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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ORIGEM / Dan Brown
ORIGEM / Dan Brown

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Enquanto o antigo trem de cremalheira se arrastava pela encosta vertiginosa, Edmond Kirsch ia examinando o topo serrilhado da montanha. A distância, construído na face de um penhasco íngreme, o enorme mosteiro de pedra parecia suspenso no espaço, fundido magicamente com o precipício vertical.

Esse santuário antiquíssimo na Catalunha, Espanha, tinha sofrido a atração implacável da gravidade durante mais de quatro séculos, jamais escorregando do objetivo original: isolar seus ocupantes do mundo moderno.

Por ironia, agora eles serão os primeiros a saber da verdade, pensou Kirsch, imaginando como reagiriam. Historicamente, os homens mais perigosos da Terra eram homens de Deus... em especial quando seus deuses eram ameaçados. E eu vou arremessar uma lança em chamas contra um ninho de vespas.

Quando o trem chegou ao topo da montanha, Kirsch viu uma figura solitária esperando na plataforma. Um velho esquelético vestindo a tradicional batina católica roxa com roquete branco e um solidéu na cabeça. Kirsch reconheceu as feições duras e ossudas do homem a partir de fotos e sentiu uma inesperada onda de adrenalina.

Valdespino veio me receber pessoalmente.

 

 

 

 

 

 

O bispo Antonio Valdespino era uma figura formidável na Espanha – não somente amigo e conselheiro de confiança do próprio rei, mas também um dos mais influentes e enfáticos defensores da preservação dos valores católicos conservadores e dos padrões políticos tradicionais.

 

– Edmond Kirsch, presumo? – entoou o bispo quando Kirsch saiu do trem.

 

– Culpado – respondeu Kirsch, sorrindo enquanto se adiantava para apertar a mão ossuda do anfitrião. – Bispo Valdespino, quero agradecer por ter arrumado este encontro.

 

– Eu é que agradeço que o tenha requisitado. – A voz do bispo era mais forte do que Kirsch esperava: clara e penetrante. – Não é comum sermos consultados por homens de ciência, em especial um tão importante como o senhor. Aqui, por obséquio.

 

Enquanto Valdespino guiava Kirsch pela plataforma, o ar frio da montanha açoitava sua batina.

 

– Devo confessar que o senhor é diferente do que imaginei – disse Valdespino. – Estava esperando um cientista, mas o senhor é um homem bem-apessoado... – Ele olhou com uma leve sugestão de desdém o elegante terno Kiton K50 e os sapatos de couro de avestruz Barker. – Está, como se diz, nos trinques, não é?

 

Kirsch sorriu educadamente. A expressão “nos trinques” saiu de moda há décadas.

 

– Lendo a lista dos seus feitos – continuou o bispo –, ainda não estou totalmente certo do que o senhor faz.

 

– Sou especializado na teoria dos jogos e em modelagem por computador.

 

– Então o senhor faz os jogos de computador com os quais as crianças brincam?

 

Kirsch sentiu que o bispo estava fingindo ignorância numa tentativa de parecer antiquado. Sabia que Valdespino era um estudioso de tecnologia assustadoramente bem informado e que sempre alertava sobre os seus perigos.

 

– Não, senhor, na verdade a teoria dos jogos é um campo da matemática que estuda padrões com o objetivo de fazer previsões sobre o futuro.

 

– Ah, sim. Acho que li que o senhor previu uma crise monetária na Europa há alguns anos, não foi? Quando ninguém lhe deu atenção, o senhor salvou o mundo inventando um programa de computador que trouxe os Estados Unidos de volta dos mortos. Qual foi mesmo a sua frase famosa? “Aos 33 anos, tenho a mesma idade que Cristo quando ele ressuscitou.”

 

Kirsch se encolheu.

 

– Uma analogia ruim, Reverendíssimo. Eu era jovem.

 

– Jovem? – O bispo deu um risinho. – E quantos anos o senhor tem agora? Quarenta, talvez?

 

– Exato.

 

O velho sorriu enquanto o vento forte continuava a agitar sua batina.

 

– Bom, os mansos deveriam herdar a Terra, mas em vez disso ela foi para os jovens: os que têm vocação tecnológica, os que preferem olhar para monitores de vídeo em vez de para a própria alma. Devo admitir que jamais imaginei que teria motivo para me encontrar com o rapaz que lidera essa batalha. Eles o chamam de profeta, o senhor sabe.

 

– No que diz respeito a Vossa Excelência Reverendíssima, não sou um profeta muito bom. Quando perguntei se poderia ter um encontro privado com o senhor e seus colegas, calculei que a chance de aceitarem seria de apenas 20 por cento.

 

– Como eu disse aos meus colegas, o devoto sempre pode se beneficiar de ouvir os incrédulos. É escutando a voz do diabo que podemos apreciar melhor a voz de Deus. – O velho sorriu. – Estou brincando, claro. Por favor, desculpe meu senso de humor antiquado. De vez em quando meus filtros falham.

 

Em seguida o bispo Valdespino sinalizou adiante.

 

– Os outros estão esperando. Por aqui, por favor.

 

Kirsch olhou para onde iam: uma colossal cidadela de pedra cinza empoleirada na borda de um penhasco íngreme que mergulhava centenas de metros até uma luxuriante tapeçaria de colinas cobertas de florestas. Incomodado com a altura, desviou o olhar do abismo e acompanhou o bispo pelo caminho irregular à beira do penhasco, levando os pensamentos para a reunião que viria.

 

Ele tinha pedido uma audiência com três proeminentes líderes espirituais que haviam acabado de participar de uma conferência ali.

 

O Parlamento das Religiões do Mundo.

 

Desde 1893, centenas de líderes de quase 30 religiões mundiais vinham se reunindo em lugares diferentes, a intervalos de alguns anos, para passar uma semana debatendo sobre suas crenças. Dentre os participantes havia uma variedade de importantes sacerdotes cristãos, rabinos judeus e mulás muçulmanos de todo o mundo, além de pujaris hindus, bhikkus budistas, jainistas, sikhs e outros.

 

O objetivo autoproclamado do parlamento era “cultivar a harmonia entre as religiões do mundo, construir pontes entre diversas espiritualidades e celebrar as interseções de todas as crenças”.

 

Uma busca nobre, pensou Kirsch, apesar de vê-la como um exercício vazio: uma procura sem sentido de pontos aleatórios de correspondência entre uma mixórdia de ficções, fábulas e mitos antigos.

 

Enquanto o bispo Valdespino o guiava pelo caminho, Kirsch olhou para o precipício com um pensamento irônico. Moisés subiu a montanha para aceitar a Palavra de Deus... e eu, para fazer o oposto.

 

Sua motivação, como dissera a si mesmo, era cumprir uma obrigação ética, mas sabia que essa visita era alimentada por uma boa dose de orgulho: estava ansioso para sentar-se cara a cara com aqueles clérigos e sentir o prazer de prever seu fim iminente.

 

Vocês tiveram sua chance de definir nossa verdade.

 

– Olhei o seu currículo – disse o bispo em tom abrupto, virando-se para Kirsch. – Vi que o senhor é cria da Universidade de Harvard.

 

– Na graduação. Sim.

 

– Sei. Recentemente li que, pela primeira vez na história de Harvard, entre os alunos novos, há mais ateus e agnósticos do que os que se dizem seguidores de alguma religião. Essa é uma estatística bastante reveladora, Sr. Kirsch.

 

O que posso dizer?, quis responder Kirsch. Nossos alunos são cada vez mais inteligentes.

 

O vento açoitou com mais força quando chegaram à antiga construção de pedra. À luz fraca da entrada do prédio, o ar estava pesado com a fragrância densa de incenso queimando. Os dois homens serpentearam por um labirinto de corredores escuros e os olhos de Kirsch se esforçaram para se acostumar enquanto ele seguia o anfitrião. Por fim chegaram a uma porta de madeira estranhamente pequena. O bispo bateu, abaixou-se e entrou, sinalizando para o visitante acompanhá-lo.

 

Em dúvida, Kirsch passou pela soleira.

 

Viu-se num aposento retangular cujas paredes altas estavam atulhadas de antigos volumes encadernados em couro. Outras estantes se projetavam das paredes como costelas, intercaladas com aquecedores de ferro fundido que estalavam e sibilavam, dando a fantasmagórica impressão de que a sala estava viva. Kirsch ergueu os olhos para a passarela com parapeito ornamentado que circundava todo o segundo andar. E soube, sem dúvida, onde estava.

 

A famosa Biblioteca de Montserrat, constatou, espantado por ter recebido permissão de entrar ali. Segundo boatos, aquela sala sagrada continha textos raros, acessíveis apenas aos monges que tinham dedicado a vida a Deus e estavam isolados naquela montanha.

 

– O senhor pediu discrição – disse o bispo. – Este é o nosso local mais privativo. Poucas pessoas de fora já entraram aqui.

 

– É um enorme privilégio. Obrigado.

 

Kirsch acompanhou o bispo até uma grande mesa de madeira onde dois homens idosos estavam sentados, esperando. O da esquerda parecia desgastado pelo tempo, com olhos exaustos e barba branca emaranhada. Usava um terno preto amarrotado, camisa branca e chapéu de feltro.

 

– Este é o rabino Yehuda Köves – disse o bispo. – É um importante filósofo judeu, autor de vários estudos sobre cosmologia cabalista.

 

Kirsch apertou educadamente a mão do rabino por cima da mesa.

 

– É um prazer conhecê-lo, senhor – cumprimentou. – Li seus livros sobre a Cabala. Não posso dizer que os entendi, mas li.

 

Köves assentiu amigavelmente, enxugando os olhos aquosos com o lenço.

 

– E aqui – continuou o bispo, indicando o outro homem – está o respeitado allamah Syed al-Fadl.

 

O reverenciado erudito muçulmano se levantou e deu um sorriso largo. Era baixo e atarracado, com um rosto jovial que parecia não combinar com os olhos escuros e penetrantes. Vestia um discreto thawb branco.

 

– E, Sr. Kirsch, eu li suas previsões sobre o futuro da humanidade. Não posso dizer que concordo com elas, mas li.

 

Kirsch deu um sorriso gentil e apertou a mão do sujeito.

 

– E, como os senhores sabem – continuou o bispo, dirigindo-se aos dois colegas –, Edmond Kirsch, o nosso visitante, é um respeitado cientista da computação, teórico dos jogos, inventor e uma espécie de profeta do mundo tecnológico. Considerando seu histórico, fiquei perplexo por ele ter pedido um encontro conosco. Portanto agora deixarei que o Sr. Kirsch explique a que veio.

 

Com isso o bispo Valdespino sentou-se entre os dois colegas, cruzou as mãos e olhou com expectativa para Kirsch. Os três estavam de frente para ele, como num tribunal, criando um ambiente mais parecido com uma inquisição do que um encontro amigável entre eruditos. Kirsch percebeu que o bispo nem tinha posto uma cadeira para ele.

 

Sentiu-se mais admirado do que intimidado enquanto examinava os três homens idosos. Então esta é a Santíssima Trindade que eu requisitei. Os Três Reis Magos.

 

Parando um momento para reafirmar seu poder, foi até a janela e olhou a paisagem de tirar o fôlego, lá embaixo. Uma ensolarada colcha de retalhos de antigas terras pastoris se estendia por um vale profundo, dando lugar aos picos serrilhados da Cordilheira de Collserola. Quilômetros além, em algum lugar no Mar das Baleares, nuvens ameaçadoras se reuniam no horizonte.

 

Adequado, pensou Kirsch, sentindo a turbulência que causaria na sala e no mundo lá fora.

 

– Senhores – começou, virando-se abruptamente de volta para eles –, creio que o bispo Valdespino já os colocou a par do meu pedido de segredo. Antes de continuarmos, quero esclarecer que o que vou lhes contar deve ser mantido no mais absoluto sigilo. Dito de modo simples, estou pedindo um voto de silêncio. Estamos de acordo?

 

Os três assentiram. Uma concordância tácita que, Kirsch sabia, era provavelmente redundante. Eles vão querer enterrar essa informação, e não divulgá-la.

 

– Estou hoje aqui – continuou Kirsch – porque fiz uma descoberta científica que acredito que acharão espantosa. É algo que busquei durante muitos anos, esperando fornecer respostas para duas das perguntas mais fundamentais da experiência humana. Agora que consegui, vim especificamente aos senhores porque acredito que essa informação afetará de maneira profunda os fiéis do mundo todo, possivelmente causando uma mudança que só pode ser descrita como, digamos... demolidora. No momento sou a única pessoa na face da Terra que tem a informação que estou prestes a revelar.

 

Kirsch enfiou a mão no bolso do paletó e pegou um smartphone grande – que ele próprio havia projetado e construído para servir às suas necessidades especiais. A capa tinha um mosaico de cor vibrante, e ele posicionou o aparelho diante dos três homens como se fosse uma televisão. Em instantes iria usá-lo para se conectar a um servidor especialmente seguro, digitaria a senha de 47 caracteres e transmitiria para eles sua apresentação.

 

– O que os senhores estão prestes a ver – disse – é o esboço de um anúncio que espero compartilhar com o mundo. Dentro de um mês, aproximadamente. Mas antes disso queria consultar alguns dos pensadores religiosos mais influentes do planeta para entender como essa notícia será recebida por aqueles que ela mais afeta.

 

O bispo soltou um suspiro alto, parecendo mais entediado do que preocupado.

 

– É um preâmbulo intrigante, Sr. Kirsch. O senhor fala como se o que vai nos mostrar fosse capaz de abalar os alicerces das religiões do mundo.

 

Kirsch olhou o antigo repositório de textos sagrados. Isso não vai abalar seus alicerces. Vai destruí-los.

 

Avaliou os homens à frente. O que eles não sabiam era que em apenas três dias planejava ir a público com aquela apresentação num evento espantoso, meticulosamente coreografado. Quando fizesse isso, as pessoas ao redor do mundo perceberiam que os ensinamentos de todas as religiões tinham de fato uma coisa em comum.

 

Estavam completamente errados.

 

 

O professor Robert Langdon olhou para o cachorro de 12 metros sentado na praça. O pelo do animal era um tapete vivo de grama e flores perfumadas.

 

Estou tentando amar você, pensou. De verdade.

 

Refletiu um pouco mais sobre a criatura e depois continuou andando por uma passarela suspensa, descendo por uma ampla escadaria cujos degraus de tamanhos diferentes se destinavam a arrancar o visitante de seu ritmo e das passadas usuais. Missão cumprida, decidiu, quase tropeçando duas vezes nos degraus irregulares.

 

Na base da escada parou bruscamente, olhando um objeto enorme.

 

Agora vi tudo.

 

Uma altíssima viúva-negra se erguia à frente dele, com as finas patas de ferro sustentando o corpo volumoso a pelo menos nove metros de altura. Da barriga da aranha pendia um saco de ovos feito de tela de arame, cheio de globos de vidro.

 

– O nome dela é Mamãe – disse uma voz.

 

Langdon baixou o olhar e viu um homem magro parado embaixo da aranha. Ele usava um casaco indiano de brocado preto e tinha um bigode enrolado para cima, quase cômico, estilo Salvador Dalí.

 

– Meu nome é Fernando – continuou ele – e estou aqui para lhe dar as boas-vindas ao museu. – O homem olhou para uma fileira de crachás na mesa à frente. – Poderia me dizer seu nome, por favor?

 

– Certamente. Robert Langdon.

 

Os olhos de Fernando se ergueram de novo, bruscamente.

 

– Ah, sinto muito! Não o reconheci, senhor!

 

Eu mesmo mal me reconheço, pensou Langdon, avançando rigidamente com sua gravata-borboleta branca, a casaca preta e o colete branco. Estou parecendo um almofadinha. A casaca clássica de Langdon tinha quase 30 anos, preservada desde os dias do Ivy Club em Princeton. Mas, graças à fiel rotina de natação diária, a roupa ainda servia bastante bem. Na pressa para fazer as malas tinha pegado a sacola errada no armário, deixando para trás o smoking usual.

 

– O convite recomendava traje a rigor, preto e branco – disse Langdon. – Imagino que a casaca seja apropriada, não?

 

– Casacas são clássicas! O senhor está muito vistoso! – O homem se aproximou rapidamente e prendeu um crachá na lapela de Langdon. – É uma honra conhecê-lo. Sem dúvida já nos visitou antes, não é?

 

Langdon olhou através das patas da aranha para o prédio reluzente diante deles.

 

– Na verdade fico sem graça em dizer, mas nunca estive aqui.

 

– Não! – O homem fingiu desmaiar. – O senhor não é fã de arte moderna?

 

Langdon sempre havia gostado do desafio da arte moderna, principalmente de explorar o motivo para determinadas peças serem saudadas como obras-primas: as pinturas de tinta espirrada de Jackson Pollock; as latas de sopa Campbell de Andy Warhol; os retângulos de cor de Mark Rothko. Mesmo assim ficava muito mais confortável discutindo o simbolismo religioso de Hieronymus Bosch ou as pinceladas de Francisco de Goya.

 

– Sou mais classicista – respondeu. – Costumo me sair melhor com Da Vinci do que com De Kooning.

 

– Mas Da Vinci e De Kooning são tão semelhantes!

 

Langdon sorriu, paciente.

 

– Então, sem dúvida, preciso aprender um pouco sobre De Kooning.

 

– Bom, então veio ao lugar certo! – O homem ergueu o braço na direção do edifício enorme. – Neste museu o senhor vai encontrar uma das melhores coleções de arte moderna da Terra! Espero que goste.

 

– É o que pretendo – respondeu Langdon. – Só gostaria de saber por que estou aqui.

 

– O senhor e todo mundo! – O homem sorriu alegremente, balançando a cabeça. – O seu anfitrião foi muito sigiloso quanto ao objetivo do evento desta noite. Nem mesmo os funcionários do museu sabem o que vai acontecer. O mistério é parte da diversão: os boatos correm à solta! Há várias centenas de convidados lá dentro, na maioria rostos famosos, e ninguém tem nenhuma ideia do que está na programação desta noite!

 

Agora Langdon riu. Muito poucos anfitriões teriam a bravata de enviar convites de última hora dizendo essencialmente: Sábado à noite. Esteja lá. Confie em mim. E um número ainda menor seria capaz de convencer centenas de pessoas importantes a largar tudo e viajar para o norte da Espanha para comparecer ao evento.

 

Langdon saiu de baixo da aranha e continuou pelo caminho, olhando um enorme estandarte vermelho que se enfunava no alto.

 

UMA NOITE COM EDMOND KIRSCH

 

Sem dúvida, Edmond nunca sofreu de falta de confiança, pensou, achando divertido.

 

Cerca de 20 anos antes, Eddie Kirsch tinha sido um dos primeiros alunos de Langdon na Universidade de Harvard – um gênio da informática com cabelos de esfregão, cujo interesse por códigos o levou a fazer um curso com Langdon no primeiro ano: Códigos, Cifras e a Linguagem dos Símbolos. A sofisticação do intelecto de Kirsch impressionou profundamente o professor, e ainda que o jovem tivesse abandonado o poeirento mundo da semiótica em troca da promessa luminosa dos computadores, ele e Langdon haviam desenvolvido um elo entre aluno e professor que os manteve em contato durante as duas últimas décadas, desde a formatura de Kirsch.

 

Agora o aluno suplantou o professor, pensou Langdon. Em vários anos-luz.

 

Hoje em dia Edmond Kirsch era um pensador independente, de fama mundial: cientista de computadores, futurólogo, inventor e empreendedor bilionário. Aos 40 anos, era pai de uma variedade espantosa de tecnologias avançadas que representavam saltos importantes em campos diversos como robótica, ciência do cérebro, inteligência artificial e nanotecnologia. E as previsões acuradas sobre futuros progressos científicos haviam criado uma aura mística ao seu redor.

 

Langdon suspeitava que a incrível capacidade de prognósticos de Edmond resultava de seu conhecimento espantosamente amplo do mundo. Desde que podia recordar, o sujeito havia sido um bibliófilo insaciável: lia tudo o que estivesse ao seu alcance. A paixão pelos livros e sua capacidade de absorver os conteúdos ultrapassavam tudo o que Langdon jamais havia testemunhado.

 

Nos últimos anos Kirsch vivia principalmente na Espanha, e atribuía essa escolha a um contínuo caso amoroso com o charme de mundo antigo do país, com a arquitetura de vanguarda, os bares e o clima perfeito.

 

Uma vez por ano, quando Kirsch voltava a Cambridge para falar no Media Lab do MIT, Langdon fazia uma refeição com ele num dos novos lugares da moda, do qual nunca tinha ouvido falar. As conversas nunca eram sobre tecnologia; Kirsch só queria falar com Langdon sobre arte.

 

– Você é minha conexão com a cultura, Robert – Kirsch costumava brincar. – Você é meu bacharel particular, um sujeito que só se casou com as artes!

 

A cutucada brincalhona no estado civil de Langdon era particularmente irônica vinda de um colega solteirão que denunciava a monogamia como “uma afronta à evolução” e fora fotografado com uma enorme variedade de supermodelos no decorrer dos anos.

 

Considerando a reputação de Kirsch como inovador na ciência da computação, seria fácil imaginá-lo como um geek com a camisa abotoada até o colarinho. Mas em vez disso ele havia se tornado um moderno ícone pop que circulava entre celebridades, vestia-se nos estilos mais atuais, ouvia música underground desconhecida e colecionava uma infinidade de caríssimas obras de arte impressionistas e modernas. Kirsch costumava mandar e-mails para Langdon, pedindo conselho sobre novas obras que estava avaliando para sua coleção.

 

E depois fazia exatamente o oposto do aconselhado.

 

Cerca de um ano antes ele tinha surpreendido Langdon perguntando não sobre arte, mas sobre Deus – um assunto estranho para quem se proclamava ateu. Diante de um prato de costeletas no Tiger Mama de Boston, fez indagações detalhadas sobre as crenças básicas de várias religiões mundiais, em particular sobre as diferentes histórias da Criação.

 

Langdon lhe deu uma visão geral sólida sobre as crenças atuais, desde a narrativa do Gênesis compartilhada pelo judaísmo, o cristianismo e o islamismo até a história hindu de Brama, o conto babilônico de Marduk e outras.

 

– Estou curioso – disse Langdon enquanto saíam do restaurante. – Por que um futurólogo se interessa tanto pelo passado? Quer dizer que nosso famoso ateu finalmente encontrou Deus?

 

Edmond riu alto.

 

– Pode sonhar! Só estou avaliando minha concorrência, Robert.

 

Langdon sorriu. Típico.

 

– Bom, ciência e religião não competem, são duas linguagens diferentes tentando contar a mesma história. Neste mundo há espaço para as duas.

 

Depois desse encontro, Edmond ficou sem fazer contato por quase um ano. E então, do nada, três dias antes, Langdon recebeu um envelope da FedEx com uma passagem de avião, uma reserva de hotel e um bilhete escrito à mão insistindo que ele fosse ao evento dessa noite. Dizia: Robert, seria importantíssimo para mim que você, especialmente, pudesse comparecer. Suas ideias durante nossa última conversa ajudaram a tornar essa noite possível.

 

Langdon ficou pasmo. Nada naquela conversa parecia nem de longe relevante para um evento apresentado por um futurólogo.

 

O envelope continha ainda uma imagem em preto e branco de duas pessoas frente a frente. Kirsch tinha escrito um pequeno poema para Langdon.

 

Robert,

 

Quando estivermos cara a cara,

revelarei o vazio que nos separa.

 

– Edmond

 

Langdon sorriu ao ver a imagem: uma inteligente alusão a um episódio em que estivera envolvido anos antes. A silhueta de um cálice, ou Graal, revelada no espaço vazio entre os dois rostos.

 

Agora Langdon estava diante desse museu, ansioso para saber o que seu ex-aluno iria anunciar. Uma brisa suave agitava as abas da casaca enquanto ele andava pelo caminho de cimento à margem do sinuoso Rio Nervión, que já fora a principal artéria de uma próspera cidade industrial. O ar tinha um vago cheiro de cobre.

 

Enquanto virava uma esquina, Langdon finalmente se permitiu olhar o museu enorme e reluzente. Era impossível captar toda a estrutura de uma vez. Por isso seu olhar ia e voltava por toda a extensão daquelas formas bizarras, alongadas.

 

Este edifício não viola simplesmente as regras, pensou. Ele as ignora por completo. É um local perfeito para Edmond.

 

O Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, parecia algo saído de uma alucinação alienígena: uma colagem rodopiante de formas metálicas retorcidas que pareciam ter sido encostadas umas nas outras de modo quase aleatório. Estendendo-se até a distância, a massa caótica era coberta por mais de 30 mil placas de titânio que brilhavam como escamas de peixe e davam à estrutura uma sensação ao mesmo tempo orgânica e extraterrestre, como se um leviatã futurista tivesse se arrastado da água para tomar sol à margem do rio.

 

Quando o edifício foi inaugurado em 1997, a revista The New Yorker saudou seu arquiteto, Frank Gehry, como tendo desenhado “um fantástico navio de sonho, de formas onduladas, sob uma capa de titânio”, e outros críticos alardearam: “O edifício mais incrível do nosso tempo!”, “Brilho mercurial!”, “Espantoso feito arquitetônico!”.

 

Desde a inauguração do museu, dezenas de outros edifícios “desconstrutivistas” tinham sido erguidos: o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles, o BMW World em Munique e até a nova biblioteca da universidade de Langdon. Cada um desses tinha projeto e construção que fugiam radicalmente das convenções, no entanto Langdon duvidava que algum deles pudesse competir com o Guggenheim de Bilbao por sua pura capacidade de chocar.

 

Enquanto Langdon se aproximava, a fachada coberta de placas parecia se alterar a cada passo, oferecendo uma nova personalidade de cada ângulo. Agora a ilusão mais dramática do prédio ficava visível. Incrivelmente, a partir dessa perspectiva, a estrutura colossal parecia literalmente flutuar acima da água, à deriva num vasto lago de “horizonte infinito” cujas ondas fracas batiam contra as paredes externas do museu.

 

Langdon parou um momento para se maravilhar com esse efeito e depois começou a atravessar o lago pela ponte minimalista que fazia um arco sobre a água. Estava na metade do percurso quando um sibilo alto o espantou. O som emanava de baixo dos seus pés. Parou justo quando uma nuvem em redemoinho começou a sair de baixo da passarela. O denso véu de névoa subiu ao redor e se espalhou pelo lago, rolando na direção do museu e engolfando a base de toda a estrutura.

 

A Escultura de Névoa, pensou.

 

Tinha lido sobre essa obra da artista japonesa Fujiko Nakaya. A “escultura” era revolucionária por ser construída com o ar visível, uma parede de neblina que se materializava e se dissipava com o passar do tempo; e como as brisas e as condições atmosféricas jamais eram idênticas de um dia para o outro, a obra era diferente a cada vez que aparecia.

 

A ponte parou de sibilar e Langdon viu a parede de névoa se acomodar em silêncio sobre o lago, fazendo redemoinhos e se arrastando como se tivesse vontade própria. O efeito era ao mesmo tempo etéreo e desorientador. Todo o museu parecia pairar sobre a água, repousando sem peso numa nuvem – um navio fantasma perdido no mar.

 

Justo quando Langdon ia andar de novo, a superfície plácida da água foi despedaçada por uma série de pequenas erupções. De repente cinco colunas de fogo dispararam para o alto, saindo do lago, trovejando como foguetes que rasgavam o ar enevoado e lançavam brilhantes jorros de luz nas placas de titânio do museu.

 

O gosto arquitetônico de Langdon tendia mais para o estilo clássico de museus como o Louvre ou o Prado. Mas, olhando a névoa e as chamas pairarem sobre o lago, não conseguia pensar num local mais perfeito do que esse museu ultramoderno para um evento programado por um homem que amava a arte e a inovação e que vislumbrava o futuro com tanta clareza.

 

Agora, atravessando a névoa, seguiu até a entrada do museu – um agourento buraco negro na estrutura reptiliana. À medida que se aproximava, teve a sensação inquietante de entrar na boca de um dragão.

 

 

O almirante Luis Ávila estava sentado num banco de um bar deserto em uma cidade que ele não conhecia. Estava exausto da viagem, tendo acabado de chegar de avião depois de um trabalho que o fizera viajar muitos milhares de quilômetros em 12 horas. Tomou um gole de sua segunda água tônica e olhou a colorida coleção de garrafas atrás do balcão.

 

Qualquer homem pode permanecer sóbrio num deserto, pensou, mas só os fiéis podem se sentar num oásis e se recusar a abrir os lábios.

 

Fazia quase um ano que Ávila não abria os lábios para o diabo. Enquanto olhava seu reflexo no bar espelhado, permitiu-se um raro instante de contentamento com a imagem que o espiava de volta.

 

Ávila era um daqueles felizardos homens mediterrâneos para quem a idade mais parecia uma vantagem do que uma desvantagem. Com o passar dos anos sua barba curta, preta e espetada havia se suavizado em distintos fios grisalhos, os olhos escuros e ferozes tinham relaxado até adquirir um ar de confiança tranquila, e a pele morena bronzeada agora contava com rugas finas, criando a aura de um homem que passava a vida franzindo os olhos no mar.

 

Mesmo com 63 anos, seu corpo era magro e rijo, um físico impressionante incrementado pela vestimenta de corte perfeito. No momento Ávila usava seu uniforme branco de gala – uma libré de aparência régia consistindo num paletó branco trespassado, platinas pretas, uma variedade imponente de medalhas de serviço, camisa branca engomada, de colarinho em pé, e calça branca com acabamento em seda.

 

A Armada espanhola pode ter deixado de ser a marinha mais poderosa do mundo, mas ainda sabemos vestir um oficial.

 

Fazia anos que o almirante não usava esse uniforme – mas era uma noite especial, e, mais cedo, enquanto andava pelas ruas dessa cidade desconhecida, tinha desfrutado do olhar favorável das mulheres e do vasto espaço deixado pelos homens.

 

Todo mundo respeita os que vivem segundo um código.

 

– ¿Otra tónica? – perguntou a garçonete que tinha uns 30 e poucos anos, corpo bonito e sorriso brincalhão.

 

Ávila balançou a cabeça.

 

– No, gracias.

 

O bar estava totalmente vazio e Ávila podia sentir o olhar da garçonete admirando-o. Era bom ser visto de novo. Voltei do abismo.

 

O acontecimento horrível que tinha praticamente destruído sua vida espreitaria para sempre nos recessos da mente: um único instante ensurdecedor em que a terra se abriu e o engoliu inteiro.

 

Catedral de Sevilha.

 

Manhã de páscoa.

 

O sol da Andaluzia atravessava os vitrais, esparramando caleidoscópios de cor em explosões radiantes pelo interior de pedra da catedral. O órgão de tubos trovejava numa alegre celebração enquanto milhares de fiéis comemoravam o milagre da ressurreição.

 

Ávila se ajoelhou no genuflexório da comunhão com o peito inflado de gratidão. Depois de toda uma vida de serviço no mar, fora abençoado com o maior dos presentes de Deus: uma família. Com um sorriso largo, virou-se e olhou por cima do ombro para a jovem esposa, María, ainda sentada num banco, grávida de vários meses e sem condições de fazer a longa caminhada pelo corredor. Ao lado dela, o filho de 3 anos, Pepe, acenava empolgado para o pai. Ávila piscou para o menino e María sorriu para o marido.

 

Obrigado, Deus, pensou Ávila, virando-se para aceitar o cálice.

 

Um instante depois, uma explosão ensurdecedora rasgou a catedral imaculada.

 

Num clarão de luz todo o seu mundo irrompeu em fogo.

 

A onda de choque o empurrou violentamente contra o genuflexório, o corpo esmagado pelo jorro escaldante de entulho e pedaços de corpos humanos. Quando Ávila recuperou a consciência estava incapaz de respirar na fumaça densa, e por um momento não fazia ideia de onde se encontrava nem do que havia acontecido.

 

Então, acima do zumbido nos tímpanos, escutou os gritos de angústia. Levantou-se desajeitado, percebendo com horror onde estava. Disse a si mesmo que tudo aquilo era um sonho terrível. Cambaleou para trás, pela catedral cheia de fumaça, passando por vítimas gemendo e mutiladas, tropeçando em desespero até a área aproximada onde apenas alguns minutos atrás sua mulher e seu filho estavam sorrindo.

 

Não havia nada ali.

 

Nem bancos. Nem pessoas.

 

Só entulhos ensanguentados no chão de pedra queimado.

 

A lembrança medonha foi misericordiosamente despedaçada pela porta do bar tilintando. Ávila pegou sua tônica e tomou um gole rápido, sacudindo as trevas como fora obrigado a fazer tantas vezes antes.

 

A porta do bar se escancarou e Ávila se virou, vendo dois homens corpulentos entrarem. Estavam cantando uma desafinada canção de briga irlandesa e usando camisas de futebol verdes que mal cobriam suas barrigas. Pelo jeito o jogo dessa tarde fora vencido pelo time irlandês visitante.

 

Vou aceitar isso como minha dica para ir embora, pensou Ávila, levantando-se. Pediu a conta, mas a garçonete piscou e o mandou embora com um aceno. Ávila agradeceu e se virou para sair.

 

– Que diabo! – gritou um dos recém-chegados, olhando o uniforme imponente de Ávila. – É o rei da Espanha!

 

Os dois explodiram numa gargalhada, cambaleando na direção dele.

 

Ávila tentou se desviar dos dois e sair, mas o sujeito maior agarrou seu braço com força e o puxou de volta para um banco do bar.

 

– Espera aí, alteza! A gente veio de longe. Vamos tomar uma cerva com o rei!

 

Ávila olhou a mão suja do sujeito segurando a manga recém-passada de seu paletó.

 

– Solte – disse baixinho. – Preciso ir embora.

 

– Não... você precisa ficar para uma cerveja, amigo.

 

O sujeito apertou com mais força enquanto o colega começava a cutucar as medalhas no peito de Ávila com um dedo sujo.

 

– Parece que você é um tremendo herói, vovô. – Ele puxou um dos emblemas mais valiosos. – Uma clava medieval? Então você é um cavaleiro com armadura reluzente?! – E deu uma gargalhada.

 

Tolerância, lembrou Ávila. Tinha encontrado incontáveis homens assim: simplórios, infelizes, que jamais representavam nada, homens que abusavam cegamente das liberdades que outros tinham lutado para lhes dar.

 

– Na verdade – respondeu com gentileza –, a clava é o símbolo da Unidad de Operaciones Especiales da Armada espanhola.

 

– Operações especiais? – O sujeito fingiu um tremor de medo. – Que impressionante! E esse símbolo? – Ele apontou para a mão direita de Ávila.

 

Ávila olhou para a palma da mão. No centro da carne macia havia uma tatuagem preta – um símbolo que datava do século XIV.

 

Esta marca serve para me proteger, pensou Ávila, olhando o emblema. Se bem que não vou precisar dela.

 

– Deixa para lá – disse o valentão, finalmente soltando o braço de Ávila e voltando a atenção para a garçonete. – Você é bonitinha. É 100 por cento espanhola?

 

– Sou – respondeu ela, gentil.

 

– Não tem nada irlandês em você?

 

– Não.

 

– Gostaria de um pouco? – O sujeito se convulsionou num riso histérico e deu um soco no balcão.

 

– Deixe-a em paz – ordenou Ávila.

 

O sujeito girou, olhando-o irritado.

 

O segundo torcedor cutucou o peito de Ávila com força.

 

– Está tentando mandar na gente?

 

Ávila respirou fundo, sentindo-se cansado depois da longa viagem desse dia, e indicou o balcão.

 

– Senhores, por favor sentem-se. Vou lhes pagar uma cerveja.

 

Que bom que ele vai ficar, pensou a garçonete. Ainda que pudesse cuidar de si mesma, observar a calma com que o oficial tratava aqueles dois grosseirões a deixou com os joelhos meio bambos e esperançosa de que ele pudesse ficar até a hora do fechamento.

 

O oficial pediu duas cervejas e mais uma água tônica, voltando ao banco que tinha ocupado. Os dois torcedores encrenqueiros se sentaram nos bancos ao lado dele.

 

– Água tônica – provocou um. – Achei que a gente ia beber junto.

 

Ávila deu um sorriso cansado para a garçonete e terminou sua água tônica.

 

– Infelizmente tenho um compromisso – disse. – Mas aproveitem a cerveja.

 

Enquanto Ávila se levantava, os dois, como se tivessem ensaiado, bateram com as mãos rudes nos ombros dele e o empurraram de volta para o banco. Uma fagulha de raiva relampejou nos olhos do oficial e desapareceu em seguida.

 

– Vovô, acho que você não quer deixar a gente sozinho com sua amiguinha aqui.

 

O valentão olhou para ela e fez uma coisa nojenta com a língua.

 

O oficial ficou sentado por um longo instante, depois enfiou a mão no paletó.

 

Os dois o agarraram.

 

– Ei! O que está fazendo?

 

Muito lentamente, o oficial pegou um celular e disse alguma coisa em espanhol para os homens. Eles o encararam sem compreender e ele voltou a falar em inglês:

 

– Desculpem, só preciso ligar para minha mulher e dizer que vou me atrasar. Parece que vou ficar um tempo aqui.

 

– Agora você está falando nossa língua, meu chapa! – disse o maior dos dois, engolindo a cerveja e batendo o copo no balcão. – Outra!

 

Enquanto enchia de novo os copos, a garçonete viu pelo espelho o oficial digitar algumas teclas e levar o telefone ao ouvido. A ligação foi completada e ele falou rapidamente em espanhol.

 

– Llamo desde el bar Molly Malone. – O oficial leu o nome e o endereço do bar no descanso de copo à sua frente. – Calle Particular de Estraunza, ocho. – Esperou um instante e continuou: – Necesitamos ayuda inmediatamente. Hay dos hombres heridos. – E desligou.

 

¿Dos hombres heridos? A pulsação da garçonete acelerou. Dois homens feridos?

 

Antes que ela pudesse processar o significado daquilo, houve um borrão branco e o oficial girou à direita, mandando um cotovelo para cima contra o nariz do maior. Com um estalo nauseabundo, o rosto do sujeito irrompeu em vermelho e ele caiu para trás. Antes que o segundo pudesse reagir, o oficial girou de novo, desta vez para a esquerda, com o outro cotovelo acertando com força a traqueia do irlandês e jogando-o para fora do banco.

 

A garçonete ficou olhando em choque os dois homens no chão, um gritando em agonia, o outro ofegando e segurando o pescoço.

 

O oficial se levantou devagar. Com uma calma assustadora, tirou a carteira e pôs uma nota de cem euros no balcão.

 

– Desculpe – disse a ela em espanhol. – A polícia vai chegar daqui a pouco para ajudar.

 

Em seguida se virou e saiu.

 

Do lado de fora, o almirante Ávila inalou o ar da noite e foi andando pela Alameda de Mazarredo em direção ao rio. Sirenes da polícia se aproximaram e ele mergulhou nas sombras para deixar que as autoridades passassem. Havia um trabalho sério a ser feito e Ávila não podia se dar ao luxo de ter mais complicações.

 

O Regente delineou a missão desta noite com clareza.

 

Para Ávila, havia uma serenidade simples em receber ordens do Regente. Nenhuma decisão. Nenhuma culpa. Apenas ação. Depois de uma carreira dando ordens, era um alívio entregar o leme e deixar que outros guiassem o navio.

 

Nesta guerra sou um soldado raso.

 

Vários dias antes o Regente havia contado a ele um segredo tão perturbador que Ávila não tivera escolha senão oferecer-se por inteiro à causa. A brutalidade da missão da noite anterior ainda o assombrava, no entanto ele sabia que seus atos seriam perdoados.

 

A retidão existe de muitas formas.

 

E mais morte virá antes que esta noite acabe.

 

Enquanto emergia numa praça ampla junto à margem do rio, Ávila levantou os olhos para a estrutura enorme à frente. Era uma confusão ondulante de formas perversas cobertas por placas de metal – como se dois mil anos de progresso arquitetônico tivessem sido jogados pela janela em troca do caos absoluto.

 

Alguns chamam isso de museu. Eu chamo de monstruosidade.

 

Focalizando os pensamentos, atravessou a praça, serpenteando em meio a uma série de esculturas bizarras do lado de fora do Museu Guggenheim de Bilbao. Enquanto se aproximava do edifício, viu dezenas de convidados se misturando, vestidos com seus melhores trajes a rigor.

 

As massas sem Deus se congregaram.

 

Mas esta noite não será como nenhum deles imagina.

 

Ajeitou o quepe de almirante e alisou o paletó, fortificando-se mentalmente para a tarefa. Aquela noite fazia parte de uma missão muito maior: uma cruzada pela honradez.

 

Enquanto atravessava o pátio em direção à entrada do museu, tocou gentilmente no rosário dentro do bolso.

 

 

O átrio do museu parecia uma catedral futurista.

 

Quando Langdon entrou, seu olhar se voltou imediatamente para cima, escalando por um conjunto de colunas brancas e colossais ao longo de uma altíssima cortina de vidro que subia por 60 metros até um teto em abóbada, onde refletores halógenos lançavam uma luz branca e pura. Suspensa no ar, uma teia de passarelas e sacadas atravessava os céus, salpicada com visitantes vestidos de preto e branco que entravam e saíam das galerias superiores e paravam junto às janelas altas, admirando o lago lá embaixo. Ali perto um elevador de vidro descia suavemente pela parede, voltando à terra para recolher mais visitantes.

 

Era diferente de todos os museus que Langdon tinha visto. Até a acústica parecia estranha. Em vez do tradicional silêncio reverente, criado pelos acabamentos que abafavam os sons, aquele lugar era vivo – com ecos murmurantes de vozes filtradas pela pedra e o vidro. Para Langdon, a única sensação familiar era o gosto estéril no fundo da língua. O ar dos museus era o mesmo em todo o mundo – filtrado meticulosamente para retirar todas as partículas e oxidantes, depois umidificado com água ionizada até 45 por cento.

 

Passou por uma série de pontos de segurança surpreendentemente rígidos, notando uma boa quantidade de guardas armados, e finalmente se viu diante de outra mesa de recepção. Uma jovem estava distribuindo fones de ouvido.

 

– ¿Audioguía?

 

Langdon sorriu.

 

– Não, obrigado.

 

Mas, enquanto ele se aproximava da mesa, a mulher o fez parar, passando a falar num inglês perfeito.

 

– Sinto muito, senhor, mas nosso anfitrião, o Sr. Edmond Kirsch, pediu que todos usassem fones. Faz parte da experiência da noite.

 

– Claro.

 

Langdon estendeu a mão para pegar um fone, mas ela fez que não. Depois de verificar seu crachá, procurou o nome dele na lista de convidados e entregou um fone cujo número estava indicado ao lado do seu nome.

 

– As visitas desta noite são preparadas uma a uma para cada convidado.

 

Verdade? Langdon olhou ao redor. Há centenas de convidados.

 

Olhou o fone, que não passava de uma fina alça de metal com almofadas minúsculas nas extremidades. Talvez vendo sua expressão perplexa, a moça deu a volta na mesa para ajudar.

 

– Estes são bastante novos – disse ela, ajudando-o a colocar o aparelho. – Os transdutores não vão dentro dos ouvidos, e sim apoiam-se no rosto.

 

Ela pôs a alça por trás da cabeça dele e posicionou as almofadas de modo a apertarem gentilmente logo acima do malar e abaixo da têmpora.

 

– Mas como...

 

– Tecnologia de condutividade pelos ossos. Os transdutores mandam o som para os ossos do maxilar, permitindo que ele chegue diretamente à cóclea, a parte anterior do labirinto, no ouvido interno. Eu experimentei antes e achei incrível. É como ter uma voz dentro da cabeça. E mais: deixa as orelhas livres para as conversas externas.

 

– Muito inteligente.

 

– A tecnologia foi inventada pelo Sr. Kirsch há mais de uma década. Agora muitas marcas de fones de ouvido comuns já a estão usando.

 

Espero que Ludwig van Beethoven ganhe a parte dele nos lucros, pensou Langdon, quase certo de que o inventor da tecnologia de condutividade sonora pelos ossos era o compositor do século XVIII que, ao ficar surdo, descobriu que podia fixar uma haste de metal ao piano e mordê-la enquanto tocava, o que lhe permitia ouvir perfeitamente através das vibrações no osso do maxilar.

 

– Esperamos que goste da experiência – disse a mulher. – O senhor tem cerca de uma hora para explorar o museu antes da apresentação. Seu guia de áudio vai alertá-lo quando for hora de subir para o auditório.

 

– Obrigado. Eu preciso apertar alguma coisa para...

 

– Não, o aparelho se ativa sozinho. Sua visita guiada vai começar assim que o senhor se mover.

 

– Ah, sim, claro – disse Langdon com um sorriso.

 

E foi andando pelo átrio em direção a vários outros convidados, todos esperando os elevadores e usando fones semelhantes.

 

Só estava na metade do átrio quando uma voz masculina soou em sua cabeça.

 

– Boa noite e bem-vindo ao Guggenheim de Bilbao.

 

Langdon sabia que eram os fones, mas ainda assim parou e olhou para trás. O efeito era espantoso: exatamente como a moça havia descrito. Era como ter alguém dentro da cabeça.

 

– Sinceras boas-vindas, professor Langdon. – A voz era amigável e leve, com um animado sotaque britânico. – Meu nome é Winston, e é uma honra ser seu guia esta noite.

 

Quem foi que gravou isso? Hugh Grant?

 

– Esta noite – continuou a voz alegre – o senhor pode se sentir livre para andar como quiser, ir aonde quiser, e terei o prazer de dar os esclarecimentos quanto ao que estiver olhando.

 

Aparentemente, além de um narrador cheio de vida, gravações personalizadas e tecnologia de condutividade pelos ossos, cada fone era equipado com GPS para discernir exatamente onde o visitante se encontrava no museu e, portanto, que comentário gerar.

 

– Sei que – acrescentou a voz –, como professor de arte, o senhor é um dos nossos convidados mais bem informados, e talvez tenha pouca necessidade dos meus comentários. Pior ainda, é possível que discorde totalmente da minha análise de determinadas obras! – A voz deu um risinho sem graça.

 

Sério? Quem escreveu esse roteiro? O tom animadinho e o serviço personalizado eram de fato um toque charmoso, mas Langdon não conseguia imaginar a quantidade de esforço necessária para preparar centenas de fones.

 

Felizmente a voz ficou em silêncio, como se tivesse exaurido o diálogo de boas-vindas pré-programado.

 

Langdon olhou pelo átrio, vendo outro enorme estandarte vermelho suspenso acima das pessoas.

 

EDMOND KIRSCH ESTA NOITE AVANÇAMOS

 

O que, afinal, Edmond vai anunciar?

 

Langdon voltou o olhar para os elevadores, onde um grupo de convidados conversava, dentre eles dois famosos fundadores de empresas globais de internet, um proeminente ator indiano e várias outras pessoas importantes e bem-vestidas, que Langdon sentia que provavelmente deveria conhecer, mas não conhecia. Sentindo-se pouco disposto e mal preparado para conversar amenidades sobre mídia social e Bollywood, foi na direção oposta, para uma grande obra de arte moderna encostada na parede mais distante.

 

A instalação era aninhada numa gruta escura e consistia em nove esteiras transportadoras que emergiam de fendas no chão e se moviam rapidamente para cima, desaparecendo em fendas no teto. A obra lembrava nove passarelas estreitas movendo-se em plano vertical. Cada esteira tinha uma mensagem iluminada, que corria na direção do céu.

 

Rezo em voz alta... Sinto seu cheiro na minha pele... Digo seu nome.

 

Mas, à medida que Langdon chegava mais perto, percebeu que as faixas em movimento estavam de fato imóveis; a ilusão de movimento era criada por uma “pele” de minúsculas luzes de LED posicionadas em cada trave vertical. As luzes se iluminavam em rápida sucessão para formar palavras que se materializavam no piso, corriam pela faixa e desapareciam no teto.

 

Estou chorando muito... Havia sangue... Ninguém me contou.

 

Langdon se moveu ao redor das faixas verticais, absorvendo tudo aquilo.

 

– Esta é uma obra desafiadora – declarou o guia sonoro, voltando de repente. – Chama-se Instalação para Bilbao e foi criada pela artista conceitual Jenny Holzer. Consiste em nove placas de LED, cada uma com 12 metros de altura, transmitindo citações em basco, espanhol e inglês, todas relacionadas aos horrores da aids e à dor suportada pelos que ficaram para trás.

 

Langdon teve que admitir que o efeito era hipnotizante e, de algum modo, doloroso.

 

– Talvez o senhor já tenha visto alguma obra de Jenny Holzer, não?

 

Langdon sentiu-se hipnotizado pelo texto correndo para o céu.

 

Enterro minha cabeça... Enterro sua cabeça... Enterro você.

 

– Sr. Langdon? – cantarolou a voz em sua cabeça. – Está ouvindo? Seu fone está funcionando?

 

Langdon foi arrancado dos pensamentos.

 

– Desculpe... o quê? Olá?

 

– Olá – respondeu a voz. – Acho que já nos cumprimentamos. Só estou verificando se o senhor consegue me ouvir.

 

– Eu... desculpe – gaguejou Langdon, dando as costas para a instalação e olhando pelo átrio. – Achei que você era uma gravação! Não percebi que tinha uma pessoa de verdade na linha.

 

Langdon imaginou um monte de cubículos ocupados por um exército de guias munidos de fones de ouvido e catálogos do museu.

 

– Sem problema. Serei seu guia pessoal esta noite. Seu fone tem um microfone também. O programa é criado como uma experiência interativa em que o senhor e eu podemos ter um diálogo sobre arte.

 

Agora Langdon podia ver que outros convidados também estavam falando em seus fones com microfones. Até os casais pareciam ter se separado um pouco, trocando olhares de curiosidade enquanto tinham conversas particulares com seus guias.

 

– Todo convidado tem um guia particular?

 

– Sim, senhor. Esta noite estamos acompanhando individualmente a visita de 318 convidados.

 

– Incrível.

 

– Bom, como o senhor sabe, Edmond Kirsch é um ávido fã de arte e tecnologia. Ele projetou este sistema especificamente para museus, com a esperança de substituir as visitas em grupo, que ele abomina. Desse modo cada visitante pode ter uma visita particular, mover-se em seu próprio ritmo, fazer a pergunta que ele ficaria sem graça de fazer diante de um grupo. É de fato muito mais íntimo e imersivo.

 

– Não quero parecer antiquado, mas por que simplesmente não acompanhar cada um de nós pessoalmente?

 

– Logística. Acrescentar guias pessoais a um evento de museu literalmente dobraria a quantidade de pessoas nos salões e necessariamente reduziria à metade o número de visitantes possíveis. Além disso, a cacofonia de todos os monitores dando informações ao mesmo tempo causaria distração. A ideia é fazer com que a discussão seja uma experiência fluida. Um dos objetivos da arte, como diz o Sr. Kirsch, é promover o diálogo.

 

– Concordo plenamente. E é por isso que as pessoas costumam visitar os museus com um cônjuge ou amigo. Esses fones podem ser considerados um pouco antissociais.

 

– Bom – respondeu o inglês –, se o senhor vier com um cônjuge ou amigo, pode designar um guia único para todos os fones e desfrutar de uma discussão em grupo. O programa é muito avançado.

 

– Parece que você tem resposta para tudo.

 

– Na verdade, este é o meu trabalho. – O guia deu um riso sem graça e mudou de assunto abruptamente. – Agora, professor, se for pelo átrio na direção das janelas, verá a maior pintura do museu.

 

Enquanto andava pelo átrio, Langdon passou por um belo casal de 30 e poucos anos, usando bonés iguais. Na frente dos bonés, em vez de um logotipo de empresa, havia um símbolo surpreendente.

 

Era um ícone que Langdon conhecia bem, mas nunca tinha visto em um boné. Nos últimos anos, a letra A ligeiramente estilizada havia se tornado o símbolo universal de um dos grupos demográficos que mais cresciam e mais se manifestavam no planeta – os ateus. A cada dia eles vinham falando com mais veemência sobre o que consideravam os perigos da crença religiosa.

 

Agora os ateus têm seus próprios bonés?

 

Enquanto examinava a congregação de gênios tecnológicos ao redor, Langdon se lembrou de que boa parte daquelas mentes jovens e analíticas eram provavelmente antirreligiosas, como Edmond. A plateia desta noite não era exatamente “a turma” de um professor de Simbologia Religiosa.

 

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ANÚNCIO SURPRESA DE EDMOND KIRSCH?

 

Esta noite muitos titãs da tecnologia invadiram Bilbao, na Espanha, para comparecer a um evento VIP organizado pelo futurólogo Edmond Kirsch no Museu Guggenheim. A segurança é extremamente rígida e os convidados não foram avisados do objetivo do evento, mas o ConspiracyNet recebeu uma dica de uma fonte, sugerindo que Edmond Kirsch vai falar daqui a pouco e que planeja surpreender os convidados com um importante anúncio científico. O ConspiracyNet continuará acompanhando esta história. Voltamos com mais notícias a qualquer momento.

 

 

A maior sinagoga da Europa fica em Budapeste, na Rua Dohány. Construída em estilo mourisco com enormes torres gêmeas, o templo pode abrigar mais de três mil fiéis sentados – com bancos no térreo para os homens e nos balcões para as mulheres.

 

Do lado de fora, no jardim, estão enterrados numa sepultura coletiva os corpos de centenas de judeus húngaros que morreram durante os horrores da ocupação nazista. O local é marcado por uma Árvore da Vida – uma escultura de metal representando um salgueiro-chorão em que cada folha tem escrito o nome de uma vítima. Quando a brisa sopra, as folhas de metal batem umas nas outras, soando com um eco fantasmagórico acima do solo sagrado.

 

Durante mais de três décadas, o líder espiritual da Grande Sinagoga fora um eminente erudito talmúdico e cabalista, o rabino Yehuda Köves, que, apesar de avançado em anos e com saúde debilitada, permanecia como membro ativo da comunidade judaica tanto na Hungria quanto em todo o mundo.

 

Quando o sol se pôs do outro lado do Danúbio, o rabino Köves saiu da sinagoga. Passou pelas butiques e pelos misteriosos “bares de ruínas” da Rua Dohány a caminho de sua casa na Praça Marcius, 15, pertinho da Ponte Elisabeth, que ligava as antigas cidades de Buda e Peste, formalmente unidas em 1873.

 

Os feriados da páscoa estavam se aproximando – em geral, era uma das épocas de maior alegria para Köves. No entanto, desde seu retorno do Parlamento das Religiões do Mundo na semana anterior, ele vinha sentindo uma inquietação abismal.

 

Gostaria de não ter ido lá.

 

A reunião extraordinária com o bispo Valdespino, o allamah Syed al-Fadl e o futurólogo Edmond Kirsch havia atormentado seus pensamentos durante três dias inteiros.

 

Agora, ao chegar em casa, Köves foi diretamente para o quintal e destrancou seu házikó – o pequeno barracão que servia como santuário pessoal e escritório.

 

O barracão era um cômodo único com estantes altas que se curvavam sob o peso dos tomos religiosos. Köves foi até sua mesa e se sentou, franzindo a testa para a bagunça à frente.

 

Se alguém visse minha mesa esta semana, acharia que perdi a cabeça.

 

Espalhada na superfície de trabalho, meia dúzia de textos obscuros, cheios de papeizinhos adesivos. Atrás deles, encostados em suportes de madeira, havia três volumes pesados – versões da Torá em hebraico, aramaico e inglês –, todos abertos no mesmo livro.

 

Gênesis.

 

No princípio...

 

Claro, Köves podia recitar o Gênesis de cor em todas as três línguas; seria mais provável que estivesse lendo comentários acadêmicos sobre o Zohar ou teoria cosmológica da Cabala. Para um erudito do calibre de Köves, estudar o Gênesis era como Einstein voltar a estudar aritmética do ensino fundamental. Mesmo assim, era isso que o rabino estivera fazendo naquela semana, e o caderno em sua mesa parecia ter sido atacado por uma torrente de anotações rabiscadas à mão, tão bagunçadas que Köves mal conseguia decifrá-las.

 

Parece que virei um lunático.

 

O rabino Köves tinha começado com a Torá – a história do Gênesis compartilhada por judeus e cristãos. No princípio Deus criou os céus e a terra. Em seguida havia passado para os textos instrucionais do Talmude, relendo as elucidações rabínicas sobre o Ma’aseh Bereshit – o Ato da Criação. Depois disso partira para o Midrash, examinando os comentários de vários exegetas venerados que tinham tentado explicar as contradições percebidas na história tradicional da Criação. Por fim se enterrara na mística ciência cabalística do Zohar, em que o Deus incognoscível se manifestava como dez sephirot, ou dimensões diferentes, organizadas ao longo de canais chamados de Árvore da Vida, e da qual brotavam quatro universos separados.

 

A misteriosa complexidade das crenças que compunham o judaísmo sempre fora reconfortante para Köves – um lembrete, por parte de Deus, de que a humanidade não se destinava a entender todas as coisas. Mas agora, depois de assistir à apresentação de Edmond Kirsch e de contemplar a simplicidade e a clareza do que Kirsch havia descoberto, sentia como se tivesse passado os últimos três dias olhando uma coleção de contradições ultrapassadas. Num determinado ponto, tudo o que podia fazer era pôr de lado seus textos antigos e dar uma longa caminhada ao longo do Danúbio para organizar os pensamentos.

 

Finalmente o rabino Köves tinha passado a aceitar uma verdade dolorida: o trabalho de Kirsch teria mesmo repercussões devastadoras para as almas religiosas deste mundo. A revelação do cientista contradizia ousadamente quase todas as doutrinas religiosas estabelecidas e fazia isso de um modo perturbadoramente simples e convincente.

 

Não posso esquecer aquela imagem final, pensou Köves, lembrando-se da incômoda conclusão da apresentação de Kirsch, a que eles haviam assistido no enorme telefone do cientista. Esta notícia vai afetar todo ser humano, não só os crentes.

 

Agora, apesar das reflexões dos últimos dias, o rabino não se sentia nem um pouco mais perto de saber o que faria com as informações dadas por Kirsch.

 

Duvidava que Valdespino e al-Fadl também tivessem encontrado algum esclarecimento. Os três haviam se comunicado por telefone dois dias atrás, mas a conversa não fora produtiva.

 

– Meus amigos – tinha começado Valdespino –, obviamente a apresentação do Sr. Kirsch foi perturbadora... em muitos níveis. Eu insisti que ele viesse discuti-la mais profundamente comigo, mas ele não quis responder. Agora creio que precisamos tomar uma decisão.

 

– Eu tomei a minha – disse al-Fadl. – Não podemos ficar parados. Precisamos assumir o controle desta coisa. Kirsch tem um conhecido desprezo pela religião e vai apresentar sua descoberta de modo a causar o máximo de dano possível para o futuro da fé. Devemos ser proativos. Nós mesmos devemos anunciar a descoberta dele. Imediatamente. Devemos colocá-la sob uma luz adequada para suavizar o impacto e torná-la o menos ameaçadora possível para os que creem no mundo espiritual.

 

– Sei que já falamos sobre ir a público – disse Valdespino –, mas infelizmente não consigo imaginar como apresentar essa informação de modo que não pareça ameaçadora. – Ele deu um suspiro pesado. – Além disso, há a promessa que fizemos ao Sr. Kirsch, de guardar o segredo dele.

 

– Verdade – observou al-Fadl. – Também me sinto em conflito por violar essa promessa, mas acho que devemos escolher o menor de dois males e agir em nome do bem maior. Todos estamos sendo atacados: muçulmanos, judeus, cristãos, hindus, todas as religiões. E considerando que todas as nossas crenças se baseiam nas verdades fundamentais que o Sr. Kirsch está solapando, temos a obrigação de apresentar esse material de forma a não causar sofrimento em nossas comunidades.

 

– Temo que isso não vai fazer sentido – disse Valdespino. – Se estivermos pensando em divulgar a notícia de Kirsch, a única abordagem viável será pôr em dúvida a descoberta dele: desacreditá-lo antes que ele divulgue a mensagem.

 

– Edmond Kirsch? – questionou al-Fadl. – Um cientista brilhante que jamais cometeu um erro em seu trabalho? Será que participamos da mesma reunião? A apresentação dele foi convincente.

 

Valdespino resmungou.

 

– Não foi mais convincente do que a de Galileu, Bruno ou Copérnico no tempo deles. As religiões já estiveram nessa situação difícil. Isso não é nada mais do que a ciência batendo de novo à nossa porta.

 

– Mas num nível muito mais profundo do que as descobertas da física e da astronomia! – exclamou al-Fadl. – Kirsch está desafiando o próprio cerne, a raiz fundamental de tudo em que acreditamos! Você pode citar a história quanto quiser, mas não se esqueça de que, apesar de todos os esforços do seu Vaticano para silenciar homens como Galileu, a ciência dele acabou prevalecendo. E a de Kirsch também prevalecerá. Não há como impedir.

 

Houve um silêncio pesado.

 

– Minha posição quanto a isso é simples – disse Valdespino. – Eu gostaria que Edmond Kirsch não tivesse feito essa descoberta. Temo que estejamos despreparados para enfrentar as revelações dele. E minha preferência enfática é que essa informação jamais chegue à luz do dia. – Ele fez uma pausa. – Ao mesmo tempo, acredito que os eventos do nosso mundo acontecem de acordo com o plano de Deus. Talvez, se orarmos, Deus fale ao Sr. Kirsch e o convença a reconsiderar a revelação de sua descoberta.

 

Al-Fadl zombou audivelmente.

 

– Não creio que o Sr. Kirsch seja o tipo de homem capaz de escutar a voz de Deus.

 

– Talvez não seja – disse Valdespino. – Mas milagres acontecem todo dia.

 

Al-Fadl disparou de volta:

 

– Com o devido respeito, a não ser que você esteja rezando para Deus matar Kirsch antes que ele possa anunciar...

 

– Senhores! – interveio Köves, tentando atenuar a tensão crescente. – Nossa decisão não deve ser apressada. Não precisamos chegar a um consenso esta noite. O Sr. Kirsch disse que o anúncio será feito daqui a um mês. Será que posso sugerir que meditemos em particular sobre isso e conversemos de novo daqui a alguns dias? Talvez o caminho adequado se revele através da reflexão.

 

– Sábio conselho – respondeu Valdespino.

 

– Não deveríamos esperar demais – alertou al-Fadl. – Vamos nos falar de novo por telefone daqui a dois dias.

 

– Concordo – disse Valdespino. – Então poderemos tomar a decisão final.

 

Isso havia sido dois dias antes e, agora, a noite da conversa havia chegado.

 

Sozinho em seu escritório no házikó, o rabino Köves estava ficando ansioso. O telefonema programado já estava atrasado quase dez minutos.

 

Por fim o telefone tocou e Köves atendeu.

 

– Alô, rabino – disse o bispo Valdespino, parecendo perturbado. – Desculpe o atraso. – Ele fez uma pausa. – Infelizmente o allamah al-Fadl não vai participar desta conversa.

 

– É mesmo? – perguntou Köves, surpreso. – Está tudo bem?

 

– Não sei. Estou tentando falar com ele o dia inteiro, mas al-Fadl parece ter... desaparecido. Nenhum dos seus colegas tem ideia de onde ele se encontra.

 

Köves sentiu um arrepio.

 

– Isso é alarmante.

 

– Concordo. Espero que ele esteja bem. Infelizmente as notícias não param por aí. – O bispo fez uma pausa, com a voz ficando ainda mais sombria. – Acabei de saber que Edmond Kirsch está realizando um evento para contar sua descoberta ao mundo... esta noite.

 

– Esta noite?! Ele disse que seria daqui a um mês!

 

– É – retrucou Valdespino. – Ele mentiu.

 

 

A voz amigável de Winston reverberou no fone de Langdon.

 

– Bem à sua frente, professor, o senhor verá a maior pintura de nossa coleção, ainda que a maioria dos convidados não a identifique imediatamente.

 

Langdon olhou ao redor do átrio, mas não viu nada a não ser uma parede de vidro voltada para o lago.

 

– Sinto muito, acho que faço parte da maioria. Não estou vendo pintura nenhuma.

 

– Bom, ela é apresentada de modo muito pouco convencional – disse Winston, rindo. – A tela não está na parede, e sim no piso.

 

Eu deveria ter adivinhado, pensou Langdon, baixando o olhar e avançando até que viu a enorme tela retangular esticada sobre a pedra aos seus pés.

 

A pintura enorme consistia em apenas uma cor – um campo monocromático de um azul profundo –, e os espectadores ficavam em volta do perímetro, olhando-o como se observassem um pequeno lago.

 

– Esta pintura tem quase 500 metros quadrados – explicou Winston.

 

Langdon percebeu que ela era quase dez vezes maior do que o seu primeiro apartamento em Cambridge.

 

– É de Yves Klein e passou a ser conhecida afetuosamente como A Piscina.

 

Langdon precisava admitir que a intensidade fascinante daquele tom de azul lhe dava a sensação de que poderia mergulhar direto na tela.

 

– Klein inventou essa cor – continuou Winston. – Chama-se Azul Internacional Klein, e ele dizia que a profundidade dela evocava a imaterialidade e a ilimitabilidade de sua visão utópica do mundo.

 

Langdon percebeu que Winston estava lendo um roteiro.

 

– Klein é mais conhecido por suas pinturas azuis, mas também por uma perturbadora fotografia intitulada Salto no Vazio, que causou um tremendo pânico ao ser exposta em 1960.

 

Langdon tinha visto o Salto no Vazio no Museu de Arte Moderna de Nova York. A foto era um bocado desconcertante, mostrando um homem bem-vestido mergulhando de peito do alto de uma casa, na direção do pavimento. Na verdade, a imagem era um truque – concebido de modo brilhante e retocado diabolicamente com uma lâmina de barbear, muito antes dos tempos do Photoshop.

 

– Além disso – continuou Winston –, Klein também compôs a Sinfonia Monotônica-Silêncio, em que uma orquestra sinfônica toca um único acorde de ré maior durante 20 minutos.

 

– E as pessoas ouvem?

 

– Sim, milhares de pessoas. E esse acorde é só o primeiro movimento. No segundo, a orquestra fica sentada imóvel e executa um “puro silêncio” durante 20 minutos.

 

– Você está brincando, não é?

 

– Não, é sério. Em defesa da apresentação, ela provavelmente não era tão chata quanto poderia parecer; no palco também havia três mulheres nuas, pintadas de azul, rolando em telas gigantescas.

 

Apesar de Langdon ter dedicado a maior parte de sua carreira a estudar arte, perturbava-o o fato de que nunca havia aprendido a apreciar as obras mais vanguardistas do mundo. O apelo da arte moderna continuava sendo um mistério para ele.

 

– Não quero ser desrespeitoso, Winston, mas preciso dizer: frequentemente acho difícil saber quando algo é “arte moderna” ou quando é pura bizarrice.

 

A resposta de Winston foi imediata:

 

– Bom, frequentemente essa é a questão, não é? No seu mundo da arte clássica, as obras são reverenciadas pela capacidade de execução do artista. Isto é, com que habilidade ele encosta o pincel na tela ou o cinzel na pedra. Mas na arte moderna as obras-primas têm mais a ver com a ideia do que com a execução. Por exemplo, qualquer um poderia facilmente compor uma sinfonia de 40 minutos consistindo apenas em um acorde e silêncio, mas foi Yves Klein que teve a ideia.

 

– É justo.

 

– Claro, A Escultura de Névoa lá fora é um exemplo perfeito de arte conceitual. A artista teve uma ideia: passar tubos perfurados embaixo da ponte e soprar névoa no lago, mas a criação da obra foi feita por encanadores da cidade. – Winston fez uma pausa. – Mas eu dou uma nota muito alta à artista por usar seu meio como um código.

 

– A névoa é um código?

 

– É. Uma homenagem oculta ao arquiteto do museu.

 

– Frank Gehry?

 

– Frank O. Gehry – corrigiu Winston.

 

– Inteligente.

 

As iniciais do arquiteto formavam a palavra fog, névoa, em inglês.

 

Enquanto Langdon ia na direção das janelas, Winston disse:

 

– Daqui dá para ter uma bela visão da aranha. Você viu a Mamãe quando entrou?

 

Langdon olhou pela janela, por cima do lago, para a enorme escultura da viúva-negra na praça.

 

– Vi. É bem difícil não ver.

 

– Pelo seu tom, sinto que o senhor não é fã. É?

 

– Estou tentando ser. – Langdon fez uma pausa. – Como classicista, me sinto meio um peixe fora d’água.

 

– Interessante. Eu tinha imaginado que o senhor, principalmente, apreciaria a Mamãe. Ela é um exemplo perfeito da ideia de justaposição. O senhor poderia usá-la em sala de aula quando ensinar o conceito na próxima vez.

 

Langdon olhou a aranha, sem ver nada do gênero. Quando se tratava de ensinar justaposição, preferia algo um pouquinho mais tradicional.

 

– Acho que vou continuar com o Davi.

 

– Sim, Michelangelo é o padrão de ouro – disse Winston com um risinho –, concebendo Davi brilhantemente num contraposto efeminado, o pulso frouxo segurando de maneira casual uma funda flácida, revelando uma vulnerabilidade feminina. No entanto os olhos de Davi irradiam uma determinação letal, os tendões e as veias se avolumando com a expectativa de matar Golias. A obra é ao mesmo tempo delicada e mortífera.

 

Langdon ficou impressionado com a clareza da descrição e desejou que seus alunos tivessem uma compreensão semelhante da obra-prima de Michelangelo.

 

– A Mamãe é diferente do Davi – disse Winston. – Uma justaposição igualmente ousada de princípios arquetípicos opostos. Na natureza, a viúva-negra é uma criatura temível: uma predadora que captura as vítimas em sua teia e as mata. Apesar de ser letal, ela é representada aqui com um enorme saco de ovos, preparando-se para dar a vida, o que a torna ao mesmo tempo predadora e progenitora – um núcleo poderoso empoleirado em cima de pernas paradoxalmente finas, revelando força e fragilidade. A Mamãe pode ser chamada de um Davi dos dias atuais, por assim dizer.

 

– Não vou dizer – respondeu Langdon, sorrindo. – Mas devo admitir que sua análise me dá o que pensar.

 

– Bom, então deixe-me mostrar uma última obra. Por acaso é um original de Edmond Kirsch.

 

– Verdade? Não sabia que Edmond era artista.

 

Winston gargalhou.

 

– Deixarei que o senhor seja o juiz.

 

Langdon permitiu que Winston o guiasse, passando junto às janelas até uma alcova espaçosa onde um grupo de convidados tinha se reunido diante de uma grande placa de barro seco pendurada na parede. À primeira vista a laje de argila endurecida lembrou a Langdon a exposição de um fóssil. Mas aquele barro não continha fósseis. Em vez disso tinha marcas gravadas grosseiramente, semelhantes às que uma criança poderia desenhar com um graveto em cimento fresco.

 

Os espectadores não pareciam impressionados.

 

– Edmond fez isso? – resmungou uma mulher vestida com um casaco de marta e Botox nos lábios. – Não entendi.

 

O professor que havia em Langdon não pôde resistir.

 

– Na verdade é muito inteligente – interveio. – Até agora é minha obra predileta em todo o museu.

 

A mulher virou, olhando-o com uma boa sugestão de desdém.

 

– Ah, é mesmo? Então me esclareça.

 

Com prazer. Langdon foi até a série de marcas riscadas grosseiramente na superfície de argila.

 

– Bom, em primeiro lugar – disse –, Edmond gravou esta peça em argila como homenagem à primeira linguagem escrita da humanidade, a cuneiforme.

 

A mulher piscou, parecendo em dúvida.

 

– As três marcas fortes no meio – continuou ele – formam a palavra “peixe” em assírio. Isso é chamado de pictograma. Se a senhora olhar com atenção, pode imaginar a boca do peixe virada para a direita, além das escamas triangulares no corpo.

 

As pessoas do grupo inclinaram a cabeça, examinando de novo a obra.

 

– E se olharem aqui – Langdon apontou para a série de depressões à esquerda – podem ver que Edmond fez pegadas na lama atrás do peixe, representando o passo evolucionário do peixe em direção à terra.

 

Cabeças começaram a confirmar, em apreciação.

 

– E, finalmente – disse Langdon –, o asterisco assimétrico à direita, que o peixe parece estar abocanhando, é um dos símbolos mais antigos para Deus.

 

A mulher com Botox se virou e fez uma careta para ele.

 

– Um peixe comendo Deus?

 

– Aparentemente, sim. É uma versão brincalhona do peixe de Darwin: a evolução consumindo a religião. – Langdon deu de ombros com ar casual. – Como eu disse, é bem inteligente.

 

Enquanto se afastava, escutou o grupo murmurando atrás, e Winston soltou uma gargalhada.

 

– Muito divertido, professor! Edmond apreciaria sua palestra improvisada. Não são muitas as pessoas que decifram essa obra.

 

– Bom, na verdade esse é o meu trabalho.

 

– Sim, e agora entendo por que o Sr. Kirsch recomendou que eu o considerasse um convidado superespecial. De fato, ele pediu que eu lhe mostrasse uma coisa que nenhum dos outros convidados vai experimentar esta noite.

 

– É? E o que será?

 

– À direita das janelas principais o senhor está vendo um corredor com cordão de isolamento?

 

Langdon olhou à direita.

 

– Estou.

 

– Bom. Por favor, siga minhas orientações.

 

Em dúvida, Langdon obedeceu às instruções passo a passo de Winston. Foi até a entrada do corredor e, depois de verificar duas vezes se ninguém estava olhando, se espremeu discretamente por trás dos balaústres e foi avançando até sumir de vista.

 

Agora, tendo deixado para trás a multidão do átrio, caminhou dez metros até uma porta de metal com um teclado numérico.

 

– Tecle esses seis dígitos – disse Winston, informando os números.

 

Langdon digitou o código e a porta soltou um estalo.

 

– Certo, professor. Por favor, entre.

 

Langdon ficou parado um momento, sem saber o que esperar. Então, preparando-se, empurrou a porta. O espaço do outro lado estava mergulhado na semiescuridão.

 

– Vou acender as luzes para o senhor – disse Winston. – Por favor, entre e feche a porta.

 

Langdon entrou devagar, esforçando-se para enxergar. Fechou a porta e a fechadura estalou.

 

Aos poucos, uma luz suave começou a surgir nas bordas da sala, revelando um espaço impensavelmente enorme – uma câmara gigantesca – como um hangar de avião para uma frota de jumbos.

 

– Três mil metros quadrados – explicou Winston.

 

A sala fazia o átrio parecer minúsculo.

 

Enquanto as luzes continuavam a aumentar, Langdon viu um grupo de formas enormes apoiadas no chão – sete ou oito silhuetas escuras – como dinossauros pastando na noite.

 

– O que, afinal, estou vendo? – perguntou.

 

– Chama-se A Matéria do Tempo. – A voz animada de Winston reverberou pelo fone de Langdon. – É a peça de arte mais pesada do museu. Mais de 900 mil quilos.

 

Langdon ainda estava tentando se orientar.

 

– E por que estou aqui sozinho?

 

– Como eu disse, o Sr. Kirsch pediu que eu lhe mostrasse esses objetos incríveis.

 

As luzes chegaram ao brilho máximo, inundando o grande espaço numa claridade suave, e Langdon só podia olhar perplexo a cena diante dele.

 

Entrei num universo paralelo.

 

 

O almirante Luis Ávila chegou ao posto de controle da segurança do museu e olhou seu relógio, para garantir que estava na hora certa.

 

Perfeito.

 

Apresentou seu Documento Nacional de Identidad aos funcionários que cuidavam da lista de convidados. Por um momento sentiu a pulsação acelerar quando seu nome não foi localizado. Até que o encontraram no final da lista – um acréscimo de última hora – e Ávila teve permissão de entrar.

 

Como o Regente prometeu. Ávila não tinha ideia de como ele havia conseguido. Supostamente a lista desta noite era inflexível.

 

Continuou até o detector de metal, tirou seu celular e o colocou no prato. Então, com extremo cuidado, sacou do bolso do paletó um rosário de contas pesadíssimas e o colocou sobre o telefone.

 

Com cuidado, disse a si mesmo. Com muito cuidado.

 

O segurança o fez passar pelo detector de metal e levou o prato com itens pessoais para o lado oposto.

 

– Que rosario tan bonito – disse o guarda, admirando o objeto de metal, que consistia num cordão espesso com contas e uma grossa cruz arredondada.

 

– Gracias – respondeu Ávila. Eu mesmo fiz.

 

Passou sem incidentes pelo detector. Do outro lado pegou o telefone e o rosário, colocando-os cautelosamente no bolso antes de seguir até um segundo posto de controle, onde recebeu um fone de tipo incomum.

 

Não preciso de visita guiada por áudio, pensou. Tenho trabalho a fazer.

 

Enquanto seguia pelo átrio, largou discretamente o fone numa lixeira.

 

Seu coração estava martelando enquanto examinava o prédio em busca de um local privado para contatar o Regente e avisar que tinha entrado em segurança.

 

Por Deus, pelo país e pelo rei, pensou. Mas principalmente por Deus.

 

Nesse momento, nos recessos mais profundos do deserto enluarado nos arredores de Dubai, o amado allamah de 78 anos, Syed al-Fadl, arrastava-se em agonia pela areia. Não conseguia ir mais longe.

 

Sua pele estava queimada e cheia de bolhas, a garganta tão seca que ele mal conseguia respirar. Os ventos carregados de areia o haviam cegado horas antes e ele continuava se arrastando. Num determinado ponto, pensou ter ouvido o ruído longínquo de bugres nas dunas, mas provavelmente era só o vento uivando. A fé de al-Fadl de que Deus iria salvá-lo havia se exaurido muito antes. Os abutres não estavam mais voando em círculos; estavam andando ao seu lado.

 

O espanhol alto que tinha sequestrado al-Fadl na noite anterior mal dissera uma palavra enquanto levava o carro do allamah para o meio daquele deserto imenso. Depois de uma hora de viagem, parou e ordenou que al-Fadl saísse, deixando-o na escuridão sem comida nem água.

 

O sequestrador de al-Fadl não dera nenhuma indicação de sua identidade nem explicação para seus atos. A única pista possível que al-Fadl vislumbrou foi uma marca estranha na palma da mão direita do sujeito: um símbolo que ele não reconheceu.

 

Durante horas al-Fadl tinha andado pelo deserto, gritando em vão por socorro. Agora, enquanto desmoronava na areia sufocante e sentia o coração ceder, o clérigo seriamente desidratado repetiu a pergunta que vinha se fazendo havia horas.

 

Quem poderia desejar minha morte?

 

De modo assustador, só conseguia pensar numa resposta plausível.

 

 

Os olhos de Robert Langdon iam de uma forma colossal para a outra. Cada peça era uma altíssima chapa de aço envelhecido que fora enrolada elegantemente e depois colocada de modo precário sobre a borda, equilibrando-se para ficar em pé. As paredes de aço tinham cerca de 4,5 metros de altura e haviam sido curvadas em diferentes formas fluidas: uma fita ondulante, um círculo aberto, uma espiral frouxa.

 

– A Matéria do Tempo – repetiu Winston. – E o artista é Richard Serra. O uso de paredes sem sustentação feitas com material tão pesado cria a ilusão de instabilidade. Mas na verdade elas são todas muito estáveis. Imagine uma nota de dinheiro enrolada num lápis. Assim que o lápis for retirado, a cédula enrolada poderá ficar de pé, sustentada pela própria geometria.

 

Langdon parou e olhou o círculo imenso à frente. O metal era oxidado, o que lhe dava um tom de cobre queimado e uma qualidade crua, orgânica. A peça emanava uma força enorme e um delicado senso de equilíbrio.

 

– Professor, o senhor percebe que esta primeira forma não é totalmente fechada?

 

Langdon continuou andando em volta do círculo e viu que as extremidades da parede não se encontravam, como se uma criança tivesse tentado desenhar um círculo e errado o ponto de encontro do traço.

 

– A conexão desviada cria uma passagem que atrai o visitante para dentro, para explorar o espaço negativo.

 

A não ser que, por acaso, o visitante seja claustrofóbico, pensou Langdon, andando bem rápido.

 

– De modo similar – disse Winston –, à sua frente o senhor verá três fitas sinuosas de aço, seguindo mais ou menos paralelas, suficientemente próximas para formar dois túneis ondulantes com mais de 30 metros. Chama-se A Serpente, e nossos jovens visitantes gostam de correr por eles. Na verdade, dois visitantes nas extremidades opostas podem sussurrar e ouvir um ao outro com perfeição, como se estivessem cara a cara.

 

– Isso é notável, Winston, mas, por favor, explique por que Edmond pediu que você me mostrasse esta galeria.

 

Ele sabe que eu não curto essas coisas.

 

– A peça específica que ele pediu que eu lhe mostrasse chama-se Espiral Torcida e fica logo à frente, no canto direito. Está vendo?

 

Langdon forçou a vista a distância. Aquela que parece estar a um quilômetro daqui?

 

– É, estou vendo.

 

– Esplêndido. Vamos até lá, está bem?

 

Langdon olhou em dúvida pelo espaço enorme e foi em direção à distante espiral enquanto Winston continuava falando.

 

– Ouvi dizer, professor, que Edmond Kirsch é um ávido admirador do seu trabalho, em particular de suas ideias sobre a interação de várias tradições religiosas por toda a história e a evolução delas refletida na arte. Em muitos sentidos, o campo de estudo de Edmond, da teoria dos jogos e das previsões por computação, é muito semelhante, analisando o crescimento de vários sistemas e prevendo como irão se desenvolver com o tempo.

 

– Bom, ele obviamente é muito bom nisso. Afinal de contas, é chamado de Nostradamus dos dias atuais.

 

– É. Mas essa comparação é, de certa forma, um insulto.

 

– Por quê? – questionou Langdon. – Nostradamus é o profeta mais famoso de todos os tempos.

 

– Não quero contrariar, professor, mas Nostradamus escreveu quase mil quadras com palavras soltas que, no correr dos séculos, se beneficiaram das leituras criativas de pessoas supersticiosas buscando extrair significado onde não há... em tudo, desde a Segunda Guerra Mundial à morte da Princesa Diana e ao ataque ao World Trade Center. É completamente absurdo. Em contrapartida, num espaço de tempo bem curto, Edmond Kirsch publicou um número limitado de previsões bastante específicas que se mostraram verdadeiras: computação em nuvem, carros sem motorista, um processador alimentado por apenas cinco átomos. O Sr. Kirsch não é nenhum Nostradamus.

 

Aceito a correção, pensou Langdon. Diziam que Edmond Kirsch inspirava uma lealdade feroz entre as pessoas que trabalhavam para ele, e aparentemente Winston era um de seus ávidos discípulos.

 

– Então, está gostando da visita guiada? – perguntou Winston, mudando de assunto.

 

– Muito. Parabéns a Edmond por aperfeiçoar essa tecnologia de informações a distância.

 

– É, este sistema foi um sonho de Edmond durante anos e ele gastou uma quantidade incalculável de tempo e dinheiro desenvolvendo-o em segredo.

 

– Verdade? Essa tecnologia não parece muito complicada. Devo admitir que a princípio fiquei cético, mas você me conquistou. Foi uma conversa bem interessante.

 

– É generosidade sua dizer isso, mas espero não arruinar tudo agora admitindo a verdade. Infelizmente não fui de todo honesto com o senhor.

 

– Como assim?

 

– Em primeiro lugar, meu nome não é Winston. É Art.

 

Langdon gargalhou.

 

– Um guia de museu chamado Art? Bom, não o culpo por usar um pseudônimo. Prazer em conhecê-lo, Art.

 

– Além disso, quando o senhor perguntou por que eu não o acompanhava pessoalmente, dei uma resposta correta, dizendo que o Sr. Kirsch não queria lotar os museus. Mas essa resposta era incompleta. Há outro motivo para falarmos através do fone, e não pessoalmente. – Ele fez uma pausa. – Na verdade, sou incapaz de movimentos físicos.

 

– Ah... sinto muito.

 

Langdon imaginou Art sentado numa cadeira de rodas num centro de comunicações e lamentou que ele ficasse sem graça por ter de explicar sua condição.

 

– Não precisa ter pena. Garanto que pernas ficariam bem estranhas em mim. Veja bem, não sou exatamente o que o senhor imagina.

 

Os passos de Langdon ficaram mais lentos.

 

– Como assim?

 

– O nome Art não é exatamente um nome. “Art” é a abreviação de “artificial”, se bem que o Sr. Kirsch preferia a palavra “sintético”. – A voz fez uma pausa. – A verdade, professor, é que esta noite o senhor está interagindo com um guia sintético. Uma espécie de computador.

 

Langdon olhou em volta, em dúvida.

 

– Isso é algum tipo de pegadinha?

 

– De jeito nenhum, professor. Estou falando sério. Edmond Kirsch demorou uma década e gastou quase um bilhão de dólares no campo da inteligência sintética, e esta noite o senhor é um dos primeiros a experimentar os frutos do trabalho dele. Toda a sua visita guiada foi acompanhada por um monitor sintético. Não sou humano.

 

Langdon não conseguiu aceitar isso nem por um segundo. A dicção e a gramática do sujeito eram perfeitas. E, com a exceção de um riso ligeiramente sem graça, ele falava com uma elegância que Langdon raramente encontrava. Além disso, a conversa havia abarcado uma gama de assuntos ampla e variada.

 

Estou sendo observado, percebeu Langdon agora, examinando as paredes em busca de câmeras de vídeo escondidas. Suspeitava que era um participante involuntário numa estranha obra de “arte experimental” – uma peça de teatro do absurdo montada com artimanha. Eles me transformaram num rato em um labirinto.

 

– Não me sinto totalmente confortável com isso – declarou, a voz ecoando na galeria deserta.

 

– Peço desculpas – disse Winston. – É compreensível. Eu previ que o senhor poderia achar difícil processar essa notícia. Imagino que seja por isso que Edmond pediu que eu o trouxesse para cá, para um espaço privado, longe dos outros. Essa informação não está sendo revelada aos demais convidados.

 

Os olhos de Langdon sondaram a penumbra do espaço para ver se havia mais alguém ali.

 

– Como o senhor sabe – continuou a voz, parecendo estranhamente inabalada com o desconforto de Langdon –, o cérebro humano é um sistema binário: as sinapses disparam ou não disparam, estão ligadas ou desligadas, como uma chave de computador. O cérebro tem mais de 100 trilhões de chaves, o que significa que construir um cérebro é menos uma questão de tecnologia do que de escala.

 

Langdon mal ouvia. Estava andando de novo, a atenção focalizada numa placa de “Saída” com uma seta apontando para a outra extremidade da galeria.

 

– Professor, sei que é difícil aceitar a qualidade humana da minha voz como algo gerado por uma máquina, mas na verdade a fala é a parte mais fácil. Até mesmo um leitor de e-books de 99 dólares faz um serviço bastante decente imitando a fala humana. Edmond investiu bilhões.

 

Langdon parou de andar.

 

– Se você é um computador, diga o seguinte: em quantos pontos o Índice Industrial Dow Jones fechou em 24 de agosto de 1974?

 

– Esse dia foi um sábado – respondeu a voz instantaneamente. – De modo que a Bolsa não abriu.

 

Langdon sentiu um leve arrepio. Tinha escolhido a data como um truque. Um dos efeitos colaterais de sua memória fotográfica era que as datas se gravavam para sempre em sua mente. Aquele sábado tinha sido o aniversário de seu melhor amigo, e Langdon ainda se lembrava da festa na piscina à tarde. Helena Wooley usou um biquíni azul.

 

– No entanto – acrescentou a voz imediatamente –, no dia anterior, sexta-feira, 23 de agosto, o Índice Dow Jones fechou a 686,80, com queda de 17,83 pontos e uma perda de 2,53%.

 

Langdon se sentiu momentaneamente incapaz de falar.

 

– Ficarei feliz em esperar, se o senhor quiser verificar os dados no seu smartphone – entoou a voz. – Mas não terei outra opção a não ser observar a ironia disso.

 

– Mas... eu não...

 

– O desafio da inteligência sintética – continuou a voz, com o leve sotaque britânico agora parecendo mais estranho do que nunca – não é o acesso rápido aos dados, o que é bastante simples, e sim a capacidade de discernir como os dados são interconectados e entrelaçados, algo em que acredito que o senhor é excelente, não é? Inter-relacionamento de ideias. Esse é um dos motivos pelos quais o Sr. Kirsch queria testar minhas capacidades especificamente com o senhor.

 

– Um teste? Ele está me testando?

 

– De jeito nenhum. – De novo o riso sem graça. – Ele está me testando. Para ver se eu poderia convencer o senhor de que eu era humano.

 

– Um teste de Turing.

 

– Exatamente.

 

O teste de Turing, como Langdon lembrou, era um desafio proposto pelo matemático e decifrador de códigos Alan Turing para avaliar a capacidade de uma máquina de agir de um modo indistinguível de um ser humano. Em termos essenciais, um avaliador humano escutava uma conversa entre uma máquina e um ser humano, e se fosse incapaz de identificar qual dos participantes era humano, a máquina teria passado no teste. Isso tinha acontecido em 2014 na Royal Society em Londres, tornando-se um marco. Desde então, a tecnologia da inteligência artificial havia progredido a uma velocidade ofuscante.

 

– Até agora – continuou a voz – nenhum dos nossos convidados suspeitou de nada. Todos estão se divertindo um bocado.

 

– Espere aí, todo mundo está falando esta noite com um computador?

 

– Tecnicamente todo mundo está falando comigo. Sou capaz de me dividir com muita facilidade. O senhor está ouvindo minha voz padrão, a preferida por Edmond. Mas outros escutam outras vozes ou outras línguas. Baseado no seu perfil como acadêmico norte-americano do sexo masculino, escolhi meu sotaque inglês predeterminado. Previ que geraria mais confiança do que, por exemplo, a voz de uma jovem do sul dos Estados Unidos.

 

Essa coisa acabou de me chamar de chauvinista?

 

Langdon se lembrou de uma gravação popular que havia circulado pela internet vários anos antes: o chefe do escritório da revista Time, Michael Scherer, tinha recebido um telefonema de um robô de telemarketing tão estranhamente humano que resolveu postar a gravação do telefonema para que todo mundo ouvisse.

 

Isso foi muito tempo atrás, percebeu Langdon.

 

Langdon sabia que Kirsch estivera envolvido com inteligência artificial durante anos, aparecendo em capas de revistas de vez em quando para saudar várias novidades nesse campo. Ao que tudo indicava, seu filho “Winston” representava o ápice atual dessa tecnologia.

 

– Sei que tudo isso está acontecendo depressa – prosseguiu a voz –, mas o Sr. Kirsch requisitou que eu lhe mostrasse esta espiral na frente do senhor. Pediu que, por favor, o senhor entre nela e continue até o centro.

 

Langdon olhou a estreita passagem em curva e sentiu os músculos se retesando. Essa é a ideia que Edmond faz de um trote universitário?

 

– Você não pode simplesmente me dizer o que há lá dentro? Não sou grande fã de espaços apertados.

 

– Interessante, eu não sabia disso.

 

– A claustrofobia não é uma coisa que eu incluo na minha biografia na internet.

 

Langdon se controlou, ainda incapaz de aceitar que estava falando com uma máquina.

 

– Não precisa ter medo. O espaço no centro da espiral é bastante grande, e o Sr. Kirsch requisitou especialmente que o senhor visse o centro. Mas pediu que, antes de entrar, o senhor tirasse o fone e o deixasse no chão, aqui.

 

Langdon olhou para a enorme estrutura e hesitou.

 

– Você não vai comigo?

 

– Parece que não.

 

– Sabe, isso tudo é muito estranho, e eu não estou exatamente...

 

– Professor, considerando que Edmond o trouxe de longe até este evento, parece um pedido pequeno que o senhor caminhe uma distância curta dentro desta obra de arte. As crianças fazem isso todo dia e sobrevivem.

 

Langdon nunca tinha recebido uma repreensão de um computador, se é que era de fato isso, mas o comentário mordaz teve o efeito desejado. Ele tirou o fone e o colocou cuidadosamente no piso, agora se virando para a abertura da espiral. As paredes altas formavam um cânion estreito que se curvava até sumir na escuridão.

 

– Vamos lá – disse a ninguém.

 

Respirou fundo e entrou na abertura.

 

O caminho prosseguia curvando-se e curvando-se, mais para longe do que ele imaginava, cada vez mais para o fundo, e logo Langdon não fazia ideia de quantas rotações tinha feito. A cada giro em sentido horário a passagem ficava mais estreita, e seus ombros largos estavam quase roçando as paredes. Respire, Robert. As chapas de metal inclinadas pareciam a ponto de desmoronar para dentro e esmagá-lo sob toneladas de aço.

 

Por que estou fazendo isso?

 

Um segundo antes de Langdon dar meia-volta e retornar, o corredor terminou abruptamente, deixando-o num grande espaço aberto. Como fora prometido, a câmara era maior do que ele esperava. Langdon saiu rapidamente do túnel para o espaço aberto, exalando o ar enquanto examinava o piso vazio e as paredes de metal, imaginando de novo se aquilo seria algum tipo de elaborado trote universitário.

 

Uma porta estalou em algum lugar lá fora e passos rápidos ecoaram para além das paredes altas. Alguém tinha entrado na galeria, vindo pela porta que Langdon tinha visto. Os passos se aproximaram da espiral e começaram a circular ao redor dela, soando mais altos a cada volta. Alguém estava entrando.

 

Langdon recuou virado para a abertura enquanto os passos continuavam circulando, chegando mais perto. Os estalos rígidos ficaram mais altos até que, de repente, um homem saiu do túnel. Era baixo e magro, com pele clara, olhos penetrantes e cabelos pretos e revoltos.

 

Langdon olhou o homem inexpressivamente por um longo momento, e então, por fim, permitiu que um sorriso largo se abrisse no rosto.

 

– O grande Edmond Kirsch sempre faz uma entrada surpreendente.

 

– Só temos uma chance de causar uma primeira impressão – respondeu Kirsch, afável. – Senti sua falta, Robert. Obrigado por ter vindo.

 

Os dois trocaram um abraço sincero. Enquanto dava tapinhas nas costas do velho amigo, Langdon sentiu que Kirsch estava mais magro.

 

– Você perdeu peso – disse.

 

– Virei vegano. É mais fácil do que correr na esteira.

 

Langdon gargalhou.

 

– Bom, é ótimo vê-lo. E, como sempre, você fez com que eu me sentisse vestido de modo pomposo e exagerado.

 

– Quem, eu? – Kirsch olhou para seus jeans pretos e justos, a camiseta branca com gola em V e a jaqueta de aviador com zíper na lateral. – Isso é alta-costura.

 

– Chinelos brancos são alta-costura?

 

– Chinelos?! Esses são Ferragamo Guineas.

 

– E suponho que custem mais do que toda a minha roupa.

 

Edmond se aproximou e examinou a etiqueta da casaca clássica de Langdon.

 

– Na verdade – disse ele com um sorriso caloroso –, é bem bonita. Chegou perto.

 

– Devo dizer, Edmond, que seu amigo sintético, o Winston, é... muito inquietante.

 

Kirsch riu de orelha a orelha.

 

– Incrível, não é? Você não vai acreditar no que consegui com a inteligência artificial este ano. Saltos quânticos. Desenvolvi algumas revolucionárias tecnologias proprietárias que permitem que as máquinas resolvam problemas e se autorregulem de maneiras completamente novas. Winston é um trabalho inacabado, mas melhora dia a dia.

 

Langdon notou que no último ano tinham aparecido rugas em volta dos olhos juvenis de Edmond. Ele parecia cansado.

 

– Edmond, poderia me dizer por que me trouxe aqui?

 

– A Bilbao? Ou para dentro de uma espiral do Richard Serra?

 

– Vamos começar pela espiral. Você sabe que eu sou claustrofóbico.

 

– Exatamente. Esta noite tem a ver com tirar as pessoas de sua zona de conforto – disse ele com um risinho.

 

– Sempre sua especialidade.

 

– E mais – acrescentou Kirsch –, preciso falar com você e não queria ser visto antes da apresentação.

 

– Porque os astros do rock nunca se misturam com os fãs antes de um show, certo?

 

– Correto! – respondeu Kirsch em tom de brincadeira. – Os astros do rock aparecem magicamente no palco, no meio de uma nuvem de fumaça.

 

No alto subitamente as luzes diminuíram e aumentaram de intensidade. Kirsch puxou a manga do casaco e conferiu as horas no relógio. Então olhou de volta para Langdon, com a expressão ficando séria de repente.

 

– Robert, não tenho muito tempo. Esta noite é uma ocasião tremenda para mim. Na verdade, será importante para toda a humanidade.

 

Langdon foi tomado por uma grande expectativa.

 

– Recentemente fiz uma descoberta científica – disse Edmond. – É uma novidade que terá implicações de longo prazo. Quase ninguém sabe nada a esse respeito, e esta noite, daqui a pouco, vou me dirigir ao mundo ao vivo e anunciar o que descobri.

 

– Não sei bem o que dizer. Isso tudo parece incrível.

 

Edmond baixou a voz e seu tom ficou tenso, de um modo pouco característico.

 

– Antes de ir a público com essa informação, Robert, preciso do seu conselho. – Ele fez uma pausa. – Temo que minha vida possa depender disso.

 

 

Um silêncio pesado caiu sobre os dois homens dentro da espiral.

 

Preciso do seu conselho... temo que minha vida possa depender disso.

 

As palavras de Edmond pairavam no ar, e Langdon viu a inquietação nos olhos do amigo.

 

– Edmond? O que está acontecendo? Você está bem?

 

As luzes no alto diminuíram e aumentaram de intensidade outra vez, mas Edmond as ignorou.

 

– Este ano tem sido notável para mim – começou ele, a voz num sussurro. – Venho trabalhando sozinho num projeto que levou a uma descoberta revolucionária.

 

– Parece maravilhoso.

 

Kirsch assentiu.

 

– E é. Nenhuma palavra pode descrever como estou empolgado por compartilhá-la esta noite com o mundo. Ela vai causar uma enorme mudança de paradigma. Não estou exagerando ao dizer que minha descoberta terá repercussões na mesma escala da revolução causada por Copérnico.

 

Por um momento Langdon achou que seu anfitrião estava brincando, mas a expressão de Edmond permaneceu tremendamente séria.

 

Copérnico? A humildade nunca fora um dos pontos fortes de Edmond, mas essa declaração parecia beirar o absurdo. Nicolau Copérnico era o pai do modelo heliocêntrico – a teoria de que os planetas giram ao redor do Sol –, que provocou uma revolução científica no século XVI obliterando completamente o antigo ensinamento da Igreja, de que a humanidade ocupava o centro do Universo de Deus. Sua descoberta foi condenada pela Igreja durante três séculos, mas o dano já havia sido feito e o mundo nunca mais foi o mesmo.

 

– Dá para ver que você está cético – disse Edmond. – Seria melhor se eu dissesse Darwin?

 

Langdon sorriu.

 

– A mesma coisa.

 

– Certo, então deixe-me perguntar o seguinte: quais são as duas perguntas fundamentais feitas pela raça humana durante toda a história?

 

Langdon pensou.

 

– Bom, uma pergunta teria que ser: “Como tudo começou?” Ou seja, de onde viemos?

 

– Isso mesmo. E a segunda é simplesmente subordinada a essa. Não “de onde viemos”... mas...

 

– Para onde vamos?

 

– Isso! Esses dois mistérios estão no âmago da experiência humana. De onde viemos? Para onde vamos? Criação humana e destino humano. Esses são os enigmas universais. – O olhar de Edmond ficou mais afiado e ele espiou Langdon com expectativa. – Robert, a descoberta que eu fiz... responde claramente a essas duas perguntas.

 

Langdon pensou nas palavras de Edmond e em suas implicações inebriantes.

 

– Eu... não sei bem o que dizer.

 

– Não precisa dizer nada. Espero que nós dois possamos encontrar tempo para conversar com calma sobre isso depois da apresentação desta noite, mas no momento preciso falar com você sobre o lado sombrio dessa história: as consequências potenciais da descoberta.

 

– Você acha que haverá repercussões?

 

– Sem dúvida. Ao responder a essas perguntas, eu me coloquei em conflito direto com séculos de ensinamentos espirituais estabelecidos. As questões da criação e do destino do homem são tradicionalmente domínio da religião. Sou um intrometido, e as religiões não gostarão do que vou anunciar.

 

– Interessante. E foi por isso que você passou duas horas me interrogando sobre religião quando almoçamos em Boston no ano passado?

 

– Foi. Talvez você se lembre de que eu garanti que, no decorrer de nossa vida, os mitos religiosos seriam praticamente demolidos por revelações científicas.

 

Langdon assentiu. É difícil esquecer. A ousadia de Kirsch ficara gravada palavra por palavra na sua memória.

 

– Lembro. E eu contrapus que a religião tinha sobrevivido aos avanços da ciência durante milênios e que ela servia a um objetivo importante na sociedade. E que, ainda que a religião pudesse evoluir, ela jamais morreria.

 

– Exato. Também falei que tinha encontrado o propósito da minha vida: empregar a verdade da ciência para erradicar o mito da religião.

 

– É, palavras fortes.

 

– E você as questionou, Robert. Argumentou que, sempre que eu encontrasse uma “verdade científica” que entrasse em conflito ou solapasse os princípios básicos da religião, deveria discuti-la com eruditos religiosos, na esperança de que percebesse que ciência e religião frequentemente tentam contar a mesma história, só que em linguagens diferentes.

 

– Eu me lembro. Os cientistas e os espiritualistas costumam usar vocabulários diferentes para descrever exatamente os mesmos mistérios do Universo. Em geral, os conflitos são de semântica, e não de substância.

 

– Bom, eu segui seu conselho. E consultei líderes espirituais para falar sobre minha última descoberta.

 

– É mesmo?

 

– Você conhece o Parlamento das Religiões do Mundo?

 

– Claro.

 

Langdon era grande admirador dos esforços do grupo para promover o diálogo entre as crenças.

 

– Por acaso este ano o encontro do parlamento foi nos arredores de Barcelona, a cerca de uma hora da minha casa, na Abadia de Montserrat.

 

Local espetacular, pensou Langdon, que tinha visitado o santuário no topo da montanha muitos anos antes.

 

– Quando ouvi dizer que ele aconteceria na mesma semana em que eu planejava fazer essa grande revelação científica, não sei, eu...

 

– Ficou pensando se poderia ser um sinal de Deus?

 

Kirsch gargalhou.

 

– Algo assim. Por isso liguei para eles.

 

Langdon ficou impressionado.

 

– Você falou com todo o parlamento?

 

– Não! Seria perigoso demais. Não queria que essa informação vazasse antes de anunciá-la pessoalmente, por isso marquei um encontro com apenas três deles, um representante do cristianismo, um do islamismo e um do judaísmo. Nós quatro nos reunimos na biblioteca.

 

– Estou espantado por eles terem deixado você entrar na biblioteca – disse Langdon, surpreso. – Ouvi dizer que é um território sagrado.

 

– Eu disse a eles que o encontro precisava ser em um local seguro, sem telefones, sem câmeras, sem intrusos. Eles me levaram à biblioteca. Antes de falar qualquer coisa, pedi que fizessem um voto de silêncio. Eles concordaram. Até hoje são as únicas pessoas na face da Terra que sabem alguma coisa sobre minha descoberta.

 

– Fascinante. E como eles reagiram às suas revelações?

 

Kirsch pareceu sem graça.

 

– Talvez eu não tenha lidado muito bem com a situação. Você me conhece, Robert. Quando minhas paixões se inflamam, a diplomacia não é o meu forte.

 

– É, já li em algum lugar que você deveria fazer um treinamento de sensibilidade – disse Langdon, rindo.

 

Exatamente como Steve Jobs e tantos gênios visionários.

 

– Assim, do meu jeito direto, comecei a conversa dizendo a verdade: que eu sempre havia considerado a religião uma forma de ilusão das massas e que, como cientista, achava difícil aceitar que bilhões de pessoas inteligentes contassem com suas respectivas crenças religiosas para ser consoladas e orientadas. Quando eles perguntaram por que eu estava me consultando com pessoas por quem aparentemente tinha pouco respeito, falei que estava ali para avaliar a reação deles à minha descoberta. Queria ter ideia de como ela seria recebida pelos fiéis ao redor do mundo quando eu a tornasse pública.

 

– Sempre diplomático – disse Langdon, encolhendo-se. – Você sabe que às vezes a honestidade não é a melhor política?

 

Kirsch balançou a mão, desconsiderando o comentário.

 

– Minhas ideias sobre religião são amplamente divulgadas. Achei que eles gostariam da transparência. Mesmo assim, apresentei meu trabalho, explicando em detalhes o que havia descoberto e como isso mudava tudo. Até peguei meu telefone e mostrei um vídeo que considero bem impressionante. Eles ficaram perplexos.

 

– Não falaram nada? – instigou Langdon, sentindo-se mais curioso ainda sobre a descoberta de Kirsch.

 

– Eu esperava um debate, mas o clérigo cristão silenciou os outros dois antes que pudessem dizer uma palavra. E insistiu para que eu reconsiderasse a ideia de tornar pública a informação. Falei que pensaria nisso durante o mês seguinte.

 

– Mas você vai revelar tudo esta noite.

 

– Eu sei. Disse a eles que ainda faltavam várias semanas para o anúncio, de modo que não entrassem em pânico nem tentassem interferir.

 

– E quando eles ficarem sabendo da apresentação desta noite?

 

– Não vão achar divertido. Especialmente um deles. – Kirsch encarou Langdon. – O clérigo que foi à nossa reunião era o bispo Antonio Valdespino. Você sabe alguma coisa sobre ele?

 

Langdon ficou tenso.

 

– De Madri?

 

Kirsch assentiu.

 

– O próprio.

 

Provavelmente não era a plateia ideal para o ateísmo radical de Edmond, pensou Langdon. Valdespino era uma figura poderosa na Igreja Católica espanhola, conhecido por seus pontos de vista profundamente conservadores e forte influência sobre o rei da Espanha.

 

– Ele foi o anfitrião do parlamento este ano – disse Kirsch –, por isso eu o procurei para agendar o encontro. Valdespino se ofereceu para participar da reunião e eu pedi que levasse representantes do islamismo e do judaísmo.

 

As luzes diminuíram de intensidade outra vez.

 

Kirsch deu um suspiro pesado, baixando a voz ainda mais.

 

– Robert, quis falar com você antes da minha apresentação porque preciso do seu conselho. Preciso saber se você acredita que o bispo é perigoso.

 

– Perigoso? Em que sentido?

 

– O que eu mostrei ameaça o mundo dele, e quero saber se você acha que Valdespino representa algum risco à minha integridade física.

 

Langdon balançou a cabeça imediatamente.

 

– Não. É impossível. Não sei o que você disse a ele, mas Valdespino é um pilar do catolicismo espanhol e suas ligações com a família real espanhola o tornam extremamente influente... Mas ele é um sacerdote, não um pistoleiro. Ele tem poder político. Pode fazer um sermão contra você, mas acho pouco provável que represente uma ameaça a sua integridade física.

 

Kirsch não pareceu convencido.

 

– Você deveria ter visto como ele me olhou quando saí de Montserrat.

 

– Você se sentou na sacrossanta biblioteca do mosteiro e disse a um bispo que todo o sistema de crença dele é ilusório! O que esperava? Que ele lhe servisse chá e bolo?

 

– Não – admitiu Edmond –, mas também não esperava que ele me deixasse um recado ameaçador na caixa postal do telefone depois do encontro.

 

– O bispo Valdespino ligou para você?

 

Kirsch enfiou a mão na jaqueta de couro e tirou um smartphone extraordinariamente grande. Tinha uma capa turquesa adornada com um padrão hexagonal repetido, que Langdon reconheceu como um famoso padrão de ladrilhos desenhado pelo arquiteto modernista catalão Antoni Gaudí.

 

– Escute – disse Kirsch, apertando alguns botões e levantando o telefone.

 

A voz de um homem idoso saiu tensa, severa e tremendamente séria:

 

Sr. Kirsch, aqui é o bispo Valdespino. Como o senhor sabe, achei nosso encontro desta manhã um tanto perturbador – sentimento compartilhado pelos meus dois colegas. Insisto que o senhor me ligue imediatamente para que possamos discutir isso de modo mais profundo. Mais uma vez devo alertá-lo dos perigos de divulgar essa informação. Se o senhor não telefonar, fique sabendo que meus colegas e eu consideraremos fazer um anúncio preventivo para compartilhar suas descobertas, reformulá-las, desacreditá-las e tentar reverter o mal indizível que o senhor está para causar ao mundo... um mal que obviamente o senhor não antevê. Aguardo seu telefonema e sugiro de maneira veemente que não questione minha determinação.

 

A mensagem terminou.

 

Langdon precisou admitir que ficou espantado com o tom agressivo de Valdespino, no entanto a mensagem não o amedrontou tanto. Serviu mais para aumentar sua curiosidade sobre o anúncio iminente de Edmond.

 

– E como você reagiu?

 

– Não reagi – respondeu Edmond, guardando o telefone de volta no bolso. – Considerei uma ameaça vazia. Tinha certeza de que eles desejariam enterrar essa informação, e não anunciá-la eles próprios. Além disso, sabia que o momento precoce da nossa apresentação iria pegá-los de surpresa, por isso não fiquei muito preocupado com a possibilidade de tomarem alguma atitude preventiva. – Ele parou, olhando para Langdon. – Agora... não sei, alguma coisa no tom de voz dele... não me sai da cabeça.

 

– Você está preocupado com a possibilidade de correr perigo aqui? Esta noite?

 

– Não, não, a lista de convidados foi muito bem controlada e este prédio tem uma segurança excelente. Estou mais preocupado com o que acontecerá assim que eu tiver feito a revelação. – De repente Edmond pareceu lamentar o que dissera. – É idiotice. Nervosismo de estreia. Eu só queria saber qual era o seu instinto com relação a isso.

 

Langdon examinou o amigo com preocupação crescente. Edmond parecia estar com uma palidez e uma perturbação incomuns.

 

– Meu instinto diz que Valdespino jamais iria colocá-lo em perigo, não importando quanto você o tenha deixado com raiva.

 

As luzes diminuíram de novo, agora com insistência.

 

– Certo, obrigado. – Kirsch verificou seu relógio. – Preciso ir, mas será que nós dois podemos nos encontrar mais tarde? Há alguns aspectos dessa descoberta que eu gostaria de discutir mais com você.

 

– Claro.

 

– Perfeito. A coisa vai ficar caótica depois do meu anúncio, de modo que você e eu vamos precisar de um local privado para escapar da loucura e poder conversar. – Edmond pegou um cartão de visita e escreveu algo no verso. – Depois da apresentação, pegue um táxi e entregue isso ao chofer. Qualquer motorista da cidade vai saber aonde levar você.

 

Ele entregou o cartão ao professor.

 

Langdon esperou encontrar no verso o endereço de algum hotel ou restaurante. Em vez disso, o que viu mais parecia um código.

 

BIO-EC346

 

– Desculpe, é para dar isto a um chofer de táxi?

 

– É, ele vai saber aonde ir. Vou dizer à segurança de lá para esperar você, e vou chegar o mais rápido possível.

 

Segurança? Langdon franziu a testa, imaginando se BIO-EC346 seria o codinome de algum clube de ciência secreto.

 

– É um código dolorosamente simples, Robert. – Ele piscou. – Você, mais do que qualquer pessoa, deveria ser capaz de decifrá-lo. E, por sinal, só para não ser apanhado desprevenido: você vai representar um papel no meu anúncio desta noite.

 

Langdon ficou surpreso.

 

– Que tipo de papel?

 

– Não se preocupe. Você não terá que fazer nada.

 

Com isso, Edmond Kirsch começou a sair da espiral.

 

– Preciso ir correndo para os bastidores, mas Winston vai guiar você. – Ele parou na passagem e se virou. – Vejo você depois do evento. E espero que esteja certo com relação a Valdespino.

 

– Relaxe, Edmond. Concentre-se na apresentação. Você não corre perigo por parte desses clérigos.

 

Kirsch não pareceu convencido.

 

– Você pode mudar de ideia, Robert, quando ouvir o que vou dizer.

 

 

A sede da Arquidiocese de Madri – a Catedral de la Almudena – é uma robusta construção neoclássica situada junto ao Palácio Real. Erguida no lugar onde houvera uma antiga mesquita, seu nome deriva da palavra árabe al-mudayna, que significa “cidadela”.

 

Segundo a lenda, quando Afonso VI tomou Madri de volta dos muçulmanos em 1083, ficou obcecado em reencontrar um precioso ícone perdido da Virgem Maria que, por segurança, fora emparedado nos muros da cidadela. Incapaz de localizar a Virgem escondida, Afonso rezou até que um trecho da muralha explodiu, desmoronando, e revelou o ícone dentro, ainda iluminado pelas velas acesas com que tinha sido emparedado séculos antes.

 

Hoje a Virgem de Almudena é a padroeira de Madri, e peregrinos e turistas vão em bandos à catedral para ter o privilégio de rezar diante dela. A localização dramática da igreja – compartilhando a praça do Palácio Real – proporciona uma atração a mais para os frequentadores: a possibilidade de vislumbrar alguém da realeza entrando ou saindo do palácio.

 

Esta noite, no interior da catedral, um jovem acólito ia rapidamente pelo corredor, em pânico.

 

Onde está o bispo Valdespino?!

 

A missa está para começar!

 

Durante décadas, o arcebispo Antonio Valdespino tinha sido o principal sacerdote e supervisor dessa catedral. Antigo amigo e conselheiro espiritual do rei, Valdespino era um tradicionalista explícito e devoto, praticamente sem qualquer tolerância em relação à modernização. Por incrível que pareça, o bispo de 83 anos ainda usava algemas de tornozelo durante a Semana Santa e se juntava aos fiéis que carregavam ícones pelas ruas da cidade.

 

Valdespino, mais do que ninguém, jamais se atrasa para a missa.

 

O acólito estivera com o bispo 20 minutos antes, na sacristia, ajudando-o como sempre com as vestes. Assim que terminaram, o bispo recebeu uma mensagem de texto e, sem dizer uma palavra, saiu rapidamente.

 

Aonde será que ele foi?

 

Depois de procurar na nave, na sacristia e até na sala de descanso particular do bispo, agora o acólito ia a toda a velocidade pelo corredor até a área administrativa da catedral, procurar no escritório do bispo.

 

Ouviu um órgão de tubos trovejar a distância.

 

O hino processional está começando!

 

O acólito parou derrapando do lado de fora do escritório particular do bispo, espantado ao ver uma luz saindo por baixo da porta fechada. Ele está aqui?

 

O acólito bateu baixinho.

 

– ¿Excelencia Reverendísima?

 

Não houve resposta.

 

Bateu mais alto e gritou:

 

– ¿Su Excelencia?

 

Nada, ainda.

 

Temendo pela saúde do velho, virou a maçaneta e abriu a porta.

 

¡Cielos! O acólito ofegou ao olhar dentro da sala privativa.

 

O bispo Valdespino estava sentado à sua mesa de mogno, olhando para a luz de um laptop. A mitra estava na cabeça, a casula embolada embaixo do corpo e o bastão episcopal encostado na parede de modo pouco cerimonioso.

 

O acólito pigarreou.

 

– La santa misa está...

 

– Preparada – interrompeu o bispo, o olhar jamais se afastando da tela. – Padre Derida me sustituye.

 

O rapaz ficou olhando-o perplexo. O padre Derida vai substituí-lo? Um sacerdote iniciante supervisionando a missa da noite de sábado era algo tremendamente irregular.

 

– ¡Vete ya! – ordenou Valdespino rispidamente, sem levantar a cabeça. – Y cierra la puerta.

 

Com medo, o jovem obedeceu, saindo rápido e fechando a porta.

 

Enquanto corria de volta em direção ao som do órgão, o acólito se perguntou o que o bispo estaria vendo em seu computador que afastava tanto sua mente dos deveres para com Deus.

 

Nesse momento o almirante Ávila estava serpenteando em meio à multidão cada vez maior no átrio do Guggenheim, intrigado ao ver os convidados batendo papo com seus fones. Aparentemente a visita guiada por áudio era uma conversa de mão dupla.

 

Ficou feliz por ter se livrado do aparelho.

 

Nada de distrações esta noite.

 

Verificou o relógio e olhou os elevadores. Já estavam apinhados de pessoas que iam para o evento principal lá em cima, por isso optou pela escada. Enquanto subia, sentiu o mesmo tremor de incredulidade da noite anterior. Será que me tornei mesmo um homem capaz de matar? As almas hereges que tinham arrebatado sua esposa e seu filho o haviam transformado. Meus atos são sancionados por uma autoridade mais elevada, lembrou-se. Existe retidão no que faço.

 

Enquanto Ávila chegava ao primeiro patamar, seu olhar foi atraído para uma mulher numa passarela suspensa ali perto. A mais nova celebridade da Espanha, pensou, olhando a famosa beldade.

 

Ela usava um vestido branco colante com uma faixa preta que atravessava o torso com elegância. A figura esguia, o cabelo preto e luxuriante e o traseiro gracioso eram fáceis de admirar, e Ávila notou que não era o único que a observava.

 

Além dos olhares de aprovação dos outros convidados, a mulher de branco tinha toda a atenção de dois seguranças que a seguiam de perto. Os homens se moviam com a confiança cautelosa de panteras e usavam paletós azuis iguais, com brasões bordados e as grandes iniciais GR.

 

Ávila não ficou surpreso com a presença deles, mas essa visão fez seu pulso acelerar. Como ex-membro das Forças Armadas espanholas, sabia muitíssimo bem o que significava GR. Aqueles dois acompanhantes estavam mais bem armados e eram mais bem treinados do que a maioria dos guarda-costas.

 

Se eles estão presentes, devo tomar todas as precauções, disse a si mesmo.

 

– Ei! – gritou uma voz masculina logo atrás dele.

 

Ávila girou.

 

Um sujeito pançudo usando smoking e chapéu de caubói preto estava dando um sorriso largo para ele.

 

– Linda fantasia! – disse o homem, apontando para o seu uniforme militar. – Onde a gente consegue uma assim?

 

Ávila ficou olhando, com os pulsos fechados num reflexo. Depois de toda uma vida de serviço e sacrifícios, pensou.

 

– No hablo inglés – respondeu dando de ombros, e continuou subindo a escada.

 

No segundo andar, encontrou um corredor comprido e seguiu as placas até um toalete distante, na outra ponta. Já ia entrar quando as luzes de todo o museu diminuíram e aumentaram de intensidade: o primeiro empurrãozinho instigando os convidados a subir para a apresentação.

 

Entrou no banheiro deserto, escolheu o último cubículo e se trancou lá dentro. Sozinho, sentiu os demônios familiares tentando chegar à superfície, ameaçando arrastá-lo de volta para o abismo.

 

Cinco anos, e as lembranças ainda me assombram.

 

Com raiva, afastou os horrores da mente e tirou o rosário de contas de dentro do bolso. Gentilmente pendurou-o no gancho de casacos preso à porta. Enquanto as contas e o crucifixo balançavam pacificamente diante dele, admirou seu trabalho manual. Os devotos poderiam se horrorizar ao ver que alguém seria capaz de conspurcar o rosário criando um objeto como aquele. Mesmo assim, o Regente havia garantido a Ávila que tempos desesperados permitiam uma certa flexibilidade nas regras da absolvição.

 

Quando a causa é tão santa, prometera o Regente, o perdão de Deus é certo.

 

Assim como acontecia com a proteção de sua alma, o corpo de Ávila também recebera a garantia de ser livrado do mal. Olhou a tatuagem na palma da mão.

 

Como o antigo crismón de Cristo, esse ícone era feito inteiramente de letras. Ávila o havia gravado três dias antes com tinta ferrogálica e uma agulha, seguindo exatamente as instruções, e o local ainda estava sensível e vermelho. Se fosse capturado, garantira o Regente, só precisaria deixar a palma da mão visível aos captores, e em horas seria solto.

 

Nós ocupamos os níveis mais altos do governo, tinha dito o Regente.

 

Ávila já havia testemunhado a espantosa influência deles, que parecia um manto de proteção à sua volta. Ainda existe quem respeite os costumes antigos. Um dia esperava se juntar a essa elite, mas por enquanto sentia-se honrado por representar qualquer papel.

 

Na solidão do banheiro pegou o telefone e digitou o número seguro que tinha recebido.

 

A ligação foi atendida ao primeiro toque.

 

– ¿Sí?

 

– Estoy em posición – respondeu Ávila, esperando as instruções finais.

 

– Bien – disse o Regente. – Tendrás una sola oportunidad. Aprovecharla será crucial. – Você só terá uma chance. Será crucial aproveitá-la.

 

 

Subindo o litoral, a 30 quilômetros de Dubai e seus reluzentes arranha-céus, ilhas artificiais e mansões festivas de celebridades, fica a ultraconservadora cidade de Sharjah – capital cultural dos Emirados Árabes Unidos.

 

Com mais de 600 mesquitas e as melhores universidades da região, Sharjah é um pináculo de espiritualidade e aprendizado, posição impulsionada por enormes reservas de petróleo e um governante que coloca a educação de seu povo acima de todas as outras coisas.

 

Esta noite, a família do amado allamah de Sharjah, Syed al-Fadl, tinha se reunido privadamente para uma vigília. Em vez do tradicional tahajjud, a oração de vigília noturna, todos oravam pelo retorno do querido pai, tio e marido que desaparecera misteriosamente sem deixar rastro.

 

A imprensa local tinha acabado de anunciar que um dos colegas de Syed dizia que o allamah em geral sereno parecera “estranhamente agitado” ao retornar do Parlamento das Religiões do Mundo, dois dias antes. Além disso, o colega contou que tinha ouvido Syed numa rara discussão acalorada pelo telefone, pouco depois de sua volta. A discussão tinha sido em inglês, e portanto impossível de ser compreendida por ele, mas o colega jurou que ouviu Syed mencionar repetidamente um nome.

 

Edmond Kirsch.

 

 

Os pensamentos de Langdon giravam como num redemoinho quando ele saiu da estrutura em espiral. Sua conversa com Kirsch tinha sido ao mesmo tempo empolgante e alarmante. Quer as afirmações de Kirsch fossem exageradas ou não, ele obviamente descobrira alguma coisa que acreditava ser capaz de provocar uma mudança de paradigma no mundo.

 

Uma descoberta tão importante quanto a de Copérnico?

 

Quando finalmente emergiu da escultura espiralada, Langdon sentiu-se ligeiramente tonto. Pegou o fone que tinha deixado no chão.

 

– Winston? – disse, colocando o aparelho. – Olá?

 

Houve um estalo fraco e o guia inglês computadorizado voltou.

 

– Olá, professor. Sim, estou aqui. O Sr. Kirsch pediu que eu o levasse pelo elevador de serviço porque o tempo é curto demais para voltar ao átrio. Além disso, achou que o senhor apreciaria o espaço amplo.

 

– É gentileza da parte dele. Edmond sabe que sou claustrofóbico.

 

– Agora também sei. E não vou esquecer.

 

Winston guiou Langdon pela porta lateral, saindo por um corredor de cimento até chegar diante do elevador. Como fora prometido, era enorme, obviamente destinado a transportar grandes obras de arte.

 

– Botão de cima – disse Winston quando Langdon entrou. – Terceiro andar.

 

Quando chegaram ao destino, Langdon saiu.

 

– Muito bem – entoou a voz animada de Winston na sua cabeça. – Vamos pela galeria à esquerda. É o caminho mais curto para o auditório.

 

Langdon seguiu as orientações, passando por uma ampla galeria com uma série de instalações bizarras: um canhão de aço que atirava bolas gosmentas de cera vermelha contra uma parede branca; uma canoa de tela de arame que obviamente não flutuaria; toda uma cidade em miniatura feita de blocos de metal queimado.

 

Enquanto iam para o final da galeria, Langdon se pegou olhando absolutamente perplexo para uma peça enorme que dominava o espaço.

 

É oficial, decidiu, encontrei a obra mais estranha do museu.

 

Ocupando toda a largura do salão, um número imensurável de lobos com aparência realista posava dinamicamente, uns correndo numa longa fila pela galeria, outros saltando para o alto e os mais à frente colidindo violentamente contra uma parede de vidro transparente, o que resultava numa pilha enorme de lobos mortos.

 

– Chama-se Batendo de Frente – explicou Winston. – Noventa e nove lobos correndo às cegas para uma parede, simbolizando a mentalidade de rebanho, a falta de coragem para se desviar da norma.

 

A ironia do simbolismo impressionou Langdon. Suspeito que Edmond vai se desviar dramaticamente da norma esta noite.

 

– Agora, se continuar em frente – disse Winston –, o senhor vai encontrar a saída à esquerda daquela peça colorida em forma de losango. O artista é um dos prediletos de Edmond.

 

Langdon viu a pintura multicolorida e reconheceu instantaneamente os rabiscos característicos, as cores primárias e o divertido olho flutuando.

 

Joan Miró, pensou. Sempre havia gostado da obra do famoso pintor de Barcelona, que parecia um cruzamento entre um livro de colorir infantil e um vitral surrealista.

 

Mas quando chegou junto à obra, parou, espantado ao ver que a superfície era absolutamente lisa, sem pinceladas visíveis.

 

– Isso é uma reprodução?

 

– Não, é o original – respondeu Winston.

 

Langdon olhou mais de perto. Aquela peça obviamente saíra de uma impressora de grande formato.

 

– Winston, isso é uma impressão. Nem é feito em tela.

 

– Eu não trabalho com tela – respondeu Winston. – Crio arte virtualmente e depois Edmond imprime para mim.

 

– Espere aí – disse Langdon, incrédulo. – Isso é seu?

 

– É. Tentei imitar o estilo de Joan Miró.

 

– Dá para ver. Você até assinou: Miró.

 

– Não. Olhe de novo. Eu assinei Miro, sem acento. Em espanhol a palavra miro significa “eu olho”.

 

Inteligente, Langdon precisou admitir, vendo o olho ao estilo de Miró espiando o espectador do centro da obra feita por Winston.

 

– Edmond pediu que eu fizesse um autorretrato e foi isso que eu consegui.

 

Esse é o seu autorretrato? Langdon olhou de novo os rabiscos irregulares. Você deve ser um computador com uma aparência muito estranha.

 

Recentemente Langdon tinha lido sobre a crescente empolgação de Edmond em ensinar computadores a criar arte algorítmica, isto é, arte gerada por programas altamente complexos. Isso levantava uma questão desconfortável: quando um computador cria arte, quem é o artista? O computador ou o programador? No MIT, uma exposição recente de arte algorítmica tremendamente bem realizada tinha provocado uma reviravolta incômoda no curso de humanidades de Harvard: É a Arte Que Nos Torna Humanos?

 

– Eu componho também – entoou Winston. – O senhor deveria pedir que Edmond lhe mostrasse alguma música minha, mais tarde, se estiver curioso. Mas agora precisa se apressar. A apresentação vai começar logo.

 

Langdon saiu da galeria e se viu numa passarela alta acima do átrio principal. Do lado oposto, guias tiravam os últimos convidados dos elevadores, arrebanhando-os na direção de Langdon, indo para uma porta adiante.

 

– O programa vai começar em alguns minutos – disse Winston. – Está vendo a entrada para o local da apresentação?

 

– Estou. É logo ali.

 

– Excelente. Uma última coisa. Quando entrar, verá várias latas para deixar os fones. Edmond pediu que o senhor não devolva o seu, que fique com ele. Assim, depois do programa, poderei guiá-lo para fora do museu por uma porta dos fundos, onde vai evitar a multidão e sem dúvida poderá encontrar um táxi.

 

Langdon visualizou a estranha série de letras e números que Edmond tinha escrito no cartão de visita, dizendo para dá-lo ao motorista de táxi.

 

– Winston, Edmond só escreveu “BIO-EC346”. Disse que era um código dolorosamente simples.

 

– Ele disse a verdade – respondeu Winston rapidamente. – Agora, professor, o programa já vai começar. Espero que goste da apresentação do Sr. Kirsch e estou ansioso para ajudá-lo depois.

 

Com um estalo abrupto, Winston se foi.

 

Langdon se aproximou da porta, tirou o fone e colocou o aparelho minúsculo no bolso da casaca. Depois passou correndo pela entrada junto com os últimos convidados, justo quando a porta se fechava atrás dele.

 

De novo viu-se num espaço inesperado.

 

Vamos assistir à apresentação de pé?

 

Tinha imaginado o público se reunindo num confortável auditório com poltronas para ouvir o anúncio de Edmond, mas em vez disso centenas de convidados estavam de pé numa galeria apertada, pintada de branco. A sala não continha nenhuma obra de arte visível e nenhum assento – só um pódio na parede mais distante, flanqueado por uma grande tela de cristal líquido onde estava escrito:

 

O programa ao vivo começa em 2 minutos e 7 segundos

 

Sentindo uma onda crescente de expectativa, Langdon desceu o olhar pela tela de LCD até uma segunda linha de texto, que ele precisou ler duas vezes:

 

Número de espectadores remotos: 1.953.694

 

Dois milhões de pessoas?

 

Kirsch tinha dito que transmitiria seu anúncio ao vivo pela internet, mas esse número parecia incomensurável, e aumentava a cada instante.

 

Um sorriso atravessou o rosto de Langdon. Seu ex-aluno certamente havia se dado bem na vida. Agora a questão era: o que, afinal de contas, Edmond iria dizer?

 

 

Num deserto enluarado a leste de Dubai, um bugre Sand Viper 1100 fez uma curva brusca à esquerda e parou derrapando, lançando um véu de areia na frente dos faróis acesos.

 

O adolescente atrás do volante tirou os óculos e olhou para o objeto que quase havia atropelado. Apreensivo, desceu do veículo e se aproximou da forma escura na areia.

 

Sem dúvida era exatamente o que parecia.

 

Ali, à luz dos faróis, esparramado de rosto para baixo na areia, estava um corpo humano imóvel.

 

– Marhaba? – gritou o rapaz. – Olá?

 

Não houve resposta.

 

O rapaz soube que a pessoa caída era um homem devido à roupa: um tradicional chapéu chechia e um thawb largo – e o homem parecia bem alimentado e atarracado. Suas pegadas tinham sido sopradas muito antes pelo vento, assim como qualquer marca de pneus ou outro indicativo de como chegara tão longe no deserto.

 

– Marhaba? – repetiu o jovem.

 

Nada.

 

Sem saber direito o que fazer, estendeu o pé e cutucou de leve a cintura do homem. Apesar de o corpo ser gordo, a carne parecia retesada e dura, já ressecada pelo vento e pelo sol.

 

Definitivamente morto.

 

O rapaz se abaixou, segurou o ombro do homem e o virou de costas. Os olhos sem vida espiaram o céu. O rosto e a barba estavam cobertos de areia, mas mesmo sujo ele parecia amigável, até familiar, como um tio ou avô predileto.

 

O rugido de meia dúzia de quadriciclos e bugres trovejou ali perto enquanto os amigos do rapaz davam a volta para ver se ele estava bem. Os veículos passaram rugindo pela crista da duna e deslizaram pela lateral.

 

Todos pararam, tiraram os óculos e os capacetes e se juntaram ao redor da descoberta macabra de um corpo ressecado. Um deles começou a falar, nervoso, tendo reconhecido o morto como o famoso allamah Syed al-Fadl – líder religioso e erudito que de vez em quando falava na universidade.

 

– Matha Alayna ’an naf’al? – perguntou em voz alta. O que vamos fazer?

 

Os rapazes ficaram parados em círculo, olhando em silêncio para o cadáver. Depois reagiram como os adolescentes de todo o mundo. Pegaram os telefones e começaram a tirar fotos para mandar aos amigos.

 

 

De pé, ombro a ombro com os convidados que se acotovelavam ao redor do pódio, Robert Langdon olhava admirado o número na tela de LCD aumentar cada vez mais.

 

Número de espectadores remotos: 2.527.664

 

As conversas no espaço apinhado tinham subido ao nível de um trovejar contínuo, as vozes de centenas de convidados zumbindo de expectativa, muitos dando telefonemas de última hora ou postando tweets para contar onde estavam.

 

Um técnico subiu ao pódio e bateu no microfone.

 

– Senhoras e senhores, já pedimos que, por favor, desliguem seus telefones. Neste momento, vamos bloquear todas as comunicações por Wi-Fi ou celular por toda a duração deste evento.

 

Muitos convidados ainda estavam ao telefone e perderam abruptamente a conexão. A maioria ficou estupefata, como se tivesse acabado de testemunhar um milagre da tecnologia de Kirsch, capaz de cortar num passe de mágica todas as conexões com o mundo exterior.

 

Quinhentos dólares numa loja de material eletrônico, Langdon sabia, já que era um dos muitos professores de Harvard que agora usavam tecnologia portátil de bloqueio de celulares para transformar suas salas em “zonas mortas” e manter os alunos longe dos aparelhos durante as aulas.

 

Com uma câmera enorme em cima do ombro, um cinegrafista se posicionou apontando para o pódio. As luzes da sala diminuíram de intensidade.

 

Agora a tela de LCD indicava:

 

O programa ao vivo começa em 38 segundos

 

Número de espectadores remotos: 2.857.914

 

Langdon acompanhava pasmo a contagem de espectadores. Parecia subir mais rápido do que a dívida interna dos Estados Unidos, e ele achava quase impossível compreender que cerca de três milhões de pessoas estivessem sentadas em casa nesse momento assistindo a uma transmissão ao vivo do que estava para acontecer ali.

 

– Trinta segundos – anunciou o técnico baixinho ao microfone.

 

Uma porta estreita se abriu na parede atrás do pódio e a multidão silenciou abruptamente, todos esperando ansiosos o grande Edmond Kirsch.

 

Mas Edmond não se materializou.

 

A porta ficou aberta por quase dez segundos.

 

Então uma mulher elegante emergiu e foi na direção do pódio. Era de uma beleza espantosa – alta e magra, com cabelo preto comprido – e usava um vestido colante com uma faixa preta diagonal. Parecia deslizar sem esforço pelo piso. Ocupando o centro do palco, ajustou o microfone, respirou fundo e deu um sorriso paciente enquanto esperava o relógio prosseguir com a contagem regressiva.

 

O programa ao vivo começa em 10 segundos

 

A mulher fechou os olhos por um momento, como se estivesse se preparando, e então os abriu de novo, o próprio retrato do equilíbrio.

 

O cinegrafista levantou cinco dedos.

 

Quatro, três, dois...

 

A sala ficou totalmente silenciosa enquanto a mulher levantava os olhos para a câmera. A tela de LCD se dissolveu numa imagem ao vivo do seu rosto. Ela fixou a plateia com olhos escuros impetuosos enquanto afastava casualmente uma mecha de cabelos do rosto moreno.

 

– Boa noite a todos – começou, com a voz culta e graciosa e um leve sotaque espanhol. – Meu nome é Ambra Vidal.

 

Uma salva de palmas incomumente alta irrompeu no salão, deixando claro que um bom número de pessoas sabia quem ela era.

 

– ¡Felicidades! – gritou alguém. Parabéns.

 

A mulher ficou ruborizada e Langdon percebeu que havia alguma informação que ele não conhecia.

 

– Senhoras e senhores – disse ela, prosseguindo rapidamente –, há cinco anos sou diretora do Museu Guggenheim de Bilbao e estou aqui esta noite para lhes dar as boas-vindas a este evento muito especial apresentado por um homem verdadeiramente notável.

 

A multidão aplaudiu entusiasmada e Langdon fez o mesmo.

 

– Edmond Kirsch é um generoso benfeitor do museu, mas se tornou um amigo de confiança. Para mim, tem sido um privilégio e uma honra pessoal trabalhar tão de perto com ele nos últimos meses, planejando os acontecimentos desta noite. Acabei de verificar, e as mídias sociais estão agitadas em todo o mundo! Como sem dúvida muitos de vocês já devem ter ouvido dizer, Edmond Kirsch planeja fazer um importante comunicado científico: uma descoberta que ele acredita que será lembrada para sempre como sua maior contribuição para o mundo.

 

Um murmúrio de empolgação atravessou o ambiente.

 

A mulher de cabelos escuros deu um sorriso brincalhão.

 

– Claro, eu implorei que Edmond me contasse o que havia descoberto, mas ele se recusou a dar sequer uma dica.

 

Ouviram-se gargalhadas, seguidas de mais aplausos.

 

– O acontecimento especial desta noite – continuou ela – será apresentado em inglês, a língua nativa do Sr. Kirsch, mas para quem está assistindo virtualmente estamos oferecendo tradução simultânea em mais de 20 línguas.

 

A tela de LCD foi atualizada e Ambra acrescentou:

 

– E, se alguém já duvidou da autoconfiança de Edmond, aqui vai o comunicado automático divulgado há 15 minutos pelas mídias sociais de todo o globo.

 

Langdon olhou para a tela.

 

Esta noite: ao vivo, às 20h (horário de verão da Europa central).

 

O futurólogo Edmond Kirsch anunciará uma descoberta que mudará para sempre a face da ciência.

 

Bom, é assim que você consegue três milhões de espectadores em questão de minutos, pensou Langdon.

 

Quando voltou a atenção para o pódio, viu duas pessoas que não havia notado antes: um par de seguranças com rosto de pedra, em posição de sentido junto à parede lateral, examinando a plateia. Ficou surpreso ao ver o monograma em seus paletós azuis idênticos.

 

A Guardia Real? O que a guarda do rei está fazendo aqui esta noite?

 

Parecia improvável que algum membro da família real estivesse presente. Católicos ferrenhos, eles certamente evitariam qualquer associação pública com um ateu como Edmond Kirsch.

 

Como monarca parlamentar, o rei da Espanha tinha poder oficial muito limitado, no entanto exercia uma influência enorme sobre o coração e a mente de seu povo. Para milhões de espanhóis, a coroa era símbolo da rica tradição de los reyes católicos e da Era de Ouro da Espanha. O Palácio Real de Madri ainda brilhava como uma bússola espiritual e um monumento a uma longa história de vigorosa convicção religiosa.

 

Langdon já tinha ouvido os espanhóis dizerem: “O Parlamento governa, mas o rei reina”. Durante séculos, os reis que tinham presidido as questões diplomáticas da Espanha eram católicos profundamente devotos e conservadores. E o rei atual não é exceção, pensou Langdon, tendo lido sobre as crenças religiosas profundas e os valores conservadores do sujeito.

 

Nos últimos meses, o monarca idoso estava supostamente de cama e agonizante, com o país se preparando para a transferência do poder para seu filho único, Julián. Segundo a imprensa, o príncipe Julián era uma variável desconhecida, tendo vivido discretamente sob a longa sombra do pai, e agora o país se perguntava que tipo de governante ele seria.

 

Será que o príncipe Julián mandou agentes da Guardia para proteger o evento de Edmond?

 

Langdon pensou de novo na mensagem ameaçadora que o bispo Valdespino tinha deixado na caixa postal de Edmond. Apesar das suas preocupações, sentia que a atmosfera no salão era amigável, entusiasmada e segura. Lembrou-se de Edmond dizendo que a segurança desta noite era incrivelmente rígida – de modo que talvez a Guardia Real da Espanha fosse uma camada adicional de proteção para garantir que tudo corresse com tranquilidade.

 

– Aqueles de vocês que são familiarizados com a paixão de Edmond Kirsch pelo drama – continuou Ambra Vidal – sabem que ele jamais planejaria fazer com que ficássemos de pé nesta sala estéril por tempo demais.

 

Ela sinalizou para uma porta dupla fechada, na outra extremidade do salão.

 

– Do outro lado daquela porta, Edmond Kirsch construiu um “espaço experimental” para sua dinâmica apresentação multimídia desta noite, que será totalmente automatizada por computadores e transmitida ao vivo para todo o mundo. – Ambra fez uma pausa para olhar o relógio de ouro. – O evento foi programado cuidadosamente, e Edmond pediu que eu levasse todos vocês para dentro de modo a começarmos exatamente às oito e quinze. Faltam apenas alguns minutos para isso. – Ela apontou para a porta dupla. – Assim, por favor, senhoras e senhores, vamos entrar e veremos o que o incrível Edmond Kirsch preparou para nós.

 

Como se aproveitasse a deixa, a porta se abriu.

 

Langdon olhou através dela, esperando ver outra galeria. Em vez disso, ficou espantado com o que estava do outro lado. Aparentemente era um túnel profundo e escuro.

 

O almirante Ávila ficou para trás enquanto os visitantes se acotovelavam empolgados na direção da passagem mal iluminada. Enquanto olhava para dentro do túnel, ficou satisfeito ao ver que o espaço do outro lado estava escuro.

 

A escuridão facilitaria um bocado sua tarefa.

 

Tocando as contas do rosário no bolso, organizou os pensamentos, examinando os detalhes que tinha acabado de receber para realizar a missão.

 

Timing é fundamental.

 

 

Feito de tecido preto esticado em arcos de apoio, o túnel tinha cerca de seis metros de largura e subia suavemente à esquerda. O piso era coberto com um tapete preto e fofo, e dois fachos de luz na base das paredes forneciam a única iluminação.

 

– Sapatos, por favor – sussurrava um guia aos recém-chegados. – Todos, por favor, tirem os sapatos e os carreguem.

 

Langdon tirou os sapatos sociais de couro e seus pés calçados com meias afundaram no tapete incrivelmente fofo. Sentiu o corpo relaxar no mesmo instante. À sua volta escutou suspiros de satisfação.

 

Enquanto seguia pela passagem, finalmente viu o fim do túnel: uma cortina preta onde os convidados eram recebidos por guias que entregavam a cada um o que parecia uma grossa toalha de praia, orientando-os a atravessar para o outro lado.

 

Dentro do túnel, o zumbido de expectativa anterior tinha se dissolvido num silêncio inseguro. Quando Langdon chegou à cortina, um guia lhe deu um tecido dobrado, que ele percebeu que não era uma toalha e sim um pequeno cobertor felpudo com um travesseiro costurado em uma das extremidades. Agradeceu e passou pela cortina.

 

Pela segunda vez nesta noite foi obrigado a parar bruscamente. Ainda que não pudesse dizer o que imaginara encontrar ali, sem dúvida não era nem de longe algo parecido com a cena diante dos seus olhos.

 

Nós estamos... ao ar livre?

 

Langdon estava de pé na borda de um campo vasto. Acima dele se estendia um céu ofuscante de estrelas e, a distância, uma fina lua crescente se elevava acima de uma árvore solitária. Grilos cantavam e uma brisa quente acariciava seu rosto, o ar denso com o cheiro da grama recém-cortada que podia sentir sob os pés calçados apenas com meias.

 

– Senhor? – sussurrou um monitor, pegando seu braço e o guiando para o campo. – Por favor, encontre um espaço aqui na grama. Abra o cobertor e aproveite.

 

Langdon foi andando pelo campo junto com outros convidados igualmente perplexos, a maioria escolhendo locais no vasto gramado para abrir os cobertores. A área de grama muito bem cuidada tinha mais ou menos o tamanho de uma quadra de hóquei e era totalmente cercada por árvores, arbustos e juncos que farfalhavam à brisa.

 

Langdon tinha demorado vários instantes para perceber que tudo era ilusão: uma tremenda obra de arte.

 

Estou dentro de um elaborado planetário, pensou, maravilhando-se com a impecável atenção aos detalhes.

 

O céu estrelado era uma projeção, com lua, nuvens correndo e colinas distantes. As árvores que farfalhavam e a grama estavam mesmo ali – imitações soberbas ou uma pequena floresta de plantas vivas em vasos escondidos. Esse nebuloso perímetro de vegetação disfarçava de modo inteligente as bordas duras da sala, dando a impressão de um ambiente natural.

 

Langdon se agachou e tateou a grama, macia e parecendo viva, mas totalmente seca. Tinha lido sobre os novos gramados sintéticos que enganavam até os atletas profissionais. No entanto, Kirsch tinha dado um passo além e criado um terreno ligeiramente irregular, com pequenas reentrâncias e calombos, como uma campina de verdade.

 

Lembrou-se da primeira vez que tinha sido enganado pelos sentidos. Era criança e estava num barquinho que deslizava por um porto enluarado onde um navio pirata travava uma ensurdecedora batalha com canhões. Sua mente jovem fora incapaz de aceitar que ele não estava num porto, e sim num enorme teatro subterrâneo com canais cheios de água para criar essa ilusão. Era o clássico brinquedo Piratas do Caribe, na Disney.

 

Esta noite o efeito era espantosamente realista, e enquanto os convidados ao redor iam absorvendo tudo, Langdon podia ver que o espanto e o deleite deles espelhavam os seus. Precisava dar crédito a Edmond: não tanto por criar aquela ilusão espantosa, mas por convencer centenas de adultos a tirar os sapatos chiques, deitar-se no gramado e olhar para o céu.

 

Nós costumávamos fazer isso na infância, mas em algum ponto do caminho paramos.

 

Langdon se reclinou e pôs a cabeça no travesseiro, deixando o corpo se fundir à grama macia.

 

Lá no alto as estrelas brilhavam, e por um instante ele era adolescente de novo, deitado na grama do campo de golfe de Bald Peak à meia-noite com seu melhor amigo, refletindo sobre os mistérios da vida. Com um pouco de sorte, pensou, esta noite Edmond Kirsch vai resolver alguns desses mistérios para nós.

 

No fundo do teatro o almirante Luis Ávila examinou o ambiente mais uma vez e foi para trás, saindo sem ser visto pela mesma cortina por onde tinha acabado de entrar. Sozinho no túnel, passou uma das mãos pelo tecido até localizar uma emenda. O mais silenciosamente possível, separou as tiras de Velcro, atravessou o tecido e o fechou outra vez.

 

Todas as ilusões se evaporaram.

 

Não estava mais numa campina.

 

Estava num enorme espaço retangular dominado por uma gigantesca bolha oval. Uma sala dentro de uma sala. A construção diante dele – uma espécie de teatro sob uma cúpula – era cercada por um altíssimo exoesqueleto de andaimes que sustentava um emaranhado de cabos, luzes e alto-falantes. Apontando para dentro, uma variedade de projetores de vídeo reluzia ao mesmo tempo, lançando grandes fachos de luz na superfície translúcida da cúpula e criando a ilusão de um céu estrelado e colinas onduladas.

 

Ávila admirou o talento de Kirsch para a dramaticidade, se bem que o futurólogo jamais poderia imaginar como aquela noite logo ficaria dramática.

 

Lembre-se do que está em jogo. Você é um soldado numa guerra nobre. É parte de um todo maior.

 

Ávila tinha ensaiado aquela missão na mente numerosas vezes. Enfiou a mão no bolso e pegou o rosário de contas grandes. Nesse momento, vinda de um grupo de alto-falantes na parte de cima da cúpula, a voz de um homem trovejou como a de Deus:

 

– Boa noite, amigos. Meu nome é Edmond Kirsch.

 

 

Em Budapeste, o rabino Köves andava nervoso à luz fraca do escritório no seu házikó. Segurando o controle remoto da TV, ficou mudando ansiosamente de canal enquanto esperava mais notícias do bispo Valdespino.

 

Na televisão, vários canais de notícias tinham interrompido a programação regular nos últimos dez minutos para transmitir ao vivo o que acontecia no Guggenheim. Comentaristas discutiam as realizações de Kirsch e especulavam sobre o misterioso comunicado que ele iria fazer. Köves se encolheu diante do interesse crescente.

 

Já vi esse anúncio.

 

Três dias antes, na montanha de Montserrat, Edmond Kirsch tinha mostrado uma versão supostamente “não acabada” para Köves, al-Fadl e Valdespino. Agora, suspeitava Köves, o mundo iria ver o mesmo programa.

 

Esta noite tudo vai mudar, pensou com tristeza.

 

O telefone tocou, arrancando Köves de sua contemplação. Ele pegou o aparelho.

 

Valdespino começou sem qualquer preâmbulo:

 

– Yehuda, infelizmente tenho uma notícia ruim.

 

Em tom sombrio, ele repassou um relato bizarro que vinha naquele mesmo instante dos Emirados Árabes Unidos.

 

Köves cobriu a boca, horrorizado.

 

– O allamah al-Fadl... cometeu suicídio?

 

– É o que as autoridades estão especulando. Ele foi encontrado há pouco tempo no meio do deserto... como se simplesmente tivesse caminhado até lá para morrer. – Valdespino fez uma pausa. – Só posso supor que a tensão dos últimos dias tenha sido demasiada para ele.

 

Köves considerou a possibilidade, sentindo uma onda de tristeza e confusão. Também estivera lutando com as implicações da descoberta de Kirsch, no entanto a ideia de que o allamah al-Fadl pudesse se matar de desespero parecia completamente improvável.

 

– Alguma coisa está errada – declarou Köves. – Não acredito que ele agiria assim.

 

Valdespino ficou em silêncio por muito tempo.

 

– Fico feliz por você dizer isso – concordou finalmente. – Devo admitir que também acho difícil aceitar que tenha sido suicídio.

 

– Então... quem poderia ser o responsável?

 

– Qualquer um que quisesse que a descoberta de Kirsch permanecesse em segredo – respondeu o bispo rapidamente. – Alguém que acreditasse, como nós, que ainda faltavam semanas para esse anúncio.

 

– Mas Kirsch disse que mais ninguém sabia da descoberta! – argumentou Köves. – Só você, o allamah al-Fadl e eu.

 

– Talvez Kirsch tenha mentido sobre isso também. Mas ainda que nós três sejamos de fato os únicos a quem ele contou, não se esqueça de como nosso amigo Syed al-Fadl queria desesperadamente ir a público. É possível que o allamah tenha contado alguma coisa a um colega nos Emirados. E talvez essa pessoa tenha acreditado, como eu, que a descoberta de Kirsch teria repercussões perigosas.

 

– Está sugerindo o quê? – perguntou o rabino, com raiva. – Que um colega de al-Fadl o matou para manter isso em segredo? É ridículo!

 

– Rabino – disse o bispo calmamente. – Sem dúvida, eu não sei o que aconteceu. Só estou tentando imaginar respostas, assim como você.

 

Köves soltou o ar dos pulmões.

 

– Desculpe. Ainda estou com dificuldade para absorver a notícia da morte de Syed.

 

– Eu também. E se Syed foi assassinado devido ao que sabia, precisamos ser cuidadosos. É possível que você e eu também sejamos alvos.

 

Köves pensou nisso.

 

– Assim que a notícia for divulgada nós seremos irrelevantes.

 

– Verdade, mas ela ainda não foi divulgada.

 

– Reverendíssimo, faltam apenas minutos para o anúncio. Todas as estações vão transmitir.

 

– É... – Valdespino soltou um suspirou cansado. – Parece que terei de aceitar que minhas orações não foram atendidas.

 

Köves se perguntou se o bispo teria literalmente rezado para Deus intervir e mudar o pensamento de Kirsch.

 

– Mesmo quando isso for a público – disse Valdespino –, não estaremos em segurança. Suspeito que Kirsch terá um enorme prazer em dizer ao mundo que consultou líderes religiosos há três dias. Agora estou imaginando se a transparência ética teria sido seu verdadeiro motivo para pedir o encontro. E se ele mencionar nosso nome, bom, você e eu iremos nos tornar foco de um escrutínio intenso e talvez até de críticas por parte dos nossos rebanhos, que podem acreditar que deveríamos ter tomado alguma atitude. Desculpe, eu só...

 

O bispo hesitou como se quisesse dizer mais alguma coisa.

 

– O que é? – pressionou Köves.

 

– Podemos discutir isso mais tarde. Telefono de novo para você depois de assistirmos a como Kirsch aborda a apresentação. Até lá, por favor, fique dentro de casa. Tranque as portas. Não fale com ninguém. E permaneça em segurança.

 

– Você está me deixando preocupado, Antonio.

 

– Não é minha intenção. Tudo o que podemos fazer é esperar para ver como o mundo reage. Agora isso está nas mãos de Deus.

 

 

A campina dentro do Museu Guggenheim tinha ficado silenciosa assim que a voz de Edmond Kirsch trovejou vinda do céu. Centenas de convidados estavam reclinados em cobertores, olhando um céu ofuscante de estrelas. Robert Langdon estava perto do centro do campo, tomado pela expectativa crescente.

 

– Esta noite sejamos crianças de novo – continuou a voz de Kirsch. – Vamos nos deitar sob as estrelas com a mente aberta para todas as possibilidades.

 

Langdon podia sentir uma onda de empolgação se espalhando pela plateia.

 

– Esta noite sejamos como os primeiros exploradores – declarou Kirsch –, os que deixaram tudo para trás e partiram por vastos oceanos... os que vislumbraram pela primeira vez uma terra que jamais tinha sido vista... os que caíram de joelhos ao perceber, admirados, que o mundo era muito maior do que suas filosofias tinham ousado imaginar. Suas antigas crenças sobre o mundo se desintegraram diante das novas descobertas. Este será nosso estado de espírito nesta noite.

 

Impressionante, pensou Langdon, curioso para saber se a narração de Edmond era pré-gravada ou se o próprio Kirsch estava em algum lugar nos bastidores lendo um roteiro.

 

– Amigos – a voz de Kirsch ressoou acima deles –, nós nos reunimos aqui para ouvir a notícia de uma descoberta importante. Peço sua indulgência em permitir que eu prepare o cenário. Como acontece com todas as mudanças na filosofia humana, é fundamental compreendermos o contexto histórico em que nasce um momento como este.

 

Um trovão soou a distância, na hora exata. Langdon sentiu o grave profundo das caixas de som ribombando na barriga.

 

– Para ajudar a nos aclimatarmos – continuou Edmond –, é uma grande sorte termos entre nós um célebre erudito, uma lenda no mundo dos símbolos, dos códigos, da história, da religião e da arte, que, além disso, é um amigo querido. Senhoras e senhores, por favor, recebam o professor Robert Langdon, da Universidade de Harvard.

 

Langdon se apoiou bruscamente nos cotovelos enquanto a multidão aplaudia, entusiasmada, e as estrelas no alto se dissolviam numa imagem em grande angular de um auditório apinhado de pessoas. No palco, ele andava de um lado para outro vestido com seu paletó Harris Tweed em frente a uma plateia fascinada.

 

Então esse é o papel que Edmond mencionou, pensou ele, deitando-se de volta na grama, inquieto.

 

– Os primeiros seres humanos – dizia Langdon na tela – se sentiam assombrados com seu universo, especialmente com relação aos fenômenos que não conseguiam entender racionalmente. Para resolver esses mistérios, eles criaram um vasto panteão de deuses e deusas com o objetivo de explicar qualquer coisa que estivesse além de sua capacidade de compreensão: o trovão, as marés, os terremotos, os vulcões, a infertilidade, as doenças e até o amor.

 

Isso é surreal, pensou Langdon, deitado de costas e olhando para si mesmo.

 

– Para os gregos antigos, o fluxo e o refluxo do oceano eram atribuídos aos humores mutáveis de Poseidon.

 

No teto a figura de Langdon se dissolveu, mas sua voz continuou a narrar. Imagens de ondas do mar batendo se materializaram, sacudindo todo o salão. Langdon ficou observando maravilhado as ondas violentas se transformarem numa desolada tundra castigada pelo vento e por rajadas de neve. Vinda de algum lugar, uma brisa fria soprou na campina.

 

– A mudança sazonal para o inverno – continuou a narração em off de Langdon – era causada pela tristeza do planeta pelo sequestro anual de Perséfone para o mundo subterrâneo.

 

O ar voltou a ficar quente e, na paisagem gelada, se ergueu uma montanha, cada vez mais alta, com o pico explodindo em fagulhas, fumaça e lava.

 

– Para os romanos – narrou Langdon –, os vulcões eram o lar de Vulcano, o ferreiro dos deuses, que trabalhava numa forja gigantesca embaixo da montanha, fazendo com que as chamas brotassem pela chaminé.

 

Langdon sentiu um cheiro fraco de enxofre e ficou admirado com a engenhosidade com que Edmond havia transformado sua palestra numa experiência multissensorial.

 

O trovejar do vulcão parou abruptamente. No silêncio, grilos começaram a cantar de novo e uma brisa quente e com cheiro de grama soprou na campina.

 

– Os antigos inventaram deuses incontáveis – prosseguiu Langdon – para explicar não somente os mistérios de seu planeta, mas também os de seus corpos.

 

No alto, as constelações piscando retornaram, agora superpostas aos desenhos dos vários deuses que elas representavam.

 

– A infertilidade era causada pela perda de favores da deusa Juno. O amor era resultado de uma flechada de Eros. As epidemias eram explicadas como castigos mandados por Apolo.

 

Agora novas constelações se iluminavam junto com imagens de novos deuses.

 

– Se vocês leram meus livros – continuou a voz de Langdon –, devem ter visto a expressão “Deus das Lacunas”. Isto é: quando os antigos experimentavam lacunas em sua compreensão do mundo, preenchiam-nas com Deus.

 

Agora o céu se encheu com uma enorme colagem de pinturas e estátuas representando dezenas de divindades antigas.

 

– Deuses incontáveis preencheram lacunas incontáveis – disse Langdon. – No entanto, no decorrer dos séculos, o conhecimento científico aumentou. – Uma colagem de símbolos matemáticos e técnicos inundou o céu. – À medida que as lacunas na nossa compreensão do mundo natural foram desaparecendo, nosso panteão de deuses começou a encolher.

 

No teto, a imagem de Poseidon veio para a frente.

 

– Por exemplo, quando aprendemos que as marés eram causadas pelos ciclos lunares, Poseidon deixou de ser necessário e nós o banimos como um mito bobo de um tempo sem esclarecimentos.

 

A imagem de Poseidon se evaporou num sopro de fumaça.

 

– Como vocês sabem, todos os deuses sofreram o mesmo destino, morrendo um por um enquanto perdiam a relevância para nossos intelectos em evolução.

 

No alto, as imagens dos deuses começaram a se apagar uma a uma – deus do trovão, dos terremotos, das doenças e assim por diante.

 

Enquanto o número de imagens diminuía, Langdon disse:

 

– Mas não se enganem. Esses deuses não “vão tão gentilmente para aquela boa noite”. Em qualquer cultura, abandonar divindades é um processo complicado. As crenças espirituais são gravadas profundamente na nossa psique durante a infância por aqueles que amamos e em quem mais confiamos: nossos pais, professores e líderes religiosos. Portanto qualquer mudança religiosa acontece no decorrer de gerações, não sem grande angústia e frequentemente com derramamento de sangue.

 

O som de espadas se chocando e de gritos acompanhou o desaparecimento gradual dos deuses. Por fim, permaneceu a imagem de um único deus: um icônico rosto idoso com barba branca e farta.

 

– Zeus... – declarou Langdon com voz poderosa. – O deus de todos os deuses. A mais temida e reverenciada de todas as divindades pagãs. Zeus, mais do que qualquer outro deus, resistiu à própria extinção, travando uma batalha violenta contra a morte de sua própria luz, exatamente como tinham feito os deuses anteriores que ele havia substituído.

 

No teto relampejaram imagens de Stonehenge, de tabuletas cuneiformes sumérias e das grandes pirâmides do Egito. Então o busto de Zeus retornou.

 

– Os seguidores de Zeus resistiram tanto a abrir mão de seu deus que a fé conquistadora do cristianismo não teve escolha a não ser adotar a face dele como a de seu novo Deus.

 

O busto barbudo de Zeus transformou-se no afresco de um rosto igualmente barbudo: o do Deus cristão representado na Criação de Adão, de Michelangelo, no teto da Capela Sistina.

 

– Hoje não acreditamos mais em histórias como as que se referem a Zeus, um garoto criado por uma cabra e que recebeu o poder de criaturas de um olho só chamadas de Ciclopes. Para nós, com o advento do pensamento moderno, todas essas histórias foram classificadas como mitologia: narrativas ficcionais antiquadas que nos dão um vislumbre divertido do nosso passado supersticioso.

 

O teto mostrava a foto de uma empoeirada prateleira de biblioteca onde volumes sobre mitologias antigas, encadernados em couro, emboloravam no escuro ao lado de livros sobre culto à natureza, Baal, Inana, Osíris e incontáveis teologias antigas.

 

– Agora as coisas são diferentes! – declarou a voz profunda de Langdon. – Nós somos os Modernos.

 

No céu surgiram novas imagens: fotos nítidas e brilhantes mostrando a exploração espacial... chips de computador... um laboratório médico... um acelerador de partículas... jatos voando.

 

– Somos um povo evoluído intelectualmente e tecnologicamente hábil. Não acreditamos em ferreiros gigantes trabalhando embaixo de vulcões nem em deuses que controlam as marés ou as estações. Não somos nem um pouco parecidos com nossos ancestrais antigos.

 

Será mesmo?, sussurrou Langdon para si próprio, acompanhando com os lábios a gravação.

 

– Será mesmo? – entoou Langdon lá em cima. – Nós nos consideramos indivíduos racionais e modernos, no entanto a religião mais disseminada de nossa espécie inclui toda uma quantidade de afirmações mágicas, seres humanos ressuscitando inexplicavelmente, virgens dando à luz por milagre, deuses vingativos que mandam pestes e inundações, promessas místicas de uma outra vida num céu sobre as nuvens ou de infernos em chamas.

 

Enquanto Langdon falava, surgiram no teto conhecidas imagens cristãs da Ressurreição, da Virgem Maria, da Arca de Noé, da abertura do Mar Vermelho, do céu e do inferno.

 

– Então, somente por um momento – disse Langdon –, imaginemos a reação dos futuros historiadores e antropólogos. Com o benefício da perspectiva, será que eles olharão nossas crenças religiosas e irão categorizá-las como as mitologias de uma época pouco esclarecida? Será que vão enxergar nossos deuses como vemos Zeus? Será que vão recolher nossas Escrituras Sagradas e bani-las para aquela prateleira empoeirada da história?

 

A pergunta pairou no escuro por um longo instante.

 

E então, abruptamente, a voz de Edmond Kirsch rompeu o silêncio.

 

– SIM, professor – trovejou o futurólogo lá de cima. – Acredito que tudo isso vai acontecer. Acredito que as gerações futuras irão se perguntar como uma espécie tecnologicamente avançada como a nossa podia acreditar na maior parte do que nossas religiões modernas ensinam.

 

A voz de Kirsch ficou mais forte à medida que uma nova série de imagens foi projetada: Adão e Eva, uma mulher coberta por uma burca, um hindu caminhando sobre brasas.

 

– Acredito que, ao se debruçar sobre nossas tradições atuais, as gerações futuras concluirão que vivemos num período pouco esclarecido. Como prova, apontarão para as crenças de que fomos criados divinamente num jardim mágico, ou que nosso criador onipotente exige que as mulheres cubram a cabeça, ou que nos arriscamos a queimar o próprio corpo para homenagear os deuses.

 

Mais imagens apareceram, uma montagem rápida de fotos mostrando cerimônias religiosas em todo o mundo: desde exorcismos e batismos até perfurações no corpo e sacrifícios de animais. Para fechar a sequência, um vídeo profundamente inquietante de um clérigo indiano balançando um bebê minúsculo do alto de uma torre de 15 metros de altura. De repente ele soltou o bebê, que mergulhou no vazio, caindo em um cobertor esticado que os aldeões seguravam alegremente como se fosse uma rede de bombeiros.

 

O mergulho do Templo de Grishneshwar, pensou Langdon, lembrando que algumas pessoas acreditavam que isso traria o favor de Deus para a criança.

 

Felizmente o vídeo perturbador chegou ao fim.

 

Agora na escuridão total, a voz de Kirsch ressoou lá em cima.

 

– Por que a mente humana moderna é capaz de análise lógica exata e ao mesmo tempo nos permite aceitar crenças religiosas que deveriam sucumbir ao menor exame racional?

 

No alto, o céu estrelado retornou.

 

– Por acaso – concluiu Edmond –, a resposta é bem simples.

 

As estrelas ficaram subitamente mais brilhantes e mais substanciais. Fiapos apareceram correndo entre elas para formar uma teia aparentemente infinita de nódulos interconectados.

 

Neurônios, percebeu Langdon no mesmo instante em que Edmond começava a falar.

 

– O cérebro humano – disse Edmond. – Por que ele acredita no que acredita?

 

Lá em cima, vários nódulos se iluminaram, lançando pulsos de eletricidade que saltavam pelas fibras até outros neurônios.

 

– Como um computador orgânico – continuou o futurólogo –, nosso cérebro tem um sistema operacional, uma série de regras que organizam e definem todos os dados caóticos que fluem durante o dia inteiro: linguagem, uma música que gruda na cabeça, o som de uma sirene, o gosto de chocolate. O fluxo de informações que chegam é freneticamente diversificado e implacável, e nosso cérebro precisa entender tudo isso. Na verdade, é a própria programação do sistema operacional do cérebro que define nossa percepção da realidade. Infelizmente nós somos a vítima da pegadinha, porque quem escreveu o programa do cérebro humano tinha um senso de humor deturpado. Em outras palavras, não é nossa culpa acreditarmos nas coisas malucas em que acreditamos.

 

As sinapses projetadas chiaram e imagens familiares borbulharam saltando do cérebro: mapas astrológicos, Jesus andando sobre a água, o fundador da cientologia, L. Ron Hubbard, o deus egípcio Osíris, Ganesha – o deus elefante hindu de quatro braços – e uma estátua de mármore da Virgem Maria chorando lágrimas de verdade.

 

– E assim, como programador, preciso me perguntar: que tipo de sistema operacional bizarro cria um resultado tão ilógico? Se pudéssemos olhar a mente humana e ler seu sistema operacional, encontraríamos algo assim:

 

Cinco palavras apareceram em letras gigantescas no alto.

 

DESPREZAR O CAOS.

CRIAR ORDEM.

 

– Este é o programa raiz do nosso cérebro – declarou Edmond. – Portanto é exatamente essa a inclinação humana. Contra o caos. E a favor da ordem.

 

A sala tremeu de súbito com uma cacofonia de notas de piano dissonantes, como se uma criança estivesse batucando no teclado. Langdon e as pessoas em volta se retesaram involuntariamente.

 

Edmond gritou acima do barulho:

 

– O som de alguém batendo aleatoriamente nas teclas de um piano é insuportável! E, no entanto, se pegarmos essas mesmas notas e as organizarmos numa ordem melhor...

 

O barulho aleatório parou imediatamente, suplantado pela melodia suave de “Clair de Lune”, de Debussy.

 

Langdon sentiu os músculos relaxarem, e a tensão no ambiente pareceu evaporar.

 

– Nosso cérebro se regozija – disse Edmond. – As mesmas notas. O mesmo instrumento. Mas Debussy cria ordem. E é esse mesmo regozijo com a criação da ordem que instiga os seres humanos a montar quebra-cabeças ou a ajeitar quadros numa parede. Nossa predisposição à organização está inscrita no DNA, portanto não deveria ser surpresa que a maior invenção que a mente humana já criou seja o computador, uma máquina destinada especificamente a nos ajudar a criar ordem. Na verdade, a palavra em espanhol para computador é ordenador: literalmente “aquilo que cria ordem”.

 

Surgiu a imagem de um enorme supercomputador com um rapaz sentado diante de um terminal.

 

– Imagine que você tem um computador poderoso com acesso a todas as informações do mundo. Você tem permissão de lhe fazer qualquer pergunta que queira. Há uma grande probabilidade que você acabe fazendo uma das duas perguntas fundamentais que cativaram os seres humanos desde que passamos a ter consciência de nós mesmos.

 

O rapaz digitou no terminal e surgiu um texto.

 

DE ONDE VIEMOS?

PARA ONDE VAMOS?

 

– Em outras palavras – disse Edmond –, você perguntaria sobre nossa origem e nosso destino. E quando fizesse essa pergunta, veja qual seria a resposta do computador.

 

O terminal piscou:

 

DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA EXATA.

 

– Não ajuda muito – disse Kirsch –, mas ao menos é uma resposta honesta.

 

Em seguida surgiu a imagem de um cérebro humano.

 

– No entanto, se você perguntar a esse pequeno computador biológico: “De onde viemos?” Outra coisa acontece.

 

Do cérebro saiu uma série de imagens religiosas: Deus esticando a mão para dar vida a Adão, Prometeu criando um homem primordial a partir do barro, Brama criando seres humanos a partir de diferentes partes de seu corpo, um deus africano abrindo as nuvens e baixando dois humanos à terra, um deus nórdico fazendo um homem e uma mulher a partir de madeira trazida pela maré.

 

– E agora você pergunta: “Para onde vamos?”

 

Mais imagens fluíram do cérebro: céus puríssimos, infernos em chamas, hieróglifos do Livro dos Mortos egípcio, relevos em pedra mostrando viagens astrais, representações gregas dos Campos Elísios, descrições cabalísticas do Gilgul neshamot, diagramas de reencarnação a partir do budismo e do hinduísmo, os círculos teosóficos da Terra do Verão.

 

– Para o cérebro humano – explicou Edmond –, qualquer resposta é melhor do que resposta nenhuma. Sentimos um desconforto enorme diante de “dados insuficientes”, e assim nosso cérebro inventa os dados, oferecendo-nos, no mínimo, a ilusão de ordem, criando miríades de filosofias, mitologias e religiões para nos garantir que de fato há uma ordem e uma estrutura no mundo invisível.

 

À medida que as imagens religiosas continuavam a fluir, Edmond falava com intensidade crescente:

 

– De onde viemos? Para onde vamos? Essas perguntas fundamentais da existência humana sempre me obcecaram, e durante anos sonhei em encontrar as respostas. – Edmond fez uma pausa, com o tom de voz ficando sombrio. – Tragicamente, por conta dos dogmas religiosos, milhões de pessoas acreditam que já sabem as respostas para essas grandes perguntas. E como nem todas as religiões oferecem as mesmas respostas, culturas inteiras terminam em guerra para decidir quais são as respostas corretas e que versão da história de Deus é a História Verdadeira.

 

A tela acima explodiu com imagens de tiros e morteiros – uma montagem violenta mostrando cenas de guerras religiosas seguidas por refugiados soluçando, famílias em fuga e cadáveres de civis.

 

– Desde o início da história religiosa, nossa espécie foi apanhada num fogo cruzado interminável: ateus, cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, os crentes de todas as religiões. E a única coisa que une todos nós é nosso profundo desejo de paz.

 

As imagens trovejantes da guerra sumiram, substituídas pelo céu silencioso com estrelas brilhando.

 

– Imaginem só o que aconteceria se descobríssemos milagrosamente as respostas para as grandes perguntas da vida... se de repente vislumbrássemos a mesma prova inconfundível e percebêssemos que não tínhamos opção, a não ser abrir os braços e aceitá-la... juntos, como uma espécie.

 

Um sacerdote apareceu na tela, com os olhos fechados em oração.

 

– A busca espiritual sempre foi domínio da religião, que nos encoraja a ter fé cega nos seus ensinamentos, mesmo quando eles fazem pouco sentido lógico.

 

Uma colagem de imagens de crentes fervorosos surgiu, todos de olhos fechados, cantando, fazendo reverências, entoando, rezando.

 

– Mas a fé – declarou Edmond –, por sua própria definição, exige colocarmos nossa confiança em algo que é invisível e indefinível, aceitando como fato uma coisa para a qual não existe prova empírica. E assim, compreensivelmente, todos acabamos depositando nossa fé em coisas diferentes porque não existe uma verdade universal. – Ele parou. – No entanto...

 

As imagens no teto se dissolveram numa única fotografia mostrando uma estudante, os olhos abertos e intensos, espiando através de um microscópio.

 

– A ciência é a antítese da fé – prosseguiu Kirsch. – Por definição, a ciência é a tentativa de encontrar prova física de algo que é desconhecido ou que ainda não foi definido, e rejeitar a superstição e a percepção equivocada em favor de fatos observáveis. Quando a ciência oferece uma resposta, ela é universal. Os seres humanos não guerreiam por causa dela; eles se juntam ao redor dela.

 

Agora a tela mostrou registros históricos de laboratórios na Nasa, no CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, e em outros lugares, onde cientistas de várias etnias pulavam de alegria compartilhada e se abraçavam enquanto novas informações eram descobertas.

 

– Amigos – sussurrou Edmond –, eu fiz muitas previsões na vida. Esta noite vou fazer outra. – Ele respirou fundo e devagar. – A era da religião está chegando ao fim. E a era da ciência está começando.

 

Um silêncio baixou no ambiente.

 

– E esta noite a humanidade vai dar um salto quântico nessa direção.

 

Essas palavras provocaram um arrepio inesperado em Langdon. O que quer que fosse a descoberta misteriosa, Edmond estava claramente montando o palco para um grande embate entre ele próprio e as religiões do mundo.

 

 

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MAIS SOBRE EDMOND KIRSCH

UM FUTURO SEM RELIGIÃO?

 

Numa apresentação transmitida ao vivo, que alcançou até agora a marca sem precedentes de três milhões de espectadores pela internet, o futurólogo Edmond Kirsch parece pronto para anunciar uma descoberta científica que, segundo ele, responderá a duas das perguntas mais persistentes da humanidade.

 

Depois de uma fascinante introdução, previamente gravada, do professor de Harvard Robert Langdon, Edmond Kirsch partiu para uma crítica dura às crenças religiosas e fez uma previsão ousada: “A era da religião está chegando ao fim.”

 

Até agora o conhecido ateu parece um pouco mais contido e respeitoso do que o usual. Para relembrar antigas declarações antirreligiosas de Kirsch, clique aqui.

 

 

Do lado de fora do tecido que isolava o teatro em forma de cúpula, o almirante Ávila se posicionou, escondido das vistas por um labirinto de andaimes. Permanecendo abaixado, tinha mantido a sombra oculta e agora estava encolhido a apenas alguns centímetros da “parede” de tecido, perto da frente do auditório.

 

Em silêncio, enfiou a mão no bolso e pegou o rosário de contas.

 

Timing é fundamental.

 

Avançando com as mãos pelas contas, encontrou o pesado crucifixo de metal, achando divertido que os guardas que usavam os detetores lá embaixo tivessem deixado esse objeto passar sem olhá-lo duas vezes.

 

Usando uma lâmina escondida na haste do crucifixo, o almirante fez um corte vertical de 15 centímetros no tecido. Com cuidado, abriu o pano e olhou para outro mundo: um campo cercado por uma floresta onde centenas de convidados estavam deitados em cobertores, olhando as estrelas.

 

Eles não podem imaginar o que vai acontecer.

 

Ávila estava satisfeito ao ver que os dois agentes da Guardia Real tinham assumido posição no lado oposto, perto do canto frontal direito do auditório. Estavam rigidamente em posição de sentido, abrigados com discrição à sombra de algumas árvores. À luz fraca não conseguiriam vê-lo até que fosse tarde demais.

 

Perto dos guardas, a única outra pessoa de pé era a diretora do museu, Ambra Vidal, que parecia se remexer, desconfortável, enquanto assistia à apresentação de Kirsch.

 

Contente com sua posição, Ávila fechou a fresta e refocalizou a atenção no crucifixo. Como a maioria das cruzes, ela tinha dois braços curtos que compunham a barra transversal. Mas naquela em especial os braços eram conectados magneticamente a uma haste vertical e podiam ser removidos.

 

Ávila pegou um dos braços do crucifixo e o dobrou com força. A peça saiu na sua mão e um pequeno objeto se soltou. Fez o mesmo com o outro lado, deixando o crucifixo sem braços – agora apenas um retângulo de metal num cordão pesado.

 

Enfiou o rosário de contas de volta no bolso. Vou precisar disso daqui a pouco. Então se concentrou nos dois pequenos objetos escondidos nos braços da cruz.

 

Duas balas de curto alcance.

 

Levou a mão às costas, tateando embaixo do cinto, e tirou o objeto que tinha trazido embaixo do paletó.

 

Vários anos haviam se passado desde que um garoto americano chamado Cody Wilson projetou “A Libertadora” – a primeira arma de polímero impressa em 3D –, e a tecnologia tinha evoluído exponencialmente. As novas armas de fogo feitas de cerâmica e polímero ainda não tinham muita potência, mas o que deixavam a desejar em alcance era mais do que compensado por serem invisíveis aos detectores de metal.

 

Só preciso chegar perto.

 

Se tudo acontecesse conforme o planejado, sua posição atual seria perfeita.

 

De algum modo, o Regente havia conseguido informações internas sobre a localização e a sequência exata dos acontecimentos desta noite... e tinha deixado muito claro como a missão de Ávila deveria ser realizada. O resultado seria brutal, mas tendo testemunhado o preâmbulo herege de Edmond Kirsch, Ávila estava confiante de que os pecados que cometeria seriam perdoados.

 

Nossos inimigos estão travando uma guerra, dissera o Regente. Devemos matar ou morrer.

 

De pé, junto à parede distante, no canto frontal direito do auditório, Ambra Vidal esperava não parecer tão desconfortável quanto se sentia.

 

Edmond me disse que esse era um programa científico.

 

O futurólogo americano jamais fora discreto em relação à sua aversão pelas religiões, mas Ambra não havia imaginado que ele mostraria tanta hostilidade em sua apresentação.

 

Edmond se recusou a deixar que eu visse antes.

 

Certamente haveria uma reação feroz por parte da diretoria do museu, mas nesse momento as preocupações de Ambra eram muito mais pessoais.

 

Duas semanas antes ela havia confidenciado a um homem muito influente sua participação no evento desta noite. O homem tinha insistido enfaticamente para que ela não fizesse isso. Alertara sobre os perigos de abrigar às cegas uma apresentação sem saber absolutamente nada do conteúdo – sobretudo sendo produzida pelo conhecido iconoclasta Edmond Kirsch.

 

Ele praticamente ordenou que eu cancelasse tudo, lembrou. Mas seu tom virtuoso me deixou irritada demais para ouvir.

 

Agora, de pé sozinha sob o céu estrelado, Ambra se perguntou se aquele homem estaria em algum lugar assistindo àquela transmissão, com as mãos na cabeça.

 

Claro que está assistindo, pensou. A verdadeira questão é: como ele vai reagir?

 

Dentro da Catedral de Almudena, o bispo Valdespino estava sentado rigidamente à sua mesa, o olhar grudado no laptop. Não tinha dúvida de que todo mundo no Palácio Real, ali perto, também estaria assistindo ao programa, especialmente o príncipe Julián, o próximo na linhagem do trono da Espanha.

 

O príncipe deve estar a ponto de explodir.

 

Nesta noite um dos museus mais respeitados da Espanha estava colaborando com um proeminente ateu americano para transmitir o que os comentaristas religiosos já chamavam de “trama blasfema de publicidade anticristã”. Insuflando as chamas da controvérsia, a diretora do museu que apresentava o evento era uma das celebridades mais recentes e mais visíveis da Espanha, a espetacular Ambra Vidal, uma mulher que nos últimos dois meses havia dominado as manchetes espanholas e desfrutado da adoração súbita de todo o país. Incrivelmente a Srta. Vidal tinha optado por arriscar tudo ao abrigar o ataque absoluto a Deus que estava acontecendo nesta noite.

 

O príncipe Julián não terá opção a não ser se pronunciar.

 

Seu iminente papel como soberano católico da Espanha seria apenas uma pequena parte do desafio que ele enfrentaria ao abordar o evento desta noite. Muito mais preocupante era que, no mês anterior, o príncipe Julián tinha feito uma declaração que provocara alvoroço, lançando sob Ambra Vidal os refletores da nação.

 

Tinha anunciado que os dois estavam noivos e iriam se casar.

 

 

Robert Langdon estava inquieto com a direção tomada pelo evento.

 

A apresentação de Edmond estava chegando perigosamente perto de se tornar uma condenação da fé em geral. Langdon se perguntou se, de algum modo, o ex-aluno havia se esquecido de que estava falando não somente para o grupo de cientistas agnósticos naquela sala, mas também para milhões de pessoas em todo o globo, que assistiam ao anúncio pela internet.

 

Sem dúvida, a apresentação foi idealizada com o objetivo de provocar controvérsia.

 

Langdon estava incomodado com sua participação no programa. Ainda que Edmond tivesse considerado o vídeo um tributo, ele preferiria não repetir experiências passadas, em que involuntariamente se tornara o elemento central de controvérsias religiosas.

 

Mas Kirsch montara um premeditado ataque audiovisual às religiões, e agora Langdon estava começando a repensar sua reação despreocupada à mensagem que o futurólogo tinha recebido do bispo Valdespino.

 

A voz de Edmond encheu de novo o salão, com os elementos visuais se dissolvendo lá em cima numa colagem de símbolos religiosos de todo o mundo.

 

– Devo admitir que tive dúvidas quanto ao anúncio desta noite e, particularmente, quanto ao modo como essa revelação pode afetar as crenças das pessoas. – Ele fez uma pausa. – E assim, há três dias, fiz algo que não é muito característico da minha parte. Num esforço para demonstrar respeito aos pontos de vista religiosos e avaliar como minha descoberta seria recebida por pessoas de várias crenças, consultei discretamente três importantes líderes espirituais – eruditos do islã, do cristianismo e do judaísmo – e contei a eles minha descoberta.

 

Murmúrios baixos ecoaram pelo ambiente.

 

– Como eu esperava, os três reagiram com profunda surpresa, preocupação e, sim, até raiva diante do que revelei. E ainda que as reações tenham sido negativas, quero lhes agradecer pela gentileza em me receber. Farei a cortesia de não revelar seus nomes, mas quero me dirigir diretamente a eles esta noite e agradecer por não tentarem interferir nesta apresentação.

 

Edmond fez uma pausa.

 

– Deus sabe que eles poderiam fazer isso.

 

Langdon prestava atenção, surpreso com a habilidade com que Edmond caminhava por uma linha tênue e cobria todas as variáveis. A decisão de se encontrar com líderes religiosos sugeria uma abertura mental, uma confiança e uma imparcialidade pelas quais o futurólogo não costumava ser conhecido. Langdon suspeitava que a reunião em Montserrat fora em parte uma missão de pesquisa e em parte uma manobra de relações públicas.

 

Um inteligente passe livre para fugir de encrenca, pensou.

 

– Historicamente – continuou Edmond –, o fervor religioso sempre suprimiu o progresso científico, e assim esta noite imploro que os líderes religiosos de todo o mundo reajam com moderação e compreensão diante do que vou dizer. Por favor, não vamos repetir a violência sangrenta que aconteceu por toda a história. Não vamos cometer os mesmos erros do passado.

 

As imagens no teto deram lugar a um desenho de uma antiga cidade murada – uma metrópole perfeitamente circular localizada às margens de um rio que atravessava um deserto.

 

Langdon a reconheceu imediatamente como a antiga Bagdá, com a incomum construção circular fortificada por três muralhas concêntricas encimadas por ameias e seteiras.

 

– No século VIII – disse Edmond –, a cidade de Bagdá alcançou proeminência como o maior centro de aprendizado da Terra, acolhendo todas as religiões, filosofias e ciências em suas universidades e bibliotecas. Durante 500 anos, o fluxo de inovações científicas que a cidade produziu foi diferente de tudo o que o mundo tinha visto, e sua influência é sentida até hoje, na cultura moderna.

 

No alto, o céu cheio de estrelas reapareceu e, desta vez, podia-se ler o nome de muitas delas: Vega, Betelgeuse, Algebar, Deneb, Acrab, Kitalpha.

 

– Todos esses nomes derivam do árabe – disse Edmond. – Até hoje, mais de dois terços das estrelas têm nome originário dessa língua, porque foram descobertas por astrônomos do mundo árabe.

 

O céu se encheu rapidamente com tantas estrelas de nome árabe que o fundo ficou praticamente escondido. Os nomes sumiram de novo, deixando apenas a vastidão do céu.

 

– E, claro, se quisermos contar as estrelas...

 

Numerais romanos começaram a aparecer um a um ao lado das estrelas mais brilhantes.

 

I, II, III, IV, V...

 

Os números pararam abruptamente e desapareceram.

 

– Não usamos numerais romanos – disse Edmond. – Usamos numerais arábicos.

 

Agora a numeração começou a usar o sistema arábico.

 

1, 2, 3, 4, 5...

 

– Talvez vocês também reconheçam estas invenções islâmicas – disse Edmond. – E todos ainda usamos seus nomes árabes.

 

A palavra ÁLGEBRA flutuou no céu, cercada por uma série de equações com múltiplas variáveis. Em seguida veio a palavra ALGORITMO, com uma variedade de fórmulas. Depois AZIMUTE, com um diagrama mostrando ângulos no horizonte da Terra. O fluxo se acelerou... NADIR, ZÊNITE, ALQUIMIA, QUÍMICA, CIFRA, ELIXIR, ÁLCOOL, ALCALINO, ZERO...

 

Enquanto as familiares palavras de origem árabe iam passando, Langdon pensou em como era trágico que tantos americanos visualizassem Bagdá apenas como uma daquelas cidades poeirentas do Oriente Médio que apareciam nos noticiários, devastadas pela guerra, sem saber que ela já foi o centro do progresso científico da humanidade.

 

– No fim do século XI – disse Edmond –, as maiores explorações intelectuais e descobertas da Terra estavam acontecendo em Bagdá e nos arredores. Então, quase da noite para o dia, isso mudou. Um brilhante estudioso chamado Hamid al-Ghazali, agora considerado um dos muçulmanos mais influentes da história, escreveu uma série de textos persuasivos questionando a lógica de Platão e Aristóteles e declarando que a matemática era a “filosofia do diabo”. Isso deu início a uma confluência de acontecimentos que solapou o pensamento científico. O estudo da teologia se tornou compulsório e finalmente todo o movimento científico islâmico desmoronou.

 

As palavras científicas no alto evaporaram, substituídas por imagens de textos religiosos do islã.

 

– A revelação substituiu a investigação. E até hoje o mundo científico islâmico ainda tenta se recuperar. – Edmond fez uma pausa. – Claro, o mundo científico cristão não se saiu melhor.

 

Pinturas dos astrônomos Copérnico, Galileu e Bruno apareceram no teto.

 

– O assassinato sistemático, o aprisionamento e a condenação por parte da Igreja de algumas das mentes científicas mais brilhantes retardaram o progresso humano por pelo menos um século. Hoje, felizmente, com nossa compreensão mais clara dos benefícios da ciência, a Igreja moderou seus ataques... – Edmond suspirou. – Será mesmo?

 

O logotipo de um globo com um crucifixo e uma serpente no centro surgiu junto com o texto:

 

Declaração de Madri sobre Ciência e Vida

 

– Aqui mesmo, na Espanha, a Federação Mundial das Associações Médicas Católicas declarou recentemente uma guerra contra a engenharia genética, proclamando que “a ciência não tem alma” e que, portanto, deve ser contida pela Igreja.

 

Agora o globo se transformou num círculo diferente: o esquema de um enorme acelerador de partículas.

 

– E este era o Supercolisor Supercondutor do Texas, anunciado como o maior colisor de partículas do mundo, com o potencial de explorar o momento da Criação. Ironicamente ele ficaria situado no centro do Cinturão Bíblico dos Estados Unidos.

 

A imagem se dissolveu numa enorme estrutura de cimento em forma de anel que se estendia pelo deserto do Texas. As instalações estavam inacabadas, cobertas de poeira e terra, aparentemente abandonadas no meio da construção.

 

– O supercolisor dos Estados Unidos poderia ter feito avançar tremendamente a compreensão do Universo, mas o projeto foi cancelado devido ao estouro no orçamento e a pressões políticas por parte de algumas fontes espantosas.

 

Um trecho de noticiário de TV mostrou um jovem evangelizador balançando o best-seller A partícula de Deus e gritando furioso: “Deveríamos procurar Deus dentro do coração! Não dentro dos átomos! Gastar bilhões nessa experiência absurda é um embaraço para o estado do Texas e uma afronta a Deus!”

 

A voz de Edmond retornou:

 

– Esses conflitos que eu descrevi, em que a superstição religiosa venceu a razão, são apenas escaramuças numa guerra contínua.

 

De repente o céu explodiu em uma colagem de imagens violentas da sociedade moderna: manifestantes à frente de laboratórios de pesquisa, um sacerdote pondo fogo no próprio corpo diante de uma convenção de transumanismo, evangélicos sacudindo os punhos e levantando o livro do Gênesis, um peixe de Jesus comendo um peixe de Darwin, cartazes religiosos condenando furiosamente a pesquisa com células-tronco, os direitos dos homossexuais, o aborto, e cartazes igualmente raivosos pregando o contrário.

 

Deitado no escuro, Langdon sentia o coração bater forte. Por um momento pensou que a grama embaixo dele estava tremendo, como se uma composição do metrô se aproximasse. Então, à medida que os tremores ficavam mais fortes, percebeu que a terra estava mesmo chacoalhando. Vibrações profundas atravessavam a grama sob suas costas e toda a cúpula tremeu com um rugido.

 

O som, transmitido através de subwoofers embaixo do chão, lembrava o de um rio feroz. Langdon sentiu uma névoa fria e úmida batendo no rosto e no corpo, como se estivesse sendo levado pela correnteza.

 

– Estão ouvindo esse som? – gritou Edmond acima do estrondo da água. – É a enchente inexorável do Rio do Conhecimento Científico!

 

A água rugia mais alto ainda e a névoa molhava o rosto de Langdon.

 

– Desde que o homem descobriu o fogo – gritou Edmond –, este rio vem ganhando força. Cada descoberta se transformou numa ferramenta com que fizemos novas descobertas, a cada vez acrescentando uma gota a este rio. Hoje surfamos a crista de um tsunami, um dilúvio que avança ferozmente com força incontrolável!

 

A sala tremeu mais violentamente ainda.

 

– De onde viemos! – gritou Edmond. – Para onde vamos! Sempre fomos destinados a encontrar as respostas! Nossos métodos de investigação estão evoluindo exponencialmente há milênios!

 

Agora a névoa e o vento chicoteavam a sala, e o trovejar do rio chegou a um volume quase ensurdecedor.

 

– Pensem nisso! – declarou Edmond. – Os primeiros humanos demoraram mais de um milhão de anos para progredir desde a descoberta do fogo até a invenção da roda. Depois levaram apenas alguns milhares de anos para inventar a prensa gráfica. E então demoraram apenas duas centenas de anos para construir um telescópio. Nos séculos seguintes, em períodos cada vez menores, saltamos da máquina a vapor para os automóveis a gasolina e para o ônibus espacial! E então foram necessárias apenas duas décadas para começarmos a modificar nosso próprio DNA!

 

Kirsch gritou:

 

– Agora medimos o progresso científico em meses, avançando num ritmo estonteante. Não vai tardar até que o mais rápido supercomputador de hoje pareça um ábaco; os métodos cirúrgicos mais avançados parecerão bárbaros. E as fontes de energia atuais vão parecer tão antiquadas quanto usar uma vela para iluminar uma sala!

 

A voz de Edmond e o rugido da água continuaram na escuridão barulhenta.

 

– No passado, os gregos precisavam olhar séculos atrás para estudar a cultura antiga, mas nós só precisamos voltar no tempo uma única geração para nos darmos conta de que as pessoas viviam sem as tecnologias que hoje consideramos comuns. A linha do tempo do desenvolvimento humano está se comprimindo, o espaço que separa o “antigo” do “moderno” vai se encolhendo até desaparecer. E por esse motivo eu lhes dou minha palavra de que os próximos anos de desenvolvimento humano serão chocantes, perturbadores e totalmente inimagináveis!

 

Sem aviso, o trovejar do rio parou.

 

O céu estrelado voltou. Assim como a brisa quente e os grilos.

 

Os convidados pareceram exalar, todos ao mesmo tempo.

 

No silêncio abrupto, a voz de Edmond voltou num sussurro:

 

– Amigos. Sei que estão aqui porque lhes prometi uma descoberta, e obrigado por terem me aguentado durante esse preâmbulo. Agora vamos jogar fora as algemas do pensamento antigo. É hora de compartilhar a empolgação da descoberta.

 

Com essas palavras, uma névoa baixa veio rolando de todos os lados e o céu começou a reluzir com a luz do alvorecer, iluminando fracamente a plateia.

 

Subitamente um canhão de luz se acendeu e girou de maneira dramática para o fundo do salão. Em instantes quase todos os convidados estavam sentados, esticando o pescoço para trás em meio à névoa, esperando ver o anfitrião aparecer em pessoa. Mas depois de alguns segundos o canhão de luz girou de novo para a frente da sala.

 

A plateia se virou junto.

 

Ali, sorrindo à luz do refletor, estava Edmond Kirsch. Suas mãos pousavam confiantes nas laterais de um pódio que segundos antes não estava ali.

 

– Boa noite, amigos – disse, simpático, o grande showman, enquanto a névoa começava a se dissipar.

 

Em segundos as pessoas estavam de pé, aplaudindo. Langdon se juntou a elas, incapaz de conter o riso.

 

É a cara do Edmond aparecer numa nuvem de fumaça.

 

Até aquele momento a apresentação da noite, apesar de antagonizar com a fé religiosa, tinha sido um tour de force – uma façanha ousada e resoluta como o próprio anfitrião. Agora Langdon entendia por que a crescente população de livres pensadores ao redor do mundo idolatrava tanto Edmond.

 

No mínimo, ele diz o que pensa de um modo que poucos ousariam.

 

Quando o rosto de Edmond apareceu na tela acima, Langdon notou que ele parecia muito menos pálido do que antes – obviamente fora maquiado por um profissional. Mesmo assim, dava para ver que seu amigo estava exausto.

 

Os aplausos continuaram tão ruidosos que Langdon quase não sentiu a vibração no bolso do peito. Por instinto levou a mão para pegar o telefone, mas percebeu que ele estava desligado. Estranhamente, a vibração vinha do outro dispositivo em seu bolso – o fone transdutor – através do qual Winston parecia estar falando muito alto.

 

Péssimo timing.

 

Langdon tirou o fone do bolso e o ajeitou na cabeça. No instante em que a almofada tocou o osso do malar, o sotaque de Winston se materializou em sua cabeça.

 

– ... fessor Langdon? Está aí? Os telefones estão desabilitados. O senhor é o meu único contato. Professor Langdon?!

 

– Sim... Winston? Estou aqui – respondeu Langdon acima dos aplausos ao redor.

 

– Que bom – disse Winston. – Ouça atentamente. Talvez tenhamos um problema sério.

 

 

Como alguém que havia experimentado incontáveis momentos de triunfo no palco do mundo, Edmond Kirsch era sempre motivado por realizações, mas raramente sentia um contentamento completo. Porém, naquele instante, recebendo uma ovação descontrolada no pódio, permitiu-se o júbilo empolgante de saber que estava para mudar o mundo.

 

Sentem-se, amigos. O melhor ainda está por vir.

 

À medida que a névoa se dissipava, Edmond resistiu à ânsia de olhar para cima, onde sabia que um close de seu próprio rosto estava sendo projetado no teto e também para milhões de pessoas em todo o mundo.

 

Este é um momento global, pensou com orgulho. Transcende fronteiras, classes e credos.

 

Olhou à esquerda para acenar em agradecimento a Ambra Vidal, que tinha trabalhado incansavelmente para montar aquele espetáculo e agora assistia num canto. Mas, para sua surpresa, Ambra não estava olhando para ele. Em vez disso, observava a plateia, e seu rosto era uma máscara de preocupação.

 

Alguma coisa está errada, pensou Ambra.

 

No centro do salão, um homem alto e vestido com elegância estava abrindo caminho pelo público, balançando os braços e acenando na direção dela.

 

Aquele é Robert Langdon, percebeu, reconhecendo o professor americano que tinha aparecido no vídeo de Kirsch.

 

Langdon estava se aproximando rapidamente, e os dois agentes da Guardia que estavam com Ambra se afastaram logo da parede, posicionando-se para interceptá-lo.

 

O que ele quer? Ambra sentiu alarme na expressão de Langdon.

 

Ela virou na direção de Edmond, no pódio, imaginando se ele também teria notado a agitação, mas Edmond Kirsch não estava olhando para a plateia. Misteriosamente, estava olhando direto para ela.

 

Edmond! Há alguma coisa errada!

 

Nesse instante um estalo ensurdecedor ecoou dentro da cúpula e a cabeça de Edmond foi sacudida bruscamente para trás. Ambra olhou num horror abjeto enquanto uma cratera vermelha brotava na testa dele. Os olhos de Edmond se viraram ligeiramente para trás, mas suas mãos seguraram com firmeza o pódio enquanto todo o seu corpo ficava rígido. Ele cambaleou por um instante, o rosto parecendo uma máscara de confusão. E então, como uma árvore caindo, seu corpo tombou de lado e despencou, a cabeça ensanguentada quicando na grama artificial.

 

Antes que Ambra pudesse ao menos compreender o que tinha testemunhado, foi jogada no chão por um dos agentes da Guardia.

 

O tempo parou.

 

Depois... pandemônio.

 

Iluminado pela projeção reluzente do cadáver sangrento de Edmond, um maremoto de convidados partiu para os fundos do salão tentando escapar de outro disparo.

 

À medida que o caos irrompia ao redor, Robert Langdon sentiu-se preso onde estava, paralisado pelo choque. Perto dali, seu amigo estava caído de lado, ainda virado para a plateia, com o buraco de bala na testa jorrando em vermelho. Cruelmente, o rosto sem vida de Edmond estava iluminado pela forte claridade do refletor da câmera de televisão, que estava num tripé e sem ninguém ao lado, aparentemente ainda transmitindo ao vivo para o teto da cúpula e também para o mundo.

 

Como num sonho, Langdon sentiu-se correndo para a câmera e virando-a para cima, apontando as lentes para longe de Edmond. Em meio à confusão de convidados que fugiam, olhou para o pódio e para o amigo caído, sabendo com certeza que Edmond estava morto.

 

Meu Deus... eu tentei alertá-lo, Edmond, mas o aviso do Winston chegou tarde demais.

 

Não muito longe do corpo de Edmond, no chão, Langdon viu um agente da Guardia agachado, protegendo Ambra Vidal. Foi rapidamente na direção dela, mas o agente reagiu por instinto – lançando-se para cima e para a frente, dando três passos longos e jogando o corpo contra o dele.

 

O ombro do guarda se chocou contra o esterno de Langdon, expelindo todo o ar dos pulmões e provocando uma onda de dor pelo corpo enquanto ele voava para trás, caindo com força na grama artificial. Antes mesmo que pudesse respirar, mãos poderosas o viraram de bruços, torceram seu braço esquerdo às costas e comprimiram uma palma da mão que parecia de ferro em sua nuca, deixando-o totalmente imobilizado, com a bochecha esquerda espremida contra a grama.

 

– Você sabia disso antes que acontecesse – gritou o guarda. – Qual é a sua participação nisso?

 

A 20 metros dali, o agente Rafa Díaz, da Guardia Real, passava atabalhoadamente pelo bando de convidados em fuga e tentava chegar ao lugar onde tinha visto o clarão de um tiro, na parede lateral.

 

Ambra Vidal está em segurança, disse a si mesmo, tendo visto seu parceiro jogá-la no chão e cobrir o corpo dela. Além disso, Díaz tinha certeza de que nada poderia ser feito pela vítima. Edmond Kirsch morreu antes de bater no chão.

 

Misteriosamente, observou Díaz, parecia que um dos convidados tinha sido avisado sobre o ataque, correndo para o pódio um instante antes do tiro.

 

Qualquer que fosse o motivo, Díaz sabia que isso poderia esperar.

 

No momento tinha apenas uma tarefa.

 

Prender o atirador.

 

Quando chegou ao local do clarão do tiro, encontrou um corte no tecido que isolava a cúpula. Mergulhando a mão pela abertura, rasgou o tecido violentamente até o chão e saiu para um labirinto de andaimes.

 

À sua esquerda, vislumbrou uma figura – um homem alto vestido com uniforme militar branco – correndo para a saída de emergência no lado oposto do espaço enorme. Um instante depois o fugitivo passou pela porta e desapareceu.

 

Díaz foi atrás, se desvencilhando dos aparelhos eletrônicos do lado de fora da cúpula e finalmente alcançando a porta que dava num poço de escada de cimento. Olhou por cima do corrimão e viu o homem dois andares abaixo, descendo a toda a velocidade. Correu atrás dele, saltando de cinco em cinco degraus. Em algum lugar lá embaixo a porta de saída se abriu com um estrondo e depois se fechou de novo.

 

Ele está saindo do prédio!

 

Quando chegou ao térreo, Díaz correu para a porta dupla de saída, com barras de tranca horizontais, e jogou todo o peso contra ela. As bandas da porta, em vez de se abrir como as do andar de cima, moveram-se apenas uns dois centímetros e pararam, emperradas. O corpo do agente se chocou contra uma parede de aço e ele caiu embolado, com uma dor lancinante irrompendo no ombro.

 

Abalado, levantou-se e testou a porta de novo.

 

Ela se abriu apenas o bastante para que ele visse o problema.

 

Estranhamente, as maçanetas externas tinham sido amarradas com um fio de contas de metal. A confusão de Díaz se aprofundou quando ele percebeu que o padrão das contas lhe era familiar, como seria para qualquer católico.

 

Isso é um rosário?

 

Usando toda a força, pressionou de novo o corpo dolorido contra a porta, mas o fio se recusava a se partir. Olhou outra vez pela abertura estreita, pasmo pela presença de um rosário e também por sua incapacidade de arrebentá-lo.

 

– ¿Hola? – gritou através da porta. – ¿Hay alguien?!

 

Silêncio.

 

Por entre as bandas da porta, conseguiu ver uma parede alta de concreto e um corredor de serviço deserto. Eram poucas as chances de que alguém viesse remover o rosário enrolado. Não vendo outra opção, pegou sua pistola no coldre embaixo do blazer, engatilhou a arma e estendeu o cano através da fresta, encostando-o no rosário.

 

Vou disparar uma bala contra um santo rosário? Que Dios me perdone.

 

O crucifixo amputado balançou para cima e para baixo diante dos olhos de Díaz.

 

Ele puxou o gatilho.

 

O tiro trovejou no patamar de cimento e a porta se abriu. O rosário se despedaçou e Díaz tombou adiante, cambaleando no corredor vazio enquanto as contas quicavam no pavimento ao redor.

 

O assassino de branco tinha ido embora.

 

A 100 metros dali, o almirante Luis Ávila estava sentado em silêncio no banco de trás do Renault preto que agora acelerava para longe do museu.

 

A força tênsil da fibra de Vectran em que Ávila tinha prendido as contas do rosário havia feito seu serviço, atrasando os perseguidores por tempo suficiente.

 

E agora estou indo embora.

 

À medida que o carro acelerava para noroeste, ao longo do sinuoso Rio Nervión, e desaparecia no meio dos veículos que se moviam rapidamente na Avenida Abandoibarra, o almirante finalmente se permitiu exalar.

 

Sua missão desta noite não poderia ter sido mais fácil.

 

Na mente começou a ouvir as notas jubilosas do hino de Oriamendi – a letra antiquíssima fora cantada numa batalha sangrenta ali mesmo em Bilbao. ¡Por Dios, por la Patria y el Rey!, cantou Ávila mentalmente. Por Deus, pela Pátria e pelo Rei!

 

O grito de batalha fora esquecido muito tempo atrás... mas a guerra tinha apenas começado.

 

 

O Palácio Real de Madri é o maior da Europa, além de ser uma das fusões arquitetônicas mais espantosas dos estilos clássico e barroco. Ele foi construído no local de um castelo mourisco do século IX, e sua fachada de três andares com colunas imponentes ocupa todos os 150 metros de largura da enorme Plaza de la Armería, onde se situa. O interior é um espantoso labirinto de 3.418 cômodos que se espalham por quase 200 mil metros quadrados de espaço. Os salões, os quartos e os corredores são adornados com uma coleção de arte religiosa de valor inestimável, que inclui obras-primas de Velázquez, Goya e Rubens.

 

Durante gerações, o palácio tinha sido residência privada de reis e rainhas da Espanha. Mas agora era usado principalmente para funções de Estado, enquanto a família real residia no Palacio de la Zarzuela, mais discreto e isolado, fora da cidade.

 

Nos últimos meses, porém, o palácio formal de Madri tinha se tornado o lar permanente do príncipe herdeiro Julián – o futuro rei da Espanha, de 42 anos. Ele havia se mudado a pedido de seus conselheiros, que queriam que “ficasse mais visível para o país” durante o período sombrio antes de sua coroação.

 

O pai do príncipe Julián, o rei atual, estava de cama havia meses, com uma doença terminal. Enquanto as faculdades mentais do monarca iam sendo erodidas, o palácio tinha dado início à lenta passagem de poder, preparando o príncipe para ascender ao trono assim que o pai falecesse. Com uma iminente alteração na liderança, os espanhóis voltaram os olhos para o príncipe herdeiro, com uma única pergunta em mente:

 

Que tipo de governante ele será?

 

O príncipe Julián tinha sido sempre uma criança discreta e cautelosa, tendo suportado o peso de seu futuro reinado desde pequeno. Sua mãe havia morrido de complicações da gravidez do segundo filho, e o rei, para surpresa de muitos, optara por não se casar de novo, deixando Julián como único sucessor do trono espanhol.

 

Como o príncipe tinha amadurecido sob a asa do pai conservador, a maioria dos espanhóis tradicionalistas acreditava que ele manteria os costumes austeros de seus reis, preservaria a dignidade da Coroa espanhola de acordo com as convenções estabelecidas, celebraria os rituais e permaneceria sempre reverente à rica história da Espanha católica.

 

Durante séculos, o legado dos reis católicos tinha servido de alicerce moral da nação. Mas, nos anos recentes, a base de fé do país parecia estar se dissolvendo e a Espanha se via presa num violento cabo de guerra entre os muito velhos e os muito novos.

 

Agora um número crescente de liberais inundava os blogs e as mídias sociais com boatos sugerindo que, assim que pudesse emergir da sombra do pai, Julián revelaria seu eu verdadeiro: o líder ousado, progressista e secular, finalmente disposto a seguir o caminho de tantos países europeus e abolir de vez a monarquia.

 

O pai de Julián sempre tivera um papel muito ativo como rei, deixando pouco espaço para o filho participar da política. O rei declarava abertamente que Julián deveria aproveitar a juventude e, só quando se casasse e se estabelecesse, faria sentido ele se engajar nas questões de Estado. E, assim, os primeiros 40 anos do príncipe – eternamente comentados na imprensa espanhola – tinham se resumido a uma vida de escolas particulares, cavalgadas, inaugurações, festas para arrecadação de donativos e viagens pelo mundo. Apesar de ter realizado pouca coisa notável, sem dúvida Julián era o melhor partido da Espanha.

 

Com o passar do tempo, o belo príncipe havia namorado publicamente um número incontável de mulheres adequadas. Apesar de sua reputação de romântico incurável, ninguém jamais roubara seu coração. Nos últimos meses, no entanto, Julián tinha sido visto várias vezes com uma mulher linda que parecia uma modelo aposentada, mas era a respeitadíssima diretora do Museu Guggenheim de Bilbao.

 

A mídia saudou Ambra Vidal como “um par perfeito para um rei moderno”. Era culta, bem-sucedida e, mais importante, não vinha de uma família nobre da Espanha. Ambra Vidal era do povo.

 

Aparentemente o príncipe concordava com essa avaliação. Depois de um namoro muito curto, ele a pediu em casamento – de um modo bastante inesperado e romântico – e Ambra aceitou.

 

Nas semanas seguintes, a imprensa não parou de falar sobre ela, dizendo que estava se mostrando muito mais do que apenas um rosto bonito. Ambra logo se revelou uma mulher de uma independência feroz. Que, apesar de futura rainha consorte da Espanha, recusava-se peremptoriamente a permitir que a Guardia Real interferisse em sua rotina diária. Também não deixava que os agentes lhe dessem proteção em situações corriqueiras, apenas em grandes eventos públicos.

 

Quando o comandante da Guardia sugeriu discretamente que ela começasse a usar roupas mais conservadoras e menos justas, Ambra fez piada disso em público, dizendo que tinha sido repreendida pelo comandante da “Guardarropía Real” – do Guarda-Roupa Real.

 

As revistas liberais estampavam seu rosto em todas as capas. “Ambra! O Lindo Futuro da Espanha!” Quando ela recusava uma entrevista, era saudada como “independente”; quando dava uma entrevista, era “acessível”.

 

As revistas conservadoras se concentravam no hábito de Ambra de chamar o príncipe Julián apenas pelo primeiro nome, deixando de lado o costume tradicional de se referir a ele como Don Julián ou Su Alteza.

 

A segunda preocupação delas parecia muito mais séria. Nas últimas semanas, o trabalho de Ambra a havia deixado quase indisponível para o príncipe, mas ela fora vista várias vezes em Bilbao, almoçando perto do museu com um ateu declarado: o tecnólogo americano Edmond Kirsch.

 

Apesar da insistência de Ambra de que os almoços eram simplesmente reuniões de trabalho com um dos principais doadores do museu, fontes internas do palácio sugeriam que o sangue de Julián estava começando a ferver.

 

Não que alguém pudesse culpá-lo.

 

A verdade era que a estonteante noiva de Julián – apenas algumas semanas depois do noivado – vinha optando por passar a maior parte do tempo com outro homem.

 

 

O rosto de Langdon continuava pressionado contra a grama. O peso do agente era esmagador.

 

Estranhamente, ele não sentia nada.

 

Suas emoções estavam dispersas e entorpecidas – camadas tortuosas de tristeza, medo e ultraje. Uma das mentes mais brilhantes do mundo – um amigo querido – fora executado publicamente do modo mais brutal. Foi morto apenas alguns segundos antes de revelar a maior descoberta de sua vida.

 

Langdon percebeu que a trágica perda de uma vida humana era acompanhada por uma segunda perda: científica.

 

Agora talvez o mundo jamais conheça o que Edmond descobriu.

 

Sentiu uma raiva súbita, seguida por uma determinação férrea.

 

Vou fazer todo o possível para descobrir quem é o responsável por isso. Vou honrar seu legado, Edmond. E encontrar um modo de compartilhar sua descoberta com o mundo.

 

– Você sabia – disse asperamente a voz do guarda, perto de seu ouvido. – Estava indo para o pódio como se esperasse que alguma coisa acontecesse.

 

– Eu... fui... avisado – conseguiu dizer Langdon, praticamente incapaz de respirar.

 

– Foi avisado por quem?

 

Langdon sentiu seu fone torcido e fora do lugar na bochecha.

 

– O fone que estou usando... é um guia automático. O computador de Edmond Kirsch me avisou. Ele encontrou uma anomalia na lista de convidados, um almirante reformado da Marinha espanhola.

 

Agora a cabeça do guarda estava suficientemente perto do ouvido de Langdon para que ele escutasse o fone do rádio do sujeito. A voz na transmissão estava sem fôlego e ansiosa. E ainda que o espanhol de Langdon fosse precário, ele ouviu o suficiente para decifrar a má notícia.

 

... el asesino ha huido...

 

O assassino tinha escapado.

 

... salida bloqueada...

 

Uma saída tinha sido bloqueada.

 

... uniforme militar blanco...

 

Quando as palavras “uniforme militar” foram ditas, o guarda em cima de Langdon diminuiu a pressão.

 

– ¿Uniforme naval? – perguntou ele ao parceiro. – Blanco... ¿Como de almirante?

 

A resposta foi afirmativa.

 

Um uniforme da Marinha, percebeu Langdon. Winston estava certo.

 

– Não se mexa – disse o guarda.

 

Langdon não tinha intenção de se mexer; o oficial em cima dele tinha uns 100 quilos de puro músculo e já havia mostrado que levava seu trabalho tremendamente a sério.

 

– ¡Inmediatamente! – gritou o guarda pelo rádio, continuando com um pedido urgente de apoio das autoridades locais e bloqueios de estradas em volta do museu.

 

... policía local... bloqueos de carretera...

 

De onde estava, na grama, Langdon podia ver Ambra Vidal ainda no chão perto da parede. Ela tentou se levantar mas vacilou, caindo de quatro.

 

Alguém a ajude!

 

Mas o guarda estava gritando para o outro lado da cúpula, parecendo não se dirigir a ninguém em especial.

 

– ¡Luces! ¡Y cobertura de móvil! – Preciso de luzes e serviço de celular!

 

Langdon levantou a mão e ajeitou o transdutor no rosto.

 

– Winston, você está aí?

 

O guarda se virou, olhando Langdon de modo estranho.

 

– Estou. – A voz de Winston saiu chapada.

 

– Winston, Edmond levou um tiro. Precisamos das luzes de volta imediatamente. E do desbloqueio do serviço de celulares. Você pode controlar isso? Ou contatar alguém que possa?

 

Segundos depois, as luzes da cúpula aumentaram abruptamente de intensidade, dissolvendo a ilusão mágica de uma campina enluarada e clareando uma vastidão deserta de grama artificial com cobertores abandonados.

 

O guarda ficou estupefato com o aparente poder de Langdon. Depois de um momento, ele se abaixou e puxou o professor para que ficasse de pé. Os dois se encararam sob a luz forte.

 

O agente era alto, de estatura equivalente à de Langdon, com cabeça raspada e corpo musculoso que forçava as costuras do blazer azul. O rosto era claro, com feições tranquilas destacando os olhos penetrantes que, no momento, estavam focalizados no professor como lasers.

 

– O senhor apareceu no vídeo desta noite. O senhor é Robert Langdon.

 

– Sim. Edmond Kirsch foi meu aluno e era meu amigo.

 

– Sou o agente Fonseca, da Guardia Real – anunciou o homem num inglês perfeito. – Diga como soube sobre o uniforme da Marinha.

 

Langdon se virou para o corpo de Edmond imóvel na grama ao lado do pódio. Ambra Vidal se ajoelhou ao lado dele junto com dois seguranças do museu e um paramédico, que já havia abandonado os esforços para ressuscitá-lo. Ela cobriu o cadáver gentilmente com um cobertor.

 

Sem dúvida, Edmond estava morto.

 

Langdon sentiu náuseas, incapaz de afastar o olhar do amigo assassinado.

 

– Não podemos ajudá-lo – disse o guarda bruscamente. – Diga como ficou sabendo.

 

Langdon voltou a olhar para o guarda, cujo tom não deixava espaço para dúvidas. Era uma ordem.

 

Rapidamente ele contou o que Winston lhe dissera: o programa de guias notou que um dos fones tinha sido abandonado e, quando um guia humano encontrou o aparelho numa lata de lixo, eles foram verificar qual convidado recebera aquele fone e ficaram alarmados ao descobrir que tinha sido uma inclusão de última hora.

 

– Impossível. – Os olhos do guarda se estreitaram. – A lista de convidados foi fechada ontem. Verificamos os antecedentes de todo mundo.

 

– Não os desse homem – disse Winston no fone de Langdon. – Fiquei preocupado e investiguei o nome dele. Descobri que é um almirante reformado da Marinha espanhola, dispensado por alcoolismo e estresse pós-traumático devido a um ataque terrorista em Sevilha há cinco anos.

 

Langdon repassou a informação para o guarda.

 

– O atentado a bomba na catedral? – O sujeito pareceu incrédulo.

 

– Além disso – disse Winston a Langdon –, descobri que o oficial não tem qualquer ligação com o Sr. Kirsch, o que me preocupou, por isso contatei a segurança do museu para acionar os alarmes. Mas, sem ter mais informações conclusivas, eles concordaram que não deveríamos arruinar o evento de Edmond, especialmente enquanto estava sendo transmitido ao vivo para o mundo. Sabendo quanto Edmond trabalhou no programa desta noite, a lógica deles fez sentido para mim. Resolvi contatar você de imediato, Robert, esperando que conseguisse identificar o homem, de modo que eu pudesse mandar uma equipe de segurança até ele sem fazer alarde. Eu deveria ter tomado uma atitude mais firme. Fracassei com Edmond.

 

Langdon achou um tanto irritante que a máquina de Edmond parecesse sentir culpa. Olhou para o corpo coberto do amigo e viu Ambra Vidal se aproximando.

 

Fonseca a ignorou, ainda concentrado em Langdon.

 

– O computador lhe deu o nome do oficial em questão?

 

Langdon assentiu.

 

– É o almirante Luis Ávila.

 

Quando ele falou o nome, Ambra parou e encarou Langdon com uma expressão de horror absoluto.

 

Fonseca notou a reação e foi imediatamente na direção dela.

 

– Srta. Vidal? Já ouviu este nome?

 

Ambra pareceu incapaz de responder. Baixou o olhar para o chão, como se tivesse acabado de ver um fantasma.

 

– Srta. Vidal – repetiu Fonseca –, já ouviu falar do almirante Luis Ávila?

 

A expressão chocada de Ambra deixou poucas dúvidas de que ela conhecia o assassino. Depois de um momento atônita, ela piscou duas vezes e seus olhos escuros começaram a ficar mais límpidos, como se estivesse emergindo de um transe.

 

– Não... nunca ouvi o nome – sussurrou, olhando para Langdon e depois para seu segurança. – Só fiquei... chocada ao saber que o assassino era um oficial da Marinha espanhola.

 

Ela está mentindo, sentiu Langdon, intrigado com o motivo para Ambra tentar disfarçar a reação. Eu vi. Ela reconheceu o nome do sujeito.

 

– Quem estava encarregado da lista de convidados?! – perguntou Fonseca, dando mais um passo na direção de Ambra. – Quem acrescentou o nome desse homem?

 

Agora os lábios de Ambra estavam tremendo.

 

– Eu... não faço ideia.

 

As perguntas do guarda foram interrompidas por uma súbita cacofonia de telefones tocando e emitindo bipes por toda a cúpula. Aparentemente Winston tinha arranjado um modo de restaurar o serviço de celulares, e um dos que tocavam estava no bolso do blazer de Fonseca.

 

O agente da Guardia pegou o aparelho e, vendo o identificador de chamadas, respirou fundo e atendeu.

 

– Ambra Vidal está a salvo – anunciou.

 

Langdon virou para a mulher perturbada. Ela estava olhando para ele. Quando os dois se encararam, continuaram assim por um longo momento.

 

Então Langdon escutou a voz de Winston se materializar em seu fone.

 

– Professor – sussurrou Winston –, Ambra Vidal sabe muito bem como Luis Ávila entrou na lista de convidados. Ela mesma colocou o nome dele.

 

Langdon precisou de um momento para assimilar a informação.

 

A própria Ambra Vidal colocou o assassino na lista de convidados?

 

E agora está mentindo sobre isso?

 

Antes que Langdon pudesse processar essa informação, Fonseca entregou seu celular a Ambra.

 

– Don Julián quiere hablar con usted – disse o agente.

 

Ambra pareceu se encolher para longe do telefone.

 

– Diga que estou bem – respondeu ela. – Ligo para ele daqui a pouco.

 

A expressão do guarda foi de incredulidade absoluta. Ele cobriu o telefone e sussurrou para Ambra.

 

– Su Alteza Don Julián, el príncipe, ha pedido...

 

– Não me importa se ele é o príncipe – disparou ela de volta. – Se ele vai ser meu marido, terá de aprender a me dar espaço quando eu preciso. Acabei de testemunhar um assassinato e preciso de um minuto para pensar! Diga que ligo daqui a pouco.

 

Fonseca encarou-a, os olhos relampejando com uma emoção à beira do desprezo. Depois se virou e saiu para continuar a ligação em particular.

 

Para Langdon, o diálogo bizarro tinha solucionado um pequeno mistério. Ambra Vidal é noiva do príncipe Julián da Espanha? Essa notícia explicava o tratamento de celebridade que ela estava recebendo e também a presença da Guardia Real, ainda que certamente não explicasse a recusa em atender ao telefonema do noivo. O príncipe deve estar morrendo de preocupação se viu isso pela TV.

 

Quase instantaneamente ficou pasmo com uma segunda revelação, mais sombria.

 

Ah, meu Deus... Ambra Vidal é ligada ao Palácio Real de Madri.

 

A coincidência inesperada lhe provocou um arrepio enquanto ele se lembrava da mensagem ameaçadora do bispo Valdespino no telefone de Edmond.

 

 

A 200 metros do Palácio Real, dentro da Catedral de Almudena, o bispo Valdespino tinha parado de respirar por um momento. Ainda usava as vestes cerimoniais e estava sentado diante do laptop em seu escritório, fascinado pelas imagens transmitidas de Bilbao.

 

Isso vai ter uma cobertura maciça.

 

Pelo visto, a mídia global já estava enlouquecendo. Os principais noticiários enfileiravam autoridades em ciência e religião para especular sobre a apresentação de Edmond Kirsch, ao mesmo tempo que levantavam hipóteses sobre quem teria assassinado o futurólogo e por quê. A mídia parecia concordar que, ao que tudo indicava, existia alguém empenhado em garantir que a descoberta de Kirsch jamais visse a luz do dia.

 

Depois de um longo momento de reflexão, Valdespino pegou o celular e deu um telefonema.

 

O rabino Köves atendeu ao primeiro toque.

 

– Terrível! – A voz do religioso era quase um berro. – Eu estava assistindo pela televisão! Precisamos ir às autoridades agora mesmo e contar o que sabemos!

 

– Rabino – respondeu Valdespino em tom contido –, concordo que essa é uma reviravolta horrível. Mas, antes de agirmos, precisamos pensar.

 

– Não há o que pensar! – disparou Köves. – Sem dúvida, quem está por trás disso não vai hesitar diante de nada para enterrar a descoberta de Kirsch. São carniceiros! Estou convencido de que também mataram Syed. Devem saber quem somos e em seguida virão atrás de nós. Você e eu temos a obrigação moral de ir às autoridades e revelar o que Kirsch nos contou.

 

– Obrigação moral? Está parecendo que você quer tornar a informação pública para que ninguém tenha motivo para silenciar você ou a mim pessoalmente.

 

– Com certeza a nossa segurança é uma consideração – argumentou o rabino. – Mas também temos uma obrigação moral para com o mundo. Sei que essa descoberta vai questionar algumas crenças religiosas fundamentais, mas se há uma coisa que aprendi em toda a minha longa vida é que a fé sempre sobrevive, mesmo diante de grandes dificuldades. Ainda que as revelações de Kirsch venham a público, acredito que a fé vai sobreviver a isso também.

 

– Entendi, amigo – disse o bispo, mantendo o tom o mais tranquilo possível. – Dá para ouvir a decisão em sua voz e respeito seu pensamento. Quero que saiba que estou aberto a discussão e até mesmo a mudar minha opinião. No entanto, quero lhe pedir um favor: se vamos revelar essa descoberta ao mundo, façamos isso juntos. À luz do dia. Com honra. Não em desespero, logo depois desse assassinato horrível. Vamos planejar, ensaiar e abordar a notícia de um modo adequado.

 

Köves não disse nada, mas Valdespino podia ouvir o velho respirando.

 

– Rabino – continuou o bispo –, no momento a questão mais premente é nossa segurança pessoal. Estamos lidando com matadores e se você ficar visível demais... procurando as autoridades ou indo a uma emissora de televisão, por exemplo... a coisa pode terminar de modo violento. Temo em particular por você. Eu tenho proteção dentro do complexo do palácio, mas você... você está sozinho em Budapeste! Sem dúvida, a descoberta de Kirsch é uma questão de vida ou morte. Por favor, deixe que eu consiga proteção para você, Yehuda.

 

Köves ficou em silêncio por um momento.

 

– De Madri? Como você poderia...

 

– Tenho à disposição os recursos de segurança da família real. Fique dentro de casa com as portas fechadas. Vou requisitar que dois agentes da Guardia Real peguem você e o tragam para Madri, onde sua proteção estará garantida no complexo do palácio e onde poderemos nos sentar cara a cara e discutir o melhor modo de seguir em frente.

 

– Mas, se eu for para Madri... – disse o rabino, hesitando – e nós não conseguirmos chegar a um acordo sobre a melhor maneira de lidar com essa questão?

 

– Nós vamos chegar. Sei que sou antiquado, mas também sou realista, como você. Juntos vamos descobrir o melhor caminho. Tenho fé nisso.

 

– Obrigado – respondeu Köves. – Pela sua palavra, vou a Madri.

 

– Bom. Enquanto isso tranque as portas e não fale com ninguém. Prepare uma mala e eu ligo com os detalhes assim que os tiver. – Valdespino fez uma pausa. – E tenha fé. Vou vê-lo muito em breve.

 

Valdespino desligou com um sentimento de pavor no coração; suspeitava que, para continuar controlando Köves, precisaria de algo mais do que um pedido de racionalidade e prudência.

 

Köves está entrando em pânico... como Syed.

 

Os dois não conseguem ver o quadro geral.

 

Valdespino fechou o laptop, enfiou-o embaixo do braço e foi andando pelo santuário escuro. Ainda usando as vestes cerimoniais, saiu da catedral para o ar frio da noite e atravessou a praça em direção à reluzente fachada branca do Palácio Real.

 

Acima da entrada principal, podia ver o brasão espanhol – um escudo flanqueado pelas Colunas de Hércules com o antigo lema PLUS ULTRA, que significa “mais além”. Alguns acreditavam que a expressão se referia à busca espanhola de expandir o império durante sua era de ouro, séculos antes. Outros afirmavam que refletia a antiga crença do país, de que existia uma vida no céu, para além desta.

 

De qualquer modo, Valdespino sentia que o lema era menos relevante a cada dia. Enquanto olhava a bandeira espanhola tremulando acima do palácio, deu um suspiro triste, com os pensamentos voltados para o rei doente.

 

Vou sentir falta quando ele se for.

 

Eu devo tanto a ele.

 

Durante os últimos meses o bispo vinha fazendo visitas diárias ao amigo querido, de cama no Palacio de la Zarzuela, nos arredores da cidade. Havia alguns dias o rei tinha chamado Valdespino e o recebera em seu leito com uma expressão preocupada nos olhos.

 

– Antonio – sussurrou o rei –, sinto que o noivado do meu filho foi... apressado.

 

Uma descrição mais exata seria “insano”, pensou o bispo.

 

Dois meses antes, quando o príncipe confiara a Valdespino que pretendia pedir Ambra Vidal em casamento depois de conhecê-la por um tempo muito curto, o bispo implorou que ele fosse mais prudente. Julián argumentou que estava apaixonado e que seu pai merecia ver o único filho casado. Além disso, falou, se ele e Ambra quisessem ter filhos, a idade dela exigia que não esperassem demais.

 

Valdespino sorriu calmamente para o rei.

 

– Sim, concordo. O pedido de Don Julián nos pegou a todos de surpresa. Mas ele só queria deixar o senhor feliz.

 

– O dever dele é para com o país – disse o rei enfaticamente –, não para com seu pai. E ainda que a Srta. Vidal seja adorável, ela é uma desconhecida para nós, é uma pessoa de fora. Eu questiono os motivos que a levaram a aceitar o pedido de Don Julián. Foi rápido demais, e uma mulher de honra deveria tê-lo rejeitado.

 

– O senhor está certo – respondeu Valdespino. – Se bem que, em defesa de Ambra, Don Julián lhe deixou pouca escolha.

 

O rei pegou gentilmente a mão ossuda do bispo.

 

– Meu amigo, não sei para onde o tempo foi. Você e eu ficamos velhos. Quero lhe agradecer. Você me aconselhou com sabedoria no correr dos anos, quando perdi minha esposa, durante as mudanças no nosso país, e eu me beneficiei tremendamente da força de sua convicção.

 

– Nossa amizade é uma honra que vou guardar para sempre como um tesouro.

 

O rei deu um sorriso débil.

 

– Antonio, sei que você fez sacrifícios para ficar comigo. Roma, para começo de conversa.

 

Valdespino deu de ombros.

 

– Tornar-me cardeal não me levaria para mais perto de Deus. Meu lugar sempre foi aqui, com o senhor.

 

– Sua lealdade tem sido uma bênção.

 

– E nunca vou esquecer a compaixão que o senhor demonstrou para comigo durante todos esses anos.

 

O rei fechou os olhos, apertando a mão do bispo com força.

 

– Antonio... estou preocupado. Logo meu filho vai se ver ao leme de um navio enorme, um navio que ele não está preparado para pilotar. Por favor, oriente-o. Seja sua estrela guia. Ponha sua mão firme sobre a dele, no timão, especialmente em mares revoltos. Acima de tudo, quando ele perder o prumo, imploro que o ajude a encontrar o caminho de volta... de volta a tudo o que é puro.

 

– Amém – sussurrou o bispo. – Dou-lhe minha palavra.

 

Agora, no ar frio da noite, Valdespino atravessou a praça e levantou os olhos para o céu. Majestade, por favor, saiba que estou fazendo tudo o que posso para cumprir com seus últimos desejos.

 

Sentia consolo em saber que o rei estava fraco demais para assistir à televisão. Se ele tivesse visto a transmissão de Bilbao esta noite, teria morrido no ato, ao testemunhar a que ponto chegara o seu amado país.

 

À direita de Valdespino, atrás do portão de ferro, por toda a Calle de Bailén, furgões da mídia tinham se reunido e estavam estendendo suas antenas de satélite.

 

Abutres, pensou Valdespino, com o ar da noite açoitando a batina.

 

 

Haverá tempo para ficar de luto, disse Langdon a si mesmo, batalhando contra a emoção intensa. Agora é hora de ação.

 

Já havia solicitado que Winston examinasse as imagens de segurança do museu em busca de qualquer informação que pudesse ajudar a prender o atirador. Depois tinha acrescentado baixinho um pedido para que procurasse alguma conexão entre o bispo Valdespino e Ávila.

 

Agora o agente Fonseca estava retornando, ainda falando ao telefone.

 

– Sí... sí – dizia ele. – Claro. Inmediatamente. – Fonseca desligou o telefone e voltou a atenção para Ambra, parada ali perto, atônita. – Srta. Vidal, vamos sair – anunciou, enfático. – Don Julián exigiu que a levemos agora mesmo para o Palácio Real, onde estará em segurança.

 

O corpo de Ambra se retesou visivelmente.

 

– Não vou abandonar Edmond assim! – Ela indicou o cadáver caído sob o cobertor.

 

– As autoridades locais vão cuidar disso – respondeu Fonseca. – E os peritos estão a caminho. O Sr. Kirsch vai ser tratado com respeito e grande cuidado. Agora precisamos ir. Tememos que a senhorita esteja correndo perigo.

 

– Certamente não estou correndo perigo! – disse Ambra, indo na direção dele. – Um assassino teve a oportunidade perfeita de atirar em mim e não fez isso. Ele estava atrás do Edmond!

 

– Srta. Vidal! – As veias no pescoço de Fonseca pulsaram. – O príncipe quer a senhorita em Madri. Ele está preocupado com sua segurança.

 

– Não – contra-atacou ela. – Ele está preocupado com as consequências políticas.

 

Fonseca soltou o ar lentamente e baixou a voz.

 

– Srta. Vidal, o que aconteceu esta noite foi um golpe terrível para a Espanha. Além disso, foi um golpe terrível para o príncipe. A senhorita ser a anfitriã do evento desta noite foi uma decisão infeliz.

 

A voz de Winston falou de repente na cabeça de Langdon:

 

– Professor? A equipe de segurança do museu andou examinando as imagens das câmeras externas do prédio. Parece que encontraram alguma coisa.

 

Langdon prestou atenção e depois balançou a mão para Fonseca, interrompendo o agente que repreendia Ambra.

 

– Senhor, o computador disse que as câmeras da cobertura do museu conseguiram uma foto parcial do carro usado na fuga.

 

– É? – Fonseca pareceu surpreso.

 

Langdon repassou a informação enquanto Winston falava.

 

– Um sedã preto saiu pelo beco de serviço... as placas não estavam legíveis daquele ângulo... havia um adesivo incomum no para-brisa.

 

– Que adesivo? – perguntou Fonseca. – Podemos alertar as autoridades locais para procurá-lo.

 

– Não reconheci o adesivo – respondeu Winston na cabeça de Langdon –, mas comparei a forma dele com todos os símbolos conhecidos no mundo e obtive uma única semelhança.

 

Langdon ficou pasmo com a rapidez com que Winston pudera fazer tudo isso acontecer.

 

– A semelhança que encontrei – disse Winston – foi com um antigo símbolo alquímico: amalgamação.

 

Como assim? Langdon tinha esperado que fosse o logotipo de algum estacionamento ou de uma organização política.

 

– O adesivo do carro mostra o símbolo da... amalgamação?

 

Fonseca ficou olhando para ele, obviamente sem entender.

 

– Deve haver algum engano, Winston – disse Langdon. – Por que alguém usaria o símbolo de um processo alquímico?

 

– Não sei – respondeu Winston. – Foi a única semelhança que encontrei. E estou identificando uma correspondência de 99 por cento.

 

A memória fotográfica de Langdon conjurou o símbolo alquímico da amalgamação.

 

– Winston, descreva exatamente o que você viu no para-brisa do carro.

 

O computador respondeu no mesmo instante:

 

– O símbolo consiste numa linha vertical atravessada por três linhas transversais. No topo da linha vertical, há um arco virado para cima.

 

Exatamente. Langdon franziu a testa.

 

– Esse arco... tem algum remate?

 

– Sim. Linhas horizontais curtas em cima de cada braço.

 

Certo, então é a amalgamação.

 

Langdon pensou por um momento.

 

– Winston, você pode nos mandar a foto da câmera de segurança?

 

– Claro.

 

– Mande para o meu telefone – exigiu Fonseca.

 

Langdon deu a Winston o número do agente e, um instante depois, o aparelho de Fonseca soltou um bipe. Todos se reuniram em volta e olharam a foto granulada em preto e branco. A imagem feita do alto mostrava um sedã preto num beco deserto.

 

De fato, no canto esquerdo inferior do para-brisa, Langdon pôde ver um adesivo com o símbolo exato que Winston tinha descrito.

 

Amalgamação. Que bizarro!

 

Intrigado, Langdon estendeu a mão e usou as pontas dos dedos para ampliar a imagem na tela do celular de Fonseca. Inclinando-se, examinou a imagem mais detalhadamente.

 

Logo viu o problema.

 

– Não é amalgamação – anunciou.

 

Ainda que a descrição da imagem feita por Winston fosse muito próxima, não era exata. E em simbologia a distinção entre “próximo” e “exato” era o que diferenciava uma suástica nazista de um símbolo budista de prosperidade.

 

É por isso que a mente humana às vezes é melhor do que um computador.

 

– Não é um adesivo – declarou Langdon. – São dois adesivos diferentes um tanto sobrepostos. O de baixo é um crucifixo especial chamado de cruz papal. Atualmente ele é muito popular.

 

Com a eleição do pontífice mais liberal da história do Vaticano, milhares de pessoas em todo o mundo estavam demonstrando apoio às novas políticas do papa usando a cruz tripla, mesmo na cidade de Langdon, Cambridge, em Massachusetts.

 

– O símbolo em forma de U em cima – explicou Langdon – é um adesivo totalmente separado.

 

– Agora vejo que o senhor está certo – afirmou Winston. – Vou encontrar o número de telefone da empresa.

 

De novo Langdon ficou surpreso com a velocidade de Winston. Ele já identificou o logotipo da empresa?

 

– Excelente – disse Langdon. – Se ligarmos, eles podem rastrear o carro.

 

Fonseca pareceu perplexo.

 

– Rastrear o carro! Como?

 

– O carro usado na fuga foi contratado – explicou Langdon, apontando para o U estilizado no para-brisa. – É um Uber.

 

 

Pela expressão de incredulidade nos olhos arregalados de Fonseca, Langdon não soube o que mais surpreendeu o agente: a descrição rápida do adesivo no para-brisa ou a estranha escolha que o almirante Ávila tinha feito para seu carro de fuga.

 

Ele chamou um Uber, pensou Langdon, imaginando se era uma ideia brilhante ou incrivelmente míope.

 

O serviço ubíquo de “motoristas sob demanda” do Uber havia dominado o mundo nos últimos anos. Por meio de um smartphone, qualquer pessoa que precisasse de uma corrida poderia se conectar instantaneamente com um crescente exército de motoristas que ganhavam um dinheiro extra usando seus carros particulares como táxis improvisados. Legalizado apenas recentemente na Espanha, o Uber exigia que os motoristas colocassem o logotipo U no para-brisa. Pelo jeito esse motorista do Uber também era fã do novo papa.

 

– Agente Fonseca – disse Langdon –, Winston disse que tomou a liberdade de mandar a imagem do carro de fuga para as autoridades locais distribuírem nos bloqueios de rua.

 

Fonseca ficou boquiaberto e Langdon sentiu que aquele agente muito bem treinado não gostava de brincar de gincana, muito menos de ficar para trás. Fonseca parecia não saber se deveria agradecer a Winston ou dizer para ele cuidar da própria vida.

 

– E agora ele está ligando para o número de emergência do Uber.

 

– Não! – ordenou Fonseca. – Dê o número que eu mesmo ligo. É mais provável que o Uber ajude um oficial da Guardia Real do que um computador.

 

Langdon precisou admitir que Fonseca provavelmente estava certo. Além disso, parecia muito melhor que a Guardia ajudasse na caçada do que desperdiçasse sua capacidade levando Ambra para Madri.

 

Depois de pegar o número com Winston, Fonseca ligou e Langdon se sentiu confiante de que pegariam o assassino em questão de minutos. Localizar veículos estava no cerne dos negócios do Uber; qualquer cliente com um smartphone podia acessar o local preciso de cada motorista do Uber em todos os cantos da Terra. Fonseca só precisaria pedir que a empresa encontrasse o motorista que tinha acabado de pegar um passageiro atrás do Museu Guggenheim.

 

– Hostia! – praguejou Fonseca. – Automatizada. – Ele digitou com força um número no teclado. Depois de passar pelo menu de opções, agora estava esperando. – Professor, assim que eu conseguir falar com o Uber e pedir que encontrem o carro, vou entregar esse assunto às autoridades locais de modo que o agente Díaz e eu possamos transportar o senhor e a Srta. Vidal para Madri.

 

– Eu? – reagiu Langdon, espantado. – Não, não posso acompanhar vocês.

 

– Pode e vai – declarou Fonseca. – Assim como o seu brinquedinho de computador – acrescentou apontando para o fone de Langdon.

 

– Sinto muito – retrucou Langdon, endurecendo o tom. – De jeito nenhum posso acompanhá-los a Madri.

 

– Isso é estranho. Achei que o senhor era professor em Harvard.

 

Langdon olhou para ele, sem entender aonde queria chegar.

 

– E sou.

 

– Bom – disse Fonseca rispidamente. – Então presumo que seja inteligente o bastante para saber que não tem escolha.

 

Com isso, o agente saiu pisando firme, de volta ao telefonema.

 

Langdon observou-o se afastar. Que diabo é isso?

 

– Professor? – Ambra tinha chegado muito perto dele e sussurrou: – O senhor precisa me ouvir. É muito importante.

 

Ele ficou surpreso ao ver que a expressão de Ambra era de profundo medo. O choque mudo parecia ter passado, e o tom de voz dela era desesperado, mas claro.

 

– Professor, Edmond demonstrou um respeito enorme pelo senhor ao incluí-lo na apresentação. Por esse motivo vou confiar no senhor. Preciso lhe dizer uma coisa.

 

Langdon a encarou em dúvida.

 

– O assassinato de Edmond foi minha culpa – murmurou ela, com os olhos de um castanho profundo se enchendo de lágrimas.

 

– Como assim?

 

Ambra olhou nervosa para Fonseca, que não teria como ouvi-los àquela distância.

 

– A lista de convidados – disse ela, retornando a Langdon. – O acréscimo de última hora. O nome que foi incluído...

 

– Sim, Luis Ávila.

 

– Fui eu que acrescentei o nome – confessou ela com a voz embargada. – Fui eu!

 

Winston estava certo..., pensou Langdon atônito.

 

– Eu sou o motivo pelo qual Edmond foi assassinado. – Agora ela estava à beira das lágrimas. – Eu deixei o assassino entrar neste prédio.

 

– Espere um minuto – disse Langdon, pondo a mão no ombro trêmulo de Ambra. – Explique melhor. Por que a senhorita acrescentou o nome dele?

 

Ambra lançou um olhar ansioso para Fonseca, ainda ao telefone a uns 20 metros de distância.

 

– Professor, eu recebi um pedido de última hora de uma pessoa em quem confio profundamente. Ele pediu que eu acrescentasse o nome do almirante Ávila à lista de convidados, como um favor pessoal. O pedido chegou apenas alguns minutos antes de as portas se abrirem, por isso o incluí sem pensar. Quero dizer, ele era um oficial da Marinha, um almirante! Como eu iria saber? – Ela olhou de novo para o corpo de Edmond e cobriu a boca com a mão elegante. – E agora...

 

– Ambra – sussurrou Langdon –, quem pediu para você acrescentar o nome de Ávila?

 

Ambra engoliu em seco.

 

– Foi o meu noivo... o príncipe herdeiro da Espanha. Don Julián.

 

Langdon a encarou incrédulo, tentando processar as palavras. A diretora do Guggenheim tinha acabado de dizer que o príncipe herdeiro da Espanha havia ajudado a orquestrar o assassinato de Edmond Kirsch. É impossível.

 

– Tenho certeza de que o palácio jamais esperaria que eu ficasse sabendo da identidade do assassino – disse ela. – Mas agora que sei... estou me sentindo em perigo.

 

Langdon pôs a mão no ombro dela.

 

– Aqui você está em perfeita segurança.

 

– Não – sussurrou ela com intensidade. – Aqui estão acontecendo coisas que o senhor não entende. Nós dois precisamos sair. Agora!

 

– Não podemos fugir. Nunca iremos...

 

– Por favor, escute. Eu sei como ajudar Edmond.

 

– Como assim? – Langdon sentiu que ela ainda estava em choque. – Edmond não pode ser ajudado.

 

– Pode sim – insistiu ela, com o tom lúcido. – Mas primeiro precisamos entrar na casa dele em Barcelona.

 

– O que a senhorita está falando?

 

– Por favor, escute com atenção. Eu sei o que Edmond gostaria que nós fizéssemos.

 

Nos 15 segundos seguintes, Ambra Vidal falou baixinho com Langdon. Enquanto ouvia, ele sentiu os batimentos cardíacos acelerando. Meu Deus, pensou. Ela está certa. Isso muda tudo.

 

Quando terminou, Ambra o encarou, desafiadora.

 

– Agora está vendo por que precisamos ir?

 

Langdon aquiesceu, sem hesitar.

 

– Winston – disse ele ao fone. – Ouviu o que Ambra acaba de me dizer?

 

– Ouvi, professor.

 

– Você já sabia disso?

 

– Não.

 

Langdon avaliou com muito cuidado as palavras seguintes.

 

– Winston, não sei se os computadores podem sentir lealdade a seus criadores, mas, se você puder, este é o seu momento da verdade. Sua ajuda seria muito bem-vinda.

 

 

Enquanto ia na direção do pódio, Langdon ficou de olho em Fonseca, ainda concentrado no telefonema para o Uber. Viu Ambra se deslocar de modo casual para o centro da cúpula, também falando ao telefone – ou pelo menos fingindo que falava – exatamente como Langdon tinha sugerido.

 

Diga a Fonseca que você decidiu ligar para o príncipe Julián.

 

Quando chegou ao pódio, Langdon virou o olhar com relutância para o corpo caído no chão. Edmond. Gentilmente puxou o cobertor que Ambra havia posto sobre ele. Os olhos antes brilhantes de Edmond eram fendas sem vida sob um buraco vermelho na testa. Langdon estremeceu diante da imagem medonha, com o coração martelando de tristeza e raiva.

 

Por um instante ainda podia ver o jovem estudante com cabelos de esfregão que havia entrado em sua aula cheio de esperança e talento – e tinha realizado tanta coisa em tão pouco tempo. De modo horrendo, alguém assassinara esse ser humano espantosamente dotado, quase com certeza com o objetivo de enterrar sua descoberta para sempre.

 

E a não ser que eu tome uma atitude ousada, pensou Langdon, o maior feito do meu aluno jamais verá a luz do dia.

 

Posicionando-se de modo que o pódio bloqueasse parcialmente a linha de visão de Fonseca, ajoelhou-se ao lado do corpo de Edmond, fechou os olhos, cruzou as mãos e assumiu uma reverente postura de oração.

 

A ironia de rezar por um ateu quase fez com que Langdon sorrisse. Edmond, sei que você, mais do que qualquer um, não quer ninguém rezando por sua alma. Não se preocupe, amigo, na verdade não estou aqui para isso.

 

Enquanto se ajoelhava junto de Edmond, Langdon lutou contra um medo crescente. Eu lhe garanti que o bispo era inofensivo. Se por acaso Valdespino estiver envolvido nisso... Langdon afastou o pensamento.

 

Assim que teve certeza de que Fonseca o vira rezando, inclinou-se discretamente e enfiou a mão dentro da jaqueta de couro de Edmond, tirando seu grande telefone turquesa.

 

Olhou brevemente na direção de Fonseca, ainda ao telefone e agora aparentando menos interesse em Langdon do que em Ambra, que parecia concentrada em seu próprio telefonema e ia se afastando cada vez mais.

 

Langdon voltou o olhar para o telefone de Edmond e respirou fundo para se acalmar.

 

Mais uma coisa a fazer.

 

Com cuidado, abaixou-se e levantou a mão direita de Edmond. Ela já estava fria. Levou o telefone até ela e apertou com cuidado o indicador de Edmond contra o disco de reconhecimento de digital.

 

O telefone soltou um clique e se destravou.

 

Langdon percorreu rapidamente o menu de configuração e desabilitou a proteção por senha. Permanentemente desbloqueado. Em seguida enfiou o telefone no bolso do paletó e cobriu de novo o corpo de Edmond com o cobertor.

 

Sirenes uivavam a distância enquanto Ambra permanecia sozinha no centro do auditório deserto com o celular encostado no ouvido, fingindo se concentrar numa conversa, o tempo todo consciente dos olhos de Fonseca voltados para ela.

 

Depressa, Robert.

 

Um minuto antes, o professor americano tinha partido para a ação depois de Ambra lhe contar uma conversa recente que tivera com Edmond Kirsch. Duas noites antes, ela estava trabalhando com Edmond naquele mesmo salão. Já era tarde e os dois cuidavam dos últimos detalhes da apresentação quando ele parou para tomar o terceiro suco de espinafre da noite. Ambra notou como ele parecia exausto.

 

– Devo dizer, Edmond, que não sei bem se essa dieta vegana está funcionando. Você está pálido e magro demais.

 

– Magro demais? – Ele riu. – Olhe quem está falando.

 

– Eu não estou magra demais!

 

– Está no limite. – Ele piscou de modo brincalhão diante da expressão indignada de Ambra. – Quanto a estar pálido, fala sério! Sou um geek que fica o dia inteiro sentado à luz de uma tela de LCD.

 

– Bom, daqui a dois dias você vai falar para o mundo inteiro, e um pouquinho de cor iria lhe fazer bem. Saia ao ar livre amanhã ou invente uma tela de computador que sirva ao mesmo tempo para bronzear.

 

– Não é má ideia – disse ele, parecendo impressionado. – Você deveria patentear isso. – Ele riu e depois voltou a atenção para o problema imediato. – Então a ordem dos acontecimentos na noite de sábado está clara?

 

Ambra assentiu, olhando o roteiro.

 

– Eu recebo as pessoas na antessala, em seguida entramos todos neste auditório para seu vídeo de introdução, depois do qual você vai aparecer magicamente ali no pódio. – Ela apontou para a frente do salão. – E em seguida, no pódio, você faz seu anúncio.

 

– Perfeito, com um pequeno acréscimo. – Edmond riu. – Quando eu falar no pódio, será mais um intervalo, uma chance de dar as boas-vindas pessoalmente aos convidados, deixar todo mundo esticar as pernas e prepará-los um pouco mais antes de começar a segunda metade do evento: a apresentação multimídia que explica minha descoberta.

 

– Então o anúncio propriamente dito é pré-gravado? Como a introdução?

 

– É. Eu o terminei há alguns dias. Nossa cultura é visual, as apresentações multimídia são sempre mais interessantes do que um mero cientista falando no pódio.

 

– Você não é exatamente “um mero cientista”, mas concordo. Mal posso esperar para ver.

 

Ambra sabia que, por questões de segurança, a apresentação de Edmond estava armazenada em seus servidores particulares, confiáveis, que ficavam fora dali. Tudo seria transmitido por streaming para o sistema de projeção do museu a partir de um local remoto.

 

– Quando estivermos prontos para a segunda parte – perguntou ela –, quem vai ativar a apresentação, você ou eu?

 

– Eu mesmo faço. – Ele pegou seu telefone. – Com isto. – Edmond levantou o smartphone enorme com sua capa turquesa com um desenho de Gaudí. – Tudo faz parte do show. Eu simplesmente acesso meu servidor remoto usando uma conexão criptografada...

 

Edmond apertou alguns botões e o telefone, no viva voz, tocou uma vez e se conectou.

 

Uma voz feminina, computadorizada, atendeu.

 

– BOA NOITE, EDMOND. ESTOU ESPERANDO SUA SENHA.

 

Edmond sorriu.

 

– E então, com o mundo todo assistindo, eu apenas digito a senha no telefone e minha descoberta é transmitida imediatamente, aqui para nosso teatro. E, ao mesmo tempo, para todo o planeta.

 

– Parece dramático – disse Ambra, impressionada. – A não ser, claro, que você esqueça a senha.

 

– Seria embaraçoso mesmo.

 

– Imagino que você tenha anotado a senha.

 

– Blasfêmia – reagiu Edmond, rindo. – Os cientistas da computação nunca anotam senhas. Mas não se preocupe. A minha tem apenas 47 caracteres. Tenho certeza de que não vou esquecer.

 

Os olhos de Ambra se arregalaram.

 

– Quarenta e sete?! Edmond, você nem consegue se lembrar do PIN de quatro números do seu cartão de segurança do museu! Como vai memorizar 47 caracteres aleatórios?

 

Edmond riu de novo do alarme de Ambra.

 

– Não preciso. Eles não são aleatórios. – Ele baixou a voz. – Na verdade, a senha é meu verso predileto.

 

Ambra sentiu-se confusa.

 

– Você usou o verso de um poema como senha?

 

– Por que não? O verso tem exatamente 47 letras.

 

– Bom, isso não parece muito seguro.

 

– Não? Você acha que pode adivinhar meu verso predileto?

 

– Eu nem tinha ideia de que você gostava de poesia.

 

– Exato. Mesmo se alguém descobrisse que minha senha era um verso de um poema e mesmo se acertasse o verso exato, entre milhões de possibilidades, ainda precisaria adivinhar o número muito longo que eu uso para me conectar com meu servidor seguro.

 

– O número que você ligou usando a discagem rápida do seu telefone?

 

– É, um telefone que tem seu próprio PIN de acesso e nunca sai do bolso do meu peito.

 

Ambra levantou as mãos, com um sorriso brincalhão.

 

– Certo, você é que é o chefe. Por sinal, quem é seu poeta predileto?

 

– Bela tentativa – disse ele, balançando o dedo. – Vai ter de esperar até sábado. O verso que escolhi é perfeito. – Ele riu. – Tem a ver com o futuro, com uma profecia, e fico feliz em dizer que ela já está se realizando.

 

Agora, enquanto seus pensamentos voltavam ao presente, Ambra olhou para o corpo de Edmond e percebeu, em pânico, que não podia mais ver Langdon.

 

Onde ele está?

 

Mais alarmante, viu o segundo oficial da Guardia, o agente Díaz, entrando de novo na cúpula pelo rasgo no tecido. Díaz examinou o local e começou a ir diretamente para Ambra.

 

Ele nunca vai me deixar sair daqui!

 

De repente, Langdon estava ao lado dela. Pôs a mão gentilmente em sua cintura e começou a guiá-la para longe, indo rápido para a outra extremidade da cúpula, a passagem por onde todo mundo havia entrado.

 

– Srta. Vidal! – gritou Díaz. – Aonde vocês vão?

 

– Já vamos voltar – respondeu Langdon, levando-a rapidamente pela vastidão deserta, indo em linha reta para o fundo da sala e o túnel de saída.

 

– Sr. Langdon! – Era a voz do agente Fonseca, gritando atrás deles. – O senhor está proibido de sair desta sala!

 

Ambra sentiu a mão de Langdon apertando suas costas com mais intensidade.

 

– Winston – sussurrou Langdon ao fone. – Agora!

 

Um instante depois toda a cúpula escureceu.

 

 

O agente Fonseca e seu parceiro Díaz correram pela cúpula escurecida, iluminando o caminho com as lanternas dos celulares e mergulhando no túnel por onde Langdon e Ambra tinham acabado de desaparecer.

 

Na metade do túnel, Fonseca encontrou o telefone de Ambra caído no carpete. Essa visão o deixou perplexo.

 

Ambra jogou fora o telefone?

 

A Guardia Real, com a permissão de Ambra, usava um aplicativo muito simples para saber sua localização o tempo todo. Só poderia haver uma explicação para ela ter deixado o telefone para trás: queria escapar da proteção deles.

 

Essa ideia deixou Fonseca extremamente preocupado, se bem que nem de longe tão nervoso quanto a perspectiva de ter que informar ao seu chefe que a futura rainha consorte da Espanha estava desaparecida. O comandante da Guardia era obsessivo e implacável quando se tratava de proteger os interesses do príncipe. Esta noite o próprio comandante havia passado o serviço a Fonseca. Sua diretriz não podia ser mais simples: “Mantenha Ambra Vidal em segurança e fora de encrenca o tempo todo.”

 

Não posso mantê-la em segurança se não souber onde ela está.

 

Os dois agentes foram rapidamente até o fim do túnel e chegaram à antessala escura, que agora parecia uma convenção de fantasmas – um monte de rostos pálidos e chocados, iluminados pelas telas dos celulares enquanto se comunicavam com o mundo lá fora, contando o que tinham acabado de testemunhar.

 

Várias pessoas gritavam:

 

– Acendam as luzes!

 

O telefone de Fonseca tocou e ele atendeu.

 

– Agente Fonseca, aqui é da segurança do museu – disse uma jovem em espanhol com a voz tensa. – Sabemos que vocês estão sem luz aí em cima. Parece que foi um problema de computador. Teremos a energia de volta num instante.

 

– As câmeras de segurança interna ainda estão funcionando? – perguntou Fonseca, sabendo que todas elas eram equipadas com visão noturna.

 

– Estão, sim.

 

Fonseca examinou a sala escura.

 

– Ambra Vidal acabou de entrar na antessala do lado de fora do teatro principal. Você consegue ver para onde ela foi?

 

– Um momento, por favor.

 

Fonseca esperou com o coração martelando de frustração. Tinha acabado de receber a notícia de que o Uber estava com dificuldade para rastrear o carro usado pelo assassino em fuga.

 

Será que mais alguma coisa pode dar errado esta noite?

 

Infelizmente, essa era a primeira vez que trabalhava na segurança de Ambra Vidal. Como oficial de alta patente, Fonseca só era designado para acompanhar o próprio príncipe Julián. No entanto, de manhã, seu chefe o havia chamado e dissera:

 

– Esta noite a Srta. Vidal vai ser anfitriã de um evento contra a vontade do príncipe Julián. Você vai acompanhá-la e garantir que esteja em segurança.

 

Fonseca jamais imaginaria que a apresentação acabaria sendo um ataque explícito contra a religião, culminando num assassinato público. Ainda tentava digerir a recusa raivosa de Ambra em atender ao telefonema preocupado do príncipe.

 

Tudo aquilo parecia inconcebível, no entanto, o comportamento bizarro dela só vinha aumentando. Ao que parecia, Ambra Vidal estava tentando despistar sua equipe de segurança para poder fugir com um professor americano.

 

Se o príncipe Julián ficar sabendo disso...

 

– Agente Fonseca? – A voz da mulher da segurança retornou. – Podemos ver que a Srta. Vidal e um acompanhante saíram da antessala. Seguiram pela passarela e acabaram de entrar na galeria onde está a exposição Celas, de Louise Bourgeois. Saia pela porta e vire à direita. É a segunda galeria à sua direita.

 

– Obrigado! Continue rastreando-os!

 

Fonseca e Díaz correram pela antessala e saíram na passarela. Lá embaixo podiam ver bandos de convidados andando rapidamente pelo saguão em direção às saídas.

 

À direita, exatamente como a segurança havia informado, Fonseca viu a abertura de uma grande galeria. A placa da exposição dizia: CELAS.

 

A galeria era ampla e abrigava um conjunto de estranhas áreas cercadas, parecidas com jaulas, cada uma contendo uma escultura branca e amorfa.

 

– Srta. Vidal! – gritou Fonseca. – Sr. Langdon!

 

Não recebendo resposta, os dois agentes começaram a procurar.

 

Várias salas atrás dos agentes da Guardia, do lado de fora do auditório em cúpula, Langdon e Ambra estavam passando por um labirinto de andaimes, indo em silêncio em direção a uma placa de saída, mal iluminada, a distância.

 

Suas ações nos últimos minutos tinham sido um borrão – com Langdon e Winston colaborando para enganar os agentes.

 

Seguindo a indicação de Langdon, Winston havia apagado as luzes e mergulhado a cúpula na escuridão. O professor tinha feito uma imagem mental da distância entre a posição em que se encontravam e o túnel de saída, com uma estimativa quase perfeita. Na boca do túnel, Ambra jogou seu telefone na passagem escura. Depois, em vez de entrar na passagem, eles deram meia-volta, permanecendo dentro da cúpula, e voltaram ao longo da parede interna, correndo as mãos pelo tecido até encontrarem o rasgo por onde o agente da Guardia havia saído em perseguição ao assassino de Edmond. Depois de passar pela abertura na parede de tecido, os dois foram até a parede externa da sala e seguiram na direção de uma placa iluminada que indicava uma escada de emergência.

 

Langdon se lembrou com espanto da rapidez com que Winston tinha tomado a decisão de ajudá-los.

 

– Se o anúncio de Edmond pode ser acessado com uma senha – dissera Winston –, devemos encontrá-la e usá-la imediatamente. Minha diretriz original era ajudar Edmond de todos os modos possíveis para tornar o anúncio desta noite um sucesso. Obviamente fracassei nisso e farei qualquer coisa para ajudar a reparar esse erro.

 

Langdon já ia agradecer, mas Winston continuou sem respirar. As palavras saíam dele num ritmo que não era humano, como uma gravação passando em velocidade acelerada.

 

– Se eu pudesse acessar a apresentação de Edmond – disse Winston –, faria isso imediatamente, mas, como o senhor ouviu, ela está armazenada num servidor seguro, fora daqui. Parece que tudo de que precisamos para divulgar a descoberta dele ao mundo é seu telefone especial e a senha. Já examinei todos os textos publicados em busca de um verso de 47 letras e, infelizmente, as possibilidades chegam às centenas de milhares ou mais, considerando o transbordamento de um verso no outro. Além disso, como geralmente as interfaces de Edmond bloqueiam os usuários depois de algumas tentativas fracassadas de digitar a senha, um ataque com força bruta será impossível. Com isso resta apenas uma opção: devemos descobrir a senha de outro modo. Concordo com a Srta. Vidal, vocês devem ir imediatamente à casa de Edmond em Barcelona. Parece lógico que, se ele tinha um verso predileto, deveria possuir um livro contendo o poema, e talvez até tenha marcado de algum modo seu verso preferido. Portanto calculo uma probabilidade muito alta de que Edmond gostaria que vocês fossem a Barcelona, encontrassem a senha e a usassem para divulgar o anúncio, como foi planejado. Além disso, agora constatei que o telefonema de último minuto requisitando a inclusão do almirante Ávila na lista de convidados se originou mesmo no Palácio Real de Madri, como declarou a Srta. Vidal. Por esse motivo, decidi que não podemos confiar nos agentes da Guardia Real e vou arranjar um modo de despistá-los e facilitar a fuga de vocês.

 

Incrivelmente, parecia que Winston tinha encontrado um modo de fazer isso.

 

Langdon e Ambra haviam chegado à saída de emergência, onde Langdon abriu a porta sem fazer barulho, fez com que ela passasse e a fechou de novo.

 

– Bom – disse a voz de Winston, materializando-se na cabeça de Langdon. – Vocês estão na escada.

 

– E os agentes da Guardia?

 

– Longe. No momento estou falando pelo telefone com eles, fingindo que sou uma agente de segurança do museu e mandando-os para uma galeria na outra ponta do prédio.

 

Incrível, pensou Langdon, balançando a cabeça positivamente para tranquilizar Ambra.

 

– Tudo bem.

 

– Desçam a escada até o térreo e saiam do museu – disse Winston. – Além disso, saibam que, assim que vocês deixarem o prédio, o fone não vai ter mais conexão comigo.

 

Maldição. Isso não havia ocorrido a Langdon.

 

– Winston – disse ele apressadamente –, você sabe que Edmond compartilhou a descoberta com alguns líderes religiosos na semana passada?

 

– Sei que isso parece improvável – respondeu Winston. – Mas, como a introdução desta noite certamente sugeriu, o trabalho de Edmond pode ter um impacto profundo sobre as religiões, de modo que talvez ele quisesse discutir essas descobertas com líderes desse campo.

 

– Pode ser. Um deles era o bispo Valdespino, de Madri.

 

– Interessante. Vejo numerosas referências na internet dizendo que ele é um conselheiro muito íntimo do rei da Espanha.

 

– É, e mais uma coisa. Você sabia que Edmond recebeu uma mensagem de voz ameaçadora vinda de Valdespino depois do encontro entre eles?

 

– Não. Deve ter sido feita por uma linha privada.

 

– Edmond me mostrou a gravação. Valdespino insistiu que ele cancelasse a apresentação e alertou que os clérigos consultados estavam avaliando uma medida preventiva para, de algum modo, minar a força de Edmond antes que ele fizesse o anúncio publicamente. – Langdon diminuiu o passo enquanto descia a escada, permitindo que Ambra fosse à frente. E baixou a voz. – Você encontrou alguma conexão entre Valdespino e o almirante Ávila?

 

Winston fez uma pausa de alguns segundos.

 

– Não encontrei nenhuma conexão direta, mas isso não significa que não exista. Só quer dizer que não é documentada.

 

Os dois se aproximavam do térreo.

 

– Professor, se me permite... – disse Winston. – Considerando os acontecimentos desta noite, a lógica sugere que forças poderosas estão decididas a enterrar a descoberta de Edmond. Tendo em mente que ele citou o senhor durante a apresentação como a pessoa cujas ideias ajudaram a inspirar sua descoberta, é possível que os inimigos de Edmond o considerem uma ponta solta perigosa.

 

Langdon jamais havia pensado nessa possibilidade e teve uma súbita sensação de perigo quando chegou ao térreo. Ambra já estava lá e tinha aberto a porta de metal.

 

– Quando saírem – disse Winston –, vocês vão estar num beco. Virem à esquerda rodeando o prédio e sigam até o rio. Dali vou facilitar seu transporte até o local do qual falamos.

 

BIO-EC346, pensou Langdon, tendo pedido que Winston os levasse até lá. O lugar onde Edmond e eu deveríamos nos encontrar depois do evento. Finalmente Langdon havia decifrado o código, percebendo que BIO-EC346 não era nenhum clube secreto de ciência. Era uma coisa muito mais corriqueira. Mesmo assim esperava que fosse a chave para sua saída de Bilbao.

 

Se conseguirmos chegar lá sem sermos detectados..., pensou, sabendo que logo haveria bloqueios de rua em toda parte. Precisamos nos mover rapidamente.

 

Quando Langdon e Ambra passaram pela porta e saíram no ar frio da noite, Langdon ficou intrigado ao ver o que pareciam contas de rosário espalhadas pelo chão. Nem teve tempo de se perguntar por quê. Winston ainda estava falando:

 

– Assim que chegarem ao rio, vão à passarela embaixo da Ponte La Salve e esperem até...

 

Subitamente o fone preso à cabeça de Langdon fez um ruído ensurdecedor de estática.

 

– Winston? – gritou Langdon. – Esperem até... o quê?

 

Mas Winston estava fora de contato, e a porta de metal tinha acabado de bater atrás deles.

 

 

Quilômetros ao sul, nos arredores de Bilbao, um sedã do Uber ia a toda a velocidade para o sul pela Autoestrada AP-68 em direção a Madri. No banco de trás, o almirante Ávila havia tirado o paletó branco e o quepe da Marinha, desfrutando de um sentimento de liberdade enquanto se recostava e refletia sobre a simplicidade da fuga.

 

Como o Regente prometeu.

 

Quase imediatamente depois de entrar no carro, Ávila havia sacado a pistola e a pressionado contra a cabeça do motorista trêmulo. Seguindo sua ordem, o homem jogou o smartphone pela janela, cortando a única conexão do veículo com a sede do Uber.

 

Então Ávila examinou a carteira do chofer, memorizando seu endereço e o nome da mulher e dos dois filhos dele. “Faça o que eu mandar”, disse Ávila, “ou sua família vai morrer”. Os nós dos dedos do homem ficaram brancos no volante e Ávila soube que tinha um motorista solícito por toda a noite.

 

Agora estou invisível, pensou enquanto carros da polícia corriam na direção oposta com as sirenes uivando.

 

Enquanto o veículo seguia rapidamente para o sul, Ávila se acomodou para a longa viagem, saboreando os resquícios da excitação causada pela adrenalina. Servi bem à causa, pensou. Olhou a tatuagem na palma da mão, percebendo que havia sido uma precaução desnecessária. Pelo menos por enquanto.

 

Confiando que o aterrorizado motorista do Uber obedeceria às ordens, Ávila baixou a pistola. Enquanto o carro partia para Madri, olhou de novo os dois adesivos no para-brisa.

 

Quais são as chances disso?, pensou.

 

O primeiro adesivo era de esperar: o logotipo do Uber. Mas o segundo só podia ter sido um sinal vindo do alto.

 

A cruz papal. Hoje em dia esse símbolo estava em toda parte: católicos ao redor da Europa mostravam solidariedade ao novo papa, elogiando a liberalização e a modernização da Igreja.

 

Ironicamente, a descoberta de Ávila de que o motorista era devoto do papa liberal tinha transformado a experiência de apontar uma arma para o sujeito em algo quase prazeroso. O almirante estava pasmo ao ver como as massas preguiçosas adoravam esse novo pontífice que permitia que os seguidores de Cristo escolhessem num bufê de leis de Deus quais regras eram palatáveis e quais não eram. Quase da noite para o dia, dentro do Vaticano, questões como controle de natalidade, casamento gay, ordenação de mulheres e outras causas liberais tinham ido parar na mesa para ser discutidas. Dois mil anos de tradição pareciam evaporar num piscar de olhos.

 

Felizmente ainda existem aqueles que lutam pelos costumes antigos.

 

Ávila escutou trechos do hino de Oriamendi tocando na sua cabeça.

 

E eu me sinto honrado em servi-los.

 

 

A força de segurança mais antiga e mais elitizada da Espanha, a Guardia Real, tem uma tradição feroz que data dos tempos medievais. Os agentes da Guardia consideram seu dever diante de Deus garantir a segurança da família real, proteger as propriedades reais e defender a honra real.

 

O comandante Diego Garza – supervisor dos quase dois mil membros da Guardia – era um homem de 60 anos, pequeno e magro, de pele morena, olhos minúsculos e cabelo preto e ralo penteado para trás sobre um crânio pintalgado. Suas feições de roedor e a estatura diminuta tornavam Garza quase invisível numa multidão, o que ajudava a camuflar sua enorme influência dentro dos muros do palácio.

 

Muito tempo antes Garza havia aprendido que o verdadeiro poder não derivava da força física, e sim da influência política. O comando das tropas da Guardia Real certamente lhe garantia influência, mas era sua presciente sabedoria política que o estabelecera como encarregado do palácio numa enorme variedade de questões, tanto pessoais quanto profissionais.

 

Fiel guardador de segredos, Garza jamais havia traído a confiança de ninguém. Sua reputação de firme discrição, junto com a capacidade espantosa de resolver problemas delicados, o tornara indispensável para o rei. Mas agora Garza e outros no palácio encaravam um futuro incerto enquanto o idoso soberano vivia seus últimos dias no Palacio de la Zarzuela.

 

Durante mais de quatro décadas, o rei tinha governado um país turbulento enquanto estabelecia uma monarquia parlamentar depois de 36 anos da ditadura sangrenta do ultraconservador general Francisco Franco. Desde a morte de Franco, em 1975, o rei tinha tentado trabalhar de mãos dadas com o governo para cimentar o processo democrático da Espanha, levando o país lentamente de volta para a esquerda.

 

Para os jovens as mudanças eram lentas demais.

 

Para os tradicionalistas idosos as mudanças eram blasfemas.

 

Muitos membros da elite da Espanha ainda defendiam ferozmente a doutrina conservadora de Franco, especialmente sua visão do catolicismo como uma “religião de Estado” e sustentação moral da nação. Porém, um número cada vez maior de jovens espanhóis se opunha com firmeza a esse ponto de vista: condenando audaciosamente a hipocrisia da religião organizada e fazendo campanha por uma separação maior entre Igreja e Estado.

 

Agora, com um príncipe de meia-idade a ponto de ascender ao trono, ninguém tinha certeza da direção para onde o novo rei tenderia. Durante décadas, o príncipe Julián tinha feito um serviço admirável realizando seus insossos deveres cerimoniais, deixando por conta do pai as questões políticas e jamais evidenciando suas crenças pessoais. Ainda que a maioria dos comentaristas suspeitasse de que ele era muito mais liberal do que o pai, realmente era impossível ter certeza.

 

Mas esta noite o véu seria retirado.

 

À luz dos acontecimentos chocantes em Bilbao e da impossibilidade de o rei falar publicamente devido aos problemas de saúde, o príncipe não teria escolha a não ser abordar os perturbadores acontecimentos da noite.

 

Várias altas autoridades do governo, inclusive o primeiro-ministro, já haviam condenado o assassinato, evitando com astúcia fazer mais comentários até que o Palácio Real se pronunciasse – com isso depositando toda a confusão no colo do príncipe Julián.

 

Garza não ficou surpreso; o envolvimento da futura rainha, Ambra Vidal, transformava a situação em uma granada política na qual ninguém sentia vontade de pôr a mão.

 

O príncipe Julián será testado esta noite, pensou, subindo rapidamente a grande escadaria em direção aos aposentos reais do palácio. Ele vai precisar de orientação. E, com o pai incapacitado, essa orientação terá de ser dada por mim.

 

O comandante caminhou por toda a extensão do corredor da residencia e finalmente chegou à porta do príncipe. Respirou fundo e bateu.

 

Estranho, pensou ao não obter resposta. Sei que ele está aqui. Segundo o agente Fonseca, em Bilbao, o príncipe Julián tinha acabado de telefonar do apartamento e estava tentando falar com Ambra Vidal para garantir que ela estava em segurança. E, graças aos céus, ela estava.

 

Garza bateu de novo, sentindo uma preocupação crescente ao não obter resposta.

 

Rapidamente destrancou a porta.

 

– Don Julián? – gritou entrando.

 

O apartamento estava escuro, a não ser pela luz tremeluzente da televisão na sala.

 

– Olá?

 

Garza entrou e encontrou o príncipe de pé, sozinho no escuro, uma silhueta imóvel virada para a janela. Ainda estava impecavelmente vestido, com o terno bem cortado que usara nas reuniões daquela tarde.

 

Olhando em silêncio, Garza ficou inquieto diante do aparente estado de transe de seu príncipe. Parece que esta crise o deixou atônito.

 

O comandante pigarreou, revelando sua presença.

 

Quando o príncipe finalmente falou, fez isso sem virar as costas para a janela.

 

– Quando liguei para Ambra – disse ele –, ela se recusou a falar comigo.

 

A voz de Julián parecia mais perplexa do que magoada.

 

Garza não sabia direito como responder. Dados os acontecimentos da noite, parecia incompreensível que Julián estivesse pensando em seu relacionamento com Ambra – um noivado que vinha se mostrando tenso desde o início mal concebido.

 

– Imagino que a Srta. Vidal ainda esteja em choque – sugeriu Garza, baixinho. – O agente Fonseca vai entregá-la ao senhor mais tarde, ainda esta noite. Então os dois poderão conversar. E deixe-me acrescentar como me sinto aliviado ao saber que ela está em segurança.

 

O príncipe Julián balançou a cabeça, distraído.

 

– O atirador está sendo rastreado – disse Garza, tentando mudar de assunto. – Fonseca me garantiu que logo estarão com o terrorista sob custódia. – Ele usou a palavra “terrorista” intencionalmente, com esperança de tirar o príncipe do atordoamento.

 

Mas ele só assentiu inexpressivo outra vez.

 

– O primeiro-ministro condenou o assassinato – continuou Garza –, mas o governo espera que o senhor faça algum pronunciamento... considerando o envolvimento de Ambra. – Ele fez uma pausa. – Sei que a situação é incômoda, dado o seu noivado, mas eu sugeriria que o senhor simplesmente dissesse que uma das coisas que mais admira em sua noiva é a independência. E que, mesmo sabendo que ela não compartilha das ideias políticas de Edmond Kirsch, aplaude o fato de ela cumprir com seus compromissos como diretora do museu. Eu posso escrever alguma coisa, se o senhor quiser. Deveríamos fazer uma declaração a tempo de ser transmitida nos noticiários da manhã.

 

O olhar de Julián não se afastou da janela.

 

– Eu gostaria de ouvir a opinião do bispo Valdespino sobre qualquer declaração que fizermos.

 

Garza trincou o maxilar e engoliu a desaprovação. A Espanha pós-Franco era um Estado aconfesional, ou seja, não tinha mais uma religião de Estado, e a Igreja não deveria se envolver em questões políticas. Mas a amizade íntima de Valdespino com o rei sempre havia garantido ao bispo uma influência incomum nas questões cotidianas do palácio. Infelizmente a política linha dura e o fanatismo religioso de Valdespino deixavam pouco espaço para a diplomacia e o tato exigidos para abordar a crise daquela noite.

 

Precisamos de nuance e sutileza – não de dogma e fogos de artifício.

 

Garza havia descoberto muito tempo atrás que a aparência devota de Valdespino escondia uma verdade muito simples: o bispo sempre servia aos próprios interesses antes dos interesses de Deus. Até recentemente isso era algo que Garza podia ignorar, mas, agora, com o equilíbrio do poder se alterando, a visão do bispo se juntando a Julián era motivo para uma preocupação significativa.

 

Valdespino já é próximo demais do príncipe.

 

Garza sabia que Julián sempre havia considerado o bispo alguém da “família” – mais como um tio com quem podia contar do que uma autoridade religiosa. Como confidente mais íntimo do rei, Valdespino recebera a tarefa de supervisionar o desenvolvimento moral do jovem Julián e tinha feito isso com dedicação e fervor: selecionando todos os tutores do príncipe, apresentando-o às doutrinas da fé e até aconselhando-o em questões do coração. Agora, anos mais tarde, mesmo quando Julián e Valdespino não concordavam em tudo, o elo entre os dois continuava profundo.

 

– Don Julián – disse Garza em tom calmo –, estou convencido de que a situação desta noite é algo que o senhor e eu deveríamos abordar sozinhos.

 

– É mesmo? – questionou a voz de um homem na escuridão atrás dele.

 

Garza virou, pasmo ao ver um fantasma de batina sentado nas sombras.

 

Valdespino.

 

– Devo dizer, comandante – sibilou Valdespino –, que achei que o senhor, mais do que qualquer pessoa, perceberia quanto vocês precisam de mim esta noite.

 

– Esta é uma situação política – declarou Garza com firmeza –, e não religiosa.

 

Valdespino zombou.

 

– O fato de o senhor ser capaz de fazer uma declaração dessas me diz que superestimei grosseiramente sua perspicácia política. Se quer minha opinião, só existe uma reação adequada para esta crise. Devemos garantir à nação que o futuro rei da Espanha, o príncipe Julián, é um homem muito religioso, católico devoto.

 

– Concordo... e incluiremos uma menção à fé de Don Julián em qualquer declaração que ele fizer.

 

– E quando o príncipe Julián aparecer diante da imprensa, precisará de mim ao lado, com a mão em seu ombro, um símbolo poderoso da força de sua ligação com a Igreja. Essa imagem fará mais para tranquilizar a nação do que qualquer palavra que o senhor puder escrever.

 

Garza se eriçou.

 

– O mundo acaba de testemunhar um assassinato brutal em solo espanhol – declarou Valdespino. – Em tempos de violência, nada consola mais do que a mão de Deus.

 

 

A Ponte Széchenyi – uma das oito de Budapeste – se estende por mais de 300 metros através do Danúbio. Emblema da ligação entre Oriente e Ocidente, é considerada uma das mais belas do mundo.

 

O que estou fazendo?, perguntou-se o rabino Köves, olhando por cima do parapeito para as águas em redemoinho lá embaixo. O bispo me aconselhou a ficar em casa.

 

Köves sabia que não deveria ter saído. No entanto, sempre que se sentia inquieto, algo na ponte o atraía. Durante anos tinha caminhado ali à noite para refletir admirando a paisagem atemporal. A leste, em Peste, a fachada iluminada do Palácio Gresham elevava-se orgulhosa contra as torres de sinos da Szent István Bazilika. A oeste, em Buda, em cima da Colina do Castelo, erguiam-se os muros fortificados do Castelo de Buda. E para o norte, às margens do Danúbio, destacavam-se os elegantes pináculos do edifício do Parlamento, o maior da Hungria.

 

Mas Köves suspeitava que não era a paisagem que o levava continuamente à ponte pênsil. Era uma coisa muito diversa.

 

Os cadeados.

 

Por toda a extensão do parapeito da ponte e dos cabos de sustentação, pendiam centenas de cadeados – cada um com um par de iniciais diferentes, cada um preso à ponte por toda a eternidade.

 

A tradição era que dois amantes iam juntos até ali, escreviam as iniciais no cadeado, prendiam-no à ponte e jogavam a chave na água profunda, onde estaria perdida para sempre – símbolo da ligação eterna entre eles.

 

A promessa mais simples de todas, pensou Köves, tocando um dos cadeados. Minha alma está presa à sua para sempre.

 

Toda vez que Köves precisava ser lembrado de que o amor sem limites existia no mundo, ia ver esses cadeados. Esta noite parecia uma dessas ocasiões. Olhando os redemoinhos na água, sentiu que o mundo estava subitamente se movendo depressa demais. Talvez eu não pertença mais a este lugar.

 

O que antes eram momentos calmos de reflexão solitária – alguns minutos sozinho num ônibus, caminhando para o trabalho ou esperando a hora de um compromisso – agora pareciam insuportáveis, e as pessoas impulsivamente pegavam os telefones, os fones de ouvido e os jogos, incapazes de lutar contra a atração viciante da tecnologia. Os milagres do passado estavam se esvaindo, substituídos por uma fome incessante de tudo que fosse novo.

 

Agora, enquanto olhava o Danúbio, Yehuda Köves sentia-se cada vez mais cansado. Sua visão pareceu ficar turva e ele começou a ver formas fantasmagóricas, amorfas, movendo-se sob a superfície da água. De repente, o rio parecia um caldo borbulhante de criaturas brotando nas profundezas.

 

– A víz él – disse uma voz atrás dele. – A água está viva.

 

O rabino se virou e viu um garoto de cabelos encaracolados e olhos esperançosos. Ele fez com que Yehuda se lembrasse de si mesmo quando era mais novo.

 

– O quê? – perguntou o rabino.

 

O garoto abriu a boca para falar. Mas, em vez de linguagem, um zumbido eletrônico brotou de sua garganta e uma luz branca e ofuscante relampejou em seus olhos.

 

O rabino Köves acordou ofegante, sentando-se empertigado na cadeira.

 

– Oy gevalt! – Meu Deus!

 

O telefone em sua mesa estava tocando com estardalhaço e o velho rabino examinou em pânico o escritório de seu házikó. Por sorte estava totalmente sozinho. Podia sentir o coração martelando.

 

Que sonho estranho!, pensou, tentando recuperar o fôlego.

 

O telefone insistia, e Köves sabia que àquela hora só podia ser o bispo Valdespino, ligando para deixá-lo a par do transporte para Madri.

 

– Bispo Valdespino – disse o Rabino, ainda desorientado. – O que há de novo?

 

– Rabino Yehuda Köves? – perguntou uma voz desconhecida. – O senhor não me conhece e não quero assustá-lo, mas preciso que o senhor escute com atenção.

 

De repente Köves estava totalmente desperto.

 

A voz era feminina, mas estava alterada de algum modo, parecendo distorcida. A pessoa falava num inglês apressado, com leve sotaque espanhol.

 

– Estou alterando minha voz por privacidade. Peço desculpas por isso, mas num instante o senhor vai entender o motivo.

 

– Quem é? – perguntou Köves.

 

– Sou um informante, alguém que não aprecia quem tenta esconder a verdade do público.

 

– Eu... não entendo.

 

– Rabino Köves, sei que o senhor participou de uma reunião particular com Edmond Kirsch, o bispo Valdespino e o allamah Syed al-Fadl há alguns dias na Abadia de Montserrat.

 

Como ela sabe disso?

 

– Além do mais, sei que Edmond Kirsch forneceu aos três informações amplas sobre sua recente descoberta científica... e que agora o senhor está envolvido numa conspiração para escondê-la.

 

– O quê?!

 

– Se não me ouvir com atenção, prevejo que o senhor estará morto de manhã, eliminado pelo braço longo do bispo Valdespino. – A mulher fez uma pausa. – Assim como Edmond Kirsch e seu amigo Syed al-Fadl.

 

 

A Ponte La Salve, em Bilbao, atravessa o Rio Nervión tão próximo do Museu Guggenheim que as duas estruturas costumam parecer fundidas. Reconhecível imediatamente por seu suporte central único – uma altíssima estrutura de um vermelho vivo na forma de uma gigantesca letra H –, a ponte foi batizada de “La Salve” por conta de histórias folclóricas de marinheiros que, ao voltarem do mar, por esse rio, faziam orações de agradecimento pela chegada ao lar em segurança.

 

Depois de sair pelos fundos do prédio, Langdon e Ambra tinham atravessado a distância curta entre o museu e a margem do rio e agora esperavam, como Winston havia pedido, num caminho nas sombras, diretamente abaixo da ponte.

 

Estamos esperando o quê?, pensou Langdon, em dúvida.

 

Enquanto ficavam ali, no escuro, ele pôde ver a forma esguia de Ambra tremendo de frio sob o fino vestido de noite. Tirou a casaca e colocou nos ombros dela, alisando o tecido sobre os braços.

 

Sem aviso, ela se virou subitamente e o encarou.

 

Por um instante Langdon temeu que tivesse ultrapassado uma fronteira, mas a expressão de Ambra não era de desprazer, e sim de gratidão.

 

– Obrigada – sussurrou ela, olhando-o. – Obrigada por me ajudar.

 

Com os olhos fixos nos de Langdon, Ambra Vidal pegou as mãos dele e as apertou, como se tentasse absorver qualquer calor ou conforto que ele pudesse oferecer.

 

Então, com a mesma rapidez, soltou-as.

 

– Desculpe – sussurrou –, conducta impropia, como diria minha mãe.

 

Langdon sorriu para tranquilizá-la.

 

– Circunstâncias atenuantes, como diria minha mãe.

 

Ela conseguiu dar um sorriso, que teve vida curta.

 

– Estou me sentindo péssima – disse, desviando o olhar. – O que aconteceu esta noite com Edmond...

 

– É espantoso... pavoroso – completou Langdon, sabendo que continuava num choque muito grande para expressar totalmente as emoções.

 

Ambra estava olhando para a água.

 

– E pensar que meu noivo, Don Julián, está envolvido...

 

Langdon pôde perceber o sentimento de traição na voz dela e não soube direito como responder.

 

– Sei o que isso parece – disse, pisando leve nesse terreno delicado –, mas realmente não temos certeza. É possível que o príncipe Julián não soubesse dos planos de assassinato desta noite. O assassino podia estar agindo sozinho ou trabalhando para outra pessoa que não ele. Faz pouco sentido que o futuro rei da Espanha orquestrasse o assassinato público de um civil, ainda mais se esse crime pudesse ser rastreado diretamente até ele.

 

– Só é rastreável porque Winston descobriu que Ávila foi um acréscimo de última hora na lista de convidados. Talvez Julián achasse que ninguém descobriria quem puxou o gatilho.

 

Langdon precisou admitir que o argumento era válido.

 

– Eu jamais deveria ter falado com Julián sobre a apresentação de Edmond – disse Ambra, virando-se de novo para ele. – Ele estava insistindo para que eu não participasse, por isso tentei tranquilizá-lo dizendo que meu envolvimento seria mínimo, que tudo não passava de uma projeção de vídeo. Acho que até falei a Julián que Edmond ia lançar sua descoberta a partir de um smartphone. – Ela fez uma pausa. – O que quer dizer que, se perceberem que pegamos o telefone de Edmond, vão se dar conta de que a descoberta ainda pode ser transmitida. E realmente não sei até que ponto Julián iria para interferir.

 

Langdon observou aquela mulher linda por um longo momento.

 

– Você não confia mesmo no seu noivo, não é?

 

Ambra respirou fundo.

 

– A verdade é que não o conheço tão bem quanto você poderia presumir.

 

– Então por que aceitou se casar com ele?

 

– Julián me colocou numa situação em que não tive escolha.

 

Antes que Langdon pudesse responder, um ribombar grave começou a sacudir o cimento embaixo dos pés deles, reverberando pelo espaço parecido com uma gruta embaixo da ponte. O som ficou cada vez mais alto. Parecia vir do rio, à direita deles.

 

Langdon se virou e viu uma forma escura vindo na direção dos dois – uma lancha se aproximando com as luzes apagadas. À medida que se aproximava da alta margem de cimento, ela diminuiu a velocidade e começou a deslizar, chegando perfeitamente ao lado deles.

 

Langdon olhou a embarcação e balançou a cabeça. Até aquele momento não sabia direito quanta fé poderia colocar no guia computadorizado de Edmond, mas, agora, vendo um táxi aquático amarelo se aproximar da margem, percebeu que Winston era o melhor aliado que poderiam ter.

 

O piloto desgrenhado acenou para eles embarcarem.

 

– O seu amigo inglês... ele ligou para mim – disse o homem. – Disse: cliente VIP paga triplo por... como se diz... ¿velocidad y discreción? Eu fiz isso... viu? Sem luzes!

 

– Sim, obrigado – respondeu Langdon.

 

Muito bem, Winston. Velocidade e discrição.

 

O piloto estendeu a mão para ajudar Ambra a embarcar e, quando ela desapareceu na pequena cabine coberta para se aquecer, ele deu um sorriso de olhos arregalados para Langdon.

 

– Esta é minha VIP? A Señorita Ambra Vidal?

 

– ¿Velocidad e discreción? – lembrou Langdon.

 

– ¡Sí, sí! Ok!

 

O homem foi rapidamente para o leme e acelerou o motor. Instantes depois a lancha ia para o oeste em meio à escuridão do Rio Nervión.

 

À esquerda do barco, Langdon podia ver a gigantesca viúva-negra do Guggenheim, iluminada de modo fantasmagórico pelas luzes giratórias dos carros da polícia. Acima, um helicóptero da imprensa atravessava o céu em direção ao museu.

 

O primeiro de muitos, suspeitou Langdon.

 

Em seguida pegou no bolso o cartão com a anotação cifrada de Edmond. BIO-EC346. Edmond tinha dito para entregá-lo a um motorista de táxi, mas ele provavelmente jamais imaginaria que o veículo seria um táxi aquático.

 

– Nosso amigo inglês... – gritou Langdon para o piloto acima do som dos motores. – Presumo que ele tenha dito aonde vamos, não é?

 

– Sim, sim! Eu avisei ele meu barco leva vocês só quase até lá, mas ele disse sem problema, vocês anda 300 metros, não? – respondeu o homem, tentando falar com Langdon em inglês.

 

– Tudo bem. E é muito longe daqui?

 

O homem apontou para uma estrada que corria ao longo do rio à direita.

 

– Placa estrada diz sete quilômetros, mas barco, um pouco mais.

 

Langdon olhou a placa iluminada.

 

AEROPUERTO BILBAO (BIO) 7 KM

 

Deu um sorriso pesaroso, lembrando-se da voz de Edmond. É um código dolorosamente simples, Robert. Edmond estava certo e, quando Langdon finalmente o deduzira, mais cedo, tinha ficado sem graça por demorar tanto.

 

BIO era mesmo um código – tão fácil de decifrar quanto códigos semelhantes ao redor do mundo: BOS, LAX, JFK.

 

BIO é o código do aeroporto local.

 

O resto do código de Edmond havia se encaixado instantaneamente.

 

EC346.

 

Langdon nunca tinha visto o jato particular de Edmond, mas sabia de sua existência e estava quase certo de que o código na cauda de um avião na Espanha começaria com a letra E.

 

Com certeza, se um motorista de táxi o tivesse levado ao Aeroporto de Bilbao, Langdon poderia ter apresentado o cartão de Edmond à segurança e ser acompanhado até seu jato particular.

 

Espero que Winston tenha conseguido falar com os pilotos, avisando que estamos indo, pensou, olhando de volta na direção do museu que estava ficando cada vez menor, lá atrás.

 

Pensou em ir para a cabine juntar-se a Ambra, mas a sensação do ar puro era boa e ele decidiu dar alguns minutos para ela ficar a sós e se recuperar.

 

Eu também gostaria de ter um momento a sós, pensou, indo para a proa.

 

Na frente do barco, com o vento açoitando o cabelo, Langdon desamarrou a gravata-borboleta e a colocou no bolso. Depois abriu o botão de cima do colarinho formal e respirou o mais fundo que pôde, deixando o ar noturno encher os pulmões.

 

Edmond, pensou. O que você fez?

 

 

O comandante Diego Garza estava fumegando enquanto andava de um lado para outro na penumbra do apartamento do príncipe Julián ouvindo o sermão fanático do bispo.

 

O senhor está ultrapassando os limites, Garza queria gritar para Valdespino. Esta não é a sua área.

 

De novo o bispo Valdespino tinha se metido na política do palácio. Tendo se materializado como um espectro na escuridão do apartamento de Julián, Valdespino estava adornado com as vestimentas eclesiásticas completas e agora fazia um sermão passional para Julián, falando da importância das tradições espanholas, da religiosidade devota dos reis e rainhas do passado e da influência reconfortante da Igreja em tempos de crise.

 

Este não é o momento. Garza fervia por dentro.

 

Esta noite o príncipe Julián precisaria desempenhar um papel delicado de relações públicas, e a última coisa de que Garza necessitava era que ele fosse distraído pelas tentativas do bispo de impor uma agenda religiosa.

 

O toque do seu telefone interrompeu convenientemente o monólogo de Valdespino.

 

– Sí, dime – disse Garza em voz alta, posicionando-se entre o príncipe e o bispo. – ¿Qué tal va?

 

– Senhor, é o agente Fonseca, em Bilbao – respondeu a pessoa do outro lado da linha, num espanhol rapidíssimo. – Infelizmente não conseguimos capturar o atirador. A empresa prestadora de serviços, que achamos que poderia rastreá-lo, perdeu o contato. Parece que o atirador previu nossas ações.

 

Garza engoliu a raiva e exalou o ar com calma, tentando garantir que sua voz não revelasse nada sobre seu estado de ânimo.

 

– Sei – respondeu em tom tranquilo. – No momento sua única preocupação deve ser a Srta. Vidal. O príncipe está esperando para vê-la e nós garantimos a ele que você irá trazê-la para cá em breve.

 

Houve um longo silêncio na linha. Longo demais.

 

– Comandante? – perguntou Fonseca, hesitando. – Sinto muito, senhor, mas tenho más notícias. Parece que a Srta. Vidal e o professor americano saíram do prédio. – Ele fez uma pausa. – Sem nós.

 

Garza quase largou o telefone.

 

– Desculpe, você pode... repetir isso?

 

– Sim, senhor. A Srta. Vidal e Robert Langdon fugiram do museu. A Srta. Vidal se desfez intencionalmente do telefone dela, de modo que não pudéssemos rastreá-la. Não temos ideia de para onde eles foram.

 

Garza percebeu que tinha ficado boquiaberto, e agora o príncipe estava encarando-o com preocupação aparente. Valdespino também se inclinava para escutar, as sobrancelhas arqueadas com interesse inconfundível.

 

– Ah, notícia excelente! – disse Garza de súbito, assentindo com convicção. – Bom trabalho. Veremos todos vocês aqui mais tarde. Só vamos confirmar os protocolos de transporte e segurança. Um momento, por favor.

 

Garza cobriu o telefone e sorriu para o príncipe.

 

– Está tudo bem. Só vou dar um pulinho em outro cômodo para cuidar dos detalhes, de modo que os senhores possam ter privacidade.

 

Garza estava relutante em deixar o príncipe sozinho com Valdespino, mas aquele não era um telefonema que ele poderia continuar na frente dos dois, por isso foi até um dos quartos de hóspedes, entrou e fechou a porta.

 

– ¿Qué diablos ha pasado? – perguntou. Que diabo aconteceu?

 

Fonseca contou uma história que parecia uma fantasia completa.

 

– As luzes se apagaram? – irritou-se Garza. – Um computador fingiu ser uma agente de segurança e lhe deu informações erradas? Como eu deveria reagir a isso?

 

– Sei que é difícil imaginar, senhor, mas chegamos à conclusão de que foi exatamente o que aconteceu. O que estamos lutando para entender é por que o computador teve uma mudança de postura tão súbita.

 

– Mudança de postura?! É uma porcaria de um computador!

 

– Quero dizer que antes o computador estava ajudando, identificando o nome do atirador, tentando impedir o assassinato e também descobrindo que o veículo usado para a fuga era um Uber. Então, do nada, ele parecia estar trabalhando contra nós. Só podemos deduzir que Robert Langdon deve ter dito alguma coisa, porque, depois de uma conversa que ele teve com o computador, tudo mudou.

 

Agora estou lutando contra um computador? Garza decidiu que estava ficando velho demais para esse mundo moderno.

 

– Tenho certeza, agente Fonseca, de que não preciso dizer como seria embaraçoso para o príncipe, tanto pessoal quanto politicamente, se fosse revelado que sua noiva fugiu com o americano e que a Guardia Real foi enganada por um computador.

 

– Temos plena consciência disso.

 

– Você tem alguma ideia do que levaria os dois a fugir? Parece uma coisa totalmente imprevista e imprudente.

 

– O professor Langdon resistiu um bocado quando falei que ele iria conosco para Madri esta noite. Deixou claro que não desejava ir.

 

E por isso fugiu de um local de assassinato? Garza sentiu que havia alguma coisa por trás disso, mas não conseguia imaginar o que fosse.

 

– Ouça com atenção. É absolutamente fundamental que você localize Ambra Vidal e a traga para o palácio antes que qualquer dessas informações vaze.

 

– Entendo, senhor, mas Díaz e eu somos os únicos agentes aqui. Não podemos revirar toda Bilbao sozinhos. Precisaremos alertar as autoridades locais, obter acesso às câmeras de trânsito, apoio aéreo, todas...

 

– De jeito nenhum! – reagiu Garza. – Não podemos nos dar ao luxo desse embaraço. Façam o seu serviço. Encontrem-nos sozinhos e devolvam a Srta. Vidal à nossa custódia o mais rápido possível.

 

– Sim, senhor.

 

Garza desligou, incrédulo.

 

Enquanto saía do quarto, uma jovem pálida se aproximou dele rapidamente pelo corredor. Estava usando os óculos de fundo de garrafa e o terninho bege de sempre e segurava ansiosamente um tablet.

 

Deus me ajude, pensou Garza. Agora, não.

 

Mónica Martín era a mais recente e mais jovem “coordenadora de relações públicas” de todos os tempos no palácio: um posto que incluía os serviços de contato com a mídia, estrategista de relações públicas e diretora de comunicações – e que Mónica parecia realizar em permanente estado de alerta.

 

Aos 26 anos, Mónica possuía diploma de Comunicação da Universidade Complutense de Madri, tinha feito dois anos de pós-graduação numa das principais escolas de informática do mundo – a Universidade de Tsinghua, em Pequim – e depois tivera um cargo importante de relações públicas no Grupo Planeta, seguido por um alto posto de “comunicações” na rede de televisão espanhola Antena 3.

 

No ano anterior, numa tentativa desesperada de se conectar com os jovens da Espanha por meio da mídia digital e para acompanhar a influência cada vez maior do Twitter, do Facebook, dos blogs e dos jornais e revistas on-line, o palácio havia demitido um antigo profissional de RP, com décadas de experiência na mídia impressa, e o substituíra por essa jovem cheia de conhecimento tecnológico.

 

Mónica deve tudo ao príncipe Julián, Garza sabia.

 

A nomeação da jovem tinha sido uma das poucas contribuições do príncipe Julián às operações do palácio – uma situação rara em que ele teve uma queda de braço com o pai. Mónica Martín era considerada uma das melhores do ramo, mas Garza achava sua paranoia e sua energia nervosa absolutamente exaustivas.

 

– Teorias da conspiração – anunciou ela, balançando o tablet enquanto chegava. – Estão explodindo em toda parte.

 

Garza olhou incrédulo para sua coordenadora de relações públicas. Está parecendo que eu me importo? Ele tinha coisas mais importantes com que se preocupar esta noite do que com a fábrica de boatos conspiratórios.

 

– Poderia me dizer o que está fazendo, andando pela residência real?

 

– A sala de controle acabou de localizar o seu GPS. – Ela apontou para o telefone no cinto de Garza.

 

Ele fechou os olhos e soltou o ar, engolindo a irritação. Além de uma nova coordenadora de RP, o palácio havia implementado recentemente uma nova “divisão de segurança eletrônica”, que apoiava sua equipe com serviços de GPS, vigilância digital, criação de perfis e coleta preventiva de dados. A cada dia o grupo de funcionários de Garza ficava mais diversificado e jovem.

 

Nossa sala de controle parece o centro de informática de uma universidade.

 

Aparentemente a tecnologia recém-implementada para localizar os agentes da Guardia também estava rastreando o próprio Garza. Era irritante pensar que um punhado de garotos no porão sabia seu paradeiro a todo instante.

 

– Vim falar com o senhor pessoalmente – disse Mónica, estendendo o tablet – porque tinha certeza de que gostaria de ver isso.

 

Garza arrancou o aparelho das mãos dela e olhou para a tela, vendo uma foto e uma biografia do espanhol de barba grisalha que tinha sido identificado como o atirador de Bilbao: o almirante Luis Ávila, da Marinha real.

 

– Há muitos comentários negativos – continuou Mónica –, e estão falando que Ávila foi empregado da família real.

 

– Ávila trabalhava para a Marinha! – reagiu Garza com rispidez.

 

– É, mas tecnicamente o rei é o comandante das Forças Armadas...

 

– Pode parar – ordenou Garza, empurrando o tablet de volta para ela. – Sugerir que, de algum modo, o rei é cúmplice de um ato terrorista é um absurdo inventado por malucos obcecados por conspirações, e isso é totalmente irrelevante para nossa situação esta noite. Vamos pensar no lado positivo e voltar ao trabalho. Afinal de contas, esse lunático poderia ter matado a futura rainha consorte, mas em vez disso optou por assassinar um ateu americano. No todo, não é um resultado ruim!

 

A jovem não se abalou.

 

– Há outra coisa, senhor, que tem a ver com a família real. Eu não queria que o senhor fosse apanhado desprevenido.

 

Enquanto Mónica falava, seus dedos voaram sobre o tablet, navegando para outro site.

 

– Esta é uma foto que está na rede há alguns dias, mas ninguém havia notado. Agora, com tudo sobre Edmond Kirsch viralizando, a foto começou a aparecer nos noticiários.

 

Ela entregou o tablet a Garza.

 

Garza viu a chamada: “Esta é a última foto tirada do futurólogo Edmond Kirsch?”

 

Uma foto borrada mostrava Kirsch vestindo terno escuro, parado numa pedra ao lado de um penhasco perigoso.

 

– A foto foi tirada há três dias – disse Mónica –, enquanto Kirsch visitava a Abadia de Montserrat. Um homem que estava trabalhando lá o reconheceu e tirou uma foto. Depois do assassinato, postou a foto como sendo a última que fora tirada dele.

 

– E o que isso tem a ver conosco? – ponderou Garza.

 

– Veja a foto seguinte.

 

Garza rolou a tela do tablet. Ao ver a segunda imagem, precisou estender a mão e se apoiar na parede.

 

– Isso... isso não pode ser verdade.

 

Nessa versão mais larga da mesma foto, Edmond Kirsch podia ser visto ao lado de um homem alto que usava uma tradicional batina roxa da Igreja Católica. Era o bispo Valdespino.

 

– É verdade, senhor – disse Mónica. – Valdespino se encontrou com Kirsch há alguns dias.

 

– Mas... – Garza hesitou, momentaneamente sem fala. – Mas por que o bispo não mencionaria isso? Ainda mais considerando tudo o que aconteceu esta noite!

 

Mónica balançou a cabeça, uma expressão desconfiada no rosto.

 

– Foi por isso que optei por falar primeiro com o senhor.

 

Valdespino se encontrou com Kirsch! Garza não conseguia entender. E o bispo não quis falar sobre isso? A notícia era assustadora e o comandante ficou ansioso para alertar o príncipe.

 

– Infelizmente há muito mais.

 

Mónica começou a manipular o tablet outra vez.

 

– Comandante? – A voz de Valdespino soou de repente vinda da sala. – Quais são as novidades sobre o transporte da Srta. Vidal?

 

Mónica Martín levantou a cabeça de modo súbito, com os olhos arregalados.

 

– É o bispo? – sussurrou ela. – Valdespino está aqui, na residência?

 

– Está. Aconselhando o príncipe.

 

– Comandante! – chamou Valdespino de novo. – O senhor está aí?

 

– Acredite – sussurrou Mónica em pânico –, há mais informações a que o senhor precisa ter acesso imediatamente, antes de dizer qualquer outra palavra ao bispo ou ao príncipe. Acredite quando digo que a crise desta noite tem um impacto maior sobre nós do que o senhor pode imaginar.

 

Garza observou por um momento sua coordenadora de RP e tomou uma decisão.

 

– Lá embaixo, na biblioteca. Encontro você em um minuto.

 

Mónica assentiu e foi embora.

 

Sozinho, Garza respirou fundo e forçou as feições a relaxar, esperando apagar todos os traços da raiva e da confusão crescentes. Com calma, voltou para a sala.

 

– Está tudo bem com a Srta. Vidal – anunciou com um sorriso ao entrar. – Ela vai chegar mais tarde. Estou indo para a sala de segurança confirmar pessoalmente o transporte. – Garza fez um gesto confiante para Julián e depois se virou para o bispo Valdespino. – Volto daqui a pouco. Não vá embora.

 

Em seguida se virou e saiu.

 

Enquanto Garza deixava o apartamento, o bispo Valdespino ficou observando-o com a testa franzida.

 

– Alguma coisa errada? – perguntou o príncipe, olhando o bispo com atenção.

 

– Sim – respondeu Valdespino, virando-se de volta para Julián. – Ouço confissões há 50 anos. Sei quando alguém está falando uma mentira.

 

 

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AS PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

 

Depois do assassinato de Edmond Kirsch, a multidão de seguidores do futurólogo na internet irrompeu num tiroteio de especulações sobre duas questões urgentes.

 

QUAL ERA A DESCOBERTA DE KIRSCH?

 

QUEM O MATOU E POR QUÊ?

 

Com relação à descoberta, teorias já inundaram a rede e cobrem uma variedade de temas, desde Darwin até extraterrestres, criacionismo e mais além.

 

Ainda não há um motivo confirmado para o assassinato, mas dentre as teorias estão o fanatismo religioso, a espionagem corporativa e o ciúme.

 

O ConspiracyNet recebeu a promessa de informações exclusivas sobre o assassino e vamos compartilhá-las com vocês a qualquer momento.

 

 

Ambra Vidal estava sozinha na cabine do táxi aquático, apertando a casaca de Robert Langdon em volta do corpo. Minutos antes, quando Langdon tinha perguntado por que ela concordara em se casar com um homem que mal conhecia, Ambra respondera com sinceridade.

 

Não tive escolha.

 

Seu noivado com Julián era um infortúnio do qual ela se arrependia e que não suportava reviver esta noite, principalmente depois de tudo o que havia acontecido.

 

Caí numa armadilha.

 

Ainda estou numa armadilha.

 

Agora, olhando seu reflexo na janela suja, uma sensação avassaladora de solidão a engolfou. Ambra Vidal não era de ceder à autopiedade, mas nesse momento seu coração estava frágil e à deriva. Estou noiva de um homem que está envolvido de algum modo num assassinato brutal.

 

O príncipe havia selado o destino de Edmond com um único telefonema, apenas uma hora antes do evento. Ambra estava se preparando freneticamente para a chegada dos convidados quando uma jovem funcionária chegou correndo, balançando empolgada um pedaço de papel.

 

– ¡Señorita Vidal! ¡Mensaje para usted!

 

A garota estava risonha e explicou sem fôlego que um telefonema importante tinha acabado de ser dado para a recepção do museu.

 

– O identificador de chamadas dizia que era do Palácio Real de Madri – guinchou ela. – Por isso, claro, eu atendi! E era alguém ligando do escritório do príncipe Julián!

 

– Ligaram para a recepção? – perguntou Ambra. – Mas eles têm o número do meu celular...

 

– O secretário do príncipe disse que tentou falar com seu celular, mas não conseguiu.

 

Ambra verificou seu telefone. Estranho. Nenhuma chamada perdida. Então percebeu que alguns técnicos tinham testado pouco antes o sistema de bloqueio de celulares que seria usado mais tarde, e o secretário de Julián devia ter ligado quando seu telefone estava bloqueado.

 

– Parece que o príncipe recebeu um telefonema de um amigo muito importante em Bilbao, que quer comparecer ao evento desta noite. – A garota entregou o pedaço de papel a Ambra. – Ele esperava que a senhora pudesse acrescentar um nome à lista de convidados desta noite.

 

Ambra olhou a mensagem.

 

Almirante Luis Ávila (reformado)

 

Armada Española

 

Um oficial reformado da Marinha espanhola?

 

– Deixaram um número e disseram que a senhora pode ligar direto, se quiser falar a respeito, mas que Julián estava para entrar numa reunião, de modo que provavelmente a senhora não conseguirá falar com ele. Mas a pessoa que ligou insistiu que o príncipe espera que o pedido não seja uma imposição.

 

Imposição? Ambra fumegou. Considerando o que você já me fez passar?

 

– Eu cuido disso – respondeu. – Obrigada.

 

A jovem funcionária saiu saltitante como se tivesse acabado de repassar a palavra do próprio Deus. Ambra olhou o pedido do príncipe, irritada por ele achar adequado exercer sua influência desse jeito, especialmente depois de se empenhar tanto para que ela não participasse do evento daquela noite.

 

De novo você não me deixa escolha, pensou.

 

Se ignorasse o pedido, o resultado seria um confronto desconfortável com um importante oficial da Marinha à porta do museu. O evento era coreografado meticulosamente e atrairia uma cobertura da mídia sem paralelos. A última coisa de que preciso é uma situação embaraçosa com um dos amigos influentes de Julián.

 

O almirante Ávila não tinha sido checado nem colocado na lista “liberada”, mas Ambra suspeitava que o pedido de uma verificação de segurança seria desnecessário e potencialmente insultuoso. Afinal de contas, o sujeito era um prestigiado oficial da Marinha com poder suficiente para pegar o telefone, ligar para o Palácio Real e pedir um favor ao futuro rei.

 

E assim, com uma programação apertada, tomou a única decisão possível. Anotou o nome do almirante na lista de convidados e, além disso, o acrescentou ao banco de dados dos guias, para que pudessem preparar um fone para ele.

 

Em seguida voltou ao trabalho.

 

E agora Edmond está morto, pensou, voltando ao presente na escuridão do táxi aquático. Enquanto tentava afastar da cabeça as lembranças dolorosas, um pensamento estranho lhe ocorreu.

 

Não cheguei a falar diretamente com Julián... toda a mensagem foi transmitida por intermediários.

 

A ideia trouxe um pequeno raio de esperança.

 

Será possível que Robert esteja certo? E que talvez Julián seja inocente?

 

Pensou por mais um momento e depois saiu depressa da cabine.

 

Encontrou o professor americano sozinho na proa, as mãos na amurada, olhando para a noite. Juntou-se a ele, espantada ao ver que o barco tinha saído do braço principal do Rio Nervión e agora seguia para o norte ao longo de um pequeno afluente que parecia menos um rio e mais um canal perigoso com altos bancos de lama. A água rasa e as margens apertadas deixaram Ambra nervosa, mas o capitão parecia não se abalar, seguindo a toda a velocidade pela garganta estreita, com os faróis mostrando o caminho.

 

Contou rapidamente a Langdon sobre o telefonema dado por alguém do escritório do príncipe Julián.

 

– Só sei mesmo que a recepção do museu recebeu um telefonema originado no Palácio Real de Madri. Tecnicamente essa ligação poderia ter sido feita por qualquer pessoa de lá, dizendo que era o secretário de Julián.

 

Langdon assentiu.

 

– Talvez seja por isso que a pessoa optou por repassar o pedido, em vez de falar diretamente com você. Tem alguma ideia de quem pode estar envolvido?

 

Considerando a história de Edmond com Valdespino, Langdon ficou inclinado na direção do bispo.

 

– Poderia ser qualquer um – disse Ambra. – Este é um período delicado no palácio. Com Julián assumindo o centro do palco, muitos conselheiros antigos estão lutando para obter favores e ser ouvidos por ele. O país está mudando, e acho que boa parte da velha guarda está desesperada para manter o poder.

 

– Bom, independentemente de quem esteja envolvido, esperemos que não fique sabendo que estamos tentando descobrir a senha de Edmond e revelar sua descoberta.

 

Enquanto falava essas palavras, Langdon sentiu a absoluta simplicidade do desafio que tinham pela frente.

 

E também o perigo explícito que enfrentavam.

 

Edmond foi assassinado para impedir que essa informação fosse divulgada.

 

Por um instante se perguntou se sua opção mais segura não seria simplesmente pegar um avião para casa e deixar que outra pessoa cuidasse disso.

 

Segura, sim, pensou, mas opção... não.

 

Ao profundo sentimento de dever que Langdon sentia em relação ao ex-aluno, somava-se o ultraje moral diante da brutal censura de um avanço científico. Além disso, sentia uma intensa curiosidade intelectual com relação ao que, exatamente, Edmond teria descoberto.

 

E, por fim, sabia, existe Ambra Vidal.

 

Ela estava obviamente em crise e, quando tinha olhado nos olhos dele, implorando ajuda, Langdon percebeu que era uma mulher de enorme convicção pessoal e autoconfiança... mas atormentada por pesadas nuvens de medo e arrependimento. Existem segredos aí, sentiu, sombrios e aprisionadores. Ela está pedindo ajuda.

 

Ambra levantou os olhos de repente, como se sentisse os pensamentos dele.

 

– Você parece estar com frio – disse. – Precisa de sua casaca de volta.

 

Ele deu um sorriso suave.

 

– Estou bem.

 

– Está pensando que deveria sair da Espanha assim que chegarmos ao aeroporto?

 

Langdon deu uma gargalhada.

 

– Na verdade, isso me passou pela cabeça.

 

– Por favor, não vá. – Ela se aproximou da amurada e pôs a mão macia em cima da dele. – Não sei direito o que estamos enfrentando esta noite. Você era próximo de Edmond e ele me disse mais de uma vez como valorizava sua amizade e confiava na sua opinião. Estou com medo, Robert, e realmente não creio que possa enfrentar isso sozinha.

 

Os rompantes de sinceridade de Ambra eram espantosos para Langdon, mas ao mesmo tempo absolutamente cativantes.

 

– Certo – disse ele, confirmando com a cabeça. – Você e eu devemos a Edmond e, francamente, à comunidade científica, a descoberta dessa senha e a divulgação da obra dele.

 

Ambra sorriu.

 

– Obrigada.

 

Langdon olhou para trás do barco.

 

– Imagino que seus agentes da Guardia já devem ter percebido que nós saímos do museu.

 

– Sem dúvida. Mas Winston foi bem impressionante, não foi?

 

– Incrível – respondeu Langdon, só agora começando a entender direito o salto quântico que Edmond tinha dado no desenvolvimento de inteligência artificial.

 

O que quer que fossem as “revolucionárias tecnologias proprietárias”, sem dúvida ele estivera disposto a abrir as portas para um admirável mundo novo na interação entre seres humanos e computadores.

 

Esta noite Winston havia se mostrado um servidor fiel de seu criador, além de inestimável aliado de Langdon e Ambra. Em questão de minutos tinha descoberto uma ameaça na lista de convidados, tentado impedir o assassinato de Edmond, identificado o carro da fuga e facilitado a saída de Langdon e Ambra do museu.

 

– Espero que Winston tenha ligado para alertar os pilotos de Edmond – disse Langdon.

 

– Tenho certeza de que ligou. Mas você está certo. Eu deveria telefonar para o Winston e checar.

 

– Espere aí. – Langdon ficou surpreso. – Você pode telefonar para o Winston? Quando saímos do museu e ficamos fora da área de cobertura, pensei...

 

Ambra riu e balançou a cabeça.

 

– Robert, Winston não está localizado fisicamente dentro do Guggenheim; está numa instalação secreta em algum lugar e é acessado remotamente. Você acha mesmo que Edmond criaria algo como Winston e não poderia se comunicar com ele quando quisesse, de qualquer lugar no mundo? Edmond falava com Winston o tempo todo. Em casa, viajando, quando saía para passear. Os dois podiam se conectar a qualquer momento com um simples telefonema. Já vi Edmond conversar durante horas com Winston. Edmond o usava como secretário pessoal, para fazer reservas em restaurantes, coordenar ações com seus pilotos, na verdade para fazer qualquer coisa necessária. De fato, quando estávamos montando a apresentação no museu, eu falava frequentemente com Winston pelo meu telefone.

 

Ambra enfiou a mão no bolso da casaca de Langdon e tirou o telefone de Edmond, ligando-o. Langdon o havia desligado no museu para economizar a bateria.

 

– Você deveria ligar seu telefone também – disse ela –, para que nós dois tenhamos acesso a Winston.

 

– Você não se preocupa em ser rastreada se ligarmos?

 

Ambra balançou a cabeça.

 

– As autoridades não tiveram tempo para conseguir a ordem judicial necessária, por isso acho que vale o risco. Especialmente se Winston puder nos atualizar sobre o progresso da Guardia e a situação no aeroporto.

 

Em dúvida, Langdon ligou o telefone. Enquanto a tela inicial se materializava, franziu os olhos para a luz e sentiu uma pontada de vulnerabilidade, como se tivesse ficado instantaneamente localizável para cada satélite no espaço.

 

Você andou vendo filmes de espionagem demais, disse a si mesmo.

 

De repente seu telefone começou a emitir bipes e a vibrar enquanto uma quantidade de mensagens jorrava. Para sua perplexidade tinha recebido mais de 200 mensagens de texto e e-mails desde que havia desligado o telefone.

 

Enquanto examinava a caixa de entrada, viu que todas as mensagens eram de amigos e colegas. Os primeiros e-mails tinham cabeçalhos parabenizando-o – Grande palestra! Mal acredito que você está aí! –, mas então, de repente, o tom se tornara ansioso e profundamente preocupado. Havia, inclusive uma mensagem do seu editor, Jonas Faukman: MEU DEUS – ROBERT, VOCE ESTÁ BEM??!! Langdon nunca vira seu erudito editor empregar palavras inteiramente em maiúsculas nem pontuação dupla.

 

Até agora Langdon estivera se sentindo maravilhosamente invisível na escuridão das vias aquáticas de Bilbao, como se o museu fosse um sonho que ia se esvaindo.

 

O mundo inteiro sabe, percebeu. A notícia da descoberta misteriosa e do assassinato brutal de Kirsch... junto com meu nome e meu rosto.

 

– Winston estava tentando fazer contato conosco – disse Ambra, olhando para a claridade do telefone de Kirsch. – Há 53 chamadas perdidas para Edmond na última meia hora, todas do mesmo número, todas com um espaço de exatamente 30 segundos. – Ela deu um risinho. – A persistência incansável está entre as muitas virtudes de Winston.

 

Nesse momento o telefone de Edmond começou a tocar.

 

Langdon sorriu para Ambra.

 

– Imagino quem seja.

 

Ela estendeu o telefone para ele.

 

– Atenda.

 

Langdon pegou o telefone e apertou o botão para atender.

 

– Alô?

 

– Professor Langdon – entoou a voz de Winston com seu familiar sotaque britânico. – Que bom que estamos de novo em contato. Estive tentando falar com o senhor.

 

– É, dá para ver – respondeu Langdon, impressionado porque o computador parecia tão absolutamente calmo e sem se abalar depois de 53 tentativas frustradas de ligação.

 

– Houve algumas novidades – disse Winston. – Existe uma possibilidade de que as autoridades do aeroporto sejam alertadas sobre o nome de vocês antes da sua chegada. De novo vou sugerir que sigam muito atentamente minhas orientações.

 

– Estamos nas suas mãos, Winston. Diga o que fazer.

 

– A primeira coisa, professor: se ainda não se livrou do seu celular, faça isso imediatamente.

 

– Tem certeza? – Langdon apertou seu telefone com força. – As autoridades não precisam de uma ordem judicial antes que alguém...

 

– Num seriado policial americano, talvez, mas o senhor está lidando com a Guardia Real e o Palácio Real da Espanha. Eles farão o que for necessário.

 

Langdon olhou seu telefone, sentindo-se estranhamente relutante em se separar dele. Toda a minha vida está aqui.

 

– E o telefone do Edmond? – perguntou Ambra, alarmada.

 

– É impossível de ser rastreado – respondeu Winston. – Edmond sempre se preocupou com hackers e com espionagem corporativa. Ele escreveu pessoalmente um programa de ocultação de IMEI/IMSI que varia os valores de C2 de seu telefone para enganar qualquer interceptador de GSM.

 

Claro que ele fez isso, pensou Langdon. Para o gênio que criou Winston, enganar uma companhia telefônica local seria moleza.

 

Langdon franziu a testa olhando seu telefone aparentemente inferior. Nesse momento Ambra o tirou com gentileza de suas mãos. Sem uma palavra, ela o segurou por cima da amurada e o soltou. Langdou viu o telefone mergulhar na água escura do Rio Nervión. Enquanto o aparelho desaparecia sob a superfície, sentiu uma pontada pela perda, olhando para trás, na direção dele, à medida que o barco prosseguia rapidamente.

 

– Robert – sussurrou Ambra –, só se lembre das sábias palavras da princesa Elsa, da Disney.

 

Langdon se virou.

 

– O quê?

 

Ambra deu um sorriso suave.

 

– Let it go.

 

 

– Su misión todavia no ha terminado – declarou a voz no telefone de Ávila. Sua missão ainda não terminou.

 

Ávila se empertigou no banco de trás do Uber, ouvindo a novidade dita pelo Regente.

 

– Tivemos uma complicação inesperada – disse o contato rapidamente, em espanhol. – Precisamos que você vá para Barcelona. Agora mesmo.

 

Barcelona? Tinham dito a Ávila que ele iria para Madri realizar outro serviço.

 

– Temos motivo para acreditar – continuou a voz – que duas pessoas ligadas ao Sr. Kirsch estejam indo para Barcelona com a esperança de encontrar um modo de acionar remotamente a apresentação da descoberta.

 

Ávila se enrijeceu.

 

– Isso é possível?

 

– Ainda não sabemos. Mas, se eles tiverem sucesso, isso sem dúvida vai estragar todo o seu trabalho duro. Preciso de um homem em Barcelona imediatamente. Com discrição. Chegue lá o mais rápido que puder e me telefone.

 

Com isso a ligação foi encerrada.

 

A má notícia foi estranhamente bem-vinda para Ávila. Ainda sou necessário. Barcelona ficava mais longe do que Madri, mas mesmo assim eram apenas algumas horas em velocidade máxima numa via expressa no meio da noite. Sem desperdiçar um instante, Ávila levantou a arma e a encostou de novo na cabeça do motorista do Uber. As mãos do sujeito ficaram visivelmente tensas no volante.

 

– ¡Llévame a Barcelona! – ordenou.

 

O motorista pegou a saída seguinte, em direção a Vitoria-Gasteiz, e depois acelerou até a Autoestrada A-1, para o leste. Os únicos outros veículos na estrada àquela hora eram carretas barulhentas, todas disparando em alta velocidade para completar as viagens até Pamplona, Huesca, Lleida e, finalmente, uma das maiores cidades portuárias do Mediterrâneo: Barcelona.

 

Ávila mal conseguia acreditar na estranha sequência de acontecimentos que o haviam trazido a esse momento. Das profundezas do meu desespero, eu me ergui para o momento do meu serviço mais glorioso.

 

Por um instante sombrio estava de volta àquele poço sem fundo, arrastando-se pelo altar enfumaçado da Catedral de Sevilha, revirando o entulho sangrento à procura da mulher e do filho e percebendo que os dois tinham partido para sempre.

 

Durante semanas após o ataque, Ávila não saiu de casa. Ficava tremendo no sofá, consumido por um interminável pesadelo acordado, cheio de demônios furiosos que o arrastavam para um abismo escuro, amortalhando-o em negrume, fúria e culpa sufocante.

 

– O abismo é o purgatório – sussurrou uma freira ao seu lado, uma das centenas de conselheiras treinadas pela Igreja para ajudar os sobreviventes. – Sua alma está presa num limbo escuro. A única saída é a absolvição. Você precisa encontrar um modo de perdoar as pessoas que fizeram isso, caso contrário sua raiva irá consumi-lo inteiro. – Ela fez o sinal da cruz. – O perdão é a única salvação.

 

Perdão? Ávila tentou falar, mas demônios apertavam sua garganta. No momento a vingança parecia a única salvação. Mas vingança contra quem? A responsabilidade pelo atentado nunca tinha sido reivindicada.

 

– Sei que os atos de terrorismo religioso parecem imperdoáveis – continuou a freira. – No entanto, pode ser útil lembrar que, durante séculos, nossa fé comandou a Inquisição em nome de nosso Deus. Matamos mulheres e crianças inocentes em nome das nossas crenças. Por isso tivemos que pedir o perdão do mundo e de nós mesmos. E com o passar do tempo nós nos curamos.

 

Então ela leu um trecho da Bíblia:

 

– “Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.” – Depois, outro: – “Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam.”

 

Naquela noite, sozinho e em agonia, Ávila olhou para o espelho. O homem que o espiava de volta era um estranho. As palavras da freira não tinham servido de nada para aliviar a dor.

 

Perdão? Dar a outra face?

 

Testemunhei um mal para o qual não existe absolvição!

 

Numa fúria crescente, deu um soco no espelho, despedaçando o vidro e desmoronando em soluços de angústia no chão do banheiro.

 

Como oficial de carreira na Marinha, Ávila sempre tinha estado no controle – defensor da disciplina, da honra e da cadeia de comando –, mas aquele homem havia sumido. Em semanas mergulhou numa névoa, anestesiando-se com uma mistura poderosa de álcool e comprimidos. Logo seu anseio pelos efeitos entorpecedores das substâncias químicas ocupava cada hora que passava acordado, reduzindo-o a um recluso hostil.

 

Em alguns meses a Marinha espanhola o obrigou discretamente a se aposentar. Um navio de guerra que já fora poderoso estava encalhado numa doca seca. Ávila sabia que nunca mais navegaria. A Marinha à qual dera a vida o tinha deixado apenas com uma pensão modesta com a qual mal dava para viver.

 

Estou com 58 anos, percebeu. E não tenho nada.

 

Passava os dias sentado em sua sala, assistindo à TV, tomando vodca e esperando que algum raio de luz aparecesse. La hora más oscura es justo antes del amanecer, dizia a si mesmo sem parar. Mas o antigo aforismo da Marinha se mostrava falso, repetidamente. A hora mais escura não é logo antes do alvorecer, ele sentia. O alvorecer nunca vai chegar.

 

Quando fez 59 anos, numa chuvosa manhã de quinta-feira, olhando para uma garrafa de vodca vazia e um aviso de despejo, juntou coragem para ir até o armário, pegar sua pistola de serviço, carregá-la e encostar o cano na têmpora.

 

– Perdóname – sussurrou, e fechou os olhos.

 

Depois apertou o gatilho. O barulho foi muito mais baixo do que imaginara. Mais um estalo do que um tiro.

 

Cruelmente a arma tinha falhado. Os anos num armário cheio de poeira, sem ser limpa, aparentemente haviam cobrado um preço à barata pistola cerimonial do almirante. Parecia que até mesmo esse simples ato de covardia estava fora da sua capacidade.

 

Furioso, jogou a arma contra a parede. Dessa vez uma explosão abalou o quarto. Ávila sentiu um calor intenso na batata da perna, e a névoa de bebida se dissipou num clarão de dor lancinante. Caiu no chão gritando e apertando a panturrilha que sangrava.

 

Vizinhos em pânico bateram à sua porta, sirenes se aproximaram e logo Ávila se viu no Hospital Provincial de San Lázaro em Sevilha, tentando explicar como tinha tentado se matar dando um tiro na perna.

 

Na manhã seguinte, deitado no quarto em recuperação, abalado e humilhado, o almirante Luis Ávila recebeu uma visita.

 

– Você atira muito mal – disse o rapaz em espanhol. – Não é de espantar que o tenham obrigado a ir para a reserva.

 

Antes que Ávila pudesse responder, o homem abriu as cortinas e deixou a luz do sol entrar. O almirante protegeu os olhos, vendo que o rapaz era musculoso e tinha cabelo cortado à escovinha. Usava uma camiseta com o rosto de Jesus impresso.

 

– Meu nome é Marco – disse ele, com sotaque andaluz. – Sou o seu fisioterapeuta. Pedi para ser designado a você porque nós dois temos uma coisa em comum.

 

– Somos militares? – perguntou Ávila, notando a postura insolente do sujeito.

 

– Não. – O rapaz encarou Ávila. – Eu estava lá naquela manhã de domingo. Na catedral. Durante o ataque terrorista.

 

Ávila o encarou incrédulo.

 

– Você estava lá?

 

O garoto se abaixou e levantou uma perna de sua calça de moletom, revelando uma prótese.

 

– Sei que você passou pelo inferno, mas eu jogava futebol semiprofissional naquela época, portanto não espere muita simpatia da minha parte. Sou mais do tipo “Deus ajuda a quem se ajuda”.

 

Antes que Ávila soubesse o que tinha acontecido, Marco o colocou numa cadeira de rodas, empurrou-o pelo corredor até uma pequena sala de musculação e o posicionou entre duas barras paralelas.

 

– Isso vai doer – avisou o rapaz. – Mas tente chegar à outra ponta. Só faça uma vez. Depois pode tomar o café da manhã.

 

A dor era insuportável, mas Ávila não iria reclamar com alguém que tinha só uma perna. Assim, usando os braços para sustentar a maior parte do peso, foi arrastando os pés até o final das barras.

 

– Ótimo – disse Marco. – Agora de novo.

 

– Mas você disse...

 

– É, eu menti. Faça de novo.

 

Ávila olhou o rapaz, atônito. Havia anos que não recebia uma ordem e, estranhamente, achou aquilo revigorante. Fez com que se sentisse jovem, como quando era um recruta. Virou e começou a arrastar os pés de volta para o outro lado.

 

– Diga – pediu Marco. – Ainda vai à missa na Catedral de Sevilha?

 

– Nunca.

 

– Medo?

 

Ávila balançou a cabeça.

 

– Raiva.

 

Marco gargalhou.

 

– É, deixe-me adivinhar. As freiras disseram para você perdoar os terroristas?

 

Ávila parou subitamente no meio das barras.

 

– Exatamente!

 

– Disseram pra mim também. Tentei. Impossível. As freiras nos deram um péssimo conselho. – Ele gargalhou.

 

Ávila olhou a camiseta do rapaz com a imagem de Jesus.

 

– Mas parece que você ainda...

 

– Ah, é, sem dúvida ainda sou cristão. Mais devoto do que nunca. Tive a sorte de encontrar minha missão: ajudar as vítimas dos inimigos de Deus.

 

– Causa nobre – disse Ávila com inveja, sentindo que sua vida não tinha objetivo sem a família ou a Marinha.

 

– Um grande homem ajudou a me trazer de volta para Deus – continuou Marco. – Esse homem, por sinal, foi o papa. Eu me encontrei com ele pessoalmente muitas vezes.

 

– Desculpe... o papa?

 

– É.

 

– O líder da Igreja Católica?

 

– É. Se você quiser, talvez eu possa arranjar uma audiência para você.

 

Ávila encarou o rapaz como se ele estivesse louco.

 

– Você pode me conseguir uma audiência com o papa?

 

Marco pareceu magoado.

 

– Sei que você é um importante oficial da Marinha e não consegue imaginar que um fisioterapeuta aleijado de Sevilha tenha acesso ao vigário de Cristo, mas estou dizendo a verdade. Posso conseguir um encontro com ele se você quiser. Ele provavelmente poderia ajudá-lo a encontrar o caminho de volta, como me ajudou.

 

Ávila se apoiou nas barras paralelas, sem saber direito como responder. Idolatrava o papa da época: um sólido líder conservador que pregava o tradicionalismo rígido e a ortodoxia. Infelizmente, ele estava sofrendo ataques vindos de todos os lados do planeta em constante modernização. Havia boatos de que logo optaria por se afastar do cargo diante da crescente pressão liberal.

 

– Eu me sentiria honrado em conhecê-lo, claro, mas...

 

– Bom. Vou tentar marcar para amanhã.

 

Ávila jamais havia imaginado que no dia seguinte estaria dentro de um santuário seguro, cara a cara com um líder poderoso que iria lhe dar a lição religiosa mais revigorante de sua vida.

 

As estradas para a salvação são muitas.

 

O perdão não é o único caminho.

 

 

Localizada no térreo do Palácio de Madri, a Biblioteca Real é um conjunto de salas ornamentadas de modo espetacular, contendo milhares de volumes de valor inestimável, entre eles o Livro das Horas da rainha Isabel, ilustrado com iluminuras, as Bíblias pessoais de vários reis e um códice da era de Afonso XI encadernado em ferro.

 

Garza entrou rapidamente, não querendo deixar o príncipe sozinho lá em cima por muito tempo, nas garras de Valdespino. Ainda tentava entender a notícia de que o bispo havia se encontrado com Kirsch apenas alguns dias antes e que decidira manter o encontro em segredo. Mesmo à luz da apresentação e do assassinato de Kirsch esta noite?

 

Andou pela vasta escuridão da biblioteca, indo até a coordenadora de RP Mónica Martín, que esperava nas sombras, segurando seu tablet luminoso.

 

– Sei que o senhor está ocupado – disse Mónica –, mas temos uma situação muito premente. Só fui lá em cima procurá-lo porque nosso centro de segurança recebeu um e-mail perturbador do ConspiracyNet.com.

 

– De quem?

 

– O ConspiracyNet é um site popular que trata de teorias da conspiração. O jornalismo é vulgar e escrito em nível infantil, mas eles têm milhões de seguidores. Se o senhor me perguntar, eles inventam notícias falsas, mas o site é, de certo modo, bem respeitado entre os teóricos da conspiração.

 

Na mente de Garza, “bem respeitado” e “teoria da conspiração” pareciam expressões mutuamente excludentes.

 

– Eles estão acompanhando a situação do Kirsch durante toda a noite – continuou Mónica. – Não sei onde conseguem as informações, mas têm atraído blogueiros e teóricos da conspiração. Até as redes de notícias estão pegando novidades com eles.

 

– Vá direto ao ponto – pressionou Garza.

 

– O ConspiracyNet possui informações novas que têm a ver com o palácio – disse Mónica, empurrando os óculos para cima. – Eles vão divulgá-las em dez minutos e queriam nos dar a chance de fazer um comentário antes.

 

Garza olhou incrédulo para ela.

 

– O Palácio Real não faz comentários sobre fofocas sensacionalistas!

 

– Pelo menos dê uma olhada, senhor.

 

Ela estendeu o tablet.

 

Garza pegou o aparelho e se viu diante do almirante Luis Ávila. Era uma foto descentralizada, como se tivesse sido tirada por acaso, e mostrava o almirante com uniforme de gala completo, andando diante de uma pintura. Parecia que tinha sido tirada por um frequentador de museu que tentava fotografar uma obra de arte e, sem querer, havia capturado Ávila quando este entrou em quadro sem saber.

 

– Sei qual é a aparência de Ávila – disse Garza rispidamente, ansioso para voltar ao príncipe e a Valdespino. – Por que você está me mostrando isso?

 

– Passe para a foto seguinte.

 

Garza passou. A próxima tela mostrava uma ampliação da foto – concentrada na mão direita do almirante, que balançava à frente do corpo. Garza viu imediatamente uma marca na palma. Parecia uma tatuagem.

 

O comandante da Guardia ficou olhando a imagem por um longo tempo. Era um símbolo que ele conhecia bem, assim como muitos espanhóis, especialmente os mais velhos.

 

O símbolo de Franco.

 

Exposto em muitos lugares da Espanha em meados do século XX, era sinônimo da ditadura ultraconservadora do general Francisco Franco, cujo regime brutal defendia o nacionalismo, o autoritarismo, o militarismo, o antiliberalismo e o catolicismo nacional.

 

Esse antigo símbolo, Garza sabia, consistia em seis letras que, reunidas, formavam uma palavra em latim – uma palavra que definia perfeitamente a imagem que Franco fazia de si mesmo.

 

Victor.

 

Implacável, violento e intransigente, Francisco Franco tinha ascendido ao poder com o apoio militar da Alemanha nazista e da Itália de Mussolini. Matou milhares de opositores antes de assumir o controle total do país em 1939 e se proclamar El Caudillo – O Caudilho, o equivalente em espanhol para Führer. Durante a Guerra Civil e até boa parte dos primeiros anos de ditadura, os que ousavam se opor a ele desapareciam em campos de concentração, onde se estima que 300 mil pessoas foram executadas.

 

Apresentando-se como defensor da “Espanha católica” e inimigo do comunismo ateu, Franco havia abraçado uma mentalidade nitidamente machista, excluindo as mulheres de muitas posições de poder na sociedade, mal permitindo que tivessem algum direito a exercer cargos de professoras universitárias, juízas, bancárias e negando-lhes até mesmo o direito de fugir de um marido abusivo. Anulou todos os casamentos que não tivessem sido realizados segundo a doutrina católica e, dentre outras restrições, declarou ilegais o divórcio, a contracepção, o aborto e a homossexualidade.

 

Felizmente tudo estava mudado.

 

Mesmo assim Garza ficava pasmo com a velocidade com que a nação havia se esquecido dos períodos mais sombrios de sua história.

 

O pacto de olvido – um acordo político nacional para “esquecer” tudo o que acontecera sob o domínio maligno de Franco – implicava que as crianças nas escolas aprendiam muito pouco sobre o ditador. Uma pesquisa na Espanha havia revelado que os adolescentes tinham muito mais probabilidade de reconhecer o ator James Franco do que o ditador Francisco Franco.

 

Mas as gerações mais velhas jamais esqueceriam. Esse símbolo VICTOR – como a suástica nazista – ainda podia invocar o medo no coração de quem tinha idade suficiente para se lembrar daqueles anos brutais. Até hoje, almas cautelosas alertavam que, na mais alta hierarquia do governo espanhol e da Igreja Católica, ainda havia uma facção secreta de apoiadores de Franco – uma fraternidade oculta formada por tradicionalistas que juravam levar a Espanha de volta às suas convicções de extrema direita do século passado.

 

Garza precisava admitir que havia um bom número de pessoas da velha guarda que olhava o caos e a apatia da Espanha contemporânea e sentia que o país só poderia ser salvo por uma forte religião de Estado, um governo mais autoritário e a imposição de diretrizes morais mais claras.

 

Vejam nossos jovens!, gritavam. Estão todos à deriva!

 

Em meses recentes, com o trono da Espanha em vias de ser ocupado pelo príncipe Julián, bem mais jovem, crescera o temor entre os tradicionalistas de que o próprio Palácio Real logo se tornaria outra voz reivindicando mudanças progressistas no país. E algo que alimentava ainda mais essa preocupação era o noivado do príncipe com Ambra Vidal – que não somente era basca, mas também claramente agnóstica. Como rainha da Espanha, sem dúvida ela seria ouvida pelo príncipe em questões da Igreja e do Estado.

 

Dias perigosos, Garza sabia. Um ponto de atrito entre o passado e o futuro.

 

Além de uma divisão religiosa cada vez mais profunda, a Espanha também estava diante de uma encruzilhada. Será que o país manteria o seu monarca? Ou será que a Coroa real seria abolida para sempre como acontecera na Áustria, na Hungria e em tantos outros países europeus? Só o tempo diria. Nas ruas, os tradicionalistas mais velhos balançavam bandeiras espanholas enquanto os jovens progressistas usavam com orgulho suas cores antimonárquicas: roxo, amarelo e vermelho, da antiga bandeira republicana.

 

Julián vai herdar um barril de pólvora.

 

– Quando vi pela primeira vez a tatuagem com o símbolo de Franco – disse Mónica Martín, atraindo a atenção de Garza de volta para o tablet –, achei que ela podia ter sido acrescentada digitalmente à foto como um truque para... o senhor sabe... agitar o caldeirão. Todos os sites de conspiração competem pelo tráfego na rede, e uma conexão com Franco causaria uma enorme reação, especialmente considerando a natureza anticristã da apresentação de Kirsch esta noite.

 

Garza sabia que ela estava certa. Os teóricos da conspiração vão ficar loucos com isso.

 

Mónica indicou o tablet.

 

– Veja o que eles pretendem divulgar.

 

Temeroso, Garza começou a ler o texto que acompanhava a foto.

 

ConspiracyNet.com

ÚLTIMAS NOTÍCIAS SOBRE EDMOND KIRSCH

 

Apesar das especulações iniciais de que o assassinato de Edmond Kirsch tenha sido obra de fanáticos religiosos, a descoberta desse símbolo franquista ultraconservador sugere que o assassinato também pode ter motivações políticas. Há suspeitas de que conservadores nos mais altos escalões do governo espanhol, talvez até mesmo dentro do Palácio Real, estejam lutando pelo controle no vácuo de poder deixado pela ausência e pela morte iminente do rei...

 

– Desgraça – disse o comandante com rispidez, já tendo lido o suficiente. – Toda essa especulação por causa de uma tatuagem? Não quer dizer nada. Com a exceção da presença de Ambra Vidal na ocasião do atentado, essa situação não tem absolutamente nada a ver com a política do Palácio Real. Sem comentários.

 

– Senhor – insistiu Mónica –, se puder ler o resto do texto, por favor, verá que eles estão tentando associar o bispo Valdespino diretamente ao almirante Ávila. Estão sugerindo que o bispo pode ser um franquista secreto que vem sussurrando no ouvido do rei há anos, impedindo-o de fazer mudanças mais abrangentes no país. – Ela fez uma pausa. – Essa alegação está ganhando um bocado de interesse na rede.

 

De novo Garza se pegou totalmente sem palavras. Não reconhecia mais o mundo onde vivia.

 

As notícias falsas têm tanto peso quanto as verdadeiras.

 

Garza olhou para a coordenadora de RP e se esforçou ao máximo para falar com calma.

 

– Mónica, isso tudo é uma ficção criada por blogueiros fantasiosos para diversão própria. Garanto que Valdespino não é franquista. Ele serviu ao rei fielmente durante décadas e com toda a certeza não está envolvido com um assassino franquista. O palácio não vai comentar nada disso. Fui claro?

 

Garza se virou para a porta, ansioso para voltar ao príncipe e a Valdespino.

 

– Senhor, espere! – Mónica segurou o braço dele.

 

Garza parou, olhando em choque a mão da jovem funcionária.

 

Ela recuou imediatamente.

 

– Desculpe, senhor, mas o ConspiracyNet também mandou a gravação de uma conversa telefônica que acaba de acontecer em Budapeste. – Ela piscou nervosa por trás dos óculos grossos. – O senhor também não vai gostar disso.

 

 

Meu patrão foi assassinado.

 

O comandante Josh Siegel sentia as mãos tremendo no manche enquanto taxiava o Gulfstream G550 de Edmond Kirsch em direção à pista principal do Aeroporto de Bilbao.

 

Não estou em condições de voar, pensou, sabendo que seu copiloto estava tão abalado quanto ele.

 

Siegel vinha pilotando jatos particulares para Edmond havia muitos anos, e o horrível assassinato do patrão esta noite fora um choque devastador. Uma hora atrás, ele e seu copiloto estavam sentados no salão do aeroporto assistindo à transmissão ao vivo do Museu Guggenheim.

 

– Típico do Edmond, bem dramático – tinha brincado Siegel, impressionado com a capacidade do chefe para atrair uma plateia enorme.

 

Enquanto via o programa, pegou-se inclinado à frente, assim como os outros espectadores no salão, todos morrendo de curiosidade, até que, num clarão, a noite deu terrivelmente errado.

 

Depois daquilo, Siegel e o copiloto ficaram sentados, assistindo à cobertura pela televisão e se perguntando, atordoados, o que fazer em seguida.

 

Seu telefone tocou dez minutos depois; quem ligava era o secretário particular de Edmond, Winston. Siegel não o conhecia, e ainda que o inglês tivesse um jeito meio peculiar, Siegel tinha se acostumado a coordenar os voos com ele.

 

– Se os senhores não assistiram à televisão – disse Winston –, deveriam ligá-la.

 

– Nós assistimos – respondeu Siegel. – Estamos arrasados.

 

– Precisamos que os senhores levem o avião de volta a Barcelona – declarou Winston, com o tom estranhamente profissional apesar do que tinha acabado de acontecer. – Preparem-se para decolar e eu voltarei a fazer contato em breve. Por favor, não decolem antes de nos falarmos.

 

Siegel não fazia ideia se as instruções de Winston teriam a ver com os desejos de Edmond, mas no momento sentia-se grato por qualquer tipo de orientação.

 

Seguindo as ordens de Winston, Siegel e o copiloto preencheram o manifesto de voo para Barcelona com zero passageiros – um voo deadhead, “cabeça morta”, como era lamentavelmente conhecido no jargão do ramo – e depois tinham saído do hangar para começar a lista de checagem antes do voo.

 

Trinta minutos se passaram antes que Winston ligasse de novo.

 

– Estão preparados para decolar?

 

– Estamos.

 

– Bom. Presumo que vão usar a pista de sempre, em direção ao leste, não é?

 

– Isso mesmo.

 

Às vezes, Siegel achava Winston dolorosamente meticuloso e irritantemente bem informado.

 

– Por favor, contate a torre e peça autorização para decolar. Taxie até a extremidade do campo, mas não entre na pista.

 

– Devo parar na pista de acesso?

 

– É, só um minuto. Por favor, me avise quando chegar lá.

 

Siegel e o copiloto se entreolharam, surpresos. O pedido de Winston não fazia nenhum sentido.

 

A torre provavelmente vai questionar isso.

 

Mesmo assim, Siegel tinha conduzido o jato por várias rampas e caminhos em direção à cabeceira da pista na extremidade oeste do aeroporto. Agora estava taxiando pelos últimos 100 metros da via de acesso, onde o pavimento virava 90 graus à direita e se fundia com a cabeceira da pista voltada para o leste.

 

– Winston? – disse Siegel, olhando a alta cerca de tela de arame que envolvia o perímetro do aeroporto. – Chegamos ao fim da rampa de acesso.

 

– Por favor, esperem aí. Já faço contato de volta.

 

Não posso ficar parado aqui!, pensou Siegel, imaginando que diabo Winston estaria fazendo. Felizmente a câmera de ré do Gulfstream não mostrava nenhum avião atrás, de modo que pelo menos não estava bloqueando o tráfego. As únicas luzes eram as da torre de controle – uma claridade fraca na outra extremidade da pista, a cerca de três quilômetros de distância.

 

Sessenta segundos se passaram.

 

– Aqui é o controle de tráfego aéreo – disse uma voz em seus fones. – EC346, você está autorizado a decolar na pista número um. Repito, você está autorizado.

 

Siegel só queria decolar, mas ainda esperava uma palavra do secretário de Edmond.

 

– Obrigado, controle – disse. – Precisamos ficar aqui só mais um minuto. Estamos verificando uma luz de alerta.

 

– Entendido. Por favor, avise quando estiver pronto.

 

 

– Aqui? – O piloto do táxi aquático pareceu confuso. – Vocês quer parar aqui? O aeroporto é mais longe. Eu leva vocês lá.

 

– Obrigado, vamos sair aqui – disse Langdon, seguindo o conselho de Winston.

 

O piloto deu de ombros e parou a lancha ao lado de uma pequena ponte onde estava escrito Puerto Bidea. A margem do rio era coberta com capim alto e parecia mais ou menos acessível. Ambra já estava saindo do barco e subindo a encosta.

 

– Quanto devemos? – perguntou Langdon ao capitão.

 

– Não precisa – respondeu o homem. – Seu inglês paga antes. Cartão de crédito. Dinheiro triplo.

 

Winston já pagou. Langdon ainda não estava totalmente acostumado a trabalhar com o secretário computadorizado de Kirsch. É como ter a Siri cheia de esteroides.

 

Langdon percebeu que as capacidades de Winston não deveriam ser surpresa, considerando os relatos diários de inteligências artificiais que realizavam todo tipo de tarefas complexas, até mesmo escrever romances – um livro desses tinha quase ganhado um prêmio literário no Japão.

 

Agradeceu ao capitão e pulou do barco para a margem. Antes de subir a encosta, virou-se de novo para o piloto perplexo, levou o indicador aos lábios e disse:

 

– Discreción, por favor.

 

– Sí, sí – garantiu o homem, cobrindo os olhos. – ¡No he visto nada!

 

Com isso Langdon subiu rapidamente pela margem, atravessou um par de trilhos de trem e se juntou a Ambra na borda de um povoado adormecido com uma fileira de lojas de aparência antiquada.

 

– Segundo o mapa – disse Winston no viva voz do telefone de Edmond –, vocês devem estar na interseção de Puerto Bidea com a via aquática de Río Asúa. Estão vendo uma pequena rotatória no centro do povoado?

 

– Estou – respondeu Ambra.

 

– Bom. Logo depois da rotatória vocês vão encontrar uma estradinha chamada Beike Bidea. Sigam por ela, para longe do centro do povoado.

 

Dois minutos depois, Langdon e Ambra tinham saído da aldeia e seguiam rapidamente por uma estrada rural deserta, onde casas de pedra se acomodavam em hectares de pastagens. À medida que penetravam mais fundo na área rural, Langdon sentiu que alguma coisa estava errada. À direita, longe, por cima do topo de um morro pequeno, o céu tinha uma cúpula nevoenta de poluição luminosa.

 

– Se aquelas são as luzes do terminal – disse Langdon –, nós estamos muito longe.

 

– O terminal está a três quilômetros de vocês – explicou Winston.

 

Ambra e Langdon trocaram olhares espantados. Winston tinha dito que a caminhada só duraria oito minutos.

 

– Segundo as imagens de satélite do Google – continuou Winston –, deve haver um campo grande à direita. Parece possível de ser atravessado?

 

Langdon olhou para a plantação de feno à direita, que subia suavemente na direção das luzes do terminal.

 

– Podemos subir, sem dúvida – respondeu Langdon –, mas três quilômetros vão demorar...

 

– Apenas suba a colina, professor, e siga à risca minhas orientações.

 

O tom de Winston era educado e sem emoção como sempre, no entanto Langdon percebeu que tinha acabado de levar uma bronca.

 

– Belo trabalho – disse Ambra, divertida, subindo a colina. – Esse é o tom mais próximo de irritação que já ouvi Winston usar.

 

– EC346, aqui é o controle de tráfego aéreo. – A voz retumbou nos fones de Siegel. – Você deve liberar a rampa e decolar ou voltar ao hangar para reparos. Qual é sua situação?

 

– Ainda estamos trabalhando na luz de alerta – mentiu Siegel, olhando para a câmera de ré. Nenhum avião, só as luzes fracas da torre distante. – Só preciso de mais um minuto.

 

– Entendido. Mantenha-nos informados.

 

O copiloto deu um tapinha no ombro de Siegel e apontou pelo para-brisa.

 

Siegel acompanhou o olhar do colega, mas só viu a cerca alta na frente do avião. De repente, do outro lado da tela de arame, distinguiu algo fantasmagórico. Que negócio é esse?

 

No campo escuro, atrás da cerca, duas silhuetas espectrais estavam se materializando, saindo do negrume, passando pelo topo de uma colina e vindo diretamente para o jato. À medida que as figuras chegavam mais perto, Siegel notou a nítida faixa diagonal num vestido branco, que tinha visto antes pela televisão.

 

Aquela é Ambra Vidal?

 

Ambra tinha voado algumas vezes com Kirsch, e Siegel sempre sentia o coração bater um pouco mais forte quando a impressionante beldade espanhola estava a bordo. Nem conseguia começar a pensar no que ela estaria fazendo num pasto do lado de fora do Aeroporto de Bilbao.

 

O homem alto que acompanhava Ambra também vestia uma roupa formal, em preto e branco, e Siegel se lembrou de que ele tinha participado do programa da noite.

 

O professor americano Robert Langdon.

 

A voz de Winston retornou subitamente.

 

– Sr. Siegel, agora o senhor deve estar vendo dois indivíduos do outro lado da cerca e, sem dúvida, deve reconhecê-los. – Siegel achou o inglês estranhamente contido. – Por favor, saiba que esta noite há circunstâncias que não posso explicar totalmente, mas vou pedir que atenda aos meus desejos em nome do Sr. Kirsch. Tudo o que o senhor precisa saber neste momento é o seguinte. – Winston parou por um instante brevíssimo. – As mesmas pessoas que assassinaram Edmond Kirsch estão tentando matar Ambra Vidal e Robert Langdon. Para mantê-los em segurança, precisamos da sua ajuda.

 

– Mas... claro – gaguejou Siegel, tentando assimilar essa informação.

 

– A Srta. Vidal e o professor Langdon precisam embarcar em seu avião imediatamente.

 

– Aqui fora?!

 

– Sei que, em termos técnicos, seria complicado revisar o manifesto de passageiros, mas...

 

– Você sabe, em termos técnicos, o que significa uma cerca de três metros de altura em volta do aeroporto?

 

– Na verdade, sei – respondeu Winston com muita calma. – E, Sr. Siegel, mesmo sabendo que o senhor e eu só trabalhamos juntos há alguns meses, preciso que confie em mim. O que vou sugerir é exatamente o que Edmond desejaria que o senhor fizesse nessa situação.

 

Siegel escutou incrédulo enquanto Winston delineava seu plano.

 

– O que você está sugerindo é impossível! – argumentou.

 

– Pelo contrário. É bem factível. O empuxo de cada motor é de mais de seis mil quilos e o cone do seu nariz é projetado para suportar mais de 1.000 quilômetros...

 

– Não estou preocupado com a física – reagiu Siegel com rispidez. – Estou preocupado com a legalidade. E com a hipótese de minha licença de piloto ser revogada.

 

– Entendo, Sr. Siegel – retrucou Winston calmamente. – Mas a futura rainha consorte da Espanha está correndo um sério perigo agora mesmo. Seus atos aqui vão ajudar a salvar a vida dela. Acredite, quando a verdade vier à tona, o senhor não receberá uma censura, receberá uma medalha do rei.

 

Parados no meio do capim alto, Langdon e Ambra olhavam a cerca alta iluminada pelos faróis do jato.

 

A pedido de Winston, os dois se afastaram da cerca justo quando a rotação dos motores aumentou e o jato começou a avançar. Mas, em vez de seguir a curva da rampa de acesso, o avião continuou na direção deles, atravessando as linhas de segurança pintadas e saindo para o acostamento de asfalto. Bem devagar, ele foi chegando perto da cerca.

 

Langdon viu que o nariz do jato estava perfeitamente alinhado com um dos pesados postes de aço da cerca. Quando o nariz enorme encostou no poste vertical, os motores aceleraram ligeiramente.

 

Ele esperava uma dificuldade maior, mas pelo jeito dois motores Rolls-Royce e uma aeronave de 40 toneladas eram mais do que a cerca poderia aguentar. Com um gemido metálico, o poste se inclinou para eles, levando junto um enorme bloco de asfalto preso à base, como o emaranhado de raízes de uma árvore tombada.

 

Langdon correu e agarrou a cerca, puxando-a para baixo o suficiente para que ele e Ambra pudessem passar por cima. Quando chegaram cambaleando ao asfalto, a escada de acesso do jato tinha sido baixada e um piloto uniformizado acenava para que entrassem.

 

A