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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Operação Rhinemann / Robert Ludlum
Operação Rhinemann / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Operação Rhinemann

                      

Segundo semestre de 1943. O desfecho da Segunda Guerra Mundial ainda era duvidoso. Os alemães, de um lado, concentravam todos os seus esforços nos foguetes que, disparados de seu território, deveriam atingir Lon­dres. Os Aliados, de outro lado, preparavam a segunda frente que se iria realizar com o desembarque na Norman­dia. Aviões de grande altitude, capazes de efetuar os bom­bardeios de saturação indispensáveis para a invasão da Europa, tinham absoluta prioridade.

Para que os foguetes de longo alcance funcionassem, eram imprescindíveis os diamantes industriais, que os ale­mães só encontravam numa parte da África em poder dos Aliados. Para os bombardeiros, os Aliados precisavam de um tipo de giroscópio fabricado apenas na Alemanha.

Estava assim criada uma situação de difícil impasse. Governantes, industriais e militares começavam a ceder ao pânico. A única solução se afigura estranha, mas ine­vitável: os inimigos chegam a um acordo inconfessável, e decidem trocar diamantes industriais por giroscópios. Local marcado para a troca: Buenos Aires.

Representando os Estados Unidos, o agente de espio­nagem designado para essa missão nada sabe de concre­to. No entanto, não tarda a perceber que a missão não era tão simples quanto as instruções que recebera faziam supor: e vê-se de repente a ponto de perder o juízo, a vi­da e a vida da mulher amada, num verdadeiro redemoi­nho de desespero.

 

      David?

A moça entrou na sala e observou, em silêncio, o militar de es­tatura elevada que olhava através da janela do hotel. A chuva caía acompanhada do vento frio de março, criando aglomerados de né­voa sobre a paisagem de Washington.

Spaulding voltou-se, cônscio da presença, não da voz.

      Desculpe, você disse alguma coisa?

Notou que ela trazia a capa de chuva e que havia no seu olhar preocupação e medo, mal disfarçados.

      Caso encerrado — disse ela, em voz baixa.

      Caso encerrado — confirmou ele. — Ou estará dentro de uma hora.

      Estarão todos presentes?

Aproximou-se, a capa segura na sua frente como se fosse um escudo.

— Sim, não há opção.. Eu também não tenho opção. — O ombro esquerdo de Spaulding estava envolto em ataduras sob a tú­nica, o braço apoiado numa larga tipóia negra. — Quer me ajudar, por favor? A chuva não vai passar.

Jean Cameron abriu a capa, com relutância.

Deteve-se, olhos fixos no colarinho da camisa militar; depois, nas lapelas do uniforme.

Todas as insígnias tinham sido removidas.

Notavam-se leves descolorações no tecido, onde os emblemas haviam estado.

Não havia indicação de posto, nenhum distintivo de bronze ou prata para identificá-lo. Nem sequer as iniciais douradas do país a que servia.

A que havia servido.

Ele percebeu que ela notara.

      Exatamente como iniciei — disse, em voz baixa. — Sem nome, sem posto, sem história. Apenas um número seguido de uma letra. Quero que eles se lembrem disso.

A moça permaneceu imóvel segurando a capa.

      Vão matá-lo, David.

As palavras eram quase inaudíveis.

      É exatamente o que não farão — replicou, calmamente. — Não haverá assassinos, nem acidentes, nem ordens repentinas me transferindo para Burma, ou Dar es Salaam. Isso está encerrado... Eles têm que ignorar o que eu fiz.

Ele sorriu de leve, acariciando-lhe o rosto. Aquele rosto encan­tador. Inspirou fundo, impondo-se um controle que sentia precário. Deslizou a capa de chuva com todo o cuidado sobre o ombro dele, que estendeu o braço para a manga direita. Por um instante, ela com­primiu o rosto contra as costas do rapaz e ele a sentiu estremecer enquanto dizia:

      Não terei medo. Eu prometi.

 

Transpôs as portas de vidro do Hotel Shoreham e meneou a ca­beça para o porteiro abrigado sob o toldo. Não queria táxi. Que as últimas chamas da ira morressem por si mesma. Uma longa cami­nhada.

Pela última vez na vida envergaria o uniforme. O Uniforme agora desguarnecido de insígnia e identificação. Transporia o segundo grupo de portas do Ministério da Guerra, dando seu nome à polícia militar. David Spaulding.

Diria apenas isso. E seria o bastante; ninguém o deteria, não ha­veria interferências.

Ordens de comandantes anônimos — identificação apenas divi­sional — permitiriam que ele percorresse os corredores cinzentos até uma sala sem indicações.

As ordens se encontrariam na mesa da segurança, em conseqüência de uma outra ordem, cuja origem ninguém seria capaz de apontar. Ninguém compreendia.

Protestavam, ultrajados.

Mas nenhum ultraje se equiparava ao seu.

E eles o sabiam, os comandantes desconhecidos.

Nomes que, meses atrás nada significavam para ele se encon­trariam na sala anônima. Nomes que eram agora símbolos de um abismo de hipocrisia, revoltando-o a tal ponto que julgara enlou­quecer.

Howard Oliver.

Jonathan Craft.

Walter Kendall.

Os nomes soavam inócuos. Poderiam pertencer a centenas de mi­lhares. Havia neles algo de tão. .. americano.

Contudo, aqueles nomes, aqueles homens tinham-no levado à beira da loucura.

Estariam na sala anônima e ele se lembraria de todos os que se encontravam ausentes.

Erich Rhinemann. Buenos Aires.

Alan Swanson. Washington.

Franz Altmüller. Berlim.

Outros símbolos. Outras meadas...

O abismo de falsidade onde ele havia sido atirado pelos... inimigos.

Como havia acontecido, meu Deus?

Como podia ter acontecido?

Mas acontecera, e ele anotara os fatos do seu conhecimento.

Escrevera tudo, colocando o documento num arquivo metálico depositado na caixa-forte de um banco do Colorado.

Impossível encontrá-lo. Encerrado na terra por um milênio... Pois seria melhor assim.

A menos que os homens da sala anônima o forçassem a agir de maneira diferente.

Caso o fizessem... o equilíbrio mental de milhões seria posto à prova. A revolta não respeitaria as fronteiras nacionais nem a causa de qualquer grupo mundial.

Os líderes se tornariam párias.

Assim como ele se tornara um pária.

Um número seguido de uma letra.

 

Alcançou a escadaria do Ministério da Guerra. As pilastras de pedra castanha já não significavam força. Lembravam-lhe apenas uma pasta marrom-clara.

Já não tinham substância.

Transpôs as portas duplas que conduziam ao posto de seguran­ça, ocupado no momento por um tenente-coronel de meia-idade, la­deado por dois sargentos.

      Spaulding, David — falou, em voz baixa.

—    Sua identificação... — O tenente-coronel fixou os ombros da capa, depois o colarinho. — Spaulding.

—    Meu nome é David Spaulding. Minha fonte é Fairfax — repetiu David, em voz baixa. — Verifique seus papéis, soldado.

A cabeça do tenente-coronel ergueu-se movida pela ira, gradual­mente substituída pelo espanto quando fixou o rapaz. Pois David não falara com aspereza, ou indelicadeza. Limitara-se a apontar um fato.

O sargento à esquerda do tenente-coronel colocou uma folha de papel diante do oficial, sem interrompê-lo. O outro examinou-a.

Relanceando rapidamente para David, fez um gesto para que ele passasse.

Descendo o corredor cinzento, capa no braço, Spaulding sentia os olhares que lhe percorriam o uniforme desprovido de qualquer identificação. Várias continências foram feitas com hesitação.

Nenhuma correspondida.

Alguns voltavam-se Outros espiavam do limiar das portas.

Era aquele o oficia , diziam os olhares. Tinham ouvido os boatos trocados aos cochichos, em voz baixa, nos recantos afastados. Era aquele o homem.

Uma ordem fora expedida...

O homem.

 

8 de setembro de 1939

NOVA YORK

Os dois oficiais do Exército, uniformes rigidamente engomados, cabeça descoberta, observavam, através da parede de vidro, o grupo de homens e mulheres vestidos de maneira informal. A sala em que se encontravam estava às escuras.

Uma luz vermelha se acendeu. Os acordes de um órgão soaram nos dois alto-falantes colocados em ângulos opostos do cubículo es­curo, de paredes de vidro. Seguiu-se um ladrar distante de cães animais de grande porte, ferozes e depois uma voz sonora, níti­da, severa, dominou os sons do órgão e o ladrar dos cães.

"Onde quer que exista a loucura, onde quer que soe o grito dos aflitos, você encontrará a silhueta elevada de Jonathan Tyne à espera, espreitando nas sombras, pronto para lutar contra as forças do mal. As visíveis e as invisíveis..."

Súbito, ouviu-se um grito agudo, de dilacerar a mente. "Iiiiiiá!" No interior da sala iluminada, uma mulher obesa piscou para o homem baixinho, de óculos de lentes grossas, que lia uma folha da­tilografada, e afastou-se do microfone, mascando rapidamente um chiclete.

A voz profunda continuou: "Esta noite encontramos Jonathan Tyne correndo em socorro da aterrorizada Lady Ashcroft, cujo ma­rido desapareceu nas nevoentas charnecas da Escócia, há três se­manas, precisamente à meia-noite. E diariamente, à meia-noite em ponto, o uivo dos cães desconhecidos soam nos campos mergulha­dos em trevas. Parecem desafiar o próprio homem que caminha fur­tivamente no nevoeiro espesso. Jonathan Tyne. O defensor das víti­mas indefesas do mal..."

O órgão soou, num crescendo; o ladrar dos cães tornou-se mais frenético.

O oficial mais velho, um coronel, relanceou para o companhei­ro, primeiro-tenente. Olhar traindo preocupação, o rapaz fixava o grupo despreocupado de atores no interior do estúdio iluminado.

O coronel pestanejou.

—    Interessante, não acha?

—    O quê?... Ah, sim, senhor. Muito interessante. Quçm é ele?

—    O sujeito alto, naquele canto. O que está lendo o jornal.

—    Ele faz o papel de Tyne?

—    Quem? Não, tenente. O papel dele é pequeno, creio. Num dialeto espanhol.

—    Um pequeno papel... em dialeto espanhol. O tenente repetiu as palavras do coronel, tom hesitante, expressão perp'exa. Desculpe, coronel, mas estou confuso. Não compreendo o' que viemos fazer aqui. O que ele faz aqui. Pensei que fosse engenheiro civil.

      E é.

O órgão soava, pianíssimo; o ladrar dos cães foi diminuindo. Outra voz mais leve, mais cordial, sem sugestão de drama emergiu das caixas de som.

"Pilgrim. O sabonete com o perfume das flores de maio. O sabonete Mayflower. Pilgrim continua oferecendo a você... As Aven­turas de Jonathan Tyne."

Abriu-se a porta recoberta de cortiça do cubículo e um homem calvo, muito teso, vestindo um terno de corte conservador, entrou, com um envelope pardo na mão esquerda. A direita, ele estendeu ao coronel. E voz baixa, pouco acima de um sussurro, falou:

Olá, Ed. É um prazer revê-lo. Não preciso dizer que sua visita é uma surpresa.

      Suponho que sim. Como vai, Jack?... Tenente, este é o Sr. John Ryan, ex-Major John N. M. I. Ryan, da Sexta Corporação.

O oficial levantou-se.

—    Sente-se, tenente disse Ryan, apertando a mão do rapaz.

—    É um prazer conhecê-lo. Obrigado, senhor.

Ryan enveredou por entre as poltronas de couro negro e insta­lou-se junto ao coronel, diante da parede de vidro. A música de órgão tornou-se mais forte, acompanhando o uivar dos cães. Vários atores e atrizes agruparam-se ao redor de dois microfones, obser­vando um homem que se encontrava por detrás de xrntro cubículo de vidro — este iluminado —, do lado oposto do estúdio.

— Como vai Jane? — perguntou Ryan. — E as crianças?

      Ela detesta Washington. O menino, também. Preferiam con­tinuar morando em Oahu. Mas Cynthia adora. Está com 18 anos e gosta das festas da capital.

A um sinal do homem que se encontrava no cubículo ilumina­do, os atores iniciaram o diálogo. Ryan prosseguiu:

      E você? "Washington" soa bem na ficha.

      Creio que sim, mas ninguém sabe que estou aqui. Para mim não adianta.

—     Oh?

—     G-2.

—     Sim, foi o que depreendi.

      Você parece muito bem, Jack.

Ryan teve um sorriso embaraçado.

      Pouco trabalho. Dez outros sujeitos da agência poderia fazer melhor o que estou fazendo. Mas não têm West Point na ficha. Sou um símbolo da agência, sinal de integridade. Os clientes se sentem atraídos.

O coronel riu.

—    Besteira. Sempre soube lidar com gente endinheirada. Até o alto escalão confiava a você os congressistas.

—    Você me lisonjeia. Pelo menos, creio que está me lisonjeando.

"Iiiiiá!" — fez a atriz obesa, que continuava a mascar chiclete, gritando junto ao segundo microfone. Recuou então, beliscando um ator efeminado que se preparava para falar.

      Há uma porção de gritaria por aqui — observou o coronel.

—    E cães ladrando, e órgão desafinado e uma porção de gemidos e respiração ofegante. Tyne é o nosso programa de maior au­diência.

—    Confesso que já o escutei. A família inteira escuta, desde que voltamos.

—    Você não acreditaria se eu lhe dissesse quem escreve a maior parte dos scripis.

      Quem é?

      Um poeta agraciado com o prêmio Pulitzer. Sob pseudônimo, naturalmente.

—     É estranho.

—     De modo algum. Sobrevivência. Nós pagamos. A poesia, não.

—     É por isso que ele está aqui? — O coronel fez um gesto de cabeça em direção ao rapaz alto, de cabelos escuros, que abando­nara o jornal mas permanecia num canto do estúdio, afastado dos outros atores, recostado na parede de cortiça pintada de branco.

—     Não tenho a menor idéia. Eu não sabia quem ele era, isto é, sabia, mas ignorava tudo a seu respeito, até que você me telefonou. — Ryan entregou ao coronel o envelope pardo. — Aqui está uma relação dos espetáculos e agências em que trabalhou. Fiz uma sindi­cância. Parece que andam pensando nele para um papel de prota­gonista.     Hammerts o utilizam bastante...

      Quem?

      Fazem contratos aos lotes. Têm cerca de 15 programas, se­riados diurnos e espetáculos noturnos. Dizem que ele é uma pessoa de confiança, não cria problemas. É usado exclusivamente para dia­letos, parece. E quando precisam de fluência de linguagem.

—     Alemão e espanhol.

Era uma afirmativa.

—     Certo.

—     Só que não é espanhol, é português.

—     Quem percebe a diferença? Você sabe quem são os pais dele.

Outra afirmativa de resposta antecipada.

—    Richard e Margo Spaulding. Concertistas de piano, muito fa­mosos na Inglaterra e na Europa em geral. Status atual: semi-aposentados em Costa dei Santiago, Portugal.

—    Mas são americanos, não?

—    Completamente. Fizeram questão de que o filho nascesse aqui. Mandavam-no a escolas americanas, onde quer que estivessem. Enviaram-no de volta aos Estados Unidos para os dois anos finais do secundário e, em seguida, a universidade.

—    Então, por que Portugal?

—    Sabe-se lá? Conheceram na Europa seus primeiros sucessos e decidiram ficar, fato pelo qual seremos gratos. Voltam aqui apenas a passeio, que já não é muito freqüente... Sabia que ele é engenheiro civil?

—    Não, não sabia. Interessante.

—    Interessante? Apenas, "interessante"?

Ryan sorriu, com um laivo de tristeza no olhar.

      Bem, nos últimos seis anos não têm havido muitas constru­ções, não é? Não há grande demanda de engenheiros... fora da CCC e da NRA. — Erguendo a mão direita, fez um gesto que abrangia os homens e mulheres reunidos no estúdio. — Sabe o que está ali dentro? Um advogado cujos clientes — quando ele os consegue — não podem pagar; um executivo da Rolls-Royce que está sem traba­lho desde 1938; e um ex-senador, cuja campanha, há poucos anos, não só lhe custou o emprego como uma porção de empregadores em potencial. Consideram-no comunista. Não se iluda, Ed. Você está muito bem. A Depressão ainda não terminou. Esses aí têm sorte. Encontraram passatempos que transformaram em carreiras... enquanto durarem.

—    Se eu fizer o que preciso, a carreira dele não durará mais de um mês, a partir de agora.

—    Calculei isso. A tempestade está se armando, não é? Estaremos envolvidos muito breve. E eu voltarei também... Onde quer utilizá-lo?

      Lisboa.

 

David Spaulding afastou-se da parede branca do estúdio, segu­rando as páginas do script, enquanto se aproximava do microfone, preparando-se para a deixa.

Pace observou-o através da parede de vidro, perguntando a si mesmo como soaria a voz de Spaulding. Notou que, quando ele se aproximou do grupo de atores reunidos ao redor do microfone, houve um consciente — ou talvez inconsciente — afastamento, como se o novo participante fosse de certo modo um estranho. Talvez não passasse de uma cortesia normal, permitindo ao novo intérprete uma chance para se situar, mas o coronel achou que não. Não houve sor­risos, nem olhares, nem sinais de familiaridade, como se notava entre os outros.

Ninguém piscou. Até a mulher obesa, que gritava e mascava chi­clete e beliscava os outros atores, limitou-se a observar Spaulding, lábios imóveis.

E então ocorreu algo estranho.

Spaulding sorriu e os outros, até o homem magro e efeminado que se encontrava no meio de um monólogo, reagiram com sorrisos e movimentos de cabeça. A mulher obesa piscou.

Um momento estranho, pensou o Coronel Pace.

A voz de Spaulding — semi-grave, incisiva, com fortte sotaque — emergiu das caixas de som. Ele fazia o papel de um médico louco que chegava às raias do grotesco. Seria cômico, pensou Pace, não fosse a autoridade que Spaulding emprestava ao script. O coronel não entendia de teatro, mas sabia quando alguém se mostrava con­vincente. E Spaulding era convincente.

Isto seria necessário em Lisboa.

Dentro de minutos, o papel do rapaz estava terminado. A mulher obesa tornou a gritar. Spaulding recuou para o canto e, em silêncio, zelando para que as páginas não fizessem ruído, voltou ao jornal. Recostando-se à parede, tirou um lápis do bolso. Aparente­mente, estava resolvendo as palavras cruzadas do The New York Times.

Pace não conseguia afastar os olhos de Spaulding. Era importante para ele observar, sempre que possível, qualquer pessoa com quem entraria em contato. Observar pequeninas coisas: a maneira de andar, de manter a cabeça, a firmeza ou instabilidade do olhar; as roupas, o relógio, as abotoaduras; se os sapatos estavam engraxa­dos, os saltos desgastados; a qualidade — ou ausência dela — na postura do homem.

Pace tentou equacionar o ser humano recostado à parede, escre­vendo no jornal, com o dossiê que se encontrava em sua sala de Washington.

O nome surgira pela primeira vez dos arquivos do Corpo de Engenharia Militar. David Spaulding havia estudado as possibilida­des de uma comissão. Não se apresentara como voluntário — queria saber quais as suas oportunidades. Havia projetos de construção in­teressantes? Qual a duração do alistamento? O tipo de perguntas que milhares de homens — homens especializados — andavam fazendo, ao saber que a Lei de Serviço Seletivo seria promulgada dentro de uma ou duas semanas. Se o alistamento significasse um período de serviço mais curto e/ou o aproveitamento de talentos profissionais, então seria melhor alistar-se do que ser convocado com a multidão.

Spaulding havia preenchido todos os formulários apropriados e tinham-lhe dito que o Exército entraria em contato com ele. Isso fora seis semanas antes, e ninguém o procurara. Não que estivessem desinteressados. Os homens de Roosevelt diziam que a lei de con­vocação seria aprovada pelo Congresso muito breve e a planejada expansão dos acampamentos militares era tão imensa, tão inacredita­velmente maciça, que um engenheiro — em especial um engenheiro de estruturas com as qualificações de Spaulding — era material prioritário.

Mas elementos de projeção no Corpo de Engenheiros estavam a par da busca feita pela Divisão de Informação do Alto Comando Unido do Ministério da Guerra.

Discretamente, devagar. Não se podia cometer erros.

Assim, passaram adiante, para o G-2, os formulários de David Spaulding e receberam ordens de se conservarem a distância.

O elemento que a DI procurava exigia três qualificações básicas. Uma vez estabelecidas, o restante do retrato poderia ser minucio­samente estudado para se verificar se o todo possuía as outras quali­dades desejáveis. As três básicas já eram por si bastante difíceis: a primeira, falar português fluentemente; a segunda, igual domínio do alemão; a terceira, experiência profissional em engenharia estru­tural, o suficiente para permitir a compreensão rápida e correta de plantas, fotos — inclusive descrições verbais — da mais ampla va­riedade de desenhos industriais, desde pontes e fábricas, até depó­sitos e complexos ferroviários.

O homem de Lisboa precisaria destas qualidades básicas e as utilizaria durante toda a guerra que estava por se desencadear; a guerra em que os Estados Unidos inevitavelmente combateriam.

O homem de Lisboa seria responsável pela criação de uma rede de informações primordialmente destinada à destruição das instala­ções inimigas no interior de seu próprio território.

Certos homens — e mulheres — viajavam de um lado para outro em território hostil, baseando suas atividades indefiníveis em países neutros. Tais pessoas o homem de Lisboa utilizaria  antes que outros o fizessem.

Alguns, ele treinaria para infiltração. Unidades de espionagem. Grupos de agentes bilíngües e trilingues, que ele enviaria através da França, penetrariam as fronteiras alemãs para trazerem de volta suas observações e eventualmente provocarem destruição.

Os ingleses concordavam em que era necessário um americano em Lisboa. O Serviço de Informação britânico admitia sua fraqueza em Portugal; estavam presentes havia muito tempo, eram em dema­siado óbvios. E havia lapsos atuais muito sérios na segurança em Londres. O MI-5 estava infiltrado.

Lisboa tornara-se um projeto americano.

Desde que se encontrasse o homem certo.

Os formulários preenchidos por David Spaulding relacionavam os pré-requisitos. Ele falava três idiomas desde criança. Seus pais, os renomados Richard e Margo Spaulding, possuíam três residências: um pequeno e elegante apartamento em Londres; uma casa de in­verno em Baden-Baden, Alemanha; e uma ampla moradia junto ao oceano, na colônia de artistas de Costa dei Santiago, em Portugal. Spaulding crescera nesse ambiente. Quando estava com 16 anos, o pai —- apesar das objeções da mulher — insistiu em que ele comple­tasse a educação secundária nos Estados Unidos e ingressasse numa universidade americana.

Andover, em Massachusetts; Dartmouth, em New Hampshire; e finalmente o Carnegie Institute, na Pensilvânia.

É claro que o Departamento de Informação não descobrira tudo isso nos formulários de aplicação de Spaulding. Os fatos suplemen­tares — e muito mais ainda — foram revelados por um homem cha­mado Aaron Mandel, em Nova York.

Pace, olhos fixos no homem alto e esguio que baixara o jornal e observava os atores, divertido e distante, recordou seu único en­contro com Mandel. E mais uma vez comparou as informações com o homem que se encontrava na sua frente.

Mandel fora colocado no formulário sob o título de "Referências". Procurador, agente de concertos dos pais. E o endereço: uma série de salas no edifício Chrysler. Mandel era representante de ar­tistas de sucesso, judeu russo que rivalizava com Sol Hurok na clientela, embora não se mostrasse, como o outro, inclinado e desejoso de chamar atenção.

—    David foi um filho para mim — disse Mandel a Pace. — Mas devo supor que já sabe.

—    Por quê? Sei apenas o que li nos seus formulários de aplicação. E alguma informação solta: boletins acadêmicos, referências profissionais.

—    Digamos que eu estava esperando você. Ou alguém como você.

—    Não compreendo.

—    Ora, deixe disso. David viveu muitos anos na Alemanha. Pode-se quase dizer que ele se criou ali.

—    Seus papéis de aplicação e também o passaporte incluem residências de família em Londres e num lugar chamado Costa del Santiago, em Portugal.

—    Eu disse "quase". E ele fala com fluência o alemão.

—    E também o português, pelo que soube.

—    Também. E a língua irmã, o espanhol... Eu não sabia que o ingresso no Corpo de Engenharia do Exército exigia a atenção de um coronel. E o exame do passaporte...

Mandel sorriu, franzindo o rosto ao redor das pálpebras.

—    Eu não estava preparado para uma pessoa como o senhor — disse o coronel, com simplicidade. — A maioria das pessoas aceita isto como rotina. Ou se convencem de que é rotina... com um pouco de ajuda.

—    A maioria não vive como os judeus na Kiev czarista... Que deseja que eu faça?

—    Para começar, disse a Spaulding que nos esperava? Ou alguém. ...

—    Claro que não interrompeu Mandel, com delicadeza. Já disse que para mim ele é como um filho. Não gostaria de sugerir-lhe tais idéias.

—    É um alívio. Talvez não dê em nada.

—    Mas espera que sim.

—    Francamente, espero. Mas há perguntas que precisam de res­posta. Seu background é não só fora do comum como aparentemente cheio de contradições. Para começar, não se espera que o filho de músicos de renome...isto é...

—    Concertistas — Mandel forneceu o termo que Pace buscava.

—    Sim, concertistas. Não se espera que filhos de gente assim se tornem engenheiros. Ou contadores, se é que me entende. Além disso tenho certeza de que o senhor compreenderá —, parece muito ilógico que, uma vez aceito o fato, isto é, que o filho seja engenheiro, venha-se a saber que a maior parte de sua renda atual seja ganha como. . . intérprete radiofônico. O quadro indica um certo grau de instabilidade. Talvez mais que "um certo".

—    Vejo que sofre da mania americana da consistência. Não é uma censura. Considero-me menos adequado como neurocirurgião; é possível que o senhor toque piano muito bem, mas duvido que eu o representasse em Covent Garden...As perguntas que faz são fá­ceis de responder. E talvez a palavra estabilidade possa ser encontrada no âmago... Faz alguma idéia do que seja o mundo dos concertos? Loucura...David viveu nesse mundo por quase 20 anos. Descon­fio... não, não desconfio, sei... que isso não lhe agradava... É freqüente as pessoas ignorarem certas características fundamentais da musicalidade. Características facilmente hereditárias. Um grande músico é muitas vezes, à sua maneira, um matemático excepcional. Veja Bach. Um gênio da matemática...

Segundo Aaron Mandel, David Spaulding encontrara sua futura profissão no segundo ano de universidade. A solidez, a permanência da criação estrutural, combinadas à precisão dos detalhes de enge­nharia, revelaram-se ao mesmo tempo a solução e a fuga do mundo tumultuado dos palcos de concerto. Mas havia outras características hereditárias também em ação. Spaulding tinha personalidade, senso de independência. Precisava de aprovação, de ser reconhecido. E tais recompensas não eram facilmente obtidas por um jovem engenheiro recém-saído da faculdade, trabalhando numa grande firma nova-iorquina em finais da década de 30. Não havia simplesmente muito o que fazer, nem o capital para realizá-lo.

      Ele deixou a firma de Nova York prosseguiu Mandel para aceitar diversos projetos individuais, onde, segundo acreditava, ganharia dinheiro mais rápido e trabalharia com independência. Não tinha compromissos... podia viajar. Vários no Meio Oeste, um... não, dois na América Central, quatro no Canadá, creio. Conseguiu os primeiros em anúncios de jornal. Estes levaram a outros. O di­nheiro não chegou assim tão rápido, conforme eu mesmo lhe havia dito. Os projetos não eram dele. Eram provincianos...havia interferência local.

      E isso o levou ao trabalho no rádio?

Mandel riu, recostando-se na cadeira.

—    Como deve ter percebido, Coronel Pace, eu divaguei. Os concertos e uma guerra na Europa que em breve chegará a estas plagas, como todos percebemos não se coadunam. Nos últimos anos, meus clientes passaram a outros setores, inclusive o muito bem pago campo radiofônico. David percebeu rapidamente úma oportuni­dade para si e eu concordei. Saiu-se bem, como deve saber.

—    Mas não é um profissional treinado.

—    Não, não é. Contudo, possui algo diferente...Pense. A maioria dos filhos de intérpretes famosos, políticos de destaque ou famílias imensamente ricas possui essa qualidade. É a confiança no público; uma segurança, se preferir, seja qual for a sua insegurança interior. Afinal, estão em exibição desde que começam a caminhar e falar. David a possui, com certeza. E tem bom ouvido, como os pais, é óbvio. Uma memória auditiva para ritmos musicais ou lin­güísticos... Ele não representa, lê. Quase exclusivamente nos dia­letos ou idiomas estrangeiros que fala com fluência...

A incursão de David Spaulding no "muito bem pago campo ra­diofônico" foi motivada exclusivamente pelo dinheiro. Estava habi­tuado a viver bem. Numa época em que os proprietários de firmas de engenharia achavam dificuldade em garantir para si mesmos 300 dólares semanais, Spaulding ganhava 300 ou 400 apenas com o tra­balho no rádio.

—    Conforme dev,e ter concluído disse Mandel —, o objetivo imediato de David é reunir uma quantia suficiente para fundar sua própria firma. Imediato, a menos que alterado pela conjuntura na­cional ou internacional. Ele não é cego. Basta ler os jornais para ver que estamos sendo arrastados para a guerra.

—    Acha que deveríamos ser?

—    Sou judeu. Na minha opinião já estamos atrasados.

Esse Spaulding. Descreveu o que me parece um homem de muitos recursos.

      Descrevi apenas o que poderia ter descoberto em diversas fontes. E você descreveu a conclusão tirada daquela informação su­perficial. Não é o quadro total.

A essa altura, Pace recordava, Mandel levantara-se, evitando-lhe o olhar, e passara, a, caminhar pela sala. Buscava pontos negativos; tentava descobrir palavras que desqualificassem "seu filho" para os interesses do governo. Pace percebera-o muito bem.

— O que deve tê-lo impressionado no que contei é a preocupa­ção de David consigo mesmo, com o seu conforto, se preferir. Do ponto de vista dos negocies, é algo que deve ser aplaudido, e por isso combati sua preocupação com a estabilidade. Mas não seria franco se omitisse que David é extraordinariamente obstinado. Ele age muito mal — segundo me parece — sob uma autoridade. Em suma, é egoísta, pouco inclinado à disciplina. Lamento dizê-lo. Gosto muito dele...

E quanto mais Mandel falava, mais indelével se tornava para Pace a palavra "afirmativo'' no dossiê de Spaulding. Não que acre­ditasse por um só instante nos extremos de comportamento que o velho atribuía a David.

Ninguém poderia agir com tanta "estabilidade" se tal fosse ver­dade. Ainda que apenas metade fosse correto, não se tratava de defei­to, mas de qualidade.

A última das exigências.

Assim, caso houvesse algum soldado no Exército dos Estados Unidos — com ou sem uniforme — forçado a agir com independên­cia, sem o conforto da cadeia de comando, sem o conhecimento de que difíceis decisões seriam tomadas por seus superiores, este era o oficial de Informação em Portugal.

O homem de Lisboa.

 

8 de outubro de 1939

FAIRFAX, VIRGÍNIA

Não havia nomes.

Apenas números e letras.

Números seguidos de letras.

Dois-Seis-B. Três-Cinco-Y. Ginco-Um-C.

Não havia história pessoal, background individual... nenhuma referência a esposa, filhos, pai, mãe... a países, cidades, local de nascimento, escolas, universidades; havia apenas corpos, mentes e in­teligências independentes, específicas, reativas.

O local era no interior da região de caça da Virgínia, 220 acres de campos, colinas e regatos de montanha. Havia extensões de flo­resta espessa junto a trechos descampados. Pântanos — perigosos, com solo de areia movediça e habitantes hostis, répteis e insetos — encontravam-se a poucos metros de rochedos debruçados sobre ines­perados precipícios.

O local fora selecionado com cuidado, precisão. Era delimitado por uma cerca de quatro metros e meio de altura, através da qual uma corrente elétrica paralisadora — não letal — fluía continua­mente; e a cada três metros encontrava-se um severo cartaz, avisan­do aos que se aproximassem que aquela extensão particular de ter­ra... floresta, pântano, descampado e colina... era propriedade ex­clusiva do Governo dos Estados Unidos. Quem a invadisse estava devidamente informado de que a entrada era não só proibida como extremamente perigosa. Títulos e parágrafos de leis específicas, rela­tivas a exclusividade, eram indicados juntamente com a voltagem da cerca.

O terreno era tão diverso quanto se poderia encontrar a distância razoável de Washington. De um modo ou de outro, harmoni­zava-se notavelmente cóm a topografia dos locais projetados para o treinamento daqueles que se encontravam no interior do imenso re­cinto.

Números seguidos de letras.

Nada de nomes.

Havia um único portão no centro do perímetro norte, ao qual se chegava por uma estrada do interior. Sobre o portão, entre as duas casas da guarda, via-se um letreiro metálico, que dizia, em letras de imprensa: "QUARTEL-GENERAL DA DIVISÃO ATIVA - FAIRFAX".

Não havia qualquer outra descrição ou propósito identificado Diante de cada casa da guarda havia avisos idênticos aos colocados ao longo da cerca, anunciando a exclusividade, as leis e a vol­tagem.

Não havia possibilidade de erros.

David Spaulding recebera uma identidade — sua identidade de Fairfax. Era Dois-Cinco-L.

Sem nome. Apenas um número seguido de uma letra. Dois-Cinco-L.

Tradução: Seu treinamento seria encerrado no quinto dia do segundo mês. Destino: Lisboa.

 

Era inacreditável. No espaço de quatro meses, um novo tipo de vida — de viver — teria que ser absorvido com totalidade tão abso­luta que sua aceitação se tornava quase impossível.

-— Você provavelmente não conseguirá — disse o Coronel Ed­mund Pace.

— Não tenho certeza de que quero — foi a resposta de Spaulding.

Mas parte do treinamento era motivação. Profunda, sólida, ar­raigada, para além de qualquer dúvida..., mas não da realidade psi­cológica percebida peio candidato.

Com o Dois-Cinco-L, o Governo dos Estados Unidos não acenou bandeiras nem agitou causas patrióticas. Tais métodos não te­riam sentido; o candidato passara seus anos de formação fora do país, num sofisticado ambiente internacional. Falava a língua do fu­turo inimigo, conhecia-o como pessoa — motorista de táxi, donos de mercearias, banqueiros, advogados — e a ampla maioria dos que conhecia não eram os alemães fantasiados pelas máquinas de pro­paganda. — Em vez disso — e este era o legítimo apelo de Fairfax

   tratava-se de pobres idiotas, conduzidos por criminosos psicopatas. Os líderes eram na verdade fanáticos e a arrasadora evidência provava seus crimes para além de qualquer dúvida. Esses crimes in­cluíam matança indiscriminada, tortura e genocídio.

Para além de qualquer dúvida.

Criminosos.

Psicopatas.

Além disso, havia Adolf Hitler.

Adolf Hitler matava judeus aos milhares. Breve seriam milhões, se sua solução final fosse corretamente interpretada.

Aaron Mandel era judeu. Seu segundo "pai" era judeu, o pai a quem ele amava mais que o verdadeiro. E os malditos idiotas tole­ravam um ponto de exclamação depois da palavra "Judeu!"

David Spaulding poderia odiar os malditos idiotas os motoristas de táxi, os donos de mercearia, os banqueiros, os advogados sem muita compunção, nas circunstâncias.

Além desse approach racional, Fairfax utilizava uma arma psicológica secundária que se tornara padrão no recinto, mais para uns que para outros, porém sempre presente.

Os que treinavam em Fairfax possuíam em comum uma qualidade ou um defeito, dependendo do ponto de vista. Sem ela nin­guém era aceito.

Um espírito de competição altamente desenvolvido. O impulso para vencer.

Sobre isto não havia dúvidas. A arrogância não era um traço desprezado em Fairfax.

No caso de David Spaulding — dossiê progressivamente aceito pelo Departamento de Informação — os comandantes de Fairfax re­conheceram que o candidato em treinamento para Lisboa possuía um ponto fraco que a vida ativa poderia enrijecer — enrijeceria sem dúvida, se ele conseguisse sobreviver —, mas quaisquer que fossem os progressos no recinto tanto melhor. Especialmente para o interes­sado.

Spaulding era confiante, independente, extremamente versátil nos ambientes... até aí tudo bem; mas Dois-Cinco-L tinha uma fraque­za. Havia em sua psique uma lentidão para tirar vantagem imediata, uma hesitação para saltar na brecha quando a sorte era à seu favor. Tanto verbal como fisicamente.

O Coronel Edmund Pace percebeu esta falha na terceira semana de treinamento. O código abstrato de justiça que orientava Dois-Cinco-L não serviria em Lisboa. E o Coronel Pace conhecia a so­lução.

O ajuste mental seria feito através de processos físicos.

 

"Captura, Imobilização e Libertação" era o título insípido do curso que continha o mais árduo treinamento físico de Fairfax: o combate corpo a corpo. Faca, correntes, arame, agulha, corda, dedos, joelhos, cotovelos... jamais um revólver.

Reação, reação, reação.

Exceto quando era a pessoa que iniciava o ataque.

Dois-Cinco-L fazia bons progressos. Era um homem alto, mas possuía a rápida coordenação em geral associada a uma pessoa mais compacta. Seu progresso, portanto, precisava ser retardado; o homem, humilhado. Assim, aprenderia as vantagens práticas das oportuni­dades.

De homens mais baixos, mais arrogantes.

O Coronel Edmund Pace "pediu emprestado" aos ingleses os melhores elementos de suas unidades de comando. Transportados pelo Bomber Ferry Command, três espantados "especialistas" foram discretamente introduzidos no recinto de Fairfax, onde receberam ins­truções.

— Derrubem o Dois-Cinco-L. Foi o que fizeram durante várias semanas. E súbito descobriram que já não conseguiam fazê-lo com im­punidade.

David Spaulding não quis aceitar a humilhação; tornara-se tão bom quanto os especialistas.

O homem de Lisboa estava progredindo.

O Coronel Edmund Pace recebeu os relatórios em sua sala do Ministério da Guerra.

Tudo corria de acordo com os planos.

As semanas transformaram-se em meses. Todas as armas portá­teis ofensivas e defensivas, todos os ardis de sabotagem, todos os métodos concebíveis de ingresso e egresso — aparente e disfarçado — foram exaustivamente estudados pelos que treinavam em Fairfax. Códigos e variações tornaram-se linguagem fluente; fabricação ime­diata, uma segunda natureza. E Dois-Cinco-L continuou a progredir. Sempre que parecia haver um esmorecimento, instruções mais seve­ras eram expedidas aos "especialistas" em Captura, Imobilização e Libertação. A chave psicológica estava patente na humilhação fí­sica.

Até que deixou de ser viável. Os comandos foram ultrapassados.

Tudo segundo os planos.

—    Você talvez consiga, afinal — disse o coronel.

—    Não sei bem o que consegui — replicou David, envergando seu uniforme de primeiro-tenente, tomando um drinque no Mayflo-wer Cocktail Lounge. E riu silenciosamente. — Suponho que se dis­tribuíssem diplomas em Atividades Criminais Avançadas eu estaria qualificado.

O treinamento de Dois-Cinco-L estaria completo dentro de 10 dias. A licença de 24 horas era uma irregularidade, mas Pace a exi­gira. Precisava conversar com Spaulding.

      Isso o aborrece? — perguntou.

Spaulding fitou o coronel por sobre a reduzida mesa.

—    Se eu tivesse tempo para pensar, com certeza. Não o aborrece?

—    Não, porque compreendo as razões.

—    OK. Neste caso, eu também.

-— Elas se tornarão mais nítidas em ação.

      Claro — concordou David, secamente.

Pace observava Spaulding com atenção. Como era de se esperar, o rapaz se modificara. Desaparecera-lhe a graça ligeira, um tanto mimada, de inflexões e gestos. Fora substituída por uma rigidez, uma concisão de movimentos e palavras. A transformação não estava completa, mas bastante adiantada.

A pátina do profissional começava a emergir. Lisboa acabaria de enrijecê-lo.

Está impressionado com o fato de Fairfax tê-lo levado a saltar um posto? Eu levei 18 meses para ganhar esta barra de prata.

      Tempo, novamente. Não tive tempo para reagir. Nunca usei Uniforme até o dia de hoje. É desconfortável.

Alisou a túnica com a mão.

—     Ótimo. Não se habitue a ele.

—     Estranho que diga isso. ..

—     Como se sente? perguntou Pace, interrompendo-o.

David fitou o coronel. Por um instante, a graça, a suavidadeaté mesmo o humor irônico — emergiram.

—    Não sei bem... É como se eu tivesse sido fabricado numa linha de montagem muito rápida. Uma espécie de engrenagem a toda velocidade, se é que me entende.

—    De certo modo, é uma descrição correta. Só que você prestou à fábrica uma grande contribuição.

Spaulding girou lentamente o copo, fixando primeiro os cubos de gelo, depois Pace.

—    Gostaria de aceitar isto como um cumprimento disse, em voz baixa. Mas creio que não posso. Conheço as pessoas com quem venho treinando. São extraordinárias.

—    Estão altamente motivadas.

—    Os europeus são tão doidos como aqueles a quem querem combater. Têm as suas razoes. Não posso questioná-las...

—    Bem, não temos tantos americanos assim interrompeu o coronel  Ainda não.

—    Os que existem estão a dois passos da penitenciária.

—    Não são do Exército.

—    Eu não sabia disse Spaulding rapidamente, acrescentando ao óbvio um sorriso. Naturalmente.

Pace ficou aborrecido consigo mesmo. A indiscrição era peque­na, mas ainda assim uma indiscrição.

      Não tem importância. Dentro de 10 dias estará na Virgínia. O uniforme desaparecerá então. Para dizer a verdade, foi por engano que lhe entregaram esse. Somos ainda novatos neste tipo de coisa; tegras de requisição e fornecimento são difíceis de modificar.

Pace bebeu, evitando o olhar de Spaulding.

—    Pensei que me considerassem uma espécie de adido militar na Embaixada. Um entre muitos.

—    Sim, para o registro. Farão a sua ficha. Mas há uma diferença, que faz parte do papel. Você não gosta de uniforme. Nós achamos que não deve usá-lo. Jamais. Pace pousou o copo e fixou David. Você conseguiu um lugar muito seguro, muito con­fortável,, por causa dos idiomas, das residências e dos conhecimentos de sua família. Em suma, fugiu o mais rápido possível quando soube que havia uma chance do seu bonito pescoço ingressar de fato no Exército.

Spaulding meditou um instante.

      Parece lógico. Por que isto o preocupa?

      Por que somente um homem da Embaixada saberá a verda­de. Ele se identificará... Após algum tempo, os outros talvez des­confiem. Mas não terão certeza. Nem o embaixador, nem o pes­soal...Estou tentando dizer que você não será muito apreciado.

David riu silenciosamente.

      Espero que me transfira antes do linchamento

A réplica de Pace foi rápida, tranqüila, quase seca.

      Outros serão transferidos. Você, não. Spaulding retribuiu em silêncio o olhar do coronel. Não compreendo disse, em seguida.

Creio que não posso explicar com clareza. Pace pousou o drinque na mesinha de coquetel. — Terá que começar devagar, com extrema cautela. O MI-5 britânico forneceu-nos alguns nomes, não muitos, o suficiente para o início. Mas você terá que construir sua própria rede. As pessoas terão contato somente com você e mais ninguém. Isto exige freqüentes viagens. Acreditamos que gravite para o norte, atravessando a fronteira da Espanha, até o país basco, quase todo antiíalangisra. Cremos que a região ao sul dos Pireneus se tor­nará ponto de encontro e via de fuga... Não nos iludimos: a Ma-ginot não resistirá. A França cairá...

—    Jesus! murmurou David. Vocês andaram fazendo uma porção de pesquisas.

—    É quase a única coisa que fazemos. É a razão da existência de Fairfax.

Spaulding recostou-se na cadeira, girando o copo novamente,

      Compreendo a formação da rede; de um jeito ou de outro, é para isso que estamos treinando. É a primeira vez que ouço falar no norte da Espanha, na região basca. Conheço o país.

      Talvez estejamos enganados. É apenas uma teoria. Você po­deria descobrir os caminhos marítimos... Mediterrâneo, Málaga, Biscaia, ou a costa portuguesa..., mais praticável. Você terá que decidir. E criar.

— Está bem. Compreendo... Que é que isto tem a ver com transferência?

Pace sorriu.

—    Ainda nem chegou ao seu posto e já está pedindo uma licença?

—    Você aludiu ao assunto. E um tanto bruscamente, creio.

Sim, aludi. — O coronel mudou de posição na minúscula cadeira. Spaulding era muito rápido. Agarrava-se às palavras e uti­lizava curto espaço de tempo para maximizar sua eficácia. Seria ótimo nos interrogatórios. Perguntas rápidas, ásperas. Em ação. — Decidimos que você permanecerá em Portugal em condição perma­nente. Quaisquer licenças normais ou "anormais" que lhe sejam concedidas serão passadas no sul. Há uma série de colônias ao longo da costa...

—    Costa del Santiago entre outras — interveio Spaulding, a meia voz. — Refúgios dos ricaços internacionais.

—    Exatamente. Crie coberturas ali. Circule com seus pais. Tor­ne-se um elemento do ambiente. —- Pace tornou a sorrir, desta vez com hesitação. — Há trabalhos piores.

—    Não conhece aquelas colônias.. . Se é que entendi, como dizemos em Fairfax, o Candidato Dois-Cinco-L deve dar uma boa olhada nas ruas de Washington e Nova York, porque não tornará a vê-las por muito tempo.

—    Não podemos nos arriscar a trazê-lo de volta depois de ter criado a rede, supondo-se que consiga fazê-lo. Se por qualquer razão tiver que voar para fora de Lisboa, rumo a território aliado, haverá uma corrida do inimigo para acompanhar todos os movimentos que fizer durante meses. Isso prejudicaria tudo. Você estará mais seguro — nossos interesses estarão mais seguros — se permanecer esta­cionário. Os ingleses nos ensinaram isso. Alguns dos seus agentes operam no mesmo local há anos.

—    Isso não é muito consolador.

—    Você não faz parte do MI-5. Sua tarefa terá a duração da guerra. E ela não será eterna.

Foi a vez de Spaulding sorrir, o sorriso de alguém surpreendido numa situação que ainda não definira.

      Há algo de louco nessa declaração... "A guerra não será eterna"...

—     Por quê?

—     Ainda não estamos nela.

—     Você está — disse Pace.

 

8 de Setembro de 1943

PEENEMÜNDE, ALEMANHA

O homem de terno listrado, talhado por alfaiates da Alte Strasse, fixou incrédulo os três que se encontravam do outro lado da mesa. Teria protestado vivamente se os especialistas de laboratório não envergassem as insígnias quadradas, de metal vermelho, na lapela das brancas jaquetas engomadas, insígnias que atestavam que os cien­tistas tinham permissão de caminhar por corredores proibidos a todos, exceto à elite de Peenemünde. Também ele ostentava uma placa metálica na lapela listrada; era uma permissão temporária, que ele não sabia se desejava ou não.

Naquele momento não a desejava, com certeza.

      Não posso aceitar a sua estimativa — disse, em voz baixa.

  É absurda.

      Venha conosco — replicou o cientista do centro, com um gesto de cabeça para o da direita.

      É inútil adiar — acrescentou o terceiro.

Os quatro levantaram-se, dirigindo-se à porta que era a única entrada da sala. Cada qual sucessivamente desprendeu a insígnia e pressionou-a contra uma placa cinzenta da parede. No instante do contato, uma pequenina lâmpada branca acendeu-se e assim perma­neceu por dois segundos. Uma foto fora tomada. O último do grupo —        que fazia parte do pessoal de Peenemünde — abriu então a porta e todos saíram para o corredor.

Se apenas três homens tivessem saído, ou então cinco, ou qual­quer número que não correspondesse ao das fotos, alarmas seriam acionados.

Caminharam em silêncio pelo longo e imaculado corredor; o berlinense à frente, com o cientista que sentara à mesa entre os outros dois e que era evidentemente o porta-voz. Seus companheiros se­guiam logo atrás.

Chegando a um grupo de elevadores, repetiram o ritual das in­sígnias vermelhas, da placa cinzenta e da luzinha branca acesa du­rante dois segundos exatos. Sob a placa surgiu um número.

Seis.

Do elevador número seis emergiu um toque surdo de campainha quando a espessa porta de aço deslizou. Um a um, os homens en­traram.

O elevador desceu oito andares, quatro abaixo do solo, até o nível mais profundo de Peenemünde. Quando os quatro emergiram em outro corredor branco, foram recebidos por um homem alto, de macacão verde, justo, uma pistola enorme no cinturão marrom. O coldre continha uma Lüger Sternlicht, pistola de modelo especial, com lente telescópica. Conforme indicava a viseira do guarda, tais armas eram fabricadas para a Gestapo.

O oficial da Gestapo reconheceu evidentemente os cientistas. Com um sorriso mecânico, voltou a atenção para o homem de terno listrado. Estendendo a mão, fez sinal para que o berlinense retirasse a insígnia vermelha.

O berlinense obedeceu. O elemento da Gestapo tomou-a, diri­giu-se a um telefone na parede do corredor e apertou uma combina­ção de botões. Pronunciando o nome do visitante, aguardou cerca de 10 segundos.

Colocando o fone no gancho, voltou ao homem de terno listra­do. Desaparecera a arrogância que exibira instantes atrás.

      Peço desculpas pela demora, Herr Strasser. Devia ter perce­bido...

E entregou a insígnia ao berlinense.

—    Não há necessidade de pedir desculpas, Herr Oberleutnant. Seriam necessárias somente se houvesse esquecido o seu dever.

—    Danke — respondeu o homem da Gestapo, fazendo um gesto para que os quatro ultrapassassem o seu posto de segurança.

Prosseguiram em direção a uma porta de duplos batentes; ouvi­ram-se os estalidos das molas que se abriam. Luzinhas brancas acen­deram-se sobre a moldura; novas fotografias foram tiradas dos que transpuseram a porta.

Voltaram-se para a direita, num corredor que se subdividia. Este não era branco, mas castanho-escuro, tão escuro que Strasser precisou de vários segundos para adaptar a vista — habituada ao brilho imaculado do corredor principal ao ambiente noturno da­quela passagem. Pequeninas luzes suspensas no teto forneciam a pouca iluminação existente.

      Nunca esteve aqui observou o representante dos cientis­tas ao berlinense. Este corredor foi planejado por um engenheiro em ótica. Supõe-se que prepare a vista para a alta intensidade das luzes dos microscópios. Quase todos nós o consideramos um desper­dício.

Havia uma porta de aço no extremo do corredor escuro e com­prido. Strasser estendeu automaticamente a mão para a sua insígnia de metal vermelho, mas o cientista meneou a cabeça e falou, com ligeiro gesto:

      Claridade insuficiente para fotografias. O guarda no interior já foi alertado.

A porta abriu-se e quatro homens entraram no amplo laborató­rio. Ao longo da parede da direita, havia uma fileira de tamboretes e, diante de cada um deles, um poderoso microscópio, todos colo­cados equidistantes sobre uma longa mesa de trabalho embutida. Por detrás de cada aparelho projetava-se uma lâmpada de alta intensi­dade, no extremo de uma haste recurva que emergia da superfície imaculadamente branca. A parede da esquerda era uma variação da oposta. Não havia tamboretes, porém, e o número de microscópios era menor. A mesa de trabalho, mais elevada, era usada evidente­mente para conferências, quando diversos pares de olhos espreita­vam através das mesmas lentes os tamboretes atrapalhariam. Os cientistas permaneciam de pé enquanto discutiam as partículas am­pliadas.

No extremo da sala havia não uma entrada, mas outra porta. Um cofre-forte. A pesada porta de aço media dois metros de altura por um metro e vinte de largura, e era negra. As duas alavancas e a roda da combinação eram em prata brilhante.

O cientista que representava os outros aproximou-se.

      Temos 15 minutos antes que o relógio cerre o painel e as gavetas. Solicitei o encerramento por uma semana. Preciso de sua contra-autorização, naturalmente.

      E tem certeza de que eu a darei, não é?

      Tenho. O cientista girou a roda para a direita e esquerda nos pontos necessários. Os números mudam automaticamente cada 24 horas disse, firmando a roda no ponto extremo e esten­dendo a mãó para as alavancas de prata. Desceu então a superior, ao som de um zumbido quase inaudível, e segundos após ergueu a inferior.

O zumbido cessou, ouviram-se estalidos metálicos, e o cientista abriu a espessa porta de aço, voltando-se então para Strasser.

      Estes são os instrumentos de Peenemünde. Veja pessoalmente.

Strasser aproximou-se do cofre. No interior havia cinco fileiras de bandejas de vidro, de cima abaixo; cada fileira possuía o total de 100 bandejas, 500 ao todo.

As vazias estavam marcadas com uma listra branca no vidro dianteiro e a palavra "Auffüllen" em caracteres bem legíveis.

As bandejas cheias eram indicadas por listras negras na frente.

Havia quatro fileiras e meia de bandejas brancas. Vazias.

Strasser olhou atentamente, abriu várias, fechou-as e fixou o cientista de Peenemünde:

      Este é todo o depósito? — perguntou, em voz baixa.

      Sim. Temos seis mil revestimentos prontos. Deus sabe quan­tos entrarão em experiência. Calcule por si mesmo até quando po­deremos continuar.

Strasser sustentou o olhar do cientista.

      Percebe o que está dizendo?

— Percebo. Entregaremos apenas uma fração exigida pelo programa. Muito inferior ao necessário. Peenemünde é um desastre.

 

9 de Setembro de 1943

MAR DO NORTE

A esquadrilha de bombardeiros B-17 não atingira o alvo principal, Essen, devido a uma camada de nuvens. O comandante do esquadrão, apesar das objeções de seus co-pilotos, ordenou uma mis­são secundária: as docas ao norte de Bremerhaven. Ninguém gosta­va de Bremerhaven. A defesa feita pelos Messerschmitts e Stukas era devastadora. Chamavam-nos de "esquadrões suicidas da Luftwaffe". Compostos de jovens nazistas fanáticos, facilmente tanto poderiam colidir com os aviões inimigos como atirar contra eles. Isso não seria obrigatoriamente o resultado de extrema bravura; com fre­qüência, não passava de inexperiência ou — pior — mau treina­mento.

Bremerhaven era uma terrível missão secundária. Quando se tra­tava do primeiro objetivo, os caças da Oitava Força Aérea ameniza­vam o perigo da missão; mas não estavam presentes em Bremer-haven, por se tratar de uma missão secundária.

O comandante do esquadrão, porém, era obstinado. Pior, viera de West Point; a missão secundária seria não só um sucesso como realizada de uma altitude que garantisse o máximo de precisão. Não tolerava as críticas muito expressivas de seus subordinados nos aviões ao redor, no sentido de que tal altitude dificilmente seria lógica com a escolta de caças; sem ela, considerando-se a pesada artilharia anti­aérea, tornava-se ridícula. O comandante do esquadrão respondera com uma seca recitação do novo rumo e o encerramento do contato pelo rádio.

Quando chegaram aos corredores de Bremerhaven, os caças alemães surgiram de todos os lados; a artilharia antiaérea estava inten­sa. E o comandante do esauadrão levou seu avião direto ao ponto de precisão máxima, explodindo em pleno ar.

O segundo em comando prezava a própria vida e o preço do avião um pouco mais que o seu superior de West Point e ordenou ao esquadrão que ganhasse altitude. Os bombardeiros deveriam des­carregar tudo, mas que "pelo amor de Deus" aliviassem o peso de modo que todos os aviões pudessem subir o máximo, reduzindo o fogo antiaéreo e o dos caças.

Em diversos casos a ordem veio tarde demais. Um bombardeiro incendiou-se e caiu em espiral. Somente três pára-quedas emergiram. Dois Outros foram tão atingidos que desceram imediatamente. Pilo­tos e tripulação saltaram. Quase todos.

Os restantes continuaram a subir e os Messerschmitts com eles. Subiram cada vez mais alto, ultrapassando o limite de segurança. Máscaras de oxigênio, foi a ordem. Nem todas funcionaram.

Dentro de quatro minutos o que restava do esquadrão encontra­va-se no límpido céu noturno, mais límpido ainda por causa da es­cassez de partículas de ar. As estrelas cintilavam com um brilho extraordinário, a lua parecia mais que nunca a lua dos bombardei­ros.

A fuga estava nas alturas.

      Navegador! — falou o exausto comandante pelo rádio. — Dê a nossa posição! Voltamos a Lakenheath!

A resposta transmitida pelo rádio azedou o momento de alívio. Originava-se de um artilheiro.

      Ele está morto, coronel. Nelson está morto.

Não havia tempo para comentários.

      Assuma, número três. É sua a rota — disse o coronel, no número dois.

A orientação foi transmitida. A formação reagrupou-se e desceu a uma altitude segura, sob o abrigo de nuvens, rumando para o Mar do Norte.

Passaram-se cinco minutos, sete, doze. Vinte. Havia relativamente poucas nuvens embaixo e a costa da Inglaterra deveria ter sido avistada pelo menos dois minutos atrás. Vários pilotos mostraram-se preocupados.

—      Transmitiu a rota certa, número três? — perguntou o líder do esquadrão.

—      Afirmativo, coronel — veio a resposta pelo rádio.

—      Algum dos navegadores discorda?

Uma variedade de negativas fez-se ouvir nos demais aviões.

—      Não há dúvida quanto à rota, coronel — disse a voz do capitão do número cinco. — Mas a execução foi errônea.

—      Que diabo quer dizer com isso?

—      Indicou dois-três-nove, pelo que ouvi. Calculei que meu equipamento estivesse avariado...

Súbito, ouviram-se interrupções de todos os pilotos do esquadrão dizimado.

—      Ouvi um-sete...

—      O meu era um maldito dois-nove-dois. Fomos diretamente atingidos...

—      Jesus! Eu li seis-quatro...

—      Nosso avião foi bastante atingido. Descontei totalmente a mi­nha leitura!

E então houve silêncio. Todos compreenderam.

Ou compreenderam o que não podiam aceitar.

— Afastem-se de todas as freqüências — disse o comandante do esquadrão. — Tentarei alcançar a base.

A camada de nuvens rompeu-se. Não por muito tempo, mas o bastante. Ouviu-se pelo rádio a voz do capitão do número três.

      Um cálculo rápido, coronel, diz que rumamos para noroeste.

Novo silêncio.

Daí a instantes o comandante tornou a falar.

—      Conseguirei me comunicar com. alguém. Todos os mostradores dizem o mesmo que o meu? Combustível para 10 a 15 mi­nutos?

—      Foi uma longa missão, coronel — disse o número sete. — Nada além disso, com certeza.

—      Calculei que estaríamos sobrevoando durante cinco minutos — falou o oito.

      Mas não estamos — interveio o quatro.

O coronel, no número dois, conseguiu alcançar Lakenheath numa freqüência destinada a emergências.

—    Segundo podemos determinar — falou a voz inglesa, tensa, agitada, mas controlada —, e com isso abro linhas através de toda a defesa costeira de terra e mar, estão se aproximando do setor de Dunbar. Fica na fronteira da Escócia, coronel. Que diabo estão fa­zendo aqui?

—    Por Deus que não sei! Não há pistas?

—    Não para o seu avião. E não para uma formação inteira, com certeza. Talvez um ou dois...

—    Não quero saber de nada, seu filho da mãe! Dê-me instruções de emergência!

—    Estamos realmente despreparados...

—    Você me ouviu? Tenho aqui o que resta de um esquadrão dizimado! O combustível vai durar menos de seis minutos... Agora, falei

O silêncio durou precisamente quatro segundos. Lakenheath conferenciou rápido. Com decisão.

—    Acreditamos que avistem a costa, provavelmente da Escócia. Desçam no mar... Faremos o possível, rapazes.

—    Somos onze bombardeiros, Lakenheath! Não um bando de patos!

—    Não há tempo, líder do esquadrão... A logística é intransponível. Afinal, não fomos nós que os orientamos para lá. Desçam no mar. Faremos o possível... Boa sorte.

 

10 de Setembro de 1943

BERLIM, ALEMANHA

O Reichsminister de Armamentos, Albert Speer, subiu rapida­mente a escadaria do Ministério da Aeronáutica, no Tiergarten. Não sentia as rajadas diagonais de chuva que tombavam do céu cinzento; não notava que seu sobretudo desabotoado abrira-se, expondo a tú­nica e a camisa à tempestade de setembro. O ímpeto de sua fúria varria da mente tudo o que não fosse a crise imediata.

Loucura! Absoluta, imperdoável, inapelável loucura!

As reservas industriais de toda a Alemanha estavam quase esgotadas, mas ele poderia enfrentar aquele vasto problema, utilizando corretamente o imenso potencial manufatureiro dos países ocupados; revertendo à inevitável prática de importação de mão-de-obra. Mão-de-obra? Escravos!

Produtividade desastrosa; sabotagem contínua, infindável.

Que esperavam eles?

Era uma época de sacrifícios! Hitler não podia continuar a ser tudo para todo o povo! Não podia fornecer Duesenbergs enormes, óperas suntuosas e restaurantes movimentados; em vez disso precisa­va fornecer tanques, munição, navios, aviões! Estas eram as priori­dades!

Mas o Führer não conseguia apagar da memória a revolução de 1918.

Totalmente inconsistente! O único homem cuja vontade amol­dava a História, próximo ao sonho absurdo do Reich milenar, en­contrava-se petrificado na recordação longínqua das multidões incon­troláveis, das massas insatisfeitas.

Speer perguntou a si mesmo se os futuros historiadores registrariam o fato. Se compreenderiam até que ponto Hitler era fraco, quando se tratava de seus próprios compatriotas. Como se curvava temeroso, quando a produção de bens de consumo não atingia as cifras antecipadas.

Loucura!

Ainda assim ele, o Reichsminister de Armamentos, poderia con­trolar tal inconsistência se estivesse convencido de que era epenas uma questão de tempo. Alguns meses; seis, no máximo.

Pois havia Peenemünde.

Os foguetes.

Tudo se reduzia a Peenemünde!

Peenemünde era irresistível. Peenemünde provocaria o colapso de Londres e Washington. Ambos os governos perceberiam a inuti­lidade de prosseguir com a aniquilação total.

Homens sensatos poderiam então reunir-se e elaborar tratados razoáveis.

Ainda que para isto fosse necessário silenciar os insensatos. Silenciar Hitler.

Speer sabia que outros pensavam da mesma maneira. O Führer começava a revelar sinais doentios de pressão, fadiga. Rodeara-se da mediocridade, num mal disfarçado desejo de permanecer na con­fortável companhia de seus pares intelectuais. Mas isso ultrapassava os limites, já que o próprio Reich fora afetado. Um negociante de vinhos como ministro do exterior! Um publicitário de terceira ca­tegoria, ministro dos Negócios do Oriente! Um antigo piloto de caça como supervisor de toda a economia!

Ele próprio, inclusive. Tranqüilo, tímido arquiteto, agora mi­nistro dos armamentos.

Tudo isso poderia modificar-se com Peenemünde.

Até ele próprio, graças a Deus!

Mas antes era preciso que Peenemünde existisse. Não podia haver dúvidas quanto ao seu êxito operacional. Sem Peenemünde a guerra estava perdida.

E agora vinham falar-lhe em dúvidas. Uma falha que poderia tornar-se a precursora da derrota da Alemanha.

Um cabo de expressão vazia abriu a porta do gabinete. Speer entrou e viu que a longa mesa de conferência estava quase cheia, as cadeiras dispostas em facciosa separação, como se os grupos sus­peitassem uns dos outros. De fato, era o que acontecia naquela época de crescentes rivalidades no interior do Reich.

Encaminhou-se para a cabeceira da mesa, onde, à sua direita, encontrava-se o único homem em quem confiava naquela sala: Franz Altmüller.

Altmüller era um cético de 42 anos. Alto, louro, aristocrático, a imagem do Terceiro Reich ariano, que nem por um minuto aceitava o absurdo racial proclamado pelo Terceiro Reich. Mas aceitava a teoria de aproveitar-se de todas as vantagens que se apresentassem, fingindo concordar com quem quer que o beneficiasse.

Em público.

Em particular, entre seus associados muito próximos, falava a verdade.

Quando a verdade também fosse proveitosa.

Speer era não só associado de Altmüller como seu amigo. As famílias de ambos eram mais que vizinhas: os pais haviam-se reu­nido com freqüência em empreendimentos comerciais; as mães eram amigas de colégio.

Altmüller saíra ao pai. Homem de negócios extremamente com­petente, sua especialidade era produção-administração.

—    Bom dia — disse Altmüller, retirando um fio imaginário da lapela da túnica. Vestia o uniforme do partido com maior freqüência que o necessário, preferindo pecar pelo exagero.

—    Parece improvável — respondeu Speer, sentando-se rapidamente.

Os grupos — pois eram grupos — ao redor da mesa continuaram a conversar entre si, mas as vozes tornaram-se perceptivelmente mais discretas. Olhares voltaram-se na direção de Speer, desviando-se rápidos. Preparavam-se todos para o silêncio imediato, mas ninguém queria parecer apreensivo, culpado.

O silêncio viria quando Altmüller, ou o próprio Speer, se levantasse para falar ao grupo. Seria o sinal. Não antes. Prestar aten­ção antes desse momento seria aparentar medo. E medo era o equi­valente à admissão de erro. Ninguém naquela sala de conferências podia permitir-se tal coisa.

Altmüller abriu um envelope pardo e colocou-o diante de Speer. Era uma relação dos convocados à reunião. Havia essencialmente três facções distintas, cada qual com subdivisões e com o seu porta-voz. Speer leu os nomes e disfarçadamente — na sua opinião — verificou a presença dos três líderes.

No extremo da mesa, resplandecente no seu uniforme de gene­ral, a túnica ostentando condecorações mais de 30 anos passados, Ernst Leeb, chefe do Departamento de Material Bélico do Exército. Era de estatura mediana, mas excessivamente musculoso, condição que conservava mesmo passados os 60 anos. Fumava cigarros com piteira de marfim, que utilizava para interromper à vontade a con­versa dos seus subordinados. Em certo sentido, Leeb era uma cari­catura, embora ainda poderoso. Hitler gostava dele, tanto pela imperiosa figura militar como pela competência.

A meia altura, à esquerda da mesa, encontrava-se Albert Vogler, o áspero, agressivo gerente-geral da Indústria do Reich. Vogler era um homem corpulento, a própria imagem do burgomestre; a carne flácida do rosto franzia-se constantemente, numa expressão interro­gativa. Ria muito, mas era um riso áspero; um ardil, não uma satis­fação. Bem adequado à sua posição, Vogler gostava especialmente de entabular negociações entre adversários industriais. Era um excelente mediador, porque ambos os lados geralmente o temiam.

Diante de Vogler e um tanto à direita, mais próximo de Altmüller e Speer, encontrava-se Wilhelm Zangen, oficial do Reich na Associação Industrial alemã. Zangen tinha lábios finos, penosamente contraídos, carentes de humor; parecia um esqueleto, que só se sentia feliz com seus mapas e gráficos. Homem meticuloso, era dado a transpirar na raiz dos cabelos que começavam a escassear, sob as narinas e no queixo, sinal de nervosismo. Transpirava naquele mo­mento, levando continuamente o lenço ao rosto para secar a umidade constrangedora. Desmentindo sua aparência, contudo, Zangen era um lutador persuasivo, pois nunca discutia sem se basear em fatos.

Eram todos persuasivos, pensou Speer. Não fosse a sua ira, aque­les homens poderiam intimidá-lo, e com certeza o fariam. Albert Speer era sincero em sua auto-avaliação; compreendia não possuir um forte senso de autoridade. Achava difícil expressar seus pensamentos com firmeza entre elementos potencialmente hostis. Mas agora aqueles homens potencialmente hostis se encontravam na defensiva e ele não podia permitir que sua ira os conduzisse ao pânico e à busca exclusiva da própria absolvição.

Precisavam de uma solução. A Alemanha precisava de uma solução.

Peenemünde tinha que ser salva.

—    Como sugere que comecemos? — perguntou Speer a Altmüller, baixando a voz de jeito que ninguém mais pudesse ouvi-lo.

—    Creio que não faz a menor diferença. Haverá uma hora de ruidosas, tediosas e muito obtusas explicações antes de chegarmos a algo de concreto.

—    Não estou interessado em explicações________

—    Desculpas, neste caso.

—    Menos ainda em desculpas. Quero uma solução.

      Se for encontrada nesta mesa o que, francamente, duvi­do —, você terá que escutar o excesso de verbosidade. Talvez algo surja daí. Mas, duvido.

      Quer explicar?

Altmüller fitou Speer diretamente nos olhos.

      Em última análise, não sei se haverá solução. Mas, se houver, não creio que esteja nesta mesa... Talvez me engane. Por que não os escutamos primeiro?

Está bem. Quer iniciar, por favor, com o sumário que preparou? Temo perder a paciência quando estiver em meio.

Sugiro que perca a paciência em determinado ponto desta reunião, mais tarde murmurou Altmüller. — Não vejo como po­derá evitá-lo.

      Compreendo.

Altmüller afastou a cadeira e levantou-se. Grupo a grupo, as vozes foram se calando ao redor da mesa.

      Cavalheiros, esta reunião extraordinária foi convocada por motivos que são do seu conhecimento. Pelo menos, deveriam ser. Apa­rentemente, apenas o Reichsminister dos Armamentos e sua equipe não foram informados, fato que o Reichsminister e sua equipe con­sideram espantoso... Em resumo, a operação Peenemünde enfren­ta uma crise de inigualável seriedade. Apesar dos milhões gastos neste extremamente vital plano de armamento, apesar das afirmativas constantes dos respectivos departamentos, soubemos agora que a produção poderá ficar paralisada em questão de semanas. Vários meses antes da data prevista para os primeiros foguetes operacionais. Tal data jamais foi questionada. Tornou-se a pedra angular de toda a estratégia militar; exércitos inteiros foram manobrados de acordo. A vitória da Alemanha está ameaçada...Se as perspectivas compi­ladas pela equipe do Reichsminister arrancadas a custo e com­piladas forem válidas, o complexo Peenemünde esgotará sua re­serva de diamantes industriais em rnenos de 90 dias. Sem diamantes industriais, os instrumentos de precisão de Peenemünde não podem existir.

 

A babel de vozes excitadas, guturais, lutando por obter atenção, elevou-se quando Altmüller tornou a sentar-se. A piteira do General Leeb cortou o ar como se fosse um sabre; Albert Vogler franziu as sobrancelhas e as pálpebras inchadas, apoiou as mãos gorduchas na mesa e falou, em voz áspera e monótona; o lenço de Wilhelm Zangen agitou-se furiosamente sobre o seu rosto e pescoço, a voz aguda erguendo-se em desarmonia com os tons graves que o rodeavam.

Franz Altmüller inclinou-se para Speer.

—    Já observou as jaulas das onças zangadas no zoológico? Os guardas tentam impedi-las de se atirarem contra as barras. Sugiro que perca a sua benigna paciência muito antes do que havíamos com­binado. Agora, que acha?

—    Não é solução.

—    Não permita que eles pensem que você se acovardou...

—    Nem que estou recuando... — Speer interrompeu o amigo com o esboço de um sorriso e levantou-se. — Senhores.

As vozes calaram-se.

—      Herr Altmüller fala com severidade. Ele o faz porque eu lhe falei severamente esta manhã, bem cedo. Agora, a perspectiva é mais ampla. Não é momento para recriminações. Não devemos amenizar o aspecto crítico da situação, pois este é sério. Mas a ira nada resolverá. E precisamos de soluções... Portanto, proponho buscar a sua assistência, a ajuda das maiores inteligências militares e indus­triais do Reich. Em primeiro lugar, precisamos conhecer os detalhes, é claro. Começarei por Herr Vogle. Como gerente da Indústria do Reich, quer nos apresentar sua estimativa?

Vogler ficou perturbado. Não queria ser chamado em primeiro lugar.

— Não sei se posso esclarecer muita coisa, Herr Reichsminister. Também me submeto aos relatórios que me são entregues. Eles têm sido otimistas. Até a semana passada não houve menção de difi­culdades.

      Que quer dizer com otimistas? — perguntou Speer.

— As quantidades de bort e diamantes carbonados eram consideradas suficientes. Além disso, há as experiências em andamento com o lítico, o carbono e a parafina. Nosso serviço de informação afirma que o inglês Storey, do Museu Britânico, fez nova verificação nas teorias de Hannay-Moissan. Diamantes foram produzidos por este processo.

—    Quem investigou o inglês? — Franz Altmüller falou, com se­veridade. — Ocorreu-lhe que tais dados poderiam destinar-se a ser transmitidos?

—    Tal verificação é assunto da Informação. Não faço parte da Informação, Herr Altmüller.

—    Continue — disse Spee, rapidamente. — E, além disso?

—    Há um experimento anglo-americano sob a supervisão do grupo Bridgemann. Estão submetendo o grafite a pressões que ul­trapassam seis milhões de libras por polegada quadrada. Até o momento não há notícia de que tenham sido bem sucedidos.

—     Há notícias de fracasso? — Altmüller ergueu as sobrancelhas aristocráticas, tom polido.

—     Devo lembrar-lhe novamente que não faço parte da Informação. Não recebi a menor notícia.

—     Dá o que pensar, não é — disse Altmüller, em tom não interrogativo.

—     Contudo — interveio Speer, antes que Vogler pudesse replicar —, tem razões para supor que as quantidades de bort e car­bonado são suficientes, não é exato?

—     Suficientes. Ou pelo menos acessíveis, Herr Reichsminister.

—     Acessíveis como?

      Creio que o General Leeb está mais a par do assunto. Leeb abandonou sua piteira de marfim.

Altmüller, notando-lhe a surpresa, interveio rápido:

—    Por que o oficial de material bélico teria tal informação, Herr Vogler? — Perguntou por simples curiosidade.

—    Mais uma vez os relatórios. Que eu saiba, o oficial do material bélico é o responsável pela avaliação do potencial industrial, agrícola e mineral dos territórios ocupados. Ou dos territórios que serão futuramente ocupados.

Ernst Leeb não estava inteiramente despreparado. Estava despreparado para as insinuações de Vogler, não para o assunto. Vol­tou-se para um assistente, que remexeu papéis enquanto Speer o in­terrogava.

—    O oficial do material bélico anda sob enorme pressão hoje em dia, assim como o seu departamento, Herr Vogler, é claro. Será que o General Leeb teve tempo...

—    Arranjaremos tempo — replicou Leeb, cujo porte Kitar fazia contraste com a grosseria de burgomestre exibida por Vogler. — Quando soubemos, por intermédio dos subordinados de Herr Vo-gler, que uma crise estava iminente — não imediata, mas iminente —, procuramos logo as possibilidades de solução.

Franz Altmüller levou a mão aos lábios para ocultar um sorriso involuntário e fixou Speer, que estava demasiado aborrecido para encontrar humor na situação.

—    Ainda bem que o oficial do material bélico está tão confian­te, general — falou Speer. O Reichsminister de Armamentos tinha pouca confiança nos militares, o que disfarçava com dificuldade. — Por favor, a sua solução.

—    Falei em possibilidades, Herr Speer. Para chegar a soluções práticas é preciso mais tempo do que o que nos concederam.

—    Muito bem. Suas possibilidades.

—     Há um remédio imediato, com precedente histórico. — Leeb fez uma pausa para tirar o cigarro da piteira e apagá-lo, côns­cio de que todos ao redor da mesa o observavam com atenção. — Tomei a liberdade de recomendar estudos preliminares ao Comando Geral. Exige uma força expedicionária inferior a quatro batalhões... África. As minas de diamantes a leste de Tanganica.

—     O quê? — Altmüller inclinou-se para a frente, sem poder conter-sé. — Não está falando sério.

—     Por favor!

Speer não permitiria que seu amigo interrompesse. Se Leeb havia concebido uma ação tão drástica, ela teria seus méritos. Militar algum, conhecendo a fragilidade das linhas de combate — devoradas na frente oriental sob o ataque arrasador dos aliados na Itália —, poderia sugerir tal absurdo, a menos que entretivesse uma esperança realística de sucesso. — Continue, general.

      As minas Willamson, em Mwadui, entre os distritos de Tan­ganica e Zanzibar, na região central. As minas Mwadui produzem anualmente mais de um milhão de quilates de diamantes carbona­dos. A informação — que nos é fornecida regularmente, por insis­tência minha — afirma que há reservas para vários meses. Nossos agentes em Dar es Salaam estão convencidos de que tal incursão seria bem sucedida.

Franz Altmüller passou a Speer um papel onde havia escrito: "Enlouqueceu!"

—     A que precedente histórico se refere? — perguntou Speer, colocando a mão sobre o papel.

—     Todos os distritos a leste de Dar es Salaam pertencem por direito ao Terceiro Reich, África Orientai alemã. Foram tomados à fatherland depois da grande guerra. O próprio Führer deixou isto bem claro há quatro anos.

Houve silêncio ao redor da mesa. Um silêncio embaraçado. Mesmo os olhos de seus auxiliares evitaram o velho soldado. Final­mente, Speer falou, em voz baixa:

      Isto não é justificativa nem precedente, general. O mun­do pouco se importa com as nossas justificativas, mas, embora eu ponha em dúvida a logística de movimentar batalhões até o outro lado do mundo, talvez tenha levantado um ponto válido. Onde, em local mais próximo... na África Oriental, quem sabe, pode-se en­contrar o bort ou o carbonado?

Leeb voltou-se para seus assistentes. Wilhelm Zangen levou o lenço ao nariz, inclinou a cabeça magra na direção do -general e fa­lou como se exalasse, em sua voz aguda e irritante:

      Eu responderei, Herr Reichsminister. E então verá o quan­to é inútil esta discussão... Sessenta por cento dos diamantes de bort do mundo inteiro encontram-se no Congo belga. Os dois princi­pais depósitos estão em Kasai e nos campos de Bakwanga, entre o Kanshi e o Bushimale. O governador-geral do distrito é Pierre Ryckmans, fiel ao governo belga exilado em Londres. Asseguro a Leeb que a lealdade do Congo à Bélgica é maior que a nossa jamais foi em Dar es Salaam.

Irado, Leeb acendeu um cigarro. Speer recostou-se na cadeira e dirigiu-se a Zangen.

— Muito bem. Sessenta por cento de bort. Que diz do carbonado e do restante?

—     África Equatorial francesa, totalmente aliada à França Li­vre de De Gaulle. Gana e Serra Leoa, os pontos de controle britâni­co mais severos. Angola, domínio português, de neutralidade invio­lável, nós o sabemos sem a menor dúvida. África Ocidental fran­cesa, não só sob o controle da França Livre, como dominada por forças aliadas nos seus contrafortes... Havia uma única possibi­lidade e nós a perdemos há um ano e meio. Vichy abandonou a Cos­ta do Marfim... Não há acesso à África, Reichsminister. Não de natureza militar.

—     Compreendo. — Speer rabiscou a esmo no papel que Altmüller lhe havia passado. — Recomenda uma solução não-militar?

—     Não há outra. A questão é: qual?

Speer voltou-se para Franz Altmüller. Seu associado, alto e lou­ro, fitava-os a todos. As fisionomias expressavam apenas estupor.

 

11 de Setembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

O General-de-Brigada Alan Swanson saltou do táxi e fixou a imensa porta de carvalho da residência de Georgetown. O percurso pelas ruas calçadas de pedrinhas parecera-lhe um contínuo rufar de tambores.

Prelúdio da execução.

No alto daquela escadaria, para além daquela porta, no interior da aristocrática construção de pedra e tijolos, havia um salão. E na­quele salão milhares de execuções seriam pronunciadas, e não rela­cionadas com qualquer das pessoas que se encontravam ao redor da mesa.

Prelúdio do aniquilamento.

Se os planos fossem mantidos. E era inconcebível que fossem alterados.

Assassinato em massa.

Seguindo ordens, relanceou em ambas as direções para certificar-se de que não fora seguido. Idiotice! CIC mantinha-os sob cons­tante vigilância. Qual dos pedestres, ou dos automóveis que se mo­vimentavam devagar, o teria em sua mira? Não importava. A esco­lha do local de encontro era também uma idiotice. Acreditariam realmente que era possível conservar a crise em segredo? Julgavam que fazer reuniões em residências afastadas de Georgetown ajuda­ria em alguma coisa?

Idiotas!

Mal percebia a chuva que caía constante, em linha reta. Tempestade de outono em Washington. Sua capa de chuva estava aberta; a túnica do uniforme, úmida e amarrotada. Nada daquilo lhe impor­tava. Não podia dar atenção a esses detalhes.

A única coisa em que pensava encontrava-se numa caixa metálica de 15 centímetros de largura por 7,5 de altura e 30 de com­primento. Fora planejada para essas dimensões. Tinha a aparência de tecnologia sofisticada e destinava-se a operar baseada nas pro­priedades fundamentais da inércia e da precisão.

Não era funcional. Não dera certo.

Falhara em vários testes seguidos.

Dez mil bombardeiros B-17 de grande altitude estavam saindo das linhas de produção do país inteiro. Sem os giroscópios de gran­de altitude, com onda de rádio para orientá-los, poderiam muito bem permanecer em terra!

E, sem aqueles aviões, a operação Overiord estava seriamente ameaçada. A invasão da Europa teria um preço tão absurdo que se tornaria obsceno.

Contudo, enviar aviões em bombardeios maciços, noite e dia, por toda a Alemanha, sem a proteção da grande altitude, seria en­viar a maioria para a destruição, as tripulações direto para a morte. Os exemplos eram constantes, sempre que os grandes aviões subiam alto demais. O que era atribuído a erro do piloto, fogo inimigo e fadiga do instrumento não era exato. A culpa era da altitude...

Vinte e quatro horas antes, um esquadrão de bombardeiros na rota de Bremerhaven havia fugido à artilharia antiaérea, exigindo o má­ximo dos aparelhos, reagrupando-se em plano muito acima do ní­vel do exigido. Pelo que ficou determinado, os instrumentos enlou­queceram; o esquadrão acabou no setor de Dunbar, próximo à costa es­cocesa. Todos os aviões, exceto um, haviam-se despedaçado no mar. Três sobreviventes foram recolhidos pela patrulha costeira. Três além de Deus sabiam quantos haviam escapado de Bremerhaven. Um aparelho tentara aterrissar e explodira nos arredores de uma ci­dade. ..Sem sobreviventes.

A Alemanha estava na curva da derrota inevitável mas não mor­reria facilmente. Aprestava-se para contra-atacar. A lição russa fora aprendida. Os generais de Hitler estavam preparados. Compreendiam que sua derradeira esperança de uma rendição que não fosse incon­dicional residia na capacidade de tornar tão alto o custo da vitória aliada que este abalaria a imaginação e a consciência da humanidade.

Então, entrariam num acordo.

E isso era inaceitável para os aliados. Rendição incondicional era uma política tripartite; o absurdo fora de tal modo inculcado que ninguém, ousara opor-se. A febre de vitória total varria o país; os líderes haviam-na amoldado. E naquele frenesi fixavam paredes em branco, não vendo o que os outros viam e afirmando heroica­mente que as perdas seriam toleradas.

Swanson subiu as escadas da casa de Georgetown. Como se es­tivessem aguardando-o, a porta abriu-se, um major fez continência e Swanson foi rapidamente introduzido. No hall havia três oficiais não-comissionados, com perneiras de pára-quedistas, em posição de sentido; Swanson reconheceu os distintivos do batalhão dos Ran-gers. O Ministério da Guerra havia armado a cena com todo o ca­pricho.

Um sargento conduziu Swanson a um pequeno elevador de gra­des metálicas. Dois andares acima, o elevador parou e Swanson saiu para o corredor. Reconheceu o coronel que se encontrava junto à porta fechada no extremo do corredor, mas não lhe recordou o nome. Trabalhava em Operações Clandestinas e nunca se encontrava muito em evidência. O coronel adiantou-se, fazendo continência.

      General Swanson? Coronel Pace.

Swanson cumprimentou de cabeça e estendeu a mão.

—    Ah, sim. Ed Pace, certo?

—    Sim senhor.

—    Então, arrancaram-no do porão. Ignorava que isto fosse território seu.

      Não é, senhor. Mas tive ocasião de conhecer os homens a quem vai encontrar. Controle da segurança.

— E com você aqui, eles sabem que falamos a sério — disse Swanson, com um sorriso.

—    Tenho certeza que sim, mas ignoro o assunto.

—    Tem sorte. Quem está lá dentro?

—    Howard Oliver, da Meridional. Jonathan Craft, da Packard. O laboratorista da ATCO.

—    Ganharei meu dia. Nem posso esperar. Quem preside? Meu Deus, devia haver alguém do nosso lado.

—    Vandamm.

Os lábios de Swanson formaram um assobio inaudível: o coronel fez que sim com a cabeça. Frederic Vandamm era subsecre­tário de Estado e, segundo se dizia, o assistente mais próximo de Cordell Hull. A melhor maneira de chegar a Roosevelt era atra­vés de Hull; se esta via estivesse fechada, procurava-se Vandamm.

—    Artilharia impressionante comentou Swanson.

—    Creio que quando o viram, Craft e Oliver ficaram apavorados. Spinelli vive eternamente nas nuvens. Seria capaz de confundir Patton com o porteiro.

—    Só conheço Spinelli de reputação. É considerado o melhor especialista em giroscópios... Oliver e Craft sabem muito bem dis­so. Gostaria que vocês não fornecessem nem mapas rodoviários àque­les dois.

Nada podemos fazer quando são eles os donos das estradas, senhor. O coronel deu de ombros. Era evidente que concordava com a opinião de Swanson.

      Eu lhe darei uma pista, Pace. Craft é um fracassado nos círculos sociais. Oliver é mau-caráter.

      E bastante volumoso replicou o coronel, rindo baixinho. Swanson despiu a capa de chuva.

—     Se ouvir disparos, coronel, sou eu. Caminhe em outra direção.

—     Aceito o aviso como uma ordem, general. Sou surdo respondeu Pace, estendendo a mão para a porta e abrindo-a rapida­mente para seu superior.

Swanson entrou na sala. Era uma biblioteca, onde a mobília fora encostada às paredes para ser instalada, no centro, uma mesa de conferências, à cabeceira, via-se o aristocrático Frederic Van­damm, com sua cabeleira branca. À esquerda, Howard Oliver, obe­so e começando a se tornar calvo, um homem baixo, moreno, de óculos, que Swanson supôs ser Gian Spinelli.


A cadeira vazia no extremo da mesa, diante de Vandamm, des­tinava-se a ele, evidentemente. Era uma boa posição.

      Lamento a demora, Sr. Subsecretário. Um carro oficial a teria evitado. Não é fácil encontrar um táxi... Senhores?

O trio cumprimentou de cabeça. Craft e Oliver murmuraram "general". Spinelli limitou-se a fixá-lo por detrás das espessas lentes dos óculos.

      Peço desculpas, General Swanson — disse Vandamm, com sua maneira de falar precisa, inglesada, que denunciava um back­ground abastado. — Por razões óbvias, não quisemos que esta con­ferência se realizasse numa repartição do Governo. E, caso viesse a ser conhecida, que a ela se atribuísse importância. Estes senhores representam o Ministério da Guerra, não preciso dizer. A ausência de aparato era desejável. Carros oficiais atravessando Washington a toda velocidade — não me pergunte por que, mas nunca diminuem a velocidade — tendem a despertar preocupações. Compreende?

Swanson retribuiu o olhar velado do subsecretário. Vandamm era esperto, pensou. Fora um jogo arriscado de sua parte referir-se ao táxi, mas Vandamm compreendera, recolhera a jogada e a utili­zara, até mesmo com imparcialidade.

Os três elementos das corporações estavam atentos. Naquela conferência representavam o inimigo.

Fui discreto, Sr. Subsecretário.

      Estou certo que sim. Vamos ao assunto? O Sr. Oliver pediu permissão para iniciar com uma declaração geral da posição da Meridian Aircraft.

Swanson observou Oliver consultando suas anotações. Detesta­va-o intensamente; o homem transpirava uma avidez fundamental. Era um manipulador, havia tantos nos dias de hoje. Encontravam-se por toda Washington, amontoando imensas somas graças à guerra; pro­clamando a força e o valor dos contratos, o preço do poder — que estava nas mãos deles.

Dos lábios grossos de Oliver saiu uma voz áspera.

      Obrigado. Nós, da Meridional, julgamos que a... suposta gravidade da presente situação obscureceu os verdadeiros progressos que fizemos. O aparelho em questão provou, para além de qualquer dúvida, sua capacidade superior. A nova e aperfeiçoada Fortaleza está pronta para a operação; é uma simples questão da altitude de­sejada.

Oliver calou-se bruscamente, colocando as mãos obesas sobre os papéis. Encerrara sua declaração. Craft anuiu de cabeça. Ambos fixaram Vandamm, expressão neutra. Gian Spinelli limitou-se a fi­xar Oliver, olhos castanhos ampliados pelos óculos.

Alan Swanson estava estupefato, não precisamente pela brevidade de declaração, mas pela habilidade da mentira.

—     Se isto é a declaração de uma posição, eu a considero inteiramente inaceitável. O aparelho em questão não provou sua ca­pacidade operacional nas altitudes especificadas pelo contrato do Governo.

—     É operacional — replicou Oliver, secamente.

— Operacional. Não funcional, Sr. Oliver. Não é funcional até que possa ser orientado do ponto A ao ponto B nas altitudes in­dicadas nas especificações.

—      Especificadas como "máximo pretendido", General Swanson — replicou Oliver, com um sorriso obsequioso que transmitia apenas cortesia.

— Que diabo significa isso? — perguntou Swanson, fixando o Subsecretário Vandamm.

—     O Sr. Oliver limita-se à interpretação contratual.

—     Pois eu não.

— É o que preciso fazer — replicou Oliver. — O Ministério da Guerra recusou pagar à Meridian Aircraft Corporation. Temos um contrato...

—     Discuta o maldito contrato com outra pessoa!

—     Ira não resolverá nada — disse Vandamm, áspero.

—     Desculpe, Sr. Subsecretário, mas não estou aqui para discutir interpretações contratuais.

—     Temo que seja preciso fazê-lo, General Swanson. — Vandamm falava agora com calma. — O Departamento de Despesas ne­gou pagamento à Meridian baseado na sua negativa de autorização. O senhor não a deferiu.

— Por que o faria? O avião não pode realizar a tarefa que esperávamos.

—      Pode realizar a tarefa segundo o contrato — disse Oliver, movimentando o gordo pescoço, de Vandamm para o general-de-brigada. — Tenha a certeza, general, de que despendemos todos os nossos esforços no sistema de segurança máxima pretendido. Mobilizamos todos os nossos recursos. Alcançaremos uma solução, disso estamos convictos. Mas até então esperamos que os contratos sejam cumpridos. Nós fomos fiéis às garantias.

—- Sugere que aceitemos o avião como está?

      É o melhor bombardeiro que existe.

Era Jonathan Craft quem falava. Sua voz macia e alta emitiu uma frágil exclamação que logo cessou, enquanto ele juntava os dedos delicados para dar mais ênfase à afirmativa.

Swanson ignorou Craft e fixou o rosto miúdo e os olhos ampliados do cientista da ATCO, Gian Spinelli.

—    E os giroscópios? Pode me responder, Sr. Spinelli? Howard Oliver, interveio, sem cerimônia.

—    Use os sistemas existentes. Coloque o avião em combate.

—    Não! Swanson não se conteve. Era uma explosão de revolta, o subsecretário que dissesse o que bem entendesse. — Nossa es­tratégia exige ataques constantes nas regiões mais profundas da Ale­manha. Vindos de todos os pontos, conhecidos e desconhecidos. Campos na Inglaterra, Itália, Grécia... sim, mesmo de bases secre­tas da Turquia e Iugoslávia. De transportes do Mediterrâneo e até do Mar Negro! Milhares e milhares de aviões invadindo todas as ro­tas aéreas. Precisamos da altitude extra! Qualquer coisa a menos é inaceitável!... Lamento, Sr. Vandamm, mas creio que se justifica a minha preocupação.

—    Compreendo — disse o subsecretário de Estado. — É por isto que estamos hoje aqui. Para procurar soluções... assim como dinheiro. — Desviou o olhar para Craft. — Pode acrescentar alguma coisa às observações do Sr. Oliver, do ponto de vista da Packard?

Craft afastou uns dos outros dedos manicurados e inspirou profundamente, como se estivesse a ponto de enunciar algo de sa­ber essencial. A fonte de conhecimento executivo, pensou Alan Swanson, manobrando para obter a aprovação do presidente da mesa.

      Claro, Sr. Subsecretário. Como o maior subcontratante da Meridian, estamos tão perturbados quanto o general com a falta de resultados no sistema de orientação. Nada poupamos para resolver o assunto. A presença do Sr. Spinelli é a prova. Afinal, fomos nós que chamamos a ATCO... A essa altura, Craft sorriu heroica­mente, com um laivo de tristeza. — Conforme deve saber, a ATCO é a melhor... e a mais cara. Nada poupamos.

— Chamaram a ATCO — disse Swanson, em tom cansado — porque seus laboratórios não conseguiram cumprir a tarefa. Apre­sentaram as despesas excedentes à Meridian, que as passou para nós. Não vejo onde tenham poupado tanto assim.

      Meu Deus, general! — exclamou Craft, de modo pouco convincente. — O tempo, as negociações... tempo é dinheiro, ge­neral, não se iluda. Eu poderia demonstrar-lhe...

      O general fez uma pergunta a mim. Gostaria de responder.

As palavras, pronunciadas com um leve sotaque, vieram do minúsculo cientista, que ignorava as tolices de Craft, ou não as per­cebia, ou ambas as coisas.

— Eu lhe ficaria grato, Sr. Spinelli.

      Nosso progresso tem sido consistente, firme, se preferir, mas não rápido. Os problemas são grandes. Acreditamos que a distorsão das ondas de rádio além de determinadas altitudes varia com a temperatura e a curvatura da Terra. A solução reside em alternar as compensações. Nossas experiências estão estreitando cada vez mais este campo... A taxa de progresso seria mais rápida, não fossem as constantes interferências.

Gian Spinelli calou-se, voltando os olhos grotescamente amplia­dos para Howard Oliver, cujo pescoço espesso e rosto de mandíbulas pesadas ficaram subitamente vermelhos de raiva.

—     Não houve interferência nossa!

—     E nem da Packard, com certeza! — interveio Craft. — Mantivemos contato quase diário. Nossa preocupação não fraquejou!

Spinelli voltou-se para Craft.

—     Sua preocupação, assim como as da Meridian, foi exclu­sivamente monetária, no meu entender.

—     Isso é um absurdo! Todas as indagações financeiras fo­ram feitas a pedido da... divisão de auditoria do contratante...

—     E absolutamente necessárias! — Oliver não ocultava sua raiva do minúsculo italiano. — Seu laboratório... As pessoas não se entendem! São verdadeiras crianças!

Nos 30 segundos subseqüentes, três homens exaltados altercaram em contraponto. Swanson fixou Vandamm e os olhares de ambos encontraram-se, cheios de compreensão.

Oliver foi o primeiro a perceber a armadilha. Ergueu a mão... uma ordem de corporação, pensou Swanson.

—     Sr. Subsecretário — falou Oliver, dominando a ira. — Não permita que a nossa discussão lhe transmita uma falsa impres­são. Apresentamos o produto.

—     Este, não apresentaram — disse Swanson. — Lembro-me nitidamente dos prognósticos nas ofertas de contrato. Naquela épo­ca tinham tudo pronto.

Quando Oliver fixou-o, Alan Swanson sentiu instintivamente que deveria buscar uma arma para se proteger. O executivo da Me­ridian estava prestes a explodir.

      Confiamos nas avaliações de subordinados — disse Oliver, lentamente, com hostilidade. — Creio que os militares conheceram a sua parcela de erros.

      Subordinados não planejam estratégias importantes. Vandamm ergueu a voz.

      Sr. Oliver. Suponhamos que o General Swanson estivesse con­victo de ser inútil reter o pagamento. Que espécie de prazo poderia garantir, agora?

Oliver voltou-se para Spinelli.

      Que acha? — perguntou, friamente.

Os grandes olhos de Spinelli varreram o teto.

      Francamente, não posso dar uma resposta. Poderíamos resol­ver o problema na próxima semana. Ou no próximo ano.

Swanson enfiou rapidamente a mão no bolso da túnica e tirou uma folha de papel dobrado. Abrindo-a na sua frente, leu:

      Segundo este memorando... a última comunicação vinda da ATCO... uma vez que o sistema de orientação esteja aperfei­çoado, declaram precisar de seis semanas para experiência em vôo. Nos campos de prova de Montana.

      Certo, general. Eu próprio o ditei — disse Spinelli.

      Seis semanas a partir da próxima. Ou do próximo ano. E, supondo-se que as experiências de Montana sejam positivas, mais um mês para equipar as esquadrilhas.

      Sim.

Swanson voltou-se para Vandamm.

      Diante disto, Sr. Subsecretário, não há alternativa senão modificar as prioridades imediatas. Ou pelo menos o planejamento. Não podemos acompanhar a logística.

      Inaceitável, General Swanson. Precisamos acompanhá-la. Swanson fixou o velho e cada qual sabia precisamente a que o

outro se referia.

Overlord. A invasão da Europa.

—    Precisamos adiar, senhor.

—    Impossível. Em definitivo, general.

Swanson olhou para os três homens ao redor da mesa. O inimigo.

      Até breve, senhores.

 

12 de Setembro de 1943

AS COLINAS BASCAS, ESPANHA

David Spaulding aguardou na sombra da árvore grande e tortuosa, no terreno rochoso que dominava a ravina. Era a região bas­ca e a atmosfera estava fria e úmida. O sol do final da tarde banhava as colinas à retaguarda. Havia muitos anos — parecia-lhe um milê­nio — aprendera as vantagens de captar os reflexos do sol no aço de pequenas armas. Seu rifle estava recoberto de cortiça queimada. Quatro.

Estranho, mas o número quatro voltava-lhe repetidamente à lem­brança enquanto examinava o horizonte. Quatro.

Quatro anos e quatro dias, exatamente. E o contato daquela tarde estava marcado para quatro horas precisas.

Fazia quatro anos e quatro dias, vira pela primeira vez os uniformes castanhos por detrás da espessa repartição de vidro, no es­túdio de rádio, em Nova York. Fazia quatro anos e quatro dias, ca­minhara em direção àquela parede para pegar sua capa de chuva, deixada no encosto de uma cadeira, e percebera os olhos do oficial mais velho fixos na sua pessoa. Com firmeza. Com frieza. O mais moço evitara-o, como que se sentindo culpado de intrusão, mas não o superior, não o tenente-coronel.

O tenente-coronel estivera estudando-o.

Fora o começo.

Perguntava-se agora — ao observar a ravina em busca de movimento — quando terminaria. Viveria para assistir ao final? Pretendia estar vivo.

Chamara aquela vida de "engrenagem", durante um drinque no Mayflower de Washington. Fairfax fora uma engrenagem; con­tudo, ele ignorava na época até que ponto a palavra se revelaria cor­reta — uma engrenagem disparada, que jamais se detinha.

A intervalos diminuía de ritmo. As pressões físicas e mentais exigiam um desacelerar em momentos reconhecíveis. Reconhecí­veis para ele. Momento em que percebia estar se tornando descui­dado... ou demasiado seguro de si. Ou demasiado absolutista com respeito às decisões que envolviam a vida humana.

Ou a sua própria.

Em geral eram tomadas com facilidade. E às vezes assustavam-no. Profundamente.

Nessas ocasiões ele se afastava. Viajava para o sul, ao longo da costa de Portugal, onde os refúgios dos ricos, temporariamente afastados de suas conveniências, negavam a existência da guerra. Ou permanecia em Costa dei Santiago com seus perplexos pais. Ou confinava-se na Embaixada de Lisboa, entregando-se às tarefas in­significantes da diplomacia neutra. Um pequeno adido militar que não usava uniforme. Não se esperava isso nas ruas, estava dentro do "território". Mas não usava e ninguém se importava. Não era mui­lo apreciado. Circulava socialmente em excesso, possuía muitos amigos anteriores à guerra. De modo geral era ignorado com certo desdém.

Nessas ocasiões descansava, forçando a mente a apagar-se para recarregar.

Há quatro anos e quatro dias tais pensamentos seriam inconce­bíveis.

E, no entanto, dominavam-no agora. Quando tinha tempo para pensar.

Tinha, naquele momento.

Não havia ainda movimento na ravina. Qualquer coisa andava errada. Consultou o relógio; a dupla de San Sebastian estava bas­tante atrasada. Atraso anormal. Havia seis horas apenas, o under-ground francês radiografara confirmando que tudo estava em or­dem, sem complicações a dupla partira.

Os mensageiros de San Sebastian trariam fotos das pistas ale­mãs instaladas ao norte de Mont-de-Marsan. Os estrategistas de Londres pediam-nas com insistência fazia meses. Aquelas fotos ha­viam custado a vida de quatro pessoas...de novo aquele maldito número... quatro agentes do under-ground...

A dupla deveria, pelo contrário, chegar mais cedo. Deveriam estar à espera do homem de Lisboa.

Foi então que avistou algo a distância, talvez a meio quilômetro, difícil dizer. Sobre a ravina, para a'ém da encosta que fi­cava em frente, numa colina em miniatura. Um brilho.

Uma cintilação intermitente, mas ritmada. O intervalo era sinal de intenção, não acidente.

Enviavam sinais para eles. Alguém que conhecia bem os métodos da operação enviava sinais, talvez um homem treinado por ele. Era um aviso.

Spaulding colocou o rifle ao ombro e ajustou a correia mais ainda, de modo que a arma se tornasse um apêndice fixo mas fle­xível do seu torso. Apalpou o fecho do coldre pendurado no cinto; estava no lugar, a arma firme. Afastou-se do tronco da velha ár­vore e, agachado, galgou o restante da encosta rochosa.

No cimo, correu para a esquerda, na vegetação elevada, em di­reção a uma plantação de pêras em ruínas. Dois homens de roupas cobertas de lama, rifle ao lado, encontravam-se sentados no chão, brincando com punhais para passar o tempo. Súbito, ergueram a cabeça, estendendo a mão para a arma.

Spaulding fez um gesto indicando que deveriam permanecer no chio e, aproximando-se, falou baixo, em espanhol:

—    Algum de vocês sabe quem é a dupla que está a caminho?

—    Bergeron, creio — disse o da direita. — E provavelmente Chivier. Aquele velho sabe lidar com as patrulhas; há 40 anos atra­vessa de um lado para outro da fronteira.

—    Então, é Bergeron — disse Spaulding.

—    O quê? — perguntou o outro homem.  

—    Fizeram sinais. Estão atrasados e alguém utilizou o que resta do sol para chamar a nossa atenção.

—    Talvez para dizer que estão a caminho — falou o primeiro, colocando a faca na bainha enquanto falava.

—    Possível, mas improvável. Não sairíamos daqui. Pelo me­nos durante mais duas horas. — Erguendo-se a meio, Spaulding olhou para leste. — Vamos! Seguiremos até além do pomar. De lá podemos ter uma visão mais ampla.

Os três, em fila, separados, mas capazes de ouvir uns aos outros, atravessaram correndo o campo dominado pela elevação, per­correndo cerca de 200 metros. Spaulding colocou-se por detrás de um rochedo pouco elevado, que se projetava da ravina, e esperou os outros dois. O rio corria lá embaixo, a uns 30 metros, segundo calculou. A dupla de San Sebastian o atravessaria cerca de 100 me­tros a oeste, pela passagem rasa e estreita que sempre utilizavam.

Os dois chegaram com diferença de segundos.

—    A velha árvore onde estava é o ponto de encontro, não é? — perguntou o primeiro homem.

—    Sim — respondeu Spaulding, tirando o binóculo do estojo preso no cinturão. Era um instrumento poderoso, com lentes Zeiss Ikon, dos melhores fabricados na Alemanha. Tomado a um alemão morto no rio Tejo.

—    Então, por que descemos até aqui? Se houver um problema, sua linha de visão será melhor no ponto onde estava. Mais direta.

—    Se houver um probelma, eles saberão disso. Rodearão para a esquerda, para leste. Para oeste a ravina se afasta do ponto de en­contro. Talvez não seja nada. É possível que você tenha razão; que­rem apenas avisar que estão se aproximando.

A pouco mais de 50 metros de distância, a oeste da passagem estreita, dois homens surgiram. O espanhol ajoelhado à esquerda de Spaulding toepu-lhe o ombro.

      São Bergeron e Chivier — disse, em voz baixa.

Spaulding ergueu a mão pedindo silêncio e percorreu a área com o binóculo. Bruscamente, fixou-o num ponto é com a mão es­querda orientou para o local a atenção dos subordinados.

Abaixo de onde se encontravam, talvez a uns 25 metros, quatro soldados com uniforme da Wehrmacht lutavam com a folhagem, aproximando-se das águas da ravina.

Spaulding voltou o binóculo para os dois franceses que atravessavam o rio, apoiando-o no rochedo até avistar, na floresta por detrás dos homens, o que sabia ali se encontrar.

O quinto alemão, um oficial, meio escondido no emaranhado de raízes e ramos baixos, rifle apontado para os dois franceses que atravessavam a ravina.

Spaulding passou rapidamente o binóculo para o primeiro espanhol, murmurando: — Atrás de Chivier.

O homem olhou e depois entregou o binóculo ao companheiro.

Cada um deles sabia o que precisava fazer; até mesmo os métodos estavam claros. Era uma simples questão de tempo e preci­são. De uma bainha colocada atrás do quadril direito, Spaulding re­tirou uma baioneta de carabina, encurtada pelo desgaste. Seus com­panheiros fizeram o mesmo. Cada qual espreitou por sobre o roche­do para os homens da Wehrmacht que se encontravam lá embaixo.

Os quatro alemães, enfrentando água pela cintura e a correnteza — que, embora não excessiva, era ainda assim considerável —prenderam os rifles ao ombro, lateralmente, e separaram-se em fila, descendo o rio. O que ia à frente começou a atravessar, testando a profundidade.

Spaulding e os dois espanhóis saíram rapidamente de trás do rochedo e deslizaram pelo declive, ocultos pela folhagem, os sons que faziam abafados pela corrente. Em menos de meio minuto en­contravam-se a cerca de nove metros dos soldados da Wehrmacht, escondidos por árvores caídas e mato. David entrou na água bem junto à margem, sentindo-se aliviado ao notar que o quarto soldado

   a menos de quatro metros na sua frente — era o que tinha mais dificuldade para manter o equilíbrio nas rochas escorregadias. Os outros três, com intervalo de 10 metros, concentravam-se nos fran­ceses, rio acima. Concentravam-se intensamente.

O nazista viu-o. Medo e espanto estamparam-se nos seus olhos. A tração de segundo necessária para assimilar o choque foi o quanto bastou para David. Protegido pelos sons da correnteza, Spaulding saltou sobre o homem, mergulhando-lhe a faca no pescoço e em­purrando-lhe violentamente a cabeça para debaixo d’água, onde o sangue se misturou à corrente.

Não havia tempo, nem um segundo a desperdiçar. David liber­tou a forma sem vida e viu que os dois espanhóis se encontravam para­lelos a ele, na margem. O primeiro, agachado e escondido, fez um gesto em direção ao soldado que ia à frente; o outro meneou a cabeça em direção ao segundo. E David compreendeu que o ter­ceiro soldado da Wehrmacht era dele.

Não foi preciso mais que o tempo necessário a Bergeron e Chivier para chegarem à margem sul. Os três soldados estavam li­quidados, corpos empapados de sangue, flutuando rio abaixo, con­tornando rochedos e enchendo as águas com listras de cor magenta.

Spaulding fez sinal aos espanhóis para atravessarem o rio em di­reção à margem norte. O primeiro içou-se junto de David, a mão direita ensangüentada em conseqüência de um profundo corte na palma.

—     Você está bem? — perguntou Spaulding, em voz baixa.

—     A lâmina escorregou. Perdi minha faca — praguejou.

      Saia desta área — falou David. — Faça curativo no ferimento, na fazenda Valdero.

—- Posso fazer uma atadura firme. Não tem importância.

O segundo espanhol reuniu-se a eles, estremecendo à vista do ferimento do companheiro, o que Spaulding achou estranho para um guerrilheiro que minutos antes mergulhara uma faca no pes­coço de um homem, quase decapitando-o.

— Isso está feio — comentou.

      Você não pode agir assim — acrescentou Spaulding. — E não temos tempo para discutir.

      Posso. ..

—      Não pode — falou David, peremptório. Volte a Valdero. Nós nos encontraremos dentro de uma hora ou duas semanas. Vá e conserve-se escondido!

      Está bem.

O espanhol estava perturbado, mas era evidente que não queria e não podia desobedecer às ordens do americano. E fez menção de enveredar na floresta, rumando para leste.

Spaulding chamou-o em voz baixa, pouco acima do rumor da corrente.

      Obrigado. Belo trabalho o de hoje.

O espanhol sorriu e tomou o rumo da floresta, segurando o pulso.

Com a mesma rapidez, David tocou o braço do segundo, fazendo sinal para que ele o seguisse. Parando junto a uma árvore caída, cujo tronco mergulhava na água, agachou-se e ordenou ao espanhol que fizesse o mesnio. Em voz baixa, falou:

—    Quero pegá-lo vivo. Quero interrogá-lo.

—    Eu o pegarei.

      Não, deixe comigo. Só não quero que atire. Poderia havei uma patrulha mais atrás.

Spaulding notou que o homem não pudera conter um sorriso e compreendeu por quê: seu espanhol tinha as inflexões macias do castelhano, e um castelhano de estrangeiro. Soava estranho na re­gião basca.

E ele próprio estava deslocado.

Como quiser, amigo — disse o homem. — Atravesso o rio mais adiante e alcanço Bergeron? Deve estar vomitando a essa hora.

      Não, ainda não. Espere até estarmos seguros aqui. Ele e o velho simplesmente continuarão a caminhar. — David ergueu a ca­beça acima do tronco tombado e calculou a distância. O oficial ale­mão se encontrava a uns 60 metros, escondido na floresta. — Se­guirei para lá e me colocarei atrás dele, para ver se descubro si­nais de outra patrulha. Se descobrir, voltarei aqui e daremos o fora. Senão, tentarei agarrá-lo... Se houver algum problema, se ele me escutar, é provável que siga para o rio. Pegue-o.

O espanhol fez que sim. Spaulding verificou a segurança da cor­reia do rifle, movimentando-a no último instante, dirigiu ao subor­dinado um esboço de sorriso e notou que as mãos do homem — imensas, calejadas — estavam abertas no solo, como garras. Se o ofi­cial da Wehrmacht caminhasse na sua direção jamais ultrapassaria aquelas mãos, pensou.

Enveredou rápido, silencioso, pelo bosque, braços e pés movimentando-se como os de um caçador primitivo, afastando os ra­mos, evitando pedras e folhagem emaranhada.

Em menos de três minutos percorrera 30 metros à retaguarda e à esquerda do nazista. Imóvel, de pé, retirou o binóculo do estojo, examinando a floresta e a trilha. Não havia patrulhas. Recuou cau­telosamente, amoldando cada movimento do corpo ao ambiente.

Quando se encontrava a três metros do alemão, que estava ajoe­lhado no solo, David abriu silenciosamente o coldre e retirou a pis­tola. Em tom áspero, embora polido, falou, em alemão:

      Fique onde está ou explodirei sua cabeça.

O nazista girou, buscando desajeitado a arma. Spaulding avan­çou rapidamente vários passos e com um pontapé arrancou-a de sua mao. O alemão fez menção de levantar-se, mas David atirou-lhe a pesada bota de couro contra a têmpora. O quepe do oficial caiu ao chão e sangue jorrou do ferimento, espalhando-se pelos cabelos e escorrendo pelo rosto. Estava inconsciente.

Abaixando-se, Spaulding abriu a túnica do nazista. Preso ao tórax do berleutnant havia uma pasta de viagem. Abrindo o zíper de aço da lona impermeabilizada, encontrou o que estava certo de encontrar.

As fotos das instalações secretas da Luftwaffe, ao norte de Mont-de-Marsan. Acompanhando-as, desenhos de armador que eram em essência, planos básicos. Esquemáticos, pelo menos. Tomados de Bergeron, que em seguida conduzira o alemão à cilada.

Se conseguisse entendê-los com a ajuda das fotos, alertaria Londres no sentido de que unidades de sabotadores pudessem exe­cutar a necessária destruição, imobilizando o complexo da Luftwaffe. Ele próprio enviaria as unidades.

Os estrategistas aéreos aliados ficavam doidos quando se tratava de bombardeios em massa. Os aviões mergulhavam do céu, re­duzindo a poeira tudo o que fosse — e não fosse — o alvo, aniqui­lando tanto vidas inocentes como as do inimigo. Se Spaulding con­seguisse impedir ataques aéreos ao norte de Mont-de-Marsan, es­taria de certo modo, de maneira abstrata, compensando a decisão que precisava tomar naquele momento.

Não havia prisioneiros de guerra nas colinas galegas, nenhum centro de internamento na região basca.

O tenente da Wehrmacht, que se mostrara tão ineficaz no seu papel de caçador, que poderia viver uma existência tranqüila nu­ma cidade alemã, num mundo em paz, precisava morrer. E ele, o homem de Lisboa, seria o executor. Faria o jovem oficial voltar a si e começaria a interrogá-lo, de faca em punho, a fim de saber até que ponto os nazistas haviam penetrado o undergtound em San Se­bastian. Em seguida o mataria.

Afinal, o oficial da Wehrmacht vira o homem de Lisboa e poderia identificá-lo como David Spaulding.

O fato de que a execução seria misericordiosamente rápida — ao contrário da morte nas mãos dos partisans — não oferecia con­solo a David. Sabia que, no instante em que puxa-se o gatilho, o mundo giraria loucamente por um instante. Depois, ele se sentiria nauseado, todo o seu ser em estado de revulsão.

Mas não demonstraria coisa alguma. Nada diria, nada indicaria... silêncio. E a lenda continuaria a crescer. A lenda que fazia parte da engrenagem.

O homem de Lisboa era um assassino.

 

20 de Setembro de 1943

MANHEIM, ALEMANHA

Wilhelm Zangen levou o lenço ao queixo, depois às narinas e finalmente à raiz dos cabelos. Transpirava abundantemente. Uma irritação formara-se na cisão do queixo, sob os lábios, agravada pela necessidade de barbear-se continuamente e pela constante pressão.

Sentia todo o rosto arder e seu embaraço agravou-se com as palavras de despedida de Franz Altmüller:

Wilhelm, deveria consultar um médico. Não está nada atra­ente.

Com aquela frase de aparente solicitude, Altmüller levantara-se da mesa e dirigira-se à porta, a passos lentos, decididos, a pasta contendo relatórios segura com a ponta dos dedos, como se fosse algum apêndice doentio.

Haviam estado sozinhos. Altmüller despedira o grupo de cien­tistas sem reconhecer o menor progresso. Nem sequer permitira ao oficial do Reich para a indústria alemã agradecer a contribuição de todos. Altmüller tinha consciência de que ali se encontravam as maiores inteligências científicas da Alemanha, mas não sabia lidar com elas. Eram sensíveis, voláteis à sua maneira silenciosa, preci­savam de elogios constantes. E ele não tinha paciência para o tato.

No entanto, houvera progresso.

Os laboratórios Krupp estavam convictos de que a solução se encontrava nas experiências com grafite. Essen trabalhava ininterrup­tamente havia quase um mês, os gerentes passando noites em claro, uma após outra. Haviam conseguido produzir partículas de carbono em tubos metálicos selados e estavam convictos de que esse car­bono continha todas as propriedades exigidas para os instrumentos de precisão. Era uma simples questão de tempo; tempo para criar partículas maiores, o bastante para o teste de tolerância em maquina­ria já existente.

Franz Altmüller escutara o grupo da Krupp sem o menor si­nal de entusiasmo, embora nas circunstâncias ele se justificasse. Quando o representante da Krupp terminara o sumário, Altmüller fizera uma única pergunta, com a expressão mais entediada pos­sível :

      Essas... partículas foram sujeitas a pressões de instrumentos operacionais?

Claro que não! Como poderiam ter sido? Haviam sido submetidas a pressões artificiais, sucedâneas; no momento era a única coisa possível.

A resposta era inaceitável. Altmüller despedira as inteligências mais criativas do Reich sem uma única frase de apreço, com mal disfarçada hostilidade.

      Senhores, trouxeram-me palavras. Não precisamos de palavras, precisamos de diamantes. Precisamos deles, precisamos obtê-los dentro de semanas. Dois meses no máximo. Sugiro que voltem aos seus laboratórios e reconsiderem o problema. Bom dia, senhores.

Altmüller era impossível!

Depois que os cientistas saíram, tornara-se ainda mais cortante.

      Wilhelm dissera, em tom que raiava o desprezo —, era está a solução não-militar de que falou no Ministério dos Arma­mentos?

Por que não usara o nome de Speer? Seria necessário ameaçá-lo com títulos?

—     É claro. Certamente mais realista do que aquela louca invasão do Congo. As minas do rio Bushimaie! Loucura!

—     A comparação é odiosa. Eu o superestimei. Dei-lhe mais crédito do que merece. Deve compreender que fracassou.

Não era uma pergunta.

—     Discordo. Os resultados ainda não chegaram. Não pode fazer tal julgamento.

—     Posso e fiz! — Altmüller batera na mesa com a palma da mão, estalo de carne macia contra madeira rija. Intolerável insulto. Não temos tempo! Não podemos perder semanas enquanto os seus desajustados brincam nos laboratórios com bicos de gás incandes­cente, criando pedrinhas que se despedaçariam ao primeiro contato com o aço! Precisamos do produto!

—     E terá! o queixo de Zangen tornara-se um misto oleoso de suor e barba despontando. As maiores inteligências da Ale­manha...

      Estão fazendo experiências interrompera Altmüller, tran­qüilamente, com desdenhosa ênfase. — Dê-nos o produto. Esta é a minha ordem. Nossas poderosas companhias têm longas histórias que datam de muitos anos. Uma delas deve ter com certeza um ve­lho amigo.

Wilhelm Zangen secara o queixo. A irritação era uma agonia.

      Já examinamos essas áreas. Impossível.

      Examine novamente. — Altmüller apontara com o dedo elegante para o lenço de Zangen. Wilhelm, deveria consultar um médico. Não está nada atraente.

 

24 de Setembro de 1943

NOVA YORK

Jonathan Craft, subindo a Park Avenue, consultou o relógio de pulso sob um poste de iluminação. Seus dedos longos e finos tremiam, último vestígio de um excesso de martínis que parara de tomar 24 horas antes, em Ann Arbor. Infelizmente, estivera embriagado nos três dias anteriores. Não fora ao escritório. De lá, haviam-lhe ace­nado com o General Swanson e ele não podia suportar tal lembran­ça. Agora, era forçado a isso.

Eram 20:45. Mais 15 minutos e entraria no número 800 da Park Avenue, sorriria para o porteiro e entraria no elevador. Não queria chegar cedo e não ousava chegar atrasado. Estivera no apar­tamento sete vezes, e cada uma delas fora traumática para ele. Sem­pre a mesma razão: era portador de más notícias.

Mas precisavam dele. Era o homem impecável. Sua família era antiga, endinheirada. Freqüentara as escolas certas, as melhores fes­tas. Tinha acesso a áreas sociais e institucionais que os negociantes jamais pisariam. Não importava que estivesse preso em Ann Arbor. Era uma situação temporária, um inconveniente de tempo de guerra. Um sacrifício.

Regressaria a Nova York e à Bolsa tão logo aquela maldita situação estivesse encerrada.

Precisava conservar em mente tudo aquilo, porque dentro de minutos teria que repetir as palavras que Swanson gritara para ele no escritório da Packard. Redigira um relatório confidencial da conver­sação... da inacreditável conversação... e o enviara a Howard Oliver, da Meridian. Se você fez o que imagino, isso aparece sob o cabeçalho dos atos de traição! E estamos em guerra!

Swanson.

Loucura.

Perguntou a si mesmo quantos estariam presentes. Era sempre melhor quando se tratava de um grupo, uns 12, por exemplo. Assim, discutiam entre si e ele ficava quase esquecido. Não a informação.

Deu volta ao quarteirão, inspirando profundamente, acalmando­-se... matando 10 minutos.

Ato de traição!

E estamos em guerra!

Seu relógio indicava cinco minutos para as nove. Entrou no edifício, sorriu para o porteiro, deu o número do pavimento ao cabineiro e, quando a porta metálica se abriu, penetrou no vestíbulo particular do apartamento de cobertura.

O mordomo aceitou-lhe o sobretudo e conduziu-o através do hall. Transpondo uma porta, desceu os três degraus que levavam ao living rebaixado.

Havia apenas dois homens na sala. Craft sentiu imediatamente uma pontada no estômago, reação instintiva provocada em parte pelo fato de haver apenas mais duas pessoas presentes a essa conferência extremamente vital, mas, sobretudo, pela visão de Walter Kendall.

Kendall movimentava-se nas sombras, era um manipulador de personagens que se mantinha a distância. Cinqüenta anos, estatura mediana, cabelos ralos e sujos, voz áspera e indistinta, aparência desleixada. Seus olhos agitavam-se continuamente, quase nunca re­tribuindo o olhar do interlocutor. Diziam que sua mente concentra­va-se sem interrupção em esquemas e contra-esquemas. Aparentemente, sua finalidade na vida era manobrar de maneira a vencer os outros seres humanos — amigos ou inimigos, não fazia diferença para Kendall, pois ele não categorizava assim as pessoas.

Eram todos vagamente adversários.

Mas Walter Kendall era brilhante em tudo ó que fazia. Contanto que fosse mantido nos' bastidores, suas manipulações serviam aos clientes. E resultavam em grandes quantias de dinheiro, que ele amealhava, o que provavam seus ternos mal ajustados, frouxos nos joelhos e no traseiro. Mas era conservado sempre nos bastidores. Sua presença significava crise.

Jonathan Craft desprezava Kendall porque este o assustava.

A presença do segundo homem era de se esperar, nas circunstâncias! Howard Oliver, o obeso representante da Meridian Aircraft junto aos contratos do Ministério da Guerra.

—     Pontual observou Walter Kendall, secamente, sentando s numa poltrona e estendendo a mão para retirar documentos de um» pasta imunda junto aos seus pés.

—     Olá, Jon.

Oliver aproximou-se e trocou com ele um curto, neutro, aperto de mão.

—     Onde estão os outros? perguntou Craft.

—     Ninguém mais virá respondeu Kendall, com. um olhar furtivo para Oliver. Howard tem que estar presente e eu sou pago para isso. Você teve uma maldita reunião com Swanson.

—     Leu meu relatório?

—     Leu disse Oliver, aproximando-se de um carrinho me­tálico onde havia copos e garrafas. Ele tem perguntas a fazer.

—     Deixei tudo perfeitamente claro...

—     Não são essas as perguntas interveio Kendall, apertando a ponta do cigarro antes de levá-lo à boca. Quando acendia um fós­foro, Craft dirigiu-se a uma poltrona de veludo diante do contabi­lista e sentou-se. Oliver servira-se de um uísque e permanecera de pé.

—     Se quiser um drinque, Jon, sirva-se — disse Oliver.

À menção de álcool, Kendall relanceou dos papéis para o outro com olhos penetrantes.

—     Não, obrigado respondeu Craft. Prefiro terminar isto o mais depressa possível.

—     Como quiser. Oliver fixou o contabilista. Faça as suas perguntas.

Kendall, tirando baforadas do cigarro, falou, com a fumaça evo­lando das narinas:

—     Esse Spinelli, da ATCO... Falou com ele depois que se reuniu com Swanson?

—     Não. Nada havia a dizer. Nada que eu pudesse dizer. ..sem instruções. Como sabe, conversei com Howard pelo telefone. Ele me disse que esperasse. Escrevesse um relatório e nada fizesse.

—     Craft é o contato com a ATCO disse Oliver. Não que­ria que ele saísse correndo, apavorado, tentando acalmar as coisas. Daria a impressão de estarmos ocultando algo.

—     E estamos. Kendall tirou o cigarro da boca, deixando cair cinza nas calças, e continuou a remexer calmamente nos papeis que tinha no colo. Vamos examinar as queixas de Spinelli como Swanson as apresentou.

O contabilista tocou ligeiramente, de maneira concisa, em cada ponto aludido, cobrindo as declarações de Spinelli com respeito ao atraso nas entregas, transferência de pessoal, demora nos planos e uma dúzia de outras queixas menores. Craft responaeu com igual brevidade, dizendo o que sabia, declarando ignorância quando não podia responder. Não havia razão para esconder coisa alguma. Estava transmitindo instruções, não emitindo.

      Spinelli pode provar essas acusações? E não se iludam. São acusações, não queixas.

Que acusações? Oliver interveio, exaltado. Aquele filho da mãe estragou tudo! Quem é ele para fazer acusações?

      Deixe disso falou Kendall, com sua voz áspera. Nada de brincadeiras. Deixe isso para uma comissão parlamentar, a menos que eu possa descobrir qualquer coisa.

As palavras de Kendall provocaram nova pontada no estômago de Craft. A perspectiva de desonra ainda que remotamente as­sociada a ele arruinaria sua vida. A vida que esperava viver quando regressasse a Nova York. Os idiotas financeiros, os negocian­tes, jamais compreenderiam.

      Isso é exagerar... Kendall voltou-se para Craft.

—     Talvez não tenha ouvido Swanson. Não é exagero. Vocês têm o contrato das Fortalezas porque seus projetos demonstraram que podiam fabricá-las.

—     Um momento! gritou Oliver. Nós. . .

—     Que se dane a fraseologia legal! replicou Kendall, gritando mais ainda. Minha firma...eu...certificamos aqueles projetos. Sei o que dizem e o que significam. Vocês deixaram a outra companhia em falta. Eles não diriam o que vocês disseram. Nem a Douglas, nem a Boeing, nem a Lockheed. Foram ambiciosos, con­seguiram o que queriam e agora não estão fornecendo o que de­viam... Qual é a novidade? Vamos voltar ao princípio: Spinelli pode provar o que disse?

—     Merda explodiu Oliver, dirigindo-se ao bar.

—     Que quer dizer com provar? perguntou Jonathan Craft, estômago em agonia.

—     Há memorandos circulando por aí referentes a isto? per­guntou Kendall, batendo nas páginas.

—     Bem...Craft hesitou; não agüentava mais a dor de estômago. Quando a transferência de pessoal foi realizada, os me­morandos foram colocados no intercomunicador...

      A resposta é afirmativa interrompeu Oliver, irritado, servindo-se de um drinque.

      E os cortes financeiros? Oliver interveio novamente:

—    Esses, nós disfarçamos. As requisições de Spinelli perderam-se na circulação da papelada.

—    Ele protestou? Escreveu memorandos?

—    Isso é departamento de Craft respondeu Oliver, bebendo quase todo O uísque de um só gole. Spinelli é cria dele.

—    Então...Kendall fixou Craft.

—    Bem, ele expediu diversas comunicações. Craft inclinou-se para a frente, tanto para aliviar a dor como para parecer confi­dencial. Retirei tudo dos arquivos disse, em voz baixa.

—    Cristo explodiu Kendall. Não me importa absolutamente o que você tenha removido. Ele tem cópias. Datas.

—    Eu não saberia dizer...

—    Não foi ele próprio quem datilografou os malditos memorandos, foi? Você não retirou também as malditas secretárias, re­tirou?

—    Não precisa ofender...

—    Ofender! Você é engraçado! Talvez lhe dêem um uniforme de listras elegantes em Leavenworth. O contabilista bufou, vol­tando a atenção para Hòward Oliver. Swanson pode armar um caso e enforcar você. Não é preciso ser advogado para perceber. Vocês não cumpriram. Planejaram usar o sistema de orientação exis­tente.

—    Só porque os novos giroscopios não puderam ser fabrica­dos! Porque aquele maldito cientista se atrasou tanto que não conseguiu alcançar o resto da programação!

—    E também porque isso poupou a vocês uns 200 milhões... Deveriam ter acionado as bombas e não cortado a água. São grandes patos numa galeria pequena. Até um cego conseguiria abatê-los.

Oliver pousou o copo e disse, lentamente:

      Não pagamos a você para fazer esse tipo de julgamento, Walter. É melhor descobrir outra coisa.

Kendall amassou o cigarro mutilado, dedos sujos cobertos de cinza.

      Já descobri. Vocês precisam de companhia. Estou em meio a uma questão muito emocional. Vai custar bastante, mas não têm opção. Precisam fazer acordos; telefonar para todo mundo. Comuni­quem-se com a Sperry Rand, GM, Chrysler, Lockheed, Douglas, Rolls-Royce, se for preciso... qualquer filho da mãe que possua um laboratório de engenharia. Um programa intensivo de cunho pa­triótico. Distribuam seus dados, deixem a descoberto tudo o que possuem.

      Eles nos roubarão! — rugiu Oliver. — Milhões!

      Será mais caro se não agirem assim... Vou preparar estatutos financeiros suplementares. Colocarei tanto gelo nas páginas que levarão 10 anos para degelar. Isso também custará bastante.

Kendall sorriu, exibindo dentes sujos. Howard Oliver fixou o desleixado contabilista.

—     É uma loucura — disse, em voz baixa. — Doaremos fortu­nas por algo que não pode ser adquirido porque não existe.

—     Mas vocês disseram que existia. Você disse a Swanson que existia. Pelo menos, com muito maior segurança do que todos os outros. Venderam o seu vasto know-how industrial e, quando não conseguiram cumprir o prometido, procuraram desculpas. Swanson tem razão. Vocês são uma ameaça para o esforço de guerra. Deviam ser fuzilados.

Jonathan Craft fixou o sorridente contabilista de maus dentes e sentiu ânsias de vomitar. Mas ele era a única esperança.

 

25 de Setembro de 1913

STUTTGART, ALEMANHA

Wilhelm Zangen postou-se junto à janela que dava para a Reichssieg Platz, em Stuttgart, lenço no queixo inflamado, coberto de transpiração. Aquela parte da cidade fora poupada aos bombar­deios: era residencial, até mesmo tranqüila. Avistava-se o rio Neckar ao longe, correndo mansamente, ignorando a destruição que desaba­ra sobre o outro lado da cidade.

Zangen percebeu que se esperava .que ele falasse, respondesse a von Schnitzler, que era o porta-voz da I. G. Farben. Os dois ho­mens estavam tão ansiosos para ouvir suas palavras quanto Von Schnitzler. Não fazia sentido adiar. Precisava executar as ordens de Altmüller.

      Os laboratórios Krupp fracassaram. Diga o que disser Essen, não há tempo para experiências. O Ministério dos Armamentos dei­xou isto bem claro. Altmüller está decidido. Fala em nome de Speer.

   Voltando-se, fixou os três homens. — Considera-os responsáveis.

—    Como é possível? — perguntou von Schnitzler, voz gutural, irada. — Corno podemos ser responsáveis por algo que desconhece­mos? C ilógico. Ridículo!

—    Desejam que eu transmita esse juízo ao Ministério?

—    Eu próprio o transmitirei, obrigado — replicou von Schnitz­ler. — Farben não está envolvida nisto.

—    Estamos todos envolvidos — disse Zangen, tranqüilamente.

—    Como pode estar envolvida a nossa companhia? — perguntou Heinrich Krepps, diretor da Schreibwaren, o maior complexo gráfico da Alemanha. — Nosso trabalho em Peenemünde pratica­mente não existiu, e o que houve foi confundido absurdamente. Se­gredo é uma coisa; mentir para nós mesmos, outra diferente. Não nos inclua, Herr Zangen.

—    Estão incluídos.

—    Rejeito sua conclusão. Estudei nossas comunicações com Peenemünde.

—    Talvez não esteja a par de todos os fatos.

—    Tolice!

—    É possível. No entanto...

—    Tal condição dificilmente se aplicaria a mim, Sr. Oficial — falou Johann Dietricht, o herdeiro efeminado, de meia-idade, do império Dietricht Chemikalien. Sua família contribuíra generosamen­te para os cofres nacional-socialistas de Hitler; quando o pai e o tio haviam morrido, Johann Dietricht permanecera à frente da empresa, mais de nome que de fato. — Nada ocorre em Dietricht que não seja do meu conhecimento. Nada temos a ver com Peenemünde!

Johann Dietricht sorriu, curvando os lábios grossos, pestanejan­do com olhos que traíam um excesso de álcool, sob as sobrancelhas aparadas, denunciando sua inclinação sexual — novo excesso. Zan­gen não suportava Dietricht. O homem — mera força de expressão

   era uma vergonha, seu estilo de vida um insulto à indústria ale­mã. De novo pensou consigo mesmo que não valia a pena adiar. A informação não seria surpresa para von Schnitzler e Krepps.

      Há diversos aspectos da Dietricht Chemikalien de que não tem a menor idéia. Seus laboratórios vêm trabalhando solidamente para Peenemünde no campo da explosão química.

Dietricht empalideceu. Krepps interveio.

      Qual é o seu propósito, Sr. Oficial do Reich? Chamou-nos aqui só para nos insultar? Para dizer a nós, diretores, que não somos senhores de nossas companhias? Não conheço muito bem Herr Die­tricht, mas asseguro-lhe que von Schnitzler e eu não somos fantoches.

Von Schnitzler estivera observando atentamente Zangen, notan­do que usava freqüentemente o lenço para secar o queixo, com gestos nervosos.

—    Suponho que tenha informação específica, tal como a que acaba de prestar a Herr Dietricht, confirmando suas afirmativas.

—    Tenho.

—    Então, está dizendo que operações isoladas, no interior de nossas fábricas, nos foram ocultadas.

—    Estou.

—    Neste caso, como podemos ser considerados responsáveis? São acusações absurdas.

—    Feitas por razões práticas.

—    Está falando em círculos! — gritou Dietricht, que mal se recuperara do insulto de Zangen.

—    Devo concordar — disse Krepps, como se a concordância com o homossexual fosse desagradável, porém obrigatória.

—    Vamos, senhores! Preciso ser mais explícito? As companhias são suas. A Farben forneceu 83% de todos os produtos químicos para os foguetes; a Schreibwaren processou todas as plantas; a Die­tricht, a maioria dos detonadores para os revestimentos de explo­sivos. Estamos em crise. Se não a solucionarmos, nenhum protesto de ignorância terá qualquer valor. Poderemos chegar ao ponto em que elementos do Ministério e de outros setores negarão que qualquer informação tenha sido sonegada. Enterraram coletivamente suas cabeças. E não tenho certeza de que tal juízo esteja errado.

—    Mentira! — gritou Dietricht.

—    Absurdo! — acrescentou Krepps.

—    Mas repulsivamente prático — concluiu lentamente Schnitz­ler, fixando Zangen. — Então é isto que está nos dizendo, não é? O que diz Altmüller. Ou empregamos todos os nossos recursos na busca de uma solução — que vá em socorro do nosso Schwachling industrial — ou teremos que enfrentar disposição equilateral aos olhos do Ministério.

—    E aos olhos do Führer. O julgamento do próprio Reich.

—    Mas como? — perguntou o apavorado Johann Dietricht. Zangen recordou as palavras precisas de Altmüller.

—     Suas companhias possuem longa história, que remonta a mui­tos anos. Associada e individual. Do Báltico ao Mediterrâneo, de Nova York ao Rio de Janeiro, da Arábia Saudita a Johannesburg.

—     E de Xangai até a Malásia e aos portos da Austrália e da Tasmânia — falou em voz baixa von Schnitzler.

—     Isso não nos interessa.

—     Foi o que pensei.

—     Está sugerindo, Sr. Oficial do Reich, que a solução de Peenemünde reside em nossas antigas associações?

Von Schnitzler inclinou-se para a frente, mãos e olhos sobre a mesa.

—     É uma crise. Não podemos ignorar nenhuma saída. As comunicações podem ser facilitadas.

—     Sem dúvida. Por que julga que se concretizariam? — continuou o diretor da I. G. Farben.

—     Lucros — replicou Zangen.

—     É difícil distribuí-los diante de um pelotão de fuzilamento. — Movimentando o corpo pesadão, von Schnitzler voltou-se para a janela, pensativo.

—     Supõe a realização de transações específicas. Refiro-me a atos de omissão.

— Esclareça, por favor. — O olhar de Krepps permaneceu sobre a mesa.

—     Existem talvez 25 fontes aceitáveis de bort e diamantes carbonados — aceitáveis no sentido de se poder obter quantidade suficiente com uma só transação. África e América do Sul; um ou dois locais da América Central. Essas minas são dirigidas por compa­nhias sob condições de extrema segurança. São inglesas, americanas, francesas, belgas... todos as conhecem. Os embarques são controla­dos, o destino investigado... Sugerimos que tais embarques sejam desviados, os destinos alterados em território neutro pelo expediente de se omitirem as precauções de segurança normais. Atos de incom­petência, se quiserem. Erro humano, não traição.

—     Enganos extraordinariamente proveitosos — observou von Schnitzler.

—     Precisamente — respondeu Wilhelm Zangen.

      Onde se encontram homens assim? — perguntou Johana Dietricht, voz aguda.

      Em toda parte — retrucou Heinrich Krepps. Zangen enxugou o queixo com o lenço.

 

29 de Novembro de 1943

REGIÃO BASCA, ESPANHA

Spaulding correu pela colina até avistar os ramos convergentes das duas árvores. Era o ponto de referência. Voltando-se para a direita, começou a galgar o terreno íngreme, percorrendo aproxima­damente 100 metros, a segunda marca. Dobrando para a esquerda, caminhou devagar em direção à vertente ocidental, corpo encurvado, olhos movimentando-se constantemente em todas as direções, pistola empunhada com firmeza.

Na encosta ocidental, procurou uma rocha única — entre tantas as que se espalhavam pela colina galega —, que fora lascada na parte inferior. Lascada cuidadosamente, com três entalhes. Era a terceira marca, a última.

Encontrou-a, avistando primeiro as três canas inclinadas na co­lina de mato rijo. Ajoelhando-se, consultou o relógio: 14:45.

Estava 15 minutos adiantado, conforme planejara. Dentro de um quarto de hora desceria a vertente ocidental, bem diante da ro­cha entalhada. Ali, encontraria uma pilha de gravetos. Sob a rama­gem havia uma pequena caverna. Nessa caverna — se tudo houvesse corrido segundo os planos — estariam três homens. Um deles era membro de um grupo de infiltração. Os outros dois eram Wissens-chaftler — cientistas alemães ligados aos laboratórios Kindorf, do vale do Ruhr. Sua fuga era um objetivo havia muito planejado.

Os obstáculos eram sempre os mesmos.

Gestapo.

A Gestapo se apoderara de um agente do underground e estava à par dos Wissenschaftler. Mas, como era típico da elite SS, guar­dara o conhecimento para si mesma, à procura de caça mais im­portante do que dois insatisfeitos laboratoristas. Agentes da Gestapo haviam concedido aos cientistas ampla liberdade; falta de vigilância, as patrulhas do laboratório afrouxadas ao extremo da ineficiência, os interrogatórios de rotina abandonados. Contradições.

A Gestapo não era nem ineficaz nem descuidada. Os SS estavam armando uma cilada.

As instruções de Spaulding para o underground haviam sido secas, simples: que armassem a cilada. Não encontrariam caça na rede.

A notícia de que os cientistas, com um passe de fim-de-semana para Stuttgart, estavam na realidade viajando para o norte, através da rede do underground que conduzia a Bremerhaven, infiltrou-se até ele. Em Bremerhaven o contato seria feito por intermédio de um oficial da Marinha alemã, comandante de uma pequena unidade, que realizaria uma dramática fuga em direção aos aliados. Era do co­nhecimento geral que a Marinha alemã fervilhava de revoltosos. Era o campo de recrutamento das facções anti-hitleristas que surgiam por todo o Reich.

A notícia daria a todos o que pensar, raciocinou Spaulding. E a Gestapo seguiria dois homens que supunha serem os Wissenschaftler de Kindorf quando na verdade não passavam de patrulheiros de segurança da Wehrmacht, homens de meia-idade, enviados para uma falsa vigilância.

Jogos e contra-jogos.

Tanta coisa estranha. Os interesses em expansão do homem de Lisboa.

Aquela tarde era uma concessão. Exigida pelo underground ale­mão. Ele teria que fazer sozinho o contato. Dizia o underground que o homem de Lisboa havia provocado um excesso de complica­ções; havia muita margem para erro e contra-infiltração. Não havia, pensou David, mas se uma missão isolada acalmasse os nervosos estômagos dos anti-reichistas, a concessão era bastante pequena.

Ele possuía seu próprio grupo de Valdero, a meio quilômetro de distância, nas colinas. Dois disparos e viriam em sua ajuda nos cavalos castelhanos mais velozes que se poderia encontrar.

Era o momento. Poderia descer à caverna para o contato final.

Deslizou pela superfície rija, os calcanhares mergulhando na terra e nas rochas da íngreme ribanceira, até se encontrar acima da pilha de ramos e gravetos que ocultavam a entrada do esconderijo. Tomando um punhado de terra solta, atirou-o na folhagem.

A resposta veio de acordo com as instruções: a rápida batida de um graveto contra os ramos empilhados. O bater de asas de pás­saros afastados de uma moita.

Spaulding desceu rapidamente até a base do esconderijo e pos­tou-se junto à camuflagem.

—    Alles in Ordnung. Kommen Sie. — Disse, em voz baixa e firme. — Não resta muito tempo para a viagem.

—    Halt! — foi o inesperado grito vindo da caverna.

David girou nos calcanhares, encostou-se à colina e ergueu o Colt. A voz do interior tornou a falar, desta vez em inglês.

É... Lisboa?

—    Por Deus, sim! Não faça isso! Acabará com um tiro na cabeça! — Cristo, pensou Spaulding, o grupo de infiltração deveria ter usado uma criança, um imbecil, ou ambos, como mensageiro. — Saiam.

—    Peço desculpas, Lisboa — disse a voz, quando os ramos se separaram e os gravetos foram deslocados. — Passamos por maus momentos.

O mensageiro surgiu. Era óbvio que não se tratava de ninguém treinado por David. Baixo, musculoso, não teria mais que 25 ou 26 anos e seus olhos refletiam medo e nervosismo.

—    No futuro, não responda a um sinal e depois interrogue a pessoa no último momento — disse Spaulding. — A menos que pretenda matá-lo. Er ist Schwarztuch-chiffre.

—    Was ist das? Negro...

—    Faixa negra, amigo. Não é do seu tempo. Significa: confirme e liquide. Não tem importância, mas não faça mais isso. Onde estão os outros?

—    Lá dentro. Estão bem. Muito cansados e com medo, mas não feridos. — O mensageiro voltou-se, afastando outros ramos. — Saiam. É o homem de Lisboa.

Os dois apavorados cientistas, homens de meia-idade, saíram cautelosamente da caverna, pestanejando à luz do sol quente e ofus­cante. Fixaram David Com gratidão e o mais alto falou, em inglês hesitante:

      Este é um momento... que estamos aguardando. Os nossos muito obrigados.

Spaulding sorriu.

—    Bem, ainda não estamos livres. Frei. Ambos os sentidos se aplicam. São homens corajosos. Faremos todo o possível por vocês.

—    Não restava... nichts — disse o mais baixo. — Meu amigo é socialista... Politik... era impopular. Minha falecida mulher era... eine Jüdin.

Filhos?

—      Nein respondeu o homem. Gott sel dank.

      Eu tenho um filho disse friamente o cientista mais alto. — Er ist... Gestapo.

Nada mais havia a dizer, pensou Spaulding. Voltando-se para o mensageiro, que observava as colinas e a floresta abaixo daquele ponto, falou:

      Eu assumo de agora em diante. Volte à Base Quatro o mais depressa possível. Temos um grande contingente vindo de Koblenz dentro de alguns dias e precisamos de todos. Descanse um pouco.

O mensageiro hesitou. David conhecia aquela expressão. Vira-a muitas vezes. Era a do homem que passaria a viajar sozinho. Sem companhia, agradável ou desagradável. Sozinho.

      Não foram estas as minhas instruções, Lisboa. Devo ficar com você...

—    Por quê? interrompeu Spaulding.

—    Minhas instruções...

—    De quem?

      Dos que se encontram em San Sebastian. Herr Bergeron e seus homens. Não foi informado?

David fixou o mensageiro. O medo transformara-o num mau mentiroso. Ou talvez fosse outra coisa. Algo completamente inespe­rado por não ser lógico; àquela altura, não poderia sequer remota­mente ser considerado. A menos que...

David concedeu aos jovens nervos abalados do mensageiro o benefício da dúvida. Um benefício, não uma exoneração. Isso viria mais tarde.

      Não, não me informaram. Vamos. Seguiremos para o campo Beta. Ficaremos lá até amanhecer.

Spaulding fez um gesto e os quatro puseram-se a percorrer a falda da colina.

—    Nunca trabalhei tão ao sul disse o mensageiro, postando­se atrás de David. Não viaja à noite, Lisboa?

—    Às vezes respondeu Spaulding, voltando-se para olhar os cientistas que caminhavam lado a lado. Não quando posso evitar. À noite, os bascos atiram indiscriminadamente. E soltam uma porção de cães.

      Compreendo.

      Vamos caminhar em fila. Coloque-se atrás dos nossos convidados disse ao mensageiro.

Os quatro caminharam vários quilômetros para leste. Spaulding mantinha o passo rápido; os cientistas não se queixavam, mas era óbvio que achavam difícil a viagem. Por diversas vozes, David disse aos outros que permanecessem onde se encontravam, enquanto ele penetrava a floresta em diversos setores, voltando minutos depois. Cada vez que assim agia, os cientistas descansavam, gratos pelas pausas. Mão o mensageiro. Parecia apavorado — como se o ameri­cano não pretendesse voltar. Spaulding não estimulava conversação, mas após cada desaparecimento o jovem alemão não conseguia conter-se.

—    Que é que está fazendo? — perguntava.

David fitava o Widerstandskämpfer e sorriu.

—    Recolhendo mensagens.

—    Mensagens?

      Há pontos marcados ao longo do nosso caminho. Estabelece­mos locais para deixar informação que não queremos transmitir pelo rádio. Demasiado perigoso, caso interceptado.

Prosseguiram por uma trilha estreita na orla do bosque até alcançarem uma interrupção na floresta basca. Era uma pastagem em plano mais baixo, dominada por colinas. Os Wissenschaftler trans­piravam fortemente, respiração arquejante, pernas doloridas.

—    Descansaremos aqui por algum tempo — disse Spaulding, para evidente alívio dos cientistas. — É tempo de fazermos contato.

—    Was ist los? — perguntou o jovem mensageiro. — Con­tato?

—    Ajustando a nossa posição — respondeu David, tirando do bolso da jaqueta um pequeno espelho metálico. — Os vigias ficarão descansados se souberem que estamos aqui... Se você trabalhar no norte — o que vocês chamam de sul — é melhor não esquecer nada disto.

      Não esquecerei.

David captou o reflexo do sol no espelho e dirigiu-o a uma colina do norte. Fazendo uma série de movimentos com o pulso, agitou a placa metálica com precisão ritmada.

Segundos após veio a resposta, a meia altura da colina mais elevada, ao norte. Cintilações de luz emergiram de um ponto infini­tesimal na verde distância. Spaulding voltou-se para os outros.

      Não vamos para Beta. Há patrulhas falangistas na área. Ficaremos aqui até recebermos sinal de que o caminho está livre.

 

O basco vigoroso recolheu o espelho da mochila. Seu companheiro continuava com o binóculo focalizado no campo, vários qui­lômetros abaixo, onde o americano e seus três companheiros esta­vam sentados no chão.

      Ele disse que estão sendo seguidos. Que devemos tomar contraposições e nos mantermos escondidos — disse o do espelho metálico. — Vamos buscar os cientistas amanhã à noite. Ele dará o sinal.

      Que é que ele vai fazer?

      Não sei. Disse que avisássemos Lisboa. Permanecerá nas colinas.

      É um homem frio — comentou o basco.

 

2 de Dezembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

Alan Swanson encontrava-se no assento traseiro do carro mili­tar, fazendo o possível por conservar a calma. Olhava pela janela — o tráfego matutino era tranqüilo. A imensa força de trabalho de Washington encontrava-se nos seus destinos; máquinas roncavam, telefones tocavam, homens gritavam e murmuravam por toda parte, tomando o primeiro drinque do dia. A exaltação aparente nas pri­meiras horas do dia de trabalho descaía com a aproximação do meio-dia. As 11:30 muito gente pensava que a guerra era uma cha­teação e sentia-se entediada com suas tarefas mecânicas, com as infindáveis duplicatas, triplicatas, quadruplicatas. Não conseguiam compreender a necessidade da penosa logística, da disseminação de informes para as inúmeras cadeias de comando.

Não podiam compreender por que não viam o quadro geral, ape­nas fragmentos, repetidas estatísticas. Claro que se sentiam ente­diados.

E cansados. Como ele estivera havia 14 horas, em Pasadena, Califórnia.

Tudo saíra errado.

A Meridian Aircraft iniciara — fora forçada a iniciar — Um programa intensivo, mas os maiores cientistas do país não conseguiam eliminar os erros existentes na caixinha que continha o sistema de orientação. Os minúsculos esferóides não funcionavam corretamente nas altitudes máximas. Revelavam-se erráticos; absolutos neste se­gundo, indignos de confiança no próximo.

E o mais infinitesimal desvio poderia resultar numa colisão em pleno ar entre aeronaves gigantescas. E com os números projetados para os bombardeios em massa, antecipando Overlord — planejado para ter início dentro de quatro meses —, as colisões ocorreriam.

Mas naquela manhã tudo parecia diferente.

Seria diferente se houvesse substância no que lhe haviam dito. Não conseguira dormir no avião, mal se alimentara. Ao pousar em Andrews, correra ao seu apartamento de Washington, tomara banho de chuveiro, fizera a barba, trocara de uniforme e ligara para sua mulher, em Scarsdale, onde ela passava uns tempos com a irmã. Não recordava a conversação que se estabelecera entre eles; as cos­tumeiras frases de carinho estavam ausentes, as perguntas eram distraídas. Ele não tinha tempo para ela.

O carro militar enveredou pela estrada da Virgínia e acelerou. Iam a Fairfax; chegariam em 20 minutos, mais ou menos. Em menos de meia hora, descobriria se o impossível seria, pelo contrário, in­teiramente possível. A notícia chegara no momento da execução; a cavalaria surgira nas colinas distantes toques abafados de clarim anunciando reforços.

Abafados, na verdade, pensou Swanson, quando o automóvel saiu da estrada principal, enveredando por uma secundária. Em Fair­fax, que ocupava 200 acres em plena região de caça, havia uma área isolada abrigando cabanas Quonset, ao lado de um imenso radar e torres de rádio que se projetavam do solo como deformidades gigan­tescas. Era o Comando da Divisão de Operações Clandestinas; depois das salas subterrâneas da Casa Branca, era o local mais sensitivo de processamento dos serviços de informação aliados.

Na tarde anterior, o comando da Fairfax recebera confirmação de uma investigação desde muito abandonada como negativa. Viera de Johannesburg, Africa do Sul. Não fora comprovada, mas havia evidência suficiente para se acreditar que seria.

Os giroscopios direcionais de elevada altitude haviam sido aper­feiçoados. Seus planos poderiam ser obtidos.

 

2 de Dezembro de 1943

BERLIM, ALEMANHA

Altmüller saiu velozmente de Berlim pela estrada de Spandau, em direção a Falkensee, no Duesenberg esporte. Era de manhã cedo e o ar estava frio e agradável.

Sentia-se tão exaltado que perdoou os planos teatralmente secre­tos do Nachrichtendienst, código da seleta unidade do serviço de espionagem, conhecida somente de alguns dos ministros mais impor­tantes e de raros no próprio alto comando. Uma especialidade Gehlen.

Por esta razão, jamais organizava reuniões em Berlim. Eram sempre fora da cidade, em alguma área remota, isolada, e, além disso, numa casa particular, ao abrigo de uma potencial curiosidade.

Naquela manhã, o local era Falkensee, vinte e poucos quilômetros a noroeste de Berlim. O encontro seria numa casa de hóspedes da propriedade pertencente a Gregor Strasser.

Altmüller voaria até mesmo para Stalingrado se o que lhe haviam dito fosse verdade.

O Nachrichtendienst encontrara a solução para Peenemünde!

A solução era real; cabia a outros apressá-la.

A solução que escapara a grupos de "negociadores" enviados a todas as partes do mundo para explorar — ressuscitar — "rela­ções" anteriores à guerra. Capetown, Dar es Salaam, Johannesburg, Buenos Aires...

Fracasso.

Nenhuma companhia, nenhum indivíduo se mostrara desejoso de fazer negociações com os alemães. A Alemanha estava iniciando uma luta de morte. E seria derrotada.

Era esta a opinião de Zurique. E o que Zurique considerava exato o mundo dos negócios internacionais não discutia.

Mas o Nachrichtendienst descobrira outra verdade.

Era o que lhe haviam dito.

O poderoso motor do Duesenberg acelerou-se, alcançando alta velocidade; a folhagem de outono passava, reduzida a manchas in­distintas.

Os portões de pedra da propriedade de Strasser surgiram à esquerda, com a águia de bronze da Wehrmacht encimando cada colu­na. O carro enveredou pela comprida e tortuosa alameda, detendo-se num portão guardado por dois soldados e ferozes cães pastores. Altmüller atirou seus documentos ao primeiro guarda, que evidente­mente estava esperando-o.

      Bom dia, Herr Unterstaatssekretar. Siga pela alameda da direita por favor, até além da casa principal.

—     Os outros já chegaram?

—     Estão à espera, senhor.

Altmüller ultrapassou a casa principal e, chegando a um declive da alameda, diminuiu a velocidade. Para além da curva cercada de árvores ficava a casa de hóspedes; mais parecia um chalé de caça que uma residência — pesados toros de madeira nas paredes, como se fizesse parte da floresta.

No pátio coberto de saibro viam-se quatro limusines. Estacionou e saltou, puxando a túnica, verificando as lapelas, a ver se estavam empoeiradas. Muito erecto, dirigiu-se à porta.

Não se usavam nomes durante as conferências do Nacbrichtendienst; caso as identidades fossem conhecidas — e tinham que ser —, nunca eram mencionadas numa reunião. Cada qual se dirigia ao seu igual com um olhar e ao grupo com um gesto.

Não havia uma comprida mesa de conferências, como Altmüller esperava; nada de disposição formal de lugares regida por um desco­nhecido protocolo. Em vez disso, meia dúzia de homens de seus 50 ou 60 anos, em trajes informais, reunidos na pequena sala de teto ele­vado à maneira bávara, conversando tranqüilamente, tomando café. Altmüller foi recebido como "Herr Unterstaatssekretar" e avisado de que a reunião seria breve. Teria início com a chegada da última pessoa aguardada.

Altmüller aceitou uma xícara de café e procurou ajustar-se ao ambiente descontraído. Não conseguiu. Queria protestar, exigir uma discussão séria e imediata. Será que não compreendiam?

Mas era assim no Nachrichtendienst. Não se gritava. Não se exigia.

Finalmente, após o que pareceu uma eternidade ao seu estômago em revolta, Altmüller ouviu um automóvel parar diante do chalé. Instantes após, a porta abriu-se e ele quase deixou cair a xí­cara de café. Conhecia o homem que entrou, por tê-lo visto algumas vezes em que acompanhara Speer a Berchtesgarden. Era o criado do Führer, mas naquele momento não tinha a aparência servil de um subalterno.

Sem qualquer aviso, os homens silenciaram. Vários sentaram-se em poltronas; outros encostaram-se à parede ou então permaneceram ao redor da mesa de café. Um homem idoso, com pesado casaco de tweed, postou-se diante da lareira e falou. Dirigia-se a Franz, que se colocou isolado por detrás de um sofá de couro.

—     Não há razões para discussão prolongada. Acreditamos possuir a informação que procura. Digo "acreditamos" porque recolhe­mos informação, não agimos. O Ministério talvez não se interesse pela ação.

—     Isso me parece inconcebível — disse Altmüller.

—     Muito bem. Várias perguntas, agora, para que não haja desentendimentos, má interpretação. — O velho fez uma pausa para acender um gordo meerschaum. — Esgotaram todos os canais nor­mais de informação? Através de Zurique e Lisboa?

—     Esgotamos. E em numerosos outros locais, ocupados, inimigos e neutros.

—     Referia-me aos condutos reconhecidos — suíços, escandina­vos e portugueses, principalmente.

—     Não fizemos nenhum esforço especial nos países escandinavos. Herr Zangen julgou que...

—     Nada de nomes, por favor. Exceto no setor de confrontação de informação ou de conhecimento público. Utilizem descrições go­vernamentais, se quiserem. Nada individual.

—     O Reichsamt da Indústria, que tem contatos constantes com a região do Báltico, está convicto de que ali nada temos a ganhar. Suponho que as razões sejam geográficas. Não há diamantes no Báltico.

—     Ou foram queimados com demasiada freqüência — falou um discreto senhor de meia-idade, junto a Altmüller, sentado no sofá de couro. — Se quiserem que Londres e Washington saibam o que estão fazendo, antes mesmo de fazê-lo, entrem em contato com os escandinavos.

—     Uma análise precisa — acrescentou outro membro da Nachrichtendienst, que se encontrava junto à mesa, xícara de café em punho. — Voltei de Estocolmo na semana passada. Não podemos confiar nem sequer nos que nos apóiam publicamente.

—     Nesses, menos ainda — falou o velho que se achava diante da lareira, sorrindo e voltando o olhar para Franz. — Podemos supor que tenha feito ofertas substanciais? Em moeda suíça, naturalmente.

—     Substanciais é palavra modesta para as cifras que mencionamos — replicou Altmüller. — Serei franco. Ninguém chegará até nós. Os que poderiam concordam com a opinião de Zurique, segundo a qual seremos derrotados. Temem represálias. Falam até em recla­mações de depósitos bancários no pós-guerra.

—     Se tais murmúrios chegarem ao Alto Comando haverá pânico.

A declaração foi feita com um gracejo peio criado do Führer, sentado numa poltrona. O velho da lareira prosseguiu:

—     Assim, é preciso eliminar o dinheiro como incentivo... mes­mo extraordinárias quantias de dinheiro.

—     Os termos das negociações não foram bem sucedidos. Todos sabem.

Altmüller conteve a irritação. Por que não chegavam ao que interessava?

—     E não há desertores ideologicamente motivados no horizon­te. Não que tenham acesso aos diamantes industriais, com certeza.

—     É óbvio, mein herr.

—     Então, precisam procurar outro motivo. Outro incentivo.

—     Não percebo a finalidade. Disseram-me....

—     Perceberá — interrompeu o velho, batendo com o cachimbo na lareira. — Descobrimos um pânico tão grande quanto o de vocês...

—     O pânico do inimigo. Encontramos o motivo mais lógico para todos os interessados. Cada lado possui a solução do outro.

Franz Altmüller sentiu um súbito medo. Não estava bem certo de ter entendido todas as implicações do que o homem dissera.

Que disse?

      Peenemünde aperfeiçoou um sistema de orientação direcional para grandes altitudes, não é exato?

Certamente. Indispensável à operação básica dos foguetes.

      Mas não haverá foguetes ou, no máximo, uns poucos sem remessas de diamantes industriais.

      É evidente.

      Há interesses industriais nos Estados Unidos que enfrentam problemas insolúveis...o velho fez pausa de um segundo preciso e continuou insolúveis, que só podem ser resolvidos pela aquisi­ção de giroscopios funcionais de alta altitude.

      Está sugerindo...

      O Nachrichtendienst não sugere, Herr Unterstaatssekretar. Apresenta os fatos. O velho tirou o cachimbo dos lábios. Quando surge a ocasião, transmitimos informação concreta de diver­sas fontes. Insisto, só fatos concretos. Foi o que fizemos em Johan-nesburg. Quando o elemento da I. G. Farben, enviado para adquirir diamantes das minas Koening, não obteve resultado, interviemos e confirmamos uma antiga investigação do Serviço de Informação, que seria transmitida a Washington, nós sabíamos. Nossos agentes da Califórnia nos tinham avisado da crise na indústria aeronáutica. Cre­mos que a ocasião seja propícia.

      Não sei se compreendi...

      A menos que estejamos enganados, será feita uma tentativa de restabelecer contato com os elementos da Farben. Supomos que as contingências foram feitas para tais possibilidades.

      Claro. Genebra. Os canais costumeiros.

      Então, nossa parte neste negócio está encerrada, senhor. De­sejamos uma agradável viagem de volta a Berlim.

 

2 de Dezembro de 1943

FAIRFAX, VIRGÍNIA

O interior da Quonset desmentia o despojado exterior. Para co­meçar, era cinco vezes mais ampla que a costumeira estrutura Quon­set, e sua armação metálica fora isolada com material que absorvia os sons e se projetava sem emendas do chão ao teto elevado. Parecia menos um hangar de aviões — o que deveria ter sido que uma imensa concha sem janelas, de paredes substanciais. Ao redor do imenso recinto havia bancas de painéis de rádio de complicada alta-freqüência; diante de cada painel havia molduras de vidro com dú­zias de mapas minuciosos, alteráveis ao toque de um botão. Suspensos acima dos mapas, viam-se delicados braços de aço fino mar­cadores semelhantes a agulhas de polígrafo manipulados pelos radioperadores e observados por homens que empunhavam fichários. Toda a equipe era militar, do Exército, e não havia um só abaixo de primeiro-tenente.

Três quartos da construção eram ocupados por uma parede que ia do chão ao teto e que evidentemente não constituía o final da estrutura. Havia uma única porta no centro. Estava fechada e era de aço pesado.

Swanson nunca estivera no interior daquela construção. Fora conduzido diversas vezes à Divisão Fairfax para ser informado de descobertas altamente classificadas pelo Serviço de Informação e para observar o treinamento de equipes de particular insurgência ou de espionagem mas, apesar de seu posto de general-de-brigada e dos segredos que conservava na cabeça, não recebera autorização para penetrar naquela construção. Os autorizados permaneciam dentro do recinto de 200 acres semanas seguidas, ou até meses. As licenças eram raras e gozadas apenas em caráter de emergência e sob escolta.

Era fascinante, pensou Swanson, que acreditava sinceramente ter perdido toda a capacidade de surpreender-se. Não havia eleva­dores nem escadas nem janelas, notou uma porta de lavatório na parede da esquerda e, mesmo sem entrar, concluiu que era ventilado artificialmente. E havia uma única entrada. Uma vez no interior, o sujeito não se podia esconder por qualquer período de tempo, nem sair sem ser verificado e examinado. Os itens pessoais eram deixados na entrada; nenhuma pasta, envelope, papel ou material podia sair do chalé sem autorização assinada do Coronel Edmund Pace e com o coronel pessoalmente ao lado do indivíduo em questão.

Se houvesse segurança total, era ali que se encontrava.

Swanson aproximou-se da porta de aço; sua escolta,.um tenente, comprimiu um botão. Uma luzinha vermelha brilhou sobre o inter­comunicador da parede e o tenente falou:

—    General Swanson, coronel.

—    Obrigado, tenente foram as palavras que saíram do círculo gradeado sob a luz. Ouviu-se um clique na fechadura e o te­nente estendeu a mão para a maçaneta.

O gabinete de Pace parecia qualquer outra sala de comando da Informação — imensos mapas nas paredes, luzes fortes iluminando-os e mapas ajustáveis pelo premir de botões instalados na escri­vaninha. Havia teletipos equidistantes sob sinais impressos designan­do os teatros de operação — todo o equipamento costumeiro. Exceto o mobiliário em si. Este era tão simples que chegava às raias do primitivo. Nada de poltronas, sofás, algo confortável. Simples metal; cadeiras de encosto reto, escrivaninha que era mais uma mesa, e chão sem tapetes, de madeira. Era uma sala para atividade concentrada; ninguém podia relaxar em tal ambiente.

Edmund Pace, da Divisão de Campanha, Fairfax, levantou-se, deu volta à mesa e cumprimentou Alan Swanson.

Havia uma outra pessoa na sala, um civil. Frederic Vandamm, Subsecretário de Estado.

      General. Prazer em revê-lo. A última vez em que nos encon­tramos foi na casa do Sr. Vandamm, se bem me lembro.

      Sim, foi. Como vão as coisas por aqui?

— Um tanto isolados.

—     Sem dúvida. — Swanson voltou-se para Vandamm. — Sr. Subsecretário? Vim o mais depressa possível. Inútil dizer o quanto estou ansioso. Foi um mês difícil.

—     Eu sei — falou o aristocrático Vandamm, sorrindo cautelosamente enquanto apertava a mão de Swanson. — Vamos direto ao assunto.. Coronel Pace, gostaria de esclarecer o general, conforme combinamos?

      Sim, senhor. Depois eu me retiro.

Pace falava em tom neutro. Era a maneira de um militar trans­mitir a outro a mensagem: cuidado.

Aproximou-se de um mapa da parede, cheio de marcas. Era a ampliação de determinado setor de Johannesburg, África do Sul. Fre­deric Vandamm sentou-se na cadeira diante da escrivaninha e Swan­son, acompanhando Pace, postou-se junto dele.

      Nunca se sabe quando um sinal será captado. Ou onde. — Tomando um indicador de madeira que se encontrava sobre a mesa, indicou um ponto azul no mapa. — Ou mesmo se a localização é importante. Neste caso, talvez seja. Há uma semana, um membro da legislatura de Johannesburg, advogado e ex-diretor das Minas Koening Ltda., foi procurado por elementos que julgamos pertence­rem ao Zürich Staats-Bank. Queriam que ele servisse de intermediá­rio numa negociação com Koening. Uma simples transação de fran­cos suíços por diamantes — em larga escala, com a antecipação de que o padrão de diamante permaneceria mais constante que as flu­tuações do ouro. — Pace voltou-se para Swanson. — Até aqui, tudo bem. Com os sistemas lend-lease e monetário transformando-se em fumaça por toda parte, há muita especulação no mercado de dia­mantes. Seria possível realizar grandes negociatas no pós-guerra. Ten­do aceito o contato, pode imaginar seu choque quando, ao chegar para a reunião, descobriu que um dos "suíços" era um velho amigo —um velho e bom amigo — de antes da guerra. Um alemão que fora seu colega de escola. A mãe do afrikaner era austríaca; o pai, bôer. Os dois haviam-se mantido em estreito contato até 1939. O alemão trabalhava para a I. G. Farben.

      Qual a finalidade do encontro? — Swanson estava impaciente.

—    Chegarei lá. Este background é importante.

—    Muito bem. Continue.

      Não havia especulação de diamantes, nem qualquer transa­ção com um banco de Zurique. Tratava-se de uma simples compra. O homem da Farben queria adquirir grandes remessas de bort e carbonado...

      Diamantes industriais?— interrompeu Swanson. Pace fez que sim.

      Ofereceu uma fortuna ao seu velho amigo, sob o compromis­so de que ele conseguisse realizar o negócio. O afrikaner recusou, mas sua velha amizade com o alemão impediu-o de denunciar o in­cidente. Até três dias passados.

Pace abandonou o indicador e dirigiu-se à sua mesa. Swansor compreendeu que o coronel possuía informação adicional, informa­ção escrita, e que precisava consultá-la. E instalou-se numa cadeira ao lado da de Vandamm.

—    Há três dias — prosseguiu Pace, de pé diante da escrivaninha — procuraram novamente o afrikaner. Desta vez não houve tentativa de ocultar identidades. O visitante era alemão e possuía a informação que os aliados desejavam. Vinham desejando desde muito tempo.

—    O sinal? — perguntou Swanson, impaciência no tom de voz.

—    Não exatamente o que esperávamos... O alemão disse que iria ao escritório do afrikaner, mas este se protegeu. Disse ao advo­gado que, se fizessem qualquer tentativa para seqüestrá-lo, seu velho amigo da I. G. Farben seria executado na Alemanha. — Pace tomou uma folha de papel que se encontrava na mesa e, inclinando-se, pas­sou-a a Swanson. — Esta é a informação, o relatório enviado por um correio.

Swanson leu as palavras datilografadas sob o cabeçalho do Ser­viço de Informação Militar; acima, via-se um carimbo que dizia: "ALTAMENTE SECRETO. SÓ PARA SER VISTO. FAIRFAX 4-0"

"28 de nov. de 1943, Johannesburg. Confirmado por Nachrich-tendienst. Giroscopios direcionais subestratosféricos aperfeiçoados. Todos os testes positivos. Peenemünde. Contato subseqüente: Gene­bra. Contingente Johannesburg."

Swanson deixou que a informação penetrasse, relendo várias ve­zes o comunicado. A Edmund Pace fez uma pergunta de uma só palavra:

—    Genebra?

—    O contato. Canal neutro. Não oficial, é claro.

—    Que é este Nachrichtendienst?

      Unidade de informação. Pequena, especializada; tão especia­lizada que se encontra acima dos círculos mais secretos. Nós nos perguntamos às vezes se ela toma partido. Com freqüência, parece mais interessada em observar que participar. Mais preocupada com o pós-guerra que com o presente. Desconfiamos que se trata de uma operação Gehlen. Mas nunca se engana. Nunca orienta mal.

      Compreendo.

Swanson entregou o papel a Pace.

O coronel não o aceitou. Em vez disso, rodeou a escrivaninha, em direção à porta de aço.

      Agora, deixarei os senhores. Quando terminarem, por favor, apertem o botão branco da minha escrivaninha.

Abrindo a porta, saiu rapidamente. A pesada armação de aço fechou-se de maneira estanque. Um estalido subseqüente foi emitido pela fechadura.

Frederic Vandamm fixou Swanson.

      Aí está a sua solução, general. O giroscópio. Basta mandar um homem a Genebra. Alguém quer vendê-lo.

Alan Swanson fixou o papel em suas mãos.

 

4 de Dezembro de 1943

BERLIM, ALEMANHA

Altmüller fixou o papel em sua mão. Passava de meia-noite, a cidade estava mergulhada em escuridão. Berlim suportara outra noite de bombardeio arrasador; não haveria outros até o final da manhã seguinte, de acordo com o padrão habitual. Contudo, as cortinas negras estavam bem cerradas nas suas janelas, como em todo o Mi­nistério.

A rapidez era tudo naquele momento. No entanto, na rapidez do planejamento, as precauções obrigatórias não poderiam ser aban­donadas. O encontro em Genebra seria apenas o primeiro passo, o prelúdio, mas precisava ser planejado com toda a delicadeza. Não era tanto o que seria dito como quem o diria. O que poderia ser transmitido por qualquer pessoa com as credenciais adequadas ou a autoridade reconhecida. Mas, no evento do colapso alemão, aquele alguém não poderia representar o Terceiro Reich. Speer mostrara-se irredutível.

E Altmüller compreendia: se perdessem a guerra, o traidor não poderia ser relacionado com o Reichsminister. Ou com os líderes de que a Alemanha precisaria na derrota. Em 1918, depois de Versailles, houvera recriminações internas em massa. A polarização era pro­funda, sem peias, e a paranóia nacional relativa às traições internas havia lançado as bases para o fanatismo da década de 20. A Alema­nha não conseguira aceitar a derrota, não podia tolerar a destruição de sua identidade pelos traidores.

Desculpas, é claro.

Mas as perspectivas de uma repetição, por mais remotas que fossem, precisavam ser evitadas a todo custo. O próprio Speer mos­trava-se um fanático no assunto. O representante em Genebra teria que ser uma figura isolada do Alto Comando. Alguém dos círculos da indústria alemã, de maneira alguma associado com os líderes do Terceiro Reich. Alguém sacrificável.

Altmüller tentara apontar a inconsistência na manipulação de Speer: os planos do giroscópio de grande altitude dificilmente pode­riam ser entregues a uma mediocridade sacrificável dos círculos in­dustriais alemães. Peenemünde estava enterrada literalmente en­terrada; suas medidas de segurança militar eram absolutas.

Mas Speer não quisera escutar e Altmüller compreendera subi­tamente a lógica do Reichsminister. Ele transferia o problema exata­mente para onde lhe competia: para aqueles cujas mentiras e hipo­crisia tinham levado Peenemünde à beira do desastre. E, como em tantas outras coisas do Reich em guerra a mão-de-obra, os cam­pos de morte, os massacres —, Albert Speer convenientemente olha­va para o outro lado. Queria resultados positivos, mas não podia sujar a túnica.

Naquele caso em particular, pensou Altmüller, Speer tinha razão. Se houvesse riscos de grande desgraça, que os corresse a indústria alemã. Que os homens de negócio alemães assumissem completa responsabilidade.

Genebra era vital apenas no sentido em que servia de introdução. Palavras cautelosas seriam pronunciadas e estas poderiam ou não conduzir ao segundo estágio da inacreditável negociação.

O estágio dois era geográfico: c local da troca, caso esta se realizasse.

Na semana anterior, Altmüller pouco mais fizera, dia e noite, senão concentrar-se no assunto. Estudava o problema do ponto de vista do inimigo, tanto quanto do próprio. Sua mesa de trabalho estava coberta de mapas, ostentava pilhas de relatórios descrevendo minuciosamente os climas políticos de todos os territórios neutros do mundo.

Afinal, o local tinha que ser neutro; não havia salvaguardas suficientes que ambos os lados pudessem investigar e respeitar. E talvez o mais importante é que a transação precisava ser realizada a milhares de quilômetros de distância das esferas de poder do ini­migo.

Distância.

Remoto.

Mas com os meios de comunicação instantânea. América do Sul. Buenos Aires.

Uma escolha inspirada, pensou Franz Altmüller. Os americanos a considerariam vantajosa. Era improvável que a rejeitassem. Bue­nos Aires possuía muito do que cada inimigo considerava seu; ambos exerciam enorme influência, mas nenhum dos dois detinha verda­deira autoridade.

O terceiro estágio, conforme ele o concebia, ocupava-se do fator humano, definido pela palavra "Schiedsrichter".

Árbitro.

Um homem que fosse capaz de supervisionar a troca, bastante poderoso no território neutro para elaborar a logística. Alguém que parecesse imparcial e, acima de tudo, aceitável para os americanos.

Buenos Aires possuía tal homem.

Um dos erros gigantescos de Hitler.

Chamava-se Erich Rhinemann, judeu, forçado ao exílio, perse­guido pela insana máquina publicitária de Goebbels, terras e com­panhias expropriadas pelo Reich.

Essas terras e companhias, ele não as transformara em ouro antes que a tempestade desabasse. Eram uma pequena percentagem de seus bens, o suficiente para aplacar os gritos enlouquecidos da imprensa anti-semita, mas pouco mais que um lanho na sua imensa riqueza.

Erich Rhinemann vivia em esplendoroso exílio em Buenos Aires, a fortuna segura nos bancos suíços, com interesses em expansão em toda a América do Sul. E o que pouca gente sabia era que Rhinemann era uni fascista mais dedicado que a camarilha de Hitler. Era um ditador em tudo o que fosse financeiro e militar, um elitista em re­lação à condição humana. Era um construtor de impérios que per­manecera estranhamente estoicamente silencioso.

E tinha as suas razões.

Seria devolvido à Alemanha, fosse qual fosse o resultado da guerra. Ele o sabia.

Se o Terceiro Reich saísse vitorioso, o edito asinino de Hitler seria revogado como o seria o poder do Führer caso ele conti­nuasse a se desintegrar. Se a Alemanha fosse derrotada como pretendia Zurique o talento de Rhinemann e suas contas suíças seriam necessários para reconstruir a nação.

Mas tudo isso estava no futuro. Era o presente que importava, e no momento Erich Rhinemann era judeu, forçado ao exílio por seus compatriotas, inimigos de Washington.

Seria aceitável para os americanos.

E cuidaria dos interesses do Reich em Buenos Aires.

Os estágios dois e três, na opinião de Altmüller, pareciam bastante claros. Mas ficariam sem sentido caso não houvesse um acordo em Genebra. O prelúdio precisava ser bem tocado pelos instrumen­tos menores.

O que se tornava preciso era o homem para ir a Genebra. Um indivíduo que ninguém pudesse .ligar aos líderes do Reich, mas que possuísse um certo prestígio no mercado.

Altmüller fixava os documentos sob a lâmpada da escrivaninha. Tinha os olhos cansados, todo ele estava cansado, mas sabia que não podia sair daquele gabinete ou dormir até tomar uma decisão.

Sua decisão; era somente sua. A ser aprovada por Speer, na manhã seguinte, com um simples relance. Um nome. Nenhuma dis­cussão. Alguém imediatamente aceitável.

Jamais saberia se haviam sido as cartas de Johannesburg ou o processo inconsciente de eliminação, mas seus olhos fixaram-se num nome e ele o rodeou com um círculo. E percebeu imediatamente que se tratava, mais uma vez, de uma escolha inspirada.

Johann Dietricht, o irado herdeiro das Dietricht Fabriken; o repulsivo homossexual dado a excessos alcoólicos e ao pânico súbi­to. Um membro inteiramente sacrificável da comunidade industrial.

Até o mais cínico relutaria em considerá-lo um elemento de ligação do Alto Comando.

Uma mediocridade sacrificável.

Um mensageiro.

 

5 de Dezembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

As pancadas graves do relógio da lareira marcaram sombriamente a hora. Eram seis da manhã e Alan Swanson olhou pela janela os prédios escuros de Washington. Seu apartamento ficava no décimo segundo andar e proporcionava uma ampla vista da ca­pital, especialmente das janelas do living, onde se encontrava, de roupão e descalço.

Contemplara a paisagem de Washington durante quase toda a noite, nos últimos três dias. Deus sabia que, quando conseguia dor­mir era perseguido por súbitos pesadelos e brusco despertar; e en­contrava sempre o travesseiro úmido, absorvendo a constante trans­piração que lhe cobria os poros da nuca.

Se sua mulher estivesse presente, insistiria em que ele se inter­nasse no Walter Reed para um checkup. Insistiria tanto que ele aca­baria submetendo-se. Mas ela não estava presente; Alan se mostrara inflexível. Ela deveria permanecer com a irmã em Scarsdale. A na­tureza de suas atividades no momento era tal que ele não tinha tempo para a mulher. Ela, esposa de militar, compreendia; alguma seria crise estava ocorrendo e o marido não podia suportar, além disso, as suas pequeninas exigências. Ele não gostava que ela o observasse em tais situações; e sabia que ela não desconhecia isso. Ela ficaria em Scarsdale.

Oh, meu Deus! Era inacreditável!

Ninguém dissera tais palavras. Talvez ninguém sequer permitisse a si mesmo pensá-las.

Era isso, naturalmente. Os poucos — os bem poucos — que tinham acesso aos dados desviavam os olhos e a mente da decisão derradeira. Cortavam a transação ao meio, recusando-se a reconhe­cer a parte final do acordo. Aquela metade, os outros que cuidassem, não eles.

Como o velho aristocrata Frederic Vandamm havia feito.

Aí está a sua solução, general. Seu sistema de orientação. Em Peenemünde... Alguém quer vendê-lo.

Era só.

Compre.

Ninguém queria saber do preço. Este era insignificante...que outros se preocupassem Com os detalhes. Em circunstância alguma — nenhuma circunstância — os detalhes insignificantes seriam dis­cutidos! Seriam simplesmente providenciados.

Tradução: á cadeia de comando dependia da execução de ordens gerais. Não exigia — repito -— não exigia excessiva elaboração, es­clarecimento ou justificativa. Especificações eram anatematizadas; consumiam tempo. E, segundo a santa escritura militar, os mais altos escalões não tinham tempo. Mas que diabo, homem, havia a guerra! Era preciso dar atenção às grandes questões militares!

O lixo seria remexido por subalternos, cujas mãos talvez ficassem ocasionalmente malcheirosas em conseqüência dessas tarefas inferio­res, mas era para isso que existia a Cadeia de comando.

Compre!

Não temos tempo. Nossos olhos estão voltados para o outro lado. A mente, ocupada com outras coisas.

Execute a ordem por sua própria iniciativa, como um bom soldado que compreende a cadeia de comando. Ninguém indagará; é o resultado que importa. Todos sabemos disso. A cadeia de co­mando, meu velho.

Loucura.

Por estranha coincidência, uma pista do Serviço de Informação era devolvida por um homem de Johannesburg, através do qual se buscara a aquisição de diamantes industriais. Uma compra na qual uma fortuna em moeda suíça fora oferecida pela I. G. Farben, o gigante dos armamentos do Terceiro Reich.

Peenemünde possuía o sistema de orientação. Estava disponível. Por determinado preço.

Não seria preciso uma grande inteligência para descobrir qual.

Diamantes industriais.

Loucura.

Por razões inconfessáveis, a Alemanha precisava desesperadamente de diamantes. Por razões bastante claras, os aliados precisa­vam desesperadamente do sistema de orientação a grande altitude.

Uma troca entre inimigos em meio à mais ferrenha guerra da história da humanidade.

Loucura. Ultrapassava toda compreensão.

E o General Alan Swanson afastou-a de sua imediata... totalidade

A pancada única do relógio significava um quarto de hora. Aqui e ali, por todo o emaranhado de concreto escuro, luzes eram acesas em pequeninas janelas. Uma claridade cinza-avermelhada começou a dominar a escuridão do céu; vagos contornos de nuvens já podiam ser distinguidos.

Nas grandes altitudes.

Swanson afastou-se da janela em direção ao sofá da lareira e sentou-se. Doze horas atrás — 11 horas e 45 minutos, para ser exato — dera o primeiro passo da remoção.

Delegara a loucura ao local que lhe competia: aos homens que haviam criado a crise, cujas mentiras e manipulações tinham levado Overlord ao precipício da obscenidade.

Dera ordens a Howard Oliver e Jonathan Craft para estarem no seu apartamento às seis horas. Doze horas e 15 minutos atrás. Telefonara na véspera, deixando bem claro que não toleraria des­culpas. Se transporte fosse problema, ele resolveria, mas precisavam estar em Washington, em seu apartamento, às seis horas.

Denúncia seria uma alternativa viável.

Chegaram precisamente às seis, quando as pancadas do relógio da lareira começavam a soar. Naquele momento, Swanson compreen­deu que lidava com o poder absoluto. Homens como Oliver e Craft — Oliver, especialmente — não revelariam tal pontualidade a menos que estivessem com medo. Não seria cortesia, com certeza.

A transferência fora feita com total simplicidade.

Havia um número de telefone em Genebra, Suíça. Havia um homem naquele número que responderia a uma determinada frase em código, reunindo duas partes disparatadas, agindo como intér­prete, se necessário. Ficava entendido que a segunda pessoa — para finalidades de definição — tinha acesso a um sistema de orientação aperfeiçoado para grandes altitudes. A primeira pessoa, por sua vez, teria conhecimento — talvez acesso — a carregamentos de diaman­tes industriais. As minas Koening de Johannesburg seriam um bom ponto de partida.

Era esta a informação que receberiam.

Recomendava-se que o Sr. Oliver e o Sr. Craft agissem imedia­tamente, nela baseados.

Se deixassem de fazê-lo, acusações extremamente sérias, incluin­do fraude individual e corporativa nos contratos de armamentos, se­riam apresentadas pelo Ministério da Guerra.

Seguira-se um longo período de silêncio. As implicações da de­claração — com todas as suas ramificações — foram gradualmente aceitas por ambos.

Alan Swanson acrescentara então a sutil confirmação de suas piores perspectivas: o escolhido para ir a Genebra não poderia ser ninguém conhecido dele. Nem de algum elemento de ligação do Mi­nistério da Guerra com qualquer das companhias. Isto era o mais importante.

O encontro de Genebra seria experimental. Quem quer que fosse a Suíça deveria ser pessoa competente e, se possível, capaz de per­ceber um logro. Evidentemente, um homem que praticasse o logro.

Isso não seria difícil para eles, nos círculos por onde andavam. Deviam conhecer alguém assim, com certeza.

Conheciam. Um contabilista chamado Walter Kendall.

Swanson consultou o relógio da lareira. Seis e vinte.

Por que o tempo passava tão devagar? Por outro lado, por que não se detinha? Por que não se detinha o mundo inteiro debaixo do sol? Por que seria preciso atravessar a noite?

Dentro de uma hora estaria no seu gabinete e tomaria discretas providências para que Walter Kendall fosse transportado por canais neutros a Genebra, Suíça. Ele colocaria as ordens numa bolsa azul, misturada com dezenas de outras diretivas de transporte e licenças de viagem. Não haveria assinatura nas ordens, apenas o carimbo oficial da Divisão de Campanha Fairfax, procedimento-padrão no caso.

Cristo!, pensou Swanson. Se pudesse haver controle... sem par­ticipação.

Mas sabia ser impossível. Mais cedo ou mais tarde ele teria que enfrentar a realidade do que havia feito.

 

6 de Dezembro de 1943

REGIÃO BASCA, ESPANHA

Estivera no norte oito dias. Não esperava permanecer tanto tempo, mas sabia ser necessário... um dividendo inesperado. O que começara como uma fuga rotineira de dois cientistas do vale do Ruhr transformara-se em algo diferente.

Os cientistas eram uma isca a ser sacrificada. Isca da Gestapo. O mensageiro que possibilitara a fuga do Ruhr não era membro do underground alemão. Era da Gestapo.

Spaulding levara três dias para se certificar absolutamente. O elemento da Gestapo era um dos melhores que ele havia encontrado, mas seus erros seguiam um padrão: ele não era um mensageiro ex­periente. Depois que se certificou, David compreendeu exatamente o que era preciso fazer.

Durante cinco dias conduziu seu companheiro do underground através de colinas e passos das montanhas em direção ao leste, até a Sierra de Guará, quase 50 quilômetros distante das rotas de fuga clandestinas. Penetrou em aldeias remotas, "conferenciou" com ho­mens que sabia serem falangistas — mas que não o conheciam — e então disse ao homem da Gestapo que se tratava de partisans. Viajou por estradas primitivas, desceu o rio Guayardo, explicando que eram aquelas as rotas de fuga... Ao contrário do que acreditavam os alemães, as rotas ficavam para o leste, em direção ao Me­diterrâneo e não ao Atlântico. Esta confusão era a razão primordial do êxito da rede dos Pireneus. Em duas ocasiões enviara o nazista a cidades, em busca de mantimentos — e ambas as vezes seguira-o, observando que o homem da Gestapo entrava em prédios de onde saíam os espessos cabos telefônicos.

A informação estava sendo transmitida para a Alemanha, razão suficiente para o investimento de cinco dias adicionais. Os interceptadores alemães estariam durante meses concentrados no sistema das rotas para o leste e a rede em direção peste ficaria relativamente desimpedida.

Mas o jogo estava para terminar. E era tempo. Tinha trabalho a fazer em Ortegal, na costa de Biscaia.

A pequena fogueira estava reduzida a cinzas, a noite era fria. Spaulding consultou o relógio. Eram duas da manhã. Ordenara ao "mensageiro" que ficasse de guarda a distância do acampamento, longe do clarão da fogueira. Na escuridão. Dera ao homem da Ges­tapo bastante tempo e isolamento para agir, mas o alemão não agira. Permanecera no seu posto.

Tanto melhor, pensou David. Talvez ele não fosse tão hábil quanto julgara. Ou talvez a informação que seus homens das colinas haviam transmitido não fosse correta. Não havia pelotão de soldados alemães — suspeitava-se que fossem tropas alpinas — descendo a montanha para aprisionar o agente da Gestapo.

E ele também.

Aproximou-se do rochedo onde o alemão estava sentado.

— Vá descansar. Eu fico de vigia.

— Danke — disse o alemão, levantando-se. — Primeiro, exigências da natureza. Preciso aliviar os intestinos. Vou levar uma pá até o campo.

      Vá para o bosque. Os animais pastam lá fora e o vento transmite.

—     É claro. Você é meticuloso.

—     Procuro ser.

O alemão voltou à fogueira, procurando sua mochila. Tomando uma pá de campanha, enveredou para o bosque que contornava o campo. Spaulding observou-o, certo agora de que sua primeira im­pressão fora correta. O agente da Gestapo era um perito. Não es­quecera que seis dias atrás os dois cientistas do Ruhr haviam desa­parecido durante a noite, quando ele estava cochilando. David per­cebera a fúria nos seus olhos e sabia que o nazista recordava agora o incidente.

Se Spaulding estivesse avaliando corretamente a situação do momento, o homem da Gestapo aguardaria pelo menos uma hora pelo relógio, para certificar-se de que ele, David, não estava entran­do em contato com partisans invisíveis na escuridão. Só depois daria o sinal que atrairia as tropas alpinas para a floresta, rifles apon­tados.

Mas o homem da Gestapo cometera um erro. Aceitara com de­masiada pressa e sem comentários a afirmativa de Spaulding sobre o campo, o vento, e a sugestão de utilizar a floresta.

Haviam chegado ao campo no final da tarde; era árido, mato crestado, escarpa rochosa. Nenhum animal pastaria ali, nem mesmo cabras.

E não soprava vento algum. O ar da noite estava frio, mas parado.

Um mensageiro experiente teria objetado, sem dúvida com bom humor, que de maneira alguma utilizaria a floresta mergulhada na escuridão. Mas o agente da Gestapo não pudera resistir à oportuni­dade gratuita de fazer seu próprio contato.

Se é que tal contato existia, pensou Spaulding. Verificaria den­tro de poucos minutos.

David aguardou 30 segundos depois que o homem desapareceu na floresta. Então, atirou-se rapidamente ao solo e começou a rolar afastando-se do rochedo e descrevendo um ângulo agudo a partir do ponto em que o mensageiro penetrara a floresta.

Tendo percorrido cerca de 10 metros no mato rasteiro, ergueu-se e correu agachado, para a orla do bosque, calculando estar a uns 50 metros do alemão.

Penetrou silenciosamente a densa folhagem, diminuindo a dis­tância entre os dois. Não o avistava ainda, mas sabia que em breve o encontraria.

E então viu. O sinal do alemão. Um fósforo foi riscado, protegido e rapidamente extinguido.

Mais outro. Este queimou vários segundos e depois foi soprado rapidamente.

Das profundezas do bosque vieram duas respostas rápidas e se­paradas. Dois fósforos riscados em direções opostas.

David calculou a distância em cerca de 30 metros. O alemão, não familiarizado com a floresta basca, permanecera próximo à orla do campo. Os homens para quem fizera sinal estavam se aproximan­do. Spaulding — sem emitir som que perturbasse o murmúrio do bosque — aproximou-se também.

Ouviu murmúrios de vozes. Distinguia apenas palavras isoladas, mas era o bastante.

Voltou rapidamente pelo mato rasteiro, até o ponto onde pene­trara entre as árvores, e correu para o posto de sentinela, o rochedo. Retirando uma pequena lanterna de bolso da jaqueta, fincou dedos separados no mato rasteiro e voltou-a para sudoeste, comprimindo o botão cinco vezes, em rápida sucessão. Em seguida, recolocou a lanterna no bolso e aguardou.

Não teria muito a esperar.

E não teve.

O alemão saiu do bosque, carregando a pá e fumando um cigarro. A noite estava escura, a lua aparecia somente a intervalos por entre espessas nuvens. A escuridão era quase total. David le­vantou-se do rochedo e fez sinal, com um curto assobio, para que o alemão se aproximasse.

      Que é, Lisboa?

Spaulding falou em voz baixa duas palavras:

—      Heil Hitler.

E mergulhou a baioneta curta no estômago do nazista, inclinando-a para baixo e matando-o instantaneamente.

O corpo caiu ao chão, fisionomia contorcida; o único som foi um arquejo, um princípio de grito, bloqueado por dedos rígidos mer­gulhados na boca e fazendo pressão para baixo, como a faca, impe­dindo a passagem do ar.

David correu pela vegetação até a orla .do bosque, para um ponto à esquerda de onde o penetrara anteriormente, mais próximo, embora não muito, do local onde o nazista falara em cochichos com seus dois companheiros. Mergulhou numa moita de folhagens de in­verno e, quando a lua surgiu de repente através das nuvens, perma­neceu imóvel por vários segundos, à escuta de qualquer som de alarma.

Não ouviu nenhum. A lua tornou a esconder-se, a escuridão voltou. O corpo no campo não fora avistado na rápida claridade. E este fato revelou a David um ponto muito importante.

Se houvesse tropas alpinas no bosque, não se encontravam na orla. Se existissem não estariam concentradas no campo.

Estavam à espera, reunidas em outras direções.

Ou apenas à espera.

Pondo-se de joelhos, afastou-se rapidamente para oeste pelo mato espesso, flexionando o corpo e os membros de maneira a amol­dar-se a cada curva da folhagem, fazendo ruídos compatíveis com os murmúrios da floresta. Chegou ao ponto em que os três homens haviam conferenciado minutos antes, sem sentir qualquer presença, sem ver coisa alguma.

Tirando do bolso uma caixa de fósforos à prova de umidade, separou dois. Riscou o primeiro e, no instante em que ardeu, so­prou-o. Em seguida, riscou o segundo e permitiu que ardesse um instante a mais antes de extingui-lo.

A cerca de 12 metros avistou uma chama de fósforo em resposta, diretamente ao norte.

Quase simultânea foi a segunda resposta. Esta, a oeste, talvez a uns 15 ou 20 metros.

Nada além disso.

Mas o suficiente.

Spaulding arrastou-se rapidamente pela floresta, em diagonal, na direção nordeste. Não percorreu mais que uns três metros, agachando-se junto ao tronco de uma velha árvore corroída pelas for­migas.

Aguardou. Enquanto esperava, retirou do bolso da jaqueta um arame fino, curto, flexível, tendo em cada extremidade uma peça de madeira que se adaptava à mão humana.

O soldado alemão fazia muito ruído para um alpino, pensou David. Caminhava apressado, ansioso para atender à ordem inespe­rada. Isso revelou outra coisa: o agente da Gestapo que ele matara era um homem exigente. Significava ainda que os demais soldados deveriam permanecer em posição, aguardando ordens. Haveria um mínimo de iniciativa individual.

Não havia tempo para pensar neles naquele momento. O soldado alemão estava passando pelo tronco da árvore.

David saltou silenciosamente, o arame erguido com ambas as mãos. O laço tombou sobre o capacete; o recuo foi tão veloz e brutal que o arame cortou a carne do pescoço de maneira absoluta.

De novo, só se ouviu um sopro de ar.

David Spaulding ouvira aquele som tantas vezes que já não o fascinava como antigamente. Silêncio.

Em seguida, o inconfundível quebrar de arbustos; passos pisando solo desconhecido, rápidos, impacientes produzidos pela mesma sofreguidão que cometera o homem morto a seus pés,

Spaulding colocou o arame ensangüentado novamente no bolso e retirou a baioneta curta da bainha presa ao cinto. Sabia não haver razão para pressa; o terceiro homem estaria esperando, confuso, as­sustado talvez... Provavelmente não, se fosse alpino. As tropas alpinas eram mais rijas que a Gestapo. Dizia-se que eram escolhidas primordialmente por laivos de sadismo. Eram robôs que podiam vi­ver em passos das montanhas, cultivando suas hostilidades em gela­do isolamento até receberem ordens de atacar.

Não havia dúvida alguma de que dava um certo prazer matar um alpino, pensou David.

A engrenagem.

Adiantou-se, faca erguida.

—    Wer?... Wer ist dort? murmurou agitado o vulto na escuridão.

—    Hier, mein Soldat respondeu David, mergulhando a baio­neta no peito do alemão.

 

Os partisans desceram das colinas. Eram cinco, quatro bascos e um catalão. O líder era basco, vigoroso e franco.

—    Você nos obrigou a uma viagem absurda, Lisboa. Por três vezes pensamos que estava louco. Mãe de Deus! Viajamos 50 qui­lômetros.

—    Os alemães viajarão várias vezes isso, garanto. Que há no norte?

—    Uma fileira de alpinos. Vinte, talvez. De seis em seis quilômetros, bem na fronteira. Deixaremos que fiquem sentados nas suas fezes?

—    Não respondeu Spaulding, pensativo. — Matem-nos... todos, exceto os últimos três. Forcem-nos a voltar. Confirmarão o que queremos que a Gestapo acredite.

—    Não compreendo.

—    Nem precisa.

David aproximou-se da fogueira moribunda e chutou os carvões. Precisava comunicar-se com Ortegal. Não pensava em outra coisa.

Súbito, percebeu que õ robusto basco o havia seguido. Encontrava-se do outro lado da fogueira reduzida; queria dizer qualquer coisa. Fitando David com firmeza, falou, ao reflexo das chamas:

—    Achamos que devia saber, agora. Descobrimos como os mi­seráveis fizeram contato há oito dias.

—    Que é que você está dizendo? — Spaulding sentia-se irritado. Cadeias de comando na região norte eram, no melhor dos casos, um risco calculado. Receberia os relatórios escritos. Não queria con­versa. Queria dormir, acordar e chegar a Ortegal. Mas o basco pare­cia ofendido e isso não convinha. — Continue, amigo.

—    Não contamos antes. Pensamos que, se estivesse com raiva, agiria com precipitação.

—    Como? Por quê?

—    Foi Bergeron.

—    Não acredito...

      É exato. Pegaram-no em San Sebastian. Não falou com facilidade, mas conseguiram. Dez dias de tortura... fios no aparelho genital, entre outros artifícios que incluíam injeções de droga. Sou­bemos que morreu cuspindo neles.

David fixou o homem e percebeu que aceitava a informação sem qualquer emoção. Sem emoção. E essa falta de emoção foi um aviso para ficar alerta. Treinara o homem chamado Bergeron, vive­ra com ele nas colinas, conversara horas infindáveis de coisas que somente o isolamento faz surgir entre os homens. Bergeron lutara com ele, sacrificara-se por sua causa. Bergeron era o maior amigo que jamais tivera no norte..

Dois anos atrás, a notícia o teria mergulhado num acesso de fúria. Teria esmurrado a terra e exigido uma missão para além da fronteira, uma vingança.

Um ano atrás ter-se-ia afastado do portador da notícia, exigindo alguns minutos a sós. Um breve silêncio para considerar, sozinho, o homem que entregara a sua vida e as lembranças que aquele outro conjurava.

No entanto, nada sentia naquele momento.

Nada, absolutamente.

E era horrível não sentir nada, absolutamente. — Não cometa novamente esse erro — disse ao basco. — Da próxima vez me conte. Eu não ajo com precipitação.

 

13 de Dezembro de 1943

BERLIM, ALEMANHA

Johann Dietricht movimentou o corpo volumoso na poltrona de couro, diante da escrivaninha de Altmüller. Eram 22:30 e ele não jantara; não houvera tempo. O vôo em Messerschmitt, de Genebra, fora desconfortável, assustador; além do mais, encontrava-se em es­tado de exaustão aguda, fato que apontou diversas vezes ao Unterstaatssekretar.

- Compreendemos tudo aquilo por que passou, Herr Dietricht. E o extraordinário serviço que prestou ao seu país — Altmüller fa­lava com solicitude. — Só precisaremos de mais alguns minutos e depois será conduzido aonde desejar.

—     Um restaurante decente, se é que se pode encontrar algum aberto a esta hora da noite — replicou Dietricht, petulante.

—     Pedimos desculpas por tê-lo trazido às pressas. Talvez uma noite agradável, uma refeição realmente bem preparada. Schnapps, boa companhia. Deus sabe o quanto merece... Há uma hospedaria a vários quilômetros da cidade. Freqüência restrita, em geral jovens tenentes da Força Aérea, em treinamento. A cozinha é excelente.

Não havia necessidade de Johann Dietricht retribuir a expressão sorridente de Altmiiller. Aceitava certas coisas como inerentes ao seu estilo de vida. Fora sempre tratado com atenção. Era um homem muito importante e os outros invariavelmente procuravam agradá-lo. Como Herr Altmüller procurava agradá-lo naquele mo­mento.

      Talvez seja uma forma de relaxar. Foi um dia horrível. Dias, na verdade.

Claro, se tiver outra...

—    Não, não. Aceito a sua recomendação... Vamos logo, está bem?

—    Muito bem. Repitamos diversos pontos para que não haja margem de erro... O americano não se mostrou preocupado com respeito a Buenos Aires?

—    Ficou satisfeitíssimo. Homem nojento. Incapaz de fitar a pessoa nos olhos, mas sabia o que dizia. Simplesmente nojento. As roupas, até as unhas. Sujeito sujo!

—    Sim, claro. Mas não terá interpretado mal?

—    Meu inglês é fluente. Compreendo até as nuanças. Ele ficou muito satisfeito. Percebi que servia a uma dupla finalidade: era dis­tante — milhares de quilômetros — e numa cidade nominalmente controlada por interesses americanos.

—    Sim, antecipamos tal reação. Ele possuía autoridade para confirmá-lo?

—    Sim, certamente. Sem dúvida. Apesar de suas maneiras gros­seiras, era óbvio que detinha uma posição muito elevada, decisiva. Indiscutivelmente ardiloso, mas bastante ansioso para fazer a troca.

—    Discutiram, ainda que periféricamente, os motivos' um do outro?

—    Era inevitável! Esse Kendall foi muito direto. Uma questão financeira, pura e simplesmente. Não havia outras considerações. E acredito nele de forma total. Só fala em cifras. Reduz tudo a nú­meros! Duvido que tenha capacidade para qualquer outra coisa. Sou extremamente sensível.

—    Contamos com isso. E Rhinemann? Ele também é aceitável?

—    Isso não importa. Apontei-lhe o risco calculado que estamos correndo, num esforço para afastar suspeitas; disse-lhe que Rhine­mann se encontrava em exílio forçado. Kendall só se impressionou com a riqueza de Rhinemann.

—    E o elemento tempo. Precisamos ser profundamente minuciosos. Vamos repetir as datas projetadas. Seria desastroso se eu cometesse um erro. Segundo entendi, o americano possuía estimati­vas das exigências para a remessa de carbonado e bort...

—    Sim, sim — interrompeu Dietricht, como se esclarecesse uma criança. — Afinal, ele não tinha a menor idéia do que precisáva­mos. Combinei o máximo, naturalmente; não havia muita diferença na questão de tempo. Eles precisam desviar carregamentos do ponto de origem; há risco excessivo no confisco das remessas existentes.

—    Creio que não compreendi. Poderia ser um ardil.

—    Estão presos em suas próprias medidas de segurança. Há um mês, todos os repositórios dc diamantes possuem controles exces­sivos, dezenas de assinaturas para cada quilo. Extrair ó que preci­samos seria manobra maciça, conduzindo à denúncia.

—     O inconveniente de uma operação democrática. Os subalter­nos são investidos de responsabilidade. E, uma vez esta recebida, é difícil retirá-la. Incrível.

—     Conforme disse o tal Kendall: havia um excesso de perguntas, um excesso de pessoas envolvidas. Seria muito complicado. A segurança deles está cheia de gente complicada.

—     Somos obrigados a aceitar as condições disse Altmüller, com resignação, em benefício próprio, não de Dietricht. E o tempo calculado para esses desvios de remessa são quatro a seis semanas. Não pode ser antes?

—     Certamente. Se estivermos dispostos a processar nós mesmos o minério.

—     Impossível. Acabaríamos com toneladas de resíduos inúteis. Precisamos do produto acabado, naturalmente.

      Lógico. Deixei isto bem claro.

—     Parece-me uma demora desnecessária. Preciso procurar inconsistências, Herr Dietricht. Disse que esse Kendall era ardiloso...

—     Mas ansioso. Disse também que ele estava ansioso. Fez uma analogia que confirmou suas declarações. Disse que seu problema era nada menos que o de um homem penetrando nos cofres nacionais, no estado de Kentucky, e saindo com caixas de lingotes de ouro... Terminamos?

Quase. O contato em Genebra receberá o nome do homem de Buenos Aires? O homem com quem faremos contato?

      Sim, dentro de três ou quatro dias. Kendall acreditava que seria um cientista chamado Spinelli. Um especialista em giroscópio?

—     O título pode ser posto em dúvida, creio. É italiano?

—     Mas civil.

—     Compreendo. Era de se esperar. Os planos serão submetidos a exame, naturalmente. Restam agora os cheques e contracheques que cada qual empregará no momento da troca. Uma dança ritual.

—     Ach! Isso é para a sua gente. Já estou fora. Fiz a contribuição inicial e, segundo creio, a mais importante.

—     Não há dúvida. E suponho que tenha correspondido à confiança do Führer, transmitida por este Gabinete. Não falou a nin­guém da viagem a Genebra?

—     A ninguém. A confiança do Führer não foi traída. Ele bem sabe. Como meu pai e seu irmão, meu tio, a lealdade e a obediência dos Dietricht é inabalável.

   Ele o mencionou várias vezes. Assunto encerrado, mein herr.

      Ótimo! Foi de destroçar os nervos!... Aceitarei sua recomendação do restaurante. Se quiser providenciar, telefonarei chaman­do meu carro.

— Como quiser, mas posso com facilidade mandar o meu cho­fer particular transportá-lo. Como já disse, é um tanto limitado, o meu chofer é um rapaz expedito. — Altmüller relanceou para Dietricht, encontrando-lhe o olhar por um rápido instante. — O Führer ficaria preocupado se soubesse que eu não o tratei bem.

      Muito bem, suponho que seja mais fácil. Não queremos que o Führer se preocupe.

Dietricht levantou-se com dificuldade, enquanto Altmüller er­guia-se também e rodeava a escrivaninha.

      Obrigado, Herr Dietricht — disse o Unterstaatssekretár, es­tendendo a mão. — Quando chegar o momento, tornaremos conhe­cida a sua extraordinária contribuição. É um herói do Reich, mein herr. Foi um privilégio conhecê-lo. Meu auxiliar o conduzirá ao car­ro. O chofer está à espera.

      Que alívio! Boa noite, Herr Altmüller.

Johann Dietricht encaminhou-se pesadamente em direção à por­ta, enquanto Franz estendia a mão para apertar um botão na escri­vaninha.

Na manhã seguinte, Dietricht seria encontrado morto em circunstâncias tão embaraçosas que ninguém ousaria mencioná-las, se­não em cochichos.

Dietricht, o anormal, seria eliminado.

E todos os traços da negociação de Genebra que o ligassem aos líderes do Reich estariam com ele apagados. Buenos Aires encon­trava-se agora nas mãos de Erich Rhinemann e de seus ex-compa­nheiros da indústria alemã.

À exceção dele — Franz Altmüller.

O verdadeiro manipulador.

 

15 de Dezembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

Swanson não gostava dos métodos que era obrigado a empregar. Sentia que constituíam o início de uma infindável série de men­tiras. E ele não era um homem mentiroso. Talvez fosse melhor que muitos em surpreender hipócritas, mas isso era devido à prática constante e não a características intrínsecas.

Os métodos eram desagradáveis: observar pessoas que ignoravam estar sendo observadas e ouvidas; que falavam sem as inibições que certamente teriam experimentado se soubessem que olhos, ouvi­dos e gravadores estavam à espreita. Tudo isso pertencia à um outro mundo, o mundo de Edmund Pace.

Fora bastante fácil manipular. O Serviço de Informação do Exército tinha salas de interrogatório por toda Washington. Nos lo­cais mais improváveis. Pace recebera uma lista de endereços e esco­lhera o hotel Sheraton. Quarto andar, suíte 4-M; duas peças à vista e uma terceira oculta, O quarto oculto ficava por detrás de uma pare­de dotada de orifícios de vidro unidirecional. Esses orifícios para observação eram cobertos por quadros impressionistas suspensos de modo permanente no quarto e na sala. Gravadores de tomada en­contravam-se nas prateleiras sob os orifícios, no interior do quarto oculto. Alto-falantes ampliavam a conversação com um mínimo de distorção. Os únicos obstáculos visuais eram as leves colorações pas­tel dos quadros.

O que não chegava a ser obstáculo.

Não fora difícil também conduzir os três homens à suíte do Sheraton. Swanson havia telefonado a Jonathan Craft, da Packard, informando que Walter Kendall chegaria de Genebra no princípio da tarde. O autoritário general dissera ainda ao apavorado civil que talvez fosse necessário manter contato telefônico. Sugeria, portanto, que Craft reservasse um quarto em hotel comercial, movimentado, no centro da cidade. Recomendara o Sheraton.

Craft mostrara-se solícito. Corria para salvar a vida. Se o Departamento de Guerra sugeria o Sheraton, seria o Sheraton. E fizera a reserva sem se dar ao trabalho de avisar a Howard Oliver, da Meridian.

A recepção cuidara do resto.

Quando Walter Kendall chegara, a uma hora atrás, Swanson impressionara-se com a aparência desordenada do contabilista. Eia desleixo inato, e não o resultado da viagem. Um desalinho que se estendia aos gestos, aos olhos sempre em movimento. Era um roedor gigante no físico de um homem de estatura mediana. Parecia incon­gruente que homens como Oliver e Craft — o último em especial — se associassem a Walter Kendall. O que lhe acentuava o valor, na sua opinião. O homem possuía uma firma de auditoria em Nova York. Era analista financeiro, contratado pelas companhias para manipular projetos e estatísticas.

O contabilista não trocara aperto de mão com nenhum dos dois. Seguira direto para uma poltrona diante do sofá e abrira a pasta, começando a fazer seu relatório sucinto:

—      O filho da mãe era efeminado, juro por Deus!

No decorrer de uma hora, Kendail descreveu minuciosamente tudo o que se passara em Genebra. A quantidade de bort e carbo­nado combinada; a qualidade dos certificados; Buenos Aires; Gian Spinelli; os planos do giroscópio — os certificados, a entrega por parte deles, e o elemento de ligação, Erich Rhinemann, judeu exila­do. Kendail era um roedor 'autoritário, que não se sentia embaraçado nos círculos das negociações escusas. Na verdade, sentia-se muito à vontade.

—    Como podemos ter certeza de que negociarão de boa fé? — perguntou Craft.

—    Boa fé? — zombou Kendail, fazendo uma careta para o executivo da Packard. — Você é demais. Boa fé!

—    Poderiam não nos entregar os pianos corretos — prosseguiu Craft. — Poderiam entregar substitutos sem valor!

—    Ele tem razão — interveio Oliver, lábios tensos.

—    E nós poderíamos entregar caixotes de vidro facetado. Acha que isso não passou pela cabeça deles? Mas não o farão, assim como nós não o faremos. Pela mesma maldita razão. Nossos próprios pes­coços estão na guilhotina. Temos um inimigo em comam, e não é mutuamente.

Oliver, sentado diante de Kendail, fixou o contabilista.

—    Lá, os generais de Hitler; aqui, o Departamento de Guerra.

—    Certo. Somos ambos linhas de fornecimento. Por Deus, pela pátria e um ou dois dólares. E estamos ambos na mesma nojenta posição. Não dizemos aos malditos generais como devem dirigir a guerra e eles não nos dizem como devemos manter a produção. Se eles embaralharem a estratégia e perderem uma bataha, não gritare­mos. Mas se formos pegados desprevenidos, se não entregarmos o que prometemos, os miseráveis virão nos cortar o pescoço. É horri­velmente injusto. Esse efeminado, Dietricht, pensa como eu. Precisamos nos proteger.

Craft levantou-se do sofá; era um ato de nervosismo, um gesto de dúvida. Hesitante, falou em voz baixa:

—    Não se trata exatamente de nos protegermos de modo normal. Estamos negociando com o inimigo.

—    Que inimigo? — Kendail remexeu nos papéis que tinha no colo, sem erguer os olhos para Craft. — Bem, está certo. Mas ainda assim, é melhor que "normal". Vença quem vencer, cada um de nós terá uma vantagem quando tudo estiver terminado. Concordamos com isso também.

Houve um prolongado silêncio. Oliver inclinou-se na poltrona, olhos fixos em Kendall.

—     Isso é um dividendo, Walter. Talvez haja muito bom senso no que disse.

—     Muito — replicou o contabilista, com um rápido olhar para Oliver. — Estamos destruindo as cidades deles, bombardeando fá­bricas, riscando-as do mapa; estradas de ferro, de rodagem, desapa­recem em nuvens de fumaça. E ficará pior ainda. Será preciso muito dinheiro para reconstruir tudo. Dinheiro da reconstrução.

—     Suponhamos que a Alemanha vença — disse Craft, à janela.

—     Muito improvável — respondeu Kendall, — É apenas uma questão da quantidade de prejuízos infligidos a ambos os lados, e nós temos o material. Quanto maiores os danos, mais dispendiosa a reconstrução. Isso inclui a Inglaterra. Se vocês forem espertos, estarão preparados para transformar e aproveitar parte das altera­ções do pós-guerra.

—     Os diamantes... — Craft voltou-se da janela. — Para que os querem?

—     Que diferença faz? — Kendall separou uma página e escreveu qualquer coisa. — Precisam deles. Ficaram com a cabeça na guilhotina, exatamente como nós com o sistema de orientação... Por falar nisso, Howard, teve a conversa preliminar com as minas?

Oliver estava imerso em pensamentos. Pestanejando, ergueu a

vista.

—     Sim. Koening. Escritório em Nova York.

—     Como foi que colocou a questão?

—     Disse que se tratava de assunto altamente secreto, com apro­vação do Departamento de Guerra. Que a autorização viria do gabi­nete de Swanson, mas nem mesmo ele estaria a par do assunto.

—     E engoliram isso? — O contabilista continuava a escrever.

—     Eu disse que dinheiro não seria objeção. Eles pretendem ga­nhar alguns milhões. Nós nos encontramos no Banker's Club.

—     Engoliram. — Era uma afirmativa.

—     Walter... — prosseguiu Oliver — você mencionou Spi­nelli. Não me agrada. É má escolha.

Kendall parou de escrever para fitar o homem da Meridian.

—     Não pretendia dizer coisa alguma a ele. Apenas que vamos comprar; que ele precisa verificar tudo antes de pagarmos, certifi­car-se de que os planos são autênticos.

—     Inútil. Ele não sairia do projeto. Haveria perguntas demais. Procure outra pessoa.

      Compreendo o que quer dizer disse Kendall, abando­nando o lápis e explorando o nariz, num gesto pensativo. Espere um momento...Há uma pessoa. Bem em Pasadena. É um filho da mãe estranho, mas seria perfeito. Kendall riu, respirando pela boca. Ele nem mesmo fala. Não pode falar.

      Ele presta? perguntou Oliver.

      Tem seus problemas, porém será melhor do que Spinelli replicou Kendall, escrevendo numa folha de papel separada. Eu cuidarei disso... Vocês pagarão.

Oliver deu de ombros.

      Inclua nas despesas extras, seu miserável. E depois?

—    Um contato em Buenos Aires. Alguém que possa negociar com Rhinemann, combinar os detalhes da troca.

—    Quem? perguntou Craft, apreensivo, mãos juntas em ora­ção.

O contador sorriu, descobrindo dentes manchados.

—     Está se oferecendo? Parece um padre...

—     Meu Deus, não! Estava simplesmente...

—     Quanto? interrompeu Oliver.

Mais do que você quer pagar, mas creio que não há opção. Passarei o que puder para Tio Sam. Economizarei o que for possível para você.

      Faça isso.

—    Há uma porção de militares em Buenos Aires. Swanson so­frerá alguma interferência.

—    Ele não se envolverá disse Oliver, rapidamente. Foi específico. Não quer ouvir ou ver o seu nome novamente.

—    Não me importa a mínima o que ele faça. Mas esse Rhinemann vai querer certas garantias, isso posso dizer desde já.

—    Swanson ficará aborrecido. A voz de Craft era aguda e intensa. Não o queremos aborrecido.

Aborrecido, merda! Ele quer manter bem limpo aquele bonito uniforme... É melhor não pressioná-lo agora. Dêem-lhe tem­po. Preciso planejar uma porção de coisas. Talvez descubra um meio de manter limpo o uniforme dele. É possível que eu mande a conta.

 

Ele quer manter bem limpo aquele bonito uniforme...

Era o que desejava profundamente,- Sr. Kendall, pensava Swan­son, ao aproximar-se do conjunto de elevadores.

Mas já não era possível. O uniforme teria que se sujar. O aparecimento de um homem chamado Erich Rhinemann tornara-o ine­vitável.

Rhinemann era uma das falhas de Hitler. Berlim o sabia. Londres e Washington também. Rhinemann era um homem totalmente comprometido com o poder — financeiro, político, militar. Para ele, a autoridade devia emanar de uma fonte única, e não aceitaria even­tualmente nada menos que ser a fonte desse poder.

O fato de ser judeu era simples detalhe. Um inconveniente que cessaria com o término da guerra.

Quando a guerra terminasse, Erich Rhinemann seria chamado de volta. O que restasse da indústria alemã o exigiria; os líderes financeiros o exigiriam.

Rhinemann reingressaria no mercado internacional com mais poder do que jamais gozara.

Sem a negociação de" Buenos Aires.

Com ela, seu impulso seria extraordinário.

Seu conhecimento e participação na troça proporcionariam uma arma sem igual a ser usada contra todos os lados, todos os governos.

Especialmente Washington.

Erich Rhinemann precisava ser eliminado.

Depois da transação.

E, ainda que fosse apenas por esta razão, Washington teria que colocar outro homem em Buenos Aires.

 

16 de Dezembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

Não era costumeiro que o oficial mais graduado saísse de Fair-fax por qualquer motivo, mas o Coronel Edmund Pace recebeu or­dens nesse sentido.

Pace colocou-se diante da escrivaninha do General Swanson e principiou a entender. As instruções do general eram breves, mas cobriam mais território do que sua brevidade sugeria. Pastas da In­formação seriam recolhidas de arquivos de fechadura dupla, exami­nadas minuciosamente algumas delas.

Swanson sabia que a princípio Pace desaprovara. O comandante da Fairfax não pôde ocultar sua surpresa. O agente em questão teria que ser fluente tanto em alemão como em espanhol. Precisava ter bons conhecimentos — não de especialista, porém maiores que os de um curioso — de engenharia aeronáutica, inclusive dinâmica me­talúrgica e sistemas de navegação. Precisava ser um homem capaz de manter um papel, talvez ao nível de embaixada. Isto significava um indivíduo que possuísse as graças necessárias para se movimentar facilmente nos. círculos abastados, na arena diplomática.

A esta altura, Pace protestara. Seu conhecimento da pista de Johannesburg e da negociação de Genebra levara-o a objetar. Mas interrompera Swanson apenas para ouvir deste que guardasse suas observações até que o superior acabasse de falar.

A última qualificação do homem de Buenos Aires — e o general concordava na sua inconsistência, ao incluí-la nas qualificações téc­nicas- anteriores — dizia que o agente precisava ter experiência em "despachos rápidos".

O homem precisava de conhecimentos de homicídio. Nada de combate com adversários isolados, levados ao frenesi pela visão e pelo ruído da batalha. Mas um homem que pudesse matar em si­lêncio, enfrentando o alvo. Sozinho.

Esta última qualificação abrandou Pace. Sua expressão transmitiu a certeza de que, fosse o que fosse a questão em que seus su­periores estavam envolvidos, não era exatamente o que ele des­confiava. O Departamento de Guerra não requisitaria tal pessoa, se pretendesse manter os acordos superficiais.

O oficial-comandante de Fairfax não fez comentários. Ficava entendido que somente ele faria a pesquisa nos arquivos. Pediu um código, um nome, para qualquer comunicação.

Swanson inclinou-se para a frente, olhos no mapa da parede, que se encontrava ali havia mais de três horas.

"Tortugas" — respondeu.

 

18 de Dezembro de 1943

BERLIM, ALEMANHA

Altmüller fixou o selo intacto do grande envelope pardo. Movimentando-o sobre a lâmpada da escrivaninha, tomou uma lente da gaveta e examinou-o. Ficou satisfeito. O selo não fora tocado.

O correio da Embaixada viera de Buenos Aires — via Senegal e Lisboa — e entregara pessoalmente o envelope, segundo as ins­truções. Como o correio tinha base permanente na Argentina, Altmüller não queria que ele levasse mexericos de volta, de modo que entretivera uma conversação inócua, referindo-se várias vezes à co­municação de maneira casual, depreciativa, sugerindo tratar-se de um aborrecimento — um memorando relativo às finanças da Embai­xada e que na verdade pertencia à esfera do Finanzministerium, mas que podia ele fazer?... o embaixador era um velho amigo de Speer.

Depois que o correio saíra, fechando a porta, Altmüller voltara a atenção para o envelope. Era de Erich Rhinemann.

Abriu-o pelo alto. A carta estava escrita a mão, em caligrafia quase indecifrável.

 

"Meu caro Altmüller,

 

Servir ao Reich é um privilégio que assumo com entusiasmo. Sou grato, naturalmente, por suas afirmativas de que meus esforços serão conhecidos de todos os meus velhos amigos. Imaginei que não o faria por menos, nas circunstâncias.

Ficará satisfeito ao saber que nas águas costeiras, de Punta Delgada até o Caribe, os meus navios navegam sob a neutralidade da bandeira paraguaia. Este detalhe pode lhe ser útil. Além do mais, possuo diversos navios de pequeno e médio portes equipados com motores potentes e que são capazes de navegar velozmente pelas águas costeiras; e existem postos de reabastecimento permitindo que consideráveis distâncias sejam rapidamente atravessadas. Não podem se comparar com o avião, naturalmente, mas as viagens são feitas em completo sigilo, longe dos olhares curiosos que hoje em dia rodeiam todos os aeroportos. Até os neutros precisam transpor cons­tantes bloqueios.

Esta informação deve responder às estranhamente obscuras ques­tões que apresentou.

Suplico que seja mais preciso nos futuros comunicados. Apesar de tudo, pode estar tranqüilo quanto ao meu compromisso com o Reich.

Associados de Berna me informam que o seu Führer revela for­tes sinais de fadiga. Era de se esperar, não?

Lembre-se, meu caro Franz, de que o conceito é sempre mais importante que o homem. Na atual situação, o conceito veio antes do homem. E ele o monumento.

Aguardo suas notícias.

Erich Rhinemann

 

Como fora delicadamente desprovido de sutileza o homem!_______

compromisso com o Reich. .. associados de Berna. .. fortes sinais de fadiga. . . era de se esperar...

. . . monumento maior que o homem. . .

Rhinemann expunha seus talentos, seu poder financeiro, suas preocupações "legítimas" e seu inequívoco compromisso com a Ale­manha. Incluindo, justapondo tais fatores, ele se colocava acima do Führer. E assim condenava Hitler — para maior glória do Reich. Rhinemann mandara fazer, sem dúvida, cópias fotostáticas de sua carta e iniciaria um fichário muito completo da operação Buenos Aires. E um dia a utilizaria para colocar-se no cimo da Alemanha do pós-guerra. Talvez de toda a Europa. Pois teria a arma que garantia a sua aceitação.

Na vitória ou na derrota. Total devoção ou, pelo contrário, chantagem de tais proporções que os aliados estremeceriam à sim­ples idéia.

Que seja assim, pensou Altmüller. Não tinha rancor de Rhine­mann. Era um expert em tudo em que se envolvia. Metódico quase em excesso; conservador no progresso, mas apenas no sentido de dominar todos os detalhes antes de prosseguir. Acima de tudo, pos­suía uma ousada imaginação.

O olhar de Altmüller caiu nas palavras: "Suplico que seja mais preciso nos futuros comunicados".

Franz sorriu. Rhinemann tinha razão. Ele fora obscuro. Mas por sólida razão: não tinha certeza do seu destino; ignorava para onde estavam conduzindo-o. Sabia apenas que os caixotes de dia­mantes carbonados precisavam ser minuciosamente examinados, e isso levaria tempo. Mais tempo do que Rhinemann imaginava, se a infor­mação que recebera de, Peenemünde era correta. Segundo Peenemünde, era uma simples questão de os americanos embalarem uma grande quantidade de bort de baixa qualidade, o que para o olhar inexperiente passaria despercebido. As pedras rachariam ao primeiro contato com o aço.

Se a operação estivesse em mãos dos ingleses, seria esta a manobra esperada.

E mesmo os americanos possuíam bons manipuladores de informação. Se os serviços de informação estivessem a par da troca. Mas Altmüller duvidava de seu envolvimento ativo. Os americanos eram institucionalmente hipócritas. Fariam exigências aos seus in­dustriais esperando que elas fossem cumpridas. No entanto, fechariam os olhos quanto aos métodos; o laivo puritano recebia considerável atenção em Washington.

Crianças. Mas crianças zangadas, frustradas, poderiam ser perigosas.

Os caixotes teriam que ser minuciosamente examinados. Em Buenos Aires.

Uma vez aceitos, não se correria o risco de que fossem pelos ares, ou mergulhassem na água. Assim, era lógico indagar a Rhmemann quais as vias de transporte disponíveis. Pois em algum ponto, fosse como fosse, os caixotes teriam que encontrar o método mais viável de transporte até a Alemanha.

Submarino.

Rhinemann compreenderia; talvez até aplaudisse a precisão dos futuros comunicados.

Altmüller levantou-se da escrivaninha, espreguiçou-se e cami­nhou a esmo pelo gabinete, tentando desfazer-se das cãibras provo­cadas pelo fato de ter estado sentado durante muito tempo. Aproxi­mou-se da poltrona onde Johann Dietricht sentara dias antes.

Dietricht estava morto. O mensageiro anormal, sacrificável, fora encontrado numa cama ensangüentado, e as histórias da noite de farra eram tão repulsivas que fora decidido enterrá-las junto com o corpo, sem mais delongas.

Altmüller perguntou a si mesmo se o americano teria estômago para tais decisões.

Duvidou.

 

19 de Dezembro de 1943

FAIRFAX, VIRGÍNIA

Swanson postou-se em silêncio diante da pesada porta de aço, nó interior do edifício Quonset. O tenente da segurança ficou ao in­tercomunicador da parede apenas o suficiente para anunciar o nome do general. Recolocou o fone e, com um movimento de cabeça, fez uma segunda continência. A pesada porta emitiu um estalido e Swan­son compreendeu que podia entrar.

O comandante de Fairfax estava sozinho, conforme ele ordenara. Encontrava-se de pé à direita da mesa, uma pasta na mão. Saudou o superior.

—    Bom-dia, general.

—    Bom-dia. Trabalhou depressa. É algo que eu aprecio.

—    Talvez não seja tudo o que deseja, mas é o melhor que podemos apresentar... Sente-se, general. Descreverei as qualificações. Se as aprovar, o dossiê é seu. Se não, voltará para o cofre.

Swanson dirigiu-se a uma das cadeiras de encosto duro diante da mesa do coronel e sentou-se, com certo ar de aborrecimento. Ed Pace, como tantos de seus subordinados das Operações Clandestinas, agia como se não fosse responsável diante de ninguém, exceto Deus; e até Ele teria que ser investigado por Fairfax. Swanson pensou que seria muito mais simples se Pace lhe entregasse a pasta e deixasse que ele lesse sozinho.

Por outro lado, a doutrinação de Fairfax continha no âmago a possibilidade — remota, embora — de que qualquer par de olhos pudesse ser roubado pelo inimigo. A pessoa estaria em Washington esta semana e em Anzio ou Solomons na próxima. Havia lógica nos métodos de Pace; uma rede geográfica de agentes do underground poderia ser revelada com uma simples quebra na cadeia de segu­rança.

No entanto, era aborrecido como o diabo. Pace parecia adorar seu papel; não tinha senso de humor, pensou Swanson.

—    O sujeito em questão é elemento comprovado em campanha. Agiu com a maior independência num dos nossos postos mais delicados. Idiomas: fluência aceitável. Comportamento e cobertura: extremamente flexível. Movimenta-se com facilidade nos círculos ci­vis, desde os chás de embaixada até os bares de operários — é bastante móvel e convincente.

—    Está apresentando um quadro positivo, coronel.

—    Neste caso, sinto muito, é valioso onde se encontra. Mas ainda não ouviu tudo. Talvez mude de idéia.

—    Continue.

—    Como ponto negativo, não pertence ao Exército. Não quero dizer que seja civil — tem o posto de capitão, para ser exato, mas creio que jamais o utilizou. O que quero dizer é que nunca agiu dentro de uma cadeia de comando. Foi ele quem estabeleceu a rede. É ele o comando. Vem sendo há quase quatro anos.

—     Por que considera isto negativo?

—     Não há meio de se dizer como reage à disciplina. Como recebe ordens.

—     Não haverá muita latitude para desvios. Está tudo decidido.

—     Muito bem... Segundo ponto negativo: ele não entende de aeronáutica...

—     Isto é importante! — disse Swanson, com aspereza. Pace estava perdendo tempo. O homem de Buenos Aires precisaria com­preender o que se passava. Talvez mais que compreender.

—     Pertence, porém, a um setor relacionado com aeronáutica, general. Um dos que, segundo nosso pessoal, está preparando-o para instruções intensivas.

—     Como assim?

—     Ele é engenheiro civil, com considerável experiência em planejamento mecânico, elétrico e de estrutura metálica. Seu back­ground inclui plena responsabilidade por planejamentos inteiros, des­de os alicerces até os acabamentos. É especialista em plantas.

Swanson manteve-se calado, depois anuiu.

—     Está bem. Prossiga.

—     A parte mais difícil de seu pedido foi encontrar alguém que possuísse tais qualificações técnicas e tivesse experiência prática em "eliminação". O senhor mesmo reconheceu isso.

—     Eu sei. — Swanson achou que seria o momento de exibir um pouco mais de humanidade. Pace parecia exausto. A procura não fora fácil. — Eu fiz um pedido difícil. Seu engenheiro não-militar e flexível tem alguma "eliminação" registrada?

—     Procuramos evitar registros, porque...

—     Compreendo.

—     Sim. Ele se encontra onde isso é inevitável, lamento dizê-lo. À exceção dos elementos de Burma e da Índia, teve, mais que nenhum outro no setor, ocasião de utilizar soluções extremas. Que soubésse­mos, jamais hesitou em utilizá-las.

Swanson fez menção de falar, depois calou-se, franzindo as so­brancelhas sobre o olhar interrogador.

—     Não se pode deixar de ficar intrigado com tais indivíduos, não é mesmo?

—     São treinados. Como todos os demais, cumprem sua tarefa com uma finalidade. Ele não é um assassino por natureza. Poucos de nossos bons elementos o são.

—    Jamais compreendi seu trabalho, Ed. Não é estranho?

—    De maneira alguma. Eu não conseguiria agir no seu setor do Departamento de Guerra. Aqueles mapas, gráficos e civis hipócritas me confundem. . . Que lhe parece o elemento?

—    Tem alguma alternativa?

—    Várias. Mas em cada uma surge o mesmo ponto negativo. Os que conhecem línguas e têm conhecimentos de aeronáutica não possuem experiência em eliminações. Não há registros de... precon­ceito extremo. Trabalhei supondo que este fator era tão importante quanto os demais.

—    Sua suposição estava correta... Diga-me: conhece-o?

Muito bem. Fui eu quem o recrutou. Observei todas as fases do seu treinamento. Vi-o em ação. É um profissional.

—    É o que eu quero.

—    Então, talvez seja o nosso homem. Mas antes de afirmá-lo gostaria de fazer uma pergunta. Na verdade, preciso fazê-la. Alguém a fará a mim.

—    Espero poder responder.

—    Está dentro do possível. Não é específica.

—    Qual é?

Pace caminhou pela borda da escrivaninha, na direção de Swanson. Apoiando-se nela, cruzou os braços. Era um outro sinal militar: Sou seu subordinado, mas isto nos coloca em plano de igualdade neste momento.

—    Eu disse que o elemento era valioso onde se encontrava. Isso não disse tudo. É inestimável, essencial. Removendo-o de lá, prejudicamos uma operação muito sensível. Podemos manobrá-lo, mas os riscos são consideráveis. O que preciso saber é se esta missão justifica a transferência.

—    Deixe-me colocar a questão nestas palavras, coronel respondeu Swanson, tom de voz manso, mas decidido. A missão está acima de todas as prioridades, com possível exceção do Projeto Man­hattan. Suponho que já tenha ouvido falar no Projeto Manhattan.

—    Ouvi. Pace afastou-se da escrivaninha. E o Departa­mento de Guerra, através do seu gabinete, confirmará esta priori­dade?

—    Confirmará.

—    Neste caso, aqui está ele, general. Pace entregou a Swanson o dossiê.

      Um dos nossos melhores elementos. É.o nosso homem em Lisboa... Spaulding. Capitão David Spaulding.

 

26 de Dezembro de 1943

RIBADAVIA, ESPANHA

David rumava para o sul de motocicleta, seguindo a estrada de terra paralela ao rio Minho. Era o caminho mais rápido para a fron­teira, logo adiante de Ribadavia. Transpondo-a, ele se voltaria para oeste até um aeroporto nós arredores de Valência. O vôo para Lisboa levaria duas horas, se o tempo se mantivesse firme e ele encontrasse avião. Valência esperava-o somente daí a dois dias. Todos os apa­relhos talvez estivessem em uso.

Sua ansiedade igualava a intensidade das rodas que giravam sob seu corpo. Era tão extraordinário. Para ele não fazia sentido. Não havia em Lisboa ninguém que pudesse emitir as ordens que ele re­cebera de Ortegal!

Que acontecera?

Teve a súbita impressão de que uma parte vitalmente importante de sua existência fora ameaçada. E então espantou-se com sua própria reação. Não tinha nenhum amor por aquele mundo tempo­rário; não sentia prazer com as infindáveis manipulações e contra-manipulações. Na verdade, desprezava a maioria de suas atividades diárias, estava farto do medo constante, dos infindáveis fatores de alto risco a serem avaliados antes de cada decisão.

Contudo, percebia o que o aborrecera tanto: progredira no tra­balho. Chegara a Lisboa séculos atrás, iniciando vida nova — e con­seguira dominá-la. De certo modo, aquilo representava todos os edi­fícios que desejava construir, todos os planos que gostaria de trans­formar em argamassa e aço. Havia precisão e finalidade no seu tra­balho; os resultados surgiam diariamente. Com freqüência, várias vezes ao dia. Como centenas de detalhes nas especificações das construções, a informação chegava-lhe, ele a reunia e dela extraía a rea­lidade.

E desta realidade dependiam os outros.

Agora, alguém queria tirá-lo de Lisboa! De Portugal e da Espanha! Seria tão simples assim? Seus relatórios teriam aborrecido excessivamente algum general? Um plano estratégico fora anulado porque ele enviara a verdade de uma operação aparentemente bem sucedida? Os altos escalões de Londres e Washington estariam final­mente aborrecidos a ponto de removerem o espinho crítico? Era pos­sível. Freqüentemente lhe haviam dito que nas salas subterrâneas da Tower Road de Londres houvera explosões por causa de suas avaliações. Sabia que o Gabinete de Serviços Estratégicos de Wash­ington achava que ele invadia seu território; mesmo a G-2, ostensi­vamente a sua própria agência, criticava seu envolvimento nas equi­pes de fuga.

Mas, além das queixas, havia algo que a todas sobrepujava: ele era um bom agente. Elaborara a melhor rede da Europa.

Era por isso que se sentia confuso e bastante perturbado por uma razão que não queria admitir: precisava de elogios.

Não havia construções importantes, planos extraordinários que se transformassem em edifícios mais extraordinários ainda. Talvez jamais houvesse. Ele seria um engenheiro de meia-idade quando a guerra terminasse. Um engenheiro de meia-idade que deixara de pra­ticar a profissão havia anos, até mesmo no vasto Exército dos Esta­dos Unidos, cujo corpo de engenharia possuía a mais ampla equipe de construção da História.

Procurou não pensar no assunto.

Atravessou a fronteira em Mendoso, onde os guardas o conhe­ciam como um rico e irresponsável expatriado que evitava os peri­gos da guerra. Aceitando suas gratificações, acenavam para que ele passasse.

 

O vôo de Valência até o minúsculo aeroporto nos arredores de Lisboa foi prejudicado por pesada chuva. Tornou-se necessário des­cer duas vezes, em Águeda e Pombal, antes da etapa derradeira. Recebeu-o um veículo da Embaixada; o motorista, um criptógrafo chamado Marshall, era o único elemento da Embaixada que conhecia a sua verdadeira função.

—    Tempo horrível, não é? comentou o criptógrafo, instalan­do-se ao volante, enquanto David atirava a mochila no banco tra­seiro. Não o invejei naquele avião. Com uma chuva dessas.

—    Esses pilotos de teco-teco voam tão baixo que se poderia saltar do avião. O que me preocupava eram as árvores.

—    Eu me preocuparia com tudo. Marshall enveredou para o portão de madeira que servia de entrada ao campo. Na estrada, acendeu o farol alto. Ainda não eram seis horas, mas o céu estava escuro e as luzes tornaram-se necessárias.

—    Pensei que você me lisonjearia, perguntando por que um especialista do meu gabarito está fazendo papel de chofer. Cheguei aqui às quatro horas. Vamos, pergunte. Foi uma espera daquelas!

Spaulding sorriu.

—    Pensei que você estivesse procurando cair nas minhas boas graças, Marsh, para que eu o levasse ao norte na próxima viagem. Ou será que me promoveram a brigadeiro?

—    Você foi promovido a qualquer coisa, David. Marshall falava sério. Eu próprio recebi a mensagem D.C. Altamente clas­sificada; só para ser vista, criptógrafo-chefe.

—    Estou lisonjeado disse Spaulding, em voz baixa, aliviado por poder conversar com alguém sobre a absurda notícia da sua transferência. Que diabo significa isso?

—    Não tenho a menor idéia do que querem de você, é claro, mas posso tirar uma conclusão: queriam você ontem. Cobriram todas as possibilidades de atraso. As ordens foram no sentido de se com­pilar uma lista dos seus contatos, com histórico completo de cada um: motivos, datas, dinheiro empregado, itinerários, códigos... tudo. Não esquecer nada. Ordem subseqüente: alertar toda a rede no sen­tido de que você está fora da estratégia.

— Fora da... David não completou a frase, incrédulo. "Fora da estratégia" era frase usada tanto para os desertores como para as transferências. Sua conotação era definitiva, rompimento total. Isso é uma loucura! Esta é a minha rede!

      Não é mais. Mandaram um homem de Londres esta manhã. Creio que é cubano. Rico também. Estudou arquitetura em Berlim antes da guerra. Tem estado num escritório, estudando os seus ar­quivos. É o seu substituto...Eu queria que você soubesse.

David olhou através do pára-brisa raiado da chuva forte de Lisboa. Encontravam-se na estrada pavimentada que percorria o bairro de Alfama, com suas ruas tortuosas, cheias de ladeiras, sob a torre da catedral mourisca de São Jorge e a Sé em estilo gótico.

A Embaixada americana ficava na Baixa, para além do Terreiro do Paço. Mais uns 20 minutos.

Então, estava realmente terminado, pensou Spaulding. Haviam-no expulsado. Um arquiteto cubano seria agora o homem de Lisboa. A sensação de despojamento dominou-o novamente. Tanta coisa estava sendo-lhe arrebatada em condições tão extraordinárias. Fora da estratégia. . .

— Quem assinou a ordem?

      Isso faz parte da loucura. O uso de códigos importantes su­põe autoridade suprema. Pessoa alguma tem acesso. Mas ninguém a assinou. Não há nome senão o seu no cabograma.

      Que querem que eu faça?

      Que tome um avião amanhã. A hora do vôo será comunicada esta noite. O avião faz uma parada em Lajes Field, na ilha Terceira, Açores. É ali que você recebe as ordens.

 

26 de Dezembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

Swanson estendeu a mão para a minúscula alavanca do inter­comunicador de sua mesa e falou:

— Mande entrar o Sr. Kendall.

Levantou-se, permanecendo no mesmo lugar à espera de que a porta se abrisse. Não daria volta à mesa para cumprimentar aquele homem. Não estenderia a mão nem como símbolo de boas-vindas. Recordava que Walter Kendal! evitara apertar a mão de Craft e Oliver no Sheraton. Ninguém sentiria falta do cumprimento. Evitá-lo, porém, talvez chamasse atenção.

Kendall entrou, a porta fechou-se. Swanson notou que a aparência do contabilista pouco mudara desde aquela conferência em que o observara do quarto invisível, dois dias atrás. Kendall conti­nuava com o mesmo terno, provavelmente a mesma camisa suja. Só Deus sabia de sua roupa de baixo. Não era uma idéia agradável de se entreter. Havia uma ligeira contração no lábio superior de Kendall. Não significava ira, ou mesmo desdém. Era simplesmente devida à maneira de respirar — pela boca e pelas narinas, simulta­neamente. Como um animal.

      Entre, Sr. Kendall. Sente-se.

Kendall sentou-se, sem comentários. Muito rapidamente encon­trou o olhar de Swanson.

—     Segundo a minha agenda de compromissos, foi chamado para esclarecer um atraso específico no contrato da Meridian — disse o general, sentando-se rapidamente. — Não para justificar, simples­mente esclarecer. Como... uma firma de auditoria externa pode fazer.

—     Mas não é por isso que estou aqui, é?

Kendall enfiou a mão no bolso, em busca de um amarrotado pacote de cigarros, e apertou a ponta de um deles antes de acendê-lo. Swanson notou que as unhas do contabilista eram maltratadas, roídas, sujas na ponta. O brigadeiro começou a perceber — mas não quis ponderar — que em Walter Kendall havia algo doentio, do qual a aparência era uma simples manifestação.

—     Não, não é por isso que está aqui — respondeu, secamente. — Quero estabelecer regras básicas para que não haja mal-entendi­dos... Para que, primordialmente, não me entenda mal.

—     Regras básicas significam um jogo. Que jogo estamos jogando, general?

—     Talvez "Uniformes Limpos" seja um bom nome. Ou: "Como Estabelecer Interferência em Buenos Aires". Isso poderia parecer-lhe menos conclusivo.

Kendail, que fixava o cigarro, voltou bruscamente o olhar para o general.

      Então, Oliver e Craft não puderam esperar. Tinham que tra­zer uma gorda maçã para o professor. Achei que não aceitaria.

— Nem Oliver, nem Craft estiveram em contato com este Gabinete, ou comigo, nestes últimos dias. Desde que viajou para Ge­nebra.

Kendall não respondeu imediatamente.

—     Então, seu uniforme está bastante sujo, agora... O Sheraton. Achei um tanto deselegante para Craft. Ele é do tipo Waldorf... Então, mandou colocar aparelhos de escuta no quarto. Armou uma cilada para aqueles dois. — A voz de Kendall era rouca, mas não irada ou elevada. — Bem, lembre-se de como cheguei ao meu des­tino. Como cheguei a Genebra. Isso também está na gravação.

—     Atendemos a um pedido do Comando de Produção de Guer­ra relativo a uma negociação com uma firma de Genebra. Isto acon­tece com freqüência. Contudo, nós acompanhamos o caso, se há razão para pensar em algo de prejudicial...

      Merda!

Swanson exalou, audivelmente.

      Sua reação não tem razão de ser. Não quero discutir. Enten­deu o que eu queria dizer. Possuo uma gravação que poderia man­dá-lo direto ao carrasco ou à cadeira elétrica. A Oliver também. . . Craft talvez se saísse com uma condenação perpétua. Você pôs em ridículo suas dúvidas. Não o deixou falar. .. Mas a questão ficou estabelecida.

Kendall inclinou-se para a frente e amassou o cigarro num cin­zeiro da mesa de Swanson. O súbito pavor levou-o a fitar o general, perscrutando.

—    Mas está mais interessado em Buenos Aires que na cadeira elétrica, não é?

—    Sou obrigado a estar, por mais que isso me seja desagradável e repulsivo...

—    Esqueça o "merda" — interrompeu Kendall, asperamente. Não era nenhum amador em tais discussões. Sabia quando devia afirmar-se e às suas contribuições. — Conforme disse, a questão ficou estabelecida. Creio que se encontra no chiqueiro com o restante dos porcos, nós... Não se faça de santo. Sua auréola cheira mal.

—    Justo. Mas não esqueça que eu tenho uma dúzia de diferentes chiqueiros para me refugiar. Um Departamento de Guerra que poderia transportar-me para Burma ou para a Sicília em 48 horas. Vocês, não. Estão aqui mesmo... no chiqueiro. Para todos verem. E eu tenho uma gravação que o tornaria muito especial. É isto que quero que tenha em mente, de maneira bem clara. Desde já.

Kendall apertou a ponta do segundo cigarro e acendeu a outra extremidade. Soltou a fumaça pelo nariz e estava a ponto de falar, mas calou-se, fitando o general, com um misto de temor e hostili­dade.

Swanson surpreendeu-se evitando o olhar de Kendall. Aceitar o homem naquele momento seria aceitar o pacto. Percebeu então o que o tornaria aceitável. Era a solução, a sua solução. Superficial, pelo menos. Espantou-se por não lhe ter ocorrido antes.

Walter Kendall teria que ser eliminado.

Como Erich Rhinemann seria eliminado.

Quando o caso de Buenos Aires estivesse próximo ao fim, a morte de Kendall seria obrigatória.

E então todas as pegadas específicas do Governo dos Estados Unidos estariam eliminadas.

Perguntou-se por um instante se os homens de Berlim teriam previsto essas bruscas decisões. Duvidava.

Fitou o contabilista sujo, doentio, retribuindo-lhe plenamente o olhar. O General Alan Swanson já não sentia medo. Nem estava consumido de remorsos.

Era um soldado.

— Vamos continuar, Sr. Kendall?

 

Os projetos do contabilista para. Buenos Aires eram bem ela­borados. Swanson deu-se conta de estar fascinado por seu senso de manobra e contra-manobra. O homem raciocinava como um rato de esgoto, apoiado no instinto, apalpando as fontes de odor e luz, a intensidade das suspeitas, na estimativa sempre variável dos adver­sários. Era na verdade um animal predatório e fujão.

As maiores preocupações dos alemães estariam reduzidas a três: a qualidade dos diamantes de bort e carbonado; a quantidade da re­messa; e, finalmente, os métodos de segurança para o transporte à Alemanha. A menos que tais fatores fossem garantidos, não haveria entrega dos planos do giroscópio — o sistema de orientação.

Kendall supunha que o carregamento de diamantes seria inspe­cionado por uma equipe de especialistas — não um homem, nem mesmo dois.

Congregariam um grupo de três a cinco homens; o período de tempo necessário talvez se estendesse a uma semana, dependendo da sofisticação dos instrumentos usados. Esta informação, ele a obti­vera de Koening, em Nova York. Durante esse período, disposições simultâneas seriam tomadas no sentido de permitir a um aerofísico estudar os planos do giroscópio trazidos de Peenemünde. Se os na­zistas fossem cautelosos, como Kendall supunha, os planos seriam entregues por etapas, segundo a escala que o grupo de inspeção con­siderasse adequada para o exame dos diamantes. O cientista do gi­roscópio receberia partes dos planos no seu isolamento, sem chance para fazer fotos táticas ou duplicatas até que o grupo dos diamantes terminasse seu trabalho.

Uma vez ambos os lados satisfeitos com a entrega, Kendall ante­cipava que uma derradeira ameaça garantisse o transporte em se­gurança até os respectivos destinos. E era lógico que esta "arma" seria idêntica para ambos os lados: ameaça de denúncia. Traição à causa e ao país.

Penalidade: a morte.

A mesma "arma" que o general apontava para ele, Walter Kendall.

Qual era a novidade?

Kendall consideraria possível obter os planos e em seguida sabotar ou recuperar o carregamento de diamantes?

Não. Não enquanto persistisse uma troca entre civis. A ameaça de denúncia era muito completa; havia um excesso de provas de contato. Nenhuma das crises poderia ser negada e os nomes eram conhecidos. A pecha de colaboração arruinaria homens e corpora­ções. Boatos "confirmados" poderiam circular facilmente.

E, se os militares interviessem, os civis se afastariam imediatamente — a responsabilidade da entrega já não seria deles.

Swanson deveria sabê-lo; era precisamente a situação que ele planejara.

Swanson sabia.

Onde seriam examinados os diamantes? Onde o local mais van­tajoso?

A resposta de Kendall foi sucinta: qualquer lugar que parecesse vantajoso para um lado seria rejeitado pelo outro. Julgava que os alemães tinham previsto isso e por tal razão sugerido Buenos Aires. Estava na gravação. Swanson não escutara?

Homens poderosos na Argentina eram inquestionavelmente a fa­vor do Eixo, embora com discrição, mas a dependência do Governo na economia aliada passava na frente. A neutralidade era essencial­mente controlada pelos fatores econômicos. Cada lado, portanto, pos­suía alguma coisa: os alemães encontrariam um ambiente simpático, mas os americanos eram capazes de exercer uma influência bastante forte para combater tal simpatia — sem eliminá-la.

Kendall respeitava os homens de Berlim que haviam escolhido Buenos Aires. Eles compreendiam a necessidade de equilibrar os elementos psicológicos, de ceder, mantendo embora as esferas de in­fluência. Eram competentes.

Cada lado seria extremamente cauteloso. O ambiente o exigia. O senso de oportunidade seria tudo.

Swanson sabia como os planos seriam obtidos: uma cadeia de aviões voando pelas bases costeiras sob cobertura diplomática. A co­bertura se estenderia aos militares. Somente ele teria conhecimento da operação; ninguém mais nas Forças Armadas, ou mesmo no Go­verno, seria avisado. Ele tomaria as providências e as revelaria a Kendall no momento necessário.

— Que transporte utilizariam os alemães? — perguntou o general.

—     O problema deles é maior. Eles o reconhecem, de modo que farão provavelmente algumas exigências invioláveis. Talvez peçam um refém, mas não creio.

—     Por que não?

—     Quem temos nós, envolvido no assunto, que não seja sacrificável? Cristo, se fosse eu, você seria o primeiro a dizer: "Liquide o filho da mãe!" — De novo os olhos de Kendall encontraram-se rapidamente com os de Swanson. — É claro que você não teria co­nhecimento das garantias que eu adotei. Muitos uniformes ficariam sujos como o diabo.

Swanson reconheceu a ameaça de Kendall pelo que ela valia. Sabia também que poderia enfrentá-la. Precisaria de um pouco de raciocínio, mas tais considerações viriam mais tarde. Não' seria ta­refa insolúvel preparar a eliminação de Kendall. O isolamento viria primeiro: depois, um dossiê minucioso...

—     Vamos nos concentrar no modo como esperam transportar o bort e o carbonado. Não adianta ameaçarmos um ao outro — falou Swanson.

—     Estamos para alem disso, então?

—     Creio que sim.

—     Ótimo. Mas não esqueça — disse Kendall.

—     Os diamantes serão levados a Buenos Aires. Essas providências já foram tomadas?

—     Estão sendo tomadas. A data da entrega será daqui a três semanas ou pouco mais. A menos que haja alguma complicação no Atlântico Sul. Não esperamos que haja.

—     O grupo de inspeção trabalhará em Buenos Aires. Nós man­damos o físico... Quem será? Spinelli?

—     Não. Por todos os motivos nós o eliminamos. Mas já sabe disso...

—     Sim. Quem, então?

—     Um homem chamado Lyons. Eugene Lyons. Vou trazer-lhe um dossiê a respeito. Suará frio quando o ler, mas se existe alguém melhor do que Spinelli é ele. Não nos arriscaríamos. Está em Nova York no momento.

Swanson fez uma anotação.

—     E o transporte alemão? Alguma idéia?

—     Algumas. Avião de carga peutro voando para o norte até Recife, Brasil, depois a leste até Palmas ou algum ponto da Guiné, na costa africana. Depois, direto a Lisboa e dali para lá. É a rota mais rápida. Mas eles talvez não queiram arriscar as rotas aéreas.

—     Você parece militar.

—     Quando faço um trabalho, sou minucioso.

—     O que mais?

—     Creio que escolherão um submarino. Talvez dois, para camuflar. É mais lento, porém mais seguro.

—     Submarinos não podem entrar nos portos argentinos. Nossas patrulhas os destruiriam. Se entrarem, não sairão. Não modificare­mos estas regras.

—     Talvez seja necessário.

—     Impossível. Precisa haver outro meio.

—     Talvez tenha que encontrá-lo. Não esqueça daqueles uniformes limpos.

Swanson desviou a vista.

—     E Rhinemann?

—     Que tem ele? Está se preparando para voltar. Com todo aquele dinheiro, nem mesmo Hitler é capaz de contê-lo.

—     Não confio nele.

—     Seria um maldito idiota se confiasse. Mas o pior que ele pode fazer é exigir concessões no mercado ou dinheiro —, de ambos os lados. E daí? Ele cumprirá. Por que não o faria?

—     Tenho certeza de que cumprirá. É a única coisa sobre a qual sou positivo... E isso me leva ao ponto principal deste encon­tro. Quero um homem em Buenos Aires. Na Embaixada.

Kendall absorveu a declaração de Swanson antes de responder. Estendendo a mão para o cinzeiro, colocou-o no braço da poltrona.

—     Um dos seus homens, ou um dos nossos? Precisamos de alguém. Julgamos que a indicação seria nossa.

—     Julgaram errado. Eu o escolhi.

—     Poderia ser perigoso. Digo isso sem cobrar... uma vez que disse.

—     Se interviermos, o contingente civil se afastará. Era uma pergunta.

—     Faz sentido...

—     Somente se o homem que enviarmos souber dos diamantes. Você deve zelar para que ele não saiba. Uma afirmativa. Zelar muito bem, Kendall. Sua vida depende disso.

O contabilista observou Swanson atentamente.

—     Que história é essa?

—     Há seis mil milhas entre Buenos Aires e as fábricas da Meridian Aircraft. Quero que faça a viagem sem tropeços. Quero que os pianos sejam trazidos por um profissional.

   Está se arriscando a sujar os uniformes, não está, general?

—     Não. Diremos ao homem que Rhinemann negociou os planos com Peenemünde. Diremos que Rhinemann comprou-os do under-ground alemão, para rotas de fuga.

—     Cheio de falhas! Desde quando o underground trabalha por dinheiro? Por que percorreria três mil milhas? Ou, por que traba­lharia para Rhinemann?

—     Por que precisam dele e ele precisa do underground. Rhine­mann foi exilado por ser judeu. Um erro. Era rival de Krupp. Há muita gente da indústria alemã que lhe continua leal. E ele conserva os escritórios de Berna. . . Nossa crise dos giroscopios não é se­gredo, nós o sabemos. Rhinemann utilizou esse conhecimento e fez negociações com Berna.

—     Por que aludir ao underground?

—     Tenho minhas razões. Não são de sua conta.

Swanson falou secamente, palavras curtas. Atravessara-lhe a mente, de relance, que estava de novo cansado em excesso. Precisava cuidar disso. Suas forças ficavam abaladas quando estava exausto. E no momento tinha quê se mostrar convincente. Precisava fazer com que Kendall obedecesse sem hesitação. O importante era colo­car Spaulding ao alcance de Erich Rhinemann. Rhinemann era o ob­jetivo.

O general-de-brigada observou o homem desleixado que se en­contrava na sua frente. Sentia-se doente só em pensar que aquele rebotalho humano era tão necessário no momento. Ou será que ele fora tão rebaixado a ponto de utilizá-lo? Utilizá-lo e depois ordenar sua execução? Aquilo aproximava os respectivos mundos.

      Muito bem, Sr. Kendall, vou esclarecer... O homem que escolhi para Buenos Aires é um dos melhores agentes que possuímos no Serviço de Informação. Ele trará os planos. Mas não quero me arriscar de maneira alguma a que ele saiba do transporte de dia­mantes. Rhinemann operando sozinho é suspeito; a inclusão do under­ground alemão coloca o caso acima de suspeitas.

Swanson estudara o caso; todo mundo falava do underground francês, do balcânico, mas o alemão trabalhara mais e com maior eficiência e sacrifício que todos os outros reunidos. O antigo homem de Lisboa saberia disso. O detalhe transformaria a missão de Buenos Aires em algo aceitável e legítimo.

—     Espere um momento. .. Jesus Cristo! Espere um momento. — A desagradável expressão de Kendall modificou-se bruscamente, como se, com repentino e relutante entusiasmo, encontrasse mérito no que Swanson dissera. — Poderia ser um bom ardil.

—     Que quer dizer com isso — ardil?

—    Exatamente o que disse. Falou que vai usá-lo para o agente. O underground está acima de suspeitas e toda essa merda... Muito bem, vamos além disso. Acaba de apresentar a garantia que preci­samos oferecer.

—    Que garantia?

—    Que o embarque dos diamantes Koening poderá sair de Bue­nos Aires. Isso resolverá tudo... Deixe-me fazer duas perguntas. E responda com franqueza.

Rato de esgoto, pensou Swanson, fitando o homem excitado, descabelado.

—    Fale.

—    Esse underground deve ter tirado muita gente da Alemanha, gente importante. Todo mundo sabe disso.

—    Têm-se mostrado muito eficientes.

—    Ele tem elos com a Marinha alemã?

—    Creio que sim. A Central de Informações aliada deve saber especificamente...

—    Mas não quer se dirigir a eles. Ou quer?

—    Fora de cogitação.

—    Mas possível?

—    O quê?

—    A Marinha alemã, diabo! A frota submarina!

Kendall estava inclinado para a frente, olhos fixos nos de Swanson.

—    Creio que não. Não sou... primordialmente um elemento da Informação. O under-ground alemão tem uma rede extensa. Suponho que haja contatos com o comando naval.

—    Então é possível.

—    Sim, tudo é possível — Swanson baixou a voz, recuando diante de suas próprias palavras. — É possível.

Kendall recostou-se na cadeira e amassou o cigarro. Sorrindo seu sorriso sem atrativos, meneou o dedo para Swanson.

      Aí está a sua história. Limpa como um assobio e acima de qualquer suspeita. . . Enquanto estamos adquirindo os planos, acon­tece que um submarino alemão passa pelas proximidades, pronto a emergir e entregar um importante desertor, ou até dois, se preferir. Cortesia do underground. Haverá melhor razão para um submarino vir à tona em águas inimigas? Protegidas por patrulhas?... Só que ninguém sai. Em vez disso, carga entra a bordo.

Swanson procurou assimilar as manobras rapidamente expostas por Kendall.

      Haveria complicações...

Errado! O local está isolado. Uma coisa nada tem a ver com a outra! Não passa de conversa, afinal.

O general-de-brigada Alan Swanson compreendeu que encon­trara um homem mais competente que ele em ação.

      É possível. Blackout no rádio. Instruções da Central aliada. Kendall levantou-se, dizendo, em voz baixa:

      Detalhes. Planejarei tudo... E você me pagará. Oh, Deus, como pagará.

 

27 de Dezembro de 1943

AÇORES

A ilha Terceira, nos Açores, 837 milhas a oeste de Lisboa, era um pouso familiar aos pilotos que atravessavam o Atlântico pela rota do sul, voando para os Estados Unidos. Ao descerem, sentiam sempre a agradável impressão do tráfego menor e do serviço pres­tado por pessoal eficiente, o que lhes permitia levantar vôo nova­mente com rapidez. O aeroporto de Lajes era um bom destacamento. Os que para ele eram designados reconheciam-no e procuravam tra­balhar bem.

E foi por isso que o major no comando de um B-17 de carga e transporte de pessoal, levando como único passageiro o Capitão David Spaulding, não compreendeu a demora. Começara a perder altitude a 14 mil pés. A torre de Lajes interrompera suas instruções de apro­ximação, ordenando ao piloto que aguardasse. O major objetara; não havia necessidade, do seu ponto de vista. A pista estava livre. O operador de rádio da torre concordara com o major, mas dissera estar apenas repetindo instruções telefônicas vindas do comando ame­ricano de Ponta Delgada, na ilha vizinha de São Miguel. Az-Am-HQ dava as ordens; aparentemente, aguardava alguém que iria receber o avião e esse alguém não chegara. A torre manteria o major in­formado e, por falar no assunto, ele estaria carregando alguma carga prioritária? Apenas curiosidade.

Certamente que não. Não havia carga alguma; apenas um adido militar chamado Spaulding, da Embaixada de Lisboa. Um daqueles malditos rapazes dos chás diplomáticos. A viagem era um vôo roti­neiro para Norfolk e por que, diabo, ele não podia pousar?

A torre manteria o major informado.

 

O B-17 pousou às 13:00 precisamente, depois de sobrevoar 27 minutos.

David levantou-se do assento removível, fixo ao piso por ganchos, e espreguiçou-se. O piloto, um agressivo major que aparenta­va ser muito jovem, emergiu da cabina e comunicou que havia um jipe lá fora — ou que viria em breve — para transportar o capitão até a base.

—    Gostaria de manter um horário razoável — disse o jovem piloto, dirigindo-se sem humor ao seu subalterno mais velho. — Sei que vocês, diplomatas, têm muitos amigos nesses postos sociais, mas eu tenho uma longa etapa de vôo a percorrer. Não esqueça, por favor.

—    Tentarei manter a partida de pólo em três períodos — replicou David, em tom cansado.

—    É, faça isso.

Voltando-se, o major dirigiu-se ao fundo da cabina, onde um sargento da Força Aérea abriu a porta de carga utilizada como saída do avião. Spaulding seguiu-o, perguntando a si mesmo quem encon­traria lá fora.

      Meu nome é Ballantyne, capitão — disse o civil de meia-idade, ao volante do jipe, estendendo a mão a Spaulding. — Sou da Açores-American. Entre. Só andaremos alguns minutos. Vamos para a casa do superintendente, uns 100 metros além da cerca.

David notou que os guardas do portão não se deram ao trabalho de deter Ballantyne, fazendo-o passar com um gesto. O civil envere­dou pela estrada paralela ao campo e acelerou. Em menos tempo do que o necessário para acender um cigarro, o jipe entrou na ala­meda de uma hacienda espanhola de um só pavimento, seguindo para um local que só poderia ser descrito como um mirante isolado.

      Chegamos. Vamos, capitão — disse Ballantyne, saltando e indicando a porta de tela do recinto. — Meu sócio, Paul Hollander, está à sua espera.

Hollander era também um civil de meia-idade. Quase inteiramente calvo, usava óculos de aros metálicos, que envelheciam sua aparência. Como Ballantyne, sua expressão tresandava inteligência. Com I maiúsculo. E um sorriso franco.

      É um verdadeiro prazer, Spaulding. Como tantos de nós, sem­pre admirei o trabalho do homem de Lisboa.

I maiúsculo, pensou David.

—     Obrigado. Gostaria de saber por que já não sou mais o homem de Lisboa.

—     Isso não posso responder. Nem Ballantyne, lamento.

—     Talvez achem que lhe devam um descanso — sugeriu Ballan­tyne. — Meu Deus, ficou lá por quanto tempo? Três anos sem in­terrupção.

—     Quase quatro — respondeu David. — E houve muitas interrupções. Costa Brava é bem melhor que Palm Beach. Disseram-me que vocês — suponho que sejam vocês — me dariam ordens... Não quero parecer impaciente, mas há um adolescente desagradável, com posto de major, dirigindo o avião. Ele é que está impaciente.

—     Diga-lhe que vá para o diabo — e Hollander riu. — Temos as suas ordens e também uma pequena surpresa para você: é tenente-coronel. Diga ao major que mande passar a farda.

—     Parece que saltei um posto.

—     Não exatamente. Chegou a major no ano passado. Aparente­mente, não precisava de títulos em Lisboa.

—     Nem associações militares — interveio Ballantyne.

—     Nenhum dos dois, de fato — falou David. — Pelo menos não me rebaixaram. Tive pressentimentos de que iriam montar guar­da ao redor de privadas.

—     Difícil. — Hollander sentou-se numa das quatro espregui­çadeiras, convidando David com um gesto a fazer o mesmo. Era a sua maneira de dizer que o encontro não seria tão rápido quanto Spaulding julgara. — Se fosse tempo de exibições ou revelações, tenho certeza de que você seria condecorado.

—     Obrigado — falou David, sentando-se. — Isso acaba com uma séria preocupação. De que se trata?

—     De novo: não sabemos. Recebemos apenas instruções ex-cathedra. Temos que fazer a você diversas perguntas, das quais ape­nas uma poderia impedir a transmissão de suas ordens. Vamos come­çar por aí. Estou certo de que gostaria de saber pelo menos para onde vai.

Hollander sorriu novamente o seu sorriso franco.

—     Gostaria. Continue.

—     Já que foi desligado de seus deveres em Lisboa, chegou a fazer contato — internacional ou não —, com quem quer que fosse fora da Embaixada, incluindo o mais inocente adeus? Ou o paga­mento de uma conta — um restaurante, uma loja? Ou um encontro casual com algum conhecido no aeroporto, ou a caminho de lá?

—    Não. E mandei minha bagagem pela mala diplomática. Nada de malas ou equipamento de viagem.

—    Você é meticuloso — observou Ballantyne, ainda de pé.

—    Tenho razões. Naturalmente que tinha compromissos para a semana após a minha volta do norte...

—    De onde? — perguntou Hollander.

—    Da região basca e de Navarra. Pontos de contato abaixo da fronteira. Eu sempre marcava compromissos logo em seguida; manti­nha a continuidade. Não muitos, mas o bastante para nos conservar­mos à vista. Fazia parte da cobertura. Havia dois esta semana: almoço e coquetéis.

—    E que fez com eles? — Ballantyne sentou-se junto de David.

—    Dei instruções a Marshall — o criptógrafo que recebeu minhas ordens — para telefonar a cada um, pouco antes do dia em que eu deveria aparecer, dizendo que me atrasei. Apenas isso.

—    Não que você não compareceria? — Hollander parecia fascinado.

— Não. Apenas atrasado. Ajustava-se ao papel.

—    Aceito a sua palavra — riu Hollander. — Respondeu afirmativamente e mais que isso. Que lhe parece Nova York?

—    Como sempre: agradável por limitados períodos de tempo.

—    Não sei por quanto tempo, mas esse é o seu destino. E sem uniforme, coronel.

—    Morei em Nova York. Conheço muita gente lá.

—    Seu novo papel é extremamente simples. Foi dispensado hon­rosamente, depois de servir na Itália. Razões de saúde, ferimentos leves. — Hollander tirou do bolso um envelope e entregou-o a Da­vid. — Está tudo aqui. Terrivelmente simples. Documentos... tudo.

—    Está bem — David aceitou o envelope. — Sou um sujeito desligado em Nova York. Até agora, tudo certo. Não poderia trans­formar isso em realidade?

—    Disse que os papéis são simples, não disse autênticos. Lamento.

—    Eu também. Que acontece depois?

—    Alguém se mostra muito solícito com você. Tem um excelente emprego e muito bem pago. Na Meridian Aircraft.

— Meridian?

—    Divisão de Planejamento.

—    Pensei que a Meridian ficasse no Meio Oeste. Illinois ou Mi­chigan.

—    Tem escritórios em Nova York. Pelo menos agora.

—    Plantas de aviões, suponho.

— Creio que sim.                                                                     

      Isso é contra-espionagem?

      Não sabemos — respondeu Ballantyne. — Não recebemos informação alguma, exceto os nomes dos dois indivíduos a quem se apresentará.

      Estão no envelope?

—    Não — respondeu Hollander. — Serão dados verbalmente e devem ser decorados. Nada por escrito até que se encontre no local.

—    Oh, meu Deus, isso me lembra Ed Pace. Ele adora esse tipo de tolice.

      Lamento. Está acima de Pace.

—    O quê?... Pensei que não houvesse nada acima, exceto talvez a Santa Comunhão... Então, como me apresento? E a quem?

—    Correio prioritário direto a um endereço em Washington. Nenhuma indicação de departamento, mas transmissão e prioridade liberadas através da Divisão de Campanha, Fairfax.

Spaulding emitiu um assobio quase inaudível.

      Quais são os nomes?

      O primeiro é Lyons. Eugene Lyons, aerofísico. Devemos dizer a você que ele é um tanto estranho, mas um tremendo gênio.

      Em outras palavras: rejeite o homem, aceite o gênio.

      Algo semelhante. Suponho que esteja habituado a isso — observou Ballantyne.

      Sim. E o outro?

      Um homem chamado Kendall. — Hollander cruzou as per­nas. — Nada a respeito dele. Apenas o nome. Walter Kendall. Não tenho a menor idéia do que ele faz.

 

David ajustou o cinto de segurança na poltrona removível. Os motores do B-17 funcionavam em alta velocidade, lançando vibra­ções através da imensa fuselagem. Olhou em volta do avião como se fosse a primeira vez que pisasse num, tentando reduzir os vãos e o chapeamento a uma espécie de planta imaginária. Se a descrição que Hollander fizera da sua missão estivesse correta — e por que não estaria? —, em breve se encontraria estudando plantas de aviões.

O que lhe pareceu estranho foram os métodos de precaução. Eram desrazoáveis; numa palavra: ultrapassavam até mesmo as preo­cupações anormais de segurança. Seria muito simples para ele apre­sentar-se a Washington, ser transferido e receber instruções mais minuciosas. Em vez disso, pelo menos aparentemente, não haveria instruções.

Por que não?

Deveria aceitar ordens de dois homens que jamais conhecera? Sem a sanção do reconhecimento — sequer da apresentação -— de qualquer autoridade militar? Que diabo andava Ed Pace fazendo?

Lamento. . . Acima de Pace.

Eram as palavras que Hollander havia pronunciado... liberadas através da Divisão de Campanha, Fairfax. Hollander novamente.

À exceção da Casa Branca, Fairfax estava acima de tudo, David sabia. Mas Fairfax, era militar. E ele não receberia instruções de Fairfax — elas foram simplesmente "liberadas".

As "perguntas" restantes de Hollander não haviam sido pergun­tas, na verdade. Eram iniciadas com frases interrogativas — "você sabe", "você pode", "você tem" — mas não eram perguntas e sim novas instruções.

Tem amigos em alguma das companhias de aviação? No plano executivo?

Ignorava. Estivera tanto tempo fora do país que não sabia sequer se tinha amigos.

No entanto, Hollander dissera que ele precisaria evitar tais "ami­gos", caso existissem. E apresentar seus nomes a Walter Kendall, se os encontrasse.

Conhece mulheres em Nova York que estejam sob o olhar do público?

Que espécie de pergunta teria sido aquela? A mais tola que jamais ouvira! Que diabo quisera dizer Hollander?

O agente Az-Am, calvo, óculos no nariz, esclarecera de modo sucinto. Fazia parte do dossiê de David o detalhe de que suplemen­tara seus rendimentos civis como ator radiofônico. Isso significava que conhecia atrizes.

E atores, sugerira Spaulding. E daí?

Amizades com atrizes muito conhecidas poderiam conduzir a fotos em jornais, esclarecera Hollander. Ou cochichos em colunas, seu nome em publicações. Tudo isso precisava ser evitado.

David recordou que conhecia — ou conhecera — várias moças que haviam tido êxito no cinema, depois que ele se ausentara. Tivera um caso de curta duração com uma atriz que era no momento uma das maiores estrelas da Warner Brothers. Concordou, com relutân­cia. O agente tinha razão. Tais contatos precisavam ser evitados.

É capaz de absorver rapidamente, decorar especificações de pla­nos não relacionados com o 'design' industrial?

Se lhe dessem uma chave de símbolos correlativos e fatores ma­teriais, a resposta seria afirmativa.

Neste caso, deveria preparar-se — fosse lá como fosse — para planos aeronáuticos.

Isso era óbvio, pensou Spaulding.

E era só o que poderia dizer, completara Hollander.

 

O B-17 taxiou para o extremo oeste da pista de Lajes e fez a manobra para levantar vôo. O major desagradável fizera questão de se encontrar junto à porta de carga, olho no relógio, quando Spaul­ding regressara. Saltando do jipe, David trocara um aperto de mão com Ballantyne e erguera três dedos para o major.

O marcador perdeu a conta na última hora. Você sabe como são esses rapazes de calças listradas — dissera ao piloto.

O major não achara graça.

O avião ganhou velocidade, o solo martelando o trem de aterrissagem com crescente ferocidade. Em segundos, o aparelho estaria no ar. David inclinou-se para pegar um jornal dos Açores que Hol­lander lhe dera e que ele colocara no chão, ao apertar o cinto de segurança.

Súbito, aconteceu. Uma explosão de tal violência que a poltro­na removível voou dos ganchos e foi projetada contra a parede di­reita do avião, carregando David inclinado. E ele jamais saberia, mas com freqüência haveria de especular, se o jornal dos Açores tinha ou não salvado a sua vida.

Havia fumaça por todo lado; o avião ergueu-se do chão e girou lateralmente. O ruído de metal despedaçado encheu a cabina com um grito contínuo, infindável; armações de aço curvaram-se para baixo, soltando-se do alto e dos lados da fuselagem — arrebentando-se, saltando das montagens.

Uma segunda explosão destroçou a cabina da frente; salpicos de sangue e pedaços de carne jorraram contra as paredes que giravam e se despedaçavam. Uma parte de crânio humano, com traços de cabelos queimados sob o brilhante e viscoso fluido vermelho, esbo­feteou o braço de Spaulding. Através da fumaça, avistou o sol bri­lhante invadindo a parte anterior do avião em disparada.

O aparelho partira-se ao meio.

David compreendeu imediatamente que possuía uma única chan­ce de sobrevivência. Os tanques de combustível estavam repletos para a longa travessia do Atlântico; explodiriam em segundos. Procurou o fecho do cinto e puxou-o com toda força. Estava enguiçado. A queda violenta fizera com que o tecido nele se amontoasse. Puxou, torceu, o fecho saltou e ele se libertou.

O avião — o que dele restava — iniciou uma série de explosivas convulsões na luta final para imobilizar-se no terreno aciden­tado que se aproximava velozmente, estendendo-se para além da pista. David inclinou a poltrona para trás, arrastando-se como pôde em direção aos fundos. A certa altura, foi obrigado a parar e agar­rar-se ao piso, cobrindo o rosto com os braços, quando um frag­mento de metal cortou-lhe a parte posterior do ombro direito.

A porta de carga estava escancarada; o sargento da Força Aérea, metade do corpo para fora da estrutura de aço, jazia, morto, o peito aberto do pescoço aos pulmões.

David calculou a distância até o solo da melhor maneira que o pânico lhe permitiu e atirou-se para fora do avião, encolhendo-se ao mesmo tempo por causa do impacto da queda e da necessidade de rolar para longe da cauda que avançaria veloz.

A terra era dura e cheia de pedras, mas ele estava livre. Continuou rolando, arrastando-se, cavando, mergulhando as mãos ensan­güentadas no solo seco e rijo, até esgotar completamente o fôlego.

Caído no chão, ouviu o grito das sirenas a distância.

E depois a explosão que encheu o ar e estremeceu a terra.

Mensagens prioritárias transmitidas por alta freqüência foram trocadas entre a sala de operações do aeroporto de Lajes e a Divisão de Campanha, Fairfax.

David Spaulding seria transportado para fora da ilha Terceira no próximo vôo para Newfoundland, previsto para dentro de uma hora. Em Newfoundland seria recebido por um caça na base aérea e voaria direto a Mitchell Field, Nova York. Já que o Tenente-Coronel Spaulding não sofrera danos físicos maiores, não haveria mo­dificação nas ordens que lhe tinham sido transmitidas.

A causa das explosões no B-17 e mortes resultantes era, sem dúvida alguma, sabotagem. Iniciada em Lisboa ou realizada durante o processo de reabastecimento em Lajes. Intensiva investigação foi imediatamente iniciada.

Hollander e Ballantyne encontravam-se com David quando ele foi examinado e tratado pelo médico do Exército britânico. Com ata­duras sobre as suturas do ombro direito, os cortes nas mãos e nos braços devidamente tratados, Spaulding declarou-se abalado, mas ca­paz de agir. O médico saiu, depois de ministrar um sedativo intrave­noso que lhe possibilitaria descansar completamente na etapa final da viagem a Nova York.

—    Estou certo de que tem direito à licença de uma semana ou mais — disse Hollander. — Meu Deus, é uma sorte estar conosco!

—    "Vivo" é a palavra — acrescentou Ballantyne.

—    Serei o alvo? — perguntou Spaulding. — Teria alguma ligação comigo?

—    Fairfax acha que não — respondeu Hollander. — Acreditam que seja coincidência.

Spaulding observou o agente Az-Am e teve impressão de que hesitava, como se ocultasse algo.

—    Estranha coincidência, não acham? Eu era o único passageiro.

—    Se o inimigo pode eliminar um grande avião e mais um piloto, suponho que considere isso um progresso. E a segurança em Lisboa é péssima.

—    Não onde eu estava. Não de modo geral.

—    Bem, então, talvez aqui em Terceira... Estou apenas repetindo o que pensa Fairfax.

Ouviu-se uma batida na porta do ambulatório e Ballantyne abriu-a. Um primeiro-tenente, muito erecto, falou em voz baixa, di­rigindo-se a David, evidentemente cônscio de que escapara da morte por um triz.

—    Hora de preparar-se, senhor. Levantaremos vôo dentro de 20 minutos. Posso ajudar em alguma coisa?

—    Não tenho coisa alguma, tenente. Tudo o que eu transportava se encontra naquele amontoado de ferro calcinado, na pista 40-sul.

—    É claro. Sinto muito.

—    Não sinta. Melhor a bagagem que eu. . . Vou já.

David voltou-se para Ballantyne e Hollander, trocando apertos de mão.

Do último, despediu-se em segundo lugar e notou-o nos olhos do agente.

Hollander ocultava qualquer coisa.

 

O comandante naval britânico abriu a porta de tela do mirante e entrou-. Paul Hollander levantou-se da espreguiçadeira.

—      Trouxe? — perguntou o oficial.

      Trouxe. O comandante colocou a pasta na solitária mesa de ferro batido e abriu os fechos. Do interior, retirou um envelope e entregou-o ao americano. O laboratório fez um bom trabalho. Bem iluminado, verso e reverso. Quase o artigo verdadeiro.

Hollander desenrolou o barbante da dobra do envelope e retirou uma foto. Era a ampliação de um pequeno medalhão, uma estrela de seis pontas.

A Estrela de Davi.

No centro do verso via-se uma inscrição floreada em hebraico. No reverso, o baixo-relevo de uma faca, com um raio atravessando a lâmina.

      O que está em hebraico é o nome de um profeta chamado Haggai. É o símbolo de uma organização de fanáticos judeus que opera fora da Palestina. Chama-se Haganah. Seu objetivo, afirmam, é vingança dois mil anos de vingança. Prevemos muitos proble­mas com eles nos próximos anos; temo que tenham deixado isso bem claro.

Mas diz que estava soldado à parte inferior da cabina traseira.

      De maneira a estar protegido de tudo, exceto uma explosão direta. Seu avião foi destruído pela Haganah.

Hollander continuava de olhos na fotografia. Súbito, fixou-os no comandante britânico.

—    Por que, meu Deus? Por quê?

—    Isso não posso responder.

      Nem Fairfax. Creio que nem sequer desejam tomar conhecimento. Querem enterrar o assunto.

 

27 de Dezembro de 1943

WASHINGTON, D.C.

Quando as palavras saíram do intercomunicador, na voz macia e equilibrada da tenente WAC que era sua secretária, Swanson com­preendeu que não se tratava de comunicação rotineira.

Fairfax na linha um, senhor. É o Coronel Pace. Disse que eu deveria interrompê-lo.

Desde que entregara o dossiê de Spaulding, o comandante de Fairfax mostrara-se relutante em aparecer pessoalmente. Não falara de sua relutância, simplesmente delegava as mensagens aos subordi­nados. E já que todas diziam respeito ao progresso da operação que retiraria Spaulding de Portugal, a atitude de Pace estava clara: apres­saria, mas não reconheceria pessoalmente sua participação.

Edmund Pace ainda não estava satisfeito com as confusas explicações de "mais alta prioridade" relativas ao homem de Lisboa. Ele obedeceria ordens dadas por segundas pessoas.

      General, há uma mensagem de emergência do aeroporto de Lajes, na Terceira disse Pace, urgência na voz.

Que diabo significa isso? Onde?

      Açores. O transporte B-17 em que viajava Spaulding foi sa­botado. Explodiu ao levantar vôo.

—    Meu Deus!

—    Posso sugerir que venha até aqui, general?

—    Spaulding morreu?

      Relatórios preliminares indicam negativo, mas não quero garantir nada. Tudo nebuloso. Queria esperar até obter confirmação, mas agora não posso. Houve um acontecimento inesperado. Venha, por favor, general.

      Estou a caminho. Obtenha a informação sobre Spaulding! Swanson reuniu os papéis que se encontravam na mesa a

informação de Kendall e que precisavam ser grampeados, selados numa fina caixa metálica e trancados num arquivo com duas com­binações e uma chave.

Se houvesse razão para segurança total, ela se encontrava simbolizada naqueles documentos.

Girou os discos da combinação, deu volta à chave e depois pensou por um segundo que poderia reverter o processo e levar con­sigo os papéis...Não, não seria sensato. Estavam mais seguros no arquivo. Um arquivo preso ao chão era melhor que o bolso de tecido de um homem que caminhava na rua e andava de automóvel. Um arquivo não poderia sofrer acidentes; não estava sujeito à fragili­dade de um general-de-brigada cansado, de 53 anos de idade e casado.

Cumprimentou o guarda de serviço na entrada e desceu rápido os degraus que o conduziram à calçada. O chofer estava à espera, avisado pela secretária WAC, cuja eficiência compensava suas con­tínuas tentativas de ser para ele mais que uma secretária eficiente. Ele sabia que um dia, quando as pressões se tornassem excessivas, ele a convidaria a entrar, trancaria a porta e os dois fariam amor no sofá de couro marrom.

Por que estaria pensando na secretária? Não dava a mínima im­portancia à tenente WAC que se sentava com ar tão protetor diante de seu gabinete.

Recostou-se no banco e tirou o quepe. Sabia por que estava pensando na secretária: isso lhe proporcionava um alívio momen­tâneo. Adiava pensamentos relativos às complicações que poderiam ou não explodir numa pista dos Açores.

Oh, Cristo! A idéia de reconstruir o que conseguira arquitetar era-lhe repulsiva. Voltar, recomeçar, pesquisar o homem certo seria impossível. Já era bastante difícil para ele rever os detalhes como estes se encontravam no momento.

Os detalhes fornecidos por um rato de esgoto. Kendall.

Um enigma. Um repulsivo quebra-cabeças que nem mesmo o G-2 poderia resolver. Swanson fizera uma verificação rotineira, ba­seada no fato de que o contabilista estava a par dos contratos da Meridian Aircraft. Os rapazes da Informação e os maníacos de Hoover regressaram virtualmente de mãos vazias, à exceção de nomes e datas. Haviam recebido ordens para não entrevistar o pessoal da Meridian, ou qualquer pessoa que tivesse contato com ATCO ou Packard, ordens que aparentemente tornaram a tarefa quase impos­sível.

Kendall tinha 46 anos, era fortemente asmático e CPA. Solteiro, tinha poucos amigos e morava a dois quarteirões da firma de que era o único proprietário, sediada em Manhattan.

As estimativas pessoais se apresentavam bastante uniformes: Kendall era um indivíduo desagradável, anti-social e, por acaso, também um brilhante estatístico.

O dossiê poderia contar uma história desoladora — abandono dos pais, falta de privilégios, o de sempre —, mas não contava. Não havia sinais de pobreza, registro de privações ou dificuldades pare­cidas com as sofridas por milhões, especialmente nos anos da De­pressão.

Não havia registro em profundidade de coisa alguma, aliás. Um enigma.

Mas nada havia de enigmático nos "detalhes" de Walter Kendall relativos a Buenos Aires. Eram a própria clareza. Seu senso de manipulação fora disparado e o desafio estimulava os instintos já inclinados às manobras. Era como se ele houvesse descoberto a negociação suprema. O que era exato, na opinião de Swanson.

A operação estava dividida em três exercícios isolados: a chegada e inspeção do embarque de diamantes; a análise simultânea dos planos do giroscópio, à medida que fossem chegando; e a trans­ferência para o submarino. Os caixotes de bort e carbonado das mi­nas Koening seriam secretamente, isolados num armazém de Dársena Norte, distrito de Puerto Nuevo. Os alemães postados no arma­zém só dariam satisfações a Erich Rhinemann.

O aerofísico Eugene Lyons seria instalado num apartamento vigiado do bairro de San Telmo, o equivalente ao Gramercy Park de Nova- York, e se comunicaria com Spaulding.

Spaulding precederia Lyòns em Buenos Aires e estaria adido à Embaixada, sob qualquer pretexto que Swanson considerasse acei­tável. Sua missão — conforme imaginava Spaulding — seria coor­denar a compra de planos do giroscópio e, caso confirmada a sua autenticidade, autorizar o pagamento. Esta autorização seria feita por código radiografado a Washington e que supostamente permitiria a transferência de fundos para Rhinemann, na Suíça.

Spaulding iria então para um aeroporto a ser mutuamente com­binado, a fim de ser transportado para fora da Argentina. Receberia licença de viajar quando Rhinemann recebesse notícia de que o "pa­gamento" fora efetuado.

Na realidade, o código enviado por Spaulding seria um sinal para que o submarino alemão emergisse num ponto preestabelecido, fazendo contato com um pequeno barco transportando o carregamen­to de diamantes. As patrulhas aéreas e marítimas seriam mantidas fora da área. Se alguém pusesse em dúvida a ordem — e isso era im­provável —, contariam a história dos fugitivos do underground.

Quando a transferência marítima fosse efetuada, o submarino radiografaria a confirmação — o "pagamento" de Rhinemann. Mer­gulharia e iniciaria a viagem de volta à Alemanha. Spaulding rece­beria então permissão para voar para os Estados Unidos.

Tais salvaguardas eram as melhores que ambos os lados poderiam esperar. Kendall estava convicto de que venderia a operação a Erich Rhinemann. Ele e Rhinemann possuíam uma certa objeti­vidade que faltava aos demais.

Swanson não discutia a similaridade; era outra razão viável para a morte de Kendall.

O contabilista voaria para Buenos Aires dentro de uma semana e faria as negociações finais com o expatriado alemão. Rhine­mann teria que compreender que Spaulding agia como um correio experiente, um guarda do excêntrico Eugene Lyons — posição que Kendall admitia ser desejável. Mas Spaulding nada mais era. Não fazia parte da transferência de diamantes; nada sabia do submarino. Forneceria os códigos necessários, porém jamais tomaria conheci­mento da transferência. Não tinha meios de sabê-lo.

Estanque, selado: aceitável.

Swanson havia lido e relido os "detalhes" de Kendall; não encontrava defeito. O penetrante contabilista reduzira uma negociação imensamente complicada a uma série de atitudes simples e de moti­vos isolados. De certo modo, Kendall criara um logro extraordinário. Cada passo tinha a sua verificação; Cada movimento, um contramovimento.

E Swanson acrescentaria o último logro: David Spaulding ma­taria Erich Rhinemann.

Origem da ordem: instruções da Central de Informação aliada. Por natureza do envolvimento de Rhinemann, ele se tornaria um risco demasiado grande para o underground alemão. O ex-homem de Lisboa poderia empregar os métodos que considerasse mais conve­nientes contratar um assassino ou matá-lo pessoalmente, o que a situação exigisse. Contanto que se certificasse de que seria feito.

Spaulding compreenderia. O mundo de sombras dos agentes e duplos agentes fora a sua vida nos últimos anos. David Spaulding, se é que se devia acreditar no seu dossiê, aceitaria a ordem pelo que ela valia uma solução sensata, profissional.

Se Spaulding estivesse vivo.

Oh, Cristo! Que teria acontecido! Onde fora? Lapess, Lajes. Um maldito aeroporto dos Açores! Sabotagem. Explosão ao levantar vôo! Que diabo significaria aquilo?

O chofer saiu da estrada, enveredando pelo caminho secundário da Virgínia. Estavam a 15 minutos do recinto da Fairfax; Swanson surpreendeu-se mordendo o lábio inferior. Cortara o tecido delicado e sentia gosto de sangue.

—    Recebemos novas informações disse o Coronel Edmund Pace, diante do mapa fotográfico representando a ilha Terceira, nos Açores. Spaulding está bem. Abalado, naturalmente. Pequenas su­turas, escoriações, mas nada quebrado. Escapou por milagre. Piloto, co-piloto, um homem da tripulação, morreram todos. Os únicos so­breviventes foram Spaulding e um artilheiro da torre posterior, que talvez não escape.

—    Ele pode se movimentar? Spaulding?

—    Sim. Hollander e Ballantyne estão com ele, agora. Suponho que queira tirá-lo de lá...

—    Mas, claro interrompeu Swanson.

—    Mandei colocá-lo num transporte para Newfoundlahd. A me­nos que queira modificar as ordens, uma patrulha costeira o reco­lherá e trará para o sul. Mitchell Field.

      Quando chegará?

      Hoje à noite, se o tempo permitir. Senão, amanhã cedo. Mando trazê-lo para cá?

Swanson hesitou.

—     Não... Mande um médico a Mitchell para fazer um exame completo. Mas conserve-o em Nova York. Se precisar alguns dias de descanso, mande instalá-lo num hotel. No mais, tudo continua na mesma.

—     Bem...Pace parecia ligeiramente aborrecido com o su­perior. Alguém precisará vê-lo.

      Por quê?

      Seus documentos. Tudo o que preparamos foi pelos ares com o avião. Transformado num monte de cinzas.

      Ah, sim, naturalmente. Não pensei nisso.

Swanson afastou-se de Pace para a cadeira diante da mesa sim­ples, despojada e sentou-se.

O coronel observava o general-de-brigada, evidentemente preo­cupado com a sua incapacidade de focalizar, com a concentração inadequada.

—     Podemos preparar novos com facilidade, isso não é problema.

—     Ótimo, faça isso, sim? Depois, mande alguém encontrá-lo no Mitchell para entregar tudo.

—     OK... Mas é possível que queira mudar de idéia. Pace aproximou-se da escrivaninha, mas permaneceu de pé.

—     Por quê? A respeito de quê?

      Seja do que for... O avião foi sabotado, já disse. Caso se lembre, pedi que viesse por causa de um acontecimento inesperado.

Swanson fixou o subordinado.

—    Tive uma semana difícil. E já falei da gravidade deste projeto. Não me venha agora com jogos de Fairfax. Não alego conhe­cimentos no seu campo. Pedi apenas ajuda; ordenei, se quiser. Diga o que pretende, sem preâmbulos, por favor.

—    Procurei prestar-lhe assistência. O tom dé Pace era de polida rigidez. Não é fácil, general. E acabo de ganhar para o senhor 12 horas, a fim de considerar alternativas. Aquele avião foi destruído pela Haganah.

—    O quê?

Pace esclareceu sobre a organização judaica que operava fora da Palestina, observando Swanson atentamente o tempo todo.

—    Isso é uma loucura! Não faz sentido! Como sabe?

—    A primeira coisa que um grupo de inspeção faz no local da sabotagem é esfriá-lo com água, recolher os destroços, procurar pro­vas que poderiam se fundir com o calor ou queimar-se, no caso de explosivos. É uma investigação preliminar e feita com rapidez.. . Um medalhão da Haganah foi encontrado preso à cauda. Eles que­rem pleno crédito.

—    Meu Deus! Que disseram vocês ao pessoal dos Açores?

—    Ganhei um dia para o senhor, general. Dei instruções a Hollander no sentido de minimizar qualquer conexão e ocultá-la de Spaulding. Francamente, sugerir coincidência, se a questão escapasse ao seu controle. A Haganah é independente, fanática. A maioria das organizações sionistas não quer contato com ela. Chamam-na de "grupo de selvagens".

—    Como poderia a questão escapar ao controle? — Swanson estava perturbado com outra coisa.

—    Sabe com certeza que os Açores estão sob controle britânico. Um antigo tratado português lhes concede o direito a instalações mi­litares.

—    Eu sei disso — falou Swanson, secamente.

—    Os britânicos encontraram o medalhão.

—    Que farão?

—    Pensarão no assunto e eventualmente apresentarão um relatório à Central de Informação aliada.

—    Mas você sabe do que se passou, agora.

—    Hollander é um bom agente. Presta favores e obtém favores em troca.

Swanson levantou-se da cadeira e pôs-se a andar a esmo ao seu redor.

      Que acha, Ed? Spaulding era o objetivo? — perguntou, fixando o coronel.

A expressão de Pace revelou que ele começava a compreender a ansiedade do general. Não tanto relativa ao projeto — este se en­contrava fora de sua alçada e ele o aceitava —, mas pelo fato de um colega de farda ser obrigado a agir num setor com o qual não estava sintonizado, num território que não fora treinado para atravessar. Em tais ocasiões, um membro decente do Exército revelava sim­patia.

—    Só lhe posso apresentar conjecturas e muito desligadas; nem sequer posso adivinhar. .. Talvez fosse Spaulding. E, mesmo que fosse, isto não significa obrigatoriamente que o caso tenha ligação com o seu projeto.

—    O quê?

—    Ignoro quais tenham sido as atividades de campanha de Spaulding. Pelo menos, especificamente. E a Haganah está fervilhan­do de psicopatas da variedade assassina. São tão racionais quanto as unidades de Julius Streicher. Spaulding talvez tenha sido obrigado a matar um judeu português ou espanhol. Ou a utilizar alguém numa armadilha. Num país católico, é o quanto basta para uma célula da Haganah... Ou poderia ser alguém que estivesse no avião. Um oficial ou membro da tripulação com parente anti-sionista, especialmente se este anti-sionista era judeu. Eu teria que fazer uma verifi­cação... A menos que se esteja à par do assunto, não se consegue compreender esses judeus.

Swanson permaneceu em silêncio por longo tempo. Quando falou, foi para agradecer a atitude de Pace.

—    Obrigado. . . Mas é provável que não seja nada disso, não é? Refiro-me aos judeus de Spaulding, ou às armadilhas, ou a um tio do piloto... É Spaulding.

—    Não se sabe. Especular, está certo. Mas não concluir.

— Não posso compreender como. — Swanson tornou a sentar-se, pensando em voz alta. — Levando tudo em consideração... O pensamento perdeu-se no silêncio.

      Posso fazer uma sugestão?

Pace dirigiu-se à sua cadeira. Não era momento de falar com superioridade a um superior confuso.

—    Certamente — respondeu Swanson, fixando o coronel, olhar expressando sua gratidão àquele duro e confiante elemento da In­formação.

—    Não estou liberado para o seu projeto e, para falar a verdade, não quero estar. É um exercício do Departamento de Guerra e é lá o seu lugar. Disse há minutos que deveria considerar alterna­tivas... deveria mesmo. Mas somente se encontrar uma conexão direta. Observei-o e notei que não encontrou.

—    Por que não existem.

—    O senhor não está envolvido — e eu mesmo não sei como, considerando-se o que sei da pista de Johannesburg — com os cam­pos de concentração? Auschwitz? Belsen?

—    Nem sequer de maneira remota.

Pace inclinou-se para diante, cotovelos apoiados na mesa.

—    São essas as preocupações da Haganah, além dos "judeus espanhóis" e das "armadilhas"... Não tome qualquer decisão agora, general. Seria precipitada, sem razão que a apoiasse.

—    Apoiasse... — Swanson fitou-o, incrédulo. — Um avião explodiu. Homens morreram!

—    È um medalhão poderia ser colocado por qualquer um na cauda do avião. É possível que estejam testando-o.

—    Mas, quem?

      A isso não sei responder. Previna Spaulding; ele achará en­graçado, uma vez que estava no avião. Mas permita que meu ele­mento em Mitchell Field diga a ele que poderia haver uma repetição, que tome cuidado... Ele é experiente, general. Sabe se portar... Contudo, posso sugerir também que procure um substituto?

— Um substituto?

—    Para Spaulding. Se houver uma repetição, poderá ser bem sucedida. Ele seria eliminado.

—    Quer dizer que o matariam.

—    Sim.

—    Em que espécie de mundo vivem vocês? — perguntou Swanson, em voz baixa.

—    Complicado.

 

29 de Dezembro de 1943

NOVA YORK

Spaulding observava o tráfego pela janela do hotel que dava para a Fifth Avenue e o Central Park. O Montgomery era um da­queles hotéis pequenos e elegantes onde se hospedavam seus pais em Nova York, e havia uma agradável sensação de nostalgia no fato de ali se encontrar novamente. O velho porteiro chegara a chorar dis­cretas lágrimas ao registrá-lo. Spaulding esquecera — felizmente recordara antes da assinatura secar — que o velho o levara a passeio no parque, décadas atrás. Havia mais de um quarto de século!

Passeios no parque. Governantas. Motoristas à espera no foyer, preparados para transportar seus pais a um concerto, um trem, um ensaio. Críticos musicais. Executivos de companhias de discos. Festas infindáveis, onde em geral ele aparecia antes de se deitar e seu pai pedia que ele dissesse a algum dos convidados em que idade Mozart compusera a Quarta; datas e fatos que era obrigado a memorizar e que não lhe interessavam absolutamente. Discussões.. Crises histéri­cas por causa de um maestro inadequado, uma performance má ou uma crítica pior.

Loucura.

E sempre a figura de Aaron Mandel tranqüilizando, acalmando; seu pai autoritário, enquanto a mãe se apagava, à espera num papel secundário que disfarçava sua força inata.

E os períodos tranqüilos. Os domingos — exceto aqueles em que havia concerto —, quando os pais recordavam subitamente de sua existência e procuravam compensar num só dia a atenção que julgavam impropriamente delegada a governantas, motoristas e sim­páticos e polidos gerentes de hotel. Nessas épocas tranqüilas, ele sentia as tentativas sinceras, porém artificiais, de seu pai e gostaria de dizer-lhe que tudo estava, bem, que ele não se sentia esquecido. Não precisavam passar dias de outono vagueando por zoológicos e museus; na verdade, os zôos e os museus europeus eram muito melhores. Não era necessário que o levassem a Coney Island ou às praias de New Jersey no verão. Que eram eles, comparados ao Lido ou à Costa dei Santiago? Mas sempre que se encontravam na América sentiam aquela compulsão paterna para se ajustaria um modelo cha­mado "Pai e Mãe Americano".

Triste, engraçado, inconsistente; impossível, enfim.

E por qualquer razão oculta ele jamais voltara àquele pequeno e elegante hotel nos últimos anos. Raro havia necessidade, é claro, mas poderia ter feito um esforço; a gerência gostava sinceramente da família Spaulding. De certo modo, parecia-lhe correto. Após tantos anos no estrangeiro, ele queria uma base segura numa terra estranha, segura pelo menos nas recordações.

Spaulding afastou-se da janela, em direção à cama onde o cria­do colocara sua mala nova, com as novas roupas civis que ele com­prara em Rogers Peet. Tudo, inclusive a mala. Pace tivera a previ­dência de enviar-lhe dinheiro pelo major que trouxera as duplicatas dos documentos destruídos em Terceira. Precisara assinar recibo pelo dinheiro — não pelos papéis — e isso o divertira.

O major que o recebera em Mitchell Field — na pista — escol­tara-o até a enfermaria da base, onde um entediado médico do Exército considerara-o apto, mas "abatido"; criticara profissionalmen­te as suturas colocadas pelo médico britânico nos Açores, mas não achou motivo para mudá-las; e sugeriu que David tomasse dois comprimidos de APC de quatro em quatro horas e descansasse.

Advertência paciente.

O major-correio tocara uma canção no piano de Fairfax, dizendo que a Divisão de Campanha continuava analisando a sabota­gem de Lajes; era possível que fosse voltada para ele, por algo que tivesse feito em Lisboa. Deveria ser cuidadoso e comunicar qual­quer incidente fora do comum diretamente ao Coronel Pace, em Fairfax. Além disso Spulding estava sob as ordens de um general­-de-brigada chamado Alan Swanson, do Departamento de Guerra. Swanson era o seu controle e entraria em contato com ele em ques­tão de dias, 10 no máximo.

Então, por que ligar para Pace? Em vista de possíveis "incidentes". Por que não entrar diretamente em contato com esse tal Swanson, que era ele o controle?

Instruções de Pace, replicara o major; até que o general-de-bri­gada assumisse, seria mais simples assim.

Ou mais sigiloso, pensou David, recordando o olhar toldado de Paul Hollander, o agente Az-Am de Terceira.

Algo estava acontecendo. A transferência do controle começa­va a ser realizada de maneira não ortodoxa. Desde os códigos sem assinatura, de alta prioridade, recebidos em Lisboa, até a.ordem extraordinária: fora da estratégia. Desde a entrega em pleno oceano dos documentos por intermédio dos agentes Az-Am, que declararam ter que interrogá-lo primeiro, até as mais estranhas ordens no senti­do de que ele se apresentasse a dois civis em Nova York, sem qual­quer instrução anterior.

Era como uma valsa-hesitação. Ele descansaria uma hora, to­maria banho, faria a barba e veria Nova York à noite pela primeira vez em mais de três anos. Veria o que a guerra havia feito à Manhat­tan noturna; à diurna — que ele visse — pouco ou nada fizera. Somente os cartazes. Seria bom dormir com uma mulher naquela noite. Mas, se isso acontecesse, teria que ser algo tranqüilo, sem lutas ou urgência. Um interludio agradável, verdadeiramente agra­dável. Por outro lado, não estava disposto a folhear um catálogo telefônico para criar a situação. Três anos e nove meses haviam passado desde que ele pegara um telefone em Nova York. Nesse pe­ríodo, aprendera a ser cauteloso com mudanças ocorridas em questão de dias, para não falar de anos e meses.

Recordava com satisfação que os transferidos dos Estados Uni­dos para a Embaixada de Lisboa falavam com freqüência da acessi­bilidade das mulheres americanas, especialmente em Washington e Nova York, onde a quantidade e a impermanência agiam a favor de aventuras de uma noite. Lembrou-se então, com um laivo de di­vertida resignação, que essas mesmas histórias falavam do irresistível magnetismo do uniforme de oficial, especialmente de capitão para cima.

Envergara uniforme exatamente três vezes nos últimos quatro anos: no lounge do hotel Mayflower, com Ed Pace, no dia de sua chegada a Portugal, e no dia da saída.

Nem sequer possuía um naquele momento.

O telefone tocou, assustando-o. Somente Fairfax e, supunha ele, esse tal de General Swanson sabiam onde se encontrava. Da en­fermaria do Mitchell Field ligara para o Montgomery, fazendo a reserva. O major dissera que precisaria de setenta e duas horas de descanso. Ninguém deveria perturbá-lo. E agora alguém o procurava.

      Alô?

—      David. — Voz feminina, cultivada no Plaza. David Spaulding!

      Quem está falando?

Perguntou a si mesmo se suas fantasias recém-liberadas estariam brincando com a realidade.

      Leslie, querido! Leslie Jenner! Meu Deus, deve fazer quase cinco anos!

A mente de Spaulding disparou. Leslie Jenner fazia parte da sociedade nova-iorquina, mas não dos círculos radiofônicos; era da turma da universidade. Encontros sob o relógio do Biltmore; longas noites no La Rue, festas às quais fora convidado não tanto por causa de graças sociais como pelo fato de ser filho dos concertistas Spaul­ding. Leslie pertencia a Miss Porter's, Finch e a Junior League.

Só que o sobrenome mudara. Ela casara com um rapaz de Yale. Não lembrava do nome.

— Leslie, isto é... bem, é uma surpresa. Como soube que eu estava aqui?

Spaulding não estava disposto a entregar-se a uma conversa ociosa.

      Nada acontece em Nova York que eu não saiba! Tenho olhos e ouvidos em toda parte, querido! Uma verdadeira rede de espio­nagem!

David Spaulding sentiu-se empalidecer. Não lhe agradava o gra­cejo da moça.

—    Falo sério, Leslie... Eu não telefonei para ninguém. Nem mesmo para Aaron. Como descobriu?

—    Já que quer saber, Cindy Bonner — antes Cindy Tottle, casada com Paul Bonner — estava trocando uns horríveis presentes de Natal para Paul, em Rogers Peet, e jurou que viu você experimen­tando um terno. Bem, você conhece Cindy! Tímida demais...

David não conhecia Cindy. Não conseguia recordar o nome, muito menos o rosto. Leslie Jenner prosseguiu, enquanto ele pensa­va no assunto:

      . . . e então correu ao telefone mais próximo e me avisou. Afinal, querido, nós sempre fomos uma grande dupla!

Se uma "grande dupla" significava dois meses de fins-de-semana em East Hampton, no verão, dormindo com a filha da casa, então

David tinha que concordar. Mas não concordava com a descrição, fora um caso muito passageiro, discreto, anterior ao muito badalado casamento da moça.

Prefiro que não revele ao seu marido esta informação...

      Oh, meu Deus, pobrezinho! Sou Jenner, querido, não Hawkwood! Nem mesmo conservei o nome. De jeito nenhum conservaria.

Então é isso, pensou David. Casou com um homem chamado Hawkwood, Roger ou Ralph, algo semelhante. Jogador de futebol ou tenista?

Lamento muito. Eu não sabia...

      Richard e eu nos separamos há séculos. Foi um desastre. O filho da mãe não conseguia se manter afastado nem de minhas melhores amigas! Tenho certeza de que as garotas inglesas andam muito satisfeitas com ele... E falo sério! Eu sei!

David experimentou um leve frêmito na virilha. Leslie Jenner estava fazendo um convite.

—    Bem, são aliados respondeu Spaulding, de bom humor. Mas você não disse como me encontrou aqui.

—    Foram precisos exatamente três telefonemas, meu bem. Ten­tei os costumeiros: Comodore, Biltmore e Waldorf. Depois me lem­brei que seus pais sempre se hospedavam no Montgomery. Muito "Velho Mundo", querido. . . Pensei que com essa dificuldade para se fazer reservas você se lembraria dele...

—    Seria um bom detetive, Leslie.

—    Somente quando o objeto de minhas investigações vale a pena, meu bem. . . Nós nos divertimos, naquele tempo.

—    Sim, nós nos divertimos concordou Spaulding, pensando em coisa totalmente diversa. E não podemos desperdiçar sua proe­za de memória. Que tal um jantar?

—    Se você não me tivesse convidado eu gritaria.

      Devo buscá-la no seu apartamento? Qual o endereço? Leslie hesitou uma fração de segundo.

      É melhor nos encontrarmos no restaurante. Jamais sairíamos daqui.

Um convite, sem dúvida alguma.

David sugeriu um café da Fifty-first Street, de que ele se lembrava.

      Sete e meia? Oito?

      Sete e meia está ótimo, mas não lá, querido. Fechou há anos. Por que não o Gallery? Fica na Forty-sixth. Farei reservas, Eles me conhecem.

      Ótimo.

      Pobrezinho, esteve ausente tanto tempo. Não sabe de nada. Eu servirei de guia.                                       

—     Ótimo. Sete e trinta, então.

—     Nem posso esperar. Mas prometo não chorar.

Spaulding colocou o fone no gancho. Estava confuso e em diversos níveis. Para começar, uma garota não telefonava para um ex-amante após quase quatro anos de guerra, sem perguntar — espe­cialmente nos tempos que corriam — onde ele estivera, como estava ou, pelo menos, qual o tempo que contava permanecer na cidade. Não era natural, negava a curiosidade em tempos inclinados à curio­sidade.

A outra razão era profundamente perturbadora.

A última vez que seus pais haviam estado no Montgomery fora em 1934. E ele não voltara ali depois. Conhecera a moça em 1936. Em outubro de 1936, em New Haven, no Yale Bowl, lembrava-se nitidamente.

Leslie Jenner não poderia saber sobre o hotel Montgomery. Não no que se relacionava aos seus pais.

Mentia.

 

29 de Dezembro de 1943

NOVA YORK

O Gallery era exatamente como David esperava: muito veludo vinho, com generosas fileiras de palmas, de formas e tamanhos va­riados, refletindo os flocos de luz amarelo-pálido em dezenas de pon­tos das paredes, colocados tão alto que tornavam os menus ilegíveis. A clientela era igualmente previsível: jovem, rica, deliberadamente despreocupada; uma profusão de sobrancelhas franzidas e sorrisos oblíquos descobrindo dentes muito brilhantes. As vozes elevavam-se e caíam, as palavras atropelavam-se, a dicção escorregadia.

Leslie Jenner já se encontrava à sua espera. Correu a abraçá-lo diante das portas do vestiário, estreitando-o com violência, em si­lêncio, por vários minutos :— ou pelo menos foi o que pareceu a Spaulding. Fosse como fosse, um tempo excessivo. Quando ela in­clinou a cabeça para trás, lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Eram genuínas, mas havia algo seria a rigidez dos lábios cheios? os pró­prios olhos? —, algo de artificial na moça. Ou seria nele? Os anos afastado de locais como o Gallery e moças como Leslie Jenner?

Em todos os outros sentidos ela estava como ele recordava. Talvez mais velha, certamente mais sensual, com aquele inconfundí­vel olhar experiente. Seus cabelos, antes de um louro-escuro. estavam acastanhados; os olhos, grandes e castanhos, haviam dado sutileza ao inato ar provocante; o rosto parecia levemente enrugado, mas ainda firme, aristocrático. E ele sentiu o corpo dela contra o seu, despertando lembranças, esguio, forte, seios amplos, um corpo que girava em torno do sexo. Por ele e para ele amoldado.

—      Oh, meu Deus, meu Deus! Oh, David!

E premiu os lábios contra a orelha do rapaz.

Sentaram-se à mesa reservada, ela segurando com firmeza a mão dele, libertando-a somente para acender um cigarro e tomando-a de novo. Falavam com rapidez. Ele não tinha certeza de estar sendo ouvido, mas ela anuía com freqüência, sem tirar dele os olhos. Re­petiu as linhas simples de seu papel: Itália, ferimentos leves; per­missão para voltar a uma indústria essencial, onde seria mais útil que carregando um rifle. Não sabia ao certo quanto tempo ficaria em Nova York. (Neste caso era sincero, pensou consigo mesmo. Não tinha a menor idéia do tempo que permaneceria na cidade, e bem que gostaria de saber.) E estava feliz em revê-la.

O jantar era prelúdio da cama. Ambos o sabiam; nenhum dos dois se deu ao trabalho de ocultar a excitação de reviver a mais agradável das experiências: sexo na juventude, gozado nas sombras, para além das censuras dos mais velhos. Mais apreciado porque proi­bido, perigoso.

—      Seu apartamento? perguntou ele.

—      Não, querido. Eu o partilho com minha tia, a irmã mais moça de mamãe. É muito elegante hoje em dia partilhar o aparta­mento. Muito patriótico.

David não entendeu o raciocínio.

—      Então, o meu disse, com firmeza.

—      David? Leslie apertou-lhe a mão, fazendo uma pausa antes de continuar. Aquela velha família que trabalha no Montgomery conhece muita gente da nossa turma. Os Allcott, por exemplo, têm lá uma suíte, assim como os Dewhurst...Eu tenho a chave do apar­tamento de Peggy Webster, na Village. Lembra-se de Peggy? Você foi ao casamento dela. Jack Webster. Você conhece Jack. Está na Marinha. Ela foi visitá-lo em San Diego. Vamos ao apartamento de Peggy.

Spaulding observou-a com atenção. Não esquecera o estranho comportamento ao telefone, a mentira; a respeito do velho hotel e do seus pais. Contudo, era possível que sua imaginação estivesse traba­lhando demais os anos em Lisboa haviam-no tornado mais cau­teloso. Poderia haver explicações, lapsos de memória da parte dele, mas no momento sentia-se tão curioso quanto excitado.

Estava muito curioso. E muito excitado.

—      O apartamento de Peggy concordou.

 

Se havia algo além do objetivo sexual, esse algo escapou-lhe.

Depois de tirarem os agasalhos, Leslie preparou drinques na co­zinha, enquanto David amontoava papéis sob a grelha da lareira, observando o fogo começar a arder.

Leslie imobilizou-se na porta da cozinha, vendo-o separar os toros e criar uma corrente de ar. Drinques na mão, sorriu.

—      Dentro de dois dias será o Ano Novo. Nós saltaremos no tempo e esta será a nossa véspera de Ano Novo. O início, espero.

De muitos respondeu ele, levantando-se e aproximando-se dela. Tomou ambos os copos, não o que lhe fora estendido. Vou colocá-los aqui.

Levou-os para a mesinha diante do pequeno sofá voltado para a lareira e virou-se rápido, polido, para observar-lhe os olhos. Ela não fixava os copos. Ou o local onde os colocara.

Em vez disso, aproximou-se da lareira e tirou a blusa. Deixou-a cair no chão e voltou-se, os seios amplos acentuados pelo sutiã aper­tado, transparente, com uma teia de pespontos no bojo.

—      Tire a camisa, David.

Ele obedeceu e aproximou-se. Ela estremeceu diante das atadu­ras, tocando-as de leve com os dedos, pressionando o corpo contra o dele, a pelve firme contra o quadril de David, movimentando-se lateralmente, com habilidade. Ele a rodeou com os braços e abriu o sutiã; ela se inclinou de leve quando o tirou; depois, voltou-se, arqueando-se para cima, contra o torso do rapaz. Com a mão direita, David segurou-lhe um seio e ela, afastando-se em parte, abriu-lhe as calças.

—      Os drinques podem esperar, David. É véspera de Ano Novo. O nosso pelo menos.

Segurando-lhe ainda o seio, ele a beijou nos olhos, nos ouvidos. Ela o tocou e gemeu.

      Aqui, David. Aqui mesmo no chão.

Deixou-se cair de joelhos, a saia erguida até as coxas, o alto das meias visível.

Deitou-se junto dela e beijaram-se.

—     Eu me lembro — murmurou ele, rindo de leve. — A primei­ra vez. A cabana junto ao abrigo do barco. No chão. Eu me lembro.

—     Perguntava a mim mesma se você lembraria. Eu jamais esqueci.

 

Passavam apenas 45 minutos da meia-noite quando ele a levou para casa. Haviam-se amado duas vezes, bebido uma porção do bom uísque de Jack e Peggy Webster e conversado sobre "os velhos tem­pos". Leslie não tinha inibições relativas ao seu casamento. Richard Hawkwood, o ex-marido, era uma pessoa simplesmente incapaz de manter um relacionamento permanente. Era um glutão sexual, con­tanto que o sexo estivesse espalhado; não muito, caso contrário. Era também um fracassado — tanto quanto a família dele permitia — no mundo dos negócios. Hawkwood fora educado para gozar de 50 mil dólares anuais; sua capacidade lhe permitiria ganhar talvez uns seis.

A guerra fora criada para homens como Richard, na opinião dela. Destacavam-se nesta circunstância, como acontecera ao mari­do. Deveria "tombar em chamas" fosse lá onde fosse, desaparecen­do com brilho em vez de regressar às frustrações da vida civil. Spaulding achou que ela estava se mostrando severa. Leslie afirmou que se mostrava condescendente. Riram e se amaram.

Durante todo o tempo, David manteve-se alerta, à espera de que ela dissesse, revelasse ou perguntasse algo fora do comum. Qual­quer coisa que esclarecesse as razões por detrás das mentiras que dis­sera. Não encontrou nada.

Perguntou novamente, fingindo incredulidade pelo fato de Les­lie recordar seus pais e o Montgomery. Ela insistiu na memória in­falível, acrescentando apenas que "o amor torna qualquer procura mais eficaz".

Mentia novamente, ele o sabia. O que havia entre eles não era amor.

Ela o deixou no táxi, não quis que subisse. A tia estaria dormindo, era melhor assim.

Os dois se encontrariam novamente no dia seguinte. No aparta­mento dos Webster. Dez horas da noite. Ela tinha um compromisso para jantar, mas sairia cedo e quebraria o compromisso da véspera do Ano Novo. Teriam o dia inteiro só para eles.

Quando o porteiro a introduziu e o táxi se pôs a subir a Fifth Avenue, David pensou pela primeira vez que Fairfax queria que ele iniciasse sua missão na Meridian Aircraft dois dias depois, véspera de Ano Novo. Esperava que se trabalhasse meio expediente.

Estranho. Véspera de Ano Novo. Natal.

Nem sequer se lembrara do Natal. Mandara presentes aos pais em Santiago, mas fora antes da viagem ao norte, à região basca e a Navarra.

Natal não tinha significado. Papai Noel tilintando suas campai­nhas nas ruas de Nova York, as decorações das vitrinas, nada daquilo tinha sentido para ele.

E sentiu-se triste. Sempre gostara daqueles festejos.

Pagou ao motorista, cumprimentou o porteiro noturno do Montgomery e tomou o elevador. No seu pavimento, saltou e dirigiu-se à porta. Automaticamente, porque sentia os olhos cansados, passou o dedo sobre o cartão que dizia "NÃO PERTURBE", pendurado à maçaneta.

Depois, apalpou a madeira e olhou para baixo, acendendo o isJ queiro para ver melhor. Os fios desapareceram.

O sexto sentido e as instruções de Fairfax para se manter alerta haviam-no levado a distribuir fios pelo quarto do hotel. Invisíveis, de seda bege ou negra, colocados em meia dúzia de lugares; caso desaparecessem ou se rompessem, isso indicaria um invasor.

Estava desarmado e não podia saber se havia alguém ainda no quarto.

Regressando ao elevador, apertou o botão e perguntou ao cabineiro se ele possuía uma chave geral. Sua porta não queria abrir. O homem não possuía e conduziu-o ao vestíbulo.

O porteiro da noite atendeu, ordenando ao cabineiro que permanecesse no seu lugar enquanto ele ajudava o Sr. Spaulding a re­solver o problema da fechadura.

Quando os dois saíram do elevador e desceram o corredor, Spaulding ouviu nitidamente um ferrolho sendo corrido, quase si­lencioso, mas inconfundível. Voltou rápido a cabeça em ambas as direções, tentando localizar a origem do som.

Nada além de portas fechadas.

O porteiro não teve dificuldade em abrir a porta, mas sentiu-a -para compreender o braço do Sr. Spaulding ao redor do seu ombro, impelindo-o para o interior do quarto único, junto com ele.

David olhou em redor, rapidamente. As portas do banheiro e do armário estavam abertas como as deixara. Não havia outros es­conderijos. Libertando o empregado, gratificou-o com uma nota de cinco dólares.

— Muito obrigado. Sinto-me embaraçado. Creio que bebi demais.

— Por nada, senhor. E muito obrigado.

O homem saiu, fechando a porta.

David pôs-se a verificar rapidamente os fios. No armário, no bolso do casaco, espalhados e enroscados.

Não havia fios.

Na escrivaninha, primeira e terceira gavetas.

Ambos os fios estavam deslocados. O primeiro, no interior, so­bre uma pilha de lenços; o segundo, entre as camisas.

Na cama, o fio estava colocado lateralmente ao longo da colcha, em linha com o desenho.

Nada em parte alguma.

Dirigiu-se à mala, que se encontrava no porta-bagagem junto à janela, ajoelhou-se e examinou a fechadura direita; o fio se encon­trava preso no fecho metálico sob a pequenina mola. Se a mala fosse aberta, ele se partiria.

Estava partido, restando apenas uma metade.

O interior da mala abrigava um único fio nos fundos, cruzando o bolso elástico a três dedos de distância do lado esquerdo.

Desaparecera.

David levantou-se. Aproximando-se da cama, procurou o catá­logo telefônico. Inútil esperar. Qualquer vantagem que tivesse estaria na surpresa. Seu quarto fora revistado por um profissional. Não se esperava que ele percebesse.

Conseguiria o telefone de Leslie Jenner, voltaria aoapartamento dela e descobriria uma cabina telefônica próxima à entrada;com sorte, à vista da entrada. Então, telefonaria, contaria umahistória absurda qualquer e pediria para vê-la. Nãomencionaria abusca, nada que levantasse suspeitas. Ele asurpreenderia e escutaria, atentoà sua reação. Seela concordasse em vê-lo, tudo bem. Do contrário, manteria o apartamento sob vigilância a noite inteira, caso neces­sário.

Leslie Jenner tinha uma história a contar e ele descobriria qual. O homem de Lisboa não passara três anos nas províncias do norte sem se tornar um perito.

Não havia Jenner no edifício de apartamentos.

Havia apenas seis Jenners em Manhattan.

Foi dando, um a um, os números à telefonista do hotel e cada qual — em variáveis estágios de sono e ira — deu a mesma res­posta.

Não havia ali nenhuma Leslie Jenner. Ninguém a conhecia.

Spaulding desligou. Levantando-se da cama, andou pelo quarto.

Iria ao edifício e interrogaria o porteiro. Era possível que o apartamento estivesse em nome da tia, embora implausível. Leslie Jenner colocaria seu nome e número de telefone nas Páginas Ama­relas, se pudesse. Para ela, o telefone era um meio de vida, não um instrumento de conveniência. Se ele fosse ao apartamento e come­çasse a fazer perguntas, estaria anunciando uma insensata preocupa­ção. E não estava disposto a isso.

Quem seria a moça que o vira em Rogers Peet? A que estava trocando presentes de Natal. Cynthia? Cindy?... Cindy. Cindy Tuttle.... Tottle. Não Tottle... Bonner. Casada com Paul Bonner, "tro­cando uns horríveis presentes de Natal para Paul".

Voltou à cama e tomou novamente o catálogo.

Paul Bonner encontrava-se na lista: 480, Park Avenue. Um endereço adequado. Deu o número à telefonista.

A voz da moça, mais adormecida que desperta, atendeu:

—     Alô?

—     Sra. Bonner?

—     Sim. De que se trata? Fala a Sra. Bonner.

—     Sou David Spaulding. Viu-me esta tarde em Rogers Peet. Estava trocando presentes para seu marido e eu, comprando um ter­no... Perdoe-me incomodá-la, mas é importante. Jantei com Les­lie... Leslie Jenner. A senhora telefonou para ela. Acabo de sair do apartamento. Deveríamos nos encontrar amanhã e descobri agora que não será possível. É uma tolice, mas esqueci de trazer o telefone dela e agora não consigo encontrá-lo no catálogo. Será que podia...

—     Sr. Spaulding. A moça interrompeu-o, em tom áspero, já livre do sono. Se isto é uma brincadeira, saiba que é de muito mau gosto... Eu não o vi esta tarde e não estava trocando. ..não estive em Rogers Peet. Meu marido morreu há quatro meses. NaSicília... Não falo com Leslie Jenner...Hawkwood, creio que é como se chama agora... há mais de um ano. Ela se mudou para a Califórnia, Pasadena, parece-me... Não nos temos visto. E não é provável que passemos a nos encontrar.

David ouviu o ruído brusco da ligação interrompida.

 

31 de Dezembro de 1943

NOVA YORK

Era a manhã da véspera de Ano Novo.

Seu primeiro dia de "emprego" na Meridian Aircraft, Divisão de Planejamento.

Permanecera a maior parte do dia anterior no hotel, saindo apenas para almoçar e comprar revistas; jantara no quarto e final­mente dirigira-se de táxi a Greenwich Village, onde sabia que não encontraria Leslie Jenner às 10 horas.

Permanecera confinado por duas razões. A primeira fora a con­firmação do diagnóstico do médico de Mitchell Field: estava exausto. A segunda era igualmente importante. Fairfax estava investigando Leslie Jenner Hawkwood, Cindy Tottle Bonner e um oficial de Ma­rinha chamado Jack ou John Webster, cuja esposa se encontrava convenientemente na Califórnia. David queria as informações antes de prosseguir e Ed Pace prometera ser tão minucioso quanto pos­sível em 48 horas.

Spaulding sentia-se impressionado com as palavras de Cindy Bonner relativas a Leslie Jenner.

Ela se mudou para a Califórnia. Pasadena, parece-me...

E um telefonema para o superintendente do apartamento de Greenwich Village confirmara que os Webster moravam ali; o marido estava na Marinha e a mulher, viajando na Califórnia. Ele guardava a correspondência para os dois.

Viajando pela Califórnia.

Ela se mudou para a Califórnia...

Haveria alguma conexão? Ou simples coincidência?

Spaulding consultou o relógio. Eram oito horas. Manhã da vés­pera de Ano Novo. No dia seguinte, estariam em 1944.

Naquela manhã, porém, teria que se apresentar a um certo Walter Kendall e a Eugene Lyons, na sede provisória da Meridian, na Thirty-eighth Street

Por que uma das maiores companhias de construção aeronáuti­ca dos Estados Unidos teria escritórios "temporários"?

O telefone tocou e David estendeu a mão para atender.

—     Spaulding?                             

—     Olá, Ed.

—     Consegui o que foi possível. Não faz muito sentido. Para começar, não há registro de divórcio entre os Hawkwood. E ele está mesmo na Inglaterra. Oitava Força Aérea. Mas nada de especial. É piloto, Décimo Comando de Bombardeiros, em Surrey.

—     E que história é essa de ela morar na Califórnia?

—     Há 18 meses saiu de Nova York e mudou-se para a casa de uma tia, em Pasadena. Tia muito rica, casada com um homem chamado Goldsmith. Ele é banqueiro — alta roda, jogadores de pólo. Pelo que soube — e é bem pouco —, ela simplesmente gosta da Califórnia.

—     OK. E esse Webster?

—     Confere. Era oficial-artilheiro do Saratoga. Está em San Diego para reparos. Deve voltar ao serviço dentro de duas semanas, e a data confere. Até então, inúmeras licenças de 48 e 72 horas, mas nenhuma prolongada. Sua mulher Margaret, reuniu-se ao marido tenente há uns dois dias. Está hospedada no hotel Greenbrier.

—     Algo a respeito dos Bonner?

—     Só o que você já sabe, exceto que ele foi um autêntico herói. Estrela de Prata Póstuma, Infantaria. Abatido numa patrulha, co­brindo a retirada de uma emboscada. Invasão da Sicília.

—     E é só?

—     É só. É evidente que todos se conhecem, mas não encontro nada que se relacione com a sua missão no Departamento de Guerra.

—     Mas você não é o controle, Ed. Disse que ignorava qual a missão.

—     Exato. Mas, pelos fragmentos que conheço, não consigo encontrar nada.

—     Meu quarto foi revistado. Quanto a isso não há dúvida.

—     Talvez roubo. Soldado rico num hotel elegante, regressando de ausência prolongada. Alguém poderia imaginar que você estives­se com muitos pagamentos atrasados, dinheiro descontado.

—     Duvido. Demasiado profissional.

—     Muitos profissionais trabalham nesses hotéis. Esperam que o sujeito saia para embriagar-se e...

Spaulding interrompeu-o.

—     Quero investigar uma coisa.

—     O quê?

—     Essa moça, Bonner, disse que não era provável que voltasse a estar em contato com Leslie Jenner e não brincava. É uma coisa estranha de se dizer, não é? Gostaria de saber por que falou assim.

—     Vá em frente. Foi o seu quarto de hotel, não o meu. . . Sabe o que eu acho? E pensei no assunto. Precisava pensar.

—     O quê?

—     Essa turma de Nova York se dedica ao jogo das camas mu­sicais. Você não entrou em detalhes, mas não acha lógico que uma senhora que esteja passando alguns dias em Nova York o tenha visto pessoalmente ou conheça alguém que o visse e pensado: "Por que não? Afinal, que diabo, voltaria logo para a Califórnia e prova­velmente nunca mais tornaria a vê-lo...

—     Não, não é lógico. Ela foi demasiado complicada. Não precisava. Procurava me manter afastado do hotel.

—     Bem, você estava presente.. .

Com certeza. Sabe, não é engraçado. Segundo o major de Mitchell Field, você pensa que a história dos Açores foi por minha causa...

—     Eu disse que poderia ser... — interrompeu Pace.

—     E eu não acho. No entanto, estou convicto de que o caso da noite passada foi proposital e você não acha. Talvez estejamos ambos cansados.

—     Talvez eu esteja também preocupado com o seu controle. Swanson é muito nervoso. Não está no seu setor. Creio que não suportaria novas complicações.

—     Então, não vamos apresentar-lhe outras. Não agora. Eu saberei quando for necessário.

 

Spaulding observou o descabelado contabilista que descrevia a operação Buenos Aires. Jamais conhecera alguém como Walter Kendall. O homem era positivamente sujo. Seu odor era apenas em parte disfarçado por doses liberais de rum. A camisa e o colarinho estavam sujos, o terno amarrotado, e David observou fascinado o homem respirando simultaneamente pela boca e pelas narinas. O agente de Terceira havia dito que Eugene Lyons era "estranho"; se esse Kendall era "normal", estava ansioso por conhecer o cientista.

A operação Buenos Aires parecia bastante simples, muito menos complexa que a maior parte do seu trabalho de Lisboa. Tão simples, na verdade, que se sentiu irado por terem-no deslocado de Lisboa para isso. Se alguém se tivesse dado ao trabalho de esclarecê-lo algu­mas semanas antes, poderia ter poupado a Washington uma porção de planos e talvez dinheiro. Lidara com o underground alemão desde que a organização havia consolidado suas diversas facções, tornando-se uma força efetiva. Se aquele Erich Rhinemann era capaz de com­prar os planos, removê-los do complexo de Peenemünde, ele — o homem de Lisboa — seria capaz de retirá-los do país, provavelmente com maior segurança do que tentando infiltrá-los pelo Mar do Norte ou os portos de Canal. Esses portos eram estanques, obsessivamente patrulhados. Caso não fossem, grande parte do seu trabalho seria desnecessária. O único aspecto notável da operação era o fato de Rhinemann ter obtido os planos — fossem lá do que fossem —, re­tirando-os de Peenemünde. Isso era de fato extraordinário. Peene­münde era um subterrâneo de concreto de aço mergulhado na terra, dotado do mais complexo sistema de segurança e controle jamais elaborado. Seria mais fácil a um homem sair — por diversas razões inventadas — do que retirar uma simples folha de papel.

Além do mais, Peenemünde mantinha seus laboratórios isolados, estágios vitais coordenados apenas por um punhado da elite cientí­fica sob verificação da Gestapo. Em termos de Buenos Aires, isto significava que Erich Rhinemann era capaz de (1) ter contato e com­prar diversos chefes de laboratório em ordem sistemática; (2) ultra­passar ou comprar (impossível) a Gestapo; ou (3) obter a coope­ração dos cientistas que atravessavam as barreiras dos laboratórios.

A experiência de David conduzia-o a desqualificar as duas últimas hipóteses; demasiada oportunidade de traição. Rhinemann de­veria ter-se concentrado nos chefes de laboratório; era perigoso, mas praticável.

À medida que Kendall falava, David decidiu guardar consigo mesmo suas conclusões. Faria várias perguntas, uma ou duas cujas respostas desejava mesmo obter, mas não formaria uma associação com Walter Kendall desta vez. Era uma decisão fácil de tomar. Tra­tava-se de um dos homens mais desagradáveis que conhecera.

—     Existe alguma razão em particular para que os planos sejam entregues por etapas? — perguntou.

—     Talvez não sejam. Mas Rhinemann vai retirá-los, parte por parte. Todo mundo tem a sua escala. Ele diz que é mais seguro assim. Segundo seus planos, calculamos o período de uma semana.

—      Está bem, faz sentido...E esse Lyons pode autenticá-los?

— Ninguém melhor que ele. Falarei no assunto dentro de minutos. Há certas coisas que precisa saber. Chegando à Argentina, ele será propriedade sua.

—    Isto parece ameaçador.

—    Você saberá controlá-lo. Terá ajuda... O importante é que, tão logo verifique os planos, envie os códigos e Rhinemann seja pago. Não antes.

—    Não compreendo. Por que tanta complicação? Estando os planos verificados, por que não pagar em Buenos Aires?

—    Ele não quer esse dinheiro num banco argentino.

—    Deve ser uma fortuna.

—    É.

—    Pelo pouco que sei de Rhinemann, não é estranho que esteja trabalhando com o underground alemão?

—    É judeu.

—    Não diga isso a quem tenha estado em Auschwitz. Não acre­ditarão.

—    A guerra torna obrigatórios certos relacionamentos. Nós, por exemplo. Estamos trabalhando com os russos. Mesmo caso: objeti­vos comuns, esqueçamos os desentendimentos.

—    Neste caso, o sujeito tem excesso de sangue-frio.

—    O problema é deles, não nosso.

— Não insisto... Uma pergunta óbvia: já que estou a cami­nho de Buenos Aires, para a Embaixada, por que esta escala em Nova York? Não seria mais fácil simplesmente transferir-me de Lis­boa para a Argentina?

—    Decisão de última hora, creio. Desagradável, não?

—    Meio complicada. Estou na lista de transferências?

—    Em quê?

—    Na lista de transferências do serviço diplomático. Departamento de Estado. Adido militar.

—    Não sei. Por quê?

—    Gostaria de saber se é do conhecimento geral o fato de que saí de Lisboa. Ou se poderia vir a ser. Julguei que não seria.

—    Então, não é. Por quê?

—    Preciso saber como me portar, é só.

—    Achamos que devia passar alguns dias familiarizando-se com tudo. Conhecendo Lyons, a mim, examinando os planos. Sabendo o que procuramos, esse tipo de coisa.

—    Muita consideração. — David notou o olhar interrogador de Kendall. — Não, não me refiro a isso. Com freqüência nos atiram problemas de campanha quase sem conhecimento do background.

Eu próprio fiz isso com meus homens... Então, está dispensa, o combate na Itália são a cobertura das minhas atividades em Lisboa? Somente para Nova York?

—      Sim, creio que é isso.

Kendall, que estava sentado na ponta da cadeira, levantou-se e andou em volta.

—     Até que ponto devo levar a história?

—     Levar o quê?

Kendall evitava fitar David, que estava inclinado para a frente, sentado no sofá do escritório.

—     A cobertura. Os documentos mencionam o Quinto Exército — Clark; Trigésima Quarta Divisão, Batalhão 112 etc. Devo me in­formar a respeito? Não conheço grande coisa do teatro "de guerra italiano. Aparentemente, fui ferido nas proximidades de Salerno. Al­guma circunstância especial?

—     Isso é coisa do Exército. Quanto a mim, você ficará aqui cinco, seis dias; depois, Swanson falará com você e o mandará para Buenos Aires.

— Está bem, esperarei pelo General Swanson.

Percebera a inutilidade de executar os rituais G-2 com Kendall... Semiprofissional, semi-amador. Valsa-hesitação.

—     Até partir, passará todo o tempo que julgar necessário com Lyons. No gabinete dele.

—     Ótimo. Gostaria de conhecê-lo. — Levantou-se.

—     Sente-se. Ele não está aqui hoje. Não há ninguém aqui além da recepcionista. Até uma hora. É véspera de Ano Novo. — Kendall afundou na poltrona e tirou um cigarro, cuja ponta apertou. — Pre­ciso falar com você a respeito de Lyons.

—     Está bem. — David voltou ao sofá.

—     É um bêbado. Passou quatro anos na prisão, numa penitenciária. Mal pode falar, porque queimou a garganta com álcool puro... É também o sujeito mais conhecedor de aerofísica que existe no mundo.

Spaulding fixou Kendall em silêncio por vários segundos. Quan­do falou, não fez a menor tentativa de ocultar o choque.

—     É uma recomendação um tanto contraditória, não é?

—     Eu disse que ele é inteligente.

—     O mesmo acontece com metade dos loucos do Bellevue. É capaz de trabalhar? Já que será minha "propriedade", conforme disse, gostaria de saber o que, diabo, me deram. E por que, naturalmente.

—     Ele é o melhor.

—     Isso não responde à minha pergunta.

Perguntas.

—     Você é um soldado. Recebe ordens.

—    E dou também. Não me venha com essa.

—    Está bem. .. Você tem direito, creio.

—    Eu diria que sim.

—    Eugene Lyons escreveu uma obra sobre aerodinâmica; foi o mais jovem professor do Instituto Massachusetts de Tecnologia. Tal­vez fosse jovem demais; decaiu rápido. Casamento desnivelado, muita bebida, uma porção de dívidas. Creio que foram as dívidas. É o que acontece em geral. Isso e um excesso de inteligência que ninguém quer reconhecer.

—    Que aconteceu?

—    Endoideceu, embriagou-se uma semana inteira. Quando deu de si, estava num quarto de hotel do lado sul de Boston e a moça que o acompanhava estava morta. Espancara-a até matá-la... Era uma prostituta, de modo que ninguém se importou muito. Mas ele, sim. O veredicto foi homicídio não premeditado e o Instituto conse­guiu-lhe um bom advogado. Esteve quatro anos na prisão, saiu, mas ninguém quis contratá-lo, ninguém quis saber dele... Isso foi em 1936. Ele desistiu; reuniu-se aos vagabundos nas sarjetas. Literal­mente.

Kendall fez uma "pausa e sorriu. David sentiu-se perturbado com aquele sorriso. Nada havia de engraçado na história.

—    É óbvio que não ficou por lá — foi a única coisa que lhe ocorreu dizer.

—    Ficou durante uns três anos. Queimou a garganta em Houston Street.

—    É muito triste.

—    Foi a melhor coisa que podia acontecer. Na enfermaria do hospital, anotaram sua história e um médico interessou-se por ele. Foi transferido para o maldito CCC, razoavelmente reabilitado; com a eclosão da guerra, ingressou nos trabalhos de defesa.

—    Então, ele está bem agora.

Era uma afirmativa, a única coisa que lhe ocorreu dizer, mais uma vez.

—      Não se reabilita um homem assim de uma hora para a outra. Ou mesmo em dois anos... Ele sofre recaídas, volta à bebida de vez em quando. Já que trabalha com material secreto, vive isolado com seus dois guardas pessoais. Aqui em Nova York, por exemplo; tem um quarto no hospital St. Luke. É transportado de um lado para outro como esses bêbados de sociedade... Na Califórnia, a Lock­heed instalou-o num apartamento com jardim, tendo dois enfermei­ros a vigiá-lo 24 horas por dia, quando se encontra fora da fábrica. Na verdade, saiu-se bem.

- Deve ser muito valioso. Quanto trabalho...

- Eu disse – interrompeu Kendall. – Ele é o melhor. Só precisa ser vigiado.

- Que acontece quando fica sozinho? Tenho conhecido alcoólatras. São capazes de escapulir, às vezes com muita inteligência.

- Isso não é problema. Ele receberá bebida, quando quiser. É muito esperto. Mas nunca sai sozinho. Não vai onde há muita gente, se é que me entende.

- Não sei se entendo.

- Ele não fala. Mal consegue uns murmúrios roucos. Lembre-se de que queimou a garganta. Afasta-se das pessoas... o que é ótimo. Quando não está bebendo – o que acontece quase sempre – lê e trabalha. Passa dias no laboratório, inteiramente sóbrio, sem sair uma só vez. Tudo perfeito.

- Como se comunica, por exemplo, no laboratório ou numa reunião?

- Bloco e lápis, alguns murmúrios, as mãos. Quase sempre bloco e lápis. Apenas números, equações, diagramas. É essa a sua linguagem.

- Toda a sua linguagem?

- Certo... Se está pensando em ter uma conversa com ele, esqueça. Não conversa com ninguém há 10 anos.

 

31 de Dezembro de 1943

Nova York

Spaulding desceu apressadamente a Madison Avenue em direção à esquina nordeste da B. Altman’s. Caía neve fina; os táxis passavam rápidos, sem dar atenção aos poucos pedestres que faziam sinal no meio do quarteirão. As melhores corridas estariam na entrada da loja de departamentos, para transportar os que faziam compras de última hora na véspera de Ano Novo. Gente que comprava na Altman’s, na tarde daquele dia, eram passageiros de primeira. Por que gastar gasolina com inferiores?

David surpreendeu-se caminhando mais depressa do que precisava. Não ia a parte alguma, a nenhum local específico que exigisse sua presença em determinada hora. Só queria afastar-se de Walter Kendall o mais rápido possível.

Kendall terminara sua instrução a respeito de Eugene Lyons com a declaração de que “dois guarda-costas” acompanhariam o cientista a Buenos Aires. Não haveria bebidas para o mudo-eremita de garganta queimada. Os enfermeiros levavam “pílulas cavalares” para todas as ocasiões. Eugene Lions, sem bebida, passaria horas com os planos. Por que não? Ele não fazia nada. Não haveria conversas, pensou David.

Recusara o convite de Kendall para almoçar, sob pretexto de visitar amigos da família. Afinal, estivera ausente mais de três anos...

A verdade é que queria afastar-se daquele homem. E havia outra razão: Leslie Jenner Hawkwood.

Não sabia por onde começar, mas teria que ser rápido. Tinha menos de uma semana para conhecer o que se encontrava por detrás da incrível noitada que haviam passado. O início incluiria uma viúva chamada Bonner, isso ele sabia.

Talvez Aaron Mandel pudesse ajudar.

Tirando do bolso uma nota de um dólar, aproximou-se do porteiro da Altman’s e conseguiu um táxi em menos de um minuto.

O percurso pela cidade foi feito ao acompanhamento da loquacidade do motorista, que parecia ter uma opinião sobre qualquer assunto. David achou-o aborrecido. Queria pensar e não conseguia. Súbito, sentiu-se grato.

- Pretendia pegar a multidão de véspera de Ano Novo no Plaza, sabe o que quero dizer? A gente ganha ótimas gorjetas naquelas festas de esforço de guerra. Mas minha mulher não quis. Disse que eu tinha que ir para casa beber um pouco de vinho, rezar a Deus para que nossos rapazes vivam este ano. Agora, preciso ir. Se alguma coisa acontecesse, eu imaginaria que a culpa foi das gorjetas de Ano Novo. Superstições! Que diabo! O rapaz é datilógrafo em Fort Dix.

David esquecera o óbvio. Não, não esquecera; apenas deixara de considerar as possibilidades porque não se relacionavam com ele. Ou ele com elas. Estava em Nova York. Na véspera do Ano Novo. Isto significava festas, bailes de caridade e uma infinita variedade de festejos inspirados pela guerra, numa dúzia de diferentes salões e em dezenas de residências.

A Sra. Paul Bonner estaria num desses locais, numa dessas festas. Fazia quatro meses que o marido morrera. Era luto suficiente nas circunstâncias. Amigos — outras mulheres como Leslie Jenner, mas não ela própria, naturalmente — deixariam isso bem claro. Era assim que se portava a sociedade em Manhattan. E era muito sensato, afinal.

Não seria excessivamente difícil descobrir aonde ela iria. E encontrando-a, encontraria os outros... Era um ponto de partida.

Deu uma gorjeta ao motorista e atravessou rápido o vestíbulo do Monfgomery.

—      Sr. Spaulding! — A voz do velho porteiro ecoou no cubículo de mármore. — Há um recado para o senhor.

Aproximou-se do balcão.

— Obrigado.

Desdobrou o papel. "O Sr. Fairfax telefonou. Quer ligar para ele o mais depressa possível?"

Ed Pace queria comunicar-se com ele.

A linha estava intacta sob a maçaneta da porta. Entrando no quarto, dirigiu-se logo ao telefone.

—    Descobri algo a respeito dessa moça, Hawkwood — falou Pace. — Achei que você gostaria de saber.

—    O que é?

Por que, mas por que Pace iniciava sempre assim uma conversa? Esperava que ele respondesse que não, que não queria saber de nada, e desligasse?

—    Temo que se ajuste à minha opinião da noite passada. Sua antena anda trabalhando demais.

—    Pelo amor de Deus, Ed, eu o condecorarei assim que puder. Mas, o que é?

—    Ela é promíscua. Tem uma ampla vida sexual no distrito de Los Angeles. Discreta, mas ativa. Uma prostituta de alto nível, se é que não o ofendo.

—    Não me ofende. Qual é a fonte?

—    Vários irmãos em armas, para começar. Marinha e Força Aérea. Depois, gente do cinema, atores e uns dois executivos de rádio. E a turma sócio-industrial: Lockheed, Sperry Rand. Ela não é a mais bem-vinda no Santa Mônica Yacht Club.

—    Existe algum padrão G-2?

—    Primeira coisa que investigamos. Negativo. Nenhum elemen­to classificado na cama dela. Só gente importante, militares e civis. E ela está em Nova York. Indagações discretas revelam que ela foi visitar os pais pelo Natal.

— No catálogo telefônico, não há nenhuma Jenner que a conheça.

—    Em Bernardsville, New Jersey?

—    Não — respondeu David, cansado. — Manhattan. Você disse Nova York.

—    Tente Bernardsville, se quiser encontrá-la. Mas não mande recibos de despesa. Você já não é correio agindo no norte.

—    Não. Bernardsville é região de caça.

—    O quê?

—    Território muito social. Cavalariças e certames de equitação... Obrigado, Ed. Você me economizou um bocado de trabalho.

Nem pense nisso. Tudo o que você conseguiu foi que a Central de Informação aliada resolvesse os problemas de sua vida sexual. Procuramos agradar aos nossos empregados.

—    Prometo me realistar quando a guerra terminar. Obrigado, mais uma vez.

—    Dave?

—    Que foi?

—    Não recebi autorização para a missão de Swanson, de modo que não entro em detalhes, mas que lhe parece tudo isso?

—    Juro que não entendo por que você não foi autorizado. É uma simples compra feita por dois sujeitos estranhos. Um, pelo me­nos... Não, dois, que eu saiba. O que conheci é demais. Parece-me que complicaram a história, mas por falta de experiência... Nós a teríamos resolvido melhor.

—    Conheceu Swanson?

—    Ainda não. Só depois dos feriados, foi o que me disseram. Que diabo, eu não atrapalharia os feriados de Natal do brigadeiro. As aulas só começam na primeira semana de janeiro.

Pace riu, na outra extremidade da linha.

—    Feliz Ano Novo, Dave.

—    O mesmo para você, Ed. E obrigado.

Spaulding recolocou o fone no gancho e consultou o relógio. Eram 13:15. Poderia requisitar um veículo do Exército, supunha, ou pedir emprestado um carro de Aaron Mandel. Bernardsville ficava a cerca de uma hora de Nova York, a oeste de Oranges, se é que se lembrava corretamente. Talvez fosse melhor pegar Leslie Jenner de surpresa, sem lhe dar oportunidade para fugir. Por outro lado, se­gundo a premissa anterior ao telefonema de Pace, Leslie estava pro­vavelmente em Nova York, preparando-se para a véspera de Ano Novo que lhe havia prometido, fosse onde fosse. Num apartamento, numa casa de pedra, ou num hotel semelhante ao dele.

Spaulding perguntou a si mesmo, por um instante, se Pace teria razão. Estaria procurando localizar Leslie por razões muito diversas das suas suspeitas? As mentiras, a busca... Era possível. Por que não? Mas uma viagem de duas ou três horas a oeste de Jersey não o aproximaria de qualquer dos objetivos, investigatório ou freudia­no, caso ela lá não se encontrasse.

Pediu à telefonista do Montgomery que conseguisse o número da residência dos Jenner em Bernardsville, New Jersey. Que não fizesse a chamada, apenas conseguisse o número e o endereço. Em seguida, ligou para Aaron Mandel.

Adiara o telefonema o mais que pudera. Aaron choraria, faria perguntas e ofereceria tudo o que havia sob o sol e a lua de Manhat­tan. Ed Pace havia dito que entrevistara o velho agente de concertos quatro anos atrás, antes de enviar David para Lisboa; isto significava que poderia razoavelmente evitar discussões prolongadas sobre o seu trabalho.

E Aaron talvez o ajudasse, caso ele precisasse do seu tipo de ajuda todo especial. Seus conhecimentos em Nova York eram quase inesgotáveis. David saberia mais depois de entrar em contato com Bernardsville; e seria menos embaraçoso se, antes de pedir um favor a Aaron, dedicasse alguns momentos a uma conversação sentimental.

A princípio, Spaulding pensou que o velho teria um ataque das coronárias ao telefone. Sua voz era embargada, expressando choque, preocupação, estima. As perguntas eram mais rápidas do que David podia responder — o pai, a mãe, e ele próprio, como estavam?

Mandel não fez perguntas sobre o trabalho dele, mas não acre­ditou que David estivesse tão sadio quanto afirmava. Insistiu num encontro, senão naquela noite, com certeza no dia seguinte.

David concordou. Final da manhã. Tomariam um drinque jun­tos, talvez um almoço ligeiro. Receberiam juntos o Ano Novo.

—    Deus seja louvado, você está bem. Virá amanhã?

—    Prometo — disse David.

—    E você nunca quebrou uma promessa feita a mim.

—    Não quebrarei. Amanhã. Aaron...

—    Sim.

—    É possível que eu precise encontrar uma pessoa esta noite. Não sei bem onde procurar, mas é provável que esteja nos círculos da alta sociedade. Como vão os seus contatos com Park Avenue?

O velho teve o riso tranqüilo, bem-humorado, ligeiramente ar­rogante, que David tão bem recordava.

—      Sou o único judeu de Torah em São João, o Teólogo. Todo mundo quer artistas — grátis, naturalmente. Cruz Vermelha, cruz verde. Debutantes para ataduras de guerra, bailes para franceses con­decorados. É só falar e Mandel consegue. Tenho três coloraturas, dois pianistas e cinco barítonos da Broadway dando espetáculo para os nossos rapazes esta noite. Tudo no Upper East Side.

—      Talvez telefone um pouco mais tarde. Estará no escritório?

—      Onde mais estaria? Para soldados e gerentes de concertos, quando é que há férias?

—     Você não mudou.

—     O principal é que você está bem. . .

Tão logo desligou, o telefone tornou a tocar.

—      Já tenho o número de telefone e o endereço da pessoa em Bernardsville, Sr. Spaulding.

—      Quer me dizer, por favor?

A telefonista deu-lhe a informação e ele anotou no inevitável bloco junto ao telefone.

—      Quer que faça a ligação, senhor?

David hesitou e depois disse:

—    Sim, por favor. Ficarei na linha. Peça para chamar a Sra. Hawkwood.

—    Sra. Hawkwood. Muito bem, senhor. Mas posso chamá-lo depois de completar a ligação.

—    Prefiro permanecer em circuito aberto... — David conteve-se, mas não a tempo. Era um erro pequeno, mas logo confirmado pela telefonista, que disse, em voz de quem entendia:

—    Claro, Sr. Spaulding. Caso atenda outra pessoa que não a Sra. Hawkwood, prefere não completar a chamada?

—    Eu direi.

A telefonista, agora parte de uma conspiração amorosa, repre­sentou seu papel com tranqüila eficiência. Discou para a telefonista externa e, dentro de instantes, ele ouviu um telefone tocando em Bernadsville, New Jersey. Atendeu uma mulher. Não era Leslie.

—    A Sra. Hawkwood, por favor.

—    Sra... — A voz em Bernardsville parecia hesitante.

—    Sra. Hawkwood, por favor. Telefonema interurbano — disse a telefonista do Montgomery, como se estivesse na companhia tele­fônica, fazendo uma chamada convencional.

—    A Sra. Hawkwood não está, telefonista.

—    Pode dizer quando será encontrada, por favor?

—    A que horas? Oh, meu Deus, não estamos esperando-a. Pele menos não creio que ela...

Imperturbável, a telefonista prosseguiu, interrompendo delica­damente:

—      Tem algum número onde eu possa encontrar a Sra. Hawkwood, por favor?

     Bem... — A voz em Bernardsville soava agora confusa.

—  Suponho que na Califórnia...

David compreendeu que era o momento de interferir.

—    Eu falarei com a pessoa que está na linha, telefonista.

—    Muito bem, senhor.

Ouviu-se um ruído, indicando que a mesa saía do circuito.

—    Sra. Jenner?

—    Sim, fala a Sra. Jenner — respondeu a voz em Bernards­ville, evidentemente aliviada ao ouvir um nome mais familiar.

—    Meu nome é David Spaulding. Sou amigo de Leslie e...

—  Jesus! Esquecera o primeiro nome do marido.

— ...do Capitão Hawkwood. Deram-me esse número...

—      David Spaulding! Como vai, meu filho? Fala Madge Jenner, seu tolinho! Meu Deus, deve fazer uns 10 anos. Como vão seus pais? Soube que estavam morando em Londres. Que coragem!

Cristo! pensou Spaulding. Jamais lhe ocorrera que a mãe de Leslie recordaria dois meses em East Hampton, quase uma década atrás.

—    Oh, Sra. Jenner... Eles estão bem. Desculpe incomodá-la...

—    Você jamais nos incomodaria, meu caro rapaz. Somos apenas um casal de velhos cavalariços por aqui. James abandonou tudo, ninguém mais quer saber de manter cavalos... Pensou que Leslie estava aqui?

—    Sim, foi o que me disseram.

—    Lamento dizer que não. Para ser franca, raramente a vemos. Mudou-se para a Califórnia, você deve saber.

—    Sim, para a casa da tia.

—- Tia por afinidade. Minha cunhada. Não nos damos muito bem. Ela se casou com um judeu. Chama-se Goldsmith — mal disfarça o Goldberg, ou o Goldstein, não é? Estamos convencidos de que ele negocia no mercado negro, ganhando milhões, entende?

—    Sim, compreendo... Então Leslie não a visitou no Natal?

—    Meu Deus, não! Mal nos mandou um cartão...

David sentiu-se tentado a telefonar para Ed Pace em Fairfax, comunicando ao chefe da Informação que Califórnia G-2 nada con­seguira em Bernardsville. Mas seria inútil. Leslie Jenner Hawkwood estava em Nova York.

Precisava descobrir por quê.

Telefonou novamente para Mandel e deu-lhe dois nomes: o de Leslie e o de Cindy Tottle Bonner, viúva de Paul Bonner, o herói. Sem o dizer claramente, David sugeriu que sua curiosidade poderia ser mais profissional do que pessoal. Mandel não fez perguntas, pôs-se em ação.

Spaulding compreendeu que poderia facilmente telefonar para Cindy Bonner, desculpar-se e pedir para falar-lhe. Mas não podia arriscar-se a uma recusa, que viria com certeza por causa do telefo­nema que ele fizera duas noites atrás. Não era prudente. Precisava vê-la, confiar num contato pessoal.

E mesmo então talvez ela nada soubesse dizer. Contudo, a pessoa desenvolvia certos instintos e aprendia a percebê-los. Invertidos, com­plicados, irracionais... atávicos.

Passaram-se 20 minutos; eram 14:45 quando o telefone tocou.

—     David?

—     Aaron.

—    Essa Sra. Hawkwood, nada absolutamente. Todo mundo diz que se mudou para a Califórnia e ninguém tem notícias dela... Sra. Paul Bonner: há uma festa particular esta noite na Sixty-second Street, residência dos Warfield. Número 212.

—    Obrigado. Esperarei do lado de fora e entrarei de penetra, com toda a delicadeza.

—    Não é preciso. Há um convite para você. Pessoal, da dona da casa. Chama-se Andrea e está encantada em receber o soldado, filho dos famosos Spaulding. Ela também quer uma soprano para fevereiro, mas isto é problema meu.

 

31 de Dezembro de 1943

NOVA YORK

A clientela que jantava no Gallery poderia ter-se mudado intacta para a casa dos Warfield na Sixty-second Street. David circulava facilmente: O pequenino emblema dourado que ostentava na lapela servia à sua finalidade. Era aceito com mais facilidade e ficava tam­bém mais disponível. Os drinques e o bufê eram generosos; o con­junto negro de jazz, excelente.

Encontrou Cindy Bonner a um canto, esperando seu acompa­nhante — um tenente do Exército — voltar do bar. Era pequenina, cabelos ruivos e cútis muito clara, quase pálida. Sua postura era do Vogue, o corpo esguio revestido de roupas muito caras e muito dis­cretas. Mas parecia pensativa. Não era a imagem da viúva do herói, nada tinha de heróico. Era uma pobre menininha rica.

—      Tenho sinceras desculpas a apresentar disse ele. Espe­ro que as aceite.

—      Não imagino por quê. Creio que não nos conhecemos. Sorriu, mas não de todo, como se sua presença despertasse uma

recordação que ela não conseguia definir. Spaulding notou a expres­são e compreendeu. Era a sua voz. A voz que no passado lhe valera um bom dinheiro.

—      Meu nome é Spaulding. David...

—     Você telefonou duas noites atrás interrompeu a moça, olhar zangado. Os presentes de Natal para Paul. Leslie...

—     É por isso que estou pedindo desculpas. Foi um terrível mal-entendido. Perdoe-me, por favor. Não é o tipo de brincadeira que eu faria. Fiquei tão zangado quanto a senhora.

Falava calmamente, mantendo o olhar dela fixo nos seus. Foi o bastante: ela pestanejou, tentando compreender, a zanga desapa­recendo. Relanceou para a minúscula águia de cobre que ele levava na lapela e que poderia significar qualquer coisa.

—     Acho que acredito.

—     Deveria. Foi um gracejo doentio. Não sou doente.

O tenente voltou com dois copos. Estava bêbado e hostil. Cindy fez rápidas apresentações; o tenente mal se dignou tomar conheci­mento do civil. Queria dançar; Cindy não queria. A situação bruscamente criada estava a ponto de azedar.

David falou, com um laivo de melancolia:

—      Servi com o marido da Sra. Bonner. Gostaria de conversar com ela por alguns minutos. Logo terei que sair, pois minha mulher está à espera.

A combinação de fatos tranqüilizadores deixou confuso o te­nente embriagado, aplacando-o. Haviam feito apelo ao seu espírito de cavalheirismo; inclinou-se, meio instável, e voltou ao bar.

—      Muito hábil aprovou Cindy. Se existe uma Sra. Spaul­ding, eu não ficaria surpreendida. Disse que saiu com Leslie; isso está de acordo com a sua maneira de agir.

David fixou-a. Confie nos instintos, pensou consigo mesmo.

—      Não existe uma Sra. Spaulding, mas houve uma Sra. Hawkwood há duas noites. Suponho que não goste muito dela.

—      Ela e meu marido receberam o polido cognome de dupla. De longa duração. Há quem diga que eu a obriguei a mudar-se para a Califórnia.

—      Então, farei a pergunta óbvia. Nas circunstâncias, por que teria ela usado seu nome? E depois desaparecido? Devia saber que eu tentaria entrar em contato com a senhora.

—     Usou a palavra doentio. Ela é doente.

—     Ou então estava tentando me dizer alguma coisa.

 

David saiu da casa dos Warfield pouco antes da chegada do Ano Novo. Alcançando a esquina da Lexington Avenue, voltou-se para o sul. Nada tinha a fazer senão pensar, caminhar, tentando reu­nir o que soubera para descobrir algo que fizesse sentido.

Não conseguiu. Cindy Bonner era uma viúva amarga; a morte do marido no campo de batalha roubara-lhe a única oportunidade de vingar-se de Leslie. Queria simplesmente esquecer, afirmara. Mas a ferida fora muito profunda. Leslie e Paul Bonner haviam formado "dupla". Haviam alcançado o estágio segundo Cindy em que o casal concordara em divorciar-se. Um confronto entre as duas mu­lheres, porém, não confirmou a história de Paul Bonner. Leslie Jenner Hawkwood não tinha a menor intenção de divorciar-se do ma­rido.

Era uma confusa, desagradável situação de alta sociedade. As "camas musicais" de que falara Ed Pace.

Neste caso, por que Leslie teria usado o nome de Cindy? Era não só uma provocação de gosto duvidoso, como insensato.

À meia-noite atravessou a Fifty-second Street. Algumas buzinas soaram nos automóveis que passavam. Ao longe, ouviram-se sinos e assobios; do interior de bares emergiu uma gritaria estridente, uma cacofonia de sons. Três marinheiros de uniforme sujo cantavam muito alto e desafinado, para divertimento dos pedestres.

Caminhou para oeste em direção à fileira de cafés entre a Madison e a Fifth. Considerou entrar no Shor, ou no 21, dali a uns 10 minutos, mais ou menos, o tempo bastante para que os festejos acal­massem um pouco.

—      Feliz Ano Novo, Coronel Spaulding.

A voz áspera saía de um umbral às escuras.

—      O quê? Deteve-se e espreitou para a escuridão. Um ho­mem alto, vestindo um leve sobretudo cinzento, rosto sombreado pela aba do chapéu, encontrava-se imóvel. Que disse?

—      Desejei Feliz Ano Novo respondeu o homem. Inútil dizer que venho seguindo-o. Ultrapassei-o há vários minutos.

A voz revelava um sotaque, mas David não conseguiu localizá-lo. O inglês britânico era adquirido, a origem devia estar na Europa Central. Talvez nos Bálcãs.

Considero a declaração bastante fora do comum e... inútil dizê-lo... muito perturbadora. — Conservou-se onde estava. Não tinha arma e perguntou a si mesmo se o homem oculto no umbral estaria armado. Impossível saber.

—      Que deseja?

—      Dar-lhe as boas-vindas, para começar. Esteve ausente muito tempo.

—      Obrigado... Agora, se me permite...

—      Não permito! Não se mova, coronel! Fique onde está, como se conversasse com um velho amigo. Não recue. Estou segurando uma .45, apontada para seu peito.

Vários transeuntes passaram por David, do lado do meio-fio. Um casal saiu de um edifício de apartamentos a uns cinco metros à direita do umbral às escuras; estava com pressa e passou rápido entre Spaulding e o homem alto com a arma invisível. David sentiu-se tentado a usá-lo, mas duas considerações o impediram. A primeira era o sério perigo para o casal; a segunda, o fato de que o homem da arma tinha algo a dizer. Se quisesse matá-lo já o teria feito há mais tempo.

—      Não me moverei...De que se trata?

Dê dois passos para a frente. Apenas dois. Não mais.

David obedeceu. Agora, via melhor o rosto, mas não com nitidez. Era um rosto fino, esquálido, enrugado. Os olhos eram pro­fundos e sublinhados por olheiras. Olhos cansados. O brilho baço do cano da pistola era o objeto que David melhor podia distinguir. O homem desviava com freqüência os olhos para a esquerda, às costas de Spaulding. Procurava alguém. Estava à espera.

—    Muito bem, dois passos. Agora, ninguém pode caminhar entre nós.

—     Espera alguém?

—    Ouvi dizer que o principal agente de Lisboa era muito controlado. Você confirma isso. Sim, estou à espera. Virão me buscar em breve.

—      Devo acompanhá-lo?

—      Não será necessário. Estou entregando uma mensagem, é só...O incidente de Lajes. É lamentável, foi trabalho de fanáticos. No entanto, aceite-o como um aviso. Nem sempre podemos controlar iras profundas, conforme deve saber. Fairfax deveria saber: Fairfax saberá antes que termine este dia de Ano Novo. Talvez neste mo­mento...Lá está o meu carro. Movimente-se para a minha direita, à sua esquerda.

David obedeceu, enquanto o homem fazia meação de atravessar a calçada, escondendo a pistola sob o sobretudo.

—    Cuidado, coronel. Não haverá negociações com Franz Altmüller. Estão encerradas!

—    Espere um momento! Não sei do que está falando. Não conheço nenhum Altmüller!

—      Encerradas! Aprenda com a lição de Fairfax!

Um sedan marrom-escuro de faróis acesos parou junto ao meio-fio. A porta traseira abriu-se e o homem alto atravessou correndo a calçada entre os pedestres e entrou. O carro afastou-se, veloz.

David correu para o meio-fio. O mínimo que poderia fazer era anotar o número da licença.

Não havia número. A placa traseira fora retirada.

Olhou então para a janela traseira, de onde um rosto espreitava para ele. O choque roubou-lhe o fôlego. Por um rápido instante, perguntou a si mesmo se seus olhos, se os seus sentidos estavam iludindo-o, transportando a sua imaginação de volta a Lisboa.

Saiu correndo pela rua atrás do carro, evitando automóveis e os malditos transeuntes que festejavam o Ano Novo.

O sedan marrom enveredou para o norte na Madison Avenue e acelerou. Sem fôlego, David imobilizou-se.

O rosto na janela traseira era o do homem que trabalhara com ele nas mais secretas operações de Portugal e Espanha.

Marshall. O chefe dos criptógrafos de Lisboa.

 

O motorista do táxi aceitou o desafio de David, para transportá-lo ao Montgomery em cinco minutos ou menos. Levou sete, mas, considerando-se o tráfego na Fifth Avenue, Spaulding deu-lhe cinco dólares e entrou correndo no vestíbulo.

Não havia recados.

Não se dera ao trabalho de colocar fio na porta um descuido consciente, concluiu. Além da empregada da limpeza, se pudesse teria deixado um convite aberto aos que haviam revistado seu quarto duas noites antes. Uma repetição talvez provocasse descuido, pistas para a identidade.

Despiu o sobretudo e dirigiu-se ao armário onde guardara a garrafa de scotch. Havia dois copos limpos numa bandeja de prata junto à bebida. Gastou apenas os segundos necessários para servir-se de um drinque antes de ligar para Fairfax.

—      Feliz Ano Novo disse lentamente, levando o copo aos lábios.

Aproximando-se da cama, tomou o telefone e deu o número da Virgínia à telefonista. Os circuitos da área de Washington estavam sobrecarregados; a ligação levaria vários minutos para se completar.

Que significaria aquilo, por Deus? Aprenda com a lição de Fair­fax. Que diabo queria dizer? Quem era Altmüller?... Qual o primei­ro nome?... Franz. Franz Altmüller.

Quem seria ele?

Então, o "incidente" de Lajes fora planejado por sua causa. Por quê?

E Marshall. Era Marshall naquela janela traseira! Não havia engano!

—    Comando da Divisão de Campanha foram as palavras monótonas que vieram do Estado da Virgínia, distrito de Fairfax.

—    Coronel Edmund Pace, por favor.

Houve uma ligeira pausa no outro extremo da linha. Os ouvidos de David captaram uma leve aspiração, que ele tão bem conhecia. O telefone estava interceptado, em geral ligado a um gravador.

—      Quem deseja falar com o Coronel Pace?

Foi a vez de David hesitar. Pensava que talvez lhe tivesse esca­pado antes o ruído do interceptador. Era bem possível e Fairfax era afinal...Fairfax.

—    Spaulding. Tenente-coronel David Spaulding.

—    Posso transmitir o recado ao coronel, senhor? Ele está em reunião.

—    Não, não pode. Pode e deve chamar o coronel.

—    Lamento, senhor. A hesitação de Fairfax tornara-se penosa. — Dê-me seu número de telefone...

—    Escute, soldado, meu nome é Spaulding. Meu nível é quatro-zero e trata-se de uma chamada prioritária quatro-zero. Se estes núme­ros nada significam para você, pergunte ao filho da mãe que está no interceptador. É uma emergência. Ligue-me com o Coronel Pace!

Ouviu-se um clique alto na linha. Uma voz profunda, contun­dente, fez-se ouvir.

—      Fala o Coronel Barden, Coronel Spaulding. Também sou quatro-zero, e qualquer quatro-zero terá que receber autorização deste filho da mãe. Não estou disposto a qualquer exibição de autoridade. Que deseja?

—- Gosto de sua maneira direta de falar, coronel disse David, sorrindo, apesar da urgência. Quero falar com Ed. É de fato alta prioridade. Refere-se a Fairfax.

Não posso chamá-lo, coronel. Não temos circuitos e não estou gracejando. Ed Pace está morto. Baleado na cabeça há uma hora. Um maldito filho da mãe matou-o aqui mesmo no recinto.

 

1º. de Janeiro de 1944

FAIRFAX, VIRGÍNIA

Eram 4:30 quando o carro do Exército transportando Spaulding chegou ao portão de Fairfax.

Os guardas haviam sido alertados; Spaulding, em trajes civis, sem documentos de autorização, foi comparado à sua foto do arqui­vo e recebeu permissão para entrar. David sentira-se tentado a pedir para ver a foto; que soubesse, teria uns quatro anos de idade. No interior, o automóvel rumou para a esquerda, seguindo para a área sul do imenso recinto. Cerca de meio quilômetro além, pela estrada de saibro, depois de ultrapassar cabanas Quonset, o carro deteve-se diante de uma estrutura metálica. Era o prédio da administração de Fairfax.

Dois cabos ladeavam a porta. O sargento-motorista saltou e fez sinal aos dois para permitirem a entrada de Spaulding, que já se encontrava diante deles.

David foi conduzido a um escritório no segundo andar, onde se encontravam dois homens: o Coronel Ira Barden e um capitão-médico chamado McCleod. Barden era de estatura baixa, com a consti­tuição de um jogador de futebol, cabelos negros cortados rente à ca­beça. McCleod era encurvado, esguio, de óculos a imagem do acadêmico pensativo.

Barden gastou o mínimo de tempo em apresentações e voltou-se imediatamente para o caso em questão.

Dobramos a patrulha em toda parte; coloquei homens com K-9 ao redor de toda a cerca. Gostaria de saber que ninguém poderá sair. O que nos preocupa é se alguém conseguiu escapulir antes.

—     Como aconteceu?

—     Pace recebeu algumas pessoas para uma reunião de Ano Novo. Doze, para ser exato. Quatro da sua Quonset, três da Regis­tros, o restante da Administração. Tudo muito discreto... que diabo, estamos em Fairfax. Segundo pudemos determinar, saiu pela porta dos fundos de sua cabana cerca de 20- minutos após a meia-noite. Carregava o lixo, creio. Ou talvez quisesse apenas tomar ar. Não voltou. .. Um guarda que estava pouco adiante na estrada chegou até a porta dizendo que tinha ouvido um tiro. Ninguém mais ouviu. Pelo menos no interior.

—     É extraordinário. Estes alojamentos dificilmente seriam à prova de som.

—     Alguém ligou a vitrola.

—     Pensei que fosse uma festa tranqüila.

Barden olhou fixo para Spaulding. O olhar não era irado, apenas um modo de transmitir sua profunda preocupação.

—     A vitrola não ficou ligada mais que uns 30 segundos. O rifle usado — a balística o confirma — era uma arma de treinamento, calibre 22.

—     Um estalido seco, nada mais que isso — falou David.

—     Exatamente. A vitrola era um sinal.

—     Dentro. Na festa — acrescentou Spaulding.

—     Sim... McCleod é o psiquiatra da base. Estivemos examinando os que se encontravam no interior...

—     Psiquiatra?

David estava confuso. Tratava-se de um problema de segurança, não de medicina.

—     Ed era um sujeito obstinado, como você bem sabe. Ele o treinou... Examinei sua ficha, Lisboa. É um dos ângulos. Estamos examinando outros.

—     Ouçam — interveio o médico —, vocês dois querem conver­sar e eu tenho dossiês a examinar. Telefonarei amanhã de manhã. Daqui a algumas horas, Ira. Prazer em conhecê-lo, Spaulding. Gosta­ria que isso não tivesse acontecido.

—      Concordo — disse Spaulding, apertando a mão do psiquiatra. Este reuniu a dúzia de dossiês que se encontravam na escriva­ninha do coronel e saiu.

A porta fechou-se e Barden indicou uma cadeira. David sentou-se, esfregando os olhos.

—     Que diabo de Ano Novo, não é? — comentou Barden.

—     Já vi melhores.

—     Quer examinar o que lhe aconteceu?

—    Creio que não vale a pena. Fui detido. Já contei o que me disseram. Ed Pace era evidentemente a "lição de Fairfax". A historia tem ligação com um general-de-brigada chamado Swanson, do De­partamento de Guerra.

—    Temo que não.

—    Tem que estar.

—    Negativo. Pace não estava envolvido nessa historia do Departamento de Guerra. Sua única preocupação foi recrutá-lo; uma simples transferência.

David lembrou-se das palavras de Ed Pace. Não recebi autorização... que lhe parece tudo isso?... conheceu Swanson?

Fitou Barden.

—    Alguém pensa que sim. Mesmo motivo. Relacionado com a sabotagem em Lajes, nos Açores.

—    Como?

—    O filho da mãe me disse na Fifty-second Street! Há cinco horas... Ouça, Pace está morto e isso lhe dá uma certa liberdade nas circunstâncias. Quero verificar os nossos arquivos Quatro-Zero. Tudo o que se relacione com a minha transferência.

—    Já fiz isso. Depois do seu telefonema eu não podia esperar um inspetor-geral. Ed era o meu melhor amigo...

—   E...?

—    Não há pastas. Nada.

—    Tem que haver! Tem que haver um registro para Lisboa. Para mim.

—    Existe. Declara simplesmente que foi transferido para o Departamento de Guerra. Nenhum nome. Apenas uma palavra. Uma única palavra: "Tortugas".

—    E os documentos que vocês prepararam? O desligamento, o registro médico, o Quinto Exército, o 120º. Batalhão? Itália?... Aqueles documentos não foram fabricados sem um dossiê, da Fairfax!

—    É a primeira vez que ouço falar neles. Não há nada a respeito no cofre de Ed.

—    Um. major — Winston, creio que se chama — recebeu-me em Mitchell Field. Vim de Newfoundland num avião da patrulha costeira. Ele me entregou os documentos.

—    Entregou-lhe um envelope selado e deu-lhe instruções verbais. É a única coisa que ele sabe.

—    Jesus! Que diabo aconteceu à tão famosa eficiência Fairfax?

— Diga você. E, que está pensando no assunto, quem assassinou Ed Pace?

David fixou Barden. A palavra "assassinato" não lhe ocorrera. Não se cometia assassinato; matava-se, e isso fazia parte da coisa. Contudo, aquilo era de fato um assassinato.

—      Não sei responder. Mas posso dizer onde deve começar a fazer perguntas.

—      Diga, por favor.

—      Ligue para Lisboa. Descubra o que aconteceu a um criptógrafo chamado Marshall.

 

1º de Janeiro de 1944

WASHINGTON, D.C.

A notícia do assassinato de Ed Pace chegou a Alan Swanson de modo indireto e o efeito foi arrasador.

Encontrava-se em Arlington, numa pequena reunião de Ano Novo oferecida por um general da Inteligência, quando chegou o te­lefonema. Era um comunicado de emergência para um outro convi­dado, um general do corpo do Comando Geral. Swanson encontra­va-se próximo à porta da biblioteca quando o outro saiu, pálido, dizendo, em tom incrédulo:

— Meu Deus! — Não se dirigia a ninguém em particular. — Alguém atirou contra Pace, em Fairfax. Ele morreu!

Os poucos presentes à seleta reunião de Arlington participavam dos mais altos escalões militares e não havia necessidade de ocultar a notícia; todos saberiam, mais cedo ou mais tarde.

Os primeiros pensamentos aflitos de Swanson foram para Buenos Aires. Haveria alguma ligação?

Escutou os brigadeiros e os generais de duas e três estrelas fazendo controladas, mas excitadas especulações. Ouviu as palavras "infiltradores", "assassinos contratados", "agentes duplos" e ficou abis­mado com as absurdas teorias, apresentadas de maneira racional, no sentido de que um dos agentes secretos de Pace tinha que ser o cul­pado do assassinato. Em algum ponto, um desertor fora pago para voltar a Fairfax. Em algum ponto havia um elo fraco na cadeia da Informação e esse elo fora comprado.

Pace era um elemento excepcional, não só no Serviço de Infor­mação como em toda a Central aliada, tanto assim que por duas vezes pedira que sua estrela de brigadeiro fosse oficialmente registra­da mas não divulgada, protegendo a discrição do seu cargo.

Mas essa discrição não fora suficiente. Um homem extraordiná­rio como Pace teria a cabeça a um preço extraordinário. De Xangai a Berna. Graças à rígida segurança de Fairfax, o crime devia ter levado meses em planejamento. Concebido como um projeto a longo prazo, a ser executado internamente. Não haveria outro meio de con­segui-lo. E no momento havia mais de 500 pessoas no recinto, inclu­sive uma força rotativa de espionagem, unidades em treinamento vindas de vários países. Sistema algum de segurança poderia ser ab­soluto nas circunstâncias. Bastava que um homem se esgueirasse para o interior.

Meses de planejamento... um desertor fora pago para voltar a Fairfax... agente duplo... um elo fraco na cadeia da Informação. De Xangai a Berna.

Um projeto a longo prazo!

Eram estas as palavras específicas, os termos e os juízos que Swanson ouviu claramente, porque queria ouvi-los.

Afastavam o motivo de Buenos Aires. A morte de Pace nada tinha a ver com Buenos Aires porque o elemento tempo o impedia.

A transação Rhinemann fora planejada pouco menos de três semanas atrás; era inconcebível que o assassinato de Pace se rela­cionasse com a história, pois isso significaria que ele próprio havia quebrado o sigilo.

Ninguém mais neste mundo sabia da contribuição de Pace. E mes­mo ele pouco soubera.

Apenas fragmentos.

E todos os documentos de background relativos ao homem de Lisboa haviam sido retirados do cofre de Pace. Restara apenas a transferência do Departamento de Guerra.

Um fragmento.

Ocorreu-lhe algo então e ele se espantou com o seu frio senso de trapaça. De certo modo, era aterrador que lhe houvesse escapado aos recessos da mente. Com a morte de Edmund Pace, nem mesmo Fairfax seria capaz de reunir os acontecimentos que conduziam a Buenos Aires. O Governo dos Estados Unidos estaria mais um passo afastado do plano.

Como se abstratamente procurasse um apoio, aventurou-se até o pequeno grupo de seus pares que haviam estado recentemente cm contato com Fairfax — com Pace, mais exatamente — discutindo sobre uma simples quesíão de licença. Era uma insignificância, na verdade, mas ele esperava...

Encontrou apoio imediato. O general do Estado-Maior, dois bri­gadeiros e um general de três estrelas haviam também utilizado Pace.

Com freqüência. Muito mais do que ele fizera.

- Ganhava-se muito tempo lidando diretamente com Ed -— disse o do alto comando. — Ele passava por sobre a burocracia e enviava logo a licença.

Um passo mais distante.

Regressando ao seu apartamento de Washington, Swanson voltou a ser torturado por dúvidas. Dúvidas e oportunidades. O assassinato de Pace era um problema em potencial por causa do impacto que produziria. Haveria uma ampla investigação, todos os caminhos se­riam explorados. Por outro lado, estariam todos concentrados em Fairfax. A Central de Informação aliada ficaria absorvida, pelo me­nos por algum tempo. Precisava agir logo. Walter Kendall tinha que seguir para Buenos Aires e concluir as negociações com Rhinemann.

Os planos para o sistema de orientação vindos de Peenemünde. Só importavam os planos.

Mas antes de hoje à noite, esta manhã David Spaulding. Era o momento de entregar ao ex-homem de Lisboa a sua missão.

Swanson tomou o telefone, sentindo a mão trêmula.

O remorso estava se tornando intolerável.

 

de Janeiro de 1944

FAIRFAX, VIRGÍNIA

—    Marshall foi abatido a vários quilômetros de um lugar chamado Valdero, na província basca. Foi uma emboscada.

—    Mentira! Marsh nunca esteve no norte! Não era treinado, não saberia o que fazer!

David levantou-se da cadeira, enfrentando Barden.

—    As regras mudam. Você já não é o homem de Lisboa. . . Ele viajou e foi abatido.

—    Fonte?

—    O próprio embaixador.

—    A fonte dele?

—    Os canais normais, suponho. Ele disse que foi confirmado. Trouxeram a identificação.

—    Não tem valor!

—    Que queria? O corpo?

—    Isso talvez o surpreenda, Barden, mas a mão ou um dedo não estão fora de cogitação. Isso é identificação... Fotos? Disparos próximos, ferimentos, olhos? Mesmo isso pode ser fingido.

—    Ele não falou em nada disso. Que diabo preocupa você? Foi confirmado.

—    Verdade? perguntou David, fixando Barden.

—    Pelo amor de Deus, Spaulding! Que diabo significa... "Tortugas"? Já que isso matou Ed Pace, eu quero saber! E vou descobrir de qualquer maneira! Não ligo a mínima para os criptógrafos de Lisboa!

O telefone tocou na mesa de Barden. O coronel relanceou rapidamente para o aparelho e depois voltou a fixar Spaulding.

—    Atenda falou David. Uma dessas chamadas será do Serviço de Baixas. Pace tem família... Tinha.

—    Não complique minha vida mais do que já complicou. Barden dirigiu-se à escrivaninha. Ed receberia uma licença sob escolta, esta sexta-feira. Estou adiando o telefonema até amanhã.. . Alô? O coronel escutou por vários segundos e depois fixou Spaul­ding. Ê o telefonista de Nova York, o que está fazendo a sua cobertura. O General Swanson vem tentando se comunicar com você. Ele está no aparelho. Quer falar com o velho?

David lembrou-se do que Pace dissera sobre o nervoso brigadeiro.

Precisa dizer a ele que estou aqui?

—    Diabo, não.

—    Então, pode chamá-lo.

Barden saiu de trás da escrivaninha quando Spaulding tomou o telefone e repetiu, por diversas vezes: "Sim, senhor". Finalmente desligou, dizendo:

—    Swanson quer falar comigo no seu gabinete, esta manhã.

—    Quero saber por que diabo o arrancaram de Lisboa falou Barden.

David sentou-se, mas não respondeu imediatamente. Quando falou, fez um esforço para não parecer militar e solícito.

—      Não creio que tenha nada a ver com você... nada. Não quero me esquivar. Por outro lado, sou obrigado. Mas quero manter abertas umas duas opções. Pode chamar de instinto, se quiser...

Há um homem chamado Altmüller, Franz Altmüller. Quem é ele, onde está, não tenho a menor idéia. Alemão, suíço, não sei... Des­cubra o que puder ao nível quatro-zero. Telefone para o hotel Mont-gomery, em Nova York. Ficarei lá pelo menos o restante da semana. Depois, seguirei para Buenos Aires.

—    Farei isso se você for flexível na informação... diga-me que diabo está acontecendo.

—    Você não vai gostar. Porque, se eu falar e se tiver alguma ligação com o caso, isto significa que Fairfax tem seus códigos deci­frados em Berlim.

 

1º de Janeiro de 1944

NOVA YORK

O avião comercial de passageiros começou a descer no aeroporto La Guardia. David consultou o relógio. Passava um pouco do meio-dia. Tudo acontecera em 12 horas: Cindy Bonner, o estranho da Fifty-second, Marshall, o assassinato de Pace, Barden, as notícias de Valdero... E finalmente a desajeitada conferência com a fonte de controle amador, o General-de-Brigada Alan Swanson, Depar­tamento de Guerra.

Doze horas.

Não dormia fazia quase 48. Precisava dormir para descobri uma perspectiva, reunir o fugidio quebra-cabeças. Não o detalhe, que estava bem claro.

Erich Rhinemann teria que ser liquidado.

Claro que tinha que ser liquidado. A única surpresa para David fora a maneira balbuciante com que o general dera a ordem. Esta não exigia explicações ou desculpas. E finalmente explicava a sua transferência de Lisboa. Preenchia o vácuo do porquê. Não era espe­cialista em giroscópios, isso não fazia sentido. Mas agora compre­endia. Ele era uma boa escolha. Pace fizera uma seleção totalmente profissional. Tratava-se de uma tarefa para a qual ele se ajustava — além de ser um elemento de ligação bilíngüe entre o cientista mudo, Eugene Lyons, e o homem dos planos de Rhinemann.

Esse quadro estava claro e sentiu-se aliviado ao vê-lo entrar em foco.

O que o preocupava era o quadro confuso.

Marshall, o criptógrafo da Embaixada, que cinco dias atrás o recolhera num aeroporto inundado de chuva, nos arredores de Lisboa. O homem que ele vira espiando pela janela traseira do automóvel, na Fifty-second; o homem que se supunha ter sido abatido numa emboscada no norte, região onde jamais se aventurara. Ou se aventu­raria.

Leslie Jenner Hawkwood. A ex-amante cheia de recursos, que mentira e o conservara afastado do quarto do hotel, que tolamente utilizara Cindy Bonner e a troca de presentes para um marido morto que ela roubara. Leslie não era uma idiota. Queria dizer alguma coisa.

Mas, o quê?

E Pace. O pobre Ed Pace, desprovido de senso de humor, abatido no interior do recinto mais vigiado dos Estados Unidos.

A lição de Fairfax, anunciada com incrível correção — quase no momento exato — por um homem alto, de olhos tristes, escon­dido nas sombras da Fifty-second.

Eram essas as figuras do quadro desfocado.

David mostrara-se áspero com o general. Exigira profissionalmente, é claro — conhecer a data exata em que haviam decidido eliminar Erich Rhinemann. Quem decidira? Quem transmitira a or­dem? O general conhecia um criptógrafo chamado Marshall? Pace jamais o mencionara? Alguém o mencionara? E um homem cha­mado Altmüller? Franz AltmUlIer. O nome significava alguma coisa?

As respostas haviam sido inúteis. E só Deus sabia que Swanson não estava mentindo. Não era bastante profissional para disfarçá-lo.

Não conhecia os nomes de Marshall e Altmüller. A decisão de liquidar Rhinemann fora tomada no período de algumas horas. Ed Pace não poderia absolutamente ter sabido; não fora consultado, nin­guém de Fairfax fora consultado. Era uma decisão que emanava dos subterrâneos da Casa Branca; ninguém de Fairfax ou Lisboa poderia estar a par. Para David, esta ausência de envolvimento era o fator mais importante. Significava simplesmente que todo o quadro des­focado nada tinha a ver com Erich Rhinemann. Assim, ao que se pudesse determinar, não se relacionava com Buenos Aires. David tomou a rápida decisão de não confiar no nervoso brigadeiro. Pace tivera razão; o homem não agüentaria mais complicações. Usaria Fairfax, e a fonte de controle que fosse para o diabo.

O avião pousou. Spaulding entrou no terminal de passageiros e procurou a tabuleta que dizia "TAXIS". Transpondo as portas duplas que conduziam à plataforma, ouviu os carregadores gritando os di­versos destinos de seus carros vazios. Era engraçado, mas os táxis partilhados eram a única coisa que o levava a pensar que o aeropor­to de La Guardia sabia haver uma guerra em algum lugar.

Simultaneamente, reconheceu a tolice de seus pensamentos. E a pretensão.

Um soldado sem pernas estava sendo colocado num táxi. Carregadores e civis mostravam-se comovidos, queriam ajudar.

O soldado estava embriagado. O que dele restava parecia instável.

Spaulding partilhou um táxi com três outros homens e pouco falaram que não fosse das últimas notícias da Itália. David decidiu esquecer seu papel, caso surgissem as inevitáveis perguntas. Não esta­va a fim de discutir alguma mítica batalha em Salerno. Mas as per­guntas não surgiram e depois ele compreendeu por quê.

O homem ao seu lado era cego. Quando se movimentou no banco, o sol da tarde arrancou-lhe um reflexo da lapela. Era uma minúscula insígnia de metal: "Pacífico Sul".

David pensou novamente que estava terrivelmente cansado. Era o menos observador dos agentes a quem se confiara uma operação.

Saltou do táxi na Fifth Avenue três quarteirões ao norte do Montgomery. Pagara em excesso e esperava que os outros dois entre­gassem o restante ao veterano cego, cujo terno estava bem distante das roupas de Rogers Peet usadas por Leslie Jenner.

Leslie Jenner... Hawkwood.

Um criptógrafo chamado Marshall.

O quadro desfocado.

Precisava afastar tudo isso da mente. Tinha que dormir, esque­cer; deixar que tudo se ajustasse antes de voltar a raciocinar. No dia seguinte, de manhã, conheceria Eugene Lyons e recomeçaria. Preci­sava estar pronto para o homem que queimara a garganta com álcool puro e não conversara durante dez anos.

O elevador deteve-se no sexto andar. O seu era o sétimo. Ia falar ao cabineiro, quando percebeu que as portas não se abriram.

Em vez disso, o homem voltou-se. Empunhava um Smith & Wesson de cano curto. Estendendo a mão para trás, segurou a ala­vanca de controle e empurrou-a para a esquerda. A gaiola fechada sofreu um sacolejo e imobilizou-se entre dois andares.

As luzes do vestíbulo se apagarão, Coronel Spaulding. Talvez escute cigarras, mas um segundo elevador para as emergências. Não seremos perturbados.

O sotaque era o mesmo, pensou David. Britânico, revelando Europa Central.

—     Ainda bem. Afinal, faz tanto tempo.

—     Não acho graça.

—     Eu também não. Quanto a você, é óbvio.

—     Esteve em Fairfax, Virgínia. Fez boa viagem?

—     Vocês têm um extraordinário meio de comunicação. Spaulding não estava apenas ganhando tempo com a conversa.

Ele e Ira Barden haviam tomado as precauções necessárias. Mesmo que a telefonista do Montgomery repetisse tudo o que ele havia dito, nada indicava que ele voara para a Virgínia. As providências haviam sido tomadas de cabinas telefônicas, o vôo de Mitchell a Andrews fora reservado sob um nome falso, na folha da tripulação. Até o número de Manhattan que ele deixara na recepção do Montgomery tinha um endereço de Nova York sob vigilância constante. E no re­cinto de Fairfax somente o portão soubera seu nome; fora visto apenas por quatro, talvez cinco homens.

—     Temos fontes seguras de informação...Aprendeu a primeira lição de Fairfax, não?

—     Soube que um homem bom foi assassinado. Imagino que a esta hora sua mulher e filhos tenham recebido a notícia.

—     Numa guerra não há assassinatos, coronel. Foi palavra mal empregada. E não fale conosco...

Uma campainha interrompeu o homem. Um toque curto, bem educado.          

—      Quem são vocês? perguntou David.

—      Saberá quando chegar a hora, se cooperar. Do contrário, não fará diferença; será liquidado...Não fazemos meias ameaças. Lembre-se de Fairfax.

A campainha soou novamente, desta vez de modo prolongado, não muito polido.

—     Como esperam que eu coopere? Com quê?

—     Precisamos saber o local exato de Tortugas.

A mente de Spaulding recuou, voando para as cinco horas daquela manhã, em Fairfax. Ira Barden havia dito que o nome "Tor­tugas" era a única palavra existente no seu documento de transfe­rência. Não havia outros dados, nada senão a palavra "Tortugas". E estava enterrada no cofre de Pace. Arquivos guardados por portas de aço, abertos somente aos mais elevados escalões do pessoal da Informação.

—      Tortugas faz parte de um arquipélago na costa da Flórida. Em geral, chamam-na de Dry Tortugas. Está em qualquer mapa.

A campainha soou novamente, em toques repetidos, curtos, irados.

—    Não seja tolo, coronel.

—    Não sou coisa alguma. Ignoro o que está dizendo.

O homem fixou Spaulding e este notou que ele parecia inseguro, controlando a raiva. A campainha do elevador soara agora in­cessante. Ouviram-se vozes nos andares de cima e de baixo.

—      Prefiro não matá-lo, mas matarei. Onde fica Tortugas? Súbito, uma voz masculina, a menos de três metros da porta,

no sexto andar, gritou:

—      Está aqui! Enguiçou! Vocês estão bem aí em cima?

O homem pestanejou, o grito abalara-o. David estivera esperan­do aquele instante. Baixou a mão direita num golpe diagonal e agar­rou o antebraço do homem, prendendo-o contra a porta metálica. Atirando o corpo contra o adversário, ergueu o joelho num golpe único, arrasador, contra a virilha. O outro gritou, agoniado. Spaul­ding agarrou-lhe o pescoço com a mão esquerda, focalizando as veias da laringe, e golpeou-o mais duas vezes na virilha, até que a dor se tornou tão excruciante que ele não pôde mais emitir grito algum, apenas gemidos baixos, angustiados. O corpo descaiu, o revólver tombou no chão e o homem deslizou pela parede.

Spaulding deu um pontapé na arma e, agarrando o pescoço do adversário com ambas as mãos, sacudiu-lhe a cabeça para mantê-lo consciente.

—      Agora, diga você, filho da mãe: que é Tortugas?

A gritaria diante do elevador tornara-se ensurdecedora. Uma cacofonia histérica, provocada pelos gritos do cabineiro. Alguém cha­mava a gerência.

A polícia.

O homem fitou David, com lágrimas de dor escorrendo pelo rosto.

—      Por que não me mata, seu canalha — disse, entre arquejos. ...Já tentou antes.

David sentiu-se confuso. Nunca vira aquele homem. Seria do norte? Província basca? Navarra? Não havia tempo para pensar.

—      Que é, Tortugas?

— Altmüller, porco. O porco Altmüller. ..

O homem tombou inconsciente. De novo aquele nome.

Altmüller.

Spaulding levantou-se e agarrou o controle do elevador. Inclinando-o para a extrema esquerda, acelerou a velocidade ao máximo. O Montgomery tinha 10 andares. O painel indicava que o primeiro, o terceiro e o sexto haviam chamado. Se ele pudesse chegar ao dé­cimo antes que as vozes histéricas o seguissem escada acima, saltaria no hall e correria até um dos ângulos, para depois se reunir à mul­tidão que certamente se formaria ao redor das portas abertas.

Ao redor do homem inconsciente caído no chão.

Tinha que ser! Não havia tempo para envolver-se com a polícia de Nova York.

 

O homem foi transportado em maca; as perguntas foram poucas.

Não, ele não conhecia o cabineiro. O homem deixara-o no seu andar fazia uns 10 ou 12 minutos. Estava no quarto e saíra ao ouvir a gritaria.

Como todos os outros.

Onde iria parar Nova York?

David chegou ao seu quarto no sétimo andar, fechou a porta e fixou a cama. Jesus, estava exausto! Mas sua mente recusava-se a deixar de trabalhar.

Adiaria tudo até depois de descansar, com duas exceções. Estas, ele precisava considerar naquele momento. Não podia esperar pelo sono, porque talvez o telefone tocasse ou alguém entrasse no seu quarto. Precisava tomar as decisões antecipadamente. Estar prepa­rado.

O primeiro item era que Fairfax não mais podia ser usado como fonte. Estava infiltrado. Tinha que funcionar sem Fairfax, o que, de certo modo, era o mesmo que dizer a um aleijado que precisava andar sem muletas.

Por outro lado, ele não era aleijado.

O segundo item era um homem chamado Altmüller. Precisava descobrir um homem chamado Franz Altmüller. Descobrir quem era, que sentido tinha no quadro desfocado.

David deitou-se; não teve energia para se despir, nem mesmo tirou os sapatos. Ergueu um braço para proteger os olhos do sol da tarde que invadia as janelas do hotel. O sol da tarde do primeiro dia do ano de 1944.

Súbito, abriu os olhos no negro do tweed. Havia um terceiro item, inseparavelmente ligado ao homem chamado Altmüller. Que diabo significava Tortugas?

 

2 de Janeiro de 1944

NOVA YORK.

Eugene Lyons estava sentado diante de uma mesa de desenho, no gabinete despido, em mangas de camisa. Havia plantas espalha­das sobre as mesas e o sol da manhã refletia-se nas paredes brancas, dando à sala a aparência antisséptica de um cubículo de hospital.

E o rosto e o corpo de Eugene Lyons nada faziam para dissipar a impressão.

David acompanhara Kendail, transpondo o limiar, apreensivo diante da apresentação. Teria preferido nada saber a respeito de Lyons.

O cientista voltou-se no banquinho. Era um dos homens mais magros que Spaulding jamais vira. Os ossos estavam recobertos de carne, mas não por ela protegidos. Veias azuladas destacavam-se nas mãos, nos braços, no pescoço e nas têmporas. A pele não era velha, mas desgastada. Os olhos surgiam bem engastados, mas não apáticos ou secos; eram alertas e, à sua maneira, penetrantes. Os cabelos gri­salhos e lisos pareciam precocemente ralos. Poderia ter qualquer idade num período de 20 anos.

Havia, porém, uma qualidade naquele homem que parecia específica: desinteresse. Acolheu os intrusos era evidente que sabia quem era David mas nada fez que interrompesse a sua concen­tração.

Kendail forçou a interrupção.

Eugene, este é Spaulding. Mostre a ele por onde deve começar.

E com essas palavras Kendail voltou-se e saiu porta afora, fechando-a.

David postou-se do outro lado da sala, em frente a Lyons. Dando os passos necessários, estendeu a mão. Sabia exatamente o que diria.

—      É uma honra conhecê-lo, Dr. Lyon. Não sou especialista no seu campo, mas ouvi falar do seu trabalho no Instituto. É sorte minha poder partilhar da sua riqueza, embora por tão curto tempo.

Houve um leve e momentâneo brilho de interesse nos olhos do cientista. David decidira por uma simples saudação que dissesse ao emaciado cientista diversas coisas, entre as quais o fato de que estava a par de sua tragédia em Boston — e, portanto, do restante da sua história — e que isso não o afetava.

Foi flácido o aperto de mão; o desinteresse voltou rápido. Desinteresse, não necessariamente grosseria. Ficou nos limites.

—      Sei que não temos muito tempo e sou um neófito em giroscópios — disse Spaulding, libertando a mão e recuando para a borda da mesa. — Mas me disseram que só preciso reconhecer material muito básico, verbalizar em alemão os termos e as fórmulas que es­crever para mim.

David enfatizou — com o mais leve erguer de voz — as palavras "verbalizar, escrever para mim", observou Lyons, para verificar se haveria alguma reação ao seu reconhecimento franco do problema vocal do cientista, e achou que captara um resquício de alívio.

Lyons fixou-o. Os lábios finos distenderam-se sobre os dentes e houve uma ligeira contração nos cantos da boca, ao mesmo tempo que o cientista anuía com a cabeça. Um brilho infinitesimal de apre­ciação surgiu nos olhos profundos. Levantando-se do banquinho, aproximou-se de uma mesa onde se viam diversos livros empilhados sobre plantas. Tomando o que estava no alto, entregou-o a Spaul­ding. O título: Esquemática: Inércia e Precessão.

David compreendeu que tudo correria bem.

Passava das seis horas.

Kendall saíra; a recepcionista desaparecera ao soar das cinco, pedindo a David que fechasse as portas, caso fosse a última pessoa a sair. Senão, que pedisse a um dos outros.

Os "outros" eram Eugene Lyons e seus dois enfermeiros.

Spaulding havia encontrado rapidamente os enfermeiros na sala de recepção. Chamavam-se Hal e Johnny. Eram ambos grandalhões. O tagarela chamava-se Hal e o líder era Johnny, um ex-marine.

—     O velho está se portando muito bem — disse Hal. — Não precisa se preocupar.

—     Está na hora de levá-lo de volta a St. Luke — falou John­ny. — Ficam furiosos quando se atrasa para o jantar.

Juntos, os dois entraram no gabinete de Lyons para buscá-lo. Eram delicados com o cadavérico cientista, mas firmes.  Eugene

Lyons olhou Spaulding com indiferença, deu de ombros e saiu silen­ciosamente com seus guardiães.

David aguardou até ouvir o elevador no vestíbulo. Abandonou então a Esquemática que o físico lhe havia dado na mesa da recep­cionista e dirigiu-se ao gabinete de Walter Kendall.

A porta estava trancada, o que lhe pareceu estranho. Kendall se achava a caminho de Buenos Aires e talvez só voltasse dali a várias semanas. Spaulding tirou do bolso um pequenino objeto e ajoelhou-se. À primeira vista, o objeto parecia um canivete de bolso, prateado, do tipo que se encontra com freqüência nos chaveiros de boa quali­dade, principalmente em clubes masculinos luxuosos. Mas não era. Tratava-se de uma gazua de serralheiro, destinada a parecer um ca­nivete. Fora fabricada no Silver Vault de Londres, presente de um elemento do MI-5 em Lisboa.

David fez girar para fora um minúsculo cilindro de ponta acha­tada e inseriu-o na fechadura. Em menos de 30 segundos, ouviu os cliques adequados e abriu a porta. Entrou, deixando-a encostada.

O gabinete de Kendall não tinha arquivos, armários ou prateleiras; nenhum recesso além das gavetas da escrivaninha. David acen­deu a lâmpada fluorescente instalada diante da pasta e abriu a ga­veta do centro.

Foi obrigado a conter uma risada genuína. Cercadas por uma diversidade de grampos de papel, palitos, drops e bloco de notas, havia duas revistas pornográficas. Embora marcadas por dedos sujos, eram ambas novas.

Feliz Natal, Walter Kendall, pensou David, quase triste.

As gavetas laterais estavam vazias, ou pelo menos nada continham de interessante. Na última, havia laudas amarelas amassadas, com rabiscos sem sentido traçados por lápis duro, que rasgara o papel.

Estava a ponto de desistir e levantar-se quando decidiu mais uma vez examinar os desenhos incoerentes do papel amarrotado. Não havia mais nada; Kendall trancara o gabinete por reflexo, não por necessidade. E novamente por reflexo, talvez, colocara as folhas ama­relas não na cesta de papéis que continha apenas pontas de cigarro mas na escrivaninha. Escondidas.

David sabia estar adivinhando. Não havia escolha; não sabia bem o que estava procurando, se é que procurava alguma coisa.

Abriu duas páginas sobre a pasta, alisando-as.

Nada.

Bem, alguma coisa. Contornos de seios e genitália feminina. Cír­culos e setas, diagramas: o paraíso do psicanalista.

Retirando outra folha, alisou-a. Mais círculos, setas, seios. Depois, ao lado, desenhos infantis de nuvens fofas, sombrias; marcas diagonais que poderiam significar chuva ou múltiplos raios de tem­pestade.

Nada.

Outra folha.

Esta chamou a atenção de David. Na parte inferior do papel sujo, quase indecifrável entre riscos cruzados, via-se o esboço de uma grande suástica. Observou-a com atenção. A suástica apresentava círculos na extremidade direita da insígnia, círculos que se ampliavam pára fora como se o artista estivesse duplicando os ovais, num exer­cício Palmer de caligrafia. Uma extensão desses ovais eram iniciais ben; nítidas. JD. Depois, Joh D., J Diet... As letras surgiam no extremo de cada linha oval. E, no final de cada letra, complicadas interrogações — ? ? ? ? ? ?

David dobrou cuidadosamente o papel e colocou-o no bolso do casaco.

Havia mais duas folhas, e ele as pegou ao mesmo tempo. A da esquerda continha apenas um grande e indecifrável rabisco, nova­mente circular este, zangado. Mas na segunda folha de novo no extremo inferior, havia uma série de arabescos, que poderiam ser in­terpretados com o Js ou Ds., similares às letras junto às pontas da suástica que encontrara na outra folha. E ao lado do D final havia um estranho obelisco horizontal, com a ponta voltada para a direita. Viam-se riscos dos lados, como se ele fosse serrilhado... Talvez um projétil com marcas de disparo. Embaixo, na linha seguinte do papel à esquerda, viam-se os mesmos ovais em movimento que lhe haviam recordado um exercício Palmer; só que eram mais firmes, traçados com mais vigor no papel amarelo.

Súbito, David compreendeu o que examinava.

Walter Kendall traçara subconscientemente a obscena caricatura de um pênis erecto e testículos.

Feliz Ano Novo, Sr. Kendall, pensou Spaulding.

Colocou a folha cuidadosamente no bolso, junto com a anterior, e devolveu as outras à gaveta, fechando-a. Apagou a luz, encami­nhou-se para a porta aberta e atravessou a de recepção. Ao fechar a porta de Kendall, considerou rapidamente se devia ou não colocar as lingüetas no lugar.

Inútil desperdiçar tempo. A fechadura era antiga, simples; o pessoal da limpeza em qualquer edifício de Nova York teria chave e era mais difícil inserir as lingüetas que retirá-las. Que fossem para o diabo.

Meia hora depois lhe ocorreria — num instante de reflexão — que a decisão provavelmente lhe salvara a vida. Os 60, 90 ou 100 segundos que havia eliminado na partida colocaram-no na posição de observador e não de alvo.

Vestindo o sobretudo Rogers Peet, apagou as luzes e saiu para o conjunto de elevadores. Eram quase sete horas, no segundo dia do ano, e o prédio estava praticamente deserto. Havia um só ele­vador funcionando. Passara pelo seu andar, subindo para os supe­riores, onde pareceu demorar-se. Estava para dirigir-se à escada — as salas ficavam no terceiro pavimento, de modo que seria muito mais rápido — quando ouviu rápidos e múltiplos passos subindo os de­graus. O barulho era incongruente. Instantes atrás, o elevador esti­vera no vestíbulo; por que duas — seriam mais de duas? — pessoas estariam correndo escadas acima às sete da noite? Haveria uma dúzia de explicações razoáveis, mas o instinto levou-o a considerar as não razoáveis.

Em silêncio, correu até o extremo oposto do pavimento curto, onde um corredor lateral conduzia às outras salas do lado sul do edifício. Dobrando o ângulo, encostou-se à parede. Desde o assalto no elevador do Montgomery, passara a andar armado — uma pe­quena Beretta presa ao peito, sob a camisa. Abrindo o sobretudo, fez o mesmo com os botões do casaco e da camisa. O acesso à pistola seria rápido e eficiente, caso necessário.

Era provável que não fosse, pensou, ouvindo os passos se afastarem.

Percebeu então que não se tinham afastado, mas transformado em andar mais lento, silencioso, cauteloso. Ouviu vozes — murmú­rios confusos. Vinham das proximidades da porta sem letreiro da Meridian, a menos de nove metros de distância.

Avançou o rosto, centímetro a centímetro, encostado à áspera parede de concreto e mergulhando simultaneamente a mão direita sob a camisa para empunhar a Beretta.

Havia dois homens de costas para ele, voltados para o vidro às escuras da porta sem letreiro. O mais baixo dos dois encostou o rosto ao painel, mãos junto às têmporas para se proteger da luz do corredor. Recuando, olhou para o companheiro e meneou a cabeça negativamente.

O mais alto voltou-se de leve, o bastante para Spaulding reconhecê-lo.

Era o estrangeiro que emergira das sombras da Fifty-second Street. O homem alto, de olhos tristes, que falava com gentileza no sotaque britânico dos Bálcãs, apontando-lhe o cano espesso de uma poderosa arma.

O homem enfiou a mão no bolso esquerdo do sobretudo e entregou uma chave ao amigo. Com a direita, retirou uma pistola do cinto. Era uma pesada . 45, do Exército. À queima-roupa, David sabia que ela ergueria uma pessoa no ar. O homem fez um gesto de cabeça e falou, em voz baixa, mas nítida.

—      Tem que estar. Não saiu. Quero pegá-lo.

Ao ouvir isso, o mais baixo inseriu a chave na fechadura e empurrou a porta, que se abriu lentamente. Juntos, os dois entraram.

Naquele preciso instante, a porta do elevador abriu-se e o ruído metálico ecoou pelo corredor. David viu que os dois se imobilizavam na sala de recepção às escuras, voltavam-se para a porta aberta e fechavam-na rapidamente.

—      Jesus Cristo! — foi o grito irado do cabineiro, quando a grade se fechou ruidosamente.

David compreendeu que era o momento de agir. Dentro de um ou dois segundos, os homens que se encontravam no interior deserto dos escritórios da Meridian compreenderiam que, se o elevador se detivera no terceiro andar, alguém apertara o botão. Alguém que não estava à vista, que eles não haviam encontrado nas escadas. Alguém que continuava naquele pavimento.

Contornando o ângulo da parede, disparou pelo corredor em di­reção à escada. Não olhou para trás; não se deu ao trabalho de abafar o ruído dos passos, o que teria reduzido a velocidade. Sua única preocupação era descer aqueles degraus e dar o fora do edifício. Desceu aos saltos a escada em ângulo reto, até o patamar intermediá­rio, e dobrou a esquina.

Imobilizou-se então.

Logo abaixo, encostado ao corrimão, encontrava-se o terceiro homem. Sabia que tinha ouvido mais de duas pessoas subindo a es­cada, minutos antes. O homem levou um susto e arregalou os olhos ao reconhecê-lo, a mão direita recuando em direção ao bolso do casaco. Spaulding sabia muito bem o que procurava.

Saltou do patamar direto sobre o homem, fazendo contato no ar, as mãos agarrando o pescoço e o braço direito do adversário. Segurando a pele do pescoço abaixo da orelha esquerda, dila­cerou-a, batendo com a cabeça do homem na parede de concreto. O corpo de David, mais pesado, comprimiu no peito o da sentinela cujo braço direito ele torceu a ponto de quase arrancá-lo do ombro.

O homem soltou um grito e desmaiou, o crânio lacerado, sangue jorrando do ponto onde colidira com a parede.

David ouviu o ruído da porta aberta e de passos correndo no andar de cima.

Libertando as pernas emaranhadas no corpo inconsciente, cor­reu escada abaixo até o vestíbulo. O elevador deixara instantes atrás a sua carga de passageiros. Os últimos saíam pela entrada do edifício. Se alguém escutara o grito prolongado do homem agredido a uns 20 metros escada acima, ninguém o demonstrou.

David aproximou-se rápido dos retardatários, abrindo caminho na ampla entrada e saltando, para a calçada. Voltando-se para leste, correu o mais que pôde.

 

Caminhara mais de 40 quarteirões — cerca de um quilômetro na região basca, mas aqui infinitamente menos agradável.

Tomara diversas decisões. O problema era colocá-las em ação.

Não podia permanecer em Nova York sem enfrentar riscos evi­dentemente inaceitáveis. E precisava chegar a Buenos Aires imedia­tamente, antes que os que o caçavam em Nova York soubessem que partira.

Pois estavam caçando-o, isso era bem claro.

Seria suicídio voltar ao Montgomery. Ou mesmo aos escritórios da Meridian, na manhã seguinte. Poderia resolver ambos os casos com telefonemas. Diria ao hotel que fora subitamente transferido para a Pensilvânia; indagaria da possibilidade de fazerem suas malas e guardá-las. Telefonaria mais tarde a respeito da conta...

Kendall estava a caminho da Argentina. Não faria diferença o que dissesse aos escritórios da Meridian.

Súbito, lembrou-se de Eugene Lyons.

E sentiu-se meio entristecido, não pelo homem, (por ele também, é claro, reconsiderou rapidamente; porém, não em virtude do seu defeito, no caso), mas pelo fato de que teria pouca oportunidade para desenvolver qualquer relacionamento antes de Buenos Aires. Lyons poderia considerar sua súbita ausência como uma rejeição a mais numa longa série. E o cientista talvez precisasse realmente de sua ajuda em Buenos Aires, pelo menos no que respeitava à tradução para o alemão. Decidiu levar os dois livros que Lyons selecionara para ele; precisava adquirir o conhecimento mais sólido possível da linguagem do cientista.

E então compreendeu para onde o conduzia o raciocínio.

Nas horas subseqüentes, os lugares mais seguros em Nova York seriam os escritórios da Meridian e o hospital St. Luke.

Após visitar ambos os locais, seguiria para Mitchell Field e telefonaria ao General-de-Brigada Swanson.

A resposta ao violento enigma dos últimos sete dias — desde os Açores até a escada da Thirty-eighth Street e tudo o que se en­contrava no período intermediário — estava em Buenos Aires.

Swanson ignorava-o e não podia ajudar. Fairfax estava infiltra­do e não poderia saber. E isso lhe dizia algo.

Estava sozinho. Um homem tinha duas opções em tal dilema: retirar-se da estratégia ou descobrir novas identidades, deixando de lado a sua cobertura.

A primeira opção lhe seria negada. O General Swanson era um paranóico no que se referia aos planos do giroscópio e a Rhinemann. Não era possível sair da estratégia.

Restava a segunda: a identidade daqueles que se encontravam por trás do enigma.

Sentiu-se dominado por uma sensação que não experimentava havia vários anos: o medo de não se achar à altura. Defrontava-se com um problema extraordinário, para o qual não havia solução sim­ples ou complicada como as que encontrava no norte. Nenhum des­fazer da meada ocasionado por jogadas e contra-jogadas, cuja estra­tégia ele dominara na região basca e em Navarra.

Encontrava-se, de repente, em outra guerra, com a qual não estava familiarizado e que lhe despertava dúvidas no íntimo.

Viu um táxi desocupado, a luz do teto mal iluminado, como que embaraçado de anunciar o seu vazio. Olhou para a placa da rua. Estava em Sheridan Square, o que explicava os sons abafados de jazz que subiam de porões, emergindo nas ruas amplas e movimen­tadas. A Village estava se aquecendo para a noite.

Ergueu a mão para o táxi; o motorista não o viu. Pôs-se a correr quando o veículo continuou a descer a rua, em direção ao sinalei­ro da esquina. Súbito, percebeu que havia alguém do outro lado da praça correndo em direção ao táxi vazio e estava mais próximo que ele, gesticulando com a mão direita.

Tornou-se terrivelmente importante alcançar antes do outro o veículo. Ganhando velocidade, correu para a rua, afastando pedes­tres, momentaneamente bloqueado por dois automóveis parados jun­tos um do outro. Estendeu as mãos sobre o motor e saltou no meio da rua, continuando a correr em direção ao seu objetivo.

Objetivo.

Chegou ao táxi não mais de meio segundo após o outro homem.

Maldição! Fora o obstáculo dos dois automóveis!

Obstrução!

Bateu com a mão na porta, impedindo o outro de abri-la. O ho­mem fixou o rosto, os olhos de Spaulding.

—      Meu Deus! Eu espero pelo próximo disse, rapidamente. David sentiu-se embaraçado. Que diabo estaria fazendo?

As dúvidas? As malditas dúvidas.

—      Não, desculpe murmurou, sorrindo. Pode ficar com ele. Não estou com pressa...Perdão, mais uma vez.

Voltando-se, caminhou rápido pela rua, em meio à multidão de Sheridan Square.

Poderia ter conseguido o carro, era o que importava.

Jesus! A engrenagem era incessante.

 

1944

BUENOS AIRES, ARGENTINA

O Clipper da Pan American levantou vôo de Tampa às oito da manhã, com escalas marcadas em Caracas, São Luís, Salvador e Rio de Janeiro, antes da etapa final de mil e duzentas milhas até Buenos Aires. David figurava na lista de passageiros como Sr. Donald Scanlan, de Cincinnati, Ohio; ocupação: fiscal de minas. Era uma cober­tura temporária, apenas para a viagem. "Donald Scanlan" desapare­ceria depois que o Clipper pousasse no aeroparque de Buenos Aires. As iniciais eram as mesmas que as suas pela simples razão de que era fácil esquecer um presente monogramado ou a primeira letra de uma assinatura escrita rapidamente, sobretudo quando se estava preo­cupado, cansado...ou com medo.

Swanson estivera próximo ao pânico quando David entrara em contato com ele, falando da sala de operações de Mitchell Field, em Nova York. Como fonte de controle, Swanson era tão decidido quan­to um cão confuso. Qualquer desvio da escala de Kendall das ins­truções, na verdade era-Ihe detestável. E Kendall só partiria para Buenos Aires na manhã seguinte.

David não perdera tempo em complicadas explicações ao gene­ral. Haviam feito três tentativas contra a sua vida pelo menos era assim que se podia interpretá-las e, se o general quisesse os seus "serviços" em Buenos Aires, seria melhor que ele seguisse logo, enquanto ainda estava inteiro e funcionando.

As tentativas os ataques — relacionavam-se com...Buenos Aires? Swanson fizera a pergunta como se temesse pronunciar o nome da cidade argentina.

David fora sincero: não tinha meios de saber. A resposta estava em Buenos Aires. Era razoável considerar a possibilidade, mas não fazer suposições.

—      Foi o que disse Pace respondera Swanson. Considere, não suponha.

—      Geralmente, Ed tinha razão nessas coisas.

Ele disse que, quando você operava em Lisboa, esteve com freqüência envolvido em situações complicadas.

—      Exato. Duvido que Ed estivesse a par dos detalhes, mas tinha razão no que lhe disse. Há muita gente em Portugal e Espanha que prefere me ver morto do que vivo. Ou pelo menos pensa que gostaria. Jamais puderam certificar-se. Maneira de agir padronizada, general.

Estabelecera-se uma prolongada pausa na linha de Washington. Finalmente, Swanson dissera:

—      Você compreende, Spaulding, talvez seja necessário substi­tuí-lo.

—      É claro. Pode fazê-lo neste momento, se quiser.

Falara com sinceridade. Queria muito voltar a Lisboa. Seguir para o norte. Para Valdero. Descobrir o mistério do criptógrafo cha­mado Marshall.

Não...Não, a coisa está demasiado adiantada. Os planos. Isso é o que importa. Nada mais tem importância.

O restante da conversa referira-se aos detalhes de transporte, moeda americana e argentina, aquisição de um guarda-roupa básico e bagagem. Logística que não se encontrava no quadro de referências do general e pela qual David assumiu responsabilidade. A ordem final pedido fora feita não pelo general e sim por Spaulding.

Fairfax não devia ser informado do seu paradeiro. Mais ninguém seria informado, exceto a Embaixada em Buenos Aires; todos os esforços seriam feitos para ocultar a informação de Fairfax.

Por quê? Spaulding achava...

—      Há umà falha em Fairfax, general. Pode transmitir isso aos subterrâneos da Casa Branca.

Impossível!

—      Diga isso à viúva de Ed Pace.

 

David espiou pela janela do Clipper. Momentos antes, o piloto informara aos passageiros que estavam sobrevoando a imensa lagoa Mirim. Breve, estariam em Montevidéu, a 40 minutos de Buenos Aires.

Buenos Aires. O quadro desfocado, as imagens confusas de Leslie Jenner Hawkwood, do criptógrafo Marshall, de um homem cha­mado Franz Altmüller; silhuetas estranhas, mas comprometidas, nas Fifty-second e Thirty-eighth num trecho às escuras, num edifício após o horário de expediente, numa escada. Um homem num ele­vador, que não tinha medo de morrer. Um inimigo que revelava imensa coragem...ou zelo mal orientado. Um maníaco.

A resposta do enigma estava em Buenos Aires, a menos de uma hora de distância. A cidade ficava a uma hora; a solução, muito mais distante. Mas não ultrapassaria três semanas, se seu instinto se confirmasse. Quando os planos do giroscópio fossem entregues.

Começaria lentamente, como sempre fizera com um problema novo, tentando confundir-se com o ambiente, absorver o papel, sen­tir-se à vontade, relacionando-se facilmente. Não seria difícil. Seu papel seria uma extensão do de Lisboa: o rico adido trilingüe, cujo background, pais e relações anteriores à guerra, nos centros elegantes da Europa, tornavam-no um desejável elemento social à mesa de qualquer embaixador. Era um acréscimo atraente ao delicado mundo da capital neutra; e se houvesse alguém pensando que dinheiro e influência haviam sido utilizados para garantir-lhe um emprego longe da frente, que assim fosse. Seria negado enfaticamente, mas não com veemência; havia uma diferença.

A "extensão" para Buenos Aires era direta e permitia-lhe classificação altamente secreta. Agiria como elemento de ligação entre círculos financeiros de Nova YorkLondres e o expatriado alemão Erich Rhinemann. Washington aprovava, naturalmente; o financia­mento de pós-guerra nas áreas de reconstrução e a renovação indus­trial seriam problemas internacionais. Rhinemann não podia ser ig­norado nos civilizados salões de mármore de Berna e Genebra.

David voltou os pensamentos para o livro que levava no colo. Era o segundo dos seis volumes que Eugene Lyons escolhera para ele.

 

"Donald Scanlan" passou pela alfândega do aeroparque sem di­ficuldade. Até o elemento da Embaixada que verificava todos os americanos na entrada parecia ignorar sua identidade.

Segurando a mala única, David encaminhou-se para o ponto de táxis e postou-se na plataforma de cimento, olhando os motoris­tas de pé ao lado dos veículos. Não estava preparado para assumir o nome de Spaulding e ser levado diretamente à Embaixada. Queria assegurar-se de que "Donald Scanlan" seria aceito pelo que dizia ser — inspetor de minas, nada mais; de que não havia interesse fora do comum por um homem assim. Porque se houvesse, isso apontaria para David Spaulding, Informação Militar, Fairfax, homem de Lisboa.

Escolheu um motorista obeso, simpático, no quarto táxi da fileira. Houve protestos dos outros, mas David fingiu não compreen­der. "Donald Scanlan" talvez soubesse algumas palavras em espa­nhol, mas não os epítetos empregados pelos aborrecidos motoristas, privados de uma corrida.

Instalando-se no carro, deu instruções ao obsequioso chofer, dizendo que tinha quase uma hora livre antes de um encontro — não mencionou local —, e perguntou se ele se importava de dar uma rápida volta pela cidade. A volta serviria a duas finalidades: verificar se estava constantemente sob vigilância e conhecer os principais pon­tos da cidade.

O motorista, impressionado com o espanhol culto e gramatical­mente perfeito de David, assumiu o papel de guia e saiu das alamedas do aeroporto em direção ao imenso parque 3 de Febrero, onde se localizava o campo.

Trinta minutos depois, David cobrira de anotações uma dúzia de páginas. A cidade parecia um enxerto europeu no sul do conti­nente. Era uma estranha mistura de Paris, Roma e Espanha. As ruas não eram ruas de cidade e sim boulevards amplos, coloridos. Havia fontes e estátuas por toda parte. A Avenida 9 de Julio talvez fosse uma Via Véneto ou Saint-Germain-des-Prés mais ampla. Os cafés de calçada, com toldos brilhantemente coloridos e plantas em centenas de vasos, apresentavam o movimento de uma tarde de verão. O fato de que fosse verão na Argentina era sublinhado pela transpi­ração que David sentia no pescoço e na frente da camisa. O moto­rista admitiu que o dia estava extraordinariamente quente, mais de 35 graus.

David pediu para ser conduzido — entre outros lugares — a um bairro chamado San Telmo. O chofer acenou com ar aprovador, como se tivesse avaliado acertadamente o americano rico. Logo, Spaulding compreendia por quê. San Telmo era o que dissera Kendall: casas antigas e edifícios de apartamento elegantes, isolados, muito bem conservados, com grades de ferro trabalhado e flores contor­nando as ruas impecáveis.

Lyons estaria bem instalado.

De San Telmo, o motorista regressou ao centro e começou o tour da zona bancária do rio de la Plata.

A Plaza de Mayo, o Cabildo, a Casa Rosada, Calle Rivadavia os nomes enchiam o caderninho de David; eram essas as ruas, as praças, os locais que ele absorveria rapidamente.

La Boca, o cais, no sul da cidade; aquilo não era local para turista, declarou o chofer.

Calle Florida. A melhor zona de compras em toda a América do Sul. O motorista poderia conduzir o americano a várias lojas, cujos proprietários eram seus conhecidos pessoais, e ele faria com­pras extraordinárias.

Lamentava, não havia tempo. Mas anotou no caderninho que o tráfego era proibido na Calle Florida.

O táxi seguiu então para a Avenida Santa Fé, em direção a Palermo. Nenhum panorama em Buenos Aires era tão bonito como o de Palermo.

O que interessou David mais que a beleza foi o imenso parque — ou série de parques; o tranqüilo, enorme lago artificial. Os acres de jardins botânicos; o extenso complexo do zoológico, com fileiras de jaulas e construções.

Beleza, sim. Áreas seguras de contato, ainda por cima. O Paler­mo poderia vir a ser útil.

Passara-se uma hora; não havia automóveis seguindo o táxi. "Donald Scanlan" não estava sendo vigiado. David Spaulding podia surgir.

Discretamente.

Deu instruções ao motorista para deixá-lo no ponto de táxis em frente ao zoológico de Palermo. Encontraria ali uma pessoa. O ho­mem pareceu desapontado. Não haveria hotel? Nenhuma residência?

Spaulding não respondeu. Perguntou simplesmente quanto devia e pagou rápido. Nada de outras perguntas.

Passou mais uns 15 minutos no interior do zoológico, aprovei­tando realmente o passeio. Comprou um sorvete de um vendedor, passou pelas jaulas dos sagüis e dos orangotangos — descobrindo semelhanças extraordinárias com amigos e inimigos — e, quando se sentiu à vontade (como só pode se sentir à vontade um homem de ação), encaminhou-se para o ponto de táxis.

Aguardou cinco minutos, enquanto mães, governantas e crian­ças entravam nos táxis disponíveis. Chegou a sua vez.

— Embaixada americana, por favor.

 

O Embaixador Henderson Granville concedeu ao novo adido meia hora. Haveria dias em que poderiam sentar e conversar à von­tade, mas os domingos eram terríveis. O restante de Buenos Aires estaria na igreja, ou se divertindo, mas o corpo diplomático preci­sava trabalhar. Ele teria que comparecer a duas garden-parties — telefonemas indicariam a chegada e a partida dos convidados alemães e japoneses; a chegada e a saída dele seriam organizadas de acordo. E depois da segunda obrigação havia um jantar da Embaixada do Brasil. Não se previa interferência alemã ou japonesa. O Brasil esta­va próximo a romper com o Eixo.

—     Os italianos já não contam, você deve saber — disse Granville, sorrindo para David. — Jamais contaram, pelo menos aqui. Passam a maior parte do tempo nos abordando em restaurantes, ou ligando de telefones públicos, explicando de que modo Mussolini arruinou o país.

—     Em Lisboa não é muito diferente.

—     Temo que seja a única semelhança agradável... Não o aborrecerei com a narrativa tediosa das agitações que vivemos aqui, mas um rápido esboço — e ênfase — o ajudarão a adaptar-se. Leu sobre o assunto, suponho.

—     Não tive muito tempo. Saí de Lisboa há uma semana apenas. Sei que o Governo de Castillo foi derrubado.

—- Em junho passado. Inevitável... Ramón Castillo foi o presidente mais inepto que a Argentina já conheceu, e o país teve uma boa safra de palhaços. A economia estava desastrosa: agricultura e indústria, praticamente paralisadas; seu gabinete jamais providenciou a ocupação do vácuo no mercado de carne deixado pela Inglaterra em luta, embora a maioria achasse que John Buli estava liquidado. Ele mereceu ser deposto... Infelizmente, o que surgiu pela porta da frente — uma falange subindo o Rivadavia, para ser mais preci­so — não torna a nossa existência mais fácil.

—      O Conselho Militar, não é? A Junta?

Granville gesticulou com as mãos delicadas; as feições bem de­lineadas da fisionomia aristocrática compuseram uma careta sardó­nica.

—     O Grupo de Oficiais Unidos! Um bando desagradável de oportunistas que usam o passo de ganso... Creio que é o mesmo em toda parte. Deve saber, naturalmente, que todo o Exército foi treinado pela Wehrmacht. Acrescente a esta jovial premissa o tem­peramento latino, o caos econômico, a neutralidade forçada — mas em que ninguém acredita —, e o que se obtém? Uma suspensão do aparelho político, ausência de controle e equilíbrio. Um Estado po­licial onde abunda a corrupção.

—     O que mantém a neutralidade?

—     As lutas internas, antes de mais nada. O GOU — como o chamamos — tem mais facções que o Reichstag de 1929. Todas lutam pelo Poder. E, naturalmente, o temor da Marinha e da Força Aérea americana bem às suas portas, por assim dizer... O GOU tem refeito seus juízos nos últimos cinco meses. Os coronéis começam a ter dúvidas sobre a cruzada milenar de seus mentores, estão extre­mamente impressionados com as nossas linhas de produção e supri­mento.

—    E deveriam estar. Temos...

—    Há um outro aspecto — interrompeu Granville, pensativo. — Existe uma comunidade pequena e muito rica de judeus, aqui na cidade. Erich Rhinemann, por exemplo. O GOU não está prepara­do a advogar abertamente as soluções de Julius Streicher... Já utili­zou dinheiro judeu para manter em atividade linhas de crédito bem abaladas por Castillo. Os coronéis têm medo de manipulações finan­ceiras, como a maioria dos militares. Mas pode-se ganhar muito di­nheiro com esta guerra. E os coronéis pretendem ganhá-lo... Será que tracei um quadro nítido?

—    Um quadro complicado.

—    Creio que sim... Temos aqui uma máxima que nos é muito útil: "O amigo de hoje estará provavelmente a soldo do Eixo, ama­nhã; inversamente, o mensageiro chegado ontem de Berlim poderá estar à venda na próxima semana". Mantenha às claras as suas opções e conserve as opiniões para si mesmo. Em público... seja um tanto mais flexível do que seria num outro posto. É tolerado.

—    E esperado?

—    Ambos.

David acendeu um cigarro. Queria desviar a conversa; o velho Granville era um daqueles embaixadores professorais por natureza, que passaria o dia inteiro analisando as sutilezas de seu posto, se tivesse alguém para escutá-lo. Homens assim eram em geral os me­lhores diplomatas, mas nem sempre os mais desejáveis elementos de ligação nas "épocas de atividade. Henderson Granville era um bom homem, porém, e as preocupações que se refletiam no seu olhar eram legítimas.

—      Imagino que Washington tenha delineado a minha finalidade aqui.

—    Sim. Gostaria de dizer que não aprovo. Não a sua pessoa; você recebeu instruções. E suponho que a situação das finanças in­ternacionais ainda continue muito depois de Herr Hitler exalar seu último grito... Talvez eu não seja melhor que o GOU. Assuntos de dinheiro podem tornar-se muito desagradáveis.

—    Este em particular, parece-me.

—    Concordo. Erich Rhinemann é o eterno companheiro do vento. Um poderoso companheiro, não se iluda, mas totalmente des­provido de consciência. Com a moral de um furacão. Indiscutivel­mente, o homem menos honrado que já conheci. Considero criminoso que seus recursos o tornem figura aceitável a Londres e Nova York.

—     Talvez "necessária" seja um termo mais apropriado.

—     Tenho certeza de que é esta a racionalização, pelo menos.

—     É minha.

—     Claro. Perdoe os limites obsoletos da necessidade, segundo um velho. Mas não briguemos. Você tem a sua missão. Que posso fazer para ajudá-lo? Parece-me que bem pouco.

—     Bem pouco, na verdade, embaixador. Coloque-me apenas na relação do pessoal da Embaixada; qualquer espécie de escritório me servirá, contanto que tenha porta e telefone. E gostaria de ser apre­sentado ao seu criptógrafo. Preciso enviar códigos.

—     Isso me parece ameaçador, palavra — disse Granville, sorrindo sem humor.

—     Rotina, embaixador. Mensagens de Washington. Simples "sim" e "não".

—     Muito bem. O chefe dos nossos criptógrafos chama-se Ballard. Sujeito simpático. Fala sete ou oito idiomas e é um gênio em jogos de salão. Poderá conhecê-lo imediatamente. O que mais?

—     Gostaria de um apartamento.

—     Sim, nós sabemos — interveio Granville, lançando um rápido olhar ao relógio de parede. — A Sra. Cameron descobriu um que, na sua opinião, será aprovado... Washington não nos deu a menor indicação sobre a duração da sua estada, de modo que a Sra. Cameron alugou-o por três meses.

—     É demais. Eu resolverei isso... Creio que é quase tudo, embaixador. Sei que está com pressa.

—     Temo que sim.

David levantou-se e Granville fez o mesmo.

—     Ah, uma coisa, embaixador. Esse Ballard teria uma relação do pessoal da Embaixada? Gostaria de saber os nomes das pessoas.

—     Não somos muitos — disse Granville, fixando David, com um laivo de censura na voz. — Oito ou dez seriam aqueles com quem entraria normalmente em contato. E posso assegurar-lhe que temos as nossas próprias medidas de segurança.

David aceitou a censura.

—     Não se trata disso absolutamente, embaixador. Eu quero real­mente me familiarizar com os nomes.

—     Sim, naturalmente. — Granville rodeou a escrivaninha e acompanhou Spaulding até a porta. — Converse com a minha secre­tária por alguns minutos. Vou chamar Ballard. Ele lhe mostrará a casa.

— Obrigado, embaixador.

Spaulding estendeu a mão para Granville e, ao fazê-lo, pela primeira vez percebeu o quanto ele era alto.

—      Há uma pergunta que eu gostaria de fazer — disse o embai­xador, libertando a mão de David. — Mas a resposta ficará para outra ocasião. Já estou atrasado.

—      Qual é?

—    Eu me pergunto por que os rapazes de Wall Street e do Strand enviaram você. Não creio que haja falta de banqueiros expe­rientes em Nova York ou Londres, não é mesmo?

—    Não há, provavelmente. Mas eu não passo de um elemento de ligação transmitindo mensagens; melhor conservar secreta a infor­mação. Tive experiências nesses setores... num país neutro.

Granville mais uma vez sorriu sem humor.

—      Sim, naturalmente. Tenho certeza de que houve um motivo.

 

Ballard partilhava dois traços em comum com a maioria dos criptógrafos, pensou David. Era um cético e uma fonte de informa­ção, qualidades que, na sua opinião, desenvolviam-se no decorrer de anos decifrando os segredos alheios, só para descobrir que a maioria não tinha importância. Fora também amaldiçoado com o prenome de Robert — em si mesmo aceitável, mas, quando seguido de Ballard, invariavelmente reduzido a Bobby. Bobby Ballard. Lembrando uma figura de sociedade da década de 20 ou então um personagem da­quela história em quadrinhos publicadas em pacotes de cereais.

Não era nem uma coisa nem outra. Era um lingüista inclinado para a matemática, cabeleira ruiva encimando o porte mediano, o corpo musculoso. Um homem simpático.

—      Este é o nosso lar — dizia Ballard. — Já viu o setor de trabalho: grande, barroco e tremendamente abafado nesta época do ano. Espero que tenha sido esperto e providenciado o seu aparta­mento.

-— Você, não? Mora aqui?

—      É mais fácil. Meus mostradores não têm muita consideração e manifestam-se a qualquer hora. Melhor aqui do que vir cor­rendo de Chacarita ou Telmo. E não é mau; de modo geral nos man­temos a distância uns dos outros.

—     Verdade? Há muitos aqui?

—     Não. Todos se alternam. Seis, em geral. Nas duas alas, leste e sul. Granville está instalado nos apartamentos do norte. Além dele, Jean Cameron e eu somos os dois únicos permanentes. Conhecerá Jean amanhã, a menos que a encontremos de saída com o velho. Geralmente, ela o acompanha aos diplochatos.

—     O quê?

—     Diplochatos. A palavra foi inventada pelo velho... uma contração. Surpreendo-me que não a tenha usado com você. Orgu­lha-se dela. Diplochato é um compromisso diplomático aborrecido.

Encontravam-se numa ampla e vazia sala de recepção: Ballard abriu portas que davam para uma pequena sacada. Ao longe, avista­vam-se as águas do rio de la Plata e o estuário de Puerto Nuevo, o porto principal de Buenos Aires.

—     Bonita vista, não é?

—     Certamente — concluiu David, reunindo-se ao criptógrafo na sacada. — Essa Jean Cameron e o embaixador... Isto é, eles...?

—     Jean e o velho? — Ballard soltou uma gargalhada bem-humorada. — Meu Deus, não!. . . Pensando bem, não sei por que me parece tão engraçado. Deve haver muita gente que pensa assim. E isso é engraçado.

—     Por quê?

—     Triste e engraçado ao mesmo tempo, — prosseguiu Ballard, sem se interromper. — O velho e a família Cameron remontam às velhas fortunas de Maryland. Clubes de iatismo em Eastern Shore, blazers, tênis pela manhã — você sabe. Território diplomático. A fa­mília de Jean também fazia parte do círculo. Ela se casou com um Cameron; conhecia-o desde que brincavam de médico nas suas bar­racas Abercrombie. Um romance de gente rica, namorados de in­fância. Casaram-se; veio a guerra; ele abandonou os livros de direito por um TBF — piloto de transporte. Foi abatido no golfo de Leyte. Isso aconteceu no ano passado. Ela ficou meio insana. Talvez mais que isso.

—     Então. . . Granville a trouxe para cá?

—     Isso mesmo.

—     Ótima terapia, para quem pode.

—     Ela provavelmente concordaria com isso. — Ballard voltou à sala de recepção. Spaulding seguiu-o. — Mas a maioria das pessoas dirá que ela paga o que deve pelo tratamento. Trabalha muito e sabe o que está fazendo. Um horário horrível, além dos diplochatos.

—      Onde está a Sra. Granville?

—      Não tenho a menor idéia. Divorciou-se do velho há uns 15 anos.

—      Mas ainda acho que é um bom emprego.

David imaginava, meio distraído, que várias centenas de milha­res de outras mulheres, cujo marido haviam perdido, viviam dia­riamente com essa recordação. Mas afastou o pensamento. Não era da sua conta.

—      Bem, ela é qualificada.

— O quê? — David observava uma pilastra rococó, sem pres­tar muita atenção.

—     Jean passou quatro anos aqui, quando criança. O pai per­tencia ao serviço diplomático. Seria provavelmente embaixador a esta altura, se houvesse continuado... Venha, eu lhe mostrarei o escritó­rio que Granville reservou para você. O serviço de manutenção já deve tê-lo arrumado — disse Ballard, sorrindo.

—     Você esteve me distraindo — riu David, acompanhando o criptógrafo ao corredor.

—     Era preciso. Ficou com uma sala dos fundos. Tão distante que servia de depósito, creio.

—      É evidente que impressionei Granville.

—      Sem dúvida alguma. Ele não consegue decifrá-lo... Eu? Nem tento. — Ballard voltou-se para a esquerda, enveredando por outro corredor. — Esta é a ala sul. Escritórios no primeiro e terceiro andares. Não muitos, três em cada. Apartamentos no terceiro e quarto. O terraço é ótimo para banho de sol, se é que você gosta.

—      Depende da companhia, suponho.

Os dois aproximaram-se de uma ampla escadaria, preparando-se para tomar à esquerda, quando uma voz feminina chamou, no segundo patamar:

Bobby, é você?

—      É Jean — falou Ballard. — Sim — respondeu. — Estou com Spaulding. Desça para conhecer o novo recruta com influência bastante para obter imediatamente seu próprio apartamento.

—      Espere até que ele veja o apartamento!

Jean Cameron surgiu à vista no ângulo do patamar. Era de esta­tura mediana, esguia, e vestia um modelo longo para coquetel, de estampado vivo, mas simples de feitio. Os cabelos castanho-claros, pelos ombros, eram cheios e soltos. Seu rosto era um misto de feições bem marcadas, unidos num conjunto suave. Olhos azuis grandes e vivos; nariz fino, bem delineado; lábios cheios e arqueados num meio sorriso. A pele muito clara estava bronzeada pelo sol argentino.

David notou que Baliard o observava, antecipando sua reação à beleza da moça, e sua expressão era de ironia bem-humorada. Spaulding captou a mensagem: Baliard estivera na fonte e voltara de mãos vazias, pelo menos para quem procurava mais que algumas gotas de água fresca. Compreendeu que seria inútil tentar outra coisa.

Jean Cameron parecia embaraçada com a apresentação na escada. Desceu rapidamente, lábios entreabertos num dos sorrisos mais genuínos que David vira nos últimos anos. Genuíno e totalmente desprovido de insinuações.

—     Bem-vindo — disse ela, estendendo a mão. Graças a Deus, tive uma oportunidade para me desculpar antes que entre na­quele apartamento. Talvez mude de idéia e resolva ficar aqui.

—     É assim tão horrível?

David notou que Jean não era tão jovem como parecia a distância. Já devia ter passado dos 30. Aparentou estar cônscia da ins­peção, mas a aprovação ou o contrário era-lhe indiferente.

—      Serve para uma permanência limitada. Não se pode conseguir nada naquelas bases, caso a pessoa seja americana. É pequeno.

O aperto de mão era firme, quase masculino, pensou Spaulding.

—     Agradeço o trabalho e lamento ter sido a causa.

—     Ninguém mais seria capaz de conseguir qualquer coisa, senão um hotel disse Baliard, tocando o ombro da moça. Seria o con­tato protetor?, pensou David. Os portehos confiam em Mamãe Cameron. Não nos demais americanos.

—     Portenos disse Jean, em resposta à expressão interrogado­ra de Spaulding são as pessoas que moram em B.A...

—     E B.A. não diga quer dizer Montevidéu — replicou David.

—     Ora, mandaram-nos um sujeito esperto —- observou Bal­iard.

—     Você se acostumará prosseguiu Jean. Todos os americanos e ingleses dizem B.A. Montevidéu, é claro acrescentou, sor­rindo. Creio que o vemos com tanta freqüência nos relatórios que falamos automaticamente.

—     Errado interveio Ballard. A justaposição das vogais em "Buenos Aires" é desconfortável para a fala britânica.

—     Isso é mais uma coisa que aprenderá durante a sua estada, Sr. Spaulding disse Jean Cameron, olhando afetuosamente Bal­lard. Tenha cuidado ao dar opiniões nas proximidades de Bobby. Ele tem uma inclinação para discordar.

—    Nunca replicou o criptógrafo. Simplesmente, tenho bastante estima por meus companheiros de prisão e quero esclarecê-los, prepará-los para o mundo exterior, quando forem libertados.

—    Bem, tenho uma licença temporária no momento e, se não for agora mesmo para o gabinete do embaixador, ele começará a me procurar por aquele maldito sistema de alto-falante... Mais uma vez, bem-vindo, Sr. Spaulding.

—      Por favor, meu nome é David.

—      O meu é Jean. Ciao -disse a moça, descendo apressada o corredor e depois voltando-se para perguntar: Bobby? Você está com a chave e o endereço? Do apartamento de...David?

—      Estou. Vá embriagar-se irresponsavelmente, eu cuido de tudo.

Jean Cameron desapareceu numa. porta à direita.

—    Ela é muito atraente observou Spaulding e vocês são bons amigos. Devo pedir desculpas por. ..

—    Não, não deve interrompeu Ballard. Não há motivos para se desculpar. Fez um juízo apressado, baseado em fatos isola­dos. Eu teria feito o mesmo, pensado da mesma maneira. Não que você tenha mudado de idéia; não há razão, na verdade.

—    Ela tem razão. Você discorda antes mesmo de saber por que está discordando. E depois debate a sua posição. E, se continuar, é provável que ponha em dúvida a posição anterior:

—      Sabe de uma coisa? Eu entendi isso. Não é assustador?

—    Vocês são uma raça à parte falou David, rindo e acompanhando Ballard escada acima e no pequeno corredor além.

—    Vamos dar uma rápida olhada no seu cubículo siberiano e depois seguir para a sua outra sala. Fica em Córdoba. Estamos em Comentes. Cerca de 10 minutos daqui.

 

David agradeceu a Bobby Ballard mais uma vez e fechou a porta do apartamento. Pretextara exaustão da viagem, precedida de exces­so de boas-vindas em Nova York Deus sabia que era verdade. Ballard não se importaria de adiar o jantar?

Sozinho, inspecionou o apartamento; não era de modo algum intolerável. Era pequeno: quarto, sala e cozinha conjugadas, e ba­nheiro. Mas havia um dividendo que Jean Cameron não mencionara. O apartamento ficava no térreo e aos fundos havia um minúsculo pátio com piso de tijolos, cercado por um alto muro de concreto coberto de trepadeiras e flores que tombavam de imensos potes colo­cados na borda. No centro, via-se uma retorcida árvore frutífera que ele não soube identificar; ao redor do tronco havia três cadei­ras de corda que tinham visto melhores dias, mas pareciam extremamente confortáveis. Para ele, aquele dividendo fazia a morada.

Ballard observara que aquela parte da Avenida Córdoba ficava nos limites da zona comercial, o complexo central de Buenos Aires. Semi-residencial, mas bastante próxima às lojas e restaurantes, para facilitar a vida de um recém-chegado.

David tomou o telefone; o sinal para discar não veio imediatamente, mas acabou soando. Recolocando o fone no gancho, atraves­sou a pequena peça, em direção à geladeira, um modelo reduzido da Sears Roebuck. Abrindo-a, sorriu. Cameron — ou outra pessoa — providenciara os itens básicos: leite, manteiga, pão, ovos, café. De­pois, satisfeito, avistou duas garrafas de vinho — um Orfila tinto e um Cólon blanco. Fechando a geladeira, entrou no quarto.

Abriu a mala única, desenrolando uma garrafa de scotch e lembrando-se de que precisaria comprar roupas, de manhã. Ballard ofe­recera-se para acompanhá-lo a uma loja de artigos masculinos na Calle Florida — se seus malditos "mostradores" não estivessem fun­cionando. Colocou os livros que Eugene Lyons lhe dera na mesinha de cabeceira. Lera dois e começava a se familiarizar com a lingua­gem da aerofísica. Precisaria fazer um estudo comparativo em alemão para se sentir realmente seguro. Percorreria as livrarias da colônia alemã no dia seguinte: não procuraria textos definitivos, apenas o bastante para compreender os termos. Na verdade, era uma parte insignificante de sua missão, ele bem sabia.

Súbito, lembrou-se de Walter Kendall. Kendall já estaria em Bue­nos Aires, ou chegaria dentro de horas. O contabilista saíra dos Es­tados Unidos mais ou menos ao mesmo tempo que ele, mas o vôo de Nova York era mais direto, com menos escalas.

Perguntou a si mesmo se seria praticável ir ao aeroporto e localizar Kendall. Se não houvesse chegado, esperaria por ele. Se ti­vesse, seria simples verificar os hotéis — segundo Ballard, havia apenas três ou quatro bons.

Por outro lado, qualquer tempo — além do absolutamente essencial — gasto em contato com o contabilista não era uma pers­pectiva agradável. Kendall ficaria perturbado encontrando-o em Bue­nos Aires antes que ele expedisse a ordem para Swanson. Exigiria, sem dúvida, explicações além das que David desejava dar-lhe e pro­vavelmente enviaria irados telegramas a um já tenso general-de-brigada.

Não valia a pena caçar Walter Kendall até que fosse o momen­to de Kendall encontrá-lo. Só traria desvantagens.

Tinha outras coisas a fazer: o quadro desfocado. Sozinho, poderia fazer muito melhor a busca.

Regressou à minúscula cozinha levando o scotch e tirou da ge­ladeira a bandeja do gelo. Preparando um drinque, voltou-se para a grande porta que se abria para o pátio em miniatura. Passaria al­guns momentos tranqüilos ao anoitecer, na brisa de janeiro, em Bue­nos Aires.

O sol descaía no horizonte da cidade; os últimos raios alaranjados infiltravam-se através da espessa folhagem da árvore não iden­tificada. Sob a copa, David estendeu as pernas e reclinou-se na ca­deira de corda trançada, percebendo que, se mantivesse os olhos fechados, só os reabriria horas depois. Precisava cuidar disso. Longa experiência em ação ensinara-lhe a comer algo antes de dormir.

Há muito que alimentar-se deixara de ser um prazer, para se transformar numa simples necessidade, diretamente relacionada com o nível de energia. Perguntou a si mesmo se o prazer algum dia vol­taria; se tanta coisa de que se afastara lhe seria devolvida. Lisboa gozava provavelmente das melhores acomodações alimentação, conforto- entre todas as grandes cidades, exceto Nova York, em ambos os continentes. E agora ele se encontrava num terceiro continente, núma cidade que se gabava de um luxo sem falhas.

Mas para ele era o campo de batalha, tanto quanto o norte da Espanha. Tanto quanto a região basca e Navarra e as geladas noites nas colinas da Galícia e nas silenciosas ravinas, à espera das patru­lhas à espreita para matar.

Estranho.

Inclinou a cabeça para tomar um comprido gole, apoiando-a no encosto da cadeira. Um passarinho tagarelava na bifurcação dos galhos, aborrecido com a sua intrusão. Lembrou-lhe que gostava de ouvir os pássaros no norte. Eles telegrafavam a aproximação de ho­mens invisíveis, com freqüência passando a diferentes ritmos, que ele aprendeu a identificar ou julgava identificar com o número de patrulheiros que se aproximavam furtivamente.

David percebeu então que o passarinho tagarela não se preocupava com ele. Saltava para cima, emitindo seu áspero gritinho, só que mais rápido e mais estridente.

Havia outra pessoa nas proximidades.

Através dos olhos semicerrados, David focalizou para além da folhagem, sem mover parte alguma do corpo ou da cabeça, como se estivesse a ponto de adormecer.

O prédio de apartamentos tinha quatro pavimentos e um telhado que parecia descair suavemente, coberto por telhas de cerâmica de um rosa acastanhado. As janelas dos quartos superiores estavam qua­se todas abertas para as brisas do rio de la Plata e ele ouvia trechos de conversa em voz baixa, nada de ameaçador, nenhuma vibração estridente. Era a Buenos Aires na hora da siesta, segundo Ballard; muito diferente da tarde romana, ou da hora de almoço em Paris. O jantar em B.A. era muito tardio pelos horários do resto do mundo. Dez, dez e trinta, até meia-noite não eram fora do comum.

O pássaro estridente não estava preocupado com os habitantes do prédio de apartamentos, mas continuava com os seus gritos de alarma.

E então David viu a razão.

No telhado, disfarçados, mas não ocultos pelos ramos da árvore, viam-se os contornos de dois homens.

Estavam agachados, olhando para baixo, fixando-o, com certeza.

Spaulding calculou a posição do galho principal da árvore e ro­lou levemente a cabeça, como se o sono desde tanto tempo adiado houvesse chegado — o pescoço, repousando, exausto, no ombro di­reito: o drinque, mal seguro pela mão frouxa, a milímetro do piso de tijolos.

Assim, podia ver melhor, mas não muito bem. O bastante, porém, para distinguir a silhueta nítida, reta, do cano de um rifle, o sol refletindo-se no aço negro. Estava estacionário, em posição de aten­ção, sob o braço direito. Não havia movimento para erguê-la, ou apontá-la. Estava imóvel, em guarda.

De certo modo, era mais ameaçadora assim, pensou Spaulding. Como se estivesse nos braços de um guarda assassino, que tinha a certeza de que seu prisioneiro não poderia saltar a barreira. Havia tempo de sobra para levar a arma ao ombro e atirar.

David continuou com a representação. Erguendo de leve a mão, deixou cair o drinque. O ruído "despertou-o"; meneou a cabeça, sa­cudindo o fingido sono, e esfregou os olhos. Ao fazê-lo, voltou ca­sualmente a cabeça para cima. As silhuetas do telhado- haviam re­cuado nas telhas de cerâmica. Não haveria disparos. Não dirigidos a ele.

Recolhendo os fragmentos do copo, levantou-se e entrou no apar­tamento como um homem cansado, aborrecido com seu próprio des­cuido, devagar, mal controlando a irritação.

Ultrapassando a porta, fora da visão dos que estavam no telhado, atirou os fragmentos do copo na lata de lixo e entrou rápido, no quarto. Abrindo a gaveta superior, afastou alguns lenços e apa­nhou o revólver.

Colocando-o no cinto, pegou o casaco da cadeira onde o atirara anteriormente, vestiu-o e verificou se ocultava a arma.

Atravessando a sala, dirigiu-se à porta e abriu-a silenciosamente.

A escada ficava junto à parede esquerda e David praguejou contra si mesmo contra o arquiteto que construíra aquele prédio da Avenida Córdoba e contra a profusão de madeira existente na Ar­gentina. As escadas eram de madeira brilhantemente encerada, não ocultando o fato de serem antigas e provavelmente estalarem como o diabo.

Fechando a porta do apartamento, aproximou-se da escada, apoiando o pé no primeiro degrau.

Ouviu-se o estalo sólido das lojas de antiguidade.

Precisava subir quatro patamares. Os três primeiros não tinham importância. Galgou os lances de dois em dois degraus, descobrindo que se ficasse junto à parede o ruído da subida era minimizado.

Sessenta segundos após, encontrava-se diante de uma porta fe­chada e ostentando um letreiro em rebuscada letra castelhana:

"El Techo".

O telhado.

A porta e as escadas eram velhas. Décadas de calor e umidade haviam feito a madeira inchar nas dobradiças. As bordas estavam comprimidas contra a moldura.

Também ela gritaria a sua chegada se a abrisse lentamente.

Não havia outro jeito: retirou a arma do cinto e recuou um passo no minúsculo patamar. Calculou a moldura, as paredes de con­creto que rodeavam a velha porta de madeira e, inspirando, moveu a maçaneta e escancarou-a, saltando diagonalmente para a parede direita e encostando-se ao concreto.

Os dois homens giraram, estupefatos. Estavam a nove metros de David, na borda do telhado inclinado. O do rifle hesitou e depois ergueu a arma para atirar. Spaulding apontou a pistola direto ao peito do homem. Contudo, ele não parecia disposto a atirar no alvo; a hesitação era deliberada, não o resultado de pânico ou indecisão.

O segundo homem gritou, em espanhol; David reconheceu o sotaque do sul da Espanha, não da Argentina.

—      Por favor, señor!

Spaulding respondeu em inglês para verificar se compreendiam ou não:

—      Baixe esse rifle! Agora!

O primeiro obedeceu, segurando-o pelo cano.

—      Está enganado — disse, em inglês hesitante. — Tem havido... como se diz?.. . ladrones... na vizinhança.

David caminhou sobre a trave metálica, passando ao telhado e mantendo a pistola apontada para os dois.

—     Não são muito convincentes. Se dan corte, amigos. Não são de Buenos Aires.

—     Há muita gente nesta vizinhança como nós: deslocados, señor. Esta é uma comunidade de.... pessoas que não nasceram aqui — disse o segundo.

—     Estão dizendo que não se encontram aqui por minha causa? Não estavam me vigiando?

      É coincidência, garanto — falou o do rifle.

—      Es la verdad — acrescentou o outro. — Duas habitaciones foram assaltadas na semana passada. A polícia não ajuda; somos extranjeros para eles. Protegemos a nós mesmos.

Spaulding observou atentamente os dois. Não havia hesitação na expressão, nenhum sinal de que mentiam, nenhum medo essencial.

      Sou da Embaixada americana — falou David, secamente. Não houve reação de nenhum dos dois. — Peço que se identifiquem.

—     Qué cosa? — perguntou o da arma.

—     Documentos. Nomes... Certificados.

—      Por cierto, en seguida. — O segundo enfiou a mão no bolso da calça e Spaulding ergueu a pistola ligeiramente, num aviso.

O homem hesitou, mas não revelou medo.

      Somente um registro señor. Todos nós temos que andar com ele... Por favor, na minha cartera.

David estendeu a mão esquerda quando o homem entregou-lhe uma carteira de couro barata. Abriu-a, com leve remorso. Havia uma espécie de desamparo nos dois estrangeiros. Vira aquela ex­pressão mais de mil vezes. Os falangistas de Franco eram especialis­tas em provocá-la.

Olhou rapidamente o recorte de celofane da carteira; estava rachado pelo uso.

Súbito, o cano do rifle abateu-se sobre o seu punho direito; a dor foi terrível. Depois, sentiu que lhe torciam a mão com habilidade, para dentro e para baixo, e não teve opção senão largar a arma e ten­tar atirá-la com um pontapé para fora do teto inclinado. Segurá-la seria quebrar o pulso.

Foi o que fez enquanto imobilizavam seu braço esquerdo — de novo com habilidade —, passando-o sobre o pescoço. Atirou o pé contra o homem armado que lhe segurava a mão, atingindo-o no estômago. Quando ele se dobrou para a frente, deu-lhe novo ponta­pé, fazendo-o rolar pelo teto inclinado.

David caiu na direção para onde lhe prendiam o braço — para baixo e para trás — e, quando o primeiro adversário retomou a po­sição, ergueu o braço direito, mergulhando o cotovelo na virilha do homem. Seu braço foi libertado, enquanto o outro procurava re­cuperar o equilíbrio.

Não foi bastante rápido. Spaulding girou para a esquerda e ergueu o joelho, mergulhando-o no pescoço do adversário. O rifle caiu ruidosamente nas telhas e rolou na superfície inclinada. O ho­mem caiu, sangue jorrando da boca onde os dentes haviam rasgado o lábio.

Spaulding ouviu um ruído na retaguarda e voltou-se.

Tarde demais. O segundo extranjero saltou sobre ele e David ou­viu o assobio de sua própria pistola cortando o ar e descendo sobre o seu crânio.

Escuro total. Vácuo.

—     Descreveram a atitude certa, mas no setor errado da cidade disse Ballard, sentado do outro lado do quarto de David, que segurava um saco de gelo sobre a cabeça. Os estrangeiros estão concentrados a oeste do distrito de La Boca. São bastante elevados os índices de criminalidade por ali; a polícia prefere passear nos parques que andar por aquelas ruas. E o grupo o GOU não gosta dos estrangeiros.

—     Você não está ajudando disse Spaulding, descrevendo círculos com o saco de gelo na parte posterior da cabeça.

—     Bem, eles não queriam matá-lo. Poderiam tê-lo atirado do telhado ou deixado na borda; o mais provável seria que você rolasse, caindo quatro andares abaixo...

—     Eu sabia que não queriam me matar...

—     Por quê?

—     Poderiam tê-lo feito antes, com toda a facilidade. Creio que estavam esperando que eu saísse. Já desfizera as malas. Teriam o apartamento só para eles.

—     Para quê?

—     Para revistar minha bagagem. Já fizeram isso antes.

—     Quem?

—     Gostaria de saber.

—     Agora, quem é que não está ajudando?

—     Desculpe... Diga-me, Bobby, quem exatamente sabia que eu viria para cá? Como foi resolvida a questão da minha vinda?

—  Primeira pergunta: três pessoas. Eu, naturalmente. Estou no rádio. Granville, é óbvio. E Jean Cameron. O velho pediu-lhe que arranjasse um apartamento. ..Mas isso você já sabe. Segunda pergunta: muito confidencialmente. Lembre-se de que as ordens vie­ram à noite. De Washington. Jean estava jogando xadrez com Granville no apartamento dele quando eu levei os ovos...

—     O quê?

—     Scrambler. Washington enviou seu rádio num código scrambler. Isto significa que somente eu e meu principal auxiliar podemos recebê-lo e entregá-lo ao embaixador.

—     Muito bem. E depois?

—     Nada. Nada que você já não saiba.

—     Diga assim mesmo.

Ballard soltou um prolongado suspiro, condescendendo em res­ponder:

—      Nós três estávamos sozinhos. Que diabo, eu li a mensagem e as instruções eram claras quanto ao apartamento. Então, Granville aparentemente concluiu que Jean era a pessoa lógica para descobri-lo. Disse a ela que você vinha e pediu que fizesse o possível em tão curto espaço de tempo. — Ballard olhou em volta e na direção do pátio. — E não se saiu nada mal.

— Então, é isso: eles têm uma rede cobrindo a cidade, nada fora do comum. Ficam de olho nos apartamentos desocupados, pen­sões, hotéis, que são os mais fáceis.

—     Creio que não compreendo.

—     Podemos ser muito espertos, mas não conseguimos modificar uma coisa básica: precisamos de um lugar para dormir e tomar banho.

—     Ah, isso eu entendo, mas não se aplica ao caso. A partir de amanhã você não será segredo. Até então, sim. D.C. disse que você viria sozinho; não tínhamos idéia precisa de quando ou como... Jean não alugou este apartamento para você. Não em seu nome.

— Não? — David estava mais preocupado do que sua expressão indicava. Os dois estrangeiros tinham que estar no telhado antes que ele chegasse. Ou pelo menos minutos após sua chegada. — Como foi que ela o alugou, então? Que nome usou? Eu não queria cober­tura. Não recomendei nenhuma.

—      Eu pensei que era eu quem falava depressa. Domingo é do­mingo, segunda é segunda. No domingo, não o conhecemos; na se­gunda, sim. Foi o que Washington sugeriu. Não queriam nenhuma notícia da sua chegada e, por falar nisso, se você resolvesse ficar à distância, nós deveríamos concordar com os seus desejos. Tenho certeza de que Granville perguntará a você o que deseja fazer pela manhã... Como foi que Jean alugou o apartamento? Conhecendo-a, sei que deve ter sugerido que o embaixador tem uma garota, ou algo parecido. Os portenos mostram-se muito simpáticos nesse tipo de coisa. A Paris da América do Sul... Uma coisa eu sei: ela não teria usado seu nome. Ou qualquer outro disfarce óbvio. Usaria antes o dela próprio.

—    Rapaz — murmurou Spaulding, cansado, retirando o saco de gelo e apalpando a cabeça. Examinou os dedos. Apresentavam tra­ços de sangue.

—    Espero que não pretenda bancar o herói com esse corte na cabeça. Devia consultar um médico.

—    Nada de heróis. — David sorriu. — Mas preciso que me removam algumas suturas. O melhor é que seja esta noite, se você puder providenciar.

—    Posso providenciar. Onde colocaram os pontos?

—    Sofri um acidente nos Açores.

—    Você viaja bastante, não é?

—    E também quem chega antes de mim.

 

      A Sra. Cameron se encontra aqui a pedido meu, Spaulding. Entre. Conversei com Ballard e o médico. Pontos retirados e outros colocados. Deve sentir-se como uma almofada de alfinetes.

Granville encontrava-se à sua escrivaninha barroca, confortavelmente reclinado numa cadeira de espaldar alto. Jean Cameron es­tava sentada num sofá junto à parede da esquerda; uma das cadei­ras diante da escrivaninha destinava-se evidentemente a David. Deci­diu esperar que Granville a indicasse antes de se sentar. Não estava certo de gostar do embaixador. O escritório que lhe fora reservado era de fato muito afastado e usado para depósito.

      Nada sério, embaixador. Se fosse, eu diria.

Spaulding cumprimentou Jean de cabeça e notou-lhe a preocupa­ção. Ou pelo menos foi o que julgou ler nos seus olhos.

      Seria tolo se não dissesse. O médico declarou que o golpe da cabeça felizmente caiu entre áreas de concussão. Senão, você estaria em má situação.

      Foi dado por um homem experiente.

      Compreendo... Nosso médico não gostou muito das suturas que removeu.

—      Parece ser uma opinião médica generalizada. Mas serviram à sua finalidade. O ombro está ótimo. Ele o coseu.

—     Sim... Sente-se, sente-se.

David sentou-se.

—     Obrigado, embaixador.

—      Suponho que os homens que o atacaram ontem à noite eram provincianos. Não portenos.

Spaulding teve um rápido sorriso e voltou-se para Jean Cameron.

—      Cheguei aos portenos. Suponho que provincianos signifique o que diz a palavra. Gente do interior? De fora da cidade?

—      Sim — disse a moça, em voz baixa. — Da capital, B.A.

—      Duas culturas inteiramente diversas — prosseguiu Granville. — Os provincianos são hostis e com razão. São realmente explo­rados. Os ressentimentos estão fervilhando. O GOU nada fez para acalmar o assunto e só os convoca para as classes mais baixas.

—      Os provincianos são nativos da Argentina, não são?

—     Certamente. De seu ponto de vista, muito mais que os de Buenos Aires, os portenos. Menos sangue italiano e alemão, para não falar no português, no balcânico e no judeu. Há ondas de imigrantes, compreende...

—     Então, embaixador — interveio David, esperando deter outra análise do diplomata pedagogo —, eles não eram provincianos. Cha­maram-se de extranjeros. Pessoas deslocadas, foi o que entendi.

—     Extranjero é um termo um tanto sarcástico. Morbidez às avessas. Como se fosse empregado por um índio de reserva em Wash­ington. Um estrangeiro em seu próprio país, compreende?

—     Aqueles homens não eram da Argentina — disse David, tranqüilamente, ignorando a pergunta de Granville. — Sua fala era consideravelmente alienígena.

—      Verdade? É especialista?

— Sou, nesta questão.

—     Compreendo. — Granville inclinou-se para a frente. — Atri­bui o ataque a questões da Embaixada? A questões das nações aliadas?

—     Não tenho certeza. Em minha opinião era eu o alvo. Gostaria de saber como descobriram que cheguei.

Jean Cameron falou, do sofá:

—      Examinei tudo o que eu disse, David. — Calou-se, numa breve pausa, cônscia de que o embaixador a fixara ao ouvir o pri­meiro nome de Spaulding. — O seu foi o quarto apartamento que visitei. Comecei às 10 da manhã e, por volta das duas horas, en­contrei-o, alugando-o imediatamente. Lamento dizer que foi o pátio que me convenceu.

David sorriu para ela.

—    Seja como for, segui para o escritório da locadora, na Viamonte. Gerald Baldez é o proprietário; todos nós o conhecemos. É partisan. Não gosta dos alemães. Esclareci que queria alugar o apar­tamento para uma das quatro pessoas que moravam aqui e que, francamente, achava muito estreitas as limitações da Embaixada. Ele riu e disse que tinha a certeza de que era Bobby. Não discordei.

—    Mas foi um aluguel por pouco tempo — observou David.

—    Usei como desculpa, que a pessoa talvez não gostasse do apartamento. É um contrato comum por três meses.

—    Por que Bobby — ou qualquer outra pessoa — gostaria de ter seu próprio apartamento?

—    Por diversas razões, também comuns... aqui — Jean sorriu, meio embaraçada, segundo pareceu a David. — Conheço a cidade melhor que muitos. Morei aqui vários anos. Além disso, há também a questão das despesas. Sei regatear. E homens como Bobby têm trabalho urgente a fazer. Meus horários são mais flexíveis. Tenho tempo.

—    A Sra. Cameron é muito modesta, Spaulding. Ela é um valioso elemento da nossa pequena comunidade.

—    Tenho certeza que sim, embaixador... Então, acha que ninguém teve razões para suspeitar que estava alugando o apartamento para um novo adido?

—    De maneira alguma. Foi tudo feito de maneira tão... tranqüila, se é que me entende.

—    E o proprietário do prédio?

—    Não o vi. A maioria dos apartamentos pertence a pessoas abastadas, que moram em Telmo ou Palermo. Tudo é feito através de agências.

David voltou-se para Granville.

—    Houve algum chamado para mim? Recados?

—    Não. Não que eu saiba, e tenho certeza de que saberia. Entrariam em contato com você, naturalmente.

—    Um homem chamado Kendall...

—    Kendall? — interrompeu o embaixador. — Conheço esse nome... Kendall. Sim, Kendall. — Granville remexeu papéis na es­crivaninha. — Está aqui. Um certo Walter Kendall chegou ontem à noite. No vôo das 22:30. Está hospedado no Alvear, próximo ao parque de Palermo. Bom hotel, dos antigos, — Granville fixou Spaulding, subitamente. — Ele consta da relação como economista industrial. É uma descrição um tanto vaga, não é? Seria o banqueiro a que se referiu ontem?

—      Ele tomará certas providências relativas às minhas instruções. David não ocultou a relutância em aprofundar-se na questão de Walter Kendall. Por outro lado, viu-se oferecendo instintivamente um esclarecimento a Jean Cameron. Minha missão primordial aqui é agir como elemento de ligação entre círculos financeiros de Nova York e Londres e interesses bancários aqui em Buenos Aires... B.A. David sorriu tão sinceramente quanto Jean sorriu. Creio que é meio tolo. Não sei distinguir um débito de um crédito. Mas Washington me aprovou. O embaixador está preocupado porque sou demasiado inexperiente.

Spaulding voltou rápido o olhar para Granville, lembrando ao velho que "interesses bancários" eram o limite de sua identidade. O nome Erich Rhinemann estava fora de cogitação.

—      Sim, confesso que estava...Mas isso nada tem a ver com o caso. Gue deseja fazer a respeito do que ocorreu ontem à noite? Creio que deveríamos apresentar uma queixa formal à polícia. Não que faça a mínima diferença.

David silenciou por instantes, considerando os prós e os contras da sugestão de Granville.

—     A imprensa entraria no caso?

—     Muito pouco, creio respondeu Jean.

—     Adidos de embaixada em geral têm dinheiro disse Granville. São roubados de vez em quando. Chamarão ao caso "ten­tativa de roubo". Provavelmente, foi mesmo.

—     Mas o GOU não gosta desse tipo de notícia. Não se ajusta ao ponto de vista dos coronéis, e eles controlam a imprensa. Jean pensava em voz alta, olhando para David. Vou minimizar o caso.

—     E se não nos queixarmos, supondo-se que não tenha sido roubo, estaremos admitindo que foi outra coisa, o que não estou dis­posto a fazer disse Spaulding.

—     Então, uma queixa formal será apresentada esta manhã. Quer ditar um relato do acidente e assiná-lo, por favor? Era óbvio que Granville queria encerrar a reunião. E, para ser franco, Spaul­ding, a menos que eu esteja consideravelmente mal informado, creio que foi feita uma tentativa para roubar um rico americano recém-chegado. Soube que os motoristas dos táxis do aeroporto formaram um verdadeiro bando de ladrões. Os extranjeros seriam participantes lógicos.

David levantou-se, satisfeito ao notar que Jean fazia o mesmo.

—      Aceito sua opinião, embaixador. Os anos passados em Lisboa tornaram-me excessivamente...preocupado. Eu me adaptarei.

—    Creio que sim. Escreva o relatório.

—    Sim, senhor.

—    Conseguirei uma estenógrafa — disse Jean. — Bilíngüe, — Não é necessário. Ditarei em espanhol.

—      Havia, esquecido — sorriu Jean. — Bobby disse que nos man­daram alguém muito brilhante.

 

David supôs que tudo começou depois daquele primeiro almoço. Mais tarde, ela disse que foi antes, só que ele não acreditou. Ela afirmou que foi quando ele disse que B.A. significava Montevidéu. Era uma tolice, não fazia sentido.

O que fazia sentido — e ambos o reconheceram, sem qualquer tentativa de verbalizá-lo — era a total descontração que sentiam na presença um do outro. Era muito simples. Um tremendo conforto. Os silêncios jamais eram desagradáveis, o riso vinha fácil e baseado em humor comunicado, não reação forçada.

Era extraordinário. Mais ainda, na opinião de David, porque ele nem o esperava nem procurara. Ambos tinham boas razões para evitar quaisquer relacionamentos que não fossem superficiais, ou pouco além disso. Ele era um homem impermanente, esperando apenas so­breviver e recomeçar em outro lugar, de cabeça desembaraçada e lembranças recalcadas. Isso era importante para ele. E sabia que ela continuava a chorar tão profundamente um homem que não poderia — sem remorso intolerável — afastar aquele rosto e aquele corpo da sua mente.

Ela própria o disse em parte. O marido não fora a imagem do ousado piloto de transporte tantas vezes delineada pelas Relações Públicas da Marinha. Sentira um medo extraordinário — não por si mesmo, mas por tirar outras vidas. Não fosse pela vergonha que, ele o sabia, recairia sobre sua mulher e família que viviam em Maryland, Cameron teria procurado um status de objeção conscien­ciosa. Mas é possível que também não tivesse a coragem de suas próprias convicções.

Por que piloto?

Cameron voava desde adolescente. Parecia-lhe natural e acredi­tava que seu treino civil o conduzisse a um papel de instrutor nos Estados Unidos. Rejeitava a lei militar; um número excessivo de seus companheiros advogados havia procurado esta saída e acabado na infantaria ou no convés de navios de guerra. Os militares tinham advogados suficientes. Queriam pilotos.

David achou ter compreendido o motivo pelo qual Jean tanto falou a respeito do mando falecido. Havia duas razões. A primeira era que, ao fazê-lo abertamente, ela se adaptava ao que sentia estar acontecendo entre eles; penitenciando-se, talvez. A segunda era menos clara, mas de modo algum menos importante. Jean Cameron detes­tava a guerra; detestava o que ela lhe arrebatara. Queria que ele soubesse disso.

Porque — David o percebeu — o instinto dizia que ele esta­va muito interessado. E ela não queria fazer parte daquele envolvimento; devia isto à memória de Cameron.

Almoçaram em um restaurante que dava para as águas da bacia de Riachuelo, próximo ao cais de Dársena Sud. Ela o sugerira — o restaurante e o almoço. Notou que ele ainda estava exausto; o pouco que dormira fora interrompido constantemente pela dor. In­sistira em que ele precisava de um almoço prolongado, tranqüilo; depois, voltar para a cama e recuperar-se durante um dia inteiro.

Não pretendia acompanhá-lo.

Ele não pretendia que ela o acompanhasse.

—   Ballard é um bom sujeito — disse Spaulding, servindo Colon branco.

—   Bobby é um amor — concordou ela. — É um homem muito bom.

—   Gosta muito de você.

—   E eu dele... O que você está especulando é muito natural e lamento negar a melodia mais intensa. "Melodia" estará certo? Granville me disse quem eram seus pais. Fiquei impressionada.

—   Recusei-me a ler música desde a idade de oito anos, mas "melodia" está perfeito. Apenas especulei.

—   Bobby fez uma tentativa inteiramente profissional, com imen­so encanto e bom humor. Uma moça melhor que eu teria reagido. Ele tinha todo o direito de ficar zangado... Eu queria a companhia dele, mas pouco dava em troca.

—   Ele aceitou os seus termos — afirmou David.

—   Eu disse que ele era um homem muito bom.

—   Deve ter havido uma dúzia de outros...

—   E mais os marines — interrompeu Jean, fingindo uma encantadora e pouco militar continência. — Não os esqueça.

— Cento e dez, neste caso. Você é Deanna Durbin.

—   Dificilmente. Os marines fazem rodízio na base FMF, ao sul de La Boca; a oficialidade — desembaraçada de mulher e filhos — está acometida de "síndrome da Embaixada".

—   Que significa isso?

—   Doença do Departamento de Estado... Tremores. Você me parece singularmente livre dela.

—     Não sei se estou ou não. Ignoro o que seja.

—     Isso me revela algo a seu respeito, não é mesmo?

—     Que é que revela?

—     Que não é um dos que querem fazer carreira no Departamento de Estado. A síndrome leva a caminhar nas pontas dos pés e certificar-se de que todos os seus superiores, especialmente o em­baixador, estejam satisfeitos com os seus sinceros esforços.

Jean fez uma caretinha de filhote de boxer, erguendo o queixo delicado, descendo as sobrancelhas, zombando do que dizia. Spaulding desatou a rir; a moça captara o ar e a voz da Embaixada com arrasadora fidelidade.

—     Vou colocá-lo no rádio — disse ele, rindo novamente. — Descreveu a síndrome de modo que eu a vejo nitidamente! Meu Deus, como vejo!

—     Mas você não está infectado por ela — Jean interrompeu a mímica para fixá-lo nos olhos. — Observei-o com Granville; mal conseguia ser polido. Não estava à procura de um relatório favorá­vel, estava?

Ele retribuiu o olhar.

—      Não, não estava... Respondendo à pergunta que está chocalhando tão alto nessa sua encantadora cabecinha que chega a vi­brar, não sou oficial de carreira no serviço diplomático. Estritamen­te, elemento de tempo de guerra. Trabalho com embaixadas numa variedade de missões relacionadas, por uma série de razões diferen­tes. Falo quatro idiomas e, por causa desses pais que tanto a impres­sionaram, possuo o que é eufemisticamente descrito como "acesso a gente importante no governo, no comércio, em áreas afins". Já que não sou um completo idiota, com freqüência transmito informações confidenciais entre corporações de diferentes países. O mercado não pára de funcionar por causa de inconvenientes com a guerra... Esta é a minha contribuição. Não me orgulho muito dela, mas foi o que me entregaram.

Ela sorriu o seu sorriso franco e buscou a mão de David.

—     Acho que você faz, seja o que for, muito bem e com inteligência. Não há muita gente que possa dizer o mesmo. E Deus sabe que não se pode escolher.

—     "Que foi que você fez durante a guerra, papai?"... "Bem, filho, viaje de cidade em cidade, dizendo a amigos do Chase Bank para venderem na alta e comprarem na baixa, obtendo uma boa mar­gem de lucro" — falou David, tentando sua própria caricatura e con­servando nas suas as mãos dela.

—     E foi atacado de telhados argentinos e... Que são essas suturas no seu ombro?

—O avião cargueiro em que eu viajava, nos Açores, fez uma péssima aterrissagem. Creio que o piloto e toda a tripulação desa­pareceram.

Olhos nos olhos, Jean retirou a mão, embaraçada. Mas para Spaulding o importante era que acreditasse nele. Aceitara sem per­guntas a sua história. Ocorrera-lhe que se sentia ao mesmo tempo muito aliviado e, de certo modo, aborrecido. Não sentia orgulho profissional em mentir com êxito para ela.

—     Agora já sabe como evitei a síndrome do Departamento de Estado. Ainda não sei bem por que isso é relevante. Que diabo, com 110 homens e marines...

—     Os marines não contam. Têm muitos interesses aqui em La Boca.

—     Então, a oficialidade — os sem mulher e filhos — não pode estar toda interessada.

—     Mas está e sou grata. Gostariam de ir um dia para a corte de St. James.

—      Você está fazendo ginástica mental. Não consigo alcançá-la.

—      Não, não estou. Queria verificar se Bobby havia contado a você. Não contou. Eu disse que ele é um homem bom... Deu-me a chance de contar pessoalmente a você.

—      Contar o quê?

—      Meu marido era enteado de Henderson Granville. Os dois eram muito amigos.

Saíram do apartamento pouco depois das quatro e caminharam pelas docas de Barsena Sud, respirando o ar salgado do mar. David tinha a impressão de que Jean estava se divertindo como não o fazia desde muito tempo. Isso representava parte do "à vontade" instan­tâneo que se estabelecera entre eles, mas era também algo mais pro­fundo. Como se um esplêndido alívio houvesse baixado sobre ela.

Seu encanto fora evidente desde que a vira na escada, mas ao recordar aquela rápida apresentação compreendeu qual era a dife­rença. Jean Cameroh era expansiva, bem-humorada, o próprio char­me acolhedor. Mas antes havia um outro elemento, uma distância nas­cida do autocontrole. Controle total. Uma patina de autoridade que nada tinha a ver com o seu status na Embaixada ou com quaisquer outras vantagens derivadas de seu casamento com o enteado do em­baixador. Relacionava-se unicamente com suas próprias decisões, sua maneira de ver as coisas. Ele notara aquela descontraída autoridade durante toda a manhã — quando o apresentara a vários empregados da Embaixada; quando dera instruções à sua secretária; quando aten­dera ao telefone, dando rápidas instruções.

Mesmo no relacionamento com Bobby Ballard, ela deslizava com firmeza, com a segurança de quem conhece o seu caminho. Ballard poderia gritar-lhe bem-humorado que fosse "embriagar-se irrespon­savelmente" porque, nem com o maior esforço de imaginação, ela se permitiria tal coisa.

Jean conservava-se sob rígido controle.

A rigidez começava a desfazer-se.

Na véspera, ele a observara de perto, notando-lhe a idade; ela era totalmente despreocupada, sem vaidades. Agora, caminhando pelo cais, segurando-lhe o braço, estava agradavelmente cônscia dos olha­res que recebia das dúzias de bocamos do local. Spaulding sabia que ela esperava que ele percebesse tais olhares.

—      Veja, David! — exclamou, excitada. — Aqueles barcos vão colidir de frente.

A várias centenas de metros, na baía, duas traineiras se mantinham num curso que levaria à colisão, apitos enchendo o ar cora avisos agressivos, ambas as tripulações gritando uma para a outra, das amuradas de bordo e estibordo.

—      O da direita vai se desviar.

Desviou-se no último momento, entre dúzias de gritos guturais e gesticulações.

—    Como sabia? — perguntou ela.

—    Simples direito de passagem. O proprietário teria que arcar com os custos. Haverá uma briga num desses píeres agora mesmo.

—    Não vamos esperar por ela. Você já deve estar farto de brigas.

Saíram da zona portuária, passando às ruas estreitas de La Boca, onde abundavam os pequenos mercados de peixe, repletos de gordos mercadores de avental ensangüentado e fregueses barulhentos. A re­messa da tarde acabava de entrar, o dia de trabalho na água estava encerrado. O resto era vender, beber e recontar as desventuras das últimas 12 horas.

Chegaram a uma praça em miniatura, chamada — sem qualquer razão aparente — Plaza Ocho Calle; não havia rua com esse nome, nem sequer uma praça. Um táxi parou hesitante na esquina, liberou o passageiro e tornou a movimentar-se, quase bloqueado por pedes­tres que não davam atenção a tais veículos. David olhou para Jean e ela sorriu para ele, anuindo. O rapaz gritou para o chofer.

No interior do táxi, ele deu o seu endereço. Não lhe ocorreu outra coisa.

Viajaram em silêncio por vários minutos, ombros tocando-se, a mão dela sob o seu braço.

—    Que está pensando? — perguntou David, notando-lhe a expressão distante, mas feliz.

—    Na imagem que fiz de você quando Henderson leu a mensa­gem, na outra noite... Sim, eu o chamo de Henderson. Sempre chamei.

—    Não consigo imaginar ninguém, nem mesmo o Presidente chamando-o de Henderson.

—    Você não o conhece. Sob aquela jaqueta do Racquet Club ele é um amor.

—    Como me imaginou?

— Muito diferente.

—    De quê?

—      De você... Pensei que fosse terrivelmente baixo, para começar. Um adido com o nome de David Spaulding — uma espécie de gênio financeiro que pretende conferenciar com banqueiros e co­ronéis sobre assuntos de dinheiro — teria de ser baixo, ter pelo menos 50 anos e pouquíssimo cabelo. Usaria óculos também e teria nariz fino. Provavelmente sofreria de uma alergia qualquer — espirraria muito e viveria assoando o nariz. E falaria em sentenças curtas, con­cisas. Muito preciso e bastante desagradável.

—      E perseguiria secretárias, não esqueça.

—      O meu David Spaulding não perseguiria secretárias. Leria livros pornográficos.

David sentiu um estremecimento. Acrescentando-se a aparência desleixada, o lenço sujo e os óculos — usados de vez em quando —, Jean estaria descrevendo Walter Kendall.

—      O seu Spaulding seria um sujeito desagradável.

—      Não o novo — disse ela, apertando-lhe o braço com mais força.

O táxi parou diante do prédio na Rua Córdoba. Jean Cameron hesitou, fixando momentaneamente a porta. David falou em voz baixa, sem ênfase.

—      Quer que eu a leve à Embaixada?

Ela se voltou para ele.

— Não.

David pagou ao chofer e os dois entraram.

O fio invisível continuava na porta, sentiu-o.

Inseriu a chave na fechadura e instintivamente afastou Jean para o lado, ao abrir a porta. O apartamento estava como ele o deixara naquela manhã. David percebeu que ela notava o seu alívio. Jean entrou e olhou em volta.

—    Não é nada mau, é? — falou.

—    Humilde, mas um lar.

Ele deixou a porta aberta e, com um sorriso, um gesto — sem palavras —, pediu que ela permanecesse onde estava. Entrou rapida­mente no banheiro, voltou e transpôs as portas que se abriam para o pátio em miniatura, cercado de muros altos: Olhou para cima, exa­minando as janelas e' o telhado com atenção, e tornou a sorrir para ela, debaixo dos ramos da árvore. Jean compreendeu e, fechando a porta, aproximou-se.

—      Foi muito profissional, Sr. Spaulding.

—      Segundo a melhor tradição da extrema covardia, Sra. Cameron.

Percebeu o seu erro no minuto em que o. cometeu. Não era o instante de usar o seu nome de casada. Contudo, ainda que tortuo­samente, ela lhe pareceu grata porque o fizera. Aproximando-se, pos­tou-se bem diante dele.

—      A Sra. Cameron agradece.

Ele a enlaçou pela cintura. Os braços de Jean, lentos, hesitantes, ergueram-se para os ombros do rapaz e as mãos contornaram-lhe o rosto, enquanto ela lhe fixava os olhos.

David não se moveu. A decisão, o primeiro passo, tinha que ser dela, ele o compreendia.

Ela ergueu os lábios para os dele. O contato era macio, encantador, feito para anjos presos na Terra. E então ela estremeceu, com um quase incontrolável senso de urgência. Seus lábios entreabriram-• se e ela premiu o corpo com extraordinária força contra o dele, braços enlaçando-lhe o pescoço.

Afastando-se, enterrou o rosto no peito de David, segurando-o com feroz possessão.

—      Não diga nada — murmurou. — Não diga nada... Leve-me.

Ele a tomou nos braços em silêncio e carregou-a para o quarto. Ela manteve o rosto encostado ao seu peito, como se temesse ver a luz ou mesmo David. Colocando-a suavemente na cama, ele fechou a porta.

Em momentos, estavam despidos e ele puxava o lençol para co­bri-los. Foi uma úmida e bela escuridão. Um esplêndido conforto.

—      Quero dizer uma coisa — falou Jean, traçando com o dedo o contorno dos lábios, o rosto inclinado sobre o dele, seios inocen­temente sobre o seu peito. Sorria seu sorriso franco.

—      Eu sei. Você quer o outro Spaulding. O magro, de óculos

—  disse, beijando-lhe os dedos.

—    Ele desapareceu numa espécie de explosão.

—    Você é positivamente descritiva, menina.

—    Não tão menina assim... É sobre isso que quero falar.

— Uma pensão. Quer o seguro social. Verei o que posso fazer.

—    Falo sério, seu tolinho.

—    Nem tão tolo assim...

—    Não há compromissos, David — disse ela, interrompendo-o.

—  Quero que você saiba... Não sei como dizê-lo de outra maneira. Tudo aconteceu tão depressa.

—      Tudo aconteceu muito naturalmente. Explicações não são necessárias.

—      Bem, creio que algumas são. Eu não esperava estar aqui.

—    E eu não esperava que você estivesse. Suponho que desejasse, confesso..., mas não planejei. Nenhum de nós planejou,

—    Não sei. Creio que eu, sim. Creio que quando o vi, ontem, algo no fundo de minha mente tomou uma decisão. Isso parece ou­sado de minha parte?

—    Se foi assim, a decisão já devia ter sido tomada há muito tempo.

—    Sim, imagino que sim. — Deitou-se, puxando o lençol. — Fui muito egoísta. Mimada. E me portei muito mal.

—      Por que não andou dormindo com todo mundo?

Foi a vez de David rolar na cama e tocar-lhe o rosto. Beijou-lhe os olhos, agora abertos, o azul da íris mais azul por causa do sol de final de tarde que se escoava pelas persianas. Ela sorriu; os dentes brancos e perfeitos brilharam na umidade da boca e os lábios curvaram-se naquele humor genuíno, todo seu.

—      Engraçado. Não devo ser patriota. Guardei todos os meus encantos para entregá-los a um não-combatente.

— Os visigodos não teriam aprovado. Segundo me disseram, os guerreiros passavam sempre na frente.

—      Não vamos contar a ninguém. — Acariciou-lhe o rosto. — Oh, David, David, David.

 

—      Espero não tê-lo acordado. Não o teria perturbado se não achasse que preferiria assim.

A voz do Embaixador Granville pelo telefone era mais solícita do que David poderia esperar. Consultou o relógio ao responder. Pas­savam três minutos das 10:00.

—      Como?... Não, senhor. Eu estava me levantando. Lamento ter dormido demais.

Havia um bilhete na mesinha do telefone. Era de Jean.

—      Seu amigo entrou em contato conosco.

—      Amigo? David abriu o bilhete. "Meu querido. Você ador­meceu tão profundamente que eu ficaria desconsolada se acordasse. Chamei um táxi. Até amanhã. Na Bastilha. Sua fênix ex-regimentada. David sorriu, lembrando-lhe o sorriso.

     ... os detalhes, tenho certeza, não importam. Granville dissera qualquer coisa que ele não ouvira.

-— Desculpe, embaixador. A ligação está deficiente. Sua voz desaparece a intervalos.

Todos os telefones para além do Atlântico Norte, Médio e Sul eram instrumentos temperamentais. Um fato inegável.

—      Ou outra coisa, talvez disse Granville, irritado, referindo-se à possibilidade de uma escuta. Assim que chegar, tenha a bondade de me procurar.

—      Sim, senhor. Irei agora mesmo. Tomando o bilhete de Jean, releu-o.

Dissera na véspera que ele estava complicando a vida dela. Mas não havia compromisso, afirmara-o também.

Que diabo era um compromisso? Não queria especular. Não queria pensar na medonha descoberta, no imediato, esplêndido con­forto que ambos experimentavam. Não era o momento...

Contudo, negá-lo seria rejeitar uma extraordinária realidade. E ele fora treinado para lidar com a realidade.

Não queria pensar no assunto.

Seu "amigo" entrara em contato com a Embaixada.

Walter Kendall.

Isto era outra realidade. Não podia esperar. Amassou o cigarro, zangado', observando os dedos comprimirem a ponta no cinzeiro de metal.

—      Por que estava zangado?

Também não queria especular sobre isso. Tinha uma tarefa a cumprir e esperava ter o envolvimento para cumpri-la.

—      Jean me disse que você mal conseguiu jantar. Precisava de uma boa noite de sono. Devo dizer que está com melhor aparência.

O embaixador rodeou a escrivaninha para cumprimentá-lo quan­do ele entrou no amplo e luxuoso gabinete. David sentiu-se um tanto confuso. O velho diplomata mostrava-se solícito, revelando uma preo­cupação que negava sua mal disfarçada desaprovação de dois dias atrás. Ou seria o nome Jean em vez do severo Sra. Cameron?

—     Ela foi muito bondosa. Eu não teria encontrado um restaurante decente sem sua ajuda.

—     Suponho que sim... Não o deterei. Melhor ir logo falar com esse Kendall.

—      O senhor disse que ele entrou em contato...

—     Ontem à noite; esta madrugada, para ser mais exato. Está no Alvear, e aparentemente muito agitado, segundo a telefonista. As 2:30 estava gritando, exigindo que dissessem onde você se encontra­va. Nós não fornecemos esse tipo de informação, naturalmente.

—     Sou muito grato. Conforme disse, precisava dormir. Kendall o teria impedido. Tem o telefone dele? Ou devo obtê-lo no livro?

—      Não, está aqui mesmo.

Granville aproximou-se da escrivaninha e pegou uma folha de papel. Acompanhando-o, David tomou-a da mão do embaixador.

—     Obrigado, embaixador. Vou ligar já.

Voltou-se para a porta e Granville deteve-o.

—     Spaulding?

—    Sim, embaixador.

—    Sei que a Sra. Cameron gostará de vê-lo. Para verificar sua recuperação, suponho. O gabinete dela fica na ala sul, primeira porta à direita, logo à entrada. Sabe onde é?

—    Eu o encontrarei, embaixador.

—    Estou certo que sim. Até mais tarde.

David transpôs a pesada porta barroca, fechando-a ao sair. Seria imaginação, ou Granville estaria manifestando com relutância a sua aprovação à súbita... aliança de Jean? As palavras eram apro­vadoras; o tom de voz, relutante.

Desceu o corredor em direção à ala sul e chegou à porta de Jean. Seu nome estava gravado numa placa de cobre, à esquerda da moldura. Ele não o notara na véspera.

Sra. Andrew Cameron.

O nome do marido era Andrew. Spaulding não perguntara e ela não o dissera.

Fixando a placa de cobre, experimentou uma estranha sensação: ciúmes de Andrew Cameron; ressentiu-se de sua vida, de sua morte.

A porta estava aberta e ele entrou. A secretária de Jean era evidentemente uma argentina. Portena. Os negros cabelos espanhóis estavam penteados para trás, formando um coque, os traços eram latinos.

— Sra. Cameron, por favor. David Spaulding.

—      Entre, por favor. Ela o espera.

David aproximou-se da porta e girou a maçaneta.

Ela foi pega de surpresa, pareceu-lhe. Estava à janela olhan­do para o gramado do lado sul, uma folha de papel na mão, óculos empurrados para a testa, repousando nos cabelos castanho-claros.

Espantada, retirou os óculos do seu apoio e imobilizou-se. Len­tamente, como se o estudasse pela primeira vez, sorriu.

Ele sentiu medo. Mais que medo, por um instante. E então ela falou e a súbita angústia abandonou-o, substituída por um profundo alívio.

—      Acordei esta manhã e procurei você. Quando não a encon­trei, pensei que ia chorar.

Ele se aproximou rápido e abraçaram-se. Nenhum dos dois falou. O silêncio, o abraço, o esplêndido conforto voltaram.

—    Granville agiu corno um intermediário, há instantes — disse finalmente, segurando-a pelos ombros e fitando-a nos olhos azuis que refletiam humor inteligente.

—    Eu disse a você que ele era um amor. Não quis acreditar.

—    Mas não disse que nós dois jantamos, penso. Ou que eu mal consegui me manter acordado.

—      Esperava que você escorregasse e lhe desse um pouco mais em que pensar.

—      Não o compreendo. Ou a você, talvez.

—     Henderson tem um problema... eu. Ele não sabe o que fazer de mim. É super protetor, porque eu o levei a pensar que queria essa proteção. E queria, era mais fácil. Mas um homem que teve três esposas e pelo menos o dobro de amantes no decorrer dos anos não é vitoriano... E ele sabe que você não ficará aqui por muito tempo. Como diria ele, terei traçado um quadro nítido?

—     Julgo que sim — respondeu David, no inglês britânico de Granville.

—     Isso é maldade — riu Jean. — É provável que ele não o aprove, o que lhe torna difícil a sua aceitação verbal.

David libertou-a.

—      Sei muito bem que não aprova... Ouça, tenho que dar alguns telefonemas, sair e encontrar alguém...

—      Apenas alguém?

—      Uma pequena maravilhosa que me apresentará a milhares de outras pequenas maravilhosas. E, cá entre nós, eu não posso su­portá-lo. Mas tenho que falar com ele... Quer jantar comigo?

Sim, jantarei com você. Eu pretendia mesmo. Você não tinha opção.

—      Tem razão, você é ousada.

—      Deixei isso bem claro. Você rompeu o regime. Eu estou emer­gindo do meu monte de cinzas pessoal... A atmosfera é maravi­lhosa.

—      Tinha que acontecer... eu estou aqui.

Não sabia por que havia dito isso, mas teve que dizer.

 

Walter Kendall caminhava de um lado para o outro, como se o quarto do hotel fosse uma jaula. Spaulding, sentado no sofá a obser­vá-lo, tentava decidir que animal Kendall lhe recordava; vários lhe vieram à mente e nenhum era de estimação.

—     Escute — disse Kendall. — Isto não é uma operação militar. Você não dá, recebe ordens.

—     Desculpe, mas acho que me interpretou mal.

David sentiu-se tentado a responder à altura da ira de Kendall, mas resolveu em contrário.

—     Interpretou mal coisa nenhuma! Você disse a Swanson que estava em apuros em Nova York. O problema é seu, não nosso.

—