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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OPERAÇÃO GLÓRIA DA OLIVEIRA / J. J. Benitez
OPERAÇÃO GLÓRIA DA OLIVEIRA / J. J. Benitez

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OPERAÇÃO GLÓRIA DA OLIVEIRA

 

                   CIDADE DO VATICANO

                   04 horas 30 minutos

Aquele era outro dos seus costumes. Um hábito que nem ela mea podia explicar satisfatoriamente. Sentia-se segura sob o dintel das portas. E era assim que gostava de exercer sua autoridade. E como cada madrugada, desde que fora convocada para cuidar da alimentação do Papa, sor Joana dos Anjos deteve-se no umbral. Piscou inquieta e logo depois, após um minucioso olhar de inspeção pela ampla e imaculada cozinha, seus olhos cinzentos e puxados dulcificaram-se, recuperando a tonificante luminosidade que suas irmãs de congregação tanto agradeciam. Tudo parecia estar em ordem. À primeira vista, tudo se achava sob controle, pelo menos naqueles arrastados aposentos da ala leste do Palácio Apostólico. Mas a nova jornada acabara de se iniciar. Dentro de uma hora - às 5h30 - o velho, fiel e nacarado despertador de Cracóvia alertaria o Santo Padre. O fugaz tilintar - que nunca ultrapassara a fronteira dos dez segundos - precederia a quase simultânea iluminação da maior parte das janelas daquele terceiro andar: Aquele era o início oficial do novo dia. Meia hora mais tarde - por volta das seis -, o Papa celebraria a sua primeira "audiência". Sessenta minutos de recolhimento. Sor Joana conhecia a importância desta "hora com Deus" e da sua modesta porém vital contribuição para que tudo na capela privada estivesse em harmonia e de acordo com os severos gostos do seu admirado Pontífice. Às 7 horas começaria a missa. Quanto aos convidados ao café da manhã, essa era decididamente uma batalha perdida. Apesar da sua tenaz e lógica insistência, Siwiz, o primeiro secretário particular, continuava dando de ombros cada vez que era interrogado pela religiosa. Na verdade, tanto sor Joana quanto o fiel polonês, homem de confiança do Papa, sabiam muito bem que essa questão era uma das poucas que escapavam do rigor doméstico que impregnava a "casa" do Pontífice. Tudo dependia do humor, da curiosidade ou dos íntimos e inescrutáveis pensamentos do Santo Padre. Após o encerramento da missa - por volta das 7 horas e 45 minutos -, o próprio Papa, depois de cumprimentar e conversar brevemente com os cerca de trinta homens e mulheres que o tinham acompanhado no Santo Sacrifício, procedia a selecionar os convidados que deveriam compartilhar a refeição. Mas esses momentos ainda não tinham chegado...

E sor Joana, do umbral, foi concentrar sua atenção naquilo que realmente importava.

Com a destreza de um malabarista, sem dúvida, os roliços e rosados braços de sor Gabriela continuavam dançando incansáveis sobre as bandejas de madeira enfileiradas na mesa de pinho avermelhada. E mentalmente, assinalando os pratos com rápidos e nervosos toques dos dedos, foi passando em revista os elementos que formavam o café da manhã do Santo Padre e dos seus imprevisíveis acompanhantes: suco de uva preta, pãezinhos que tinham acabado de sair do forno, leite, queijo, geléia e café em abundância. E como extra, uma pequena surpresa: jalkka w desfie z sokiem, uma torta de maçã com caldo de frutas. Um importante "detalhe" , sugerido e confeccionado pela diligente e imaginativa "Gabi", a irmã cozinheira. E fiel ao ritual de toda madrugada, sor Gabriela levantou sua cara de lua, buscando o assentimento da madre superiora. Da porta, sor Joana assentiu com uma grave e breve inclinação de cabeça.

Logo depois, com um gesto mecânico, a cozinheira virou-se, esfregando as mãos na parte de baixo do interminável avental azul. De uma das prateleiras extraiu meia dúzia de guardanapos brancos de linho. E como a refeição deveria permanecer na cozinha até as oito em ponto, as bandejas foram delicadamente cobertas.

A vivaz e incorrigível irmã Fé também fazia parte de tais prolegômenos. A proximidade de seu qüinquagésimo aniversário, em vez de moderar seu gênio, parecia arrastá-la para uma segunda e aloucada infância. Era rara a jornada em que sor Joana não era obrigada a adverti-la. Mas esta e as demais religiosas da reduzida comunidade desculpavam as suas inocentes extravagâncias. Algumas até mesmo as agradeciam. No fundo era uma forma sadia e discreta de quebrar a rigidez e a tensão que flutuavam nos dezenove aposentos dos apartamentos papais.

E sor Fé, a mais jovem das freiras polonesas, resgatou um ramo de flores de uma das pias galvanizadas. Semicerrou os olhos e, aproximando-o do rosto pálido e fino, foi perder-se na fragrância daquele punhado de rosas brancas e vermelhas, ainda rígidas e prometedoras. E inevitavelmente, como em todas as madrugadas, os óculos grossos escorregaram pelo nariz adunco, prendendo um par de cristalinas gotas d'água. Após um profundo suspiro, ela rodeou a mesa de pinho, dirigindo-se ao encontro do quase imperceptível e familiar sorriso da superiora.

Mas antes de dar passagem à responsável pelas flores, o olhar vigilante de sor Joana tornou a examinar as quatro palavras escritas com giz na lousa pendurada entre dois armários altos e antigos. Ficou satisfeita. Aquele cardápio, discutido e selecionado com sor Gabriela na noite anterior, deliciaria o Santo Padre. Como primeiro prato, kapusniak (uma sopa de couve fermentada). Depois, outra especialidade polonesa: zraz (um suculento fIlé com molho de creme de leite) e grzyby (cogumelos fervidos ou talvez à marinheira). A quarta e última palavra referia-se à sobremesa: mazurek (torta de frutas). O problema, como quase sempre, residia no número de porções. E da mesma forma que os cafés da manhã, essa situação tão incômoda também tinha de esperar. Tentar conhecer de antemão a quantidade de talheres previstos para o almoço de Sua Santidade era um trabalho ao qual sor Joana renunciara poucas semanas depois da sua chegada a Roma. A experiência, porém, fora lhe ensinando que, devido às reduzidas dimensões da sala de jantar, os comensais dificilmente eram mais de oito. Mesmo assim, sor Joana - e especialmente a irmã cozinheira - não tinham conseguido acostumar-se aos angustiosos equilíbrios gastronômicos de última hora.

Sor Fé atravessou o umbral. Mas no terceiro passo ela parou, surpresa. Os hábitos pretos da superiora continuavam recortando-se na metade da porta. E o único símbolo externo da sua autoridade – o molho de chaves cada vez mais volumoso pendurado em sua cintura - foi golpeado pela implacável luz fluorescente. A portadora do ramo de rosas vacilou. A atitude de sor Juana, plantada diante da cozinha e atrasando a inspeção obrigatória pelos aposentos ainda escuros e adormecidos, não tinha precedentes. Alguma coisa fora do comum a retinha. E sor Fé, sem poder evitar, lembrou-se da última reprimenda. A reverenda madre repetira-lhe inúmeras vezes uma ordem procedente do onipotente Siwiz: "Nada de marcas comerciais nos eletrodomésticos" . Elas tinham de ser retiradas. Mas sor Fé, presa na esgotante dinâmica de limpar, lavar e passar, tinha se esquecido. Por outro lado, para que tanta pressa? Desde que saíra do convento do Sagrado Coração na sua amada Cracóvia - e isto já fazia mais de três anos -, nenhum jornalista fora autorizado a penetrar nos domínios da comunidade. De qualquer forma, sor Fé reconheceu que a superiora tinha razão. E estava com o firme propósito de satisfazê-la ao longo dessa mesma manhã.

Se tivesse podido contemplar o rosto da superiora, sor Fé teria compreendido que o motivo de demora tão incomum não estava nos rótulos do lava-louças, do abridor de latas nem do fomo, mas sim na espigada silhueta de sor Eliza. No momento de abandonar a cozinha, o fino instinto da superiora a fizera reparar num silêncio pouco comum. Atarefada no manejo do moedor elétrico, a sempre cantadeira freira permanecia muda e abatida. Não levantara os olhos nos últimos minutos. Mas o mais desconcertante é que, pela primeira vez em meses, a velha e querida balada polonesa - O montanhês -, cantada sempre em coro pelas irmãs, parecia desterrada dos lábios da ajudante da cozinheira. A superiora sentiu-se tentada a fazer algo excepcional: ultrapassar o limiar da porta e reunir-se com a religiosa. O coração de sor Eliza estava sem dúvida ocupado por alguma preocupação que, naquele momento, não conseguia -recordar. Como responsável por um grupo tão especial de freiras, sor Joana conhecia até os seus problemas mais íntimos. Ela as selecionara e redigira os meticulosos relatórios exigidos pela Secretaria de Estado. Também sabia que cada um dos expedientes - secretamente verificados por um enviado especial da Cúria ao convento de Cracóvia - tinha ido parar nas mãos do próprio Santo Padre, o qual, assessorado pelo seu primeiro-secretário particular, tinha aceitado a escolha. Cada irmã - de acordo com as estritas normas vaticanas - fora escolhida em função de cinco exigências básicas: "idade canônica" (isto é, isenta da menor atração física), "provada espiritualidade", "saúde de ferro", "competência profissional" e, muito especialmente, "extrema discrição". Deste gama de requisitos, o único que obcecava a madre superiora era o da saúde. Apesar da sua excelente memória não conseguia recordar um único dia em que tivessem dormido mais de cinco horas. Mas deviam-se ao seu admirado Pontífice e ao juramento de fidelidade pronunciado em presença do gélido e exigente Siwiz.

Muito bem, não se esqueceria disso. E se ocuparia de sor Eliza no momento oportuno. Agora quem mandava era o seu segundo "amo": o relógio. E dando meia-volta, a superiora foi reunir-se com a inquieta irmã Fé. Enquanto permanecesse como "governanta" daquele terceiro andar, os sentimentos pessoais deviam ocupar um remoto lugar na escala de prioridades. Ela não era sor Vincenza nem aquele seu belo papa polonês um Albino Luciani, que admitisse a menor debilidade nos seus ajudantes e subordinados...

 

                           04 horas 40 minutos

Aquela visita de inspeção à sala de jantar privada figurava na invariável "ordem do dia". E em silêncio, com passo decidido, as religiosas atravessaram os vinte metros que separavam a cozinha do refeitório.

Sor Fé, calculista, optou por não colocar lenha na fogueira. Se a superiora já estava preparando uma nova e iminente reprimenda, o mais sensato era esperar e resignar-se.

Sor loana apalpou o molho de chaves. A escassa iluminação do corredor, que se limitava às luzes ambarinas situadas nos rodapés, não diminuiu a eficácia dos seus movimentos rotineiros. A chave deu uma volta e a negra e pesada porta de carvalho foi empurrada com suavidade. A mão da superiora tateou à esquerda, roçando com as pontas dos dedos o fino dourado que empapelava o aposento. Após ter ligado a luz e segundo seu costume, permaneceu sob o dintel, observando com um só olhar a totalidade da sala. Vigiou os passos da sua companheira e a delicada colocação da cestinha de rosas no centro da grande mesa. A seguir, começou a explorar com desconfiança a localização da dúzia de quadros, das nove cadeiras, do armário, do equipamento de som, das cinco pequenas estátuas de madeira, do tapete afegão ti suas hipotéticas rugas. Por último, com zelo singular, começou. a repassar visualmente cada centímetro quadrado da poltrona do Papa.

É impossível negar que aquela era uma das muitas e admiráveis qualidades da madre superiora. Nem a sor Fé nem as outras irmãs tinham conseguido descobrir como ela conseguia detectar a mais venial das anomalias... sempre sem sair das benditas portas.

O estalo dos dedos de sor Joana indicava a localização de uma falha. Sor Fé, como um autômato, seguiu a direção marcada pelos olhos da superiora. Rodeou a alva toalha de linho e, como um radar, os óculos apontaram para o veludo bordelês do assento papal. Lá estava o "pecado". Ao inclinar-se para depositar as flores, uma das pétalas soltara-se, caindo sobre a augusta cadeira.

Vermelha como uma papoula, Fé guardou a pétala branca e, mecanicamente, evitando o cinza-aço do olhar de sor Joana, apalpou alguns dos botões. Satisfeita, esboçou um sorriso de desculpas. Mas a ordem seguinte já estava presente no rosto impenetrável da superiora. E levantando a poderosa mandíbula, ela apontou a janela.

Segundos depois, pelos vidros entreabertos, penetrou a fresca brisa noturna de uma Roma em repouso. E sor Fé, na ponta dos pés com os chinelos pretos de feltro, deixou-se acariciar pelo silêncio. Como todas as madrugadas, a Cidade Leonina e a Porta Angélica estavam desertas. Esticando o pescoço, a irmã tentou descobrir a pequena caminhonete azul que a polícia estacionava regularmente diante da Porta de Santa Ana. Mas o peso dos inquisidores olhos de sor Joana sobre a sua nuca obrigou-a desistir.

 

                     04 horas 45 minutos

Sor Fé sabia. E também suas irmãs em Cristo. Se a madre superiora mostrava-se escrupulosa em tudo o que dizia respeito à ordem, limpeza e disciplina dentro dos aposentos papais, a capela privada representava um permanente e doentio desafio pessoal para ela. Nenhuma das religiosas, naturalmente, duvidava da santa natureza do lugar. Todos estavam a par das freqüentes e às vezes dilatadas visitas do Santo Padre ao pequeno templo, sabiamente reformado pelo seu antecessor Paulo VI. Em várias oportunidades tinham sido surpreendidas durante a manhã quando se dedicavam à limpeza de chãos e paredes; ou ao entardecer, durante as orações comunitárias - pela súbita irrupção do Pontífice, que, sem pronunciar nenhuma palavra, punha-se de joelhos no solitário reclinatório central. E algumas pessoas afIrmam tê-lo visto, a altas horas da noite, de bruços sobre o verde tapete persa, orando ao estilo oriental. E compreendiam e aceitavam mudar diariamente os guardanapos sagrados e a oferenda floral que alegrava a extremidade direita do tabernáculo. Mas aquela obsessão por lustrar toda madrugada o pequeno esmalte com o rosto da Virgem de Czestocowa, situado a dois metros do solo e à direita do grande Cristo de madeira que pendia sobre o altar, não era normal. Mas que podiam fazer? Nas sufocantes sessões de passar roupa elas tinham discutido isso a meia voz. Quase clandestinamente. Todas tinham concordado num ponto: alguém deveria falar com a superiora. Aquela absurda mania de lustrar diariamente o ícone da Virgem negra roubava-lhes, pelo menos, meia hora de sono. Mas como comunicar-lhe tão justo descontentamento?

Era matemático. Na mesma hora e no mesmo lugar, ao dobrar a esquina e avançar pelo corredor que leva aos aposentos do setor sul, sor Fé era assaltada por estes, talvez pouco caridosos, pensamentos. Também era verdade que tão incômodas reflexões não floresciam durante mais do que vinte ou trinta segundos. Isto é, durante o tempo consumido no breve trajeto entre a sala de jantar e a capela.

Sor Joana, obsessiva, consultou novamente a fosforescência do seu relógio de pulso. Estavam no limite. Se agissem com diligência e contando, obviamente, com a benevolência divina, após realizarem as derradeiras incursões aos salões e ao gabinete privado, talvez pudessem descansar uns minutos. O suficiente para dobrar os aventais, arrumar as toucas, escovar os hábitos e colocar uma gota de essência de alfazema atrás das orelhas. Embora o serviço do café da manhã obrigasse a reverenda madre a retirar-se um pouco antes da bênção final, por nada no mundo ela renunciaria à glória secreta e diária de rezar, cantar e comungar junto com o Santo Padre. A missa das sete, pelo menos para ela, era muito mais que um sagrado ato de comunicação com Deus. Lá, entre os cerca de trinta convidados que dificilmente se repetiam, a cinco metros da poltrona e do reclinatório papais, sor Joana transfigurava-se. Aqueles quarenta copiosos minutos, nos quais seus olhos e coração enchiam-se com a figura galharda e segura de Sua Santidade, compensavam com abundância a mediocridade da sua permanente servidão. E do seu discreto porém excelente "local de guarda" - sempre no umbral -, ela jogava a rede do seu olhar insubornável, observando e processando até o menor detalhe. Nada escapava da sua singular e temida habilidade. A batina de seda branca do Pontífice, cuidadosamente passada a ferro, a brancura prateada do solidéu, a exatidão milimétrica no tamanho das velas ou o azul cristalino dos vitrais, entre a constelação de formas, luzes, silêncios e gestos que só ela percebia, eram verificados sem interrupção, enquanto a sua voz audaz juntava-se nos cânticos com a do celebrante. Mas tudo isso fazia parte da última e inexpugnável cidadela da sua alma.

Sor Fé, fiel aos regulamentos, aguardou que a superiora girasse a fechadura que abria a porta dupla. E como em toda madrugada, escutou atentamente, esperando reconhecer os longinquos, intermitentes e inconfundíveis roncos do padre Siwiz. Aquele quarto estratégico - no fundo do corredor - constituía um irritante enigma para a sua indomável curiosidade. Especialmente desde aquela manhã em que, junto com sor Eliza, enquanto asseavam e ventilavam o modesto aposento, descobriu entre os lençóis umas chamativas gotas de sangue. Seráque o primeiro-secretário dormia cilício? A verdade era que daquele homem de quarenta e sete anos, permanentemente despenteado, sempre esquivo e cujas mãos faziam lembrar uma pederneira, era possível esperar qualquer coisa. Sinceramente, ela não gostava dele. E não era a única a sentir aquela rejeição quase natural. Seus quase trinta anos de serviço, confidências e lealdade àquele que hoje era dono do selo do Pescador, tinham-no convertido num desagradável e às vezes odiado "filtro" que não respeitava cargos, sentimentos nem prioridades. Sua voz aflautada não admitia objeções nem segundas considerações. Sua duvidosa humanidade seguia sempre em frente, entalhada em gelo, com olhos grotescamente redondos e desproporcionais, que muito poucos tinham visto pestanejar. Ninguém sabia se por iniciativa própria ou por "encomenda", sua batina gasta, seus sapatos rangentes e a caixa de ossos que Deus lhe dera como suporte físico eram freqüentemente surpreendidos nos cantos mais improváveis e nas horas mais intempestivas. Em plena noite era visto perambulando e escondendo-se entre a colunata de Bernini, talvez espionando as patrulhas de vigilância. A mesma coisa ocorria nos nobres escritórios da Secretaria de Estado e no andar superior, nos domínios de sor Joana. Por volta das quatro horas, ao se levantarem, mais de uma vez as religiosas tinham reparado numa sombra fugidia e sinistra que escapava da cozinha ou deslizava pelos corredores, desaparecendo hábil e velozmente por qualquer uma das trinta e oito portas dos apartamentos papais, antes de poderem alcançá-la. Em diversas oportunidades a dupla de seguranças que monta guarda no segundo andar, cobrindo as escadas e o elevador privativo do Papa, sofrera os impropérios e ameaças de Siwiz, ao ser descoberta pelo sibilino polonês num dos esporádicos cochilos que, até certo ponto, eram normais nas aprazíveis e tediosas noites do Palácio Apostólico. Os vinte e cinco italianos que velam pela integridade física do Pontífice e que se revezam durante vinte e quatro horas para custodiar o segundo andar, os acessos ao terceiro e a totalidade dos movimentos do Santo Padre - exceto os mencionados aposentos privados, nos quais não podem penetrar salvo em casos muito graves e específicos - , não conseguiam compreender a ferina desconfiança da "caixa de ossos" . A pedido do próprio Papa, o general Chiesa, chefe da luta antiterrorista na Itália, os recrutara entre os melhores, formando assim um corpo de elite: o "SSSS" ou "Serviço Secreto de Sua Santidade". Eles falavam várias línguas e muitos eram formados pelas mais prestigiosas universidades européias e norte-americanas. Como atiradores seletos, podiam atingir um alvo com olhos vendados e guiandose apenas pelo rangido dos sapatos. Apesar dos seus modos impecáveis e da esmerada aparência dos seus temos azuis, poderiam imobilizar um suspeito em cinco segundos ou detectar uma arma sob a roupa pelo simples estudo das pregas.

Definitivamente, sor Fé não compreendia porque muitas das decisões do Vigário de Cristo na Terra eram controladas por um indivíduo que evitava o diálogo, que nunca olhava nos olhos do seu interlocutor e, além de tudo isso, cujas mãos suavam. Mas o Santo Padre chamava-o de "filho".

E sor Joana, continuando com o ritual cotidiano, empurrou a porta dupla com as pontas dos seus dez dedos. E diante da resignada quietude de sor Fé, deixou que os solenes relevos em bronze de Manfrini se abrissem escancaradamente.

 

                   04 horas 47 minutos

Foi um pressentimento? Sor Fé nunca soube. A verdade é que, presa à estrita obediência devida, com os óculos - como sempre na ponta do nariz e aguardando de esguelha o beneplácito para penetrar na capela e proceder a sua enésima maquiagem, surpreendeu-se a si mesma, incomodada por um "palpite" que começava a circular pelas artérias, advertindo-a.

De repente acreditou intuir a razão de tal desassossego tão inusitado. Saltava à vista. Aquele inesperado amarelo sobre o altar era algo inconcebível na ordem espartana de tão santa casa. E, confusa, procurou na sua memória.

Mas a modesta luz não se encaixava com suas lembranças. Há apenas cinco horas, ela mesma tinha sufocado os seis círios que escoltam o sacrário. Após a meia-noite, concluída a última e rotineira inspeção, a madre superiora - fazendo jus à sua merecida condição de "governanta" - tinha dado duas voltas na chave, fechando a capela.

Mas então...

Sor Fé não teve tempo de formular a inevitável pergunta. Foi sor Joana - imperativa e sem desviar o olhar do círio consumido - quem exigiu uma rápida explicação. A religiosa, perplexa, pigarreou, procurando um impossível auxílio no reiterado ajuste dos óculos dançarinos.

E para que teria servido o pedido de desculpas? Tudo conspirava contra ela. A não ser que...

Rejeitou a idéia. Aquele não era o estilo de Siwiz. Ademais, se a capela permanecera fechada, por onde...?

No seu cérebro borrascoso amanheceu uma segunda e não menos fraca teoria, desterrada com idêntica velocidade. "Aquilo" era ridículo. Só uma imaginação tão fértil e mundana como a sua poderia conceber tamanho despropósito.

Para que o primeiro e detestado secretário tivesse acesso ao interior - acendendo assim a vela solitária - teria sido preciso violar o descanso do Pontífice. E por duas vezes. Só existia uma comunicação discreta e camuflada com o flanco direito da abside. Mas, como é narural, ela só era utilizada pelo Santo Padre.

Tal desaforo - todos sabiam disso - não estava ao alcance nem sequer do poderoso Siwiz.

 

                     04 horas 49 minutos

Antes que pudesse pensar numa resposta, sor Joana ultrapassou o umbral, dissolvendo-se nas trevas que ameaçavam engolir a tímida e fraca chama. Sor Fé, sentindo-se mal, foi incapaz de segui-la. O inusitado gesto - quebrando o sacrossanto costume de permanecer sob o dintel - era suficientemente eloqüente. Alguém, em breve - certamente ela -, pagaria caro por este erro.

Mais do que ver, adivinhou a madre superiora caminhando sobre o mármore verde e branco, rumo ao altar. Acreditou distinguir sua figura esguia desviando-se pela esquerda da maciça e recurvada poltrona de bronze que complementa o reclinatório papal. Finalmente, graças à tênue luz da vela misteriosa, a negra silhueta da superiora tornouse medianamente perceptível.

Sor Joana subiu o degrau de vinte centímetros que praticamente divide a capela e, com a mesma decisão com que saíra do seu lugar na porta, foi diretamente ao encontro do círio. E, durante escassos segundos, a freira magricela e sua altiva touca recortaram-se hieráticas contra o halo branco amarelado. A proximidade de sor Joana foi acusada pela língua de fogo que se contorceu. E o "palpite" de sor Fé aumentou inexplicavelmente.

De repente a superiora girou a cabeça, com a atenção atraída por algo existente a sua direita. O breve perfil de sor Joana ficou provisoriamente desenhado sobre a luz. E assim permaneceu por um ou dois segundos. E sor Fé - acertadamente - imaginou que os seus privilegiados olhos cinzentos tinham acabado de detectar uma segunda e desgraçada anomalia.

A partir desse instante, tudo se encadeou numa confusa desordem.

Sor Joana rompeu a imobilidade e avançou um par de passos. Mas ao ultrapassar o centro do tabernáculo, deteve-se. Inclinou o tronco, como se tentasse certificar-se de algo e, logo depois, ante a perplexidade da vigilante irmã Fé, pulou para trás, batendo os rins na ara. Parecia que alguém a tinha empurrado violentamente. Naturalmente, essa seqüência tão enigmática - imprópria da imperturbável religiosa conseguiu desarmar os já debilitados ânimos de sor Fé. E o medo de piorar as coisas conservou-a no seu lugar.

Um gemido? Sim, poderia ser. Sor Joana abriu os braços, buscando apoio na borda do altar. E sem deixar de emitir aquele entrecortado e cavernoso som, foi deslizando insegura para a extremidade na qual piscava a nervosa vela. Mas antes de chegar à altura dela, afastou-se do mármore e, cobrindo o rosto com as mãos, cambaleou. Imediatamente sor Fé tornou a perdê-la na escuridão. Juraria que sor Joana tinha desmaiado. Um suor frio começou a escorrer por baixo da touca. Este foi o sinal. E obedecendo ao instinto, precipitou-se em ajuda da superiora.

Mas, quando apenas percorrera três dos cinco metros que a separavam da poltrona curva, um alarido pregou-a ao chão. E o "palpite" tornou-se fogo, abrasando suas entranhas.

Aterrorizada, lutou contra as trevas. Nunca escutara um grito tão dilacerante. Que estava acontecendo? Que ocorrera com sor Joana? Empurrou os incorrigíveis óculos para trás e, contendo a respiração, tentou avançar, sem saber muito bem para onde olhar. Mas o tremor nas suas pernas a obrigou a renunciar.

 

               04 horas 51 minutos

Um segundo. Silêncio. Três segundos. Silêncio.

A capela recuperou uma aparente normalidade. Mas aquele silêncio... Sor Fé, molhada de suor, inspecionou os difusos perfis. Seu coração, bombeando angústia e desconcerto, mudara de lugar. Agora batia na sua garganta.

Explorou as amplas horizontalidades do altar, detendo-se na verticalidade amarela da chama. E nessa fugaz e tensa espera tornou a perceber os gemidos sufocados. Partiam do tabernáculo ou de algum lugar muito próximo. Mas a escuridão e o encosto da poltrona curva tinham amuralhado a zona. Só lhe restava uma opção: desparafusar o medo dos seus pés e caminhar, rodeando o reclinatório. Era preciso eliminar as dúvidas e, sobretudo, auxiliar a desaparecida sor Joana.

E finalmente os chinelos começaram a deslizar sobre o piso. Mas um novo e sonoro lamento arruinou os últimos gramas de coragem. E, paralisada, pensou distinguir uma sombra, que emergira por trás do reclinatório. Lutou para articular o nome da superiora. Inútil. Os lábios e a língua - como se fossem de pano - não responderam. E um calafrio arrepiou os seus cabelos.

Tentou recuar. Pedir ajuda. Gritar. Impossível. O terror a desmembrara.

E antes de desmaiar, aquela sombra levantou-se e, entre gemidos roucos, jogou-se em sua direção.

Estendeu as mãos num gesto de proteção instintivo, mas o choque foi inevitável. E a religiosa, materialmente amassada por uma mescla de hábitos e sons guturais animalescos, caiu de costas, perdendo na queda a touca e os instáveis óculos. E ventre, peito e rosto afundaram sob uns pés descalços que, sem misericórdia, frenéticos e poderosos, afastaram-se correndo.

E o silêncio - espesso como a sua mente - caiu de novo sobre a capela.

 

                 04 horas 52 minutos

O frio contato com o mármore foi a sua primeira sensação coerente. Incapaz de alinhavar um só pensamento, tentou incorporar-se. Teve de desistir. Sor Fé não contara com aquela insuportável dor nas costelas. E com o zumbido do medo no seu cérebro, optou por se arrastar. Agarrou-se à cera antideslizante com a qual lustrava regularmente o piso, impulsando o corpo em direção à porta. E de costas, com a embaçada Visão do Cristo ressuscitado que presidia os vitrais do teto, começou a ganhar terreno. Nuca, cotovelos, mãos, nádegas, pés e coração tomaram-se uma coisa só, empurrados por uma idéia obsessiva: fugir. E em cada palmo, seus lábios imploravam o socorro da Senhora de Czestocowa. Mas de que estava escapando? Do silêncio? Das trevas? Daquele berro ou talvez do "ciclone" que a ferira e humilhara? E sor Joana?

 

               04 horas 54 minutos

Foi um golpe seco. Mas a suave dor de cabeça a confundiu. Se tivesse batido contra uma das quinas da porta dupla, o machucado teria sido mais grave. Testando o lado dolorido, girou sobre si mesma. Não se enganara. Efetivamente, encontrava-se no umbral. Desconcertada, lutou para identificar o obstáculo que se interpunha no seu caminho. Mas apesar de ele estar a um palmo do seu rosto, os nervos e a miopia galopante frustraram o reconhecimento. Ao apalpá-lo, sua angústia explodiu. E, abraçando os ásperos sapatos, caiu num pranto entrecortado e suplicante. Mas o muito humano desabafo da religiosa foi breve. Imediatamente, mãos suarentas e familiares tatearam o seu rosto e, implacáveis como ganchos, cravaram-se nos seus braços, levantando-a como uma pena. E sor Fé, suspensa no ar, acusou o impacto daquela nova violência. Não pôde mais conter as lágrimas. Mas subitamente emudeceu. Alguém acendera as luzes da capela e diante dela, como parte do caos que a envolvia, apareceu um Siwiz descontrolado, com o cabelo em desordem, sem se barbear e com os olhos redondos fora das órbitas. Sor Fé também não entendeu por que sua batina só estava meio abotoada.

Um segundo depois era empurrada violentamente. E a exausta religiosa teria caído se não fosse a rápida e feliz intervenção de sor Joana e das demais irmãs. A superiora, segurando-a pela cintura, arrastou-a até colocá-la numa das quarenta e seis cadeiras que enchiam uma terça parte da capela. "Gabi" resgatou os seus óculos e sor Eliza arrumou como pôde o longo e negro véu da touca. Mas a normalização da visão, longe de serenar o seu espírito, aumentou ainda mais a confusão. A cozinheira e a irmã ajudante precipitaram-se para o altar e a superiora, com o rosto pálido e fino como a proa de um navio, ajoelhou-se, enterrando a cabeça no colo da atônita sor Fé. Durante breves segundos, esta a sentiu estremecer. E o castigado coração da religiosa sofreu um novo golpe. As mãos de sor Joana, apertadas entre o hábito, apresentavam estranhas manchas vermelhas. Abrindo os dedos, confirmou a sua primeira impressão: sangue...

 

                   04 horas 57 minutos

Talvez tenham sido os gritos estridentes de sor Gabriela. Ou as rezas monocórdias de sor Eliza, misturadas com os histéricos chamados do primeiro-secretário, exigindo a presença de sor Joana. A questão é que a madre superiora acabou abandonando o refúgio momentâneo. E esfregando os olhos úmidos, obedeceu como um robô. As maçãs dos rosto e a face pintaram-se de sangue.

A perplexa sor Fé a viu afastar-se, juntando-se ao grupo que clamava e gesticulava junto ao altar. Aquele "palpite" inicial tornou a instalar-se nas profundezas da sua miúda pessoa, obrigando-a a reunirse com as suas transtornadas irmãs. E lentamente, medindo cada passo, desejando não chegar, foi aproximando-se das costas curvadas das três religiosas.

Seu primeiro olhar pelo meio das convulsas cabeças não serviu muito. E o que ela viu foi instantaneamente rejeitado pelo seu cérebro. Era impossível. Negava-se a aceitá-lo. E vítima da sua inata ingenuidade, atribuiu o problema aos malditos óculos. Imóvel, sem se atrever a baixar a vista, tentou rezar. Mas, incompreensivelmente, não pôde desgrudar os lábios. Na sua mente continuava viva aquela imagem impossível: a parte inferior de uma batina - não sabia se branca ou vermelha - e umas mangas negras borrando a cena. Tinha certeza que os braços pertenciam a Siwiz e à superiora. E apertando os dentes e suplicando clemência ao Todo-poderoso, jogou-se nos ombros de "Gabi", que estava ajoelhada, empurrando-a sem cerimônia.

 

                         05 horas

Sua boca foi se abrindo devagar. E após um pestanejar nervoso e incontrolável, quis tomar ar. Mas não havia ar. Pelo menos para ela. Notou que as suas pernas estavam falhando. E diante da grande poça de sangue sentiu uma pontada na boca do estômago. Uma primeira     ânsia ascendeu como uma onda.

Santíssimo Padre!

A voz suplicante de sor Joana chegou com dificuldade até a petrificada sor Fé. A segunda e a terceira ânsias de vômito estremeceram-na como uma boneca. Mas a religiosa continuou percorrendo com o olhar aquele corpo caído sobre o mármore. Reconheceu a sempre luminosa gola eclesiástica, agora encharcada de um vermelho cereja. O sangue cobria tudo: cabeça, costas, faixa, batina, tapete, piso e até o alto-relevo esverdeado estampado na parte frontal do reclinatório. O velho Pontífice jazia de bruços, com a face direita em contato com o pé semicircular do reclinatório de bronze.

Siwiz retirou os dedos indicador e médio do pescoço do Papa. Procurando os olhos da superiora, balançou negativamente a cabeça. A carótida não dera sinal de vida e as ânsias de vômito, incontroláveis, dobraram a frágil silhueta de sor Fé. Os vômitos precipitaram-se sobre os sapatos de verniz do Papa inerte.

 

                         05 horas 03 minutos

Então, ocorreu o milagre. Devagar, como se elas tivessem sido treinadas para isso, os lamentos das freiras cessaram. E durante um lapso que ninguém saberia medir, deixaram-se agasalhar pelo silêncio.

Joana dos Anjos, ajoelhada diante do rosto ensangüentado do seu amado Pontífice, lutava para compreender. Ela o encontrara na penumbra do altar. Tinha faltado pouco para que tropeçasse com ele. No seu desespero, chegou a segurar a sua cabeça, agitando-a e imaginando outro daqueles desmaios periódicos e preocupantes. Ao contato com o sangue, porém, pensou enlouquecer. E cega e alterada tinha buscado a ajuda de Siwiz, arrancando-o da cama. Tudo fora tão rápido e absurdo... E agora, impotente, encontrava-se junto aos olhos vidrados e estranhamente espantados de um homem que considerava pouco menos que imortal.

- Sor Joana...

A voz do primeiro-secretário - apenas um murmúrio - devolveu-a à realidade. A dureza habitual dos seus lábios com forma de ferradura, fugazmente extinta pela surpresa, esculpiu-se de novo no rosto de Siwiz. E sem afastar o olhar do coágulo montanhoso que atravessava a testa do seu pai e senhor, ordenou friamente:

- Avise a Segurança.

Ambos levantaram-se. Siwiz sem esforço. A superiora, cambaleante, como se tivessem lhe arrancado as entranhas.

Após um momento de dúvida, com o queixo dobrado sobre o peito aberto e imberbe, a mão do primeiro-secretário apontou para a porta dupla, dando uma segunda e inapelável ordem:

- Saiam todas vocês.

As religiosas, de pé, olharam-se sem compreender. Sor Gabriela, procurando os olhos da superiora, avançou um passo curto, demonstrando a intenção de intervir. Mas sor Joana, colocando o dedo indicador nos lábios, concordou com a disposição.

 

                   05 horas 07 minutos

Siwiz pegou o molho de chaves. Sor Joana, resignada, limitou-se a observar. Mas na primeira volta, a mão do polonês ficou imóvel na fechadura. Seus olhos de coruja voaram ao encontro da freira. Não houve palavras. A superiora, recordando a ordem, perdeu-se veloz pelo corredor. "Gabi", Eliza e sor Fé, indefesas ante o inóspito Siwiz, deixaram-no fechar a capela, precipitando-se atrás da madre superiora. Os véus e os hábitos, naquela que seria a sua derradeira corrida por aquele terceiro andar, fizeram piscar as luzes de emergência rasantes.

Na metade do escuro corredor, com cerca de vinte tilintantes chaves entre os dedos, o primeiro-secretário hesitou de novo, mas acabou optando pelo escritório mais próximo: o gabinete particular de Sua Santidade.

Desviando-se de três cadeiras de couro preto que rodeavam a mesa repleta, sentou-se diante dos telefones. A lista telefônica editada pelo Governatorato continuava aos pés do pequeno quadro da Virgem de Guadalupe. Folheou nervosamente as páginas azuis e procurou a extensão do secretário de Estado.

... 5098

Um tremor incontrolável e atrasado obrigou-o a segurar o fone branco com ambas as mãos. Como lhe pareceu longínqua naquele momento a borrascosa reunião da tarde-noite anterior, em volta daquelas grossas pastas de couro trabalhado!

No terceiro chamado, uma voz distorcida, bruscamente arrancada do sono, obrigou-o a pedir desculpas, acrescentando em seguida:

         - Eminência, suba imediatamente...

Monsenhor Angelo Rodano consultou o relógio. Entre as brumas da sua mente adormecida acreditou reconhecer o timbre agudo de Siwiz. Incomodado, desconfiando de um engano imperdoável, exigiu que se identificasse.

- Eminência, pelo amor de Deus... - O polonês não deu ouvidos ao pedido. Endurecendo o tom da voz e gaguejando, obrigou o monsenhor a afastar o telefone da orelha -. O Santo Padre... Oh Deus!, eminência, foi encontrado na capela...

Rodano ergueu seu corpo pesado... Sentou-se na cama, acendeu as luzes e procurou os óculos. A excitação de Siwiz acabou de acordá-lo. E o seu certeiro olfato de filho de camponeses abreviou a seqüência.

- Outro desmaio?

- Não, eminência. Há sangue por todos os lugares.

         - Mas...      .

Siwiz emudeceu.

- Morto?

Aquele segundo silêncio do fiel homem de confiança foi eloqüente. Atropelado pelas próprias idéias, Siwiz balbuciou:

         - Não posso assegurar... Acho que sim... Não compreendo... Por favor, suba...

 

Rodano sentiu a tentação de desligar e precipitar-se escada acima. Seu quarto, no segundo andar, estava a um par de minutos dos aposentos papais. Mas tentando controlar o imprevisível primeiro-secretário, optou por segurá-lo no telefone.

- Quem mais está a par?

- As freiras... Elas o descobriram. E agora, suponho, a Segurança. Angelo resmungou o seu desagrado, reforçando o sotaque piemontês. Mas, recuperando o controle, foi breve e rotundo:

         - Chame os médicos. Em primeiro lugar, Itenozzu. Eu me encarrego do camarlengo... E por favor, que ninguém toque em nada. .Entendeu?

 

                     05 horas 12 minutos

A luz azul, estrategicamente colocada no alto teto do corredor central, pôs Siwiz em guarda. Tinha de agir com rapidez. Em questão de minutos, a capela e todo o terceiro andar escapariam do seu controle.

E ele não estava disposto a obedecer à desumana ordem do secretário de Estado. O seu venerado senhor não seria alvo da curiosidade mórbida daqueles incompetentes prebostes vaticanos. Repugnava-lhe a idéia de cruzar os braços e esperar que outros autorizassem o levantamento do corpo. Que sabiam eles da sua longa e abnegada entrega? O Santo Padre era seu, de ninguém mais...

Mas seus pensamentos doentios e seu caminhar desajeitado foram bruscamente interrompidos. Observando a cena com desconfiança, tentou adivinhar o motivo daquela agitação entre as religiosas e os dois italianos que, teoricamente, velavam pela segurança do Papa. Um dos agentes, ignorando os protestos das freiras, tentava desbloquear a porta dupla da capela, empurrando-a impetuosamente com o ombro.

Ao reconhecê-lo no fundo do corredor, sor Joana correu ao seu encontro.

- Padre, querem derrubar a porta!

Siwiz não respondeu. Desviou-se da superiora e, babando, precipitou-se com os punhos levantados contra a torre humana que tentava entrar.

Na sua corrida enlouquecida trombou com sor Gabriela e, desequilibrado, rolou até os pés do segundo homem de azul. Um décimo de segundo depois, ao tentar se levantar, o primeiro-secretário sentiu a frieza redonda do cano de uma arma entre suas sobrancelhas espessas.

O agente que empunhava a Beretta 92-SB-F examinou os olhos volumosos e brilhantes de Siwiz. Mas a voz do seu colega, que renunciara à demolição da porta, fê-lo guardar a arma.

- Quieto!... E o senhor, padre Siwiz tranqüilize-se.

Sor Joana veio para socorrer o sacerdote, porém foi impedida. - E agora, por favor... abra a porta.

O primeiro-secretário compreendeu que não tinha opção.

 

                         05 horas 15 minutos

Siwiz deixou o par de guardas da Segurança precedê-lo. Numa familiaridade incomum dirigiu-se à superiora manifestando-lhe que preparasse tudo para o imediato asseio e transferência do Santo Padre. Sor Joana não perguntou nada, limitando-se a concordar. E assumindo as aparentemente humanitárias intenções, enviou as religiosas em busca do necessário.

O primeiro-secretário alcançou os agentes quando um deles, inclinado sobre o corpo, apalpava por trás da orelha esquerda, tentando confIrmar o que parecia evidente. A exploração foi breve. Aspirou profundamente. Ergueu-se e olhou significativamente para o colega. Extraiu um lenço do bolso direito da calça e, enxugando o suor, bufou como um búfalo encurralado. Balançou a cabeça negativamente e, com um desânimo mal dissimulado, pediu ao que apontara a arma para Siwiz que ligasse para o comandante.

Seu colega obedeceu em silêncio. Embora sua face estivesse pálida, aquele horror não parecia tê-lo afetado. Simplesmente, diante do fato consumado, limitara-se a exercer seu profissionalismo. Estudou o cadáver e seu entorno, partindo do geral para o particular. Em segundos as evidências foram dando forma a uma primeira e provisória hipótese. A posição do corpo, da cabeça e dos braços era eloqüente. Talvez o velho e castigado Pontífice tivesse escorregado ou sofrido outro desmaio quando se dirigia para o reclinatório, batendo contra a sólida e artística peça de bronze. A queda devia ter ocorrido a um metro - talvez menos - do degrau que sustentava o altar. O ventre e as pernas estavam nessa zona. A profunda ferida na testa e a própria disposição da cabeça, sobre o pé semicircular do reclinatório, encaixavam-se com a sua teoria do lamentável acidente. A escandalosa mancha de sangue na pata direita da águia que decorava a parte frontal do mencionado reclinatório falava por si só. À primeira vista, aquele parecia ser o ponto de impacto. Um choque tão brutal que projetara o sangue em forma de "estrela", atingindo a quase totalidade do sinuoso relevo metálico. As grandes asas abertas, o pescoço longo e curvo, a cabeça e o bico, o peito e as patas da simbólica ave estavam tingidos por aqueles respingos espetaculares. Até mesmo os dois filhotes esculpidos ao pé da "mãe protetora e solícita" estavam manchados de sangue.

 

A morte - pensou ele - deve ter sido instantânea. Mas por enquanto estas apreciações permaneceram no seu foro íntimo. Conhecendo como conhecia o intrincado e pantanoso proceder da cúpula vaticana, o mais provável é que o óbito e suas circunstâncias fossem drástica e velozmente "explicados", evitando a todo custo uma investigação profunda. Que outra coisa podia ser esperada diante do desagradável precedente que rodeou a morte do seu antecessor, o papa Luciani?

Com nojo, deu meia-volta, apressando-se a comunicar a notícia. Não fazia falta muita imaginação para intuir o despertar de Camilo Chíniv, seu comandante e chefe dos Serviços de Segurança do Vaticano. Amaldiçoou novamente seu desgraçado destino...

 

                      05 horas 19 minutos

Desta vez, rompendo o seu proverbial distanciamento, Siwiz apressou-se a auxiliar as religiosas. Ao vê-las aparecer na capela, presa de um suspeito nervosismo, arrebatou a jarra de porcelana trazida por sor Eliza e, em polonês, ordenou que se colocassem em volta do Santo Padre. E, empurrando sem cerimônias o atônito agente, ajoelhou-se a um palmo do rosto quase irreconhecível do Papa. As freiras, com lençóis, esponjas e bacias nas mãos, não souberam como reagir. Estupefatas, assistiram a outro gesto, inimaginável naquele coração de gelo. Siwiz arregaçou as mangas e, pegando uma das esponjas, encharcou-a de água. Decidido, dirigiu-a para o grande coágulo que dominava a zona frontal. Mas não chegou a tocar o ferimento. Uma mão imensa e curtida. - que teria podido abranger o seu pescoço - enroscou-se no seu antebraço direito. E puxando o primeiro-secretário, forçou-o a erguer.

- Padre, o que está pretendendo fazer? Será que se esqueceu de minhas ordens?

Os minúsculos lábios do sacerdote acentuaram sua curvatura, ninguém sabe se pela dor ou pela frustração. E antes de elevar-se para os óculos quadrados e esportivos que aguardavam uma resposta, suas pupilas cinzentas detiveram-se na dourada cruz cardinalícia de doze centímetros que brilhava sob a batina preta. Na sua ascensão até o final daquela ofegante figura de 1,85 metro, também reparou nos três botões vermelhos e na gola imaculada que apertava o inconfundível pescoço de touro do secretário de Estado.

Na verdade, monsenhor Rodano não esperava nem precisava de uma explicação. Havia anos conhecia e padecia com o rebelde chicote que se agitava naqueles olhos. Intuindo alguma maquinação secreta e irreparável do primeiro-secretário, jogara-se da cama e, sem acabar de se vestir, sem fazer a barba porém tendo o cuidado de colocar o solidéu escarlate de seda e a cruz com as seis incrustações de águamarinha, subiu de dois em dois os vinte degraus que o separavam do terceiro e nobre andar.

- Retire-se... por favor.

Aos sessenta e sete anos, apesar da quadrada fortaleza – mais própria de um ringue que de um diplomata a serviço do Espírito -, aquela corrida febril até a capela e o uso momentâneo da coerção física diminuíram notavelmente as sempre generosas reservas de paciência de Angelo Rodano. Sua voz, habitualmente repousada, profunda e varonil, precisou de tempo, esforço e concentração para recuperar o ritmo habitual.

Dirigindo-se às abatidas freiras deixou claro que elas também deviam seguir os passos de Siwiz. Corrigiu rapidamente, porém, e pediu que a superiora ficasse. Sor Joana cochichou brevemente ao ouvido de "Gabi”. Logo depois, enquanto as religiosas cabisbaixas pegavam de novo os seus utensílios e se retiravam, cruzou as mãos sobre o ventre, disposta a obedecer. Mas o piemontês pareceu esquecer suas últimas palavras, a madre superiora e tudo aquilo que o circundava. Situando-se na beira do tapete persa avermelhado sobre o qual jaziam os braços e o tronco do Santo Padre, cuidando para não pisar na imóvel poça de sangue, permaneceu estático, com a cabeça baixa, as mãos desmaiadas ao longo da ampla batina e seus atraentes olhos velados por uma piedade infinita. E, pela primeira vez naquela infausta madrugada, alguém se lembrou da alma daquele infeliz. Deixando-se cair lenta e respeitosamente, Rodano foi dobrando os joelhos até ocupar o lugar no qual surpreendera Siwiz. Juntou suas mãos de lenhador, elevou-as até pressionar a ponta do nariz e, fechando os olhos, isolou-se numa prolongada e intensa oração.

Sor Joana, contagiada, imitou o monsenhor. Seus puxados olhos azuis encheram-se de lágrimas. Só o homem do temo azul permaneceu de pé, inquieto e sem se atrever a violar com os seus passos impacientes aqueles momentos de respeitoso silêncio.

 

                       05 horas 24 minutos

Angelo abriu os olhos. Abaixou as mãos e, após uma segunda e comovida inspeção do cadáver, decidiu enfrentar a caravana de perguntas que aguardava no seu subconsciente desde que fora acordado às 5h08. Os médicos, o camarlengo, o chefe da Segurança e todos os outros não demorariam. Era primordial manter a calma e agir com bom senso. Mas... por onde começar?

Reparando nos dedos entrelaçados da madre superiora, optou por ajustar-se ao que concebera pouco antes, quando rogou que sor Joana permanecesse ao seu lado. Nada mais longe da sua mente jesuítica que abrir um inquérito em momentos tão delicados. No entanto, necessitava de informação. Aproximando-se da religiosa, convidou-a a se erguer. Segurando-a pelo braço, afastaram-se discretamente até a porta dupla, e ele a convidou a reconstituir o achado macabro. Com a voz quebrada e sufocada, sor Joana iniciou o relato, simplificando as primeiras inspeções na cozinha e na sala de jantar.

- Quer dizer então que a senhora abriu a capela às 4h45?

A submissão militar daquela polonesa ao relógio era um segredo conhecido por todos no Palácio Apostólico. Por isso, monsenhor não duvidou da sua precisão.

- Em que momento ela foi fechada?

A superiora franziu a testa. A pergunta era desnecessária: Rodano era testemunha da sua severíssima pontualidade. Ela replicou incomodada:

- À meia-noite. Vossa eminência sabe muito bem...

E tingindo as palavras com um azedume justificado, acrescentou: - Eu mesma, como sempre, dei duas voltas na chave.

- Sim, compreendo... Desculpe.

O secretário de Estado assimilou a resposta no velho estilo curial - sem deixar transparecer nenhuma emoção - e prosseguiu com o que realmente interessava: a análise minuciosa das declarações da testemunha.

Conforme a escutava, um súbito detalhe - no qual não reparara até aquele momento - foi polarizando os seus pensamentos. Não sabia bem por que, mas a imagem do corpo do Papa, com a roupa que usava habitualmente, fizera soar seu alarme interno. Alguma coisa não estava se encaixando. Ele, pelo menos, como bom conhecedor dos costumes domésticos do Pontífice, não conseguia explicar essa indumentária tão incomum para uma suposta visita noturna à capela. Conhecia perfeitamente essas assíduas visitas. Neste, como em outros aspectos, o seu "serviço de informação" especial o mantinha a par da menor alteração detectada no teoricamente inviolável terceiro andar. No Vaticano, como em qualquer outro centro de poder, quase todas as lealdades, assim como o mercúrio, eram sensíveis ao calor do dinheiro.

Sabia também que naquelas semanas críticas as "audiências" do Santo Padre com Deus tinham se multiplicado. Era rara a noite em que não abandonava o seu grosso colchão de lã para refugiar-se no reclinatório ou gemer tristemente ao pé do altar, quase sempre prostrado, trêmulo e gesticulador.

Nao importava que a porta dupla estivesse trancada. Sua eminência não ignorava a existência do acesso secreto através da abside. Ele mesmo o inspecionara diversas vezes, durante as longas ausências do Papa viajante. E seu "informante" - taxativo - assegurava que as incursões noturnas- à capela dificilmente se produziam com batina de linho, a incômoda faixa de seda e sapatos de uso diário. O normal é que o Papa cobrisse o pijama com um dos seus apreciados roupões e calçasse algum chinelo que combinasse com o mesmo. Era desta forma que ele se sentia mais cômodo.

Mas admitindo que poderia estar enganado, eclipsou temporariamente essas elucubrações. Repassando em voz alta a atropelada descrição de sor Joana, comentou:

- Então a senhora encontrou o corpo às 4h50...

A freira, tensa e na expectativa, limitou-se a assentir.

- Tem certeza de que a posição do Santo Padre era a mesma? Confusa, ela hesitou:

- Aparentemente...

O rosto do secretário exigiu precisão.

- Sim - acrescentou a "governanta" -, foi assim que o descobri, com a metade do corpo sobre o piso do altar, a cintura na beira do degrau e a cabeça no pé do reclinatório.

- Mas a senhora disse que o segurou pelos ombros e tentou         reanimá-lo.. .

         - Sim... e não.

         Apesar do seu italiano fluente não captou a refinada sutileza do monsenhor.

         - Não pude movê-lo. Pesava demais. Limitei-me então a tatear seu rosto. Senti que ele estava úmido e, como poderia dizer...

O cinza dos seus olhos apagou-se. Inspirou e, reagrupando as forças, concluiu:

- Talvez sujo. Uma sujeira anormal. Pegajosa. Muito assustada, balancei a sua cabeça.

- Por quê?

- Pensei que fosse outro dos seus desmaios. O senhor sabe... Tentei acordá-lo.    .

Rodano, impassível, repetiu a carga:

- Isto é, não o moveu...

         Embora tarde, sor Joana compreendeu a natureza da insistência.

Como resposta, sustentou o olhar de Rodano, desafiadora. Mas seu interlocutor descera às profundezas de si mesmo. Continuava fá e a observava. Sua mente, porém, corria pelo labirinto da memória, à caça das recordações da noite anterior. Tinha de estar em alguma parte. Tinha de achar o "fragmento" que justificasse por que o Santo Padre não mudara de roupa.

Rememorando, reconstruiu o perfil da sua última entrevista com o Pontífice. Pouco antes do jantar, cumprindo as ordens do seu chefe,

 

Siwiz o convocara ao gabinete privado. Lá, às 21 horas, reuniu-se com Sebastiano Bangio, o camarlengo. A reunião, que se estenderia até as 22h30, contraiu seus nervos. E, impotente, teve de assistir uma azeda e lamentável luta dialética entre um Papa obstinado e um Bangio colérico e ameaçador. Como era de esperar, o impulsivo camarlengo pôs um ponto final nas suas diatribes e exigências com o estilo que o caracterizava: batendo a porta ao sair.

Aí diluía-se a informação de Angelo Rodano. As 22h45, fiel ao seu hábito, o Papa trancou-se na capela, finalizando a jornada de trabalho. Ao despedir-se no corredor, os seus olhos lançavam chamas. Era o presságio da iminente execução de desejos aos quais Bangio e ele mesmo se opunham. Ordens - mais do que desejos - de conseqüências imprevisíveis para o mundo ocidental... De certa maneira comungava com o.impulsivo camarlengo, embora detestasse o seu comportamento primitivo.

As 23 horas, o teimoso polonês conversou brevemente com o primeiro-secretário, fechando-se em seu quarto. Se suas informações eram fidedignas, a partir desse momento ninguém o tornara a ver. Os fatos, portanto, fossem eles quais fossem, tinham ocorrido entre a meia-noite e as 4h50.

Por mera dedução, Rodano sentiu-se inclinado a pensar que o Papa não tinha chegado a trocar de roupa. Vítima, sem dúvida, da tensão acumulada na mencionada reunião secreta, é possível que tivesse tentado serenar o seu espírito atormentado nos espartanos muros do quarto. Como não o conseguira, numa reação compatível com a sua visceral devoção mariana, ele pode ter penetrado de novo no templo escuro com o propósito de encomendar-se à sua inseparável Czestocowa.

Foi então que ele desfaleceu, batendo contra o bronze? Ou teria escorregado ou tropeçado, com conseqüências similares?

Naturalmente, esta hipótese admitia outra variável: que o Pontífice realmente tivesse mudado de roupa. Ou até mesmo que tivesse chegado a se deitar. Mas neste caso, como explicar a indumentária com a qual fora encontrado? A única resposta coerente forçava-o a admitir que - talvez por causa da insônia - saíra do leito e, alta madrugada, tenha optado por se vestir, adiantando assim a sua primeira e tradicional "audiência" com o Santíssimo, prevista para as 6 horas. Ou seria melhor pensar numa repetição das suas crises emocionais?

Inesperadamente, na memória do monsenhor tilintaram duas palavras. Devido à força dos acontecimentos, quase as perdera na tormenta de areia que assolava seu cérebro.     .

"Capela escura?"

Aparentemente estava enganado. Sor Joana - de passagem - acabara de se referir a um pequeno e pouco importante incidente que o forçou a refletir: o achado de um círio aceso.

Contrariado pela sua falta de atenção, saiu do mutismo no qual elaborara pensamentos e conjeturas, interrogando a superiora sobre a chama misteriosa e intrigante.

- Não posso acrescentar grande coisa, eminência...

E ponto por ponto repetiu o que sabia. Mas o dilema, longe de resolver-se, criou asas, obscurecendo o já lastimável ânimo de Rodano.

Se as cuidadosas freiras tinham apagado os seis círios do altar e o secretário não desconfiou da palavra da religiosa, quem era o responsável por essa ação? O próprio Papa?

A freira, decidida, rejeitou a sugestão lógica:

- Ele nunca fazia isso. Sua Santidade gostava de orar no escuro. - Mas então...

 

                     05 horas 29 minutos

O ruído de passos apressados o preveniu, e Angelo Rodano emudeceu. Logo após, cinco rostos tensos detiveram-se sob o umbral. Ofegantes, procuraram alguma resposta nos olhos do secretário de Estado. Camilo Chíniv, chefe da Segurança Vaticana, foi o primeiro a compreender que a pressa já era um luxo estéril. Em décimos de segundo - após uma vertiginosa viagem às pupilas opacas do monsenhor conscientizou-se da situação com a ajuda dos seus quarenta anos de comprovada sabedoria profissional. Ao seu lado, Renato Itenozzu, diretor do Serviço Sanitário do Vaticano e um dos médicos que atendia ao Pontífice, com o cabelo molhado numa simulação de asseio, tinha a incredulidade desenhada no seu rosto quadrado, bronzeado e venerável. Os cabelos brancos pouco domesticados diminuíam o horizonte da sua testa larga e nobre, traindo a sua parcimônia habitual. Por trás viam-se os nós das gravatas escuras dos homens da Segurança, também arrancados do sono.

Respeitosos, sabedores de que aquele prelado que lhes impedia a passagem era, antes de mais nada, o vice-pontífice, controlaram a sua ansiedade. Camilo, previdente, desabotoou a jaqueta. O doutor, menos treinado, mudou nervosamente de uma mão para a outra a pequena maleta de "emergências".

Finalmente, a voz controlada de Rodano - navegando de um para o outro com uma suavidade que os tonificou - anunciou:

- Senhores, agora somos nós que necessitamos de paz e juízo... E afastando-se, deixou-lhes livre a entrada.

Seguido pelo agente que o informara da situação, Chíniv foi diretamente ao encontro do policial que estava vigiando na extremidade esquerda do altar.

 

Itenozzu titubeou. Deteve-se entre as fIleiras de cadeiras e colocou os óculos. Ao descobrir no chão a manga esquerda do Pontífice modificou o rumo, encaminhando-se para o flanco direito da poltrona curva.

Os outros dois homens de azul colocaram as mãos nas costas. Abriram as pernas e tomaram posição frente aos dintéis, cobrindo a porta dupla. A ordem era terminante: o acesso estava proibido até nova ordem.

O secretário de Estado, assegurando-se de não ser escutado pelos agentes à espreita, inclinou-se para a touca da superiora, murmurando algumas palavras. Sor Joana entendeu. E aceitando a cumplicidade do monsenhor, desapareceu pelo corredor, em direção ao quarto do Papa.

Angelo consultou o relógio. Cinco e meia. Vociferando consigo mesmo diante da demora do cardeal camarlengo, foi se reunir com Chíniv e os outros. Minutos depois agradeceria à Providência o atraso de Bangio.

O zíper do velho estojo cor de azeviche interrompeu o colóquio do comandante com os seus homens. E todos, incluindo Rodano, desviaram o olhar para o trêmulo médico, que se ajoelhara. Chíniv ficou com pena dele. Paulo VI, João Paulo I e agora o polonês... Era muito azar. Tinha sido obrigado a auscultá-los... depois de mortos.

O agente da Beretta e o que quisera arrombar a porta concordaram num mesmo pensamento: a inutilidade da operação que estavam a ponto de presenciar. Na sua opinião, era suficiente atestar o óbito. As circunstâncias que o rodeavam eram o que chamava a atenção. Mas eles eram apenas funcionários da máquina do Vaticano. Engrenagens que raras vezes giravam de acordo com o sentir dos comuns mortais.

Quanto ao piemontês, imóvel aos pés do cadáver, contentou-se com esperar. Seus longos anos na trincheira da diplomacia da Santa Sé tinham-no ensinado a pronunciar-se sempre em último lugar. Observaria. Escutaria as impressões de Chíniv e Itenozzu e depois - quem sabe - faria ou deixaria fazer. Intimamente desejou que todos se mostrassem unânimes. E que aquele cálice amargo fosse bebido o quanto antes. O veredicto de "morte acidental" seria suficiente.

Viu o médico colocar os dedos no pulso esquerdo. Não havia pulso. O comandante deixou que Itenozzu colocasse o estetoscópio e seus olhos escuros movimentaram-se felinamente, saltando da primeira auscultação, no pescoço, para a segunda, abaixo da omoplata esquerda. Depois, mecanicamente, seu interesse transferiu-se para o rosto absorto do médico. Itenozzu não ergueu a vista. Não era preciso. Chíniv sabia que, se tivesse detectado algum sinal de vida, o estetoscópio teria pulado dos ouvidos do galeno. Após o primeiro e embaraçoso minuto,

o chefe da Segurança alisou com ambas as mãos sua cabeleira prateada. Tinha chegado a sua vez. Fiéis às instruções recebidas, seus dois homens começaram a agir com incrível lentidão. O da pistola ocupouse da inspeção ocular da área do altar. O segundo, do fundo da capela. Por outro lado, o chefe, sentindo o peso do olhar discreto porém certeiro do prelado, deu uns passos tímidos. Desceu o degrau e, como se estivesse distraído, começou a rodear o tapete de 2 metros por 1,80, sobre o qual estavam o reclinatório e a poltrona.

Que deviam encontrar eles? Como bons profissionais, nem tinham formulado essa pergunta. Possivelmente nada. Com duas olhadas, Chíniv intuiu que, desta vez, a causa da morte não quebraria a sua cabeça como no caso "Luciani". Mesmo assim, da mesma forma que os seus

homens, pôs mãos a obra. .

Deteve-se a cinqüenta centímetros do reclinatório. Embora a sua invejável memória fotográfica tivesse acabado de registrá-lo, quis examiná-lo de perto. Dobrou o joelho esquerdo e concentrou-se na massa disforme e coagulada que cobria a coxa e o tarso direitos da águia. Partindo dessa mancha principal - metódico e inexorável -, foi explorando a totalidade do artístico alto-relevo. Contou quinze rastilhos compridos, dezenas de trajetórias menores e um gotejamento perfeitamente satelizado. A imagem global na parte frontal do reclinatório não deixava lugar a dúvidas. Sobre a mencionada pata, a uns trinta e seis centímetros do tapete, produzira-se um único e violento impacto. Encadeando os pensamentos, deixou suas mãos nervosas descansar sobre o joelho flexionado. E imerso na hipótese da queda fez seus olhos deslizar pelo bloco de bronze. Continuou por cima do Papa caído e, concluindo pelos sapatos, sua deformação profissional desenhou a figura do Pontífice, de pé e perdendo o equilíbrio. A seqüência seguinte tão simples como a anterior - fortaleceu suas suspeitas. E "viu" o momento do golpe e o Santo Padre, morto instantaneamente, caindo. A posição do corpo - decúbito ventral -, com os braços rodeando o pé semicircular do reclinatório, era eloqüente. Tal como fora informado por telefone, as peças pareciam encaixar-se perfeitamente. Considerando o peso, uma velocidade mínima de deslocamento, a distância entre o ponto em que ocorrera a infeliz perda de equilíbrio e a natureza metálica do objeto contra o qual o corpo batera, o afundamento da zona frontal média e suas conseqüências fatais foram considerados logicamente inevitáveis por Chíniv.

O comandante - abandonando a invisível arquitetura das hipóteses - foi magicamente atraído pelo tenso e expectante Rodano. E embora a comunicação muda fosse excelente, nenhum deles caiu na tentação de manifestar-se. O secretário de Estado continuou à espera, tentando decifrar os hieróglifos esboçados pelos tubos de borracha em cada atenta auscultação. Chíniv, novamente de pé, foi reclamado em silêncio pelo agente que circulava pelo altar, meio oculto pelas costas do prelado. E as sobrancelhas agressivas e luciferinas do chefe da Segurança adquiriram vida. Mas logo depois as sobrancelhas e as pulsações voltaram ao normal. Devorou à distância o chinelo preto que aparecia suspenso entre os dedos do policial e, em dois passos, abordou o subordinado, fazendo desmoronar a tranqüilidade artificial do monsenhor.

O exame, vertiginoso, prendeu a imaginação das três confusas testemunhas. Chíniv fez o calçado girar e procurou sem saber o quê. O material, de feltro, não apresentava nenhuma particularidade. Não estava rasgado nem tinha vestígios de sangue...

Instintivamente, o homem de azul e o seu chefe verificaram os pés do Pontífice. Tal como tinham detectado nos primeiros reconhecimentos, ele estava corretamente calçado.

- Parece de mulher...

Chíniv renunciou a comentar a sugestão sussurrante e verossímil do agente, mas não porque discordasse. Mentalmente, tinha calculado o número em "trinta e sete ou trinta e oito". A razão do seu silêncio foi outra. Aquela "peça" inesperada - como um macaco pneumático - tinha acabado de abrir o seu cérebro, desestabilizando a cômoda teoria de uma morte por queda.

Em compensação, os pensamentos de Rodano iam em outra direção. Sem entender por que, o chinelo levou-o àquele outro enigma que ainda não mencionara à Segurança: a solitária chama do altar, agora degradada pela claridade da capela. Pouco faltou para que relatasse a sua inquietação, mas frustrando os vacilantes desejos do prelado, Chíniv tomou a iniciativa. Devolveu o inoportuno calçado ao agente e com uma leve indicação ordenou-lhe que o restituísse ao lugar onde o encontrara. Sem maiores comentários, deu meia-volta e retomou seu trabalho.

Também Angelo pareceu desligar-se do insólito achado, em benefício do médico. Concluída a sexta ou sétima auscultação, este abandonou lentamente o estetoscópio. Dobrou-o, colocou-o no estojo e finalmente decidiu-se a falar:

- Eminência, não há dúvida possível.

Chíniv, entretido no exame do veludo verde-maçã que amortizava a dureza do assento curvo, levantou-se. E sem afastar os olhos da poltrona, registrou cada sílaba, pausa e inflexão do breve discurso de Itenozzu.

- Não se detectam batidas cardíacas...

Ajoelhado, com o timbre de voz abaixo do seu nível habitual, com a derrota humilhando a cabeça altaneira e a vista perdida no rosto ensangüentado, evitando o confronto direto com Rodano, um Itenozzu perdido e irreconhecível começou a enumerar o fruto das suas primeiras observações.

 

- Os centros circulatórios e respiratórios carecem de atividade. O único ferimento visível, com afundamento do osso frontal, parece identificar a causa da morte...

Itenozzu ficou em silêncio. Estendendo os dedos até tocar a mão esquerda do Pontífice, isolou-se numa dramática simbiose com a morte. Retirou as pontas dos dedos e repetiu a operação, apalpando diversas vezes a única face acessível - a esquerda -, bem como os lábios, queixo, mandíbula e músculos do pescoço.

Finalmente, após um suspiro sonoro que deixou em suspense o

abatido monsenhor, continuou seu veredicto:

- Ainda está quente. No entanto, sem uma leitura adequada da temperatura retal é impossível estipular o grau de esfriamento...

O secretário de Estado, consumido pela impaciência e temendo que a exposição desembocasse na hermética terminologia médica, interrompeu-o sem cerimônia:

         - Por favor, doutor... Explique-se.

         Renato Itenozzu aproveitou a interrupção para afastar-se do cadáver, demonstrando alívio. Observou o comandante acariciando a superfície aveludada do solidéu papal, aparentemente esquecido em cima do assento da poltrona curva. Mas Chíniv não olhou para ele. Colocando-se então ao pé do degrau, o médico tentou agradar o prelado.

- Numa temperatura ambiente não extrema (como neste caso), um cadáver vestido costuma esfriar cerca de um grau e meio por hora durante as primeiras seis horas. Nas seis seguintes, esse ritmo de perda pode oscilar entre um e um grau e meio. Em outras palavras, de acordo com a temperatura desta capela, o corpo do Santo Padre deveria estar totalmente frio após doze horas. Neste momento, como já disse, ainda está quente. No entanto, para medir com exatidão é preciso introduzir o termômetro no reto...

- O senhor dispõe de informação suficiente para precisar o momento do falecimento?

O médico esboçou sorriso benevolente.

         - Não, eminência.       .

E antecipando-se à pergunta seguinte, resumiu-lhe os parcos resultados do seu exame.

- Neste momento não são observados sinais claros de rigidez cadavérica. Como o senhor certamente sabe, a rigidez cadavérica, numa situação como esta, geralmente surge cerca de cinco horas após o óbito. Primeiro no rosto, maxilar inferior e pescoço...

Rodano e o chefe da Segurança fizeram rápidos cálculos mentais. Só se a morte tivesse ocorrido por volta da meia-noite agora estariam diante dos primeiros sintomas de rigidez cadavérica. Insatisfeitos, renunciaram às especulações.

 

- Quanto à rigidez cadavérica - prosseguiu Renato -, sinceramente, é difícil...

O velho diplomata - atraído pelas explicações do médico - perdera de vista os movimentos do paciente e indomável Chíniv em volta do reclinatório papal. Se tivesse prestado atenção a eles, também teria ficado tenso. Porque subitamente seu queixo de buldogue caíra, e as sobrancelhas tinham se erguido.

- Geralmente - simplificou Itenozzu - a lividez da pele começa uma ou duas horas após a morte, atingindo o seu apogeu em cinco ou seis horas..

Rodano apressou-o.

- Quero dizer, eminência, que o exame e estudo das lividezes podem esclarecer sobre o momento em que se produziu o desenlace fatal e também sobre a posição do corpo naquele instante. Como estava dizendo essas manchas características são resultado da distensão passiva por sangue dos vasos inertes das partes baixas...

- Renato, por favor...

O médico, acossado, deixou de lado, com mau humor, o seu academicismo habitual.

- É arriscado, eminência. Parte do rosto apresenta uma sombra que, na minha opinião, pode estar ligada à lividez. Mas há sangue demais..

Como um junco, Chíniv dobrou-se sobre o apoio de braço do reclinatório. Desta vez a brusca manobra entrou totalmente no campo de visão do prelado. Surpreso, desviou o olhar, deixando Itenozzu sem interlocutor. O chefe da Segurança imobilizara a proa do seu nariz a pouco mais de quinze centímetros do veludo cor de maçã que recobria o reclinatório.        .

- A forte hemorragia e os coágulos dificultam a exploração...

Preso ao perfil pétreo do comandante, Rodano ouviu porém não escutou.

Chíniv recobrou a verticalidade. Alisou o cabelo e, durante um segundo, manteve a forte pressão sobre os parietais. E seu queixo caiu       pela segunda vez.

         O monsenhor intuiu alguma coisa.

         - Levando em consideração a posição do crânio, com a face direita pressionando sobre o bronze, é muito possível que a falta de lividez nesse ponto confirme aquela que suspeitamos ser a postura original do corpo...

         Era inútil. As palavras do médico soavam como zumbidos de mosca nos ouvidos do prelado.

         O secretário de Estado presumia conhecer as pessoas que o rodeavam. E sua vinculação com o chefe da Segurança e Vigilância Vaticana - estreita, longa e confidencial - colocava-o numa posição privilegiada na hora de "ler" e interpretar os gestos, silêncios, distâncias e até a imobilidade de Camilo Chíniv. O comandante - e Rodano não o ignorava -, tanto por temperamento quanto por profissionalismo, era econômico em palavras e gestos. Até numa situação limite como aquela, sua robusta silhueta procurava sempre a discrição. Só alguns tiques muito particulares do rosto e das mãos podiam alertar aqueles que o conheciam bem. E Angelo Rodano era um destes privilegiados...

- É importante, eminência, que eu seja autorizado a remover o cadáver.. .

Itenozzu interrompeu suas palavras. Os olhos e os pensamentos do cardeal tinham-no abandonado...

Chíniv deu as costas ao monsenhor e, com pressa, voltou para trás, detendo-se no lado oposto do reclinatório. Angelo esforçou-se em vão para entender aquela absurda mudança de lugar. Na sua opinião, os setenta centímetros de estofado do apoio de braço podiam ser perfeitamente abrangidos de qualquer uma das extremidades.

- Eminência, posso contar com a sua permissão?

O chefe da Segurança tomou a inclinar-se.

- Eminência...

O prelado ouviu o tímido chamado do médico. Descruzou os braços e lentamente, sem deixar de observar Chíniv, abriu-os à altura da cruz peitoral. E movendo as mãos, transmitiu-lhe calma.

Camilo colocou as mãos nas costas e conteve a respiração. Seu rosto, mais uma vez, planou sobre o veludo do apoio de braço. E forçando os músculos abdominais, abaixou-se até quase encostar no estofado.

E médico e prelado - estupefatos - viram-no colocar a língua para fora. Durante segundos manteve-a em contato com a superfície do estofado macio. Evidentemente esperava algum tipo de confirmação. Repetiu o gesto incomum duas vezes mais e, dando por concluído o teste, endireitou-se lenta e preguiçosamente. Seus olhos - absortos numa idéia pouco agradável - permaneceram fixos. Opacos.

Rodano e Chíniv interrogaram-se com o olhar.

Dando um passo para trás, Chíniv foi em busca do agente que continuava "passando um pente fino" na área do altar.

Foi inevitável. O comandante ignorou Itenozzu, mas não pôde evitar as facas lançadas pelo vice-pontífice. Um negro relâmpago saltou de um para o outro. Nesse instante, Rodano ficou sabendo que tudo mudara. Deviam preparar-se para enfrentar a descoberta do chefe da Segurança. E prudentemente concedeu-lhe e se concedeu uma margem de tempo.

O homem de azul reuniu-se com Chíniv, e ambos caminharam ao encontro do agente que estava examinando as fIleiras de cadeiras. Conversaram brevemente e logo depois retomaram ao reclinatório, rodeando-o. E seus olhos, como falcões, abateram-se sobre o apoio de braço verde.

Depois disso, diante da expectativa crescente dos mudos espectadores, aquele que investigara o fundo da capela descalçou-se. E cuidadosamente, caminhando na ponta dos pés sobre o tapete, deslizou pelo espaço diminuto que separava a poltrona do reclinatório. Imitando o seu chefe, estabilizou o seu imponente corpanzil com o auxílio das mãos estrategicamente comprimidas aos joelhos dobrados, e dobrouse em direção ao misterioso estofado. Passeou a vista pela estreita faixa de tecido e levantando-se, após uma breve meditação, confIrmou a descoberta e as suspeitas do comandante com um movimento afirmativo da cabeça.

Rodano estremeceu. Seu imperturbável amigo Camilo Chíniv tinha acabado de alisar a cabeleira branca pela terceira vez...

 

                   05 horas 40 minutos

Foi uma decisão complicada. Mas Chíniv - embora fosse obrigado a nadar entre as intrigas vaticanas - era acima de tudo um profissional honesto. Agora ele falaria. Se depois, como ocorrera com o papa Luciani, seu parecer fosse "silenciado", pelo menos ficaria livre de toda responsabilidade.

O secretário de Estado acedeu imediatamente, e em companhia do comandante iniciou um passeio que, como intuíra, escureceria ainda mais aquele turvo amanhecer. Dispôs-se a escutar o que, de certa forma, já imaginava.

As explicações de Chíniv - diretas e sólidas - prolongaram-se durante um minuto e meio. Afundando inexoravelmente nas areias movediças daquelas evidências, Rodano limitou-se a apertar a grossa corrente de ouro pendurada no seu pescoço de lavrador.

Quando o chefe da Segurança acabou de falar, imóvel junto à porta dupla, Rodano balbuciou a meia voz:

         - Tem certeza?

         A resposta de Camilo Chíniv esboçou-se primeiro na sua mandíbula de buldogue. Ela caiu e, forçados pelo desânimo, os lábios arquearam-se.

         - Noventa por cento, eminência.

         E aproveitando o momento de confidências, atreveu-se a acrescentar:

         - Com sua permissão, aconselharia a abertura imediata de um inquérito...

         Rodano, confuso, protegeu-se instintivamente:

- Mas, Camilo... Uma investigação policial...

As pupilas do comandante resistiram à abordagem. E as longínquas imagens do "escândalo Luciani" ressuscitavam nitidamente, sem necessidade de palavras, como um "Lázaro" que regressasse para saldar contas. O espírito do prelado ficou tenso como um arco. Sem misericórdia, Chíniv enfiou a faca até a bainha:

- Eminência, use a memória. Quer ser lembrado e desprezado como um segundo Villot?

Mas o destino - piedoso - aliviou o já mortalmente ferido secretário de Estado.

Uma voz familiar trovejou do outro lado da porta. Os interlocutores trocaram um olhar de trégua.

- Conceda-me alguns minutos - suplicou Rodano.

Chíniv deu de ombros, distanciando-se até o reclinatório.

Ao entreabrir a porta dupla, Angelo suspirou resignado. Ao vê-lo, o cardeal Bangio cessou com suas imprecações. Bufando, com a calva e as faces esponjosas ruborizadas de ira, empurrou os homens que impediam seu acesso, atravessando o umbral como um touro e quase derrubando o vice-pontífice.

Rodano empalideceu. Fechou a porta e, durante alguns instantes, com as largas costas encostadas na madeira, tentou desfazer-se sua hostilidade.

"Este maldito maçom - disse para si mesmo entre os últimos estertores de indignação - demorou para chegar. Quem sabe o que vai aprontar...

Os rostos do médico e dos membros da Segurança deram razão ao prelado. Todos experimentaram um sentimento de rejeição diante do aspecto premeditado do camarlengo. Batina e faixa, impecáveis, pareciam recém-passadas. Quanto à sua cabeça de elefante, meticulosamente penteada e barbeada, exalava aquele insuportável cheiro de perfume barato que o caracterizava e do qual todos fugiam.

Enquanto caminhava em direção à silhueta rechonchuda de Bangio, monsenhor Rodano perguntava-se sobre a razão de uma demora de tanta desconsideração. Como Chíniv, Itenozzu e os outros, o camarlengo residia a escassos três minutos do Palácio Apostólico.

Os temíveis olhos de Sebastiano Bangio - aumentados pelas lentes dos óculos - voaram com uma curiosidade insana que não passou despercebida a Chíniv e seus homens. Observou cuidadosamente o ferimento do Pontífice e, com uma frieza que indignou Itenozzu, inclinouse para a parte frontal do reclinatório, examinando sem pudor os restos sanguinolentos do desastre. Faltou pouco para que, na brusca aproximação, a oscilante cruz cardinalícia batesse contra o bronze.

- Então...

 

O médico, abordado sem aviso prévio pela voz subterrânea do camarlengo, não reagiu. Desviou o olhar das carnes inchadas de Bangio, solicitando a ajuda de Rodano. Autoritário, porém, aquele timbre de taverna exigiu uma resposta imediata.

- Causa da morte?

Renato gaguejou:

- À primeira vista, eminência...

Não concluiu. Os olhos de Chíniv, como catapultas, bloquearam a sua vontade.

         - À primeira vista - interveio o secretário de Estado, obrigando Bangio a se virar - tudo faz pensar num infeliz acidente...

Altivo, o camarlengo invadiu a falsa serenidade daquele rosto. Mergulhou nos olhos de Rodano e pensou descobrir algo obscuro, secreto e ameaçador. Mas, seguro de si mesmo, decidiu abreviar, subestimando a ênfase dada às três primeiras palavras.

- Procedamos então...

Virando-se, puxou a batina e ajoelhou-se junto à poça de sangue na qual repousava o braço esquerdo do Pontífice. Abriu a maleta preta que trazia consigo e, ignorando todos os que o rodeavam, tirou uma pequena ampola. O chefe da Segurança, intuindo o princípio do fim, interrogou Rodano com a elevação mecânica das sobrancelhas. O prelado, colocando à prova a paciência do amigo, traçou uma clandestina inclinação de cabeça, pedindo tempo.

Bangio destampou os santos óleos, pressionando a ampola contra a ponta do dedo polegar. Solenemente, com as ásperas conchas das pálpebras semifechadas, iniciou o ritual:

- Si vives, ego te absolvo a peeeatis tuis, in nomine Patris, et Filii et Spiritus Saneti... Amen.

O instinto quase feminino do chefe da diplomacia vaticana agitou-se inquieto. "Algo" no camarlengo - não podia distinguir o que parecia estranho. Era uma mistura chamativa. Seu atraso, descarado e inexplicável. Aquela ausência de sentimentos diante do cadáver. Sua nula curiosidade pelos detalhes e circunstâncias da morte do Papa. E sobretudo, a pressa mal dissimulada por ativar a "máquina" e resolver o episódio. Melhor do que ninguém, Rodano conhecia as ácidas diferenças - não se atreveu a rotulá-las de ódio - entre Bangio e o falecido. Mas aquela inimizade carecia de sentido em momentos tão dramáticos. E, maravilhado diante dos "inescrutáveis caminhos do senhor", concentrou-se no paradoxo oferecido pelo destino.

"Se vives, eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai..." Era sugestivo. A.absolvição era dada pelo seu pior inimigo... Lutando contra o ventre roliço, o camarlengo aproximou-se do Santo Padre, traçando no ar um sinal da cruz apressado, a dois dedos da testa ensangüentada.

 

- Per istam sanctam Unctionem, indu/geat tibi Dominus a quidquid... Amen.

O procedimento frio, rotineiro e acelerado de Bangio desenterrou repentinamente a certeira alusão de Chíniv ao nefasto cardeal Villot. E as lamentáveis decisões do então camarlengo e secretário de Estado diante do cadáver de João Paulo I desfilaram densas e implacáveis pela mente torturada de Rodano.

"Por esta santa unção, que Deus te perdoe os pecados que possas ter cometido. Amém."

Sim, mas quem o perdoaria se caísse no mesmo erro que Villot? Tinha o direito de desconsiderar a descoberta do chefe da Segurança? Naturalmente, como vice-pontífice, possuía as atribuições necessárias para puxar o tapete de Chíniv. A batalha interna recrudesceu. E nas têmporas daquele reto filho de lavradores surgiram brilhantes gotas de suor.

Encerrando a cerimônia, Bangio passou a ministrar a bênção apostólica.

         - Ego facu/tate mihi ab Aposto/ica Sede tributa...

         Num esforço por afastar-se do seu destino, Rodano foi repetindo mentalmente as palavras do camarlengo.

"Pela faculdade que me foi outorgada pela Sede Apostólica, eu te concedo indulgência plenária e remissão de todos os pecados... e te abençôo. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo... Amém."

"Faculdade outorgada pela Sede Apostólica?" A frase fez disparar os alarmes internos do prelado. E uma idéia diabólica - imprópria de um homem a serviço de Deus - pousou no seu coração. Envergonhado de si mesmo, optou por expulsá-la. Mas o atraso, a pressa e o estranho comportamento de Bangio começaram a encontrar um lugar dentro do irritante quebra-cabeças. Evidentemente, o camarlengo parecia ter assumido unilateralmente a suprema chefia da Igreja. Confiante nesse discutível poder, também parecia decidido a repetir o vergonhoso capítulo escrito por ocasião da morte de Albino Luciani. Se não agisse com astúcia, rapidez e firmeza, o mais provável é que o não menos "estranho óbito" do Papa polonês fosse explicado e divulgado por meio de outra nota farisaica e tranqüilizadora da Sala de Imprensa do Vaticano. Imerso naquela turbulenta espiral, Rodano chegou a imaginar as manchetes dos jornais:

         "O Papa morre na sua capela privada. Um acidente fatal: causa do falecimento."

Mas por quê? A que obedecia sua obsessão por adiantar-se aos acontecimentos e prejulgar as pessoas? Não era justo nem cristão. E se estivesse enganado?

Neste momento, desequilibrando a balança do bom senso, lembrou-se da descoberta de Chíniv. E no meio daquela luta interna, as hipóteses e contra-hipóteses enroscaram-se, afogando-o.

 

Como explicar a atitude de Bangio? O seu comportamento não era normal. Por que acreditara tão rapidamente na parca e insuficiente explicação de um recém-chegado? Por que não mostrara interesse em interrogar a Segurança? Por que a necessidade de fazer a barba e enfeitar-se depois de receber a notícia demolidora?

Houve resposta, porém Rodano a afastou com repugnância. Por muito "delicada" que fosse a situação do Papado naquelas últimas semanas, não podia admitir tal aberração. E menos entre os aparentemente disciplinados membros da Cúria que governava.

Tinha de eliminar tão penosas dúvidas, e havia apenas um caminho. Se guardasse silêncio, se permitisse que os dentes da "máquina" o triturassem, então - infeliz dele! - a pesada laje do pecado de omissão cairia sobre ele. Desembainhando a espada do seu valor, tomou a decisão de seguir os conselhos de Chíniv. E com um profundo sentimento de alívio, procurou os olhos do chefe da Segurança. O comandante, porém, estava magnetizado pelas mãos do camarlengo. Ao tampar a ampola, seus dedos tremeram. E também quando a guardou na maleta...

Finalmente, o angustioso chamado do prelado penetrou em Chíniv, obrigando-o a levantar o rosto. E Camilo captou aquela cintilação de esperança. Com um leve movimento de cabeça, Angelo lhe apontou a porta dupla. E o comandante obedeceu imediatamente.

Mas Rodano, desafiando a própria impaciência, manteve-se às costas do velho cardeal. Conhecia os "instrumentos" que - de forma tão precavida - Bangio trouxera até a capela. Rodano quis assegurarse dos movimentos seguintes do camarlengo. E embora a ridícula cerimônia que este estava prestes a iniciar tivesse sido abolida por Paulo VI, não interrompeu o ortodoxo e recalcitrante camarlengo. Precisava de tempo.

Efetivamente, o cardeal pegou o reluzente martelo de prata. Curiosamente, tratava-se do mesmo que Villot - ignorando, como Bangio, as disposições do falecido Montini - tinha manipulado em Castelgandolfo, por ocasião da morte de Paulo.

Outra vez a imagem de Villot...

Aquele nome - como uma advertência ou uma maldição - tinha penetrado na alma de Rodano. Mas o secretário de Estado não vacilou. Sua decisão era irrevogável. Lutaria até onde suas forças e autoridade permitissem. "Não haveria um segundo caso Villot." Não se mentiria à opinião pública. Não se ocultariam os fatos, por mais vergonhosos ou dolorosos que pudessem ser ou parecer. Desta vez as portas seriam abertas para a verdade. Uma investigação em regra seria autorizada. Uma investigação honesta. Tranqüila. Realizada por peritos que não tivessem nada a ver com os interesses mesquinhos que começavam a empestar aquele lugar sagrado... Não estava disposto a consentir - como sucedera na madrugada de 29 de setembro de 1978 no quarto do papa Luciani - que ninguém tocasse ou manipulasse o cadáver. Villot - que Deus o perdoe - apressou-se em retirar do aposento os óculos e os chinelos de João Paulo 1. Por quê? Continham restos de vômitos que, se tivessem sido analisados, teriam revelado a presença de alguma substância letal? Rodano não era Villot. Rodano não submeteria as freiras polonesas ao voto de silêncio. Não se apressaria a "desterrá-las". Também não faria isso com o primeiro-secretário particular. E se os especialistas considerassem que a autópsia era necessária, haveria autópsia...

Mas para transformar em realidade esses desejos tão salutares e o prelado era consciente disso - era preciso adiantar-se à "máquina", introduzindo o ferro da surpresa entre os raios das suas rodas infernais.

Bangio dirigiu o martelinho para a testa do Pontífice, golpeandoa suavemente. Chamou-o pelo nome completo e, no mesmo e elevado tom - para que todos pudessem ouvi-lo - formulou a primeira pergunta:

- Estás morto?

Os membros da Segurança não podiam acreditar no que estavam vendo e escutando, mas não deixaram transparecer a sua ironia corrosiva. Continuaram observando seriamente o ritual obsoleto e seu grotesco feiticeiro.    .

Era o momento esperado. Rodano sabia que a pergunta seria repetida por três vezes. E que, entre cada interpelação, Bangio guardaria um minuto de silêncio obrigatório, à espera de uma mais que improvável resposta do defunto.

Com especial sigilo, Rodano foi conversar com Chíniv.

- E então?

O prelado justificou a contida impaciência de Camilo Chíniv e, medindo as palavras, perguntou:

- Já pensou no procedimento?

O comandante gesticulou.

- Eminência, acho que já lhe expliquei... Diretamente ao ministro. - Já sei, mas...

Chíniv apressou-o.

- É preciso agir logo. Como deve ter observado - e desviou o olhar para o camarlengo -, ele parece decidido a aceitar as aparências. - Estás morto?

Segundo minuto de silêncio.

Os agentes tinham passado da consternação à curiosidade. E espiaram com o canto do olho o encontro clandestino entre o monsenhor e seu chefe. Ajoelhado e de costas para a porta dupla da capela, Bangio vivia a cerimônia, alheio à maquinação decisiva.

- De acordo. Telefone...

E Rodano, nervoso, consultou o relógio.

 

                   05 horas 55 minutos

- E pelo amor de Deus - suplicou o vice-pontífice empurrando a porta delicadamente -, lembre-se que, a partir de agora, só deverá acatar minhas ordens...

Chíniv concordou de forma protocolar. A recomendação era desnecessária. Se suas suspeitas fossem certas, dentro de uma ou duas horas o Palácio Apostólico, os três mil membros da Cúria e toda a Cidade do Vaticano entrariam em erupção. Como explicara ao prelado, deviam jogar a carta da rapidez e dos "fatos consumados". Se a sorte os favorecesse minimamente, o ingresso da Polícia de Roma no terceiro andar poderia ocorrer antes que a "máquina" eclesiástica se reorganizasse e atacasse.

Com a respiração descompassada e ruborizada pela última corrida, sor Joana deixou o comandante atravessar o umbral. Rodano a contemplou indeciso. E chamando Camilo Chíniv de novo, sugeriu-lhe que utilizasse o gabinete particular.

- É mais seguro...

Lançou um olhar vigilante ao confiante e satisfeito camarlengo e aguardou o derradeiro chamado.

- Estás morto?

Dispunha de um último e providencial minuto.

- Outra coisa...

O comandante abotoou a jaqueta.

- Avise o tenente-coronel Westermann. Que a Guarda Suíça e seus homens reforcem os acessos ao Palácio...

- Está previsto, eminência...

- E não se esqueça do elevador e das escadas do segundo andar.

E coloque mais vigilância nesta porta...

Chíniv foi concordando mecanicamente.

- Já sabe, Camilo. Ninguém deve entrar aí sem a minha autorização expressa. Devemos agir coordenadamente.

         E apontando para o interior da capela, alertou-o sem ocultar seu pessimismo.

         - Tentarei persuadir Bangio. Espere-me. É questão de minutos...

         Virando-se para a superiora, acrescentou sem alterar o sussurrante fio de voz:

- Acompanhe-o. Por enquanto, a senhora e suas irmãs ficam sob as ordens de Camilo.

- Mas eminência...

O secretário de Estado interpretou mal as palavras da freira. Mas sor Joana, ágil, apontando com o indicador a direção do quarto do Papa, fez-lhe recordar seu recente pedido.

- Ah, sim... desculpe. Diga-me...

E a religiosa, evitando a proximidade dos homens da Segurança, ficou na ponta dos pés para confessar-lhe ao ouvido o que descobrira. Surpreso, Chíniv levantou ainda mais suas desordenadas sobrancelhas. Sor Joana estava descalça...

 

                     05 horas 56 minutos

Rodano precipitou-se para o centro da capela. Entre as batidas do seu coração tentou fazer um primeiro balanço. Mas aquele cenário não era o seu tranqüilo escritório na Secretaria de Estado. Agora tudo dependia da Providência, da sua audácia e da sua sorte. Nesta ordem.

Inspirou com força, ajeitando as pregas da batina. Examinou os rostos dos presentes e esperou que o camarlengo se erguesse. Estava decidido. Após a conclusão do ritual do martelo, pegaria o braço de Bangio e, sossegada e amistosamente, lhe anunciaria a situação. Solicitaria sua ajuda e compreensão. Esse era o caminho correto.

O cerimonioso Bangio, desprezando os olhares, piscou seus olhos de cavalo. E absorto no seu papel, clamou para o vácuo:

         - O Papa está realmente morto.

         Chegara a vez de Rodano. Estendendo o braço, pousou a mão no ombro do camarlengo.

         - Por favor, eminência...

         A abordagem cordial foi bruscamente abortada. Inóspito, o camarlengo desembaraçou-se do gesto amistoso. E como se tivesse adivinhado as pretensões de Rodano, respondeu-lhe com voz avinagrada:

- Ainda não terminei. Mas vossa eminência, sim.

E olhando para a saída, acrescentou arrogantemente:

- Vá embora. Fale com os outros. Que o mestre de cerimônias e o prefeito da Casa Pontifícia preparem tudo para o traslado. Já sabe: funerária, embalsamamento, familiares....

E batendo a maleta na sua coxa direita, deu-lhe a entender que devia dobrar-se ante sua autoridade. Rodeou a poltrona curva e dispôsse a concluir a cerimônia.

Incomodado, Itenozzu engoliu saliva. Os homens de azul agitaramse inquietos, sem afastar a vista do aparentemente derrotado senhor Rodano.

Prepotente, o camarlengo foi ajoelhar-se de novo. Desta vez, na outra extremidade do reclinatório, junto à mão direita do cadáver. Abandonou a maleta sobre os desenhos orientais do tapete e, sem qualquer consideração, separou os crispados e ensangüentados dedos do Pontífice, procurando o Anel do Pescador. Como ordenavam os cânones, anel e selos papais deviam ser destruídos na presença dos cardeais.

Bangio pegou o grosso aro dourado e tentou puxá-lo. Mas as articulações dos dedos impediram que fizesse isso. Não teve uma segunda oportunidade.

Obedecendo a um sumário e claro movimento de Rodano, os agentes afastaram-no educada porém contundentemente. E puxando os seus cem quilos, forçaram-no a endireitar-se.

Angelo Rodano aproximou-se impassível.

A pele clara do camarlengo, transfigurada pela surpresa, tingiu-se em décimos de segundo. E com as veias do pescoço congestionadas, o rubor da ira estendeu-se como um aviso. Os lábios vibraram inseguros. E seus olhos devoraram a face que ousara desafiá-lo.

- O senhor sabe o que está fazendo?

Bangio trovejou ameaçador. Mas o prelado esquivou-se do dardo com uma sombra de sorriso.

         O camarlengo, descontrolado, arremeteu o aríete da insolência, em busca de uma derrota fácil.

         - Sou o cardeal Sebastiano Bangio!... Eu ocupo a sede vaga! Agora sou eu quem dá as ordens!...

         A voz calma do seu interlocutor, evitando a briga aberta, acelerou o nervosismo de Bangio:

         - Não se excite, eminência... Conheço as suas atribuições. E tam

bém sei que o senhor é um homem de Deus.

O desconcerto - minuciosamente dosado pelo diplomata - surtiu efeito. Começou a aplacar a cólera do cardeal. O tom avermelhado foi desaparecendo.

- Sua eminência cumpriu o ritual - Rodano prosseguiu a manobra envolvente -. Quando o momento chegar, reiniciará suas competências. Quebrará o Anel, selará os apartamentos papais, presidirá o Colégio de Cardeais, pedirá contas a todas as administrações pontifícias e preparará o novo conclave. Mas só quando chegar o momento...

- Não estou entendendo.

Bangio apontou para o cadáver e, demonstrando sua antipatia pelo Papa polonês, perguntou mordazmente:

- E que se supõe que seja "isto"?

Cansado de diplomacia, Rodano fulminou:

- Uma morte... pouco clara.

Os olhos do camarlengo, inchados como velas, fizeram o prelado hesitar. Mas logo depois uma significativa chuva de suor coroou sua calva. E uma palidez suspeita, como uma nevasca não desejada, cobriu sua cabeça de paquiderme. Diante do olhar receoso do secretário de Estado, sua insolência endêmica foi atropelada por palavras inseguras e matizadas de temor.

- Mas o doutor Itenozzu certifIcou morte acidental...

O médico, intuindo que navegava em águas turbulentas, apressou-se a explicar:

- Não, eminência. Obedecendo ordens de Siwiz, limitei-me a apresentar-me na capela e a efetuar algumas explorações iniciais. Ainda não certifiquei absolutamente nada.

Triunfante, Rodano assistiu à aniquilação momentânea de Bangio. Mas, precavido, continuou empunhando a sua especialidade: o jogo diplomático.

- Confie em mim, eminência. Os pontos obscuros serão esclarecidos. Não devemos temer a verdade. Ainda menos o senhor... Sebastiano Bangio tampouco é Villot.

         A machadada soltou uma segunda matilha de medos. E as gotas de suor escorregaram até a gola.

         - E agora queira retirar-se, por favor. Quando a investigação for concluída, será imediatamente informado.

- Uma investigação?

Bangio ressuscitou do meio das cinzas.

- Como se atreve? Será que não pensou no escândalo? Rodano interrompeu-o:

- Que escândalo, eminência?

E permitindo que o tórrido e acusador silêncio se prolongasse o suficiente, apertou o nó em volta da garganta de Bangio.

- O senhor sabe de algo que nós ignoramos?

O camarlengo reagiu confusa e atropeladamente. Num esforço titânico para remediar o irremediável, evitando os olhares inquisidores dos presentes, balbuciou:

         - O senhor conhece os nossos inimigos... A imprensa não respeitará... A verdade é lenta e desvalida.

         Rodano quebrou o gelo e sorriu com compaixão.

         - Mas o senhor é um homem de Deus e está a serviço da verdade.

E agora responda à minha pergunta: que é que o senhor sabe, eminência?

         - Maldito piemontês! De que me acusa? E sobretudo, com que autoridade?

         Rodano resistiu à nova escalada de prepotência.

         - Ninguém o acusa, eminência. O senhor mesmo está auto incinerando-se. Quanto à minha autoridade - improvisou -, devo recordar-lhe que, enquanto as circunstâncias desta morte não sejam esclarecidas, como vice-pontífice suspendo temporariamente a Constituição Romano Pontifici Eligendo. As normas, disposições e cerimônias previstas para estes momentos especiais deverão esperar. A "máquina" continuará funcionando, mas com o devido respeito aos setecentos milhões de fiéis que a alimentam e a justificam. Assim como o senhor, eu também amo a Igreja e não desejo que manchem seu nome.

O secretário de Estado sabia que suas palavras eram discutíveis. Muitos canonistas teriam rejeitado tão arriscada decisão. Na mencionada Constituição Apostólica, obra de Paulo VI que substituiu as dos seus antecessores (Vacantis Aposto/icae Sedis, de Pio XII, 1945, e Summi Pontificis Electio, de João XXIII, 1962), não há referência a uma situação tão específica e delicada. Na hora de regularizar o "vazio" da chamada Sede Vaga, a Romano Pontifici Eligendo, no seu capítulo terceiro, é clara e determinante: "Segundo a mente da Constituição Apostólica Regimini Eclesiae Universae, todos os cardeais encarregados das congregações, tribunais e ofícios da Cúria romana e o próprio cardeal secretário de Estado têm o exercício dos seus cargos cessado por ocasião da morte do Pontífice, exceto o camarlengo da Santa Igreja Romana, o penitenciário-mor e o vigário-geral para a diocese de Roma, os quais continuam exercendo suas tarefas ordinárias, submetendo ao Sacro Colégio dos Cardeais tudo o que se referia ao Sumo Pontífice" .

Mas Angelo Rodano - amparando-se justamente nesta "lacuna" legal - tomou as rédeas, assumindo a responsabilidade de forma unilateral. Se lograsse frear o Colégio Cardinalício - tanto na congregação geral como na particular (I) -, pelo menos durante o tempo requerido pela investigação policial, sua consciência ficaria a salvo. O "mar agitado" que o cobriria a seguir seria superado no devido momento.

- Repito pela última vez. Retire-se.

- E se me negar?

Rodano tinha previsto esta possibilidade. Dando de ombros, deixando de lado toda diplomacia, sentenciou:

 

(1) No seu capítulo segundo, a Constituição Romano Pontifici Eligendo esclarece o seguinte: "Durante a Sede Vaga, até o ingresso no conclave, haverá duas classes de congregações de cardeais: destas, somente uma será geral, isto é, de todo o Sacro Colégio, e outra particular. Das congregações gerais devem participar todos os cardeais legitimamente não impedidos, logo que sejam informados da vaga da Sede Apostólica ... A congregação particular está constituida pelo camarlengo da Santa Igreja Romana e por três cardeais, um de cada Ordem, extraídos por sorteio entre todos os que têm direito de eleger o Papa, segundo a norma número 33 desta Constituição ... Nas congregações particulares devem ser tratadas apenas as questões de menor importância que se apresentem a cada dia ou a cada momento. Se surgirem questões de maior importância, deverão ser apresentadas à congregação geral.         (N. A.)

 

- Neste caso serei obrigado a pedir a estes homens que "cuidem" de sua eminência... até que; a Polícia tenha terminado a sua missão.

Bangio examinou furtivamente os agentes que o vigiavam. E desafiando descaradamente a decidida vontade do prelado, decidiu arriscar:

         - Fanfarronadas!

         O monsenhor correspondeu ao sorriso irônico. E dirigindo-se aos expectantes membros do Serviço Secreto de Sua Santidade, venceu a delicada situação com uma ordem - ele sabia - tão ilícita quanto ilegal.

         - O senhor quis assim. Acompanhem o cardeal aos seus aposentos. E que a Guarda Suíça o custodie até novo aviso.

 

                         06 horas

Ao vê-los avançar apressados pelo corredor, compreendeu que a notícia "vazara". E acalmando as revoluções do seu cérebro, o vicepontífice preparou-se para nova investida.

Ao chegar à altura do arrasado Bangio, os também cardeais Ronduzzi e Nimari - prefeito da Casa Pontifícia e mestre-de-cerimônias, respectivamente - diminuíram a marcha. A imagem do camarlengo, devidamente escoltado, extinguiu os seus já fracos ímpetos. Detiveramse. Deram-lhe passagem e, boquiabertos, viram-no afastar-se. Da porta da capela, Rodano leu a incredulidade nas suas mãos gesticulantes.

Aquela visita tão cedo foi uma advertência. Tinha de simplificar. Se não quisesse perder o controle, deveria fortificar-se na ingrata porém eficaz fórmula da "desinformação". Pelo menos durante uma ou duas horas. Depois, a partir das 8 ou 9 horas, como ocorrera no caso Luciani, com a notícia nas ruas, o maremoto seria incontrolável. E lembrou-se das eloqüentes cifras: nas vinte e quatro horas que se seguiram ao falecimento de João Paulo I, a central telefônica do Vaticano tinha recebido 27.800 telefonemas.

Antecipando-se a Ronduzzi e Nimari, Rodano os abordou. Deslizou entre ambos e, segurando-os pelo braço, arrastou-os em direção ao gabinete particular do Papa.

- Eminência, ouvimos...

Sem diminuir a marcha, sondou-os:

- Quê?...

Astutamente, como cachorros velhos e habituados aos cotidianos duelos curiais, eles entrincheiraram-se atrás de um par de nomes.

- Siwiz telefonou para Mielawcki. E o médico, por sua vez, tirou-nos da cama com uma notícia terrível.

Rodano estremeceu. O maremoto estava se aproximando mais rapidamente do que calculara. As reações dos seres humanos são imprevisíveis. Por que o desconfiado polonês e médico pessoal do Papa não se limitara a pegar seus instrumentos e acatar as ordens?

- Que notícia?

A dissimulada reticência obteve o efeito desejado. O diplomata precisava dispor de um máximo de matizes. Qual era o conteúdo a essência - daquele primeiro boato? Falava-se de "morte acidental"?

- Pelo amor de Deus, eminência!... Não nos mortifique. Siwiz e Mielawcki afirmaram que há sangue por todos os lugares.

- Isto é a única coisa que posso lhes adiantar - interrompeu Angelo Rodano, preocupado com o tom sensacionalista que parecia adquirir o assunto -. O Papa, efetivamente, morreu.

- Mas, como é possível? Que aconteceu?

- Não sabemos bem.

Jogando as redes, Rodano arriscou:

- Devo lhes anunciar que vai ser aberta uma investigação. E solicito a colaboração de suas eminências. A partir deste momento, os quero ao meu lado.

Os cardeais, perplexos, raciocinaram rapidamente.

- E Bangio? Como camarlengo...

No momento de abrir a porta do escritório pontifício, o secretário de Estado puxou a rede.

- Existem apenas indícios. A Igreja, e os senhores com ela, já sofreu um escândalo "Luciani". Estariam dispostos a enfrentar uma segunda e vergonhosa suspeita de assassinato?

         O inesperado tiro de canhão os deixou sem palavras.

         - Pois bem - continuou o monsenhor, aproveitando a inércia da surpresa -, suplico-lhes que recorram à memória. Estamos diante de uma situação que exige tanto coragem como serenidade. O cardeal Bangio, por razões que ignoro, não está em condições de favorecer a eqüidade que deve resplandecer nestes momentos tão críticos. E fui obrigado a suspender suas atribuições... temporariamente.

- Indícios?

Angelo não mordeu o anzol.

- Eminências, sejamos prudentes. Deixemos manobrar a Providência... e os peritos. E agora, por favor, decidam-se: de que lado estão? Os cardeais simularam não compreender.

- Escolhem a verdade nua ou uma verdade maquiada?

- O que o senhor decidir, eminência..:

E engolindo o maquiavelismo daquelas raposas, Rodano permitiu-lhes a entrada.

 

                     06 horas 03 minutos

De pé junto à mesinha dos telefones, Chíniv respirou aliviado. Sor Joana, como uma estátua sobre o tapete verde, sem o consolo do molho de chaves, convertera seus dedos num nó górdio. A irrupção dos três cardeais aumentou a sua ansiedade. Tentou ler no calmo rosto de Rodano, mas o vice-pontífice quase não reparou nela. A mente de Angelo Rodano, transportada ao fone negro que.o chefe da Segurança estava segurando, iniciara uma vertiginosa computação. A primeira leitura não lhe agradou. O rosto de Camilo Chíniv, cheio de rugas, não era um bom presságio.

Um momento, excelência... O secretário de Estado está entrando. Sua eminência lhe confirmará...

E dando um passo para um lado, estendeu-lhe o telefone. O tom desanimado de Chíniv colocou seus motores na potência máxima.

- O senhor ministro do Interior. Acabei de dar-lhe a notícia. No entanto...

Rodano assentiu sem palavras. Após uma troca protocolar de saudações, permaneceu atento ao seu interlocutor.

         - É verdade, caro amigo. Essa é a trágica notícia...

         Nova pausa.

         - Sim, na capela particular.

         O prelado, sagaz, prestou-se ao desconfiado interrogatório ao qual já fora submetido o chefe da Segurança.

         - Naturalmente. Um dos médicos o examinou. E estamos esperando seu médico pessoal...

         Rodano foi interrompido novamente.

         - Renato Itenozzu, chefe do Serviço Sanitário do Vaticano. Sim, eu estava presente.

- Poderia ser - replicou o monsenhor -. Esta foi a nossa primeira impressão. Tanto a Segurança como Itenozzu como eu mesmo o interpretamos como um desgraçado e fortuito acidente... O ferimento na cabeça corresponde, aparentemente, às manchas de sangue no bronze... .

A maliciosa sugestão do ministro fez o secretário tamborilar os dedos sobre a madeira da mesa.

- Excelência, escute-me, por favor...

Nervoso, refugiou-se na poltrona.

- Não, amigo, não... Se solicito a colaboração do seu departamento é justamente porque não temos certeza.

- O senhor conhece Camilo...

O piemontês, contrariado pelas dúvidas do ministro, começou a falar mais alto.

- Chíniv é um profissional. Um dos melhores... Esses indícios existem.

O comandante - adivinhando as desconfianças do político - sorriu sarcasticamente.

- Isso mesmo - confirmou Rodano sem esconder um nascente mau humor -. Sangue... Manchas suspeitas de sangue no veludo do apoio de braço. Como compreenderá, isto não é normal numa suposta queda.

Segurou os óculos. E após dois ou três movimentos afirmativos de cabeça, Chíniv deduziu que o ministro se rendia.

- Sim, vestido com roupa de passeio...

Angelo Rodano recuperou a cordialidade.

- E o mais estranho, ministro, é que a sua cama está desarrumada.. .

Sor Joana compreendeu que aquelas palavras estavam relacionadas com a incumbência secreta de Rodano e sua posterior descoberta. E Chíniv acrescentou a inesperada revelação ao seu quadro particular da tragédia.

- Sim, tudo faz pensar que ele se deitou...

O chefe da Segurança estudou o relógio. Estavam chegando ao limite.

 

                   06 horas 07 minutos

- Eu sei, ministro. Já sei... Não estamos diante de um pedido de rotina. Mas o cadáver que jaz na capela e as circunstâncias também não são...

A impaciência ressuscitou nos dedos do secretário de Estado, atingindo Chíniv.

- Os procedimentos oficiais?.. Não se preocupe com isso... Assumo a responsabilidade...

Finalmente, o monsenhor levantou o olhar. E suportando franciscanamente os medos do pusilânime membro do governo italiano passou em revista as sombras e luzes que desfiguravam aqueles quatro rostos. Chíniv, com a mandíbula contraída, suportava mais tensões do que as razoavelmente admitidas pela alma de um policial. A superiora, como um frágil cristal de Murano, estava a ponto de quebrar. Os cardeais, perplexos por aquilo que tinham escutado e intuído, lutavam inutilmente para desemaranhar a teia de aranha na qual, com grande desgosto, tinham se enredado. No entanto, receosos e castrados para qualquer iniciativa que pudesse sair do "sistema", permaneceram na expectativa.

- Suponho que não fui claro...

A voz do diplomata - interrompendo o ministro - endureceu:

- Não temos tempo para formalidades burocráticas. Estamos diante de uma emergência... Peço a sua colaboração... agora!

O seu interlocutor continuou resistindo. Rodano, com os olhos perdidos no retrato dos pais do falecido Pontífice, organizou seu ataque final.   .

- Entendo a sua posição. Como vice-pontífice, eu o isento de qualquer responsabilidade política. Embora não seja feito pelas vias oficiais, este não deixa de ser um pedido formal. De Estado a Estado...

A paciência de Rodano se eclipsou. E, embora a contragosto, fez o solo tremer sob os pés do ministro.

- Estou advertindo-o, excelência. Com o seu consentimento ou sem ele, a opinião pública mundial ficará sabendo da sua decisão. O peso dessas palavras provocou a demolição do refratário político. - Dou-lhe a minha palavra...

Angelo Rodano relaxou.

- Sim, assinarei esse documento...

Contagiado, Chíniv alisou os cabelos.

- Obrigado, excelência... O pedido formal será entregue aos seus homens... .

A pedido do ministro, o prelado consultou o relógio.

- São seis e dez, realmente.

E balançando negativamente a cabeça, levantou-se.

- Impossível. Peço-lhe que entenda a natureza urgente do assunto.

E Rodano, alertando o comandante com o olhar, repetiu as últimas palavras do seu interlocutor:

- Uma hora? Mas....

Chíniv moveu a cabeça, tranqüilizando o prelado.

- Tudo bem. Obrigado de novo...

E remexendo-se inquieto, chamou o chefe da Segurança:

- Sim, um momento... Ele vai falar com o senhor...

E cedendo o fone ao agitado Chíniv, anunciou:

- Missão cumprida. Ocupe-se dos detalhes.

 

                   06 horas 11 minutos

O prelado reuniu-se com os abatidos cardeais. Mas permaneceu ausente. O aposento encheu-se de chumbo.

Camilo Chíniv gravou as palavras na memória. E, por cortesia com relação a Rodano, repetiu-as em voz alta:

- Sim, o prefetto de Roma... Eu o conheço... Sim, vai ter de tirá-los da cama... Claro, excelência... Homicídios?.. Claro, seria o adequado neste caso... Não, não precisa... Que se dirijam ao Arco do Sino... Meus homens e eu estaremos esperando. Claro, senhor... Máxima discrição... Não se preocupe: eu o manterei informado.

Concluída a ligação, o secretário de Estado tomou o leme. Sentouse atrás da mesa pontifícia e, com uma lucidez e audácia que espantou seus companheiros, começou a dar numerosas ordens.

- Sor Joana... Procure Siwiz e traga-o aqui.

A superiora obedeceu cegamente. E quando se dispunha a abandonar o aposento recebeu uma segunda ordem.

- Diga às irmãs para permanecerem nos seus quartos e não tocarem em nada, por favor... A senhora volte com o secretário.

Rodano observou os ponteiros do relógio, e após um cálculo rápido, ordenou ao prefeito da Casa Pontifícia:

- Eminência, prepare uma lista de todo o pessoal que presta serviço neste terceiro andar e entregue-a a Chíniv. Mas antes ligue para o meu substituto na Secretaria, preciso falar com ele, por favor. Nimari, o senhor entre em contato com a superiora do PABX. A ordem, por enquanto, é a seguinte: "Nenhum comentário. Ninguém sabe nada". E chame os prefeitos das congregações. Fale diretamente com eles. Entendeu? Diga-lhes simplesmente que o Papa morreu. Quero que eles estejam no meu escritório as dez em ponto.

E retomando a Lino Ronduzzi, acrescentou:

- Convoque o decano do Colégio de Cardeais e o Governatorato. Pareceu hesitar.

- As onze, também na Secretaria.

Deixando Chíniv para o final, proclamou solenemente:

- Vamos lá, Camilo... Aja. Eu ficarei rezando.

 

                   06 horas 25 minutos

Era infalível. Constante Rossi sentia isso desde criança. E nos seus trinta anos de policial nunca falhara. Suas sobrancelhas, sem controle, cavalgavam ritmicamente. O espasmo- geralmente breve - vinha junto com uma coceira que desembocava em outro dos seus gestos peculiares: o indicador esquerdo ficava coçando freneticamente. Rossi já sabia. O tique era premonitório. "Algo" estava para acontecer. "Algo" muito especial.

Nessa madrugada, na qual estava preguiçosamente encostado no portão da sua casa, no viole Angélico, tremor e coceira surgiram com uma força inusitada. Por hábito, procurou no bolso da jaqueta de linho a cigarreira de pele de antílope. Consolado por aquele charuto madrugador, agradeceu a fresca saudação daquela Roma primaveral e prestes a acordar. Precisava despertar completamente. Estava claro que "nas altas esferas" tinha acontecido alguma coisa importante. O telefonema do próprio prefetto - deixando de lado o problema dos escalões e tirando-o praticamente da cama - não tinha outra explicação.

Intranqüilo, olhou atentamente para a direita e para a esquerda, mas o viale solitário só contribuiu para alimentar suas conjeturas. Repassou mentalmente o que ocorrera oito minutos antes.

Até um novato teria percebido. O tom do responsável pela ordem e segurança pública de Roma era tenso. Com pressa. Com muita pressa.

         - Rossi, lamento ligar a esta hora...

         Sorriu para si mesmo. Há anos o ceticismo o vacinara contra cumprimentos dos superiores.

         - Não há tempo para explicações. Um carro o apanhará em cinco minutos... Terá uma reunião comigo e seus homens.

         Só isso. Após um segundo de indecisão, Rossi ergueu-se com esforço para olhar as horas no também adormecido despertador familiar.

         Seis horas e dezessete minutos!

         O banho de chuveiro rápido não o ajudou muito. Sua mente, em branco, tentava entender alguma coisa.

         Que diabos o inacessível "número um" da polícia romana tinha que ver com a sua brigada?

Aspirou com raiva o cheiroso dannemann e, como inspetor-chefe de Homicídios, começou a imaginar o pior. Estaria diante de um caso de um marido ciumento e ocupante de alto cargo político? Ou diante de outro massacre "à siciliana"? Ou devia pensar num novo ajuste de contas entre mafiosos? Tratava-se desta vez de um enredo sangrento, protagonizado por alguma das personalidades da cidade?

 

                     06 horas 28 minutos

As luzes violetas do veículo policial na praça Giardino cancelaram o rosário de possibilidades. Constante Rossi correu para a rua. Dois agentes uniformizados e com cara de susto saltaram do carro e fizeram continência. O carro acelerou em silêncio, entrando nas ruas Barletta e Ottaviano.

Mais alarmado pelo mutismo dos guardas que pela velocidade do veículo, o inspetor quase claudicou. Mas não perguntou. Tentou adivinhar seu destino, de acordo com a direção tomada pelo veículo. Praça do Risorgimento. Via da Porta Angélica. Cidade Leonina. Praça de Pio XII...

Girando bruscamente à direita, o motorista entrou agilmente na empedrada praça de São Pedro.

 

Aquele controle junto às barreiras de madeira que fecham o recinto durante a noite pareceu-lhe incomum. E a meia dúzia de policiais - evidentemente avisada - apressou-se a liberar o acesso.

Mordeu o charuto. Confuso, segurando-se no assento para não bater contra a porta, viu o carro rodear o obelisco egípcio. Cinco segundos mais tarde, uma freada brusca encerrava a corrida breve e febril.

 

                       06 horas 31 minutos

         O espigado Arco do Sino, no extremo esquerdo da fachada da basílica, parecia tão negro quanto seu cérebro.

         Três homens de azul e um oficial da Guarda Suíça vieram ao seu encontro. A cabeleira branca do mais velho pareceu-lhe familiar. - Meu nome é Camilo Chíniv.

Rossi identificou-se, correspondendo ao sólido aperto de mãos. - Obrigado por ter vindo tão depressa. Não o esperávamos tão cedo. Suponho que o resto esteja a caminho.

         O inspetor aguardou uma explicação, mas Chíniv limitou-se a despi-lo com o olhar. Incomodado, Constante pigarreou.

Teria podido abordá-lo. Como chefe do Grupo de Homicídios da Polícia do Estado em Roma, tinha seus direitos. Sobretudo depois de ter sido acordado tão intempestivamente de madrugada. Respeitoso, porém, não disse nada. Estava acostumado com esses segredos oficiais.

O comandante prosseguiu a sua análise minuciosa:

"Um homem discreto, sem dúvida. E paciente. Vejamos até onde a sua curiosidade resiste... Terno de linho. Bom salário. Barba grisalha, perfeitamente recortada. Unhas lixadas até o limite. Exigente. Quase perfeccionista. Não mais de cinqüenta anos, apesar da barba. Um metro e oitenta. Moderadamente atlético. Mãos inalteráveis. Rígido controle interno. Dedos sem fim, mais próprios de um pianista. Sutil e perigosamente astuto. Voz redonda. Sem qualquer empáfia. Nobre e íntegro. Sapatos como espelhos. Talvez de mais de duzentas mil liraso Revólver enterrado na cintura. Muito perto do rim esquerdo. Canhoto. Do joelho ao pé, vinco impecável na calça. Casado com uma mulher caprichosa... Abotoaduras brilhantes. Gravata de seda e prendedor de gravata combinando com o ouro dos punhos. Deve ser um amante do golfe, por isso usa um taco como prendedor de gravata. Se não fosse pelo crânio - totalmente calvo e gorduroso -, a aparência seria perfeita..."

Deu-se por satisfeito. O ministro soubera escolher.

Durante a embaraçosa espera, Rossi domou a curiosidade por meio de passeios curtos. Num deles, ao explorar distraidamente a robustez adormecida da colunata de Bernini, foi atraído pelas luminosas e sempre enigmáticas janelas do terceiro andar do Palácio Apostólico. Contou-as. Oito iluminadas e duas escuras.

Inexplicavelmente, as sobrancelhas tornaram a ter vida própria. E seu dedo indicador, solícito, acudiu ao chamado.

Os dígitos do seu "casio-speed-memory-l00" tranqüilizaram-no relativamente. Segundo o que lera num artigo de Orazio Petrosillo no suplemento "Piu" de Il Messaggero, o Papa já teria levantado fazia uma hora. Era normal que aqueles aposentos estivessem iluminados. Mas então... Ele era um especialista em crimes de sangue. Que se supõe que deveria fazer naquele lugar aparentemente tão aprazível?

"Aprazível?"

Constante Rossi apagou a expressão benevolente da sua lousa interna.

"O menor Estado do mundo - retificou, desempoeirando alguns dados que nunca tinham lhe chamado a atenção - e o mais hipócrita. Em quarenta e quatro hectares tinha se conseguido reunir o maior acúmulo de contradições. O culto a Deus e ao poder. As mais pomposas encíclicas em defesa da justiça social e dos oprimidos e dois mil operários com salários exíguos, sem direito de formar sindicatos e com a obrigação de jurar fidelidade ao 'santo patrão' que os contratava. Um Estado que canta a liberdade e, entretanto, mantém o mais obsoleto e medieval dos servilismos internos. Um Pontífice e uma Cúria que se pronunciam contra a guerra e o aborto mas que, subterraneamente, investem grandes quantias em fábricas de armas e laboratórios de anticoncepcionais.

"Um Estado - oficialmente 'mendigo' - que, só na periferia de Roma, dispõe de cem hectares com as quais especula sem cessar.

"Um Estado em que boa parte do seu milhão e meio de freiras e sacerdotes é realmente coerente com a honrosa máxima da 'pobreza evangélica' , mas no qual a cúpula não vacila em desperdiçar cinco milhões de dólares nos dois conclaves de 1978.

"Um Estado que pretende a salvação espiritual e, diante da surpresa de quase oitocentos milhões de crentes, associa-se com ladrões como Calvi, Gelli ou Sindona...

"Uma 'multinacional' - o 'Vaticano S.A.' - que 'lava' dinheiro e, ao mesmo tempo, condena os 'perigos do capitalismo'.

"E no emaranhado de congregações, tribunais, ofícios, prefeituras, conselhos e comissões a serviço do culto divino, dos santos, da evangelização dos povos, da vida apostólica, da unidade dos cristãos, da família, da justiça e da paz..., uma constelação de arrivistas, corruptos e embusteiros.

"Reprimendas públicas e privadas aos sacerdotes da 'teologia da libertação' e, simultaneamente, 'fugas' clandestinas de centenas de milhares de dólares para consolidar o politizado sindicato polonês Solidariedade.

"Quase dezoito milhões de dólares em ouro imobilizados nas reservas de Fort Knox, nos Estados Unidos, e um Papa que acaricia crianças desnutridas na África.

"Mais de cem prelados do 'alto escalão' envolvidos em lojas maçônicas e um 'Santo Ofício' que se outorga o direito de julgar, ferir ou silenciar mentes tão privilegiadas e valentes como a do teólogo alemão Hans Küng...

"E tudo isso - e muito mais - sob o nome de Deus. Mas o que tinha a ver este 'Deus' com o que era o venerado e ao qual servia o humilde, nobre e leal sacerdote de um simples povoado? Na verdade, se prestasse atenção a uma atmosfera tão virulenta, o que chegara a imaginar naquele 'lugar aprazível' ficaria aquém das expectativas."

 

                         06 horas 45 minutos

As barreiras da praça foram retiradas, e Chíniv alisou a cabeleira. Um segundo carro policial deteve-se junto ao primeiro. E umprefetto mal arrumado e suarento procurou o comandante. Rossi fez a mesma coisa com seus homens.

Lento e vacilante, um dos furgões azuis e brancos do Ufficio Mobile estacionou a um metro dos carros. Ao verificar a placa - A-2278 -, o inspetor começou a constatar a gravidade da missão que, aparentemente, lhe fora confiada. Aquela unidade-laboratório, com seus avançados sistemas de comunicação, seus computadores ligados ao arquivo central e seu pequeno arsenal, só era requisitada em casos excepcionais.

Com expressão grave, começou a cumprimentar os quatro funcionários que acabavam de saltar do veículo blindado.

O tenente Ugo Gasparetto, seu ajudante e amigo incondicional, como sempre incapaz de dominar a curiosidade, foi logo perguntando:

         - Por que tanto mistério?

         Rossi deu de ombros. Examinou com o rabo do olho as duas maletas metálicas transportadas pelos especialistas e, inicialmente, sentiu-se tranqüilo. A equipe de lofoscopia - selecionada com "lente de aumento" - era de confiança. Lá estavam os melhores peritos em impressões digitais, manchas, cabelos, pegadas, vidros e impressões em estuque.

         E obedecendo aos pedidos urgentes do nervoso prefetto, distribuiu sua equipe nos carros policiais.

         Os dois alabardeiros da Guarda Suíça, cobertos por capas escuras, ficaram em posição de sentido quando os carros passaram.

Um Mercedes preto e lustroso, com placa do Estado Vaticano, iluminou a praça dos Protomártires Romanos, abrindo a comitiva. O lugar estava deserto.

Rossi e o prefetto, no banco traseiro, permaneceram em silêncio. Junto ao motorista, Chíniv apontou para a esquerda, apressando o homem de azul.

Ao deixar atrás a Canônica, o chefe da Segurança, virando-se para o enviado especial do ministro, perguntou em clara alusão ao   inspetor:

- Já lhe explicou?

Rossi levantou a guarda.

- Não, Camilo... Não houve oportunidade.

A praça de Santa Marta também surgia deserta.

- Na suposição - intercalou o prefetto secando rios de suor -, só na suposição de que não se trate de uma morte acidental, existe alguma hipótese?

         Chíniv pensou na resposta. E o chefe de Homicídios, com a alma flexionada como uma pantera, dispôs-se a saltar sobre o menor indício.

         O comandante, reforçando as palavras com uma seca negação de cabeça, replicou.    .

         - Por enquanto não temos condições de saber isso.

         - Mas, Camilo... sejamos francos. Meus homens não podem trabalhar às cegas. Você sabe ou suspeita de alguma coisa? Que opinião tem seu serviço de informação? Ocorreu alguma coisa nos últimos tempos que pudesse nos levar a um possível motivo?

O agente da Segurança acariciou o volante. E o carro deixou a igreja de Santo Estevão à esquerda, aproximando-se do flanco oeste de São Pedro.

- Nos últimos tempos?

O tom desanimado de Chíniv foi imediatamente captado pelo inspetor.

- ... coisas demais. Demais, e uma mais grave do que a outra... E dominando a tentação, tratou de afastar-se daquele campo minado.

- Mas não acho que seja oportuno... Vamos começar pelo começo. O prefetto tornou a jogar o anzol.

- Terroristas? Poderia ter relação com essa organização que tenta chantagear o Vaticano?

Chíniv ficou tenso.

- Como é que você sabe disso?

O prefetto saboreou o triunfo. E optou por arriscar:

- Depois do "incidente" na capela da "Pietà", continuamos trabalhando.. .

- Então - confessou ingenuamente Chíniv - vocês devem estar sabendo do roubo e dos explosivos...

A mente de Rossi contraiu-se. Por genética e por ofício, era um homem ordenado e meticuloso. E aquela charada excedia sua inteligência.e boa vontade.

O Mercedes passou pela via dos Fundamentos, mostrando ao longe, à direita, a fachada norte da Capela Sistina.

E Rossi lamentou aquela súbita e infantil "escorregadela" do seu chefe.

- Roubo? Explosivos? De que é que você está falando?

Chíniv replicou com um sorriso malévolo. E sem cair na armadilha do prefetto, mudou de assunto.

- Meu impaciente amigo, espere um pouco. Vamos deixar primeiro a brigada examinar a capela...

O quebra-cabeças deixou o inspetor exausto.

O motorista diminuiu a velocidade e, ignorando o sinal vermelho do Arco da Sentinefa, penetrou no primeiro dos quatro pátios que o separavam da sua meta.

No "Borgia" , as sentinelas suíças repetiram a posição de sentido. No terceiro - dos "Papagaios" -, o ronco dos motores golpeou o ocre dos muros altos e severos, alertando o Serviço Secreto que aguardava em "São Dâmaso".

Detendo-se diante das galerias de Bramante e Rafael, Rossi acreditou ter encontrado a solução para o diabólico quebra-cabeças. Encontrava-se aos pés do Palácio Apostólico. Conseqüentemente, a "vítima" tinha de ser uma personagem de notável relevância no governo da Igreja.

 

                     06 horas 48 minutos

Aquele movimento animou a confusa brigada de Homicídios. A escada Nobre e seus acessos apresentavam uma desproporcionada e nervosa concentração de guardas suíços. Gasparetto reconheceu entre eles vários dos vinte e três oficiais sem comando.

Surpreendidas pela marcha apressada do chefe da Segurança Vaticana e dos que o seguiam, as onduladas franjas azuis, amarelas e cor de laranja, típicas de Michelangelo, dos soldados só tinham tempo de erguer-se e cumprimentar.

Ao chegar ao segundo andar, o ofegante pelotão parou. Os homens de azul tomaram o corredor principal, colocando-se diante do elevador papal e ao pé da escada de mármore atapetada que leva ao andar superior. Pegando uni dos telefones internos, Chíniv apertou os quatro números do gabinete particular de Sua Santidade.

 

                         06 horas 52 minutos

No primeiro momento, Ugo Gasparetto não reconheceu o cadáver. O deformante traumatismo na região frontal, os coágulos e os fios de sangue que passavam pelas órbitas dos olhos, nariz, pômulo e face esquerda, bem como pelos lábios, queixo e pescoço tomavam praticamente irreconhecível o rosto do Pontífice. Por outro lado, ao identificar a batina branca, Rossi sentiu uma garra fria incrustar-se na sua coluna. Em décimos de segundo refez e ajustou seus labirínticos esquemas. E pela primeira vez na sua longa carreira profissional, sentiu um irrefreável desejo de escapar. Controlando o seu coração agitado, percorreu os semblantes das pessoas presentes, em busca de uma resposta decisiva:

"Que se espera dele e dos seus homens?"

Mas o círculo fechado - com os olhos fitos no corpo - não resolveu seus problemas.         .

Siwiz e sor Joana, resignados, permaneciam às costas de Rodano, dispostos a executar as ordens que o meditabundo prelado considerasse oportunas. Definitivamente, o secretário de Estado assumira o comando e o rumo da perdida nau.

         Chíniv foi o único que acudiu em auxílio dos olhos ansiosos e azuis do inspetor. A leitura muda foi determinante.

         "Assassinato?' ,

         Aquelas pupilas - tingidas de um negro acusador - e o gesto sem piedade nem misericórdia da mandíbula do comandante foram um anúncio transparente e direto.

         Inconscientemente, Rossi ligou seus "faróis automáticos" , e o nervosismo inicial diminuiu...

O pesado preâmbulo dissolveu-se rapidamente. Angelo Rodano ofereceu um envelope ao prefetto, convidando-o a ler seu conteúdo. Após fazer isso, o representante do ministério assentiu satisfeito:

         - Tudo em ordem, eminência. Eu mesmo encaminharei o pedido oficial à sua excelência.

- Nesse caso - replicou o prelado, abrindo impacientemente as mãos -, ajam, por favor. E rapidamente. Camilo e sor Joana os ajudarão em tudo o que for necessário.

         E fazendo um gesto ao pálido Siwiz para que o acompanhasse, retirou-se da capela.

O prefetto - sem saber muito bem o que fazer - virou-se para o inspetor-chefe, ordenando-lhe com um movimento autoritário dos dedos:

         - Já ouviu. Mexam-se...

 

Rossi obsequiou-o com um olhar de desdém. Incomodado, o prefetto escolheu sensatamente o que fazer. Rodeou o reclinatório e, após trocar umas palavras com Chíniv, dirigiu-se para a porta dupla.

Divertido, Gasparetto acariciou o bigode ruivo e generoso. Conhecia bem o seu capitão. E sabia que, em seu trabalho, a palavra "rapidez" era sinônimo de "estupidez". Olhando para os tensos músculos do seu rosto, compreendeu que a mente daquele excelente policial começara a funcionar muito antes da desnecessária ordem do prefetto. E unindo-se às inquietações de Rossi, colocou a questão que - inexplicavelmente - nem o secretário de Estado nem o político tinham querido levantar:

"Por que estavam lá? Eles eram de Homicídios. Não era preciso ser muito esperto para deduzir que aquela morte - pelo menos à primeira vista - reunia todos os ingredientes de um acidente fatal. Que estavam escondendo?"

Obedecendo ao seu instinto policial, porém, deixou as perguntas de lado. E mecanicamente, imóvel junto ao cadáver, uniu-se à primeira e silenciosa "inspeção ocular" iniciada pelo seu chefe. E fez isso segundo o seu costume: "esquecendo" por um momento o objetivo principal, para observar o cenário e tudo o que ele continha. Nesses casos, seus longínquos anos de estudante de arte em Florença eram-lhe de grande utilidade.

"Capela retangular, doação dos fiéis de Milão ao falecido Paulo VI. Paredes e piso recobertos de mármore de Candoglia, imitando a catedral da mencionada cidade. Decoração moderna. Altar e sacrário enriquecidos com esmaltes de Martinotti. Seis velas. Uma acesa. Grande crucifixo de madeira, obra de Manfrini. Paredes laterais em brancomate, com belos vitrais azuis de Silvio Consadori, com cenas do Antigo e do Novo Testamento, e estátuas dos quatro evangelistas. Dois de cada lado e a 1,40 metro do chão. Relaxante vitral de Filocano como teto e na cor turquesa. Atril de ferro forjado à esquerda do altar. Quase meia centena de cadeiras e bancos pequenos. Duas esculturas de Lello Scorzelli representando o batismo no Jordão e a assunção de Maria. Uma via crucis deste mesmo artista, mostrando um Cristo abandonado às paixões dos homens. Aparentemente, só uma porta de entrada. No centro, a cerca de quarenta centímetros do único degrau existente na 'mini-basílica', duas peças 'gêmeas' às quais, sem dúvida, teriam de prestar especial atenção: um reclinatório de um metro de altura e a correspondente poltrona. Tanto a parte frontal do primeiro como o encosto do segundo ofereciam uma cuidada coleção de altos-relevos em bronze, de autoria de Mario Rudelli. Uma águia e dois pintinhos ensangüentados e, na poltrona curva, uma dúzia de altos-relevos com diversas atividades humanas. Estes últimos limpos, sem uma gota de sangue..."

 

Constante Rossi era um velho divorciado da pressa. Seus homens sabiam disso. Assim é que, prudentemente, mantiveram-se em segundo plano, com as maletas fechadas e esperando a "luz verde" que chegaria quando o inspetor - e ninguém mais - considerasse oportuno. E tal como fizeram o chefe da Segurança, o médico e a superiora, deixaram-no inspecionar.

Concluída a inspeção geral, Ugo aproximou-se do capitão e, sem pronunciar palavra, pôs-se de cócoras para concentrar-se no exame do cadáver, do degrau e da avermelhada parte dianteira do reclinatório.

As reflexões de ambos - ainda totalmente provisórias - foram semelhantes:

"Importante traumatismo craniano. Possivelmente - embora isso devesse ser informado pelo médico legista - de caráter fechado. A testa, ao abrir-se contra a massa de bronze, derramara abundante sangue. Quase certamente, da veia frontal. E considerando as dimensões da poça que rodeava o cadáver, o volume de sangue derramado podia superar um litro. A morte, porém, devia ter sido conseqüência do golpe.

"Possível queda? Embora os rastilhos de sangue que partiam radialmente do hipotético ponto de impacto tomassem a teoria verossímil, só uma cuidadosa análise e comprovações posteriores no laboratório, além de interrogatórios e, naturalmente, os resultados da autópsia - se fosse realizada - poderiam elucidar o acontecimento.

         "Dedos contraídos. Ensangüentados porém intatos. Não apertavam nem continham objetos ou rastros detectáveis à simples vista."

Diante da impossibilidade de tocar ou mexer no corpo - pelo menos até a autorização do juiz -, Rossi e seu assistente completaram essas observações iniciais com um calmo passeio em volta do Pontífice.

" ... pés calçados..."

A indumentária também os obrigou a refletir.

"Se o Papa tinha o costume de levantar-se da cama às 5h30 da madrugada - isso aparecia em todas as reportagens - e ir para a capela meia hora mais tarde, em que momento ocorrera o óbito?"

O inspetor fora acordado às 6h17. Não era plausível que o suposto acidente, a descoberta do corpo e os telefonemas posteriores pudessem ter acontecido em pouco mais de quinze minutos.

"Será que o Santo Padre alterara o seu horário? E em caso afirmativo, por quê?" A desordenada constelação de sardas que camuflava o rosto de Gasparetto orientou-se em direção a Rossi. E este, com uma levíssima inclinação de .cabeça, autorizou-o a verificar a súbita idéia compartilhada por ambos.

A enganosamente frágil pessoa do tenente acocorou-se diante do rosto do Papa. Extraiu um cortador de unhas do bolso interno da jaqueta e, com todas as precauções, puxou a borda da manga esquerda, deixando a descoberto o relógio de pulso.

"Maldição! "

Nenhum dos presentes chegou a perceber a sibilina e sufocada imprecação de Ugo.

Retomando para junto do capitão, sussurrou-lhe ao ouvido: - É impossível saber... O sangue está cobrindo a esfera.

Rossi fez uma expressão de desagrado. Se os ponteiros tivessem parado por causa do golpe, o dado poderia proporcionar-lhe uma interessante pista para saber o momento exato do impacto. Mas essa comprovação teria de esperar pela autorização da Comissão Judicial. Uma comissão sobre a qual o inspetor também não fora informado. Sua presença estaria prevista? A lei italiana assim o estipula. Mas como guiarse pela lógica diante do cadáver de uma personagem daquela natureza e num lugar como o Vaticano?

E Constante Rossi, pouco amante de subterfúgios e outros enredos jurídicos, se propôs não afastar-se da sua linha de conduta habitual: a simplicidade.

E junto com o ruivo, empreendeu a fase preliminar seguinte: a exploração de tudo o que rodeava o cadáver.

 

                     06 horas 58 minutos

Sim, tinha observado isso antes, na primeira inspeção geral da capela. Levando em consideração o lugar, pareceu-lhe normal. Mas, de repente, seu fino olfato - ou sua deformação profissional? - fê-lo reparar num "detalhe" que, pelo menos, parecia impróprio num recinto tão minuciosamente arrumado. E Rossi aproximou-se cautelosamente, detendo-se perto do altar.

Preso a todos e a cada um dos movimentos do par, Chíniv também percebeu. E tão intrigado quanto o capitão, perguntou-se por que não o descobrira antes. Faltou pouco para que abandonasse seu lugar junto à poltrona curva, mas no último segundo decidiu esperar e observar. .

O inspetor dedicou alguns instantes à atenta contemplação daquele círio aceso. Seus cinco "irmãos" apresentavam um mesmo e matemático comprimento. Por volta dos trinta centímetros. Ele se formulou uma pergunta inevitável:

"Por que aquela sexta vela está consumida e quase dois centímetros menor que as outras?"

Mas as especulações foram suspensas por uma nova descoberta.

Gasparetto chamou a atenção de Rossi na.outra extremidade do altar.

Aos seus pés encontrava-se um solitário chinelo preto. Sem pressa, o inspetor foi reunir-se com seu assistente.

O exame foi breve mas, como tinha ocorrido com a Segurança, capitão e tenente mostraram-se receosos.

"Que estava fazendo lá - a escassos centímetros do cadáver um sapato de mulher? Alguém acompanhara o Pontífice durante a sua estada na capela? Será que presenciara o suposto acidente?" A quantidade de perguntas começava a pesar. E o chefe de Homicídios considerou que chegara o momento de passar à ação. Chíniv acudiu rapidamente ao seu chamado.

O comandante, porém, não soube responder às duas primeiras perguntas. Ignorava por que o chinelo estava perto do altar, embora suspeitasse quem podia ser o dono dele. Com relação à vela acesa, nem idéia.

- Talvez eu possa esclarecer isso, inspetor...

Sor Joana rompeu o silêncio. Calçando o sapato, acrescentou com um sorriso amargo:

- Acho que o perdi nos primeiros momentos de confusão, ao encontrar o corpo do Santo Padre...

Gasparetto começou a anotar, e Chíniv respirou aliviado. Mas o capitão, insatisfeito, apontou para o segundo pé, pedindo que a superiora explicasse por que ele também estava descalço.

A freira, espantada, não conseguiu responder. E suas faces incendiaram-se, aumentando a desconfiança do inspetor.

 

                   07 horas 02 minutos

A porta dupla se abriu, e o interrogatório foi suspenso. Uma corpulenta batina preta recortou-se contra a luz do corredor. E Angelo Rodano avançou gesticulando. Do seu lado, nervosa, mínima e quebradiça, apareceu a figura de um ancião, ostensivamente dobrada pelo peso de uma maleta preta. Discutiam, mas quando chegaram ao reclinatório, pararam. E o expectante e esquecido Itenozzu foi se reunir com seu colega polonês, Mielawcki. Embora não tivesse coragem de colocá-la abertamente, seus pensamentos orbitaram em torno da questão que o secretário de Estado tinha levantado e que provocara a discussão:

"A que se devia aquele atraso? O médico pessoal do Papa fora avisado telefonicamente por volta das cinco e onze minutos..."

Rossi esqueceu a superiora e observou o recém-chegado. Seu terno, negro funerário, e aquele rosto pálido e arruinado pela varíola não foram do seu agrado.

 

Esquecendo o cadáver, o homenzinho entreteve-se observando descaradamente os que estavam reunidos lá. Ao identificar Chíniv e os funcionários policiais, as crateras do seu rosto distorceram-se. O comandante, habituado ao agressivo estilo do polonês, ignorou-o. Ugo fez uma careta de desprezo. Em compensação, Rossi ficou perplexo. Mas não pela falta de cortesia do médico, mas por outra circunstância, evidentemente anormal. Em vez de ocupar-se imediatamente do corpo do seu amigo, dera notória preferência à minuciosa inspeção dos presentes.

Mielawcki engoliu seus pensamentos, ao contrário do inspetor. Este, aproximando-se do prelado, interrogou-o acerca da Comissão Judicial.

A intuição de Rossi estava certa. Ao escutar a pergunta, a irritação do doutor jorrou, deixando Rodano com a palavra na boca.

- Quer dizer que também autorizaram a entrada desses chicaneiros? Por que não respeitam sua desgraça? A que outras infâmias pensam submetê-lo?

E colérico, desafiando o monsenhor do alto de sua minguada estatura, continuou sem rodeios:

- O senhor e sua corja de fariseus tentaram enlouquecê-lo. O senhor e essa Cúria venenosa o mataram...

O rosto de Rodano transformou-se em porcelana. O capitão, instintivamente, desviou o olhar para a superiora. Nos seus olhos cinzentos acreditou distinguir um apoio disfarçado às afirmações brutais do seu compatriota.

- Que significa esta farsa? - vociferou o ancião fora de si. Será que sua eminência acredita que uma investigação policial resolverá as coisas?... Vocês, sanguessugas, souberam planejar tudo muito bem... Ele está morto. Isto é o que importa.

E antes que o desconcertado prelado conseguisse replicar, Mielawcki jogou a maleta aos pés de Renato Itenozzu. Censurando-o com um sorriso sardônico, reservou para ele a última gota de veneno:

- Faça você... se se atrever! Elabore o atestado de óbito. Eles saberão recompensá-lo...

E a silhueta desajeitada afastou-se do furacão que acabara de provocar, desaparecendo pela porta dupla.

Habilmente, Constante Rossi acudiu em auxílio do secretário de Estado, dissipando assim a curiosidade mórbida de alguns olhares.

- Eminência... terei de interrogar todos os que trabalham neste terceiro andar.

Rodano agradeceu a salvação. E, alertando o chefe da Segurança, pediu-lhe que se aproximasse.

- Entregue a lista ao inspetor...

 

Rossi a folheou sem exteriorizar um interesse excessivo. Passando      o papel ao seu assistente, ordenou-lhe:

         - Ocupe-se disso.

         Logo após - simulando ter esquecido - interessou-se novamente pela Comissão Judicial.

         - Está a caminho. Algo mais?

         Satisfeito, o capitão limitou-se a murmurar um preventivo "não... por enquanto".

         O prelado, segurando Chíniv pelo braço, apressou-se a seguir os passos do médico polonês.

         Desanimado, Itenozzu também se dispôs a abandonar o local, porém Rossi o reteve.

- Um momento, doutor...

Abordando os funcionários policiais, autorizou-os a começar. - Já sabem. Primeiro as fotografias.

O tenente concordou, e os quatro homens dirigiram-se para o fundo da capela, depositando as maletas sobre o veludo verde das pequenas banquetas.

O inspetor convidou o chefe do Serviço Sanitário do Vaticano a ir com ele até a porta dupla.

- Diga-me, por favor: examinou o cadáver?

Itenozzu tentou acalmar-se.

- Minimamente...

- Moveu-o?

- Não, a proibição do secretário de Estado foi terminante. O esclarecimento tranqüilizou o policial.

Dirigido por Ugo Gasparetto, um dos funcionários operou o potente flash, iniciando o trabalho fotográfico. Em primeiro lugar, uma série de vistas gerais. Com a pressa, tinham esquecido a câmera de vídeo.

- Algum outro sinal de violência, além dos visíveis?

O médico replicou com cansaço.

- Impossível saber sem um profundo exame.

- Rigidez cadavérica?

Itenozzu deu de ombros, repetindo o que já manifestara ao prelado.

"Em outras palavras - argumentou Rossi para si mesmo -, estamos com pés e mãos amarrados. Será preciso esperar o laudo do legista. "

A voracidade dos flashes acabou com o ânimo de sor Joana. Embora compreendesse a missão daqueles. homens, alguma coisa dentro dela revoltava-se contra o que considerava uma violação da intimidáde do seu reverenciado Santo Padre. Não podia suportar aquele foco implacável aproximando-se da cabeça, do rosto ou das costas do corpo indefeso. E angustiada - órfã da companhia das suas irmãs e do chefe da Segurança e impotente diante do ir-e-vir dos funcionários em volta do reclinatório -, foi deslizando lenta e sigilosamente para a porta.

- Sabe se a vítima sofria de alguma doença concreta? Itenozzu tentou escapar.

- Terá de perguntar isso ao seu médico de cabeceira...

O capitão fez de conta que não tinha ouvido.

- Era propenso a desmaios ou enjôos?

O médico titubeou, e pagou pelo erro.

- Por favor - interrompeu o capitão bruscamente -, não esconda nada de mim. Mais cedo ou mais tarde...

Sor Joana entreabriu a porta dupla, mas Rossi a fulminou: - Irmã, por que tanta pressa?

A superiora abaixou a cabeça, envergonhada.

- Sei que, ultimamente, sua saúde tinha se deteriorado...

O inspetor exigiu que fosse mais concreto.

- Perdia peso. Alimentava-se mal e tinha quedas de pressão. - Estava tomando algum remédio?

- Suponho que sim...

- Supõe?

Incomodado diante da pressão, Itenozzu voltou a referir-se a Mielawcki.

- Mas o senhor é o chefe do Serviço Sanitário. Que remédios? - Já lhe disse que não sei...

- E sobre a sua saúde mental?

O médico percebeu o perigo. No seu cérebro continuava ressoando a audaz acusação do polonês.

- Inspetor, não sou psiquiatra...

Rossi tomou a empurrá-lo contra as cordas.

- Ora, doutor, vamos lá, isto aqui é uma aldeia...

- Pergunte a Mielawcki.

- Estou perguntando ao senhor.

O tom do capitão era cortante.

- Não sei, não tenho elementos suficientes para julgar. Tente compreender.

As balbuciantes palavras de Itenozzu foram a melhor resposta. Mas o inspetor-chefe, abusando da docilidade do médico, pressionou-o, um pouco mais.

- A única coisa que compreendo é que uma das suas obrigações era conhecer o estado físico e mental do seu ilustre paciente. Assistiu pessoalmente a alguma manifestação de desequilíbrio psíquico?

Renato olhou-o aterrorizado.

- Não, naturalmente...

- Mas ouviu dizer...

- Só boatos - cedeu Itenozzu, baixando a guarda. - Que boatos?

 

                       07 horas 10 minutos

Rossi franziu a testa. A maldita porta dupla começava a irritá-lo... Desta vez foi Chíniv quem entrou. Desculpou-se e, apontando para o centro da capela, deu a entender ao capitão que precisava falar com ele.

O médico recuperou as cores, recebendo a presença do comandante como uma libertação. Mas Rossi, velho conhecedor da natureza humana, antecipando-se às suas intenções, ordenou-lhe que aguardasse.

O chefe da Segurança, conduzindo afavelmente Rossi até o encosto da poltrona curva, anunciou-lhe a chegada imediata do juiz e dos legistas.

- Como vai o trabalho?

O inspetor estendeu a mão esquerda, convidando seu interlocutor

a verificar por si mesmo. Dois dos seus homens, providos de "testemunhas métricas" , giz e uma solução leitosa, examinavam cuidadosamente o cadáver, a poça de sangue e os numerosos rastilhos sanguinolentos. Após marcarem os detalhes e os pontos de interesse mediante as referidas "testemunhas" ou fitas crepes de papel milimetrado e numerado, o terceiro funcionário os fotografava imediatamente, tanto em detalhe - com a ajuda de uma lente "macro" - como no plano geral. Por outro lado, Ugo iniciara um minucioso levantamento dos croquis da capela e de tudo o que ela tinha.

- Começando...

- Tudo bem - tranqüilizou-o Chíniv -. Agora tenho de ir. A comissão está para chegar a qualquer momento. Certamente...

         O chefe da Segurança lançou um olhar desconfiado a Itenozzu e à superiora. E abaixando o tom de voz, confidenciou-lhe:

         - É possível que a autópsia seja realizada muito antes do que imaginávamos.

         A estudada pausa de Chíniv e uma sombra de desânimo nos seus olhos avermelhados surtiram efeito. Rossi reagiu:

         - Que está insinuando?

         - Posso dizer a verdade ao senhor. O monsenhor Rodano está lutando praticamente sozinho... Digamos que existe uma "tendência" dentro do "sistema" que se opõe a esta investigação e, muito especialmente, à autópsia.

O inspetor sorriu ironicamente.

- É verdade. Ajam rapidamente.

- Onde será realizado o exame anatômico?

Chíniv vacilou mas, finalmente, admitindo que Constante Rossi - de certo modo - estava do seu lado, revelou que "tudo fora preparado para que ele fosse efetuado naquele terceiro andar. A primeira idéia de Rodano - transferir o cadáver para a clínica Gemelli – fora deixada de lado".

- E tem outra coisa.

O chefe da Segurança distanciou-se de Rossi. E mostrando o apoio de braço do reclinatório, sugeriu-lhe que o examinasse.

O capitão acedeu, e após contemplar as gotas de sangue, o azul dos seus olhos perdeu-se no pavimento de mármore sobre o qual se supunha que o Santo Padre tivesse escorregado ou tropeçado. E suas sobrancelhas começaram a tremer.

- E então, qual é a sua opinião?

A mente do policial, em ebulição, não mudou a expressão do rosto inexpressivo. E o comandante teve de interpelá-lo pela segunda vez. - Não acha estranho?

A réplica foi uma jarra de água fria.

- Não muito, francamente. Não sabemos se, apesar do golpe, teve a oportunidade de levantar-se, procurando apoio de braço do reclinatório. . .

- Mas...

- Nesse caso - arrematou o inspetor impassivelmente -, seria lógico que o sangue da testa tivesse caído sobre o veludo.

E dando meia-volta, afastou-se do consternado comandante.

 

                       07 horas 14 minutos

O tenente interrompeu a confecção dos croquis e, obedecendo à recomendação do seu chefe, iniciou a busca de marcas de sapatos numa primeira área de seis metros quadrados, à direita do altar. A potente lanterna, manejada com destreza, descobriu logo um caos de impressões, de tamanhos e desenhos muito diferentes. Com uma paciência treinada, ajudado por outro dos especialistas, Gasparetto foi dirigindo o facho de luz de forma indireta, quadriculando cada setor, desenhando formas e direções e tomando as distâncias correspondentes.

Rossi deu uma nova ordem.

- Logo que for possível, passem um pente fino pela zona. Comecem pelo reclinatório e pela poltrona. Depois procurem no altar, degrau, piso, fechaduras, atril etc... Ah! E não se esqueçam dos círios, especialmente do aceso. Quero o máximo possível de impressões.

E mudando a direção dos seus pensamentos, dedicou alguns instantes à observação dos seus objetivos imediatos. Itenozzu e a superiora continuavam junto à porta dupla, forçosamente submissos. Aniquilados por presságios funestos. O médico, em atitude reflexiva, passando a mão pelo seu queixo quadrado, parecia mais excitado do que sor Joana. E o capitão, astuto, considerou mais conveniente começar pela religiosa, aumentando assim o nervosismo do médico. Se a psicologia não estivesse errada, quando reiniciasse o interrogatório Itenozzu mostrar-se-ia mais propenso à "colaboração"...

A freira acudiu rapidamente ao pedido do capitão. O médico, efetivamente, foi sacudido por uma rajada de inquietação. Espiando-o com o canto do olho, Rossi felicitou-se.

- Bem, irmã...

Antes de colocar a primeira questão, sor Joana, temerosa, escondeu-se entre o tremor febril dos seus dedos.

         - Por favor - pediu Rossi, conciliador -, só estou tentando conversar. Pura rotina...

         A freira tentou corresponder. Mas o sorriso nasceu morto.

         - Pelo que entendi - mentiu ca1culadamente - foi uma das suas religiosas que descobriu o cadáver...

Desconfiada, ela buscou a resposta nas obstinadas pupilas do capitão. Suas mãos enroscaram-se até machucá-la. Mas Rossi não conhecia a pressa.

         - Fui eu, senhor... Exatamente às dez para as cinco...

         Enquanto a compungida freira organizava suas recordações, relatando a dolorosa experiência, o inspetor foi jogado no mais profundo daquele dilema. Suas suposições provisórias desmoronaram. Tinha de arrancar a folha, e partir de zero. O horário habitual do Pontífice, efetivamente, parecia notavelmente alterado.

- E a senhora afirma que a capela estava trancada?

- Desde a meia-noite.

- Alguém mais tem a chave desta porta?

- Não, senhor...

O capitão desviou seus pensamentos para o altar, mas a superiora antecipou-se.

- Sua Santidade dispunha de uma pequena entrada, à direita da abside. É privada e comunica diretamente com seus aposentos. Deseja vê-la?

         Surpreendido com a agilidade mental daquela mulher de sessenta anos, limitou-se a sorrir-lhe. E foi direto ao que interessava.

- Pode me dizer se o Papa solicitou a presença de algumas das senhoras, ou de seus colaboradores, entre a meia-noite e as cinco da madrugada?

- No tocante a nós, não, obviamente. As irmãs e eu nos retiramos pouco depois da meia-noite. Se o Santo Padre chamou alguém no decorrer das quatro horas e meia seguintes, eu sinceramente desconheço.

- Já inspecionou o quarto?

Desta vez foi a religiosa que se sentiu satisfeita pela intuição do policial. E seus olhos recuperaram um pouco da sua proverbial serenidade. - Por ordem expressa de sua eminência...

"Interessante - pensou o capitão -. Muito interessante. Aparentemente, alguém se antecipou a nós..."

         - E tal como eu imaginava - prosseguiu a freira melancolicamente -, a cama está desarrumada.

         - E o que é que isso tem de estranho?

         - Em princípio, nada... O Santo Padre deitou-se. Tenho certeza

disso. E possivelmente tenha feito isso de acordo com o seu hábito, por volta das onze e meia. Meia hora antes costumava trancar-se nos seus aposentos...

- Trancar-se? Com chave?

Sor Joana retificou. Explicara-se incorretamente.

- Não, o Santo Padre não era desse jeito... Seus aposentos estavam sempre abertos...

Um dos funcionários encaminhou-se para as maletas. Instantes mais tarde, ao passar de novo diante do inspetor, fechou o punho direito, elevando o polegar. Rossi respondeu piscando o olho. E enquanto escutava a religiosa, o seguiu com o olhar. Realmente, sentia-se orgulhoso dos seus homens. Todos eles tinham captado a necessidade de agilizar o trabalho. O autor do sinal ajoelhou-se muito perto do pé esverdeado e polido do reclinatório. Destampou um dos frascos que acabara de trazer e, com enorme cuidado, derramou uma dose de reativo sobre os pêlos de um pincel. Após impregná-lo com carboneto de chumbo, dirigiu o pincel sobre o bronze, "pintando" delicadamente a superfície lisa. Lenta e inexoravelmente, o pó branco foi cobrindo as escassas zonas respeitadas pelo sangue. O policial aguardou ansiosamente. Se a parte superior e frontal do pé curvado conservasse alguma impressão digital, ela não demoraria muito para se manifestar.

Então o funcionário, erguendo o rosto para Rossi, balançou a cabeça negativamente.

- Mais de uma vez - explicava a superiora -, entre onze e doze horas da noite, vi o primeiro-secretário entrar e sair do quarto de Sua Santidade. Em todos esses anos nunca soube de alguém que chegasse a fechar essas portas. E vou lhe dizer mais: acho que o Santo Padre nem sabia onde era guardada a chave do quarto...

Vencida a resistência inicial, o capitão foi aprofundando:

- Quem tinha acesso aos seus aposentos particulares?

- Siwiz, naturalmente. E também o camareiro, uma empregada e o resto das irmãs encarregadas da limpeza...

- E o médico?

- Só em caso de doença ou em situações...

Sor Joana compreendeu que se precipitara, mas seu repentino mutismo tinha os segundos contados. E o inspetor, sorrindo maliciosamente, arredondou a frase inacabada.

- "Situações especiais"?

O rosto magro ruborizou-se.

- Que tipo de "situações"?

Presa na armadilha, ela lhe contou parte da verdade.

- Nas últimas semanas, desconheço a causa, Sua Santidade tinhá sentido enjôos e sofrido desmaios preocupantes. Pois bem, em duas, ou três oportunidades teve de ser auxiliado e obrigado a ficar na cama.

         Mielawcki o atendeu...

Rossi interveio diretamente.

- A senhora acha que ele estava sofrendo algum tipo de depressão?

Indecisa, mordeu os lábios.

- Não sou médico, inspetor...

- Mas sim uma excelente observadora...

Sor Joana sucumbiu ao oportuno e certeiro elogio.

- Bem, de certa forma, eu era um dos seus "anjos da guarda" .

Desde o atentado na praça de São Pedro ele já não era o mesmo... E, recorrendo à memória, acrescentou convencida:

- Mas o assunto da Pietà o transtornou. Nunca o vira tão reservado e taciturno. Fugia de nós. Rejeitava as sobremesas de sor GabrieIa. Seu olhar, antes vivaz, apagou-se. Dedicava muitas horas à oração.

         Este lugar era o seu refúgio...

- Tomava algum antidepressivo?

A superiora abaixou os olhos, tentando recordar.

- Não sei lhe dizer com certeza...

- Quem era responsável pelos remédios?

A freira, pressupondo alguma segunda intenção, retraiu-se. - O Santo Padre tinha uma rejeição natural por remédios. Sempre foi um homem forte, saudável e jovial...

         Um sorriso benevolente fê-la lembrar-se de que estava se distanciando da pergunta.

         - Essa era uma das minhas obrigações - reconheceu calmamente. - Mas sua "farmácia" era mínima...

         - Nortriptilina?

         O esperto policial não se desviava um milímetro do seu objetivo.

- Não me parece...

- Talvez Desipramina ou Protriptilina?

Foi negando sistematicamente e Rossi desistiu. O cinza cristalino dos olhos da superiora não se nublara com a menção de nenhum dos mencionados antidepressivos. E o inspetor mudou o rumo da conversa.

- Que foi que Mielawcki lhe receitou contra os desmaios?

- Comprimidos... Tinha de tomá-los três vezes por dia.

- Que tipo de pílulas?

- Efortil. Eu mesma as deixava em cima da mesa...

- Desde quando ele as tomava?

- O tratamento foi iniciado há alguns dias.

Com uma obsessão quase paranóica, o capitão formulou uma questão que ele mesmo esclarecera implicitamente:

- Quem deu essa ordem?

A freira respondeu mecanicamente:

- O senhor acabou de mencionar: seu médico pessoal.

- Foi submetido a algum exame prévio?

- Sinto muito - freou a religiosa, sustentando o, olhar de Rossi

- Se eu lhe disser que sim ou não, eu estarei mentindo. Esses temas são reservados. Terá de perguntar a Mielawcki.

Os funcionários, em sua busca implacável de impressões digitais, estavam se ocupando da almofada esponjosa costurada ao reclinatório e na qual o Pontífice se ajoelhava. Neste caso, o couro verde-claro foi pincelado com magnabrush, um reativo preto. A busca não deu qualquer resultado.

         Rossi, recuperando o fio de uma meada aparentemente esquecida, fez uma nova ofensiva.

         - A senhora disse que inspecionou o quarto por ordem expressa do secretário de Estado. Por quê?

Sua própria ingenuidade a pôs a salvo.

- Não sei por quê.

O inspetor percebeu que não devia abusar das suas perguntas agressivas. Era uma perda de tempo tentar enganar a superiora. Colocou o problema de outra maneira:

- Encontrou alguma coisa que chamasse a sua atenção?

Sor Joana congelou a resposta. Piscou indecisa e Rossi a incentivou, tentando facilitar as coisas para ela.

- Alguma coisa fora do normal...

- Não sei, inspetor...

Naquelas palavras ele adivinhou uma insinuação.

- Irmã, por favor, não se subestime. Diga seja lá o que for...

         Reconfortada, ela balbuciou:       .

- Talvez não tenha importância...

- Deixe-me julgar isso.

- Está bem - abriu-se -. Vou lhe dizer o que eu acho. Estou há anos a serviço do Santo Padre.

E deixando cair o olhar sobre o cadáver, retificou:

- Bem, estava... O que eu quero lhe dizer é que, em todo esse tempo, ele nunca tinha feito uma coisa assim...

Rossi apressou-a:

- Refiro-me ao seu querido e fiel despertador de Cracóvia. Ele o ganhou de presente há vinte anos. Era um ritual. Ele marcava a hora em que queria acordar. Sempre às cinco. Ele lhe dava corda. Só em raras ocasiões, Angelo, o camareiro, ocupava-se disso. Mas, casualmente, ele estava ausente há três dias. E agora vem o estranho. Quando examinei o quarto vi que o relógio, como sempre, fora programado para tocar às cinco em ponto. Além disso, o mecanismo funcionou até acabar a corda.

O capitão fingiu não compreender.

- Está muito claro. Se a irmã Fé e eu encontramos o corpo às dez para cinco, por que programou o relógio para as cinco?

- Muito fácil. Pode ter acordado antes, vestiu-se e entrou na capela. Por isso esqueceu o despertador... Sor Joana não aceitou a explicação.

- O senhor não o conhecia. Que Deus e a Santa Madonna me perdoem... Algumas vezes, especialmente com as suas inocentes manias, era teimoso como uma mula.

Rossi continuou fazendo papel de bobo.

- Irmã, qualquer um tem um descuido desse tipo. A senhora mesma declarou que nos últimos tempos ele estava taciturno e preocupado...

         A religiosa não o deixou concluir:         .

         - Não, inspetor. Mesmo aceitando que ele rompesse esse hábito, coisa que duvido, como explicar que também "esquecesse" seus outros costumes?

         O rosto do chefe de Homicídios foi endurecendo.

         - Toda manhã, antes de se vestir, ele tomava banho, fazia barba

         e escovava os dentes...

         A freira respirou fundo.

         - O senhor e seus homens podem verificar isso. O banheiro e as toalhas estão secos. Não foram utilizados. Nem o pincel e o aparelho de barbear... Depois de fazer a barba, Sua Santidade sempre jogava fora a lâmina...

O tique colocou em movimento as sobrancelhas do capitão. - Quanto à escova de dentes - seu tom subiu até a agressividade -, está tão seca quanto o resto... O senhor acha que isso é normal?

 

                     07 horas 34 minutos

Constante Rossi deixou o tenente terminar a inspeção do corpo duplo que sustentava o atril de ferro. Diante do resultado positivo, um dos peritos - com o pincel na mão - apressou-se para captar as marcas aparecidas no metal preto. Após essa "reconstrução", outro dos policiais procedeu a marcá-las com uma "testemunha métrica", fotografando-as.

Satisfeito, Gasparetto bateu cordialmente nas costas do fotógrafo. E reparando no olhar do chefe, foi ao seu encontro.

Na presença de sor Joana - sem se esquecer de nada -, o inspetor sintetizou-lhe o que tinha acabado de saber por meio da religiosa.

         - Dê uma olhada...

         E dirigindo-se à superiora, pediu-lhe que acompanhasse seu assistente, mostrando-lhe os aposentos privados.

         A irmã concordou satisfeita.

         - Ah... -lembrou-se Rossi, enquanto, astutamente, forçava a freira a tomar o caminho da porta secreta -, não deixe que eu.me esqueça de lhe perguntar sobre essa vela...

Ugo sabia que ele estava se referindo ao círio aceso. Sor Joana intrigada, parou. Era a segunda pessoa que insistia naquele assunto enigmático. E, incapaz de dominar a curiosidade, decidiu encerrar logo o problema.

- Como já manifestei à sua eminência, eu respondo pelas irmãs... Nessa ocasião, Rossi foi sincero.

- Não estou entendendo.

- Quero dizer que é impossível que elas tenham se esquecido. Essa noite, ao fechar a porta dupla, as seis velas estavam apagadas. Constante desafiou-a:

- Como pode ter tanta certeza?

A polonesa fuzilou-o com o olhar.

- O senhor parece ser um homem rigoroso no seu trabalho... - Sim, tento ser...

- Eu também, inspetor.

O policial aceitou a justa recriminação.

- O que é que a senhora sugere então?

Ela respondeu à queima-roupa:

- Que o Santo Padre não foi a única pessoa a visitar a capela durante a madrugada...

Rossi e Gasparetto trocaram um olhar de perplexidade.

- E por favor - acrescentou -, não recorra ao fácil argumento do prelado. O Papa não se ocupava das velas...

O inspetor os viu afastar-se e desaparecer atrás do altar. E não teve mais remédio senão reconhecer que aquela mulher teria sido uma policial muito sagaz...

Abrindo seu modesto bloco, escreveu calmamente:

"Entrada da brigada na capela às 6h52. Vela consumida em vários centímetros. Consultar laboratório."

         Obedecendo a ordem do capitão, um dos funcionários começou a se ocupar do rastreamento de possíveis impressões no círio.

Selecionando cuidadosamente dois palmos de tapete, Rossi foi se ajoelhar o mais perto possível do rosto do Pontífice. Primeiro o observou atentamente. Depois, com grande respeito, estendeu a mão esquerda. As pontas dos seus dedos acariciaram o queixo, percorrendo-o suavemente.

Inspirou profundamente e, como se precisasse de uma confirmação, repetiu o gesto sobre a face esquerda, de baixo para cima.

A madre superiora tinha razão. O cadáver apresentava uma barba loira, áspera e com um crescimento que o inspetor calculou em mais de vinte horas. Infelizmente, o caso parecia mais complicado à medida que a investigação avançava.

De repente, seus olhos perscrutadores fecharam-se ligeiramente, procurando um enfoque mais exato. E, contendo a respiração, inclinou-se junto ao grande coágulo da testa. Sua vista não o traíra. Recuou. Ficou de cócoras e o indicador esquerdo aliviou a súbita coceira das sobrancelhas.

"Que estranho! Não parece sangue!"

Erguendo-se, dirigiu-se vagarosamente até as maletas. Pegou uma lente de aumento e, retomando junto ao corpo, examinou o ferimento com a ajuda dos nove graus de aumento.

         "Rossi - recriminou-se -, você é um tremendo de um estúpido... Agora sim você está no caminho certo."

         Foi mexer pela segunda vez nas maletas e, ao regressar, continuou conversando consigo mesmo.

"Se for o que imagino, terei de refazer algumas perguntas." E aproximando a grossa lente, localizou o diminuto indício. Com capricho e delicadeza, ajudado por pinças metálicas, foi descolando-o dos coágulos. A fibra avermelhada foi parar no fundo de um estreito tubo de vidro.

Com seu sereno pulso de caçador, extraiu da ferida da testa um segundo e um terceiro filamentos.

 

                   07 horas 42 minutos

A Comissão Judicial irrompeu na sala, e a brigada interrompeu as pesquisas. Rodano e Chíniv lideravam o grupo. O inspetor-chefe sentiu um certo alívio. Pelo menos tinham se apressado.

Após um aperto de mãos protocolar, o juiz assumiu a direção... Evidentemente pareciam ter sido instruídos pelo secretário de Estado.

Rossi e seus homens falaram com o olhar. A comissão não era das piores. O juiz - embora ranzinza e distante - gozava de uma reputação honesta entre o corpo judicial. Sabiam fazer um inquérito e, o que era mais importante, deixar os investigadores trabalhar.

Praticamente não conheciam o oficial encarregado de elaborar a ata.

Quanto aos médicos designados para o caso, nenhum problema. O capitão e o tenente já tinham trabalhado com ambos. Especialmente com Zarakal, diretor do Instituto Médico Legal de Roma, um organismo que não pertencia à Administração do Estado e ao qual a Justiça recorria quando precisava dos serviços de um legista.

Rossi estimava Rafael Zarakal: um italiano de origem russa, de carreira meteórica, professor universitário, treinado por mais de três mil autópsias e de uma perspicácia e integridade profissionais pelas quais era respeitado e invejado pelos seus colegas. Mas aquele quarentão tão longo em estatura quanto em humanidade - também sobressaía pela sua simplicidade inata e por um senso de humor que iluminava a todos os que o rodeavam. Algo aparentemente incompatível com a sua dura profissão.

Os legistas examinaram o cadáver com uma pressa pouco habitual. O inspetor não se enganara. Todos tinham sido alertados com relação às especialíssimas circunstâncias que confluíam naquele corpo, naquele lugar e naquelas pessoas. E rememorou a acertada advertência do chefe da Segurança. Zarakal, finalmente, atestou o óbito.

Angelo Rodano consultou o relógio.

Inclinando-se para Camilo Chíniv, sussurrou-lhe palavras ininteligíveis. O comandante não respondeu. Este, passando pelos atarefados membros da comissão, uniu-se ao capitão.

- O prelado deseja saber se concluíram.

O inspetor olhou incredulamente para ele. Foi suficiente.

- Não se assuste - acrescentou Chíniv -. Entendemos. Mas a autópsia tem prioridade. O senhor compreende...

Rossi ofegou incomodado.

- Se lhe parece conveniente, estão autorizados a prosseguir depois da retirada do cadáver.

Os funcionários policiais, com pincéis e frascos de reativos nas mãos, aguardaram instruções. O capitão, habituado a estes procedimentos, abordou o juiz, solicitando permissão para duas operações rápidas.

- Claro - aceitou o magistrado -. Mas o senhor dispõe apenas de dois minutos.

Chamando seus homens, Rossi precipitou-se sobre o corpo.

- O aspirador... Primeiro as roupas...

E sob a atenta vigilância do juiz, o inspetor pegou o pulso esquerdo do Pontífice, soltando a pulseira do relógio.

O oficial anotou o fato. E um segundo funcionário ofereceu a Rossi um saco transparente.

O capitão examinou a esfera. Ugo tinha razão: o sangue seco ocultava os ponteiros. Após fotografar o relógio, enquanto o deixava cair no plástico, ordenou contundente:

- Analisem o sangue. Tirem as impressões e verifiquem o mecanismo.

Solícito, Zarakal ajudou o responsável pelo pequeno aspirador movido a pilhas. Esticou a batina, auxiliando a ação do objeto.

Rossi agradeceu com uma piscadela a ajuda espontânea. O chefe dos legistas sorriu com cumplicidade.

- Muito bem. Vamos proceder ao levantamento...

O juiz avisou o comandante. Instantes mais tarde, quatro homens de azul entravam no templo. Rodano, Rossi e os funcionários afastaram-se. E dois dos agentes de Segurança colocaram uma maca junto ao reclinatório.

O presidente da Comissão deu uma ordem sumária.

- Quando quiserem...

Auxiliados por Itenozzu, os médicos tomaram posição sobre o cadáver.

Os flashes e o ruído dos filmes sendo rebobinados tornaram a cena ainda mais dramática.

O prelado fez o sinal da cruz. E o inspetor - vítima de uma tensão inesperada - percebeu que as suas sobrancelhas "cavalgavam" de novo.

Entre as pernas do Pontífice, Zarakal deslizou as poderosas pinças dos seus dedos por baixo dos joelhos, enquanto seus colegas seguravam braços e ombros. Entreolharam-se e, sincronizadamente, dirigidos pelo diretor do Instituto, levantaram o corpo na primeira tentativa, depositando-o sobre a lona. Com um par de manobras simples, o cadáver foi virado, ficando pronto para a inspeção seguinte.

O oficial secretário continuou fazendo suas anotações.

De repente, a atenção centralizou-se na parte do tapete sobre a qual repousara o tórax do Santo Padre. A tensão duplicou.

Intuitivo, o inspetor avisou o fotógrafo por meio de sinais. E outra série de flashes deslumbrou as testemunhas atônitas.

Ninguém se mexeu.

Rossi foi direto aos olhos do juiz. Este, traduzindo a claríssima linguagem, assentiu com a cabeça.

Lívido de surpresa, Rodano não reagiu a tempo.

Chíniv adivinhou as intenções do capitão, mas, de conformidade com seu cargo, aguardou instruções do prelado.

Itenozzu, acabrunhado pelos acontecimentos, manteve-se à margem.

E Zarakal, lendo nos semblantes contraídos, deslocou-se habilmente, colocando-se entre o chefe da Segurança e o tapete.

A sibilina cooperação do forense foi desnecessária. Curvando-se como uma onda, Rossi passou à frente, apoderando-se do "achado".

         - Capitão, ocupe-se...

A voz seca do juiz arruinou qualquer hipotética nova intervenção. - Inspecione-o. Mais tarde me prestará contas.

 

                   07 horas 52 minutos

Rossi pegou um segundo saco plástico e deu algumas ordens. - Raspem o apoio de braço e o bronze. Precisamos completar as amostras de sangue.

E dirigindo-se ao policial que estava com o aspirador, marcou os seguintes objetivos:

- Tapete... Poltrona e reclinatório... Depois as toalhas do altar. Quando finalizarem - animou-os - guardem a vela, terminem as medições e preparem-se para voltar à sede.

O silêncio - marcado pela respiração dos homens e pelo ruído do aspirador - passou a governar a capela.

Sem a embaraçosa presença de Rodano e sua gente, o capitão entregou-se ao exame do misterioso objeto que aparecera sob o corpo do Papa.

Virou-o desconcertado. Em princípio, não parecia um exemplar comum e coerente. E deixou seus pensamentos em liberdade.

"Que relação podia ter com a madrugadora visita do Pontífice ao pequeno templo? Por que estava justamente embaixo do seu corpo? Que continha? Será que encerrava o segredo para interpretar seu comportamento não usual? Por que seu tique premonitório surgira segundos antes do levantamento do cadáver?"

Acariciou as duras capas de papelão. Mas sua mente analítica, vacinada contra a adivinhação, não pôde ir além do vermelho cardinalício das capas.

Não apresentavam rastros de sangue nem qualquer legenda. E guardando o plástico no qual deveria ficar protegido até sua posterior análise no laboratório, abriu-o avidamente.

         Numa análise superficial, verificou que as páginas daquele livro eram manuscritas. O texto - formado por uma letra pequena e apertada - estava escrito num italiano impecável. Quase totalmente com tinta azul. Só de vez em quando a escrita era salpicada por parágrafos escritos em vermelho.

Escolheu um par de folhas quaisquer, pela metade do livro. Mas a leitura o desnorteou.

O estilo, os detalhes e descrições eram próprios de alguém que, usando uma fórmula muito pessoal, tentava transmitir "algo" que, para o confuso inspetor, não parecia guardar relação com a morte do Papa.

"Sim, essa era a definição - aceitou, satisfeito -. Um 'diário'."

E incapaz de controlar-se, começou a formular perguntas.

"O que é que o Santo Padre estava fazendo a altas horas da madrugada lendo aquela espécie de 'diário'? Ou não o estava lendo? Quem era o autor? Que tinha a ver o assalto a um 'superacelerador' de partículas em Genebra com tudo aquilo? Porque isso, sem tirar nem pôr, fora o que tinha acabado de ler..."

Disposto a medir sua paciência, sentou-se junto às maletas metálicas, abrindo o manuscrito na primeira página.

 

                     08 horas 07 minutos

Gasparetto teve de repetir a pergunta. Poucas vezes o vira tão abstraído.

- E o cadáver?

Finalmente, Rossi desgrudou a vista do livro. Passeou o olhar pelo seu assistente e pela superiora mas - na opinião do primeiro – não viu nem escutou.

- Está se sentindo bem?

Rossi respondeu com um "sim" tão distante que o tenente supôs o pior.

- Que foi que aconteceu?

E, apontando para o reclinatório, considerou que a investigação tinha malogrado.

- Vamos para casa?

O capitão reagiu e, voltando à realidade, murmurou:

- Sim, claro... Ou melhor, não.

Desnorteado por respostas tão anormais, Ugo disfarçou na frente de sor Joana.

A Comissão chegou?

- Sim, estão fazendo a autópsia...

A freira estremeceu. Rossi, recuperando o controle, interrogou o ruivo sobre sua visita aos aposentos privados.

         Gasparetto, desconfiado, retrucou em linguagem cifrada:

- "Café demais... para tão poucas xícaras."

- Certo - compreendeu o inspetor, mudando de assunto -, ocupe-se agora dos interrogatórios. Você tem a lista. A irmã pode ir junto.

- Você não vai presenciar a autópsia?

Rossi desculpou-se.

- Zarakal a está dirigindo. Não tem problema...

O tenente compreendeu. Não havia alternativa. E intuiu que seu amigo estava trabalhando em alguma coisa de especial interesse. Durante alguns segundos, seus olhos deslizaram sobre a capa carmesim daquele livro que o chefe de Homicídios estava segurando.

Ao abrir a porta, guiado pelo instinto, dedicou um olhar cauteloso a Constante Rossi.

O capitão tinha se sentado novamente e estava absorvido na leitura.

E o supersticioso ruivo pôs a mão na porta batendo na madeira...

 

                   08 horas 20 minutos

Rossi fechou abruptamente o "diário" . Seus homens observaramno alarmados. Os olhos, sem brilho, foram se perder no azul do teto. O perfil - como se fosse de concreto - denotava uma contrariedade intensa. E seu coração, ultrapassando o Cristo ressuscitado do vitral, distanciou-se milhares de quilômetros: para a velha cidade portuguesa de Coimbra. E assim permaneceu diversos minutos, imerso numa "fuga" propiciada pelo manuscrito.

Finalmente, afrouxando o nó da gravata, retomou à capela. Implacável, disse para consigo mesmo:

"Rossi, você está lendo a apenas vinte minutos e já está desvairando... Isso só pode ter sido escrito por um louco. Será melhor fazer um balanço."

A brigada tranqüilizou-se. A cor voltara ao rosto do capitão. "O que é que nós temos realmente?"

Cético, procurou na memória.

"Um papa morto."

Apesar da sua carapaça, não pôde reprimir um calafrio. "Morto entre meia-noite e dez para as cinco."

Os cálculos foram temperados com um olhar ao lugar dos acontecimentos.

"Morto, segundo todos os indícios, em conseqüência de uma queda. "

Mas as objeções logo surgiram.

"Uma capela trancada com chave."

"Um horário extremamente alterado."

"Um Pontífice sem se barbear, que esquece seu asseio matinal e, no entanto, veste-se como de costume."

"Uma vela que 'ninguém acendeu'."

"Um despertador que toca às cinco."

"Fios inexplicáveis 'enganchados' no ferimento da testa." "Gotas de sangue no veludo do apoio de braço."

"Uma religiosa descalça."

"Insinuações sobre uma possível luta intestina no Vaticano." E, desanimado, cravou os olhos no desconcertante "diário". "E, além de tudo isso, esta 'loucura' escondida sob o cadáver." Disciplinadamente, porém, recordando as palavras do juiz, despiu-se de todos os preconceitos. Sua missão era informar sua senhoria. "Vamos começar de novo..."

E abrindo o manuscrito, tomou a submergir no texto aparentemente fantástico. Uma "revelação" que modificaria o curso das investigações e que era encabeçada pelo seguinte lema:

 

 

                         "GLORIA OLIVAE"

                       (A Glória da Oliveira)

O capitão Constante Rossi sabia reconhecer suas limitações. Sua memória fugidia era uma delas. Mas, com o passar dos anos, aprendera a equilibrar esse problema com tenacidade. Não importava, portanto, que não conseguisse se lembrar de onde ou em que circunstâncias tinha tropeçado antes com o título do "livro vermelho". Mais cedo ou mais tarde acabaria decifrando aquele cabalístico "Gloria Olivae" .

Quanto aos parágrafos iniciais - em tinta vermelha -, assim como os outros, disseminados pelo texto, era evidente que constituíam notas acrescentadas posteriormente. Uma espécie de anexo de "última hora" com fins explicativos e, ao contrário do texto escrito com letras azuis, dirigido a alguém em particular: ao Santo Padre.

O inspetor interpretou aquelas primeiras linhas como uma série de advertências. Algumas delas, sutis. Outras, demolidoras. Em suma, "avisos" que não conseguiu decifrar mas que despertaram seu instinto policial.

O texto era o seguinte:

 

"Desejo ardentemente que Vossa Santidade tome urgente conhecimento de tudo o que é relatado aqui. E conforme avançar na leitura, compreenderá a razão de tanta urgência.

Não posso me dar ao luxo de rodeios e preâmbulos. Não há tempo. Sua vida corre gravíssimo risco.

Por enquanto devo conservar o anonimato. Sei que isto o decepcionará. Mas minha verdadeira identidade tampouco lhe diria algo. Por razões de segurança - que o senhor irá entendendo - não estou autorizado a desvendar a filiação genuína de homens e mulheres que, direta ou indiretamente, participaram da operação batizada 'Gloria Olivae'. Sei também que, conforme penetrar na trama deste projeto, as suspeitas de Vossa Santidade no tocante à paternidade do texto que tem em seu poder tomar-se-ão tão intensas quanto insuportáveis. Espero que esses sentimentos lógicos não o impeçam de encarar o angustiante 'problema' que o ameaça.

         Após essa introdução, permita-me ir ao encontro dos pensamentos que, sem dúvida, deve estar formulando.

         'Por que faço chegar às suas mãos este relatório confidencial?'

         A resposta já foi mencionada. 'Detectamos' que está correndo perigo de vida.

Aceito sua dúvida. É um direito seu. O natural é que o presente relato lhe pareça obra de uma mente febril ou transtornada. Espero que, em breve, mude de idéia.

Vossa Santidade - como irá comprovando - já foi informado de alguns desses 'acontecimentos'. Mas o que o senhor conhece é apenas a ponta do iceberg. Confio que esta 'revelação' o ajude a calibrar o 'plano' nas suas autênticas proporções. E sobretudo - desculpe a insistência - peço-lhe que adote as medidas para evitar o que parece inevitável.

Não sou um traidor. Não se precipite em seus julgamentos. E embora isso seja irrelevante nos atuais e críticos momentos, posso-lhe adiantar que conto com o beneplácito da organização à qual pertenço. Eu o estou informando e prevenindo em nome dela.

         Obviamente, tal organização secreta - denominada Os Três Círculos e da qual falarei mais tarde - adotou todo tipo de precauções.

Pois bem, como a situação escapou ao nosso controle, considerou se justo e necessário fazer chegar às suas mãos este manuscrito. Não 'trabalhamos' com assassinato.

Entenda bem. O fato de termos descoberto uma séria ameaça contra a sua pessoa não significa que a vida de Vossa Santidade nos importe. Não somos 'salvadores' de ninguém. As metas da organização - como observará sem dificuldade ao longo destas páginas - são outras. O que não aceitamos é que Os Três Círculos sejam envolvidos em 'algo' de que não participamos e que rejeitamos por princípio. Como já disse, o derramamento de sangue nos repugna. Paradoxal? É possível. O senhor, melhor do que ninguém, sabe que a 'escuridão também tem as suas regras'.

Naturalmente - admitindo a duvidosa possibilidade de que ainda disponha de tempo - poderá tentar verificar tudo o que é exposto aqui. Não se alarme diante dos resultados. 'Gloria Olivae' foi planejada e executada tão minuciosa e diabolicamente que, graças a uma das suas últimas fases, o 'projeto' ficou a salvo... com relação à Justiça.

Não se impaciente. Logo compreenderá tudo.

         Direi algo mais. A polícia italiana e determinados serviços de inteligência foram 'oportunamente informados' sobre várias das nossas 'atividades'. A informação - convenientemente manipulada - procedia, naturalmente, de Os Três Círculos."

 

Perplexo, Rossi não conseguia acreditar em afirmações tão ousadas e categóricas.

 

" ... E concluo com um chamado à sua intuição. Quem lhe escreve é um 'condenado à morte'.

Na minha saudosa Eslováquia - como o senhor deve 8.,fber dispomos para estes casos de um ditado muito claro: 'Pravda vzdy rozvãzuje jazYk unierajúcemu' ('A verdade sempre desata a língua do moribundo'). "

 

Contrariado, o inspetor interrompeu novamente a leitura. As insinuações veladas, a informação entrecortada e, especialmente, a segurança que o texto destilava causaram-lhe uma irritação anormal.

"Grave perigo de morte."

De qualquer maneira, tinha acertado. Mas como podia saber disso? Existia algum vínculo entre isso e o que Camilo Chíniv relatara ao prefetto?

Em sua mente começou a se formar o esboço de uma "conspiração" .

"Os Três Circulos."

Uma organização desconhecida. Pelo menos para ele. Por que o prefetto deixara escapar o termo "terroristas"?

"Não 'trabalhamos' com assassinato."

Curioso. A que outras metas se referia? Rossi rememorou o "deslize" do chefe da Segurança: "um roubo e explosivos".

"A polícia 'advertida e intoxicada'."       .

         Como era possível que a informação não tivesse vazado? Roma era um pátio de vizinhos...

"A ponta de um iceberg."

Certo. Aquele quebra-cabeças tinha hipotecado a sua inteligência. Mas o que o autor do manuscrito não sabia era o quanto era arriscado desafiar o chefe de Homicídios....

         E o capitão abriu passagem entre as letras azuis.

 

"Cumprindo ordens, disponho-me a colocar por escrito os relatórios que chegaram ao meu poder, bem como minhas próprias experiências. Tudo isso constitui o que aconteceu de mais notável no decorrer da chamada operação 'Gloria Olivae'. O último 'projeto' do qual tive a honra de participar e cujo final - honestamente - escapa, por enquanto, do meu conhecimento e quem sabe se da minha competência.

Nele colaboraram destacados especialistas do 'segundo e terceiro círculos'. Devo acrescentar que os 'trabalhos' - em geral – foram efetuados com a precisão e brilho habituais. Se os acontecimentos de última hora modificaram os planos iniciais, isso não é imputável aos nossos agentes. Apenas, aos insondáveis 'ventos' dó destino.

Atualmente, 'Gloria Olivae' continua sob a direção do coronel Frank Hoffmann.

Contarei agora o nascimento de tal operação.

 

                  ESTOCOLMO

Outubro de 1986.

Restaurante Den Gyldene Freden.

O garçom serviu os nossos convidados. Salmão ao escabeche ao estilo sueco, com molho de mostarda, pão e manteiga. O segundo americano optou pelos escargots na manteiga e alho. O terceiro, seguindo os conselhos da casa, escolheu o pato selvagem com molho de nata.

Aquela primeira reunião foi breve. Os 'solicitantes' fizeram a sua proposta e nós, após uma sondagem elementar, limitamo-nos a transmiti-la ao 'primeiro círculo'.

De acordo com as normas, os três representantes da organização - que pertenciam ao ‘segundo círculo' e entre os quais eu me encontrava - adotaram identidade e profissão falsas. Apresentaram-se como Nils Nystrõm, professor de astrofísica na Universidade de Uppsala; Lis Mõllberg, executiva do grupo Ericssón, e Gunnar Svensson, pesquisador do Laboratório para Estudos do Mar Báltico, em Askö.

Do outro lado da mesa, os recém-chegados: três americanos de meia-idade, cultos, um pouco temerosos, de comportamento exemplar e que, como nós, tinham assumido nomes falsos. O líder disse que se chamava Arthur McGovem. Os demais identificaram-se como F. Carney e K. Rahner.

Sem dúvida, foi ingenuidade da parte deles. No início do almoço, Lis já tinha uma idéia sobre a natureza de tais pseudônimos. E aquela 'pista' seria determinante na hora de desmascarar os patrocinadores do projeto.

Nossos 'amigos' foram direto ao assunto que os trouxera à capital sueca.

- De acordo com os contatos que tomaram possível esse encontro secreto, a organização da qual fazem parte é especialista - digamos assim - em 'missões de alto risco'. Estamos certos?

Nils observou-o divertido. E aceitou a 'definição' de McGovern.

- Digamos assim...

- Que tipo de missões?

Meu companheiro o cortou ríspido.

- Sr. McGovern, somos nós quem fazemos as perguntas... O americano recuou.

- Entendo...

- Não, caro amigo - censurou-o Nils -. O senhor não pode entender. Nem eu vou lhe explicar em que consistem Os Três Círculos. Será melhor que nos diga o que pretende.

- Uma coisa aparentemente inabordável: sua organização pode materializar a renúncia do papa?  .

Os nervos delataram o porta-voz dos americanos, que foi se refugiar no salmão.

Nils olhou para mim, convidando-me a participar. Durante alguns segundos mantive silêncio, limitando-me a examinar nossos convidados. Por enquanto ignorávamos a quem representavam e quais podiam ser suas autênticas intenções. Mas esses 'detalhes' não tinham importância. Poderíamos averiguá-los com o tempo.

- Digam-me - perguntei aos três indistintamente -, que significa para vocês a palavra 'renúncia'?

         O tal McGovern adivinhou o fundo da questão:

         - Não nos interpretem mal, por favor. Sabemos que sua organização detesta derramamento de sangue. Podem ficar tranqüilos. Não se trata de 'eliminar' ninguém. E muito menos um Pontífice... O termo utilizado deve ser tomado literalmente: conseguir 'renúncia' ao trono de São Pedro.

Lis arriscou:

- E quem pretende essa 'renúncia'?

Os americanos, que esperavam desde o princípio por essa pergunta, pagaram-nos com a mesma moeda.

- O trato, se se consolidar, não contempla esse tipo de esclarecimento. Se aceitarem, receberão o que for estipulado. Não haverá perguntas de nenhuma das duas partes.

         Aproveitando a insinuação, Nils replicou no momento certo:

         - Suponho que sabem que, no caso de chegarmos a um acordo, uma operação tão ambiciosa terá um alto custo.

         McGovern, mostrando a proverbial arrogância norte-americana, respondeu sem vacilar:

         - Só têm de fixar o valor... Quanto?

         Lis e o falso astro físico descarregaram sua prepotência com amplos sorrisos indulgentes. Desajeitadamente, McGovern tentou fortalecer sua posição:

         - Representamos uma 'força' poderosa, intocável e com um grande futuro. Que acham disso?

- Nada, meu impulsivo amigo - tranqüilizou Nils -. Como vocês compreenderão, não somos nós que decidimos. Além disso, um 'trabalho' de tal porte requer um estudo detalhado. Um planejamento longo e minucioso. Vocês não estão querendo a derrocada de um governo comum.. .

  1. Carney, brincando nervosamente com os escargots, interrompeu: - E isso, quanto tempo significa?

Meus colegas me deixaram encerrar a entrevista:

- Senhores... podem incorporar à sua memória um dos lemas de Os Três Círculos:

'O tempo pode produzir partos laboriosos, porém não aborta jamais.' Não se consumam no inútil gasto da impaciência. Serão avisados oportunamente."

 

Por pura intuição, Rossi associou aquele plano com as recentes declarações de Chíniv e sor Joana:

"Nas últimas semanas ocorreram coisas demais. Demais, e uma mais grave do que a outra... O Papa estava distante e preocupado."

O inspetor continuou a ler:

 

"Um mês mais tarde - segundo o combinado -, e de acordo com as instruções emanadas do 'primeiro círculo' , disquei o número telefônico do Grande Hotel de Estocolmo. Nils, ao meu lado, passou-me a folha de papel, com os requisitos exigidos.

'22.10.21.'

McGovern atendeu na primeira chamada.

- Preste bem atenção - comuniquei-lhe sem preâmbulos -. A operação foi aprovada.

O norte-americano alegrou-se.

- Estas são as condições: o pagamento (cem milhões de dólares americanos) deverá ser efetuado em Genebra. Tome nota, por favor... Banco Nacional de Paris, na rue Mont Blanc... Número da conta: 031.728/51.

- Nome do titular...?

Não pude reprimir um sorriso benevolente.

- Não seja ingênuo, caro amigo. Trata-se de uma conta numerada. Preste atenção. A metade deverá ser depositada antes de 10 de janeiro próximo. O resto, após a conclusão do 'trabalho'.

- Mas... como saberemos?

Não o deixei terminar.

- Simplesmente, saberão. Vocês contratam os nossos serviços para conseguir a 'renúncia do Papa' . Não se preocupem. Cumpram sua parte. Nós faremos o resto. Ah, escute. No dia 15 de janeiro receberão notícias. Na seção de cartas do jornal milanês Corriere della Sera será inserido um anúncio necrológico sob o nome de 'Santino Vaccara'. Deverão interpretá-lo como o início da operação. E lembre-se: em princípio não haverá mais 'comunicações'...

- E além disso - comuniquei com uma ênfase que não dava lugar a dúvidas -, se 'sua gente' mudar de atitude e decidir pela suspensão do 'projeto', não poderão reclamar a primeira parte do pagamento.

Meu interlocutor concordou.

- Alguma pergunta?

- Só uma...

Pareceu hesitar.

- Suponho que é difícil, mas pensaram na data em que poderia ocorrer... ?

Incomodado por uma pergunta tão estúpida, repliquei com a mesma ambigüidade:

- Vocês nos pedem que 'desativemos a bomba W'. Primeiro teremos de chegar a ela...

- Meses?

Uma gargalhada colocou as coisas no seu lugar.

- Anos?

- Quem sabe?..

McGovern suspirou resignado. E aí cometeu uma tolice imperdoável.

- Gostaríamos que a Sede ficasse vaga antes do verão de mil novecentos e noventa e...

A resposta o fez compreender o seu erro, mas era tarde demais.

Por outro lado, nós já sabíamos...        I

- Confiem na Providência. É o que lhes compete..."

Desde o início da leitura do manuscrito, Rossi também percebera a possível identidade dos 'contratantes', mas quis ter certeza.

"Logo após a realização do primeiro contato em Estocolmo, vários de nossos agentes - conforme o que Os Três Círculos estabeleciam a cada gestação de um 'trabalho' - estreitaram o cerco aos três americanos. Suas visitas seguintes a Roma, Chicago e Nicarágua proporcionaram-nos pistas que seriam ratificadas dias mais tarde.

Ao mesmo tempo, homens do 'primeiro e do segundo círculos' reuniam-se em Paris para estudar a proposta. Uma proposta que dadas as dificuldades - esteve a ponto de ser rejeitada. Só a audácia do coronel Hoffmann fez o 'projeto' prosperar.

A advertência de Lis, nossa companheira em Estocolmo, foi decisiva. Os nomes apresentados pelos três americanos - McGovern, Carney e Rahner - correspondiam, 'casualmente', a três jesuítas de destacada atuação na 'guerra' contra o papado e o capitalismo.

Arthur F. McGovern, autor do célebre livro a Marxismo: Perspectiva Cristã Norte-Americana, considerava Jesus um 'revolucionário social'.

James Francis Carney, nascido em Chicago, embora nacionalizado em Honduras, foi um guerrilheiro e fiel defensor dos princípios da 'teologia da libertação' .

O último - Karl Rahner -, teólogo brilhante, distinguiu-se pelas suas agudas críticas ao papado. Em A Unidade das Igrejas: Uma Possibilidade Real, livro escrito pouco antes da sua morte, em 1984, propugnava - como meio de lograr a ansiada unidade dos cristãos - 'a rejeição à infalibilidade do Papa e às doutrinas defendidas pelo catolicismo romano'.

Os três pseudônimos - extremamente simbólicos - nos levariam em definitivo, à 'poderosa e intocável força' à qual McGovern aludira: cerca de cinco mil jesuítas, militantes da mencionada 'teologia da libertação' e da denominada 'nova Igreja do povo ou dos pobres'. Um 'exército' em crescimento constante, duramente castigado e humilhado pelo Vaticano e que, atualmente, enraizou-se firmemente em boa parte do Terceiro Mundo. Cinco mil jesuítas aos quais - segundo nossos agentes - teríamos de acrescentar centenas de religiosos e religiosas das mais variadas ordens e um número ilimitado de leigos. Só na América Latina, essa relativamente jovem 'tendência' sócio-religiosa tinha ao seu alcance uma 'argila' integrada por trezentos e cinqüenta milhões de católicos. Uma 'argila' fácil de ser 'moldada' , devido à extrema pobreza e ao insultante grau de injustiça reinantes em muitos desses países.

Não foi difícil, portanto, o estabelecimento da verdadeira identidade dos nossos 'patrocinadores' e o cálculo do seu potencial financeiro. Eis um exemplo: o líder líbio Muammar Kadafi tinha contribuído com a 'causa' destes marxistas 'descafeinados' por meio de uma 'doação' de cem milhões de dólares. O dinheiro foi transferido - via Suíça - para o Banco Central da Nicarágua.

Sabíamos, assim, 'quem' eram. Quanto ao 'por que' da insólita 'proposta' - embora o 'primeiro círculo, tenha tido certas suspeitas - foi igualmente investigado pelos nossos especialistas.

Os relatórios não mencionavam a palavra 'ódio'. Mas não é menos certo que este sentimento estava presente em todas as conclusões dos especialistas de Os Três Círculos, infiltrados nos 'centros de decisão' da Companhia de Jesus.

Os termos utilizados pelos nossos homens podem ser resumidos da seguinte maneira:

 

'Desgosto'. Necessidade imperiosa de uma mudança de cento e oitenta graus nas linhas mestras da Igreja católica. 'Guerra' generalizada e sem trégua à 'máfia' polonesa instalada no trono de São Pedro."

De acordo com nossas investigações, a idéia de 'apoderar-se' do leme do Vaticano - 'em benefício dos oprimidos da Terra' - não surgiu precisamente nos míseros subúrbios nem nos campos esquecidos. A necessidade de um retomo à 'pobreza evangélica' serviu, em todo caso, para justificar o 'projeto', camuflando os autênticos propósitos de seus criadores: incontíveis ânsias de poder, interesses obscuros e vingança.

Naturalmente, dos 25.382 membros da Companhia em 1986, só uma quinta parte mostrava-se beligerante e raivosamente partidária da desobediência a Roma. Mas esta facção estava respaldada por 'altos e capacitados hierarcas' de dentro e fora da Companhia.

Diante da situação, como medida de precaução, dois dos nossos especialistas do 'terceiro círculo' - sacerdotes jesuítas - foram 'introduzidos' no fmal de outubro no 'quartel-general' da Companhia na Cidade Eterna: o celebérrimo 'Gesu', no número cinco do Borgo Santo Spirito. Seus 'comunicados' foram de grande utilidade para esclarecer as últimas dúvidas da organização.

O detonador que ativou o 'plano' para tentar a 'derrocada' do Pontífice surgiu num domingo, 7 de setembro de 1986. Devido ao atentado sofrido pelo general Augusto Pinochet, quando ia da sua residência de descanso "El Melocotón" para Santiago, a cólera do Papa com relação aos jesuítas chegou a níveis inimagináveis.

Poucas horas depois do atentado, a polícia política chilena (CNI) e os serviços de Informação da Nunciatura Vaticana em Santiago confirmaram o que era um segredo conhecido por todos: respaldando os ativistas da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR) - responsável pelo metralhamento do carro no qual viajavam o general e um dos seus netos - figurava um numeroso grupo de jesuítas e religiosos que, em maior ou menor grau, aplaudiam o fato. Todos eles comungavam com a referida 'teologia da libertação' , desenvolvendo suas atividades nos bairros marginais da capital chilena. Especialmente no de La Victoria, um dos mais conflitivos.

Entre as centenas de pessoas presas estavam três sacerdotes franceses - Pierre Dubois, Daniel Caruette e Jaime Lancelot - que, de certo modo, foram escolhidos para 'bodes expiatórios' e expulsos do país na quinta-feira, 11 de setembro. Estas e as expulsões de outros dois sacerdotes norte-americanos, supostamente envolvidos na luta contra Pinochet, elevaram perigosamente a já aguda tensão existente entre a Igreja chilena e o regime do general.

Foram dias febris. Os teletipos da Nunciatura Apostólica no Chile não pararam de transmitir informações confidenciais. E o Papa segundo nossos informantes - atingiu seus objetivos secretos. Em linguagem cifrada, como é habitual, a Secretaria de Estado recebeu amplas informações sobre sacerdotes e religiosos 'suspeitos de atividades subversivas'. A lista dos jesuítas envolvidos - trinta e sete no total - chegou ao Vaticano pela mala diplomática.

A viagem de Sua Santidade ao país mais comprido e estreito do mundo, prevista para abril de 1987, foi seriamente ameaçada. O 'estado de sítio' decretado em conseqüência dos acontecimentos de 7 de setembro constituía um 'obstáculo moral' que desaconselhava a visita.

E o Pontífice, mais irritado pelo 'espinho marxista' que seus próprios religiosos e sacerdotes tinham lhe cravado profundamente do que pela ditadura chilena, 'desenterrou o machado da guerra'. Tirou o pó do velho dossiê reunido durante a vida de Paulo VI sobre a inquieta Companhia de Jesus, assim como o inédito discurso de reprovação elaborado pelo seu antecessor, João Paulo I. Um duro discurso que já estremecera as paredes do 'Gesu' em novembro de 1978.

E ele se dispôs a cauterizar - de uma vez por todas - a irritante ferida.

O Papa abriu a 'caixa dos trovões', passando em revista todas as acusações que pesavam sobre os jesuítas:

'Rebeldia. Desacato à autoridade do papado. Lamentáveis limitações. Falta de ortodoxia doutrinária. Inclinação e prática do marxismo. Participação no poder temporal. Colaboração e incentivo à guerrilha. Subversão. Manipulação dos Evangelhos. Defesa do aborto, do divórcio e do homossexualismo. Exigência de um sacerdócio não celibatário. Ataques à Imaculada Conceição. Reticências com relação ao diabo e ao inferno. Desafio à rígida política vaticana sobre a natalidade. Desprezo aos Sagrados Tribunais Eclesiásticos. E tentativa - para abreviar esse penoso documento - de criação de uma Igreja paralela com mulheres sacerdotes e um Cristo rebaixado ao grau de 'comandante-em-chefe' da revolução marxista-Leninista.'

Com toda probabilidade, este foi um dos momentos mais delicados da existência dos chamados 'soldados do Papa'.

         O Pontífice pesou as possibilidades ao seu alcance.

         Podia modificar o status da Companhia, convertendo-a numa 'inofensiva congregação diocesana' , sob o mando dos bispos. Isso teria significado a perda de muitos de seus privilégios.

         'Cortar o membro gangrenado', suprimindo a Companhia com

caráter temporal.         .

         Também podia 'sufocar o incêndio' que ameaçava boa parte da Igreja, acabando com ela para sempre.

Mas o irado polonês teve de agüentar a cólera. Pelo menos por enquanto.

Com grande tato, os diplomatas vaticanos convenceram-no que uma decisão tão dura era improcedente. Não porque a Companhia de Jesus lhes importasse muito, mas sim para salvar os acordos e as negociações políticas subterrâneas iniciadas duas décadas antes com os países do Leste. Condenar os jesuítas pelas suas idéias marxistas ou pelas suas atividades na guerrilha e nos governos comunistas equivalia a desautorizar os regimes soviético e da Europa Oriental. O 'pacto de Metz' devia ser respeitado a todo custo.2

O impulsivo Pontífice tinha estado a ponto de cometer o mesmo erro de 1981, quando - por idênticas razões - tentou dar uma lição nos 'descarados jesuítas'.

Que ninguém se engane. A ameaça continua em pé. A bomba-relógio está ligada. Se o comunismo cair - e este Papa trabalha horas extras em seu 'assédio e derrubada' -, a Companhia de Jesus pode ser demolida pelo 'rolo compressor' vaticano, numa moderna e quase cinematográfica versão dos lamentáveis fatos ocorridos em 1773, quando Clemente XIV - também por razões políticas - assinou o documento que dissolvia os 22.589 membros que integravam a venerável instituição.

Enquanto isso, o polonês parece contentar-se com a tática da admoestação periódica.

Naturalmente, esse 'barril de pólvora' sobre o qual hoje se senta a famí1ia jesuítica seria 'neutralizado' se, por exemplo, o atual Vigário de Cristo 'desaparecesse' ou fosse forçado a 'renunciar' ao cargo. Os tempos mudaram e obrigam que se assumam estratégias diferentes das adotadas no século XVIII. A célebre resposta dos jesuítas perseguidos por Clemente XIV - 'Sint ut sunt, out non sint' (que sejam como são, ou que não sejam) - não tem sentido na era dos computadores e das comunicações via satélite. E aqui entra o 'plano' propugnado pelos nossos patrocinadores. Um 'plano' destinado a salvaguardar a filosofia, os bens e, como foi dito, o futuro da Companhia. Para ter uma idéia da gravidade do problema, basta recordar a questão da docência. Se a Santa Sé decidir-se algum dia pela 'incineração' da Companhia, mais de seis mil jesuítas, sessenta e três mil professores leigos e um milhão e meio de alunos seriam obrigados a procurar 'novos horizontes'. Teríamos de acrescentar a esse desastre o futuro incerto de mais de seiscentas e cinqüenta instituições educacionais, faculdades filosóficas e teológicas, escolas profissionalizantes e institutos de todo tipo.

 

(2) Na primavera de 1962, João XXIII enviou a Metz (França) o cardeal Tisserant. Este manteve conversações decisivas com o representante do Politburô soviético, o prelado Nikodim. O Papa solicitou a Kruschev permissão para que dois membros da Igreja ortodoxa russa pudessem participar do Concílio Vaticano lI. Os soviéticos aceitaram, com suas condições: que o mencionado concílio não condenasse o marxismo e que, no futuro, o Vaticano se abstivesse de pronunciar-se sobre tal sistema comunista. Desde então, a Santa Sé tem respeitado o que foi denominado "pacto de Metzt". (N. A.)

 

Em definitivo, a Companhia de Jesus não estava disposta a cruzar os braços e esperar - com beatífica resignação - um segundo Dominus ac Redemptor.3

Horas depois da secreta e tormentosa reunião no Palácio Apostólico, um dos 'espiões' dos jesuítas na segunda seção da Secretaria atravessava a praça de São Pedro, entrando na Casa Generalícia do Borgo Santo Spirito.

As alarmantes notícias foram recebidas com ceticismo. Já não se assustavam com nada. No entanto, pelas costas do padre Peter H. Kolvenbach - general da Companhia desde 1983 -, uma parcela poderosa da hierarquia jesuítica pôs em movimento o 'braço armado' , destinado a conjurar o problema.

Poucos dias mais tarde era realizada a já mencionada entrevista de Estocolmo.

Mas o que os nossos contratantes não sabem é que Os Três Círculos descobriram suas verdadeiras intenções.

A proposta destes jesuítas radicais - tal como a ela me referi - foi clara e concreta: 'materializar a renúncia do Papa'. No entanto, eles não disseram toda a verdade. O 'plano' era mais sibilino e ambicioso. Nossos homens no 'Gesu' interceptaram-no numa das conversações clandestinas preparatórias. Em síntese, pretendiam e pretendem o seguinte:

Após a 'derrocada' do polonês, a Companhia - juntando forças - batalharia em todas as outras frentes, com o objetivo de sentar no trono de São Pedro um dos seus membros: o prestigioso cardeal jesuíta desde os dezessete anos - Carlo Maria Martini, atualmente na sé de Milão.

Este erudito e brilhante escriturista, que no pontificado de Paulo VI chegou a pregar ao atual Papa no retiro anual do Vaticano, reúne hoje os méritos suficientes para ser eleito num futuro conclave.

Extraordinariamente popular, Martini conseguiu ganhar o apoio da juventude. Tem uma idade 'apropriada' (nascido em 15 de fevereiro de 1927) e, para sossego do Colégio de Cardeais, é italiano.

 

(3) Com esta breve disposição pontifícia, Clemente XIV acabou com a Companhia de Jesus em 16 de agosto de 1773. Paradoxalmente, os jesuítas expulsos pelos governos católicos acharam refúgio na Prússia, ao lado do protestante Frederico II, e na Rússia ortodoxa de Catarina II. (N. A.)

 

Como bom jesuíta, é aberto, tolerante, culto e astuto. Tem ampla experiência em política vaticana, sendo membro do Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja, da Congregação para a Doutrina da Fé, dos Bispos, dos Sacramentos, dos Religiosos, do Instituto Secular, da Evangelização dos Povos e da Educação Católica.

Nas sondagens efetuadas pela nossa organização, o turinense realmente aparece como a papabile.

No caso de Martini chegar ao Pontificado - o momento e a conjuntura são propícios -, a Companhia de Jesus, triunfante e entrincheirada no 'seu' trono papal, poria apressadamente em funcionamento, entre outros projetos revolucionários, a imediata 'desinfecção' da 'cúpula vaticana'. A Opus Dei seria 'jogada no mar'. Seria relançado o anestesiado Concílio Vaticano II, freando a preocupante involução da Igreja. E muito provavelmente o mundo católico assistiria a mudanças espetaculares, tanto nas formas quanto no conteúdo do andamento cotidiano da Santa Sé.

Mas os inspiradores deste plano ignoram que Os Três Círculos também traçaram seus próprios objetivos, e que toda a organização já está trabalhando neste sentido. Mas farei referência mais tarde a este 'assunto' secreto...

A 29 de dezembro, a operação 'Gloria Olivae' esteve a ponto de ser cancelada. Uma ligação telefônica de Lyon alertou o coronel Hoffmann. O coordenador tinha acertado ao insistir em espionar os homens principais da 'trama jesuítica'. A desconfiança de Frank era justificada.

Agentes do 'terceiro círculo' , enviados para a mencionada cidade francesa com a missão de controlar vários dos patrocinadores implicados, gravaram uma conversa preocupante.

Nessa noite, no Centro de Espiritualidade de Chatelard, quatro dos cento e quarenta jesuítas reunidos para discutir o tema da 'Opção preferencial pelos pobres' analisaram 'como', 'onde' e 'quando' conseguir os cem milhões de dólares, preço da operação. No entanto, cometeram uma grave indiscrição. No decorrer da conversa - ao referir-se ao segundo pagamento - aludiram a 'algo' que nos alertou.

O coronel detectou a trama. E um rápido contato com William Webster - na época, chefe do FBI - foi suficiente para abortar seus condenáveis propósitos.

Há meses, com o consentimento do então presidente Reagan, o mencionado Federal Bureau of Investigation, em íntima colaboração com a CIA, tinha criado um sistema maquiavélico para satisfazer as possíveis chantagens e resgates solicitados pelos grupos terroristas: notas de banco, impressas com uma substância que entrava num processo irreversível de degradação num período de tempo pré-estabelecido. Segundo as necessidades, estas notas 'químicas' podiam ser 'programadas' para uma autodestruição total - em horas ou dias - ou, simplesmente, para permanecerem marcadas, facilitando assim a perseguição posterior por parte das autoridades.

A manobra era quase perfeita. Os últimos cinqüenta milhões de dólares - em papel 'químico' - seriam depositados em Genebra após a 'derrocada' do Pontífice. Eles economizariam a metade do pagamento e, ao mesmo tempo, livrar-se-iam da organização que propiciara a 'renúncia' e que lhes tornara possível o acesso ao Papado.

'Os planos - comentaram - não podiam falhar."

Com os dólares convenientemente marcados e uma oportuna denúncia à Interpol, 'nossa sentença de morte' estaria assegurada.

Dois dias mais tarde, um mensageiro anônimo batia na porta do Borgo Santo Spirito. E os líderes do plano receberam uma cópia da fita gravada em Lyon, com uma clara advertência:

'Um novo erro e a documentação reunida até este momento irá parar nas mãos do Pontífice, do superior dos jesuítas e da imprensa mundial.'

Nossos patrocinadores, obviamente, entenderam a periculosidade do seu jogo duplo e esqueceram - por enquanto - as negociações com os agentes da CIA que deviam fornecer-lhes o dinheiro. E expresseime certo: 'esqueceram... por enquanto'."

 

Rossi teve de admitir que a informação que acabara de ler era correta. Pelo menos, no tocante aos dólares 'químicos'. Naqueles anos - 1986 ou 1987 -, seu departamento recebera, via DIGOS (a inquieta e eficaz polícia antiterrorista italiana), um comunicado sumamente reservado, procedente dos Estados Unidos, no qual eram especificados alguns pormenores a esse respeito.

Intrigado, continuou devorando a narração.Agora vinha um texto escrito com tinta vermelha, isto é, expressamente dirigido ao Papa.

 

"E agora, Santidade, com o exclusivo propósito de orientar seus pensamentos, permita-me oferecer-lhe alguns dados referentes à natureza e ao funcionamento da organização à qual pertenço e na qual desempenho a função de 'especialista do segundo círculo'.

Não falarei da sua origem. Sua mente cristalizada não entenderia. E pior ainda: correria o risco de associá-la a uma perigosa escola iniciática.

Estou autorizado a informar-lhe que Os Três Círculos têm séculos de antiguidade. E que hoje é integrado por homens e mulheres do mundo inteiro. Cidadãos que na vida particular desempenham as mais variadas e honradas profissões. Pessoas de todas as raças que, de vez em quando, são chamadas para planejar e executar o que poderíamos denominar de 'empreendimentos de alto risco ou extrema dificuldade'.

O caráter secreto da organização os protege. Além disso, o organograma - sabiamente renovado através dos tempos - impede que os agentes dos 'círculos externos' tenham acesso à identidade dos seus 'irmãos' dos 'círculos internos'.

O primeiro destes círculos - o central - é formado pelos cérebros da organização. Compete a eles a tomada de decisões. Ninguém os conhece. Mas posso assegurar-lhe que eles são os autênticos 'anjos da guarda' e 'controladores' do planeta. Vossa Santidade, com todo o direito, pode pensar em eminentes cientistas, poderosos banqueiros e empresários, prestigiosos humanistas e, em suma, homens amantes da paz e do progresso.

O segundo 'círculo' é constituído pelos 'executores'. Em outras palavras: aqueles que, por suas especiais qualidades, estão capacitados para dirigir, coordenar e executar os 'projetos'.

Quanto ao terceiro e último 'círculo' - o mais numeroso -, aparece como um magnífico 'corpo de elite' , integrado por 'especialistas' que materializam os projetos. Distinguem-se por um anel - diferente para cada homem - que, de certo modo, resume a sua personalidade e as qualidades que o tomam digno de pertencer à organização. São os melhores em seu 'trabalho'. E posso assegurar-lhe que, até hoje, raramente fracassaram. Conforme for avançando na leitura, perceberá que não estou exagerando...

Vamos agora à 'filosofia' de Os Três Círculos. Qual é o lema que segue? Muito simples: Aptam a te reditam pacem habebis (Terás paz se a ofereceres).

Só agimos quando - dessas 'operações' - decorre um benefício para a maioria. Não estamos ligados a pátrias, nem a credos políticos ou religiosos. A nossa 'doutrina' é outra: caminhar em direção a um progresso solidário.

Jamais recorremos ao derramamento de sangue. Andamos desarmados. Mas somos realistas e temos de aceitar que - em determinadas missões - é difícil respeitar a legalidade. Digamos que esta é a 'face humana' da nossa organização. Embora pareça uma justificativa, isso sempre tem um caráter transitório. Mais cedo ou mais tarde 'restituímos' tudo o que foi objeto de manipulação ilegal. Assumimos esta parte de 'culpa'. Mas, insisto, devido às circunstâncias, não há alternativa. Não fizemos o mundo, só tentamos mudá-lo.

Em que projetos estivemos envolvidos?

A Humanidade ficaria perplexa se tivesse conhecimento do que está guardado nos nossos arquivos. Mas também não pretendemos o reconhecimento ou a glória.

 

Não obstante, citarei alguns exemplos: 'Descoberta da América.'

Foi a comunidade judia que solicitou nossa ajuda para realizar a grande viagem e aliviar assim o injusto castigo propugnado pela Igreja e materializado pelos Reis Católicos contra este povo. E os horizontes da História ampliaram-se.

'Aviação.'

Os irmãos Orville e Wilbur Wright - membros do 'terceiro círculo' - ensaiaram e aperfeiçoaram no início do século o que outros 'adiantados' tinham imaginado e planejado. Sua audácia e coragem contribuíram decisivamente para o avanço coletivo.

'Einstein. '

Vossa Santidade acredita que ele tenha trabalhado sozinho? 'A corrida espacial.'

Imagina quem estava por trás da constituição da NASA? Quem desde o início forneceu o incentivo, os conhecimentos e os meios para viagens tão ambiciosas e frutíferas? Quem 'inspirou' ao presidente Kennedy à conquista da Lua? Homens do 'segundo e terceiro círculos' tripularam as naves Apolo. E outros preparam-se para a exploração do planeta Marte...

         Também mencionarei diversos planos nos quais estamos envolvidos atualmente: 'Localização da mítica ilha-continente - a Atlântida -, desaparecida há onze mil anos.

         Será que Vossa Santidade acredita que os soviéticos a estão procurando por 'esporte'?

         'Localização do cadáver - presumivelmente congelado - de Hitler .'

         Acha realmente que ele se suicidou?

         'Resgate de uma centena de manuscritos - identificados como os Manuscritos do Mar Morto - cujo delicado conteúdo, se fosse tornado público, comprometeria seriamente três grandes tendências religiosas. Esses pergaminhos estão seqüestrados em Israel desde os anos 50.'

Vossa Santidade 'sabe' muito bem a que me refiro... 'Operação Cavalo de Tróia.'

Parte do mesmo já é do conhecimento público.

'Criação de um governo planetário.'

Será que o Santo Padre considera que o primeiro passo - Comunidade Econômica Européia - é fruto do acaso?

         O mundo está condenado a ser feliz. Marchamos em direção a esta ainda aparente utopia. Estamos no meio de um processo. E afirmo que venceremos, desterrando assim, para sempre, as grandes guerras. Somos uma organização otimista. Por isso, Santidade, conseguimos tudo o que nos propomos fazer. Goldsmith, o poeta inglês e também membro de Os Três Círculos, resumiu o nosso espírito com as seguintes palavras: ‘Respondemos à maldade com a imaginação’

E agora prosseguirei com o que importa: a operação ‘Glória Olivae’.

 

                         ROMA

8 de janeiro de 1987. Quinta-feira. 10 horas.

Os primeiros cinqüenta milhões de dólares - como suspeitávamos - foram transferidos de Manágua, via Panamá.

O prazo expirava dois dias mais tarde.

Uma semana depois - de acordo com o que fora combinado em Estocolmo -, o nome de 'Santino Vaccara' aparecia impresso nas páginas do jornal italiano Corriere della Sera.

Nossos patrocinadores - na nossa opinião - não perceberam um 'detalhe' que os teria feito refletir se o tivessem detectado. O anúncio em questão, que relatava o terceiro aniversário do falecimento daquele honrado cidadão, teria sido publicado de qualquer maneira. Explico-me: o sr. 'Vaccara' não tinha nada a ver com a presente história. Uma comprovação elementar os teria alertado. Se o mencionado anúncio fúnebre tinha sido publicado nos dois anos anteriores, o normal é que também o fosse em 1987. Isto é, mesmo que os jesuítas não tivessem depositado o dinheiro em Genebra, o nome 'Vaccara' teria estado lá, pontualmente. A explicação era simples. A contra-senha anunciando o início das operações - dirigia-se fundamentalmente aos nossos homens em Roma. E ainda mais claro: antes de consolidar o acordo, a organização assumira o plano para 'derrocar' o Pontífice... desvinculada dos solicitantes.

Após estudar o problema, os cérebros do 'primeiro círculo' estimaram que - com ou sem financiadores - uma mudança na Igreja católica beneficiaria a maioria, preparando a Humanidade para o decisivo terceiro milênio.

E os jesuítas morderam o anzol.

O nome da operação - 'Gloria Olivae', (A Glória da Oliveira) - também não obedeceu a um capricho. Foi inspirado por um dos nossos agentes em Dublin.

Como materializar a 'renúncia' do Papa sem derramamento de sangue?

Essa era a questão. Durante semanas, especialistas do 'segundo e terceiro círculos' em direito canônico analisaram em Roma, Paris, Oxford e Colônia o passado e o presente dos códigos, leis e Constituições eclesiásticos, em busca de dados.

Os resultados da minuciosa pesquisa - embora esquálidos e difusos - terminaram mostrando um possível 'caminho'. Este foi submetido ao critério do 'primeiro círculo'.

Para a nossa surpresa, na história do Papado existe apenas um caso de renúncia. A de Celestino V,(4), em 13 de dezembro de 1294. Três anos mais tarde, seu sucessor - Bonifácio VIII - publicava a primeira norma no tocante a tão inusitada circunstância (Livro III das Decretales).

Mas essa renúncia do atual São Celestino V não servia. As razões alegadas - 'falta de sabedoria, rejeição dos plebeus e saúde precária' , - estavam dentro da ortodoxia. À luz do atual Código de Direito Canônico (Art. I, Dei Romano Pontífice, 332.2), a saída de Pedro Angeleri de Morone poderia ser qualificada de 'livre e voluntária'.

'Para que o Papa renuncie ao seu ofício - diz a citada passagem da legislação canônica em vigor -, a renúncia deve ser livre e manifestar-se formalmente, mas não precisa ser aceita por ninguém.' Isto é, o Pontífice pode abandonar seu cargo quando considerar oportuno. E ninguém está juridicamente capacitado para obrigá-lo a desistir.

Obviamente, este tipo de renúncia - a única legal - não se encaixava com os nossos planos. A missão de Os Três Círculos não consistia em sentar-se e esperar um 'milagre'. O Pontífice atual não parecia disposto a retirar-se em vida..

Então, os peritos da organização traçaram as possíveis 'soluções'. Todas foram examinadas cuidadosamente, mas apenas uma seria aprovada.

'Podia ser obrigado a renunciar ante a evidência de compra e venda de coisas de natureza espiritual (simonia)?'

'Podia ser acusado de herege?'

'Que ocorreria se entrasse num estado de demência irreversível?' 'Continuaria no cargo se fosse atingido subitamente por uma paralisia total?'

'E se ficasse mudo?'

 

(4) Pedro Angeleri (Celestino V), natural de Isernia, fundou a Ordem dos Celestinos. É venerado como santo em Abruzzos. Foi eleito Papa depois de mais de dois anos de "sede vaga". A eleição foi contra a sua vontade (1294). Após a sua consagração, renovou a Constituição de Gregório X, no tocante à eleição dos papas, revogando as bulas de dispensa dos seus predecessores. Morreu no castelo de Fumona em 1296. Personagem muito controvertido, foi julgado por Dante em sua Comédia como um covarde. Em compensação, Petrarca, em sua De Vida Solitária, elogia seu valor e dignidade. (N. A.)

 

'Que aconteceria se, por razões inexplicáveis, tentasse adotar medidas que pusessem em perigo a estabilidade do mundo?'

Curiosamente, a legislação eclesiástica não contempla nenhuma dessas hipotéticas porém verossímeis possibilidades. Pelo menos, com suficiente clareza.

Segundo os mais precisos comentaristas de direito canônico, 'situações como a simonia, a heresia notória ou a demência devem ser excluídas taxativamente... pela providência particular de Cristo com relação à sua Igreja' (padre Cappello em Suma de Derecho Can6nico, vol. I).

Com todos os nossos respeitos por este canonista - um dos mais prestigiosos do mundo -, sua confiança na divina Providência é tão pueril quanto perigosa...

Também não nos pareceu uma argumentação eqüânime a manifestada pelo cardeal Lega nos seus Comentarios sobre Derecho Procesal Eclesiástico (voI. III). 'A primeira Sé - diz Lega - não pode ser julgada por ninguém. O Pontífice julga todos os pontífices de todas as Igrejas, mas nunca soubemos que ele possa ser julgado.'

A tese, muito discutível, parece referir-se a assuntos de 'grande porte': doutrinários ou de fé.

Mas este não era o nosso caso. Tentar fazer que o Papa polonês entrasse em colisão com as facções conservadoras da Igreja católica em matéria de ortodoxia era uma solene perda de tempo. A renúncia devia ser preparada a partir de 'níveis inferiores'. Menos ambiciosos porém eficazes e que terminassem colocando-o no 'fio da navalha' . Numa situação 'limite' bem definida e que - como contempla o Enchiridion Vaticanum (voI. V) - forçasse o Colégio de Cardeais a redigir sua destituição, supondo-se que o Pontífice se negasse a renunciar.

Finalmente, a organização esboçou o seu 'projeto' em função dos sábios critérios de outro famoso canonista. Segundo Alonso Lobo em Comentarios ai Derecho Can6nico (vol. I), 'a perda da razão num Papa pode ser considerada como uma autêntica morte física'.

Conseqüentemente, o Pontífice seria obrigado à 'renúncia involuntária' .

Em suma, este era o objetivo: propiciar um claro estado de loucura para desencadear a sua 'derrocada'.

Como conseguir isso - tarefa nada fácil - foi obra do audaz e imaginativo coronel Frank Hoffmann. E nos primeiros dias de novembro o 'plano' foi aprovado. O início da operação 'Gloria Olivae' em sua fase preparatória - foi marcado para o dia 16 de janeiro de 1987.

Um dia antes, coincidindo casualmente com o 80o. aniversário do antigo general da Companhia de Jesus, padre Arrupe, os 'instigadores' apresentaram-se na enfermaria do Borgo Santo Spirito. Levavam um exemplar do Corriere della Sera. Após a celebração da missa e depois de rezar devotadamente para Nossa Senhora, mostraram-lhe o 'anúncio'. O ilustre doente manteve-se em silêncio, enquanto lágrimas fugazes escorriam pela sua face. Mas a maioria dos presentes interpretou aquela emoção como conseqüência lógica da carinhosa e oportuna oração, falada na sua língua natal: o euskera.

 

                       COIMBRA

16 de janeiro de 1987. Sexta-feira.

08 horas.

João Lucas discou o número combinado.

'717844.'

E aguardou impassível. As luzes da aprazível cidade lusitana estavam cedendo diante da claridade do novo dia. Do outro lado da avenida Emídio Navarro, o rio Mondego desfilava nobre e preguiçoso, alheio aos planos do coordenador da operação 'Gloria Olivae' em Portugal.

Após uma curta espera, a madre Maria do Carmo do Santíssimo Sacramento atendeu a ligação do nosso homem do 'segundo círculo' .

Não nos enganamos. A priora do convento de Santa Teresa, das Carmelitas Descalças da mencionada cidade de Coimbra, mostrou-se feliz com as palavras daquele desconhecido. E o encontro foi marcado para as dez dessa mesma manhã.

E Lucas - nome falso - repassou novamente as ordens do coronel Hoffmann. Aquele primeiro passo era crucial. Não podia falhar. Semanas antes, nos estudos preliminares, cinco agentes de Os Três Círculos - comandados por João - tinham procedido a um minucioso exame dos planos do Carmelo, situado na rua de Santa Teresa. Também os edifícios contíguos foram rigorosamente analisados. Com a passagem dos últimos 243 anos, as edificações foram encurralando o recinto de c1ausura, invadindo até mesmo a intimidade dos jardins. Uma daquelas construções, situada na confluência da rua Miguel Torga com a avenida M. Sousa, podia favorecer a fase inicial do 'plano' português. O bloco de apartamentos - batizado com o nome de 'Penedo' -, com seus oito andares, oferecia-nos um excelente ponto de observação de boa parte do pátio interno do monastério. Para uma situação de emergência, nossos homens tinham conseguido uma segunda 'base de apoio': a vila número 52 da referida avenida Sousa, limítrofe com o muro posterior do convento. Tanto o chalé - hoje ocupado pela Associação Nacional de Municípios Portugueses - como um dos andares do edifício 'Penedo' foram alugados por terceiras pessoas, sem qualquer relação com a organização.

Como freqüentemente ocorre, o capítulo mais difícil do nosso trabalho em Coimbra foi de natureza burocrática. Refiro-me concretamente à obtenção das plantas originais do monastério. Mas a sagacidade de Lucas deu seus frutos. E finalmente os especialistas obtiveram uma cópia do projeto do arquiteto carmelita frei Pedro da Encarnação, datado de 1714.

Quanto ao estilo de vida, costumes e contadas saídas ao exterior das cerca de vinte irmãs que residiam no convento, a informação obtida, embora exata, foi insuficiente. Nossos homens recorreram a todos os meios ao seu alcance: sucessivos capelães - incluindo o bispo coadjutor de Coimbra, dr. Antunez -, médicos, familiares e naturalmente ao dr. Brito Cardoso e ao fotógrafo V. Pecurto, autores de um pequeno livro editado em função do 50o. aniversário da restauração do referido Carmelo. A organização era consciente de que esta documentação prévia não era vital para o desenvolvimento do 'plano', mas este era o nosso estilo: dispor do máximo de dados. Naturalmente, outros agentes foram mobilizados na Europa, em busca de informação. Mas tropeçaram com um grave incoveniente. Cada convento carmelita possui autonomia própria, com características peculiares, dependendo da região em que se encontra e também de acordo com os critérios das respectivas superioras. Nesse sentido, portanto, a coleta de 'material' deveria ser feita do 'interior'. E João Lucas, como disse, agiu rapidamente e com o sangue frio que o caracteriza.

Às nove e meia dessa manhã ele abandonava o discreto hotel Astória, rumo à pequena colina sobre a qual se localiza o Carmelo de Santa Teresa.

A espera na penumbra do locutório espaçoso e espartano foi breve. Naqueles primeiros segundos - e limito-me a transcrever o cuidadoso relatório enviado de Portugal- sua atenção foi atraída pelas curiosas palavras existentes na porta do imaculado aposento:

'Irmão, repara bem: ou não entrar, ou falar de Deus; que na Casa de Teresa esta ciência se professa.'

O cético sorriso de João apagou-se bruscamente pela calorosa saudação da madre priora.

A organização - prudente e intuitiva - tinha demonstrado singular interesse na hora de reconstituir a personalidade desta mulher. A delicada missão encomendada aos nossos homens assim o exigia. Os acontecimentos posteriores nos dariam razão. A carmelita Maria do Carmo não ocupava aquele cargo por acaso. Apesar de ter cerca de sessenta anos, gozava de uma inteligência rápida e sutil. Entrara na Ordem aos dezessete anos, e estava há quarenta no Carmelo de Coimbra. E apesar desse longo isolamento, seu conhecimento da realidade do mundo era invejável. Como verificaríamos, a priora praticava com zelo total o princípio evangélico da 'pomba e a serpente'. Conhecia a candidez da primeira e a desconfiança da segunda. E estava no seu direito. Mais ainda: esta atitude era quase obrigatória na freira. Era preciso buscar a explicação disso numa das 'inquilinas' do convento: uma carmelita anciã, mundialmente famosa. Um 'objetivo', em suma, extraordinariamente apetecível para todos os repórteres e crentes do mundo católico. Em definitivo, nosso objetivo...

João Lucas foi direto ao assunto. E a superiora escutou avidamente, respondendo sem rodeios as estudadas perguntas do visitante.

Uma hora depois, o coordenador da operação despedia-se com a promessa de retomar na manhã seguinte. Mas desta vez não viria sozinho. Nesse 19 de janeiro seria acompanhado por um suposto parente. Uma mulher de vinte e sete anos - especialista do 'terceiro círculo' - que desempenharia um papel essencial na primeira fase do projeto.

O 'objetivo' de Os Três Círculos em Coimbra era uma das suas cidadãs: Maria do Coração Imaculado. Uma velha freira de clausura, mais conhecida como sor Lúcia. A única sobrevivente dos misteriosos aparecimentos marianos de 1917 na região da Cova de Iria.

No entanto, o acesso a esta carmelita descalça - que em 1987 estava com oitenta anos de idade - era quase impossível, pelo menos a partir do exterior e para a imensa maioria dos mortais. A razão é óbvia: segundo a Igreja católica, esta venerável irmã é a depositária de uma espécie de revelação, outorgada ao mundo em 13 de julho do referido ano de 1917, por meio de uma personagem singular - com a aparência de 'bela menina' - que protagonizou alguns destes acontecimentos. A 'mensagem' - popularmente denominada 'terceiro segredo de Fátima' - jamais foi revelada. Lúcia de Jesus Santos a escreveu em 22 de dezembro de 1943 e em 9 de janeiro de 1944. Posteriormente, ela foi enviada a Roma num envelope lacrado. (5)

 

(5) A 11 de fevereiro de 1967, o cardeal Ottaviani - que teve acesso à "mensagem" de Fátima - fazia as seguintes declarações diante da Pontifícia Academia Mariana Internacional de Roma: "O envelope que contém o 'segredo de Fátima' foi entregue fechado ao bispo de Leiria e, embora a irmã Lúcia lhe dissesse que podia lê-lo, o senhor bispo preferiu não fazê-lo, respeitando assim o 'segredo'. Enviou-o ao núncio apostólico, o monsenhor Cento, hoje cardeal aqui presente, o qual finalmente o enviou à Congregação da Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício), que o pedira para evitar que uma coisa tão delicada e que não devia ainda tomar-se pública pudesse, por algum acontecimento fortuito, cair em mãos estranhas. O 'segredo' chegou. Foi levado à mencionada congregação e, ainda fechado, foi entregue a João XXIII. O Papa abriu o envelope e o leu. E, embora estivesse em português, disse-me que 'o entendera perfeitamente'. Segundo irmã Lúcia, 'a mensagem não devia ser aberta antes de 1960'. Perguntei a Lúcia sobre a razão de tal data e ela me respondeu: 'Porque então parecerá mais clara' ". (N. A.)

 

E até o dia de hoje, sem atender aos reiterados pedidos dos crentes, os pontífices e cardeais que conseguiram lê-la têm optado pelo silêncio, fomentando assim - talvez involuntariamente - um mar de especulações, cada uma mais estranha que a outra.

E antes de prosseguir tenho de esclarecer - em nome de Os Três Círculos e em meu próprio - que nunca concedemos valor excessivo ao citado 'terceiro segredo' . É um fato evidente e repetido até o cansaço que a própria Igreja de Roma não deu grande importância ao seu conteúdo, negando-se a incluí-lo entre os 'argumentos de fé' . A duvidosa confiabilidade dos igualmente chamados 'primeiro e segundo segredos' de Fátima (6) invalida perigosamente o terceiro. Mas nossa missão não consistia em julgar a bondade de tal 'mensagem', mas sim em apoderar-se dela.

Por uma série de razões que beneficiavam a operação 'Gloria Olivae' e que detalharei no devido momento, a organização considerou necessário o 'resgate' de tal revelação.

 

(6) Obedecendo a uma carta do seu bispo, em 26 de julho de 1941, Lúcia, a única testemunha viva, escrevia o seguinte: "... O segredo consta de três coisas diferentes, duas das quais vou revelar. A primeira foi a visão do inferno. Nossa Senhora nos mostrou um mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Submersos neste fogo estavam os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana. Levados pelas chamas que deles mesmos saíam, juntamente com horríveis nuvens de fumaça, flutuavam naquele fogo e caíam para todos os lados como as faíscas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de desespero que horrorizavam e faziam estremecer de espanto. Os demônios distinguiam-se por formas terríveis e repugnantes de animais espantosos e desconhecidos, transparentes e pretos. Esta visão durou apenas um momento ..."

Segundo o vidente, esta "visão" foi protagonizada pelos célebres pastorzinhos lusitanos no dia 13 de julho de 1917. É evidente que a teologia moderna e os crentes com um mínimo de bom senso rejeitam totalmente a existência do inferno. Pelo menos, de 'um "inferno" como o que a irmã Lúcia retrata. Na minha opinião, a idéia do inferno - alimentada durante séculos pela Igreja - constitui uma das piores "calúnias" levantadas contra o Pai Universal. Conseqüentemente, restam duas hipóteses: ou o primeiro "segredo" de Fátima foi uma confusão de Lúcia, Jacinta e Francisco ou uma fórmula muito pouco caritativa de amedrontamento da sociedade daquela época por parte dos "responsáveis" pelas mencionadas aparições. Em ambos os casos, a origem e intenciona1idade divinas da "mensagem" são duvidosas.

Quanto ao "segundo segredo", segundo Lúcia, nesse terceiro aparecimento a Senhora anunciou-lhes o fim da guerra (referia-se, obviamente, à Primeira Guerra Mundial). Isso realmente aconteceu.

"Mas, se não deixarem de ofender a Deus - continuou a Senhora -, no reinado de Pio XI começará outra pior."

Tentando ser objetivos, "adivinhar o final da Primeira Guerra Mundial em julho de 1917 tampouco pode ser considerado um "milagre". No entanto, a advertência com relação a uma segunda deflagração merece um aplauso. Como sabemos, o prognóstico tomar-se-ia realidade em 12 de março de 1938, com a invasão da Áustria pelas tropas de Hitler. Vinte e um anos de antecedência é uma margem suficientemente razoável para fazer o mais recalcitrante dos céticos duvidar e meditar. Só que não consigo estar muito de acordo com a Senhora - e que Deus me perdoe se estou intrometendo-me em "assuntos divinos" - sobre a causa assinalada como detonadora de tal conflagração. Qualquer estudante médio sabe que o problema que provocou a Segunda Guerra Mundial não tem nada a ver com as "ofensas dos homens a Deus" e sim com as idéias de um paranóico.

"... Quando virdes uma noite iluminada por uma luz desconhecida - continua o 'segundo segredo' - sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai castigar o mundo pelos seus crimes, por meio da guerra, da fome e das perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para impedi-lo irei pedir a consagração da Rússia ao meu imaculado coração e a comunhão reparadora dos primeiros sábados. Se atenderem ao meu pedido, a Rússia converter-se-á e haverá paz; se não, ela disseminará seus erros pelo mundo promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre sofrerá muito, várias nações serão aniquiladas. Pôr fim meu coração imaculado triunfará. O Santo Padre me consagrará à Rússia, que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de paz."

Vamos por partes. Muitos defensores do mistério de Fátima identificaram a "noite iluminada" com uma aurora boreal registrada entre 25 e 26 de janeiro de 1938. Embora com reservas, isso efetivamente poderia ser considerado um "sinal". No entanto, o resto da "mensagem" não parece tão claro. Analisando as palavras da Senhora, parece que a única responsável pela Segunda Guerra Mundial foi a União Soviética. (Estas "memórias" foram escritas em 1941.) O erro não pode ser mais evidente. Será que os "céus" não estavam a par da História humana? Porque todo mundo sabe que tal contenda não foi provocada pela Rússia, mas sim pela Alemanha. Só depois, com a chamada "guerra fria" , a URSS surgiu como uma ameaça para o Ocidente. E já que estamos falando francamente, é justo reconhecer que a responsável por tão tensa e dramática situação mundial não foi única e exclusivamente a Rússia. Também os Estados Unidos, o Japão e outras nações contribuiram bastante para esse estado de coisas. Como entender então as palavras da Senhora? Podemos estar seguros de que foram essas - e não outras - as idéias e conceitos expressados pela suposta "porta-voz celestial"? Na verdade, a "mensagem divina" (?) recebida em 1917 em Cova de Iria deveria ser, pelo menos, rigorosa e coincidente com a História. Pois bem, se a Senhora referia-se à revolução de outubro na União Soviética (isto é, três meses depois das revelações de julho de 1917), o assunto se complica. Deixando de lado o caráter materialista que evidentemente impregnou tal revolução, nenhum historiador ou analista político pode negar que o levantamento daquele 7 de outubro deveu-se, em grande parte, à injusta e denegrida situação sócio-econômica pela qual o povo russo passava. Isto quer dizer que os "poderes divinos" estão "aliados" aos sistemas políticos que escravizam a cidadania? A resposta é óbvia. Mas regressemos ao texto deste "segundo segredo". Em julho de 1952, por meio de carta apostólica, Pio XII consagrou os povos da Rússia ao coração imaculado de Maria. Aparentemente, a "fórmula" não agradou aos "céus", porque, como é de domínio público, a situação mundial, longe de melhorar, piorou. Em 1984, finalmente, João Paulo II efetuou a consagração solicitada pela Senhora, com uma menção específIca aos paises do Leste europeu. E sor Lúcia ficou satisfeita. E embora devamos reconhecer que, a partir de 1989, o comunismo entrou num claro processo de deterioração, podemos assegurar que o planeta viveu em paz, tal como prometia a "mensagem" de Fátima? Como explicar a guerra do Golfo em 1990? Em outras palavras: se o "primeiro e segundo segredos" contêm erros tão crassos, por que pressupor que o terceiro seja diferente? (N. A.)

 

Naturalmente, devido ao seu caráter reservado, era muito difícil chegar até o texto. Durante certo tempo, o 'segundo círculo' estudou diversas possibilidades para obter o texto tão cobiçado. Um comunicado que, segundo os nossos informantes, não passava de quinze linhas.

Dois dos nossos agentes em Roma confirmaram as suspeitas iniciais: a célebre folha manuscrita por sor Lúcia estava depositada num dos cofres do prédio do Arquivo Secreto, no coração da Cidade do Vaticano. Uma cópia permanece no pequeno cofre de 30 por 25 centímetros, de madeira esmaltada, reservado para os 'segredos muito delicados do Santo Ofício'. Um cofre que só pode ser aberto com três chaves e que é guardado na caixa-forte existente num dos aposentos próximos ao gabinete particular de Sua Santidade, no Palácio Apostólico.

Num primeiro momento concebeu-se a idéia de chegar à 'mensagem' mediante um plano engenhoso e bem traçado, que consistia na entrada e posterior ocultamento no refúgio 'antiatômico' situado nos porões do Arquivo Secreto, de três especialistas do 'terceiro círculo'. Segundo os nossos cálculos, em duas horas o aposento encouraçado poderia ser aberto e seu conteúdo ficaria em poder dos infIltrados. Nesta abóbada, além do mencionado 'segredo de Fátima', são custodiados - entre outros valiosos documentos - a última carta de Maria, rainha católica da Escócia, dirigida ao Papa pouco antes de ser decapitada por Elizabeth I da Inglaterra; a petição de setenta e cinco lordes ingleses suplicando ao Pontífice a anulação do casamento de Henrique VIII e Catarina de Aragão; as missivas de amor deste rei a Ana Bolena; os selos de ouro - de um quilo cada um - dos monarcas espanhóis Felipe II e Felipe III; a correspondência trocada em 1146 entre os imperadores bizantinos e os papas, solicitando proteção para os cruzados; o dogma da Imaculada Conceição, encadernado em rico veludo azul; e a carta - confeccionada em seda bordada - de uma imperatriz da dinastia Ming, escrita em 1655, exigindo do Papa a ajuda necessária para a cristianização da China.

Infelizmente, o assalto ao tentador Arquivo Secreto do Vaticano teve de ser anulado. E não por falta de coragem. Nossos homens como já disse - são os melhores. A operação 'Gloria Olivae' tinha em vista uma segunda e não menos arriscada 'intervenção' nas quilométricas galerias de tal centro. Se a manipulação da abóbada encouraçada e a microfilmagem da 'mensagem' tivessem sido efetuadas, a entrada posterior dos especialistas ficaria comprometida. Embora a abertura da caixa-forte tivesse sido planejada de forma a não ser detectada pela Segurança, o 'segundo círculo' preferiu não tentar a sorte.

Quanto à possibilidade de abrir o cofre que guarda a cópia, a organização descartou o arriscado plano do coronel Hoffmann. Era muito perigoso e, sobretudo, excessivamente laborioso.

Optou-se então pelo 'projeto português'. Embora não isento de riscos, apresentava uma razoável viabilidade, sendo suscetível de execução num prazo prudente.

O objetivo - como mencionamos - era exatamente a vidente dos acontecimentos de Fátima. Apesar da muralha quase inexpugnável que a separa do mundo e que - não nos enganemos - reduziu-a a uma 'prisioneira' do Vaticano, os relatórios recebidos no final de 1986 sobre a sua progressiva perda de visão fizeram-nos criar esperanças. Existia uma possibilidade. E os homens de Lucas souberam aproveitá-la. Para garantir o êxito da missão, porém, era necessária uma 'aproximação' prévia do mundo ao qual pertencia esta freira de clausura.

Em suma: tínhamos que nos infIltrar na comunidade carmelita de Coimbra. Só assim - controlando os movimentos de sor Lúcia do interior - estaríamos capacitados para 'atacar' a segunda e última fase do trabalho com rapidez e eficácia.

E na segunda-feira, 19 de janeiro, João apresentava-se novamente no convento. A priora e Maria da Graça, a irmã-porteira, acolheram a jovem sobrinha fictícia com ternura e diligência.

-'Às onze horas, após uma despedida comovente e fingida, a senhorita Lara Matos atravessava o sólido portão existente à direita do tradicional 'tomo', iniciando o período de teste como postulante. .

Nossas previsões mostraram-se corretas. O oportuno e substancioso dote - dez mil dólares -, oferecido pelo 'rico financista lisboeta' , junto com a documentação requerida nestes casos, contribuiu para dissipar as possíveis desconfianças da comunidade em geral e da superiora em particular.

A preocupante escassez de vocações também foi um ponto a nosso favor. Naquele momento, o Carmelo de Santa Teresa reunia um total de vinte e três irmãs. Destas, apenas três usavam o véu branco de noviças.

Como é fácil imaginar, diante da muito provável tentativa de comprovação de identidade feita pelas autoridades eclesiásticas ou civis de Coimbra, os atestados e a documentação exigidos pelo monastério batismo, crisma, médico-psiquiátrico e pessoal - foram habilmente falsificados, utilizando dados reais que pertenciam a outro membro da organização residente em Oporto.

E a médica e psiquiatra Lara Matos - mulher de escassas palavras e ânimo de aço, conhecida em Os Três Círculos como a 'geladeira' - dispôs-se a representar o papel de aspirante a carmelita descalça.

Sessenta e cinco dias mais tarde - após o término da operação -, ante a lógica desolação das irmãs, abandonaria o convento, 'convencida da sua falta de vocação religiosa'.

Assim, o plano foi ativado.

Naquela mesma manhã de segunda-feira, num dos apartamentos do número 353 do edifício 'Penedo' (B), começou a ser efetuada a vigilância dos jardins internos do Carmelo. A partir desse momento, tudo dependia de Lara.

O coronel Hoffmann autorizara diversos sistemas de comunicação entre a 'postulante' e nossos homens. O mais importante consistia num emissor duplo, colocado na extremidade superior da armação dos óculos utilizados pela especialista do 'terceiro círculo'. Tanto as baterias como os mecanismos para abrir e fechar - convenientemente miniaturizados - foram colocados no interior do material plástico da armação e das hastes. Ao tocá-los, uma rede de 'capilares' imperceptíveis que atravessava o interior de cada uma das lentes era ativada automaticamente, emitindo uma radiação superior a 0,8 mícron. Esta 'luz' - que pertencia ao espectro infravermelho (de uma longitude de onda superior aos 8.000 angströms) - é invisível ao olho humano e, conseqüentemente, não podia ser detectada pelas irmãs que acompanhassem ou rodeassem a agente infiltrada. Os toques podiam ser efetuados separadamente, em qualquer lente, ou conjuntamente, acionando ambas as pilhas ao mesmo tempo. As mensagens - sempre em linguagem cifrada secreta - eram recebidas pelo enlace no exterior mediante simples 'óculos', também de visão infravermelha.

A trama, porém, era limitada por um inconveniente. As características do invento só viabilizavam este tipo de 'comunicação' no pátio ou nos jardins internos. E como ignorávamos quais poderiam ser os movimentos do nosso agente durante sua estadia no Carmelo - pelo menos nos primeiros dias ou semanas -, a equipe foi obrigada a estabelecer um serviço de vigilância férreo e contínuo.

Estudou-se também a possibilidade de entregar à 'postulante' um micro-transmissor de rádio que, com toda a certeza, teria simplificado a operação. Mas devido à desconfiada superiora, a idéia foi abandonada.

O 'trabalho' da jovem agente - segundo os planos da organização - devia centrar-se no fornecimento de informação sobre tudo o que dissesse respeito à irmã Lúcia. Qualquer detalhe, por insignificante que pudesse parecer, devia ser registrado por João Lucas e seus homens. Mas a chave estava na transmissão de dados relacionados a três assuntos concretos: estado de saúde da vidente, características psicológicas da mesma e, acima de tudo, detecção - com a maior antecedência possível - do hospital, médicos e data previstos para a impostergável operação de cataratas. Esta notícia confidencial fora obtida meses atrás por intermédio de um familiar próximo do dr. Batara, médico pessoal da idosa carmelita.

Aos oitenta anos, a freira sofria de uma 'catarata degenerativa' com a correspondente perda gradual de transparência dos cristalinos de ambos os olhos. O mal, conseqüência de uma degeneração senil, não pôde ser vencido com a ajuda de sucessivas e cada vez mais potentes lentes de aumento nos óculos.

Para possibilitar este 'rastreamento' , a falsa postulante - de acordo com o treinamento recebido - devia agir com singular cautela. Suas 'aproximações' de Lúcia tinham de ser e parecer naturais, com extremo tato e evitando, por todos os meios, levantar suspeitas das irmãs restantes e, em particular, da superiora.

Durante um tempo - isso era claro - a madre Maria do Carmo e a irmã professora, designada para ajudá-la e educá-la nas regras e costumes da Ordem, permaneceriam atentas ao seu comportamento. Qualquer suspeita poderia inviabilizar o projeto.

Durante quatro longas jornadas, a vigilância externa aguardou inutilmente. Foram momentos críticos e de grande preocupação. Teríamos podido recorrer à comunicação telefônica, porém João confiava cegamente na gélida psiquiatra. Por outro lado, o uso do telefone constituía um risco. Tratando-se de uma recém-chegada e do Carmelo de Coimbra, a possibilidade de que as conversas fossem controladas não devia ser descartada.

Finalmente, na sexta-feira, 23, às 13h30, recebeu-se o primeiro e tão ansiado sinal. A transmissão 'luminosa' chegou nítida e precisa. Através de binóculos, seguindo as indicações do agente 'receptor', a postulante foi localizada por Lucas nas proximidades da pequena ermida denominada Getsemani, nos jardins e a pouco mais de cem metros do nosso ponto de observação. Lara estava sozinha. Sentada aprazivelmente ao pé de uma árvore e com um livro aberto sobre os joelhos. Parte da comunidade passeava, rezava ou conversava pelos arredores.

Aquela comunicação - que se prolongaria por sete minutos conseguiu aliviar a tensão da inquieta equipe, instruindo-a sobre os momentos e lugares onde, presumivelmente, seriam efetuadas as ligações futuras.

Utilizando só um emissor, Lara Matos 'enviou' a seguinte informação:

'Confirmo e amplio horário habitual da comunidade. Convém ajustar a vigilância a esta programação.

         'Repito: ajustar vigilância.

         '05 horas e 30 minutos: início da jornada. Utilizo cela próxima ao pátio do poço. Sem companhia.

         'Reza de louvor. Ofício divino. Terço.

         'Impossível ter acesso ao jardim.

 

'08 horas e 15 minutos: missa.

'Remota possibilidade de comunicação com a igreja através das grades.

'Repito: muito remota.

'09 horas: café da manhã.

'09 horas e 30 minutos: trabalho.

'Como médica, fui designada para trabalhar na enfermaria. Excelente possibilidade para revisão periódica do objetivo.

'Deverei revezar-me nas seguintes ocupações: cozinha, limpeza. roupas, fabricação de obreias para a diocese, trabalhos de costura, carpintaria e trabalho na horta.

'Durante a permanência na enfermaria, impossibilidade de acesso ao pátio e jardins internos.

'12 horas: ângelus. ofício divino.

'12 horas e 30 minutos: almoço.

'13 horas e 30 minutos: lazer.

'Atenção! Alta possibilidade de comunicação. Tempo máximo uma hora. Tudo dependerá do clima. Em dias de sol: passeios e conversa nos jardins.

'Repito: aumentar vigilância na hora do lazer.

'15 horas: recolhimento. Ofício divino.

'Novamente no interior.

'16 horas: leitura espiritual.

'A seguir, trabalho.

17 horas e 45 minutos: ofício divino. Oração mental. 'Continua impossibilidade de acesso ao exterior.

'19 horas: jantar.

'20 horas, aproximadamente: segundo lazer.

'No inverno, sempre no interior.

'Duvidosa possibilidade de passeio pelos jardins.

'21 horas: ofício divino.

'Os períodos de oração são sete.

'Silêncio rigoroso.

'22 horas: ofício divino.

'23 horas: reclusão nas celas. Período de descanso até as 05 horas e 30 minutos.

'O acesso aos quartos das outras irmãs é absolutamente proibido. Nosso objetivo descansa muito perto da superiora. Percebo estreita e sutil vigilância. Perguntas demais.

'Até hoje, contatos esporádicos e muito superficiais com o objetivo. Faz vida comunitária com as limitações próprias da idade e, especialmente, da sua visão deficiente. Mediante um revezamento rigoroso, as irmãs a assistem e acompanham. Como postulante, não participo de tal privilégio. É rara a ocasião em que permanece sozinha. Chama a atenção o zelo da priora pelo seu bem-estar e no controle das suas conversas.

'Não é difícil supor algum tipo de acordo eclesiástico. O objetivo nunca fala das suas experiências em Cova de Iria, pelo menos durante os momentos de lazer.

'Curioso. Logo após ter ingressado, depois de uma longa conversação com a superiora, fui devidamente advertida: sor Lúcia é igual às outras no convento.

'O pacto de silêncio é sagrado. A curiosidade, neste sentido, é duramente castigada.

'Não há dúvidas: a madre priora foi convenientemente instruída para salvaguardar o segredo.

         'Qualquer incidente é comunicado pontualmente à Nunciatura.

         'No entanto, ninguém me proibiu de falar com o objetivo. Isso é preocupante. Pode se tratar de uma armadilha.

'É preciso multiplicar o sigilo.

'Quanto ao resto, tudo funciona segundo o programado.

'Fim da transmissão.'

A partir desse 'relatório' , os homens de Lucas permaneceram atentos aos horários, lugares mencionados e à meteorologia.

No dia seguinte, os agentes revezaram-se - das 8h15 às 8h45 na vigilância da grade existente na parte alta do muro posterior da igreja. O acesso ao templo - único lugar público do Carmelo - foi relativamente simples. As freiras tinham o costume de assistir à missa diária, reunidas do outro lado da mencionada grade, permitindo que as noviças e postulantes ocupassem os lugares mais próximos da janela de ferro forjado.

Felizmente, a comunicação na capela não foi necessária. Apesar dos problemas surgidos nos últimos momentos, Lara Matos soube dar um jeito de transmitir informação a partir dos jardins, evitando a manipulação comprometedora dos óculos dentro da clausura e na presença da comunidade.

Em benefício de todos, sua fugaz passagem pelo monastério produziu-se sem excessivos sobressaltos. Lara tornou seu o princípio de Eurípedes: 'O verdadeiro segredo dos audazes é uma estudada prudência' .

Mesmo assim, nossa agente sentiu alguns temores. Dez dias após o seu ingresso, um acontecimento obrigou-a a redobrar as precauções.

Naquela noite, quando retirou-se para descansar, percebeu que os pequenos fios - cuidadosamente aderidos toda manhã sobre o zíper da sua maleta - tinham saltado em conseqüência da abertura da mesma. A busca fora realizada com singular perfeição. E a priora, sem dúvida, logo teve conhecimento dos escassos bens conservados pela postulante. O que a madre Maria do Carmo nunca soube é que, prevendo um fato semelhante, a organização tivera a brilhante idéia de inclui:" entre as roupas, livros e retratos familiares uma carta falsa, de próprio punho do Pontífice, na qual - amparando-se numa suposta amizade com a família da srta. Matos - incentivava-a a 'seguir seus impulsos íntimos e ingressar no Carmelo'.

A isca surtiu efeito. A partir daquele instante, as considerações sobre a 'aspirante exemplar' e sua liberdade de movimentos receberam um aparente impulso. Astuta, a priora nunca se manifestou sobre a missiva de tão ilustre 'amigo' da inexistente família Matos. E tinha as suas razões.

Os relatórios seguintes - ao longo do mês de janeiro - tiveram caráter rotineiro.

Em meados de fevereiro, porém, a psiquiatra nos proporcionor. um material de indubitável interesse: uma análise psicológica da irmã Lúcia. As apreciações coincidiram bastante com os estudos grafopsicológicos efetuados pelos nossos peritos em numerosos textos manuscritos: 250 páginas escritas entre 1922 e 1970 e outra coleção mais recente de cartas. Estes dados nos ajudariam a escolher o tipo de 'tratamento' ao qual a freira seria submetida semanas mais tarde.

Em síntese, a personalidade da célebre carmelita oferecia o seguinte perfil:

'Memória extraordinária, um pouco diminuída pela degeneração senil.. .'

         Um elemento decisivo no nosso projeto.

         'Notável conhecedora das pessoas. Dificilmente esquece um rosto ou uma voz...'

         Essa virtude - especialmente sua capacidade de reconhecer vozes - nos obrigaria a introduzir certas 'modificações' no plano original.

         'Extremamente vaidosa, apesar dos seus anos de clausura e dos seus inegáveis esforços para se corrigir...'

         Também seria útil para os propósitos da organização.

         'Meticulosa. Sempre distinguiu-se pela sua fidelidade às normas, deveres ou imposições...'

         Os homens de João não se esqueceram disso.

         'Excelente equilíbrio mental, embora ameaçado pela demência senil.. .'

         A nada hipotética possibilidade nos preocupou. Chegáramos no momento certo.

         'Brilhante clareza de espírito e anormal capacidade de discernimento interno, inclusive no tocante à sua longínqua infância...

         'Sente uma repugnância visceral- embora saiba controlar-se por pessoas sujas e imorais...'

 

O dado constituiu uma importante advertência.

'Atenta a tudo e a todos. Adaptável a situações extremas. Mais por disciplina que por desejo. De tendências altruístas, resultante da seguinte simbiose: amor aos outros e necessidade de ser querida e protegida. No seu subconsciente flutua a figura da mãe. Tem um alto sentido de realidade. Foge sistematicamente dos rodeios e adornos lingüísticos.. .'

Os especialistas do 'terceiro círculo' levaram este dado em consideração na hora de planejar o 'interrogatório'.

'Forte repressão das tendências inconscientes. Domínio progressivo da introversão. As recordações são inerentes à sua pessoa. Vive delas e para elas. No entanto, apesar do seu caráter vital, expansivo e dinâmico, percebe-se a mão de alguém que a controla, dirige e mediatiza humana e espiritualmente. Neste aspecto, a irmã Lúcia pode ser considerada um ser escravizado, totalmente utilizado e manipulado por interesses alheios à sua personalidade. Sua mente foi programada hábil e progressivamente. Tanto as prioras como seus confessores constituíram e constituem os braços executores desse lamentável controle de seu livre-arbítrio. Ela renunciou às idéias pessoais devido à oportuna e astuta reclusão a que foi submetida e na qual foi ininterruptamente trabalhada, em nome de supostas altas metas. Apesar disso, no mais íntimo do seu ser ela sabe que foi enganada. Mas nunca se revoltará. Sessenta e dois anos de férrea disciplina de convento a marcaram para sempre...'

         Esta implacável 'lavagem cerebral' desanimou-nos bastante. Seríamos capazes de desbloquear o seu subconsciente?

         'Aos oitenta anos desenvolve um ritmo de trabalho aceitável, recuperando rapidamente as energias. Seu bom estado físico contribui para isso...

Dias mais tarde, os médicos confirmariam este delicado capítulo.

'Convém insistir novamente sobre a sua memória privilegiada. Na verdade, isso a sustenta e proporciona maiores satisfações internas. Com o passar dos anos, converteu-se no seu inexpugnável castelo interno, ao qual ninguém - nem mesmo a priora - tem realmente acesso. Cabe a possibilidade de que as experiências traumáticas vividas em 1917, quando tinha dez anos de idade, não tenham sido totalmente reveladas... e nunca sejam. Alguns desses acontecimentos podem ter sido desbloqueados na sua mente nos últimos tempos. Mas a natureza insólita dos mesmos a obriga a silenciá-los...'

         A tese da dra. Matos era acertada. Os círculos espíritas portugueses sabem muito bem disso...

         'Encontramo-nos portanto diante de uma mulher de viva inteligência natural que supriu sua praticamente nula formação acadêmica por meio da força de vontade e desses brilhos mentais que a caracterizam. Não se trata, portanto, de uma pobre interiorana ignorante. Seus reflexos intelectuais - agudos, penetrantes, irônicos e até festivos distinguem-na como um ser de rica personalidade.

'Lamentavelmente, sua consciência prosperou num ambiente e sob algumas coordenadas onde a Verdade é una e a Moral, ancorada em princípios inalteráveis, não é passível de revisão.

'Um ponto a ser considerado é sua contida ansiedade e seus reprimidos desejos de comunicação, virtual e exteriormente castrados. Durante todos esses anos, embora não seja consciente disso, tão dramática situação perturbou o ritmo do seu subconsciente. Bastaria uma orientação adequada para eliminar essas barreiras. Mas atenção: a esfera instintiva da vidente parece tão solidamente regulamentada pela disciplina monástica que o tratamento poderia fracassar...'

Estávamos de acordo. Na hora de 'trabalhar' no nível do inconsciente, o risco de erro é alto. Mas tínhamos de tentar.      

No final desse mês de fevereiro, nossas suspeitas começaram a se concretizar. O médico pessoal de Lúcia - acompanhado por outros dois facultativos - realizou uma visita inesperada ao convento, submetendo a idosa freira a um cuidadoso exame. Só a madre priora foi testemunha do check-up. Mas as notícias deste tipo de comunidade talvez como uma sábia compensação da natureza humana – propagam-se rapidamente.

E a comunicação imediata de Lara colocou-nos em estado de alerta máximo.

Um dos médicos - o prestigioso oftalmologista e cirurgião de Coimbra Antonio Pires - concordara em realizar a cirurgia na irmã o mais rapidamente possível. Suas excelentes condições físicas e anímicas faziam esperar um bom resultado. Mas, apesar dos esforços realizados pela 'geladeira', o lugar e a data previstos para a intervenção cirúrgica foram mantidos em rigoroso segredo. Nem a própria Lúcia foi informada a este respeito.

No entanto, o problema foi resolvido em quarenta e oito horas. A sugestão de Hoffmann foi determinante.

A 'substituição' do carteiro responsável pela entrega e recolhimento da correspondência no Carmelo por um dos homens de Lucas nos proporcionou a crucial informação. Dois dias depois da visita dos médicos, a priora - cumprindo ordens - anunciava os fatos à Nunciatura Apostólica. Na carta mencionava-se o nome da clínica na qual a operação seria realizada - Casa de Saúde de Coimbra, na rua Sofia, 158 -, bem como a identidade do cirurgião e a data aproximada: 'por volta de 20 de março'.

O final da comunicação era eloqüente:

... aguardo instruções de sua eminência.'

Uma semana mais tarde, João interceptava a resposta dos representantes do Vaticano em Portugal. Roma dava a sua aprovação, 'responsabilizando a superiora pela segurança de sor Lúcia'. E acrescentavam em tom imperativo:

'A transferência deverá ser feita sem chamar a atenção. Preferentemente, de madrugada ou pela noitinha. Recorra aos serviços desse bispado. Hoje estabelecemos contato com os responsáveis pela diocese, a fim de facilitar os meios oportunos.

'E lembre-se que sua presença junto à írmã é obrigatória, mesmo durante a intervenção e o delicado período da anestesia. Nos próximos dias, para tranqüilidade de todos, um enviado da Nunciatura se entrevistará com o cirurgião para explicar-lhe a razão desta medida.

'Comunique-me sem demora - se possível por via telefônica o resultado da operação. Nesse momento receberá as instruções para a transferência para o Carmelo.'

Assim, tínhamos duas semanas para concluir os 'detalhes'. Quatros novos agentes, procedentes de Lisboa, incorporaram-se à missão. Três deles - Aída Moura, Ema Cunha e Lino Lobo -, enfermeiros altamente especializados, recolheram-se ao hotel Astória. E aguardaram as iminentes ordens de Lucas, o coordenador.

A mencionada Casa de Saúde - um vetusto edifício de três andares na parte velha de Coimbra - converteu-se no objetivo prioritário.

Poucas horas depois da sua chegada, Aída e Ema eram 'contratadas' como enfermeiras na referida clínica particular, diante da súbita 'indisposição' de duas titulares.

Por outro lado, o cirurgião, dr. Pires, e sua equipe habitual incluindo os instrumentadores - foram discreta porém implacavelmente seguidos. No dia 7 de março, devido a esta vigilância, ocorreu um fato que nos confundiu. Numa conversação telefônica - obviamente grampeada -, o médico pessoal da vidente cometeu a indiscrição de comentar com o oftalmologista a mudança de data da operação. Seguindo recomendação da hierarquia eclesiástica, ela deveria ser antecipada para o próximo fim de semana.

Embora as sucessivas mensagens de Lara não indicassem nada a respeito, nossos homens prepararam-se para agir nos dias mencionados pelo dr. Batara.

No primeiro momento, desconfiamos. Mas, convencidos de que a Nunciatura e o Carmelo não dispunham de provas para suspeitar das nossas atividades, esquecemos o assunto, atribuindo-o a 'conveniências do caráter doméstico'.

Erro crasso. Devemos reconhecer que subestimamos a priora. E faltou pouco para que a missão fracassasse. Se não tivesse acontecido uma série de fatos fortuitos, que atrasaram a investigação iniciada pela Nunciatura Apostólica em Portugal, a 'postulante' e o 'plano' p0deriam ter fracassado. Mas a 'blindagem' em torno da identidade falsa de Lucas e Lara Matos nos favoreceu, concedendo-nos um tempo precioso.

E no dia 11 de março, quarta-feira, numa das suas últimas comunicações, a 'geladeira' confirmava o sábado, 14, como o dia previsto para a operação das cataratas.

No final do comunicado ela acrescentava, alarmada:

'... A carta do Papa foi subtraída da minha maleta ontem, terça-feira. Ativo o plano B.

'Repito: plano B em marcha.'

Infelizmente, precisamos de alguns dias para confirmar que ambos os acontecimentos - a mudança de data da intervenção cirúrgica e o furto da missiva papal - estavam perigosamente relacionados.

É óbvio que, após tomar conhecimento de tal carta, a priora deve ter comunicado o fato aos seus superiores. E a Nunciatura, além de abrir o correspondente inquérito, solicitou uma cópia da mesma. (Dois dias depois da apropriação o original foi devolvido - com idêntico sigilo - à cela da 'postulante').

Mas o texto - para desespero de Lucas - não saiu do convento pelo procedimento habitual: pelo Correio. Hoje suspeitamos que foi entregue em mãos aos 'serviços de informação' da Nunciatura na noite da sexta-feira, 13 de março, aproveitando a saída secreta de sor Lúcia do Carmelo.

Apesar de tudo, este atraso de três dias e o acaso nos beneficiaram.

Segundo os nossos informantes, a cópia foi enviada a Roma pela mala diplomática, dando entrada na Secretaria de Estado na manhã de segunda-feira, 16. Mas a situação complicada pela qual a Igreja católica passava naquele momento no Chile 'desviou' em certa medida a atenção sobre o 'assunto Coimbra'. Em 13 desse mês de março, como se recordará, o núncio apostólico em Santiago, monsenhor Sodano, foi convocado pelo governo, devido a certas declarações do bispo Carlos Marcio Camus contra o general Pinochet.

A resposta da Santa Sé chegou à Nunciatura de Portugal uma semana mais tarde: no dia 23. Nela fazia-se constar a 'estranheza de Sua Santidade, que não recordava manter amizade nem ter escrito a nenhuma família Matos'.

Sempre em linguagem cifrada, recomendava-se prosseguir a 'discreta investigação' , evitando - 'a qualquer preço' - que o problema vazasse para os meios de informação.

Mas quando as autoridades civis e eclesiásticas tomaram conhecimento da obscura maquinação ocorrida no Carmelo, a postulantede acordo com o 'plano B' - estava fora da Ordem, num lugar seguro.

 

Naquela sexta-feira, 13 de março de 1987, amparadas pela escuridão da noite, a madre superiora e a irmã Lúcia desciam do veículo cedido pelo bispado, sendo recebidas no solitário saguão da Casa de Saúde pela solícita irmã Maria Elvira de Jesus, enfermeira-chefe da Ordem das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição: as magníficas e caritativas freirinhas que prestavam serviço em tal clínica.

Com pressa, evitando a curiosidade do zelador de plantão e da telefonista que montava guarda atrás dos vidros do departamento de informação, as religiosas cobriram os nove metros que as separavam do elevador. Vinte segundos depois, a robusta e sorridente irmã Elvira avançava por um dos corredores do último andar, conduzindo as carmelitas por um intrincado labirinto de corredores tenuemente iluminados.

Quarenta segundos mais tarde, a priora abandonava o braço de sor Lúcia, penetrando no quarto 810. Uma segunda freira e enfermeiraa irmã Isabel de Silva Santos - uniu-se ao grupo, esperando instruções.

Após uma meticulosa inspeção das suas camas, do banheiro contíguo, das paredes, do telefone número 188, estrategicamente situado entre os dois leitos, e do recôndito pátio interno que podia ser contemplado da única janela, a desconfiada superiora deu sua aprovação, permitindo a entrada da vidente e das suas acompanhantes.

E segundo o estabelecido, sor Lúcia tomou seu primeiro medicamento e deitou-se.

Como é lógico, a identidade da pessoa que nos manteve pontualmente informados sobre os movimentos das carmelitas durante sua estada na Casa de Saúde não pode ser revelada. Apenas fui autorizado a manifestar que tal informante acreditou estar, em todos os momentos, a serviço da Nunciatura Apostólica...

E nessa manhã da sexta-feira - de acordo com o 'plano' -, outra das agentes - uma 'turista de férias na cidade' - dava entrada no terceiro andar (quarto 407) da referida Casa de Saúde, 'sofrendo de dores insuportáveis na região lombar, ventre e perna direita'. Era acompanhada por dois 'familiares': Lino Lobo, seu 'esposo', e Paulo Bacelar, seu também falso 'irmão'.

Vários dias antes, cumprindo o que fora estabelecido pela organização, esta valente especialista do 'terceiro círculo' tinha se submetido à inoculação de uma dose mínima de Escherichia coli, o germe responsável - em oitenta e cinco por cento dos casos - pela patologia 'não complicada' conhecida como 'nefrite tubulointersticial infecciosa aguda' ou 'pielonefrite bacteriana aguda'.

Os sintomas e sinais observados pelos médicos da clínica - calafrios, febre, dor no lado, náuseas e vômitos - não deixaram lugar a dúvidas, e a doente foi imediatamente internada. Com ela, como acompanhantes, também penetraram os já referidos agentes. Em princípio - segundo os nossos cálculos -, a infecção renal piógena aguda provocada, neste caso unilateral, exigiria - em primeiro lugar - uma bateria de exames (incluindo o exame de urina de Oram sem centrifugar) para 'detectar' o elemento causador da infecção. Com sorte, e levando em consideração a comprovada perícia da equipe de facultativos da Casa de Saúde, o diagnóstico estaria pronto num prazo de vinte e quatro a quarenta e oito horas. Quanto ao tratamento antimicrobiano talvez a fase mais comprometedora para a agente -, deveria prolongarse, na clínica, por cinco a sete dias.

Nesse momento, se tudo ocorresse com a precisão habitual, o 'terceiro segredo' de Fátima já estaria em nosso poder. Na verdade, a manobra crucial - e mais perigosa - seria executada trinta e seis horas após a intervenção cirúrgica.

Durante a noite dessa sexta-feira uma calma aparente dominou o pequeno hospital. Os únicos que não conseguiram conciliar o sono - devido à preocupação e às dores intensas - foram as 'inquilinas' do quarto 810 e a agitada 'turista' e seu vigilante 'marido' do 407.

Sábado, 14 de março.

Às 8 horas, a enfermeira Aída Moura chegava pontualmente ao seu trabalho, subindo os dezoito degraus de mármore forrados de carpete azul, que conduzem do flanco direito do saguão até o primeiro andar da Casa de Saúde.

Meia hora mais tarde, após consultar as intervenções previstas para essa jornada, saía do escritório montado no quarto 513, atravessando as portas da sala de operações, situada nesse mesmo terceiro andar.

Às 8h40, uma sorridente irmã Lúcia e uma inquieta priora apresentavam-se no quirófano.

Três minutos mais tarde, a equipe médica dispunha-se a operar. Era comandada pelo dr. Pires - tranqüilo e silencioso como sempre -, auxiliado por outro eminente oftalmologista de Coimbra: Tamares Craso. Como instrumentadores, os filhos do cirurgião-chefe.

Fiel ao combinado, a superiora permaneceu vigilante a curta distância da mesa de operações.

Às 9 horas, a pequena e aparentemente frágil carmelita era anestesiada. O cirurgião começou então a operar o primeiro olho.

Três horas depois, concluída a intervenção no segundo cristalino, Aída vendava cuidadosamente os olhos da freira.

Às 12hl0, os auxiliares - seguidos a todo momento pela madre Maria do Carmo e pela enfermeira-chefe - transferiam a inconsciente sor Lúcia para o seu quarto.

Começara a 'contagem regressiva'.

 

                 12 horas e 30 minutos.

A priora tira o telefone do gancho e pede uma ligação para Lisboa. Amavelmente, rejeita a comida que o hospital lhe proporciona. Dois minutos mais tarde, o secretário do Núncio recebe a boa notícia: a dupla operação de cataratas terminou. Segundo os médicos, 'sem problemas'.

 

                   13 horas.

Após a ligação breve e otimista da superiora, a comunidade do Carmelo reúne-se diante das grades da igreja, dando graças pelo 'favor recebido'.

 

                 13 horas e 30 minutos.

Lara transmite a mesma notícia. 'Grande contentamento no monastério' .

 

                   15 horas.

Sor Lúcia começa a acordar da anestesia, inquieta. É atendida por Aída e pela irmã Isabel, que lhe dão um calmante num frasco de soro (um 'glicosado Braun' a cinco por cento).

Previamente, a priora solicita o remédio. Examina-o e ante o olhar atônito da fransciscana, escreve seu nome numa pequena caderneta preta.

As enfermeiras retiram-se e as carmelitas permanecem a sós até as 18 horas. Nesse momento, o cirurgião e o médico pessoal de Lúcia efetuam uma visita breve à anciã ilustre.

A irmã Isabel muda o frasco de soro e controla o gotejamento. 19 horas e 30 minutos.

A priora recebe o jantar. Salada e peixe. Desta vez, quem se surpreende é a enfermeira-chefe. Com o desejo de servir e alegrar sua irmã em religião, e sabendo que nem tocou no almoço, ela mesma se oferece para levar-lhe a bandeja. A doce e paciente Maria Elvira de Jesus não entende as perguntas temerosas com relação à comida, à identidade das pessoas que a cozinharam e ao método utilizado.

         Finalmente, com um sorriso irônico, concorda em experimentá-la em primeiro lugar.

Nessa noite não se fala de outra coisa na clínica. A 'extravagância' da priora corre de boca em boca. Mas ninguém suspeita da razão verdadeira.

 

                          20 horas.

         Última inspeção, a cargo de Aída e Isabel da Silva. Ao retirar o jantar, nossa agente comprova que a priora praticamente não tocou na comida. Quando a informação chega ao quarto 407, Lobo e Bacelar mostram-se preocupados. É vital que a fiel guardiã da vidente ingira um mínimo de alimentos na noite de domingo...

Quando Isabel fecha a porta, sor Lúcia descansa placidamente. Tudo está normal.

 

                 24 horas.

A enfermeira Moura - levando uma nova carga de soro - empurra a porta do 810. Desconcertada, verifica que foi trancada por dentro. Aquilo vai contra as normas e, prudentemente, comunica o fato à irmã Isabel.

Poucos minutos depois, sem poder disfarçar seu nervosismo, Isabel bate à porta do quarto, para chamar a atenção da priora. Após alguns segundos de silêncio embaraçoso, a voz firme de Maria do Carmo pede que se identifiquem. A fransciscana tem de usar toda a sua habilidade para convencer a teimosa freira que sua ação é improcedente.

Finalmente a porta é aberta e Aída comprova que tinha sido trancada com uma cadeira. A carmelita ainda veste seu hábito marrom e preto e a cama, naturalmente, continua intacta. A priora, resmungando, regressa ao assento no qual provavelmente continuará velando a noite inteira.

O frasco de 100 mililitros (ml) é substituído por outro de 500, e o gotejamento é ajustado pela especialista do 'terceiro círculo' para 'resistir' até as seis da manhã.

A advertência para não bloquear a entrada não parece causar efeito na religiosa. E nossos homens se preparam: com esta mulher, tudo é possível.. .

 

                   Domingo, 15 de março.

                   06 horas.

A clínica vive seus últimos momentos de descanso. Lino Lobo, no quarto 407, barbeia-se impassivelmente. Espera notícias do 810. Seu colega Bacelar está reunido com Lucas e o resto da equipe. Estão a dezoito horas da culminação do 'plano'.

         Por enquanto, com exceção das manobras feitas pela Nunciatura, tudo continua sob controle.

Na frente do quarto das carmelitas, Aída torna a enfrentar o desagradável assunto da porta trancada. Desta vez a enfermeira-chefe intervém.

         A madre Maria do Carmo as ignora, e Aída se pergunta se ela será capaz de resistir uma segunda noite sem dormir. Seu zelo é admirável.

 

                          08 horas.

         Ema Cunha substitui a enfermeira Moura. Esta abandona 'temporariamente' a clínica.

         Sor Lúcia recebe medicamentos. Seu estado é excelente. Apesar da vendagem e dos incômodos normais, mostra-se jovial e submissa.

 

                              08 horas e 30 minutos.

         A anciã dá um curto passeio pelo quarto. O rosto da priora mostra o cansaço provocado pela tensão e pela noite de vigília.

 

                          09 horas.

Nossos homens no 'exterior' interceptam e gravam uma comunicação telefônica com o quarto 810. Trata-se de uma ligação de longa distância, da Cidade do Vaticano. O primeiro-secretário particular do Pontífice pergunta pela irmã Lúcia. A priora responde e, emocionada, agradece a deferência.

... Logo receberá notícias do Santo Padre' , conclui o polonês num péssimo português.

         A superiora transmite a Lúcia o gentil e carinhoso gesto de Roma.

         A circunstância seria habilmente aproveitada pelos agentes responsáveis pelo 'interrogatório'.

 

                             09 horas e 45 minutos.

         Segunda ligação para a extensão 188. A irmã professora de Lara Matos põe a priora a par de tudo o que ocorre no convento. No decorrer da conversação, as carmelitas cometem uma imperdoável indiscrição. Maria do Carmo lembra à substituta a imperiosa necessidade de 'simular naturalidade' diante da nova postulante. 'Pelo menos até chegarem as instruções da Nunciatura.' A professora a tranqüiliza. E acrescenta: 'Tanto a cela da irmã Lúcia quanto a da reverenda madre continuam fechadas'.

 

                       10 horas.

Visita rotineira dos médicos. Pulso e temperatura, normais. O pós operatório continua satisfatoriamente. Sor Lúcia mostra-se agradecida com o cirurgião.

 

                   10 horas e 10 minutos.

Já na porta, a superiora fala em voz baixa com o oftalmologista. O médico parece surpreso. Cochicham. E ele se despede com um breve 'Vou consultar'.

Após fechar a porta, a carmelita - ingênua apesar de tudo - cai na imprudência de sussurrar à sua companheira o pedido formulado ao dr. Pires.

         'Pedi para mudar de quarto...'

         A vidente mostra-se tão perplexa quanto nossos homens. Aquilo não tinha sido previsto. E tanto os agentes infiltrados na Casa de Saúde como os que operam no exterior mobilizam-se para 'conjurar' a perigosa possibilidade.

Novamente a priora nos coloca em xeque.

 

                   11 horas.

A telefonista anuncia ao quarto 810 a presença no saguão de três pessoas que desejam visitar a irmã Lúcia. Uma delas - com gola de sacerdote - pega o telefone, identificando-se e tranqüilizando a priora. Esta consente.

O senhor bispo, o capelão do Carmelo e um 'enviado especial' da Nunciatura entram no quarto.

 

                       11 horas e 10 minutos.

Com a desculpa de substituir o soro, Ema arrisca-se a penetrar no 810.

A conversa é totalmente normal. O prelado pergunta alternadamente à doente e à superiora, interessando-se pela saúde de Lúcia e pelo desenvolvimento da operação..

O instinto da agente, porém, a adverte do perigo. Ao abrir a porta - pelo espaço de segundos - teve ocasião de presenciar 'algo' que não encaixava com uma visita de cortesia. Enquanto o bispo e o capelão permaneciam de pé, um de cada lado da cama da vidente, o mais jovem, ajoelhado, parece concentrado no exame do leito contíguo. Ao descobrir por baixo da cama os sapatos brancos da enfermeira, levantase rapidamente. Seu rosto fica vermelho.

Não há dúvida. O 'espião' da Nunciatura tenta localizar possíveis microfones ocultos...

A visita prolonga-se até o meio-dia. A recepção no 407 continua sendo nítida. 'Cinco por cinco.'

 

                        12 horas e 30 minutos.

         Uma auxiliar deixa a bandeja do almoço sobre a mesinha e observa curiosamente a priora.

 

                        13 horas.

         A enfermeira-chefe transmite à superiora a decisão da gerência: 'A mudança será efetuada, porém terão de aguardar que algum quarto se desocupe'.

         A carmelita parece satisfeita. A irmã Elvira retira a bandeja e sorri para dentro. A religiosa devorou a comida.

Sor Lúcia está dormindo.

O resto da tarde transcorre sem qualquer incidente.

 

                     18 horas.

Ema entrega flores à madre Maria do Carmo. As freiras, surpreendidas, agradecem o 'detalhe' da equipe da Casa de Saúde. Lúcia, feliz e conversadeira, diz que está com vontade de 'fazer trapaça' e de 'arrancar as vendas' . A priora a repreende carinhosamente. E nossa agente acaricia a mão direita da anciã, animando-a a conservar a calma. Mas o gesto da enfermeira também tem outra intenção. Simulando uma revisão de rotina do tubo de plástico pelo qual o soro flui, ela verifica se o diminuto transmissor, camuflado no interior da extremidade vermelha que entra em contato com a veia, continua no devido lugar.

Nenhum problema.

 

             20 horas.

Nossos homens em alerta máximo.

O jantar é servido. Sopa de legumes e omelete.

 

               20 horas e 30 minutos.

A irmã Maria Elvira e Ema entram novamente no quarto. Os olhos da agente dirigem-se para a bandeja. Nenhum vestígio dos alimentos. Respira aliviada.

Paulo Bacelar, que substituiu Lobo junto à doente 'turista' , recebe a notícia com satisfação. E consulta o relógio. O hipnótico - não barbitúrico - dissolvido no jantar deverá fazer efeito em cerca de quarenta e cinco minutos. A organização calculou que dois miligramas de Noctamid - convenientemente pulverizados - seriam suficientes para propiciar um sono longo e profundo à acompanhante de sor Lúcia. Em caso de suspeitas, a análise de laboratório resultaria negativa. Tivemos sorte. O fato de que a desconfiada carmelita estava havia mais de vinte e quatro horas sem dormir fez com que o seu descanso parecesse totalmente lógico. Ela mesma, apesar da dor de cabeça que sentiu na manhã seguinte, achou normal que tivesse dormido sentada na cadeira.

 

                     21 horas.

As franciscanas Elvira de Jesus e Isabel da Silva recebem outros dois comprimidos de Noctamid cada uma.

O plano - na nossa opinião - funciona matematicamente.

 

               21 horas e 30 minutos.

Ema, preocupadíssima, descobre que a freira teve tempo de escorar novamente a porta.

Age-se com rapidez e cautela.

Bacelar comunica os fatos a João Lucas. É preciso arriscar. 22 horas. .

Segundo o combinado, Ema Cunha desloca-se sigilosamente até uma das entradas de serviço, na parte traseira da clínica, na rua de Aveiro.

 

                   22 horas e 5 minutos.

Da escuridão surgem os hábitos tradicionais de uma carmelita descalça. A enfermeira dá passagem à religiosa.

 

                   22 horas e 10 minutos.

As mulheres refugiam-se no 407.

Aída - a falsa freira de clausura - mostra aos seus companheiros duas caixas de supostos antibióticos. Uma contém ampolas de 0,5 e 1 grama. A outra, meia dúzia de cápsulas de 2,5 e 5 gramas.

 

                     22 horas e 30 minutos.

Momento escolhido por Lucas e Bacelar. Ema encaminha-se novamente para o último andar.

Ao chegar diante do quarto 810, olha para a direita e para a esquerda. O corredor dorme. Gruda o ouvido na porta e espera.

Instantes depois percebe ruídos suaves. Os homens do 'exterior' cumpriram a sua parte. Um deles, subindo pelo solitário pátio interno, conseguiu descer até o terraço existente a três metros da janela do quarto. De lá, o 'assalto' ao 810 é fácil.

A cadeira é retirada e a negra silhueta do agente desaparece na noite.

Ema fecha a janela e inspeciona o tranqüilo quarto. Sor Lúcia dorme. E também a superiora.

Aproxima-se da jarra situada junto ao telefone e, inclinando-se em direção às flores - 'gentileza da equipe' -, sussurra a senha combinada:

'Portugal liberado.'

No 407, as palavras da enfermeira são recebidas com emoção. O terceiro microfone, escondido entre as pétalas fechadas de uma das rosas de estufa, transmite 'cinco por cinco'.

 

                     23 horas e 45 minutos.

Bacelar veste a batina. E sai do quarto em companhia de Aída, a 'carmelita'.

Por outro lado, após verificar que o hipnótico fez efeito nas franciscanas, Ema desce até o saguão. E aparentemente entediada, reúnese com o zelador e a telefonista do plantão da noite, no acolhedor e envidraçado serviço de informação.   

'O plantão - comentam - está muito tranqüilo.'

Informada dos gostos e costumes dos seus colegas, ela abre a garrafa térmica com café que traz consigo e mostra um tentador baralho. O jogo - no qual a enfermeira deverá 'perder' vários milhares de escudos - prolongar-se-á até as 12h20.

 

                    24 horas.

Os 'religiosos' penetram no quarto 810.

Aída verifica a respiração tranqüila da vidente. Sem titubear, pega o frasco de soro, substituindo-o por outro 'glicosado' similar, porém de 100 mililitros. Esvazia nele uma das ampolas e o liga ao tubo, espetando-o.

De acordo com os estudos realizados, 80 mililitros serão suficientes para o peso de sor Lúcia.

E o Thiopentone Sodium (BANM) (Add-A-Med-kit) - princípio ativo do 'pentoral sódico' , mais conhecido como 'soro da verdade' dissolve-se rapidamente.

Aída e o 'sacerdote' sincronizam os cronômetros dos seus relógios. A primeira ajusta o ritmo das gotas: uma por segundo. Os agentes dispõem de 1.920 segundos. O sódio de Thiopentone deverá fazer efeito dentro de nove a dez minutos, no máximo. O resto do tempo disponível - cerca de vinte e dois minutos - será consumido no 'interrogatório' .

A organização não aprovou as vias intravenosa e intra-arterial, evidentemente mais rápidas. Os riscos de tromboflebite no primeiro procedimento e as dores agudas e o perigo de gangrena no segundo, fizeram-nos optar pela dissolução no soro. Uma aplicação intravenosa teria atingido uma concentração efetiva no cérebro em trinta segundos, com uma dissolução e recuperação igualmente velozes. Mas, como disse, tratava-se de agir com o máximo de efIcácia e um mínimo de risco para a anciã.

 

                     Segunda-feira, 16 de março.

                     00 hora e 09 minutos.

Aparecem os primeiros sintomas. Leve inconsciência. Alguns espirros.

Sor Lúcia responde às suaves perguntas da enfermeira com instabilidade. Sensação de 'embriaguez'.

Felizmente, nenhuma das contra-indicações do sódio de Thiopentone - obstrução respiratória, asma aguda, forte choque, distrofia miotônica, porfIria, desidratação, anemia grave, hipercalemia, transtornos hepáticos e cardiovasculares, insufIciência adrenocortical ou forte pressão intracraniana - foi detectada no organismo da octogenária.

Mesmo assim, Aída permaneceu atenta ao controle da sua potência cardíaca e da pressão sanguínea. Durante os vinte e dois minutos seguintes, elas mantiveram-se no limite.

 

                       00 hora e 11 minutos.

Bacelar liga um dos gravadores. A droga continua 'trabalhando'.

O nivel de hipnose é aceitável. O agente .segura a mão de Lúcia e, sem estridência nem pressa, inicia um primeiro diálogo.

- Irmã, quem é você?

Com a mente e a voz amortecidas pelo barbitúrico, Lúcia identifica-se com seu nome de carmelita: 'Maria do Coração Imaculado'. As perguntas seguintes obtêm respostas igualmente coerentes. 'Sou uma servidora do Carmelo.'

'Meus pais não vivem.'

'Em 22 de março farei oitenta anos.'

'Lembro-me da Senhora.'

'Francisco morreu em 4 de abril de 1919.'

'Professei como carmelita descalça em 31 de maio de 1949.' Satisfeito diante da excelente memória, Bacelar dirige o interrogatório para o 'primeiro segredo'.

A anciã responde lentamente, porém com precisão.

'Segundo segredo.'

O texto flui devagar. A modorra se intensifica.

 

                   00 hora e 24 minutos.

O soro já se reduziu a pouco menos de um terço. Aída e Paulo entreolham-se com preocupação. Restam apenas sete minutos.

Bacelar decide correr o risco:

- Fale-nos agora da 'terceira mensagem' da Senhora. Custa-lhe começar. Sua respiração se agita. Balbucia palavras sem nexo.

- Quem está perguntando? - replica, numa tentativa de resistência.

Bacelar compreende. Tal como imaginara, o subconsciente da freira corre o perigo de bloquear-se. Liga o segundo gravador. E a familiar voz do Papa - minuciosamente manipulada pela organização responde à inquieta carmelita, 'instando-a a responder com franqueza'.

         'Santo Padre...'  .

E o 'segredo' é recitado em voz baixa.

 

                 00 hora e 31 minutos.

Os restos da dextrosa e do Thiopentone descem lentamente pelo tubo. A pressão sanguínea altera-se momentaneamente.

         Aída retira o frasco vazio e coloca a carga anterior de soro de 500 mililitros.

A 'embriaguez' atinge o clímax.

Bacelar tranqüiliza a doente e lhe aconselha que durma.

 

                 00 hora e 45 minutos.

Lúcia recupera a normalidade cardíaca. Entra num sono benéfico. Os efeitos do 'soro da verdade' prolongar-se-ão, pelo menos, durante dez horas. Nossos homens continuam atentos.

         Quando o 'sacerdote' e a 'carmelita' saem do quarto 810, a priora ronca.

         Ema, que permanecera no corredor, vigilante, os acompanha até o 407.

 

                   01 hora.

Sem problemas, Arda abandona a Casa de Saúde.

 

                 02 horas.

A gravação - com a 'mensagem de Fátima' - parte num carro, rumo ao aeroporto de Lisboa.

         O coronel Hoffmann a receberá em Paris nessa mesma segunda-feira.

 

                          06 horas.

         Ema troca o soro e retira a flor que contém o terceiro microfone.

         As carmelitas descansam sem novidade.

 

                      08 horas.

         A agente faz o curativo. Parte da venda de Lúcia é retirada. E com ela, o segundo microfone.

A priora acorda. Está relaxada e um pouco confusa. Não entende como puderam destrancar a porta. Feliz, agradece a mudança de quarto, prevista para o meio-dia.

         .

                          10 horas.

A vidente volta a si. Não se lembra de nada. Não ocorrem vômitos, embora tenha dor de cabeça e sonolência. A droga começa a metabolizar no fígado.

Pouco a pouco ela recupera o seu proverbial bom humor. Depois de quatro dias de estadia na Casa de Saúde, igualmente amparadas pela escuridão da noite, as irmãs retomam ao Carmelo. A visão de Lúcia melhorou.

Em 19 de julho desse ano, definitivamente recuperada, a irmã Lúcia abandona novamente o convento da rua de Santa Teresa - desta vez à luz do dia -, a fim de exercer seu direito ao voto. Há eleições em Portugal. No Liceu de Coimbra, onde depositou a cédula, conversou brevemente com os jornalistas, sendo fotografada em companhia do seu médico pessoal. Nem ela nem o dr. Batara tomaram algum dia conhecimento desta 'história inacreditável'.

Quando o 'segundo círculo' escutou o célebre 'terceiro segredo' de Fátima, sinceramente, fIcou decepcionado. E compreendemos as razões' do Vaticano para silenciá-lo. E mais: então e agora duvidamos da sua confiabilidade.

Ao analisar profundamente o breve conteúdo, sua construção, e compará-lo com as duas primeiras 'mensagens', os peritos foram assaltados por uma dúvida cruel: aquele texto era o mesmo que fora anunciado em julho de 19171 Uma estranha 'circunstância' ocorrida em 1943 na cidade espanhola de Tuy parecia corroborar as nossas suspeitas. Em julho e agosto de tal ano, sor Lúcia ficou doente em conseqüência de umas injeções infectadas. E foi levada para Pontevedra, sendo atendida pelo dr. Marescot. De volta a Tuy, temerosos de que a vidente pudesse falecer sem revelar o seu 'terceiro segredo', as autoridades eclesiásticas ordenaram-lhe que o escrevesse. E então ocorreu algo desconcertante. A freira é incapaz de lembrá-lo. E precisa de sete meses e de uma aparição 'extra' da Virgem para que a 'mensagem' retome à sua memória.

Naturalmente - embora isso nunca seja reconhecido oficialmente - a maior parte dos especialistas vaticanos nesta classe de 'fenômenos' desconfia da autenticidade de uma profecia que exigiu uma segunda manifestação 'sobrenatural' (?), a vinte e seis anos de distância da primeira. Quem pode ter certeza que o novo conteúdo seja correto?

         Mas isso pouco importa. O 'terceiro segredo' era nosso e estávamos dispostos a utilizá-lo no momento adequado.

         E a operação 'Gloria Olivae' seguiu seu curso..."

 

Por mais que tentasse, o confuso inspetor Constante Rossi não conseguiu adivinhar o "porquê" da complicada "operação portuguesa" .

 

Que relação misteriosa poderia haver entre a obtenção da "mensagem" de Fátima com o objetivo final da organização: a derrocada do papa? Ou, melhor, com o propósito criminoso de fazê-lo enlouquecer.. .

E atordoado, prosseguiu a leitura do "livro vermelho" ...

 

                   ROMA

"Ao longo dessa primavera de 1987 - sempre sob a supervisão do coronel Hoffmann - nossos especialistas 'trabalharam' , por assim dizer, em duas 'frentes'. Uma, sobretudo, de importância capital.

Dos resultados dependia o êxito defInitivo do projeto. Simultaneamente, estas duas equipes - instaladas na Cidade Eterna - procuraram as seguintes informações:

Em primeiro lugar, um inventário exaustivo dos tesouros do Vaticano, incluídas as medidas de segurança - de todo tipo - que os protegem. Embora o 'segundo círculo' tivesse estabelecido suas preferências neste sentido, Hoffmann, com um critério acertado, quis assegurar-se.

As pesquisas - como imaginávamos - revelaram uma situação lamentável. A maioria dessas peças, de incalculável valor históricoartístico, estava custodiada de forma deficiente, com sistemas defasados e de fácil acesso.

Várias semanas depois do início da investigação, o relatório dos agentes inclinou-nos a agir sobre o chamado 'Tesouro de São Pedro' , perto da sacristia da basílica. Embora muitas das obras-primas exibidas nas salas dos Museus Vaticanos fossem infInitamente mais tentadoras, a organização optou pelas vitrinas deste tesouro. Sua localização, a uma centena de metros da capela da Pietà, sua vigilância escassa e os alarmes vulneráveis convertiam-no num 'instrumento' interessante para o projeto. Além do mais, qualquer tentativa de roubo nas suas instalações teria sido totalmente justifIcável. Apesar da diminuição sofrida por este magnífico acúmulo de riquezas sob o pontifIcado de Pio VI, para satisfazer as pretensões de Napoleão, o volume de ouro foi estimado em'cerca de três mil quilos. É preciso acrescentar a isso outros tantos quilos de prata e uma infinidade de gravuras, esmaltes, pedras preciosas de todo tipo, esculturas, marfins, anéis, códices, casulas, tiaras de pedras preciosas e, na última das urnas, a coroa de doze estrelas - de ouro e brilhantes - doada pelo mundo católico a Pio X.

Cada estrela, cujos braços têm dez centímetros de comprimento, está coalhada de brilhantes. No total, nos seis braços de cada uma das estrelas há 252 diamantes de alta pureza, que unidos aos 22 centrais elevam o valor total a mais de dois milhões de dólares por peça. O assalto, portanto, justificava-se plenamente.

Um segundo grupo de especialistas do 'terceiro círculo' efetuou a missão delicada e transcendente de informar sobre a vida, costuma e personalidades dos cardeais que gozavam da confiança máxima do Pontífice. O trabalho - a bem da verdade - foi relativamente simples. Dos doze nomes selecionados inicialmente, após um mês nossos homens - perplexos - descobriram que os 'autenticamente leais' ao Papa podiam ser contados com os dedos de uma mão.

Dois meses mais tarde, o 'segundo círculo' - por unanimidade - designava o eslovaco Jozef Lomko como o 'grande objetivo'. O passado, a trajetória eclesiástica, o considerável prestígio, os traços físicopsíquicos, a língua materna e a fidelidade total deste cardeal ao também eslavo Santo Padre não davam lugar a dúvidas. E a partir do verão, a organização ativou um minucioso 'plano', batizado por Hoffmann de 'Rocha aberta' (tradução da palavra eslovaca 'Lomko'). Uma fase, insisto, de vital importância no conjunto da operação 'Gloria Olivae'. Naturalmente como já anunciei, para a seleção deste prelado, nascido em 11 de março de 1924 em Udavské (Tchecoeslováquia), levou-se em consideração outra 'poderosa razão' que não posso revelar e que diz respeito à segunda e secreta parte do projeto.

Devido às características especiais do personagem, e do papel que devia desempenhar no conjunto, o coronel destinou um total de dez agentes à mencionada operação 'Rocha aberta'. Dois foram infiltrados na sede da antiga Propaganda Fide (hoje Congregação para a Evangelização dos Povos), da qual Lomko é prefeito.

Um terceiro especialista passou a prestar serviços na casa onde o cardeal reside habitualmente, num local afastado e florido da Universidade Urbaniana, também em Roma.

E os demais desempenharam suas missões a cavalo entre a Tchecoeslováquia e a Itália.

Durante algum tempo, o trabalho principal destes homens e mulheres do 'terceiro círculo' consistiu em enriquecer o dossiê já volumoso sobre a figura, atividades, pensamentos e desejos do também chamado 'Papa Vermelho'. (7)

 

(7) Assim como o padre-geral da Companhia de Jesus recebeu o título de "papa negro", o prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos - devido à sua notável influência - tem sido denominado "papa vermelho". Basta dizer que da antiga Propaganda Fide dependem hoje 940 dioceses, repartidas pelos chamados "países de missões" . Isto é, pouco mais de um terço da Igreja católica. Cinqüenta e nove institutos religiosos estão sob a sua jurisdição, bem como a Universidade Urbaniana, o Colégio Urbano (ambos em Roma), 387 pequenos seminários e 87 seminários grandes. Do "papa vermelho" dependem atualmente 14.562 sacerdotes, 24.000 religiosos padres, 14.000 religiosos não padres, 30 diáconos permanentes, quase 100.000 religiosas, 95.000 catequistas e 80.000 professores. (N. A.)

 

No final do outono, nossa agente na residência do cardeal Lomko ligou o mecanismo para levar o prelado à primeira das armadilhas estabelecidas no plano.

Num café da manhã, misturado com mel, foi-lhe administrado meio grama de 'tálio', um elemento metálico mole, branco azulado, cujos sais são altamente tóxicos (a dose letal está estipulada em 1 grama).

Quarenta e oito horas depois surgiram as primeiras manifestações do 'envenenamento': ataxia ou falta de coordenação nas palavras, dores e parestesias nas extremidades, perda de cabelo, febre, conjuntivite, náuseas, dor abdominal, vômitos, sensação de letargia e queda das pálpebras.

Assim, o cardeal foi obrigado a chamar seu médico de cabeceira. Mas diante da complexidade dos sintomas, teve de seguir as recomendações do doutor, submetendo-se a exames mais detalhados. Como estava previsto, o veneno, em estado puro, continuou minando suas forças pelo menos durante dez dias.

Em princípio - para a nossa tranqüilidade -, o mal-estar de Lomko foi atribuído a uma intoxicação alimentar. Possivelmente, à carne ou ovos deteriorados.

Foram marcados o dia e a clínica onde seria realizado o check-up.

Como é óbvio, esta informação - essencial para as etapas posteriores - caiu em nosso poder poucas horas mais tarde. E o cardeal foi tranqüilamente fazer os exames, sem imaginar que os médicos que

se dispunham a ajudá-lo - solícitos e perfeitamente qualificados estavam em busca de algo mais que um simples diagnóstico...

Durante quatro longas horas, o hermético e paciente prelado suportou com estoicismo e bom humor as exaustivas medições dos seus sinais vitais, uma completa bateria de exames, registros cardiovasculares, encefalogramas, radiografias de todo tipo - incluindo as de cor sobre as partes macias, as da cabeça: posteriores e anteriores, laterais e occipitais, entre outras, e dentais -, bem como os moldes necessários para obter os 'negativos' da sua dentadura.

Nenhum detalhe foi descuidado, com exceção das impressões digitais e da imprescindível máscara de gesso do seu rosto. Ambos os capítulos - ante a lógica impossibilidade de consumá-los durante o check-up -, foram adiados para um futuro imediato. A minuciosa revisão - que deixou o cardeal entusiasmado - completou-se com um longo teste do qual participaram os três facultativos responsáveis pele 'caso'.

Poucos dias depois, o relatório confidencial da clínica era revisado pelo médico de Lomko. Astutamente, o 'veredicto' coincidia com as suspeitas iniciais: 'intoxicação menos grave, de origem alimentar'. O problema resolveu-se definitivamente com a administração de uma dose prudencial de 'azul da Prússia' (hexacianoferrato férrico potássico, II).

Este novo 'arsenal' de informações foi armazenado nos computadores da organização. Uma parte do mesmo - devidamente processada - ingressou secretamente no Hospital Universitário de Berna, à disposição de outro prestigioso membro de Os Três Círculos: o cirurgião israelense Jor Savel, uma das maiores figuras mundiais em operações crânio-maxilo-faciais.

Estas etapas preparatórias em Roma culminaram com a obtenção de nomes e sobrenomes no cemitério teutônico existente na Cidade do Vaticano, e a posterior falsificação dos passaportes e da documentação requerida para as 'operações' seguintes. No total, foram usurpadas vinte identidades, correspondentes a cidadãos alemães e italianos falecidos no século XIX e princípio do XX. Alguns destes nomes dada sua antiguidade e escassa utilização atualmente - tiveram de ser modificados. Mas tanto os sobrenomes como os locais de nascimento - prevendo-se possíveis inquéritos policiais - foram escrupulosamente respeitados.

E durante algumas horas, o interesse do coronel Hoffmann dirigiuse para o sul do Reino Unido.

 

                     BRIGHT0N

O destino, assim como as tempestades, sempre anuncia sua chegada. Mas só os muito observadores conseguem captar os sinais que precedem a mudança...

E naquela manhã, ao desligar o telefone do quarto do meu hotel, o Princes, o instinto me advertiu. No entanto - como fui tonto... -, poucos minutos depois tinha me esquecido de tudo. A ligação e o encontro iminente, marcado para as 11 horas, encaixavam naquilo que eu poderia defInir como 'contatos habituais'. Eu pertencia ao 'segundo círculo' e participara ativamente da operação 'Gloria Olivae' desde a sua gestação. Por que deveria então me preocupar com a inesperada chegada à cidade inglesa de Brighton do coronel Hoffmann?

Mesmo assim, a voz grossa de Frank, que tinha acabado de aterrissar em Heathrow, deixou-me em dúvida. Será que alguma coisa tinha falhado?

Após atravessar Kings Road, a gabardina branca do coronel apareceu muito ondulante, destacando-se sobre o mar de inverno, cor de chumbo e enraivecido. O incômodo vento da costa ameaçava soprar com a sua força habitual.

Quando ele me viu separou-se da varanda preta, caminhando lentamente e tateando as lajes do passeio com sua inseparável bengala forrada em couro.

Não vou negar. Minha admiração por aquele solitário, cuja audácia era comparável à sua imaginação, tinha surgido nos anos da Segunda Guerra Mundial. Tinha fIcado coxo em conseqüência das suas atividades na Resistência Francesa, mas não tinha perdido um único grama de coragem. Fazia vinte anos ocupava-se das missões mais arriscadas e difíceis.

Pegando-me pelo braço, como era seu costume, convidou-me para passear no Palace Pier.

Suas primeiras palavras - felicitando-se pelos prometedores resultados da operação - obtiveram o efeito contrário. E o tambor do instinto tocou, ameaçador.

Havia alguma coisa nos seus olhos claros. Eu o conhecia bem. Alguma coisa frágil, que devia manejar com prudência. E deixei-me levar.

Ironicamente, ao chegar ao Palace of Fun, o destino - como se se tratasse de uma brincadeira - manifestou-se sem rodeios. Frank, seu instrumento, abandonando as barricadas internas, expressou e transmitiu a preocupação do 'primeiro círculo' e a sua, diante o delicado capítulo que nos dispúnhamos a empreender: a 'falsificação' do cardeal Lomko.

Supus que o problema baseava-se na localização do homem idôneo. E durante uns instantes, tentei recompor os planos seguintes. Segundo as minhas informações, o treinamento deste 'dublê' - cuja identidade eu ignorava - estava por começar. Algum tempo mais tarde - numa data que só Hoffmann conhecia -, este importantíssimo personagem teria de submeter-se a uma complexa intervenção cirúrgica, para entrar na derradeira fase do projeto.

Imaginei que, apesar dos meios e do poder da organização, a procura do falso Lomko estava acarretando várias dores de cabeça. Não só pelos requisitos físicos e psíquicos do novo 'Papa Vermelho'. Essa parte - apesar de vital - não constituía um obstáculo intransponível. Para muitos dos membros do 'segundo círculo' participantes desta missão, a dúvida principal era de natureza diferente. O homem que aceitasse representar o papel de cardeal eslovaco 'hipotecaria' sua vida e farm1ia por um longo período. Quem sabe se para sempre...

A questão, portanto, era delicada: quem seria capaz de suportar uma carga tão pesada?

         Mas, para não precipitar-me, deixei Frank tomar a iniciativa.

         - Como você sabe - continuou o coronel-, é preciso agir com tato. Esse 'homem' tem de decidir livre e voluntariamente.

         Concordei.

         - E depois de não poucas discussões, análises e comprovações, os 'cérebros' optaram por alguém... como diria...

Adivinhei o termo.

- Excepcional?

Hoffmann sorriu, porém seu rosto de criança ficou logo sombrio, jogando o sorriso no mar.

- Afirmativo.

- Então - repliquei desconcertado -, se o 'primeiro círculo' já se pronunciou, qual é o problema?

         -Esse 'alguém' - murmurou com amargura - é um 'condenado à morte'.

A perplexidade foi mais intensa que o instinto. E não percebi a sutileza.

- Que pretendem? Será que enlouqueceram?

O coronel, vendo que eu estava perplexo, começou a concretizar: - Estou falando de um 'condenado' muito particular: de um doente, praticamente desenganado.

- Entendo...

Frank quis comprovar se de fato eu havia entendido. E seu olhar, como um aríete, partiu-me em dois. De repente, em décimos de segundo, percebi a verdade. E compreendi a 'razão' da sua visita. Erguendo-me a duras penas sobre as 'ruínas' do meu próprio coração, só consegui balbuciar:

- E ele... já sabe?

Hoffmann deu meia-volta, em busca do refúgio do mar. A situação me surpreendeu. Era a primeira vez que o via humilhado pela tristeza. E, incompreensivelmente - trocando os papéis -, eu é que me esforcei para animá-lo.

- Está bem, agora já sabe...

E deixando cair o peso do seu corpo sobre o punho de chifre de reno, agradeceu a minha falsa fortaleza.

- Agora diga-me: desde quando vocês sabem...?

A pergunta, conhecendo como eu conhecia a forma de trabalho de Os Três Círculos, não tinha sentido. Mas Hoffmann, que parecia esperá-la, mostrou-se condescendente. Extraiu a carteira e estendeume um papel, dobrado meticulosamente. Ao abri-lo e ler a assinatura - do meu bom amigo o dr. lan Weller, do Hospital Middlesex -, obtive a resposta à minha tola pergunta.

Frank encarregou-se do resto.

- Tivemos conhecimento da sua irreversível doença em janeiro de 1986. Também sabemos que o vírus HIV soropositivo foi transmitido a você pela sua ex-mulher, no outono de 1985.

O coronel tentou me enviar um raio de esperança. Inútil, já sei, mas não deixa de ser esperança.

- É possível que você saiba. Desde que o 'vírus da imuno-deficiência adquirida' foi detectado em 1981, 'nossos homens' na Organização Mundial da Saúde e nos centros de Vigilância de Doenças Transmissíveis e de Controle de Doenças, na Grã-Bretanha e em Atlanta, respectivamente, estão lutando sem descanso para 'conjurar' o mal e descobrir o remédio adequado.

Evitando qualquer impertinência, respondi serenamente:

- Meu querido amigo, você também deve saber que estou preparado. A morte não me assusta. Sei o que me aguarda 'do outro lado' . Conheço bem o prazo concedido. Se a sorte continuar do meu lado,

é possível que obtenha esses seis anos de 'prorrogação' . Em outras palavras, as infecções oportunistas acabarão comigo antes de 1992.

- Teu realismo e sangue-frio são bem conhecidos... - interrompeu o homem da bengala, recuperando a frieza. - Mas você não deve transformar as estatísticas no 'bezerro de ouro'. Lembre-se das palavras de Dumas pai: 'A esperança é o melhor médico que conheço'.

Uma risada vazia me traiu. Talvez minha pretensa segurança interna fosse só aparência.

- Frank, também não se esqueça de Lytton. 'Os castelos no ar - sentenciou - são difíceis de manter.'

O coronel renunciou à estéril escaramuça dialética. Como eu, aceitava que 'o esforço é filho da esperança'. E este 'condenado à morte' continuava praticando isso. Às vezes, até mesmo inconscientemente.

E mudando o rumo da conversa, deixou de lado minha funesta realidade.

- Está certo. Você já conhece o plano. E também os seus riscos.

Agora quero uma resposta...

E empurrando-me até a borda de mim mesmo, concluiu sem medos nem diplomacia:

- Está disposto a sacrificar sua vida?

- É uma ordem?

Negou com a cabeça. E, incomodado ante a nova frivolidade, optou por dialogar com o mar turbulento.

- Dizem que o pior e mais antigo pecado da Humanidade é a inveja. Outros apostam na mentira. Escute bem: para mim, é a perda de tempo.

Foi suficiente. Aceitei a reprimenda. Eu era um 'deles' e conhecia o estilo de Os Três Círculos. Eles jamais impõem decisões desta natureza.

Pedi desculpas.

- Esqueça.

De volta ao Princes, asfixiado pela indecisão, só consegui perguntar:

- De quanto tempo disponho?

Hoffmann procurou de novo no bolso da gabardina e, entregando-me uma passagem de avião, anunciou com a maior naturalidade:

- O vôo para Paris sai esta noite. Se você não o tomar, nós compreenderemos.. .

E, explorando meus olhos atônitos, finalizou:

- Caso contrário, você sabe onde me encontrar.

 

                     HUMENNÉ

'Na saúde, alimente a esperança. Na doença, viva dela.'

Este último conselho de Frank foi minha única bagagem. E com ela peregrino pela vida.

Poucas semanas mais tarde - tendo aceito meu destino e após receber um primeiro e intenso treinamento - juntava-me aos agentes que já operavam na Tchecoeslováquia.

A cidade de Humenné, ao oriente da bela região da Eslováquia, foi nosso quartel-general. Lá, durante doze longos meses, entregamo-nos ao quase milagroso processo de identificação com outro ser humano: o cardeal Jozef Lomko, filho da modesta aldeia de Udavské, com pouco mais de oitocentos habitantes, a 186 metros acima do nível do mar e a cerca de uma dúzia de quilômetros da referida Humenné.

Os primeiros momentos da investigação - como imaginamos foram laboriosos. Aqueles rudes montanheses e camponeses da 'Zupa Zemplínska' mostraram-se distantes e receosos. Esse é o seu caráter. Mas, ao contrário dos tchecos - mais fechados -, dois meses mais tarde, quando compreenderam que éramos inofensivos, abriram-nos as portas das suas 103 casas e, o que era mais importante, das suas recordações. E hospitaleiros, ingênuos e primitivos, os eslovacos mostraram-se felizes ao falar do seu mais ilustre compatriota. De certo modo, minha condição de homem nascido em Devin, muito perto da Bratislava, suavizou e acelerou essa 'integração'. E meu domínio do hutorit, o dialeto do leste da Eslováquia, dissipou as últimas asperezas. E todos os que tiveram - e continuam tendo - algum vínculo com o prestigioso cardeal foram esvaziados pelos nossos especialistas. A personalidade, ambiente familiar, amigos, hábitos e costumes deste 'homem- de ferro' - ordenado sacerdote no dia seguinte ao seu 25o. aniversário - foram desmontados.

Ninguém desconfiou daquela 'equipe de repórteres' - a serviço de uma multinacional com sede na República Federal Alemã - e da 'missão tão singular e esperançosa' que os levara até a remota e quase anônima Udavské. Muitos dos nossos informantes percebiam isso. No povoado - desde que Lomko fora designado cardeal em 25 de maio de 1985 -, não se falava de outra coisa. Sua fanu1ia e os numerosos e humildes habitantes que ostentavam esse mesmo sobrenome faziam apostas sobre o futuro de tão eminente filho.

Por que estranhar então que um grupo de 'jornalistas' investisse tempo e dinheiro passando um 'pente fino' pela região, com o propósito de reconstituir a infância e a juventude daquele que poderia ser o futuro papa?

A bem da verdade, os eslovacos não estavam sonhando. As informações astutamente manejadas pelos nossos agentes e por mim mesmo tinham uma base sólida. Três anos depois da sua ascensão ao cardinalato, o 'amigo incondicional' do Pontífice polonês tinha méritos suficientes para figurar nos primeiros lugares da inevitável lista de papabiles.

E hoje... - com o decorrer dos acontecimentos -, essas possibilidades se incrementaram... infelizmente para mim.

As pesquisas na Tchecoeslováquia estenderam-se também a Michalovce, onde cursou os estudos de grau médio, e à Faculdade de Teologia da Bratislava, na qual permaneceu dois anos.

Em 1989, concluído o trabalho na Eslováquia, a organização deslocou-nos para Roma. Ali, durante nove meses, desta vez sob a falsa identidade de um 'sacerdote' a serviço do Instituto de São Cirilo e Metódio - um centro espiritual para filhos de emigrantes eslovacos -, tive a oportunidade de aperfeiçoar e enriquecer os conhecimentos com relação às atividades do incansável Lomko. Esse tempo de preparação foi interrompido por longas estadas nas dioceses vizinhas de Porto e Santa Rufrna, nas quais o 'nosso homem' desempenhara o cargo de bispo (onze anos), crismando e levando a cabo uma febril atividade pastoral.

Conforme nosso plano, nos três últimos meses desse ano de 1989, o suposto 'sacerdote' foi 'contratado temporariamente' pela Congregação para a Evangelização dos Povos e designado - como bibliotecário - para trabalhar no importante arquivo da velha Propaganda Fide.

Minha delicada saúde agradeceu. O calmo 'trabalho' - à sombra dos doze mil documentos que constituem a apaixonante história das 'missões' no mundo - me permitiria atingir outro e não menos interessante objetivo: um conhecimento direto dos funcionários, dos seus métodos e da estrutura física da mencionada sede.

A este seria preciso acrescentar outro propósito nada fácil: estabelecer mínimos laços de amizade com o prefeito da congregação. E este momento chegou quando, num dos rotineiros e frios passeios de inspeção pelo edifício, o cardeal Lomko irrompeu numa manhã de novembro numa das salas do Instituto de Restauração, intimamente ligado ao arquivo. Lá, enquanto colaborava com as irmãs Lídia e Maria Cândida - Franciscanas Missionárias de Maria - na limpeza e restauro do primeiro mapa conhecido da Austrália, obra do dominicano Victor Riccius e confeccionado nas Filipinas em 1676, o 'Papa Vermelho' reparou no meu sotaque. Ao saber que eu era eslovaco, sentiu-se satisfeito.

A partir desse dia tive o privilégio de compartilhar sua mesa em diversas oportunidades, deslumbrando-o com meus conhecimentos sobre a fascinante ação missionária da Igreja desde 1622, data do documento mais antigo, atualmente depositado no arquivo da congregação. Mas - sendo ele distante e refratário - nossa amizade manteve-se sempre numa discreta terra de ninguém.

No início de 1990 - 'incentivada e subvencionada' por aquela 'equipe de repórteres alemães' que tinham conhecido em 1988 -, uma não menos falsa delegação de habitantes de Udavské transmitia a Jozef Lomko o desejo da comunidade de erigir um pequeno busto do querido cardeal nos jardins da igreja da Trindade, no mencionado povoado. Apesar da resistência inicial e protocolar, a indubitável boa vontade e também a compreensível e muito humana vaidade do eslovaco impuseram-se. O resto - igualmente organizado por Hoffmann – foi simples. .

Lomko - dócil e divertido - submeteu-se à inofensiva operação de 'estampar' seu rosto num molde de gesso. A mesma coisa aconteceu com as mãos.

A máscara e os outros 'negativos' nunca chegaram à Eslováquia.

         Seu destino foi a Suíça.

         E na primavera fui chamado de Paris.

         Na presença do coronel e do 'segundo círculo' recebi a ordem de partir para Berna. Tinha chegado o momento.

Na hora da despedida, Frank abraçou-me com emoção. Aquela - ambos sabíamos disso - era a última vez que contemplava meu rosto verdadeiro. A partir da entrada no Hospital Universitário, aquele 'condenado à morte' teria de esquecer sua autêntica personalidade para 'converter-se' num alto prelado da Igreja católica.

Não ocultarei que aquele foi um processo incrivelmente amargo. Quase sobre-humano. Mas 'Gloria Olivae' dependia da minha capacidade de assimilação da complexa identidade de Lomko.

E fiel às instruções dos psiquiatras de Os Três Círculos, naquela manhã de 17 de maio, ao embarcar na companhia Swissair, quem realmente voou à capital da Confederação Helvética não fui eu. Sua eminência Jozef Lomko entrou em ação...

Mas quem era este homem?

Depois de quase três anos de espionagem, seus traços mais destacados - aqueles que, logicamente, estou autorizado a revelar - podem ser sintetizados no seguinte quadro:

'Nenhuma enfermidade preocupante. Constituição robusta. 1,80 metro.

'Veemente, embora muito poucos tenham testemunhado suas explosões de cólera.

'Olhos cinzentos. Perscrutadores.

'Sabe transmitir paz ou fIrmeza, de acordo com as circunstâncias. 'Jamais evita um olhar. Excepcional domínio de si mesmo. 'Feições proporcionadas, um pouco alongadas. Testa alta. 'Analítico. Quociente de inteligência: 180. Grande capacidade de bloqueio do emocional.

'Cauteloso em assuntos que a Igreja considera não pecaminosos. 'Cabelos grisalhos, escassos e meticulosamente penteados. Barba generosa e cerrada. Aspecto pulcro. Impecável. Próprio de um príncipe.

'Domina a teoria e a prática. Conhece o mundo. Sente-se muito satisfeito consigo mesmo.

'Diplomata nato. Fala só o imprescindível. Escuta muito. Não opina nada antes que os outros. Ninguém consegue adivinhar seus pensamentos. Regula o que recebe e o que dá. Acessível desde que não se tente abordar sua intimidade. Sentimentos controlados de maneira

         doentia. Intuitivo. Raposa. Tolerante.

'Sobrancelhas espessas e arqueadas. Nariz avançado.

'Líder. Frio e distante com os subordinados. A maioria o teme por falta de conhecimento. Vontade de aço, muito própria dos eslavos. DifIcilmente hesita. Essa segurança tem origem num permanente

         e laborioso processo de análise. Seu cérebro é um computador.

'Lábios finos. Dificilmente sorri.

'Escassos amigos. Não se permite nenhum deslize. Gosta de poucas pessoas. Perfeita compenetração com o Papa. As perseguições e sofrimentos experimentados pelos seus respectivos povos fortaleceram os laços entre ambos.

         'Ducha fria e uma hora de meditação cada manhã. Celebração da missa, vital para aquecer os motores.

         'Controlado nas comidas. Não bebe nem fuma. Total controle dos         instintos. Seus confessores sempre são sacerdotes de povoados.

         'Mãos curtas. Rudes e castigadas pelo trabalho.

         'Sua sexualídade inata e poderosa é canalizada e sublimada através do esforço diário. Ignora a palavra tédio. Objetivos claros e bem polarizados. Consegue tudo aquilo que se propõe. Trabalho: acima de catorze horas por dia. Longa aprendizagem no labiríntico organograma eclesiástico.

'Amante da leitura, da música e das montanhas. Nesta ordem.

'Pensa em eslavo, sua língua materna. Fala inglês, francês, alemão, italiano, tcheco e tem conhecimentos de polonês, espanhol e português.

'Forma de caminhar segura.

'Sente repugnância pelas situações confusas. Apesar da sua peregrinação pela selva vaticana, ama a Verdade. Ao contrário de outros altos dignatários da Igreja, não perdeu a fé em Deus. Cada manhã coloca-se em suas mãos. Confia cegamente na Providência, embora como costuma repetir com sua proverbial astúcia - tente ajudá-lo com o trabalho, quando intui que Deus fez as malas.

'Voz cálida. Combina com o halo de mistério que o envolve. Ar enigmático que ele - vaidoso -encarrega-se de alimentar com distâncias e silêncios. Uma espécie de carisma que emana de um misticismo profundo e bem guardado. Uma força que o torna perigosamente audaz quando estão em jogo suas mais íntimas convicções. Só assim - movido por essa fé - explica-se que, aos sessenta e seis anos, sem a alavanca do arrivismo, brilhe com luz própria na cúpula da Igreja. Seu curriculum, neste sentido, é esclarecedor.

Após cursar estudos de teologia na Bratislava, vai para Roma, obtendo doutorados em teologia, direito canônico e ciências sociais. Tinha apenas vinte e sete anos.

'Em 1956 ensina na Universidade Pro-Deo. Depois ministra cursos de direito canônico na Gregoriana.

'Foi vice-reitor do Pontifício Colégio Nepomuceno. Ordenado bispo aos cinqüenta e cinco anos. Desde 1974 ostenta o cargo de subsecretário da Congregação de Bispos. Em 1979 é nomeado secretáriogeral de tal sínodo e arcebispo titular de Doclea. Em 1980 organiza o Sínodo Especial de Bispos da Holanda, preparando o extraordinário do outono de 1985. Em maio desse ano é designado prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos. Já é o Papa Vermelho. A partir de então, sua atividade se multiplica. Percorre o planeta, incentivando as missões. Sua informação sobre a Igreja é invejável. E essa informação lhe dá poder.

'Publica livros em inglês, alemão, italiano e eslovaco sobre temas que vão desde teologia até direito, passando por história.

'Presidiu a delegação da Santa Sé na reunião de ministros europeus para assuntos de família, participando igualmente do Conselho Superior das Sociedades Pontifícias das Missões, da Vida Religiosa, de Justiça e Paz e do Laicato.

Atualmente é membro de onze congregações, conselhos e comissões pontifícios.

'Seu lema cardinalício - UT ECCLESIA AEDIFICETUR (Para edificar a Igreja) - encerra todo um programa e toda uma advertência... supondo-se que sucedesse o atual Pontífice no trono de Pedro.'

Ah sim, já estava quase esquecendo. Apesar das reticências da organização, acho que este fato tem certo interesse. Pelo menos como 'curiosidade e fonte de inspiração'.

Chegou às mãos de Hoffmann durante os estudos preliminares. Procedia de Dublin. Ao solicitar dados sobre os cardeais que naquele momento tinham um mínimo de possibilidade de se converterem em papas, um dos especialistas do 'terceiro círculo' - introduzido nos ambientes esotéricos da Irlanda - confeccionou um sólido relatório fundamentado em cálculos numéricos e na Profecia de São Malaquias. Esta coletânea de profecias - que Os Três Círculos julgam com ceticismo - foi publicada pela primeira vez em 1595, na obra Lignum Vitae, do beneditino Amoldo de Wion. Na introdução, o monge alude expressamente ao suposto autor da profecia: o arcebispo de Ardinac e frade de Bencor, São Malaquias, falecido em 2 de novembro de 1148. Mas à margem da velha polêmica existente entre os peritos sobre a paternidade destes 113 lemas, o texto tem cativado os amantes dos enigmas. Atualmente existe uma centena de volumes - alguns de grande erudição - que, desde o século XVI, pretende racionalizar a curiosa 'lista' . Esta - escrita originariamente em latim - anuncia e sintetiza, em tom profético, as mais relevantes características dos sucessivos papados, partindo de Celestino II em 1143.

Pois bem, este relatório - diante da surpresa geral - apontava o cardeal eslovaco como o possível sucessor do atual Pontífice. E menciono a palavra 'surpresa' porque, como já disse, quando nossos agentes concluíram as exaustivas pesquisas, o resultado foi semelhante ao fornecido por Dublin: Lomko destacava-se na corrida para o trono de Pedro.

Acaso?

O certo é que, daquele acúmulo de cifras, equivalências e associações numéricas, o coronel só prestou atenção, num primeiro momento, ao lema que, segundo a 'profecia', deverá corresponder ao sucessor do polonês: 'Gloria Olivae'.

Assim nasceu o nome da operação. No entanto - paradoxos do destino -, aquele estudo extravagante terminaria provocando uma mudança substancial nos objetivos finais do 'primeiro círculo'. E como disse, a organização planejou uma segunda e secreta parte independentemente dos jesuítas.

         Quanto ao 'relatório' propriamente dito, chamarei a atenção para algumas das suas 'curiosidades' mais chamativas.

         Partindo de um processo quase infantil de conversão de letras em

números - segundo o alfabeto universal-, o meticuloso e esforçado irlandês foi descobrindo uma cadeia de 'coincidências', tão estranhas quanto sugestivas. Por exemplo:

A soma final dos dígitos correspondentes às letras que integram o lema 'Gloria del Olivo'(*) era 3. (GLORIA = 7 + 3 + 6 + 9 + 9 + 1. DEL = 4 + 5 + 3. OLIVO = 6 + 3 + 9 + 4 + 6. Total: 35 + 12 + 28 = 8 + 3 + 10 = 21 = 2 + 1 = 3).

A mesma coisa acontecia com a data de nascimento do cardeal (2-3-1924):3. E também com o título 'Romanus Pontifex' (3), com 'São Malaquias' (3), com o número de ordem do mencionado lema (111) e com a união da inicial do nome (J) com o sobrenome do prelado (3). (8)

Por outro lado, 'Gloria Olivae' - cuja soma é 5 - aparecia estreita e misteriosamente ligada a 'Eslováquia' (5), 'Malaquias' (5) e a 'Profecia de São Malaquias' (5).

Nosso homem em Dublin - com lógico entusiasmo - fazia-nos ver que o termo 'sláva' - na língua materna de Lomko - significa, curiosamente, 'glória'. E acrescentava, sem dissimular sua perplexidade:

'Sláva olivy' - tradução de 'Gloria Olivae' para o eslovaco também proporciona o familiar 3.

Com relação ao 2 e ao 6, os 'equilíbrios esotéricos' também resultavam premonitórios, utilizando as expressões do autor.

O sobrenome do 'Papa Vermelho', equivalente a 2, era igual a 'Udavské' (seu povoado natal) (2), a 'Olivy' (2), a 'Romano Pontífice' (2), a 'Tchecoeslováquia' (2) e a 'Profecia' (2), entre outros.

A soma de 'Gloria Olivae' e do nome e sobrenome do eslovaco dava 6. A mesma coisa ocorria com a inicial do nome e do sobrenome do cardeal quando são somados a 'Sláva olivy' . E o intrigante 6 tomava a surgir na união de 'Romanus Pontifex' com a data completa do nascimento de Lomko. E também 'S. Malaquias' dá 6.

Para cúmulo da casualidade (1), a conversão a dígitos de 'Romano Pontífice', 'Gloria del Olivo' e do nome e sobrenome do cardeal fazia aparecer novamente o 6.

Insatisfeito com esta delirante exposição, o especialista estendia suas 'cabalas' ao Papa atual.

 

(*) Em espanhol no original (N.T.)

(8) Os valores atribuídos às letras, segundo a ordem alfabética universal, são os seguintes:

123456789

ABCDEFGHI

JKLMNOPQR

STUVWXYZ

Por motivos óbvios, o sobrenome "Lomko" não corresponde ao do verdadeiro cardeal eslovaco. Na verdade, o L deve ser substituído pelo T. (N. A.)

 

O lema que, segundo os entendidos, lhe corresponde na Profecia de São Ma/aquias - 'De /abore so/is' ou 'Da fadiga (desfalecimento) do sol' -, 'traduzido' em números, equivale a 1.

Exata e misteriosamente igual à 'Polônia' (1) e à soma do seu nome e sobrenome...

E o aparentemente 'louco' relatório - para ser breve - concluía com duas datas, destiladas por idênticos e alambicados caminhos e que, na opinião do esotérico, poderiam 'estar proclamando' - como uma profecia dentro de outra profecia - as futuras e sucessivas mudanças no trono de Pedro.

Isto é:

'1994: ascensão de Lomko ao Papado.'

'1998: desaparecimento de Lomko.'

Fica dito.

O tempo - juiz imparcial ou implacável - tem agora a última palavra... "

Rossi deslizou os dedos rmos sobre a cabeça calva e oleosa. E, convencido, assentiu com a cabeça. Parecia estar falando sozinho. Seus homens, inquietos, olharam-no de esguelha.

O capitão de Homicídios sabia agora quando e em que circunstâncias tomara conhecimento daquele título "Gloria Olivae".

Fora no inverno passado. Uma série de conseqüências do caso "Ali Agca" obrigara a polícia a desenterrar o turvo assunto do atentado de 13 de maio de 1981 na praça de São Pedro. A KGB - instigadora da tentativa de assassinato do Papa -, encurralada pelas descobertas dos serviços de inteligência ocidentais, apressara-se a "intoxicar" o sumário, vinculando o turco a Lefebvre e a toda uma coleção de "delírios proféticos" (incluídos Fátima e Malaquias). Nas investigações subseqüentes comprovou-se que tais pistas eram apenas uma "cortina de fumaça" .

E fascinado pela leitura, Constante Rossi concentrou-se novamente no manuscrito.

 

                         GENEBRA

"O pavilhão número 'nove'. Conhecia-o muito bem. O assalto, em princípio, era viável. No papel, o plano do coronel parecia infalível. Mas tinham de ser prudentes. Entre os quatro mil cientistas e funcionários fixos que integram habitualmente o CERN (Organização Européia para a Pesquisa Nuclear), a espionagem disseminara-se como segunda e bem remunerada atividade.

Hoffmann sabia disso, e tranqüilizou Carla Mutter. A especialista do 'terceiro círculo' em Genebra não perguntou. Limitou-se a escutar. Depois, pegando o dossiê, despediu-se de Frank. Assim são os agentes de Os Três Círculos. Simplesmente executam ordens. Conhecem os costumes e, conseqüentemente, se não são informados sobre o 'porquê' de uma operação, permanecem à margem, afastando qualquer vestígio de curiosidade.

Em 18 de maio - cumprindo as instruções -, a engenheira e física quântica Carla Mutter apresentou-se no 'Porto Negro' , na margem sul do lago Leman. A primavera genebresa - fria e ventosa - favoreceu aquele encontro secreto. A margem direita, fustigada pelo vento do norte, estava deserta, salpicada aqui e ali pela entediada navegação dos patos 'colvert' e da agressiva vigilância dos brancos cisnes 'tuberculé'.

Carla consultou o relógio. Faltavam cinco minutos. Agradavelmente surpresa, dispôs-se a atravessar o Quai Gustave Ador. Depois de tantos anos naquela cidade, tinha acabado de descobrir que os mastros dos veleiros também compunham música...

E às 13 horas - de acordo com o combinado - entrou na Rosaleda. O parque dormitava em silêncio, precariamente aquecido por um sol ainda juvenil e distraído.

E às 13h05 ela parou diante do monumento à Me/ancolia. Inspecionou os arredores. Os jardins, de um verde luminoso, continuavam vazios. Hipnotizados pelos dezessete chafarizes do lago central.

Impacientemente percorreu os belos, polidos e tostados perfis da mulher nua. E, misteriosamente, o mármore devolveu-lhe o olhar, serenando-a.

Às 13hl0, um caminhante solitário destacou-se entre as frondosas árvores do flanco sul.

Caminhava devagar, com um livro aberto nas mãos.

Carla Mutter tentou identificá-lo.

De vez em quando, em seu calmo avanço até a Melancolia, optava por parar, absorto na leitura.

Cinco minutos depois, sem erguer a vista das páginas, postou-se a doze metros da estátua, diante de um canteiro de flores.

Carla rendeu-se. Apesar do seu trabalho diário do Laboratório Europeu para a Física de Partículas, o indivíduo pareceu-lhe desconhecido. Mas confiando na habitual eficiência de Hoffmann, decidiu tentar a sorte e reuniu-se com ele.

O magro ancião não olhou para ela. E nossa agente, inclinandose para o pequeno letreiro colocado na frente do canteiro de rosas, começou a lê-lo, em voz alta e com exagerada lentidão.

'Hybride de the Baronne Edmond de Rothschild. Meilland. 1968.'

Não houve resposta. O homem fechou o livro e, dando meia-volta, retirou-se para o monumento.

         Carla aguardou. E o enigmático personagem caminhou para um segundo canteiro, a sete metros à esquerda da Melancolia.

         Compreendendo, a engenheira lançou um novo e escrupuloso olhar ao parque.

         'Perfeito.'

         E felicitou-se pela ausência de curiosos. Seguindo os passos do homenzinho, colocou-se à sua altura. Nesse momento foi o recém-chegado quem curvou-se sobre o cartaz. E em voz baixa, leu:

         'Hybride de the Queen Fabiola. 1961.'

         E depositando o livro na grama, ao pé da roseira, afastou-se em direção a 'A Granja', no interior do jardim.

Carla pegou o exemplar - Quarterly Review, de J. Russel- e, sem pressa, regressou ao Quai Fleuri. Um minuto mais tarde, um segundo agente punha a proa para o Leste, sulcando as crespas e verdeazuladas águas do lago de Genebra, rumo ao castelo de Bellerive, propriedade do príncipe Saddrudin Aga Khan.

         A 'seqüência numérica' - vital para o acesso ao pavilhão 'nove' - estava em nosso poder.

         Segundo o relógio do Jardim Inglês, faltavam dez minutos para as 14 horas. . .

         Exatamente neste instante - de acordo com o que fora estabelecido - , no distrito de Laufen, um território de Berna entre os cantões de Jura, Solothurn e Basiléia, o cirurgião Jor Savel dava-me as últimas instruções. A intervenção cirúrgica fora programada para o dia seguinte, sábado.

Após termos devorado a suculenta reclette - feita à base de queijo derretido e batata -, o judeu, sincero por natureza, desviou a conversa para o assunto que o inquietava.

Mostrou algumas ampliações fotográficas do rosto e cabeça do cardeal Lomko, comentando com certo pessimismo.

- Observe este rosto. Não quero lhe esconder que a operação é difícil.. .

Conhecia suas feições de cor. Mas não adivinhei o alcance das suas palavras. E deixei-o falar.

- As sobrancelhas são densas. Muito arqueadas. Nascem praticamente do nariz. Isto lhe dá uma notável força de expressão.

         Concordei. E, mostrando os olhos do prelado, ele acrescentou:

         - E agora preste atenção. Essa b/efarocha/asis, ou queda das pálpebras, constitui outro sério inconveniente.

         E moveu a cabeça com certo desânimo.

         - E ainda tem mais. Observe a mandíbula proeminente. Isto complica ainda mais as coisas.

- Compreendo.

O médico guardou as fotos e frisou:

         - Tomara! Também gostaria que entendesse que, mesmo com sua razoável semelhança física, os problemas para realizar de forma satisfatória a operação são preocupantes.

         Guardei silêncio. Essas dificuldades - inevitáveis - já tinham sido estudadas e avaliadas pela organização.

         - O coronel sabe disso, naturalmente - replicou o médico, para resguardar-se.

- Então...

Hesitou.

         - Não me interprete mal, por favor. O trabalho pode ser feito.

E será feito. Mas, compreenda, o senhor terá de assumir riscos... inevitáveis.

Eu sabia. Mesmo assim, encarnando a personalidade do prelado, fingi não entender.

- Por exemplo?

- A semelhança não será cem por cento...

- Também sabemos.

E adivinhando algo mais em seu tom vacilante, pressionei.

- O que é que o está preocupando?

         - É curioso. Uma coisa que o pode delatar e para a qual não existe solução. Pelo menos na minha especialidade. Refiro-me à sua voz. São muito diferentes...

- Está previsto.

- Leve em consideração que, embora não restem cicatrizes externas, elas estarão no interior do nariz e na boca. Sua voz ficará distorcida, ainda mais diferente que a do cardeal.

Meu sorriso o confundiu. Apressei-me em tranqüilizá-lo.

- Meu querido amigo, não se preocupe. Está certo. Mas esta fase foi minuciosamente planejada. Limite-se a reformar meu rosto. Faça de mim um 'Jozef Lomko'. O resto depende de nós.

Sexta-feira, 18 de maio, 21 horas.

Um Mercedes azul-metálico, com placas falsas (GE-780), freou docilmente diante da barreira da entrada B. Uma tardia borrasca como um cúmplice inesperado - continuava lavando os telhados vermelhos de Meyrin, a oito quilômetros de Genebra, e os 604 pavilhões do CERN. A chuva, somando-se à operação, fizera um bom trabalho. As ruas do gigantesco complexo ficaram desertas antes do previsto.

Na cabine de controle, um dos policiais de serviço desviou o olhar para o pára-brisa. Carla Mutter, ao volante, simulou serenidade.

Foi uma verificação fugaz e rotineira. Algo cotidiano. E ao detectar sob as grossas gotas o 'adesivo' circular branco-azulado, com o '6' impresso no centro, acionou o sistema automático, dando-lhe passagem.

Carla guardou a 'carteira de acesso'. Um pequeno 'V' na extremidade inferior esquerda do documento autorizava-a a dirigir veículos de propriedade do CERN. Mas, como imaginara, esta segunda permissão não fora necessária.

Seu acompanhante - Albert von Rhoden - suspirou aliviado.

Estavam dentro.

Vagarosamente - respeitando o limite de velocidade exigido na imensa 'cidade dos cientistas' -, dirigiu o carro para o objetivo.

O dia e a hora, obviamente, não tinham sido escolhidos por acaso. Hoffmann - não sei se já disse - tem um lema que não falha nunca: 'A melhor improvisação é a que se prepara'.

Nos fins de semana, como é natural, a atividade no Laboratório Europeu para a Física das Partículas, situado na pequena localidade de Meyrin, decresce sensivelmente. Mas nossos homens não podiam ser descuidados. Dos 3.273 técnicos, engenheiros e professores que integravam o staffnaquele momento, um bom punhado 'se esquecia' freqüentemente do significado da palavra descanso.

Nos seiscentos metros que separam a porta B do pavilhão nove, na 'route Faraday', os ocupantes do Mercedes puderam comprovar que muitas das janelas dos escritórios permaneciam iluminadas. Mau sinal. Esses sábios excêntricos e sem noção de tempo eram, justamente, os que mais nos preocupavam. O resto do CERN não oferecia maiores problemas. A Vigilância. quase nula, ficava reduzida aos locais de controle nas entradas A, B, e C e no túnel que faz fronteira com a França.

Na metade do caminho, porém, num cruzamento com a 'route Newton', Von Rhoden chamou a atenção da motorista. O Mercedes parou. Procedente da zona do hotel chegava um ruído insólito, impróprio de um lugar tão sério.

Albert interrogou sua companheira. Mas Carla, sorrindo, acelerou.

- Não se assuste - comentou, diminuindo a tensão do especialista em caixa-fortes -. São os escoceses. Todas as sextas~feiras, esse grupo de cientistas percorre as" ruas do CERN, alegrando este mundo de loucos com suas gaitas.

 

                     21 horas e 05 minutos.

Os faróis iluminam o objetivo. Ao ver duas bicicletas estacionadas junto à calçada, a curta distância da modesta porta metálica do pavilhão nove, Carla exclamou satisfeita:

- Perfeito.

Instantes depois, o veículo era estacionado no pátio escuro formado pelos edifícios 9, 10 e 101.

Rhoden descarregou o material e; silenciosamente, uniu-se a Carla Mutter. As siglas das bicicletas eram corretas: 'CERN-EP-4'. A agente, compreendendo que o resto da equipe já estava no interior, examinou a fachada. Os três andares do quartel-general do LEP - a divisão encarregada do colisionador de elétrons - pareciam desertos. Nas trevas. Oficialmente fechados até segunda-feira.

Já no saguão, atendendo às escrupulosas instruções do coronel, Carla dedicou uns segundos aos corredores que se abrem à direita e à esquerda. Todos os escritórios estavam fechados.

Ao chegar ao segundo andar inspecionou um dos monitores de televisão, encarregado de avisar o pessoal sobre o funcionamento dos 'superaceleradores' . Em caso de defeito, o retomo dos técnicos e cientistas aos escritórios podia complicar o plano.

Leitura positiva. Tudo transcorria normalmente.

Dirigindo a luz da lanterna para o corredor da direita, apagou-a e ligou-a três vezes. Da parte do fundo vieram os mesmos sinais, como resposta.

Von Rhoden seguiu os passos da responsável pela operação, reunindo-se com Fritz Metz e Ute Breimann, os 'especialistas' designados por Hoffmann. O primeiro vestia uniforme habitual da polícia que guarda o CERN.

Ute, com menos experiência nesse tipo de 'trabalho', balbuciou umas palavras nervosas:

- É bom se apressar...

Carla não respondeu. Aproximando-se do escritório do chefe da divisão perguntou, enquanto apontava com o dedo o rótulo com o nome do prestigioso professor:

- Continua na Universidade de Frascati?

Fritz antecipou-se à srta. Breimann. Embora estivesse 'interpretando' durante algumas horas o papel de 'vigilante' , em sua qualidade de físico nuclear e colaborador no revolucionário projeto do dr. Baldacchini, estava a par dos seus movimentos.

- Afirmativo. Acabei de falar com ele pelo telefone. Tanto ele como Goodman, Kompa, Walther e os outros continuam na Itália. Felizes como crianças...   ,

Fritz acompanhou o anúncio com um sorriso irônico. E acrescentou:

- O protótipo deu certo.

Carla replicou com uma das suas palavras favoritas:

- Perfeito.

E pôs a mão na massa. Observou o painel metálico embutido no lado esquerdo da porta, memorizando a seqüência proporcionada pelo ancião do 'Jardim das Rosas'. E, decidida, foi apertando os números que integravam a chave e que deviam desbloquear o acesso ao escritório do mencionado professor Baldacchini.

'5-4-1-9-9-2. '

A lâmina blindada cedeu, retrocedendo alguns centímetros. Ute não pôde evitar.

Como cientista e membro do LEP, sentia uma fascinação inata pelos dígitos. E ao ler os seis quadrinhos luminosos que formavam a combinação, formulou a si mesmo uma pergunta incômoda:

'Por que um homem como Baldacchini - que vivia por e para pesquisar laser - escolhera uma seqüência numérica como aquela?'

A intuição levou-a imediatamente a uma data: 5 de abril de 1992.

No entanto, paralisada pela tensão do momento, ficou em silêncio. Alguns dias mais tarde comunicaria o fato à organização.

Os três agentes, exceto Fritz, penetraram na sala. Do umbral, Carla sussurrou ao 'policial':

- Lembre-se das ordens. Agora você é responsável pela nossa segurança.

O alemão concordou, tranqüilizando-a. Logo depois perdia-se nas trevas do corredor.

Albert von Rhoden plantou-se no meio daquela 'boca de lobo'. Chegara a sua vez. Tentou identificar o objetivo. Mas as lanternas de suas companheiras confundiram-no. Então, depositando a caixa de aço no chão, decidiu esperar instruções.

A inspeção foi breve. Carla e Ute conheciam o escritório e a desordem nele imperava. A mesa, como sempre, asfixiada embaixo de quarenta centímetros de papéis, a maioria de caráter burocrático. As estantes, subindo pelas quatro paredes, abarrotadas de livros, documentos e cilindros com plantas. Num canto, uma máquina de cortar grama à espera de um conserto que, provavelmente, nunca chegaria; Atrás do simulacro de mesa, uma lousa verde, de colegial, com fórmulas, conceitos matemáticos e a lista do supermercado. Num ângulo, junto à única janela, coroada por copos plásticos, o objetivo do coronel Frank Hoffmann: uma caixa-forte de 1,80 metro de altura por 1,18 de profundidade.

Zerando o seu cronômetro, Carla chamou V on Rhoden. - Quando você quiser. É toda sua...

O especialista do 'terceiro círculo' - 'oficialmente' a serviço da prestigiosa firma alemã Bode-Panzer, uma das mais renomadas na arte de construir caixas blindadas - iniciou seus movimentos com parcimônia. Abriu a caixa de ferramentas, pegou uma lanterna e conferiu o pulero e ordenado 'instrumental'.

Depois, durante um par de minutos, passeou a luz sobre os dois mil quilos de aço e concreto.

Concluída a inspeção, dirigindo-se a Carla, deu seu parecer: - A informação era correta... até certo ponto.

E antes que a agente - desconcertada - respondesse, acrescentou: - Trata-se realmente de uma chubb. Um modelo inglês de alta

segurança, um pouco antiquado. Não tem chave nem mecanismo de relojoaria. Isto facilita as coisas. Teremos de trabalhar sobre a fechadura de combinações...

E acentuando a palavra 'só', apresentou-nos o árduo problema: - Esta caixa, com seus quatro discos, 'só' tem capacidade para cem milhões de combinações...

As mulheres tremeram.

- Além do mais, estamos diante de uma 'novidade' que Hoffmann não calculou.

E acariciando a porta dourada, resumiu:

- O modelo foi reforçado segundo o 'estilo' dos técnicos da Bauer.

Estes suíços sabem o que fazem. Observe a película dourada que esmalta a porta. É nitrilo de titânio: um recobrimento duríssimo, antibrocas. Sua espessura é de alguns mícrons. No entanto, para perfura-lo, é preciso usar broca de diamante. Se se tratasse de chapas de aço habituais, não haveria qualquer dificuldade.

Intranqüila, Carla foi direta: - O que é que você sugere?

Albert, que adorava caçoar das mulheres, colocou mais lenha na fogueira.

         - Isto depende do tempo que dispusermos...

         Carla e Ute, nervosas, não conseguiram entender. E Von Rhoden, divertido, esperou.

         - Você sabe muito bem Qual é a margem – censurou-o a engenheira -. Hoffmann quer a informação amanhã de manhã...

O especialista simulou não ter ouvido.

- Utilizando diamantes perderemos algumas horas...

- Maldição! - descontrolou-se Carla -. Você é perito!

         Albert se deu por satisfeito. Seu ego doentio estava disposto a humilhar aquele que ele considerava sexo inferior. Triunfante, inclinouse sobre os instrumentos e pegou uma garrafa de vidro. Mostrou-a e decidiu acabar com a brincadeira.

- Ácido nítrico, misturado a quente com clorídrico...

Carla Mutter compreendeu e teve de controlar-se para não expulsá-lo a pontapés do escritório.

         - O nitrilo - explicou com odiosa auto-suficiência - será degradado em segundos.

         - Está bem - cortou Carla, ameaçadora -, chega de palavras.

Abra a caixa...

Von Rhoden - um tímido, no fim das contas - cedeu. Iluminou o botão da 'combinação', permanecendo pensativo durante um longo minuto. Finalmente, com o auxílio de um rotulador, desenhou um quadrado de catorze centímetros de lado, em volta da roda.

Os relógios marcavam 21 horas e 40 minutos.

Os ácidos, injetados no ângulo superior direito do quadrado, dissolveram o nitrilo em noventa segundos.

Rhoden consultou um pequeno bloco.

Ute continuou colaborando com a lanterna.

Carla pensou em Fritz. Em vinte minutos devia estabelecer a primeira comunicação.

O especialista usava um compasso sobre a pátina dourada da porta. E tomando como referência o botão de 'combinação', estabeleceu a localização dos parafusos que prendiam a caixa dos mecanismos da fechadura. Uma caixa enterrada a 115 milímetros de profundidade. E delicada e minuciosamente, foi pintando de preto esta posição.

Concluída a operação, Albert começou a pensar em voz alta: 'Primeiro os dez milímetros de aço s. m.'

Regressou à caixa de ferramentas e selecionou uma broca de três milímetros.

Instantes depois, uma silenciosa furadeira elétrica - modelo Accu - abria caminho sobre um dos pontos pretos. Apesar da impregnação em diamante, a temperatura começou a elevar-se.

Carla acudiu em ajuda da broca, refrigerando-a com gás criogênico a 196 graus centígrados negativos.

 

                   22 horas.

Cada pediu silêncio. No saguão do edifício, Fritz acabara de ativar seu transmissor, emitindo em 27-185 megaciclos.

Suando, Rhoden aproveitou para retirar a terceira broca. Iluminou o orifício estreito e se deu por satisfeito.

- Zurique. Aqui Berna... Está me ouvindo? Câmbio.

Mutter respondeu sem demora: 

- Berna. Aqui Zurique... Câmbio.

- O 'circo' continua fechado... E os 'trapezistas'? Câmbio. - 'Ensaiando'... Alguma novidade? Câmbio.

- Água, escuridão e paz. 'O Tio Sam está dormindo.' Câmbio. - Perfeito. Câmbio e desligo.

Obedecendo a um 'sinal da engenheira, Rhoden prosseguiu. Apesar das notícias tranqüilizadoras do 'policial', Ute sentiu que estava se asfixiando.

O 'circo' (o quartel-general do LEP) estava sob controle. Também os 'superaceleradores' ('Tio Sam') funcionavam ('dormiam') normalmente. Mas e as rondas policiais? Fritz não as mencionara. Podiam aparecer por lá a qualquer momento. Nesse caso, o que é que os 'trapezistas' deviam fazer?

'Aqui está o refratário - murmurou Albert -. Cem milímetros de concreto! Uma parede de grande poder abrasivo, armada com peças metálicas retorcidas e fibras de aço. Carga de ruptura: quinhentos quilos por centímetro quadrado... filho da mãe!'

E absorto no monólogo, replicou para si mesmo:

'Calma. Cheguei a acreditar que a tivessem recheado de níquel e cobalto. Vamos ver. Broca de vídia. Se falhar, agulha de diamante.' A perfuração da porta se prolongaria por quatro angustiosas horas. Mas Rhoden - transformado numa segunda máquina - convertera a furadeira numa prolongação da sua coragem inesgotável.

 

                   02 horas.

A quinta comunicação de Fritz acabou com os frágeis e castigados nervos de Ute.

'O Tio Sam acabou de acordar.'

Breimann olhou para Carla.

A súbita falha num dos 'superaceleradores' surpreendeu os 'trapezistas' na metade do 'ensaio'. Se não fosse consertada a tempo, os cientistas abandonariam o túnel toroidal. E apesar da hora avançada e imprópria da noite, sempre cabia a possibilidade de que algum deles tentasse entrar no LEP.

A engenheira, controlando-se, ordenou que Rhoden continuasse.

Descontrolada, Ute encarregou-se do refletor. Horrorizada, percebeu que sua bexiga não resistiria muito tempo.

Aço com manganês. A chapa de dois milímetros, erguida por trás do concreto refratário, foi rapidamente aberta.

Mudança de broca.

 

                 02 horas e 09 minutos.

Carla solicitou nova informação.

'Sem novidade no circo.' O monitor de televisão instalado no saguão continuava avisando que o 'superacelerador' ainda estava inativo.

Última lâmina. Três milímetros de aço 's.m.' Rboden estava prestes a conquistar a fechadura.

 

                   02 horas e 23 minutos

A broca parou para o técnico inspecionar o orifício.

'115 milímetros. Já estamos...'

Rboden muda de broca pela enésima vez. Seca o suor da testa.

Pede que Ute ilumine suas mãos. O pulso. está bem. E com a precisão de um cirurgião introduz a boca cônica pelo 'capilar' executado na porta do cofre. Nem Ute nem Carla são conscientes da gravidade do momento. Se na hora de localizar os parafusos da sustentação tivesse havido erro nos cálculos, a operação fracassaria. A furadeira tem de incidir exatamente sobre o parafuso escolhido. Caso contrário, o sistema de bloqueiq dos discos saltará automaticamente, anulando a possibilidade de 'reconstrução' da chave.

 

                   02 horas e 25 minutos.

A broca penetra. Zumbe como uma abelha. O suor esfria o rosto de Rboden. Seus olhos não desgrudam da broca, sua mandíbula torna-se pedra. Os lábios, entreabertos, mostram baionetas.

Dez milímetros.

Rboden interrompe a perfuração. Torna a respirar. Acertou plenamente.

 

                   02 horas e 40 minutos.

Trinta milímetros. O parafuso foi desintegrado. O caminho está aberto.

O especialista substitui a furadeira por uma seringa grossa. Verifica a fluidez do líquido e introduz um chiclete na boca. Mascando-o apressadamente.

 

                      02 horas e 42 minutos.

         Rboden injeta o gel na caixa de 'combinação' , preenchendo os espaços vazios que separam os discos. O ar fica neutralizado. E lentamente, sem deixar de pressionar o êmbolo, retira-o. Um par de gotas viscosas cai do buraco. Albert o tampa com o chiclete.

'Vamos lá...'

Mas é interrompido por Fritz, que está chamando Cada:

- Aqui Berna... Atenção!

A comunicação é interrompida. A engenheira atende o chamado.

Silêncio. Fritz ficou mudo.

Ute apaga o refletor. Suas mãos estão tremendo.

- Aqui Berna. - Os 'trapezistas' quase não respiram. Fritz parece nervoso -. Um patrulheiro está manobrando diante do 'circo'... Ute não pode evitar. A urina escapou da sua bexiga.

- Berna. Aqui Zurique. Não estou ouvindo bem... Câmbio. - 'QRV'... (Um momento.)

Impassível, Rhoden aperta o chiclete, fechando o buraco.

- Aqui Berna. Um dos guardas está descendo do carro... Está se aproximando do Mercedes...

Carla gruda o walkie-talkie aos lábios e ordena:

- Berna. Desbloqueie a porta. Rápido. Vá para o 'ponto A'. Câmbio.

- Zurique... 'QRV'. O policial está retomando ao veículo...

         'QRV'.

         Carla permanece à espera.

         - Zurique. A patrulha está se retirando do pátio... Afasta-se rumo ao centro de Cálculo... Pode ser que o incidente não tenha importância. Câmbio.

- 'QSL' (Está bem) - replica a engenheira, recuperando a voz -. Não demoraremos para averiguar isso. O 'trapezista' está prestes a dar o 'tríplice salto mortal'... Câmbio.

         - Boa sorte, Zurique. Câmbio e encerro.

         Nenhum dos 'trapezistas' precisou de informações complementares. Era preciso agir rapidamente.

Rhoden pegou o 'apalpador ultra-sônico' . Ajustou o colete amarelo 'porta-equipamento' e distribuiu o instrumental. A bateria de alimentação nas costas e o USM-2 na barriga. Checou o 'apalpador' angular de 45 graus e estipulou a profundidade de exploração dos ultrasons entre 115 e 145 milímetros.

O engenho eletrônico - fabricado por Krautkrãmer -, apesar das suas dimensões diminutas (250 x 145 x 350 milímetros), está dotado de um eficaz sistema de 'penetração' de aço, que abrange de dez milímetros a cinco metros. O segredo consiste, precisamente, nos mencionados ultra-sons, capazes de 'detectar' todo tipo de fissuras e defeitos. Um exemplo: o modelo USM-2, trabalhando a uma freqüência de 4 MHz, dispõe de uma "sensibilidade' equivalente a Sg = 140 dB. Em outras palavras: com um 'apalpador' Q4S é possível localizar e 'ver' no monitor um defeito circular de 1 milímetro de diâmetro, a uma profundidade de 1.000 milímetros.

Sem mais demora, Rhoden retirou o chiclete, ajustando o 'apalpador' sobre o 'capilar'. Carla substituiu Ute no manejo do refletor e esta, grudada a Albert, dispôs-se a supervisionar e a anotar as 'leituras' do osciloscópio.

O trabalho - embora relativamente simples - exigia um profundo conhecimento da 'anatomia' da caixa de 'combinação' e dos seus quatro discos. A 'viagem' dos ultra-sons pelo interior do aço 'refletese' instantaneamente na tela quadriculada do aparelho, tanto em sentido horizontal (leitura das distâncias) como vertical (avaliação da a)tura dos ecos). Estes 'picos' - simplificando - proporcionam as características da região submetida a análise.

O técnico tinha de interpretar os sinais procedentes dos vazios. Desta forma poderia reconstruir as respectivas posições dos discos e, conseqüentemente, os números selecionados pelo responsável pela 'combinação' .

Uma técnica ainda não descoberta pelos profissionais do roubo.

 

                 03 horas.

Rhoden ativa o equipamento.

Ute testa e considera boa a linearidade.

O gel faz o papel de ponte e os ultra-sons' navegam docilmente. Albert corrige a posição do 'apalpador'. O poder resolutivo melhora.

Surge a primeira sucessão de ecos múltiplos.

Rhoden 'traduz'.

'Primeiro disco. Um...'

Ute confirma a posição.

Continua o 'rastreamento'.

'Um momento...'

O minúsculo chiclete, guiado pelos dedos de Albert, procura à direita e à esquerda.

'Aqui está. Segundo disco. Posição nove.'

Carla prende a respiração. Já dispõem de dois números.

 

               03 horas e 6 minutos.

Alguma coisa falha.

O osciloscópio não responde. Não há imagem.    .

Rhoden examina a boca do orifício e compreende. Pede uma dose

de 'pasta de acoplamento'. O '20', a base de cola com aditivos anticorrosivos e deslizantes, 'expulsa' o ar que se filtrou entre o cabeçote e o 'capilar'.

Prossegue a exploração.

'Terceiro disco - conta Rhoden-. Dois..'

Ute ratifica.

 

               03 horas e 11 minutos.

O técnico da Bode-panzer respira fundo. Continua suando copiosamente. E antes de lançar o último feixe acaricia a carcaça do USM-2. 'Vamos lá, pequeno. Você pode.'

- Zurique. Aqui Berna... Câmbio.

'Maldição! '

Rhoden lamenta a interrupção, mas Carla faz sinal para que prossiga.

- Berna, estou recebendo... Câmbio.

- Problemas - anuncia Fritz -. Dois 'palhaços' estão se aproximando do 'circo'. Câmbio.

- Merda! Pode identificá-los? Câmbio.

Silêncio.

- Vamos, Berna!...

- Zurique... Impossível! Está muito escuro. Câmbio.

- Tudo bem - interrompe Carla, pressupondo que os indivíduos

estavam dirigindo-se ao edifício -. Abra a porta. Retire-se. Tente identificá-los. Câmbio e encerro.

 

               03 horas e 15 minutos.

'Lá está. Pode ver?'

Ute responde mecanicamente, embora seja incapaz de verificar a imagem do osciloscópio. O medo tomou conta dela.

'Quarto disco. Posição sete.'

Carla exulta.

- '1-9-2-7.' Perfeito. Quanto tempo você precisa?

- Só alguns segundos - respondeu Rhoden, desembaraçando

se do USM-2.

Aterrorizada, Ute segura o refletor. Está com vontade de gritar. Rhoden levanta as mãos à altura do rosto e faz os dedos dançar.

Curva-se sobre o botão de 'combinação' e o acaricia ternamente. Quatro voltas à esquerda...

Fritz chama os 'trapezistas'.

- Estou ouvindo, Berna... Onde é que você está? Câmbio. - No 'ponto A'. Os 'palhaços' ainda estão no saguão. São ajudantes de Enea Barbini... Duvido que encontrem o escritório do seu

         chefe. Beberam como cossacos... Devo intervir? Câmbio.

Três voltas à direita...

Ute e a engenheira entreolham-se, estupefatas. E ambas pensam nos escoceses.

         - Negativo - responde Carla com decisão -. Limite-se a controlá-los... O 'ensaio' está pronto. Compreendeu? Câmbio.

- 'QSL'... Câmbio e encerro.

Dois à esquerda...

 

                   03 horas e 17 minutos.

Os últimos giros da roda ativam o martelo de arrasto, levando o disco à posição de abertura.

As úmidas feições de Rboden relaxam. E a pesada porta encouraçada da chubb - com os seus 148 milímetros de espessura - abre-se escancaradamente.

O coração de Carla agita-se. O especialista recua. Contempla orgulhosamente a 'obra' e consulta o relógio.

'Cinco horas e trinta e sete minutos.'

O pensamento seguinte coloca as coisas no seu devido lugar. 'Acho que estou perdendo minhas faculdades.'

A responsável pela operação de Genebra examina o interior do cofre. Percebe um cheiro insólito.

'Parece queijo.'

Procura entre as prateleiras. Localiza um caderno. Folheia-o. Pára numa das páginas. Lê as anotações e as mostra à sua impaciente companheira. Ute revisa as fórmulas e anotações. Concorda com a cabeça e o guarda.

A engenheira continua a busca. Listagens. Documentos confidenciais. Um pequeno computador Toshiba. Plantas. Uma garrafa de uísque Crown Royal pela metade. O grosso dossiê com o último projeto laser. Uma caixa com queijo parmesão...

Decepcionada, vira-se para Ute. - Não aparece...

A intuitiva Breimann afasta Carla. Estende as mãos e pega a caixa redonda que descansa na parte inferior da chubb. Parece meio vazia. A etiqueta evidencia a paixão do sábio professor pelos queijos italianos.

'Consorzio Parmigiano-Reggiano.'

Ao abri-la, escondido sob uma porção do suculento queijo, descobre um envelope fechado. Entrega-o à engenheira.

- Astuto...

Feliz, lê o conteúdo:

- 'NZ-I779.' Chave para o.acesso a 'CRAY'.

- Missão cumprida - conclui Ute.

Um minuto depois, notas e numeração eram micro-filmadas e devolvidas à estante.

Von Rboden estava pronto.

 

                03 horas e 30 minutos.

Com um razoável atraso com relação à previsão de Hoffmann, os 'trapezistas' abandonaram o santuário do dr. Baldacchini, refugiando-se no terceiro andar do LEP. Fritz se reuniria com eles pouco depois.

No escritório de Cada Mutter, Ute sentou-se ao terminal e começou a interrogar o grande computador do pavilhão 513. Fiel às normas, 'CRA Y' exigiu um código, vital para ter acesso ao banco de dados do professor. A combinação funcionou. O protótipo secreto do laser de 'elétrons livres' era nosso.

Às cinco da madrugada, o Mercedes parava diante dos sonolentos policiais do túnel fronteiriço. Eles nem se moveram da cabine de controle. A chuva, chata, também estava esperando a chegada do amanhecer.

A motorista apontou para o cartaz pendurado no espelho retrovisor. 'Nada a declarar.'

Os guardas responderam com uma saudação cansada, convidando

a a retomar a marcha. Paris receberia Carla Mutter com especial agrado. 'Gloria Olivae' deve muito a ela...

O resto daquele ano (1990) transcorreu em calma. Com benevolência, o coronel o definiu como um 'compasso de espera' . Algo assim como a bonança que precede a tempestade. E parte dos agentes envolvidos em 'Gloria Olivae' descansou. Embora, como escreveu Thomson, o poeta inglês autor de The Castle of Indolence, 'os melhores homens - justamente por serem os melhores - foram dotados para tudo, exceto para o descanso'.

Hoffmann priorizou quatro 'frentes', nas quais trabalhou de maneira simultânea.

Primeira.

A exaustiva revisão dos sistemas de segurança da basilica de São Pedro e, muito especialmente, daqueles que protegem a magnífica obra da juventude de Michelangelo: a Pietà, situada numa das capelas laterais.

O vidro à prova de balas que a separa do público recebeu um tratamento especial.

Segunda.

A fabricação de um protótipo miniaturizado de laser de 'elétrons livres', de acordo com as plantas e informações subtraídas em Genebra. Os testes foram realizados numa aldeia secreta, no sul da Alemanha.

Terceira.

A encomenda, em Roma, de uma cópia do referido grupo escultórico do genial Buonarroti. Uma Pietà que devia incluir os remendos e os consertos efetuados na cabeça, rosto e mão esquerda da Virgem, conseqüência do selvagem atentado de 1972.

Quarta.

A infiltração no Arquivo Secreto do Vaticano de três especialistas da organização. Missão oficial: colaborar no projeto de informatização de todos os meios de consulta. Nossos homens apresentaram-se como peritos da Universidade de Michigan, sob o patrocínio do Getty Grant Program, de Santa Mônica. Missão secreta: a colocação de explosivos nas galerias do mencionado arquivo.

Quanto a mim, após a realização da cirurgia plástica e depois de um período de convalescença em Berna, fui transferido para a Cidade Eterna, estabelecendo meu quartel-general numa discreta 'casa de repouso' , no viale Marconi. De lá fiz meus últimos preparativos, aguardando o grande momento.

 

                         PARIS

Havia outras razões, naturalmente. Mas Frank Hoffmann tem uma fraqueza especial pelos aventureiros. Por isso o escolheu.

'Sinuhé' - que em egípcio significa 'o que é solitário' - é o nome, em linguagem cifrada, do especialista do 'terceiro círculo' que protagonizou a fase que me disponho a narrar.

Trata-se de um agente veterano - de nacionalidade espanhola que prestou.uma dúzia de 'serviços' interessantes, em missões que exigiam tanto audácia quanto sangue frio. Ele adora riscos. Não tem medo da morte. É fascinado pelos desafios. Quanto mais perigosos, melhor. .

Oficialmente, diante da opinião pública e de todos os que o conhecem, desempenha um honrado trabalho como jornalista e escritor. Entrou em Os Três Círculos em 1974. Em 1985, devido a uma série de delicadas e perigosas 'intervenções' em Israel, chegou ao grau de coronel. Nenhum dos nossos agentes - exceto seu editor, também membro da organização, e dos superiores hierárquicos - foi informado da nova missão atribUída a 'Sinuhé', devido à natureza da mesma.

No final de janeiro de 1991, Hoffmann solicitou sua presença em Paris.

Como no caso de outros especialistas, participantes ativos em 'Gloria Olivae', limitar-me-ei a transcrever seu relatório, enriquecendo-o com aqueles dados que, obviamente, estou autorizado a dar a conhecer e que só eram conhecidos pelos círculos interiores.

O telegrama expedido da Cidade do Vaticano, chegou às minhas mãos em 31 de janeiro. Dizia textualmente:

'Chamado ao terceiro círculo. Paris alimenta seus homens. Segundo círculo azul.'

Dois dias depois, às 12 horas e 19 minutos, o comandante Carnicero (IB.676) aterrissava sem novidade no aeroporto de Ody. Paris recebeu-me com frio e neblina. Mas os quatro graus centígrados abaixo de zero não conseguiram dissipar do meu ventre as familiares cócegas que, inevitavelmente, preludiam toda nova aventura.

Nesta ocasião, o aviso - assinado pelo 'segundo círculo' pareceu-me especialmente hermético. Nenhuma pista. Nenhum indicio. Nada. Eu estava em branco. A organização chamava-me com urgência. Aí nascia e morria a minha informação.

Às 13h05, um chinês que disse que se chamava Paul convidou-me a segui-lo, ao sair do aeroporto. Compreendi.

Segundos mais tarde, o táxi - um Mercedes, chapa 4368LM-92 - arrancava a toda velocidade.

Estava começando a me divertir. Aquele era o 'estilo' de Hoffmann.

Quarenta e cinco minutos depois, o silencioso motorista parava o veículo no número 20 da rue Jean Rey. Ao despedir-se, apertou fortemente minha mão, indicando-me que havia uma reserva em meu nome no Suffren, na frente do qual estávamos.

No quarto - a salvo de possíveis olhares indiscretos - passei a ler a anotação que o chinês me passara por intermédio do aperto de mãos.

         O texto era sucinto:

         'Salão Internacional Prêt-à-Porter Feminino. Festival Fur, Kaija Wiik. Sábado.'

Às 16 horas, como qualquer visitante, eu caminhava pela movimentada Feira da Moda, em busca do stand 234-A. Junto com o aviso, a organização incluíra o correspondente convite, com a numeração 'B.I036568K' .

Durante alguns minutos fiquei entretido contemplando as magníficas peles exibidas pela mencionada firma, a Festival Ful Ltda., de origem finlandesa.

A espera foi curta. Uma das belas funcionárias, modelo profissional, foi ao meu encontro, sugerindo-me que a seguisse. Como não obedecer, diante daquela interminável anatomia?

A 'convincente' nórdica mostrou-me um deslumbrante casaco de peles de bisontes brancos. Pediu-me que o experimentasse, elogiando a maravilhosa suavidade da pele.

         Logo após, mostrando a etiqueta pendurada numa das mangas, sussurrou:

         - O preço parece marcado para o senhor...

         Ao reparar nele verifiquei que se tratava de uma longa série de números. Estava claro. Hoffmann outra vez...

Ao despedir-me, o 'contato' do coronel entregou-me a etiqueta, piscando um dos seus luminosos oceanos azuis. Correspondi com o melhor dos meus sorrisos. Sempre disse a mesma coisa. As mulheres constituem uma raça à parte. Só elas são capazes de combinar fogo e gelo num mesmo pensamento.

A seqüência numérica, em linguagem cifrada, marcava um novo encontro.

'43156.453.864295.33551.10.8.' 'Museu do Homem. Segunda-feira. 10.'

Sei que Frank adora essas brincadeiras. E eu também.

E naquele 4 de fevereiro, pontualmente, iniciei uma tranqüila caminhada pelo referido museu.

Pré-história. África...

Tentei identificar os escassos visitantes. Desisti. Conhecendo o coronel, era melhor manter-me alerta e em guarda.

Na vitrina 425, dedicada à ilha de Páscoa, enquanto examinava as cópias de duas tábuas 'rongo-rongo' conservadas atualmente no Museu da Congregação dos Irmãos do Sagrado Coração de Picpus, em Roma, alguém puxou as minhas calças.

O encontro, neste caso com um menino, prolongou-se por cinco segundos. Limitou-se a sorrir, entregando-me um livro. Nunca mais o vi.

O 'presente' consistia num catálogo do 'Grande Louvre' . Folheei-o com impaciência. Mas nenhuma das oitenta e quatro magníficas páginas coloridas me disse nada. Desconcertado, abandonei os palácios de Chaillot.

Que é que o amigo Hoffmann estava pretendendo? A que obedecia aquela indecifrável 'caça ao tesouro'?

Quase me esqueci. A organização não desperdiça nenhuma oportunidade. Todas as ocasiões são boas para testar a destreza, a paciência e o valor dos seus homens.

Uma coisa estava clara. A missão reservada para mim - aceitando que se tratasse de um novo 'trabalho' - devia ser muito diferente das anteriores. Tantas precauções e rodeios não eram habituais...

E aceitei esportivamente o desafio.

Deixando-me conquistar pela manhã gelada - absorto nesses pensamentos -, fui parar aos pés da torre Eiffel, escondida pela bruma. E nos Campos de Marte, como um turista ocioso, dediquei-me a um segundo estudo do luxuoso catálogo.

Tonto! Devia ter imaginado...

Frank conhecia minha velha paixão pela vida e obra de Michelangelo. Mas desperdicei duas horas antes de chegar às páginas 38 e 39. As únicas que incluíam belas imagens de uma obra do genial florentino: O Escravo Agonizante.

Conforme o método utilizado até esse momento, revisei as 'legendas' das fotos (seis no total) e das ilustrações (quatro) das mencionadas páginas.

Numa primeira leitura não percebi nada. Na seguinte, porém, fui obrigado a recuar. a texto explicativo de duas das fotografias, impressas na página 38, dizia textualmente:

 

'Cristo do descenso da Cruz, chamado Cristo Courajod, segundo quarto do século XII, madeira policromada. Michelangelo Buonarroti, chamado Miguel Ângelo (19.2.4. 1.5.6.4). Escravo chamado Escravo agonizante, por volta de 1513, mármore. (Ref. 1641, 1642, 1643, 1644 e 1645.)'

 

Suspeitando que pudesse se tratar de um erro tipográfico, lancei-me novamente sobre o livro, numa leitura ávida e meteórica.

Estava e não estava errado. Explico. Evidentemente 'aquilo' era uma errata. Mas altamente suspeita e, para cúmulo dos males, a única nas 3.431 linhas que constituem o mencionado catálogo.

         Confuso e excitado, retomei à página 38.

         'Como era possível que uma publicação tão cuidada – destinada à venda - tivesse deixado passar tal lapso?'

Conhecendo a meticulosidade do Louvre, o 'erro' era inconcebível. Michelangelo - como figurava no pé da página - não nascera em '1924', obviamente, mas sim em 1475.

         Por outro lado, por que os dígitos de ambas as datas - nasci

mento e morte - apareciam separados entre si?

Não era preciso ser muito esperto para adivinhar a mão do coronel naquela confusão. Persuadido de que as 'erratas' encerravam alguma chave, comecei a observar a primeira delas.

         '19.2.4.'

         Ao desmembrá-la surgiu - fácil e pueril - um dado significativo. Bastava mudar a ordem dos dois primeiros números para obter uma data familiar: '4 de fevereiro de 1991', precisamente o dia do encontro no Museu do Homem.

Continuando com o jogo, dediquei-me à análise do segundo 'erro' . , 1.5.6.4.'

Também não foi difícil. A soma dos números - 16 - conduziu-me a uma conclusão elementar: 16 horas? .

         Apesar do procedimento tão enrolado, a solução não podia ser mais transparente.

'Museu do Louvre. Nesta mesma tarde e na sala onde está exposto O Escravo Agonizante.'

Guardei rapidamente o maldito catálogo e abandonei os jardins de Marte. No entanto, os cinco números que encerravam o texto informativo me detiveram. Será que eles refletiam outras tantas 'referências'? De que tipo?

Consultei as legendas das 115 ilustrações. Nenhuma incluía alguma referência. Era estranho. E lembrei-me de uma das lições de Hoffmann: 'uma boa linguagem cifrada deve conter uma chave extra, que confirme a solução'.

Fui um verdadeiro tonto. Estava praticamente à vista e o deixei passar, preocupado com fórmulas, uma mais estéril do que a outra.

As 15 horas, cansado e enjoado, ao revisar as páginas de novo, descobri algo que eu mesmo tinha escrito na laboriosa contagem das linhas do catálogo. No final da 37, num texto de Julio Velasco dedicado à escultura, aparecia o número '1596'.

E finalmente acendeu-me uma luz na minha esgotada inteligência... Reiniciei as contas nas linhas impressas na trinta e oito e, ao chegar às 'erratas' , sorri para mim mesmo, aceitando resignadamente minha condição de tonto cum laude...

         A linha formada por 'Michelangelo (19.2.4.' - formava, justamente, o número 1641.

         Os seguintes, naturalmente, encaixavam-se com as quatro cifras restantes.

         Lá estava a 'chave' que, de acordo com o estilo de Frank, confirmava o que eu descobrira anteriormente.

         Às 15h30, maldizendo a fértil imaginação do coronel, perdia de vista a torre Eiffel, agora sob um céu azul e vestida de metal.

         Sufocado e, o que era pior, atrasado, irrompi na sala dos Escravos com um comportamento impróprio daquele lugar.

Uma entediada vigilante olhou para mim, desconcertada diante da respiração agitada daquele visitante. Mas cinco milhões de curiosos por ano já a tinham curado de qualquer espanto. E indiferente baixou os olhos, ocupando-se do livro pousado sobre as calças pretas.

Segundos depois, tendo reduzido o galope cardíaco, relativamente tranqüilo diante da solidão do recinto, dediquei-me a fazer a única coisa que podia naquele momento: contemplar os mármores esculpidos pelo 'divino' para o túmulo de Júlio II.

Passei ao redor da primeira escultura - a do Agonizante -, imaginando que nova surpresa a organização tinha me preparado. Devagar, medindo cada passo, impaciente, sentindo escorrer os segundos como o suor nas palmas das minhas mãos, coloquei-me no centro do aposento, junto ao Escravo Rebelde.

Os cinco minutos seguintes foram intermináveis. Sem misericórdia. Dolorosamente compridos. Alarmado diante da ausência de acontecimentos, cheguei a me questionar. Será que tinha acertado?

Olhei de soslaio a agente de segurança. Permanecia absorvida pela leitura. Será que se tratava do esperado contato? Rejeitei esta idéia. Mas então...

De repente, ao separar-me da estátua em direção à porta de saída, vi que alguma coisa se movimentava à minha direita. Apareceu num dos cantos, perto do banquinho onde estava a policial. Um pequeno biombo obstaculizava a minha visão daquele ângulo. Mas logo reconheci a ponta da bengala. Uma familiar bengala forrada de couro.

Quando avancei, levemente inclinado para o busto de bronze de Michelangelo, obra de Daniele de Volterra, descobri a inconfundível gabardina de Hoffmann.

Um sorriso travesso - não isento de satisfação - foi sua primeira e eloqüente saudação.

- Dois minutos de atraso - repreendeu-me carinhosamente - Não está mal...

Caminhamos sem rumo. E durante meia hora, Frank só falou da minha vida, da minha família e dos projetos que fervilhavam na minha cabeça. Sua informação, como sempre, era correta. Temível. Conhecia detalhadamente meu desejo secreto de 'abandonar' este planeta o mais brevemente possível. Não estava de acordo, porém, que esta 'partida' pudesse ocorrer num futuro próximo. Apesar disso, sabendo que as minhas 'intuições' raramente erravam, insinuou a possibilidade de que um dos meus filhos começasse a ser treinado por Os Três Círculos.

Finalmente, enquanto percorríamos a animada galeria Médicis, decidiu abordar o assunto pelo qual me chamara.

         A missão deixou-me perplexo.

         Durante pouco mais de sessenta minutos, numa lenta peregrinação pela frente dos dezenove gigantescos quadros de Rubens, foi descrevendo os detalhes.

         Numa das paradas, diante do Desembarque de Maria Médicis em Marselha, pediu minha opinião.

Após um curto silêncio, respondi:

- Pode ser feito...

- Você não perguntou o porquê deste trabalho...

Sorri maliciosamente.

- Você se lembra das palavras de Cícero? A primeira lei da amizade consiste em pedir sempre coisas honestas.

- Mas...

- Por favor - interrompi -, respeite também a segunda lei: 'nunca pergunte a um amigo'.

Agradeceu minha franqueza e lealdade. - Você sabe que estará sozinho...

Concluída a entrevista, vi que ele se afastava arrastando a perna com dificuldade. Durante um tempo permaneci sentado nos bancos vermelhos, confundido entre a vintena de artistas que copiavam a História da Médicis. O instinto estava certo. Aquela realmente era uma missão incrível. E no dia seguinte, terça-feira, a bordo do vôo IB.677, de regresso à Espanha,-tracei um primeiro rascunho daquela que, sem dúvida, seria uma das mais dramáticas e arriscadas aventuras da minha vida...

 

                         ROMA

Aeroporto de Fiumicino. 25 de fevereiro. Segunda-feira.

O vôo da Alitália (367) aterrissou às 15 horas, 35 minutos e 32 segundos. Tinham transcorrido vinte dias desde meu contato com o coronel Hoffmann.

Rumo ao hotel Atlante Star, na via Vitelleschi, senti medo. Talvez esteja envelhecendo. E já se sabe: os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com os anos...

Aquele sentimento - não sei se de pânico ou de vulnerabilidade - era mais do que justificado.

Quarto 108. Discreto. Repassei novamente o plano de trabalho e fui passear pelas ruas de Roma. Precisava aplacar tanta excitação.

 

                        17 horas.

         O crepúsculo recorta e endurece a cúpula de São Pedro. Teria precisado de umas migalhas de calor humano. De simples conversa. Mas, uma vez mais, batalhava solitariamente. Os que invejam o meu sempre relativo sucesso profissional não conhecem estes momentos críticos, preso em mim mesmo e forçado a esmagar a lógica e muito natural tentação de fugir do meu destino.

Durante um par de horas perambulei pelos arredores da Cidade do Vaticano, fazendo algumas anotações iniciais.

De acordo com as instruções de Frank, aquelas primeiras jornadas deviam transcorrer 'sem incidentes'. Era vital administrar o tempo, a fim de reunir o máximo de informações, deixando 'provas físicas' da minha estada na Cidade Eterna. Ambos os capítulos, como se verá, eram decisivos para cobrir o objetivo final e, de passagem, salvaguardar a minha integridade.

Prudentemente, ao passar pelo palácio do Santo Ofício e pela Porta de Santa Ana, guardei o pequeno bloco alaranjado. Limitei-me a observar os policiais e os patrulheiros que montavam guarda nas mencionadas entradas do Vaticano. Um carro de passeio e dois homens fardados, com metralhadoras, junto da barreira de acesso ao mencionado Santo Ofício. Uma caminhonete - também azul -, com outros dois agentes portando armas automáticas, diante de Santa Ana, na via da Porta Angélica. Todos eles, naturalmente, pertenciam à polícia italiana.

Podia servir. Guardei tudo na memória. Mas, como disse, ainda não chegara o momento.

O plano de Hoffmann não era complicado, embora fosse perigoso. Para mim, claro.

Em primeiro lugar, durante vários dias devia 'encher meu caderno de anotações' - estas foram as suas palavras textuais - com todo tipo de dados diretamente relacionados com os movimentos do cardeal Lomko. Isso incluía mapas do edifício da Propaganda Fide, na praça da Espanha. Tanto do interior como das ruas adjacentes, dos percursos habituais de carro e da sua residência na Universidade Urbaniana. Essa exaustiva informação tinha de ser enriquecida com um minucioso registro de placas e características das unidades policiais que custodiam habitualmente os arredores do Vaticano. E naturalmente, nas folhas desse bloco - elemento-chave da missão -, era conveniente anotar o máximo de nomes próprios relacionados com o referido 'Papa Vermelho', com a segurança do Pontífice e com o meu próprio trabalho como escritor e jornalista.

Oficialmente - assim constaria em todos os momentos -, minha presença em Roma obedecia a uma única e exclusiva finalidade: 'juntar os materiais necessários para a elaboração de um futuro romance' Isso justificaria as entrevistas, consultas, anotações e todas as atividades que considerasse oportunas.

À primeira vista o coronel tinha razão. O plano parecia fácil, lógico e transparente. Mas o destino - como dizia Swinburne - é um mar sem margens. E o ser humano - propenso à ilusão - pensa que conhece de antemão o seu porto de destino...

Ainda não mencionei a segunda e secreta parte de tal 'parafernália'. Um objetivo com o qual me comprometera e que, certamente, constituía outro elo numa maquinação de maiores proporções que eu desconhecia e não queria saber...

Reunir a mencionada documentação era fácil. Pelo menos para um profissional do jornalismo com mais de vinte e cinco anos de experiência. As verdadeiras entranhas da missão eram outras.

Esse conjunto de dados destinava-se a servir de 'detonador' . Mas antes era preciso infiltrar-se na boca do lobo. Aí estava o problema. A 'boca do lobo' em questão era a polícia de Roma. Eu tinha de provocar a minha própria detenção.

Como?

Por expressa recomendação do coronel, mediante uma fórmula suficientemente séria para que minha condução à delegacia fosse inevitável e, ao mesmo tempo, protegida por um álibi que não fizesse a minha segurança física correr perigo e que me permitisse recuperar a liberdade num prazo de tempo razoável.

Em outras palavras: um trabalho de artesanato... Neste sentido, as ordens foram terminantes:

'Consumada a detenção, as autoridades policiais devem ter documentado - com clareza e precisão - que um escritor está dedicado à elaboração de um romance de ficção, no qual um dos personagens termina usurpando a personalidade do cardeal Lomko.'

Este, em suma, era o grande objetivo.

Aceitando que eu fosse capaz de levar à prática esta fórmula, o que aconteceria depois? Como é que a polícia reagiria diante dos relatórios comprometedores existentes em meu poder? Aceitariam minha condição de romancista? E se me confundissem com um terrorista? Mas já tinha aceitado. E a missão, embora arriscada, parecia-me fascinante. E tornando minha a máxima do Xenofonte, tentei canalizar o valor pelos diques da prudência.

Na manhã seguinte, 26 de fevereiro de 1991, terça-feira, lanceirrte sobre Roma, ansioso por fabricar a teia de aranha na qual eu mesmo tinha de cair.

Coisa de louco, já sei.

Em síntese, ao longo daquelas jornadas esgotadoras e febris, superei minhas próprias expectativas, armazenando uma informação muito superior à requerida. O que Hoffmann nunca soube foi que o argumento concebido para o suposto romance terminaria por criar raízes no meu ânimo. A partir desse instante, as pesquisas deixaram de ser teatro. E fui além do que me exigiam. Mas esta já é outra história...

Não houve descanso nem concessão. Entrevistas pessoais. Consultas em bibliotecas. Revisão de arquivos. Inspeções sobre o terreno. Tudo foi frutificando lenta porém inexoravelmente.

Freqüentei a Sala Stampa (Escritório de Imprensa da Santa Sé) e solicitei a devida credencial. Uma credencial - '91037-0' - que, obviamente, não foi utilizada.

De acordo com o plano, o importante era deixar provas da minha presença. A pobre sor Oiovanna, uma das religiosas que atendem na mencionada Sala Stampa, trabalhou arduamente, recopilando mais de uma centena de biografias dos mais famosos cardeais.

Dialoguei diversas vezes com um grupo de jornalistas que, gentilmente, proporcionaram-me todo tipo de dados sobre Lomko, o atual Pontífice e os serviços de segurança do Vaticano. Aqueles contatos com os correspondentes - minuciosamente planejados – desempenhariam um papel decisivo no momento da minha 'libertação'. Homens como Domenico del Rio, Gian Maria Vian, minha cara amiga Paloma Gómez-Borrero, Federico Mandillo, Ángel Agea, Malgeri, Horacio Petrosilgio e Arcangelo Pallalunga, entre outros, podem afiançar.

A mesma coisa ocorreu no interior dos muros do Vaticano. A relação de citações e indagações -mais ou menos 'confessáveis' - resultaria tão extensa quanto tediosa. Cheguei até onde pude... e um pouco mais. Museus Vaticanos e seu diretor, Pietrangeli. Restauradores.

Arqueólogos. Fábrica de São Pedro e Silvan, seu arquiteto. Governatorato. Biblioteca. Arquivo Secreto, onde o próprio diretor - o padre Metzler - ofereceu-se para acompanhar-me como 'guia de luxo'. Guarda Suíça. L 'Observatore Romano. Rádio Vaticano...

Em muitos destes organismos e instituições - sempre cumprindo o plano -, meu nome e sobrenome ficaram anotados nos registros de entrada obrigatórios. E salvo raras exceções, minhas pesquisas foram extremamente fáceis.

Com relação ao meu 'trabalho' na Propaganda Fide, quartelgeneral do 'Papa Vermelho', a sorte mostrou-se benevolente com este repórter. Graças à inestimável ajuda de dois sacerdotes que prestavam serviços nesta instituição, e cuja identidade não posso revelar, tive a oportunidade de introduzir-me e percorrer seus aposentos, elaborando um dossiê completo sobre as atividades, horário e deslocamentos do prelado. Tudo, incluindo croqui do seu escritório, os diversos acessos, das rotas habituais seguidas pelo seu carro desde a Universidade Urbaniana até a praça de Espanha e ao Vaticano, ficou minuciosamente registrado no caderno alaranjado.

E para cúmulo da 'felicidade', depois de não poucas gestões, numa daquelas manhãs fui recebido pelo cardeal eslovaco em pessoa. A entrevista, embora breve, serviu para consolidar o plano. Lomko e seu secretário ficaram sabendo da minha existência e de 'alguns dos meus propósitos' . No transcurso da amável conversa, enquanto o cardeal concordava em autografar duas fotografias suas, arrisquei-me a lhe contar um estranho sonho. Algo que efetivamente ocorrera e que sempre atribuí à influência dos comentários dos jornalistas italianos com os quais tinha conversado. Ou talvez não?

No sonho eu 'via' Lomko como o futuro papa.

Ignoro que grau de credibilidade ele pode ter dado a tal sonho.

Mas tenho certeza de que não esquecerá facilmente o meu relato.

Sibilinamente consegui obter uma imagem daquele momento. A foto - com a data impressa no ângulo inferior direito -, além do seu valor intrínseco, podia 'suavizar' minha situação diante da polícia.

Na sexta-feira, 1o. de março, sessenta e uma das sessenta e oito folhas de que consta o célebre bloco alaranjado estavam repletas de matrículas de carros de polícia, características e número de patrulhas policiais, mapas, descrições da sede da Propaganda Fide e seus arredores, da residência de Lomko, dos revezamentos de guarda nos diversos acessos ao Vaticano, dos períodos de 'verde' e 'vermelho' dos semáforos que rodeiam o Estado Vaticano e, fmalmente, uma enorme quantidade de nomes, comentários, croquis e anotações 'altamente suspeitas', que teriam fascinado os peritos na luta antiterrorista.

No entanto, para ser fiel ao que vivi naqueles dias, confesso que nem tudo transcorreu de acordo com o previsto. Por razões 'estratégicas' - Hoffmann o deixou bem claro -, minha 'detenção' devia ocorrer o mais perto possível dos muros da Cidade do Vaticano. Nunca no interior, mas em alguma das regiões próximas. A razão era simples. A polícia romana tinha de associar a minha presença e a documentação escrita à espionagem de uma alta dignidade eclesiástica. Obviamente, Lomko.

Pois bem, após os testes, as 'oportunidades' ficaram reduzidas a meia dúzia de 'pontos': acesso à estação ferroviária; a entrada sul, nas proximidades da via Aurélia; a barreira, na esplanada do Santo Ofício; a praça de São Pedro; o Portão de Bronze; a Porta de Santa Ana e o arco de ingresso aos Museus, no via/e Vaticano, ao norte.

Na quinta-feira, 28 de fevereiro, bem como em 1 ~ de março, ensaiei uma primeira e inocente fórmula, ao longo de várias dessas localizações. Tanto no Santo Ofício como na estação ferroviária e na própria praça de São Pedro, as aproximações aos veículos policiais e as correspondentes fotografias não surtiram efeito.

Os agentes simplesmente me ignoraram. Comecei a inquietar-me. O que fazer para conseguir ser preso? É claro que não se tratava de esbofetear a autoridade, nem de lhe faltar ao respeito ou desfilar sem roupa diante do seu nariz. A idéia era outra.

Lembro-me que numa dessas vãs tentativas ao ajoelhar-me na frente da caminhonete de plantão - neste caso à sombra da colunata de Bernini -, os policiais italianos, longe de pegar o ousado, começaram a gritar uns para os outros, posando orgulhosos e sorridentes para a câmara.

- Porca miseria!

Aquilo não era o que eu esperava.

No dia 2 de março optei por uma fórmula mais rápida. Objetivo: a movimentada Porta de Santa Ana, guardada pelos helvéticos e a usual patrulha romana.

 

                     Hora: 15h30.

Por se tratar de um sábado, a via da Porta Angélica estava muito movimentada. Isso serviria aos meus propósitos.

Deixei para trás a via Crescenzio, e comecei a andar paralelamente ao muro que leva até a referida Porta de Santa Ana. O trânsito li: carros também era denso.

A cerca de vinte metros do mencionado acesso à Cidade do Vaticano, parei. Do outro lado da rua, diante do número 73 - muito perto do cruzamento com o Borgo Pio -, estava estacionada a 'familiar caminhonete azul de todos os dias. Conhecia de cor a placa. '53110-ROMA'. Mas nesta ocasião ela estava acompanhada de outro veículo: um Alfa Romeo branco. Sem dúvida, um carro policial camuflado. Senti cãibras no estômago.

Devagar, com a máquina fotográfica no ombro e o bloco alaranjado na mão, atravessei a rua e coloquei-me a cerca de seis metros do Alfa Romeo, protegido pelo semáforo que controla a circulação na desembocadura do Borgo Pio com a mencionada via da Porta Angélica.

'Calma - disse para mim mesmo -, vamos examinar a situação.' Pela calçada, consumindo nicotina e tédio, passeavam dois agentes fardados. 'Couro' preto. Calças azuis. Correias lustrosas, chapéu tipo prato, enormes metralhadoras e, no caso do mais velho, 'um rosto maciço e de um vermelho suspeito.

Um terceiro agente - uma mulher jovem - permanecia no interior da caminhonete.

Do outro lado da rua, junto das grades de Santa Ana - quase em frente à minha posição -, conversavam numa roda outros quatros policiais fardados.

Ao pé do Alfa Romeo estavam dois indivíduos à paisana, que dialogavam gesticulando. O inspetor de mais idade, moreno, de estatura média e gestos nervosos, terminou abrindo a porta dianteira direita, pegou a luz violeta e a depositou no teto do veículo. Por um momento temi que resolvessem partir. A presença dos dois agentes podia me beneficiar. Tinha de agir rapidamente e com precisão.

'Verde.' .

O sinal convidou-me a atravessar, mas alguma coisa me deteve.

Medo? Certamente.

Decidi testar a máquina fotográfica. Coloquei a Nikon à altura dos olhos e fotografei o portão de Santa Ana. Nervos demais. E longe demais dos policiais.

         Aconteceu o inevitável. O incessante fluxo de pedestres terminou empurrando-me e obrigou-me a passar para o outro lado.

Bem. Restavam-me apenas duas opções. Continuar a marcha ou tentar. Como um autômato, apertando as mandíbulas, inclinei-me para o Alfa Romeo, fotografando-o por trás. Como a calçada era estreita, tive de ficar a pouco mais de 50 centímetros do carro. Às minhas costas, as pessoas circulavam sem cessar ou detinham-se curiosas diante de uma loja de presentes e câmbio de moeda. Sem querer, o dono de tal estabelecimento desempenharia um papel decisivo nos dois minutos seguintes.

Recuperei a verticalidade. Abaixei a câmara e com a vista aparentemente perdida nos muros vaticanos, esperei alguma reação. Nada. A adrenalina aumentou.

Recuei até a parede e foquei os veículos.

Um dos fardados - o 'cara de rubi' - reparou em mim. Entreolhamo-nos.

'Calma', ordenei para mim mesmo.

Meu rosto, sombreado por um medo que começava a galopar, deve tê-lo confundido.

Hesitei. Será que seria o caso de tirar uma terceira foto?

Os inspetores, de perfil e encostados no lado direito do carro, não perceberam a proximidade daquele estranho turista, empenhado em fotografar algo tão absurdo e suspeito como um carro de polícia.

'Merda! '

O do mapa vinícola no rosto se desentendeu, virando-se de costas.

Não me deixaram outra alternativa. Deixei a máquina fotográfica de lado e abri o bloco. Com uma frieza que ainda me assusta, procedi a anotar as placas, modelos, cores de carros, números de agentes e características das suas armas. Tudo isso sublinhado e com uma nota na margem, marcando o dia, a hora e o lugar.

Percebi a minha própria palidez. Minhas pernas tremiam. Fechei o caderno, afastei-me dois ou três passos até situar-me na altura da caminhonete. Ali, imóvel, de costas para os policiais, imaginei uma voz, uma mão no meu ombro, uma arma nos meus rins... Nada.

'Será possível?'

E a raiva atropelou o medo. Virei-me. O 'rosto escarlate' fora até a porta da casa de câmbio. Estava conversando placidamente com um indivíduo magro, com uma grotesca peruca ruiva e feições finas e pálidas. Pareciam conhecer-se.

Plantei o pé direito no pára-choque traseiro da caminhonete e, apoiando o bloco no joelho, tornei a escrever. Já não sabia o que escrever, na verdade. Simulei um interesse especial pelo interior do veículo. A cada três ou quatro segundos levantava a vista. Observava os assentos e o atraente perfil da mulher policial e retomava ao caderno.

A arriscada manobra prolongou-se por um minuto, aproximadamente.

         Nada.

         Desanimado, encaminhei-me para a Cidade Leonina, tentando colocar em ordem as idéias.,

'Que estava acontecendo?'

Três dias de fracasso obrigavam-me a reestudar a situação. Era preciso.. .

As atormentadas reflexões foram bruscamente canceladas.

A trinta metros dos carros policiais, alguém tocou o meu braço esquerdo.

Quando me virei, o que vi duplicou a minha confusão.

O jovem inspetor, alto, loiro, com a jaqueta aberta e o dedo polegar direito enganchado no cinto, mostrava-me uma carteira aberta. Olhei para as liras, sem compreender. Era absurdo, sei disso, mas num primeiro momento pensei que ele queria trocar dólares. Mas o detetive inexperiente apressou-se a corrigir o equívoco. Com a mão direita, extraiu sua credencial do meio das notas. Um pequeno cartão verde plastificado.

'Queira me acompanhar, por favor.'

Um fogo voraz acendeu-se nas minhas entranhas. 'Finalmente! '

Mas o pior estava por vir. De acordo com o planejado, a partir daquele momento eu teria de usar todo o meu sangue-frio. Era vital que fosse conduzido à delegacia e submetido a um interrogatório. O esforço não podia ficar reduzido a uma reprimenda.

         Com prazer, obedeci. E misteriosamente a árvore dos nervos parou de se agitar.

         Discreto, sem perder a compostura, o casal de inspetores iniciou um rápido interrogatório:

         'O que é que o senhor anotou no bloco?'

         A mulher policial saiu da caminhonete e juntou-se ao 'rosto escarlate' e ao terceiro agente. Rodearam-me, espremendo-me entre os dois veículos.

         Respondi com desenvoltura as suas perguntas. Até hoje me assombra a minha frieza. Ou deveria chamá-la de cinismo?

O assunto do bloco interessava-me demais. Esse era o caminho. Também compreendi que a 'informação' só poderia provir de alguém alheio ao grupo policial. Se qualquer um dos detetives tivesse me surpreendido escrevendo, a intervenção teria sido fulminante. E no meu cérebro surgiu a cena da conversa entre o 'rosto escarlate' e o 'rosto de rato'. Era engraçado. No fim das contas, minha detenção fora propiciada por um informante.

'Seus documentos.'

Os agentes começaram a fazer perguntas.

Tudo bem. A tática de responder com a verdade - ou com a 'minha' verdade - deu resultado: não acreditaram em mim.

         'Jornalista? Um romance?'

Observei disfarçadamente o mais velho dos policiais. Recuou e observou as minhas roupas. Felizmente, eu estava de gravata...

Na porta da loja de presentes, o cara da peruca estava assistindo à cena com um regozijo mal disfarçado. Obviamente ele não podia imaginar o quanto eu lhe estava agradecido. Alguns pedestres, perplexos, observavam e faziam conjeturas.

'Passaporte. '

Ao verificar que as serenas explicações coincidiam com o que constava dos documentos, os inspetores, desconfiados, exigiram o bloco.

Felicitei-me. No entanto, eles não gostaram do meu radiante sorriso. Eu os entendi. Tanta presença de espírito não era aconselhável. Era conveniente ser astucioso e contribuir - mesmo que minimamente - para aumentar suas lógicas dúvidas. Era preciso cometer algum erro. Permaneci atento.

         O detetive mais velho folheou o caderno. Senti um calafrio. A armadilha estava pronta.

A policial, obedecendo instruções, trancou-se na caminhonete, solicitando confirmação - suponho - sobre a identidade daquele estrangeiro.

Os outros policiais - dominados por uma excitação progressiva e lamentável - continuaram com as perguntas. Ante minha perplexidade tive de pedir um pouco de ordem, a fim de responder adequadamente.

Tal como esperava, o detetive logo encontrou várias anotações que o fizeram empalidecer. Preparei-me.

Vi que ele se aproximava do rádio do Alfa Romeo para falar com a delegacia ou com os seus superiores. De vez em quando baixava a vista para o bloco alaranjado, lendo o conteúdo de algumas das folhas. Apesar do tom profissional que usava, numa das transmissões consegui escutar o número de uma das placas. O inspetor solicitou informação. E naturalmente a obteve. A matrícula em questão pertencia a uma das caminhonetes normalmente estacionadas na praça da Espanha, a escassos metros da embaixada do meu país: 'POLIZIA. A2279' .

         A capacidade de assombro do detetive ultrapassou qualquer limite, acho que com razão.

Um minuto mais tarde, depois de afrouxar o nó da gravata, chamou o agente da carteira. Não foi difícil adivinhar o assunto da conversa.

         Ao regressar, as mãos do veterano tremiam levemente. O olhar do loiro tinha endurecido. E as perguntas tornaram-se mais ácidas.

         A isca tinha funcionado.

         'Por que copiou o número destas placas policiais?'

         'Que significam os croquis?'

'Por acaso lhe interessa o armamento da polícia?'

'É mesmo romancista?'       .

'Não sabe que é proibido anotar as placas dos veículos policiais?' Impossível controlar aquele dilúvio de interrogações. Agentes e inspetores disputavam as perguntas, desprezando as respostas. No fundo, isso não importava. Minha sorte estava decidida. Um terceiro veículo policial estava a caminho.

'Espanhol? Onde mora? Qual é seu endereço em Roma?' Era possível que eles desconfiassem, e por isso, ao dar o nome do hotel, 'errei' o endereço. O inspetor mais idoso olhou para o 'rosto escarlate'. Este, bom conhecedor da região, respondeu-lhe com uma piscadela. Pensaram que eu estava mentindo.

'Abra a jaqueta. Tire seus objetos pessoais...'

O erro intencional colocou as coisas no devido lugar. Isto é, onde eu desejava.

         O 'rosto escarlate' - diante dos atônitos pedestres – começou a revistar-me.

         'Nada' - murmurou decepcionado.

         A agente uniu-se ao grupo. Sussurrou algo ao ouvido do agente que estava com o bloco.

         'A máquina, por favor.'

         Entreguei docilmente a Nikon. A mulher a pegou e continuou observando-me com curiosidade. Sustentei o seu olhar.

         'O que é que o senhor fotografou?'

         Sorri divertido. E, apontando para a moça - de muito boa aparência -, cometi a imprudência de dizer uma frivolidade.

         'Monumentos. '

         Os detetives ficaram nervosos. Um deles, em voz baixa, lembrou se da minha santa mãe.

         'Lomko...'

         O que consultava o caderno exigiu-me que esclarecesse o motivo das plantas da Propaganda Fide e da casa do cardeal.

'Um que...?'

Tinha entendido, mas repeti com muito prazer a palavra. 'Um seqüestro?'

Dei de ombros e joguei mais lenha na fogueira.

'Não tenho a intenção de explicar tudo de novo.'

Para os policiais, apesar da lógica dos meus argumentos, tudo 'encaixava'. E diante da idéia de terem 'pescado' um terrorista, seu zelo atingiu níveis muito meritórios. É justo reconhecer isso. Eles eram bons profissionais. Ninguém pode culpá-los. A que tipo de 'louco' poderia ocorrer uma maquinação como aquela?

A palavra 'seqüestro' os excitou. E durante quatro ou cinco minutos, o interrogatório transformou-se num verdadeiro manicômio.

Com exceção da jovem agente - que permaneceu muda -, o resto engalfinhou-se num tiroteio de perguntas que, habilmente, não quis responder. Tinha medo que me algemassem. Lá mandavam todos. E conforme o mais puro estilo italiano, os quatro se davam o direito de opinar e tirar conclusões, passando por cima das vozes e dos critérios dos outros.

A chegada de um terceiro veículo policial acabou com o animado festejo. Aproveitando o súbito emudecimento dos colegas, a bela policial fez um comentário que agradeci e repudiei ao mesmo tempo.

Estamos exagerando. Como escritor, ele tem o direito de reunir a documentação que considerar conveniente...'

Nenhum dos presentes apoiou a tímida defesa. E no momento de entrar na parte posterior do carro, pisquei-lhe o olho, reconhecendo sua ajuda. Essa mulher, que ficaria sentada do meu lado e me acompanharia durante toda a 'aventura', se converteria numa tenaz defensora da minha inocência. Se não fosse pela farda, teria lhe dado um par de beijos...

 

                   16 horas e 30 minutos.

A viagem até a delegacia do Borgo, na praça Cavour, foi breve e silenciosa. Nenhum dos três agentes fardados que me custodiavam abriu a boca. A policial, curiosa, dedicou-se a examinar os documentos que tinha nas mãos: passaporte, cartão da imprensa, a prova do crime - isto é, o bloco alaranjado -, uma oportuníssima carta da embaixada da Espanha junto à Santa Sé, assinada na manhã do dia anterior (1o. de março) pelo conselheiro José Eugenio Sallirich e que devia servir-me de carta de apresentação ao dr. Pietrangeli, diretor dos Museus Vaticanos, e a credencial da Sala Stampa.

Às 16h40, o plano entrava em sua reta final. O objetivo tinha sido praticamente alcançado.

A partir da minha entrada na delegacia, tudo dependia da sorte, dos meus reflexos e capacidade de resistência. Estava consciente do grave risco que corria. Se minha versão não fosse aceita - possibilidade totalmente verossímil -, as conseqüências poderiam ser desagradáveis. Os que conhecem o mundo policial entenderão até que ponto tenho razão... Não convém esquecer que naquela data a situação internacional - com a guerra do Golfo -, bem como a situação particular do Vaticano, com as ameaças à pessoa do Papa, mantinham em estado de alerta os serviços antiterroristas italianos e de metade da Europa.

A pressão exercida pelos cinco inspetores que me interrogaram durante três horas intermináveis era justificada. E insisto: não os culpo. Cumpriram seu dever. E em linhas gerais fizeram-no com respeito e sem grosseria... felizmente para mim.

E embora o 'terceiro grau' - não posso negá-lo - me fIzesse cambalear em algum momento, pelo menos transcorreu em ordem. O 'caso' foi dirigido por uma inspetora. E o bloco alaranjado, naturalmente, tomou a circular de mão em mão, sendo estudado com lente de aumento. As armadilhas funcionaram como um relógio. Os nomes dos jornalistas, astutamente deixados entre a documentação, agiram como carga de profundidade, rachando as hipóteses iniciais da polícia.

Na minha presença - e às minhas costas -, os funcionários fizeram as oportunas ligações. Pelo que sei, as consultas centraram-se em Domenico deI Rio, Gian Maria Vian, Paloma Gómez-Borrero, na embaixada espanhola, na minha editora na Espanha e, naturalmente, nos arquivos policiais italianos e espanhóis.

O osso mais duro de roer foi o chefe de plantão. Nas suas constantes aparições na sala em que fui interrogado, o delegado não deixou de recriminar-me, até mesmo censurando seus homens pela 'excessiva benevolência' usada com aquele suspeito. O mau caráter e os gestos ameaçadores não foram do agrado de ninguém. Mas apesar da impecável oposição da inspetora - esmagada pelas provas e testemunhos dos consultados -, cheguei a temer o pior. Aquele indíviduotalvez desarmado pela minha imperturbável segurança - parecia decidido a prender-me ou, o que era mais preocupante, a trancar-me num hospício. Seu principal argumento - incessantemente repetido – não admitia réplica nem negociação:

'Um escritor não precisa de dados reais para escrever um romance.' Depois de duas horas de martírio, farto de gritos e estupidez, optei por enfrentá-lo. Levantei-me da cadeira e, arriscando-me, gritei a um palmo do seu rosto congestionado:

'O senhor por acaso é escritor?'

Desconcertado, não reagiu a tempo. E antes de ele conseguir contra-atacar, continuei sem vacilar: 'Então, por favor, não se meta. O senhor é policial. Limite-se às provas. Pode ser que tenha razão numa coisa: talvez eu tenha cometido uma besteira ao anotar as placas dos veículos policiais. Risque-as. Mas antes responda-me: que lei proíbe anotar matrículas públicas?'

'E o que é que pode me dizer sobre o armamento? Também é necessário para o seu romance?'

'Para um maníaco por dados precisos, como eu, claro que é.'

Alguém ofereceu-lhe um cigarro, para aliviar a tensão. Os dedos estavam tremendo. E a úlcera de estômago manifestou-se nas suas tensões, retorcendo seu sorriso.

'Um maníaco? O senhor é um descarado...'

'O que o senhor quiser - admiti -. Mas nunca um terrorista.' 'Isto é o que veremos - clamou ameaçador.'

'Já está visto - apressei-me a corrigi-lo -. Acha que se fosse Um terrorista seria tão torpe a ponto de jogar-me em cima da polícia?'

Os inspetores intervieram, apoiando minha tese. E o pertinaz delegado, abandonado, calou-se momentaneamente. E sem a menor caridade, eu disparei na linha de flutuação.

'Pense bem o que vai fazer. Já estou vendo as manchetes dos jornais: Escritor preso em Roma. A polícia o confunde com um terrorista.'

Seus olhos detectaram o perigo. Sabia que eu tinha razão. Meus colegas - alertados pelos inspetores - estavam sabendo de tudo.

         'Deseja ver seu nome citado em tamanho equívoco?'

         O golpe o desestruturou. E os funcionários, com mal dissimulada malícia, aguardaram. Acariciou nervosamente o coldre do revólver pendurado no cinto e, inteligentemente, retirou-se, deixando uma esteira de imprecações.

Aquele episódio delicado porém necessário abreviou o calvário. Por volta das seis, por pura formalidade, fui conduzido ao veículo policial e levado até o hotel. No meu quarto, em presença dos agentes, tive de mostrar novas Provas de 'inocência': a agenda, com inúmeros nomes que podiam responder por mim, livros, documentos...

De volta à delegacia, um dos policiais - convencido da minha condição de escritor - atreveu-se a brincar: 'Pensa incluir-nos no seu próximo livro?'

A batalha estava terminando.

E após redigir um depoimento ao qual não tive acesso, fotocopiar meus documentos - inclusive a carta da embaixada - e censurar com tinta azul todas as anotações que consideraram conveniente, decidiram soltar-me.

Na hora da despedida alertaram-me:

'Cuidado! E agradeça que tudo isso tenha ocorrido na Itália...' 'Sim - repliquei para mim mesmo, sem tirar do rosto um fingido sorriso de agradecimento. - Isto só é possível mesmo na Itália...'

         Na porta, ao restituir-me a máquina fotográfIca, a bela agente devolveu-me a piscadela.

         E às 19h30 - exausto - perdia-me na escuridão da noite romana, em busca de um uísque duplo.

         Hoffmann podia ficar satisfeito. Quanto a mim, espero e desejo não ter de repetir a experiência.

Como era previsível, o resto da estada em Roma foi estreitamente controlado pelos serviços de informação. Isso não me inquietou. Pelo contrário, sou fascinado por este tipo de jogo.

Na manhã seguinte, domingo, enquanto perambulava por uma ensolarada e concorrida praça de São Pedro, dois indivíduos jovens excessivamente ingênuos - converteram-se na minha sombra. Teria sido fácil despistá-los, mas não havia razão. De acordo com o planejado, a fIm de não levantar suspeitas desnecessárias, eu deveria reiniciar minhas pesquisas, prolongando-as por um tempo prudente. Isso acalmaria os ânimos da polícia, convencendo-a das minhas 'honestas pretensões' .

Alegrei-me por ter adotado precauções ao abandonar o hotel. Nessa mesma noite, ao deitar-me, verifIquei que eu estava sendo seguido em todas as frentes possíveis. E isso pareceu-me lógico e natural.

Foi sufIciente um velho e inocente estratagema para evidenciar a verdadeira missão daqueles dois supostos 'turistas'.

Encostado no obelisco egípcio que tenta minimizar Bernini, selecionei a 'vítima'.

Ondas de peregrinos desciam dos ônibus, provocando o vôo curto das pombas e o ziguezague voraz dos vendedores e fotógrafos ambulantes.

Chapéu branco. De aba larga. Colete vermelho. Um pouco mais de sessenta anos. Raposa velha, sem dúvida. Aquele era o homem.

Abordando-o, pedi-lhe que me fotografasse. E o tal Savelio, após cumprir o cerimonial da adulação ao cliente, fez o seu trabalho, 'imortalizando-me' com a basílica e o Palácio Apostólico no fundo. Paguei sem discussão as 48.000 liras, marcando a entrega para a quarta-feira. E evitando freiras e japoneses, confundi-me com a multidão, à espera dos acontecimentos.

Dois minutos depois, o fotógrafo era interceptado pelos 'turistas' . Dialogam. O do chapéu resiste. Mas, com a sabedoria da idade, fInalmente cede. Entrega o fIlme e afasta-se. Pára. Dá meia-volta. Traça um círculo. Logicamente não me localiza. E dando de ombros, reinicia a caça ao visitante incauto.

Minha ficha policial está completa.

À tardinha, ao regressar ao quarto 108, as medidas pueris tomadas ao abandoná-lo confIrmam o que eu já sabia. Embora cuidadosa, a revista deixou rastros...

Banheiro. O cesto do lixo foi inspecionado. As pontas de cigarro e a cinza, cuidadosamente depositadas em cima de um saco plástico que recobre o recipiente, aparecem no fundo.

A montanha de livros, papéis e jornais - única paisagem do modesto aposento - também está desarrumada. Um dos 'sinais' é altamente revelador. Uma pequena folha com telefones, previamente escondida entre as páginas 100 e 101 do Lázaro de Morris West, caiu quando o livro foi sacudido. Quando o indivíduo acabou de anotar os números, não soube onde colocar o papel. E o pôs em qualquer lugar, entre as páginas 286 e 287.

Maletas, roupas e sapatos também não se livraram do assédio. A armadilha, colocada no bolso superior de uma das camisas, era evidente. A isca: uma planta do metrô de Roma repleta de inúteis anotações na margem. Os 'dentes' da isca: o botão desse mesmo bolso. Após abotoá-lo, solta-se o fio que o liga ao tecido, deixando-o praticamente solto. Quando o intruso examina a peça, o botão cai, rolando pelo chão.

Mas a 'diversão' acabaria cinco dias mais tarde. Concluída a missão, um Boeing 727 me tirava de Fiumicino. Às 12 horas, 46 minutos e 15 segundos daquele 8 de março, o comandante Jáudenes - velho amigo - decolava o Aragón, rumo a Barcelona. Só então me senti a salvo. Relativamente a salvo..."

O capitão de Homicídios fechou o manuscrito. "Aquilo" sim podia ser comprovado. Era preciso apenas revisar os arquivos da delegacia do Borgo, na praça Cavour, para descobrir a incógnita. Será que o tal "Sinuhé" existira realmente? A detenção ocorrera verdadeiramente? Nomes, datas e documentação pareciam confirmar isso.

E retomando ao texto prestou atenção ao parágrafo seguinte, escrito em vermelho:

"Permita-me acrescentar algo. Após a leitura deste relatório talvez Vossa Santidade compreenda por que as autoridades italianas não atenderam a petição secreta da Santa Sé para que fosse aberto um inquérito que esclarecesse a hipotética 'falsificação' de um dos mais prestigiosos e queridos cardeais.

Quando se comprovou que a 'história fantástica' figurava nos anais policiais de Roma como uma 'lamentável confusão' protagonizada por um escritor estrangeiro, o assunto foi arquivado, recebendo o qualificativo de 'excentricidade papal'."

Estupefato, Rossi não entendeu o significado do misterioso esclarecimento.

"Falsificação de um cardeal?" De acordo com a narrativa do livro "vermelho", só podia tratar-se de Jozef Lomko. Mas como tinham conseguido isso?

Impacientemente, avançou pelo novo capítulo.

"Hoffmann aguardou. Quando a notícia da detenção de 'Sinuhé' veio à tona nos meios de comunicação, pôs em marcha o arriscado final de 'Gloria Olivae'. Um final aparente...

Vejamos o que ocorreu a partir daquela segunda-feira, 1o. de abril.

Um total de onze agentes - alemães e italianos -, os melhores em sua especialidade, responsabilizou-se por três operações, quase consecutivas, que deviam assegurar o grande objetivo: a renúncia do Papa..

Excepcionalmente, o coronel deslocou-se para Roma, para dirigir pessoalmente os 'trabalhos'.

A primeira das ações centrou-se em Lomko.

 

                     17 horas e 45 minutos

O cardeal, ao volante de um Kadet-135 branco - SCV-118 - é cumprimentado pela Guarda Suíça ao passar pela Porta de Santa Ana. Está sozinho. Por volta de 18 horas despachará com o Pontífice, numa das suas reuniões habituais como prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos. A entrevista - se tudo transcorrer conforme o planejado - se prolongará por vinte a trinta minutos.

 

                   18 horas e 15 minutos

Uma ambulância branca - Fiat Ducato (ROMA-50072R) - pára no estacionamento reservado às embaixadas do Equador e da Polônia junto à Santa Sé, diante do número 16 do Borgo Santo Spirito, a cinqüenta metros do cruzamento com a rua Santo Ofício.

Está escurecendo rapidamente.

Os dois ocupantes descem da cabine. Um deles testa a direção.

O outro olha para a rua. À direita, a vinte metros, grudado na parede e 'pisando' a faixa de pedestres que cobre os oito metros de pavimento, está estacionado um caminhão de mudanças, de porte médio. Sobre o amarelo e azul da carroçaria destacam-se algumas letras: 'FiascoQuondam-Carlo'. Suas luzes estão apagadas.

À esquerda, ao final da rua, recortando-se contra a solene colunata de Bernini, um senhor idoso conversa animadamente com um policial fardado. O velho segura um tranqüilo pastor alemão. Durante alguns segundos, o 'enfermeiro' mede o trânsito que flui pela Santo Ofício, procedente da Cidade Leonina e da via da Conciliação.

Intenso. Toda Roma parece fugir com o cair da tarde.

Nessa mesma hora, uma segunda ambulância - PIC-064 -, também branca, com uma faixa amarela que a rodeia na parte central, freia cautelosamente no lado esquerdo da mencionada via da Conciliação, à altura do hotel Columbus. Permanece com o motor em marcha. No interior, motorista e acompanhante inspecionam os arredores, prestando especial atenção a um casal de policiais que passeia sob os arcos do edifício da Sala Stampa, muito perto da praça de Pio XII. Tudo parece tranqüilo. Ao fundo, a imponente silhueta da basílica vaticana cede ante o crepúsculo e se enfeita de preto. Um guindaste da firma Mariani (SNC) acha-se atrás da ambulância.

Os ocupantes abrem jornais e disfarçam, numa espera que, em princípio promete ser curta.

 

                 18 horas e 17 minutos.

Motorista e ajudante do Fiat Ducato consultam seus relógios. Chegou a hora. Decididos, penetram no edifício-sede das referidas embaixadas.

'Um doente?'

O funcionário polonês não consegue compreender. Os funcionários da ambulância mostram o pedido.

'Hospital do Menino Jesus?'

A confusão cresce. Ninguém sabe de nada. Ninguém telefonou para solicitar tal serviço. Os 'enfermeiros' simulam um lógico e justificado desgosto. Impacientam-se. Consultam o responsável pela embaixada. Os poloneses tentam manter a ordem. A presença do funcionário-chefe serve apenas para excitar ainda mais os ânimos. Os da ambulância protestam. Decidem ligar para o hospital.

 

               18 horas e 20 minutos.

Um carro-patrulha azul - ROMA-80904 -, procedente da praça do Risorgimento, liga as luzes intermitentes e, suavemente, sobe na calçada da via da Porta Angélica, a quatro metros da entrada da Porta de Santa Ana. A Guarda Suíça pensa que se trata de um dos 'patrulheiros' que costumam vigiar o perímetro vaticano.

Do outro lado da rua, junto à habitual caminhonete policial estacionada diante da loja do informante, três policiais fumam sem cessar, mais atentos aos seus pensamentos do que ao que os rodeia. Um deles - o 'rosto escarlate' - observa entediado a manobra do carro-patrulha. A escuridão o impede de identificar seus colegas. E prudentemente - prevendo que algum dos recém-chegados possa pertencer à oficialidade - decide aproximar-se.

Os 'policiais' o vêem chegar. Já esperavam isso. O motorista abaixa o vidro da janela. Cumprimentam-se. E o 'cara de rubi', percebendo a graduação do segundo fardado, fica em posição de sentido para dar as nulas novidades. Desconcertado diante da presença do oficial, retoma ao seu lugar, sacudindo a preguiça.

 

             18 horas e 21 minutos.

A embaixada polonesa junto à Santa Sé não confirma o pedido.

Desconcertados, os funcionários só conseguem pedir desculpas.

Obviamente trata-se de um erro ou de uma brincadeira de mau gosto. Os motoristas da ambulância abandonam a embaixada, visivelmente mal-humorados. Ao despedir-se solicitam licença para permanecer estacionados na zona reservada para as embaixadas.

         'É uma questão de minutos. Talvez o pedido proceda da embaixada do Equador...'

         Não há problema.

 

Um dos 'enfermeiros' se introduz na ambulância. O outro aperta a campainha da sede equatoriana. A embaixada - ele sabe muito bem disso - está fechada. Mas insiste, ganhando assim alguns segundos.

18 horas e 24 minutos.

Alguém começa a comunicar-se com o wa/kie-ta/kie que está nas mãos do policial do carro-patrulha estacionado junto à Porta de Santa Ana.

- 'Oliveira um.' Aqui 'Oliveira zero' . Estão ouvindo? Câmbio.

- Afirmativo. Aqui 'Oliveira um'. Câmbio.

- O 'Papa Vermelho' está chegando. Já está por Belvedere. Câmbio.

- Recebido. Câmbio e desligo.

O motorista entrega o receptor ao 'superior'. Liga o motor e recua com prudência, colocando o veículo na rua, paralelamente à calçada e ao portão vaticano. O 'cara de rubi' respira aliviado.

O 'oficial' abre a comunicação.

- 'Oliveira dois.' Aqui 'Oliveira um'. Câmbio.

Os ocupantes das ambulâncias escutam a voz, em alemão, do 'comandante' da polícia. Guardam silêncio. A mesma coisa acontece na cabine do caminhão de mudanças e no guindaste.

- 'Oliveira um.' Estou ouvindo. Aqui 'Oliveira dois'. Câmbio.

- O barulho dos motores no primeiro trecho da rua Santo Ofício dificulta a recepção procedente do carro policial. E o 'agente' que conversa com o velho do cachorro gruda o wa/kie-ta/kie à orelha.

- 'Oliveira um'... Continue. Câmbio.

- Aqui 'Oliveira um'. 'Papa Vermelho' está chegando... Câmbio. - 'QSL'... Recebido. O 'oliveiral' tranqüilo... e pronto. Câmbio e encerro.  .

O fardado põe a mão no quepe, levantando-o sobre a cabeça. É o sinal.

O motorista do Fiat Ducato, recém-incorporado à ambulância, acelera o veículo. E permanece atento ao guarda e ao ancião.

Na cabine do caminhão, dois indivíduos com macacão azul preparam-se. O motor ruge. Os faróis iluminam os últimos trinta metros do Borgo Santo Spirito e a esquina na qual o velho e o agente sem quepe continuam parlamentando.

O fluxo duplo de automóveis - que vem da Conciliação e da Cidade Leonina - desacelera na 'boca' da Santo Ofício. Velocidade média: cerca de sessenta quilômetros.

 

                    18 horas e 26 minutos.

O 'oficial' do carro policial desce do veículo. Caminha cinco passos e pára no centro do umbral da Porta de Santa Ana. O jovem suíço de quepe e capote azul está a ponto de saudar. Mas a proximidade de um carro, às suas costas, o faz hesitar. Vira-se em direção à luz do Kadet e, ao verificar a placa - SVC - recua, dando-lhe passagem. Fica em posição de sentido e o prelado corresponde com um sorriso. Lomko está sozinho.

O sentinela acha estranho. O 'comandante' da polícia italiana desapareceu.

O cardeal, com extrema prudência, freia na esquina. O semáforo do Borgo Pio - na sua frente - acabou de abrir. E uma furiosa tropa de romanos irrompe pela Porta Angélica, dividindo-se velozmente à direita e à esquerda. O 'Papa Vermelho' não está com pressa. Retoma à sua residência, nos jardins da Universidade Urbaniana.Prefere esperar .

Lomko olha para a esquerda. Um veículo policial a dois metros prejudica o seu campo de visão. Ajeita o solidéu e, mecanicamente, olha pelo retrovisor. Um par de faróis aproxima-se pela via do Belvedere.

- Atenção. 'Oliveira um' chamando a 'Oliveira três'. Câmbio.

O motorista do caminhão de mudanças responde ao 'carro de polícia' .

- Aqui 'Oliveira três'. Estou ouvindo. Câmbio.

- 'Papa Vermelho' imóvel. 'Papa Vermelho' vazio... Câmbio. - Certo. Repito. 'QSL'. Continuamos à espera e desligo. Cinqüenta e dois segundos. O semáforo muda para vermelho.

 

                   18 horas e 27 minutos.

Lomko acelera. Mas hesita diante da proximidade do carro de polícia. Freia. O motorista do veículo policial reage. Envia-lhe um par de rajadas luminosas e o eslovaco compreenqe e agradece a deferência. O Kadet avança os oitenta metros que o separam do arco da via Angélica.

O 'oficial' pragueja. O carro-patrulha fica pregado no asfalto. O veículo que seguia Lomko, também procedente do Vaticano, atravessa o seu caminho.

O fardado pisa fundo e ultrapassa o inoportuno sacerdote que não respeitou a passagem. Manobra habilmente e alcança o cardeal. O padre, temeroso, reduz a velocidade e distancia-se do 'carro policial'.

O semáforo do arco está aberto. O prelado aperta a marcha. Sabe que este sinal é breve. O carro policial - a três metros do Kadet continua acelerado. Eles conhecem a duração do 'verde' melhor do que o prelado: trinta e quatro segundos.

- Aqui 'Oliveira um'. Entrando na Cidade Leonina. Atenção a todo o 'oliveiral'. Velocidade: sessenta. Faltam doze segundos para a 'reunião'. Atenção 'Oliveira dois'. Câmbio.

- Recebido. Aqui   'Oliveira dois' . Preparados. Câmbio e desligo.

 

                18 horas, 27. minutos e 15 segundos.

O Kadet inicia a curva da colunata de Bernini. Dispõe-se a rodear a praça de São Pedro. Lomko desvia o olhar para a esquerda. O trânsito que vem da Conciliação o obriga a diminuir a velocidade.

- Atenção!...

A voz do 'oficial' dá vida ao wa/kie-ta/kie do policial. O braço esquerdo continua largado ao longo do corpo. O quepe agita-se nervosamente contra a coxa.

- Aqui 'Oliveira um' . Faltam oito segundos para a 'reunião'. Deixo para trás o 'Papa Vermelho'. Prevenidos. Câmbio. Desligo.

O veículo policial acelera e ultrapassa Lomko. O 'comandante' pega a luz violeta e com o ímã fixa-a ao teto do automóvel. A intensa luz gira, assustando o cardeal. Freia instintivamente. Mas o carro policial conserva a mesma distância.

 

               18 horas, 27 minutos e 23 segundos.

O ancião, ao perceber a luz do carro de policia, puxa a corrente.

O pastor alemão obedece. E lentamente aventuram-se pela passagem de pedestres localizada na Santo Ofício, à altura do número 28 do Borgo Santo Spirito. Tentam chegar à negra e solitária colunata de Bernini. O trajeto é de cerca de vinte metros.

'Oliveira dois' também viu a luz intermitente. Aproxima-se entreuma massa compacta de veículos. Distância: cerca de cinqüenta metros.

O 'policial', com o quepe na mão, segue os passos do velho.

Luz intermitente a trinta metros.

O velho pára. Atravessou apenas uma terça parte da faixa. Os motoristas o ignoram. Velocidade média: sessenta.

Luz intermitente a dez metros.

'Oliveira dois' chega à altura do senhor idoso. E coloca o quepe.

O caminhão de mudanças começa a andar. Em três segundos ocupa o centro da rua, detendo-se nas oito faixas brancas da 'zebra'. O motorista segura o volante com decisão. E força o motor, fazendo-o roncar .

'Oliveira dois' segura o velho pelo braço. Com a mão direita ordena que os motoristas prossigam.

O 'carro-patrulha' freia no limite da passagem de pedestres. E o ancião e o 'policial' agradecem aos 'gentis' motoristas, reiniciando a caminhada até a colunata.

O Kadet do cardeal parou a cerca de cinqüenta centímetros do carro-patrulha.

 

                 18 horas, 27 minutos e 30 segundos.

O pesado caminhão amarelo e azul solta a embreagem e lança-se

pela suave descida do final da rua do Borgo Santo Spirito. Nos trinta metros que o separam do Kadet não ultrapassa trinta quilômetros por hora. É suficiente.

Cinco segundos depois bate com estrondo contra a porta posterior do carro de Lomko. O veículo fica entalado entre o caminhão e os quatro degraus de acesso à colunata. Os vidros quebram.

 

                   18 horas, 27 minutos e 33 segundos.

Aparente confusão.

O velho e o cachorro desaparecem nas trevas da praça de São Pedro.

'Oliveira dois' corre em direção ao cardeal.

A ambulância estacionada diante das embaixadas abre a sirene e a luz intermitente. E chega ao lugar do 'acidente', ficando ao lado do carro-patrulha.

O motorista do caminhão salta da cabine e ajuda 'Oliveira dois' . A porta do carro de Lomko saiu do lugar. Na segunda puxada, ela abre. O prelado, atônito, não tem tempo de reagir. O homem do macacão azul o retira do carro.

O 'comandante' e seu motorista colocam-se do outro lado do caminhão de mudanças, impedindo que os desconcertados motoristas se aproximem. Pedem calma.

'Oliveira dois' colabora no vertiginoso 'resgate' de Lomko. No caos, derrama uma ampola com sangue na cabeça do aturdido cardeal. O líquido corre pelo rosto e roupas. Lomko não percebe a jogada e       empalidece.

18 horas, 27 minutos e 43 segundos.

 

Os 'enfermeiros' introduzem o prelado na ambulância. Não há qualquer resistência.

O caminhão recua. 'Oliveira dois' sobe na cabine. E o motorista do macacão azul avisa o carro-patrulha, afastando-se pela solitária Santo Ofício.

         A ululante ambulância já voa pela praça do mesmo nome.

O carro-patrulha aproxima-se da colunata. Os veículos vão se deslocando lentamente diante do Kadet acidentado. O policial de menor graduação encarrega-se do caso, dirigindo o trânsito e ordenando que    os romanos não se detenham.

 

                     18 horas, 27 minutos e 50 segundos.

O 'oficial' chama o guincho e a segunda ambulância.

         - Aqui 'Oliveira um'... O 'Papa Vermelho' dorme... 'Oliveira cinco' e 'Oliveira seis'. Chegou a vez de vocês. Câmbio.

- Aqui 'Oliveira cinco'. Recebido. 'Soltamos o pássaro.' Câmbio e desligo.

 

                      18 horas e 28 minutos.

         O guincho estacionou diante do Kadet. Os operários descem. Examinam os danos e engancham o veículo.

         O motorista do carro-patrulha continua desviando o trânsito. Um carro policial passa pelo lugar. Ao confirmar a presença dos 'colegas', retira-se.

 

                   18 horas e 31 minutos.

O Kadet é arrastado sem problema. E o 'policial' fardado retoma ao carro-patrulha.

Cinco segundos depois, a PIC-064 pára atrás de 'Oliveira um'. Só um 'charco' de vidros pulverizados delata o acidente. E o carro-patrulha, com o auxílio da sirene e do farol violeta, abre caminho, tornando mais fácil a corrida da segunda ambulância.

Ao chegar à praça Santo Ofício, o 'comandante' consulta o relógio luminoso pendurado sobre o anúncio do 'Euroclero', na calçada esquerda. Logo após inspeciona seu cronômetro. E pegando o walkie talkie entra em contato com o caminhão de mudanças.

- Aqui 'Oliveira um'. Está me recebendo, Prank? Câmbio. - Aqui 'Oliveira três'. Afirmativo. Câmbio.

- Primeira fase concluída. Total: quatro minutos. Estamos prontos para 'soltar o pássaro'. Câmbio.

- Parabéns, 'Oliveira um'. Regressamos à base. Câmbio e desligo. Ao chegar ao semáforo que regula o trânsito entre a referida praça Santo Ofício e o túnel Príncipe Amedeo Savoia-Aosta, o 'oficial' imagina a expressão de satisfação do 'ajudante' do caminhão de mudanças. Na verdade, o mérito é todo seu: do meticuloso coronel Prank Hoffmann.

Os duzentos metros existentes entre o local do 'acidente' e o sinal localizado no limite da praça Santo Ofício são percorridos em vinte segundos.

O sinal está vermelho. Carro-patrulha e ambulância optam por não abusar da sorte. O tráfego no local é maciço e rápido. As sirenes emudecem. E esperam passar os setenta e um segundos no farol.

         O 'comandante' - de acordo com o planejado - entra em contato com os 'enfermeiros' que seqüestraram Lomko.

         - 'Oliveira quatro'... Aqui 'Oliveira um'... Está me ouvindo? Câmbio.

         - Aqui 'Oliveira quatro' em retirada para o 'Menino Jesus'. 'Papa Vermelho' a caminho da base. 'Papa Vermelho' dorme. Câmbio.

         - Problemas? Câmbio.

         - Negativo. 'Bea ti amo' limpo. Câmbio.

         .- Tempo?... Câmbio.

         - Três minutos. Câmbio.

         - 'QSL'... 'Oliveira um' e 'Oliveira cinco' a quatrocentos metros do Quarto de Socorro. Estamos prontos para 'soltar o pássaro' . Câmbio e desligo.

A primeira das ambulâncias - 'Oliveira quatro' -, de acordo com o plano de Hoffmann, atravessara a via CavaIleggeri, girando à esquerda e subindo pelo caminho solitário que começa ao pé da muralha Aurélia.

A setecentos metros do nascimento dessa rampa, o Fiat Ducato freia na escuridão de uma zona 'morta', numa das curvas à esquerda. Estacionado no jardinzinho com dois ciprestes adolescentes, aguarda um Mercedes preto, com ..3 luzes apagadas. No muro destaca-se um grafitto de grandes proporções: 'Bea ti amo'.

Os 'enfermeiros', sem perda de tempo, obrigam o cardeal a descer. Jozef Lomko, perplexo, interroga os homens de túnica branca. Ninguém responde. Alguém amarra suas mãos às costas. Não há violência. Vendam seus olhos e, resignado, ele é introduzido no assento traseiro do veículo. Injetam-lhe um sonífero.

Segundos depois, Mercedes e ambulância passam pela muralha.

         Na rotonda de Garibaldi, tomam direções opostas.

 

                        18 horas e 33 minutos.

         O falso carro policial e a PIC-064 giram à esquerda, penetrando no túnel de Amedeo Savoia-Aosta. As sirenes dissimulam o trovão do trânsito. Os veículos ficam lado a lado.

Duzentos e cinqüenta metros adiante viram de novo à esquerda e entram na via Penitenzieri. Diminuem a velocidade. As sirenes languescem e morrem.

         A entrada no Hospital do Santo Spirito é feita discretamente.

As portas traseiras da ambulância são abertas. O pessoal de 'emergências' acode apressadamente. E diante do atento olhar dos 'policiais', motorista e ajudante da PIC simulam auxiliar um cardeal ferido. O rosto apresenta alguns ferimentos. Da fronte esquerda brota um fio de sangue.

Caminha sem dificuldade. Perdeu o solidéu. Na mão esquerda segura uma pasta preta.

O pessoal sanitário surpreende-se:

- Um prelado!

Os 'policiais' explicam o acidente.

Um dos médicos o examina. O ferimento não parece muito profundo. Com a ajuda de pinças, retira alguns vidros minúsculos. Limpa a ferida e a cobre. Examina os hematomas no nariz e queixo. Nada importante. Em compensação, a mão direita parece ter deslocado. Radiografias. Não há fraturas. Uma venda à base de gesso úmido a imobiliza.

         Os curativos prolongam-se por três quartos de hora.

Diante da possibilidade de uma lesão craniana, o médico sugere vinte e quatro horas de observação. O 'cardeal' recusa. Insiste em que se sente perfeitamente bem e agradece pela atenção recebida.

         Elabora-se o relatório obrigatório e, diante da teimosia do ferido, o médico dá de ombros.

         O 'oficial' do carro-patrulha oferece-se para levá-lo até a sua residência. O cardeal aceita, encantado.

Ao abandonar o hospital, o 'acidentado' vira-se para a equipe médica e suplica:

- Por favor, evitem a publicidade.

Sorriem compreensivos.

 

                       19 horas e 25 minutos.

O carro de polícia freia suavemente. O caminho de pedra range.

À esquerda ergue-se uma casa de dois andares com fachada de tijolos. Os faróis iluminam uma pequena estátua da Virgem, sob uma sebe semi-circular. Nove palmeiras recém-podadas, à direita, e um majestoso pinheiro mediterrâneo de quinze metros, às costas da Imaculada de pedra cinzenta, custodiam a casa do cardeal numa serena extremidade da Universidade Urbaniana.

O agente 'infiltrado' no lar de Lomko espera no portão. Outros empregados - alarmados - saem ao encontro do prelado. Os 'policiais' acompanham-no até o saguão. A cena possui um interesse especial. Ao pé do Cristo que preside o lugar, as religiosas deixam-no tonto com suas perguntas lógicas. Nenhuma percebe a 'mudança'.

O 'comandante' e o 'Papa Vermelho' trocam um olhar significativo.

Nosso agente intercede a favor do 'ferido':

- Chega de conversa. Sua eminência precisa de descanso.

O carro de polícia abandona a Urbaniana e comunica a Hoffmann o final da operação.

Chegara a minha vez. Será que o treinamento recebido fora real

mente eficaz?

Na solidão do quarto apressei-me a realizar o que fora estabelecido para o final daquela intensa jornada.

Em primeiro lugar, a afonia.

A voz do 'novo Lomko' pouco ou nada tinha a ver com a do verdadeiro. Era preciso distorcê-la, pelo menos durante o tempo em que a minha representação durasse.

Escolheu-se um sistema rápido, seguro e que, em princípio, não tinha por que levantar suspeitas: uma prosaica laringite. Para estimular a inflamação da laringe - especialmente da mucosa - recorreu-se a um spray, previamente adulterado com amoníaco. Em dois dias, a rouquidão permitiu-me uma maior liberdade de movimentos.

Em segundo lugar, as impressões digitais.

Embora não fosse provável que a polícia detectasse a usurpação do eslovaco, a organização preferiu não correr riscos.

Tirei a roupa e, seguindo as indicações dos especialistas, coloquei nas costas uma dose de DNCB (dinitroc1orobenzeno) a dois por cento. Protegido com um esparadrapo, o líquido em questão tinha a missão de sensibilizar-me, provocando a correspondente alergia. Oito ou dez dias mais tarde um incômodo e antiestético eczema apareceria nas palmas das mãos, 'apagando' as papilas dos dedos e, conseqüentemente, as impressões digitais. A fim de manter os dolorosos e úmidos 'poços eczemáticos', a cada duas ou três noites era obrigado a pincelar as regiões afetadas com o mencionado DNCB, diluído em acetona a 0,01 por cento. Naturalmente, num gesto de consideração pelos que me rodeavam, tive de usar luvas de tecido.

A grave enfermidade de que sofria tomou necessária a ingestão de cimetidina. Em condições normais, estas cápsulas - um comprimido de 400 miligramas por dia - teriam tido a missão de contra-arrestar a tolerância imunológica provocada pelo dinitroclorobenzeno. Mas, como já disse, infelizmente meus linfócitos T8 eram escassos. Quanto ao perigo de contrair um 'câncer de sangue' , que importância podia ter isso?

Tudo estava pronto para o début oficial. Uma representação cujo clímax dependia do êxito das operações que estavam em curso e que relatarei a seguir.

Na manhã seguinte, uma ligação ao padre Mínimo, 'meu' secretário particular na Propaganda Fide, informando-o do que acontecera, inaugurou as atividades do 'novo Lomko'.

Dois dias de 'repouso' foram suficientes para cobrir as aparências. Nessa mesma tarde-noite da segunda-feira, 1o. de abril, o Kadet dava entrada numa oficina mecânica na periferia de Roma. Vinte e quatro horas mais tarde - meticulosamente consertado - era estacionado no caminho de pedras, diante da imagem da Imaculada. Por expresso desejo de Hoffmann, a suástica que enfeiava a carroçaria obra de algum funcionário da congregação que detestava o rude eslovaco - também foi suprimida.

Por último, encerrando esta fase da operação, na madrugada da segunda-feira dois agentes de 'Gloria Olivae' penetravam no consultório do dentista do 'Papa Vermelho'. As radiografias e o histórico do verdadeiro Jozef Lomko foram substituídos pelos da pessoa que acabara de 'falsificá-lo'. Como o arquivo era muito volumoso - quase quatro mil fichas -, era improvável que o dentista, em caso de requerimento policial, pudesse rememorar as 'ausências', restaurações e peculiaridades originais, descobrindo assim a substituição.

Nesses primeiros dias de clausura obrigatória no lar da Universidade Urbaniana tive a oportunidade de testar-me. O duro e longo treinamento dera seus frutos, bem como a minuciosa e magnífica cirurgia plástica. Meu comportamento, costumes e escassa comunicação não levantaram suspeitas. Falei pouco, o essencialmente necessário. E quando a ansiada laringite surgiu, tudo simplificou-se, oferecendo-me até mesmo a desculpa ideal para fugir das múltiplas ligações daqueles que - ao saberem do acidente - interessavam-se pela minha saúde.

Uma dessas ligações, porém, foi inevitável. Ocorreu na tarde da quarta-feira. Procedia do Palácio Apostólico. Sua Santidade, em pessoa, interrogou-me sobre o que acontecera, congratulando-se comigo pelo fato de que tudo não passara de um susto. A rouquidão foi uma aliada eficaz. Mas não devia confiar demais..."

Como bom policial, com a mente programada para duvidar das suas próprias dúvidas, Rossi rejeitou aquele último capítulo. Não podia acreditar nele. No entanto, intimamente, reconheceu que o "seqüestro" - mesmo que não passasse de um exercício literário - fora executado magistralmente. Quase com rigor cinematográfico. Investigá-lo teria sido um apaixonante desafio.

E imaginando com que nova "loucura" se depararia no misterioso manuscrito, abordou as derradeiras páginas do "livro vermelho" .

"... E 'Gloria Olivae' seguiu seu curso.

Ao receber os relatórios, Hoffmann ficou satisfeito. O falso Lomko - seguro, frio e calculista - logo conseguiu controlar a situação. E após a 'conquista desta praça vital e estratégica', o coronel autorizou

         o segundo passo.

Cenário: a basílica de São Pedro.

Este 'trabalho' - de enorme transcendência no conjunto da operação - tinha apenas um objetivo: provocar.

Os responsáveis do Vaticano tinham de morder a isca. Uma 'isca' com 'veneno' suficiente para desequilibrá-los, obrigando-os a agir na direção desejada por nós. Se tudo funcionasse segundo o planejado, a tarefa posterior dos agentes infiltrados na Santa Sé seria mais cômoda e eficaz. Se falhássemos, 'Gloria Olivae' sofreria um grave retrocesso.

 

                   Domingo, 14 de abril.

Um total de nove especialistas do 'terceiro círculo' entrou em ação.

Da missão anterior - o seqüestro de Lomko - tinham participado seis agentes.

Frank quis compartilhar o risco, unindo-se novamente à equipe. Como na maioria das fases, o fator tempo e a coordenação quase matemática eram prioritários.

Tudo começou às sete da manhã...

Um sacerdote atravessa os treze metros e meio do nobre e luxuoso átrio da basílica de São Pedro. Evita a porta do Bem e do Mal e opta pela Média, também chamada de Filarete. As monumentais lâminas de bronze acabam de ser abertas. Um vigilante semi-adormecido, preguiçosamente encostado nos painéis, corresponde à inclinação protocolar de cabeça. Imediatamente retoma à escrupulosa inspeção da sua indumentária. Dá palmadinhas nos ombros para eliminar a caspa que branqueia o azul escuro do impecável abrigo. As lapelas, vermelho sangue, também são ajeitadas com nervosos e econômicos toques de dedos.

O sacerdote madrugador mergulha na penumbra. A basílica está pronta. Milhares de peregrinos e curiosos desfilarão nas próximas onze horas pelos seus 15.160 metros quadrados. Agora, porém, a cruz latina está praticamente deserta. O baldaquino de Bernini, a Cátedra de São Pedro, as naves menores e as paredes perimetrais do cruzeiro e da abside começam a desenhar ouro e mármore, animados pelos círios e pelas luzes indiretas. E a vida vai tomando posse, quase na ponta dos pés.

Os sampietrini percorrem os quarenta e seis altares. Lançam olhares cansados aos vinte e cinco monumentos e arrastam a rotina de um novo dia pelas onze capelas. Chão encerado. Limpeza total e um silêncio que chove obstinado procedente das onze cúpulas, fazendo parte da paisagem sagrada.

Meia dúzia de silhuetas negras e esquivas chamam de vez em quando a atenção dos vigilantes. São os sacerdotes que cobrem o primeiro turno de confissões. Dois deles instalam-se nos avermelhados, vetustos, rangedores e toscos confessionários situados no braço direito do cruzeiro. Outros quatro farão a mesma coisa na ala oposta. Até as 9h30 ou 10 horas, os vinte e um confessionários restantes permanecerão vazios.

O sacerdote anda alguns metros. Pára sobre o grande disco de pórfido vermelho no qual foram coroados mais de vinte imperadores. A sua direita, na primeira capela, a quarenta e um passos, ergue-se a balaustrada que separa o público do vidro blindado que protege o grupo escultórico de Michelangelo: a Pietà.

A observação é breve. Os focos que banham a Senhora e o Cristo sugerem mais do que revelam. Perfis brancos, doces, relaxados e relaxadores do Filho sem vida no colo da Mãe. O homem de batina gasta estremece. Deus sabe muito bem que seria incapaz de causar qualquer dano à portentosa obra de juventude do 'Divino'...

O lugar se animará dentro em pouco com todo tipo de forasteiros e devotos. .

Lentamente ele reempreende a caminhada pela nave central. Na mão esquerda carrega uma pasta de proporções regulares, de pele preta, lustrosa e gasta pelo tempo. Ele manca ao caminhar, e se equilibra com uma bengala forrada de couro.

Passa diante do altar da Transfiguração. Gira à direita e dirige-se ao trecho final do lado esquerdo. Ao passar pela ara da Mentira, um sorriso malévolo e provisório desmente seu rosto de criança.

 

Atravessa o solitário cruzeiro e sem titubear, abre a porta do confessionário situado a quatro metros do monumento a Alexandre VII. A lâmina superior dupla e robusta range. Deposita a pasta no interior e, desconfiado, examina os pares de vigilantes que inspecionam os arredores do altar papal, no centro do baldaquino de Lorenzo Bernini. Ninguém repara em sua presença. E com um pé no confessionário dirige um derradeiro olhar ao conjunto sepulcral que demarca o acesso à capela de Santa Marta. O esqueleto dourado, levantando um pedaço de jaspe da Sicília, parece-lhe premonitório.

 

                     07 horas e 03 minutos.

O sacerdote acomoda-se na espartana tábua que serve de assento. Liga a lâmpada e fecha o estreito cubículo. Sente o cheiro de madeira envernizada. Abre o breviário e espera. Sabe que sua presença no confessionário é quase mera formalidade. Nos últimos dois meses, o reverendo Nedjelja-Nedelja não recebeu nenhum penitente que desejasse confessar seus pecados. No entanto, fiel às suas obrigações, aguarda pacientemente. Seu plantão termina às 10 horas. À tarde, das 15 às 17 horas, deverá regressar e continuar praticando o virtuoso exercício da paciência. E assim todos os domingos, durante os próximos quatro meses.

No exterior, um cartaz informa aos fiéis as línguas nas quais podem se confessar - hruatski, sloveski e italiano -, os nomes dos clérigos e os respectivos dias e horas:

'Ponedjeljak Donedelj (segunda-feira: 09h30 às 12h30 e 16 às 18 horas). Vtorak Torek (terça-feira: 09h30 às 12h30 e 16 às 18 horas), Srijeda Sreda (quarta-feira: no mesmo horário que os anteriores). Cetvrtak Cetrtek (quinta-feira: -). Petak Petek (sexta-feira: 09h30 às 12h30). Subota Subota (sábado: 07 a 10 horas).'

 

                   07 horas e 15 minutos.

O sacerdote fecha o breviário. Observa pela abertura lateral. A basílica é um aprazível claro-escuro. Os sampietrini vão tomando posições. Alguns junto às portas. Outros perambulam entre as colunas. Conversam com um estudado fiozinho de voz. Parecem alheios a tudo, mas foram treinados para não perder nenhum detalhe. Embora oficialmente sejam os responsáveis pela manutenção da basílica, em sua maioria trabalham também como zelosos vigilantes. Controlam as multidões. Mantêm a ordem e velam pelo devido decoro. E junto a estes fiéis funcionários, um punhado de agentes a serviço da Segurança Vaticana, dirigidos por um inspetor. Terno azul escuro. Pistola. Comportamento impecável. Misturam-se e confundem-se com o povo. Escutam as conversas. Olham diretamente nos olhos. Velam pela integridade das pessoas e dos tesouros ali reunidos.

Todos eles constituem nossa grande preocupação. Não é fácil enganá-los.

O confessor abre a pasta que está apoiada nas suas pernas. Extrai quatro cilindros escuros, metálicos, de dez centímetros de comprimento por cinco de base. Examina-os atentamente e sorri com malícia. Cada cartucho possui um minúsculo rótulo, com três palavras:     .

'Berger ao Hexacloreto.'

Inclina-se novamente e pega três pequenas peças: um detonador, um temporizador e a pilha correspondente.

Coloca-os na boca de um dos cilindros e programa a hora: 12h02. Contempla o artefato e, satisfeito, esconde-o sob o assento. A operação é repetida com cada cilindro.

 

             12h03 para o segundo.

O sacerdote o amarra à cruz do teto.

 

               12h04 para o terceiro.

O cilindro é introduzido no oco formado pelo degrau sobre o qual as mulheres se ajoelham, no lado direito do confessionário.

 

                   12h05 para o último.

Este fica escondido no degrau gêmeo, ao pé da grade esquerda. Concluída a manobra, fecha a pasta. Pega o breviário e deixa o tempo passar.

 

                   09 horas e 55 minutos.

O falso Nedjelja olha através das grades. Grupos de peregrinos e turistas já estão invadindo São Pedro. O silêncio cedeu. Guias de diversas raças e credos, sempre em voz baixa, falam do humano e do divino, provocando sussurros, flashes e movimentos mecânicos e coletivos de cabeças. A multidão, dócil, é arrastada apressadamente. Alguns fiéis rezam nas capelas. Outros olham tudo atônitos. Impactados. Emocionados. Diante do baldaquino, uma discreta fileira de crentes espera chegar a sua vez de beijar o desgastado pé de bronze da estátua do Pescador, obra, segundo parece, de Arnolfo di Cambio. Perto do pilar de São Longinos, uma tropa de inevitáveis japoneses trata de descer até as criptas.

Faltam pouco mais de duas horas para a culminação do 'trabalho' . O sacerdote pega a pasta. Empurra a portinha do confessionário e apaga a luz. Ao sair, olha para a esquerda e para a direita. Sigilosamente. No meio de tantos visitantes, distinguir a Segurança é muito mais complicado. Convém medir cada movimento.

Fecha. Consulta o relógio e, tranqüilo, retira-se. Dirige-se ao braço esquerdo do cruzeiro. Sobre o altar de São José, uma das vitrinas reflete a luz matutina contra os mármores do piso. Uma dezena de mulheres reza ou observa tudo nos nove bancos que mobiliam essa lateral. Os oito confessionários que montam guarda no perímetro estão vazios, exceto o situado junto à ara da crucificação de São Pedro. O cartaz correpondente especifica que se confessa em inglês, italiano, francês e maltês. Nesse domingo, das sete às dez, o sacerdote responde pelo nome de Il-Hadd.

O homem de bengala ajoelha-se. As folhas superiores abrem-se e, aparentemente, Nedjelja solicita confissão. Algumas mulheres, mórbidas, espiam a cena. Um sacerdote confessando outro sacerdote...

Il-Hadd o atende. Dialogam. O confessor, carinhosamente, pega as mãos do penitente. E este, cobrindo-se com seu próprio corpo, desliza um invólucro reduzido até as pernas do seu irmão de religião.

 

                 10 horas e 20 minutos.

O coronel Frank Hoffmann abandona a basilica. A afluência de peregrinos aumenta.

Na porta central, dois sampietrini conversam animadamente com um dos homens de azul. Nenhum deles repara naquele 'sacerdote' de batina puída, pasta preta e uma bengala de couro.

 

                 11 horas e 20 minutos.

A solene missa cantada, ao amparo da Cátedra de Pedro, está terminando. Na abside concentra-se meio milhar de fiéis. O magnífico coro dirigido pelo prestigioso Pablo Colino, maestro da Capela Sistina, faz as delícias de todos. As vozes escalam os 132 metros da cúpula inacabada projetada por Michelangelo derramando-se sublimadas pelo cruzeiro. Os espíritos vibram. E a atmosfera fica repleta de paz. Em breve, após a cerimônia, a maioria regressará à praça de São Pedro, disposta a ver e escutar o Santo Padre na tradicional alocução posterior ao 'ângelus'.

De acordo com nossas observações, entre 12hOO e 12h15, a basílica sofrerá uma sensível diminuição do número de visitantes. Este é o momento.

 

                   11 horas e 25 minutos.

Ao pé da fachada de São Pedro, na estreita plataforma que precede o átrio de Maderno, os turistas param, intrigados. Um indivíduo alto e rmo como um bambu, de barba de algodão e cabeleira loira e despenteada, observa o edifício. Seus braços se abrem em cruz. As palmas estão viradas para o céu borrascoso. A cabeça dobra teatralmente para trás. Fecha os olhos e espera. As pessoas cochicham. Alguns tiram fotos. O círculo em volta do personagem esfarrapado e singular aumenta a cada segundo.

 

                       11 horas e 26 minutos.

O 'mendigo' abre os olhos e, ante a surpresa geral, clama aos céus em voz alta. Pede o retorno de Jesus Cristo. Os curiosos sorriem divertidos. Novos turistas unem-se à perplexidade geral.

O 'louco' aumenta o volume dos gritos, vituperando contra a Cúria e os bispos que 'governam aquele ninho de víboras'.

A vigilância não demora. Abrem passagem com fortes empurrões e, durante alguns instantes, limitam-se a observar. Hesitam. Não se atrevem a intervir. Ele não parece perigoso. Nos seus rostos adivinhase o aborrecimento.

'Outro iluminado...'

Vários dos sampietrini retomam à basílica. Dois permanecem na primeira fila, expectantes. O público se divide. Alguns concordam, tornando sua a reclamação do contestatário. A maioria dissente.

Um agente da Segurança aparece com os sampietrini. Tentam dialogar. O 'iluminado', em contato com os recém-chegados, resiste, implorando 'uma chuva de fogo e enxofre' . Os turistas recuam prudentemente. Diante da impossibilidade de negociação, os agentes prendemno pelos braços e, educada porém inexoravelmente, forçam-no a caminhar em direção às escalinatas da esquerda, menos freqüentadas. O público dispersa-se. E sem deixar de gesticular, o 'louco' obedece as recomendações dos vigilantes. Um minuto depois é história. A Segurança o vê desaparecer entre a multidão que se agita na praça de São Pedro, dependurada nas janelas do Palácio Apostólico.

A trama deu certo. Na confusão, três novos agentes entram dissimuladamente pela porta do 'Manzu'.

O mais alto - Max Hefner, 'comandante' do carro de polícia na aventura anterior - carrega uma antiquada câmera de vídeo: uma HUC-2000P, com os correspondentes flash e bateria. Ao seu lado, Helga Winterberg, perita em tiro com arco e balestra. No seu braço direito traz uma sombrinha automática pendurada, dentro do forro. O terceiro homem - Victor Greder -, motorista do caminhão de mudanças, usa um terno azul, semelhante aos utilizados pela Segurança Vaticana.

 

                   11 horas e 30 minutos.

A missa terminou. Os fiéis dão as costas à Glorificação da Cátedra de São Pedro e à refulgente Pomba pentecostal, saindo da abside lenta e ordenadamente. Cerca de vinte pessoas decidem continuar nos bancos. O resto avança pela nave maior e pelas laterais, rumo à saída.

Max e seus companheiros, imóveis sobre o disco das coroações, vêem a multidão que se aproxima. A maré humana os envolve. Nesse momento decidem caminhar pelo eixo central da basílica ao encontro do reclinatório situado a 140 passos, diante da varanda que circunda a suposta tumba de Simão Pedro.

 

                   11 horas e 35 minutos.

Respiram aliviados. Dos quatrocentos ou quinhentos fiéis que enchiam o lugar, apenas uma centena ficou para trás. Não lhes interessa o 'ângelus' nem o breve discurso do Papa.

Helga ajoelha-se na metade esquerda do reclinatório. Abaixa a cabeça. Fecha os olhos e movimenta os lábios, murmurando uma oração. Hefner e Greder continuam às suas costas, atentos aos sampietrini e a todos os que passam por perto do baldaquino.

 

                     11 horas e 37 minutos

Um velho toca o brilhante pé direito do Pescador. Observa o severo rosto e chega às suas próprias conclusões. Segundo uma lenda duvidosa, a estátua em questão foi elaborada com o bronze de Júpiter Capitolino, em agradecimento por ter freado os exércitos de Átila.

'Certo - diz para si mesmo -. Trata-se da mesma coisa: de afastar o novo Átila...'

E dando meia-volta, percorre os doze metros que o separam de Helga. Sente falta do seu nobre pastor alemão.

Ajoelha-se com dificuldade. Apóia os cotovelos na madeira preta e entrelaça os dedos em atitude de oração.

‘Tudo pronto...'

A agente o olha de esguelha. E consente com a cabeça. Não há mais palavras. Um minuto mais tarde, a mulher se retira.

 

                 11 horas e 40 minutos.

O velho procura alguma coisa no bolso da jaqueta. Pega um fino maço de liras, preso com uma borrachinha, e o coloca no cilindro preparado no interior do confessionário. Um rótulo, em quatro línguas, esclarece que as esmolas serão destinadas ao 'Óbolo de São Pedro'.

Sorri ceticamente e vai embora.

 

                 11 horas e 50 minutos.

Diante do leão adormecido que jaz aos pés do monumento a Clemente XIII, Max continua 'filmando' a portentosa arquitetura vaticana. A Sony, com tubo 'trinicom' e um magnetoscópio SLV-3000, parece estar funcionando perfeitamente. Só eles conhecem o segredo: todas as placas internas foram retiradas e substituídas por outros 'elementos' com função muito diferente. Mas devem simular que estão gravando. Victor segura o flash e Hefner faz a filmagem.

Após um sinal de Max, Helga afasta-se para o fundo da lateral na qual eles se encontram. Vira à esquerda e olha para o altar de Tabita. A dez passos, nos bancos da abside, entre os fiéis que permanecem em meditação, está uma mulher jovem, vestida de branco. Seus cabelos estão cobertos por um véu nacarado, conforme a moda antiga. Está ajoelhada. À sua esquerda, sentado, um homem de meia-idade vestido de uma cor escura, contempla pensativo o triunfo barroco que envolve o trono de madeira e marfim atribuído a Pedro.

Helga e a moça olham-se. Luisa Vespasiani ajeita o véu de seda. Winterberg pega o guarda-chuva e o muda de braço.

 

                     11 horas e 55 minutos.

O indivíduo loiro que está ao lado de Luisa levanta-se. E afasta-se em direção ao lado esquerdo da basílica. Debaixo do banco 'esquece' uma mochila de proporções regulares. Passa diante do altar do Paralítico e desce sem pressa pelo braço do cruzeiro. À altura da capela Clementina vira bruscamente à direita e penetra na galeria que conduz às sacristias.

Segundos depois, sem dissimular o forte sotaque alemão, pede um ingresso para o Museu Histórico, popularmente conhecido como o 'Tesouro de São Pedro'.

E Günter Rosewald, motorista da ambulância no episódio anterior, penetra no escuro labirinto. Guarda o ingresso cor-de-rosa e, lenta e despreocupadamente como qualquer turista, percorre os primeiros corredores. Não percebeu qualquer vigilância nas proximidades do 'Tesouro'. Ela é rara. Em princípio, as medidas de segurança, embora bastante primitivas, são consideradas suficientes pelos responsáveis pela fábrica vaticana.

As pessoas interessadas pelas valiosas peças ali expostas podem ser contadas com os dedos de uma mão. Günter fica contente. Isto é bom para ele.

Desemboca na sala que mostra a magnífica cópia da Pietà de Buonarroti, obra de Francesco Mercatali e graças à qual foi possível restaurar o grupo escultórico original após o atentado de 1972. O recinto está aberto. Controla o relógio e se entretém tirando algumas fotografias.

 

                     11 horas e 58 minutos.

Helga juntou-se aos seus companheiros. Em silêncio, aparentemente tranqüilos, eles se encaminham em direção ao objetivo. A operação foi exaustivamente ensaiada. Não pode falhar.

Desfilam diante do monumento a Gregório XIV. Alguns turistas, muito poucos, contemplam respeitosamente a capela do Sacramento.

Monumento a Cristina da Suécia. A estreita lateral direita está pouco freqüentada.

Victor examina o cronômetro pendurado no seu pescoço. Max o interroga com o olhar.

         'Noventa segundos para o meio-dia...'

         Greder não destila nervosismo. E o 'comandante' agradece seu sangue-frio.

         Capela da Pietà.

         Os agentes param e olham-se consternados. 'Aquilo' não estava previsto. Helga pede calma. Ainda há tempo.

Um grupo de paralíticos em cadeiras de rodas está diante da balaustrada de mármore. São italianos. Os homens e mulheres que os auxiliam conduzem-nos satisfeitos de uma extremidade à outra, compartilhando sua admiração e fotografando-os sem cessar.

         Max tenta se deslocar entre os entusiasmados paraplégicos. Mas duas das cadeiras ocupam materialmente o centro da balaustrada.

 

                        12 horas.

A voz do Papa troveja na praça. Canta o 'ângelus'. A multidão escuta com emoção.

Max está a ponto de estourar. Victor não perde o cronômetro de vista. Helga virou-se para a nave maior. O fluxo de visitantes, segundo o previsto, diminuiu novamente. Calcula que haja cerca de duzentos. Nas três portas centrais de acesso à basílica não se observa nenhum sampietrino. A maioria dos vigilantes, observando a multidão que enche a esplanada de São Pedro, permanece atenta no átrio e nas escadas próximas. O aparecimento do Santo Padre na janela do terceiro anda; sempre é motivo de preocupação para a Segurança. Enquanto ele permanecer de frente para o público, os policiais, naturalmente, se esquecerão do interior do templo. Só alguns continuam entre as naves.

Alguém avisa os paralíticos.

'O Papa...'

A excitação cresce. As cadeiras de rodas batem entre si e finalmente desaparecem.

A balaustrada está livre.

 

                   12 horas e 01 minuto.

Max coloca-se diante da cancela de madeira que divide os balaústres. Inspira ambiciosamente.

         À sua direita, Victor segura o 'flash'. Com a mão esquerda controla o cronômetro.

         A mulher dá as costas para eles. Afasta-se um par de metros e permanece vigilante.

         O megafone proporciona asas às palavras do Pontífice. Ouvem-se aplausos tímidos e esporádicos.

O 'comandante' ergue a câmera de vídeo. Enterra o olho no visor e seleciona um invisível ponto no vidro blindado que protege a capela. Altura: dois metros. Espera.

         As pesquisas prévias foram concludentes. Não havia outro 'procedimento' .

A gigantesca proteção da genial obra de Michelangelo, situada a dois metros e meio da referida balaustrada, fora fabricada entre 1972 e 1973, conforme as mais modernas técnicas da época. Consta de doze módulos unidos por meio de uma armadura metálica relativamente leve e ancorada às colunas laterais e ao arco superior.

A 26 de março de 1973, o engenheiro Francesco Vacchini, diretor do Ofício Técnico da Fábrica de São Pedro, deu a conhecer algumas das características do vidro à prova de balas. Parte da informação, como é compreensível, foi intencionalmente distorcida. Em suma, tínhamos pela frente uma estrutura de vidro de múltiplas camadas, com uma espessura de 36 milímetros e uma altura máxima de 9,7 metros. O peso total é superior a 1.200 quilos.

Esta 'parede' quase inviolável - preparada para resistir ao impacto de todo tipo de armas curtas, incluídas as de alta potência, rajadas de metralhadoras e 'cetme' - tinha, no entanto, um ponto fraéo. Nossos peritos em vidros especiais detectaram-no imediatamente.

Não estou fazendo referência, obviamente, à utilização de 'lançamísseis', único método seguro para quebrar o vidro. Além de que a introdução de um desses artefatos na basílica teria constituído um importante problema, os efeitos da carga - desastrosos - não tinham nada a ver com os objetivos de 'Gloria Olivae'. Não pretendíamos causar qualquer dano à belíssima Pietà. Como já mencionei, apenas tentávamos provocar os responsáveis pelo Vaticano.

As peculiaridades do vidro blindado e o objetivo perseguido por Os Três Círculos requeriam outro tipo de maquinação, mais 'limpa, sutil e demolidora'.

As análises dos peritos apresentaram um panorama inequívoco. Os 36 milímetros estavam integrados por seis lâminas, separadas entre si pelas correspondentes resinas ou 'intercalários' especiais (PUB ou butiral de polivinilo) de 0,76 a 1,52 milímetros (sempre múltiplos de 0,38), perfeitamente preparadas para suportar as inevitáveis dilatações.

A primeira camada - a mais próxima do público - consistia de um vidro temperado (um 'temperit'). Estes cinco milímetros possuem notável resistência aos choques térmico e mecânico, bem como à fIexão, sem que isso diminua suas qualidades ópticas. Para perfurá-lo mediante o uso de calor precisava-se de cerca de 240 graus centígrados. Quanto à sua carga unitária de ruptura à compressão, oscilava entre 8.000 e 10.000 kgf/cm2 (quilogramas-força por centímetro quadrado). Não admite corte. O ácido ou o jato de areia sob pressão só seriam eficazes se a espessura fosse inferior a 0,3 milímetro.

Após esta fortíssima lâmina havia outras três, de cinco milímetros cada, confeccionadas com policarbonatos e habilmente intercaladas entre outras duas de vidro, de quatro milímetros. Os policarbonatos não sofrem a ação dos ácidos e são capazes de suportar temperaturas que oscilam entre 170 e 200 graus.

Por outro lado, os vidros do tipo 'lamiglás' à prova de balas especiais foram feitos à prova de 'parabellum' (9 milímetros), 'magnum' (357 e 44), espingardas de caça (cartucho 12/68) e 'nato' (7,62 por 51). Sua fusão está estipulada em 1.500 graus.

Tal 'barreira' fora reforçada com um sistema de alarme acústico e uma 'varredura' de raios infravermelhos.

O primeiro, instalado nas portas metálicas existentes em ambos os lados do vidro blindado. A abertura dos pesados portões só era possível após o desligamento de tais alarmes. Atualmente, a única utilizada é a situada do lado direito.

 

Por último, a 'teia de aranha', que vela pela segurança da Pietà, dispõe de uma 'fronteira' infravermelha dupla, armada entre o vidro e a mencionada balaustrada de mármore. O primeiro 'transceptor' (embora não se trate exatamente desse sistema), situado nas bases das colunas que flanqueiam o vidro blindado e a um metro da varanda, 'varre' um pouco mais de cinco metros - sempre na horizontal- e a quarenta centímetros do chão. O segundo detector, também localizado nas bases, 'trabalha' a dois metros do balaústre e a cinqüenta centímetros do pavimento. A 'luz', invisível ao olho humano, cobre o comprimento total da base de cristal: cinco metros.

Estes infravermelhos passivos medem a energia 'IR', irradiada por tudo o que se encontra em sua área de 'visão', detectando as mudanças de níveis de tal radiação. Se um visitante, por exemplo, saltar a balaustrada e tratar de aproximar-se do vidro à prova de balas, o duplo feixe seria interrompido pelo corpo do intruso, provocando o alarme no centro de controle da Segurança Vaticana. Na verdade, o suposto 'louco' não poderia fazer nada, devido às poderosas características da blindagem.

Resumindo. Para coroar o nosso objetivo - a abertura do vidro protetor da Pietà - havia apenas uma possibilidade. Um 'método' que poderia satisfazer as pretensões de Hoffmann. Um sistema silencioso. Invisível para a vigilância vaticana. Rápido. Com um potencial energético regulável e infinitamente superior ao índice de resistência do vidro à prova de balas e suscetível de ser camuflado no interior de uma simples e modesta câmera de vídeo. Este tipo de fIlmadora, assim como os equipamentos fotográficos, é habitual na basílica. Não desperta suspeitas nos sampietrini.

Enfim, uma 'ferramenta' baseada na informação e nas plantas subtraídas na 'cidade dos cientistas', em Genebra..."

Constante Rossi compreendeu. O roubo do cofre do CERN começava a adquirir sentido.

"Mas este novo 'trabalho' - continuava o manuscrito - não deveria ser executado diretamente. Teria sido perigoso. Para que os especialistas do 'terceiro círculo' conseguissem perfurar o vidro e cumprir a missão era preciso inventar uma manobra de distração, praticamente simultânea.

 

                         12 horas e 02 minutos.

Os cálculos do coronel estavam certos. O 'ângelus' estava acabando. Milhares de peregrinos e entusiastas do Papa gritam e aplaudem fervorosamente, sepultando os sons naturais da repleta praça de São Pedro e suas imediações.

Um desses ruídos - no interior - é parcialmente amortizado. Os fiéis que rezam na abside olham-se com estranheza. Acreditam ter ouvido o som de um tiro. Seco. Relativamente nítido.

Victor zera o cronômetro. Acende a 'tocha' e dirige o deslumbrante flash para o pano que ocupa o centro do 'mosaico' blindado. O vidro selecionado tem 3,7 metros de altura por 1,66 de base.

Max liga a 'câmera'. O pulso é excelente. E imediatamente, sobre a primeira camada de vidro, surge uma minúscula incandescência vermelho-amarelada. O laser de 'elétrons livres' entrou em ação.

         O 'comandante' pede a Greder que verifique o limite de perfuração.

         'Dois metros, cinqüenta centímetros e trinta e seis milímetros. Posição correta.'

 

                         12 horas, 02 minutos e 10 segundos.

         Os fiéis levantam-se. Alguns, alarmados, afastam-se das quinze filas de bancos da abside. Recuam até o monumento de Alexandre VII. Dirigem-se para o braço esquerdo do cruzeiro. Os rostos crispam-se. Surgem as primeiras vozes, mas o clamor da praça as sufoca.

Uma fumaça branco-acinzentada, densa e incontível, propaga-se entre o esqueleto de Bernini e o altar do Sagrado Coração de Jesus. A mistura 'fumígena' funcionou com precisão. E ondas sucessivas de uma fumaça irritante brotam pelas grades, aberturas e teto do confessionário localizado a quatro metros do monumento a Alexandre VII.

         Em cinco segundos, boa parte da lateral esquerda da basílica é invadida por uma fumaceira que ganha terreno silenciosamente.

         As pessoas correm. Gritam. Tropeçam.

         Os sampietrini que estão na basílica, atônitos, chegam de todos os lados. Confusão. A barreira cinzenta irrita gargantas e olhos. Não conseguem compreender. Alguém pede extintores. Mas onde está o fogo? O confessionário do falso Nedjelja 'desapareceu', envolvido na interminável combustão do 'berger ao hexacloreto'. O temporizador digital do primeiro cilindro funcionou. A emissão da fumaça prolongarse-á por três minutos.

Os homens de azul ainda não se deram conta do problema. Continuam no exterior. Vários sampietrini, com lenços na boca, aventuram-se valentemente pelo meio da fumaça. Batem uns nos outros. Procuram às cegas na porta da capela de Santa Marta e na da Coluna. Nem rastro de chamas. Um deles topa com o confessionário que esconde as quatro cargas. Os jatos de fumaça forçam-no a recuar.

 

                 12 horas, 02 minutos e 30 segundos.

O feixe invisível do laser prossegue o corte do vidro blindado. Imperturbável, Victor 'canta' os tempos e centímetros conquistados.

Max sua. Segura firmemente a câmera. Seu olho direito vigia o movimento da faísca, único sinal visível da perfuração.

Atenta à cena que se desenrola na extremidade esquerda do templo, a 190 passos do lugar onde se encontram, Helga vê passar os primeiros e atemorizados turistas que fogem do suposto incêndio. Só alguns deles correm.

À altura do disco das coroações, a quinze metros da porta principal, a maioria pára. Observam desconcertados a leitosa cortina que vai ocultando a zona nobre da basílica. Gesticulam. Pedem ajuda em meia dúzia de idiomas. Não sabem o que fazer.

Um dos sampietrini sai pela nave maior e, correndo, abandona o templo. Helga adivinha o seu destino: os homens da Segurança.

         ‘ ... Trinta segundos e cinqüenta centímetros.'

         O protótipo de 'elétrons livres' queima segundo o previsto. Os testes e ensaios foram exaustivos. Só a intervenção dos vigilantes poderia fazer a operação falhar. O FEL (laser free-e/ectron) deve perfurar uma circunferência de 3,14 metros. O centro da mesma foi estabelecido a dois metros do chão.

A falsa 'bateria' pendurada no ombro de Max - de 40 por 20 por 20 centímetros - contém os delicados mecanismos que geram esta família de ondas viajantes (TWTs). A câmera, na verdade, age apenas como um emissor codificado, cuja radiação - no infravermelho não pode ser detectada. Um tubo de raios catódicos miniaturizado 'acelera' os elétrons, graças a uma rede de campos magnéticos. A 'focalização' é obtida com uma fibra óptica de alta potência (para curto comprimento de onda), elaborada com microlentes especiais que proporcionam notável coerência espacial na radiação laser. A outra extremidade da fibra é dirigida por um sensor. No momento de 'focalizar' aperta-se um botão, emitindo uma radiação que é detectada pelo sensoro Esta operação permite a orientação do feixe para o lugar desejado.

A potência foi elevada para dez megawatts (MW) por centímetro quadrado, com uma largura de corte de dois milímetros. Com essa grossura evitava-se o lógico processo de solda das lâminas, submetidas ao poder calórico do FEL. Uma 'força' - como sabem os entendidosextraordinariamente superior à dos /asers convencionais. Um exemplo ilustrará minhas pobres palavras: com um laser de 20.000 volts é possível cortar uma lâmina de vidro de 9,5 milímetros de espessura à razão de 1,5 metro por minuto.

Neste caso, a velocidade de corte - de acordo com a grossura do 'antibalas' - foi programada para cem centímetros cada sessenta segundos.

 

                     12 horas e 03 minutos.

Segunda explosão. O cilindro pendurado no teto do confessionário dispara sua inofensiva porém chamativa carga. A fumaceira adquire proporções alarmantes. A atmosfera torna-se irrespirável. Os sampietrini recuam. Olham-se desesperados. Os extintores não chegam, nem seus colegas da Segurança. Dezenas de fiéis e visitantes emergem da sufocante 'neblina'. Tossem. Gemem. E tropeçando, tentam encontrar         a saída.

'... Sessenta segundos e cem centímetros.'

Helga vê aparecer três homens de azul. Recua. Avisa Victor. Este apaga o flash. Max prossegue.

A Segurança, consternada, contempla das portas a opaca fumaceira que se propaga em todas as direções. Empurrões. Gritos. Os policiais à paisana têm de sair da frente das pessoas. Nem reparam na capela da Pietà. É lógico. Sua atenção está voltada para o fundo da basilica. Após alguns segundos de dúvida correm até o baldaquino. Os jatos de fumaça já escalam a varanda dourada da tumba do Pescador.

 

                 12 horas, 03 minutos e 30 segundos.

Sob o banco, as quinze cargas escondidas na mochila ativam-se simultaneamente, sem detonação.

Chegou a vez da mulher de branco.

Protegendo o rosto com o véu, meio escondida entre a tormenta de fumaça que começa a encher a abside, ela se afasta dos bancos. Entra na lateral direita. Refugia-se entre os confessionários próximos ao altar dos santos Proceso e Martiniano e, aproveitando o caos, deixa cair o conteúdo de uma bolsa que leva pendurada no ombro. Um segundo mais tarde junta-se aos retardatários que estão escapando pelo mencionado flanco. Nem os sampietrini nem os homens da Segurança que se debatem do outro lado das colunas de Bernini observam o gesto de Luisa Vespasiani. Mas apesar do tumulto, percebem um som estranho. Ficam mudos. Olham-se atônitos. O 'repique' sobre os mármores do piso torna-se mais claro. Viram para o lugar de onde vem o enigmático 'metralhamento' . A fumaceira, em vôo rasante, dificulta a identificação. Um dos homens de azul tenta. O resto fica de cara para a muralha de fumaça, tratando em vão de localizar a origem do barulho. Os sampietrini -=. exigindo ordem, extintores e tranqüilidade anulam-se e prejudicam a visão uns dos outros, aumentando ainda mais a confusão.

O agente que se separou do grupo rodeia o sepulcro de Pedro e lança-se para o fundo do cruzeiro. Quando está chegando lá, pára de repente. Perscruta entre os rolos de fumaça. Seus olhos lacrimejam. Aguça o ouvido. O ruído quase desapareceu. Dá um par de passos. Tropeça com um sapato" de mulher. Pára. Alguns fiéis, apavorados, estão a ponto de esmagá-lo. Instintivamente sua mão vai em busca da pistola. Mas ao compreender o risco, enterra-a na cintura. Continua caminhando. Gesticula com ambas as mãos, afastando a fumaça. De repente, espalhadas pelo chão, descobre um punhado de bolas que rolam anarquicamente. Pega uma delas. Examina-a e, perplexo, compreende que se trata de uma bola de pingue-pongue. Há dezenas delas por ali. Seu cérebro se recusa a pensar. Ele não entende nada.

 

                     12 horas e 04 minutos.

A basílica estremece. Duas novas detonações, quase simultâneas, obrigam-no a virar a cabeça. Elas vieram do lado esquerdo. Aparentemente, procedem do meio da espessa 'névoa'. E a densa e branca 'parede' , alimentada por duas outras correntes de fumaça, precipita-se sobre os vigilantes, devorando-os.

Não tem tempo de reagir. A bola que está segurando na mão cospe uma chama fugaz, porém intensa. Aterrorizado, solta-a. A esfera vomita mais algumas vezes, lançando uma fina coluna de fumaça vermelha.

Os olhos sangrentos e chorosos do homem de azul parecem querer sair das órbitas. Ele não pode acreditar naquilo que está vendo. O resto das bolas acabou de explodir. De cada uma delas eleva-se um sinuoso fio de fumaça. Verdes, amarelos, alaranjados, pretos...

E a fumaceira causada pelas bolinhas ilumina-se dramaticamente. 'Dois minutos. Dois metros.'

Max controla os nervos. Sabe que as novas explosões triplicarão a 'neblina', convertendo o templo num 'túnel branco'. Mentalmente, dá ânimo a si mesmo.

'Só um terço. Só um minuto...'

Uma tropa de curiosos permanece na frente das portas. Gemem.Vociferam. Lamentam-se. Não há sampietrini entre esses mórbidos.

Luisa Vespasiani joga a segunda sacola sobre o tapete existente aos pés do monumento a Longinos. Corre pela nave principal e, ao chegar à pia de água benta, deixa cair um último maço de cinco cilindros atrás dos anjos de Cornacchini.

Helga prepara-se. Retira a capa da sombrinha e continua vigilante.

A terceira carga de fumaça, programada para o meio-dia e quatro minutos, foi ativada ao mesmo tempo que as duas cargas depositadas no confessionário do falso Il-Hadd, ao pé do altar da crucificação de São Pedro. As explosões acabam com a calma dos vigilantes. Eles não sabem o que está acontecendo.

O inspetor da guarda junta-se ao desmoralizado grupo. Na praça, o Pontífice fala à multidão sobre o crescente 'paganismo da sociedade e a fumaça do egoísmo, que cega o capitalismo'.

Helga e Victor entreolham-se divertidos.

O agente que descobriu as bolas de pingue-pongue informa ao seu superior. Rubini precipita-se para o lado onde as esferas estão fumegando. Pega uma delas e a examina. Calcula o peso. Compreende. O plástico foi recheado com algumas gramas de mistura 'fumígena' e preparado para a ignição. Aparentemente, nada perigoso.

Mas que diabos significa tudo aquilo?

Sua mente, treinada para as emergências, o adverte. 'Alguma coisa' está acontecendo. Fumaça. Esferas inofensivas... .

Pensa à grande velocidade.

Os extintores chegam. O que fazer com eles? Onde está o fogo?

Um dos sampietrini penetra no meio da fumaça. Pouco depois, reaparece, tossindo e maldizendo. O extintor não funciona. Discutem. Manuseiam nervosamente o extintor. As espirais de fumaça já conquistaram a metade do templo. A Segurança e os sampietrini são obrigados a recuar até o rec1inatório do 'Óbolo de São Pedro'.

 

                 12 horas, 04 minutos e 30 segundos.

A discussão é interrompida. Pelo walkie-talkie o inspetor recebe uma notícia que poderia esclarecer aquele 'pandemônio'.

Chama os seus homens e, correndo, eles se dirigem para a galeria que desemboca nas sacristias.

As dez cargas guardadas na segunda sacola de Luisa desencadeiam  outra erupção. E o colossal Longinos é devorado pela fumaceira.

         '... Dois minutos e meio. Atenção. Faltam cinqüenta centímetros.'

Victor solta o cronômetro. Observa Helga. A mulher coloca-se à esquerda de Max e habilmente tira dois flexores de um arco de aço, previamente 'montados' ao longo do corpo do falso guarda-chuva. Testa a corda. Deixa-a tensa, armada sobre o painel. A balestra está pronta. Puxa uma das cordas engatadas na parte inferior da arma e introduz a afiada cabeça da seta numa ventosa de quinze centímetros.

Greder adora trabalhar com esta mulher. Ela supera a maioria dos homens que ele conhece. Não tem sangue nas veias, só gelo.

A especialista coloca a mão no bolso da calça. Extrai um novelo de corda trançada. Pega a argola embutida numa das extremidades do cabo e a prende no orifício existente no final da peça metálica. Deposita cuidadosamente a flecha na ranhura longitudinal do painel e ergue os olhos para o vidro à prova de balas. Localiza o centro da circunferência que está sendo feita e calcula a distância e inclinação da balestra. Logo depois olha para Victor Greder. E com um enérgico movimento de cabeça, Helga dá a entender que está pronta.

 

                   12 horas, 04 minutos e 45 segundos.

         O inspetor e os homens de azul irrompem no 'Tesouro de 'São Pedro'. Não sabem em que direção devem ir. O labirinto parece deserto.

O plano de Hoffmann transcorre sem contratempos. Com a precisão de sempre.

Rubini foi avisado pelo centro de controle. Um dos alarmes disparou. O computador assinala o Museu Histórico. Alguém forçou uma das umas. Mas infelizmente os serviços da Segurança Vaticana não são suficientemente perfeitos para descobrir de que vitrina se trata. Os policiais terão de percorrer todas as salas, inspecionando os tesouros e tentando prender o ladrão ou os ladrões.

De acordo com o plano, Günter Rosewald, às 12 horas, 04 minutos e 15 segundos, viola a uma que contém as estrelas de ouro e brilhantes doadas a Pio X, situada muito perto da saída. E ainda dispõe de tempo para abandonar o local.

Uma simples e pequena chave de fenda foi suficiente. Günter a espeta entre as paredes de vidro que confluem formando um dos ângulos superiores da vitrina. Ao separar as lâminas, três dos cinco detectores 'piezelétricos' que compõem a caixa - um para cada vidro disparam, alertando o mencionado centro de controle. A diferença de pressão no volume protegido - conseqüência lógica da abertura faz o resto. Um sensor camuflado sob o tecido que recobre o chão da urna confirma o primeiro aviso.

A Segurança morde o anzol. O inspetor Rubini e seus homens afastam-se do templo, atribuindo aquela 'parafemália' a uma 'manobra de distração' que permitirá aos saqueadores obter 'algo' muito mais apetitoso. Suas deduções não estavam erradas. Só se enganaram com relação ao objetivo...

A busca continua. Mas, misteriosamente, as valiosas peças continuam nos seus lugares de costume.

 

                      12 horas, 04 minutos e 50 segundos.

         Victor liga o flash. Daqui a pouco, a fumaça chegará até eles. A 'tocha' ilumina o vidro à prova de balas. Consulta o cronômetro. E avisa:

‘ ... Dez segundos.'

A milimétrica luz avança. O círculo está quase completo.

Helga ergue a balestra. Umedece a ventosa com a língua. Apóia bem os pés. Verifica a corda. Inspira profundamente. Conserva o ar nos pulmões. Aumenta a concentração. A 'faísca' está por fechar a circunferência.

'... Três segundos.'

Dispara. A flecha assobia. Acerta no centro do círculo. As 125 libras de carga foram suficientes. O flash apaga-se. Helga segura a corda, mantendo-a tensa.

 

                          12 horas e 05 minutos.

A quarta e última carga, escondida no confessionário de Nedjelja, explode pontualmente. De acordo com as previsôes, a fumaceira aumenta. Ergue-se até a cúpula e avança inexoravelmente, chegando às pias de água benta, a escassos trinta metros das portas da basílica. Os curiosos, aterrorizados, fogem definitivamente. O Papa doutrina a multidão.

'... Três minutos - avisa Victor com satisfação- Três metros e catorze centímetros.'

Max desliga o vídeo. Pega o flash e dá um passo atrás. O corte foi realizado. Como era de supor, porém, o círculo não cai. No último trecho da perfuração, a lâmina foi se assentando devido à gravidade. Sua vertica1idade, embora precária, exige o uso da força. Chegou a vez do corpulento motorista do caminhão de mudanças.

Helga carrega a balestra. Nova flecha e nova ventosa. Desta vez, não amarrada.

Victor segura a corda. Testa a tensão. A ventosa resiste. Espera.

 

                     12 horas, 05 minutos e 10 segundos.

Incrédulo, Greder examina o cronômetro. Os três agentes entre olham-se, sem compreender. Alguma coisa está falhando.

Max pede calma. Afasta-se em direção à nave maior. É impossível distinguir alguma coisa. A fumaça começa a penetrar pelo lado direito, cobrindo a capela do Crucifixo. Em questão de segundos, ela os sepultará inevitavelmente. Nem rastro dos sampietrini nem dos homens de azul. Devem estar no teatro das explosões e no Museu Histórico. Mas não podem confiar nisso. Têm de agir.

 

                 12 horas, 05 minutos e 15 segundos.

Evidentemente, o último dispositivo falhou. Max retoma e dá uma ordem.

Victor puxa a corda. O vidro oscila. Não acaba de se soltar. Segunda tentativa.

O vidro range. A incandescência estinguiu-se. O arco superior separa-se do módulo. Apesar das dimensões do laser, algumas fIbras do vidro à prova de balas ficaram soldadas.

Greder enrosca o cabo nas mãos e, jogando-se para trás, dá uma terceira e desesperada puxada. O círculo - de um metro de diâmetro - solta-se, precipitando-se estrepitosamente sobre o chão de mármore. A primeira 'barreira' infravermelha acusa o cruzamento da lâmina. As luzes de alerta iluminam-se novamente no centro de controle.

Suando, Victor reúne-se com Max. A corda, abandonada, interrompe o segundo feixe infravermelho. O computador avisa.

Os dois homens dão as costas à tela mutilada. Victor coloca um pequeno audífono no ouvido direito e um crachá na lapela da jaqueta. Agora 'pertence' à Segurança Vaticana.

Vigiam. A fumaceira acaricia a balaustrada. Desliza entre as vinte colunas pequenas. Envolve-os.

 

                 12 horas, 05 minutos e 25 segundos.

A segunda seta parte velozmente. A 'neblina' faz os olhos de Helga lacrimejar.

Uma nova massa de fumaça branca - pontual - caracola na pia

de água benta...

O walkie-talkie chama Rubini.

'Onde?... Na capela da Pietà?... O que é que está acontecendo?' Os vigilantes do centro de controle não podem precisar. Só sabem que alguma coisa ou alguém quebrou as defesas infravermelhas. 'Maldição!... '

O inspetor puxa um dos seus homens, esquecendo-se momentaneamente do museu. Está tranqüilo no tocante à segurança da imagem. O vidro à prova de balas é inviolável.

A flecha penetra através do amplo orifício e bate na testa da Senhora. A ventosa fica grudada. Há algo pendurado na seta.

As espessas 'volutas' batem no muro de vidro. Sobem e penetram pelo buraco, invadindo a capela. .

Helga desmonta a balestra. Coloca a capa do guarda-chuva e, antes de se retirar, lança um derradeiro olhar ao grupo escultórico. Max a apressa.

Rubini e a polícia correm no meio da 'neblina'. O primeiro, orientando-se pelas luzes das colunas, chega à nave maior. A visibilidade é nula. Opta pela direita. Poucos metros à frente bate contra o pilar que sustenta o monumento a Clementina Sobieski. Cai, levemente machucado.

Helga obedece Max.

 

                   12 horas, 05 minutos e 35 segundos.

O inspetor, meio cego e com um acesso de tosse, consegue segurar-se na balaustrada. O que descobre o paralisa.

Naquele momento, uma mulher com um guarda-chuva pendurado no braço, um homem com uma filmadora antiquada e um atlético membro da Segurança Vaticana, descem as escadas próximas ao Arco do Sino. No átrio e na plataforma que se abre aos pés da fachada de São Pedro, grupos de turistas excitados e de peregrinos recuperam-se do susto. Falam de 'fogo e fumaça' no interior da basílica.

A multidão - alheia a isso - aplaude e aclama o polonês. '... Lembrem-se da frase de Cícero...'

O Papa, com sua proverbial teatralidade faz uma pausa.

‘ ... Todas as coisas fmgidas caem como flores secas...'

A multidão, entusiasmada, o interrompe.

'... Nenhuma falsidade, nenhum comunismo ou capitalismo, terão vida longa.'

         Suas palavras seriam premonitórias.

O plano do coronel Hoffmann foi executado com aceitável precisão. O corte e derrubada do vidro blindado, além do lançamento da segunda seta, ocorreram em três minutos e vinte e cinco segundos. Houve uma falha a lamentar. O dispositivo acústico, camuflado no maço de liras e introduzido no 'Óbolo de São Pedro' , não funcionou. O apito intenso, programado para o meio-dia e cinco, tinha uma dupla função. Por um lado, multiplicar a já nada desprezível confusão dos sampietrini e dos homens de azul. Pelo outro, amortizar o possível estrondo causado pelo círculo de vidro ao cair no chão.

Mas Frank felicitou seus homens. 'Gloria Olivae' estava entrando na reta final."

O capitão de Homicídios interrompeu a leitura. Rememorou a conversa breve e cabalística entre Chíniv e o prefetto, quando estavam circulando pelo interior do Vaticano, rumo ao Palácio Apostólico.

Nesse diálogo sucinto porém intenso, o chefe da Segurança e ele mesmo escutaram dos lábios do prefetto uma insinuação sobre certo "incidente" na capela da Pietà. Será que ele estava se referindo a este fantástico relato? Por que Camilo Chíniv replicara com uma não menos enigmática alusão a um "roubo e alguns explosivos"? Longe de ser resolvido, o quebra-cabeças continuava minando o desconcertado Rossi. .

Por que a notícia da violação da blindagem não extravasara? Um fato de tal gravidade teria de ter chegado aos ouvidos dos jornalistas. Ou não?

As respostas a estas perguntas aguardavam no capítulo seguinte. O manuscrito "vermelho" dizia textualmente:

"Alegando-se razões de segurança, a basílica foi fechada durante algumas horas. E como mestres na arte da dissimulação, os responsáveis pela Santa Sé tiveram especial cuidado de silenciar o que acontecera, dando uma versão 'descafeinada'. Não foi difícil.

Ao meio-dia e dez minutos, Camilo Chíniv, comandante da Segurança do Estado Vaticano, contemplava atônito a ruptura da blindagem, enquanto recebia um relatório pormenorizado de tudo o que tinham vivenciado e padecido os serviços de vigilância. Cinco minutos mais tarde, por meio de telefonemas urgentes, o secretário de Estado e o Governatorato eram informados da situação.

O Papa, sem obedecer aos conselhos de Angelo Rodano, iria pessoalmente ao templo ao meio-dia e meia. A fumaça ainda enchia boa parte da basílica. O Pontífice andou ao longo da balaustrada e pediu

para entrar na capela. A seta aderida à testa da Senhora fora prudentemente retirada. O polonês ajoelhou-se aos pés da Virgem. Seu olhar, na saída, fez os presentes tremerem. Seus olhos eram punhais.

 

Acatando instruções, Camilo Chíniv ordenou que o vidro fosse coberto por um amplo pano. Depois reuniu na Sacristia dos Cônegos todos os que tinham testemunhado os acontecimentos, fazendo-lhes prometer que guardariam segredo. A advertência foi clara e inapelável: 'uma informação vazada e todos os envolvidos perderiam seu trabalho'. O pacto foi rompido, naturalmente, por um dos sampietrini, especialista do 'terceiro círculo'.

As 13 horas, o secretário de Estado em pessoa concluía a redação do comunicado que, em caso de necessidade, deveria ser fornecido aos meios de comunicação, através da Sala Stampa. Não passava de cinco linhas. A fumaceira foi atribuída a um 'pequeno fogo' registrado num dos confessionários, devido a um curto-circuito. O atentado contra a blindagem da Pietà, a violação da uma do 'Tesouro de São Pedro', as trinta e seis cargas de fumaça e as vinte bolinhas de pingue-pongue não foram mencionados. A postura sibilina favoreceu os nossos interesses.

O próprio Pontífice examinou o texto, modificando a expressão 'pequeno fogo' por 'fogo inofensivo'. E solicitou que o mantivessem permanentemente informado.

Duas horas mais tarde, no segundo andar do Palácio Apostólico, sede da Secretaria de Estado, iniciava-se uma reunião urgente e altamente reservada, presidida por Rodano. Em volta da mesa oval sentaram-se o chefe da Segurança Vaticana, o engenheiro-diretor dos Serviços Técnicos, o arquiteto-diretor da Reverenda Fábrica de São Pedra, o responsável pelos Monumentos, Museus e Galerias e dois destacados membros da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano: seu presidente, o cardeal e camarlengo Sebastiano Bangio e o autor deste texto, o 'novo' Jozef Lomko.

A ordem do dia era tão simples quanto delicada. Diante de Camilo Chíniv estava a segunda seta disparada por Helga. Na sua extremidade era possível observar um pequeno papel.

Cerimonioso apesar de tudo, o secretário de Estado pediu ao comandante Chíniv que os pusesse a par dos acontecimentos.

         Camilo simplificou a exposição:

         - Um grupo supostamente terrorista, cuja 'assinatura' aparece na cartolina pendurada nesta flecha, conseguiu violar a blindagem que protege a Pietà. O 'trabalho' - temos de reconhecer - foi rápido e eficaz. Pelo que sabemos, três manobras de distração - inócuas e minuciosamente sincronizadas - facilitaram a perfuração do vidro à prova de balas. O Gabinete de Pesquisas Científicas está analisando neste momento as características do 'corte' e o possível instrumental utilizado. Os primeiros indícios levam a um laser de alta energia. O grupo escultórico não foi danificado...

Chíniv fez uma pausa. Percorreu os rostos tensos e acrescentou:

- Eis aqui um dos aspectos mais estranhos. Os terroristas... o comandante retificou -, os supostos terroristas, após a abertura do  vidro, limitaram-se a brincar de tiro ao alvo...

Pegou a flecha e mostrou-a aos presentes.

- Tiveram a Pietà ao seu alcance, porém não a destruiram... Silêncio.

Angelo Rodano incentivou-os a formular todas as perguntas que considerassem oportunas. O temperamental Bangio pulverizou o embaraçoso mutismo com sua voz rouca:

- E quem reivindicou o ataque?

Chíniv desviou o olhar para o secretário de Estado. Com uma leve inclinação de cabeça, Rodano o autorizou a responder:

- A bem da verdade, não sabemos...

E mostrando o papel pendurado da flecha, prosseguiu:

- A 'assinatura'...

Nova retificação.

- ...A suposta 'assinatura' aparece em hebreu clássico...

O camarlengo interrompeu a explicação. E bufando, com o rosto inchado e gorduroso vencido pela ira, cuspiu com desprezo:

- Judeus!

Rodano suplicou calma.

- Não sabemos, eminência - replicou Chíniv usando toda a sua paciência. - Não houve tempo...

         Sebastiano Bangio mexeu-se na cadeira. Apontando para a cartolina, exigiu intolerante:

         - E o que é que esses .blasfemos dizem?

         Temendo perder o controle sobre a reunião Rodano pediu a palavra e, autoritário, sem dirigir-se a ninguém em particular, resumiu a questão:

         - 'A Glória da Oliveira'. Isso é o que diz o papel. E agora, por favor, vamos ao que importa.

E pegando a folha que repousava diante da cruz cardinalícia, passou a ler o sucinto conteúdo. Um texto que, seguindo o estilo vaticano, era muito mais que uma série de propostas...

'Em primeiro lugar, de acordo com o Santo Padre, decidiu-se que este lamentável e grave incidente permaneça em segredo. Razões de estado - políticas e de imagem, sobretudo - assim o aconselham.'

Passeou sua firmeza diante dos presentes, esperando - talvez alguma opinião contrária. Ninguém piscou. E num tom agridoce, muito próprio da escola diplomática vaticana, concluiu:

'Não tenho que lhes recordar que o que foi tratado nesta sala, além de confidencial, será desmentido... no caso de chegar a ouvidos estranhos.'

Instintivamente, a maioria procurou a figura impactante do impulsivo e imprevisível Bangio. O camarlengo, imutável, devolveu o olhar com um sorriso sarcástico. Comecei a tremer.

'Segundo - prosseguiu Rodano. - Urge encontrar uma solução que garanta a segurança da obra de Michelangelo.'

E explicou o que parecia óbvio:

'Uma solução prudente e que, sob nenhum conceito, prejudique a credibilidade e o bom nome da Santa Sé, proprietária e custódia da venerada Pietà.'

E terceiro...

Os quatro leigos, habituados a estes discursos, nem se mexeram. 'Tal solução será posta em prática em caráter de extrema urgência.'

Angelo colocou o papel na luminosa pasta de couro vermelho. E, cruzando as mãos de lenhador, esperou sugestões.

Astutamente, Chíniv perguntou:

- Quando sua eminência fala de 'segredo', refere-se também às possíveis investigações policiais?

Angelo logo captou sua idéia.

- Essa, meu caro Camilo, será uma decisão a ser adotada no seu devido momento. É evidente que ignoramos as autênticas intenções desse grupo. Sejamos prudentes. Esperemos. Na nossa idade aprendemos a distinguir as coisas desejáveis daquelas que convém evitar.

O prelado agradeceu o submisso silêncio do policial. E tentando justificar-se, revelou-lhe algo amplamente conhecido pelo veterano chefe da Segurança.

- Neste lugar, o ideal é agir com um olho aberto e outro fechado...

Silêncio.

Após a fracassada tentativa de Chíniv, ninguém quis se arriscar. 'Uma solução prudente'?

Qual? Onde e como encontrá-Ia? O Vaticano fora pego de surpresa. E agora reuniam-se para salvaguardar seu bom nome. A integridade física da Pietà era importante, naturalmente, mas muito menos que o burlado prestígio da Santa Sé. Essa era a crua realidade. E para conservar este prestígio, obviamente não escamoteariam meios nem maquinações.

O secretário de Estado pigarreou incomodado. Ninguém se manifestou.

         Finalmente, pegando novamente o leme, iniciou uma rodada de consultas, todas elas condenadas ao fracasso.

         - Seria suficiente consertar a blindagem?

         O arquiteto responsável pela Reverenda Fábrica de São Pedro sustentou o olhar de Rodano e respondeu sensatamente:

- Duvido, eminência. Ante o que aconteceu, um 'remendo' não garantiria a segurança da escultura.

O comandante concordou, respaldando o homem da cicatriz na face direita.

- Quanto tempo consumiria a restauração desse vidro?

- Pelo menos uma semana...

Rodano deixou de lado a possível solução. Era tempo demais... para nada. E colocou uma segunda e quase obrigatória questão. - Existe algum vidro que possa resistir à ação de um laser...? Procurou as palavras certas em vão. Camilo acudiu em sua ajuda. - De alta energia.

A resposta foi unânime.

- Duvidamos, mas acreditamos que os peritos deverão emitir um parecer oportuno.

- Impossível- reagiu desanimadamente o prelado -. Devem recordar que não dispomos de margem. Podemos continuar ocultando o 'desastre' com o pano, mas por quanto tempo?

Novo e torrencial silêncio.

- Senhores, pelo amor de Deus! O que mais podemos fazer? O tormentoso Bangio não deixou escapar a ocasião.

- Chegará o dia em que esta perversa humanidade terá de se contentar em admirar cópias...

         - Como podem ver - lamentou Rodano, sem prestar atenção à acertada premonição do camarlengo -, temos um problema.

Achei que aquela era a minha oportunidade. E desculpando-me pela afonia que dificultava minha capacidade de expressão, contribuí com uma idéia que certamente já flutuava no ambiente.

- É óbvio que o atual sistema de blindagem não oferece garantias. Uma segunda e hipotética ação, venha de onde vier, poderia ser irreparável. Como bem disse sua eminência - preparei o terreno -,

         convém somar prudência e sabedoria...

O secretário de Estado absorveu o elogio.

- Por causa da nossa negligência ou falta de coragem, o mundo perderia uma obra-prima. Em princípio, portanto, parece óbvio que a Pietá deva ser retirada do seu pedestal. Pelo menos até que os técnicos estudem a forma de proteção mais adequada.

Como supunha, a proposta foi bem aceita. A única voz dissonante - e neste caso repleta de razão - foi a do polêmico e ranzinza Bangio.

- E que desculpa sua eminência oferecerá à opinião pública? Rodano abortou os risos do camarlengo e com um golpe firme ceifou a grama sob os seus pés.

         - Sua eminência recorda de pelo menos um episódio no qual a Santa Madre Igreja tenha se desculpado?

- Que está insinuando?

Não valia a pena aprofundar o assunto. E Angelo obsequiou-o com um silêncio benevolente. Mas Bangio, desafiador, encheu o ambiente de pólvora: