom que já não era de aviso, mas de conselho:
- Senhor Sofer, ninguém está interessado em ver estes atentados degenerarem...
- Estes? Que eu saiba, só houve um...
- Acredite-me que haverá outros. Um único atentado nunca faz sentido. Os seus executantes têm sempre de cometer outros. Nem que seja para mostrar como estão determinados. É sempre assim. E é esse o motivo da minha presença neste avião.
Exibia de novo o seu sorriso de homem poderoso. Um sorriso que gelou ao acrescentar:
- Ensinou-me uma coisa sobre os khazares: eles eram judeus. E essa a particularidade da sua história, não é verdade? É também por esse motivo que decidiu escrever um romance sobre eles. Os khazares eram, pois, judeus. Daí, senhor Sofer, concluo que aqueles que se dissimulam atrás deste pseudo-movimento também o devem ser. Digo-lhe isto sem qualquer intenção de o chocar ou de ser ofensivo. Digo-o apenas para que reflicta no assunto...
Uma descarga de adrenalina comprimiu os rins de Sofer, sinal de medos muito ancestrais que regressavam à superfície. Anuiu e desviou a cara, não querendo que o inglês adivinhasse a sua emoção.
Na realidade, já receara ter de ouvir este comentário desde há algum tempo. Era uma observação que fizera a si mesmo quando Agarounov evocara pela primeira vez o "Renascimento Khazar". Até agora, evitara tirar a menor conclusão.
Thomson tinha razão. Podia tratar-se de um movimento judeu. Mas que judeus, e porquê?
E que podia fazer ele, Sofer, quando se dirigia até às margens do mar Cáspio para melhor imaginar os seus heróis, desaparecidos há séculos?
Através da janela, para lá do reflexo metálico do mar Negro, surgiram os cumes cheios de neve do Cáucaso. A cadeia formada pelas montanhas era enorme. Em dois dos maciços mais impressionantes, os cumes mais elevados erguiam-se para o céu como monstros intransponíveis, chegando quase à altura da linha de voo do avião. A norte, vagamente enevoadas pelas nuvens baixas, estendiam-se as planícies verdes e cinzentas do que fora o reino dos khazares!
Sentiu um arrepio, talvez devido a conversa com Thomson. Ali mesmo em baixo, Isaac Ben Eliezer de Córdova e Attex tinham-se encontrado frente-a-frente, sentindo-se abalados pela presença um do outro, incapazes de encontrarem as palavras adequadas, a força para nomear o sentimento que já os aproximava!
Este encontro ocorrera há mil e quarenta e cinco anos mas, para Sofer, era como se fosse aqui e agora.
Sarkel Junho, 955
- ELE NÃO VAI MORRER...
A voz de Hezekiah hesitava entre o questionamento e a afirmação.
- Não - murmurou Attex. - Não vai morrer.
- Esmagaram-lhe a cabeça - inquietou-se novamente Hezekiah. - Perdeu muito sangue.
Attex via os dedos do rapaz acariciar as faces do estrangeiro e subirem até aos pedaços de tecido que lhe apertavam as têmporas. As madeixas louras estavam enegrecidas pelo sangue seco. Este inundara de tal maneira a túnica, que as servas a tinham retirado. Um simples cobertor tapava-lhe agora o corpo, de pele fina e pálida.
- Tem os cabelos louros como os homens do Norte, mas não se parece com eles - sussurrou Hezekiah. - É mais bonito, não achas?
Voltou-se em busca da confirmação. Attex aprovou com um sinal da cabeça. Nesse momento a boca de Isaac entreabriu-se, soltando um breve gemido.
Viram os olhos do estrangeiro rolarem sob as suas pálpebras fechadas. Os seus lábios tremiam de novo, tal como os dedos. Contudo, não acordava. A inquietação ensombrou a cara de Hezekiah. Attex pôs as mãos nos seus ombros.
- O rabi Hanania leu a carta que ele trazia. Diz tratar-se de uma carta muito importante e que agiste muito bem ao permitires que o estrangeiro viesse ao nosso encontro. O teu pai não te ralhará...
- Sei que agi bem - retorquiu orgulhosamente Hezekiah. - Assim que o vi, soube logo que dizia a verdade. Mas Senek é demasiado estúpido para entender uma coisa dessas e bateu-lhe como se ele fosse um petchenegue!
- Fez apenas o seu dever. De outra forma, Borouh ou o teu pai tê-lo-iam punido.
Hezekiah encolheu os ombros.
Attiana, que aguardava à entrada da sala, avançou até eles e resmungou com a sua voz rouca:
- O embaixador Blymmédès espera que o recebas. Está na grande sala. Os seus servos e servas encheram a corte com grande quantidade de prendas.
- Que espere! - replicou Attex. - Não me apetece receber as suas prendas.
- O Khagan ficará furioso.
- Não me importa o que José pensa! Não sou um móvel da sala do trono!
Attex enfrentou o olhar de Attiana. Apesar da sua cólera, sentiu que corava. Estava a proceder maí e sabia-o. Baixou os olhos para o rosto do desconhecido. Tanto para se assegurar que ele ainda estava inconsciente, como também para nada perder da sua beleza.
- Leva Hezekiah contigo - prosseguiu, em voz baixa. - Ele não deve ficar aqui. Vou velar pelo estrangeiro; parece que não vai tardar a acordar.
- Não é a ti que cabe velar por ele - admoestou-a Attiana. Attex empurrou Hezekiah para os braços da velha serva, como
se não a tivesse ouvido.
- Dirás ao grego - e a José, se ele te interrogar - que o rabi me pediu para realizar uma tarefa importante e que não o posso receber antes de amanhã.
A careta tornou o rosto deformado de Attiana mais feio que nunca. Ela abanou a cabeça, soltando um suspiro. Resmungando, deu meia-volta e levou o rapaz.
Antes de abandonar a sala, Hezekiah olhou ainda para o estrangeiro inconsciente. Os seus olhos sorriram ao cruzarem com os de Attex.
Finalmente sozinha, esta aproximou-se da janela. Attiana tinha razão: o pátio do seu palacete estava repleto de servos. Era sempre assim com os gregos. Não se podia fazer nada sem a quantidade e sem ostentar a maior riqueza.
Dizia-se que o embaixador de Bizâncio chegara de Tmurtorokan com uma coluna de mais de cinquenta camelos destinados a transportá-lo a ele, à sua comitiva e às imensas bagagens, sem as quais não podia passar um só dia. Dizia-se que a tenda que mandara instalar a jusante de Sarkel era tão vasta quanto o palácio do Khagan, carregada de mobília e dispondo até de uma tina para as abluções, grande como uma piscina!
Toda esta pompa repugnava-a! As prendas, a presença dos servos, as conversas de Blymmédès com o seu irmão, os olhares que o embaixador lhe dirigia, tudo, tudo o que viesse dos gregos enojava-a!
Sabia perfeitamente o significado desta opulência. Nos mercados de Sarkel, Itil ou Samandar, os homens também exibiam as suas riquezas para comprarem os mais belos rebanhos a baixo preço. Na realidade, o que o embaixador de Bizâncio estava ocupado a fazer, o que desejava o seu irmão, que ela tanto amava, acarinhava e admirava desde a infância, como se fosse o maior herói que pudesse existir ao cimo da Terra, era exactamente isso: vendê-la ao melhor preço. Metê-la na cama de um soldado grego, para assegurar a paz no reino dos khazares!
A menos que se tratasse de uma mentira, de mais uma astúcia e, nesse caso, talvez fosse vendida e profanada em vão...
Era isso que o Todo-Poderoso desejava?
Certamente que não! O rabi Hanania confirmara-lho mais de vinte vezes. Mas José já não lhe prestava atenção. Tal como não ouvira as palavras que o seu avô Benjamim proferira no leito de morte!
Por seu lado, ela jurara que nunca se submeteria a um grego! Jamais o aceitaria!
E hoje ainda menos que ontem!
Abandonou a janela para regressar para junto do leito do estrangeiro.
Não ousara revelar demasiada emoção diante do rapaz, mas Hezekiah tinha razão. Como ele era belo! A sua beleza não era comparável a nenhuma outra.
No entanto, não fora essa beleza que lhe chamara a atenção em primeiro lugar, quando ele se erguera no meio dos guardas, suplicante e fogoso, disposto a morrer para cumprir o seu dever. Por muito estranho que pudesse parecer, quando ele estivera ali, diante dela, mostrando o rolo de couro como se fosse uma Tora preciosa, ela tomara consciência da sua presença como se - à excepção do seu irmão José - estivesse a ver um homem pela primeira vez na vida!
Não. A verdade era ainda pior.
Antes que soubesse o que quer que fosse sobre ele, de onde vinha e porquê, compreendera logo que ele viera para ela.
Que o Eterno lhe perdoasse este pensamento, mas quando o viu libertar-se tão habilmente do guarda, ameaçar todos os outros com a sua pequena lâmina, sem revelar qualquer medo, o sangue escorrendo-lhe pela têmpora, e colocar a sua vida nas mãos dela, uma desconhecida, parecera-lhe que aquele homem magnífico era uma espécie de anjo enviado do outro extremo do mundo para a salvar...
Seria orgulho? Um pecado?
Tivera de tal modo de apelar a todas as suas forças para não tremer ou gritar, que fora completamente incapaz de erguer a mão ou de pronunciar qualquer palavra para reter o braço de Senek. Horrorizada, vira o chefe dos guardas aproximar-se das costas do estrangeiro, erguer a massa, e lançá-la com toda a força. Não dissera palavra, não proferira um queixume, nem um aviso. O estrangeiro desfalecera, sob os seus olhos, devido à sua estupefacção.
Contudo, nem um só momento receara por ele. Nem um só momento pensara que ele sucumbiria ao seu ferimento, de tal modo estava persuadida que o Todo-Poderoso, abençoado seja o Seu nome, o protegia...
Na verdade, não era assim que os destinos se realizavam?
Qualquer guerreiro khazar teria morrido do golpe que ele recebera. Mas ele ali estava, inconsciente, mas respirando. Do fundo do coração, com todo o fervor da sua alma, ela sabia que ele ia acordar e falar-lhe!
Teria enlouquecido?
O tumulto dos seus pensamentos, amedrontava-a e, ao mesmo tempo, enchia-a de alegria. Calava-os, sem ousar confiá-los a quem quer que fosse, nem sequer ao rabi, nem mesmo a Attiana.
Hezekiah talvez os tivesse adivinhado; às vezes, as crianças possuem o estranho poder de pressentir o invisível.
Sentou-se no leito de madeira onde o jovem repousava e pronunciou o nome que Hezekiah lhe dera: Isaac.
Era assim que o estrangeiro se chamava.
Perscrutou cada parcela do seu rosto, ligeiramente inclinado para o lado, com as faces encovadas pelo cansaço de uma longa viagem e sujas pelo sangue e pelo pó que as servas tinham limpo apressadamente. Sob o pó e a sujidade das feridas, havia uma carne e um sopro que reclamavam a sua carne e o seu sopro.
Pensou em chamar alguém para que lhe trouxessem água e em lavá-lo pessoalmente.
Se o fizesse, toda a fortaleza o saberia antes da noite e encher-se-ia de rumores. José seria posto ao corrente e a sua fúria decuplicaria. Mas porque teria de se submeter toda a vida aos sermões do irmão?
O pescoço do estrangeiro tinha algo de frágil e de terrivelmente atraente. A sua pele, esticada sob os ossos dos ombros, era tão fina quanto a de uma rapariga. O sangue batia nela, depressa. Demasiadamente, sem dúvida, para se recordar que, apesar de tudo, ele estava ferido e cheio de febre.
Ousou aflorar-lhe o pulso. Retirou vivamente a mão. Um violento tremor agitou Isaac, como se, a este débil contacto, um fluido pleno de vida o percorresse. Ele gemeu. Esticou o queixo, entreabriu a boca. Um sopro sufocante bombeou-lhe o peito.
Attex entrou em pânico, pensou o contrário do que pensara há momentos, isto é, que ele ia morrer agora, ali, num instante! Agarrou na mão de Isaac e apertou-a, sussurrando em voz baixa palavras khazares que ele não podia compreender.
Ele acalmou-se. Ela esperou que ele fosse finalmente abrir os olhos.
Mas não.
Então, depois de lançar um breve olhar para o tecido que cobria a porta, ela fez o gesto que contivera até então. Os seus dedos imitaram os de Hezekiah, aflorando a face ferida de Isaac. Deslizaram-lhe pelo queixo, percorreram-lhe o peito numa lente e suave carícia. Foi ela que estremeceu, o coração batendo-lhe com tanta força que sentia o seu pulsar até na garganta. Os seus dedos suaves subiram até à boca de Isaac Ben Eliezer e comprimiram-lhe os lábios como se lhe depositassem um beijo.
Ele abriu os olhos. Olhos cheios de febre que a perscrutaram como os de um homem que, ao chegar ao jardim do Éden, olham para a imensidade da felicidade que o rodeia.
De pé, ela murmurou em hebreu:
- Abençoado seja o Eterno, você está vivo.
Não tinha a certeza que ele a podia ouvir. Ele respirava tão depressa que o seu fôlego lhe fendeu a pele dos lábios. O seu olhar era tão intenso que ela julgou apanhar a própria febre que o consumia.
Ele fez uma careta horrível, mas ela compreendeu que ele sorria. Numa voz dolorida, ele sussurrou num hebreu cuidadosamente articulado:
- Chamo-me Isaac Ben Eliezer, e venho de Córdova. Fui enviado pelo rabi Hazdaï para entregar uma carta ao rei dos judeus, José, filho de Aaron, Khagan do reino dos khazares.
Disse isto tudo de uma assentada, como um moribundo prestes a expirar. Uma espuma branca colou-se-lhe à comissura dos lábios. Acrescentou:
- É bela como o anjo que visita os mortos.
Então ela riu. Uma pequena gargalhada cheia de mil alegrias vindas do fundo do peito.
- Não está morto e eu sou Attex, a irmã do Khagan José, rei dos khazares. Encontrámos a carta no rolo de couro.
Uma expressão de intenso alívio acalmou-lhe os traços do rosto. Durante um curto instante não disseram mais nada, não ouviram mais nada, apenas se atiraram.
Depois, Isaac desmaiou, com um sorriso nos lábios.
Attex chamou as servas. Durante todo o resto do dia deu ordens para que o tratassem. Mandou que o lavassem por inteiro com água quente e que lhe trouxessem roupas novas. A própria Attiana colocou os emplastros de erva e os unguentos na ferida.
Isaac recuperou a consciência a meio da tarde. Sofria de uma enxaqueca aguda, que o impedia de conservar muito tempo os olhos abertos. A fim de compensar o sangue que perdera abundantemente, trouxeram-lhe pão de centeio, carneiro assado, frutos, leite, pepinos embebidos em queijo fresco... Ele não tinha fome, mas o rosnar e a terrível figura de Attiana convenceram-no a ingurgitar um pouco de cada alimento. Para sua surpresa, achou-se melhor, sentindo até diminuir as dores de cabeça.
Até ao crepúsculo foi uma verdadeira roda-viva à sua volta. Através deste turbilhão, procurava constantemente o olhar de Attex. Em vão.
Ela parecia fugir do seu olhar, vigiando tudo, ocupando-se de tudo com uma autoridade ímpar, mas como que longínqua. Actuava como dona de casa, como princesa preocupada com o bem-estar de um estrangeiro. Nunca pousava os seus olhos de esmeralda em Isaac, nunca lhe acariciava o olhar como fizera na primeira vez que ele despertara. E como nunca lhe dirigiu a palavra, ele julgou ter sonhado. Sonho que se tornou um pesadelo de homem acordado. Sonho de uma terrível doçura, que lhe escapava na realidade.
A violenta dor nas têmporas assolou-o de novo. Um pouco antes da noite adormeceu, esgotado. Acordou bruscamente. Julgou ter dormido muito pouco. Contudo, duas lâmpadas de nafta iluminavam debilmente a sala e a escuridão da noite tapada a vista da janela.
Procurou Attex por entre as sombras. A silhueta que descobriu aos pés do seu leito sobressaltou-o. O homem era pequeno, muito velho. A escuridão acusava-lhe as rugas e enevoava-lhe o olhar. Trazia um turbante à moda muçulmana.
Apesar da sua náusea, Isaac ergueu-se ligeiramente com os cotovelos e murmurou:
- Sois o Khagan José?
O velho emitiu um risinho. Os seus dedos de unhas amarelecidas seguravam o rolo de couro de Córdova. Avançou um passo, deixando ver as suas pupilas risonhas:
- Não. Sou o rabi Hanania.
O seu hebreu era fácil de compreender, a sua voz acusava a idade mas era viva, um pouco seca, e revelava o hábito de se fazer ouvir. Isaac reconheceu-lhe o sotaque. Já o ouvira, em Córdova, pronunciado pelos homens vindos do Oriente. A emoção agitou-lhe o coração, as lágrimas subiram-lhe aos olhos. Atravessara países e países, montanhas, rios, passara por tempestades e tormentas, vencera os lobos e o gelo e, finalmente, num extremo do mundo criado pelo Todo-Poderoso, estava novamente em companhia de um rabi! Um rabi, que lhe perguntava:
- Sentes-te capaz de falar, meu rapaz?
- Sim...
Hanania agitou o rolo de couro diante do seu sorriso desdentado.
- A carta que trouxeste é uma bela carta. Mas coloca muitas perguntas. Compreenderás que desejo assegurar-me sobre o mensageiro que a transmitiu...
Isaac aprovou com um movimento de pálpebras.
- O rabi Hazdal preveniu-me que me interrogaria durante muito tempo...
- Muito tempo, não. Antes de entrares na fortaleza, sabias que estávamos de luto por um Khagan?
- Sabia. O Khagan Benjamim. Os cavaleiros pararam as nossas embarcações no rio...
- Desafiaste a interdição imposta aos estrangeiros de se aproximarem da fortaleza - disse o rabi, num tom repreensivo. - Portanto, sabias que arriscavas um mau golpe. E até a morte.
Isaac suspirou.
- Os maus golpes e a morte, enfrento-os todos os dias desde há um ano. Se o Eterno não quisesse que eu chegasse aqui, não Lhe teriam faltado oportunidades!
O velho rabi inclinou a cabeça. Encorajado, Isaac apontou para o rolo de couro:
- Prometi ao rabi Hazdai Ibn Shaprut que entregaria pessoalmente a carta ao rei José. Tinha de encontrar forma de me aproximar dele...
Hanania pousou uma mão no cobertor:
- Só mais uma pergunta. Conheces o seguinte?: Quando chega a hora de um homem abandonar a vida, Adão, o primeiro homem, comparece diante dele e pergunta-lhe porque vai deixar o mundo e em que condição. O homem responde-lhe: "A desgraça recaia sobre ti, pois é por tua causa que devo morrer!" Então, Adão diz-lhe: "Meu filho, só desobedeci a um mandamento, e fui punido por isso; vê quantos mandamentos do nosso Deus tu próprio transgrediste!"
Isaac estremeceu. Estas eram verdadeiras palavras de um rabi. Palavras que ele próprio ouvira da boca do rabi Hazdai aquando da morte do seu pai!
Se ainda havia lugar para qualquer dúvida, esta dissipou-se. Estava efectivamente no novo reino de Israel! Com a cabeça a arder, prosseguiu num murmúrio:
- O Rabi Hiyya diz: "Adão ainda hoje existe; apresenta-se duas vezes por dia diante dos patriarcas e confessa os seus pecados; mostra-lhes o lugar onde habitava outrora, no meio do esplendor celeste." O Rabi Yessa diz: "Adão apresenta-se diante de cada homem quando este vai deixar esta vida, afim de testemunhar que o homem não morre devido ao pecado de Adão, mas por causa dos seus próprios pecados, tal como disseram os sábios: 'Não há morto que não tenha pecado!'"
Hanania permaneceu silencioso. No seu rosto todo engelhado, as pupilas brilhavam tanto que pareciam reflectir a chama crepitante da lâmpada de óleo.
Finalmente, um estranho som atravessou-lhe a garganta. Isaac não soube se era um riso ou um soluço. Viu que os dedos do velho tremiam imenso quando este lhe colocou o rolo de couro no peito.
- Sim, poderás dá-lo em mão própria ao Khagan José logo que te recompuseres do teu ferimento - sussurrou, numa voz embargada pela emoção. - Dorme bem, meu rapaz.
Sem mais demoras, afastou-se do leito de Isaac e encaminhou-se para a porta.
- Rabi! Rabi! Não sabe onde está a princesa ruiva que me acolheu?
Hanania voltou-se e contemplou-o. Uma careta ou uma espécie de sorriso enrugou-lhe o rosto.
- Ela disse-me que era a irmã do Khagan!
- Dorme, Isaac Ben Eliezer. Descansa e não penses em Kathum Attex. Deixa que o Todo-Poderoso vele pelos teus pensamentos, como fez até agora.
O velho rabi saiu, sem deixar de sorrir. Não ia contar a este estrangeiro que a fortaleza se agitava desde há horas com o ruído deste escândalo que enfurecera de tal modo o Khagan que os muros do palácio ainda ressoavam com os seus gritos. Desde a chegada espectacular de Isaac, a Kathum Attex não só se recusara receber o embaixador do imperador Constantino, como anunciara ao seu irmão, sem mais rodeios, que se recusava a desposar o grego a quem estava prometida pela sua política! Abençoado seja o Eterno!
Baku, Azerbaijão Maio, 2000
O AVIÃO ATERROU EM BAKU SEM PROBLEMAS. A tarde chegava ao fim e as sombras já se alongavam. No subúrbio em redor do aeroporto ladeando o mar a norte da cidade, estagnava um vapor amarelado. O avião efectuou uma viragem muito curta para que Sofer pudesse abraçar o mar Cáspio num primeiro relance de olhos. A asa do Boeing inclinou-se sobre uma charneca de poeira, revelando aqui e além colinas e bosques de pinheiros, e a aterragem efectuou-se com grande suavidade.
Thomson inclinou-se para Sofer:
- Telefone-me. Mesmo que não tenha nada de especial para me dizer. Talvez obtenha informações que possam interessá-lo... para o seu romance!
Sofer esboçou um agradecimento cortês. Durante a última hora de voo tinham trocado apenas algumas frases. O inglês era suficientemente bem-educado para não insistir quando Sofer dava a entender não lhe apetecer prosseguir a conversa. E, sobretudo, sabia que as suas palavras tinham acertado em cheio no alvo, que o seu duplo sentido perturbava o escritor e que, de qualquer forma, as suas insinuações tinham resultado.
Levantou-se logo que o aparelho parou. Retirou uma pequena mala de cabedal do cofre das bagagens e sorriu para Sofer.
Este deixou-o ir à frente dos viajantes que desciam para a pista de aterragem, onde os esperava um autocarro. O calor apanhou-o de surpresa. Apesar de se estar ainda no mês de Maio, já deviam estar perto de trinta graus.
Sofer viajara nos países de Leste e na União Soviética antes da queda do comunismo. Familiarizara-se com aquele odor a ranço, mistura de óleo espesso e de fuel, que se infiltrava na garganta dos viajantes logo que estes se aproximavam de um aeroporto, o que o levara a dizer, num livro, que "o comunismo tem um odor"!
Por reflexo, esperava algo do género em Baku. No entanto, apenas sentiu a poeira húmida e um fedor a querosene, idêntico ao de todos os aeroportos ocidentais. E talvez, sobretudo, um cheiro a pintura fresca. O aeroporto de Baku era inteiramente novo, mal acabara de ser construído e já estava sobrepujado por duas enormes publicidades, uma para a Coca-Cola e a outra para a Ford. Thomson tinha razão: a antiga Bizâncio perdera a parada, a nova impunha as suas marcas.
Enquanto fazia esta reflexão, do alto da rampa, Sofer viu o detective da Lloyd's entrar num Mercedes de vidros opacos. O carro partiu asperamente, afastando-se a toda a velocidade na direcção oposta à do aeroporto. Era evidente que Alastair Thomson não se encontrava sujeito às formalidades habituais por que deviam passar os passageiros habituais.
Não era o caso de Sofer, que efectuou o seu trajecto num pequeno autocarro amarelo, colocando-se na fila de espera para a alfândega, no hall quase inteiramente deserto, de arquitectura ultra-moderna - solo em estuque, aço e alumínio polido, painéis electrónicos... No entanto, havia algo que não mudara desde o comunismo: as notas de dez dólares passadas discretamente de mão em mão, para facilitar a passagem das bagagens e evitar as buscas fastidiosas e inúteis!
Sofer viajava apenas com um saco. Desiludiu o agente da alfândega, que esperava o maná ritual, mas poupou na espera e nos conciliábulos. Como previsto, Mikhaiíl Yakovlevitch Agarounov, de fato claro de corte russo, camisa branca e gravata cinzenta, esperava-o do outro lado das guaritas de controlo. Sofer reconheceu-o imediatamente. Parecia-se com a figura que imaginara, agitando as suas mãos curtas e rechonchudas num gesto amigável, enquanto um imenso sorriso lhe iluminava o rosto.
A sua pequena estatura e as suas ancas tão largas quanto os ombros, conferiam-lhe uma silhueta tranquilizadora e familiar, como aquelas que as crianças desenham. Nos seus traços flutuava um sorriso aparentemente permanente. O rosto redondo, como que cortado ao meio por um poderoso nariz, correspondia à sua voz profunda e ao seu russo castiço, tão preciso que por vezes se tornava precioso.
Terminadas as efusões do acolhimento, Agarounov olhou tristemente para o pequeno saco de Sofer.
- É tudo? Não tem outras bagagens?
- É suficiente. Não se inquiete, trouxe os documentos comigo!
- Sim, mas uma bagagem tão pequena significa que não vai passar muito tempo connosco!
- Mas, não! - divertiu-se Sofer, sensibilizado pela sinceridade da observação. - Quer simplesmente dizer que de nada serve enchermo-nos de coisas, pois nunca sabemos quanto tempo durará a viagem.
Agarounov riu, apoderando-se do saco.
- Senhor Sofer, há um carro à nossa espera. Vou levá-lo ao seu hotel...
Sofer pousou amigavelmente a mão no braço de Agarounov:
- Trate-me por Marc e eu tratá-lo-ei por Mikhaïl, de acordo? Não vamos embaraçar-nos com...
Sofer calou-se brutalmente. Apesar do calor húmido, sentiu um suor frio cobrir-lhe o corpo. De rosto erguido para ele, Agarounov perguntou:
- Que há?... Algo não corre bem? Ali estava ela!
Na outra extremidade do imenso hall que descrevia uma curva, a uma trintena de metros dele.
Semelhante a uma chama que dançasse, num vestido púrpura tão brilhante como os seus cabelos, ela atravessava o hall na direcção das portas envidraçadas. Ele teria reconhecido o seu modo de andar entre mil, pois fora assim que a vira afastar-se na sala de conferências, um mês atrás. Efectivamente, era o mesmo passo fluido, a mesma graça enérgica e sensual, como se a sua passagem fendesse a espessura invisível do ar.
Apenas lhe via o perfil, de longe, mas reconhecia-a.
Ela juntou-se a um grupo de homens de negócios asiáticos de fato sombrio, que abandonava o hall. Antes de os seguir, voltou-se, e olhou na sua direcção. Era ela. O seu rosto. Sem dúvida alguma. O rosto que ele utilizara para descrever Attex!
Meu Deus, estava a divagar! Como era possível?
Sem sequer reflectir, desatou a correr quando a porta envidraçada se fechava atrás dela.
- Para onde vai? - inquiriu Agarounov.
Sofer precipitou-se para a superfície envidraçada mais próxima, mas esta apenas se abria do exterior. Correu ao longo da superfície transparente. No exterior, a sua desconhecida atravessava o passeio repleto de viajantes e passava por entre as filas de táxis. Finalmente abriu-se uma porta, mas uma família irrompeu hall adentro. Sofer atrapalhou-se no meio das crianças excitadas e dos carrinhos carregados de malas. Agarounov apanhara-o e perguntava-lhe, com voz tensa:
- Marc! Senhor Sofer, que se passa? Marc...
Como Sofer corria para o passeio, Agarounov gritou-lhe qualquer coisa a propósito do carro. Três polícias em uniforme sombrio, boné achatado e kalashnikov a tiracolo, pararam imediatamente. Agarounov dirigiu-lhes um sorriso tranquilizador, que deslizou até um Mercedes branco e inclinou a cabeça.
A mulher chegara ao outro extremo do passeio. Sofer viu-a desaparecer atrás de um todo-o-terreno japonês, que se pôs logo em andamento. Ergueu o braço, prestes a gritar, mas conteve-se. O Nissan afastava-se a toda a velocidade e alcançava a via circular que ligava a saída do aeroporto à auto-estrada.
Sem ter bem a certeza - aliás, também não tinha a certeza de nada quanto ao resto - quase jurava que, no último momento, a mulher ruiva lhe sorrira através do vidro traseiro do carro.
- Não sou louco! - rabujou, furioso. - Não sou louco! Era ela!
Apercebeu-se da presença inquieta de Agarounov a seu lado. Voltou-se. Atrás dele estava um jovem forte, com uma cabeça tão redonda como uma bola de bilhar. Um diamante ornava-lhe os lóbulos das orelhas e uma profusão de pêlos escuros encaracolados saíam-lhe de sob uma camisa preta e branca, cujos motivos podiam ter sido desenhados sob influência do LSD.
- Era ela - disse simplesmente a Agarounov.
- Ela?
- A mulher ruiva de que lhe falei ao telefone! A bela mulher que... Ela segue-me por todo o lado - resmungou Sofer. - Ou melhor, precede-me em toda a parte! Estava em Inglaterra antes de mim.
Encolheu os ombros, consciente de que era impossível explicar o que lhe acontecia. Agarounov franziu o sobrolho antes de inclinar levemente a cabeça. Mesmo assim, Sofer ainda acrescentou:
- Meu Deus, tenho a certeza de que ela estava ali... para assistir à minha chegada! Não trazia bagagens e tinha o carro à espera.
A expressão de Agarounov traduzia a incredulidade e o embaraço de um homem que descobre a doença do amigo. Como teria podido compreender? Uma cólera brusca ardeu no peito de Sofer.
- Quem é este senhor? - exclamou, indicando o jovem desconhecido.
Agarounov sobressaltou-se e soltou uma gargalhada um tanto forte:
- Oh! Apresento-lhe Lazir! Um amigo do meu filho! Um excelente motorista! Conhece Baku como a palma das mãos. Está ao seu serviço enquanto necessitar dos seus préstimos!
Lazir estendeu uma mão larga como um pão. Sorriu e Sofer não pôde evitar responder-lhe com outro sorriso: os oito dentes incisivos do excelente motorista eram de ouro puro.
- Não sou motorista de profissão - anunciou numa voz melodiosa e num russo perfeito. - Faço desporto. Luta greco-romana...
- Não é um desportista qualquer - insistiu Agarounov, entusiasmado. - Lazir foi o maior campeão de luta do Azerbaijão durante seis anos. Até foi convidado para os Jogos Olímpicos de Atlanta!
- Às vezes, pode ajudar - concluiu sobriamente Lazir.
O seu olhar deslizou na direcção da auto-estrada, por onde desaparecera há muito o todo-o-terreno transportando a mulher ruiva. Embaraçado, Sofer suspirou:
- Bom, muito bem, vamos lá!
Lazir conduzia à moda local, isto é, com o acelerador a fundo logo que via cem metros de estrada livre diante dele. A isto acrescentava ainda a combatividade persuasiva de um campeão de luta aquando dos cruzamentos e das prioridades. Deste modo, não precisaram de mais de meia hora para chegar ao centro de Baku.
À velocidade de uma flecha, atravessaram um subúrbio de vastos espaços desertos, com alguns edifícios modernos dispersos, aqui e além. Depois as ruas sucederam-se às avenidas e as casas baixas e antigas aos edifícios. De vez em quando surgiam carroças e pequenas camionetas carregadas de frutos e legumes, alguidares de plástico ou utensílios de limpeza.
Baku assemelhava-se a uma cidade turca na qual teriam sobreposto alguns estratos de arquitectura soviética, burguesa e opulenta quando datava dos anos trinta, imperial e delirante durante o período estalinista, e simplesmente estragada pelas construções posteriores a 1950.
Sofer pouco se interessou pelo cenário. Não conseguia evitar de olhar avidamente para a estrada diante do Mercedes, esperando vagamente que a condução kamikaze de Lazir lhes permitisse alcançar o Nissan. Em vão. O motorista do Nissan era provavelmente um campeão de qualquer outra modalidade desportiva e também devia ter dentes de ouro...
Por conseguinte, prestou uma atenção muito distraída ao programa que Agarounov lhe prometia para os dias seguintes:
- Amanhã de manhã iremos a Krasnaía Sloboda, a Aldeia Vermelha. Encontra-se perto do Daguestão, no rio Kudial. É uma aldeia inteiramente judia. Judeus das montanhas. Pelo menos, seus descendentes... Talvez encontre habitantes que conheçam o seu Yalcubov. Só restam vinte e oito mil judeus em todo o Cáucaso. Acabamos por nos conhecer todos. Se não se conhece a pessoa em questão, conhece-se um irmão, um primo, ou ainda um amigo deste...
Também falava em visitar museus onde seria possível encontrar alguns vestígios khazares. E, evidentemente, os campos petrolíferos!
- E a gruta? - perguntou Sofer. - A gruta com a sinagoga. Pensa que alguém poderá ajudar-me a encontrá-la?
Agarounov deixou transparecer uma expressão dubitativa. Sofer surpreendeu o olhar curioso de Lazir no retrovisor.
- Terá de perguntar - respondeu prudentemente Agarounov. - A gruta de que Yakubov lhe falou parece situar-se na Geórgia. É um pouco complicado. Terá de obter um visto...
Entravam no centro da cidade. A circulação era tão densa quanto confusa. Não tinham mais nenhuma probabilidade de ver surgir o todo-o-terreno. Sofer sentia-se despeitado. Um sentimento inesperado, um pouco ridículo, de perda.
Voltado para ele, Agarounov contava-lhe mil anedotas sobre os judeus das montanhas, a sua paixão constante. Porém, Sofer não conseguia dispensar-lhe a menor atenção. Concordava com um sorriso de circunstância.
A breve visão da desconhecida obcecava-o. Já nem se preocupava em compreender o motivo da sua presença no aeroporto e o seu significado. Só contava a maneira tão particular como ela atravessara o hall da aerogare. Parecia-lhe poder erguer a mão, estender o braço e tocá-la. Se, por felicidade, Agarounov deixasse de falar, então poderia fechar as pálpebras e vê-la deslizar diante dele como uma chama viva.
Queria incrustar em si o sorriso que ela talvez lhe tivesse dirigido. Irracional, ardente, nascia agora a certeza que dentro em pouco voltaria a vê-la. Encontrá-la, finalmente, "a sério".
Do lado esquerdo, desembocou uma camioneta lançada a toda a velocidade, que lhes cortou caminho mesmo rente ao emblema estrelado do Mercedes. Lazir praguejou enquanto travava bruscamente. Agarounov e Sofer foram projectados para a frente, agarrando-se como podiam aos fechos das portas.
Agarounov soltou um risinho de pessoa habituada a estes incidentes e enterrou-se bem no fundo do assento. Enquanto Lazir relançava o carro na circulação, como um jogador coloca uma moeda numajukebox, Agarounov apontou para um edifício alto, de aço e vidros escuros, situado na perspectiva da avenida.
- O seu hotel! - anunciou. - O Radisson Plaza.
- O melhor da cidade - acrescentou Lazir, com um piscar de olhos. - Grande luxo! Como no seu país ou na América.
O seu orgulho sincero comoveu Sofer. O centro da cidade possuía a prosperidade de uma cidade europeia. Viam-se muitas mulheres passeando, jovens e menos jovens, todas rebuscadamente vestidas. Na multidão, os turistas ocidentais, americanos ou europeus, eram facilmente reconhecíveis devido à vulgaridade das roupas: calças de ganga, t-shirt, por vezes calções revelando pernas demasiado brancas e, ao mesmo tempo, demasiado encarnadas. Nenhum Thomson elegante.
- Não há nada de novo quanto ao atentado e ao "Renascimento Khazar"? - perguntou bruscamente Sofer.
Teve a impressão bizarra que Agarounov estava embaraçado ou que a pergunta o apanhara desprevenido. Foi Lazir que respondeu, rindo-se:
- Parece que cada companhia petrolífera convocou os seus próprios polícias. Se isto continua, serão mais numerosos que os mercadores ambulantes da cidade! Ou então, estarão todos disfarçados de mercadores ambulantes.
Sofer sorriu. Perguntou a si mesmo se lhes devia falar de Thomson. No entanto, preferiu calar-se. Sem qualquer motivo, apenas porque não lhe apetecia responder às inevitáveis perguntas que a evocação do inglês suscitaria.
Só lhe apetecia uma coisa: encontrar-se sozinho. Deixar a imaginação apoderar-se da lembrança dessa desconhecida com quem se cruzara na Bélgica e, depois, em Baku, aquela que chamava Attex.
Logo que chegaram ao hotel, pretextou o cansaço e o desejo de tomar alguns apontamentos para recusar o convite de Agarounov para jantar. Combinaram encontrar-se muito cedo na manhã seguinte para efectuarem a viagem até à fronteira do Daguestão.
Sofer permaneceu apenas alguns minutos no quarto, quase só o tempo para tomar um duche. Encontrou-se na rua com um mapa da cidade na mão, oferecido pelo Plaza. A jovem recepcionista indicara-lhe o caminho para chegar à beira-mar. Era muito simples, quase sempre a direito. Caso se perdesse, devia perguntar pela Avenida Nettchilyar...
A noite chegava calmamente e o calor diminuía. Atravessou um parque com sombra, refrescado por meia dúzia de grandes fontes. Como numa cidade mediterrânica, parecia ser o local de encontro dos jovens. Mais uma vez, Sofer ficou surpreendido pela elegância um pouco provinciana, mas sempre rebuscada, das jovens e das mulheres. Apesar de estar num país muçulmano, as saias eram curtas e os vestidos generosamente decotados e apertados. Os apaixonados caminhavam abraçados, deambulando por entre risos e beijos, diante das bancas de penduricalhos, bugigangas, doces ou roupas terrivelmente ocidentais.
Subiu uma longa avenida pedestre e cheia de gente, chamada Rasulzade, e desembocou na perspectiva Nettchilyar. Do outro lado da avenida, a beira-mar estava ocupada por cafés à sombra e ao ar livre, por carrosséis para as crianças e por uma espécie de enorme quiosque em betão que devia ter acolhido as mais belas festas oficiais na era soviética. Actualmente, era apenas um restaurante.
O mar dos khazares já se encontrava mergulhado na escuridão. Para sudeste, Sofer avistou algumas luzes que assinalavam os grandes guindastes que entravam pelo mar. O Cáspio mostrava-se liso, calmo, oferecendo-se aos passeantes como um lago italiano. No entanto, sentiu o odor logo à primeira inspiração. Muito particular, indefinível, pesado como um fruto conservado muito tempo nas profundezas do solo. O odor do petróleo.
Sentou-se numa esplanada e encomendou um vinho branco da Geórgia, tão ligeiro que parecia desprovido de álcool.
Por reflexo, não conseguiu evitar olhar para os passeantes, saltando de rosto para rosto. Sabia perfeitamente que era uma loucura querer encontrar a desconhecida por entre as mulheres que passavam, mas era mais forte que ele.
Depois do primeiro copo, sentiu-se finalmente relaxado. Bastava-lhe pensar que ela estava ali, algures, na imensidão da cidade. Teve subitamente consciência que percorrera certamente todo aquele caminho para isso. Devia encher-se de paciência. Não fora ele mesmo que dissera, precisamente em Bruxelas, quando a desconhecida o indispusera, que um homem não devia correr atrás do seu destino? Sim, tinha de se armar de paciência.
Devia imitar Isaac Ben Eliezer e realizar uma longa viagem antes de ser recompensado. Confiar no percurso e no tempo. Confiar na vontade da vida, talvez na do Todo-Poderoso...
A noite envolvia agora os lugares mais próximos. As crianças davam voltas nos cavalinhos de madeira, pedalavam energicamente nos seus tractores de plástico ou conduziam orgulhosamente carrinhos eléctricos com piscas. Sofer lembrou-se da menina de Oxford, brincando nas poças de água, desse momento em que Attex viera ao seu encontro.
Mas, agora, Attex era uma mulher por inteiro. Recusava vergar-se às ordens do irmão. Não tinha dificuldade em imaginar a estupefacção do Khagan.
A estupefacção e, depois, a cólera e a dor.
Pela primeira vez, ele e Attex estavam divididos. Pela primeira vez, algo se intrometera entre eles, como o frio ou o gume de uma lâmina.
Contudo, apesar da sua fúria, José sabia ser o responsável. Mas será que podia recusar-se a apertar a mão que os gregos lhe estendiam, mesmo que só devesse concluir esta aliança com a maior contenção e a maior suspeição? Apesar do que Borouh pretendia, do que Hanania dizia, era um guerreiro suficientemente grande para reconhecer esta verdade: o seu reino não aguentaria muito tempo face às hordas russas apoiadas pelo imperador de Bizâncio.
Se ao menos Attex o quisesse compreender! Isso tornaria a divisão menos dolorosa. Mas, não! E eis que, ainda por cima, ela engraçara com um estrangeiro, a pretexto de ele ser judeu e de vir da outra extremidade do mundo!
Certa manhã, decidiu falar-lhe calmamente, com todo o amor que sentia por ela.
A madrugada mal iluminara o céu. A fortaleza ainda estava tão silenciosa que se ouvia o canto dos galos no exterior, na cidade das tendas.
Ordenando às servas para se calarem e não se mexerem, José entrou no quarto de Attex. Ela dormia, com a cara escondida pelos cabelos e pelas almofadas. Sentou-se perto da irmã, afastando-lhe a farta cabeleira e, durante um momento, permaneceu subjugado diante da sua beleza. Nunca vira mulher tão bela. Ele desposara a mais bela mulher dos alanos, mas quando ambas se encontravam lado a lado, a sua esposa era apenas uma sombra junto ao esplendor da Kathum.
Attex abriu os olhos, resmungando algo parecido com um bocejo. Sorriu ao descobrir José e, instintivamente, aconchegou-se a ele, beijando-lhe as mãos.
José afastou-a com ternura e murmurou:
- Prepara-te, Kathum! Hoje, o embaixador Blymmédès vem partilhar a minha refeição. É uma refeição de paz e de despedida. Amanhã partirás com ele para Tmurtorokan...
José viu os olhos dela arregalarem-se de horror, como se uma serpente a tivesse acabado de morder. Ela soltou um grito e voltou-se para o outro lado da cama. Levantando-se com um pulo, desferiu:
- Nunca! Ouves-me? Nunca!
O peito de José apertou-se-lhe até lhe esmagar o coração. Sentiu-se acometido pelo frio da ira.
- Fá-lo-ás, Kathum, porque assim o desejo!
A garganta de Attex vibrou com uma espécie de riso que teria podido ser confundido com um grito.
- O grande Khagan deseja absolutamente que a irmã abra as coxas a um grego que nem conhece! Espero que fiques coberto de vergonha, José! Espero que fiques coberto de vergonha!
Ria e chorava ao mesmo tempo, metralhando as frases.
Observavam-se em silêncio, demasiado distantes para se tocarem, demasiado chegados para que as palavras não fossem piores que flechas.
- És a Kathum e deves obedecer-me! - obstinou-se José. - A minha decisão, é uma decisão sábia! Como podes crer que te daria aos gregos se isso não significasse a vida para todos os khazares do meu reino?!
- Oh! Mas que decisão tão sábia, que decisão tão sábia! - troçou Attex, com a voz embargada.
- A paz é algo mais sábio do que uma guerra que não se pode ganhar!
Attex varreu a objecção com um movimento do braço.
- Recordo-me do teu bar-mitzva. Foi aqui, em Sarkel. Na véspera estávamos ambos juntos, lá em cima, sobre as muralhas. Estavas furioso com o nosso avô Benjamim.
Ela abriu brutalmente uma grande arca de madeira que continha as suas túnicas de cerimónia.
- Lembro-me das tuas palavras, nunca me esqueci delas: "O avô diz que devo ser tão sábio como o mais sábio dos judeus. Ele diz que talvez caiba a mim vir a salvar os judeus que, expulsos de todos os outros reinos, vierem procurar refúgio junto de nós..."
- Benjamim morreu e eu não sou o Khagan que salvará todos os judeus do universo! - interrompeu-a José, com dureza.
Retirando as túnicas de qualquer maneira e lançando-as para cima da cama, Attex retorquiu, trocista:
- Certamente, pois nem és capaz de salvar a tua irmã dos cristãos!
- O Todo-Poderoso, abençoado seja o Seu nome, não me criou para isso!
- E que sabes tu, Khagan José? Recebe o emissário dos judeus de Córdova! O próprio Hanania disse que ele chegou aqui por vontade do Todo-Poderoso...
Attex calou-se, pois viu brotar um estranho sorriso, um sorriso mau, nos lábios do irmão. Ele perguntou:
- O rabi sabe o que te impele para os braços desse estrangeiro?
As maçãs do rosto de Attex coraram, subitamente tão avermelhadas quanto a sua cabeleira.
- Contaram-me como o trataste. Como ficaste com ele, sozinha. .. Como a própria Attiana teve de te afastar para longe dele de tal modo envergonhavas a tua linhagem ao cobrir esse homem com as tuas carícias!
- Tens ciúmes!
Cheio de fel, José replicou:
- Visto que tens tanta pressa, há um grego que te espera para te desposar!
Acusando o golpe, Attex calou-se.
Como se fosse desfalecer, apertou contra o peito uma sumptuosa túnica bordada de ouro.
- Nunca irei a Constantinopla com Blymmédès.
- Irás. Ou então Borouh fechar-te-á numa masmorra e entregar-te-á aos gregos, acorrentada como os escravos.
Sarkel Junho, 955
SOB UMA LARGA ABÓBADA ORNADA DE CERÂMICAS AZUIS, dez homens envolvidos em xailes murmuravam a prece matinal. Diante deles, a silhueta recurvada do rabi Hanania acompanhava a oração com um balanceamento ritmado.
- Senhor, apelo a Ti, pois Tu respondes! Escuta-me, ouve as palavras que profiro, eu, que não sei se posso contemplar a Tua face e saciar-me com essa visão logo ao acordar! Eu, que confio em Ti, ó Eterno...!
As palavras da oração ainda soavam no ar luminoso da sinagoga quando o rabi, de braços hirtos, rodou os fechos de prata para juntar as duas partes do rolo do Livro.
A longa tira de papel colada num fino tecido de seda enrolou-se num roçar suave, como se as palavras sussurrassem antes de desaparecer. Hanania colocou o rolo num pequeno cofre de aço finamente cinzelado. Quando o fechou, o silêncio foi perfeito. Tão perfeito que o rabi, surpreendido, voltou-se bruscamente. Os companheiros de prece do Khagan tinham-se retirado, mas José continuava presente. Como era seu hábito, levava muito tempo para retirar as correias de couro dos fílactérios que trazia no braço esquerdo e o xaile da oração que trazia aos ombros, dobrando-o depois cuidadosamente.
Quando ergueu a testa, Hanania viu o furor que lhe brilhava no olhar. A sua boca transformara-se numa linha dura.
Sem dizer palavra, o rabi apertou o cofre com os rolos do Livro contra o peito e foi depositá-lo num armário alto, com brilhantes ornamentos dourados nas portas. Depois, parou um momento diante de uma tapeçaria representando um menorá1. Ao longo da haste do candelabro, tecidos com tanta fineza como se se tratasse de uma pintura feita em pergaminho, estavam representados os episódios do julgamento de Salomão e do sacrifício de Isaac. Num gesto maquinal, o rabi aflorou-a com os seus dedos incrivelmente brancos.
Só então se sentou junto de José.
- Ouço-te, Khagan. Diz-me quais as tuas críticas.
José ia deixar explodir a sua raiva, mas conseguiu controlar-se. O rabi teve tempo para sentir a vibração devastadora perturbar a paz da sinagoga.
- Rabi, Attex não está na fortaleza! Borouh mandou revistar tudo, até as arrecadações de maçãs... Esse monstro da Attiana também desapareceu! Elas desobedeceram-me, rabi. E dentro em pouco, o grego vai chegar! Ele, que já quase nem se prostra diante de mim...
O rabi Hanania viu a mão de José abrir e fechar-se convulsiva-mente no cabo do punhal.
- E julgas que sei onde ela se encontra, não é, Khagan? Achas realmente que a ajudei a desaparecer?
Os seus olhares cruzaram-se. O rabi sorriu, com aquele sorriso que lhe transformava a cara num ninho de rugas e perturbava o Khagan.
José afastou-se. Dir-se-ia que receava encontrar-se demasiado perto do velho homem. Teria medo da sua própria violência?
Hanania conhecia-o bem e foi com voz calma que prosseguiu:
- Pensas que conspiro contra ti, que pus a Kathum fora da alçada da tua autoridade, não é verdade? Pensas que te obrigo a humilhar-te diante do embaixador de Constantino? Pensas que desejo a tua perda? Sim, sim, sei o que pensas, compreendo o que te preocupa o espírito e te transforma a cabeça num pote fervilhante!
1 Candelabro litúrgico de sete braços, utilizado no Templo e, actualmente, emblema do Estado de Israel. (N. do T.)
José deu a si mesmo o tempo de caminhar até à parede, de punhos cerrados, antes de se voltar.
- É verdade!
Era apenas o grunhido de um animal selvagem acossado. O rabi contentou-se em piscar as pálpebras. Depois, de olhos fechados, começou a balouçar-se levemente.
- A Bíblia diz: Aquele que é lento na cólera vale mais que um herói.
- Bem sei! - exclamou José, de mãos nervosas, como se projectasse as palavras com os dedos. - Mas, em compensação, tu devias saber porque precisamos de nos aliar aos gregos. Devias saber que hoje não somos capazes de enfrentar Bizâncio, tal como um sapo não é capaz de agarrar os cascos de um cavalo...
- Khagan José, só te podes apoiar numa Aliança: aquela que os teus antepassados firmaram com o Eterno, abençoado seja o Seu nome. Lembra-te da resposta dos nossos irmãos judeus ao César de Roma: "Decidimos há muito deixar de ser súbditos dos romanos ou de quem quer que seja; somos súbditos do Senhor e apenas d'Ele, pois Ele é o verdadeiro e justo mestre do homem..."
- Ah! - exclamou José, furibundo.
- Os teus antepassados esperam que sejas fiel à sua fé e não que empurres a tua irmã para os braços de um estrangeiro.
José colocou-se diante do velho rabi, o corpo tão ameaçador quanto um punhal:
- Não é a minha fé que está aqui em causa, mas a minha autoridade! Ajudaste-a, ou não, a sair da fortaleza?
O rabi Hanania anuiu.
- Então, sabes onde se encontra?
Hanania abanou a velha cabeça com a expressão de um maroto galhofeiro:
- De modo algum! De modo algum...
- Porque ages assim? - perguntou José, agarrando nos ombros magros do rabi. - Sempre acreditei na tua amizade.
Hanania inclinou-se. As suas mãos agarraram nos pulsos de José. Apoiou-se neles, para se levantar.
- Gosto de ti, Khagan. Admiro-te e sou o teu melhor amigo.
Digo-te que te enganas redondamente com os gregos. Sabemos quem eles são. Mentem até antes de respirar. E, ao desejares ser vassalo deles, estás a fugir. Escuta-me, ouve as palavras que profiro, eu, que não sei se posso contemplar a Tua face e saciar-me com essa visão logo ao acordar! Eu, que confio em Ti, ó Eterno...! Eis as palavras que acabaste de pronunciar há pouco, na tua prece. No entanto, foges do poder do Todo-Poderoso, foges da confiança e da força que Ele depositou em ti. Esquece esse Blymmédès, José. Lê a carta que te trouxe o judeu de Sefari. Toma consciência da alegria e da esperança que o reino dos khazares suscitou junto dos nossos irmãos da Criação! Faz delas o teu poder...
José afastou-se, com secura. Porém, o rabi não cedeu e segurou-o pela cintura cravejada de ouro que lhe cingia o manto de linho.
- José, rogo-te que recebas o enviado dos judeus de Sefari. O rapaz viajou durante um ano, arriscou cem vezes a vida para depositar este bem inestimável nas tuas mãos. Ele é jovem, belo, cheio de pureza, néscio... Nunca teria conseguido efectuar este périplo se Nosso Senhor não lhe tivesse dado forças...
Um raio de sol infiltrou-se através de uma das janelas estreitas que ornavam o lado oeste da sinagoga e brincou um momento com o olhar sombrio do rei. José rechaçou-o com a palma da mão.
- Foi isso que disseste a Attex? Transformaste esse miúdo em não sei que mensageiro celeste? Mas, rabi, é mais fácil deslumbrar uma virgem do que um Khagan: Attex é uma criança que sonha com o amor. Desde que o seu amor não seja grego, podes levá-la a tomar um asno por um anjo.
O olhar do velho irradiava malícia.
- Não seria engraçado se esses dois se amassem? De acordo com a Lei, claro... São tão belos quando estão juntos!
- Encontrá-la-ei e fechá-la-ei!
O rabi Hanania soltou uns pequenos cacarejos de alegria. Subitamente, a sua expressão tornou-se séria. Por entre as rugas das pálpebras cansadas, as suas pupilas revelavam a vivacidade das de um lagarto.
- Ela não infringe a Lei, Khagan José. Já te foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de ti: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o teu Deus, diz Miqueias no Livro VI, versículo 8. A Lei não prescreve o ascetismo em lado nenhum, José, apenas incentiva a justa medida. Diz que é preciso atribuí-la a cada faculdade da alma e do corpo, sem excesso, pois quando assim acontece, acarreta uma perda correspondente noutra faculdade... Khagan José, estes últimos tempos cedes demasiado à dúvida, ao receio e ao ciúme. Isso corrompe o teu julgamento. Já não praticas a justiça, pois ao julgares-te a ti mesmo como justo deixaste de colocar as tuas dúvidas na balança do Eterno. Já não praticas o amor, pois sofres por teres de te separar daquela que mais amas no mundo... depois do Eterno! E já não caminhas com humildade, pois obstinas-te na tua fraqueza e só pensas em ser forte...
José estava vermelho de raiva. Porém, agitando as mãos diante dele, o rabi recusou-se a ouvir os seus protestos:
- Não te julgo, nem te condeno, José! Conheço o peso que te recai sobre os ombros e o medo que tens do futuro. Sei como desejas ser sábio. Contudo, a Kathum tem razão quando se recusa a sacrificar a sua fé e o seu corpo. No seu jovem coração inocente, ela sabe que o amor é o sinal da presença do Todo-Poderoso entre nós. Que podes fazer se Ele se manifesta por intermédio de um enviado das tribos de Israel que vivem na outra extremidade da Criação?
José não teve tempo para responder. A corneta da fortaleza soltou um gemido forte e longo. A porta da sinagoga abriu-se. No seu patamar, um escravo inclinou-se para anunciar que o embaixador Blymmédès entrava na cidade. Depois, recuou e cedeu o lugar a Borouh. O Bei trazia o seu uniforme de cerimónia, com o peito cingido por uma couraça de couro e a longa espada de combate na mão. O branco dos seus olhos virara vermelho, como se o sangue deles quisesse jorrar. José sabia ser sinal de uma grande cólera. Compreendeu que o esperava uma notícia das mais desagradáveis.
Baku, Quba, Azerbaijão Maio, 2000
Pouco passava das oito da manhã quando o Mercedes branco conduzido por Lazir deixou Baku.
O motorista estava inteiramente vestido de preto. Para além dos seus dentes, o ouro reluzia também nas suas jóias, correias e pulseiras. Os seus sapatos italianos envernizados brilhavam como se fosse para um baile. Quanto a Mikhail Yakovlevitch Agarounov, vestia um fato claro, discreto como o da véspera. Sofer, que apenas possuía as roupas que trouxera de Inglaterra, achou-as subitamente demasiado inconfortáveis e muito impróprias para o clima de Baku.
Durante um momento pensou em pedir aos companheiros que lhe dessem tempo para comprar uma camisa e umas calças leves. Porém, mal o carro começou a andar abandonou logo esse projecto!
Durante a noite, nenhum anjo da prudência, divino porta-voz da segurança rodoviária, tocara em Lazir com a sua asa, mesmo ao de leve. Apesar de Sofer achar que o tráfego lhe parecia mais caótico e compacto do que numa véspera de Natal em Paris, bastaram-lhes algumas acelerações para alcançarem os subúrbios situados a norte da cidade.
Como de costume, Agarounov instalara-se no banco da frente. Com o corpo meio voltado para trás, explicava a Sofer a estranha particularidade de Krasnaia Sloboda, a Aldeia Vermelha, para onde se dirigiam:
- Krasnaia Sloboda é, obviamente, o nome russo. Para os azeris, o nome da cidade é Quba. Pode pronunciá-lo Cuba, como muitos fazem. Como lhe disse ontem à noite, fica muito perto do Daguestão. Levaremos duas ou três horas a chegar, conforme o tráfego. A cidade está dividida em duas pelo rio Kudial. Uma das margens é muçulmana e a outra é judia. Totalmente judia. A separação é tão nítida que dá a impressão de haver duas cidades. Verá por si mesmo. Tenho a certeza que lhe evocará algumas recordações!
Sofer concordou com um sorriso amável. Era um prazer ver a gentileza de Agarounov. O seu saber não tinha efectivamente limites quando se tratava de falar dos "seus" judeus das montanhas. Além disso, dava provas de uma paciência inesgotável para contentar o seu visitante.
Infelizmente, Sofer escutava-o distraidamente e sentiu-se aborrecido por não se mostrar mais expansivo. Passara uma noite desagradável, perturbada por sonhos tão inquietantes quanto evanes-centes. Não parara de acordar pelos motivos mais absurdos. Demasiado calor, demasiado frio. Depois, o ruído irritante do ar condicionado mantivera-o acordado... O seu espírito parecia agarrar o menor pretexto para o impedir de encontrar um verdadeiro repouso. No entanto, nem uma só vez tivera coragem para fazer a única coisa importante: levantar-se, para trabalhar no seu romance.
Atordoado pela falta do sono, esforçando-se por manter os olhos abertos, contemplava os arredores de Baku que desfilavam a toda a velocidade através dos vidros do carro. Rolavam desde há vinte quilómetros numa larga avenida, orlada de pequenos bosques de pinheiros suficientemente densos para albergarem alguns cafés populares. Quando as árvores eram enfezadas ou se encontravam assaz espaçadas, tinham-se estendido entre elas toldos de plástico azul ou coberturas de tendas, que cobriam as cadeiras de campismo, as mesas e os braseiros. Alguns destes cafés arvoravam a aparência limpa e luxuosa de verdadeiros restaurantes.
Lazir soltou uma pequena gargalhada. Com o queixo indicou os bosques de pinheiros:
- Muito agradável à tarde. Ou à noite. Muitos homens vêm aqui, com mulheres... As que são pagas e as que não são.
Riu-se com a inocência de uma criança traquina. Sofer e Agarounov contentaram-se com um sorriso. Sofer cruzou com o olhar do campeão de luta, no retrovisor. O que viu perturbou-o.
A expressão de Lazir não era a de um homem que acaba de dizer uma velhíssima piada de macho. Dura, vigilante, ela revelava um homem perspicaz, de sobreaviso. Uma palavra acudiu-lhe imediatamente à cabeça: máfia!
Lazir não tinha apenas a aparência e os gostos de um mafioso em matéria de roupas. As suas observações, pequenas frases afiadas e irónicas, eram as de um jogador que deseja que os outros se apercebam que está a dissimular.
Mas Agarounov requisitou-lhe novamente a atenção:
- Sabe que o mar Cáspio ainda é chamado mar dos khazares, nos mapas do Azerbaijão? Quando o vento sopra do largo, traz para o continente esse bizarro cheiro a iodo e a petróleo que só pertence a esta região. Chamam-no o "vento dos khazares". Existe uma lenda muito bela a esse respeito...
Agarounov ergueu um dedo como um contador que reclama a atenção do seu auditório. Voltou-se ainda mais para Sofer que, durante um breve instante, pensou em dizer-lhe que isso era imprudente dada a velocidade, tanto mais que a estrada se tornava caótica, esburacada, percorrida por camiões com trajectórias incertas. Mas mal formulou este pensamento, apercebeu-se do seu ridículo. Era evidente que no Azerbaijão a expressão "conduzir a toda a mecha" retomava todos os seus direitos.
Agarounov apontava para o mar, à sua direita: uma estreita faixa azulada, para lá de uma planície calcinada e poeirenta.
- A lenda diz que quando o vento dos khazares começa a soprar, apaga tudo. Tudo! As marcas deixadas pelos animais e pelos homens no deserto e nas montanhas, os trabalhos dos homens, os campos, as culturas, as habitações; reduz tudo a pó... Em suma, o vento dos khazares apaga os traços do que existiu, tal como os próprios khazares foram apagados. Só deixa atrás dele o odor do mar e a nostalgia do passado.
- É uma bela lenda - murmurou Sofer, sinceramente comovido. - Bela, mas terrível!
- Tranquilize-se - riu-se Agarounov. - Em toda a minha vida e faz agora cinquenta anos que vivo aqui, o vento dos khazares nunca foi tempestuoso...
Sofer ia responder com uma piada quando teve uma visão que o levou a arregalar os olhos:
- Meu Deus! Que monstruosidade!
Diante deles, um gigantesco monte de metal enferrujado cobria a totalidade da planície costeira, numa extensão tão grande como a de uma cidade. Condutas mais largas que a estrada entrelaçavam-se com oleodutos, numa trajectória de pesadelo. Filas de vagões com cisternas esventradas rodeavam cubas altas como castelos. Algumas tinham rebentado. As suas paredes de alumínio abertas estavam trespassadas por línguas de metal, mais parecendo margaridas venenosas. Todo um labirinto de hangares, tão vastos como faixas de edifícios suburbanos, chegava à beira-mar e, aqui e além, pregadas neste caos como pregos de gigantes, as chaminés para expulsar os gases aguardavam a hora do seu desabamento.
- Isto - anunciou Lazir com certa solenidade - é o complexo petroquímico de Sumgayi... Enfim, era!
Ele próprio decidiu abrandar. Passaram sob um oleoduto três vezes maior que o Mercedes, mas tornado transparente pelo desgaste exercido pela ferrugem.
- Os russos armazenavam aqui o petróleo que extraíam da nossa região. Refinavam uma parte e expediam-no para a União Soviética, através do Daguestão e da Tchetchénia.
Lazir indicou um ponto vago diante deles, na direcção do norte. Sofer detectava-lhe na voz um desprezo evidente quando falava nos "russos" e um prazer real em mostrar esta devastação espectacular, como se, só por si, ela fosse o testemunho da antiga fragilidade do poder soviético no Azerbaijão e do gozo sentido pelos azeris ao assistirem a semelhante desmoronamento.
- O complexo está abandonado desde 1992 - prosseguiu o campeão de luta. - Pode imaginar uma coisa destas? Pilharam o país durante oitenta anos e bastaram oito para que nada sobrasse deste monstro! Nem foi preciso que o vento dos khazares soprasse uma única vez!
Dirigiu uma piscadela de olhos a Agarounov, incomodado. O carro acabara de transpor o desastre de ferrugem e de betão de Sumgayi. Agora dirigia-se para uma planície costeira, ocre e rochosa, muito semelhante a um deserto.
- Verá que Quba é muito mais bonito - preveniu Lazir, orgulhosamente. - É muito verde, tem campos, vinhas e pomares! Não tem nada a ver com isto. Quando os habitantes de Baku desejam passar verdadeiras férias deslocam-se às nossas terras, lá em cima! É a mais bela região do país e talvez de toda a costa do mar Cáspio...
Agarounov riu-se, um pouco trocista:
- Nós, os judeus de Quba, consideramo-nos como os judeus mais antigos do Cáucaso. Os nossos antepassados teriam vindo directamente de Jerusalém, bem antes da migração dos judeus da Turquia e de Bizâncio!
Sofer perguntou:
- Trata-se da hipótese segundo a qual os judeus das montanhas pertenceriam a uma das doze tribos de Israel?
Agarounov aprovou:
- Sim... Os estudos que empreendo sobre a nossa língua, o tath, parecem confirmá-lo. É possível que os judeus das montanhas tenham estado na origem do judaísmo khazar e que, depois, se tenham tornado os seus últimos descendentes. Após a destruição do templo, instalaram-se nas montanhas. Passaram alguns séculos. Quando os nómadas khazares conquistaram a planície do Volga, comerciaram naturalmente com os judeus. Durante três séculos, o reino khazar representará um porto seguro para eles. Sabiam para onde ir, quando as perseguições se tornavam demasiado frequentes noutros lugares. Afluíam tanto de Constantinopla, como dos países muçulmanos... Mas aquando da queda do reino, é possível que as comunidades dos judeus das montanhas se tenham novamente retirado para os vales do Cáucaso.
- Sabe-se que a maior parte dos judeus khazares se dispersou pela Europa Central, onde se misturou com a comunidade asque-naze - objectou Sofer.
- É verdade, mas também é quase certo que um punhado da elite khazar permaneceu por algum tempo nas montanhas do Cáucaso.
Daí ninguém os podia desalojar. Devia ser fácil isolar-se nesse local durante séculos e séculos... Nessa época, o Cáucaso era um refugio quase inexpugnável. Era o seu país de origem: portanto, regressavam às suas origens... Nada mais natural... Nesse caso, nós, os judeus de Quba, seríamos os descendentes mais directos dos khazares!
- Daí a sinagoga, impossível de encontrar, do nosso amigo Yakubovl - exclamou Sofet.
- E porque não? - disse Agarounov, lançando um olhar para Lazir. - Porque não?
Lazir deixou escapar um riso azedo:
- Só pessoas como você, Mikhaïl, e como o senhor Sofer, estão interessadas em saber quem são os descendentes dos khazares! De qualquer modo, todos os judeus da região são seus descendentes, em maior ou menor grau. É isso que conta.
Sem conseguir controlar-se por mais tempo, Sofer fez então a pergunta que já lhe queimava a língua há muito tempo.
- Pensa que aqueles que perpetraram o atentado do outro dia contra a O.C.O.O., e que se autoproclamam "Renascimento Khazar", são judeus desta região?
O silêncio instalou-se durante um momento. Ou, talvez, o embaraço.
Concentrado na condução do Mercedes, Lazir parecia não ter ouvido. De uma assentada, ultrapassou um velho Tatra e dois Lada, um dos quais não devia ter menos de doze anos de idade. Finalmente, ouviu-se o riso do campeão de luta. Os seus dentes brilharam:
- É a pergunta que se devem colocar todos os agentes do petróleo, não é?
- Provavelmente - respondeu Sofer, pensando em Thomson. - Desde que esses agentes, como lhes chama, tenham a menor ideia do que foram os khazares!
Lazir abanou a cabeça.
- As pessoas ligadas ao petróleo não são estúpidas, senhor Sofer. Quando há muito dinheiro em jogo, os que enchem os bolsos são sempre pessoas inteligentes.
A justeza da observação agradou a Sofer.
- Então pensa que os autores do atentado, os membros do "Renascimento Khazar", poderiam ser judeus daqui? - insistiu.
- Não penso nada! Não sei mais do que aquilo que anunciam na rádio.
- Continuamos sem saber o que reclamam - disse Agarounov, sem grande convicção.
- Além disso, - prosseguiu Lazir - sabe muito bem que qualquer grupo se pode autointitular dessa maneira! Até um grupo de música! Ou de tchetchenos...
- Ou de mafiosos - tentou Sofer.
Lazir riu-se às gargalhadas, batendo de gozo com as mãos no volante, o que acabou por descontrair Agarounov.
- Pois! Um bando de mafiosos de Moscovo, que vieram dar uma lição aos mafiosos do Cáucaso... Boa ideia, não é? Sabemos que tudo é possível nesta terra! É o que vocês dizem no estrangeiro: Cáucaso igual a máfia! Já Estaline dizia o mesmo, e ele sabia um bocado sobre o assunto. Ieltsin e Putin também dizem que os caucasianos são todos uns bandidos! E eles sabem do que estão a falar, não é verdade?
Divertia-se e gozava. Como bom jogador, Sofer também riu. Mas, ao mesmo tempo, disse para consigo que Lazir sabia. Sabia quem eram os homens do "Renascimento Khazar". Mas não te revelará nada, pensava, com uma ponta de fastio. Pelo menos por ora. Pelo menos na presença de Agarounov.
E talvez nunca lhe dissesse nada. Um pouco provocatoriamente, observou:
- Mais cedo ou mais tarde, acabar-se-á por saber. As companhias petrolíferas sabê-lo-ão.
- Talvez. As pessoas ligadas ao petróleo são poderosas. Mas, é possível que nada deixem transpirar. Sabem muito bem quanto vale o silêncio, quando este lhes dá jeito...
Mais um ponto para ele - pensou Sofer.
- Se eles forem judeus, isso poderá ser prejudicial para o conjunto da comunidade - insistiu, com uma ponta de aborrecimento. - Por exemplo, para os que vivem em Quba...
Lazir lançou-lhe um olhar severo pelo retrovisor. Agarounov voltou-se mais para a frente, como se o teor da discussão se tornasse demasiado pessoal.
- Sabe, senhor Sofer - disse Lazir, friamente - os judeus desta região já viram tanta coisa que esse género de suspeita não lhes mete medo. Pergunte a Mikhaïl...
- É verdade - aprovou Agarounov, aliviado por poder regressar ao terreno estável do passado. - Havia muitos judeus aqui antes da chegada dos soviéticos, por volta de 1920. Havia sinagogas em quase todos os vales do Cáucaso, do mar Cáspio e, até, na Geórgia. Mas, durante a guerra, quando os nazis ameaçaram deitar a mão ao petróleo de Baku, Shaoumian, o homem forte do Cáucaso, deslocou milhares de judeus... para as cooperativas agrícolas na Crimeia. Um meio como qualquer outro para se desembaraçar de nós. E o que devia acontecer acabou por acontecer: os alemães ocuparam a Crimeia e exterminaram os judeus. Depois da guerra, Estaline "deslocou" aldeias inteiras de georgianos, tchetchenos, daguestaneses e azeris. Os judeus que ainda viviam entre eles, foram apodrecer para a Sibéria, como todos os caucasianos. É por isso que agora somos apenas um punhado.
Isso sabia Sofer muito bem. Aprovou com um breve gesto da cabeça e calou-se.
O sol, agora alto no céu, extraía tons acobreados das falésias que se estendiam para oeste. O ar tornava-se esplendoroso. Num gesto simultâneo pegaram nos óculos escuros, o que os fez sorrir a todos e acalmou a tensão suscitada pelas perguntas de Sofer.
A estrada, cujo pavimento melhorava, aproximava-se do mar dos khazares. Este era liso como um espelho, de um azul tão pálido que se tornava branco. Não se via um barco, um veleiro ou uma embarcação de pesca. Nem sequer uma grua. Estranhamente, parece um mar à espera - pensou Sofer. Como que desabitado. Ou demasiado habitado pelos seus fundos submarinos!
Lazir não mentira. Alguns quilómetros adiante, a poeira cedeu finalmente lugar ao verde das culturas. Campos de melancias e pomares estendiam-se ao longo da estrada rectilínea, subitamente sombreada por enormes nogueiras. Na berma da estrada surgiram miúdos, rindo e gesticulando...
- Vendem cabazes de nozes - explicou Agarounov.
Um quarto de hora depois, como em sinal de desanuviamento, Lazir abrandou e parou diante de um punhado de miúdos andrajosos. Estes traziam cestos de vime coloridos, do vermelho escuro ao creme. Só quando se comprimiram contra os vidros do carro é que Sofer se apercebeu que continham cerejas.
Agarounov comprou uma boa quantidade. Prosseguiram caminho, partilhando silenciosamente o doce sabor dos frutos. Pela primeira vez desde que chegara ao Azerbaijão, Sofer teve consciência de se encontrar no Oriente. O negro dos olhos das crianças, as maçãs elevadas das caras, a tez mate da pele, os pés descalços e as bocas sorridentes, eram idênticas às das crianças de Samandar, Ispahan ou Bagdade.
E, por detrás dos pomares, adivinhava a presença do mar. Mar muito antigo, quase vazio, como nos tempos de antanho, onde era percorrido apenas pelos comboios de navios, carregados com todas as riquezas da Ásia.
Sarkel Junho, 955
Em Sarkel-a-Branca, a sala real era pequena. Ocupava o espaço de uma construção de tipo grego, encostada à muralha norte da fortaleza. O esplendor dos mármores e das colunas compensava a exiguidade e deslumbrava o visitante. Num estrado dominando a sala, estava instalado um assento de madeira de cedro, incrustado de marfim, pérolas e pedras preciosas verdes. As setes escadas eram cobertas por espessos tapetes que apenas podiam ser pisados pelo Bei e pelos três guardas reais quando o Khagan se encontrava no trono.
Na parte superior, como em Tmurtorokan, estava suspenso um dossel em cabedal, tecido a fios de ouro, muito semelhante a uma tenda. Ao lado do estrado, um imenso candelabro de sete braços, uma réplica do candelabro do Templo de Jerusalém que Tito levara para Roma, evocava a filiação do Khagan dos khazares. Aí, servos, escravos e eunucos, conservavam permanentemente velas acesas quando o Khagan residia na fortaleza. Devido à vetustez da sala, durante as audiências deixavam-se abertas as portas que davam para um pátio ornado de fontes e pavimentado de mármore preto, rosa e branco. Era aí que permanecia a sempre numerosa corte dos visitantes importantes.
Nesse dia, o Bei colocara duas filas de cinquenta guerreiros que formavam como que um caminho de muros intransponíveis, desde o soleil1 do pátio até ao trono do Khagan. Todos envergavam
1 Peça de artifício giratória, que projecta chamas, evocando os raios solares (N. do T).
o traje da guarda real, o capacete redondo com a ponta de prata e a túnica bordada com um menorá. Todos mantinham contra o peito um escudo de aço, enquanto as espadas estavam desembainhadas com a extremidade pousada entre os seus pés.
O embaixador Blymmédès chegou precedido de servas, cuja única função era limpar o solo com a parte inferior dos vestidos, muito compridos para o efeito. Quatro escravos abissínios transportavam um baldaquim portátil, suspenso por cima do embaixador, permitindo-lhe evitar as queimaduras do sol. Blymmédès tinha vestido a toga curta dos gregos, deixando a descoberto os seus joelhos redondos e as coxas avermelhadas. Besuntara o rosto e até o crânio glabro com uma mistura de pó de giz e de creme de amêndoas doces. A estranha palidez desta maquilhagem disfarçava-lhe a rudeza dos traços, sem lhe amenizar todavia a dureza dos olhos azuis.
Pareceu surpreendido ao ver a forma como estavam dispostos os guardas. Borouh, que o observava atentamente, viu-o abrandar o passo. Como os seus eunucos continuavam a avançar, transportando o baldaquim, Blymmédès forçou-se a sorrir e avançou, erguendo o queixo. Atrás dele, vinham o monge de manto preto e um punhado de oficiais subalternos.
Chegados à entrada da sala real, as servas colocaram-se diante dos guardas, sem que se registasse qualquer sorriso ou murmúrio de gracejos, como era hábito acontecer. Este silêncio despertou a atenção de Blymmédès. Mais forte que o roçar dos seus passos no mármore, podia ouvir o tranquilo gorgolejar das fontes.
Os escravos negros pararam. Apenas o embaixador entrou na sala, enquanto o monge se ajoelhava sob o baldaquim, dobrado no murmurejar de uma oração.
Certamente ofuscado pela luz, não se apercebeu imediatamente que o assento do Khagan estava vazio. Subitamente, arregalou os olhos e calou uma praga. Voltou-se para os dois lados, procurou um rosto, um servo. Não viu ninguém, a não ser as caras impenetráveis dos guerreiros de sentinela. A sua mão direita agitou-se nervosamente e os seus anéis dardejaram sob um raio de luz. Deu meia-volta, levantando a toga. Ia abandonar a sala real, mas parou.
Uma silhueta alta e poderosa afastou os guerreiros e saiu da penumbra. Borouh parou diante dos guardas. Blymmédès ia recuar, gritando por ajuda. A maquilhagem exagerava de tal modo a sua expressão que ele pareceu grotesco.
Na verdade, de couraça meio coberta por um longo manto de pele com placas de metal cosidas, espada de combate e capacete com asas de aço desdobradas sobre a nuca, bigode mordaz e determinação colérica, o Bei assemelhava-se perfeitamente a um demónio belicoso.
- Senhor embaixador, o Khagan José deseja-lhe as boas-vindas - anunciou no seu grego um tanto rouco. - Não vai demorar.
Blymmédès controlou um esgar de alívio para melhor parecer chocado pelo acolhimento que recebera.
- Pois bem, o Khagan dos khazares esqueceu-se de que devíamos comer juntos? - troçou. - Só vejo o seu assento vazio; não vejo nenhuma mesa, nem nenhum prato... E ainda menos a Kathum! Senhor Bei, pode explicar-me o que são estes novos modos?
Borouh limitou-se a responder-lhe:
- O Khagan ficará muito contente em explicar-lhe pessoalmente o motivo do seu atraso.
Este durou tempo suficiente para que a maquilhagem de Blymmédès desbotasse. Barafustando, regressou para a sombra do seu baldaquim, para junto do monge. Uma serva desdobrou uma cadeira onde ele se sentou com um suspiro de fúria. Os dois gregos dardejaram olhares brilhantes à sua volta, onde se lia tanto receio quanto ódio.
O sol alongava as sombras. A um sinal discreto de Borouh, as duas filas de guardas tinham consolidado posições à entrada do pátio. No centro da fortaleza de Sarkel-a-Branca, os gregos pareciam peixes apertados nas malhas de uma rede.
Subitamente, José apareceu, de pé, na penumbra da sala, aos pés do trono. Segurava no seu filho Hezekiah pela mão.
Foram os murmúrios dos seus servos que arrancaram o embaixador ao seu torpor. Com o rosto encharcado de suor e com as faces que, sob a maquilhagem, mais pareciam barrancos de estepe, Blymmédès saltou da cadeira desdobrável.
Segurando a toga com a mão, precipitou-se para a sala de audiências, soltando gritos num grego tão vulgar que nenhum kha-zar o compreendeu. Sem efectuar sequer uma saudação, encontrou-se diante de José que, sempre de pé, lhe quebrou o ímpeto com um gesto tranquilo da mão:
- Embaixador Blymmédès, estou contente por vê-lo.
- Protesto, Khagan, protesto por esta espera humilhante a que forçou o embaixador do Imperador da Igreja do Oriente, senhor do universo e soberano de Bizâncio, Constantino, o Sétimo!
José exibiu um sorriso gélido.
- Senhor, saúdo Constantino através da sua pessoa e desejo-lhe uma longa vida.
- Esta espera...
- ...corresponde ao tempo e ao fervor da saudação que o senhor deixou de me dispensar! Aquando dos nossos últimos encontros, reparei que o senhor já não cumpria a saudação que todos devem ao Khagan dos khazares. Compensei-a à minha maneira, considerando que o pequeno período de tempo que passou no meu pátio era um sinal de respeito que endereçava à minha pessoa, do fundo do coração...
Olhou para Hezekiah e acrescentou:
- Quero que isto sirva de lição ao meu filho. Um dia ele será o Khagan. Tem de aprender qual a sua posição e como deve fazê-la
respeitar.
Desprovido de qualquer efeito da maquilhagem, o rosto de Blymmédès estava lívido.
- Khagan José, isto devia ser uma refeição de amizade, antes da minha partida - murmurou. - Para selar a nossa aliança. E em presença da Kathum, que me deve acompanhar!
- Claro - aprovou simplesmente José.
Largou a mão de Hezekiah e voltou-se para subir as escadas do trono. Enquanto se sentava, o rapaz foi colocar-se orgulhosamente ao lado de Borouh. Ao ver como o seu filho se movia com tanto à-vontade, um brilho de ternura amenizou o rosto de José ainda marcado pela disputa que tivera com o rabi Hanania.
No entanto, quando prosseguiu, fê-lo numa voz cortante:
- Como sabe, senhor Blymmédès, a Kathum Attex deseja que lhe concedam algum tempo antes de se lhe juntar em Tmurtorokan.
- Dizem que ela desapareceu - zombou o grego, com má cara.
- Senhor embaixador, a irmã do Khagan dos khazares nunca desaparece!
- Ora, Khagan! Falemos francamente. Desde que cheguei, só suportei humilhações da parte da sua irmã. Ela desdenhou quer os meus presentes, quer os do seu futuro esposo. Recusou as minhas visitas e até a ajuda das minhas servas! Hoje dizem-me que desapareceu da fortaleza. E eu constato a sua ausência...
- Fui eu que lhe pedi para se afastar de Sarkel.
- O senhor?
José olhou na direcção de Borouh:
- O senhor Bei também sabe ouvir os rumores, as palavras que o vento leva.
- Que novo enigma vem a ser este?! - suspirou Blymmédès, como se estivesse a lidar com crianças.
Borouh aproximou-se. Hezekiah observava-o com grande intensidade. Quando o Bei atravessou o raio de luz recortado pela porta, as placas de metal do manto e do capacete reluziram. O rapaz julgou ver um homem de ferro e de pedra, e não um homem de carne, avançando para o grego.
A voz de Borouh trovejou até às abóbadas da sala:
- Os russos da rainha Olga reúnem duzentos navios de fundo achatado no alto do rio Atei, enquanto quatro mil dos seus cavaleiros us protegem, antes de se instalarem a bordo.
- Não compreendo!
- É assim que procedem quando querem atacar a nossa capital. Reúnem uma grande quantidade de barcos, uma chusma de cavaleiros e esperam por uma cheia que os levará de uma assentada até ao mar e, portanto, até Itil.
- Ah! Estou a ver... Mas, senhor, não se assuste com o zunido de uma mosca! Como deve saber, trata-se apenas de mais um dos
caprichos da rainha Olga. Enquanto a nossa aliança não estiver... consumada, se assim me posso exprimir.
- Desta vez, embaixador, há algo diferente. Os russos estão a instalar bestas nos seus barcos, iguais às dos vossos. Bestas que cospem fogo grego.
Os olhos do embaixador arregalaram-se subitamente.
- Fogo grego? Mas...
- Só Bizâncio sabe fabricar o fogo de guerra... Tem razão, senhor Blymmédès - disse José, com suavidade. - Os russos são apenas bárbaros. Nem sequer utilizavam nafta nas suas tochas. Como poderiam fabricar ou saber utilizar o fogo grego se os gregos não lhe dessem uma ajuda?
Apesar da fornalha do meio-dia que calcinava os servos no pátio, o silêncio caiu sobre a sala real como uma geada de Janeiro. Até o murmúrio da prece deixou de se ouvir. Sem se aperceber, Hezekiah contemplou o pai com uma admiração receosa. Quando o Khagan José voltou a falar, cada uma das suas frases pareceu-lhe uma machadada:
- Olga está em Constantinopla. O senhor está aqui. Os russos estão na posse do fogo de guerra a quinhentas léguas de Itil. Nós conversamos sobre núpcias como servas à beira de um poço. Senhor Blymmédès, o seu mestre Constantino julga-nos lebres num terreiro!
- Khagan! - exclamou Blymmédès. - Khagan José! Não é possível! São palavras no ar, rumores... Sabe perfeitamente que nenhum dos povos que nós... que nós...
- Que vocês dominam.
- Euh... Bizâncio jamais confiou o fogo de guerra a russos, búlgaros ou magiares! Não, rogo-lhe que reflicta, Khagan! Só pode ser uma notícia falsa.
- Sabê-lo-emos em breve - resmungou Borouh. - Dentro de quatro horas partiremos para o rio Atei e para a nossa capital.
- E se nos enganarmos, senhor Blymmédès, - acrescentou José, sorrindo - nesse caso a Kathum Attex irá ter consigo a Tmurtorokan, como previsto. Sabe que nós, os fiéis da lei de Moisés, não juramos. Mas tem a minha promessa...
Blymmédès teve um movimento indeciso e, subitamente, dobrou o joelho numa saudação desajeitada que lhe fez luzir o crânio calvo.
O sorriso de José alargou-se, devolvendo-lhe a sua juventude por um breve instante. Apontou para o monge, cujo murmurejar prosseguia à entrada da sala de audiências:
- Já me esquecia... Como prova de boa vontade e para mostrar a nossa abertura de espírito, o monge que o acompanha virá connosco até Itil. Se rechaçarmos os russos, talvez queira construir aí uma das vossas igrejas...
Quba, Azerbaijão Maio, 2000
A descoberta de Quba, a cidade judia, foi um choque para Sofer. O Mercedes parou numa rua à sombra. Agarounov saiu rapidamente do carro, entrando num grande edifício inacabado, espantosamente luxuoso.
Por sua vez, Sofer abandonou também o veículo. Bastaram-lhe alguns segundos para se aperceber que a tristeza brutal que se abatia sobre ele era apenas um efeito da nostalgia.
Aqui, tudo lhe parecia estranho e, ao mesmo tempo, muito chegado. De ambos os lados da rua principal, as casas possuíam terraços cobertos por alpendres de madeira ou de zinco, delicadamente trabalhados. O piso inferior era de pedra e os andares em madeira. Escadas abertas ligavam as varandas. Os rendilhados de zinco que decoravam os telhados, todos diferentes, testemunhavam um savoir-faire que se perdia na noite dos tempos. Certos motivos representavam um candelabro de sete braços, outros ostentavam a estrela de David. Cada casa estava rodeada por uma cerca de tábuas, atrás da qual, por entre galinhas cacarejantes, miúdos com a cabeça coberta por um solidéu jogavam à bola.
Ao verem Sofer, pararam para o observar. Este saudou-os com um pequeno gesto. Eles responderam-lhe com sorrisos que lhe apertaram a garganta, como se subitamente tivesse regressado ao seu próprio passado, como se tivesse atravessado bruscamente o espelho do tempo: via as crianças diante dele e, contudo, no seu espírito e no seu coração ele era ainda uma delas!
Reencontrava o que julgava para sempre desaparecido: o aroma, as formas, as caras da sua própria infância, aqui, no Cáucaso. junto dos descendentes dos khazares! Como era possível este gaguejo do tempo?
Quba recordava-lhe, em todos os aspectos, as schtetels, essas aldeias judias da Polónia anterior à guerra. As suas ruas e casas pareciam tão irreais quanto as imagens de um mundo desaparecido. Contudo, eram verdadeiras casas, crianças e varandas judias do mundo actual. Através delas, fora preservado um modo de vida no meio do qual nascera e aprendera a ser "judeu". Como aprenderão preço que isso acarretava.
- Sabia que ficaria surpreendido.
Ao seu lado, Agarounov, que ele não ouvira chegar, observava-o afectuosamente.
- É mais do que uma surpresa - respondeu-lhe Sofer, aborrecido por deixar transparecer tão facilmente a sua emoção. - Sinto-me de regresso a casa!
- Sempre nos interrogámos sobre o sentido em que viajou esta tradição de construção e de organização das aldeias - opinou Agarounov, sempre pronto a passar da emoção à reflexão. - Por exemplo, este trabalho do zinco terá resultado da influência tardia dos judeus da Europa? Contudo, aperceber-se-á muito depressa que se trata de uma das tradições mais longínquas do Cáucaso, quer da parte dos muçulmanos, quer da parte dos cristãos da Geórgia. Por outro lado...
Agarounov indicou uma varanda com balaustradas cuidadosamente cinzeladas:
- Por outro lado, o Oriente sempre apreciou estas decorações. Encontramo-las em toda a região, das antigas cidades persas até ao mar Negro, da Turquia à Crimeia. Nesse caso, porque não pensar terem sido os khazares a transportar esta tradição até à Europa Central?
Uma breve buzinadela interrompeu-os brutalmente. O sorriso de ouro de Lazir apareceu à porta do Mercedes:
- Por que motivo vocês têm sempre de fazer perguntas que não servem para nada e para as quais nunca obterão respostas? - troçou. - Eu, que não sou sábio, só coloco verdadeiras questões. Primeira: agora que estamos aqui, que fazemos? Segunda: onde comemos? É meio-dia e tenho fome!
Sofer e Agarounov riram de bom grado.
- Gostava que Marc encontrasse o meu amigo Zovolun, o presidente da Câmara de Quba - disse Agarounov, que acrescentou, dirigindo-se agora a Sofer: - Acabo de saber que ele se encontra no cemitério, onde decorre uma cerimónia dos "trinta dias", depois do enterro de um dos seus velhos companheiros. Poderá ser interessante participar na cerimónia. Deste modo, encontrará alguns dos judeus das montanhas!
- Huumm, estou a ver - suspirou Lazir, sem entusiasmo. - Refeição cerimonial... Senhor Sofer, previno-o desde já que não quero ementas com shaschlick, khajapuri, ou crepes recheados!
Quba não possuía apenas um cemitério, mas três. Agarounov explicou que todos os judeus das montanhas, originários de Quba, mesmo os que tinham emigrado para Israel ou para a América, pediam para ser enterrados "no país". Na orla do planalto, cemitérios imensos dominavam o vale e o burgo. Todos estavam cuidadosamente tratados e exibiam uma opulência, uma ostentação e um luxo mortuários, inesperados em jazigos mais recentes, e todos dispunham de uma parte antiga, um campo com erva selvagem, no meio de simples esteias de pedras tradicionais, lembranças de tempos revolutos.
O cemitério para o qual Lazir o conduziu era o mais afastado da aldeia. À entrada, tiveram de passar por um grupo compacto de mulheres cobertas de xailes pretos. Discretamente, Agarounov indicou uma trintena de homens, reunidos em semicírculo em redor de um túmulo recente, de solidéu na cabeça ou, em certos casos, com um simples lenço branco dobrado. Na sua maioria eram rostos rudes e marcados pelo sol e pelo frio, rostos de camponeses, homens das montanhas como se vê em toda a parte.
Enquanto se aproximavam, Sofer reconheceu o som lamuriento dos salmos recitados em hebreu. Esperaram, um pouco recuados, misturando os seus murmúrios ao Kaddish, a oração dos mortos. Depois o grupo desfez-se e Sofer viu subitamente diante de si um pequeno homem, gordo e nervoso, cujo suor colara os cabelos curtos às têmporas.
- Zovolun Buruth Danilev - apresentou-se. - Muito honrado pela sua visita, senhor Sofer. Mikhaïl contou-me o motivo da sua vinda. Sabe, aqui mal conhecemos os khazares...
O presidente da Câmara estendeu-lhe uma mão um pouco húmida. Falava rapidamente e o seu olhar era seco e frontal. Sem saber bem porquê, Sofer respondeu-lhe com um daqueles sorrisos que se endereçam a um comerciante que nos certifica que o artigo que pedimos é de uma raridade que o torna quase precioso para poder ser vendido.
As usuais fórmulas de delicadeza sucederam-se enquanto se dirigiam para um medíocre edifício de pedra de duas faces, onde os esperava uma refeição comum.
Enquanto as mulheres aguardavam ao sol, no exterior, agitadas de vez em quando pelos lamentos lancinantes da mais idosa das carpideiras, os homens sentaram-se em redor das mesas.
De acordo com a tradição, os pratos, frios, deviam ser consumidos em função da sua origem na natureza, seguindo o trajecto da luz vinda dos céus e que penetra depois na sombra da Terra. Para começar, Sofer recebeu uma maçã - alimento do ar. Depois, fatias de pepino - produto do solo -, queijo, peixe e, por fim, uma batata. A vodca era autorizada a cada etapa, o que arrancou um trejeito de reconforto a Lazir.
As discussões animaram-se durante a refeição. Espantosas para o local e para a situação, passavam caoticamente do preço do custo de vida à qualidade dos telemóveis, das esperanças económicas da região aos frutos das colheitas... Contudo, a assembleia calava-se regularmente, enquanto um ou outro participante recitava um salmo ou uma das dezoito bênçãos: Abençoado seja o Eterno, Nosso Senhor e Senhor dos nossos antepassados, Deus de Abraão, Isaac e Jacob...
Sofer hesitou por um momento antes de retirar as fotocópias dos documentos de Oxford e de Cambridge do bolso interior do casaco. As folhas circularam de mão em mão. Poucos dos presentes eram capazes de decifrar o hebreu antigo escrito pelo rabi Hazdai e pelo Khagan José, mas a emoção que lhes iluminou os rostos foi uma recompensa.
Agarounov reencontrou a sua habitual fogosidade, esmorecida pelo peso da cerimónia. Com toda a naturalidade prosseguiu uma reflexão anteriormente interrompida:
- Não é extraordinário que não se consiga saber qual a origem da nossa própria língua, o tath?! - exclamou. - Virá do persa, do turco, do khazar, será uma mistura de tudo isso? Considerem a palavra Kiev. Em tath, significa "à beira da água"...
- Em khazar também - divertiu-se Sofer, entrando no jogo - mas trata-se de uma palavra composta: Ki-Ev!
- Exactamente! - rejubilou Agarounov. - Mas, nesse caso, o nome da cidade deriva do khazar ou do russo?
- Ou de ambos ao mesmo tempo, devido ao efeito causado pela influência dos khazares na região. Não se esqueça que Kiev foi fundada pelos khazares e não pelos russos, que a conquistaram um século mais tarde.
A discussão tornou-se geral. Num movimento de entusiasmo, Sofer mostrou a moeda de Yakubov que trazia sempre consigo.
Tal como acontecera momentos antes com as fotocópias dos textos antigos, a moeda passou de mão em mão, provocando exclamações. No entanto, o rosto do presidente da Câmara ensombrou-se. Depois de lançar alguns olhares intrigados para Sofer, acabou por lhe perguntar:
- Como obteve esta moeda?
- Foi-me dada por um homem... um homem um pouco estranho. Talvez um de vocês o conheça...? Chama-se Ephraim Yakubov. Diz tê-la encontrado numa gruta na Geórgia. Uma gruta suficientemente ampla para conter uma sinagoga...
Sofer ia expor detalhadamente como Yakubov o contactara antes de desaparecer. Ora, mal pronunciara este nome, caiu um pesado silêncio na sala ainda há pouco tão ruidosa. Houve um momento de mal-estar e, depois, Sofer ouviu a voz áspera do presidente da Câmara lançar-se na recitação de um salmo.
Durante um instante, pensou que a sua imaginação o levava a inventar um mistério onde só havia algo de inteiramente natural...
Afinal, não era já assaz estranho ter este tipo de debate durante uma refeição cerimonial à memória de um morto?
Procurou a aprovação tranquilizadora de Agarounov, mas este continuava a mastigar a sua batata, de olhos baixos.
O salmo acabou. Um homem magro, de profundos olhos negros, maçãs do rosto encovadas, como que ligadas por um enorme bigode, estendeu o braço por cima das pequenas garrafas de vodca já vazias e devolveu a moeda a Sofer:
- Creio saber de quem se trata, o seu Yakubov - disse num russo quase incompreensível, a voz embargada pelo álcool. - O meu irmão conheceu-o. Foram ambos lenhadores na Geórgia. Disputaram-se. O seu Yakubov traficava com os tchetchenos.
- Que tipo de tráfico? - inquiriu Sofer.
O homem sorriu, limpando o bigode com a palma da mão:
- Que quer que trafiquem os tchetchenos? Armas, é claro...
- A montanha está cheia de rumores. Segui-los, é perder-se! Devem existir muitos Yakubov pelo Cáucaso...
Sofer sobressaltou-se ao ouvir a voz de Lazir por cima do ombro. O campeão de luta sorria. O ouro dos seus dentes brilhava menos do que à luz do sol, mas o seu olhar pesava no do homem de bigode. Este baixou o nariz. Sofer sentiu novamente o mal-estar propagar-se pelos seus vizinhos, enquanto Lazir lhe colocava amigavelmente a mão no ombro.
- O presidente da Câmara gostaria de lhe mostrar o cemitério - disse-lhe, gentilmente.
- Agora?
- Porque não? Temos de deixar a sala para que as mulheres também possam comer.
O calor do sol surpreendeu Sofer. Depois de atravessarem em silêncio uma grande parte do cemitério, Zovolun Buruth Danilev transpirava abundantemente. Sofer estava desconcertado pelo que via. Apesar das imagens serem geralmente proibidas nos cemitérios judeus, um grande número de esteias continha uma representação do rosto dos defuntos. Gravadas no próprio mármore preto, a partir de fotografias, elas eram de um realismo perturbante. Deste modo, mesmo perto dele, viu o rosto de uma jovem, muito bela, de uma doçura lancinante. Um pouco mais longe, viu os rostos sorridentes de uma mãe e do seu jovem filho em uniforme.
- Em Quba, gostamos de voltar a ver o rosto dos nossos mortos - explicou Zovolun, limpando a nuca. - Mas é ainda mais espantoso se olhar deste lado.
O presidente da Câmara puxou o cotovelo de Sofer para que ele se voltasse. A estupefacção imobilizou-o: no reverso de esteias de dois a três metros de altura, já não contemplava apenas rostos, mas figuras de homens e de mulheres de pé, na sua maioria jovens, com as roupas de todos os dias: um fato simples, calças de ganga e t-shirt, fumando um cigarro ou sorrindo, chamando um amigo, ou lendo. O realismo era de tal ordem que todos pareciam surgir literalmente da terra, elevando-se no preto do mármore como uma plantação de mortos prestes a ressuscitar e já sobrenaturalmente presentes.
Zovolun tomou o espanto de Sofer por admiração.
- É belo, não é?
- Mais estranho do que belo - emendou Sofer.
- Nós gostamos.
- Tudo isto custa muito caro! - disse Sofer, desviando a conversa. - Estes túmulos, estas casas em Quba, o senhor administra uma rica aldeia. Posso perguntar-lhe como faz?
- A América. Os nossos vão até lá fazer negócios. Os Estados Unidos, o Canadá... Parece que os judeus das montanhas têm muito jeito para os negócios. Mas ficam muito tempo afastados das famílias, dos velhos pais, por vezes até das esposas. Estão cheios de nostalgia. Esperam regressar um dia, mas para uma aldeia grande e bela. Então, enviam dinheiro, muito dinheiro, para que as suas famílias vivam o melhor possível e para poderem levar uma vida como na América, quando voltarem... Como vê, é muito simples.
De facto, era tudo muito simples, pensou Sofer, dominando-se para não lhe perguntar que tipo de negócios tão frutuosos praticavam os judeus das montanhas nos Estados Unidos. Aliás, nem teve tempo para replicar. Numa voz mais baixa, o presidente da Câmara acrescentou:
- Visto que falamos de dinheiro, essa moeda que possui, a moeda khazar, é melhor que não a mostre a mais ninguém.
- Ah... Porquê?
- Não conheço esse Yakubov de que nos falou há pouco, mas, bom, não é preciso ser feiticeiro para adivinhar que ele pilhou um lugar sagrado.
- A gruta... A sinagoga! Sim...
- Se mostrar essa moeda a muita gente, outros irão pilhá-la.
- Mas não se sabe onde ela fica! - exclamou Sofer. - Algures na Geórgia... Que raio de precisão!
- O senhor não sabe. Eu também não, mas outros podem sabê-lo. Imagina facilmente como correm as coisas num pequeno país... E nós, os judeus das montanhas, é como se vivêssemos num país ainda mais pequeno, no interior do AzerhajjiãA
Com o polegar e o indicador fez um gesto delimitando um espaço minúsculo e acrescentou:
- Basta exercer alguma pressão para nos fazer desaparecer. Alguns não deixaram de o tentar!
- Quem? Porquê? Senhor Zovolun, porque não me explica francamente o que o perturba nesse Yakubov? Haverá alguma relação com o atentado de Baku? Com a... reivindicação do "Renascimento Khazar"?
O pequeno homem enxugou cuidadosamente o suor da cara. Durante um instante, Sofer julgou que ele lhe ia abrir o coração. Mas, em vez disso, fez uma careta e abanou a cabeça:
- Não vejo o que quer dizer. Que relação poderá haver com o atentado? Como diz Lazir, a montanha está cheia de rumores. Segui-los, é perder-se! Venha, vou mostrar-lhe o velho cemitério. É tudo o que resta da nossa comunidade da época de Estaline!
Lazir e Agarounov deixaram Sofer no hotel quando a noite já ia avançada. Ele entrou no grande hall de mármore, sonhando com um duche e dez horas de sono. Enquanto pedia a chave, que na realidade era um cartão magnético, a recepcionista informou-o com um sorriso gracioso de que alguém o esperava no bar.
O seu cansaço dissipou-se imediatamente. Tinha a certeza de que era ela. Porquê? Por que milagre?
Sem se aperceber, abrandou excessivamente o passo. Queria saborear aquele momento. Procurou formular a primeira frase, a primeira pergunta. Teve a impressão de já se ter cruzado com o seu olhar de esmeralda. Desta vez, ia finalmente compreender. Ouvir a voz dela. Respirar o seu perfume.
Santo Deus, parecia um adolescente dirigindo-se para o seu primeiro encontro!
Uma dupla porta de vidro deslizou diante dele. Sob a sola dos sapatos sentiu a alcatifa suceder ao mármore. Num relance de olhos circular procurou a cabeleira ruiva.
Não a viu.
Ela não se encontrava em nenhum dos amplos sofás dispostos à volta das mesas baixas, nem em nenhuma das cadeiras do bar.
Em compensação, avistou Alastair Thomson. De pé, com o seu crânio glabro reflectindo a iluminação suave, este chamava-o com um gesto silencioso.
Furioso e desiludido, Sofer sentiu o desejo violento de lhe voltar as costas e subir para o quarto sem o saudar. Foi retido pela grosseria da atitude e por uma ligeira curiosidade.
Avançou, hirto, sentindo novamente todo o cansaço. A sua cara taciturna provocou uma exclamação irónica da parte do inglês:
- Estou muito feliz por ver até que ponto a minha visita lhe agrada!
Parecia em plena forma. Trocara o seu fato de Savile Row por um blusão caqui, acabado de passar a ferro. Um laço azul-escuro com pintas vermelhas fechava o colarinho da camisa clara e os seus anéis brilhavam sob as luzes suaves do bar, recordando a Sofer as jóias de Lazir.
O escritor deixou-se cair numa poltrona resmungando que tivera um longo dia e que as estradas do Azerbaijão não eram de grande repouso.
Thomson sentou-se por sua vez, pelo que o seu blusão se abriu. Sofer entreviu a coronha ultra-lisa de um revólver dentro de um estojo.
Quase na mesma altura, o inglês inclinou-se para colocar diante dele uma grande caixa vermelha, decorada com um esturjão sublinhando a palavra caviar. A arma tornou-se ainda mais visível.
- É do bom, do excelente mesmo: beluga! Pensei que talvez não lhe ocorresse procurá-lo. Baku não é apenas a cidade do petróleo, é também a do caviar.
A surpresa de Sofer, quer perante a arma que Thomson exibia, quer perante a prenda, passou por um movimento de protesto. Thomson insistiu com um gesto, fazendo brilhar o seu anel direito por cima da caixa de caviar:
- Aceite, por favor! Aborreci-o no avião com todas as minhas perguntas e gostaria, modestamente, de me fazer perdoar. Além disso, no mercado local só custam sete dólares os cem gramas!
A cara do inglês iluminou-se:
- Bem vê que se a minha intenção fosse comprá-lo, estaria muito longe de pagar o preço devido!
Por fim, Sofer descontraiu-se. Tal como na véspera, este misterioso inglês intrigava-o e irritava-o por se antecipar constante-mente às suas respostas. No entanto, nem um só momento pensou que Thomson perdesse o seu tempo neste bar para uma visita de cortesia. Chamou a jovem empregada, encomendou uma vodca polaca e perguntou:
- Como soube que me tinha instalado neste hotel?
- Se não soubesse descobrir uma coisa tão simples - divertiu-se Thomson - como conseguiria descobrir o que dissimula o "Renascimento Khazar"?
Sofer riu cortesmente.
- Agradeço-lhe o caviar, aprecio o gesto. Mas duvido que tenha vindo apenas para me oferecer esta prenda encantadora. Suponho que me quer fazer algumas perguntas, ainda a propósito dos khazares, não é verdade?
Thomson levou algum tempo antes de responder. A empregada colocou o copo de vodca diante de Sofer. Quando este ergueu os olhos teve a impressão que o olhar do seu interlocutor estava tão gelado quanto a sua bebida.
- Não se trata propriamente de uma pergunta... Queria partilhar consigo uma hipótese... E as suas consequências.
Sofer bebeu um golo revigorante da Zubrowska.
- Estou a ouvi-lo.
- Ontem expliquei-lhe a que ponto a região do mar Cáspio é um importante centro para onde convergem múltiplos interesses...
- Por causa da importância das reservas petrolíferas recentemente descobertas. Sim, recordo-me.
Thomson assentiu.
- A condição fundamental para uma boa exploração petrolífera, não só para o seu bombeamento, como também para a sua exportação, é a segurança da zona. Foi por isso que os americanos "inventaram", se assim me posso exprimir, a guerra do Golfo: era preciso sanear a região, torná-la segura imobilizando o poder nefasto do Iraque, que podia - e queria - servir-se do petróleo, a qualquer momento, como meio de chantagem... Basta-lhe verificar os estragos económicos e, por conseguinte, políticos, que acarreta uma subida de dez a quinze dólares no preço do barril de petróleo na Europa, para se convencer.
- Oh..., - exclamou Sofer, divertido - mas estou convencido!
- A Europa, todo o Ocidente e todos os que partilham as regras económicas precisam de um petróleo abundante e não muito caro - insistiu Thomson. - Disso depende a qualidade da nossa vida, tal como a perenidade dos nossos valores e da nossa civilização. Precisamos de segurança na exploração do petróleo. Segurança presente e futura...
- Portanto, esse é o calcanhar de Aquiles do Ocidente - interveio Sofer. - De certo modo, o petróleo é uma arma ao alcance de todos, mesmo dos mais frágeis. De modo geral, o que me está a dizer é o que diz qualquer ditador, ou qualquer grupo de homens um tanto determinados caso dispusessem de uma exploração petrolífera susceptível de “incomodar” o Ocidente... Um Ocidente que, diga-se de passagem, o senhor me parece confundir um pouco apressadamente com o punhado de companhias petrolíferas de que é empregado! Definir a nossa civilização como a do "ouro negro" mereceria um debate...
Thomson pareceu surpreendido pela farpa mordaz, mas encaixou-a com uma expressão trocista.
- O petróleo só é uma arma para loucos dispostos a suportar o que os iraquianos suportam actualmente. Saddam Hussein é um louco e impõe a sua loucura a todo um povo!
- A menos que seja o oposto e que tenha sido o Ocidente a impor essa loucura ao povo iraquiano...
- Se não se importa, não brinquemos aos néscios... Estaríamos a perder o nosso tempo. Quando um gigante tem dores no pé, senhor Sofer, trata-se com remédios de gigante. Os micróbios não sobrevivem!
- Que bela metáfora! - aplaudiu Sofer, que começava sinceramente a divertir-se com esta disputa.
Mas esta observação não divertiu nada Thomson, que retorquiu secamente:
- Quando me interrogo sobre a identidade daqueles que se dissimulam por detrás desse nome sem substância, o "Renascimento Khazar", pergunto-me quem estará realmente interessado em provocar a confusão na exploração petrolífera do mar Cáspio.
Sofer concordou, sorrindo. Thomson inclinou-se, apoiando a mão com o anel na caixa de caviar e declarou numa voz baixa, subitamente dramática e ameaçadora:
- Senhor Sofer, o senhor não vê, não ouve, nem sequer adivinha quantos cadáveres tem à sua volta. Contudo, aqui mesmo em Baku, neste hotel, trava-se uma guerra! Uma guerra comercial. A mais coriácea e a mais violenta de todas. Nas guerras comerciais, quanto mais os actores são insidiosos, mais valem o seu peso em ouro. Obtive hoje umas informações que me levam a pensar que os beneficiários de um ligeiro vento de pânico sabiamente orquestrado nesta região poderiam ser... os americanos!
Sofer esbugalhou os olhos. Thomson soergueu-se, satisfeito consigo próprio.
- Expliquei-lhe que a parada é colossal. Os russos estão arredados do assunto por um bom momento. Mas não acontece o mesmo com os europeus. Pelo contrário. Ora, o atentado reivindicado pelo "Renascimento Khazar" destruiu as instalações da O.C.O.O., um consórcio cujos fundos são quatro quintos europeus.
- Está a querer dizer-me que as companhias petrolíferas americanas teriam organizado um atentado?!- exclamou Sofer, incrédulo.
- Sim, para arrastar artificialmente a região para a insegurança, de forma a amedrontar as companhias europeias.
- Mas...
- Se estas cederem ao pânico, reduzirão as suas pretensões e deixarão de se empenhar tanto na exploração dos fundos do mar Cáspio... O vazio será então automaticamente preenchido pelas companhias americanas. A insegurança cessará, como por milagre! Findos os atentados, as ameaças... A calma regressará e os americanos terão ganho o jogo, deitando mão a todas as reservas da região. Se acrescentarmos as do Médio-Oriente, seria como se estivessem com a mão na torneira de ar fresco que abastecesse o mundo inteiro...
- Julga isso possível?
- É uma hipótese. Dentro em breve, poderemos verificá-la.
- Como?
- Já lhe disse ontem. Tenho a certeza que dentro de pouco tempo haverá outro atentado. É sempre assim. Se a minha hipótese for credível, mais uma vez serão as instalações da O.CO.O. as atingidas. Não as dos americanos.
Sofer deixou errar o olhar pelos rostos presentes na sala. Começava a compreender onde o inglês queria chegar. Acabou a bebida. Com um arrepio provocado pelo álcool e pelo cansaço, formulou em voz alta a conclusão dos seus pensamentos:
- Nesse caso, quer dar-me a entender que o "Renascimento Khazar" pode ser apenas...
- .. .uma máscara., um pequeno grupo de fachada. Uma manipulação! - exaltou-se Thomson. - Um pequeno grupo judeu, senhor Sofer, que se refere a uma velha história do passado judeu do Cáucaso, mas que toda a gente esqueceu. Um grupo de judeus ao qual foi prometido não se sabe o quê e que se encontra comprometido numa aventura que causará a sua perda...
Sofer pensou no estranho comportamento de Lazir, em Quba, na conversa com Zovolun no cemitério, nos seus "negócios" frutuosos, para empregar a expressão do próprio presidente da Câmara, que permitiam fazer viver a pequena cidade muito acima das suas posses, graças ao dinheiro enviado dos Estados Unidos.
Perguntou:
- Tem alguma prova?
Thomson abanou a cabeça, mas rejubilava.
- Nenhuma. Repito-lho que se trata apenas de uma hipótese. Mas é a melhor. Senão, por que teriam adoptado essa designação perfeitamente incrível de "Renascimento Khazar"?
Sofer não estava longe de concordar, mas, no entanto, encolheu os ombros e disse:
- Pode ser outra coisa.
- É possível.
Sofer levou a mão ao copo mas apercebeu-se de que estava vazio. Resmungou:
- Que espera de mim?
- Que transmita uma mensagem aos seus amigos...
- Aos meus amigos?
- Sei onde esteve hoje... Oh, não há feitiçaria nenhuma nisso: o senhor é um escritor judeu que investiga os khazares. Portanto, entra em contacto com aqueles que poderão ser os seus longínquos descendentes, os chamados judeus das montanhas... E que levam uma vida curiosa, não é verdade?
Sofer não respondeu. Sentia-se gelado dos pés à cabeça.
- Diga-lhes que desistam - prosseguiu Thomson. - Que se recusem a perpetrar um segundo atentado. Para nós, isso será um sinal de que nos recordaremos. E se nos enviassem uma explicação, perfeitamente anónima, com pormenores implicando os americanos, isso seria ainda melhor.
- Porque me faz esse pedido? Nada tenho a ver com esta história!
Thomson levantou-se, rindo.
- Precisamente. Peço-lhe a si, porque o senhor é apenas um turista no meio desta história. Se eu também fosse romancista diria que o senhor nem é uma personagem, o que é perfeito.
Sofer levantou-se por sua vez. Thomson colocou-lhe uma mão no ombro:
- Já encontrou a localização da gruta? Aquela que continha a moeda que me mostrou.
- Não... eu... Como sabe que ela vem de uma gruta? Eu não lhe disse nada!
- Disse, sim! Uma gruta que conteria uma sinagoga! Thomson levou os dedos à testa:
- Tenho uma óptima memória...
Durante uma fracção de segundo, Sofer teve novamente a sensação de ser um rato entre as patas de um gato. Depois, o inglês desejou-lhe boa-noite.
- Descanse. E, por favor, telefone aos seus amigos amanhã. Isso bastará. Diga-lhes que é o melhor serviço que lhes pode prestar. E que nós nada temos contra eles!
Já estava no hall, quando Sofer se apercebeu que a caixa de caviar continuava em cima da mesa. Porque raio a aceitara?
Sarkel Junho, 955
ESTA NOITE HAVERÁ UMA GRANDE FESTA - disse Hezekiah.
Eles vão dançar e cantar quase toda a noite... É sempre assim quando chega um comboio de barcos do Norte.
O filho do Khagan estava sentado ao lado de Isaac, nas ameias do caminho da ronda, a sul da fortaleza. Mais abaixo, a cidade de tendas vibrava novamente, cheia de vida. O luto pelo Khagan Benjamim terminara. Os barcos que Isaac abandonara há quatro dias tinham acabado de acostar numa pequena enseada, arranjada na margem, uma espécie de praia onde os grandes navios de fundo achatado podiam atracar sem dificuldade.
Do alto das muralhas distinguiam-se perfeitamente os escravos que saíam das embarcações sob os olhares dos aldeões. Contudo, apesar dos seus esforços, Isaac encontrava-se muito longe para poder reconhecer Saul e Simão por entre a multidão de curiosos, barqueiros e mercadores.
Pensou que eles iam procurá-lo, talvez tentando a sua sorte à entrada da fortaleza. Certamente que o julgariam morto.
- Estás triste - observou Hezekiah. - Gostavas de ir dançar com eles?
Isaac abanou a cabeça, sem sequer sorrir.
- Os meus dois companheiros de viagem devem ter chegado nesses barcos. Sinto-me triste por não poder ir ter com eles. Vão perguntar-se se estarei vivo ou morto.
Hezekiah inclinou seriamente a cabeça. Compreendia. Com a ajuda do velho rabi, conseguira convencer o seu pai a autorizar o mensageiro dos judeus de Sefari a dar um passeio pelas muralhas. Isaac Ben Eliezer podia novamente andar sem se sentir acometido de vertigens. Tinha de respirar um pouco de ar fresco para reconstituir o sangue que perdera.
No entanto, o Khagan só dispensara este favor de má vontade. Um punhado de guardas conservava-se a curta distância, de olhar penetrante e arco na mão. Por muito incrível que pudesse parecer, e sem perceber o motivo, Isaac era doravante um verdadeiro prisioneiro! Na véspera, o chefe dos guardas, o tal Senek, que tão bem o assomara aquando da sua chegada, anunciara-lhe que não devia sair do quarto, e ainda menos da fortaleza, antes que o Khagan o tivesse convocado para uma audiência.
Quando recebeu a notícia, Isaac quase regozijara. Isso significava que o seu encontro com o rei José era iminente. Mas o rabi viera anunciar-lhe que, pelo contrário, esse encontro podia ser adiado por muito tempo. Porquê? O velho homem esquivara-se à resposta. Dissera que o Khagan era por vezes sujeito a caprichos. Tinha de ter paciência.
Hezekiah parecia não saber mais:
- É verdade que o meu pai está muito zangado contigo. Quase tanto como com os gregos. Não me explicou porquê. Talvez por estar simplesmente zangado com toda a gente devido ao desaparecimento de Attex.
De facto, essa era a outra notícia grave. Mais do que grave: terrível, dolorosa!
Isaac não o podia confessar a Hezekiah, mas a fuga da Kathum e a causa dessa fuga tinham-no enchido de tristeza.
Depois de lhe ter pedido para ter paciência, o rabi Hanania confiara-lhe que a princesa Attex desaparecera e que era provável que não a voltasse a ver tão depressa.
- Porque fugiu? - perguntara Isaac, estupefacto.
- Ai de nós! Infelizmente...
O que o rabi lhe revelara era de molde a encher os corações de terror. Contara-lhe o ódio que os gregos nutriam pela religião de Moisés. Descrevera-lhe as ameaças de Bizâncio que pairavam sobre o reino dos khazares desde há vários lustros. Por fim, de voz baixa, contara-lhe a última manobra do imperador Constantino: a embaixada que queria forçar a irmã do Khagan a contrair um casamento cristão.
- Nem mais, nem menos, rapaz! Esse Blymmédès só veio para capturar a nossa Attex com modos dengosos, falinhas mansas e prendas. Contava levá-la para Constantinopla, a fim de obrigá-la a renegar o Livro!
- E então... ela recusou?
Os olhos do velho homem iluminaram-se:
- Fez melhor do que recusar! Desapareceu, fugiu... Pfff! Sumiu, ninguém mais a viu... O embaixador está furioso e devo dizer que o Khagan também!
O risinho de Hanania não tranquilizara minimamente a estupefacção dolorosa de Isaac.
Muito tempo após a partida do rabi, permanecera prostrado à beira do leito sem saber qual dos factos o esmagava mais radicalmente.
Como era possível? Como podia o Khagan José aceitar, e até colaborar, numa humilhação daquelas? Não ouvia o rugido de cólera do Todo-Poderoso? Como podia renegar a Lei, a fé dos seus antepassados, o testamento do seu avô? Como podia varrer daquela maneira, com um acordo pútrido, a esperança que os judeus de todo o mundo depositavam nele?
Que decepção!
Agora que conseguira finalmente chegar ao reino judeu dos khazares, tudo desabava à sua volta. A sua esperança, tão forte, era apenas areia dispersa pelo vento, areia de vergonha. Pois, como acreditar ainda que este Khagan inacessível se pudesse tornar o David dos judeus do universo? O seu soberano, o seu tão esperado Messias...
Que desilusão!
Um cego tropeçando à cabeça de um rebanho, eis o que ele era!
O rabi Hazdaï teria certamente morrido ao ouvir uma tal notícia! Aliás, ele próprio, Isaac Ben Eliezer, também ia morrer e imediatamente!
Apetecia-lhe que alguém lhe desferisse um novo golpe na cabeça, pois desta vez não haveria ninguém para o tratar. Nenhum beleza angélica velaria à sua cabeceira, deslizaria os dedos pelos seus lábios para salvaguardar o fluxo e o refluxo da sua respiração. Nessas condições, a morte seria algo mais suave do que o desaparecimento da Kathum Attex! Que o Eterno lhe perdoasse!
Oh, mas sentia-se certamente aliviado, enormemente aliviado, por ela ter sumido, recusando conspurcar-se com a aliança grega. Isso só o levava a admirar ainda mais a sua coragem.
Estava estarrecido.
E desesperado.
Sem quase se aperceber, durante aqueles dias vivera apenas para respirar o mesmo ar que ela, para entrever as esmeraldas nos seus olhos, sentir o seu perfume, o contacto raro dos seus dedos, o murmúrio da sua voz, o roçagar da sua túnica.
Na verdade - abençoado o Todo-Poderoso, que assim o desejara - ele só recobrara forças e lutara contra a morte para permanecer vivo junto dela! Ela ressuscitara-o unicamente graças à sua presença, à auréola com que a luz matinal lhe acariciava a nuca, o desenho dos lábios.
Saber que ela se escapara pela mais nobre e até pela mais sublime das causas, não mudava nada.
Sentia a sua falta, como o fogo sente a falta do ar e o deserto a falta da chuva. A sua ausência retirava-lhe o sopro de vida do corpo. Rasgava-lhe o coração, deixando-lhe apenas um fruto morto no peito.
Onde estaria?
Que perigos desafiaria? Que iria acontecer-lhe?
Que o Eterno lhe perdoasse, se pudesse, pois doravante tinha de enfrentar as trevas. Teria dado mil anos para se encontrar a seu lado. Teria aceite que o transformassem em cão ou em gnomo para protegê-la, para defendê-la das más criaturas. Quantos perigos, quantas ameaças deviam rodar à volta dela, como animais selvagens em redor de uma corça isolada!
Hezekiah tinha razão e muito mais do que imaginava: Isaac sentia-se realmente tremendamente triste.
Era uma tristeza infinita, inconsolável. Sofria mais do que sofrera com a ferida que quase o matara. O seu tormento assemelhava-se ao que lhe teria sido infligido por um fogo que lhe consumisse as entranhas, com um suplício suplementar: o silêncio. Não podia confessar-se nem ao rabi Hanania, nem a Hezekiah.
Aliás, também não confiava a si mesmo a palavra fabulosa que designava o seu tormento, o seu desejo, o seu desespero: o amor!
O rapaz soltou uma exclamação e colocou a mão no pulso de Isaac:
- Olha, além!
Muito a sul de Sarkel, a brisa levantara um turbilhão de poeira. Adivinhava-se a formação de uma longa caravana. A pelagem castanha dos camelos, as superfícies coloridas das albardas e dos dosséis, alguns brilhos metálicos reflectidos por uma arma ou uma armadura, desenhavam como que uma serpente ondulante num assalto às colinas que bordejavam o rio.
- Os gregos! Os gregos vão-se embora! - rejubilou Hezekiah. - Ah, é pena que Attex não possa assistir. Ficaria certamente encantada!
Isaac não teve tempo para reagir a esta declaração exuberante que lhe revolvia a ferida que trazia nas entranhas, pois foram chamados por um guerreiro que chegara ao pé deles sem o menor ruído. Hezekiah abandonou a ameia onde se apoiava e traduziu:
- O rabi deseja ver-te.
Isaac olhou para a parte inferior da muralha. Cerrou os punhos, pois as vertigens regressavam-lhe depressa nessas ocasiões. A silhueta enfezada do rabi Hanania, envolto no seu turbante, agitava os braços num movimento imperioso diante da sinagoga.
- Dir-se-ia que é urgente - observou Hezekiah com um grande sorriso. - Ele também deve estar contente por ver os gregos partirem!
No entanto, quando chegaram diante da sinagoga, o rabi não parecia nada satisfeito. Com gravidade, pediu a Hezekiah que o deixasse a sós com Isaac.
- O que temos de dizer não deve chegar aos teus jovens ouvidos, Hezekiah - afirmou, lançando um olhar sombrio a Isaac. -
U Kagan quer que eu me certifique melhor do mensageiro de Córdova. Teme mais do que nunca as armadilhas do imperador de Bizâncio e pergunta a si mesmo se a tua chegada, Isaac Ben Eliezer, não será outra artimanha suplementar, de tal modo os gregos são capazes de tudo.
- Mas eles vão-se embora! - protestou Hezekiah.
- Mais uma razão. O criminoso foge deixando o veneno atrás dele - resmungou o rabi.
- O veneno! - protestou Isaac, ofendido. - Como pode acusar-me de...?
O rabi ergueu imperiosamente uma mão:
- Explicar-te-ás daqui a pouco. E tu, filho do Khagan, vai ter com as servas.
Hezekiah suspirou. Ousou um pequeno sinal triste de despedida, enquanto o velho empurrava Isaac para o interior da sinagoga.
- Rabi! - exclamou Isaac, que estourava de raiva e de fúria. - A sua desconfiança magoa-me. Crê que...?
O rabi Hanania agarrou-lhe pela manga sem deixá-lo prosseguir:
- Só creio na Aliança com o Eterno, abençoado seja o Seu nome. Agora, deixa de te lamuriar e faz o que te digo sem discutir!
Levou Isaac até junto da Arca Sagrada. De sob a balaustrada de madeira entalhada do bima, o estrado que rodeava a Arca, levantou um saco de tela e retirou uma soberba túnica de mulher.
- Veste isto - ordenou.
- Isso?
- Não discutas! Tens pouco tempo e eu tenho pouca disposição para coisas destas!
Estupefacto, Isaac despiu rapidamente a sua própria túnica para vestir a delicada peça. O rabi passou-lhe rudemente para as mãos um tecido bordado de pequenas peças de ouro e disse-lhe:
- Cobre a cabeça com este véu, isso dissimulará o teu ferimento, demasiado visível. Aliás, também te esconderá a barba! E quando estiveres lá fora, não te esqueças de retirar o teu solidéu. As mulheres judias não o põem!
- Lá fora? Quer dizer, no exterior da fortaleza?
- Lá fora é lá fora! Julgas que te estou a disfarçar desta maneira para que venhas ler a Tora comigo? Vamos, vamos... Depressa!
Apesar da brutalidade das suas palavras, a expressão do velho tornava-se cada vez mais maliciosa. Isaac colocou o seu véu, deixando apenas os olhos a descoberto. Abrindo a boca desdentada, o rabi Hanania soltou pequenos guinchos agudos.
- Linda menina! Muito linda! Pareces uma mulher alana. Desconfia dos soldados, Isaac, eles também te poderão apreciar. ..
Puxou-o na direcção do armário onde estava colocado o cofre contendo o rolo do Livro. Puxou lestamente por uma prancha de madeira, que se libertou facilmente. Não acreditando nos seus olhos, Isaac viu o rabi enfezado fazer deslizar todo o vasto móvel para o lado. A madeira rangeu ligeiramente, soando pela sinagoga, revelando uma abertura pouco mais pequena que a espessura de um homem.
- Não tenho vela para te dar - murmurou Hanania. - Terás de caminhar às escuras. De qualquer modo, o túnel segue sempre a direito, não te arriscas a embater em algum lado...
- O túnel?
- Francamente, não vejo que outra coisa possa ser! Vai... Há uma pessoa que te espera do outro lado. Sê prudente, antes de te mostrares.
Isaac recobrou suficiente presença de espírito para protestar:
- Rabi, não compreendo! Não quer que me encontre com o Khagan José?
- O Senhor nos livre daqueles que têm a mania de estar sempre a raciocinar! - suspirou o velho homem. - Desanda daqui para fora, Isaac Ben Eliezer. Vai até ao fim do túnel e depois faz o que te pedem. Pelo menos, se o teu coração assim o entender! Despacha-te, ainda tenho de fechar a passagem!
Devido à escuridão ou a todas as perguntas que lhe passavam pela cabeça, o túnel pareceu muito longo a Isaac. Com os dedos feridos à força de andar às apalpadelas, esbarrou subitamente contra uma porta de madeira. Parecia tão espessa ao tocá-la que temeu não conseguir abri-la. No entanto, um único empurrão de ombros bastou para lhe devolver uma luz que quase o cegou.
Prudentemente, aumentou a abertura. Encontrava-se junto a um espesso amontoado de rochas, loendros e pinheiros. Teve de ter cuidado para não rasgar a túnica ao passar por eles. Através dos interstícios da folhagem, adivinhou a presença do rio, mais abaixo, a certa distância. Encontrava-se a montante da cidade de tendas, bem longe da parte inferior da fortaleza. Com imensas precauções, afastou os últimos arbustos quando um grunhido lhe cortou a respiração.
Soltou um pequeno grito, tropeçou numa grande pedra e quase caiu.
O rosto que tinha diante dele emergia de roupas de mulher, mas era o de um monstro. Só os olhos e a testa ainda possuíam algo de humano. O resto era unicamente protuberâncias dementes, mandíbulas deformadas, lábios de lado e um nariz tão retorcido que possuía uma só narina.
- Venha - rugiu a máscara com uma voz rouca, num hebreu quase incompreensível.
Isaac recuou instintivamente.
- Quem é?
- Cuidei de si, aí... - respondeu o monstro, apontando um dedo anormalmente gracioso para a têmpora de Isaac.
Recordou-se daquela serva a quem a Kathum Attex dava continuamente ordens. Apesar da pouca atenção que lhe dispensara para não se deixar distrair da contemplação da beleza da princesa, reparara que nunca se lhe via o rosto, de tal modo ele estava cuidadosamente escondido pelos véus.
- Attex - murmurou. - Sois a serva de Attex!
- A Kathum espera - anuiu Attiana. - Despacha-te!
- Ela espera-me? - repetiu Isaac, incrédulo.
- Sim, está à tua espera - confirmou Attiana. Então... então a Kathum Attex não estava em fuga? E, portanto, o rabi Hanania...
Ela esperava-o! A ele. Mas, nesse caso... Ela também...? Abençoado seja o Todo-Poderoso!
Isaac cambaleou e teria caído de joelhos se Attiana não o tivesse firmemente agarrado.
Esperava-o uma barcaça esguia, talhada num só tronco de árvore. Conduzida habilmente pelo barqueiro por entre a agitação das águas, seguiram as margens do Varshan. Quando passavam por uma espécie de cabana dominada por um menorá de ferro forjado, por um momento Isaac julgou avistar Simão. Por reflexo, levantou-se do banco. Attiana velava. Obrigou-o a sentar-se com uma mão tão firme como a de um ceifeiro.
A aldeia ficou para trás. Uma fila de barcos de mercadores surgiu na curva do rio, que se alargava, acalmando. Imponentes cordas enroladas à volta de troncos de choupos retinham os navios à beira-rio. O barqueiro manejou o remo do leme de tal modo que a embarcação roçou pelo casco dos outros barcos. Num deles, Isaac descobriu uma escada de corda, suspensa no rebordo da amurada. Attiana já estava de pé. O barqueiro mal teve tempo para imobilizar a barca com a sua âncora e ela já segurava na corda.
Não precisou de dizer a Isaac para que a seguisse.
Este descobriu uma pequena casota de madeira como que encastoada no convés do barco. Não tinha janelas, mas possuía uma porta pintada num belo azul. A serva empurrou-o sem quaisquer modos. Foi ele que rodou a maçaneta de madeira.
No interior havia apenas tapetes, almofadas, pequenas mesas baixas com púcaros e frutos, uma lâmpada escura e dois belos punhais de lâmina encurvada.
E ela.
De pé, rosto descoberto, sorrindo.
A Kathum Attex.
Ela, com a sua cabeleira de fogo, o seu olhar que atravessava uma pessoa num bater de pestanas. A seda da sua túnica verde era tão fina que parecia uma segunda pele. Fez um pequeno gesto com a mão. A porta fechou-se atrás de Isaac. Ele voltou-se: a serva desaparecera.
- Attiana está instalada na popa do navio - explicou Attex, com uma voz vibrando de emoção. - Estou feliz por ver que pudeste escapar!
Isaac nunca se pôde lembrar com precisão de toda essa noite.
Sentiu-se ridículo nas suas roupas. Com um sorriso matreiro, Attex declarou-lhe ter sido ela própria a escolhê-las, mas não lhe propôs nenhuma indumentária masculina. Fê-lo simplesmente sentar-se nas almofadas, tão perto dela que ele inspirava o seu perfume a cada golfada de ar.
Isaac inquietou-se quanto à sua situação, mas ela respondeu-lhe que ele nada devia temer, que ninguém a encontraria, nem o irmão, nem os espiões do Bei Borouh. Perguntou-lhe se ele sabia porque se escapara. Ele respondeu que sim, que o rabi lhe explicara.
Num tom de voz mais baixo que um sussurro, de pestanas baixadas como se temesse o seu julgamento, ela inclinou silenciosamente a cabeça, antes de declarar:
- Soube imediatamente que nunca desposaria aquele grego. E quando te vi no pátio, com a carta dos judeus de Sefari, foi como se o Eterno me tivesse enviado um anjo para evitar que José me entregasse aos gregos! Não julguei que fosses um homem de carne e osso, de modo que nem pensei em impedi-los de te bater.
Ao ouvir estas palavras, Isaac sentiu a cabeça andar à roda. Toda a angústia e o cansaço se evaporaram num ápice. Respondeu estupidamente:
- Não é grave. Agora já não me dói.
- Ainda bem - murmurou Attex, derretendo-o ainda mais com um sorriso.
- Não!... Isto é, eu também. Quando acordei e a vi, não acreditei nos meus olhos.
Attex estendeu a mão e colocou-a na dele.
- Estou aqui e não sou um anjo. O meu irmão e o rabi pensam que sou uma peste.
Contou-lhe a sua disputa com o Khagan, a sua fuga graças a Hanania e a sua esperança de alcançar as elevadas montanhas do Sul.
- O meu tio vive nesse lugar, numa gruta tão grande que contém casas e uma sinagoga. Aí, nada mais me poderá acontecer.
Ela hesitou um pouco e acrescentou, largando-lhe a mão:
- Podes acompanhar-me.
Isaac estava prestes a concordar, quando ouviu subitamente o brado de cólera do rabi Hazdaï Ibn Shaprut. Abanou a cabeça:
- Não posso. Prometi entregar a carta do rabi de Córdova ao Khagan. E fá-lo-ei. Prometi que esperaria pela sua resposta. E esperarei, nem que tenha de aguardar dez anos.
Attex teve então uma estranha reacção. Inclinou-se, abanando a sua cabeleira ruiva, que lhe roçou pelo rosto e agarrou-lhe novamente as mãos para, desta vez, depositar nelas um suave beijo.
Durante um momento Isaac deixou de respirar. O seu coração fazia tanto barulho que deixara de ouvir a ressaca do rio embatendo no casco do barco.
- Sabia, sabia que eras tu... sabia que eras aquele a quem nunca faltariam coragem e integridade! Sabia-o. Sim, é preciso que convenças o meu irmão a ler a carta do teu rabi e a responder-lhe. Então, o Eterno, abençoado seja o Seu nome, salvar-nos-á a todos!
- Ámen! Sim, creio que as coisas se podem passar dessa maneira.
A ideia era tão bela que não conseguiram conter o riso, de olhos radiantes de alegria, desejo e temor.
Isaac foi o primeiro a recompor-se e murmurou seriamente:
- As coisas podem passar-se dessa forma, mas não é certo. Attex contemplou-o com infinita ternura. Aprovou-o com uma ligeira inclinação da cabeça.
- Quer ele a leia ou não, irás ter comigo à gruta das Grandes Montanhas. Esperar-te-ei aí. Dez anos, se for preciso.
Estas palavras continham tantas promessas que Isaac tremeu, sem poder responder.
Após um momento de silêncio, Attex levantou-se e foi buscar uma caixa de madeira pintada, dizendo-lhe:
- Deves estar a morrer de fome!
Depositou a caixa diante dele e abriu-a. Isaac reprimiu um franzir do nariz. Tinha subitamente a impressão de respirar o odor das algas ou do fundo do mar. O cheiro provinha de um montículo de pequenos grãos pretos que enchiam uma caneca de vidro.
- Isto pode parecer-te estranho porque nunca o provaste. Mas tenho a certeza que te agradará.
Riu, ao vê-lo reprimir uma careta.
- Não há nada melhor no mundo. São ovos de um peixe que vive no mar dos khazares. Chamamos-lhe caviar.
Ela mergulhou uma larga colher de macieira na caneca. Ria como uma criança:
- Prova! Sei que vais gostar!
E ele gostou. Os grãos pareciam desfazer-se-lhe na língua. O sabor era esquisito, repleto de sombras do mar, salgado e doce como as lágrimas, suave como uma lembrança que se apaga. Attex ria ao vê-lo comer às colheres cheias. A sua felicidade aguçava-lhe ainda mais o apetite, como se este prato curioso contivesse um pouco do mistério da própria princesa.
Quando estava prestes a esvaziar a caneca, ela anunciou-lhe, muito séria:
- O que acabas de comer é o prato de amor que as mulheres do reino khazar oferecem aos que escolhem como esposo. Eu escolhi-te a ti.
Isaac ficou um momento sem compreender, com a colher suspensa diante da boca.
- E tu - perguntou-lhe Attex, com uma voz suave - também me queres escolher, a mim?
Isaac depositou a colher de caviar com tanta dificuldade como se o seu braço fosse de pedra.
- Quero.
Não teve a certeza de ter sido a sua própria boca a pronunciar a palavra. Mas Attex inclinou-se. Acariciou-lhe a têmpora ferida. Sob a carícia dos seus dedos, ele fechou as pálpebras. Então, com a ponta da língua, ela apanhou os ovos de peixe perdidos na comissura dos lábios de Isaac. As suas bocas encontraram-se pela primeira vez.
Attex pousou os dedos na nuca de Isaac e prolongou o beijo tão suave e ternamente, que ele julgou que ela o cobria com todo o seu corpo.
Por fim, as mãos de Isaac desentorpeceram. Deixou cair a colher no tapete e aflorou a coxa de Attex, a curva dos seus rins, o estremecimento de todo o seu corpo. A seda verde do vestido ainda era mais fina do que imaginara. Através dela, a maleabilidade firme do corpo da princesa queimava-lhe a palma das mãos.
Attex baixou as pálpebras com um rugido de pequeno animal e encostou a testa na face dele. Isaac sentiu todo o peso do seu corpo. Respirou através da sua cabeleira perfumada. Ela apertou-o com toda a força, como se ele se arriscasse a desaparecer. Tinha uma voracidade e uma falta de jeito infantis. Isaac caiu para trás, esbarrando numa pequena cadeira, deslizando por entre as almofadas. Attex riu. Os seus dois corpos colaram-se um ao outro, das coxas aos ombros. Os seus seios esmagaram-se suavemente contra o peito de Isaac, de mamilos endurecidos, como se o fossem penetrar.
Durante um momento, ele julgou que ia abrir-se sob este abraço, para acolher tudo no seu interior. Apesar de estar estendido, sentiu uma vertigem. Vacilava sob a força do desejo que lhe endurecia o ventre. As suas mãos continuavam a acariciar os braços, os ombros, a cintura, uma e outra vez, as nádegas, sem ousar verdadeiramente aproximar-se dos seios, como que amedrontado por uma chama demasiado grande.
Com uma dentada, Attex rasgou a gola da túnica ridícula que ainda cobria Isaac. Pousou-lhe os lábios frescos na base da nuca. Ele gemeu e sentiu o seu membro endurecer de tal modo que lhe doía. Attex também o sentiu, hesitando subitamente. Afastou-o delicadamente.
Ela ergueu-se e ajoelhou-se. Só estavam unidos pelas mãos. Com as faces em brasa, ela observou-o temerosamente.
Como um homem que avança pela escuridão, Isaac acabou por balbuciar:
- Nunca me cansarei de olhar para ti. És tão bela! Attex franziu o sobrolho:
- Todos os homens me dizem isso. Até os gregos. A minha beleza não interessa.
Isaac pestanejou. O espírito regressava-lhe. Compreendia o que ela queria dizer. Lembrou-se do ensinamento do Eclesiástico: Não louveis um homem pela sua beleza, não o desprezeis pela sua fealdade! Isto aplicava-se certamente também a uma mulher.
- Não - murmurou, abanando lentamente a cabeça. – Não se trata desse tipo de beleza. Quando te olho, parece-me que o Todo-Poderoso me oferece o mel do Éden. És como a Sua mão e o Seu olhar, a Sua voz e a Sua doçura. Trazes contigo a luz das estrelas e dos rios. Junto de ti, sei porque me sinto feliz por ser um homem!
Ela sorriu como uma criança saciada, largou-lhe as mãos e recuou. Com alguns gestos precisos, despiu-se.
Nos seus olhos de esmeralda não havia nem dúvida, nem vergonha..
- Sou pura e tu és puro - cochichou-lhe. - É um verdadeiro casamento. Sei que o rabi nos perdoará. E o Todo-Poderoso também. Só José não o fará. Que importa...
Isaac soube que a frase que pronunciara momentos antes se tornava uma realidade. A beleza de Attex apagou as recordações que tinha das mulheres como um pano apaga o vapor de água na superfície de um espelho de cobre.
Nua, ela sentou-se sobre as coxas, encostando o seu sexo ao do parceiro. Retirou-lhe lestamente a túnica. O embaraço que ele sentia devido à sua erecção dissipou-se. Ela pegou-lhe na mão direita e colocou-a no seu seio. Depois, puxou-lhe pela nuca para que ele se endireitasse e lhe mordesse o mamilo escuro.
Depois, beijo após beijo, envolvidos pelo marulho do rio, inventaram um corpo comum, a doçura inefável da viagem de amor, onde o tempo e a promessa da morte se dissolvem.
Mais tarde, abraçados nos tapetes, falaram muito enquanto comiam frutos, bolos e carne assada. Attex queria saber tudo acerca da viagem de Isaac e do seu país de origem.
Ele contou-lhe como as flores dos laranjais em redor de Córdova cobrem as colinas de uma brancura mais deslumbrante que a da neve, como o perfume é tal que, quando o sol desce no outro lado do mundo, respira-se comedidamente para não sufocar sob tanta doçura.
Falou-lhe dos caminhos orlados de ciprestes. Descreveu as casas brancas e os pátios de portas azuis. Fazendo-a rir, imitou o murmúrio fresco das fontes de majólica, as rãs coaxando no crepúsculo, o canto dos grilos nos declives às portas de Córdova. Insaciável, evocou os livros e as imensas bibliotecas onde se passava horas a aprender e a compreender.
Falou dos homens sábios que admirava, do seu pai astrónomo, tal como do seu amigo, o rabi Hazdaï Ibn Shaprut, conselheiro do califa Abd al-Rahman III, aquele que o enviara para junto dela.
Por fim, contou a sua viagem e o seu triste encontro com Simão e Saul, como tinham atravessado o país magiar no meio da neve, arriscando-se a serem devorados pelos lobos antes de ele ter pensado em tocar o alaúde.
- Lamento não o ter comigo esta noite - sussurrou-lhe, beijando-lhe os seios. - Gostaria de tocá-lo para ti. Infelizmente, ficou com Simão e Saul. Encontrá-lo-ei antes de ir ter contigo à gruta das Grandes Montanhas.
Com a cabeça apoiada no seu peito, Attex calou-se durante um longo momento, alimentando os seus sonhos com as palavras que ele lhe dizia. A sua mão deslizava, ligeira, pelo corpo do amante, pelas coxas e pelos ossos das suas ancas, brincando com as reentrâncias das costelas, a lisura do ventre, e com o seu sexo, novamente desperto. Queria gravar cada carícia sua na palma das mãos e na sua memória. Isaac não se apercebeu que ela chorava.
- O meu irmão, o Khagan, vai ficar tão furioso contigo que só pensará em matar-te.
Isaac levou algum tempo para reflectir antes de responder calmamente:
- Não. O rabi Hanania não o deixará erguer a mão contra mim. E eu convencê-lo-ei que deve responder ao grande rabi de Córdova. O Eterno, abençoado seja o Seu nome, não permitirá que as coisas corram de outra maneira. Ele conceder-me-á uma audiência! Amanhã, prostrar-me-ei diante dele, quando ele sair da oração e então terá de me ouvir.
Attex soergueu-se sobre um cotovelo e abanou a cabeleira de fogo, com os olhos cheios de tristeza:
- Não poderás. Ele tem de partir... Eles vão todos partir: o rabi, o Bei, a guarda real...
- Partir? Abandonar a fortaleza? Attex anuiu, acariciando-lhe a cicatriz.
- Sim, vão para Itil, a nossa capital à beira-mar. Ontem chegaram mensageiros anunciando que os russos a querem conquistar novamente! Amanhã, o mais tardar, ou até esta noite, pôr-se-ão a caminho... passará muito tempo antes de José te conceder uma audiência!
Isaac fechou os olhos para pensar melhor.
- Primeiro, tenho de encontrar os meus companheiros. Depois, se for necessário, irei atrás do Khagan, seguindo-o por todos os palácios por onde passar...
Attex sabia que ele não falava deste modo por simples gabaro-lice. O seu coração penava, pois só podia admirar e temer esta obstinação.
Sorriu-lhe através das lágrimas:
- Talvez o consigas. Quando obtiveres a tua preciosa carta, se quiseres, acompanhar-te-ei a Sefari. Desempenharei o papel de embaixadora do meu irmão e o de tua verdadeira esposa...
Riu, como se fosse uma louca promessa.
A emoção molhou os olhos de Isaac, que ergueu as mãos para acariciar os seios da amante. Em redor deles, a noite deixara de ter princípio ou fim.
O sabor da carne tornou-se novamente uma pura delícia de amor e assim olvidaram todo o peso dos amanhãs.
Ao raiar da madrugada, ainda dormiam quando Attiana veio finalmente bater à porta, anunciando que os barqueiros se estavam a preparar. A despedida foi brutal e rápida. Attex preparara cuidadosamente roupas à moda khazar: uma longa túnica azul e amarela, um cinto de cabedal dobrado de tecido e umas belas botas de cavaleiro, tão maleáveis e ligeiras que cobriam os pés e a barriga das pernas como uma segunda pele.
Fizeram o melhor possível para reter as lágrimas e conservar os sorrisos cheios de promessas.
Isaac deixou o barco, pondo os pés na margem graças a uma prancha lançada da amurada. Apertava na mão uma grande medalha de prata, como a que pendia ao pescoço de Hezekiah. Numa das faces estava gravado o candelabro de sete braços e na outra havia signos que não conseguiu decifrar.
- Só os membros da família do Khagan possuem esta medalha - explicara Attex. - Se quiseres regressar à fortaleza, bastar-te-á mostrá-la aos guardas. Seria mais sensato se viesses comigo ou se deixasses o reino. Mas sei que não farás nem uma coisa nem outra. Que o Todo-Poderoso te guarde, meu amor.
O próprio Isaac ajudou a desprender as amarras atadas aos troncos dos choupos.
A alvorada apresentava-se ligeiramente fresca, mas a luz era bela como no primeiro dia do mundo. O barco afastou-se da margem, dançando na água. Depois, foi desaparecendo, lentamente, levado pelas ondulações do rio amarelo.
Isaac viu os braços de Attex levantarem-se e a brisa agitar-lhe a cabeleira. O vestido verde e os cabelos ruivos tornaram-se uma flor que se esbatia no espaço que lhe fugia, como se nada tivesse sido real nessa noite.
No entanto, ainda sentia na pele o perfume da princesa. No silêncio que descia até ao fundo das suas entranhas, ouviu a sua própria voz pronunciar o nome dela.
Baku, Azerbaijão Maio, 2000
Sofer foi acordado pelo som estridente do telefone. Um rápido olhar para os ponteiros fosforescentes do relógio indicou-lhe quatro horas e dez. Durante um momento pensou em atirar o aparelho para cima do espesso tapete para se esquecer dele e readormecer. Mas que imbecis podiam chamá-lo a uma hora daquelas?
Pegou no auscultador e à laia de saudação emitiu um grunhido que não escondia nada da sua má disposição.
- Fala Lazir - disse a voz do campeão de luta.
- Mas... Já viu que horas são?
- Quase quatro e um quarto, senhor Sofer - respondeu placidamente Lazir. - Estou cá em baixo.
- O quê? Aqui, no hotel?
- Sim, em frente, no carro. O Mercedes branco.
- Que está aí a fazer?
- Senhor Sofer, tem de descer e vir comigo.
- Onde?
- Logo verá. Tenho a certeza de que lhe interessará.
Sofer passou uma mão pela cara e sentiu a barba picar-lhe. Despertou de vez. Na penumbra do quarto adivinhava as roupas pousadas numa poltrona e a caixa de caviar oferecida por Thomson, em cima da mesa. Comera-o de uma assentada antes de adormecer, como que por raiva pelo inglês. Esta lembrança recordou-lhe o excessivo número de copos de vodca ingurgitados com o caviar e acabou por lhe retirar os últimos vestígios da languidez do sono, onde ainda procurava refugiar-se.
- É importante? - perguntou.
-É.
A voz de Lazir não dava lugar para dúvidas.
- Bom, já vou - disse Sofer, suspirando. - Vou barbear-me e já chego.
- Deixe lá a barba, senhor Sofer! Não temos tempo. Pegue apenas numa peça de roupa quente, as noites caucasianas são sempre mais frescas do que se imagina.
Não era verdade. Quando Sofer atravessou a rua na direcção do Mercedes, onde brilhava a ponta incandescente do cigarro do campeão de luta, sentiu o ar quente e húmido fustigar-lhe o rosto.
- Espero que seja verdadeiramente importante porque, na questão temperatura, o senhor só diz disparates - anunciou com aspereza, ao sentar-se junto de Lazir.
Este sorriu o máximo que lhe permitiam os seus incisivos de ouro.
- Não se apoquente - disse, começando a guiar. - Não ficará desiludido. E precisará da sua lã...
O carro atingiu os cem quilómetros em poucos segundos, projectando-os nas ruas desertas de Baku, inundadas de luzes amareladas.
- Para onde me leva? - perguntou Sofer, que pensava adivinhar.
- Por ora, vamos até ao porto.
- E depois?
- Não lhe posso dizer!
Sofer resmungou, tentando mostrar um ar de troça.
- Quanto mistério, amigo! E por que motivo me leva até ao porto?
Lazir abanou a cabeça, passando um semáforo vermelho com tantos complexos quanto uma andorinha.
- Não lhe posso dizer. Logo verá!
- Oh, por favor, já não tenho idade para brincadeiras de crianças.
Também não é a hora indicada para isso. E nunca gostei dos livros dos Cinco!
- Dos Cinco?
- Parvoíces! - suspirou Sofer. - Bom, quem é o senhor, Lazir? Faz parte do "Renascimento Khazar"? Ou é apenas um mafioso de Baku?
Lazir desatou a rir às gargalhadas. Retrocedeu para virar à direita, para a Avenida Nettchilyar. Como circulavam a cento e vinte, o Mercedes, ligeiramente pesado, quase fez um pião. Isso agradava a Lazir. Os pneus guincharam na estrada abaulada; ele guinou sem brutalidade e acelerou a todo o gás pela avenida fora. Sofer viu as varandas de madeira e as muralhas da parte velha da cidade desfilarem a toda a velocidade, enquanto o motorista lhe respondia calmamente:
- Senhor Sofer, desde que chegou, o senhor quer absolutamente que eu seja um mafioso! Porquê? Precisa de um papel de mafioso para o livro que está a escrever?
- Que vamos fazer para o porto às quatro da manhã? - insistiu Sofer, vexado.
Lazir olhou para o relógio do tabuleiro de bordo e corrigiu:
- Quatro e trinta e cinco... Temos de chegar a horas! Tenho muita pena, mas não lhe posso dizer. Não se preocupe, descontraia-se. Dentro em pouco terá todas as respostas às suas perguntas. Todas... Mantenha os olhos bem abertos. Asseguro-lhe que não vim incomodá-lo em vão.
Subitamente, a avenida pareceu alargar-se. Sofer compreendeu que seguiam o mar, ainda dissimulado pela noite. À sua esquerda, a escuridão era rasgada por centenas de pontos luminosos. As gruas! Os famosos poços de petróleo...
No mesmo instante, quase sem abrandar, Lazir voltou de novo à direita. O carro deslizou como um tornado através de um labirinto de ruas estreitas. Começaram a subir. O quarteirão era mais pobre, pior iluminado, mas também era mais movimentado. Viam-se
'Referência aos célebres livros de aventuras para adolescentes de Enid Blyton. (N. do T.)
homens, a pé ou de bicicleta, empurrando carroças ou carregando camionetas. Para eles, o dia começava.
O quarteirão acabava num baldio de terrenos vagos, onde jaziam velhos carros, frigoríficos e canalizações já gastas. Lazir meteu por uma rua mal asfaltada, esburacada pelos camiões e que dava para um entrelaçamento de edifícios em construção.
Continuavam a subir. Sofer começou a avistar as luzes de Baku à sua direita. Pouco depois, rolavam por uma faixa única. Levantando uma pálida nuvem de poeira nos primeiros alvores da madrugada, o Mercedes descreveu uma grande curva como se tornassem a voltar na direcção do mar.
Era efectivamente o caso.
- Aqui está - declarou Lazir, num ligeiro tom satisfeito, parando o motor.
Sofer saiu do carro, subjugado pelo espectáculo. Encontravam-se precisamente à beira do planalto que dominava a baía petrolífera de Baku. Em baixo, até perder de vista, viam-se apenas pilares de ferro, gruas, oleodutos entrelaçados, uma incrível floresta metálica à luz dos projectores. Aqui e além, lenta e continuamente animados, em forma de crescente, podiam avistar-se os pesados instrumentos de ferro fundido das máquinas de bombeamento.
Na margem, a uma distância de duzentos metros de voo, as baterias dos projectores halogéneos iluminavam gruas gigantescas e embarcações que se assemelhavam a uma espécie de ateliers flutuantes. Em seu redor, o solo parecia lodoso. As poças escuras reflectiam quer a noite, quer as luzes artificiais.
- Dois minutos de espera - anunciou Lazir.
Sofer começou a adivinhar o que iria ocorrer. Mas evitou pensar no que isso significaria. Apenas perguntou a si mesmo onde seria.
Ao longe, a leste, o dia despontou, rasando o mar dos khazares. Uma faixa de luz aumentava no longínquo horizonte, como um rasto de leite.
E aí pois, a seus pés, a explosão incendiou a margem.
Antes mesmo de ouvir a deflagração e de sentir o sopro contra o peito, Sofer viu as poças incendiarem-se. Uma bola de fogo redemoinhou e concentrou-se na parte inferior de um guindaste com a altura de um prédio de dez andares. O estalido da explosão deslocou o ar. A chama amarelada dilatou-se, ergueu o guindaste, deslocando-o e transformando as vigas de vinte toneladas em faúlhas giratórias, projectando-as no braseiro do incêndio que vencia a obscuridade da noite, como bolas incandescentes semelhantes a focinhos de animais selvagens.
Sofer recuou por reflexo. Lazir assobiou admirativamente.
Poucos segundos depois o fogo parecia querer subir ao céu. Ouviram as vigas caírem umas sobre as outras como uma cascata de sons discordantes tocados num xilofone. No entanto, a chama já ia diminuindo, num assobio grave e estridente. Recaiu sobre si mesma, dispersando-se numa dezena de braseiros que pareciam minúsculos. Ouviu-se um rangido cortante. Uma das embarcações, projectada no ar, caiu de lado como uma tartaruga gigante.
- Desta vez não foram de mão morta! - exclamou Lazir. Sofer engoliu em seco. Apercebeu-se que deixara de respirar
durante a explosão. A mão de Lazir aflorou-lhe o braço:
- Venha, agora temos de nos pôr a andar depressa! Enquanto Lazir voltava a lançar o Mercedes pela poeira, Sofer
viu o céu por cima do complexo petrolífero avermelhar-se como a abóbada de uma lareira.
Lembrou-se da conversa da véspera, com Thomson. Tão abatido quanto exasperado, constatava que até aquela altura o inglês acertara em cheio. Era demasiado tarde para impedir o segundo atentado perpetrado pelo "Renascimento Khazar". Ele já ocorrera.
Ao pensar que o investigador da Lloyd's podia ter razão em toda a linha, Sofer sentiu-se invadido pela cólera e pela náusea.
- São as instalações da O.C.O.O. que acabam de ir pelos ares? - perguntou, num tom glacial.
Lazir olhou-o, surpreendido. Um sorriso malicioso pôs a descoberto o brilho dos seus dentes:
- De modo algum! Desta vez foi o consórcio americano da Exxon e Chevron que fez bum! A cada um a sua vez...
Riu. Sofer sentiu-se tão aliviado que quase fez o mesmo.
- E não se apoquente - acrescentou Lazir. - Não há qualquer risco de poluição e não há vítimas. Era apenas uma instalação de fabrico de gruas e guindastes. Não trabalham de noite...
Sofer sorriu. Thomson não tinha razão em tudo, o que era certamente uma boa novidade.
- Suponho que irei finalmente saber quem são os membros desse misterioso "Renascimento Khazan - disse, novamente animado.
Lazir não respondeu. Virou à esquerda, à entrada dos edifícios em obras, voltando costas à rua por onde haviam chegado. Progrediram aos solavancos por entre os reservatórios de água, as cubas de betão e os rolos de redes de arame. Um pouco mais adiante, o Mercedes entrou num pátio repleto de escavadoras antes de se imobilizar atrás de um Nissan Patrol preto. Sofer julgou reconhecê-lo, enquanto Lazir buzinava. Um rapaz desceu do todo-o-terreno e sorriu-lhes.
- Venha - disse Lazir, abrindo a porta sem desligar o motor. - Mudamos de carroça.
- Para irmos para onde? - perguntou Sofer, sem se mexer. Lazir não respondeu. Saiu do carro para dar lugar ao jovem.
Como Sofer não se mexia, o rapaz deixou de sorrir. Lançou um olhar inquieto para o campeão de luta.
Com a mímica de um pai que procura manter a calma perante os caprichos dos meninos, Lazir contornou o Mercedes e abriu a porta do lado de Sofer:
- Venha, por favor. Não nos podemos demorar.
- Já lhe perguntei: para onde? O que lhe dá o direito de dispor da minha pessoa como lhe apetece? Que o leva a crer que aceito antecipadamente comportar-me como... como seu cúmplice?
O olhar de Sofer era tão amável como uma lâmina. Lazir encolheu os ombros com fatalismo. Apontou para a peça de roupa de Sofer no banco traseiro:
- Pegue no seu pulôver e tenha paciência. Vamos até à Geórgia. Quinze horas de estrada, se tudo correr bem. O Nissan não é um veículo muito rápido, mas, pelo menos, é confortável quando se atravessa a montanha. Há pessoas que o desejam ver, particularmente uma delas. Mas, tudo bem, tem a liberdade de recusar. Não estamos a sequestrá-lo. Dê o nome do seu hotel a este rapaz e ele levá-lo-á de volta...
Calou-se, ergueu um dedo no ar e piscou os olhos. O uivo das sirenes acordava a cidade.
- Aí vêm eles - informou, voltando-se para se instalar no Nissan. - Decida-se.
Enquanto as sirenes se aproximavam, durante alguns segundos Sofer olhou para o jovem abismado. Finalmente, deu-lhe uma pancadinha amigável no antebraço, desejou-lhe um bom-dia e foi ter com Lazir.
Era verdade. O todo-o-terreno era lento e confortável. Sofer apreciou. Apesar de nada deixar transparecer, gostava do modo como os acontecimentos pareciam desenrolar-se, com o seu sabor a aventura e mistério. Não saber para onde o conduziam, fazia-o sentir-se mais ligeiro, como se tivesse de se preocupar menos com a realidade. Enquanto deixavam Baku para trás, pensou que nem pegara num caderno para tomar apontamentos. O seu computador portátil ficara no hotel. Que se danasse, o romance esperaria. O que estava a viver tornava-se muito mais divertido que aquilo que pudesse escrever.
Pensou ainda em Agarounov. Tinham encontro marcado para dali a duas horas. Não apareceria. Que se danasse, também. Explicar-lhe-ia mais tarde.
Adormeceu antes de o dia ter completamente despontado, recuperando da noite estragada. Teve um sonho esquisito, inspirado certamente pelo atentado, repleto de fogo e de caos guerreiro. Quando despertou, já se encontravam em plena montanha. A estrada era assaz larga para o Nissan e serpenteava sob enormes freixos por entre os quais os raios de sol dançavam.
- Dormiu bem? - perguntou o incansável Lazir. - A rádio acaba de anunciar o atentado. Corre tudo bem...
- Corre tudo bem! - repetiu Sofer, rabujando. - Se assim o diz!
Chegaram a um desfiladeiro. A floresta cessou, substituída por uma abundante erva curta. Durante longas horas rodaram por entre vales, de onde surgiam por vezes pequenas aldeias isoladas. Quando as atravessavam, os habitantes paravam e observavam-nos tão surpreendidos quanto se tratasse de um disco voador. Vacas e carneiros pastavam nas encostas. De vez em quando, ultrapassavam ou cruzavam com homens a cavalo, enxada ao ombro, cantil de pele a tiracolo. Avistaram carroças de feno, mulheres com lenços na cabeça e vestidos às pintas, manejando forquilhas de madeira.
Sofer não só ignorava absolutamente onde estava, como também já não sabia em que século se encontrava.
Ao princípio da tarde, uma centena de metros depois de ter transposto um novo desfiladeiro, Lazir parou o veículo. Diante deles, viam um vale que se estendia ao longe, para oeste.
O campeão de luta foi buscar um saco de tela ao cofre do Nissan e estendeu-o a Sofer.
- Tem aí comida. Chouriço, queijo e fruta. Vinho também. Como é francês, pensámos que lhe agradaria!
Sofer esteve para perguntar quem era o "nós", mas Lazir estava ocupado a extrair um par de binóculos do saco.
- Estamos a dois passos da fronteira - explicou. - Vou ver como se apresentam as coisas.
Desapareceu na estrada, enquanto Sofer descobria estar esfomeado. O vinho era doce, xaroposo, como se tivesse sido recozido. Um vinho de velha senhora, pensou. No entanto, bebeu um grande golo directamente do gargalo. Decididamente, não havia nada que lhe pudesse quebrar a boa disposição. Sentia-se como uma criança que levam para umas férias-surpresa!
Lazir regressou meia hora depois. O seu relatório limitou-se a uma sóbria inclinação da cabeça.
- Não come? - perguntou-lhe Sofer.
- Logo à tarde. Pelo caminho, é a boa altura.
Um pouco adiante, abandonou a estrada e entrou num desvio que descia até um riacho movimentado. Atravessaram-no a vau com certa dificuldade, o veículo resvalando e balouçando sobre as pedras húmidas. Lazir não mostrou um só momento qualquer sinal de inquietude. Subiram a margem oposta, uma espécie de suave talude de ervas e prosseguiram pelos campos durante mais dois quilómetros. Finalmente surgiu uma estrada esburacada e poeirenta.
- Bem-vindo à Geórgia - disse Lazir, divertido.
- Já lá estamos?
- Desde que atravessámos o riacho.
- É assim que os combatentes da Tchetchénia ou do Daguestão passam de um país para outro? - perguntou Sofer.
Lazir abanou a cabeça.
- Não, eles ficam na estrada. Pagam a passagem em dólares ao agente da alfândega. É mais simples.
Uma hora depois, entraram numa planície quase tão seca quanto um deserto. Os pousios sucediam-se no sopé das montanhas. Ao longe, Sofer avistou algumas capelas ortodoxas, edifícios em ruínas, talvez fábricas antigas ou caves abandonadas. A estrada estava cada vez mais esburacada. Apesar de rectilínea, Lazir tinha de abrandar constantemente e, às vezes, conduzia pelo terreno da berma, mais confortável. Painéis em georgiano, com um grafismo entre o latim e o cirílico, pendiam aqui e além em postos enferrujados. Após uma viragem, avistaram umas cinquenta pessoas, homens e mulheres, em fila cerrada, cavando um campo com enxadas.
- Já não há tractores na Geórgia - explicou Lazir a Sofer, embasbacado. - Nem tractores, nem comboios, nem fábricas... Já não há grande coisa desde a guerra civil de 1993. Em menos de dez anos, é como se tivessem regressado ao início do século!
Esta sensação de desolação durou enquanto prosseguiram caminhe pela planície situada no sopé das encostas do Cáucaso. Por duas vezes passaram por aldeias que pareciam abandonadas, não havendo sequer uma galinha ou um gato que passasse descuidadamente pela estrada. A entrada de uma terceira aldeia, sob um pátio com chapas metálicas enferrujadas, algumas velhas acompanharam-nos com a vista, de expressão inquieta. Lazir seguiu o muro de uma pequena capela, entrou numa rua à sombra dos eucaliptos e bordejada por casas baixas de belas varandas de madeira ou zinco. Depois, entraram novamente na floresta. Desta vez Sofer não pôde tirar qualquer proveito.
Mal a aldeia desapareceu no espelho dos retrovisores, Lazir parou o veículo. Remexeu no bolso e tirou um tubo com dois comprimidos:
- Lamento muito, senhor Sofer, mas vai ter de tomar isto.
- Eh!
- Um sonífero, nada de terrível.
- Lazir! É absurdo, não sei onde estamos. Nem sei ler o georgiano! Para mim, as inscrições dos painéis é como se estivessem redigidas em chinês...
- Para onde vamos existem inscrições em russo - avisou Lazir, gozando.
- Ouça, eu...
- São ordens. Engula estes comprimidos e instale-se no banco traseiro. Acordará fresco e bem-disposto. Tenho a certeza que ficará muito feliz ao vê-la...
- Vê-la? Mas a quem, Santo Deus?
- Faça o que lhe peço - ralhou subitamente Lazir. - Faz-se tarde e quero chegar antes da noite.
Sofer pegou nos comprimidos, engoliu-os e saiu do carro.
Em seu redor só havia um pequeno bosque. A frase de Lazir obcecava-o: "Tenho a certeza que ficará muito feliz ao vê-la".
Era escusado perguntar outra vez de quem se tratava.
Era ela, evidentemente!
O veículo todo-o-terreno no qual rolavam desde há horas, era exactamente aquele em que a vira entrar na antevéspera, no aeroporto de Baku.
- Então, vem daí ou tenho de empurrá-lo para dentro do carro? - perguntou Lazir, fazendo rugir o motor.
Itil Julho, 955
- Chegaremos A Itil dentro de dois dias e que farás nessa altura? Nada. Esperarás. Como em Sarkel. Falarás com esse velho rabi, que de nada serve. Mas o Khagan, esse não o verás! Tudo o que sabes fazer, Isaac, é esperar. Esperar, uma e outra vez! Tudo isso por uma carta que contém apenas sonhos e ilusões... Nunca te devia ter seguido. Nunca devia ter prestado ouvidos ao cambista Nathan quando ele me propôs para te acompanhar! Que o Todo-Poderoso, abençoado seja o Seu nome, me fulmine se blasfemo, mas o vosso Khagan dos khazares não é o Messias e nunca o será! Nem sequer é um verdadeiro rei dos judeus. Se o fosse, tratar-te-ia como o fez, deixando-te meio-morto, fechando-te, recusando-se a receber-te? E, visto que és tu quem o afirma, um rei dos judeus alguma vez ofereceria a mão da sua irmã como prenda aos cristãos? Pensa um pouco, se fores capaz...
- Saul, por favor!
-Não, ele não me agrada. Nada me agrada. Sobretudo tu, Isaac! Já eras doido e o golpe que apanhaste na cabeça só piorou as coisas. A verdade é que o teu Khagan José é apenas um senhor da guerra, tão numerosos nesta terra quanto as bostas de cabra. São todos iguais, sempre prontos a estripar o próximo. A começar por nós, judeus. Essa é a verdade! Pergunto-te de que serve agora essa carta que guardas contra o peito como se a quisesses colocar no lugar do coração? Se ele se recusa, porque te obstinas em querer que esse falso judeu a leia? Ele nem presta ouvidos ao seu rabi, que também lhe ordenou que a lesse! Basta!... Que faço aqui, eu, que sou apenas um comerciante, a não ser perder o meu tempo e a minha bolsa? Não compro nada e não revendo nada. Cada dia que passa fico mais pobre que Job! Essa é a verdade! Mas o senhor Isaac não liga nenhuma. Apenas responde encolhendo os ombros. Pouco lhe interessa que nos arrisquemos a morrer, desde que realizemos o seu capricho...
- Cala-te, Saul...
- Não me calo! Também tenho umas coisas a dizer-te, Simão. Não basta ver-te girar como um jumento à volta de um poço, também estou farto de te ouvir venerar estes selvagens que nos rodeiam. Olha um pouco à tua volta. Olha-os, esses khazares! Achas que têm ar de judeus, com os seus olhos de asiáticos, bigodes de hunos, armas de chineses e botas dos homens do Norte? Já viste como comem, sem sequer se preocuparem em purificar os animais do seu sangue?
- Cala-te, Saul!
O grito de Simão soou tão alto, cobrindo o ruído dos cascos, que os cavaleiros khazares que os rodeavam se voltaram todos nas selas, com as mãos já colocadas nos punhais.
Com o rosto vermelho de fúria, Simão não lhes prestou nenhuma atenção e repetiu, quase no mesmo tom:
- Cala-te ou serei eu a estripar-te imediatamente!
- É inútil disputarem-se - interveio Isaac, com uma voz conciliante. - Tanto mais que há muita sabedoria e bom senso nas palavras de Saul.
Calaram-se uns momentos, de olhos fixos na colina de bosques que dominava o grande rio. A luz crepuscular iluminava a margem, conferindo-lhe um tom de cobre fundido. A parte principal do exército do Khagan estava a mais de meia-légua e já devia ter certamente parado e começado a preparar as tendas para a noite. Mas, como todas as noites, eles tinham de se contentar com as fogueiras da retaguarda, dormindo ao relento.
Pela milésima vez Isaac olhou para a corrente que ligava os nós das rédeas dos seus cavalos. Eles próprios não tinham sido acorrentados, mas o facto de os animais o estarem não deixava de ser humilhante e era certamente uma medida com a mesma eficácia.
Tudo ocorrera muito rapidamente. Depois de ter visto desaparecer o barco que levava Attex a bordo; Isaac dirigira-se para a aldeia de Sarkel, na esperança de encontrar os seus companheiros.
Ainda não alcançara as primeiras tendas e fora logo cercado por um bando de cavaleiros, de lança em riste. A sua cabeça, não teve dificuldade em reconhecer o chefe dos guardas do Khagan, que o ferira aquando da sua chegada. Desta vez, o khazar contentou-se em assestar-lhe um golpe nas costas com o corpo da espada!
Isaac retirou do cinto a medalha que Attex lhe oferecera e que devia permitir-lhe entrar na fortaleza sem dificuldade. Brandiu-a diante do rosto do oficial. O resultado foi contrário a todas as suas esperanças. O chefe dos guardas agarrou-a aos berros. Pela fúria da sua expressão, Isaac compreendeu depressa que o julgavam um ladrão. Infelizmente, judeu ou não, o oficial do Khagan não percebia pitada de hebreu! Apesar de todos os seus esforços, Isaac não conseguiu pôr termo à confusão.
Rispidamente, com o ferro das lanças apontado às costas, foi escoltado até ao grande pátio de Sarkel-a-Branca. A sua surpresa foi total quando viu Saul e Simão suando as estopinhas, ao sol, de pernas acorrentadas. Os seus dois companheiros estavam tão petrificados de terror que não mostraram qualquer alívio ao vê-lo!
Em poucas frases cochichadas, explicaram-lhe que um grupo de arqueiros, tão terríveis quanto os que tinham imobilizado o comboio de barcos a montante da cidade, irrompera logo de madrugada pelo recinto dos estrangeiros onde dormiam, indiscriminadamente, mercadores e barqueiros. Tinham interrogado os comerciantes e os marinheiros, pálidos de medo. Não foi preciso muito tempo até que dedos acusadores apontassem para Saul e Simão. Depois, mais depressa do que seria necessário para dizer, encontraram-se acorrentados como assassinos.
Isaac não teve tempo para responder às suas perguntas prementes. Um gigante surgiu no pátio. Trazia um capacete magnífico, à turca, incrustado em prata cinzelada, debruado de seda púrpura e com um pedaço de veludo enchumaçado na nuca. O seu bigode era quase tão comprido quanto a trança que lhe caía pelas costas! O seu olhar parecia feito do mesmo metal que as placas cosidas no manto de pele.
Ao vê-lo, os arqueiros pararam de conversar. Endireitaram-se, numa imobilidade respeitosa. O oficial acorreu, inclinou-se diante deste senhor, chegando até a pousar um joelho no solo. Isaac não tivera dificuldade em reconhecer a personagem de que Hezekiah falava com tanta admiração: o grande chefe de guerra dos khazares, o Bei Borouh, honrava-os com a sua visita!
O homem era uma cabeça mais alto do que ele. Aproximou-se de Isaac e olhou-o como se o quisesse reduzir a pó. Pendendo-lhe ao pescoço, Isaac viu a estrela de pontas cruzadas que certos judeus das tribos de Oriente chamavam a estrela de David e que lhes apraz exibir. Como o silêncio persistia e ele não fora reduzido a pó, decidiu falar:
- Chamo-me Isaac Ben Eliezer - anunciou com tanta firmeza quanto era capaz. - Sou o enviado do grande rabi de Córdova e, a esse título, sou o embaixador dos judeus de Sefari. Estes homens, vergonhosamente acorrentados, chamam-se Saul e Simão. Juntos, atravessámos metade do mundo durante um ano para encontrar o Khagan José a quem devo entregar uma carta...
O Bei Borouh esboçou um sorriso gélido. O seu bigode deixou ver uns dentes perfeitos, facto extremamente raro para um homem da sua idade. Como um mágico, fez surgir entre os dedos a medalha oferecida por Attex.
- Viajante Isaac Ben Eliezer, parece-me que viste a Kathum Attex - observou numa voz rouca e num hebreu estudado. - Esta medalha pertence-lhe. Ou és um ladrão, ou recebeste-a dela. Que preferes que pense?
- Conheço a Kathum. Ela tratou-me cuidadosamente, pois fui ferido por aquele homem - respondeu Isaac, indicando o chefe dos guardas.
- Isso, sei eu-resmungou o Bei. - Não me julgues um imbecil, viajante. A Kathum fugiu da fortaleza. Desobedeceu ao nosso Khagan e arrisca-se a morrer. Mas tu viste-a a noite passada. Basta-me olhar para ti para o saber. As roupas que trazes são confeccionadas na nossa capital. Recebeste-as da Kathum, não é verdade?
Isaac não respondeu e fez todos os possíveis para não enrubescer.
O Bei Borouh deu um passo em frente. Isaac sentiu o odor a suarda e a ferro quente que emanava do seu manto e da sua couraça. Borouh ergueu a medalha de prata.
- Tens de dizer onde está a Kathum, viajante Isaac Ben Eliezer; senão, far-te-ei assar como a um peru!
Isaac viu os olhares estupefactos que Saul e Simão lhe lançavam. Contudo, destrinçara um brilho menos duro nos olhos do Bei Borouh do que as palavras que ele pronunciara, quase como que uma nesga de divertimento. Por conseguinte, respondeu-lhe numa voz calma e firme:
- É inútil procurar a Kathum Attex, senhor Bei. Ela não desposará o grego de Bizâncio. Ela não renegará a lei e os mandamentos de Moisés, deitando-se no leito de um estrangeiro. Em vez de me ameaçar, o Khagan José devia receber-me e ouvir-me. A sua salvação junto ao Eterno passa também por aquilo que lhe tenho a dizer!
O Bei soltou um curioso som, que podia ser interpretado como um grunhido, um riso ou um rugido. O seu sorriso glacial reapareceu. Olhou para os guerreiros, como se quisesse certificar-se da sua obediência.
- Aqui está um viajante arrojado! Eu e o Khagan José vamos começar por expulsar os russos. Depois, ocupar-me-ei de ti.
- Não lhe direi onde está a Kathum, mesmo que execute as suas ameaças! - protestou Isaac. - O Todo-Poderoso saberá acolher-me junto d'Ele!
Desta vez, o Bei desatou a rir:
- É engraçado ouvir-te. Espero que não te estejas a gabar.
- Quero ver o rabi Hanania! - insistiu Isaac, vexado.
- Viajante Isaac Ben Eliezer, no teu lugar não desejaria nada. A noite passada, o rabi abandonou a fortaleza numa carroça. Vai a caminho de Itil. Ele também desobedeceu ao Khagan deixando-te escapar ontem à noite!
- Um rabi só obedece ao Todo-Poderoso! - clamou Isaac, para ter a última palavra.
E foi deste modo que também deixaram Sarkel-a-Branca, montados em maus cavalos acorrentados, misturados com a retaguarda do exército real, onde nenhum homem compreendia o hebreu e nem sequer o russo de Saul!
Durante três dias de um galope esgotante, tinham cavalgado desde o raiar da madrugada até ao cair da noite pela estepe imensa e lisa, enfrentando constantemente um vento cheio de poeira.
A cada acampamento tinham de acatar, em silêncio, os modos rudes dos guerreiros khazares. Dormiam ao relento. O frio chegava depressa no deserto, apesar da fornalha do dia. Encontravam dificilmente o sono. Para ocupar as longas horas passadas na escuridão, Isaac contara pormenorizadamente aos companheiros a sua chegada à fortaleza e tudo o que se seguira. Quase tudo, pois dissimulara com uma mentira pudica a verdade acerca da noite passada com Attex.
Simão pedira-lhe várias vezes para que pintasse a beleza da princesa. As descrições de Isaac encantavam-no. Porém, Saul tinha cada vez maior dificuldade em conter a sua cólera:
- Bela ou não, que nos importa? Tu ajudaste-a a fugir metendo o nariz no que não te dizia respeito. Mesmo que o rei dos khazares não tivesse um pretexto para nos trucidar a seu bel-prazer, agora tem mil motivos para o fazer. Como de costume, só pensas em ti, Isaac! Fica-te muito bem dizeres aos khazares que não te importas que te assem para salvar a tua donzela. Mas, e eu?
- Saul - protestava Simão de lágrimas nos olhos - esta princesa obedece ao rabi. Mostra-se tão corajosa quanto bela ao fazer o que qualquer mulher judia devia ter feito na mesma situação. Querias vê-la deitar-se no leito de um grego de Constantinopla? Já não te recordas como a minha própria mulher morreu por maldade dos cristãos?
- Sinto muita pena por ti, companheiro - replicara secamente Saul. - Mas ela não era a primeira, nem será a última. E é por isso que todos os judeus do universo têm de arder nas fogueiras, em sua memória?
Isaac não encontrara resposta para este comentário.
Ou então sabia muito bem que dizer, mas não sentia força nem desejo para o fazer. Na realidade, de ora em diante, independentemente do que acontecesse, entregava-se por completo à vontade do Eterno.
Agora parecia-lhe mais do que nunca verdadeiro o que dissera a Attex quando ela estava nos seus braços. Talvez fosse loucura, delírio de amante, mas ainda trazia consigo a marca indelével da beleza sobrenatural da princesa. E esta graça só podia ser o murmúrio vivo do Todo-Poderoso através dos seres humanos, o Seu mel do Éden, a Sua mão e o Seu olhar, a Sua voz e a Sua doçura. Como explicar a Saul que tinha certeza que esta fé, esta plenitude de amor, o protegiam melhor que todas as couraças dos arqueiros khazares?
Os acontecimentos da terrível noite seguinte encarregar-se-iam de comprová-lo.
Como de costume, nessa noite os cavaleiros khazares desceram dos cavalos quando a escuridão começou a cair sobre a estepe.
Um pouco antes, tinham contornado uma colina de bosques e chegado à margem do Atei. Era um rio como Isaac nunca vira, tão imenso e liso que mal se adivinhava a outra margem. Poder-se-ia facilmente julgá-lo um lago. A água estremecia sob o vento perpétuo da estepe, esse vento dos khazares que levantava turbilhões de pó até ao céu. Estranhamente, não se avistava qualquer embarcação ou veleiro. Seria a presença do rio, a da capital, que se dizia próxima, ou os rumores sobre os russos? Os cavaleiros khazares, habitualmente tão senhores deles próprios, mostraram-se quase nervosos. Quando desceram dos cavalos, foi em silêncio, contrariamente às noites anteriores.
Meia légua a jusante, as fogueiras do acampamento do Khagan brilhavam na escuridão crescente. Aí, os guerreiros tinham direito de erguer tendas e acender quantas fogueiras quisessem. Na retaguarda, tinham de se contentar com "fogueiras enganadoras".
Estas eram uma meia dúzia, mas dispostas no exterior do acampamento. Os cavaleiros utilizavam-nas para cozer um pouco de comida e para ferver a água para o chá. Contudo, ninguém dormia perto delas. Só as sentinelas bem despertas as conservavam acesas toda a noite. As suas chamas destinavam-se a atrair eventuais atacantes, a enganá-los e a quebrar o esperado efeito de surpresa.
Mal Isaac e os seus companheiros se encontraram sentados lado a lado, à espera da sua magra ração, ouviram-se gritos e registou-se uma movimentação à cabeça do seu grupo. Entreviram a silhueta de um cavaleiro que tentava abrir caminho. Os combatentes khazares procuravam imobilizá-lo, mas recuaram imediatamente, saudando-o respeitosamente. Subitamente, Isaac reconheceu-o. Estupefacto, levantou-se:
- Hezekiah! -Isaac!
Tão espantados quanto os guerreiros que os rodeavam, Saul e Simão viram o filho do Khagan avançar a cavalo na sua direcção, saltar da sela num movimento de dança para abraçar Isaac, com uma emoção toda fraterna.
- É verdade que viste Attex? - perguntou. - Viste-a?
- Via-a... Ela vai bem! - respondeu prudentemente Isaac, sem saber muito bem que verdade revelar.
- Ela não desposará o grego? - insistiu Hezekiah.
- Nem pensar!
- Ah, ainda bem!
Isaac apresentou os companheiros ao príncipe. Hezekiah apontou para jusante do rio e só recobrou fôlego para dizer:
- Os russos não vão tardar a atacar!
- De madrugada?
- Não! Esta noite! Gostam de fazer a guerra à noite para aproveitarem a surpresa e o fogo...
Isaac e os companheiros perscrutaram o horizonte a oeste. A escuridão já quase o fizera desaparecer e as poucas fogueiras acesas não os deixavam discernir mais nada. Não havia meio de distinguir o que quer que fosse a cem côvados de distância. No entanto, os cavaleiros khazares não pareciam preparar-se para um ataque. Quanto muito, alguns tinham apenas optado por não retirar as selas dos cavalos.
- Tens a certeza? - perguntou Isaac, voltando a sentar-se no seu cobertor e convidando Hezekiah a juntar-se-lhe.
- Ouvi o Bei Borouh anunciá-lo ao meu pai - respondeu Hezekiah em voz baixa. - Disse-lhe que havia milhares de russos a norte, a cavalo e em embarcações.
- Mas é impossível! - protestou Saul. - Antes de anoitecer víamos até bem longe na estepe e ela estava deserta. Tal como não havia ninguém no rio!
Hezekiah abanou a cabeça e replicou com ar sério:
- Não nos podemos fiar nisso. Eles não se vêem porque sabem esconder-se muito bem, mas o Bei tem espiões entre eles. Os russos agem sempre assim e é por isso que todos os temem...
- É difícil de acreditar - insistiu Simão. - Olha à nossa volta, príncipe: os arqueiros estão ligeiramente nervosos, mas não estão em pé de guerra...
- Porque o Bei e o meu pai assim o decidiram.
Hezekiah observou Isaac como se este estratagema o envergonhasse:
- Além, eles já estão prontos. Os arqueiros já estão a cavalo. É a artimanha do Bei. Ele age muitas vezes assim: sacrifica a retaguarda, utilizando-a como isco para apanhar os russos na sua própria armadilha.
Saul e Simão lançaram olhares amedrontados para a escuridão.
- Neste preciso momento os russos estão a observar-nos - acrescentou Hezekiah. - Pensam que toda a guarda real está ocupada a cozer a sopa, como aqui...
O som das gamelas entrechocando-se sobrepunha-se ao ruído dos risos e das conversas. Cabritos assavam sobre as brasas das fogueiras que as sentinelas tratavam agora de atear. Uns cinquenta guerreiros tinham-se instalado junto do rio. Ouviam-se os seus cânticos lamurientos. Surpreendido, Isaac apercebeu-se que cantavam em hebreu.
- O seu pai sabe que nos arriscamos a morrer com a retaguarda? - perguntou Saul, com severidade.
Hezekiah anuiu com uma ligeira inclinação da cabeça.
- Ele está muito zangado com Isaac. Diz que será o próprio Todo-Poderoso a decidir o vosso destino.
Saul resmungou. Lançando um olhar tremendamente acusador a Isaac, secou as têmporas com a manga da túnica.
- É inútil perdermos mais tempo - disse Isaac. - Saiam daqui, tentem chegar à beira-rio e caminhar na direcção do acampamento do Khagan.
- Para irmos até onde? - objectou Saul. - Os nossos cavalos estão acorrentados aos dos guerreiros...
- Vão a pé! Ninguém pensará que procuram fugir. Aliás, ninguém nos vigia...
- Mas, e tu? - perguntou Simão.
- Eu vou levar Hezekiah para junto do pai.
- Posso tentar arranjar outro cavalo - interveio Hezekiah. - Assim, vocês...
O filho do Khagan não teve tempo para acabar a frase. Um clamor incrível, como se o céu se tivesse rasgado em dois, petrificou-os.
Caiu um breve silêncio e, em seguida, o clamor recomeçou.
Por sua vez, os guerreiros khazares também começaram a gritar, agarrando as armas, chamando-se uns aos outros para organizar uma frente comum.
Mais uma vez o clamor gigantesco imobilizou-os, como se mil lobos uivassem ao mesmo tempo. O clamor partia da escuridão, parecendo vir de nenhures e, ao mesmo tempo, de toda a parte. Depois, diminuiu de intensidade. Nessa altura Isaac ouviu o tinir das espadas contra os escudos.
Os khazares tinham tapado metade das fogueiras. As chamas já não iluminavam tanto.
- Além! - gritou Hezekiah. - Além!
Apontava o dedo para a colina e para as trevas da floresta.
Era daí que vinha a horda dos russos, irrompendo como demónios surgidos do nada. Sombras na sombra, silhuetas da noite, galopavam de espada desembainhada. A vaga luz crescente do luar reflectia-se nas suas lâminas e nos seus capacetes.
- Os russos! - murmurou Simão, incrédulo. - Os russos... Através das solas das suas finas botas, Isaac sentiu o tremor do
solo martelado por centenas de cascos.
Hezekiah precipitara-se para agarrar a rédea do seu cavalo, temendo que o caos o aterrorizasse e o fizesse fugir.
- Fujam! - gritou Isaac aos seus companheiros. - Corram para o rio! Depressa, depressa!
Porém, na precipitação para formar uma frente, um grupo de guerreiros khazares empurrou-os rudemente. Saul recebeu um duro golpe que o fez estrebuchar, enchendo-o de raiva.
Na altura em que se levantava, um silvo encheu o ar como se um dragão soprasse a sua cólera.
- As flechas! - berrou Hezekiah. - Cuidado com as flechas!
O zumbido transformou-se numa saraivada de ferro e morte. Os gritos explodiram em redor deles. Uma flecha com uma pena branca cravou-se a três passos de Simão, que berrou. Hezekiah pegou na mão de Isaac. Os cavaleiros khazares agacharam-se atrás dos escudos. As lanças embatiam neles, ricocheteavam e, por vezes, ainda chegavam a feri-los.
- O meu cavalo! - gritou Hezekiah.
O animal dançava de medo, rodopiando constantemente, escoiceando e projectando as patas dianteiras, de tal modo que esmagou o peito de um khazar.
- Hezekiah, apanha o seu escudo! - gritou Isaac, precipitando-se para agarrar na rédea do animal.
De olhos aterrorizados, o cavalo procurou morder Isaac. No entanto, este conseguiu agarrar a correia que fustigava o ar e puxou-a com toda a força. Atrás de si, ouviu novamente o clamor dos russos, muito mais próximo.
Enquanto Hezekiah lhe estendia o escudo dobrado de ferro do khazar já morto, Isaac viu que Simão o olhava, de olhos esbugalhados, incapaz de se mexer.
- Não fiques aí, Simão! - suplicou-lhe. - Encontra um escudo e foge!
O silvo de uma nova chuva de flechas vibrou por cima das suas cabeças. Isaac apertou Hezekiah contra si, acocorando-se atrás do escudo. Fechou os olhos, entregando-se à vontade do Todo-Poderoso. Mas foram segundos infernais. Por duas, três, cinco vezes, sentiu o choque das pontas de ferro que se quebravam contra o metal do escudo! Outras rangiam no solo, ricocheteavam, zumbiam, procurando as carnes frágeis. Os gemidos e os estertores redobraram à sua volta.
Por fim, a chuva de morte cessou.
Quando afastou o escudo, viu duas flechas pregadas a uma mão da sua bota. De olhos arregalados de terror, Hezekiah tremia como se estivesse cheio de febre.
- Saul! Saul!...
O grito de Simão sobrepôs-se ao novo clamor dos cavaleiros russos que começavam a lutar corpo a corpo com as primeiras linhas dos khazares.
- Saul!
O mercador acabara a sua viagem no reino judeu dos khazares sem sequer ter concluído um bom negócio. Uma flecha entrara-lhe pelo olho esquerdo, atravessara-lhe o crânio, derrubando-o e cravando-lhe a cabeça no pó. Pelo menos evitara-lhe o sofrimento de uma agonia.
Depois, tudo ocorreu como numa espécie de pesadelo, lento e inexorável, do qual procuramos acordar mas que temos de viver até ao fim, pois interrompê-lo equivale a encontrar a morte.
Isaac desgrudou Simão do corpo de Saul. Puxou-o até ao rio, gritando-lhe que encontrasse um cavalo. Hezekiah já montara no seu. Isaac saltou para a garupa, apertando o rapaz contra si. Mal chegaram à margem, viram a carga dos cavaleiros da guarda real khazar. Numa linha poderosa, alguns traziam tochas, galopando à rédea solta. Aterrorizado, Isaac compreendeu que não podiam dirigir-se nem para norte, onde o combate com os russos ia no seu auge, nem para sul, de onde chegavam os socorros.
No sentido oposto ao fluxo dos guerreiros, batendo com o escudo e segurando com força nas rédeas da sua montada febril, tentou seguir a linha da margem. Nessa altura, o céu incendiou-se.
Uma chama amarela brotou do rio, alargando-se graciosamente e descrevendo uma órbita de estrelas. Todos os rostos erguidos para o céu iluminaram-se, as bocas abriram-se de espanto e os gritos ficaram suspensos nas gargantas. Um sopro de dragão pesou em todos os peitos.
Depois o fogo desabou na planície, cobrindo os combatentes de faúlhas, transformando-os imediatamente em silhuetas douradas. Uivos de dor, inumanos, brotaram destas tochas vivas.
- O fogo grego! - murmurou Hezekiah.
Debatendo-se para dominar o cavalo, Isaac viu duas novas bolas de fogo subirem, ao assalto do céu. Desta vez distinguiu os barcos na noite banhada de luz. Cinco longas embarcações nórdicas, rápidas e ágeis, todas com duas fileiras de remadores. Os russos tinham instalado na proa as estranhas bestas que transformavam céu e terra num braseiro.
O fogo caiu subitamente sobre todo o acampamento da retaguarda, queimando até os cavaleiros russos que ainda aí se encontravam. Espalhando-se até à margem do Atei, as chamas ardentes não deixavam qualquer passagem para Isaac e Hezekiah.
O rapaz espetou as unhas no braço de Isaac:
- Olha, olha!
De couraças resplandecentes, chefiados pelo Bei, os cavaleiros contornavam o braseiro. Lançados a todo o galope, não procuravam o combate e acorriam na direcção dos barcos. Isaac teve de desviar a vista. Um círculo de fogo oleoso caiu a cinquenta passos dele, levando pequenas chamas azuladas a crepitar na água.
Isaac apanhou Hezekiah e colocou-o atrás de si:
- Agarra-te! - berrou.
Chicoteando a garupa do cavalo, lançou-o para o rio.
Para sua surpresa, a beira-rio desceu depressa a pique. O cavalo perdeu pé e começou a debater-se, sem conseguir nadar. Então Isaac afastou as coxas e deixou que a água gelada o levasse.
- Não sei nadar - gemeu Hezekiah, quase asfixiado.
- Agarra-te aos meus ombros e levanta bem o queixo! - gritou Isaac.
O frio apertava-lhe o peito, cortando-lhe a respiração, enquanto o calor das chamas do fogo grego, disperso na água, lhe aquecia o rosto. Durante um momento procurou lutar contra a corrente, mas compreendeu que mais valia deixar-se levar por ela, sem se afastar demasiado da margem.
Em redor deles, vogavam algumas toalhas de fogo, enfraquecendo pouco a pouco. Ultrapassaram mais depressa do que esperava a parte com mais chamas. Isaac começou a nadar na direcção da margem, lutando para que o peso de Hezekiah não o afundasse. Estavam apenas a algumas toesas da erva. Com o coração aos pulos, Isaac sentiu o fundo do rio sob as botas. Rastejavam pela margem, ofegando, quando Hezekiah o abanou para que olhasse para trás.
Os arqueiros khazares lançavam duas salvas de flechas incendiárias sobre os barcos russos, desenhando uma ponte de luz entre a margem e o centro do rio. Um dos barcos incendiou-se imediatamente. O incêndio do convés espalhou-se aos barris de nafta. Tudo explodiu. Uma enorme bola de fogo dilatou-se, levando mastros, bancos e corpos dos remadores, projectando-os na água como palha incendiada, no meio da noite. O casco abriu-se como se fosse uma noz e o rio foi coberto por uma língua de fogo tão pálida que quase parecia branca. Um segundo barco explodiu por sua vez e a noite transformou-se em dia.
Isaac murmurou uma prece. O Todo-Poderoso acabara de salvar o reino judeu dos khazares.
Por muito derreado, tremente e encharcado que estivesse, Hezekiah recobrara o sorriso:
- Agora que me salvaste a vida - murmurou - o meu pai será obrigado a receber-te. E a ouvir-te!
Sádua, Geórgia Maio, 2000
Quando Sofer recobrou a consciência, já era noite. Pelo menos a escuridão espessa que o envolvia parecia ser a da noite.
Tinha tanta sede como se tivesse atravessado um deserto. A garganta doía-lhe. Fora certamente por isso que acordara.
Bateu as pálpebras, perscrutou a escuridão, procurando um ruído que lhe pudesse indicar onde se encontrava. No entanto, o silêncio permanecia tão espesso quanto a escuridão. Uma espécie de embrutecimento geral abrandava-lhe o curso dos pensamentos e das sensações.
Sentiu a rigidez de um lençol espesso sob as palmas das mãos. Talvez fosse de linho. Afastou os braços, deslizando-os ao longo do leito. Os dedos encontraram curiosas esculturas de madeira. Apalpou as superfícies curvas e as protuberâncias, antes de compreender que se tratava dos suportes verticais de um baldaquim. Uma velha cama! O colchão era duro como uma prancha de madeira, mas tinha um cobertor sobre os joelhos. Tinham tido a amabilidade de lhe tirar os sapatos.
Que fazia ali? Como chegara ali?
A sua boca pastosa e um vago sabor ácido lembraram-lhe o sonífero que ingurgitara. De repente, recordou-se de tudo: o atentado em Baku, o interminável trajecto até à Geórgia na companhia de Lazir, a alusão deste a... A ela!
Ela!
Ela, é claro!
Que dissera Lazir?
De olhos fechados, Sofer vasculhou o cérebro como uma gaveta desarrumada. Sorriu. "Ficará muito feliz ao vê-la..." Sim, lembrava-se perfeitamente das palavras do campeão de luta de dentes de ouro!
E, a propósito, que era feito dele?
O seu espírito começava a funcionar com um pouco de coerência. E, também, de agressividade. Estava furioso consigo mesmo. Aceitara engolir a droga de Lazir com demasiada facilidade!
Pensou em chamar, gritar... dar a saber que estava acordado.
O ridículo da situação reteve-o. Não ia começar a gritar no escuro como uma criança! Aliás, chamar por quem? Afinal de contas, se a ruiva desconhecida o fizera chegar ali, acordando-o em plena noite, raptando-o ou quase, embrutecendo-o com soníferos, não era a ele que cabia dar o "último passo".
Agora, pressentia o que era esta estranha noite, tornada mais pesada por um silêncio abafado.
Soergueu-se, de costas hirtas. Durante alguns segundos teve ainda de lutar contra o entorpecimento que lhe esmagava o peito e lhe afligia a respiração. A sede aumentava o seu mal-estar e oprimia-o.
"Meu Deus", pensou, furioso, "este imbecil deu-me uma dose de cavalo!"
Girou para se sentar à beira da cama e pousar os pés no chão.
Uma luz vacilou nas trevas. Primeiro pensou que era um simples
lampejo, consequência do seu mal-estar. Massajou as têmporas e esfregou as pálpebras com os dedos entorpecidos.
Quando voltou a abri-los verificou que não fora vítima de uma ilusão: diante dele, a alguns passos, uma luz amarela lançava alguns reflexos depressa tragados pela escuridão. Sem pensar mais, levantou-se, com as pernas ainda fracas. Sentiu a frescura poeirenta da pedra sob os pés. Cautelosamente, de braços estendidos, aproximou-se do ponto luminoso.
O que descobriu fê-lo sorrir novamente.
Numa espécie de alcova, na parte de trás de uma abóbada, uma tocha comprida como um braço estava fixada numa argola de ferro. A chama era bastante curta. Cheirava ligeiramente a ranço e a fraca luz que emanava chegava, contudo, para iluminar um móvel de madeira escura, uma mesa de dois tampos, grosseiramente fabricada, onde fora colocada uma tina de cobre, um tecido espesso e uma bilha de argila. Por detrás, o muro branqueado a cal descrevia uma larga curva, onde tinham sido talhados os muros de um pequeno tanque.
Sofer deu um passo em frente. Viu a sua silhueta reflectir-se na superfície da água. Molhou nela a mão como se fosse atravessar a ilusão de uma miragem. Os seus dedos mexeram-se na frieza do líquido e a sua imagem desfocou-se.
Em seguida, mergulhou a cabeça, recolhendo a água com a palma das mãos e bebeu-a avidamente, sem sequer se perguntar se seria ou não potável.
Ergueu-se, ofegante, e pegou na toalha de banho que estava em cima da mesa. Contava sentir o contacto suave de uma peça de banho, mas o tecido que segurava era áspero e rugoso como se o fio em que o tinham tecido estivesse mal cardado. Ao abri-la, descobriu uma espécie de relevo com a forma de um candelabro de sete braços, com sinais e letras por baixo. Os sinais e as letras da moeda khazar de Yakubov!
Riu e pensou: "Que encenação!"
Subitamente, captou a palavra que lhe bailava no espírito desde que acordara: a gruta!
Estava na gruta dos khazares. Fora para aí que Lazir o levara, fora por esse motivo que o tinham drogado. A famosa gruta!
"Mas que encenação!" - repetiu, com ironia.
Riu novamente. Sentia-se melhor. Já não tinha sede, e o seu entorpecimento opressivo desvanecia-se.
Pelo menos, ela mostrava tanto sentido para o jogo quanto para o mistério. Com uma ponta de vaidade, pensou que nunca uma mulher fizera tantos esforços para o seduzir!
A recordação da explosão no porto de Baku atravessou-lhe a mente e trouxe-o de volta à realidade. Não, não fora por um jogo de amor que o tinham trazido até ali.
Contudo, visto que o convidavam para umas abluções tão simples quanto antigas, foi com certo entusiasmo que despiu a camisa e esfregou energicamente o peito e a nuca, por cima do tanque. Perguntou a si mesmo que cara teria. A sua barba crescia, dura, áspera e inconfortável. Olhou para a mesinha de toalete. Ao lado da tina de cobre havia um pedaço de sabão. Não encontrou lâminas nem creme de barbear. Ela não pensara em tudo!
A toalha de linho antigo secava mal. Não insistiu e voltou a pôr a camisa no peito ainda húmido. Depois, desprendeu a tocha e regressou na direcção do leito.
Com o auxílio da luz débil, descobriu que a sala era redonda e um tanto desconchavada. Não continha nada, à excepção do leito, cujo dossel lhe pareceu descomunal. À sua frente, a sala reduzia-se, numa espécie de corredor fechado por uma porta de madeira escura.
Levou algum tempo para se calçar, incomodado pela tocha que tinha de levantar bem alto para não lhe aquecer demasiado o rosto.
Quando se aproximou finalmente da porta, o coração começou a bater-lhe mais depressa. Receava que estivesse fechada.
Não foi o caso.
O pesado painel de madeira deslizou com um simples empurrão, sem sequer ranger. Sofer encontrou-se num corredor tão tenebroso quanto o quarto que acabara de deixar. A sua direita, um lanço de escadas, arredondadas pelo uso, erguia-se pela rocha branca e perdia-se no meio da escuridão. Decidiu optar pelo caminho inverso e seguir o corredor.
Após uma dezena de metros, a estreita galeria formava um cotovelo onde reverberava a luz do dia. Deu alguns passos e encontrou-se no exterior, ao ar livre.
Desta vez a surpresa foi total. A beleza que descobriu deixou-o siderado.
Encontrava-se de pé num pequeno rebordo da montanha, de apenas dois ou três metros de largura, tanto talhado como suspenso no flanco de uma falésia gigantesca. A seus pés estendiam-se as redobras de colinas de bosques de verdes espessos e variados. Mais além, para sul, um comprido vale exibia os seus campos desertos e calcinados.
Reprimindo um começo de vertigem, Sofer avançou até à beira. Como se fosse um pássaro em voo, a cinquenta metros de altura, dominava as folhagens compactas que atapetavam o sopé da falésia. À sua volta, a rocha parecia lisa como uma pele, umas vezes branca, outras vezes ocre, mas sempre marcada por estrias musgosas. Mas enquanto o seu olhar procurava compreender o estranho caos das formas que o rodeavam, soltou uma exclamação de surpresa.
Numa extensão de vinte metros de altura e talvez de uma centena de comprimento, a rocha da falésia estava esculpida, trabalhada como um imenso muro de mistérios!
Dezenas de grutas penetravam pelas entranhas da montanha. Algumas possuíam portas e tabiques de madeira cinzenta, queimada e deslavada pelo sol, e até, por vezes, varandas com balaustradas, terraços com telhados de telhas. Estavam todas ligadas por um emaranhado sábio e vertiginoso de escadarias e passagens! No próprio lugar onde se encontrava, uma escada dupla conduzia a plataformas superiores ou inferiores.
Não se tratava de uma gruta, mas de uma cidade inteira, tanto talhada como construída no calcário. Aqui e além, com uma graça alucinante e aflorando a rocha abrupta, surgiam verdadeiras fachadas de casas, semelhantes às que vira em Quba. Sobre elas, enormes abóbadas penetravam muito longe na parede rochosa. O conjunto não oferecia nenhuma regularidade; pelo contrário, dava uma impressão de desordem, um pouco assustadora, semelhante à visão labiríntica de uma termiteira brutalmente esventrada.
Lá em cima, numa espessura de várias dezenas de metros, a falésia permanecia intacta até ao seu cume, tão alta que parecia entrar pelo azul já sombrio do céu.
De respiração cortada, Sofer recuou alguns passos.
Não sabia onde se encontrava com precisão, mas não tinha dúvidas que se tratava dos flancos sul do Cáucaso, quase a meio caminho dos cumes mais elevados.
Contemplou o vale estranhamente seco, para lá da floresta. A partir daí, era impossível adivinhar a presença das grutas abertas na falésia! Elas deviam fundir-se nas sombras naturais das rochas. Também era verdade que, na época dos khazares, a floresta devia ser ainda mais vasta, cobrindo uma boa parte do vale e dissimulando perfeitamente esta estranha cidade troglodita.
Um chilreio de andorinhas sobressaltou-o. Os pássaros voavam em bandos compactos, descrevendo violentos arabescos rente às árvores, apanhando a sua ração de insectos excitados pelo calor do crepúsculo.
Só então se apercebeu que o sol descia no horizonte montanhoso, cavando sombras e avermelhando os picos. Quanto tempo dormira? Se bem se recordava também fora ao fim da tarde que Lazir lhe fizera engolir os soníferos. Teria dormido vinte e quatro horas?
Era provável.
Não era de espantar que se tivesse sentido tão mal ao acordar!
Procurou o caminho por onde o teriam trazido até ao centro desta cidade. Não o descobrira da primeira vez, subjugado pelo cenário e enganado pelo caos rochoso. A luz rasa do crepúsculo assinalava-o agora através de um nítido jogo de sombras.
Todo um pedaço da rocha afastava-se da falésia, como a lâmina de uma faca apontada para o céu, deixando a descoberto um vazio com uma abertura de dez ou quinze metros. A sua extremidade apresentava uma construção cuidada, aberta para todos os lados, muito antiga e evocando os templos gregos.
O seu duplo telhado inclinado, coberto de lajes de calcário invadidas pelos líquenes, assentava numa vintena de pequenas colunas com capitéis dóricos. No frontão, as traças dos baixos-relevos com esculturas eram ainda visíveis, apesar de usadas e polidas por séculos de intempéries. Uma ponte de madeira com balaustradas esculpidas ligava a parte de trás deste falso templo à primeira escadaria que, elevando-se perigosamente, conduzia precisamente até ao local onde se encontrava.
Do outro lado, uma abertura separava o templo de um estreito carreiro que subia pelo flanco da rocha, a partir da floresta. Chegado ao cimo da construção, o carreiro parava subitamente, como que suspenso no vazio. A partir daí, a falésia formava apenas uma descida a pique, vertiginosa e mortífera!
Olhando melhor, Sofer compreendeu que aquilo que via era, ao mesmo tempo, a porta e a chave da cidade troglodita. Adivinhou a existência de uma espécie de rampa, como as que se utilizam para descer dos paquetes até ao cais, suspensa atrás das pequenas colunas do falso templo. Deste modo, os ocupantes da gruta podiam cortar qualquer laço com o resto do mundo, quando bem lhes aprouvesse. Uma vez retirada a rampa, os que tivessem chegado à extremidade do carreiro apenas podiam ruminar a sua decepção ou a sua raiva. Melhor ainda: a disposição do caminho, a sua estreiteza e a sua inclinação impediam um assalto numeroso e impossibilitavam as salvas eficazes das flechas. Em compensação, arqueiros dispostos na porta dissimulada do templo dispunham de todo o tempo para massacrar à vontade os imprudentes bloqueados no carreiro sem saída.
Uma cidade tão secreta quanto inexpugnável!
Eis porque atravessara os séculos conservando o seu mistério!
E eis como, subitamente, ele, Sofer, se encontrava ali prisioneiro!
A pesada luz crepuscular aflorava agora os cumes opostos, tingindo-os de púrpura e estendendo a sombra pelo vale, como uma maré opaca.
Segundo após segundo, a beleza do lugar adquiria uma profundidade inquietante. A emoção apoderou-se de Sofer. O que estava a ver, também os khazares tinham contemplado. Se a sua imaginação não o enganava, a própria Kathum Attex subira um dia este mesmo carreiro! Não é verdade que a imaginação traz sempre a marca de uma verdade ainda velada?
Um ronrom desviou-lhe o pensamento. Ao longe, no sol enrubescido, distinguiu um helicóptero cujo zumbido aumentava. Durante um instante, pensou que o aparelho se dirigia directamente para a montanha e perguntou a si mesmo se o procuravam, se o piloto poderia vê-lo, se devia manifestar-se ou, pelo contrário, esconder-se no interior da gruta.
Não teve tempo para escolher. O aparelho abrandou, vibrou num voo estacionário por cima da floresta e permaneceu estranhamente imóvel, semelhante a um grande insecto desajeitado. Tentou ver se era um aparelho militar. Em vão. Não devia estar, certamente, muito longe da fronteira entre a Geórgia e a Tchetchénia...
Bruscamente, o helicóptero inclinou-se e, num abrir e fechar de olhos, desapareceu rumo ao norte. O ruído diminuiu. Apenas se ouvia o som do voo das andorinhas ao qual se misturava o som, mais irregular, das nuvens de morcegos.
Pela primeira vez, Sofer teve consciência da sua absoluta solidão e sentiu uma ponta de angústia. Então, ninguém se preocupava com ele? Ela não se preocupava? Onde estava Lazir? Estariam a tentar impressioná-lo, ao abandoná-lo desta forma? Seria uma partida, como ainda lhe agradava acreditar, ou estaria realmente prisioneiro?
Num ápice, acudiram-lhe ao espírito os artigos sobre os inumeráveis sequestros de que o Cáucaso era palco. No entanto, não chegava a sentir-se verdadeiramente inquieto. Enquanto Lazir o afastara de Baku, não pensara um só momento num rapto, tal como não sentia agora qualquer temor.
Ao invés, nesse mesmo momento ocorria algo prodigioso e maravilhoso. Algo com que sonhara durante toda a sua vida de escritor.
Neste lugar sem nome, petrificado pela memória e pelo tempo, tinha a sensação de estar no próprio cerne do romance que começara há algumas semanas. Contra sua própria vontade, talvez por vontade do acaso ou do destino, tinham-no colocado nesta gruta que ele procurara em si mesmo e que inventara desde as primeiras linhas escritas em Oxford. Podia estender o braço e tocar a rocha. Olhava à sua volta, enquanto o dia que já se confundia com a noite: o que via não pertencia ao mundo presente, mas ao longínquo milénio dos khazares.
Não precisava de pensar, nem de escrever palavras num papel ou num ecrã de computador. A realidade da princesa Attex, de Isaac Ben Eliezer e do Khagan José, estava ali presente. Respirava o mesmo ar que eles. Escutava o mesmo silêncio, os mesmos gritos das andorinhas, o mesmo murmurar da brisa.
Bastava-lhe baixar os olhos para a porta dissimulada do templo, para ver os guerreiros khazares chamarem, ao longe, o pequeno bando que se apressava a subir o carreiro no flanco da falésia antes que a noite o tornasse demasiado perigoso.
Os arcos já estavam esticados e as pontas das flechas apontadas para os visitantes. A rampa já fora retirada e estava agora presa por uma corda grossa de cânhamo a um pitão do frontão.
O chefe dos guardas avançou atrás de um arqueiro para gritar:
- Quem vem lá?
Foi a própria Attex que respondeu:
- Sou Attex, filha de Aaron, irmã do Khagan José e Kathum da Khazária!
O eco da sua voz ribombou contra a falésia e pareceu ficar um momento suspenso no ar fresco da noite. O chefe dos guardas ficou um momento calado. Sofer apercebeu-se do seu embaraço. O homem olhou para o cimo da falésia, como se esperasse por ajuda e Sofer ouviu um ligeiro ruído de passos, um roçagar de tecido atrás dele.
- Quem a acompanha? - perguntou finalmente o chefe dos guardas.
- Não vês? - respondeu Attex, enfastiada.
- São ordens, tenho de lhe perguntar!
- Baixa mas é a rampa - insistiu Attex. - Estás à espera que quebremos o pescoço?
- Uma vez acabada a oração da tarde, não posso deixar entrar ninguém na cidade! - respondeu o chefe dos guardas.
Sofer ouviu distintamente o rugido de cólera de Attiana, que agitou os braços na direcção do templo e proferiu na sua voz alquebrada:
- Baixa a rampa, burro de guarda! Vês muito bem quem somos!
- Foi Attiana, a minha serva, que acabou de te falar! - gritou Attex. - Só trago cinco guerreiros comigo! Oficial, fizemos um percurso de três semanas desde Sarkel-a-Branca e estamos esgotados. Se tens qualquer dúvida, chama o meu tio Hanuko, pois é dele que recebes ordens. Mas despacha-te. A noite está a chegar.
Sofer ouviu um riso atrás de si. Vestido com o longo manto dos khazares, uma corrente de ouro ao pescoço, a cabeleira branca composta em tranças impecáveis, Hanuko surgiu a seu lado. Com uma voz forte e clara para a sua idade, exclamou:
- Com que então, sobrinha, fazes cá um barulho!
- Oh, tio!
- As minhas saudações, Kathum! Abençoado seja o Eterno por esta surpresa!
- Será uma má surpresa se não nos lançarem a rampa. Aqui não se vê um palmo diante do nariz. Já nem sei onde ponho os pés!
Hanuko riu-se novamente. Na mesma altura, outro riso sobressaltou Sofer.
- Boa noite, senhor Sofer - proferiu uma voz feminina. Rodopiou completamente. Viu-a.
Era ela. Attex.
Com dez anos a mais, de cabelos ruivos presos numa faixa de tecido, calças de ganga e um largo pulôver. Segurava na mão a tocha que Sofer abandonara à entrada da gruta. Sob a luz calorosa, o seu rosto parecia de uma doçura perfeita.
- Meu Deus, é você! - exclamou Sofer. - Perguntava-me se acabaria finalmente por se mostrar!
Ela riu e indicou o templo, já mergulhado na escuridão.
- Estou atrás de si desde há um bom momento, senhor Sofer. Mas o senhor parece tão absorto nos seus devaneios! Se não temesse vê-lo cair da plataforma, ainda o teria deixado sonhar mais um pouco.
Sofer sentiu-se acometido por uma vertigem, sem qualquer relação com o abismo que mergulhava na escuridão tudo o que se encontrava a seu lado. A sua boca secara e o seu coração batia com força. Despertara numa floresta desconhecida e a princesa viera ao seu encontro, como num conto maravilhoso. Desta vez, não havia humor ou contenção que lhe pudesse moderar a emoção.
Era ela, a mulher que o interpelara algumas semanas antes, aquando da conferência em Bruxelas.
Era ela, tal como a recordava, com os mesmos olhos verdes ligeiramente rasgados e as maçãs do rosto salientes, os lábios húmidos e aquela cabeleira de um ruivo ardente que lhe realçava ainda mais a delicadeza da pele. Era ela, aquela que não deixara de ocupar os seus pensamentos, tornando-se na jovem que trazia doravante dentro de si e através da qual pensava, amava e sentia.
Excepto que esta mulher que avançava para ele, sorriso irónico nos lábios, para lhe estender a mão, tal como fazem dois desconhecidos quando se encontram pela primeira vez, esta mulher era real!
Sofer ficou um momento paralisado. Depois, efectuou o gesto inconscientemente. Sentiu o contacto fresco dos dedos e da palma da mão contra os da mulher.
Mas sentiu muito mais. Como se, através deste simples toque, ela o tivesse captado por inteiro.
- Sabia que este lugar lhe agradaria! - disse ela.
- Attex! Você é Attex, e é real!
Ela riu e largou-lhe a mão, para afastar uma madeixa do cabelo num gesto automático.
- Não - protestou, divertida. - Chamo-me Sónia Tchobanzadé!
Finalmente, Sofer sorriu.
- Sim, claro, mas você é Attex! Agora sei que o é desde o começo.
- Deve estar com fome! - observou ela.
Como Sofer não respondia, acrescentou com uma pequena gargalhada;
- Sinto muito. Lazir enganou-se na dose de soníferos. Você dormiu uma noite e um dia inteiro!
Sofer não duvidava que dormira monstruosamente. O que lhe parecia menos evidente, era o facto de estar acordado.
Aquela que chamara instintivamente Attex, caminhava diante dele, segurando na tocha. Um sopro invisível alongava, de vez em quando, a chama. Sentiam correntes de ar, quer vindas das alturas, como se fosse a abertura de um poço, quer do lado direito. A sua anfitriã dirigia-se pelo labirinto de corredores apertados, semelhantes às aberturas estreitas de um rochedo, com a segurança desenvolta de uma dona de casa que mostra a sua propriedade.
- Preparei-lhe uma pequena refeição - prosseguiu, no mesmo tom melodioso. - Mas antes quero mostrar-lhe uma coisa.
A sua voz ecoava na abóbada. Ela avançava com uma agilidade animal. A luz da tocha que lhe iluminava a nuca e o ombro, projectava uma sombra deslizante, que brincava pelas paredes de pedra. De vez em quando, sublinhava-lhe o menear das ancas, a firmeza do busto, as curvas tensas dos seios sob o pulôver. O silêncio maciço da rocha fazia reverberar o ruído dos tecidos, dos passos. Parecia que a própria carne do seu corpo se fazia ouvir.
Sofer foi acometido por uma emoção que quase olvidara: o desejo fazia-o flutuar. Ela transportava-o para fora deste mundo. Caminhava atrás dela e, deslumbrado pela sensualidade do momento, a imaginação era o seu único solo, a única matéria em que se apoiava.
A sua consciência era invadida por cada passo que ela dava, por cada movimento do braço ao longo das ancas. A maneira como ela inclinava a cabeça para o lado para evitar o abaixamento imprevisto do tecto de pedra, como reclinava o busto, o murmúrio da sua respiração... Por muito que Sofer se criticasse a si mesmo, por muito que achasse ridícula esta excitação, submetia-se inteiramente ao deslumbramento carnal que aquela mulher exercia nele.
- Cuidado, as escadas são irregulares. - preveniu ela.
Diante deles erguia-se uma escadaria enorme. Subiram lado a lado. À medida que progredia, Sofer descobria um espaço vasto, fracamente iluminado por uma dezena de tochas. O cheiro a nafta tornou-se cada vez mais pesado.
Parou, antes de alcançar o último degrau.
Estavam no interior de uma cavidade imensa, tão gigantesca que a sua abóbada se elevava na escuridão como na opacidade de um firmamento. Três edifícios delimitavam um pátio central. Verdadeiros edifícios de paredes de pedra, cuidadosamente fabricadas e talhadas, cobertos por telhados de telhas como se tivessem sido construídos ao ar livre e não no centro de uma montanha!
Uma vintena de tochas iluminava o conjunto, sem conseguir dissipar inteiramente o peso das sombras. As fachadas apresentavam colunas e um frontão triangular dominava umas portas enormes, onde Sofer descobriu painéis magnificamente trabalhados, representando as Tábuas da Lei. Era a entrada da sinagoga.
A sinagoga secreta!
Por conseguinte, ela existia realmente!
Deve ter soltado uma exclamação de surpresa, pois ouviu a sua voz ecoar contra a abóbada. A mulher voltou-se para ele, observando-o com doçura:
- Venha - disse-lhe. - Não é um sonho!
Na luz oblíqua da tocha, o verde dos seus olhos tornava-se mais claro e a sua boca arredondava-se. Sofer procurou uma frase, uma fórmula divertida que pudesse quebrar o mutismo ridículo que lhe fechava a boca. Não encontrou nada. Inclinou a cabeça e seguiu-a.
Apesar de ser tão espessa quanto o braço de um homem, a porta da sinagoga abriu-se facilmente. Mal se ouviu o ranger das dobradiças.
Sofer levou alguns segundos antes de compreender o que via. A sua estupefacção foi tal, que lhe paralisou o espírito.
O interior do edifício era octogonal. As paredes estavam cobertas por vastos tecidos de um encarnado violáceo ou de um azul desmaiado. Alguns estavam rasgados ou tinham sido parcialmente queimados pelos candelabros colocados a dois ou três metros.
No centro reconheceu um móvel que, no entanto, nunca vira. Parecia-se com um cofre alto e grande, de madeira cinzenta e pés curtos, com uma espécie de longos varais que lhe saíam de ambos os lados. Adivinhou a presença de outros tecidos no centro da sinagoga.
Avançou, com o coração a bater. Era efectivamente uma Arca dos tempos bíblicos! Então, ouviu atrás dele:
- Faz uma Arca em madeira de acácia... Reveste a arca com ouro puro... Fundirás quatro argolas de ouro para colocar nos quatro cantos inferiores da arca... Faz também varais de madeira de acácia e reveste-os de ouro... Enfia os varais nas argolas de cada lado da arca, para se poder transportar...
- O Êxodo! - murmurou Sofer. - A Arca, como foi descrita no Êxodo!
Estendeu a mão e os seus dedos deslizaram timidamente pela velha madeira, tão seca que apresentava a dureza lisa de um metal. Dominando os lados da Arca, esculturas estragadas, carcomidas e desajeitadamente entalhadas ou partidas, representavam pequenas silhuetas humanas. Sorriu e disse, por sua vez:
- Nas duas extremidades da arca, faz dois querubins de ouro batido...
- Exacto! - aprovou a mulher, com uma ligeira inclinação da cabeça. - Uma Arca construída estritamente de acordo com a discrição contida no Êxodo. Em madeira de acácia e segundo dimensões perfeitas: dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura e altura.
- Claro - pensou Sofer em voz alta. - Os khazares partilhavam as mesmas necessidades que as tribos de origem. Como elas, deslocavam-se constantemente. A estepe inteira era a sua sinagoga. Não colocavam a Tora num móvel fixo, mas na Arca, para poderem transportá-la.
- E devem ter conservado esse costume quando se fixaram, pois deviam considerá-lo como sagrado - concluiu ela. - Mas, veja...
Tanto nos varais destinados ao transporte, como nos lados da Arca, alinhavam-se estranhas séries de orifícios, dois a dois, como pontilhados.
- São os lugares dos ganchos que fixavam as folhas de ouro - explicou. - A Arca devia estar revestida de ouro, exactamente como está escrito no Livro. Isso explica o mau estado dos querubins: rasparam a película de ouro...
Enquanto ela falava, Sofer olhava à sua volta, de boca aberta, não conseguindo evitar repetir, como uma criança: "Estou a ver uma sinagoga bíblica, estou a ver uma sinagoga bíblica!"
Delicadamente, fez deslizar a pequena cavilha que retinha a porta da Arca, de uns trinta centímetros de altura. Para sua grande decepção, só havia pó no interior. Claro! Como imaginar que, durante mil anos, se tivesse podido guardar ali uma Tora!
Ela sorria, transbordando de malícia.
- A Arca está vazia, mas isto é apenas o princípio da "visita"! Siga-me...
Reparou no orgulho que lhe vibrava na voz. E, também, numa segurança que o surpreendia, como se ela tivesse frequentemente repetido esta situação e tivesse previsto cada uma das suas reacções. Teve de confessar a si mesmo que, noutras circunstâncias, e por uma questão de princípio, já se teria rebelado, exigindo descobrir um lugar tão extraordinário ao seu próprio ritmo. Contentou-se em sorrir e em admirar uma vez mais a graciosidade da sua nuca dourada pelo reflexo dos seus cabelos ruivos.
Atravessaram o pátio para entrar no edifício mais próximo da sinagoga. Era uma sala longa e baixa. As paredes interiores, da altura de um homem, desenhavam uma espécie de alcovas.
Com a desenvoltura habitual, a jovem acendeu algumas lâmpadas a petróleo, colocadas num soalho acinzentado pelo pó e roído, aqui e além, pelos animais. Sofer viu surgir da sombra uma dezena de grandes baús repletos de metal, prata ou aço polido, assentos em madeira esculpida, uns de elevados espaldares, outros, simples cadeiras desdóbráveis ou pequenos bancos. Havia tapetes enrolados num monte, cestos amassados perto de uma parede, toda uma miscelânea de tonéis, velhos cobertores, baldes de madeira ou de cobre...
Avançando até ao centro da sala, Sofer teve uma nova surpresa: entre as paredes de uma alcova, estavam amontoadas lanças, arcos, aljavas repletas de flechas. A empenagem de algumas ainda estava em bom estado e a cor das plumas era perceptível. Sofer aproximou-se, mas o conteúdo da alcova seguinte cativou-lhe a atenção: duas selas cobriam tamboretes baixos, enquanto nas paredes estava pendurada toda uma panóplia de gládios, punhais e espadas colocadas nos respectivos forros.
Com um rugido de excitação, apalpou o couro áspero e rachado das selas. Estas possuíam arreios à turca, sem botão de arção, com placas de prata cravejadas e cosidas em espessos panos de quadrados azuis. As cilhas que passam pela barriga do animal eram de linho acastanhado, dobrado por um couro endurecido, estaladiço como madeira seca.
Sofer sobressaltou-se ao ouvir um rangido atrás de si. Attex abria um dos baús. Mergulhou a mão no seu interior, antes de estender um disco prateado a Sofer.
- Penso que reconhecerá isto - disse.
Era uma moeda, larga como a palma de uma mão e com meio centímetro de espessura. Era maior e mais pesada do que aquela que tinha em sua posse. Sofer agarrou-a com emoção, adivinhando o que veria: o candelabro de sete braços com curiosos caracteres, e a estrela de David no reverso.
Vasculhou o bolso do casaco e retirou a moeda que Yakubov lhe dera. Excepto a diferença de tamanho e de peso e algum desgaste infligido pelo tempo, elas eram semelhantes.
Attex baixou a tocha: o fundo do baú estava coberto por uma centena de moedas idênticas!
- Yakubov não pôde levar tudo - observou, trocista. - Contentou-se com as mais pequenas!
Sofer foi acometido por um riso nervoso:
- Está visto que também conhece Yakubov, claro... Ela inclinou a cabeça, divertida:
- Tenha um pouco mais de paciência e explicar-lhe-ei tudo... Com um movimento circular da tocha, indicou o espaço em volta:
- Era uma sala da guarda, sem dúvida destinada aos oficiais khazares, mas pensamos que os rabis também podiam alojar-se aqui. Parece que com o passar dos anos se transformou numa espécie de esconderijo, de armazém secreto. As armas não datam todas da época khazar, algumas são mais recentes.
Sofer esteve prestes a perguntar a quem se referia com o pensamos, mas a jovem voltou-se, acrescentando:
- Ainda não chegou ao fim das suas surpresas... Como se costuma dizer no seu país, guardei o melhor para o fim!
Voltaram a atravessar o pátio central da grande gruta para alcançarem a elevada porta do terceiro edifício. Os seus painéis, muito menos elaborados que os da sinagoga, estavam revestidos de largas lâminas de aço, ponteadas pela ferrugem. No centro dos lados da porta fechada, sobrepunham-se grandes argolas, dispostas em quina. Bastava passar-lhes correntes para fechar a porta tão bem quanto um cofre.
Por ora, esta estava livre de qualquer entrave. Desta vez, Sofer teve de ajudar a sua anfitriã a fazer deslizar um dos lados da porta, cuja madeira emperrava nas lajes do soalho. Durante este movimento encontraram-se alguns segundos ombro a ombro. Os cabelos de Attex roçaram-lhe pelo rosto. Respirou o seu perfume, uma mescla ligeiramente picante de âmbar e sândalo, mas não teve tempo para se deixar arrebatar pela vaga sensual que sentia subir dentro dele.
Assim que a passagem ficou livre, Attex avançou no meio da escuridão. Antes que Sofer pudesse distinguir o que quer que fosse no halo luminoso da tocha, ela inclinou-se sobre uma caixa de plástico e puxou o manípulo de uma bateria. A luz acendeu-se em meia dúzia de projectores instalados em tripés. Sofer parou, de boca aberta.
Todas as paredes estavam cobertas por uma enorme biblioteca, com uma altura de seis ou sete metros. Era uma biblioteca como só tinha visto representada em obras muito antigas.
Grandes volumes com escrínios de madeira gravada, nos quais se colara cobre ou prata lavrada e rebatida, livros in-quarto com encadernações de couro, folhetos de papiro soltos, rolos de pergaminhos, montes de pequenas brochuras pintadas... Centenas, milhares de obras de todos os tamanhos, enchiam as prateleiras sombrias de armações esculpidas!
Subitamente, Sofer sentiu-se estranho em relação a si próprio. Até o cheiro que reinava na sala lhe era desconhecido, estranha mistura de humidade, pó irritante, óleo rançoso e frescura cavernosa. Mais uma vez, teve a sensação de entrar noutra dimensão temporal e de contemplar uma incarnação dos seus pensamentos como se o poder finalmente visível da memória se materializasse perante os seus olhos.
Passou a mão pela cara, pelas têmporas doridas. O seu olhar errava de um lado para o outro da sala, incapaz de se fixar num lugar preciso, querendo abarcar tudo num só relance, como se tudo pudesse subitamente desaparecer como num sonho.
Com uma voz ligeiramente solene, Attex anunciou:
- A biblioteca dos khazares. Está tudo aqui. Tudo o que os rabis e os Khagans de Itil puderam ler e conhecer, está aqui. Qualquer destes livros ou destes manuscritos passou pelo menos uma vez pelas suas mãos...
Sofer continuou calado.
- É maravilhoso - murmurou finalmente. - Maravilhoso! Não há outra palavra... Nem ouso acreditar! Como é possível?
O seu olhar passou das paredes cheias para a longa mesa no centro da sala. Também nesta se acumulavam manuscritos antigos, estojos de cabedal parecidos com saquinhos, contendo as finas canas dos calamos. Estendendo uma mão, aflorou-os. O uso polira de tal modo o junco acastanhado que este apresentava a fineza de um marfim. Os seus dedos aventuraram-se então pelas encadernações. Para sua surpresa, a primeira obra que abriu, num papel espesso e muito bem conservado, revelou uma dupla escrita. Sob frontispícios com ricas iluminuras em ocre, dourado e índigo, os dois terços do lado esquerdo de cada página estavam escritos no que parecia ser hebreu, ao passo que o terço restante continha letras árabes maravilhosamente caligrafadas.
- É o Pentateuco - explicou a jovem, atrás dele. - Os cinco livros de Moisés em hebreu e em árabe.
Apontou para uma prateleira afastada e acrescentou:
- Além poderá encontrar outras cópias, em hebreu ou egípcio antigo, ou ainda em árabe e em grego... Foram reunidas e transportadas para aqui pelos rabis e pelos escribas quando os khazares compreenderam a inevitabilidade da destruição do império. Antes mesmo da ocupação de Itil e de Sarkel pelos russos, os rabis tomaram medidas para esvaziar as sinagogas e retirar o que elas continham de mais precioso.
- Mas como sabe isso tudo? - exclamou Sofer, com uma voz que a estupefacção agudizava.
Ela riu, e o seu riso conferiu um pouco de realidade à situação.
- Porque estudamos estes documentos!
Sofer seguiu a direcção indicada pela sua mão estendida. Em cima da mesa, meio soterrados pelos manuscritos e pelos pergaminhos, descobriu dois anacrónicos computadores portáteis, bloco-notas, lupas, luvas de algodão, e até um estranho aparelho de aço polido que se assemelhava a um grosso microscópio.
- Estudamos esta biblioteca desde há meses - prosseguiu a jovem, no mesmo tom divertido. - É preciso fazer o inventário e ainda não chegámos a metade. Mas posso dizer-lhe que tem aí uma cópia da correspondência entre o rei José e o rabi Hazdai Ibn Shaprut de Córdova, cujo original está em Cambridge. Trata-se provavelmente da cópia redigida pelo próprio mensageiro, Isaac Ben Eliezer! Era uma prática corrente nessa época: faziam-se várias cópias dos documentos importantes, temendo, com razão, a sua destruição...
Enquanto falava, passava ao longo da mesa, aflorando os rolos, deslizando os dedos pelas encadernações. Durante um breve instante, os seus cabelos ruivos pareceram inflamar-se sob a claridade intensa de um projector. Fascinado, Sofer não pôde evitar imaginar Attex, a jovem Kathum, deslocando-se da mesma forma, neste mesmo lugar... Fez um esforço intenso para não deixar transparecer nada da confusão que o agitava e perguntou:
- Quem é você?
Ela endireitou-se, avaliando-o, com a cabeça inclinada para trás, como se procurasse enfrentá-lo. Sofer susteve-lhe o olhar. Ela depositou suavemente o estojo de cabedal que segurava no meio da balbúrdia da mesa e sorriu, sorriso que espantou Sofer. Não se tratava de um sorriso sedutor e, ainda menos, divertido. Pelo contrário: lia-se nele tanta tristeza quanto orgulho. Uma antiga frase, extraída já não sabia de que peça de Eurípides, atravessou-lhe então o espírito: Não é a beleza da mulher que enfeitiça, mas a sua nobreza.
Sem responder, ela dirigiu-se para as baterias a fim de apagar a luz dos projectores e propôs-lhe com voz aliciante:
- E se fôssemos comer?
- Quando era adolescente, há uns quinze anos, a Geórgia não se parecia nada com o que acaba de ver. Havia campos cultivados e fábricas por toda a parte, vinhas, trigo, flores... Muitos tractores e máquinas agrícolas! Tínhamos a impressão de sermos ricos e de viver em segurança. Comíamos todos os dias coisas boas e julgávamos que seria sempre assim! Os meus pais estavam convencidos disso. No entanto, eram judeus e, durante a guerra, os seus próprios pais tinham sido deportados por Estaline... Deviam ter-se recordado e ter sido prudentes! Mas, não. Essa era certamente a força do comunismo: apagar as identidades e a memória dos povos, mesmo a dos judeus! Sob essa condição, tudo corria bem. Vivíamos numa redoma e parecia-nos que ela era inviolável. Foi assim que os meus pais me mandaram estudar para Moscovo. Tinham muito orgulho nisso...
Ela falava calmamente. A sua voz parecia absorvida pela espessura da noite exterior. Voltou-se para a abertura rectangular onde se desenhava o crescente da lua.
Sofer adivinhou, mais do que viu, a emoção que lhe molhava o olhar. Ela passou automaticamente os dedos pelos lábios. Esta carícia rápida perturbou-o. Sentiu novamente toda a violência do seu desejo e baixou os olhos para a comida, como que envergonhado pela sua impudicícia.
Estavam sentados dos dois lados de uma mesa estreita, em bancos talhados na própria rocha. Esta sala troglodita, toda ela em comprimento, parecia a cozinha de uma velha quinta. Um fogo ardia na lareira da chaminé, cuja guarnição, semirecoberta, permitia cozinhar. Havia concavidades talhadas na superfície rochosa, trabalho tão fino quanto o de um marceneiro, servindo de prateleiras e de locais para arrumação.
Aquela que chamava Attex olhou-o novamente de frente e ele teve a certeza que ela lhe adivinhava exactamente os pensamentos. Porém, a jovem fez um gesto brusco e disse-lhe:
- Coma, bem vejo que tem uma fome de lobo!
Era tão verdade que a cada garfada, em vez de se sentir saciado, o seu apetite parecia despertar ainda mais. Devorava espetadas de carneiro, rolos de beringelas recheados com avelã e crepes com queijo! O vinho branco era tão suave como o que Lazir lhe oferecera, não mais alcoolizado que uma cidra, mas ele bebia com avidez, como se provasse um fruto do Éden.
- A bem dizer, não me lembro de ter tido tanta fome! - admitiu, troçando de si próprio.
Ela riu-se com ternura e deixou regressar o silêncio. Sofer teve a certeza de que naquele momento teria podido estender a mão e acariciar-lhe a cara, os lábios, talvez até obter um beijo. Mas, com a mesma convicção, soube que não devia fazê-lo. Pelo menos, por ora.
Pensou na triste cara que devia ter, com a barba por fazer, os olhos inchados pelo sono embrutecido em que mergulhara, o olhar esgazeado de um homem que não sabe se está a delirar. Afastou as dúvidas e encheu os copos.
- Nessa época, já conhecia a existência destas grutas e da sinagoga? - perguntou.
- Não, de forma alguma! Não foi assim que as coisas se passaram. Sádua, a nossa aldeia, fica a uma vintena de quilómetros desta falésia. Poucas pessoas se aventuravam outrora por estas bandas, a não ser para colher cogumelos ou para caçar. Mas a floresta, lá em baixo, no sopé da falésia, tinha má reputação. Há muito que se dizia estar infestada de serpentes, lobos e ursos!
Ela sorriu, evocando estas lembranças, antes de prosseguir:
- Era parcialmente verdade, sem dúvida. Sobretudo nos séculos passados. Mas hoje, pergunto-me se não se tratava de um rumor vindo do fim dos tempos, posto a circular pelos próprios judeus khazares, a fim de proteger o segredo da sua sinagoga... Seja como for, até aos últimos anos todos os habitantes de Sádua ignoravam a sua existência. Tanto os judeus como os outros. Antes que os Yakubov...
- Ah, Yakubov! - interrompeu-a Sofer. - Ora aí está alguém que se encontra em toda a parte e em lado nenhum! Que sabe acerca dele? Quem é?
Ela abanou a cabeça com um pequeno gesto nervoso:
- É melhor contar-lhe as coisas por ordem. Aos dezassete anos, e para grande felicidade dos meus pais, obtive uma bolsa para estudar na Universidade Lomonossov, em Moscovo...
-No monte Lenine! - aprovou Sofer, divertido. - Participei nalguns debates que aí ocorreram, logo após Ieltsin ter derrubado Gorbatchev! Nessa altura, disseram-se uma data de disparates, como acontece sempre que se julga estar no centro da História...
Riu-se, mas ela disse:
- Eu sei, estava lá! E foi assim que o descobri. Não penso que tenha dito disparates. Pelo contrário, estava cheio de força e de vida e isso encorajou-nos.
Sofer sentiu que corava. Durante alguns momentos, teve a impressão de que a jovem o acusava de uma espécie de traição. Porém, a sua cara e os seus olhos claros nada tinham de agressivo, antes pelo contrário. Resmungou:
- E então... depois?
- Estudei História e línguas - francês e inglês - durante seis anos. Sempre que entrava de férias regressava a Sádua. Uma parte da nossa família vivia nessa altura em Ducheti, uma aldeia a norte de Tbilissi, em grande parte judia. Foi aí que ouvi falar dos khazares pela primeira vez e da sua conversão ao judaísmo. Mas... não acreditei!
Uma careta de comoção alterou-lhe os traços do rosto:
- Não queria simplesmente acreditar nessa história de conversão ao judaísmo e de um grande império desaparecido! Nessa altura julgava deter a verdade. Julgava conhecer a história russa de cor! Para mim, a história edificante dos khazares, esse grande império tolerante, o primeiro a fabricar papel na região, a cunhar moedas... tudo isso não passava de uma lenda. Uma lenda nostálgica e reaccionária que, à falta de melhor, os judeus transmitiam uns aos outros para terem um pouco de legitimidade histórica neste país. Não me apercebia que debitava a versão oficial da URSS.
"No entanto, como os meus amigos judeus insistiam, aceitei o desafio. Fui vasculhar as bibliotecas. O que começou por confirmar a minha opinião. Como queria espetar o prego ainda mais fundo, aproveitei a abertura proporcionada pela 'perestroika' e escrevi a alguns historiadores ingleses. Lembrar-me-ei sempre do dia em que li os documentos que me enviaram. Era como se tivesse descoberto que sempre me haviam mentido acerca do meu nascimento! Quando se diz que o chão nos foge debaixo dos pés, isso pode tornar-se realidade. No entanto, até aí caminhara sobre um tapete de mentiras. E, bruscamente, tiravam-me o tapete de debaixo dos pés! Efectivamente, os khazares tinham sido um grande povo que se converteu ao judaísmo, quando não eram semitas. O peso da sua herança era importante na fundação da Rússia. E todos os estudos sérios sobre o assunto tinham sido proibidos, censurados e condenados pelo regime soviético!"
- Mas, porquê? - admirou-se Sofer.
- Oh, pela mais simples razão: o nacionalismo russo. Estava fora de questão que este grande povo pudesse dever o que quer que fosse ao judaísmo! Houve um historiador russo, Artamanov, que procurou escrever a verdade. Nos anos trinta, redigiu um ensaio intitulado A História dos Khazares, no qual mostrava a sua influência na formação do primeiro Estado russo. Recordava este facto indiscutível: as hordas russas que invadiram e conquistaram o reino khazar eram apenas bárbaros manipulados por Bizâncio. Foi ao instalarem-se nas cidades khazares e ao adoptarem os seus costumes, leis e conhecimentos, que adquiriram a primeira estrutura política, o primeiro verniz de uma sociedade civilizada. O estudo de Artamanov começou por ser ignorado e, depois, três anos após a morte de Estaline, ele foi condenado como subversivo e anticomunista1. O Pravda considerou-o como "uma história de parasitas de coloração judaica". Estaline e os seus sequazes mais não fizeram do que retomar uma tradição iniciada, séculos antes, pelos czares.
Sofer teve vontade de sorrir. O olhar verde da antiga estudante ludibriada ainda estava cheio de cólera e de humilhação e ela exprimia-se com o fervor daqueles que desejam, independentemente da sua experiência, ignorar a poderosa duplicidade do mundo, com essa espécie de pureza admirável que é sempre o motor dos heróis. Pureza que provoca também a sua queda, pois, quer sejam homens ou mulheres, são sempre apanhados de imprevisto pelos meandros da alma humana.
"Será a idade que me leva a ver as coisas assim?", pensou Sofer. No entanto, foi com mais ironia do que desejava que observou:
- Então foi assim que nasceu esse pequeno grupo, o "Renascimento Khazan, que envia pelos ares as instalações petrolíferas de Baku!
Ela fitou-o com ligeira surpresa, como que desembriagada da sua cólera e replicou friamente.
- Não, não é bem isso.
Sofer arrependeu-se logo de ter falado assim. Mas, em vez de se desculpar, aborrecido consigo mesmo, procurou encher o copo. A garrafa estava vazia.
- Quer mais vinho? - perguntou a jovem.
- Não, já bebi o suficiente.
- Deseja café?
' Artamonov publicou duas monografias sobre os khazares (Leninegrado, 1936 e 1962). Ainda no mesmo século foi também publicado em Nova Iorque um reportório da literatura sobre os khazares: The Khazars, a Bibliography. Por fim, é de assinalar a publicação, entre nós, da notável obra de Milorad Pavic, Dicionário Khazar, (Dom Quixote, 1990). (N. do T.)
Ela já estava de pé, dirigindo-se para a lareira. Acrescentou, recorrendo por sua vez à ironia:
- Você está prisioneiro de um perigoso grupo terrorista, mas tem direito a certas regalias. Café, chá, tudo o que lhe apetecer...
Sentindo-se vivamente picado, Sofer respondeu, sem qualquer humor:
- Claro que sou vosso prisioneiro! Bem vi há pouco: aqui estou tão isolado como em Alcatraz. E, a bem dizer, ainda ignoro porquê!
Ela soltou uma pequena gargalhada e voltou-se, olhando-o, com uma velha cafeteira de alumínio na mão. De pé, inclinada, com um pequeno sorriso trocista que lhe subia ainda mais as maçãs do rosto, estava mais desejável que nunca. Apesar de não dizer nada, todo o seu corpo parecia murmurar: "Mas sim, sabe muito bem!"
Pegando em duas canecas numa prateleira, voltou a sentar-se e disse num tom uniforme:
- É inteiramente livre. Pode sair daqui e regressar a Baku quando quiser. Dou-lhe a minha palavra. Daqui a pouco, quando amanhecer, se quiser. A rampa só é retirada por medida de segurança, para nós. Bastar-me-á acordar Lazir. O Nissan espera-o na floresta, a uma centena de metros da falésia.
- Nós? - exclamou Sofer, importunado desde há pouco por esta pergunta. - De quem está a falar? De si e de Lazir?
Ela abanou a cabeça, divertida, enchendo a caneca com o café aromático.
- Somos uma dezena a viver aqui. Dispersámo-nos pelas grutas. Como pôde ver, existem centenas. Cada um de nós escolheu a que melhor lhe convinha. Estamos aqui desde há alguns meses e como a nossa estadia ainda se arrisca a prolongar-se, mais vale ter um pouco de conforto...
- Estou a ver - resmungou Sofer, com um sorriso agressivo. - Tenho de reconhecer que é um esconderijo astucioso. No entanto, não é lá muito prático para perpetrar atentados: o trajecto até Baku não é de todo tranquilo!
Ela hesitou, de lábios cerrados, rosto endurecido.
- Nenhum de nós foi até Baku. Aqui só há historiadores!
- Espere! Que está a dizer? Vocês não são o "Renascimento Khazar"?
- A nossa organização dividiu-se em duas facções. Aqui só estão historiadores e cientistas. Estudamos o conteúdo da biblioteca, efectuamos um exame preciso de cada documento. É uma tarefa enorme e não imagina a que ponto é urgente.
- Oh, sim, imagino! - ironizou Sofer. - E por conta de quem realizam este trabalho?
- Para nós todos! Por conta da memória humana, de você, dos judeus do mundo inteiro, dos judeus daqui, da Geórgia ou do Azerbaijão!
- Mas que lista de comanditários! Excepto que, visto que faço parte dela, não me lembro ter feito qualquer contrato com um grupo terrorista!
- Não somos terroristas! - protestou a jovem, com as faces coradas.
- Ah! Então, quem faz explodir as instalações de Baku? Pela primeira vez ela mostrou-se embaraçada.
- Lazir poderá dizer-lhe mais sobre o assunto. Se quiser... É ele que estabelece o contacto com... essas pessoas.
- "Essas pessoas"!
A pequena gargalhada de Sofer estava tão carregada de ironia que ela desviou o olhar.
- E você não faz parte "dessas pessoas"? - insistiu - Não faz parte da mesma organização, o "Renascimento Khazar"? Quer seja historiadora, quer coloque bombas, os atentados trazem todos a vossa assinatura!
- Apenas desejamos obter justiça!
- Segundo a minha experiência, esse é sempre o motivo invocado pelos terroristas para justificarem a sua violência!
Mediram-se durante alguns segundos. Sofer ficou impressionado pela calma dela mas, também, pela distância que se instalara entre eles.
Contrariamente ao que queria fazer crer, não fora - pelo menos, ainda - a moral, nem a violência, que lhe tinham atiçado a má disposição. Esta discussão quebrava simplesmente a estranha bolha mágica onde o seu encontro e as visitas à sinagoga e à biblioteca os tinham mergulhado. Tornavam-se novamente estranhos um para o outro. Ela deixara de ser Attex! Sentia-se furioso contra esta magia que lhe escapava.
Para pontuar esta loucura, um brusco sopro de brisa nocturna entrou pela abertura. A jovem cruzou os braços no peito para reprimir um arrepio. O gesto realçou-lhe a forma dos seios sob o pulôver. Sofer baixou os olhos, sentindo-se novamente acometido pelo desejo.
Furioso consigo mesmo e, com a jovem, estava prestes a levantar-se e a abandonar a sala. No entanto, descobriu que ela sorria ao observá-lo, divertindo-se francamente com a má disposição exibida pelo seu rosto. Ela estendeu a mão por cima da mesa e agarrou na dele.
- Bem me parecia que me ia pregar um sermão! Sabe que li os seus livros? Sei o que pensa da violência!
Ela riu-se, soltando aquelas gargalhadas que tanto o perturbavam.
- Conceda-me o resto da noite antes de me condenar. Ainda tenho muita coisa a explicar-lhe. Já lhe prometi que se não conseguir convencê-lo, poderá partir amanhã de manhã para Baku. Nessa altura poderá denunciar-nos às autoridades do Azerbaijão... ou esquecer-se de nós. Como vê, eu também corro riscos e aposto em si.
Sofer esforçava-se para não olhar para a mão que segurava na sua, tal como se esforçava por não ser inteiramente tragado pela sensação exclusiva deste contacto, para não se dissolver no movimento dos lábios, que formulavam estas palavras que só escutava pela metade.
Ela retirou a mão, deixando a ponta dos dedos deslizar como que contrariada. Tornou-se grave e, durante alguns momentos, revelou a expressão de uma criança sonhadora, espantada, maravilhada:
- Há pouco, quando vim ter consigo na falésia, você chamou-me Attex... Disse para comigo que você era um pouco louco. Mas, na verdade, enquanto falávamos, não parei de pensar no assunto e apercebo-me que isso me agrada. Agrada-me mesmo muito! Attex não era apenas a irmã do Khagan, a sua vida também tinha um sentido. Conheceu todo o poder do amor com Isaac e isso foi quase como que uma prenda oferecida pelo Todo-Poderoso. Ela sabia-o e teve a grande coragem de dar a vida pelo que achava justo: a sobrevivência do seu povo!
Ela riu-se, de forma matreira, e acrescentou:
- Como uma terrorista!
Sem dar tempo a Sofer para responder, levantou-se e atravessou a sala para procurar qualquer coisa numa das prateleiras.
- Onde vai? - inquietou-se Sofer, levantando-se por sua vez. Ela estendeu-lhe uma poderosa lâmpada eléctrica:
- Venha comigo. Vou mostrar-lhe a última surpresa desta noite. A surpresa que o convencerá que o "Renascimento Khazar" defende uma boa causa!
A GRUTA QUE VISITAVAM DESTA VEZ ERA BAIXA, pois levantando O braço Sofer podia tocar na abóbada superior. O solo, ligeiramente inclinado, estava coberto por uma areia fina, de um cinzento quase branco. Sofer baixou instintivamente a cabeça. Com os feixes das lâmpadas iluminando a escuridão diante deles, com o solo e a abóbada como únicos pontos de orientação, avançaram ainda uma dezena de metros.
Sentiu que a jovem se afastava dele. Nesse momento viu uma espécie de pequeno muro esbranquiçado à sua direita. Quis aproximar-se e foi então que a sua lâmpada captou um estranho brilho.
- O que é...?
Um estalido metálico sobressaltou-o. Uma luz suave inundou de amarelo o tecto baixo da gruta.
Encontravam-se numa cavidade oblonga, escavada nas entranhas da montanha e tão vasta que a luz do projector não conseguia alcançar a sua extremidade mais longínqua. A água, que chegava ali certamente através de uma formidável rede de falhas e de anfractuosidades, formava um pequeno lago de um azul-turquesa.
Era uma superfície perfeitamente imóvel, de tal modo estagnada na sua transparência límpida, tão desprovida de movimento que teria podido passar por um bloco de vidro. O espelho nítido da superfície lambia a inclinação arenosa do solo, ao passo que, do lado direito, era retida por uma curiosa construção. O que Sofer julgara ser um pequeno muro, era na realidade o arco amplo de um hemiciclo, cujos degraus, semelhantes aos de uma arena, entravam pela água cristalina. A intervalos regulares, o degrau mais elevado era dominado por meia dúzia de colunas que chegavam à abóbada. As bases e os capitéis conservavam marcas de pintura púrpura e azul, mas nos fustes ainda era possível distinguir, quase intactos, os entrelaçamentos subtis de frescos representando abundantes folhagens semeadas de frutos, rosas, colibris, borboletas de reflexos dourados... murmurou Sofer, como se temesse que as suas palavras pulverizassem esta visão prodigiosa.
- Se olhar para as colunas a partir dos degraus, ao sair da água descobrirá Adão e Eva numa delas! - sussurrou-lhe a jovem, regressando para junto dele. - É uma Mikhva, o banho da purificação das esposas...
Mais ainda que na sinagoga ou na gruta, Sofer sentiu literalmente o sopro do tempo depositar-se nele e abraçar-lhe o coração. Não era preciso imaginar, recorrer aos conhecimentos e aos jogos da ficção para sentir na pele do rosto a longínqua presença dos homens que, neste mesmo lugar, tinham acreditado nas promessas da Aliança. Da água imóvel, desta simples e sublime construção erigida nas vísceras da montanha, brotava intacto o fervor espiritual dos khazares, essa fé tão intensa no Todo-Poderoso, que eles se Lhe tinham confiado até nas trevas da terra.
Sobressaltou-se quando ela roçou por ele. Sorriram ambos da dificuldade em quebrar o silêncio.
Ela indicou a Sofer a direcção oposta aos degraus do banho, onde se tinham amontoado caixotes de madeira que permitiam alcançar uma falha na parede, exactamente do tamanho de um homem.
- Depois, voltaremos aqui - disse-lhe, dirigindo-se para a passagem.
Ao chegar à falha, Sofer apercebeu-se que ela fora murada com o auxílio de materiais antigos, destruídos à picareta. A luz das lâmpadas, descobriu uma passagem muito diferente de tudo o que vira até então. Paredes irregulares, enrugadas ou lisas, construídas em altura, tão estreitas que por vezes era necessário caminhar de lado, nada deviam ao trabalho dos homens. Durante um momento teve a impressão de entrar na própria carne da montanha, como se deslizasse por entre as suas mucosas de calcário e de grés. Mas foi o odor, primeiro abafado e, depois, cada vez mais irritante, que lhe captou a atenção.
Depois de uns cinquenta passos prudentes, a jovem estendeu um braço para trás e disse-lhe:
- Cuidado, dê-me a sua mão. A partir daqui veja bem onde põe os pés.
Sofer hesitou um segundo antes de agarrar na mão que ela lhe estendia. Sentia-se ridículo por ser encaminhado deste modo como uma criança e, ao mesmo tempo, não pôde deixar de se sentir perturbado por aqueles dedos que se fechavam à volta dos seus.
O odor quase irrespirável, a um tempo oleoso e acre, pesado como uma essência em decomposição, obrigou-o a bater as pálpebras. Em poucos passos o cheiro intensificou-se de tal maneira que começou a arquejar lentamente.
Subitamente, a três metros deles, os feixes das lâmpadas que varriam o solo caótico apenas encontraram uma opacidade lisa. No mesmo instante, a jovem parou:
- Não vá mais longe - cochichou, encostada a ele. Largando-lhe a mão, tapou a boca e dirigiu a lâmpada para o vazio a seus pés.
A princípio, Sofer apenas distinguiu um poço de rochas coberto por um magma preto e fendido. Espirais gasosas, semelhantes a turbilhões de insectos minúsculos, dançavam numa estreita faixa de luz. Cinco ou seis metros mais abaixo, a luz ricocheteou numa superfície lisa e mole.
Nessa altura, Sofer identificou o odor que respirava!
- Magma de nafta - disse a jovem, como se tivesse seguido o curso dos seus pensamentos. - Um verdadeiro poço de petróleo!
Com a ponta do sapato, Sofer empurrou uma pedra grande como o punho e fê-la cair no vazio. Ela embateu na superfície oleosa com um ruído amortecido, originando uma onda sem vigor, antes de imergir e desaparecer.
A jovem agarrou-lhe novamente no braço, trazendo-o já de volta ao corredor que tinham percorrido:
- É melhor não permanecer aqui mais tempo, ou sufocaremos.
Depois de ter molhado o rosto com água fresca, ela descalçara os sapatos e arregaçara as calças até aos joelhos. Entrara sem hesitar na água até metade da barriga das pernas, começando por fazer uma careta devido ao frio e sorrindo depois a Sofer, enquanto lhe dizia:
- De todas as grutas, esta é a minha preferida. Fui eu que instalei a iluminação para poder vir aqui meditar tranquilamente...
Sentado num dos degraus do hemiciclo, frente às colunas pintadas, frente a Adão e Eva, de longos corpos pálidos sublinhados por traços enegrecidos e de rostos encovados por olhos imensos e temerosos, Sofer contivera uma queixa.
Ao vê-la quebrar a imobilidade tão perfeita do pequeno lago, parecera-lhe que ela dissolvia a sensação única de osmose com os tempos antigos que sentira momentos antes. Depois, disse para consigo que, pelo contrário, graças a esse gesto ela trouxera a vida de volta a este lugar sobrecarregado de memória, pelo que tinha inteira razão. Ela misturava-se à água límpida da Mikhva talvez como centenas de mulheres o tinham feito mil anos antes e, talvez como elas, acalmasse aí o tumulto das emoções e das questões.
Ela parou de andar e inclinou-se para mergulhar as mãos na água. Durante um instante, as pequenas vagas que agitavam a superfície rodearam-na com um cintilar de reflexos semelhante a uma sementeira de poeira prateada. Cada um dos seus gestos continha uma espécie de evidência, uma graça, que deixaram Sofer atordoado.
Com uma ironia silenciosa, ele olhou para a figura de Adão, a seu lado, com o rosto inquieto imobilizado no gesso há mais de mil anos. Adão, pai e irmão de um mesmo tormento, esperando alcançar, num abrasamento de carnes e carícias, não só o conhecimento prometido pela serpente, como também, e, talvez, sobretudo, essa magnificência da vida que uma mulher podia conter e que mesmo aqui, no antro da montanha, o abismava.
Ouviu-a sair da água e vir sentar-se junto dele. Habituado agora aos relentos de nafta que estagnavam na gruta, sentiu novamente o seu perfume. Foi um pouco como se ela o tivesse tocado.
- Há milhões de toneladas de petróleo sob esta montanha - anunciou-lhe ela, brutalmente. - O que acaba de ver não é um simples poço de nafta, mas a conduta natural de um reservatório fantástico. Um verdadeiro mar de ouro negro tão simples de extrair que faz empalidecer de desejo qualquer companhia petrolífera...
Estas palavras fizeram Sofer regressar a uma realidade mais prosaica. Pensou em Thomson, pela primeira vez desde que acordara na gruta.
- Como sabe?
- No Verão passado, um consórcio petrolífero efectuou algumas perfurações no vale de Telavi, a uma dezena de quilómetros daqui. Localizaram a falésia e as grutas ao procederem a um levantamento topográfico de helicóptero. Mas isso não os interessava particularmente, até que alguém lhes veio dizer: "Eu sei onde há petróleo! Não é preciso escavar, basta baixar-se com um tacho para o apanhar..."
- Yakubov! - murmurou Sofer.
- Sim, Yakubov... Não sei o que ele lhe possa ter dito quando o foi visitar a Paris, mas conhece este lugar como a palma das suas mãos. Durante anos calcorreou cada corredor, espreitou cada nicho. Aqui sentiu o cheiro da nafta e acabou por descobrir a maçonaria da falha, acolá...
Ela apontou para a falha no muro do lado oposto da Mikhva, a estreita passagem que tinham utilizado para chegar ao poço.
- Ele disse-me que o seu pai desaparecia de casa para vir rezar aqui - explicou Sofer. - E um dia tê-lo-ia seguido...
- É plausível - anuiu a jovem. - É provável que os judeus da região tenham conhecido a existência da sinagoga e da biblioteca desde a noite dos tempos. Mas guardavam preciosamente o segredo. Yakubov pensou logo como poderia enriquecer com o tesouro que descobrira. Feliz e infelizmente também, para nós, foi demasiado guloso.
- Que quer dizer?
- Que jogou em dois quadros diferentes. Quis transaccionar dois segredos: o do petróleo e o do tesouro khazar! No começo, não pensava realmente no petróleo. Isso não faria sentido. A sua ideia era vender, pouco a pouco, os objectos da sala da guarda, os manuscritos, e talvez até a Arca... Mas a quem, onde, como? Hoje, a Geórgia não é o país sonhado para o comércio de antiguidades. Encontrará coisas inimagináveis pelos mercados. As pessoas desmontam os seus apartamentos, os móveis, os azulejos, ou a canalização das casas de banho da época soviética... No entanto, nada disso possui qualquer valor, pois a miséria é tal que elas são obrigadas a trocar os objectos para se poderem alimentar. Trocam copos antigos por legumes, e louça antiga, do tempo de Estaline, por carne. Yakubov compreendeu depressa que estava sentado sobre uma fortuna, mas que esta era virtual. Se procurasse vender qualquer destes objectos na Geórgia, um bando mafioso acabaria por sabê-lo. Então teria de dizer adeus a todo o resto e, quem sabe, podia até ser morto. Consequentemente, tinha de se mostrar prudente.
- Teria podido vender no estrangeiro - objectou Sofer.
- Isso é muito complicado para um camponês judeu do Cáucaso! Tinha de fazer sair os objectos do país, deslocar-se à Europa, convencer um comprador... E depois? Estava entalado. Só podia levar para o estrangeiro os objectos mais pequenos e não os mais valiosos: as grandes armas, os manuscritos, a Arca... Mesmo que chegasse a convencer um antiquário de Berlim, Paris ou Londres, quem correria o risco de se deslocar até aqui, ao Cáucaso, no reino da máfia, a dois passos da Tchetchénia em guerra? Ninguém.
- E então?
- Então tapou os corredores que levavam até à grande gruta, para que mais ninguém pudesse descobrir a sua existência. Encheu-se de paciência durante alguns anos. Quando as perfurações petrolíferas começaram, lembrou-se deste poço de nafta. Pensou que podia pelo menos ganhar alguns dólares se conduzisse os técnicos do petróleo até aqui... Foi o que aconteceu, antes de as coisas se complicarem muito depressa. Não imaginara que, logo aquando das primeiras prospecções, as análises revelariam que esta conduta que acabámos de ver é apenas uma espécie de tubo natural aberto pelas falhas do calcário. Um acidente geológico. Mas lá em baixo, bem para lá da falésia, estende-se uma fossa de várias dezenas de milhões de toneladas de petróleo! Não possuo os números exactos, mas...
- Espere - interrompeu-a Sofer.
Sem se ter apercebido, tinha levado a mão ao pulso e apertava-o com força. Com um arrepio de horror, entreviu subitamente onde o levaria esta explicação.
- Meu Deus! Está a dizer-me que as companhias de petróleo descobriram uma reserva de petróleo sob esta montanha... Sob a sinagoga e a biblioteca! Mas... Mas, nesse caso, vão enviar tudo pelos ares para explorarem o seu danado petróleo!
Não viu o olhar vitorioso que ela lhe dirigiu. Mal sentia a mão que ela pousara na sua.
- Sim - confirmou a jovem, em voz baixa. - É por isso que estamos aqui. É por isso que formámos o "Renascimento Khazar"! É por esse motivo ou, melhor, para evitar que isso aconteça, que nos tornámos terroristas, como você diz. Não há qualquer ilusão possível. Se não as pararmos, as companhias petrolíferas destruirão esta montanha e tudo o que ela contém, para poderem explorar o ouro negro!
Transido, com uma angústia viscosa apertando-lhe a garganta, Sofer olhou para a água sumptuosa do lago. Ela tinha mil vezes razão! O seu olhar regressou para Adão e Eva, pintados nas colunas. Imaginou-os, subitamente destruídos e reduzidos a pó pela transformação da gruta num gigantesco estaleiro de bombeamento de petróleo.
Após séculos e séculos, uma obra maligna ia finalmente gritar vitória e apagar para sempre o último vestígio dos khazares...
Levantou-se, balbuciando:
- Leve-me até lá fora. Até à beira da falésia. Preciso respirar.
Sofer sentara-se num degrau das escadas no flanco da falésia, à luz da gruta-cozinha onde ela preparava novamente o café.
Olhou para o relógio: já passava das quatro da manhã.
A leste, mal se enxergava um pouco de claridade por entre a escuridão esplêndida do céu estrelado. Uma brisa regular e fria corria ao longo da falésia, fazendo-o sentir-se melhor depois da espécie de asfixiamento que sentira na Mikhva.
Efectivamente, sentira-se amedrontado por esta asfixia, como se o labirinto escavado na montanha se fechasse sobre ele, como se, numa espécie de imaginação intuitiva da carne, a ameaça de aniquilamento das grutas e dos tesouros nelas contidos se transformasse numa ameaça contra ele próprio. Mais um vestígio do mundo judeu que ia desaparecer! Mais uma destruição da memória! Mais um passo rumo ao vazio de um presente cortado das raízes de origem! O seu corpo e o seu coração tinham apreendido tudo isto antes da razão e, consequentemente, sofriam.
Era certamente excessivo. Quase se sentia zangado com a violência da emoção. Mas, desde que ali estava, tudo lhe parecia excessivo, a um tempo ameaçador e prodigioso. Logo a começar pela sua atracção por Attex, por aquela mulher que, interiormente, continuava a designar com esse nome.
Estaria realmente apaixonado por ela? Há tanto tempo que não amava alguém! Amar com esse tipo de amor que nos torna bons, abertos, acolhedores em relação ao outro e respeitosos do seu enigma! Na verdade, há muito que se entrincheirara na certeza de que o amor era tão impossível de partilhar quanto os sonhos!
Partilharia ela, nem que fosse um pouco, esta emoção? Ou estaria a jogar com ele para obter um serviço? Começava a entrever a natureza da ajuda que lhe poderia fornecer.
Mais valia não lhe colocar a questão. Contentar-se com o facto de ela o ter escolhido a ele, por entre tantos outros. Não seria um sinal?
Ela surgiu na espécie de varanda rochosa, trazendo uma bandeja decorada à turca, onde colocara a cafeteira e as canecas. Sorria, graciosa, descontraída. De ora em diante, era sua cúmplice. Confiante.
Ela sentou-se na escada, um degrau mais abaixo, e verteu o café quente nas canecas, estendendo-lhe a dele. Ele segurou-a com ambas as mãos, aquecendo as palmas contra a porcelana.
Com um movimento lesto, ela desapertou o nó que lhe prendia os cabelos. Eles eram tão ligeiros que a brisa os espalhou pelos seus ombros. Com uma naturalidade que pôs o coração de Sofer a bater mais depressa, apoiou-se nos seus joelhos dobrados. Através dos tecidos, ele sentiu o calor do corpo dela, a firmeza de um seio contra a sua coxa. Bastava-lhe avançar a mão alguns centímetros para poder tocar na sua cabeleira de fogo ou pousá-la na sua nuca, acariciando-lhe a face. Conteve-se, preferindo não quebrar a estranha aliança que os unia.
Beberam ambos alguns goles de café e, depois, nalgumas frases pronunciadas em voz baixa, ela acabou de lhe contar como encontrara Yakubov no Inverno anterior.
Sem encontrar qualquer obstáculo e após uma curta negociação e uma larga distribuição de benesses, um grupo petrolífero acabara por obter o que quase equivalia a um direito de propriedade sobre os cento e cinquenta quilómetros quadrados de montanha, florestas, do subsolo que englobava a falésia, das grutas e da imensidão da toalha subterrânea que se estendia essencialmente sob a planície.
- Por conseguinte, isto significa que neste momento estamos em "casa" deles - sublinhou a jovem. - Na ilegalidade completa. Podem expulsar-nos quando lhes apetecer...
O próprio Yakubov depressa compreendera que, nestas condições, o tempo que lhe restava para "vender" o tesouro khazar já estava contado.
- Para vender depressa, ele precisava de uma rede. E quem encontrar aqui, sem se arriscar a que a máfia o soubesse? Yakubov tem a astúcia de uma raposa, mas a sua ignorância faz dele, sob certos aspectos, uma pessoa simples e néscia. Pensou que um professor de História saberia forçosamente muito sobre antiguidades. Talvez até sobre antiquários!
Ela parou, efectuou uma mímica irónica, encheu de novo as canecas e molhou os lábios antes de prosseguir a sua história:
- Ele foi visitar os meus pais quando eu festejava o meu regresso à Geórgia enquanto professora. Trazia uma espada, duas ou três facas, flechas e moedas, dentro de um saco de desporto. Disse-me: "Parece que é conhecedora de objectos antigos. No seu entender, quanto vale esta tralha?"
Sofer não pôde evitar sorrir ao lembrar-se da facúndia de Yakubov. Não tinha dificuldade em vê-lo levar o seu negócio avante!
Ao ver as moedas, ela compreendera imediatamente que se tratavam de objectos khazares. Sentiu um arrepio e chegou-se mais a ele:
- Ainda sinto arrepios! Ter ali, de repente, diante de mim, objectos, peças, que se julgava desaparecidos para sempre! Nem pode imaginar!
Sim, podia muito bem imaginar, pensou Sofer. Concebia perfeitamente uma tal emoção. Nesse próprio momento, sentia-a vibrar contra ele.
Evidentemente, Yakubov recusara-se a dizer onde fora buscar aqueles objectos antigos. Ela tentara todos os meios para o fazer vergar, tanto a súplica como a ameaça. Acabara por insultá-lo, não suportando mais que a sua sede de dólares o impedisse de compreender, a ele, filho de um homem formado na leitura da Tora, que se tratava da história e da memória de todo o povo judeu e não de um comércio de velhos pedaços de ferro-velho.
Para obrigá-lo a ceder, pedira auxílio a camaradas judeus da universidade e alertara a comunidade de Quba, no Azerbaijão, a mais importante da região, onde os rabis dispunham de certo poder. Na verdade, esperara até que eles contactassem as autoridades israelitas. Não o fizeram, mas Yakubov recebeu uma visita certa manhã e foi questionado com certo vigor...
- Bom, não era lá muito legal, é verdade. Mas, francamente, que outra coisa podíamos fazer? Era demasiado importante...
- Se bem compreendi, os habitantes de Quba estão ao corrente desta história - disse Sofer. - Sabem que vocês estão aqui, quem se esconde atrás do "Renascimento Khazar" e porquê!
- Não, nem todos, longe disso! Apenas o presidente da câmara e algumas pessoas de confiança. Ajudaram-nos muito...
- Zovolun Buruth Danilev! O senhor presidente da câmara! - resmungou Sofer. - Eu queria absolutamente que ele me dissesse qual a proveniência da moeda e ele queria absolutamente dissuadir-me! "A montanha está cheia de rumores, senhor Sofer. Segui-los, é perder-se..."
- Eles são formidáveis, sabe... São eles que correm todos os riscos. Compreenderam a situação num abrir e fechar de olhos. Divertiram-se muito com a designação "Renascimento Khazar"! Na época do comunismo, o presidente da câmara montara uma rede que permitia aos judeus fugir para o Ocidente.
- Estou a ver! De certo modo, é o seu ramo "activo". Velhotes no meu género, ou Lazires que fazem explodir algumas bombas!
- Não troce, é injusto. Posso assegurar-lhe que no começo não pensávamos nas bombas. Se os responsáveis petrolíferos fossem menos estúpidos e obtusos, elas não seriam necessárias. Quando Yakubov acabou por nos trazer aqui, ficámos tão maravilhados que só desejávamos uma coisa: que o mundo inteiro partilhasse a nossa felicidade. Diante da sinagoga, mesmo antes de abrir a porta, estávamos em lágrimas. A emoção era demasiado forte. E quando conseguimos abrir as grandes portas da biblioteca... Não há palavras que possam exprimir o que sentimos!
De facto, não havia palavras para tal. Talvez pudesse recorrer a uma imagem: era como se Eva e Adão pintados nas colunas da Mikhva se animassem, desprendendo-se do gesso do fresco que os retinha, como se se tornassem mulher e homem de carne e osso e fosse finalmente possível abraçá-los.
Mas, para lá desta emoção, as perguntas das últimas semanas encontravam finalmente as suas respostas, como se a localização das peças de um puzzle se revelasse brutalmente evidente.
- Éramos néscios e estávamos cheios de esperança. Tinha a certeza que chegaria a um acordo com os patrões da companhia petrolífera responsável pelas escavações. Quando se inteirassem do conteúdo extraordinário das grutas, só podiam partilhar a nossa opinião. Procurámos contactá-los de todas as maneiras possíveis. Apenas dispõem de um escritório subalterno em Tbilissi. Contactámos a sede, em Baku. Recusaram-se a receber-nos. Finalmente, um advogado enviou-nos uma carta indicando que, doravante, tudo o que as grutas contivessem pertencia à O.C.O.O.
- A Offshore Caspian Oil Operating - resmungou Sofer, pensando em Thomson.
- Sim, é isso. A carta era uma provocação deliberada. Precisava que não tínhamos nenhum direito legal de vir aqui sem a devida autorização. Imagina como nos sentimos. Para adquirirmos mais peso, a nossa primeira reacção foi criar uma sociedade de defesa das ruínas: o "Renascimento Khazar"! Foi assim que o grupo nasceu. Posso assegurar-lhe que revolvemos céu e terra, tanto no Azerbaijão, como na Geórgia. Mas a O.C.O.O. fez reinar uma verdadeira lei do silêncio. Em poucas semanas, mais ninguém nos recebia. Já não nos respondiam aos telefonemas, as nossas cartas eram deitadas para o cesto dos papéis. Estávamos reduzidos a fantasmas. A única coisa que nos informaram foi da existência de uma equipa que efectuará um estudo para a exploração, o mais tardar até ao fim do ano. Toda a zona será proibida, o que significa que vão pilhar a biblioteca e destruir o resto. Sem contar com a Mikhva! Por isso decidimos fazer explodir as instalações dessa companhia. Infelizmente eles são tão poderosos, que até a nossa carta de reivindicação nunca chegou a ser divulgada!
O espírito de Sofer começou subitamente a ferver:
- Espere! Espere! Então, os responsáveis da O.C.O.O. sabem perfeitamente quem vocês são, e o que lhes querem?
- Penso que a esta hora devem ter fotografias nossas em cima das secretárias e fichas com todos os pormenores das nossas biografias.
- Céus!
De repente, Sofer compreendia até que ponto Thomson lhe dera a volta. O seu pressentimento confirmava-se: o encontro no avião nada tivera de casual. Thomson sabia quem ele era e porque se dirigia a Baku. Thomson e os seus patrões sabiam tudo: a localização da gruta, o motivo dos atentados e quem eram os seus autores. Sabiam o que se passava com Quba, Yakubov e tudo o resto. Mas porque se teriam interessado por ele, Marc Sofer? Para que servisse de correio entre a O.C.O.O. e o "Renascimento Khazar"?
Fechou os olhos durante um momento e lembrou-se das palavras proferidas por Thomson na antevéspera, no hotel, que soavam como uma ameaça: "Diga-lhes que desistam. Que se recusem a perpetrar um segundo atentado. Para nós, isso será um sinal de que nos recordaremos. E se nos enviassem uma explicação, perfeitamente anónima, com pormenores implicando os americanos, isso seria ainda melhor".
Havia algo que não batia certo. Que vinham fazer os americanos nesta história, quando Thomson e a O.C.O.O. sabiam quem atacava as instalações e qual o seu motivo?
Além disso, o segundo atentado ocorrera, e segundo Lazir ele fora cometido contra as instalações de um grupo americano. Faltava certamente um elemento do puzzle, a menos que Lazir não fosse o único a troçar dele.
- Que se passa? Que tem?
Ela colocara-lhe uma mão na coxa e observava-o, inclinada, com uma ruga terna de inquietação entre as sobrancelhas.
- Marc, sente-se mal?
Eis que agora o tratava pelo primeiro nome com uma voz melosa! Com um rosto tão perfeitamente belo. Não podia contentar-se em ser Attex, uma mulher de sonho e de ficção?
Tremeu ao sentir o desejo violento de enviar para o diabo toda a confusão dos seus pensamentos e de a abraçar. Contentou-se em colocar uma mão na dela e apertá-la com força. Uma réstia de desconfiança proibiu-o de evocar o seu encontro com Thomson. Empertigando-se, perguntou:
- Porque fizeram explodir instalações americanas há três dias e não as da O.C.O.O.?
- Oh... Foi uma ideia de Lazir e do presidente da câmara de Quba. Visto que a O.C.O.O. quer ignorar-nos, temos de criar um problema que envolva o maior número de companhias possível e até o governo do Azerbaijão. Atingidos nos seus interesses, talvez os americanos publiquem a nossa reivindicação. Sem nada entenderem, mas...
- A menos que a O.C.O.O. os convença do contrário! Nesse caso, vocês estão a brincar com o fogo ao aumentarem o número dos vossos inimigos! Há uma coisa que continuo sem perceber: por que motivo os patrões da O.CO.O. não vos denunciam? Poderiam expulsar-vos daqui, prender Zovolun, alguns habitantes de Quba, sei lá... Como estão ao corrente de tudo e têm o direito do seu lado, isso ser-lhes-ia simples!
- Mas faria muito barulho. Pelo menos, um pouco. Alguns jornais estrangeiros saberiam da notícia. Esta espalhar-se-ia pela França, pela Inglaterra, pela Europa, por todos os países membros da O.C.O.O. Destruir vestígios do passado... Que sociedade civilizada não se alarmaria? Ora, eles escolheram a melhor das armas para nos abaterem: o silêncio. Este significa a nossa derrota absoluta. Eles sabem-nos fracos. Que representa o "Renascimento Khazar"? Quinze ou vinte pessoas. Hoje, quem conhece o nosso combate e a sua razão de ser? Ninguém. Que podemos fazer se este silêncio nos estrangula, nos mata, e nos destrói, melhor do que um verdadeiro combate? Digo-lhe que eles são suficientemente poderosos para abafar o menor dos nossos gritos.
Ela afastou-se um pouco, para fitá-lo de frente. A sua boca apresentava bruscamente um esgar de cólera. Com uma voz dura e fria, disse:
- Tirámos algumas fotografias e gravámos um filme que lhes enviámos. Eu mesma escrevi um relatório de vinte páginas para explicar detalhadamente a importância histórica da biblioteca, da sinagoga, da Mikhva. Não só para os judeus: o que se encontra aqui é simplesmente a história do Cáucaso. Enviámos, evidentemente, uma cópia do filme e do relatório aos jomais azeris e georgianos, aos professores da Universidade de Tbilissi, e também para o Azerbaijão. Sabe o que se passou? Nada. Foi como se não existíssemos! Como se tudo isto não existisse! E é isso precisamente o que eles querem. Querem as grutas vazias e que haja aqui apenas toneladas e toneladas de petróleo.
Ela acabara por levantar a voz, que ribombou contra o muro da falésia, vibrando na noite.
- Não estamos na Europa, Marc. Nem sequer no Azerbaijão! Na Geórgia, já não há Estado, leis ou regras. Desde que tenha dólares em quantidade suficiente para corromper um ministro, ou alguém que tenha o poder de assinar um pedaço de papel, pode agir com toda a impunidade. Se perdermos o combate, aquilo que viu hoje aqui deixará de existir dentro de seis meses...
Ela tinha razão. Para se convencer disso, bastava vagabundear o olhar pelas sombras que começavam a esmorecer antes da alvorada. Este lugar estava perdido, ninguém se preocupava com o que lhe iria acontecer. Se, por infelicidade, ocorresse um drama, seria extraordinariamente fácil atribuí-lo a um desconcerto qualquer da guerra na Tchetchénia. E quem se interessava pelos vestígios khazares? Eles nem sequer constavam dos manuais de História dos liceus europeus!
Sim, ela tinha efectivamente razão. E agora, sem que ela lhe explicasse o que quer que fosse, sabia porque estava ali.
A caneca de café, que bebera por metade e ainda segurava nas mãos, acabara por esfriar. Colocou-a na bandeja e, ao efectuar o gesto, roçou-lhe pelo rosto. Desta vez, foi mais forte do que ele. Voltou-se ligeiramente e colocou os lábios nos dela.
Ficou surpreendido ao sentir que eles estavam a arder. Ficou ainda mais surpreendido pela sua doçura e ao ver que ela o abraçava com o arrebatamento de uma libertação, com um pequeno rugido abafado, vindo do peito. O corpo dela, tão firme e esguio, envolveu o seu. As suas línguas encontraram-se com simplicidade. A tensão erótica, retida desde há horas, espalhou-se como a embriaguez pelo sangue.
Sádua, Geórgia Maio, 2000
Ela libertou-se do abraço com a doçura de uma abelha que se desprende de uma flor. Soergueu-se no leito, despida, encostando as nádegas aos calcanhares, oferta ao seu olhar atento.
Sofer teve a impressão de vê-la pela primeira vez. Algo mudara no seu rosto enquanto se amavam e essa alteração permanecera. Notava uma marca de abandono, do prazer revelado, mas também havia outra coisa. Talvez menos segurança. A menos que ela estivesse simplesmente desorientada pela diferença de idades, agora que estavam nus e que a violência do desejo se desvanecia?
No entanto, ela também devia ter sentido, desde o primeiro olhar, que o desejo acabaria, mais cedo ou mais tarde, por arrebatá-los. Houvera demasiada emoção naquela noite para que ambos não lhe cedessem.
Enquanto ela levantava os braços para atar os cabelos flamejantes num carrapito efémero, a ponta dos seus seios ergueu-se. Os seus mamilos desenhavam discos também de um vermelho de fogo, avivados pela brancura leitosa da pele. O desejo de Sofer despertou novamente, surpreendendo-o. Conteve a carícia que lhe desejava fazer e deixou até de cruzar com o seu olhar para não a embaraçar. De pálpebras fechadas, deitou-se de lado para lhe beijar as coxas, confessando:
- Há semanas que não me sai da cabeça, até quando não dou por isso! A tal ponto, que se tornava irritante. Você é tão bela!
Ela soltou a sua gargalhada típica. Porém, desta vez ele adivinhou uma certa distância, como se tivesse proferido uma grande banalidade. Ela afastou-lhe a cabeça, interrompendo-lhe os beijos e acariciando-lhe a face do rosto:
- A sua barba cresce depressa - observou.
Ele esfregou o queixo efectivamente muito áspero e esboçou uma careta.
- Não se preocupe - acrescentou a jovem, imediatamente. - Fica-lhe bem! Não se mexa, tenho uma prenda para si...
- Para mim?
Sem lhe responder, ela saltou da cama com a agilidade de uma gata e dirigiu-se para uma mala metálica, enfiada por baixo de uma parede.
Estavam na gruta "dela", semelhante àquela onde Sofer despertara há uma eternidade. Fora para aí que se tinham encaminhado, impelidos pela urgência das carícias e dos beijos, despindo-se a cada passo, tensos de desejo. A única diferença era que esta sala possuía uma cama de campismo relativamente confortável e uma bateria ligada a duas pequenas lâmpadas.
Sofer admirou-a novamente, enquanto ela abria a mala e retirava um rolo de papel. Desejava que ela não desconfiasse dele quando lhe dizia que era bela. Na verdade, ela era a beleza personificada: aquela que nos pode fazer acreditar na vida enquanto realização.
Ela regressou para o leito, meneando as ancas, e estendeu-lhe o rolo.
- O que é?
- Veja...
Ele desenrolou-o. Não era um pergaminho, mas papel, grumoso, de espessura irregular. Escurecido pelas manchas de humidade, a escritura cobria toda a largura. Traçados numa tinta que se tornara bistre, os caracteres eram esguios. Não se parecia nada com os manuscritos cuidadosamente caligrafados que Sofer entrevira na biblioteca.
Quando acabou de desenrolar a totalidade do manuscrito, algumas folhas dactilografadas deslizaram e caíram na cama.
- Sabe ler o russo, não é verdade?
Sofer inclinou a cabeça e perguntou novamente.
- O que é?
- Uma carta. E a sua tradução em russo, é mais simples... Ela sorriu encantadoramente, pegou no pulover, e vestiu-o:
- Vou deixá-lo ler em paz e já volto. Tenho fome, e você? Sofer não respondeu, de olhos fixos na primeira linha da tradução, com outra sensação no ventre que não a da fome.
Que o Eterno te abençoe, meu bem-amado irmão José, Khagan dos khazares, filho de Aaron.
Que Ele vele também para que esta carta te chegue.
José, tenho duas notícias importantes para te dar. Uma é má e a outra acho-a boa.
Reflecti muito bem antes de te escrever esta carta, pois ela revelar-te-á o meu paradeiro. Não importa. A má notícia é assaz má para que sejas informado. Depois de ter escapado à tua vontade em Sarkel, dirigi-me à gruta do nosso tio Hanuko, local que conheces (perdoa-me ser sibilina, mas, caso esta missiva seja roubada, é escusado dar informações inúteis). O facto de eu e a Attiana termos chegado aqui vivas é um verdadeiro milagre.
Infelizmente, a cada dia que passa, a gruta, a sinagoga, a preciosa Mikhva, construída pelo nosso tio, tudo isso, como também as nossas vidas, corre o maior perigo. Lembras-te do vasto vaie que se estende pelo sopé da falésia? Os exércitos do imperador de Bizâncio e do emir de Alep, Seif-ad-Daouleh, entregam-se aí, todos os dias, a um combate tão feroz quanto incerto. O tio Hanuko diz que os gregos requisitaram dois taghmatas imperiais, ou seja, mais de dez mil soldados, entre os quais dois destacamentos de varengos1. As forças do emir são tão poderosas quanto as dos gregos.
Isto perfaz quinze ou vinte mil homens que combatem a três ou quatro léguas daqui, por vezes ainda mais perto. Há
1 Vikings que penetraram na Rússia na segunda metade do século IX e praticaram activamente o comércio entre o mar Báltico, o mar Negro e o mar Cáspio. (N. do T.)
cinco dias, a floresta que protegia o caminho de acesso à falésia foi inteiramente queimada. Quase morremos asfixiados pelo fumo. Incapazes de nos lavarmos, ainda estamos enegrecidos de fuligem. Precisaríamos de nos lavar no lago de Adão e Eva, mas ninguém teve coragem para sujá-lo.
Para te confessar a verdade, José, foi ao ver-nos assim, sujos e fedorentos como animais, encovados nas nossas grutas, que me decidi a escrever esta missiva desesperada.
Desde o incêndio da floresta (que, como imaginas, revelou a nossa presença aos soldados do emir), não há dia em que soldados vociferantes não procurem invadir as nossas grutas. O seu chefe deve sonhar em transformá-la numa fortaleza. O tio Hanuko sempre viveu aqui em paz, lendo a Tora, para se proteger do mal. Só podemos contar com uma vintena de homens em condições de combater, mas eles esqueceram-se da arte das armas há tanto tempo, que hoje duvido da sua eficiência.
Por ora, a defesa natural dos locais continua sendo a nossa protecção mais segura. Mas por quanto tempo ainda? O tio Hanuko pensa que, mais cedo ou mais tarde, os muçulmanos conseguirão construir escadas que lhes permitirão ter acesso à porta de entrada dissimulada. A menos que entrancem cordas suficientemente longas para alcançar as grutas mais elevadas e que desçam as escadas a partir do cimo da falésia. São capazes de tudo.
Há outro motivo pelo qual assumo a terrível responsabilidade de te enviar Attiana com esta carta. Se amanhã já não estivermos cá para te dizer isto, deves ficar a saber que esta guerra entre Constantino e o emir de Alep é o verdadeiro motivo que levou os gregos a pedirem-te uma aliança, para além do prazer vicioso em arrastar-te na pior blasfémia possível através de um casamento.
José, meu irmão, abre os olhos! Como podes pensar numa paz fundada na violação da tua irmã Attex que te ama?
A única razão para os salamaleques do embaixador Blymmédès é tentar amolecer-te enquanto as forças de Bizâncio enfrentam o emir SeYf-ad-Daouleh. Constantino é hoje um homem fraco. Quer assegurar-se que não farás causa comum com o emir, contra ele. Tens de concordar que a paz que oferece é um logro, ó meu Khagan bem-amado. Se te tivesse obedecido, teria renegado a lei de Moisés e suportado os desejos perversos de um cristão, sem que o reino dos khazares obtivesse sequer o menor consolo. Pelo contrário!
José, vê se te convences desta verdade: Bizâncio odeia os judeus e teme os guerreiros khazares. Entre eles e nós, nunca haverá paz. Digo-te isto quando amanhã talvez já esteja junto do Eterno, abençoado seja o Seu nome: só encontrarás ajuda junto aos judeus do resto do mundo.
Eles pensam em ti como numa luz brilhando na noite. És uma estrela nova no seu firmamento. Rogo-te que recebas Isaac, o enviado do rabi de Córdova. Lê a carta que ele te trouxe e responde com ternura à sua espera.
Não te deixes cegar pelo ciúme, pois sei que essa dor cruel baralha o teu julgamento. Ela conta muito na tua recusa em recebê-lo. Não lutes contra o amor que me levou para os seus braços: nada podes contra isso.
Mesmo tendo apenas uma noite para nos encantar, o amor é eterno como o próprio Eterno. Sim, na verdade te digo: o nosso amor é a vontade do Todo-Poderoso.
Trago o sopro de Isaac no meu seio. A sua presença e o perfume da sua paixão não saem do meu corpo. Purificam-me para sempre. Basta-me baixar as pálpebras para saber que se passa o mesmo com ele. Nada, ó José, tu que já me salvaste a vida quando eu era pequena, nada poderá diminuir esta fé na fé. Se amanhã um guerreiro me apartar as coxas e me estrangular, não me conspurcará mais que o fumo do seu incêndio.
José, lembra-te dos ensinamentos do nosso rabi Hanania. Um dia ele disse-nos que era preciso considerar a Tora como uma moça jovem de grande beleza e de ascendência nobre. Ao pronunciar estas palavras, olhava para mim.
Disse (oh! como me lembro): "Esta jovem tem um apaixonado só dela conhecido. Por amor por ela e apesar de ainda não a conhecer, o mancebo vai até ao seu palácio, passa e volta a passar sob as suas janelas. Espera ver a beleza de que o seu coração já lhe falou, mas que os seus olhos nunca enxergaram. E a jovem sabe que ele está ali, que nunca se afasta. Então, entreabre a porta e, durante um momento, um breve momento, mostra-lhe o rosto! Só ele, e mais ninguém, o pôde contemplar. Ela só o mostrou a ele, o único ser com a alma e o coração feitos para lhe vigiar a porta. E, a partir dessa altura, ele sabe quanto ela o ama, e ela sabe que o laço entre eles é indestrutível".
Isaac Ben Eliezer e a Kathum Attex são assim, Khagan José. Até no mesmo sofrimento. Mesmo que a porta nunca mais possa ser entreaberta. Mesmo que não haja um só momento em que não sinta saudades dele.
Concede-lhe uma audiência, José. Salva o reino dos khazares e deixa o meu amante vir salvar-me. Nessa altura, o Todo-Poderoso saberá fazer de ti aquele que os judeus isolados e banidos já trazem no coração.
Sofer passou os dedos pelas pálpebras. Estavam húmidas.
Desejava reler imediatamente esta carta, assegurar-se que não delirava. Mas o seu espírito estava muito confuso. Então, o que julgara imaginar, era afinal a realidade?
Ouviu um ligeiro ruído. Um movimento, um roçar de tecido.
Erguendo os olhos, viu-a, de pé, diante da porta. Ela já não trazia o seu comprido pulôver, mas uma túnica verde. Uma segunda pele de seda de um verde nacarado, apertada nas coxas, com uma ligeira dobra na curva do ventre, revelando o peso dos seios e a doçura dos ombros.
Avançando para ele, disse-lhe:
- É uma túnica khazar. Foi a minha própria mãe que a confeccionou, de acordo com uma descrição que leu num livro.
Sofer pensou que era precisamente a túnica que Attex pusera para passar a sua noite de amor com Isaac. Quis dizê-lo, mas as palavras ficaram-lhe entaladas na boca. Tudo era demasiado violento, demasiado louco, como se dois mundos entrassem subitamente em fusão.
Ela acocorou-se diante dele, com os cabelos ruivos caindo-lhe nas faces. Apontou para a carta:
- É uma bela carta, não é verdade? Bela e terrível... Assim que a decifrei, pensei que lhe interessaria.
- De onde vem? - conseguiu articular Sofer.
- Da biblioteca. Distinguia-se dos outros manuscritos pela sua escrita. É certamente uma cópia. O original deve ter desaparecido com Attiana...
Calou-se, para melhor o contemplar e sussurrou, com um sorriso inquieto:
- Mas que se passa consigo?
Olhou-a como se estivesse perdido. Ela pareceu desconcertada, quase amedrontada:
- Porque me olha dessa maneira?
- Porque é bela!
- Bah! - exclamou a jovem, sacudindo os cabelos com um trejeito. - Que importa? Não gosto que me digam isso. Não é no Eclesiástico que está escrito: Não louvem um homem pela sua beleza, não o desprezem pela sua fealdade!? Isso também se aplica certamente a uma mulher.
Sofer mordeu os lábios. Pela primeira vez sentiu-se embaraçado por estar nu. Embaraçado por não ser tão belo quanto Isaac diante de Attex. No entanto, abanou a cabeça e utilizou as mesmas palavras que o enviado de Córdova murmurara mil anos antes na embarcação, durante a sua única noite de amor, para responder à mesma crítica, proferida por Attex:
- Não. Não se trata desse tipo de beleza. Quando a olho, parece-me que, se Deus existe, me está a oferecer o mel do Éden. É como se visse a Sua mão e o Seu olhar, você é a Sua voz e a Sua doçura. Traz consigo a luz das estrelas e dos rios. Junto de si, sei porque me sinto feliz por ser um homem!...
Ela riu-se. Um riso feliz que ecoou pela abóbada. Nos seus olhos esmeralda lia-se um prazer esfuziante.
- E eu sei porque estou apaixonada por um escritor!
Ela ergueu a túnica apertada até às ancas, pondo a nu as coxas e os pêlos do sexo, de cor semelhante ao açafrão. Agarrou nas mãos de Sofer e beijou-lhe os dedos, antes de acrescentar, com o desejo embargando-lhe a voz:
- Já é dia lá fora. Mas penso que os todo-poderosos senhores do petróleo ainda podem esperar um pouco antes de nos ocuparmos deles.
Ela dormia.
Sofer estava desconcertado. Depois de se terem amado, desta vez com menos voracidade e mais ternura, ela adormecera encostada a ele. Instantaneamente.
Após um bocejo, ela voltara-se, repousando uma face na cova de um braço e abraçando Sofer com o outro, a mão apoiada no seu ombro. Dormia com uma expressão um pouco teimosa, mas tranquila. Nos seus lábios pairava uma nota de confiança. Com a cabeça erguida pela almofada, Sofer podia ver a curva suave das suas costas, as duas covinhas dos rins, obscurecidas pela luz fraca da sala, ao passo que as suas nádegas pareciam, pelo contrário, de uma doçura infantil.
Sorriu, comovido.
Comovido e contente por lhe ter dito a que ponto ela era bela. Ela talvez nunca chegasse a saber que esta beleza se incrustara definitivamente dentro dele. Estava de certo modo gravada no seu corpo, como um viático para os tempos vindouros. Bastava-lhe passar a língua pelos lábios para encontrar o sabor da sua pele, das suas ancas ou das suas coxas, o odor do seu sexo. Também isso o perturbava. Era como se, no arrebatamento do desejo, lhe tivesse dado suficientemente dela própria para que ele pudesse conservar o seu perfume para sempre.
Teria gostado de ser capaz de uma perfeita inocência. Capaz de viver este momento num puro deslumbramento, desembaraçado da pesada carapaça da experiência e da razão. Capaz de não combater a magia e a fugacidade deste encontro que tinha toda a aparência de um sonho acordado.
Até o tempo deixara de ser uma referência. Uma estranha noite prosseguia eternamente nesta gruta, que se tornara um quarto de amor, ao passo que lá fora, no exterior, o dia já devia ter começado há muito. Já não sabia exactamente há quanto tempo deixara o seu hotel, em Baku. Dois, três, talvez quatro dias?
Certamente o tempo suficiente para que as pessoas se começassem a perguntar seriamente o que lhe acontecera. Quanto a Thomson e aos seus patrões, esses deviam ter uma ideia. O segundo atentado devia ter desencadeado a sua fúria. Como reagiriam?
Encostada a ele, ela soltou um ligeiro suspiro no seu sono e Sofer sentiu o roçar da sua pele. Sentiu-se imediatamente irritado por estar a pensar no petróleo, em Thomson, em tudo o que o esperava para lá destas grutas que já os khazares tinham querido acreditar serem invioláveis. No entanto, com uma ponta de orgulho e de sarcasmo, teria desejado que Thomson o visse agora, ligado desta forma ao sono desta nova Attex. Teria sido uma resposta suficiente ao último encontro e a todas as intrujices do inglês!
Talvez a Attex de hoje também fizesse um pouco de batota com ele. Não tinha importância. Com o calor do corpo dela encostado ao seu, o braço repousado nele e aquele sopro de paz que exalava por entre os lábios, ela conseguia provar-lhe o contrário. Chegava até a semear a dúvida no seu espírito, entre aquilo que ele julgava ter imaginado e o que parecia afinal ser apenas uma intuição da realidade.
Com mil precauções para não a acordar, pegou novamente na carta que Attex escrevera ao irmão, para olhar mais uma vez a escrita espessa e irregular, semelhante a uma luz frágil no fundo de um poço.
Talvez Attex tivesse vivido nesta sala onde se encontravam. Talvez tivesse redigido esta carta na escuridão, à luz de alguns morrões de vela, de ouvido alerta, temendo a cada instante um ataque dos seljúcidas ou dos bizantinos.
Sim, era possível que a rocha da gruta conservasse um traço desses momentos. Na biblioteca devia haver certamente outras cartas, outros escritos, que deviam testemunhar esses instantes.
Na verdade, sabia pouca coisa dela. Quais eram as suas manias? Para onde ia para sonhar com Isaac? Ficaria no meio da escuridão das grutas ou preferiria a violência do exterior, inquietando-se por saber se o amante estaria ou não caminhando ao seu encontro, arriscando-se a encontros indesejáveis com os soldados do emir de Alep ou do tirano de Bizâncio? Iria até à porta dissimulada no rochedo, várias vezes ao dia, lançando olhares preocupados para o alto da falésia, temendo descobrir aí as cordas descidas, prontas para o assalto dos guerreiros do Islão?
Como suportaria a ausência de Isaac, dos seus beijos e carícias? Nunca duvidaria do seu amor, como assegurava orgulhosamente na carta, ou rezaria todos os dias para que o Eterno preservasse a sua jovem paixão, apesar da distância e da incerteza?
- Está a sonhar com ela?
Ela não se mexera, apenas abrira os olhos.
- Está a sonhar com a Kathum Attex - prosseguiu. - É a ela que ama, não é verdade?
Surpreendido pela sua intuição, ele riu com menos franqueza do que teria desejado. Inclinou-se para lhe acariciar os seios e lhe beijar os lábios. Ela ronronou e deixou deslizar as costas. Sentiram a frescura regressar quando as suas carnes deixaram de estar coladas.
Sofer colocou o rolo do manuscrito em cima dos lençóis e perguntou:
- Que quer de mim?
Ela lançou-lhe um olhar divertido, um pouco provocador, mas menos admirado do que ele teria desejado.
- Quero que fale em nosso nome. Que defenda a existência destas grutas e de tudo o que elas contêm.
- Para isso precisa mais de um bom advogado do que de um escritor.
- Não!
Ela abanou a cabeça e sentou-se. Agora estava inteiramente desperta. Com a ponta dos dedos apanhou a longa túnica verde, vestiu-a, e pôs ordem nos cabelos. Depois, num movimento tão sensual quanto materno, agarrou na cara de Sofer e encostou-a ao seu ventre. Afastando-o com a mesma prontidão, dirigiu-se para o canto da sala que servia de casa de banho.
Sofer ouviu correr a água. Ela regressou à luz, com uma toalha na mão.
- Não, é de si que precisamos - prosseguiu. - Das suas palavras, do seu discurso. Não para ir discutir com as pessoas ligadas ao petróleo. Sabemos ser inútil. Mas para contar ao mundo inteiro o que se passa aqui...
- Ao mundo inteiro! - repetiu Sofer, divertido. - Não vai por quatro caminhos...
Ela sentou-se na cama, esboçou uma carícia no ventre e no peito de Sofer. Uma carícia suave e já distante. Quase uma carícia de despedida, pensou o escritor, enquanto ela puxava os lençóis para o tapar, erguendo para ele um rosto muito sério.
- Eis como vejo as coisas: o seu amigo Agarounov já deve estar inquieto com o seu desaparecimento e deve mexer-se por todo o lado, em Baku. Penso que até já deve ter contactado a embaixada francesa. Lazir vai telefonar-lhe e aconselhá-lo a alertar o seu editor, em Paris. Agarounov anunciará o seu rapto pelo grupo do "Renascimento Khazar"...
Enquanto ela falava, de tom e rosto muito sérios, os seus olhos brilhavam de ironia. Sofer observava-a, fascinado. Tinha diante dele uma verdadeira heroína, decidida a restabelecer a justiça e a verdade vilipendiada, com toda a energia e a inteligência de que era capaz. Ao mesmo tempo, via uma criança enunciando as regras de um novo jogo!
- Ouça-me! - exclamou a jovem, com certa impaciência. - Durante alguns dias, vamos aumentar a pressão remetendo-nos ao silêncio mais completo. Ninguém conhece o seu paradeiro e Agarounov diz a quem o desejar ouvir que talvez já não esteja vivo. Os jornais estabelecem uma ligação com os tchetchenos... Perfeito! Terá todo o tempo para ir consultando a biblioteca. E, além disso, teremos tempo para...
Ela calou-se, com um sorriso trocista, ambíguo, finalmente um pouco descontraída. Sofer agarrou-lhe na mão e beijou-lhe a ponta dos dedos.
- "Teremos tempo para...!" - brincou, no mesmo tom ligeiro. - Claro. E supõe que durante todo esse tempo, os jornais franceses...
- Europeus!
- Europeus, já que estamos lançados... Julga que eles se vão interessar pelo meu rapto e, por conseguinte, por vocês?!
- Imagino muito bem os títulos: O grande escritor Marc Sofer desaparece em Baku. O rapto é reivindicado por um misterioso grupo, o "Renascimento Khazar"...
- Receio que esteja a ler tudo isso com uma lupa demasiado grossa - suspirou Sofer.
- Não, não se faça modesto. Você escreve artigos nos maiores jornais da Alemanha, da Itália e da Inglaterra, os seus livros estão traduzidos nas línguas desses países...
- Portanto, espera que haja uma floresta de microfones plantada diante de mim assim que eu reaparecer, para poder contar a história desta gruta, da sinagoga e do petróleo.
- A história dos khazares! A do passado e a da actualidade. Claro, com certeza. Porque é tão irónico? É exactamente isso que vai suceder. Depois, poderá trazer os jornalistas até aqui. Nessa altura, tudo ficará a salvo. O consórcio petrolífero não poderá continuar a agir como se não existíssemos. Ficar-se-á a saber, em toda a parte, que eles querem destruir um lugar sagrado, um tesouro da História da humanidade! Apesar do seu poder e do seu dinheiro, a O.C.O.O. deverá levar isso em consideração. Israel não permitirá a destruição deste santuário do povo judeu. Nenhum governo europeu o permitirá! Claro que as coisas irão passar-se deste modo! Já lhe disse que a arma deles é o silêncio. Se quiser, Marc Sofer, você pode quebrar esse silêncio. Então, teremos salvo a memória dos khazares!
Levada pela excitação, a sua voz agudizara-se. Sofer ainda sorria, mas tinha de reconhecer que este plano era menos assombroso do que parecia à primeira vista.
Excepto que, quando anunciassem o rapto, os responsáveis da O.C.O.O. tomariam imediatamente a iniciativa. Talvez viessem até aqui. Mas, nesse caso, encontrar-se-ia em posição de força para poder negociar a salvaguarda da sinagoga e da biblioteca. Ela tinha razão: tudo dependia da sua escolha.
Hesitou em falar-lhe do inglês, mas ela apertou-lhe mais as mãos, insistindo novamente:
- Não pode recusar. Em Bruxelas, queixou-se de ter travado demasiados combates sem sucesso. Agora, ofereço-lhe a possibilidade de salvar uma parte fabulosa da nossa memória judaica. Não pode recusar!
Sofer perscrutou-lhe os traços. No seu belo rosto adivinham-se as marcas longínquas dos khazares: as elevadas maçãs do rosto, os olhos ligeiramente rasgados, de pálpebras lisas, o lábio superior arqueado e cheio. Porém, a astúcia que ela demonstrava estava sabiamente dissimulada, embora ela não devesse ignorar até que ponto acertara em cheio no alvo. Perguntou-lhe:
- Quando foi assistir à conferência em Bruxelas, já pensara nisto tudo, não é verdade? Teceu a sua teia à minha volta, como uma aranha em redor da presa. Não duvidou um só instante que eu cairia na armadilha...
- Não - protestou a jovem, abanando a cabeça. - Não! Foi ao ouvi-lo que compreendi e imaginei como nos poderia ajudar.
Encostou-se mais a ele, aflorando-lhe a boca com um beijo.
- Depois, agradou-me pensar em si de outra forma, dizendo-me que podia pensar em mim simplesmente enquanto mulher.
Sofer afastou-se suavemente, com um suspiro divertido:
- Nunca sei até que ponto é sincera!
Ela riu-se maliciosamente e levantou-se, estendendo-lhe a mão:
- Mas sim, sabe muito bem! Fique comigo mais três dias e nunca mais duvidará... Agora venha, apetece-me ver a luz do dia e já é quase meio-dia. Decidir-se-á depois do almoço.
O sol dardejava na falésia e esmagava a floresta com uma luz semelhante à do aço líquido. Pequenas nuvens de insectos bailavam no ar, que cheirava a pó e a erva seca.
Acostumado à frescura das grutas, Sofer sentiu-se sufocado pelo calor quando tiveram de subir as escadas exteriores para alcançar a cozinha.
Aí ainda havia uma relativa frescura, tanto mais que o batente de madeira que dissimulava a abertura na rocha estava semifechado. Sofer esperava encontrar alguém, homem ou mulher, mas, mais uma vez, estavam sozinhos. Perguntou para consigo se ela evitava voluntariamente que ele encontrasse os outros membros do "Renascimento Khazar" ou se os seus companheiros evitavam simplesmente a sua presença por uma questão de segurança.
Enquanto se sentava atrás da mesa, ela viu o rolo da carta de Attex que ele ainda trazia na mão.
- É possível que haja outras cartas dela na biblioteca - disse. - Mas há tantos rolos que seria preciso outro golpe de sorte para encontrar uma, antes de acabar o inventário.
Estendeu a Sofer uma garrafa de vinho branco toda embaciada e um velho saca-rolhas. Quando encheu os copos, Sofer explicou-lhe a perturbação que lhe causava a carta da Kathum.
- Ignorava realmente que ela se refugiara aqui para escapar ao embaixador grego. Isso pareceu-me simplesmente lógico. Ela tinha de encontrar um esconderijo seguro. Todavia, o mais perturbante é que ela amou realmente Isaac Ben Eliezer! Para mim, era apenas uma boa ideia para o romance. Mais uma vez, a vida real ultrapassa a ficção.
Ela cortava uma enorme melancia. Colocou as fatias num grande prato de cerâmica azul e amarela antes de erguer os olhos para ele.
- Não era um esconderijo tão seguro quanto isso - disse, com tristeza.
Depositou o prato na mesa e sentou-se, apontando para o rolo do manuscrito:
- Isto é uma cópia, mas o original nunca chegou às mãos do Khagan. Aconteceu o que ela temia. Os soldados do emir invadiram a gruta. Foi um massacre. Attex morreu aqui, com todos os outros.
Sofer baixou o copo que acabara de levar aos lábios.
- Como sabe? - perguntou-lhe, com voz sumida.
- Temos um documento que narra o episódio. Está na biblioteca; poderá examiná-lo por si mesmo.
- Não é possível! Se os muçulmanos tivessem entrado aqui, teriam certamente destruído a sinagoga e a Mikhva. Teriam pilhado e incendiado a biblioteca!
Ela abanou a cabeça:
- Não! Attex e o seu tio tinham tomado as suas precauções. O documento que possuímos situa o episódio no ano 4660, exactamente na altura em que José decide finalmente responder ao rabi de Córdova. Trata-se portanto do ano em que Isaac encontra Attex. Não se fala da carta da Kathum. Só se diz que o drama foi descoberto meses mais tarde, durante o Inverno. Nessa altura, os exércitos do emir de Alep e de Constantino já tinham desertado a planície. Durante essa batalha que se desenrolava literalmente sob os seus olhos, como se pode ler na carta de Attex, os habitantes da cidade troglodita delinearam um estratagema para proteger o que tinham de mais precioso: todos os corredores e todas as escadas que levavam até à grande gruta e à Mikhva foram tapados por desabamentos que podiam parecer naturais. Isso transformava a circulação no interior da falésia num verdadeiro labirinto onde era fácil alguém perder-se.
- Morta, aqui - murmurou Sofer. - Morta, aqui; não consigo acreditar!
Ela colocou uma mão na dele e apertou-a com doçura. Ele sentiu-se ridículo por se deixar comover daquela maneira. Pouco importa, tinha dificuldade em conter as lágrimas. Abanou a cabeça, com um esgar que queria fazer passar por um sorriso:
- Vai julgar tudo isto idiota, mas sempre imaginei que Attex esperava Isaac aqui, em segurança. Quando José decidiu finalmente responder ao rabi Hazdai, Isaac apressou-se a ir ao seu encontro e eles... eles tiveram tempo para se amarem antes do seu regresso a Córdova.
Calou-se um breve instante, quase pronto a acrescentar: "como nós, de certo modo", impressionado pela semelhança da situação. Contentou-se em sugerir, como se isso ainda pudesse alterar alguma coisa:
- E ela também o podia ter acompanhado na viagem de regresso a Córdova!
Ela evitou o seu olhar, abanou a cabeça e trincando uma fatia de melancia, respondeu-lhe:
- Não. Quando os soldados do emir conseguiram invadir estas grutas povoadas de judeus, não houve contemplações. Ninguém sobreviveu. Sobretudo as mulheres, fontes de transmissão do judaísmo. Attex e a sua fiel Attiana morreram nesse dia. Só nos resta esperar que a sua morte tenha sido rápida.
Sofer desenrolou o manuscrito e passou os dedos pelo papel grumoso. No seu interior, ressoava aquela frase premonitória de Attex, impressa na tinta bistre: "Se amanhã um guerreiro me apartar as coxas e me estrangular, não me conspurcará mais do que o fumo do seu incêndio".
Oxalá tivesse sido verdade! Oxalá o Todo-Poderoso lhe tivesse concedido uma morte sem humilhação, banhada pelo amor que ela trazia por Isaac!
Durante um momento beberam e comeram em silêncio. Lá fora, sob o ar asfixiante, soava o canto dos grilos. As andorinhas deslizaram falésia abaixo, piando, e depois afastaram-se por cima da floresta, voando sempre mais alto.
Enquanto ela lhe servia mais vinho, caíram algumas pedras, que embateram no muro da falésia e nas escadas. Ela franziu o sobrolho, apurou o ouvido e, depois, encolheu os ombros:
- Pedras. Isto acontece quando faz muito calor. O alto da falésia esboroa-se. Basta um animal para que...
Sofer, que mal a escutava e prosseguia embrenhado nos seus pensamentos, interrompeu-a, exclamando:
- Mas, então, nesse caso Isaac não sabia de nada! Quando se encontrava em Itil, obstinando-se em obter uma audiência junto de José, ignorava que Attex deixara de viver!
Ela inclinou a cabeça:
- Sim, e o pobre devia estar em brasa, impaciente para deixar Itil e correr ao seu encontro, mas obrigado a esperar pela boa-vontade de José, apesar da ajuda de Hezekiah... E tudo isso, para uma desilusão que deve ter sido terrível!
- Uma desilusão? Porquê? Finalmente ele obteve a resposta tão esperada!
- Ah! Mas qual era o seu conteúdo? José descreve nela o seu reino, sem grande entusiasmo. A única coisa com que parece vibrar, é com a lenda da conversão do Khagan Bulã, ao ser visitado pelo anjo... Quanto a saber se o Messias podia surgir no reino khazar, responde de modo muito evasivo, em poucas linhas... Estamos muito longe da esperança ardente de Isaac e dos judeus de Sefari, quanto a um novo reino de Israel!
Sofer acabou de esvaziar o copo, incapaz de se desembaraçar da tristeza e do sentimento de malogro que o tinham invadido ao saber da morte absurda de Attex. Subitamente, achou a sala muito pequena e as grutas muito asfixiantes, apesar da sua frescura. Ouviu um vago ruído vindo do exterior. Talvez um ruído de motor, muito ao longe. Levantou-se e caminhou na direcção da abertura, afastando o batente de madeira.
A luz inundou a sala. O calor bateu-lhe no rosto e no peito como uma massa dura e compacta, mas aliviou-o. As sombras na floresta tinham aumentado. A planície estava parada, num imobilismo mortal. Até as andorinhas tinham abandonado o céu.
Adivinhou que ela se levantara e se aproximava dele. Ela deslizou os braços pelo peito, comprimindo os seios contra as suas costas. Quando lhe depositou um beijo na nuca, o seu hálito cheirava um pouco a vinho e os seus lábios ainda possuíam a frescura da melancia.
- O romancista é você; - murmurou-lhe contra o ouvido - mas, se quiser, conto-lhe como as coisas se passaram.
Agarrando-lhe nas mãos, Sofer manteve-a solidamente apertada de encontro a ele, e murmurou-lhe:
- Conte lá.
- Como lhe dissera Hezekiah, agora que Isaac lhe salvara a vida, o seu pai, o Kahgan, seria obrigado a recebê-lo, a ouvi-lo e, sobretudo, a ler a carta do rabi Hazdaï Ibn Shaprut.
"Mas isso levou tempo. Primeiro, tiveram de chegar a Itil, onde Isaac descobre o verdadeiro palácio de José, construído numa ilha, no meio do rio, onde só é possível chegar de barco. Quando acostam, sob a vigilância dos guardas, os visitantes passam sob um arco de triunfo em ouro. O próprio palácio é de aparência assaz modesta, construído à moda grega, como em Sarkel-a-Branca, encostado a uma sinagoga e rodeado por muralhas de tijolo. O interior é uma curiosa mistura: com o correr dos séculos, foram-se amontoando as mais ricas produções dos povos da Ásia, da Pérsia e de Bizâncio.
"Com a ajuda do rabi Hanania, Isaac encontra alojamento numa ilha vizinha, mais próximo da embocadura do rio e do mar dos khazares. Descobre que Itil é uma cidade disseminada de ilha em ilha. Algumas são judias, outras estão inteiramente ocupadas por ricos mercadores muçulmanos. À hora da prece da tarde, os minaretes parecem empalados no céu vermelho que pousa no mar. Outra ilha é habitada unicamente por cristãos que, muito tranquilamente, constróem as suas igrejas. Quando Isaac sai da sinagoga, é para ouvir o apelo do muezim que se mistura aos cânticos dos monges.
"Por fim, um dia Hezekiah vem buscá-lo.
"- O meu pai concede-te uma audiência - anuncia-lhe orgulhosamente. - Vem imediatamente; há um barco à tua espera.
"Um pouco mais tarde, Isaac inclina-se diante do Khagan, com o coração a bater. Hanania e Borouh estão presentes. Este tem a sua cara dos maus dias. O rabi recordou a Isaac a regra de boa educação para as audiências: prostrar-se sem erguer os olhos nem pronunciar uma palavra, enquanto o Khagan não o solicitar. Ele submete-se com temor.
"José parece ter envelhecido em algumas semanas. Apesar dos seus trinta anos, já tem pêlos cinzentos na barba e nos seus longos cabelos. Não deixa Isaac muito tempo na postura da submissão.
"- Levanta-te, Isaac do país dos sefarditas. Apesar de viveres entre nós desde há meses, desejo-te as boas-vindas ao meu reino. Também te quero agradecer pela ajuda que prestaste ao meu filho Hezekiah durante a nossa batalha. Ele assegurou-me que lhe salvaste a vida. Creio nele, mas observei-lhe que se não tivesse escapado do nosso acampamento para ir ter contigo, não teria arriscado a vida. Estou a ser justo, Isaac Ben Eliezer?
"- Sim, Khagan - sopra Isaac.
"- Portanto, agradeço-te, mas só te posso propor aquilo que um pai pode oferecer àquele que salva a sua descendência: cobri-lo de prendas e de ouro, realizar o menor dos seus desejos.
"José cala-se um momento para observar Hanania e Borouh. Talvez, também, para acalmar um velho resquício de cólera. Isaac não está bem seguro disso, pois não ousa enfrentar o olhar do Khagan. Este prossegue:
"- Há outro assunto pendente entre nós, Isaac: ajudaste a minha irmã bem-amada, a Kathum Attex, a escapar às minhas ordens. O Bei Borouh até me assegurou que ela se ofereceu a ti durante uma noite inteira, como só uma esposa pode fazer a um marido. Devia mandar cortar-te em dois por essa injúria. Consequentemente, agradeço-te por teres salvo a vida do meu filho Hezekiah, deixando-te vivo e esquecendo-me da mácula que a minha irmã traz agora consigo. Estou a ser justo, Isaac Ben Eliezer?
"Com a testa escarlate, a boca seca, Isaac realiza então o acto mais corajoso da sua vida. Fita bem os olhos de José e declara:
"- Sim, Khagan dos khazares, és justo. Excepto num ponto: Attex não está maculada, pois não nos unimos como esposos, mas como verdadeiros apaixonados. O próprio rabi Hanania poderá dizer-te que existe um ensinamento que compara a Tora a uma jovem.
"José interrompe-o:
"- Conheço esse ensinamento.
"Dissipado todo o medo, Isaac prossegue:
"- Nesse caso, ó Khagan dos khazares, sabes que só o Todo-Poderoso pode depositar esse amor nos nossos corações. É a maneira d'Ele existir em nós. Deste modo, esse amor não nos pode conspurcar. Pelo contrário, orienta-nos pelo caminho correcto, como uma estrela no horizonte. Por muito grande que seja o teu poder, Khagan José, nada podes contra ele, nem contra mim, nem contra ela. É assim.
"Dizer que José fica estarrecido com esta resposta, é estar bem longe da realidade. Quanto a Borouh, a sua testa está mais enrugada do que uma velha túnica. Os olhos vivos de Hanania brilham de prazer. Inclina o corpo para trás e para a frente para conseguir conter os seus cacarejos de regozijo.
"O silêncio que reina na sala de audiência é pior do que o de um túmulo. Dura de tal modo que Isaac pensa ter chegado a hora de se juntar ao Eterno, abençoado seja o Seu nome, de cuja bondade acaba talvez por ter abusado ligeiramente. Subitamente, o riso de José ressoa por todo o palácio. Um riso como os khazares nunca lhe tinham ouvido.
"Quando José, enxugando os olhos com a manga de seda da túnica, consegue recuperar o fôlego, exclama:
"- Pois bem, agora compreendo por que motivo o rabi Hazdal te escolheu para mensageiro, Isaac Ben Eliezer!
"O seguimento da audiência é bem diferente. José abandona o trono e convida Isaac para partilhar a sua refeição em companhia de Borouh e de Hanania. Então, explica-lhe qual a situação real do reino. Ela é má: a aliança com Bizâncio é impossível pois, para além das mentiras e das intrujices dos gregos, ela significa renegar a lei de Moisés. Quanto aos russos de Kiev, já só têm uma ideia: invadir o reino khazar.
"- E abater o Khagan, que foi o seu soberano e cujos antepassados construíram a sua capital - prossegue José, suspirando. - É como se sentissem a necessidade de nos fazer desaparecer, para serem os primeiros homens nascidos na terra.
"Borouh acrescenta:
"- Olga, a sua rainha, só se converteu ao cristianismo com um fim: colocar a seu lado as forças de Bizâncio. Quanto à fronteira sul, para lá das Grandes Montanhas, dizem-me que o emir de Alep trava aí uma campanha contra a Nova Roma. Esperemos que ela se arraste e acabe por esgotá-los a ambos!
"- É por estes motivos - prossegue o rabi Hanania, com uma voz lenta, colocando a mão na de Isaac - que o Khagan não pensa poder responder à missiva do teu rabi com o entusiasmo que tu gostarias.
"- Como poderia fazer do meu reino o santuário de toda a Casa de Israel? Como poderia assegurar aos judeus, longe de Sião, o acolhimento e a paz, quando experimento tanta dificuldade em defender os meus bens e as minhas cidades? - pergunta José. - Se o Eterno quisesse realizar a Sua palavra na nossa estepe, se quisesse realizar a profecia de David: Subitamente, ele entrou no seu templo, nesse caso não teria dado tanta força a Kiev e a Bizâncio!
"Há tanto azedume nesta queixa que Hanania mordisca a barba, desviando o olhar. De qualquer modo, Isaac já percebeu: terá de levar uma carta para Córdova e terá uma decepção a transmitir de viva voz aos...
- Espere! - interrompe-a bruscamente Sofer, afastando-se dela.
- O que é...
- Ouça!
Vindos do exterior, ouviram efectivamente assobios, fricções e rangidos. Depois, bruscamente, antes que pudessem esboçar um gesto, uma corda de nylon azul foi descida pela abertura da gruta. Agarrado a ela, um homem todo vestido de preto apontava-lhes uma pistola-metralhadora.
- Meu Deus! - exclamou Sofer. - Mas o que é isto?
Borjomi, Geórgia Maio, 2000
Estava A um ou dois metros da lucarna, suspenso na falésia, balouçando no vazio como uma grande aranha. O seu equipamento preto cobria-o dos pés à cabeça, incluindo luvas e capuz. Sofer teve tempo para pensar que um traje daqueles era completamente ridículo com o calor que fazia. Metade do rosto do homem estava tapado por estranhos e imponentes óculos escuros com reflexos prateados. Apontava um Gloss .42 parabellum equipado com visor laser, cujo feixe vermelho se pousou no peito de Sofer. O homem agitou a mão. O olho vermelho do laser ziguezagueou da esquerda para a direita. Sofer compreendeu que lhe ordenavam que se afastasse mais para o lado, talvez por temerem que ele fechasse o batente da janela. Voltou-se para ela, que julgava estar mesmo atrás de si. Queria tocá-la, segurá-la contra ele precisamente neste momento, como se a dois tivessem podido formar um bloco menos frágil. Na realidade, descobriu-a no outro extremo da sala, de pé diante da chaminé que servia de forno, colada à rocha, como se quisesse fundir-se nela.
Ela não mostrava nem pânico nem inquietude, e olhava-o com extraordinária intensidade. Sofer julgou redescobrir no seu rosto a expressão que ela tivera uma hora antes, na altura em que atingira o orgasmo. Disse-lhe:
- Fique ao pé de mim! Não tema nada, eles não ousarão matar-nos...
Ela sorriu. Não foi um sorriso irónico, mas terno, como se lhe quisesse agradecer por ter tido esse pensamento. No entanto, a atenção de Sofer foi solicitada por outra coisa: ruídos e gritos vindos do exterior. Voltou-se.
O homem de preto imprimia um movimento de balouço à corda em nylon. Afastou-se da falésia, regressou dobrando as pernas e deslizou como uma serpente pela lucarna. Mal recuperou o equilíbrio, apontou novamente a arma a Sofer. O homem hesitou, como se algo o intrigasse. A ponta vermelha deixou o peito de Sofer, deslizou sobre a mesa onde ainda estavam depositados os copos de vinho e as fatias de melancia. Sofer arriscou-se a olhar para trás. Num relance compreendeu logo o que havia de estranho: ela desaparecera.
Volatilizara-se.
Ela, Sônia Tchobanzadé, a sua amante, a sua Attex.
Onde e como, não tinha a menor ideia. Aliás, o homem de preto também não, pois apesar de todo o seu sofisticado equipamento, tinha o ar de ter sido alvo de uma ilusão.
Sofer sentiu vontade de rir, de tal modo isto se parecia a um jogo de escondidas. Depois, pensou que talvez não houvesse motivo para regozijos. Esperou que ela não cometesse a loucura de querer lutar contra este comando.
Um grunhido escapou do fato do assaltante e o focinho do Gloss indicou a porta da cozinha que levava até às escadas da falésia. Sofer dirigiu-se para lá, encolhendo os ombros:
- Pronto, pronto!
Os curiosos assobios que ouvira provinham da trintena de homens que se deixavam deslizar por uma corda dupla, ao longo da falésia. Eram profissionais e cada um sabia exactamente o que devia fazer. Traziam todos o equipamento preto, óculos infravermelhos e Gloss .42. Também viu três ou quatro espingardas com mira telescópica. Quando se lançaram do cume da falésia, balouçando no vazio, pareciam um enxame de moscas.
Alguns colocaram-se nos degraus mais elevados das escadas e outros no meio da falésia. Outros efectuavam uma queda de quase cem metros para alcançar o nível da porta dissimulada do templo.
Quando as solas dos seus Reebok se apoiavam nos degraus ou nos rebordos da falésia, libertavam as cordas duplas com um estalido de mosquetão. Em grupos de dois ou três, entraram pelas grutas, vasculhando a penumbra com os feixes vermelhos das armas, enquanto faziam passar os óculos da visão diurna para a nocturna.
Houve apenas alguns disparos de intimidação. Não tiveram de penetrar profundamente nos corredores estreitos da falésia. Todos os membros do "Renascimento Khazar" tiveram o mesmo reflexo: quando detectaram os ruídos assinalando o ataque, precipitaram-se para as aberturas e para as escadas. A maioria estava desarmada e não teve possibilidade de lutar.
Apenas Lazir, campeão de luta, despertado da sua sesta numa das grutas mais elevadas, fez questão em não se deixar capturar tão facilmente. Arrastou um dos assaltantes numa luta corpo a corpo, à beira da falésia. Dois homens de preto procuraram imobilizá-lo. Apesar de tudo, conseguiu empurrar o seu adversário para o vazio. Na altura em que o homem quebrava os rins numa plataforma inferior, Lazir voltou-se para enfrentar outros clientes, de braços no ar, como campeão de luta que era. Uma bala atingiu-lhe o ombro esquerdo, quebrando-lhe a omoplata e obrigando-o a colocar um joelho no solo. O atirador, equipado com uma das espingardas de mira telescópica, encontrava-se a uma vintena de metros.
Sofer, que acabara de sair para o ar esplêndido reverberado pela falésia, entreviu a luta de longe. Teve apenas tempo para reconhecer Lazir, devido à sua camisa preta e branca, que agora se tingia de vermelho.
Com calma, mas obrigando-os a descer as escadas a passo de corrida, os homens de preto reagruparam a dezena de "terroristas" diante da entrada da gruta principal. Sofer descobriu finalmente os rostos dos homens do "Renascimento Khazar". Só havia homens e tinham todos menos de trinta anos. Via-se logo serem estudantes, a maioria amedrontada e tão perigosa quanto um voo de libélulas. Alguns ainda mostravam um pouco de cólera e esboçaram alguns gestos de rebelião para salvar a honra. O ataque do comando tinha algo de tão mecânico, imparável, de tão perfeitamente desumano que não se ouviu uma palavra e, observou Sofer, ninguém, nem mesmo ele, pensou em protestar.
Enquanto os reuniam diante de uma das entradas do labirinto que conduzia à grande gruta, surgiram dois helicópteros por cima da falésia. Um deles parecia um aparelho militar, de cor caqui, dianteira fina e equipada com o que deviam ser lança-mísseis. Na sua parte inferior, pendia um contentor metálico do tamanho de um veículo. Num ruído ensurdecedor e com uma precisão de relojoeiro, o piloto depositou a sua carga na plataforma diante da porta.
O segundo helicóptero, com a cor vermelha e branca de um aparelho civil, efectuou um voo estacionário a pouca distância. Na cabine do piloto, Sofer distinguiu um homem que os observava com binóculos.
O aparelho estava muito longe da falésia, mas Sofer teria jurado ter visto Thomson.
Em poucos minutos, os homens de preto juntaram-nos no pátio central da grande gruta, entre a biblioteca, a sala de armas e a sinagoga.
Sofer pôde aperceber-se que os comandos conheciam perfeitamente a rede, contudo complexa, das galerias. Sempre que tinham de optar entre duas direcções, não hesitavam. Além disso, os seus óculos, dotados de infravermelhos, permitiam-lhes deslocarem-se sem luz, ao passo que ele e os homens do "Renascimento Khazar", iluminados por uma única lâmpada eléctrica, avançavam aos tropeções, esbarrando uns nos outros como cegos. Humilhante astúcia para dissuadi-los de qualquer tentativa de evasão, pensou Sofer. Fugir equivalia a perder-se na escuridão!
Quando penetraram na imensa abóbada onde a sua amante o conduzira na véspera, Sofer teve vontade de acreditar que ela ainda ali estava, dissimulada na biblioteca ou na sala de armas. Algumas tochas ardiam, mal rechaçando a escuridão. Havia mil e um esconderijos possíveis.
Onde quer que ela estivesse nesse momento, Sofer esperava que tivesse pelo menos encontrado um abrigo que lhe permitisse escapar aos comandos, sem se perder. E, sobretudo, esperava que ela tivesse o bom senso de se fazer esquecer enquanto eles eram evacuados!
Efectivamente, essa parecia ser a próxima etapa.
Foram reagrupados sem modos, com os canhões dos Gloss .42 sempre apontados para eles. Os comandos, que eram agora dificilmente reconhecíveis pois o preto dos seus fatos fundia-se com a opacidade da gruta, atarefavam-se a fazer qualquer coisa. Sofer ouviu ruídos metálicos. Julgou até entrever uma espécie de carrinha que fora puxada até ali mas, ao mesmo tempo, foram violentamente iluminados por uma bateria de projectores. A luz esbranquiçada imobilizou-os, como se os mergulhasse num bloco de gelo. Protegendo os olhos com as mãos, Sofer descobriu o campeão de luta, em cujo ombro tinham colocado rapidamente um penso e que fazia caretas de dor.
- Lazir! - exclamou Sofer, com simpatia. - Meu Deus, você não conseguiu evitar brincar aos heróis!
A boca crispada de Lazir entreabriu-se com um sorriso desmentido pelos olhos. Sofer não teve tempo para prosseguir, pois uma mão enluvada pousou-se-lhe no ombro. Voltou-se, num movimento brusco, para se libertar, mas uma voz neutra ordenou-lhe em inglês:
- Senhor Sofer, venha connosco. Esperam-no lá fora.
Sofer procurou penetrar no olhar do homem dissimulado atrás dos óculos e perguntou:
- Nesse caso, porque me trouxeram até aqui? Responderam-lhe com a pressão de uma mão nas costas.
- Por favor, senhor.
Sofer lançou um olhar para os companheiros da sua Attex desaparecida. A luz crua dos projectores transformava-lhes os rostos em máscaras onde se lia o medo e o espanto. Nenhum se preocupava com ele, excepto Lazir que o olhava intensamente. O campeão de luta inclinou discretamente a cabeça, como se o encorajasse a acompanhar os homens do comando.
Chegara a hora da grande explicação com as pessoas ligadas ao petróleo. Sofer tinha até uma ideia bem precisa quanto à identidade daquele que o esperava lá fora.
Suspirou e, no seu tom mais arrogante, ordenou:
- Encontrem-me uma lâmpada eléctrica. Não me apetece estatelar-me, lá porque vocês são capazes de ver no escuro com os vossos óculos de marciano!
NÃO SE ENGANARA.
Numa clareira recentemente aberta na floresta, no sopé da falésia, Thomson esperava diante do helicóptero encarnado e branco com as pás da hélice girando devagar. O inglês trazia um impecável fato de linho e seda cinzento, ligeiramente reluzente, tão extravagante, a seu modo, quanto os equipamentos dos homens de preto.
Desfazendo-se em sorrisos, estendeu a mão a Sofer como se nunca tivesse tido tanto prazer num encontro.
- Feliz por vê-lo, senhor Sofer! Lamento o contratempo: os homens não compreenderam que deviam trazê-lo imediatamente aqui. Por muito que se preveja tudo neste tipo de operações, há sempre algo que não funciona!
Sofer olhou-o com frieza e recusou apertar a mão estendida. Elevando a voz para dominar o ruído do motor que o piloto já activava, gritou:
- Ficaria muito contente se deixasse de me considerar um imbecil, Thomson!
Sem esperar pelo convite subiu para o assento de trás do helicóptero. Thomson sentou-se a seu lado, conservando um sorriso de cavalheiro nos lábios. O piloto estendeu-lhes uns auscultadores que atenuaram um pouco o ruído infernal que reinava na cabine.
O aparelho elevou-se suavemente, girando lentamente em volta do seu eixo, para se afastar das correntes instáveis que subiam ao longo da falésia. Sofer aproveitou a oportunidade para perscrutá-la tanto quanto possível, procurando descobrir a silhueta daquela que lhe dissera chamar-se Sônia. Tudo o que viu, foram os homens equipados de preto. Divididos ao longo das aberturas trogloditas, activavam-se nas rochas com aparelhos que ele não conseguiu identificar. Em compensação, no terraço próximo da porta dissimulada onde tinham depositado o contentor agora aberto, apercebeu-se, surpreendido, que dois homens se atarefavam a instalar uma câmara.
A falésia afastou-se rapidamente, os orifícios sombrios das grutas e das construções que dissimulavam as entradas diminuindo de tamanho até parecem peças de brinquedos.
Quase involuntariamente, Sofer murmurou o nome dela: Sônia! Apercebeu-se que nem uma só vez a chamara assim, mesmo enquanto se amavam. Pior ainda: nem sequer ouvira atentamente o seu nome de família, de forma que já nem se recordava dele!
A voz de Thomson, tornada cortante pelos auscultadores, soou-lhe aos ouvidos e arrancou-o às suas cogitações.
- Vamos demorar aproximadamente uma hora. Se tiver sede, basta dizê-lo...
O inglês brandia um termo e enchia um copo de plástico com soda. Sofer contentou-se em abanar a cabeça e perguntou:
- Para onde vamos?
O indicador de Thomson apontou por cima do ombro do co-piloto, em frente, na direcção sudoeste. Para lá da imensa planície amarelecida pela seca, perfilavam-se montanhas azuladas pela bruma do calor.
- Para além. Um encantador local de vilegiatura nas montanhas. Deverá agradar-lhe... Vamos levá-lo a fazer um pouco de turismo, pois iremos atravessar toda a planície central da Geórgia.
- E porquê esse encantador local de vilegiatura? Porque não regressamos a Baku?
O sorriso do inglês alargou-se ainda mais.
- Porque, lá, estaremos perfeitamente à vontade para conversar. Isto significava que ele podia evitar responder a perguntas que
lhe fizessem entretanto e aproveitar para reflectir um pouco!
Sofer desapertou ligeiramente o cinto de segurança para olhar mais uma vez para trás. A falésia com as grutas era apenas um traço claro perfilando-se sobre a floresta.
A baixa altitude, o helicóptero esgueirou-se por entre os vales com flores de árvores centenárias. Era uma região magnífica, que se adivinhava selvagem e vigorosa. As dobras das montanhas, brincando entre o sol e a sombra, possuíam a ampla maciez dos veludos antigos. Os cumes mais elevados, desenhando a fronteira com a Turquia, recortavam o céu no extremo sul.
Subitamente, encontraram-se sobre um rio de águas sombrias. O piloto seguiu os seus meandros. A voz de Thomson explicou nos auscultadores:
- Estamos a chegar ao vale do Miqvari, muito famoso ainda há dez ou quinze anos. No tempo dos czares, Botjomi já produzia a água gasosa bebida pela aristocracia russa. Depois, os soviéticos tomaram conta dela....
- Conheço a Borjomi - interrompeu-o secamente Sofer, a quem tinham servido mais de uma vez esta água mineral, em Moscovo.
- Muito bem! É para aí que nos dirigimos. Tinha a certeza de que lhe agradaria.
Na realidade, era muito difícil acreditar que o pequeno burgo que sobrevoaram um pouco mais tarde fora uma das mais célebres estâncias de água do Cáucaso! A estrada que lá chegava tinha mais buracos que alcatrão. Duas das três pontes que permitiam atravessar o Miqvari estavam impraticáveis; quanto à própria fábrica de água gasosa, ela parecia abandonada. Os edifícios em ruína deixavam a nu as cubas esventradas, mas não se via qualquer operário. Uma antiga rede de canalizações enferrujadas dava para um entrelaçamento de vias de caminho-de-ferro que, ainda recentemente, deviam ter formado uma gare. Os veículos tinham sido levados e substituídos pelas ervas selvagens.
O piloto subiu ligeiramente. Encontraram-se a algumas dezenas de metros de estranhas construções plantadas na floresta como destroços de um outro planeta.
- A grande arquitectura soviética - ironizou a voz do inglês. Era difícil chamá-los edifícios. Eram apenas simples lajes de
betão bruto aparentemente guarnecidas de ferro e sustidas por pilares esboroados. Alguns destes conjuntos cinzentos podiam atingir uns quinze andares, dominando os velhos carvalhos e faias centenárias. Na sua maior parte estavam desertos, sem haver sequer uma separação entre as lajes. Noutros casos, os infortunados alojamentos eram delimitados por toldos de plástico ou por painéis de contraplacado. Sofer entreviu rostos de mulheres e de crianças que se erguiam para ver passar o helicóptero.
Deixando a aldeia para trás, o aparelho mergulhou na direcção de uma ampla curva do rio. De modo completamente inesperado, avistou um castelo no meio de um vasto parque protegido por um gradeamento de ferro forjado.
Era mais uma estranha construção, mas desta vez muito elegante, com o vermelho carmim dos balaústres, das persianas e dos desvãos contrastando com a brancura imaculada dos muros. O conjunto fora ornado até ao absurdo, como se o arquitecto tivesse apenas desejado dispor os revestimentos uns sobre os outros. A coroá-lo, havia uma pequena torre-observatório com as proporções de um desenho infantil.
- Foi construído pelos Romanov no final do século XIX - anunciou Thomson, enquanto o piloto dava uma curva muito apertada. - Os membros da família passaram aqui vários Estios. Verá que o interior ainda é mais interessante do que o exterior!
O helicóptero colocou-se na vertical da esplanada que prolongava o adro do castelo. Com uma destreza que testemunhava a sua experiência, o piloto fê-lo deslizar até uma grande piscina sem água, de mosaicos azuis. Uma dezena de homens com equipamentos idênticos aos da gruta, excepto os óculos infravermelhos e o capuz, aproximaram-se logo que as pás da hélice abrandaram. Assim que Thomson e Sofer saíram do helicóptero, formaram uma espécie de círculo protector em redor deles, como se uma multidão hostil pudesse surgir da floresta. O absurdo da cena provocou uma pequena gargalhada a Sofer.
- Que teme, precisamente? - perguntou a Thomson. - Os fantasmas dos Romanov?
O inglês riu:
- Não, os ursos! Fique sabendo que existe uma dezena neste parque. Esta é a altura em que as fêmeas dão à luz e o ruído do helicóptero enfurece-as. Mas, tem razão: não tememos nada. Absolutamente nada! Vai poder julgar por si mesmo.
Na entrada do castelo, imenso poço de mármore leitoso, Sofer foi obrigado a ver o seu aspecto ao cruzar com um espelho alto. Teve a estranha sensação que mal podia ser ele próprio. De roupas amarrotadas, os traços do seu rosto estavam endurecidos por uma barba cinzenta e dura, contrastando notoriamente com a figura de Thomson, cujo soberbo fato brilhava a cada passo.
Sem dizer palavra, o inglês subiu uma escadaria com balaustradas que levava ao primeiro andar. Aí, sem esperar por Sofer, bateu respeitosamente a uma porta forrada de couro.
- Eddy! Finalmente, chegou! - exclamou uma voz delicada, vinda do interior da sala.
- O senhor Sofer já chegou - anunciou "Eddy" Thomson. - Sem dificuldade...
Ao chegar à entrada da sala, Sofer viu um pequeno homem rechonchudo, de uns sessenta anos, cabelos brancos e encaracolados, com umas calças às riscas e uma camisa Lacoste amarelo-canário, por cima da qual trazia uns suspensórios largos. Estendeu a mão a Sofer, que a ignorou.
- Jeffrey Bellow - apresentou-se, sem baixar a mão. - Sou o administrador-delegado da O.C.O.O. - Na nossa gíria, isto significa que sou eu quem toma as decisões desagradáveis.
- Nesse caso, senhor Bellow, porque deseja que lhe aperte a mão?
Bellow mostrou-se surpreendido durante um momento. A sua boca era assaz feminina, quase delicada. Esta fremiu e depois abriu-se, emitindo uma breve gargalhada. Baixou o braço.
- Ah, Eddy, você tinha razão! - disse a Thomson, numa voz aflautada.
Este explicou:
- Senhor Sofer, avisei o senhor Bellow que você podia ser desconcertante!
Sofer desinteressou-se da observação, muito espantado por aquilo que via à sua volta. Era uma sala não muito grande, com um tecto turco de espelhos e recantos trabalhados e de paredes revestidas de cerâmicas orientais. Bellow apoiara-se numa pequena secretária em acaju e excrescências de olmo. O embutido da tampa representava uma foice e um martelo. Ao lado, havia um bronze sobre uma mesa de pé-de-galo. Sofer aproximou-se para verificar se não estava a ser vítima de uma ilusão. Não, tratava-se efectivamente de Estaline, captado na posição favorita de Napoleão: um manto levantado pelo vento, a mão direita enfiada no interior de um casaco abotoado até ao pescoço.
- Curioso, não é verdade? - perguntou Bellow, divertido. - Estamos no escritório de Estaline, religiosamente conservado desde a sua morte. Parece que vinha aqui mais vezes que os Romanov.
Suponho que era o apelo da terra natal. Também se diz que foi nesta sala que se decidiram e se realizaram algumas "reformas de camaradas", como dizia o pequeno pai dos povos...
- Senhor Bellow, Thomson já se encarregou do painel turístico durante o trajecto - interrompeu-o Sofer. - E se me explicasse o que estou a fazer aqui?
Bellow cerrou os lábios da sua pequena boca.
- Tem toda a razão, tanto mais que não nos resta muito tempo. Deu a volta à secretária, abriu uma gaveta e retirou uma pasta
de cartão cujo conteúdo espalhou pelo embutido com o emblema soviético. Eram fotografias. Apenas fotografias, mas que causaram arrepios a Sofer assim que as viu.
Fotografias dele na companhia de Yakubov, no seu jardim em Montmartre, fotografias dele em Cambridge, Oxford ou Baku, com Agarounov e Lazir e até no cemitério, em companhia do presidente da câmara de Quba!
E fotografias com ela. Lá. Na escadaria da falésia, diante da gruta da cozinha. Ele e ela, beijando-se pela primeira vez, aureolados pela luz da madrugada. Numa das fotografias, a mão de Sofer puxava o pulôver de Sônia, revelando a curva do seu ombro. Os dedos de Sofer começaram a tremer e o ventre comprimiu-se-lhe numa náusea.
- Vocês são mesmo uns porcos - murmurou.
Ao erguer o olhar, Thomson estava ao lado de Bellow e segurava um minúsculo gravador na mão. Fez um movimento do polegar e Sofer ouviu a sua própria voz exclamando: "Espere! Espere! Os responsáveis da O.C.O.O. sabem portanto quem vocês são?" Ouviu-a responder: "Suponho que a esta hora devem ter as nossas fotografias em cima das secretárias e as fichas com todos os pormenores das nossas biografias!"
Um riso silencioso agitou as faces de Bellow.
- Pois é, senhor Sofer. Ela tem razão. Temos tudo: som e imagem!
- E então? De que lhes pode servir?
- Mas, a conhecê-lo melhor, meu caro senhor!
- Perguntámo-nos quem era o senhor e o que tinha a ver com esta história - interveio Thomson, depositando o pequeno gravador sobre as fotografias. - Tínhamos de saber para quem trabalhava e porquê.
- Ridículo! Sou um escritor. Não têm o direito de violar a minha vida privada para o saberem.
- Devo admitir que há uma certa verdade no que diz - anuiu Bellow, com a sua voz esganiçada. - É isso que é desconcertante em si. E simpático!
Sofer encolerizou-se. Para purgar a sua raiva rasgou as fotografias dela que tinha entre as mãos e lançou os restos para cima da secretária. Voltou a perguntar-lhe:
- Que faço aqui?
A boca do pequeno homem conservou a sua estranha ternura. A sua voz tornou-se tão neutra quanto a do metal cortando carne:
- O senhor estava numa propriedade privada. Há semanas que a sua amiga Sônia Tchobanzadé e os seus ridículos companheiros do "Renascimento Khazan> violam as leis mais elementares. Pensei em prestar-lhe serviço antes que eles o levassem a cometer erros irremediáveis.
- Ah sim?
Thomson inclinou-se sobre a secretária para agarrar um fragmento de fotografia com uma parte do rosto de Sônia, que agitou depois, com desprezo:
- Ela acaba de fazer trinta anos. Você tem o dobro da idade dela e, desculpe-me, não é nenhum Robert Redford. Quando uma jovem de trinta anos faz toda uma cena para o levar para a cama, você não se coloca questões? Não se pergunta se não estará a ser manipulado como um boneco?
Sofer cerrou os punhos para não o esbofetear. No entanto, a sua calma tornava-o agora duro e calmo. Conseguiu sorrir.
- Meu pobre amigo! Temo que a sua psicologia seja um pouco rústica. Quando um homem como o senhor me oferece uma caixa de caviar, então é que temo estar a ser manipulado e não quando uma mulher me beija! Quanto a si, senhor Bellow, não pense que a falésia e as grutas possam ser propriedade sua ou da sua malfadada companhia. Elas nunca o serão. Pertencem a todo um povo, o meu povo, o povo judeu. O seu conteúdo, com mais de mil anos, torna-as sagradas, Bellow! Sei que, para si, isso não deve fazer muito sentido. Mas o seu problema é não poder ignorar que elas existem!
- Posso sim, senhor Sofer. E é isso que tenciono precisamente fazer.
O riso de Sofer foi cortante.
- Então está a caminho de grandes desilusões. Não sou eu que o impedirei. Não tenho essa pretensão...
- Oh! - zombou Thomson. - Suponho que está a pensar na estratégia mediática da menina Sônia Tchobanzadé... O seu rapto figura na primeira página dos jornais europeus, o senhor reaparece e revela ao mundo a nobre causa do "Renascimento Khazar"...
Bellow sorriu e deu uma pancadinha no gravador:
- Como lhe dizia, meu amigo, não se esqueça que temos o som e a imagem.
Mais uma vez Sofer sentiu a náusea misturar-se à raiva. Sônia sugerira-lhe esta estratégia quando se encontravam no seu quarto. Portanto, eles também tinham gravado "o resto". Por uma vez na vida, sentiu desejo de matar.
Bellow deve tê-lo sentido, pois ergueu a mão num sinal que era tanto de protecção como de apelo à calma.
- Eis o que lhe tenho a propor, senhor Sofer, e é muito simples: não aconteceu nada.
Sofer franziu o sobrolho, não respondendo logo.
- Não compreendo.
- Não aconteceu nada - repetiu Bellow, sorrindo compla-centemente. - O senhor nunca ouviu falar do "Renascimento Khazar", nunca encontrou nenhum dos seus membros, e não me conhece, nem a mim, nem ao senhor Thomson.
- E as grutas?
- Não existem.
- O senhor é completamente louco!
- De modo algum. As grutas não existem. O que viu lá dentro foi apenas uma ilusão da sua mente. Está familiarizado com este fenómeno, não está? Afinal, o senhor é um romancista.
Sofer abanava a cabeça, paralisado pelo receio. Pensava no que ela lhe dissera: a estratégia do silêncio! A pior arma, como dizia.
- Mas porque faz tanta questão em silenciar o caso? Bellow suspirou como um adulto enfastiado por ter de ensinar
as regras elementares da vida a uma criança.
- Creio que Eddy já teve a oportunidade de lhe explicar o papel do petróleo nesta região. Aqui, senhor Sofer, toda a gente está em pé de guerra. Como de costume, os americanos querem deitar a mão a tudo. E os russos, evidentemente, não querem perder tudo. A reserva descoberta sob o planalto de Sádua, onde se encontram as suas famosas grutas, é imensa. Infelizmente está mal situada, quer para vocês, quer para nós: a vinte quilómetros de voo da fronteira entre a Geórgia, a Tchetchénia e o Daguestão... É preciso fazer-lhe um desenho? Se revelássemos a existência dessa reserva, a guerra rebentaria na próxima manhã entre americanos e russos, como nos bons velhos tempos. Mas eu represento os interesses europeus, senhor Sofer, e os europeus não combatem. Não enviam mísseis, nem bons rapazes matar e serem mortos por causa do petróleo. Não está na nossa cultura, como o senhor diria - excepto se os americanos tiverem decidido que temos de fazer um pouco de figuração para divertir os seus GI. Por conseguinte, é do nosso interesse que essa bolsa não exista... Por ora, e até que as coisas se acalmem na região. Dentro de cinco ou dez anos os nossos bravos políticos integrarão a Geórgia na Europa, e então o caso estará resolvido! Nessa altura, e só então, poderemos anunciar: "grande coincidência, meus senhores, acabámos precisamente de encontrar um jazigo de oitenta milhões de toneladas de petróleo que assegura a autonomia energética dos nossos queridos países europeus para um período de trinta anos" !
Thomson e Bellow riam, contentes como crianças.
- Esta é a explicação, senhor Sofer. O motivo do silêncio! Como vê, também tenho uma causa a defender!
- Espere! Se não contam explorar este petróleo, porque vos incomoda a preservação e a revelação dos vestígios khazares?
- Não seja tão inocente! Você viu o poço de nafta com os seus próprios olhos! Não serão precisos mais de seis meses para que um espertinho relacione as coisas.
Sofer sentiu-se gelar. Cansaço, mas, mais ainda, medo e fastio.
- Não podem fazer isso - murmurou. - Não podem! São os únicos, os exclusivos vestígios materiais da existência dos khazares. Não podem anulá-los com um simples gesto de mão! O mundo inteiro castigar-vos-á...
- O mundo inteiro está-se nas tintas - guinchou Thomson.
- O mundo inteiro quer é gasolina barata para o carro. Isso é que conta!
- A biblioteca! Pelo menos poder-se-ia desmontá-la, tal como a sinagoga e a sala de armas, para as instalar noutro lugar! Não é necessário destruir...
- E como explicará a sua proveniência? - perguntou friamente Bellow. - Além disso, porquê transportá-las em vez de as deixar no seu lugar? É inútil perder o nosso tempo, senhor Sofer. Só existe uma solução e já lhe disse qual era: tudo isso não existe.
- Existe, sim! Vi-o com os meus próprios olhos. Toquei com os meus dedos numa carta de amor e de medo que uma mulher escreveu há mais de um milénio! Não podem pretender que isso não existe...
- Podemos, sim. O senhor regressa tranquilamente a casa e escreve os seus livros. Eu não leio romances, mas a minha mulher já leu os seus. Gosta muito. Disse-me que eram belas histórias de amor. Pois bem, escreva outra e esqueça-se. Não fale à imprensa nem às suas amigas e tudo se passará bem.
- O senhor Bellow confia em si, Sofer - insistiu Thomson.
- E posso dizer-lhe que é um grande favor.
O riso de Sofer quase nem se ouviu.
- E que acontecerá se eu recusar esse grande favor? Os seus homenzinhos de preto abater-me-ão e o meu corpo servirá de refeição para os ursos do parque?
Bellow soltou mais um guincho e aproximou-se dele:
- Não, não deve ser necessário. Venha, tal como a sua pequena amiga da gruta, também tenho algo a mostrar-lhe!
- Para os Romanov, era apenas uma sala de jantar. Para Estaline, tornou-se a sala do "Politburo". Nós modernizámo-la um pouco...
Era uma sala do rés-do-chão. Enorme, o seu centro era ocupado por uma mesa de trinta lugares, em madeira de jacarandá envernizada, entre duas chaminés de mármore onde era possível cozer dois bois. Mas quanto ao resto, ela fora "modernizada" como dissera Thomson.
Toda uma parede fora coberta por grandes ecrãs lisos de vídeo. Três jovens encontravam-se sentados atrás de uma mesa de régie. Sofer não lhes dispensou nenhuma atenção. Seguia o sorriso feliz de Bellow. De polegares enfiados nos suspensórios, este admirava os ecrãs.
Ao primeiro olhar Sofer compreendeu que tinha perdido.
Agora percebia o motivo da instalação da câmara diante da porta dissimulada do templo e as violentas iluminações na grande gruta!
Diante dele, tinha uma meia dúzia de imagens da falésia, tanto do interior como do exterior. Entre a biblioteca e a sinagoga, os companheiros do "Renascimento Khazar" continuavam reagrupados, sob a ameaça das armas. Sentado no chão, apoiado num dos seus camaradas, Lazir parecia prestes a desmaiar. O ouro dos seus dentes ainda brilhava, mas num esgar de sofrimento.
Outros ecrãs mostravam os homens de preto perfurando buracos com martelos pneumáticos. Podia imaginar-se o barulho, mas o facto de não o ouvir dava mais força à imagem. À entrada da grande gruta, uma câmara permanecia apontada para uma caixa metálica vermelha com uma antena. Num outro ecrã, Sofer reconheceu a Mikhva e a passagem que levava ao poço de nafta. Também aí os homens se atarefavam, alguns chapinhando na água do banho, sujando-a sem vergonha. O ecrã maior mostrava uma vista da falésia. Móbil, contrariamente às outras, varria as aberturas trogloditas. Sofer compreendeu que estava instalada num helicóptero.
Thomson inclinou-se para um dos microfones da mesa e perguntou:
- Tony, estás a ouvir-me? Ouviu-se uma voz no altifalante.
- Estou, senhor.
- Estamos prontos. De quanto tempo precisam ainda?
- Está quase acabado, senhor. Quatro minutos, no máximo.
- Têm dez minutos, contando com a evacuação.
Sofer procurou Sônia num dos ecrãs. Tentou localizar a gruta-cozinha, mas as aberturas e as escadas pareciam-se todas umas com as outras. Desejava vê-la e, ao mesmo tempo, receava-o. No entanto, ela permanecia invisível. Teria conseguido escapar? Mas como alcançar a floresta sem passar pela porta dissimulada, agora vigiada?
Sentiu que lhe pegavam no braço:
- Senhor Sofer - murmurou-lhe Bellow - o acordo é o seguinte: o senhor regressa tranquilamente a casa. Não aconteceu nada. Não viu nada. Estes jovens do "Renascimento Khazao> serão libertados depois de o senhor se assegurar do seu silêncio. Quem sabe, daqui a alguns anos talvez se encontre uma solução para os seus vestígios. Tem a minha palavra e eu tenho a sua. O primeiro que a trair perderá...
Com a sua pequena mão rechonchuda, Bellow apontou para os homens ocupados a perfurar a falésia e, depois, para a caixa metálica.
- Dentro de cinco minutos a falésia estará completamente minada. Eu darei uma ordem a partir daqui. A pequena caixa, com a antena que você vê além, recebê-la-á e bum! Tão simples como isso. Apenas restará a poeira e alguns artigos nos jornais acusando um bando mafioso da região. Irresponsáveis de todo o género é coisa que não falta por aqui!
- Não pode fazer isso - disse Sofer, desamparado.
- Se for preciso fá-lo-ei, e sem hesitar. Não pense que pode algo contra nós: o senhor não possui nenhuma prova. E uma vez a falésia destruída... tudo o que restar estará aqui!
Deu uma pancadinha na testa de Sofer e acrescentou:
- Em compensação, eu tenho fotografias suas na companhia dos perigosos terroristas do "Renascimento Khazar"...
Sofer passou uma mão pela cara. Enquanto tremia de frio como se estivesse num congelador, o suor corria-lhe pela barba que começava a crescer.
- Não posso aceitar - murmurou. - Está fora de questão! O punho de Bellow apertou-lhe o braço com mais força.
- Ainda tem quatro minutos para se decidir! Volto a repetir-lhe: se se calar, tudo correrá bem.
- Vocês destruirão a gruta daqui a um ano! Pela calada. Conheço-vos!
- Amanhã é amanhã!
Nos ecrãs, Sofer viu os homens de preto abandonarem a grande gruta. O ecrã escureceu.
- Mas eles estão lá dentro! - gritou.
- Se a gruta explodir, é óbvio que o "Renascimento Khazar" também irá pelos ares.
Os homens de preto apareciam um pouco por toda a falésia. Correndo, passavam pela rampa frente à porta dissimulada. Os primeiros já se encontravam no carreiro que levava à floresta. A câmara do helicóptero fez um zoom sobre a abertura da grande gruta.
- Três minutos - anunciou Thomson.
- Vocês são imundos - desabafou Sofer.
- A escolha não é minha, é sua - retorquiu calmamente Bellow. - Se aceitar a luz regressará à gruta, eles saem, e tudo terminará.
Sofer olhava para os ecrãs sem compreender o que via. A face da falésia estava vazia, estranhamente imóvel. As cordas azuladas ainda lá estavam penduradas. A Mikhva também se encontrava deserta, tal como a superfície lisa da água. A caixa metálica à entrada da grande gruta parecia irreal.
- Senhor!
Um dos rapazes da mesa de régie foi o primeiro a vê-la. Ela apareceu à esquerda do ecrã, muito por cima da grande gruta.
- Mas que raio vem a ser...?
Era ela. Sofer reconheceu quer os cabelos ruivos, quer a sua silhueta.
- Thomson, o que faz ela ali? - exclamou Bellow. Thomson estava inclinado para um microfone e berrava:
- Vocês, no helicóptero! Não a deixem desengatilhar o detonador!
Foi um bailado breve e estranho. A vista que se obtinha do helicóptero começou a dançar enquanto o aparelho se elevava. Na mesma altura, Sônia agarrou numa das cordas e deixou-se deslizar até às escadas inferiores. O helicóptero desceu a pique e ouviu-se uma rajada enquanto Sofer gritava:
- Cuidado! Cuidado!
As balas rebentaram com a rocha dois metros acima dela, enquanto a jovem se agarrava a outra corda. Uma nova rajada falhou o alvo: impelida pelo balanço, ela derrapara de lado, regressando para a esquerda.
No altifalante ouviu-se uma voz anónima dizendo: "Cuidado com a instabilidade do detonador VHS, ele está armado!"
- O que significa isso? - perguntou Bellow, sem obter resposta.
- Com os diabos! - gritava Thomson. - Vocês acertam-lhe ou quê?
Sofer viu Sônia agarrar noutra corda para tentar alcançar a entrada da grande gruta, enquanto as balas não paravam de embater na falésia atrás dela. Durante um momento ela pareceu assentar os pés num degrau e, depois, julgou que ela voava na direcção da floresta graças a uma das cordas mais compridas. Subitamente, o helicóptero, demasiado perto, endireitou-se e a imagem fugiu para cima. Registou-se a primeira explosão. Uma abertura, que talvez desse para a Mikhva, encheu-se de poeira e de pedras...
- Os idiotas! - ganiu Thomson. - Acertaram no detonador! Vai explodir tudo!
Durante alguns segundos, viram apenas a floresta: o piloto do helicóptero descia a toda a velocidade para se afastar da falésia. Quando efectuou finalmente uma ampla curva, descobriram o apocalipse.
A longa faixa da falésia estava como que tomada de sobressaltos. Explodia uma e outra vez, transformando-se numa nuvem cinzenta que apagava tudo, ruindo sobre ela mesma, aqui e além. Com a lentidão de um corpo vencido, desabou na calma floresta.
Sofer fechou os olhos. Rezava como se a encarnação do Mal tivesse acabado de o atingir na cara e no coração.
Ouviu a voz de Bellow:
- Pois bem, agora o caso está encerrado, senhor Sofer. Já não tem qualquer dilema de consciência!
Sádua Fevereiro, 956
Estava um frio de rachar. Um céu plúmbeo pesava sobre a imensa planície e anunciava a neve. Não obstante, o coração de Isaac estava tão escaldante quanto a fogueira do acampamento onde aquecia as mãos.
A seu lado, o riso maroto de Hezekiah envolvia-os de vapor:
- É o último dia de viagem. Esta noite dormirás nos braços de Attex. Se ela quiser! Afinal, há tanto tempo que vocês não se vêem... Quem te garante que ela não encontrou por aqui um verdadeiro príncipe para te substituir?
Isaac pôs o braço por cima dos ombros do rapaz e apertou-o de encontro a si:
- Não te inquietes, ela ficará feliz quando me vir! Isso posso assegurar-te!
Hezekiah bateu com as mãos enluvadas na pelica, enquanto observava os guerreiros da sua escolta, que acabavam de selar os cavalos e de amontoar as tendas nas carroças.
- É sempre assim quando se ama? - perguntou. - Fica-se sempre tão contente?
Foi a vez de Isaac rir.
- Não sei. É a primeira vez que amo.
Calaram-se um momento, cada um ocupado nos seus sonhos. Em seguida, Isaac sugeriu:
- Hoje talvez não seja necessário esperar pelas carroças...
- Não! Poderás galopar até às grutas!
- Vens comigo, príncipe. Sabes que esta tarde... farás o que prometeste, não é verdade?
Hezekiah libertou-se com brusquidão do abraço de Isaac e suspirou, enfastiado:
- Farei! Eu, Hezekiah, filho do Khagan José, em nome do meu pai e do rabi Hanania, dar-vos-ei autorização para serem como marido e mulher!
- Fá-lo-ás na Mikhva onde estão pintados Adão e Eva, não é verdade? Foi o que disse o rabi Hanania. E explicarás à Kathum que ela pode decidir acompanhar-me até Sefari se assim o desejar. Dessa forma, será ela própria a entregar a carta do Khagan ao rabi Hazdaï.
- Isaac! Repetimos esta cena quase todos os dias, desde que partimos de Itil...
Hezekiah calou-se, franzindo o sobrolho. Três cavaleiros chegavam a galope pelo caminho gelado da planície. Uma nuvem de vapor envolvia-os como se o diabo viesse no seu encalço. Isaac voltou-se. Ao mesmo tempo, Hezekiah reconheceu os batedores que tinham partido na véspera, dos arredores da cidade secreta.
- Passa-se qualquer coisa - murmurou Hezekiah.
Isaac sentiu uma dor rebentar-lhe nos rins como se lhes tivesse espetado uma adaga. A alegria, tão presente momentos antes, desertou-lhe o coração.
- Príncipe! Senhor príncipe! - gritou o primeiro dos cavaleiros, então a cinquenta toesas.
Saltou do cavalo, enquanto o animal, esfumando, prosseguia a sua corrida dando pequenos saltos. Segurava na mão um pedaço do pendão real, no qual Isaac reconheceu a cruz de Bizâncio.
- Príncipe, aconteceu uma grande desgraça!
- Que desgraça? - perguntou Isaac, já encolerizado.
- Senhor, houve uma guerra nesta parte do vale. Há vários meses, certamente durante o Verão, e...
O homem recobrou fôlego e o seu olhar hesitou. Isaac reparou que ele tinha a pelica e as luvas sujas de fuligem.
- Fala! - ordenou Hezekiah.
- É terrível, príncipe! A floresta no sopé da falésia foi inteiramente queimada. Só restam cinzas. A falésia das grutas está cheia de fuligem...
- E eles, estão vivos? Viste-os?
- Não, senhor Isaac. Só chegámos à noite. Era perigoso aven-turarmo-nos por entre as cinzas. Além disso, quisemos preveni-los o mais depressa possível...
- Mas não havia luzes nas grutas?
- Não, senhor, mas...
- Montemos nos nossos cavalos, Hezekiah! É inútil demorar-mo-nos!
Alcançaram o sopé da falésia, tão negra quanto o mundo que os rodeava. Isaac berrou o nome de Attex. Hezekiah chamava pelo seu tio-avô Hanuko. Só as gralhas e os melros lhes responderam.
Isaac continuou a chamar Attex ao longo de todo o caminho que levava à porta. O nome da Kathum tornara-se uma espécie de rugido que rolava contra a falésia. As gralhas começaram a grasnar horrivelmente.
Quando chegaram à porta dissimulada, descobriram que a passarela se encontrava no seu lugar, mas semicalcinada. Apenas restavam as vigas susceptíveis de suster o peso da sua passagem. O silêncio que caía sobre eles vindo das cavidades abertas das grutas era, a bem dizer, um silêncio de morte. Tudo o que havia na paisagem e na luz, só falava de morte. As lágrimas começaram a correr pelas faces de Hezekiah, desenhando um fino sulco na fuligem peganhenta que o sujava até à cabeça.
Isaac trepou para a viga da passarela e pulou sobre o vazio. Ao chegar à porta dissimulada do templo, não esperou nem por Hezekiah, nem pelos guerreiros, para subir as escadas que levavam até à primeira das grutas. Chamou novamente Attex. Precipitou-se numa alcova, continuando a gritar. E, então, calou-se.
Permaneceu silencioso até que os outros chegassem junto dele.
Diante deles havia um monte de esqueletos brancos, cobertos por pedaços de roupa. Era impossível saber se eram homens ou mulheres, crianças ou velhos. Apenas as órbitas dos crânios brancos olhavam para eles. Os ossos delicados das mãos ainda seguravam por vezes num pau, numa espada enferrujada ou num tecido.
Hezekiah deu um grito e dois guerreiros desembainharam as espadas. Um pedaço de túnica mexeu-se, como que agitado por uma pequena mão. Surgiu um pequeno melro, que os observou com olhar vivo e espantado. Voou por cima das cabeças e até os sólidos guerreiros khazares dobraram os joelhos para o evitar.
Isaac caiu de joelhos, com a cabeça entre as mãos.
- Attex! Attex, onde estás?
Vasculharam as grutas e exumaram apenas ossos, até ao crepúsculo. Os pássaros, que agora redemoinhavam furiosamente diante da falésia, não tinham deixado carne nenhuma nos corpos. Estavam todos unidos na mesma morte, que os tornara semelhantes.
Aqui e além, misturados aos ossos, Hezekiah e os guerreiros descobriram algumas marcas dos combatentes árabes. Aqui era um capacete com o crescente na ponta, insígnia dos soldados muçulmanos; além, um escudo quebrado, cujo couro conservava a marca do falcão, emblema do emir de Alep. Mas, depois de terem percorrido os corredores várias vezes, não conseguiram chegar nem à grande gruta da sinagoga e da biblioteca, nem à famosa Mikhva.
Hezekiah obstinava-se:
- Não é possível! Elas estão aqui. O meu pai e o rabi Hanania louvaram-me o seu esplendor. Elas estão aqui, é preciso encontrá-las!
Foi o oficial da escolta que teve a ideia:
- Príncipe, o seu tio-avô deve ter mandado tapar os corredores. Devia temer o ataque dos muçulmanos e fechou o corredor estreito que levava aos lugares sagrados, de modo que agora nos perdemos.
- É por isso que foram todos massacrados - observou outro guerreiro. - Os soldados do emir deviam estar loucos de raiva por nada descobrirem. Príncipe: os homens e mulheres, aqueles que são agora apenas ossos, deram provas de grande coragem, pois nenhum revelou o segredo!
Hezekiah quis anunciar esta nova a Isaac para lhe acalmar a dor. Mas o enviado de Córdova nem sequer ouviu que o chamavam.
Perdido, de olhos esgazeados pela dor e pela incompreensão, Isaac corria de gruta em gruta, de escadaria em escadaria, regressando para se inclinar cem vezes sobre um esqueleto e outro, procurando o rosto da sua bem-amada na cor dos ossos ou na fineza de um crânio. Todos podiam ser Attex e nenhum o era.
Enlouquecia por esta beleza se ter desvanecido daquela maneira, sem que a pudesse ter visto desaparecer, sem sequer ter podido abraçar o seu cadáver. Começou a balbuciar que Attex estava viva e não se podia encontrar no meio daqueles ossos.
- Não, ela morreu com os outros - chorava Hezekiah. - Descobri a túnica do tio Hanuko. Ela devia estar junto dele. Morreu como um guerreiro.
- Que sabes? - rugiu Isaac, que teria podido bater-lhe para o calar. - Que sabes?
Então, recomeçou a chamá-la.
No meio da noite gelada que chegava, gritou o nome da sua bem-amada, como um demente, pela planície coberta de cinzas.
- Estou à tua espera - berrava. - Tens de te purificar na Mikhva. Assim o quer o teu irmão e também o rabi! Seremos como verdadeiros esposos, como prometeste!
De novo, apenas os pássaros lhe responderam.
Aterrorizado, Hezekiah encolheu-se a um canto, fechando os olhos e tapando os ouvidos. Apesar da grande fogueira que tinham acendido à entrada de uma gruta, os próprios guerreiros batiam os dentes a cada berro. Depois, Isaac deixou de gritar. Ouviram os seus soluços e o seu murmúrio:
- Ela foi-se embora, não voltará mais. Era bela como o mel. O Eterno criara-a para Ele. Nenhum homem podia guardá-la, foi por isso que partiu...
Hezekiah chegou-se ao pé do amigo. Este tremia num degrau, descomposto e tão gélido quanto um cadáver. Para aquecê-lo, Hezekiah abraçou-o o melhor que pôde, cobrindo-o com a sua capinha de carneiro.
- Eu também me devo transformar em ossos - proferiu Isaac, com um estranho sorriso. - O Todo-Poderoso também me deve dar a comer aos pássaros. Senão, nunca saberei se ela está morta ou viva.
E como procurava agarrar a adaga de Hezekiah presa à sua cintura, o rapaz antecipou-se-lhe. Lançou o kourtar no vazio e sussurrou-lhe:
- Isaac, tens de viver. Deves fazê-lo. O Eterno quer que leves a carta do meu pai ao teu rabi. Esse é o Seu desejo. Tens de ir até Sefari, onde te esperam com esperança. Dir-lhes-ás que eu, Hezekiah, filho de José, talvez seja um dia esse rei de todos os judeus do universo que o meu pai não quis ser.
Paris, Montmartre Julho, 2000
O seu sono foi interrompido por violentos ruídos metálicos. Ainda era muito cedo. Do outro lado da rua os operários montavam um andaime. Já fazia três dias que, por assim dizer, eles lhe serviam de despertador.
Desde que regressara de Baku, Sofer não conseguia acalmar a agitação das suas noites. Tinha o sono atulhado de sonhos e pesadelos. Parecia-lhe constantemente que lhe faltava qualquer coisa, que devia despertar para descobrir esta ausência, para encontrar a paz.
Infelizmente, quando abria os olhos, tudo o que lhe restava dos sonhos era um rosto. Um rosto e um corpo, um sopro e um riso. Ela. Era sempre a mesma visão que o assombrava: Sônia balouçando-se na extremidade daquela corda, enquanto a falésia e as grutas se transformavam em poeira.
Teria conseguido escapar a tempo, sem ser ferida ou sem ficar soterrada sob toneladas de pedras, como os seus companheiros?
Nem sequer pudera regressar à falésia de Sádua. Thomson e Bellow tinham mandado fechar toda a região pelo exército geor-giano.
Oficialmente, o caso estava encerrado. A agência Reuters transmitira a notícia a todas as redacções europeias e americanas: o "Renascimento Khazar" era apenas uma invenção de "bandidos tchetchenos", um bando mais mafioso do que político. A sua tentativa de extorsão junto à O.C.O.O. falhara graças aos próprios serviços de segurança do consórcio. Em poucas semanas, estes tinham conseguido localizar o esconderijo dos terroristas: uma cidade troglodita, na fronteira entre o Daguestão e a Tchetchénia. Enquanto a polícia georgiana se preparava para cercar o lugar, uma explosão causada certamente por uma imperícia dos terroristas tinha soprado literalmente as grutas de Sádua. A violência da destruição dava uma ideia do impressionante arsenal que eles tinham ali depositado...
Claro que não havia a menor menção acerca do petróleo e, ainda menos, sobre os vestígios khazares. Sofer não conseguiu evitar admirar a simplicidade da mentira. O Mal que tomava frequentemente a aparência mais benigna era aquele que negava a verdade, a História.
Mas, ele, Marc Sofer, poderia esquecer-se?
Olhou para a sua mão vazia como se pudesse encontrar nela o traço da madeira de acácia da arca com os querubins da velha sinagoga khazar.
Pensou na biblioteca tão maravilhosa, da qual nada sobrara. Na carta de Attex para José, que Sônia lhe entregara... Que diabo, porque não a colocara no bolso na altura do ataque? Ela estava em cima da mesa da cozinha...
Mas ele já não tinha bolsos quando o homem do comando o capturara. O seu casaco ficara por lá, sob o montão de destroços em que a falésia se transformara. E com o seu casaco, desaparecera também a moeda de Yakubov.
Não lhe restava nada. Absolutamente nada. Nem sequer uma gota de água da Mikhva.
Fechou os olhos para tentar rever os frescos de Adão e Eva. Ainda conseguia. Mas por quanto tempo ainda? Também conseguia ver Sônia caminhando na água purificadora.
Depois, foi novamente assolado pela imagem obsessiva daquela que apelidara Attex e que desaparecera na extremidade de uma corda como um duende que sai de cena. Desde que voltara, quantas vezes dissera para consigo que Attex não morrera, quantas vezes se chamara a si próprio de velho louco?
Lavou-se e preparou-se para tomar o pequeno-almoço. Quando se instalava no pequeno terraço, reparou que as suas roseiras não apresentavam o brilho habitual sob a suave luz matinal. Foi vê-las mais de perto e descobriu-as cheias de pulgões, a folhagem atacada por um vigoroso oídio.
Era preciso tratá-las e curá-las. Num sopro de emoção certamente excessivo, o odor do jasmim que plantara no ano anterior cortou-lhe a respiração. Parecia-lhe que este revés floral era a própria imagem do que acabara de viver.
Pensou em Córdova e que, ao regressar, Isaac só podia ter sentido esta mesma dor quando reencontrou finalmente o esplendor dos jardins de Sefari. Ambos tinham conhecido a beleza do amor e o horror da corrupção, uma corrupção nascida da violência desenvolta e insidiosa dos homens.
Como ele, Isaac tivera de se encher de paciência e efectuar a viagem de regresso, jogando com a esperança demente de que Attex estaria ainda viva. Cumprira o seu dever, como Hezekiah desejara. Precisara de quase dois anos para levar a resposta do rei José ao rabi Hazdai Ibn Shaprut. Sim, existia efectivamente um Império judeu no outro extremo do mundo; não era um sonho; ele, Isaac, era o portador desta fabulosa mensagem.
No entanto, enquanto depositava esta carta do Khagan nas mãos do rabi, o mesmo Isaac Ben Eliezer sabia que as palavras nela contidas já não tinham sentido: um rumor oriundo da Ásia espalhava-se já pelos mercados de Sefari como um vento de mau agouro. Itil, a capital do império dos judeus khazares estava doravante ocupada pelos russos. Hezekiah nunca se tornaria esse grande rei que sonhara ser.
Porém, Sofer estava inclinado em acreditar que uma parte dos khazares ficara entre o mar Cáspio e o mar Negro, e no Cáucaso. Em 1245, na sua Historia Mongolorum, o viajante Jean du Plan Carpin, discípulo de São Francisco de Assis, conta que encontrou alanos, circassianos e "khazares praticantes da religião judia", na noite do Cáucaso. Portanto, era possível que Agarounov e os seus amigos, os judeus das montanhas, fossem os descendentes directos dos khazares...
Quanto aos outros, às centenas de milhares desses judeus "arianos" ameaçados de morte aquando da queda do seu império, esses tiveram de se exilar para Oeste, onde podiam ser acolhidos por novos reinos da Europa Central, como a Polónia. Chegaram lá ao mesmo tempo que outros refugiados judeus, os asquenazes, expulsos de França, da Flandres e da Alemanha pelas primeiras cruzadas. Qual a percentagem de uns e de outros por entre esses seis milhões de judeus que os nazis enviariam para a morte séculos depois?
Não seria o próprio Sofer um descendente do povo de Attex? Seria uma hipótese assim tão absurda? De ora em diante, quando se olhava ao espelho, para lá da sua barba que deixara crescer e que lhe conferia um rosto de patriarca, que ele não era, achava que tinha os olhos rasgados e as maçãs do rosto salientes.
O VENTO DOS KHAZARES SOPRARA PELA ESTEPE, expulsando OS próprios khazares, empurrando-os para a Europa, para as montanhas do Cáucaso.
O vento dos khazares soprara durante séculos, apagando qualquer marca do reino judeu, paciente e obstinadamente, até nem restar sequer uma espada ou uma carta de amor.
O vento dos khazares disseminara e levara para longe os vestígios dos tempos antigos. Acabara de soprar pela última vez e de cair com a poeira da falésia de Sádua.
Nas palmas das mãos de Sofer restava apenas a lembrança da pele de Attex e, na extremidade dos dedos, a sombra das palavras que um dia talvez construíssem a memória dos khazares.
Marek Halter
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