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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O VINHEDO / Barbara Delinsky
O VINHEDO / Barbara Delinsky

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

No que começara como apenas outro dia de junho, em Manhattan, Susanne Seebring Malloy voltou à sua casa antiga no Upper East Side, depois do almoço com as amigas, para encontrar um envelope amarelo-açafrão em sua caixa de correspondência. Sabia que era da mãe, mesmo sem o logotipo do vinhedo no canto superior esquerdo, mesmo sem a letra elegante e inconfundível no nome e endereço. Entre o carimbo postal de Asquonset, Rhode Island, e a fragrância de frésia, que era a marca registrada da mãe, não podia haver a menor dúvida.

Susanne tirou os pés dos Ferragamos e contraiu os dedos consternada. Uma carta da mãe era a última coisa de que precisava. Só a leria mais tarde. Já se sentia bastante frágil sem isso.

E de quem era a culpa?, ela perguntou a si mesma, irritada, de uma maneira irracional. A culpa era de Natalie. Afinal, Natalie sempre vivera de acordo com as convenções, faria tudo certo. Fora a esposa mais submissa que Susanne já conhecera... e também fora um modelo para Susanne. Por isso, Susanne também se tornara uma esposa submissa. Quando o movimento feminista tomara força, ela estava ocupada demais a cuidar de Mark e das crianças. Não tinha tempo para uma carreira. Agora, os filhos eram crescidos e se ressentiam de sua intromissão, e Mark contratara criadas para fazerem as pequenas coisas que ela sempre fizera antes. Ainda viajava com ele de vez em quando. Mas, embora Mark alegasse adorar sua companhia, não precisava realmente de sua presença. Ela era apenas um ornamento, nada mais.

 

 

 

 

Tinha tempo para uma carreira agora. Tinha energia. Mas tinha cinquenta e seis anos no final das contas. E com essa idade era um pouco tarde para iniciar uma carreira.

E onde isso a deixava? Era o que especulava agora, desanimada, enquanto pegava os novos catálogos na correspondência e se acomodava na poltrona junto da janela dando para o jardim. Deixava-a com Neiman Marcus, Bloomingdale s, Hammacher, Schlemmer e a sensação de que, em algum lugar, perdera o trem da história.

Deveria interrogar a mãe sobre isso, pensou ela, sarcástica... como se Natalie pudesse se compadecer ou pelo menos compreender a inquietação. E, mesmo que isso acontecesse, Natalie não conversava sobre problemas. Conversava sobre roupas, sobre papel de parede, sobre cartas de agradecimento em papel personalizado; era uma especialista em etiqueta.

Susanne também era. Mas ela se cansara dessas coisas. Eram chatas demais. Eram insignificantes. Eram tão irrelevantes quanto a bouillabaisse que ela fizera no dia anterior, antes de lembrar que Mark tinha um compromisso para o jantar. Ou os hors d oeuvres que preparara nos últimos seis meses e congelara para convidados que não vinham mais... e, por falar em comida, se Natalie estivesse lhe enviando o cardápio para o Festival da Colheita do Outono no vinhedo, Susanne gritaria.

Ansiosa por uma briga, ela se levantou e foi pegar o envelope amarelo na mesinha do vestíbulo. A correspondência com a mãe era comum. Natalie sempre lhe enviava comentários sobre um ou outro vinho de Asquonset, ou então uma carta pessoal elogiosa de um vinhateiro da França ou da Califórnia... embora Susanne não estivesse interessada em qualquer das duas coisas. O vinhedo era o orgulho e a alegria de seus pais, não dela. Passara décadas tentando convencê-los disso. As pressões para que ela se envolvesse, como a maioria das coisas em sua vida, haviam envelhecido.

Mas aquele envelope era diferente. Era o mesmo papel encorpado que Natalie apreciava, mas a cor - um amarelo profundo, escrito com tinta azul-escura - estava muito longe do clássico marfim com tinta de cor vinho que caracterizava em geral a correspondência de

Asquonset. E não estava endereçada a Susanne apenas. Era para o Sr. e Sra. Mark Malloy, com uma letra de calígrafa, que também era um desvio do padrão de Asquonset.

Apreensiva, Susanne manteve imóvel por um momento a mão que segurava o envelope, pensando que havia alguma coisa diferente com Natalie nas últimas vezes em que haviam conversado. Suas palavras eram otimistas, ressaltava como Asquonset estava se recuperando da morte de Alexander, mas ela parecia... perturbada. Mais de uma vez, Susanne sentiu que havia alguma coisa que Natalie não estava lhe dizendo. Mas, como não queria se envolver nos negócios do vinhedo, Susanne não pressionou. Concluiu simplesmente que a atitude da mãe era parte do processo de luto. Agora, de repente, ela especulou se havia uma ligação entre aquele envelope e a tensão de Natalie. Ela abriu o envelope e tirou um cartão da mesma cor.

 

VENHA COMEMORAR NOSSO CASAMENTO

DIA DO TRABALHO, DOMINGO, 10 HORAS,

CASA-GRANDE DO VINHEDO E VINÍCOLA ASQUONSET

NATALIE SEEBRING E CARL BURKE

 

Susanne franziu o rosto. Leu de novo o convite.

Casamento?

Atordoada, ela leu pela terceira vez, mas as palavras não mudaram. Natalie casando de novo? Não fazia sentido. Natalie casando com Carl Fazia ainda menos sentido. Carl Burke fora gerente do vinhedo durante trinta e cinco anos. Era um empregado, um homem simples, de recursos escassos, que não chegava nem aos pés de Alexander Seebring - o pai de Susanne -, marido de Natalie durante cinquenta e oito anos, morto há apenas seis meses.

Susanne sabia que Carl fora uma grande ajuda para Natalie durante os últimos meses. Natalie mencionara-o com frequência... ainda mais ultimamente. Mas falar sobre o homem era uma coisa; casar com ele era outra muito diferente.

Aquilo era uma piada? Não era provável. Mesmo que Natalie fosse uma gozadora, o que não era o caso, jamais faria uma piada de tanto mau gosto.

Susanne virou o cartão à procura de uma explicação da mãe no verso. Mas não havia nenhuma.

Ao ler as palavras pela quarta vez, não tendo opção que não considerá-las como reais, Susanne sentiu-se profundamente magoada - Mães não faziam coisas assim, ela disse a si mesma. Não davam notícias tão importantes para suas filhas num convite formal... a não ser que estivessem apartadas por alguma desavença, o que não acontecia com Natalie e Susanne. Conversavam pelo telefone uma vez por semana. E se encontravam a cada dois meses, mais ou menos. É verdade que não faziam confidências uma para a outra. Isso não estava na natureza do relacionamento. Mas, mesmo assim, apesar disso, não fazia sentido para Susanne que Natalie não a tivesse avisado sobre Carl... a menos que o aviso tivesse sido indireto, de uma maneira evasiva, pelas frequentes referências a Carl.

Talvez Susanne não tivesse notado isso, mas com certeza não deixaria de notar qualquer alusão a casamento. Não houvera nenhuma. Para todos os propósitos externos, Natalie ainda estava de luto.

Susanne leu o convite mais uma vez. Ainda atordoada, ainda incrédula, ela pegou o telefone.

No vestíbulo da pequena casa colonial de Greg Seebring, em Woodley Park, Washington D.C., um envelope amarelo, idêntico ao que a irmã recebera, estava entre as cartas espalhadas pelo chão, por baixo da fenda para a correspondência. Ele não o viu a princípio, quando chegou em casa naquela mesma tarde. Reparou apenas no excesso, grande demais para ser a correspondência de um único dia. Ausentara-se durante três dias e calculou que a correspondência ali era de todo esse período. Mas onde sua esposa estivera?

- Jill? - chamou ele.

Greg saiu a procurá-la, afrouxando a gravata. Ela não estava na sala, na cozinha ou no escritório. Ele subiu, mas também não a encontrou nos dois quartos. Confuso, parou no patamar, tentando recordar se Jill planejara qualquer coisa. Se era esse o caso, ela não lhe dissera. Não se falaram durante a viagem. Greg se mantivera ocupado o tempo todo, saía do hotel cedo e voltava tarde, cansado demais para telefonar. Sentira-se feliz com a oportunidade de pegar um avião mais cedo para voltar. E pensara que Jill se sentiria satisfeita.

Satisfeita? Ela nem estava em casa!

Ele deveria ter telefonado.

Mas Jill também não telefonara.

com um súbito cansaço, ele desceu para pegar a mala. Mas largou-a um instante depois de levantá-la. Pegou apenas o laptop e recolheu a correspondência. E achou de novo que havia coisa demais.

Especulou se Jill fora visitar a mãe. Há algum tempo que ela vinha pensando nisso.

Greg largou a correspondência no balcão da cozinha. Ligou o laptop ao telefone e deu o boot. Enquanto esperava, separou a correspondência comercial e as contas. A maior parte do resto era identificada pelo endereço para devolução. Havia um envelope do comité para a eleição de Michael Bonner, um amigo que estava concorrendo ao Senado dos Estados Unidos. Era com certeza um pedido de dinheiro. Havia uma carta de uma colega de Jill na universidade e outra com o carimbo de Akron, Ohio, onde a mãe de Jill morava. Devia ter sido remetida antes da decisão de Jill de visitá-la. Havia outra com um carimbo mais familiar... e um cheiro ainda mais familiar.

Ele pegou o envelope amarelo, imaginando a mãe. Forte. Graciosa. Exuberante como um narciso, embora distante.

Mas as cores do vinhedo eram o envelope marfim com tinta de cor vinho. Ela sempre as usava. Asquonset era sua identidade.

O envelope tinha o peso de um convite. Não havia nenhuma surpresa, pois a especialidade de Natalie era dar festas. Mas também Alexander Seebring sempre amara uma festa. E quem podia culpá-lo por isso? Nunca fora o cavalheiro rural típico. Em muitos e muitos dias circulava pelo vinhedo ao lado de seu gerente, de jeans e camisa de zuarte. Se não isso, viajava para divulgar o nome Asquonset. O trabalho deu resultado. Depois de anos de luta, Asquonset passou a dar um bom lucro. E ele ganhou o direito de promover festas.

E Natalie sabia como cuidar de tudo. Estava em seu elemento, comandava fornecedores, floristas e músicos. Havia sempre dois festivais em Asquonset todos os anos; um para dar as boas-vindas à primavera, o outro para celebrar a colheita. A festa da primavera fora cancelada naquele ano, pois a morte de Al ainda estava recente. Aparentemente, porém, Natalie não gostava dessa situação. Ela detestava usar preto. Não tinha um único vestido preto em seu guarda-roupa. Tivera de comprar um para o funeral.

Portanto, apenas seis meses depois, ela estava voltando à forma. Greg não sabia se aprovava. Parecia errado, seu marido de tantos anos - pai de Grey - ainda recente na sepultura, com o futuro de Asquonset ainda em suspenso.

Natalie queria que Greg assumisse a direção do vinhedo. Não chegara a dizê-lo expressamente, mas mesmo assim ele dera a resposta: Não. De jeito nenhum. Não há a menor possibilidade.

Ele pensou que a mãe poderia ter encontrado um comprador... e talvez a festa seria para apresentá-lo, quem quer que fosse. Mas ela teria avisado antes. Ou talvez não. Greg sempre deixara bem claro o que sentia em relação ao vinhedo. Era um pesquisador da opinião pública. Vivia viajando, a trabalho para os clientes, três semanas em quatro. Tinha sua empresa para dirigir e a dirigia muito bem. Produzir vinho fora a paixão de seu pai. Não era a de Greg.

Não que ele fosse um observador imparcial. Se Natalie vendesse Asquonset, receberia um bom dinheiro, metade do qual acabaria pertencendo ao filho. Nesse sentido, cabia-lhe verificar um possível comprador. Não podia deixar que a mãe vendesse o vinhedo por menos que o seu valor.

Ele largou o envelope no balcão e bateu a senha no laptop, para começar.

Mas o envelope parecia exigir sua atenção. Curioso em saber o que Natalie planejara, ele tornou a pegá-lo, abriu-o e tirou um cartão.

 

POR FAVOR,

VENHA COMEMORAR NOSSO CASAMENTO

DIA DO TRABALHO, DOMINGO, 16 HORAS,

CASA-GRANDE DO VINHEDO E VINÍCOLA ASQUONSET

NATALIE SEEBRING E CARL BURKE

 

Greg ficou olhando para o cartão, atordoado.

Um casamento? De sua mãe e Carl? De onde saíra essa ideia?

Natalie tinha setenta e seis anos. Talvez estivesse perdendo o juízo, pensou Greg, balançando a cabeça. E Carl? Ele devia ser ainda mais velho. O que ele estava pensando?

Carl sempre estivera no vinhedo. Alexander considerava-o um amigo. Mas um amigo não casaria com a viúva de um homem menos de seis meses depois de sua morte, assim como uma viúva não poderia casar tão depressa com alguém tão próximo.

Era compreensível que Natalie se apoiasse mais em carl agora que Alexander morrera. Greg não dera a importância ao fato de que a mãe passara a mencionar carl com mais frequência nas últimas semanas. Em retrospectiva, ele percebeu agora que as referências eram sempre elogiosas. Parecia que Greg perdera alguma coisa.

Seria romance? Sexo? Os dois não estavam um pouco velhos para isso? Greg tinha quarenta anos e vinha perdendo o interesse muito depressa. Sexo exigia esforço, se você queria fazer certo. Mas talvez os dois não fizessem como ele costumava fazer. De qualquer forma, era embaraçoso pensar em sua mãe fazendo alguma coisa. E ainda por cima com Carl? Um velho rabugento?

Talvez fosse uma manobra hábil. Talvez carl estivesse de olho no vinhedo. Não se aposentara e passara o comando ao filho? A decisão fora de Alexander, mas carl trabalhava no vinhedo há tanto tempo que não podia deixar de indicar quem assumiria em seu lugar, ou seja, talvez carl quisesse que Simon ficasse com o vinhedo. E o casamento com Natalie era um meio de conseguir o que queria. Greg tinha de ligar para Natalie... mas como detestava a perspectiva! O que podia dizer? Não quero o vinhedo, mas também não quero que fique com Simon?

Talvez devesse ligar primeiro para Susanne. Ela falava com Natalie com mais frequência. Era bem possível que soubesse o que estava acontecendo.

Oh, Deus, como ele detestava isso também! Susanne era dezesseis anos mais velha. Tinham a mesma mãe, mas nunca haviam sido muito ligados.

Greg desabotoou o colarinho, resmungando baixinho. Precisava tirar férias. Até já planejara. Uma viagem a Asquonset, no fim de semana do Dia do Trabalho, no início de setembro, seria impossível. Iria para o norte, até Ontário, numa viagem de pescaria. Já reservara tudo.

Não que Jill estivesse satisfeita. Se pudesse escolher, ela iria para Asquonset. Gostava do vinhedo. Ou pelo menos era essa a impressão de Greg. Mas era difícil saber qualquer coisa da mulher nos últimos tempos. Havia algo acontecendo. Ela se mantinha mais retraída do que o normal. Poderia estar passando por uma crise de meia-idade? Aos trinta e oito anos?

Greg não queria pensar na possibilidade da esposa desmoronar. Era pior que pensar em um casamento de Natalie com Greg. Lidaria com isso mais tarde. Ele atravessou a cozinha e abriu a porta da garagem. O carro de Jill não estava ali, o que significava que devia estar estacionado no aeroporto. Jill fora mesmo visitar a mãe, com toda certeza. E foi então que ele teve uma ideia. Na expectativa de entender o que afligia a esposa, pensando que a carta da mãe poderia oferecer uma indicação - sabendo que sempre poderia dizer que abrira por acaso, com o resto da correspondência -, ele a abriu. Tirou a folha dobrada.

Querido Greg...

Querido Greg? Não era da sogra para Jill. Era para ele. Greg deu uma olhada no envelope. A carta não estava endereçada a Jill. Tinha o seu nome. Enviada por Jill.

com um súbito presságio, ele começou a ler.

Num estúdio montado na garagem, por trás de uma velha casa vitoriana, pintada de branco, numa rua transversal estreita de Cambridge, Massachusetts, Olivia Jones sonhava enquanto trabalhava. Fazia isso com frequência. Era uma das vantagens de seu trabalho.

Ela restaurava fotos antigas, uma habilidade que exigia paciência, olhos aguçados e mão firme. Tinha todas as três coisas, além de uma imaginação capaz de levá-la ao mundo de quase qualquer foto. Mesmo agora, enquanto usava várias tonalidades de tinta cinza para restaurar um rosto esmaecido, ela podia se situar dentro da foto, com uma família de trabalhadores migrantes que vivia na Califórnia, no início dos anos 30. A Depressão prevalecia. A vida era difícil, a comida, escassa. As crianças trabalhavam junto com os pais e avós, hora após hora, onde houvesse uma colheita. Começavam o dia sujas e terminavam ainda mais sujas. As expressões eram sombrias, as faces encovadas, os olhos enormes e angustiados.

Sentavam juntas na varanda de um barraco avariado pelo tempo. Olivia contornou-as para entrar. O lugar era pequeno, mas funcional. Havia catres encostados em quase todo o espaço de parede, um fogão de lenha e algumas cadeiras no centro. O ar recendia a poeira e suor de trabalho. Numa mesa quase na porta havia um pão que acabara de sair do forno, cheiroso e quente. Um ensopado borbulhava no fogão. Uma prateleira continha um sortimento variado de louça lascada, canecas e pratos de estanho. Estariam retinindo quando a família comesse. Ela já podia ouvir os sons agora.

De volta à varanda, tornou a se ligar ao grupo. Todos ali se tocavam... na mão, no braço, no ombro, no rosto. Eram nove pessoas, de três gerações, sobrevivendo a desolação de suas vidas pelo conforto que encontravam na família. Não tinham bens materiais, apenas uns aos outros.

Olivia estava com trinta e cinco anos. Tinha uma filha de dez anos, um trabalho, um apartamento com TV e videocassete, um computador, uma lavadora e uma secadora de roupas. Tinha um carro. Tinha um colete da Patagônia e sandálias da L.L. Bean. Tinha uma Nikon que era bastante velha e antiga para valer uma nota.

Mas como invejava a intimidade daquela família de trabalhadores migrantes!

- Eram tempos difíceis - comentou uma voz rouca por trás de seu ombro.

Ela levantou os olhos para ver o patrão, Otis Thurman, olhando para a foto com o rosto franzido. Era uma das várias fotos recém-descobertas e, ao que tudo indicava, eram de Dorothea Lange. O Metropolitan Museum, de Nova York, incumbira-o de restaurar as fotos. Olivia estava fazendo o trabalho.

- Eram tempos mais simples - comentou ela. Otis soltou um grunhido.

- Prefere aqueles tempos? Não é o meu caso. vou embora agora. Tranque o estúdio quando sair.

Ele se afastou, os passos mais firmes e ágeis do que se poderia esperar de um homem aos setenta e cinco anos. Mas Otis tinha os seus acessos para mantê-lo em forma. Passara o dia inteiro na maior irritação. Mas, depois de cinco anos trabalhando com ele, Olivia sabia que não era pessoal. Otis era um Picasso frustrado, um pintor em potencial que não seria tão bom na criação quanto era na restauração. Mas a esperança resistia à morte, mesmo na sua idade. Ele voltaria para suas telas e tintas em tempo integral... pois faltavam apenas sete semanas para sua aposentadoria.

Ele aguardava ansioso por isso. O que já não acontecia com Olivia.

Otis sempre anunciava os dias e horas que faltavam, numa contagem regressiva. Olivia tentava não escutar.

Formamos uma boa equipe, argumentava ela. Estou velho demais, respondia Otis.

E era isso que a fascinava naquela família de migrantes. O velho na foto era bastante encanecido para fazer Otis parecer um jovem, mas ainda estava ali, ainda era produtivo, ainda integrava o grupo.

As coisas eram diferentes hoje em dia. As pessoas se consumiam mais cedo, o que não era de admirar. Andaram sozinhas pela corda bamba da vida, sem rede protetora.

Olivia preocupava-se com a aposentadoria de Otis. Imaginava-o sentado sozinho, dia após dia, com os instrumentos de arte que não conseguia usar para atender a seus elevados padrões, sem ninguém para perturbar, pressionar e exigir. Ele não seria feliz.

Está enganada, Olivia. Otis tinha muitos amigos na comunidade artística e bastante dinheiro poupado. Levaria uma vida das mais satisfatórias. Ela é que teria problemas.

Finalmente encontrara seu lugar. Restaurar fotos antigas era natural para alguém com conhecimento de câmeras e olho para a arte... e ela tinha as duas coisas, embora tenha demorado algum tempo para perceber. Tentativas e erros contavam a história de sua vida. Fora garçonete. Trabalhara em telemarketing. Vendera roupas. Vender câmeras viera muito depois, junto com a descoberta de que adorava tirar fotos. Depois, viera Tess. Breves períodos de aprendizado com um fotógrafo profissional e o trabalho de freelance para um museu que queria fotos de suas exposições. Até que Otis aparecera.

Pela primeira vez em sua vida, Olivia amava realmente seu trabalho. Era melhor em restauração de fotos do que fora em qualquer outra coisa. Podia ficar mergulhada horas a fio nas fotos do passado, recendendo a idade, revelando grandeza. Para Olivia, o mundo de ontem era mais romântico que o de hoje. Ela gostaria de viver naquele tempo.

Como não podia, gostava de trabalhar para Otis. O sentimento era recíproco. Poucas pessoas em sua vida haviam-na aturado por cinco anos. Era verdade que ela aguentava os acessos de mau humor de Otis. Por outro lado, ele reconhecia que Olivia fazia o trabalho melhor do que uma longa sucessão de assistentes.

Apesar de tudo, Otis gostava mesmo dela. A foto de 20x24 na parede demonstrava isso. Ele a tirara na semana passada, quando Olivia aparecera no trabalho com os cabelos curtos demais. Ela mesma o cortara, num acesso de raiva, pois os cabelos compridos eram incómodos demais no calor sufocante. Arrependera-se no instante seguinte. Um cabeleireiro aparou as pontas, melhorou um pouco a aparência. Ainda assim, ela fora trabalhar com um enorme chapéu de palha... que Otis se apressara em tirar.

Abençoado fosse, ele dissera que gostava de seus cabelos, que faziam com que Olivia parecesse mais despreocupada e divertida... e depois a fotografara. Ela estava de pé na frente de uma parede lisa de concreto, usando um vestido comprido de alças, os dedos aparecendo na frente das sandálias, os cabelos de menino. Ela se sentia exposta e constrangida, não estava acostumada a ficar naquele lado da câmera, embaraçada pelos cabelos. Por isso ela passara os braços pela cintura e encolhera o queixo.

Otis usara luz, ângulo e foco para fazer com que ela parecesse esguia em vez de magra, intrépida em vez de inibida. Fizera com que os cabelos curtos, de um louro-avermelhado, parecessem elegantes e que as unhas dos pés, pintadas de marrom, se tornassem exóticas. Em suma, fizera com que ela parecesse bonita.

Seus lábios se alargaram num sorriso quando se deslocaram para a foto ao lado. Tess estava com ela, aos nove anos, no verão anterior. Vestiam-se como dançarinas de um saloon de Dodge City, nos tempos do Velho Oeste. Otis condenara a foto, como a forma mais infame de fotografia comercial. Mas as duas haviam se divertido. Falavam agora em se vestir ao melhor estilo elizabetano naquele verão... presumindo que tivessem condições de passar outro fim de semana na praia. O dinheiro andava mais curto agora, sem a pensão alimentícia que recebia antes. E Olivia começava a sentir a realidade da situação.

Jared Stark decepcionara-a por todos os meios possíveis e imagináveis. Deveria amá-la. Se não, pelo menos amar a filha. No mínimo, teria de ajudá-la a manter a criança abrigada, alimentada e vestida. Em vez disso, o que ele fizera? Jared morrera.

Um despertador tocou. Olivia desligou-o, reprimindo a raiva que substituíra a dor. Tess era o amor de sua vida e o dia de aula chegava ao fim. Ela tampou as tintas, lavou os pincéis e guardou no cofre as fotos que podiam ser de Lange. Arrumou o estúdio, guardou na pasta o trabalho burocrático que faria em casa e abriu a porta, a tempo de cumprimentar o carteiro.

As contas e as cartas pessoais de Otis estavam numa pilha, a correspondência endereçada ao estúdio em outra. Entre as maiores, havia um folheto de ofertas de supermercado, uma correspondência do Instituto Americano para a Preservação de Obras Históricas e Artísticas e a revista Time da semana. No fundo da pilha, havia um envelope pardo grande.

Um olhar para o nome da remetente deixou Olivia na maior satisfação. O envelope era marfim, com um logotipo de cor vinho mostrando em traços um cacho de uvas se derramando de um copo de vinho. Por baixo, havia o nome estilizado, tão familiar agora, Vinhedo e Vinícola Asquonset, Asquonset, Rhode Island. O nome e o endereço do destinatário foram escritos à mão, na letra mais tradicional, embora não menos familiar, de Natalie Seebring.

Olivia aproximou o envelope do nariz. Fechou os olhos e aspirou. Conhecia agora aquele perfume de frésia tão bem quanto conhecia a letra. Desfrutou-o por um longo momento, antes de ir até a mesa grande, onde estava a última remessa de fotos enviadas por Natalie. Eram do início dos anos 50, precisavam de graus variados de reparação. Estavam prontas para serem devolvidas. Agora, chegava uma nova remessa. Não poderia ser mais oportuna.

Olivia jamais se encontrara com a mulher, mas sentia que a conhecia muito bem. As fotos contavam histórias e Olivia inventava com a maior facilidade o que não diziam. Natalie fora uma linda criança nos anos 20, uma beldade deslumbrante nos anos 30. Nos anos 40, fora a noiva tímida de um garboso soldado, e nos anos 50 se tornara a mãe risonha de duas crianças adoráveis. Segundo as fotos, vestia-se bem e vivia em grande estilo. Quer estivesse numa sala, com um lindo tapete oriental à sua frente, sentada num elegante divã, com um quadro original na parede por trás, ou num jardim, cercada pelos exuberantes arbustos e flores, que mostravam cores, mesmo em preto-e-branco, os cenários das fotos eram coerentes com a imagem de uma rica família de produtores de vinho.

Não eram migrantes oprimidos. Aquelas fotos, é claro, não possuíam a importância artística das que foram tiradas por Dorothea Lange, mas Olivia acompanhara o crescimento daquela família por meses e se sentia totalmente envolvida. A atração ali era a prosperidade e a tranquilidade. Ela fantasiara ser uma Seebring mais vezes do que podia contar.

Sua própria história era completamente diferente de tudo o que ela vira naquelas fotos. Jamais conhecera o pai. A mãe nem mesmo sabia quem ele era. Olivia fora o produto do amor de uma noite, estimulado pelo álcool, numa viela perto de Times Square, em Manhattan, na escuridão do réveillon. Carol Jones, sua mãe, tinha dezessete anos na ocasião.

As feministas poderiam dizer que fora estupro. Meses mais tarde, no entanto, quando finalmente compreendeu que estava grávida, Carol foi bastante rebelde e desafiadora para dizer aos pais que fora amor. Eles a repudiaram. Rebelde e desafiadora, como era previsível, Carol retaliou, saindo de casa sem nada de sua herança, a não ser o sobrenome, Jones.

O que não servira em nada para Olivia. Havia páginas e mais páginas de Jones em todas as listas telefónicas. Incontáveis em Nova York. E agora ela não apenas não podia encontrar os avós, como também não conseguia descobrir a própria mãe. Ao se mudar de um lugar para outro, Olivia deixara uma trilha de miolo de pão capaz de rivalizar com Hansel e Gretel. Mas nenhum parente jamais a procurara. Ao que parecia, ninguém se interessava... e perdiam muito com isso. Olivia podia não ser um grande prémio, mas Tess era um autêntico tesouro.

Infelizmente, a perda era nos dois sentidos. Essa lacuna em sua história significava que Olivia e Tess careciam de uma família ampliada. Eram apenas as duas contra o mundo. Não era tão ruim assim no final das contas. Olivia aceitara essa situação. Podia aguentar.

Nem por isso deixava de sonhar, é claro... e vinha sonhando agora que era parente de Natalie Seebring. Pensar em avó e neta talvez fosse um exagero, mas havia uma mulher, em uma das primeiras fotos enviadas de Asquonset, que parecia um pouco com Carol, poderia até ser a avó de Olivia. Ela não vira a mulher em qualquer das fotos depois da guerra, mas havia uma explicação fácil para isso. Ela podia ter se alistado no corpo feminino do Exército, apaixonara-se por um militar e fora morar em Nova York. O marido podia ser um militar rígido, que queria tudo feito à sua maneira. Ou podia ter um ciúme irracional, proibindo o contato da mulher com a família. Por isso, sua ausência nas fotos subsequentes.

Mas, se ela era irmã de Natalie, então Natalie seria tia-avó de Olivia. Mesmo que fossem apenas primas, o sangue as ligaria.

Olivia olhou para o relógio. Tinha de ir buscar Tess. O tempo era cada vez mais curto.

Mas a atração daquela nova remessa era grande demais para ela resistir. Ela abriu o envelope e deu uma olhada dentro. O cheiro defrésia era mais forte agora. Ela pôs a carta de lado e deu uma olhada nas fotos, várias dezenas. A maioria era 20x24, em preto-e-branco. Por baixo, havia um envelope amarelo.

Curiosa, ela pegou-o. O nome e o endereço de Otis estavam na frente, escritos com uma letra de calígrafa. Natalie oferecia uma festa, pensou Olivia... e no mesmo instante pensou em ir como acompanhante de Otis. Não se importaria se as pessoas rissem. Queria conhecer Asquonset. Queria conhecer Natalie.

Ela pôs o convite na mesa de Otis, junto com sua correspondência. Mas logo tornou a pegá-lo e guardou junto com as fotos. Ele não voltaria até o dia seguinte. E ela achou que seria agradável ter o convite em sua casa por uma noite.

Olivia pôs o pacote em sua pasta, verificou se estava tudo em ordem no escritório pela última vez, depois saiu e trancou a porta. A nova remessa de fotos de Natalie seria o prazer que proporcionaria a si mesma naquela noite, depois que cuidasse de todo o resto.

Já saboreando, em antecipação, ela meio que andou, meio que correu pelas ruas estreitas, quase espremida entre as casas coladas, as árvores e os carros estacionados. O ar de junho estava quente e parado. Ela chegou à escola de Tess com dez minutos de atraso.

A maioria das crianças já fora embora. Restavam apenas umas poucas, cada uma absorvida em si mesma. Tess estava parada sozinha num canto da escola, um ombro mais baixo pelo peso da mochila, um pé virado para dentro, os óculos quase na ponta do nariz, tinha uma expressão desolada.

Com um aperto no coração, Olivia fez um esforço para manter a voz jovial.

- Oi, querida.

Ela abraçou a filha, que mal retribuiu, e afastou para o lado a massa de cabelos castanhos rebeldes.

- Está atrasada - murmurou Tess.

- Sei disso. Sinto muito. Fui retida por um problema no momento em que ia sair. Como foi o seu dia?

Tess fez um gesto que podia ser um dar de ombros, mas se perdeu quando ela começou a descer pela rua. As pernas não eram compridas, mas andavam depressa. Olivia teve de se apressar para acompanhá-la.

- Tess?

Ainda o silêncio desafiador.

- Um dia difícil?

- O pior. Sou burra. Simplesmente burra.

- Não é não.

- Sou sim! A mais burra da turma!

- Nada disso. É a mais inteligente da turma. Seu QI deixa os outros lá atrás. Você é disléxica. Só isso.

- Só? Tess parou de repente. As sardas eram de um vermelho brilhante contra a palidez da pele. Os óculos de aros finos ampliavam os olhos castanhos e tristes que de repente ficaram marejados de lágrimas.

- Mamãe, ela me fez ficar na sala na hora do recreio porque meu trabalho estava uma porcaria. Minha letra não presta. Ela não consegue ler. E minha soletração também não presta. E mesmo que fosse boa não fiz o que ela mandou. Não ouvi direito, porque minha audição também não presta!

Olivia pegou o rosto da filha entre as mãos.

- Sua audição é boa. Você ouve cada palavra que eu digo, mesmo quando não deveria, porque é linguagem de adulta.

Tess desvencilhou o rosto e recomeçou a andar. Olivia já estava ao seu lado quando viraram a esquina. Percorreram vários quarteirões até Tess se acalmar. Quando Olivia estendeu o braço pelos ombros da filha e puxou-a, Tess não resistiu. Viraram à direita numa rua, à esquerda na seguinte.

- Parece um labirinto - comentou Olivia quando viraram em outra rua.

Ela esperava ganhar um sorriso com o comentário. Em vez disso obteve uma resposta sombria:

- E nós somos os ratos.

- Qual é a recompensa no final?

Tess não respondeu. E depois chegaram em casa. Moravam num apartamento anexo a uma pequena casa de alvenaria, que nos tempos áureos pertencera a membros da suposta elite de Cambridge. O fato de que ficava mais espremida entre as outras do que uma casa da verdadeira elite seria oculto por uma densa fileira de árvores. Essas árvores também impediram que os vizinhos vissem quando os proprietários fecharam a varanda, acrescentaram um quarto e um banheiro, e ofereceram o espaço para alugar.

Olivia não era a primeira inquilina. A cozinha pequena era no estilo dos anos 50, o banheiro era apenas um pouco melhor, mas ela adorara à primeira vista... adorara a classe, o exotismo, o charme. Um olhar para as paredes de tijolos cobertas de hera e o caminho de lajes, ladeado de cálmias em flor, e ela sabia que tinha de morar ali, antes mesmo de conhecer o apartamento.

Só depois de se mudarem é que ela compreendeu como o apartamento era mínimo, não necessariamente o melhor que poderia encontrar pelo dinheiro. Mas o negócio fora fechado e o apartamento tinha mesmo caráter, exotismo e charme. Instalou Tess no pequeno quarto, que pintou de azul-celeste, com uma floresta de árvores do chão ao teto. Ela mesma dormia num sofá-cama na sala. O sofá era ladeado por duas armadilhas de lagosta, cada uma contendo um abajur. Um velho baú de madeira, numa plataforma com rodas - pintados com um verde marinho, como as armadilhas de lagosta -, servia para guardar roupas; e à noite podia ser afastado para o canto com facilidade. Havia uma poltrona no lado, bastante grande para ser partilhada por Olivia e Tess na leitura antes de dormir. Havia ainda uma mesa colonial americana, com cadeiras combinando. Fora um presente de aniversário de Olivia para si mesma no ano anterior. Também fora uma inspiração para horas de imaginação sobre quem as possuíra antes.

Mal abriram a porta naquele dia quando o telefone começou a tocar. Mãe e filha trocaram um olhar exasperado, pois sabiam quem era.

- É Ted - murmurou Tess.

- Também acho.

- Estamos dez minutos atrasadas. Aposto que ele está ligando sem parar há dez minutos.

- Hum-hum...

- Ele deve estar frenético com alguma coisa. A criança falou num tom desdenhoso que Olivia teria considerado

desrespeitoso se não soubesse que Tess tinha razão.

Ted estava sempre frenético. Era uma personalidade do tipo A, em tensão permanente, um impulso de compra por parte de Olivia, encontrado no caixa de uma livraria. Em retrospectiva, ela sabia que deveria ter percebido que Ted era problemático, pois não sorrira uma única vez durante aquele primeiro encontro. Mas a olhara nos olhos, o que era mais do que muitos homens faziam, e conversara sem hesitar, ao contrário da maioria. Até se mostrara interessado pelo livro que ela comprara e por quê.

Olivia, é claro, pensara no início que a intensidade era sinal de paixão. Ted comprava flores, levava-a para jantar fora, alugava filmes. Telefonava com tanta frequência que ela acabou sugerindo que não ligasse mais para o estúdio. A essa altura, ela já havia compreendido que Ted não estava apaixonado, mas apenas tratava o relacionamento da mesma forma neurótica com que cuidava do resto de sua vida. Vinham se encontrando há cinco meses, e agora o fim estava próximo.

Olivia não podia deixar de reconhecer. Tinha um jeito todo especial para atrair perdedores. Não que ela quisesse. Não que planejasse. Quase sempre se sentia atraída por uma única característica - por exemplo, olhos grandes, uma voz sensual - e nem sempre era física. Deixara-se envolver por Pete Fitzgerald porque ele sabia cozinhar. Fazia pratos irlandeses, italianos, judaicos. Preparava o blini russo mais leve que ela já comera. Ao sair da cozinha, no entanto, ele era um fracasso.

Como o telefone continuava a tocar, ela foi atender.

- Alo?

- Oi - disse Ted. - Queria apenas saber se você está bem. Foi um dia infernal aqui, com uma reunião depois de outra. Parece até que era um plano para mudar o mundo inteiro, quando não passava de um plano quinquenal para uma pequena empresa, que provavelmente já terá naufragado antes de terminar o primeiro ano. Por que chegou em casa tão tarde?

- Tive problemas. - Olivia revirou os olhos para fazer Tess rir. Mas não posso conversar agora.

- Sei como é... também não tive tempo de fazer qualquer coisa por mim desde o início da manhã... juro que passei todo esse tempo em reuniões... acho que não serei capaz de aguentar por muito mais tempo... ligo de novo dentro de dez minutos.

- Não. Tess e eu temos coisas para fazer. Eu ligarei mais tarde.

- Ahn... está bem... passarei mais uma hora aqui... e depois uma hora na academia... presumindo que os aparelhos de que preciso estarão livres, o que é esperar demais... os idiotas usam os pesos durante horas... não sou nenhum magricela, mas eles zombam de mim e trato de me mandar... caso eu demore mais de uma hora, por que não tenta falar comigo em casa, às oito horas?

- Tentarei. Tenho de desligar agora.

Foi o que ela fez, exausta. Ted tinha esse efeito.

O queixo de Tess tremia.

- A Sra. Wright mandou um bilhete.

- Essa não!

Ted foi prontamente esquecido. Olivia respirou fundo. Só podia torcer para que o bilhete estivesse num envelope lacrado.

- Eu rasguei.

- Não pode ter feito isso.

- Rasguei e joguei fora.

- Oh, Tess! Preciso ver todos os bilhetes.

- Não, não precisa. Ela é apenas uma professora. Não sabe de tudo, ou seja, mesmo que o envelope estivesse lacrado, a filha saberia o que a professora escrevera.

- Onde está o bilhete?

Tess desviou os olhos, desafiadora- Olivia pôs a mão em seu queixo e virou-lhe o rosto, gentilmente.

- Onde está o bilhete?

A menina olhou para o teto, ainda com um ar decidido.

Olivia suspirou, soltou o queixo da filha e recuou. Foi nesse instante que ela viu o canto rasgado de alguma coisa saindo do bolso da frente do jeans de Tess. Tirou uma parte do bilhete, depois uma segunda e uma terceira. No pequeno balcão quadrado ao lado do fogão, Olivia juntou os pedaços. O bilhete dizia:

Prezada Sra. Jones. Precisamos conversar sobre o que fazer com Tess no próximo ano. Sei que a perspectiva de repetição de ano é desagradável, mas ignorar meus bilhetes não ajuda a resolver a situação.

Ignorar que bilhetes?, pensou Olivia, apreensiva.

Temos de nos encontrar. A decisão final sobre as turmas do próximo ano será na segunda-feira. Se não tiver notícias suas até lá, recomendarei que Tess permaneça na quarta série por mais um ano. " - Atenciosamente, Nancy Wright.

A mente de Olivia era um turbilHão. Tess fora examinada, o diagnóstico, confirmado. Tinha aulas especiais na escola três vezes por semana. Na última reunião que tivera com a professora e a orientadora, Olivia fora informada de que a filha apresentava uma ligeira melhora na soletração. Mas continuava a falhar nas provas, porque lia errado as instruções ou escrevia errado as respostas. Tess não podia ler. O que era um problema assustador. Ela não podia ler.

A tutora alegara que melhoraria com o tempo. Olivia perguntara quanto tempo. Tess parecia estar se atrasando mais e mais em relação às outras crianças na turma. Gostava de aprender e conservava o que aprendia. Quando Olivia lia para ela, Tess sempre reagia e demonstrava inteligência. Um a um, fora capaz de compreender os conceitos mais complexos. Sozinha, porém, carecia dos instrumentos necessários para ter acesso a esses conceitos.

Três sessões de meia hora por semana com uma tutora especial não eram suficientes. Tess poderia aproveitar o dobro. O que ela precisava mesmo era de toda uma escola especial, mas isso era um sonho inacessível. Olivia fazia o que podia, ajudava nos deveres de casa. Também tentava fazer com que a professora fosse mais gentil. O problema era que Tess não ajudava em nada ao deixar de entregar os bilhetes da professora.

- Não brigue comigo - suplicou Tess. - Não trouxe os outros bilhetes porque sei o que ela quer fazer. Posso ver em seu rosto, sempre que olha para as minhas provas. Pensei que, se me esforçasse mais, poderia melhorar e ela não me olharia daquele jeito. Só que continua a olhar.

Olivia abraçou Tess, apertou-a com uma súbita intensidade. Compreendia muito bem. Na verdade, até concordava. Para começar, não quisera Tess na turma de Nancy Wright. A mulher era inflexível com as instruções, e seguir instruções era uma das coisas mais difíceis para Tess. Ela entrava em pânico. E se precipitava. Perdia o lugar. Tentava adivinhar. A outra professora da quarta série era muito melhor com crianças que tinham transtorno de aprendizado, mas não podia, como a diretora informara secamente a Olivia, absorver em sua turma todas as crianças nessas condições.

Por sua vida, Olivia não entendia por que Nancy Wright não telefonara quando seus bilhetes não foram respondidos. Um telefonema seria muito mais apropriado, em primeiro lugar. Pôr no papel as deficiências de uma criança e depois enviar esse papel para a mãe pela própria criança parecia cruel.

Olivia não podia nem começar a calcular os danos que haviam sido causados à auto-estima da filha no último ano. É verdade que poderia acontecer com qualquer professora. Tess estava numa idade difícil. De qualquer forma, ela não precisava apenas de uma tutora... precisaria também de uma terapeuta.

O que fazer? Olivia tinha o nome de uma tutora que poderia trabalhar com Tess ao longo do verão. Mas elas custavam dinheiro e havia cessado a transferência eletrônica de recursos, que se prolongara por vários meses depois da morte de Jared. Os pais dele haviam decidido que Tess não era filha de Jared.

Que Tess não era filha de Jared. A acusação ainda a deixava amargurada.

- Mas ela é! - garantiu Olivia ao advogado que enviara a carta, informando-a da decisão da família.

- Pode provar? É Claro que ela podia. Tess estava ali, em carne e osso.

Mas Olivia costumava assistir aos filmes de tribunal. Sabia como os advogados pensavam. Advogados queriam testes de DNA.

- Meu cliente foi cremado - disse aquele. - Suas cinzas foram espalhadas pelas montanhas do Tennessee. A menos que os testes de DNA tenham sido feitos antes, você terá dificuldade para provar. A família não tem a menor intenção de entregar qualquer coisa para um teste. Teria de levá-los ao tribunal.

Olivia jurara que faria isso... uma decisão que durou dois minutos. Depois, ela recuperou o bom senso. Não podia submeter Tess a uma batalha de paternidade. Além do mais, era preciso muito dinheiro para fazer mais dinheiro ainda.

Assim, a ligação com os Stark fora cortada. Era outro golpe terrível numa saga já triste. Porque não era uma questão de dinheiro. Era de amor. Olivia amara Jared. Ele era um homem brilhante, um cientista, sempre escrevendo tratados sobre coisas aparentemente obscuras, como a correlação entre comer folhas de cenoura e a capacidade de identificar o canto dos passarinhos à noite. Ele alegava que era crucial para a humanidade o que fazia. Olivia acreditara, mesmo depois que Jared perdera o interesse por ela. Não planejara engravidar. Quando aconteceu, considerou que era a maneira de Deus dizer a Jared que continuasse com ela. O que não aconteceu. Jared já havia ido embora muito antes de Tess nascer, mas pagar uma pensão por mais de nove anos fora uma decisão pessoal. Ele assumiu o encargo sem jamais se queixar.

Olivia torceu para que a família de Jared levasse esse fato em consideração. Torceu para que quisessem uma parte do filho que haviam perdido. Aparentemente, porém, não fora o caso.

Agora, Tess precisava muito de ajuda. Olivia faria um empréstimo para mais tutoria, se achasse que a filha aceitaria. Mas não era isso que Tess queria. A menina queria ir para o acampamento de ténis, de qualquer maneira. Porque duas das garotas mais populares da turma iriam e ela via como sua oportunidade de se destacar. Nunca jogara ténis antes, mas era uma boa atleta... e, se tentasse com bastante empenho, qualquer coisa seria possível.

Olivia não tinha o dinheiro para o acampamento de ténis. Não teria dinheiro sequer para comida se não arrumasse outro emprego. Enviara currículos para dezenas de museus, na esperança de que algum quisesse uma restauradora na folha de pagamento. Até agora, recebera seis rejeições. Calculava que sempre poderia voltar a vender câmeras, mas era um serviço que detestava. Adorava tirar fotos, o que fazia quase por instinto. Ensinar os outros a tirar fotos era muito diferente. Olivia não tinha paciência nem visão. Sua mente trabalhava diferente das outras pessoas. Tess não nascera com dislexia por acaso.

O que fazer?

Ela teve uma ideia. Inclinou para cima a cabeça da filha, contemplando aquele lindo rosto sardento, emoldurado pelos cabelos cacheados castanhos, um legado do pai que não quisera conhecê-la. Olivia sentiu-se apaixonada pela milionésima vez.

- Quer comida chinesa no jantar? Os olhos de Tess se iluminaram.

-General Gao? Olivia confirmou com um aceno de cabeça.

- Mas só depois dos deveres de casa.

- Estou com fome agora.

Olivia abriu a geladeira e tirou um copo grande com leite.

- Isto servirá para enganar a fome. Quanto mais depressa termiJr nar os deveres de casa, mais cedo poderemos ir.

Tess pegou o copo.

- Tenho de ler vinte páginas.

- Vinte? - Era assustador para uma menina disléxica de dez anos. - De que livro?

Tess suspendeu-o: um texto de geografia.

- Está bem. - Olivia fez um esforço para não parecer desanimada. - Por que não começa enquanto troco de roupa? Faremos juntas o que restar.

Ela pegou a correspondência e deu uma olhada a caminho do closet. Parou antes de chegar lá, virou-se e foi sentar no sofá. Tinha na mão uma carta sem endereço para devolução, apenas o carimbo postal de Chicago. Era suficiente.

Seu coração começou a bater forte. Muito bem. A letra era diferente. Mas também a mãe não escrevia há quatro anos. Muitas coisas poderiam ter acontecido para explicar a mudança. A mulher poderia ter quebrado o pulso e estar usando gesso. Poderia ter perdido um braço num acidente. Poderia ter sofrido um derrame. Poderia... apenas poderia estar tão nervosa de escrever para Olivia que sua mão tremia.

Olivia abriu o envelope e no mesmo instante engoliu em seco, com um profundo desapontamento. Sua última carta estava dentro do envelope, ainda fechada. Ela desdobrou o bilhete que a acompanhava: A quem escreveu essas cartas: continua a mandá-las para esta casa, mas não há nenhuma Caroljones aqui. Não escreva mais. Ela não está aqui.

Olivia inclinou-se para a frente e passou os braços pelos joelhos. Aquele endereço era o mais recente que tinha. Portanto, a mãe se mudara logo depois que escrevera a última carta ou se equivocara ao escrever o endereço da remetente... e "equivocara" era a palavra importante. Olivia se recusava a acreditar que fora deliberado. Recusava-se a acreditar que a mãe evitava qualquer contato. Era verdade que a última carta fora curta e neutra, mas a mãe também não dissera a Olivia para esquecê-la. Nunca fizera isso. Apenas partira, uma semana depois da formatura de Olivia na escola secundária. Considerara que, a essa altura, sua obrigação fora cumprida. Outras mães sentiam a mesma coisa. Não era tão terrível assim.

Mas o resultado final era simples: se Carol não recebera suas últimas cartas, então também não sabia onde Olivia se encontrava agora. Talvez estivesse também tentando fazer contato. E talvez também recebesse cartas devolvidas porque a destinatária não fora encontrada. Olivia pedira no correio que sua correspondência para o endereço antigo fosse remetida para o novo, mas o prazo há muito que expirara. O que fazer agora?

O telefone tocou. Tess fez menção de se levantar, ansiosa em fazer qualquer coisa que não fosse ler. Mas Olivia levantou-se antes, fez um gesto para que ela continuasse sentada e foi atender.

- Alo?

- Sou eu de novo... estou saindo do escritório, a caminho da academia... provavelmente não chegarei em casa antes das oito, a tempo de pegar o noticiário da CNN. Depois que comer alguma coisa, já será tarde demais... mas preciso saber se podemos nos encontrar amanhã de noite.

Olivia passou a mão por seus cabelos curtos.

- Amanhã de noite?

- O North End Bistrô. Era um novo restaurante italiano, aberto há menos de um mês.

Ted ouvira falar muito bem e estava ansioso em ir o mais depressa possível, como se a casa pudesse fechar antes de sua visita. Olivia achava que se o restaurante fechasse tão depressa era porque não valeria mesmo a pena comer ali.

- Não posso ir, Ted. As noites durante a semana são muito difíceis para mim.

Tess precisava de supervisão nos deveres de casa. Além disso, Olivia voltava dos encontros com Ted se sentindo competitiva e tensa. Nada em relação a Ted era relaxado. Absolutamente nada.

- Não há mais reservas para a noite de sábado nas próximas três semanas... para você ver como o restaurante é popular... este é o melhor momento para ir, Olivia.

Com uma súbita irritação, Olivia disse:

- Se é tão popular, ainda estará aberto daqui a um mês. Faça a reserva antecipada. Amanhã de noite não é possível, Ted.

- Está bem, está bem... de qualquer forma, farei a reserva, caso você mude de ideia... vai me ligar mais tarde, não é? !

- Voltaremos a nos falar amanhã ou depois. »

- E o jantar no North End Bistrô? ? Ela fez um esforço para manter a paciência.

- Já disse que não posso ir.

- Disse que poderia mudar de ideia.

- Você é que disse isso. Eu garanti que não posso ir.

- Parece que você está de mau humor... Otis devia estar rabugento de novo... um filho-da-puta insuportável... ainda bem que ele vai se aposentar... mais alguns anos em sua companhia e você seria um caso perdido... ligarei de novo mais tarde.

Olivia respirou fundo.

- Não, Ted. Pelo amor de Deus, dê-me um tempo!

- Ei... não fique zangada... tenho de ir agora... se demorar mais um pouco, os caras que gostam de malhar vão tomar conta da academia... passam a noite inteira... levantar peso é a ideia que eles fazem de cultura... ligarei para você amanhã.

Ted desligou antes que ela pudesse protestar. Olivia ficou imóvel por um momento, especulando como poderia dispensá-lo, quando Tess comentou:

- Talvez ele seja disléxico. Também não ouve.

- Você ouve.

Enquanto trocava de roupa, Olivia experimentou um repentino acesso de autocompaixão. Entre uma crise na escola, uma rejeição materna e Ted, fora uma hora terrível. Ela merecia um prémio pela coragem.

Fazendo uma meia-volta de repente, ela foi até a porta da frente, Pegou sua pasta e levou-a para o sofá. O cheiro de frésia escapou no instante em que a abriu. Tirou o envelope de Natalie Seebring, mantendo-o imóvel na mão por um instante.

Não me decepcione, Natalie Seebring, pensou ela. Abriu o fecho pela segunda vez. Deixou lá dentro a carta e o envelope endereçado a Otis. Só tirou as fotos, que pôs no colo. Devagar, saboreando, examinou uma a uma.

Conhecia o elenco àquela altura. Havia fotos de Natalie com o marido e de Natalie, o marido e as crianças. Algumas fotos incluíam um bebé. Um bebé! Não havia sinal do filho mais velho nessas fotos. Dando uma olhada geral, ela não encontrou nenhuma foto das três crianças juntas. O que era estranho.

Ou talvez não, refletiu Olivia. O bebé era temporão, uma pequena surpresa, nascido de duas pessoas que ainda se amavam. O filho mais velho devia estar fora de casa, em algum colégio interno, talvez mesmo na universidade. Olivia imaginou-o em Harvard. Meio que esperava se deparar com uma foto dele usando o uniforme de futebol americano com a letra da universidade na camisa.

Não a encontrou, mas descobriu uma foto do casamento da filha. Havia fotos do marido de Natalie no vinhedo com e sem trabalhadores. A julgar pelas costeletas compridas dos homens, as fotos eram dos anos 60 e 70. Havia também fotos de uma obra. Parecia que um novo prédio fora construído no vinhedo... um estabelecimento vinícola, dizia a placa da obra. Ela mal podia esperar para ver o prédio depois que ficara pronto.

Olivia já começava a relaxar. Nunca visitara um vinhedo, mas tudo o que vira naquelas fotos apregoava prosperidade, vida tranquila, muito sol, uvas doces e boa vontade. Mal podia esperar para ver as fotos dos anos 80 e 90, imaginava inúmeros netos na varanda da casa-grande, enfileirados junto com os pais nos largos degraus de pedra, reunidos em torno das mesas de piquenique para celebrar a colheita da uva.

Aquelas últimas fotos não precisariam de muitos reparos. Havia umas poucas manchas, uns poucos pontos em que a emulsão criara bolhas. Havia vários cantos dobrados, alguns causaram rachaduras, e alguns haviam sido enrolados. O maior problema - sempre o caso em seu trabalho - era o esmaecimento. Mas isso podia ser resolvido com uma certa facilidade, copiava-se a foto em papel de alto contraste e realçando a imagem com filtros. Apenas em casos raros, como as fotos de Dorothea Lange, havia um trabalho manual envolvido. As fotos de Natalie não precisariam. De um modo geral, acarretavam mais preservação do que restauração. Olivia trataria as fotos para serem arquivadas. Natalie fora categórica nesse ponto. Queria que suas fotos durassem para sempre.

Olivia pegou a carta, especulando o que ela planejava fazer com as fotos. Fora escrita em papel timbrado de Asquonset, marfim, com o logotipo em vinho, no canto superior esquerdo. Como o endereço na etiqueta de remessa, a carta fora escrita à mão. As letras fluíam, como Olivia imaginava que acontecia com a voz de Natalie.

Prezado Otis:

Em anexo segue a nova remessa de fotos. Continuo impressionada com os milagres que você conseguiu fazer nas fotos mais antigas. Estas são mais recentes. Infelizmente, há uma mancha de vinho no canto de uma das fotos do casamento de minha filha. Eu gostaria de poder dizer que foi vinho do casamento. Mas não foi. A mancha foi feita há pouco tempo... culpa minha, lamento dizer. Estávamos prestes a lançar o Estate Cabernet quando separei essas fotos. Minha mão já não é tão firme quanto antes. Mas é melhor vinho do que scotch, eu suponho, considerando o que fazemos para ganhar a vida.

Olivia sorriu. Natalie tinha um doce senso de humor.

Estamos nos aproximando do fim da minha coleção de fotos. Haverá um pacote que espero despachar na semana que vem. Como avisei no início do projeto, meu objetivo é que todas as fotos me sejam devolvidas até o primeiro dia de agosto. Isso me dará um mês para organizá-las da maneira como quero.

Em relação a isso, tenho um pedido afazer. Ocorre-me, com o tempo disponível agora, que precisarei de ajuda com a parte seguinte do projeto. Os verões são movimentados em um vinhedo e há muitas outras coisas acontecendo em minha vida. Assim, receio que não serei capaz de fazer justiça, na minha parte, ao excelente trabalho que você realizou com as fotos.

-Há um texto para acompanhar cada foto. Venho escrevendo aos poucos, com longos intervalos, e tem sido bastante terapêutico. Mas seis meses não é muito tempo para juntar a história de uma vida. Meus textos fragmentados precisam ser organizados e editados. Há partes que ainda nem comecei. Por isso, estou pensando em contratar um assistente para o verão. Preciso de alguém que saiba trabalhar num computador, mas ao mesmo tempo tenha olho para a arte.

Olivia empertigou-se. Tenho olho para a arte, pensou ela.

Quero alguém que seja organizado, meticuloso e uma companhia agradável. Preciso de uma pessoa curiosa, alguém que faça perguntas, investigue e me leve a dizer coisas que de outra forma eu guardaria para mim mesma.

Sou organizada e meticulosa, pensou Olivia. Também sou uma companhia agradável. Curiosa? Tenho milhões de perguntas a fazer! sobre as fotos que restaurei! ?

Pensei em contratar um universitário, talvez alguém no curso de inglês, mas tenho a impressão de que a maioria já foi embora para os lugares em que se costuma passar o verão, quaisquer que sejam. Estou pensando em pôr um anúncio no jornal de domingo, mas prefiro trabalhar com alguém por recomendação pessoal. Você fez um trabalho maravilhoso com minhas fotos, Otis. Cumpriu os prazos e foi profissional. Espero que tenha amigos em Cambridge com a mesma mentalidade. Sei que muitos têm propensões artísticas, mas com certeza alguns também devem ser hábeis com as palavras.

Ei! Um pequeno obstáculo aqui. Não se podia dizer que Olivia era inepta com as palavras. Não exatamente. Apenas tinha de se empenhar mais do que algumas pessoas para selecionar e pôr em ordem. Seria também disléxica? Não tinha a menor ideia. Passara pela escola antes da época de testes e classificações. Segundo as pessoas envolvidas, apenas era mais lenta no aprendizado. Mas aprendia. E fazia o que tinha de fazer. Podia demorar um pouco mais, mas o resultado final era bom.

A oferta de Natalie se tornou ainda melhor.

A casa-grande aqui em Asquonset tem muitos quartos vazios. Assim, posso oferecer casa e comida, além de um bom salário. O tempo é essencial. Acolherei qualquer recomendação que me fizer. . Meus agradecimentos,

Natalie

Quando largou a carta, os pensamentos de Olivia se agitavam. Passar o verão em Rhode Island seria um sonho... e ela podia conseguir, tinha certeza. Muito bem, não escrevia depressa... era até lenta. Mas podia trabalhar de noite e nos fins de semana para compensar. Podia fazer tudo o que Natalie queria que fosse feito. Sabia que podia. Não fazia todas aquelas coisas para Otis?

Otis... Oh, não! Otis queria que ela trabalhasse até o final de julho. Não podia sair antes. Devia isso a ele. Era um amigo.

Mas Otis estava se aposentando. Depois de julho, não seria mais seu empregador. Ele a abandonaria. Não, não era bem assim. Não seria um abandono. Ele a deixaria livre. Qual era o problema se ela se afastasse umas poucas semanas antes? Que mal poderia haver? Otis parara de aceitar novos trabalhos. Só restava concluir os trabalhos antigos. Ela trabalharia em horas extras até ir embora, e ele poderia fazer o pouco que restasse.

Tess adoraria Asquonset. O vinhedo ficava entre o rio Asquonset e o Atlântico, e ela adoraria o rio e o mar. Adoraria a quadra de ténis que havia na propriedade... Olivia já a vira em fotos. Tess também adoraria a casa-grande. E Natalie... ela adoraria Natalie. Natalie era a própria imagem da avó. Ou, melhor, da bisavó.

Um quarto e comida na casa-grande. Olivia morreria por isso.

E um bom salário ainda por cima? Ela se perguntou como Natalie definiria isso. Se o salário fosse mesmo bom, ela poderia contratar tutoras para Tess. E um bom dinheiro viria a calhar.

Jared se fora para sempre, e a mãe de Olivia estava entre os desaparecidos... eram dois fatos da vida bastante desagradáveis, mas agora atenuados pelo convite de Natalie Seebring.

Claro, claro... não era exatamente um convite. Mas o resultado final seria o mesmo.

Eu quero esse emprego, pensou Olivia.

Olivia teve um sono irrequieto. Queria o emprego em Asquonset, com uma intensidade que foi aumentando à medida que as horas passavam. Sabia que não era realista empenhar tanto seu coração. Havia dezenas de pessoas que eram mais qualificadas, pessoas que podiam escrever com facilidade e tinham treinamento formal... não que ela duvidasse de sua capacidade para realizar o trabalho. Claro que poderia fazê-lo. Tinha certeza de que era capaz. Além do mais, tinha uma coisa de que as outras pessoas careciam: já amava Asquonset. Ainda por cima, através das fotos, conhecia as pessoas e parte da história.

Mas Natalie a escolheria?

Quando finalmente dormiu, Olivia sonhou que conseguira o emprego. Ainda sonhava com isso na manhã seguinte, enquanto vestia e alimentava Tess para sair de casa. Mesmo enquanto andava, com a pasta e seu precioso conteúdo debaixo do braço, com a filha ao lado, seus pensamentos estavam a quilómetros dali.

O ar ainda estava parado, as ruas de Cambridge eram estreitas. Ao chegar à escola, Olivia fantasiava campos abertos e a brisa soprando do mar.

- Mamãe?

Tess fitava-a... a linda Tess, a cabeça na altura do peito de Olivia, os cabelos bem escovados, as sardas quase sem aparecer no rosto lavado, o corpo esguio de uma pré-adolescente. Os óculos estavam limPOS, empoleirados no alto do nariz. Parecia positivamente angelical para Olivia... exceto por sua expressão, que se situava entre a timidez e a aversão.

- O que devo dizer à Sra. Wright?

A Sra. Wright... essa não! Olivia esquecera por completo... reprimira, com certeza. Os problemas da escola de Tess eram uma provação permanente. A fuga durante a noite para Asquonset fora um doce interlúdio.

Diga a ela que temos uma solução, pensou Olivia, voltando no mesmo instante ao problema. Diga que teremos uma tutora cinco dias por semana durante o verão. Diga que quero que você passe para a quinta série com o resto de sua turma. Diga a ela, minha doce criança, que na próxima vez em que quiser falar comigo deve levantar o traseiro da cadeira e pegar o telefone. Mas Olivia se conteve.

- Diga a ela que ligarei esta manhã para marcar um encontro. E a procurarei no momento que ela quiser.

- Não quero repetir o ano. Olivia comprimiu um beijo com dois dedos no nariz da filha.

- Sei disso. Tess pegou os dedos e afastou-os.

- Não me importo se as outras crianças pensam que sou idiota! Mas, se repetir o ano, será como dizer que elas estão certas. Olivia teve vontade de chorar. Sempre se empenhara para que a filha não conhecesse aquele tipo de angústia.

- Algum dia essas mesmas crianças vão lhe pedir respostas declarou ela, veemente.

Tess parou de andar.

- Quando?

- Quando as porcas e parafusos da leitura ficarem em segundo lugar para a compreensão do material.

- O que está querendo dizer com porcas e parafusos?

- As partes diferentes. Como palavras. Pontuação.

- E a gramática? Detesto gramática. Posso escrever frases. Partes da linguagem são fáceis de usar. O difícil é lembrar o nome das coisas. Não sei por que tenho de fazer isso.

- Tem de fazer porque é uma exigência para passar para a quinta série. - A campainha para o início das aulas soou. - Tem de ir agora.

Tess parecia preocupada.

- Meu estômago dói.

Claro que doía. Ela estava prestes a enfrentar a escola sozinha. Do que Tess precisava era de uma melhor amiga. Precisava de alguém no pátio da escola que corresse ao seu encontro quando chegasse. Outras crianças se agrupavam com amigas. Olivia queria isso para Tess. Era uma doce criança. Era sensível... e bonita. Mas usava óculos de lentes grossas e tinha dificuldades na aula, o que fazia com que se tornasse o alvo de zombarias. Era o suficiente para partir o coração de Olivia.

- Pense apenas uma coisa, Tess. Só mais duas semanas.

E, depois, Asquonset? Asquonset podia romper o ciclo. Uma tutoria diária poderia ajudar. A brisa do mar poderia ajudar. Tess estaria confraternizando com crianças que não teriam como saber que ela não podia ler. Se a aceitassem, se a filha fizesse uma ou duas amigas, se tivesse uma experiência positiva para variar, poderia fazer uma diferença.

- Vou poder tomar as aulas de ténis? - perguntou Tess.

- Estou procurando dar um jeito.

- Não quero uma tutora.

- Se não tiver uma tutora, não poderá jogar ténis.

- Quer dizer que poderei jogar se tiver? Olivia estava acuada. - Veremos.

Ela apontou para a porta da escola. Tess olhou para o dedo esticado de rosto franzido. Ajeitou a mochila e começou a se afastar.

- Ei! - chamou Olivia, o tom gentil agora.

A menina parou, virou-se e voltou correndo, deu um abraço rápido e disparou para a escola.

Olivia observou-a, sentindo uma onda de amor, até que a filha se misturou com as outras crianças subindo os degraus. Mas assim que a porta foi fechada, depois da passagem da última criança, sua mente deslocou-se para o sul. Viu outra porta, que conhecia muito bem pelas fotos. Era uma porta de tela na casa-grande de Asquonset, dando para um pátio coberto por um toldo. O pátio oferecia uma vista do vinhedo, fileiras e mais fileiras de videiras, subindo por treliças, cada vez mais altas e mais encorpadas à medida que o verão avançava. Olivia podia ouvir o barulho da porta rangendo ao ser aberta, tinha até uma batida ao ser fechada. Era um som encantador.

Ela queria aquele emprego. Precisava daquele emprego. Preocupar-se com Tess era uma tarefa em tempo integral... testes, tutoras, reuniões com professoras, a tentativa de ajudar em casa. Deixava-a esgotada, mas ela não faria nada diferente. Tess era a melhor coisa que já acontecera em toda a sua vida... e a criança se esforçava ao máximo. Trabalhava até não poder mais para compensar o problema.

Mas agora teriam um verão de folga, ela e Tess. Trabalhar para Natalie não seria como trabalhar para Otis. Não seria nem como trabalhar.

Otis estava se recuperando, melhor do que ontem, mas ainda de mau humor... o que ficou patente para Olivia no instante mesmo em que ele passou pela porta.

- Estamos sem o fixador - disse ele direto, sem cumprimentá-la.

- Pedi a você que fizesse o pedido.

Olivia levantou-se.

- E eu fiz. - Ela comprimiu o pacote de Natalie contra o peito. Está na prateleira do depósito.

- Precisamos para as cópias de Brady. Eu disse que queria fazer esse trabalho hoje.

- Está no depósito. Tenho uma coisa para lhe mostrar, Otis.

O momento não era oportuno. Ele não seria receptivo. Mas Olivia não podia esperar. Tinha de agir agora.

Ele passou por ela. Foi até sua mesa, no outro lado da sala. Começou a folhear a correspondência do dia anterior. Olivia seguiu-o e estendeu o pacote.

- Isto também chegou. Ele franziu o rosto.

- O que é?

- De Natalie Seebring. Mais fotos. Mas havia uma carta acompanhando. Acho que você deve ler.

- Se ela não gostou do que fizemos, que se dane. - Mas ele estendeu a mão. - Mostre logo. Tenho muito trabalho para fazer.

Olivia entregou a carta. Esperou, impaciente, enquanto ele lia. A expressão de Otis continuou sombria. O momento não apenas não era oportuno. Era negativo. Mas se queria que Asquonset acontecesse, se queria superar candidatos mais qualificados, precisava dos elementos de entusiasmo e pressa.

Otis terminou de ler a carta, virou-a, olhou para o verso em branco, virou-a de novo. Lançou um longo olhar para Olivia. Ela se manteve firme. Otis leu a carta outra vez. Ao terminar a segunda leitura, ficou olhando para a carta por algum tempo. Olivia pôde sentir que o mau humor abrandara.

- Sei o que está pensando - murmurou ele.

Otis falou com um toque de tristeza, o que fez Olivia sentir de repente que estava sendo desleal. Não podia esquecer que Otis era patrão e amigo.

- Você vai se aposentar - argumentou ela. - Mais sete semanas e ficarei desempregada. Além do mais, você parou de aceitar novos trabalhos. Podemos acabar o que tem agora em duas semanas. Sem maiores problemas.

Como ele se mantivesse calado, Olivia acrescentou:

- Se não for possível, voltarei por um dia ou dois.

- Não é essa a questão. O problema... - Otis levantou a carta. ... é que será apenas um trabalho para o verão. Você precisa de um emprego fixo.

- Mas nada apareceu até agora. Continuarei a procurar. Posso fazer isso de lá. E ganharei mais algum tempo.

Ele franziu o rosto, pensativo.

- Acho que também não é essa a questão. Há mais alguma coisa. Tenho observado você trabalhar nas fotos da família. Tornou-se afeiçoada demais.

- Adoro fotos antigas. Eles eram ricos. Projetavam uma época em que a vida era mais simples e mais romântica.

- Essas mais do que as outras. Por quê? Olivia ficou sem graça.

-NãO Sei.

- Sabe sim. Natalie a envolveu por completo.

- Isso não é verdade. Nunca me encontrei com ela.

- Não a culpo - continuou Otis. - Ela fez a mesma coisa comigo uma ocasião. Sei como é. »

Olivia estava surpresa. ?

- Você a conhecia?

Ela presumira que Natalie era apenas outra cliente, atraída pela reputação do estúdio. Depois se lembrou do envelope amarelo com o nome de Otis. Horrorizada, tirou-o do envelope pardo grande.

- Desculpe. Isto veio junto com as fotos. Não abri.

Otis abriu, tirando um cartão amarelo. Começou a sorrir depois de apenas dez segundos de leitura. Era um sorriso constrangido, que perdeu mesmo depois que ele bateu com o punho no coração e revirou os olhos.

- Descartado de novo.

- Como?

- Ela vai casar outra vez. Houve uma época em que fantasiei que casaria comigo.

Olivia sentiu-se duplamente surpresa. Era um fator novo no relacionamento de Natalie com Otis. Um momento depois, ela registrou tudo o que ele dissera.

- Casar de novo? O que aconteceu com Alexander?

Olivia não vira fotos da última década, mas nunca lhe ocorrera que Natalie e Alexander não estivessem mais juntos. Isso era parte da imagem.

- Ele morreu.

Olivia deixou escapar um murmúrio de espanto.

-Quando? Como?

- Há seis meses. Teve um infarto. Olivia comprimiu a mão contra o peito.

- Sinto muito.

Ela jamais o conhecera pessoalmente, mas sentia sua morte como se fosse um velho amigo. Ele desempenhava um papel em quase todas as histórias inventadas para Natalie. Agora ele morrera e havia um novo homem na vida de Natalie. Era muita coisa para absorver.

- Quando vocês dois estiveram juntos? - perguntou ela.

- Há muito tempo. E foi mais uma iniciativa minha do que dela.

- Otis bateu com um dedo no cartão. - Obviamente.

Olivia ainda tentava processar a mudança abrupta em sua imagem de Natalie. Fez um esforço para projetar o rosto de um homem que não era Alexander, mas havia um branco.

- Quando é o casamento?

- No Dia do Trabalho, o prazo final para este trabalho. tísci O que levou Olivia a insistir em sua intenção:

- Ela precisa de ajuda para cumprir o prazo. É difícil, mas posso dar um jeito.

Otis suspirou.

- Mais uma vez tenho de perguntar sobre a causa da atração. Sei o que foi no meu caso. Natalie achava que eu era um pintor. Adorava meus trabalhos. Mas não é isso que atrai você.

- Ela parece simpática... o tipo de avó que todo mundo gostaria de ter.

- Ela não é sua avó, Olivia.

- Claro que não.

- Claro que não... - Otis tinha os olhos injetados naquela manhã, mas nem por isso pareciam menos perceptivos. - Está atrás de um sonho, menina. Imagina passar o verão na casa da família, com uma avó que cuida de tudo. Mas Natalie não é assim. Natalie cuida apenas de Natalie.

Claro que ele diria isso. Afinal, Natalie o descartara. Não seria normal se não se sentisse um pouco amargo ou magoado.

Olivia, porém, via apenas generosidade em Natalie. Era verdade que não tinha jeito de saber como um novo marido poderia afetar o quadro. Mas com ou sem casamento os fatos não mudavam.

- Ela está oferecendo casa e comida, além de um bom salário.

- A definição de "bom" para Natalie pode ser diferente da sua. Olivia não hesitou:

- Talvez sim, talvez não. De qualquer forma, preciso desse dinheiro, Otis.

- Mas não é uma perspectiva de carreira. É apenas um trabalho para o verão.

- Sei disso. - Desesperada para transmitir sua convicção de que era a coisa certa, Olivia acrescentou: - É o que torna a oportunidade perfeita. Pensei muito em tudo, Otis. Juro que pensei. Posso terminar o trabalho aqui e deixá-lo descansar. Poderá se aposentar sem a consciência culpada, porque terei outro emprego que me interessa. Não preciso sequer abrir mão do apartamento. Posso sublocá-lo durante o verão. Não terei problemas se o quiser de volta no outono. As aulas de Tess terminam em duas semanas. Podemos fazer as malas e partir para Rhode Island no dia seguinte.

- Como sabe que Natalie aceitará Tess?

- O que há para não aceitar? Ela mesma disse na carta... há bastante espaço em Asquonset. Tess é uma menina pequena. Será quase invisível. Arrumarei uma tutora. Darei as aulas de ténis. Contratarei uma adolescente para ficar com ela enquanto trabalho. Entre o rio e o mar, há muita coisa para uma menina fazer. Natalie está acostumada a netos. Aposto que haverá muitos no vinhedo. Ela pode até ter bisnetos.

Olivia teve outra ideia.

- Tess pode até tomar conta dos bisnetos. De graça. Otis não parecia impressionado.

- Não creio que haja bisnetos. Até onde eu sei, não há nem mesmo netos correndo por lá. Eles cresceram longe. Por que acha que ela tem quartos extras na casa?

- Porque a casa é enorme. E os netos podem viver em outros lugares, mas no verão voltam para uma visita. Asquonset é um lugar de veraneio sensacional.

- Como sabe disso, Olivia? - Simplesmente sei. O instinto lhe dizia que era assim. Era verdade que o instinto já a enganara no passado, em particular em relação a homens. Mas desta vez era diferente.

- Talvez tenha apenas se cansado de Cambridge.

- Não é isso.

- Passou mais tempo aqui do que em qualquer outro lugar.

- Porque meu emprego era muito bom. Mas meu patrão está se aposentando. Puxando o tapete de baixo de meus pés.

- Por isso você decidiu largá-lo primeiro, não é? Olivia lançou-lhe um olhar contido.

- O que fará com Ted? - perguntou Otis.

- Ted não está nos meus planos.

- Já disse isso a ele?

- Não. E ainda não tenho o emprego garantido.

- Mas você quer.

- Quero.

- Pelo dinheiro?

-PorTess. - E se o dinheiro não for bom?

Olivia não estava preocupada. Um "bom salário" devia ser pelo

menos razoável, e, mesmo que não fosse, casa e comida contavam alguma coisa, sem mencionar a proximidade do mar e o uso de uma quadra de ténis. Só a mudança de paisagem já valia alguma coisa. Otis empurrou um bloco e uma caneta em sua direção.

- Escreva o que você quer. ??

- O que eu acho que ela deve pagar?

- O que quiser. O que acha que fará com que o esforço valha a

pena.

Olivia não podia fazer isso. Qualquer coisa que escrevesse seria demais. E se sentiria embaraçada.

- Está bem. - Otis puxou o bloco. - Eu farei isso.

Ele escreveu uma quantia que era mais ou menos o dobro do que

pagaria durante o verão, se não estivesse se aposentando. Enquanto olhava para a cifra, um pouco atordoada, mas já pensando no que tanto dinheiro assim poderia comprar, Otis pegou o telefone, pegou a carta de Natalie e digitou os números. - O que está fazendo? - indagou Olivia, alarmada.

Ela tinha a súbita visão de todo seu plano arruinado por uma palavra equivocada.

- Poupando algum tempo. Vamos ver se estamos na mesma sintonia.

Olivia quase o deteve. Não queria saber... se saber significava o fim de seu sonho.

Mas a ligação foi completada antes que ela pudesse reagir. No instante seguinte, Otis cumprimentava Natalie como a velha amiga que ela parecia ser. Houve um minuto de conversa cordial... sobre as fotos já feitas, a nova remessa, o casamento iminente. Mais uma vez, Olivia tentou projetar um noivo apropriado para Natalie, mas Cary Grant foi o único rosto que aflorou em sua mente, e ele já morrera há muito tempo.

Otis pediu a Natalie detalhes sobre a assistente que procurava.

com os braços envolvendo a cintura, Olivia ficou olhando para o bloco, enquanto ele anotava as respostas para suas perguntas. Digitação e editaria de texto. Escrever anotações. Manhãs com Natalie, tardes sozinhas, de segunda a sexta; fins de semana livres. Acomodações numa ala separada da casa. Comida incluída. Bichos de estimação? Não. Crianças? Sim. Remuneração?

Olivia continuou a prender a respiração por muito tempo depois que Otis escreveu a resposta. Era a sorte grande para alguém como ela... uma quantia incrível, para qualquer padrão. Ela pressionou as pontas dos dedos contra a boca para conter um grito de alegria.

Otis também parecia surpreso. Pediu a Natalie para repetir a cifra e bateu no papel com a caneta, para confirmar que era correto o que escrevera.

Olivia ouviu fragmentos do resto da conversa, coisas como "muito generosa... sim... lição de história... limpar o ar", mas as palavras passaram flutuando. Animada além do imaginável, ela deixou que os pensamentos seguissem por um novo rumo. Até aquele momento, pensara no dinheiro para uma tutora. O que Natalie oferecia agora abria outra porta.

Quando Otis desligou, Olivia já abrira a última gaveta de sua mesa e tirara um folheto. Voltou à mesa de Otis e estendeu o folheto para que ele visse. Era o catálogo de Cambridge Heath, uma escola particular que atendia os filhos dos professores da universidade que tinham deficiências de aprendizado.

Olivia não era professora universitária... nem chegava perto. Nunca chegara sequer a entrar na universidade. Formara-se no curso secundário com a maior dificuldade e começara a trabalhar em seguida. Considerava-se uma artista agora... uma descrição de Otis, muito antes de se tornar sua. Era assim que se anunciava nos pedidos de emprego que enviava. Calculava que qualquer escola na área de Cambridge tinha um punhado de pais como ela.

De qualquer forma, Tess era de fato filha de um professor universitário. Jared não era professor na Universidade da Carolina do Norte na ocasião de sua morte? Isso devia valer alguma coisa.

E, se não valesse, haveria outras escolas. Na verdade, ela se lembrou, animada, havia uma escola como Cambridge Heath em Providence. E Providence era uma cidade em ascensão. Olivia enviara currículos para museus e galerias de arte ali. Providence ficava perto de Asquonset. Seria um prazer continuar próxima de Natalie depois que o verão acabasse.

E havia sempre a possibilidade, é claro, de que tudo desse certo no vinhedo e o emprego de verão poderia evoluir para algo mais... uma sexta-feira permanente, uma secretária social. As perspectivas eram bastante promissoras.

Não que ela estivesse contando com tudo isso, mas sonhar não fazia mal. Otis pegou o folheto e deu uma olhada até às condições no final. Leu o que Olivia já sabia de cor. Ela sonhava muito tempo antes de tomar conhecimento da existência de Natalie Seebring.

- Isso é ótimo - comentou Otis, irónico. - Terá condições de pagar a escola por um ano. E depois?

Olivia recusava-se a sentir qualquer desânimo.

- Ou Tess consegue uma bolsa de estudo ou eu arrumo um empréstimo. Mas ela tem de ir para lá primeiro. Se não for assim, não há possibilidade. Não sou ninguém. Não tenho contatos. O Estado diz que Tess recebe tudo o que precisa na escola pública, mas ela detesta. Há uma boa professora para o próximo ano, mas não tenho qualquer garantia de que ela ficará com essa professora. Além disso, a professora deste ano deixou-a tão retraída em termos emocionais que a próxima terá o dobro do trabalho... presumindo que eu possa convencê-la a deixar Tess passar de ano.

Olivia pôs a mão no folheto, firme, mais determinada do que nunca agora que estava ao alcance o que tanto queria para Tess.

Tess precisa estudar numa escola assim. Não percebe, Otis? É a

nossa chance!

Mas ainda havia um grande obstáculo a transpor. Era muito bom falar sobre o emprego, sobre escolas particulares, pensar que talvez sua sorte estivesse mudando... mas ainda era preciso que Natalie a contratasse.

- Posso dar um jeito - declarou Otis, o que era a ideia de Olivia. Ela se limitou a balançar a cabeça. Ficou esperando, quase sem respirar.

Quero que você ganhe esse dinheiro - acrescentou Otis. - E a outra coisa que me preocupa. O sonho.

- Não estou sonhando. vou atrás desse emprego com os olhos bem abertos.

- E não adoraria ser parte daquela família?

- Claro que sim. Quem não gostaria? Mas não sou uma Seebring. Nunca serei uma Seebring.

- Enquanto você compreender isso, está tudo bem.

- Eu compreendo, Otis. E compreendo muito bem. Como você disse, é um trabalho de verão... uma ponte entre meu emprego aqui e outra coisa. Se for divertido, terei boas recordações. Mas essa não é a melhor parte. A melhor parte é que minha filha terá uma coisa de que precisa, e que de outra forma não teria. Quero o emprego por ela, Otis. Você também não faria a mesma coisa se ela fosse sua filha?

Semanas depois, usando shorts brancos e ténis novos, uma de blusa verde, a outra de blusa azul, Olivia e Tess partiram para Rhode Island. Deixaram para trás uma estudante de direito exultante com sua sublocação para o verão, um restaurador de fotos a caminho da aposentadoria e Ted, atordoado, parado na calçada.

- Ele está com as mãos nos quadris - informou Tess, olhando pelo espelho lateral. - Por que ficou tão zangado?

Olivia recusou-se a olhar para trás. Adquirira em sua vida o hábito de não olhar para trás. Depois que uma decisão era tomada e um caminho determinado, só se podia olhar para a frente. Isso dito, ela ficou triste ao se despedir de Otis e sentiu uma pontada de pesar por deixar o apartamento. O que sentia em relação a Ted, porém, era um profundo alívio.

- Ele não está zangado - disse Olivia a Tess. - Apenas magoado. Queria que passássemos o verão aqui com ele.

- Fazendo o quê? Passeando de pedalinho? Ted só pensa em fazer isso. Nunca lhe ocorreu que gosto de ver vitrines e fazer compras.

Também não ocorrera a Olivia. Na família, as compras sempre haviam sido mais funcionais do que uma diversão. Mas Olivia tinha uma imagem do que as pessoas vestiam no verão em Asquonset - em Particular em verões de festas precedendo um casamento - e não era - que tinha em seu closet. Não queria embaraçar Natalie, e o noivo Podia ser ainda mais elegante. Ele ainda era um enorme ponto de interrogação. Olivia imaginara um barão do vinho, proprietário de vinhedos na França, até que Otis informara que seu nome era carl Burke. Como nunca ouvira falar de famílias irlandesas que produziam vinho, ela projetou um irlandês-americano, dono de um vinhedo na Califórnia. Imaginou-o distinto, elegante, um homem refinado. O tipo de homem que se cercava de pessoas distintas, elegantes, refinadas.

Como esse círculo incluiria temporariamente Tess e ela, Olivia afrouxou os cordões da bolsa e levou a filha às compras. E, subitamente, a menina que usava apenas camisas de malha e jeans tornou-se uma nova criatura. Experimentou shorts coloridos, blusas de alças, saias curtas, vestidos para o verão - não apenas experimentou, mas vestiu como uma modelo - e ficou adorável em tudo, porque sorria. Em roupas diferentes, era uma pessoa diferente. Olivia não precisava de um psiquiatra para dizer o que isso significava.

Asquonset era um novo começo e ela tinha de agradecer a Otis. Ela nem precisara comparecer a uma entrevista pessoal. Natalie a contratara apenas pela recomendação de Otis.

Ted ficou consternado.

- Mas você não quer conhecer o lugar para onde vai? Muito bem, viu as fotos. Mas as fotos não podem lhe dizer o que precisa saber. As fotos não dizem a verdade. É evidente que ela só mandou as que mostram a melhor imagem da propriedade... é assim que todo mundo faz.

Olivia achou que não valia a pena argumentar. O pessimismo de Ted era de uvas azedas. Ele recusava-se a perceber que o relacionamento estava acabando. Insistiu em dizer que telefonaria todas as noites, que se encontrariam para jantar em algum lugar entre Cambridge e Asquonset, até mesmo pegaria o carro para ir visitá-la. Olivia tentou descartá-lo gentilmente, dizendo que precisava descobrir como seria o emprego, até que ponto poderia ser exigente. Como Ted não percebesse a insinuação, ela foi mais brusca. Disse que se sentia sufocada. E que precisava de espaço.

Mesmo assim, ele não deu atenção. Não ouvia o que não queria ouvir e esse era o seu problema. Mas Olivia não permitiu que Ted criticasse o seu sonho. Recusou-se a deixar que ele menosprezasse Asquonset.

- As fotos que me mandaram não eram de marketing. Foram tiradas antes de alguém sequer saber o que era marketing. Algumas eram de câmeras antigas. São autênticas.

Otis confirmara. Quando pressionado, confessara que estivera várias vezes em Asquonset. Conhecera carl Burke? Não lembrava, mas recordava-se muito bem da casa-grande. E comentara que era ainda mais bonita do que nas fotos... um elogio e tanto para um homem rejeitado.

Além do mais, Olivia e Natalie haviam conversado pelo telefone. Natalie não se importava com o fato de Olivia não ter um diploma universitário. Gostara do que Olivia fizera com as fotos de Asquonset. Também achava que as cartas que ela escrevera, em nome de Otis, demonstravam suficiente habilidade na redação. Gostou das perguntas de Olivia enquanto conversavam e insistiu que ser organizada, simpática e devotada - como Olivia fora com Otis - eram atributos mais valiosos do que credenciais formais. Ao final, ela declarou que aprendera a confiar em seu instinto, e o instinto lhe dizia agora que havia um vínculo favorável entre as duas.

O mesmo aconteceu com Olivia. Ao longo de três conversas, saiu com a convicção de que Natalie queria contratá-la tanto quanto ela queria o emprego. A parte cética de sua natureza não sabia se o vínculo fora o fator decisivo, se Natalie se sentia culpada por ter rejeitado Otis tantos anos antes ou se simplesmente queria contratar alguém logo de uma vez e encerrar aquele assunto. Olivia sabia que era fácil conversar com Natalie, tanto quanto imaginara que seria o contato com uma avó jovial. Natalie era extrovertida e entusiasmada. Era flexível. Era ansiosa em agradar.

A melhor parte, porém, fora a sua aparente satisfação pela perspectiva de ter uma criança na casa.

- E você acredita nisso? - indagara Ted, com uma risada desdenhosa.

Se aquele homem já não pertencesse à história para Olivia, a risada seria a gota d água. Tess era seu orgulho e alegria. Ressentia-se da Sugestão de que alguém pudesse considerar que a criança era uma chatice.

- Claro que acredito. Ela fez de tudo para nos agradar. Arrumou uma tutora. Descobriu um professor de ténis. Até providenciou para que Tess tivesse aulas de barco à vela no iate clube local.

- Entrevistou a tutora? Por tudo o que você sabe, pode ser uma garota da escola secundária ansiosa em ganhar alguns dólares extras. O mesmo em relação ao professor de ténis. E se Tess precisa mesmo ter aulas de navegação num barco à vela poderia fazer isso na casa de meus pais em Rockport.

Se nada mais, sou grata por poupar Tess desse suplício, pensou Olivia. Conhecera os pais de Ted. Acompanhá-los a um restaurante fora um pesadelo de reclamações... louça suja, serviço péssimo, comida meio crua, comida cozida demais, pedidos errados. Eram tão tensos quanto o filho. Olivia não queria a filha perto de gente assim.

- E pense como mãe - acrescentou Ted, batendo o último prego em seu próprio caixão. - Como pode levar sua filha para um lugar sem fazer um reconhecimento antes... e, por falar nisso, como pode levá-la para fora durante todo o verão quando ainda não tem um emprego para o outono? Se fosse eu, ficaria aqui, procurando um novo emprego. E se não se importa por você mesma deveria pelo menos se preocupar com Tess. As mães responsáveis não fazem isso... não é uma atitude inteligente.

Não é inteligente! Olivia, que já era bastante sensível por não ter um diploma universitário, numa cidade em que a maioria das pessoas tinha três, sentiu-se ofendida.

- Deixe-me dizer uma coisa - declarou ela, um tanto ríspida. Quando você tiver filhos, pode pensar no que for inteligente para você. Para minha filha, eu farei o que acho que é inteligente.

E ponto final. Alguns dos argumentos de Ted talvez até tivessem um certo mérito se ela não sentisse tanta convicção de que ia fazer o que era certo. Era um pressentimento que experimentara no instante em que lera a carta de Natalie.

Além do mais, a confiança era da maior importância, e naquele caso funcionava nos dois sentidos. Se Natalie podia contratá-la sem jamais tê-la visto, Olivia podia aceitar o emprego nas mesmas condições.

Depois, veio o sonho. A primeira parte era real... crescer numa cidadezinha de Vermont que recebia a turma do esqui de Nova York, filha única de uma mulher que era pouco mais que uma criança. Olivia foi criada pelos vizinhos até ter idade suficiente para usar uma chave pendurada no pescoço. A essa altura, Carol Jones trabalhava com um corretor de imóveis local e confraternizava com a turma do esqui de Nova York. No sonho, Olivia reviveu as noites em casa sozinha, com medo do escuro, com medo dos sons furiosos do senhorio por baixo, sem saber onde a mãe se encontrava e apavorada com a ideia de que ela nunca mais voltasse.

A segunda parte do sonho era a mais interessante. Nela, Carol Jones voltava uma manhã não com um amante, mas com sua própria mãe.

Olivia nunca conhecera a avó. Fora informada de que ela morrera, o que era a explicação mais fácil para Carol. Mas Olivia mantivera a chama viva. Durante as horas mais solitárias de sua infância, encolhida em seu esconderijo, o canto de um closet escuro, onde se sentia segura, inventava dezenas de histórias para justificar a ausência de uma avó. E também imaginava uma dúzia de reuniões diferentes.

No sonho, a avó, que surgia do nada numa manhã de sol, era uma mulher de recursos. Passara muitos anos à procura da filha - a filha voluntariosa, rebelde e grávida - que fugira para contrariar os pais, e depois se sentira assustada demais para voltar. Um investigador particular depois de outro desistira do trabalho, mas a avó persistira. Graças a uma foto antiga de Carol, meticulosamente restaurada, muito parecida com Olivia, a avó conseguira descobri-la.

E aquela avó meiga e obstinada, que tivera êxito em sua busca depois de tanto tempo, tinha o rosto de Natalie Seebring.

Claro que era apenas um sonho. Pensando a respeito, no entanto, enquanto o velho Toyota as levava para o sul, Olivia considerou que era um presságio. Seu excitamento aumentou.

Infelizmente, a ansiedade de Tess também aumentou. As perguntas se sucediam, sem parar:

- Onde vamos morar?

- Na casa-grande. Uma ala da casa está vazia. Ficaremos lá. Já lhe disse isso, Tess.

- Vazia? Também é assombrada? - Não se preocupe. São fantasmas simpáticos. - Mamãe! -Não há fantasmas, Tess. Nenhum. - Que idade tem o homem com quem ela vai casar?

- Não sei.

- E se todos forem velhos? Velhos não gostam de crianças.

- Gostam sim, desde que as crianças se comportem.

- E se eu deixar as pessoas nervosas? Quem mais está na casa de Natalie?

- Por favor, Tess. Nada de Natalie. Sra. Seebring.

- Você a chama de Natalie.

- Não pessoalmente. Além do mais, sou adulta.

- carl também mora lá? Olivia suspirou.

- É Sr. Burke, e não sei se ele mora ali.

- Tem uma cozinheira? Uma arrumadeira? Um mordomo?

- Não sei.

- Acho que não vou aprender a velejar.

- Claro que vai.

- Falou com a Cambridge Heath?

- Falei. Estão analisando seu pedido de matrícula.

Olivia falara com o responsável naquela manhã. com medo de que alguma coisa pudesse se extraviar, tinha uma pasta com o formulário de Tess e com os registros médicos. Uma segunda pasta continha folhetos de Braemont, em Providence, e de escolas similares em três outras cidades da Nova Inglaterra, em que também havia museus onde Olivia poderia encontrar um emprego. Uma terceira pasta continha cópias de seu currículo e das cartas que já enviara. Planejava mandar uma carta informando seu endereço durante o verão. Era uma desculpa tão boa como outra qualquer para lembrar que estava viva e continuava a procurar um emprego.

- E se eu não entrar?

- Se você não entrar, será apenas porque não havia nenhuma vaga na quinta série - explicou Olivia pela milésima vez. - Neste momento a turma está completa. Estão esperando que uma ou duas crianças cancelem a matrícula durante o verão.

- Por que alguém faria isso?

- As pessoas se mudam. Os pais aceitam um emprego em outra parte do país.

- E se isso não acontecer?

- Se não acontecer, pediremos uma vaga para o próximo ano.

- E o que eu farei este ano?

Se mudassem para outra cidade, haveria outra escola pública, com a possibilidade de uma professora melhor e um programa melhor para uma criança como Tess. Se não, Olivia simplesmente não sabia o que faria. Sua reunião com Nancy Wright não correra muito bem. O problema é demográfico, alegara a mulher, com mais do que um pouco de arrogância. Nosso corpo docente está à frente da maioria. Não podemos prejudicar todas essas crianças para atender umas poucas que ficaram para trás. Olivia tivera de procurar a diretora e pressionar antes que finalmente concordassem em passar Tess para a quinta série. Mas deixaram evidente que faziam isso com maior relutância e que Olivia era responsável pela mudança. Se alguma coisa saísse errada, disseram elas expressamente, a escola não seria culpada.

E esse, em suma, era o problema com a escola onde Tess estudava. A mentalidade era de oposição: eles contra nós. Não havia o senso de parceria, o senso de trabalho comum pelo bem da criança. O processo deixara Olivia mais convencida do que nunca de que Tess precisava de alguma coisa diferente.

Olivia estava focalizada nesse pensamento quando deixaram a autoestrada. Pegaram a estrada local, seguindo as instruções de Natalie. Ela especulou sobre o que aconteceria se estragasse tudo e não conseguisse fazer o trabalho. Escrever cartas não era nada em comparação com escrever um livro. O computador conferia a ortografia e a gramática, mas não expressava as ideias e não ligava uma com a seguinte.

A verdade? Aquele trabalho era decisivo para ela. Se o perdesse em uma semana, não haveria verão no mar... nada de chá gelado na varanda, piqueniques ou barcos à vela. Não haveria horas perdidas no passado. Não haveria referências favoráveis de Natalie, contatos na Califórnia através de Carl, nenhuma ajuda de um amigo poderoso que podia conhecer alguém no conselho de administração de um museu que tinha um departamento de restauração. Se Olivia estragasse tudo, não receberia o pagamento prometido, e sem isso poderia se despedir do sonho de mandar Tess para Cambridge Heath.

Portanto, talvez fosse irresponsabilidade sua, como mãe, ter despertado as esperanças da filha. Mas como não fazê-lo? Tess tinha de ser entrevistada, fazer alguns testes, Olivia não podia apresentar um pedido de matrícula sem o seu conhecimento.

Passaram por uma placa indicando o limite da cidade de Asquonset. O carro parecia abafado, Olivia sentia-se tão apavorada quanto estava excitada. Imaginou que Tess sentia a mesma coisa.

A estrada era ladeada por arbustos baixos, um ou outro bordo ou carvalho. As poucas casas pareciam em péssimas condições. Havia uma peça enferrujada de equipamento agrícola no início de um caminho de terra, um caminhão quebrado num campo mais adiante. Se não soubesse melhor, Olivia pensaria que estava chegando a uma cidade em agonia.

Mas ela sabia melhor. Havia campos bem cuidados além do caminhão, com dois elegantes cavalos pastando no meio. Além do mais, segundo o site de Asquonset na Internet, o vinhedo era próspero. No ano passado, produzira sessenta mil caixas de vinho, em comparação com cinquenta e cinco mil no ano anterior. A previsão para este ano era ainda maior. Os vinhos de Asquonset eram apreciados em toda a Costa Leste. Eram servidos nos melhores restaurantes, os tipos mais baratos eram comprados para consumo doméstico, e tudo isso aumentaria ainda, se o iminente casamento de Natalie representasse a união entre duas grandes vinícolas. Não, não havia nada de agonizante ali. Uns poucos casos de tinta descascada nos arredores da cidade não a deixariam desanimada.

Em termos mais objetivos, não tinha a menor intenção de julgai um livro pela capa. Desperdiçara energia demais em sua vida fazendo isso. Apaixonara-se pelo cérebro de Jared, a intensidade de Ted, a voz de Damien e os doces árabes de Peter. Nenhum dos quatro jamais oferecera muita coisa em termos de relacionamento.

Agora Olivia tinha roupas novas, um emprego novo e uma cidade nova. Aquele era um novo dia. Ela estava virando uma nova página.

O centro de Asquonset surgiu quando as instruções de Natalie diziam que isso aconteceria. Era pouco mais que uma encruzilhada, com uma lanchonete numa esquina, o armazém-geral Pindman s em outra, uma construção típica de Cape Cod que parecia alojar um advogado, um veterinário e um psiquiatra na terceira esquina e uma casa particular na última. Todos os quatro prédios eram variações da estrutura de madeira, com a lanchonete baixa e comprida, o armazém estreito e alto, o prédio de escritórios e a casa particular em posições intermediárias. Todos os quatro prédios eram amarelos e nenhum dava a impressão de ter sido pintado recentemente... embora Olivia tivesse a impressão de que a aparência esmaecida era deliberada. Um casal saindo do prédio profissional parecia bem-vestido e contente, assim como os dois meninos sentados nos degraus do armazém. Bandeiras americanas tremulavam, orgulhosas. As caixas de correspondência tinham os números bem pintados. Um caminhão de entrega da FedEx aproximou-se pela direita de Olivia. O motorista buzinou e acenou para um grupo de vinte e tantas pessoas, sentadas em bancos, junto da lanchonete.

Era mesmo uma aparência deliberada, pensou Olivia. O centro da cidade tinha idade e um charme cultivado. Ela desconfiava de que havia histórias maravilhosas sobre as origens do Pindman s ou as várias encarnações do prédio de escritórios. Sem falar na lanchonete, que não podia deixar de ser o eterno ponto de encontros. Ela voltaria com sua câmera para fotografar aquela encruzilhada... e mais de uma vez.

A estrada começou a subir. Olivia passou por um prédio de alvenaria pequeno, com a placa a indicar Prefeitura, e uma garagem enorme, com a placa de Corpo de Bombeiros. Alcançaram o alto da ladeira, onde havia uma linda igreja branca. Seu campanário era luminoso contra o céu azul-claro. Mas o que deixou Olivia atordoada foi a vista do mar além.

- Olhe! - exclamou ela.

- Estou com fome - resmungou Tess.-Não há restaurantes por aqui?

- Lá está o mar!

Mas a vista já fora obstruída pela vegetação. A estrada virou, seguindo para o interior. Olivia estava exultante.

- Vai ser maravilhoso! ? Ela abaixou a janela e sentiu uma lufada de ar quente, com o cheiro do mar.?

- Preciso ir ao banheiro - anunciou Tess.

- Espere mais um pouco. Não podemos estar a mais de três quilómetros do vinhedo.

- Mas não há nada aqui.

Tess tinha razão. Naquele momento Olivia avistava apenas campos áridos e árvores esparsas.

E depois o vinhedo apareceu... não o vinhedo, na verdade, apenas a placa, mas o efeito foi o mesmo. Era destacada, surpreendente em suas cores fortes, num mundo em que todo o resto parecia abafado. O cacho de uvas se derramando do copo de vinho estava pintado numa cor gloriosa. Em vez do que se podia esperar, as letras pintadas na cor vinho, o nome do vinhedo estava gravado em dourado.

com o coração batendo forte, Olivia virou à esquerda, numa estrada estreita, coberta por cascalho, que rangia sob os pneus. A estrada ondulava, sempre seguindo para o interior, ora subindo, ora nivelando, ora clareando com milharais, ora escurecendo com pequenos bosques de cedros e bétulas.

- Onde está a casa? - perguntou Tess depois de um minuto. Olivia estava esperando, atenta, pensando a mesma coisa. Subiram por outro aclive e os campos mudaram. Havia agora muros baixos de pedra ao lado da estrada. Embora a vegetação ali crescesse em fileiras, como os milharais, era bem baixa. Olivia fizera o dever de casa.

- É uma plantação de batatas - informou ela a Tess. - Os Seebring cultivam as duas coisas... milho e batata.

- Pensei que eles cultivavam uvas.

- Cultivam agora, mas nem sempre foi assim. As batatas vieram primeiro. Eram a cobertura durante a Lei Seca.

- Como assim?

- As pessoas não tinham permissão para vender vinho durante a Lei Seca. Para todos os propósitos oficiais, Asquonset vivia do cultivo de batata e milho.

- Mas cultivavam uvas e vendiam vinho?

- Isso mesmo, embora numa escala muito menor do que agora.

- Então eram criminosos.

Olivia não queria que Tess pensasse que era uma coisa ilegal, muito menos que perguntasse alguma coisa a Natalie.

- A Lei Seca era muito impopular. A maioria das pessoas era contra. Por isso, não durou muito. Foi uma péssima ideia, desde o início. Abaixe sua janela, Tess.

Olivia aspirou fundo enquanto a filha abaixava a janela.

- Sente o cheiro?

Tess farejou.

- Sinto cheiro de terra.

- E é terra mesmo, fértil e úmida.

- Se tiver urtiga por aqui, estou perdida.

- Não tem urtiga. E eu trouxe o remédio, e nunca tem qualquer problema quando trago o remédio.

Tess não respondeu. Inclinava-se para a frente, até onde o cinto de, segurança permitia, esquadrinhando o terreno à frente. ?

- Mas onde está o vinhedo?

Olivia guiou o carro por uma curva na estrada, passando por um campo que à primeira vista parecia apenas de mato baixo. Só depois é que ela notou as estacas, os arames e um padrão de plantação. Exultante, ela declarou:

- Está bem ali!

Enquanto o carro avançava devagar, um mundo de videiras em treliças ficou delineado, as fileiras meticulosas, os troncos nodosos, os galhos com folhas verde-claras, os lados podados, tudo preparado para o máximo de exposição ao sol.

Algumas fileiras tinham placas. Chardonnay, dizia uma. Mais adiante outra dizia Pinot Noir.

Olivia ficou toda arrepiada. Não tinha importância que as bolinhas crescendo nas videiras em junho tivessem apenas uma remota semelhança com uvas. Depois de contemplar Asquonset no papel durante meses, ela sentia que se encontrava na companhia de celebridades.

Não, não era essa a analogia certa, ela compreendeu. Celebridade era uma coisa superficial. O sentimento ali era quase religioso. Guiando mais devagar pela estrada de cascalho flanqueada por descendentes das videiras que há centenas de anos produziam, os preciosos vinhos europeus, ela sentia-se emocionada. E a reverência parecia mútua. Olivia imaginou que o vinhedo se abria para lhes dar passagem, tornando a se fechar em sua esteira.

- O que dizem as placas, mamãe?

- São os nomes das uvas. Deve ser a seção. As uvas à sua direita chamam-se Pinot Noir. Sabe que lado é.

Tess muitas vezes se confundia. O que não aconteceu desta vez. Apontou para a direita, depois trocou de lado.

- E aquela?

- Riesling - leu Olivia, para depois soltar um grito de espanto.

- Ei!

Um homem levantara entre duas fileiras de videiras.

- Quem é ele? - perguntou Tess.

- Acho que é um dos trabalhadores.

- De onde ele veio?

- Devia estar agachado ali.

Empertigado agora, o homem era dois palmos mais alto do que as treliças. Tinha cabelos castanho-avermelhados, pele queimada do sol, ombros largos. Vestia uma camiseta marrom, com as mangas cortadas, um rasgão no pescoço. Usava óculos escuros, mas era evidente que olhava para as duas.

- Por que ele se agachava ali? - Estava trabalhando.

- Por que ele olha para nós desse jeito? - Pura curiosidade. Somos estranhas.

- Mamãe, por que você diminuiu a velocidade? - murmurou Tess pelo canto da boca. - Ele não parece nem um pouco simpático.

Não parecia mesmo... mas Olivia não percebera que olhava fixamente para o homem, nem que diminuíra a velocidade. Tornou a olhar para a estrada e acelerou um pouco.

- Espero que nem todos sejam como ele - comentou Tess depois que se encontravam a uma distância segura. - Ele não quer a gente aqui.

- Por que diz isso?

- O rosto dele dizia.

Olivia achava que era um rosto bastante atraente. Um rosto sombrio e determinado, mas atraente.

- Mas onde está a casa? - indagou Tess.

- Deve estar próxima.

- Chegaremos ao rio daqui a pouco.

Ela estudara os mapas e se lembrava da narrativa da mãe. Sabia que o rio ficava à frente, se o mar estava para trás. Não resta a menor dúvida de que ela é inteligente, pensou Olivia. É verdade que carecia de noção de distância, o que tinha mais a ver com inexperiência do que com dislexia. Não compreendia que ao avançarem lentamente, subindo, dando voltas, haviam percorrido apenas um quarto da península que a família Seebring possuía.

E foi então que a casa-grande apareceu. Surgiu de repente, de uma forma surpreendente. Na verdade, já podia ser vista antes, mas se encontrava tão emoldurada pelas árvores no alto do aclive que parecia oculta. Mas também era possível que Olivia estivesse tão absorvida pela visão das videiras que não percebera a casa. Era diferente das fotos que ela restaurara. Não parecia tão grande e exuberante ao ser vista pessoalmente. O primeiro andar era formado por blocos de pedra, unidos por argamassa, ensombreados pelo telhado inclinado da varanda. O segundo andar era de madeira, acinzentada pela maresia. Os dois andares se fundiam numa fachada rude e solene.

Não era assim nas fotos. A parte de cima e a de baixo pareciam gentis e distintas. Por um instante Olivia teve o terrível pensamento de que criara no laboratório algo que não existia... pior ainda, criara em sua mente algo que não existia.

Muito bem, raciocinou ela. Sem um ponto de referência, a perspectiva muitas vezes se perdia nas fotos. Na avaliação da casa-grande, ela se baseara nas árvores. Mas as árvores podiam ser maiores ou menores. Se Olivia as imaginara maiores do que eram na vida real, a casa-grande também pareceria maior.

E havia ainda o fator da idade. O Asquonset com que ela trabalhara era muito mais novo do que tudo o que via agora. Era inevitável que algumas coisas fossem diferentes. Mas as janelas eram as mesmas, grandes, bonitas, com vários caixilhos, abertas agora. E o telhado de telhas de madeira também era o mesmo.

A fachada curtida pelo tempo podia ser rude e sombria, mas tinha os olhos abertos, as sobrancelhas alteadas em curiosidade, enquanto elas se aproximavam. com as pequenas nuvens brancas flutuando por cima do telhado e o vinhedo derramando-se por baixo, a casa-grande de Natalie Seebring ainda era uma visão impressionante.

Durante a curta distância final, Olivia permitiu-se um último sonho. Imaginou que a porta se abria e Natalie, radiante, saía correndo, acompanhada por um bando de empregadas, que faziam fila, ansiosas por uma apresentação.

Olivia parou no semicírculo final do caminho de pedra. Havia ali um muro de pedra baixo. Um mastro próximo exibia a bandeira dos Estados Unidos com a bandeira de Rhode Island por baixo.

Ela permaneceu sentada no carro por alguns segundos, esperando. A porta na frente era de tela, numa moldura de madeira, como esperava, mas continuou vazia e escura.

Olivia saltou, deu a volta no carro. Pegou a mão de Tess e subiram pelo caminho. Sentia o coração na garganta. Havia muita coisa em jogo ali.

Os cinco degraus da frente eram de pedra, bastante largos. As duas subiram, atravessaram a varanda escura e deram uma espiada pela porta de tela.

- Será que tem alguém em casa? - sussurrou Tess.

Olivia encostou o ouvido na tela.

-Ouço vozes.

- Falando sobre a gente?

- Duvido muito.

Se ela não estivesse enganada, haveria problemas. Pelo som das vozes, parecia uma discussão.

Olivia bateu de leve na armação de madeira da tela. As vozes distantes tinham agora o acompanhamento da campainha do telefone.

Haviam chegado num momento inoportuno. Se pudesse, Olivia voltaria para o carro com Tess, sairia para a estrada, esperaria cinco ou dez minutos antes de chegar de novo. Era uma ideia absurda, é claro. Seria ridículo voltar agora. Além do mais, já haviam sido vistas pelo homem no vinhedo.

Ela tomou coragem e apertou a campainha, urn botão marfim no meio de arabescos de ferro. O som de carrilhão era bastante alto.

As vozes lá dentro cessaram. Segundos depois, ela ouviu passos leves se aproximando e Natalie Seebring apareceu.

Quando ela as viu e sorriu, Olivia sentiu uma onda de alívio. Tudo daria certo. Natalie estava ali... e, embora fosse trinta anos mais velha do que nas últimas fotos que Olivia vira, ela era adorável. Era esguia, mediana, usava um jeans impecável, uma camisa pólo com o logotipo do vinhedo. A pele era suave, com um pouco de maquilagem, algumas rugas. Os cabelos eram abundantes e brancos, emoldurando o rosto, um pouco desgrenhados, femininos, mas não afetados. Era empertigada e ágil, exibia a idade com orgulho e classe, irradiava autoridade.

Olivia sentiu um respeito imediato.

Ainda sorrindo, Natalie abriu a porta, exalando uma ténue fragrância de frésia. Acenou para que elas entrassem. Olivia também sentiu a maior satisfação pelo que viu ao entrar. O vestíbulo era grande, com uma predominância de verde. Exibia um estilo de Velho Mundo, com muita madeira escura, interrompida por vários murais. A escada fazia uma curva gradual, com um patamar a cada cinco ou seis degraus. Havia um enorme gato alaranjado sentado no primeiro patamar. Um gato menor, preto e branco, sentava no meio da subida para o segundo.

Olivia percebeu o instante em que Tess avistou os gatos pela maneira excitada como ela respirou fundo.

- Chegaram bem a tempo - disse Natalie. - Há uma guerra acontecendo aqui. Preciso de reforços.

As palavras mal saíram de sua boca, quando uma mulher entrou no vestíbulo. Parecia ter sessenta anos. O vestido cinzento indicava que era a empregada.

- Sua filha está ao telefone, Sra. Seebring.

- Olivia, Tess, esta é Marie. Ela trabalha nesta casa desde que tinha idade suficiente para ter um emprego. São trinta e cinco anos. Agora, subitamente, ela decide que quer mudar de carreira? Não posso acreditar.

- Já está mais do que na hora.

Marie estendeu um pedaço de papel, que Olivia calculou que era o aviso prévio. Natalie estendeu as mãos para trás, recusando-se a pegar.

- Não vou aceitar. Você está apenas transtornada com a mudança, mais nada. Preciso de você, Marie.

Mas Marie balançou a cabeça, decidida.

- Pelo menos espere até depois do casamento - insistiu Natalie.

- Não posso. - Marie estendeu o papel para Olivia, que o pegou por pura surpresa. - A filha da Sra. Seebring está ao telefone. Há algum tempo que vem tentando falar com a mãe. Pode fazer o favor de atender?

Ela virou-se e começou a se afastar.

- Marie! - exclamou Natalie.

- Tenho de lavar a roupa.

- Não me importo com a roupa! Mas a criada retirou-se. Natalie suspirou e ofereceu um sorriso ténue a Tess. ?

- Acha que perdemos? Tess acenou com a cabeça numa resposta positiva.

- Aqueles gatos são seus?

- São sim. O que está no patamar é Maxwell, e o outro é Bernard.

- Ambos são meninos?

Tess soltou um gritinho e esbarrou em Olivia quando um terceiro gato esbarrou em sua perna.

- Esse é Henri. - Natalie deu ao nome a pronúncia francesa. Não precisa ter medo.

Tess ajoelhou-se para afagar o gato. Aquele era tigrado, em preto e cinza.

- Não tenho medo. Apenas não vi o gato se aproximar.

- Nem eu - disse Natalie. - Ele apareceu aqui um dia, parecendo faminto. Não tive coragem de mandá-lo embora.

com Tess satisfeita pelo momento, Olivia não podia deixar de pensar no botão do telefone, que piscava, vermelho, na mesa de mogno ao lado da escada.

- Podemos esperar aqui se quiser atender a ligação.

- Não quero - declarou Natalie. - Minha filha não está mais satisfeita comigo do que Marie. Nenhuma das duas compreende. Para elas não passo de um pedaço de algodão-doce, que deveria ser rosado e inofensivo. Não me creditam a posse de um cérebro.

- O telefone, Sra. Seebring! - gritou Marie, de longe.

Natalie comprimiu dois dedos contra a têmpora. Seus olhos se encontraram com os de Olivia.

- Gostaria que eu atendesse? - perguntou Olivia. O alívio de Natalie foi imediato.

- Eu ficaria agradecida. Apresente-se. E diga a ela que não posso falar neste momento.

Satisfeita pela oportunidade de ser útil tão cedo, Olivia foi até o telefone. Falou no tom mais jovial:

- Aqui é Olivia Jones. Sou a nova assistente da Sra. Seebring. Lamento, mas ela não pode atender...

- Assistente? - A voz era um pouco transtornada. - Que tipo de assistente? E por que ela não pode atender? Sou a filha dela. Só quero falar com ela por um minuto.

Olivia olhou para Natalie, que ergueu as mãos, sacudiu a cabeça e deu um passo para trás.

- Creio que ela saiu. Pode ligar para você mais tarde?

- Claro que pode. A questão é se vai mesmo ligar. Ela vem evitando falar comigo. Olivia Jones é seu nome?

- Isso mesmo.

- Quando começou a trabalhar para minha mãe?

- Hoje é meu primeiro dia.

- Sabe o que está acontecendo?

- Ahn... não sei se entendo o que quer dizer.

- O casamento. ??

- Ah, sim... Houve uma pausa. A voz era suplicante quando acrescentou:

- Ela precisa repensar. Não está certo. Meu pai morreu há apenas seis meses.

Olivia não sabia o que dizer. Acabara de chegar. Era uma forasteira.

- Acho melhor conversar com sua mãe sobre isso.

- É mais fácil dizer isso do que fazer. Ela não foi capaz de avisar à pró?pria filha que pretendia casar de novo. Sabe que é errado o que decidiu fazer. Um constrangimento para todo mundo.

Natalie comentou, do outro lado do vestíbulo:

- Ela não pode aceitar que tenho um coração que bate... e bate forte. Eu deveria ser uma velha murcha e ressequida.

Olivia não tapara o fone com a presteza necessária.

- Ouvi isso - declarou Susanne. - Ela está ao seu lado, mas é cObarde demais para me atender. Sabe que não deveria tomar essa atitude ? depois de tudo o que meu pai fez. Foi ele quem fez o vinho, Ela não estaria aí hoje se não fosse por papai. Pode dar um recado?

- Claro.

- Diga a ela que a família não vai comparecer ao casamento. Meu irmão e eu não podemos aceitar. Ela deveria respeitar o marido. Houve uma breve pausa. - Para que ela a contratou?

- Estou ajudando no escritório.

- Essa não! Mais alguém foi embora? Estão deixando aos montões. Também não gostam do que ela pretende fazer. Você é mais uma pessoa perdida, como os gatos?

Olivia sentiu-se um pouco ofendida.

- Como assim?

- Ela dá abrigo às pessoas perdidas. Algumas dão certo. Marie permanece na casa há uma eternidade. Outras são maravilhas de uma semana. Ela age por instinto. Por acaso lhe disse isso?

- Disse. Mas não sou uma extraviada. Passei os últimos cinco anos fazendo restauração de fotos, com Otis Thurman. Deixei seu estúdio para vir trabalhar aqui.

- Ainda bem. Gostaria que me escutasse por um momento. Por favor, não diga nada. Apenas escute. Estamos todos preocupados, achando que Natalie tem problemas mentais ou sofreu uma lavagem cerebral de Carl. Não há outra explicação para esse casamento. Por isSo, eu lhe peço... suplico... para ficar de olho nela. Pode me telefonar se pensar que qualquer dessas coisas aconteceu?

A lealdade instintiva de Olivia era com Natalie, mas também não queria entrar numa briga com Susanne.

- Tentarei. ???

- Obrigada. Por favor, avise à minha mãe que tornarei a ligar na próxima semana... e seja bem-vinda a Asquonset.

Olivia desligou. Olhou para Natalie. A mulher mais velha parecia constrangida.

- Peço desculpas. Lamento tê-la envolvido em meu ninho de marimbondos.

Olivia não lamentava nem um pouco. com apenas cinco minutos ali já se sentia integrada.

- Ela parece aborrecida.

- E está mesmo. Não compreende.

- Mas se explicou tudo. Um ar de confusão insinuou-se no rosto de Natalie. - Não explicou? - indagou Olivia, surpresa. - Se explicasse agora, talvez...

Natalie parecia angustiada, como se quisesse desesperadamente

fazer isso, mas não era capaz.

- É mais fácil dizer do que fazer. Ela idolatrava o pai, assim como o irmão, Greg. E isso é maravilhoso. Eu queria que fosse assim. Trabalhei por isso.

Ela fez uma pausa. Olhou para a parede de livros. De repente,

parecia muito cansada.

- Agora, há alguns equívocos que precisam ser esclarecidos. Mas como fazer isso sem falar mal do falecido? - Natalie apertou os dedos. - A dinâmica da família é diferente de qualquer outra coisa na vida. Você fixa um padrão cedo e é quase impossível mudar. Sempre tive dificuldades para conversar com meus filhos... uma conversa franca. Há algumas coisas que mal foram discutidas. É muito difícil dizê-las. É mais fácil falar para pessoas estranhas. - Como eu?

Natalie não respondeu a princípio. Pôs a mão na cabeça de Tess, Parecendo encontrar conforto no contato, enquanto a menina afagava Henri, que ronronava alto.

- Espero que sim.

- E tudo se relaciona com o casamento?

- Claro que não. Relaciona-se comigo. Muito mais. Mas a ligação é Carl.

Natalie olhou para a porta pela qual Marie se retirara. Seu rosto se iluminou.

- Ah, mais dois meninos! O grandalhão da esquerda é Buck. É um gato do Maine, abandonado no Pindman s no outono passado por um turista que não suportava mais seus miados no carro. O alto e magro é Simon, o gerente do vinhedo. Simon, cumprimente Olivia Jones e sua filha, Tess.

Olivia virou-se para deparar com o homem que avistara no vinhedo... e aparentemente não era apenas algum antigo trabalhador, mas o próprio gerente. Era mesmo alto, ela decidiu, embora não imaginasse que era magro, pela visão anterior do peito e dos ombros. Podia vê-lo por completo agora. A cintura e os quadris, cobertos por um short folgado, eram de fato finos, assim como as pernas, sujas de terra, da mesma forma que as botinas de trabalho e as meias cinza. Os óculos escuros estavam no alto da cabeça, meio perdidos entre os cabelos castanho-avermelhados. O nariz queimado de sol era o único toque de calor em seu rosto. Os olhos eram frios, de um azul escuro. O queixo era escurecido pela barba.

O gerente do vinhedo de Natalie. Aquilo podia ser um problema, pensou Olivia enquanto olhava para Tess, que não desgrudava os olhos de Simon. Embora não parecesse assustada, a menina não fez qualquer esforço para se afastar da mão que Natalie pusera em sua cabeça. Havia segurança naquela mão. Olivia podia sentir isso mesmo a distância.

Simon acenou com a cabeça na direção de Tess, depois para Olivia. Ele não quer a gente aqui, dissera Tess. Olivia não sabia se era um fato ou se o homem era mesmo rude.

- Ele é do tipo retraído e silencioso - acrescentou Natalie com evidente afeição. - Como o pai. Por falar nisso...

- Ele está no galpão - informou Simon, a voz seca e profunda. Disse que virá daqui a pouco. Estou a caminho de Providence.

O sorriso de Natalie desapareceu.

- Oh, não! Um problema!

- Não tenho certeza. Vi uma coisa nas tintas que pode ser o começo de mofo. Quero uma segunda opinião.

Natalie explicou para Olivia:

- O inverno e a primavera foram muito húmidos. Esperávamos que o sol e o vento secassem as videiras. - Para Simon, ela acrescentou: - Eu planejava convidá-lo para jantar conosco.

Olivia teve a impressão de que o homem contraía os lábios numa expressão irónica. Mas os olhos não se desviaram de Natalie e a voz continuou respeitosa.

- Sinto muito, mas esta noite não posso.

com um rápido olhar para Olivia, ele virou-se e saiu. Buck foi atrás.

O telefone tocou nesse instante. Natalie suspirou.

- Como não há telefonemas de negócios para cá, só pode ser meu filho. Susanne sempre liga para ele e se queixa assim que acaba de falar comigo.

Olivia olhou para o telefone.

- Quer que eu atenda?

- Por favor.

Ela pegou o telefone.

- Residência Seebring.

- É Olivia Jones?

Era uma voz incisiva, autoritária. Por uma fração de segundo Olivia temeu que tivesse cometido um crime sem saber, e fora localizada pelo FBI... ou, pior ainda, por Ted.

Mas não era a voz de Ted. Além do mais, ela acabara de chegar. Mesmo assim, um telefonema seria típico de Ted. Ele não estaria usando um amigo como intermediário?

- Quem deseja falar? - indagou ela, cautelosa.

- Greg Seebring. Você é Olivia? Natalie tinha razão. Susanne devia ter dado seu nome. Nenhum crime fora cometido... e, ainda melhor, não era Ted. Ela estava livre.

- Isso mesmo.

- Sou o filho de Natalie e quero que saiba desde já que não tenho tempo para esse telefonema. Estou com problemas para resolver neste momento, mas minha irmã me leva à loucura, porque nossa mãe a leva à loucura. Só quero lhe dizer uma coisa. Natalie vem se comportando de uma maneira estranha. Esse casamento é impróprio e inoportuno. Desconfio que agora, com a morte de papai, ela apenas precisa de mais alguém para se apoiar, e o homem mais próximo é Carl. Pode ser uma conspiração dos Burke para assumir o controle do vinhedo, ainda não sei. Mas, se for, posso garantir que não dará certo.

Olivia pensara em fusão, uma união amigável de duas famílias poderosas. Não precisava ser uma profunda conhecedora de questões financeiras para saber que uma tomada do controle podia ser hostil.

- Talvez seja melhor conversar com sua mãe.

- Não tenho tempo para isso. E também não tenho a energia necessária. Minha mãe e eu funcionamos em níveis completamente diferentes. Só quero que você saiba que temos conhecimento do que está acontecendo. Se fizer qualquer coisa para ajudar e favorecer a causa dos Burke, vamos considerá-la como parte da conspiração. Aliás, é bem possível que você já seja. Foi carl quem a contratou?

- Não... e não tenho a menor ideia do que está falando. Ele soltou uma risada sinistra.

- Meu bem, lido com animais políticos todos os dias. E aprendi uma coisa. Quando eles insistem que não sabem de nada, como você acaba de fazer, é porque sabem de muita coisa. Conheço muito bem a situação. Considere-se avisada. Dê minhas lembranças a mamãe.

Greg desligou. Ao repor o fone no gancho, Olivia especulou pela primeira vez sobre a natureza exata do ninho de marimbondos a que Natalie se referira. Um vinhedo assumir o controle de outro podia ser uma coisa séria. A família podia se dividir. Natalie podia se mudar para o vale de Napa, na Califórnia. Asquonset podia fechar. Olivia podia ser envolvida numa ação judicial que se arrastaria por anos.

- Ele está zangado - disse Natalie.

A voz interrompeu a especulação de Olivia:

- Acho que está mais preocupado. ? ? ? Isso parecia mais gentil.

- Mas não bastante preocupado para pegar um avião e voar até aqui. Ele mencionou sua teoria da conspiração?

- Ahn... de passagem.

Os olhos de Natalie se tornaram tristes.

- Este deveria ser um momento feliz. ? Por um breve momento ela sucumbiu à tristeza. Depois, empertigou-se e recuperou a determinação visível.

- É um momento feliz. Venha comigo. vou lhe mostrar tudo. Depois, quero que conheça Carl.

Os preconceitos continuaram. Olivia já constatara que a casa-grande não era tão grande quanto imaginara. O interior, no entanto, surpreendeu-a. Ao longo de todos aqueles meses e de tantas fotos, imaginara um cómodo depois de outro, cada espaço, cada sofá, cada cadeira Luís XVI, com os fantasmas de convidados confraternizando, comendo, conversando, dormindo. O que ela viu, na realidade, era menor e mais simples. A decoração era requintada, com móveis de designer e todas as conveniências modernas, embora mais casual do que formal.

Determinada, ela emendou seu pensamento, do grandioso e vasto, para o encantador e pequeno. Não haveria bailes de gala indiscriminados ali. Os visitantes seriam selecionados com o maior cuidado. As festas seriam íntimas.

O primeiro andar consistia de uma sala de jantar e cozinha num lado, com uma sala de visitas no outro. Além da sala de estar principal, havia mais outras duas.

- Estas salas eram quartos antigamente - explicou Natalie. Quando a família cresceu, acrescentamos o segundo andar.

Havia quatro quartos no segundo andar. A porta de um quarto estava fechada, mas Natalie mostrou os outros, cada um mais bonito do que o outro, sempre de uma maneira aconchegante. O melhor, porém, ainda estava para vir. Na extremidade do corredor havia uma escada estreita. Levava ao cómodo arejado que dava para os fundos da casa, uma paisagem de colinas ondulantes, cobertas por vinhedos. Era o escritório de Natalie, no qual se refestelava um gato chamado Achmed.

- Achmed? - repetiu Tess, seguindo em direção ao gato.

- Ele é persa. Minha veterinária achou que seria um acréscimo digno para seu consultório, mas Achmed criou a maior confusão com os outros animais. É por isso que sempre digo que não posso ter outros animais. Se trouxesse um cachorro para cá, os pêlos voariam por toda parte. Achmed é um filho-da-mãe temperamental. Mas gostou de você, Tess. Olhe só para isso.

Tess estava de joelhos, os olhos no nível do gato persa, que sentava empertigado num banquinho de brocado. Parecia não se importar nem um pouco com a mão que o afagava.

- Ele fica aqui em cima - disse Natalie. - Não se mistura com a plebe lá embaixo. Achmed... um nome apropriado, não é?

- Eu acho - murmurou Tess.

- Chamo este lugar de meu sótão, Olivia. É aqui que vamos trabalhar.

Olivia sentia-se tão fascinada pelo cenário quanto Tess pelo gato. A clarabóia e um computador eram as únicas concessões modernas. A mesa era de madeira escura, havia duas bergères, o sofá era estofado em veludo, havia prateleiras nas paredes com coleções de livros clássicos. Os abajures eram de latão com copas antigas. O tapete era desbotado e puído. Até mesmo Achmed parecia velho.

O tempo havia parado naquela sala. Olivia não podia imaginar um lugar melhor para escrever sua história. Tinha até cheiro de velho, no melhor sentido. Ela não se importaria de passar o resto da tarde ali.

Mas Natalie tinha outras ideias. Assegurou a Tess que teria tempo suficiente para o gato mais tarde e depois as levou por um corredor curto para a nova ala. Que também era menor do que Olivia imaginara. Em vez de muitos cómodos em torno de uma área central, até mesmo uma pequena cozinha, havia apenas três quartos por cima do pátio dos fundos. O que esses quartos careciam em tamanho compensavam em graciosidade. Eram decorados com simplicidade, mas de uma forma bem aconchegante - cama, poltrona, escrivaninha e cómoda em cada um -, não com exagero, mas apenas o suficiente. As cortinas nas janelas eram floridas, combinavam com as colchas nas camas. Os tapetes eram felpudos, de uma cor firme.

Um dos quartos era isolado. Os outros dois eram ligados por um enorme banheiro. Foi para esses dois quartos que Natalie as levou.

- Quero o azul - sussurrou Tess, excitada, inclinando a cabeça para trás e fitando Olivia através dos óculos.

Olivia sentia-se tão feliz porque a filha estava satisfeita com Asquonset que lhe daria qualquer quarto que seu coração desejasse. Ela mesma preferia o outro quarto. Era verde, sua cor predileta, um pouco maior do que o quarto azul. E, o melhor de tudo, tinha um banco na janela, de onde a vista era espetacular. Além do toldo por baixo, ela podia ver a extremidade do pátio, margeado por caminhos e canteiros com flores de cores vibrantes. Podia-se avistar o vinhedo, descendo pela encosta até o bosque distante. Mais além, a pièce de résistance, uma vista nebulosa do mar.

Esqueceu logo o escritório de Natalie. Olivia ficaria muito contente se pudesse passar o resto do dia sentada naquele banco na janela.

Mas, de novo, Natalie tinha outras ideias. Pedira à filha de um dos empregados que levasse Tess para explorar a propriedade. A garota tinha treze anos e uma massa de cabelos louros cacheados, usava uma blusa sem mangas e jeans, dava muitos sorrisos para Tess, que de imediato teve uma reação favorável. Assim que as duas se afastaram, Natalie levou Olivia de volta ao sótão.

Ela pegou uma foto na mesa. Era uma foto que Olivia não vira antes. Era pequena e granulosa, um instantâneo em preto-e-branco, de um menino encostado na beira de uma carroça puxada por cavalos, carregada com barris. O menino usava uma camisa suja e fina, com um macacão rasgado na coxa, desbotado nos joelhos. As alças nos ombros eram tão compridas que a parte de cima começava no meio do peito. Mesmo assim, as pernas do macacão eram tão curtas que deixavam à mostra as meias sujas e os sapatos de couro surrados.

Olivia já vivera através de tantas fotos antigas que podia adivinhar que aquela fora tirada durante a Depressão. As roupas eram da época, o cenário desolado, sombria a expressão do menino. Ele parecia ter treze anos. Provavelmente tinha dez. Os tempos difíceis faziam isso, ela sabia.

Natalie começou a falar. A voz era tão clara, o fluxo de palavras tão suave, que Olivia pôde ver a narrativa do livro tomar forma já naquele momento.

Alguma vez tentou determinar sua lembrança mais antiga? Tenho tentado com frequência, ao longo dos anos, porque queria que a minha fosse diferente. Às vezes finjo que é. Às vezes lembro que tinha quatro anos, ouvindo o silêncio entre meus pais, sentindo a tensão. Mas não posso visualizar uma cena autêntica. Não posso me ver parada num determinado lugar ou olhando para uma coisa específica.

Deveria ser capaz de fazer isso aos quatro anos, até mesmo aos três. Você provavelmente consegue. Mas a convulsão em nossas vidas foi tão intensa nos dias subsequentes à Quinta-Feira Negra que esses detalhes anteriores foram apagados.

Eu os reprimi. Tinha de fazê-lo. A recordação era angustiante demais. Éramos ricos. E, de repente, ficamos pobres. As recordações que tenho do silêncio e tensão anteriores não passam de uma reconstituição do que descobri mais tarde.

Minha lembrança mais antiga, a que posso projetar em cores vivas, até mesmo a hora, o tempo que fazia na ocasião, ocorreu quando eu tinha cinco anos, no dia em que nos mudamos para Asquonset.

- Você tinha cinco anos quando se mudou para cá? - perguntou Olivia.

- Isso mesmo. Cinco anos. »

- Então era sua família que possuía Asquonset? Natalie sorriu.

- Pensou que me tornei a dona pelo casamento, não é? Não precisa ficar embaraçada. Não é a única. Alexander sempre foi a imagem pública de Asquonset, e por isso as pessoas presumem que ele chegou aqui primeiro. Digamos que esse é o primeiro de muitos equívocos que minha história vai corrigir.

Outra, com certeza, tinha a ver com a situação financeira. Éramos ricos. E, de repente, ficamos pobres. Mesmo depois de trabalhar nas fotos mais antigas, Olivia não incluíra a pobreza em sua história. Estava no processo de se adaptar mentalmente ao ângulo de riqueza para pobreza quando Natalie continuou:

Hoje em dia é moda se mudar da cidade grande para o campo. Mas, em novembro de 1930, naquela camada da sociedade que tinha sua base no mercado de ações, era um sinal de fracasso.

Meu pai era dono de um banco. Foi um dos muitos que afundaram depois do estouro da Bolsa. Ele poderia salvar seu banco? Bem que tentou. Vendeu nossa casa em Newport. Vendeu o Pierce-Arrow. Vendeu até os tesouros da família. Mas o banco fizera empréstimos demais para especuladores demais. Além do mais, também compráramos ações na alta.

Os prejuízos causados pelo estouro da Bolsa foram grandes demais. Meu pai vendeu a casa em Nova York, o carro, até mesmo o anel de diamante de minha mãe, tudo para pagar as dívidas, afim de recomeçar sem qualquer ónus.

Tente imaginar a angústia de meu pai. Ele falhara para pessoas que haviam lhe confiado seu dinheiro. Muitos eram amigos pessoais. Alguns venderam suas casas e todos os bens de valor, como nós havíamos feito. Alguns entravam na fila da comida de graça. Outros sofriam destinos piores. Lembro-me do silêncio que pairava sobre a mesa do jantar, anos mais tarde, quando um nome ou outro era mencionado. Meus pais haviam perdido vários amigos nos dias imediatamente anteriores e posteriores ao estouro, homens que haviam optado pelo suicídio em vez do sofrimento da humilhação, embaraço e desespero da ruína total.

Meu pai suportou as três coisas. Não apenas falhara para os amigos, mas também falhara para a família. Tivéramos dinheiro, mas perdêramos. A fazenda era tudo o que restava. Em desgraça, deixamos a cidade.

Natalie parou de falar. Sua expressão era angustiada, os olhos, distantes.

- E você foi capaz de sentir? - indagou Olivia, suavemente. Natalie demorou a responder, demorou a voltar daquele passado

distante.

- A desgraça? Sim. Senti bastante.

Estava em sua voz, mesmo agora, uma inibição que não demonstrara antes. Seus olhos não se encontraram com os de Olivia.

- As pessoas disseram coisas para você? Ela examinou as mãos.

- Não sei. Talvez eu fosse pequena demais para compreender ou para lembrar. Meu irmão nunca mencionou nada de específico. Talvez eu tenha apagado.

- Você tinha um irmão?

- Tinha. Brad era quatro anos mais velho do que eu.

- Mas foi você quem herdou o vinhedo.

- Brad optou por sair de casa bem cedo.

Natalie tornou a se calar. Olivia queria perguntar mais, mas não sabia se aquele era o momento certo. Natalie dissera expressamente que a curiosidade era indispensável naquele trabalho. Mas num momento de angústia evidente?

O silêncio foi acertado. Ela sentiu que Natalie precisava daquela pausa. Depois de alguns minutos, a mulher mais velha voltou à foto do menino, dando a impressão de que encontrava novas forças.

Meus pais ficaram apavorados. Não disseram nada, não fizeram qualquer comentário enquanto arrumávamos nossas coisas e deixávamos a cidade. Mas recordando agora, tantos anos depois, posso imaginar o que eles sentiam. Nosso mundo mudara de uma maneira radical. A vida como a conhecíamos até então havia acabado.

Meu irmão Brad, que tinha nove anos na ocasião, foi quem reconstituiu para mim, muito mais tarde, aquele dia frio e escuro de novembro em que deixamos Nova York. Pegamos o trem para Providence, como costumávamos fazer quando íamos para nossa casa em Newport. Nessas outras ocasiões, viajando em férias, vestíamos roupas novas, levávamos malas abarrotadas com mais roupas novas e éramos recebidos na estação ferroviária por nosso motorista, guiando um carro do último modelo. Desta vez, as roupas eram velhas, as malas levavam nossos últimos bens materiais e ignoramos o Pullman de primeira classe em favor de um vagão comum. Fomos recebidos em Providence por um dos poucos empregados que meu pai ainda mantinha.

Seu nome era Jeremiah Burke. Meu pai trouxera-o da Irlanda vários anos antes para cultivar nossas batatas.

A fazenda era o hobby de meu pai naquele tempo. Era o lugar para onde escapava quando queria uma folga do resto de sua vida. Voltava para Nova York com as unhas sujas de terra e se orgulhava disso. Hobby ou não, gostava de fazer as coisas direito. Mesmo naquilo, era um homem competitivo.

Passemos para Jeremiah Burke. Ele não apenas sabia cultivar batatas, mas também sabia administrar uma fazenda. Meses depois de sua chegada, meu pai entregou-lhe o comando.

Além do sotaque lírico, Jeremiah também trouxe a esposa e uma criança. Os três haviam residido até então na casa de pedra da fazenda, que estava prestes a se tornar nosso lar.

Naquele dia chuvoso de novembro, Jeremiah foi nos buscar na velha picape que usava na fazenda. Embora ele a limpasse da melhor forma possível, ainda recendia a estrume. Para nós, era um cheiro estranho, um cheiro desagradável, acrescentava um elemento desconhecido ao medo que sentíamos naquele dia.

Pusemos a bagagem na traseira e nos apertamos na frente. Em anos posteriores, meu irmão e eu automaticamente subíamos para a traseira da picape. Naquele dia, porém, como meu irmão me contou, ficamos todos na frente, as crianças no colo de papai e mamãe, com Jeremiah ao volante. Se o aperto causava desconforto, estávamos atordoados demais para sentir. Até mesmo meu pai, que antes era tão gregário, mantinha um silêncio profundo.

Seguimos para o sul quando saímos de Providence. Quando a estrada pavimentada acabou, continuamos aos solavancos por estradas de terra esburacadas. Mas não me lembro disso, nem de nossa chegada em Asquonset. Brad disse que o lugar era horrível, e tenho certeza de que era mesmo. Estávamos acostumados ao luxo. Asquonset podia ter qualquer coisa, menos luxo.

- Não posso imaginar essa possibilidade - declarou Olivia.

- Está sendo educada.

- Juro que não. É um lindo lugar.

- Agora.

- Até mesmo a terra. Imagino que devia ser linda sem as construções.

Natalie sorriu.

- Grande garota. Escolhi a pessoa certa. Seu coração está no lugar certo. Só precisamos sintonizar sua visão da realidade. Posso não me lembrar da primeira vista que tive deste lugar, mas com certeza me lembro das posteriores. E "lindo" não é um adjetivo que eu usaria para descrever Asquonset naquele tempo.

Os Burke haviam se mudado para um chalé menor na propriedade, deixando a casa de pedra para nós. Meu pai fizera o melhor que podia. Os móveis não vendidos haviam sido despachados antes e estavam na sala, na cozinha e nos quartos. A mulher de Jeremiah, Brida, fizera uma faxina e deixara a casa brilhando, tanto quanto podia brilhar uma casa de fazenda construída na década de 1870. Mas era tão diferente quanto o dia e a noite da casa que havíamos deixado em Nova York. Como era costume no campo, os tetos eram baixos, para que o fogo pudesse esquentar com mais facilidade o ar frio e úmido. Havia água encanada. Nesse ponto, tínhamos sorte. Mas a casa era pequena, sufocante e escura, totalmente isolada, numa colina em que ventava muito.

Uma metáfora para a nossa vida.

Natalie parou de falar. Os olhos eram distantes, enquanto passava a mão de leve pela foto.

- Quem é esse menino? - perguntou Olivia.

A mulher mais velha teve um sobressalto. Um minuto passou antes que ela se controlasse e sorrisse.

- Este menino? - Ela ergueu a foto. - Este menino é minha primeira recordação nítida.

Era o final da tarde no dia de nossa chegada em Asquonset. Eu me encontrava nos campos, que haviam produzido sua colheita de batatas seis semanas antes. Não sei como fui parar lá. Duvido que meus pais me quisessem ali, na chuva. Imagino que arrumavam as coisas na casa e não me viram sair.

Eu devia estar desesperada para escapar. Entre os tetos baixos e o desânimo de meus pais sentia-me sufocada.

Os campos estavam vazios, arados para ficarem sem qualquer vegetação. Havia apenas a terra e a chuva. Caminhei longe e tão depressa quanto podia, mas sentia-me bastante assustada com o lugar para manter a casa da fazenda sempre à vista. Era pequena e distante. Mas estava ali.

Jamais esquecerei. Eu usava um chapeuzinho do tipo que seria apropriado em Nova York. Era de feltro, com uma pequena aba levantada, uma alça que passava sob o queixo. Não tinha a menor condição de resistir à chuva. A cada passo meus cabelos se tornavam mais encharcados, até que pendiam em mechas em torno do rosto. Usava sapatos que eram brancos naquela manhã. Ficaram um pouco sujos da viagem desde Nova York, mas ali, no campo, logo estavam cobertos de lama. Abaixei-me para limpá-los. Quando me ergui, descobri que a bainha do casaco também se tornara enlameada.

O casaco e meu vestido eram de um azul bem claro. Eram as melhores roupas velhas que ainda cabiam em mim. Horrorizada, passei a mão para remover a lama. Mas a mancha se espalhou. Quanto mais eu tentava limpar, pior ficava. Comecei a sentir dor no estômago. A sensação de perda estendia-se muito além das roupas.

E foi nesse momento que avistei Carl.

Ela estava perdida na foto, que segurava agora como se fosse ouro. Olivia levou um minuto para fazer a ligação.

- Esse é Carl?

- É sim - confirmou Natalie com um suspiro contente.

- O filho de Jeremiah?

- Por que a surpresa? Por que a surpresa? O cenário que Olivia tanto sonhara se tornava

de repente completamente errado.

- Eu apenas... apenas presumi que carl era um conhecido mais recente. Pensei que vinha de outro lugar.

- E veio mesmo, se considerar que nasceu na Irlanda. Mas mal começava a andar quando os pais trouxeram-no para cá. Ele era Seamus naquele tempo. Mais tarde, as pessoas passaram a chamá-lo de Carl. Ele não tem nada do sotaque irlandês de Jeremiah.

A geografia não era o problema. Olivia pensava em situação social. Imaginara Natalie casando com alguém da camada superior da sociedade. Não que pudesse dizer isso sem parecer uma esnobe, o que Deus sabia que ela não era. Mas, sendo uma fantasia, imaginara um príncipe.

- Pensei que ele era um antigo produtor de vinho - comentou ela com o devido tato.

Natalie ofereceu um sorriso terno.

- Mas ele é. A pessoa mais ligada a vinho que já conheci nos últimos setenta anos. Não que eu soubesse disso naquele primeiro dia. Algum tempo passou antes que eu descobrisse o que era cultivado no outro lado do morro. Lembre que era o ano de 1930. A Lei Seca continuava em vigor. Não falávamos de cultivar uvas e produzir vinho, muito menos de vender o que produzíamos. Não deveríamos fazer essas coisas.

Olivia não podia superar a ideia de que carl Burke fora um empregado. Quanto mais olhava para sua foto, porém, mais familiar lhe parecia. Já vira aquele rosto antes. Em algumas fotos que restaurara. Era adulto naquelas fotos, mas os olhos eram os mesmos. Calmos a ponto da impassibilidade. Olivia sentia-o mais familiar a cada minuto que passava.

- Pode relatar essa primeira recordação? - indagou Olivia. - O que ele disse quando se encontraram no campo?

Mas Natalie baixara a foto. Seus olhos fixavam-se na porta com um brilho especial. Olivia acompanhou seu olhar. O reconhecimento foi instantâneo.

Carl Burke era um menino bonito que crescera para se tornar um homem bonito. Beirava os oitenta anos agora e conquistara o direito de ser encurvado e ter um rosto marcado. Mas permanecia alto e empertigado; e, se ter o rosto marcado significava ter uma massa de cabelos prateados, as feições ainda firmes e um ar de dignidade, Olivia não podia deixar de admitir que era plenamente a favor. Poderia se apaixonar pelo homem à primeira vista se ele já não estivesse comprometido. Natalie pegou a mão de Carl.

- Carl, quero apresentá-lo a Olivia. - com uma satisfação evidente, ela puxou-o para a frente. - carl Burke... Olivia Jones.

- Seja bem-vinda.

A voz de carl era suave. Isolada, poderia ser considerada fria; mas acompanhada pela cordialidade nos olhos era muito gentil e absolutamente sincera.

- Acabo de conhecer sua filha - acrescentou Carl. - É uma doce menina.

- E Olivia conheceu seu filho - interveio Natalie com visível orgulho.

Olivia franziu o rosto.

- Filho?

- Simon. Lá embaixo.

Ah, Simon! O gerente do vinhedo. O homem com os olhos azuis da meianoite. "Ele é do tipo retraído e silencioso", comentara Natalie, afetuosa. "Como o pai."

Olivia simplesmente presumira que os Seebring orgulhavam-se das famílias de empregados. Como não ouvira o sobrenome de Simon - e convencida de que carl pertencia a algum tipo de realeza -, não fizera uma ligação entre os dois homens. Subitamente, porém, tudo fazia sentido. Também explicava o comentário de Greg Seebring sobre uma conspiração dos Burke para assumirem o controle do vinhedo.

Olivia podia perceber a semelhança agora enquanto olhava para Carl. Pai e filho tinham os mesmos olhos tranquilos. Era verdade que os olhos de carl eram mais cordiais que os de Simon, mas nenhum dos dois parecia insidioso.

Mas Olivia não podia esquecer que achara Ted interessante. Também pensara que Jared era responsável, e que alguém capaz de cozinhar tão bem quanto Peter tinha um instinto doméstico. Enganara-se nos três casos. Podia muito bem estar errada em mais um.

- Desculpe ?- disse ela para Carl, embaraçada. - Não me passou pela cabeça que Simon era seu filho. Acho que não estou muito rápida para compreender as coisas hoje.

Carl acenou com a mão para indicar que o pedido de desculpa era desnecessário.

- Ele lhe mostrou a propriedade? Foi Natalie quem respondeu:

- Não teve tempo. Estava a caminho de Providence. Acha que temos um problema de mofo.

Carl soltou um suspiro de frustração.

- O tempo está propício para isso. - Ele virou-se para Olivia. - Cuidar de uma fazenda nunca é fácil.

Ele gesticulou para a porta antes de acrescentar:

- Trouxe suas malas para esta ala. Mas não sabia em que quarto deixá-las.

Olivia planejara trazer a bagagem pessoalmente.

- Não precisava fazer isso.

- Precisava sim. Queremos você aqui. Estou fazendo minha parte para instalá-la logo, antes que qualquer coisa a faça mudar de ideia.

Ele falou a última frase com uma estranha dignidade. Depois, virou-se para Natalie e acrescentou:

- Perdemos Paulo. Ele vai embora com Marie.

Os dois nomes foram enunciados de uma maneira linda, com a insinuação de um sotaque que não parecia nem um pouco irlandês. Natalie abaixou a cabeça. Depois de um longo momento, soltando um suspiro resignado, ela explicou para Olivia:

- Uma operação como a nossa exige uma grande quantidade de equipamento. Além de ajudar Simon, Paulo é nosso mecânico... era nosso mecânico. Eu não estava gracejando quando falei em ninho de marimbondos. Estamos enfrentando uma revolta doméstica.

Olivia olhou de um para o outro.

- Tudo por causa do casamento!

Natalie chegou mais perto de Carl. As mãos se encontraram, se ligaram, foram para um ponto discreto nas costas de Natalie. Mas Olivia notou. Qualquer pessoa romântica notaria. Era um gesto de ternura, o sinal de uma partilha de força, ainda mais significativa por sua privacidade. Olivia ficou comovida.

- Não é apenas o casamento - explicou Natalie. - É a morte de Al. Ele cortejava essas pessoas. Dava flores nos aniversários e distribuía bonificações no Natal. Eu era a feitora. Dizia às pessoas o que precisava ser feito. Se um chão era enxugado uma vez, mas ficava pegajoso, tinha de ser enxugado de novo. Se a prata ficava embaçada por baixo, tinha de ser polida de novo. Nunca permiti que ninguém deixasse um trabalho pela metade. Infelizmente, isso às vezes é irritante. Por isso, era Alexander quem fazia o afago. Ele aplicava a pomada depois que eu estalava o chicote. Era o mocinho, enquanto eu fazia o papel do bandido. E eles sentiram que perderam seu melhor amigo quando Alexander morreu.

- E agora ela vai casar comigo - acrescentou Carl. - Alguns se sentem traídos.

- Porque não compreendem o que sentimos - disse Natalie.

- Mas deveriam - insistiu carl com uma veemência inesperada.

- Essas pessoas não desconhecem as questões do coração. Paulo passou doze anos apaixonado por Marie, antes que ela percebesse. E Anne Marie, a recepcionista do escritório, acaba de anunciar seu divórcio para casar com o namorado que teve na escola secundária há trinta anos.

Natalie arregalou os olhos.

- Ela também vai embora?

- Não, mas poderia ficar do nosso lado com mais firmeza... não que isso ajudasse muito, com o escritório separado do resto.

Natalie explicou para Olivia:

- Asquonset tem três divisões. O vinhedo produz as uvas. A vinícola produz o vinho. E o pessoal do escritório vende o vinho para restaurantes e lojas. Como o escritório está no outro lado da propriedade, a equipe lá fica isolada.

Ela deixou escapar um suspiro cansado.

- Nosso contador acaba de se afastar, mas já sabíamos que isso ia acontecer. Era um amigo antigo de meu falecido marido, e há anos ameaçava se aposentar. Os outros no escritório trabalham lá há menos tempo, são mais jovens. Moram em cidades próximas e têm um expediente das nove às cinco, férias remuneradas de quatro semanas por ano, assistência médica, fundos de aposentadoria e assim por diante. Não deixarão o emprego. Nem o pessoal da vinícola. O sucesso gera lealdade e temos sido bem-sucedidos. Nosso vinicultor adquiriu uma grande reputação em parte por causa da liberdade e dinheiro que lhe oferecemos para trabalhar. Por isso, ele não vai embora.

- O problema é com os empregados mais antigos - continuou Carl. - Alguns, como o contador, alcançaram a idade da aposentadoria e se afastariam de qualquer maneira. Não é o caso de outros. Tem mais a ver com o que Nat disse antes. Eles amavam Alexander. Era o cara que distribuía tudo o que era bom. Se perguntasse a eles, diriam que foi Alexander quem os contratou.

Natalie franziu o rosto.

- Ele nunca fez isso. Eu publicava os anúncios, entrevistava e contratava.

Carl tocou de leve em seu rosto.

- Nós sabemos disso. Eles não sabem.

Ela desarmava com facilidade. Deixou escapar um suspiro.

- Isso mesmo. O problema, em suma. - Seus olhos se encontraram com os de Olivia. - Nunca houve motivo para esclarecer. Meu marido precisava parecer mais importante do que eu. Por isso deixei que ele assumisse as aparências. Agora, está se voltando contra mim, infelizmente. Todos achavam que Alexander era o pai do vinhedo. E amavam-no. Sentiam lealdade por ele. Essa lealdade persiste. Como se fossem filhos, sentem-se ofendidos porque eu vou casar de novo tão depressa.

Carl acrescentou um comentário em voz suave, mas incisiva:

- E com alguém abaixo de você.

- São uns ignorantes - declarou Natalie.

- Ignorantes ou não, estão nos deixando numa situação difícil.

- Quantos já foram embora? - perguntou Olivia.

- com Paulo, sobe para quatro - respondeu Natalie.

- Quatro em que total?

- Treze. A operação do vinhedo tem Simon, sua assistente, um homem que faz tudo nos campos e Paulo. Na vinícola, temos duas pessoas em tempo integral, o vinicultor e seu assistente. Há quatro pessoas no escritório, o contador, o diretor de marketing, o gerente de vendas e a recepcionista. E três na casa, uma arrumadeira, uma cozinheira e o jardineiro. O homem que trabalhava nos campos foi o primeiro a sair. Acalentava um ressentimento desde que carl contratou uma mulher para supervisioná-lo.

- E o ressentimento se agravou quando pus Simon como gerente em vez de promovê-lo - interveio Carl.

Natalie retomou a contagem:

- Pouco depois, perdemos o contador. Agora, Paulo e Marie. Ela ergueu os olhos cautelosos para Carl. - Espera mais?

- Joaquim anda resmungando.

Outra vez uma pronúncia de grande classe, o aquim prolongado.

- Joaquim... - repetiu Olivia, maravilhada com a beleza dos nomes.

O sorriso de Natalie foi de surpresa.

- Falou muito bem. O nome é português. Sempre tivemos muitos portugueses entre nossos empregados, com uma colónia tão grande e tão próxima logo depois da fronteira de Massachusetts. Joaquim é o jardineiro, mas funciona como uma espécie de faz-tudo. Sua esposa é a cozinheira.

Ela fez uma pausa, antes de acrescentar, veemente:

- Carl, faça tudo o que puder para mantê-lo. Se ele for embora, Madalena também vai. Não posso ficar sem minha cozinheira, não antes do casamento. - Natalie empertigou-se de repente, numa atitude de desafio, e virou-se para Olivia. - Mas eles é que saem perdendo. com ou sem eles Asquonset é sólida. E temos de agradecer a carl por isso.

O rosto de carl ficou vermelho.

- Ora, Nat...

- carl e Simon - emendou Natalie, não menos veemente por dividir o crédito. - Os vinhos tornam-se melhores a cada ano. A produção está aumentando. Há um equilíbrio maior nas uvas. E nossos vinhos conquistam uma reputação cada vez maior.

Ela lançou outro olhar cauteloso para Carl, antes de perguntar:

- Simon está certo? Há algum problema com a Pinot Noir?

- Pode haver.

- Então ele não está apenas escapando?

- Claro que está. - carl sorriu. - Mas pode ter uma desculpa válida.

Olivia especulava de que Simon estaria escapando quando Natalie fitou-a, com um floreio.

- É essa a situação. Os empregados estão nos deixando, o vinhedo tornou-se mais úmido do que deveria ser e meus filhos com certeza vão me criar mais problemas antes do verão acabar. Você, minha cara, não é apenas minha memorialista, mas também meu párachoque. Está preparada para isso, Olivia Jones? »

Olivia estava mesmo preparada? Mais do que nunca. Queria voltar logo à primeira lembrança nítida de Natalie, ansiosa em iniciar o projeto de escrever suas memórias. Mas Natalie tinha de se preocupar com a contratação de uma nova empregada, além de ter uma conversa inspiradora com Madalena e Joaquim.

Assim, Olivia passou o resto da tarde arrumando as coisas. Esvaziou as malas de Tess e depois as suas, enchendo armários e gavetas com o que haviam trazido. Mas as roupas novas não eram tão fascinantes quanto as camisas que Natalie tirara de uma caixa, antes de despachá-la para seu quarto. A metade era de camisetas, a metade de camisas pólo, a metade no tamanho de Tess, a metade no tamanho de Olivia. Algumas eram grená com letras em cor marfim, algumas eram o inverso. Todas tinham o logotipo e o nome do vinhedo.

Olivia vestiu uma camisa com seu short e foi se contemplar no espelho. Enrolou as mangas e ajustou a camisa na cintura. Inclinou-se para mais perto do espelho. Passou os dedos pelos cabelos curtos. Já ia beliscar as faces para acrescentar um pouco de cor quando compreendeu que estava com a pele rosada. Contemplou-se por mais um longo momento e chegou à conclusão de que, com os cabelos curtos e todo o resto, até que sua aparência era atraente.

E usando uma camiseta, com muito orgulho, ela saiu da casa à procura de Tess.

Susanne acordou ao amanhecer, o que era muito cedo em junho. Faria brioches para o café da manhã, ou pelo menos foi o que ela pensou, às quatro e meia da madrugada, enquanto vestia um roupão e saía do quarto sem fazer barulho, deixando o marido num sono profundo do cansaço da viagem.

Ele voltara na noite anterior de cinco dias de reuniões incessantes na Costa Oeste. Na expectativa de jantarem juntos, Susanne preparara o prato de vitela predileto do marido. Mas o avião atrasara na decolagem e já passava de dez horas quando ele chegara em casa. Bem que tentara jantar, mas Susanne teria de ser cega para não perceber que ele só fazia isso para agradá-la. Compadecida, ela o despachara para a sala íntima, onde Mark sentara com sua sinfonia predileta no estéreo, para uma descompressão necessária.

Susanne sentara com ele até sentir que seus olhos começavam a fechar. Não sabia a que horas o marido fora para a cama, apenas que ele estava ali quando ela acordara pela primeira vez, às duas horas da madrugada.

Na cozinha, ela esquentou leite, manteiga e açúcar, acrescentou fermento, ovos e farinha de trigo, preparou a massa e deixou-a descansando. Descascou um abacaxi, cortou-o em fatias e ajeitou-as na bandeja, num arranjo gracioso com melão, kiwi e banana. Bateu o bolo de café predileto de Mark, acrescentando amoras e passas para tornálo ainda mais delicioso.

Bateu a massa dos brioches. Enquanto levantava de novo, cozinhou aspargos frescos junto com rúcula e bateu ovos para uma fritada. Arrumou os pratos, talheres, canecas, guardanapos de linho e flores sobre os descansos na mesa de granito no centro da cozinha. Rearrumou as flores, depois outra vez.

Dividiu a massa dos brioches em porções individuais e pôs nas formas. Moeu o café. Mudou de ideia sobre os descansos de linho, trocou-os por esteiras de vime, e acrescentou laços de ráfia aos guardanapos. Limpou a parte do balcão em que trabalhara, lavou e enxugou tudo que estava na pia e depois lavou a pia também. Tirou o bolo de café do forno e pôs os brioches.

Pegou o jornal da manhã, leu tanto quanto queria nos quinze minutos que levou para tomar um café. Limpou a geladeira até os brioches ficarem prontos. Ajeitou os cabelos e escovou os dentes, lavou o rosto e passou creme, depois sentou à mesa de granito e ficou esperando que Mark acordasse.

Já passava de nove horas quando ele entrou na cozinha. Susanne estava acordada há cinco horas e sentia cansaço. Mark, por outro lado, parecia revigorado do sono, um pouco desgrenhado, mas nem por isso menos bonito. Nem os cabelos grisalhos e ralos, nem os cinco quilos extras na cintura, nada podia mudar isso. Ocorreu a Susanne, em meio a muitas outras coisas, que sentira muita saudade do marido e estava contente por tê-lo em casa agora. Ele a abraçou, por um longo momento, carinhoso, num gesto que indicava que o sentimento era recíproco.

- Hum... não sei o que cheira melhor, se você ou qualquer coisa que esteja cozinhando.

- É Dior ou brioches - murmurou ela contra o queixo com a barba por fazer. - Pode escolher.

- Fico com Dior e uma xícara de café, por enquanto. - Mark recuou, apenas o suficiente para contemplar o rosto da mulher. Levantou cedo.

- Tentei não acordá-lo.

- E não acordou. Mas estou sentindo o cheiro de mais do que perfume e brioches. E pela aparência da cozinha você já realizou todo um dia de trabalho. Receio que não serei capaz de comer metade do que

você fez. Não conseguiu dormir?

Susanne deu de ombros, hesitante.

- Pesadelos? - indagou Mark.

- Se ao menos fossem sonhos...

- Ainda Natalie? Pensei que ia conversar com sua mãe outra vez.

- Ela não atende minhas ligações.

Mark alteou uma sobrancelha, mas sensatamente se manteve em silêncio.

- Está bem, eu disse coisas que não deveria falar na primeira vez - admitiu Susanne. - Mas o que ela esperava, jogando esse casamento assim na minha cara?

- Você me disse que ela vinha mencionando carl com frequência.

- Mencionando Carl... não mencionando amor e romance, muito menos casamento. O casamento foi totalmente inesperado. Não poderia deixar de ficar magoada.

- Disse isso a ela?

Susanne suspirou.

- Não da maneira como deveria. Mas quando ligo agora é sempre outra pessoa que atende. Ela contratou uma nova assistente, animada a um ponto repulsivo.

- Uma assistente da empresa?

- Assistente pessoal. - Fez uma pausa, e depois ela acrescentou, a fala arrastada: - Ao que parece, sua vida social é bastante movimentada.

Mark soltou um assovio baixo. Susanne abandonou a fala arrastada, embora não estivesse se desculpando:

- Marie vai embora, e ela diz que há mais. Assim, em parte fico satisfeita porque não sou a única que se sente transtornada com esse casamento. A outra parte acha que a Asquonset que eu conheci no passado está... desmoronando.

- Você sempre alegou que não se importava - lembrou Mark, gentilmente.

- E não me importo. Apenas me sinto mal por papai.

- Mais do que ele pode sentir. Seu pai morreu, Susanne.

- Tem razão. E parece que Natalie aguardava ansiosa que isso acontecesse.

- Não concordo. Ela foi uma esposa leal.

- Talvez não. Nunca pensei que ela pudesse casar de novo. Talvez eu também não saiba nada sobre o resto.

- Sabe sim.

Susanne refletiu que era verdade, que sabia de fato. Mas isso não desculpava o que Natalie estava fazendo agora.

- Ela esperou apenas que o marido morresse, não mais um minuto além disso.

O fato de Mark não negar proporcionou-lhe alguma satisfação. Mas ele logo sugeriu:

- Por que não vai até lá? A satisfação se desvaneceu.

- Até Asquonset? Não posso. Tenho coisas para fazer aqui.

- Que coisas? - indagou Mark, sustentando o olhar da mulher. Ela não respondeu. Nada do que tinha de fazer era importante...

ambos sabiam disso. Susanne se encontrava numa encruzilhada em sua vida e não sabia que caminho seguir. Mas ir para Asquonset voltar - estava no final da lista de opções.

- Mamãe não me quer lá - argumentou ela. - Só vamos brigar.

- Talvez possam conversar.

- Conversar com mamãe?

- As duas precisam se comunicar de alguma forma antes do casamento.

- Por quê? Eu não vou.

Mark contornou-a para se servir de mais café. Encostou-se no balcão, segurando a caneca com as duas mãos.

- Acho que seria um erro. - Greg não vai. - Um duplo erro neste caso. Ela é sua mãe. Boicotar o casamento causará uma desavença permanente.

- O casamento é que está causando uma desavença.

Ele não respondeu. Depois de um longo silêncio, fez uma pergunta:

- Que idade Natalie tem?

- Setenta e seis anos.

- Quanto tempo mais acha que ela viverá? ( A indagação surpreendeu Susanne.

- Não faço a menor ideia.

- Como é a longevidade em sua família? Há antecedentes de doença cardíaca? Câncer?

- Por que pergunta?

- Porque Natalie se aproxima daquela idade em que pode imaginar quanto tempo lhe resta. Pode estar pensando que não tem mais tempo para fazer as coisas que as pessoas na casa dos 30,40 ou 50 anos consideram "apropriadas".

- Quer justificar esse casamento?

- Não, mas também não posso condená-lo. Ela vem de um lugar diferente de mim e de você.

Susanne cruzou os braços.

- Ela tem boa saúde. Vai viver mais vinte anos... no mínimo. - É o que diz a filha que tanto quer que isso aconteça. Mas de que adiantaria para você se as duas se afastassem?

- É ela quem está causando o afastamento. Fez sua opção.

- Parece-me que a opção é sua. Ela quer os filhos e netos em sua vida. Foi por isso que mandou o convite.

- Mas comunicar o casamento através de um convite, Mark? Ele soltou um longo suspiro. Pôs a caneca no balcão, adiantou-se e

acariciou os braços da mulher.

- Ela tentou lhe contar, mas não foi capaz. É o jeito dela, meu bem. Ela é mais formal em algumas coisas do que você, assim como você é mais formal em outras coisas do que nossa filha. Talvez seja um problema de gerações. Ou talvez não. Você pode condená-la e viver com as consequências dessa atitude ou pode engolir seu orgulho, pegar o carro e ir até lá. Você tem tempo, Susanne...

Greg acordou quase tão cedo quanto Susanne e observava o dia clarear sobre Woodley Park da sacada de seu quarto. Um depois de outro, os telhados vizinhos foram banhados pelo ouro pálido. A palidez se aprofundaria num instante. A cidade de Washington preparava-se para mais um dia quente. Greg podia sentir a umidade mesmo agora. Era densa, tornava tudo mais lento.

Ou pelo menos foi essa explicação que ele deu para passar tanto tempo parado ali. Se a vida se desenvolvesse num ritmo normal, já estaria a caminho do trabalho. Estava atrasado. Há três semanas que se atrasava. A correspondência eletrônica se acumulara, sem ser respondida. O mesmo acontecia com as mensagens telefónicas. Sua mesa estava coberta por propostas para estudar, pesquisas para analisar, cartas para ler.

Podia delegar - tinha assessores para isso -, mas ninguém no escritório poderia ajudá-lo ali, em casa, não no que precisava fazer.

A casa era limpa e impecável. Lavara as roupas na noite anterior, secara, dobrara e guardara. Agora, arrumou a cama. Preparou o café da manhã. Leu o jornal do princípio ao fim. Lançou um olhar distraído para o laptop. Durante todo o tempo, porém, pensava que deveria tomar uma chuveirada e se vestir.

Em vez disso, continuou de cueca, vagueando pela casa, olhando a todo instante para o relógio. Às nove horas fez uma ligação para Akron. A sogra atendeu, como acontecera nas outras vezes que ele ligara.

- Oi, Sybil. Jill está aí?

Houve um momento de hesitação depois uma resposta cautelosa:

- Ela está na outra sala, mas não sei se quer falar com você.

- Tem de falar. Ela é minha esposa.

A linha ficou em silêncio.

- Sybil?

- O que é? Greg passou a mão pela nuca, abaixou a cabeça e suspirou.

- Eu estava transtornado quando liguei ontem à noite. Não deveria ter sido tão...

- Arrogante?

- Isso mesmo.

O ceticismo da mãe de Jill era evidente.

- E agora se sente diferente?

Era verdade, ele se sentia diferente. Esgotara a raiva. Era difícil definir o que restara. Não era qualquer coisa que estivesse acostumado a sentir.

- Sinto saudade de Jill.

O tom de sua voz deve ter transmitido alguma coisa que não podia traduzir em palavras, porque Sybil murmurou:

- Espere um instante.

Ele esperou. E esperou. Imaginou uma discussão na outra sala. Jill não queria mesmo atender sua ligação. Greg não sabia onde isso os deixava.

- Oi, Greg - disse ela, a voz fria. - Qual é o problema?

- Você é que tem de me dizer. - Ele controlou-se no mesmo instante e acrescentou, contrito: - Esqueça isso. Quero pedir desculpa.

Não deveria ter gritado como fiz em nossa última conversa.

- Tem toda razão.

- Eu estava furioso.

- Não era isso o que eu precisava.

- Eu sei.

Ele vagueava outra vez, o telefone sem fio encostado no ouvido. Para uma casa pequena, o lugar parecia monstruoso. Jill estava ao mesmo tempo por toda parte e em lugar nenhum.

- Sinto saudade.

Dera certo com Sybil. Ele queria que também desse certo com Jill. E deu, mas de uma maneira diferente. Ela soltou os cachorros, como costumava dizer:

- Agora você sabe como tenho me sentido nos últimos cinco anos. Você vive correndo por todo o país... às vezes se ausenta por dias a fio... desenvolvendo o negócio, como alega... mas depois de algum tempo não dá mais para aguentar, Greg. O casamento envolve duas pessoas. Tem de ser baseado no nós. Só que isso não acontece em nosso caso. Tudo gira em torno de você... você e seu negócio e clientes, você e seus amigos. Há sempre mais alguma coisa que você tem de fazer que não tem nada a ver comigo. E não posso deixar de me perguntar por que casamos.

Era estranho. Greg nunca se fizera essa pergunta. Nem uma única vez. Em cinco anos, nunca se arrependera de ter casado com Jill. Era um fato tão básico da vida que ele achou que o comentário da mulher era ofensivo.

- Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta. Que tipo de mulher volta para a casa da mãe ao primeiro problema?

- O tipo que não consegue se comunicar com você de qualquer outra maneira.

- Você é minha esposa. Deveria estar aqui.

- Porque sou sua esposa? Não. Eu deveria estar aí porque nos amamos.

- E nos amamos.

- Você nem mesmo sabe definir o que é amor.

Greg fechou os olhos, apertando-os com força. Esfregou o alto do nariz e resmungou baixinho.

- Ora, Jill, não vamos começar de novo.

- Preciso ir até aí. Apenas dizer as palavras não é suficiente. Preciso saber o que significam.

Era de esperar. Afinal, ela era uma mulher. Mas ele era homem e sua mente se tornava desfocada quando confrontada com palavras como "amor", "alma" e "eternidade".

Mas a posse significava nove décimos da lei. Ela era sua esposa. Prestara um juramento.

- Está bem. Volte para casa e conversaremos. Ela não respondeu.

- Jill?

- Não quero voltar. Sei o que vai acontecer. Um olhar para você e cederei.

Greg ousou um pequeno sorriso.

- Porque você me ama.

- É verdade. Nunca neguei isso. Mas não significa que quero continuar casada com você. Não posso mais viver assim, Greg. É solitário demais.

Solitário... era um sentimento que parecia familiar. Talvez ele também sentisse isso.

- Volte, meu amor. - A voz de Greg estava impregnada de emoção. - Volte e conversaremos.

Ela não disse nada. -Jill?

- Eu o avisarei.

Olivia acordou quase tão cedo quanto Susanne e Greg. Mas, enquanto o sono de Susanne foi abreviado pela irritação e o de Greg pela solidão, o de Olivia foi interrompido pela felicidade. O amanhecer encontrou-a no banco na janela de seu quarto, exultante com Asquonset.

A oeste, o céu era da cor de berinjela. A leste, era de um malva mais pálido, mais suave. A nuvem ocasional acrescentava textura e profundidade, mais púrpura a oeste, mais rosa a leste. Um manto de nevoeiro estendia-se sobre as terras baixas mais distantes da casa. Olivia fantasiou que as videiras naquela parte do vinhedo dormiam um pouco mais antes de enfrentarem o trabalho do dia.

E qual era o trabalho? Fazer uvas. Fora o ponto principal da conversa ao jantar na noite anterior.

Fora na sala de jantar, um banquete magnífico de pato assado, servido na melhor porcelana pelo marido da cozinheira. Só Natalie e Carl, Olivia e Tess estavam presentes, um grupo pequeno e íntimo...

quase um grupo familiar. Olivia achou muito divertido fingir que era mesmo uma família.

Olivia e Tess vestiram-se com algum exagero, como era de esperar. Usavam saias compridas, lenço na cabeça e sandálias... tudo novo. Natalie e carl usavam as mesmas roupas que vestiam durante a tarde. Embora fizessem questão de dizer que Olivia e Tess estavam muito bem, Olivia considerou que era a primeira lição da noite sobre a vida em Asquonset. Era informal, despretensiosa e concentrada no trabalho.

A segunda lição teve a ver com o vinho. Foi servido, mas apenas numa quantidade mínima. Ninguém em Asquonset bebia realmente; as pessoas apenas provavam. A amostra daquela noite foi um Estate Riesling de três anos, um vinho branco doce que combinava muito bem com o pato. As pessoas aspiraram, giraram o vinho no copo, tornaram a aspirar, enquanto o buquê era liberado. Até mesmo Tess participou do ritual, embora seu copo de vinho contivesse Little Bunches, o suco de uvas de Asquonset que era um de seus produtos mais vendidos.

A terceira lição foi sobre o tempo. carl falou longamente a respeito e não foi uma conversa ociosa. O tempo podia fazer ou destruir uma safra, e o tempo naquele ano estava longe de ser o ideal. A primavera chegara tarde e fora úmida demais. Ainda assim, as videiras haviam desabrochado, e o que carl chamava, com alguma reverência, de "conjunto das uvas" parecia muito bom. Mas o tempo continuava indefinido. Precisavam de sol mais do que um dia em quatro... senão, explicou ele, a safra daquele ano não amadureceria para se tornar doce.

Segurando a mão de Tess, apertando-a de vez em quando para mantê-la focalizada, Olivia escutara atentamente cada palavra. Acompanhara da melhor forma que podia a conversa sobre açúcar e acidez, níveis de Brix, pulverização profilática e besouros predatórios. Teria uma compreensão maior naquela manhã, quando Natalie as levaria numa excursão pelo vinhedo.

Na expectativa do passeio, Olivia já pusera filme e aprontara a câmera. Mas não podia esperar. Num súbito impulso, abriu a janela de caixilhos e removeu a tela com o maior cuidado. O ar da manhã entrou no quarto sem qualquer impedimento, frio e úmido, fragrante e revigorante. Deveria deixá-la enregelada, pois usava apenas uma camisola leve; em vez disso, porém, serviu para animá-la.

Ela pegou a câmera para fotografar o céu, variando os ângulos, para ter certeza de que captava as cores e as nuvens. Fotografou o manto de nevoeiro, que se dissipava cada vez mais ténue, enquanto ela observava. Fotografou os vinhedos enquanto eram mais e mais envolvidos pelo amanhecer, minuto a minuto. Fotografou o pátio por baixo de sua janela, com os móveis de ferro batido, as peônias ainda úmidas do orvalho.

Era como uma criança numa loja de balas, a tentação grande demais. Atravessou o banheiro nas pontas dos pés para dar uma espiada em Tess. A criança continuava num sono profundo, entre os lençóis azul-claros, o rosto envolto pelos cabelos desgrenhados. Olivia já a observara dormir tantas vezes que sabia que mais algum tempo passaria antes que a filha acordasse.

Fechou a porta com todo cuidado. Saiu para o corredor acarpetado e desceu a escada estreita que levava direto para fora daquela ala da casa. Não que eu esperasse um incêndio, assegurara Natalie quando lhes mostrara a escada. Mas agora servia muito bem aos propósitos de Olivia.

Só depois de virar a maçaneta e entreabrir a porta é que ela ficou imóvel, especulando se a casa tinha um sistema de alarme. Quase todas as casas em Cambridge tinham, o que também acontecia na maioria das cidades em que ela já residira.

A perspectiva de acordar a casa inteira provocou uma breve pausa. Haveria de se sentir uma idiota rematada.

Mas o silêncio persistiu. Não havia alarme. E a porta se abriu sem qualquer rangido.

com o coração batendo forte de excitamento, ela saiu para o pátio. As lajes de pedra estavam frias e molhadas, mas o efeito era estimulante. Ela saiu de baixo do toldo e atravessou o pátio. Parou junto da mureta de pedra. Ficou ali, admirando a vista, por uns dez minutos. A câmera permaneceu pendurada no ombro, enquanto os olhos captavam imagens tão preciosas quanto qualquer uma que poderia registrar em filme.

Só depois é que levantou a câmera. A vista através da lente, no entanto, não era tão espetacular quanto a que tinha na vida real. A câmera não poderia captar o canto dos passarinhos despertando para o novo dia. Não podia captar a serenidade de um vinhedo coberto pelo orvalho, o movimento gentil das nuvens, a fragrância de lilases e terra úmida ou o som distante de uma buzina de nevoeiro.

Encantada, ela tornou a pendurar a câmera no ombro e desceu pelo caminho de pedra que se afastava da casa. Era margeado por árvores verdejantes, uma paisagem espetacular de juníperos, ciprestes e teixos. O caminho foi logo substituído pelo gramado e o espaço aberto, tão precioso para as videiras, o espaço de que precisavam para respirar. Ela ouvira o suficiente na noite anterior para compreender por quê.

com os ombros empinados, ela ergueu a cabeça, entrelaçou os dedos para trás e encheu os pulmões com o ar da manhã. Nesse instante sentiu-se forte. Sentiu-se confiante, com a certeza de que poderia fazer o trabalho que Natalie queria. Sentiu-se orgulhosa por ter encontrado um lugar tão incrível para ela e Tess. Sentiu-se capaz de desafiar todas as pessoas que a haviam abandonado no passado. Sentiu-se revigorada e renovada.

- É um traje e tanto.

Olivia virou-se com um sobressalto. Simon estava parado ali, com uma caneca fumegante na mão. Tinha os cabelos úmidos, recémlavados, mas a sombra da barba era ainda mais escura do que antes, com os olhos sombrios. Ou talvez fosse apenas um efeito. Talvez os últimos vestígios da noite obscurecessem seu rosto. Ou talvez fosse pelos músculos contraídos na parte superior do braço, à mostra por causa das mangas arrancadas. Ou por causa das pesadas botas de trabalho. Qualquer que fosse a causa, a aparência era ameaçadora.

Mas Olivia não permitiria que qualquer ameaça a expulsasse de seu Éden. Nem bancaria a donzela tímida. Fora surpreendida fora da casa numa camisola absolutamente respeitável. Não havia qualquer mal nisso.

- Você não deveria estar aqui.

- Trabalho aqui - disse Simon, com o que era um pequeno sorriso ou uma contração. - E moro aqui.

Olivia sabia que não era bem assim. Simon tinha sua própria casa, a vários acres dali, embora Natalie explicasse que ele entrava e saía da casa-grande a todo instante.

- O que eu quis dizer é que você não deveria estar aqui tão cedo.

« Os olhos escuros não piscaram. » - Sempre levanto cedo. Esta é a melhor hora do dia para trabalhar.

- No vinhedo?

- Às vezes. Hoje, no escritório. Tenho de enviar vários e-mails. preciso de conselhos.

- Sobre o mofo?

- Fungos. Isso mesmo.

- Quer dizer que foi confirmado? com a cabeça.

- Não foi nenhuma surpresa. A estação foi chuvosa e úmida. Precisamos de mais sol.

- É o que parece que terá hoje - comentou Olivia, lançando um olhar para o brilho dourado que começava a se espalhar pelas copas das árvores.

Simon deu de ombros de uma maneira que dizia talvez sim, talvez não. Tomou um gole do café. Os olhos fixavam-se em Olivia, por cima da caneca, que era uma peça larga, o tipo de caneca que devia ser exclusiva. Ele abaixou-a, segurando-a com a mão enorme.

Olivia teria entrado para se vestir se ele não estivesse bloqueando a passagem. Ficou esperando que ele se mexesse, mas Simon continuou parado ali, no ponto em que começava o caminho para o pátio. Parecia enorme e viril, o peso do corpo apoiado numa perna, fitando-a. Olivia decidiu que não desviaria os olhos. Recusava-se a fazê-lo. Se o jogo era descobrir quem piscava primeiro, ela podia jogá-lo tão bem quanto Simon.

Finalmente, ela venceu. Depois de um longo minuto, Simon desviou os olhos. Olivia sentiu um estranho desânimo. ?

- Há alguma coisa errada? Ele tomou mais um gole de café, contemplando um ponto distante. Depois, tornou a fitá-la.

- Isso depende de você. Se está aqui à procura de mais do que o projeto de Natalie, há com certeza alguma coisa errada.

Olivia estava ali para mais do que o projeto de Natalie. Viera também pelo dinheiro, o sol, a diversão, a fuga, a possibilidade de encontrar uma ilusão familiar. Mas Simon não podia saber de nada disso.

- Desculpe, mas não entendi.

- Se veio em busca de marido, está procurando no lugar errado. Olivia alteou as sobrancelhas. Quase riu de tão distante que ele se encontrava de seus objetivos.

- Um marido? Se eu quisesse isso, iria para um lugar cheio de pessoas. Desculpe, mas não é esse o motivo da minha presença aqui.

Ele não se abrandou.

- - Natalie imagina-se uma casamenteira. E quer me ver casado. Olivia demorara a fazer a ligação. Consternada agora, ela comprimiu a mão contra o peito.

- Você acha que ela quer...

Olivia acenou com um dedo entre os dois.

- Acho que ela quer... Simon arremedou o gesto.

- Oh, não... não pode ser... - Olivia gesticulou com as duas mãos. - Natalie não faria isso. Não sou o tipo de pessoa de quem os outros podem pensar assim.

Ela era magra e pálida. Tinha uma filha de dez anos, uma história de frustração romântica e os cabelos muito curtos e espetados para serem atraentes. Porque se sentia embaraçada, ela caiu na defensiva:

- Natalie tem bons motivos para me querer aqui, mas nenhum tem a ver com você. Além do mais, você não é meu tipo.

Ela apreciava as pernas de Simon, mas não mais se deixaria envolver por um único detalhe. Pernas bonitas não faziam um relacionamento. E todo o resto em Simon Burke era agressivo.

- Não é absolutamente o meu tipo - reiterou Olivia. - E o que há de errado com você que não pode tomar a iniciativa de arrumar uma namorada?

Ela não faria essa pergunta se Simon fosse feio ou esquisito. Mesmo acima das pernas, porém, ele era bonito, à sua maneira. Agressivo, mas bonito.

- Não estou interessado.

Um momento passou antes que Olivia registrasse o comentário. Depois, soltou uma exclamação involuntária.

- Essa não! - Ela deveria ter adivinhado. - Desculpe.

Não era o que acontecia com frequência com os homens mais bonitos?

A expressão de Simon era desdenhosa, mas logo foi substituída por uma coisa tão carente de emoção que chegava a ser assustadora.

- Eu era casado. E amava minha mulher. Ela e nossa filha morreram num acidente quando velejavam.

Olivia prendeu a respiração. E inverteu seus pensamentos. Não esperava por isso.

- Há quanto tempo aconteceu?

- Quatro anos.

- Como elas se chamavam?

- Minha esposa era Laura.

- E sua filha? Um olho se contraiu no menor sinal de angústia. - Isso tem alguma importância?

- Tem sim.

Olivia era perita em inventar histórias, mas, se havia fatos, ela queria saber. Precisava dos nomes para acompanhar os rostos quando pensasse em Simon.

- Liana.

Ela permitiu-se respirar.

- Laura e Liana. Nomes lindos.

- É verdade.

- Que idade Liana tinha?

- Seis anos quando morreu. - Havia uma acusação nos olhos de Simon. - Minha filha teria mais ou menos a idade da sua se tivesse sobrevivido.

Olivia não podia conceber a perda de Tess. Não podia sequer imaginar. Também sabia que, se estivesse no lugar de Simon, sentiria uma dor desesperada ao ver Tess.

- Aí está a prova incontestável de que Natalie não me trouxe para cá por sua causa. É coincidência demais. Ela não faria isso de propósito. É muito cruel.

- Coisas cruéis podem ser feitas com as melhores intenções.

- Não desta vez - insistiu Olivia. - Estou aqui para trabalhar. Ela precisava acreditar que Natalie a escolhera por seu amor ao

passado e pelo trabalho que realizara para Otis. Natalie não indagara sobre seu relacionamento com os homens, o que faria com certeza se tivesse a intenção de uni-la a seu futuro enteado. Nem mesmo pedira uma foto sua.

- Pareço com Laura? - Nem um pouco. -Caso encerrado.

Ele soltou uma risada.

- Ao contrário, é um argumento favorável. Ela não ousaria trazer uma mulher parecida com Laura.

Olivia não tinha a menor ideia da aparência de Laura, mas nesse momento sentiu-se feia em comparação.

- Tudo isso é irrelevante. Mesmo que você estivesse interessado, eu não estou. Já tenho desafios suficientes em minha vida neste momento. Não preciso de mais algum.

- Melhor assim. Podemos ter certeza de que nos entendemos.

- E muito bem.

- Desde que todas as cartas estejam na mesa.

- Estão.

Mas não estavam, é claro. Olivia não podia deixar de pensar em sua esposa e filha, na perda súbita e terrível.

- Estava com elas quando aconteceu?

Simon não fingiu que não entendia.

- Não. Ela especulou se Simon lamentara por isso.

- Poderia salvá-las se estivesse presente?

- Não.

- Laura era daqui mesmo? Uma garota com quem você foi criado? A namorada da infância? Aquela que Simon esperara por anos?

com quem muito sonhara? A única com quem pensara em casar? Mas ele demonstrou uma irritação repentina.

- Há algum motivo para essas perguntas?

- Apenas curiosidade. Como pode continuar aqui depois do que aconteceu? Não é angustiante demais?

A irritação desapareceu tão depressa quanto surgira. Os olhos de Simon desviaram-se para o mar. Não era visível dali, nem podiam ouvir o barulho das ondas, mas ambos sabiam que se encontrava ali.

- Se fosse eu, iria para um lugar completamente diferente acrescentou Olivia.

Era uma coisa que fizera mais de uma vez, pegando tudo o que era seu e deixando lugares que não davam certo para ela. Os sete anos em Cambridge eram um recorde. Ela era mesmo a filha de sua mãe. Mas Simon, ao que parecia, era o filho de seu pai.

- Vivi aqui durante toda a minha vida. Não posso ir embora. O vinhedo é quem eu sou.

- Há outros vinhedos.

- Não como este. - Ele virou-se para ir embora depois de lançar seu último olhar desdenhoso. - Se você aprender alguma coisa neste verão, que seja isso.

Simon voltou para casa para preparar o resto do café da manhã, como sempre fazia, sozinho e em silêncio. Laura também amava o silêncio do início da manhã. Preenchia-o com sua admiração pelo amanhecer e por ele. Simon nunca se sentira sozinho, apesar de todo o silêncio. Agora, como nos últimos quatro anos, não sentia outra coisa que não a solidão. Mesmo assim, apreciava o silêncio.

Naquela manhã, porém, sentia-se irrequieto, sem muita fome. Por isso, pôs mais café na caneca e seguiu para o galpão, com o peludo Buck em sua esteira.

O galpão... era um nome despretensioso para o que era um lugar impressionante, pelo menos em sua opinião distorcida. Localizado numa área aberta, a leste da casa-grande, era enorme. A construção que alojava um único trator quando o avô de Simon chegara na propriedade, na década de 1920, era agora quatro vezes maior e tinha não apenas um trator, mas também uma colheitadeira, um veículo de pulverização, uma segadeira e outros equipamentos. Além disso, com suas paredes de ripas e janelas de guilhotina, era mais sofisticado do que um mero galpão. O que mais impressionava, no entanto, era o segundo andar. Fora acrescentado seis anos antes, uma das últimas decisões de carl como gerente do vinhedo. Sob o teto em empena, reminiscente da casa-grande, era agora o escritório de Simon.

Foi para lá que ele seguiu. Pôs a caneca com café na mesa, deu alguns biscoitos ao gato enquanto ligava o computador. Leu a correspondência eletrónica. Havia muitas mensagens. Ele podia ter se tornado um eremita nos últimos quatro anos, mas tinha amigos no mundo viticula, colegas com quem mantinha contatos regulares. Muitos eram decanos na Universidade de Cornell, agora ensinando em outras universidades e trabalhando em outros vinhedos. Outros eram contatos que ele fizera em agências agrícolas do governo. Quase não se passava uma semana, por exemplo, em que não entrasse em contato com o centro de pesquisa em Geneva, estado de Nova York. Queria estar sempre a par das últimas descobertas.

O cultivo estava longe de ser uma ciência exata. Havia variáveis de uma safra para outra, as uvas eram como flocos de neve: não havia duas iguais. Isso fazia com que fosse ainda mais interessante, um autêntico desafio, em particular no estado de Rhode Island. O cultivo da uva era diferente do que acontecia em outras partes do mundo, O solo era diferente. O clima era diferente. Havia também menos vinhedos ali; em consequência, menos colegas com que compará-los.

O vinho daquelas uvas teria um cheiro horrível. Por outro lado, se não fizesse nada e a deterioração se espalhasse, poderia perder um bloco inteiro.

Ou seja, não fazer nada não era uma opção.

O que ele queria mesmo fazer era perguntar ao pai. Mesmo sem qualquer educação formal, carl era o que mais entendia do cultivo de uvas no círculo de amigos de Simon. Lera quase tudo que valia a pena sobre o cultivo de uvas, e mesmo agora ainda comparecia a conferências quando Simon não podia ir. Jeremiah Burke poderia ter cultivado as primeiras uvas em Asquonset, mas fora carl quem se destacara e pusera o vinhedo no mapa. Ele compreendia por que algumas uvas cresciam bem ali, o que já não acontecia com outras. Por isso, cultivara apenas as primeiras. Instituíra o sistema de treliça que ainda era usado em Asquonset. Fora o primeiro na costa do Atlântico a adotar o sistema integrado de controle de pragas como o mais ecológico. Em seus anos no comando, produzira uma safra extraordinária depois de outra.

Carl saberia o que fazer agora. Era sem dúvida a pessoa certa para consultar.

Mas era bem provável que ainda estivesse dormindo. E dormindo com Natalie. Ela não permitiria que ele se mudasse formalmente para a casa-grande até o casamento, mas Simon já vira o pai esgueirando-se por uma porta lateral em mais de uma manhã de nevoeiro.

Não via nada de errado nisso. carl merecia esse prazer. Além do mais, se dormir com Natalie - se casar com ela - prolongasse a vida de Carl, Simon seria o único beneficiário. Não estava preparado para outra perda tão cedo.

Quatro anos... ele sentiu de novo a pressão no peito. Esfregou-o com a palma da mão para atenuar a angústia. Depois de tomar o resto do café, ele largou a caneca e deixou a cadeira.

- Não precisa levantar - murmurou ele para o gato, passando por cima do corpo gordo.

Ao pé da escada, deixou uma mensagem para Donna Gomez, assistente do gerente, agora a única outra pessoa na equipe... o que era assustador. Ainda se sentia atordoado com as perdas. A saída de Paulo era a pior de todas. Ele não precisava que Simon conferisse seu trabalho. Conhecia uvas como poucos.

Mas estava feito. As horas tentando fazer com que Paulo mudasse de ideia haviam sido em vão. Ele fora embora e Simon daria um jeito de sobreviver.

A situação das uvas era diferente. Dependia apenas dele, agora, se viveriam para aumentar de tamanho e adoçar. Não, isso não era verdade. Dependia de Deus. Mas esse pensamento não proporcionou qualquer conforto a Simon. Deus podia ser cruel. Cabia a Simon fazer o que estivesse ao alcance de um mero mortal para impedir qualquer maldade dirigida contra suas uvas.

Ele seguiu primeiro para a área da Cabernet. Começou pela primeira das quarenta fileiras, estudando os cachos de bolinhas mínimas que deveriam se desenvolver em uvas. Quando encontrava folhas superiores que ameaçavam bloquear o sol, afastava-as gentilmente, prendendo na treliça. Quando avistava folhas inferiores ameaçando a mesma coisa, tratava de removê-las. Não havia regras ali. Se não arrancasse o suficiente, o dossel de folhas deixaria as uvas na sombra, impedindo-as de receber o sol de que precisavam para amadurecer. Mas as folhas eram cruciais para a fotossíntese, que convertia o dióxido de carbono em açúcar. Se arrancasse demais, a doçura das uvas ficaria comprometida. Mas quanto tirava e onde dependia da variedade da uva, sua. localização no vinhedo e o tempo que fazia. Era rigorosamente um julgamento subjetivo.

Ao passar de uma videira para outra, Simon exercia seu julgamento com satisfação. Arrancava folhas das videiras há tanto tempo quanto podia se lembrar e adorava o processo. Havia um ritmo na atividade, que era quase como uma arte. Tinha de sentir que o produto final era certo. O que era instintivo.

Naquela manhã, ele entrou sem dificuldade no ritmo, tanto para escapar do sentimento inquietante no fundo do estômago quanto para ajudar as uvas. As botas firmavam seus passos no solo úmido. O rangido das videiras tinha um efeito tranquilizador.

Ele não olhou para o relógio enquanto a manhã avançava. Também não olhava para as nuvens cada vez mais densas. Foi se deslocando devagar, de uma fileira para outra. Buck surgiu de repente, sentou e ficou observando. Quando Simon fazia a volta para a fileira seguinte, o gato o acompanhava, passando por baixo das videiras, para Simon, era uma boa companhia, que se mantinha em silêncio, sem exigir nada.

A não ser por uma breve pausa, quando Donna o procurou, Simon manteve a mente concentrada no trabalho e os olhos fixados nas videiras. Num momento estava agachado, trabalhando na altura das uvas, no instante seguinte se erguia, para o primeiro dos três arames da treliça. As folhas superiores mal alcançavam agora a altura de seu peito. Mais dois meses e ficariam na altura dos olhos, no arame superior.

Ele tirou uma folha baixa, crescendo um pouco acima de um cacho de uvas nascentes. Estudou a configuração resultante de fruta e luz para depois remover outra folha. Satisfeito, passou para o cacho seguinte.

- O que está fazendo? - perguntou uma voz de criança.

Ele levantou os olhos. A filha de Olivia Jones estava no meio da fileira, observando-o através de óculos que faziam seus olhos parecerem grandes demais para o resto do corpo, que parecia pequeno, envolto por uma capa verde. Ela tinha o capuz na cabeça, mas tufos de cabelos castanhos projetavam-se nos pontos mais insólitos.

Simon não percebera a neblina até que a viu passar o dorso da mão pelos óculos.

- Isso piora ainda mais - comentou Simon, sem entender como ela podia ver qualquer coisa com as lentes embaçadas. Ele gesticulou para que a menina se afastasse. - Você está perto demais. As uvas precisam respirar.

Ela deu um passo para trás, apenas um.

- Você está tão perto quanto eu estava.

- Estou trabalhando. Simon voltou ao trabalho, na esperança de que a menina percebesse a insinuação e fosse embora. ?«tóoy ? - Se eu estava perto, seu gato também está.

- É um gato, mais baixo do que você, e não veste uma capa.

- Ele é feio. Simon lançou-lhe um olhar. - Obrigado. Foi muito gentil.

Ele estudou a videira.

-O que está fazendo?

Simon removeu uma folha.

- Podando.

- De que isso adianta?

- Diminui a cobertura de folhas.

- Por que precisa diminuir?

- Se há folhas demais em torno das uvas, elas não recebem todo o sol de que precisam.

Simon acocorou-se para estudar o cacho.

- Acho que não tem muito sol. E essas coisas não parecem com uvas.

O tom de voz era de uma garota mimada. Ao se virar, Simon concluiu que ela também parecia assim. Os olhos eram duros, o queixo projetava-se para a frente.

- Confie em mim. São mesmo uvas.

- Posso comê-las?

- Não ouse.

- Por que não?

- Porque estão azedas e são duras. Se comer agora, ficará con uma tremenda dor de barriga e eu não terei uma colheita.

- Eu não ia comer todas.

- Não... coma... nenhuma.

Simon enunciou cada palavra em separado enquanto lançava um olhar longo e duro para a menina. Por mais incrível que pudesse parecer, ela sustentou seu olhar. Ele já começava a pensar que a menina era irritante - não muito diferente da mãe - quando ela virou e afastou-se.

A garota não gostava dele. Não tinha problema. Simon também não gostava dela. Não pedira a presença de uma criança ali. E não a queria vagueando por seus vinhedos. Não podia se permitir qualquer distração; afinal, a qualidade da safra já era bastante precária mesmo sem isso.

Quando o estômago roncou, ele olhou para o relógio. Era quase meio-dia. Naquele momento Madalena estaria servindo sanduíches na cozinha da casa-grande. Qualquer um podia passar por ali e comer. Era um costume informal, uma das vantagens da vida em Asquonset. Ele almoçara na casa-grande durante toda a sua vida.

Hoje ele queria uma coisa diferente. Não importava o que fosse. Podia ser um sanduíche de presunto, queijo e legumes na lanchonete na encruzilhada. Até mesmo um Big Mac em Huffington serviria. Era a cidade mais próxima. Podia pegar o carro e ir até lá.

Primeiro, no entanto, precisava da terapia. Ignorou a neblina, que mais e mais parecia com uma chuva miúda, e voltou a arrancar folhas e ajeitar as treliças, até sentir que o nó interno relaxava. O vinhedo fazia isso com ele. Nunca falhava. O resto do seu mundo podia desmoronar, mas as videiras estavam sempre ali. Quer estivessem adormecidas ou crescendo, fossem mais altas ou mais baixas, carregadas de uvas ou apenas com a promessa, elas reagiam ao seu contato.

Quando Donna apareceu, depois de passar a manhã com as Chardonnay, Simon mandou que ela fosse almoçar sozinha. Também se recusou a ir quando Natalie o chamou pelo Nextel pendurado do cinto, nas costas. A camisa ficou molhada, grudada na pele, mas ele continuou a trabalhar, até que o som das videiras e o cheiro da terra restauraram seu equilíbrio.

Depois, foi para o galpão, sentou ao volante da picape e deixou Asquonset.

Uma semana depois, Olivia tornou a acordar ao amanhecer. Sentou no banco da janela em seu quarto, os braços em torno dos joelhos. Uma semana depois, ela lembrou a si mesma. Era difícil acreditar. Cada dia fora mais pleno do que o anterior... e o livro de Natalie vinha saindo muito devagar.

E Natalie se importava com isso? Não.

- Como pode escrever minha história sem conhecer Asquonset?

Ela fazia uma sugestão depois de outra para coisas que mantinham Olivia distante do sótão e do trabalho no livro. Olivia poderia começar a pensar que Simon tinha razão - que Natalie não a trouxera a Asquonset para escrever um livro - se ele estivesse mais presente. Mas Simon não apareceu durante uma excursão pelo vinhedo, nem participou de um almoço de apresentação no iate clube. Nem sequer avistaram sua picape durante um passeio pela cidade; e quando foram ao cinema à tarde, com Natalie e Carl, Simon não foi convidado, ou se recusou a acompanhá-los.

A ida ao cinema foi no sábado. Natalie e carl se mostraram tão entusiasmados com o filme, assim como com a passagem por uma antiquada lanchonete drive-in depois, quanto Olivia e Tess. Como Olivia podia não sonhar? Claro que Natalie tinha motivos ao trazê-la Para Asquonset, mas envolviam o retorno ao vinhedo de uma pessoa da família há muito desaparecida... ou pelo menos o sonho era assim. Deus sabia que não havia sangue jovem por ali. Ao que Olivia soubesse, nenhum dos netos de Natalie a procurava. Também não havia primos e sobrinhos. carl não tinha família além de Simon. E a mulher e a filha de Simon haviam morrido.

O sonho definhou num domingo, quando Olivia e Tess foram convidadas para o serviço religioso na igreja graciosa, de campanário branco, quase no centro da cidade. Parecia que várias pessoas de Asquonset iam juntas todas as semanas. Olivia e Tess foram convidadas como parte da família de Asquonset, no sentido mais amplo da palavra. Tess ficou um pouco consternada.

- Mas não costumamos ir à igreja - sussurrou ela, desolada, quando Olivia levou-a para seus aposentos, a fim de se vestirem, depois do café da manhã.

- Claro que vamos, só que não com frequência - declarou Olivia. - Ainda não encontramos uma igreja do nosso agrado.

- Mas o que eu devo fazer lá?

- Escutar. Orar. Cantar.

- O que devo usar?

- Seu vestido novo. suplicante.

- Cada vez que uso uma roupa nova descubro que estou errada. No encontro no clube com as crianças que também vão participar do curso de iatismo nenhuma usava short branco e sandálias. Todas usavam jeans de pernas rasgadas e ténis. Eu me senti uma idiota.

- Mas agora passou a usar a mesma coisa que as outras crianças.

- com as camisas de Asquonset, Olivia já notara. Tess sempre escolhia uma delas. - Esta manhã vamos à igreja. E você ouviu o que Natalie disse. As pessoas sempre se vestem direito quando vão à igreja.

Olivia também pôs um vestido novo. Teve o maior cuidado com a maquilagem. E arrumou os cabelos. Sua aparência era um reflexo de Natalie e ela queria parecer uma assistente digna. Ou uma prima. Ou uma sobrinha.

Simon não foi com o grupo de Asquonset. Nem apareceu na igreja. Desta vez, as roupas escolhidas por Olivia estavam certas. Ela fez uma pequena oração de agradecimento por isso. Também fez uma oração para que tivessem sol, e outra por Tess.

Ao recordar os primeiros dias em Asquonset, Olivia não podia deixar de especular se a última oração vinha sendo atendida. Tess sentia-se nervosa com a perspectiva de velejar e temia a presença de uma professora particular. Mas havia algumas coisas positivas. Para começar, ela fizera amizade com os quatro gatos que viviam na casa. Como crianças no recreio, os gatos estavam à sua espera quando descia pela manhã, vinha de fora ou subia ao sótão à procura de Olivia. Seguiam-na de um lugar para outro e disputavam sua atenção, Henri de uma forma mais furtiva do que Maxwell e Bernard, sempre mais ostensivos. Achmed sempre a acolhia com evidente satisfação em sua posição imperial no sótão. Tess, por sua vez, passava horas com os gatos, esfregando cabeças, afagando costas, desenhando suas caras.

Os gatos não eram outras crianças, mas como companhia eram melhor do que nada.

Outro fator positivo era o ténis. carl tornou-se o instrutor, e Olivia não poderia desejar outro melhor para a filha. Ele era paciente e gentil. Como era pessoa já conhecida para a criança àquela altura, não era ameaçador como um novo professor seria. Além disso, carl era bom no ténis.

- Não podia deixar de ser, vivendo aqui durante tantos anos comentou ele quando Olivia fez a observação. - Alexander adorava jogar ténis. Costumava me tirar do vinhedo para jogar quando não tinha um parceiro. Depois Simon quis aprender, com uma quadra à disposição.

- Ele era melhor do que eu? - indagou Tess, inclinando a cabeça para trás e olhando através dos óculos, por baixo da pala do boné de Asquonset.

Ela recebera até agora duas aulas e errara mais da metade das bolas que carl jogara para sua raquete. carl pareceu pensar a respeito antes de responder:

- Não. Você é melhor. Simon só pensava em força e rapidez, antes mesmo de aprender a fazer contato com a bola. Era um menino, impetuoso, impulsionando a raquete para um lado e outro, e errando muitas bolas.

- Eu também errei.

- Menos no fim do que no começo. Está começando a pegar o jeito. Observa a bola, como eu disse para fazer. E começa a calcular a distância certa entre sua mão e o centro da raquete.

- Simon não fazia essas coisas?

- Demorou um pouco para aprender. - carl inclinou-se para Tess. - Mas não conte a ele o que eu falei.

Assim, no lado positivo da balança, para Tess, havia os gatos, os acessórios de Asquonset e Carl. No lado negativo, havia a professora particular.

Tess não queria. Resistia a aceitar qualquer coisa que a lembrasse de sua fraqueza. Ficaria contente em passar o verão sem abrir um único livro. Mas Olivia recusou-se a permitir que isso acontecesse. Todo o objetivo de aceitar a proposta de Natalie fora o de ter condições de contratar uma professora particular para vir todos os dias. Olivia sabia que haveria brigas antes de cada aula, mas tomara a decisão de não ceder.

Essa determinação foi reforçada pela professora. Sandy Adelson era diretora do programa de necessidades especiais em Braemont, a escola em Providence na qual Olivia desejava matricular a filha. Esse era um importante ponto positivo, um meio de acesso à escola caso Olivia conseguisse arrumar um bom emprego no outono. Mas era apenas o primeiro dos vários pontos positivos.

Sandy era filha de uma das amigas mais antigas de Natalie. Morava a dez minutos de Asquonset. Um espírito livre, usava os cabelos cinzentos escorridos, repartidos no meio, com blusas de tricô feitas à mão e jeans bordados. Pela aparência, era a menos provável especialista em deficiências de aprendizado que Olivia já conhecera. Apesar disso, era uma profunda conhecedora. E dedicada ainda por cima, servia-se de indicação o tempo todo que passou estudando os boletins de Tess antes do primeiro encontro.

Esse primeiro encontro foi numa mesa no pátio, por baixo do toldo. Olivia decidira que estaria ali antes mesmo de Sandy solicitar sua presença. Essa foi a primeira diferença para as tutoras anteriores; a segunda ocorreu menos de cinco minutos depois de iniciada a sessão.

- Gostaria de experimentar um novo método com você - disse ela para Tess. - Teve sucesso com outras crianças que tinham problemas de discriminação visual, como você.

- Sou disléxica - corrigiu Tess.

- Sei disso, mas há diferentes tipos de dislexia. Alguns envolvem o processamento auditivo. O seu envolve um problema visual. Você não vê as letras e palavras da maneira como deveria. Mas, a menos que as veja corretamente, não pode soletrá-las, compreendê-las ou escrevê-las.

- Acabei de verificar os óculos. Posso ver tudo direito.

Pare com isso, protestou Olivia, mentalmente. Entendeu muito bem o que ela quis dizer. Sandy não se perturbou.

- Sei que pode, em termos físicos. Seus olhos vêem o que está no papel, mas não interpretam de uma maneira que seu cérebro seja capaz de compreender. Podemos corrigir isso.

- Como?

- Dando ferramentas para ajudá-la a ver da maneira correta. .

- Ferramentas como as que são usadas em porcas e parafusos? Ou óculos especiais?

Tess parecia entediada. Olivia teve de morder a língua para não repreender a filha. Outra vez, Sandy manteve-se impassível.

- Ferramentas como novas maneiras de olhar para as palavras. Novas maneiras de ler livros. Novas maneiras de estudar para as provas. Novas maneiras de fazer as provas.

- Não pode fazer isso em apenas um verão.

- Mas posso chegar perto. - Sandy olhou para Olivia. - Há estratégias de aprendizado para crianças como Tess. Ela já aprendeu SeR?

Olivia piscou, aturdida, e sacudiu a cabeça em negativa.

- É o mapeamento visual?

- Também não - respondeu Olivia. - As outras professoras se concentraram em revisar as matérias ensinadas na escola.

- Sem muito sucesso - acrescentou Tess. Sandy voltou a fitá-la, com um sorriso.

- Talvez seja por isso. Temos de ser proativas, não reativas. Precisamos prepará-la para o sucesso, não para alcançar as outras crianças depois que fracassou.

Tess não tinha um comentário para isso.

- Assim, uma das coisas que faremos aqui será uma pré-leitura dos livros que estará lendo no outono.

- Pré-leitura? - repetiu a criança, consternada. - Ler agora e depois ler de novo no outono? Sou uma péssima leitora.

- Não será mais depois que aprender a ler da maneira certa.

- Mas leva uma eternidade ler livros uma única vez! - insistiu Tess.

- Não vai mais levar depois que aprender a ler de um jeito que vai favorecê-la.

- Mas como posso saber que livros estarei lendo no outono se ainda não sei para que escola irei?

Olivia explicou a situação. Sandy também tinha respostas para isso.

- Pediremos as listas de leituras da escola pública em que ela estava, mais de Cambridge Heath e várias outras escolas particulares. Haverá uma superposição. Trabalharemos com um desses livros. A maioria dos livros neste nível serve para ensinar as habilidades de visualização. Faremos o trabalho de vocabulário do livro escolhido.

Tess gemeu.

- Sou horrível no vocabulário. Nunca consigo soletrar as palavras da maneira certa.

- É mesmo? - Sandy abriu a bolsa e tirou um livro. - Usamos este livro na quinta série em nossa escola.

- Não posso fazer uma leitura da quinta série. Ainda não cheguei lá.

Sandy abriu numa página ao acaso. Pôs o livro na frente de Tess e apontou.

- Sabe que palavra é esta?

- "Knee" - respondeu Tess, joelho em inglês.

- Você viu o princípio... e adivinhou o resto. A palavra começa com k-n, mas não é "knee".

- Está vendo? Não sou boa nisso.

Sandy pôs a mão no braço de Tess, num gesto tranquilizador. Tornou a abrir a bolsa e tirou um caderno. Abriu numa página em branco, pegou um lápis e escreveu "knight" para Tess ver.

- Esta é a palavra no livro. Olhe para as duas. São iguais?

Tess comparou as duas. Acenou com a cabeça numa resposta positiva.

- "Knight" - disse Sandy, escrevendo a palavra de novo. - Não é o tipo de "night", a noite, que é o momento do dia em que dormimos. É um tipo diferente de "knight".

- Um soldado.

- Correto. - Sandy apontou com a ponta do lápis. - Olhe para essas letras subindo no começo e fim, como se fossem espadas ou lanças. Agora, vou traçar uma linha em torno das letras.

Ela fez isso enquanto continuava a falar. - vou subir por cima do k, descer pelo n, o i e o g. Tornou a subir com a haste do h e um pouco mais baixo com o t. Descemos para o lado do t com um pequeno traço, onde a letra é riscada. Descemos para o fundo agora e começamos por baixo. Estou por baixo do h. vou ainda mais baixo sob o g, torno a subir, continuo numa linha reta sob o n e oK, depois subo para o ponto em que comecei. Pronto. A palavra está cercada por uma linha. Observe a forma.

Tess inclinou-se para a frente e olhou.

- Passe o dedo pela linha - sugeriu Sandy. Tess traçou o contorno com o dedo.

- Pode sentir o formato? - perguntou Sandy. - Sentir as lanças nos dois lados, como o guarda da rainha?

Tess acenou com a cabeça em confirmação. Sandy arrancou uma página do caderno.

- Uma das professoras disse em seu relatório que você sabe desenhar. É verdade?

Tess empertigou-se na cadeira. Deu outro aceno de cabeça positivo. Sandy pôs a folha antiga ao lado de uma folha em branco. Entregou o lápis a Tess.

- Desenhe um cavaleiro.

- Um cavaleiro? Qualquer cavaleiro?

- Qualquer cavaleiro que você queira, desde que seja um soldado, como disse.

Enquanto Tess desenhava, Sandy recostou-se na cadeira. Correu os olhos pelo pátio e pelo vinhedo. Respirou fundo. Era evidente que estava gostando.

Olivia pensava que pelo menos em otimismo Sandy ganhava das outras quando Tess terminou o desenho. Os olhos de Sandy revelaram uma apreciação imediata.

- Puxa, você sabe mesmo desenhar. Vai ser muito divertido. Agora escreva a palavra por baixo do desenho.

Tess copiou a palavra da primeira folha.

- Agora desenhe um boxe em torno da palavra, como eu fiz. Leve o tempo que precisar.

Tess desenhou o boxe. Tinha o seu jeito nos cantos - Olivia não esperava uma conformidade total -, mas seguia o contorno geral das letras. Sandy pegou essa folha e a primeira que usara, virando-as ao contrário, para que Tess não tivesse de onde copiar.

- Agora escreva a palavra.

Tess deu a impressão de que ia argumentar, mas depois escreveu a palavra, corretamente.

- Aí está! - exclamou Sandy, satisfeita. - Teremos uma hora juntas amanhã, debaixo daquela árvore frondosa no outro lado do vinhedo.

- Uma hora inteira? - indagou Tess. - Eu só tinha meia hora na escola.

- O que eu gostaria mesmo era que pudéssemos ter duas horas declarou Sandy.

- Duas... - suplicou Tess, olhando para Olivia. - Este é o meu verão.

- Está bem, uma hora - disse Sandy, com um suspiro conciliador. - Não será tão ruim assim.

Tess deixou escapar um suspiro de alívio.

Sentada no banco na janela, na manhã seguinte, Olivia sorriu ao se lembrar da aula. Tess fora completamente envolvida. Sandy não apenas sabia muito sobre deficiência de aprendizado, mas também conhecia crianças. Se alguma vez Olivia se sentira otimista de que estavam nas mãos certas, era agora. Lidar com a dislexia de Olivia não era mais ter de enfrentar o mundo todo. Sandy estava do lado delas. Olivia não se sentia mais tão sozinha.

Ela encostou o queixo nos joelhos. Asquonset era um lugar encantador nesse sentido. Ela não se importava se o livro de Natalie levasse mais tempo para ser feito. Ao final, seria feito.

Houve um movimento lá embaixo. Uma figura encaminhou-se para a extremidade do pátio, a fim de contemplar o vinhedo ao amanhecer. Era Simon, bem na hora. Como fazia todas as manhãs, levava uma caneca com café fumegante, embora Olivia mais a imaginasse do que visse. A pouca claridade do amanhecer não iluminava muito mais do que os seus contornos.

Sem pressa, ela avaliou suas pernas, depois os quadris estreitos, a projeção crescente do tronco. Simon vestia várias camadas de camisas contra o frio do amanhecer, o que fazia com que os ombros parecessem enormes. Mas Olivia sabia como eram aqueles ombros com uma camiseta de mangas cortadas. Sabia como os músculos ali eram sólidos.

Ela ficou imóvel enquanto o observava. Não tornara a sair da casa àquela hora, depois da primeira manhã. Era evidente que a conversa dos dois enveredara por um caminho errado. Esbarrar com Simon outra vez parecia inútil. Além do mais, ali de cima não precisava ser recatada. Podia contemplá-lo tanto quanto quisesse.

Teria cinco minutos para fazer isso. Era o tempo que Simon ficaria parado ali, tomando o café, correndo os olhos por seu reino. Depois, deixaria o pátio, desaparecendo por entre as videiras, a caminho do galpão. Era definitivamente uma criatura de hábitos.

E como era inevitável, ao final dos cinco minutos, ele mudou a postura, preparando-se para a partida. Naquele dia, porém, ele não partiu. Virou um pouco a cabeça, como se tivesse ouvido alguma coisa. Ficou imóvel, prestando atenção. De perfil, Olivia pôde ver os cabelos caindo pela testa, as linhas do nariz e do queixo. Depois, ele virou-se por completo e olhou direto para Olivia.

Ele não pode me ver, pensou ela. Mas não queria correr qualquer risco. Prendeu a respiração, manteve os braços em torno das pernas, o queixo nos joelhos, em total imobilidade. Ou pelo menos tudo que era voluntário permaneceu imóvel. O coração, no entanto, batia mais depressa e havia uma intensa vibração interior. Apanhada com a mão no pote de biscoito, pensou Olivia, reprimindo uma risada nervosa.

Ele não pode me ver, pensou ela em seguida. Mas a sensação era a de que Simon a via. Olivia tentava compreender isso quando ele tornou a se virar e partiu, em seu ritual diário.

A chuva tamborilava no telhado do sótão, onde Natalie espalhara as fotos. Olivia reconheceu-as como parte da primeira remessa que Otis recebera há vários meses. Ela não viu a mulher misteriosa. Aquelas fotos eram de um período ainda anterior, primitivas, em preto-e-branco, a maior parte de campos vazios e prédios escuros. Ao examinar um dos prédios, Olivia percebeu os primórdios da casa-grande.

- Você tem um bom olho - disse Natalie quando ela fez o comentário.

Mas em vez de discorrer a respeito, como Olivia esperava, ela continuou a contemplar as fotos em silêncio.

Olivia seguiu sua dica e foi se postar ao seu lado, fazendo a mesma coisa. As fotos eram simples e desoladas, de cenas da época da Grande Depressão. Em poucos minutos, ela acabara de chegar a Asquonset, junto com a família de Natalie, naquele dia frio e chuvoso de 1930.

Natalie virou-se por um instante para pegar uma foto na credência. Era a foto de Carl, a que acionara aquela primeira recordação nítida.

Ele se vestia quase como aparece nesta foto, só que naquele dia, na chuva, usava também um gorro marrom de lã e um casaco largo. Estava parado no campo, como se tivesse sido plantado ali. Parecia tão mais alto e tão mais velho que eu deveria me sentir apavorada. Era um estranho num lugar estranho. Até hoje, não sei por que não me virei e voltei correndo para casa. Ele não sorriu. Mas havia alguma coisa nele... alguma coisa gentil. E eu precisava de muita gentileza naquele dia.

- Está perdida? - perguntou Carl, sua voz não parecia de alguém mais velho.

- Assustada?

Sacudi a cabeça de novo, e depois afastei os cabelos que caíam por meu rosto.

- Não parece muito feliz.

E eu não me sentia nem um pouco feliz. Estava com frio, molhada e solitária.

- Quero ir para casa - murmurei. carl olhou para a casa da fazenda.

- Ninguém a está impedindo.

Mas aquela casa de fazenda não era o lar para mim. Era apenas uma pilha de pedras distante.

- Minha casa em Nova York.

- Já estive lá uma vez. Não quero voltar. Aqui é melhor.

- Porquê?

- Aqui tem mais ar, tem árvores e água.

- Só vejo chuva e lama.

- Sabe o que é a lama?

- Claro que sei - respondi, pensando que ele devia estar me julgando um bebé. - é terra molhada.

Carl permaneceu impassível.

- Só por cima. O que há por baixo é o que faz as plantas crescerem. Não se encontra um solo como este em outros lugares. - Ele se abaixou e passou a mão pela lama. - Se a terra aqui fosse compacta, não seria tão boa. Mas está vendo? É mole. Há uma boa drenagem. É por isso que podemos cultivar o que plantamos aqui.

- Não quero cultivar nada.

Carl ergueu-se. Levantou a mão enlameada pura ser lavada pela chuva.

- Diz isso porque tem vontade de estar em Nova York. Mas não é lá que está, mas sim aqui.

- Minhas amigas estão em Nova York.

- Fará novas amizades aqui.

- Minha escola fica em Nova York.

- Temos uma boa escola aqui.

- Mas não vou ficar aqui. Logo voltarei para Nova York.

- Seus pais lhe disseram isso?

Não, não me haviam dito isso. Enquanto sentia a terrível compreensão dessa realidade, meus olhos se encheram de lágrimas. Fiz um esforço para reprimi-las. Comecei a tremer. Sentia-me desesperada.

- Essas roupas estão completamente erradas.

Carl falou de uma maneira que sugeria mais preocupação do que crítica. Mas só percebi isso mais tarde. Na ocasião, era muito pequena e transtornada para fazer a distinção. Tudo o que podia ouvir era... gentileza.

- Vai precisar de roupas melhores, como uma calça comprida, sapatos de verdade e um casaco como o meu.

Antes que eu compreendesse, ele tirou o casaco e ajeitou-o ao meu redor.

Eu deveria me sentir consternada. O contraste entre aquele casaco marrom áspero e meu casaco azul macio era tudo o que eu não queria. O casaco de carl era velho e estava molhado. Mas tinha um cheiro de limpo, talvez mais do que meu casaco agora sujo de lama. E me proporcionou um calor imediato. - vou levá-la para casa.

Ele partiu para a casa da fazenda, gesticulando com a mão para que eu o acompanhasse. Era a mesma mão que ele metera na lama. Só que limpa agora, lavada pela chuva.

- Ganhou todas aquelas coisas? - perguntou Olivia.

- Que coisas?

- Calça comprida. Sapatos de verdade. Um casaco como o de Carl.

Natalie pegou uma foto na mesa. Mostrava um grupo de meninos tirando batatas da terra. Ou pelo menos Olivia pensara que eram todos meninos quando reparara uma dobra no meio da foto. Mas havia agora uma presunção no rosto de Natalie que a levou a estudar a foto com mais atenção.

- É você aqui?

Ela apontou para uma das crianças na foto. Apesar de usar o mesmo jeans, a mesma camisa e os mesmos sapatos que os outros, não mais parecia com um menino. Natalie confirmou e identificou os outros.

- Este é Carl. Este é meu irmão, Brad. carl e Brad tinham a mesma idade. Os outros dois eram filhos de um vizinho. Nós lhes dávamos batatas e milho em troca de leite.

Mas Olivia não podia desviar os olhos da menina. Já sabia que a família de Natalie perdera tudo antes de se mudar para Asquonset. Mas saber disso era uma coisa. Aceitar era outra. Passara muito tempo a imaginar Natalie numa vida de elegância e tranquilidade, e por isso não podia deixar de ficar chocada pelo que via na foto.

- Que idade você tinha?

- Talvez... sete anos.

- E trabalhava nos campos? Olivia nunca teria imaginado.

- Todas as crianças trabalhavam.

- Não havia leis contra isso?

Natalie sorriu.

- Diga isso à família que planta o que come. Na verdade, estávamos entre os afortunados. A fazenda não estava hipotecada. No início da década de 1930, os rendimentos dos fazendeiros caíram tanto que até mesmo os que podiam se alimentar acabaram perdendo suas fazendas. Os preços pagos por suas colheitas eram tão baixos que não tinham condições de pagar a hipoteca. - Ela apontou para os filhos do vizinho. - Eles perderam a fazenda.

- E o que eles fizeram?

- Meu pai trouxe-os para cá. Passaram a trabalhar na vacaria para ele.

- Pensei que seu pai havia quebrado.

- Em comparação com o que tínhamos em Nova York, ele havia mesmo. Mas todas as coisas são relativas. Ele comprou a fazenda ao lado da nossa por muito pouco dinheiro.

- Mas onde ele conseguiu mesmo esse pouco?

Natalie pegou outra foto. Mostrava Jeremiah Burke sentado numa carroça aberta. Havia ali os mesmos barris que Olivia vira na foto de Carl.

- Vinho? - indagou Olivia, maravilhada.

Natalie confirmou com um aceno de cabeça. Examinou a foto. Olivia estimulou-a gentilmente:

- O vinho sustentou-os ao longo da Depressão?

- Não ganhávamos tanto assim. Não tínhamos o know-how. O que está vendo aqui pode ter sido toda a produção da temporada. Mas os preços para os vinhos eram mais altos do que qualquer outra coisa que cultivávamos. O mercado negro fazia isso. Se a Lei Seca não conseguiu mais nada, pelo menos levou todo mundo a beber.

- Não tinham medo de serem presos?

Os olhos de Natalie se encheram de angústia.

- Juro que meu pai esperava que isso acontecesse a qualquer momento. Ele nunca se recuperou da ruína financeira. Tinha um instinto natural para os negócios, como comprar as fazendas vizinhas. Mas nunca superou a culpa ou a vergonha pelo que acontecera em Nova York. Não dá para ver por essa foto... ou talvez possa, se estudar bem fundo seus olhos perturbados... mas ele era um homem abalado. Era antes um homem robusto e extrovertido, mas repare como está magro na foto. E tínhamos comida suficiente. Mas ele sentia dificuldade para comer. Se fosse punido por vender vinho, poderia se sentir melhor.

Ela fez uma pausa.

- Mas as pessoas não eram apanhadas. O governo não podia nem pensar em punir todas as pessoas que violavam a lei. A Lei Volstead, ou Lei Seca, proibia a venda de bebidas alcoólicas, mas havia uma quantidade ridiculamente pequena de agentes designados para garantir seu cumprimento e uma quantidade enorme de violadores. Por isso, meu pai produzia seu vinho. Os lucros obtidos com a venda nos proporcionaram um capital para o futuro. A Lei Seca foi revogada em 1933. Nosso vinho tornou-se menos valioso... não era muito bom, em última análise... mas meu pai tinha visão. Importou matrizes da Europa e começou a cultivar diversas variedades de viníferas.

Outra pausa, acompanhada por um sorriso triste.

- Pobre papai... teve sucessivas dificuldades. Uma variedade fracassou, depois outra e mais outra. Ele não tinha o que se costuma chamar de dedo verde.

- Mas Jeremiah tinha. Ele não ajudou?

- Jeremiah cultivava para nós batata e milho, cenoura, beterraba e pastinaca. Uvas eram diferentes. E não fomos os únicos que tivemos problemas. Os europeus eram os especialistas no cultivo de uvas, mas seus métodos não funcionavam muito bem aqui. Foi somente nos anos 60 que os americanos criaram seus próprios métodos e finalmente entraram no mercado. A essa altura, meu pai já havia morrido.

- Muito triste.

Natalie apoiou o quadril na beira da mesa.

- É sim. Foi ele quem começou tudo. Lamento que não tenha vivido para ver até onde chegamos. Aqueles tempos em que todo mundo se reunia aqui...

- Quem era todo mundo? - perguntou Olivia, seguindo a intuição. - A família era grande?

- Não. Há Susanne e Greg, com respectivos cônjuges. Susanne e Mark têm dois filhos. Ambos crescidos, nenhum dos dois casado. Melissa é advogada, Brad é consultor de negócios. Greg e Jill ainda não têm filhos. Não sei por que estão esperando. No meu tempo, tínhamos filhos ainda jovens. Mas os tempos mudaram. Jill não é muito mais velha do que você, e assim eles ainda têm tempo, pelos padrões de hoje. Isso não significa que não me sinto impaciente. Adoraria ter mais netos. Mas não cabe a mim tomar essa decisão.

Ela lançou para o teto um olhar típico de "que Deus me ajude".

- É bem possível que Melissa ou Brad casem e me dêem bisnetos antes que Greg e Jill se decidam. - Os olhos de Natalie fixaram-se em Olivia. - O que pode me dizer a seu respeito? Seus pais ainda são ViVOS?

Olivia deu de ombros.

- Isso não é importante.

- É sim. Gosto de saber sobre as pessoas que trabalham em minha casa. Eles estão vivos?

- Estão. porque queria acreditar. Queria acreditar até mesmo que mantinham contato um Com o outro.

- Onde?

Ela entrou em uma de suas fantasias, tão familiar que meio que acreditava que era verdadeira.

- San Diego.

Olivia imaginava o pai como um oficial da Marinha, cujas frequentes transferências mantinham-no sempre distante. Agora que era veterano, prestes a ser reformado, já não viajava tanto. Tinha uma casa na praia em San Diego. Por tudo o que Olivia sabia, era bem possível que Carol estivesse lá naquele momento.

- Você tem irmãos? - perguntou Natalie.

Ainda na fantasia, Olivia acenou com a cabeça em confirmação.

- Quatro irmãos. São todos da Marinha, como meu pai. ? Os olhos de Natalie se iluminaram.

- Há uma base da Marinha aqui perto, em Newport. Há alguma possibilidade de que um deles apareça por lá durante sua permanência aqui? Alexander era um velho amigo do secretário da Marinha. Eu teria o maior prazer em dar alguns telefonemas.

Olivia tratou de recuar.

- Não precisa. Muito obrigada, mas não adiantaria. Estou aqui porque eles estão lá. Temos vidas muito diferentes.

Natalie murchou.

- Quer dizer que não são muito ligados?

- Somos sim.

A última coisa que Olivia queria naquele momento era que Natalie pensasse que não dava importância à família, se fosse descoberto, por sutileza do destino, que tinham algum parentesco. Por isso, mesmo que significasse aumentar a mentira, ela deixou a fantasia correr solta.

- O problema é que sou a caçula. Você só teve um irmão mais velho, mas eu tenho quatro. E eles deram um novo significado à palavra "protetor". Fui sufocada. Não podia respirar. Até que finalmente

eles concordaram em me dar espaço.

- Mas o que me diz de Tess? Eles não querem vê-la?

- Claro que querem. E fazemos uma visita de vez em quando. Olivia não sabia o que isso significava, mas não ia esperar para descobrir. Precisava pôr alguma distância entre ela e a história que acabara de contar.

- Quero saber mais sobre esta foto.

Ela pegou outra foto na mesa. As crianças estavam vários anos mais velhas, desta vez num trator. Brad sentava num pára-lama, mas Natalie estava lá em cima, no banco do motorista, ao lado de Carl. Não devia ter mais que nove ou dez anos e ainda parecia um menino. Já os dois meninos começavam a parecer com homens.

- Você disse que Brad era seu único irmão. Tinha irmãs?

Não havia nenhuma no carro quando a família deixara Nova York, mas isso não significava que não estivessem na casa de parentes. Mas Natalie sacudiu a cabeça.

- Havia apenas Brad e eu.

Olivia não ficou desanimada. Já decidira que a mulher misteriosa era uma prima ou uma amiga.

Já ia perguntar a respeito quando Natalie pegou a foto em que aparecia no trator com carl e Brad e pôs-se a recordar a época. Demorou um pouco para falar.

Minha situação era diferente da sua. Meu irmão e carl eram protetores, mas eu não me importava nem um pouco. Por outro lado, eles não se importavam quando eu os acompanhava. Era articulada, ágil e esperta. O que carecia em força compensava em velocidade e espírito, íamos juntos a todos os lugares. Eu era como um companheiro.

Não sei o que faria sem eles. Asquonset era uma novidade depois de outra e meus pais não ajudavam. Eram estóicos e austeros. Orientavam-nos para um lado e outro, diziam-nos o que fazer na fazenda, mas nunca riam. Raramente sorriam. O conceito de prazer fora deixado em Nova York, junto com todo o senso de segurança. Acrescente-se a isso a vergonha de meu pai e dá para perceber que a situação não era nada boa. Os dois viviam cada dia como se esperassem outro desastre a qualquer momento.

Envelheceram no dobro da velocidade normal naqueles anos. Num instante, tornaram-se velhos. Era de partir o coração.

Éramos mais flexíveis... e eu ainda mais do que Brad. Era mais jovem. Minha afeição a Nova York era mais ténue. Além do mais, descobrira naquele primeiro dia uma coisa que Nova York não tinha. Descobrira Carl.

Ele se tornou meu ídolo. Era quieto e confiante. Nada o abalava. Conhecia todos e tudo. Não importava quão nova fosse a vida em Asquonset para mim, estar com carl era como estar num lugar familiar. Sua confiança era contagiante.

Fui para a escola e fiz amizades. Os colegas não sabiam onde estivéramos antes. Só sabiam que a nossa situação era melhor do que a da maioria, o que de fato acontecia. Comíamos três refeições por dia. Nossas roupas eram mais práticas do que elegantes, mas nunca andávamos sem sapatos, íamos ao cinema toda tarde de sábado. Tínhamos condições para isso. Não tínhamos dinheiro para viajar, mas a perspectiva de pegar um trem perdera sua atração. Os jornais do cinema só mostravam fome e desabrigados viajando em vagões de carga. Estávamos longe dos famintos e desabrigados.

Todas as coisas eram relativas, é claro. Asquonset era um lugar melancólico, que se tornava mais opressivo à medida que a Depressão se prolongava. Se nossos pais não estavam sentados rígidos e alertas junto do rádio, liam ansiosos os tablóides à procura de notícias. E não faltavam nunca. Os bancos continuavam a fechar, muito depois do craque. A maioria de seus amigos havia afundado. Meus pais tinham vivido no centro do cenário social de Nova York e conheciam as pessoas mencionadas. O desemprego continuava a aumentar. Comunidades de barracos, conhecidas como Hoovervilles, pelo nome do presidente americano quando o craque ocorrera, surgiam por toda parte para alojar os desabrigados. Cozinhas comunitárias eram criadas para alimentar os famintos.

Roosevelt assumiu a Presidência, com a promessa de realizar um New Deal, mas meus pais viam apenas a devastação das tempestades de areia no Sul dos Estados Unidos. Embora Asquonset permanecesse fértil e úmida, eles tinham medo de que a nossa vez chegasse. Liam tudo o que podiam sobre prevenção e nos mandavam plantar grama e árvores nos cantos mais remotos da fazenda para segurar o solo. Muito depois que a economia começou a melhorar, eles continuaram a viver com medo de uma recaída.

Bradfoi uma vítima desse medo. Quando o desespero se tornou ainda pior, ele resolveu ir embora. Abandonou a escola quando tinha dezesseis anos e mentiu sobre a idade para obter um emprego na Administração de Projetos de Obras Especiais. Construiu pontes e abriu estradas. Escavou túneis. Mandava dinheiro para casa. Mas isso era apenas um conforto mínimo para meu pai, que queria que o filho tivesse a educação apropriada, afim de estar preparado quando os bons empregos voltassem. Além disso, ao perder Brad, ele perdera também um dos seus trabalhadores mais competentes.

E eu perdi um dos meus dois melhores amigos. O mesmo aconteceu com Carl. Por isso nos tornamos ainda mais ligados. Se crescêssemos juntos hoje em dia, os quatro anos na diferença de idade seriam insuperáveis. Estudaríamos em escolas diferentes, teríamos colegas diferentes e atividades diferentes. Naquele tempo, porém, não era o que acontecia. Fazíamos tudo juntos.

Natalie parou de falar e sorriu. Sentavam agora em poltronas. Olivia fazia anotações no bloco em seu colo. Natalie tinha as mãos cruzadas.

Olivia esperou que ela continuasse, mas viu apenas o sorriso meigo e o aceno de cabeça ocasional. Retornara àquele mundo distante. Olivia queria também estar lá.

- O que faziam juntos?

- íamos e voltávamos da escola juntos.

- De ônibus?

- Não. - Natalie soltou uma risada. - Não havia ônibus escolares, íamos a pé.

- Qual era a distância?

- Cinco quilómetros. Pegávamos os outros pelo caminho. carl era como o Flautista de Hamelin. Era o mais alto e o menos falador, mas tinha um certo... - ela fez uma pausa, procurando pela palavra -... um certo carisma. Nunca procurava atenção, jamais a queria, mas as pessoas gravitavam em sua direção. Era um caso clássico da mística de quem se mantém mais à parte. carl passava e as pessoas olhavam; e, quando olhavam, viam Brad e eu também. Éramos seus amigos. Foi por causa dele que nos aceitaram tão depressa.

Olivia também sorriu agora, imaginando a procissão diária para a escola.

- Devia ser legal.

-Legal?

- Divertido.

- Andar cinco quilómetros debaixo de chuva não era nada divertido.

- Mas todos fazendo a mesma coisa... seguindo o Flautista de Hamelin... é uma imagem maravilhosa. O que mais faziam?

- O que fazíamos?

- Como diversão.

- Ahn... pequenas coisas.

- Por exemplo? Natalie deu de ombros.

- Sabe como é. O que todas as crianças fazem. - Ela corou. - O tempo não mudou algumas coisas.

- Sexo? « Olivia estava surpresa, porque pensava que o tempo mudara isso, pelo menos em termos de idade e extensão. Quando as faces de Natalie permaneceram rosadas, ela se apressou em acrescentar:

- Desculpe. Isso é particular. Eu não deveria ter perguntado a respeito.

- Contratei-a para perguntar sobre coisas particulares. Não vou necessariamente contar tudo, mas quero que pergunte. - Isso dito, ela recuperou o controle. - O fator idade interveio nesse ponto. Quando carl estava com catorze anos, eu tinha apenas dez. Quando ele completou dezesseis, eu era uma garota de doze. Não éramos namorados. Não dávamos uns amassos na última fila do cinema, como dizem os jovens de hoje.

Houve uma pausa. Olivia resolveu ajudá-la:

- Mas você queria.

Ainda envergonhada, Natalie acenou com a cabeça em confirmação.

- carl era o único com quem eu podia me imaginar fazendo isso. Às vezes até sonhava.

- Sonhava em casar com ele?

- Dançávamos juntos.

- Sonhava com isso?

- Não. Era real. A dança era muito apreciada durante a Depressão, por ser a forma mais barata de diversão.

Olivia sabia alguma coisa sobre os costumes da época.

- Você e carl entravam em maratonas de dança?

- Não. Mas conhecíamos pessoas que entravam. Algumas dançavam por meses a fio. Tinham bons motivos para isso. Enquanto permanecessem de pé, tinham um teto sobre sua cabeça, comida e a promessa do dinheiro do prémio.

Ela sorriu.

- carl e eu não fazíamos isso. Mas já víramos tantas vezes nos jornais do cinema que conhecíamos os passos da dança. carl tinha um pequeno rádio de galena, íamos para trás do galpão, encontrávamos uma estação transmitindo música e dançávamos.

Natalie arregalou os olhos. Pensara em mais alguma coisa, uma boa recordação, a julgar pelo excitamento em seus olhos. - O que foi? - perguntou Olivia.

Natalie fitou-a, mas logo desviou os olhos, rindo. - É uma bobagem, mas era maravilhoso.

Olivia riu também.

- O que lembrou?

- Janeiro, fevereiro, março... esses meses são importantes num vinhedo. É a ocasião da poda das videiras. O que dá o tom para o crescimento posterior. Nos primeiros dias, meu pai insistia em fazer isso pessoalmente. Nosso trabalho era recolher os galhos descartados. Eram queimados, mas antes costumávamos usá-los para fazer cabanas.

- Cabanas? - repetiu Olivia, fascinada.

- carl sabia como trançar os galhos. O produto final era tosco e ainda se podia ver através, pois não havia folhas. Mas as paredes serviam para isolar do vento e do frio. Eram um abrigo agradável.

- E dançavam ali?

- Isso mesmo. Eu ficava olhando para Carl, dançando da maneira como víamos no cinema. carl não era um grande dançarino. E ainda não é. Seus pés não se comportam direito. Mas tinha um jeito com os braços...

Natalie respirou fundo. com a boca fechada, cantarolou alguns acordes, extasiada. Olivia não escreveu nada. Não havia necessidade, podia ver a cabana com absoluta nitidez e podia ver através das aberturas entre os galhos. O interior estaria iluminado por uma vela, com dois corpos dançando em movimentos suaves. Podia ouvir um eco distante da chamada Big Band no meio da estática do rádio de galena. Era incrivelmente romântico. Ela recostou-se na poltrona com um suspiro.

- Eram bons tempos. Eu gostaria de ter vivido nessa época. Natalie fitou-a de uma maneira estranha, como Otis fizera há não muito tempo.

- Não, não gostaria. Eram tempos difíceis. O futuro era incerto. Ao final dos anos 30, a guerra pairava no ar. Você não pode sequer começar a imaginar como era.

- Mas as famílias eram mais unidas naquele tempo. Havia mais apoio mútuo.

- Isso não significa que eram mais felizes.

- Mas a vida era mais simples naquele tempo - insistiu Olivia. - Há ocasiões em que eu seria capaz de dar o braço direito para ter menos responsabilidade.

- É isso o que você pensa que acontecia conosco?

- Acho que a divisão do trabalho era mais definida. Os homens faziam o trabalho, as crianças cuidavam das pequenas tarefas domésticas, as mulheres tomavam conta da casa. Hoje em dia está tudo misturado, com uma sobrecarga de trabalho.

Natalie deu um sorriso de repreensão.

- Você tem uma visão idealizada do passado. Torna as coisas mais simples do que eram. A divisão do trabalho podia ser mais definida, mas o trabalho era mais árduo. Não tínhamos naquele tempo toda a tecnologia de que dispomos hoje.

- Talvez não, mas a tecnologia tem seus limites - argumentou Olivia, fincando o pé. - Não me importo com a alegação do fabricante de amaciante de que seu produto deixa as roupas com a fragrância de uma campina em flor. Não há nada com o cheiro de lençóis que secaram no varal, ao sol.

- Não posso contestá-la nesse ponto - disse Natalie, jovial. Mas ainda acho que está enganada. Os tempos não eram mais fáceis antes do que são agora. Eram... ora, eram diferentes, só isso.

Olivia não acreditou em Natalie, como não acreditara em Otis. A vida podia ser mais difícil em termos físicos nos anos 30, mas ela preferia a dificuldade física em vez do estresse emocional em qualquer ocasião. Os anos 30 ainda eram os bons dias de antigamente. A vida era mais simples. As necessidades eram mais definidas e as pessoas, mais honestas. Quando a sobrevivência estava em jogo, as opções eram claras.

A sobrevivência não era o problema hoje, o que tornava as opções mais nebulosas. Hoje as pessoas saíam de casa e se perdiam. Faziam coisas diferentes. Usavam mais chapéus, isto é, assumiam mais papéis. Olivia usara tantos, ao mesmo tempo, que às vezes a cabeça afundava ao peso... e cada chapéu trazia seu terrível conjunto de responsabilidades. Ela sabia o que era se sentir sozinha e sufocada quando essas responsabilidades conflitavam.

Não esperara que isso acontecesse com ela em Asquonset. Imaginara que a vida na casa de Natalie seria um retorno aos tempos antigos, mais simples. Ela e Tess, sem dúvida, haviam se sentido resguardadas ali.

Um retorno aos tempos mais simples? A vida em Asquonset, durante a semana subsequente, foi tudo menos isso.

Mesmo ali, Olivia usava muitos chapéus.

Era mãe... o que nunca parava. Era motorista quando Tess precisava de transporte para o clube; uma professora quando precisava ajudar nos deveres que Sandy passava; uma terapeuta quando a criança entrava em depressão, o que acontecia com demasiada frequência para a paz de espírito de Olivia.

Era também caçadora de emprego para si mesma e caçadora de escola particular para Tess.

Era uma fugitiva quando Ted ligou para o escritório e a recepcionista, avisada, descartou-o.

Nem mesmo como memorialista de Natalie as coisas eram simples, apesar das melhores intenções de Olivia. Ela era organizada. Natalie lhe dera um espaço naquele paraíso que era o sótão, com sua própria mesa e um computador. Olivia instituíra um sistema de arquivamento para suas anotações e as fotos que coincidiam com elas. À noite, deitava na cama e imaginava horas na tranquilidade e isolamento do escritório, desenvolvendo as anotações e organizando a história da vida de Natalie como um renomado biógrafo faria. Elaborava sobre o tema de renomada biógrafa e se imaginava entrando na mais esnobe das livrarias de Cambridge, a fim de fazer uma conferência Para uma casa lotada com a elite intelectual. Imaginava-se contratada como memorialista por outros luminares. Imaginava-se sendo convidada para o circuito de conferências ou participando como figura principal de um cruzeiro de estudos.

A realidade era menos idílica. Por mais que a narrativa de Natalie fosse fluente, não era fácil encontrar as palavras exatas e a sequência apropriada. Olivia podia passar meia hora em uma única frase, e quase sempre era à noite. Durante o dia, não havia sossego e solidão no escritório com o telefone tocando a todo instante. Natalie não tinha nada de tímida e retraída ao que parecia. Dirigia o departamento de marketing de Asquonset e recebia constantes telefonemas nessa função. Também recebia ligações do pessoal da campanha de registro de eleitores, que liderava, e sobre o bazar da igreja, que presidia. E havia ainda as chamadas relacionadas com o casamento. Ela enviara mais de cem convites. Embora houvesse um cartão de resposta anexado, muitas pessoas insistiam em telefonar.

- Eles querem saber da sujeira - comentou Natalie para Olivia, com um tom de ressentimento, depois de atender duas ligações seguidas. - Querem detalhes obscenos... como se eu tivesse alguma coisa com carl há anos... o que não é verdade.

Olivia também especulara a respeito.

- Eles perguntam expressamente?

- Não. Mas é isso o que estão pensando. São evasivos... dizem coisas como "você está com carl há muito tempo, não é?" ou "deve ter sido uma tentação passar todos esses anos ao lado dele". Ou "você é uma mulher esperta, Natalie Seebring".

- Dizem mesmo isso?

Natalie apontou para o telefone, indicando a ligação que acabara de receber.

- A pessoa da última ligação me disse: "Sempre desconfiamos que carl era mais ligado a você do que a Alexander." Não posso deixar de protestar. Em primeiro lugar, não gosto da ideia de que estão comentando. Em segundo, carl era o braço direito de Alexander. Fazia de tudo para ajudá-lo. E lhe dava uma cobertura constante.

- Cobertura? Como assim?

Natalie descartou o pensamento com um aceno de mão.

- Não se passou um único dia, nas duas últimas semanas, sem que alguém tenha ligado para saber de fofocas. Mas não tenho tempo para isso. Devo estar no escritório dentro de quarenta e cinco minutos.

O pessoal da agência de propaganda está vindo de Boston para fazer a apresentação da campanha da próxima primavera.

Ela olhou para as fotos espalhadas sobre a mesa, com uma expressão aturdida. Eram as mais antigas. Olivia queria que ela identificasse cada uma, com nomes e datas. Mas isso parecia secundário agora, até mesmo para Olivia.

- Quem você convidou para o casamento?

- Quase todos são amigos e associados nos negócios. Limitei a lista.

- Há uma família ampliada? Como primos, por exemplo? Talvez mesmo a mulher misteriosa. Não seria incrível? Ver alguém

que parecia com sua mãe - ou com ela, ou com Tess - seria uma coisa espantosa!

- Tenho primos, mas não seria apropriado convidá-los. Nunca fomos muito ligados. Alexander tem uma irmã. Convidei-a, junto com a família... não podia deixar de fazê-lo, já que foi minha cunhada durante tantos anos... mas ela enviou uma recusa imediata. Sente-se ofendida. Melhor assim. Queremos que seja uma cerimónia pequena.

O telefone tocou. Natalie olhou com uma expressão desamparada para depois fitar Olivia.

- Por que não atendo? - sugeriu Olivia, pegando um bloco. Posso muito bem manter um registro de sins e nãos.

- Não vai se importar? - indagou Natalie, num tom tão doce, de profundo alívio, que deixou o coração de Olivia enternecido.

Claro que não me importo, pensou ela. É para coisas assim que a família serve.

- Aqui é Lucy McEnroe. - Olivia escreveu o nome. - Eu gostaria de falar com Natalie, por favor.

Natalie olhou para o nome e sacudiu a cabeça, em negativa.

- Sinto muito, mas ela vai passar o dia fora - disse Olivia, satisfeita por assumir um papel de confiança. - Aqui é a assistente dela, Olivia Jones. Posso ajudá-la?

O marido tem um restaurante em Nova York, escreveu Natalie no bloco. Vendem nossos vinhos.

- Eu só queria cumprimentá-la - respondeu Lucy. - Henry e eu voltamos de Paris para encontrar o convite de casamento. Foi um choque e tanto.

- Mas não é maravilhoso? - indagou Olivia.

Ela olhou para o nome do restaurante que Natalie escrevera no bloco. Já ouvira falar. Não lera alguma coisa a respeito na revista People?

- Tudo considerado - disse Lucy, como se estivesse considerando as coisas pela primeira vez naquele momento -, acho que é mesmo. carl tem sido o nosso contato com a vinícola há anos. É um bom homem.

Olivia tratou de aproveitar o comentário:

- Seria muito importante para Natalie e ele se você e seu marido pudessem comparecer. Posso incluí-los na lista de "sim"?

- Ainda estamos em dúvida. O fim de semana prolongado do feriado do Dia do Trabalho é bastante movimentado para nós. Se for um casamento grande, não teremos muito tempo para conversar com Natalie e Carl.

- Na verdade será uma cerimónia relativamente íntima. A lista de convidados foi limitada às pessoas mais importantes para eles. Você e seu marido têm sido amigos leais. Todos nós sentimos o maior orgulho por saber que os vinhos de Asquonset são servidos no Dome. É um restaurante importante demais. O Príncipe Charles e os filhos não estiveram aí?

As palavras mal saíram de sua boca quando Olivia sentiu o medo terrível de ter se equivocado na recordação. Mas Natalie balançava a cabeça em exultação.

- Isso mesmo - confirmou Lucy, parecendo tão impressionada quanto Natalie por Olivia ter mencionado. - Ficamos emocionados. As pessoas adoram todas as notícias sobre aqueles meninos. Como se pode atribuir um preço a esse tipo de publicidade?

- Não se pode - concordou Olivia enquanto lia a última coisa que Natalie escrevera. - Infelizmente não podemos prometer uma publicidade igual no casamento. Natalie tem amigos na imprensa e vários vão comparecer. Mas ela pediu que respeitassem a privacidade do dia. Se vão atendê-la ou não, é impossível saber.

- Quer saber de uma coisa? - disse Lucy.- Acho que gostaríamos de ir. A resposta é sim. Sempre adoramos Natalie, e Carl... é um homem extraordinário. Aceitamos o convite. Vamos planejar com antecedência e arrumar alguém para ficar no restaurante durante a nossa ausência.

S-I-M, Olivia escreveu no bloco. Depois encerrou a ligação, como se também fosse uma velha amiga de Lucy, enquanto olhava para a sorridente Natalie.

- Obrigada - disse Natalie. - Saiu-se muito bem. Quando o telefone tocou de novo, o sorriso desvaneceu.

- Essa não!

Mas Olivia já entrara no jogo a essa altura. Levantou a mão, num gesto para Natalie não se preocupar, enquanto atendia a ligação, o tom jovial:

- Residência dos Seebring.

Ela escutou por um momento, antes de pôr a pessoa no esquema de espera e dizer para Natalie:

- É o fornecedor do bufê. Quer saber se já escolheu o cardápio da lista que enviou.

Natalie comprimiu um ponto entre os olhos.

- Eu deveria ter ligado na semana passada. Ela afastou a mão do rosto. Tirou uma pasta da gaveta da mesa è abriu-a na frente de Olivia.

- Já verifiquei o que queremos. Ainda é cedo para cuidar disso... sempre podemos mudar depois... mas o homem insiste em ter alguma coisa no papel, mesmo que seja em caráter preliminar. Mas ele é filiado a Johnson e Wales. É o melhor do estado. Para ser franca, eu poderia fechar os olhos e apontar ao acaso para dez coisas na lista com a certeza de que tudo será delicioso. Pode fazer o favor de repassar a lista com ele enquanto vou para o escritório? Acho que minhas anotações estão bastante claras. ?

As anotações estavam absolutamente claras. Olivia repassou o cardáPio com o fornecedor, prato por prato, assumindo o papel de anfitriã, fazendo todas as perguntas para as quais gostaria de ter respostas se estivesse dando a festa... e Deus sabia que ela já desempenhara mentalmente esse papel várias vezes. Era muito divertido.

Mal havia desligado quando o telefone tocou de novo. Desta vez era Anne Marie, a recepcionista do escritório, para avisar que uma candidata à vaga de empregada estava na linha e Natalie sugerira que Olivia a atendesse.

Olivia nunca contratara antes uma empregada, muito menos em tempo integral. Mas algumas coisas eram bastante óbvias. Ao atender, ela perguntou sobre essas coisas, escreveu anotações para Natalie e pôs numa pasta com a etiqueta de EMPREGADA. Já se preparava para guardar as fotos dos primeiros anos em Asquonset quando carl apareceu.

- Vamos andar um pouco - disse ele. - Quero lhe mostrar o vinhedo.

Na verdade, eles não andaram. Em vez disso, pegaram um dos carrinhos de golfe usados pelo pessoal para irem de uma parte de Asquonset a outra.

- A propriedade cobre sessenta e cinco acres no total - informou carl em sua voz profunda, lenta e confiante enquanto conduzia o veículo pela estrada de cascalho.

Olivia podia compreender por que Natalie achara que aquela voz era um conforto durante seus primeiros dias na fazenda. Fluía fácil, de uma maneira viril.

- Cinquenta são ocupados pelas videiras. Uns poucos têm milho e batatas, mas o resto é de bosques ou tem construções.

Enquanto entrava num caminho de terra que serpenteava através das árvores, ele assumiu uma expressão divertida.

- Lá vamos nós, passando pelo bosque, e você deve estar especulando por que não pusemos todas as construções juntas.

Olivia sorriu.

- Confesso que o pensamento me passou pela cabeça. Mas o que entendo da produção de vinho? Tenho certeza de que há uma boa razão.

- Uma boa razão? - O tom de carl era indulgente enquanto contornavam uma culpa. - Na verdade, é mais pela aparência do que por qualquer outra coisa. Natalie queria que a casa-grande fosse especial. Queria que ficasse isolada, mais alta do que o vinhedo. Queria que os visitantes ficassem impressionados quando o vinhedo era apenas o vinhedo.

Ele soltou uma risada.

- Claro que não tem sido "apenas um vinhedo" há muitos anos. Mas somente nos últimos vinte anos é que precisamos de mais prédios. Quando isso aconteceu, Natalie teve a ideia de fazer centros de atividades distintos. Acha que cada um pode ter sua importância por si só, que se perderia se estivessem todos agrupados. Por isso ela pôs o escritório numa garagem reformada, à beira da estrada, enquanto a vinícola ficou na beira do rio.

- E o galpão? - perguntou Olivia.

Ficava a três minutos a pé da casa. Não havia necessidade de um carrinho de golfe para ir até lá.

- O galpão é diferente - explicou Carl, mantendo os olhos no caminho. - Como a casa-grande, foi construído há muito tempo, depois ampliado, mais de uma vez. Se começasse do nada, ela poderia reservar um lugar especial e distante para o galpão. Mas ela diz que gosta de vê-lo. Diz que é uma parte vital do vinhedo, que tem o direito de estar próximo da casa-grande.

Ele fez uma pausa. Olivia admirava seu perfil, pensando como era um homem extraordinário aos oitenta anos, um prazer para se observar, quando ele acrescentou:

- Por falar no galpão, eu gostaria de pedir desculpa.

- Por quê?

- Por Simon. Ele não tem se mostrado muito simpático.

Olivia sorriu e balançou a cabeça, gesticulando para indicar que isso não era um problema.

- Ele está preocupado com as uvas e temos mais um dia úmido.

- As árvores os envolviam agora, mas havia muitas nuvens por cima das copas. - Além do mais, não tive qualquer problema com Simon.

- Ele não tem sido muito cortês. - carl segurava o volante com as duas mãos. - Poderia ter jantado conosco pelo menos uma vez desde que você chegou. Poderia levá-la para conhecer os vinhedos. Deveria ter feito isso, já que está no comando agora. Mas quero que você saiba que não é por sua causa. O problema é do próprio Simon.

Olivia desconfiava de que o problema também tinha a ver com ela. Simon sabia de sua presença ali. Agora, levantava os olhos em sua direção todas as manhãs. Se ela fosse mais profissional, mais bem-sucedida, mais interessante... Simon poderia procurá-la.

Não que ela estivesse interessada. com toda certeza, não estava nem um pouco. Mas havia também o outro lado.

- Ele me falou sobre a esposa.

Carl fitou-a, surpreso. Diminuiu a velocidade do carrinho.

- Quando foi isso?

- Na minha primeira manhã aqui. Ambos saímos para o pátio e nos encontramos. Não havia mais ninguém acordado. - Ela se apressou em continuar, agradecida pela oportunidade de pôr tudo para fora. - Ele me disse que estava preocupado com a possibilidade de Natalie ter me trazido para cá com a intenção de promover nosso namoro. Queria que eu soubesse que isso não aconteceria.

O carrinho parou. carl estava consternado.

- Ele disse mesmo isso?

- Respondi que também não estava interessada, e resolvi lhe contar agora para que também saiba. - Olivia queria que ficasse registrado, para o caso de alguém ter ideias exóticas. - Não sou o tipo de Simon. Não sou o que ele precisa. E não estou à procura de um homem. Vivo muito bem sozinha. Entre Tess e o trabalho, tenho mais do que suficiente para me manter ocupada.

Não esquecendo que carl era o pai de Simon, ela acrescentou:

- Quero que compreenda que isso não tem nada a ver com Simon, mas apenas comigo.

Carl tornou a olhar para o caminho. Partiu de novo, mas manteve as sobrancelhas franzidas. Olivia tentou tranquilizá-lo.

- Tenho certeza de que Simon é um homem maravilhoso. Inteligente. Trabalhador. Olho pela minha janela todos os dias, ao amanhecer, e lá está ele, com seu café, na extremidade do pátio. Simon merece o melhor depois do que sofreu. Não posso sequer imaginar como é perder duas pessoas que se ama tanto.

- Três.

A palavra pairou no ar.

- Três?

Os olhos de carl desviaram-se do caminho apenas pelo tempo suficiente para que ela pudesse ver a tristeza nas profundezas do azul.

- Simon perdeu três pessoas que amava naquele acidente... Laura, Liana e Ana.

- Ana... - Olivia repetiu o nome como carl o dissera, A-na, com cada sílaba distinta. Era um som incrível em sua simplicidade e beleza. - Ana... Quem era ela?

- Minha esposa. A mãe de Simon. Olivia comprimiu a mão contra o coração. Parara por um segundo, depois voltara a bater. Ela soltou um suspiro.

- Sua mulher também estava no barco? carl acenou com a cabeça em confirmação. O movimento era

impregnado de pesar, um testemunho ao fato de que Simon não era o único que sofrera uma perda... e, subitamente, outro capítulo da história de Asquonset se abria, um capítulo em que Olivia quase não pensara. Seu foco fora Natalie, mas carl também tivera uma vida durante todos aqueles anos. E Simon não podia deixar de ter uma mãe.

- Que coisa horrível... - murmurou ela. - As memórias devem ser tão dolorosas para você quanto são para Simon.

O carrinho de golfe continuava a avançar, lentamente.

- Sou mais velho. Posso ser mais filosófico do que meu filho. Ana e eu tivemos muitos bons anos juntos. Era uma mulher gentil. compreensiva. Mas não estava bem de saúde. Recebera o diagnóstico de câncer no ano anterior ao acidente. Fazia um tratamento. Não era fácil. Os médicos não lhe davam muito tempo. Mas ela adorava velejar, Todos nós adorávamos.

com um sorriso gentil, ele se calou.

- Simon também?

- Simon especialmente. Ele ensinou Laura a velejar. Ela era» muito boa. Sabia manejar aquele barco. Fazia tudo certo.

- Então, o que aconteceu?

Carl guiou em silêncio por mais um minuto, antes de dizer.

- Ela sabia como Ana passava mal e achou que um passeio pela baía, ao sol, serviria para reanimá-la. Pôs coletes salva-vidas nas três, içou a vela e deixou o cais. Ana estava feliz. As pessoas que as viram partir disseram isso. Acomodou-se junto da amurada, o braço em torno da pequena Liana. Era um dia perfeito para velejar, apenas uma brisa soprando, o mar estava sereno.

Olivia fitava-o, esperando pelo resto da história, quando o carrinho de golfe saiu do bosque. O mundo ao redor tornou-se mais claro, uma cruel ironia depois do relato tenebroso.

Carl parou o veículo. Abaixou as mãos para o colo. Respirou fundo, os olhos fixados à frente.

- As condições de navegação eram tão boas que Laura foi mais longe do que poderia ter ido em outro dia. Não havia nada de errado nisso. Não foi a única a fazê-lo. Havia outras embarcações nas proximidades, também aproveitando as condições ideais.

Ele fitou Olivia.

- Havia uma lancha ali... uma dessas lanchas enormes e potentes. Dois homens estavam a bordo, altos com alguma coisa. Nem sequer perceberam que seguiam na direção de nosso barco até que estavam quase em cima. Tentaram se desviar, mas a capacidade de julgamento estava tão distorcida que o efeito foi o inverso.

- Oh,Deus!

- Partiram o barco ao meio e depois foram embora, em alta velocidade. Nunca foram apanhados.

- Oh, Deus!

- A Guarda Costeira diz que a força do impacto arrebentou tudo e todas. Mesmo com os coletes salva-vidas, elas não tinham a menor chance. Foi como se estivessem de bicicleta nos trilhos de um trem quando uma enorme locomotiva passou. - Ele deixou escapar um suspiro. Inalou devagar e empertigou-se. - Por que contei tudo isso?

- Porque perguntei.

- Não é um assunto sobre o qual costumamos falar. Não há o menor sentido.

- Mas não acha que falar faz com que se sinta melhor? carl pensou a respeito por um momento antes de suspirar.

- O que eu penso não tem tanta importância quanto o que minha Natalie pensa. Ela acha que é importante e foi por isso que a contratou. Sabe qual é a situação da família?

- Sei.

- Conheço Susanne e Greg desde que nasceram. Sempre gostei dos dois. E eles sempre gostaram de mim. Não eram crianças ricas metidas a besta, tente compreender.

Olivia acenou com a cabeça para indicar que compreendia.

- Os dois se sentem apreensivos - continuou Carl. - Não estavam preparados. E me angustiei por isso.

- Você e Natalie conversaram sobre a melhor maneira de dar a notícia?

- Por semanas. Natalie tentou várias vezes abordar o assunto com os dois, mas não tinha coragem. Preocupava-se com a possibilidade de reagirem exatamente como reagiram. Aventamos vários caminhos. Uma visita pessoal. Um telefonema. Nat falando. Eu falando. Finalmente adotamos o caminho mais fácil para nós. Eles podem nos criticar por isso, mas tenho a impressão de que não receberiam bem a notícia qualquer que fosse a forma da comunicação. Ainda estão absorvendo a morte de Alexander.

Olivia sentiu que ele tinha razão.

- Natalie parece filosófica sobre a reação dos filhos.

- Essa é a imagem de Natalie para você. Ela não é de reclamar e se lamentar. Aceita e segue em frente. É uma sobrevivente. Faz as coisas. Foi por isso que a contratou. - Sem desviar os olhos de Olivia, ele assumiu uma expressão determinada. - Quero que Susanne e Greg voltem para nós, mas sei que será um problema. Depois de tantos anos me vendo de uma determinada maneira, será difícil me verem por outro ângulo. Você terá de ajudá-los a entender.

- Tentarei.

- Não estou tentando tomar o lugar de Alexander. Ele era o pai. Não quero ser isso. Quero apenas fazer com que a mãe dos dois seja feliz. É tudo o que sempre desejei.

- Você a ama desde que eram crianças?

- Claro.

- Por que não casou com ela antes?

- Porque ela casou com Alexander.

- Mas por que ela não casou com você? - Nat não lhe contou?

- Não. - Então vai contar.

Olivia sorriu.

-Conte-me agora. Mas ele sorriu.

- Não. Não é minha função. Natalie é a contadora de histórias. Sou apenas o homem que cuida da vinícola. - Ele projetou o queixo para a frente. - E aqui estamos.

Olivia levantou os olhos para o enorme moinho.

- Essa não! - exclamou ela, surpresa. - Isto é a vinícola? Ela imaginara uma coisa muito diferente. carl tornou a ligar o veículo, enquanto dizia com evidente orgulho:

- É sim.

Ele seguiu por um caminho de terra que terminava num estacionamento pavimentado. Havia uma estrada vindo pelo outro lado. carl parou ao lado de dois carros estacionados, desligou o motor e saltou.

- Eu gostaria de dizer que dirijo esta parte da operação, mas seria assumir crédito demais. Sou um velho. Preciso do cochilo à tarde.

- Isso não significa que não pode dirigir coisas - comentou Olivia, porque carl era um homem tão vibrante quanto se podia esperar de alguém na sua idade. - Você dirige a vinícola. Natalie cuida do marketing e das vendas. Simon cuida do vinhedo.

Ao dizer o nome, ela imaginou o homem. A imagem era agora influenciada pelo que carl contara.

- Acha que Simon trabalha tanto para não ter de pensar no acidente?

Pelo que Olivia pudera perceber, ele trabalhava do amanhecer ao anoitecer, sete dias por semana. carl estava do seu lado do carrinho quando ela saltou. Tocou de leve em seu cotovelo, apenas o suficiente para fazê-la andar ao seu lado.

- É possível. Mas o gerente do vinhedo tem de trabalhar assim, como ser pai. As uvas precisam de cuidados vinte e quatro horas por dia.

Eles atravessaram o estacionamento e começaram a subir pelo caminho de pedra que levava à porta da vinícola. O nome e o logotipo estavam numa placa, uma versão menor da placa que se encontrava na estrada. Mas Olivia lançou apenas um olhar de passagem.

- Ele deve tirar férias.

- Não em quatro anos. O que ele poderia fazer? Ir para o Caribe sozinho?

- Ele não saiu com outra mulher?

- Não até hoje.

- Mas o que ele faz para se divertir? carl pensou a respeito por um momento.

- Cuida das uvas.

Ele abriu a porta de tela. Olivia entrou num saguão semicircular cujas paredes de pedra faziam com que parecesse uma caverna. Os corredores que partiam dali, à esquerda e à direita, eram estreitos, mas altos... uma altura de três andares. Enquanto a levava para uma enorme porta de madeira no meio, carl comentou:

- Cuidar das uvas não é tão ruim assim. Ajudou-me a passar por muitos momentos difíceis.

Olivia já ia perguntar a que momentos difíceis ele se referia quando sentiu uma súbita queda na temperatura. Olhou ao redor e esqueceu o pensamento. Estavam numa vasta sala com imensos tanques de aço inoxidável. Cada tanque tinha mostradores e controles na frente. Havia escadas compridas encostadas em alguns tanques, subindo três ou quatro metros até o alto. O chão era de concreto.

Carl se comportou como um guia turístico. Levou-a ao longo dos tanques até a extremidade da sala, onde mostrou a máquina que esmagava as uvas. Explicou que o vinho tinto era feito com a fermentação das uvas com pele e tudo, enquanto o vinho branco era feito somente do suco da uva. Mostrou a tubulação que levava o suco para os tanques de aço inoxidável onde a fermentação ocorria.

Levou-a para uma segunda sala, quase tão vasta quanto a outra, com várias fileiras de barris de carvalho. Em contraste com a aridez do aço inoxidável e o concreto da sala de fermentação, aquela sala era mais suave e acolhedora. Os barris formavam fileiras perfeitas. O cheiro era de madeira.

- Envelhecemos o vinho aqui - explicou Carl. - O barril... o modo como foi fabricado, de onde veio, há quanto tempo é usado... desempenha um papel importante no processo. Todas essas coisas afetam o gosto do vinho. O tempo que o vinho passa no barril é outra variável.

Essa decisão, ao que parecia, era tomada pelo vinhateiro. Seu nome era David Sperling e sua sala ficava num jirau por cima dos barris, toda fechada, parecendo um laboratório. Olivia foi apresentada a ele e seu assistente. Olivia gostaria de conversar um pouco com os dois, mas carl levou-a para a sala de engarrafamento. Havia ali os equipamentos mais modernos, instalados no ano anterior. Orgulhoso, carl explicou como as garrafas eram esterilizadas, subiam e desciam, davam voltas, no processo de serem enchidas, arrolhadas e rotuladas.

Olivia estava fascinada. Ao deixarem o prédio, sentia-se disposta a começar tudo de novo, fazer uma segunda excursão. carl mostrou-se satisfeito quando ela disse isso, mas tinha planos para a tarde que começavam por resgatar sua noiva da reunião sobre propaganda.

- Vamos deixar para outra ocasião - prometeu ele.

Ainda bem que decidiram assim. O carrinho de golfe atravessou o bosque. Mal saíra do escuro e contornava o lado da casa-grande quando Olivia avistou Tess. A menina estava sentada no mais baixo dos cinco degraus largos de pedra, o corpo todo contraído, quase como uma bola.

Olivia sentou no degrau, ao lado da filha.

- Oi, querida. Como foi sua manhã? Tess deixou o queixo tremer, o que não era nada fácil, já que o

queixo encostava nos joelhos. com os óculos no meio do nariz, ela lançou um olhar sombrio para o vinhedo.

Olivia empurrou do rosto uma mecha de cabelos castanhos, na direção da trança, que deveria manter tudo preso. Especulou se Tess se sentia desanimada por alguma coisa específica ou se era mais da mesma depressão de sempre.

- Como foi a aula com a Sra. Adelson?

- Ela está bem, mas eu não estou. Não consigo aprender, mamãe. Então era uma depressão geral. Talvez mais difícil de enfrentar,

com a nova estratégia e esperanças tão altas.

- Vai conseguir. Apenas demora um pouco.

- Ela diz que é totalmente diferente das coisas que as professoras ensinavam na escola.

- Sei disso. Conversei com ela a respeito.

Olivia tentava falar a sós com Sandy sempre que podia. Sentia-se culpada por deixar que as professoras anteriores fizessem tão pouco. Agora, para usar uma palavra de Sandy, queria ser proativa.

- Mas tudo o que ela diz faz sentido, Tess. A sra. Adelson pode ser exatamente o que você precisa.

Tess ergueu a cabeça e virou-a para fitar Olivia, como se a mãe tivesse perdido o juízo.

- Sabe o que o mapeamento visual significa? Primeiro, há um mapa da história. Depois, há um mapa do personagem. Eu poderia passar um ano inteiro fazendo cada mapa, mamãe. Leva uma eternidade para mapear as coisas.

- Agora leva mesmo. Porque é novidade. Depois que você pegar o jeito, será fácil e rápido. Vai se tornar uma segunda natureza. Gosta do livro, não é?

Estavam lendo A Wrinkle in Time, de Madeleine UEngle. Constava de três das cinco listas de livros que haviam verificado. Sandy ficara satisfeita. Já trabalhara com aquele livro muitas vezes e dizia que era perfeito para o treinamento de visualização.

Tess murmurou um "gosto" relutante.

- E pense na vantagem que você terá sobre as outras crianças na quinta série.

- Mas terei de ler o livro pela segunda vez quando as aulas começarem. E detesto ler.

- Apenas porque exige um grande esforço. Depois das aulas com a Sra. Adelson não precisará mais fazer tanto esforço. Pode até gostar.

Tess fitou-a através dos óculos de uma maneira que deixava seus olhos ainda mais tristes.

- Mas o que acontecerá se eu for para uma outra escola? O que acontece se não tiver de ler este livro na escola?

Era um dos livros adotados na escola de Sandy Adelson. Olivia começava a pensar em pedir a matrícula de Tess ali. O pessoal de Cambridge Heath ainda não tomara uma decisão, como fora informada ao ligar no dia anterior. Também não havia perspectiva de emprego... em parte alguma. Ela poderia, com a maior facilidade, transferir seu foco para Providence, sondar os lugares em que já fizera contato, mandar currículos para outros. Podia efetuar um levantamento num raio de cinquenta quilómetros em torno da cidade e remeter cartas para todos nessa distância.

- Se isso acontecer, Tess, você terá aprendido a fazer o mapeamento visual para aplicar em todos os outros livros que tiver de ler. -

Ela passou o braço pelos ombros da criança e a apertou. - Pense bem, Tess. Qualquer coisa boa é difícil. Mas, com o passar do tempo, vai se tornando cada vez mais fácil. A Sra. Adelson diz que você é uma das crianças mais inteligentes com quem já trabalhou... e vem trabalhando com disléxicos há vinte anos.

- Mas ela não pode me ajudar no curso para velejar. Dei uma olhada no livro que nos deram, mamãe. Não consigo entender aquelas coisas.

Claro que não podia. Aquelas coisas incluíam palavras como "vela mestra", "gurupés" e "traquete", todas no título de "nomenclatura". Tess não podia seguir adiante.

- Você tentou visualizar? - perguntou Olivia. - Você tentou ver "nomenclatura" com nomes como "camisa", "short", "sapato"?

Olivia apontou para cada palavra enquanto a enunciava. Tess deixou escapar um suspiro injuriado.

- Partes do barco. Foi o que você disse. Mas não posso visualizar se não sei o que são.

- Verificamos no desenho.

- Era apenas uma ilustração.

- Você está transtornada. Ficar assim não ajuda em nada.

- Essas coisas não significam nada para mim.

- Apenas porque não está familiarizada com veleiros, Tess. Assim que juntar o nome com a parte do barco na vida real saberá o que é. Disseram que trabalhariam nisso esta tarde, não é?

- É sim. Mas a maioria das outras crianças já sabe.

Olivia calculou que isso acontecia porque as outras crianças eram de famílias que frequentavam o clube ou tinham avós que as levavam para velejar desde que estavam com idade suficiente para falar.

- Muito bem. Aqui está o que eu acho que você deve fazer. Aqui está... uma lição básica de socialização. - Deixe a professora falar. Deixe as outras crianças falarem. Fazerem as perguntas. Aprenda com o que disserem.

Tess parecia em dúvida.

- E se me perguntarem alguma coisa? O que devo dizer?

- Se for sobre partes do barco, diga que é a primeira vez que você entra num veleiro.

- Mas não é. Já saímos num barco a vela para observar baleias. Lá no Maine.

- Não é a mesma coisa, Tess. Você sabe disso. - Olivia olhou para o relógio e depois para as manchas azuis que haviam aparecido no céu. - Já almoçou?

-Já.

Olivia não almoçara, mas podia viver sem almoço. Era meio-dia e meia. Precisava deixar Tess no clube às duas horas e voltar correndo, a fim de fazer o trabalho para o qual fora contratada. Mas uma coisa de cada vez.

- Vamos pegar um pouco de sol. E fazer imagens de coisas.

- Que coisas?

- Uvas. Eu faço as fotos, você desenha. - Olivia inclinou a cabeça para o lado. - Está bem?

- Posso fotografar também?

- Só depois que desenhar.

- Não é justo. Usar a câmera é mais rápido do que usar o lápis. Por que você sempre fica com a parte mais fácil?

- Porque não sei desenhar.

Olivia passou o braço pelo pescoço de Tess. Deu um beijo no alto de sua cabeça. - Vamos embora.

O ar estava mais quente quando pegaram a câmera, o caderno de desenho e um pedaço de carvão, o último sendo escolha de Tess, em vez do lápis, para demonstrar o mínimo de controle sobre a situação. Tomada essa decisão, ela foi de bom grado, como Olivia sabia que aconteceria. Tess gostava de desenhar porque era uma coisa que fazia muito bem. Não atenuou seu medo da aula no clube, mas pelo menos serviu para distraí-la.

Olivia ergueu o rosto para o sol. Aspirou fundo a fragrância de folhas quentes e terra secando. Forçou-se a relaxar, forçou-se a acreditar que Tess cresceria para ser uma adulta alfabetizada, plenamente funcional, auto-suficiente.

- Estou pronta - disse Tess.

Olivia abriu os olhos. E olhou ao redor. Entre a excursão oferecida por Natalie e seu próprio estudo do mapa do vinhedo, sabia onde cada coisa estava. Simon estaria trabalhando com as uvas mais preocupantes. Pela região em geral e por aquele verão em particular, seriam as vermelhas... ou a Cabernet Sauvignon ou a Pinot Noir.

Ela apontou na outra direção, onde ficava a Riesling. Mal dera cinco passos, porém, quando fez uma meia-volta. Fazia o maior sentido localizar Simon primeiro. Só assim saberiam exatamente o que evitar.

- Para que lado, mamãe?

- Por aqui.

Olivia foi andando pela estrada até alcançar as fileiras de Pinot Noir. Escolheu uma fileira ao acaso e começou a percorrê-la. A terra estava solta. Parecia ter sido arada há pouco tempo. As videiras alcançavam a primeira linha das treliças de arame, com uma outra folha se projetando por cima. As uvas eram maiores do que na ocasião em que Olivia e Tess haviam chegado a Asquonset, mas os cachos ainda eram tristes, como pequenas amêndoas. Simon não se encontrava em qualquer lugar à vista. Tess quase corria para acompanhar a mãe.

- A luz não é boa aqui. Não há contraste. Você sempre diz que é melhor ao amanhecer ou no final da tarde.

- Mas este é o momento que temos, embora seja meio-dia. Veja como você tem sorte. Pode desenhar com qualquer tipo de luz que quiser.

Bem à frente, um passarinho alçou voo de um ponto por entre as folhas, a pouco mais de meio metro do solo. Poucos segundos depois, outro passarinho voou do mesmo lugar.

Olivia parou de andar. Estudou o lugar de onde os passarinhos haviam saído. Adiantou-se, lentamente.

- É um ninho - murmurou ela. - Pode ver?

Tess avançou mais depressa. Parou perto do ninho e abaixou-se.

- Olhe só! - sussurrou ela, exultante, quando Olivia se abaixou ao seu lado.

O ninho era pequeno e redondo, uma criação milagrosa de folhas secas e gravetos. Mais milagrosos ainda eram os pequenos bicos que se movimentavam entre bolas de penugem.

- Três filhotes? - sussurrou Olivia. - Quatro - informou Tess.

Ela afastou-se, puxando Olivia. Só largou a mãe quando se encontravam a mais de dois metros do ninho. Sentou na terra. - Se ficarmos muito perto, os pais terão medo de voltar, e os filhotes morrerão de fome.

Tess abriu o bloco de desenho. Olivia observou-a por vários minutos. Nunca deixava de se espantar pelo fato de que uma criança com problema de discriminação visual, que tornava a leitura tão difícil, podia reproduzir com a maior facilidade uma imagem. Mas era o que Tess fazia. Seus desenhos podiam carecer de sombras e nuances, que viriam com a maturidade, mas ela reproduzia as formas com extraordinária precisão e proporção, com uma fantástica habilidade. Seus desenhos podiam ser tão simples quanto os traços minimalistas das uvas no logotipo de Asquonset, mas captavam o assunto... com sentimento.

E isso de uma criança que, aos dois ou três anos, tinha dificuldade para pôr a peça redonda no buraco redondo; uma criança que, até hoje, não era capaz de montar um quebra-cabeça, mesmo que sua vida dependesse disso; uma criança que adorava aprender, mas descobria que a leitura era puro tormento.

Tess tinha razão. A luz era uniforme demais para tirar fotos interessantes das uvas. Por isso, Olivia fotografou a filha. A criança era adorável, sentada no chão, as pernas cruzadas, os cabelos anelados. Os olhos deslocavam-se a todo instante entre o papel e o ninho dos passarinhos. Quando os óculos escorregavam pelo nariz, ela empurrava-os com a base da mão. O carvão deslizava com a maior descontração, quase lírico.

Olivia captou a concentração de Tess. Captou a deliberação em cada traço, a mudança de ideia ocasional. Captou o excitamento quando os pais dos filhotes voltaram ao ninho. Também captou a percepção surpresa, depois o horror, quando Tess levantou os olhos e deparou com Buck.

- Oh, não, mamãe! - Tess levantou-se. - O gato vai pegar os passarinhos!

Ela avançou, passou pelo ninho, interpôs seu corpo pequeno entre o enorme gato do Maine e os passarinhos. Estendeu a mão para Buck e murmurou:

- Que gato bonito que você é... que gato bonito... Abaixando a cabeça peluda, o gato esfregou-a na mão estendida.

- bom menino... bom menino... quer saber de uma coisa? Acho que há mais coisas para fazer no outro lado deste campo. Não quer me mostrar? Vamos, Buck... vamos, gatinho...

O gato seguiu-a quando ela se afastou, atravessando a fileira de videiras. Olivia fotografou os dois. Subitamente, Buck abaixou-se e correu por baixo de uma videira para a fileira seguinte, o rabo comprido em sua esteira. Tess aceitou o desafio. Fitou Olivia com os olhos arregalados, antes de sair correndo pela fileira, virando-se na extremidade e desaparecendo.

Olivia sorriu. com a câmera pendurada no ombro agora, ela foi atrás, num ritmo mais acelerado. Não podia ver Tess por cima das videiras, mas o grito estridente ocasional era uma indicação de seu paradeiro. Acompanhou os sons, caminhando pela extremidade do campo, espiando por um espaço entre as fileiras depois de outro, à procura da dupla.

Estava quase na última fileira quando os avistou. Buck se encontrava agora ao lado de Simon, de óculos escuros e suado, acocorado, removendo as folhas mais próximas das uvas. Tess postava-se sozinha na extremidade da fileira.

Olivia aproximou-se por trás da filha, pensando que deveriam ir embora agora que o haviam encontrado. Mas Tess parecia enraizada no lugar. Ao que parecia, a brincadeira ainda não acabara.

Simon lançou apenas um rápido olhar para as duas. Além da brevidade, que sugeria a irrelevância delas em sua vida, a expressão era a de quem não se importava nem um pouco.

- Está podando de novo? - perguntou Tess.

- Estou - respondeu ele, sem desviar os olhos do trabalho.

- É tudo o que sempre faz? !

-Não.

- É só o que eu vejo você fazer.

- Isso acontece porque você sai para brincar, enquanto trabalho.

- Não estou brincando, mas estudando.

A mão de Simon parou por um instante em pleno ar, antes de baixar com todo cuidado para remover uma folha.

- Tudo bem, enquanto você estuda.

Tess aproximou-se das uvas. Inclinou-se para espiar os pequenos cachos.

- Estas coisas ainda são patéticas. Quando começarão a parecer com uvas?

Simon lançou um olhar contrariado para Olivia. Ela ergueu as mãos e balançou a cabeça. Ele era crescidinho. Podia cuidar de si mesmo. Além do mais, ela própria estava curiosa. Simon estudou a videira por longo momento antes de tirar outra folha.

- Agosto.

- Por que tanto tempo?

- É o tempo de que precisam para crescer. Tess tornou a examinar o cacho mais próximo. - Tem certeza de que são mesmo uvas?

Simon parou por um instante. Removeu o suor da testa com o antebraço. A voz era tensa quando disse:

- Tenho sim. São uvas. -Foi uma pergunta legítima - protestou Tess. Ele a fitou.

- É uma palavra importante, "legítima"... importante demais para uma criança como você. Não deveria usar palavras que não compreende.

- Mas eu compreendo. Não sou estúpida.

Olivia não podia ver o rosto de Tess, mas conhecia aquele tom de voz. Era defensivo. Pisavam em gelo fino ali.

O gato também sentiu, pois tanto olhava para Simon como para Tess.

Olivia já especulava se deveria interferir para desarmar os espíritos quando Tess perguntou calmamente:

- O que mais você faz?

Simon passou para a videira seguinte. Primeiro, deslocou as folhas mais altas para o outro lado da treliça.

- Uso uma charrua na terra em que você está agora.

- Uma charrua?

- Uma máquina que abre sulcos para arar o solo.

- Por que precisa fazer isso? Simon suspirou.

- Quanto mais buracos tem, melhor a terra respira. O fato de você ficar parada aí tapa todos os buracos de novo. Está desfazendo meu trabalho.

Por um longo momento Tess não se mexeu. Depois deu um passo largo na direção da videira mais próxima.

- Tess... - advertiu Olivia.

Mas não era mais possível conter a menina. Ela perguntou a Simon:

- Como sabe que folhas tirar?

Simon lançou um olhar de advertência para Olivia. Pôs as mãos nos quadris e fitou Tess.

- Simplesmente sei.

- Como?

- É instintivo.

- Aposto que você diz isso por dizer. Aposto que não há nenhuma regra. Aposto que você simplesmente pega qualquer folha que quiser.

Num piscar de olho ela se inclinou e arrancou tantas folhas quanto sua mão podia pegar.

- Tess! - exclamou Olivia, adiantando-se.

Quando ela alcançou a filha, Simon também se postava na frente de Tess, com uma expressão sombria.

- Obrigado. - Ele tirou as folhas da mão de Tess. Suspendeu-as.

- Sabe o que acabou de fazer?

Tess inclinou a cabeça para trás, a fim de sustentar seu olhar. Tinha o rosto pálido, mas não se intimidou.

- Podei sua videira.

- Você acaba de arrancar a vida e a força das uvas.

- Acho que ela não teve a intenção... Mas Tess interrompeu a mãe. Ergueu o queixo para Simon.

- Você faz isso.

- Não da maneira como você fez, arrancando tantas folhas. É uma arte. Mas você não pode saber disso. Acha que é muito esperta, mas não é.

- Simon, por favor, não...

Mas ele não deixou Olivia continuar, pois tratou de acrescentar, fitando Tess com uma expressão irritada:

- Não é mesmo. O que acaba de fazer foi insensato e mau. Foi uma estupidez.

Tess estava ofegante, fazendo um esforço para conter as lágrimas. Prestes a perder a batalha, ela virou-se e voltou pelo caminho por que viera.

- Você é que é mau! - gritou ela enquanto se afastava. - Não me importo se você me odeia!

Tess tornou a se virar, acrescentando:

- Não gostaria de ter você como meu amigo!

- Ainda bem, porque isso não vai acontecer. Quer fazer amigos? Experimente um sorriso. Aposto que não sabe como fazer isso, espertinha!

- Simon... - suplicou Olivia.

- Sei sim! - gritou Tess, rígida de fúria. - Você é mau e... você fede... e não sabe jogar ténis... e... e seu gato é gordo A menina virou-se outra vez e afastou-se. Olivia foi atrás, praguejando baixinho. Não tinha dado muitos passos quando parou, abruptamente, e virou-se para Simon.

- Foi incrível - disse ela, consternada. - Não dá para acreditar. Posso desculpar Tess, porque é uma criança. Mas você também se comportou como uma criança pela maneira como discutiu com ela.

A julgar pela expressão beligerante em seu rosto, Simon não estava disposto a recuar. Os olhos eram sombrios, o queixo projetava-se para a frente numa atitude agressiva.

- Viu o que ela fez? Essas uvas são uma responsabilidade minha. Gostaria que ela pegasse seus papéis e os rasgasse, arruinando três dias do seu trabalho?

- Ela não sabia o que fazia. Se você tivesse explicado em vez de bancar o superior, talvez Tess reagisse de uma maneira mais racional.

- Não tenho tempo para explicar tudo que faço. Caso não tenha percebido, estou cuidando de um negócio.

- Claro que percebi. Como poderia deixar de notar? Você trabalha o tempo todo. Não é de admirar que não tenha nenhuma habilidade social. - Olivia levou a mão ao rosto, mas logo a tirou e a levantou.

- Desculpe. Não é esse o problema aqui. O problema é Tess.

- Ela é uma criança detestável.

Simon começou a se virar para encerrar a conversa, mas Olivia não podia parar nesse ponto. Inclinou-se para a frente, em fúria.

- Não é não. É uma criança com um problema, assim como você também tem. O seu é o pesar eterno, o egocentrismo, talvez um complexo de mártir... não sei. O de Tess é a dislexia. Ela tem dez anos e não consegue ler. Saiu de um ano letivo de pesadelo, com uma professora que a menospreza e crianças que riam dela. Reconheço que ela deveria sorrir mais. Mas como fazer uma criança sorrir quando ela se sente um lixo? Ela acha que é burra porque estuda e estuda, mas não consegue tirar mais do que um C. Usa óculos e por isso pensa que é feia. Veio para cá com um enorme problema de auto-estima. Eu esperava que o verão pudesse lhe proporcionar uma folga. Você acaba de destruir sozinho essa esperança.

Ela olhou para Buck, que a fitava com uma expressão de surpresa.

- Tess tem razão. Seu gato é gordo.

com isso, Olivia partiu à procura da filha. Correu de volta pelo caminho que haviam percorrido entre as fileiras de videiras, virou ao final e deixou que a raiva a impulsionasse na estrada para a casa. Durante todo o tempo, vasculhava os campos, mas sem avistar qualquer sinal de uma menina com uma camiseta verde de Asquonset e um short de brim desbotado. Em uma questão de segundos, Olivia receou que Tess tivesse corrido para o bosque, se perdido, alcançasse o rio, caísse e se afogasse. Ela parou de correr, subitamente sem fôlego.

- Tess? - chamou, frenética agora. - Tess?

Olivia ergueu a mão para proteger os olhos, esquadrinhou o horizonte.

- Onde você está?

Chamaria a polícia. Chamaria os bombeiros. Tocaria um sino. Um alarme. Devia haver um na casa-grande.

Ela seguia nessa direção quando avistou uma coisa verde que não combinava com os rododendros. Era Tess, sentada de costas para o mundo, no meio dos arbustos, na frente da casa-grande.

Simon avistou Tess ao mesmo tempo que Olivia. Embora as pernas dela se movessem mais depressa, as de Simon eram mais compridas. Alcançou-a quando ela ainda se encontrava a dez metros da criança.

- Falarei com ela - disse Simon.

- Não, a menos que tenha crescido nos últimos dois minutos advertiu Olivia, a voz baixa, mas tensa.

Ele merecia o sarcasmo, e sabia disso. Mas compreender era resolver apenas metade do problema. Adiantou-se e ficou na frente de Olivia, obrigando-a a parar.

- Eu gostaria de falar com ela. Os olhos de Olivia faiscaram.

- Se é para aliviar o sentimento de culpa por ter se comportado tão mal, não precisa se incomodar. Tess sabe que há pessoas no mundo que não se importam com as outras.

- Não sou uma delas.

- Como posso saber?

- Terá de aceitar minha palavra. Eu armei a confusão e agora tenho de desfazê-la.

Simon olhou-a nos olhos, pensando que ela deveria parecer um menino com aqueles cabelos, mas não era o que acontecia. A fúria abrandou e se tornou ainda menor. Quando permitia que um pouco de fraqueza transparecesse, Olivia era bastante feminina.

Seria fraqueza? Ou vulnerabilidade? Ou mesmo confusão? Ele não podia saber.

O que quer que fosse, Olivia dava a impressão de que queria acreditar nele, mas não sabia se podia. E ela tinha todos os motivos para ter aquela reação. Havia mesmo muitas pessoas indiferentes no mundo. Só que ele não era uma delas. Não era mesmo. Ou pelo menos não queria ser.

- Por favor - murmurou Simon.

A fúria voltou, numa expressão que dizia que ela seria capaz de capá-lo se piorasse a situação. A mensagem era tão incisiva - tão obscena - que ele quase riu. Felizmente, porém, sabia que era melhor não fazer isso.

Ele aproximou-se de Tess em silêncio. Quando olhou para trás e avistou-o, a menina desviou os olhos para a mãe antes de tornar a fitá-lo. Seu corpo ficou tenso. Enfiou um pé por baixo da coxa, na preparação para se levantar. Simon apressou-se em falar, mantendo a voz baixa:

- Desculpe. Eu estava errado. Não deveria ter falado aquelas coisas. Tess fitou-o em silêncio.

- Eu estava transtornado. Ela permaneceu imóvel.

- Deveria ter explicado por que fazia aquilo com as folhas. Há uma razão por trás de tudo.

Tess rangeu os dentes.

Ela não facilitava, e Simon sabia que também merecia a resistência da menina. Mas não era fácil. Ele não tinha qualquer experiência de lidar com meninas de dez anos, muito menos de se desculpar.

- Estou acostumado a trabalhar sozinho - murmurou Simon, na esperança de que ela pudesse compreender.

- O problema é comigo. - E, de repente, aflorou à superfície, como Olivia dissera, a questão da auto-estima. - Você me odeia.

Simon sentiu-se angustiado.

- Não, não odeio.

- Nunca me disse uma única coisa agradável. Nem uma só vez.

- Não a odeio. Como poderia odiá-la? Não a conheço.

- Deixo você irritado. Olha para mim e pensa na coisa mais horrível do mundo.

- Não é isso. Olho para você e penso em minha filha. Ela morreu há quatro anos. Sinto muita saudade.

Simon não planejara dizer isso e não podia acreditar que dissera. Tess era uma criança. Não compreenderia a morte. E se perguntasse como Liana morrera? Não podia responder que fora num acidente de barco. De jeito nenhum. Se o fizesse, a menina nunca mais entraria num barco à vela.

Olivia nunca o perdoaria. E Natalie também não o perdoaria.

Mas Tess parecia menos hostil. Pelo menos estava escutando.

- Isso não me desculpa. As coisas que eu disse para você foram mesquinhas e inverídicas. Punia você porque não tenho mais uma filha. O que foi errado. Sinto muito.

Ele lançou um olhar hesitante para Olivia, especulando se estaria metendo os pés pelas mãos. Esperava por um sinal de que estava tudo bem, mas viu apenas expectativa, como se Olivia esperasse que ele falasse mais alguma coisa.

Mas o que mais deveria dizer?

Não era bom naquele tipo de conversa. Teria sido um péssimo pai. Simon enfiou as mãos nos bolsos e tornou a fitar Tess.

- Isso é tudo. Eu queria apenas pedir desculpa. Contrafeito, sentindo-se mais inadequado do que em qualquer

outra ocasião de sua vida, ele se afastou, pensando que era melhor não dizer mais nada.

Não olhou para trás, nem mesmo quando sentiu que os olhos de Olivia o acompanhavam. Não queria ver aqueles olhos. Porque faziam com que ele sentisse.

Continuou a andar, na direção dos campos de Pinot Noir, até se descobrir envolvido pela fragrância das videiras, até ouvir os suaves estalidos das únicas criaturas que sabia como criar. Era muito bom. E se ateria a isso por algum tempo.

Gillian?

- Pois não?

- Aqui é Olivia Jones. Como vai? Jillian Rhodes era a estudante de direito que sublocara o apartamento de Olivia em Cambridge.

- Muito bem, obrigada. O apartamento é sensacional. Simplesmente adorei.

- Tentei falar com você várias vezes, mas não atendeu. Devem estar exigindo muito trabalho de você.

- Eles acham que não. Mas não posso me queixar. Pagam muito bem. Como você e sua filha estão?

- Estamos bem, obrigada. Eu queria saber o que chegou na correspondência.

- Deixei-a sobre a mesa. Espere um instante.

Houve um estrépito. Em sua imaginação, Olivia viu o fone descer por toda a extensão do fio enrolado e bater na parede da cozinha. Era uma distração tão boa quanto outra qualquer do suspense de especular o que havia na pilha.

- Aqui estão - disse Jillian, voltando ao telefone.-Já mandei as contas.

- E eu recebi.

- A maior parte do que resta não passa de lixo. Uma porção de catálogos. Propostas de cartões de crédito. Está esperando por alguma coisa especial?

- Alguma coisa de uma escola chamada Cambridge Heath?

- Deixe-me ver... não. Nada parecido.

- De algum museu? - indagou Olivia. - Ou de uma galeria de arte?

Houve uma pausa. Depois:

- Tem aqui um cartão-postal de uma galeria de arte de Carmel. É um convite para uma exposição.

- Não é isso. Estou esperando uma carta comercial.

- Lamento, mas não há nenhuma.

Outra decepção. Olivia reprimiu seu desapontamento.

- O que me diz de uma carta pessoal, escrita à mão, talvez do Meio Oeste ou do Oeste, até mesmo do Sul?

A quem ela tentava enganar? Não tinha ideia do paradeiro de sua mãe. A mulher podia até estar no outro lado da baía, em Newport, por tudo o que Olivia sabia!

- Não, não há nenhuma carta assim - respondeu Jillian. - Há uma que parece escrita à mão, mas deixei cair um pingo de água sem manchar a folha. É espantoso o que as pessoas que querem donativos podem fazer hoje em dia. Mas houve telefonemas. Do mesmo homem. Voz séria, tom de urgência. Ele quer saber como entrar em contato com você, mas não dá o nome.

Olivia suspirou.

- Só pode ser Ted. Ele sabe que estou aqui, mas não tem meu número direto. Quando ele liga para o escritório, a pessoa que atende se recusa a fazer a transferência.

- O que devo dizer na próxima vez que ele ligar?

Diga a ele para não me encher mais, Olivia teve vontade de responder. Diga a ele que acabou tudo. Se mudei de ideia? Não. Se tenho saudade dele? NÃO!

Mas encarregar Jillian de despachá-lo seria um ato de covardia. Olivia concluiu que, mais cedo ou mais tarde, teria de ligar para Ted pessoalmente.

- Continue a cozinhá-lo. Mas não dê o telefone que lhe dei, em hipótese nenhuma. O número é apenas para emergências. Ligue-me se uma mulher chamada Carol Jones me telefonar. E se a Cambridge Heath telefonar. E se alguém telefonar para falar de trabalho. De um museu ou galeria de arte.

-Entendido.

- Oi. Aqui é Olivia Jones. Posso falar com Arnold Civetti, por favor?

Arnold Civetti era o curador de um pequeno museu em Nova York que tinha uma grande coleção de fotos. Otis dizia que o homem vinha aventando há anos a ideia de contratar um restaurador exclusivo. Talvez tomasse a decisão logo se a pessoa certa lhe fosse apresentada numa bandeja. Olivia enviara-lhe um currículo no início de sua busca por emprego e recebera em seguida uma carta que dizia, em suma, "Obrigado. Entraremos em contato. Não nos ligue. Ligaremos para você". Três meses haviam passado desde então.

Ela estava cansada de esperar. As engrenagens emperradas precisavam de um pouco de graxa para funcionar melhor, não é?

- Sinto muito, mas o Sr. Civetti viajou para o exterior - disse um homem com um ligeiro sotaque britânico.

- Pode me dizer quando ele voltará?

- Creio que ele não voltará antes do Quatro de Julho. Enquanto isso, há alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-la?

Em termos ideais, o homem deveria dizer: Sei quem é, Sr.a Jones. O Sr. Civetti mencionou numa conversa pelo telefone que tivemos na semana passada. Ele viajou para a Europa por três meses, ou já teria entrado em contato. Mas está muito interessado em conversar com você. Temos realmente um cargo para alguém com as suas qualificações. A agenda do Sr. Civetti está bem aqui na minha frente. Vamos marcar uma reunião?

- Faço restauração de fotos. Trabalhei com Otis Thurman. Olivia fez uma pausa, mas não houve qualquer reação ao nome. Como o Sr. Thurman se aposentou, estou procurando uma nova posição. Enviei uma carta para o Sr. Civetti na primavera passada. E queria saber se ele pensou a respeito.

- Costumamos terceirizar a restauração.

- Sei disso. Fiz alguns trabalhos que vocês mandaram para Otis. Ele tinha a impressão de que o Sr. Civetti cogitava de contratar alguém como funcionário.

Houve uma risada rápida.

- Duvido muito. Nosso financiamento está mais apertado do que nunca.

- Neste caso, talvez queiram me considerar para trabalhos independentes.

Não era o ideal. Precisava do plano de saúde para Tess e ela, e fazer um contrato como autónoma custaria uma fortuna. Mas calculava que poderia dar um jeito se tivesse bastante serviço.

- Você tem um estúdio? - perguntou o homem.

- Tenho. Olivia tinha certeza de que Otis a deixaria usar seu estúdio numa emergência.

- E o nome do estúdio?

- Jones e Burke.

Foi um nome improvisado de repente. Não podia usar Jones apenas. Era comum e prosaico, sem nada de memorável. Jones e Burke era um nome impressionante. Soava até como um pouco britânico. Até mesmo um pouco familiar. Por que ela imaginava pastas de couro com abas em duas tonalidades?

- Eu procurava no arquivo enquanto falávamos, mas não consegui encontrar seu currículo - disse o semibritânico. - Talvez pudesse nos enviar outro. Inclusive com uma lista dos trabalhos que fez. Passarei para o Sr. Civetti examinar.

- Eu ficaria agradecida.

- O prazer é todo meu. Não há necessidade de telefonar de novo. Nós ligaremos se precisarmos de seus serviços.

- Oi. Aqui é Olivia Jones. Laura Goodearl está?

Era a mulher que cuidava das aquisições para um museu em Montpelier. Não fazia contratações, mas tinha uma estreita ligação com Otis. Ele garantiu que Laura saberia se houvesse alguma restauração de fotos para ser feita.

- Aqui é Laura.

- Oi. Escrevi no mês passado sobre a possibilidade de fazer alguns trabalhos. Lembra de mim, a assistente de Otis Thurman?

- Otis... - O nome repetido com um sorriso. - Um homem muito simpático. Meu pai era artista plástico. Era muito amigo de Otis. Como ele está?

- Preparando-se para a aposentadoria.

- E é por isso que você procura trabalho. Temos umas poucas coisas adquiridas, mas não chegarão até outubro. Pode me mandar um currículo?

Olivia já enviara. E mandara também um aviso de mudança de endereço.

- Claro - disse ela, fazendo um esforço para não se sentir arrasada. - Porei imediatamente no correio.

- E me dê outro telefonema, talvez no final de setembro, apenas para me lembrar de que espera pelo serviço, está bem?

Olivia prometeu que ligaria, mas encerrou a conversa no maior desânimo. "Umas poucas coisas" não era nada promissor. Se houvesse trabalho ali, seria como freelance e em quantidade mínima. Ela terminaria seu trabalho em Asquonset no Dia do Trabalho, no início de setembro. com a generosa remuneração de Natalie reservada para a educação de Tess, precisaria ganhar dinheiro suficiente para viver.

- Olivia Jones, por favor.

- Sou eu.

- Aqui é Jillian Rhodes. Achei que deveria saber que o mesmo homem ligou de novo ontem à noite. Disse que era muito, muito, muito importante falar com você.

Olivia até podia ouvir. Era típico de Ted.

- Lamento por isso, Jillian. Ele não deveria incomodá-la tanto. Acho que imagina que tem mais chance de arrancar o telefone de você do que da secretária aqui. Ligarei para ele. - Ela fez uma pausa. Alguma coisa na correspondência hoje?

- Nada que possa interessá-la.

- Ahn...obrigada, Jillian.

- Ted...

- Olivia! Como... como soube que eu estava pensando em você... não pode ser coincidência que tenha ligado logo agora... acabo de voltar do trabalho... o jantar estará pronto no microondas em quarenta e dois segundos... quarenta e um... quarenta... então será como se estivéssemos jantando juntos.

Olivia manteve a voz calma.

- Ted, quero que você pare de telefonar.

- Só liguei uma vez.

- Por favor, não minta.

- Não estou mentindo. - Ted deixou escapar um longo suspiro.

- Eu só queria dar um alo. Por que não quis me atender?

Olivia não estava com a menor disposição para discutir sobre a quantidade de ligações.

- Porque não há sentido. Não estamos mais namorando.

- Era uma das coisas sobre as quais eu queria conversar com você... neste fim de semana do Quatro de Julho... estou pensando em pegar o carro e ir até aí.

- Preste atenção, Ted. Não estamos mais namorando.

- Mas ainda somos amigos... isso não mudou só porque você está passando o verão aí... somos grandes amigos... e poderemos conversar sobre tudo.

- Não quero que me ligue mais, Ted.

Houve uma pequena pausa, seguida por uma exclamação surpresa:

- Você parece estar falando sério!

Olivia já se perguntava como poderia deixar mais claro quando ele acrescentou, irritado:

- Conheceu outro... acontece comigo sempre que encontro uma mulher de quem gosto... precisa me dizer o que ele tem que eu não tenho.

Olivia suspirou.

- Não há mais ninguém. Não estou namorando. Só vim até aqui com minha filha para fazer um trabalho. Não tenho tempo para qualquer outra coisa neste momento.

- Então esperarei até o outono... estará revigorada quando voltar.

- Não, Ted. Acabou. Não quero mais namorar você. E também não vou querer no outono.

Ela não sabia de que forma podia ser mais brusca.

- Vai se sentir diferente no outono. Por isso não discutirei com você agora... mas é bom ouvir sua voz. Sinto muita saudade, Livie.

- Olivia, Ted... meu nome é Olivia. Detesto Livie.

"Olivia" tinha elegância; "Livie" era a mãe dos Waltons, uma mulher que trabalhava como uma escrava.

- Também sei que você gosta de mim mesmo quando diz que não gosta.

Olivia teve vontade de arrancar os cabelos.

- Está enganado, Ted. Não gosto mais de você. Por isso, se continuar a me ligar, falarei com a companhia telefónica. Eles têm departamentos especiais agora para cuidar de telefonemas indesejáveis.

- Liguei só uma vez... e não tentei assediá-la... seria uma falsa acusação. Sabe o problema que poderia me causar se usasse a palavra "assédio"?

- Claro que sei... e me pergunto se você sabe. Se sabe, por favor, pense duas vezes na próxima vez em que pegar o telefone com a intenção de ligar para mim.

Olivia desligou.

Ela continuou a apreciar cada amanhecer do banco em sua janela. Levou uma cafeteira pequena para o quarto e fazia café suficiente para encher uma caneca. Não podia imaginar uma maneira melhor de começar o dia do que a mistura das fragrâncias do café mocha e do orvalho do vinhedo.

E observar Simon. Não podia esquecer isso. Ele era parte do cenário, um segmento da natureza-morta fixada em sua mente. Cada dia ele aparecia no mesmo lugar, na mesma hora, um Homem de Marlboro muito vivo, menos o chapéu, o cavalo, as colinas e o cigarro. Restava só a aparência rude e fascinante, que Simon tinha de sobra.

Não que Olivia estivesse se apaixonando por isso. Fazia de tudo para evitá-lo durante o dia e sentia-se grata por Simon ainda não ter participado dos jantares... uma coisa que ela acharia bastante constrangedora. Mas ele era, definitivamente, uma parte de seu idílio matutino.

Era a parte humana. Olivia poderia não ter usado essa palavra antes do problema com Tess. Desde então, porém, sempre aflorava.

Ocorreu de novo agora, quando ele olhou em sua direção. Simon já fizera isso antes, um breve olhar para trás, por cima do ombro, apenas para indicar que sabia que ela estava ali o observando. Desta vez, no entanto, ele virou-se todo para a casa e seus olhos se encontraram.

- Olá - murmurou Olivia, enlaçando os joelhos, que de repente pareciam estranhos, comichando. - O que há com vocês, meus joelhos?

Ela prendeu a respiração, especulando se Simon acenaria. Mas ele apenas ficou parado ali, o peso do corpo apoiado numa perna, como fazia com frequência, olhando em sua direção.

O que ela podia fazer que não sustentar o olhar? Não lhe daria a satisfação de desviar os olhos. Tinha tanto direito a estar ali quanto Simon. E ele não tinha o direito de criticar Tess por não sorrir. Olivia ainda não o vira dar um sorriso. Se ele não tinha a coragem para oferecer pelo menos isso - ou para erguer apenas um dedo em saudação -, o problema era seu.

Mas também era problema de Olivia, porque a fraqueza em seus joelhos ainda não cessara. A vibração fora direto para o fundo do estômago, onde entoava uma canção sensual.

Mas também o que ela esperava de tanto vê-lo, dia após dia, ali em cima, de camisola, recém-saída da cama?

Mas ela não estava se mexendo. Por uma questão de princípio. Tomava um gole do café de vez em quando, mas afora isso mantinha os braços em torno das pernas, contendo todas as vibrações de desejo; e fitava-o, especulando se ele sentia a mesma coisa.

O desejo não era uma coisa sobre a qual pudéssemos conversar quando eu era jovem. Não me passava pela cabeça perguntar sobre sexo para minha mãe, da mesma forma que jamais imaginaria assaltar o banco local... e não pense que eu achava que meus pais não faziam sexo. Claro que eles faziam. Mas não falavam a respeito.

Muito diferente de hoje, não é mesmo? Hoje, tudo é explícito. Mas creio que as pessoas estão perdendo alguma coisa. O sexo deixa de ser tão especial quando se torna tão clamoroso. Há algo de bom em ter de pensar a respeito e esperar. Há algo de bom em não se falar a respeito até a morte.

Carl e eu também não falávamos a respeito, mas sentíamos muito. Tive a primeira menstruação aos doze anos de idade. Juro que ele percebeu a diferença no dia seguinte. Nunca mais esqueci. Foi em pleno inverno. Embora tivéssemos pouca neve-jamais temos muita neve, por causa da proximidade do mar-, fazia frio e ventava, um tempo inclemente. Estávamos todos agasalhados, a caminho da escola. Eu usava um cachecol e um gorro de lã. Quase que só o meu rosto estava à mostra. carl me fitava a intervalos de poucos minutos, a testa um pouco franzida.

- Qual é o problema? - perguntei depois de algum tempo.

- Não há problema nenhum. Apenas você parece um pouco diferente.

- Não sei por quê.

Mas minhas faces passaram do rosado para o vermelho no mesmo instante, e não foi por causa do frio. Aquele vermelho foi de puro calor.

Foi uma revelação involuntária, é claro. carl e eu conversávamos sobre todas as outras coisas. Por isso o fato de eu não ter falado sobre aquilo, mais o rubor e uma expressão puramente feminina, como ele disse mais tarde, eram todas as indicações necessárias.

Carl mostrou-se mais solícito comigo naquele dia e nos dias subsequentes. Nunca perguntou como eu me sentia ou se tinha cólicas, mas juro que sempre sabia quando meu corpo tinha suas reações femininas. A voz de carl se tornava um pouco mais suave e os olhos mais gentis.

E eu? Sentia-me totalmente apaixonada. Metade ainda era adoração ; pelo ídolo, já que ele era quatro anos mais velho, mais sensato e mais maduro sexualmente. Mas havia o suficiente da outra metade para me fazer sonhar com o futuro. Planejei tudo. Casaríamos assim que eu me formasse na escola secundária e teríamos uma criança por ano, até acharmos que já era suficiente. Construiríamos uma casa numa colina, com vista para o mar, e cultivaríamos uma porção de coisas. carl sabia como cultivar tudo. E passaríamos o resto da vida fazendo coisas simples como dançar em cabanas de galhos trançados.

Eu não pensava mais em voltar a Nova York. Aquela vida se desvanecera para uma recordação distante... uma lembrança desagradável ainda por cima. Ali, na fazenda, mesmo em plena Depressão, havia luz... ou

pelo menos havia para mim. Quando eu era adolescente, sentia cada vez mais o ritmo da estação. Passei a conhecer a fragrância de fertilidade da primavera, o rico aroma do verão, o cheiro de nozes do outono. Quando os campos se tornavam vazios e desolados, eu compreendia que a terra estava em hibernação, mas também sabia que a primavera voltaria. carl ainda estaria ali. Eu seria um ano mais velha. E estaríamos um ano mais próximos de vivermos juntos para sempre.

- carl tinha conhecimento dos planos? - perguntou Olivia.

- Não sei se entendi sua pergunta.

- Conversou com ele sobre a casa e as crianças? Natalie pensou a respeito por um momento.

- Não. Tinha certeza de que ele queria a mesma coisa.

- Como sabe que ele se sentia assim?

- Pela maneira como olhava para mim. E pela maneira como me tocava.

- Ele tocava em você?

- Eram gestos inocentes, mas carinhosos.

- Estamos falando de tocar em sua mão ou tocar em outras coisas? - Olivia se apressou em acrescentar: - Ou não devo perguntar?

- Não deve perguntar.

Natalie cruzou as mãos no colo. Desviou os olhos. Parecia debater consigo mesma. Ergueu e abaixou um ombro. Contraiu os lábios para relaxar em seguida. com a decisão tomada, ela tornou a fitar Olivia. Falou depressa, como se tivesse medo de perder a coragem.

- Nós nos acariciávamos. Ele me ensinou coisas.

- Já se beijavam no cinema a esta altura? Houve uma pausa e, depois, Natalie murmurou:

- Já sim. Eu tinha dezesseis anos, e ele tinha vinte. Eu tinha dezessete, e ele tinha vinte e um.

Ela levou a mão ao peito. Ergueu os olhos cheios de lágrimas para um ponto acima da cabeça de Olivia.

- Só de olhar para ele eu ficava sem fôlego.

Ao que parecia, a lembrança ainda tinha o mesmo efeito. Olivia sentiu-se subitamente como uma intrusa. Como uma voyeur.

- Não deveria ter perguntado.

Natalie respirou fundo. Exalou devagar. Baixou os olhos para seu colo. Permaneceu imóvel por um momento. E tornou a levantar a cabeça.

- Claro que deveria. Foi para isso que a contratei.

- Mas essas são coisas íntimas. E me sinto... embaraçada por ouvir você falar a respeito. Não parece certo.

- Porque tenho setenta e seis anos? Porque você não gosta de pensar em sua mãe como uma criatura sexualmente ativa, muito menos sua avó?

- Nunca conheci minha avó e sei que minha mãe é sexualmente ativa. - Olivia crescera com um fluxo de homens entrando e saindo.

- Mas você é diferente. É uma dama.

Natalie demonstrou uma súbita irritação:

- Há algum motivo para que uma dama não deva sentir paixão? Há algum motivo para que ela não possa amar com seu corpo tanto quanto ama com o coração? - Ela sacudiu a cabeça num movimento convulsivo. - Não estou lhe pedindo para ser descritiva. E não darei detalhes. Mas todo o objetivo desse esforço é fazer minha família saber como eu me sentia naquele tempo. Antes que me critiquem agora, precisam saber como eu era antes. carl era a coisa mais importante em minha vida. Meu primeiro pensamento pela manhã e o último à noite. Além disso, quando eu estava na escola, passávamos todos os momentos possíveis juntos. Ele tentava me resguardar do trabalho e me dava as tarefas mais fáceis. Mas eu sempre me mantinha ao seu lado. Eu me sentia tão apaixonada que não sabia o que fazer comigo.

- O que aconteceu? - indagou Olivia. - Por que não casou com ele?

- Alguma vez já esteve apaixonada?

- Não desse jeito.

- Amava o pai de Tess?

Olivia conhecera Jared num café em Atlanta, onde ela residia na ocasião. Jared fora à cidade para um simpósio científico. Parecia adoravelmente brilhante, com os cabelos desgrenhados e os óculos. Tinha um jeito tímido de falar que sugeria vulnerabilidade. Olivia também achara que isso era fascinante.

- Pensei que o amava - disse ela para Natalie. - Mas ouvindo-a falar agora, não tenho mais certeza. Ele era uma excelente pessoa. Acho que eu estava mesmo apaixonada.

Mas Jared fora embora antes de Tess nascer. Embora Olivia sentisse sua ausência durante a gravidez, não tivera mais qualquer saudade depois que a filha nascera.

Portanto, ela o amara? Ou apenas amara a ideia de amá-lo?

Natalie exibia uma expressão tão afetuosa de avó que Olivia não pôde resistir a contar mais.

-Jared era o tipo de homem que podia ficar tão absorvido em seu trabalho que nem mesmo sabia se eu estava presente. Eu queria que ele soubesse. Queria ser a distração que ele não poderia ignorar. Mas nem sequer fui isso. - Ela deu um sorriso torto. - Ele me deu Tess. Ela era tudo que eu queria e muito mais.

Natalie sorriu.

- Ela era toda sua. Um amor garantido. Não iria embora. Nunca mais.

Olivia avaliou as palavras para depois acenar com a cabeça em concordância, lentamente.

- Isso mesmo. Era o que eu sentia.

- Neste caso, sabe o que eu sentia com Carl. Nunca duvidei de seu amor. Nunca tive medo de que ele me deixasse. carl estava sempre ali, e eu me sentia desesperada por amor.

- Mas tinha seus pais. E tinha seu irmão. tinha essas pessoas.

Olivia recostou-se na bergère, sentindo-se como uma fraude. Não deveria ter mentido sobre sua família, não ao ponto a que chegara.

- Não fui completamente honesta nesse ponto. Ter quatro irmãos era um sonho. Sempre pensei que seria divertido. Mas... eu só tinha um irmão.

- Um único irmão? Não era uma mentira tão grande.

- Mas ele era protetor. Meus pais eram ainda piores. Meu irmão era homem. Podia fazer qualquer coisa que quisesse. Eu era mulher. Era resguardada e mantida dentro de casa. Um autêntico duplo padrão. Tive de sair de casa só para provar que não era desamparada.

Sentindo-se culpada, Olivia parou de falar de si mesma.

- Não respondeu à minha pergunta, Natalie.

- Qual era mesmo a pergunta?

- O que aconteceu com Carl. Se o amava tanto, por que não casou, com ele naquele tempo?

Meu pai não ia bem. Quando a Lei Seca acabou, o mercado negro também terminou. Isso significava que o nosso dinheiro do vinho secou. Mas não foi o fim da Depressão. Graças a alguns programas do New Deal, a produção agrícola em outras partes do país foi retomada. Nosso mercado era local e ia muito bem. Podíamos sobreviver sem ajuda federal. Tínhamos o suficiente para nos alimentar e nos vestir. Mas não podíamos progredir. Não podíamos dar um passo à frente do resto do mundo, que era o que meu pai precisava fazer. Ele sabia da importância do crescimento. Foi por isso que comprou as fazendas ao redor. Tinha visões de desenvolver tudo para vender com um grande lucro, recuperar o que perdera no desastre do mercado de ações e voltar a Nova York.

É curioso como uma pessoa pode perder o contato com a realidade. Não havia a menor possibilidade de papai conseguir isso. Não tínhamos terra suficiente e as colheitas ali não se aproximavam nem de longe do que eram no Meio Oeste e no Sul. Asquonset nunca valeria o suficiente para levá-lo de volta a Nova York, não no estilo anterior à partida. Pouco a pouco ele foi absorvendo esse fato. Trabalhava nos campos do amanhecer ao anoitecer, exigia do corpo uma força quase irracional, mas sem chegar a parte alguma.

Ficava deprimido. Tinha acessos delusórios. Jeremiah e carl davam a cobertura necessária quando ele não tinha condições de funcionar.

Ainda cultivava uvas, embora não houvesse um grande mercado para as variedades nativas. Desperdiçava um dinheiro precioso com videiras de origem francesa, que definhavam por um ou dois anos e depois morriam. Mas não queria desistir. Como cultivar milho, batata, cenoura e coisas assim não nos tornaria ricos, ele passou a ter a ideia fixa de que as uvas eram a solução. E continuou a insistir, mesmo quando perdíamos um dinheiro que não tínhamos condições de perder.

Era como um jogo. Depois de algum tempo, você perde tanto que tem de continuar, porque a sorte grande espera com certeza logo depois da próxima esquina. Você precisa tanto do dinheiro que não pode mais parar.

Cultivar uvas era assim para meu pai. Ele estava convencido de que era apenas uma questão de encontrar a variedade certa. Tornou-se uma obsessão.

Tente imaginar a situação. Meu pai estava fisicamente exaurido, um homem magro e encurvado. Falava muito pouco e nunca sorria. Sentava com papel e lápis à noite e começava afazer contas, à procura de um lucro para justificar nosso trabalho. Tinha grandes esperanças, mas sem ter para onde canalizá-las.

Ao mesmo tempo, o mundo ao nosso redor começava a enlouquecer. Hitler agia na Europa, anexava um país depois de outro. Primeiro, foi a Áustria, depois a Tchecoslováquia e a Polónia. Ele deixou claro, desde o início, que seu objetivo era dominar o mundo. Mas era difícil levá-lo a sério. Para nós, não passava de um homenzinho desajeitado, com um bigode quadrado e um pendor para invadir os países vizinhos. Não havia nada de excepcional nisso. A história está repleta de fatos assim.

E depois começamos a ouvir as notícias sobre o que ele fazia nos países que conquistara. Era horrível.

Depois da Polónia, ele conquistou também a Noruega, Finlândia, Dinamarca, Holanda e Bélgica. Isso nos fez pensar ainda mais. Sentávamos em torno do rádio à noite, escutando as notícias.

Mas Hitler estava lá, e nós estávamos aqui. O Atlântico nos separava. Tínhamos toda a proteção necessária. Além do mais, tínhamos outra coisa em que pensar. Afinal, ainda nos recuperávamos da Depressão.

Foi então que Paris caiu sob o domínio do Terceiro Reich e Hitler começou a bombardear a Inglaterra... e de repente não nos sentíamos mais tão distantes. Meu Deus, estava em nossa sala todas as noites, Edward R.

Murrow, com sua voz inimitável, dizendo "Aqui... é Londres". Ouvíamos sirenes de ataque aéreo como se estivéssemos lá e explosões quando as bombas atingiam seus alvos. Vocês foram criados com noticiário ao vivo, mas nós não fôramos expostos a isso antes, pelo menos não daquela maneira. Era novidade para nós... e assustador.

Roosevelt concordou em fornecer armas e matérias-primas para os Aliados, mas foi só depois que os japoneses bombardearam Pearl Harbor é que finalmente decidimos entrar na guerra.

Sua geração lembrava onde estava quando soube da morte de Diana, Princesa de Gales. Minha filha lembra onde estava quando soube que o Presidente Kennedy havia sido assassinado. Meus amigos e eu lembramos onde estávamos quando soubemos que Pearl Harbor fora atacada.

Foi num domingo. Fomos à igreja pela manhã e voltamos para almoçar. Depois, fui para a casa de Carl. Sua casa era muito mais feliz do que a minha. E ele estava ali. Eu tinha dezessete anos e me sentia apaixonada.

Jeremiah e Brida acompanhavam atentamente o bombardeio nazista de Londres. Tinham amigos e parentes na Irlanda e não queriam que o bombardeio se espalhasse. Aplaudiam todas as iniciativas e promessas americanas de ajudar na batalha contra Hitler. Naquele dia, escutaram quando Roosevelt entrou no ar para informar sobre o bombardeio de Pearl Harbor.

Estávamos na sala. carl e eu sentávamos no chão, ao lado das cadeiras em que seus pais sentavam. Nosso objetivo era ficarmos tão próximos do rádio quanto possível, ao mesmo tempo em que ficávamos tão perto um do outro quanto era possível. Lembro de ouvir a voz do presidente naquele dia e compreender no mesmo instante que havia alguma coisa errada. carl e eu olhamos um para o outro durante todo o tempo em que ele falou. Acho que já sabíamos que nossas vidas mudariam para sempre com aqueles acontecimentos.

A mente de Olivia disparou à frente, tentando adivinhar exatamente o que mudara, o que interferira na vida de Natalie e Carl.

- Ele foi para o Exército?

Marinha.

- Embora não fosse um cidadão americano?

- Mas ele era um cidadão americano. carl e os pais haviam se naturalizado anos antes. Orgulhavam-se de serem americanos.

- Mas carl era filho único. E sua presença era necessária para ajudar a cuidar da fazenda. Não poderia ter evitado a convocação?

Natalie sorriu.

- Eu disse que ele foi convocado? Não foi. Ele se alistou. Não fique tão surpresa, Olivia. É um péssimo depoimento sobre sua geração.

- Mas pensei... se ele a amava...

- Havia milhares e milhares de casais como nós. Mas de que adianta estar apaixonada se sua família e sua casa são ameaçadas por um homem que despachava as pessoas para campos de concentração e matava-as com a maior brutalidade, ou por um país que matou dois mil e quinhentos militares americanos num único e horrível dia de bombardeio?

Natalie fez uma pausa.

- Sua geração é afortunada. Não teve de enfrentar uma guerra ou pelo menos não uma guerra que ameaçasse nosso território. Estávamos convencidos de que Hitler nunca deixaria o território continental da Europa, mas agora ele bombardeava a Inglaterra. Seríamos os próximos. Os isolacionistas no país se calaram subitamente. Tínhamos agora um inimigo em comum.

O olhar de Natalie parecia perdido no tempo.

- Quanto a Carl, nunca houve a menor dúvida em sua mente. Ele era jovem e corajoso. Queria lutar por seu país. Era uma questão de orgulho. E não estava sozinho. Os homens alistavam-se porque era uma atitude honrosa. Não procuravam desculpas para se esquivarem da guerra e ficar em casa. Havia um homem aqui na cidade... você conhece Sandy Adelson... estou falando de seu pai. Ele tinha a mesma idade de Carl, a idade perfeita para se alistar. Mas era surdo como uma porta. Sentiu-se humilhado quando o Exército recusou-o. Havia outras coisas que podia fazer para ajudar no esforço de guerra, e é claro que ele fez. Mas até o dia de sua morte ele sempre insistiu que a pior parte de ser surdo era não ter podido lutar na guerra.

- Seu irmão também se alistou?

- Claro. E se alistou antes mesmo do bombardeio de Pearl Harbor. Sabia que a guerra era iminente.

Os olhos tornaram a se desviar. Por baixo dos cabelos brancos, a testa se franziu. Subitamente, Olivia compreendeu.

- Ele morreu na guerra, não é mesmo? Não era sequer uma pergunta de tão óbvia que era a resposta.

Natalie levantou-se e foi até a janela. Estaria olhando pelas fileiras de videiras na direção do mar, Olivia sabia... embora tudo que ela pudesse ver, do lugar em que sentava, eram as copas das árvores. E nuvens. Era outro dia nublado em Asquonset. Havia risco para a saúde das uvas, assim como para as festividades do Quatro de Julho.

Natalie se afastou da janela e foi para trás da poltrona em que sentara. Pôs as mãos no encosto. A voz saiu suave:

- A história fala primeiro sobre Pearl Harbor. Todos ficamos consternados quando soubemos do bombardeio. Também ficamos um pouco aliviados. Brad não estava em Pearl, mas em Midvvay.

Olivia tentava se lembrar de tudo que já lera sobre a guerra quando Natalie acrescentou:

- No momento mesmo em que soltávamos os suspiros de alívio, os bombardeiros japoneses estavam atacando outras bases.

- Midway?

- Entre outras. Vários dias passaram antes de recebermos a notícia. A Marinha ficou tão surpresa com a rapidez e força do ataque que a situação era caótica. Compreensivelmente, os primeiros esforços foram para obter ajuda médica para os feridos. Não se podia mais ajudar os mortos.

Olivia mal podia começar a imaginar. Era muito jovem para saber o que acontecia durante a Guerra do Vietnã, muito menos para ter amigos que lutavam ali. Dois colegas na escola secundária haviam lutado na Tempestade no Deserto, mas nenhum dos dois fora ferido; e sempre que imaginava um pai e irmãos na Marinha ninguém morria.

Mas ela tinha uma filha. Era possível imaginar que, se houvesse outra guerra, Tess poderia ser convocada, dentro da premissa de direitos iguais para as mulheres. Como mãe, ela ficaria desesperada.

- Seus pais devem ter ficado arrasados.

- Ficaram, mesmo - murmurou Natalie, numa angústia evidente. - Àquela altura, já fazia bastante tempo que Brad saíra de casa. Ele não voltava em visita mais que uns poucos fins de semana por ano, mas meu pai continuava a ter esperanças. Até que, de repente, toda e qualquer esperança desapareceu.

Ela bateu no encosto da cadeira uma vez, como se confirmasse a finalidade do ato. Respirou fundo para se controlar.

- Depois disso, carl partiria para a guerra mesmo que não sentisse qualquer patriotismo. Tinha de vingar a morte de Brad.

- Patriotismo...

Olivia pensou numa cena do filme O Vendedor de Ilusões (The Music Man), com Robert Preston e sua banda em uniforme de gala tocando "Seventy-six Trombones", o que era um bálsamo para a expressão angustiada de Natalie. Aquela expressão deixava-a comovida. Olivia não queria viver durante uma guerra. Não queria perder alguém que amava. Não havia nada de romântico nessa perspectiva.

Natalie sorriu.

- O patriotismo é outra coisa que sua geração não considera da mesma forma que a minha.

- Eu penso como vocês - alegou Olivia.

- Não, não pensa. Quando eu digo "patriotismo", você pensa em George C. Scott como o General Patton ou Mary Lou Retton ganhando a medalha de ouro olímpica. Para você, é um evento. Para nós, é um estado de espírito. Quando hasteamos a bandeira americana na frente de casa, é uma questão de orgulho. Quando veteranos marcham em paradas, é uma questão de orgulho. Quando fazemos coisas em vermelho, azul e branco, é uma manifestação desse mesmo orgulho. Até o dia de amanhã. O Quatro de Julho assinala uma época diferente da nossa história, mas é relacionada com aquela a que me referi. A Guerra da Independência nos deu a liberdade, e queremos tê-la para sempre. Sua geração considera até mesmo isso como um fato consumado, uma coisa líquida e certa. O que não aconteceu com a nossa. Éramos filhos da Depressão. Não consideramos nada como líquido e certo. Podíamos não ter prosperidade, mas queríamos nossa liberdade. Foi por isso que lutamos durante a Segunda Guerra Mundial.

- Você também?

- Quer saber se me alistei? Não. Passei a guerra toda aqui. O que não significa que fiquei ociosa. A mobilização pelo esforço de guerra envolvia tudo. Você não precisava estar de uniforme para ajudar na causa. Não conheço ninguém que não tenha feito alguma coisa.

- O que você fez?

Olivia imaginava Natalie trabalhando na linha de montagem de uma fábrica de armamentos, produzindo bombardeiros. Havia um elemento dramático nessa atividade.

- Muitas coisas não adiantava com Olivia.

- Por exemplo? Natalie suspirou.

- Fui uma voluntária da defesa civil... uma observadora. Tinha um gráfico circular com vários desenhos e observava o céu à procura de aviões inimigos. Como estava na Costa Leste, imaginava que seria a primeira a avistar a Luftwaffe. Felizmente, é claro que nenhum avião alemão jamais apareceu.

- O que mais você fez?

Desta vez, Olivia imaginou Natalie enrolando ataduras para a Cruz Vermelha ou cuidando de feridos que haviam voltado aos Estados Unidos. Não era tão dramático quanto fabricar bombardeiros, mas teria sido comovente.

Natalie pegou uma foto em cima da mesa. Mostrava pessoas trabalhando nos campos.

- Asquonset tornou-se um enorme jardim da vitória. com grande parte da produção dos fornecedores tradicionais servindo para alimentar os soldados, as pequenas fazendas como a nossa preenchiam o vazio local.

- Todas as pessoas aqui são mulheres.

- Era só o que restava. Jeremiah nos dizia o que fazer, e nós fazíamOS. As outras mulheres na foto eram todas moradoras locais. Uma delas cuidava das crianças enquanto as demais trabalhavam.

As crianças... Olivia fez alguns cálculos rápidos enquanto se levantava para pegar outra foto na mesa. Mostrava Natalie com um bebé.

- Quando esta foto foi tirada?

- Antes desta. - Natalie apontou para as mulheres no campo. Esse era meu filho Brad. Ele nasceu em 1942, obviamente batizado em homenagem a meu irmão. Susanne nasceu em 1944. E Greg nasceu em 1960.

- Brad não telefonou desde que vim para cá.

- Ele não ligaria de qualquer maneira.

Olivia estava pensando que Brad, o filho, optara por ir embora, como o tio fizera, quando os olhos de Natalie deslocaram-se para a porta. Ela prendeu a respiração por um instante e exibiu um sorriso surpreso.

- Mas que surpresa agradável!

Ela atravessou a sala para abraçar uma loura que não era muito mais velha do que Olivia. Um pouco mais alta do que Natalie, ela usava calça comprida, uma blusa de tricô, brincos de ouro, um colar combinando e dois faiscantes anéis de diamantes. Depois do abraço, Natalie deu um passo para trás.

- Parece pálida, minha nora, mas tão linda quanto sempre. Está tudo bem?

A mulher hesitou por um segundo. Natalie franziu o rosto.

- O que aconteceu?

- Nada. - Houve um sorriso forçado. - Nada tão terrível. Depois de uma breve pausa, ela baixou a voz para acrescentar:

- Greg e eu estamos com problemas. Pensei em passar alguns dias aqui.

Natalie soltou um suspiro, levando apenas uns poucos segundos para absorver as palavras de Jill Seebring e seguir adiante.

- Pensou certo. Pode ficar no mesmo quarto que sempre ocupam e ficar o tempo que quiser. Há um bufê no clube esta noite e um churrasco aqui amanhã. Depois disso, você pode descansar, a menos que tenha vontade de ajudar no escritório. Antes de mais nada, porém, quero que conheça minha assistente. Livi gostou de Jill Seebring à primeira vista. Não sabia se era pelo sorriso fácil da mulher quando foram apresentadas, a expressão magoada que ela não podia esconder, a proximidade na idade ou o simples fato de Jill ter aparecido ao final da tarde usando um vestido de verão parecido com o de Olivia. Mas ela e Jill acabaram seguindo no mesmo carro para o clube, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

- Não sei se conseguirei aguentar - murmurou Jill. - Foi um dia comprido e estou exausta.

Olivia guiava. Tess sentava no banco traseiro, ao lado da nova arrumadeira, que mal completara dezoito anos. Natalie garantia que a garota tinha dez vezes mais entusiasmo do que a concorrente mais próxima. Mas ainda restava conferir se ela seria capaz de fazer o trabalho.

- Uma de nós sempre pode trazê-la de volta mais cedo se não aguentar - disse Olivia. O bufê começaria às cinco horas. - Quanto tempo essas festas costumam durar?

Tess inclinou-se para a frente por entre os bancos. Usava um short branco com uma camiseta azul de Asquonset. Os óculos estavam limpos. Tinha os cabelos presos numa impecável trança francesa.

- Vão fazer um espetáculo de fogos de artifício. Não deve começar antes do escurecer.

- Já conheceu algumas das crianças daqui? - perguntou Jill.

- Algumas estão nas minhas aulas de iatismo.

- Então vai se divertir.

- Não sei. Não as conheço direito.

-Garanto que vai se divertir - insistiu Jill.

- Onde você mora? - perguntou Tess a Jill.

- Em Washington.

- Por que seu marido não está aqui?

Olivia pensava que deveria ter explicado alguma coisa da situação a Tess quando Jill responde, com uma lógica irrepreensível:

- Ele está muito ocupado, trabalhando. Sempre passei mais tempo aqui do que ele.

- Você trabalha fora? - perguntou Olivia.

Tudo na mulher era profissional, dos cabelos louros lisos esticados por trás das orelhas a outro par de brincos e a ausência de um relógio ou pulseira que pudesse interferir com o manuseio de papéis ou outros materiais.

- Não oficialmente.

- O que isso significa? - indagou Tess.

Jill sorriu.

- Significa que não tenho uma remuneração. - Para Olivia, ela acrescentou: - Faço relações públicas em campanhas de levantamento de recursos para obras de caridade. Ajudo no planejamento e divulgação.

- Por que eles não pagam a você? - perguntou Tess.

- Porque não têm dinheiro.

- Você tem filhos? - Ainda não.

Pararam no estacionamento do clube, ao lado do carro de Carl. Um terceiro carro de Asquonset chegou momentos depois.

Olivia não viu Simon entre os ocupantes... o que significava que ele não sentira nada naquela manhã; ou sentira, mas se recusava a admitir. Ela pensara que Simon poderia vir. Afinal, comer na sala de jantar da casa-grande era uma coisa - Olivia podia compreender que era íntimo demais -, mas ali havia um grupo maior, com cem pessoas ou mais participando do bufê. Não havia nada de pessoal nas circunstâncias.

Ela não pensava em perguntar qualquer coisa a Natalie e Carl. Não queria encorajar uma coisa que não podia acontecer.

Por isso, Olivia decidiu perguntar a outras pessoas. Começou por Donna Gomez, a assistente de Simon. Era de esperar que ela tivesse vindo com o chefe. Donna era forte e esguia, cabelos escuros, pele azeitonada, mais ou menos da idade de Olivia, embora já tivesse dois filhos no final da adolescência. O marido e as crianças haviam vindo com ela, e Donna alegou que era uma tradição de Asquonset.

- Se é uma tradição, onde está seu chefe? - perguntou Olivia.

- Simon? Provavelmente em casa. Ele quase não sai.

- Desde que a esposa morreu?

- Mesmo antes. Ele sempre foi muito reservado. Já ela era uma força socializadora. .

O técnico na produção de vinho, David Sperling, disse quase a mesma coisa quando Olivia conversou com ele pouco depois. Admiravam os barcos atracados. O sol baixava no horizonte.

- Está vendo aquele barco? - indagou ele, apontando para uma lancha com uma cabine. - Pertence ao vinhedo. Tínhamos um veleiro, mas... já deve ter ouvido falar do acidente.

- Aconteceu há quatro anos. Fico surpresa que não tenham comprado outro veleiro.

- Alexander bem que queria, mas procurava um barco maior. David apontou para outro barco. Era um veleiro, mais comprido e mais largo do que a lancha. - Ali você tem uma vela mestra e uma bujarrona. Alexander queria ainda mais do que isso.

- Posso compreender o motivo - comentou Olivia, recordando a descrição que carl fizera do acidente. - Um barco maior não seria tão vulnerável.

- Não era por isso que Alexander queria um barco maior - disse David, com um sorriso afetuoso. - Ele queria uma coisa que atraísse atenção.

- Ele era um bom iatista?

- Não muito. Felizmente, sabia disso. Quando levava pessoas Para um passeio, entregava o comando a Simon. Diga-se de passagem que Simon era o melhor. Mas desde o acidente que não entrou em qualquer barco. Mais do que isso, nunca mais veio ao clube.

- E o que ele fez com seu tempo livre?

A resposta para essa indagação veio de Ane Marie Friar, a recepcionista no escritório. Olivia conversava com ela todos os dias. Era uma pessoa simpática e loquaz, talvez mais do que deveria ser naquele caso. Mas Olivia, no final das contas, era a confidente de Natalie.

- Ele lê - explicou Anne Marie. - Está sempre comprando livros, a maior parte pela Internet. O que deve adorar. Não precisa nem aparecer na livraria. Os pacotes são entregues no escritório. Ligamos para Simon e ele vai buscá-los. Sua casa deve estar repleta de livros.

- Onde ele mora?

Olivia sabia que ele morava em Asquonset, mas em todos os mapas que ela vira da propriedade não havia nenhuma indicação da casa de Simon. Ela bem que procurara. Durante suas corridas, ao final da tarde, seguira por todas as trilhas na propriedade, mas ainda não tinha a menor ideia.

- Fica no lado sudeste.

- Não há nada lá.

- Há sim, só que se pode ver apenas quando se está quase em cima. Há uma estrada estreita, indicada por um refletor numa árvore. A casa fica menos de um quilómetro depois, no terreno que o pai de Natalie deu ao pai de carl quando os Seebring vieram viver aqui.

Olivia sabia que carl tinha uma casa na cidade. Presumira que a casa em que ele fora criado havia sido demolida e a terra cultivada.

- Simon mora na casa dos pais?

- Não é bem assim. - Anne Marie parecia exultante por ser capaz de dar todas aquelas informações. - A casa antiga foi derrubada e Simon fez outra. Duas vezes maior, se não me engano.

Olivia já ia fazer mais perguntas quando avistou Tess. Ela estava com algumas crianças de sua turma. Isto é, não estava com elas, apenas as seguia... e não parecia nem um pouco satisfeita.

Quer fazer amigos?, dissera Simon. Experimente dar um sorriso.

Ele tinha razão. Nada na garota que Olivia via naquele momento poderia atrair outras crianças.

Sorria, ordenou Olivia, mentalmente, concentrando-se com toda sua força e contando com as ondas cerebrais para transmitir a mensagem. Por mais incrível que pudesse parecer, Tess olhou em sua direção nesse instante. Mas amarrou a cara ainda mais. E fez um gesto brusco com a mão, pedindo à mãe para não observá-la. Depois, virou-se e seguiu as outras crianças, deixando o deque e tornando a entrar na sede do clube.

A essa altura, Anne Marie já conversava com outra pessoa. Natalie acenou para que Olivia se aproximasse. Havia amigas para apresentar, várias das quais viviam ali há mais tempo do que Natalie. Uma delas podia ser a mulher misteriosa nas fotos mais antigas. Todas estavam agora na casa dos setenta e oitenta anos, o que tornava ainda mais difícil perceber as semelhanças. Olivia bem que procurou, mas foi em vão. Já ia perguntar a Natalie quando anunciaram que o bufê estava servido.

Olivia nunca vira tanta fartura. Havia sopa de peixe e sopa de mariscos, ambas cremosas, com gotas de manteiga flutuando por cima. Havia salada de lagosta, lagosta à Newburg e lagosta apenas. Havia camarão grande no espeto. Havia filés grelhados e espigas de milho cozidas. Havia hambúrgueres e cachorros-quentes. Havia salada de repolho e salada de batata. Havia o famoso Boston Baked Beans, feijão-branco cozido em fogo lento com carne de porco defumada, melaço e temperos.

Olivia fez seu prato e foi procurar a filha. Tess comia um hambúrguer no cais, à beira do círculo de crianças. Estava de costas para Olivia e talvez fosse melhor assim. O coração de Olivia se partiria ao meio se visse a expressão de profunda tristeza da filha.

Naquele instante, Olivia faria o relógio voltar com a maior satisfação, até a ocasião em que a filha tinha um ou dois anos. Poderia salvála naquele tempo, pegá-la no colo para confortá-la. Não podia fazer isso agora. Tess estava grande demais.

Perturbada pelo desamparo desse pensamento, Olivia encontrou um lugar para sentar no deque com o grupo de Asquonset. Era tudo o que ela esperara que seria. Gostava daquelas pessoas. Ajustava-se ao grupo. E Natalie fazia com que se sentisse apreciada e necessária.

Mas, em alguns momentos, Olivia continuava a sentir certa tristeza pelas preocupações que não saíam de sua mente. Concentrou-se ativamente em identificar o que a deixava assim.

A primeira causa era a mais óbvia. Tinha a ver com Tess.

A segunda era mais surpreendente. Tinha a ver com o que Natalie lhe dissera naquele dia. Alguma coisa naquela parte mais recente da história fora mais real do que as outras partes. Era o fato da morte ter entrado em cena, refletiu Olivia. Não havia nada de romântico na morte.

Ela mal conhecia Brad. Ele não desempenhara um papel importante na adolescência de Natalie. Olivia ouvira falar mais de carl do que de Brad. Apesar disso, sua morte assomava na mente de Olivia.

Na verdade, o que assomava mesmo era a expressão abalada de Natalie. Era isso que a afligia.

A terceira causa da tristeza era mais consternadora. Tinha a ver com Simon, que perdera a maior parte de sua família para o mar e naquele momento estava sentado sozinho em algum lugar.

Ora, foi ele quem quis assim, pensou Olivia. Mas isso não fez com que ela se sentisse melhor.

Nem o aparecimento de Tess mais ou menos na ocasião em que as pessoas se encaminhavam para o bufê, a fim de se servirem pela segunda vez. Ela encostou-se na cadeira de Olivia, dando a impressão de que não queria mais sair dali.

- Está gostando, meu bem? Tess deu de ombros.

- Já comeu?

A menina acenou com a cabeça numa resposta afirmativa.

- Onde estão as outras crianças?

Ela mexeu a cabeça de uma maneira que podia indicar qualquer direção, mas os olhos logo se fixaram num ponto determinado. Olivia virou a cabeça e avistou Sandy Adelson se aproximando. Usava um vestido comprido e solto com uma flor nos cabelos. Segurava a mão de um menino que Olivia nunca vira antes. Ele era dois ou três centímetros mais alto do que Tess, tinha cabelos escuros e lisos, olhos sérios. Tess murmurou pelo canto da boca:

- Se está trazendo o menino para me apresentar como umprêmio de consolação, nunca a perdoarei.

- Sorria - sussurrou Olivia antes de se levantar. .

Era a coisa mais natural do mundo para ela dar um abraço em Sandy. Depois, deu um passo para trás, olhando para o menino. - Este é o menino mais lindo no clube esta noite. - Quando o garoto ficou vermelho, ela estendeu a mão. - Sou Olivia.

- Este é meu neto Seth - anunciou Sandy, orgulhosa. Agradecemos o elogio.

Ela bateu de leve no rosto do menino e disse quando ele a fitou: .

- Olivia trabalha em Asquonset e esta é sua filha, Tess. Elas moram em Cambridge. Vieram passar o verão aqui.

O menino acenou com a cabeça em compreensão e ofereceu um breve aceno para cada uma.

- Seth e os pais moram em Concord - informou Sandy. - Não fica muito longe de Cambridge. Vieram passar o fim de semana aqui. Espero que Seth fique por mais algum tempo.

Seth olhava para Tess como se quisesse dizer alguma coisa, mas não ousasse. Foi somente quando ele bateu no braço de Sandy e sinalizou alguma coisa que Olivia compreendeu que o menino era surdo.

Ela não teve coragem de olhar para Tess, para evitar o reconhecimento do problema.

- Seth quer saber se você conhece o Border Café.

- Conheço - respondeu Tess. Sandy interpretou:

- É seu restaurante predileto.

Quando o menino sinalizou mais alguma coisa, ela se apressou em explicar:

- Seth está esperando pela sobremesa. Juro que é o único motivo para ele vir aqui. Oferecem o faça-seu-próprio-sundae, com uma dúzia de sorvetes diferentes e todas as coberturas imagináveis. Quer ir até lá conosco, Tess?

A menina pôs a mão na barriga.

- Acho que não posso. Já comi demais.

- E não querem ir com a gente mais tarde? Meu pai... o bisavô de Seth... tem uma Chris-Craft antiga e linda. Vamos sair com ele para assistir aos fogos de artifício do mar.

Olivia já ia aceitar o convite quando houve uma agitação no outro lado do deque. Havia um mímico ali, equilibrado sobre um único pé na tábua superior da cerca do deque, dando a impressão de que se encontrava numa corda bamba a muitos metros do solo.

Sandy lançou um olhar excitado para Olivia e partiu com Seth nessa direção.

Olivia já ia segui-los quando Tess a deteve.

- Não vou com eles, mamãe.

- Por que não? Parece que vai ser muito divertido. carl

- Acha mesmo? Ele é surdo.

Olivia piscou, aturdida.

- O que isso tem a ver com qualquer coisa?

- Não posso falar com ele. O garoto é surdo.

- Assistir aos fogos de artifício não exige que você fale. Não é nenhum compromisso sério, Tess, mas apenas um passeio de barco.

- Mas ela só me convidou porque as outras crianças não me chamaram para acompanhá-las.

- Não acredito que isso seja verdade. Ela nos convidou simplesmente para fazer uma coisa que parece muito divertida.

- Não é o que eu penso. Acho que ela está querendo juntar a disléxica com o surdo. E não estou tão desesperada assim.

Olivia fitou a filha com uma expressão aturdida.

- Não posso acreditar que você tenha dito isso.

Tess não respondeu. Olivia levou a mão ao peito e repetiu:

- Não posso acreditar que você tenha dito isso.

Subitamente, ela sentiu uma imensa irritação. Ainda teve o bom senso de pegar Tess pela mão e levá-la para o estacionamento. Mas, ali chegando, toda e qualquer consideração acabou.

- Estou consternada com você, Tess. Decepcionada. O que há de errado com aquele menino?

Tess levantou os óculos.

- Ele é surdo.

- E você é disléxica. E eu tenho dificuldade para escrever. E Sandy é uma mulher de espírito livre. E Natalie tem setenta e seis anos. Não há nada de errado com aquele menino que a leitura de lábios e a linguagem de sinais não possam resolver. Ele não é inferior, da mesma forma que você também não é. Não é isso o que venho tentando lhe ensinar durante todos esses meses... todos esses anos? Você não é inferior. Aprende de uma maneira diferente da maioria das crianças, mas não há nada de inferior nisso. O resultado final será o mesmo. Você vai crescer igual a todo mundo, irá para a universidade e terá uma carreira. Aquele menino fala de uma maneira diferente da maioria das crianças, mas vai crescer fazendo as mesmas coisas. Logo você, Tess, entre todas as pessoas, deveria saber que não se pode menosprezar alguém que é diferente.

Tess já não parecia tão arrogante. Tinha os braços comprimidos contra os lados do corpo, o queixo pendendo para o peito.

- E o que dizer da compaixão? - continuou Olivia. - Aquele menino não pode ouvir. Não pode ouvir canções. Não pode ouvir palavras. Não pode ouvir o canto dos passarinhos no vinhedo. Não pode ouvir Henri ronronando. Acorda na escuridão da noite e tem de contar apenas com os olhos para descobrir se há alguém em seu quarto. Tem de se esforçar o dobro para obter da vida a mesma coisa que você.

O queixo de Tess pendeu ainda mais. Os olhos por trás dos óculos estavam desconsolados.

- Eu queria ficar com as outras crianças.

- Porque são populares? Não é um bom motivo. A popularidade é superficial, Tess. O que conta mesmo é a substância.

- Não na minha idade.

- Em qualquer idade! Olivia passou a mão pelos cabelos. Começou a virar para se ausentar, mas logo voltou e insistiu no argumento:

- Em comparação com aquele menino, você é afortunada. Não Percebe isso? Não, não pode perceber, porque está ocupada demais a sentir pena de si mesma.

Ela fez uma pausa, empertigando-se.

- Preste atenção, Tess. Você tem uma opção. Pode ficar sentada sentindo pena de si mesma, atribuindo a culpa de todos os seus problemas à dificuldade na leitura, ou pode seguir adiante. Não é a dislexia que causa seus problemas com as outras crianças. Elas nem sabem que você é disléxica. Sabem apenas que você mantém uma atitude beligerante permanente.

Olivia sentia uma súbita exaustão. Abaixou as mãos, com um suspiro cansado.

- Eu amo você, Tess. E amo com toda a força do meu coração. Se me dissesse que não gosta de Seth porque ele é esnobe, egoísta... até mesmo excêntrico, eu poderia aceitar. Mas como pode me dizer que não gosta porque ele é surdo?

Ela sacudiu a cabeça, decidida. Fechou os olhos e respirou fundo. Quando tornou a olhar para a filha, constatou que Tess parecia arrependida.

- Faz sentido o que eu disse?

Ela esperou, sem desviar os olhos, até que Tess murmurou um "Faz".

A vitória foi vazia. Olivia sentia-se esgotada. Tornou a respirar fundo, para depois murmurar:

- Acho que já falei tudo o que precisava. Vamos embora? - Ela gesticulou para que Tess a seguisse. - Precisamos agradecer a Natalie.

Mal haviam chegado à porta da sede do clube, Jill apareceu. Parecia aliviada ao vê-las.

- Fiquei preocupada quando vocês saíram.

- Estamos pensando em ir embora. Só vou avisar Natalie. Você parece exausta.

- E estou mesmo. - Jill arriou num banco de madeira. Esperarei aqui.

- Não vamos demorar.

Olivia saiu à procura de Natalie. Ainda se sentia bastante aborrecida com Tess para não fitá-la quando passaram pela fila de pessoas esperando para fazer seu próprio sundae. Tess teria adorado. Mas merecia perder aquilo.

Natalie e carl estavam sentados com amigos no deque externo. O sol derramava-se pelo mar agora, mas ainda passaria uma hora antes que escurecesse. Olivia agachou-se ao lado da cadeira de Natalie.

- Estamos voltando - murmurou ela. - Eu só queria lhe agradecer. Foi uma festa maravilhosa.

- Não vai ficar para os fogos de artifício? Olivia sacudiu a cabeça, sorrindo.

- Estou exausta. E levarei Jill comigo. Acho que ela teve um dia comprido.

- Não quer deixá-la em casa e voltar? - insistiu Natalie, esperançosa.

Olivia adorou o entusiasmo sincero de Natalie. Era muito agradável sentir que sua companhia era desejada... tão agradável que ela pensou em mudar de ideia. Mas Natalie estava com seus amigos, e as outras pessoas do vinhedo também estavam com seus amigos, e talvez, apenas talvez, Olivia ainda se sentisse como uma forasteira.

- Agradeço, mas não dá - murmurou Olivia, gentilmente. Ela já se levantava quando Sandy Adelson apareceu.

- Ah, aqui está você! Tess me disse que vocês já vão embora. Importa-se se ela ficar conosco? Terei o maior prazer em deixá-la em casa depois.

Tess estava parada num lado de Sandy, com Seth no outro. O primeiro instinto de Olivia foi recusar o convite em nome da filha. Tess não merecia assistir aos fogos de artifício, muito menos de um barco que pertencia àquelas pessoas maravilhosas, não depois do que dissera.

Mas a menina parecia arrependida - um pouco envergonhada ao fitar Olivia - para não dizer insegura. E Seth tinha uma expressão esperançosa no rosto bonito.

- Eu gostaria muito de sair naquela lancha - declarou Tess com o que parecia ser uma sinceridade absoluta.

Passou pela cabeça de Olivia, num momento de ceticismo, que, tendo de escolher entre uma lancha e uma mãe furiosa, Tess escolheria o menor de dois males.

A conclusão, no entanto, era a de que Olivia queria que a filha saísse na lancha. Para Sandy, ela perguntou:

- Não será muito incómodo sair de seu caminho para deixá-la em casa?

- Claro que não. - Sandy passou os braços pelos pescoços das duas crianças. - Estamos de férias.

O que você acha do casamento de Natalie e Carl? - perguntou Olivia para Jill enquanto voltavam para o vinhedo.

Jill mantinha a cabeça no encosto.

- Acho que não tem qualquer problema. Não é a mesma coisa que enganar Al. Ele morreu. Ela está livre para casar de novo. - Jill soltou uma risada. - É fácil para mim dizer isso. Ele não era meu pai.

- E como ele era?

- Divertido, muito social. Um schmoozer, se sabe o que isso significa. Gostava de uma conversa. Se as coisas fossem diferentes, ele poderia ser um político. - O tom era afetuoso. - Ele era bom com nomes e rostos. Podia esquecer o próprio aniversário de casamento, mas se encontrava um homem que conhecera cinco anos antes não hesitava em chamá-lo pelo nome e apertar sua mão.

- É uma habilidade extraordinária.

- Eu o vi fazer isso mais de uma vez. Ele costumava nos visitar em Washington. Estávamos num restaurante, ele via um rosto familiar no outro lado e se levantava para ir cumprimentá-lo. Se o homem era veterano, tanto melhor. Al podia passar horas conversando sobre a guerra. E era uma conversa unilateral. A maioria dos homens que passaram pelas trincheiras não queria reviver aquele período. Para Al, no entanto, era uma questão de enorme orgulho. Não que ele tivesse passado pelas trincheiras.

- Não?

Aquilo era uma parte da imagem. Natalie ainda não falara sobre a guerra, mas Olivia já vira fotos de Alexander de uniforme. Ele parecia mesmo orgulhoso... exuberante e orgulhoso.

- Ele era do serviço secreto. - Uma pausa e Jill seguiu por uma direção diferente: - Ele gostava do gesto grandioso. Se dependesse dele, construiria um castelo, em vez de um moinho, para a vinícola.

- Quem optou pelo moinho?

Jill virou a cabeça no encosto para fitar Olivia.

- Natalie. Ela é a força propulsora por trás de toda a operação.

- Greg disse que era Carl.

- Era de esperar - murmurou Jill, tornando a olhar para a frente. Era óbvio que a questão era bastante delicada. Olivia morria de vontade de perguntar o que saíra errado no casamento, mas não era da sua conta. Afinal, ainda não conhecia Jill com qualquer intimidade. Por isso, limitou-se a dizer:

- Natalie tem setenta e seis anos. O que acontecerá quando ela começar a diminuir o ritmo?

Jill soltou uma risada.

- Não sei se isso acontecerá algum dia. O vinhedo é sua vida. Mas, se quer saber se Greg assumirá o comando, ele diz que não.

- Greg ligou várias vezes. Está consternado porque ela vai casar com Carl.

- Isso acontece porque ele não tem controle sobre a situação. Sempre se sente frustrado quando as pessoas partem sozinhas e fazem o que querem sem a menor consideração por seus desejos.

Outra questão delicada. Mais uma vez, Olivia mudou de assunto:

- Talvez Susanne queira assumir o vinhedo. Como ela é?

Jill sorriu.

- Gosto de Susanne. Greg vê a diferença de idade e imagina que há uma enorme distância por causa disso. Mas ela sempre foi simpática comigo, fez com que eu me sentisse bem-vinda, como se estivesse muito contente por eu fazer parte da família.

- Talvez ela queira que você assuma o vinhedo.

- Duvido muito. - Jill olhou para Olivia. O sorriso desaparecera. - Você parece muito preocupada em saber quem vai assumir. Natalie está mesmo bem?

- Está sim, até onde eu sei. Possui uma incrível energia. E uma força incrível. Acontece que penso em Natalie como uma mulher de meia-idade, até que ela começa a falar sobre a década de 1930 e compreendo que é mais do que isso.

- Greg está convencido de que ela perdeu o juízo. O que você acha? Natalie ainda mantém as faculdades mentais intactas?

- Totalmente.

Então por que Olivia se preocupava com sua saúde? Porque Natalie não era mais de meia-idade e porque era surpreendentemente sozinha no meio da família. Atraíra Olivia, fizera-a sentir que era parte de tudo, como se estivesse faminta por companhia. Olivia adorava. Mas Natalie tinha o potencial de Susanne e Mark, Greg e Jill, além dos dois netos.

- Eu a vi no clube com as amigas e suas famílias. A impressão é que Natalie, sem qualquer pessoa da família, perdeu uma geração.

- Pode ser porque Simon não estava presente. Você já conheceu Simon, não é?

Olivia entrou no caminho do vinhedo.

- Já sim.

- Acha que ele tem pretensões sobre Asquonset?

- Não creio. - Olivia seria capaz de apostar todo o seu dinheiro nisso. - Acho que ele ama o vinhedo. Provavelmente ficaria feliz em passar o resto de sua vida aqui. Mas ele quer ser o dono?

Ela fez uma pausa. Balançou a cabeça em negativa.

- Simon quer cultivar uvas. Só isso.

Como era a última coisa sobre a qual conversara com Jill, antes de se separarem no vestíbulo da casa-grande, Olivia tinha Simon na mente. Não parava de imaginá-lo sozinho em sua casa enquanto todas as outras pessoas celebravam o Quatro de Julho no clube. Continuava a Pensar que ele não deveria ficar sozinho.

Ela pôs um short e uma camiseta, amarrou os cadarços dos ténis de corrida e fez os alongamentos ao lado do carro. Depois, saiu correndo pelo caminho, na direção do sol poente. Na estrada principal, virou à esquerda, sempre correndo num ritmo confortável. Uma brisa soprava do mar, esfriando a pele quando começou a esquentar. O exercício era bastante agradável.

Já correra por aquele percurso antes. Dera a volta por toda Asquonset, sem encontrar o refletor numa árvore que deveria indicar o caminho para a casa de Simon. Não devia estar procurando direito.

Mas desta vez manteve-se atenta, diminuiu a velocidade em todos os trechos de onde podia partir um caminho secundário. Até entrou em um caminho que parecia promissor, mas que era apenas um estacionamento para a casa no outro lado da estrada.

Um reflexo atraiu sua atenção. Era um último raio do sol faiscando num refletor numa árvore, no começo do que parecia ser uma trilha de trator, dois sulcos na terra, separados por relva. Como camuflagem, até que funcionava. Havia um trecho pavimentado dez metros adiante, mas era quase invisível sob uma floresta de árvores. Era sem dúvida o caminho de um homem que não queria ser incomodado.

com o coração batendo forte, Olivia entrou no caminho. Ela correu até o início do trecho pavimentado, pensou no homem que não queria ser perturbado, virou-se e voltou correndo para a estrada principal. Mas depois pensou no homem que estava completamente sozinho. Correu no lugar por um minuto, imaginando-o. Tornou a entrar no caminho.

Era uma subida na maior parte do percurso. Não era uma corrida fácil para uma mulher que dedicava sua vida a encontrar um terreno plano. com a respiração entrecortada, Olivia até parou em determinado ponto. Dobrou o corpo, com as mãos nos joelhos, e especulou se estava tendo um ataque cardíaco.

Mais parecia um ataque de pânico, ela decidiu. Simon era mesmo um homem imponente.

Mas Olivia queria descobrir onde ele morava. E como estava escurecendo, era mais do que provável que Simon nem percebesse sua presença. E, se por acaso a visse, também não haveria qualquer problema. Podia dar um jeito. Não o controlara quando ele tivera o problema com Tess? E não controlara Tess quando ela reclamara por causa de Seth? Podia controlar as pessoas. Era firme e decidida.

Ela ergueu-se e continuou a correr, até o ponto em que o caminho terminava. Lá estava a picape prateada de Simon, salpicada de lama. Ao lado de uma casa pequena.

Casa? Era mais uma cabana, tinha um telhado cinza de telhas de madeira, com janelas que não sugeriam mais do que três ou quatro cómodos, situada no terreno de uma maneira que parecia mostrar o traseiro em desdém para qualquer intruso. Aquela era mesmo a casa de Simon.

Olivia diminuiu o ritmo até parar.

Ela não faria de outra maneira, se fosse construir a casa, decidiu Olivia, quando olhou além da varanda da frente para contemplar a vista. Não percebera que subira tanto. Lá de cima, o mar era nítido. Por baixo do céu em crepúsculo, era de um cinza profundo, quebrado apenas por manchas violetas sob nuvens da mesma cor.

com as mãos nos quadris, a respiração um pouco mais regular agora, ela se perguntou o que deveria fazer. Não havia qualquer luz acesa na casa. Afora o canto ritmado de um grilo, não havia nenhum som. Se não fosse pela picape, ela poderia pensar que Simon não estava ali.

Alguma coisa peluda roçou em sua perna. com um grito assustado e visões de um furão, uma doninha, até mesmo um filhote de urso, ela deu um pulo para trás. Mas era apenas Buck.

Ela se abaixou e coçou a cabeça do gato. Só porque Buck estava ali, isso não significava que Simon também estivesse. Ele poderia ter sido apanhado por um amigo. Ou até mesmo por alguma mulher. Isso mesmo. Ele não queria mais ter relacionamentos... mas os homens não consideravam que fazer sexo era um relacionamento. Por tudo o que Olivia sabia - por tudo o que qualquer pessoa podia saber -, Simon e alguma mulher estavam naquele momento empenhados em sexo ardente e intenso, em alguma casinha bonita perto do centro da cidade.

Havia outra possibilidade, é claro. Simon e sua namorada podiam estar engalfinhados no sexo ardente ali mesmo. O que explicaria a preSença da picape, até mesmo a casa às escuras, com o pobre gato exilado pela noite.

E Olivia sentira pena do homem?

Ela acalentava um profundo sentimento de indignação quando ouviu um barulho na varanda, o que a deixou paralisada. O rangido de uma cadeira foi acompanhado pelo som de pés descalços no chão de madeira. Ela ergueu-se, prendendo a respiração.

- Está me procurando? - perguntou Simon da beira da varanda. Tudo era difícil de divisar, com as árvores bloqueando os últimos

raios do sol poente. O mundo de Simon era púrpura e se aprofundando para negro a cada minuto que passava. Olivia, por outro lado, sentia-se positivamente néon. Era como se estivesse iluminada por refletores. Tentar negar sua presença não teria o menor sentido.

- Estava sim. Mas acho que vim num péssimo momento. Falarei com você amanhã. Até lá.

Ela virou-se para ir embora.

- Por que não está no clube?

Olivia pensou a respeito por um instante e tornou a se virar. Se a conversa com ela era uma manobra diversionária - se havia mesmo uma mulher nas sombras, vestindo-se -, era tarde demais para se esquivar. Ela tinha de olhar para o humor na situação.

- Essa deveria ser minha fala. Eu estava lá. O jantar foi maravilhoso. Sentimos sua falta.

Ele riu.

- Não é provável. Caso ainda não tenha notado, não sou exatamente o que se costuma chamar de alma da festa.

- Para ser franca, eu não havia notado. A única vez em que o vi com outras pessoas foi com Natalie, naquele primeiro dia.

- E com Tess.

A menos que ela estivesse enganada, Simon a convidava a fazer um comentário a respeito. Para escutar com atenção e compreensão? Era difícil acreditar.

- Você conseguiu se sair bem da situação. Ela me perdoou?

Não sei se eu chegaria a esse ponto. O pedido de desculpa ajudou. Ela não está pior pelo que aconteceu.

Olivia teve outro sobressalto, desta vez ao som de uma explosão distante. Olhou para o mar, a tempo de ver uma brilhante flor rosa se abrir e se espalhar pelo céu. Prendeu a respiração quando flores amarelas menores surgiram ao redor.

- Eu não podia imaginar que ela tinha um problema de aprendizado - comentou Simon, enquanto as cores se desvaneciam e sumiam.

- Não havia razão para que você soubesse.

Mas Olivia estava de olho na enseada. Uma segunda explosão foi logo seguida por uma terceira e uma quarta. O céu era alternadamente iluminado por vermelho-branco-e-azul, seguido por verde, amarelo e rosa.

- Até que ponto é grave? - indagou ele, parecendo indiferente ao espetáculo de fogos de artifício.

- Bastante grave para prejudicá-la socialmente. E as coisas sociais são importantes para uma criança de sua idade. Ela passa por momentos difíceis.

- Tem problemas de convivência com as outras crianças.

- Isso mesmo. Houve outra explosão. Desta vez os fogos de artifício eram multicoloridos, pequenos e retorcidos, como um exército de espermatozóides nadando pelo céu escuro.

Tess estava sob aquele céu, observando o espetáculo de um barco. Olivia se perguntou se fizera a coisa certa ao deixá-la ficar. Nunca se perdoaria se Tess fosse grosseira com Seth. Ocorreu-lhe que deveria ficar perto do telefone, para qualquer emergência.

Pensava em partir quando uma cornucópia de cores patrióticas explodiu sobre a enseada. Ela não pôde conter uma exclamação de admiração.

- Quando descobriu que ela tinha o problema? - perguntou Simon. ?

A cornucópia dissolveu-se. Olivia olhou para a varanda, raciocinando que não haveria mal algum ficar ali por mais um ou dois minutos e que ele estava estimulando a conversa. Divisou os contornos de um braço levantado, a mão encostada na viga por cima, um corpo esguio tingido de azul pela exibição seguinte da pirotecnia.

Quando Olivia descobrira que Tess era disléxica? Podia lembrar cada detalhe do pesadelo.

- Quando ela entrou na escola e não conseguia aprender nada. Havia dores de barriga, lágrimas, reuniões com a professora. Eu deveria ter percebido mais cedo. Se isso acontecesse, eles poderiam ajudála desde o início. Mas não era fácil reconhecer coisas assim. Sabia que ela não era boa com determinados brinquedos, mas eu também jamais gostei de quebra-cabeças. Por isso, só brincávamos com as coisas em que ela era boa.

- Lia para Tess quando ela era pequena?

Houve outra explosão, mas Olivia não olhou para o céu. Alguma coisa na voz de Simon acionou sua imagem lendo para a filha, Liana. Ela abriu a boca para perguntar a respeito, mas tornou a fechá-la, abruptamente, pensando: É um terreno doloroso... não entre aí, Olivia Jones. Em vez disso, limitou-se a responder à pergunta:

- Durante todo o tempo. E ainda leio. Quando ela era pequena, li todas as histórias que eu havia perdido. Detestava ler quando era criança. Não podia fazê-lo. E, quando pude, já era velha demais para ler contos de fadas. Por isso, só os conheci com Tess, e era muito divertido... para não mencionar que era uma confirmação de que eu podia fazê-lo.

E ainda é, pensou Olivia.

- Provavelmente eu me divertia mais do que Tess. Deveria estar lhe ensinando as letras e as palavras. Se fizesse isso, poderia ter compreendido que ela tinha um problema. Mas eu não queria ensiná-la a ler. Tinha medo de fazer tudo errado. E depois passei a pensar que ela estava aprendendo sozinha. Líamos algum livro e, de repente, Tess começou a ler uma página. Começamos a nos revezar. Eu lia uma página, ela lia a seguinte. Achei que ela era brilhante. E ainda acho. Ela é mesmo brilhante. Mas pensei que se encontrava muito à frente de sua faixa etária. Que mãe ou pai não gosta de pensar isso? Até que uma noite, quando estávamos lendo, virei por acaso duas páginas a mais. Tess começou a recitar as frases da página que eu havia pulado. Compreendi que ela não lia. Apenas memorizara o livro inteiro. Mesmo então, pensei que ela era muito inteligente. Não percebi as implicações.

Olivia empurrou para trás os cabelos curtos, embaraçada ainda agora por ter sido tão obtusa. Ela sorriu.

- Recebeu mais como resposta do que pediu, não é mesmo? Houve outra explosão na enseada, mas não qualquer som por trás

de Simon. Provavelmente ela fora obtusa sobre isso também.

- Eu perguntei - murmurou Simon.

Buck miou. Olivia divisou seu corpo escuro e grande entre ela e Simon. A noite era cada vez mais densa, a colina púrpura e Simon se aprofundando. Olivia sabia que teria de descer correndo a estrada no escuro. Refletiu que deveria partir agora, enquanto ainda restava um resquício de claridade. Mas ficou parada, olhando para a cabana.

- Então esta é sua casa?

Ela especulou como seria o interior.

- Não é a mesma em que eu vivia com minha mulher e minha filha. Queimei a outra depois que elas morreram.

- Queimou a casa? Por que fez isso?

- Construí a casa para elas. E elas morreram.

- Queimou a casa?

- Por completo.

- E a floresta não pegou fogo? Afinal, a casa era cercada por árvores. Simon soltou um grunhido,

que podia ser uma risada, uma reação de espanto por ela não ter se mostrado mais descontrolada por ele incendiar a casa. Buck miou de novo.

- Está tentando me assustar, Simon?

- Estou conseguindo?

- Não. Não tenho qualquer interesse em você. Não há risco.

- Não se importa que eu possa ter um lado violento?

Olivia viu-se gritando com Tess no estacionamento do clube. Houvera violência em sua atitude. É verdade que não fora física. Em Bateria de catalisador, no entanto, a perda de Simon era muito maior do que o desapontamento momentâneo de Olivia com Tess.

- Não posso sequer imaginar o que eu faria se perdesse tudo de repente, como aconteceu com você. Se não pode se recuperar e seguir em frente, acho que a melhor coisa seguinte é destruir uma lembrança dolorosa.

Ele não fez qualquer comentário a princípio. Seu perfil era uma silhueta escura quando olhou para o mar. Havia mais fogos de artifício mas Olivia tinha a impressão de que ele não os via. Parecia estar num mundo só seu, de volta ao passado pelo menos por quatro anos.

É tempo de partir, pensou Olivia.

Depois ele falou e o pensamento de Olivia se desvaneceu. Sua voz era menos segura, até mesmo angustiada:

- Eu não deveria ter feito isso. Estava furioso. Sentia-me desamparado. E precisava fazer alguma coisa. O que acabei fazendo, no final das contas, foi apagar todos os vestígios da minha vida com elas. As lembranças dolorosas desapareceram junto com todas as coisas boas. Tudo destruído pelo fogo. Só restaram cinzas, mais nada.

- Não restou absolutamente nada? Nem mesmo fotos?

- carl tinha algumas. Natalie também. Insistiram em me dar. Algum tempo passou antes que eu conseguisse suportar ver as fotos. Ainda tenho dificuldades até hoje. Parte de mim diz que só preciso das recordações.

Ele tinha mesmo as lembranças. E eram como um fosso ao seu redor, mantendo Olivia a distância. Ela estava aqui... e Simon estava ali, com a esposa e a filha mortas.

Agradecida agora porque a escuridão escondia seus cabelos horríveis e o corpo suado, Olivia disse:

- Se Tess incomodá-lo de novo, diga a ela para não encher.

- Isso seria uma maldade.

- Diga que está ocupado. Diga que está pulverizando alguma coisa perigosa nas plantas e que ela não deve andar pelos campos. Tentarei impedi-la de se intrometer quando você estiver cuidando do vinhedo.

Outro miado de Buck. Olivia perguntou: -Ele está bem? -Está.

- Não se preocupa por Buck circular à solta pelo mato? - Ele é duro na queda.

- Mas não há outros animais mais duros por aqui?

- Não muitos. Você não saiu mais da casa pela manhã.

Olivia demorou um instante para engrenar. Passou os braços pela barriga.

- Não. É a sua hora. É o seu lugar.

- Eu me perguntava se havia mais alguma coisa. Simon fitava-a. Havia um certo desafio em sua voz. Ela tentou oferecer outro desafio em resposta:

- Por exemplo?

- Vejo-a sentada junto da janela. Em que está pensando?

- Estou pensando que sou uma afortunada por me encontrar aqui.

- Mais alguma coisa?

- O que mais poderia haver?

Ele não disse nada, mas Olivia podia sentir sua resposta todas as manhãs, no fundo do estômago. Era uma pontada de ansiedade, mínima, indesejável e irritante... mas existia. Ela deu um passo para trás, erguendo a mão.

- Se está pensando que deve haver mais alguma coisa, o problema é seu. Eu sou franca e objetiva. Concordamos que, se alguém pensasse que poderia haver alguma coisa, seria um equívoco total e absoluto. Não há nada, absolutamente nada. - Olivia respirou fundo. E, mesmo que houvesse alguma coisa, eu não agiria com base nisso. Caso ainda não tenha percebido, Tess me absorve demais.

Ela começou a recuar para a estrada, lentamente.

- Sou mãe, em primeiro lugar e acima de tudo. Isso não significa que não sinto coisas. Claro que sinto. Mas não vai além disso. - Ela começou a correr, as palavras saindo em fluxos entrecortados. - E, mesmo que eu me sentisse atraída por você, é uma questão irrelevante. Posso ser fascinada por pernas bonitas, mas não sou masoquista.

Ela virou-se e passou a correr mais depressa, concentrando-se em permanecer na estrada no escuro.

Não acabara. Na manhã seguinte, ao amanhecer, ela estava sentada no banco na janela, depois de dormir menos de cinco horas. Tess só voltara para casa às dez e meia. Passaram duas horas conversando sobre sensibilidade, respeito pelos outros e a tolerância do amor maternal. Depois disso Olivia ainda permanecera acordada por algum tempo, antes de finalmente adormecer... e acordara à primeira claridade do amanhecer.

Ocorreu-lhe que Simon poderia dormir até mais tarde, já que hoje era Quatro de Julho.

Mas lá estava ele, na hora habitual, saindo de baixo do toldo e se encaminhando para a beira do pátio. Só que não havia uma caneca com café em sua mão... o que acontecia pela primeira vez. Curiosa, ela o observou pôr as mãos nos quadris. Ele correu os olhos pelo vinhedo, como fizera tantas vezes antes. Tinha as costas empertigadas, as pernas esticadas. Não havia naquele dia a postura descontraída, o peso do corpo apoiado numa perna ou outra. Para Olivia, isso indicava que havia alguma coisa errada, e ela se perguntou o que poderia ser.

Depois ele virou a cabeça para fitá-la, inclinou a cabeça na direção das videiras e partiu pela trilha.

O coração de Olivia disparou. O gesto fora um convite... não podia haver a menor dúvida quanto a isso.

Ele queria conversar? Tinha alguma coisa para lhe mostrar?

Olivia ficou olhando para o caminho, pensando que ele poderia voltar e dar uma indicação. Como isso não acontecesse, ela tomou uma decisão. Em dois segundos, tirou a camisola, vestiu um short e uma camiseta. Pegou sandálias de dedo e foi descalça até o banheiro para verificar se Tess ainda dormia. Voltou logo ao seu quarto e desceu correndo pela escada.

Chovera pouco antes. As pedras do pátio ainda estavam molhadas. Ela calçou as sandálias e partiu.

A umidade era intensa no ar quente de julho. Acrescente-se a chuva a isso e as uvas não podiam estar mais satisfeitas. Talvez a chuva indesejada fosse a causa da tensão de Simon. O que ela imaginara como um convite podia ter sido apenas um gesto de frustração.

Mas ela alcançou a trilha no vinhedo e seguiu em frente, olhando para cada fileira, sem saber como poderia encontrar Simon. E de repente ocorreu-lhe que provavelmente estava bancando a tola ao sair daquele jeito. Deveria ter permanecido na janela. Ou, melhor, na cama.

Ainda assim, ela continuou. Alcançava o final de um bloco de videiras quando o avistou, encostado num velho bordo, os braços e tornozelos cruzados.

Esperava por ela. Olivia aproximou-se mais devagar. Parou a três ou quatro metros de distância. Enfiou as mãos nos bolsos.

- Você me chamou? - perguntou ela docemente.

Simon soltou um grunhido, lançou um olhar para o lado e quase sorriu.

No momento em que ela começava a pensar que, se um quase sorriso podia deixá-la tão fraca, um sorriso completo poderia fazer com que se derretesse toda, Simon fez um sinal com o dedo para que chegasse mais perto.

O coração batendo forte, Olivia deu um único passo largo para a frente e parou de novo.

- O que é? ? Simon descruzou os tornozelos, afastou-se da árvore e cobriu a distância que os separava. Os olhos eram sérios quando se fixaram nos de Olivia. Segundos depois, ele pegou a cabeça dela entre as mãos e ergueu seu rosto para um beijo.

Não havia nada de gentil naquele beijo. Foi duro, de boca aberta, revelando uma fome antiga.

Olivia sentiu a mesma fome até as pontas dos pés. Admirara-o por vezes demais, observara o jeito de andar, firme, os quadris estreitos, e vira seus bíceps em ação. Havia um mistério naquele homem que lhe aumentava a fome. Havia um quê de proibido. O beijo era ainda mais excitante pelo fato de que não deveria acontecer.

Ele não era suave. Não havia a menor gentileza na maneira como segurava sua cabeça, como manipulava sua boca. Mas a fome intensa não permitia a gentileza. Olivia, no entanto, não se importava, pois ansiava pela saciedade muito mais do que por classe. Enlaçou-o pelo pescoço e retribuiu o beijo. Tess tinha razão ao dizer que ele cheirava... um cheiro maravilhoso de limpeza, totalmente masculino. Tinha os cabelos úmidos, o pescoço quente, os ombros fortes. Ela passou as mãos pela saliência de seu peito, mas logo tornou a enlaçá-lo pelo pescoço. Tinha de se segurar em Simon, pois receava que as pernas não fossem mais capazes de sustentá-la.

Olivia pensara que era apenas ela. Pensara que a comichão que sentia todas as manhãs era unilateral. Mas não era o que acontecia agora. O corpo de Simon estava tenso, quase tremendo.

O que talvez significasse que ele passara tanto tempo sem mulher que qualquer uma serviria agora. Quando afastou a boca do beijo, Simon puxou-a de encontro ao seu corpo e manteve-a assim, com um braço estendido pelas costas, a outra mão em sua bunda. O excitamento de Simon era intenso. Uma coisa incrível para uma mulher sentir. Mas qualquer mulher seria capaz de causá-lo?

Olivia não queria isso. Não queria sexo anónimo. Não queria um sexo substituto.

Mas foi seu nome que ela ouviu, murmurado por uma voz rouca e trémula segundos antes de Simon inclinar a cabeça para trás. E eram seus olhos que ele fitava... e Olivia descobriu nos olhos dele surpresa e confusão. Viu o tesão. Ele tinha a respiração pesada, a testa úmida de suor. O queixo era quadrado, e ele fizera a barba há tão pouco tempo que havia apenas uma sombra. A boca estava entreaberta. Os olhos eram de um azul profundo.

Olhos enormes, que sabiam de tudo. Era verdade, ele sabia que era Olivia. Podia parecer inacreditável, já que não era nenhuma mulher exuberante, mas Simon sabia que ela era.

O que fez com que fosse ainda mais doce quando ele tornou a beijá-la, mais gentil desta vez, saboreando mais do que devorando. A língua penetrou em sua boca, subindo, voltando, enroscando-se com a sua. Os movimentos de Simon eram lentos e excitantes, cada vez mais tentadores. Olivia doía por dentro.

Entregou-se à ânsia, moveu-se em busca de alívio, procurou a boca de Simon para o que pudesse encontrar. Mas assim como não fazia sexo anónimo, também não admitia a transa única de uma noite... ou de uma manhã, que era o curso que pareciam seguir. Era excitante demais e muito assustador. E absolutamente impossível.

Ela aplicou uma pequena pressão nos ombros de Simon, rompeu o beijo e deu um passo para trás. Fitou-o nos olhos, respirando com dificuldade.

Simon sustentou seu olhar, a respiração também pesada.

Desta vez ela não tinha condições de fazê-lo desviar os olhos primeiro. E baixou os olhos, comprimiu o punho contra o coração disparado e respirou fundo, o que deveria acalmá-la. Mas isso não aconteceu.

Sentia que pegava fogo por dentro. Respirou fundo outra vez, e depois uma terceira. Sem fitá-lo de novo, ergueu a mão.

Deveria ter esperado mais um pouco. As pernas não tinham a menor firmeza. Mas ela receava mudar de ideia e voltar para mais, o que não seria certo.

Ela era a mulher. Exercia o controle. Podia dizer quando queria ser beijada e quando não queria... e naquele momento não queria.

Virou-se de uma maneira que fez o calcanhar sair da sandália, mas conseguiu manter o equilíbrio, ergueu o queixo e afastou-se, com tanta dignidade quanto uma mulher com as pernas trémulas podia demonstrar.

Por que não casou com Carl em 1942?

- Porque casei com Alexander.

Olivia fitou Natalie em silêncio por um longo momento, depois balançou a cabeça e sorriu.

- Por que não fiquei surpresa com essa resposta?

Natalie também sorriu.

- Por que não ficou? Explique.

- Porque você sempre acha que a taça está cheia pela metade. E porque não gosta de falar sobre coisas que são dolorosas.

- Ou embaraçosas.

- É embaraçoso o motivo pelo qual casou com Alexander em vez de Carl?

Olivia só podia pensar num motivo embaraçoso: ela engravidara de Alexander. Mas não havia possibilidade de que isso pudesse acontecer. Natalie amava Carl.

- Isso mesmo, embaraçoso.

- Por quê?

Natalie revirou os olhos. Quando voltaram a se fixar em Olivia, exibiam um brilho de lágrimas. O sorriso era agora de constrangimento.

- Porque...

Ela parou de falar. Levantou-se da cadeira de vime e começou a recolher copos e pratos de papel sujos da mesa ao lado.

Era o final da tarde do Quatro de Julho. Ondas de calor elevavam-se da grelha a gás enquanto queimavam os restos de hambúrgueres e salsichas. Madalena e Joaquim haviam levado as saladas, pães e condimentos para a cozinha. A dúzia ou mais de amigos que vieram almoçar já haviam partido. carl levara Tess e Jill para tomarem um sorvete.

Simon não aparecera. Haviam perguntado por ele a Carl, embora mais para saber como estava do que para descobrir seu paradeiro. Ao que parecia, ninguém esperava encontrá-lo ali. Olivia achava isso triste, mas também sentia um profundo alívio. Ainda tentava decidir o que exatamente acontecera naquela manhã.

Era muito mais fácil concentrar-se na história de Natalie.

Ela também se levantou e foi ajudar Natalie a tirar a mesa. Por baixo de manchas de mostarda e ketchup, de ocasionais batatas fritas ou migalhas de pão, a toalha de papel tinha cores patrióticas, azul, vermelho e branco.

- Por que é embaraçoso?

Natalie esvaziou as sobras do ponche de frutas num único copo, empilhando os copos vazios por baixo.

- Talvez "embaraçoso" seja a palavra errada. Seria melhor dizer "envergonhada". - Ela lançou um olhar rápido para Olivia. - Não que a decisão que eu tomei tenha sido errada ou que Alexander não fosse um homem de bem. Não quero que meus filhos pensem assim, porque não é verdade. Alexander era um bom homem. Eu gostava dele. E passei a amá-lo. Tivemos uma boa vida juntos. Se estivesse na mesma situação, diante da mesma opção, eu faria agora exatamente a mesma coisa que fiz naquele tempo.

O fogo se extinguiu em seus olhos. Ela franziu o rosto, virando os copos nas mãos.

- O que foi? - estimulou Olivia, gentilmente. - O que você fez?

- Pelos padrões de hoje, o que fiz parece superficial. Parece uma traição de primeira ordem. Parece materialista.

Olivia só podia pensar em uma forma para que fosse assim.

- Casou com Alexander por dinheiro?

Os incêndios mal haviam sido apagados, os corpos removidos e os danos avaliados em Pearl Harbor quando todos os homens aptos na cidade começaram a pensar em se alistar. Carl foi um dos primeiros. Estava mais do que determinado. Antes que eu pudesse encontrá-lo e dizer que achava que deveríamos casar, antes de sua partida. carl já estava de uniforme, pronto para ser transportado para o exterior.

Era o início de 1942. Um dia horrível de fevereiro. Para ser mais precisa, dia 8 de fevereiro... nunca mais vou esquecer essa data. Combinamos que eu não iria à estação ferroviária. Seria doloroso demais. Estávamos no galpão dos tratares e passamos a noite inteira acordados, sempre abraçados. Não nos importávamos com o frio que fazia. Não tínhamos outro lugar para ir.

O sol nasceu... um sol cruel num dia tão desolado. Os campos estavam vazios. O gelo cobria todas as hastes de relva morta, todas as plantas, de uma maneira que poderia ser linda se as circunstâncias fossem diferentes.

Não conversávamos. Não havia nada para dizer. carl estava fazendo o que tinha de fazer, e eu não podia deixar de apoiá-lo. Mas ele estava prestes a ser enviado só Deus sabia para onde, para sofrer só Deus sabia o quê. Nunca havíamos nos separado antes.

Por três vezes ele foi até a porta com intenção de partir. E por três vezes voltou. Depois, não pôde mais adiar. Foi até a porta pela quarta vez. Parou ali, uma das mãos na enorme tranca de ferro, a outra inerte no lado do corpo. Olhou para trás. Lembro dos detalhes, tão nitidamente quanto recordo a primeira ocasião em que o vi, quando tinha cinco anos de idade. As roupas eram maiores, mas com exceção da calça em vez do macacão ele se vestia quase da mesma maneira... chapéu e casaco parecidos, botas parecidas. Os cabelos caíam sobre a testa. Sabíamos que seriam cortados antes que o dia terminasse. A camisa pendia para fora da calça, o que também seria pela última vez em muito tempo. Seus olhos se encontraram com os meus, foram fundo, me amaram. Depois, ele abaixou a cabeça e saiu.

Meu coração foi com ele. Corri até a porta e observei-o se afastar. Quanto mais longe ele ficava, menor parecia, até que virou na curva que levava à sua casa e desapareceu de minha vista.

Arriei no chão e chorei. Apenas chorei. Se não soubesse da intensidade do sentimento de carl pelo que estava fazendo, teria corrido em seu encalço e suplicado para que ficasse. Mas isso não ajudaria qualquer dos dois. Apenas... fiquei sentada ali... e chorei.

Não se preocupe... estou bem. Dê-me só um instante.

Foi apenas... hum... apenas um momento de angústia.

Pronto. Já estou bem. Mas não é isso o que você quer saber. Perguntou por que não casamos antes de sua partida.

Acredite ou não, carl não me pediu. E eu não pensei a respeito. As coisas aconteciam muito depressa. Era como se ele estivesse aqui num dia e longe no outro. Simplesmente presumi que casaríamos quando ele voltasse para casa. Se ele voltasse para casa. Claro que sempre vejo a taça como se estivesse cheia pela metade, mas a realidade daqueles dias tornava isso mais difícil. Hitler era um monstro. Podíamos não conhecer todos os detalhes naquele tempo, como acontece hoje, mas sabíamos que ele era o mal encarnado.

Quem era carl para lutar contra isso? Era um homem gentil. Nãoviolento. Eu dizia a mim mesma que ele era forte e determinado, e que essas qualidades o levariam ao longo da guerra, permitindo que voltasse inteiro. Mas havia bombas caindo. Podíamos ouvir pelo rádio todas as noites. Como carl seria capaz de se proteger de uma bomba?

Eu tinha dezessete anos e me sentia apavorada por ele. Claro que gostaria que ele tivesse me pedido em casamento antes de partir. Isso poderia me proporcionar um argumento para não casar com Alexander... e, mais uma vez, não quero que minhas palavras sejam mal interpretadas. Alexander era um bom homem.

Mas eu amava Carl.

Estava furiosa por ele não ter me pedido em casamento? Não.

Ou, melhor, estava sim. Os dias subsequentes foram tão tumultuados que era natural que a raiva fosse uma das emoções que senti. Mas... e isso é importante, Olivia... não casei com Alexander como uma reação. Havia outras razões para o casamento.

Mas estou me antecipando. Vamos voltar ao fato de eu não ter casado com Carl. Como eu disse, não pensei a respeito na agitação de sua partida. Depois que ele foi embora, no entanto, comecei a pensar. Outras garotas que eu conhecia estavam casando com seus namorados. Ocorreu-me que poderíamos ter casado também, e de repente me senti desesperada por isso. Mas carl não me pedira para casar. Durante anos, especulei por quê. Só indaguei a respeito recentemente... levei todo esse tempo para tomar coragem.

Sua resposta me surpreendeu. Pensava que o momento fora sua única restrição... minha idade e a pressa de seu alistamento. Mas ele tinha outras razões para hesitar. carl era católico, e nós éramos protestantes. Seus pais eram imigrantes, os meus eram aristocratas. Ele não tinha instrução. Não era rico. Não era um proprietário de terras. Sentia-se inferior ao homem que meu pai fora em seu apogeu. Disse que durante todos os anos em que meus pais o conheceram, por mais gentis que fossem com sua família, jamais o haviam considerado como um possível genro.

Ele tinha razão. Meus pais deixaram isso claro para mim quando Alexander me pediu em casamento.

Só que eu não percebia isso na ocasião. Era tão apaixonada por carl que simplesmente presumi que meus pais sabiam como me sentia e o que queria. Não havia motivo para conversar a respeito. Eu tinha apenas dezessete anos. Ainda nem terminara a escola secundária.

Mas meus pais vinham conversando sobre o meu futuro. Nos meses anteriores a Pearl Harbor, enquanto eu acalentava meus sonhos adolescentes de casar com Carl, eles tinham outros pensamentos. Alexander Seebring era filho de um bem-sucedido homem de negócios. Sua família passava o verão em Newport no tempo em que também passávamos. Por isso, eu sabia quem era Al. Mas não éramos amigos. Al era dez anos mais velho.

Naquele outono antes de Pearl Harbor, nossas famílias começaram a se encontrar. Lembro dos preparativos... a limpeza, o polimento, a arrumação para impressionar os hóspedes. Fiquei aturdida ao descobrir que tudo parecia maravilhoso. Mamãe passava o tempo todo doente e não fazia qualquer esforço para manter as aparências. Por isso eu estava acostumada com coisas mais simples. Quando tudo ficou pronto, porém, não parecíamos tão pobres.

Mesmo assim, não pensei em nada demais quando os Seebring apareceram. Alexander estava ajudando meu pai. O negócio dos Seebring era o ramo de sapatos, o que significava que Al fazia viagens regulares à Europa. E ajudava meu pai na busca pela uva certa.

Eu costumava fazer perguntas a Al sobre essas viagens. Ele podia falar por horas e ser totalmente encantador. Não me ocorreu que nossos pais encorajavam essas conversas para algo mais profundo.

Eu sabia que meu pai se sentia melhor quando os Seebring estavam presentes. Assim que eles partiam, papai tornava a afundar na depressão. Isso foi antes da guerra ser declarada. Depois de Pearl Harbor, depois que Brad morreu, a depressão de papai aumentou. Ele passava dias sem dizer uma única palavra, deixando o trabalho nos campos para Jeremiah e nós enquanto sentava e definhava ao lado de suas videiras.

Minha mãe entrou em pânico. Não podia falar sobre Brad, porque sua morte era dolorosa e recente, enquanto meu pai piorava a cada dia que passava. E ela também. Mais tarde, descobrimos que era um tumor o que pensávamos ser um caso de indigestão crónica. Tudo o que eu sabia, na ocasião, era que mamãe se tornava cada vez mais magra e mais frágil.

Carl partira há um mês apenas quando mamãe sugeriu que eu casasse com Alexander. Ela sentia-se tão desesperada que nem mesmo disfarçou as razões. Precisávamos de dinheiro, ela disse. E Alexander tinha dinheiro. Alegou que ele poderia investir enormes recursos no vinhedo se casasse comigo. Meu pai poderia comprar muito mais videiras e fazer com que prosperassem desta vez. Precisava disso desesperadamente. De outra forma, morreria.

Isso mesmo. Foi o que ela disse. Se eu não casasse com Alexander se não houvesse uma infusão de recursos -, meu pai morreria. Mas eu pensava que minha mãe morreria primeiro; e se esse fosse seu último pedido, como eu poderia negá-lo?

Alexander alistou-se. Queria casar comigo antes de partir para o exterior. Eu tinha uma semana inteira para tomar a decisão.

- Deve ter sido um pesadelo para você.

Pela primeira vez Olivia especulou se gostaria mesmo de ter vivido naquele tempo.

Haviam acabado de limpar a mesa no pátio e agora vagueavam pelo vinhedo. Fazia sentido que Natalie precisasse das videiras ao seu redor para contar aquela parte da história. As videiras desempenhavam um papel importante... e eram mesmo lindas. Olivia podia perceber a mudança acarretada pela passagem de junho para julho. As folhas tinham agora um verde mais intenso, alcançando o arame mais alto em maior quantidade. As uvas continuavam pequenas e duras, mas havia um ar de promessa no sol daquele dia.

- Aconteceu muito depressa - murmurou Natalie, angustiada.

- Onde carl estava na ocasião?

- Guadalcanal.

- Ele sabia o que acontecia aqui?

Natalie não respondeu por um longo momento. Deixou o caminho e enveredou por uma fileira de videiras. Estendia a mão para tocar em uma folha e outra.

- Só soube depois do casamento - disse ela, finalmente.

- Tentou entrar em contato com ele? Natalie fitou-a.

- Para quê? carl não falara em casamento... o nosso... antes de partir, nem nas primeiras cartas. Minha mãe me pressionava. Meu pai me pressionava. Alexander me pressionava.

Sempre romântica, Olivia lembrou:

- Mas você amava Carl.

- Eu tinha dezessete anos. Estava confusa. E me sentia sozinha. Quando mais precisava de ajuda, meu maior amigo... minha alma gémea, minha outra metade... havia partido. Mamãe insistia que se eu não casasse com Alexander Asquonset afundaria e meu pai morreria. Ela se tornava mais fraca a cada dia que passava, e haviam acabado de perder Brad. Eu era tudo que lhes restava. A única esperança.

Olivia podia ver a angústia em seus olhos mesmo agora. Eram de repente olhos idosos, injetados de sofrimento, ao peso de décadas de desespero íntimo. Pela primeira vez Natalie parecia ter sua idade.

- Comecei a orar para que minha mãe compreendesse que eu me sentia dividida, mas ela vivia atormentada demais para perceber qualquer coisa. Apresentei os argumentos usuais... mal conhecia Al, era jovem demais para casar, Al era muito velho para mim. Finalmente, quando ele queria uma resposta imediata e eu me sentia frenética, contei para minha mãe que amava Carl. Saiu num fluxo só. Ela não hesitou. Perguntou onde carl se encontrava em nosso momento de necessidade e se ele poderia trazer dinheiro suficiente para salvar a fazenda. Eu não tinha como responder. Alexander pressionava para um casamento ainda naquela semana. Eu não sabia o que fazer.

- E Jeremiah e Brida? - indagou Olivia. - Eles não se manifestaram em defesa de Carl?

com um sorriso triste, Natalie envolveu com a mão um cacho de uvas pequenas.

- Conversei com Brida, mas eles se encontravam numa situação muito difícil. Trabalhavam para meu pai. Ele punha o teto sobre suas cabeças e a comida em sua mesa. Ambos sabiam disso muito bem... e eram gratos. Brida tinha artrite grave. Não era muito idosa, mas a umidade era terrível para suas articulações. Não podia mais fazer algumas das coisas que sempre fizera, mas ninguém se queixava. Jeremiah e Brida sentiam uma certa lealdade a meus pais por isso.

- E não pelo filho? - indagou Olivia, consternada. - Claro que também sentiam pelo filho.

- E o que eles fizeram?

- Os dois me amavam. Mas havia uma moça na Irlanda, filha de amigos queridos. Sempre sonharam no casamento de carl com ela.

- Ele a conhecia?

-Não.

- Então era uma falsa alegação. Natalie sorriu.

- É o que você pensa? Como sabe?

Olivia fitou-a em silêncio por um momento. Deixou escapar um suspiro.

- Não sei.

- Pelo que vale, também tive meus momentos de especular se Brida não inventara aquela história para tornar minha decisão mais fácil. Era uma mulher inteligente. Sabia que eu me encontrava entre o mar e o rochedo. Brida me amava, mas também amava meus pais. Estava convencida de que o dinheiro ajudaria e que Asquonset saudável seria bom para sua família também. Além do mais, sua história não era falsa. Havia mesmo uma moça prometida na Irlanda. Mas só anos depois da guerra é que carl considerou o casamento, e mesmo assim não foi com essa moça.

- Então você concordou em casar com Alexander - disse Olivia, fazendo um esforço para evitar qualquer insinuação de julgamento em sua voz.

Natalie tornou-se defensiva.

- Tentei ganhar tempo. Disse que deveríamos deixá-lo partir e preparar o casamento para a ocasião em que ele voltasse, em licença. Continuava a pensar que carl poderia aparecer e casar comigo primeiro... e que meu pai descobriria antes a videira de seus sonhos e não precisaria mais do dinheiro. Mas era como nadar contra a correnteza. As moças casavam a torto e a direito. Tornou-se uma atitude patriótica... mandar os nossos homens para a guerra com mais razões ainda para querer vencer. Isso mesmo, concordei em casar com Alexander. E depois foi como um fato mal consumado. Mal aceitara e já estava na igrejinha da cidade, prometendo amar Alexander para sempre, para o melhor e para o pior.

- O que você sentia por ele?

Natalie não respondeu. Continuou a andar pelas fileiras de videiras, murmurando palavras gentis de encorajamento para as uvas. Simon não estava nas proximidades. Olivia podia ouvir o zumbido distante de uma máquina, indicando que ele se encontrava em outro campo. Trabalhava no feriado. Ela conhecia pessoas assim.

Não que ele fosse como Ted. Aquele tipo de vício em trabalho era nocivo. Não podia dizer que era isso que acontecia com Simon. No caso dele, era mais dedicação.

Além do mais, Olivia também estava trabalhando no feriado. Só que aquilo não parecia trabalho.

- Natalie?

A mulher mais velha parou de andar. Estudou os cachos nas videiras por um momento, antes de perguntar a Olivia:

- Sabe que uvas são essas?

- Sei. São Gewiirztraminer.

- Aposto que não sabia qual era o nome antes de vir para cá.

- Não, não sabia.

- Muitas pessoas não sabem. A palavra gewurzt significa "tempero". O vinho que produzimos com estas uvas é leve, mas picante. Esta foi uma das primeiras variedades que cultivamos com sucesso. A Gewiirztraminer adora um clima frio. É mais cultivada na Alsácia, na França. Foi de lá que meu pai trouxe a matriz.

- com o dinheiro de Alexander? Natalie soltou um murmúrio zombeteiro.

- Não... claro que não.

- Por que não?

Ela lançou um olhar irónico para Olivia.

- Essa é outra história. Ainda não acabamos a anterior. Creio que você me perguntou o que eu sentia por Alexander. - Ela franziu o rosto. - A resposta é complexa.

Como ela não dissesse nada por um longo momento, Olivia tratou de estimulá-la:

- Como foi seu casamento?

Eu me sentia atordoada. Não conseguia respirar direito. Alguma vez já foi arrastada por uma onda violenta na praia? Ou empurrada por uma multidão? Foi mais ou menos assim. Depois de dizer que casaria com Alexander, fui arrastada por uma onda poderosa de acontecimentos. Antes mesmo de pensar, lá estava eu no altar, de vestido branco, ao lado de Alexander, em seu uniforme novo. Formávamos um belo casal. Digo isso sem arrogância. Posso fazê-lo na minha idade.

Você viu as fotos. Eu sorria, não é mesmo? Não parecia feliz? Não era uma encenação. Cada moça sonha com o dia de seu casamento. Eu estava casando com um bom homem, de uma boa família. Estava casando com um homem maduro. Ele cuidaria de mim... cuidaria de todos nós depois que voltasse da guerra. Era a resposta para todos os problemas de minha família.

Se eu pensei em carl naquele dia? Não. Não podia. Teria sido angustiante demais. Não me permiti pensar em carl durante toda a semana. Simplesmente... o apaguei.

O que mais podia fazer? A decisão estava tomada. Meu casamento era um fato consumado. Não havia propósito em especular onde carl se encontrava e o que estava pensando.

Não me orgulho de admitir isso. Não diz muito sobre o amor que sen tia por ele o fato de ser capaz de apagá-lo de minha mente e sorrir durante o casamento com outro homem. Muitas vezes me perguntei como pude fazer isso. carl também me perguntou, quando finalmente conversamos, o que só aconteceu quatro anos depois. Ele passou todo esse tempo no exterior. Mas já estou me antecipando outra vez.

Meu casamento, naquele dia de março de 1942, não teve nada de requintado. Meus pais não tinham condições e contavam com uma desculpa perfeita para a modéstia, a morte de Brad, a guerra, o prazo tão curto. Houve uma cerimónia na igreja, seguida por um jantar em nossa casa. Alexander e eu fomos de carro para Boston, numa lua-de-mel de dois dias, antes de sua partida para a frente de combate.

Muito bem. O que eu sentia por meu marido? Sentia todas as coisas que as jovens casando nos primeiros dias da guerra podiam sentir. Eu era jovem. Antecipara a data de meu casamento por causa da guerra, mas acreditava que fazia a coisa certa. Era recém-casada e me sentia excitada por isso. Assumi o papel. Tinha um marido e um novo nome. Tinha as maiores esperanças para o futuro, mesmo com a partida de meu marido para a guerra... e era filosófica a respeito. Alexander lutava por nosso país. O que me deixava orgulhosa. Pus uma bandeira estrelada na janela para indicar que tínhamos um homem na guerra.

Fiquei com minha família em Asquonset. Muitas moças faziam isso quando seus maridos recentes partiam para a guerra. A família de Alexander possuía fábricas de sapatos em New Bedford e Fall River, duas cidades próximas da fazenda. Ele prometeu construir nossa própria casa quando voltasse. Enquanto esperava, eu precisava terminar o segundo grau e para isso tinha de morar perto da escola. Além do mais, meus pais precisavam de mim.

No início, escrevia uma carta para Alexander todas as noites. E todas as noites, depois que essa carta era endereçada e o envelope fechado, eu tentava escrever para Carl. Noite após noite, eu lutava com as palavras. Finalmente compreendi que não havia palavras certas para o que tinha de dizer. Por isso, apenas escrevi meus pensamentos. Foi uma carta simples, um tanto brusca, sem qualquer pretensão. A essa altura, porém, já me sentia furiosa. Começara a absorver a realidade da situação. Estava casada.

Presa a outro homem pelo resto da minha vida. Um casamento legal. Um casamento religioso. Um casamento permanente.

Mas deveria ter sido Carl.

Porque não, ele tornou-se o bandido em minha mente. Decidi que ele pusera seu sentimento pela guerra acima do sentimento por mim. Raciocinei, com absoluto egoísmo, que ao correr para se alistar, sem pensar em meu bem-estar, ele me traíra, da mesma forma como eu o traíra... e as cartas que recebia de Carl, todas as semanas, reforçavam essa convicção. Eram cheias de notícias, falando sobre os homens de sua unidade, a comida, até mesmo os banhos de chuveiro. Não eram pessoais. Não eram cartas de amor.

Carl e eu conversamos sobre isso na semana passada. Ele achava que devia ter escrito sobre amor, porque se lembrava de que era o que pensava e sentia. Mas mostrei a ele as cartas guardadas. Não havia palavras nesse sentido. Ele franziu o rosto, numa perplexidade genuína, abençoado seja, e comentou que devia ter sentido medo de que os censores riscassem qualquer coisa pessoal.

Não tenho certeza se os japoneses empenhavam-se em coletar informações pessoais sobre os militares americanos, mas concedi-lhe o benefício da dúvida.

Seja como for, mandei minha carta em 1942. Nos dois meses desde a partida de Carl, havia recebido seis cartas suas. Depois disso, nunca mais recebi outra.

- Nenhuma? - indagou Olivia. Elas voltavam para casa agora, andando devagar, sob um céu cinzento e ameaçador. - Nem mesmo um pequeno bilhete de congratulações?

Natalie tinha as mãos cruzadas nas costas, numa pose que sugeria impotência.

- Nada. Era minha punição. carl estava furioso e magoado. Destruiu todas as evidências de minha existência que tinha com ele.

- Como Simon incendiando sua casa? - perguntou Olivia. Natalie fitou-a com uma expressão curiosa.

- Quem lhe falou sobre isso?

- Simon.

Ela compreendeu seu erro quando Natalie alteou uma sobrancelha e apressou-se em acrescentar com um sorriso irónico:

- Você me conhece. Mencione alguma coisa sobre o passado e minha boca começa a espumar com perguntas. Interroguei-o sobre a esposa e a filha. Ele não ficou nem um pouco satisfeito.

- Ele não se sente satisfeito com muitas pessoas. Continue perguntando.

- Nada disso. Um terapeuta pode passar anos tentando fazer com que Simon fale. Só vou passar o verão aqui, e não sou terapeuta.

- Ele merece a felicidade.

- Todos nós não merecemos? - Olivia resolveu mudar de assunto. - Como foi a primeira vez que você viu Carl?

- Depois da guerra? Foi difícil, mas não tão difícil quanto eu imaginara que seria.

- Por que não?

- Porque precisávamos dele. Todo o inferno estava à solta aqui. Jeremiah tentava cuidar de tudo pessoalmente, mas sentia uma necessidade desesperada de ajuda.

- Onde estava seu pai?

- Em casa. Quase não saía da cama depois que mamãe morreu.

- Quando foi isso?

- Um ano depois de meu casamento. Eu já tinha um filho a essa altura; e graças às licenças de Alexander já eram dois antes do final da guerra. Eu administrava a casa, tomava conta das crianças, cuidava de meu pai, trabalhava com Jeremiah, que também andava desanimado.

Elas chegaram ao pátio e pararam.

- A artrite de Brida era do tipo que deixava a pessoa entrevada. Ela fazia cada vez menos coisas, embora tentasse. E quanto mais tentava... e mais fracassava... mais aflitivo era para as pessoas que assistiam. Jeremiah tornou-se seu enfermeiro, além de todas as outras coisas que tinha de fazer. Mas ele não podia... não tinha condições... não podia fazer tudo.

- Onde estava Alexander?

- Na Inglaterra.

- Ele continuou na Inglaterra. E depois foi para a França. Passou quase cinco anos na Europa. Até hoje, acho que ele amou o trabalho no serviço secreto mais do que outra coisa que fez. Dia da Vitória na Europa... Dia da Vitória no Japão... nossos soldados começaram a voltar. Mas não Alexander. Ele continuou na Europa, procurando provas dos julgamentos dos crimes de guerra.

- Mas você precisava dele aqui - argumentou Olivia. - carl voltou.

Carl voltou... Como se isso dissesse tudo. Mas não dizia, na opinião de Olivia.

- E como foi tê-lo aqui?

- Embaraçoso, a princípio - respondeu Natalie, depois de pensar por um momento. - Não sabíamos o que dizer um para o outro. Tínhamos de redefinir nosso relacionamento.

Olivia tentou imaginar como fora para Carl.

- Estou surpresa por ele ter voltado para Asquonset. Ver você deve ter sido um terrível sofrimento.

- Ele acreditava na causa. Isso é o mais importante em Carl. Para ele, Asquonset não era apenas um emprego. Ele acreditava realmente que um dia teríamos sucesso como cultivadores de uvas e fabricantes de vinhos. Queria ajudar para que isso acontecesse. Além do mais, ele queria ficar perto dos pais.

- A romântica em mim diz que ele queria também ficar perto de você.

Natalie olhou para a casa no momento em que Madalena e Joaquim passavam pela porta.

- Podia haver isso também - murmurou ela, distraída.

Ela hesitou por um momento, antes de chamar, cautelosa:

- Madalena? Você e Joaquim estão indo para algum lugar?

Os dois se vestiam de uma maneira como Olivia nunca vira antes. Não era para o trabalho. Nem para a igreja. Vestiam-se... para uma viagem.

A expressão de Madalena era de culpa. Num inglês de forte sotaque, Joaquim explicou:

- Minha irmã está doente. Vamos para o Brasil.

- Brasil... - murmurou Natalie, consternada, enquanto atravessava o pátio para pegar a mão de Madalena. - Por quanto tempo?

Madalena olhou para o marido, que disse:

- Minha irmã tem sete filhos e doze netos.

- Sei disso, Joaquim. Há anos que mando roupas para a família.

- Ela está doente agora. Precisa de ajuda.

- Não podemos contratar alguém? Pagarei com a maior satisfação.

- Ela precisa da família.

- Por quanto tempo? - repetiu Natalie. Como nenhum dos dois respondesse, ela acrescentou:

- Estão me deixando. Vão embora por causa do meu casamento; não é mesmo?

Joaquim tornou a falar pelos dois:

- É tempo. Estamos cansados.

- Está certo - disse Natalie, acenando com a cabeça. - Posso compreender isso. Mas pelo menos esperem até o casamento.

Joaquim sacudiu a cabeça em negativa.

- Minha irmã...

- Então viajem durante uma semana. Pelo resto do mês de julho. Mas voltem em agosto. - Como nenhum dos dois dissesse mais nada, ela virou-se para Olivia. - Tente convencê-los, por favor.

Olivia fez o melhor que podia. Disse que o pato assado de Madalena era o melhor que já comera e que Joaquim tinha um jeito incomparável com as rosas. Disse que Tess recusava-se a comer salada até provar o molho de alho de Madalena e que seu velho Toyota jamais funcionara tão bem quanto agora, depois que Joaquim o consertara. Disse que os dois eram necessários em Asquonset agora, mais do que em qualquer outra ocasião. Perguntou se o problema era dinheiro.

- Não - responderam ambos, com tanta veemência que ela sentiu que era uma causa perdida.

Era o que dizia o olhar que lançou para Natalie. Mas Natalie já sabia, a julgar por sua expressão resignada. Comprimiu vários dedos contra a testa, fazendo um esforço para recuperar o controle. Depois, sempre a dama, ela disse:

- Vamos entrar. Pagarei tudo a que vocês têm direito.

Olivia permaneceu no pátio, não tanto porque esperasse que Natalie voltasse, mas porque se sentia intranqúila.

Intranquila? Não, não era isso. Desapontada. Compreendia por que Natalie casara com Alexander. Nas circunstâncias, ela achava que poderia fazer a mesma coisa. Mas sem arrependimento? Sem pensar em carl dia e noite? Ela seria capaz de fazer isso também? Aquele tipo de amor poderia terminar assim?

Olivia arriou em sua cadeira, recostou a cabeça, fechou os olhos e pensou nos homens que haviam passado por sua vida. Revisitou cada relacionamento à procura de alguma coisa que pudesse não ter percebido na ocasião. Nenhum caso chegara perto do que Natalie e carl haviam vivido.

Olivia daria seu braço direito por esse tipo de amor. Se algum dia amasse alguém assim, nunca o deixaria.

- Eu a desapontei.

Olivia teve um sobressalto. Não ouvira a volta de Natalie.

- Não. Eu estava apenas pensando. Madalena e Joaquim foram mesmo embora?

- Foram.

- Sinto muito não ter podido ajudar. Pareciam já ter tomado a decisão.

- E tinham as malas prontas. Não valia a pena argumentar. Mas se está pensando que aceitei isso com a mesma facilidade com que aceitei a perda de Carl... que simplesmente cedi e segui em frente... devo dizer que está muito enganada.

- Eu não pensava nisso.

- Mas pensava em alguma coisa parecida. - Natalie sentou na ponta da espreguiçadeira. - Meus filhos também pensam a mesma coisa. Acham que enterrei Alexander e segui adiante...

Ela fez uma pausa, estalando os dedos.

Desse jeito. Mas não é assim. O que sinto aqui... - Natalie

tocou em seu coração - ... nem sempre combina com o que tenho aqui.

Ela levou a mão à cabeça, antes de continuar:

- Você pode saber, em termos intelectuais, que um caminho é o certo, mesmo quando não quer que seja. Neste caso, sei que Madalena e Joaquim precisam mesmo ir embora. A irmã dele está realmente doente. Ele precisa ajudá-la. O momento pode ser suspeito, mas eles não devem continuar aqui se estão infelizes com a perspectiva de meu casamento com Carl. Depois de tudo o que carl deu para a fazenda, não posso admitir que as pessoas pensem menos que o melhor dele.

- O que me diz de Susanne e Mark?

Não restava a menor dúvida de que os dois se enquadravam nessa categoria.

- O caso deles é diferente, porque são da família. Você saberia se estivesse mais ligada à sua família.

Olivia sentiu-se mais baixa do que baixa. Natalie partilhava coisas íntimas, dava respostas honestas, mesmo quando não a mostravam sob a melhor luz... e por duas vezes agora Olivia dissera mentiras sobre sua situação. Subitamente, isso parecia muito errado.

- A verdade é que eu saberia se tivesse uma família. Mas só tenho minha mãe. Queria que houvesse um pai. Queria que houvesse irmãos, mesmo que fosse apenas um. Mas não há.

A expressão de Natalie abrandou. Onde podia haver raiva, por ter sido enganada, havia apenas compaixão. - Vê sua mãe com frequência? Olivia sacudiu a cabeça em negativa.

- Ainda se encontra com ela?

Olivia hesitou. Podia dizer uma última pequena mentira, apenas para se apresentar a uma luz mais favorável. Mas estava cansada de mentir para Natalie... cansada de mentir para si mesma. Mais uma vez ela sacudiu a cabeça em negativa.

- Onde ela está? - perguntou Natalie. - Não sei.

- Posso descobri-la. Basta contratar um investigador. As pessoas não desaparecem da face da Terra sem deixar a menor pista.

- Não faça isso - disse Olivia no mesmo instante. - Acho que ela não quer ser encontrada. Fui uma criança difícil. Eu a prendi por anos. Ela merece sua liberdade.

- Mas você quer uma mãe... e uma avó para Tess.

- Desde que não seja de má vontade. E se a encontrássemos, mas se ela se ressentisse por isso? Seria ainda pior.

- Ahn... - Natalie ofereceu um sorriso gentil. - É uma questão de pesar e avaliar. Você está disposta a deixá-la de lado porque saber com certeza pode ser pior do que não saber. A verdade pode ser mais dolorosa do que viver na ignorância. Agora você sabe o que eu senti. Estava disposta a empacotar meu amor por carl e guardá-lo no fundo do armário, porque contemplá-lo todos os dias me mataria.

- Mas você tinha de olhar para ele todos os dias. Ele estava aqui, depois da guerra. Como podia deixar de pensar em tudo aquilo a que renunciara?

- De que poderia adiantar? - indagou Natalie, alteando a voz, emocionada. - Eu poderia pensar a respeito noite e dia que nada mudaria. Além do mais, não tinha tempo para pensar nisto dia e noite. Afinal, não passava o tempo todo sentada num palheiro, babando ao ver o homem que sempre pensara que seria meu marido. Tinha dois filhos, um pai catatônico, uma casa para limpar, comida para fazer e um negócio para dirigir. Tente encontrar o romance nisso, Olivia Jones. De manhã à noite, eu estava ocupada. Tinha o peso do mundo em meus ombros. Isso não significava que eu não pensava no que havia perdido. Claro que pensava. Sou humana.

Ela levantou-se e foi até a beira do pátio. Parou ali, com as mãos na nuca, de costas para Olivia. Sentindo-se culpada, Olivia também se levantou e foi atrás.

- Desculpe. Eu não deveria ter pressionado assim.

- Não é com sua pressão que me importo, mas com sua condenação.

- Não se preocupe. Não estou condenando-a. Como poderia? Você não me condenou quando menti sobre minha família. Como eu poderia condená-la agora?

- Mas pode me condenar. - Quando Natalie virou a cabeça, havia lágrimas em seus olhos. - Porque eu me condeno. Traí Carl. Renunciei a uma coisa tão maravilhosa que ainda me deixa atordoada e sem fôlego até hoje. Pelo que isso vale, quero que saiba que sofri muito. E sofri de maneiras que ninguém jamais saberá.

Natalie parou de falar. Passou o dorso da mão pelos cantos dos olhos. Parecia subitamente murcha e trémula, uma mão que indicava toda a sua idade.

- Sinto muito - murmurou Olivia.

- Não precisa sentir - respondeu Natalie, estendendo a mão para o ombro de Olivia. - Está fazendo exatamente aquilo para que a contratei. Não gosto de conversar sobre sofrimento. E não sinto que mereça a simpatia de qualquer pessoa. O problema é que meus filhos pensam que minha vida sempre foi um passeio pelo parque.

- Mas a situação não melhorou depois que seu marido voltou? perguntou Olivia.

Natalie a olhou nos olhos.

- Não. Essa foi a ocasião, se me perdoa falar assim, em que a merda caiu no ventilador.

Olivia não queria ver Simon. Não sabia como lidar com o que sentia. Era uma intensa atração física, sem qualquer vínculo emocional, totalmente errada naquele momento de sua vida. Mas Natalie tinha razão: a mente de uma mulher nem sempre estava em sincronia com o corpo.

Na verdade, a analogia de Natalie tinha a ver com a mente e o coração de uma mulher, mas o resultado era o mesmo. Olivia não confiava em si mesma. Por algumas manhãs subsequentes, ela permaneceu na cama, até que Tess passasse pela porta do banheiro, acompanhada por um ou dois gatos. A esta altura, Simon já deixara o pátio.

Olivia pensava nele?

Não deveria ter tempo. Quando não falava ao telefone, estava escrevendo, olhando para a tela do computador, lendo o que escrevera, mudando tudo. Relatava a história em voz alta e digitava enquanto falava, numa tentativa de fazer o texto fluir. Mas o fluxo era apenas uma parte do problema. As palavras podiam significar uma coisa num contexto, mas mudavam de sentido em outro. E ela tinha de transmitir o sentimento certo em cada momento.

Natalie tinha razão. Olivia não tinha o direito de fazer julgamentos. Mas o oposto também era negativo. Se adoçasse demais a história, perderia a autenticidade.

A chave era encontrar um meio-termo feliz. com esse objetivo, ela escrevia, reescrevia e reescrevia. Continuava a trabalhar depois que Tess ia deitar e mantinha um bloco na mesinha-de-cabeceira para anotar os pensamentos que lhe ocorriam durante a noite.

Pensava em Simon? Claro que pensava. Que mulher de sangue quente não pensaria? Poderia ser seduzida a fazer alguma coisa a respeito se ele demonstrasse alguma inclinação. Mas Simon permaneceu tão ausente quanto antes. O que tornava mais fácil removê-lo de sua mente.

O caos na casa também ajudava. Uma criada fora despedida e outra contratada, o que significava que uma nova pessoa precisava de treinamento. Claro que seria mais fácil se Madalena estivesse ali para se encarregar de tudo, mas ela e Joaquim também haviam ido embora. Na ausência dos dois, a cozinha ficara desorganizada. Natalie vinha entrevistando possíveis substitutas, mas ainda não encontrara alguém que a agradasse. Enquanto isso, todos se viravam como era possível. Jantavam fora. Mandavam trazer o almoço. O café da manhã era cada um por si. Ou pelo menos deveria ser assim. Mas Olivia gostava de preparar o café da manhã. Era a única refeição que sabia fazer muito bem. Por isso, um dia ela decidiu fazer panquecas; no dia seguinte, omelete; no outro, torradas francesas. Cortava uma banana média para misturar com os cereais e fazia um bule de café. Estava adorando, até que Jill desceu na quarta manhã e disse que queria apenas chá e torrada.

O primeiro pensamento de Olivia foi o de que alguma coisa que fizera não caíra bem. O segundo pensamento foi mais intuitivo.

- Você deve ter falado com Greg. Jill sorriu, curiosa.

- Como adivinhou?

- Está parecendo um pouco pálida.

Era na verdade uma atenuação da verdade. A pele de Jill era quase tão incolor quanto o roupão branco que ela vestia. Os cabelos louros estavam escorridos, empurrados para trás das orelhas, numa indicação de que ela não tinha ânimo para fazer mais do que isso.

- Greg pode ser muito difícil.

Ela largou um saquinho de chá numa caneca. Encheu-a com água e pôs no microondas.

- Ele está chateado porque você veio para cá?

- Não é isso. Ele gosta quando eu venho. Se estou aqui, ele não precisa vir. - Jill marcou o tempo e pôs o microondas para funcionar.

- Mas eu bem que gostaria que ele viesse. Não o vejo há mais de um mês. Parece uma separação.

- É mesmo? - indagou Olivia, aventurando-se mais fundo no pessoal do que já fizera antes com Jill, mas queria pensar que eram amigas.

Jill devia ter concordado, porque respondeu sem hesitar:

- Não... pelo menos formalmente. Passei algum tempo com minha mãe. Queria conversar com ela. E queria dar um susto em Greg. Ele me quer de volta em Washington. - Ela abriu a geladeira. - Mas precisamos conversar primeiro sobre coisas importantes. Se eu voltar agora, acho que vamos recair na antiga rotina.

Jill pegou um pão de forma com passas e pôs na torradeira.

- Ele está disposto a conversar?

- Greg diz que sim. - Ela encostou-se no balcão e cruzou os braços. - O problema é que sua definição de conversa é diferente da minha. Ele tem problemas com qualquer coisa mais profunda.

- Talvez seja uma característica dos Seebring - comentou Olivia, pensando em Natalie. - É difícil conversar sobre algumas coisas.

- Difícil conversar? - O microondas apitou. - É difícil até pensar a respeito.

Jill tirou a caneca do microondas e começou a balançar o saquinho de chá.

- Tal pai, tal filho. Alexander também não era um pensador profundo.

Ela tirou o saquinho e jogou-o no lixo. Pegou a caneca com as duas mãos. Seus olhos se encontraram com os de Olivia por cima da beira.

- Natalie está mesmo apaixonada por Carl?

- É apaixonada por ele desde os cinco anos de idade.

Natalie dera permissão a Olivia para conversar livremente com Jill. Até parecia ansiosa por isso.

- É mesmo? - indagou Jill, parecendo completamente surpresa.

- É sim.

- Muito interessante... - Ela franziu o rosto. - Isso me revela um novo ângulo. E levanta uma porção de perguntas. Por exemplo, a questão da fidelidade.

- Natalie sempre foi fiel a Alexander.

Olivia não sabia com certeza, é claro. Nem sequer perguntara, e Natalie não fizera qualquer comentário a respeito. Mas achava que uma mulher devia ser considerada inocente até prova em contrário.

- Durante todos esses anos? - A torrada saltou. - Amando outro homem?

Jill pegou a torrada.

- Ele era fiel?

Jill mordeu o canto da torrada.

-Não sei.

- Dê um palpite.

- Aqui entre nós? - Ela baixou a voz. - Não. Acho que ele tinha alguém por fora. Al adorava conversar, adorava viajar, adorava ser o centro das atenções. Passava mais tempo em Washington do que precisava. Acho que tinha uma mulher lá.

Olivia sentiu-se profundamente ofendida.

- O que havia de errado com sua esposa?

- Se você perguntasse aos filhos, eles diriam que Natalie não se mostrava muito interessada. Diriam que ela passava tempo demais aqui em Rhode Island. Diriam que ela era muito provinciana.

- Ela é uma mulher incrível.

- Você e eu podemos perceber isso, Olivia, mas os Seebring não podem. É espantoso como a dinâmica da família causa a cegueira. Susanne e Greg não vêem o que nós vemos. Suas próprias necessidades moldam sua visão. Queriam ser mimados enquanto cresciam, mas Natalie estava sempre muito ocupada. Susanne costumava trazer as crianças para cá e esperava que a mãe tomasse conta. Mas Natalie não tinha tempo.

Jill fez uma pausa.

- A ironia é que ela mimava Alexander. Satisfazia todas as suas pequenas necessidades. Mesmo com tudo isso, ele a menosprezava. Era terrível quando fazia isso na presença de outras pessoas. Dizia coisas assim: "Estes guardanapos não estão maravilhosos? Dobrar guardanapos é a especialidade de Natalie." - Jill gesticulou com a torrada na mão. - "Não estou desdenhando do ato de dobrar guardanapos,

mas Natalie faz muito mais do que isso por aqui. Sempre que fico em casa por mais que um fim de semana, ela me põe para trabalhar. E se não é para planejar uma festa é para fazer relações públicas de um negócio de milhões de dólares. O mais espantoso é que ela faz tudo sozinha até quando não estou aqui."

- E fazia mesmo?

Olivia sabia que Natalie tinha o dedo em uma porção de coisas. Atender seus telefonemas por um dia deixava isso bem claro. Mas dirigir tudo era diferente. Jill não deu uma resposta direta.

- Alexander menosprezava-a porque não podia aceitar o fato de que ela era uma mulher competente. Isso o ameaçava. Preferia deixar Natalie aqui, dirigindo tudo no dia-a-dia, enquanto viajava como um herói, apresentando-se como a cara de Asquonset. Eu não ficaria nem um pouco surpresa se ele encontrasse pelo caminho uma mulher que não o ameaçasse para alimentar seu ego.

Os olhos de Jill assumiram uma expressão angustiada.

- Por que os homens têm problemas com mulheres fortes? Seus egos são tão frágeis assim? Meu marido é cauteloso para discutir coisas substantivas comigo. Isso se aplica a questões políticas, mas também a assuntos como amor e responsabilidade. Ele sempre disse que o trabalho deixava-o tão cansado que não gostava de falar a respeito, e durante muito tempo acreditei. Mas é uma desculpa. A verdade é que ele se sente ameaçado por minhas opiniões. Greg não quer pensar que podem ser diferentes das suas, porque podia haver uma possibilidade de que eu estivesse certa.

Olivia estava fascinada. Não contara em descobrir tanta coisa. E Jill ainda não acabara.

- Tenho trinta e oito anos. Sempre trabalhei, até que casei com Greg. Ele não queria que eu continuasse, e achei que era uma atitude muito doce. Mas depois compreendi que era uma questão de poder. Greg se preocupava com a possibilidade de eu ter uma carreira de sucesso. Ele é o homem. O provedor. Deve estar sempre certo. Deve liderar. Era o que seu pai fazia.

Jill parecia subitamente abalada.

- Greg também tem alguém quando está viajando para alimentar seu ego?

- Tem? - indagou Olivia, pronta para condenar o homem, em termos inequívocos, se fosse o caso.

Jill lançou um olhar para o céu.

- Por Deus, espero que não!

No instante seguinte, ela soltou um suspiro, levou a mão à garganta e resmungou baixinho. Fechou os olhos e aspirou fundo pelo nariz. Engoliu em seco uma vez, depois outra. A pele pareceu passar de pálida para verde. Olivia adiantou-se.

- Você está bem?

Um minuto inteiro passou, tendo de engolir em seco várias vezes antes que Jill abrisse os olhos e oferecesse um sorriso ténue.

- Isso depende do que você chama de bem. Se é estar grávida de seu marido insensível, que não sabe de nada, amado mas apartado, então estou bem.

Olivia arregalou os olhos.

- Grávida? E ele não sabe?

- Natalie também não sabe. E eu gostaria de manter assim, pelo menos por enquanto.

Exultante por ser a confidente de Jill, Olivia cruzou dois dedos sobre a boca.

- Meus lábios estão lacrados.

Simon queria ver Olivia. Não queria conversar com ela. Não queria sequer beijá-la de novo. Isto é, queria. Mas isso era secundário. Por enquanto, queria apenas vê-la. Queria contemplá-la. Queria saber se ela era mesmo diferente, de uma maneira revigorante ou... apenas... esquisita.

Quando ela não apareceu na janela por três manhãs consecutivas, não saiu para sentar no pátio ou passear pelo vinhedo ao amanhecer nem uma única vez durante os dias subsequentes, Simon compreendeu que Olivia queria evitá-lo.

O que já não acontecia com Tess. Ele estava de joelhos na terra, removendo as folhas indesejadas ou aparando as sebes com a máquina operada pelas mãos enluvadas e de repente ela aparecia, como se viesse do nada, uma criança fantasma a observá-lo trabalhar.

Ele não tinha tempo para brincar. Sem Paulo, tinha de fazer um trabalho extra, e o tempo não ajudava. Por causa da falta de sol, precisava podar as plantas ao máximo para controlar todas as projeções laterais. Por causa da chuva, tinha de aerar outra vez as colheitas de cobertura, que impediam a invasão do mato e evitavam a erosão do solo. Queria fazer uma rodada extra de fertilização, com mais pulverização de inseticidas, mas a umidade persistia. E havia sempre a necessidade de arrancar folhas uma de cada vez, videira por videira, fileira por fileira, bloco por bloco. Ele andava ocupado demais para entrevistar substitutos, ainda mais para treinar alguém.

Mas lá estava Tess, observando-o, com os óculos a meio mastro.

Óculos a meio mastro... A mãe costumava dizer isso quando ele era pequeno. Usava agora lentes de contato, mas ainda se lembrava daqueles dias.

E Simon lembrou também outra coisa a respeito da mãe. Ela detestava cachorros. A família tivera um labrador amarelo. Deveria ser o melhor amigo do homem, mas sempre pairava ao redor da mãe. Ninguém entendia por quê. Ela não o alimentava, não escovava seu pêlo, não dava banho. Nem mesmo o afagava. Mas quanto mais ela o afugentava, mais o cachorro se aproximava. Ela finalmente cedera e deixara que o labrador a acompanhasse. Depois de algum tempo, ele perdera o interesse.

Simon especulou se o mesmo poderia acontecer com Tess. Ele estava na máquina de poda quando a viu na próxima vez. Pôs o motor em ponto neutro e gesticulou para que ela se aproximasse. Ela sacudiu a cabeça e saiu correndo.

Mas voltou no dia seguinte. Buck parecia gostar dela. Sentou ao seu lado, olhando para ela, enquanto ela olhava para Simon. Desta vez Simon não estava sentado numa máquina, mas a pé. ,

- Pode chegar mais perto - disse ele. - Eu não mordo.

- Minha mãe disse que eu não deveria.

Ele calculou que Olivia dissera à filha para não chegar perto dele, significando que nem deveria entrar no campo em que ele estivesse trabalhando. E concluiu que ela não ficaria nada satisfeita se soubesse que Tess estava ali. Ficaria preocupada com a possibilidade de ele magoar a criança de novo.

Só que Simon não faria isso. Ainda se sentia mal pela primeira vez. Já ia dizer que queria mostrar o que estava fazendo quando Tess desapareceu.

Ocorreu-lhe que ensinar à criança sobre as videiras poderia atrair a mãe. Mas Tess não chegava perto... e o que ele poderia dizer para Olivia? Não quer ver minhas uvas? Esta máquina não é espetacular? Não quer segurar uma lagarta?

Ele não era bom em iniciar uma conversa. Não precisara de uma com Laura. Haviam se conhecido em Cornell e ela ficara fascinada por seu trabalho desde o início. Antes de Laura, as garotas simplesmente chegavam. Ele não precisava de nenhuma frase de abertura.

Para uma mulher da cidade grande, como Olivia, seu trabalho seria muito chato. As tarefas podiam mudar com as estações, mas era uma labuta constante, dia após dia, ano após ano. A beleza de tudo, para ele, era o fato da rotina nunca ser a mesma. Os botões nunca começavam a surgir na mesma data por dois anos consecutivos. Esperar por isso, observar atento, experimentar o intenso excitamento quando as videiras irrompiam de repente no mais pálido verde era... era incrível. O mesmo acontecia com os poucos dias críticos em que os botões se transformavam em flores. Que eram, na verdade, pouco mais que felpas. Ele se lembrava de ocasiões em que haviam perdido todo um bloco de uvas porque o vento e o frio destruíam as pétalas antes que pudesse ocorrer a autopolinização. Uma safra especial era uma coisa preciosa, dependia de variáveis como o tempo, a idade de uma videira específica, o tamanho da população de abelhas japonesas. As práticas viticultoras estavam mudando tão depressa que ele sempre experimentava alguma coisa nova, mas o quadro geral permanecia o mesmo. Ele adorava ver as uvas crescerem e amadurecerem, e nunca deixava de sentir um fluxo de emoção quando o equilíbrio de açúcar e ácido era certo, e tomava a decisão de fazer a colheita.

Não, não havia nada de chato no que ele fazia. Apenas não era propício para frases de abertura.

O que fazer, em vez disso? Podia ficar esperando no pátio. Mas não era do tipo de esperar no pátio.

Podia se juntar a todos para o café da manhã ou o almoço, talvez sair junto para o jantar. Porém, não fazia isso há quatro anos. Fazê-lo agora seria como acenar uma bandeira vermelha na frente de Natalie. porque tinha certeza, apesar do que Olivia dissera, de que Natalie queria os dois juntos... e carl também. Ele bem que tentava ser sutil. Mas fazia comentários demais sobre Olivia para Simon.

O único outro pensamento de Simon era convidá-la para sair. Mas seria um encontro romântico. E ele não queria isso. Queria apenas olhar para Olivia. Porque ela era fascinante. Ao final, a solução que se apresentou nada teve a ver com qualquer recurso inventado. Foi obra de Buck e aconteceu no meio da noite. Simon cochilara no sofá, os óculos pendendo de uma das mãos, um livro aberto, quando um ruído estranho o acordou. Abaixou os pés para o chão, sentou, esfregou os olhos e pôs os óculos.

Escutou o ruído de novo. Era um miado queixoso, como ele nunca ouvira Buck soltar antes. Vinha da direção do quarto. Mas ele nem precisou chegar lá. Havia três cestos de vime no pequeno corredor que levava ao quarto. O primeiro estava cheio de livros esperando para serem lidos. O terceiro estava cheio de roupas esperando para serem lavadas. Entre os dois, o segundo cesto continha roupas limpas esperando para serem usadas. Buck, sensatamente, escolhera esse cesto para fazer... o que estava... fazendo.

Simon observou em incredulidade por um longo minuto. Houve mais miados queixosos e vários olhares angustiados de Buck, que podiam ser de espanto, dor ou pânico total. Mas o pobre gato podia estar também suplicando por ajuda. Só que não havia nada que Simon pudesse fazer.

com um sorriso aturdido agora, ele foi até o telefone... só para concluir que o telefone não ajudaria. Acordaria todo mundo que ele não queria acordar. Seria como levantar uma bandeira vermelha.

com uma lanterna na mão, ele correu através do bosque, pelo atalho que levava à casa-grande. Entrou no pátio e subiu a escada da ala de Olivia de dois em dois degraus. Atravessou o corredor.

A porta estava trancada. Não havia qualquer sinal de luz por baixo. Ela dormia.

Mas valia a pena acordá-la para aquele evento. Era uma coisa que só acontecia uma vez na vida.

Ele bateu de leve e esperou, o ombro encostado no batente, a lanterna apontada para o chão. Depois de vários segundos, Olivia apareceu. Simon deslocou o facho da lanterna para que ela pudesse ver quem era. Mas o facho iluminou-a também. Ele viu uma camisola, os cabelos projetando-se em ângulos estranhos, uma pequena marca de ruga na face e olhos sonolentos e surpresos.

- Há uma coisa que vocês precisam ver - disse ele, gesticulando para o quarto ao lado. - Chame Tess.

Olivia dava a impressão de que pensava que ele enlouquecera por completo.

- Já passa de uma hora da madrugada.

- Sei disso. Mas é uma coisa incrível. Buck está dando à luz. - Ela não disse nada por um momento. Depois, cautelosa, perguntou:

- Dando a luz a quê?

- Gatinhos.

Outro silêncio, seguido por um murmúrio confuso:

- Buck?

Simon lançou um olhar para a parede.

- Isso mesmo. Acho que nós cometemos um erro.

- Nós?

- Eu. Vamos embora. Quer ver ou não?

- Não sabia que você usava óculos.

- Só quando tiro as lentes de contato. Observei-o... isto é, observei-a ter um gatinho, e ela parecia prestes a ter outro. Não sei quantos serão, ou se você quer que Tess veja. Mas é uma coisa extraordinária e ela parece adorar gatos. Mas não creio que Buck retarde o espetáculo por muito tempo. Se quer que Tess veja, é melhor se apressar.

- Se eu quero que ela veja... Buck ter gatinhas? Claro que quero! Sem mais comentários, nem promessas de que se apressaria,

Olivia fechou a porta. Mas ele ouviu sons no outro lado, pés correndo, vozes abafadas, o estalido da porta do banheiro. Por isso, sabia que elas iriam.

Buck, você é demais, pensou Simon. E não pôde deixar de especular se não deveria ter ficado com a gata em seu momento de necessidade.

Não que soubesse o que fazer se ele... se ela tivesse problemas, Mas eram amigos. E sua presença era uma demonstração de apoio.

Ansioso em voltar, Simon olhou para o relógio. Dez minutos haviam passado desde que saíra de casa. Ele se encostou na parede, cruzou os braços e tentou se sentir apenas tão excitado quanto se justificaria assistir a sua gata tendo cria.

Simon não podia deixar de admirar Olivia pela rapidez. Não deve ter esperado por ela no corredor mais que um ou dois minutos. Ela não levava tanto tempo para vestir um short e uma camiseta. Ela havia se vestido quando tornou a abrir a porta. Um olhar para Tess, no entanto, e ele teve de fazer um esforço para não rir. Se os cabelos da mãe estavam espetados, os da filha se encontravam numa situação muito pior. O rostinho sonolento quase se perdia no emaranhado de cabelos.

Mas talvez isso fosse bom. Porque ela até parecia uma doce criança.

Infelizmente, ela se tornou menos sonolenta e mais cautelosa quando o viu no corredor. Mas não havia como evitar. Simon não podia permitir que elas atravessassem o bosque sozinhas no escuro.

Gesticulando para que o seguissem, ele apontou o facho da lanterna para trás. Desceu a escada e passou pela porta. Cruzou o pátio e levou-as pela trilha no bosque. Olhava para trás de vez em quando Para ter certeza de que as duas continuavam bem.

Não havia luar. Afora o facho da lanterna, a escuridão era total, a mais densa naquela época do ano. Quase alcançavam a clareira quando avistaram a luz da cabana.

Simon abriu a porta e deixou-as entrar. Depois, seguiu na frente Para mostrar onde deixara Buck. O corredor se encontrava na semiescuridão, iluminado apenas pela luz acesa na sala. Mas era apropriado Para a gata e havia claridade suficiente para que pudessem observar.

Tess ficou aturdida. Soltou um pequeno grito de alegria e se aproximou do cesto, nas pontas dos pés. Olivia também se adiantou. E se agachou, fascinada.

E Simon? Ele via apenas uma pilha de roupas sujas no cesto ao lado de Buck. com tanta discrição quanto era possível, empurrou o cesto de roupa suja com o pé, até o quarto, e fechou a porta. Depois olhou para a gata. Havia três gatinhos no cesto agora; e a julgar pela retomada dos miados e olhares suplicantes, o quarto se achava a caminho.

- Puxa, mamãe, eles são tão pequenos! - murmurou Tess. Nem mesmo se parecem com gatinhos!

Ela estendeu a mão, apontando na direção de um dos filhotes.

- Está vendo estes caroços? Acho que são as orelhas. E os olhos ainda estão fechados. Quanto tempo vai passar antes de poderem ver?

- Talvez três dias. - Olivia olhou para Simon, inquisitiva. - É isso mesmo?

Ele estava a menos de um metro, inclinado para a frente, observando.

- Não me pergunte. Fui eu quem pensou que ele era macho.

- Olhe, mamãe!

- Ela está lambendo os filhotes. Limpando.

- Não. Ali. - Tess apontou para o outro lado. - Acho que ela vai ter outro filhote.

- Tem razão.

- É a maior sujeira.

- Tudo é bastante limpo - sugeriu Simon. - Buck engole tudo depois.

- Eu acho uma nojeira. - Tess ficou de cócoras. - Quantos filhotes ela deve ter?

- Não sei - respondeu Olivia. - Teremos de esperar para ver. Tess olhou para Simon. Ele teve a impressão de que havia um pouco menos de desconfiança,

- Como soube que ela teria filhotes?

- Ouvi os miados e fui ver o que era.

- Foi você que a pôs no cesto?

- Não. Mas é um ótimo lugar. com muito algodão. Quente, confortável e limpo. E todos os filhotes ficam dentro do cesto até que ela esteja pronta para tirá-los.

- Quando isso vai acontecer? Simon deu de ombros. - Uma ou duas semanas. Talvez três. Talvez quatro. Olivia riu. - Boa resposta.

- E você sabe?

- Quem é o pai? - perguntou Tess a Simon.

- Não sei.

- Aposto que é Bernard. Não... Maxwell. Ele tem mais o tamanho de Buck. Como você não viu que era uma fêmea?

- Nunca prestei atenção. E ele não está aqui... ela não está aqui há muito tempo. Não tem nem um ano. E não fui o único que se enganou.

- Simon precisava partilhar a culpa para não se sentir tão tolo. - Foi Natalie quem escolheu o nome Buck.

- Isso explica por que ele era tão gordo - comentou Tess. Simon acenou com a cabeça em concordância.

- Tem razão.

Tess sentou no chão e cruzou as pernas.

- Posso pegar um?

Simon pensou que ainda era muito cedo para isso, mas não queria dizer a Tess quando Olivia respondeu:

- Não por alguns dias, querida. Os filhotes ainda são muito frágeis. Tess permaneceu calada por um longo momento.

- Lembra daquela história que vimos na TV quando alguém meteu quatro gatinhos num saco plástico e tentou afogá-los? - Sua voz se elevou. - Como alguém pode fazer isso? São filhotes... os filhotes de Buck. Seria horrível se alguém fizesse isso com eles.

Simon entendeu o recado.

- Não farei isso.

- O que fará quando eles ficarem grandes?

- Não sei. Encontrarei uma solução.

- Vai soltá-los no mato?

- Não. Eles precisam de um lar. - Simon ergueu-se. - Estou com sede. Alguém quer alguma coisa?

Tess devia ter achado sua resposta aceitável, porque perguntou:

- O que você tem?

Ele visualizou o interior da geladeira. Não estava abastecida para Balanços. -Suco de laranja. Suco de tomate. Água. ,..;, -Não tem Coca-Cola?

-Não.

- Nem suco de uva?

- Não. Sinto muito.

- Como você pode fazer o que faz e não ter suco de uva?

- Está sendo grosseira, Tess - interveio Olivia. Mas Simon declarou:

- Ela tem razão. Acontece apenas que não estou acostumado a ter crianças aqui. Você é a primeira.

As sobrancelhas de Tess ficaram mais altas do que os óculos. -Jura?

- Juro.

- Onde sua filha morava?

- Tess... - murmurou Olivia.

- Morávamos em outra casa.

Simon se perguntou quais seriam as chances de Tess parar por aí. Em matéria de curiosidade, ela tinha a mesma superabundância da mãe. Provavelmente era por isso que Olivia se mantinha calada agora. As duas não podiam falar ao mesmo tempo. A menos que fosse outro o motivo, como o fato de Olivia estar cansada. Ou se sentindo constrangida. Talvez ela não fosse uma pessoa noturna.

Era ótima pela manhã. Simon já sabia disso.

- Não tem nem mesmo vinho? - perguntou Tess. Aliviado por ela não insistir em falar de Liana, ele sorriu.

- Não para você.

Simon olhou para Olivia. Na semi-escuridão, seria capaz de jurar que ela estava surpresa.

- O que foi?

Ela ficou em silêncio por um longo momento, depois balançou a cabeça e olhou para o cesto.

- Aceita um vinho?

- Água, por favor.

- Quero suco de laranja - disse Tess. - Mas só se não tiver bagaço. Detesto bagaço.

- Detesto bagaço... - murmurou Simon enquanto se encaminhava para a área da cozinha, na extremidade da sala.

Ele serviu água num copo, e estava no processo de despejar o suco de laranja por um coador quando Olivia se aproximou.

- Não precisa fazer isso - disse ela, a voz gentil. Ele balançou o coador para o suco passar.

- Ela detesta o bagaço.

- Mas podia passar sem o suco. Ver Buck ter os gatinhos já foi um presente maravilhoso. Ela não vai sair do lado daquele cesto.

Ele largou o coador na pia e virou-se para Olivia. Sua cabeça mal alcançava os ombros de Simon. Os cabelos tinham uma dúzia de tonalidades diferentes de louro. Pareciam naturais.

- Alguma coisa a surpreendeu há pouco - comentou ele. Olivia lançou-lhe um breve olhar e deu de ombros.

- O que foi?

Ela deu de ombros de novo.

- Você sorriu. Mudou seu rosto.

Simon seria capaz de jurar que ela se mostrava subitamente tímida, mas depois decidiu que era apenas suavidade. A noite podia causar essa atitude.

- Obrigada por ter ido nos chamar. - Olivia virou-se, encostada no balcão e olhando para fora. - É uma bela casa.

Ele também se encostou no balcão, ao seu lado.

- É pequena. Eu não podia construir uma casa em que ouvisse ecos.

- Não há a menor possibilidade de que isso aconteça com todos esses livros. Nunca vi tantos. Mas aposto que não há nenhum sobre a criação de gatinhos.

- Dê-me três dias. - Simon entregou o copo com água e disse bastante baixo para que Tess não ouvisse: - Não a tenho visto nos últimos dias.

Ela tomou um gole da água.

- Tenho dormido até mais tarde.

- Deliberadamente?

- Trabalho à noite. Às vezes pela noite afora.

Ela estudou a borda do copo. Finalmente, ergueu os olhos para fitá-lo, com uma expressão inescrutável.

- Não sei como lidar com a situação. Não foi por isso que vim para Asquonset.

A honestidade de Olivia deixou-o aturdido.

- Foi apenas um beijo. lançou um olhar para a calça de Simon.

- Mas com certeza parecia que podia ser muito mais.

E aconteceu de novo. De repente, sem mais aquela. Bastou um olhar para causar um fluxo de sangue denunciador. Embaraçado, Simon dobrou um joelho e encostou o pé na porta do armário por baixo do balcão. A suavidade não era tanta assim.

- Falei sério - sussurrou ela, tornando a desviar os olhos. - Vim para cá apenas pelo verão. Depois, irei embora. Este lugar... este vinhedo... é um oásis para mim.

- Uma analogia equivocada. com tanta chuva, é mais como um buraco lamacento.

Olivia fitou-o com uma expressão preocupada.

- Há alguma possibilidade de perder a colheita?

- Sempre há uma possibilidade. Mas não acontece com frequência. É mais provável apenas alterar a qualidade do vinho para pior ou melhor.

Tess veio correndo, os olhos arregalados.

- Ela está tendo outro! São cinco filhotes! Pode imaginar ter cinco bebés?

- Eu não posso - murmurou Simon.

Olivia não pôde conter uma risada. Mas Tess olhava atentamente para Simon.

Por que está usando óculos?

- Uso todas as noites.

- O que você faz durante o dia? Usa lentes de contato?

- Isso mesmo.

- Também vou usar lentes de contato, mas tenho de esperar até meus olhos pararem de mudar. Quando começou a usar as suas?

- Quando eu tinha catorze anos - respondeu Simon, entregando

o suco de laranja.

- Não posso esperar tanto tempo.

Tess olhou para o copo.

- Não tem bagaço - assegurou Simon, antes que ela pudesse perguntar. - O bagaço ficou no coador.

- Ainda bem.

Ela segurou o copo com a mão esquerda, e com a direita fez um gesto que poderia ser uma onda, antes de se afastar. A voz de Olivia acompanhou-a:

- Tess?

- Eu sinalizei.

- Ahn... - Olivia explicou para Simon: - O neto de Sandy é surdo. Não tenho certeza se ela fez o sinal certo, mas o pensamento existe. Obrigada pelo suco.

Simon avançou pela sala e foi olhar Tess no corredor. Tentou imaginar Liana em seu lugar, observando Buck ter gatinhos, bebendo suco, lembrando-se de agradecer.

- Estávamos começando a entrar nisso. Sabe como é, boas maneiras e o resto.

Ele começou a gesticular para que Olivia sentasse numa poltrona, mas depois se lembrou de que ela poderia querer observar Buck. Mudou o gesto, sacudindo o polegar nessa direção, as sobrancelhas alteadas.

Olivia sacudiu a cabeça em negativa. Acomodou-se numa poltrona tirando os ténis e cruzando as pernas sobre o assento. Parecia ter dezesseis anos.

- Incomoda-o a presença de Tess aqui? - perguntou ela. Simon olhou para Tess e os cestos no corredor. Depois, olhou para

trás. Empurrou o livro para o lado e sentou na beira do sofá. Considerou a questão. Incomodava-o a presença de Tess em sua casa? Não fora uma coisa premeditada. Não previra que chamaria as duas. Mas Buck lhe oferecera uma oportunidade de ouro e as duas estavam ali.

Isso o incomodava? Ele pensaria antes que sim. Deliberadamente, não convidara Olivia a entrar na última vez. Aquele era seu reino particular. Não havia lugar ali para mulheres e crianças.

Mas era curioso. Olivia e Tess não eram apenas uma mulher e uma criança. Não eram... genéricas. Eram... Olivia e Tess, cada uma com sua própria personalidade e aparência. Eram totalmente diferentes de sua esposa e filha.

- Ou eu não deveria ter perguntado? - acrescentou Olivia.

- Não, não me incomoda tê-la aqui. Eu poderia tentar imaginar Liana na idade de Tess, mas o fato é que continuo a vê-la em minha mente como uma menina de seis anos, a idade que tinha ao morrer. Ela sempre será assim. Tess é uma espécie diferente... e não digo isso de uma maneira negativa. Ela é mais velha. Mais verbal. Mais esperta.

- Isso é um eufemismo para "tagarela"? - perguntou Olivia com um meio-sorriso.

- Ela é assim às vezes, mas pelo que você diz há uma boa razão. Ela está se saindo melhor?

Olivia acenou com a cabeça numa resposta afirmativa, mas não parecia muito convencida.

- Sandy é ótima, e Tess começa a pegar o jeito do método que ela ensina. Seria perfeito se eu conseguisse matriculá-la numa escola particular especializada nesse tipo de ensino. Pedimos a matrícula numa escola assim em Cambridge... - Olivia baixou a voz para um sussurro -... mas acabo de receber uma carta informando que não há vaga. Ainda não tive coragem de contar para Tess.

- Ela estava ansiosa em ir para essa escola? - perguntou Simon, também num sussurro.

- Ela está ansiosa em não voltar para a escola em que estudava. Solicitei a matrícula em várias outras escolas, mas talvez só tenhamos a resposta no último minuto. É angustiante.

- Ela fez amizades aqui?

- Ninguém que telefone. Esse é o grande indicador, caso você ainda não saiba.

Mas ele sabia, é claro.

- Algumas coisas nunca mudam. E quem está ligando para você?

- Para mim?

Simon não planejava perguntar, mas a indagação saiu antes que pudesse se controlar.

- Eu estava no escritório outro dia quando um cara ligou. Ane Marie teve a maior dificuldade em convencê-lo de que você não estava aqui.

Olivia soltou um grunhido irritado.

- Só pode ter sido Ted. Ele jura que não tem telefonado, mas não há mais ninguém. Saímos algumas vezes em Cambridge. Ele continua interessado. Eu não estou mais.

- Por que não?

- Ted é tenso demais. Cria problemas onde não existe nenhum. Não posso lidar com isso. Já tenho problemas reais em quantidade suficiente. Além do mais, ele pensa que estou aqui sem fazer nada, refestelada na praia, comendo uvas. Se ao menos...

Olivia soltou um suspiro cansado, recostando a cabeça na poltrona.

- O livro de Natalie deveria estar no estágio de compilação no primeiro dia de agosto. Ela queria que a família o recebesse antes do casamento. Mas não contava em ter tantas distrações.

- É uma mulher muito ocupada.

- É o que estou descobrindo. Acho que deveria me sentir grata, pois de outra forma não conseguiria acompanhar seu ritmo. Não escrevo muito depressa.

- Mas consegue acompanhar o ritmo de Natalie.

Olivia sorriu nesse instante... e se o sorriso de Simon a surpreendera, o mesmo aconteceu com ele agora. Foi um sorriso exultante e radiante. Um sorriso feliz. E contagiante. Ela se orgulhava de si mesma, mas sem o ego.

- Isso mesmo. Para ser franca, estou ansiosa por mais. Sua história me fascina. A questão é se também vai fascinar Susanne e Greg. Mais importante ainda, a questão é saber se eles vão ler.

- Acho que vão. Não são más pessoas.

- Se isso é verdade, onde eles estão agora? - indagou Olivia, a dúvida evidente em sua voz. - Por que não vieram para cá? É verão, temos um tempo deslumbrante. Se minha família tivesse uma propriedade como esta, eu teria uma reserva permanente para um quarto aqui.

Ela baixou a voz para acrescentar:

- Por falar em quartos, você bateu direto na porta certa esta noite. Sabia qual era o meu quarto.

- Não há mistério nenhum. - Simon fazia questão de acabar com a suspeita logo no início. Não queria que Olivia pensasse que tinha o maior interesse por ela. - Natalie sempre põe os hóspedes naquela ala. Você me observava de um banco na janela. E somente um daqueles quartos tem um banco na janela.

- Mas quem fica na parte principal da casa? - indagou Olivia, sem qualquer pausa, como se esse fosse o seu maior interesse desde o início. - Natalie tem um quarto. Jill tem outro. Presumo que o terceiro é para Susanne e o marido. O que há por trás da porta fechada do último quarto?

Simon hesitou. Sabia o que havia ali, mas achava que cabia a Natalie contar.

- Lembranças. Trofeus. Livros antigos e outras coisas.

- Onde está Brad?

- O irmão Brad?

- O filho Brad. É o único que não telefonou. Natalie disse que ele não vai ligar. Presumo que houve uma tremenda briga. O que é muito difícil para alguém como eu aceitar. Daria tudo para ter uma família. Essas pessoas têm e jogam fora. Por que não querem saber de Asquonset? Ou o problema é apenas o casamento?

- Neste verão é apenas o casamento.

- Mas é uma história de amor tão extraordinária! Você sabia... carl contou...

- Que foram namorados na adolescência? Contou.

- Você sempre soube?

- Não. Ele amava minha mãe. Tratava-a bem. Trabalhava com Natalie, mas sempre voltava para minha mãe.

Olivia tornou-se pensativa.

- E a amava.

- Isso mesmo.

- Acha então que é possível, amar duas mulheres ao mesmo

tempo?

- Ele as amava de maneiras diferentes.

Olivia refletiu sobre o que ele acabara de dizer. Simon a observava, enquanto ela se inclinava para a frente e passava os braços em torno dos joelhos. Finalmente, ela se recostou. Não parecia nem um pouco ansiosa em partir, embora fossem quase duas horas da madrugada, parecia satisfeita.

Simon concluiu que esse fato era gratificante. Indicava que ele acertara ao chamá-las. Fora certo construir uma casa livre de mulheres e crianças, mas algumas coisas aconteciam para serem partilhadas. Buck ter filhotes era uma delas. O sossego da noite era outra.

E foi então que lhe ocorreu que talvez o sossego fosse demais. O rosto franzido, ele inclinou-se para a frente e olhou pelo corredor. Tess encostara a cabeça na beira do cesto.

- Ela está bem? - perguntou Simon. Olivia sorriu.

- Deve ter adormecido. É o que costuma acontecer quando fica quieta por tanto tempo.

Tess estava mesmo dormindo. Despertou, mas por pouco, quando Olivia tocou em seu ombro. Olivia já se preparava para pegá-la no colo quando Simon interferiu:

- Pegue a lanterna - sussurrou ele, levantando a menina.

Caía uma chuva fina. Simon resmungou baixinho, pensando primeiro em suas uvas.

- Devemos ir de carro? - indagou Olivia, interpretando o desprazer de Simon da maneira errada.

- Não. Será mais rápido se formos a pé, e ela não pesa muito. Uma chuva assim não vai encharcar as árvores por algum tempo e ainda estaremos secos quando chegarmos. - Ele começou a seguir pela trilha, mas parou para deixar Olivia passar na frente. - A previsão era de chuva, mas eu esperava que seríamos poupados.

- Não está frio, nem ventando.

- Não precisamos do frio. O vento é ótimo, desde que seja apenas uma brisa, que contribui para secar as uvas. Se não for assim, a umidade persiste.

A chuva caía nas folhas por cima, mas eles só se molharam quando deixaram a cobertura das árvores e correram para a casa. Simon inclinou-se sobre Tess, protegendo seu corpo enquanto corriam. Quando ficaram sob o toldo do pátio, ele transferiu a menina para Olivia e abriu a porta.

Ninguém disse nada. Olivia e Tess se afastaram antes que ele pudesse pensar em qualquer coisa apropriada para dizer. Enquanto voltava pelo bosque, ele compreendeu que se sentia satisfeito.

Também tinha o maior tesão quando deitou na cama, mas continuava satisfeito.

Susanne ouviu o telefone tocar no instante em que virou a chave na fechadura. Pensou que podia ser uma ligação importante e se apressou em abrir a porta e desligar o alarme. Largou suas coisas na cadeira e pegou o fone, um momento antes da ligação cair na caixa de correspondência.

- Alo?

- Oi, Susanne. Sou eu, Simon.

Não era um convite para almoçar no Palio, como ela esperava, mas podia ser interessante.

- Simon, meu futuro irmão. Como tem passado?

- Nada mal. E você?

- Muito bem. Não podia estar melhor. Não o vejo desde que nossos pais deram a notícia. O que você acha?

- Acho ótimo.

Era de esperar. Afinal, o pai estava casando com alguém superior. O que melhorava sua posição, para não mencionar a segurança no emprego.

Mas ela estava sendo injusta. Dos amigos de infância do irmão, sempre gostara mais de Simon. Ele sempre fora leal a Greg... e leal a seus pais também, se as horas dedicadas ao vinhedo contavam. Devialhe o benefício da dúvida.

- Você ficou surpreso, Simon? Ou pressentiu o que estava para acontecer?

Ele devia ter percebido. Afinal, passava os dias em Asquonset. Teria notado uma mudança em Natalie e Carl... veria os olhares trocados, mãos dadas, beijos soprados. E poderia ter ouvido as confidências.

- Não. Não percebi nada. Mas também não estava observando. Tenho me mantido absorvido em outras coisas nos últimos anos.

Susanne arrependeu-se no mesmo instante. Mais gentilmente, ela murmurou:

- Eu compreendo.

Independentemente do papel que Simon podia ou não ter desempenhado na união de suas famílias - quer fosse inocente ou não -, era trágico o que ele sofrera com sua própria família.

- Natalie e carl parecem felizes, Susanne. E é isso o que conta.

- Isso significa que você não está feliz?

Ela não considerara essa possibilidade. O que havia para não gostar, do ponto de vista de Simon?

- Claro que estou feliz. Sempre pensei o melhor possível de Natalie.

- E ela de você - disse Susanne, invejosa. - Natalie sempre quis que alguém da família assumisse o vinhedo. Agora, seu desejo será satisfeito.

Simon era a voz da razão:

- Nada disso. Ela sempre desejou que você ou Greg assumissem. E ainda é a sua vontade. Além do mais, não vou assumir coisa nenhuma. Sou gerente do vinhedo há seis anos. Isso não vai mudar.

- Não agora, mas a situação pode mudar daqui a algum tempo. Tinha de ser dito. Era nisso que ela acreditava. Simon deixou passar um momento. A voz era cautelosa quando disse:

- Não preciso disso, Susanne.

- Não precisa de quê? De possuir Asquonset? Ou de que eu mencione o assunto?

- As duas coisas - disse ele com mais veemência. - Estou trabalhando para ter uma boa safra, sem que o tempo coopere. Não tenho tempo para esta conversa.

E Susanne também não gostava de falar a respeito.

- Então por que ligou?

- Porque Natalie precisa de você. Tem problemas demais para enfrentar. E achei que você deveria saber disso.

- Então você quer que eu vá para Asquonset.

Mark também achava que ela deveria ir. E as crianças pensavam da mesma maneira.

- Acho que seria ótimo se alguém da família viesse ajudá-la. - Mas ela tem uma nova assistente - lembrou Susanne, gentilmente. - Ela não pode ajudar?

- Ela ajuda, mas Natalie precisa de você.

- Como se eu não tivesse mais nada para fazer com minha vida? No final, sempre se resumia a isso. Simon suspirou.

- Sei que você tem coisas para fazer. Mas como pode se preocupar que eu assuma o comando do vinhedo se você e Greg nem querem chegar perto?

- Ligou para ele? Disse que ele deveria estar aí?

- Não. Achei que ele não gostaria.

Susanne ficou irritada.

- Porque ele trabalha enquanto eu fico sentada aqui sem fazer nada? É isso o que você pensa? Mas tenho coisas para fazer, Simon. E tenho mais do que suficiente para me manter ocupada. Minha mãe sempre fez o que bem quis. Não me consultou antes de decidir casar de novo. Para que poderia precisar de mim agora? E, se ela precisa de mim, por que não pode pegar o telefone e me dizer?

- Não sei. Talvez ela não goste de pedir ajuda.

- Exatamente. Natalie em primeiro lugar.

- Não foi isso que eu quis dizer, Susanne. Acontece apenas que ela prefere fazer uma coisa sozinha antes de pedir ajuda.

- Quer dizer que agora você a conhece melhor do que eu? Isso é muito interessante, Simon. E muito presunçoso. Diga-me uma coisa: por que acha que isso é da sua conta?

Houve uma longa pausa antes de Simon responder, a voz suave:

- Tem toda razão. Não é da minha conta. Ela é sua mãe, não minha. A minha morreu. Isso deve estar prejudicando minha visão. Sinto muita saudade. Se pudesse tê-la de volta, juro que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para tornar seus anos dourados mais fáceis.

Simon estava furioso ao sair de seu escritório e descer a escada. Não compreendia por que as pessoas que tinham tanto se sentiam compelidas a jogar tudo fora. Ele e Olivia pensavam da mesma forma nesse caso. Asquonset era o lugar mais lindo que já conhecera, e viajara bastante. Houvera uma época de sua vida - um breve período, quando estava na universidade, e sentia-se um provinciano - em que considerara a possibilidade de trabalhar em outro lugar. Mas nada do que vira em suas buscas sequer chegava perto de Asquonset em beleza física ou filosofia viticultora.

Não que quisesse a presença de Susanne e Greg, se pretendiam tratar seu pai e ele como meros aproveitadores. Não estava atrás de dinheiro. O dinheiro tinha seus limites. Não podia de jeito nenhum trazer os mortos de volta.

Na sala de suprimentos, no térreo, ele pegou as ferramentas, um rolo de arame e luvas de trabalho. O arame superior precisava ser trocado em uma das fileiras de Chenin Blanc. As folhas já o haviam alcançado. Haviam sido aparadas uma vez e precisavam de uma segunda rodada. Primeiro, porém, precisava estender o novo arame. Era um bom trabalho, em que não precisava pensar.

Simon pusera as luvas e usava um alicate para soltar o arame antigo do pino que ainda o segurava quando avistou Tess.

Ontem à noite fora uma coisa. Hoje era outra. Assim como as manchas em algumas uvas indicavam problemas, ele não sentia a menor disposição para tratar com uma criança.

Naturalmente, porque ele não queria, Tess aproximou-se. Só que parecia mais cautelosa do que intrometida.

- Onde está Buck?

- Em casa. - Simon continuou a trabalhar. - Não quer sair de perto dos gatinhos.

- Nasceu mais algum depois que fui embora?

- Não. Foram cinco. .

- O que você está fazendo?

- Consertando a treliça.

- Para que serve a treliça?

- Serve para sustentar a videira. - Era a resposta mais simples. Num esforço para ser mais gentil do que na última vez, Simon acrescentou:

- Dirige a videira para cima, na vertical, em vez de na horizontal. Quero que as videiras cresçam para o alto, não para os lados.

- Por quê?

- Porque se ficarem largas as folhas vão cobrir as uvas. com isso as uvas não receberão o sol nem a brisa. Se não tiverem sol, não amadurecem. Se não tiverem a brisa, não secam e, se não secam, apodrecem.

- Apodrecem... - repetiu Tess, como se gostasse do som da palavra. Mas Simon não gostava.

- O problema também é conhecido como fungo ou mofo, e é uma coisa terrível.

Ele olhou para o relógio. Tess dava a impressão de que poderia passar a manhã inteira ali, puxando conversa. E ele não tinha tempo para atendê-la.

- Você não tem aula de manhã?

- A Sra. Adelson está doente. Posso ir ver Buck?

- Não agora. Tenho de trabalhar.

- Não tem importância. Você pode ficar trabalhando enquanto eu vou ver Buck.

- Mas não tenho tempo para levá-la até lá.

- Posso ir sozinha. É só você me dizer onde começa o caminho.

- Onde está sua mãe?

- No sótão, trabalhando. Mas não tenho de pedir a ela, se você concordar.

Simon a fitou de alto a baixo. A menina estava limpa e arrumada, mas também o dia mal começava.

- Ela disse para você não me pedir?

- Ela me disse para não atrapalhar.

O rosto de Tess se suavizou. Ou ela se esquecera de ser beligerante por um momento ou estava sendo manipuladora. De qualquer forma, era convincente.

- Se você está aqui e eu estou lá, não posso atrapalhar. Acha que Buck deve passar o dia inteiro sozinho? Ele me conhece. Gosta de mim. Acho que gostaria de me mostrar seus filhotes. Além do mais, quero ver os gatinhos para poder contar tudo à minha turma no clube. Ah, uma oferenda para os amigos...

- Você tem de sorrir.

- Como?

- Você tem de sorrir quando contar para os outros sobre os gatinhos. Isso fará com que eles saibam que está sinceramente animada, não apenas tentando se integrar na turma.

- Aposto que eles não têm gatinhos.

-E você também não tem.

Simon arrependeu-se de ter dito isso no instante em que o rosto da menina murchou. Sorriu enquanto tirava as luvas.

- Você tem. Foi a primeira a notar como Buck havia engordado. Vamos embora. Eu lhe mostrarei o caminho. Mas tem de permanecer nele. Se não o fizer, pode se perder. E tem ursos no bosque.

- Não tem não - protestou Tess, de uma maneira que indicava que sabia que ele estava zombando. - Tem marta e guaxinim, cervo e faisão, mas eles têm mais medo de mim do que eu deles.

Ela teve de correr para acompanhar o ritmo de Simon.

- Não é verdade?

- Claro que é. É ali. Está vendo o caminho ao lado daquele velho bordo?

- Estou.

Tess saiu correndo.

- Espere um instante. O que devo dizer se sua mãe vier procurá-la?

Ela virou-se e voltou correndo.

- Diga a ela que você me convidou. Foi o que aconteceu, não é

mesmo?

Simon poderia ter argumentado, mas não o fez.

- A que horas pretende voltar?

- A aula no clube começa às duas.

- E o que vai fazer quando contar às crianças sobre os gatinhos? Ela mostrou os dentes, numa interpretação espástica de um sorriso, antes de se virar e sair correndo.

Susanne passou uma hora chafurdando sob o peso da culpa por arruinar os anos dourados da mãe antes de pegar o telefone e ligar para Greg no escritório.

- Este é o pior momento possível - protestou ele.

Mas Susanne não se deixou intimidar. Seu tempo era tão precioso quanto o do irmão. Sua paz de espírito era tão valiosa quanto a dele. Além do mais, qualquer ocasião era o pior momento possível para Greg.

- Acabo de receber um telefonema de Simon. Ele alega que mamãe precisa de ajuda. Sabe alguma coisa a respeito?

- Que tipo de ajuda?

- Não sei. Tudo o que ele disse foi que mamãe podia precisar de alguém para ajudá-la.

- Ela já tem ajuda. Jill está em Asquonset.

- Eu não sabia. Isso é ótimo. Mas por que Simon me ligou?

- Olhe, Susanne, tenho uma reunião dentro de vinte minutos e

cinquenta páginas de dados para revisar antes de começá-la.

- Vai se encontrar com Jill lá?

- Não se eu puder evitar.

- Talvez um de nós deva ir. Para verificar o que está realmente acontecendo.

- Vá você. Tem mais tempo do que eu.

- Mas sua mulher está em Asquonset. Isso lhe dá uma boa desculpa para ir.

- Por que você precisa de uma desculpa? Diga apenas que está preocupada.

- É você quem está preocupado. É você quem acha que os Burke querem se apropriar do vinhedo. Pode conversar com carl se for.

- Não tenho tempo para isso, Susanne.

- Também não tenho. E se alguma coisa acontecer? Você é o homem. Está sintonizado com os negócios. Perceberá tudo no mesmo instante.

- Susanne, minha reunião começa... daqui a dezoito minutos.

- Ora, por favor! - Ela estava cansada de se sentir insignificante.

- Seu trabalho é mais importante do que a família? Estou pedindo sua ajuda nisso, Greg.

- Eu não vou para Asquonset - declarou ele, com uma súbita veemência. - Se Jill quiser conversar, ela sabe onde pode me encontrar!

Susanne ficou aturdida. Falou mais suave:

- Vocês dois andam com problemas? Ele soltou um grunhido.

- Nada que um pouco de tempo e espaço não possa resolver. Esqueci de mencionar uma coisa, Susanne. Estou cansado e estressado. Jill queria visitar Asquonset e eu não pude dissuadi-la. Ligue para ela. Pergunte o que ela está vendo. Se isso não a satisfizer, pode ir até lá pessoalmente. Mas eu não posso. Não agora. É impossível.

Há ocasiões em que tenho dúvidas sobre minha família.

Natalie parou de falar, aparentemente para refletir a respeito. Olivia deixou passar um longo momento antes de tentar estimulá-la gentilmente:

- Em que sentido?

A mulher mais velha parecia perturbada.

- Aquela história de que o sangue é mais grosso do que a água.

- Ela olhou pela janela. - Sempre pensei que era uma coisa positiva... que os vínculos familiares são mais fortes e mais profundos. Mas pode-se, em teoria, interpretar de uma maneira diferente, ou seja, é possível argumentar, em teoria, que o sangue mais grosso retarda o funcionamento do cérebro, e por isso a razão fica em falta quando se trata de questões de família.

Seus olhos procuraram os de Olivia antes que ela acrescentasse:

- Para assumir um compromisso. Às vezes especulo a respeito. Às vezes? Olivia não podia deixar de pensar que era mais do que isso. Ter uma mãe ausente era propício para essa reação. Mas Natalie sempre estivera presente enquanto as crianças cresciam. E continuava disponível.

- Talvez você devesse tentar ligar de novo - sugeriu Olivia.

- Não. Eles ainda estão aborrecidos.

- Então precisam ler o que escrevi.

- Mas você ainda não escreveu a melhor parte. Não ouviu a melhor parte.

A mesa estava coberta por fotos, tiradas durante e logo depois da guerra. Olivia restaurara algumas... em geral as mais formais, mostrando a vida elegante que incendiara sua imaginação. Outras - algumas que ela via pela primeira vez - eram fotos de trabalho. Ocorreulhe que Natalie não quisera que essas fotos fossem embelezadas.

Natalie pegou uma dessas fotos. Mostrava-a com duas crianças, uma em cada quadril. Alexander tinha o braço estendido por seus ombros e exibia um sorriso largo. Era o único na foto que sorria.

com Alexander permanecendo no exterior mesmo depois que a guerra acabou, passamos quase cinco anos separados. É verdade que houve algumas licenças, mas eram bem poucos dias e frenéticos demais para se poder conhecer alguém mais afundo. Acrescente-se a isso o fato de que eu o conhecia muito pouco quando casamos. Quando ele finalmente voltou para casa, descobri que vivia com um estranho. As crianças não o conheciam e se mantinham desconfiadas, o que tornava as coisas ainda mais difíceis. Mas pelo menos ele estava em casa. A situação ia melhorar. Alexander salvaria Asquonset. Fora por isso que eu casara com ele. Alexander salvaria Asquonset. Fora por isso que eu casara com ele.

Com que frequência eu disse isso durante os anos que ele passou no exterior, anos em que senti mais saudade de carl que de Alexander. Foi o um período terrível para mim. Sofri muito. Depois que a novidade do casamento se desgastou e a situação aqui piorou, eu queria a volta de Carl.

Mas Alexander salvaria Asquonset. Fora por isso que eu casara com ele.

Tornou-se meu mantra. Era a única coisa que me mantinha durante aqueles dias tão desolados.

Desolados?

Talvez seja a palavra errada. Eram dias difíceis. Eram dias dominados pelo trabalho e preocupação. Estávamos sempre esperando por cartas. Os carteiros davam prioridade às cartas que vinham das frentes de combate e as entregavam assim que chegavam. O que significava que sempre nos mantínhamos em alerta. Claro que também podia haver uma visita inesperada do reverendo. Temíamos essas visitas. Já passáramos por isso uma vez. Todas as noites sentávamos na frente do rádio, na sala, e ouvíamos as notícias do front. Estremecíamos cada vez que sabíamos que outro homem da região havia morrido.

Foram dias de solidão para mim. Meus filhos eram muito pequenos para me proporcionar companhia. Eu não tinha ninguém com quem conversar, ninguém para me queixar, ninguém a quem pudesse pedir ajuda. Estava sozinha.

Mas Alexander ia salvar Asquonset. Fora por isso que eu casara com ele.

Então, onde estava o dinheiro?

Era uma boa pergunta. Não que eu afizesse. Não me cabia. Era a mulher. Era afilha. Cabia a meu pai. Afinal, fora ele quem negociara o acordo.

- Virá logo depois da guerra - declarou ele, com um grunhido infeliz, na única vez em que ousei perguntar.

Depositei toda a minha esperança nessa perspectiva. Alexander salvaria Asquonset depois que a guerra acabasse. E ao fazê-lo também salvaria a vida de meu pai. Só precisávamos esperar e aguentar firme por mais algum tempo.

Foi o que fizemos, Jeremiah e eu. Continuamos a tocar tudo, até que carl voltou e assumiu alguma responsabilidade. Para mim era ao mesmo tempo melhor e pior... melhor porque havia alguém para ajudar, pior porque esse alguém era Carl. Eu tinha de vê-lo todos os dias. Tinha de me lembrar do que poderia ter sido, e finalmente explicar para ele por que nunca seria.

Alexander salvaria Asquonset. Assim que voltasse da guerra ele investiria em videiras que dariam ao meu pai uma vida nova. Asquonset cresceria como um vinhedo, como nunca crescera como plantação de outras colheitas.

Em teoria, a promessa de Alexander não era vazia. Sua família tinha duas fábricas de sapatos bem-sucedidas, que permaneciam em plena atividade apesar das dificuldades enfrentadas durante a Depressão. E depois que a guerra começou, as fábricas dos Seebring deixaram de fabricar sapatos para uma população sem dinheiro e passaram a fabricar botinas, não apenas para os soldados americanos, mas também para os nossos aliados. E não conseguiam fabricar com a rapidez necessária, de tão grande que era a demanda.

A guerra acabou com a Depressão. Por mais terrível que possa parecer, foi verdade. As fábricas dos Seebring foram apenas duas das inúmeras beneficiadas. Não apenas nossos soldados precisavam ser vestidos, mas também tinham de ser alimentados. Tinham de ser armados. Tinham de receber veículos para combate em terra, no mar e no ar. Muitas empresas que antes enfrentavam dificuldades se tornaram subitamente prósperas. As fábricas da família de Alexander não foram as únicas.

A guerra terminou. As mesmas pessoas que economizavam moedas à

sombra da Depressão agora sentiam otimismo e contavam com um dinheiro de reserva. As mesmas fábricas que faziam uniformes passaram a produzir ternos para os homens usarem na vida civil ou vestidos para as mulheres usarem nas comemorações da paz. As mesmas fábricas que faziam botinas para o combate passaram a produzir sapatos de passeio.

Era o que deveria ter acontecido nas fábricas dos Seebring. Se tudo fosse planejado, eles teriam feito a conversão para a produção em tempo de paz e se tornariam ainda mais prósperos.

O que aconteceu? O pai de Alexander morreu no meio da guerra. Alexander escolheu um diretor para supervisionar tudo até a sua volta. Ele estava fascinado pelo jogo da espionagem e permaneceu na Europa por mais tempo do que eu gostaria.

Não. Não. É injusto de minha parte dizer isso. Não escreva essas palavras, Olivia. Alexander não brincava de espião. Fazia uma coisa que precisava ser feita. Recolher provas para os julgamentos dos crimes de guerra era importante. As atrocidades do Terceiro Reich tinham de ser punidas.

Mas a presença de Alexander ali criou um vazio aqui. Se ele voltasse ao final da guerra, junto com os outros soldados, as fábricas poderiam ser salvas. Mas, quando ele voltou, o dano já era irreversível. O diretor escolhido por ele fugiu com os lucros, e a conversão que aproveitaria a prosperidade do pós-guerra nunca ocorreu. Quando Alexander voltou, as fábricas já haviam fechado.

Já lhe falei sobre o primeiro dia em que vi Carl. Sobre o dia em que ele partiu para a guerra e sobre o dia em que casei com outro homem. Agora me deixe falar sobre o dia em que descobri que tudo não passara de um desperdício, que renunciara a carl por nada.

Foi num domingo. Alexander voltara há um mês, mas saía quase todos os dias para ver suas fábricas. Pensávamos que estavam em plena operação e que ele apenas efetuava ajustamentos no que fora feito durante sua ausência. Ele partia com um sorriso pela manhã e voltava com um sorriso à noite.

Na verdade, nós éramos a menor de suas preocupações naquele momento. Perdera a empresa da família. Quebrara. Alexander levou um mês tentando salvar alguma coisa, qualquer coisa, antes de aceitar esse fato. E precisava nos dar a notícia. E que melhor dia para fazer isso do que num domingo? O domingo era sagrado. Era um dia para ir à igreja, um dia para compreender e perdoar.

Fomos à igreja e voltamos para o almoço em casa. Meu pai estava muito fraco para ir à igreja - a esta altura, quase nunca saía de casa -, mas se juntou a nós à mesa do almoço. Alexander esperou até acabarmos de comer. As crianças foram tirar seus cochilos. Arrumei a cozinha.

Al escutava o rádio com meu pai. Assim que voltei, ele desligou o rádio. Voltou à sua cadeira, inclinou-se para a frente, abaixando a cabeça apenas um pouco.

- Tenho más notícias - anunciou ele.

E nos contou tudo o que o diretor fizera. Falou durante muito tempo, relatando suas tentativas de recuperar o prejuízo. Repetiu em detalhes as conversas que tivera com os operários. Contou que procurara a polícia, mas de nada adiantara. Reconheceu a raiva e a frustração que sentia.

Escutei atentamente, mas levei algum tempo para absorver as palavras. Afinal, Alexander ia salvar Asquonset. Daria o que meu pai mais precisava. Fora por isso que eu casara com ele, em vez de esperar por Carl. Só que Alexander não tinha dinheiro. Não podia salvar Asquonset.

Meu pai ficou totalmente branco. Depois de três tentativas, e mesmo assim só com a minha ajuda, conseguiu se levantar. Estava magro demais, encurvado, e tremia tanto que comecei a falar em voz alta o que me passava pela cabeça apenas para tranquilizá-lo.

- Arrumaremos o dinheiro - garanti. - Conseguiremos suas videiras. Não se preocupe. Daremos um jeito. Vá deitar agora. Precisa recuperar as forças para dizer a Jeremiah, quando as videiras chegarem, onde quer que sejam plantadas.

Ele não disse nada. Mantinha a cabeça virada para o outro lado, os olhos vazios. Compreendi que havia acabado; ele desistira.

Fiquei desesperada. Era meu pai, eu o amava, e podia vê-lo morrendo diante de meus olhos. Ajudei-o a deitar e fiquei sentada ao seu lado até que as crianças acordaram. A esta altura, Alexanderjá exibia de novo sua personalidade exuberante.

O que não acontecia comigo. Precisava pensar. Precisava ficar sozinha.

Pedi a ele para tomar conta das crianças. Mas Alexander precisava sair para se encontrar com um companheiro do tempo de guerra em Newport.

Arrumei as crianças para sairmos. Brad tinha quase cinco anos. Podia andar sozinho e em geral corria na frente de todo mundo. Levei Susanne no colo. Ela só tinha dois anos.

Segui na direção do mar. Andamos e andamos. Era uma tarde agradável de setembro, ensolarada, mas fresca. Ao chegarmos na praia, subimos pelos rochedos, até um ponto em que podíamos sentar e contemplar as ondas sem sermos atingidos pela espuma.

Lembro que fiquei impressionada pela força das ondas lançando-se contra os rochedos, com os estrondos repetidos, impressionada com a beleza da cena. Claro que beleza era a última coisa que eu sentia por dentro. Sentia-me vazia e desolada. Sentia-me impotente. Sentada ali, naquele rochedo, fui dominada pelo desespero.

Pensei em saltar no mar.

Por um minuto inteiro... pensei em me jogar no mar.

E foi então que Brad passou os braços por meu pescoço. O mar O assustava. Ele precisava de uma segurança.

E isso foi suficiente para me fazer recuperar o controle.

Antes que pudesse pensar em me jogar no mar outra vez, peguei os dois no colo e voltei. Não sei onde encontrei forças para carregar os dois, mas foi o que fiz. E quando voltei para a casa da fazenda já havia encontrado uma nova determinação.

Foi uma experiência de epifania.

Foi uma experiência de epifania, escreveu Olivia. Recostou-se na cadeira. Natalie sempre lhe parecera otimista. E as pessoas otimistas não pensavam em suicídio.

Ela levantou e inclinou-se para a janela. Podia avistar Natalie a distância, uma figura elegante, circulando por entre as fileiras de videiras junto com a designer que estava criando novos rótulos para os vinhos. Passeavam pelo vinhedo há quase uma hora. Natalie queria que a mulher tivesse uma noção da propriedade antes de começar o trabalho.

Uma experiência de epifania. Olivia procurara a palavra no dicionário para saber a grafia certa. Ao mesmo tempo, verificara o significado. Uma experiência de epifania era uma percepção profunda. Um evento simples com um significado profundo podia ser considerado uma epifania. E o acontecimento que mudava a vida de uma pessoa era sem dúvida uma epifania.

Ela queria ouvir mais. Natalie prometera que voltaria, mas ainda estava com a diretora de arte.

Tess teria de almoçar antes de ir para o clube. Uma cozinheira chegara e fora embora no mesmo dia, uma doce mulher vinda de uma lanchonete, que não aguentara a pressão. Natalie estava no processo de contratar outra. Enquanto isso, depois de muitos dias comprando comida na lanchonete na encruzilhada, Olivia chegara à conclusão de que podia pelo menos fazer sanduíches de atum. Natalie e carl haviam gostado.

Ela encontrou latas de atum na despensa e maionese na geladeira, misturou as duas coisas, passou no pão e acrescentou alface. Cortou cada sanduíche ao meio. Nada de luxo. Nada de gourmet. O almoço não era sua especialidade.

Lia o jornal, à espera de Tess, quando Simon entrou. Ele hesitou quando a viu, mas depois atravessou a cozinha até a geladeira, pegou uma garrafa de água mineral, abriu-a e bebeu tudo.

Ele estava suado, a camiseta molhada, gotas de suor aparecendo na pele. Os cabelos molhados pareciam mais escuros do que castanho-avermelhados agora. As faces estavam coradas por cima do bronzeado de julho, Olivia sentiu o sangue subitamente quente. Especulou por que essa química funcionava com alguns homens, mas não com outros. Não restava a menor dúvida de que sentia uma intensa atração por aquele.

- Está quente lá fora - disse ele quando terminou de tomar a água. - Quem fez esses sanduíches?

- Fui eu. - Olivia largou o jornal. - Pode comer, mas o risco é seu. Não sou uma boa cozinheira.

Embora ela gostasse de ser. Seria maravilhoso se pudesse fazer pratos incríveis. Os homens adoravam a chamada comida de casa. Mas também adoravam cabelos louros compridos, o que ela também não tinha. Simon abriu um sanduíche.

- Nada pode sair errado com pasta de atum.

- Tem razão, mas também se pode fazer muito mais do que eu fiz. Madalena fazia uma coisa maravilhosa. Mas não quis me dizer o que era.

- Ela acrescentava coentro.

- Coentro?

- Misturado com a maionese.

- Ahn...

Inibida, Olivia cruzou os braços. Mas logo os descruzou. Cruzou as mãos no colo. Simon observava-a. Todo suado, ele era deslumbrante. Sentindo-se o oposto, Olivia desejou ter deixado os cabelos crescerem um pouco, pelo menos até a gola.

- Como estão os gatinhos? - perguntou ela, ansiosa em escapar daquele momento de constrangimento.

- Bem pequenos. - Ele esticou o queixo na direção dos sanduíches. - Posso?

- À vontade.

Coentro... Ela não sabia como era o coentro, mas isso podia ser resolvido com a maior facilidade. Misturaria o coentro com a maionese. De qualquer forma, com ou sem coentro, Simon parecia estar gostando do sanduíche. Ansiosa em preencher o silêncio, para que ele não pensasse que esperava por um elogio, Olivia comentou:

- Natalie adorou saber que Buck era fêmea.

- Sei disso. Ela já me falou três vezes. Acho que não vou poder esquecer.

Mas ele não parecia aborrecido. Ao contrário, parecia divertido, e embora não estivesse sorrindo dava a impressão de que poderia sorrir a qualquer momento.

Olivia esperou, na expectativa de contemplar o sorriso.

Mas logo os olhos de Simon fixaram-se em sua boca e ela esqueceu a expectativa de um sorriso.

- Onde está Natalie? - perguntou ela, precisando de uma distração. - Ainda lá fora?

- Isso mesmo.

Simon pegou outra metade de um sanduíche. Olivia olhou para o relógio.

- Onde está Tess?

Era uma pergunta retórica, e por isso ela ficou surpresa ao descobrir que Simon tinha a resposta.

- Em minha casa. Ela queria ver os gatinhos. Mostrei o caminho pelo bosque.

- Talvez não tenha sido uma ideia sensata. Ela pode aparecer em sua casa mais do que você gostaria. Está fascinada pelos gatinhos. Não falou de outra coisa durante o café da manhã.

- Por que não leva um quando puderem ser desmamados? Melhor ainda, leve dois. Ou os cinco.

- Não podemos. Não temos uma casa nossa. E nem sei onde poderemos estar no outono. Alguns senhorios detestam gatos.

- Tem seis semanas para decidir. - Simon ergueu a metade de sanduíche enquanto se encaminhava para a porta. - Está ótimo. A verdade é que nunca fui fã de coentro. Obrigado pelo almoço. - Foi uma experiência de epifania.

Olivia leu em voz alta para lembrar a Natalie onde haviam parado. Afastou-se da tela do computador e foi se acomodar numa das poltronas com papel e caneta. Dera comida a Tess e levara-a para o clube. Tirara Simon dos pensamentos. Era tempo de trabalhar.

- Pensou mesmo em suicídio?

Natalie alisou o short de linho enquanto franzia a testa.

- Por um minuto. Apenas por um minuto. Sentia uma horrível angústia, um imenso vazio, uma sensação de perda. Estava cansada. E com medo.

- De quê?

- Do futuro. Durante toda a ausência de Alexander, eu imaginara como seria nossa vida. Talvez não fosse um quadro dos mais bonitos, mas era uma das maneiras de racionalizar a perda de Carl. A perda seria compensada pelo que eu teria. Subitamente, não seria mais. E todo o quadro... - ela gesticulou, frenética - ... todo o quadro se dissolveu.

Natalie abaixou as mãos. Seu rosto refletia a lembrança daquele sofrimento antigo.

A vida de Olivia não fora desprovida de sofrimento. Sentira o vazio e a perda, o cansaço e o medo. Mas Natalie devia ter sentido muito mais se chegara a ponto de cogitar o suicídio.

A diferença, ela compreendeu, estava nos altos e baixos. Natalie sentira os extremos. Fazia sentido que alguém que conhecera o tipo de felicidade que ela tivera com carl descobrisse que era insuportável a baixa da desilusão total.

- Seja como for, aconteceu apenas por um minuto e logo passou

- continuou Natalie. - Durante a volta para casa, naquele dia, carregando as crianças, reformulei minha perspectiva da vida. Até aquele momento, depositara minhas esperanças em outras pessoas. Contara com meu pai, depois com Carl, depois com Alexander. Acatara o que minha mãe dissera e tomara uma decisão que não deveria ter tomado. Mas a decisão foi minha. Quero que isso fique bem claro no que você escrever. Minha mãe não me obrigou a casar com Alexander. A decisão foi minha.

Natalie fez uma pausa.

- É mesmo? - estimulou Olivia, depois de um momento.

- Mas a decisão mais importante foi naquele dia. Sentada naquele rochedo, com o vento soprando forte e as ondas explodindo lá embaixo, descobri-me numa encruzilhada. E optei pela vida. Mas não apenas qualquer vida. Queria uma vida boa. E prometi a mim mesma que a teria.

Olivia viu a parte seguinte da história se abrindo, mas se conteve. Uma importante questão persistia.

- Considerou o divórcio?

- Não. Eu casara com Alexander por minha livre e espontânea vontade.

- Mas fez isso com base nas falsas promessas que ele fez.

- Não eram falsas na ocasião em que foram feitas. Ele tencionava mesmo desenvolver o vinhedo com o dinheiro dos sapatos. Não mentira para nós.

- Mas ele a desapontou depois. Não ficou furiosa?

- Furiosa? Talvez com a situação, não com Alexander. Como podia ficar com raiva de alguém que agira de boa-fé? Alguém que também sofrera uma grande perda? Presumira que ele era um bom administrador, o que não era o caso. Mas ele tinha o coração no lugar certo.

- Disse que ele permaneceu na Europa por mais tempo do que deveria.

- Não foi bem assim - corrigiu Natalie, paciente. - O que eu disse foi que as coisas poderiam ter sido diferentes se ele não passasse tanto tempo longe. Mas ele não permaneceu na ociosidade lá. O que fazia na Europa era importante.

- E seu pai? Sua mãe disse que seu pai morreria se não tivesse mais dinheiro e novas videiras. Não culpou Alexander pela morte dele?

Natalie deu um sorriso triste.

- Alexander não teve nada a ver com o dinheiro que meu pai perdeu quando o mercado de ações entrou em colapso. Esse foi o começo do declínio de meu pai, mas foi obra sua. Ele era o presidente do banco. Aprovava todas as grandes decisões. Alexander nada teve a ver com os erros de meu pai como agricultor. Quanto às matrizes da Europa, ele apenas comprava o que meu pai determinava. Não foi culpa sua que aquelas videiras fossem inadequadas para o microclima daqui. E não foi ele quem disse a meu pai para investir mais e mais dinheiro nisso. Além do mais... - Natalie deixou escapar um suspiro gentil - ... meu pai não morreu. Resistiu durante mais alguns anos, provavelmente por causa de Alexander.

Olivia ficou surpresa.

- Ele continuou a viver?

- Isso mesmo. Alexander era bom para ele. Sentava com meu pai e falava... e quando Alexander falava, a pessoa ouvia... e acreditava e sorria. Ele dizia que Asquonset estava à beira da grandeza e que as novas videiras produziam uvas incomparáveis. Apontava para uma garrafa de vinho francês e garantia que era apenas uma questão de tempo antes que o nosso vinho tivesse a mesma demanda. A maior parte era invenção...

Natalie fez uma pausa, dando um sorriso afetuoso.

- Mas meu pai não saía mais para os campos, e por isso não podia saber a diferença. Escutava e sentia-se melhor. Alexander até o levava à cidade, o que eu nunca pude fazer, porque ele era frágil demais. carl também não podia, porque sempre tinha muita coisa para fazer. Mas Al tinha o tempo e a paciência, podia levantá-lo e levá-lo para o carro. Instalava-o numa cadeira no Pindman s. Admito que Alexander ganhava alguma coisa com isso. Meu pai era uma audiência cativa garantida. Mesmo assim, à sua maneira, Al proporcionou a meu pai uma nova razão para viver.

- Fico contente em saber disso.

- Mas ainda não aceita que eu não tenha me divorciado dele para casar com Carl.

- Não - declarou Olivia, determinada a não fazer julgamentos.

- Você tinha suas razões. Apenas não sei se eu faria a mesma coisa.

- Isso acontece porque os tempos mudaram. As pessoas se divorciam por qualquer coisa. Vemos isso acontecer durante todo o tempo, nos jornais e na televisão, e lemos nos livros. Tornou-se comum. Parece natural que um dos dois saia de casa ao primeiro sinal de problema. Minha geração não era assim. Reconheço que era mais difícil se divorciar naquele tempo, mas não foi por isso que continuei com Alexander. E também não foi pelas crianças... embora eu deva admitir que, se não fosse por elas, Al e eu poderíamos ter nos afastado. Permaneci com ele porque era meu marido. Respeitávamos a instituição do casamento naquele tempo. Talvez fosse por causa da guerra. Nossos maridos haviam lutado para que pudéssemos ser livres.

Haviam arriscado a vida. Testemunhado horrores que só podíamos imaginar. Devíamos nossa lealdade a eles. O divórcio não era uma opção.

- Mesmo que ele fosse abusivo?

- Ele não era. Não bebia. Não jogava. Era um bom homem, embora sem tino para os negócios.

- Mas você nem sequer pensou em divórcio?

- Não era uma opção viável - insistiu Natalie. - Eu amava Carl. Se fosse capaz de voltar no tempo, teria casado com ele. Mas não podia mudar a situação. Era casada com Alexander. Tinha de viver com isso. E tinha de tirar o melhor proveito possível. Olhe para você. Não fez a mesma coisa?

Olivia ficou perplexa com a mudança de foco.

- Eu?

- Queria que sua mãe a amasse, mas ela partiu para algum lugar desconhecido. Queria que o pai de Tess a amasse, mas isso não aconteceu. Por isso, ficou sem apoio familiar e teve uma criança que era totalmente dependente de você. Não podia mudar as coisas. Não podia pedir à sua mãe para tomar conta da criança nos momentos de tensão. Não podia simplesmente... recrutar outro homem para pôr pão na mesa e bancar o pai de Tess. Por isso, foi trabalhar. Cuidou de Tess sozinha. Respeito isso.

- Respeita? - indagou Olivia com um sorriso.

- Claro. Foi uma das razões pelas quais a contratei. Posso não saber dos detalhes, mas senti uma independência em você.

O sorriso de Olivia se desvaneceu.

- Nem sempre é divertido ser independente. Parece que passei toda a minha vida procurando alguém em quem me apoiar.

- Mas não caiu sem isso. ?

- Não. Não podia cair. Tinha Tess. Ela precisava de mim.

- Assim como eu tinha Asquonset. Que também precisava de mim.

Creio que foi isso que me manteve à tona, mais do que qualquer outra coisa. Eu amava meus filhos, mas sabia que eles cresceriam apesar de mim, As crianças fazem isso. Independentemente do que seus pais querem, tornam-se adultas, adquirem mentalidade própria. Asquonset era diferente. Não tinha um cérebro. Não podia funcionar por conta própria. Se não fizéssemos nada, o mato invadiria tudo. Para dar frutos, era preciso que alguém assumisse o comando.

Quem podia fazer isso? Meu pai era frágil e doente. Jeremiah tinha de cuidar de Brida. Alexander ficava paralisado em questões de dinheiro, e carl recusava-se a assumir um papel superior a ele.

Assim, eu era a única que restava. Trabalhara na fazenda durante a guerra e conhecia todos os aspectos da operação. Ou seja, tinha conhecimento e tinha determinação... e a determinação tinha pouco a ver com o cultivo de batatas e milho. Queria cultivar uvas. As uvas haviam sido a razão para o meu casamento com Alexander. Que melhor maneira de justificar esse casamento do que alcançar o sucesso no cultivo das uvas? Mas não podíamos comprar as videiras certas. Não tínhamos dinheiro. Isto é, não tínhamos o tipo de dinheiro que esperávamos, mas contávamos com outra coisa. As fábricas dos Seebring estavam silenciosas e escuras, mas eram estruturas sólidas, em terrenos sólidos, no meio de uma abundante força de trabalho. Alguém devia querer tirá-las de nossas mãos.

Alexander relutava em vender. Aquelas fábricas tinham o nome da família. Até hoje, acho que uma parte dele sonhava que poderia reabrir as fábricas, de alguma forma, e fazer com que voltassem a prosperar. Não me pergunte como ele pensava que isso poderia acontecer, mas também Alexander nunca foi de procurar soluções. Mas sonhava. E era orgulhoso. Enquanto possuísse aquelas fábricas, possuía alguma coisa.

Convenci-o de que possuir Asquonset era alguma coisa. Pintei imagens grandiosas do que a propriedade poderia se tornar se investíssemos toda a nossa energia. Disse-lhe que viajaria pela Europa para comprar videiras, como fizera para meu pai, só que desta vez seríamos mais cuidadosos com nossas escolhas. Mostrei uma planta da fazenda, com os campos que achava que poderiam produzir uvas, e expliquei por quê.

Como eu sabia de tudo isso? Meu pai tinha livros. Tinha cartas.

Escrevera tratados.

- Infelizmente, era um banqueiro. Era um matemático, bom com números, mas não era capaz de ler o material e interpretá-lo em relação às nossas terras. carl podia e foi o que fez. Passou o material para mim e também compreendi. Fazia sentido que uma uva que prosperava no vale de Napa não se daria bem aqui. Nem uma uva que vicejava nas regiões mais quentes da Itália e da França. São climas mediterrâneos, mais estáveis, com verões quentes e secos, invernos frios e chuvosos. Nosso clima não é assim. É mais parecido com o clima do cultivo na Borgonha, Champagne e Reno, onde o ar é mais frio e a temporada do cultivo é mais curta. Precisávamos de videiras que prosperassem nessas regiões, porque seu clima era comparável ao nosso.

Expliquei tudo isso para Alexander, e ele compreendeu. Percebeu o potencial de sucesso no cultivo de uvas aqui. Mais importante ainda, gostou da imagem que descrevi de sua participação.

Por isso, ele desistiu de manter as fábricas. Tivemos reuniões com banqueiros locais, e Alexander apresentou meus argumentos sobre os prédios, os terrenos e a força de trabalho. Convenceu-os de que as duas fábricas valeriam um bom dinheiro para um empresário querendo aproveitar o surto de prosperidade do pós-guerra. Ele era veemente e persuasivo. Mas também esse era seu forte. Também era um jogador de pôquer e sabia como blefar.

Conseguimos cinquenta por cento a mais na venda dos prédios do que pensáramos que poderíamos obter... o que não chegava a ser grande coisa, mas já era um começo. Tomamos emprestado do banco o resto de que precisávamos.

Falo no plural, mas Alexander cuidou dessa parte sozinho. Ele era um homem. Eu era uma mulher. Quando se tratava de empréstimos bancários, isso fazia uma enorme diferença.

E me incomodava? Não. O importante era obter o dinheiro. Eu não fazia aquilo por orgulho. Fazia por Asquonset.

Além do mais, eu tinha sorte. Muitas mulheres que conhecia estavam desempregadas. Haviam ingressado na força de trabalho durante a guerra, quando os homens eram poucos e os empregos, abundantes. Mas os homens voltaram para casa e as muUieres ficaram sem emprego. Era uma injustiça. O que eu experimentava era apenas um contratempo. Há uma enorme diferença.

Além do mais, Alexander precisava se sentir importante. Ele deixou para trás o fechamento das fábricas e se concentrou no vinhedo, como se a primeira coisa fosse uma operação deliberada para facilitar a última.

Isso mesmo, havia uma questão de orgulho para ele. Tinha um ego considerável.

Por favor, Olivia, tome cuidado quando escrever essa parte. Posso parecer crítica, mas não é assim que me sinto. Susanne e Greg tinham a maior consideração pelo pai, e ele merecia. O que Alexander fazia, fazia bem. Foi um poderoso instrumento de relações públicas para Asquonset. Eu nunca seria capaz de viajar tanto quanto ele. Não me interessava. Sentia-me mais feliz quando ficava em casa. Por quê? Por causa de Carl?

Não. Por causa do vinhedo. À medida que meus filhos cresciam, as uvas tomaram seu lugar.

Mas voltemos a Alexander. Seu ego não era uma coisa excepcional. Muitos homens precisam de adulação. É importante para as mulheres compreenderem isso e usarem em seu próprio benefício.

Você parece consternada. Por quê? Acha que parece uma atitude manipuladora?

Não é manipuladora, Olivia. É apenas uma questão de bom senso. Alexander era bom em determinadas coisas. Queria pensar que também era bom em outras. Se eu o deixava pensar assim, ele sentia-se melhor em relação a si mesmo. E, quando se sentia melhor em relação a si mesmo, não apenas fazia melhor aquilo que já fazia bem, mas também era de convivência mais fácil.

O que tornava minha vida mais fácil. É simples assim. Satisfeitas as necessidades de seu ego, ele sentia-se à vontade para me deixar fazer o que eu quisesse. E quando eu fazia o que queria sentia-me no controle.

Apoiávamos um ao outro.

- Mas isso é fazer um jogo - comentou Olivia. - Por que temos de agir assim?

- Não temos - respondeu Natalie. - Mas se entramos no jogo podemos vencer. Se recusamos, não temos a menor chance.

- Então o movimento feminista foi uma perda de tempo?

- Claro que não. Ensinou as mulheres a aspirarem. Abriu seus olhos para as possibilidades. Mas deixou de ser realista nos métodos para chegar lá. Num mundo ideal, as mulheres têm direitos iguais aos homens. Mas nosso mundo não é ideal. Ser realista significa trabalhar no sistema. Significa compreender as psiques envolvidas e usá-las. É o caso de Simon.

Olivia lançou um olhar perplexo para ela.

- O que Simon tem a ver com qualquer coisa?

- Ele é uma pessoa complexa. As mulheres querem que ele seja sensível e aberto, mas ele não é. Há razões para isso. Se compreendermos as razões, poderemos trabalhar para contorná-las e encontrar a abertura e o afeto.

- Presumo que esteja falando sobre a esposa e a filha.

- Em parte. Ele ficou desesperado quando elas morreram. Não quer ser vulnerável a esse tipo de dor outra vez. Por isso ergueu um muro.

Olivia percebera esse muro. Simon quase que o pusera na frente de seu nariz assim que chegara ao vinhedo.

- Qual é a outra parte?

- Sua infância. A mãe era uma pessoa adorável. Ana era daqui mesmo, uma mulher que casou tarde. Mas sabia o que queria, um marido e um filho. Desconfio de que era bastante sensata para saber o que carl sentia por mim, mas também foi bastante sensata para casar com ele assim mesmo. Ganhou um marido e um filho que a amavam. Isso dito, não tenho certeza de se algum dia ela acreditou plenamente nesse amor. Sempre se conteve até certo ponto.

- E acha que Simon também é predisposto a se conter?

- É possível.

- Ele fazia isso com Laura?

- Desconfio que sim. Ela era retraída. Não estava em sua natureza pressioná-lo.

Natalie fitou Olivia e sorriu por um minuto a mais do que o necessário. Olivia também sorriu.

- E está na minha? deliberada.

- Claro que está - insistiu Natalie. - Você me pressiona durante todo o tempo.

- Não é sobre isso que estou falando. Se quer bancar a casamenteira...

- Não quero. Estou apenas apresentando um argumento em relação aos homens.

- Deveria estar oferecendo uma sugestão sobre as mulheres.

- E estou. Porque as mulheres podem se sair muito melhor com os homens se compreendem como eles são. Tudo correu bem depois que compreendi que Alexander precisava ter seu ego afagado. Simon não precisa disso. Ele precisa ser estimulado.

- Não por mim. - Olivia pegou a caneta. - Quer falar mais agora ou prefere que eu volte a escrever?

O verão estava na metade. Olivia continuava a pensar naquela noite. Como podia deixar de pensar com o rumo que as perguntas de Tess assumiam? Estavam lendo À beira do riacho (On The Banks of Plum Creek), de Laura Ingalls Wilder, um dos livros prediletos de Tess. Mas os pensamentos da menina sempre voltavam aos gatinhos. No meio de um capítulo, ela levantava os olhos para a mãe e perguntava se podia ficar com um. Olivia repetia o argumento sobre apartamentos e gatos.

- Mas se nos mudássemos poderíamos encontrar um apartamento em que nos deixariam ter um gato. Quando saberemos se vamos nos mudar?

- Assim que eu souber onde vou trabalhar.

- E quando será isso?

- Em breve.

- Quando teremos notícias das escolas?

Olivia não sabia. E de repente, sem mais provocação do que as poucas perguntas de Tess, ela ficou preocupada. com mais tempo em Asquonset à frente do que para trás, ela se mantivera tranquila. Assegurara a si mesma que alguma coisa aconteceria, que os problemas sempre eram resolvidos, que teria um novo emprego no outono e Tess teria uma escola.

Agora o verão estava na metade e ela ainda não tinha nada. Precisava encontrar alguma coisa. Se não conseguisse, estaria perdida com esse objetivo ela levantou antes mesmo do amanhecer no dia seguinte. Subiu para o sótão, tomando cuidado para não acordar ninguém. Acendeu a luz, depois ligou o computador. Em poucos minutos estava surfando na Internet. Desta vez não poria todos os seus ovos no mesmo cesto. Nem mesmo em uma dúzia de cestos. Imprimiu os nomes e endereços de todos os museus que pôde encontrar. Fez a mesma coisa com as galerias de arte. Inseriu seu próprio disquete e imprimiu todas as cópias do currículo de que precisaria. Preparava uma nova carta de apresentação quando a porta foi aberta. Seu coração bateu forte - em grande parte de alívio por ter se vestido - antes mesmo de ver quem estava ali.

Era Simon.

- Por que eu sabia que era você?

- Porque ninguém mais é bastante doido para levantar tão cedo murmurou ele fechando a porta. - Vi a luz acesa. O que está fazendo?

Ele foi se postar atrás de Olivia e olhou para a tela. Ela quase a cobriu com as mãos, mas se conteve. Não seria uma atitude adulta.

- Não leia. Sou péssima na ortografia, totalmente dependente da verificação. Se ler isto, vai perguntar como posso escrever a história de Natalie. Mas o produto final é sempre...

- Psiu!

Ele pôs a mão no ombro de Olivia, que não disse mais nada. A mão permaneceu onde estava, mesmo depois que ele acabou de ler e se empertigou.

- Preciso de um emprego - murmurou Olivia, os olhos na tela.

- Natalie me contratou só até o Dia do Trabalho.

- Seu trabalho terá terminado até lá?

- Claro.

- Para onde você quer ir?

- Qualquer lugar serve. Mendigos não podem ser exigentes.

A mão se deslocou. Teria sido uma carícia... ou apenas um gesto de conforto?

- Por que fala assim? Possui uma habilidade. É uma artista.

- Artistas têm o hábito de viver à beira da inanição. Preciso alimentar, vestir e educar Tess.

Ela respirou fundo, assumiu um sorriso e levantou-se. Simon retirou a mão, o que tornava mais fácil para ela conversar.

- Arrumarei um emprego. Posso tentar alguma coisa inteiramente diferente.

- Por exemplo?

- Ser recepcionista. Ele parecia divertido.

- Num hotel?

- Por que não? Sou uma pessoa sociável. Posso arrumar ingressos para o teatro e limusines. Posso informar às pessoas sobre os lugares que devem ver e os que devem evitar. Posso recomendar restaurantes e fazer reservas. - Olivia sorria, deixando a imaginação viajar.

- Não seria divertido experimentar todos os restaurantes para saber quais devo recomendar?

- Creio que a maioria das recomendações é comprada e vendida.

- É uma posição cética. Eu não desempenharia minhas funções dessa maneira e faria com que todos os hóspedes soubessem disso. Não há comissão em meu turno. Direi sempre a verdade.

- E se o gosto dos hóspedes para restaurantes for diferente do seu? Ela deu de ombros.

- É inevitável que isso aconteça de vez em quando. Não se pode satisfazer todas as pessoas durante todo o tempo. E poderíamos residir ali mesmo, no hotel. Pode imaginar? Tess seria outra Eloise. Ela adorou essas histórias. Queria ir para Paris depois que leu Eloise in Paris. Mas acho que ela se contentaria com Nova York. Não seria sensacional viver no Plaza...

Simon silenciou-a com um beijo. Não foi uma surpresa total porque ele olhava para sua boca poucos segundos antes, mas isso não serviu para deixá-la preparada. Foi quente e terno, familiar de uma maneira como não deveria ter sido, com apenas um beijo antes.

Olivia sempre gostara de beijos assim. Quente e terno como uma gravura em tom de sépia de uma torta de maçã que acabara de sair do forno ou sentar com uma louça que já testemunhara gerações de uso. Era um fogo dançando e secando um par de luvas de lã com seu nome tricotado ou uma enorme caneca com chocolate quente, uma bola de creme boiando no meio. Quente e terno era o tipo de beijo tão gentil e doce que você sentia vontade de derreter, o tipo que fazia a mulher se encolher toda, o tipo que parecia se prolongar de uma maneira interminável, sem perder nem um pouco do calor. Era o tipo que fazia você se comprimir, ansiosa para que nunca mais acabasse, e depois provocava um sobressalto de surpresa quando terminava, porque você não entendia o que acontecera.

Simon também parecia surpreso, o que não respondia a qualquer questão.

- O que foi isto? - sussurrou ela.

- Não tenho a menor ideia.

Envolvendo-a com um dos braços, Simon passou os dedos da outra mão pelos cabelos de Olivia. Estavam crescendo, mas não bastante depressa.

- Eram compridos, desciam além dos ombros, até maio último. Eram bonitos, mas esquentavam muito. Fiquei impaciente uma noite e cortei tudo. Sou assim... impaciente e impulsiva. Talvez seja esse o meu problema.

Ele tornou a passar o polegar pela boca de Olivia, lentamente. Não parecia uma coisa impulsiva. Era excitante, da maneira mais profunda, mais incrível... tão quente quanto o beijo... e depois ele fez uma coisa tão incrível quanto o beijo. Olhando para a própria mão, ele deslizou-a da garganta para o peito, virou-a e passou o dorso pelo seio.

Olivia mal podia respirar. Pegou a mão de Simon e apertou-a com força contra seu corpo. Fechou os olhos e encostou a testa em seu peito.

- O que é isso? - murmurou ela.

- O que é z sso? - repetiu uma voz... e não era de Simon. Olivia levantou o rosto para descobrir que ele olhava para a porta.

Também olhou, receando que Natalie os tivesse flagrado. Mas não era Natalie quem estava parada ali. A semelhança era grande - mesma altura, mesmo formato de corpo, a mesma postura admirável, a mesma pele que parecia tão macia. Até o estilo de penteado era o mesmo, embora aquela mulher tivesse cabelos castanho-avermelhados, em vez de brancos. Olivia teve a sensação de que via Natalie como ela devia ter sido vinte anos antes. Susanne sorriu, divertida.

- Pensei que era mamãe aqui em cima, trabalhando desde cedo na lista de convidados. Você ficou vermelho, Simon.

- É você... - Simon postou-se na frente de Olivia, como se quisesse protegê-la. - Não sabia que viria.

- Mamãe também não sabe. Cheguei ontem à noite, bastante tarde. Pensei em subir até aqui, abrir a porta e surpreendê-la.

Os olhos fixaram-se em Olivia, as sobrancelhas arqueadas em indagação. Olivia já saíra de trás de Simon. Não queria ser protegida, o que era um ritual machista, embora copiasse o exemplo do controle de Simon. Estendeu a mão e disse:

- Sou Olivia.

- Calculei que era você. - O tom era sarcástico, mas o aperto de mão foi cordial. - Era isso ou uma nova criada, uma nova contadora ou uma nova trabalhadora nos campos.

Susanne deu um passo para trás.

- Mais alguma deserção?

- Madalena e Joaquim respondeu Olivia. Ela observou Susanne franzir as sobrancelhas e olhar para Simon.

Ele tornou a se postar na frente de Olivia.

- Natalie já contratou uma substituta.

- A segunda substituta - corrigiu Olivia, emparelhando com Simon. - Ela começa na próxima semana. Parece promissora. Trabalhou num restaurante em Pawtucket. A primeira só sabia fazer fast food. Não era capaz de preparar um jantar mais substancial.

Mas Susanne parecia não estar prestando atenção. Fitava Simon com uma expressão furiosa.

- Você é insuportável. Foi por isso que me telefonou. Disse que Natalie precisa de ajuda... mas o que ela precisa mesmo é de uma cozinheira.

- E você é a melhor - declarou Simon. - Mas não foi por isso que liguei. Outra cozinheira já está a caminho.

- Acreditarei quando ela chegar. - Susanne enfiou as mãos nos bolsos, como Olivia vira Natalie fazer dezenas de vezes. - Quer dizer que você e Simon...

- Não há nada demais entre Simon e eu.

Ele a apoiou.

- Não há nada acontecendo.

- Só estarei aqui durante o verão.

- E eu não posso aceitar nada mais profundo. - O sexo não precisa ser profundo.

Mas o comentário de Susanne era inaceitável para Olivia.

- Precisa sim. Deve ser.

- O que acabou de ver aqui não foi sexo - acrescentou Simon. Foi apenas...

- Um abraço - propôs Olivia. - Eu me sentia desanimada porque ainda não arrumei um emprego para o outono. Por isso comecei a trabalhar aqui antes do amanhecer. Simon apenas tentava fazer com que eu me sentisse melhor.

- Posso apostar - murmurou Susanne. - E devo dizer que é um novo uso desta sala para mim... mas, por tudo o que sei, pode ser um ninho de amor há anos. Preciso tomar um café.

Ela saiu fechando a porta.

Cinco minutos depois, Olivia encontrou Susanne na cozinha, com um bule de café já pronto.

- Desculpe - disse ela. - Não deveria ter encontrado uma cena como aquela em sua própria casa.

Susanne abriu o armário de mantimentos.

- Então admite que era alguma coisa?

- Admito. - Seria um absurdo negar. - Mas, por minha própria vida, não quero que aconteça de novo.

Olivia encostou a mão no queixo.

- Estou até aqui com outras coisas na cabeça, além de Simon. Pelo que vale, ele nunca esteve antes naquela sala comigo. E não creio que sua mãe tenha ido até lá com Carl, pelo menos não para um amasso.

- Mas não pode ter certeza, não é mesmo? - Susanne segurava a porta do armário. - Um amasso... é uma noção absurda para alguém da idade de mamãe.

- Não acho. - Olivia sorriu. - Não é nem um pouco absurda. Espero poder fazer uma porção de coisas quando tiver a idade dela. pode imaginar a liberdade de ter setenta e seis anos? Reconheço que é preciso ter saúde para aproveitar a maior parte. Mas mesmo que você não tenha há um lado positivo nas coisas. Não precisa se preocupar com o que as pessoas pensam. Pode fazer o que quiser.

- E acha que isso é um aspecto positivo? - perguntou Susanne.

- O que me diz das pessoas que você magoa no processo?

- Eu não me referia a Natalie. Falava da ideia de... usar rosa-shocking aos oitenta e cinco anos.

- Isso é diferente de casar de novo seis meses depois de enviuvar? Susanne abria a geladeira agora, avaliando o conteúdo. Como Olivia não respondesse, ela acrescentou:

- Peguei você.

Ela tirou ovos e leite da geladeira. Olivia acomodou-se na beira de um dos bancos no balcão.

- Precisa ler a história de Natalie. Depois que o fizer, seis meses não vão parecer tão depressa assim. Posso lhe mostrar o que escrevi até agora, se quiser.

Susanne pegou tigelas num armário por baixo do balcão.

- Obrigada, mas tenho muita coisa para ler antes disso.

- Explicaria o que está acontecendo.

- Se minha mãe quiser explicar as coisas, pode fazê-lo pessoalmente.

- Ela tem dificuldades para falar sobre algumas coisas. Tive de pressionar e persuadir. - Olivia sorriu. - Ela ficará contente de vê-la aqui. Seu marido também veio?

Susanne pegou um copo de medidas no armário.

- Não. Ele está trabalhando.

- Seus filhos virão?

- Não. - Ela passou manteiga na assadeira. - Também estão trabalhando. Caso ainda não tenha percebido, sou a única na família que não trabalha. Cuidar da casa não é considerado trabalho hoje em dia.

Ela espalhou a manteiga com uma toalha de papel.

- Isso demonstra o quanto eles sabem - comentou Olivia. Cuidar da casa é a profissão mais antiga do mundo.

- Pensei que fosse a prostituição.

- Não é. A mais antiga é cuidar da casa. Pense um pouco a respeito. Os homens de Neanderthal saíam para caçar enquanto suas mulheres faziam... o quê? Mantinham a caverna arrumada, cozinhavam as refeições, criavam os filhos. Se não fizessem isso, morreriam de fome. Afinal, a carne crua fazia mal; e se os filhos não fossem criados não haveria descendentes. Seria o fim da espécie. Os homens poderiam ter filhos sem nós? Não. Seus corpos são totalmente mal-equipados para isso. E nós? Podemos fazer qualquer coisa que quisermos. Podemos limpar, cozinhar e criar filhos. Podemos fazer roupas e vender roupas... e lançar roupas. Voltando à minha analogia, podemos também caçar... não sei quanto a você, mas eu, diga-se de passagem, tremeria toda se tivesse de matar um veado. Mas é claro qu