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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O8/15 - A GUERRA / Hans Hellmut Kirst
O8/15 - A GUERRA / Hans Hellmut Kirst

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O8/15 - A GUERRA

 

08/15 é a referência de uma espingarda-metralhadora utilizada pelo exército alemão

 

Um camião desconhecido estava parado no meio da estrada, monte esquecido de chapas de ferro, borracha e lona. Colava-se-lhe às rodas uma mistura pastosa de neve e lama esmagadas pelas colunas de viaturas.

 

Chegado a este obstáculo, o primeiro-sargento Asch olhou para o seu motorista e levantou a mão. O outro travava já o tractor. O canhão que lhe estava ligado oscilou um momento e imobilizou-se.

 

Quem foi o idiota que deixou aqui a carripana? perguntou o motorista.

 

Já se vai ver isso  respondeu Asch enquanto  saltava do assento.

 

Sobre o tractor, os soldados, envolvidos nos seus capotes como se estivessem metidos em sacos, pouca atenção deram ao incidente. Abrir a boca parecia-lhes absolutamente supérfluo. Contentavam-se em esperar. Já estavam habituados a isso.

 

Asch arrastou-se até ao blindado. Visto de perto, este montão de ferro velho era um carro de comando Mercedes. O capot estava ainda quente. As portas encontravam-se fechadas, mas a capota tinha buracos. Asch pôde ver no interior duas malas e um saco de lona de velas bem cheio.

 

O condutor buzinou uma vez mais; depois parou bruscamente o motor. Inclinando-se sobre o volante, perguntou:

 

Será preciso empurrar para a vala esse piolho rastejante?


Divertia-te, hem?

 

Se me deres ordem, faço-o com prazer  respondeu o motorista sem hesitar.

 

Asch olhava em volta. O que nele se notava primeiro era a barba mal feita. O seu olhar era frio, irónico, um pouco fatigado.

 

A aldeia, situada a alguns quilómetros da frente, parecia abandonada. Mas por detrás das casas escondiam-se viaturas militares. Aqui e além o fumo escapava-se das chaminés.

 

A guerra dormia o seu sono de Inverno e era evidente que ninguém por estes sítios desejava incomodá-la. Mas a Primavera aproximava-se; ia sacudi-la e dizer-lhe: «De pé!» Este verdadeiro sono de Inverno russo não podia durar.

 

Perto do camião abandonado erguia-se uma cabana que parecia prestes a afundar-se na terra. Suspenso da porta via-se um bocado de lona onde tinham pintado toscamente um T.

 

Os tipos devem ter ido dar uma telefonadela  disse o motorista, que sabia, como. toda a gente, que aquele T pintado  de amarelo  indicava um  posto  de ligação telefónica.  Talvez estejam a combinar um encontro.

 

Riu, pois a sua frase pretendia ser um gracejo.

 

Asch riu também. Depois encaminhou-se para a cabana, em cuja parede estava desenhado a giz outro T. com um encontrão abriu a porta calçada, que foi bater contra a parede, fazendo cair cal.

 

O local onde penetrou estava empestado do cheiro de peúgas e de tabaco. Um calor de curral saltou-lhe ao rosto. Uma penumbra sonolenta envolveu-o. Precisou de alguns segundos para reconhecer onde se encontrava.

 

Fecha  a porta,  meu velho  disse  uma voz rude e simpática.  Não estás em tua casa, aqui.

 

Asch empurrou a porta atrás de si. Houve um estrondo e novamente caiu cal. Depois examinou o que o rodeava, como se tivesse intenção de comprar.

 

A casa estava abarrotada de soldados estendidos no chão. Estavam deitados, fumando, matutando, aborrecendo-se, jogando às cartas, gritando uns com os outros. E nenhum parecia preocupar-se com o que faziam os mais. Asch teve a impressão de haver sido introduzido à força numa lata de sardinhas.

 

Perto da porta, exactamente por baixo duma das janelas, encontrava-se um pequeno posto de dez cavilhas. Pouco distante, um soldado coberto de um capote de pele coçada encostava-se a um prumo de madeira. Diante dele estava um outro indivíduo vestido com um capote de tecido ofensivamente novo, esforçando-se por conseguir ligação. Fazia-o com tal energia que o boné lhe escorregou da cabeça. Era um boné de oficial.

 

Asch não se preocupou com o oficial, que gritava ao telefone. Perguntou, no meio da algazarra:

 

A quem pertence a carripana que está lá fora? Ninguém   respondeu.   Ninguém   mostrou   ter   reparado nele. Uma vez dentro da lata, era uma sardinha como as outras.

 

Asch elevou o tom:

 

Perguntei  repetiu  a quem pertence a carripana que está lá fora!

 

É provável que seja a minha  respondeu finalmente o soldado do capote de pele roído pelas traças, sem mudar, pouco que fosse, de posição.

 

Então, fazes favor de sair e de arrumá-la a um lado da estrada. Impede-nos de passar.

 

A estrada é bastante larga. Toda a gente pode passar.

 

Um tractor não pode  disse Asch, e a sua voz tornou-se   mais   enérgica.   Vamos!   Vamos!   Desimpede   o caminho.  Tenho  pouca vontade  de  derrapar para  a vala só porque tu és demasiado mandrião para mudares de sítio a tua trotineta.

Não é uma trotineta. É um carro de comando Mercedes  disse o homem sem se mover um centímetro.

 

Ou  sais,  ou  atiro-o  para  fora  da estrada.

 

O oficial, que ainda não obtivera a ligação, sentiu-se tocado:

 

Cale a boca, peço-lhe  disse com bastante secura, mas também com um certo bom humor de chefe e de camarada.  Não vê que estou a telefonar?

 

Sim, vejo.

 

Então não esteja constantemente a incomodar-me.

 

Asch fez um gesto de assentimento. Depois, aproximando-se do motorista do Mercedes, tão perto que o outro lhe sentiu a respiração e tentou recuar, perguntou:

 

Então,   rapazinho,   vens  ou  não  vens?   Ou  quererás que te ensine a correr?

 

Não  tem  de  dar ordens  ao  meu  motorista   disse o oficial num tom arrogante.  Se alguém lhas pode dar, sou eu.

 

Então dê-as.

 

O oficial deixou cair o auscultador e olhou Asch sem compreender.

 

Que significa esse tom? perguntou. Não vê que tem diante de si um oficial?

 

Vejo perfeitamente.

 

Sou capitão.

 

Sim, meu capitão.

 

Pouco a pouco os outros soldados começavam a interessar-se pela discussão. É certo que, como telefonistas, estavam habituados a conversas deste género, sobretudo em dias críticos, mas nesses casos havia sempre alguns quilómetros de fio entre os antagonistas, o que, como é sabido, dá coragem. Ao contrário, esta explicação, por assim dizer de olhos nos olhos, era muito mais extraordinária e merecia interesse.

 

Meu capitão  disse o sargento com serenidade, com o desejo de dar tão amavelmente quanto possível as lições que não podia evitar, as nossas baterias estão instaladas a quatro quilómetros da frente.

 

Pertence à artilharia?

 

Exactamente.

 

Talvez ao regimento Luschke?

 

Exactamente.

 

Não esqueça que sou capitão.

 

Não, meu capitão.

 

Muito  bem!   exclamou o  oficial, e no  seu  rosto liso,   embora   um   pouco   ossudo,   passou   um   clarão   de triunfo. É da 3.ª bateria? Precisamente da 3.ª bateria? É formidável!

 

Sim, meu capitão  respondeu Asch, impassível. Presentemente   apenas   temos   três   peças   em   bateria.   A quarta estava há dois dias em reparação. Tenho de conduzi-la.   E   o   seu   carro   está   mesmo   no   meio   do   caminho.

 

Se a bateria esteve dois dias sem esse canhão, pode esperar ainda dez minutos, até que eu acabe a minha conversa.

 

Mas o motorista, meu capitão...

 

Eu irei  ver isso  decidiu o capitão.  Quero ver pessoalmente se a sua reclamação, apresentada de maneira absolutamente  contrária  à  disciplina, é justificada,  ou  se se tratará afinal de incapacidade, indolência e mau carácter.

 

Mas o motorista só tem de...

 

Dei-lhe uma ordem, sargento.

 

E se, entretanto...

 

Tenho o costume de assumir inteira responsabilidade pelas ordens que dou. Tome nota disto, sargento. Virá sem dúvida a ser-lhe ainda necessário.

 

Asch achou preferível calar-se. O motorista, por sua vez, ria. agora sem constrangimento.  com energia e tenacidade o capitão gritava outra vez diante do telefone, a fim  de bter a ligação.

O sargento Asch deu meia volta, abriu a porta de par em par e gritou aos soldados que tinham ficado no tractor:

 

Desçam e venham para aqui. A questão parece que vai arrastar-se.

 

O  quê?  O  quê?  perguntou  o motorista,  em voz rude.  Haverá por acaso algum palerma a  levantar  dificuldades?

 

Não respondeu Asch, irreverentemente, ninguém levanta dificuldades.   Contentam-se   em   ensinar-nos   a   disciplina.

 

É alguém que caiu da Lua, não?

 

Também me parece que vem direitinho da terra dele. Os soldados que vinham com o sargento abandonaram

 

o canhão e introduziram-se, resmungando, no estreito pardieiro. Os outros apertaram-se um pouco mais. A atmosfera estava que podia cortar-se à faca. Ao fundo, alguém gemia, esforçando-se por lançar um peso. Os telefonistas resmungavam, furiosos: não conseguiam nada.

 

O capitão, que continuava sem a ligação, enxugou a testa e perguntou num tom azedo:

 

Esses homens não podem esperar lá fora?

 

Não    replicou   o   sargento.    Bem   sabe   que   lá fora faz frio.

 

O capitão não teve tempo de responder. Conseguira enfim a ligação; imediatamente a sua voz tornou-se quase amável:

 

«Ligue-me, se faz favor, ao comandante Baer.»

 

Este, que pertencia, evidentemente, ao Comando Supremo do Exército, respondeu logo, e o capitão, encantado por ter encontrado o seu camarada de bebida, o seu amigo, exclamou:

 

«Como vai isso, Richard? Aqui, Witterer, o capitão Witterer, Paul Witterer. Estás admirado, hem? Já cheguei.»

 

E Witterer, diante das duas dúzias de soldados expandiu-se em expressões de afectuosa camaradagem:

 

«Uma    confusão    pavorosa!»,    exclamou    jovialmente.

 

«Aliás, não se podia esperar outra coisa. Mas nós vamos meter isto na ordem. Esperemos que não haja nada de mais grave. É que o que eu vi até agora é bastante. Era tempo de rejuvenescer tudo isto. Mas deixemos estas bagatelas. Que faz Lisa, a pequena Lisa? Também já vem a caminho?»

 

Os soldados arrebitaram a orelha. Sentia-se que estavam interessados na conversa. Só este nome ’feminino fora bastante para os acordar. E esperavam sinceramente que este «Lisa» não fosse uma camuflagem, uma remessa de munições, por exemplo, mas uma verdadeira mulher de autêntica carne.

 

O próprio Asch estava impressionado: esta Lisa de quem se falava no fundo da Rússia, exactamente por detrás da linha imobilizada da frente, recordava-lhe a sua Elisabeth: Lisa, Elisabeth! Para a maior parte, um nome, nada mais; para ele, um mundo. E, se tal coisa dependesse dele, o único mundo existente. Mas não dependia dele. Aos soldados não se lhes pede a sua opinião. Há-os até que antes querem assim. Preferem que os sangrem por completo a fazerem trabalhar as meninges.

 

Os berros amistosos do capitão ao telefone arrancaram Herbert às suas reflexões. Não tinham elas qualquer sentido, porque poucos eram os que pensavam como ele. É preciso contentar-se cada um com o que tem e tirar daí o melhor proveito. Imediatamente Herbert achou-se solidamente assente sobre a terra batida da cabana.

 

«É formidável!», lançava alegremente Witterer numa voz de trombeta. «Exactamente no nosso sector. E tão depressa. Podes ter a certeza, meu caro, de que é com satisfação que me vou deixar amimar por essa pequerrucha. com Lisa, sempre. E agora até à vista, meu caro amigo. Depressa terás notícias minhas.»

 

O capitão entregou o auscultador ao telefonista. Estava radiante. A conversa que acabara de ter ao telefone melhorara-lhe visivelmente o aspecto. Mas, sem transição, voltou à realidade.

 

É sempre assim aqui?  perguntou ao telefonista.

 

Quase.

 

Pode-se morrer antes de se conseguir ligação.

 

Ninguém cá morreu ainda  respondeu  o soldado, acrescentando, num tom um pouco menos distinto: Infelizmente.

 

Witterer não deu atenção. Endireitou atrevidamente o boné, aprumou-se e olhou Asch com ar provocador. Depois, após uma pausa propositada, disse:

 

Agora nós, sargento.

 

Asch deu meia volta e saiu com o capitão atrás. O motorista seguiu-os, indolentemente, sem que lho tivessem ordenado. Os serventes da peça juntaram-se a eles.

 

Asch deteve-se diante da cabana e com um gesto vago apontou o camião, o tractor e a peça. O capitão aproximou-se dos veículos, examinou-os longamente e fez: «Hum!> Os soldados entreolharam-se, sorrindo.

 

O capitão verificou imediatamente que o sargento tinha razão. A viatura estacionada no meio do estreito caminho constituía um obstáculo que não era possível evitar. Esta rua, calcada durante os meses de Inverno por milhares de veículos, era coisa completamente diferente duma auto-estrada.

 

Chegue o carro para o lado  ordenou de má vontade ao motorista.

 

Porque não o mandou fazer  logo?   perguntou o sargento.

 

O capitão repuxava o cinto. Postou-se diante de Asch. Este admirava-lhe o flamante equipamento novo e regalava-se à vista do capote quase sem nódoas e forrado de pele. Achava admirável tudo isto.

 

O seu comportamento está abaixo de tudo  declarou o capitão, com severidade.

 

O sargento ficou calado. Olhou a paisagem desolada, contemplou por um momento uma chaminé donde o fumo subia para o céu em turbilhão e não disse uma palavra.

 

Como se chama?

 

Asch.

 

E pertence à 3.ª bateria do regimento de artilharia de Luschke?

 

Sim, meu    capitão.

 

E sabe quem é o chefe da sua bateria ?

 

Perfeitamente. É o primeiro-tenente Wedelmann.

 

Aí  é que  está  o  seu  engano   diss  Witterer,  sorrindo  com suficiência.  O seu  chefe  de bateria sou eu. A partir de hoje.

 

Cada vez que contemplo o seu fiel rosto de alemão tenho   a   certeza   de   que   a   guerra   será   longa   disse   o coronel   Luschke  com sarcástica  amabilidade.  Mas  sente-se, mesmo assim.

 

O tenente Wedelmann esboçou uma continência e murmurou as palavras convencionais.

 

Dar-se-á o caso de que nós estejamos na messe?  perguntou  Luschke  com  uma  ironia  benigna.  Estamos  na Rússia,   meu   caro!   Este   abrigo  não  é  maior  do   que   as retretes que me estavam reservadas na guarnição.

 

O tenente sorriu discretamente. Mas este sorriso não tinha o objectivo de cair em graça. Não era o sorriso dum subordinado. Toda a gente sabia que Luschke levava isso terrivelmente a mal. Wedelmann venerava o homem; não era ao superior que fazia a corte.

 

Temos  de  falar  de  vários assuntos  disse o coronel .  Ponha-se à vontade.

 

Wedelmann puxou um banco de madeira de bétula, toscamente fabricado, para junto do coronel, que se sentava numa antiga e gemente cadeira de balanço. Ambos se comprendiam bem, em grande parte porque um e outro tinham pouca compreensão para o heroísmo, qualquer que fosse a forma como este se apresentasse. Para eles a morte não trazia auréola. Era apenas acerca da Alemanha que as suas opiniões diferiam consideràvelmente.

 

A casa que Luschke habitava havia alguns meses era pequena e baixa. Apenas se viam nela os móveis indispensáveis: um leito de campanha, algumas cadeiras e uma mesa comparativamente desmedida para os mapas. Nas paredes, caiadas, estavam dependurados outros mapas, mas a finalidade destes era mais higiénica do que estratégica: ocultavam as manchas de sangue do tamanho de cabeças de fósforos que os percevejos esmagados tinham deixado.

 

Que fazem os seus homens?  perguntou o coronel, como que acidentalmente.

 

Tanto   quanto   sei,   meu   coronel,   tudo  está   em   ordem  disse Wedelmann,  inquieto. Ou...?

 

Não tem a consciência absolutamente tranquila, não é verdade, Wedelmann?

 

No que me diz respeito...

 

Também eu não. Há muito tempo que já não tenho a consciência tranquila  disse o coronel  negligentemente e   quase   com   naturalidade,   como   se  falasse   da   temperatura.  Sempre pensei ser o defensor nato da Pátria. Mas a  Pátria, Wedelmann,  é  uma história  com  piada.  Muitas vezes   me   parece   ser   uma   casa   comercial   em   perigo   de abrir falência.

 

Wedelmahn quis protestar; o coronel deteve-o com um gesto indolente.

 

Todos nós somos  continuou Luschke , mais ou menos,  bodes  expiatórios.  É  para  salvar a  pele  que  obedecemos. E é quando mais a arriscamos que somos mais corajosos.  Alguns  só  o  são  quando  não  há  perigo.  Mas não  há  um  sequer  que  possa  dispor  de  si  mesmo.  Para nadar contra a corrente é preciso ter uma coragem imensa ou uma pasmosa imbecilidade. Esta comunhão que nos une aos idealistas e aos idiotas é o que, muitas vezes, ’me faz desesperar.

 

Wedelmann observava em silêncio o seu superior. O coronel, de nariz em forma de batata e olhos de raposa, estava imóvel, enterrado na sua cadeira. O uniforme, sempre abotoado conforme o regulamento, fazia rugas em volta do seu corpo emagrecido. Os pés resguardavam-se em botas de feltro guarnecidas de pele.

 

Não  sou   agradável   de  ver,  hem?  perguntou  Luschke docemente.

 

Wedelmann estava desconcertado. O coronel conseguia sempre perturbá-lo. Diante de Luschke os homens mais sólidos derretiam-se como pedaços de gelo sobre um forno em brasa.

 

Não  use  nunca  uma  máscara, Wedelmann,  porque um dia viria em que se arrependeria amargamente.

 

Sim, meu coronel  respondeu o tenente, dócil, mas sem saber como devia interpretar esta observação.

 

Por   outro   lado   disse   Luschke,   mudando   subitamente de assunto , um dos seus subalternos parece ter-se permitido algumas fantasias.

 

Soeft?

 

Naturalmente.   Quem,   senão   ele?   É   evidente   que Soeft  recebeu  abastecimentos de um  grupo  que não  pertencia ao nosso sector.

 

Vou imediatamente...

 

Não vai fazer nada, meu caro Wedelmann. Em primeiro lugar porque não está provado que tenha sido outra vez  Soeft  quem  enrolou  os  bonzos  graúdos  do  Comando Supremo.   E,   depois,   porque  não  vejo   razão   para   serem sempre as tropas da frente a pagar as faltas dos idiotas da  retaguarda.  Contudo, se  apanhar o  seu  Soeft em flagrante delito...

 

Creio que é quase impossível, meu coronel.

 

Também eu. Mas nunca se pode saber se não chegará a hora em que os próprios estados-maiores da retaguarda se porão a reflectir. E se o inesperado acontecer e o seu Soèft se deixa apanhar, então, Wedelmann, não espere que eu feche os olhos...

 

Vou ocupar-me de Soeft, meu coronel, e apelar para a sua consciência.

 

Luschke teve um riso quase imperceptível. A pretensa consciência do segundo-sargento Soêft e a prontidão de Wedelmann em apelar para ela divertiam-no.

 

O coronel agarrou no telefone de campanha, girou um momento a manivela e disse docemente: «Lenha e chá. E depois deixem-me em paz durante meia hora.»

 

A ordenança do coronel trouxe o que lhe fora pedido e desapareceu sem ruído, como viera.

 

Sirva-se,   Wedelmann.   Beba   para   ganhar   coragem. Talvez   tenha   precisão   dela.   E   não   seja   moderado   em demasia. A minha situação permite-me oferecer-lhe mesmo metade de meio litro de rum. E se beber mais Soeft terá de arranjar-se para compensar o gasto.

 

Wedelmann encheu o seu copo. Luschke despejou algumas gotas de rum na sua água quente. Depois, levantando à saúde do tenente a chávena rachada, pôs-se a beber em pequenos sorvos. Por fim disse:

 

Estamos aqui a dormir há alguns meses de Inverno. É provável que isto mude por estes dias. A frente já começa a sentir a aproximação da Primavera. Daqui por algumas semanas a guerra recomeçará.

 

Não será cedo de mais, meu coronel.

 

Suspira por novas aventuras, não?

 

Não quero envelhecer aqui, meu coronel. Nada mais. Luschke fez um gesto de assentimento.

 

Não  envelhecerá  aqui,  Wedelmann.  Pode  acreditar no que lhe digo.

 

Aproveitámos bem os meses de Inverno. As armas, o material e os veículos foram revistos. Os homens repousaram. Há munições em abundância.

 

Bravo, tenente!  exclamou Luschke, com uma expressão  irónica.  E enquanto  fazia tudo  isso  os  Russos estiveram a  dormir.  É  que Hitler é um génio e Estaline um idiota. Do nosso lado só há heroísmo, do outro nada mais  a  não   ser  beberrões.   A  Alemanha   acima   de  tudo; todo o resto abaixo! Meu caro Wedelmann, dê-me ao menos   a   satisfação   de   o   ver   conservar   o   seu   bom   senso. Mesmo quando se tratar da Grande Alemanha, Wedelmann. E sobretudo quando dela se tratar!

 

Wedelmann ficou calado. Um pouco desconcertado, segurava o copo com as duas mãos. Lamentava não encontrar nunca em Luschke a absoluta confiança na vitória. Mas respeitava de mais aquele homenzinho de olhos astutos para pensar em censurá-lo abertamente.

 

O   abastecimento   continuou   o   coronel   num   tom mal  humorado  esteve abaixo de tudo. É certo que nos enviaram toda  a  espécie  de  reforços.  Mas no  meu  sector não dei por nenhum esforço para melhorar o nosso valor combativo,   para   aumentá-lo,   restabelecê-lo,   modernizá-lo.

 

Outras   armas   devem   ter   tido   a   preferência,   meu coronel.

 

A   preferência  é,   muitas  vezes,   para   os  tipos  que estão  perto  da  origem.

 

Luschke piscou o olho para o tenente surpreendido.

 

O   seu   chefe   surpreende-o,   Wedelmann?   Não   está habituado, não é assim?  Não tinha imaginado semelhante coisa, hem? Um coronel que não está contente e que ainda por cima o diz.

 

Tem decerto as suas razões, meu coronel.

 

E quantas! Dúzias e dúzias! Por exemplo: há meses que  tento   inutilmente  obter  material   de  rádio.   Sabe   que foi esse o nosso ponto fraco no combate elástico:  o contacto directo era deplorável. Muitas vezes fiquei dias inteiros   sem   qualquer   comunicação   com   as   minhas   baterias, embora as ouvisse disparar à minha volta. Os cabos telefónicos não bastam para assegurar as comunicações, quer de bateria para bateria, quer de peça para peça, quando tudo está empenhado numa batalha de blindados.

 

Talvez o material ainda venha.

 

Virá, Wedelmann. Mas nós não ficaremos à espera dele. Vamos muito simplesmente buscá-lo.

 

Buscá-lo, meu coronel? Mas onde?

 

À  retaguarda,  directamente.  A não  ser  daí,  donde podia ele vir? Na retaguarda, Wedelmann, nos depósitos de reserva, há tudo o que é preciso: material de rádio e homens para o manejar. É preciso transportá-los para aqui. E equiparemos a nossa 1.ª secção, à qual também pertence, Wedelmann.

 

Sim, meu coronel  respondeu Wedelmann, sempre submisso quando estava na presença de Luschke.

 

Este sorriu enquanto olhava o seu tenente com ar superior. Lentamente fez balouçar a cadeira, que rangia terrivelmente, A Cruz de Ferro de 1.ª classe brilhava no seu peito estreito.

 

É muito simples  declarou o coronel.  Um dos meus camaradas é o chefe do aeroporto do corpo de exército. Neste momento os seus Junkers transportam material fabricado na retaguarda. E lá tenho outro dos meus amigos. O meu camarada daqui está disposto a deixar partir um dos meus homens, alguém digno de confiança, até ao aeroporto do nosso comum amigo, na retaguarda. Esse homem deverá  organizar no  depósito  de  reserva  o material  e  o pessoal  treinado. Quando  tiver concluído  regressará  aqui por avião.

 

Muito   bem!exclamou   Wedelmann,   sinceramente admirativo.

 

Escolha portanto um dos seus homens.

 

Será uma prova de estima  disse Wedelmann, após um instante de reflexão.

 

Exactamente. E, ao mesmo tempo, uma bela responsabilidade. Nada que se pareça com o Teatro do Exército. Então,  vejamos...   Quem?   É   assim  tão   difícil   escolher?

 

Não   vai   com   certeza   pedir   a   opinião   do   seu   sargento-ajudante. Não me faça isso, Wedelmann.

 

Proponho o melhor dos meus homens: o subalterno Vierbein.

 

Luschke não respondeu. Parou de se balouçar. O seu rosto mal talhado mostrava-se impenetrável. Cruzou as suas pequenas mãos e esperou.

 

O   segundo-sargento   Vierbein    disse   o   tenente é  o  nosso  melhor  artilheiro.  com  os  seus  serventes  destruiu sete blindados. Tem a Cruz  de Ferro de  1.ª classe.

 

Sei tudo isso  disse o coronel, e calou-se outra vez.

 

É ele  quem mais merece  uma  prova  de  confiança deste género. Sem contar que há mais de um ano que não lhe é dada licença para a retaguarda.

 

Certamente  disse Luschke num tom pensativo. Tudo  isso  é bem possível. Mas não esqueça que  a  linha de fogo é muito diferente da selva das nossas repartições.

 

Ponho as mãos no fogo por Vierbein.

 

Isso honra-o  disse o Batata com um sorriso irónico, mas sem deixar ver se estava ou não de acordo. Se tivesse de começar a servir como simples soldado, era a  sua  bateria  que  escolheria,  de  preferência  a  todas  as outras, Wedelmann. Ainda é um rapaz, mas possui claramente qualidades de pai.

 

Wedelmann procurou proceder como se não tivesse ouvido esta observação do seu superior.

 

Meu   coronel    disse ,   se   não   aceita   a   minha sugestão, proporei, em vez de Vierbein, o primeiro-sargento Asch. Este saberá impor-se com certeza.

 

Asch?   Em  nome  do  Céu, Wedelmann!   Não  posso pensar   em   complicações   para   esta   delicada   missão.   Se alguma coisa correr mal, será o diabo e toda a tralhoada. Terei meia dúzia de generais às costas. E nesse caso não seria seu chefe por muito tempo. Em caso algum, portanto, esse rapaz. É preferível Vierbein.

 

Muito bem  disse o tenente com prazer.

 

Se faz questão... respondeu Luschke rindo. Depois acrescentou:    Mas  não   tente   muitas  vezes   apanhar-me assim.   Gosto  pouco   de   ser  batido   pelos   meus  próprios métodos.

 

Wedelmann ria de vontade. O coronel bebeu à sua saúde. Compreendiam-se às mil maravilhas.

 

Todas as nossas chatices nos aproximaram um  do outro.  disse Luschke.  É  a  guerra. Ou  se confraterniza ou se foge uns dos outros como da peste.

 

O telefone retiniu. Luschke levantou o auscultador e respondeu. Tornara-se subitamente grave.

 

«Está bem», disse. «Daqui a cinco minutos.» O   coronel   pousou   o   telefone.   Pensativo,   examinava Wedelmann  com  um  ar  interrogador,  como  se  estudasse o valor dum canhão de novo modelo. Depois disse:

 

Está lá fora um tal capitão Witterer.

 

Sim, meu coronel.

 

Este capitão Witterer chega adiantado oito dias. É evidente que estava com pressa. Mas agora está aqui e não há nada a fazer. Lamento, Wedelmann.

 

Sim, meu coronel  respondeu o tenente, desconcertado.

 

Para tornar as coisas mais claras: o capitão Witterer é o novo chefe da 3.ª bateria.

 

A minha bateria.

 

Justamente. O novo chefe da bateria que até agora era sua.

 

E eu?

 

Tomarei mais tarde uma decisão quanto às suas futuras funções. Será avisado oportunamente. Até lá, entregue a bateria ao novo chefe e deixe-se ficar até que o capitão Witterer se tenha posto ao corrente, em todos os pontos de vista.

 

Wedelmann não encontrou nada para dizer. Pousou bruscamente na mesa o copo ainda meio cheio. Empalidecera. Aprumou-se.

 

A lenha crepitava no fogão de ferro fundido. O calor era abafado e seco. Diante do alojamento do coronel um carro de bagagens arrastava-se pelos sulcos deixados por outras rodas.

 

Profundamente enterrado na cadeira, com as pernas oscilando, Luschke olhava o seu tenente com uma expressão encorajadora:

 

Vamos, Wedelmann!  Desperte.

 

O tenente abanou a cabeça. Era fácil ver que se sentia ofendido. Mas o sentido de disciplina, nele sempre vivo, não lhe permitia o menor comentário  sobretudo em relação a Luschke.

 

Este recostou-se para trás.

 

Meu  caro tenente  disse, satisfeito ,  sei em  que está a pensar. Se pudesse fazer o que deseja, experimentaria  dar  um  pontapé  no  traseiro  do  seu  velho  chefe  e atirar   com   tudo   ao   ar.  Ou   não?   Nem   sequer  protesta, Wedelmann ?

 

Meu coronel, eu sempre...

 

Bem sei, Wedelmann, bem sei. Não tenho os ouvidos tapados,  nem  trago  os  olhos  na  algibeira.  É,   de   longe, o melhor chefe de bateria do meu regimento. Um filho de herói e um partidário do Fíihrer. A primeira coisa é uma honra  para  si;   a  segunda,  perdoo-lha.   Em  todo  o   caso, há algo de positivo: sem si o regimento Luschke não sairia da média; graças a si, é um regimento de escol. Sei tudo isto.  Até a minha Cruz  de Ferro é em  grande  parte  ao trabalho da sua bateria que a devo. Tudo isto sei...

 

Mas então, meu  coronel,  permita-me  que  diga  que ainda  compreendo  menos...

 

Meu   caro   Wedelmann    disse   Luschke,   interrompendo-o  com  um  gesto ,  poderá  saber  o  que  projecto para si? Não tem qualquer ideia do motivo por que precisarei   de  si?   Que  imagina  que  acontecerá  ainda?   Meu bom amigo,   acredite  no   seu  velho   coronel:   esta   guerra safada ainda não começou.

 

Meu coronel, se o Fiihrer...

 

Não se entusiasme, meu velho. Quando eu falar de safado  não  tem necessidade  de pensar logo  no  nacional-socialismo!  Mas deixemos este delicado assunto. Diga-me antes o que fazem as raparigas.

 

A quem se refere, meu coronel ?

 

Vamos! Não se faça de novas, meu rapaz! exclamou Luschke cordialmente.  Há alguns dias, atravessava eu a aldeia, vi Soeft a conversar justamente com um belo exemplar. E houve qualquer coisa que me desagradou: os dois não eram da mesma classe. A rapariga parecia inteligente. Desde quando é que Soèft se diverte com raparigas desse género?

 

Meu coronel, essas coisas não me interessam.

 

Deviam interessar-lhe, Wedelmann. Sabe-se lá quanto tempo lhe  resta  para isso!  No fim de contas, esta coisa aqui pode ir ao ar mais depressa do que todos nós julgamos.

 

O segundo-sargento amanuense da 3.ª bateria saltou como um cometa para fora da barraca onde estavam alojados o sargento-ajudante e os seus registos. Precipitou-se para o centro da bateria, até à choupana de madeira na qual estava escrito em grandes letras a giz: «A. S.», o que significava: «Abastecimento Soeft.»

 

O sargento amanuense abriu a porta e penetrou numa casa onde dois homens de fato-macaco cortavam em cubos enormes salsichas, que pesavam de maneira aproximada e embrulhavam.

 

Soeft está cá ?  perguntou  o sargento, deitando às salsichas um olhar cobiçoso.

 

Os ajudantes de Soeft abanaram a cabeça negativamente.

 

Sabem onde ele está? Novo gesto negativo.

 

O sargento amanuense, a quem o espectáculo das salsichas fazia sofrer, retirou-se e ficou em frente da porta sem saber que fazer. Tinha frio e esfregava as mãos.

 

Da cozinha vinha um forte cheiro de cubos Maggi. Na sua forja de campanha o sargento mecânico berrava com um motorista que não era capaz sequer de endireitar uma chapa amolgada.

 

És uma autêntica lavadeira!  gritava.

 

Esta palavra foi para o sargento amanuense, que não se atrevia a reaparecer diante do sargento-ajudante sem ter cumprido a sua missão, um verdadeiro clarão. Trotou na direcção duma casa em forma de cogumelo situada um pouco à parte.

 

Tal como esperava, achou aí Soeft, despedindo-se duma rapariga russa. O sargento ficou de boca aberta ao vê-la. Parecia vestida de sacos de café. No entanto, o seu corpo, sólido mas elegante, não podia passar despercebido. O sargento amanuense contemplou-a como se tivesse na sua frente um documento duma importância excepcional.

 

Então,   é   mesmo   impossível   fazer   negócio,   Natachá?perguntou Soeft.

 

A rapariga abanou a cabeça, energicamente, em pequenos e bruscos movimentos.

 

Não faço negócio  disse  ela em  bom  alemão  de escola,   muito   devagar,   acentuando   a  primeira  sílaba   de cada palavra.  Consigo, não, Sr. Soeft.

 

Não quererá fazer-se cara, Natacha?

 

Mande-me o seu oficial, Sr. Soeft. Talvez faça negócio com ele.

 

Soeft estava descontente. Virou-se para o sargento amanuense e apostrofou-o:

 

Que   vens   tu   fazer   aqui ?   Vens   transtornar-me   as operações.

 

Uma questão urgente, Soeft.

 

Antes  do  almoço  não...   Daqui  por  um  quarto  de hora.

 

Dizendo isto, pôs-se a caminho sem olhar para Natacha. Queria mostrar-lhe até que ponto ela lhe era indiferente. Mas antes de virar a esquina voltou-se. A rapariga dirigiu-lhe um sorriso irónico. E isto mortificou-o profundamente.

 

Em passos largos, através da neve derretida, viscosa, Soeft afastava-se sem dar atenção a coisa alguma. Um camião que subia penosamente a rua teve de parar para não o atropelar. O motorista largou uma praga, Soeft não lhe deu a menor atenção. Estava ocupado. Fazia contas.

 

Dirigiu-se ao seu alojamento e deitou, como sempre, um olhar ao «A. S.» escrito na porta. O sargento amanuense queria entrar também, mas ele deu-lhe com a porta na cara.

 

Depois de ter esperado pacientemente alguns minutos, o subalterno decidiu-se a entrar no abrigo de Soeft. Os dois homens, sempre ocupados a cortar salsichas em bocados, apontaram-lhe com o dedo uma porta na qual estava escrito: «Bater antes de entrar.» Hesitou um momento e, depois de ter chocado com a porta como por acaso, abriu-a.

 

O segundo-sargento Soeft almoçava: atum, torradas e vinho de Tarragona, dispostos, com um grande bocado de manteiga, sobre uma toalha de provocante brancura. Soeft, sentado, mastigava lentamente.

 

Tens de ir falar ao sargento-ajudante  disse o amanuense.  E já. Há mais de meia hora que ando a correr atrás de ti.

 

Serve-te  disse Soeft, continuando a comer sem se perturbar.

 

O subalterno não hesitou um instante sequer. Agarrou numa fatia de pão torrado e estendeu-lhe em cima uma espessa camada de manteiga, que cobriu de atum. Depois, com dificuldade, meteu o conjunto na boca. Soeft não se mexeu: continuava a calcular. E esta era uma ocupação em que ele não se deixava perturbar por nada, nem por ninguém.

 

Lentamente chegou ao fim dos seus cálculos: nem todas as raparigas tinham o mesmo preço... e esta Natacha valia bem um oficial. Tê-lo-ia, uma vez que fazia questão disso. Porque, bem vistas as coisas, nesta aldeia perdida os intérpretes valiam o seu peso em ouro. E ainda por cima esta intérprete era uma mulher, o que tornava o negócio mais sedutor. Era quase como em França.

 

Que  quer de mim o brigadas? perguntou finalmente.   Tenho  pouco  tempo,   rapazinho.  Preciso  ainda de inspeccionar a padaria...  Tenho de encomendar pãezinhos   frescos   para   domingo   que   vem  acrescentou,   fascinado. «

 

com  mil  raios!exclamou  o  outro,  lambendo  os dedos.

 

Bem   vês   que   não   posso   permitir-me   perdas   de tempo. Diz isto ao brigadas.

 

Vem comigo, Soeft. Diz-lho tu mesmo. Mas olha que desta vez vale a pena.

 

Porquê?

 

Não   quero   dizer   nada    respondeu   o   subalterno misteriosamente.  Mas trata-se de mulheres.

 

Que espécie de mulheres? perguntou Soeft, a quem o assunto começava a interessar.

 

O sargento-ajudante te dirá o resto  disse o amanuense retirando-se, apressado, não sem ter feito antes desaparecer  uma  lata  de  atum  de  meio  quilo,  na qual  se podia ler: «O atum é bom para a saúde.»

 

Soeft não se apressou. No entanto, a sua curiosidade estava desperta. Bebeu o café  do autêntico, bem entendido  bastante mais rapidamente que de costume, verificou o trabalho dos seus cortadores de salsichas e dirigiu-se ao escritório do amanuense.

 

O sargento-ajudante Rock, todo ele energia e trabalho, recebeu-o com alguma impaciência:

 

Era   tempo,   Soeft   disse,   mostrando   deste   modo cautelosamente que estava disposto a repreendê-lo.  Era mais que tempo. Mas mesmo mais que tempo!

 

Não para mim  respondeu o subalterno deixando-se cair num dos caixotes do escritório, depois de o ter espanejado  com um lenço  de excepcionais dimensões  cortado em seda de pára-quedas.

 

Olharam-se. Não precisavam de o fazer, pois conheciam-se e sabiam exactamente o que deviam pensar um do outro. Aliás, não pensavam mal, uma vez que cada um deles estava convencido de que tinha a bateria na mão.

 

Despojado do esplendor da caserna, o brigadas era o pára-choques causticado sem cessar entre as peças e a linha de fogo. Mas, se perdera influência, nada perdera de presunção. O subalterno do abastecimento, que dispunha, por assim dizer, de relações fabulosas, podia permitir-se quase tudo o que quisesse. Porque era ao seu valor pessoal que a 3.ª bateria devia o ter atingido um nível de vida comparável ao dos estados-maiores particularmente desembaraçados.

 

Que se passa?  perguntou Soeft.

 

Como sabe, vamos ter novo chefe.

 

E   depois?   O  tempo   irá  mudar  por   causa   disso? Os meus salsichões  de fígado  terão  gosto  diferente? Um novo nome, mas a mesma caranguejola. Esses sujeitos são todos   iguais.   Fabricam-nos   em   série.   Aqueles   que   têm pequenos defeitos de fabrico são sempre os mais interessantes.  E se  o  próximo não é comparável  a Wedelmann, o que é fácil de imaginar, conseguiremos domesticá-lo. Ou não?...

 

O sargento-ajudante fez de conta que não ouvira os comentários de Soeft. Era um homem de experiência. Sabia que valia mais ignorar o que dizia um tipo como Soeft. Repreendê-lo seria tempo perdido. Soeft conhecia a situação   excepcional   que   ocupava  e   aproveitava-se   dela   com insolência.

 

Só falei um  instante com  o novo chefe,  o  capitão Witterer. Há pouco, pelo telefone. Chega com certeza amanhã. Esta tarde tem que fazer no regimento.

 

O   coronel   Luschke   deve   querer   apalpá-lo   disse Soeft  num   tom  compreensivo.   Conheço-lhe   os  hábitos.

 

Em todo o caso, o capitão Witterer perguntou-me se tínhamos   um   graduado   particularmente   digno   de   confiança.

 

Está   com   pressa,   esse  disse   Soeft,   rindo   com gosto.

 

É claro que foi você quem eu indiquei.

 

Claro. E em que sector deverei fazer brilhar a minha competência?

 

Trata-se de uma missão de natureza privada.

 

É a minha especialidade  assegurou Soeft simplesmente.

 

Esta  tarde,   pelas  três  horas,   desembarca  no   aeroporto  da  nossa  etapa  um  grupo  do  Teatro  do  Exército.

 

Quantas «pegas»?

 

Três senhoras e um homem  redarguiu o sargento-ajudante sem reagir à expressão.  Entre eles vem uma senhora que se chama Lisa Ebner.

 

E essa dama é que é o fulcro do caso, não?

 

O capitão Witterer deseja disse  Bock com autoridade,  servindo-se  da  charuteira  que  Soeft  abrira  diante dele que a menina Lisa Ebner seja bem instalada e que seja  posto  à sua  disposição  tudo  o  que  possa tornar-lhe mais agradável a sua estada entre nós.

 

Bem,  bem.  Porque não? E indicando  o charuto que   o  sargento-ajudante já  trincara: Não  quererá  por acaso também lume?

 

Disse já ao capitão que se podia confiar em si.

 

Há mais alguma coisa?

 

Por mim, nada mais.

 

E que se passa em relação ao camião de oito toneladas?

 

Meu caro Soeft, já lhe repeti várias vezes que esse camião devia ser deixado no serviço das munições.

 

Parece   evidente    respondeu-lhe   Soeft   com   uma calma irritante que as munições se lhe afiguram mais importantes do que o abastecimento. Tomo nota.

 

Seja   sensato,   Soeft.   O   tenente  Wedelmann   não   é decerto mesquinho...

 

Só sei o que Wedelmann não é neste momento: chefe. E o novo  ainda não  chegou. A ocasião  é portanto  mais favorável que nunca. Dê-me o oito toneladas para o abastecimento e em troca impinjo-lhe o meu Ford.

 

Essa   chocolateira?

 

O chefe dos mecânicos está de acordo.

 

Sim, mas o sargento Asch não o está com certeza, Soeft. E enquanto estiver encarregado  aqui  de funções...

 

Os olhinhos do sargento de abastecimento fizeram-se ainda mais pequenos. Disse:

 

Asch  não  ficará  aqui  sempre.  Se  o  tenente  se vai embora, o sargento também irá, provavelmente. Ou  julga que ele é uma instituição definitiva? Se o novo chefe não é  um   Wedelmann   e   a   ordem   que   acabo   de   receber prova-o , não ficará satisfeito com um tipo como Asch.

 

O sargento-ajudante tinha dificuldade em decidir-se. Era evidente que Soeft tinha razão. O momento era particularmente bem escolhido para modificações de toda a espécie.

 

Se julga disse ter absoluta necessidade do oito toneladas,  e  se  o  chefe  dos  mecânicos  está  de  acordo...

 

Pronto. Vou tratar imediatamente do assunto. E, outra coisa  disse  ele  aproveitando  a  ocasião  com  o  seu habitual    atrevimento ,    que    se    faz    do    primeiro-cabo Kowalski? Precisaria imenso dele.

 

Impossível  respondeu  Bock sem  hesitar.  Tem de continuar a ser o motorista do chefe. Está tudo muito bem, mas a minha complacência em relação a si não chega a esse ponto.

 

Soèft aquiesceu. Previra a recusa e previra que ela seria dada brutalmente. O brigadas adivinhava que estava ameaçado. Soeft já era todo-poderoso. Mas com Kowalski seria o absolutismo.

 

O segundo-sargento resignou-se por agora. Conhecia o provérbio: adiar não é esquecer. Tinha já a certeza de receber o oito toneladas. Graças a isto a sua capacidade de carregamento ficava consideràvelmente aumentada, o que se tornara urgente, pois nestes últimos meses de repouso as suas provisões, por mais generoso que tivesse sido, tinham aumentado espantosamente.

 

Agora  disse o sargento-ajudante  temos de trabalhar de colaboração. Se o fizermos, o novo chefe reconhecerá que está numa unidade em que pode confiar.

 

E se não é completamente desprovido de miolos compreenderá o que esperamos dele.

 

Antes de se dirigir à etapa, a fim de tratar da recepção das damas do Teatro do Exército, Soeft julgou oportuno assegurar-se da propriedade do camião de oito toneladas. Tinha demasiada experiência para não adivinhar que a coisa não se faria sem dificuldades.

 

Decidiu proceder com todo o método. Dirigiu-se primeiro ao seu alojamento, encheu a cigarreira, meteu nos bolsos charutos, entre os quais se encontravam alguns duma qualidade superior. Depois foi ter com o sargento mecânico.

 

Até aqui tudo ia bem. Comunicou ao mecânico que o sargento-ajudante lhe atribuíra a ele, Soeft, o camião de oito toneladas. O outro contentou-se em fazer um gesto de assentimento. Importava-lhe pouco saber para onde iam os seus carros, desde que fossem em bom estado de marcha. O sargento-ajudante, prudentemente, como sempre, permanecia em segundo plano: desaparecera muito simplesmente.

 

A dificuldade estava, em parte, nos motoristas. Soeft sabia-o. Um deles, o que conduzia o oito toneladas, ficaria naturalmente encantado por passar a transportar abastecimentos. Em compensação, o outro, o condutor do Fordr ia esbravejar. Quem gostaria de andar a passear com munições espoletadas e ainda por cima em tempo de guerra? Tanto pior! Se ele se contentasse em praguejar... Mas se, o que era bem possível, se lembrasse de apresentar queixa, a coisa podia trazer complicações.

 

De acordo  disse sem hesitar o motorista do camião.  Estou  disposto. E já. Onde largo as munições?

 

Descarrega-as,   simplesmente    disse   Soeft.   Em qualquer parte. Cobrir com um encerado e pronto.

 

Não peço mais  disse o motorista, que logo solicitou gente para o ajudar.

 

Quanto ao condutor do Ford, Soeft, esperto como era,, nada lhe disse. Para ele o principal era ter o novo carro; quanto ao velho, seria sempre tempo de entregá-lo. E depois  nunca se sabe  podia haver uma súbita mudança de posição. Por outro lado, os dois chefes, que nada sabiam um do outro. E antes que um deles tivesse a ideia de se pôr a reflectir Soeft teria ainda, não só a nova viatura, mas também a antiga. Era preciso ser idiota para se desfazer de qualquer coisa que ninguém reclamava.

 

Concedeu a si mesmo um grande copo de beneditina. «Se fechasse os olhos», pensou, «julgaria estar em França.» Mas não os fechou: era demasiado esperto para isso não queria correr o risco de se deixar surpreender.

 

Ouviu portanto a tempo os passos que se aproximavam. Aliás, era impossível não ouvir o barulho que o recém” -vindo fazia à entrada. Soeft não teve dificuldade em adivinhar quem se apresentava assim tão grosseiramente.

 

Também  queres  um   copo?perguntou   quando   o seu visitante se aproximou.

 

O primeiro-sargento Asch viu, sem fazer a menor observação, o quadro que se lhe oferecia aos olhos.

 

Que se passa com o oito toneladas? perguntou. O sargento condutor de munições está furioso. Tu não podes assim sem mais nem menos apropriar-te do nosso melhor meio  de  transporte!

 

Ah, isso é que posso  respondeu  Soeft piscando o olho.

 

O   oito   toneladas   deve   ficar  no   serviço   das  munições.

 

Soeft olhava o seu camarada como um bom tio sentado pacificamente ao pé da árvore de Natal.

 

Asch  disse , sempre pensei que eras um rapaz absolutamente   normal.   Mas   às   vezes   tenho   a   impressão de que és um guerreiro convicto. Preferes  as munições  à paparoca. Em suma, antes queres abater tipos que encher a pança.

 

Ouve,  Soeft.   Não  fui  eu   quem  inventou   a   guerra, mas meteram-me nela. Tenho de defender a pele.  E para isso, aquilo de que em primeiro  lugar necessitamos é  de munições.

 

Por princípio.  Wedelmann não  combate  senão  pela Grande  Alemanha  e  pelo  Ocidente.   E  tu   és  a  sua  alma danada.

 

Soeft!   Se  eu  tiver  de  escolher  entre  um  estômago vazio e um buraco na  cabeça,  escolho  o  estômago  vazio. Percebes?

 

Porque não se preocupa Wedelmann um pouco mais com as raparigas e um pouco menos com a guerra?  Não é normal. E eu podia oferecer-lhe qualquer coisa de especial.  Natacha,  chama-se  a  pequena.   Uma   russazinha  com uma alma!...

 

As suas mãos desenhavam curvas audaciosas:

 

Uma alma assim!

 

Vamos!   Não   brinques   aos   proxenetas.   Devolve-me o oito toneladas e  depois  poderás  continuar  a  beberricar descansadamente.

 

Asch, aqui tens a minha última proposta: uma «pega» para Wedelmann e uma caixa para ti, conteúdo à tua escolha. Em troca, o oito toneladas à minha disposição,

 

Levanta-te  disse Asch duramente Já para que eu possa dar-te um pontapé no rabo.

 

É a tua última palavra?

 

Se não te  despachas,  Soeft,  tu  é que  terás  dito  a tua última palavra.

 

Era  o  que eu  queria  ouvir-te  dizer,  Asch  disse Soeft,  tentando   mostrar   indiferença.   Isso   e  não   outra coisa. Agora sei com que posso contar.

 

Já não era sem tempo.

 

E  quanto   ao   oito   toneladas...   ordem   do   chefe   de bateria.

 

Não sabes o que dizes. Soeft. Sei muito bem o que Wedelmann ordenou e o que não ordenou.

 

Mas quem te fala ”de Wedelmann? O novo chefe da bateria chama-se Witterer.

 

Mas ele ainda não chegou, meu velho.

 

Soeft concedeu a si mesmo outro copo de beneditina. Precisava muito de se fortalecer, porque o que se aproximava agora ia exigir coragem. Lambeu os lábios e acrescentou:

 

Para o  caso  de tu  o  ignorares,  Asch...   existe  um aparelho que se assemelha a um telefone, E eu já recebi pelo   telefone   algumas   instruções   especiais   de  Witterer.

 

Vou verificar  isso   disse  o  sargento.   E  ai  de ti se não é exacto o que dizes!

 

Soeft viu Asch afastar-se. Depois esfregou energicamente o nariz e o queixo. Acabou a beneditina, mas não a achou particularmente boa.

 

«É bastante complicado», pensou, sem contudo perder a coragem por um segundo que fosse. Sentia-se seguro...

 

Asch, esse.  era  praticamente  refugo.  Mas  claro  que  seria terrivelmente  imprudente  desprezá-lo.

 

Resolveu, portanto, convencer Witterer de que a personagem mais importante da 3.ª bateria era ele, Soeft.

 

Mandou preparar o seu carro particular. Era uma limosina apanhada em qualquer parte, cujo lado de trás, segundo as suas instruções, fora transformado em caixa para mercadorias. Neste carro, também marcado com um «A. S.», deixou a aldeia.

 

A etapa, situada dezoito quilómetros à retaguarda, estava movimentadíssima. Nas antigas igrejas ouvia-se o ruído das oficinas de campanha. Os numerosos estados-maiores tinham-se instalado  como podiam nos edifícios do Partido. Os estados-maiores menos importantes preferiam as casas particulares e, se possível, aquelas onde eram recebidos como família.

 

Veículos de toda a espécie e de todos os tamanhos apertavam-se contra as casas. Alguns militares munidos de pastas procuravam os seus carros. Dois reservistas tinham o ar de saírem a passeio. Todas as chaminés fumegavam.

 

Soêft decidiu dar, «sempre metodicamente», uma prova das suas particulares capacidades. Sabia muito bem como se haver, pois estava em condições de dominar com um olhar a selva administrativa das competências. Tudo o que via não era mais que adestramento. Quanto ao resto, o que era preciso era sorte, uma boa ocasião e sólida quantidade de impertinência.

 

Em primeiro lugar fez-se conduzir ao Comando Supremo. Procurou o oficial da administração militar de quem dependia o Teatro do Exército. Declarou-lhe tranquilamente e com um ar convincente que pertencia à Kommandantur. Declarou pretender conversar uma vez mais acerca do grupo que chegaria nesse dia. Sem respingar, aceitou as injúrias, o que lhe permitiu obter as informações desejadas.

 

Depois dirigiu-se à Kommandantur. Aí, muito logicamente, apresentou-se como fazendo parte do Comando Supremo, encarregado do Teatro do Exército. O oficial responsável começou por injuriá-lo. Ele não pestanejou e obteve as últimas informações que lhe faltavam ainda.

 

Vocês   são   sempre   assim    declarou   o   oficial   da Kommandanlur.  O Comando Supremo manda vir as pessoas e nós é que temos de alojá-las.

 

Posso  ver  esse  alojamento?perguntou  Soêft  sem’ cerimónia.

 

O oficial autorizou-o de má vontade. Deu ordem a um primeiro-sargento para acompanhar Soêft até uma antiga escola. No andar de cima havia um quarto bastante asseado, ocupado por três camas de campanha.

 

Para   as   mulheres   disse   o   sargento.   Instalamos   até  um  lavabo  à  parte.  INão  foi  fácil.   Somos   obrigados sempre a improvisar. Alegre-se por não fazer serviço numa   Kommandantur.   Quanto   ao   homem,   dormirá   em baixo  com  dois  oficiais.

 

O  homem   pode   dormir   onde   quiser,   estou-me   nas tintas   para  ele   respondeu  Soêft com toda  a  dignidade de um membro do  Comando Supremo. Seja como for. não é possível fazer dormir as três senhoras juntas. Uma delas tem de ter quarto separado.

 

Ora essa! Tem de ter?... -perguntou o sargento. Mas nós não  estamos em  França!

 

Infelizmente!   exclamou   Soêft,   suspirando   como sempre  fazia  quando  pensava  na  sua  França  bem-amada. Um sentimento sincero.  «Ah. sim!  Foi uma alegria fazer a  guerra  em  França.   Meu  Deus!   Como  amo  esse  país!» O   paraíso   para   um   subalterno   dos  abastecimentos   como ele  era.  Jamais  se  sentira  assim  tão  feliz,  tão   completamente feliz. Suspirou outra vez. Depois disse:

 

Uma das senhoras terá quarto separado. É o próprio general   quem   o   exige.    E  discretamente,   acrescentou piscando o olho: Uma parente, sem dúvida...  ou qualquer coisa do género.

 

Mais   chatices   para   nós    disse   o   sargento,   mal humorado.  Sempre as protecções! Como se estivéssemos em Saint-Moritz  ou  numa  estação  turística  assim.  Enfim, faremos o que pudermos.  Esperemos que  o  general   compreenderá. E se isto não for doutra maneira...

 

A senhora  chama-se  Lisa  Ebner.  Mande  pôr  flores no quarto.

 

E  que  mais?  Um  dossel,  não?perguntou   o  sargento com uma ironia mordaz.

 

Se puder arranjar um...  Porque não?

 

Uma vez levado a bom fim este assunto, Soèft fez-se conduzir ao aeroporto, direito a casa do comandante, a quem, obedecendo a uma discreta alusão de Luschke, seu amigo, tivera ocasião de fornecer algumas pequenas especialidades. O comandante recebeu Soéft com a amabilidade que convinha e deu-lhe todas as indicações desejadas.

 

Pouco depois das cinco horas chegou o avião de transporte anunciado para as três horas. Saíram alguns soldados, mas principalmente oficiais. Depois saltaram quatro paisanos: três mulheres e um homem.

 

Soèft, antes de se aproximar, examinou-os com atenção. O homem tinha o aspecto de um reservista de licença. .”Não se interessou mais por ele. As mulheres eram todas aceitáveis. Só por si, os cabelos faziam boa impressão. E as pernas valiam a pena. A viagem longa murchara-a-; um pouco, é certo, e gravara nos seus rostos pálidos algumas rugas de suor ou de sujidade, mas os chassis eram notáveis, conforme Soèft reconheceu.

 

Uma delas, a mais velha, trazia uma mala de mão e uma pasta. O seu olhar claro, enérgico, fazia pensar numa sufragista prestes a iniciar uma conferência. A segunda, dum louro-palha, com os lábios pintados de vermelho vivo, saltitava na pista com ar conquistador e dava a Soèft a impressão de querer «revigorar» um < exército inteiro.

Quanto à terceira, pequena, delicada e morena, com olhos grandes e um andar apressado em passinhos miúdos, trazia ao peito, um peito bastante banal, um estojo de guitarra. Soeft aproximou-se das senhoras e disse:

- Ora  então,  cá  chegaram  e   dirigiu-lhes  um   gesto benevolente.

 

O oficial da Kommandantur que falara antes com o segundo-sargento avançou, gaguejou uma alocução relativamente longa, em que por três vezes repetiu: «Sede bem-vindos!» O paisano olhava em volta com ar decidido. As senhoras batiam discretamente os pés para aquecer. A loura remexia as ancas sem constrangimento, o que fez parar durante alguns minutos o tráfego no aeroporto inteiro.

 

Faz frio aqui, hem?perguntou Soêft,  rindo.

 

É  para   isso   que   estamos   na  Rússia  declarou   o civil com certa desenvoltura, ao mesmo tempo que a loura ria estupidamente, mas de maneira encantadora.

 

O oficial rogou então aos «respeitáveis convidados» que subissem para o carro que os esperava. Ele próprio se transformou, num abrir e fechar de olhos e com absoluto êxito, em entusiástico carregador de bagagens. Contudo, quando o paisano pretendeu carregá-lo também da sua mala, repeliu-o com aspereza e friamente.

 

Soêft perguntou:

 

Qual das senhoras é Lisa Ebner?

 

A delicada morena que trazia a guitarra dirigiu para ele os olhos grandes como pires e disse num tom interessado e encantador:

 

Sou eu.

 

Venha  declarou Soêft.  Estou encarregado de si pessoalmente.

 

O oficial da Kommandantur pousou no chão as duas pesadas malas que transportava. Abriu a boca, decerto para fazer uma observação, que, a julgar pela sua fisionomia, não devia ser lisonjeira.

 

Mas Soêft limitou-se em dizer: «Ordem do general», e afastou-se, seguido, gentil e complacentemente, pela rapariga.

 

Empilhou no seu carro as bagagens de Lisa Ebner. com os seus grandes olhos, ainda infantis mas já ávidos, ela seguia cada um dos seus movimentos. Soêft sentiu que ela o admirava:

 

Está  espantada,  liem?

 

Porque é isto?  perguntou  a  rapariga  docemente.

 

Vai  ver.  E  vai  ficar   espantada.   Garanto-lhe.   Confie em mim.

 

O segundo-sargento Vierbein, aprumado como uma estaca, com os seus bons olhos de criança e o queixo esticado para o tenente Wedelmann, estava sentado à mesa com este. A sua mochila já pronta, uma trouxa de lona bem cheia, estava no chão, perto da porta. O capacete de aço estava dependurado, assim como a espingarda e a máscara de gás. Todos estes objectos pareciam ter sido dispostos com cuidado, como se se tratasse de os fotografar para qualquer revista ilustrada.

 

Wedelmann sorriu para o corajoso e embaraçado sargento e disse-lhe:

 

Tenho absoluta confiança em si, meu caro Vierbein. Sempre tive confiança em si.

 

Vierbein acenou a cabeça com uma energia quase solene. Respirava gravidade e decisão. Dir-se-ia que apurava o ouvido para apanhar uma ordem qualquer que lhe fosse dirigida. Sobre o seu casaco usado, mas duma perfeita limpeza, brilhava a Cruz de Ferro de 1.ª classe.

 

Wedelmann acenou a cabeça também. Sabia que Vierbein nunca o desiludiria, pois um idealista não trai jamais outro idealista. E Vierbein, como o seu tenente, pertencia à raça daqueles que têm fé.

 

Wedelmann escutava. A noite caía; a frente estava silenciosa, como quase sempre a esta hora, de há algumas semanas para cá. Era um silêncio desagradável, hipócrita, à espreita.

 

Dos dois lados, os soldados, a quem ainda não empurravam para a frente, encarniçavam-se em não se tornarem mutuamente difícil a existência ou, pelo menos, o que delas lhes restava ainda. No entanto, cada um deles sabia quão ridiculamente vãos eram os seus esforços nesse sentido. O silêncio pesado da frente espreitava-os como um animal feroz. Era como se ele estivesse à espera diante da porta da cabana onde Wedelmann se alojava com Asch. Até o lume no fogão parecia arder sem ruído.

 

Nenhum rumor de carros se ouvia. Há quinze dias que não se via um único avião no céu. Nas primeiras linhas da frente, a três quilómetros dali. estendia-se um silêncio de cemitério.

 

Wedelmann fez ainda um sinal ao segundo-sargento. Bateu com força na coxa e olhou Asch, que, de joelhos diante do fogo, contemplava o brasido e parecia esperar com indiferença que a água fervesse.

 

Ainda  não  acabou?perguntou  o  tenente  em  voz alta. Parecia ter prazer em ouvir-se.

 

Temos   tempo  -respondeu   Asch.   Muito   tempo. Wedelmann   deslocou   ruidosamente   o   caixote   que   lhe servia de a«sento e dirigiu-se de novo a Vierbein:

 

ENão esqueça nunca:  a sua  missão é delicada.

 

Asch lev’antou-se devagar, agarrou na caldeira e aproximou-se da mesa. coberta de papel de embalagem, à maneira de toalha.

 

O   nosso   rapazinho   saberá   fazer   as   coisas  disse, piscando o olho a Vierbein.

 

É garantido -apressou-se a dizer o tenente. Garantido e certo.

 

Wedelmann olhava o subalterno com afabilidade. Este homem pálido, ainda tão novo, de submissos olhos de menino de coro, era um dos mais valentes soldados do regimento. Calmo e reservado  como se podia esperar dum idealista. E contudo era ele quem, quatro anos antes, mal podia correr, e menos ainda, pensar, de tal forma o haviam, atormentado. Mantinha-se direito como uma bétula perto da sua peça, dava ordens com a segurança dum sonâmbulo e, apenas num quarto de hora, fazia saltar três blindados inimigos. E na- semana seguinte a mesma coisa. E meia hora mais tarde, outro.

 

Se  dependesse  apenas  de  mim  disse Wedelmann num  tom  afectuoso ,  já teria  a  Cruz  de  Cavaleiro.  De qualquer  modo,  ninguém  mais  do   que   você   merece   esta licença.

 

-Obrigado, meu tenente  disse polidamente o segundo-sargento.

 

Asch resmungou quaisquer palavras incompreensíveis, mas que não pareciam muito amáveis.

 

Que   borrada!      exclamou,   dirigindo-se   aparentemente à rolha duma garrafa de rum, que se recusava a sair. com  algumas  outras  expressões   enérgicas  conseguiu   desrolhar duas garrafas, que pôs na mesa com uma série de copos.

 

Para  que   é  todo   este   luxo?   Somos   apenas   três... Desconhecia que  ia haver recepção.

 

Teremos   visitas,   meu   tenente    declarou   Asch. Permiti-me   convidar   o   sargento-ajudante   e   o   subalterno Soêft. Um traz a guia de  marcha, o outro fornece os víveres   a   Vierbein.   Além   disso,   preciso   de   apalpar   Soèft para outra questão. U sexto, finalmente, é o primeiro-cabo Kowalski,  que  deve  conduzir o  nosso  rapazinho  ao  aeroporto  amanhã,  de madrugada.

 

Wedelmann acolheu estas explicações como se se tratasse da distribuição de munições, que, de há algum tempo para cá, era a mesma todos os dias. Havia muito tempo que deixara de admirar-se das medidas tomadas pelos subalternos à sua disposição. Asch tinha o hábito de agir quase sempre por si mesmo e, como conhecia perfeitamente a maneira de pensar de Wedelmann, as suas decisões eram, quase sem excepção, as que o tenente teria tomado. Eram, portanto, boas.

 

E  tem  cuidado   contigo,   rapazinho  disse  Herbert ao amigo.

 

Não  tenhas  medo,  meu  velho.  A  minha  missão  é clara. Cumpri-la-ei o mais depressa possível.

 

Para quê? perguntou Asch sem constrangimento. Quem  é que  te  empurra?   Demora-te.  Vê   descansadamente o que há lá pela terra. Aproveita a ocasião.

 

Vierbein, um pouco inquieto, olhou Wedelmann. Mas este fazia de conta que não ouvira. Preparava um grogue farto, misturando em partes iguais, com toda a precisão, a água e o rum. E esta ocupação parecia absorvê-lo por completo.

 

Descansa em sossego durante alguns dias. Ainda que seja  difícil,  procura   esquecer   que   não   se  pode   fazer  a guerra sem ti. O meu pai que te dê um quarto. Deixa-te amimar pela minha irmã, mas não faças tolices com ela. E  vai  também,  uma  vez  por  outra,   passear  com  minha mulher. E diz a toda a gente que nos encontramos maravilhosamente bem.

 

Não deixarei de o fazer  assegurou Vierbein. Asch deitou um olhar em volta, mirou a chama torva

 

do  petróleo,  o  soalho  sórdido,  o  monte  de palha  a  um canto e os cobertores desdobrados, e disse:

 

É preciso demonstrar aos nossos que vivemos aqui como príncipes. Temos tudo;  não necessitamos,  portanto, de coisa alguma. Temos um só desejo: fazer ajoelhar os Russos, para que a retaguarda possa dormir em paz.

 

Direi  respondeu  Vierbein.

 

Capaz disso és tu  disse Asch examinando o camarada e piscando o olho.

 

Vv’edelmann, que provara o grogue e o achara muito apreciável, meteu-se outra vez na conversa:

 

Não se apresse, Vierbein. Cumpra a sua missão com

 

cuidado. Não se precipite.

 

.  que quer dizer em bom alemão: «Não sejas idiota,

 

Vierbein. Uma ocasião destas não voltará tão cedo.»

 

Wedelmann teve um sorriso aprovador. Mas não explicou o que este sorriso queria dizer. Era com satisfação que via Vierbein aproveitar esta licença. E sabia muito bem que Vierbein, que, mais do que qualquer outro, merecia esta licença, não tiraria dela todo o proveito possível.

 

Lá fora era a neve lívida. Diante das janelas sujas espalhava-se, pálida, a noite que começava. Asch colocou os cartões destinados à ocultação das luzes. O candeeiro vacilou preguiçosamente e dir-se-ia que isto aquecia a casa.

 

Ao longe ouvia-se o rumor abafado de um motor que se aproximava. Depressa o ruído dominou o crepitar do fogão. Asch apurou o ouvido um momento. Depois disse:

 

Aí   vêm   os   nossos   convidados.

 

O primeiro-cabo Kowalski contornou dois profundos buracos de obus e, depois, pisando o travão, parou o carro exactamente diante da entrada da cabana do tenente.

 

Uma auto-estrada  nada é  ao  lado  disto  disse  ele contemplando  com  satisfação  o  caminho  intransitável  por onde viera.

 

O sargento-ajudante, com uma pasta debaixo do braço, saltou do carro e avançou, tropeçando, até à porta. Soeft demorava-se. Desembaraçou-se meticulosamente do cobertor que enrolara em volta de si. Depois, em harmoniosos movimentos, tirou as luvas forradas, após o que ordenou a Kowalski:

 

Traz  o caixote.

 

Serei   eu   teu   criiado? perguntou   Kowalski,   mostrando-lhe  de  maneira  provocadora  o  traseiro,  ao  mesmo tempo  que  de~cia  do  carro.

 

Soêft rogou-lhe algumas pragas que Kowalski, evidentemente, simulou tomar por gracejos, uma vez que riu de vontade e durante bastante tempo. Quanto ao caixote de Soêft. continuou provisoriamente no automóvel.

 

Os três homens, envolvidos nos seus capotes, que arrastavam pelo chão  Soeft vestira o seu pesado capote de peles, à aproximação da noite , penetraram na casa. Wedelmann acolheu-os com um gesto amigável, gritando:

 

Sejam bem-vindos ao castelo!  O sargento-ajudante tentou endireitar-se e fazer a continência  impecavelmente.   Mas  o  tecto  era  baixo  de  mais e   a   continência   saiu   bastante   mal.   Soêft,   atrás,   esboçou apenas o gesto. KowalsKki nem sequer pensou nisso.

 

Trouxe   um   caixotinho   de   produtos   de   cantina anunciou Soêft.

 

Magnífico!   disse   Wedelmann.  Não   será   considerado um luxo.

 

Está   lá   fora,   no   meu   carro.  E   como   ninguém reagia da maneira que ele esperava acrescentou:  É preciso  que  alguém  vá  buscá-lo.

 

Dê   ordem  respondeu   o   tenente.

 

Soêft  deitou  um  olhar  imperioso  a  Kowalski  e  disse:

 

Kowalski...   o   caixote!

 

O primeiro-cabo devia estar surdo. Esgaravatava os ouvidos, ao mesmo tempo que mirava com respeito as garrafas- de rum já desarrolhadas.

 

-De que é que está à espera?  perguntou-lhe Wedelmann.

 

Kowalski   parou   lentamente   de   remexer   nos   ouvidos Deu   meia   volta   com   uma   lentidão   exasperante,   deslizou para fora e voltou logo, dizendo num tom calmo: Não vejo  nenhum  caixote.

 

Soeft, perdendo o sangue-frio  o que só raramente lhe acontecia, saltou para a rua. Kowalski abriu-lhe a porta com solicitude. Pouco depois o segundo-sargento voltava todo esbaforido, vermelho, trazendo o caixote.

 

Ora aí está! disse Kowalski. imperturbável:

 

Porque não fizeste isso logo?

 

Asch rebentou a rir. As pálpebras de Soêft franziram-se mais ainda. Fulminou com um olhar o subalterno, o que não inquietou este pouco que fossse.

 

Wedelmann cumprimentou todos os seus visitantes, apertando-lhes a mão. Convidou-os amavelmente a sentarem-se. Kowalski foi o primeiro a obedecer ao convite: antes que os outros tivessem tirado os capotes já ele saboreava com satisfação visível o seu grogue, que, como se fosse apenas por acaso, se compunha apenas de rum. O sargento-ajudante apresentou ao tenente a guia de marcha de Vierbein. Asch, debruçando-se com curiosidade por sobre o ombro de Wedelmann, observou com surpresa:

 

Porque  não  recebe  Vierbein  uma  guia  de  licença?

 

Porque de há algum tempo para cá todas as licenças estão suspensas no sector da frente  respondeu o sargento-ajudante  num   tom   desagradável.

 

Mas  na  retaguarda  não  sabem  disso.

 

Mas sabemos nós  respondeu o sargento-ajudante. E devemos conformar-nos.  Estava de mau humor e não o   ocultava.   Não   gostava   de   que   se   metessem   nos   seus assuntos.

 

Wedelmann simulava ler com atenção os papéis. Mas não lia. Estava inclinado para a frente e escutava.

 

De pé, atrás do tenente, Asch olhou o brigadas e disse:

 

Não sei se tens razão para fazer isto.

 

Seja como for, está de conformidade com as prescrições actualmente em vigor. Espero que não tenhas dúvidas.

 

Kowalski bebia à saúde de Vierbein; Soêft chupava voluptuosamente um charuto; Wedelmann parecia ler: Bock e Asch observavam-se com expressão agressiva.

 

Se  dás  ao  rapazinho  apenas uma  guia  de  marcha, ele terá de se apresentar na secção de reserva. E aí poderão fazer dele o que quiserem, durante o  tempo que quiserem, 

 

De qualquer modo, ele tem de apresentar-se na secção de reserva. Sem i>so não poderá cumprir a missão.

 

E  na  secção  de   reserva   disse   Soeft,  não   menos voluptuosamente  está  o  nosso   quirido   antigo  brigadas Schulz.  Primeiro-tenente  e  chefe   de  bateria,   

 

Isso   é   verdade    disse   Wedelmann   levantando   a cabeça, inquieto.  Mas não e razão para  que  o assunto corra mal. A  guerra fez  desaparecer  muitas coisas e  não poupou ninguém. Quatro anos é muito tempo.  Que diz a isto, Vierbein?

 

Não vejo nenhum inconveniente, meu tenente disse Vierbein com energia.

 

No entanto, o melhor seria  disse Asch acenando lentamente   a   cabeça    fornecer   ao   rapazinho   todos   os meios de ir pelo  seguro e de  lhe permitir aproveitar um pouco  da  sua   viagem.   Dá-lhe   a   ordem   de   missão   e,   ao mesmo tempo, uma guia de licença.

 

As  duas  ao  mesmo  tempo?

 

Porque não?  Julgas por acaso que por causa disso o teu furriel vai sucumbir ao peso do trabalho?

 

Duas   espécies   de   papéis!   exclamou   o   sargento-ajudante desorientado.  Isso não se pode fazer.

 

Pode-se tudo quanto se quer. Disse-o o nosso Fiihrer. O  sargento-ajudante   olhava   o   tenente,   para   que   este lhe acudisse. Não havia que duvidar: Asch dizia o que o tenente pensava, mas num caso como este era necessário ter o seu assentimento formal. Se as coisas corressem mal  o que não era impossível , era sempre bom ter uma ordem precisa: «Se acha, meu tenente...»

 

Wedelmann tamborilava com o lápis no papel de embalagem que cobria a mesa. Não podia tomar uma decisão: havia gente de mais. o que é sempre perigoso quando se dá uma  ordem  irregular.  O  seu  sentido   de  disciplina   proibia-lho.

 

Qual é a sua opinião, Vierbein?

 

Este compreendeu que o seu superior considerava desagradável a situação e, como sempre, quis mostrar-se condescendente. Respondeu:

 

Creio que uma ordem de missão bastará, meu tenente.

 

Como  quiser  disse  Wedelmann,   aliviado.  E   assinou.

 

Amanhã a tarde estarás na terra, rapazinho. Não me custa imaginar o que farás amanhã à noite.

 

Toda a gente começou a rir. E os risos aumentaram quando, lentamente, se viu Vierbein a corar.

 

Ouve cá, rapazinho  disse Soêft como  se fosse  a coisa mais natural deste mundo , importavas-te de levar um  embrulhinho  meu?

 

com  todo  o  gosto.   O  que  não  pode  é  ultrapassar cinco quilos.

 

Cinco quilos! Para Soeft é o peso duma carta ordinária.

 

Kowalski engoliu ruidosamente o seu grogue e disse: -Quem sabe o que se passa agora no Bismarck? É possível que os recrutas estejam a regalar-se. Sabem? Quando esta porcaria desta guerra tiver acabado proponho que organizemos no Bismarck todos os sábados serões só para antigos combatentes. Antigo combatente será quem tiver morto, pelo menos, um homem, o que se saberá pela caderneta militar. Tu é que vais preparar tudo, Vierbein. Exijo que dances lá uma valsa de honra.

 

Durante   a   guerra   não   se   dança  disse   Vierbein com gravidade.

 

Durante a guerra marcha-se, e é tudo. Disseste bem, meu  velhinho.  Não há  amor,  não  há   raparigas,  não  há cama... Apenas a Pátria e o inimigo. E também os heróis como tu, meu rapazinho, para quem a guerra é qualquer coisa de sagrado.

 

Mais cuidado com a língua, Kowalski  disse Wedelmann com bastante  severidade.  Mais  decência. Para motorista bebe de mais.

 

Aqui   não   sou   apenas   motorista    respondeu   Kowalski sem se impressionar. Sou também um homem, e não me interesso só pela guerra. Não é fácil modificar isto, meu tenente.

 

Seja como for, estás bêbado  disse Asch, tentando endireitar  a   situação,   que   parecia   um   pouco   comprometida.

 

E  tu  estás um primeiro-sargento   respondeu  Kowalski em tom agressivo.  Nota-se isso com bastante frequência.

 

Todos bebiam para não serem obrigados a falar. Sentiam o descontentamento de Wedelmann e conheciam-lhe o motivo. Mas não procuravam fazer-se valer. O nacional-socialismo do tenente chegava para todos.

 

Terão  vocês  intenção  de dormir  aqui?  perguntou Asch quando a última garrafa foi esvaziada.

 

Os visitantes despediram-se de boa vontade, depois de terem recebido a garantia de que não havia mais nada para beber, pois Wedelmann achara preferível não abrir o caixote trazido por Soeft.

 

Levaram Vierbein, que se despedira já dos serventes da sua peça e se encaminhava agora para casa do sargentoajudante, donde, no dia seguinte de manhã, o conduziriam ao aeródromo. Algumas horas mais tarde estaria em casa.

 

O sargento Asch bateu no ombro do amigo.

 

Faz o que te pedi  disse-lhe.  Conta muitas coisas a minha  mulher.   Diz-lhe  que  eu  vou   maravilhosamente: diz-lhe  que  a  erva  ruim  não   a  cresta  a   geada  e   outras frioleiras deste género.

 

Depois afastou-se. A penumbra viscosa do fatigado candeeiro de petróleo obscurecia-lhe o rosto. Asch deixou Vierbein ao tenente, que dizia:

 

Acompanho-o até ao carro.

 

Saíram. Sob a luz brumosa da lua estendia-se, cinzenta, a neve. A noite estava fria e húmida. Nas nuvens baixas insinuava-se já a tepidez da Primavera.

 

Vierbein  disse o tenente , faça o que tiver a fazer e faça-o completamente. Não se deixe aborrecer. Regresse de saúde e traga material  de  rádio e pessoal competente.

 

Sim,  meu  tenente.

 

Outra coisa ainda, Vierbein. Coisa  particular.

 

U’edelmann puxou-o de parte. Hesitava e estava visivelmente embaraçado. Depois disse, com uma precipitação que não lhe era habitual:

 

Mandei meter há pouco na sua bagagem duas garrafas de bom conhaque. Uma é para si. Beba-a com gosto, meu  caro Vierbein.  Beba-a   em  boa  companhia.  A  outra dè-a  da  minha  parte...   sim,  dê-a  à  Sr.a  Schulz.  A  Lore Schulz. Conhece-a. E diga-lhe...  Não, não lhe diga nada. Diga-lhe só que lhe envio os meus cumprimentos. E que lhe desejo todas as coisas boas possíveis. Nada mais. Espero que tudo se passará bem, Vierbein.

 

O tenente afastou-se, visivelmente aliviado, antes que Vierbein pudesse responder-lhe. Esfregava as mãos como se tivesse tocado num ferro em brasa. Depois as trevas engoliram-no.

 

É o que eu sempre disse  observou Soeft.  Ele precisava  duma  mulher.  O   idealismo   não   chega  para   o fazer feliz. Que dizes, Asch? Tenho de lhe arranjar uma Natacha.

 

Ainda estás aí? perguntou o sargento. Se dentro de dois minutos não tiverem desaparecido, corro-os à bala.

 

Até à vista  disse mais uma vez Vierbein. Depois  subiu  para   o  carro  de  Kowalski,  onde  já  se

 

encontravam o sargento-ajudante e Soeft. Kowalski fez rugir o motor e, contornando afoitamente os primeiros buracos de obus, lançou-se no meio da noite.

 

Este rapaz conduz como se tivesse fogo no rabo disse Weddelmann, de pé, atrás de Asch.

 

Podemos   ter   confiança   no   rapazinho    respondeu Asch,  que   adivinhava   o   pensamento   do   superior.   Era preciso que o Diabo se intrometesse na questão.

 

Nos tempos que correm não seria impossível. - E Wedelmann pousou a mão no ombro do seu sargento, ao mesmo tempo que escutava o ruído do motor afastando-se na noite. Depois o silêncio hipócrita da guerra envolveu-os de novo durante alguns instantes.

 

Faz frio  disse Asch para romper este silêncio que os invadia.  Frio e húmido.

 

Dir-se-ia que o universo inteiro estava silencioso. Parecia que já não havia frentes de batalha entre as quais jazessem cadáveres gelados. Já não havia soldados respirando debaixo dos seus cobertores sujos. Já não havia etapa ignorando o repouso e não sabendo exactamente o que era a guerra. E já não havia mulher sobre a Terra a que um homem pudesse agarrar-se. O universo não seria mais que um cemitério?

 

O sargento Asch disse:

 

Se ao menos se soubesse o que o mundo está chocando numa noite como esta!

 

O capitão Witterer, o novo chefe, subiu num passo ágil para o carro da 3.ª bateria que o esperava diante do estado-maior do regimento.

 

O motorista estava indolentemente sentado ao volante. Na retaguarda empilhavam-se as bastante importantes bagagens do oficial. O sol, pálido, parecia ter convidado o motorista para uma pequena sesta, pois este não se mexia.

 

Para a bateria!   exclamou Witterer num tom de audácia.   Mas  depressa, peço-lhe.

 

Linha de fogo? Posição avançada? Posição recuada? perguntou  o motorista,  enumerando  estes termos como um criado de restaurante apressado recita a ementa.

 

Primeiro, às  repartições disse  Witterer num  tom pouco  amável. A atitude deste motorista desagradava-lhe, como muitas outras coisas que vira até aí. Quase todos os soldados, pelo menos os da sua bateria, lhe pareciam desleixados. Era preciso remediar isto  tão depressa  e tão seriamente quanto possível.

 

Como se chama?perguntou  ao motorista.

 

Kowalski.

 

General Kowalski?

 

Não, apenas Kowalski  disse o soldado pisando o acelerador e metendo direito a um buraco de obus. O carro enterrou-se, atravessou, saltou brutalmente. Instintivamente, Witterer agarrou-se aos lados; o boné escorregou-lhe.

 

O   meu   posto   é   primeiro-cabo  disse   então   Kowalski.

 

O capitão não respondeu e pôs-se a observar a estrada. Esta 3.ª bateria», pensava, lamentando ter de o pensar, «parece realmente uma bela porcaria. Aliás, como muitas outras coisas aqui!» Mas não era homem para se deixar desencorajar. «O prazer aumenta na proporção da resistência», pensou ainda, ao mesmo tempo que se consagrava a conservar o equilíbrio, apesar da velocidade louca. Transformar esta pocilga numa coudelaria modelo era uma tarefa que valia a pena para um homem como ele.

 

O capitão Witterer vinha em linha recta do Grande Quartel-General. Era ali o homem de confiança dum dos generais encarregados da organização dos transportes. Não tardaria a ser indispensável. Mas uma coisa lhe faltava para fazer uma carreira brilhante: a experiência da frente. Ora, para ele, que até aí dominara todas as dificuldades como se fossem brincadeiras, isto não era um problema. Ocupava-se já em remediar estas pequenas imperfeições. Dentro de dois ou três meses este intermédio estaria acabado e haveria na frente mais uma unidade de que se podia ter orgulho.

 

O carro deixara a etapa e saltava na estrada arruinada. Neve cinzenta, árvores mortas, cabanas enterradas na terra tudo parecia fugir à sua passagem. A gasolina cheirava mal, o motor rugia, uma atmosfera fria e húmida chicoteava-lhe o rosto. O motorista guiava com dois dedos da mão esquerda; a direita estava mergulhada profundamente na algibeira do capote.

 

Witterer pôs-se a examinar o homem de mais perto. Não se podia considerar limpo o capote: dando às coisas os nomes devidos, estava sujo, nojento. Estava coberto de nódoas de óleo e de salpicos de lama provenientes ainda do Outono precedente. Além disso, o sujeito não estava barbeado. Dele vinha um cheiro bolorento, adocicado, de álcool, que subia às narinas, tal como o que se respira de manhã nas tabernas mais modestas. E as mãos, as barbatanas, para melhor dizer, estavam de tal modo sujas que dir-se-ia que ele as enterrava no chão todas as noites. Não era um soldado, pelo menos não era um soldado que conviesse à sua bateria  era um pobre diabo. É certo que sabia guiar. Guiava como um demónio. Sempre era alguma coisa.

 

Ainda é longe ?  perguntou Witterer.

 

Não muito  disse o primeiro-cabo.

 

Kowalski aproou à aldeia onde estava a posição recuada. Quase não moderou a marcha, embora os homens e os veículos parecessem barrar-lhe o caminho. Lançava-se sobre eles com risco da vida e os ameaçados fugiam tão depressa quanto podiam. Witterer admirava-o sinceramente. Mas ia observando com uma crescente desconfiança o seu novo centro de actividades.

 

Um pouco por toda a parte havia blindados. Numa miserável forja ouvia-se o ruído duma oficina de reparações: camiões desmanchados viam-se aqui e além. O hospital da frente estava instalado numa escola. Na casa mais importante da aldeia alojava-se o estado-maior de um regimento de infantaria. Em volta da casa mais importante depois daquela a 3.ª bateria estabelecera a sua posição recuada.

 

Kowalski apontou sobre a administração. Exactamente diante dela travou tão bruscamente que Witterer quase foi projectado contra o pára-brisas. Antes que o capitão pudesse dizer o que precisava de dizer a porta da cabana abriu-se e o sargento-ajudante Bock precipitou-se para fora.

 

O primeiro-cabo Kowalski pôde então admirar com um entusiasmo crescente o raro espectáculo que se lhe apresentava aos olhos: o brigadas envergara o grande uniforme, segundo todas as regras da caserna: até mesmo o seu caderno de notas estava no lugar ad hoc. Trazia a sua fiada de condecorações e a sua Cruz de Ferro de 1.ª classe com espadas resplandecia de limpa-metais. Até o cinturão era um modelo do género. E nas suas botas reflectia-se a neve suja. Kowalski estava deliciado: não sabia que tal coisa pudesse existir ainda.

 

O sargento-ajudante pôs-se em sentido, fez a continência regulamentar e apresentou energicamente o seu relatório: «3.ªbateria: 2 oficiais, 23 subalternos e 138 soldados, dos quais 2 subalternos e 9 soldados no hospital, 1 subalterno e 4 soldados no comando, 1 soldado em detenção preventiva, 1 soldado preso.»

 

Witterer sentia-se sinceramente feliz. Finalmente aqui estava um homem da sua bateria que produzia boa impressão. Um veterano: via-se logo ao primeiro olhar. A coluna vertebral do exército. Nestes homens podia-se ter confiança ; era destes que havia necessidade  exactamente destes.

 

O capitão desceu do carro no seu passo sempre ágil. Energicamente, dirigiu-se para o seu sargento-ajudante e estendeu-lhe a mão, o que tornou o subalterno visivelmente orgulhoso. Ao mesmo tempo olhavam-se no branco dos olhos, como para exprimirem os seus votos. Kowalski divertia-se como um deus.

 

O sargento-ajudante virou-se então apressadamente para o seu alojamento e abriu a porta de par em par. Witterer curvou-se, embora não fosse necessário, e entrou. Encontrou lá dentro o tenente Wedelmann, que lia os documentos confidenciais.

 

Os dois oficiais saudaram-se com reserva, apresentaram-se e esconderam sob uma exagerada cordialidade a sua curiosidade. Depois de alguns cumprimentos banais, ao mesmo tempo que se examinavam como dois alquiladores, sentaram-se.

 

Cheguei anteontem de manhã, mas o coronel Luschke julgou  útil  fazer-me  primeiro   conhecer  todo   este   sector da frente.

 

É um dos métodos do coronel  respondeu Wedelmann,   deitando   um   rápido   olhar   ao   sargento-ajudante. Ambos sabiam que um desses métodos consistia em «aquecer» os novos oficiais durante pelo menos vinte e quatro horas no estado-maior do regimento. Se não eram completamente estúpidos ou não estavam cansados de viver, compreendiam de que lado soprava  o vento e adaptavam-se.

 

O   coronel   é   um   homem   notável  disse   Witterer cautelosamente.

 

Weddelmann  aprovou.

 

É quase impossível subtrair-se alguém à vontade dele. É bom sabê-lo.

 

Até agora a  3.ª bateria  teve  muitos êxitos,  não  é verdade?

 

Assim se pode dizer.

 

Espero  que  não  tenha  sido   com   prejuízo   da   disciplina.

 

A força combativa é mais importante  que  a  disciplina  disse Wedelmann num tom breve.

 

Contudo, uma é condição da outra.

 

As teorias desse género soam sempre bem, meu capitão. Mas na prática as coisas são diferentes. Ou pensa que alguma vez haverá um regulamento indicando de que modo convém morrer?

 

Witterer sorria com uma expressão obstinada e superior. Wedelmann não lhe parecia ser o oficial ideal que o coronel Luschke continuamente se esforçara por pintar-lhe. A maneira como estava sentado era, aos olhos de Witterer, pouco própria de um oficial. Era evidente que a estada numa frente imóvel não lhe fizera bem. Em casos assim os ossos enferrujam-se, a energia paralisa-se, o espírito põe-se a ruminar ideias. As primeiras linhas tinham realmente necessidade de sangue novo. Fora por isso, aliás, que viera.

 

Preparou tudo para me entregar a bateria, tenente?

 

Que é que havia  a preparar?  respondeu  Wedelmann.  Entrego-lhe a bateria tal como está. Entrego-lhe uma bateria experimentada no combate e que muitas vezes foi louvada. O que fizer dela é consigo.

 

Naturalmente  disse o capitão com frieza.  Contudo,  não  pode  dispensar-se  uma  transmissão  escrita   de poderes.

 

Não temos livro de bordo  disse Wedelmann cada vez mais contrariado.  O relatório de cada dia dá a conta exacta  do  pessoal,  dos  veículos,  das  munições,  da   gasolina  se é nisto que pensa, meu capitão.

 

O sargento-ajudante, esforçando-se por proceder com tacto, interveio:

 

- O relatório escrito acerca dos documentos secretos do comando está pronto.

 

Muito bem  disse Witterer, levantando-se.  Vamos primeiro examinar as coisas de mais perto.

 

Pois   sim    disse   Wedelmann   levantando-se   também.  Comecemos pela linha de fogo.

 

Witterer, que se dirigia já para a porta, parou como se uma ideia acessória, sim, mas importante também, lhe tivesse acudido, e perguntou:

 

Antes de nos dirigirmos às peças, ainda outra coisa: onde é que eu vou morar?

 

Wedelmann pensou: Morar não é a palavra própria nas circunstâncias em que nos encontramos.» Disse:

 

Pode residir, comigo, meu capitão. Há ainda espaço, vendo bem. Estou alojado na posição avançada.

 

De começo, a fim de me pôr ao corrente de tudo, prefiro ficar na posição recuada.

 

Perfeitamente, meu capitão  disse o brigadas, conseguindo com dificuldade esconder quanto esta perspectiva lhe era pouco  agradável.  Estava  em  sua  casa.  Nem  por sombras queria ver instalar-se ali alguém com o poder de se meter nos seus negócios e que estava mesmo decidido a fazê-lo.

 

Witterer fez um gesto com a cabeça ao seu sargento-ajudante e dirigiu-lhe ainda por cima um sorriso, que depressa lhe deixou adivinhar que devia esperar outras surpresas.

 

Aliás, antes que ele compreendesse o que se preparava, o capitão dizia já:

 

Bem entendido, é você,  Bock,  quem tem  o  melhor alojamento da posição recuada.

 

Wedelmann sorriu, agradavelmente surpreendido. O sargento-ajudante estava mudo, em sentido. Um e outro sabiam que não era o sargento-ajudante quem tinha o melhor alojamento, mas sim, como era natural, Soeft, o imperador dos abastecimentos. Mas Witterer não podia ainda saber estas coisas.

 

Sim  continuou o capitão, deleitando-se com a sua superioridade, eu sei, meu caro.  É sempre o brigadas quem tem o melhor alojamento. Toda  a  gente  sabe isto. Mas você deixará o seu alojamento para o seu capitão, não é verdade?

 

Sim  respondeu Bock com a voz estrangulada.

 

Então desobstrua isto aqui  acrescentou Witterer. Quando eu tiver voltado da linha de fogo verei o que é capaz de fazer pelo seu novo chefe.

 

Sim, meu capitão  disse o sargento-ajudante num tom cheio de amargura.

 

Proponho-lhe que vá, com a sua repartição, instalar-se em casa de Soeft  disse Wedelmann divertido. com a condição, claro, de que se não oponha, meu capitão.

 

Muito bem  disse  Witterer.  Instalar-se-á com  a sua repartição em casa de Soeft.

 

O sargento previa terríveis complicações. Não só perdia um alojamento muito aceitável, mas ainda por cima tinha Soêft às costas. Que imaginava, no fim de contas, o novo chefe? Ele não podia meter-se com Soeft logo ao princípio. E justamente com Soeft! Se não se acudia a repor tudo em ordem, o resultado podia ser reduzir toda a gente a pão e laranja. O novo comandante não tinha ideia nenhuma do que se passava.

 

Quem   é   o   meu   motorista   habitual ?  perguntou Witterer.

 

O primeiro-cabo Kowalski  respondeu Bock, solícito.   Dizer   isto  tranquilizava-o.   Ripostava   assim.   Porque Kowalski  era  o  condutor   ideal   para   quem   desejasse   ser seriamente sacudido.

 

Exactamente   ele?-perguntou   Witterer   sem   entusiasmo.

 

É o melhor motorista da bateria  observou Wedelmann.  Desembaraça-se em todas as circunstâncias. Também se sentia satisfeito por ver Kowalski ao serviço do capitão. O primeiro-cabo, quando queria, entendia meias palavras. Adivinhar o que se pensava e, quando isso lhe desagradava, precaver-se com antecipação era uma das suas especialidades.

 

Admitamos, então -concluiu Witterer. Conseguiremos domesticá-lo.

 

Aparentemente de acordo, Witterer e Wedelmann saíram da repartição e, conduzidos por Bock, dirigiram-se para o pequeno Mercedes. Kowalski não estava: foi preciso procurá-lo. Não demoraram a encontrá-lo perto da cozinha rolante, onde verificava se a carne estava cozida em condições.

 

Numa velocidade louca conduziu os seus chefes à linha avançada. Daí os dois oficiais encaminharam-se a pé para as peças dispostas em bateria na orla da aldeia.

 

Witterer, que, de conformidade com o regulamento, procurava todos os abrigos naturais, pôs o capacete de aço e, encostado a uma árvore, inclinado para a frente, concentrado, examinou o terreno com o seu binóculo. Pouco se via das linhas inimigas.

 

Só duas das nossas peças podem atirar directamente

 

explicou   Wedelmann.   As   outras   duas   dominam   as colinas situadas diante de nós para cá da nossa linha de infantaria e destinam-se sobretudo a defender-nos dos blindados.

 

E para o tiro indirecto?

 

Wedelmann tirou do canhão da manga um mapa bastante estragado, todo riscado de traços de lápis de cor, e desdobrou-o.

 

Indirectamente, as nossas quatro peças dominam em toda a extensão o sector da frente diante de nós.

 

com gestos breves da mão indicou pontos de referência, mostrou a posição das baterias vizinhas no mapa e no terreno e esforçou-se por tornar visível, depois, a linha pouco profunda do inimigo.

 

E regam muitas vezes os camaradinhas do outro lado?

 

Nestas últimas semanas tem havido  aqui o silêncio mais completo.

 

Ora essa! Não lhes desejam os bons-dias? Não lhes dizem «boa noite»?

 

Meu capitão  respondeu Wedelmann  amavelmente

 

nós utilizamos as nossas munições na medida em que a situação o exige. Não temos necessidade de fazer exercício de tiro. A nossa bateria já tem. bastante experiência de guerra.

 

Witterer, sempre abrigado, não julgou dignas de comentário estas explicações. A opinião crítica que tinha do tenente Wedelmann afigurava-se-lhe cada vez mais justificada. Wedelmann estava cansado da frente. E os seus homens seguiam-lhe automaticamente o exemplo. Faltava-lhes centelha.

 

Após ter verificado o absoluto silêncio neste sector, Witterer passou em revista as posições e encorajou com palavras bem escolhidas os soldados, as sentinelas e os serventes das peças. Ouviram todos uma série de termos bem conhecidos, tais como «activar», «não deixar criar ferrugem», «mostrar com que lenha se aquecem», e assim por aí fora. Wedelmann conservava-se em silêncio, mas não estava surpreendido. Os soldados, esses, estavam surpreendidos e conservavam-se calados como ele. Witterer interpretava isto como uma prova de respeito.

 

Os dois oficiais, cujos pensamentos eram para o futuro muito diferentes e mesmo opostos, dirigiram-se depois para o alojamento do tenente. Encontraram ali o sargento Asch. O capitão teve um sobressalto ao vê-lo. Depois sorriu com frieza.

 

com um pouco mais esquecia-me de si  disse.

 

Sabia que pensaria em mim, meu capitão.

 

O  sargento  Asch  é  o  subalterno-adjunto   da  nossa bateria  disse Wedelmann.  Não sabia que já se conheciam.

 

Sim, já  travei  conhecimento  com  ele.  E  conheço-o mesmo bem, parece-me.

 

Instalaram-se e Asch sentou-se, mesmo sem ser convidado. Witterer achou preferível tolerá-lo sem nada dizer. Mais tarde as coisas mudariam. E de que maneira!

 

Há alguma coisa de especial na linha  de fogo? perguntou  o tenente.

 

O terceiro canhão deve ser afinado. Se o transportarmos hoje para a oficina, estará pronto depois de amanhã.

 

Está de acordo, meu capitão ?

 

Os armeiros não poderão vir à linha de fogo? perguntou Witterer.  Ou têm demasiado medo para isso?

 

Não   há   razão   para   medos,   meu   capitão    disse Asch.  Se o exigirmos, os armeiros podem afinar a peça na linha de fogo. Mas o trabalho na oficina é mais rápido e mais seguro.

 

É o que você diz. E se acontece alguma coisa aqui, entretanto, sargento?

 

Nada pode acontecer aqui de um dia para o outro, meu capitão. Actualmente não há no sector em frente nenhum blindado, nem, por assim dizer, artilharia. Os nossos batedores não anunciaram nenhum reforço digno de nota, quer  em  material,  quer  em  homens.   Daríamos  por   isso horas antes...

 

De futuro, sargento, deixar-me-á o cuidado de ajuizar dessas coisas. Witterer disse  isto  num tom  compassado e como se se tratasse simplesmente de dar um conselho. Mas era impossível não ver que não admitia qualquer discussão sobre este ponto, nem mesmo sobre qualquer que fosse.

 

Asch verificou-o imediatamente e calou-se. Deitou um olhar a Wedelmann, que o evitou.

 

Procederei nesse sentido  disse o sargento.

 

A porta abriu-se bruscamente e Kowalski entrou. O seu ensebado bivaque estava posto para a nuca e o colarinho do casaco largamente aberto debaixo do capote.

 

Que vem aqui fazer?  perguntou Witterer.

 

Venho aquecer-me  disse Kowalski, aproximando-se do fogão. Estendeu as mãos e riu voluptuosamente. Depois sacudiu a neve das botas.

 

Há mais alguma coisa?-perguntou Wedelmann  a Asch.

 

Não deveríamos dar a peça de Vierbein a Krause. O capitão quis saber quem era esse Vierbein. Wedelmann informou-o.  Então Witterer  quis  saber porque não estava Vierbein na linha de fogo. Wedelmann deu-lhe igualmente as explicações necessárias. E depois quem era Krause. E porque não devia este ter a peça de Vierbein.

 

-O sargento Vierbein  está  em  relações particularmente boas com os seus serventes. Krause é um tipo de género completamente diferente. Os homens terão dificuldade em habituar-se a ele. É provável que destrua todo o trabalho  de Vierbein.

 

Vou    examinar    esse    Krause  disse    Witterer,    ao mesmo tempo que pensava que, se o sargento Asch se lhe opunha tão  violentamente,  Krause devia  ser  um  soldado muito diferente dele. E isto era interessante.  Porque este Asch...

 

Não   têm   nada   que   se   beba?  perguntou   Kowalski sem se constranger e gritando como se estivesse numa cervejaria.

 

É isso o que o satisfaz, não?  perguntou Witterer ironicamente.

 

Mais ou menos  disse Kowalski.  Que é que nos resta? Do que eu mais gostava ainda era de que se pudessem meter as mulheres em garrafas.

 

O capitão tinha a intenção de exercitar-se outra vez na ironia, imaginando erradamente que Kowalski era um objecto perfeitamente apto para isso. Mas a palavra «mulheres» serviu-lhe de ponto de partida para desenvolver uma das suas ideias preferidas.

 

Quando   esteve   aqui   pela   última   vez   o   Teatro   do Exército?  perguntou  amavelmente.

 

Aqui?   perguntou    Wedelmann,    surpreendido. Aqui, na nossa posição? Está a gracejar.

 

Mais um  domínio  que  foi  descurado   disse Witterer com convicção.  É evidente que há falta de iniciativa. Claro que ninguém aqui virá por si mesmo; é preciso que se trabalhe. E eu não hesitarei em fazê-lo. O meu carro está pronto, cabo?

 

Para isso, sempre  disse Kowalski com um zelo que excitou a admiração sincera de Wedelmann e Asch.

 

O motor crepitou com violência como um cavalo detido bruscamente após um galope furioso. Depois soprou ainda uma vez e ficou silencioso. O primeiro-cabo Kowalski sorriu calmamente, olhando o capitão Witterer, que estava ainda impressionado pela corrida furibunda que acabara de fazer.

 

Cá  estamos  disse   o   primeiro-cabo.

 

Estavam na etapa, diante da escola onde se encontravam instaladas as senhoras do Teatro do Exército. Witterer examinou a granja, relativamente sólida, onde estava alojado o seu grupo, agarrou na pasta e desceu. Kowalski preparava-se para fazer o mesmo.

 

Espere aí  disse o capitão.

 

Kowalski, sem dizer palavra, olhou o seu chefe com uma expressão comovedora, como se fosse um bravo carneiro. Mas o capitão não reparou no seu motorista, que teria sido observado com inquietação por aqueles que o conhecessem. Witterer desapareceu num passo ágil e rápido na escola onde estavam instalados os membros da Kommandantur.

 

Ficando só, o primeiro-cabo enterrou-se profundamente no assento, levantou as pernas, repousou as botas, notavelmente enlameadas, no couro gasto do assento vizinho e enfiou de mau humor as mãos nas algibeiras do capote. Sem se impressionar, olhava todos os soldados que passavam perto dele.

 

É realmente um nojento velhaco!  disse, por fim, com convicção e tão alto que um tenente que passava supôs que o  chamavam e voltou-se. Kowalski não lhe concedeu sequer a honra de um olhar e suspirou com ar de desprezo.

 

As ruas intransitáveis obliquavam, torciam-se, serpenteavam através da aldeia. Algumas antigas igrejas boas para demolir deixavam escapar nuvens azuis-negras de fumo: havia oficinas trabalhando lá dentro; nalgumas delas queimava-se gasolina. As casas semiconstruídas de madeira amontoadas em volta das igrejas a distâncias irregulares, tinham o ar de montes de lenha abandonados para queimar. Sobre tudo isto jazia a neve húmida, viscosa.

 

«Parece-me», pensava Kowalski de mau humor, olhando a grande escola sarapintada de ferrugem onde Witterer desaparecera com a pasta, «que este chefe me toma por um motorista de táxi.»

 

E perguntava a si mesmo, com o rigor de que por vezes era capaz, se devia rectificar ou não esta maneira de ver. E como era sempre por aquilo a que chamava «clareza», hesitava em fazê-lo «já ou agora mesmo».

 

O aparecimento do subalterno Soeft arrancou-o a esta profunda meditação. Soeft, de nariz no ar, saía orgulhosamente da escola, esfregando prazenteiramente as mãos antes de as enfiar quase cerimoniosamente nas suas luvas forradas. Parecia dar-se pouco ao trabalho de esconder que acabara de ter uma experiência agradável. Teve para Kowalski um sorriso cúmplice, piscou o olho e preparava-se para passar sem se deter.

 

Eh, lá! Subalterno! Chegue-se aqui. Foi abandonado pelo Céu e pelo Fiihrer, hem? Já não sabe que um segundo-sargento deve ser o primeiro a saudar um primeiro-cabo?

 

Soeft voltou atrás, parou diante da trotineta de Kowalski, examinou uma e outro e disse:

 

Porque gritas dessa maneira, pedaço de asno ? Tens frio, hem? Mas isso não te pode fazer mal, alma de lacaio!

 

Estou aqui porque quero estar  respondeu Kowalski profundamente vexado, mas conseguindo disfarçá-lo.

 

Tens mesmo o ar disso  disse Soeft com um sorriso de satisfação.  O homem nascido para impor a sua vontade!

 

Se eu quiser, murcho-te o focinho  respondeu Kowalski mansamente. Mas no fundo sou um ser pacífico. com uma garrafa de aguardente  uma garrafa de litro, entenda-se  tu próprio serias capaz de me tornar manso como um cordeiro.

 

Pode-se arranjar disse Soéft, balançando-se sobre os joelhos. Agora mesmo, se quiseres. Porque tu vais ter necessidade de coragem.

 

Porquê, meu velho?

 

Já viste as bonecas, motorista?

 

O primeiro-cabo engoliu o «motorista» e, com uma indiferença conseguida  dificilmente,  perguntou:

 

De categoria?

 

De primeira... De categoria excepcional.

 

Quase  como em  França, então?

 

-Vejamos, pedaço de burguês sem educação...  Como podes comparar as coisas daqui com a França?

 

Os  teus   olhos   engelham-se   cada   vez   mais,   Soeft. Comes demasiado. É isso que te dá mau parecer.

 

Vai  ver  tu  mesmo,   carroceiro.  Vai   lá,   motorista! A não ser que não seja permitido aos motoristas!

 

Desaparece da minha vista, porco! - rugiu Kowalski, furioso.  Senão transformo-te em picado.  Depois, sem transição, perguntou:Onde é que as bonecas asilam?

 

Andar de cima, à esquerda, última porta. Quando o chefe te tiver atirado pela porta fora, o que podes ter como certo, vai ter comigo à messe da Wehrmacht. Sala do fundo. Pergunta pela enfermeira Betty.

 

Podes  esperar  muito   tempo  disse   Kowalski,  seguro de si.  A mim ninguém me põe fora. Quem o tentar é porque está farto de viver.

 

Virás dentro de um quarto de hora. Sei o que digo. Dou-te um certificado de garantia, se quiseres. Dentro de um quarto de hora estarás na messe ou aqui na rua, como aliás  convém a um  motorista.

 

Dito isto, Soeft afastou-se. Rangendo os dentes, Kowalski saiu do carro e escalou os degraus da granja-escola, semelhante a uma caixa de fósforos. Um cartaz do tamanho duma ardósia escolar anunciava que os membros da Kommandantur estavam reunidos. Por baixo, um cartaz mais pequeno, mas mesmo assim impossível de passar despercebido, declarava que o acesso era rigorosamente interdito aos que não tivessem autorização. Como sempre em casos semelhantes, Kowalski considerou que tinha autorização.

 

Entrou e trepou até ao andar superior. Depois de se ter assoado aos dedos, virou à esquerda. Ao fim da tripa a que se podia dar o nome de corredor parou para escutar. Ouvia vozes de mulher. Ouvia-as deliciado. Tinha a boca aberta. Automaticamente, esfregou o queixo. Fazia-lhe bem ouvir tais sons.

 

Contudo, estas vozes não vinham, conforme esperava, do último quarto, mas de detrás da penúltima porta da esquerda. Kowalski aproximou-se e a sua delícia aumentou ligeiramente. Abriu a porta e introduziu a cabeça pela abertura.

 

Viu primeiro uma mulher sentada perto da janela, ocupada a escrever, uma mulher que lhe pareceu severa. Ela interrompeu o trabalho, mas sem levantar os olhos. Dir-se-ia que esperava qualquer coisa pacientemente.

 

Depois o olhar curioso de Kowalski foi mais longe. com a boca novamente aberta, contemplou a outra mulher que se encontrava no quarto. Estava estendida na cama, indolente, gorducha, de carne polida; ela olhava-o sem constrangimento, mas também sem amabilidade.

 

Nessa altura a mulher sentada perto da janela olhou o intruso. Perguntou:

 

Por acaso  não bateu?

 

Não  respondeu Kowalski, surpreendido. E apurou o ouvido a esta voz, que lhe parecia habituada a dar ordens.

 

Nunca ouviu dizer que é assim que se faz?  perguntou ela.

 

Ouvir dizer ?  Sim  disse  Kowalski,  observando  a rapariga deitada na cama. Abriu a porta e introduziu-se no quarto. Simplesmente, perdi por completo o hábito. Há mais de um ano que não sei o que seja uma porta à qual seja necessário bater. E portas atrás das quais haja raparigas menos ainda.

 

Nesse caso, é tempo de ganhar de novo o hábito disse  a mulher  de  aparência severa,  sorrindo um pouco. E que poderemos nós fazer por si, Sr....

 

Kowalski  disse ele,  simulando um sorriso embaraçado.

 

Então, o que deseja o Sr. Kowalski?

 

Esta mulher da janela tinha uns olhos bons, uns olhos que olhavam a direito... e agora uma voz! Vinte deuses! Óleo e seda! Kowalski estava impressionado e deixava-o transparecer.

 

Procuro o meu capitão  disse, por fim.

 

Não há aqui nenhum capitão  disse a mulher, sorrindo.

 

Talvez ele esteja comigo, na minha cama  disse a loura. Teve um pequeno  riso  abafado,  violento  e breve.

 

Eu posso talvez ver  disse Kowalski, solícito.

 

Então, Sr. Kowalski perguntou a senhora de cabelos castanhos e curtos, que quer mais?

 

Posso facilmente imaginar o que ele quer  disse a loura numa voz aguda.

 

Nem toda a gente quer o que tu pensas, Viola  disse a mulher da janela num tom de censura; a loura tapou as ancas com o cobertor.

 

Claro que não  acrescentou Kowalski num tom convicto e inquietante.  Claro que não. Não sou perigoso.

 

Dizendo isto, teve a penosa sensação de corar. A mulher que escrevia afastou a carta e sorriu. A loura, na cama, riu outra vez. O sorriso perturbava Kowalski; o riso irritava-o.

 

Teve de fazer um esforço para readquirir a sua habitual insolência. E disse:

 

Uma vez  que me  pergunta  o que  quero,   desejava saber como se chamam. O meu nome é Kowalski, como já sabem; Bruno para as senhoras. Como se chamam, então?

 

Hem ! Estás a ver? disse a loura. É sempre a mesma coisa. Por enquanto, quer conversar.

 

Pertencemos ambas a um grupo do Teatro do Exército. O meu nome é Charlotte. Toco piano, recito versos e procuro encontrar as palavras de ocasião para ligar os diversos números do programa. Essa aí é Viola. Vilma é o seu verdadeiro nome, se não me engano. Dança. Em todo o caso, está inscrita no passaporte como bailarina.

 

Eu sou mesmo bailarina.

 

Não é difícil imaginar  disse Kowalski piscando o olho. Estendeu a mão e levantou o polegar, gesto que exprimia admiração.

 

E agora  disse a mulher da janela numa voz em que deixara de haver amabilidade  a representação particular terminou. Até à vista!

 

E onde encontrarei eu o capitão? Ele deve estar aqui. Não há mais nenhuma da vossa espécie?

 

Sim,  há   ainda  um   exemplar   disse   Charlotte. Chama-se Lisa e mora ao lado. Nas suas relações há um capitão.  Ela  ficará  com  certeza  tão  encantada  de  o  ver como nós.

 

Se querem continuar a estar encantadas, fico de boa vontade  declarou Kowalski pressurosamente.

 

Neste  momento   disse  Charlotte   não   é  necessário.  Levantou-se e dirigiu-se para Kowalski, e este verificou que era alta e bem feita.  Talvez mais tarde  disse ela, mas os seus olhos eram pouco amistosos.

 

Kowalski deixou-se empurrar para o corredor sem resistir. Afagou a manga na qual a mão dela pousara. Sentiu o uniforme empestado de suor, de humidade e de palha. Tinha ainda sensibilidade para achar que isto era pouco sedutor.

 

com mil milhões de diabos!exclamou, e dir-se-ia um camponês ao ver o seu trigo destruído pelo granizo.

 

Mas Kowalski não era homem para se deixar levar por ideias romanescas. Aceitava a vida como ela vinha. Não fazia nada para apressar as coisas; pelo contrário, travava-as. E tentava convencer-se de que o que acabava de passar-se era simples curiosidade. As mulheres  ele dizia as «frangas» tinham destas reacções, sobretudo nas circunstâncias em que se encontravam.

 

De melhor humor, bateu à última porta e entrou sem esperar. Era evidente que incomodava, embora a situação em que irrompia não fosse particularmente delicada. As duas pessoas que tinha na sua frente guardavam as distâncias. Sentados a uma mesa, bebiam café. Do autêntico, que lembrava Soeft.

 

Que quer daqui?  perguntou Witterer contrariado. A jovem Lisa,  de  olhos  espantosamente grandes,  que

 

absorviam todas as coisas, conservou-se num silêncio digno. Estendeu a mão e aflorou a todo o comprimento a borda da mesa.

 

Queria   perguntar   quanto   tempo   terei   de   esperar ainda.

 

Deixe-se lá estar que o saberá.

 

Se ainda leva muito tempo  disse Kowalski, olhando sem embaraço a rapariga dos olhos grandes, eu podia talvez ir até à messe dos soldados e beber um copo.

 

Vá à messe, se isso lhe apraz. Mas não lhe darão de beber. Chá, quando muito.

 

Kowalski achou admirável o dedo de Lisa que parecia acariciar a beira da mesa. Num tom particularmente afável’ respondeu: «Muito bem», ao mesmo tempo que pensava: «Pois seja o chá... como quiserem. Chá com rum. Ou antes, rum com chá.» E num tom benevolente acrescentou:

 

Pode procurar-me lá em baixo quando tiver acabado aqui.

 

Que ideia é essa?perguntou Witterer furioso. Na sua angulosa cara de robot os músculos das maxilas tornaram-se salientes. Kowalski achou que esta reacção tinha também interesse e deixou ao seu capitão o tempo necessário para encontrar outras palavras.

 

Contudo,  é muito simples  disse Lisa  com uma amabilidade  acentuada.  Às. cinco horas  temos um  ensaio de programa. Resta-nos até lá uma hora. Não seria uma solução prática vir o seu motorista buscá-lo aqui às cinco menos um quarto?

 

Acho bem  disse Witterer com um ar desagradável, mas  esforçando-se   visivelmente   por  evitar   qualquer  discussão suplementar.

 

Kowalski observou: «Ainda não está muito adiantado com ela. Ainda não se tratam por tu. Mas a coisa pode mudar depressa, sobretudo na época em que estamos. A pequena não escapará. É pena, porque ela é bonita! Mas é a guerra...»

 

Tenciona instalar aqui os seus quartéis de Inverno? perguntou  Witterer  num tom  irónico,  persuadido da sua infinita superioridade.

 

Kowalski esteve quase a responder: «E porque não?» Mas reteve-se a tempo, esboçou uma continência e afastou-se.

 

Dirigiu-se à messe e penetrou, como se fosse numa sala de espera, na sala reservada ao Teatro do Exército. Atravessou esta e dirigiu-se para um compartimento do fundo.

 

O camarada Soeft estava ali, à vontade, como sempre. Acabara de concluir com a enfermeira Betty um negócio interessante e bebia um copo ao êxito.

 

Você é um pulha  dizia a enfermeira Betty em tom enérgico.  Mas,  como  se  trata  da minha messe,  pouco me importa quem me entregue as melhores mercadorias. Os meus soldados sempre poderão aproveitar.

 

Kowalski tomou lugar à mesa. Estendeu os braços, apoiou a cabeça nas mãos e pôs-se a rir suavemente.

 

Você também é do género dele?

 

Nunca  respondeu  Kowalski  calmamente.  Contento-me em beber de vez em quando à sua custa, e é dar-lhe muita honra.

 

A enfermeira riu, acenou a cabeça e afastou-se. Vista de costas parecia ainda mais maciça do que de frente.

 

Como a minha mãe  disse Soeft, seguindo-a com os olhos, com uma ternura estranha e muito surpreendente nele.  Tão teimosa como a minha mãe, tal qual. Quando ela me bate no ombro, meu velho, isso vale mais para mim do que um camião de conserva de carne.

 

Queres  um   lenço?   perguntou   Kowalski,   impassível.  Não vás imaginar que eu tenha algum.

 

Soeft recuperou o sangue-frio, o que não lhe foi particularmente difícil.

 

E então?  perguntou, lambendo os beiços. Que tal, as miúdas?

 

Formidáveis!  disse Kowalski solenemente.  Absolutamente de primeira ordem!

 

Que te tinha eu dito?!

 

Uma delas estava  doida por mim. Não me queria deixar sair. Que holofotes!  E o  resto?  E uma voz,  meu velho! É de...

 

Não digas asneiras  respondeu Soeft num tom convicto.  Eu conheço essas senhoras. Isso não conta. Bastou-me um olhar. Um número como tu não entra na corrida.

 

Se eu te digo, Soeft, que ela está doida por mim, é porque está mesmo  doida.   Compreendes?  Doida varrida.

 

Pois bem!  Tu  podes  ouvir-me  a  mim,  pedaço  de idiota. Conheço os preços actuais, porque sei onde estão a oferta e a procura.

 

Tu não sabes nada de nada, vil comerciante!

 

Kowalski,  pedaço   de   idiota  disse   Soeft  sem   se melindrar,   com  certeza   não   quererás  mijar   contra   o vento. Uma delas, a Charlotte, a que toca piano, é bastante cautelosa. Quer de certeza o anel no dedo antes de ir para a cama. Seja como for, sabe muito bem que os preços neste sítio são terrivelmente altos. Ela não se deixa levar abaixo de oficial  do estado-maior, e isto  com a condição de que ele seja, na vida civil, director-geral. Podes ter confiança no que te digo. Um primeiro-cabo nem sequer chegaria ao buraco da sua fechadura.

 

É o que veremos.

 

. Pobre cabeça-de-vento  disse Soêft com desprezo. Quanto à outra, a essa Viola esbranquiçada, o teu género é menos ainda o que ela deseja. Essa garota que saracoteia o traseiro diante dos soldados reunidos é uma miúda de categoria  para um bordel de oficiais. E quando se tem um focinho como o teu é preciso ser, pelo menos, comandante para ser metido na lista. Quanto à terceira... A terceira, meu rapazinho!

 

Nada a fazer quanto a essa. Não é o meu  género. Precisa de sentimento, e eu deixei o sentimento no depósito de fardamento quando me enfiaram esta farda. Mas também não queria deixá-la para esse Witterer.

 

Se julgas que  ele  se  preocupará  em  saber  se  lhe dás ou não  a tua bênção...   Imaginas talvez  que  ele  irá procurar-te para te dizer: «Senhor primeiro-cabo, quer dar-me autorização para fazer alguns exercícios de flexibilidade?»

 

Mesmo assim, pode-se-lhe atrapalhar o negócio, Soêft.

 

Para isso, podemos pensar! disse Soêft, tornando-se, de súbito, pensativo. Para levantar dificuldades  aos outros, bem entendido! estava sempre pronto. Em geral isso trazia algumas vantagens. Em primeiro lugar, desviava as  atenções;   depois,  podia-se  ajudar  a  suprimir  as  dificuldades, o que provocava, automaticamente, provas de gratidão. E destas podia-se sempre tirar proveito.

 

Soêft tirou do estojo um dos seus charutos para’oficiais. Kowalski agarrou um sem esperar a oferta. Deram-se lume e puseram-se a fumar gravemente.

 

A pequena  disse Kowalski  seria boa para Wedelmann.

 

Wedelmann tem já pouco tempo para se ocupar dela disse Soêft.  Vai ser com certeza encarregado da bateria e será obrigado a estar quase constantemente na linha de fogo. O novo chefe parece ser coisa diferente de um filantropo.

 

Meu  velho  Soeft  disse  Kowalski,   despejando   o copo de aguardente do companheiro, quando penso que Wedelmann se bateu connosco todos estes anos e nem sequer  olhou  para  dentro dum  decote  de mulher!...   Nem mesmo em França! E esse Witterer está aí só há um dia e já tem uma boneca para trincar!

 

É a vida  disse Soêft num tom perspicaz.  Quanto a Wedelmann, Soeft já tratou de lhe arranjar alguma coisa. Vou atrair-lhe a atenção para Natacha.

 

Quem é Natacha? Pedaço de alquilador! Não é, decerto, uma das tuas mulheres da cozinha. com o teu gosto vulgar...  Wedelmann  é um  cretino,  isso  é verdade,  mas é também um tipo fino.

 

Tu hás-de vê-la, motorista, e abrirás as tuas fatigadas queixadas. Para mim, Natacha é um bocado de categoria.

 

Sabes muito bem, meu velho Soêft, que não é fácil fazer-me perder o equilíbrio. Não me deixo impressionar facilmente.

 

Vamos  ver  isso  agora  mesmo  disse  Soêft   rindo, com os olhos fitos na porta.

 

Ágil como sempre, o capitão Witterer fazia a sua entrada. Dir-se-ia o anjo da vingança. Espumava; o seu rosto estava vermelho-vivo. Parou diante de Kowalski e disse com uma calma assustadora:

 

Que pensa você que é?  Como se permite isto? Há meia hora que o espero, ao frio, e você aqui a embebedar-se! Devia ir buscar-me às cinco menos um quarto... e já são cinco e meia, cabo!

 

Kowalski puxou do relógio e disse:

 

É boa! É isso mesmo!

 

Depois de algumas horas de voo, o Junker 51  vulgarmente chamado Tia Ju, uma imensa ave de lata e camuflagem, aterrou com a segurança de um sonâmbulo.

 

Término! Chegámos a casa! gritou um soldado alegre e nervoso.  Toda a gente desce.

 

O segundo-sargento Vierbein abotoou o capote regulamentarmente, devagar e como que contra vontade. Parecia hesitar em dar os passos que iam ser necessários. Pensativo, pôs a espingarda a tiracolo e agarrou na mochila.

 

De pé, esperava sem saber o quê. Deixou passar todos os soldados vindos com ele. Empurravam-no e chocavam uns com os outros, para sair. Foi só depois deles que Vierbein desceu a escada e, quase com solenidade, pôs o pé na pista de chegada.

 

Olhou em redor, como um viajante que se vê no alto duma colina até aí desconhecida. A noite caía já. O aeródromo da sua cidade alongava-se sob a luz pálida do crepúsculo. O sol poente esforçava-se ainda por desenhar no horizonte riscos de um vermelho-vivo. Mas o universo já não possuía qualquer força luminosa.

 

Um camião surgiu da penumbra, arrastou-se por detrás dos abarracamentos e dirigiu-se, bamboleando, para a Tia Ju. Explodia, gemia e cuspia. Carregaram-no de alguns caixotes e alguns sacos. Depois, como um bêbado, afastou-se cambaleando.

 

A voz metálica de um alto-falante ouviu-se; a voz que dele saía voou pelo vasto campo. «Os soldados que acabam de chegar devem apresentar-se na Kommandantur. O pessoal de voo apresenta-se ao oficial de serviço. Atenção! Evacuar a pista!»

 

O subalterno Vierbein afivelou solidamente a mochila. E pensava: «Cá estou em casa. Há mais de um ano...»

 

Os livros tinham-lhe ensinado que este era um grande momento. Mas verificou com surpresa que nenhum sentimento elevado ou nobre enchia o seu coração. Pelo contrário, sentia-se estranhamente angustiado. Chegara... E depois?

 

Avançou atrás dos outros e apresentou na Kommandantur do aeródromo os seus papéis. Um sargento deitou-lhes um olhar, achou-os «em ordem», aplicou-lhes um carimbo e assinou. Vierbein pediu então, numa atitude extraordinariamente perfeita e que surpreendeu, para falar com o comandante em pessoa: tinha uma carta para ele.

 

O sargento encarregado de receber os soldados era bom tipo. Estava sempre pronto a satisfazer qualquer desejo, desde que não lhe causasse pessoalmente nenhum aborrecimento particular. Mandou Vierbein para o furriel, que o encaminhou para o oficial ordenança, que, por sua vez, o anunciou ao comandante.

 

O chefe da Kommandantur do aeródromo, um sujeito idoso e calvo, cuja careca brilhava mais ainda do que as lunetas, parecia ter êxito em espalhar benignidade à sua volta. Recebeu a carta que Vierbein lhe entregava, viu o nome do remetente e convidou Vierbein a sentar-se.

 

Depois começou a ler. A leitura parecia diverti-lo; por várias vezes riu, passando a mão pela cabeça.

 

Seguidamente disse:

 

- Antes de tomar o avião para o regresso, apresente-se a mim. Dar-lhe-ei dois embrulhos: um para o comandante do vosso aeroporto e outro para o coronel Luschke.

 

Sim,   meu   comandante  disse   Vierbein   respeitosamente.

 

Ficava a saber que devia esta viagem à terra a uma tripla amizade entre oficiais do estado-maior. Estava em condições de seguir um desses canais famosos que permitiam alcançar êxito muito mais depressa, e com muito mais segurança, do que os transbordantes rios, e os seus inumeráveis diques, das competências.

 

Se   tiver   por   acaso   a   menor   dificuldade,   peço-lhe que   se   dirija   imediatamente   a   mim,   sargento   Vierbein. Mesmo que não possa ajudá-lo directamente, poderei, graças às facilidades de que disponho, pôr em doze horas o coronel Luschke ao corrente do que se passar. O meu oficial ordenança vai  dizer-lhe  como  poderá  pôr-se  directamente em contacto connosco.

 

Muito bem, meu comandante. Agradeço-lhe.

 

O que faço é natural.  Depois, olhando o relógio, acrescentou:  Não  é  difícil   imaginar  que   deseja  chegar a casa hoje. Vai-se providenciar. Tem ainda trinta e dois quilómetros, não é verdade? As comunicações ferroviárias são más, mas. sempre se arranjará algum camião  para  o levar. E, se assim não for, irá um transporte especial.

 

Depois desta conversa Vierbein estacionou uma hora na cantina, decorada de grinaldas amarrotadas que tinham sido coloridas e estavam agora cinzentas ou negras. Sentado modesta e silenciosamente num canto, contemplava o fumo que os soldados lançavam, ao mesmo tempo que faziam barulho, riam, sem a menor convicção. Infatigável, uma telefonia berrava.

 

Ao fim desse tempo apareceu um motorista de capote de borracha. Dirigiu-se a Vierbein e informou-o de que tinha ordem de conduzi-lo. Era um cabo muito novo, curioso, serviçal. Levou a mochila de Vierbein e depô-la no seu side-car.

 

Vem directamente da Rússia, meu sargento?  perguntou.

 

Directamente  respondeu    Vierbein    com    amabilidade.

 

Já esteve em contacto com o inimigo?

 

Sim, quando foi necessário.

 

Deve ser uma bela porcaria, hem?

 

Depende do ponto de vista.

 

O cabo acelerou e, para mostrar que maravilhoso motorista era, partiu a toda a velocidade.

 

Enquanto rolavam, pensava: «É um subalterno qualquer: um da etapa, possivelmente; com boas relações; decerto não viu nada e vem aqui apenas fazer recados. É por isso que lhe dão esta motocicleta. Mais um que vem da Rússia.» E acelerou.

 

Não é preciso ir tão depressa  disse Vierbein.

 

Acha que isto é depressa?  respondeu o cabo com desprezo. «É mesmo um tipo da etapa: lentamente, prudentemente, sem entusiasmo.»

 

Contudo, afrouxou o andamento. Estava provado que não fazia bom cabelo desagradar aos queridinhos da Kommandantur. Podia ter consequências deploráveis. Quinze dias antes fora transferido um direitinho para a Rússia, e quase para a frente de batalha, por uma coisa que valia tanto como recusar gasolina para um isqueiro.

 

Vierbein não tinha a menor ideia destas reflexões. À medida que se aproximava do fim o sangue começava a ferver-lhe nas veias.

 

Ainda uma dúzia de quilómetros  disse o cabo. Estaremos lá dentro de vinte minutos, o máximo.

 

Vierbein aprovou automaticamente com um gesto de cabeça. Não desejava conversar, mas a sua delicadeza impedia-o de o dizer ao camarada.

 

Conhecia perfeitamente a estrada, o empedrado, as valas que a marginavam, as árvores e os carreiros, um dos quais levava a um lago tranquilo. Percorrera muitas vezes esta estrada. A última com Herbert Asch e a mulher, Elisabeth, e com Ingrid. com Ingrid Asch. A sua Ingrid.

 

Era um dia feito de seda. Cheio de sol e de felicidade. Um dia entre a campanha da França e a campanha da Rússia. A guerra escondia-se. Vierbein procurara esquecer tudo.

 

Pouco a pouco a cidade surgia diante deles na penumbra. As casas eram mais largas e mais altas. Mas sem luz. Um enorme edifício ocultava o céu, onde a noite subia.

 

Não é com certeza já a caserna!--disse Vierbein.

 

É a fábrica de hidrogénio  respondeu o cabo, acrescentando com orgulho:  Fizemo-la surgir do chão de um dia para o outro, por assim dizer. Os abarracamentos em volta são dos operários.

 

O cabo abrandou mais:

 

Espanta-o,   hem?   disse.   De   um   dia   para   o outro. Como se tivesse saído do chão.

 

Foi então que apareceu diante deles, como se uma cortina se tivesse afastado, a caserna, grande, ameaçadora, inesperada. E Vierbein teve a impressão de vê-las à luz do dia. Conhecia cada edifício, cada sala, cada álea,- cada janela, cada porta... Conhecia cada pedra.

 

Quer ir para a caserna, sargento?

 

Não   disse  Vierbein,   apressadamente.   Não! Corou, e as suas mãos agarraram com mais força a cobertura de lona que lhe protegia os joelhos.

 

Então para onde quer ir, sargento?

 

Conduza-me ao centro da cidade. Praça do Mercado. Sabe onde é o Café Asch? Então... para aí.

 

O cabo acelerou outra vez. A cidade parecia morta. O ruído do motor repercutia-se contra as paredes e parecia ser engolido por elas. Sem provocar um eco. Não havia nenhuma luz na pequena cidade.

 

A motocicleta parou diante do Café Asch. O subalterno Vierbein desceu. Agarrou na mochila, no capacete de aço e na máscara de gás. Depois despediu-se do cabo. Este apertou-lhe a mão com moleza, fez rugir o motor e desapareceu.

 

A Praça do Mercado, às escuras, espreitava Vierbein. Este tinha a impressão de que tudo se tornara mais pequeno, mais acanhado, mais triste. Permanecia ali quase imóvel. A mochila, as armas e o equipamento pendiam-lhe das mãos. Olhou em redor, um pouco embaraçado. Há meses que não se sentia tão solitário como nesse momento.

 

Pensava: «Que faço eu aqui? Devia ter ido para a caserna e apresentar-me.» Depois acrescentou: «É aqui que mora o Sr. Asch, o pai do meu único amigo; é aqui que mora Ingrid, a rapariga que amo e com quem quero casar. É aqui que estou em minha casa.»

 

Lentamente, com o andar pesado dum carregador, Vierbein avançou até ao café. Empurrou a porta com o ombro e afastou os panos suspensos atrás. A luz e o barulho envolveram-no. Deteve-se um instante, cego e aturdido.

 

Tudo estava diferente, muito diferente do que havia imaginado. O próprio café se modificara. Parecia a Vierbein que as suas recordações o tinham enganado: não era já um local de cantos tranquilos e conversas discretas. Estava muito mais cheio do que antigamente e tudo era barulhento. O fumo arrastava-se em nuvens espessas sobre as mesas. Cheirava a cerveja azeda. Um alto-falante aberto ao máximo encerrava todas as conversas na sua algazarra.

 

Ninguém pareceu reparar em Vierbein. Os criados corriam a todo o comprimento da sala. No balcão trabalhavam duas raparigas que não conhecia. O Sr. Asch não estava ali; Ingrid também não. Ninguém a quem ele conhecesse.

 

Um grupo de recém-chegados introduziu-se pela porta e empurrou Vierbein. Este deixou-se empurrar, chocou com uma cadeira perto da entrada e sentou-se sem nada dizer.

 

Alguns minutos mais tarde levantou-se, pôs a mochila num canto, pendurou o equipamento num gancho e despiu o capote. Depois tornou a sentar-se, um pouco acanhado, paciente e silencioso.

 

Contudo, as pessoas a cuja mesa se sentara começavam a prestar-lhe atenção. Viam-lhe as condecorações numerosas e, entre elas, a Cruz de Ferro de 1.ª classe. Estava-se ainda na época luminosa dos heróis.

 

Então,   como  vai  isso  lá  pela  frente?  perguntou alguém em voz sonora.

 

Bem...  como sempre  disse precipitadamente Vierbein.   Não   tinha   muito   talento   para  se  apresentar  como defensor da pátria.

 

Dirigiu-se ao balcão e pediu para falar com o Sr. Asch.

 

Não  está  disse  uma  das criadas  sem  levantar  a cabeça.

 

E a menina Ingrid?

 

Também  não  respondeu  a  rapariga,  que, vendo a Cruz de Ferro e nada mais do que ela, acrescentou: Quer um copinho de aguardente? Posso dar-lhe um. Para os soldados da frente estou autorizada.

 

Não,   obrigado  disse   Vierbein.   Afastou-se,   viu   o empregado principal, Anton, e, feliz por encontrar alguém conhecido, dirigiu-se a ele. Mas também aqui teve de ajudá-lo a reconhecê-lo.

 

Ah, sim!   Naturalmente. Sr.  Vierbein.  Emagreceu e está  mais  pálido.   Mais  viril,   digamos.   É   a  guerra.  Nós conhecemos   isso.   Também   nós   servimos,   bem   vistas   as coisas. Quando chegou? Quer tomar alguma coisa?

 

Onde está o Sr. Asch?

 

Sabe-se lá ?  Quase nunca está no café. Já não precisa. O negócio marcha sozinho.

 

E a menina Ingrid ?

 

Está  também  aí em  qualquer  parte.  Provavelmente numa manifestação. Ou talvez na Obra da Assistência. Ou no hospital. Tudo pelos nossos soldados, pela vitória final, etc. Compreende?

 

Claro.   Claro   que   compreendo.  Nesse  caso,  espero.

 

Muito bem. Beba o que quiser. Por conta da casa, escusado seria dizer. É uma questão de honra para o patrão.

 

Muito bem  disse Vierbein regressando à mesa. com cuidado pôs-se a examinar as pessoas com quem

 

se achava. Sorriu-lhes amavelmente. As duas raparigas corresponderam ao sorriso, a que estava ao lado dele mais cordialmente ainda do que a outra. Os homens contentaram-se em fazer um gesto de cabeça.

 

Os dois rapazes pareciam ser operários especializados com salários altos. Tinham as mãos calosas, mas os fatos eram de boa qualidade. Bebiam vinho. Tentaram travar conversa com Vierbein; mas este, como se tratava de perguntas isoladas, mal respondia.

 

Por fim a amável rapariga que estava ao lado dele tornou-se mais amável ainda. Ria sem constrangimento olhando-o, abria muito os olhos e, por baixo da mesa, a sua perna aproximava-se da de Vierbein. Este, embaraçado, levantou-se e, para se libertar, foi ter com Anton:

 

Tem alguma ideia, Sr. Anton, do sítio onde se encontrará o Sr. Asch?

 

É difícil dizer. O caso é que ele devia estar a chegar, pois são quase dez horas. Talvez esteja em casa do grande   amigo,   o   contramestre  Freitag.   Quando   assim  é volta sempre tarde.

 

Vierbein agradeceu a informação. Pediu a Anton que se encarregasse das suas armas e do equipamento e saiu, dizendo:

 

Vou ver se o encontro.

 

Uma vez fora, respirou: o ar parecia-lhe melhor. «É bem o ar da terra», pensou.

 

Errava pelas ruas da sua guarnição de outrora. As paredes devolviam-lhe o ruído dos passos. Isto agradava-lhe. Parecia-lhe que já não estava só.

 

Encontrou pouca gente: a maior parte eram soldados, sobretudo graduados. Alguns passeavam com as suas amiguinhas. Outros pareciam satisfazer-se com o álcool. Havia artilheiros e soldados de infantaria, como em tempo de paz. Os antigos destacamentos e batalhões tinham-se tornado em destacamentos e batalhões de reserva.

 

Acrescentavam-se a eles os regimentos de operários, os estados-maiores de engenheiros e de funcionários. A caserna alargara-se e transformara-se num acampamento. Mas a retaguarda estava ainda mergulhada no sono.

 

A cidade dava uma impressão de lassitude e calma aparente. Sempre tivera o ar de estar um tanto adormecida. Mas agora, com a ocultação das luzes, o seu sono parecia ter-se tornado de chumbo. As fachadas olhavam-no como se tivessem olhos mortos.

 

Vierbein estremeceu. Acelerou o andamento. Passou diante do Bismarck: também aqui um ruído abafado vinha das janelas camufladas. Depois, quase imprevistamente, a caserna surgiu de novo diante dele, vasta e ameaçadora. Estendia-se ali como um animal à espreita. Vierbein cortou rapidamente para o lado da colónia dos pequenos jardins, onde se erguia a casa do contramestre Freitag.

 

Chegado ali, atravessou, após uma pequena hesitação, o jardim e, discretamente, bateu à porta.

 

Pouco depois abriram. Vestido apenas com uma camisa e as calças, o contramestre apareceu à entrada. E a lâmpada, colocada atrás dele, aumentava-lhe a sua pequena estatura.

 

Boa  noite,  Sr.  Freitag  disse Vierbein.  O  Sr. Asch está cá?

 

O contramestre semicerrava os olhos. Ligeiramente inclinado para a frente, apurava o ouvido.

 

Não,   não   está  disse.   Depois   acrescentou:  Mas estarei   enganado?   A  sua  voz  parece-me   conhecida.  É   o Sr.   Vierbein?

 

Sim, sou... Mas não queria incomodá-lo...

 

Ora essa! Entre! Entre, entre!  exclamou o contramestre num tom cordial, abrindo a porta de par em par.

 

Depois, virando-se, gritou:

 

Venham todas!  Temos uma visita. O Sr. Vierbein!

 

Mas eu  queria  apenas...A cordialidade  que  lhe dispensavam, e a que não estava habituado, desconcertava-o.

 

Entretanto, Freitag agarrara-o pelas duas mãos e só as largou quando Vierbein chegou à casa de jantar. Verificou à pressa as cortinas das janelas e acendeu a luz.

 

Contemplou Vierbein afectuosamente e perguntou:

 

Quando?

 

Há pouco. De avião. Ontem à noite ainda dormi na bateria.

 

E... como vai ele?

 

Se é no seu genro que pensa...  Herbert está bem.

 

Tanto melhor  disse Freitag, aliviado.  Isso dá-me prazer. Por causa da minha Elisabeth.

 

A Sr.” Freitag apareceu e olhou-o com uma expressão maternal. Depois foi Elisabeth, um pouco nervosa, ainda meio adormecida. Imediatamente o pai contou que Herbert estava bem.

 

Ele   está   bem.   E   o   Sr.   Vierbein   ainda   ontem   à noite estava na bateria...  Imaginem que ainda há apenas vinte e quatro horas esteve com ele!

 

Obrigada!  disse   Elisabeth   em   voz   baixa,   apertando a mão a Vierbein.

 

Então foi preciso contar. Depois, comer. Depois, beber. E, depois, foi preciso ver o pequeno de Elisabeth, o filho do seu amigo Herbert. E no quarto da rapariga ele contemplou um bebé rosado que dormia profundamente. Contemplou-o durante muito tempo, pois queria dar conta do que vira ao amigo.

 

Por volta da meia-noite despediu-se. Escusado será dizer que teve de prometer voltar, voltar muitas vezes. Prometeu. Quando retomou o caminho para o Café Asch o contramestre acompanhou-o até à entrada da cidade.

 

O empregado principal, Anton, estava ocupado a acabar com os últimos clientes. Fazia as contas e verificava a caixa.

 

Lamento    disse ,   mas   o   Sr.   Asch   não   voltou ainda. E a menina Ingrid também não.

 

Não tem  importância  disse Vierbein  procurando ocultar a sua decepção.  Ficará para amanhã.

 

Lamento    disse   Anton.    Mas   é   mesmo   assim. A guerra desorganiza tudo. Eu sei o que digo, fiz o meu tempo. Que vai fazer agora?

 

É muito simples  disse Vierbein vestindo o capote. Afivelou   o   cinturão,   pendurou   nele   a   máscara   de   gás, agarrou na espingarda e atirou a mochila para o ombro. É   mesmo   muito   fácil     repetiu.    Vou   dormir   à caserna.

 

Uma das primeiras decisões que o capitão Witterer tomou, ao assumir o comando da bateria, foi muito simples: «Não quero ver esse indivíduo.»

 

O «indivíduo» era o primeiro-cabo Kowalski, que, sem pestanejar, abandonou o Mercedes e trepou para o assento de um oito toneladas Henschel. O sargento-ajudante tentou inutilmente, fazendo alusões cheias de tacto aos hábitos da bateria, impedir esta mudança. O capitão não vacilou.

 

Duas horas mais tarde o novo motorista do chefe patinou numa estrada coberta de gelo e foi acabar direitinho à única árvore que existia na região. Houve um estalo surdo e metálico. E depois houve um estalo ainda mais forte, quando o capitão deu com a cabeça no pára-brisas. Witterer rugiu como um casal de leões.

 

Furioso, ameaçou com o conselho de guerra o novo motorista, que permanecia completamente aturdido diante do seu montão de ferro-velho. Além disso, declarou-lhe que o considerava definitivamente incapaz de transportar seres humanos e menos ainda superiores. «Quando muito, munições!», gritou Witterer.

 

Chegado ao local das peças, foi ter com o sargento-ajudante e afirmou:

 

Os  motoristas   desta  bateria   são   todos  uns  incompetentes.

 

Escusado será dizer que o sargento-ajudante não protestou. Teve contudo força de carácter bastante para não dar razão ao superior.

 

De há quatro meses para cá é o primeiro acidente declarou.

 

Durante   os  últimos  quatro  meses  a  bateria  esteve a dormir aqui... Isto explica tudo.

 

Sim, meu capitão.

 

Seja como for, Bock, há uma velha regra que determina que o melhor motorista da bateria esteja ao serviço do chefe. Dê, portanto, as suas ordens para que me seja atribuído o melhor motorista.

 

O  melhor  motorista  da bateria,  reconhecido  assim por toda  a  gente,  é  o  primeiro-cabo  Kowalski,  meu  capitão.

 

Não me fale desse sujeito.

 

O sargento-ajudante dizia consigo mesmo: «Isso também eu queria: ter o menos possível que fazer com ele; não o posso ver aqui, e, sobretudo, ao lado de Soêft. Mas, pondo isto de parte, o melhor motorista que há nos arredores é ele.»

 

Meu capitão, esse Kowalski, quando está ao volante, possui uma espécie de sexto sentido. É precioso. Nunca se engana no caminho; é capaz de remediar uma avaria, qualquer que ela seja; não há terreno que o possa embaraçar. Além disso, não sabe o que é fadiga. Seja para avançar, seja no combate, pode-se ter confiança absoluta nele.

 

Ah! exclamou Witterer, cuja atenção despertara. É verdade, isso? Seja como for, é um rapaz que não tem maneiras.

 

Ele  melhorará  certamente,   meu   capitão.  Tornou-se um tanto selvagem nestes últimos tempos.

 

É possível  disse o capitão com expressão pensativa. Depois acrescentou, após ter reflectido um instante: Isso é verdade para toda a bateria.

 

O sargento arriscou-se a passar por alguém de reacções lentas. O que ouvira era, evidentemente, um pontapé baixo dirigido ao tenente Wedelmann e um convite muito claro para uma aprovação. Ora Wedelmann era um chefe com quem era possível entender-se. Mas Witterer era o novo chefe e com ele é que devia contar.

 

O tenente Wedelmann  disse o sargento  tem os seus métodos próprios.

 

E eu os meus  disse Witterer com energia.  E aqueles que não se conformarem com eles sofrerão as consequências.

 

Claro, meu capitão.

 

Bock notou com surpresa a fogosidade do capitão. Perguntou a si mesmo em que momento travaria ele. E com a prudência que dois anos de guerra lhe tinham ensinado perguntou também quem seria o mais apto para ajudá-lo a travar.

 

Witterer pediu o relatório da transmissão de poderes, redigido segundo as suas instruções. Depois, aprovando com um gesto de cabeça, disse:

 

Pode ir assim. Um original e três cópias. Hoje, se possível.

 

Bem, meu capitão. E quanto a Kowalski?

 

Pode voltar a conduzir-me. Mas previna-o. Mais uma asneira e eu o farei transferir.

 

O coronel Luschke perguntou já por várias vezes se podia tê-lo no estado-maior do regimento.

 

O  coronel  interessa-se muito  pela 3.ª bateria, não é verdade?

 

Assim se pode dizer, meu capitão.

 

Há  relações  pessoais  entre  o  coronel   e  o  tenente Wedelmann?

 

Parece.  Seja como for,  os êxitos  da nossa bateria deram muito relevo ao regimento.

 

É necessário que as coisas não mudem.

 

Decerto.

 

E não mudarão  disse Witterer, convicto.  Ou, antes, vamos fazer o  que  é  preciso  para  que  continuem assim, pelo menos. Compreendido?

 

Sim,   meu   capitão!exclamou   Bock,   ao   mesmo tempo que pensava:  «E para cúmulo quer ser um herói. À custa de quem?»

 

Quando foi que tiveram o último exercício de alerta?

 

Exercício de alerta?

 

Sim.

 

Não sei... Uma coisa dessas... É certo que na linha de fogo...

 

Aí está justamente do que eu desconfiava. A bateria parece  ter  tido  uma  hibernação  prolongada.  Ora   isto   é perigoso. A energia da tropa sofre com isso. Não concorda?

 

Sem  dúvida  respondeu  o sargento-ajudante arrastando as sílabas.

 

Que acontece, por exemplo, quando baixam aviões?

 

Aqui,  meu  capitão,  não  vêm  aviões.  E  se viessem abrigávamo-nos.

 

Witterer abanou a cabeça, de mau humor. Contudo, o triunfo brilhava-lhe nos olhos. Logo à primeira apanhara-os em falso.

 

Isto é mesmo vosso  disse.  Já ouviram falar de D. C. A., de espingardas e de metralhadoras? E se saltarem pára-quedistas?  Se formos  atacados por bandos de guerrilheiros? Se os soviéticos passam bruscamente ao ataque e tivermos de mudar de posição? Então?

 

É claro que nós estamos sempre em estado de alerta. Escusado   seria   dizer.   Mas  não   preparámos   planos   para esses casos.

 

Era o que eu esperava. Acrescente ao relatório  de transmissão   de   poderes:   «23.  Nenhum   plano   especial está previsto em caso de alerta.»

 

O sargento-ajudante  escreveu.  Fazia-o   contra  vontade, mas   muito   conscienciosamente.   «A  minha  função   não   é criticar», ia pensando, a fim de se sugestionar. Repetiu-o várias vezes. E, bem entendido, ísto queria dizer: «criticar em voz alta.» Quanto àquilo que pensava, era consigo.

 

Antes que esqueça  disse então o capitão com um movimento enérgico do queixo, tire-me o processo pessoal do primeiro-sargento Asch.

 

O sargento-ajudante tomou nota: «Asch... processo pessoal.» E pensa: «com certeza não quererás...» Mas, aparentemente, não está a pensar em coisa alguma... pelo menos nesse momento.

 

Que indivíduo é esse Asch?

 

Está aqui na qualidade de subalterno-adjunto, meu capitão.

 

Eu sei. É subalterno-adjunto do tenente Wedelmann. Mas é possível que isso não dure muito tempo: o tenente não precisa de um subalterno-adjunto. Que outras funções lhe poderíamos dar?

 

Seria decerto um bom oficial de bateria.

 

Mais tarde,  talvez...  Muito  mais tarde, é possível. De momento é o tenente Wedelmann quem vai ocupar esse posto, até deixar a bateria.

 

Desta vez o sargento não conseguiu esconder completamente a sua surpresa. Deixa cair o caderno de notas e abre muito os olhos: «Isto é uma malandrice!... É uma verdadeira degradação. O homem que há um ano comanda a bateria... e como ele a comandou!... deveria durante os seus últimos dias... Esta é forte!»

 

Que diz, sargento-ajudante, se dermos o escalão das munições ao sargento Asch?

 

O sargento Asch é um excelente subalterno-adjunto disse o sargento-ajudante cautelosamente, hesitando muito, e com algum receio de ver Asch encarregado do escalão das   munições,   quer   dizer,   na   sua   imediata   vizinhança. Está à altura de qualquer circunstância que seja e é, na verdade, indispensável na linha de fogo. Não há, por assim dizer, função que ele não seja capaz de desempenhar perfeitamente. Pode ser utilizado em tudo.

 

Mesmo   como   sargento-ajudante?  perguntou   Witterer docemente.

 

Bock fica um momento silencioso. É um tiro no alvo. Depois, corajosamente, responde:

 

Se eu viesse a desaparecer, sim.

 

Está bem  disse Witterer, tenaz. - Se esse rapaz é  assim   tão  bem   dotado   para  tudo,   será   absolutamente capaz de se ocupar das munições.

 

E quem será subalterno-adjunto, meu capitão?

 

Dê ordem para que o segundo-sargento Krause venha   à  minha   presença.   Tão   depressa   quanto   possível. E traga-me o seu processo pessoal.

 

Por acaso o segundo-sargento Krause...

 

Deixe-me  a  mim  o  cuidado   de   decidir,  sargento-ajudante.

 

Bock, ligeiramente chocado, mas não muito prejudicado, foi procurar uma consolação em casa de Soêft e junto do seu entreposto de mercadorias. Krause apresentou-se. Adivinhou a sua sorte. Não era nada de extraordinário: adivinhava sempre.

 

Era um homem enérgico e ambicioso. Mas o seu peito estava virgem de condecorações. No entanto, participara nos mais violentos combates da bateria, mas sem nunca conseguir distinguir-se. A razão estava em que não se podia ter confiança na sua maneira de servir as peças, em terem -lhe faltado as boas ocasiões e, finalmente, em ser alvo da malevolência dos camaradas e dos superiores. Em resumo: a atmosfera da 3.ªbateria não lhe fora favorável. Até aí.

 

De acordo com a ordem recebida, apresentou-se ao novo chefe da bateria, o que bastava para o tornar simpático a ”Witterer. Além disso, o seu uniforme estava cuidadosamente escovado. Barbeara-se bastante bem, atendendo às circunstâncias. Os cabelos ainda húmidos, bem separados por uma risca, pareciam laçados. ’

 

Witterer regozijou-se com este aspecto. Amava a correcção, porque ela implicava o respeito, a preparação visível, a evidência duma atitude íntima em relação aos chefes. Estava convencido de que o fato, em particular, revelava o homem inteiro. Ora era este, justamente, um ponto que na sua bateria fora descurado de maneira espantosa.

 

O capitão não se demorou muito tempo nas fórmulas convencionais e nas perguntas banais. Apenas decorridos alguns minutos, atacou directamente a questão:

 

Que pensa do primeiro-sargento Asch?

 

Um excelente soldado  respondeu Krause sem hesitar e sem se mostrar surpreendido por ver que lhe pediam bastante energicamente a sua opinião acerca de um dos seus superiores.  Apenas um pouco difícil.

 

Difícil?... Para quem?

 

Para toda a gente. Conforme as circunstâncias. A sua maneira de se comportar pode ser considerada pouco conciliadora.

 

Krause deu estas subjectivas informações sem a menor hesitação, pois no seu foro íntimo preparara-se para elas. Era-lhe fácil imaginar o que estava em jogo. Um pouco por toda a parte falara-se do violento conflito que tivera lugar entre o sargento e o capitão. Durante uma noite inteira se rira por causa dele na bateria. E dois bêbados haviam, com grande regozijo de todos, representado «Asch e Witterer». Mais tarde repetiram o número um pouco por toda a linha de fogo.

 

Sabe, Krause, que o sargento Asch não é seu amigo ?

 

Sim,   meu   capitão.   Lamento-o,   porque   se   trata   de um excelente soldado. Por outro lado, acho natural, pois somos   de   temperamentos   diametralmente   opostos.   Além disso, eu sou aluno-oficial.

 

Witterer procedia como se soubesse tudo isto e acenava a cabeça. Deixava perceber claramente que conhecia a fundo a sua função. E Krause notava-o perfeitamente. Começavam a agradar um ao outro.

 

Witterer fez então algumas perguntas sobre as origens de Krause, a sua formação, a sua profissão na vida civil. As respostas foram-lhe dadas exacta e completamente, satisfazendo-o plenamente. Pouco a pouco, o perfil de Krause tornava-se mais nítido. Era, aos olhos de Witterer, um rapaz inteligente, instruído, de boas famílias. Um aluno-oficial! Era com certeza por esta razão que era mal visto nesta bateria, coisa bem característica. Sim, Witterer notava-o agora, Krause era um soldado muito aproveitável.

 

Quer ser meu subalterno-adjunto?

 

Decerto, meu capitão  respondeu Krause, esforçando-se   por   esconder   qualquer   emoção   pessoal,   mas   sem conseguir camuflar inteiramente a sua alegria.

 

Voltarei ao assunto  anunciou Witterer, fazendo um sinal amistoso para despedir o subalterno.

 

Pouco depois fez-se conduzir por Kowalski ao alojamento do tenente Wedelmann. Kowalski sorriu calmamente e ganhou uma velocidade tal que o automóvel rangia por todos os lados, os guarda-lamas oscilavam e o motor ameaçava explodir. Witterer teve no entanto de reconhecer que ele conduzia com espantosa segurança.

 

Wedelmann estava, como sempre, perto das peças e Asch teve de ir procurá-lo. Entretanto o capitão desdobrava sobre a mesa mal aplainada o auto de transmissão de poderes: um original, três cópias, tudo em papel branco, espesso, como convém para documentos. Quando Wedelmann chegou o capitão saudou-o rapidamente, com um gesto onde havia ainda camaradagem, mas também uma certa reserva de superior. Depois mandou sair Asch.

 

A sua assinatura, se faz favor.

 

Wedelmann assinou sem ler. Depois afastou as folhas com um só gesto.

 

De   acordo   com   tudo?   perguntou  Witterer   surpreendido. Não tem observações a fazer?

 

É   apenas   um   bocado   de   papel  respondeu   Wedelmann com ar desprendido.

 

Como queira, tenente.

 

O capitão dobrou os relatórios assinados e agora válidos, com excepção do exemplar que entregou ao tenente.

 

Posso  vir  a  precisar  dele  disse  Wedelmann,  fazendo desaparecer na algibeira as quatro páginas de texto cerrado.

 

Feito isto  declarou Witterer, que amava as cerimónias, acabo de tomar conta da 3.ª bateria  do regimento Luschke.

 

Depois estendeu a mão, agarrou a do tenente e apertou-a com uma energia viril. Era para ele um grande momento.

 

E agora?perguntou Wedelmann.

 

- Sim  respondeu Witterer, aparentando formular de momento as suas ordens, quando a verdade é que reflectira durante horas no que queria proclamar.  O coronel Luschke deseja que permaneça ainda alguns dias na bateria. A decisão acerca das suas próximas funções não está, decerto, tomada ainda. Seja como for, é muito generoso da parte do coronel deixá-lo comigo, como assistente, ainda que seja inútil. Creio que o melhor é que tome o comando da linha de fogo, como oficial de bateria.

 

Já há um oficial de bateria.

 

Pois bem,  ele trabalhará  de momento  sob  as suas ordens.

 

É uma ordem?

 

É   uma   ordem.   E  já   que  falámos  nisto:   não  tem necessidade de subalterno-adjunto. Por mim,  não  preciso do  seu.  O  primeiro-sargento  Asch  é  destituído  das  suas funções e passa para o escalão das munições.

 

Dito isto, Witterer saiu num passo ágil. Wedelmann ficou sem achar uma palavra para dizer. O sargento Asch regressou e perguntou:

 

Então?...   O  elefante  já  entrou  na  loja  da  louça?

 

Em cheio  disse Wedelmann, tentando rir.

 

Já não nos resta muita louça  disse Asch, piscando o olho ao tenente. Mas este não o viu. Aproximara-se da janela suja da cabana e olhava para longe, como um camponês obrigado a olhar o  granizo  que lhe estivesse  destruindo a colheita.

 

O primeiro-cabo Kowalski entrou sem embaraço. Wedelmann voltou-se. A voz de trombeta de Kowalski lançou uma saudação jovial, quase de paisano. Trazia debaixo do braço um embrulho, que depôs diante de Wedelmann, ao mesmo tempo que ria intencionalmente.

 

Que é isto, Kowalski?

 

Da parte do subalterno Soeft... com os seus cordiais cumprimentos.

 

Paparoca?

 

com certeza, meu tenente. Mas não é para si. É para uma senhora.

 

Repita isso, Kowalski.

 

Parece que a pequena mora na aldeia, na casa n.º 17. Um busto assim, meu tenente. Garantido! Natacha é como se chama a beleza. Soêft disse que o tenente devia ir lá uma vez para verificar. Vale a pena.

 

Por quem me toma, Kowalski?

 

Por   alguém   que   tem,   finalmente,   tempo,   meu   tenente. Que podia ser senão  isto?  E é preciso que aproveite esse tempo.

 

Kowalski  interveio Asch , se não desapareces já, o teu capitão vai cortar-te em bocados.

 

Mais   devagar!  disse   Kowalski   afastando-se. Que espere! É preciso que aprenda a esperar.

 

Lá fora Witterer chamava o seu motorista em altos gritos. Kowalski parecia sentir prazer em ouvir esta voz.

 

Tem  uns  belos  pulmões,   hem?   disse,   rindo. Uns bons  pulmões  é  metade   de  um  soldado.  Sim,   mas somente na caserna.  Quanto ao que precisamos aqui, vai ser necessário fazer-lho compreender.

 

Kowalski saiu. Mas antes de desaparecer ainda disse:

 

Um chassis assim... garantido sobre factura!

 

O pequeno embrulho destinado a Natacha, a «bela pequena» que morava na aldeia, no n.º 17, estava no meio da mesa. Wedelmann e Asch olhavam-no, enquanto reflectiam.

 

O   que   este   Soêft   se   permite!  disse   devagar   o tenente.   Depois  acrescentou:  É   certo   que   agora  teria tempo.  Sorriu constrangido, pois lhe parecia ser vergonhoso   ter   de   repente   tempo...   e   sobretudo   tempo   para coisas deste género.

 

. Aqui tem o capote.

 

É para já disse o tenente, que, de súbito, se tornara ousado.  Sim, é para já. Mas, antes, ainda quero fazer um telefonema rápido para o coronel Luschke.

 

O sargento Asch não gostava de complicações. Preferia em todas as circunstâncias a «linha recta», porque não só era a mais fácil de ver, mas também geralmente a mais proveitosa. O que tinha era que punha os nervos à prova, e quando Asch estava metido nas questões os nervos dos outros é que sofriam em geral.

 

Não considerava todas as ordens como coisa sagrada. Permitia-se ter as suas ideias. E quando queria era capaz de usar daquela obstinação prodigiosamente elástica que, em geral, só é admitida nos primeiros-cabos.

 

Por isso mesmo fingiu ignorar a ordem do seu novo chefe de passar para o escalão das munições. Não passou. Não abandonou nenhuma das suas antigas actividades. Esperava.

 

Estendeu-se na sua cabana, contemplou as traves negras de fumo do tecto baixo e pensou em Elisabeth, a sua jovem mulher, e no filho, que não vira ainda. Sorriu; não conseguia considerar-se pai. O candeeiro de petróleo lançava sobre ele uma luz pálida e doce e amolecia-o. Mas Asch não conseguia dormir.

 

Mais tarde o tenente entrou com grande ruído. Quando viu Herbert estendido, imóvel, aparentemente a dormir, os seus passos tornaram-se mais prudentes. Baixou a luz e começou a despir-se.

 

Acendeu uma lanterna de bolso e apagou o candeeiro. Depois deitou-se perto do sargento. Embrulhou-se cuidadosamente nos dois cobertores e cobriu-se ainda com o capote. A palha estalava. Wedelmann apagou a lanterna. A sua respiração era calma e regular.

 

Mas não dormia. Ouvia as trevas. Asch mexeu um braço. Também ele não dormia ainda.

 

É esquisito disse Asch, há noites em que procuro ver o que se esconde na escuridão.

 

É a Primavera que se aproxima devagar  respondeu o tenente.  Sinto-a em todos os meus ossos. E sinto que se aproximam centenas de noites em que não poderemos fechar os olhos.

 

Asch calou-se. Wedelmann tomava parte nesta guerra com entusiasmo; para o seu vizinho ela era antes um mal inevitável. Wedelmann confundia o nacional-socialismo com a Alemanha e considerava Hitler um homem de honra. Asch via as coisas tais como eram e pensava no que delas poderia sair. Um acreditava que era preciso transformar o mundo; o outro procurava apenas salvar vidas humanas.

 

Wedelmann tirou do bolso um cigarro meio esmagado. Asch deu-lhe lume.

 

Depois de algumas fumaças, o tenente passou o cigarro ao sargento, que lho devolveu, depois de ter puxado também algumas fumaças. Após um longo silêncio, Wedelmann disse:

 

Esquisita rapariga!

 

Mais uma das protegidas de Soêft?

 

Não, não é uma rapariga qualquer. É notável. No embrulho que lhe levei havia víveres. Em troca ela tinha lavado roupa. Até aqui tudo parece normal e tipicamente Soêft.

 

Soêft é o traficante nato, meu tenente. Para ele tudo se paga. Dar um presente não é com ele.

 

É  possível  disse Wedelmann,  pensativo.

 

Para ele a própria guerra não é mais do que uma espécie de negócio. Soêft fará tudo o que lhe der lucro. E para ele, penso eu, não há frentes de batalha, mas sim centros comerciais, não há inimigos, mas, muito simplesmente, concorrentes.

 

A rapariga é extraordinária. É uma  estudante que a guerra fez vir parar aqui. O nome dela é Natalia, mas chamam-lhe Natacha. Fala muito bem o alemão.

 

Teve uma longa conversa com ela.

 

Senti-me satisfeito. É uma mulher, Asch. Há meses que não falava com uma mulher.

 

Uma dama muito acolhedora, decerto...

 

Ah, não!

 

Recebeu-o mal?

 

Também   não.   Compreendemo-nos   muito   bem.   Foi tudo.

 

E quando tenciona prosseguir essa...  compreensão?

 

Sempre desconfiado, Asch. Conversei com ela. Nada mais. Não quero mais nada, bem sabe. E ela também não é uma pessoa com quem...

 

com quem... o quê?

 

Creio que devíamos tentar dormir.

 

Pois bem, repousemos sobre os nossos louros.

 

Boa noite, chefe das munições.

 

Boa noite, oficial de bateria.

 

Riram em silêncio. Depois tentaram adormecer. Passou ainda muito tempo antes que conseguissem fechar, finalmente, os olhos.

 

Levantaram-se muito tarde: tinham tempo agora. Quando, por fim, se levantaram, o primeiro-sargento Asch era outra vez subalterno-adjunto da 3.ª bateria e o tenente Wedelmann deixara de ser oficial de bateria.

 

Pela primeira vez, o coronel Luschke pusera, pelo telefone, o capitão Witterer «na grelha». Para este último o método de «trabalho a distância» do coronel era novidade. A voz doce e sibilante que penetrava nas pessoas de maneira inquietadora não tivera qualquer dificuldade em fazer perder as estribeiras ao próprio capitão que tão seguro se sentia.

 

«Gosto das pessoas com iniciativa», disse Luschke, «mas o que eu aprecio mais são as pessoas inteligentes. A energia é uma bela coisa e é tida em consideração. Mas é necessário que tudo seja feito com ponderação e método.»

 

«É exactamente o meu sistema, meu coronel.»

 

«Respeito o seu sistema», acrescentara Luschke. «Mas não esqueça, quando o aplicar, que ainda tem um superior e que este também tem o seu próprio sistema, se não vê inconveniente. E, embora talvez isto o surpreenda, esse superior conhece com bastante exactidão a 3.ª bateria.»

 

«Sem dúvida, meu coronel.»

 

«Conheço mesmo a 3.ª bateria um pouco melhor do que o senhor neste momento, capitão. No entanto, isto não depende das qualidades que possuímos, é unicamente uma questão de experiência. E a experiência da 3.ª bateria parece faltar-lhe ainda, meu caro Witterer, a não ser que seja um génio, o que não posso crer a priori. Precisa de um certo tempo. E foi para facilitar-lhe as coisas que deixei aí provisoriamente o tenente Wedelmann. Wedelmann deve trabalhar consigo, mas não sob as suas ordens.»

 

«Muito bem, meu coronel.»

 

«Por agora, desejo que não haja nenhuma modificação na 3.ª bateria durante o tempo que o tenente Wedelmann se conservar nela. Isto refere-se também à mudança do subalterno-adjunto. Fui bem compreendido?»

 

«Perfeitamente, meu coronel», respondeu Witterer, assaz consternado. Largou o auscultador no descanso logo que o coronel desligou. Passeou em volta um olhar e era fácil ler-lhe no rosto o que pensava: «Isto é uma casa sem rei nem roque!»

 

Mandou vir sem demora o sargento-ajudante Bock, a quem o soldado das transmissões tinha imediatamente informado acerca da forma e do fundo desta edificante conversação. Bock esfregava as mãos enquanto se dirigia ao alojamento do chefe da bateria, o que não tinha somente o frio por razão.

 

Sargento-ajudante   disse  Witterer  tomando   novamente o ar do improvisador de génio, é preciso proceder metodicamente.  Reflecti  profundamente  na  questão. É claro que todas as minhas decisões se mantêm em vigor, escusado seria dizer.  Contudo, desejo  que a transição se faça com inteligência.

 

Perfeitamente, meu capitão.

 

O   subalterno   Krause   continua   sendo   subalterno-adjunto.

 

Mas,   nesse   caso,   ficamos   com   dois   subalternos-adjuntos.

 

Nós  continuamos   a   ter   um   só   subalterno-adjunto, sargento-ajudante. É o que determina o regulamento, como sabe. Uma vez o outro posto ao corrente, ele será substituído.

 

Compreendo, meu capitão  afirmou Bock.  compreendo   perfeitamente.    Enquanto   falava   regozijava-se secreta  e  cordialmente  com  a  situação  maravilhosamente embrulhada que via aproximar-se. <Dois subalternos-adjuntos no mesmo sítio, e ainda por cima estes dois  ó senhores, a coisa era bem achada! Witterer ver-se-ia aflito para digerir este bocado.»

 

No entanto, Witterer não estava, no caso presente, completamente cego, como supunha o sargento-ajudante. Previra possíveis dificuldades. De alguma coisa lhe valera ter, durante longos anos, alcançado incontestáveis vitórias nas batalhas de repartição. Sabia bem que era preciso dividir para evitar choques prematuros. com efeito, na sua actual situação a conversa telefónica com Luschke demonstrara-lho não podia permitir-se tais extravagâncias.

 

Tenho uma missão especial para o sargento Asch disse.

 

O sargento-ajudante apurou o ouvido. Este jogo regozijava-o extraordinariamente. Quanto mais os outros disputassem, mais a sua situação se consolidaria.

 

O  sargento  Asch  deverá organizar  um  espectáculo do Teatro do Exército no sector da linha de fogo.

 

O  sargento  Asch?  perguntou Bock,  céptico.

 

Quem mais o podia fazer? Trata-se duma ocupação para um subalterno-adjunto. Ou supõe que Asch não seja capaz?

 

Capaz é, meu capitão. Mas isso  não pode fazer-se em poucas horas. Em certos casos pode, até, exigir muito tempo.   E   durante   esse   tempo   nós   estaremos   aqui   sem subalterno-adjunto.

 

Mas  quem   disse  isso,  sargento-ajudante?   Não  percebeu ainda?  Enquanto o sargento Asch estiver ocupado com o Teatro do Exército, e terá de ocupar-se dele a sério, o subalterno Krause substituí-lo-á aqui.

 

Perfeitamente  disse   Bock,   que   começava   a   adivinhar.

 

Asch aceitou as suas novas funções como teria aceitado qualquer outra missão. Nada o poderia surpreender já. Era especialista para as ordens inesperadas.

 

No decorrer desta esquisita guerra conduzira tropas de assalto, tratara de feridos e cavara sepulturas; pusera em estado de funcionar automóveis apanhados ao inimigo e abatera blindados; fizera requisições na retaguarda e cavara poços, organizara uma oficina de alfaiate e transformara jornais velhos em ersatz de agasalhos. Agora ia organizar uma representação do Teatro do Exército perto da linha de fogo. Porque não?

 

Pediu uma motocicleta e dirigiu-se imediatamente à etapa. As instruções de Witterer eram bastante precisas: devia organizar um grupo de actores actualmente alojado na escola, entre os quais se encontrava uma cantora de nome Lisa Ebner. Até aqui tudo era claro.

 

Asch encaminhou-se para o seu objectivo sem rodeios. Informou-se acerca de Lisa Ebner e achou-a sem dificuldades. Entrou no quarto dela sem avisar.

 

A rapariga, de grandes olhos ingénuos e ávidos, indignou-se, pois não estava completamente vestida.

 

Espere lá fora, se faz favor  gritou , até que eu esteja pronta.

 

Não   tenho   muito   tempo  disse  Asch,   firmemente decidido a cumprir sem delongas a sua missão.

 

Também não tem maneiras.

 

Não posso dar-me a esse luxo, menina.

 

Não vê que ainda não estou vestida?

 

Por princípio, não reparo nessas coisas. Além disso, sou casado, se lhe interessa saber.

 

Não me interessa nada disse Lisa, furiosa. Volte-se, pelo menos.

 

Ainda   bem   para   mim  respondeu   Asch,   voltando-se.

 

Atrás dele a rapariga remexia agora na roupa. Estava fora de si, como o indicava a precipitação dos seus movimentos. Uma pantufa caiu, depois a outra.

 

Foi o capitão Witterer quem o mandou ?  perguntou Lisa.

 

Adivinhou.

 

Um   cavalheiro   distinto...   Não   é   da   minha   opinião?

 

Não posso ajuizar dessas coisas. As minhas relações com o capitão são, sem  dúvida,  absolutamente  diferentes das suas.

 

Pode  dispensar-se   de  falar   de   relações   disse   a rapariga batendo o pé, decerto para melhor calçar o sapato.  Não se trata disso.

 

Asch examinava o puxador da porta que tinha na sua frente. A parede, ao lado, fora noutros tempos pintada de verde; agora estava decrépita, o estuque começava a desfazer-se. Era numa barraca que se encontrava esta rapariga vinda da terra. Porque viera ela?

 

Porque está aqui, realmente?

 

E você?

 

Eu tenho de estar.

 

E eu sou voluntária.

 

E sente-se orgulhosa por isso, não?

 

O nariz delicado de Lisa Ebner fungou furiosamente.

 

O capitão ”Witterer podia bem ter-me poupado  um sujeito como você.

 

Custa-me a crer. Sujeitos como eu é o que não falta por aqui. Ainda o descobrirá... Já acabou?

 

Não se volte.

 

Então dê-me uma cadeira.

 

Ela hesitou. Depois empurrou até ele um banco. Asch sentou-se, de rosto voltado para a porta estragada. Esperava.

 

Atrás de si ouviu outra vez um rumor de roupas. Depois um objecto duro, uma garrafa provavelmente, raspou numa superfície de madeira. Quase imediatamente Asch sentiu um perfume violento... Aspirou profundamente.

 

Está  a  precipitar-se  nas  despesas  disse.

 

’É apenas para não sentir o seu cheiro.

 

Desapareço  daqui logo  que tiver  recebido  algumas informações exactas.

 

Quais ?

 

Quando, em que dia e a que hora pode vir com toda a familória?  Quantas pessoas virão?  Será preciso  vi-los buscar ou têm carro particular? Quanto tempo dura a representação? Que desejos especiais têm?

 

Nada  disso me  diz  respeito,  senhor.  Deve  discutir essas coisas com o nosso director. É o ilusionista. Mora no andar de baixo com os oficiais.

 

Asch levantou-se.

 

Podia ter-mo dito logo, em vez de me ter virado para a parede durante uma hora. Até à vista!

 

Espere! Agora já pode virar-se.

 

Devagar, ele voltou-se. Depois teve um sobressalto. Os seus lábios’ cerrados entreabriram-se com admiração.

 

A rapariga dos olhos grandes era bonita. Mas não foi apenas isto que lhe provocou a surpresa. com aquele vestido, um vestido simples, azul-escuro, ligeiramente apanhado nas ancas, a rapariga assemelhava-se espantosamente a Elisabeth. Também ela trazia de preferência vestidos deste género. E não se chamava ela também Lisa?

 

E então ?

 

Notável  disse Asch, com sinceridade.  Lembra-me vivamente uma pessoa.

 

Quem ?

 

Uma pessoa a quem eu amo.

 

Lisa Ebner fitou-o com os seus grandes olhos. Depois disse, sem insistir:

 

Isso não é novo. É o que todos dizem. É uma ilusão de óptica. O motivo está em terem esquecido, entretanto, a que uma mulher se assemelha.

 

Herbert acenou a cabeça com ar pouco convencido.

 

É  possível   disse.   Mas também é possível  que não seja isso.

 

A caserna reapossara-se de Vierbein. A sua surda actividade tirou-o do sono. Ficou durante muito tempo acordado, antes que chegasse para ele a hora do levantar.

 

Fora ter a um quarto qualquer de subalterno. O oficial de serviço mandara-o para ali na noite anterior, quando se lhe apresentara. «Durma primeiro um bom bocado. Amanhã se tratará do resto.»

 

Os dois outros subalternos, em cujo quarto se encontrava, fizeram-lhe compreender imediatamente que aquele quarto era deles. E que só o suportavam ali como hóspede de passagem:

 

Ou terás sido transferido para a reserva?

 

Venho   apenas   buscar   reservistas.   Desaparecerei   o mais depressa possível.

 

É gentil da tua parte  disse um dos dois subalternos. O outro acrescentou:

 

E fica sabendo que nós não somos reservistas; contentamo-nos em fornecê-los.

 

Estes dois indivíduos chamavam-se Bartsch e Ruhnau. Qualificavam-se a si mesmos de «bombas», de «canhões» ou de «couraçados», conforme a disposição. Na cidade alcunhavam-nos de «irmãos siameses da etapa», pois não havia nada que não fizessem juntos.

 

Tratava-se apenas, contudo, duma aliança ofensiva e defensiva baseada na amizade, ou, antes, na camaradagem. Fora do serviço eram extraordinariamente ousados. Cada um deles, sozinho, poderia ter-se deixado apanhar facilmente; juntos, protegiam-se um ao outro.

 

Quanto tempo cá estarás, Vierbein ?

 

Alguns dias.

 

Não há grande coisa a fazer nesta terreola. Se tens uma garrafa de aguardente, poderás juntar-te a nós.

 

Vierbein fardou-se para se apresentar ao sargentoajudante da bateria. Tentou inutilmente dar um pouco de brilho às botas.

 

Não é necessário  disse Bartsch.  O principal é que a tua Cruz de Ferro brilhe.

 

Aqui    têm    um    fraco    pelos    heróis  acrescentou Ruhnau.

 

- E, demais, o brigadas é um idiota. Desde que não te deixes apanhar, podes fazer tudo o que te apetecer.

 

Mas não te inquietes. O tenente Schulz tem  agora muito que fazer. Em suma, é ele quem dirige tudo.

 

Quem?

 

O tenente Schulz. Conhece-lo? Ele foi brigadas aqui noutro tempo.

 

Ainda o é. Mas agora para todo o destacamento. Vierbein acenou a cabeça. Conhecia Schulz. E de que

 

maneira o conhecia! Fora ele quem o «rodara» antigamente, até lhe «fazer ferver a pele das nádegas». De acordo com todas as regras da arte. Contudo, Vierbein não lhe queria mal. Schulz fizera o seu dever e mesmo mais do que o seu dever.

 

Dirigiu-se à repartição da bateria do estado-maior e apresentou-se ao sargento-ajudante. Este percorreu os papéis de Vierbein e disse:

 

Sim, sim!...

 

Depois, alguns minutos mais tarde, acrescentou:

 

Cá por mim...

 

De pé, perto ’do armário, Vierbein esperava.

 

Pode ficar na bateria do estado-maior até ter desempenhado a sua missão.

 

Sou dispensado do serviço, meu ajudante?

 

O quê? O quê? perguntou o brigadas, erguendo bruscamente a cabeça.  Não faz empenho em divertir-se, julgo!

 

Não,  meu  ajudante.

 

Faz   o   que   quiseres.   Arranja-te  para   descobrir   os truques todos. O resto não é contigo. Antes de partir apresenta-te   de  novo   aqui.  À   parte   isto:   de   licença   até   à alvorada.

 

Obrigado.

 

Ora essa! ”É o que há de mais natural. Sempre se quer viver. Ou tu não queres?  Então, já vês. E quando precisares dalguma coisa vem ter comigo.

 

Vierbein recebeu os seus papéis e despediu-se do sargento-ajudante da bateria. Parecia ser bom tipo, um sargento-ajudante de ouro. Viver e deixar Viver. E cheio de compreensão para o soldado que chegava da frente.

 

O segundo-sargento Vierbein reflectia: devia ir à cantina e telefonar ao Sr. Asch? Acabou por decidir deixar isso para mais tarde. Em primeiro lugar queria desempenhar a sua missão, tão bem e tão depressa quanto possível.

 

Dirigiu-se ao estado-maior do destacamento, onde Luschke estava quando era ainda comandante. Pediu autorização para se apresentar ao oficial ordenança. Depois de ter esperado muito tempo entre processos que cheiravam a mofo e escriturários que se aborreciam ou faziam telefonemas particulares, fizeram-no entrar no gabinete do oficial.

 

Este, um tenente de reserva, fabricante de licores na vida civil, pareceu-lhe muito excitado e logo de entrada lhe declarou que tinha pouco tempo:

 

Muito pouco tempo, sargento.

 

Vierbein expôs o que o regimento pedia: material de rádio, assim como pessoal competente. Era o que o coronel Luschke reclamava. Este pedido era aprovado pelo G. Q. G.

 

Nós temos isso  disse o tenente.  Nós temos tudo. Mas não neste momento. Neste momento vai por aqui a mais completa confusão. O  comandante  da praça  casa-se dentro dalguns dias.

 

Vierbein, que não conseguia perceber logo à primeira que relação podia haver entre o casamento do comandante da praça e o que o seu regimento pedia, respondeu:

 

Há excepcional urgência.

 

Também aqui há, meu caro  disse o oficial, afundando os seus dois quintais no  encosto bem estofado  da cadeira.

 

O  coronel  Luschke  estava  convencido  de  que  não poderia haver a menor dificuldade, meu tenente.

 

Também não há dificuldades. Quem é que fala de semelhante  coisa?   Ninguém  pode  acusar-nos  de  levantar dificuldades,  sobretudo ao  pessoal  da  frente de batalha. Não, meu velho!  Pelo contrário, pelo contrário!   Apenas terá de esperar algumas horas.

 

Decerto, meu tenente  disse Vierbein aliviado.

 

Vai ver. O regimento esperou seis meses. Você pode bem  esperar uma tarde.

 

Perfeitamente, meu tenente.

 

Você não faz ideia nenhuma do que se trata aqui. O comandante casa-se daqui por alguns dias...  mas creio que já lho tinha dito! Está a ver se arranja maneira de se libertar durante um certo tempo, mas sem entrar de licença. Nós temos demasiado que fazer para nos permitirmos isso. Mas  o  substituto  dele estará cá  esta  tarde e  o  seu  caso será resolvido em primeiro lugar. Mantenha-se à nossa disposição.

 

Estarei na bateria do estado-maior.

 

Ainda   uma   palavra  acrescentou   o   tenente   cheio de  benevolência:  parabéns  pela   Cruz   de   Ferro   de   1.ª classe.

 

Obrigado  disse   Vierbein,   saindo.

 

Mal regressou à bateria, Vierbein viu-se chamado novamente à repartição. O sargento-ajudante, tão amável ainda há pouco, estava agora sensivelmente mais frio. Olhava Vierbein como se o visse pela primeira vez.

 

Tem    de   apresentar-se   imediatamente   ao   tenente Schulz disse o brigadas. Fez alguma malandrice?

 

Ainda nem’tive ocasião para isso, meu ajudante.

 

com vocês nunca se sabe. Ainda não há uma hora que  está  aqui  e  já  arranjou   meio   de   imaginar  alguma idiotice. Ultimamente houve aí um que em vinte minutos esfaqueou  um homem e quase violou uma  rapariga.  Mas entre nós essas coisas não se fazem; aqui há ordem.

 

Na  frente  também  isso  não  se  faz,  meu  ajudante. Na frente também há ordem.

 

O brigadas, que tremia sempre pelo seu tranquilo posto, engoliu isto sem pestanejar. Levantou-se e disse:

 

Então vou anunciá-lo.

 

Encaminhou-se para a porta do chefe, bateu discretamente e esperou. Ao cabo de alguns segundos ouviu-se gritar: «Entre!» O sargento-ajudante introduziu-se no gabinete do seu superior.

 

Ouviu-se um berro e o brigadas voltou a sair.

 

Espere!  declarou  brutalmente.

 

Vierbein esperou. De resto, conhecia estas reacções em cadeia. Ele era o último anel; aceitou os berros com o coração submisso e sem surpresa. Pelo menos a este respeito, a guerra trouxera-lhe a indiferença.

 

Perguntava a si mesmo o que iria acontecer. Recordava todos os pormenores das últimas horas, desde que descera do avião até ao momento presente. Esperava. Via a espinha toda curvada do sargento amanuense. Observava o sargento-ajudante, que folheava papéis, atarefado, ao mesmo tempo que se mantinha pronto a saltar.

 

«Schulz parece ser sempre o mesmo», pensava. «Impõe-se e, se preciso for, pelo...»

 

Neste momento a porta abriu-se bruscamente e foi bater contra a parede. À entrada estava o tenente Schulz, largo e imponente, mais largo e imponente do que antigamente. O seu uniforme era magnífico. Todos os presentes se puseram’ em sentido-. A voz de Schulz era como uma fanfarra, tal como dantes.

 

Então!  exclamou.  Cá está o nosso- Vierbein!

 

O   segundo-sargento  Vierbein   acenou   afirmativamente.

 

Aproxime-se, pobre inocente.

 

Vierbein aproximou-se, pôs-se em sentido e, tão correctamente quanto era possível, disse em voz alta:

 

Subalterno  Vierbein,  3.ª bateria  do   regimento  Luschke,  enviado  ao   destacamento   de  reserva   de  artilharia para conduzir pessoal e material de rádio.

 

Schulz teve um sorriso viril:

 

A  minha  escola!   exclamou.  Absolutamente   a minha escola! Não é verdade, Vierbein?

 

Sim, meu tenente  disse este.

 

Parecia  que  Schulz  ia  rebentar.  Relinchou  como  um cavalo  de  tiro.  Depois,  batendo  no  ombro  de  Vierbein, disse:

 

Sempre o espírito de antigamente? O bom e velho espírito!   Mas,  entretanto,  meu  caro,  subimos  alguns  degraus.

 

Sim, meu tenente  disse Vierbein, ainda estupefacto com a benevolência que lhe era assim manifestada.

 

Olhe  para ele,  sargento-ajudante.  Ainda  há  pouco tempo era o tipo mais torto da minha bateria. E agora é subalterno. E que subalterno: já tem a Cruz de Ferro de 1.ª   classe!

 

É alguma coisa, meu tenente  disse o brigadas fazendo cara de quem admirava.

 

Por que razão a recebeu, Vierbein?

 

Por ter destruído blindados, meu tenente. Sete.

 

-É a minha escola! gritou o tenente. Pode verificar, sargento-ajudante. Era o rapaz mais azelha. E, agora, sete blindados. E subalterno. Entre para aqui, Vierbein.

 

Sempre bastante perturbado, Vierbein seguiu o tenente. Schulz deixou-se cair na sua poltrona e indicou uma cadeira a Vierbein. Este sentou-se docilmente.

 

Um charuto?perguntou Schulz.

 

Não, obrigado, meu tenente.

 

Sempre   o   mesmo   bebé   doutros   tempos,   não   é? disse Schulz sorrindo com arrogância.  Mas não importa!  O principal é que mostre às pessoas que fizemos de si um homem.

 

O tenente acendeu um charuto. Depois observou:

 

Continua a não ter um ar muito viril. Mas isso não é defeito, vendo bem. A Cruz de Ferro de 1.ª compensa muitas coisas. E os galões de subalterno igualmente.

 

Schulz não esperava que Vierbein confirmasse as suas opiniões. Considerava isso supérfluo. E estava convencido de que Vierbein o venerava.

 

Mesmo nos seus sonhos mais audaciosos, nunca esperou vir a estar sentado assim diante de mim?

 

Não, meu tenente. Nunca esperei.

 

O seu velho brigadas não era, afinal de contas, um monstro disse Schulz, cujo rosto liso brilhava de contentamento.  Devo confessar  acrescentou  que o seu aspecto exterior me satisfaz. Mais uma vez se vê que nada se perdeu.  Aplainámo-lo bem, Vierbein.  E fizemos de si o que agora é. O êxito dá-nos razão.

 

Polidamente, Vierbein conservava-se em silêncio.

 

Não é verdade?

 

Sim, meu tenente. com certeza.

 

Talvez   o   apresente  um   destes   dias  na  messe   dos oficiais. Eles ficarão espantados ao ver tudo o que sai da minha  escola.   Ficarão   espantados,   garanto-lhe.   E   agora conte-me a história dos seus blindados.

 

Não há muito que contar, meu tenente.

 

Nada   de  falsa  modéstia,  meu   caro.   E  quando  eu digo: conte é para contar mesmo. Compreendeu?  com todos os pormenores.  A voz de Schulz retumbava como antigamente,   semelhante   ao   som   duma   trombeta,   e   era perigosamente benévola.

 

Perfeitamente,   meu   tenente  disse   Vierbein,   obediente.

 

Muito   bem   disse   Schulz,   satisfeito.   É   assim a vida. Os melhores impõem-se. Veja o meu caso. Quando a guerra começou tornei-me aspirante. Entrei para a Escola de Guerra, donde saí com menção. Era escusado dizer. Fui promovido a tenente. E acabei por vir ter aqui, onde me confiaram a bateria do estado-maior. Agora substituo o comandante, que vai casar-se. Praticamente, o destacamento é meu.

 

A   Sr.a   Schulz   deve   sentir-se   orgulhosa,   meu   tenente  disse Vierbein com ingenuidade.

 

Em que é que minha mulher lhe interessa?  Ladrou Schulz.

 

Eu julgava, meu tenente...

 

A   minha   mulher   não   lhe   diz   respeito,   Vierbein.

 

Tome bem nota. Aqui estamos em serviço. Vá mijar as suas lábias para outro sítio.

 

Sim, meu tenente.

 

Sem o saber, Vierbein tocara no ponto mais doloroso. A benevolência de Schulz rebentou como uma bola de criança. Tratava-se de um assunto tabo. Era uma verdadeira provocação lembrar-lho. É que a mulher era a sua cruz... Hoje mais do que antes. Isto fazia-o sofrer profundamente, até ao fundo da alma, ou, pelo menos, onde supunha que residia a alma, quando se falava dela.

 

Schulz esmagou o charuto.

 

Que vem fazer aqui?  perguntou.

 

Vierbein comunicou-lho. Expôs tudo o que já havia exposto ao oficial ordenança do destacamento. Insistiu mais uma vez na urgência da missão e no desejo pessoal do coronel Luschke de ver este assunto despachado sem dificuldades.

 

Como sou eu quem, actualmente, representa o coronel   disse  Schulz   com  dignidade ,   o  caso  será  submetido à minha apreciação. Verei nessa altura.

 

Se posso permitir-me pedir-lhe, meu tenente...

 

Enquanto o assunto estiver a ser tratado, Vierbein, você pertence  automaticamente  à  bateria  de  que  eu  sou o chefe. Compreendido?

 

Sim, meu tenente.

 

E,  bem entendido,  dentro  do  antigo  espírito.  Nãoesqueça: a minha escola!

 

O capitão Witterer estava bem abrigado atrás da segunda peça e examinava a linha da frente inimiga. Atrás dele mantinha-se o subalterno Krause, que se treinava, nesse momento, nas funções de subalterno-adjunto e olhava o seu chefe com solicitude. A sentinela, que deambulava não longe  deles,  batendo   os  pés,   parecia  desinteressar-se  de tudo o que via.

 

Muito notável  disse Witterer com importância, depois de ter baixado o binóculo.

 

Exactamente  ecoou  Krause,   sem   mesmo   saber  o que, podia  haver  ali   de  «notável».  Procedeu como  se  o soubesse,  o  que  não  podia  prejudicá-lo.  Quem  quer  que tenha a consciência de ser um chefe fica sempre satisfeito por ver-se compreendido pelos seus subordinados.

 

As linhas inimigas estavam diante deles, nas colinas, a descoberto. Provocadoras, na opinião de Witterer. Reconheciam-se distintamente alguns abrigos e algumas trincheiras. O adversário também tinha «apoiado» certas partes das suas posições nas casas duma aldeia. Vários homens passeavam sem medo pelo terreno.

 

É quase inacreditável  disse Witterer.  Uma verdadeira emigração. E chama-se a isto guerra!

 

Além  de que eles não têm artilharia. É ainda melhor  disse   Krause,   desempenhando   o   papel   de   Mefistófeles.

 

A sentinela nada dizia, mas nem por isso deixara de pensar. Continuava a pensar. Continuava a tentar aquecer os pés. De resto, a única coisa que lhe interessava era saber que daí a meia hora seria rendido. Os seus parceiros do jogo das cartas deviam esperá-lo já com impaciência, e isto lisonjeava-o. Pensar noutra coisa parecia-lhe supérfluo.

 

Quando teve lugar a última escaramuça?  perguntou o capitão à sentinela.

 

Escaramuça? repetiu o outro, e dir-se-ia que ignorava o que vinha a ser isto. com quem?

 

Que desorganização!murmurou Witterer. E Krause acrescentou, pressuroso:

 

Uma verdadeira desorganização!

 

Witterer examinou a peça, céptico, pois via no cano os riscos brancos que indicavam os tiros disparados. Olhou em seguida o monte de munições coberto por um encerado perto da peça. Depois disto sondou o horizonte do lado do inimigo  com maior atenção ainda do  que antes. Krause olhava como ele. Por fim disse:

 

Todos os chefes de secção reunidos para uma conferência comigo. Dentro de meia hora, digamos. Na aldeia da primeira linha. No alojamento de Wedelmann.

 

Krause repetiu a ordem recebida, palavra por palavra. Repetiu-a exactamente, o que foi para Witterer uma nova prova de que ele era o arvorado especial ideal. Lisonjeava-o verificar uma vez mais que não se enganara.

 

Enquanto Krause corria ao telefone para convocar todos os chefes de secção ou os seus representantes o capitão inspeccionava a linha de fogo. Notara que o inimigo lhe permitia fazer uma inspecção séria. Toda a gente o notou logo também: os serventes das peças e da metralhadora, os observadores, os encarregados dos telémetros e os batedores.

 

Estava ocupado na contagem das munições da quarta peça, a verificar as espoletas e ao mesmo tempo a ver se as cápsulas estavam ligeiramente engorduradas, de acordo com as instruções, quando Krause veio anunciar que os chefes de escalão tinham sido convocados, conforme as suas ordens.

 

Witterer agradeceu, desembaraçou os serventes da sua presença e num passo firme dirigiu-se para o alojamento do tenente. Este, sentado à mesa, mal levantou a cabeça. Tinha ao lado uma gramática russa, um caderno e um lápis.

 

O   contrário   seria   sem   dúvida   preferível    disse Witterer  com  petulância.   É  tempo   de  a  gente  daqui começar a aprender o alemão.

 

As  pessoas  daqui  não  estão  na  Alemanha  disso Wedelmann pouco amavelmente.

 

Witterer tomou esta observação por um gracejo e teve um riso breve. Fazia questão de estar sempre de bom humor, tanto quanto lho permitiam as circunstâncias. Acrescentou :

 

É uma maneira de ver, evidentemente  e riu outra vez.

 

Wedelmann era por de mais bom oficial para contrariar um capitão, que, ainda por cima, era o seu chefe de bateria. Continuava, com efeito, a acreditar na força da disciplina e no valor da obediência.

 

Witterer convidou Krause a deixá-lo só com Wedelmann e a impedir que fossem perturbados. Só deviam preveni-lo quando todos os chefes de secção estivessem reunidos.

 

E, enquanto Krause, bastante habilmente, recebia os subalternos diante da porta e os fazia entrar noutra cabana, Witterer punha o seu tenente ao corrente da situação, tal como a via. E estava decidido a não permitir que a justeza da sua maneira de ver fosse posta em dúvida.

 

Meu   caro   Wedelmann    dizia   ele ,   daqui   por pouco tempo as linhas actualmente imobilizadas irão despertar e regressaremos à guerra de movimento.

 

Tem razão, meu capitão  disse Wedelmann esforçando-se por responder sem ironia.  Isso pode acontecer.

 

E crê que as tropas estejam prontas?

 

Que podiam elas fazer senão isso?

 

Bem, meu  caro Wedelmann,  admita  que as tropas estejam prontas. Pergunto agora: estarão igualmente preparadas?

 

Mais ou menos para tudo, penso eu.

 

Mas terá essa preparação sido metódica?

 

Seja   como  for,  nós   já  fizemos   a  guerra   durantealguns meses com todas as dificuldades possíveis.

 

De   acordo.  Mas   depois  dormiram  durante   alguns meses de Inverno e esqueceram tudo de novo.

 

Na minha opinião, um dia bastará para nos prepararmos.  Perto  de  noventa  por cento  dos nossos  homens têm já experiência de combate.

 

Até mesmo isso se pode esquecer. Se já não sabem fazer meia volta à direita, terão esquecido igualmente como se parte o focinho ao inimigo. Não lhe parece evidente?

 

De certo ponto de vista, sim  disse o tenente com prudência.  É preciso, contudo, não ter demasiada pressa. A frente não é um campo  de manobras.  Não  alcançará nada pela força. Os regulamentos são, muitas vezes, bons para servirem de papel higiénico, quando muito.

 

Sr.  Wedelmann,   a  guerra   não  é  uma  brincadeira de crianças.

 

A quem o diz!  respondeu o tenente num tom algum tanto resignado.

 

O   que   me   importa   disse   Witterer,   martelando cada sílaba é isto: conto com o seu concurso, ou, pelo menos,   com  o  seu  acordo,  neste  momento,  em  que  me preparo para pôr novamente as tropas em estado de combater.

 

Krause apareceu para anunciar que todos os chefes de escalão estavam reunidos. Fez a participação rapidamente e em alta voz. Wedelmann ficou estupefacto.

 

Nesse  caso,  vamos  começar   disse  Witterer  com entusiasmo.  Que entrem.

 

Krause fez continência, mas não se retirou.

 

O primeiro-sargento Asch também?  perguntou com uma correcção acentuada.

 

Está aí, esse? Julgava que estava a organizar o espectáculo do Teatro do Exército.

 

Já   regressou,   meu   capitão.   Só   tem   de   lá   voltar amanhã.

 

Que acha, tenente ?  perguntou Witterer, acomodatício, mas deixando entrever nitidamente que esperava uma recusa.

 

O   sargento   Asch   é   subalterno-adjunto   da   bateria. Até nova ordem, pelo menos. É costume o adjunto tomar parte nas conferências dos chefes de secção.

 

Se  assim pensa...  disse o  capitão, arrastando  as palavras.  Não  conseguia  compreender  que  o  seu  tenente desperdiçasse com tanta facilidade uma ocasião para acertar as suas opiniões com as do seu superior.

 

À parte isso, o sargento Asch é um soldado cheio de       experiência. É sempre aconselhável conhecer a sua maneira de ver.

 

Então, de que está à espera?  perguntou Witterer,

 

agastado,  a Krause.  Vamos começar ou não? .

 

Os chefes de secção introduziram-se no estreito alojamento;  chefes  de peças, de metralhadoras, telegrafistas e telefonistas, municiadores e abastecedores, o sargento-ajudante e o armeiro, os subalternos-adjuntos Asch e Krause.      O primeiro-cabo Kowalski deixou-se arrastar no meio deles

 

com toda a naturalidade.

 

A um gesto do capitão, toda a gente procurou sentar-se. Alguns, e entre eles Soéft, apoderaram-se de cadeiras;  os      outros   deixaram-se   escorregar   para   o   chão,   coberto   de     palha. O  reduzido espaço estava agora atulhado e carregado do cheiro do suor e das roupas. |

 

Abra a janela, Krause  ordenou Asch.

 

Krause hesitou um momento e deitou um olhar interrogador ao capitão, que mergulhara nas suas notas.

 

Deu agora em surdo, sargento Krause?

 

Krause,   resmungando,   abriu   a   janela.   Kowalski   ria, encantado.  Os chefes  de secção seguiam a cena com umcerto interesse.

 

O capitão Witterer levantou a cabeça:

 

Há   já   bastante   tempo   que   nós   repousamos declarou.

 

Em que pensará ele realmente quando diz «nós»?

 

perguntou Kowalski a meia voz.

 

Dentro de pouco tempo isto será aqui um caso sério e é preciso que estejamos preparados para ele e decididos a tudo.

 

Pode-se fumar?  perguntou Soeft, movido por um certo sentido da disciplina. As grandes frases tinham sempre por efeito, nele, dar-lhe um sentido de solenidade, sem que isto, todavia, tivesse consequências práticas.

 

Claro   disse  Wedelmann.   Não  faça   perguntas idiotas.

 

Soeft fez circular o seu estojo, repleto, como sempre. Ofereceu igualmente um charuto ao capitão, que recusou redondamente. Alguns minutos mais tarde espessas nuvens de fumo saíam pela estreita janela.

 

O que é preciso agora  disse Witterer com energia  é tornar a pôr o carro em movimento. E isto dentro do mais curto prazo. A partir de hoje vou fixar um exercício  de  alerta  para  o  conjunto  da bateria.  Amanhã  de manhã a mesma coisa, até que estejamos prontos a pôr-nos em marcha. com todo o material. Sem excepção.

 

Impossível  disse Soeft num tom convicto.  Para isso teria de suprimir o meu kolkhoz.

 

Que   é   que   tem   de   fazer?   perguntou   Witterer, supondo  ter  percebido  mal.  Suprimir  o  seu  kolkhoz? Que é isso?

 

O segundo-sargento Soeft explicou Wedelmann criou, no decurso do Inverno, uma espécie de herdade privada para  a 3.ª bateria. Por esse meio, no  que  respeita aos abastecimentos, somos de certo modo autárquicos.

 

Soeft balançava  a  cabeça,  não sem  orgulho. Witterer contemplava-o como a um fenómeno.

 

Falemos   disso  em  pormenor  quando  chegar  a  altura  disse.

 

com todo o gosto, meu capitão  disse Soeft, solícito. O capitão, que não conseguia recompor-se da surpresa,

 

teve dificuldade em reencontrar o fio do discurso.

 

Teremos, então explicou, um exercício de alerta até nos  encontrarmos  em estado  de  marchar.  E  repetilo-emos duas, três vezes, tantas quantas forem necessárias para o conseguirmos fazer em meia hora. Creio que é disto que necessitamos.

 

Asch dispunha-se a fazer uma objecção, mas Wedelmann, que estava sentado defronte dele, abanou a cabeça. Asch encolheu os ombros e deixou-se ficar calado.

 

Tratemos  agora  do  gasto  normal  quotidiano continuou Witterer.

 

Desculpe-me,   meu   capitão    objectou   Wedelmann com a maior correcção e perfeitamente consciente  de  dar assim um exemplo aos seus subordinados, essa expressão é-nos totalmente  desconhecida.

 

Mas certamente calcularam a média diária de utilização do material?! Ou não?

 

Qualquer cálculo desse género  respondeu Wedelmann com imperturbável correcção  seria inexacto. Decerto quer referir-se às quantidades médias de equipamento.

 

Não nos prendamos com palavras! exclamou Witterer  com  uma  largueza  de  ideias  não  habitual  nele. Para quanto tempo chega o nosso carburante?

 

À volta de duas semanas.

 

As munições?

 

Um mês.

 

Os abastecimentos?

 

De dois  a três meses  respondeu  Soêft  tranquilamente.

 

Witterer teve um novo sobressalto e fitou durante um momento Soeft. Depois recuperou a presença de espírito e disse:

 

A  ajuizar  pelas  minhas  informações,  o  reabastecimento funcionou bem, de uma maneira geral. É inútil ter reservas superiores a um período de duas semanas. Consequentemente, temos munições em demasia.

 

Os subalternos presentes calavam-se, curiosos do que ia seguir-se. Wedelmann parecia inquieto. Asch avançava o queixo.

 

A atmosfera, aqui, está mesmo de se cortar à faca disse por fim o sargento-ajudante Bock.  Além disso, tenho muito calor.  E tirou o capote.

 

Alguns outros seguiram-lhe o exemplo. Witterer igualmente. O seu uniforme, sem rugas nem nódoas, não trazia condecorações nem insígnias. Era assombroso.

 

Onde tínhamos ficado?  perguntou o capitão.

 

Nas munições  disse Krause.  Segundo  os  seus cálculos, meu capitão, temos duas semanas a mais.

 

Mais vale ter de mais do que não ter bastantes disse Wedelmann, para travar.

 

Verifiquei hoje que as munições apodrecem. Assim mesmo.

 

Contudo, nós conservamo-las regularmente, meu capitão  declarou Asch num tom de exasperante calma.

 

Não são os objectivos que nos faltam. Convenci-me disso pessoalmente ainda agora. Porque não atiramos em cima deles? Não são as munições que nos faltam.

 

Além  disso  disse Krause ,  o  inimigo não tem artilharia neste sector.

 

Asch olhava Wedelmann, que o evitou. Parecia examinar os seus dedos, que repousavam nos joelhos.

 

Meu capitão  disse Asch, de súbito , há semanas que não se dá um tiro neste sector da frente... abstraindo dos  exercícios   regulares   das   metralhadoras  e   de   alguns tiros de espingarda contra cães vadios.

 

Isso  prova  muito  simplesmente  que  se  dorme  profundamente ’aqui  disse Witterer.  Tanto  de um  lado como do outro.

 

A  poucas  centenas  de  metros  disse  Asch   encontra-se   a   infantaria.   Geralmente   em   ignóbeis   tocas. Quando são rendidos, esses soldados vão-se abrigar numas barracas perto. Em frente da infantaria pode distinguir-se o inimigo nas mesmas condições. Também ele tem as suas barracas. A nossa infantaria entende que escaramuças numa situação destas são insensatas.

 

Desde quando é insensato infligir perdas ao inimigo, sargento Asch?

 

Sempre que o inimigo pode fazer-nos sofrer perdas iguais, meu capitão.

 

Possivelmente  nunca   ouviu   dizer   que  essas   coisas acontecem todos os dias em tempo de guerra, sargento?!

 

Meu capitão, qualquer operação militar deve ter um sentido.   Ou   se  é  forçado   a   defender   a   posição   que   se ocupa, ou se tem a intenção de desalojar o inimigo da sua posição.  Aqui  nada  de semelhante se justifica. Na  nossa situação qualquer acção isolada é insensata. A infantaria compreendeu-o perfeitamente. Não dispara contra os russos que vão buscar o  rancho e os russos, por sua vez, não disparam contra os nossos.

 

Afinal, estamos em guerra  perguntou ironicamente Witterer ou andamos a brincar simplesmente aos quatro cantinhos?

 

- Evitamos verter sangue por coisa nenhuma e nada mais.

 

E enquanto assim procede, filantropo, esquece que a nossa artilharia é superior à do adversário.

 

Isso   pode   modificar-se   de   um   dia   para   o   outro respondeu   Asch’ sem   se   deixar  confundir.   Se,   por acaso, deitarmos abaixo os abrigos do inimigo, ele tratará de trazer artilharia e derrubará os nossos. E os soldados deverão  então permanecer exclusivamente nas suas tocas, cheias de lama.

 

Sargento Asch  disse Witterer duramente , vejo que não tem o coração bastante sólido. Além disso, parece faltar-lhe espírito combativo. Considero esse facto inquietante no mais alto grau. Não fazemos a guerra para comer as nossas refeições com toda a tranquilidade.

 

Recomendo expressamente  declarou Wedelmann que não se empreenda qualquer acção isolada sem se ter consultado primeiro o comandante de infantaria do nosso sector.

 

«Desforrar-me-ei deste tipo o mais depressa possível», prometeu Witterer a si mesmo, enquanto olhava os seus subalternos e se afligia sinceramente por descobrir neles tão pouco entusiasmo para o combate. E repetiu de si para consigo: «Que desorganização!» Jurou a si mesmo remediá-la bem depressa.

 

E  quanto  ao  sargento  Asch?...   Ah,  sim...  Quanto a esse senhor, gostaria de saber até que ponto o espectáculo do Teatro do Exército está já preparado.

 

As questões de princípio encontram-se já combinadas disse Asch com uma indiferença ostensiva.  Há ainda pormenores de organização a afinar.

 

Pois afine-os, sargento. E o mais depressa possível. A execução rápida e conscienciosa das ordens recebidas parece-me muito mais importante do que os discursos demagógicos acerca de certos hábitos muito quiméricos da frente. Tome nota disto, peço-lhe.

 

Tomo nota  respondeu Asch com uma calma exasperante.  Perfeitamente.

 

Levando um pequeno embrulho debaixo do braço, o tenente Wedelmann dirigia-se para a casa onde habitava Natalia, a quem chamavam Natacha. Alguns soldados que encontrou riram à socapa; os que o conheciam sorriam complacentemente. Os habitantes da aldeia que tinham ficado fingiram não o ver.

 

Uma vez chegado, e depois de ter atravessado um local parecido com um curral, trepou por uma escada que rangia desagradàvelmente e que não tinha corrimão, caminhou com cuidado pelo frágil soalho e bateu, por fim, a uma porta estreita.

 

Um momento!  gritou a voz de Natacha.  Espere um pouco, por favor. Não demoro.  Era uma voz cheia, quente, um pouco gutural.

 

com todo o prazer  disse Wedelmann.

 

Tinha a impressão de ouvir, através da porta bastante delgada, o que a rapariga fazia. Era evidente que ela empurrava de lado um objecto bastante pesado, um caixote, provavelmente. Depois ouviu-se um ruído como de papel rasgado.

 

Wedelmann sorriu levemente da precipitação da rapariga. «As mulheres são assim mesmo», pensava. «Arrumam, fazem-se bonitas; a aproximação de um homem, qualquer que seja o seu género, põe-as logo em estado de alerta. São assim mesmo.»

 

O aparecimento de dois olhos curiosos sob uma loura cabeleira despenteada arrancou-o às suas reflexões. Estes olhos, que o observavam, com intensidade, da escada, pertenciam a uma criança. Era o rosto duma rapariguinha de cerca de dez anos.

 

bom dia, pequena!  disse Wedelmann, gentilmente,

 

Schweinçhund!   («Porco-sujo»)respondeu a rapariguinha, em alemão, não menos gentilmente.

 

Que quer isso dizer? perguntou ele. Que queres tu?  Eu disse-te «bom dia».

 

E Wedelmann repetiu, insistente e da maneira mais cordial:

 

bom dia!

 

bom   dia,   Schweinehund!repetiu   a   criança   com igual cordialidade.

 

Wedelmann abanou a cabeça com força, verdadeiramente irritado. «Que se passará?», perguntava a si mesmo. Mas era incapaz de encontrar uma resposta para esta pergunta. «É a Rússia, claro», pensou, e bateu outra vez à porta.

 

Vou  já!   gritou  Natacha.  Não  se  impaciente, peço-lhe.

 

«Quer fazer boa impressão», pensava ele, «uma vez que não deseja que eu a surpreenda. Estas mulheres! Mas porque faz isto, afinal? Não tem sentido prático. No fim de contas, ela é quase inacessível.» Quanto a si, podia considerar as suas próprias intenções como honestas, em comparação. Ela explicara-lhe muito claramente que não se podia tratar doutra coisa senão duma pura amizade, duma amizade de certo modo intelectual, dando-se à palavra «amizade» um sentido muito amplo. «E, no entanto!... Que poderá ela querer com toda esta técnica de fazer esperar? Só pode ser simples garridice», concluía Wedelmann.

 

Natalia abriu a porta. Parecia ofegante e os seus olhos estavam ardentes, o rosto bochechudo ligeiramente corado. Os cabelos caíam-lhe um pouco em desordem sobre a testa.

 

Wedelmann ficou francamente desiludido: ela não se fizera bonita para ele. «Mas, então, se ela não estivera a preparar-se... que fizera, pois?»

 

Natalia convidou-o a entrar para o quarto. Ele conhecia os raros objectos que ali se encontravam: uma cama, uma mesa e alguns livros, cadernos, uma cadeira oscilante, um fogão. A um canto, um caixote baixo, coberto de jornais cuidadosamente cortados. Tudo isto era primitivo; tudo estava extraordinariamente limpo. Um asseio que fazia bem ao coração.

 

Sente-se  disse ela.

 

Ele sentou-se, com cuidado, na cama. Era o assento que ela lhe indicara na sua primeira visita, ao mesmo tempo que explicava  o que era bastante plausível  que a cadeira não suportaria o peso.

 

Quer chá ?  perguntou.

 

Ele acenou afirmativamente e observou com atenção a sua maneira de tratar a chaleira e o fogão. Natalia tinha os ombros largos e era, como Wedelmann notou, bem fornida de carnes. «Mas isto não me diz respeito», pensou, correcto como sempre.

 

Eu   tinha   um   autêntico   samovar...  começou   ela.

 

Bem  sei   confirmou Wedelmann  rapidamente,  satisfeito, no fundo, por poder pensar noutra coisa , bem sei.  Tinha um  autêntico  samovar,  mas os Alemães requisitaram-no.   E  tinha   também   algumas   chávenas   e   alguns copos. Também isto foi requisitado pelos Alemães. E, agora, apenas tem uma chávena e um copo. Sei tudo isso.

 

Está descontente  disse Natalia, examinando-o com ar   crítico.    Está   aborrecido.   Está   aborrecido   consigo mesmo? Ou tem algum desgosto? Que foi que se passou?

 

Que   quer  que   se  passe  com  um   «porco-sujo?» respondeu Wedelmann, esforçando-se por sorrir.

 

Ah!   exclamou   Natacha.   Encontrou   a   nossa pobre pequena? Encontrou-a no caminho?

 

Não, correu atrás de mim.

 

Não deve estar zangado com a criança. Alguém lhe ensinou essa palavra feia.

 

Alemães,   sem   dúvida?

 

com certeza. Quem mais poderia ser? A criança não sabe o que diz. Conhece só essa palavra de alemão. E repete-a   a   cada   alemão.   Não   deve   estar   zangado   com   a criança.

 

Os Alemães mataram-lhe, decerto, os pais?!

 

Assim foi  declarou Natalia,  com força.  Exactamente assim.

 

Sem responder, Wedelmann agarrou na chávena que ela lhe estendia. E, contra vontade, observava a rapariga com prazer.

 

Natalia era de altura mediana. Tinha as formas bastante cheias e bem desenhadas. As suas mãos longas traíam um nervosismo que dificilmente dominava. Nos seus olhos brilhavam, ao mesmo tempo, a ternura e a frieza.

 

Vocês odeiam-nos a todos, não é verdade?

 

Ela abanou a cabeça, sem que, por assim dizer, os seus cabelos ficassem mais despenteados.

 

Isso não. Mas como poderia eu amá-los?

E compreender-nos?... Nem mesmo isso? Porque foi que Vieram aqui?

 

Deixemos esse assunto  disse Wedelmann.  É inútil falar dele. Falemos doutra coisa.

 

Não há outra coisa...

 

Wedelmann depôs com cuidado a chávena e tirou do bolso do capote o pequeno embrulho que Soèft pusera à sua disposição. Estendeu-lho.

 

Ela hesitou. As suas mãos tiveram um gesto mais nervoso. Disse:

 

Nada dei para isso. Que devo fazer em troca?

 

Nada   disse   Wedelmann.   Absolutamente   nada. «Ela não compreende quanto lhe sou dedicado», e, segundo acreditava,   de   maneira   desinteressada.  Aceite-o.   Assim mesmo. Como um presente. É chocolate.

 

Apenas  um  presente?  perguntou  ela, estendendo a mão. Sem obrigações da minha parte?

 

Ah, não! exclamou Wedelmann, sinceramente espantado   da  pergunta.  Também  recebo   de  si  um  presente. Não o nota?

 

Eu, dar-lhe um presente?! Como?

 

Pela sua presença. Por me consentir que aqui esteja. Perto de si sinto-me num mundo diferente. Esqueço o que está diante da casa onde mora. Penso doutra maneira. Respiro  doutra  maneira.  Sou  outro homem.  Isto é  o  maior presente que me podia dar.

 

Natalia agarrou na chávena que ele pusera sobre a mesa, inclinou-se para ele e, quando lha estendeu de novo, Wedelmann julgou sentir-lhe o hálito aflorar-lhe o rosto. Natalia disse:

 

Obrigada.

 

Wedelmann entornou um pouco de chá. Ela largou a rir. Ele riu também. Depois, subitamente, Natacha corou. Dir-se-ia que estava assustada de si mesma.

 

Bateram à porta com hesitação e muito levemente. Natália levantou-se com rapidez, dirigiu-se à porta na ponta dos pés e abriu-a cautelosamente. Depois, tranquilizada ao reconhecer o visitante, disse, num tom agradável, algumas palavras em russo e abriu a porta completamente.

 

À entrada estava a rapariguinha dos olhos curiosos. Observava Wedelmann com surpresa. Natalia fê-la entrar.

 

com um vestido em forma de saco, a criança apoiava-se alternadamente, ora numa perna, ora na outra, infinitamente perturbada, sem deixar de olhar Wedelmann. Depois sorriu, com uma expressão confiante e profundamente comovedora. Os seus lábios abriram-se e disse com singeleza:

 

Schweinehund!

 

A pequena gosta de si  disse Natalia.

 

Estou vendo  declarou Wedelmann, perplexo. Natalia abriu o embrulho que o tenente lhe trouxera,

 

partiu um bocado de chocolate e deu-o à criança. Esta, encantada, agarrou-o, provou-o febrilmente e balbuciou algumas palavras. Depois trincou-o com avidez.

 

Natalia empurrou-a para Wedelmann enquanto lhe pedia qualquer coisa em russo. E, por duas vezes, ele pôde ouvir-lhe pronunciar: «Danke!» («Obrigada.»)

 

A pequena estendeu a mãozinha e disse delicadamente: «Danke, Schweinehund!» («Obrigada, porco-sujo.»)

 

Wedelmann deu um salto. Olhou Natalia com uma expressão desorientada e descontente. Ela acenou a cabeça amavelmente. Wedelmann agarrou a mão da criança, esforçando-se por fazê-lo com gentileza.

 

Depois a pequena saiu a correr, feliz.

 

Em certas ocasiões é muito agradável ser um «porco-sujo»  disse Wedelmann cheio  de amargura.

 

Não  se  aborreça - disse  Natalia,   pousando   delicadamente a sua mão na dele.

 

Ele agarrou-lhe os dedos, as suas mãos subiram até ao pulso e ao longo do braço. Ela teve um gesto violento de recuo. A chávena caiu e partiu-se.

 

Não!   exclamou   ela.   Isso  não.  Peço-lhe,   isso não!  E em voz muito baixa, mal perceptível, repetiu: Peço-lhe.

 

Wedelmann, desorientado, levantou-se e recuou.

 

Perdoe-me.   Não   queria   ofendê-la.   Portei-me   como um...

 

Bateram energicamente à porta. Wedelmann ficou embaraçado. Não dera pela aproximação, apesar do barulho que os degraus faziam.

 

Também Natalia ficou outra vez perturbada. Nervosamente, as suas mãos puseram em ordem o vestido, embora este não estivesse desalinhado. Corou um pouco. Antes que tivesse podido dizer uma palavra, a porta abriu-se cautelosamente.

 

O sargento Asch meteu a cabeça:

 

Venho incomodar?  perguntou.

 

Absolutamente nada! exclamaram Natalia e Wedelmann ao mesmo tempo.

 

Lamento    disse   Asch,   sorrindo   amavelmente. Mas não  podia fazer  outra  coisa.  O  coronel   quer ter  o prazer de o ver, meu tenente. E o mais depressa possível.

 

Imediatamente  disse   Wedelmann,   com   prontidão. Levantou-se. Estava encantado por ver desta maneira pôr-se termo a uma situação que lhe era extremamente penosa.

 

Entretanto, Asch instalara-se  com familiaridade.

 

Não  há  assim  tanta  pressa   como  isso   disse. Mas se faz questão... não o retenho. O seu automóvel está à porta. Trouxe-o.  Substituí-lo-ei  aqui  dignamente.

 

Escusado seria dizer, Asch, que sairá comigo  retorquiu Wedelmann imperiosamente.

 

É preciso?  perguntou Asch, olhando Natalia com benevolência.

 

Permite-nos que apresentemos as nossas despedidas, menina  Natalia?  perguntou   Wedelmann,  muito   grande-senhor,  conseguindo, com alguma  dificuldade, ignorar os olhares surpreendidos do seu sargento.

 

Volte cedo, peço-lhe  disse Natalia, a meia voz.

 

Até  à  vista,   Natacha  disse   Asch,   rindo.   Espero-o em baixo!  gritou ao tenente, enquanto saía.

 

Wedelmann seguiu-o. À entrada da porta, aberta, da casa estava a pequena russa. Contemplava Wedelmann com uns olhos radiosos.

 

Auf wiedersehen,   Schweinehund!   («Até  à  vista,  porco-sujo»)  disse ela afectuosamente.

 

Até   à   vista,   pequena   ranhosa!  respondeu   Asch, sem se impressionar.

 

Wedelmann esperou que o sargento se tivesse afastado. Depois subiu para o automóvel e fez-se conduzir ao coronel Luschke.

 

Enquanto o carro rolava os pensamentos de Wedelmann demoravam-se junto dessa Natalia a quem Asch chamara simplesmente Natacha.

 

Ao fim de cinco minutos... Como este rapaz era tão pouco complicado!

 

Primeiro ao estado-maior do regimento ou imediatamente  ao  coronel ?  perguntou  o motorista. Teve  de repetir a pergunta, pois não recebeu resposta.

 

Já  ao  coronel  respondeu  Wedelmann.

 

O céu estava baixo, pesado de neve, duma neve pesada e molhada de Primavera. Wedelmann continuava a pensar em Natacha.

 

Cá estamos  disse o motorista.

 

Espere-me   no   estado-maior   do   regimento    disse Wedelmann,  saltando  do  automóvel.  Quando  tiver terminado aqui irei chamá-lo.

 

Penetrou na isbá onde o coronel tinha o quarto. Achou-o sentado à mesa dos mapas.

 

Aproxime-se,  Wedelmann.   Tenho   aqui   o  mapa   do nosso sector. Que vê nele?

 

O mesmo que há três meses, meu coronel.

 

Cada vez mais espirituoso, Wedelmann. O seu cérebro parece congelar-se lentamente. Mas aproxima-se o degelo,  meu  amigo.  Isso  dá-me  esperança,  no  que  lhe  diz respeito.

 

Wedelmann dirigiu ao seu superior um sorriso discreto. O outro sorriu-lhe ironicamente. Compreendiam-se bem, mas julgavam inútil falar nisso.

 

Que vê realmente, Wedelmann?

 

Sempre a mesma estupidez,  meu  coronel. Do nosso lado a frente forma uma bossa. O exército meteu aqui uma cunha  obtusa  nas  defesas  inimigas  e  nós  encontramo-nos ffuase na extremidade da cunha. Se tivéssemos recuado a frente no nosso  sector,  este teria ficado normal.  E,  automaticamente, as linhas estariam mais à vontade.

 

Vai   ficar   surpreendido,   Wedelmann...   O   alto   comando  também  compreendeu  isso.

 

Estou surpreendido, meu coronel.

 

O alto comando reconheceu que seria preferível  começar a ofensiva da Primavera com forças tão concentradas quanto possível  e sem protuberâncias inúteis na  linha da frente.

 

Regulariza-se, portanto, um sector da frente.

 

Exacto,   Wedelmann    disse   o   Batata,   encantado. Dirigiu um gesto de satisfação ao seu aluno preferido. Antes que recomece aqui o rebuliço, vamos cortar o contacto e ocupar, um pouco mais atrás, uma nova linha da frente

 

Wedelmann examinava o mapa com uma expressão pensativa.

 

Uma vez que somos nós os mais avançados, somos nós também que devemos recuar maior distância. Pouco mais ou menos quarenta quilómetros, se me não engano.

 

Pouco mais ou menos isso. Procuraremos novas posições na retaguarda... Quando as acharmos receberá outras instruções. Recuaremos, então, numa noite:  absolutamente de surpresa, sem que o Russo dê seja pelo que for.

 

Uma   brincadeira   de   crianças  disse   Wedelmann, convicto.

 

Para si talvez, Wedelmann  respondeu Luschke, piscando  o olho.  Mas será também assim para o capitão Witterer? Ele parece-me muito inexperiente.

 

Compensa isso com a energia, meu coronel.

 

Esperemos que  sim  continuou  o  coronel, pensativo.  De qualquer modo, enquanto você estiver na bateria não podem acontecer muitos desastres. Seja como for, trata-se de um segredo do comando, Wedelmann. De momento só nós dois conhecemos, no regimento, este projecto. Pense nisto sem cessar enquanto fizer os seus preparativos com a maior’prudência. A sua bateria será a última a evacuar as posições que ocupa com a infantaria.

 

A minha bateria?  Quer dizer a bateria do capitão Witterer, meu coronel?

 

Meu caro Wedelmann  disse Luschke, sorrindo com ar sarcástico, não faça de amuado. Quando eu estiver convencido de que a 3.ª bateria pode passar sem si verá então ao que o destino. E nessa altura terá ainda um ar mais pateta do que agora, se é possível. Mas até esse momento,  Wedelmann,  dê-me o  gosto  de puxar  a  corda  o melhor que puder. Confio plenamente em si.

 

Os subalternos Bartsch e Ruhnau, os dois «irmãos siameses» da etapa, dignaram-se tomar Vierbein sob a sua protecção, quando este lhes pagou um tributo sob a forma de uma garrafa de aguardente. Durante o almoço iniciaram-no nos segredos principais da frente da retaguarda.

 

Tens de tornar-te indispensável  disse Bartsch.

 

E,   tanto    quanto   puderes,   invisível  acrescentou Ruhnau.

 

Vierbein tragava o seu prato único e acenava a cabeça sem se interessar muito pelo que lhe diziam. Não queria ofender os dois camaradas.

 

Eu ocupo-me das máscaras de gás  dizia Ruhnau. É um negócio de absoluta segurança.

 

E eu vigio os armazéns disse Barts:h. Enquanto a caserna estiver de pé estarei tranquilo.

 

E   se   há   um   bombardeamento?  perguntou   Vierbein.

 

Um bombardeamento! exclamou Bartsch, um pouco assustado.  Nesse  caso, estou   lixado.

 

Se ao menos nos atirassem bombas de gás... acrescentou Ruhnau, sonhador.

 

De repente sentiu o espírito iluminado: começou a compreender que um ataque com gases seria para ele uma esplêndida oportunidade.

 

Mas, nesse caso, meu velho, seria a afluência no meu trabalho. Eu teria mesmo de mandar ampliar. Era até possível que toda a caserna se tornasse num depósito único de máscaras de gás. Em qualquer caso, tu, Bartsch, terias que fazer até mais não.

 

Eu não quero uma ocupação, quero um posto.

 

Era isso mesmo o que eu queria dizer.

 

Bartsch fez sinal a um criado e, sem dizer palavra, meteu-lhe o seu prato nas mãos, com um gesto de encorajamento. O homem desapareceu, mas voltou logo e depôs na mesa um prato cheio até cima. Aparentemente era o mesmo prato único que toda a gente comia. Mas quando o subalterno começou a remexer o conteúdo, para verificar, grossos bocados de carne emergiram.

 

O  cozinheiro  desconfia  disse Ruhnau  a Bartsch, que respondeu com um aceno de cabeça. Também aqui estavam absolutamente de acordo.

 

Vierbein,   surpreendido,   permitiu-se   fazer   uma   observação :

Estou   vendo   que   vocês   tem   influência!

   Para   um guarda de máscaras de gás e um vigilante de armazém!... Como se arranjam vocês?

 

Tu não ficas cá, de certeza?

 

Não.   com  certeza.

 

E não queres ocupar-te de máscaras  de  gás  nem  de armazéns? Nem agora nem mais tarde?

 

Nunca. Palavra de honra.

 

Então, está bem.

 

Nós somos aqui  disse um deles  os «homens de confiança». Compreendes?

 

Não  respondeu Vierbein,  sinceramente.  Nunca ouvi falar disso.

 

Conheces o comandante da praça?

 

Não. Apenas sei que se casa por estes dias.

 

com um pouco mais já não seria capaz  disse dos dois aquele que tinha nesse momento a boca  disponível. Ambos se olharam, rindo.

 

Isto  aqui  é  como  estás  vendo.   O  comandante   não sabe nada de nada.

 

E o oficial ordenança sabe tanto como ele.

 

E aí está a razão por que o comandante precisa de ter alguém que faça o trabalho todo por ele.

 

E esse é o nosso tenente Schulz.

 

Compreendo  disse Vierbein, que começava a adivinhar.

 

E, como Schulz não pode fazer tudo sozinho, precisa que o ajudem.

 

E quem o ajuda somos nós.

 

Vierbein acenou afirmativamente. Compreendera. O «irmãos siameses» não se contentavam em guardar o material; eram ao mesmo tempo os espiões, os cães de guarda os bufos de Schulz. Tinham-se procurado e encontrado.

 

Aqui está como as coisas se passaram  recomeçou Bartsch.  Quando isto aqui se tornou território de guerra, com fábrica de hidrogénio, D.  C. A.,  centro  de  reserva, campo de prisioneiros, etc., foi preciso também uma Kommandantur local.

 

E quem é digno de ser o comandante local ? Neste caso o comandante da tropa mais antigo da guarnição.

 

O nosso camaradinha.

 

E, por consequência, praticamente,  o nosso Schulz, sobretudo agora, que o grande trouxa não pensa senão no casamento.

 

Vierbein esvaziou o seu copo de cerveja, bebendo de través.

 

Não é fácil disse Baitsch, mas, mesmo assim, consegue-se.

 

Não podem passar sem nós disse o outro. Além disso, sabemos imensas coisas.

 

Vierbein começava lentamente a compreender que- para onde quer que deitasse os olhos encontrava o seu antigo brigadas. Esta perspectiva não tinha nada de divertida, mas era inevitável. Tinha de aceitar Schulz como se aceita um cataclismo. «É muito complicado», pensava, preocupado.

 

Os dois «irmãos siameses» eram de opinião completamente diferente:

 

É  muito  simples  afirmaram.   Cuspas  tu   onde cuspires, é sempre em cima dele que irá cair.

 

Contra Schulz  acrescentou   Bartsch   ainda  não se encontrou remédio.

 

O  comandante  da  praça   disse  o   outro,   condescendente é um reservista imbecil. Não percebe nada de escola de soldado. Schulz’ conhece isto como a palma das mãos.

 

Além disso,  ele  não  faz  a  menor ideia  do  que  é a  guerra  sobre  o  papel,  ao  passo  que  Schulz  a  conhece como nenhum outro.

 

Acrescente-se  afirmou logo Ruhnau  que o comandante não é daqui. Não  conhece nada  da  região. Ao passo que o nosso Schulz meteu o nariz em todas as retretes.

 

Junta-lhe ainda que o triplo idiota quer casar: para isso precisa de Schulz mais do que nunca. Não me admiraria se o primeiro miúdo do comandante tivesse as orelhas grandes de Schulz e o seu focinho largo.

 

Vierbein achava-se suficientemente informado. Acolhia com presença de espírito as observações impertinentes dos dois sargentos. Não aprovava, mas também não deixava transparecer qualquer desaprovação. No decorrer dos seus anos de serviço, prolongados graças às campanhas do Fiihrer, acabara por compreender que há muitas coisas, entre a caserna e a frente, acerca das quais é preferível guardar silêncio.

 

Mandou servir uma terceira rodada e retirou-se, a fim de se apresentar «ao princípio da tarde», conforme a ordem expressa que recebera, no estado-maior do destacamento de reserva. Esperou com paciência uma boa hora e, ao cabo, foi autorizado a fazer de polichinelo diante do tenente.

 

Este, em toda a sua dignidade, estava sentado à mesma mesa e no mesmo gabinete donde, noutro tempo, o chefe do destacamento, o comandante Luschke, governara a caserna até aos mais pequenos recantos. Dir-se-ia que Schulz tinha plena consciência de estar ali no lugar que merecia mais do que ninguém.

 

Vierbein fez o seu relatório em voz alta e precisa, exactamente conforme prescrições que pouco tinham mudado desde os tempos do falecido Guilherme II.

 

Schulz escutava com prazer este número de music-hall militar; fez um. gesto de aprovação e disse, num tom elogioso:

 

Não  esqueceu   nada!   Mas   eu   não  esperava   outra coisa. Vierbein. Quem quer que tenha passado pela minha escola mantém-se em sentido mesmo na vala comum, ou então não será digno de vestir a mesma farda que eu.

 

Depois de assim ter exprimido o que considerava absolutamente indispensável, o tenente, após ter folheado papéis e procedido como se reflectisse profundamente, embora soubesse muito bem o que queria dizer, declarou:

 

- Os pedidos do regimento Luschke estão formalmente em ordem.

 

Depois fez uma pausa intencional, olhou Vierbein com severidade, deitou um olhar pela janela, estudou de novo os papéis. Quem o observasse e não tivesse a menor experiência de chefes teria sido obrigado a acreditar que ele lutava para tomar as suas decisões definitivas.

 

Formalmente   repetiu   Schulz,   arrastando  a  palavra  tudo está  regular.  Teoricamente,  portanto,  poderia proceder-se imediatamente à entrega dos homens e do material. Mas eu, Vierbein, sou um homem da prática.

 

O sargento não se atreveu a protestar. Schulz era incontestavelmente um homem da prática. Contudo, nem toda a gente compreendia esta fórmula da mesma maneira que ele.

 

Nesse caso  disse Vierbein  devo informar o coronel Luschke de que...

 

...de que tudo está perfeitamente em ordem  cortou Schulz.

 

Desta vez o sargento não percebeu nada e tomou a liberdade de o dizer.

 

Schulz teve um sorriso dominador, mas nada cordial.

 

Na minha qualidade de homem da prática declarou,  ruidosamente ,  não  posso  contentar-me  em  pôr  à sua disposição homens e material. Quero expedir homens experimentados e material verificado. Está a acompanharme, Vierbein?

 

Creio que  sim  disse este,  sem procurar esconder a surpresa.

 

O tenente Schulz simulou não ter notado a resposta incorrecta de Vierbein.

 

Sargento  declarou ele com uma lógica inexpugnável , ensinaram-lhe a esperar; portanto, esperará. A formação dos soldados e a verificação do material de T. S. F. devem  concluir-se  antes que eu  possa tomar  a  responsabilidade de os pôr à disposição das nossas tropas da frente.

 

E quando estarão prontos, meu tenente?

 

Daqui por quatro ou cinco dias. Nessa altura realizar-se-ão os exercícios de tiro. Vinte e quatro horas mais tarde o regimento receberá tudo o que precisa.

 

Vou comunicar ao coronel Luschke  disse Vierbein, não hesitando, assim, em insinuar que podia ser perigoso fazer chegar ao coronel uma informação deste género.

 

Schulz, que ignorava os excelentes meios de comunicação de que o coronel dispunha, recebeu esta declaração com indiferença. Dizia consigo tranquilamente: «Comunica-lho, meu porquinho. O correio para a Rússia leva, pelo menos, oito dias, e daqui até que o Batata faça uma ideia do que preparo a Vierbein as coisas passar-se-ão como eu quiser.»

 

Durante   estes   dias   disse   Schulz,   esfregando   as mãos fará serviço aqui. Não lhe fará mal nenhum. No fim de contas, foi posto à disposição do destacamento de reserva  até ao  desempenho  da sua missão.  E o  destacamento de reserva, neste momento, sou eu.

 

Vierbein mantinha-se direito como uma estaca. Achava-se incapaz de pensar logicamente. Olhava Schulz a direito, o que este interpretava como uma prova de dedicação.

 

Acharemos uma ocupação conveniente para si  prometeu o tenente.  Você não é Completamente um imbecil.

 

Posso pedir-lhe, meu tenente, que me dispense esta tarde?  perguntou   Vierbein,   com   a   mais   perfeita   correcção.

 

Ora essa!  Porque não? exclamou Schulz tumultuosamente.  Nós não somos nenhuns monstros. Chegou da frente, quer   fazer  umas  estroinices.  Compreendo  isso perfeitamente. Mas seja prudente, amiguinho. Não apanhe aí  uma  blenorragia  ou  qualquer  coisa  do  género.  com essas coisas não brinco, Vierbein. Por princípio, aqui, trata-se de um caso muito sério. Considero isso uma mutilação voluntária. Percebeu?

 

Por fim Schulz deixou Vierbein retirar-se, não sem ter observado ainda, baseando-se na sua experiência prática, que era preciso ser prudente «até mesmo com as mulheres casadas e as noivas», pois ninguém podia saber exactamente onde a guerra não teria «cuspido».

 

Vierbein, que supunha ser uma sorte escapar, de momento, a Schulz, apressou-se a deixar a caserna. Quase a correr, dirigiu-se ao Café Asch. Não se preocupava com as pessoas que encontrava. Não se preocupava sequer com a jovem Primavera que se instalara nas árvores.

 

No Café Asch esperavam-no já com impaciência. Ingrid, que da cabeça aos pés se comportava como uma «noiva de guerra», precipitou-se para ele, abraçou-o com força e cobriu-o de beijos. Depois afastou-o um pouco, contemplou-o com os olhos brilhantes. Quando viu a Cruz de Ferro abraçou-o de novo.

 

Sinto-me   muito   orgulhosa   de   ti  disse-lhe,   ternamente.

 

E eu alegro-me de o ver aqui  disse o Sr. Asch, estendendo-lhe  a mão.  O facto  de você ser um herói não me perturba nada.

 

Depois, atravessando o estabelecimento, que, a essa hora, não era muito frequentado, Vierbein foi conduzido ao 1.º andar, à habitação particular. Ingrid segurava-o pela mão; o velho Asch pusera o braço por sobre os ombros do seu convidado.

 

Conta-me  disse Ingrid assim que se sentaram.

 

É preciso que ele coma  disse o Sr. Asch.  Que coma e que beba. Conheço isso.

 

Devo partir imediatamente declarou Vierbein, zeloso, convencido de que ia produzir grande impressão. Tenho de enviar uma comunicação importante.

 

Oh!  exclamou o Sr. Asch, abrindo uma caixa de charutos.  A guerra não acabará hoje.

 

Sim, mas esta comunicação não pode esperar  declarou Vierbein.  Apenas quis vir falar-lhes.

 

Vamos!  Vamos!  respondeu o Sr. Asch. Neste momento está aqui e aqui ficará. O Fiihrer pode esperar. Não foi ele, também, soldado? É o que se diz, pelo menos. Sendo assim, aprendeu a mandriar como a gente.

 

Mas, se a comunicação é importante..,  observou Ingrid, cheia de compreensão.  Tu não podes impedi-lo de fazer o seu dever, pai.

 

O  seu   dever?   Que  terei   de   ouvir  mais?  Mas  ele também tem deveres para connosco.  O Sr. Asch desarrolhou uma garrafa. Como soldado, em todo o caso, ele fez  o seu  dever,  e  desconfio mesmo  de que fez mais do que o seu dever;  agora tem o direito de beber um copo.

 

Oh, papá, não tens mesmo nenhum entusiasmo!

 

É um defeito de que me orgulho bastante. Bebamos em sua honra.

 

Chocaram os copos, sorrindo um ao outro. Sentiam-se muito felizes por estarem tão perto. No seu olhar havia alegria e ternura.

 

Vierbein falou um pouco de Herbert. Prometeu falar mais longamente quando estivessem mais tranquilos.

 

Em todo o caso  disse , passamos bem, o nosso moral é excelente, o abastecimento suficiente. Não há motivo para inquietação.

 

É  um  pouco   o  que  se  lê  nos  jornais  disse  o Sr. Asch.  Ainda há pessoas que acreditam.

 

Vierbein apertou, com ternura mas firmemente, a mão da rapariga sentada junto dele. Estava no auge da felicidade, sentindo-a perto de si; era uma alegria vê-la;  uma marav’ilha ouvir-lhe a voz.

 

Meus filhos! Meus filhos!  disse Asch, depois dum longo silêncio, contemplando-os com surpresa.

 

Precisas de papel ?  perguntou Ingrid.  De tinta e papel?

 

Vierbein acenou afirmativamente. O velho Asch abanou a cabeça com força e concedeu a si mesmo um copo cheio.

 

Se isto  assim continua  declarou ,  tenho  a impressão de que vamos ganhar a guerra.

 

Ingrid e Vierbein não se preocupavam com ele. Juntos, preparavam a comunicação com solenidade. A rapariga trouxe a tinta e o papel... Vierbein sentou-se à vontade e experimentou a caneta. Depois começou a escrever.

 

Fê-lo com lentidão, quase cerimoniosamente. Ingrid estava de pé, perto dele; encostava-se-lhe levemente ao ombro e olhava-o com interesse.

 

Depois de ter acabado o seu relatório ao comandante Luschke, Vierbein releu-o com atenção. Em seguida assinou-o.

 

O   relatório   é  enviado   directamente  ao   coronel diisse  Ingrid  com  um  ingénuo  orgulho,  piscando  o  olho ao pai.

 

E   depois?   perguntou   este.   Olha   a   grande coisa!  No meu  correio há várias cartas para um verdade’iro  general. Era  representante de uma  marca de  automóveis  antes  de  a  guerra  o  ter feito  avançar,  pouco  a pouco, até à patente de general.

 

Seja como for, é general agora, papá.

 

E eu escrevi-lhe. Mais do que uma vez. E até intimações. É que, imagina tu, não  só  ele é general,  como também tem dívidas como um general.

 

Vierbein permitiu-se um leve sorriso. Asch acolheu-o com surpresa e satisfação. Ingrid teve o tacto de nada ver.

 

Já   está!   exclamou   ela,   satisfeita,   depois   de   ter ajudado o noivo a dobrar duas vezes o papel. E, agora, vamos os dois levar a carta ao correio.

 

Não basta  disse Vierbein.  Esta comunicação é urgente. Tenho  de a levar ao  comandante  do  aeródromo próximo, que a enviará directamente para a Rússia.

 

É,   realmente,   necessário?   perguntou   Ingrid,   incapaz   de   dissimular   o   seu   desapontamento   Perdemos uma tarde inteira.

 

Tem   de   ser    respondeu   Vierbein,   sinceramente desolado por não poder satisfazer a alegre expectativa de Ingrid. Acrescentou: Infelizmente.

 

O  velho  Asch  repeliu  bruscamente  a.  garrafa   do  conhaque.

 

Que  tempo  este!   exclamou. Desde  que voltámos a ser mais uma vez um povo de heróis, poucos são os que não têm macaquinhos no sótão. Ganha-se bastante dinheiro,  mas  vive-se  como  cães.  Em  cada  canto  se  encontra um à espera de nos ver obedecer ao seu toque de apito. E que fazemos nós, realmente? Obedecemos. Temos isto  no  sangue.  O  açaimo,  o chicote,  o biscoito  de  cães.

 

Mas é a guerra, papá.

 

É o que eu digo. Metam-se na minha camioneta e desapareçam ambos. Preciso de levedura de cerveja para isso a que chamam tortas.

 

Obrigada, papá.

 

Obrigado, Sr. Asch.

 

Agradeçamos ao nosso Fiihrer  disse o Sr. Asch. Aliás, é a ele que devemos tudo.

 

O capitão Witterer, correndo ardorosamente para o seu objectivo, convocara o subalterno Soeft para o seu alojamento. Este obedecera sem excessiva demora, o que os iniciados acharam surpreendente. Apenas o tenente Wedelmann se podia gabar de ser tratado assim, de maneira tão privilegiada, pelo rei do abastecimento.

 

Soeft entrou, fez uma continência bastante incorrecta e procurou um assento. Krause, que devia e queria ser subalterno-adjunto de Witterer, e que, portanto, seguia este como a sua sombra, adiantou uma cadeira imediatamente a Soeft.

 

Tentou mesmo dirigir-lhe um sorriso de familiaridade. Soeft retribuiu-lho, mas menos familiarmente. «Este fraldiqueiro do Krause», pensou, «deverá puxar ainda muito tempo ao varal antes que eu lhe conceda a primeira fatia de pão com manteiga.»

 

Krause não era, contudo, um fraldiqueiro. Era um homem de ambição ardente, mas oculta, e que queria, furiosamente, fazer uma carreira tão brilhante e rápida quanto possível. Abjurara o catolicismo em 1938 porque ele parecia prejudicar o seu avanço; estava pronto a voltar a ser católico se os tempos viessem a mudar, coisa que ninguém podia saber. Fizera também um ensaio com o Partido Nazi, que não soubera apreciar-lhe o valor. Mas desde que a Wehrmacht possuía um Witterer a guerra e a sua carreira de oficial haviam tomado um aspecto diferente. Tudo isto nada tinha que ver com as suas convicções ou os seus sentimentos íntimos. Era unicamente um homem de acção, um homem de realidades.

 

Krause viera para a 3.ª bateria na qualidade de subalterno de fresca data e aluno-oficial de futuro. Tratavam-no ali como um caloiro. É que se encontrava num grupo que, no decorrer das duas campanhas da Polónia e da França, tivera ocasião de se conhecer a fundo.

 

Esta 3.ª bateria, tal como o capitão Witterer muito justamente declarara, era uma «balbúrdia». com êxitos, com muitos êxitos até, mas pouco entusiasmada pela disciplina. Logo ao princípio os serventes da sua bateria tinham experimentado tratá-lo por tu, a ele, subalterno Krause.  Mas  mostrara-lhes logo com  que  lenha  se  aquecia. Podiam fazer isso com Vierbein;  com ele, não!

 

É-me  indiferente  que  sejas  subalterno-adjunto  aqui, Krause  disse  Soeft,  sem que a presença  do  capitão  o perturbasse , mas no meu serviço de abastecimentos ninguém tem o direito de meter as patas.

 

Nem mesmo eu, Soeft?  perguntou Witterer, divertido.

 

Meu capitão  respondeu Soeft com toda a dignidade   de  que  era  capaz ,   depressa  verificará  que   tudo corre bem no meu serviço. Deixar-me-á as mãos livres, tal como estou habituado.

 

Se trabalhar de acordo com as minhas ideias, Soeft, porque não?

 

O segundo-sargento Soeft  disse Krause, com bastante habilidade, procurando jogar com um pau de  dois bicos  é, na verdade,  capaz  de abastecer um  regimento inteiro.

 

Como se arranja você para isso, Soeft?

 

Este  fez  um  gesto  modesto   de   defesa,   levantou   para o céu o seu potente nariz e piscou o olho.

 

Tudo  depende  das  relações,  meu  capitão.

 

Já teve sarilhos?  perguntou Witerer com alguma desconfiança.

 

Constantemente  respondeu Soeft sem se inquietar.  Fazem parte do ofício.

 

E o tenente Wedelmann? Ajudou-o a sair deles?

 

Seria  absolutamente inútil,  meu  capitão.  O  tenente Wedelmann  não   se  ocupou  sequer   deles.   Sabia  perfeitamente que eu seria capaz de safar-me sozinho, desde que, bem entendido, me deixassem as mãos livres.

 

Só o primeiro-sargento Asch é que tentou meter o nariz  insinuou Krause do fundo da casa.

 

Mas não se saiu muito bem  declarou Soeft com uma calma superior.  Pu-lo simplesmente a meia ração e ele recuperou imediatamente o equilíbrio.

 

Esse   indivíduo  parece   querer  meter-se  em   tudo disse Witterer.

 

Até aqui ninguém o reteve  disse Krause, atiçando o fogo.

 

Soeft deixava correr e esperava. Podia, sem dificuldade, ter a sua parte nestes mexericos, mas não via nenhuma razão para isso. No lume onde aqueles dois esperavam poder aquecer-se não tardaria ele, Soeft, a ferver a sua sopa. De resto, não era inimigo de Asch, muito antes pelo contrário.

 

Pondo de parte Wedelmann, Soeft, na 3.ª bateria, apenas tinha respeito por si mesmo e por Asch  exactamente por este. É certo que considerava Asch um cabeça de porco, mas reconhecia que este possuía como ele um sexto sentido, Soeft farejava, a sete léguas de distância, onde havia abastecimentos. Asch adivinhava com grande antecedência como a guerra ia evoluir. Pôr-se de mal com ele era quase um suicídio.

 

Olhe-me para esta barraca - disse Witterer a Soeft.

 

Soeft olhou. Era uma casa como todas as outras, talvez um pouco mais ampla, talvez um nada mais limpa. Mas, tal como as outras, cheirava a humidade, a couro secado ao lume, a fatos que apodreciam, a suor de homem e a tabaco.

 

É uma cavalariça e não o alojamento de um capitão  declarou Witterer energicamente.

 

Soeft fez um gesto afirmativo. Não lhe foi difícil calar o que desejaria dizer: «Esperava com certeza um palácio!» Não era homem para arriscar sequer meio quilo de manteiga por um gracejo. Sabia calar-se quando queria. E neste momento queria-o.

 

O sargento Krause pensa que você poderia ajudar-me neste caso, se quisesse.

 

Ah! O sargento Krause pensa isso?

 

Se alguém o pode fazer, és só tu  declarou Krause, com ardor. com as relações que tens...

 

Soêft deixou-se ficar calado. A situação apresentava-se-lhe com bastante clareza. O capitão queria embelezar a barraca. Porquê? Tratava-se duma questão secundária. Era fácil ver que era partidário da elegância a domicílio. «Não é caso para rir.» Também era possível que quisesse receber senhoras. «Porque não?» A ratinha do Teatro do Exército, aquela dos olhos grandes, talvez quisesse experimentar uma vez o amor sob o fogo da artilharia inimiga. «Deve ter um gosto diferente.»

 

Que diz a isto, Soêft?

 

Tudo   é   possível   aos   Prussianos,   ao   Fiihrer   e   a Deus  respondeu ele.

 

Para   começar    disse   Krause ,   precisamos   de algumas  folhas  de  papel.   Do  branco.  Para  substituir  os papéis pintados.

 

Estou  a perceber  disse Soêft.  Papel  de embalagem, daquele que serve para as provisões. bom, eu arranjarei três rolos. Para começar, bastará.

 

E cola, Soêft. Cola de estofador.

 

Uma   idiotice,   Krause    disse   Soêft   num   tom   de experiência.    Fornecerei   umas  caixas   de   percevejos.   É muito mais prático. Fixas com eles os papéis nas paredes. Para   que   queres   colar?   Não   vamos   ficar   aqui   eternamente.

 

Colado é mais limpo.

 

Se  os fixares convenientemente,  será mais que bastante. E quando mudarmos de posição só terás de enrolar os papéis. Até ao próximo salão do chefe.

 

De acordo  disse Witterer.  Faça como ele  diz, Krause. Que me poderá oferecer ainda, além disso?

 

Em que  tinha  pensado,  meu  capitão?  perguntou, curioso, o rei dos abastecimentos.

 

Eu  tinha  pensado  disse  o  capitão,  apalpando  o terreno    talvez   num   samovar,   alguns   cobertores,   duas cadeiras.  Aspirou   profundamente,   dando   assim   a  Soêft tempo para interrompê-lo, coisa que este não fez.

 

Witterer interpretou o silêncio como um consentimento e prosseguiu o inventário das suas pretensões:

 

Talvez ainda uma espécie de cama de abrir e fechar e um colchão, em vez desta palha apodrecida. E preciso também de chávenas, copos, pratos, dois de cada. E que diria ainda de uma almofada?

 

Concedido  declarou Soêft, generoso.

 

Witterer soltou um suspiro de alívio. Este Soêft era verdadeiramente inestimável e uma fonte absolutamente inesgotável. Não era um chefe de escalão, mas sim um director de grandes armazéns. E, aproveitando o momento favorável, aventurou-se até mais longe:

 

Tem também um tapete, Soêft ? Um, pequeno ?

 

Vou dar-lhe um dos meus. » Krause deitou  a Witterer um olhar de triunfo;  o capitão balançou a cabeça com satisfação.

 

Outra coisa ainda, meu caro Soêft. Como sabe, mandei fazer preparativos para um espectáculo do Teatro do Exército.

 

Sei o que se passa  disse Soêft, com visível interesse.  Tanto quanto estou informado, pôs lá Asch como jardineiro.

 

Witerer teve um sobressalto. Mas não se deixou desviar da sua ideia.

 

Seja como for  disse , gostaria de dar uma pequena festa depois do espectáculo. Que diz a isto?

 

É coisa que se pode fazer  disse Soêft, sonhador. Sempre tive um fraco pelo Teatro do Exército.

 

Evocou os dias felizes da França. Nunca pensava neles sem comoção. «Ah! com mil diabos! Que tempo! Isso é que era verdadeiramente Teatro do Exército. Como se chamava ela, aquela garota? Yvonne, com as suas longas pernas e as nádegas rijas!»

 

Pensava   numa   pequena   ceia    disse   Witterer  nuns bons refrescos.

 

Soeft arrancou-se às suas recordações de França, o que nunca lhe era fácil, e disse:

 

Sim, caviar e champanhe da Crimeia.

 

Witterer apurou o ouvido. O seu rosto, habitualmente tão sereno, manifestou sinais de entusiasmo.

 

Não estaria mal disse. Seria mesmo espantoso. E  estará  em  condições   de   pôr   isso   à  minha   disposição,

 

Soêft?

 

Tanto  quanto  quiser, meu  capitão  disse  o  outro, com   indiferença.    Aqueles   que   ainda   não   conhecem   o caviar e o champanhe da Crimeia acharão bom. Para mim não   contam.   Prefiro   o   presunto   cozido   e   o   champanhe francês.   Champanhe   seco!   Nada   de   coisas   adocicadas   e coloridas!  Além disso, a temperatura deve estar no ponto exacto. Tenho na minha bagagem pessoal um termómetro de champanhe.

 

Witterer guardou um silêncio respeitoso; Krause balançava a cabeça com ar de triunfo. «Tinha ele prometido de mais? Não! Nem tanto! Este homem não era um génio do abastecimento; era o único!» E Krause tinha a impressão de terem sido postos por ele próprio o caviar nas latas e o champanhe nas garrafas.

 

Ah,   a  França!   suspirou   Soeft.  Como   ela  me faz  falta!   Tinha  três  caves   a  meu   cargo,   além   de   uma cooperativa   de  mercearias  finas  que   eu   mesmo   inventei. E já não falo do meu armazém. Isso sim, era a França! Lá podia uma pessoa mostrar a sua capacidade.  Aqui o meu talento enferruja.

 

Vamos,  vamos,  Soêft!   exclamou  Witterer,   divertido.  O que consegue tirar deste país basta-me.

 

Isto   não   é   nada   em   comparação   com   a   França disse  Soeft,  num  tom  quase  solene.   O  meu   capitão compreenderá, porque conhece a importância do Teatro do Exército.

 

Escusado   seria   dizê-lo.  O   soldado  tem  necessidade de distracções; é preciso dar-lhas.

 

Que o Fiihrer ouça as suas palavras!  Foi em vão que eu esperei ouVi-las durante todo o ano passado.

 

O Teatro  do Exército  é uma  questão  algum  tanto descurada neste sector, não é verdade?

 

Completamente  descurada  disse  Krause  como  um eco.

 

Incompreensão   absoluta    declarou   Soeft.   Infelizmente. Quando eu quis instalar aqui um lupanar...

 

Um  quê?...perguntou   Witterer,   verdadeiramente surpreendido.

 

Um lupanar  repetiu Soeft, como se apresentasse uma reclamação honesta e mesmo patriótica.  Um bordel, pois então! Uma casa de toleradas. Palavras diferentes para designar a mesma coisa.

 

Estou a perceber  disse o capitão, um pouco desconcertado.

 

Quando   nos   fixámos   aqui,   antes   do   Natal,   compreendi  logo  que  se  passariam  meses  antes  que  recomeçássemos  a  mexer-nos.  Era  nesse  momento  que  se  deveriam ter organizado  as horas vagas. Em  suma, eu  estava disposto a organizar um lupanar.

 

Ah! Ah!exclamou Witterer, ainda aturdido.

 

Não teria sido tão fácil como isso  afirmou Soeft, com um ardor pouco habitual.  Imagine as minhas dificuldades. Num país como este!  Apenas garotas e velhas. Se interrogar alguma sobre a sexualidade, ela julgará que está  a  falar-lhe  numa  linha  de  iluminação  eléctrica,   de tal maneira aqui estão atrasados. Nada que se pareça com a França. Apesar de tudo, eu teria conseguido. Eu teria.

 

Decerto  disse Witterer.

 

É verdade que o material  não era abundante, mas teria  chegado  para   unidades  pequenas.   Reconheceram-no bem, nestes últimos tempos, nos estados-maiores pequenos. Conheço   algumas   unidades   que   contam   meia   dúzia   de «pegas»  na lista de  pagamentos.  Ora,  sendo  assim,  porque não será possível  também na frente?  É  aqui que há

 

mais precisão.

 

E quem foi que sabotou os projectos dessa vez? perguntou   Krause,   à   espreita.   Irradiava   satisfação,   pois conhecia a resposta.

 

Foi   Asch,   naturalmente    disse   Soèft,   com   desgosto.  O primeiro-sargento Asch é, na verdade, um bom organizador,   isso  é   indiscutível,  mas  não   tem   o   sentido duma organização deste género.

 

É  casado  disse  Witterer.  Vi  o  processo  dele. Parece  mesmo  que  está  solidamente  casado.  E,  em  segredo, o capitão felicitava-se por ter encarregado de Lisa, dessa pequena bastante ousada, um homem assim tão solidamente casado. Tratava-se, pensava, duma boa ideia, para não dizer de uma ideia genial.

 

Isso   também  não  é  assim   disse  Soeft.   Asch, tem de se reconhecer, é um rapaz como não há melhor. Não tem nada contra as mulheres. Mas é pela  liberdade absoluta e, por princípio, recusa-se a qualquer organização neste domínio.

 

Interessante  disse Witterer, pensativo.

 

Na França  continuou  Soeft,  deixando-se  arrastar outra   vez   pelas   suas   recordações    era   completamente diferente.  Lá   podia   eu   impor-me   sem   custo.   O   próprio Weddelmann  fechou   os  olhos.   E,  embora  não  me  tenha frequentado a casa, Asch também não me causou aborrecimentos. Era tudo o que eu queria.

 

Como disse?  perguntou Witterer,  com estupefacção. A bateria em França tinha o seu bordel privativo?

 

Claro.  E  era  quase  exclusivamente   graças   a   mim, isto sem diminuir os méritos do sargento-ajudante. As suas disposições administrativas eram perfeitamente úteis. E ninguém pôs em  dúvida a utilidade  de tal  empreendimento.

 

Salvo Asch  interveio Krause.

 

Soeft fez  um  gesto  desdenhoso.  O  seu  assunto  preferido arrastava-o.

 

Creia   disse   que  um  bordel  é  uma   instituição boa para manter o moral do exército.

 

Que   quer   dizer   com   isso ?  perguntou   Witterer, para quem uma conversa deste género era coisa nova.

 

Em   primeiro   lugar,   as   raparigas   mantêm   o   bom humor  dos  soldados  explicou  Soeft,  sinceramente  convencido.    Quando   se   ama   bem   anda-se   bem   disposto. Depois,  há   do  lado  dos  homens,   de  cada  soldado,  uma espécie  de necessidade  física.  Esta  necessidade,  que sobe automaticamente  na  guerra  de  posições  ou  aumenta,  até, na proporção  do afastamento  da frente,  deve  ser tomada em consideração. Tenho ou não tenho razão?

 

Hum!  rosnou Witterer, pensativo.

 

O  chefe  que  tem  a  consciência  das  suas  responsabilidades  continuou Soeft,  como se ditasse um  regulamento  não  tem  o  direito  de  subtrair-se  a  tais  problemas.  O  corpo  também  tem  as  suas  exigências.  As naturezas primitivas têm, neste estado, tendência para os actos de violência. Os delicados, mais raros, procuram o amor. Os indiferentes,  pelo contrário,  precipitam-se para a primeira mulher que se lhes apresenta E é justamente aí que reside o problema. Há, com efeito, o perigo das doenças venéreas,  que,   automaticamente,  põem  o  soldado fora  de combate.   É   indiscutível   que   isto   é   atentatório   da   força combativa. E para o evitar é preciso instalar um bordel.

 

Parece lógico  disse Witterer, hesitante.  Parece muito lógico.

 

E é  disse, energicamente e com convicção, o sargento.  Ou julga, meu capitão, que as poucas frangainhas do Teatro do Exército chegam para substituir isto, mesmo de longe?

 

Mais devagar, Soeft, mais devagar! Nada de comparações desse género. São arriscadas. Bem vistas as coisas, trata-se de senhoras da sociedade.

 

Porque  me  diz  isso  a  mím,  meu  capitão?  perguntou Soeft, rindo sem se melindrar. Diga-o antes ao sargento Asch. Ele precisará mais do que eu. Porque, no fim de contas, é ele quem está nos primeiros camarotes. ( E foi o meu capitão quem lá o pôs.

 

Podia muito bem ter ido procurar-me  disse Lisa Ebner,  olhando  em volta  com uma expressão  de  descontentamento.  Ou  julgará,  por   acaso,  que  me  pode  dar ordens como aos seus soldados?

 

Não dou ordens aos soldados  respondeu Asch, em tom pouco amável.  Deixo isso a outros.

 

Isso é com o capitão Witterer?       

 

Pergunte-lhe se ele se sente atingido. Mas isso fica para mais tarde. Por agora, sente-se.

 

Lisa Ebner olhava Asch como se este fosse um animal curioso e contagioso ainda por cima. Depois contemplou de novo o que a rodeava. Fungou, outra vez, descontente, franzindo o seu gentil narizinho.

 

Encontravam-se na sala principal da messe dos soldados, na etapa. Assemelhava-se ela até certo ponto a uma sala de espera, muito arruinada, de 3.ª classe, numa guarnição longínqua. Só faltavam ali os horários dos comboios. Em compensação, havia alguns cartazes publicitários, todos ornados, é certo, de frases patrióticas. O Fiihrer também não fora esquecido.

 

Apenas alguns soldados estavam presentes, pois a hora das verdadeiras distracções não chegara ainda. A ração de vinho baptizado, muito apreciada e que aumentava a força combativa, nunca era distribuída antes do cair da noite. Os iniciados renunciavam todos, magnânimamente, ao chá da tarde ou à sopa de pão. Os que se encontravam ali eram, portanto, na sua maior parte, extraviados.

 

A um canto berrava sem parar um alto-falante. Ninguém o ouvia. Os mugidos contínuos da rádio eram tão indispensáveis a esta guerra como o ar para respirar.

 

Lisa Ebner sentou-se num banco, em frente do sargento Asch. Automaticamente, sacudiu o vestido, pois tinha a algum tanto penosa impressão de saber que todos os seus movimentos eram observados. Esforçava-se por olhar Asch de cima, o que não parecia incomodá-lo muito.

 

- Eu não sou sua empregada  disse ela.

 

- Ainda ninguém o disse.

 

Sendo assim, queira tratar-me doutra maneira.

 

Como? Como a um ovo?

 

O senhor é impossível!  exclamou Lisa, lançando-lhe olhares indignados.  É, nem mais, nem menos, um insolente.  Outros  sentir-se-iam felizes  por  se  encontrarem aqui   sentados,  comigo.   Mas  o  senhor  ainda  é  capaz  de acreditar que me está a fazer um favor. Que está a pensar, afinal de contas?

 

Não me faça essa pergunta.

 

Será por acaso uma táctica sua?

 

Minha   querida   menina   Lisa   Ebner    respondeu Asch, mirando as mãos , eu sou casado.

 

Já mo disse. Mas pode mudar de disco. Ou será também uma táctica?

 

Como mulher  respondeu Asch, inclinando-se sobre a mesa e olhando-a fixamente  não me interessa nada. Nem tanto como isto. Para mim é unicamente uma pessoa com quem trato dum assunto, tal como faria com o representante do depósito de abastecimento ou do armazém de caixões. Tenciono discutir consigo uma questão de serviço, e é tudo. Para os assuntos particulares não tenho competência. Não sou eu quem a tem.

 

Essa graça é outra vez com o capitão Witterer? Asch   abanou   lentamente   a   cabeça,   insinuando   assim

 

que a considerava «dura da cachimónia».

 

Mandei um dos meus camaradas ao alojamento do seu   grupo    disse   ele    para   que   me   enviassem   aqui alguém  em condições  de tratar  comigo.  Quem?  Estou-me nas  tintas  quanto   a   isso.  Não  quis  ir  a   sua   casa   com receio de perturbar qualquer idílio. Supus que fosse O vosso parceiro macho, o ilusionista, quem aparecesse. Na verdade, não tinha imaginado que viria você em pessoa. De resto, é-me indiferente.

 

Ora vejam!

 

Perfeitamente indiferente.

 

Está  bem   disse  Lisa   Ebner,   procurando   tomar uma decisão.  Também não peço outra coisa. Seja como for, o nosso grupo dividiu o trabalho de organização. Sou eu quem deve preparar o espectáculo extraordinário para os senhores. Portanto, quer lhe agrade, quer não, tem de contentar-se comigo.

 

Contento-me  consigo,  como  está vendo  respondeu Asch, fleumàticamente.

 

Depois procurou com o olhar a criada Betty. Ela aproximou-se, sem se apressar muito. Asch olhou-a com amabilidade.

 

É com certeza a menina Betty?  perguntou, observando   com  crescente   cordialidade  esta   mulher  pesada  e maternal.

 

Como sabe, sargento?

 

De   acordo   com  a   descrição   que  me  fizeram,  não pode deixar de ser a senhora.

 

Fizeram-lhe   uma   descrição   de   mim?  perguntou ela, assustada.

 

Cumprimento-a da parte do subalterno Soeft. Estou na mesma bateria.

 

Então são assim os amigos desse pulha, desse vendedor ambulante? Imaginava-os doutra maneira. Você tem um ar mais ou menos normal.

 

Por vezes a gente engana-se  disse Lisa, num tom convicto.

 

Também me enganaria  declarou a criada, fazendo um sinal de assentimento a Lisa.  Mas, uma vez que está aqui, não quero causar uma decepção a Soeft. Então que quer beber?

 

Se tenho o direito de escolher  disse Herbert, de bom humor, queria uma cerveja. Mas daquela que faça «pschi!». Há meses que a não bebo.

 

Terá o que quer  disse Betty num tom ao mesmo tempo brusco e cordial.- E a menina?

 

Um café?!

 

Porque não? Tê-lo-á. O gangster do Soeft se arranjará para o substituir.

 

A criada afastou-se.

 

Faz-me lembrar a minha sogra  disse Asch.

 

Também isso é uma ilusão de óptica  disse Lisa Ebner,  agastada.  As  mulheres,  perto  da  frente,  nunca são   mais   que  ersatz.   Fazemo-vos   sempre   lembrar   outra mulher   qualquer.   Quando   somos   novas,   a   vossa   noiva; quando somos velhas, as vossas mamãs. E, pouco a pouco, isso deixa de ter graça.

 

Você   dá-me   a   impressão   de   ter   coleccionado   um bom número de experiências. Há quanto tempo anda metida nesta história?

 

Na frente?  Estou  aqui pela primeira vez.

 

Não está na frente, mas sim atrás da frente  corrigiu  gentilmente  Asch.  E,  antes  disto,  onde  exerceu   o seu talento?

 

Nos hospitais.

 

Isso   estava   bem.   Estaria   mais   no   seu   lugar.   Mas não foi lá com certeza que encontrou o seu  capitão Witterer!...

 

Ele não é meu capitão. Não lho disse já ? Conheço-o, e nada mais.

 

Conhece mais alguns da mesma maneira ?

 

Ainda que isso o inquiete, conheço uma quantidade deles. Por exemplo, o comandante Baer. E também o capitão Runge e o comandante Von Falckenstein. E ainda...

 

Já me chega  interrompeu Asch num tom desagradável.

 

Nomes assim podia citar-lhe dúzias deles.

 

Elabore, uma lista,  mande tirar  cópias  ao  duplicador  e  distribua-as  por  todos  aqueles  a   quem  interessar, como, digamos assim, certificado de capacidade, como certificado de rendimento ou outros deste género.

 

Lisa Ebner olhava-o com os olhos dilatados, muito abertos. Olhos sombrios e tristes. Eram olhos de criança, tal como Asch pôde verificar. Que lentamente, muito lentamente, se enchiam de lágrimas.

 

Porque me  diz essas coisas?  perguntou  ela, em voz baixa, como se se sentisse desamparada.  Por quem me toma? Porque supõe que eu... que eu...

 

E Lisa começou a chorar. Grossas lágrimas rolavam-lhe pelo rosto e caíam na mesa mal limpa. Ela chorava sem ruído e os seus ombros mantinham-se imóveis.

 

Não chore, vamos  disse Asch, muito aborrecido. Porque está a chorar?

 

Lisa  continuava  a  chorar.  Sem  ruído.  Sem  se  mover.

 

Vamos, domine-se. Meu Deus, se toda a gente aqui quisesse pôr-se a chorar!...

 

Betty aproximou-se lentamente da mesa. Depôs sobre ela o café, que desprendia um aroma intenso, e colocou diante de Assch uma caneca de cerveja. Depois examinou a rapariga e o sargento com um descontentamento crescente.

 

É,   realmente,   um   amigo   íntimo   desse   patife   do Soèft  disse, por fim, com convicção.  Vê-se. Mas não se rale, menina. Não é com certeza o único homem que existe neste sítio.

 

Era   só   o   que   faltava,   que   começasse   também   a chorar, menina Betty.

 

Pode   esperar   por   isso   enquanto   a   guerra   durar, rapaz.  E depois de ter assim falado a criada afastou-se, resmungando.

 

A torrente de lágrimas de Lisa não se esgotara ainda. Asch não sabia já o que fazer. Instintivamente puxou pelo lenço, mas teve presença de espírito bastante para não o oferecer à rapariga, pois estava muito longe de se encontrar limpo.

 

Acalme-se,   vamos.   Não   quis   ofendê-la.   Creia   que não quis.

 

- Quis, sim  disse Lisa, fogosamente.

 

Pois bem.  Se faz  questão  disso,  desculpe.  Peço-lhe que   me   desculpe.   Não   tive   intenção   de   ofendê-la.   Desculpe-me. Peço-lhe.

 

Lisa não respondeu. Mas as lágrimas já não corriam. Acumulavam-se nos seus grandes olhos, que brilhavam agora docemente.

 

- Sabe, menina Lisa Ebner  acrescentou Asch, vivamente , nós aqui não estamos aquilo a que se pode chamar estragados com mimo. E esquecemos muitas coisas. Conhecemos apenas os camaradas, e, a eles, apenas para comer e morrer.

 

Não tenho nada que ver com isso.

 

Lisa fez desaparecer com as costas da mão os sinais das lágrimas. A sua pele, Asch verificou-o com prazer, não tinha qualquer vestígio de pó de arroz. Brilhava um pouco vermelha agora, mas era lisa e saudável.

 

Lisa tirou um espelho da malinha. O que nele viu pareceu tranquilizá-la. Soprou duas vezes para cima, em direcção ao seu gracioso nariz. Depois tentou outra vez olhar Asch com uma expressão provocadora.

 

Não deixe arrefecer o café  disse ele.

 

Lisa, obediente, bebeu em movimentos um pouco bruscos. Era uma rapariga encantadora. Muito nova e quase ingénua ainda.

 

De súbito, Asch sentiu um vivo desejo de que ela se mantivesse tal como era agora. Foi nisso que pensou enquanto bebia uma boa golada de cerveja. E este pensamento não o deixou mais.

 

Deve tentar, de uma vez para sempre, saber o que nós pensamos   disse  depois.   Vejamos, por exemplo, o  eterno  assunto  número  um:   as  mulheres.  Muito  bons pensamentos, expressos em milhões de cartas. Mas não há só estes bons pensamentos. Há também as ilustrações dos jornais militares, os magazines, as canções equívocas da rádio para os soldados. E depois as conversas das retretes e da noite e os devaneios provocados pelo álcool. De repente, eis que aparecem verdadeiras mulheres cruzando o nosso caminho. Elas misturam-se connosco: mais ou menos, uma para cem mil. De vez em quando passa-se qualquer coisa, não quererá negar com certeza! E a ocasião favorável só existe para aqueles que têm ainda um quarto e uma cama. Mas a coisa sabe-se depressa. E, para muitos, elas são, por princípio, prostitutas para oficiais. E o desejo sexual é, como o desejo de comer, particularmente desenvolvido aqui. Conte com isso. Nada se pode fazer em contrário com indivíduos que pensam dessa maneira não queremos quaisquer relações.

 

Mas você não pode escolher os que a olham.

 

Felizmente   ainda   há   homens   em   quem   se   pode confiar.

 

Não   me   sinto   ofendido  por  verificar  que   não  me inclui no número desses  disse Asch, indiferente. Depois perguntou:- E  o  capitão  Witterer?   Pode  confiar  nele?

 

- Conheci-o na Alemanha. Foi muito delicado para comigo, muito bem educado. E como ele tinha altas relações  o comandante Baer é seu amigo íntimo  pedi-lhe que me ajudasse a obter um contrato para espectáculos na frente.

 

Porquê?   Os   contratos   desse   género   interessam   do ponto de vista pecuniário?

 

Também.  Mas  não  era  isso  que  me  atraía.  Queria estar metida na questão. Queria ver alguma coisa. Conhecer bem as coisas deste mundo. Não me compreende?

 

Não  respondeu Asch sinceramente.  Sou absolutamente  incapaz de a compreender. Mas, ora bem:  já cá está. E que está vendo?  Que conhece  do mundo?  Menos que nada. Está aqui sentada, com um pobre diabo dum sargento, e deixa arrefecer o seu café. Representa em barracas de tábuas e em herdades, admirada por alguns reservistas, para os quais é, como você mesma o disse, um ersatz de noiva. E o capitão Witterer toma conta de si.

 

Nem tudo é assim tão feio como diz, Sr. Asch. Talvez tenha tido experiências desagradáveis, e isso tornou-o injusto.  Mas  também   a  guerra   tem  dois   rostos:   alguns aniquilam-se nela,  outros elevam-se acima de si mesmos. Há decerto homens que conservaram a honestidade do seu coração.

 

É muito possível. Mas o que é preciso é que saiba escolher os bons. Não é talvez tão difícil como isso.

 

Lisa Ebner abriu muito os olhos. Ia dizer qualquer coisa, mas não teve tempo. O subalterno Krause, com o capote completamente aberto, dirigia-se para eles. Deitou um olhar a Asch. Depois mirou a rapariga longamente.

 

É a menina Lisa Ebner?perguntou.

 

Ela acenou que sim, um pouco surpreendida, um pouco curiosa também, porque adivinhava que o sargento Asch estava ainda mais embaraçado do que ela.

 

Esperam-na  disse Krause.

 

Tenho  ainda  diversas  coisas  a  discutir com  a  menina Lisa Ebner  declarou Asch num tom arisco.

 

O capitão Witterer  disse Krause, como se o sargento não existisse para ele  está já no seu quarto, menina Lisa Ebner.

 

Isso   não   impede   que   terminemos  a   nossa   conferência.

 

Vem, menina Lisa Ebner?  perguntou Krause, com obstinação.

 

Ela olhou Asch, que acenou a cabeça negativamente. Este gesto causou-lhe satisfação.

 

Irei mais tarde  respondeu.

 

Está bem,  esperarei  declarou  Krause,  sentando-se também à mesa e gritando: «Eh! Você aí!»

 

Betty aproximou-se e olhou-o sem nada dizer.

 

Então?  perguntou  ele. Que  diria  a  um  café?

 

Não há.

 

E esta senhora?

 

Você é uma senhora?

 

Então traga-me uma cerveja.

 

Terá   chá   ou   nada    disse   a   criada.    Estamos numa messe para soldados e não num estabelecimento de diversão. E se julga que vai ter cerveja só porque o sargento bebeu uma está muito enganado. Aqui sou eu quem manda e mais ninguém.

 

Estupefacto, Krause olhou a criada, que se afastava. Depois virou-se para Lisa Ebner e Herbert Asch e julgou vê-los piscar o olho com uma expressão de cumplicidade. E isto era uma situação que devia ser qualificada pelo menos de inquietante. Reflectiu durante algum tempo no que convinha fazer.

 

Por fim disse:

 

Sargento, quer então impedir a menina Lisa Ebner de obedecer a uma convocação do capitão?

 

Segundo-sargento, eu ignorava que o capitão tivesse o  direito  de  dirigir  convocações  de  qualquer  ordem  que fossem à menina Lisa Ebner.

 

Portanto, está a sabotar um desejo expresso do chefe

 

da bateria?

 

Não se podem sabotar desejos. Devia reflectir sempre, Krause, antes de ceder à sua preferência pelos lugares-comuns. Recomende isto igualmente ao capitão Witterer.

 

Não   deixarei   de   o  fazer  respondeu  Krause   com

 

energia.

 

Agora desaparece-me daqui. Ou então dar-te-ei tantas nos dedos que ficarás em estado de não poder escrevinhar as tuas participações.

 

Todas as ordens eram sagradas para o subalterno Vierbein; qualquer desejo de um chefe era para ele uma ordem, sobretudo quando esse chefe se chamava Wedelmann. Mas, na sua infinita ingenuidade, deixou-se cair em pedir informações acerca de Lore Shulz aos seus camaradas de quarto, Bartsch e Kuhnau.

 

Os dois irmãos siameses desconfiaram de qualquer maroteira e ficaram encantados. Entreolharam-se e compreenderam-se imediatamente. Logo que a conversa recaía nas «gajas», os seus cérebros pareciam harmonizar-se completamente.

 

Camaradinha!   exclamou  Bartsch.  Estás  a  pedir-nos os nossos melhores endereços. Tens de pagar isso.

 

Se  quiseres   riu  Ruhnau ,  fornecer-te-emos,   ao mesmo tempo, a maneira de te servires dele.

 

Tenho   simplesmente   uma   incumbência   a   desempenhar  declarou Vierbein,  em  tom  reservado.  O  resto não me interessa.

 

Está bem!  berrou Bartsch, entusiasmado. Está mesmo  muito  bem.   É   uma  táctica  que  nós  conhecemos. «Apalpa-me o pulso», diz a dama, «mas não te enganes no sítio.»

 

Ruhnau achou isto extremamente cómico e insistiu, por seu lado:

 

Ainda ontem disse a uma mulher: «Mete-te na cama. Quero apenas ver se ela não é demasiado curta para ti.»

 

Por fim, Vierbein, depois de ter prometido solenement? largar uma garrafa de bagaço, obteve com os melhores votos, o endereço de Lore Schulz. E «muita coisa de uma cama para a outra».

 

Vierbein não compreendia esta espécie de finezas. Para ele Lore Schulz era uma mulher casada, e, o que mais importância tinha ainda, a mulher de um superior, a quem devia respeito. Era, portanto, sagrada. Nenhum pensamento inconveniente acompanhava esta convicção.

 

Além disso, Vierbein conservava por Lore Schulz um sentimento escondido, mas sincero, de veneração: ela sempre lhe provocara um pouco de piedade, tal como houvera um tempo em que sentira piedade por si mesmo. Fora boa para ele e estava-lhe reconhecido por isso.

 

Enquanto se preparava para sair, os dois farsantes estabeleciam o seu plano de campanha para a noite seguinte. Estava prevista uma festa com damas na messe dos oficiais, e o tenente Schulz encarregara-os de organizarem os divertimentos particulares.

 

Mas sê mais prudente desta vez  disse Bartsch ao amigo.  Não se deve enfiar no pescoço do primeiros-sargento, quando ele estiver perdido de bêbado, uma tábua de retrete à laia de coroa de louros. Pode acontecer que a bebedeira lhe passe  cedo  de mais e  que  ele  não  compreenda a piada.

 

E quem é que ultimamente fechou  com o ferrolho a porta  do toucador  das  senhoras,  de  modo  que  Schulz foi obrigado a mandar passar uma ordenança pela janela de ventilação?  Se ele te tem apanhado, podias preparar as bagagens e fazer o testamento. Exactamente para a dama aferrolhada é que ele tinha deitado as vistas.

 

Vierbein fazia o possível para nada ouvir desta conversa. Embrulhou cuidadosamente, sob o olhar interessado dos dois subalternos, a garrafa de conhaque que o tenente Wedelmann lhe confiara.

 

Esperemos que essa chegue  disse um deles.

 

Para   uma   vez   chega   com   certeza  assegurou   o outro.

 

Se quiserem saber o que vai passar-se  declarou Vierbein com um ar de contrariedade , dir-vos-ei que vou apenas entregar esta garrafa.

 

Acreditamos na tua palavra.

 

Esta noite estou convidado para o Café Asch. Não me   demorarei   nem   mesmo   um   minuto   em   casa   da Sr.a Schulz. Tomem nota.

 

Afastou-se, mostrando não ouvir as palavras de encorajamento que lhe eram dirigidas. Deu com o n.º 12 da Ritterstrasse e leu uma placa:

 

TENENTE SCHULZ

(1.º andar)

 

Para o serviço, tocar uma vez; para outros assuntos, tocar duas

Subiu até ao 1.º’”andar e, após uma pequena hesitação, tocou duas vezes. Esperou um momento. Depois tocou de novo. E, outra vez, duas vezes. Logo após ouviu passos. E a porta abriu-se, lentamente.

 

Vierbein respirou fundo ao ver Lore Schulz. Visivelmente aliviado, cumprimentou e disse:

 

Posso falar-lhe?

 

Sr.   Vierbein!   exclamou   Lore,   surpreendida. Ainda está vivo?  Que surpresa!  Este gentil  Sr. Vierbein, que vem assustar-me agradavelmente à noite. Donde é que vem?

 

Se   me   permite   disse   Vierbein,   apressado ,   eu queria...

 

Mas   porque   não   entra?   Ou   ainda   julga   que   eu mordo? Não vai ficar aqui de pé, neste corredor!

 

Sim...   Porque   não?   Queria   apenas...   Não   queria incomodá-la.

 

Entre    disse   Lore,   sorrindo   para   ele.    Nunca incomoda. Sobretudo a mim.

 

Abriu a porta completamente e Vierbein decidiu-se a transpor a soleira, tropeçando.

 

Lore Schulz riu com gosto:

 

O primeiro passo em falso! disse, divertida. Sempre teve um talento especial para isso.

 

Vierbein murmurou algumas palavras que se assemelhavam a uma desculpa. Recusou-se a deixar as suas coisas no corredor. com o bivaque na mão, o cinturão estreitamente apertado, entrou na sala de jantar. Depois, e após ter sido convidado por duas vezes, sentou-se na borda de uma cadeira e olhou discretamente em redor.

 

Se por acaso procura o meu marido disse Lore, não terá hoje nenhuma desventura. Ele está ausente, como de costume.

 

Admiro a sua mobília  disse Vierbein, desastradamente.

 

Se é só isso que admira, está bem. Como está vendo, alcançámos agora um nível mais elevado. É mesmo assim que se  diz?  Agora somos oficiais.  Subimos na escala  de patentes.

 

Foi só então que Vierbein achou ocasião para examinar Lore Schulz. Mudara pouco. Estava, é certo, um pouco mais forte, mas a sua boca estava mais delgada e os olhos mais fundos. Apesar disto, era tão bonita como antigamente.

 

Envelhecemos, não é verdade, Sr. Vierbein?

 

Amadurecemos  respondeu este, tentando falar com decisão.

 

Se assim prefere  disse ela. Tinha um ar resignado, mas, ao mesmo tempo, parecia troçar desta resignação. Pois  seja. Você  amadureceu e eu  envelheci. Mas,  apesar disso, faremos tolices diferentes das de outro tempo?

 

Vierbein não encontrou resposta. Agarrou o embrulho que pousara nos joelhos e estendeu-o a Lore:

 

Para si. com as lembranças mais cordiais do tenente Wedelmann.

 

Os olhos da rapariga tiveram uma cintilação. E nesta cintilação não havia qualquer maldade.

 

Meu Deus! exclamou ela, com uma alegria ingénua.    De  Wedelmann.  Mas  não   é  possível!   Que  bom rapaz!   Continua  a pensar em  mim.  Em  mim!  É quase incompreensível. Como está ele?

 

Bem, naturalmente  respondeu Vierbein.  Como as circunstâncias o permitem.

 

E ele não me esqueceu?

 

Não  disse o subalterno, que esteve tentado a acrescentar: «Como vê.»

 

Resolvido a não fazer nada que o pudesse atrasar, fez menção de se levantar.

 

com certeza não se quer ir já embora?!

 

É preciso. Além disso, queria evitar...

 

Que meu marido o encontre aqui ?  Ela riu um pouco ironicamente.  Meu caro Sr. Vierbein, não é preciso ter medo disso. O tenente Shulz é um homem muito ocupado. Comparado com ele, o sargento-ajudante Schulz estava, por assim dizer, sempre de licença.

 

Em todo o caso, esta noite, na messe dos oficiais, a senhora estará com certeza...

 

Como  sabe justamente  o  senhor  o  que fazem  as pessoas finas? Quem lhe contou isso?

 

Dois subalternos da minha bateria. Durmo no quarto deles. Chamam-se Bartsch e Ruhnau.

 

Ah!  disse Lore com amargura.  Conhece esses dois cavalheiros. E foi deles que recebeu essas informações?

 

Até certo ponto.

 

Informaram-no também a meu respeito ?

 

Um pouco.

 

Aí está porque...  disse Lore num tom de desprezo.  Assim já percebo muitas coisas. É por isso que está com tanta pressa. Pois bem. Não o quero demorar.

 

É claro  disse Vierbein, levantando-se  que não acredito em nada do que se diz. Nem uma palavra acrescentou, bastante desastradamente.

 

Achava-me capaz?

 

De modo algum  respondeu  Vierbein  com sinceridade.

 

Creio no que diz  disse Lore, sorrindo  com gratidão.  A si creio-o sem dificuldade. O senhor não é um artigo em série. E isso agrada-me.

 

Vierbein tentou fazer uma reverência, o que quase conseguiu. Neste momento venerava sinceramente Lore Schulz e ela notava-o perfeitamente.

 

Quero   ser  sincera   consigo   disse  Lore,   acompanhando-o à porta.  Escusado seria dizer que não irei esta noite à messe. Nem esta noite nem nunca. Não estou lá no meu lugar. E fizeram-mo compreender por várias vezes.

 

Quem?

 

Meu marido, Sr. Vierbein.

 

Ah, sim!exclamou Vierbein, desconcertado.

 

Quando ainda morávamos na caserna eu tinha, apesar de tudo, alguns amigos. Ou, para falar com mais exactidão:  alguns conhecidos. Mas as coisas mudaram muito. Nessa época a minha conduta só era inadmissível em certos dias  hoje   sou   muito   simplesmente   indigna.   Bem   vê: meu marido está convencido de que se foi elevando constantemente. E mais convencido está ainda de que eu fiquei para trás.

 

Vierbein não sabia que responder... Abriu a boca, mas não falou. Contudo podia-se-lhe ler no rosto que protestava lealmente.

 

Não quero demorá-lo  disse Lore.  Tem, decerto,  amigos que se preocupam consigo. Invejo-o, mas sinto-me feliz por si. Por si, Sr. Vierbein, sinceramente.

 

Obrigado  respondeu ele, perturbado.

 

Tenho um pedido a fazer-lhe. Satisfaça-o, se for possível. Se, durante os próximos dias, tiver uma hora, ou meia hora, ou mesmo alguns minutos, livres, chame-me, peço-lhe. Encontrar-nos-emos em qualquer parte e contar-me-á então como vai isso lá por baixo, o que vocês fazem. E falará também do tenente Wedelmann. Quer?

 

Decerto. com certeza.

 

É verdade, Sr. Vierbein?

 

Absolutamente. Sem qualquer dúvida.

 

Encaminhou-se então para o Café Asch, onde o esperavam. Subiu à pressa a escada que levava à habitação. Ingrid veio abrir-lhe a porta e, como uma corajosa noiva de guerra que era, estendeu-lhe os lábios para um beijo: sabia o que se deve a um soldado que chega da frente.

 

Podias ter vindo mais cedo  disse-lhe ela.

 

Tinha ainda uma incumbência a cumprir  respondeu ele, dignamente.

 

Estás desculpado  disse Ingrid, que não manifestou qualquer   desejo   de   conhecer   os   pormenores   da   incumbência.

 

Na sala grande, o Sr. Asch estava sentado à mesa, coberta por uma toalha branca. Estava também o contramestre Freitag e a filha Elisabeth, a mulher do sargento. A mamã Freitag não viera. Desculparam-na: tinha de vigiar o bebé Asch.

 

Vierbein recebeu o lugar de honra. Empertigado e orgulhoso, pontificava no meio de todos, que esperavam agrupados em volta.

 

Quisemos até decorar a sua cadeira com uma grinalda de flores, Sr. Vierbein  assegurou o pai Asch, piscando o olho.  No entanto, desistimos, apesar dos enérgicos protestos de Ingrid. O único resultado que teria era impedi-lo de sentar-se comodamente. É muitas vezes o caso das condecorações. Um dos meus parentes afastados recebeu a Cruz de Cavaleiro. Desde então para cá recusa-se a abrir o colarinho, a não ser para se deitar. Conserva-o fechado, mesmo para se lavar. De tal forma são, por vezes, rigorosos os costumes.

 

Riram. Mas tinham vindo para ouvir Vierbein e convidaram-no a falar. Mas Vierbein não era um narrador. Era evidente que se lhe tornava penoso ver-se centro do interesse geral.

 

O Sr. Asch depressa o notou e começou a fazer-lhe perguntas. Isto agradava muito mais a Vierbein. Respondia conscienciosamente e dificilmente. Os dois pais, unindo os seus esforços, conseguiram arrancar-lhe alguns factos que, na verdade, os impressionaram desagradàvelmente.

 

O decorrer da guerra depende, no fim de contas, do material  disse o Sr. Freitag.  Se os exércitos já têm, agora, veículos desmantelados, nos quais não se pode ter completa confiança, a lama da Primavera prejudicá-los-á ainda  mais  e,   dentro  de  um  ano,  estarão  bons  para   o ferro-velho.

 

Sou absolutamente incapaz de dar informações positivas sobre o que se passa fora da nossa bateria  disse Vierbein, que, honestamente, se recusava a causar o mais pequeno mal-entendido. É certo que os nossos veículos estão muito estragados, mas deve dizer-se também que foram utilizados duma maneira extraordinária.

 

Âsch afirmou que só o Fiihrer tinha uma visão do conjunto. Freitag era de opinião que o desenrolar das operações começava a exasperar os soldados que estavam na frente.

 

Ingrid e Elisabeth aproveitaram a ocasião favorável para puxarem Vierbein de parte. Mas não conseguiram satisfazer a curiosidade porque um barulho formidável ergueu-se da escada.

 

Quase imediatamente, o criado Anton apareceu, desesperado, no vão da porta. Atrás dele riam Bartsch e Ruhnau. Já estavam «cheios>. Os olhos deles brilhavam, as vozes grasnavam, tinha-se a impressão de sentir a vaga de álcool que flutuava diante deles.

 

Viemos  visitar  o  nosso  querido  Vierbein  mugiu Ruhnan.

 

Porque queremos aliviar a nossa consciência  rosnou Bartsch.

 

Eu  julgava  que  vocês tinham muito  que fazer na messe  disse Vierbein, para quem esta cena era extremamente desagradável.

 

Estivemos lá. Mas içámos as velas. Schulz pôs-nos na rua.

 

£ agora temos absoluta necessidade de nos consolar. É a altura de nos dares a tua garrafa de aguardente. Fá-la sair dos alforjes do teu sogro. Tu prometeste.

 

Não vos prometi nada  declarou Vierbein, consternado.  Apenas disse que falaria ao Sr. Asch.

 

Então fala-lhe. Ele está aí.

 

É inútil  disse o Sr. Asch.  Não levarão uma gota de álcool. Vocês já estão redondos como duas barricas.

 

Então  declarou Ruhnau, teimoso  vamos ter com a Sr.” Schulz.

 

Perfeitamente,   é   o   que   vamos   fazer    anunciou Bartsch. E ela será obrigada a dar-nos a garrafa que Vierbein lhe levou há bocado.

 

Que   é   que   tu   fizeste ?  perguntou   Ingrid,   secamente.

 

Levou-lhe uma garrafa de aguardente. Porque não havia de levar? Outros já o fizeram.  E, dito isto.  os irmãos siameses eclipsaram-se. A algazarra que faziam ouviu-se ainda durante muito tempo.

 

O novo dia subia lentamente por sobre a sentinela, que se apoiava ao cano da peça.

 

A sentinela achava que se tratava de um dia como centenas de outros. Espessas nuvens tinham engolido o sol. O gelo enterrava, lentamente, os dentes no chão.

 

«Talvez vá nevar», pensava a sentinela. «Talvez não neve também. O principal é que não chova. Se começa a chover, o Inverno desaparece. Será a água, e a água traz-nos a guerra.»

 

A sentinela olhava para além das depressões do terreno, até ao alto da colina em frente. E viu, a alguns quilómetros de distância, um homem que abria caminho através da neve. Uma sentinela, igualmente.

 

«E aquele soldado», pensava o alemão, «tem um rosto asiático e fala russo; a cabeça tem-na rapada e o seu uniforme é castanho... mas faz a mesma coisa que eu. Exactamente a mesma coisa.»

 

«É estranho», pensava a sentinela. «Ele faz a mesma coisa que eu.»

 

Soeft, o madrugador, passara a noite na etapa, o que lhe acontecia com frequência. Tinha sempre várias camas à sua disposição.

 

Enquanto se barbeava mantinha com um dos seus amigos, o principal empregado de um campo de abastecimentos, uma conversa particular. O outro, ainda deitado na sua enxerga, espiava o sócio.

 

Este creme de barbear é bom  disse Soêft.  Precisava de cinco tubos dele.

 

Que é que isso vale para ti?

 

Um ganso gordo.

 

Temo-los  de  conserva  disse  o  sargento,  tomando um ar desinteressado.

 

De   conserva!   exclamou   Soeft   com   desprezo. Para que seja bom tem de ser acabado de matar, de preparar. Não são poucos os que lamberiam os cinco dedos da mão.

 

Três tubos por um ganso gordo  disse o outro. O caso é que não podes fazer grande coisa com os teus animais vivos.

 

Porquê, seu usurário?

 

Porque nós vamos, com certeza, mudar de posição.      |

 

Pelo menos, é o que parece. O intendente do estado-maior começou já a transferir secretamente as suas reservas.

 

Soeft pousou a navalha.

 

Temos de falar disso com vagar  acrescentou.

 

A ordenança que todas as manhãs levava água a Luschke para este se lavar viu-o, nessa manhã, já sentado à mesa dos mapas. Parecia que tinha adormecido ali. Uma delgada camada de suor cobria o rosto fatigado do Batata.

 

Não me olhe dessa maneira  disse o coronel. Nunca viu um homem antes de ele se barbear?

 

A ordenança apressou-se a deixar a água e a desaparecer.

 

Luschke agarrou nos telegramas da manhã e pôs-se a folheá-los. Boletim meteorológico: «Temperatura provavelmente sem alteração.» Reserva de munições: «Sem alteração.» Ordens especiais do Comando Supremo: «Notada maior actividade dos agentes. Verificar as medidas de precaução; eventualmente, aumentá-las.» Perdas: «Nada.»

 

O coronel repeliu os papéis e contemplou o mapa. Como todas as manhãs. E, como todas as manhãs, disse: «Merda!»

 

Depois dirigiu-se para a bacia colocada sobre um banco, e mergulhou nela a cabeça. Várias vezes.

 

Na retaguarda o mesmo dia erguia-se, como um rapaz robusto após um longo sono. O Sol apareceu de repente e -iluminou a pequena cidade.

 

Imediatamente também a caserna acordou.

 

Como durante todos os anos anteriores, os soldados escorregaram para fora da cama. Um toque de apito pusera fim ao sono. O subalterno de serviço berrava.

 

Os soldados pareciam ter envelhecido. Alguns tinham barriga e os ombros desiguais. Muitas das pernas eram tortas e delgadas.

 

Contudo, tratavam-nos como jovens recrutas. E eles deixavam. Muitos acreditavam que assim devia ser.

 

O subalterno Vierbein estava no meio deles, nos lavatórios. Despira-se da cintura para cima e fazia correr a água sobre o tronco. Os soldados observavam-no com desconfiança.

 

O que estava ao lado dele, um homem de rosto enrugado e cujas mãos longas e delgadas pareciam tremer de frio, disse-lhe:

 

Quando era novo como você também isso me fazia bem.

 

Mas ainda não está um velho!  exclamou Vierbein

 

Sou soldado. Tenho varizes, um pé chato, úlceras no estômago, dois filhos que, pouco a pouco, se corrompem e uma mulher que anda com outros homens!...  Mas sou soldado.

 

Vierbein não respondeu.

 

O sargento Asch escrevia uma carta à mulher. E, como sempre, dizia-lhe que tudo ia bem. que os seus pensamentos estavam com ela e que ela não tinha necessidade de se preocupar. «Tudo se arranjará bem», assegurava.

 

Entretanto, Wedelmann almoçava. Comia devagar e sem grande prazer. De vez em quando engolia a água quente e castanha a que chamavam café.

 

É caso para o invejar  disse Wedelmann.  Sabe onde é o seu lugar.

 

Mas o meu tenente também o sabe muito bem.

 

Você tem mulher e um filho.

 

E o senhor tem a Alemanha e o Fiihrer.

 

Não  esteja  com  brincadeiras,  Asch  disse Wedelmann, severamente.

 

Já viu a Alemanha, meu tenente?  Já olhou  realmente para o Fiihrer?

 

Não falo dessas coisas consigo.

 

com  quem há-de falar então, meu  tenente? com o coronel Luschke? com o capitão Witterer? Ou com o subalterno Vierbein? Não há muito por onde escolher para tão altos assuntos.

 

Escreva a sua carta e deixe-me tranquilo disse Wedelmann, descontente.  Não é mau rapaz, Asch, mas nunca virá a ser um bom alemão.

 

Talvez sim, quando houver uma boa Alemanha.

 

O primeiro-cabo Kowalski começou por fazer greve quando o subalterno Krause se permitiu, logo ao amanhecer, isto é, por volta das oito horas, tirá-lo do mais profundo sono.

 

Desaparece daqui  disse-lhe, ou então... Krause   adoptou   o   tom   mais   estritamente   oficial   e  Kowalski virou-lhe as costas.

 

Vou fazer uma participação ao capitão Witterer.

 

Não farás nada disso. Não te atreverias a apresentar-te ao teu  capitão como um pobre papa-açorda. Um subalterno que não é capaz de se impor a um cabo! Isso não é possível... pelo menos para o capitão Witterer.

 

Krause, vendo que Kowalski sabia exactamente do que se tratava, tomou um tom de camaradagem e afectou uma atitude de protector:

 

Tu não podes fazer-me isso, meu velho.

 

Não posso?  perguntou Kowalski, enfiando a cabeça debaixo dos cobertores.

 

Kowalski  disse Krause, dando à voz, contra vontade,  um  tom  ainda  mais  adocicado ,  trata-se  de  um caso excepcional!  Uma coisa que tu não podes ver todos os dias.

 

O que é?  perguntou Kowalski, cuja curiosidade despertara.

 

Ficarás espantado. Não te digo mais: um caso excepcional.

 

Então, vá lá!  disse Kowalski, levantando-se lentamente. Não quero ser um empata.

 

Ingrid estava sentada diante do seu café. Na sua frente, o pai lia o Vôlkischer Beobachter 1 e divertia-se.

 

A guerra torna-se cada vez mais total  disse. O nosso próprio Fuhrer só dorme numa cama de campanha. Que dizes a isto?

 

Ingrid não respondeu. Mexia o café, e isto durou muito tempo.  Não  dera  a  menor  atenção  ao  que  o  pai  dizia.

 

Reflectia.

 

Dorme numa cama de campanha!  repetiu o Sr. Asch num tom provocador.  Gostava de saber quem acreditava nisto. O general que eu conheço  aquele que me deve dinheiro fez-se fotografar um dia perto duma cozinha rolante. Legenda: «O general partilha da alimentação dos seus soldados.» É o partilhas! Quando muito, eles com ele, mas não ele com eles. Por acaso, sei que é doido por empadas de foie gras, trufadas, bem entendido. Quando esteve pela última vez de licença abarbatou duas caixas.

 

Ingrid   continuava   a   pensar  e   nem   sequer   ouviu   as

 

alusões ao seu Fuhrer bem-amado.

 

Estás doente, pequena?

 

Papá respondeu a rapariga, achas que Johannes me engana?

 

Vierbein?   Claro  que  não. E  ainda  que  fosse  verdade,  só  te enganaria   com esta  marafona  desta  guerra. E isso permitiste-lho tu expressamente.

 

Não fales dessa maneira, peço-te.

 

Minha   querida   pequena    disse   o   velho,   gravemente, se eu estivesse no teu lugar, saberia o que era preciso fazer para não ser enganada. Mas, como sou teu pai, digo-te:  «Espera até que tudo tenha acabado. Ainda és muito nova. Daqui até lá não te transformarás em solteirona.»

 

A jovem Natacha estava sentada à janela do seu quartinho. Tinha sobre os joelhos uma tábua e, em cima, uma folha de papel, onde ia desenhando grandes letras. Fazia-o com gravidade, concentrando-se, como uma criança que aprende a escrever.

 

Escrevia: *W’edelmann, 3º bateria, 4 canhões, 32 viaturas.* Depois apagou tudo isto, violentamente. E novamente escreveu: *Wedelmann.*

 

Na sua testa, habitualmente lisa, formara-se uma longa ruga, que se cavava cada vez mais. Inclinava a cabeça; os seus ombros largos eram redondos e iguais. Tinha a respiração opressa.

 

Depois escreveu à frente do nome de Wedelmann as seguintes palavras: altura, 1,78 m; peso, 70 quilos; olhos, azuis; cabelos, castanhos; nariz, direito; boca, delgada; dentadura, completa.»

 

Teve  um  riso breve  e foi  com  alguma  surpresa  que se ouviu  rir.  Depois,  subitamente, tornou-se  séria.  E  rapidamente riscou tudo o que escrevera até aí. Num gesto decidido, virou a folha de papel. E escreveu então: 1.” regimento de artilharia: comandante, coronel Luschke; 3 regimentos de infantaria: comandantes, Hanke, Nieckisch, V on Behringer; l regimento de blindados, armado de blindados IV: comandante, Schwaiger.»

 

Escreveu assim durante muito tempo, até que a folha ficou coberta de números e nomes. Depois olhou-a longamente.

 

De súbito, ergueu-se, abriu a porta do fogão e atirou o papel para o lume. E, como que fascinada, contemplou as chamas intensamente.

 

O capitão Witterer estava de pé, perto de um dos seus camaradas, capitão da polícia militar. __ Encontravam-se numa colina diante da etapa. Atrás deles, a distância conveniente, mantinham-se Krause e Kowalski.

 

Diante deles dois homens cavavam uma cova. Cavavam devagar, mas em movimentos regulares. Dois polícias militares, indolentemente encostados às espingardas, olhavam-nos.

 

Não   chegará   ainda?  perguntou   o   capitão   da polícia.

 

Um dos dois polícias aproximou-se dos homens que cavavam e examinou a cova. Depois fez um gesto afirmativo de cabeça e disse:

 

Já chega.

 

Porque esperamos então ?  perguntou o capitão. Um polícia  dirigiu-se  aos dois homens, tirou-lhes as pás e lançou-as para o lado. Depois carregou a espingarda. O outro polícia fez o mesmo.

 

O capitão Witterer aproximou-se da cova. Os homens tinham ajoelhado; viu-lhes as nucas inclinadas.

 

Os meus homens explicou o capitão da polícia militar apontam, sempre à nuca. Um tiro basta, geralmente.

 

Um tiro bastou. A nuca dos homens da cova rebentou. O cérebro jorrou de lado, e sangue misturado com soro saiu da ferida... Eles encolheram-se e tombaram no chão.

 

Cobrir de terra  ordenou o capitão.

 

O primeiro-cabo cuspiu para o chão e afastou-se.

 

O tenente Schulz sentou-se na cama, bocejou largamente, abriu os braços e distendeu o tórax. Depois examinou a mulher, que piscava os olhos, ensonada.

 

Gostava de saber  disse Schulzporque estás sempre tão fatigada.

 

Não é por tua causa  disse Lore, com uma expressão equívoca.

 

Bem sei  declarou Schulz severamente.

 

Já é alguma coisa  disse Lore.  Talvez até te censures por isso...

 

Lore  disse o homem, observando-a com tristeza , eu represento actualmente o comandante da praça. Tenho, portanto, funções de coronel.

 

Nesse caso, eu sou a... coronela.

 

Tu nem sequer sabes como devem ser comidos os espargos.

 

Mesmo assim, acho-os bons.

 

Leste a Enciclopédia,  tal como te ordenei? Sabes agora o que é uma «excelência», o que significa a palavra «conversar» e o que se entende por «etiqueta»? Tu não sabes nada.

 

Mas há uma coisa que eu sei: que tu és um telhudo.

 

És  a minha desgraça  disse Schulz. Levantou-se e ergueu-se diante dela, metido na sua longa camisa de dormir.

 

Não tens o formato necessário para seres mulher de um oficial, e menos ainda de um coronel. E, o que é mais grave ainda,  é que não fazes qualquer esforço... Não queres, é o que é.

 

Tu e a tua messe podem fazer-se empalhar.

 

Hás-de arrepender-te disto  um dia  disse Schulz, profundamente  vexado.  De  resto,  se bem  considerarmos as coisas, é já motivo para divórcio.

 

Dar-te-ei   motivos   para   divórcio   muito   diferentes declarou   ela,   malignamente.   E   não   há-de   tardar muito...

 

Venho pôr-me à sua disposição  disse Soêft a Lisa Ebner, fazendo-lhe olhos bonitos.

 

Lisa mirou, estupefacta, o estranho visitante matinal que, com uma sem-cerimónia inconcebível, penetrara no seu quarto e aí se instalara. Comparado com este, o comportamento do sargento Âsch era quase o de um cavalheiro.

 

Disponha de mim  disse Soeft num tom aliciante, ao mesmo tempo que os seus olhos lançavam centelhas.

 

Foi o capitão Witterer quem o mandou?

 

Claro. Ou  julga  que eu  viria  por  minha  própria conta?

 

Seria bem capaz disso.

 

Para  mim,  não.  Não   tenho   nenhuma   necessidade. Neste domínio tenho numerosas ofertas. À escolha não é muito difícil quando se conhecem as origens. E eu conheço-as. De resto, você não é o meu tipo.

 

Que quer de mim, afinal?

 

Satisfazer  os  seus  desejos.  De  que  precisa?   Sabonetes? Meias? Calçado forrado? Mercearias finas? Umas boas garrafas?

 

E que quer por isso?

 

O capitão Witterer lhe apresentará a factura  disse Soèft, sorrindo de maneira inconveniente.

 

Saia!  gritou Lisa Ebner.

 

Mais devagar! Mais devagar! exclamou Soeft para a acalmar. Está prestes a deixar perder uma riqueza.

 

Compreendo   agora   disse  ela,  indignada.  Foi o sargento Âsch quem o mandou aqui, para me ofender. Vocês são amigos. Disse-mo a criada da messe dos soldados. Vem da parte dele. É evidente.

 

Agora é que me vou embora  disse Soêft ligeiramente   perturbado.  Parece   desconhecer   completamente quem eu sou. Nunca tal coisa me tinha acontecido.

 

A sentinela da linha de fogo foi rendida. A que a substituiu era semelhante a ela: fazia os mesmos movimentos e tinha pensamentos idênticos.

 

«Talvez vá nevar», pensava. «Mas também pode ser que não neve. O principal, em todo o caso, é que não chova. Porque, se começa a chover, o Inverno desaparecerá e a guerra voltará. A guerra acordará e começará outra vez a caminhar.»

 

Por cima das depressões da planície a sentinela via na sua frente as colinas onde o inimigo se tinha enterrado.

 

E agora o soldado pensava: «Aqueles porcos! Aqueles pobres porcos! E tu, também, não és mais do que um pobre porco, Há muitos pobres porcos neste mundo!»

 

Uma vez por semana, em geral à quinta-feira, o subalterno Soeft visitava pessoalmente a linha de fogo. comportava-se então como um general, e muitos eram os que lhe testemunhavam tanto respeito como se de um general se tratasse. Nesses momentos poder-se-ia crer, até, que ele, o rei do abastecimento, recolhia as homenagens dos seus súbditos.

 

Na realidade, Soeft nada mais tinha em vista, no decurso dessas visitas, do que conhecer o grau de glutonaria e os gostos daqueles a quem devia abastecer.

 

Habituado a levar companhia, Soeft convidara, desta vez, Krause, o candidato ao posto de subalterno-adjunto, a fazer com ele essa visita de inspecção. Krause compreendeu logo que se tratava de uma distinção excepcional e apressou-se a dar a conhecer que estava ao dispor.

 

Diz-me apenas onde devo esperar-te  disse.

 

Podes   vir   ter   comigo  respondeu,   rapidamente, Soeft, que nunca deixava de explorar ao máximo todas as provas de solicitude que lhe eram dadas.

 

Krause apresentou-se cedo no «local de armazenagem e administração» do grupo de abastecimento da bateria; esperou pacientemente na «antecâmara», onde um dos criados russos de Soeft empilhava pães. Entretanto, no «gabinete principal», o rei do abastecimento fazia engraxar o seu segundo par de botas por uma das suas ajudantes russas de cozinha, enquanto discutia com o auxiliar do cozinheiro a preparação do lombo de vitela.

 

Um quarto de hora mais tarde Krause foi admitido a participar desta conversa. O aspirante subalterno-adjunto preconizou, seguindo uma subtil indicação de Soêft, a compra de um segundo fogão de grandes dimensões. Mas quando Soêft reclamou, além da cozinha rolante, que lhe fosse entregue uma viatura destinada a acompanhar aquela, Krause absteve-se de qualquer comentário sobre este ponto, incontestavelmente delicado.

 

Uma viatura de acompanhamento  disse Soeft ajudará a resolver, como se fosse uma brincadeira, todas as complicações resultantes de um novo avanço ou de uma retirada a direcção, aqui, é indiferente. Porque, se eu pretender manter no seu alto nível actual o abastecimento quente, precisarei de uma viatura deste género.

 

Talvez tenhas razão  disse Krause, prudentemente, supondo ter mostrado muita diplomacia.

 

Tenho razão  respondeu Soeft, com simplicidade. Destes assuntos percebo eu. Admitamos, por exemplo, que se devem servir escalopes. É claro que não se pode andar a passear com eles de um lado para o outro. Praticamente, para  fazer  entrega  de  vários  pratos   a  toda   a  bateria preciso de duas viaturas, pelo menos: uma viatura para frigir que fabrica, sem parar, escalopes em várias séries e uma viatura de transporte que  distribui os escalopes, igualmente por séries, pelos diversos grupos de serventes e escalões.

 

Parece-me evidente  declarou Krause.

 

Soêft possuía, no que respeitava aos seus domínios particulares, uma florescente imaginação, e não era recomendável, a não ser que se tivesse a intenção de fazer greve da fome, opor-se aos seus vastos projectos. É que, abstraindo dos indiscutíveis êxitos que Soeft alcançara, todos os homens tinham compreendido, num abrir e fechar de olhos, que miraculoso génio culinário possuíam nas suas fileiras. Seria, decerto, exagero pretender que o adoravam, mas não se podia contestar que fosse objecto duma certa veneração.

 

É preciso, portanto disse Soêft a Krause, que tu prepares lentamente o chefe para admitir que é necessário fazer qualquer coisa, se não quiser sofrer no decurso da guerra uma perda de peso importante.

 

Claro  respondeu Krause, apalpando o terreno. Farei o possível, porque, no fim de contas, não sou como Asch.

 

Soêft fez uma careta cheia de  suficiência. Esta careta fazia pensar logo no coronel Luschke, o que não era por acaso, porque fora dele que o «marechal de campo das cozinhas» a copiara. E, tal como Luschke não se esquivava  um certo respeito por um tipo como Soêft, assim também o rei do abastecimento não se negava a deixar que lhe ditassem, na altura própria, o preço das suas exigências.

 

Procedeu como se não tivesse ouvido o nome do primeiro-sargento.

 

Os dois subalternos dirigiram-se então à linha de fogo e passaram em revista os canhões, onde o alerta para o tabaco e para a paparoca já fora dado. Parecia que ninguém faltava, Soêft distribuiu primeiro alguns cigarros suplementares, tirados das suas reservas pessoais; e não esqueceu os fumadores de charuto. Depois escutou um relatório sobre algumas lacunas de alimentação. Mais uma vez havia falta de fósforos. Soêft prometeu remediar o caso dentro de vinte e quatro horas. Para os soldados era como se já tivessem no bolso os desejados fósforos.

 

Depois o consolador dos estômagos anunciou ao auditório que estava disposto a mandar servir, uma vez mais, um banquete especial de domingo  «à escolha do freguês». Extraiu da algibeira o caderno de notas e perguntou:

 

Então? Que desejam vocês?

 

Fígado!  gritou   a   primeira   equipa   de   serventes, que se apertava em volta dele, entre o paiol das munições e o buraco do vigia. Já sentiam água na boca, viam já o fígado, cheiravam-no, provavam-no, metiam-se dentro dele para melhor o saborearem.

 

Soêft olhava-os com uma expressão desolada. O seu nariz colossal erguia-se, enquanto os olhos estreitos pareciam amortecidos, como se acabasse de ser profundamente ofendido.

 

Que significa isso?  perguntou, em tom de censura.

 

Nós queríamos fígado!  exclamaram  os soldados, já inquietos pelo assado dominical.

 

Tu mesmo agora disseste...

 

Mas   que   espécie   de   fígado?   perguntou   Soeft, dolorido. De porco ou de vitela? Assado ou cozido? com que espécie de molho?

 

Uma vez mais os homens olharam com estupefacção o seu Soéft, como se este fosse algum animal da fábula, uma espécie de rinoceronte do abastecimento-, uma baleia branca da mercearia fina. Acenavam a cabeça, olhando uns para os outros, e piscavam o olho, confiantes, para este génio do reabastecimento. Mais ou menos, todos sabiam que se tratava de um traficante do «mercado negro», mas ninguém lhe tinha rancor por isso, porque traficava para eles ao mesmo tempo. «Viva Soeft! É graças a ele que também nós vivemos.»

 

Por fim os serventes da primeira peça uniram-se para reclamar fígado de vitela cozido com alhos, a fogo lento, o que Soeft anotou, tranquilamente, no seu canhenho.

 

A segunda equipa reclamou carne de porco salgada com couve fermentada; a terceira manifestou apetite por carneiro guisado com batatas. Quanto ao chefe da quarta equipa, esse, encostado à sua peça, olhou os camaradas, sorrindo, e, com ar atrevido, disse, fazendo um largo gesto:

 

Para nós... caviar!

 

Sem pestanejar, Soeft escreveu «caviar» e virou as costas aos soldados, absolutamente pasmados.

 

Daqui   a   pouco   disse  Krause  quando   deixaram para trás a linha de fogo esses tipos dar-se-ão ao prazer de te reclamar coisas impossíveis.

 

Para mim não há coisas impossíveis  respondeu Soêft. Neste sector também possuo espírito desportivo.

 

Mas tu, assim, estraga-los.

 

Meu caro amigo, deixa-me esse cuidado. O soldado tem o direito de comer carne de porco salgada, enquanto as minhas rolantes estiverem em condições de fabricar acepipes. De momento estamos aqui deitados de barriga e esperamos.  O quê?  Combater e morrer com peso insuficiente?

 

Mas é a guerra, Soêft.

 

Importa-me bem a guerra  disse Soeft, com simplicidade.  Neste momento o que  quero é comer bem. Viver e deixar viver os outros. E é por isso que faço tudo o que valer a pena para tornar a nossa vida tão agradável quanto possível. Quem não me embaraçar neste trabalho terá sempre a barriga cheia. Ou dar-se-á o caso de que tu vejas nisto algum obstáculo?

 

Claro que não  apressou-se Krause a aprovar.

 

Ganharias pouco com isso. Aquele que não tem a digestão normal, ou, pelo menos, a não deseja ter, é meu inimigo pessoal.

 

Dirigiram-se em seguida para os telegrafistas, donde foram postos em comunicação com os observadores; permaneceram bastante tempo na oficina provisória do armeiro; depois Soeft tomou notas dos desejos da equipa das munições. O sargento enfermeiro foi autorizado a escolher o grupo a que se juntaria no domingo para almoçar.

 

E que deseja a equipa de reconhecimento?

 

Talvez    pato    assado?perguntou    prudentemente Krause.

 

Porque não?

 

Se  não   vês   inconveniente,   vou   perguntar   ao   capitão o que ele quer.

 

De acordo. Mas depressa. Todas as encomendas devem estar em meu poder até amanhã ao meio-dia, o mais tardar. O camarada do matadouro não esperará mais tempo.

 

Até essa altura terás, com certeza, notícias. Devo informar-me também acerca do que o capitão quer beber?

 

Se fazes questão disse Soêft, com um gesto generoso. E, uma vez em que estarás em maré de lhe pedir informações,  podes  também  procurar saber,  como  quem não quer a coisa, o que há a respeito do recuo.

 

Do   recuo?    perguntou   Krause,   surpreendido. Que é que te leva a dizer isso? Estamos solidamente aferrados aqui, pelo menos enquanto não vier o grande degelo e a inevitável lama da Primavera.

 

Talvez sim disse Soêft e talvez não. Seja como for, ouvi uns rumores no Comando Supremo. O major, que me deve alguns favores, faz preparativos para transportar a sua tralha para a retaguarda.

 

É a primeira vez que ouço falar nisso. É provável que o próprio capitão Witterer de nada saiba.

 

Basta que eu  saiba. Mas o teu Witterer sabê-lo-á também na devida altura, e esperemos que com outros pormenores. Portanto, abre-me bem esses olhos e previne-me a tempo, logo que tiveres informações práticas acerca da nova frente. Porque, no fim de contas, não é só as minhas provisões que tenho de mudar, mas também o meu kolkhoz inteiro.

 

Krause acenou a cabeça e pôs-se a reflectir. Soêft parecia estar bem informado, como sempre. Um recuo? Não era possível. Nada é impossível; é assim durante a guerra. E um tipo como Soêft, graças às numerosas relações que tinha em toda a parte, estava mais bem informado do que um chefe de bateria.

 

O meu kolkhoz  disse Soêft  é um objecto de valor excepcional. Por nenhum preço o podemos abandonar. Se as coisas correrem mal, ofereço-o por troca, à divisão dos blindados. Eles acabaram de receber conservas de primeira qualidade.

 

O kolkhoz do subalterno estava situado a cerca de doze quilómetros à retaguarda e fora declarado no Comando Supremo como objecto de valor. Soêft arranjou letreiros originais que diziam «Verboten» l e colocara-os bem à vista. Depois pusera a herdade sob a vigilância de um subalterno e de três soldados cujos documentos eram mais ou menos decentes. O tenente Wedelmann fechara os olhos e atirara toda a responsabilidade para o Pai do Céu e para o «génio do abastecimento».

 

Nesta altura havia ainda no kolkhoz quatro vacas, nove porcos, dezassete carneiros, dezanove patos e vinte e oito galinhas, algumas das quais a pôr. Todo este inventário, vivo ou morto, servia a Soêft em parte para as suas trocas com outras unidades, em parte para suplementos de alimentação em proveito da bateria. Daí provinham também alguns dos pequenos presentes que como se sabe mantêm as amizades, o que para Soêft significava relações comerciais.

 

É preciso  insistiu ele  que, pouco a pouco, o capitão Witterer descubra a extensão da sua bateria.

 

Ele  sabe-o,  com  certeza,  mesmo  que  não  queira saber tudo... Compreendes?

 

Não é com isso que lhe poderei fornecer um assado especial de pato  disse Soêft, num tom significativo. O papel do subalterno-adjunto é ir avançando, docemente, estes pequenos pormenores. Mas se ele não é capaz de se sair bem...

 

Nós faremos bom trabalho juntos, Soêft... Podes ter confiança em mim.

 

Conto com isso. Se tu comprenderes de que lado sopra o vento, saberás dirigir a tua barca. Mas tem cuidado, não escolhas o lado mau.

 

Não te inquietes, Soeft.

 

Quem te diz que me inquieto? No entanto, se eu estivesse no teu lugar, esperaria que o vento desse em cheio na popa.

 

Estou  convencido  de que Witterer conseguirá irnpor-se.

 

Soêft riu durante bastante tempo e a sua testa cobriu-se de rugas. Depois disse:

 

Quem viver verá. Portanto: o kolkhoz e a viatura auxiliar para a cozinha. De momento é o que me interessa. Vê o que serás capaz de fazer. Se levar muito tempo, sempre poderei meter no circuito o sargento Asch.

 

Não é preciso  apressou-se Krause a responder. Vou ver a melhor maneira de tratar do caso. E depois acrescentou:  De resto, Asch não seria capaz de o fazer.

 

Queres que experimente?

 

Soêft! Era quase uma súplica. Temos de contar com oposições. Mas se eu dispuser do teu apoio, neste e noutros casos, conseguiremos impormo-nos. Simplesmente, é preciso que tu te decidas, se assim posso falar.

 

Decidir-me? Por quem?

 

Por Asch ou por mim.

 

Soêft irradiava, como um bebé triunfante. Mas os seus olhos lançavam relâmpagos maliciosos.

 

Meu amado cisne, eu sou comerciante. Tens de meter isto na cabeça. Estou sempre com quem me permitir melhores negócios.  Sendo  assim,  faz por  ajudar...  e o jogo está feito.

 

Bateu com o dedo no peito de Krause e afastou-se. Resolvera proceder imediatamente ao carregamento das provisões, que era preciso salvar a todo o custo.

 

Por seu lado, Krause decidiu que chegara o momento de consolidar rápida e definitivamente a sua situação. Não tinha desejo algum de criar bolor como o subalterno. Queria vir a ser oficial. Para que serviria a guerra, sem isso?

 

Aproximou-se tão correctamente quanto possível do capitão Witterer, que estava no seu alojamento, sentado perto do telefone e, aparentemente, muito melancólico.

 

Acabo de acompanhar o segundo-sargento Soêft a todos os escalões  disse, com o zelo familiar do aluno que sempre procurou conservar a simpatia do professor.

 

Está bem  respondeu Witterer com a mais perfeita indiferença.

 

Soeft organiza, para cada grupo de serventes, um almoço de domingo extra.

 

Perfeito.

 

O que ele faz é único. Mas quer fazer ainda mais. Tem ideias notáveis, mas para as realizar precisa, entre outras  coisas,  de  uma  viatura  especial  auxiliar para  a cozinha.

 

Uma quê?...

 

Uma viatura auxiliar para a cozinha rolante, meu capitão.

 

Isso é novo para mim. Nunca li nas instruções o que quer que fosse sobre uma viatura desse género. E eu conheço  o assunto. Elaborei  até algumas instruções importantes, como decerto tem conhecimento.

 

O sargento Soêft quer fazer uma experiência, de que espera bons resultados.

 

Na  minha bateria?  Meu  caro Krause,  tome  nota disto: para mim o que decide, quando há qualquer ponto obscuro, é sempre o que se encontra nas instruções. É o meu   princípio.   As  instruções  são   a   Bíblia   do  soldado.

 

É só por meio delas que se pode chegar à concentração de forças que devem esmagar qualquer adversário que não siga um plano metódico.

 

Krauze conservou-se calado, esforçando-se, ao mesmo tempo, por exprimir pelo silêncio a sua concordância. Quase o conseguiu. Os seus traços fisionómicos revelavam uma sólida dedicação. É certo que o primeiro ataque falhara. Era lamentável, mas não se deixava desanimar por este fracasso.

 

Witterer, sempre sob a impressão da conversa telefónica que acabara de ter com o coronel Luschke, perguntou, de súbito:

 

Quem é esse segundo-sargento Vierbein?

 

O ai-jesus do sargento Asch.

 

Ah! Ah!exclamou Witterer, sem notar que perguntara quem era Vierbein e não o que ele era. Fingiu igualmente não reparar em que a resposta de Krause era completamente   diferente   duma   informação   objectiva   e, sobretudo, completa.

 

Está em missão ou de licença?

 

Ninguém o sabe exactamente, decerto  respondeu Krause,  convencido de que fora extraordinariamente esperto. Oficialmente, e segundo os documentos oficiais, está em missão.

 

Quem foi que o designou?

 

O sargento Asch, provavelmente;  oficialmente, por consequência, o tenente Wedelmann.

 

Esse Asch começa a implicar-me com os nervos.

 

É fácil de compreender.

 

O capitão não esqueceu o caso particular para que tinham chamado a sua atenção. E a conversa que acabara de ter pelo telefone com o coronel não contribuíra para lhe facilitar uma visão de conjunto.

 

«Por que motivo», perguntava agora a si mesmo, «Luschke ligava tanta importância a que Vierbein fosse munido de papéis suficientes? Que é que devia ser considerado suficiente aos olhos do coronel Luschke? E para que deviam esses papéis bastar?»

 

Ligou para o sargento-ajudante Bock e teve por resposta que Vierbein recebera, unicamente, papéis de «missão», e não de licença. Quanto à missão especial de que esse subalterno fora encarregado por ordem do coronel, Bock apenas tinha informações incompletas. Dito isto, o sargento-ajudante berrou algumas palavras como «transporte de material» e «missão secreta», o que vivamente excitou a desconfiança do capitão.

 

Witterer tentou, então, alcançar Wedelmann pelo telefone. Impossível. Responderam-lhe que estava na aldeia, mas ninguém sabia exactamente em que local. As investigações revelaram que Wedelmann metera um pequeno embrulho debaixo do braço e partira, dizendo: «Dentro de duas ou três horas.» Que desorganização!

 

Após outras buscas absolutamente infrutíferas, Witterer viu-se forçado a interrogar o sargento Asch quanto ao género de missão que Vierbein recebera e quanto à sua extensão. Mas Asch desaparecera também. Responderam que se encontrava na etapa para «executar as ordens especiais que recebera».

 

Isto é verdadeiramente uma trapalhada!exclamou o capitão.

 

Não se pode esperar outra coisa do sargento Asch afirmou Krause.  Está, com certeza, uma vez mais, com as senhoras do Teatro do Exército. Ele tem todo o ar de gostar de lá estar. Porque, depois do que eu vi...

 

Que viu você?

 

Aproveitando a ocasião que finalmente lhe aparecia para dizer tudo o que tinha no coração acerca de Asch, Krause contou em pormenor, mas num estilo militar perfeito, o seu encontro com ele na messe dos soldados; falou da influência considerável que, na sua opinião, ele tentava exercer em Lisa Ebner.

 

Seja como for, meu capitão, a atitude dele era tão provocadora que perguntei a mim mesmo se não deveria queixar-me.

 

Escreva-me tudo isso em forma de participação. Talvez venha a ser útil mais tarde. E, agora, trate de encontrar o tenente. Ele substituir-me-á. Depois mobilize-me Kowalski. Vamos à cidade ver um espectáculo do Teatro do Exército.

 

A primeira representação pública dos Quatro Pinguins, na frente, realizou-se na antiga Casa da Cultura soviética da cidade.

 

A sala de conferências, de teatro e de cinema estava já cheia meia hora antes do começo. Um alegre zunzum e densas nuvens de fumo subiam para o tecto. Os polícias militares, a quem tinham alcunhado de «cães de guarda», estavam encarregados da arrumação dos espectadores e cumpriam a sua tarefa com energia. Um deles gritou:

 

É proibido fumar! Um soldado respondeu:

 

Quero ver isso por escrito.

 

Estados-maiores, oficinas, colunas de abastecimento, todos tinham enviado numerosas delegações. Havia mesmo alguns representantes dos destacamentos da frente de batalha. E desta vez os graduados estavam em maioria.

 

As duas primeiras filas eram reservadas aos oficiais de estado-maior. Esperava-se até que viessem três autênticos generais com os seus mais íntimos colaboradores. Uma banda militar pôs-se a tocar músicas ligeiras e quando o bombo fazia «pum, pum, pum» alguns soldados batiam os pés a compasso e regozijavam-se com o barulho que faziam.

 

Um dos «cães de guarda» gritou outra vez:

 

É proibido fumar!

 

E um outro instalou um letreiro no qual se podia ler: É proibido fumar. O Comandante local.

 

Imediatamente, um soldado exclamou:

 

É ao comandante local que é proibido fumar!

 

O capitão Witterer fizera-se conduzir até diante da entrada lateral. Dispensou generosamente o segundo-sargento Krause e o primeiro-cabo Kowalski «enquanto durasse a representação». Virou-lhes as costas e pôs-se à procura do vestiário.

 

Vamos, entremos  disse Krause.

 

Eu estou dispensado  respondeu Kowalski.  Consequentemente, faço o que quero.

 

Krause afastou-se, resmungando. Mostrou, à entrada, o cartão que o capitão lhe dera. Disposto a deixar-se distrair, sentou-se na penúltima fila, aguardando os acontecimentos.

 

Kowalski olhou o relógio e verificou que ainda dispunha de algum tempo. Dirigiu-se, pois, ao vestiário pela entrada de que Witterer se servira. Procurou nas portas o nome de Charlotte, bateu e entrou a rir. Charlotte estava sentada diante de um espelho, em vestido de noite.

 

Tem   muita   imaginação?   perguntou   o   cabo. Se tem, imagine que lhe trago um ramo de flores.

 

As  minhas  flores  preferidas  são   os  cravos  respondeu Charlotte, mirando-o friamente.

 

Tal qual!  exclamou Kowalski, estendendo as mãos vazias.  Três dúzias!

 

É realmente generoso! Um perfeito cavalheiro!

 

Posso vir buscá-la depois do espectáculo? Que diria duma ceia íntima?

 

Também sabe o que é uma ceia?

 

Ora, ora! É qualquer coisa que se coma.

 

Sem bater, Egon, o prestidigitador, abriu a porta e meteu a cabeça no estreito camarim.

 

Tudo pronto? perguntou, apressado. Começamos daqui a cinco minutos.

 

Já estou pronta há muito tempo  disse Charlotte.

 

Isso vê-se  declarou Kowalski, convencido de que dizia uma galantaria.

 

Sempre    estas    visitas    nos    camarins,    Charlotte! exclamou Egon, contrariado. No entanto, nós tínhamos decidido...

 

Não sou bastante forte para atirar lá para fora esta espécie de guarda-vestidos.

 

O ilusionista mediu com o olhar Kowalski, erguido diante de si. Pareceu primeiro querer provocá-lo, depois pensou que era inútil expor a sua preciosa pessoa.

 

Você também não é bastante forte  disse o primeiro-cabo amavelmente.  Quer experimentar?

 

Isto parece um pombal  disse Egon, furioso, encaminhando-se para a porta.  Metade do corpo de oficiais de todo o exército parece ter-se reunido no camarim de Viola. E acaba de ser expulso um do camarim de Lisa. com perdas e danos. Contudo, era isto que nós queríamos evitar a todo o custo.

 

Charlotte encolheu os ombros. Kowalski fez o gesto de arregaçar as mangas. Egon abandonou o camarote, abanando a cabeça, e bateu com a porta atrás de si.

 

Há concorrência, hem? É evidente que isto lhe caiu mal. Mas, bem sabe, o prestígio do uniforme... Se os civis descobrem, não saberemos o que fazer dos voluntários.

 

Se não se retira depressa  disse Charlotte , já não encontrará lugar.

 

Não se inquiete. Para mim há sempre lugares reservados.

 

Nesse caso, Kowalski, se não sai agora, sou eu que me vou embora.

 

Não quereria jamais ter isso na consciência  disse, pateticamente,   Kowalski,   fazendo   uma   reverência   quase medieval e retirando-se.

 

Dirigiu-se para a entrada, arranjou um bilhete e penetrou na sala. Começou por examinar a situação. Depois encaminhou-se para a primeira fila de cadeiras e sentou-se bem ao centro.

 

Um «cão de caça» precipitou-se para ele e declarou:

 

Esses lugares estão reservados.

 

Isso é espantoso  disse Kowalski, inclinando a cabeça em sinal de aprovação.

 

Estão reservados para o coronel.

 

E depois?perguntou Kowalski, recostando-se para trás.

 

Será você surdo, por acaso?

 

Absolutamente nada. Está  tudo em ordem. Venho agora do general. Eu é que lhe devo guardar o lugar.

 

Kowalski cruzou as pernas e dirigiu um sorriso amigável e protector ao polícia. Este acolheu a familiaridade com ar desolado e afastou-se.

 

O cabo cruzou os braços. Sabia com quem lidava. Tratava-se duma brincadeira velha como Herodes, mas sempre eficaz. Ninguém queria expor-se por prazer a ter aborrecimentos com um verdadeiro general.

 

Kowalski olhou a cortina, depois o relógio, e verificou que a hora marcada para o começo estava já gravemente ultrapassada. Abanou a cabeça para exprimir o seu descontentamento. Depois examinou a sala.

 

Havia ainda alguns lugares vagos exactamente atrás dele. Um pouco mais longe estavam «autolagartas», ou oficiais de estado-maior, e, entre eles, não poucos graduados dos serviços sanitários e da administração. Mais longe, apertados uns contra os outros, subalternos e soldados rasos. E ao fundo, encostado à parede, o sargento Asch.

 

O primeiro-cabo chamou com um gesto o polícia encarregado de vigiar as duas primeiras filas. Estupefacto, este hesitou primeiro e acabou por obedecer.

 

Está a ver aquele sargento lá ao fundo?perguntou, designando Asch.

 

Sim  disse o «cão de guarda».

 

Traga-o aqui  disse Kowalski com o ar mais natural. E, como o polícia se preparava para protestar energicamente, declarou:  Bem vê, é o filho do general.

 

Ah,   bem!respondeu   o   polícia  militar,   que  se dirigiu logo para Asch e o trouxe para a primeira fila.

 

Senta-te, meu palerma  disse Kowalski, sorrindo. Põe-te à vontade. Aqui somos filhos de generais.

 

És   completamente   doido    disse   Asch,   sentando-se. Mas não quero saber. O mais que nos podem fazer é tirar-nos daqui para fora. E disso já eu tenho experiência: acabo mesmo agora de fazer um ensaio.

 

Ah, eras tu? Eu devia ter calculado. Foi Witterer quem te fez sair do camarim da miúda dos olhos grandes como pires.

 

Como sabes tu isso também?

 

Tenho   as   minhas   relações  respondeu   Kowalski, muito  misterioso.   Depois  olhou   outra  vez   o   relógio  e abanou a cabeça mais tempo ainda do que antes.

 

Chamou novamente, com um gesto ainda mais breve, o polícia. Este aproximou-se logo.

 

Diga ao oficial de serviço que mande começar  ordenou. Já é tarde. O general só virá daqui por algum tempo.

 

Lutando com uma sensação de desconfiança escondida, mas que constantemente renascia nele, o polícia desapareceu. Não podia supor que se tentasse sequer troçar assim dele. Isto era impossível, sobretudo no exército.

 

Dirigiu-se, portanto, de má vontade, ao .oficial de serviço e comunicou-lhe que «o filho do general prevenia que seu pai só viria mais tarde e que supunha que se podia começar já».

 

O filho do general pode ir-se...  disse o oficial, dando contudo ordem de começar.

 

A sala escureceu lentamente e os soldados gritaram: «Ah!» Alguns assobiaram. Um descarnado oficial de estado-maior virou-se, descontente.

 

Isto começa!  disse Asch, dando uma cotovelada a Kowalski.

 

Tu realmente reparas em tudo  respondeu o outro. A  cortina   abriu-se,   os  soldados  gritaram   outra   vez:

 

«Ah!», e Charlotte, em vestido de noite, apareceu, docemente iluminada pelos projectores. Sorriu para a multidão e deixou-se admirar com desenvoltura.

 

É inacreditável!exclamou um soldado, cheio de sincero entusiasmo.

 

Alguns riram ruidosamente. E o mesmo oficial descarnado que se voltara já com um gesto de descontentamento levantou-se e, do alto da sua estatura, examinou severamente o grupo jovial de soldados.

 

Hu!  fez um deles, bem abrigado no meio da multidão.

 

Hu!  repetiram vários homens.

 

Visivelmente, mesmo na obscuridade, o oficial corou. Preparava-se para falar, mas, antes que o conseguisse, Charlotte começou.

 

Meus caros amigos  disse ela, e a sua voz quente, maternal, um pouco trocista, impôs-se sem dificuldade, vamos   hoje   divertir-nos   um   pouco,   tentar   esquecer   a guerra.

 

Já está  esquecida  murmurou Kowalski,  mas tão alto que Charlotte o ouviu no palco.

 

Ela piscou os olhos para a sala e reconheceu o primeiro-cabo, que lhe fazia um gesto amigável. Sorriu também e continuou:

 

Todos nós vos trazemos as recordações da terra. Estamos aqui para substituir todas as mulheres que se sentiriam felizes de estar convosco. As vossas mães e as vossas irmãs.

 

E as nossas namoradas!gritou alguém com entusiasmo.

 

É também por elas que estamos aqui. Mas apenas simbolicamente as substituímos.

 

Que pena!exclamaram vários soldados. Um deles suspirou com tanta força que toda a sala o ouviu. O oficial magro deu um salto.

 

Charlotte anunciou então Lisa Ebner. Enquanto ela falava, o capitão Witterer entrou na sala na ponta dos pés, mas fazendo ranger as botas, e sentou-se numa extremidade da segunda fila, numa cadeira para ele especialmente reservada.

 

O chefe acaba de chegar disse Kowalski. Que achas? Devo mandar dar-lhe um lugar a meu lado?

 

Ele está bem onde está  respondeu Asch.

 

Lisa Ebner trazia um vestido negro, liso mas ligeiramente franzido nas ancas. Os olhos pareciam ainda maiores do que habitualmente. As suas mãos, longas e finas, afagavam nervosamente a guitarra ainda antes de começar a tocar.

 

A pequena está com medo  disse Kowalski, em tom de conhecedor. Devia  antes ter bebido um copo da rija.

 

Talvez se tenha esquecido. É preciso ser-se um cavalo para suportar a vista dum tipo como tu.

 

Ela cantou primeiro uma canção popular onde se falava de amor e de murchas flores campestres...

 

Esta é de atirar uma pessoa a terra disse Kowalski. Flores campestres? Serei eu alguma vaca?

 

Exactamente respondeu Âsch. Aos meus olhos sempre foste qualquer coisa como um vitelo.

 

Lisa cantou outra canção, não menos sentimental do que a primeira. Witterer, de pé, aplaudia conscienciosamente, o que levou Asch a deixar bruscamente de o fazer.

 

Charlotte anunciou Viola, a bailarina. Em termos breves e precisos: «É proibido tocar-lhe», disse, e um surdo rumor de expectativa encheu a sala. Um soldado lançou um assobio agudo. O oficial descarnado estremeceu de novo. Um polícia militar precipitou-se como um abutre, mas quando quis prender o culpado esbarrou com uma oposição indignada.

 

Charlotte sorria, ironicamente. Esperava estas manifestações. E, antes de se retirar, olhou Kowalski com uma expressão sarcástica. Ele endireitou-se imediatamente, muito polido e também surpreendido com este reflexo.

 

Viola fez a sua entrada e pôs-se em posição. A luz dos projectores diminuiu. Trazia um trajo de aparência húngara, balcânica em todo o caso, e botas vermelhas.

 

Não se vê grande coisa disse Kowalski,  ligeiramente desiludido.  Mas ainda se verá com certeza. Ela tem outras danças.

 

Viola saltava freneticamente no palco, agitava os braços e as pernas, rolava os olhos. Os seus cabelos turbilhonavam. Quando chegou ao fim os espectadores romperam em aplausos. Ela atirou beijos para a sala. Ao fundo foi preciso reter à força um dos espectadores.

 

Depois dela foi a vez de Egon, o ilusionista, que se exibiu durante meia hora. Depois Charlotte recitou alguns poemas, Lisa cantou alegres canções e Viola dançou, cada vez mais sumariamente vestida. O êxito, mesmo nas primeiras filas, tornou-se semelhante a um furacão.

 

Asch arrancou-se ao tumulto e, passando pelo palco, dirigiu-se aos camarins. Foi encontrar Lisa Ebner diante do espelho. Ela estava a pentear-se e deitou-lhe um olhar.

 

Então?   perguntou,    com   curiosidade.   Agradei-lhe?

 

Absolutamente     respondeu    Herbert,    sincero. Absolutamente. Mas agora tem de voltar para casa.

 

Tenho de voltar? Mas nós estamos convidadas.

 

Já suspeitava. Mas eu não quero isso. Seria pena.

 

Fala a sério?

 

Venha. Eu acompanho-a.

 

Se me acompanha, eu vou  disse Lisa, dirigindo-lhe um sorriso.

 

Vestiu o casaco, pareceu perder um pouco o equilíbrio, tropeçou e agarrou-se a ele.

 

Cuidado!  disse Asch.  Deixe-se estar onde está.

 

Você é forte.

 

Não mais do que isto. Mas, em todo o caso, bastante forte para não fraquejar a seu lado.

 

Verdade?

 

Vamos!

 

Mal tinham deixado a Casa da Cultura, fez o capitão Witterer a sua aparição nos camarins. Procurou Lisa Ebner, mas não a encontrou. Esbarrou com Kowalski, que estava furioso porque o polícia tivera a ideia de lhe fazer algumas perguntas embaraçosas.

 

Viu a menina Lisa Ebner?perguntou Witterer.

 

Kowalski, com pressa de entrar no camarim de Charlotte, muito rodeada, olhou-o sem compreender e, sempre furioso, respondeu:

 

Porque me pergunta isso a mim? Dirija-se antes ao sargento Asch.

 

Ah! exclamou o capitão. Acha que?...

 

Vierbein seguia com um olhar claramente desaprovador os movimentos fatigados dos irmãos siameses.

 

Estamos tramados  disse Bartsch.    Éo fim de tudo. Entalámos o rabo de um cão na porta dos lavabos. E era o cão da noiva do coronel. E foi ele quem descobriu. Compreendes?

 

Não completamente.

 

É bem  simples,  contudo.  A noiva  choramingou,  o coronel estava furioso e Schulz pôs-se a berrar o melhor que  pode.   Jurou   descobrir  os  culpados.   E  descobriu-os.

 

E é por isso que nós estamos em apuros.

 

A vocês é bem feito.

 

Se não nos tivéssemos enganado no cachorro, Schulz teria rido até mais não. Ele gosta destas paródias. E, nesse caso, não teríamos ido ao Café Asch...

 

E se Schulz continua como ontem à noite acrescentou o outro  vão passar-se coisas terríveis.

 

Esperemos que ele não vos expeça para a frente disse Vierbein.

 

É vergonhoso disse o capitão Witterer que eu seja obrigado a dar semelhantes ordens. Não posso, contudo, deixar de o fazer.

 

Sim,  meu  capitão.  Não  pode  respondeu  o  sargento-ajudante Bock.

 

Se isto continua, vou ser obrigado a regulamentar as horas em que os homens poderão ir às latrinas.

 

Lá  chegaremos  disse Bock com  uma ironia  surpreendente nele e de que, portanto, Witterer não suspeitou. Empurrou o papel que o capitão devia assinar, como se se tratasse de um cheque sem cobertura.

 

Witterer segurou o lápis de cópia e assinou.

 

Pronto  disse.  Esperemos que isto agora ande. Tratava-se da ordem 18/42, que prescrevia, uma vez

 

mais, aos soldados da 3.ª bateria, que «trouxessem sempre consigo a máscara de gás» ou, pelo menos, quando dormiam, iam à retrete ou se lavavam, a tivessem sempre «perto de si e pronta a servir».

 

Bock sabia como esta ordem seria acolhida pelos soldados da bateria. Mas ele lhes explicaria que fora Witterer quem imaginara isto. E levando-o ao conhecimento dos soldados não deixaria de rir, pelo menos em presença dos graduados. Era uma coisa que tinha o direito de fazer. É que ordens deste género eram pura chicana. Nenhum soldado normal, nem sequer um Vierbein, andava por toda a parte com a máscara de gás.

 

Mas Witterer, nesse dia, estava cheio duma extraordinária energia. Estava evidentemente decidido a transformar o seu mau humor da véspera em espírito militar havia sem dúvida qualquer coisa que não marchara bem com as «frangas» do Teatro do Exército.

 

Depois  disto vai preparar-me uma ordem  de equipamento de combate para a bateria.

 

Sim, meu capitão  disse o sargento-ajudante, arrastando as palavras.

 

Quero   que,   de   futuro,   todo   o   soldado   da   minha bateria   esteja   pronto  a   entrar  em   combate   a   qualquer momento.  Isto  significa  que  deve  trazer  sempre  consigo uma  arma,  seja  a  espingarda,  seja  a  pistola,  mas  esta última  só pode  ser permitida aos  subalternos, e,   destes, apenas aos que tenham direito à dragona. com isto, munições, pelo menos dois carregadores cheios. Além disso: capacete  de aço, pacote individual de penso, medalha de identificação   e   caderneta  militar,   esta  última   com   indicação do grupo sanguíneo, que todos deverão conhecer de cor...   Ameace-os   com   revistas   inesperadas.   E,   ainda,   a baioneta.

 

Sim, meu capitão  disse o sargento-ajudante, arrastando ainda mais as palavras.

 

E depois vigie-me por que as baionetas não sejam afiadas   ou  transformadas  em  serras.   Se  apanho   alguém da minha bateria a cortar o pão ou a rachar madeira com a baioneta, meto-o na prisão. Para mim, sargento-ajudante, tudo deve estar de conformidade com as instruções. Exactamente de acordo com as instruções. Só assim poderemos triunfar.

 

Sim, meu capitão.

 

Conhece   a   instrução   de   transporte   17-C   para   o carregamento   dos   cavalos,   sua   alimentação   quando   em transportes   prolongados,   quer   dizer,   de   mais   de   doze horas?

 

Provavelmente, meu capitão  disse o sargento-ajudante sem hesitar. É claro que a não conhecia. Para quê, aliás?  A  sua  bateria   era  inteiramente   motorizada.   Mas quando não sabia qualquer coisa respondia  com  regularidade:  «provavelmente», o que significava:  «não faço a menor ideia.»

 

Aí tem um modelo de instrução disse Witterer. Devia decorá-la. Há nela reflexão, meu caro, até à última vírgula. Poderá dar-se conta do que significa, na realidade, uma instrução. Trabalho do cérebro, meu amigo, trabalho do cérebro. E sabe quem elaborou essa instrução? Fui eu.

 

Sim, meu capitão  disse Bock, arremedando o mais descarado entusiasmo.

 

Pronto!exclamou o capitão, encerrando o assunto. Olhou em redor, mas nada achou de momento em que pudesse ocupar-se.

 

O meu carro está aí?  perguntou.

 

Em frente da porta.

 

Em frente da porta ? Porque não veio esse animal avisar-me?

 

O meu capitão apenas deu ordem para o vir esperar.

 

E prevenir-me. É automático, sargento-ajudante. Pelo menos,  para mim. Faça-o compreender ao seu bando de vadios. Se preciso for, por meio de uma «ordem à bateria».

 

Bock permitiu-se não responder. O risco não era grande, pois Witerer preparava-se para partir, absolutamente de acordo com a sua «ordem». Muniu-se da pistola, da máscara de gás, do porta-mapas e do capacete de aço. Depois apalpou a bainha do casaco, onde, de conformidade com as instruções, estava cosido um pacote individual de penso. Em seguida pôs-se a caminho em passo ágil, como sempre.

 

Lá fora o subalterno Krause anunciou que o carro estava pronto. Também ele estava completamente arreado. Kowalski, sentado ao volante, piscou o olho ao contemplar estas duas máquinas de guerra. Comparado com eles, tinha o ar de um civil pacífico.

 

Onde está a sua máscara de gás? perguntou Witterer.

 

Lá atrás, dentro do carro  respondeu Kowalski com vivacidade, se bem que  soubesse que não havia máscara de gás no automóvel.

 

Porquê não a traz consigo?

 

Porque é demasiado embaraçosa. Incomoda. Ou conduzo esta carroça, ou ponho uma grossa máscara de gás em cima da barriga e sento-me ao fundo  de duas, uma.

 

Se bem compreendi a ordem dada à bateria  interveio Krause, que não podia deixar de tentar pôr-se de bem com Kowalski , basta que a  máscara de gás esteja ao alcance da mão, isto é, perto.

 

. Bem, sigamos  disse Witterer.  E mostre-me do que é capaz. Às peças.

 

Não estava ainda sentado e já Kowalski partira. O capitão foi atirado para trás e teve, durante um segundo, a sensação esmagadora de que o seu coração ameaçava explodir. Depois o carro deu um salto e lançou-se para a frente, fazendo jorrar atrás de si a lama, como se fosse um jacto de água. Kowalski parecia ter decidido não evitar nenhuma poça. Lançava-se através da neve derretida e cobria de lama Krause, sentado atrás.

 

Quando Kowalski fez menção de se lançar a descoberto em pleno campo Witterer pôs-se a berrar:

 

Perdeu completamente a cabeça?

 

Porquê, eu?

 

Abrigue-se! Vamos, abrigue-se! Não o alistaram para servir de alvo.

 

Kowalski dirigiu-se para uma árvore, pisou o travão de pé, depois puxou o travão de mão e parou precisamente a dois centímetros da árvore.

 

Sai toda a gente! gritou. Término! Witterer perguntava a si mesmo se devia enfurecer-se ou rir. «Rir seria decerto mais viril», pensava. «Que outra reacção se podia ter em relação a um bruto como este Kowalski?» Mas os seus pensamentos estavam muito longe de ser cor-de-rosa, o que nada tinha de surpreendente depois do total falhanço da noite anterior. Achou, portanto, preferível adoptar uma atitude de esfinge. Extirpou-se do automóvel, tomando a precaução de manter-se abrigado. Krause, semelhante ao reflexo num espelho, imitava cada um dos seus movimentos.

 

Vá abrigar-se  ordenou o capitão a Kowalski. Este fez um gesto de assentimento e fez recuar o carro com um terrível ruído do motor. Balançando-se através do terreno, desapareceu atrás de uma casa. Aí parou o motor.

 

Witterer, com Krause nos calcanhares, corria agora para a segunda peça. Sentindo a secreta alegria dos postos de alerta, saltavam como duas lebres pelo terreno. Chegado à bateria, Witterer pulou para uma trincheira. Krause saltou logo atrás e quase caiu em cima dele.

 

Guerreiro de rosto decidido a tudo, Witterer agarrou no binóculo e, debruçado na borda da trincheira, com as precauções do estilo, pôs-se a observar atentamente o inimigo. «Era agora», pensava, «que entrava finalmente na guerra»; gozava este minuto sublime e comparava-se mentalmente a um cirurgião que brande o escalpelo pela primeira vez e sabe perfeitamente que executará bem mesmo a mais difícil operação. Decidiu que relataria esta situação numa carta ou mesmo em várias.

 

Estavam, portanto, ali, as linhas inimigas. Trincheiras torcidas, semelhantes ás do seu lado. Alguns buracos isolados na cadeia de colinas que se erguiam docemente diante dele. Numerosos carreiros sulcavam o terreno. E tudo parecia dormir.

 

De súbito, Witterer exclamou:

 

Mas não é possível! Olhe-me para aquilo, Krause! Krause agarrou com prazer o binóculo que Witterer lhe estendia.

 

Então? Não vê nada?

 

Nada de extraordinário, meu capitão. Pelo menos, nada que me surpreenda.

 

Veja bem, vamos!  A três mil metros. O grupo de árvores. Cinco linhas para lá do bosque. Já está a ver?

 

Estou  a ver,  meu  capitão.

 

E então?... O que é que se desloca da direita para a esquerda?

 

Um homem. Provavelmente um homem do  rancho. Dirige-se para as trincheiras da colina da esquerda.

 

E esse animal anda assim a passear diante de nós? É uma verdadeira provocação!

 

Realmente  disse  Krause,   que  começava   a   compreender e perguntava a si mesmo se devia travar ou deixar correr.  Realmente, meu capitão. É sem dúvida uma provocação. Mas de há umas semanas para cá fazem isto todos os dias ao meio-dia. E acrescentou, não sabendo ainda claramente que  atitude devia  adoptar:  Do  nosso  lado faz-se a mesma coisa.

 

com uma certa brutalidade, Witterer tirou o binóculo a Krause. Olhou outra vez com atenção. A vista do copeiro» inimigo passeando tranquilamente fê-lo ranger os dentes. O inimigo! A provocá-lo desta maneira em pleno campo! O tipo passeava com toda a tranquilidade diante da boca das peças da sua bateria  a bateria Witterer! Era de mais!

 

E, sem levantar os olhos do binóculo, comandou:

 

Alerta para o fogo!

 

Krause teve um sobressalto. Foi para ele um segundo difícil. Depois, todo entregue ao seu papel de agente de transmissão, gritou à sentinela:

 

Alerta para o fogo!

 

O quê? respondeu o soldado. Que é que se passa?

 

Alerta para o fogo!

 

A sentinela encolheu os ombros. «Porque não? com certeza o chefe quer fazer um exercício de alerta. É uma chátice, claro, mas não há nada a fazer.» Pôs a funcionar a pequena sereia de som rouco e começou, tal como estava determinado em casos destes, a destapar as munições.

 

Witterer não se preocupava com estes preparativos, que, decerto, lhe pareciam naturais. Continuava a vigiar o inimigo e, friamente, sorria.

 

A segunda equipa de serventes apareceu pouco depois. É que a visita de Witterer não passara despercebida. O ruído do carro de Kowalski arrancara-os brutalmente à sesta. Depois a aparição de Kowalski em pessoa tirara-os definitivamente do sono.

 

Preparem-se   para   surpresas,   rapazes    anunciara Kowalski.  O novo está com comichões na pele.

 

Os serventes ocuparam os seus lugares e prepararam a peça. O chefe de peça, o segundo-sargento Rauch, dirigiu-se para Witterer:

 

Às ordens, meu capitão.

 

Vê o objectivo ?  perguntou Witterer, após ter dado alguns pormenores.

 

Objectivo à vista.

 

Então, vamos a isso. Dê as primeiras ordens.

 

A sério ?  perguntou o chefe de peça, sem ver os gestos que Krause fazia para o advertir.

 

Terá perdido a cabeça? gritou Witterer com uma indignação que lhe pareceu absolutamente militar.  Desde quando é a guerra uma brincadeira?

 

O subalterno cerrou os lábios e dirigiu-se, correndo, para a sua equipa. A explicação do alvo que ele deu pareceu a Witterer correcta, mas demasiado complicada.

 

Com mais ardor! gritou. Um pouco mais de azeite na lamparina!

 

Alça a três mil metros!  disse o segundo-sargento, tranquilamente; depois tirou do canhão da manga a sua tábua de tiro e começou a folheá-la.

 

Objectivo à vista!anunciou o artilheiro.

 

O chefe de peça indicou a alça. Depois, ao mesmo tempo que os serventes, olhou Witterer, que, da trincheira, seguia rigorosamente todos os movimentos do inimigo. A febre do caçador empolgara-o.

 

Isso vem?  perguntou.

 

Fogo!gritou o chefe de peça.

 

Uma detonação seca, violenta, rasgou o silêncio do meio-dia. O tubo, empurrado para trás, cuspiu a cápsula vazia. Depois, lentamente, deslizou, assobiando, e retomou a sua posição de repouso. O obus rompeu a atmosfera.

 

Sempre sorrindo friamente, Witterer permanecia no mesmo sítio com a boca ligeiramente aberta. A mão que segurava o binóculo estava ligeiramente crispada. Recuara o pé esquerdo, que se movia na lama.

 

Ao longe, sobre a colina, na região onde se encontrava o homem que transportava a sopa, a uns cinquenta metros deste, ergueu-se uma nuvem azul-negra. O soldado inimigo, profundamente surpreendido  Witterer notou-o pelo binóculo , ficou ao princípio petrificado. Olhou em redor, como louco. Depois pôs-se a correr nervosamente na direcção oposta à da explosão.

 

Curto de mais! exclamou Witterer. Outra vez!

 

Mais quatro  ordenou o chefe de peça, resignado. E quando ouviu:  «Rectificado», comandou:  Fogo!

 

Desta vez o tiro ultrapassou o alvo. O copeiro» inimigo mudou imediatamente de direcção e pôs-se a saltar como um  canguru. Tropeçou,  caiu  ao  comprido,  levantou-se e continuou a fugir com o seu fardo através da neve prófunda.

 

Já tem as cuecas cheias! exclamou Witterer, radiante.  Apostemos!

 

Com certeza, meu capitão  disse Krause, perto dele. Continuem. É preciso suprimi-lo, muito simplesmente. Para formar o enquadramento o chefe de peça só tinha de ordenar:  «Mais curto»,  e teria sido quase impossível falhar o alvo. Mas aquele tipo, lá ao longe, com o seu caldeirão às costas, correndo como doido, já sem fôlego, fezlhe pena. E, depois, toda esta história lhe parecia demasiado estúpida. Dava-lhe vontade de vomitar.

 

Ordenou: «Outra vez! Fogo!» Nem sequer olhou para ver o resultado. Sabia que o alvo não fora atingido. Era para ele o principal.

 

Falhado!   exclamou  Witterer  com  decepção,  batendo os pés.  Grande porcaria!

 

Mais?perguntou o chefe de peça.

 

Até que tenha destruído o seu objectivo. Até que esse palhaço esteja reduzido a paus de fósforos.

 

Mas antes que o segundo-sargento Rauch tivesse podido dar as suas novas ordens, o telefone começou a tocar furiosamente. Rauch inclinou-se, encantado com esta interrupção, e segurou o auscultador. Respondeu e, franzindo os lábios, anunciou:

 

É para o meu capitão. O comandante da infantaria.

 

Que é que esse quer?  perguntou Witterer, irritado.

 

De acordo com a ordem recebida, o segundo-sargento informou-se do que desejava o comandante. Depois de ter recebido a resposta, cerrou ainda mais os lábios para não rebentar a rir. Em seguida disse em alta e bem perceptível voz:

 

O comandante da infantaria manda perguntar quem é o idiota que dispara tiro sde canhão no sector. Proíbe energicamente que o façam.

 

bitterer, que olhava com atenção os serventes da peça, ficou furioso e berrou:

 

Diga a esse indivíduo que se vá lixar!

 

«O capitão manda-lhe dizer que se vá lixar», repetiu o chefe de peça, tão alto e tão lentamente como antes. Depois pousou o auscultador com cuidado e, por assim dizer, com amor.

 

Witterer lutou heroicamente consigo mesmo. Depois, com uma brutalidade inútil, ordenou:

 

Cessar fogo!

 

Num salto exageradamente ágil e ousado pulou para fora da trincheira e gritou aos serventes da peça: