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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS ANARQUISTAS DE LONG SPOON / LANE Anne Perry
OS ANARQUISTAS DE LONG SPOON / LANE Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Algumas casas voam pelos ares, sem vítimas. Mas um anarquista é morto misteriosamente. Ao tentar desvendar o crime e a razão do atentado Pitt e Brigada Especial acabam descobrindo uma rede de corrupção na polícia. Outro atentado de maiores proporções põe em perigo não só a Pitt mas também a ordem social e política.

O Círculo Interno está se tornando muito poderoso e por conta disto Pitt acaba aceitando uma aliança muito perigosa com seu arquiinimigo.

 

 

 

 

O coche de ponto de duas rodas se sacudiu ao dobrar na esquina e jogou Pitt para frente, pelo que quase apoiou o peito nas coxas. Narraway deixou escapar uma maldição, com o escuro rosto mudado pela tensão. Pitt recuperou o equilíbrio à medida que tomavam velocidade rumo ao Aldgate e Whitechapel Street. Os cascos do cavalo tamborilavam nos paralelepípedos e ante eles o tráfego se afastou do meio com toda rapidez. Felizmente, a essa hora matutina era escasso: umas poucas carroças de vendedores ambulantes, carregadas de frutas e verduras, a do cervejeiro e as de mercadorias e um ônibus puxado por um cavalo.

— À direita! - gritou Narraway ao cocheiro. — Pelo Commercial Road! É mais rápido!

O cocheiro obedeceu sem replicar. Eram seis menos um quarto de uma manhã de estio e os trabalhadores, os camelôs, os lojistas e os criados domésticos já estavam em pé. Que o céu os ajudasse, tinham que chegar ao Myrdle Street antes das seis!

Pitt teve a sensação de que o coração estava a ponto de sair do peito. A chamada se produziu fazia pouco mais de meia hora, mas parecia que tinha transcorrido uma eternidade. A campainha do telefone despertou-o e desceu correndo, coberto com a camisa de noite. A voz do Narraway soou entrecortada e ofegante ao outro extremo do telefone: "Enviei um cabriolé para buscá-lo. Reúna-se comigo no Cornhill, do lado norte, às portas do Royal Exchange. Venha imediatamente. Os anarquistas se propõem a colocar uma bomba em uma casa do Myrdle Street". Desligou sem esperar resposta; Pitt teve que subir a escada e avisar a Charlotte antes de vestir-se. Sua esposa desceu depressa e lhe serviu um copo de leite e uma fatia de pão, mas não teve tempo de preparar o chá.

Impaciente, permaneceu cinco minutos na calçada, às portas do Royal Exchange, até que o coche de aluguel com Narraway fez ato de presença e se deteve. O chicote longo do cocheiro estalou e açulou ao cavalo inclusive antes que Pitt tivesse tempo de instalar-se no assento.

Naquele momento, corriam para o Myrdle Street e ainda não tinha uma idéia clara do que ocorria, salvo que a informação procedia das próprias fontes do Narraway nos limites do agitado mundo da vadiagem do East End, âmbito de assaltantes, vigaristas, falsificadores, salteadores de caminho e ladrões de toda índole que se alimentavam do rio.

— Por que tem que ser no Myrdle Street? - inquiriu a gritos. — Quem são?

— Poderia ser qualquer um - respondeu Narraway sem afastar o olhar da rua.

Em princípio, a Brigada Especial se criara para fazer frente às atividades dos fenianos em Londres, mas naquela época enfrentava a todo tipo de ameaças à segurança nacional. Precisamente nessa data, princípios do verão de 1893, o perigo que mais inquietava a maioria das pessoas era o dos terroristas anarquistas. Produziram-se vários incidentes em Paris, e Londres tinha sofrido meia dúzia de explosões de alguma consideração.

Narraway não sabia se a última ameaça procedia dos irlandeses, que seguiam empenhados em alcançar a autonomia ou simplesmente de revolucionários desejosos de derrocar o governo, a monarquia ou a lei e a ordem em geral.

Na esquina viraram à esquerda, subiram pelo Myrdle Street, cruzaram a rua e se detiveram. Pouco mais adiante os policiais se ocupavam de despertar às pessoas e a faziam sair rapidamente de suas casas. Não havia tempo de procurar pertences particularmente apreciados, nem sequer de pegar algo mais que um casaco ou um xale para se proteger do fresco ar matinal.

Pitt viu que um agente ao redor de vinte anos não deixava em paz uma anciã. O cabelo branco lhe pendia em mechas espaçadas por cima dos ombros e apoiava os pés artríticos nos paralelepípedos. Pitt esteve a ponto de engasgar-se de fúria contra os responsáveis por aquele perigo.

Um menino cruzou a rua e piscou desconcertado, arrastando um cachorrinho vira-lata preso por uma corda.

Narraway desembarcou do cabriolé e se aproximou a grandes passadas para o policial mais próximo. Pitt lhe pisava nos calcanhares. Com o rosto aceso de preocupação e contrariedade, o agente se voltou para lhe pedir que retrocedesse.

— Senhor, tem que ir-se - assinalou com o braço. — Afaste-se, senhor. Puseram uma bomba em uma das...

— Sei! - precisou Narraway secamente. — Sou Victor Narraway, chefe da Brigada Especial. Já se sabe onde a colocaram?

O policial se endireitou pela metade, com a mão direita ainda em alto para impedir que as pessoas retornassem a seus lares naquela manhã silenciosa e quase sem vento.

— Não, senhor - respondeu. — Melhor dizendo, não se sabe exatamente. Suspeitamos que esteja em uma dessas duas casas dali.

O agente inclinou a cabeça para a outra calçada. As casas estreitas e de três andares estavam encostadas, com as portas totalmente abertas; mulheres orgulhosas e trabalhadoras ladeavam os degraus da entrada. Um gato saiu tranqüilamente de uma das moradias, uma menina lhe gritou com impaciência e o bichano pôs-se a correr para ela.

— Já saíram todos? - quis saber Narraway.

— Sim, senhor, ao menos pelo que sabemos.

O resto de sua resposta ficou apagada por uma explosão ensurdecedora. A princípio foi como um estalo seco, depois um rugido e finalmente um rasgão e um desmoronamento. Uma parte enorme de uma das casas voou pelos ares e se partiu. Os restos desabaram sobre a rua e ainda por cima de outros cobertos; destroçaram as telhas de ardósia e derrubaram lareiras. O pó e as chamas dominavam o ambiente. As pessoas gritaram freneticamente. Alguém gritou.

O agente de polícia também gritou, com a boca muito aberta, mas suas palavras se perderam no meio do estrépito. Sacudiu o corpo de maneira estranha, como se as pernas não lhe respondessem. Inclinou-se e agitou os braços enquanto, horrorizadas, as pessoas não se moviam de onde estavam.

Outra explosão ressoou no interior da segunda casa. As paredes tremeram e pareceram desabar sobre si mesmas, ao mesmo tempo em que os tijolos e o gesso saíam jogados para o exterior. Houve mais labaredas e uma coluna de fumaça negra.

De repente, as pessoas puseram-se a correr. Os pinheiros crepitaram, alguém amaldiçoou em voz alta e vários cães dispararam com frenesi. Um ancião xingou contra tudo o que lhe ocorreu e se repetiu uma e outra vez.

Narraway tinha empalidecido e seus olhos negros se assemelhavam a orifícios na cabeça. Não tinham tido a esperança de evitar a explosão das bombas, mas era uma dolorosa derrota ver semelhantes destroços na calçada de frente e pessoas aterrorizadas e desconcertadas que se moviam dando tombos. As chamas chegaram às fitas de seda e às vigas secas e começaram a propagar-se.

Chegou um carro de bombeiros, com os cavalos cobertos de suor e os olhos em branco. Os efetivos desembarcaram de um salto e começaram a desenrolar as volumosas mangueiras de lona, mas a sua tarefa era uma tarefa condenada ao fracasso.

Pitt experimentou uma pasmosa sensação de desilusão. A Brigada Especial se criara, precisamente, para evitar essa classe de atos, mas tinham cometido um atentado e não podia fazer nada que o reconfortasse ou fosse útil. Tampouco sabia se explodiriam mais bombas.

Outro agente se aproximou correndo pela rua, agitou os braços desaforadamente e o capacete se inclinou sobre sua cabeça.

— Pelo outro lado! - exclamou. — Escapam pelo outro lado.

Pitt demorou uns segundos em entender o que o policial dizia.

Narraway se deu conta no ato, virou sobre os calcanhares e pôs-se a andar para a carruagem de duas rodas.

Pitt se sentiu impelido a atuar e alcançou Narraway no momento no qual este subia à carruagem e ordenava ao condutor que retornasse ao Fordham Street e virasse a oeste.

O homem obedeceu no ato, agitou o longo chicote por cima das ancas do cavalo e o açulou. Viraram à esquerda, cruzaram Essex Street quase sem diminuir o passo e vislumbraram outra carruagem de duas rodas, que desapareceu para o norte por New Road, em direção a Whitechapel.

— Atrás deles! - ordenou Narraway.

Não fez caso do restante do tráfego matinal, composto de carruagens e carretas de vendedores, que se afastaram e se apinharam.

Não tinha havido tempo de expôr-se quem tinha colocado as bombas mas, quando viraram pelo Whitechapel Road e passaram frente ao hospital de Londres, Pitt refletiu sobre a questão. Até então as ameaças anarquistas tinham sido desorganizadas e não tinham exposto exigências concretas. Londres era a capital de um império que abrangia virtualmente todos os continentes da terra, assim como as ilhas que havia entre eles, e também o maior porto do mundo. Constantemente chegavam pessoas de todas as nacionalidades; era certo que nos últimos tempos, tinham atracado imigrantes da Letonia, Lituânia, Polônia e Rússia desejosos de escapar do poder do czar. Outros, que procediam da Espanha, Itália e, sobre tudo, França, transladaram-se com intenções mais inclinadas para o socialismo.

Pitt viu que, a seu lado, Narraway esticava o pescoço e mantinha rígido seu magro corpo. Olhou para um lado e depois para o outro em seu intento de localizar a carruagem de duas rodas. Whitechapel se tinha convertido em Mele End Road. Passaram frente ao imenso bloco da cervejaria Charrington, que se erguia à esquerda.

— Não tem o menor sentido! - declarou Narraway apertando os dentes.

O cabriolé que ia adiante virou à esquerda pelo Peters Street. Mal tinha recuperado o equilíbrio quando se esfumou para a direita pelo Willow Agrada e depois pelo Long Spoon Lane. O cabriolé do Pitt e Narraway passou ao largo e teve que virar e voltar atrás. Mas então outros dois cabriolés se detiveram e vários policiais desceram deles; quem estavam perseguindo desapareceu.

Long Spoon Lane era uma rua estreita e pavimentada. As cinzentas casas de cômodos tinham três andares e estavam imundas e manchadas pela fumaça e a umidade de várias gerações. O ar cheirava a podridão e a águas residuais.

Pitt olhou a um lado e a outro, ao leste e ao oeste. Viu vários portais enclausurados com pranchas. Com os braços na cintura, uma mulher corpulenta bloqueava a entrada de uma casa e observava com rosto de poucos amigos a alteração de sua rotina. A oeste se fechou uma porta e quando dois agentes a golpearam com os ombros, não cedeu. Voltaram a tentar várias vezes, mas não tiveram sorte.

— Devem ter posto uma barricada - comentou Narraway com grande seriedade. — Atrás! - ordenou aos policiais.

Pitt sentiu um calafrio. Certamente Narraway temia que os anarquistas estivessem armados. Era absurdo. Duas horas antes estava na cama, meio adormecido, junto à Charlotte; sua cabeleira, que atravessava o travesseiro, parecia um rio escuro. O sol da primeira hora tinha formado uma linha brilhante que penetrava entre as cortinas; fora, nas árvores, piavam os laboriosos pardais. E naquele momento tremia enquanto observava a horrível parede de uma casa de cômodos em que se ocultavam os desesperados jovens que tinham derrubado uma fileira de moradias.

Na rua havia doze agentes; Narraway tinha assumido o comando, até então ostentado por um sargento. Enviou alguns efetivos a outros becos. Com frio pesar, Pitt comprovou que estes levavam armas. Chegou à conclusão de que não havia outra opção. A colocação de bombas era um delito de grande violência e pouco comum. Não haveria trégua para quem o tinha cometido.

A rua se achava estranhamente tranqüila. Com as abas balançando, o rosto tenso e a boca convertida em uma fina linha, Narraway voltou depois a dar instruções a seus efetivos.

— Pitt, não fique quieto como uma condenada. No fim das contas, é filho de um guarda de caça, não me dirá que não sabe disparar! - Com os dedos brancos, levantou um fuzil e o entregou.

Pitt estava a ponto de replicar que os guardas de caça não atiram nas pessoas, mas se deu conta de que não só era uma rabugice, mas também uma falsidade. Mais de um caçador furtivo tinha acabado com o traseiro cheio de carne adormecida. Agarrou a arma a contragosto e, por último, as munições.

Retrocedeu até o lado mais afastado da rua. Sorriu com certa ironia quando viu que se colocara atrás do único poste que havia. Narraway se manteve ao amparo dos edifícios da calçada de frente, caminhou rapidamente ao longo da estreita calçada e ordenou aos policiais que ficassem a coberto como ele. Com exceção de suas pegadas não se ouvia som algum. Tinham retirado cavalos e carruagens para que não corressem perigo. Todos os que viviam nessa rua se refugiaram no interior de suas casas.

Os minutos pareciam eternos. Não houve o menor movimento. Pitt se perguntou se tinham a certeza de que os anarquistas se achavam ali e, automaticamente, lançou uma olhada aos telhados. Eram penhascos, muito abruptos para que houvesse um cabo, e não se viam águas-furtadas nem clarabóias através de onde sair.

Narraway se aproximava. Ao reparar no olhar do Pitt, uma labareda de humor iluminou fugazmente seu rosto.

— Agradeço, mas não o farei - assegurou secamente. — Se resolver enviar a alguém aos telhados não será a você. Tropeçaria com as abas. Antes que me pergunte, dir-lhe-ei que sim, enviei efetivos à parte de trás e a ambos os extremos. - Com grande cuidado se situou entre o Pitt e a parede. Pitt sorriu. Narraway deixou escapar uma espécie de grunhido e demarcou com azedume: — Não penso esperar todo o dia. Pedi ao Stamper que vá procurar umas carruagens velhas, algo bastante sólido para absorver um punhado de balas. Derrubá-las-emos para nos refugiar atrás e depois entraremos.

Pitt assentiu e lamentou não conhecer melhor ao Narraway. Ainda não confiava nele tanto como em Micah Drummond ou no John Cornwallis, seus companheiros quando ele só era um simples policial do Bow Street. Respeitava-os e compreendia suas obrigações. Também tinha sido profundamente consciente de sua humanidade e de suas debilidades, assim como de suas aptidões.

Pitt jamais se tinha proposto fazer parte da Brigada Especial. O êxito que tinha tido contra a poderosa sociedade secreta conhecida como Círculo Interior tinha originado sua aparente desgraça, já que lhe havia custado o cargo na Metropolitana. Por sua própria segurança e para lhe dar algum tipo de trabalho, tinham-lhe atribuído um posto na Brigada Especial e trabalhava para o Victor Narraway. No Bow Street, Harold Wetron, membro do Círculo Interior e então chefe da sociedade secreta, tinha desbancado ao Pitt.

Este se sentia inseguro e com muita freqüência dava um fora. Com seus segredos, sua tortuosidade e suas motivações meio políticas, a Brigada Especial exigia certas habilidades que mal tinha começado a assimilar; além disso, ainda carecia de parâmetros para avaliar ao Narraway.

Também era consciente de que, se tivesse seguido subindo no Bow Street, não teria demorado a perder sua conexão com a realidade do crime. Sua compaixão pela dor que causava teria diminuído. Tudo teria se tornado de segunda mão, particularmente sua capacidade de influenciar nas decisões.

Sua situação atual era melhor, embora supusesse permanecer em uma rua fria junto ao Narraway, à espera de tomar por assalto uma fortaleza anarquista. O momento da detenção jamais era simples nem agradável, já que o delito supunha uma tragédia para outro ser humano.

Pitt notou que tinha fome, embora acima de tudo, teria gostado de beber uma xícara de chá quente. Tinha a boca seca e estava farto de permanecer no mesmo lugar. Apesar de ser verão, na sombra a manhã ainda era fria. A pavimentação continuava molhada pelo orvalho da noite. Ainda não se acostumara ao aroma rançoso da madeira úmida e as bocas-de-lobo.

Nos paralelepípedos do outro extremo da rua se ouviu um ruído surdo e apareceu uma carruagem velha, puxada por um cavalo de pelagem grossa. Ao chegar à metade, o carreteiro desembarcou de um salto. Desemparelhou o animal e deixou que partisse ao trote. Segundos depois apareceu outra carruagem parecida e se deteve atrás. Ambos os veículos estavam inclinados.

— Correto - murmurou Narraway e se ergueu.

Estava muito sério. Graças a suave mas penetrante luz, cada pequena ruga de seu rosto era visível. Dava a sensação de que todas as paixões que tinha experimentado ao longo da vida tinham deixado seu rastro nele, embora a impressão dominante que transmitia era de inquebrável força.

Ao longo da rua se deslocaram seis policiais, a maioria dos quais pareciam armados. Outros se tinham situado na parte traseira dos edifícios e nos extremos da rua.

Três agentes avançaram com um aríete para abrir a porta pela força. Nesse momento se fez em pedacinhos o vidro de uma janela dos andares superiores e todos permaneceram imóveis. Um segundo depois soaram disparos e as balas ricochetearam nas paredes à altura do ombro e por cima. Ninguém ficou ferido.

A polícia respondeu aos disparos e explodiram os vidros de outras duas janelas.

Ao longe, um cão disparou com fúria; ouvia-se o ruído surdo do tráfego pesado que corria por Mele End Road, a uma rua de distância.

Os disparos recomeçaram.

Pitt era resistente a participar. Apesar de todos os delitos que tinha investigado ao longo de seus anos no corpo de polícia, o certo é que jamais tinha tido que atirar em um ser humano e a idéia lhe produzia uma fria dor.

Nesse momento, Narraway correu até onde se achavam dois homens, escondidos atrás das carruagens; uma bala se embutiu na parede, justo por cima da cabeça do Pitt. Sem parar para pensar, este levantou a arma e disparou para a janela de onde tinha saído a bala.

Os homens que levavam o aríete tinham chegado ao extremo da rua, e por isso ficavam fora da linha de fogo. Cada vez que uma sombra se movia atrás dos restos do vidro das janelas, Pitt disparava e se apressava a recarregar sua arma. Embora detestasse atirar em pessoas, descobriu que suas mãos estavam firmes e que o dominava uma espécie de regozijo.

Na rua acima repicaram mais disparos.

Narraway observou Pitt, lançou-lhe um olhar de advertência e percorreu a pavimentação até onde se achavam os homens com o aríete. De uma janela do andar superior saiu outra chuva de tiros que se chocaram contra as paredes e ricochetearam ou se afundaram na madeira das carruagens.

Pitt voltou a disparar e apontou em outra direção. Tratava-se de outra janela, da qual até então ninguém tinha disparado. Viu o vidro quebrado, iluminado pelo reflexo da luz do sol.

Os tiros procediam de diversos lugares: da casa, da rua e do extremo da via. Um policial se dobrou e desabou.

Pitt voltou a disparar para cima, primeiro contra uma janela e depois contra outra, em qualquer lugar que via uma sombra em movimento ou uma chama.

Ninguém se aproximou do ferido. Pitt compreendeu que não podiam fazê-lo porque ficariam descoberto.

Um disparo alcançou o metal do poste que se erguia a seu lado e produziu um intenso estalo que lhe acelerou o pulso e quase o deixou sem fôlego. Firmou deliberadamente a mão para o seguinte disparo, que atravessou a janela. Sua pontaria melhorava. Abandonou o amparo do poste e se dispôs a cruzar a rua para aproximar-se do agente caído. Achava-se a vinte metros. Um novo tiro passou por seu lado e se chocou contra a parede. Pitt tropeçou e se deixou cair muito perto do policial. A pavimentação estava manchada de sangue. Engatinhou o último metro que o afastava do ferido.

— Fique tranqüilo - aconselhou em tom premente. — O porei a salvo e logo lhe daremos uma olhada.

Não sabia se o agente o ouvia. Seu rosto estava de uma cor branca pastosa e tinha os olhos fechados. Parecia rondar os vinte anos e tinha a boca ensangüentada.

Era impossível que Pitt o transladasse, já que não se atrevia a endireitar-se; se o fizesse, converter-se-ia em um alvo perfeito. Até era possível que, indiretamente, alcançasse-o uma bala disparada por um dos seus, que voltavam a abrir fogo com presteza. Inclinou-se, pegou o agente pelos ombros, retrocedeu torpemente e o arrastou por cima dos paralelepípedos até que por fim ficaram ao amparo das carruagens.

— Fique tranqüilo - repetiu, embora na realidade falasse para si mesmo.

Comprovou surpreso que o agente abria os olhos e esboçava um débil sorriso. Com sobressaltado alívio Pitt viu que o sangue da boca emanava de um corte que tinha na face. Examinou-o rapidamente para averiguar onde tinha sofrido feridas e as tapar. Seguiu falando em tom suave e tranqüilizador para ambos.

O agente tinha sofrido uma ferida no ombro. Perdia bastante sangue, mas não era fatal. Provavelmente ao cair tinha dado com a cabeça nos paralelepípedos, o que lhe tinha deixado sem sentido. Se não tivesse levado o capacete poderia ser pior.

Pitt fez o que pôde com uma manga do uniforme, que lhe arrancou e colocou sobre o ombro ensangüentado. Quando terminou, quatro ou cinco minutos depois, já se tinham aproximado outros agentes para ajudá-lo. Pediu-lhes que retirassem ao ferido e pegou sua arma. Agachou-se e correu até os que levavam o aríete no preciso momento em que cedia o batente da porta que, ao abrir-se, chocou estrepitosamente contra a parede.

Ao entrar havia uma escada estreita. Os policiais subiram à carreira, Narraway lhes pisava nos calcanhares e Pitt se pegou a suas costas.

Mais acima ressoou um tiro e se ouviram vozes crispadas e ruído de pegadas; houve mais disparos ao longe, provavelmente no fundo da casa.

Pitt subiu os degraus da escada de dois em dois. Ao chegar ao segundo andar achou uma ampla estadia que, provavelmente, em sua origem eram dois aposentos. Narraway permanecia em pé no meio da luz intensa que entrava pelas janelas quebradas. No outro extremo se abria a porta da escada que descia para o fundo da casa. Havia três policiais com as armas a ponto e dois jovens que permaneciam absolutamente imóveis. Um deles tinha o cabelo escuro e longo e o olhar enlouquecido. Sem o sangue e o inchaço no rosto teria sido bonito. O outro era mais magro, algo gasto, com o cabelo de cor dourada avermelhado. Seus olhos eram de um azul esverdeado quase exageradamente claro. Embora parecessem assustados, ambos tentavam mostrar-se desafiantes. Dois policiais os algemaram violentamente.

Narraway voltou a cabeça para a porta, junto à que se achava Pitt, e em silêncio indicou aos policiais que levassem aos detidos.

Pitt se fez a um lado para deixá-los passar e percorreu a estadia com o olhar. Com exceção de um par de cadeiras e de uma marmita de mantas empilhadas no outro extremo não havia nada mais. Os vidros de todas as janelas estavam quebrados e as paredes, esburacadas a balas. Era tudo o que esperava ver, excetuando a figura imóvel estendida no chão, com a cabeça em direção à janela do centro da estadia. Cheia, a cabeleira de cor castanha escura do homem caído estava empapada em sangue.

Pitt se aproximou e se ajoelhou a seu lado. Estava morto. No chão também havia sangue. Tinham-no matado com um único disparo. A bala tinha entrado pela nuca e saído pelo rosto; seu lado esquerdo estava destroçado. O direito indicava que em vida tinha sido bonito. Sua expressão manifestava surpresa.

Pitt tinha investigado muitos assassinatos, afinal das contas se tratava de sua profissão, mas poucos tinham sido tão sangrentos como esse. O único positivo dessa morte era que devia ter sido instantânea. Sentiu o estômago retorcer violentamente e engoliu saliva para que a bílis não lhe subisse. Rezou para que o responsável por essa morte não fosse um de seus tiros.

Narraway falou com tom baixo a suas costas. Pitt não tinha ouvido suas pegadas.

— Verifique seus bolsos - propôs. — Talvez tenha algo que nos permita saber de quem se trata.

Pitt afastou a mão do homem. Era magra, bem formada e no anular levava um anel de selo, um anel caro, de alto valor, certamente de ouro.

Pitt virou o anel. Mal teve que fazer esforços para tirá-lo do dedo. Estudou-o de perto. O selo mostrava um escudo de família e no interior levava a assinatura do joalheiro.

Narraway estendeu a mão com a palma para cima. Pitt lhe entregou o anel, voltou a agachar-se ante o cadáver e revistou os bolsos da jaqueta. Encontrou um lenço, um punhado de moedas e uma nota dirigida a um tal Magnus. O resto da folha não estava ali, como se o tivessem utilizado para outra mensagem.

— "Querido Magnus" - leu Pitt em voz alta.

Narraway estudava o anel com os lábios apertados. À intensa luz da manhã, seu rosto estava alterado e com sinais de cansaço.

— Landsborough - murmurou como para si.

Pitt se sobressaltou.

— Conhece-o?

Narraway não o olhou.

— Vi-o algumas vezes. Trata-se do filho de lorde Landsborough… de seu único filho.

A expressão do Narraway era indecifrável. Pitt não sabia se sua intensidade significava dor, angustia ante os problemas que estavam por chegar ou, simples e sinceramente, mal-estar por ter que dar a notícia à família.

— É possível que o tomassem como refém? - inquiriu Pitt.

— Talvez - reconheceu Narraway. — Há algo que está claro: parece-me impossível que a bala chegasse da janela, alcançasse-o na nuca e caísse assim.

— Ninguém o moveu - afirmou Pitt com segurança. — Se o tivessem feito, haveria sangue por toda parte. Com uma ferida destas características...

— Posso vê-lo com meus próprios olhos! - A voz do Narraway se alterou, dominada pelas emoções; possivelmente fosse compaixão ou puro rechaço físico. — É claro que não o moveram. Por que demônios iriam mudáo de lugar? É evidente que lhe dispararam do interior da estadia. Agora se trata de averiguar por que e quem. Talvez esteja certo e tomaram como refém. Deus bendito, que confusão! Vamos, faça o favor de levantar do chão! Quando chegar o legista veremos se nos diz algo mais. Devemos interrogar aos outros dois antes que a polícia se chateie. Detesto ter que apelar aos agentes, mas não fica outra solução. É o que dita a lei! - Deu meia volta e franqueou a porta. —Venha, vamos ver o que acharam na parte traseira!

O sargento postado na parte posterior se mostrou desafiante, como se Narraway o tivesse acusado de deixar escapar ao assassino.

— Senhor, não o vimos. Seu homem desceu a escada sem deixar de gritar que perseguíssemos a alguém, mas não passou ninguém por nosso lado! Portanto, ainda deve continuar aí dentro.

— Disse meu homem? - inquiriu Narraway em tom seco. — A que homem se refere?

— Senhor, como quer que saiba? - perguntou o sargento. — Desceu correndo a escada, sem deixar de gritar que detivéssemos alguém, mas não havia a quem deter!

— Encontramos dois anarquistas vivos e a um morto - disse Narraway com grande seriedade. — Na sala havia quatro, talvez cinco indivíduos, o que significa que ao menos um deles escapou.

O sargento manteve sua expressão séria, com os olhos azuis como pedras.

— Se você o diz, senhor. Mas não passou por nosso lado. Possivelmente deu a volta no andar de baixo e saiu pela parte dianteira enquanto você estava acima, não lhe parece, senhor? - O sargento se expressou com certo tom de insolência. Alguns policiais não gostavam que os destinassem a realizar as detenções que correspondiam à Brigada Especial, mas como esta não tinha competências para fazê-lo não havia outra solução.

— E se tiver saído e entrou diretamente pela parte traseira de outro dos edifícios? -propôs Pitt rapidamente. — Será melhor que revistemos todas as moradias.

— Adiante - acrescentou Narraway secamente. — Olhe em toda partes, em todos os aposentos; sob as camas, no caso de que as haja; nos armários, sob os montões de lixo ou de roupa velha e nos desvãos, embora tenham que entrar engatinhando. E não se esqueçam das lareiras. - Voltou-se e caminhou pelo beco, sem deixar de observar atentamente as demais casas, os telhados e as portas. Pitt o seguia lhe pisando os calcanhares. Um quarto de hora depois, estavam de retorno na entrada principal do Long Spoon Lane. A luz do dia era fria e cinza e o vento que soprava pelo beco cortava o fôlego. Não tinham dado com nenhum anarquista escondido. Nenhum policial da entrada reconheceu ter visto alguém, tê-lo açoitado pelo interior do edifício ou tê-lo visto sair. O sargento que montava guarda na parte traseira não trocou uma vírgula de sua explicação.

Pálido e furioso, Narraway não teve mais remédio que aceitar que quem tinha estado na casa em que jazia morto Magnus Landsborough tinham escapado.

— Absolutamente nada! - replicou desdenhoso o jovem de cabelo escuro.

Achava-se nos calabouços da delegacia de polícia, sentado em uma cadeira de espaldar reto e com as mãos ainda algemadas. A única luz procedia de uma janela pequena e alta que havia na parede que dava ao exterior. Só havia dito que se chamava Welling; nenhuma palavra mais. Tanto Pitt como Narraway tinham tentado extrair-lhe informação a respeito de seus companheiros, objetivos ou aliados, assim como do lugar no qual tinham conseguido a dinamite ou o dinheiro para adquiri-la.

O outro, um homem de pele branca e com o cabelo de cor dourada avermelhada, respondeu que se chamava Carmody, mas também se negou a referir-se a seus companheiros. Ocupava outra cela e, até esse momento, estava só.

Narraway se apoiou na parede de pedra caiada, com o rosto franzido de cansaço.

— Seguir com o interrogatório carece de sentido - declarou em tom plano, como se aceitasse a derrota. — Irá levar-se ao túmulo sem nos dar um por que. Não conhecem seu objetivo ou não têm. Poderia tratar-se de violência cega e gratuita.

— Claro que o conheço! - assegurou Welling com os dentes apertados.

Narraway o olhou e mal manifestou interesse.

— Fala a sério? Você acabará clandestinamente e eu seguirei sem me inteirar - prosseguiu. — Que você saiba ou não tem muito pouca importância, já que não quer ou não pode compartilhá-lo conosco. A verdade é que se trata de uma atitude bastante insólita em um anarquista. - Deu ligeiramente de ombros. — A maioria dos anarquistas luta por algo, e um grande gesto, como acabar na forca, perde seu sentido se ninguém souber por que vão ao patíbulo como as vacas ao matadouro.

Welling ficou petrificado, abriu desmesuradamente os olhos e mal moveu o peito ao respirar.

— Não podem me enforcar - disse por fim e lhe quebrou a voz. — Não morreu ninguém. Um agente ficou ferido, mas não poderá demonstrar que fui eu quem lhe disparou porque não o fiz.

— Ah, não foi você? - perguntou Narraway com indiferença, como se não soubesse ou a verdade não lhe interessasse.

— Bode! - replicou Welling com desdém. De repente sua fachada de serenidade se derrubou e o dominou a cólera. Seu rosto se cobriu de suor e abriu excessivamente os olhos. — É você, como toda a polícia, corrupto até a medula! - Tremeu-lhe a voz. — Verá, asseguro-lhe que não fui eu! Mas dá no mesmo, não é assim? Basta-lhe ter alguém a quem jogar as culpas e qualquer um serve!

Durante uns instantes, Pitt mal foi consciente de que Narraway tinha provocado a reação do Welling, embora em seguida se desse conta do que havia dito o detido a respeito da polícia. O que lhe doeu não foi a acusação, senão a paixão de seu tom de voz. O detido estava convencido do que dizia até o ponto de gritá-lo apesar de poder lhe custar qualquer esperança de misericórdia.

Pitt se obrigou a adotar um tom sereno e a ocultar suas emoções.

— Há uma grande diferença entre incompetência e corrupção - explicou. — Certamente que existe algum ou outro mau policial, do mesmo modo que há maus médicos. – Calou-se.

A expressão de desdém do Welling era tão intensa que distorceu grotescamente suas feições e as converteu em uma máscara branca coroada pelo cabelo escuro.

Narraway não interveio. Observou ao Pitt e ao Welling, à espera de ver quem era o primeiro em tomar a palavra.

Pitt aspirou e exalou ar lentamente. O silêncio se tornou cortante.

— Não me dirá que se importa! - exclamou Welling em tom acusador e sarcástico, como se Pitt não tivesse a honra ou a inteligência suficientes para ser capaz de preocupar-se.

— Pelo visto, a você tampouco - replicou Pitt e se obrigou a sorrir.

Não lhe foi nada fácil. Durante toda sua vida adulta tinha sido policial. Tinha dedicado tempo e energia, trabalhado dias intermináveis e suportado o esgotamento para procurar justiça ou, ao menos, uma mínima resolução da tragédia e crime. Manchar tanto a honradez como os ideais dos homens com os quais trabalhava privava de sentido os vinte e cinco anos de seu passado e a sua fé nas forças que defendiam o futuro. Se a polícia carecia de integridade, em vez de justiça proporcionava vingança e não existia maneira de proteger-se dela, salvo a violência dos poderosos. Essa era a verdadeira anarquia. E o jovem presunçoso que tinha diante perderia tanto como tudo mais. Sobreviveria para colocar bombas só porque o resto da sociedade acatava as leis.

Pitt deixou que o desprezo alterasse sua voz quando respondeu:

— Se a polícia fosse essencialmente corrupta, você não estaria aqui nem submeteríamos a um interrogatório. Simplesmente o teríamos abatido. Depois teria sido fácil inventar uma desculpa. Teria bastado qualquer simples explicação! - Percebeu o tom áspero de sua voz e de que estava a ponto de explodir. — Está aqui e enfrentará um julgamento precisamente porque nos encarregamos de fazer cumprir as leis que você viola. É você o hipócrita e o corrupto. Não só nos mente, mas também a si mesmo!

A ira do Welling se desmandou.

— Com certeza seriam capazes de atirar em nós! - afirmou, inclinou-se ligeiramente, dobrou o corpo e quase se engasgou com uma gargalhada perversa. — E provavelmente o farão, do mesmo modo que abateram ao Magnus!

Pitt observou ao detido e, sobressaltado e com crescente horror, deu-se conta de que Welling estava realmente assustado. Suas palavras não eram fanfarronadas. Acreditava no que dizia. Estava convencido de que em delegacia de polícia o assassinariam.

Voltou-se para olhar ao Narraway e durante uns segundos viu o mesmo desconcerto, que não demorou a esfumar-se. A expressão do Narraway recuperou sua cólera impessoal. Arqueou as sobrancelhas e precisou com supremo cuidado:

— Em Magnus Landsborough dispararam por detrás. Desabou para frente, com a cabeça em direção à janela.

— Não atiraram nele de fora - insistiu Welling. — Foi um membro da polícia, que subiu pela parte traseira. Como já disse, a polícia é tão corrupta como o próprio demônio.

— Essa sim que é uma acusação em toda regra, mas você não nos dá provas - atravessou Pitt. — Além disso, essa morte aconteceu posteriormente, pelo que não acredito que o motivo seja o mesmo que o das bombas do Myrdle Street. Seja dito de passagem, por que escolheram Myrdle Street? O que lhe fizeram seus habitantes? Ou acaso dá na mesma de quem se trate?

— Claro que não tenho provas de corrupção - apostilou Welling com amargura e voltou a endireitar o corpo. — As abafarão como têm feito com todo o resto. Sabe perfeitamente por que Myrdle Street.

— O que significa todo o resto? - inquiriu Narraway.

O chefe da Brigada Especial permanecia em pé, apoiado na parede e com seu magro corpo em tensão. Não era corpulento. Sua estatura era menor que a do Pitt e parecia muito mais ligeiro, embora fosse musculoso.

Welling refletiu antes de responder. Pareceu sopesar os prós e os contra de fazer uso da palavra. Quando por fim falou, deu a impressão de estar dominado pela ira mais que pela razão:

— Depende de onde está e de quem é o comprometido. Refiro aos delitos pelos quais fica alguém atrás das grades e aqueles que passam por cima, desde que se entrega um pouco de dinheiro onde corresponde. - Passeou o olhar de um a outro. — Se dirigir um grupo de ladrões e entregas uma parte dos lucros à delegacia de polícia local ninguém o incomoda. Se possui uma loja ou um negócio em determinados lugares, não lhe roubam. Se os tiver em outra parte o depenam.

O olhar do Welling era ardente e colérico e seu corpo estava rígido. A acusação que acabava de lançar era terrível e de assustadoras repercussões.

— Quem o disse? - perguntou Narraway.

Com isso cortou de plano as perguntas que se acumulavam na mente do Pitt, e que lhe eram muito dolorosas para as expressar com facilidade.

— Quem me disse isso? - replicou Welling. — Os pobres desgraçados que pagam, quem me ia dizer isso? Já sabia que não me acreditaria. Como tem interesses criados prefere não me acreditar. Pergunte no Smithfield, no Clerkenwell Road e, para o sul, no Newgate ou Holbom. As ruelas e os becos estão cheios de pessoas que lhe dirão o mesmo. Não mencionarei seus nomes porque se verão obrigadas a pagar o dobro ou de repente a polícia achará mercadoria roubada em suas moradias.

A expressão do Narraway refletia total incredulidade. Pitt não soube se era real ou se se tratava de uma máscara que se pôs para provocar ao Welling a fim de que continuasse falando, revelasse quanto sabia e demonstrasse suas acusações.

Embora seja possível que se desse conta, Welling estava muito contrariado para morder a língua:

— Vá e pergunte ao Birdie Waters, de Mele End Road! Só, que pena, precisamente agora está no cárcere do Coldbath. Cumpre condenação por receptador. A única desculpa é que não sabia que tinha os objetos roubados. Em sua casa apareceram artigos de prata de um roubo cometido em Belgrave. - Sua voz se tornou dissonante como resultado da ira. - Birdie não pisou em Belgrave em sua vida.

— Está dizendo que a polícia os colocou em sua casa? - Pitt interrompeu o que fosse que Narraway pretendia dizer.

— Só é um caso entre muitos - replicou Welling. — Às pessoas boas e decentes roubam, ferem, assustam-nas para que renuncie à sua honra e a seus negócios e a polícia se limita a olhar para onde mais lhe convém. - Sentia-se tão impotente que estava à beira das lágrimas. — O governo quer nos expulsar, nos destruir e tergiversar tudo até que já não fique nada pelo que lutar. É necessário fazer tabela rasa e começar de novo. - Sacudiu energicamente a cabeça; tinha os músculos do pescoço e dos ombros duros. — Tem que se acabar com todos, com os ambiciosos, os mentirosos, os corruptos - de repente se deteve e afundou o corpo como se o ânimo o tivesse abandonado. Voltou-se para outro lado. — Mas vocês fazem parte do governo, da polícia - acrescentou com desesperança. — Tudo o que querem, o dinheiro e o poder, são ferramentas para manter as coisas como estão. Saibam ou não, fazem parte disso. Não podem dar-se o luxo de escapar! - Lançou uma gargalhada aterradora. — Aonde iriam?

Welling manteve o queixo alto e o olhar chamejante, embora sem esperar resposta.

A mente de Pitt tinha adquirido uma velocidade vertiginosa. Muitas das ruas que Welling tinha mencionado correspondiam à zona do Bow Street, vigiada por policiais de sua antiga delegacia de polícia, homens com os quais tinha trabalhado e que tinham estado sob seu comando. Agora estava a cargo do inspetor Wetron, que pertencia à Metropolitana e ao Círculo Interior. Pitt se negou a acreditar que as coisas tivessem mudado tanto e tão negativamente em pouco mais de um ano. Sem dúvida o detido se equivocava.

Welling o observava com atenção; já tinha percebido a derrota de Pitt em sua expressão. Deixou escapar um risinho nervoso, como se quisesse impedir que sua fragilidade ficasse à vista.

— Custa-lhe acreditar, verdade? - inquiriu com tristeza.

— Por que escolheram Myrdle Street? - repetiu Pitt e retomou a pergunta que o detido ainda não tinha respondido. — Ali só vivem pessoas comuns.

O escárnio voltou a mudar a expressão do Welling.

— Policiais - pronunciou essa única palavra e esboçou uma careta de contrariedade.

— Policiais? - insistiu Pitt.

— Como se não soubesse!

— Não sei! Pertenço à Brigada Especial.

Welling piscou.

— A casa do meio é a do Grover. É o homem do Simbister! Refiro ao Cannon Street.

— E isso merece uma condenação à morte? - interveio Narraway em tom gélido.

Welling se mostrou desafiante; seu olhar estava cheio de ódio.

— Claro que sim! Se tivesse visto como avassalava e humilhava às pessoas, sim que a merece!

Narraway se endireitou e se afastou da parede.

— Senhor Welling, não pode ser juiz, jurado e carrasco. Adota-se direitos que não lhe correspondem.

— Pois faça algo! - gritou Welling. — Alguém tem que agir!

Narraway não lhe fez caso e se dirigiu ao Pitt:

— Comunicarei à lorde Landsborough a morte de seu filho. Será necessário que identifique o cadáver. - Sua voz soou firme, embora algo tensa. — Retorne ao Long Spoon Lane e examine tudo uma vez mais. Quero saber quem assassinou ao Magnus Landsborough e, se for possível, por que. Dá a sensação de que se trata de um ato gratuito. Embora também penso que, por definição, a anarquia é inútil.

— Vocês o assassinaram! - exclamou Welling. As lágrimas caíam por seu pálido rosto. —Era nosso chefe. Quando entenderão que se abaterem um dos nossos, outro se elevará e ocupará seu lugar? Ocorrerá uma e outra vez, tantas quantas forem necessárias. Não podem nos matar a todos. Porque, nesse caso, quem trabalhará? A quem governarão? -Sua voz tremia com a paixão da ironia. — O governo não existe a menos que haja alguém que corte a lenha e recolha a água, alguém que receba as ordens e as acate.

Narraway falou sem olhá-lo:

— Eu adoraria demonstrar ao senhor Welling que um dos seus é responsável pela morte de seu cabeça. Não atiramos nas pessoas de quem é necessário desfazer-se. Enforcamo-las.

Virou-se e abandonou o calabouço, deixando que Pitt decidisse se o seguia ou não.

Welling lhe olhou com os olhos ardentes por causa das lágrimas de impotência.

Narraway teve que realizar diversas averiguações e já era o meio da tarde quando subiu os degraus do Athenaeum, do 107 de Pall Mall, para falar com lorde Landsborough. Obviamente, era sócio, já que do contrário não o teriam deixado entrar, embora pertencesse à Brigada Especial.

— Sim, senhor - murmurou serenamente o lacaio, cujo tom de voz foi pouco mais que um sussurro. — Quer que informe a sua senhoria de que está aqui?

— Quero vê-lo em uma sala privada - precisou Narraway. — Infelizmente trago muito más notícias para sua senhoria. Ocupe-se de que na mesa haja bom conhaque e taças.

— Sim, senhor. Lamento-o, senhor.

O lacaio o conduziu pelo corredor até uma sala como a que tinha solicitado e se retirou. Dois minutos depois, outro lacaio se apresentou com uma bandeja de prata em que levava uma garrafa do Napoleão e duas taças delicadamente esculpidas.

Narraway permaneceu em pé no centro do tapete Aubusson e tentou organizar seus pensamentos. Achava-se no coração do lugar mais civilizado da Europa: um clube para cavalheiros, onde em todo tempo as maneiras eram impecáveis. Ninguém erguia o tom de voz. Ali podia se sentar e falar de arte e filosofia, de esportes ou de qualquer governo, dos limites do Império e de outros lugares, da história do mundo e sempre com um engenho profundo e uma inteligência disciplinada.

Entretanto, tinha ido para lhe comunicar a um homem que seu filho tinha sido assassinado durante um tiroteio com os anarquistas, a poucos quilômetros de distância.

Pitt teria completado a missão com mais eficácia. Afinal, já estava acostumado. Talvez, inclusive teria um discurso preparado que daria ao menos certo tom solene. Era pai. A imaginação poria eloqüência à sua compaixão. Narraway só podia esforçar-se por cumprir com seu encargo. Não tinha esposa, filhos, nem sequer irmãos menores. O trabalho lhe tinha ensinado a sobreviver solitário, inclusive mais do que o destino lhe tinha exigido. Vivia em sua mente, em seu cérebro brilhante, sutil e instintivo e se preocupava, mas nunca muito. Deliberadamente não tinha família que pudesse chantageá-lo.

Abriu-se a porta; Narraway se ergueu rigidamente e aspirou profundamente. Lorde Sheridan Landsborough entrou e fechou sem fazer ruído. Era um homem alto e um pouco curvado. Parecia ter superado os setenta anos; a expressão de seu rosto era irônica, mas gentil; em sua juventude devia ser bonito e ainda emanava um encanto e uma inteligência excepcionais.

— Senhor Narraway? - perguntou cortesmente.

Narraway inclinou a cabeça e fez uma ligeira inclinação de reconhecimento.

— Milord, não gostaria de tomar assento?

— Meu estimado amigo, não sou tão frágil! Ou acaso as notícias que o trazem por aqui são tão terríveis? - Uma sombra obscureceu seu olhar. Narraway notou que lhe subiam as cores ao rosto. Landsborough se deu conta. — Sinto muitíssimo - se desculpou. — Não pode ser de outra maneira. Não teria vindo você pessoalmente se se tratasse de um assunto sem importância. - Sentou-se, mais para agradar ao Narraway que porque o considerasse necessário. — O que ocorreu?

Narraway também tomou assento para livrar-se de olhá-lo.

— Esta manhã houve um atentado anarquista na zona de Mele End - explicou em tom baixo. — Nos avisaram e chegamos a tempo de localizar aos responsáveis. Seguimo-los até o Long Spoon Lane e invadimos a casa em que se refugiavam. Antes de tomá-la houve um breve tiroteio. Quando entramos encontramos dois anarquistas com vida e o cadáver de um terceiro, que tinha recebido um tiro. Ainda não sabemos quem o fez, embora o tiro não chegasse do exterior, mas se produziu dentro da casa. - Narraway olhou ao Landsborough no rosto e viu que este já sabia o que ia dizer lhe. Disse com grande seriedade: — Sinto. O anel de selo que levava, assim como as declarações de um dos homens que detivemos identifica-no como Magnus Landsborough.

É possível que, até certo ponto, Landsborough o esperasse, mas de qualquer maneira seu rosto adquiriu um tom quase cinza. Titubeou durante um longo e doloroso instante, lutou por dominar-se e respondeu:

— Compreendo. É muito amável de sua parte ter vindo pessoalmente. Suponho que quer que identifique a...

Lorde Landsborough não pôde continuar. Fechou-se a garganta e ofegou para introduzir ar nos pulmões.

Narraway se sentiu impotente. Acabava de infligir uma espantosa dor a outro ser humano e estava obrigado a seguir ali, sem sequer desviar o olhar, enquanto Landsborough fazia impetuosos esforços por manter a dignidade.

— A não ser que prefira enviar a um parente próximo - propôs, apesar de saber que o lorde não aceitaria, por muito que essa pessoa existisse.

Landsborough tentou sorrir, mas não o conseguiu. — Não. Não há ninguém mais que eu. - Lhe falhou a voz. Absteve-se de acrescentar que não o pediria a lady Landsborough; semelhante idéia nem sequer lhe cruzou pela cabeça.

Narraway gostaria de desculpar-se uma vez mais, mas se o fizesse Landsborough teria que lhe subtrair novamente importância. Aproveitou o momento para expor a dolorosa pergunta que era obrigado a fazer. Existia a remota possibilidade de que Magnus tivesse sido uma espécie de refém, embora Narraway tivesse suas dúvidas. Welling tinha afirmado que era o chefe e, apesar de sua ingenuidade e sua apaixonada fé em sua ideologia, inculta e unilateral, Narraway opinava que Welling dizia o que considerava que era a verdade.

— Milord, quais eram as idéias políticas do senhor Landsborough? - inquiriu. — Lhe agradecerei que me responda na medida do que sabe.

— Como diz? Ah, sim. - Landsborough refletiu uns instantes. Ao responder seu tom era mais suave, como se zombasse de si mesmo e do pranto. — Temo que seguiu parte de meus ideais liberais, embora os levou muito longe. Se tenta me perguntar com tato se estou informado de que tinha abraçado meios de ação violentos, a resposta é que o desconheço. Talvez devesse ter suspeitado. Se fosse mais sensato, teria que ter feito algo para evitá-lo, embora não sei que medida poderia ter adotado.

Narraway se sentiu invadido por uma compaixão inesperada. Se Landsborough tivesse destrambelhado contra o destino, a sociedade e inclusive a Brigada Especial, provavelmente teria sido mais simples. Teria se defendido. Conhecia todos os motivos e as argumentações para o que fazia, assim como a necessidade de fazê-lo. Acreditava realmente na maioria dessas razões e jamais tinha permitido que a opinião de outros lhe preocupasse. Não podia dar-se esse luxo. As feridas mudas e resignadas do homem que permanecia frente a ele o golpearam nos pontos onde a armadura não o protegia.

— Não podemos obrigar a outros a adotar nossas convicções - declarou serenamente. — E não devemos fazê-lo. Os que se rebelam são sempre os jovens. Sem eles mal haveria mudanças.

— Obrigado - murmurou Landsborough. Pigarreou várias vezes e demorou uns segundos em recuperar o domínio. — Magnus era um apaixonado defensor da liberdade individual que, em sua opinião, estava muito mais ameaçada do que eu achava. Também devo reconhecer que vi muito mais vezes que ele como mudam as correntes de opinião. Os jovens são terrivelmente impacientes.

Lorde Landsborough ficou em pé rigidamente, para o que teve que apoiar-se nos braços da cadeira. Parecia uma década mais velho que quando tinha tomado assento, menos de dez minutos antes.

Narraway soube que não havia resposta a essas palavras. Seguiu ao Landsborough, recolheram os chapéus de mãos do lacaio e saíram à escada de entrada, onde parecia que sempre havia um coche de cavalos à espera. Deu ao cocheiro o endereço do necrotério para onde tinham levado o cadáver e viajaram em silêncio. Não é que Narraway ficou sem palavras, mas sim tentava que Landsborough passasse por esse transe sem ter que ouvir inúteis cortesias.

Claro que em algum momento Narraway teria que lhe fazer certas perguntas a respeito de seu filho: companheiros, dinheiro, nomes, lugares que pudessem levá-lo a outros anarquistas; todas elas questões que, por muito dolorosas que fossem, devia abordar.

O necrotério cheirava a pedras molhadas, fenol e esse aroma inefável da morte que Narraway conhecia, embora talvez para o Landsborough fosse estranho. A maioria das pessoas morria em casa, e o quarto do doente, qualquer que fosse seu mau, nunca apresentava essa umidade enjoativa e esfregada até não poder mais. Esse edifício não estava destinado a seres vivos.

O encarregado os recebeu com uma máscara profissional de solenidade. Sabia como comportar-se ante uma dor entristecedora sem impor sua presença. Conduziu-os por um corredor até uma sala onde o corpo repousava sobre uma mesa. Estava coberto até a cabeça com um lençol.

Narraway recordou os destroços do rosto, pelo que se adiantou ao Landsborough e se interpôs entre este e a mesa. Levantou um lado do lençol e deixou descoberta a mão do finado. O anel de selo voltava a estar em seu lugar e bastaria para que lorde Landsborough identificasse o corpo.

— Está realmente tão desfigurado? - perguntou Landsborough com ligeira expressão de surpresa.

— Sim - respondeu Narraway e cravou o olhar na mão.

Landsborough a observou.

— Sim, é o anel de meu filho. Acredito que se trata de sua mão. De todo modo, eu gostaria de lhe ver o rosto.

— Milord… - Narraway esteve a ponto de protestar, mas mudou de idéia, já que estava atuando como um insensato. Se não se visse o rosto, a identificação era incompleta; fez-se a um lado.

— Obrigado. - Landsborough agradeceu aquele gesto. Levantou o lençol e olhou as feições em silêncio: um lado do rosto estava destroçado e o outro quase em paz.

Voltou a cobri-lo com o lençol. — É meu filho - confirmou em um sussurro. Tremeu-lhe a voz, como se tivesse querido dizer algo mais mas seu corpo não tivesse respondido. — Senhor Narraway, necessita-me para algo mais?

— Sinto muito, senhor, mas assim é. - Narraway se voltou, conduziu ao aristocrata pelo corredor, rapidamente agradeceu ao encarregado e saiu ao ar morno da rua. Enquanto o tráfego ressoava a seu lado, disse: — Os anarquistas tiveram que dispor de dinheiro para financiar as armas. Deviam pagar a dinamite. Se conseguirmos rastrear suas compras é possível que encontremos outros antes que voem mais lares - referiu-se deliberadamente à destruição e não fez caso da ligeira careta de dor que retesou o rosto do Landsborough. — É imprescindível que os encontremos - insistiu. — Precisamos saber quem eram os companheiros do senhor Landsborough e conhecer qualquer dado de seus movimentos dos últimos tempos.

— Sim, certamente - concordou Landsborough; piscou como se repentinamente a luz do sol fosse mais intensa que antes. — Lamento, mas não posso ajudá-lo. Magnus quase nunca estava em casa. Eu estava a par de suas convicções, embora deva reconhecer que não da intensidade destas, mas não conheço seus amigos. - Mordeu o lábio. — Quanto ao dinheiro, tinha uma modesta renda vitalícia, mas não era suficiente para comprar armas, mal dava para comer e vestir. Eu pagava o aluguel dos aposentos que ocupava perto do Gordon Square. Queria ser independente.

— Compreendo. - Narraway não soube se acreditava totalmente na resposta do Landsborough, embora teve a certeza de que, nesse momento, de nada serviria insistir.     —Teremos que revistar os aposentos do Gordon Square se por acaso deixou algo que possa nos conduzir a seus companheiros.

— Por certo. Pedirei a meu mordomo que lhe dê as chaves de meu jogo de chaves. -Landsborough endireitou os ombros. — Senhor Narraway, se isto for tudo eu gostaria de voltar para casa. Devo informar a minha esposa do ocorrido.

— É claro, senhor. Quer que vá até a esquina e chame um carruagem de aluguel? perguntou quase sem pensar; parecia-lhe o mais lógico.

Landsborough lhe agradeceu o trabalho que tomava e aguardou imóvel na calçada.

Pitt retornou ao Long Spoon Lane cheio de pressentimentos. Seguia vigiada pela polícia e um agente, que demorou uns segundos em reconhecê-lo e endireitar-se, cortou-lhe o passo.

Não o reprovou. A verdade é que Pitt não parecia um agente de polícia, e menos ainda de alto posto. Era alto e caminhava com a graça prática e desajeitada do homem de campo, acostumado a percorrer grandes distâncias entre brejos e bosques. Seu pai tinha sido guarda de caça de uma grande propriedade e de menino Pitt tinha percorrido com ele bosques e brejos. Inclusive então, várias décadas depois, estava acostumado a guardar nos bolsos objetos que em algum momento podiam ser úteis: lenços, pedaços de corda, moedas, lacre, uma caixa de fósforos, restos de lápis, papel, um par de caramelos redondos e duros, dois clipes, um limpador de pipas, meia dúzia de chaves e botões.

— Como se encontra o ferido? - quis saber.

— Ficará bem, senhor - assegurou o agente. — Perdeu um pouco de sangue, mas se curará. Teve sorte. Certamente quer falar com o sargento.

— Assim é. Também preciso entrar no edifício e ver a sala onde mataram ao jovem. Quem foi o primeiro a chegar à escada traseira?

— Não sei, senhor, mas o averiguarei. Quer entrar só ou prefere que alguém o acompanhe?

— Irei só.

— Bem, senhor.

Pitt atravessou os paralelepípedos do beco e franqueou a porta destroçada. Subiu a escada degrau a degrau. Só algumas horas antes tinha entrado nessa casa com o coração em um punho. Os tiros ainda ressoavam em seus ouvidos. Naquele momento lhe era estranhamente desolada, como se fizesse semanas que alguém tivesse estado ali. Não se devia tanto ao pó situado ou ao ar viciado das casas fechadas, mas à segurança de que quem quer que fosse que a tivesse deixado já não voltaria. Não havia pertences pessoais, nada íntimo ou de valor: unicamente uma garrafa quebrada, um pote de cacau sem tampa e um par de trapos muito desbotados para serem identificáveis.

Na sala principal do último piso a luz penetrava pelas janelas quebradas. O pó e a sujeira dos pedaços de vidro que permaneciam presos ao peitoril faziam que parecessem esmerilhados ou pintados. O sangue do atoleiro no qual Marcus Landsborough tinha jazido estava coagulado e pegajoso, mas tinha perdido a umidade. Viam-se manchas produzidas pelo traslado do cadáver. Pelo resto, tudo estava exatamente como quando Pitt o tinha visto pela primeira vez. A polícia e o legista tinham sido muito diligentes.

Pitt se agachou, observou o chão longa e atentamente e estudou o perfil do corpo feito com pisadas, o sangue seco e manchado e os rastros dos homens que tinham levantado algo pesado e difícil de manipular. Magnus tinha estado estendido no chão em toda sua extensão. Além de muitas coisas mais, Pitt levava uma fita métrica no bolso da jaqueta. Pegou-a e a estendeu de onde tinha estado a cabeça até a marca dos pés. Calculou que o homem tinha estado ligeiramente encolhido e chegou à conclusão de que superava o metro oitenta de estatura. Não era possível ser mais preciso.

Pelo que se convenceu absolutamente foi de que Magnus Landsborough se desabou para diante quando o disparo lhe entrou pela nuca. Ficava descartado que a bala proviesse da rua e lhe fizesse cair como o tinha feito. Se por acaso isso fosse pouco, o tiro tinha entrado pela parte posterior do crânio e tinha saído pela maçã do rosto esquerdo. A rua era estreita e se achava dois andares mais abaixo. Se procedesse dali, a trajetória do projétil teria esboçado um ângulo ascendente fechado, teria entrado pela nuca e saído pela sobrancelha. Para não falar de que Landsborough teria que ter estado em pé de frente à estadia e de costas ao tiroteio.

Cabia a possibilidade de que Welling dissesse a verdade e de que o primeiro agente que subiu pela escada traseira atirasse nele? Nesse caso, por que? Por ira? Por medo de que Landsborough tirasse uma arma e pudesse pô-lo em perigo? Não tinham encontrado nenhuma arma junto ao cadáver.

Pitt ouviu passos na escada e ao cabo de uns instantes um sargento de uniforme se deteve na soleira. Parecia vivaz, provavelmente se aproximava da dos trinta e seu comportamento era muito discreto.

— Meu nome é Linwood, senhor - se apresentou rigidamente. — Queria ver-me? - Pitt se endireitou.

— Assim é, sargento. Foi o primeiro em chegar a esta estadia quando se tomou a casa por assalto?

— Sim, senhor.

— Me descreva exatamente o que viu.

Linwood se concentrou e cravou o olhar no chão.

— Senhor, aqui havia três homens. Um estava em pé na esquina mais afastada e levava uma arma nos braços, um fuzil. Seu cabelo era avermelhado. Olhou-me no rosto, mas não me apontou. Suponho que então o carregador já estivesse vazio. Fizeram muitos disparos pela janela.

A julgar pela descrição se referia ao Carmody.

— Continue - solicitou Pitt.

— Havia um homem moreno, com a cabeleira muito cheia - demarcou Linwood e franziu as sobrancelhas em sinal de concentração. — Parecia bastante comocionado. Achava-se em pé justo ali. - Assinalou um ponto situado a menos de um metro do lugar onde estava Pitt.

— Junto ao corpo estendido no chão? - inquiriu Pitt, surpreso.

Linwood abriu desmesuradamente os olhos.

— Sim, senhor. Levava uma arma, mas é impossível que ele atirasse na vítima. As balas tiveram que sair dali. - Assinalou a porta do outro extremo da sala, a que dava à escada traseira, através da qual a polícia tinha chegado ao homem que disparou ao Landsborough e que supostamente tinha escapado.

— Havia alguém mais? - insistiu Pitt.

— O cadáver no chão - replicou Linwood.

— Tem certeza? Pode descrever qual era exatamente sua posição?

— Estava tal como você o achou, senhor. O tiro o matou no ato, voou os miolos desse pobre homem.

Pitt arqueou as sobrancelhas e perguntou:

— Disse pobre homem?

Linwood entreabriu os lábios.

— Senhor, compadeço-me de todo aquele a quem os seus lhe dão um tiro, sejam quais forem seus ideais. A traição me revolve o estômago.

— A mim também - concordou Pitt. — Tem certeza de que foi assim?

— Senhor, parece-me que não pôde ser de outra forma. - Linwood o olhou diretamente nos olhos. — Ouvi um disparo quando me achava ao pé da escada. Pergunte ao Patterson, que ia atrás de mim, e ao Gibbons, que ia atrás dele.

— Welling e Carmody se achavam onde disse?

— Sim, portanto um dos dois atirou nele e o outro mente para protegê-lo, ou o abateu um dos que escaparam - respondeu Linwood. — O olhe como olhe, foi um dos seus.

— Isso parece - reconheceu Pitt a contragosto. — Welling afirma que fomos nós.

— Está mentindo.

— Não se referiu a alguém de uniforme.

— Senhor, todos íamos de uniforme - demarcou Linwood com rigidez. — Os únicos a paisana eram você e o chefe da Brigada Especial.

— Não acredito que Welling tenha mentido - comentou Pitt, reflexivo. — Diria que foi alguém a quem não conhecia ou a quem não reconheceu.

— Mas não deixa de ser um dos seus. - O rosto do sargento estava rígido e a cólera lhe afiava a língua. — Atiraram nele pelas costas.

— Já sei. Dá a impressão de que a anarquia é um problema mais sério do que supúnhamos. Obrigado, sargento.

— Não mereço, senhor. É tudo?

Linwood se endireitou mais ou menos, pois considerava que os membros da Brigada Especial não eram autênticos policiais.

— De momento, sim - respondeu Pitt.

Linwood se retirou e Pitt permaneceu na estadia imaginando o desenvolvimento dos acontecimentos. Ele subiu a escada atrás de Narraway e de três agentes. Tinha subido um andar quando ouviu o disparo no andar superior e, logo a seguir, os gritos.

Ao chegar à sala, segundos depois que os agentes, estes se achavam a um lado dos pistoleiros. A porta situada ao outro extremo ainda batia. Alguém acabava de atravessá-la. Ninguém afirmou ter visto quem fugia, pelo que sem dúvida tinha saído quando o primeiro agente entrou na parte da frente da sala.

Welling e Carmody se negavam a dar nomes, mas insistiam em que a polícia tinha disparado ao Magnus Landsborough. Dadas a trajetória da bala e a posição do Landsborough, o tiro tinha que proceder da porta que dava à escada traseira. Aparentemente, o homem tinha escapado por ali; Welling e Carmody supuseram que era policial e os agentes apostados na parte traseira o confundiram com um dos efetivos da Brigada Especial que se achava na parte dianteira e pisava nos calcanhares do anarquista. Sem dúvida tinha passado por seu lado e o tinham deixado escapar!

A mecânica do ocorrido começava a fazer sentido.

Os policiais postados na parte traseira tinham sido descuidados e tinham deixado passar um homem ao menos ou talvez a mais, ou eram corruptos e o tinham deixado escapar de propósito?

Quem tinha atirado em Landsborough detrás da porta e deslocado escada abaixo fingindo que era polícia? Tinha aproveitado a oportunidade que lhe ofereceu repentinamente o destino ou aguardou no edifício do Long Spoon Lane, pois sabia que, depois da explosão, os que tinham colocado a bomba retornariam?

Por que? Tratava-se de rivalidades internas, de uma célula que se opunha a outra? Era um conflito de ideais, uma guerra territorial ou a luta pela direção no seio do grupo? Ou se tratava de algo totalmente diferente?

Pitt cruzou lentamente a sala e franqueou a porta que conduzia à escada traseira, pela qual o assassino teve que abandonar o edifício. Uma vez na rua topou com outro agente que tampouco lhe deu informação nova.

 

Pitt fechou a porta sem fazer ruído, tirou as botas e caminhou pelo corredor para as luzes, os sons e as risadas da cozinha. Eram quase as oito e, apesar da tarde ser agradável tiritava de esgotamento, não tanto físico quanto mental.

Abriu a porta e se deixou rodear pelo aroma quente a pasteizinhos e verduras e pelo aroma seco e delicado da roupa limpa colocada no varal para que arejasse.

A luz de gás iluminava a baixela com rebordo azul do aparador e a superfície clara e esfregada da mesa de madeira.

Charlotte se voltou e sorriu. Ainda levava o cabelo recolhido, mas algumas mechas se soltavam; protegia a ampla saia com um avental.

— Thomas! - aproximou-se rapidamente de seu marido, mas ao lhe ver a expressão franziu o cenho. — Encontra-se bem? Puseram uma bomba! O que aconteceu?

— Sim, estou bem, mas cansado - respondeu. — A explosão não feriu a ninguém. Durante o assédio um policial recebeu um tiro, mas só se trata de uma ferida superficial.

Charlotte lhe deu um rápido beijo na face, afastou-se e perguntou preocupada:

— Comeu algo?

— Não - reconheceu; afastou da mesa uma das cadeiras de espaldar rígido e tomou assento. — Por volta das três comi um sanduíche de presunto de York. Na realidade, não tenho fome.

— Bombas! - exclamou Gracie, e deixou escapar um grunhido de desgosto. — Não sei aonde iremos parar! Deveríamos colocar a todos nas rodas de castigo do Coldbath Fields! - ficou de costas ao fogão e observou ao Pitt com possessiva desaprovação. Era muito mais que uma criada e manifestava apaixonadamente sua lealdade. — Vamos, um pedaço de bolo de maçã não lhe virá nada mal. E também o creme espesso com manteiga. Pode colocar a colher, mantém-se em pé. Sem esperar resposta, Gracie se dirigiu à despensa e abriu de par e par as portas de batente.

Charlotte sorriu a seu marido e tirou da gaveta uma colher e um garfo limpos. Nesse momento, Jemima, de onze anos, desceu correndo a escada e avançou pelo corredor.

— Papai! - jogou-se nos braços do Pitt e o abraçou, entusiasmada. — O que aconteceu no East End? Gracie diz que deve-se matar a todos os anarquistas. É certo?

Pitt a estreitou com força e a soltou quando Jemima recuperou a dignidade e se afastou.

— Não disse que devia enviá-los às rodas de castigo?

— O que é uma roda de castigo? - perguntou Jemima.

— Um mecanismo que dá voltas continuamente, mas tem que seguir caminhando porque, do contrário, perde o equilíbrio e lhe faz mal.

— E para que serve?

— Para nada, é uma forma de castigo.

— Para os anarquistas?

Gracie retornou com uma generosa porção de bolo de maçã e uma jarrinha de nata e as depositou sobre a mesa.

— Obrigado - disse Pitt, e se serviu. É possível que, depois de tudo, estivesse faminto. Além disso, se comesse elas se alegrariam. Respondeu à pergunta da Jemima:

— Para todos os que estão no cárcere.

— Os anarquistas são maus? - quis saber a menina e se sentou ao outro lado da mesa.

— Sim - respondeu Gracie, já que Pitt tinha a boca cheia. — Claro que o são. Explodem casas e destroçam objetos. Odeiam às pessoas que se esforçaram e conseguiram coisas. Querem estragar tudo o que não lhes pertence. - Encheu a chaleira e a pôs a esquentar.

— Por que? - insistiu Jemima. — Que tolice!

— Geralmente porque se fizessem outras coisas ninguém lhes faria caso - respondeu Charlotte a sua filha. — Onde está Daniel?

— Fazendo os deveres - respondeu Jemima. — Eu já terminei. Destruir coisas faz que a pessoas te prestem atenção? Mandariam-me à cama sem jantar. - Olhou esperançosa o bolo de maçã.

Charlotte teve que fazer um esforço para dissimular um sorriso. Pitt o viu em seu olhar e virou o rosto. O calor da cozinha começou a acalmar a dor de seu interior; a violência se retirou de seus pensamentos e passou a ocupar um lugar sombrio além das paredes. A massa do bolo era rangente e ainda conservava parte do calor do fogão, o creme era espesso e suave.

— No seu caso seria assim - confirmou Charlotte a Jemima. — Mas se estivesse convencida de que algo é injusto se zangaria muitíssimo e talvez não guardaria silêncio nem faria caso do que lhe dizem.

Jemima olhou ao Pitt sem entender.

— Papai, por isso causaram destruição? Há algo injusto?

— Não sei - respondeu Pitt. — De todo modo, pôr bombas nas casas não é a solução.

— Claro que não! - exclamou Gracie com energia e ficou nas pontas dos pés para agarrar a caixa de chá da prateleira. — Se algo vai mal, contamos com a polícia e com leis para endireitá-lo e a maioria das vezes resolve. Somar outra ofensa não serve de nada e é mau.

Gracie, pequena e com seus ombros quadrados, manteve-se de costas aos outros. Tirou a tampa da caixa do chá com um movimento brusco. Criara-se nos bairros pobres; mendigava e roubava para sobreviver. Não obstante, naquele tempo já era respeitável e não estava disposta a ceder a ninguém o império da lei.

Charlotte, que era de bom berço e tinha sido educada para converter-se em uma dama, antes de ser bastante decidida para apaixonar-se por um policial, podia dar-se ao luxo de ter uma perspectiva mais liberal.

— Gracie está certa - explicou amavelmente a sua filha. — Não pode fazer mal a inocentes como forma de se expressar. É ruim, por mais desesperada que se ache estar. E agora sobe e deixa seu pai jantar em paz.

— Mas mamãe... - começou a protestar Jemima.

— Nesta casa não permitimos a anarquia - a interrompeu Charlotte. — Disse para cima!

Jemima fechou a cara, abraçou ao Pitt e o beijou. Logo que cruzou a porta se ouviram suas ligeiras pegadas pelo corredor.

Gracie esquentou o bule e preparou a infusão.

Pitt comeu até a última migalha do bolo de maçã, ajeitou-se e permitiu por um momento deixar-se levar pela luz e calor.

 

Pitt partiu à primeira hora da manhã e Charlotte se sentou para tomar o café da manhã sozinha e ler os jornais. Em todos eles se mencionava o atentado com bomba no Myrdle Street, embora com diversos graus de dureza. Alguns mostravam uma profunda compaixão pelas famílias que tinham perdido seus lares e incluíam imagens de pessoas assustadas, desconcertadas, apinhadas e com o olhar perdido por causa da comoção.

Outros jornais se manifestavam com maior cólera e reclamavam que os criminosos capazes de causar semelhante devastação fossem castigados. Criticavam à polícia e mais, se couber à Brigada Especial. Como era previsível, faziam muitas especulações a respeito dos responsáveis e de seus fins, e expunham se no futuro se produziriam atrocidades do mesmo tipo.

Mencionavam o assédio ao Long Spoon Lane e a detenção de dois anarquistas. Também se perguntavam amargamente as razões pelas quais seus companheiros continuavam em liberdade.

Choravam a morte do Magnus Landsborough de diversas maneiras. O Time se mostrava discreto, referia-se sobre tudo à distinguida trajetória de lorde Landsborough como membro liberal da Câmara dos Lordes e manifestava seu pesar tanto a ele como a sua família pela perda de seu único filho. Mal expunha o que fazia no Long Spoon Lane, embora não excluía a possibilidade de que o tivessem tomado como refém.

Outras publicações eram menos compreensivas. Partiam do suposto de que era um dos anarquistas e de que tinha tido a má sorte de converter-se na única vítima do tiroteio com o que acabou o assédio. Também mencionavam à polícia ferido e elogiavam seu valor.

O último jornal que leu foi o que perturbou ao Charlotte. Estava dirigido pelo muito respeitado e influente Edward Denoon, que tinha escrito pessoalmente o editorial. Charlotte o leu com uma crescente sensação de inquietação:

 

“Ontem pela manhã, enquanto se preparavam para outra jornada trabalhista, a polícia interrompeu o magro café da manhã dos residentes no Myrdle Street para lhes comunicar que os terroristas anarquistas estavam a ponto de dar um golpe. Os anciões saíram à rua arrastando os pés e as mulheres, com crianças assustadas e seguras a suas saias, agarraram uns poucos pertences e fugiram.

Poucos minutos depois, a desmantelada fileira de casas ardeu. Tijolos e telhas de ardósia voaram como projéteis, romperam os vidros das janelas e atravessaram os telhados dos vizinhos de várias ruas ao redor. A fumaça negra encheu o ar matinal e a destruição e o terror afetaram a montões de pessoas comuns, ao mesmo tempo em que estragavam os lares, vidas e paz que os cidadãos da Inglaterra têm direito a esperar.

Os responsáveis foram perseguidos, acossados e abandonados em uma casa de cômodos do Long Spoon Lane. A polícia os assediou e se produziu um tiroteio durante o qual o agente Field, de vinte e dois anos e vizinho de Mele End, ficou ferido, embora fosse resgatado da morte graças ao valor de seus companheiros.

Magnus Landsborough, único filho de lorde Sheridan Landsborough, não teve a mesma sorte. Seu cadáver apareceu em uma sala do andar superior. De momento não se sabe que fazia ali, se o tinham tomado como refém ou se estava voluntariamente com os anarquistas.

Devemos nos perguntar que classe de bárbaros são quem comete semelhantes atrocidades. Quem são e a que propósitos respondem? Acaso têm a intenção de nos aterrorizar e nos submeter a um domínio espantoso ao que por outras vias não nos entregaríamos? Acaso este ato de violência procede do estrangeiro e é a primeira onda para conquistar nosso país?

Este jornal considera que não é assim. Estamos em paz com nossos vizinhos próximos e longínquos. Por muito discreta que seja, não há informação que implique outras nações. Tememos que se trate de um ideal político de natureza tão retorcida que os homens seriam capazes de impô-lo destruindo tudo aquilo pelo qual nos esforçamos ao longo de séculos de crescimento e trabalho, através das artes e ciências civilizadoras e dos inventos que melhoram a comodidade e o bem-estar da humanidade. Guardam a esperança de construir sua própria ordem, tal como consideram que deve ser, sobre as cinzas de nossas vidas. Chamem-se socialistas, anarquistas ou o que queiram, o certo é que são selvagens, criminosos a quem é necessário perseguir, deter, julgar e enforcar. É o que diz a lei, que está para nos proteger a todos, tanto aos fortes como aos fracos, aos ricos e aos pobres.

Esses loucos que querem destruir nossas vidas são poderosos e deve se dizer que estão armados até os dentes. Também é imprescindível que o esteja nossa polícia, os soldados do exército civil que nos defendem. São eles os que arriscam sua vida e às vezes a perdem para formar o escudo que se interpõe entre nós e o caos da violência e anarquia. Não podemos permitir que se dirijam ao campo de batalha sem armas; tentá-lo seria moralmente injustificável.

Agora, não só devemos lhes proporcionar o armamento adequado, mas também legislar para que disponham das ferramentas legais que necessitam a fim de procurar em nosso seio aos maus e aos loucos que desejam nossa destruição. A lei exige a prova do delito e assim deve ser. Nisso consiste a defesa dos inocentes. Entretanto, o policial a quem impedem de revistar uma pessoa ou propriedade de alguém de quem suspeita que têm intenções criminosas, só pode aguardar impotente até que o ato se comete e então vingar à vítima. Necessitamos algo mais. Como merecemos isso, devemos contar com a prevenção do delito antes que se produza.”

 

Charlotte deixou o jornal sobre a mesa e, com grande inquietação, olhou para o outro lado da cozinha.

Gracie retornou da parte traseira e a observou.

— O que se passou? - perguntou angustiada. — Aconteceu algo ruim? - Quando tinha começado a trabalhar para Charlotte, Gracie não sabia ler nem escrever, mas naquela época, com sua ajuda, o fazia bastante bem. Tinha adquirido o costume de ler ao menos dois artigos do jornal todo dia. Lançou um olhar cético ao diário do Denoon e ao chá que esfriara na xícara de Charlotte e perguntou com incredulidade:

— Houve outro atentado?

— Não - se apressou a responder Charlotte. — O diretor pede que se arme à polícia e defende o direito a revistar as casas.

Gracie deixou as verduras no escorregador da pia.

— Vejamos, se a pessoa tiver bombas e armas, a polícia não pode lutar contra ela com paus - afirmou sensatamente, e em seguida franziu o cenho. — Claro que eu não gostaria de saber que o senhor Pitt leva uma arma. Não se pode ter em casa, não são seguras! - Seu tom de voz descendente pôs manifesto o rechaço que lhe produzia essa idéia. — Por que há pessoas que sempre criam problemas?

— Em geral geral unicamente os problemas nos impulsionam a mudar as coisas - respondeu Charlotte. O que lhe dizia era certo, mas não respondia à pergunta de Gracie, assim prosseguiu: — Se alguém atira lixo em nossa rua ou faz ruído a altas horas da noite e não nos queixamos, seguirá fazendo-o.

Charlotte sorriu ao ver que a cólera acendia o olhar de Gracie. Tinha escolhido deliberadamente o tema do lixo. Gracie se deu conta e sorriu; pouco depois sua atitude risonha se esfumou e ficou muito séria.

— Mas se eu saísse e desse um tiro a quem deixa lixo na rua me meteriam no cárcere e acredito que fariam o correto. Posso dizer claramente o que penso de alguém sem tocá-lo. - Um sorriso triunfal voltou a mudar sua expressão. — E lhe asseguro que não voltaria a fazê-lo!

— É claro - concordou Charlotte. — O anarquismo está equivocado e é absurdo, mas não estou segura de que a solução consista em armar à polícia. Pelo que estou convencida é de que conseguiremos que todos se encolerizem e se sintam menos dispostos a ajudar se lhes damos mais poder para entrar nas casas em busca de provas sem ter sólidos motivos para acreditar que há algo.

— É o que opina o senhor Pitt? - inquiriu Gracie e as dúvidas escureceram seu olhar.

— Na realidade, estava muito cansado para manifestar sua opinião - reconheceu Charlotte. — Além disso, ainda não leu este artigo. De todo modo, acredito que é o que dirá.

Lady Vespasia Cumming-Gould estava sentada ante a mesa do café da manhã com o mesmo jornal; também experimentou sentimentos de angústia, mas a sua tinha que ver com outros aspectos da tragédia. O nome de lorde Landsborough chamou imediatamente sua atenção e voltaram doces e intensas lembranças do passado. Conheceram-se mais de quarenta anos antes em uma recepção celebrada no palácio do Buckingham. Ambos tinham dez ou doze anos de matrimônio, tinham inquietações e estavam bastante fartos do mesmo círculo social, das mesmas fofocas e das mesmas opiniões de sempre.

Naquela época, Landsborough era um idealista que acreditava na honradez inata dos seres humanos e estava seguro de que se conseguiria um grande bem se nas mãos deles recaíam mais decisões, se tinham mais liberdade para escolher seu próprio destino. Era um homem elegante; tinha arte para vestir bem e possuía um encanto que ocultava uma sensibilidade que não estava disposto a mostrar ante a maioria das pessoas.

Cordelia, sua esposa, era uma beleza morena, ambiciosa e, na opinião de Vespasia, fria como gelo. Não por outra coisa, ambas as mulheres antipatizaram instantaneamente embora o tenham escondido com gélidos bons desejos e a mais estrita cortesia. Nenhuma delas tinha cometido jamais um engano social nem se tinham pilhado sem estar perfeitamente vestidas, com as jóias brilhando e a cabeleira em seu lugar.

Por sua parte, Vespasia não se sentia incômoda em seu matrimônio, apesar de seu marido não ser o amor de sua vida. Casara-se em Roma com Mario Corena, patriota e herói italiano da revolução de 1848. Compartilhar a felicidade foi impossível por razões que nenhum dos dois chegou a saber, mas Vespasia jamais esqueceu seu idealismo, seu valor, seu sacrifício e a trepidante vida de esperanças que compartilharam.

No ano anterior se voltaram a ver fugazmente quando Mario entregou sua vida para fazer fracassar a conspiração do Charles Voisey que pretendia derrubar a monarquia britânica. Tinha sido uma decisão formosa, mas terrível. Vespasia pôde vingar-se do Voisey, mas a um preço que jamais esqueceria.

Muitíssimos anos atrás, quando o conheceu, sentiu-se atraída pelo delicado humor e o peculiar retorcido radicalismo do Sheridan Landsborough. Tinha manifestado moderação, tolerância e uma confiança quase inocente na honradez. O engenho e a régia e solitária beleza da Vespasia tinham despertado algo no político. Cordelia lhe tinha impressionado, mas Vespasia tinha conseguido que em todas as cortes da Europa se voltassem para olhá-la e tinha destroçado milhares de corações. Possuía paixão, inteligência e vontade para atrever-se a tudo.

Naquele momento tomava o café da manhã sozinha, iluminada pelo sol de primeira hora e ao ler que Sheridan tinha perdido a seu único filho sentiu uma profunda tristeza. Os anos transcorridos desde o último encontro se esfumaram e até a aversão que sentia pela Cordelia perdeu importância. Decidiu escrever ao aristocrata para lhe dar os pêsames Entretanto, chegou à conclusão de que enviar a carta por correio não era o mais adequado e optou por levá-la em pessoa.

Ficou em pé e se aproximou da lareira, junto à qual pendia o sino, para chamar à criada. Acionou-o e esperou até que responderam.

   — Gwyneth, tenha a amabilidade de me preparar roupa de cor negra - pediu, mas mudou rapidamente de idéia. — Não, é excessivo; vestirei de cinza escuro. Diga a Charles que prepare a carruagem para sair às dez. Visitarei lorde e a lady Landsborough para lhes apresentar minhas condolências.

— Sinto muito, milady - murmurou Gwyneth. Não estava a par da notícia, pelo que desconhecia a que se referia Vespasia. — Lhe parece bem o traje de seda cinza e o chapéu com a pena negra de avestruz?

— Excelente. Obrigada. Escreverei uma carta e logo subirei.

— De acordo, milady.

Gwyneth se retirou e Vespasia cruzou o corredor até a saleta onde tinha sua escrivaninha.

Sempre era difícil saber o que se devia dizer nessas circunstâncias. No caso de Cordelia, bastaria uma expressão simplesmente formal, mas no de Sheridan, a quem tinha conhecido tanto, seria enrijecido, ridículo e até certo ponto pior que nada.

Sentou-se ante a escrivaninha, sob a luz fresca e esverdeada. As folhas filtravam o sol que brilhava ao outro lado das cortinas. Os narcisos primaveris já secaram e ainda era muito cedo para as cores intensas do verão.

 

“Meus queridos Sheridan e Cordelia:

Inteirei-me de sua perda e estou angustiada pela dor que sem dúvida sentem. Eu gostaria de lhes oferecer ajuda, palavras de consolo e certezas, mas sei que não há mais solução que agüentar a dor. Rogo-vos que, se a confiança e a amizade podem lhes proporcionar algo que mereça a pena, não duvidem em me chamar tão agora como no futuro. Estarei sempre a sua disposição.

Afetuosamente,

Vespasia Cumming-Gould”

 

Dobrou a folha, introduziu-a no envelope e o lacrou. Não releu o texto nem se perguntou se era elegante ou estava adequadamente escrito. Era sincero, a única coisa que estava disposta a tentar. Se pensasse como poderia interpretá-lo Cordelia, nunca enviaria nada.

Subiu a escada, vestiu o traje de seda cinza escuro e se observou no espelho.

— Milady, está muito bonita - afirmou Gwyneth a suas costas.

Tinha razão. Vespasia era alta e ainda conservava a esbelteza. As cores frias favoreciam suas feições aquilinas e sua pele clara e delicada. Como sempre, levava várias voltas de pérolas ao redor do pescoço, que se complementavam com sua cabeleira prateada. O corte do vestido era à última moda: apertado na cintura, com mangas amplas à altura dos ombros, costuras aos quadris, mas alongado a partir dos joelhos e até o chão. A jaqueta tinha as lapelas muito longas, na moda.

Gwyneth acomodou o chapéu sobre a cabeça de sua senhora e entregou as luvas de pelica cinza, mais suaves que o veludo. A pequena bolsa, também de seda cinza, continha um lenço, alguns cartões de visita e a carta.

Vespasia lhe agradeceu, abandonou lentamente o quarto de vestir, cruzou o patamar e desceu a escada. O lacaio a esperava na entrada. Abriu a porta e a acompanhou até onde se achava Charles, junto à carruagem.

Foi um trajeto curto, já que só quinze minutos a afastavam da casa dos Landsborough no Stenhope Street, perto do Regent’s Park. Vespasia desceu e caminhou até a porta, com a carta na mão. Abriram ao fim de uns segundos e o mordomo entrado em anos a olhou com amável curiosidade. Reconheceu o brasão da portinhola da carruagem e a saudou por seu nome.

— Bom dia - respondeu Vespasia. — Estou certa de que a família não recebe visitas, mas preferia entregar a carta em mão em lugar de enviá-la por correio. Terá a amabilidade de transmitir meus mais sentidos pêsames a lorde e lady Landsborough?

— É claro, milady. - O mordomo estendeu a bandeja de prata, em que Vespasia depositou o envelope. — Muito obrigado. É muito amável por sua parte acudir pessoalmente. Se quer entrar, entregarei sua carta a lady Landsborough. Talvez deseje agradecer-lhe.

O mordomo retrocedeu uns passos.

— Não quero incomodá-la - demarcou Vespasia e permaneceu na soleira.

— Milady, asseguro-lhe que não é um aborrecimento, mas se tiver outros compromissos...

— Absolutamente - afirmou francamente. — Só vim com este propósito.

Vespasia se deu conta de que negar-se a entrar seria uma descortesia, pelo que o seguiu. No vestíbulo tudo estava coberto com braçadeiras de luto negras. Tinham parado o relógio de caixa e voltado os espelhos de cara à parede. O mordomo a acompanhou até a saleta; a lareira não estava acesa. Sobre a mesa havia um vaso com flores brancas, espectrais por causa da penumbra que penetrava pelas persianas fechadas.

Só podia aguardar que o mordomo retornasse e lhe transmitisse o agradecimento de Cordelia, momento a partir do qual seria livre para ir-se. Não gostava de sentar-se; melhor dizendo, parecia-lhe incorreto, como se tivesse a intenção de ficar. Nessas circunstâncias ninguém ficava cômodo.

Olhou ociosamente a seu redor e tentou recordar se tudo estava igual a tantos anos atrás, quando era visitante habitual da casa. A estante já estava em seu lugar; dado o reflexo do cristal, os títulos eram ilegíveis. Também conhecia o quadro dos canais venezianos, pendurado em cima do suporte da lareira. Sempre tinha pensado que se tratava de um autêntico Canaletto, mas nunca teve a franqueza suficiente para perguntar. Custava-lhe imaginar que Sheridan Landsborough se conformasse com uma cópia.

A mansão estava muito tranqüila, como se a agitação habitual da limpeza e os recados se tivessem interrompido. Ouvia-se o repico dos cascos dos cavalos na rua.

Abriu-se a porta e Vespasia se voltou, preparada para ver o mordomo, mas foi Cordelia a quem viu. Mal tinha mudado desde a última vez que se viram, um par de anos antes. Em sua cabeleira escura havia mais fios brancos, mas em mechas longas e bonitas; não era uma mescla de cores esvaídas. Os traços de Cordelia seguiam sendo bem definidos, embora seu queixo já não era tão firme e a pele do pescoço se enrugara, o que não podia dissimular seu vestido de gola alta. A comoção tinha mudado sua pele; como era previsível, vestia-se de negro da cabeça aos pés.

— Vespasia, agradeço-lhe que tenha vindo - afirmou e no ato estabeleceu uma familiaridade que durante anos não tinha existido entre ambas. — É em momentos como este que necessitamos dos amigos. - Passeou o olhar a seu redor. — Aqui faz frio. Por que não passamos ao gabinete? Dá ao jardim e é muito mais acolhedor.

Embora desse a Vespasia a oportunidade de desculpar-se, ir-se depois de semelhante amostra de amizade teria sido um desprezo imperdoável.

— Agradeço - aceitou Vespasia.

Cordelia a conduziu pelo corredor até uma sala muito mais cálida e agradável. Tinha os rastros do luto, mas a temperatura era mais agradável e a luz que penetrava através das cortinas meio corridas riscava desenhos brilhantes no tapete bordô e azul.

Vespasia espremeu os miolos refletindo por que Cordelia a tinha convidado a ficar. Nunca tinham sido amigas nem era uma mulher que mostrasse sua alegria ou sua angústia a outros.

Ocuparam sofás enormes e macios, colocados frente a frente, banhados pela luz piscante do sol. Cordelia rompeu o silêncio quando declarou com suma gravidade:

— Às vezes é necessária uma tragédia desta magnitude para compreender o que acontece. Vemos que as coisas se deterioram pouco a pouco, embora cada passo seja tão curto que mal o registramos. - Vespasia não tinha idéia a que se referia. Esperou pacientemente e adotou uma expressão de amável interesse. — Se há dez anos me houvessem dito que a polícia trocaria tiros com os anarquistas nas ruas de Londres, teria respondido que tinham perdido a razão. Certamente, teria pensado que pretendiam provocar alarme político e quase certamente que tinham motivos pessoais para tratar de assustar às pessoas. - Respirou fundo. — Pois bem, agora nos vemos obrigados a reconhecer que é a verdade. Em nossa sociedade há loucos empenhados em destruí-la e a polícia necessita todo nosso apoio, tanto moral como material.

Vespasia pensou em Pitt, a quem conhecia desde que seu sobrinho neto se casara com Emily, a irmã de Charlotte. Ao George tinham matado e Emily havia tornado a casar-se, mas a relação continuava e inclusive se reforçara.

— Sim, certamente - comentou. — Desempenha uma tarefa difícil e, freqüentemente, ingrata.

— E perigosa - replicou Cordelia. — Na refrega feriram à bala um agente jovem. Se não fosse pela valentia e a capacidade de reação de seus companheiros teria morrido sangrando em meio da rua.

— Assim é. - Vespasia o tinha lido em dois jornais. — Mas tudo aponta que se recuperará.

— Desta vez - particularizou Cordelia. — E o que ocorrerá no futuro? - Olhou a Vespasia nos olhos, com expressão séria e as costas rígidas como um pau.     — Necessitamos de mais policiais e melhor armados. Não podemos chateá-los com leis antiquadas que se elaboraram para uma época mais pacífica. Em Londres abunda toda classe de estrangeiros, homens com desmedidas idéias sobre a revolução, a anarquia e inclusive o socialismo. Para pôr em prática suas loucuras deixaram claro que destruirão o que temos e que querem nos aterrorizar para que acatemos sua vontade. - Tinha o olhar aceso pela dor e a cólera. — Não permitirei que ocorra enquanto o sangue corra por minhas veias! Apelarei a todas minhas influências para apoiar e ajudar à polícia a fim de que nos proteja tanto a nós como a tudo aquilo no que acreditam.

Cordelia observou atentamente a Vespasia.

Esta experimentou uma ligeira pontada de mal-estar. Foi tão tênue que não soube se se devia aos comentários da Cordelia ou à inconveniência de não expressar nada sobre sua verdadeira dor. Cordelia só tinha um filho e na véspera o tinham assassinado. Vespasia tinha vários filhos, que estavam vivos e bem. Já estavam casados e quase nunca os via, mas com todos mantinha uma carinhosa correspondência. Era absurdo sentir-se culpada por ter muito mais que essa mulher furiosa. Cordelia tentava fazer frente à dor convertendo-a em ira e em uma cruzada que ocuparia sua mente, consumiria suas energias e talvez suavizaria o fio descarnado de suas emoções graças ao esgotamento.

Se queria ser realmente sincera, Vespasia devia reconhecer que seu sentimento de culpa se relacionava, sobre tudo, com a ternura e a intensidade amistosa que tinha compartilhado com Sheridan Landsborough.

Cordelia continuava esperando uma resposta. Vespasia não estava convencida de que as forças policiais devessem ter mais armas, mas percebeu que não era o momento de dizê-lo.

— Estou certa de que, depois da tragédia, haverá muitas pessoas decididas a que nossa polícia conte com toda a ajuda que possamos lhe prestar - concordou.

Cordelia se obrigou a sorrir.

— Devemos nos ocupar de que assim seja. Deve-se introduzir algumas mudanças. Mal tive tempo de pensar nos detalhes, embora dirigirei todas minhas energias a esse fim. Não me cabe dúvida de que posso lhe pedir que apele a suas influências.

Cordelia supôs que a visitante estava de acordo e a escrutinou como se ainda esperasse uma resposta.

Vespasia respirou fundo, duvidando dos motivos de sua reticência. Sentia genuínas dúvidas políticas ou entrava em jogo sua velha aversão pela Cordelia? A segunda opção seria vergonhosa e notou que lhe ardiam as faces.

— É claro - afirmou muito rápido. — Devo reconhecer que eu tampouco tive tempo de pensar nisso, mas o farei. Trata-se de uma questão que corresponde a todos.

Cordelia se acomodou no sofá e estava a ponto de abordar outro tema de conversa quando o mordomo entrou e se deteve discretamente junto à porta.

— Porteous, o que lhe traz?

— Milady, os senhores Denoon estão aqui. Disse-lhes que milorde saiu e me pediram que lhe pergunte se deseja vê-los ou se prefere deixá-lo para melhor ocasião.

— Faça-os entrar - ordenou Cordelia e se voltou para a Vespasia. — Sem dúvida recorda que Enid é minha cunhada, embora agora que o penso me parece que não a tratou muito bem - encolheu ligeira e rigidamente os ombros. — Não gosta muito de vê-la. Sem dúvida se mostrará terrivelmente aflita. Sheridan e ela sempre estiveram muito próximos. Será uma situação difícil. Se preferir retirar-se compreenderei.

Suas palavras deixaram claro que a partida da Vespasia era aceitável, embora sua expressão transmitiu com toda clareza que preferia que ficasse.

Moralmente Vespasia não tinha opção e se limitou a aceitar, já que Porteous retornou em seguida, acompanhado de Enid Denoon e seu marido. Para falar a verdade, Vespasia a tinha esquecido, mas ao voltar a vê-la evocou o que, em outras circunstâncias, poderia ter sido uma amizade.

A semelhança de seu irmão, Enid era alta e esbelta, mas com os ombros mais quadrados e o porte rígido de uma mulher que ainda montava extraordinariamente bem a cavalo. Sua figura tinha superado o passar do tempo melhor que a da Cordelia. Nem sua cintura nem seus quadris se alongaram. O cabelo castanho claro tinha perdido grande parte da cor, mas seu rosto não tinha mudado muito: suas maçãs do rosto altas e seu nariz bem perfilado mantinham as linhas e sua pele mostrava um corado que muitas jovens teriam invejado.

A seu lado, Denoon era mais sombrio e pesado, com a cabeleira ainda cheia e quase negra e feições muito marcadas. Mais que bonito, era imponente.

A única coisa que Vespasia recordava dele era que não lhe agradava, provavelmente porque possuía uma estranha mescla de fina inteligência e uma incapacidade quase total de rir. Não captava o humor do absurdo, uma das coisas sensatas da vida, que ela adorava. Sem esse rasgo, o mundo da moda, a riqueza e o poder político teriam sido sufocantes. Enid estava irrevogavelmente casada, com certo grau de companheirismo mas sem paixão, e rir era a única alternativa a chorar. Quando o conheceu teve a sensação de que a seriedade do Denoon carecia de delicadeza e ternura.

Enid se mostrou muito surpreendida ao ver Vespasia, mas não lhe desagradou. Claro que, se lhe tivesse incomodado, era muito bem educada para manifestá-lo.

— Como vai, lady Vespasia? - perguntou Denoon depois das apresentações que fez Cordelia. — É muito amável de sua parte ter o trabalho de ir em pessoa em uma ocasião tão triste. - Denoon esteve a ponto de manifestar a surpresa que sua presença lhe tinha produzido.

— Igual a nós, lady Vespasia reconhece a necessidade de prestar todo nosso apoio à ação - interveio Cordelia. Observou com atenção ao Denoon mas nem sequer olhou de soslaio a Enid.

O olhar do Denoon se cruzou com o da Cordelia; havia uma estranha mescla de compreensão e emoção que Vespasia não conseguiu interpretar, embora sua intensidade persistisse em sua mente. O homem se virou e acrescentou em tom baixo:

— Parece-me muito perspicaz de sua parte, lady Vespasia. Certamente, vivemos tempos mais perigosos dos que, em minha opinião, supõem as pessoas. O caos cresce e ontem se produziu uma inflexão que para nós significa também uma trágica perda. Lamento-o imensamente. - O último comentário ia destinado, uma vez mais, a Cordelia.

— O rei Canudo era muito sábio - afirmou Enid sem dirigir-se a ninguém em concreto.

Cordelia piscou.

Vespasia observou surpreendida Enid e reparou em seu olhar perdido, penalizado e colérico.

Denoon se voltou irritado e observou furioso a sua esposa.

— Era um insensato! - replicou. — Todo o que acredita que pode mudar o rumo das coisas é um idiota! Falo figuradamente. Não é necessário aguardar algum movimento da terra ou da lua para modificar as tendências sociais nem descer os braços porque acontecem coisas que nós não gostamos. Somos donos de nosso destino! – Voltou a olhar a Cordelia, contrariado pela falta de compreensão de Enid.

Cordelia tentou tomar a palavra, mas Enid se adiantou.

— Canudo não pretendia mudar o rumo das coisas - contradisse a seu marido. — Só tentou demonstrar que nem sequer ele podia fazê-lo. O poder humano, incluído o dos reis, é limitado.

— Cai por seu peso! - exclamou Denoon tajantemente. — E não vem ao caso. Enid, não pretendo modificar a natureza, mas ajudar às pessoas que compreendam as leis da terra para nos defender da anarquia. É possível que já se sinta derrotada e que esteja disposta a se deixar arrastar. Não é meu caso. - Uma vez mais se voltou para a Cordelia.

— Não se trata da maré da anarquia, mas sim da mudança - o corrigiu Enid.

Nessa ocasião Denoon não fez conta, mas a cólera tingiu ligeiramente suas faces.

— Cordelia, apesar das aparências, viemos lhe dizer que estamos profundamente afligidos por sua perda. Se podemos fazer algo para consolá-la ou ajudá-la, aqui estamos e continuaremos estando. Rogo-lhe que me acredite, não são só palavras.

— Certamente que não! - disse Enid e de repente as emoções alteraram tanto sua voz que deu a sensação que lhe custava trabalho falar. — Cordelia sabe perfeitamente! -Dirigiu um olhar abrasador a sua cunhada, olhar que, mais que de pesar, parecia carregado de ódio.

Vespasia ficou de pedra até que recordou que para muitas pessoas a dor se entrelaça tanto com a cólera que se tornam inseparáveis.

Cordelia reagiu como se mal a tivesse ouvido. Seguiu olhando Denoon e manteve o sorriso rígido e gélido.

— Obrigada. É um momento no qual as famílias e os amigos se unem, ao menos aqueles que compartilham idéias afins e confrontam as tragédias e os perigos com valor e resolução. Agradeço-lhes, igual à Vespasia, que vejam as coisas como eu, e que compreendam que não é momento de entregar-se a sentimentos pessoais, por muito profundos que sejam, enquanto permitimos que a história nos ultrapasse.

Embora não excluísse explicitamente à Enid, Vespasia teve a firme suspeita de que era o que pretendia e que a cunhada da Cordelia era muito consciente disso.

Também teria gostado de tomar distância dessas opiniões. Denoon manifestou claramente que estava a favor de aumentar as competências da polícia para intervir na vida das pessoas quando se suspeitava que ia cometer um delito, inclusive antes de ter provas. Vespasia era bastante mais cautelosa; temia a possibilidade de que se cometessem abusos e lhe preocupava a reação pública.

Cordelia e Denoon seguiram falando. Mencionaram ao Tanqueray, propuseram um encontro e lembraram outras pessoas.

   Vespasia olhou a Enid Denoon que, ao parecer, nem sequer os escutava. Em repouso, seu rosto mostrava uma fragilidade que surpreendia, como se estivesse acostumada à dor. Sem dúvida não sabia o que revelava sua expressão porque, do contrário, teria se mostrado mais precavida, embora o certo é que nem Cordelia nem Denoon se dignaram olhá-la.

No corredor soaram passos. Ao cabo de uns segundos se abriu a porta. Todos se voltaram quando Sheridan Landsborough entrou. Vespasia esperava ver dor em seu rosto, mas se sobressaltou ao reparar no tom apergaminado de sua pele, nas faces afundadas e nas olheiras.

— Bom dia, Edward - disse friamente e se obrigou a sorrir. — Olá, Enid. - Mal olhou a sua esposa antes de voltar-se para a Vespasia. Abriu muito os olhos e suas faces recuperaram um pouco de cor. — Vespasia!

A mulher se aproximou um passo. Tinha preparado um discurso formal, mas esqueceu antes que chegasse a seus lábios.

— Lamento-o muitíssimo - disse em voz baixa. — Imagino que não pode ocorrer nada pior.

— Obrigado - murmurou Landsborough. — Agradeço-lhe que tenha vindo.

Quase sem saber o que fazia, Enid se aproximou de seu irmão. Em pé um ao lado do outro, a semelhança era sutil mas inegável, nem tanto por suas feições como pela forma da cabeça, o modo de permanecer em pé, certa graça lenta e desinteressada, tão inata que era impossível abandoná-la inclusive em um momento como esse.

Cordelia cravou o olhar em seu marido.

— Suponho que já está tudo organizado.

A expressão de Landsborough não se suavizou quando a olhou.

— É claro - replicou. — Não há nada que escolher nem decidir.

Seu tom não transmitiu emoções. Talvez esse férreo controle era o único que podia suportar. Se tivesse permitido, a presa de seus sentimentos se teria quebrado e provocado uma enchente. A dignidade se converteu em uma espécie de refúgio. Magnus era seu único filho. Vespasia pensou que, possivelmente, a distância entre ambos também era um amparo. Cada um poderia ter metido o dedo na ferida do outro.

Reparou na atmosfera carregada de eletricidade, como antes de uma tormenta, e se deu conta de que era demais. Dirigiu-se a Cordelia e disse ao mesmo tempo que fazia uma ligeira inclinação de cabeça:

— Agradeço-lhe que me tenha recebido. Foi extremamente amável de sua parte.

Cordelia não fez o menor gesto de acompanhá-la à porta.

— Sua ajuda é de um incalculável valor. Agora devemos lutar mais que nunca por nossas convicções. - Respirou fundo e seus olhos escuros acentuaram a extremada palidez de sua pele. — É uma amiga de verdade.

Vespasia não estava de acordo. Cordelia sabia tão claramente como ela que eram algo menos amigas.

— Não podia agir de outra maneira - murmurou e reparou na ironia de suas palavras.

Sheridan se voltou para Vespasia.

— Permite-me que peça sua carruagem? - perguntou e se estirou para acionar o puxador do sino.

— Obrigada - aceitou.

Era tanta a tensão que havia no ar que parecia poder cortá-la. Enid passeou o olhar de seu irmão a sua cunhada e Vespasia não soube se seu olhar era de cólera ou de temor. Tinha os ombros rígidos e a cabeça alta, como se esperasse que voltasse uma antiga dor que nem sequer sua coragem poderia compensar.

— Piers se sentirá muito penalizado - interveio Denoon bruscamente.

Vespasia recordou que Enid tinha um filho. Devia rondar os trinta anos, já que tinha aproximadamente a mesma idade que seu primo Magnus.

Cordelia captou a mensagem.

— Acredito que nós também deveríamos partir - opinou Enid e se dirigiu ao Denoon mais que a Cordelia. — A discussão a respeito das reformas legais pode esperar alguns dias. Além disso, necessitarão meses, ou anos, para as pôr em prática.

— Não dispomos de anos! - exclamou Denoon colérico e com o rosto aceso. — Acha que as forças da anarquia ficarão de braços cruzados à espera que as desbaratemos?

— Suponho que se darão por satisfeitos vendo como nos desbaratamos - replicou ela.

— Não seja ridícula! - acrescentou Denoon com voz apenas audível, como se sua esposa o tivesse envergonhado e não soubesse como confrontar a situação em presença de Vespasia e Landsborough.

Sheridan Landsborough se esticou, aproximou-se de sua irmã e se distanciou de sua esposa. Respirou com os dentes apertados.

Vespasia estava profundamente desconfortável. Sentiu-se obrigada a intervir antes que a situação piorasse:

— É possível que causemos danos se reagirmos muito rápida ou drasticamente -afirmou, olhou para Enid e desviou os olhos para outro lado. — Não podemos desatar críticas por ser tão repressivos como dizem ou que nos voltem as costas como autoritários. De momento, os corações e as mentes estão a nosso favor. Não podemos nos permitir o luxo de perdê-los.

Transcorreram vários segundos em um insuportável silêncio até que Landsborough tomou a palavra:

— Sim, é claro, tem toda a razão.

Sheridan saiu ao corredor. Vespasia o seguiu. Pediram a um lacaio que informasse a seu cocheiro de que estava a ponto de partir e de que fizesse o mesmo com o dos Denoon. Cordelia comentou algo sobre o tempo e Vespasia respondeu.

Abriu-se a porta forrada de feltro verde que comunicava com o alojamento dos criados e um lacaio com libré a franqueou. Era jovem e se movia com a graça de alguém acostumado à atividade física; parecia seguro de si mesmo. Só olhava a Enid; não fez caso de ninguém mais, nem sequer de Denoon.

— Senhora, a carruagem está pronta - anunciou respeitosamente e se deteve a certa distância.

Seus olhares se cruzaram uns instantes e o lacaio o desviou deliberadamente.

Enid lhe agradeceu e se despediu do Landsborough lhe apoiando uns segundos a mão no braço. Saudou com uma inclinação de cabeça a Cordelia, sorriu a Vespasia e se dirigiu serenamente para a porta enquanto Denoon a seguia.

Pouco depois também chegou a carruagem da Vespasia. Landsborough lhe ofereceu o braço, como discreta amostra de que gostaria de conversar um pouco mais com ela, se não a sós, ao menos fora do alcance do ouvido de sua esposa.

Vespasia se despediu novamente da Cordelia e aceitou o braço do Landsborough. Atravessaram juntos a porta de entrada e desceram a escadaria para a carruagem que a aguardava.

— Obrigado por vir - disse Sheridan em voz baixa. — Foi muito amável por sua parte, sobretudo nestas circunstâncias.

Vespasia não soube se se referia a sua vinculação no passado ou à forma em que Magnus tinha morrido e o que aquilo podia conduzir. Talvez no futuro houvesse acusações de culpa ou ultrajes públicos.

— Lamento profundamente sua perda - declarou com sinceridade. — É indubitável que mais adiante teremos que confrontar outras questões mas, de momento, são irrelevantes.

Landsborough esboçou um ligeiro sorriso. Seu rosto parecia pálido e tinha a pele fina como o papel, mas seu olhar era o de sempre.

— Mas não demorarão para chegar. Magnus sempre foi muito entusiasta. Abraçou algumas causas porque a injustiça o revoltava. Embora nem sempre as estudou com suficiente profundidade nem se deu conta de que, as vezes, há más pessoas que defendem uma boa causa. Teria que lhe ter ensinado a ter mais paciência e muita mais sabedoria.

— Não se pode ensinar a quem não quer aprender - acrescentou Vespasia com delicadeza. Acredito recordar que, quando rondava os trinta anos, fui uma espécie de revolucionária. A sorte foi que não dediquei-me a isso em meu país, embora em Roma acendi tanto os ânimos que tive que ir. Felizmente pude retornar a Inglaterra.

Landsborough a olhou com uma antiga ternura que Vespasia recordou com prazer e culpa.

— Jamais me contou isso. Só falamos do calor e da comida. Sempre gostou da comida italiana.

— Talvez algum dia lhe conte - respondeu, embora sabia que jamais o faria.

Aquele verão de 1848 fazia parte do passado, não podia incorporá-lo ao resto de sua vida e não gostava de compartilhá-lo nem sequer com Sheridan Landsborough.

Além disso, poderia lhe doer recordar a juventude, o ímpeto do idealismo e o amor que lhe tinha escapado, e possivelmente também lhe recordaria o filho cuja perda chorava.

A carruagem aguardava. Vespasia o olhou nos olhos e viu lembranças, solidão e talvez um pouco de culpa. Em sua juventude poderia ter sido um revolucionário.

A injustiça e a mudança lhe importavam e tinha tido a coragem suficiente para expressá-lo. Talvez por esse motivo jamais tinha ocupado altos cargos no governo. Até que ponto estava à corrente do que fazia Magnus? Havia a possibilidade de que em princípio estivesse de acordo e no presente se dispusesse a defender a memória de seu filho?

— Adeus - se despediu Vespasia depois de aceitar a ajuda do Sheridan para subir à carruagem.

Durante o trajeto de volta se expôs às mesmas perguntas e ao longo da tarde seus pensamentos voltaram para a conversa entre a Cordelia e Denoon e às argumentações de Enid em sentido contrário. Seu rosto se acendeu por causa de uma emoção que era algo mais que puro idealismo e a dor estava tão a flor de pele que quase lhe era impossível controlá-la.

Enquanto caía a noite, Vespasia soube que não podia seguir pensando naquela questão sozinha e pediu a carruagem para transladar-se ao Keppel Street.

 

Charlotte estava encantada de vê-la. Já não se sentia incômoda pela modéstia de sua casa. Fazia anos que se dera conta de que em sua cozinha Vespasia se sentia muito melhor que na sua, em que era proprietária e senhora, e onde os criados só respondiam quando lhes dirigiam a palavra. Vespasia vivia em uma casa cheia de pessoas mas, em muitos aspectos, estava sozinha. Assim tinha sido desde a morte de seu marido e até é possível que inclusive antes. Os filhos lhe ofereciam outra classe de afeto, que não necessariamente incluía a companhia.

— Tia Vespasia! - saudou-a Charlotte com sincera alegria. — Entre, por favor. Quer que nos sentemos no salão?

— Absolutamente - replicou Vespasia com franqueza. — Há algum problema na cozinha?

Charlotte sorriu.

— Os de costume. A roupa está seca, os gatos dormem na cesta da lenha e Gracie está guardando os pratos em seu lugar. Claro que também posso fazê-lo eu enquanto ela dobra a roupa acima.

Charlotte pegou a capa da Vespasia, a bengala com cabo de prata que costumava levar, mas que em realidade nunca usava, e o chapéu.

Assim que abriram a porta da cozinha, Gracie se voltou no banco no qual secava os pratos do jantar e adotou uma atitude muito formal. Fez uma reverência um pouco cambaleante mas muito correta.

— Boa noite, lady Vespasia! - exclamou quase sem fôlego.

— Boa noite, Gracie - saudou Vespasia. Passou por cima a reverência, com seu habitual estilo. — Tive um dia muito difícil. Seria amável de me preparar uma xícara de chá?

Gracie se ruborizou encantada. Quando se virou deu uma cotovelada aos pratos, embora no último momento conseguiu evitar que caíssem ao chão.

Charlotte olhou a Vespasia, dissimulou um sorriso e se apressou a intervir:

— Lamento que tenha tido um dia tão mau. O que se passou?

Vespasia se sentou em uma das cadeiras da cozinha, com as costas tão retas como quando era estudante e a preceptora lhe dava com a regua cada vez que afundava os ombros. Aprendeu a andar com uma pilha de livros sobre a cabeça, mais exatamente de dicionários, nada de textos frívolos como as novelas, e depois tinha o costume de adotar sempre uma boa postura. Sem pensar recolheu a seu redor as saias de cor cinza escura para evitar que pudessem incomodar.

— Fui dar o pêsames a lorde e lady Landsborough pela morte de seu filho - explicou sem circunlóquios. — Só pretendia deixar uma nota e me surpreendeu que me recebessem. - Notou que Charlotte abria muito os olhos. — Cordelia Landsborough não me agrada e lhe ocorre o mesmo comigo, por diversos e justificados motivos nos que não é necessário entrar em detalhes. - Charlotte mordeu o lábio inferior e não fez comentário algum. — Estou convencida de que me recebeu porque quer utilizar minha influência política em sua cruzada para que o Parlamento aprove uma lei que permitiria aos policiais levar armas de fogo - prosseguiu Vespasia. — E para que, no cumprimento de seu dever, tenham o poder suficiente para invadir a intimidade das pessoas comuns. Essa questão me deixou muito preocupada. Edward Denoon também estava ali. Suponho que leu seu editorial no jornal de hoje.

O tom da Vespasia não era o de uma pergunta.

Gracie deixou cair ao chão uma colherada de folhas de chá e se agachou para recolhê-las. Moveu-se em silencio para não interromper a conversa.

Charlotte olhou ao Gracie e novamente a Vespasia com expressão séria e o rosto ligeiramente franzido de inquietação.

— Acaso as palavras de lady Landsborough não se devem à dor? - perguntou.— Pobre mulher, tem que estar destroçada.

Apertou os lábios e esticou os músculos de pescoço como se pensasse em seu próprio filho, que se achava no primeiro piso e supostamente repassava os textos escolares antes de deitar-se. Era um menino ainda manejável e disposto a obedecer. Ao cabo de uns anos seria muito diferente; estaria cheio de paixão e obstinação, convencido de saber quais eram os males do mundo e a maneira de corrigi-los. Provavelmente seria o que faria se possuía o ardor e o valor que costuma ter a juventude.

— Sobrepor-se-á à dor obrigando-se a agir - afirmou Vespasia. — O superará através do esgotamento, das lágrimas ou de algo que possamos imaginar.

Charlotte refletiu uns segundos antes de responder, mas sua expressão se suavizou; preferia evitar a dificuldade de compreender os sentimentos da Vespasia.

— Ajudá-la-á a introduzir semelhante mudança legal? - inquiriu consternada ante essa possibilidade.

Gracie permanecia de costas à pia e nem sequer fingia não escutar a conversa. Encantada, passeou o olhar de uma a outra. Embora não se atrevesse a interromper, era evidente que tinha uma clara opinião a respeito desse assunto.

— Não - respondeu Vespasia. — Não o farei.

Gracie aspirou ar ruidosamente.

Charlotte sorriu e se relaxou um pouco.

— Faço idéia do que sente - admitiu. — A violência é aterradora e devemos fazer quanto possamos para evitá-la.

Seu tom moderado foi a gota que encheu o copo de Gracie. Como quem falava não era Vespasia, senão Charlotte, não se sentiu obrigada a seguir em silêncio.

— São as pessoas comuns que voam pelos ares! - exclamou desesperada. — É possível que não tenham poder nem dinheiro, mas a polícia e o governo deveriam nos proteger! Parece-me horrível. Nos jornais vi imagens do que fizeram. Onde dormirão esta noite? Perderam suas casas e tudo o que tinham. Quem lhes devolverá seus pertences?

Charlotte se ruborizou, incomodada ante a possibilidade de que Vespasia se ofendesse.

Esta observou a Gracie com absoluta seriedade; a criada empalideceu, mas não baixou o olhar.

— Esta é uma pergunta tremendamente difícil de responder - respondeu Vespasia em tom baixo. — Farei o que estiver em minhas mãos para arrecadar dinheiro a fim de ajudar aos que ficaram sem lar. Dou-lhe minha palavra. Entretanto, o motivo pelo qual não colaborarei com o senhor Denoon é que não confio que sua resposta seja moderada. Receio que reagirá tão violentamente que agravará o problema em lugar de solucioná-lo.

Gracie piscou.

— Fá-lo-á? De verdade está disposta a ajudá-los?

A água começou a ferver, mas não lhe fizeram o menor caso.

— Já disse que o farei -replicou Vespasia, muito séria. — Seus comentários são muito justos. Encolerizamo-nos pela destruição e pensamos na maneira de castigar aos que a causaram em vez de nos esforçar por ajudar a quem a padece.

Nenhuma das três ouviu que Pitt fechava a porta nem percebeu suas ligeiras pegadas pelo corredor.

— Obrigado, tia Vespasia - disse Pitt com grande seriedade.

Fazia tempo que lhe permitia que a chamasse assim. Pitt entrou na cozinha, saudou primeiro a Vespasia e a seguir a Charlotte e a Gracie. Tomou assento em outra das cadeiras de espaldar rígido.

— Thomas, já se produziu uma reação - lhe comunicou Vespasia. — Edward Denoon tenta fazer campanha em favor de armar à polícia e de ampliar suas competências para que possa revistar aos cidadãos e seus lares.

Não era necessário que Vespasia explicasse ao Pitt quem era Denoon.

— Sei - confirmou sombriamente. — Acha que o conseguirá?

Vespasia reparou na angústia e na necessidade de ter esperanças que se refletiam no rosto do Pitt. Jamais lhe tinha mentido, e não lhe ocorreria começar a fazê-lo com um assunto dessa gravidade.

— Receio que será difícil detê-lo. Há muito boas pessoas que estão muito zangadas e assustadas.

Pitt parecia cansado.

— É certo, e possivelmente têm direito a estar. Entretanto, a situação não melhorará armando à polícia. Só nos falta ter que enfrentar a batalhas campais em plena rua. Se revistarmos os cidadãos sem motivos de peso ou entramos em suas casas, o único lugar no qual se sentem seguros, perderemos sua disposição a colaborar. Não devemos esquecer que demoramos trinta anos em consegui-lo.

Gracie parecia profundamente confundida. Pitt estava de costas a ela e não notou seu olhar de consternação. Mas Charlotte sim o viu.

— Devemos lutar contra eles. O que podemos fazer? Tem idéia de quem são ou, ao menos, do que querem?

— Sei o que dizem que querem - respondeu Pitt cansativamente.

Charlotte percebeu em seu marido um sentimento de dor que até então não tinha notado.

— O que querem?

— O fim da corrupção policial - respondeu.

Charlotte ficou de pedra.

— Disse corrupção?

— Pitt tocou os cabelos.

— Desconheço, se existir no grau que afirmam, mas terei que averiguar. É necessário que as pessoas acreditem na lei se quisermos que a respeitem.

Vespasia notou que o frio se apoderava dela e experimentou uma sensação de perda muito maior que a que provoca a morte de um homem, por muito violenta ou trágica que esta tenha sido.

— Nesse caso, é possível que tenhamos que liberar uma batalha - assegurou Vespasia. — Devemos nos preparar para o combate.

 

Pela manhã, Pitt voltou para o calabouço para tentar averiguar algo mais falando com os anarquistas. Welling tinha o olhar perdido e parecia esgotado. Dava a sensação de que tinha passado a noite em claro, andando daqui para lá, e que estava muito afetado para pensar coerentemente. Nem sequer se atreveu a falar com Pitt.

A atitude do Carmody foi diferente. Era um idealista que só desejava falar da opressão do governo, da exploração dos pobres e dos males intrínsecos da propriedade e das normas. Estava cheio de energia e mal podia estar quieto.

— Somos velhos! - exclamou, olhou impetuosamente ao Pitt e agitou seus magros dedos no ar. — Estamos cansados! Necessitamos um novo começo. Devemos acabar com os enganos do passado, apagá-los de uma vez por todas. - Realizou gestos desmedidos com ambos os braços. — Deve-se começar outra vez!

— Com novas regras? - inquiriu Pitt com amargura.

— Vê-o? Tornou a fazê-lo! - acusou-o Carmody. — É incapaz de pensar sem regras. Finge escutar, mas não faz o menor caso. É como todos, tenta impor sua vontade a outros. Tudo se reduz sempre ao mesmo: o poder, o poder, constantemente o poder. Não ouviu uma só de minhas palavras. Nada de regras! Estão asfixiando às pessoas, estão matando-as lentamente. Não se dá conta? Terminarão por matar a todo o país.

— Na realidade, acredito que o problema é precisamente o contrário - replicou Pitt e passou o peso do corpo de um pé ao outro.

A atmosfera do calabouço era asfixiante e úmida. Carmody estava exasperado e a fingida estupidez do Pitt pôde com ele.

— Fora! - gritou de repente. — Não penso lhe dizer nada! Não fomos nós, mas vocês quem mataram Magnus. Não tínhamos motivos para liquidá-lo. Era nosso chefe.

— Talvez outro queria ocupar seu lugar? - perguntou Pitt sem mover-se.

Carmody o observou com profundo desprezo.

— É isso o que fazem vocês? Quem quer subir na polícia mata ao homem que tem por cima?

Pitt meteu as mãos nos bolsos antes de responder:

— Não daria resultado. Há regras que o impedem.

A ira mudou uns segundos a expressão do Carmody, mas logo se deu conta de que mofavam dele.

— E por certo vocês sempre acatam as regras! - acrescentou com mordacidade. — É precisamente o que vi no Bow Street.

Pitt esteve a ponto de responder e de apanhá-lo na necessidade que mostrava Carmody de reger-se por certas regras, mas o sarcasmo a respeito do Bow Street lhe doeu mais do que imaginava. Por muito que naquele momento fosse responsabilidade do Wetron, a fama dessa zona o preocupava intensamente. Tinha trabalhado com alguns desses homens; recordava particularmente ao Samuel Tellman, que se mostrara muito aborrecido com Pitt quando assumira o comando. Tellman pensava que não estava preparado para dirigi-los e que o tinham promovido imerecidamente. O comando era reserva dos cavalheiros, de ex-oficiais do exército ou da armada, que valorizavam os méritos da experiência e não estorvavam. Tellman não aprovava aos que subiam da base. Para ambos foi um percurso longo e com freqüência difícil até que, pouco antes da expulsão do Pitt, chegaram a confiar o um no outro. Ao cabo de pouco tempo, a lealdade do Tellman salvou a vida de Charlotte em Devon.

Uma expressão triunfal trocou lentamente o semblante do Carmody ao ver que Pitt não respondia; soube que seu disparo tinha dado no alvo.

— Se não quer regras - disse Pitt finalmente, — por que se queixa de que alguns homens do Bow Street não as respeitassem? Cabe supor que estaria de acordo!

— Porque são uma fileira de hipócritas! - irritou-se Carmody. — Só as respeitam quando lhes convém!

— E não é o que faz você? - perguntou Pitt. — Não é o que defende? Que cada um faça o que quiser e sem normas, inclusive sem regras sobre o respeito das regras. -Carmody estava confundido. Pitt se inclinou e acrescentou com grande seriedade: — escute, tenho tantos ou mais desejos que você de saber quem matou ao Magnus. Quem o tenha feito transgrediu minhas regras. Assegura você que não acredita em regras, mas não é mais que uma tolice. Está zangado comigo porque pensa que lhe minto.

— E não o faz? - acusou-o Carmody.

— Caramba, vejo que tem regras a respeito da mentira! - Disse Pitt. Carmody grunhiu ruidosamente. — Supõe que um de nós matou ao Magnus e se enfurece porque não espera que a polícia mate a sangue frio. Portanto, tem normas sobre o assassinato. O que me diz da traição? Também tem regras sobre ela?

Carmody pareceu transpassá-lo com o olhar.

Pitt se limitou a esperar.

— Sim - reconheceu Carmody com olhar precavido e doído.

— Quem disparou contra Magnus facilmente poderia ter acabado com o Welling e com você. Por que não o fez? - Carmody piscou. — Vejamos, no caso de que o matasse um policial, não acredita que minha hipótese teria sentido? - Pitt aproveitou sua transitiva vantagem. — Para que deixar com vida a uma testemunha? Que diferença há entre um anarquista e outro?

— Magnus era nosso chefe - replicou Carmody sem hesitar. — Matá-lo tem sentido.

— Deve ser um dos seus, quem mais podia saber quem era o chefe? - quis saber Pitt. Carmody permaneceu em silêncio, mas ficou pálido e olhou ao Pitt com muita atenção. A aparência de aborrecimento se esfumou. — Se tivesse sabido algo a respeito de vocês, os teríamos detido muito antes que fizessem explodir uma bomba no Myrdle Street. Agora parecemos uns incompetentes. De todos os policiais que há em Londres, por que Grover? Por que explodiram sua casa?

—Porque se dedicava a fazer o trabalho sujo de Simbister, no Cannon Street   - explicou Carmody.

Recompôs-se, embora a cólera fez com que lhe tremesse a voz.

Pitt teve a sensação de que lhe formava um nó no peito.

— Como se inteiraram?

Carmody deixou escapar um grunhido de impaciência.

— Se tivesse conhecido ao Magnus, não o teria duvidado.

— Não o conheci.

— Era muito cuidadoso. Apontou horários, lugares e quantidades. Sabia exatamente quem pagava e quanto, quem ameaçava e quem cumpria as ameaças. Inclusive ajudou a algumas pessoas saldando suas dívidas.

Seu tom era orgulhoso e olhou ao Pitt com uma ira que nascia da dor e da injustiça de uma situação irreparável.

Fechou-se a boca do estômago de Pitt, mas acreditou nele. De qualquer maneira, necessitava mais informação e não podia esperar que Carmody acreditasse nele. Tentou que sua expressão não revelasse as emoções de seu interior.

— Tem certeza disso?

— Sim, claro que sim! - Carmody se voltou ligeiramente para diante. — Além disso, você me acredita. Sabe perfeitamente que digo a verdade. Se mente o suficiente e consegue que seus homens também o façam, conseguirá que me enforquem pelo assassinato do Magnus, mas não poderão nos silenciar a todos. Há provas e você jamais as achará. Não poderá impedir que o trabalho de quem matou ao Magnus continue.

— O que queria Magnus? À margem do caos, a falta de regras, de segurança para cultivar mantimentos e transladá-los às cidades, de transportes, calefação, luz ou amparo para os fracos.

— Ele não queria isso! - exclamou Carmody, contrariado. — Nós não perseguíamos o caos, mas o fim da opressão. - Mudou ligeiramente de postura. O ar do calabouço continuava frio e úmido. — Zombe tudo o que quiser de nós, mas Magnus era um reformista não um revolucionário. Perguntou-me você quem queria matá-lo. Nós, não. Acreditamos no que fazia e estávamos dispostos a dar tudo para ajudá-lo. E ainda o estamos! - Assinalou com o dedo a porta metálica. — Exponha quem tem mais que perder… dito de outra maneira, qual é o motivo. Acaso não é o que devem investigar os detetives? A quem podia danificar Magnus? À polícia corrupta. Aqui tem a resposta.

— Do Cannon Street? - perguntou Pitt com voz baixa.

— E do Bow Street, Mele End e Whitechapel.

— Quem tem as provas?

Embora não esperasse resposta, Pitt tinha a obrigação de fazer a pergunta.

Carmody deixou escapar um grunhido.

— Acredita que o direi? Se realmente o desconhece, comece pelo Myrdle Street e dirija-se ao oeste. Indague na taverna Dirty Dick do Bishopsgate ou pergunte ao Polly Quick da Tenha Bells, junto ao mercado do Spitalfields.

Pitt sabia que por muito que insistisse não obteria mais informação. Estava obrigado a demonstrá-lo ou refutá-lo seguindo essas acusações.

Ficou em pé e replicou:

— Fá-lo-ei.

— Estão por todo o East End - acrescentou Carmody com um peculiar e ingênuo tom de esperança. — Se quiser, os achará.

 

Pitt retornou ao Keppel Street antes de seguir as recomendações do Carmody. Para averiguar algo no East End devia levar roupa menos chamativa. Para aborrecimento de Charlotte, em casa guardava roupas com os bordos puídos, salpicadas de barro, assim como botas desgastadas que em várias ocasiões tinha tido que pôr solas novas.

Vestido com essas roupas chegou ao redor de meio-dia ao Bishopsgate, onde se mesclou com os vendedores ambulantes, os empregados de escritórios e os trabalhadores.

Nessa zona da cidade, homens, mulheres e crianças trabalhavam incansavelmente a fim de conseguir o imprescindível para sobreviver: fabricavam móveis baratos, trançavam cestas, remendavam roupa e comercializavam com tudo o que as pessoas estivessem dispostas a comprar. As ruas estavam lotadas, sujas e eram ruidosas. O aroma de lixo, fuligem e apertada humanidade se aderia ao nariz e à garganta. Algumas vacas e porcos fuçavam entre os lixos do mercado em busca de algo comestível. Os cães cheiravam esperançados e os gatos perseguiam ratos.

Pitt tirou dos bolsos os objetos de valor e perambulou pelo Bishopsgate sem preocupar-se com os furtos. Cruzou Camomile Street, Wormwood Street e a seguir Houndsditch até chegar a Dirty Dick, situada à direita. Durante o reinado do soberano francês Luis XVI era conhecida como "Portas de Jerusalém". Indubitavelmente tinha perdido categoria.

A porta estava aberta; um homem robusto e com o cabelo grudado à cabeça fazia rodar um barril pelo bueiro da calçada, para onde dava à adega.

Pitt se deteve a seu lado.

O homem levantou a cabeça, inclinou-a e disse:

— Dentro há alguém que lhe servirá o que pedir.

— Não quero cerveja - respondeu Pitt e não se moveu um centímetro.

O homem endireitou lentamente as costas.

— E você, quem é? - Seu tom estava cheio de desconfiança. Olhou ao Pitt de cima abaixo e entreabriu os olhos. — É a primeira vez que o vejo por aqui – acrescentou em tom acusador.

Pitt decidiu que não faltaria de tudo à verdade.

— Não estive muito por aqui. Costumou trabalhar na zona do Bow Street.

O homem soltou sapos e cobras pela boca, mas sua voz soou desesperada e colérica.

Pitt decidiu esperar, já que percebeu que algo ia mal, embora não sabia do que se tratava.

A expressão do homem era amarga.

— Não vou lhe dar nada! Esta semana já paguei e não tenho mais. Feche a taverna se quiser! Vamos, faça-o! Assim já não conseguirá nada! São uns bodes repugnantes!

— Não lhe pedi nada - explicou Pitt lentamente. — O que lhe fez pensar que devo buscar dinheiro?

O rosto do homem fez uma careta de desdém, entreabriu os lábios e deixou descobertos uns dentes amarelados.

— Está-me cortando o passo. Diz que não quer cerveja. Toma-me por tolo? Asseguro-lhe que não o sou. Tampouco penso lhe pagar. Faça o que tiver vontade! Não tenho nada.

Fechou a boca do estômago de Pitt. Tal como havia dito Carmody, o taberneiro pensava que tinha ido procurar dinheiro em troca de amparo.

— Ninguém deve pagar mais de uma vez - concordou. — Nesse caso é melhor não pagar.

— E que me moam a pauladas? - perguntou o homem fora de si. — Diga, quem me ajudará? A polícia? - Cuspiu ao chão, junto aos pés do Pitt, mas estava a ponto de chorar de desespero. Engasgaram-se as palavras. — Vão, largue-se! Não tenho nada para você! Me mate e seguirei sem ter nada! Se quiser dinheiro, saia do meio e me deixe trabalhar!

O taberneiro se ergueu com os punhos fechados e os ombros rígidos, como se estivesse a ponto de perder o controle e começar a dar golpes; provavelmente porque já não tinha nada a perder, já não tinha com que lutar, salvo os punhos. Estava bastante desesperado para desejar que essa situação chegasse a seu fim.

— Me diga quem lhe pede dinheiro e me encarregarei... - começou a dizer Pitt, mas em seguida se deu conta de que era inútil. Por muito que se esforçasse por negá-lo, era o inimigo. Ao menos para o taberneiro assim era. — Escute - insistiu.

O homem avançou um passo, com a cabeça baixa e os músculos em tensão, disposto a lançar o murro.

Pitt retrocedeu, virou-se e se afastou. Nem tinha dirigido bem a situação nem aprendido algo útil. O taberneiro estava convencido de que seus torturadores eram policiais, mas Pitt necessitava nomes, contas, horas de recolhimento, algo demonstrável. Teria que esforçar-se muito mais.

Subiu pelo Bishopsgate, virou à esquerda depois de passar frente ao vendedor de cordões da esquina do Brushfield Street e se encaminhou para o mercado do Spitalfields.

Três mulheres discutiam junto ao meio-fio. Um menino chorava muito. Passou um pirralho esperto; tinha os ombros redondos e ia manchado de fuligem.

Meia dúzia de garotos jogavam habilmente dados na calçada, lançavam-nos ao ar e os apanhavam ao mesmo tempo em que moviam outros que utilizavam como fichas.

Era um bom exercício para manter os dedos ágeis, um bom adestramento para agarrar carteiras alheias com rapidez e sem que a vítima se desse conta.

Pitt passou frente a casas desmanteladas, antigamente lares e oficinas de comerciantes de seda, que naquele momento viviam tempos mais difíceis se couber. Passou a carroça de um mascate, a de um cervejeiro e carretas carregadas de carvão e madeiras, que se dirigiam para o porto.

Ao chegar à taverna Tenha Bells, entrou e pediu um copo de cidra. Deixou que durante uns segundos seu sabor fresco arrastasse o gosto amargo das ruas.

Reparou que a taberneira o observava discretamente, já que era forasteiro. Tratava-se de uma mulher miúda, acima do peso e com o cabelo loiro que escapava das forquilhas, mas não deixava de sorrir. Saudava por seu nome à maioria dos presentes. Seu negócio era próspero.

Pitt se aproximou do balcão e pediu outro copo de cidra, assim como um pedaço de pão com queijo. A mulher o entregou sem deixar de sorrir, embora seu olhar fosse desconfiado. A curta distância Pitt reparou que a pele do pescoço branco da taberneira estava um pouco flácida e sulcada de magras rugas. Apesar de sua energia e seu bom humor, fazia muito que tinha passado dos quarenta.

— Obrigado - disse Pitt depois de pegar o copo e o prato. — Tem um bom estabelecimento, há muita atividade.

A mulher lhe cravou o olhar. Pitt soube que já se dera conta de que lhe causaria problemas. Detestava aquela situação, mas necessitava a informação.

— A suficiente - resmungou a mulher e simulou que continuava sendo bem recebido.

— A suficiente para compartilhar uma parte dos benefícios - replicou. Mais que uma pergunta, foi uma afirmação. A expressão cálida da taberneira se esfumou.

— Eu já pago - declarou friamente.

— Sei! - Pitt não permitiu que seguisse protestando. — E não se pode pagar duas vezes. Também sei. Por isso lhe proponho que me pague. Ocupar-me-ei de tudo. Me pague, pague menos mas ocupe-se de fazê-lo regularmente.

— Sim, claro - acrescentou a taberneira com amargura. — E o que faço quando o outro se apresente? Digo-lhe que não tenho nada e que se vá por onde veio?

— Não. Me diga quando virá e que aspecto tem e eu me ocuparei dele.

A mulher arqueou as sobrancelhas e passeou o olhar a seu redor.

— Com certeza? Você e quem mais? São centenas! É a maldita força policial ao completo! Se tirar a um, dois mais ocupam seu lugar. Me diga, quantos há como você?

Pitt refletiu uns segundos antes de responder:

— Não se preocupe por isso. Me diga quem é, quando se apresenta, que aspecto tem e eu me desfarei dele. Só então terá que me pagar. - A taberneira estava atemorizada e desconfiada. Seu olhar deixou transparecer a certeza da derrota. Pitt experimentou tal arrebatamento de fúria que alterou sua expressão, pelo que a mulher retrocedeu.

Queria desculpar-se, mas teria estragado quanto tinha conseguido. — Como se chama?

— Jones. Chamamo-lo Jones, o Bolso.

— Que aspecto tem?

— Tem o nariz afiado e o cabelo negro - respondeu e esboçou um sorriso. — Não é muito alto. Não posso dizer se é fraco ou gordo porque, tanto no verão como no inverno, leva um casaco muito folgado. Debaixo poderia haver algo.

— Vem regularmente?

— Como os impostos e a morte.

— Quando?

— Todas as quartas-feiras. Mais ou menos no meio da tarde, quando diminui a clientela.

— Na próxima quarta-feira fará sua última visita - assegurou Pitt com profunda satisfação.

A taberneira confundiu essa alegria com a cobiça que tinha manifestado um momento antes.

Deu ligeiramente de ombros.

— Dá-me exatamente no mesmo pagar a ele ou pagar a você. É igual. Mas não posso pagar duas vezes porque então não posso saldar contas com o cervejeiro e ficaríamos todos sem nada.

Pitt se voltou, andou sobre o chão coberto de serragem e saiu à rua, mas em seguida se arrependeu, retornou e tentou lhe dar ânimos e convencer a de que a situação não demoraria para mudar.

 

Ao anoitecer se achava na entrada do beco onde se erguia a casa em que se alojava Samuel Tellman. Esperava que este retornasse. O vento era mais fresco e parecia que ia chover. Pitt passou o peso do corpo de um pé ao outro. Tinha dado voltas e mais voltas ao problema e tinha chegado à conclusão de que não havia outra solução sensata. Tellman trabalhava no Bow Street. Era o único que podia ter ouvido ou visto os que estavam implicados na corrupção, embora não formasse parte dela.

O vento era cada vez mais frio e começava a garoar. Pitt levantou a gola da jaqueta e se colou à parede. As dúvidas o carcomiam. Talvez os anarquistas não eram absolutamente ingênuos e pretendiam manipulá-lo. Seu objetivo principal era semear o caos. Havia um modo melhor de consegui-lo que inimizar à Brigada Especial com a polícia e criar suspeitas entre ambas? Talvez também fizessem o mesmo, mas ao contrário. Cabia a possibilidade de que nesse mesmo momento alguém estivesse dizendo à polícia que Narraway era o responsável pelo atentado com bomba e do assassinato do Magnus Landsborough, que desse modo criaria seu próprio círculo de poder.

Pitt não acreditava por nada do mundo, mas tampouco estava em condições de demonstrá-lo. surpreendeu-se do pouco que realmente conhecia Narraway.

Um ancião com o cabelo branco que aparecia por debaixo do chapéu de feltro caminhou depressa pelo halo de luz do poste e se perdeu ao longe. Segundos depois apareceu Tellman, magro, chupado de rosto e com os ombros rígidos.

Pitt abandonou as sombras do beco e caminhou pela pavimentação. Alcançou-o no mesmo momento no qual o Tellman chegava à porta de sua casa. Seu antigo companheiro se voltou, surpreso.

— Preciso falar com você - disse Pitt a modo de desculpa. — Temos que falar em privado.

Não se atreveu a dizer que fossem aos aposentos de Tellman. Mas queria lhe pedir um favor e era fundamental que não os vissem juntos; do contrário, teria proposto que fossem a qualquer dos botequins próximos.

Tellman se mostrou receoso. Lançou uma olhada à penosa vestimenta do Pitt, mas o conhecia o suficiente para saber por que a levava.

— O que se passou? - Tellman ficou rígido. — Não tem nada que ver com Gracie, não é?

Pitt sentiu uma pontada de culpa por não ter sido claro desde o começo. Tellman tinha sido testemunha de seu cortejo pausado, terno e comedido e do muito que se preocupavam um pelo outro.

— Não - se apressou a responder. — Se trata de um assunto policial.

As feições do Tellman se retesaram.

— Entre. Agora ocupo um aposento melhor, maior.

Em lugar de esperar que aceitasse, abriu a porta com sua chave e se internou pelo corredor estreito, com chão de linóleo e quadros pendurados na parede.

Do fundo da casa chegou um agradável aroma de comida, com um intenso aroma de cebola. Pitt se deu conta de que estava faminto.

Tellman subiu a escada até o primeiro piso e abriu a porta do quarto que dava à rua. Era amplo; havia uma cama de latão com o travesseiro em um canto, uma mesa e uma cadeira junto à janela e duas poltronas atapetadas perto da lareira em que as brasas ardiam. Convidou ao Pitt a sentar-se e, depois de afrouxar os cordões e tirar a jaqueta, ocupou a outra poltrona.

Pitt foi diretamente ao ponto.

— Tem que ver com o atentado do Myrdle Street - disse sem mais preâmbulos.   — Foram os anarquistas. Há um morto e pegamos dois. Um, ou possivelmente dois, escaparam. -Tellman aguardou. Sabia que Pitt não lhe pediria ajuda para encontrá-los.    — Interroguei aos que detivemos. São jovens, ingênuos e se opõem energicamente ao que eles consideram males sociais, concretamente, à corrupção policial. - Escrutinou o rosto do Tellman para ver se mostrava cólera ou uma tentativa de escondê-la. Não viu nada. Simplesmente, Tellman se mostrou precavido, à espera de que lhe desse uma explicação. — O primeiro que expus é porque atacaram Myrdle Street. A princípio me pareceu que o tinham escolhido ao acaso. Depois me inteirei de que a casa do meio, a que destruíram, pertence a um policial do Cannon Street apelidado Grover.

Tellman assentiu lentamente.

— Conheço-o.

— O que pode me dizer dele?

— É um homem importante, ao redor de quarenta e cinco anos e constituição forte. -Tellman o via em sua mente ao mesmo tempo em que o descrevia. — Pertence ao corpo desde que tinha mais ou menos vinte anos. Subiu a sargento mas, ao parecer, não pretendeu chegar a mais. Conhece como a palma de sua mão as ruas e à maioria das pessoas que se movem por elas. Não há um só redator de rua de cartas e petições, um encobridor ou um falsificador que não conheça por seu nome ou por seu ofício.

— Como sabe?

Tellman apertou os lábios.

— Por sua fama. Se quer saber algo do que ocorre na zona do Cannon Street, pergunta ao Grover.

— Entendo. Segundo ao menos duas fontes, alguns policiais cobram por proteger os botequins do setor do Spitalfields - prosseguiu Pitt. — O comprovei pessoalmente em Dirty Dick e Bells. Um homem ao que chamam Jones o Bolso vai recolher o dinheiro cada quarta-feira no meio da tarde.

— Tem certeza de que pertence à polícia? - perguntou Tellman contrariado.

— Não. Só tenho certeza de que os donos dos botequins acreditam que é. Preciso averiguar. Quero que o detenham e ocupar seu lugar.

— Para que? É possível que à longo prazo possa relacioná-lo com o Grover, mas terá que demonstrá-lo. Não tem cara de quem presta contas. E pode estar seguro de que não lhe dirá isso.

— Tem razão - concordou Pitt. — De todo modo, se cobra o dinheiro alguém ficará em contato comigo.

Tellman fez uma careta sem perder sua expressão de seriedade.

— Provavelmente com uma faca na mão!

— Não o farão até que recuperem o dinheiro que arrecadei e averiguem se trabalho só.

Pitt era consciente do perigo que correria e teria gostado de achar outra forma de chegar ao mesmo fim, mas não lhe ocorria outra.

Tellman estava a ponto de protestar quando alguém bateu na porta.

— Adiante - disse.

Ficou em pé quando entrou a caseira.

Era uma mulher bonita, de entre cinqüenta e sessenta anos; levava consigo o aroma quente e saboroso da cozinha. Um avental branco engomado protegia a maior parte de seu vestido de algodão.

— Senhor Tellman, quer que lhe guarde o jantar? - perguntou e olhou ao Pitt. — Se gostar, há suficiente para sua visita. Só se trata de salsichas com purê de batatas e um pouco de couve, mas se quiser...

Tellman olhou ao Pitt.

Pitt aceitou de boa vontade e Tellman pediu à caseira que lhes servisse o jantar assim que pudesse. Aguardaram até que a trouxe em uma bandeja, desfizeram-se em agradecimentos e só então prosseguiram a conversa entre um bocado e outro. Era comida simples, mas bem cozinhada, e as porções eram generosas.

— Spitalfields está na zona do Cannon Street - concluiu Tellman, aborrecido. — É o setor do Simbister. Ultimamente Wetron fez bons miolos com ele. Pelo visto, estabeleceu alianças por toda parte, mais do que costumam realizar-se. Habitualmente costuma produzir-se uma espécie... - Tellman procurou a palavra precisa, — uma espécie de rivalidade, mas agora não é assim. É diferente. Dá a impressão de que algo mudou.

Pitt sabia aonde queria ir parar seu antigo companheiro. O Círculo Interior era uma rede de alianças secretas, promessas e lealdades entre homens que, aparentemente, não guardavam a menor relação entre si. Os de fora não sabiam quem eram, simplesmente estavam a par de que algumas dessas pessoas tinham triunfado onde outras fracassaram. Os acordos comerciais resolviam-se de certa maneira. Alguns tinham subido em lugar de outros que tinham mais aptidões. Se Wetron, que era então o chefe do que ficava do Círculo Interior, estabelecia alianças com possíveis rivais do comando policial de maior nível do país, a situação podia ser preocupante.

— Simbister? - perguntou Pitt.

— E outros, mas sobretudo ele - respondeu Tellman sem deixar de mastigar um pedaço de salsicha. — Se os o que cobrarem as extorsões pertencem ao Cannon Street, têm que ser mais de dois ou três. Não poderá confiar em ninguém!

— Já sei. - Pitt experimentou um calafrio apesar de estar em um aposento quente e de ter comido. — Por isso o necessito. Também quereria que alguém em quem confia detivesse Jones quando o achar. Devo comprovar se o que os anarquistas afirmam é certo.

Não explicou por que tinha que averiguá-lo. Não só tinha que ver sabendo quem tinha assassinado ao Magnus Landsborough, mas sim se tratava de algo de muito mais envergadura. Estava em jogo a integridade do corpo ao que ambos serviam e no qual sempre tinham acreditado.

Tellman assentiu e terminou de jantar sem alegria.

O silêncio se prolongou depois de comerem os últimos bocados e começar a esfriar o chá no bule.

O mal-estar era patente no magro rosto do Tellman. Procedia de uma família pobre mas muito respeitável. Seu pai tinha trabalhado incansavelmente para alimentá-los e vesti-los. Sua mãe era ativa, mal-humorada e escrupulosamente justa e os queria com uma atitude defensiva que beirava à violência. De pequenos os repreendia por serem preguiçosos, afastarem-se do caminho reto, ir muito de farra, dizer mentiras ou meter-se em assuntos alheios. Claro que bastava que alguém criticasse a seus filhos para que os defendesse como uma leoa. Considerava que os lucros que seus filhos conseguiam não eram mais que o cumprimento de seu dever e abordava suas faltas com uma estrita disciplina. Queria-os a todos, mas do que se sentia mais orgulhosa era do Samuel porque lutava pelo que considerava justo. Incomodava-o profundamente quando o punha de exemplo ante seus irmãos menores mas, depois da aprovação do Gracie, a de sua mãe era a que mais importava ao Tellman.

Ver manchado o bom nome de sua delegacia de polícia o feria profundamente, talvez inclusive mais que ao Pitt.

— Eu também quero sabê-lo - acrescentou Tellman quedamente. — É imprescindível. Se também ocorrer em nosso distrito, se nossos homens cobrarem em troca de dar amparo, em minhas mãos está impedi-lo. Se não o fizer também formaria parte dessa situação.

Cravou o olhar no Pitt e o desafiou a lhe contrariar.

— Tenha muito cuidado! - advertiu Pitt de forma impulsiva, pois sabia que facilmente podia Tellman ser falsamente desonrado e inclusive assassinado.

Às vezes os agentes de polícia morriam no cumprimento do dever. Seria uma morte heróica. O próprio Wetron o elogiaria. Pitt não poderia demonstrar que as coisas tinham ocorrido de outra maneira. Com um nó no estômago e um grande peso em seu interior, deu-se conta de que, apesar da beligerância, a peculiar vulnerabilidade, os preconceitos e a tenacidade do Tellman, apreciava a esse homem como se pertencesse a sua família. Sofreria algo mais que um sentimento de culpa por havê-lo comprometido; sentiria solidão, uma perda dolorosa e definitiva.

Conversaram um pouco mais e, depois de reprimir com muita dificuldade outra advertência, Pitt saiu à rua. O ar noturno era mais fresco, as luzes amarelavam por causa da fumaça e começava a cair uma bruma tênue. Caminhou até a rua principal e pegou uma carruagem de aluguel que o levou a sua casa.

 

Pela manhã foi ver Narraway, tanto para lhe informar de seus avanços para saber o que tinha averiguado. Encontrou-o em seu escritório, resguardado atrás de uma pilha de papéis acumulados sobre a mesa e com a pena na mão.

— O que quer? - perguntou Narraway bruscamente, depois de elevar a cabeça quando Pitt fechou a porta.

Pitt tomou assento sem que o convidassem a fazê-lo. Era a primeira vez que fazia algo assim. Sabia que Narraway era seu superior e, apesar de sua posição já não ser oficialmente insegura, a sensação de incerteza jamais o abandonava.

— Ontem investiguei a corrupção da que Welling e Carmody acusam à polícia -afirmou sem dar rodeios. — Queria demonstrar que estavam equivocados.

— E não o conseguiu - replicou Narraway sem soltar a pena.

Pitt levou uma grande surpresa. .

— De modo que sabia!

Sentiu-se traído porque Narraway não lhe tivesse mencionado a acusação de corrupção, como se não confiasse em sua lealdade, independentemente de suas vinculações passadas.

Narraway não lhe tirava o olhar de cima. Seu rosto estava tenso e muito enrugado por causa da luz do sol que entrava pela janela da esquerda. Tinha os olhos quase negros. Antigamente seu cabelo tinha sido muito escuro, mas no presente suas têmporas estavam generosamente salpicadas de cinza.

— Não, Pitt, não sabia - disse lentamente. — Adivinhei. Sua atitude indica a gravidade da situação como se fosse um farol. Se tivesse descoberto que a acusação é falsa não teria entrado em meu escritório a esta hora para comunicá-lo sem me dar sequer bom dia. Nesse caso mal teria importância.

Pitt se sentiu ridículo. A acusação lhe tinha doído o suficiente para afetar sua capacidade de avaliação. Devia ser mais Cuidadoso, não só com o Narraway, senão com todos.

Narraway sorriu a seu pesar.

— É muito grave?

— Trata-se de um caso de intimidação em grande escala - respondeu Pitt e pensou na taberneira de Tenha Bells. — Arrecadação periódica de parte dos lucros de negócios mais ou menos honestos.

Narraway adotou uma expressão sombria.

— Não é nosso assunto e não acredito que seja tão grave para que um homem como Magnus Landsborough se converta em anarquista. De todo modo, falarei com o delegado. Pelo visto terá que fazer limpeza. Lamento-o. É desagradável descobrir que há corrupção em nossas filas. - Baixou o olhar aos papéis e, como Pitt não se movia, levantou novamente a cabeça. — É este o motivo pelo qual colocaram uma bomba no Myrdle Street?

— Sim. O homem da delegacia de polícia do Cannon Street, Grover, do que nos falou Welling, vivia em uma dessas casas. Carmody também assegurou que estava relacionado com as extorsões e disse que Magnus Landsborough sabia tudo sobre ele. Achou alguma relação entre o Landsborough e anarquistas estrangeiros?

— Não. Sabemos onde estão os anarquistas mais ativos e os mais competentes. -Narraway fez uma careta irônica com a boca. — Os incompetentes voaram pelos ares e estão no hospital ou estão mortos. Pelo que sei, Landsborough não tinha conexões européias. Se Welling e Carmody são um exemplo da gente que encerravam está claro que lhes interessam os ingênuos reformistas sociais que não têm paciência para utilizar as vias habituais e imaginam que se destruírem o sistema poderão construir outro melhor que o substitua. Tudo isto seria realmente absurdo se não fosse pelas bombas.

Pitt o observou e tentou avaliar as emoções que continham suas palavras. Havia compaixão, pena pela estúpida inocência que tinha impulsionado a esses jovens a destrambelhar contra a injustiça e sonhar em mudanças, ou só realizava um julgamento profissional para agir em conseqüência e, ao mesmo tempo, sopesar mais atentamente a seu subordinado?

— Não é isso o que me preocupa - admitiu Pitt, que experimentou certa satisfação ao ver que uma chispada de surpresa aguçava a expressão do Narraway. — Ontem pela tarde estive com o Samuel Tellman. Não fui ao Bow Street, mas em seus aposentos - se apressou a acrescentar depois de perceber o intenso olhar do Narraway. — Lhe falei do Grover, das acusações do Carmody e do que tinha averiguado.

— Pitt, não dê mais voltas! - exclamou Narraway.

— Tellman acreditou sem provas. E está convencido de que chega até as mais altas esferas.

— Isso é claro - replicou Narraway secamente. — O que pretende dizer?

Pitt notou que seu corpo se retesava. Detestava ter que mencioná-lo e, além disso, Narraway não lhe facilitava as coisas.

— Tellman afirma que Wetron estabelece alianças com homens que, em condições normais, seriam seus rivais na hora de ascender. Concretamente, com o Simbister do Cannon Street.

Narraway expulsou ar lentamente.

— Compreendo. Simbister forma parte do Círculo Interior?

— Não sei. De todo modo, suponho que se não é muito em breve o será.

— E o que tem que ver Wetron com isto?

Narraway aferrou a pena e a moveu lentamente acima e abaixo, como se não pudesse conter a tensão.

— O poder - replicou Pitt sinceramente. — Sempre se trata do poder.

— E utiliza ao Simbister? - Narraway ergueu ligeiramente a voz. Custava-lhe acreditá-lo.

— Ao menos é o que parece.

— Até que ponto lhe interessa que o corpo de polícia seja corrupto? - perguntou Narraway. — Se aspira ser delegado, não só deve ser considerado muito competente, mas também estar acima de toda suspeita. Em caso contrário, o Parlamento não o apoiará, por muito que seja tão rico como Creso. Os que ostentam o poder querem estabilidade e, acima de tudo, segurança nas ruas. Se a propriedade não estiver a salvo os eleitores não se sentem satisfeitos.

Narraway adotou uma expressão de desafio, como se esperasse que Pitt o contrariasse.

— Não sei por que fomentaria um corpo de polícia corrupto - reconheceu Pitt. — Está disposto a correr o risco de que Wetron esteja comprometido através do Simbister?

Narraway nem sequer se incomodou em responder.

— O que pediu ao Tellman?

Pitt titubeou. Tinha decidido não mencionar ao Narraway seu plano de deter o Jones o Bolso e ocupar seu lugar, mas teria que ter pensado que não ficaria mais remédio que pô-lo ao corrente. Era inevitável. Explicou-se o mais subitamente possível. Não era preciso dizer por que necessitava a ajuda do Tellman. A Brigada Especial não tinha capacidade para deter seu integrantes e Pitt não podia arriscar-se a confiar em um agente do Cannon Street.

— Pitt, tome cuidado - advertiu Narraway com surpreendente apreensão. Sua expressão irônica se esfumou. Inclinou-se ligeiramente na cadeira; já não fingia interesse pela papelada. — Não sabe quem ou quantas pessoas estão implicadas. Não só tem que ter em conta a cobiça, mas também as velhas lealdades. Bem sabe Deus que deveria sabê-lo e temê-lo! O que acontece com os que não estão de acordo? Ai, a ambição! Os homens necessitam trabalho e têm que alimentar a sua família. Quem quer ter que explicar a sua esposa ou a seu sogro, para não falar de seus filhos, os motivos pelos quais não progride?

— Já sei - reconheceu Pitt em voz baixa.

— Sabe? - Mais que uma pergunta era um desafio. — Qualquer vinculação com você converterá ao Tellman em um homem marcado. Faz-se cargo disso? Ninguém zomba de Wetron, e menos você. Ofereceu-lhe a possibilidade de destruir Voisey e assumir a direção do Círculo Interior, mas sabe perfeitamente que você é seu inimigo mais poderoso. Jamais o esquecerá e você tampouco deveria fazê-lo.

Pitt sentiu um calafrio. Já sabia que era assim, mas nessa tranqüila sala a situação se fazia mais real. Tinha sido cuidadoso e se reuniu com o Tellman em seus aposentos , ao anoitecer, quando as ruas estavam cheias de movimento e havia pouca luz. Equivocara-se ao pedir ajuda ao sargento?

Certamente que não. Tellman não era um menino a quem devia proteger da verdade e, menos ainda, a quem devia negar a possibilidade de defender ao corpo de polícia, que apreciava tanto como Pitt. Por outro lado, sem sua ajuda, Pitt não teria êxito. Não podia confiar em ninguém mais, sobre tudo no Bow Street. A guerra não permite pôr a salvo aos amigos e enviar unicamente a desconhecidos ao campo de batalha.

— Sei - afirmou. — Sei tão bem como ele.

— Nesse caso, adiante - disse Narraway tranqüilamente. — Quero saber quem participou do atentado. Landsborough era realmente o cabeça? De onde saiu o dinheiro para as bombas? E, acima de tudo e depois da morte do Landsborough, quem é o novo chefe? Antes que me esqueça, quem assassinou ao Magnus Landsborough?

— Não sei - respondeu Pitt. — Carmody e Welling estão convencidos de que foi um dos nossos, o que aponta que o assassinou alguém que não conhecem. Um anarquista rival, um dos capangas do Simbister?

— Está dizendo um homem do Wetron? - perguntou Narraway com voz apenas audível. — Pitt, averigue-o, tenho que sabê-lo.

 

Pitt passou o resto da jornada entre os escombros do atentado do Myrdle Street. Fez mais averiguações a respeito de Grover, mas ninguém se mostrou disposto a estender-se salvo para confirmar que tinha ocupado a casa do meio e que ficou sem lar, como outros. Sim, era policial. As pessoas a quem interrogou fecharam-se em banda e se mostraram na defensiva, pelo que deduziu que estavam assustadas. Ninguém falou mal do Grover, mas seus olhares denotaram frieza e falta de simpatia por ele. A atitude geral confirmava as palavras de Carmody em lugar de refutá-las.

Ensimesmado, Pitt caminhava pelo dique do Tamisa em direção ao Keppel Street; com agrado reparou nos vapores que navegavam pelo rio, lotados de pessoas que levavam chapéus com galhardetes, divertiam-se e saudavam às pessoas que havia na borda. Justo detrás da curva, onde não podia vê-la, uma banda tocava música. Os vendedores de rua ofereciam limonada, sanduíches de presunto doce e diversas guloseimas. Assim era como devia ser Londres no fim de uma tarde de estio. A brisa arrastava o aroma de sal da maré entrante, e se ouviam as gargalhadas, a música, os cascos dos cavalos nos paralelepípedos e o débil rumor da água.

— Boa tarde, Pitt. Tudo está como deve ser, não lhe parece?

Pitt se parou em seco. Reconheceu a voz inclusive antes de virar-se: Charles Voisey, a quem a rainha tinha concedido o título de sir pelo extraordinário valor que tinha mostrado ao matar ao Mario Corena e salvar ao trono da Inglaterra de um dos republicanos mais apaixonados e radicais da Europa. Naquele momento também era parlamentar.

O que sua majestade desconhecia e jamais saberia era que, naquela época, Voisey era o chefe do Círculo Interior e tinha estado a ponto de conseguir sua ambição de derrocar a monarquia e converter-se no primeiro presidente de uma Grã-Bretanha republicana.

Entretanto, foi o próprio Mario Corena quem intencionalmente desencadeou esse ato, que obrigou ao Voisey a assassiná-lo a fim de salvar sua vida. Este fato ofereceu ao Pitt a oportunidade de que Voisey aparecesse como salvador do trono e, por conseguinte, traidor de seus seguidores. Voisey jamais o perdoaria, apesar de este ter mudado de bando e quase sem vacilações tinha aproveitado sua condição de favorito real para apresentar-se às eleições e sair eleito. O prêmio era o poder. Só os integrantes do Círculo Interior sabiam que seu objetivo era conseguir a república. Para o resto das pessoas era um homem valente, engenhoso e fiel à Coroa.

Pitt o olhou, em pé no atalho e sorridente. Recordava suas feições à perfeição, como se o tivesse visto por última vez um par de minutos antes. Chamava a atenção, mas de modo algum era de boa aparência. Sua pele pálida estava salpicada de sardas e seu largo nariz estava um pouco torcido. Como de costume, seus olhos transmitiam inteligência; também se mostrou ligeiramente divertido.

— Boa noite, sir Charles - respondeu Pitt, e surpreendeu-se ao notar que lhe cortava a respiração e chegou à conclusão de que aquele encontro não podia ser casual.

— Não é fácil dar com você - disse Voisey. Quando Pitt reatou a marcha, andou a seu lado, enquanto a brisa lhes acariciava o rosto. — Suponho que o atentado do Myrdle Street o preocupou profundamente.

— Seguiu-me por todo o dique só para dizer isto? - inquiriu Pitt, contrariado.

— Não era mais que um preâmbulo, talvez desnecessário - respondeu o parlamentar. — Queria falar com você do atentado no Myrdle Street.

— Se pretende me recrutar para que apóie a campanha de armar à polícia, asseguro-lhe que perde o tempo - falou Pitt secamente. — Já temos armas no caso de ser necessário usá-las e não necessitamos mais autoridade para revistar às pessoas ou as casas. Demoramos décadas em conseguir a cooperação cidadã e se começarmos a nos mostrar autoritários a perderemos. Minha resposta é negativa. Para falar a verdade, farei quanto esteja em minhas mãos para que não se aprove essa proposta.

— Tem certeza? - Voisey se adiantou um passo e se voltou para olhá-lo com os olhos desmesuradamente abertos.

Pitt não teve mais remédio que deter-se para responder.

— Sim!

— Não existe a menor possibilidade de que mude de parecer, embora esteja submetido a pressão?

— Absolutamente. Pretende exercer alguma pressão sobre mim?

— Não, não - respondeu Voisey, que encolheu ligeiramente os ombros. — Pelo contrário, produz-me um profundo alívio saber que não mudará, à margem de que haja ameaças ou súplicas. É o que esperava de você, mas ouvir o de sua boca me enche de alívio.

— O que quer? - perguntou Pitt com impaciência.

— Ter uma conversa sensata - replicou Voisey, baixou a voz e de repente se mostrou muito sério. — Há questões de grande importância nas quais concordamos. Estou à corrente de certos assuntos que provavelmente você desconhece.

— Dado que é parlamentar, o que diz é indiscutível - afirmou Pitt causticamente. — De qualquer modo, está muito equivocado se supuser que compartilharei com você informação da Brigada Especial.

— Nesse caso, cale-se e me escute! - replicou Voisey. De repente seu forte temperamento pôde com ele e se ruborizou. — Um parlamentar apelidado Tanqueray apresentará um projeto para armar à polícia londrina e dotá-la de maior capacidade de revista e detenção. Tal como está a situação, neste momento tem muitas probabilidades de conseguir que passe.

— A polícia retrocederá vários anos.

Ao Pitt preocupava essa possibilidade.

— Provavelmente - concordou Voisey. — Mas há algo muito mais importante.

Pitt não se incomodou em dissimular sua impaciência; a espetada da curiosidade não cessava de aguilhoá-lo. Voisey devia querer algo, e tinha que ser importante para engolir o desprezo que sentia pelo Pitt, segui-lo e lhe falar nesses termos.

— Escuto.

Voisey tinha empalidecido e lhe movia um pequeno músculo da mandíbula. Olhou nos olhos de Pitt enquanto permaneciam cara a cara na calçada do dique, sob o vento e o sol de finais da tarde. Não ouviam os transeuntes, as risadas, a música e o chapinhar da maré crescente na escada que se estendia a seus pés.

— Wetron aproveitará o temor das pessoas para respaldar o projeto - explicou Voisey com voz baixa. — Qualquer atropelo que se produza favorecerá seus propósitos. Permitirá que os delitos aumentem até que ninguém se sinta a salvo: refiro a roubos, assaltos de ruas, incêndios provocados e até é possível que novos atentados com bombas. Quer que as pessoas tenham tanto medo que lhe negue que consiga armas, mais homens e competências, o que for para que volte a sentir-se segura. E assim que lhe concederem tudo isto porá fim aos delitos da noite para manhã e se converterá no grande herói.

— E você quer impedi-lo - disse Pitt, que entendia a intensidade com a que Voisey devia odiar ao homem que tão genialmente lhe tinha arrebatado o cargo a que aspirava.

Em seu esforço de dissimular suas emoções, o rosto do Voisey se tornou quase inexpressivo.

— Assim como você - replicou sem alterar-se. — Se se sai com a sua, Wetron se converterá em um dos homens mais poderosos da Inglaterra. Será quem salvou a Londres da violência e do caos, quem restabeleceu a segurança para poder caminhar pelas ruas e dormir tranqüilamente sem temor a explosões, roubos ou a perder o lar ou o negócio. Nem sequer terá que pedir que o nomeiem delegado. - A fúria alterou seu tom de voz e não pôde esconder o desdém. Seus olhos brilhavam. — Estará ao comando de um exército privado de policiais, com armas e competências para revistar e deter, o que garantirá que ninguém poderá tirá-lo do cargo. Seguirá cobrando tributos do crime organizado e recebendo pagamentos porque poderá seguir extorquindo sem que ninguém o incomode. Se alguém desobedecer ou protestar, deter-no-ão ou revistaram sua casa, onde misteriosamente descobrirão que tinha em seu poder mercadoria roubada. O pobre desgraçado acabará entre grades e sua família na miséria.

Junto a eles passou um landau descoberto no qual umas jovenzinhas com vestidos em tons pastel e com os guarda-sóis em alto riam e chamavam as amigas que se deslocavam em direção contrária.

— Ninguém irá em ajuda desse homem comum - demarcou Voisey, que não fez caso das moças. — Ninguém o auxiliará porque fará muito tempo que os que ostentam o poder terão sido silenciados. A polícia não confiará em ninguém porque a metade de seus membros se venderam ao Wetron, embora não se saberá quem são. Satisfeito porque haverá lei e ordem, o governo olhará para outro lado. Pitt, é isto o que quer ou essa possibilidade lhe desagrada tanto como a mim? Suas razões não me importam.

Na mente de Pitt se acumulavam os pensamentos. Era possível? A ambição do Wetron não tinha limites, mas possuía realmente a imaginação e a ousadia necessárias para tentar algo tão terrível? Soube a resposta inclusive enquanto se formulava a pergunta: certamente que as tinha.

Voisey o percebeu, relaxou-se e a expressão de pânico abandonou seu olhar.

Ao Pitt incomodou que tivesse visto tão facilmente o que acontecia em sua cabeça mas, por outra parte, lhe teria incomodado mais que Voisey supusesse que não lhe importaria ou, pior ainda, que lhe inquietava mas lhe faltava coragem para tomar medidas.

— Nesse caso, alie-se comigo - propôs Voisey amavelmente. — Me ajude a demonstrar o que Wetron está fazendo e a impedi-lo - Pitt tinha suas dúvidas. O ódio que havia entre ambos era como a folha afiada de uma navalha. — O que é mais importante para você, seu afeto por Londres e sua gente ou o ódio que sente por mim?

Uma banda situada no dique interpretava música de baile. As pessoas que navegavam pelo rio ria e se saudavam. Ao longe um realejo tocava uma canção popular.

O vento arrancou o chapéu a uma menina e as fitas bateram as asas.

— O ódio não tem nada que ver - replicou Voisey secamente. — Confio em você, ao menos é previsível. Reflita. Ocupo uma cadeira no Parlamento e conheço o Círculo Interior. Juntos iremos melhor que se formos cada um por sua conta. Pitt, pense no que quer. E não se esqueça de que "o inimigo de meu inimigo é meu amigo", ao menos até que acabe a luta. Medite. Amanhã nos reuniremos e me dará sua resposta.

Pitt necessitava de mais tempo. Era uma idéia absurda. Voisey era um homem perigoso que o odiava e o destruiria à primeira oportunidade que se apresentasse.

Só graças ao que sabia e do que tinha provas, que guardava cuidadosamente escondidas, Voisey não fazia mal a sua família. Inclusive tinha utilizado a sua própria irmã, a única pessoa do mundo a que queria, para cometer um assassinato.

A hipótese de que Wetron aproveitasse a ameaça anarquista para fazer-se com o poder era muito acreditável para lhe tirar importância. Pitt sabia e Voisey se assegurou de que assim fosse.

— Depois de amanhã - replicou Pitt. — Onde? Voisey sorriu.

— Não há tempo para satisfazer desejos pessoais. Terá que ser amanhã. Proponho que nos reunamos em um lugar agradável e público. O que lhe parece meio-dia na cripta do St Paul, junto ao mausoléu do Nelson?

Pitt respirou fundo. Olhou ao Voisey e viu que ele já sabia que estaria de acordo. Assentiu.

— Ali estarei.

Pitt deu meia volta, afastou-se e cruzou a rua; Voisey ficou só junto ao rio, que brilhava a suas costas com os últimos raios do sol.

 

Pitt não experimentou a alegria de costume quando franqueou a porta principal do Keppel Street. Voisey lhe tinha quebrado esse prazer. Se mencionasse seu nome, Charlotte recordaria a desdita e a violência do passado. Seria muito egoísta lhe contar o encontro só para não ter que tomar a decisão sozinho.

Entrou e desabotoou as botas, mas não a chamou para que soubesse que estava em casa. Carecia de sentido lhe falar do Voisey se ao final decidisse não aliar-se com ele. E se aceitava seu oferecimento, seria melhor para Charlotte não sabê-lo. Sempre lhe tinha contado as coisas importantes. Conheceram-se por causa de um assassinato. Charlotte era observadora e sensata e compreendia às mulheres como ele jamais chegaria a fazê-lo. E, o que era mais significativo em suas observações, sua esposa entendia as peculiaridades de sua classe social de uma forma que Pitt, que não pertencia a ela, não podia. Em diversas ocasiões tinham sido as observações de Charlotte que lhe tinham mostrado algum aspecto decisivo, uma anomalia, um motivo, uma forma de pensar.

De qualquer maneira, protegia-a de algumas questões e a necessidade de trabalhar com o Voisey seria uma delas. Embora ainda não tivesse tomado uma decisão.

Desejava rejeitar aquela proposta e sua intuição também se opunha a essa vinculação.

Percorreu lentamente o corredor até a cozinha. As luzes estavam acesas e ouviu o barulho dos pratos.

Cada vez que estava a ponto de rejeitar a perspectiva de trabalhar com o Voisey, o rosto obstinado e frio do Wetron ia a sua mente e pensava que talvez Voisey tivesse razão. Possivelmente Wetron aspirava ao mais alto cargo policial, a ter a lei de sua parte e desfrutar de um poder quase ilimitado para corromper. Talvez aliar-se com o Voisey fosse a única forma de derrotá-lo.

Certamente jamais confiaria no Voisey! Entretanto, talvez pudesse utilizá-lo para esse fim. Era muito o que podia perder se não corria semelhante risco. Ou, melhor dizendo, talvez a perda seria excessiva se não o tentasse.

Abriu a porta da cozinha e entrou.

Durante o jantar não mencionou o dilema que o preocupava nem se referiu à corrupção policial. Charlotte perceberia seu sofrimento e também se sentiria doída. Saberia que suas palavras, os abraços, o afeto e a confiança não facilitariam o que tinha que confrontar.

Quando terminaram de jantar e recolheram a mesa, Pitt se ajeitou em sua poltrona do salão e observou a sua esposa, que estava sentada com a cabeça inclinada.

A luz do abajur situado a um lado marcava as sombras de suas pestanas na face. Com mãos ágeis Charlotte cravou a agulha na roupa que remendava; Pitt se alegrou de não ter perturbado sua paz.

No salão não havia mais som que o suave repicar da agulha contra o dedal e o ligeiro chiado das chamas. Aquela imagem e o silêncio quase absoluto eram reconfortantes. A segurança, a companhia, essa familiaridade eram o verdadeiro prêmio ao final da jornada; era mais que o alimento, o calor ou o tempo disponível para fazer o que tivesse vontade. Tratava-se da certeza de que tudo importava. Estivessem ou não de acordo, tinham empreendido uma campanha a favor de algo que a ambos interessava. Triunfais ou vencidos, cheios de energia ou muito esgotados para pensar, o certo era que Charlotte estava de sua lado.

Era uma estupidez assustá-la com a possibilidade de trabalhar com o Voisey ou com os aspectos mais desagradáveis da corrupção policial. Além disso, se refletisse minuciosamente, era sensato e sopesava todas as possibilidades, talvez achasse uma solução mais adequada.

Jack Radley era a pessoa a quem lhe convinha consultar. Era o cunhado de Pitt, o marido de Emily, a irmã de Charlotte. Também era parlamentar e estava adquirindo muita experiência. Pela manhã Pitt iria à Câmara dos Comuns e lhe faria algumas perguntas. Mas para essa noite já era hora de afastar a questão de seus pensamentos e deixar que o calor penetrasse em seu interior e o reconfortasse.

 

Jack respondeu com certo nervosismo:

— Tanqueray.

Tinha optado por não reunir-se com Pitt em seu escritório, onde corriam o risco de serem interrompidos por empregados, funcionários e outros parlamentares, pelo que se viram no exterior, no terraço que dava para o rio. De costas ao grande palácio gótico do Westminster e à torre do Big Ben se confundiriam com as pessoas e provavelmente se livrariam de ser reconhecidos.

— É verdade? - inquiriu Pitt sem levantar muito a voz.

Um par de anciões passaram atrás deles e Pitt cheirou na brisa o aroma a fumaça de charuto. O sol cintilava sobre o rio, no qual fileiras de barcaças se dirigiam águas acima com a maré a favor.

-Sim, certamente - respondeu Jack com emoção. — Além disso, tem muitos partidários. De fato, o que conta são os partidários. Tanqueray não é mais que o porta-voz. É uma das muitas questões que me preocupam. Na realidade, não sei quem está por trás das pressões para armar à polícia.

— Seu projeto não é a reação ao atentado no Myrdle Street? - quis saber Pitt.

Jack esboçou um penalizado sorriso.

— Utilizaram esse argumento, mas estão muito preparados para tê-lo conseguido em alguns dias. Ainda não redigiram o projeto, mas já contam com os compromissos e as argumentações principais para sustentá-lo. Estão medindo à opinião pública, mas existe um grande acordo. Com o passar do último ano os delitos nas ruas aumentaram. - Olhou de soslaio ao Pitt e entreabriu os olhos para proteger-se do resplendor do sol. — Todos conhecemos alguém a quem assaltaram, que sofreu um incidente desagradável ou que simplesmente prefere voltar para casa pelo caminho mais longo porque existe a ameaça da violência. É possível que não se tenha dado conta porque não está na delegacia de polícia, mas na Brigada Especial.

— Para não falar da corrupção policial - demarcou Pitt sem levantar a voz.     — Tampouco tinha reparado nela.

— Que corrupção? - perguntou Jack e franziu o sobrecenho. — Onde? Como sabe?

— Pelos dois anarquistas que detivemos - respondeu Pitt andando lentamente. — Por isso colocaram a bomba no Myrdle Street, ao menos é o que dizem. Só pretendiam destruir a casa do meio que pertence a um policial do Cannon Street. Pelo visto não são muito hábeis com a dinamite. Destruíram ao menos três casas e há outras cinco tão danificadas que precisarão demolir.

Jack arqueou as sobrancelhas.

— Acreditou neles? - perguntou e avançou junto ao Pitt.

— A princípio, não. Levei a cabo pessoalmente algumas investigações e sei que parte do que dizem é verdade.

— E o resto?

— Ainda não sei, mas me proponho averiguar.

— A corrupção está muito estendida?

Chegaram ao final do terraço e se voltaram para reatar a caminhada.

— Chega até o mais alto escalão - respondeu Pitt.

Jack permaneceu vários minutos em silêncio porque atrás deles caminhavam alguns parlamentares, a tão pouca distância que havia o risco de que os ouvissem. Dois ou três se dirigiram a Jack, que respondeu educadamente. Não apresentou ao Pitt.

— A quem se refere? - perguntou quando por fim teve a certeza de que ninguém os ouvia.

— Ao Wetron, do Bow Street, e ao Simbister, do Cannon Street - respondeu Pitt. — Não sei se há alguém mais comprometido, mas o que importa é Wetron.

Jack não lhe perguntou por que era assim. Sabia que Wetron era chefe do Círculo Interior porque Pitt o tinha contado durante o episódio do Whitechapel.

— A polícia diz que não pode nos proteger dos roubos nem da violência a menos que disponha de mais efetivos. - Jack se deteve e observou a água alvoroçada pelo vento.— Neste momento pede mais armas para que seus homens possam proteger-se e os argumentos são muito poderosos. Ainda não morreram muitos policiais no cumprimento do dever, mas tudo se andará. Não podemos pedir que nos protejam e nos negar a lhes proporcionar os meios. A próxima vez que ferirem gravemente a um agente haverá um clamor generalizado, para não falar que haverá mais policiais que abandonarão a corporação. Thomas, as pessoas estão assustada e tem motivos para isso.

— Sei. - Pitt se apoiou no muro, junto ao Jack, e olhou o transbordador que passava sob os arcos da ponte do Westminster. — De qualquer maneira, armar à polícia não ajudará, só piorará as coisas. Já dispomos de armas se devemos enfrentar a uma situação realmente grave, como o assédio no Long Spoon Lane. Se tivermos muito poder, cedo ou tarde alguém se aproveitará e abusará. Separar-nos-emos do povo, do qual se supõe que formamos parte.

Jack mordeu o lábio.

— Acontecerão coisas piores - afirmou penalizado. — Ainda não sei quais, mas ocorrerão.

— Piores? - Pitt se sobressaltou. — Há algo pior que um policial corrupto, com armas e competências para que seus agentes vão onde queira e possam revistar a quem queira sem ter que dar explicações? É como autorizar a criação de um exército privado!

— Não sei, não sei. Só se trata de um rumor, algo de que ninguém fala com clareza. De todo modo, estou convencido de que existe um grande risco. Digamos que, ao menos, temo que exista. - Endireitou-se e se voltou para olhar a seu cunhado. — Thomas, o medo se está generalizando. É palpável o temor à mudança, à violência, à apatia que nos levaria a perder o que temos. É o pior motivo para tomar medidas. Reagimos sem ter em conta as conseqüências.

Pitt sorriu com amargura e se lembrou do Welling e Carmody, assim como de Magnus Landsborough, a quem não tinha chegado a conhecer.

— Como os anarquistas, que estão dispostos a bombardear um objetivo sem parar para pensar no modo de substituir o que se destrói.

— É isso o que declararam? - Jack se mostrou curioso.

— Surpreende-o?

— Conforme, depende. A velha teoria da anarquia não é muito prática, ao menos em minha opinião. Faz muito insistência na bondade inerente ao ser humano. Sustenta que os homens sábios devem controlar seu comportamento à margem da interferência dos governos. - Sorriu a seu pesar. — O problema é quem decide quem são sábios e quem não. Além disso, o que fazemos com os preguiçosos, os inadaptados ou os que, simplesmente, não querem colaborar no bem-estar geral? Sempre existirão doentes, velhos e curtos de inteligência, e não falemos dos rebeldes. Quem se encarregará deles? Quem freará ao intimidador, ao mentiroso e ao ladrão? Tem que fazer-se por consenso geral, com o qual voltamos para a questão do governo.

— E da polícia - concordou Pitt, apesar de que o que Jack acabava de dizer sobre o anarquismo era virtualmente desconhecido para ele.

Essas palavras lançaram uma nova luz sobre o Magnus Landsborough e também sobre Jack. A anarquia era algo que era preciso tomar-se a sério; era uma ideologia e não uma simples manifestação de protesto.

— Há algo mais - disse Pitt. — Ontem estive falando com o Voisey no dique. - Jack se esticou.

— Com o Voisey!

Pitt lhe contou o que Voisey lhe havia dito das ambições do Wetron; de escalar posições para reger com mão férrea toda a cidade.

— Deus bendito! - exclamou Jack energicamente. Baixou a voz ao dar-se conta de que tinha chamado a atenção de um grupo de homens que passava junto a eles. — Se tornou louco! Está? - perguntou com incredulidade. — O que opina Victor Narraway?

— Não sei - reconheceu Pitt. — Ainda não lhe disse.

— E quando propõe comunicar-lhe?

— Quando partir daqui.

— Não confie no Voisey! - acrescentou Jack com obrigação. — Não esquece nem perdoa nada. Queria ser presidente de Grã-Bretanha e virtualmente foi você quem o impediu, com a ajuda de lady Vespasia. Estou convencido de que tampouco o esqueceu.

— Sei - confirmou Pitt. — Se Voisey não me tivesse tirado fora, agora eu seria o chefe do Bow Street em lugar do Wetron. Isto acaso volta falacioso a acusação contra este?

Jack o olhou atentamente e empalideceu. O vento aumentou e lhe agitou os cabelos.

— Não - reconheceu a contragosto. — Suponho que não. O que quer Voisey? Estou convencido de que pretende ter algo em troca.

— Quer que colabore com ele para impedir que Wetron triunfe - esclareceu Pitt.

— Não deve fazê-lo! - Jack estava consternado. — Thomas, não pode trabalhar com o Voisey! À primeira oportunidade que se apresente lhe dará uma punhalada traiçoeira. Por Deus, sabe que o fará!

— Sim, sei. - Pitt levantou a gola da jaqueta. — Mas também sei que é possível que esteja certo e, nesse caso, Wetron acabaria tendo o controle de Londres e de todo o Império. - Jack guardou silêncio. Ambos pensavam que aquela possibilidade era aterradora. — E isso não é tudo - acrescentou Pitt e pôs-se a andar pelo caminho que já tinham percorrido. — E se Wetron não for tão inteligente como pensa e trai alguém que pertença ao Círculo Interior, alguém com simpatias no estrangeiro? A conspiração se limita a Inglaterra? Eu não sei. Embora assim fosse, alguns homens se vendem por dinheiro, por poder ou por milhares de razões. Não é desatinado pensar que um integrante do Círculo Interior poderia trair a Inglaterra. Não seria a primeira vez que o Círculo se divide em facções e troca de líder. Foi assim que Wetron acabou com o Voisey, e poderia voltar a ocorrer.

Jack olhava para baixo e tinha o cenho franzido.

— Não pensou que Voisey poderia haver o inventado para conseguir que lhe ajudasse a destruir ao Wetron? - inquiriu, mas seu tom delatou que não acreditava no que dizia. — Sem dúvida o odeia inclusive mais que a você. Existe satisfação maior que enfrentar a seus inimigos? Dá na mesma que perca um ou outro; você ganha e o sobrevivente fica bastante debilitado para que possa rematá-lo.

— Já sei. - Aquela possibilidade formou um nó no estômago do Pitt. — Podemos nos dar ao luxo de permanecer à margem?

Jack esperou longo momento antes de responder. Quase tinham chegado à porta de entrada ao palácio e a seu escritório.

— Não - reconheceu em tom baixo. — Mas tome cuidado, Thomas. Pelo amor de Deus, tenha muito cuidado. Não confie no Voisey, nem sequer um segundo. - Pitt guardou silêncio. — O que quer de mim?

Pitt o olhou firmemente nos olhos.

— Já me respondeu. Tanqueray seguirá adiante com o projeto e acredito que poderiam aprová-lo. Se ocorrer, Wetron terá poder para impor seu domínio em Londres. Sejam quais forem os riscos, se houver uma forma de impedi-lo, a utilizarei.

Jack escrutinou seu rosto.

— Mantenha-me informado - disse finalmente Jack. — Ocupe-se de... - Deu de ombros. — Sinto muito. Só a idéia já me é detestável.

Pitt sorriu.

— A mim também.

 

Pitt entrou no escritório do Narraway e ficou tenso inclusive antes de abordar o tema. Seu superior estava em pé junto à janela, de costas à porta, e a luz destacava as cãs de sua cabeleira. Quando Pitt entrou, Narraway se voltou com expressão de expectativa.

— Chega tarde - replicou. — Que mais averiguou sobre Magnus Landsborough? Tenho que sabê-lo antes que os anarquistas se reagrupem e nomeiem a outro chefe.   - Estava impaciente. — Quem financiou a operação? Há mais implicados? Falei com minhas fontes de informação e, pelo que me disseram, não existe nenhuma conexão com grupos estrangeiros. O East End está lotado de poloneses, judeus, franceses, italianos, russos e o que lhe ocorra, mas a ninguém interessava que Myrdle Street voasse pelos ares.

— Não acredito que existam conexões estrangeiras - opinou Pitt e também permaneceu em pé. Estava muito rígido e trêmulo para sentar-se. Chegou à conclusão d que era melhor ir direto ao ponto. Por outro lado, tampouco teria podido deixar de comunicar ao Narraway. — Chego tarde porque fui à Câmara dos Comuns e estive falando com o Jack Radley. Em sua opinião, há muitas probabilidades de que seja aprovado o projeto do Tanqueray para armar à polícia e aumentar suas competências em revista e detenção.

Narraway soltou juramentos com uma violência contida que revelava a intensidade de suas emoções.

— Recebi uma oferta de ajuda que vou aceitar porque a situação possivelmente é pior do que supomos e Jack está convencido de que se deteriorará ainda mais –acrescentou Pitt.

— Como disse? Que agora os anarquistas pretendem voar o palácio do Buckingham? - perguntou Narraway com ironia.

— Sabotagem por corrupção - explicou Pitt. — No caso de que se aprove o projeto, o corpo de polícia poderia converter-se no exército privado do Wetron.

O chefe da Brigada Especial aspirou ar e de repente pareceu dar-se conta da situação. Relaxou os ombros, aspirou profundamente e lhe iluminou o olhar.

— Wetron aproveitará a oportunidade - comentou com serenidade. — Genial! Nesse caso, não quererá que apanhemos aos anarquistas. Desejará que voltem a lançar um golpe para que os cidadãos se assustem e lhe concedam o poder que deseja. Nesse momento investirá a corrupção que fomentou. Não lhe custará deter os responsáveis porque já sabe quem são. Que Deus os ajude, foi o próprio Wetron quem os instigou! Pitt, como o descobriu?

Os olhos negros do Narraway adquiriram um brilho que poderia ser de admiração.

Só existia uma resposta possível: a verdade.

— Soube pelo Charles Voisey - respondeu Pitt. — Ontem me abordou na rua. Quer que colabore com ele para impedir a aprovação do projeto.

Uma sucessão de emoções alterou o rosto do Narraway: desconcerto, incredulidade e, fugazmente, humor.

— É o que quer? - perguntou por fim. — O que lhe respondeu?

A expressão do Narraway estava cheia de curiosidade.

Pitt se obrigou a manter a calma.

— Disse-lhe que pensaria nisso e que hoje ao meio dia lhe responderia. Fiquei com ele no St Paul. De qualquer modo, aceitarei.

A voz do Narraway soou muito suave, quase como o ronronar de um casa de jogo clandestina:

— Ah, aceitará. - Mais que uma pergunta era um desafio.

Pitt esteve à altura das circunstâncias.

— Sim, aceitarei. Não posso me permitir o luxo de rejeitar esse oferecimento. E você não pode permitir-se que eu diga que não. Necessitamos que a polícia coopere para levar a cabo eficazmente nosso trabalho. Com o Wetron de delegado e o Círculo Interior contra nós, para não falar de que se considere à polícia um inimigo público, impedir-nos-iam cada passo que quereríamos dar. Só poderíamos fazer aquilo que Wetron nos permitisse.

— Acredita que é assim? - inquiriu Narraway. — Não lhe ocorreu pensar que Voisey pôde inventar a fim de utilizar a você para destruir ao Wetron e recuperar o controle do Círculo Interior?

— É claro que me ocorreu - respondeu Pitt com amargura. — Estou convencido de que Voisey sabe que me passou pela cabeça, mas isto não muda o projeto do Tanqueray nem a corrupção policial que, esteja ou não informado de sua existência, Wetron foi incapaz de evitar.

Narraway apertou os lábios e assentiu ligeiramente.

— Quem matou ao Magnus Landsborough?

— Não sei - reconheceu Pitt. — De todo modo, estou empenhado em averiguá-lo. Tenho que voltar a falar com o Welling e Carmody, mas o certo é que é cada vez mais difícil lhes tirar informação. São uns idealistas com uma visão muito simples: a autoridade é corrupta e só é possível desfazer-se dela através da violência. Detonaram as bombas depois de avisar aos habitantes para que saíssem. - Tentou expressar com palavras a inocência ou a inutilidade fundamental de tais táticas. — Não queriam derramar sangue, que é a arma definitiva, mas estavam dispostos a destruir os lares e os pertences dos pobres e a privá-los dos meios que fazem mais suportável a vida. São jovens, gozam de boa saúde e não têm esposa nem filhos, o que significa que não podemos chantageá-los utilizando suas famílias. São sonhadores que vivem à margem da realidade, das emoções e das necessidades que impulsionam, recompensam e ferem as pessoas. Não sei o que lhes dizer.

Ao que parecia, Narraway já o tinha pensado.

— Acabarão na forca - afirmou e olhou de frente a Pitt. Meteu as mãos nos bolsos.   — Suponho que sabem, embora talvez não pensaram nisso. Embora no atentado do Myrdle Street não morreu ninguém, um dos anarquistas atirou em um policial e o feriu. Se você não tivesse ido em seu auxílio e não tivesse parado a hemorragia, talvez tivesse morrido. Podemos acusá-los de tentar assassinar a um agente de polícia enquanto cometiam um delito muito grave.

Pitt sentiu um calafrio apesar de no escritório fazer calor. Por mais desencaminhados que estivessem, justiçar a esses jovens que faziam o que consideravam justo era um aspecto de seu trabalho que lhe provocava náuseas.

De todo modo, sabia que discutir com o Narraway não serviria de nada. Melhor dizendo, não sabia o que opinava este de condenar a homens à forca ou o que sentia a respeito dos prazeres e as insipidezes do trabalho. Narraway era meticuloso com a vestimenta e os hábitos, mas era desordenado com a papelada. Comia frugalmente, mas gostava da boa confeitaria e o bom vinho. Lia muito: história, biografias, ciência e poesia. Pitt não o tinha visto nunca com uma novela nas mãos, salvo algumas obras traduzidas de outras línguas, sobre tudo do russo. Desconhecia absolutamente o que emocionava ao Narraway, o que lhe fazia dano ou o que lhe tirava o sono.

— Proponha-lhes a anistia em troca de informação para acabar com a corrupção policial e o compromisso de não cometer mais atentados. - A voz do Narraway interrompeu os pensamentos do Pitt. — Exponha-o como quero, mas de forma que funcione.

Pitt estava surpreso e perguntou, desconfiado:

— Disse anistia?

Seu superior abriu muito os olhos.

— Não deixa de me surpreender, pensei que gostaria! Obviamente, não é esse o motivo pelo que o faço. Lhes proponha cinco anos de cárcere em vez da forca, mas consiga que ganhem.

Pitt se alegrou.

— A quem tem que consultar para que seja oficial? Quando saberá?

Narraway meteu as mãos nos bolsos.

— Pitt, já sei. - Uma ligeira faísca de diversão iluminou seu olhar. — Vá ver o que consegue em troca.

 

Cinco minutos antes de meio-dia Pitt percorreu o chão de pedra branca e negra da catedral do St Paul e desceu a escada que conduzia à cripta. Ladeou discretamente os arcos e tentou evitar que suas pegadas perturbassem aquele silêncio sepulcral. Abaixo só viu duas pessoas: um ancião de cabelo espaçado e expressão aprazível e sonhadora e uma moça, muito concentrada no papel que segurava na mão. Ninguém o olhou quando passou.

Das paredes pendiam placas que comemoravam aos heróis mortos nas grandes batalhas do passado. Surpreendeu-lhe que muitos fossem capitães da Marinha caídos em Trafalgar. Foi um cru aviso de que sombrio parecia então o futuro da Inglaterra, com Napoleão em plena conquista da Europa e preparado para apoderar-se também de Grã-Bretanha. Naquele momento dava a sensação de que nada podia detê-lo.

Pitt divisou o teto central, com arcos de cor clara, onde se uniam as colunatas, e debaixo, no coração mesmo da cripta, o grande sepulcro do Horatio Nelson. Voisey estava em pé frente ao mausoléu. Acaso analisava em silêncio o heroísmo, o sacrifício e as vicissitudes da guerra, que podiam mudar a história depois de uma só batalha? Poderia controlar todos aqueles fatores um homem dotado de visão, aptidões e valentia? O sinal do Nelson à frota antes do ataque passou à história e até é possível que explicasse a essência de ser inglês: "Inglaterra espera que cada um cumpra com seu dever". Por que Voisey tinha escolhido esse sepulcro entre todos os que albergava a grande catedral? Havia uma vintena de lugares onde reunir-se, todos de fácil acesso. Por que tinha chegado tão cedo? Tratava-se de seu primeiro e surpreendente engano tático? Pitt tinha calculado que Voisey se atrasaria dez minutos, nem tanto para que partisse, mas o suficiente para que estivesse ansioso e se sentisse em desvantagem, como se fosse ele quem esperava uma resposta.

Pitt se deteve uns segundos para ver se Voisey se virava e o buscava. Não o fez. Estava mais seguro do que dava a entender sua chegada cedo ou acaso via o reflexo do Pitt na superfície de mármore negro do sepulcro?

Se por acaso era assim, Pitt sorriu e avançou. Não estragaria sua vantagem dando a sensação de que era calculada.

— Bom dia, sir Charles - disse. Empregou o tratamento que correspondia e que recordaria ao Voisey que, em seu mais duro enfrentamento, era Pitt quem tinha ganhado.

Teria preferido não ter que chamá-lo assim, mas evitá-lo seria inclusive mais claro. Teria indicado que temia evocar aquela lembrança. Dar-se conta do muito que tinha pensado no Voisey lhe criou um grande desassossego.

Voisey se voltou pouco a pouco. Ia elegante e sobriamente vestido, como se estivesse ali para recordar aos heróis do passado em vez de debater batalhas políticas do presente.

— Bom dia, Pitt - respondeu. — Chega um pouco tarde. É a primeira vez que visita St Paul? Se for capaz de concentrar-se no assunto que nos trouxe aqui talvez poderíamos caminhar pela cripta. Mostrar-lhe-ei os sepulcros de outros notáveis embora, como é evidente, nada pode rivalizar com este puro... - titubeou, — com este puro espetáculo.

Pitt observou o magnífico monumento. Tinha diversos adornos e estava resplandecente; era o tributo de uma nação a um homem que não só tinha sido o artífice de sua maior vitória naval, mas também um herói muito querido que tinha morrido no momento de seu triunfo. Pitt valorizou o monumento e se sentiu cheio de um profundo orgulho enquanto permanecia diante; esqueceu fugazmente que Voisey se achava a seu lado.

— Perdemos perto de quarenta oficiais e quinhentos efetivos. As palavras do Voisey interromperam seus pensamentos, pelo que perguntou, surpreso:

— No Trafalgar? - Pareciam muito poucos para uma batalha de tanta importância.

— Na frota britânica - respondeu Voisey, com expressão irônica e o olhar aceso.— Obviamente, essa cifra não inclui os franceses nem aos espanhóis. - Pitt guardou silêncio e se sentiu um pouco ridículo. — Perderam mais de cem oficiais e mil e cem efetivos - precisou Voisey. Nesta ocasião Pitt tampouco respondeu. — Era um homem peculiar. Enjoava-se ao princípio de cada travessia. - Voisey se referia ao Nelson.

— Sei - afirmou Pitt.

— Gostava das mulheres gordas e fedorentas - acrescentou Voisey.

O investigador não tinha nem idéia de se aquilo era certo ou falso, mas tampouco lhe interessava. Observou ao Voisey e afastou rapidamente o olhar. Soube por que o tinha escolhido: tratava-se de uma questão de classe. Recordava-lhe que era um cavalheiro enquanto que Pitt não o era. Contrapunha a soltura aristocrática à falibilidade dos heróis e os aspectos mais terrestres da natureza com a dissimulação da classe operária. Media o terreno, tentava achar a forma de feri-lo.

— Tem certeza? - perguntou Pitt com indiferença. — Quantos navios perdemos?

— Os franceses e os espanhóis da frota combinada perderam vinte e um - respondeu Voisey.

Pitt sorriu e entre ambos se produziu certa sensação de confiança.

— Pelo visto, estudou o tema.

— Foi um momento decisivo da história, uma das batalhas navais mais importantes. -Nesse momento era Voisey quem estava à defensiva. — Teria gostado de vê-la. - Olhou em direção ao sepulcro. Apesar de tudo, sua voz soou carregada de orgulho. — Uma fria manhã de outubro sessenta e dois navios de guerra se acharam cara a cara. Superavam-nos numericamente e em canhões por trinta e três a vinte e nove.

— Quantos navios perdemos? - repetiu Pitt.

Não queria sentir avaliação pelo Voisey porque lhe interessasse a história nem estava disposto a identificar-se com seu patriotismo, mas teve que esforçar-se e pensar exclusivamente nos fatos.

— Os franceses perderam oito e os espanhóis, treze - replicou Voisey.

— E nós?

Voisey inclinou a cabeça para indicar o sepulcro. - Nós perdemos Nelson.

— Quantos navios? - insistiu Pitt. Não queria pensar nos seres humanos, suas vidas e suas paixões; decidiu ater-se ao mensurável.

— Nenhum. Não perdemos navios. Todos retornaram ao porto. - Voisey franziu ligeiramente o cenho e piscou, como se suas emoções o tivessem pilhado com a guarda baixa. — É a maior vitória de nossa história naval. Salvaram-nos da invasão, mas a frota retornou a Inglaterra com as bandeiras a meia haste, como se se tratasse de uma derrota. - Sua voz soou grave e deixou de olhar ao Pitt.

Este estava decidido a que o ódio que Voisey sentia por ele não se apartasse jamais do primeiro plano de sua mente; não podia permitir-lhe. Mas apesar disso, acabou apanhado pela magnitude do combate, a glória e a perda. Sabia o que estava fazendo Voisey: tentava estabelecer um vínculo entre ambos, uma tentação para que baixasse a guarda. Mas se rompia esse vínculo seria rebaixar-se, negar quem era, algo que Voisey também tinha provocado. Teve a sensação de que Voisey movia os fios como um titireiteiro.

Ao final foi Voisey quem rompeu o silêncio.

— Disse-lhe Jack Radley que a proposta do Tanqueray será passada? - inquiriu.

Pitt dissimulou a surpresa que lhe provocou inteirar-se de que Voisey já sabia que tinha falado com o Jack.

— Sim - reconheceu. — Também me comentou que há muito pouca resistência organizada. Teremos que ser muito mais espertos do que até agora fomos se quisermos capear o temporal. - O emprego da metáfora de marinheiro não foi intencional.

Um esboço de sorriso divertido apareceu nos lábios do Voisey, mas tinha os punhos fechados aos lados do corpo e seus potentes dedos estavam brancos.

— Isso soa a derrota - comentou e o intenso simbolismo do lugar no qual se achavam não passou despercebido, que era precisamente o que Voisey pretendia.

— Deveria soar a cautela - precisou Pitt. — Acredito que, ao menos de momento, superam-nos numericamente e em armamento. É preciso algo mais que fanfarronadas para ganhar e, por desgraça, algo mais que uma causa justa.

Voisey arqueou um pouco as sobrancelhas.

— Necessitamos um Nelson? - Um leve sorriso entreabriu seus lábios. — Acredita que Narraway está à altura das circunstâncias?

— Ainda não decidi até que ponto o consultarei - respondeu Pitt.

Nesta ocasião Voisey sorriu de orelha a orelha e a diversão chegou até seus olhos.

— Estava convencido de que lhe agradava! Equivoquei-me?

— Isso não vem ao caso - respondeu Pitt causticamente. O tom divertido do Voisey lhe tinha incomodado. — Eu goste ou não, sou capaz de trabalhar com quem é se considerar que seu objetivo é o mesmo que o meu e se essa pessoa for competente. Supunha que já sabia!

— Está bem - reconheceu Voisey suavemente, com voz apenas audível. — Se houvesse dito que confiava em mim teria pensado que era você um mentiroso, que além disso mentia mal, mas está claro que se dá conta de que meu objetivo é o mesmo que o seu. Isso me basta.

— Vamos por partes - advertiu Pitt. Não perguntou se Voisey confiava nele. Afinal, essa era a vantagem do parlamentar e ambos sabiam. Pitt se regia pelas normas do corpo, pelo contrário Voisey não tinha limitações. — Como é Tanqueray?

O humor acendeu as feições de seu interlocutor.

— Como um bolo de geléia - respondeu. — Atrai aos que têm mais apetite que bom senso e logo acabam chupando os dedos e procurando um lugar onde lavar-se. Nunca basta um guardanapo.

Pitt sorriu muito a seu pesar.

— Por que o escolheram?

Voisey arqueou as sobrancelhas.

— Quer que lhe dê minha opinião? Porque há um montão de parlamentares que pensam que não há nada mais inocente ou inofensivo que um bolo de geléia! Se lhes oferecer uma bolacha bêbada ou uma pudim de creme pensarão que quer algo.

Pitt se deu conta de aonde queria ir parar.

— Em quem mais podem confiar?

— Em muitos - respondeu Voisey pesaroso. — Dyer é o mais poderoso. É um mendigo lisonjeador. Parece um sacerdote a quem obrigaram a pendurar os hábitos; eu não lhe confiaria nem os recursos do partido nem a minha afilhada se tivesse menos de vinte anos. Lorde North estava acostumado a dizer do Gladstone que não lhe incomodava que guardasse um ás sob a manga, mas se negava a aceitar que fosse Deus quem os tinha posto aí. Dyer é igual: mais papista que o Papa!

Pitt se voltou para dissimular a risada que tinha estado a ponto de traí-lo. Não queria gostar nada do Voisey. Afastou-se do sepulcro e deu uns passos para o lugar pelo que tinha chegado.

— Quem matou ao Magnus Landsborough? - inquiriu o político.

— Não sei - replicou Pitt. — De todo modo, averiguá-lo-ei. Preocupa-lhe isso? Não é a corrupção policial o que lhe interessa? Será a carta principal que terá que jogar contra eles no Parlamento.

— Nem mais nem menos. Está seguro de que não são dois assuntos estreitamente unidos?

— Não, não estou certo. Talvez estejam relacionados.

— Necessitarei algo mais sólido - declarou Voisey. — Quero provas de corrupção ou, ao menos, as suficientes para dar por supostas muito mais coisas.

— Claro, já sei o que necessita e para que - concordou Pitt. — Poderia consegui-lo e entregar-lhe sem mais demoras ao Jack Radley. - Voltou-se para olhar ao Voisey. Não pôde evitar tentar comprovar se a menção do nome do Jack, que devia lhe trazer lembranças de sua derrota, feriam seu amor próprio. O sentimento de ódio que alterou a expressão do sir foi tão amargo como a bílis. Pitt já sabia que existia e vê-lo uns segundos com toda sua crueldade o perturbou, embora não deveria ter sido assim. Serviu-lhe de aviso. Teria que estar agradecido, já que esquecê-lo era muito fácil. — O que me dará você que ele não possa me proporcionar?

— Informação do Círculo Interior - respondeu Voisey e lhe tremeu ligeiramente a voz. — Nomes, detalhes e quem deve o que e a quem.

Poderia ser a traição definitiva a todas suas promessas, a vingança para aqueles que haviam lhe voltado as costas e escolhido Wetron. As emoções que mostrava eram entristecedoras: júbilo, mas também temor. Daria um passo definitivo que se castigava com a pena de morte.

— Quanta dessa informação está disposto a utilizar? - perguntou Pitt com voz muito baixa.

Não só se protegia de que o ouvisse alguém, que podia fazer parte dessa irmandade secreta, também evitava revelar suas necessidades.

— Toda - replicou Voisey. — Até que o Círculo seja tão inútil como os ossos que repousam neste mármore.

— Compreendo.

— Não, não o entende, mas acabará por fazê-lo. Enviar-lhe-ei uma mensagem se tiver algo que lhe comunicar a respeito do que acontece no Parlamento. Do contrário, voltaremos a reunimos aqui a semana que vem e me dará a informação de que disponha. Vá-se de uma vez. Não estamos juntos. Simplesmente, por acaso, encontramo-nos no mesmo lugar e à mesma hora.

Pitt engoliu a saliva. Notou que lhe tinha secado a boca. Desejava dizer algo cortante e definitivo, mas sua mente só estava ocupada pela certeza do ódio corrosivo e irreversível do Voisey. Virou-se e se afastou para a escada que conduzia à imensa catedral e ao resto do mundo.

 

De noite, ao chegar em casa, Pitt se entusiasmou com a alegria de seus filhos enquanto se sentavam à mesa para jantar. Acolheu de boa vontade suas incessantes perguntas e tentou não olhar a Charlotte quando ela interveio para pôr um pouco de ordem.

— Papai, o que quer dizer anarquista? - perguntou Daniel com a boca cheia. - A senhora Johnson diz que são demônios. É verdade?

Charlotte deixou escapar uma exclamação e se dispôs a lhe dizer que acabasse de comer a verdura, mas seu marido a interrompeu.

— Não, as pessoas nunca são demônios, embora por razões muito diversas às vezes agem mal. Os anarquistas não acreditam na ordem. Preferem prescindir das regras e do governo. - Não quis confundir a seu filho com a definição mais política e sutil do Jack.

— Por que?

Charlotte revirou os olhos e dissimulou um sorriso. Não estava disposta a ajudar.

Pitt esteve tentado a dar uma resposta engraçada, mas reparou na expressão séria e bastante preocupada de seu filho e mudou de opinião.

— Acreditam que seria melhor que cada um fizesse o que quisesse. Daniel se manteve na expectativa.

— Recorda o dia que fomos ao Piccadilly em carruagem de aluguel? - interveio Charlotte com delicadeza. — Lembra-se que a roda de uma carruagem se enganchou na de outra e se soltou? Todos correram em diferentes direções para recuperá-la e acabaram piorando a situação. - Daniel moveu afirmativamente a cabeça e a satisfação iluminou seu rosto. — Pois bem, seria mais ou menos o mesmo - concluiu sua mãe. — Durante um momento foi muito divertido, mas não seria engraçado se tivesse pressa, estivesse muito cansado, sentisse frio ou te encontrasse mal. Se houver regras, à longo prazo todos chegamos onde queremos ir.

Daniel se dirigiu a seu pai:

— A quem pode interessar tanta confusão? É uma tolice!

— Há pessoas tolas - interveio Jemima. — Dolly Fielding é tola. Meu gato tem melhor senso.

— Os gatos são muito sensatos - concordou Charlotte. — Deixa de chamar idiota às pessoas e acabe as cenouras.

— Os gatos não comem cenouras. - Jemima experimentou.

— Tem razão - reconheceu Charlotte. — Prefere um camundongo?

Jemima deixou escapar um grito de asco e com dois bocados acabou o que restava em seu prato.

 

Já eram quase as nove da noite quando Pitt ficou a sós com Charlotte. Foi-lhe impossível seguir evitando o assunto, não porque se sentisse obrigado a expô-lo, mas sim porque sua esposa se adiantou.

— Hoje visitei Emily - comentou Charlotte, que não tinha pego o trabalho de costura, dobrado e colocado na pequena mesa contígua a sua poltrona.

As crianças estavam no primeiro piso e Gracie tinha livre o resto da noite.

— Como vai? - perguntou Pitt; em parte por cortesia e em parte porque apreciava sinceramente a sua cunhada, apesar de as vezes também o exasperar.

Fazia alguns anos que nem Emily nem Charlotte se intrometiam tanto em seus casos. E ele já não estava tão preocupado como antes pela segurança das mulheres; inclusive reconhecia que tinham sido inteligentes, imaginativas e que tinham demonstrado que não tinham medo do perigo.

— Está preocupada - respondeu Charlotte.

Pitt estava encantado de falar das preocupações de Emily. Provavelmente tinham que ver com seus filhos ou com alguma questão doméstica. Livrar-se-ia de sentir-se culpado por não compartilhar seus sentimentos com Charlotte. Não podia lhe contar que colaboraria com o Voisey. Cada vez que chegasse a casa meia hora mais tarde que o previsto sua esposa teria medo e pensaria em atos de violência e traição.

— A que se deve?

Sua mulher o olhou nos olhos.

— Ao projeto de armar à polícia - replicou. — Teme que homens como Wetron, que como todo mundo sabe é o chefe do Círculo Interior, convençam a parlamentares como Tanqueray, que é um inconsciente, para que se aprove o projeto. Dessa forma Wetron terá ainda mais poder. Não sabemos quem está a favor e quem se opõe. É possível que Charles Voisey volte a fazer parte do Círculo e inclusive que compre sua volta apoiando o projeto.

— Não o apoiará - se apressou a dizer, embora em seguida se arrependeu de ter sido tão categórico. - Ao menos - calou. Charlotte o olhou com o cenho franzido.

— Thomas, como sabe? - Não foi um desafio. deu-se conta de que estava à corrente da situação e simplesmente lhe pedia explicações. Não ficava mais remédio que dizer a verdade ou, pela primeira vez, lhe mentir deliberadamente. Inteirasse-se ou não, Charlotte notaria seu sentimento de culpa. dar-se-ia conta de que tinha faltado à confiança que havia entre ambos e a partir desse momento não voltaria a existir a mesma calidez, a mesma segurança. Insistiu: — Thomas, como sabe que Voisey não apoiará o projeto?

Charlotte temeria pela segurança de seu marido se se inteirasse do que pensava fazer.

— Wetron não necessita que volte a formar parte do Círculo - respondeu, sem faltar totalmente à verdade. — Além disso, seria idiota se confiasse nele.

Quanta ironia havia naquela resposta! Acaso alguém era tão mentecapto para confiar no Voisey?

— Confiaria nele? - perguntou Charlotte de forma direta e franca.

— Confiaria em que é capaz de atuar por seu próprio interesse. Possivelmente para ampliar suas possibilidades de vingança.

Não fazia mais que piorar as coisas. Acabava de meter-se em uma situação em que era impossível lhe dizer que colaboraria com o Voisey; por outro lado, não estava preparado para sacrificar a confiança que se tinham e lhe mentir. Desejava bater-se em retirada e lhe pedir, simplesmente, que não seguissem falando disso, mas era uma evasiva que só aumentaria os temores de sua esposa.

— Voisey não está comprometido neste assunto. - As palavras de Charlotte eram uma afirmação mais que uma pergunta, mas sua expressão suplicante parecia lhe pedir que o confirmasse.

— Certamente que não - reconheceu Pitt. — Fará quanto esteja em suas mãos para prejudicar ao Wetron e, se o conseguir, eu estarei encantado. De todo modo, se o que pergunta for se sei o que se propõe, tenho que responder negativamente; não sei.

— Mas algo fará!

— Suponho que sim. Espero que faça algo.

A mulher suspirou.

— Compreendo.

Pitt teria gostado de inclinar-se, tocá-la e estreitá-la entre seus braços, mas a sensação de que a tinha traído o impediu.

Afundou-se um pouco mais na poltrona, como se estivesse esgotado, e sorriu a sua esposa.

— Prometo-lhe que terei muito cuidado - assegurou. — Assim como Vespasia e você, eu tampouco esqueci o que fez.

 

Na mesma manhã que Pitt foi ao St Paul para reunir-se com Voisey, Charlotte telefonou à Emily para lhe dizer que iria vê-la e que queria falar com ela de um assunto de certa importância. Esta achou bem cancelar os compromissos que tinha com a chapeleira e a costureira e estava em casa quando sua irmã chegou.

Recebeu-a na sala privada, a das almofadas com desenhos de grandes flores. O bastidor de bordado se achava junto à cesta com os fios de seda, sob o quadro do castelo de Bamburgh com o mar de fundo.

Emily levava um vestido de musselina de sua cor preferida: o verde claro. O corte era do ano anterior, mas ninguém se daria conta a menos que fosse um fanático seguidor da moda. A linha da saia, o amplo das mangas e a colocação dos miçangas ou os laços delatavam esse fato.

O passar do tempo tinha sido muito generoso com Emily. Entrada nos trinta, ainda conservava uma figura esbelta, pois tinha tido dois filhos em lugar da meia dúzia que tinham tido muitas de suas amigas, e sua pele possuía a delicadeza do alabastro, própria das loiras naturais. Não era exatamente formosa, mas desprendia elegância e caráter. O melhor era que sabia o que a favorecia e que não lhe assentava bem. Evitava o vulgar e para as ocasiões importantes escolhia cores frias: os azuis e os verdes da água, os cinzas e as granadas das sombras. Não se vestiria de vermelho embora estivesse a vida nisso.

Charlotte estava limitada pelas restrições econômicas. Eram muitas as ocasiões nas que, para mover-se em sociedade, tinha tido que pedir roupa emprestada à Emily, o que era um problema porque media cinco centímetros mais, ou à tia avó Vespasia. Além disso, nenhuma das duas possuía sua tez cálida e com toques ambarinos, seus olhos cinza e seu cabelo de cor mogno.

Desta vez Charlotte só ia conversar com sua irmã, pelo que o vestido de musselina azul cinzenta e mangas amplas era totalmente adequado.

— Charlotte! - Emily a aguardava na porta do gabinete, com o rosto muito animado. Deu-lhe um rápido abraço e retrocedeu. — O que ocorre? Tem que ter acontecido algo importante, do contrário, não teria vindo a esta hora. Trata-se de um dos casos do Thomas? - Seu tom revelou um tom de urgência, quase de esperança.

Charlotte recordou os tempos nos quais ambas participavam das investigações do Pitt. Em sua maior parte eram assassinatos, produto da cobiça ou para evitar que se fizesse público algum pecado privado. Em nome da investigação, juntas tinham feito coisas que nesse momento pareciam escandalosas, mas o certo é que não se envergonhavam. Tinham descoberto a verdade e obtido certa justiça, embora também tinha havido tragédias. Tinha saudades aquela época, embora no presente aquelas façanhas eram impossíveis, já que Jack se tomava muito a sério sua carreira parlamentar e temia uma indiscrição de Emily, e porque tinham encomendado ao Pitt a trabalhos mais secretos e perigosos na Brigada Especial. A mudança do Jack era positivo e o do Pitt, inevitável; por conseguinte, não servia de nada lamentar-se.

— Até certo ponto tem que ver com o trabalho do Thomas - respondeu Charlotte. Seguiu a sua irmã ao interior do gabinete e tomou assento. — Está relacionado com o atentado anarquista do Myrdle Street, no qual o Magnus Landsborough perdeu a vida.

A alegria se apagou do rosto de Emily.

— É espantoso! Toda essa destruição é terrível, assim como a morte do Magnus Landsborough, embora me pergunto que fazia com essa gente. Há um grupo no Parlamento que tenta apresentar um projeto para armar à polícia e permitir que reviste as casas com qualquer pretexto. Jack teme que acabe com a colaboração dos cidadãos destes últimos anos e que, longe de ajudar à polícia, dificulte enormemente seu trabalho. -Seu olhar se escureceu. — Não tenho certeza de que seja tão importante como diz, mas me foi impossível convencê-lo de que não se oponha.

Charlotte a olhou. Emily estava sentada e voltada para frente na elegante poltrona. Tinha as mãos rígidas e o rosto tenso de ansiedade. Apesar da luz do sol e das cores que as rodeavam, dos vasos com flores e do aroma da grama recém talhada que penetrava pela janela entreaberta, no gabinete se respirava temor.

— Não quer que se oponha? - quis saber Charlotte.

Supunha que, depois de que Jack desperdiçasse sua juventude, Emily devia orgulhar-se dele por decidir-se a defender uma causa e inclusive deveria sentir-se aliviada por que tivesse um claro propósito. Sua irmã o tinha desejado durante muito tempo, tinha lutado por isso, insistido e o tinha convencido.

Emily apertou com impaciência seus delicados lábios.

— Charlotte, é uma batalha horrível! - declarou. — Muitas pessoas estão preocupadas com isso. Estão assustadas e o medo as torna perigosas. Tanqueray, o impulsor do projeto, não é alguém importante, mas um simples porta-voz. Está respaldado por poderosos interesses e não haverá paciência nem misericórdia para quem tente bloqueá-lo.

Charlotte sorriu para si mesma, pelo que apenas se notou em seu rosto. Acaso Emily supunha que as batalhas do Pitt jamais eram perigosas e que não tinha nada a perder? Era a primeira vez que sua irmã sabia o que significava permanecer acordada e só de noite, sobressaltada de temor por alguém a quem queria de forma intensa e protetora e a quem não podia ajudar. Ela estava acostumada; embora em realidade, não podia dizer que isso fosse certo, já que nunca lhe era fácil.

— Sabe se há alguém mais comprometido? - perguntou e evitou tocar o tema do perigo até ter a certeza de que sua cólera não afloraria.

— Poderia lhe dar montões de nomes! - respondeu Emily sem demora. — Alguns ostentam altos cargos e estão totalmente dispostos a arruinar ao Jack ou a qualquer que se interponha em seu caminho. O que opina Thomas? Está de acordo com que os policiais vão armados? Jack disse que Thomas dissentiria, embora seja possível que tenha mudado de opinião depois do tiroteio do Long Spoon Lane.

Charlotte mordeu o lábio. Não pensava transmitir sua sensação de exclusão à Emily, mas lhe foi quase impossível seguir mantendo o segredo. Compreendia à perfeição os temores de sua irmã e não deviam separar-se precisamente nesse momento.

— Não quer que armem à polícia - respondeu quedamente e olhou ao Emily nos olhos. — Há algo que o inquieta muito mais do que me disse e suspeito que não só se trata de um perigo, mas sim de algo que o penaliza e o envergonha, razão pela qual não quer falar disso.

— Disse que Thomas se sente envergonhado? - perguntou Emily surpreendida.

— Não tem a ver com ele. - Charlotte, à defensiva, corrigiu o engano que acabava de cometer. — Tem a ver com a polícia. Falou em corrupção e me parece que é mais grave do que admite. Virtualmente não tem em quem confiar.

— A corrupção! - exclamou Emily bruscamente e o último resto de alegria se esfumou de seu rosto. — Não estranho que Jack não queira que os policiais vão armados. Se conseguisse demonstrar que a corrupção existe...

— Não! - Charlotte estirou o braço como se com a mão pudesse deter fisicamente a sua irmã. — Recorda que Wetron está no comando do Bow Street, o que talvez significa que todo o Círculo Interior está comprometido, que é como, dizer o Parlamento ou, ao menos, boa parte de seus integrantes.

Emily crispou os músculos do rosto.

— Sabia que o Círculo mediu Jack para que se fizesse membro? Negou-se. - Engoliu a saliva. — Às vezes lamento que tenha obtido uma cadeira. Se não fosse assim poderia haver-se dedicado a outra profissão, teria a consciência tranqüila e estaria a salvo. - Emily mordeu o lábio; quase se arrependia de ter feito aquela confissão.

— Tem certeza? Realmente preferiria que se dedicasse a outra coisa? - perguntou Charlotte e sorriu sem entusiasmo ante sua fraqueza. — Às vezes eu também desejo o mesmo. Se Thomas ficasse no corpo como agente e fizesse o que outro lhe ordenasse, não teria que tomar decisões que talvez não agradem a outros nem correria muitos perigos. E seríamos mais pobres, por certo. Em seu caso, se Jack tivesse permanecido em uma posição de menos categoria, não seria afetada graças ao dinheiro que herdou, mas lhe teria influenciado e se sentiria incômodo.

— Sei, sei. - Emily se deu por vencida e baixou o olhar. — De qualquer maneira, o que teríamos gostado não vem ao caso porque só podemos fazer frente ao que temos. Há algumas pessoas valiosas que se opõem ao projeto como Somerset Carlisle. Não podia ser de outra maneira. - Mencionou a outros seis parlamentares e fez alguns comentários irônicos e algo depreciativos. — Por certo, alguns de seus prósperos eleitores reclamam a paz nas ruas, a segurança nos lares e a volta do império da lei. Asseguram que a polícia não é eficiente porque não a dotamos do poder e das armas que necessita. - Olhou firmemente à Charlotte. — Um dos principais adversários ao projeto e um dos melhores oradores contra sua aprovação é Charles Voisey.

— Ah - Charlotte começou a pensar a toda velocidade. Lembrou-se de uma escura noite no Dartmoor, em que, com a ajuda do Tellman, teve que fugir com Gracie e seus filhos da casinha que tinham alugado; das longas noites que passou em solitário no Keppel Street porque Pitt estava no Whitechapel e não sabia quando retornaria se é que voltava alguma vez. Thomas tinha tido que viver em pensões e deslizar-se pelos becos sob a tênue luz dos lampiões de gás, entre as sombras. Tudo tinha sido por culpa do Voisey, por culpa de seu ódio. Tinha muito sentido que liberasse essa batalha, embora só fosse para chatear Wetron. Emily a observava com atenção, apesar de saber relativamente, talvez intuir muito mais. — Não é o aliado que eu teria eleito - comentou Charlotte e sorriu com ironia, — embora possivelmente seja melhor que nada.

— Eu também preferiria a outros. - Emily observou a expressão de sua irmã e compreendeu seus sentimentos, apesar de desconhecer os detalhes. — Diga-se de passagem, se por acaso não sabe, sua irmã, a senhora Cavendish, voltou para a sociedade. Inclusive se fala de que achou um bom partido para voltar a casar-se. Só era uma fofoca. Terei que averiguar o que puder a respeito dos parlamentares. Asseguro-lhe que às vezes eu gostaria que as mulheres tivessem direito de voto. Talvez assim se veriam obrigados a nos prestar mais atenção.

— Deveremos esperar que nos concedam isso! - replicou Charlotte. — Por favor, pensemos em que ajudas podemos solicitar agora.

Avaliaram a questão uns minutos, expuseram propostas e as aceitaram ou as descartaram. Elaborar juntas um plano era algo que Charlotte tinha sentido falta; aquela situação lhe era agradável, apesar da gravidade. Era quase a hora de comer quando ouviram os passos de Jack no exterior; segundos depois se deteve na soleira. Parecia arrasado e se surpreendeu de ver Charlotte.

Emily se voltou para seu marido e ficou rapidamente em pé. Sua atitude revelava uma solicitude imprópria dela, mas Charlotte a conhecia o suficiente para detectar seus temores. Saudou seu cunhado; este falou com elas, mas dava a sensação de que as preocupações seguiam dando voltas por sua mente e de que se surpreendeu de que Emily não estivesse sozinha.

Com a intenção de explicar sua presença na casa, Charlotte disse:

— Estávamos falando do projeto de armar à polícia. Thomas está muito contrariado com esse assunto.

— Sim, já sei - confirmou Jack. — Veio ver-me esta mesma manhã, cedo. Tomara pudesse lhe haver dito algo útil.

Tomou assento em uma poltrona grande e fofa e se reclinou, mas de modo algum pareceu relaxado. Sorriu a Charlotte, mas mal a olhava.

Emily permanecia em pé no centro do gabinete. A luz do sol formava desenhos brilhantes no tapete e na madeira brilhante que a rodeava. O aroma das tulipas tardias era embriagadora por causa do calor.

— Tentamos pensar em quem mais pode prestar ajuda - explicou Emily. — Nos ocorreram algumas idéias. Jack franziu o cenho.

— Preferiria que não se envolvesse - pediu a sua esposa. — Agradeço sua ajuda, mas esta vez prefiro que não a preste. - Jack notou que Emily se esticava e viu uma mescla de cólera e desdita em sua expressão. — A situação ficará muito feia. As pessoas estão assustadas. Como a polícia não sabe quem são os anarquistas, Edward Denoon se dedicou a soltar os fantasmas da violência, como se todos corrêssemos o perigo de sofrer um atentado com bomba.

— Já os acharão! - exclamou Charlotte com mais brusquidão do que pretendia. O comentário do Jack parecia uma crítica ao Pitt. — Não podemos pretender que a polícia resolva um assassinato em um par de dias.

Apesar de que mal era meio-dia, Jack parecia esgotado.

— Assim é - concordou cansado.

Emily estava muito pálida.

— Se não puder ganhar, não estrague sua carreira no intento - declarou e engoliu a saliva. — Carece de sentido. Nem defenda nem te oponha ao projeto. Já o rechaçarão Somerset Carlisle e Charles Voisey. Prometo-lhe que não pedirei ajuda a ninguém! - Seu marido permaneceu em silencio. — Jack! - Emily avançou um passo para ele. — Jack...

Charlotte sentiu um calafrio de surpresa e de alarme. Reparou pela primeira vez em quão assustada estava Emily e se perguntou quanto tempo tinha convivido ela com o temor de que Pitt resultasse ferido emocional ou fisicamente. Fez-se ciente do apresso de sua irmã, que não estava acostumada a sofrer semelhante ansiedade; sempre se tinha sentido segura. Charlotte também percebeu com toda clareza a cólera do Jack por ver-se obrigado a fazer algo que o assustava e do que, por outro lado, não podia livrar-se. Intuía que haveria dor e um choque de vontades no qual não devia intrometer-se.

Ficou em pé e sorriu para Emily.

— Acredito que, depois de tudo, deveríamos abandonar este assunto.

— Charlotte tem razão - demarcou esta com firmeza. — Afinal talvez não seja tão ruim. A polícia tem que pôr fim aos delitos. É o que todos desejamos.

— Não é essa a questão - disse Jack, — mas o modo como se leva a cabo. Além disso, a anarquia não é o único delito.

— Certamente que não - concordou Emily. — Todos dizem que também aumentaram os assaltos, os roubos com planejamento e os incêndios provocados. Além da violência nas ruas, a prostituição, as falsificações e qualquer outro delito que lhe ocorra.

— Não é a isso que me referia. - Jack parecia desventurado, como se tudo ocorresse contra sua vontade. — Emily, tenho que me opor ao projeto. É um engano. Está...

— Não, não tem por que se opor! - assegurou acaloradamente sua esposa. — Além disso, não pode ganhar. Disso se ocupará outro. Que se oponha Charles Voisey se gostar. A quem importa o que possa lhe ocorrer? Ou que o faça Somerset Carlisle, se for tão curto de visão para fazê-lo. - Deu um passo para seu marido e apoiou suavemente as mãos nas lapelas de sua jaqueta. A luz do sol tirou fogo dos diamantes de seu anel. — Jack, rogo-lhe isso! Vale muito para estragar sua carreira lutando por uma causa que está perdida de antemão. - A mulher tomou ar para seguir falando.

Jack a interrompeu:

— Emily, isso não é tudo.

Pegou delicadamente suas mãos e as afastou. Seu tom era cortante. O encanto que estava acostumado a desprender espontaneamente se permutou em uma resolução quase fria. Desse ou não conta Emily, Charlotte sabia que essa decisão se mesclava com o medo. Seu cunhado se sentia obrigado a opor-se ao projeto por muito que soubesse que pagaria um preço muito alto.

— Que mais há? - Emily estava contrariada. A situação lhe parecia totalmente irracional, como se seu marido se lançasse ao perigo voluntariamente. — Além disso, a polícia já tem armas. Do contrário, os agentes não teriam mantido um tiroteio no Long Spoon Lane! Que lhes dêem mais arma se as necessitam. Se detiverem muitas pessoas na rua ou revistam seus lares, o Parlamento poderá modificar o projeto.

— Não pode modificar os sentimentos só porque é o que você gostaria - declarou Jack.

Charlotte se aproximou do marido de sua irmã.

— Jack, acaba de dizer que isso não é tudo. Que mais há?

— Não é mais que uma hipótese - declarou com expressão de preocupação. — Talvez não ocorra, mas tenho que lutar como se estivesse ocorrendo. - Voltou-se para olhar à Emily e se desculpou: — Sinto muito, mas não há outra possibilidade. Querem acrescentar o direito a que a polícia interrogue aos criados sem o conhecimento ou o consentimento dos donos da casa. Emily ficou atônita.

— Que os interroguem a respeito do que? De mercadorias roubadas? De armas?

— Ninguém saberá, de acordo? - O habitual sorriso sedutor do Jack se esfumou. — Essa é, precisamente, a questão. Quem esteve na casa, quanto dinheiro se gastou, aonde o transladou o cocheiro, com quem falou, a quem escreveu cartas, quem escreveu a você? O que disseram? Poderão interrogá-los a respeito do que queiram!

Emily meneou a cabeça.

— Que sentido tem? Por que teria que lhes importar o que digam uns criados? Charlotte via que aquilo era uma monstruosidade, mas estava mais familiarizada com o trabalho da polícia e conhecia o temor do Pitt à corrupção.

— Dará carta branca à chantagem - interveio com voz baixa. — Se expuserem as perguntas adequadas, podem dar a entender virtualmente algo. Viveríamos submetidos ao terror das falações e os mal-entendidos. É francamente paradoxal! No passado os criados viviam com o medo de perder sua reputação se seu senhor ou sua senhora falavam mal deles. Parece-me entrever o que aconteceria agora. Viveríamos atemorizados pelos criados. Bastaria uma palavra à polícia para acabar com nossa reputação. É impossível que aprovem semelhante projeto, não é?

Jack se voltou e a olhou cabisbaixo.

— Não sei. Pensa no poder que outorga. Basta um agente de polícia desonesto, simplesmente indiscreto, ou alguém que busca um favor ou se sente insultado. As possibilidades são infinitas. Em princípio seria uma lei que só se usaria em caso de que existam suspeitas de anarquia ou traição, mas logo se empregará para roubos, suspeita de mau emprego de recursos, de conspiração para cometer uma fraude ou de chantagem aos chantagistas. A polícia poderá fazer virtualmente o que tenha vontade; todos seremos vulneráveis.

— Mas nós não temos nada que... - começou a dizer Emily.

— Nada que ocultar? - perguntou Jack e arqueou as sobrancelhas. — Quem disse que deve ser certo? O que acontecerá com um criado descontente, com um ao que tenham pilhado roubando ou preguiçoso, impertinente, que bebe, aposta, tem uma amante ou, simplesmente, quer mais dinheiro? - Seu tom de voz se tornou cortante. — O que ocorrerá com um criado que esteja assustado, apaixonado, que se deixe dominar facilmente ou que esteja aparentado com alguém que tem problemas ou...?

— Já está bem! - gritou Emily. — Entendi! Entendi! É monstruoso. Não há um só parlamento em seu são julgamento que esteja disposto a aprovar semelhante lei.

— Emily, não se exporá nesses termos! - exclamou seu marido, exasperado. — Parecerá muito sensato que a polícia interrogue aos criados em privado. O senhor ou a senhora não se inteirarão a fim de proteger ao criado e evitar que lhe pressione para que minta e consiga conservar seu posto.

— E agora, não podem fazê-lo? - perguntou Charlotte, desconcertada.

— É claro que a polícia pode interrogar aos criados ou a quem quer - respondeu Jack, mas não em segredo. Seria como ter olhos e orelhas em sua casa, na mesa da sala de jantar, na cozinha e no dormitório! A desculpa é que se tenta nos proteger da anarquia, aqui radica a diferença. A polícia não terá que dar razões de sua atuação. Agora deve suspeitar que alguém cometeu determinado delito para interrogá-lo abertamente. Estamos falando de que seria em segredo e sem dar explicações. Começaria devagar, mas iria aumentando sem que nos déssemos conta.

Emily baixou o olhar e declarou em tom resignado e de aceitação:

— Compreendo. Suponho que tem que lutar.

— Quando soube? - perguntou Charlotte.

— Acabo de saber. Depois que Thomas partiu, suponho que voltou para a Brigada Especial. Tenho que dizer-lhe. Precisa sabê-lo. Lamento-o. Não queria lhes preocupar com este tema.

Voltou-se para Emily com o rosto franzido de pesar e um olhar afável.

— Dá-se conta dos motivos pelos que, custe o que custar, tenho que lutar? Se não me tivesse informado poderia voltar atrás, mas agora sei.

— Quem lhe disse isso? - quis saber Emily.

— Voisey. É verdade. Vi o rascunho.

— Voisey? - repetiu Emily, furiosa.

Jack lhe apoiou as mãos nos ombros e a segurou com firmeza, sem lhe fazer dano.

— É verdade. Antes de agir o levarei às mais altas esferas, se for necessário até o primeiro-ministro, e lhe asseguro que serei o homem mais feliz do Westminster se se demonstrar que é mentira, mas não acontecerá. A própria polícia o solicitou. Assegura que a Brigada Especial não é suficientemente competente para acabar com a violência anarquista e o aumento dos delitos. - Estremeceu ligeiramente. — Com o fim de proteger ao povo, a polícia necessita essa competência para utilizá-la em caso necessário. Não lhe dão importância e asseguram que quase nunca a aplicarão, mas a questão é que assim que tenham poder para atuar não poderemos detê-los, já que como bem sabemos o poder corrompe e o expusemos que tal maneira que não há forma de impedi-lo.

Emily olhou para Charlotte e novamente para Jack.

— De acordo - aceitou. — Mas isso não impede que esteja assustada.

— Eu também - reconheceu Jack suavemente e lhe afastou a mão do ombro para lhe acariciar a face. — Eu também.

 

Jack permitiu ao Charlotte que contasse a Vespasia o que acabava de lhe dizer. Depois de comer, Charlotte declinou o oferecimento do Emily de utilizar sua carruagem e começou a percorrer sob o sol de princípios do verão os pouco mais de dois quilômetros que a afastavam da casa da Vespasia. O passeio lhe permitiu sossegar sua acelerada mente e ordenar seus pensamentos. O vento era fresco e quente ao mesmo tempo, as folhas das árvores sussurravam e o sol salpicava o chão de manchas. A seu lado passavam carruagens descobertas onde viajavam mulheres vestidas à última moda, com chapéus extravagantes, diminutos e adornados com penas e com enormes laços e babados de seda. Virtualmente não se fixava em nada.

Chegou no preciso momento no qual a Vespasia, com um vestido de seda cinza, estava a ponto de sair para realizar as visitas vespertinas. Depois de ver a angústia e a desilusão de sua sobrinha, cancelou seus compromissos.

— O que passou-se? - perguntou assim que tomaram assento.

A tranqüila sala estava orientada ao jardim e ao roseiral; só a roseira trepador amarelo, que era a primeira em florescer, dava um toque de cor.

— Estava falando com Emily sobre o projeto de armar à polícia e lhe conceder mais competências - respondeu Charlotte. — Jack retornou do Westminster e nos contou a nova dimensão que adquiriu o assunto, muito pior do que até agora eu sabia, e que já era bastante mau. - Não andou com rodeios, já que com a Vespasia não só teria sido desnecessário, senão insultante. Conheciam-se e se compreendiam perfeitamente. — Ao que parece, os ânimos estão exacerbados e é possível que se esquentem ainda mais se se denunciarem mais delitos do que os habituais.

— Disso podemos estar certos - reconheceu Vespasia, muito séria. — Claro que nós também temos recursos. Suponho que Jack ficará firmemente de nosso lado. O jovem respondeu bastante bem. Também podemos contar com o Somerset Carlisle. Sempre lutou contra qualquer injustiça, sem ter em conta o custo pessoal. – Charlotte teve a sensação de que uma sombra obscurecia o rosto da Vespasia e esperou, já que lhe fazer perguntas teria equivalido a intrometer-se. — Até recentemente teria assegurado que lorde Landsborough se oporia vivamente a este projeto - prosseguiu Vespasia em tom sereno e apesarado. — Sua influência teria bastado para que dois ou três ministros mudassem de parecer. Mas posto que quem morreu era seu único filho, é possível que agora opine de outra maneira ou que prefira manter-se à margem. - Adotou uma expressão de contrariedade. — Disse que era pior do que supunha. Houve alguma novidade?

— Sim. Ainda não ocorreu, mas Jack se inteirou e está profundamente assustado. -Charlotte notou o temor em seu próprio tom de voz. — Se propõem acrescentar uma disposição para que os agentes de polícia possam interrogar aos criados sem o conhecimento ou a permissão do senhor ou a senhora da casa.

Vespasia ficou de pedra.

— Interrogá-los a respeito do que?

— Pelo que queiram. Dado que se realizará em segredo, ninguém se inteirará.

Charlotte olhou a sua tia e viu como se alterava seu rosto quando compreendeu o que significava tal lei.

— Não acredito que a passem. - Vespasia exalou ar lentamente. — Abririam a porta à chantagem. Seria como se... - Nem sequer se incomodou em terminar a frase. — Suponho que é produto do medo, de não pensar de antemão no que acontecerá. - De repente parecia esgotada. — Às vezes me desespera quão obtusa podem ser as pessoas. Fala com qualquer que tenha tido que tratar com criados; são seres humanos como todos: bons, maus e indiferentes. Assim como nós, têm paixões e rivalidades, cobiças e ambições. É possível manipulá-los embora, as vezes, são eles os que manipulam. Alguns dizem o que quer ouvir simplesmente para que esteja contente. Outros correm o risco de chamar a atenção ou se esforçam por superar a um rival.

— É possível que as esposas convençam aos parlamentares de que não podem ser tão idiotas? - perguntou Charlotte, embora não se fazia nenhuma ilusão. — Não a surpreende o que a pessoa é capaz de fazer quando está assustada? De todo modo, parece-me que temos um aliado.

— Quem?

— Charles Voisey - replicou Charlotte e sentiu um calafrio apesar de achar-se a sala iluminada pelo sol.

Vespasia permaneceu imóvel, com o queixo alto e o olhar perdido.

— Já vejo. Fá-lo por amor à liberdade ou por ódio à polícia, representada no inspetor Wetron?

— Por ódio - se apressou a replicar Charlotte. — De todo modo, não é o ódio que sente pelo Wetron o que me assusta, mas sim Thomas se envolveu na questão e estão no mesmo bando. Mal me falou disso... em realidade, mostra-se esquivo, o que não é próprio dele. Sei que Voisey está comprometido. Disse-me isso Jack. Tenho medo do que Thomas possa fazer. Nem sequer sei se sabe que alguém é capaz de deixar-se consumir pelo ódio, como Voisey.

Charlotte mordeu o lábio e teve a sensação de que falar com tanta liberdade era trair ao Pitt, mas se não era franca não poderia pedir ajuda a sua tia, que provavelmente seria a única que se interporia entre o Pitt e o desastre. Vespasia assentiu lentamente.

— Conheço à pessoas como Voisey - acrescentou Charlotte. — Thomas não sabe como são. Acredita que os cavalheiros com certa educação também possuem determinadas qualidades e que há atos que não se rebaixam a realizar, mas não é certo. -Olhou desesperada à anciã. — Quase sempre Thomas dá uma segunda oportunidade. Não odeia ao menos, não sente esse ódio implacável que vi no olhar do Voisey quando a rainha lhe concedeu o título de sir. Seria capaz de tudo para vingar-se de nós.

Vespasia deixou escapar um suave suspiro.

— Pelo que diz, deduzo que não tem idéia do que é o que Thomas se propõe e que teria que ver com o Voisey.

— Não sei.

— Nesse caso, devemos procurar munição que possamos usar contra Voisey. Poderia ser necessária. Sabemos muito pouco dele. Convir-nos-ia recordar a história do David e Golias.

— É realmente um Golias? - perguntou Charlotte com pena. — Sei que na Bíblia ganha David, mas na vida com muita freqüência são os seres como ele os perdedores. Suponho que, se não fosse assim, o relato não teria sentido. - Esboçou um sorriso torcido. — Estou bastante certa de que nossa causa é a de Deus, mas não tenho tanta fé em nossa justiça para me apresentar ante o exército filisteu ao completo, armada unicamente com uma funda e um par de pedras. Falha-me a fé, não é? Ou acaso sou mais modesta e realista? - Brincou para dissimular o doloroso temor que corroia seu interior cada vez que pensava em Pitt.

— Não tenho a menor intenção de enfrentar solitária ao Golias - assegurou Vespasia com certa aspereza. — Só me referia a que levava uma armadura impenetrável que, entretanto, deixava descoberta suas têmporas, um espaço pequeno mas muito vulnerável para alguém com excelente pontaria. Qual é o ponto débil do Charles Voisey? Temos que apontar com precisão.

— Não sei! - Charlotte engoliu a saliva e suspirou, trêmula. — Me desculpe, acredito que o medo tomou conta de mim. Thomas está muito transtornado pela corrupção policial. Ao menos uma parte corresponde ao Bow Street, seu antigo distrito. Eu não gosto de vê-lo tão doído.

Vespasia suspirou.

— Suponho que, com o Wetron no comando, era previsível que existisse corrupção. Está totalmente certa?

— Não, mas é uma hipótese com fundamento - respondeu sua sobrinha. — Tellman corteja Gracie.

Vespasia sorriu com súbito e sincero prazer.

— Querida, sei perfeitamente. Sentia muitíssimo sua falta.

— Tem toda a razão. Não quero nem pensar como será a vida sem os comentários de Gracie. Desagrada-me a idéia de ter outra pessoa em casa. Daniel e Jemima ficarão desolados. De qualquer modo, sei que a vida de Gracie deve seguir adiante.

— E o que tem a ver com a corrupção no Bow Street?

— Ontem à noite e esta noite Tellman anulou seu encontro com ela - explicou Charlotte. - Isso significa que está fazendo algo de enorme importância. Do contrário, não deixaria de levá-la a passear. Não o explicou, pelo que ambas deduzimos que está trabalhando para Thomas e, de momento, só pode estar relacionado com a anarquia e a corrupção.

— Estou de acordo. Parece o mais provável. - Vespasia moveu afirmativamente a cabeça. — Por isso é imprescindível que averigüemos qual é a fraqueza de Voisey. Tem que haver algo que lhe interessa, uma paixão ou uma necessidade, algo que queira conseguir ou tema perder. Talvez Thomas se sente limitado por seu próprio código de honra.

— Assim é.

— Suspeitava-o. E ambas o queremos mais se couber, porque o tem - declarou Vespasia sem vacilações. — Tenhamos que apelar ou não a ela, devemos achar a maneira de protegê-lo. Tem idéia do que aspira conseguir Voisey com essa manobra? É só vingar-se do Wetron?

Charlotte estava a ponto de responder afirmativamente, mas começou a refletir.

— Não sei. Talvez se propõe utilizar de algum modo ao Thomas para destruir ao Wetron e substituí-lo. Necessitamos uma arma, não é assim? O problema é que temo que, se tiver uma arma, chegue a utilizá-la.

Observou atentamente Vespasia, buscou os seus olhos e procurou desesperadamente uma resposta reconfortante que aliviasse o medo que se instalou em suas entranhas.

— É claro que a usaria - replicou Vespasia com toda certeza. — Qualquer mulher o faria se seus seres queridos estivessem em perigo. Quando se ameaça ao marido ou a um filho, a mulher luta a morte e só posteriormente pensa nas conseqüências, quando já é muito tarde para voltar atrás. Mesmo assim, não acredito que se arrependa. De todo modo, seguimos necessitando de uma arma, embora o certo é que às vezes basta saber que se tem, não é necessário usá-la.

— Tem certeza? - perguntou a jovem, cheia de dúvidas. — Não acha que se dará conta de que marco um farol?

— Que farol? - perguntou Vespasia em tom baixo. Charlotte optou por mudar de assunto.

— Lamento tê-la interrompido. Espero não lhe ter causado muito aborrecimento. Agradeço sinceramente que me tenha concedido seu tempo. É a única pessoa a quem podia contar o que me passa.

Vespasia sorriu e seu olhar refletiu uma alegria profunda.

— As visitas que tinha que fazer não eram urgentes – assegurou-lhe tirando a importância. — Rogo que pense no que faz com respeito ao Voisey. Dado que Jack e ele estão de acordo no referente ao projeto do Tanqueray, tem motivos de sobra para se interessar por ele. Nem por um segundo tome por tolo ou suponha que a subestimará.

— Vespasia ficou em pé. — Analisarei com mais profundidade o tema da anarquia e as razões pelas que um jovem como Magnus Landsborough esteve disposto a renunciar a uma vida cômoda por ela.

Charlotte também se endireitou e concluiu em tom suave:

— Muito obrigada. Agradeço-lhe sinceramente.

 

À última hora da tarde, quando Charlotte e sua irmã se sentaram na galeria de visitantes da Câmara dos Comuns, Emily exclamou:

— Rogo-lhe que não diga nada! - Estava a ponto de começar o debate sobre o projeto de lei do Tanqueray. Estavam rodeadas pelo frufrú das sedas e o incessante movimento das damas; todas desejavam olhar por cima do corrimão e vestiam à última moda. Emily se inclinou e sussurrou com impaciência: — Ali está.

Charlotte seguiu a direção de seu olhar, mas não divisou Jack, cuja cabeça teria sido facilmente distinguível.

— Onde? - perguntou.

— Mais ou menos na metade, justo atrás do primeiro banco - respondeu Emily. — Tem o cabelo castanho avermelhado, como uma raposa desbotada.

— O que disse?

— Charlotte, refiro ao Voisey, não ao Jack!

— Ah, sim, claro. Onde está Tanqueray?

— Não sei. Acredito que tem ao redor de quarenta e cinco anos, mas não sei nada a respeito de seu aspecto.

Chegaram bem a tempo. O porta-voz, com peruca e toga, chamou à ordem. O ministro do Interior mencionou o tema dos anarquistas e da violência generalizada no East End. Acrescentou que o governo o tinha analisado a consciência e atuaria em conseqüência.

A leal oposição lançou vaias e vaias. Depois de uns ruidosos instantes, ouviram-se alguns insultos e aplausos e a artigo seguido ficou em pé um homem com o rosto suave e franco. As luzes iluminaram sua vasta cabeleira, com branco nas têmporas. O porta-voz o apresentou como o ilustre representante do Newcastle-under-Lyme.

— É Tanqueray - murmurou Emily ao Charlotte. — Reconheci seu distrito eleitoral.

Acima de tudo, Tanqueray expressou a dor da Câmara pelo medo e as perdas sofridas pelos habitantes do Myrdle Street; depois se espraiou até incluir todo o East End. Referiu-se à possibilidade de que o anarquismo se estendesse por toda Londres.

— Cavalheiros, devemos abordar imediatamente esta ameaça! - declarou com ardor.

Como um só homem, os parlamentares aguardaram com a respiração contida. Tanqueray esboçou as medidas nas quais tinha pensado a fim de que todas as delegacias de polícia dispusessem de armas. Também propôs que se modificasse a lei com o propósito de proporcionar aos agentes de patrulha o direito de parar a quantas pessoas quisessem e as revistar ou fazer o mesmo em lares ou locais comerciais.

Os que estavam a favor lançaram gritos de aprovação, aplaudiram freneticamente e se prepararam para obter mais informação. A oposição não apresentou argumentos de peso contra.

Charlotte se esticou, à espera de ouvir a inclusão da medida que permitiria interrogar aos criados. Olhou fugazmente ao Emily, que continuava a seu lado, e esta lhe dirigiu um ligeiro e penalizado sorriso.

Ante elas, uma mulher volumosa com um vestido de bombasim apertou a mão da jovem que se achava a seu lado.

— Aí o tem, querida - murmurou impetuosamente. — Estava segura de que nos protegeriam.

Tanqueray detalhou seu plano e fez múltiplos comentários a respeito das penúrias sofridas pela pessoas comuns por causa dos roubos, incêndios provocados e ameaças de violência. Os presentes receberam suas palavras com murmúrios de compreensão e ofensa.

— Devemos fazer o que estiver em nossas mãos! - concluiu. — Nosso dever para com o país consiste em exercer o poder com a maior discrição. Comprometo-me a não descansar até que tenhamos dotado a nossos policiais de toda a ajuda possível e de todo o amparo necessário para o cumprimento de sua tarefa de nos manter a salvo.

Assim que Tanqueray se sentou, em meio de ensurdecedores aplausos, Jack Radley pediu a palavra; contou com o enérgico apoio de seu chefe.

Emily sorriu, mas conteve o fôlego. Charlotte viu que fechava os punhos e notou que o tecido de suas luvas se esticava nos dedos.

— Meu ilustre amigo fez referência às penúrias das pessoas comuns - começou Jack. — Afirma justamente que devemos protegê-los em seus ofícios e em suas vidas. Seus lares e suas famílias devem estar a salvo. Este é o encargo principal da polícia.

Soaram murmúrios de aprovação. Tanqueray parecia estar muito satisfeito de si mesmo. O rosto do Voisey se escureceu.

— Estou convencido de que para isso não podemos nos negar a lhes conceder os mesmos direitos de dignidade e intimidade dos que nós queremos desfrutar – prosseguiu Jack. Fez-se um incômodo silêncio. Os presentes se olharam desconcertados. A que se referia esse parlamentar. — Entre os pressentes há alguém que gostaria que os policiais revistassem seu lar? - perguntou e olhou aos representantes, — que lessem suas cartas e revistassem seus pertences? Que um policial desse uma olhada a suas roupas e objetos pessoais, seu dormitório, seu estudo e inclusive aos vestidos, as anáguas e as luvas de sua esposa porque suspeita que ocultou algo que poderia ir contra a lei?

Os murmúrios de alarme se transformaram em cólera. Os parlamentares se olhavam em busca de apoio, perguntando-se se era possível que alguém aceitasse aquelas ofensivas idéias.

Emily fechou os olhos e deixou escapar um gemido; tinha os ombros rígidos, jogados para diante, e as mãos cruzadas sobre o regaço.

Charlotte viu que sua irmã estava assustada. Sabia até que ponto o êxito social e político dependia de contar com protetores. Jack estava muito perto de conseguir a ascensão pelo que tanto tinha lutado, e aí estava, decidido e empenhado em ganhar inimigos.

— Se podem fazer tudo isso - acrescentou Jack com temível clareza, como se tivesse tomado a decisão de selar seu próprio destino, — que não farão por pura curiosidade? É possível que leiam a fatura do fornecedor de vinhos, a carta do alfaiate, do banqueiro, do sogro e, que Deus nos perdoe, da amante? - Soaram risadas, mas eram nervosas, sem alegria. — E como o interpretarão os criados? - insistiu e deu deliberadamente de ombros. Emily permanecia imóvel, tão estirada como podia. — Se a polícia entra em casa e revista tudo, a cozinheira terá a tão ansiada desculpa para despedir-se!

Tratava-se de uma ameaça muito real. Ninguém que tivesse encontrado uma boa cozinheira queria perdê-la. Com muita freqüência o êxito ou o fracasso social dependia de suas aptidões.

Mentalmente, Charlotte o aplaudiu. Pareceu-lhe genial que com uma só frase tivesse recordado aos presente suas comodidades materiais e seu prestígio. Houve murmúrios procedentes de todos os bancos. Os presentes se olharam com expressão horrorizada.

Jack voltou a tomar a palavra assim que o ruído diminuiu um pouco. Não voltou a mencionar os criados. Limitou-se a sustentar que o êxito da polícia dependia em grande parte precisamente das pessoas com mais possibilidades de ser abordadas ou revistadas, e do apoio da comunidade. Pôs exemplos comovedores e concluiu seu discurso afirmando que, em sua opinião, o projeto do Tanqueray era desmesurado e totalmente inadequado.

Dois representantes falaram a favor do dito projeto usando argumentos lógicos e emotivos.

Foi então que Voisey ficou em pé. O silêncio foi absoluto. A mulher de negro que se achava junto ao Charlotte murmurou um comentário de aprovação. Charlotte não soube se já sabia o que se propunha dizer Voisey.

Em primeiro lugar, elogiou as palavras do Jack e sua coragem de pronunciá-las, dado o custo que possivelmente teriam. Também segurou que Radley não era um homem que se movia por seus interesses, mas sim por princípios. Nesse momento Emily lançou um pesaroso olhar de esguelha. Charlotte a olhou nos olhos e voltou a observar Voisey. Dissesse o que dissesse, estava decidida a não esquecer jamais que era o inimigo. Devia estudá-lo até descobrir seu ponto fraco pessoal ou profissional: um sonho, uma esperança, um engano, o que fosse.

Voisey prosseguiu; pôs em dúvida a sensatez de dar armas aos homens que habitualmente se ocupavam dos elementos violentos da sociedade. Não seria a maneira de que mais armas caíssem em mãos dos delinqüentes, principalmente dos anarquistas? Não originaria guerras de ruas, das quais um bom número de inocentes acabariam sendo reféns, vítimas e finalmente perdedores? Afetaria negativamente os negócios e, em última instância, custaria votos. Esse argumento apelava aos interesses menos nobres. A Charlotte pareceu desprezível. Entretanto, que inteligente tinha sido! Ninguém o vaiou nem protestou. O discurso foi recebido com um perturbado silêncio.

Charlotte e Emily permaneceram em seu lugar até que se apresentou a oportunidade de partir. Desculparam-se, desceram a escada até o vestíbulo principal e saíram.

— Sacrificará sua carreira em troca de nada! - exclamou Emily, furiosa.

Evidentemente, referia-se ao Jack.

— Está dizendo que só devemos fazer o correto no caso de que não nos custe nada? - perguntou Charlotte com incredulidade; virtualmente não tentou dissimular seu tom horrorizado.

Emily a fulminou com o olhar e replicou:

— Não seja estúpida! Só digo que não tem sentido realizar um sacrifício desnecessário! É muito mais prático guardar a munição e utilizá-la quando for útil. - Caminhava tão rápido que Charlotte tinha dificuldades para lhe seguir o passo.

— A política não consiste em grandes gestos, mas em ganhar! - prosseguiu Emily; sua elegante saia branca e negra esteve a ponto de fazê-la cair. — Representa a outros que não o escolheram para fazer de herói, pavonear-se com gestos grandiosos e inúteis e acalmar sua consciência. Escolhem-no para que as coisas mudem, não para que se lance ante os canhões do inimigo como a carga da brigada ligeira!

— Achava que o escolhiam para que represente suas opiniões - replicou Charlotte, que não fez caso da metáfora militar.

— Para que os represente com uma finalidade, nunca inutilmente. Isso o poderia fazer qualquer idiota!

Emily caminhou ainda mais rápido e Charlotte teve que acelerar o passo para segui-la. Suas saias se formaram em redemoinhos e esteve a ponto de se chocar com um jovem que ia em direção contrária.

— Sinto muito – desculpou-se.

— Está claro que não posso esperar que o compreenda - respondeu Emily. — Nunca se encontrou em semelhante posição.

— Não era a você que pedia desculpas! - replicou Charlotte, contrariada. — Choquei-me com alguém!

— Nesse caso, olhe por onde vai!

— Acha que é a única mulher cujo marido corre perigo por fazer o que considera justo? Parece-me que se tornou incrivelmente egocêntrica!

Emily se deteve tão bruscamente que os homens que caminhavam atrás estiveram a ponto de se chocar com elas.

— Não é justo! - protestou sem fazer o menor caso dos homens.

— Claro que é justo - assegurou Charlotte. — Desculpem - disse aos desconhecidos. — Está muito agitada. - Voltou-se para Emily. — Se for sincera com você mesma e comigo, não desejaria que ele fosse de outra maneira. Se seu marido evitasse a questão, não perderia um segundo nela; por outra parte, talvez o quereria, mas também o desprezaria. Deveria saber que esse tipo de amor é efêmero.

Emily estava consternada e sua fúria desapareceu em um abrir e fechar de olhos.

— Charlotte, sinto muitíssimo! - disse, arrependida. — Me aterroriza que se meta em uma confusão terrível e não saiba como sair. Já não sei o que fazer para ajudá-lo!

Charlotte sabia perfeitamente o que sentia Emily: impotência e cólera porque era injusto, mas teria que havê-lo previsto. Sabia perfeitamente como funcionava a sociedade e, se parasse para pensar nisso, compreenderia que Jack também sabia. Tinha escolhido esse caminho porque era o que queria, tal como Pitt fazia tantíssimas vezes.

— Não pode ajudá-lo, salvo acreditando nele - explicou Charlotte com carinho; quão único desejava era lhe dar uma mão. — Não permita que duvide de si mesmo e, acima de tudo, não deve pensar que não tem confiança nele, por mais que esteja terrivelmente assustada.

— É o que fará? - quis saber Emily.

— Mais ou menos - reconheceu Charlotte. — A partir deste momento averiguarei tudo o que possa a respeito do Charles Voisey. Deve ter algum ponto fraco e tenho que descobrir. Mantê-la-ei à corrente.

A seguir esboçou um ligeiro sorriso, deu meia volta e se afastou.

Tinha decidido observar ao Voisey e, no caso de que fosse possível, falar com ele.

Tal como aconteceram as coisas, foi o parlamentar quem falou com ela.

— Boa tarde, senhora Pitt.

Charlotte se voltou e viu que estava a um par de metros dela, com um ligeiro sorriso.

— Boa tarde, sir Charles. - Conteve o fôlego e teve que pigarrear. Zangou-se consigo mesma porque a tinha pilhado com a guarda baixa. — Pronunciou um discurso impressionante.

As pupilas do Voisey mal se dilataram depois da adulação do Charlotte.

— Senhora Pitt, interessa-lhe o tema de armar à polícia? Agora seu marido pertence à Brigada Especial. Está autorizado a levar arma sempre que considerar que a situação o justifique. - Baixou ligeiramente a voz. — Por exemplo, no assalto no Long Spoon Lane. Deve sentir-se muito aliviada de que não ficasse ferido. Foi um episódio desagradável.

Voisey piscou lentamente e sorriu. Seu olhar era severo e seguro. O ódio a acendeu uns segundos; deu-se conta de que não o tinha dissimulado.

— Certamente - replicou Charlotte em tom quase sereno. — Mas a missão da Brigada Especial consiste em ocupar-se de resolver questões desagradáveis e, por conseguinte, freqüentemente também tem que ver com seres desagradáveis. - Obrigou-se a sorrir, não porque supusesse que Voisey lhe corresponderia, senão para lhe demonstrar que se dominava mais do que imaginava. — Alegra-me muito que considere insensato e desnecessário dar à polícia mais arma ou competências para revistar à população sem demonstrar que há causas que o justificam. Está totalmente certo quando afirma que a cooperação das pessoas comuns é a melhor ajuda, já que serve aos interesses de todos.

Voisey observou sua expressão para ver se escondia outro significado. Não soube se Pitt confiava ou não nela e durante um fugaz instante Charlotte o percebeu.

— Senhora Pitt, não serve aos interesses de todos - disse quedamente. — É possível que satisfaça os seus e meus, mas existem outras pessoas com ambições diferentes.

— Não me cabe a menor dúvida - concordou e titubeou, pois não estava certa se queria que soubesse até que ponto o compreendia.

Voisey o notou e lhe sorriu.

— Boa tarde, senhora Pitt - acrescentou com um tom de humor. — Tê-la visto foi um prazer inesperado.

Desculpou-se e se afastou a passo vivo. Charlotte ficou com a estranha sensação de achar-se em desvantagem, enquanto a lembrança daquele instante de ódio queimava em seu interior.

 

Vespasia espremeu os miolos em busca de uma desculpa razoável que lhe permitisse voltar a visitar a Cordelia Landsborough. Nunca se tinham se agradado e, a menos que a convidasse, ninguém com um mínimo de sensibilidade ocorreria visitar uma pessoa que acabava de perder a um ser querido. Só havia um pretexto aceitável: o desejo da Cordelia de ser imprescindível na aprovação do projeto do Tanqueray.

A carruagem percorreu as tranqüilas ruas de uma zona residencial. As elegantes casa com fachada georgiana olhavam as árvores carregadas de folhas novas. Havia poucos transeuntes, em sua maior parte mulheres com saias que agitava a brisa e guarda-sóis protetores.

Vespasia pensou em Charlotte e no temor que tinha detectado em sua voz quando falou de ter uma arma e utilizá-la no caso de que Voisey ameaçasse ao Pitt. Não era a possibilidade de abrir uma ferida o que a assustava, mas a possibilidade de ferir e a certeza de que o faria.

De repente uma idéia cruzou por sua mente. Quando chegou a casa dos Landsborough e desceu da carruagem soube exatamente o que diria no suposto de que Cordelia a recebesse. Para falar a verdade, preparou-se para que fosse muito difícil lhe negar a entrada.

Entretanto, fizeram-na entrar imediatamente ao vestíbulo sombrio e a acompanharam ao gabinete. Cordelia estava em pé junto à janela olhando a grama e as flores de princípios do verão.

— É muito amável de sua parte voltar tão rápido - afirmou Cordelia, sem mordacidade em seu tom nem em seu rosto pálido e esgotado.

Durante uns segundos, Vespasia compadeceu-se dela. Suas feições severas e sólidas mostravam a dor com mais dramatismo do que o fariam uns rasgos mais suaves e femininos. Estava com olheiras, umas rugas profundas iam do nariz à boca e seus lábios pareciam exangues. Nunca se tinha maquiado; suas sobrancelhas eram negras e nesse momento pareciam dois talhos abertos por cima de seus fundos olhos.

— Posso parecer intrometida, embora espere que não o interprete assim – explicou Vespasia delicadamente. — Não deixei de pensar no problema da violência anarquista e no terror que desperta nas pessoas. É algo contra o que temos que lutar e admiro sua coragem e sua generosidade ao fazê-lo em um momento no qual sofreu uma perda pessoal tão grande.

Por estranho que pareça, era verdade. Apesar de Cordelia sempre lhe ter desagradado e às vezes a tinha considerado como cruel e muito indulgente, nesse instante sua integridade impressionava a Vespasia.

É provável que Cordelia percebesse sua sinceridade, já que a reconheceu:

— Agradeço-lhe isso. Aprecio que não confunda minha compostura com indiferença pela morte de meu filho.

— Certamente que não! Parece-me uma idéia absurda e ofensiva - demarcou Vespasia com ardor. — Sempre se chora a sós. Vim porque, depois de analisar o que devemos fazer para lutar contra esses atos, pensei em alguns perigos e sei que não podemos nos permitir o luxo de esperar que as circunstâncias melhorem. Temos muitos inimigos, não pessoais mas sim de nossa causa, que atacarão enquanto acreditarem que somos vulneráveis.

Com expressão curiosa e consciente da profunda ironia dessas palavras, Cordelia se voltou para olhá-la. De todo modo, optou por concentrar-se no assunto que Vespasia tinha exposto e perguntou:

— Temos inimigos no Parlamento?

— É claro, e por diversas razões - se espraiou Vespasia. — Alguns acreditarão sinceramente que não é aconselhável dar mais poder à polícia e outros terão simpatias e ambições pessoais. Receio que sempre há pessoas que atuam por inimizades pessoais, em qualquer lugar que conduzam. Não podemos permitir que nos estendam uma emboscada.

— Uma emboscada? - repetiu Cordelia com incerteza. — Dado que veio, por dizê-lo de alguma forma, com a espada na mão, suponho que elaborou um plano de defesa.

— Acredito nisso, mas não poderei pô-lo em prática sem sua colaboração - precisou Vespasia. Permaneceram em pé junto à janela e suas saias se roçaram. Vespasia tinha ido procurar informação. — Estou certa de que sabe muito mais que eu, mas devemos trabalhar juntas.

Cordelia hesitou. Semelhante idéia era arriscada, dada a relação que até então tinham mantido. Não se deixaria convencer tão facilmente.

Vespasia aguardou. Não devia mostrar impaciência porque então revelaria suas intenções. Por muito profunda ou sincera que fosse, a compaixão não devia lhe impedir de ver o caráter da Cordelia. Sorriu ligeiramente e acrescentou: — Ao menos neste assunto.

Cordelia se tranqüilizou.

— Aceita uma xícara de chá?

— Encantada. Será um prazer.

Cordelia acionou o puxador da campainha.

Assim que a proprietária da casa pediu o chá, ambas tomaram assento e acomodaram as saias com movimentos quase iguais. Vespasia tomou a palavra e foi de uma vez por todas. Uma vez estabelecida a aliança tinha que justificá-la.

— Os que estão contra nós atacarão nossos motivos. Devemos nos certificar de que nossas razões são aceitáveis e lógicas; serão as únicas que daremos. Se déssemos muitas explicações pareceria que pedimos desculpas. - Cordelia não se deixou impressionar. — Não poderão criticá-los nem ao senhor Denoon. - Vespasia fez um esforço sobre-humano para dissimular sua impaciência. — Provavelmente tampouco poderão criticar ao senhor Tanqueray, embora o certo é que não o conheço o suficiente para estar certa disso. E o que dizer do resto de nossos aliados? A melhor tática é atacar aos mais vulneráveis e derrubar aos partidários de um em um.

Um súbito brilho de inteligência iluminou o rosto da Cordelia.

— Sim, tem razão - confirmou. — E também funciona ao inverso. Convir-nos-ia saber quem são nossos adversários.

Vespasia controlou seu olhar e seu tom de voz e manteve as mãos apoiadas no regaço. Era um jogo perigoso, mas sabia perfeitamente o que fazia.

— Nem mais nem menos. Somerset Carlisle será um de nossos adversários. É um excêntrico. - Não podia dizer-se que essa definição explicasse sua participação na retirada dos cadáveres do Resurrection Row! Claro que, exceto Pitt, ninguém sabia. — Por outro lado, é muito apreciado - continuou sem alterar-se. — Já tentaram difamá-lo, mas não o conseguiram. Pelo que soube, também há Jack Radley. Está distantemente aparentado com minha família e desempenha um posto secundário no Parlamento. Receio que atacá-lo se considerará um ato desesperado e não estaria bem que parecêssemos rancorosos ou forçados a apelar a qualquer recurso.

— Até agora parecem adversários insignificantes - concordou Cordelia. — Há alguém que deva nos preocupar?

Seu olhar denotava certa diversão, mas estava pendente de tudo e sabia que Vespasia tinha ido com algum propósito.

— Sir Charles Voisey - respondeu Vespasia com a esperança de não haver-se equivocado ao chamar a atenção da Cordelia a respeito desse homem. — Exerce muito mais influência do que parece.

Cordelia arqueou inquisitivamente suas negras sobrancelhas.

— Diz a sério? Não tinha ouvido falar dele até aquele assunto com os republicanos, seus disparos contra aquele italiano e a forma em que salvou à soberana. Nunca sei até que ponto acreditar nestas coisas.

A Vespasia sentiu um peso no coração; sentiu a intensidade daquela perda como se tivesse ocorrido na véspera. "Aquele italiano" ao que Cordelia se referiu tão condescendentemente tinha sido o grande amor de sua vida. Olhou as mãos apoiadas no regaço porque não teria suportado cruzar o olhar com Cordelia.

— Voisey tem muitos associados - acrescentou em voz baixa. — Tem amigos e inimigos em muitas partes. Já sabe como são estas coisas, os homens contraem obrigações e adquirem certos conhecimentos.

— Está dizendo que...? - começou a perguntar Cordelia.

Não pôde terminar a frase porque apareceu uma criada que lhe anunciava a chegada dos senhores Denoon. Esta quis saber se devia fazê-los esperar na saleta ou os fazia passar.

A Cordelia não ficou mais alternativa que recebê-los. Fingiu não dar-se conta de que a conversa tinha ficado interrompida e ordenou à criada que os acompanhasse.

Como era de prever, Enid vestia-se de negro, mas o luto ficava suavizado porque no pescoço brilhava um camafeu de extraordinária beleza, ao que seu cabelo loiro dotava de uma delicadeza e de uma sensação de vida da qual Cordelia carecia. Saudou a Vespasia com interesse e certa surpresa.

Denoon estava muito sério. Mostrou-se cortês, mas não fingiu alegrar-se de ver uma relativa desconhecida no que evidentemente supunha que seria uma reunião familiar.

Cordelia em seguida explicou a presença da Vespasia. Assim que cruzaram as saudações de rigor, não andou com rodeios nem fez concessões às sutilezas.

— Lady Vespasia está muito preocupada com nossos interesses - declarou sem rodeios. — Acaba de me advertir não só da importância de nos proteger dos ataques políticos, mas sim de cuidar de nossos aliados.

— Muito considerado por sua parte, lady Vespasia - disse Denoon com frieza; sua expressão refletia uma clara condescendência. — Mas é de todo desnecessário. Estou a par dessas correntes. É impossível dirigir um jornal se for um ingênuo.

Cordelia pigarreou, possivelmente porque queria contar com a ajuda da Vespasia e Denoon tinha sido muito descortês.

— Se estava informado dos associados secretos de sir Charles Voisey, o mais indicado teria sido que tivesse tomado a o trabalho de me informar - reprovou em tom gélido.

Denoon se retesou.

— Disse Voisey?

Vespasia o olhou e observou os músculos de seu pescoço e a ligeira modificação de sua postura. Nesse instante teve a certeza de que Denoon não só era um firme aliado do Wetron, mas também era membro do Círculo Interior e sabia perfeitamente o que tinha sido Voisey antes que se desmembrasse o Círculo. E isso era exatamente o que Vespasia tinha ido averiguar.

— Assim é - replicou com o rosto quase inexpressivo. — Pelo visto, não apóia o projeto e dará a conhecer suas opiniões com grande entusiasmo.

— Como sabe? - desafiou-a Denoon.

Vespasia franziu delicadamente as sobrancelhas.

— Como diz?

— Como sabe? - Denoon se interrompeu.

Enid tomou a palavra:

— Faz apologia da anarquia? - perguntou e espirrou energicamente. — Sinto muito.

Enid procurou um lenço no bolsito. Seus olhos claros se encheram de lágrimas.

Por cortesia Cordelia desviou o olhar.

— Duvido muito - respondeu. — Seria uma posição insustentável. Suponho que dirá que a polícia já conta com as armas que necessita e que a informação a respeito dos grupos subversivos é muito mais valiosa que as competências para revistar às pessoas ao acaso. Não é provável que a polícia consiga a ajuda da pessoas comuns se esta acreditar que é opressiva e propensa a abusar do poder.

Enid voltou a espirrar. Dava a sensação de que o resfriado piorava rapidamente. Tinha as pálpebras avermelhadas.

— Trata-se de uma argumentação muito fraca. - Denoon a descartou de plano. — Se tal como diz, a polícia dispusesse do poder necessário para obter tal informação, teria abortado o atentado do Myrdle Street. Acredito que está muito claro.

Vespasia titubeou. Se dizia que as armas e as revistas tampouco teriam permitido conhecer a participação do Magnus Landsborough pareceria desnecessariamente cruel e poderia lhes fazer pensar que defendia ao Voisey. Não só era um jogo de emoções, mas sim de dados.

— Senhor Denoon, não defendo a sir Charles nem seu ponto de vista - declarou com delicadeza e um muito leve toque de condescendência. — Acredito que permitimos que se expresse de maneira razoável no Parlamento e nos jornais que poderiam optar por publicar suas opiniões, o qual me preocupa. Só vim para dizer que provavelmente se oporá com todas suas forças ao projeto do senhor Tanqueray.

Denoon expulsou o ar silenciosamente e, com mais serenidade, acrescentou:

— Sim, é claro. Está a par do que responde seu interesse por este tema? Sabe se é pessoal ou político?

Denoon a observava com mais atenção do que aparentava.

Enid voltou a espirrar e abandonou seu assento no grande sofá. Tinha as pálpebras inchadas.

Vespasia deu de ombros quase imperceptivelmente. Foi um gesto elegante e na aparência espontâneo.

— Não tenho a menor idéia - mentiu.

Cordelia se impacientou e interveio com bastante entusiasmo:

— Provavelmente dá no mesmo. É claro que se trata de um homem ambicioso. - Olhou para Enid. — Será melhor que se sente em outra parte - acrescentou com frieza. — Edward, será amável de abrir a janela? - Disse-o como uma ordem que se dá a um criado e que nem sequer se pensa que não vá acatá-la. Denoon a olhou com o cenho franzido e não se moveu nem um milímetro. — Enid se está afogando por causa dos pêlos do gato! - exclamou Cordelia. — Já sabe que é alérgica aos gatos! Pelo amor de Deus, a Sheridan acontece exatamente o mesmo. O pobre animal deveria permanecer nos alojamentos dos criados, mas pelo visto escapou e andou por aqui. Esta manhã o pus fora, mas deve ter deixado pêlo.

A contra gosto, Denoon se aproximou da janela e a abriu em excesso, pelo que entraram o ar fresco e o aroma a erva cortada e molhada.

— Obrigada - disse Enid e voltou a espirrar. — O lamento. - Voltou-se para Vespasia. — Eu gosto dos gatos, são animais muito úteis, mas em casa não podemos ter. Tanto Piers como eu somos muito sensíveis a eles. Acontece com toda nossa família, Sheridan incluído. - Dirigiu este último comentário a Cordelia.

— Por isso o animal deve estar nos alojamentos dos criados - precisou Cordelia. Sheridan nunca os visita.

— Por certo, onde está? - quis saber Denoon. — Voltará para casa esta tarde? Sua ajuda nos seria de grande utilidade para a causa. Poderia expressar-se com mais energia que ninguém. Seria magnífico que prestasse seu apoio à campanha. Se mudasse de opinião e abandonasse sua posição liberal, moveria muita pessoas.

— Claro que estará em casa - confirmou Cordelia. — Só se atrasa!

Sua expressão era de cólera e desprezo.

— Acredito que deveríamos seguir elaborando nossos planos embora não esteja e informá-lo quando chegar - propôs Denoon.

Vespasia se voltou ligeiramente e detectou uma expressão de profundo ódio no rosto do Enid, que olhava a seu marido. Era tão violenta que ficou francamente surpreendida. Segundos depois se esfumou; Vespasia se perguntou se tinha sido fruto de sua imaginação ou uma má passada da luz estival que penetrava pela janela.

No vestíbulo soaram passos e vozes. A porta do gabinete se abriu e Sheridan Landsborough entrou. Passeou o olhar pelos presentes, olhou com surpresa e agrado a Vespasia e não se desculpou por haver-se atrasado. Dava a impressão de que não sabia que o esperavam. Estava pálido, com o rosto escurecido pela pena, e seus olhos tinham perdido a vitalidade.

Enid o olhou com profundo afeto, como se desejasse aproximar-se de seu irmão, mas não houvesse modo de consolá-lo. Sua perda era irreparável e Enid sabia.

Cordelia não manifestou o mesmo calor. Como acontece freqüentemente, a morte do filho parecia separá-los em vez de aproximá-los. Cada um lambia suas feridas a sua maneira: Cordelia estava furiosa e Sheridan se afastou e bateu em retirada inclusive mais que antes.

Denoon se comportava como se não estivesse emocionalmente comprometido.

— Analisávamos a melhor forma de promover o projeto do Tanqueray - explicou ao Landsborough. — Pelo visto, lady Vespasia pensa que Charles Voisey se converterá em um adversário digno de ser tomado a sério.

Landsborough o observou com muito pouco interesse.

— De verdade?

— Sheridan, já está bem! - exclamou Cordelia impetuosamente. — Agora mesmo, quando todas estas atrocidades estão na mente de todos, devemos prestar a ajuda que possamos. Agora não podemos estar de luto.

— Exatamente - concordou Denoon, sem tirar olho ao Landsborough. — Sem dúvida conhece o Voisey. Quais são suas debilidades? Onde estão seus pontos fracos? Tenho a impressão de que lady Vespasia opina que provavelmente se converterá em um aborrecimento. Se quiser minha opinião, não compreendo por que teria que sê-lo.

— O mais provável é que se oponha ao projeto - assegurou Landsborough sem alterar-se. Continuava em pé, como se desejasse partir assim que pudesse. — Pelo que chegou a meus ouvidos, está convencido de que a reforma será mais eficaz se se realizar de maneira moderada, embora com o tempo será necessária para conseguir uma sociedade pacífica.

— É um oportunista - declarou Denoon friamente. — Sheridan, tem uma opinião muito boa de outros. Falta-lhe realismo.

Vespasia ficou furiosa e perguntou em tom gélido:

— Acredita que o que disse é uma visão idealizada do comportamento de sir Charles?

— Acredito que sua defesa de uma reforma pacífica é interessada - disse Denoon. Seu tom dava a entender que inclusive Vespasia deveria lhe ser evidente.

— É claro que é interessada - replicou Vespasia, — mas não é essa a questão. O único que nos importa é o que defenderá, não quais são suas convicções.

Denoon se ruborizou.

Um vislumbre de sorriso apareceu nos lábios da Cordelia.

— Vespasia, tinha esquecido como é franca - comentou quase com regozijo.

— E sua grande sensatez - declarou Landsborough. Vespasia sorriu ligeiramente.

— Espero que tenha a amabilidade de me conceder o prazer de ouvir sua opinião -acrescentou Denoon a contra gosto. Cordelia o olhou, furiosa.

— Espero que Vespasia nos ofereça algo mais que sua opinião. Dado que concorda conosco na urgência e necessidade de acabar com a violência e de tomar alguma medida para que a polícia possa fazê-lo antes que a onda de destruição enrole a todos, Vespasia poderia nos ser de grande utilidade.

Durante uns segundos o esforço de dominar sua arrogância se refletiu no rosto do Denoon, mas não demorou para dissimulá-la. Olhou com afabilidade a Vespasia.

— Parece-me excelente. Sei perfeitamente que tem muita influência em certas pessoas cujo apoio necessitaremos. Desnecessário dizer que tal influência seria de um valor incalculável.

A criada entrou com a bandeja do chá e o debate se concentrou em questões práticas. Mencionaram a outros parlamentares, a diretores de jornais e de panfletos políticos e falaram de conseguir sua ajuda ou, no caso de que não compartilhassem suas idéias, do melhor modo de rebatê-los.

Vespasia se foi assim que a cortesia o permitiu. Disse que tinha outros compromissos. Desculpou-se e se despediu da Cordelia e do Denoon. Alguns minutos antes Enid tinha abandonado o gabinete sem dar explicações. Vespasia pediu que se despedissem por ela e se dirigiu ao vestíbulo em companhia do Landsborough.

O mordomo mandou procurar sua carruagem; durante a espera, Vespasia olhou para o corredor que dava à porta que conduzia ao jardim e viu que Enid falava em voz baixa com um lacaio. Não levava a libré dos Landsborough, pelo que provavelmente pertencia à casa de Enid e tinha chegado com ela. Tratava-se de um jovem bonito, condição que freqüentemente se exigia aos de sua profissão. De todo modo, foi sua expressão o que chamou a atenção da Vespasia e a manteve momentaneamente atenta.

O olhar do jovem era direto, muito sincero, e escutava a Enid como se esta lhe desse instruções para levar a cabo uma tarefa complicada e de grande importância. O lacaio se endireitou enquanto Enid lhe falava em voz baixa; aproximou-se dele mais do que o necessário e parecia que não tinham reparado na presença de ninguém mais.

Nesse momento Landsborough retornou e seus passos interromperam a cena. Enid se calou e o lacaio retrocedeu um passo e recuperou sua atitude total. Aceitou as instruções e se retirou para cumpri-las. Enid retornou lentamente ao vestíbulo e com grande naturalidade se aproximou do Landsborough.

Vespasia voltou a despedir-se. Enid a agradeceu e se dirigiu para o gabinete. Landsborough acompanhou a Vespasia até a carruagem.

— Está realmente convencida de que será bom que se dê mais arma à polícia? -perguntou Sheridan, com o rosto franzido de preocupação. Já estavam na calçada.

A mulher hesitou. Landsborough a olhava com desconcertada honestidade e em troca esperava sinceridade. No passado se haviam dito muitas coisas que provavelmente eram mais amáveis que verdadeiras, embora nunca com a intenção de enganar. Mas nesse momento era diferente; aquela faceta de sua relação pertencia ao passado e fazia muito tempo que os acontecimentos a tinham alterado. A pena e a sabedoria tinham substituído à impaciência, e no presente a solidão era de outra natureza e requeria um tratamento diferente.

Que verdade seria suportável em meio de um sofrimento tão dilacerador? Ao evocar o afeto da expressão do Enid quando o olhou, Vespasia não só recordou a frieza de Cordelia, mas também a clara indiferença que tinha manifestado Sheridan. Também estavam presentes outras penas, mais antigas, pesar que podia deduzir. Pelo bem de todos, até que ponto devia confiar nele?

Uma carruagem avançou pela rua, o cavalo levantou as patas a grande altura e seu arnês resplandeceu sob o sol.

— É necessário fazer frente aos anarquistas - respondeu Vespasia. — Mas ainda não sei com certeza como.

— Aumentar as competências policiais não é o caminho adequado - acrescentou Landsborough com grande seriedade. — Magnus me falou muito dos abusos que já se cometeram. A lei deve proteger aos inocentes e também apanhar e castigar aos culpados; do contrário, converte-se em uma licença para oprimir.

— Sei.

Vespasia escrutinou seu rosto, desejosa de compreender as emoções que havia atrás de suas palavras. Até que ponto estava à corrente do que Magnus fazia? O que podia acreditar que fosse suportável para ele?

— Não confie no Voisey! - exclamou Sheridan e repentinas e profundas emoções deram gravidade a sua voz. — Lhe rogo isso! Vespasia, siga o caminho que for, tenha muito cuidado e se assegure de em quem confia. Há em jogo muito mais do que parece.

Como se se tivesse dado conta de que o observavam das janelas que se achavam a suas costas, Landsborough se despediu, ajudou-a a subir à carruagem e inclinou educadamente a cabeça quando esta se afastou.

 

Tellman estava empenhado em se encontrar o quanto antes possível com o Jones, o Bolso, mas sabia que devia fazê-lo com supremo cuidado e em seu tempo livre, não durante sua jornada no Bow Street. Se alguém o visse teria que dar explicações de seu interesse por um homem cujos delitos, no caso de que existissem, não se tinham cometido em seu distrito. Cedo ou tarde a situação chegaria aos ouvidos de Wetron, que não demoraria para tirar suas próprias conclusões.

Na primeira noite, Tellman vestiu roupa velha, que era algo que detestava porque lhe recordava sua juventude, os tempos nos quais era a única coisa que tinha.

        Muito a seu pesar teve que fazê-lo. Precisava passar despercebido e sabia que seu rosto chupado e peculiar era reconhecível em muitos lugares. Era a única vantagem de deslocar-se à zona do Cannon Street, mas tampouco se atrevia a pedir ajuda aos agentes dessa delegacia de polícia. Não demorariam a mencioná-lo ao Simbister e, poucas horas depois, chegaria aos ouvidos de Wetron. Se Pitt tinha razão e a corrupção estava tão estendida como temia, Tellman não trabalhava com a polícia, senão contra ela.

Tinha nascido no East End. Conhecia as ruas, os becos, os atalhos, os botequins e as casas de penhor. Já não tratava a muitos de seus habitantes, mas sabia perfeitamente como eram suas vidas. Foi estranho e desagradável voltar a percorrer esses lugares conhecidos, como se o aroma jamais tivesse abandonado o fundo de sua garganta e seus pés ainda reconhecessem a pavimentação irregular que pisava.

Tinha passado muitas vezes em frente a cada uma dessas lojas e casas; estava acostumado a ir com as botas furadas, sempre faminto, sem saber se obteria alimento ou calor e temeroso do futuro. Se Jones o Bolso procedia desse bairro, Tellman o compreenderia muito para sentir-se cômodo perseguindo-o. O caso do Grover era ainda pior. Tellman compadecer-se-ia dele porque conhecia a vida da qual tinha escapado e o odiava porque tinha traído o caminho que o próprio Tellman tinha seguido para sair.

Grover também tinha visto como sua mãe lutava para alimentar e vestir a seus filhos e provavelmente tinha perdido a algum deles por culpa de alguma enfermidade. Tellman jamais esqueceria o silêncio, o medo e o sofrimento que havia em sua casa. Os velhos podiam morrer, era previsível, mas apesar dos anos transcorridos a dor continuava sendo aterradora e inconsolável quando se tratava de um menino. Se fechava os olhos ainda via o rosto de sua mãe a noite que ocorreu, e voltava a sentir aquela impotência.

Uma parte de seu ser odiava ao Grover por aproveitar-se de outros. Entretanto, compreendia que, se tem fome e se está desesperado, agarra-se o que se pode quando se pode. Tinha que ser muito forte, esperto ou afortunado para não acabar derrotado.

De qualquer modo, esses pensamentos não afetavam absolutamente sua decisão de dar com o Jones o Bolso e detê-lo. Embora fosse uma situação que não lhe produzia a menor alegria.

No transcurso da noite visitou todas as tavernas situadas em um raio de três quilômetros da Dirty Dick e a Tenha Bells. Observou aos proprietários e procurou o caminho mais curto para deslocar-se de uma taverna a outra.

 

No dia seguinte enviou aos homens que estavam acostumados a trabalhar com ele a realizar diversos recados que os manteriam ocupados toda a tarde. Ao meio-dia retornou a Tenha Bells. Segundo o que Pitt tinha explicado, era o dia de arrecadação, pelo que pediu um sanduíche de vitela e uma jarra de cerveja e se dispôs a esperar. Sentou-se perto da porta e observou a quantos entravam.

Para mais segurança, tinha chegado cedo. Ao cabo de meia hora, um homem com um largo nariz e o cabelo alvoroçado entrou, brincou com a criada e pediu um pastelzinho quente e um copo de cerveja.

Tellman esteve a ponto de não fixar-se no seguinte freguês. Tinha o rosto afiado e bicudo, olhos saltados e levava um largo casaco que ao mover lhe golpeavaas pernas. De repente o rosto da taberneira loira se tornou inexpressivo. Sem aguardar que falasse, a mulher lhe serviu uma medida de genebra em um copo e o deixou em cima do balcão. O homem o pegou, bebeu-o com um rápido movimento e voltou a deixar o copo vazio no balcão. Não houve intercâmbio de dinheiro.

Tellman bebeu sua cerveja e ficou em pé.

A taberneira estendeu a mão, com a palma para cima.

O homem do casaco procurou uma moeda e a entregou.

Tellman se sentiu ridículo. Teria que voltar a sentar-se. Depois de tudo, esse indivíduo não era Jones.

A taberneira estava rígida e incômoda. Em seu rosto não havia nenhum sorriso, como a que lhe tinha dedicado ao Tellman que, depois de tudo, era um desconhecido na taverna. Dirigiu-se à gaveta no qual guardava o dinheiro como se fora a procurar a mudança. Fez um movimento brusco, levou a mão a outra gaveta e tirou uma bolsa com moedas. Fechou-a bruscamente, voltou-se e entregou a bolsa ao homem. Este a pegou, pronunciou umas palavras que Tellman não chegou a ouvir e com muito cuidado guardou as moedas em um dos amplos bolsos exteriores de seu casaco. O pagamento se realizou mas, para qualquer que tivesse estado menos atento, o ocorrido não era mais que o habitual intercâmbio de dinheiro por uma consumação.

Jones tinha terminado sua tarefa. Virou-se e saiu à rua. Tellman saiu atrás dele.

Seguiu-o, embora a certa distância. Inclusive se permitiu perder o de vista, já que sabia aonde ia. Só o preocupava que não entregasse o dinheiro nesse mesmo dia. Nesse caso não saberia onde achar novamente ao Jones antes da semana seguinte na mesma rota, mas Pitt não podia esperar sete dias mais.

Eram perto das seis e não tinha visto que Jones tivesse dado o dinheiro a outra pessoa ou entrasse em um edifício que pudesse ser seu lar.

Ao final Jones entrou em uma taverna do Bethnal Green e pediu o jantar. Reparou que a criada o serviu sem lhe pedir que pagasse. Em um primeiro momento chegou à conclusão de que formava parte de sua ronda, mas viu que a mulher ria e se deu conta de que não estava aborrecida. Caminhava rebolando ligeiramente os quadris. Parecia muito segura de si mesma; paquerou com outros clientes quando passava a seu lado, olhou a alguns e lhes piscou o olho. Brincava com eles. Um homem corpulento replicou e a criada fingiu que se escandalizava. Soaram mais risadas. Jones se somou a elas.

A mulher retornou ao balcão, apontou algo em um pedaço de papel e o guardou na gaveta.

Jones era um cliente habitual. Não a extorquia: a mulher simplesmente apontava o jantar em sua conta. Sem dúvida estava acostumado a comer ali. O mais provável é que vivesse perto.

Por fim tinha averiguado onde achar novamente ao Jones. Partiu com passo ágil. Notou que estava faminto, mas decidiu comer em outro lugar, não queria jantar na mesma taverna que Jones o Bolso.

 

Tellman chegou a seu alojamento com uma sensação triunfal, mas quando se deitou na cama e pensou nisso se deu conta de que, embora sabia exatamente o que tinha visto, não tinha provas de que Jones tivesse cometido um delito pelo que pudesse prendê-lo. Paradoxalmente, pensou que se o projeto da nova lei se aprovasse teria podido aplicar as novas competências da polícia. Claro que o último que gostava de era levar uma arma e, menos ainda, que a polícia corrompida pelo Wetron e os de sua índole dispusessem delas.

Necessitava uma desculpa para deter o Jones e mantê-lo encarcerado o tempo suficiente para que Pitt ocupasse seu lugar, arrecadasse o dinheiro e esperasse que seus chefes fossem buscá-lo.

Entretanto se os chefes supunham que Pitt também era corrupto, como eles esperavam, seus motivos para deter o Jones não tinham por que ser honrados.

Mas se os chefes não eram corruptos e Wetron se inteirasse, Tellman cairia em suas redes e pagaria por seu delito durante o resto de sua vida.

Virou-se e se cobriu com a roupa de cama. Teve a sensação de que o travesseiro estava cheio de penas condensadas. Tão logo tinha muito calor como no minuto seguinte morria de frio.

Havia algo pior que cair nas redes do Wetron: perderia a honra. O que pensaria sua mãe? Imaginou seu desprezo e também, mais amargo que o desprezo, sua dor.

Para não falar de Gracie. Ficaria furiosa com ele por não ter sido bastante inteligente para achar uma saída mais graciosa. A seus olhos deixaria de ser um herói.

De um ponto de vista legal, com que motivo podia prender o Jones? Era culpado de extorsão, mas não havia forma de demonstrá-lo porque ninguém declararia que tinha pago contra sua vontade; ninguém se atreveria a dizê-lo. Se o fizesse, arriscava-se a receber a visita da polícia, que, misteriosamente, acharia em sua casa mercadoria roubada, dinheiro falsificado ou algum documento comprometedor cuidadosamente colocado a fim de comprometê-lo.

Endireitou-se na cama e, através da camisa de dormir, notou o ar frio. Já o tinha! Não tinha visitado todas as tavernas do bairro. No dia seguinte Jones iria cobrar mais dinheiro. E se em alguma lhe pagavam com notas falsificadas? Seria fácil organizá-lo. Não era um delito pagar uma extorsão com dinheiro falsificado. Tellman não teria dificuldades para fazer-se com um punhado de notas falsas. Na zona do Bow Street havia ao menos um vigarista que lhe devia um favor e que estaria encantado de saldar sua dívida. Quanto custava uma nota falsificada? Dadas as circunstâncias, muito pouco.

Evidentemente teria que mover-se com muito cuidado: vigiaria ao Jones, certificar-se-ia de que pegava a nota e só então o deteria. O dinheiro falso, cujo autor não poderia delatar porque não o conhecia, seria o motivo que lhe permitiria pô-lo entre grades durante vários dias, talvez uma semana, o tempo suficiente para que Pitt pudesse reunir-se com seus chefes.

Tellman estava muito insone para conciliar o sono; já tinha tomado uma decisão. A única coisa que faltava concretizar era a quem levaria consigo para efetuar a detenção. Não se atrevia a fazê-lo só se por acaso Jones o enfrentasse, coisa que podia ocorrer. Em zonas como Melo End ou Whitechapel havia suficientes becos escuros ou pátios fechados onde podia lhe cravar uma faca e escapar. Ninguém iria em ajuda do Tellman, que não se atreveria a recorrer à polícia local. Qualquer agente podia ser tão corrupto como o próprio Jones, e inclusive podia ser seu chefe ou um intermediário.

Deitou-se e ao final dormiu com um sono ligeiro; quando despertou, começou a pensar em quem confiava o suficiente para que o acompanhasse.

 

Finalmente, mal teve escolha. Levaria ao Stubbs ou ao Cobham. Este era novato e se mostrava pouco disposto a acatar ordens. Estava acostumado a fazer perguntas e procurar um motivo para tudo e não havia tempo para explicações. Escolheria ao Stubbs. A única coisa que sabia a respeito desse agente era que, igual a ele, era o maior de uma família numerosa. De vez em quando se referia a sua mãe, embora nunca falava de seu pai. Talvez estivesse morto. Era possível que Stubbs tivesse ambições ou lealdades pessoais, mas o mesmo podia dizer-se de todos outros. Esse temor podia impedir que Tellman se atrevesse a dar um só passo. Era uma das piores coisas da corrupção: paralisava a ação, dificultava a tira de decisões até que, ao final, duvidava de todos, inclusive de sua própria capacidade.

Quando saiu, muito cedo, a procurar o dinheiro falsificado a manhã era fria e uma ligeira bruma cobria o rio. Às oito já tinha falado com o dono da taverna que pagaria ao Jones com as notas falsas. Para certificar-se de que tudo saísse bem, Tellman lhe recordou as dificuldades que podia ter se a operação fracassava e as futuras vantagens das que desfrutaria se tivesse êxito.

Às nove estava no Bow Street, como sempre; cumpriu com seus deveres e se manteve tão afastado como pôde do Wetron. Preferiu não correr o risco de comentar ao Stubbs que o necessitava; na hora de comer foi vê-lo em sua mesa, onde estava resolvendo a papelada e lhe disse que tinha uma tarefa para ele. Stubbs, que detestava o trabalho burocrático, aceitou encantado.

Saíram juntos e interrogaram a um prestamista sobre o roubo de uma urna e um par de candelabros de prata. Era algo que Tellman poderia ter feito perfeitamente sozinho; depois, dirigiram-se ao este, como se prosseguissem a investigação. Compartilharam um agradável almoço na taverna Smithfield e se dirigiram tranqüilamente ao pub no qual Tellman supôs que Jones arrecadaria o dinheiro da extorsão. A princípio, pensou dar antes com o Jones, perto de onde vivia, e segui-lo até à taverna em que estava o dinheiro falso. Mas se Stubbs era leal ao Círculo Interior ou a qualquer de seus membros, se estava em dívida com eles, assustava-se ou simplesmente Tellman se mostrasse descuidado, arrumaria para advertir ao Jones do risco que corria. Portanto, estavam obrigados a esperar. O céu se nublou e caiu um toró que os fez tiritar de frio. Stubbs se mostrava cada vez mais desconcertado e descontente.

Tellman decidiu que não lhe daria explicações, já que teria que lhe contar alguns detalhes que não gostava de mencionar.

Caiu outra chuvarada. Durante uns minutos o granizo golpeou as vitrines da loja situada a suas costas. Nesse momento apareceu Jones; caminhava pela calçada, com as abas do casaco batendo as asas e com o chapéu negro molhado. Entrou na taverna, saiu dez minutos depois, passou o dorso da mão pelos lábios e se dispôs a cruzar a rua até a calçada de frente.

— Adiante! - exclamou Tellman taxativamente. — É nosso homem!

— Por que? - perguntou Stubbs, embora obedecesse rapidamente. Colocou o pé em um atoleiro e amaldiçoou em voz baixa. — Quem é?

— Alguém que passa dinheiro falsificado - respondeu Tellman.

— Como sabe?

Stubbs o alcançou ao mesmo tempo que, um pouco mais adiante, Jones entrava em um beco para pegar um atalho até sua seguinte parada.

— É meu trabalho - respondeu Tellman. Cruzou a rua atrás de Jones e se internou no beco.

Preocupava-lhe seguir o extorsionador a um lugar que não conhecia e onde facilmente podiam lhe estender uma emboscada, mas não se atrevia a perdê-lo de vista. Se deixava de vê-lo durante um par de segundos poderia passar o dinheiro a alguém e seu plano se viria abaixo.

A corrupção policial o indignava profundamente e lhe seria insuportável fracassar por causa de um momento de covardia. Além disso, deixaria ao Pitt na estaca zero, o que era quase pior.

O beco estava escuro, as nuvens de tormenta tingiam o céu de cinza e faziam com que as sombras fossem agoureiras. Jones ia mais adiante e se aproximava velozmente a um homem robusto, com um peito imponente e as pernas curtas e ligeiramente arqueadas. Tinha um rosto forte, com feições afiadas e olhos afundados. Permaneceu no centro do beco, justo na trajetória do Jones, mas este não vacilou e tampouco fez gesto de dar a volta ou querer distanciar-se.

Tellman já não podia escolher. Assim que o dinheiro trocasse de mãos ficaria sem motivos para deter Jones.

— Temos que agarrá-lo - disse com voz baixa.

Dessa forma comprovaria de que lado estava Stubbs. Lhe fez um nó no estômago e lhe fechou tanto a garganta que durante uns instantes lhe custou respirar. Adiantou-se, lançou-se sobre o Jones, pegou-o por detrás, retorceu-lhe o braço às costas e manteve seu corpo como um escudo ante o outro homem. Se levava uma arma, fosse o que fosse, de momento não a utilizaria. A suas costas ouviu os passos de Stubbs no pavimento.

— Polícia, senhor Jones - disse Tellman com toda clareza. — Fica detido por passar dinheiro falsificado.

Jones lançou uma exclamação, em parte de surpresa, mas sobre tudo de dor, porque tentou soltar-se e Tellman lhe aferrou o braço com mais força.

— Comprovará que não levo nada! - declarou, ultrajado.

— Você é do Bow Street - interveio em tom suave o homem das feições afiadas. Sua voz era ligeira e sua dicção extraordinariamente clara, o que não coincidia absolutamente com sua imagem. — O que faz aqui? Meu nome é Grover. Sou o sargento Grover, do Cannon Street.

— Sou o sargento Tellman. Sigo a pista do dinheiro da zona do Bow Street -respondeu Tellman.

— É mentira! - exclamou Jones, indignado. — Nunca estive nem sequer perto do Bow Street.

— Sargento Tellman, está totalmente seguro? - perguntou Grover e deu um passo para eles, pelo que só ficou a três metros de distância.

Tellman retrocedeu, arrastou consigo ao Jones, afastou-se do Grover e se aproximou do Stubbs.

— Sim, sargento, estou seguro - respondeu. — É muito fácil comprovar se leva consigo dinheiro falsificado. Demos uma olhada. Agente Stubbs! - Não lhe pediu que segurasse ao Jones. Se o soltasse, podiam converter-se em três contra um e ao Tellman não ficaria nenhuma saída. Ordenou: — lhe reviste os bolsos.

Durante uns momentos ninguém se moveu; por fim, Stubbs se adiantou.

Jones deixou escapar um bufo.

— Comprovarão que não levo dinheiro falsificado! - defendeu-se, furioso. — Sargento Grover, você me conhece! Esta é sua zona. Por que permite que este agente do Bow Street se saia com a sua?

— Se o que diz é verdade, pedir-lhe-ei desculpas - interveio Tellman e o segurou inclusive com mais força, pelo que o Jones retrocedeu. — Inclusive lhe pagarei o jantar. Mova-se, Stubbs! O que lhe passa?

Ao Tellman custava cada vez mais segurar ao Jones; reparou em que alguém aparecia no outro extremo do beco e se aproximava por detrás do Grover. Este deve tê-lo ouvido, já que se voltou, mas se virou de novo e olhou ao Tellman com uma expressão de dúvida.

O recém-chegado se aproximou da zona iluminada. Era Leggy Bromwich, um ladrão de pouca subida que Tellman conhecia fazia anos. Em um par de ocasiões Tellman fazia a vista grossa quando Leggy tentava recuperar o que era dele, pelo que lhe devia algum ou outro favor. Não é que servisse de muito, mas ao menos já era algo.

— Olá, Leggy - saudou Tellman com um sorriso que consistiu, basicamente, em lhe mostrar os dentes. — Viu alguma boa falsificação nos últimos tempos?

— Tem alguma, senhor Tellman? - perguntou Leggy e lhe iluminou o rosto.

— Tê-la-ei assim que o agente Stubbs se dita a cumprir seu trabalho.

Leggy se deteve mais à frente do alcance do Grover, arregalou os olhos e um ligeiro sorriso alegrou seu rosto magro.

Stubbs revistou os bolsos do Jones e tirou um punhado de dinheiro. — Só são moedas - declarou com expressão impávida. Jones permaneceu em silêncio.

Tellman sentiu que lhe caía a alma aos pés. Jones já tinha entregue a Grover a nota falsificada ou o taberneiro o tinha traído e não o tinha dado ao extorsionador? Notou o sabor do fracasso em sua boca.

— Olhe dentro da camisa! - ordenou bruscamente.

— Senhor Tellman, já está bem! - protestou Jones. — Não têm nenhum direito! Sou inocente!

Tellman retorceu um pouco mais o braço do Jones, que gritou.

— Sargento, não está em seu distrito - advertiu Grover.

Stubbs olhou ao Grover e imediatamente ao Leggy. Introduziu a mão na camisa do Jones e extraiu duas notas de cinco libras.

— Olhe-os - ordenou Tellman. — Observe-os atentamente.

Stubbs fez conta. Inclusive a um metro de distância Tellman se deu conta de que eram muito diferentes. Ao menos um deles era uma falsificação, e não muito boa por certo.

— Sargento Grover, o que me diz? - perguntou Tellman, que se alegrou muito de que Leggy Bromwich estivesse presente.

— Senhor Jones, não sabe quanto me decepcionou - assegurou Grover com falso pesar e retrocedeu um passo. — Parece que, depois de tudo, o sargento Tellman tinha razão. Foi descuidado, muito descuidado.

Tellman voltou a mostrar os dentes a modo de sorriso.

— É uma falsificação. Esta porcaria é inútil. Eu não gostaria que me pagassem uma dívida com um punhado desses papéis! Agente Stubbs, tenha a amabilidade de me dar as algemas. Teremos que levar o senhor Jones. Senhor Grover, Leggy, que passem um bom dia. - Empurrou ao Jones para que olhasse para o outro extremo do beco e o fez avançar, com o Stubbs a seu lado.

Dirigiu-se para a rua principal em que, com um pouco de sorte, achariam uma carruagem de aluguel. Não voltou a vista atrás para ver a expressão do Grover nem a satisfação que supôs iluminava o rosto do Leggy Bromwich. Durante ao menos alguns meses o mais sensato seria não voltar a cruzar-se com o Grover.

 

Essa noite, depois de dar a notícia ao Pitt, Tellman se achava com o Gracie na rua, à entrada do Gaiety Music Hall. A moça resplandecia de entusiasmo. Fazia quase três semanas que lhe tinha prometido levá-la e em duas ocasiões tinham tido que adiá-lo por culpa das petições do Pitt. Essa noite estava disposto a esquecer-se de tudo e sair com Gracie. Seu luminoso rosto era suficiente motivo para tratar de afastar o problema da corrupção de seus pensamentos, ao menos até que retornasse a seu alojamento e se desse conta de que não podia confiar em ninguém.

Por outro lado, havia a possibilidade de que os anarquistas estivessem equivocados quanto ao grau de corrupção. Não eram, precisamente, pessoas muito sensatas ou racionais. Como podiam falar de algo tão absurdo como destruir a ordem estabelecida a fim de voltar a criar a justiça a partir do caos?

A dúvida do que Stubbs teria feito se Leggy Bromwich não tivesse estado presente perseguia o Tellman. O que devia haver contado Stubbs ao Wetron? E, por outra parte, o que haveria dito Grover ao Simbister? Achava que Jones tinha dado realmente dinheiro falso ou sabia que era o próprio Tellman quem tinha colocado essa nota? Pelo que estava certo era de que Grover não se delataria e acusaria ao taberneiro de pagar o dinheiro da extorsão com notas falsas.

Se a corrupção estava tão estendida como temia Pitt e não a erradicavam, Tellman teria que enfrentar um novo problema. Com profundo pesar se deu conta de que não poderia continuar na polícia. Teria que dedicar-se a outra profissão. Qual? Não sabia fazer outra coisa. Acabava de propor matrimônio à Gracie. O que podia lhe oferecer se não tivesse trabalho?

A jovem se aferrou a seu braço, para não separar-se dele no meio da multidão que começou a avançar quando se abriram as portas. Foi uma sensação agradável, cálida e enternecedora. Bem sabia Deus quanto tinha tido que esperar para que Gracie lhe falasse cordialmente! Recordou o desdém que ao princípio tinha manifestado por ele. Passava a seu lado com o queixo alto, o que era todo um lucro se se considerasse que mal chegava ao metro e meio e era muito magra. Entretanto, tinha muito caráter e desde o primeiro momento Tellman ficou fascinado. Também devia reconhecer que durante quase um ano se enganara e convencido de que quão único ocorria era que o irritavam suas intervenções.

Entraram com a multidão e procuraram seus assentos. Ouviam-se comentários e risadas enquanto as mulheres acomodavam as saias, queixavam-se de quem tinha ao lado e saudavam os conhecidos.

O espetáculo era excelente: um acrobata, um malabarista, dois contorcionistas que trabalhavam juntos, uma bailarina, vários cantores e dois cômicos de primeira. Tellman tinha comprado chocolate e caramelos de hortelã para Gracie e no entreato se propunha convidá-la a uma limonada. Durante três horas afastaria de sua mente tudo o que tivesse que ver com os delinqüentes.

Ergueu-se o pano de fundo. Em meio dos aplausos, o mestre de cerimônias anunciou as atuações com a habitual linguagem florida e rebuscada. Gracie e Tellman desfrutaram com o malabarista, que além de divertido era muito hábil, e com o acrobata, elegante e com dotes para a mímica. Somaram-se entusiasmados aos cantores, assim como fez todo o público. A primeira parte do espetáculo concluiu com grandes gargalhadas depois da atuação de um dos cômicos.

Quando cessaram os aplausos e o pano de fundo de veludo vermelho caiu, Tellman ficou em pé.

— Quer uma limonada?

— Sim, Samuel, obrigada - aceitou Gracie cortesmente. Eu adoraria.

Tellman retornou dez minutos depois. Gracie pegou o copo e bebeu com o cenho ligeiramente franzido.

— O que lhe passa? - perguntou o policial, preocupado. — Está muito azeda?

— Está deliciosa - respondeu. — Estou preocupada com o senhor Pitt.

— Por que? - inquiriu, desejoso de tranqüilizá-la. Se tinha reparado na ansiedade do Pitt ou no sentimento de culpa que o carcomia porque o corpo no qual trabalhava e no qual tinha acreditado durante toda sua vida estava sob suspeita de corrupção, teria que afastá-la da verdade e lhe dar outra explicação. — Não esqueça que trabalhar na Brigada Especial é muito duro. Não é tão simples como ser policial de delegacia.

— Tem toda a razão - concordou e bebeu outro gole de limonada. Quando prosseguiu, sua voz soou tão baixa que provavelmente os do lado não a ouviram: — Tenta averiguar se os estúpidos que colocaram a bomba dizem a verdade a respeito da polícia. Mas não pode perguntar a qualquer um, não é? Em quem pode confiar?

— Quase todos nós somos tão honrados como os integrantes da Brigada Especial e o senhor Pitt sabe! - exclamou Tellman acaloradamente.

— Sabe que você o é – corrigiu. — Do resto não sabe nada.

— Claro que sim. Sabe que... - Calou, consciente de que nem sequer ele mesmo sabia em quem podia confiar.

Gracie o observou com um olhar sagaz e reparou na dúvida que tinha alterado seu rosto. Tellman notou calor nas faces e se deu conta de que se ruborizara.

— Contou-lhe isso? - perguntou abertamente depois de deixar a um lado a limonada. — Portanto, sabe do que está assustado, não é?

A amizade de Gracie era muito valiosa para arriscar-se a dizer mentiras, inclusive verdades pela metade.

— Não posso falar de assuntos policiais, nem sequer com você - respondeu com seriedade.

Se lhe dissesse que o fazia para que não se preocupasse se teria posto furiosa. Já o tentara uma vez e o acusou de tomá-la por tola, para por fim durante os dois meses seguintes o tratar como a um leproso.

— Tanto faz! - declarou rigidamente. — Faz quase dez anos que trabalho para o senhor Pitt e sei que, custe-lhe o que lhe custar, não permitirá que a corrupção continue. Tampouco o deterá ver que a senhora Pitt esteja terrivelmente assustada.

— Não é o que queria? - perguntou Tellman, que tinha notado a admiração em seu tom de voz e o brilho com o que o olhou nos olhos.

Gracie hesitou; tinha muitas dúvidas. Tellman não o entendeu.

— Não era o que queria?

Estava certo de que não se equivocara ao interpretar suas emoções. Além de a conhecer, era o que ele também achava. Gracie olhou para outro lado.

— Sei que isso é o que ele tem que fazer - respondeu em um tom tão baixo que mal a ouviu. Voltou-se para olhá-lo com os olhos chamejantes e cheios de lágrimas. — Mas não é seu caso! Se se inteirarem do que está fazendo, quem o tirará do apuro? - Engoliu a saliva com o corpo rígido e os ombros quadrados. — Estão só no corpo de polícia e se lhe apanharem nem o senhor Pitt nem ninguém poderá ajudá-lo! - Tellman abriu a boca para negar que estivesse fazendo algo perigoso. — Samuel Tellman, não lhe ocorra me mentir! - replicou; esteve a ponto de engasgar-se. — Nem se atreva!

— Não pensava lhe mentir - se defendeu rapidamente. Não ficava outra saída. Se permitisse que Gracie lhe dissesse o que podia ou não fazer, tomaria uma decisão equivocada da qual não se livraria o resto de sua vida e, por muito que a quisesse, não estava disposto a permiti-lo. — Queria lhe economizar a preocupação de falar desse assunto, mas não sei como soube. Eu não lhe disse isso e estou certo de que o senhor Pitt tampouco o fez.

— Não é necessário que me diga - replicou sem deixar de falar em voz baixa, embora impetuosamente. — Posso deduzi-lo eu sozinha! Parece que os anarquistas voaram de propósito essas casas, uma das quais pertence a um policial do Cannon Street. O Parlamento tenta passar uma lei para dar armas ao corpo, mas o senhor Pitt não quer porque diz que dificultará os trabalhos policiais, já que a população lhe voltará as costas. Sua antiga delegacia de polícia do Bow Street está ao comando de um porco intrigante que, como todos sabemos, é chefe do Círculo Interior, que recentemente esteve a ponto de matar ao senhor Pitt.

— Gracie! - exclamou, alarmado. — Baixa a voz! Não sabe quem pode ouvi-la!

A moça não lhe fez o menor caso.

— Lady Vespasia e a senhorita Emily também estão preocupadas. Até hoje não tínhamos podido vir ao espetáculo porque estava muito ocupado e agora está tão abatido que parece que o tenham espancado. Segue pensando que sou incapaz de deduzir o que ocorre?

Tellman teria que ter suposto que nem sequer podia ter a esperança de que Gracie só conhecesse parte da gravidade do problema. De todo modo, no que a seus deveres se referia dava na mesma.

— Ao que parece pode fazê-lo - admitiu. — Esperava que não se inteirasse para que não tivesse que preocupar-se. - Gracie deixou escapar um grunhido de desdém ante tamanho desatino. — Continuo decidido a fazer quanto esteja em minhas mãos. E não volte a me perguntar nada, porque não quero ter que lhe pedir que não o faça nem penso lhe contar o que ocorre, não porque desconfie de ti, mas sim porque prefiro que não tenha segredos com a senhora Pitt nem te veja obrigada a lhe mentir.

— Já sabe! - exclamou e engoliu a saliva. — Também sabe somar dois mais dois! Sabemos que voaram essa casa porque o policial que vivia nela é corrupto!

— Nesse caso, dá na mesma que eu não diga nada. Gracie, deixemo-lo já. Assim serão as coisas e o melhor é que se acostume.

Tellman permaneceu muito quieto e a olhou com decisão e expressão séria.

A moça ficou furiosa e apertou os punhos no regaço; seus dedos pequenos empalideceram e pareceram os de uma criança. Respirou fundo várias vezes, como se procurasse a resposta adequada. Tellman detectou temor em seu olhar, um medo absurdamente real. Esteve a ponto de ceder. E se se sentia muito à margem, tão excluída que não o perdoava? Tomou ar para acrescentar algo mais suave.

— De acordo, Samuel - aceitou afavelmente.

— O que disse?

Tellman estava desconcertado. Gracie fazia caso dele!

— Já me ouviu! - Sua voz voltou a soar aguda e zangada. — Não penso repetir! Mas se cuide muito, de acordo? Me prometa.

— Prometo-lhe isso! - replicou, aliviado.

Desejava estreitá-la entre seus braços e beijá-la, mas se sentiria desconfortável ante semelhante amostra de afeto em um lugar público. Os assistentes voltaram a ocupar seus assentos para a segunda parte, as saias formaram redemoinhos, a metade dos presentes pisaram à outra metade. Houve protestos e apressadas desculpas.

Gracie se manteve rígida e com o queixo alto. Sorveu ligeiramente o nariz e procurou o lenço, mas seu rosto estava aceso de orgulho e de uma espécie de entusiasmo interior. Não teve nada que ver com os contorcionistas do ato seguinte, cômico que lhe provocou dor de barriga de tanto rir nem com o cantor que fechava o programa e que conseguiu que todos entoassem alegres canções.

Tellman sorria tão ufano que o vizinho de assento pensou que lhe tinha escapado o sentido de uma das melhores piadas, mas não perguntou nada.

 

Pela manhã, a alegria de Tellman se esfumou quando chegou à delegacia de polícia do Bow Street e achou uma mensagem na qual lhe ordenavam que acudisse imediatamente ao escritório do inspetor Wetron.

— A suas ordens, senhor - disse e, com a boca seca, deteve-se ante a escrivaninha do Wetron.

Este levantou a cabeça. Era um homem de aspecto comum, com entradas. Era de estatura e corpulência média e suas feições eram vulgares até que se reparava no rígido brilhantismo de seus olhos e a linha inflexível que formavam seus finos lábios.

— Ah, Tellman. -- Inclinou-se ligeiramente para trás na cadeira. Sua escrivaninha estava impecável e ordenada. — Não estava informado que em nosso distrito havia um problema de falsificação. Pelo que sabia, só circula alguma ou outra nota, mas, geralmente tão mal feita que não engana a ninguém.

Tellman ficou tenso e se ruborizou.

— Senhor, não acredito que tenhamos esse problema. Agradecer-lhe-ia que o deixássemos correr.

— De Cannon Street me informaram que ontem procedeu a uma detenção em seu terreno e que transladou ao homem a esta delegacia de polícia. É assim?

— Sim, senhor. Tinha motivos para supor que a nota tinha saído de nosso distrito, pelo que o delito nos correspondia.

Até certo ponto era verdade. Devia ter muitíssimo cuidado com o que dizia ao Wetron. Desconhecia o que lhe tinha contado Stubbs.

— Refere-se à nota de cinco libras? - Wetron arqueou ligeiramente as sobrancelhas e com o tom deixou claro o pouco que importava.

Ao Tellman incomodou, mas não podia permitir que se notasse.

Uma ligeira careta de diversão apareceu no gélido rosto do Wetron e continuou em silêncio.

De repente, Tellman soube que Wetron aguardava que se desculpasse e se retirasse o antes possível; dava a impressão de que estava assustado ou se sentia culpado. A cólera aumentava no interior do Tellman, que se repetiu que devia ser muito cuidadoso. Cada palavra, cada matiz, inclusive sua maneira de permanecer em pé ou sua expressão seriam recordados. Não estava disposto a retroceder.

— Senhor, em seu momento pensei que tal falsificação podia ser muito importante explicou e se ergueu ligeiramente para quadrar-se ante a escrivaninha do Wetron. — Os anarquistas necessitam dinheiro. Foi preciso bastante dinamite para voar a casa do sargento Grover e as contíguas.

Experimentou uma profunda satisfação ao ver um fugaz instante de incerteza no olhar de seu superior, como se o tivesse pilhado com a guarda baixa. Mas em seguida se esfumou.

— Sim, não cabe dúvida - concordou Wetron. — Não sabia que este assunto lhe interessava tanto. Claro que em seu caso é bastante lógico. Suspeito que ainda segue sendo leal ao Pitt. - Deixou no ar a ambigüidade de suas palavras. — Está a cargo da investigação do atentado com bomba, não é?

Com grande alívio, como um corredor que recupera o fôlego, Tellman recordou que essa informação tinha aparecido nos jornais.

— Sim, senhor, é o que diz a imprensa, mas o que me preocupa é que o sargento Grover é dos nossos.

— Não sabia que o conhecia!

— E não o conheço, mas se desta vez tocou a ele, a próxima poderia ocorrer a mim. - Respirou fundo. — A não ser que haja algo a respeito do Grover que desconheço.

A expressão impassível do Wetron não revelou nada. Suas mãos continuaram imóveis sobre a escrivaninha.

— Acredita que o sargento Grover é a vítima a que apontaram os anarquistas?

— Senhor, não tenho nem a mais remota idéia, mas tampouco estou disposto a correr riscos. Poderia ser uma coincidência que dinamitassem a casa de um policial, mas o senhor Grover conhece muitas pessoas dessa zona e possivelmente ofendeu a algumas porque as pôs entre grades e reduziu os benefícios de seus negócios. Talvez essas pessoas falsificassem um pouco de dinheiro para os anarquistas e comentaram que lhes fariam um favor se colocavam a dinamite em determinada rua, não lhe parece?

Tellman ficou satisfeito com essa explicação porque tinha sentido.

Wetron o olhou fixamente.

— Sargento, é o que pensa o senhor Pitt?

— Não sei, senhor. - Embora não o parecesse, acabava de dizer a verdade. — Suponho que está mais interessado em apanhá-los que em saber se realmente queriam colocar a bomba em casa do senhor Grover.

Wetron sorriu e mostrou seus dentes pequenos e regulares.

— Seu prezado senhor Pitt não é muito rápido, não é? - perguntou em um tom zombador quase imperceptível. — Os anarquistas não necessitam ajuda para arrecadar recursos. Até eu sei; basta estar atento ao que se diz. Parece que, apesar de seus esforços, o detetive Pitt é incapaz de averiguá-lo! E pelo visto você tampouco o deduziu.

A ira acendeu as faces do Tellman; notou o calor e se imaginou que Wetron se daria conta. Por instinto teria defendido ao Pitt antes que a si mesmo. Talvez nisso consistia a provocação do Wetron. Se não saltava, seu chefe saberia que se mostrava deliberadamente cauteloso. O que esperava? Um farol? Um dobro farol?

Wetron se manteve espectador e não deixou de observá-lo. Tellman devia reagir, já que qualquer tardança revelaria sua ansiedade e o faria aparecer desonesto.

— Possivelmente sim - concordou. — Talvez depois deixar de fazer parte do corpo já não se inteira do que ocorre. Pelo visto, tampouco o dissemos.

— Eu não estaria tão certo. - Wetron não deixou de sorrir. — Suponho que tem seus próprios contatos e informadores, não lhe parece, sargento?

Tellman notou que por causa da tensão sua voz soava rouca e parecia impostada. Entretanto, não pigarreou.

— Vejamos, senhor, se souber sobre os anarquistas e o senhor Pitt não, terá que pensar que seus informantes não são muito competentes - raciocinou Tellman.

— Certamente que terá que pensá-lo. Deve consultar a aqueles nos que seus superiores e os companheiros de seus superiores não confiam.

Por fim tinha aparecido a advertência indireta. Tellman poderia contar ao Pitt e ser um deles ou abster-se de dizer-lhe e tornar-se indigno de sua confiança.

Wetron parecia muito satisfeito. Tellman teve a impressão de que podia cheirá-la.

— Foi muito insensato de sua parte - prosseguiu Wetron.— Um policial que percorre as ruas e não conta com a lealdade dos homens nos que confia se encontra em uma posição muito perigosa. Em Londres há muitíssimos lugares onde essa situação poderia lhe custar a vida.

Tellman se lembrou de quando estava no beco com o Grover e Stubbs. Wetron sabia, havia dito isso algum deles? Só a chegada acidental do Leggy o tinha liberado de ficar a mercê do Stubbs, estivesse onde estivesse sua lealdade.

— Assim é, senhor - confirmou.— Devemos fazer um favor à Brigada Especial e lhes informar do modo em que os anarquistas obtêm dinheiro? Seria conveniente e útil que estivessem em dívida conosco.

— Acredita que algum dia nos devolverão isso? - perguntou Wetron, surpreso.

Tellman se sentiu ridículo. Pitt o faria, mas Victor Narraway era outra história.

Wetron pareceu pensar e Tellman se sobressaltou.

— Poderíamos trocá-lo por outra coisa - comentou, reflexivo. — Se dentro de três ou quatro dias seguem dando paus de cego os medirei.

Ao Tellman não lhe ocorreu uma resposta nem se atreveu a discutir. Wetron se ajeitou na poltrona e, como se mal lhe interessasse, perguntou: — Estão investigando à família do Magnus Landsborough?

Tellman se sobressaltou.

— Senhor, não tenho nem a menor idéia.

Wetron voltou a sorrir.

— Deveriam procurar por esse lado. Seu primo, Piers Denoon, é a pessoa por quem deveria começar. Cabe a possibilidade de que, algum dia, Pitt o deduza.

Olhou ao Tellman, com os olhos acesos e inflexíveis, como se pudesse ler sua mente.

Tellman sabia exatamente que fazia seu chefe, que se divertia muito com o dilema de seu subordinado. Tellman o repetiria ao Pitt e se trairia a si mesmo ou guardaria silêncio e trairia ao Pitt? A ameaça do fracasso recairia no Pitt ainda mais do que o tinha feito na Brigada Especial, já que a metade de Londres se queixava de que só tinham pego a dois anarquistas e nem sequer podiam dar os nomes de outros, para não falar de capturá-los.

— Muito bem, senhor - disse Tellman quedamente. Temeu inclusive que seu tom o delatasse. Wetron tinha revelado algo de maneira irrevogável. Se alguma vez tinha pensado que seu chefe estava ao serviço do povo e não de seus próprios interesses, tal ilusão se faria em pedacinhos. Também era possível que seu chefe soubesse que, nesse aspecto, fazia anos que Tellman não se enganava. Não tinha perdido nada. Com grande amabilidade perguntou: — Algo mais, senhor?

— Não - respondeu Wetron e se endireitou na poltrona. — Só queria saber por que está tão interessado na falsa nota de cinco libras. Parece... parece algo insignificante.

— Senhor, não acredito que haja somente uma nota. - Tellman sorriu e ergueu ligeiramente as comissuras dos lábios. — Se alguém tiver as pranchas pode imprimir tantos quanto queira.

— E esse tal… Jones lhe proporcionou alguma informação útil?

— Ainda não, senhor - respondeu Tellman.— Mas tudo se andará.

Wetron assentiu lentamente. Estava claro que acabava de traçar as linhas da batalha e que estava convencido de que ganharia.

— De acordo. Pode retirar-se.

Ao Tellman só ficava uma saída. Por muito perigoso que fosse, não podia permitir que Pitt desconhecesse algo que podia ser uma informação decisiva.

Por outro lado, podia tratar-se de uma armadilha não só para pilhar ao Tellman, mas também ao Pitt. Wetron e ele se usaram mutuamente. Wetron era o chefe do Círculo Interior só porque Pitt tinha destruído definitivamente a reputação do Voisey. Era impossível que alguém tivesse esquecido ou passado por cima as vitórias do Pitt sobre o Círculo. Era seu inimigo mais encarniçado e seus integrantes sabiam.

Tellman devia averiguar por sua conta se o que Wetron tinha comentado do Piers Denoon era certo. Em caso de ser falso e de que Pitt o perseguisse pelo que o Tellman lhe tivesse contado, coisa que Wetron obviamente negaria, ganharia inimigos que não podia permitir-se. Tellman devia comprová-lo e dar as provas ao Pitt em lugar de lhe transmitir um rumor sem confirmar. Se por acaso isso fosse pouco, tinha que averiguar em seu tempo livre.

Duas noites depois de sua conversa com o Wetron, Tellman achou ao homem que necessitava. Custou-lhe mais tempo e dinheiro do que o previsto. Deu com ele na Rat and Hapenny, uma taverna situada na esquina do Hanbury Street, não longe do lugar onde, quatro anos e meio antes, tinha aparecido uma das vítimas do Jack o Estripador, com o rosto desfigurado e o ventre rasgado.

O local estava cheio a transbordar, as pessoas riam ruidosamente e era muito intenso o aroma de cerveja, a suor e a corpos que não tinham os meios nem o desejo de assear-se. Sentaram-se frente a frente em uma mesa pequena.

— É um louco! - disse Stace fazendo uma careta. Elevou o copo e o olhou com atitude apreciativa. — Bastante desgraçado para cortar o pescoço neste momento e no seguinte rachar a qualquer outro. É a pessoa que conheci que mais desatinos diz. Não tem medo de nada, como se lhe desse igual estar vivo ou morto. Repito, está louco. Tem dinheiro, montões de dinheiro.

— Que aspecto tem? - perguntou Tellman e fingiu que lhe interessava muito pouco, como se simplesmente lhe estivesse dando bate-papo.

Stace deu de ombros antes de responder:

— De janota. Parece que pinta a imundície. Não faz parte dele, como ocorre às pessoas que vivem aqui. A roupa lhe assenta como anel ao dedo e é bonito. Tem umas mãos delicadas, como alguém que não trabalhou um só dia em sua vida. - Olhou de soslaio ao Tellman. — Em seu lugar eu não o contrariaria. Enfurece-se logo e é inteligente.

— Inteligente para que? - Tellman bebeu outro gole de cerveja.

— Não sei, embora alguns indivíduos estranhos lhe dedicam muito tempo.

— Em que sentido são estranhos?

— Endoidecidos que explodem coisas - respondeu Stace. Encheu a boca com o último pedaço de bolo e seguiu falando: — Sempre dizem que se livram da lei e não só me refiro aos policiais, mas também ao Parlamento e a todo o resto. Se pudessem fariam voar pelos ares à rainha.

— São estrangeiros? - inquiriu Tellman inocentemente.

— Alguns, embora em sua maior parte são tão ingleses como o Big Ben - replicou Stace contrariado.

— Poderiam ser irlandeses?

— Tem de tudo. - Stace deu deliberadamente de ombros.— Vão mudando. Passam de um lugar a outro. Já lhe disse que esse homem é muito estranho. Deve ser pelo ópio ou por algo assim. Sempre olha por cima do ombro, como se o demônio lhe pisasse nos calcanhares. Em nenhuma parte fica o tempo suficiente para sentar-se. Dá a impressão de que tem medo de que sua própria sombra o ataque. Pede outro copo? Também comeria outro pastelzinho.

Tellman aceitou. A informação o merecia. Foi procurar o bolo e a cerveja e retornou à mesa. Stace os atacou imediatamente, não fosse que Tellman trocasse de parecer.

Tellman não queria ir diretamente ao ponto. Tudo o que dissesse chegaria aos ouvidos da pessoa para quem Stace trabalhava ou aos de qualquer um a quem pudesse vender-lhe.

— Disse maluco? - repetiu.

— Como um regador - confirmou Stace.

— Fuma ópio?

— Não sei, não tenho certeza.

— De onde tira o dinheiro?

— Tampouco sei. Já lhe disse que está louco. - Stace deu uma boa dentada ao bolo e tragou antes de prosseguir. — Está louco, mas não é tolo.

— Onde posso encontrá-lo?

Talvez essa pergunta fosse muito direta; assim que saiu de sua boca se arrependeu de havê-la exposto.

— Não sei - respondeu Stace. — Quanto vale a resposta?

— Se não souber, não vale nada - precisou Tellman sem olhar. — Disse que usava roupa cara e que sob a sujeira estava limpo.

— Não acontece com todos o mesmo? - Stace sorriu e deixou descobertos seus dentes quebrados.

Tellman não discutiu embora, em realidade, não fosse assim. Aparentemente , Piers Denoon retornava a casa para dormir, provavelmente comer e sem dúvida para dar-se de vez em quando um banho quente. Talvez fosse o único lugar no qual poderia encontrá-lo. Era possível percorrer durante meses o East End sem topar-se com ele. E não dispunham de meses, à margem do evidente perigo que representava não só para Tellman, mas também para Piers que as pessoas equivocadas soubessem que o estava procurando.

— Muito obrigado - concluiu sinceramente. — Aceita outro copo de cerveja?

— Como me oferece isso, não recusarei - respondeu Stace educadamente.

Nessa noite Tellman não achou Piers Denoon e no dia seguinte não teve ocasião de continuar a busca. Estava cansado e desalentado quando voltou para casa para jantar e trocar de roupa. Durante o dia tinha chovido intermitentemente e tinha os pés doloridos, as pernas das calças molhadas e fazia dois dias que não comia quente. Ficou a pensar no Piers Denoon, e imaginou desfrutando de um banho quente na casa de seus pais no Queen Ann Street; embargou-o um sentimento de amargura.

Sabia onde estava a casa porque teve o trabalho de averiguá-lo.

Na primeira noite se apresentou e entregou uma mensagem. O lacaio lhe respondeu que o senhor Piers não estava em casa.

Na segunda noite tampouco estava mas, como Tellman não tinha nada melhor que fazer, passou o resto da noite agüentando o frio vento na calçada de frente; perguntava-se quanto tempo mais resistiria e se valia a pena ficar.

Em duas ocasiões jogou a toalha, caminhou até o final da rua e se dispôs a descer até Cavendish Square, mas mudou de idéia e decidiu lhe conceder outro quarto de hora.

Eram dez e meia quando uma carruagem se deteve três portas mais adiante e um jovem desceu, cambaleou e esteve a ponto de se chocar com um poste antes de mudar de direção. Ia sem barbear-se e estava muito gasto. Sua roupa estava suja, mas indiscutivelmente bem cortada e costurada, feita à medida de seu corpo, magro quase até o doentio. Tellman voltou a esconder-se na escuridão e não se moveu até que o indivíduo desceu os degraus que conduziam à porta da cozinha, como se quisesse entrar por ali.

Tellman reagiu, cruzou rápido a rua com um par de saltos e desceu os degraus. Alcançou ao homem que tentava abrir a porta de serviço.

— Senhor Denoon! - exclamou Tellman com obrigação. Piers deu um salto como se tivesse gritado, voltou-se, apoiou as costas na porta e perguntou em tom imperativo:

— E você, quem é? Tellman já tinha preparado a resposta.

— Vim lhe fazer uma advertência. Não se trata de uma ameaça! - acrescentou. Graças à luz que permanecia acesa em cima da porta da cozinha viu que Piers Denoon estava abatido e tão tenso e nervoso como Stace havia dito. — Os policiais que investigam o atentado do Myrdle Street sabem que você conseguiu o dinheiro para a dinamite.

Piers o olhou fixamente; notava-se que fazia esforços para não lhe acreditar. O terror de sua expressão era tão patente que Tellman sentiu uma pontada de culpa. De todo modo, sabia que nesse momento não podia permitir-se o luxo de ser misericordioso.

— Interrogaram aos detidos, ao Welling e ao Carmody - acrescentou em tom premente. — Alguém deve ter falado. Tem que ser muito cuidadoso e avisar aos que lhe proporcionam o dinheiro!

— Avisá-los? - perguntou Piers Denoon e conteve o fôlego. Seus olhos pareciam ossos insondáveis.

— Escute, eu não posso fazê-lo! - assegurou Tellman com grande sensatez. — Não se entretenha, estão-se movendo com grande rapidez.

Seria suficiente? Conseguiriam suas palavras que Piers Denoon se reunisse com os que apoiavam aos anarquistas? Conseguiria assim a prova que Pitt necessitava?

— Ouvi-o - resmungou Piers em voz baixa. Estava pálido e suarento, como se se encontrasse doente.

Tellman moveu afirmativamente a cabeça.

— Me alegro. Faça-o.

Virou-se, subiu os degraus que conduziam à rua e se afastou. Deteve-se seis portas mais adiante e permaneceu fora da vista se por acaso Piers o vigiasse. Cruzou a rua, desceu a metade dos degraus de uma casa em que não havia luzes acesas e se dispôs a esperar.

Quarenta minutos depois conseguiu a recompensa: viu que Piers Denoon subia novamente os degraus, nesta ocasião limpo, barbeado e vestido com roupas em perfeito estado. Caminhou rapidamente para o oeste, em direção ao Cavendish Square. Tellman teve que correr e o alcançou bem a tempo de ver que abandonava a calçada e subia a uma carruagem de aluguel.

O policial amaldiçoou para si mesmo e procurou outra carruagem com o olhar. Era tarde, fazia frio e a praça estava virtualmente deserta. Correu pela calçada para o Regent Street e sentiu um grande alívio ao ver vinte metros outra carruagem que se movia em direção contrária. Correu novamente. Não se atreveu a detê-lo até que chegou a seu lado; não queria chamar a atenção. Subiu e pediu ao cocheiro que desse rapidamente a volta e seguisse ao outro veículo.

Foi uma perseguição frenética. Em duas ocasiões perdeu de vista ao Piers Denoon, mas ao final voltava a alcançá-lo. Estavam separados por uma distância de vinte metros quando Piers desceu na metade do Great Sutton Street, no Clerkenwell. Pagou ao cocheiro e, depois de olhar a calçada acima e abaixo, bateu no número vinte e sete.

Tellman gritou a seu cocheiro que o levasse ao Keppel Street; deu-se conta de que sua voz soava rouca e de que tinha a boca seca. O suor empapava seu corpo e esfriava, como se o ar se congelasse.

Faltava pouco para a meia-noite.

 

Pitt despertou ao ouvir que Charlotte lhe falava com obrigação; sua voz delatava inquietação:

— Thomas, na porta há alguém.

Pitt tentou limpar-se. O dormitório estava às escuras, mal distinguia o perfil de sua esposa mas notava a sensação de calor de sua proximidade. De todo modo, ouviu uns golpes suaves e insistentes na porta.

— Já vou - disse, estirou o braço para lhe tocar o ombro e acariciou uns segundos a suave pele de Charlotte.

Saiu da cama, pegou a vela e acendeu um fósforo. A chama despediu a luz necessária para procurar a jaqueta e a calça. Se devia sair teria que voltar para vestir-se corretamente. Consultou o relógio de bolso, que tinha deixado sobre a penteadeira. Era pouco mais de uma e um quarto.

As batidas na porta tinham cessado. Quem quer que seja que fosse devia ter visto a luz através das cortinas e sabia que não demorariam para abrir.

Pitt acendeu o lampião de gás do patamar, desceu correndo a escada e se aproximou da porta principal. Abriu o ferrolho, abriu-a e se achou com o Tellman. A tênue luz do vestíbulo mostrava-o pálido e esgotado.

— Entre - disse Pitt em voz baixa. — O que aconteceu?

Tellman entrou e Pitt fechou a porta. O aspecto do sargento era pior do que lhe tinha parecido. Tinha a pele pastosa, as faces afundadas e cobertas de barba de alguns dias e o olhar perdido.

— O que ocorre? - insistiu Pitt. — Tenho que me vestir ou temos tempo de tomar uma xícara de chá?

Tellman tremia ligeiramente.

— Não iremos a nenhuma parte, ao menos de momento.

Sem mais comentários, Pitt se voltou e o levou pelo corredor até a cozinha. Tinha os pés frios porque ia descalço, mas o chão de madeira estaria quente e, como a noite não estava muito avançada, talvez poderia reavivar o fogo do fogão sem necessidade de esvaziá-lo e começar de novo.

Acendeu a luz de gás da cozinha.

— Sente-se - ordenou ao Tellman. — Subirei para dizer à Charlotte que é você e prepararei o chá. Tellman obedeceu.

Pitt retornou poucos minutos depois com a camisa e as meias. Retirou a cinza do fogão, pôs lenha fina sobre as brasas que seguiam acesas e esperou que pegassem. Acrescentou carvão e fechou a porta frontal para que o tiro funcionasse bem. Encheu a chaleira e a pôs a esquentar. Na cesta situada junto ao fogão, os gatos Archie e Angus se moveram, se espreguiçaram, se reacomodaram e voltaram a dormir.

— Do que se trata? - perguntou Pitt. Sentou-se frente a Tellman, já que a água demoraria uns minutos em ferver. Tellman pareceu relaxar-se um pouco. A cozinha em que Gracie trabalhava e em que Pitt e ele se reuniram tão freqüentemente era o mais parecido a um lar que tinha. Apesar de tudo, uma profunda tristeza mudou sua expressão.

— Não sei quanto tempo reterão Jones o Bolso. - Mordeu o lábio. — Se a situação for tão á como suspeitamos poderiam perder a prova contra ele. Será melhor que atue depressa.

Olhou ao Pitt com expressão firme e penalizada.

— Do que lhe acusa? - inquiriu Pitt, desejoso de saber como tinha conseguido Tellman. — A que prova se refere?

— De passar dinheiro falso - respondeu Tellman com um ligeiro tom de orgulho. — É o que fez com um pouco de ajuda. Levei um agente, para ter uma testemunha, mas não sei se posso confiar nele. Poderia sofrer um ataque de cegueira repentina. Ou, pior ainda, poderia dizer que lhe coloquei o dinheiro no bolso.

— E poderia havê-lo feito?

Pitt estava preocupado pela situação do Tellman.

— Não. Ocupei-me de não me aproximar de seus bolsos. Segurei-o e ordenei ao Stubbs que o revistasse.

— Como chegou o dinheiro falso a seus bolsos? - perguntou Pitt com curiosidade.

— Entreguei-o a uma das pessoas à quem foi cobrar. Esse homem me devia um favor e se alegrou de saldá-lo.

— Entendido. Do que se trata?

Pitt morria de vontade de perguntar ao Tellman por que se apresentara em sua casa à uma e meia da madrugada, mas seu aspecto era tão penoso que se absteve de expô-lo abertamente.

— Wetron chamou-me a seu escritório para falar do assunto - respondeu Tellman com serenidade e olhou as mãos, apoiadas na mesa da cozinha. — Cedo ou tarde tinha que inteirar-se, mas ocorreu muito rápido! Não sei se o disse Stubbs ou Grover, do Cannon Street, que estava com o Jones quando o detive. - Levantou o olhar e cravou os olhos no Pitt. — Depois de pavonear-se um pouco, Wetron me disse que Piers Denoon, o primo do Magnus Landsborough, arrecada o dinheiro dos anarquistas. Assegurou que todos sabem e que é surpreendente que a Brigada Especial não o tenha averiguado. Desafiou-me a que lhe comentasse isso.

— Sim - concordou Pitt. Ouviu que a chaleira começava a apitar. — Já imagino. Você...

— É certo - interrompeu Tellman. — O comprovei eu mesmo. Perguntei por ele, esperei-o em sua casa e lhe disse que a polícia sabe o que faz. Depois foi imediatamente avisar seu chefe.

O rosto do Tellman estava quase cinza e Pitt ouviu suas costas o som da chaleira, mas não lhe fez o menor caso.

— De quem se trata?

— Do Simbister.

Pitt notou agudamente o frio e lhe revolveu o estômago. Não deveria surpreender-se. Era o que Welling e Carmody tinham dado a entender. Mas em diversas ocasiões tinha tentado evitar o assunto.

— Do Cannon Street? Tem certeza?

— Sim.

— Foi a sua casa avisá-lo? Não lhe cabe a menor duvida?

—Nenhuma. Visitará o Jones?

— Não. Se o fizer corro o risco de que Wetron se inteire. Duvido de que possa me dizer algo útil.

Tellman assentiu muito a seu pesar.

— Agradeço-lhe isso.

Pitt ficou em pé para retirar a chaleira do fogão antes que despertasse ao resto dos habitantes da casa.

— O que sabe do Piers Denoon? - perguntou enquanto pegava a caixa de chá.

Tellman o explicou tranqüilamente.

 

A primeira hora da manhã Pitt enviou uma mensagem ao Voisey e a meio-dia voltou a descer os degraus que conduziam à cripta do St Paul e percorreu o mesmo corredor com arcadas. Nessa ocasião passou ao lardo do sepulcro do Nelson e chegou ao do grande duque do Wellington, vencedor na luta contra a coalizão mahratta da Índia, comandante da campanha da guerra contra as tropas napoleônicas na Espanha e Portugal e vencedor em Waterloo.

Voisey se achava em pé no outro extremo e passava o peso do corpo de um pé ao outro. Voltou a cabeça ao ouvir os passos do Pitt. Seu rosto mostrava uma grande irritação.

— Suponho que tem bons motivos para combinar este encontro! - exclamou em voz baixa assim que Pitt se deteve a seu lado. — Estava a ponto de me reunir com o ministro do Interior.

— É claro - replicou Pitt com concisão e observou o magnífico monumento. Era solene e imponente, como corresponde ao maior chefe militar da história britânica, embora menos carregado e pessoal que o do Nelson. Denotava glória e admiração, mas não carinho. — Acredita que o mandaria chamar por algo que não fosse importante?

Voisey teve dificuldades para não ofender-se com as palavras "mandaria chamar" e sua expressão o refletiu.

— Bem, do que se trata? - perguntou.

Por certo que Pitt não lhe contaria a detenção do Jones o Bolso nem mencionaria o plano de ocupar seu lugar. Tal como estavam as coisas, a situação já era bastante perigosa e não podia fazer muito por proteger-se. Por esses mesmos motivos não falaria do Tellman.

— Os anarquistas obtêm recursos através do Piers Denoon, único filho do Edward Denoon - informou ao Voisey. — É um jovem excêntrico e nervoso mas, pelo visto, é muito bom conseguindo dinheiro. - Notou que o rosto do Voisey se iluminava com um interesse muito claro para dissimular. Pitt prosseguiu: — Quando o assustaram porque o fizeram acreditar que a polícia sabia, imediatamente, quase à uma da madrugada, o comunicou ao Simbister, chefe da delegacia de polícia do Cannon Street.

Voisey deixou escapar uma maldição e exalou ar lentamente. Nessa ocasião não dissimulou suas emoções. Tinha as faces avermelhadas, pelo que as manchas das sardas quase tinham desaparecido.

— Sabia! - exclamou com os dentes apertados. — A corrupção afeta a todos os níveis! Quem lhe falou do Piers Denoon? Foi Wetron?

— Indiretamente.

De propósito, Voisey olhou o sepulcro do Wellington.

— Foi um grande tático - declarou. Em sua expressão se mesclavam ironia, diversão e aborrecimento. — Sabe no que consiste sua "política de terra queimada"? É uma tática que consiste em arrasar tudo o que facilita o avanço do inimigo. Suponho que você não estaria de acordo com ela.

A inflexão de sua voz apontava a que em realidade queria dizer outra coisa: que no caso do Pitt, o desacordo se apoiava em uma debilidade, na incapacidade de ser valente.

Voltou a olhar esse enorme e impressionante sepulcro.

Pitt se achava em desvantagem, o que sem dúvida correspondia com as intenções do Voisey.

— Suponho que a política de terra queimada tem algo que ver com Wetron ou com Denoon porque, do contrário, não teria o trabalho de mencioná-la neste contexto.

— Claro que tem que ver, mas Wellington não é um herói muito querido, correto? -Esse comentário era como uma acusação. — Suponho que prefere ao Nelson. Todos o adoravam. Além disso, teve o bom gosto de morrer na coberta no momento de sua maior vitória. Portanto, a quem ocorreria pô-lo em dúvida? Pareceria uma blasfêmia. Por sua parte, Wellington, pobrezinho, cometeu a insensatez de retornar são e salvo e de converter-se em primeiro-ministro. Imperdoável! - Voisey esboçou um fugaz sorriso. Seu desfrute era tão sincero que custava zangar-se. — No princípio da guerra contra a ocupação francesa ganhou no Vimeiro, e no ano seguinte perseguiu o exército gaulês até Madrid. Em 1810, quando o obrigaram a replegarse, em seu retrocesso arrasou a terra que acabava de pisar. Horrível mas muito eficaz.

— Parece-lhe admirável? - perguntou Pitt, que em seguida se deu conta de que tinha mostrado o asco que essa situação lhe produzia. Arrependeu-se disso. Deveria ter sido mais sensato e ter se reunido com Voisey em qualquer esquina em que não pudessem discutir de heróis, batalhas ou táticas.

Por que temia que Voisey o conhecesse tal como era? Acaso suas convicções e sua admiração ou falta de consideração pelas figuras históricas eram fraquezas que devia esconder? Ou se tratava de sentimentos contrapostos: horror por algumas coisas, glorifica por outras e em alguns casos compaixão? Tomara se julgasse aos homens pelos valores e as convicções de sua época e suas circunstâncias pessoais, a grande maioria das quais jamais chegam a conhecer-se. Ou simplesmente correspondia a que Voisey sabia muitíssimo mais que ele e tinha necessidade de exibir-sse? Não era isso outra fraqueza?

Voisey continuava sorridente, saboreava o momento.

— Prefere separar o homem da campanha? - perguntou e ergueu ligeiramente o tom de voz. — É possível que, sem o Wellington, Napoleão tivesse ganho. Melhor dizendo, é quase certo. Foi um gênio. Não compartilha minha opinião?

Seu tom continha um claro desafio. Suspeitava que Pitt era um patriota de miras estreitas, um "pequeno inglês". Sondava-o, tentava descobrir suas crenças para depois as jogar abaixo.

— Certamente que foi - concordou Pitt. — Embora foi algo imprudente ao atacar Moscou! Alguém mais sensato teria aprendido da política de terra queimada praticada na Espanha. Talvez não se deu conta de que queimada e gelada são basicamente as duas faces da mesma moeda quando se trata de alimentar a um exército.

Voisey abriu desmesuradamente os olhos com uma labareda de humor.

— Pitt, sabe uma coisa? Poderia chegar a me esquecer do que penso de você e lhe ter simpatia! No momento no qual considero que é totalmente previsível me surpreende.

— É muito arrogante acreditar que é possível prever o que outro fará - comentou Pitt. — E quem diz arrogância diz estupidez às vezes com conseqüências fatais. Não nos podemos permitir isso.

— Em um momento é prosaico, depois agudamente perspicaz e por último complacente até a idiotice! - Voisey continuou como se Pitt não tivesse tomado a palavra, embora o ângulo agudo que formou seu corpo revelou a tensão com muita dificuldade contida. — Talvez tenha a ver em ser em parte guarda de caça e em parte aspirante a cavalheiro.

Pitt se obrigou a sorrir, mas não lhe foi nada fácil. O ataque a suas origens doeu. Por que Voisey se empenhava sempre em atacá-lo? O que havia no Pitt que o perturbava tanto para que não o ocultasse?

— Me diga, a política de terra queimada do Wellington tem algo que ver com o Wetron e o atentado anarquista ou com o Simbister e Denoon? - perguntou Pitt com curiosidade. — Ou só quer averiguar se sei tanto como você de história militar?

Uma sucessão de emoções mudou o rosto do Voisey: ira, surpresa e confusão. De repente se pôs-se a rir abertamente e, aparentemente , com sincero humor.

Pitt se obrigou a recordar que Voisey o odiava. Tinha provocado a morte do reverendo Raspa, um ancião bom e inocente, e tinha liquidado pessoalmente ao Mario Corena, embora neste caso se visse obrigado a fazê-lo. Estava atrás de outros atos de cobiça e destruição. Seu engenho e sua humanidade, sua capacidade de rir ou de sentir-se ferido não tinham a menor importância. Seu ódio era a única coisa que contava e Pitt não devia esquecê-lo jamais. Se deixava do ter em conta lhe custaria quanto tinha conseguido.

Por outro lado, se convertesse a risada e o sofrimento em algo sem importância, provavelmente Voisey levaria a maior vitória: teria destruído a essência de sua personalidade, daquilo pelo que tinha tratado de converter-se ao longo de sua vida. Era o que Voisey se propunha? Destruí-lo interiormente?

Voisey o olhava, estava atento a tudo e interpretava sua expressão. Detectou uma mudança, uma decisão, certa calma que interpretou como uma espécie de perda.

O sorriso do Pitt deixou de ser forçado e relaxou. Ao menos nesse instante era totalmente real. Dominava a situação e ambos sabiam. Pitt perguntou:

— Acredita que Wetron se propõe queimar a terra no caso de que obriguem a replegar?

— Suspeito que a queimará até convertê-la em cinzas - replicou Voisey. — E a você, o que lhe parece?

— Só o fará se está convencido de que perdeu. Neste momento acredita que está muito longe de perder.

Voisey não deixava de observá-lo com atenção. Se alguém passou junto aos sepulcros dos ilustres, nem Voisey nem Pitt o viram ou ouviram.

— Acredito que adoraria jogar o sargento Tellman nas chamas - declarou Voisey em tom baixo. — Estou quase certo de que poderia fazê-lo.

Pitt teve a sensação de que lhe gelavam as entranhas. Deveria ter sabido que Voisey deduziria que, graças ao Tellman, estava à corrente do que acontecia no Bow Street, mas que o dissesse explicitamente o assustou.

— É claro - concordou — mas não destruirá um instrumento que acredita que pode utilizar.

Queria que Voisey tomasse nota desse comentário.

— Contra quem? - Voisey arqueou as sobrancelhas. — Destruindo ao Tellman o feriria muito mais que com qualquer outra coisa. - Seu olhar revelou um agudo brilho de satisfação. — Ele sentira sua falta, mas além disso a culpa por havê-lo comprometido e colocado ante semelhante perigo o corroeria eternamente.

Cravou o olhar no Pitt e tentou adivinhar o que pensava; queria descobrir as paixões delicadas e vulneráveis que havia em seu interior, ver onde estava o centro da dor. Referia-se ao Wetron ou tentava lhe recordar que, se o propunha, podia fazê-lo ele mesmo?

Pitt deixou de observar ao Voisey e contemplou o monumento ereto em honra do Wellington.

— Foi um grande militar - comentou quase com indiferença. — Suponho que os vencedores têm coisas em comum. Uma delas é que não perseguem satisfazer as vaidades pessoais ou as questões menores de vingança ou justificação, e se dedicam unicamente a uma grande causa. - Seguiu com o olhar o nome esculpido na fachada de mármore. — Jamais lhe teria ocorrido abandonar Waterloo para bater-se em duelo com um homem, quem quer que fosse. Sem dúvida escolheu seus lugares-tenentes por sua capacidade e não porque lhe agradassem ou lhe desgostassem ou por favores devidos ou esperados. Nunca perdeu de vista o verdadeiro objetivo. - Voltou a olhar ao Voisey. — Se trata de uma qualidade que escasseia: a capacidade de concentração. Parece-me que Wetron a possui. O que acha?

Um arrebatamento de fúria tingiu de vermelho as faces do Voisey. Quão último desejava que lhe recordassem era que Wetron o tinha derrotado e que nesse momento dirigia o Círculo Interior.

— Ainda não há nada definitivo - respondeu com voz débil e rígida. — Se está acostumado a dizer que o que ri último ri melhor. Pitt, não seja arrogante. – Suas palavras revelaram certo rancor, o aviso de quão débil era sua aliança. — Se acreditar que, por havê-lo derrotado uma vez, vencê-lo-á sempre, é mais idiota do que imaginava e não me serve como aliado, só como carne de canhão. - Pronunciou as últimas palavras com enorme desprezo.

— O militar que não enfrenta os canhões não serve para nada - precisou Pitt. — De momento, nosso melhor ataque o realizou Tellman. Por seu interesse e pelo meu o melhor é que façamos o que possamos para mantê-lo com vida. Se isso significa permitir que Wetron acredite que pode proporcionar informação a ambos os lados, resignar-me-ei. Entretanto, parece que Piers Denoon ficou definitivamente relacionado com os anarquistas, já que lhes proporciona dinheiro. Quando se sentiu ameaçado acudiu diretamente ao Simbister. Apresentou-se à uma da madrugada e lhe abriram a porta.

— O que terei de saber é se Edward Denoon apóia aos anarquistas - disse Voisey lentamente.— Podemos demonstrá-lo? Por outra parte, o que sabia Sheridan Landsborough a respeito das atividades de seu filho?

— Podia saber tudo ou nada. Embora seja um tema interessante não nos ajuda a lutar contra a proposta de lei. No melhor dos casos, o máximo que nos permitirá saber é com que lado se aliará. De momento sabemos pelo jornal que Denoon defende o projeto e que Landsborough não se manifestou.

— O que deve opinar? - perguntou Voisey quedamente.

— Não sei. Acaba de perder a seu único filho. Parece-me que ele tampouco sabe. De qualquer maneira, o novo aspecto do projeto legislativo poderia ser excessivo e abrir a porta aos chantagistas.

— Refere-se ao direito de interrogar aos criados sem que o dono da casa saiba? -inquiriu Voisey com amargura e o rosto tenso de cólera. — Pelo amor de Deus, certamente que é lhe abrir as portas à chantagem! Wetron poderia ter em suas mãos aos dirigentes da nação. Acredito que na Inglaterra não existe um só homem cujo valete não saiba algo que seu senhor preferiria ocultar. Poderia tratar-se de um algo simples quanto leva espartilho para dissimular a barriga ou que sua esposa prefere dormir com o lacaio.

— Provavelmente tem razão - concordou Pitt. — De todo modo, essa é a fraqueza em vez da grandeza do projeto. Significa que ninguém se sentirá bastante seguro para votar a favor.

Voisey fechou os olhos.

— É você maravilhosamente ingênuo! Melhor dizendo, seria maravilhoso se não fosse tão perigoso. - Arregalou os olhos . — Tolo, não vai expor nesses termos! Darão toda classe de garantias de que não aplicarão a lei aos inocentes. Jurarão que só se empregará com os suspeitos de conspirações anarquistas. Todos os parlamentares sabem que nesse aspecto são inocentes; por outra parte, os que já estão aliados com o Wetron suporão que contam com seu amparo. Provavelmente estão certos se pertencerem ao Círculo Interior.

— Certamente você tem a capacidade e possui ou pode conseguir a informação necessária para comentar com alguns de seus amigos que em suas vidas privadas há questões que prefeririam que seus criados não falassem.

Voisey permaneceu mudo alguns segundos; pouco depois um sorriso irônico curvou seus lábios.

— Vá, Pitt, tem bastante habilidade para a chantagem. Que interessante! Reconheço que jamais o teria imaginado tratando-se de você.

— Deverá ter certa idéia no que consiste o delito para resolvê-lo com êxito - reconheceu Pitt secamente.

Voisey meteu as mãos nos bolsos.

— O que acaba de dizer é evidente no caso do Wetron, mas me pergunto como é possível que não me desse conta de que você também a possui. Aceito a crítica.

Subitamente Voisey se endireitou e sorriu.

Pitt se deu conta do que tentava fazer: pretendia ofendê-lo comparando-o com o Wetron.

— Não se deu conta porque Wetron é o chefe do Círculo Interior - respondeu com equanimidade — e só o comparou com você mesmo.

O dardo deu no alvo. Voisey retrocedeu ligeiramente e, surpreendentemente, deu de ombros.

— Pitt, subestimei-o. Se não ficar nervoso poderia resultar realmente muito útil. Tem mais inteligência do que lhe atribuía. O que me preocupa é sua volúvel consciência.

Pitt sorriu.

— Todos tememos o desconhecido.

Voisey deixou escapar um ligeiro grunhido, mas seu olhar estava carregado de humor. Começou a afastar-se do sepulcro. Pitt se voltou e o alcançou.

— Ao que parece lhe esqueceu algo.

— Eu? - Voisey não se deteve.

— Quando propôs... quando propôs esta colaboração me disse que você podia contribuir com determinados conhecimentos relativos ao Círculo Interior. Já é hora de que ofereça alguns. Para começar, Sheridan Landsborough é um de seus membros?

— Não - respondeu Voisey hesitante.— A não ser que se somou durante os últimos seis meses, o que é possível, embora o duvido. Tem grandes ideais. Outra vez nos topamos com a consciência e com a satisfação imoderada dos desejos. - Seu olhar se cruzou com o de Pitt e logo o desviou. — Landsborough jamais teria abandonado Waterloo por um duelo pessoal, embora poderia ter deixado o campo de batalha para resgatar a um cão que se afoga ou algo pelo estilo. É muito pouco prático. Possivelmente agora todos falaríamos francês.

— Sempre pensei que a anarquia era pouco prática. - Pitt caminhava a seu lado. — Os ideais atraem, mas só os realizáveis. E falando do que funciona, sem dúvida conhece vários parlamentares que formam parte do Círculo e os conhece o suficiente para saber que prefeririam manter-se à margem da intervenção da polícia. Recorde-lhes os perigos.

— Os integrantes do Círculo Interior não se traem entre si - declarou Voisey enquanto se aproximavam da escada que conduzia à nave central da catedral. — É uma de suas principais virtudes: a lealdade acima de tudo.

— Sei. E o castigo pela traição é a morte. Já o vi. Os parlamentares aspiram a que só os policiais do Círculo Interior tenham poder para interrogar aos criados?

Voisey se voltou e perdeu o equilíbrio, mas o recuperou aferrando-se ao corrimão.

— Tomo nota do que disse. Trata-se de uma arma que devemos empregar. A próxima vez nos acharemos no monumento ao Turner.

—De acordo - aceitou Pitt. — Eu gosto de Turner. Voisey sorriu.

— Pelo visto os policiais ganham mais do que achava! Tem muitos Turner em casa ou só tempo de sobra para visitar as galerias?

— Fiz parte do departamento de roubos de obras de arte - respondeu Pitt e sorriu.   — Não tem muito sentido tratar de recuperar um quadro roubado se for impossível distingui-lo de uma falsificação.

— Fascinante - opinou Voisey secamente. — Está claro que o trabalho policial é mais complicado do que pensava.

Subiu a escada até o montão de pessoas que estava ali congregada e olhava a seu redor.

— Na casa em que me criei havia um Turner - acrescentou Pitt. — Sempre gostei mais que Constable. Tem que ver com o emprego da luz.

Sorriu ao Voisey e se afastou. Era certo: a propriedade em que seu pai tinha sido guarda de caça contava com vários quadros de excelente feitura. De todo modo, deixou que Voisey extraísse suas próprias conclusões.

 

Pitt informou subitamente a Narraway. Tinha que saber sobre Piers Denoon e Simbister, embora supunha que não levaria uma grande surpresa.

— De modo que Denoon põe uma vela a Deus e outra ao diabo - comentou Narraway, ajeitou-se na poltrona e observou ao Pitt. — Pai e filho estão em lados diferentes? Que interessante. E os Landsborough? Também estavam em lados diferentes? Em sua juventude Sheridan Landsborough foi extremamente liberal. Tinha uma grande consciência social e estava contra o que considerava um governo autoritário. Utilizava a palavra "interferência". Como se costuma dizer-se, todo homem com coração é liberal na juventude e todo homem com cabeça é conservador na velhice. Pitt, o que é Landsborough agora? Um amadurecido conservador da ordem ou um senil defensor das liberdades? - Arqueou as sobrancelhas. — Político sensato, pai inconsolável, marido que busca a paz no lar? Irmão que defende ao filho de sua irmã? Ou, simplesmente, um homem confuso, dolorido e perdido?

— Não sei - reconheceu Pitt. — Estive muito ocupado investigando a corrupção policial.

Sua atitude era desafiante, não porque lhe incomodasse ser atacado senão se, simplesmente, para deixar claro ao Narraway qual era sua prioridade. Preocupava-lhe muito quem tinha assassinado ao Magnus Landsborough, mas esclarecer esse crime estava sujeito à questão principal. Nem sequer sabia se o motivo dessa morte tinha sido pessoal ou política. Averiguá-lo era o seguinte passo que se propunha dar. Falou com o Narraway do Jones o Bolso e de seu plano de recolher pessoalmente o dinheiro da extorsão. Narraway se sentou muito rígido.

— Pitt, eu não gosto - precisou quedamente. — Não posso protegê-lo e ao Tellman tampouco. Deixou-o muito exposto.

— Sei - confirmou Pitt.

Aquilo lhe doía e era muito consciente do perigo.

— O que acontece com Voisey? Qual é seu papel em tudo isto?

— Fará o que possa para frear o projeto referente à polícia, particularmente no relacionado a interrogar aos criados em segredo. Obrigado a que pertence ao Círculo Interior deve saber o suficiente para assustar a uns quantos.

Narraway observou atentamente ao Pitt.

— De todo modo, a informação já deve estar em mãos de pessoas como Wetron. Não a empregará para destruir aos seus. Os membros de Círculo Interior jamais se enfrentam, salvo no caso do Voisey e Wetron, e este se ocupará de que não volte a acontecer. Se a alguém lhe ocorre fazê-lo acabará destroçado por outros. Sobrevivem graças à lealdade. Pitt, deveria sabê-lo.

— Sei - assegurou Pitt e se sentou frente a Narraway. — Acredita que qualquer policial a quem uma lei parlamentar dê poder passará a informação a seu superior e o esquecerá sem mais? A maioria deles são honrados, mas a corrupção engendra mais corrupção. Esse contágio é o que mais detesto. Os homens que poderiam ter sido bons policiais terminam manchados e, quanto mais corrupção há, mais difícil resulta sobreviver sem ficar poluído. Se têm poder, cedo ou tarde as pessoas caem na tentação de abusar dele. É preciso alguém muito forte para não aproveitar-se, alguém bastante sensato para ver as conseqüências, tão valente para ir contra a corrente e, se por acaso fosse pouco, pode lhe custar muito caro.

O rosto do Narraway se escureceu e se ergueu na poltrona; já não estava cômodo.

— Tome cuidado com quem está atrás da extorsão - aconselhou. — Recorde que você se rege pelas regras e eles não.

Pitt se deu conta de que seu superior estava preocupado por ele, mas a advertência não deixou de irritá-lo.

— Fala como Voisey.

Narraway se endireitou de um salto e os pés de sua poltrona chiaram no chão.

— Por Deus! Não lhe haverá dito você que...?

— É claro que não! - replicou Pitt bruscamente. — Só lhe falei do Piers Denoon. Mostra-se condescendente comigo, como se eu não soubesse nada dos delitos que se cometem. Toma-me por um pároco rural!

Narraway sorriu, relaxou-se e voltou a tomar assento.

— Conheci alguns párocos rurais. Recordo a um deles que sabia da crueldade e a cobiça humanas mais que qualquer pessoa que tratei. Reconhecia-as embora só fossem insignificantes pecados, mas já via neles o anseio de domínio sobre outros, o desprezo, e as incontáveis e pequenas humilhações que destroem a fé. - De repente calou-se, como se recordasse que devia retornar ao presente. — Adiante, Pitt. Descubra o que ocorre exatamente no seio do grupo anarquista.

— Sim, senhor. Averiguou algo que eu deva saber?

Narraway o olhou, divertido.

— Pitt, está-me pedindo explicações?

Pitt hesitou em responder com sinceridade, mas finalmente optou por arriscar-se:

— Sim, senhor, poderia ser útil. - Narraway voltou a arquear as sobrancelhas.

— Até agora é pouco provável que o Círculo Interior esteja sob a influência de alguma potência européia. Entretanto, no âmbito financeiro há certos homens de elevada posição cujos interesses poderiam não coincidir com os da Inglaterra. Não é necessário que saiba nada mais. Encarregue-se da corrupção policial, que nos põe em perigo a todos.

— Sim, senhor.

Pitt se desculpou e se retirou; sabia que se livrara pelos cabelos.

 

Encontrou Welling em uma cela do cárcere do Newgate. Parecia ter frio apesar de na rua o dia ser muito agradável. Dava a impressão de que a pedra retinha a umidade e que esta penetrava nas carnes e chegava até os ossos. Estava mais pálido e tinha o cabelo mais alvoroçado que a última vez que Pitt o tinha visto. Estava sentado na cama de armar com os ombros afundados.

— O que quer? - perguntou assim que Pitt entrou e o carcereiro fechou a porta de ferro. — Já lhe disse que não penso dar nomes nem lugares. Não me acredita?

— Acredito que fala a sério - respondeu Pitt.

O ar da cela estava viciado. Embora ali só vivia um homem, continha o aroma de muitos seres humanos, como se nunca a tivessem limpo ou se em seu interior jamais tivesse entrado o ar fresco. A umidade aumentava a sensação de frio.

— Por que vem aqui perder tempo? Tem alguma idéia de quem assassinou ao Magnus? - perguntou Welling com atitude zombadora. — Sei que foi a polícia, mas você não está disposto a reconhecê-lo! Não pode fazer nada.

— Se foi um agente da polícia, eu gostaria de saber de quem se trata - reconheceu Pitt.

— No que mudariam as coisas? Não acredito que faça nada a respeito.

— Não lhe interessa saber quem o matou?

Welling se afundou um pouco mais no catre e cruzou os braços à altura do peito.

— Para que? Em minha opinião são todos iguais. Magnus estará igualmente morto e continuará sem haver justiça. Importa-me um nada quem o fez.

Pitt notou a cólera e o medo do detido. Também lhe enfureceu sua cegueira, o que o levou a sentir compaixão. Tinha vivido algo muito parecido quando de pequeno a seu pai acusaram falsamente de caça furtiva, uma forma de roubo que naquela época se considerava muito grave. Não pôde demonstrar sua inocência, pelo que o deportaram e Pitt não voltou a vê-lo. Concentrou-se no presente.

— Quantos policiais conhecia Magnus? - perguntou e teve que esforçar-se para controlar o tom de voz.

— Como diz? - Welling se sobressaltou. Pitt repetiu a pergunta. — Nenhum! - replicou, zangado. — Os policiais são mentirosos, opressores corruptos e ladrões dos pobres. Por que me faz uma pergunta tão absurda?

— Nesse caso, por que razão um policial teria matado ao Magnus? - quis saber Pitt.

— Porque sabemos de que massa parecem! Tornou-se louco? - perguntou Welling.

— Sim, ao que parece sabem vocês bem - concordou Pitt. — Nesse caso, por que matou ao Magnus e deixou com vida ao Carmody e a você? Ou acaso era Magnus o único que representava um perigo para a polícia?

Welling demorou alguns segundos em entender a que se referia, momento em que se ruborizou, ultrajado.

— Como se atreve, repugnante? - Calou bruscamente. de repente, como alguém que abre a porta de uma sala iluminada, compreendeu o que Pitt estava dizendo.

— Exatamente. - Pitt assentiu. — Não mataram Magnus por anarquista, mas sim por motivos pessoais, está de acordo?

Welling engoliu em seco e moveu o pescoço.

— Sim - reconheceu com voz rouca. — Mas quem pôde fazê-lo?

— Não sei. Será melhor que comecemos pelo motivo.

Welling o olhava com horror, como se acabasse de pensar em algo que até então não lhe tinha ocorrido.

Com surpresa e um pouco de compaixão, Pitt chegou à conclusão de que esses jovens eram muito ingênuos. Odiavam apaixonadamente a um inimigo que estava formado

por toda uma classe, seres sem nome, rosto, personalidade nem vida. Comparado odiando a indivíduos concretos era mais fácil. Depois, em algum momento, viam-se obrigados a reconhecer que se odiavam a si mesmos e deviam reunir a força suficiente para matar a seus inimigos, ao menos Welling se sentia desconcertado por isso.

— Alguém pretendia substituir ao Magnus como cabeça?

— Claro que não! - Só a idéia repugnou Welling, como mostravam seus olhos desmesuradamente abertos e sua boca torcida. — Isso é próprio de vocês, não de nós. Nós não gostamos da moral segundo a qual uma pessoa tem que obedecer sem que importe o que lhe dite a consciência. Não procuramos o poder. Só a idéia do poder é corrupta.

— Alguém pegou uma arma, escondeu-se detrás da porta e atirou em Magnus pelas costas - recordou Pitt. — Não sei se o definiria como corrupto mas, sem lugar a dúvidas, vai contra minha lei. Também vai contra a sua ou contra sua falta de lei?

— Sim, também vai contra minhas convicções! É uma baixeza. Não só se trata de um ato brutal, mas sim de uma covardia.

— Parece que não queria que o vissem - precisou Pitt. — É possível que, se o tivessem visto, teriam reconhecido seu rosto.

Welling voltou a engolir em seco.

— Talvez.

— Novamente se trata de alguém que Magnus conhecia - prosseguiu Pitt. — E se por acaso isso fosse pouco, alguém que sabia onde iriam vocês depois da explosão no Myrdle Street. Nós não sabíamos. Quem tinha essa informação?

Welling cravou o olhar no policial e piscou lentamente.

— Outras células anarquistas? - inquiriu Pitt.

— Por que quereriam assassinar ao Magnus? - perguntou Welling, penalizado.   — Todos aspiramos ao mesmo!

— Tem certeza? Só existe uma classe de caos? Talvez pensam que há vários.

— Não procuramos o caos! É você um homem ignorante e estúpido! - Welling estava cada vez mais perturbado e voltou a sentar-se muito rígido. — Fala como se fosse capaz de pensar e compreender e ato seguido diz algo tão intolerante e áspero que danifica todo o anterior. A anarquia não tem nada que ver com o caos ou a violência. - Agitou a mão no ar e se inclinou para o Pitt com o olhar aceso. — A anarquia consiste em liberar-se da tirania para que todos os homens sejam livres e mostrem o melhor de si mesmos. Os seres humanos sensatos e íntegros deveriam crescer e desenvolver o melhor de si. - O entusiasmo fez que elevasse a voz. — Deveriam evoluir até ser homens livres e fazer caso omisso das regras impostas por leis, tribunais, governos e exércitos de pequenos homens que escravizam a mente. Só existe uma lei verdadeira: a da razão e a irmandade universal. O resto é medo ao encarceramento, ao domínio perverso de um homem sobre outro. Sejamos iguais e livres.

Pitt refletiu e finalmente disse:

— Entretanto, tudo tem um preço. Não acredito que todos os homens estejam preparados. Alguns são preguiçosos e outros ambiciosos. Se não existirem leis nem alguém que se encarregue de que se cumpram, quem protegerá aos fracos?

— Não entende nada! - acusou-o Welling.

Pitt se apoiou na parede de pedra.

— Tenha a amabilidade de me explicar isso.

— Sem opressão não seria necessário proteger aos fracos - declarou Welling.     — Ninguém lhes faria mal.

— Salvo os que se escondem atrás de uma porta e atiram pelas costas.

Welling ficou muito pálido.

— Não foi um dos nossos!

— Eu acredito que sim.

— Não, não foi! - gritou Welling. —Poderia ter sido o velho? Havia um velho que o abordou várias vezes na rua. Ao que parece Magnus o conhecia. Vi-os discutir. A disputa foi muito acalorada, mas Magnus não quis nos contar quem era ou a que se deveu.

— Um velho? - perguntou Pitt. — Descreva-o.

Welling abriu desmesuradamente os olhos.

— Acredita que poderia ter assassinado ao Magnus? - Seu rosto se iluminou, esperançado. — Por que o faria? Só foi uma disputa. De onde pôde tirar a arma? Era muito velho para ser anarquista.

Pitt sorriu a seu pesar.

— Era muito velho?

— Não estou certo. Sessenta, possivelmente um pouco mais. Era um homem alto, magro e de cabelo grisalho.

— E discutiram?

— Sim.

— Qual era sua atitude?

Welling ficou pensando; um brilho de compreensão acendeu seu olhar. Respondeu suavemente:

— Cavalheiresca. Não estava vestido como um cavalheiro, mas sua voz...

— Poderia ser seu pai? - inquiriu Pitt com a esperança de que Welling o negasse.

Não pôde deixar de pensar em seu filho e se perguntou como reagiria se em um futuro longínquo Daniel abraçasse uma ideologia extremista que o levava a matar. O que faria para tratar de salvá-lo de algo que considerava negativo? Como consolaria ao Charlotte? Até que ponto se consideraria culpado do que tinha saído mal? Foi-lhe fácil ficar na pele do Landsborough.

Era o que tinha acontecido? Tinha tentado proteger a seu filho ou ao sistema político no qual ele mesmo acreditava ou talvez a honra da família, com todas as comodidades e privilégios que entranhava? Seu filho era a desonra da família.

Tratava-se de uma idéia espantosa, mas a honestidade obrigou ao Pitt, no mínimo, a tomá-la em consideração.

Welling o olhou.

— É possível. Magnus nunca falou dele, mas esse velho não foi o único, também se via com um homem mais jovem e bem vestido.

Pitt estava desconcertado.

— Como falava?

— Não tenho nem a mais remota idéia. Que eu saiba, nunca falou.

— Um anarquista de outra facção?

— Me pareceu um criado; discreto, mas criado ao fim - respondeu Welling e sua ingenuidade se esfumou. — Não estou disposto a lhe dizer nada a respeito de nós. Os anarquistas são leais.

— Não me cabe a menor dúvida - confirmou Pitt em tom de admiração. —Pelo visto, os anarquistas estão dispostos a acabar na forca por seus companheiros. -Viu que Welling empalidecia. Talvez estivesse mais assustado do que tinha estado Carmody. Pitt prosseguiu: — Deve estar muito convencido de que os ideais são os mesmos. O que me leva a me perguntar por que um anarquista acabou com a vida do Magnus e o fez de um esconderijo.

A expressão de Welling se tornou desdenhosa.

— Não pode me enforcar por ter matado ao Magnus. Nem sequer pode me acusar por isso. Quando entraram eu já estava na estadia, longe da porta de onde atiraram nele. Todos ouviram como escapava. Até a polícia o ouviu descer pela escada traseira e o deixou passar. - Tremeu-lhe a voz ao perceber que poderiam mentir, embora só fosse ocultar que tinham cometido semelhante engano. Engoliu a saliva. Em seu olhar ficou claro que achava que Pitt era capaz de mentir, igual ao resto dos agentes. — Eu não o teria matado e você sabe!

— Assim é, sei - concordou Pitt. — Ao menos, não acredito que o fizesse pessoalmente, embora poderia haver confabulado com alguém. É bastante esperto para proteger a quem o fez, pelo que também é razoável supor que são aliados e inclusive que lhe pagou. - Percebeu horror no olhar do Welling e nesse instante soube que era inocente. — Claro que, na realidade, referia-me ao policial em que atiraram em plena rua.

— Não estava... não estava morto - A incerteza de Welling se refletiu claramente em seu rosto.

Pitt venceu a tentação de dar a entender que tinha perdido a vida.

— Não, mas por pura sorte. Tentaram matá-lo.

— Eu... eu... - a voz do Welling se apagou. Não havia argumentação possível.

Pitt aguardou enquanto o detido refletia. O encarceramento seria para Welling mais duro do que imaginaria, mas a forca tinha um caráter irrevogável.

— Você é crente? - perguntou Pitt de sopetão.

Welling se sobressaltou.

— Como diz?

— É crente? - repetiu Pitt.

O olhar zombador voltou a alterar o rosto do Welling, mas foi uma fanfarronada mais que uma mostra de confiança.

—Não é necessário acreditar em Deus para ter moral - replicou com amargura. —A Igreja conta entre suas filas com os piores hipócritas que existem! Tem idéia das propriedades que tem? Sabe quantos religiosos pregam uma coisa e fazem outra muito diferente? Condenam a pessoas cujas vistas nem sequer são capazes de compreender e...

— Não pensava na moral - interrompeu Pitt. — Não gosto de hipócritas assim como você. Referia-me se há algo que esperar depois da morte. - Welling ficou pálido e de repente lhe custou respirar. Pitt adotou um tom mais afável: — É você jovem. Não, terá que renunciar a sua vida nem a tudo ao que pode fazer, aos acertos e aos enganos, se me ajudar a averiguar quem matou Magnus Landsborough e a demonstrá-lo. Segundo sua moral e a minha, foi um ato infame. Se colaborar estou autorizado a não acusá-lo por ter atirado na polícia e pelo resto de suas ações.

Welling umedeceu os lábios.

— Como posso ter certeza? Como sei que não mente? Talvez o policial morreu!

— Não, não morreu. Dentro de poucas semanas se reincorporará a seu trabalho. O tiro lhe atravessou o ombro, mas não tocou a artéria.

Pitt tirou do bolso o papel com a promessa que Narraway tinha redigido e o entregou ao Welling, que o pegou, leu-o e piscou várias vezes enquanto as mãos lhe tremiam ligeiramente.

— O que será do Carmody? - perguntou por último. — Não... - Teve que pigarrear.   — Não me salvarei em troca de que o enforquem.

Pitt imaginou o que lhe havia custado pronunciar essas palavras e o admirou.

— Não é necessário - garantiu. — A mesma oferta vale para ele em caso de que a aceite. Me diga tudo o que sabe do Magnus Landsborough, quem o substituirá como chefe ou defina-o como prefiro e me fale também do velho com o que falou. Quero saber com quanta freqüência, onde, a que hora do dia ou da noite e como reagiu Magnus.

Welling contou passo a passo; media cada palavra para calar o que não lhe interessava que se soubesse. Não pôs nome ao tipo que, conforme achava, converter-se-ia no novo chefe, embora seu respeito por ele era evidente. Compartilhava a paixão do Magnus contra o domínio injusto de uma pessoa sobre outra. Enfurecia-o a indefesa dos pobres e as desvantagens por motivos de saúde, falta de inteligência ou educação, e questões de nascimento ou, simplesmente, de posição social. Em sua opinião, o poder sem responsabilidade era o pior dos males, já que engendra crueldades, injustiças e todos os abusos que uma pessoa pode infligir a outra.

Pitt analisou com o Welling os meios com os quais pretendia emendar a situação. Talvez o detido apreciasse, já que começou a falar com menos desdém e mais cordialidade a respeito de suas esperanças de alcançar um maior equilíbrio entre os homens.

O detetive não discutiu a idéia de que a sociedade deve tanto à natureza do ser humano como a qualquer sistema político concreto. Passou-lhe pela cabeça expô-lo, mas a frieza da cela e o aroma de fechado lhe recordaram a urgência de atalhar a corrupção e evitar um maior poder do Wetron no futuro.

Welling também lhe referiu os encontros do Magnus com o velho. Tinham tido lugar seis vezes e tinham perturbado ao jovem falecido. Negou-se a dizer quem era ou o que queria, mas não permitiu que o criticassem ou que lhe dissessem que não voltasse. Nas poucas vezes que os tinham visto conversar era evidente que discutiam.

O velho parecia alterado, mas ninguém ouviu o suficiente para saber sobre o que conversavam e Magnus se negou taxativamente a falar da questão.

Pitt abordou o tema da procedência dos recursos da célula; a princípio o expôs indiretamente e não obteve resposta. Welling se mostrou muito precavido.

— Não é necessário protegê-lo - comentou Pitt com indiferença. — Sabemos de quem se trata. Em realidade, a polícia também sabe.

Welling sorriu.

— Nesse caso, não necessita que o digamos.

— Exatamente. Não o mencionaria se existisse a mais remota possibilidade de que pudessem lhe avisar.

— É claro.

O tom do Welling tinha recuperado o ceticismo do início do interrogatório.

— É Piers Denoon - assegurou Pitt e detectou contrariedade no olhar do Welling.

Não necessitava que o confirmasse. Esteve a um triz de perguntar se Magnus e Piers brigaram. Talvez Magnus se dera conta de que seu primo jogava em dois lados, para os anarquistas e para a polícia, e tinha ameaçado desmascará-lo. Antes de tomar a palavra pensou no perigo que correria Tellman e mordeu a língua. Welling poderia defender-se declarando no tribunal e a informação chegaria à polícia. Mudou de idéia. De todo modo, a possibilidade seguia sendo válida. Talvez tinha sido Piers Denoon o que tinha matado ao Magnus para proteger-se a si mesmo.

Ao final averiguou através do Welling tudo o que queria saber. Depois de uma fugaz visita ao Carmody, que não lhe proporcionou mais dados, abandonou o cárcere com a mente em ebulição.

 

No dia seguinte, pouco depois das doze, Pitt iniciou a ronda pelas tavernas e substituiu Jones o Bolso. Nunca tinha realizado uma tarefa tão detestável como aquela. Talvez porque sabia quanto lhe desagradaria, vestiu-se com roupa gasta e muito diferente a que estava acostumado a levar, como se tentasse afastar-se do que tinha que fazer. Vestiu uma jaqueta de algodão com vários remendos, uma roupa que em outras circunstâncias jamais teria escolhido. Era áspera ao tato e abrigava muito.

Teve que explicar em todas partes que Jones estava doente e que, até sua recuperação, ocuparia seu lugar.

— Assim está doente, né? - perguntou esperançado um taberneiro. — É muito grave?

— Provavelmente - respondeu Pitt. — E se passar uma temporada no Coldbath Fields piorará ainda mais. — Referia-se ao cárcere londrino que tinha a pior reputação.

— É francamente triste. - O patrão da taverna sorriu de orelha a orelha. De repente ficou sério e olhou ao Pitt com rosto de poucos amigos. — Espero que seja contagioso!

— Talvez. - Pitt já tinha decidido o que faria. — De qualquer modo, eu não serei tão duro.

— Por que o diz? Me parece que são da mesma índole!

— Eu não sou tão ávaro - replicou Pitt. — Jones é muito severo. Eu quero que continue fazendo negócios. Levarei metade do que pedia ele. Parece-me suficiente. Só espero que me entregue regularmente.

O taberneiro se mostrou surpreso e, pouco depois, receoso.

— Não quero que o condenado do Grover se apresente aqui e me destroce o taverna - demarcou com cautela.

— Acredita que Jones guardava uma parte? - Pitt arqueou as sobrancelhas.

— O que lhe parece? Acaso você o faz por nada? Acredita que nasci ontem?

— Tenho meus motivos - assegurou Pitt. — Me pague a metade e siga atendendo a seus clientes. Quanto mais tempo discute comigo mais os descuidará.

No seguinte local passou outro tanto do mesmo e assim em todos. Reuniu aproximadamente dezesseis libras, o mesmo que um agente ganharia em três meses.

Não podia guardar o dinheiro nem correr o risco de perdê-lo. Só havia um lugar onde estaria a salvo e no qual, além disso, livrar-se-ia de uma possível acusação de extorsão. Wetron adoraria poder acusá-lo de algo assim! Seria um paradoxo.

 

Narraway exclamou:

— Dezesseis libras! - Jogou o dinheiro sobre a escrivaninha como se só por tocá-lo se manchasse. — São mais de sessenta libras ao mês que arrebatam a esses pobres desgraçados.

— Sei - confirmou Pitt. — E isso porque só cobrei a metade do que pedia Jones.

— Jones cobrava o dobro? Por que não foi vê-los todos?

— Visitei-os todos, mas lhes cobrei a metade. - Narraway revirou os olhos e deu a entender o que opinava daquilo com a expressão em lugar de com palavras. — Guarde-o -pediu Pitt.

— Como diz? - inquiriu Narraway e, repentinamente sério, franziu o sobrecenho.     — Alguém espera este dinheiro. Pitt, colocou-se em um jogo endiabradamente perigoso. O que os impede de lhe cortar o cangote para que sirva de exemplo? Sobretudo se não tiver o dinheiro.

— A cobiça - respondeu Pitt. — Quem me perseguir só receberá uma parte. Tentarão recuperá-la e lhes oferecerei mais. Morto não lhes sirvo.

— Mas não tem mais, mas menos! - exclamou Narraway.

— Como não o levo comigo, não saberão.

— Insensato, poderiam chegar à conclusão de que não tem nada! -replicou Narraway, subitamente furioso. — Acredita que tenho suficientes agentes para que o sigam por Londres até que alguém o busque por este assunto?

— Não demorarão muito - assegurou Pitt. Corria um risco e sabia. Esperava não haver-se equivocado com o Narraway e que o respaldasse nesse assunto. — Fui um pouco antes do que o faria Jones e por dois locais não passei. Se voltar dentro de um par de horas é possível que alguém me esteja esperando. Necessito de alguém enquanto faço estas duas visitas. Por favor, rogo-lhe que mande um homem que não vacile em intervir se for necessário.

Narraway amaldiçoou elegante mas energicamente.

— Pitt, está pondo a prova minha paciência, mas contará com alguém que, além disso, irá armado. Garanto-lhe que, se for necessário, esse homem disparará.

— Obrigado, senhor.

Narraway o olhou com cara de poucos amigos.

 

Anoitecia enquanto Pitt caminhava lentamente pela rua em direção à última taverna em que pretendia cobrar o dinheiro da extorsão. Tentava achar o melhor modo de comportar-se. Se se mostrava muito seguro poderia despertar suspeitas. Tinha roubado uma considerável quantidade de dinheiro à organização. Se não se mostrasse temeroso deduziriam que estava convencido de que tinha mais força que eles. Nesse caso, teria perdido sua oportunidade e não poderia começar de novo, já que a segunda não daria resultado.

Não ouviu passos às suas costas, só os movimentos dos mendigos que dormiam nas soleiras, o ruído das patas dos ratos no beco e a destilação dos telhados e o bueiro. A cinqüenta metros de distância alguém que parecia bêbado ria. Abrigou a esperança de que o enviado do Narraway estivesse perto, vigiasse-o e o protegesse quando chegasse o momento. Narraway não podia permitir o luxo de perdê-lo porque era fundamental em sua guerra com o Wetron. Se este último se convertesse em delegado desmantelaria a Brigada Especial.

Pitt tropeçou com um paralelepípedo solto e esteve a ponto de cair. Era impossível que Narraway fizesse parte do Círculo, não? Seria uma dupla traição!

Um homem corpulento e de largos ombros cruzou a rua para ele. Ainda não tinham aceso os lampiões, mas havia luz natural suficiente para lhe ver o rosto. Era longo, com um grande nariz e com a face sulcada por uma cicatriz. A orelha esquerda virtualmente estava deformada por causa de muitos puxões e golpes.

O homenzarrão se deteve frente a Pitt. Quando falou sua voz soou suave e com um ligeiro tom gutural:

— Em seu lugar, eu não iria procurar nada mais. É inútil, já que o tenho eu, entende -me?

Tinha mais ou menos a mesma estatura que Pitt e ficaram cara a cara no estreito meio-fio, a meio metro de distância. Pitt notou que um suor gelado corria por seu corpo. Esperava que sua voz soasse bastante firme para dissimular o medo que sentia.

— Cobrou as quantidades habituais? - perguntou amavelmente.

— É claro! O que ocorreu ao senhor Jones?

— Não se inteirou? - Pitt fingiu surpresa. — Confiou muito em si mesmo. Endossaram-lhe dinheiro falso e o pegaram. - O homenzarrão apertou os lábios.

— Jones é muito ardiloso para fazer algo assim. O que se passou realmente?

— A falsificação era boa. Confiou muito em si mesmo.

— Você se ocupou de que ocorresse?

Pitt decidiu levar os louros e replicou:

— Tenho planos. Posso fazer mais que ele. Tenho contatos. E gostará de ouvir que também posso fazer mais por você, se quiser.

— De verdade? Como é isso? - perguntou o homem com ceticismo. — Me diga, por que não teria que lhe cravar a navalha nas entranhas e levar isso tudo?

— Porque não o levo comigo! - exclamou Pitt. — Se me cravar nunca saberá que planejo e, além disso, não terá dinheiro que entregar a seu... a seu amo. – Pronunciou as últimas palavras com desdém.

— Eu não tenho amo! - protestou o homem.

— Jones o Bolso trabalha para você? - Pitt empregou um tom risonho para demonstrar que semelhante possibilidade lhe era ridícula. — Você não é mais que o menino dos recados, um simples mensageiro. Claro que não está obrigado a seguir sendo-o, senhor... senhor...

— Yancy.

Apesar de tudo se mostrou interessado, mas manteve a mão direita no bolso; Pitt deduziu que com os dedos segurava o cabo da navalha.

— Senhor Yancy, basta-lhe ser mensageiro? - Pitt tremia ligeiramente e tinha a sensação de que o coração estava a ponto de sair o do peito. — Lhe parece seguro?

— O que pretende? - inquiriu Yancy com cautela.

— A quem o entrega?

— Se o digo ocupará meu lugar! - defendeu-se Yancy. — Acredita que sou tolo?

— Não, senhor Yancy, não ocuparei seu lugar. Aspiro a muito mais! Quero o lugar de seu amo! - Pitt detectou dúvida no olhar do Yancy. Não tinha ido suficientemente longe. Que mais sabia Yancy? Tudo dependia de que conseguisse convencê-lo. Uma palavra de mais ou de menos e o assunto lhe escaparia das mãos. - Há muitas pessoas neste jogo -declarou e se engasgou. Precisava tossir e pigarrear, mas se o fizesse demonstraria que estava nervoso. Na calçada não havia ninguém, salvo um par de mulheres da rua a vinte metros de distância. Se Yancy tirava a navalha, olhariam para outro lado e não veriam nem saberiam nada. — Posso lhe dar uma parte maior porque quero me desfazer do intermediário - Pitt se lançou de vez. — Tenho que dar contas ao mais alto nível. Apronta-se ou não?

— Caramba! - Yancy soltou uma longa baforada de ar. —Ao senhor Simbister em pessoa? Grover me matará!

— Inclusive mais acima - assegurou Pitt sorridente. —Se apronta?

Yancy abriu a boca para responder; a duas ruas de distância ressoou um estrépito ensurdecedor. Foi tão intenso que o chão tremeu e em um telhado próximo se soltaram várias telhas de ardósia, que deslizaram pela calha e se romperam ao se chocar com a calçada. Soou outro estrépito puxador e no ar viram uma labareda. Alguém gritava. O desmoronamento das paredes anulou o som das vozes e o aroma e o calor do fogo impregnaram o entardecer.

 

Pitt virou sobre seus calcanhares, esqueceu-se do Yancy, correu até a esquina, dobrou-a e se aproximou das chamas que subiam até o céu. Atrás do perfil irregular, os telhados arrancados cuspiam fogo e a fumaça entrou em seus pulmões quando se aproximou. As pessoas gritavam e choravam. Algumas pessoas permaneciam imóveis, como estivessem muito confusas e sem saber o que fazer. Outras corriam daqui para lá e um terceiro grupo se movia sem rumo fixo. Ainda caíam entulhos, pedaços de madeira calcinados e em chamas e vidros que saíam disparados como adagas.

Quando chegou ao final do Scarborough Street, a fumaça lhe entrou na garganta e notou o calor no rosto. Havia vários feridos no meio-fio: imóveis, desabados e com as extremidades retorcidas. Por toda parte havia sangue, madeira fumegante, tijolos e vidros. As pessoas choravam e pediam ajuda; alguém gritava. Um cão ladrava sem cessar. Por cima de tudo se ouvia o som das chamas que subiam no interior do que ficava das três últimas casas da rua. No meio do calor a madeira explodiu e as telhas de ardósia saíram disparadas como facas com os bordos muito afiados. O pó e os cascalhos inundaram o ar.

Pitt permaneceu imóvel; tentava manter o controle e sufocar o horror que sentia em seu interior. Alguém tinha chamado aos bombeiros? A madeira em chamas seguia caindo sobre os telhados da outra calçada. Tinham avisado a algum médico, a alguém que pudesse prestar ajuda? Avançou e tentou achar um pouco de ordem no meio do terror e do caos. Via-se com clareza graças ao resplendor do incêndio.

— Alguém avisou aos bombeiros? - gritou no meio do estrépito que se produziu quando desabou outra parede. — Deve-se tirar daqui às pessoas! - Agarrou o braço de uma anciã. — Dirija-se ao final da rua! - ordenou com firmeza. — Afaste do calor. Se ficar aqui lhe cairão coisas em cima.

— Meu marido... - resmungou a anciã com o olhar perdido. — Está na cama. Estava bêbado como uma Cuba. Tenho que ir buscá-lo. Queimar-se-á.

— Neste momento não pode ajudá-lo. - Pitt não a soltou. Viu a poucos metros um jovem descalço que tremia sem poder controlar-se e o chamou: — Ei, você! - O jovem se voltou. — Leve-a esta mulher. Que todos se afastem! Me ajude!

O jovem piscou. Lentamente se deu por entendido e obedeceu. Outras pessoas também reagiram, tentaram ajudar aos feridos e agarraram nos braços as crianças para afastá-las do calor.

Pitt se aproximou do corpo mais próximo que jazia sobre os escombros e se agachou para observá-lo com atenção. Tratava-se de uma jovem, pela metade de costas e com as pernas sob o corpo. Um só olhar ao rosto disse que já não havia maneira de ajudá-la. Tinha sangue no cabelo e seus olhos desmesuradamente abertos já se empanavam. Ajoelhou-se a seu lado, lhe revolveu o estômago e lhe doeram as entranhas de ira. A Brigada Especial teria que ter impedido. Aquilo não tinha nada a ver com o idealismo ou o desejo de reformar as coisas, senão com uma loucura, uma falta de humanidade impulsionada pela estupidez e ódio.

A poucos metros alguém gemia. Não era o momento de entregar-se às emoções, já que assim não ajudava a ninguém. Pitt ficou em pé e se aproximou da pessoa que se queixava. Fazia cada vez mais calor. Piscou e voltou a cabeça para proteger-se da cinza que o ar arrastava. As telhas de ardósia continuavam deslizando e caíam sobre a calçada ou o meio-fio. Chegou à pessoa que gemia: uma mulher velha com a perna fraturada em várias partes e uma ferida no braço, da qual emanava sangue. Sem dúvida sentia muita dor, mas era a perda de sangue o que a assustava.

— Ficará bem - assegurou Pitt com convicção. Arrancou-lhe uma parte de anágua e lhe enfaixou o braço. Possivelmente o tinha apertado muito, mas era necessário deter a hemorragia. Certamente alguém tinha ido procurar a um médico. — Pronto. - Pitt se endireitou, agachou-se e ajudou à mulher a ficar em pé. Era pesada, movia-se com lentidão e esteve a ponto de perder o equilíbrio. — Apóie-se em mim e a levarei até a rua principal.

A mulher lhe agradeceu e avançaram juntos. Depois de deixá-la com uma vizinha, Pitt se voltou para a rua e viu o Victor Narraway frente às chamas. Estava magro como sempre, anguloso, com o cabelo despenteado e o rosto manchado de fuligem e tinto de vermelho pelo reflexo do incêndio.

A primeira reação de Pitt foi de incredulidade.

— Como fez para inteirar-se tão logo? - perguntou a gritos no meio do estrépito.     — Sabia que ocorreria?

— Não, é claro que não, insensato! - replicou Narraway e se aproximou. — O segui!

— O que disse? - Ao Pitt custou entendê-lo. — Por que? Pensou que não o conseguiria?

Outra casa se desabou para dentro e as labaredas subiram como a erupção de um vulcão. O estalo jogou Pitt e Narraway para trás e o calor lhes bateu totalmente no rosto. Pitt tropeçou com uma viga e com o cadáver de um homem. Narraway evitou que caísse porque o pegou por braço, mas esteve a ponto de lhe tirar o ombro de lugar. Endireitou-se com dificuldade.

Chegou o primeiro carro de bombeiros; os cavalos ofegaram com os olhos em branco e ao cocheiro lhe custou dominá-los. Imediatamente depois apareceu outro, mas bastou um olhar para saber que era inútil tratar de sufocar os incêndios. A única coisa que podiam fazer era evitar que as chamas se propagassem pelas ruas adjacentes.

Um jovem com uma maleta na mão abria caminho em meio dos escombros e de vez em quando se agachava.

Narraway gritou algo, mas Pitt não entendeu o que dizia. Meneou a cabeça e pôs-se a andar para um lugar no qual o homem, aparentemente médico, tentava ajudar a alguém a ficar em pé, embora pesasse muito.

Pitt ajudou enquanto houve algo que fazer. Viu que Narraway ia e vinha. Várias vezes revistaram juntos os escombros em busca de pessoas que seguissem vivas; afastaram as madeiras, os tijolos quebrados e os vidros. Narraway era mais forte do que Pitt supunha a julgar por seu corpo magro, sabia como manter o equilíbrio e se deixava levar por sua força de vontade.

Afinal apagaram as chamas e o ruído das paredes que caíam diminuiu. Mais pessoas deram uma mão. Teve a impressão de que carruagens e carretas levavam aos feridos e possivelmente também aos mortos. Em numerosas ocasiões, Pitt vislumbrou o reflexo da luz vermelha nos botões lustrados ou na forma alta e familiar do casco policial. Só quando se afastou um pouco do desastre comprovou consternado que já não via a reconfortante panorâmica de umas quantas semanas atrás.

Permaneceu junto a uma carroça cheia de escombros e viu o Narraway ao outro lado, a alguns metros. Sem dizer uma palavra, o chefe lhe ofereceu um copo de lata cheio de água. Pitt tentou falar, mas não conseguiu articular palavra. Pegou o copo, bebeu e finalmente resmungou:

— Obrigado.

A noite tinha caído por completo e só se via o resplendor avermelhado das chamas de duas casas que ainda ardiam. Os bombeiros tinham encharcado novamente os telhados, mas os incêndios não se estenderam.

Narraway pegou o copo e o levou aos lábios. Pitt se sobressaltou ao ver que lhe tremia a mão. Seu superior tinha a pele manchada de sangue e cinza e, pela primeira vez desde que o conhecia viu medo em seu olhar.

Não se tratava de medo físico. Narraway não era temerário, mas se tinha aproximado sem vacilar às chamas e às paredes que se desabavam e explodiram para resgatar às pessoas apanhadas. Pitt não precisou perguntar-lhe para saber que era a escalada da violência o que o assustava e a reação que se produziria ante tamanha destruição. Quase toda a rua estava virtualmente destruída. Precisariam demolir os edifícios, aplainar o chão e construir novas casas.

O mais trágico era que havia ao menos cinco mortos e mais de vinte feridos, alguns graves. Talvez alguns deles morreriam. Nessa ocasião não tinha havido um aviso prévio e evidentemente tinham colocado, no mínimo, o triplo de dinamite que no Myrdle Street. A Brigada Especial não tinha nem a mais remota idéia de quem tinha cometido aquela selvageria.

Pitt olhou ao Narraway, que estava esgotado e sujo. Sem dúvida o corpo lhe doía tanto como ele, ardia-lhe a pele, retumbava-lhe a cabeça e notava os pulmões fechados e carregados cada vez que aspirava. Mas, acima de tudo, devia ter uma entristecedora sensação de fracasso. As pessoas esperariam que o tivesse evitado. De momento a Brigada Especial não tinha apanhado a ninguém. Não tinha nenhuma só pista. Não sabia por onde começar, nada que indicasse que não voltaria a acontecer quando quisessem os anarquistas.

Narraway voltou a olhá-lo. Ambos gostariam de dizer algo, mas a verdade não necessita palavras e as mentiras reconfortantes eram inúteis.

Narraway bebeu outro gole de água e passou o copo a Pitt, que o esvaziou.

— Volte para casa - ordenou Narraway e pigarreou. — Esta noite já não há nada que fazer aqui.

Pitt pensou que no dia seguinte tampouco teriam nada que fazer, mas desejava voltar para a segurança do Keppel Street. De repente lamentou profundamente que seu chefe não tivesse um lugar assim aonde ir, nem ninguém que o quisesse com absoluta certeza. Não quis que este lesse seus pensamentos.

— Obrigado - aceitou quedamente. — Boa noite.

Não se tinha dado conta de que era tão tarde. Estavam a ponto de dar meia noite quando abriu a porta de sua casa. Assim que a fechou, Charlotte, ainda vestida, saiu ao corredor e a luz do salão a iluminou por detrás.

— Estou bem! - exclamou rapidamente ao ver a expressão de horror de sua esposa. — É só sujeira! Sai com água.

— Thomas! O que há? - Estava boquiaberta, com um olhar de espanto e as faces terrivelmente pálidas. — O que aconteceu?

— Outra explosão -respondeu.

Teria gostado de estreitá-la entre seus braços, mas estava sujo. Não só lhe mancharia a roupa, mas sim lhe pegaria o aroma do fogo.

Charlotte não pensou nisso. Rodeou-o com os braços, abraçou-o com todas suas forças e o beijou. Apoiou-lhe a cabeça no ombro e se aferrou ao Pitt como se quisesse impedir que escapasse.

Pitt sorriu e a acariciou com delicadeza; por fim estava a salvo e a tinha em seus braços. A cabeleira do Charlotte se soltou das forquilhas. Tirou-lhe as poucas que ficavam e as jogou ao chão. A cabeleira caiu sobre seus ombros e Pitt afundou os dedos nela e se desfrutou com sua suavidade. Era fresca, como a seda, tão escorregadia e delicada que parecia líquida. Cheirava bem, como se as chamas, os escombros e o sangue só fossem produto de sua imaginação.

Lamentou a solidão do Narraway e, se tivesse pensado, inclusive se teria compadecido de Voisey.

 

Pela manhã Pitt despertou sobressaltado e o silêncio do dormitório ressoou em seus ouvidos. As lembranças voltaram para sua mente com toda sua violência e dor. Charlotte já se levantara. A luz do dia brilhava do outro lado das cortinas e uma franja dourada atravessava o chão no ponto onde não estavam totalmente fechadas.

Ouviu o ruído de cascos de cavalos e rodas na rua.

Levantou-se rapidamente. Sua esposa lhe tinha deixado roupa limpa na cadeira. A vestimenta da véspera estava no tanque para que o aroma não impregnasse o dormitório.

Barbeou-se, vestiu-se e um quarto de hora depois desceu. Doíam-lhe os músculos por causa dos esforços da noite anterior e tinha mais pequenas feridas e arranhões do que podia contar, mas tinha descansado. Tinha adormecido sem pesadelos e tinha fome.

O relógio da cozinha marcava nove, mas sobre a mesa não estavam os jornais. Charlotte se voltou da pia, onde secava pratos, e sorriu.

Gracie saiu da despensa com uma terrina com ovos e lhe deu bom dia. Deixou que as mulheres o mimassem antes de perguntar que notícias havia.

— Más - comunicou Charlotte enquanto Pitt terminava a terceira torrada com geléia e se servia outra xícara de chá.

Charlotte foi à despensa e retornou com três jornais. Deixou-os sobre a mesa, diante de seu marido, e recolheu os pratos.

Assim que viu as manchetes, alegrou-se de que Charlotte os tivesse escondido até depois do café da manhã. O jornal do Denoon era o pior. Não criticava à polícia, simplesmente reconhecia que se tratava de uma tarefa impossível. Embora lhe dessem mais efetivos, armas e a liberdade de deter as pessoas de quem se suspeitava seriamente, era impossível que pudesse evitar atrocidades como aquela. Para isso a polícia devia obter informação antes de que a situação fosse mais violenta. Devia-se saber quem tinha planejado semelhante selvageria e quem defendia convicções que desatavam aquela guerra contra a gente comum de Londres e possivelmente de todo o planeta.

O editorial era apaixonado, simples e com um tom irado que compartilhariam grande parte das pessoas da Inglaterra. A polícia, a Brigada Especial e o governo propriamente dito não estavam em condições de dizer onde ou quando se repetiria outra atrocidade, que casas seriam as seguintes. Era muito pior que o ocorrido no Myrdle Street.

Ali não tinha morrido ninguém. O aviso prévio tinha dado tempo a evacuar as casas. Desta vez não tinham mostrado tanta humanidade. O que ocorreria a seguir? Seria pior? Mais mortos e incêndios que seria impossível apagar? Os bombeiros não poderiam controlar fogos de maiores dimensões. Não dispunham de efetivos suficientes. Não havia recursos, nem sequer água. Queimar-se-iam bairros inteiros de Londres.

A possibilidade de uma devastação tão atroz exigia medidas extremas para evitá-la. O governo devia ter competências para proteger a quem o tinha eleito e o povo tinha direito a esperar que assim fosse. Se fosse preciso leis deviam aprová-las antes que fosse muito tarde. Exigiam-no a honra, o patriotismo e a decência humana. A sobrevivência dependia do que se fizesse.

Pitt esperava ler algo pelo estilo, mas ao vê-lo impresso a realidade se impunha embora se tentasse não vê-la. Denoon não falava detalhadamente da lei que permitiria interrogar aos criados sem que o senhor ou a senhora da casa soubesse. Embora o tivesse especificado, provavelmente a maioria das pessoas não o teriam considerado sinistro. Os que não tinham nada que ocultar tampouco o temiam. Era muito fácil justificar a utilização de tal competência. Era a medida em si mesma que significava dar carta branca à chantagem: a possibilidade de interrogar sem ter que demonstrar a nenhuma autoridade que existiam motivos justificados e o fato de que o homem ou a mulher de cujos atos se falaria, cuja vida íntima, costumes pessoais e pertences, relações e amizades se mencionariam não teria a possibilidade de negar, explicar ou refutar o que se diria. Um criado podia equivocar-se, ter ouvido só uma parte da conversa, recordar o que aconteceu com inexatidão ou, simplesmente, repetir fofocas. Se por acaso isso fosse pouco, podia ser rancoroso, desonesto, ambicioso ou, Lisa e sinceramente, confiante e manipulável. A lei deixava em mãos dos criados o poder de chantagear ao senhor ou à senhora da casa mediante uma ameaça de traição, ante o qual não havia defesa.

O caráter privado do interrogatório dava margem a que as possibilidades fossem quase ilimitadas e contra isso não existia a menor salvaguarda.

Levantou a cabeça e percebeu que Charlotte o observava.

— É mau, não é? - perguntou quedamente sua esposa.

— Sim. - Pitt viu em seu olhar que também ela compreendia claramente a gravidade da situação. — Certamente que é.

— O que podemos fazer?

Pitt se obrigou a sorrir ao ver que Charlotte se incluía.

— Voltarei para o cárcere e interrogarei aos anarquistas detidos, embora não acredito que possam ajudar. Francamente, duvido que um membro de sua célula tenha cometido esta selvageria. Neste atentado morreram ao menos cinco pessoas. Suponho que se mostrarão mais dispostos a falar. Você não faça nada, a menos que resolva ir ver Emily e lhe prestar um pouco de apoio. - Escrutinou o rosto de Charlotte. — Jack é um dos poucos aliados a quem podemos confiar. Esta situação poderia lhe custar muito cara.

— Sua carreira política? - inquiriu Charlotte.

— Talvez.

Charlotte sorriu com tristeza.

— Agradeço-lhe que não tenha fingido. Não te teria acreditado se me houvesse dito que sua carreira política não corre perigo.

Pitt se levantou da mesa, deu um ligeiro beijo a sua esposa e se dirigiu para a porta de entrada para calçar as botas. Sabia que Charlotte seguia em pé na cozinha e ainda o olhava.

 

Em primeiro lugar, Pitt foi ver Carmody. Encontrou-o percorrendo de um extremo a outro a cela; estava tão tenso que lhe era impossível permanecer sentado. Voltou-se assim que ouviu que a chave girava na grande fechadura de ferro, e já estava de frente à porta quando Pitt entrou. Tinha o cabelo pegajoso e seu rosto pálido e cheio de sardas tinha adquirido uma cor cinzenta.

— Quem foi ? - perguntou Carmody em tom acusador. — É um assassinato! Por que não o impediu? O que lhe passa? Quem são? São irlandeses, russos, poloneses ou espanhóis?

— Não acredito que o sejam - respondeu Pitt tão equanimente como pôde. — Quem lhe falou da explosão?

— No cárcere não se fala de outra coisa! - gritou Carmody. — Os carcereiros contam as horas que faltam para que nos julguem e nos enforquem. Nós não temos nada a ver. Por favor, já o dissemos. Queríamos tirar do meio o maldito Grover e acabar com a corrupção policial, não matar aos habitantes inocentes.

— Todas as provas apontam que não se trata de anarquistas estrangeiros, seja da Europa ou de outros lugares.

— Não fomos nós! - gritou Carmody. Tremia-lhe a voz. — Me ouviu? Não é isso o que queremos nem aquilo no que acreditam. Um atentado é um ato selvagem com o que não tem nada que ver com a liberdade, a honra nem a dignidade humanas! É um assassinato e nós não somos assassinos.

Pitt acreditava nele, mas ainda não podia dizer-lhe.

— Magnus Landsborough está morto - afirmou e se apoiou na parede. — Welling e você permanecem entre grades. Lhe cruzou pela cabeça a possibilidade de que o propósito do atentado no Myrdle Street fosse tirá-los do meio?

Carmody esteve a ponto de falar, mas se conteve. Seu rosto perdeu a cor que restava.

— Por Deus! - exclamou. — Pensa que...? Não pode ser! - Meneou a cabeça e negou várias vezes, mas era evidente que duvidava. Tentou convencer-se a si mesmo e em nenhum momento afastou o olhar dos olhos do Pitt.

— Por que? - perguntou o investigador. — É possível que em sua célula houvesse alguém que tivesse outro plano, um projeto mais violento e decidido. O que está claro é que a alguém interessa esta estratégia!

— Não!

A palavra soou oca. Carmody compreendia a gravidade dos fatos e à medida que passava o tempo a situação adquiria mais sentido, inclusive para ele. Subitamente se sentou na cama, como se as pernas já não o sustentassem.

— Alguém que você conhece assassinou ao Magnus - acrescentou Pitt em voz baixa mas firme. — Alguém o planejou. Sabia aonde fugiriam assim que explodisse a bomba no Myrdle Street e os estavam esperando. Alguém atirou em Magnus e escapou pela parte traseira. Desceu a escada e passou diante da polícia, que o confundiu com um dos nossos, que tínhamos entrado e perseguíamos um dos seus. Uma ação deste tipo requer preparação, precaução e inteligência. Também exige um bom conhecimento de seus planos. Salvo alguém que queria desfazer do cabeça e ocupar seu lugar, alguém mais de sua célula queria ver morto ao Magnus?

Carmody levou as mãos ao rosto e jogou o cabelo para trás com tanta força que estirou a pele da frente e esticou suas feições.

— Isto é um pesadelo!

— Não, não é - replicou Pitt. — É real e não despertará como se fora um sonho. Sua única saída é que diga a verdade. Quem assumia a direção da célula se ao Magnus ocorresse algo? Não me venha com que não o tinham exposto, já que seria uma estupidez. Sempre tiveram presente a possibilidade de que a qualquer o apanhassem ou assassinassem.

— Kydd, Zachary Kydd - respondeu Carmody com voz sussurrante. — Eu teria jurado que acredita no mesmo que nós. Teria apostado a vida que era assim!

— Pois parece que a teria perdido, como ocorreu ontem à noite aos habitantes do Scarborough Street. - Carmody guardou silêncio. — Onde está Kydd? Temos que prendê-lo, a menos que queira que se produzam mais atos como o de ontem.

Carmody lhe cravou o olhar com expressão de pesar.

— Pede-me que traia a um amigo.

— Não pode ser leal a seu amigo e a seus princípios ao mesmo tempo. Tem que escolher. Inclusive guardar silêncio é uma forma de escolher. Carmody fechou os olhos.

— Sua habitação está no Garth Street, no Shadwell, perto dos moles. Não sei o número, mas está do lado sul e a porta é marrom.

— Obrigado. Ah, algo mais. Teria a amabilidade de descrever ao velho que falava com o Magnus Landsborough? Me diga tudo o que sabe dele.

A contragosto e com mais emoção do que teria gostado de mostrar, Carmody referiu os encontros do Magnus com aquele homem que só podia ser seu pai e as acaloradas conversas que tinham mantido. O velho suplicava algo, mas sempre obtinha um não por resposta. Depois desses encontros Magnus sempre se mostrava retraído. Não queria falar disso, evidentemente se tratava de algo que lhe causava dor. Em duas ocasiões, Carmody também viu a certa distância a um homem mais jovem, como se seguisse discretamente ao velho, mas não tinha certeza. Estava claro que recordar aquilo o afetava. Quando Pitt se retirou, Carmody estava tranqüilo, imerso em suas tristes lembranças.

 

O encontro seguinte com o Voisey seria no monumento em honra ao Turner e, como das outras vezes, ao meio-dia. Cabia esperar que, depois do atentado da véspera, Voisey acudisse.

Pitt se atrasou cinco minutos; cruzou rapidamente o chão de mármore branco e negro. Ao ver a figura do Voisey, que olhava nervosamente a seu redor e passava o peso do corpo de um pé ao outro, sentiu-se preocupado mas também divertido e aliviado.

Voisey esperava que chegasse pelo outro lado, mas no último momento se voltou e o olhou. Pareceu tranqüilizar-se e perguntou:

— É tão mau como diz a imprensa?

— Sim. Na realidade, piorará.

— Piorará? - O tom do Voisey era amargo. — O que acha? - acrescentou com sarcasmo. — Que destruirão duas ou três ruas? Talvez que haverá outro grande incêndio de Londres? Podemos nos considerar afortunados de que não fosse pior. Com maré baixa, nesta época do ano e com a falta de chuvas, ontem à noite poderíamos ter perdido a metade do Goodman’s Fields.

— Espere que o Parlamento se reúna esta tarde - respondeu Pitt. — Não são mais necessários explosões para que exija a aprovação imediata do projeto, incluída a disposição para interrogar aos criados. Leu o editorial do Denoon?

Voisey se voltou e começou a caminhar, como se permanecer quieto lhe resultasse insuportável.

— Sim, claro que sim. É sua grande oportunidade, não lhe parece? Aproveitarão o atentado para aprovar a lei! - Era uma afirmação mais que uma pergunta. Pitt teve que andar depressa para o alcançar. — Acredita que no caso de que voltem a queimar meia cidade, haverá um gênio que possa reconstruí-la tal como está? – inquiriu Voisey muito sério. Com a mão indicou a grande catedral e acrescentou: — Já sabe que iniciaram a reconstrução do templo em 1675, só nove anos depois do incêndio. Terminaram-na em 1711.

Pitt permaneceu em silêncio. Resultava-lhe impossível imaginar Londres sem o St Paul.

Chegaram à placa em honra de sir Christopher Wren. Voisey leu a inscrição em voz alta:

“Leitor, se monumentum requiris, circumspice”. — Suponho que não sabe o que significa. - Em seu tom havia uma mescla de admiração e amargura: — "Leitor, se busca um monumento olhe a seu redor".

Sua expressão era de dor e respeito e tinha os olhos brilhantes.

De repente, Pitt viu uma faceta diferente e surpreendente do Voisey: a de um homem desejoso de deixar rastro na história, de transmitir algo dele. Não tinha filhos. Tinha herdado mas não legaria. Havia a possibilidade de que parte de seu ódio tivesse que ver com a inveja? Quando morresse seria como se não tivesse existido.

Pitt observou seu rosto quando o parlamentar olhou para cima e durante uns segundos lhe pareceu ver um anseio profundo e descarnado.

Entretanto, sentia que era um intrometimento, como quando se safada a alguém realizando um ato privado, e virou a cabeça.

Seu movimento chamou a atenção do Voisey, que imediatamente voltou a pôr a máscara.

— Sabe algo dos responsáveis pela colocação da bomba?

— Talvez - respondeu Pitt. Notou o ódio do Voisey, que tinha adquirido mais profundidade, como se fosse evidente em meio daquele silêncio quase absoluto. Perto não havia ninguém e o ligeiro murmúrio dos passos distantes era tão tênue que se perdeu. Poderiam ter estado sós. — O homem encarregado de assumir a direção se acontecia algo ao Magnus Landsborough se chama Zachary Kydd. É possível que seja o assassino do Magnus.

— Rivalidades internas? - O desprezo da expressão do Voisey era evidente.

Pitt se deu conta de que estava a ponto de perder as estribeiras .

— Matou-o alguém que o conhecia, um dos anarquistas.

— Por que? - Voisey parecia desconfiado. — Não era preciso desfazer-se do Landsborough para colocar uma bomba no Scarborough Street!

— Como sabe? - inquiriu Pitt.

— Por que demônios ia fazê-lo? Landsborough tentaria impedir-lhe. Sua incredulidade era mordaz. — Como? Avisaria à polícia para que se voltasse sobre eles? Está dizendo que alguém da célula confiava na polícia?

Pitt deu a sua voz um tom de exagerada paciência:

— Para desencadear explosões desse calibre se necessita muita dinamite, planejamento e pessoas dispostas a arriscar a vida. Talvez Kydd não podia sabê-lo até arrebatar a liderança ao Magnus.

Voisey duvidou uns segundos, mas sabia que o argumento da Brigada Especial tinha razão, pelo que não demorou para reconhecê-lo.

— Kydd - repetiu. — Por que o fez? O que pretende?

— Não sei - reconheceu Pitt e esboçou um ligeiro sorriso. Uma sombra obscureceu o olhar do Voisey.

Pitt se limitou a esperar.

— O atentado do Scarborough Street faz o jogo de Wetron - disse Voisey. — É o melhor para seus propósitos. Acha realmente que se trata de uma coincidência?

Pitt levava o casaco posto e, apesar de que na catedral a temperatura era agradável, sentiu um calafrio. Gostaria de livrar-se de chegar a essa conclusão e achar ao menos um motivo convincente pelo qual não podia ser certa, mas não foi assim. Perguntou suavemente:

— Acredita que ele está atrás de tudo isto?

Ao ouvir essas palavras foi Voisey quem sorriu.

— Pitt, sua capacidade de pensar bem de outros sempre me surpreende. Não deveria ser assim. Apesar de tudo o que lhe ocorreu, e do que aconteceu a seu pai; apesar de todos os anos que leva resolvendo assassinatos e de que ultimamente se ocupa dos fanáticos políticos, não deixa de ser um ingênuo. Nega-se a reconhecer a evidente realidade da natureza humana. - Seu rosto se escureceu e exclamou violentamente: — Tolo, é claro que Wetron está atrás de tudo isto! Ocupou-se de que o desgraçado, estúpido e inofensivo Landsborough colocasse a primeira bomba. Disse aos integrantes da célula que ninguém seria ferido. Os jovens e insensatos anarquistas, que não sabem o que fazem, que só protestam contra a corrupção, certamente estiveram de acordo. Você apanhou a uns poucos, o que sem dúvida era o que pretendia; estava tudo preparado. A segunda vez foi muito parecida, mas muito pior. Quase sem pensar, todos supõem que se trata de uma escalada da violência e culpam aos mesmos. E o que ocorre a seguir? O medo disparou e Denoon alimenta as chamas. Se Wetron não está comprometido, é o homem mais incompetente do mundo. Pitt, o que acha? O que pensam os serviços de informação da polícia? Como o interpreta o cérebro da Brigada Especial?

— Exatamente igual a você - respondeu Pitt. — Até que ponto aproveitou a situação e em que grau a provocou não tem realmente importância, desde que o conectarmos com o ocorrido e possamos detê-lo.

— Vá, por fim é pragmático! Demos graças a Deus. Como se propõe fazê-lo? - Voisey só titubeou uma fração de segundo. — É claro, temos ao Tellman, um homem que dispõe de informação confidencial.

Pitt olhou ao Voisey e por sua expressão soube que esperava que respondesse que não podia fazê-lo; nesse caso seu desprezo seria absoluto. Decidisse o que decidisse, o político tinha o controle da situação; a certeza de seu poder brilhou em seu olhar.

Pitt tentou achar outra solução igualmente válida que lhe permitisse uma saída, mas não havia.

— Pedirei ao Tellman que tente rastrear o dinheiro até o Wetron - acessou muito a seu pesar.

— O dinheiro! - exclamou Voisey com desdém. — Já sabemos que Wetron fica com o dinheiro das extorsões! De todo modo, só conseguirá rastreá-lo até o Simbister. Necessitamos dinamite, conexões que demonstrem sua cumplicidade, saber para que pretendia utilizá-la.

— Em primeiro lugar, ocupar-me-ei do dinheiro - declarou Pitt com paciência. — O rastrearei até o Wetron e só então investigarei a compra da dinamite. Se chegar até o Simbister estará muito bem, desde que pudermos relacioná-lo com o Wetron. Segui o dinheiro até o braço direito do Wetron.

— Já o fez? - Voisey arqueou as sobrancelhas. — Não me havia dito isso.

— Acabo de fazê-lo. Dedicava a essa investigação quando explodiu a bomba no Scarborough Street. Estava a poucos metros de distância.

Voisey ficou de pedra.

— Esteve ali? Foi testemunha da explosão? - Observou com mais atenção ao Pitt e reparou nos arranhões nas faces e no cabelo chamuscado. — Esteve ali – repetiu com contrariado respeito. — Pensei que lhe tinham avisado depois que ocorresse.

— Dediquei a metade da noite a ajudar a tirar os feridos e aos que ficaram sem teto -explicou Pitt, que tentou que a lembrança não o emocionasse. — Suponho que ainda estão procurando os mortos. Asseguro-lhe que estou tão ressentido com o Wetron como você.

Voisey exalou um suspiro.

— Claro, suponho que sim. Se algo pode alterar sua grande tolerância é um ato como este. De acordo. Relacione ao Wetron com a dinamite e veremos como o penduram na forca! - Pronunciou essa última palavra com uma repentina e apaixonada energia que, como sabia Pitt, tinha mais que ver com o Círculo Interior que com os mortos do Scarborough Street.

— É o que me proponho - confirmou. — Mas o farei com cuidado. Do que se encarregará você?

Voisey sorriu e foi como se de repente saísse o sol.

— Procurarei outros ilustres parlamentares a quem não preocupam que os criados sejam interrogados em sua ausência e lhes recordarei os perigos de semelhante prática.

Voisey levantou a mão a modo de saudação e se afastou.

 

Tellman não se surpreendeu ao ver que Pitt o aguardava na rua, à porta de sua casa. Além da delegacia de polícia do Bow Street, era o único lugar no qual o Pitt sabia com certeza que o acharia. Mas na delegacia de polícia indubitavelmente o veriam e o reconheceriam, pelo que em questão de minutos estaria informado Wetron de sua presença.

Pitt teve que esperar. Tellman sempre retornava a uma hora diferente, segundo o caso que se trazia entre mãos e os progressos que fazia. Wetron dava por assentado que estavam em contato; de fato, já o tinha demonstrado na conversa que segurou com o Tellman, durante a qual lhe falou do Piers Denoon. Mesmo assim, o mais aconselhável era que não o vissem. Pitt se escondeu na penumbra vespertina do beco até que seu amigo chegou à porta.

Não falaram na rua. Pitt seguiu ao sargento e subiram a escada até seu quarto. Tellman correu as cortinas antes de ligar a luz de gás. A lareira já estava acesa, pelo que o ar não era frio. A caseira levou pão e sopa quente para ambos e não fez o menor comentário.

Tellman escutou com crescente horror a descrição que Pitt fez do que aconteceu no Scarborough Street. Já lhe tinham falado do atentado, mas não era o mesmo que quando o contava alguém que tinha estado presente. Deixava de ser uma sucessão de dados e se convertia em um relato a respeito do sangue, violência, ruído, sofrimento, o aroma de fumaça, a carne queimada e esse insuportável calor na pele.

— Voisey está convencido de que Wetron é o verdadeiro culpado - concluiu Pitt, com pesar.

Ao Tellman lhe revolveu o estômago. Custava-lhe imaginar aquela maldade deliberada e planejada. Sabia que havia homens muito ambiciosos, mas lhe era impossível conceber um anseio de poder tão grande para conseguir que alguém realizasse uma matança humana como aquela. Imaginou o rosto e o frio olhar do Wetron e mesmo assim lhe pareceu incompreensível.

Entretanto, Pitt estava disposto a acreditar.

— Devemos relacionar ao Wetron com a dinamite - disse quedamente. — Se não houver provas não temos nada.

— Experimentarei com Jones o Bolso - disse Tellman depois de refletir uns segundos. — Como disse, deveríamos conectar a dinamite com alguém através da procedência do dinheiro. Não me ocorre outra coisa.

Falaram uns minutos mais e Pitt partiu. O fogo da lareira se reduziu a uma chuva de faíscas e Tellman acrescentou carvão. A noite tinha caído e ouviu as gotas de chuva que tamborilaram nos vidros das janelas. Pensar em como abordaria o tema com o Jones e no muito que as coisas tinham mudado no breve tempo transcorrido desde que Pitt já não estava no comando no Bow Street. Depois tinham ingressado um punhado de novos recrutas, mas a maioria dos policiais levavam anos na delegacia de polícia. Quantos deles eram corruptos? Sempre tinham estado dispostos a cair na tentação mas ele não se inteirara? Era tão incompetente como parecia julgando o caráter dos homens? Acaso pelo simples fato de que eram policiais tinha dado por assentado que também deviam ser honrados, quando em realidade apenas se diferenciavam dos seres violentos, desonestos, débeis ou ambiciosos aos que perseguiam?

Ou esses policiais estavam tão cegos como antigamente o tinha estado ele e deram por assentado que Wetron, seu comandante e agente de maior posto, devia ser honrado? Sua própria honestidade e lealdade os impediu de ver a realidade, pelo que nem sequer lhes cruzou pela cabeça a possibilidade de que Wetron fosse um homem corrupto? Se falasse contra o chefe o considerariam um traidor.

Certamente ali radicava a verdadeira habilidade do Wetron: não estava nas complexas tramas e maquinações, a não ser no modo no qual se aproveitava do anseio do ambicioso, dos temores do fraco e da honradez de um bom homem e os utilizava em seu favor. O homem que é inocente não espera mentiras de outros. que nunca rouba não suspeita que seus amigos o façam. O homem em cuja natureza não aninha a traição não guarda as costas.

No Tellman havia uma ira profunda e gélida, tão impetuosa como a que impulsionava ao Pitt, pelo que compreendeu perfeitamente a situação. Custasse o que custasse não permitiria que Wetron continuasse como até então. claro que sim, tinha medo da reação do Wetron. Nem por um segundo subestimava sua inteligência ou sua vontade, mas naquele momento não vinham ao caso. Não fizeram que reconsiderasse nada; pelo contrário, estava mais decidido se pudesse.

 

Pela manhã, Tellman se dirigiu diretamente à a prisão em que Jones estava detido e disse que queria vê-lo. No caso de que se demonstrasse, a acusação de passar dinheiro falso era muito grave, embora nem sempre era simples. A pessoa fazia imitações deficientes dos bilhetes, mas jamais afirmava que fossem de verdade. Chamavam-no dinheiro de clarão e o utilizavam em teatros, jogos e truques, mas se diferenciava das falsificações, que pretendiam confundir-se com o dinheiro de verdade.

Tellman se tinha ocupado de endossar dinheiro falso ao taberneiro, que o entregou ao Jones. Dado que este o tinha aceito como pagamento de uma extorsão, não podia jogar a culpa ao taberneiro e, por conseguinte, ficar como a vítima. De todo modo, lhe podia ocorrer algo para recuperar a liberdade em um período de tempo relativamente breve.

Jones o Bolso encarou ao Tellman com uma mescla de confusão e de desejo de não inimizar-se com a polícia antes de saber exatamente quais eram suas opções.

— O que quer? - perguntou asperamente quando fecharam a porta da cela.

Tellman o olhou de cima abaixo. Sem o casaco amplo, Jones tinha uma figura menos imponente, magra e ligeiramente barriguda, com os dedos dos pés para dentro, como as pombas. Seu rosto escuro denotou força e muita astúcia quando devolveu o olhar ao Tellman. É possível que fosse um instrumento do Grover, mas não tinha um fio de cabelo de tolo nem tinha agido contra sua vontade.

Tellman pensou em adotar a atitude afável do Pitt, mas estava muito aborrecido. Mais lhe valia ser fiel a seu caráter seco e um pouco azedo.

— Algo que lhe poderia vir bem, tanto quanto a mesmo a mim - respondeu.

— Sério? Não sei por que me parece que não vai favorecer-me - comentou Jones com sarcasmo.

Tellman pensou que podia ser de origem galesa, embora seu sotaque não tinha a musicalidade dos nativos dessa terra.

— Está em uma situação delicada - observou o sargento. — Detiveram-no com uma nota falsa de cinco libras. É um mau assunto.

— Não é falsa - o contradisse Jones. — Só era um nota de clarão o que não tem nada de mau. Cometeram um engano. A polícia sempre os comete.

— Pois não, não é de clarão - segurou Tellman. — Parece verdadeiro se não se conhecer a diferença. A única pega é o papel.

Jones pareceu ofender-se.

— Nesse caso, como podia saber que não é verdadeiro? Enrolaram-me! Deveria compadecer-se de mim. É a mim a quem fraudaram!

Tellman fingiu inocência.

— Senhor Jones, o que lhe roubaram?

Jones se indignou.

— Uma nota de cinco libras, já sabe. Viu-o com seus próprios olhos! Tirou-me isso! Eu pensava que era verdadeira e zombaram de mim!

— Pois parece que assim é. Eu gostaria de saber quem zombou de você. Sabe onde o deram? Acredito que terei que falar com quem o deu.

— É o que deveria fazer! Deu-me isso o taberneiro ladrão da Triplo Plea! Foi justo antes de que você me pilhasse. Não tive tempo de olhá-lo bem! Se o tivesse feito o teria sabido!

— E nos teria o trazido - demarcou Tellman, que lhe seguiu a corrente. — Assim teríamos ido falar com o taberneiro, lhe teríamos perguntado de onde o tirou e se sabia que se trata de uma falsificação.

Jones retrocedeu.

— Senhor Tellman, não use essa palavra, é feia. Conheço falsificadores que acabaram muito mal.

— Não sofra - o tranqüilizou Tellman. — Já não mandamos tão facilmente às pessoas à forca. Reservamo-la, sobre tudo, para delitos como o assassinato. Sabe de alguém que tivesse a ver com isto? Porque nesse caso a forca é a solução.

— Não, é claro que não! - replicou Jones acaloradamente. — Só tive essa maldita nota durante menos de uma hora!

— Deu-o o dono da Triplo Plea?

— Isso!

— Pode demonstrá-lo?

— Bom, vejamos...

Repentinamente Jones cheirou o perigo.

— Que classe de serviço lhe pagou? - inquiriu Tellman com toda a inocência do mundo.

A mente do Jones funcionava a toda velocidade, assim o refletia seu olhar. Viu a armadilha ante seus olhos.

Tellman agüentou.

— Devia-me dinheiro - respondeu Jones por último, com certo tom de desespero.   — Ele mesmo o dirá! - Declarou, desafiante.

— Por que lhe devia dinheiro?

— Não é assunto seu. - Jones começava a sentir-se mais seguro; tinha evitado uma desagradável armadilha. — Lhe fiz um favor.

— Seria um grande favor. Levava consigo vinte e sete libras. Ou também fez favores a outras pessoas e, por pura casualidade, todas os devolveram naquele dia? - Jones via que a armadilha se fechava a seu redor, mas nesta ocasião não soube como evitá-la.     — Exponhamos de outra maneira - propôs Tellman. — Se perguntar ao dono da Triplo Plea quantos favores lhe fez, dir-me-á que foram por valor de cinco libras ou de vinte e sete?

— Vejamos... Como quer que saiba o que lhe dirá? Nem sequer gosta de mencionar este tema! - Uma atitude triunfal iluminou fugazmente seu olhar. — O taberneiro se sentirá ridículo se tiver que reconhecer que os clientes lhe emprestam dinheiro.

— Emprestou-lhe dinheiro?

— Sim!

— E de onde tirou você vinte e sete libras? –T ellman sorriu. — Ou só lhe emprestou cinco e o resto é usura? Não se preocupe, ele mesmo me contará isso. Posto que foi tão amável com ele, recordará exatamente quando ocorreu. Suponho que lhe devolveu a promissória.

Suava o lábio superior de Jones.

— Que nota promissória?

— Vamos, senhor Jones - demarcou Tellman com desaprovação, — é muito inteligente para emprestar dinheiro sem assinar uma promissória. Nesse caso, como faria para cobrá-la? O pedirei ao taberneiro e assim a nota de cinco libras será seu problema.

Tellman se ergueu como se estivesse a ponto de ir-se.

— Não seria possível? - começou a dizer Jones e engoliu a saliva com dificuldade.

Tellman se deteve e se voltou.

— Escuto-o.

Conseguiu dar a essas duas palavras um tom ameaçador do que se sentiu satisfeito. Recordou os destroços do Scarborough Street; a fúria que sentiu deveu refletir-se em sua expressão.

Jones voltou a engolir a saliva.

— Não era para mim, é a verdade - reconheceu Jones com dificuldade. — Recolho e entrego a alguém que faz empréstimos de vez em quando.

Tellman seguiu o jogo da mentira durante uns instantes.

— Agora o entendo. Quem é esse alguém que mencionou?

— Não sei... - Jones emudeceu. Olhou ao Tellman com atenção e pôde ver sua cólera e sua firme atitude. — É o senhor Grover do Cannon Street - reconheceu com voz rouca. — Que Deus me julgue!

— Em seu lugar eu não teria tanta pressa por ser julgado - replicou Tellman, que experimentou uma sensação de triunfo ante semelhante confissão. — No suposto de que seja assim, como conseguirá que o juiz de um tribunal ordinário lhe acredite, já que ele não é Deus?

— O juiz de um tribunal ordinário! - Jones engoliu a saliva por enésima vez. — Não tenho feito nada de mau! - Estava assustado e pela primeira vez não pôde dissimulá-lo.   — Está falando de um desses homens que se sentam no estrado com uma peruca na cabeça!

— E que colocam às pessoas no Coldbath Fields ou em lugares piores. Sim, é exatamente aos que me refiro. Senhor Jones, há muito dinheiro que vai parar em lugares surpreendentes.

— Em lugares surpreendentes? Não sei do que me fala.

— Realiza outras tarefas para o senhor Grover? Asseguro-lhe que não tem nada de mau. É policial e trabalha nem mais nem menos que para o senhor Simbister. Você não teria a culpa se pensasse que tudo é correto e legal.

— Não, não a teria! - assegurou Jones, emocionado.

— Essas outras tarefas, incluem pagar a outros por certas obras, trabalhos ou outras atividades?

Jones piscou cheio de dúvidas. Livrar-se-ia daquilo ou Tellman só jogava com ele? Movia-se entre a esperança e o terror.

O sargento adotou uma posição um pouco mais cômoda e flexionou ligeiramente os ombros.

— Senhor Jones, está comigo ou contra mim? Alguém poderia lhe pôr as coisas difíceis. Provenho das proximidades do Scarborough Street. – Na realidade não era certo, mas era uma mentira que carecia de importância. — Teria você que ir ali e notar o aroma de queimado. Ainda não retiraram os cadáveres. Asseguro que a uma pessoa lhe acabam definitivamente a vontade de comer carne assada. Jones blasfemou em voz baixa e ficou pálido.

— Não estará pensando que... ?

— Sim, faço-o. - Tellman falava absolutamente a sério. Em seu interior a ira tinha formado um rígido nó de dor. — Esse dinheiro serve para comprar dinamite. A quem o entregou?

— Ah, jamais poderá dizer que eu sou correio - gaguejou Jones. — Não sabia

— Não tinha conhecimento a que estava destinado? - concluiu Tellman. Provavelmente não sabia. — Se estiver contra esse tipo de atentados me dirá aonde levou o dinheiro, a quem o deu e tudo o que saiba. Desse modo terei provas de que você não está comprometido no que ocorreu, de que só fez um recado para alguém a quem considerava um bom homem. Entendeu-me?

— Entendido! Eu... - Voltou a engolir saliva compulsivamente. — Eu... - Tellman esperou. Jones olhou a janela alta e com barrotes, a porta metálica e de novo ao policial. Este se ergueu para retirar-se.

— Levou um montão de dinheiro ao Shadwell - explicou Jones e lhe tremeu a voz de medo. — A New Grave Lane.

— Aonde?

— À segunda casa do final da rua! Juro que...

— Que Deus o julgará - concluiu Tellman. — A quem o entregou? Se, como afirma, era uma grande quantidade, devia ter instruções precisas. Não pôde entregar a qualquer um.

— Dava-o ao Skewer! O tal Skewer é um sujeito grande e com uma só orelha.

— Obrigado. Não é preciso que continue jurando. Se me mentiu mais lhe vale lembrar do nome do verdugo. Terá que ser amável com ele para que, quando chegar seu momento, ele o seja com você.

Jones sofreu um ataque de tosse.

Tellman se lembrou do Scarborough Street e não sentiu a menor compaixão.

Saiu do cárcere e dedicou as quatro ou cinco horas seguintes a comprovar o que Jones lhe tinha contado. Não podia permitir o luxo de equivocar-se. Dirigiu-se aos arredores do Shadwell e achou New Gravel Lane. A rua era lúgubre inclusive sob o sol estival e o vento que chegava do rio era cortante. Na via fluvial se via a agitação das barcaças que se deslocavam desde o Pool of London, assim como o das gabarras, os transbordadores, os rebocadores e os navios de carga amarrados ou à espera para atracar. Seria um lugar idôneo para guardar dinamite. Constantemente entravam e saíam carregamentos de todo tipo.

Ainda não sabia o suficiente para informar ao Pitt. Só poderiam fazer uma única revista nesse lugar. Depois disto, mudariam de lugar a dinamite sem lhes dar tempo a organizar uma segunda revista. Não tinha outra opção que correr o risco de solicitar à polícia fluvial toda a informação que pudesse lhe proporcionar. Expô-lo indiretamente, como se se tratasse de uma questão de cortesia profissional.

No meio da tarde se inteirou de que uma das velhas embarcações, amarrada nas escadas de New Crane, pertencia ao Simbister e que essa mesma noite seria transladada. Surpreendeu-lhe que lhe fosse difícil havê-lo averiguado tão facilmente. Tratava-se de uma dupla e inclusive de uma tripla traição? Não havia forma de saber, mas tinha chegado o momento de reunir-se com Pitt e comunicar-lhe. Não importava que o vissem, já não era preciso ser discreto.

 

Quando por fim deu com o Pitt entre as ruínas do Scarborough Street, Tellman informou:

— O Josephine, nas escadas de New Crane, nos moles do Shadwell.

O sargento não tinha sabido onde buscá-lo porque desconhecia se Narraway tinha escritório e onde estava. Estava completamente seguro de que Thomas Pitt não estaria em casa e, pelo que tinha entendido, não estava ocupado com outra investigação. Passou pelo Long Spoon Lane, mas ali não havia ninguém, de modo que se dirigiu para o Scarborough Street.

Pitt estava cansado, sujo e coberto de cinza de tanto procurar entre os escombros. Tinham retirado grande parte dos restos. As casas pareciam ter dentes: havia paredes enegrecidas e vigas descobertas que o fogo não tinha alcançado. Os paralelepípedos estavam cobertos de telhas de ardósia quebradas e fragmentos de vidro. O ar continuava tendo o cheiro rançoso do incêndio.

— A quem pertence o Josephine? - perguntou Pitt, passou a mão pelo cabelo e manchou o rosto com mais cinza.

— Ao Simbister - respondeu Tellman. — A polícia fluvial diz que esta noite o mudarão de lugar. Não temos tempo que perder. Que busca aqui?

— Corpos de quem não residia aqui - respondeu Pitt. — De momento encontramos dois que não viviam aqui e ninguém sabe quem eram. Poderíamos relacioná-los com as explosões. - Por seu tom parecia que tivesse poucas esperanças de consegui-lo.

— Anarquistas?

— Provavelmente, embora também poderiam ter ido visitar alguém que já não está vivo para confirmá-lo. - Endireitou-se. — Se encontro o navio e ainda contém dinamite ou restos, haverá alguma prova da vinculação do Simbister?

— Sim. - Tellman lhe explicou em poucas palavras o que tinha averiguado através do Jones o Bolso. — De todo modo, vou com você.

Pitt sorriu; seus dentes contrastavam com a sujeira que cobria seu rosto.

Enquanto abandonavam juntos os escombros da casa central viram, escoltada por um agente, a elegante figura do Charles Voisey que se aproximava deles. Ao ver o Pitt apertou o passo; mal olhou ao Tellman.

— Não podemos esperar mais! Amanhã apresentarão o projeto de lei - declarou com certo desespero. À luz do sol crepuscular seu rosto parecia cansado. Tinha olheiras e podia ver-se que estava lutando desesperadamente contra a derrota. — Meu Deus, isto é espantoso!

Não voltou a cabeça para olhar as ruínas da rua, as lareiras sem teto que se perfilavam contra o pálido céu, os escombros da vida de toda aquela pessoas espalhados pelos paralelepípedos, os móveis, o equipamento, os vasilhames de cozinha, a roupa reduzida a farrapos. Por sua expressão estava claro que já tinha visto os mortos e que não queria que aquela imagem se gravasse mais profundamente em sua memória.

— Vinculamos ao Simbister a dinamite - lhe comunicou Pitt, que notou que Tellman ficava rígido ao ver que confiava no Voisey. — Irei ao Shadwell revistar a embarcação.

— Quando? - inquiriu Voisey.

— Agora mesmo.

— Não pode ir só!

— Claro que não. Acompanhar-me-á Tellman. Voisey olhou ao sargento pela primeira vez e o observou com sincero interesse. Mal tinha tido tempo de fixar-se nele quando, do outro extremo da rua, uma figura abriu caminho entre os escombros e, depois de cruzar umas palavras com o agente de polícia, abordou ao Tellman, que evidentemente tinha reconhecido.

— Senhor Tellman - disse sem fôlego. — Senhor, necessitam-no na delegacia de polícia. Produziu-se um roubo e o senhor Wetron me pediu que viesse buscá-lo. É um caso que, segundo o senhor Wetron, é muito importante para encomendar o caso ao Johnston. Ao que parece golpearam ao pobre mordomo com um objeto contundente e assustaram tanto à proprietária de casa que desmaiou.

— Stubbs, lhe diga - começou a dizer Tellman, mas calou assim que se deu conta de que estava em um apuro.

Wetron o tinha mandado chamar. Stubbs o tinha encontrado em companhia do Pitt. Mas não permitiria que Pitt fosse só aos arredores de Shadwell.

— Senhor Tellman, o que responde? - inquiriu Stubbs em tom premente. — Demorei quase uma hora para encontrá-lo!

Por que lhe tinha ocorrido buscá-lo ali? Acaso Wetron suspeitava algo? Provavelmente sabia. No olhar do Stubbs havia contrariedade e desafio. Tellman recordou que a família do Stubbs dependia do jovem, já que era o único com idade suficiente para trabalhar. Não podia retornar a casa com as mãos vazias e Wetron se aproveitava daquela situação.

— Ao que parece ocorreu algo grave - interveio Pitt com decisão. — Não perca mais tempo. Não acredito que encontremos nada relacionado com o falsificador, mas se o conseguirmos lhe farei saber.

Tellman seguiu ao Stubbs; sua figura rígida e encolerizada se fundiu com as sombras.

— Em Shadwell - repetiu Voisey. Com desagrado e olhou suas elegantes botas.   — De qualquer maneira, o sargento Tellman tem razão: não é sensato que vá só. Acredito que nos achamos ante uma dessas situações nas quais, sem dúvida, a cooperação é necessária. Não está muito longe daqui, não é?

Pitt não tinha outra saída. Fosse o que fosse o que pensava dele, Voisey não tiraria nada protegendo ao Simbister e a dinamite. Além disso, no dia seguinte apresentariam a proposta de lei.

— Adiante! - disse. Desejou que não fosse uma decisão insensata.

Sabia como chegar a New Grave Lane e no meio de Shadwell. Estava bastante perto para chegar andando se não houvesse outro remédio, já que nessa zona as probabilidades de achar um coche eram escassas. Havia três quilômetros e meio em linha reta. Percorrer as estreitas ruas com ângulos fechados lhes levaria virtualmente uma hora. Não sabia se Voisey estava acostumado a fazer muito exercício.

— Se subirmos pelo Commercial Street talvez encontremos uma carruagem -acrescentou, apesar de que duvidava de que o conseguissem.

Voisey jogou uma olhada ao barro da rua e ao céu cada vez mais escuro.

— De acordo! - exclamou e começou a caminhar sem esperar Pitt.

Encontraram uma carruagem e, ao final, demoraram menos de vinte minutos. Desceram a várias centenas de metros de New Gravel Lane e Voisey pagou ao cocheiro.

— O que fazemos agora? - perguntou e passeou o olhar pelos extensos armazéns e edifícios. As gruas se recortavam no céu, que estava totalmente escuro a não ser pelo leve resplendor das luzes. Ambos notaram o aroma salobre do rio; a umidade impregnava o ar e se aderia a sua pele. Ouviram que a água golpeava os postes dos velhos embarcadouros e salpicava a escada de pedra que descia até o rio. Também se ouvia o roçar dos barcos e os botes amarrados na margem.

— Desçamos até o rio e procuremos o Josephine - respondeu Pitt em voz baixa.— Por aqui.

— Como nos arrumaremos para ver?

Voisey o seguiu com supremo cuidado. Era difícil distinguir algo mais que perfis e na escuridão dos edifícios mal se definiam as formas. Tudo parecia mover-se ligeiramente, mas só se tratava da ilusão criada pela luz que balançava sobre a água e pelo incessante som de rangidos e destilações.

— Com fósforos - respondeu Pitt e se aproximou do velho deque e das escadas.

— Deixe de tolices, estamos procurando dinamite! - disse Voisey.

— Nesse caso teremos que ser muito cuidadosos - concluiu o investigador. Voisey amaldiçoou e o seguiu lentamente. Ao cabo de um par de minutos, Pitt acrescentou:   — Tivemos sorte, a maré está subindo.

— Qual é a diferença? - Voisey lhe pisava nos calcanhares.

— Os degraus estarão secos. - Procurou algo no bolso e tirou uma caixa de fósforos. Acendeu uma e a protegeu com a mão para evitar que se apagasse. Permaneceu acesa justo o tempo suficiente para poder ler o nome que figurava na popa da embarcação mais próxima. — Se chama Blue Betsy. Há três mais. Vamos.

— Não sabe onde está?

— Não, mas dentro de cinco minutos saberei.

Pitt desceu a escada. A água nesse instante só estava a pouco mais do meio metro sob seus pés. Parecia sólida, como metal fundido, como se se pudesse caminhar por cima até os navios atracados a uns doze metros, e que tinham as luzes acesas de posição.

O segundo navio tampouco era o Josephine. Viram-se obrigados a abordá-lo para cruzar com muito cuidado a coberta; agacharam-se, utilizaram outro fósforo que permaneceu fugazmente aceso e leram o nome da terceira embarcação.

— É o Josephine! - exclamou Pitt com satisfação.

Voisey guardou silêncio.

Pitt avançou; movia-se com muito cuidado se por acaso a madeira da coberta estivesse escorregadia. Se caía podia machucar-se ou acabar na água. O maior perigo era chamar a atenção de algum dos vigilantes das embarcações grandes.

O Josephine estava um pouco mais submerso, assim tiveram que dar um pequeno salto até a coberta. Pitt ficou engatinhando para chamar menos a atenção e para equilibrar o navio, que se balançava por causa de seu peso.

Voisey o imitou.

Avançaram sigilosamente, procuraram a escotilha e a maneira de abri-la. Era um navio muito velho; a madeira cheirava a podridão e várias pranchas estavam esponjosas ao tato. Sem dúvida não estava em condições de navegar; só era um contêiner flutuante no qual armazenavam coisas para as proteger da umidade.

A escotilha se abriu sem dificuldades. Não tinha fechadura, só um simples gancho. Pitt se surpreendeu. Acaso a dinamite já não estava ali ou possivelmente a tinham protegido com outros meios?

— O que espera? - sussurrou Voisey.

Pitt lamentou que não fosse Tellman quem o acompanhasse. A razão lhe dizia que a essas alturas, Voisey não podia permitir o luxo de traí-lo, mas a intuição insistia em que poderia fazê-lo. Decidir-se-ia a descer? De repente, as luzes trêmulas do rio, a sensação de espaço, o aroma de sal e a peixe e inclusive o fedor da lama lhe pareceram a liberdade. O ar da adega era asfixiante e despedia um ligeiro aroma químico.

Ao amparo da tampa aberta da escotilha, Pitt acendeu outro fósforo e o baixou com muito cuidado. Acontecesse o que acontecesse, embora se queimasse os dedos, não podia deixá-la cair. Reparou em que Voisey estava a poucos centímetros a suas costas.

A adega se achava virtualmente vazia. Alguns minutos depois, Pitt vislumbrou uns pacotes envolvidos e empilhados em um canto. Podiam conter dinamite ou qualquer outra coisa, inclusive jornais velhos, a julgar pelo que podia ver-se de onde estava.

— Vou descer - afirmou com voz baixa. — E você também.

— Não quer que fique aqui acima e monte guarda? - perguntou Voisey; parecia divertir-se.

— Não, não quero! - replicou Pitt. — Necessito que alguém sustente o fósforo.

Voisey deixou escapar uma risada nervosa.

— Pensei que não confiava em mim.

— E não o faço.

— Vejamos, não podemos passar os dois pela escotilha - precisou Voisey. — Alguém terá que entrar primeiro. Não tem sentido lançar uma moeda porque não veríamos de que lado cai. Dado que confio em você serei o primeiro a passar.

Voisey afastou ao Pitt e, depois de pensar uns instantes como o faria, deixou-se cair agilmente sobre o chão da adega.

O detetive o seguiu; logo se dirigiram ao canto onde se achavam os pacotes. Voisey acendeu um fósforo e o segurou enquanto Pitt os examinava. Demoraram uns segundos em comprovar que era dinamite.

— Simbister - murmurou Voisey com prazer e um ligeiro tom de surpresa.

Apagou-se o fósforo. A adega ficou totalmente às escuras. Era impossível distinguir nada, nem sequer se via o quadrado do céu através da escotilha aberta.

Então Pitt se deu conta de que a escotilha não estava aberta. Mas não tinha ouvido que se fechasse!

Voisey se achava a seu lado. Sabia porque o ouvia respirar.

— Fechou-se sozinha? - perguntou Voisey em tom vaixo, apesar de que conhecia a resposta de antemão. Em sua voz, que tentava parecer tranqüila, notava-se o medo. — Há outra saída?

Pitt pensou enquanto tentava controlar o pânico. Dado que Voisey estava a seu lado, não podia ser obra sua. Devia havê-la fechado Grover ou o próprio Simbister.

— Não - respondeu e respirou fundo. — Não há... a menos que nós a façamos.

— Que a façamos?

Houve uma sacudida, logo outra e a seguir Pitt ouviu o som da água, ligeiramente diferente o ruído da maré. Parecia proceder da outra adega. Com desumana certeza soube o que ocorria: os homens do Simbister estavam afundando o navio. Estavam dispostos a sacrificar a dinamite para acabar com seus dois inimigos mais perigosos. Tinha que tê-lo previsto. Ouviu que Voisey respirava de forma entrecortada e soltava ar entre os dentes. Também se tinha dado conta do que ocorria. O chão começou a inclinar-se sob seus pés.

— A única coisa que temos é dinamite - declarou Pitt. — Também há detonadores. Teremos que voar a escotilha e fazê-lo tão rápido quanto pudermos.

Voisey deixou escapar um ofego.

— Quantos fósforos ficam?

— Meia dúzia - respondeu Pitt. — Infelizmente não previa que ocorreria algo assim.

— Acredito que ficam três.

— Me alegro. Bem, acenda-as e as sustente para que possa ver o que faço.

Voisey obedeceu e, assim que houve uma luzinha, Pitt pôs mãos à obra: desembrulhou a dinamite, procurou um detonador e modelou a substância úmida e ligeiramente pegajosa até fazer uma tira que encostaria ao bordo da escotilha. Voisey acendeu um fósforo atrás de outra, primeiro de sua caixa e depois da do Pitt.

Este encaixou a dinamite ao redor da escotilha, colocou o detonador, soltou-o e retrocedeu, arrastando consigo ao parlamentar. O navio estava muito escorado e era claramente audível o som da água que entrava na outra adega.

Não aconteceu nada.

— Quanto falta? - perguntou Voisey com voz baixa. — Nos afundamos.

— Já sei. Teria que ter explodido! - Voisey se moveu. Pitt o pegou pelo braço e o reteve. — Fique quieto! Ainda poderia explodir!

— Não servirá de nada se não explodir em três ou quatro minutos - disse Voisey.

— Há mais detonadores - disse Pitt. — Teremos que fazer um buraco em outra parte. - Devia pensar a toda velocidade. Afundavam-se pela popa. Se provocasse uma explosão na proa, esta voaria pelos ares. Em qualquer outro lugar a água entraria e os arrastaria para o interior em vez de fora. — Na proa - afirmou e ficou em pé. — Acenda outro fósforo, tenho que ver a dinamite.

— Só ficam três - informou Voisey, mas obedeceu. — Será melhor que desta vez funcione.

Seu tom não era de crítica, mas havia ironia e temor.

Pitt não respondeu. Tinha ouvido o comentário do Voisey e preferiu pensar nisso mais que no Charlotte, seu lar, seus filhos e as frias e sujas águas do Tamisa, que se achavam a muito pouca distância. Trabalhava tão rápido como podia; sabia que uma pressa excessiva ou o menor engano significaria fracassar.

Aderiu a dinamite à parede mais próxima da adega e colocou o detonador em seu lugar.

Voisey acendeu o último fósforo e um cigarro e aspirou a fumaça. A adega ficou às escuras.

Pitt só via a luz incandescente do cigarro. Não sabia o que dizer.

— Isto durará mais que um fósforo - explicou Voisey sem alterar-se. — Coloque o detonador e siga com seu trabalho!

Pitt obedeceu com mãos trêmulas.

Voisey não deixava de dar baforadas ao cigarro para proporcionar um pouco de luz.

Pitt comprovou o detonador por última vez.

— Preparado.

Voisey aproximou a bituca à mecha. Retrocederam tanto como puderam. O navio estava tão escorado que lhes custava manter o equilíbrio. A mecha chispou. Pareceu demorar uma eternidade. Pitt ouviu uma respiração intensa. Pensou que era Voisey até que se deu conta de que era a sua. No exterior, ao meio metro e em plena escuridão, a água formava redemoinhos e rompia contra o navio.

Produziu-se um súbito e violento ruído e entrou uma baforada de ar. Ambos se viram impulsionados para trás, a seguir a água gelada os alcançou e o navio se afundava cada vez mais depressa.

Pitt se lançou para diante, para o orifício aberto na popa. Devia chegar antes de que o navio se afundasse e a água que entrava o jogasse para trás. Chegou até o bordo denteado da brecha e se aferrou a ele. Só estava trinta centímetros por cima da água. Em um instante seria muito tarde.

Impulsionou-se com todas suas forças, notou que o ar lhe golpeava a rosto e viu as luzes do rio e o céu. Voltou-se para agarrar ao Voisey, pegou-lhe a mão e o içou energicamente.

Voisey atravessou o orifício no preciso momento no qual o Josephine se afundava no rio e desaparecia. Cansados mas livres, chegaram até a escada.

 

Pitt estava sentado junto ao fogão da cozinha de sua casa. Ia vestido com a camisa de dormir e o roupão, mas ainda tremia. O chá quente o tinha reconfortado, mas a viagem na carruagem com a roupa empapada tinha durado uma eternidade, como se Keppel Street estivesse a cem quilômetros em vez de oito.

Voisey e ele mal cruzaram uma palavra assim que subiram a escada e voltaram a pisar no deque. Não havia nada que dizer, tudo estava muito claro. Direta ou indiretamente, a dinamite pertencia ao Simbister, mas o importante era que alguém tinha tentado afogá-los e tinha estado a ponto de consegui-lo.

A carruagem deixou Pitt no Keppel Street antes de seguir até a casa do Voisey no Curzon Street. Charlotte esperava Pitt na porta. Angustiada, andava de um lado a outro; estava muito pálida.

Nesse instante estava em pé frente a seu marido, olhava-o com preocupação. Pitt já lhe tinha explicado a grandes traços o ocorrido. Calar teria sido impossível; além disso, não tinha a menor intenção de ocultar-lhe. A escura adega, a sensação de impotência à medida que o navio se afundava e os sons do rio a suas redor eram coisas que jamais esqueceria, nem sequer em sonhos. Sabia que em plena noite despertaria e se alegraria de ver um pouco de luz, o brilho de uma luz através das cortinas, o que fosse. Acabava de viver a terrível sensação de ser cego, de sofrer um ataque e ser incapaz de averiguar de que direção procedia a agressão até que é muito tarde.

— Tem certeza de que Voisey não teve nada a ver? - perguntou Charlotte pela terceira vez.

— Não acredito que haja uma causa que lhe interesse tanto para morrer por ela -replicou Pitt convencido.

Charlotte não discutiu.

— Ao menos desta vez - aceitou. — E agora, o que? Já não tem a prova da dinamite. Está no fundo do rio. Pitt sorriu.

— Parece-me que está em um lugar muito seguro, não acha o mesmo?

Charlotte abriu desmesuradamente os olhos.

— Será suficiente?

— Sir Charles Voisey se converteu em um herói e é parlamentar. Suponho que aceitarão suas provas. Além disso, ainda existem os arquivos segundo os quais o Josephine pertence ao Simbister.

— E com isso o que pode demonstrar para que contribua a que se rechace o projeto? - insistiu. — Se trata de outra explosão que parece um novo golpe anarquista e que dará mais peso aos argumentos do Tanqueray.

— Se levar a prova da dita propriedade ao Somerset Carlisle e mencionar a dinamite, o Grover e o Jones o Bolso talvez seja suficiente para que alguns duvidem - acrescentou Pitt lentamente.

No calor da cozinha, de repente se sentiu terrivelmente cansado. Notou o esgotamento em todo seu corpo; já não podia pensar com clareza. As decisões não estavam tão claras.

— Não confie no Voisey - o apressou Charlotte. — Ainda pode traí-lo.

Charlotte se tinha inclinado ligeiramente e lhe tinha pego a mão.

— Não é necessário que confie nele. Quer o mesmo que eu: que não se aprove o projeto de armar à polícia. Já sei que é por razões diferentes, mas isso agora não tem importância. - Bocejou sem poder conter-se. —Desculpe.

Charlotte se ajoelhou ante seu marido e o olhou no rosto.

— Vá para a cama. Deve descansar. - A emoção lhe quebrou a voz. — Agradeço imensamente a Deus que esteja a salvo. Não quero pensar no perto que esteve de morrer afogado; não poderia suportá-lo. Thomas, ainda tem a prova de que a irmã do Voisey esteve implicada no assassinato do reverendo Raspa? Se fosse necessário, poderia obter que a condenassem por essa morte?

— Não.

Pitt se esforçou por conservar a lucidez. Observou o rosto sincero de sua esposa, tão próximo ao dele, seu cabelo sedoso e seu olhar preocupado. Notou o calor de sua pele e um tênue aroma de lavanda e a sabão. Deu-se conta de que a emoção o embargava. Tinha estado a ponto de perder tudo: essa estadia, o aroma de comida e a roupa limpa, a velha baixela no aparador; aquilo era seu lar. Sobre tudo, Charlotte; importava-lhe mais que nada.

— Disse que não? - a mulher estava assustada e Pitt o notou em seu tom de voz.— Por que? O que acontece com a prova? Em seu momento disse que era válida!

— E é. - Pitt piscou e fez um esforço por permanecer acordado. — Mas não poderia obter que a condenassem porque, se quiser que lhe seja sincero, não acredito que essa mulher soubesse que a comida o envenenaria.

— Não é essa a questão! - A mulher fazia impetuosos esforços para não perder a paciência. — Não o fará, mas poderia fazê-lo! A prova continua sendo válida. Afinal, administrou-lhe o veneno!

— Acredito que não sabia.

Pitt tinha enormes dificuldades para manter os olhos abertos.

Charlotte se endireitou.

— Isso não importa. Onde está?

— O que disse? Onde está o que? – deu-se conta de que sua esposa se referia à prova. — Está na cômoda do dormitório, a salvo. Não sofra. Não direi ao Voisey onde está nem que me absterei de usá-la.

Francamente, achava que Voisey já sabia, mas não estava totalmente certo.

— Vá para à cama - repetiu Charlotte com doçura. — Esta noite não importa. Vamos.

Então lhe ofereceu as mãos como se fosse ajudá-lo a ficar em pé.

Pitt se esforçou para levantar-se. Tinha se esquentado e a idéia de meter-se na cama lhe pareceu muito agradável.

 

Pela manhã, Pitt demorou para sair do Keppel Street. Despertou às nove e meia. Lavou-se, vestiu-se, tomou o café da manhã depressa e às dez e dez se dispôs a reunir provas para demonstrar que Simbister era o proprietário do Josephine.

Assim que Pitt se foi, Charlotte também abandonou a casa, mas em direção contrária. Pegou uma carruagem para dirigir-se ao Curzon Street e deu ao cocheiro o endereço de Voisey. Esperava que ainda não partira ao Westminster. Dado que a Câmara não se reunia até a tarde, havia muitas probabilidades de que ainda estivesse em casa. Além disso, tinha a esperança de que os acontecimentos da véspera o tivessem deixado tão esgotado como ao Pitt e a ela mesma. Claro que cabia a possibilidade de que tivesse ido cedo ao Parlamento com a intenção de reunir-se com outros representantes antes da sessão, apesar de que era possível que eles também chegassem tarde. Só eram onze menos quarto, mas não tinha podido sair antes.

Apesar de seu coração pulsar acelerado, armou-se de coragem para parecer segura quando o criado abrisse a porta.

— Bom dia, senhora - saudou amavelmente; sua voz revelou certa surpresa.

— Bom dia - respondeu Charlotte. — Sou a senhora Pitt. Sir Charles conhece meu marido. Ontem de noite se viram metidos em um assunto muito importante. Ao final correram um grave perigo e tenho certeza de que, ao chegar a casa, sir Charles estava esgotado e morto de frio. - Deu essa explicação para que o criado comprovasse que dizia a verdade a respeito de conhecer Voisey. — A situação requer que, em caso de que seja possível, fale com sir Charles antes de que se desloque ao Westminster. Espero não ter chegado tarde.

O rosto do criado já não mostrava desconfiança; em realidade, era quase amistoso.

— Certamente, senhora Pitt - respondeu amavelmente. — Foi um fato terrível. Espero que o senhor Pitt tenha se recuperado.

— Obrigada, está perfeitamente.

— Se tiver a amabilidade de entrar, avisarei a sir Charles de que veio. Neste momento está tomando o café da manhã. - Retrocedeu e abriu a porta de par em par para que Charlotte entrasse.

— Obrigada.

Esta o seguiu pelo corredor até uma saleta simples mas muito agradável. Olhou interessada a seu redor. Algo que averiguasse a respeito do Voisey poderia ser valioso. Havia várias fotografias em uma pequena mesa de mogno situada em um canto; em uma delas se via um homem arrumado com uniforme militar e, a seu lado, uma mulher que, a julgar pela pose, era sua esposa. Pareciam rondar os cinqüenta e cinco anos e, dada a roupa que levavam, a fotografia devia haver-se tomado por volta de 1860. Seria dos pais do Voisey?

Passeou rapidamente o olhar pelos volumes de uma estante com portas de vidro. Eram tomos soltos e velhos, não eram coleções, e algumas encadernações estavam desgastadas. Deduziu que se compraram de um em um, para lê-los, em lugar de em bloco, só para decorar a estadia, como faziam algumas pessoas. Os títulos eram variados, mas a maioria pareciam estudos históricos, principalmente a respeito do Oriente Próximo e o norte da África, e também da origem das civilizações da Antigüidade. Havia histórias do Egito, Fenícia, Pérsia e o que antigamente tinha sido Babilônia. Surpreendeu-se ao ver que na estante seguinte havia poesia e várias novelas, incluídas traduções do russo e do italiano, assim como poesia e filosofia alemãs. Os livros eram do Voisey ou tinham pertencido a seu pai?

O que sabia realmente do Charles Voisey? O que se escondia atrás de sua ânsia de poder?

Na realidade, não lhe importava. Nada justificava que tivesse ameaçado ao Pitt. Podia inclusive compadecer-se dele, o que não era de todo inconcebível, mas de qualquer maneira faria quanto estivesse em suas mãos para proteger a seus seres queridos.

Abriu-se a porta e Voisey entrou. Estava pálido e esgotado. Barbeado e vestido corretamente, mas não mostrava sua compostura habitual.

— Bom dia, senhora Pitt - saudou e fechou a porta.

Uma sombra de ansiedade cruzou seu rosto quando escrutinou o olhar e a expressão da visitante. Charlotte se deu conta de que Voisey temia que ao Pitt tivesse se passado algo, sobre tudo porque ainda o necessitava.

— Bom dia, sir Charles - respondeu. — Espero que tenha conseguido conciliar o sono depois da terrível experiência vivida.

Pareceu que Voisey se relaxava um pouco. Não sabia o que queria essa mulher, mas era evidente que não estava ali para lhe dar a notícia de uma nova tragédia.

— Sim, obrigado. Como está o senhor Pitt?

Aquela era uma conversa absurda. Momentaneamente, converteram-se em aliados, mas no fundo seguiam sendo inimigos encarniçados. Pitt podia destruir ao Voisey e se alegraria de vê-lo entre grades durante o resto de sua vida ou inclusive pendurado da forca. Voisey não teria duvidado em assassinar ao Pitt com suas próprias mãos se pudesse fazê-lo sem ser descoberto. Tinha estado atrás do que não só parecia um atentado contra Charlotte, mas contra seus filhos e Gracie.

— Cansado, mas notavelmente recuperado. Suponho que meu marido não esquecerá que permaneceu apanhado nesse navio enquanto a água entrava em torrentes. Imagino que você tampouco.

— Certamente que não. - Apesar do esforço por manter a calma, Voisey estremeceu ligeiramente. Uma fugaz careta de contrariedade cruzou seu rosto porque se deu conta de que Charlotte o tinha notado. — Senhora Pitt, no que posso ajudá-la?

Charlotte ainda não estava preparada para abordar o tema de forma tão direta.

— Sir Charles, como está sua irmã? Lembro dela como uma pessoa muito encantadora e muito independente.

A expressão do Voisey transmitia calidez e certa relaxação apesar do cansaço e a preocupação por saber as razões pelas que a mulher se apresentara em sua casa.

— Está bem, obrigado. Senhora Pitt, por que me pergunta isso? Suponho que não veio a minha casa a esta hora para perguntar por meu bem-estar ou o de minha irmã.

Charlotte sorriu. Tinha conseguido confundi-lo, embora só fosse um pouco.

— É possível que, indiretamente, assim seja. Minha pergunta tinha um sentido.

— Certamente. - Voisey se mostrou cético.

— Me alegro muito de que sua irmã esteja bem - prosseguiu. — Espero que seja feliz.

A irritação do Voisey aumentou. O sorriso do Charlotte se esfumou.

— Sir Charles, o propósito de minha visita é lhe deixar claro que o bem-estar de sua irmã depende do de meu marido. Sei que é pouco delicado expô-lo tão bruscamente, mas me dei conta de que meus rodeios lhe têm feito perder a paciência. - Viu surpresa no rosto do Voisey, assim como uma momentânea incompreensão. — Suponho que não se esqueceu do reverendo Raspa. Era um homem extraordinário e muito apreciado. - Sustentou o olhar do Voisey com atitude firme e resolvida. Entre eles já não havia simulações. — Sua morte foi uma tragédia. No que se refere à senhora Cavendish, suponho que o veredicto de morte acidental poderia ser adequado, ao menos moralmente. Não pretendeu envenená-lo. Mesmo assim, existem provas de que o fez, ao menos de um ponto de vista legal. Evidentemente há diversas cópias dessa prova. Seria muito insensato que só houvesse uma. Todas elas seguirão em seu lugar enquanto Thomas e minha família, que também inclui Gracie, estejamos bem. Se nos ocorresse algo, embora parecesse um acidente, a prova acabaria em mãos da pessoa que corresponda, que certamente se ocuparia de que todo o peso da lei lhe caísse em cima. – Voisey a olhou, surpreso. — Não acredite que não a utilizarei. Não tenho o menor desejo de me vingar da senhora Cavendish. Na realidade, parece-me mais que provável que não envenenasse intencionalmente ao reverendo Raspa, mas durante um julgamento lhe seria difícil demonstrá-lo, talvez impossível. E nesse caso acabaria na forca. - Empregou a palavra deliberadamente e pôde ver como empalidecia Voisey. — Sir Charles, asseguro-lhe que quero a minha família tanto como você à sua. Não duvidarei em utilizar a prova se fizer mal a meu marido ou a qualquer outro membro de minha família. - Confrontou firme e impassivelmente o olhar do parlamentar.

Fez-se um profundo silêncio entre eles. Charlotte não desviou o olhar.

— Senhora Pitt, não acredito que a utilize - declarou por último Voisey.

— Está muito equivocado! - Charlotte deixou que a paixão e a certeza se notassem em sua voz. — O farei!

Voisey esboçou um sorriso.

— Se eu fizer mal ao Pitt e você destrói a minha irmã, o que ficará para proteger-se a si mesmo e a seus filhos? E terá que proteger-se porque, sem você, as crianças não sobreviveriam. - A mulher sentiu que lhe gelavam as entranhas; ficou paralisada.     — Senhora Pitt, é possível que fale irrefletidamente, mas não é tola. Fará o que tenha que fazer para proteger a seus filhos. Não duvido de sua valentia nem de sua vontade, mas também sei que conhece qual é a realidade. Não destruirá a minha irmã enquanto tenha a alguém a quem proteger. - Inclinou ligeiramente a cabeça. — Quer que a acompanhe à porta? Pedirei a meu lacaio que lhe chame uma carruagem.

Charlotte sentiu que lhe dava voltas a cabeça. Voisey estava certo e ambos sabiam. Não tinha sentido discutir. Devia lhe responder algo e ir-se.

— Não, obrigada. Chamarei uma carruagem quando quiser.

Devia acrescentar que também existiam os falatórios, os rumores que podiam ferir sem matar ou isso o levaria a pensar nas maneiras nas que podia fazer mal ao Pitt, ao Daniel e a Jemima e inclusive ao Tellman?

Voisey seguia esperando.

Charlotte chegou à conclusão de que era melhor guardar silêncio. Voltou-se e cruzou a soleira com o Voisey lhe seguindo dois passos mais atrás. Lhe desejar um bom dia seria grotesco.

Chegou à porta, saiu à rua iluminada pelo sol sem voltar a vista atrás e se afastou depressa.

Ao cabo de dez minutos achou uma carruagem, deu ao condutor os o endereço de tia Vespasia e se recostou no assento. Estava tremendo depois de seu enfrentamento com o Voisey e não tinha a menor intenção de que Pitt se inteirasse jamais. Havia algumas coisas, pouquíssimas, que era mais sensato não compartilhar. Essa aprendizagem fazia parte do processo de amadurecer.

Chegou a casa da Vespasia, pagou ao cocheiro e bateu na porta. Estava decidida a ver sua tia ou a esperar sua volta no caso de que tivesse saído.

Teve sorte. Vespasia não só estava, mas sim pareceu encantada de vê-la. Quando chegaram ao gabinete que dava ao jardim e a criada se retirou, Vespasia a observou, preocupada.

— Querida, está muito pálida. Ocorreu algo?

Charlotte não podia lhe falar de seu encontro com o Voisey. Estava assustada. O escudo no qual tinha confiado se desfez em suas mãos. Não só se sentia vulnerável, mas estúpida. Ainda não tinha assimilado a situação nem elaborado um plano para resolvê-la. Pensou que bastaria contar a Vespasia a aventura do Pitt no Josephine, pelo que a explicou com todos os detalhes que conhecia.

— Thomas já se recuperou? - perguntou Vespasia, inquieta.

— É possível que tenha pilhado um resfriado e estou certa de que, durante uma temporada, sofrerá pesadelos, mas está ileso. Voisey também, o qual é uma sorte porque ainda o necessitamos. - Pensou que não lhe tinha tremido a voz quando pronunciou seu nome. — Pelo que me disseram, esta tarde o projeto voltará a apresentar-se no Parlamento. Contará com muitos apoios depois do atentado do Scarborough Street.

— Receio que tem razão - reconheceu Vespasia, contrariada. — Só podemos esperar que o senhor Wetron se veja favorecido pelos acontecimentos.

— Só? - inquiriu Charlotte. — Me parece horroroso!

Vespasia a olhou sem alterar-se.

— Querida, o pior é que ele é o causador desses fatos, e que isso o converte em alguém temível. Um homem capaz de fazer explodir uma bomba em uma rua cheia de pessoas carece de limites morais. Matará sem pensar duas vezes, não só a seus inimigos, mas também a homens e mulheres comuns cuja única relação com sua ambição é que sua morte o beneficia. Peço a Deus que Thomas possa demonstrar que há uma conexão entre o navio e a dinamite e, em última instância, Wetron. – Seu tom revelava sua profunda emoção. Permaneceu sentada muito reta, como sempre, mas seu corpo estava muito tenso. — Faz alguns dias que não falo com o Thomas – acrescentou com seriedade.— Aumentaram as probabilidades de descobrir quem matou ao Magnus Landsborough? -Expôs isso como se fosse algo secundário, mas suas mãos aferraram o delicado tecido da saia.

Com compaixão e sentimento de culpa, Charlotte viu que Vespasia estava muito preocupada com esse assunto. Quase tinha esquecido que Magnus era o único filho de um dos amigos da Vespasia, alguém de quem tinha estado muito perto em sua juventude e talvez mais tarde, em anos menos ditosos.

— Não - respondeu com grande delicadeza. — Salvo que, pelas provas, acredita que teve que ser alguém a quem Magnus conhecia bem. Suponho que se refere a outro dos anarquistas. Parece uma monstruosidade tratando-se de uma pessoa que, em princípio, lutava pela mesma causa.

Vespasia permaneceu em silêncio.

Charlotte observou seu belo rosto de maçãs altas e viu temor. Seria intrometida se o expusesse e desconsiderada se não o fizesse? Preferiu julgar erroneamente que pecar de covardia.

— Se preocupa que tenha sido um membro de sua família?

Vespasia se voltou para sua sobrinha e empalideceu mais se pudesse.

— É o que pensa Thomas?

A situação não permitia falsos consolos, só franqueza.

— Não o disse, mas devia tê-lo matado alguém que sabia que utilizavam a casa do Long Spoon Lane, já que o esperaram ali. Quem quer que fosse só assassinou ao Magnus, quando poderia ter acabado facilmente com os três anarquistas. E se por acaso fosse pouco, escapou.

Vespasia olhou para outro lado.

— É o que temia; foi uma questão pessoal, não teve nada que ver com a política nem com a luta pelo poder entre os anarquistas.

Só havia um comentário que fazer e Charlotte não quis evitá-lo:

— É possível que o matasse seu pai? - perguntou em um sussurro.

Ambas conheciam os motivos pelos que um homem cometeria semelhante ato: para evitar a desonra que mancharia a toda sua família e por temor a que a violência fosse maior na vez seguinte.

— Não sei - reconheceu Vespasia. — É uma... se trata de uma idéia espantosa. Se eu fosse homem e um filho meu se propor voar casas com dinamite, pensaria que minha responsabilidade é impedi-lo. Não sei o que faria. Uma coisa é sabê-lo e outra muito diferente atuar. Não sei como reagiria. - Uma sombra obscureceu seu rosto.   — Freqüentemente meus filhos enfrentaram a mim; discordei, desaprovei suas convicções e me opus ao que faziam, mas jamais temi que cometessem assassinatos. Se ocorresse algo semelhante e o tivesse sabor de ciência certa, não sei como reagiria.

— Quem mais pôde fazê-lo?

Charlotte se tinha dado conta de que abster-se de expô-lo não serviria de nada e que devia confrontá-lo. Vespasia franziu o cenho.

— Vi muito perturbada Enid, a irmã do Sheridan, como se estivesse inteirada de algo mais trágico que a morte do Magnus.

— Enid? - perguntou Charlotte, desconcertada. — Como teria conseguido chegar ao Long Spoon Lane e atirar em Magnus? Parece impossível.

— Não tenho a menor idéia - reconheceu Vespasia. — Cordelia é a pessoa da que menos me custaria acreditar que tem a decisão e a coragem para fazê-lo, mas não acredito que tivesse a capacidade de levá-lo a cabo, por muito que soubesse o que Magnus se propunha. Pelo que estou certa é de que não lhe diria nada.

— Lamento-o - disse Charlotte amavelmente.

Não pediu desculpas porque Pitt tivesse que investigar a verdade, conduzisse-o onde o conduzisse ou o levasse a pôr ao descoberto outras tragédias. Ambas sabiam perfeitamente.

— Cordelia me convidou a visitá-la de novo dentro de uns dias - disse Vespasia ao cabo de uns segundos. — Acredito que irei esta mesma tarde, imediatamente depois de comer.

Charlotte se surpreendeu.

— Convidou a sua casa? É possível que, depois de tudo, tenha-te pego carinho?

O olhar da Vespasia se encheu de irônica diversão.

— Não, querida, não me pegou carinho. Na terça-feira lady Albemarle dá um jantar. Convidou-me porque deve acreditar que não aceitarei. Suponho que Cordelia não está convidada, mas deseja que eu encontre a fim de exercer toda a influência que possa em favor do projeto. Terá que engolir uma enorme e incômoda ração de orgulho e me pedir isso e ver como o faz será todo um prazer. - Comentou-o em tom ligeiro, mas sua expressão não era de agrado. Charlotte se deu conta de que, embora falasse da Cordelia, tia Vespasia pensava em Sheridan. — Quer ficar para almoçar?

— Sim, eu adoraria. Muitíssimo obrigada - aceitou Charlotte sem vacilações.

 

Vespasia se vestiu de uma cor cinza lilás muito escura. Era um tom que, no caso da seda, recordava um céu crepuscular. Assentava-lhe francamente bem, e ela sabia. Não se tratava de vaidade. Também sabia que algumas cores não iam bem, como o laranja, o dourado e os marrons. Quanto mais difícil era a tarefa que a aguardava, mais importante era mostrar seu melhor aspecto.

Embora chegasse a casa dos Landsborough sem anunciar-se, o criado a fez entrar imediatamente. Devia ter essas instruções. Era primeira hora da tarde; talvez fosse muito cedo para uma visita, mas era perfeitamente aceitável no caso de uma boa amiga.

A família acabava de levantar-se da mesa e se reuniu no gabinete. Vespasia não se surpreendeu ao ver que também estavam Enid e Denoon. Dadas as circunstâncias esperava encontrá-los ali. Sheridan Landsborough ficou em pé para recebê-la e os outros a saudaram amavelmente.

— Vespasia! - exclamou Sheridan com calidez, embora com uma careta de ansiedade. Ainda estava muito tenso e bastava olhá-lo para saber que mal tinha conciliado o sono. — Como está?

Pela expressão do Sheridan ficou claro que não sabia que Cordelia lhe tinha pedido que a visitasse.

— Bem - respondeu e com o olhar lhe transmitiu que estava preocupada com ele. Perguntar-lhe como se achava seria fingir não ver sua evidente dor.

Denoon se levantou justo o suficiente para não ser descortês.

Cordelia se adiantou com o queixo alto.

— Me alegro de que tenha vindo - afirmou; tentou dar calidez a seu tom mas sem êxito. Estava impecável, com um vestido negro de seda e um colar de contas de azeviche tão discretas que devia se olhar duas vezes para as ver. Estava bem penteada e, apesar das mechas grisalhas de suas têmporas destacarem-se dramaticamente, sua pele tinha um tom de papel sujo, pelo que parecia manchada, muito magra e estirada onde não correspondia. — Quero te pedir um favor.

Vespasia sorriu. Soube que o último comentário ia dirigido ao Denoon, já que seu olhar de contrariedade ao voltar a vê-la tão cedo era uma extraordinária falta de tato nessas circunstâncias.

Denoon abriu desmesuradamente os olhos.

— Fá-lo-ei encantada - respondeu Vespasia sem alterar-se. Inclinou a cabeça para Enid, que respondeu com um meio sorriso; sentou-se na poltrona que Cordelia indicou e se acomodou as saias com graça natural. — No que posso lhe ser útil?

— Necessitamos toda a ajuda possível - declarou Cordelia com sinceridade. — A lorde Albemarle o escutarão com muito respeito.

Sheridan se agitou ligeiramente em sua cadeira com um imperceptível gesto de aborrecimento.

Cordelia se esticou, mas não olhou a seu marido. Vespasia deduziu que esta já lhe tinha pedido que falasse na Câmara dos Lordes e utilizasse o afeto que ao longo dos anos tinha conquistado graças a sua honradez e encanto. Se apelando a sua dor modificava suas perspectivas liberais, Sheridan ganharia o apoio de muitos representantes, talvez da maioria dos parlamentares.

Mas ela sabia que Sheridan não o faria. Não precisou ver o gesto de seu amigo, seu ligeiro estremecimento de desagrado ou a ira mal contida de Cordelia para sabê-lo. Sua esposa o desprezava por sua covardia. Sheridan se mantinha fiel a seus princípios e indiferente ao que pensasse Cordelia. Nem a perda nem o ultraje ante a injustiça cometida contra ele o levaram a ficar contra o que considerava correto.

Vespasia teria gostado de expressar com palavras seus sentimentos, mas era um luxo que pagaria muito caro. Devia jogar a partida conforme lhe chegavam as cartas.

— É claro que o escutarão - confirmou, como se não tivesse sido testemunha das emoções que trocaram, do mau humor crescente do Denoon nem da fúria de Enid, que lhe era impossível compreender. Esta última emoção foi a que mais a desconcertou. Não afastou o olhar de Cordelia. — Lady e lorde Albemarle me convidaram para jantar na terça-feira. Suponho que, por causa do luto, não irá. - Foi um presente à vaidade da Cordelia; um mês antes, não o teria feito. A Cordelia jamais haveriam convidado e ambas sabiam.— Parecer-lhe-ia útil que aceitasse o convite? Estou certa de que lady Albemarle me permitirá trocar de parecer. Verá, recebi-a faz tempo e desculpei minha presença. Não terei dificuldades para justificar uma mudança de opinião. Faz muitos anos que somos amigas. Provavelmente não acreditará em nenhuma das desculpas que lhe dê, mas tampouco lhe importará.

— Não lhe importará? - perguntou Denoon com frieza. — Dá muitas coisas por certas. Eu me ofenderia se recusasse meu convite para jantar e no último momento pedisse que a aceitasse. Não podemos nos permitir o luxo de ofender a lady Albemarle.

Enid se ruborizou, envergonhada.

Vespasia olhou a seu cunhado e arqueou ligeiramente as sobrancelhas.

— Diz isso a sério? Então menos mal que entre você e eu não ajaá uma relação de amizade, que você e eu não sejamos amigas ou que não o sejam lady Albemarle e você.

Enid ficou de costas e espirrou ou ao menos isso pareceu.

Denoon se enfureceu.

— Lady Vespasia, parece-me que não se faz consciente da gravidade da situação! Não se trata de um jogo de salão. Viu o que há em jogo. Nas explosões do Scarborough Street morreram mais de seis pessoas.

— Oito, para ser exata - acrescentou Vespasia. — Senhor Denoon, me alegro de que tenha puxado o assunto, porque além disso há muitas pessoas que ficaram sem lar. Pelo que soube, o último cálculo sobe a sessenta e sete, sem incluir as vinte e três do Myrdle Street. Criei um fundo, a maior parte do qual já se repartiu, para lhes proporcionar refugio e alimento até que estejam em condições de organizar sua vida de novo. Estou convencida de que gostaria de contribuir, tão pessoalmente como através de seu jornal. - Vespasia não o expôs como uma proposta, não lhe deixava saída.

Denoon aspirou ar, surpreso.

— Certamente que colaboraremos - interveio Enid sem dar tempo a que seu marido tomasse a palavra. — Tomara me tivesse ocorrido. Amanhã a primeira hora enviarei um criado com meu donativo.

— Obrigada - disse Vespasia sinceramente.

Se tempo atrás as circunstâncias tivessem sido diferentes, provavelmente Enid lhe teria se agradado. Vespasia sempre tinha acreditado que esta a desaprovava e que nem sequer tinha sido capaz de ver sua solidão. Nesse momento Vespasia se deu conta de que tinha sido muito tola e que tinha estado muito encerrada com sua dor, pelo que pensava que ela era a única pessoa que sofria tanto física como emocionalmente. Enid devia haver sentido mais ou menos o mesmo e possivelmente coisas piores, mas seguia ali, talvez acostumada às cadeias, mas não por isso menos doída.

Vespasia se deu conta de que sorria a Enid, como se por um instante só existissem elas duas.

Denoon rompeu bruscamente o feitiço e se ofendeu por aquela exclusão, apesar de que nem sequer sabia do que lhe excluía.

— No suposto de que se apresente a oportunidade de falar com ele, o que exporá a lorde Albemarle? - quis saber. — Suponho que não lhe pedirá dinheiro.

Sheridan ficou em pé.

— Edward, é muito desconsiderado. O que faça ou diga em sua casa é teu assunto, mas na minha terá que ser amável com meus convidados, sejam ou não seus amigos. - Parecia cansado, doído, farto e demonstrava um profundo desdém pelo Denoon.

Este ficou como um tomate e se lançou sobre seu cunhado:

— Sheridan, o que acontece é muito importante para que nos ocupemos das delicadezas da aristocracia. Não podemos nos permitir o luxo de deixarmos vencer por caprichos, vaidades ou o desejo de que nos vejam fazendo o bem. Os donativos são muito positivos e permitem que nos sintamos melhor e sejamos publicamente admirados, mas não resolvem o problema. Não impedem que volte a explodir uma bomba nem apanham a um anarquista. Necessitamos apoio parlamentar. Precisamos leis mais firmes e homens valentes e decididos nos postos de poder, dos que possam fazer o bem. - Olhou a Vespasia com indiferença, como, se fosse uma criada. — Não pretendo ofender a lady Vespasia, mas estamos ante um assunto muito sério. Aqui não há espaço para aficionados e diletantes. É muito importante. Necessitamos ao Albemarle. E necessitamos a você, Sheridan! Por amor de Deus, deixa de sentimentalismos e some-se à batalha!

Talvez sem dar-se conta, Denoon deu um passo para a Cordelia e se aliou com seus sentimentos, que embora não tinha expresso com palavras desde a chegada da Vespasia, eram evidentes em sua expressão.

Sheridan olhou ao Denoon e não fez caso das três mulheres.

— Edward, é um insensato - declarou penalizado. — Um homem estúpido com tanto poder como o que tem é bastante perigoso para assustar a qualquer um com dois dedos de testa. É evidente que não sabe como funcionam as negociações políticas. Bastará uma só palavra da Vespasia para que lhe abram ou lhe fechem as portas de Londres. Um insulto, um gesto insensível e todo o dinheiro que tem não lhe servirá de nada. Edward, também é necessário se agradar, algo que não pode impor nem comprar.

Denoon seguia ruborizado e não achava palavras para defender-se. Ficou mudo; por fim, Sheridan lhe tinha pago com a mesma moeda. Evidentemente não o esperava.

Cordelia manteve a compostura. A ira alterou sua expressão, mas continuava preocupada, acima de tudo, pela causa.

— Peço desculpas em nome de meu cunhado - disse a Vespasia. — É a ignorância o que o levou a ser tão descortês. Está tão preocupado pelo perigo de uma violência ainda maior que... embora, obviamente, isso não o justifica.

Vespasia pensou em guardar silêncio até que Denoon se desculpasse. Teria sortido o efeito desejado. Sheridan haveria feito o mesmo. O teria compreendido, mas não teria admirado a atitude da Vespasia, por muito justificada que estivesse. Tampouco teria gostado. Teria sido um ato de vaidade de sua parte. Estava mais interessada em sua própria causa, em impedir o projeto de lei, e talvez também em conseguir essa dignidade interior que está acima de cobrar qualquer dívida.

— Neste caso a necessidade de triunfar é muito mais importante que nossos sentimentos individuais - declarou com recato. — Devemos superar nossas diferenças e fazer unicamente o que favorece nossos propósitos. Estou certa de que um discreto comentário a lorde Albemarle dará seus frutos. Sua influência é muito maior do que se supõe. Falarei encantada com ele se for o que desejam ou não o farei, conforme decidam.

Enid a olhou com expressão insegura e de desconcerto.

— Obrigada - declarou Cordelia com franca gratidão.

Sheridan se relaxou.

Aguardaram a que Denoon tomasse a palavra.

— É claro - aceitou a contragosto, — desde que não for quão único façamos. Esta tarde terá lugar a segunda apresentação do projeto. Os anarquistas seguem em liberdade e a cada dia que passa se tornam mais violentos. A polícia não pode pôr fim a suas atividades porque não lhe demos o poder necessário. Poderiam voltar a cometer um atentado antes de que lorde Albemarle exerça sua influência. Quantas pessoas mais voarão pelos ares? Quantas ruas mais se incendiarão? É possível que a próxima vez os bombeiros não possam apagar o fogo antes que se propague. Teve isso em conta? A Brigada Especial não serve de nada. O que conseguiu? Pôs entre grades a um par de malfeitores de pouca subida e assassinado a um jovem! Só Deus sabe por que ou quem o fez.

Sem querer, Vespasia olhou ao Sheridan e em seguida se arrependeu. Era um intrometimento. Seu rosto refletia uma pena profunda e dolorosa. Não era um sentimento de culpa, senão a dor de não ter podido evitar que seu filho seguisse o equivocado caminho da violência.

Apesar de seu profundo desejo de descartá-la, voltou a pensar na possibilidade de que Sheridan tivesse matado ao Magnus para não ver que caía ainda mais baixo. Talvez o tinha feito para antecipar-se ao verdugo e à dor imensamente mais profunda que teriam suposto uma detenção e um julgamento. Depois se teriam passado os dias e as noites de horror, à espera da inevitável manhã em que iriam buscá-lo, levar-no-iam a forca, tampar-lhe-iam a cabeça com o capuz, acionariam a alavanca e cairia no vazio.

Podia compreender que um único disparo na nuca parecesse muito mais clemente. Teria feito isso, Sheridan? Fossem quais fossem os pecados do Magnus, Sheridan queria a seu filho e a dor daquela situação estava profundamente gravada em seu rosto.

— Não sabemos quem são, que conexões têm, nem sequer a que aliados estrangeiros poderiam apelar dos anarquistas - prosseguiu Denoon, sem ter em conta o sofrimento de Sheridan, embora talvez nem sequer lhe importasse. — Os perigos são terríveis. Não devemos subestimá-los. Por muito difícil que nos resulte, nosso dever é...

— Fala como se os anarquistas estivessem unidos - o interrompeu Cordelia. — Não acredito que devamos dar por certo que o estão.

Denoon se mostrou contrariado.

— Não entendo o que quer dizer. Desconheço se estiverem ou não unidos, o único que me interessa é me desfazer deles.

— Por muito equivocados que fossem seus objetivos, meu filho estava com eles. - A voz da Cordelia soou tensa e emocionada. — Alguém o matou. Quero saber quem foi e vê-lo enforcado.

Vespasia voltou a temer que o assassino do Magnus fosse Sheridan. Era uma possibilidade mais que factível, inclusive parecia lógica. Apressou-se em pensar em como podia protegê-lo. O que podia fazer para evitar que se inteirassem, incluído Pitt?

Viu que Enid também olhava atentamente ao Sheridan, como se tivesse o mesmo temor. O que sabia? O que podia saber, a menos que ele o tivesse contado? Sheridan teria sido capaz de dizer-lhe, de pôr semelhante peso sobre seus ombros? Enid o tinha deduzido? Conhecia-o tanto para que ao Sheridan fosse impossível guardar o segredo?

Vespasia pensou que já não era o homem que tinha conhecido, com o que tinha falado de coisas insignificantes, brincado, compartilhado anedotas divertidas, excentricidades que faziam interessantes as coisas mais simples, prazeres como um passeio sob a chuva ou comer pães-doces junto ao fogo. Nada disso importava; só era uma forma de manter a distância à solidão, compartilhar coisas superficiais para que o importante fosse passível. Tinha que ver com a amizade, que compreende sem necessidade de palavras.

Vespasia se perguntou se esse homem teria sido capaz de matar a alguém pelas razões que fossem. Não soube a resposta. O tempo, a dor e o amor o mudam tudo. Entretanto, continuava pensando que Cordelia era uma pessoa capaz de matar para salvar-se a si mesma, sua honra e sua reputação. Seu coração era duro. A quem podia ter utilizado para que apertasse o gatilho? Quem lhe devia ou a temia tanto?

O que sabiam Enid ou o lacaio no qual, ao parecer, tanto confiava?

— Nós gostaríamos que enforcassem a todos os anarquistas - afirmou Denoon de repente. — As razões não me importam. - Não olhava ao Sheridan, mas a Cordelia. — Por mais que o desejemos, saber do que é culpado cada um deles é algo que talvez não possamos conseguir.

— Provavelmente - reconheceu Cordelia com frieza. — De todo modo, tentá-lo-ei!

A expressão do Denoon se tornou lúgubre.

— Não lhe aconselho isso. Pode ser que haja coisas de Magnus que preferiria desconhecer, para não falar de que se fizessem públicas na sala de um tribunal. Deveria refletir a fundo antes de trazer a luz questões cuja natureza ou profundidade desconhece.

Cordelia o olhou com desprezo e seu rosto pareceu de pedra.

— Edward, sabe algo que eu desconheça a respeito da morte de meu filho?

— É claro que não! - respondeu Enid desesperadamente e se levantou pela metade. Fazia deliberados esforços para não olhar a Sheridan. — Que absurdo! Cordelia, parece-me que a dor a fez perder a perspectiva.

— Justamente o contrário! - replicou Cordelia. — A dor me fez recordar muitas coisas que jamais devia esquecer!

— Todos sabemos muitas coisas. - Imperturbável, Enid sustentou o olhar de sua cunhada e a olhou quase sem piscar e com o corpo rígido. — É melhor guardar silêncio sobre muitas coisas para viver em paz. Estou certa de que, se refletir, concordará comigo.

Cordelia se ruborizou, mas a cor abandonou rapidamente suas faces e voltou a ficar pálida. Voltou-se para o Sheridan, mas por sua expressão era impossível deduzir se lhe pedia ajuda ou o observava por outros motivos.

Sheridan parecia cansado, quase indiferente; dava a impressão de que para ele tudo era velho e pertencia ao passado.

Vespasia se sentiu rodeada por um sofrimento e um mal-estar que não compreendia. Cabia a possibilidade de que, se ficasse, averiguasse algo mais, mas se sentiu obrigada a pôr fim a sua visita.

— Estou de acordo - declarou com firmeza. — As vezes esquecer é o mais sensato; do contrário, vivemos no passado e não vemos o futuro. - Olhou para Cordelia. — Aceitarei o convite de lady Albemarle e farei quanto esteja em minhas mãos para conseguir todos os apoios possíveis - acomodou as saias. — Obrigado por sua hospitalidade. Se me inteirar de algo lhes farei saber. Boa tarde.

Sheridan também ficou em pé e a acompanhou até a porta principal. Ao chegar se deteve e a abriu pessoalmente, pelo que o lacaio se retirou a um lugar onde não podia ouvi-los.

— Vespasia - disse Sheridan delicadamente. Ela não queria olhá-lo, mas evitar deliberadamente seus olhos seria ainda pior. — Enid teme que eu tenha matado ao Magnus - explicou. — Ordenou a seu lacaio que me seguisse. É um criado leal que despreza ao Edward. Não me trairia se ela não quisesse. Parece-me que compartilha seu medo. Vi-o em sua expressão.

Já não havia escapatória.

— Fez isso?

Sheridan sorriu levemente; as comissuras de seus lábios mal riscaram uma curva.

— Agradeço-lhe que não o negue. A honestidade é uma de suas principais virtudes. Não, não o fiz eu. Uma e outra vez tentei afastá-lo de seu caminho, mas não quis ater-se a razões. Estava apaixonadamente convencido de que a corrupção tinha enraizado tanto que era impossível arrancá-la, salvo com violência. De todo modo, eu não o matei nem sei quem o fez. Espero que o senhor Pitt o descubra.

— Enid? - sussurrou Vespasia.

— Não acredito, embora poderia ter pedido ao lacaio que o fizesse por mim. Enid tem muito mais paixão do que lhe supõe... do que supõem Denoon e Cordelia. Espero que não seja assim. Parecer-me-ia terrivelmente espantoso que tivesse levado esse jovem a cometer semelhante atrocidade.

— Se temer que o tenha feito você, então sabe que ele não o matou - precisou.

— Isso é certo - disse Sheridan e esboçou um sorriso lúgubre e atormentado.     — Talvez me assuste até de minha própria sombra. Você nunca teve medo – acrescentou com absoluta certeza.

— Claro que tive medo! - defendeu-se Vespasia com repentina franqueza. — E ainda o tenho, embora não quero averiguar até que ponto porque nesse caso me faltaria coragem para continuar em pé.

De repente Sheridan se agachou e a beijou delicadamente na boca. A seguir terminou de abrir a porta, e Vespasia se dirigiu para a carruagem que a aguardava.

 

À última hora da tarde, bateram na porta; Charlotte estava em casa. Gracie abriu e segundos depois entrou na cozinha, com os olhos arregalados , e lhe comunicou que o senhor Victor Narraway queria falar com ela.

Charlotte se sobressaltou.

— Aqui?

— O fiz entrar no salão - explicou Gracie a modo de desculpa. — Parece muito zangado!

Charlotte deixou a prancha, alisou a saia, levou automaticamente as mãos à cabeça para certificar-se de que estava mais ou menos penteada e se dirigiu ao salão.

Narraway se achava no centro da estadia, de costas à lareira. Ia de colarinho branco, com o cabelo perfeitamente penteado e o corpo rígido. Sua expressão era tensa e, quando falou, sua voz soou precisa:

— Senhora Pitt, esta manhã foi a casa de sir Charles Voisey. Não é preciso que se dê ao trabalho de negá-lo.

A arrogância do Narraway desatou a cólera do Charlotte.

— Senhor Narraway, por que diabos ia negá-lo? - perguntou acaloradamente. Só porque era o superior do Pitt se absteve de acrescentar que o que ela fizesse não era assunto dele e que era um mal educado. — Não tenho nenhum motivo para pensar que devo lhe render conta de meus atos.

— Esqueceu quem é Voisey? - perguntou Narraway e apertou os dentes. — Já não se lembra de que é o responsável pela morte do Mario Corena e do reverendo Raspa e de que provavelmente também tentou acabar com você, seus filhos e sua criada?

— Claro que me lembro - replicou causticamente. — Embora esquecesse meu medo, por lady Vespasia não poderia me esquecer do Mario Corena. - Não mencionou ao reverendo Raspa porque, nesse caso, só importava Corena.

— Senhora Pitt, para que foi a sua casa? - inquiriu taxativamente.

Durante uns segundos esteve a ponto de explicar-lhe mas dominou o temperamento.

— Senhor Narraway, suponho que é contrário ao projeto de aumentar as competências policiais para interrogar sem justificação ou para interrogar aos criados sem que seu senhor ou sua senhora saibam.

Narraway se surpreendeu porque o tinha pego momentaneamente despreparado.

— Claro que me oponho.

— Me alegro. - Charlotte o olhou nos olhos. — Sir Charles também está contra.

— Senhora Pitt, não é motivo para que vá vê-lo! Trata-se de um homem extremamente perigoso. - Seu tom de voz aumentou e se tornou mais agudo e colérico.   — Nem lhe ocorra voltar a aproximar-se dele. Entendeu-me?

— Senhor Narraway, tudo isso já sei - respondeu gelidamente e passou por cima o fato de que estava certo. A oposição do Voisey ao projeto não era motivo suficiente para visitá-lo. — Pelo visto, esqueceu que meu marido trabalha para você. Eu ainda o recordo. Está ameaçando que o castigará se não fizer o que você quer?

Narraway se sobressaltou.

— Claro que não! - Seu rosto estava rígido e seus olhos lançaram faíscas. — De qualquer maneira, não permitirei que se descuide de seu trabalho porque esteja preocupado por culpa de que a irresponsável de sua esposa corre o perigo de meter-se onde não a chamam. Suponho que se preocupa com sua segurança e aprendeu a ser leal, embora não obediente.

Estava tão furiosa que teria gostado de lhe devolver o golpe, inclusive fisicamente, mas não se atreveu pelo bem do Pitt.

— Senhor Narraway - replicou e esteve a ponto de engasgar-se, — eu gostaria de lhe dizer que se meta em seus assuntos e lhe perguntar como se atreve a apresentar-se em minha casa e me fazer perguntas impertinentes, mas todos sabemos que é o chefe de meu marido e se fizer semelhante coisa poderia pôr em perigo seu trabalho, assim me calarei.

Narraway empalideceu e lhe brilharam os olhos.

— Por Deus, estou preocupado por sua segurança! Se seu marido não for capaz de controlá-la, alguém terá que fazê-lo.

Esteve a ponto de lhe contar o verdadeiro motivo pelo que tinha ido a casa do Voisey, mas se o fizesse talvez Narraway também saberia que, embora acontecesse algo ao Pitt, ela não poderia utilizar a prova contra a senhora Cavendish. Devia conservá-la para defender-se a si mesma e a seus filhos. Ela tinha mais familiares a proteger que Voisey. Teria que haver-se dado conta muito antes. Se Voisey agredia ao resto de sua família, a ameaça sortiria efeito no Pitt, mas não nela. Não estava disposta a que Narraway soubesse e a visse vencida. Observou-o com ira contida.

— Senhor Narraway, suas palavras são ofensivas. Agradecer-lhe-ei que se fosse.

Tentava expressar-se com grande dignidade, mas de repente se deu conta de que Narraway havia dito exatamente o que queria dizer: temia por ela. Sua expressão estava carregada de emoção, pelo que era curiosamente vulnerável. Estava muito rígido porque temia pela segurança de Charlotte e não estava acostumado a preocupar-se com essas questões. Sentia-se nu.

A mulher reparou no ardor de suas faces e olhou para outro lado.

— Garanto-lhe que não tenho a menor intenção de voltar a ver sir Charles - disse com seriedade. — Não desejo entorpecer suas investigações nem fazer que Thomas se angustie por minha segurança, mas acredito que o projeto apresentado no Parlamento é perigoso e seguirei fazendo o que esteja em minhas mãos para ajudar aos que se opõem a ele. Boa tarde, senhor Narraway.

— Boa tarde, senhora Pitt - se despediu em voz baixa e se deixou acompanhar até a porta.

Charlotte não voltou a olhá-lo nos olhos porque lhe dava medo o que poderia ver e não queria sentir-se obrigada a reconhecê-lo. Nesse caso Narraway saberia que ela se dera conta, e o melhor era que isso nunca ocorresse.

Charlotte fechou a porta assim que o chefe da Brigada Especial a franqueou, permaneceu imóvel uns segundos e respirou com dificuldade.

 

Nessa tarde, quando Pitt informou sobre incidente no Josephine, Narraway declarou secamente:

— Suponho que devo me considerar afortunado de que tenha escapado com vida.

Pitt tinha dedicado o tempo transcorrido a rastrear tanto como tinha podido a conexão entre o Simbister e o Josephine. Tinha encontrado provas documentais definitivas e estava muito contente.

— Assim é - concordou Pitt.

Recordou com viva intensidade a gelada escuridão e o som da água que o rodeava movia-se, regurgitava e arrastava o casco do navio para baixo, iluminado tão só pela luz dos fósforos que Voisey ia acendendo. Pensou em perguntar ao Narraway se alguma vez tinha temido por sua vida. Jamais o tinha mencionado. Devia-se a que alguma vez lhe tinha ocorrido ou, lisa e sinceramente, a que se tratava de uma parte muito privada de sua vida? Além disso, com quem podia compartilhá-lo? Quem o tinha experimentado já sabia como era. Os que não o tinham experimentado ou jamais o fariam eram incapazes de compreendê-lo só com palavras. Pitt nem sequer tinha tentado explicar à Charlotte. Quão único sabia era o que tinha deduzido do corpo trêmula de seu marido, de seu olhar e de que não queria dar explicações.

— Nesse caso será melhor que peça a alguém que reflote o Josephine - comentou Narraway. Estava tenso e pálido, como se lhe custasse conter as emoções. Realmente tinha estado tão angustiado pela segurança do Pitt. — Faríamos o ridículo se tivéssemos que resgatá-lo e descobríssemos que o levaram discretamente.

— Claro, senhor. - Pitt deixou os documentos sobre a escrivaninha. — Estes papéis o conectam com o Simbister e com o Grover.

— Quem tentou afogá-los? - perguntou Narraway.

— Acredito que Grover. Deve ter chegado pouco antes que nós. Tenho testemunhas para demonstrá-lo. Incluí três declarações. - Assinalou os documentos com um dedo.

— Pelo visto foi muito competente. - Narraway lhe cravou o olhar e seus olhos se viam escuros e ardentes. — Suponho que ontem à noite, quando chegou a casa, parecia meio morto.

Pitt se surpreendeu.

— Estava um pouco molhado - reconheceu.

— Um pouco molhado... - repetiu Narraway. — O que disse à sua esposa? Que tinha caído no rio?

— Que estava em um navio que se afundou e que consegui escapar bem a tempo -replicou Pitt sem contar toda a verdade.

A voz do Narraway soou mais fria do que estava a água do Tamisa.

— Acredita que foi por isso que esta manhã foi visitar Charles Voisey? Porque lhe preocupava que tivesse pego um resfriado?

— Foi... foi visitar o Voisey? Onde se viram? - Pitt se alarmou porque o tinham pilhado com a guarda baixa. — Na Câmara dos Comuns? Não acredito que Voisey tenha acudido tão cedo.

— Exatamente - confirmou Narraway em tom mordaz. — Foi à sua casa do Curzon Street. Pitt, parece que sei mais que você a respeito das idas e vindas de sua esposa! Aconselho-lhe que, a partir de agora, controle melhor seus assuntos domésticos. Sua esposa é uma mulher obstinada e precisa atá-la mais curto do que fez até agora. Evidentemente, conta-lhe muitas coisas e sua imaginação se ocupa do resto. – Parecia sincera e profundamente zangado. Tinha o corpo rígido e os ombros rígidos, como se tivesse esticado todos os músculos. — Sua esposa acabará gravemente ferida se lhe permite seguir metendo-se em assuntos que não compreende; não tem idéia do perigo que corre. Mas homem, já está bem! Que mosca lhe picou? Não controla sua própria casa?

Surpreso, Pitt observou a seu superior. Não sabia que Charlotte tinha ido ver o Voisey nem por que lhe tinha ocorrido fazê-lo. Pelo que estava absolutamente certo era de que não tinha esquecido que Voisey tinha assassinado ao Mario Corena e ao reverendo Raspa e de que jamais confiaria nele. Tinha ido por algum motivo. Charlotte não se inteiraria pelo Voisey de algo que Pitt não soubesse. Certamente tinha ido dizer lhe algo. De repente recordou que sua esposa lhe tinha perguntado pela prova contra a senhora Cavendish e teve a certeza de que sabia o que Charlotte havia dito ao Voisey e por que tinha ido nesse preciso momento. Embora com incerteza, uma mescla de temor e orgulho e certa alegria, Pitt sorriu.

— Pitt, se acredita que este assunto é divertido, eu adoraria saber por que! - replicou Narraway secamente.

Pitt ficou sério. Compreendeu Charlotte e, com surpresa e uma curiosa e repentina compaixão, soube os motivos pelos quais Narraway estava tão zangado. Não temia por ele nem pelo êxito da Brigada Especial, mas sim por Charlotte. Deixou-se levar pelos nervos porque se preocupava com ela.

Esquivou-se do olhar do Narraway para que não se desse conta de que sabia o que lhe ocorria. Pitt conhecia perfeitamente a vulnerabilidade: é o preço que se paga por te implicar em algo. E o único preço mais alto que existe é o de não fazê-lo. A covardia de despreocupar se é a derrota definitiva. Recordou claramente sua própria vulnerabilidade.

Mudou de assunto.

— Temos que conectar as bombas com o Wetron - disse Pitt. — De nada servirá apanhar unicamente ao Simbister. Wetron declarará que está horrorizado, levará os louros por pôr fim à corrupção e procurará a outro homem de palha que ocupe o lugar do Simbister, a quem avisará de que seja mais cuidadoso e não se deixe apanhar.

— Isso já sei! - exclamou Narraway bruscamente. Olhava para a janela e estava de perfil. — TTmos que utilizar todos os recursos de que dispomos. Não podemos nos dar o luxo de proteger aos que nos agradam nem mostrar reparos para utilizar aos que nós não gostamos.

— Assim é - reconheceu Pitt. — Se me ocorresse uma maneira eficaz de consegui-lo a poria em prática.

— Quem assassinou ao Magnus Landsborough e por que? - inquiriu Narraway. — Foi com o propósito de pôr no comando um dos seus? O atentado do Scarborough Street não tem nada que ver com o do Myrdle Street. Não foi uma amostra de força, mas um assassinato profissional e indiscriminado.

— Talvez - reconheceu Pitt. — Pelo que averigüei, Magnus era idealista, mas não se tratava de um jovem violento nem insensato. Atirou nele alguém que conhecia os planos dos anarquistas e que os esperava no Long Spoon Lane.

— Evidentemente - comentou Narraway com amargura. — A rua da colher longa... É um nome muito adequado. Pelo visto têm feito entendimentos com o diabo. Ninguém tem uma colher tão longa para colocá-la até o fundo. Pitt, tenha muito cuidado. Utilize ao Voisey, mas não confie nele absolutamente!

Pitt pensou na prova contra a irmã do Voisey. Seria suficiente? Seu amor por ela era maior que sua ânsia de voltar a ostentar o poder e vingar-se dos que já o tinham arrebatado uma vez?

No passado, Pitt tinha cometido o engano de supor que as pessoas atuam por próprio interesse. Não era assim. A paixão, o medo e a ira desencadeiam toda classe de atos estúpidos e autodestructivos e os autores só se dão conta quando é muito tarde.

— Pitt...

Narraway interrompeu o fio de seus pensamentos.

— Sim, senhor, serei tão cuidadoso como posso com respeito ao Voisey.

— Me alegro. Continue investigando. Acabaram-se os mergulhos de cabeça no rio. Não posso me permitir o luxo de que pegue uma pneumonia.

— Agradeço sua preocupação - respondeu Pitt sarcasticamente e se retirou antes de que Narraway tivesse tempo de dizer algo.

Nessa tarde chegou cedo a casa e, apesar de que durante mais de uma hora tinha estado pensando como abordaria com o Charlotte o tema do Voisey e se mencionaria a visita que Narraway fazia a sua esposa, ao entrar na cozinha se deu conta de que ainda não tinha tomado uma decisão.

Ela o recebeu com um sorriso radiante e inocente que demonstrava sua absoluta culpa. Sabia perfeitamente o que tinha feito e não tinha a menor intenção de dizer-lhe. Não foi necessário tomar decisões. De momento Pitt não diria nada porque, dadas as circunstâncias, antes de atuar precisava refletir.

Sua esposa lhe estendeu uma carta.

— Entregaram-na em mão faz aproximadamente uma hora. É do Charles Voisey.

— Como sabe? - inquiriu Pitt e a arrebatou.

Charlotte abriu desmesuradamente os olhos.

— Porque o disse o mensageiro! Vamos. Acha que a abri?

— Perdão - se desculpou e abriu o envelope. O rosto do Narraway, mudado pelas emoções, apareceu claramente em sua imaginação. — Tenho certeza de que não a abriu.

Pitt viu que sua esposa não lhe tirava olho de cima enquanto lia a missiva.

 

“Pitt:

Espero que o banho não o tenha afetado. Agora sei onde está a prova que necessitamos. Está em poder do homem ao que envolve, mas não tem o menor sentido agarrar ao cão e deixar livre o amo. Para dizê-lo de algum jeito, não demorará para conseguir outro cão. Já sei que supõe riscos, sobre tudo para o único que nesta situação pode revistar a casa de seu chefe. De qualquer modo, não vejo outra saída. Me aconselhe.

                  Voisey”

 

Provavelmente Charlotte tinha tentado dominar-se, mas essa carta foi mais do que podia agüentar, pelo que perguntou em tom cortante:

— O que acontece?

— Tenho que achar ao Tellman - respondeu, aproximou-se do fogão, abriu-o de cima com a ajuda da barra e deixou cair a carta sobre as brasas. — Voisey diz que há uma prova de que Wetron está diretamente relacionado com o Simbister no atentado. Devemos consegui-la.

— Será muito perigoso - comentou com voz rouca e em tom muito baixo porque não queria que Gracie a ouvisse. De nada serviria que se inteirasse e se preocupasse. Charlotte sabia muito bem o que era o medo e não o desejava a outra pessoa, menos ainda, a alguém que queria. — De que prova se trata?

— Não sei.

— É possível que esteja mentindo? Talvez não há nada e quão único pretende é que pilhem ao Tellman. Seria a vingança perfeita; além disso, não poderia culpá-lo. Há -Charlotte o pegou pela manga quando se deteve na soleira, a ponto de ir-se.

Pitt lhe apertou a mão.

— Antes de falar com o Tellman perguntarei ao Voisey do que se trata - replicou.

— E se não lhe disser isso? - Charlotte se negou a soltá-lo.

— Nesse caso não pedirei ao Tellman que procure a prova.

— Não o pedirá nem sequer ante a possibilidade de que... ?

— Não. - Pitt sorriu. — Claro que não, não o pedirei.

 

Voisey foi muito concreto. Simplesmente não tinha querido dar detalhes por escrito, por muito que o enviasse num envelope e através de um mensageiro.

— Teria que tê-lo visto antes - reconheceu Voisey, contrariado.

Pitt e ele se achavam no pequeno gabinete da casa do Curzon Street. Era uma estadia de proporções muito agradáveis, pintado em tons vermelhos escuros, com os batentes em branco e janelas que davam a terraço. As trepadeiras obscureciam pela metade a parte de cima de duas janelas, o que suavizava a luz e dava um toque de fresco verdor a calidez das paredes. O mobiliário era simples e a madeira estava tão lustrada que refletia a nervura, como se fosse de seda. Pitt se surpreendeu ao reparar em que os quadros eram apontamentos a pena e aquarelas de árvores, umas lindas imagens invernais.

— O que deveria ter visto? - inquiriu ao mesmo tempo que tomava assento em uma poltrona de veludo de tons vermelho e dourado intensos.

Voisey permaneceu em pé.

— Que a polícia se ocupa dos delitos. É a resposta evidente.

— A resposta a que? - insistiu Pitt, a quem custava dissimular sua irritação.

Voisey sorriu enquanto saboreava o paradoxo da situação.

— Os policiais se inteiram de toda classe de delitos, grandes e pequenos. A partir daí supomos que perseguem judicialmente aos responsáveis e, no caso de que sejam declarados culpados, os acusados são condenados. - Pitt se manteve na expectativa. Voisey se voltou ligeiramente para diante. — O que aconteceria se se encontrassem com um delito do que não há provas, salvo para eles, ou de um delito do que não é provável que a vítima fale? E se em lugar de levar a suspeito aos tribunais guardam discretamente as provas e o chantageiam? Pitt, surpreende-me ter que explicar-lhe. O integrante da Brigada Especial entendeu de repente, como se lhe tivessem parecido uma navalha no cérebro. — Guardou cuidadosamente as provas contra minha irmã para me obrigar a fazer o que venha vontade. Não lhe ocorreu pensar que Wetron pôde fazer exatamente o mesmo? Em sua posição eu o teria feito. Há algo mais útil que um boneco de pano a quem poder mandar o que deseja muito: comprar dinamite, colocá-la, fazê-la explodir no momento oportuno e inclusive assassinar ao Magnus Landsborough se for o que necessita?

Era tão simples que ambos deveriam tê-lo deduzido. Pitt jamais teria sido capaz de ocultar um verdadeiro delito. Sabia tão bem como Voisey que a senhora Cavendish desconhecia que transportava veneno com a comida que entregava ao reverendo Raspa. Se tivesse sido possível condenar ao Voisey por esse fato, Pitt se teria encarregado de fazê-lo, inclusive embora implicasse a sua irmã. Tal como estavam as coisas, utilizar as provas teria suposto condenar à senhora Cavendish e permitir que Voisey partisse.Sem lugar a dúvidas teria estado penalizado, mais só que nunca e até é possível que atormentado pela culpa, mas livre no fim das contas.

Por muito que Voisey tivesse querido fazer mal a Charlotte, teria estado disposto a que enforcassem à senhora Cavendish pelo delito cometido por seu irmão? Pitt não conhecia a resposta a essa pergunta. A única coisa importante era que Voisey acreditasse que era capaz de fazê-lo.

Era evidente que Wetron estava na posição ideal para achar provas de um delito dessas características e poder utilizá-las.

— Poderia tratar-se de algum roubo, incêndio provocado, assassinato, algo que ocorreu nos últimos... . - Pitt titubeou.

— Nos últimos dois ou três anos - Voisey concluiu a frase.

— Por que tão pouco tempo? - inquiriu Pitt. — Passou toda sua vida no corpo de polícia.

— Pense, pense! - exclamou Voisey com impaciência e retrocedeu até que a luz do sol que entrava pela janela iluminou o tapete que havia entre ambos. — Quando era um simples agente não estava em condições de guardar segredos. Teria sido muito perigoso. No caso de ocultar algo, teria tido que compartilhá-lo com outros a quem não controlava. Uma vez que o promoveram e pôde ocultar dados, o mais provável é que os utilizasse em favor do Círculo. Teria sido a forma ideal de conseguir favores e poder. Não, Pitt, este delito só tem um ou dois anos, no máximo três. E o autor é alguém vulnerável temente cair em desgraça, sem amigos que o defendam ou fiquem a seu lado e que não se atreve a confrontar as conseqüências do que fez. Tudo o que significa que não se trata de alguém que ganha a vida como delinqüente, mas sim de uma pessoa que cometeu um delito grave e temente ter que pagar pelo que fez. Também é alguém a quem Wetron pode usar, o que reduz enormemente as possibilidades.

Pitt se zangou consigo mesmo por não haver-se dado conta antes. Resultava vergonhoso que fosse precisamente Voisey quem o assinalasse. Por muito que lhe pesasse, tinha razão.

— Sem dúvida Wetron guarda a prova em um lugar seguro - acrescentou Voisey, muito sério. Se a conseguimos demonstraríamos sua cumplicidade. Pitt, custe o que custar, não podemos prescindir de tal prova. Não importa a quem tenhamos que utilizar.

Enquanto falava, Voisey não deixava de observá-lo atentamente.

Pitt se sentiu levado por uma corrente muito forte para resistir. Inclusive ofender-se era absurdo. Ao menos o que ocorria não era obra do parlamentar.

— Assim é. - ficou em pé. Não queria continuar nessa casa. — Falarei com o Tellman, confio plenamente nele.

Voisey retrocedeu.

— Me alegro. Devemos agir depressa. Tentarão passar o projeto o antes possível.

Pitt se absteve de fazer comentários a respeito de que Voisey se incluiu a si mesmo nesse "devemos", como se arriscasse algo. Começou a pensar em como acharia ao Tellman e o que lhe diria.

 

A primeira parte foi mais simples do que supunha, mas a segunda lhe deu mais trabalho. Tellman estava em seu alojamento e a caseira o fez passar sem pôr objeções. Acostumara-se a suas visitas. Ofereceu-lhe uma xícara de chá, mas Pitt a recusou pois não queria ser interrompido.

Tellman se sentou frente à lareira. A lenha queimava lentamente, só para tirar um pouco o frio do aposento e talvez também para criar a ilusão da companhia.

Tellman tinha tirado as botas e colarinho engomado e parecia relaxado.

Pitt experimentou uma pontada de culpa, pois estava a ponto de lhe danificar o momento.

O sargento ficou imediatamente em pé.

— Do que se trata? O que se passou? - perguntou nervosamente e em tom tenso.

Com poucas palavras Pitt lhe falou da dinamite do Josephine e de que Voisey e ele tinham estado à beira da morte.

— Grover? - perguntou Tellman, penalizado, e voltou a sentar-se frente a Pitt.

Não se tratava de que Grover lhe agradasse, mas sim de que era agente de polícia. A traição era algo que sempre lhe doía.

— Sim. Encontrei testemunhas de que estava ali - respondeu Pitt. Tellman o olhou muito sério sob a luz tênue e o calor.

— Não posso detê-lo.

— Já sei. Não vim por isso. Contei-lhe isso porque faz parte da história. Estou aqui exclusivamente pelo Voisey. - Pitt não quis deixar de olhar ao Tellman enquanto pronunciava essas palavras, apesar de que sabia que lhe faria perguntas; desviar o olhar não só lhe pareceu covarde, mas sim pensou que daria a sensação de que não queria compartilhar com ele o que acontecia. — Diz que Wetron tem provas de toda classe de delitos cometidos por diversas pessoas, o que é evidente. No final , é seu trabalho. Mas também supõe a oportunidade ideal de chantagear a alguém para que coloque bombas.

Durante uns segundos o rosto do Tellman careceu de expressão. Igual a Pitt, nem sequer lhe tinha ocorrido pensar que alguém utilizasse informação policial com esse propósito. Sentiu como uma chicotada quando por fim o compreendeu. Seu rosto mudou e pareceu perder luminosidade. Guardou silêncio uns instantes.

Foi Pitt quem rompeu o silêncio:

— Tem que ser alguém que cometeu um crime por impulso ou desespero -acrescentou repetindo a conversa que tinha mantido com o Voisey, — alguém que tem muito a perder. Não há chantagem sem medo.

Tellman levantou a cabeça para olhá-lo e afirmou severamente:

— Encontrarei a prova, procurarei até dar com ela. Não há tantos lugares onde escondê-la. Conservou-a para mostrar-lhe ao chantageado, para que soubesse que exerce poder sobre ele. A questão está em saber onde a ocultou. Se estiver em sua casa, como a conseguiremos? A invasão de moradia é um grave delito! Se suspeita que a buscamos, Wetron a destruirá. Se tiver obtido que o pobre desgraçado ponha bombas, já tem outro motivo para chantageá-lo daqui em diante.

Pitt se sentiu como se o mundo lhe viesse em cima. E se Wetron já tivesse destruído as provas que podiam existir? Conservá-las era perigoso. Sem dúvida tinha pensado o mesmo. Devia recordar que Voisey estava obcecado por vingar-se.

Tellman o observava com grande atenção.

Talvez a situação fosse inclusive pior. Possivelmente a prova seguia existindo e tinha deixado uma pista que podia seguir-se, precisamente para que Voisey e Pitt enviassem a alguém a procurá-la e assim poder apanhá-lo. Pitt faria quanto estivesse em suas mãos para desculpar a tal pessoa e faria recair as culpas sobre si mesmo. Apressou-se a olhar ao Tellman.

— É muito perigoso. Certamente pensou em todas as opções. Espera que qualquer de nós o tente. Espera que...

— Se não o tentarmos nos vencerá - o interrompeu Tellman. — Prefiro ser derrotado a renunciar sem tentá-lo.

— Se renunciarmos sem tentá-lo estaremos vivos para seguir lutando - precisou Pitt colérico, embora não estivesse furioso com o Tellman, a não ser com o Wetron, com as circunstâncias que os tinham conduzido até esse ponto, a corrupção, a estupidez e não saber em quem confiar.

— Não tem muito sentido lutar depois de ter perdido -declarou Tellman e sorriu a contra gosto. Seu sorriso tinha certo tom de brincadeira e um pouco de tristeza.

Seu olhar revelava que também se sentia apanhado e impotente. Além disso, tinha muito que perder, toda uma nova e maravilhosa vida que estava a ponto de começar a saborear. — Acha realmente que pensou que procuraremos a prova?

— Não podemos nos permitir o luxo de supor que não o fez, o que significa que haverá alguma pista para nos atrair.

— O que fez que Voisey pensasse nisto?

— Não sei, mas é evidente, desde que não estiver cegado pela lealdade ou pela presunção de honradez… e está claro que Voisey não está cegado.

— Isso é tudo? Só e sinceramente se trata de uma dedução que lhe acaba de ocorrer?

— Não sei.

Tellman refletiu uns segundos. O fogo chispou. Já tinha caído a noite e a luz não penetrava pela fresta entre as cortinas.

— No caso de que exista, se a prova estiver em sua casa, evidentemente utiliza a alguém. Por outro lado, se estiver em seu escritório do Bow Street, poderia tratar-se de algo pouco comprometedor. Poderia dizer que acaba de encontrá-la, que estava a ponto de investigar e poderia jogar a culpa a qualquer um.

— E seria muitíssimo mais fácil dar com ela - disse Pitt. — Mas poderia estar em seu escritório, onde ninguém mais a veria. O que menos lhe interessa é que alguém descubra a prova e julguem a esse homem. Wetron não pode permitir que o interroguem, menos ainda em um tribunal.

Pitt tinha cada vez mais a sensação de que o documento, ou o que fosse essa prova, tinha sido destruído. Podiam pilhá-los enquanto o buscavam, embora não existisse a menor possibilidade de encontrá-lo. Mas ter muito medo para tentá-lo sim era uma derrota.

— Poderia dar uma olhada no escritório do Wetron – disse Tellman. — Não é muito perigoso. Já estabelecemos a conexão entre os anarquistas, a polícia e os atentados. É razoável que eu siga investigando em busca de mais nomes, suspeitas e acusações, que embora não demonstrem nada não deixam de ser interessantes.

— Tem razão. De qualquer modo, se quer certificar-se de que poderá seguir usando-a, não a porá onde qualquer membro da delegacia de polícia possa encontrá-la - supôs Pitt.

Tellman refletiu uns instantes.

— É claro, mas começarei por ali.

— Mas isso é tudo! - advertiu Pitt. — Procura a prova na delegacia de polícia e logo se esqueça do assunto!

— Está bem - replicou Tellman. — O farei amanhã.

 

Enquanto falava, Tellman sabia que não tinha a menor intenção de esquecer do assunto se não achava nada no Bow Street. De fato, supunha que não acharia provas de um delito que Wetron pudesse aproveitar. O que lhe parecia possível era que Wetron tivesse deixado alguma pista a respeito de onde podia estar tal pessoa, que era exatamente o que havia dito Pitt, a fim de apanhar a quem a buscasse a ser possível, o próprio Tellman.

Nessa noite se deitou e cravou o olhar na luz piscante do teto de seu quarto. Passava pouco tráfego, as luzes das carruagens brilhavam, e os ramos da tília se moviam e tampavam e desvelavam a luz da calçada de frente.

Necessitaria de ajuda. Não tinha sentido pedir a seus colegas. Além de que não lhe acreditariam, não atrevia-se a confiar em ninguém, menos ainda no Stubbs. Inclusive a pessoa honrada podia ser vítima do medo e de velhas lealdades. Por outro lado, outros policiais careciam das habilidades que ele procurava. Necessitava a um ladrão, um assaltante de primeira, alguém que entrasse e saísse de uma casa sem que ninguém se inteirasse. Necessitava a alguém capaz de romper uma janela com o silencioso método do "vidro laminado", escalar, achar o aposento desejado em questão de segundos, sem despertar ao cão nem ao lacaio, e abrir a caixa forte com uma gazua e o estetoscópio.

Conhecia vários indivíduos capacitados para essa tarefa, não era esse o problema. A dificuldade radicava em achar a alguém disposto, esperto e cuja lealdade pudesse conseguir mediante o pagamento ou através de alguma obrigação. Não gostava de apelar ao medo, que só servia para atrair antipatias e que, cedo ou tarde, conduzia à vingança.

Dormiu com um sono ligeiro. Às seis da manhã despertou a luz do amanhecer e se levantou. Se queria achar a alguém, tinha que buscá-lo antes dessa noite; melhor dizendo, tinha que fazê-lo antes de dirigir-se ao Bow Street para cumprir sua jornada trabalhista.

Tellman se tinha decidido por dois ladrões. Ambos seriam difíceis de achar e convencê-los seria ainda mais árduo. Vestiu a roupa mais velha que tinha, a fim de passar despercebido pelas ruelas que teria que percorrer em seu caminho para o leste da cidade.

No Hackney Road comprou um sanduíche de presunto em um posto e caminhou para o sul até o Shipton Street. Sabia onde achar Pricey, a quem chamava com esse apelido desde que o conhecia. Não sabia se era um derivado de seu sobrenome ou fazia referência aos honorários que recebia pelos infames serviços que prestava a seus clientes.

Tellman nunca o tinha detido, pelo que entre ambos não existia inimizade, inclusive havia uma boa relação a que nestes momentos podia apelar.

Pricey, que tinha passado toda a noite fora, ainda dormia quando Tellman bateu a sua porta. Seus aposentos estavam ao final de uma estreita escada que partia de um pátio tranqüilo, com os paralelepípedos quebrados. Se sua necessidade de ajuda tivesse sido menos premente, talvez Tellman se haveria posto nervoso por estar ali, inclusive a plena luz do dia e na rua.

Ao cabo de uns minutos, uma voz adormecida perguntou do interior quem batia.

— Sou o sargento Tellman! - respondeu. — Necessito um favor e estou disposto a pagá-lo.

Mostrar-se evasivo carecia de sentido; além disso, não tinha tempo.

Soou um fecho, logo outro e por fim a porta se abriu lentamente, em meio de um bem engordurado silêncio. Pricey estava em pé, com a camisa de noite de listas azuis e brancas, descalço sobre o chão de madeira e com um gorro que tampava quase toda sua cabeleira negra e lisa. Seu rosto era afiado e lúgubre. Ao ver que Tellman não levava o traje e a camisa branca habituais, mas roupas em tons cinzas pouco chamativos, olhou-o com mais curiosidade.

O policial entrou e fechou a porta. Não era a primeira vez que estava ali e conhecia o caminho que conduzia à cozinha. Era o único lugar onde havia cadeiras e, se tivesse um pouco de sorte, Pricey inclusive o convidaria a uma xícara de chá. O sanduíche de presunto lhe tinha dado sede.

— Vá, não o esperava - comentou Pricey, interessado. — Senhor Tellman, o que lhe traz por aqui a estas horas? Deve ser algo bom.

— É - confirmou Tellman e se sentou com cuidado em uma cadeira de madeira, que imediatamente se afundou sob seu peso, apesar de ser escasso. — Necessito que encontre e roube uma prova. Está em casa de alguém que conheço, provavelmente na caixa forte ou em uma gaveta da escrivaninha, fechado com chave.

— Como saberei que encontrei o que procuro? - quis saber Pricey e torceu o gesto com expressão dúbia.

— Isso é o mais difícil - reconheceu Tellman. — Com o passar do dia de hoje saberei mais coisas e lhe direi isso antes de que atue. Preciso ficar com você no lugar adequado.

Pricey sopesou a situação e observou ao Tellman com olhar duro e intenso.

— De que tipo de prova me fala? Por que se move às escondidas em lugar de entrar para pegá-la como faz habitualmente a polícia? Quem a tem? Para que a quer? Parece-me que este assunto não é trigo limpo, do contrário atuaria de outra maneira, além de que lhe sairia mais barato. Não trabalho grátis. Quem paga? A polícia ou você?

Tellman sabia que não podia mentir ao Pricey e que se o tentasse o ofenderia; para ele o orgulho era muito importante.

— Sim, é muito perigoso - reconheceu o sargento sem andar pelos ramos. — Não quero que ninguém se inteire de que tenho essa prova e menos ainda a polícia.

Pricey pareceu surpreender-se.

— Senhor Tellman, é você corrupto? Vá, vá! Jamais o teria imaginado. Não sabe quanto me decepciona.

— Não, não sou corrupto! - replicou Tellman. — Quero que a roube a um policial corrupto. É a prova de um delito e, mediante a ameaça de utilizá-la, esse policial chantageia a alguém para que cometa mais atrocidades. Ao menos é o que penso.

— Isso pensa? - Pricey não estava muito seguro. — Senhor Tellman, é espantoso, inclusive pior que uma extorsão. Me parece francamente malvado.

— A mim também. -Tellman pensou em conseguir que Pricey se comprometesse pessoalmente como incentivo acrescentado. — Se não me equivoco, tem que ver com os atentados do Myrdle Street e Scarborough Street.

Pricey soltou uma lenta exalação e blasfemou.

— Asseguro-lhe que não lhe sairá grátis! - advertiu.

— Esta tarde às sete tem que estar na Dog and Duck. Demore o que demorar, me espere. A essa hora disporei de informação para você. Encarregar-me-ei de que o dono da casa esteja ocupado em outro lugar.

— Para que? Senhor Tellman, jamais me apanhou, ao menos não pôde demonstrá-lo! Reconheça que é assim! - De repente sorriu. — E não dirá que não o tentou!

— Na Dog and Duck às sete em ponto - repetiu Tellman e ficou em pé.

Era mais tarde que o aconselhável; já devia estar no Bow Street.

 

Tellman viveu um dos piores dias de sua vida profissional, que até então já tinha completado mais de duas décadas. Dedicou a manhã a pensar em todas as possibilidades que lhe ocorreram, por muito inverossímeis que parecessem, para afastar essa noite ao Wetron de sua casa.

Antes tinha que revistar o escritório de seu superior; no caso de que a prova estivesse ali, a intervenção do Pricey seria desnecessária.

A sorte lhe sorriu, pois Wetron saiu a comer e, antes de ir-se, ouviu-lhe dizer que estaria fora duas horas. Tinha ficado com um parlamentar para assessorá-lo sobre o novo projeto de lei para armar à polícia. Ao Tellman lhe passou pela cabeça a possibilidade de que o parlamentar em questão também fizesse parte do Círculo Interior e queria recrutar mais votos de apoio ao Tanqueray.

Assim que Wetron partiu, Tellman preparou uma explicação se por acaso alguém lhe perguntava algo, dirigiu-se para o escritório escrupulosamente ordenado do Wetron e empreendeu a busca. Se lhe faziam alguma pergunta mencionaria o caso de falsificação no qual estava comprometido Jones o Bolso e sua suposta conexão com o atentado do Scarborough Street. Tratava-se de um assunto do que a polícia devia ocupar-se porque, evidentemente, a Brigada Especial não estava à altura das circunstâncias.

Na hora da verdade, só uma pessoa lhe perguntou o que fazia e obteve um amplo sorriso de apreciação quando deu a resposta preparada.

— Alguém tem que apanhar a esses bodes! - exclamou o agente. — Posso ajudá-lo?

— Poderia se soubesse o que procuro - respondeu Tellman com o coração acelerado. — Não saberei até que o veja.

— Mas tem alguma idéia? - O agente permaneceu na soleira com expressão de curiosidade.

— Não estou muito certo - respondeu Tellman, mais ou menos sinceramente. — De qualquer modo, se me equivocar me terei metido em um bom apuro. Deixe que siga com meu trabalho antes de que o inspetor volte, de acordo?

— É claro, adiante! - O policial retrocedeu depressa, já que não queria correr riscos.

Tellman voltou a revistar os papéis.

Transcorreram dez minutos frenéticos até que, com dedos trêmulos, levantou uma folha de papel e a leu. Releu-a até estar absolutamente seguro. Tratava-se de uma referência indireta a um delito cometido aproximadamente três anos atrás e de uma nota segundo a qual qualquer medida que pudesse adotar ficava pendente. Não deverei seguir com o assunto sem instruções explícitas do chefe de polícia. Era o que Tellman procurava e Wetron o tinha deixado onde pudesse encontrá-lo, não muito acessível, mas com a suficiente dificuldade para valer o esforço e não levantar suspeitas. Tal como Pitt supunha, a prova estaria em casa do Wetron.

Os fatos tinham tido lugar três anos antes em uma casa de hóspedes próxima ao Marylebone Road. Figurava o endereço. Por fim tinha algo concreto que transmitir ao Pricey.

A seguir devia achar a maneira de afastar ao Wetron de sua casa.

Tellman abandonou o escritório e ao sair fechou a porta. Surpreendeu-se ao ver que tinha as mãos empapadas em suor e notar os batimentos do coração nas orelhas. Percorreu rapidamente o corredor até a escada e se dirigiu para seu pequeno escritório. Sentou-se sem as ter todas consigo e refletiu.

O que podia ser irresistível para o Wetron? Tellman necessitava que permanecesse fora toda a noite ou, ao menos até as três ou as quatro da madrugada, a fim de que Pricey pudesse achar a prova. Acima de tudo, Wetron desejava a aprovação do projeto para armar à polícia. Era a chave de seu plano. De que maneira podia utilizá-lo em seu favor? Algumas idéias revoaram por sua cabeça, pensamentos incoerentes, fragmentos, nada inteligível. O que podia oferecer ao Wetron? O que o faria cair na tentação ou o assustaria? Com o que podia ameaçá-lo até o ponto de que se sentisse obrigado a resolvê-lo pessoalmente? Havia alguém que lhe importasse?

Pouco a pouco a idéia tomou forma: desejo e medo entrelaçados. De qualquer modo, necessitaria ajuda. Alguém devia correr perigo, alguém que Wetron necessitasse e ao que não pudesse substituir. Tanqueray não contava. Se o matavam outro defenderia o projeto. Converter-se-ia em mártir. Sua morte inclusive poderia ser rentável!

Edward Denoon. Era um homem poderoso, único, o principal defensor público do projeto e com um jornal que lia quase toda a pessoa influente do sul da Inglaterra.

Quem podia ameaçar ao Denoon? Os inimigos do projeto. Voisey era o mais evidente. O que agradaria mais ao Wetron que apanhar ao Voisey cometendo um delito?

Tellman ficou em pé. Devia falar com o Pitt ou com o Narraway, com alguém que o fizesse acreditável. Wetron tinha que aceitar o plano e sentir-se obrigado a ajudar a pô-lo em prática.

 

Deu resultado, ao menos aparentemente. Fazia bom tempo, a brisa agitava as folhas das árvores e o cheiro de fumaça da lareira impregnava o ar. Pouco depois de meia-noite Tellman estava junto a uma carruagem de aluguel. O veículo estava detido a vinte metros da casa do Denoon; qualquer um que desse uma olhada teria pensado que o sargento era um cocheiro que esperava a um cliente. Wetron se achava na calçada e falava com um de seus efetivos, como se fossem dois cavalheiros que davam um passeio a última hora enquanto conversavam. Levavam mais de uma hora de espera e começavam a impacientar-se.

Tellman não deixava de olhar para a casa do Denoon, com a esperança de ver algum indício de que Pitt tinha cumprido sua palavra. Não conseguiria que seu superior ficasse muito mais e, por dizê-lo com delicadeza, tentar explicar pela manhã o que aconteceu seria, no melhor dos casos, incômodo.

Um cão começou a latir. Wetron se sentou. Tellman, que se achava junto à cabeça do cavalo, desejou com todas suas forças que acontecesse algo.

Os segundos transcorreram. O animal golpeou o chão com as patas e grunhiu ruidosamente.

Wetron se voltou quando viu que uma figura se movia na outra calçada, sigilosa como uma sombra, e se deslizou pelos degraus que desciam até a entrada de serviço da casa dos Denoon. Passaram cinco segundos, logo dez e Wetron lançou a ordem de agir.

— Ainda não! - exclamou Tellman urgentemente e em tom agudo.

Passou dos limites dizendo ao Wetron que Voisey se propunha matar ao Denoon Aterrorizou-o a possibilidade de que o homem que se movia entre as sombras fosse Pitt e de que Wetron o prendesse.

— Não podemos esperar - afirmou Wetron com fúria. — Poderia entrar e colocar uma bomba. Só dispomos de uns minutos. Vamos!

Wetron se dispôs a cruzar a rua, suas pegadas ressoaram nos paralelepípedos e o policial que o acompanhava lhe pisava nos calcanhares.

Tellman se afastou do cavalo, perseguiu o agente e em quatro passadas o alcançou.

— Vá por lá! - ordenou e indicou o outro lado da casa do Denoon. — Se entrou pela parte traseira sairá por ali. - O policial hesitou e, à luz espectral dos lampiões, seu rosto revelou uma expressão de sobressalto e indecisão. — Temos que agarrá-lo - insistiu Tellman. — Se tiver colocado uma bomba temos que averiguar onde está.

— Não o dirá!

— Pode estar seguro de que o dirá se o levamos de retorno à casa! - Tellman lançou uma maldição. — Adiante! - acrescentou e lhe deu um ligeiro empurrão.

Repentinamente o agente compreendeu a situação e cruzou a rua correndo até o outro extremo da casa do Denoon.

Tellman alcançou ao Wetron, que tinha chegado à entrada e se dispunha a descer os degraus. O sargento seguiu seus passos.

— Aqui não há ninguém! - replicou Wetron. — Deve ter entrado e fechado a porta. Tellman, demoramos muito.

Era impossível que em tão pouco tempo Pitt fizesse saltar a fechadura, pelo que não podia estar dentro. Certamente tinha rodeado a casa.

— Senhor, nesse caso o agarraremos no interior - propôs Tellman. — É impossível que já tenha colocado a bomba. Apanharemo-lo com as mãos na massa. Será o argumento mais convincente que se presente a favor do projeto parlamentar. Trata-se de uma ofensa muito pior que a do Scarborough Street.

Wetron o olhou e durante uns instantes seu rosto brilhou de esperança. Escureceu-se assim que a cautela voltou. Estava a menos de um metro de distância e a luz do lampião, refletida nas janelas da cozinha, criava a aparência de que se achavam inclusive mais perto. Tellman notou que lhe tremia o corpo, como se os batimentos do coração fossem tão violentos que o asfixiavam. Deu-se conta Wetron de sua mutreta? Ocupara-se de que alguém detivera o Pricey?

Tinha permitido intencionalmente que Tellman o conduzisse até ali?

— Quer entrar por aqui ou prefere a porta principal? - perguntou Tellman com voz rouca.

— Pela porta principal - respondeu Wetron. — Nos levará toda a noite despertar aos que estão aqui.

Passou junto ao Tellman, subiu os degraus e esteve a ponto de tropeçar na penumbra.

O agente estava no outro extremo da casa, pelo que quase não o via. Se saísse por ali do fundo, talvez pilharia ao Pitt, mas não havia forma de lhe avisar. Ao Tellman doía o corpo por causa da tensão, o medo tinha formado um nó na boca de seu estômago e respirava com grandes baforadas.

Wetron chegou à porta principal, acionou o puxador da campainha, aguardou vários segundos e voltou a puxá-lo.

Transcorreram quase cinco minutos até que apareceu alguém; mas então Wetron estava que trilava.

— Me diga, senhor - murmurou friamente o lacaio.

— Sou o inspetor Wetron. Na casa há um intruso que provavelmente pretende colocar uma bomba. Avise imediatamente ao pessoal, feche as portas com chave e peça às mulheres que se reúnam na sala da governanta. Disse imediatamente! Não fique quieto como se fosse tolo! Poderiam voar pelos ares!

O lacaio empalideceu e olhou ao Wetron como se mal compreendesse o sentido de suas palavras.

Este passou a seu lado e Tellman o seguiu. O vestíbulo era grande e os abajures de gás estavam apagados, salvo a que o lacaio provavelmente tinha aceso para chegar até a porta. Tellman mal via aonde ia e se golpeou a tíbia com uma mesa oriental baixa enquanto se dispunha a acender as luzes principais.

O inspetor percorreu lentamente a estadia, em busca de indícios de que algo não estivesse onde correspondia. Tudo se achava exatamente como cabia imaginar: O biombo chinês de seda bordada, o vaso com o bambu decorativo, o relógio de caixa e as cadeiras. Nada se moveu. Não se ouviu som algum. Embora aguçasse o ouvido, Tellman nem sequer ouvia o rangido da madeira. Tinha a esperança de que Pitt tivesse saltado o muro do fundo e estivesse muito longe.

— Desperte a todos! - ordenou Wetron ao lacaio em tom grave e tenso. — Acima de tudo, jogue o ferrolho à porta principal. Se esse homem colocou uma bomba me ocuparei de que permaneça aqui dentro, conosco!

— Sim, se... senhor - gaguejou o lacaio, que se moveu nervosamente.

Wetron se voltou para seu subordinado.

— Comece por ali! - Indicou uma das grandes portas de mogno com o dintel esculpido. — Acenda todas as luzes. Descobriremos esse homem.

— O gás, senhor - disse Tellman e tentou fingir que estava assustado. — Se houver uma explosão - não acabou de expressar a espantosa possibilidade a que supostamente enfrentavam.

— Sargento, uma explosão do gás que contêm as tubulações seria suficiente para nos levar a mais à frente - replicou Wetron. — Entre e encontre ao intruso antes que possa acender a mecha.

As duas horas seguintes foram as melhores e as piores da vida do Tellman. Despertaram a todos os criados e, é claro, ao Edward e ao Enid Denoon. Piers Denoon saiu do dormitório esfregando os olhos, confundido e bastante ébrio. Parecia incapaz de compreender quando Wetron lhe explicou que alguém tinha entrado em sua casa para colocar dinamite.

Todos se assustaram. Algumas criadas jovens choraram, a cozinheira se mostrou muito ofendida e até os criados se alarmaram visivelmente. O mordomo ficou tão nervoso que derrubou um vaso, que caiu estrepitosamente e produziu o mesmo som que um tiro, pelo que a aprendiz de criada, de treze anos, ficou a gritar até que desmaiou.

Obviamente, não apareceram nem o intruso nem o dispositivo explosivo. Às três da madrugada Wetron, pálido de fúria e profundamente desconcertado, abandonou a casa, não sem antes deixar de guarda na porta ao Tellman e ao agente. Produziu-lhe certa satisfação subir ao carruagem ao mesmo tempo que começava a chover e ver que seus homens tiritavam de frio e de esgotamento enquanto se afastava, mas isso não era nada comparado com seu sentimento de ridículo.

Quando retornou por fim a seu alojamento, Tellman tinha tanto frio que não sentia as mãos nem os pés. A chuva ligeira havia tornado escorregadias as calçadas, e as sarjetas, úmidas e negras, brilhavam. Pricey o estava esperando. Parecia estar quentinho, satisfeito de si mesmo e apenas molhara os ombros e a parte superior da boina.

— Segui-o - explicou ao ver o molhado aspecto do Tellman e sua expressão de contrariedade. — Senhor Tellman, não o vejo muito contente. Apanhou alguém?

— Estive ocupado me assegurando de que não o detivessem! - respondeu o sargento bruscamente. — Encontrou algo?

— Ah, sim. Sim, é claro que sim. - Pricey se esfregou as mãos. — Dei com informação muito valiosa. Poderíamos dizer que a casa não está mau, embora para meu gosto é muito nova. Prefiro as moradias velhas, carregadas de história.

— O que encontrou?

— Declarações, senhor Tellman. A confissão da violação de uma jovem. Não era uma boa garota, mas tampouco era má. Pelo visto a situação se desmamou. Conseguiram fazer calar todas as testemunhas. Teria sido um escândalo divulgado, mas ninguém fez nada. Por dizê-lo de algum jeito, o assunto se tampou.

— Quem o tampou?

— Senhor Tellman, se quer sabê-lo terá que pagar. Terá que pagar para saber quem o fez, quem sabe e quem cala. - Tellman tiritava.

— Entre - ordenou e se voltou para a porta. Ao chegar a seu quarto se dirigiu à gaveta no qual guardava o pouco dinheiro de que podia prescindir. — É tudo o que tenho, Pricey. - Ofereceu-lhe dez moedas de ouro. Detestava ter que dar-lhe e, se tivesse outra opção, teria ficado com elas, mas se Pricey tinha encontrado algo para acabar com o Wetron valia a pena pagar. — Acima de tudo quero vê-las.

— Só dez libras? - Pricey olhou as moedas entusiasmado. — Senhor Tellman, é seu próprio dinheiro? Vejo que realmente deseja conseguir estas provas.

— Pricey, algum dia necessitará um amigo inclusive, embora não seja eu quem vai atrás de você para o deter. Asseguro-lhe que sou melhor amigo que inimigo.

— Senhor Tellman, está me ameaçando? - perguntou Pricey, indignado.

— Este assunto é muito importante para brincar - respondeu Tellman com grande seriedade. — Pode fazer isso fácil ou difícil. Pricey, somos amigos ou inimigos?

Pricey deu de ombros.

— Suponho que dez libras limpas são melhores que vinte sujas. Aqui tem. - Entregou-lhe os papéis. — Me diga, de quem é a casa? Contar-me-á isso ou não?

— Pricey, é melhor que não saiba, poderia lhe dar pesadelos.

Tellman olhou os papéis que Pricey lhe tinha entregue e os desdobrou com cuidado. O primeiro era a declaração de uma testemunha a respeito de uma moça que paquerava e que a seguir foi violada por um jovem muito bêbado e arrogante para admitir uma negativa. A cena era absurda, violenta e horrível.

A segunda folha era a confissão de uma violação; os detalhes punham de manifesto que se tratava do delito descrito na folha precedente. Estava assinada pelo Piers Denoon; a assinatura da testemunha era do Roger Simbister, inspetor da delegacia de polícia do Cannon Street.

— Obrigado, Pricey - declarou Tellman sinceramente. — Lhe advirto por seu próprio bem: bêbado ou sóbrio, será melhor que jamais mencione este assunto.

— Senhor Tellman, asseguro-lhe que sei controlar a língua.

— Mais lhe vale, Pricey. Roubou estes papéis da casa do inspetor Wetron. Não o esqueça e recorda também o que suporá para ti se alguma vez se inteirarem.

— Deus do céu! Senhor Tellman, em que confusão me colocou? - Pricey ficou terrivelmente pálido.

— Pricey, tem dez libras e meu agradecimento. Faça o favor de ir embora e se ocupar de seus assuntos. Ontem à noite esteve em sua cama, dormindo, e não sabe nada de nada.

— Por minha vida que não sei nada! - assegurou Pricey. — Não tome como algo pessoal, mas me parece que não quero voltar a vê-lo jamais.

 

Pitt segurava o documento e soube que começava a entender tudo. Estava na cozinha de sua casa, onde tinha permanecido desde que havia voltado da residência do Denoon. Tinha passado ao menos a metade do tempo perambulando de um lado a outro, profundamente preocupado pelo Tellman.

— Piers Denoon - murmurou lentamente. — Provavelmente, Wetron o chantageou para que proporcionasse recursos aos anarquistas e comunicasse a ele suas atividades. Como não conseguiu que Magnus Landsborough colocasse bombas em ruas onde morreriam inocentes, encarregou-se de que Piers o assassinasse para que outro assumisse o comando, alguém que fizesse o que Wetron ordenasse. - Levantou a cabeça. — Obrigado, Tellman, esteve fenomenal.

O sargento se deu conta de que se ruborizava. Pitt não era pródigo em louvores, mas apesar de sua habitual modéstia sabia que tinha atuado bem. Tinha tido medo. Ainda estremecia quando recordava que Wetron tinha dedicado a noite a perseguir um terrorista inexistente e a tirar da cama ao Edward Denoon e ao resto dos habitantes da casa para nada. Era um prazer que talvez lhe custaria muito caro. Não tinha contado ao Pitt como se desenvolveu a situação. Talvez devesse fazê-lo então, enquanto o prazer seguia intacto.

Pitt o viu sorrir.

— O que se passa? - perguntou serenamente, embora seu olhar risonho dava a entender que sabia.

Ao final e com poucas palavras Tellman lhe referiu os acontecimentos da noite.

Pitt riu. A princípio foi um som tenso e algo agudo por causa do nervosismo; quando Tellman lhe contou os gritos da aprendiz de criada, o aborrecimento da cozinheira e o terror e a estupidez do mordomo, Pitt se pôs-se a rir. Riram tão forte e com tanta alegria que nenhum dos dois se deu conta do ruído nem ouviram que Gracie se aproximava da porta, com o cabelo recolhido em uma touca limpa e o avental posto para limpar o fogão.

Desculparam-se como garotos que são pegos fazendo uma travessura e permaneceram obedientemente sentados enquanto Gracie reacendia o fogão e esquentava água para o chá.

Eram quase oito e meia quando por fim Tellman foi trabalhar, com olheiras de cansaço mas com um bom café da manhã entre peito e costas. Pitt pensou o que contaria a Charlotte e o que faria durante a jornada. Já tinha decidido que devia entregar imediatamente a prova ao Narraway. Não permitiria que permanecesse nem sequer uma hora mais em sua casa, onde se achavam sua esposa e seus filhos. Depois visitaria a Vespasia; tinha muitas coisas que lhe perguntar, algumas muito dolorosas.

 

— Fantástico - declarou Narraway com profunda satisfação e olhou para Pitt depois de ler os documentos. Ia elegantemente vestido, mas estava pálido. — Sua atuação foi extraordinária, mas agora Wetron é mais perigoso que nunca. Saberá que Tellman planejou o roubo dos papéis e a chata situação que viveu ontem à noite não deveu lhe resultar nada divertida. Jamais esquecerá o que lhe fez.

— Já sei - reconheceu Pitt. Nesse momento temia por Charlotte e já não o assustavam as ameaças do Voisey, mas as do Wetron. Também estava preocupado pelo Tellman, que era o causador do desconcerto do Wetron em casa do Denoon. E o fato de que o próprio Pitt fora testemunha de tudo não fazia mais que jogar lenha ao fogo.— Devemos acabar imediatamente com ele - Notou o apresso em sua voz. — Não podemos detê-lo hoje mesmo?

O rosto do Narraway mostrava diversas emoções.

— Pitt, por acaso enviarei a um de meus homens a sua casa armado. Não posso fazer nada para proteger ao Tellman. Equivoco-me se pensar que Piers Denoon é quem matou ao Magnus? - Apertou os lábios. — Seu próprio primo... Eu gostaria de saber se realmente o odiava ou se só se trata de outra conseqüência da chantagem. A prova da violação relaciona ao Piers com o Simbister e a este com o Wetron, mas é imprescindível conectá-la com os atentados antes de proceder às detenções. Ou, para dizê-lo com mais exatidão, antes de que os policiais se prendam entre si!

— Com isto é suficiente - insistiu Pitt. — Condena a ambos e ao Piers Denoon. Tem sentido. - O perigo que Tellman corria lhe preocupava muito. Wetron não pararia até crucificá-lo! A essas alturas já saberia que os papéis tinham desaparecido e que Tellman era o responsável, por muito que tivesse pago a um terceiro para que levasse a cabo o roubo. — Simbister é o dono do Josephine, no qual guardavam a dinamite, e Grover trabalha para ele. O círculo das provas se fechara.

Narraway parecia cansado e impaciente.

— Pitt, este trabalho é perigoso! - declarou em tom áspero. — Alguma vez praticou a caça maior? Não, claro que não. — O sorriso do Narraway era amargo.

— Há alguns animais aos quais só se pode atirar uma vez, de modo que é necessário assegurar-se de que o tiro é mortal. Se só o ferir, o animal se revolve e pode destroçá-lo, embora depois morra. Wetron é um desses animais.

— Dedicou-se à caça maior?

Narraway o olhou nos olhos.

— Só da besta mais perigosa que existe: o ser humano. Não tenho nada contra os animais nem me interessa pendurar suas cabeças nas paredes de minha casa.

Depois desse comentário Pitt pensou que gostava mais de Narraway.

— Sim, senhor!

 

Pitt fez uma breve visita a Vespasia; só ficou o tempo imprescindível para lhe contar os acontecimentos da véspera. A mulher respondeu com uma mescla de satisfação e pena, mas também temia que se produzissem novas tragédias. De qualquer modo, não quis lhe dizer de que natureza supunha que seriam nem a quem afetariam, apesar de Pitt ter a certeza de que sua tia sabia.

Abandonou a casa da Vespasia e se dirigiu ao St Paul, onde a meio-dia se reuniu com o Voisey junto ao sepulcro do John Donne, o grande pastor, advogado, filósofo, aventureiro e poeta isabelino e jacobino. Como sempre, Voisey mal falou. Uma olhada à expressão de esgotamento do Pitt, a celeridade de seu passo e que chegasse dez minutos antes do previsto lhe tirou todo desejo de exibir-se depois do primeiro comentário.

— Aos onze anos ingressou em Oxford. Sabia? - perguntou com ironia. — Tem muito mau aspecto. Voltou para o lugar do atentado?

— Não - respondeu Pitt quedamente, que falava em voz baixa para que não o ouvisse o casal de anciões que ao passar rendeu comemoração ao Donne. — Passei em claro quase toda a noite. Levei a cabo uma manobra de distração para que, de acordo com seus conselhos, certo ladrão pegasse na casa do Wetron a prova decisiva.

Ao Voisey se iluminou o rosto e abriu muito os olhos.

— Do que se trata?

Sua voz revelou tal impaciência que o casal de anciões se voltou. É possível que o homem estivesse no meio da entrevista mais famosa do Donne: "Não pergunte por quem dobram os sinos".